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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


WARLOK / Wilbur Smith
WARLOK / Wilbur Smith

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

WARLOK

 

Warlock é o último volume de uma trilogia épica composta também pelos best-sellers O Último Deus do Nilo e O Sétimo Papiro. Juntos, os três livros formam um amplo panorama da vida no Antigo Egito, mas podem ser lidos separadamente como aventuras independentes. Em Warlock, o leitor reencontrará o ex-escravo Taita, depois de longos anos isolado no deserto tornou-se um mago, ou seja, um iniciado nos segredos dos antigos deuses da Mesopotâmia. Uma visão, porém, arranca-o da solidão e o conduz novamente para o centro dos acontecimentos. Sua amada Lostris, morta há anos, lhe aparece em sonhos para pedir que vele por seu neto. A partir de então, Taita - já um ancião - torna-se tutor e protetor do jovem Nefer, filho do faraó Tamose. Quando Tamose é traído e morto por um de seus homens de confiança, o velho compreende a extensão de seu dever. Para com seu protegido da sanha do ávido regente Naja, ele conquista os usurpadores com suas artes de curandeiro e finge aliar-se a eles. Enquanto estuda uma maneira de levar Nefer a um lugar seguro e e ajudá-lo a reunificar o Egito (os hicsos dominam agora grande parte do país), ele vê o menino tornar-se homem graças a uma paixão intensa e proibida pela filha do rei hicso - uma paixão avassaladora, que poderá revolucionar a história e transformar a vida de todo um povo.

 

                         

 

COMO UMA SERPENTE desenroscando-se, a fileira de bigas de combate serpeava rapidamente na estreita passagem do vale. De onde estava, agarrado ao guarda-lama da biga condutora, o menino ergueu os olhos para os penhascos que os rodeavam. A rocha escarpada era toda perfurada pelas aberturas para as tumbas dos anciões, que esburacavam o penhasco. Os buracos escuros encaravam-no de volta como os olhos implacáveis de uma legião de djinn. O Príncipe Nefer Memnon estremeceu e desviou o olhar, fazendo furtivamente o sinal para afastar o mal com a mão esquerda.

Virou para trás e, olhando de relance para a coluna, viu que na biga seguinte Taita o observava através das espiraladas nuvens de poeira. O pó havia recoberto o velho e seu veículo com uma clara película, e o único feixe de sol que penetrava nas profundezas daquele vale reluzia nas partículas de mica, de forma que ele parecia cintilar como a encarnação de um dos deuses. Nefer baixou a cabeça com culpa, envergonhado pelo fato de o velho ter testemunhado o seu fugaz temor supersticioso. Nenhum príncipe real da Casa de Tamose deveria demonstrar tal fraqueza, não agora quando postava-se às portas da virilidade. Mas, então, Taita o conhecia como ninguém, pois fora o tutor de Nefer desde a infância, estando mais próximo dele do que seus próprios pais ou irmãs. A expressão de Taita nem sequer mudou, porém mesmo àquela distância seus velhos olhos pareciam penetrar no âmago do ser de Nefer. Vendo tudo, compreendendo tudo.


Nefer tornou a virar e empertigou-se em toda sua altura ao lado do pai, que sacudia as rédeas e incitava os cavalos com um estalar do longo chicote. À frente deles o vale abria-se abruptamente num grande anfiteatro que continha as desoladas e destruídas ruínas da cidade de Gallala. Nefer vibrou com a sua primeira visão daquele famoso campo de batalha. Quando jovem, o próprio Taita havia lutado naquele local quando o semideus Tanus, Senhor Harrab, destruíra as forças ocultas que estavam ameaçando aquele mesmo Egito. Isso ocorrera mais de sessenta anos atrás, mas Taita lhe havia relatado cada detalhe da luta, e tão vivido era o seu relato da história que Nefer sentia que estivera ali naquele dia fatídico.

O pai de Nefer, o deus e Faraó Tamose, conduziu a biga por cima das pedras destroçadas do pórtico arruinado e puxou as rédeas dos cavalos. Atrás dele uma centena de bigas em sucessão executaram perfeitamente a mesma manobra, e os condutores pularam em bandos das plataformas a fim de começar a dar de beber aos cavalos. Quando o faraó abriu a boca para falar, a camada de poeira esfarelou-se em suas faces e chuviscou pelo seu peito.

— Meu senhor! — o faraó bradou ao Grande Leão do Egito, Senhor Naja, o comandante do seu exército e seu mais caro companheiro. — Devemos prosseguir novamente antes que o sol toque o cume das montanhas. Desejo fazer o percurso noturno através das dunas para El Gabar.

A coroa de guerra azul na cabeça de Tamose cintilava com o pó de mica, e seus olhos estavam injetados com minúsculos fragmentos de lama molhada pelas lágrimas nos cantos, quando olhou para Nefer abaixo dele.

— E ali que irei deixá-lo para seguir com Taita.

Embora soubesse que era inútil protestar, Nefer abriu a boca para fazêlo. O esquadrão estava avançando contra o inimigo. O plano de batalha do Faraó Tamose era circundar para o sul através das Grandes Dunas e avançar insinuando-se entre as acres lagoas de natrão, a fim de apanhar o inimigo por trás e rasgar uma abertura em seu centro através da qual as legiões egípcias, reunidas em massa aguardando às margens do Nilo antes de Abnub, pudessem penetrar. Tamose combinaria as duas forças e, antes que o inimigo conseguisse se reorganizar, prosseguiria por Tell elDaba e invadiria a cidadela inimiga de Avaris.

Era um plano ousado e brilhante que, se bem-sucedido, daria um fim, com um só golpe, à guerra com os hicsos que já grassava por duas existências. Nefer fora ensinado que a batalha e a glória eram os motivos para sua existência nesta terra. Porém, mesmo com a avançada idade de catorze anos, até agora elas se haviam esquivado dele. Ansiava, com toda sua alma, cavalgar para a vitória e a imortalidade ao lado do seu pai.

Antes que o protesto passasse por seus lábios, o faraó interceptou-o.

— Qual é o primeiro dever de um guerreiro? — ele inquiriu o garoto.


Nefer baixou os olhos.

— É a obediência, majestade — respondeu em voz baixa, relutante.

— Nunca se esqueça disso. — O faraó assentiu e se afastou.

Nefer sentiu-se rejeitado e descartado. Seus olhos arderam, e o lábio superior estremeceu, mas o olhar de Taita o fez enrijecer. Piscou para limpar as lágrimas da visão, e bebeu um gole de água do cantil de pele que pendia na lateral da biga, antes de voltar-se para o velho Mago com um lépido meneio dos espessos cachos empoeirados.

— Mostre-me o monumento, Taita — ele comandou.

O descombinado par foi abrindo caminho através da aglomeração de bigas, homens e cavalos que entupiam a estreita rua da cidade arruinada. Completamente nus devido ao calor, vinte soldados de cavalaria tinham descido até o fundo dos antigos poços e formado uma corrente para baldear a água esparsa e amarga para a superfície. Certa vez esses poços haviam sido fartos o bastante para sustentar uma cidade rica e populosa que dominava completamente a rota de comércio entre o Nilo e o mar Vermelho. Então, séculos atrás, um terremoto havia despedaçado a camada aqüífera e bloqueado o fluxo subterrâneo. A cidade de Gallala morrera de sede. Agora, havia água escassamente suficiente para aplacar a sede de duzentos cavalos e encher os cantis de pele antes que os poços secassem.

Taita guiou Nefer através das alamedas estreitas, passando por templos e palácios agora habitados apenas por lagartos e escorpiões, antes de chegarem à deserta praça central. No meio dela erguia-se o monumento ao Senhor Tanus e seu triunfo sobre os exércitos de bandidos que quase extinguiram a vida da mais rica e mais poderosa nação da terra. O monumento era uma bizarra pirâmide de crânios humanos, cimentados juntos e protegidos por um altar feito de lascas de pedra vermelha. Mais de mil crânios sorriam com escárnio para o menino, enquanto ele lia em voz alta a inscrição no pórtico de pedra:

”Nossas cabeças decepadas são testemunhas da batalha neste lugar, na qual morremos sob a espada de Tanus, Senhor Harrab. Possam todas as gerações seguintes conhecer os feitos do poderoso senhor, a glória dos deuses e o poder dos homens justos. Assim decretado no décimo quarto ano do reinado do Deus Faraó Mamose”.

Acocorado à sombra do monumento, Taita observou o príncipe andar em volta e parar a cada poucos passos com as mãos nos quadris, a fim de analisá-lo de todos os ângulos. Embora a expressão de Taita fosse distante, seus olhos eram carinhosos. O amor que sentia pelo menino tinha suas origens em duas outras vidas. A primeira delas era Lostris, rainha do Egito. Taita era um eunuco, mas havia sido castrado depois da puberdade, e certa vez amara uma mulher. Devido à sua mutilação física, o amor de Taita era puro, e ele o entregara todo à Rainha Lostris, avó de Nefer. Era um amor tão abrangente que mesmo agora, vinte anos após a morte dela, ainda permanecia no centro da sua existência.

A outra pessoa de quem o seu amor por Nefer se originava era Tanus, Senhor Harrab, a quem aquele monumento fora erigido. Ele havia sido mais caro a Taita do que um irmão. Ambos tinham partido, agora, Lostris e Tanus, mas o sangue deles mesclava-se fortemente nas veias do menino. Da sua união ilícita tanto tempo atrás havia resultado a criança que crescera para tornar-se o Faraó Tamose, que agora liderava o esquadrão de bigas que os levara até ali; o pai do Príncipe Nefer.

— Taita, mostre-me onde você capturou o líder dos barões ladrões. — A voz de Nefer aguçava-se com a excitação e o início da puberdade. — Foi aqui? — Ele correu até um muro destruído no lado sul da praça. — Conte-me a história outra vez.

— Não, foi aqui. Neste lado — Taita falou enquanto se levantava e encaminhava-se com as pernas longas e magras até o muro ao oeste. Ergueu os olhos para o topo esfarelado. — O nome do facínora era Shufti, e ele tinha um só olho e era feio como o deus Seth. Estava tentando escapar da batalha subindo este muro aqui. — Taita abaixou-se e pegou metade de um tijolo de barro em meio ao entulho e atirou-o subitamente para cima. Este voou sobre o topo do alto muro. — Estraçalhei o crânio dele e derrubei-o com um único golpe.

Embora Nefer conhecesse a força do velho em primeira mão, e os seus poderes de resistência fossem legendários, ficou atônito com aquele arremesso. Ele é tão velho quanto as montanhas, mais velho do que a minha avó, pois cuidou dela na infância como fez comigo, Nefer maravilhou-se. Os homens dizem que ele testemunhou duzentas inundações do Nilo e que construiu as pirâmides com as próprias mãos. Então, em voz alta, perguntou:

— Você decepou a cabeça dele, Taita, e colocou-a naquela pilha ali? — Apontou para o macabro monumento.

— Você sabe a história muito bem, pois já lhe contei uma centena de vezes. — Taita fingiu uma modesta relutância em exaltar seus próprios feitos.

— Conte-me de novo! — Nefer ordenou.

Taita sentou-se num bloco de pedra enquanto Nefer acomodava-se aos seus pés em feliz antecipação e escutou avidamente, até que o som das trombetas feitas com chifres de carneiro soasse forte no início, repercutindo em ecos ao longo dos negros despenhadeiros.

— O faraó está nos chamando — Taita falou, e levantou-se para liderar o caminho através do pórtico.

Havia uma grande agitação e correria no outro lado dos muros, enquanto o esquadrão se preparava para seguir para as terras das dunas. Os cantis de pele estavam cheios novamente, e os soldados checavam e apertavam os arreios das suas parelhas antes de montar.

O Faraó Tamose olhou por cima da cabeça dos seus soldados quando a dupla atravessou o pórtico e chamou Taita para seu lado com uma breve inclinação da cabeça. Caminharam juntos para fora do alcance dos ouvidos dos oficiais do esquadrão. O Senhor Naja fez menção de reunir-se a eles. Taita sussurrou uma palavra para o faraó, e então Tamose virou-se e mandou Naja voltar com uma ordem brusca. O injuriado senhor, ruborizando de vergonha, lançou para Taita um olhar que era feroz e aguçado como uma flecha de guerra.

— Você ofendeu Naja. Algum dia talvez eu não esteja por perto para protegê-lo — o faraó avisou-o.

— Não podemos confiar em homem algum — Taita objetou. — Não até esmagarmos a cabeça da serpente da traição que fecha o cerco em torno dos pilares do seu palácio. Até que você retorne desta campanha no norte, somente nós dois devemos saber para onde irei levar o príncipe.

— Mas Naja! — O faraó riu, descartando a idéia. Naja era como um irmão. Tinham feito o Percurso Vermelho juntos.

— Até mesmo Naja.

Taita não disse mais nada. Suas suspeitas estavam ao menos consolidando-se até a certeza, porém ainda não reunira todas as evidências que precisava para convencer o faraó.

— O príncipe sabe por que você vai levá-lo à fortaleza do deserto? — o faraó perguntou.

— Ele sabe apenas que iremos avançar na sua aprendizagem sobre os mistérios, para capturar o seu deus-pássaro.

— Muito bem, Taita. — O faraó assentiu. — Você sempre foi reservado mas verdadeiro. Não há mais nada a dizer, pois já dissemos tudo. Vá, agora, e que Horus estenda suas asas sobre você e Nefer.

— Proteja sua retaguarda, majestade, pois nestes dias os inimigos estão se postando atrás de você tanto quanto à sua frente.

O faraó agarrou o braço do Mago e apertou-o com força. Sob seus dedos o braço era magro mas duro e seco como um galho de acácia. Depois voltou para onde Nefer esperava, ao lado da roda da biga real, com a expressão ofendida de um filhote de cachorro sendo ordenado a voltar para o canil.

— Divina Majestade, há homens mais jovens do que eu no esquadrão. O príncipe fez um último esforço desesperado para convencer o pai

de que deveria seguir com os soldados. O faraó sabia que o garoto estava certo, claro. Meren, neto do ilustre General Kratas, era três dias mais novo do que ele, e hoje estava cavalgando com o pai como lanceiro, numa das bigas que ficavam mais atrás.

— Quando irá permitir que eu o acompanhe numa batalha, pai?

— Talvez quando você tiver feito o Percurso Vermelho. Então, nem mesmo eu poderei contestá-lo.

Era uma promessa vaga, e ambos sabiam disso. Fazer o Percurso Vermelho era o teste mais oneroso da perícia com os cavalos e as armas, que poucos guerreiros arriscavam-se a fazer. Era uma provação que esgotava, exauria e muitas vezes matava até um homem forte no auge do seu vigor e treinado quase à perfeição. Nefer ainda estava muito distante desse dia.

Então a expressão severa do faraó suavizou-se, e ele apertou o braço do filho, com a única demonstração de afeto que poderia permitir-se diante das tropas.

— Agora, ordeno que você vá com Taita para o deserto a fim de capturar o seu deus-pássaro e assim provar o seu sangue real e seu direito de, um dia, usar a coroa dupla.

Nefer e o ancião postaram-se juntos ao lado dos muros destruídos de Gallala e observaram a coluna passar em disparada. O faraó a liderava, as rédeas enroladas em torno dos pulsos, inclinando-se levemente para trás com o impulso dos cavalos, o peito nu, as saias de linho vergastando-lhe as pernas musculosas, a coroa azul de guerra na cabeça deixando-o ainda mais alto e semelhante a um deus.

A seguir vinha o Senhor Naja, quase tão alto, quase tão belo. Seu porte era altivo e orgulhoso, levando a tiracolo o grande arco recurvado. Naja era um dos mais poderosos guerreiros do Egito, e seu nome lhe fora dado como um título de honra: Naja era a serpente sagrada na real coroa uraeus. O faraó lhe concedera o título no dia em que, juntos, tinham vencido as duras provações do Percurso Vermelho.

Naja não se dignou a olhar na direção de Nefer. A biga do faraó havia se lançado na boca do escuro desfiladeiro antes mesmo que o último veículo da coluna passasse correndo por onde Nefer estava. Meren, seu amigo e companheiro de muitas e ilícitas aventuras de infância, riu na cara dele e fez um gesto obsceno, depois ergueu a voz zombeteiramente acima do ranger e sacudir das rodas.

— Vou lhe trazer a cabeça de Apepi como um brinquedo — ele prometeu, e Nefer odiou-o ao vê-lo afastar-se a toda velocidade.

Apepi era o rei dos hicsos, e Nefer não precisava de brinquedo algum: era um homem, agora, mesmo que seu pai se recusasse a reconhecê-lo como tal.

Os dois permaneceram em silêncio por um longo tempo, depois que a biga de Meren desapareceu e a poeira assentou-se. Então Taita virou-se sem dizer uma palavra e seguiu para onde os cavalos estavam amarrados. Apertou a sobrecilha em torno do peito da sua montaria, ergueu o saiote e lançou-se para cima do cavalo com o ágil movimento de um homem muito mais jovem. Uma vez montado no lombo em pêlo do animal, pareceu tornar-se apenas um com ele. Nefer lembrou-se da lenda que dizia que ele havia sido o primeiro egípcio a dominar as artes eqüestres. Ainda mantinha o título de Mestre das Dez Mil Bigas, concedido a ele com o Ouro do Louvor por dois faraós em reinados separados.

Por certo ele era um dos poucos homens que se atreviam a cavalgar com as pernas abertas sobre o lombo do animal. Muitos egípcios abominavam essa prática, considerando-a de certa forma obscena e indigna, se não perigosa. Nefer não tinha tais escrúpulos, e quando montou com um salto no lombo do seu potro favorito, o Sonhador, seu humor sombrio começou a evaporar. No momento em que atingiram o cume das colinas acima da cidade arruinada, estava quase em seu habitual estado de espírito entusiasmado. Lançou um último olhar desejoso para a penugem de poeira distante, deixada pelo esquadrão no horizonte ao norte, depois virou-lhe as costas firmemente.

— Para onde vamos, Taita? — perguntou. — Você prometeu me contar assim que estivéssemos a caminho.

Taita era sempre reticente e reservado, mas raramente ao ponto em que havia sido a respeito do destino final daquela jornada.

— Vamos para Gebel Nagara — ele disse.

Nefer nunca escutara o nome antes, mas repetiu-o baixinho. Continha um tom romântico, evocativo. Excitamento e antecipação provocaram-lhe um arrepio na nuca, e ele olhou adiante para o enorme deserto. Uma infinidade de colinas recortadas e ásperas estendia-se ao longo de um horizonte azul, turvado pelo calor e pela distância. As cores das rochas brutas estarreciam os olhos: tinham um azul soturno das nuvens de tempestade, tons de amarelo como a plumagem de um pássaro tecelão, ou vermelho como a carne ferida, e brilhante como cristal. O calor as fazia dançar e tremeluzir.

Taita olhou para aquele lugar terrível com uma sensação de nostalgia e de regresso ao lar. Fora para aquela região inculta que ele se retirara depois da morte da sua bem-amada Rainha Lostris, no início rastejando como um animal ferido. Depois, à medida que os anos passavam e levavam consigo uma parte da dor, descobrira-se impelido mais uma vez para os mistérios e o caminho do grande deus Horus. Havia ido para a região inóspita como um médico e cirurgião, como um mestre das ciências conhecidas. Sozinho na vastidão do deserto, descobrira a chave para os portais e passagens da mente e do espírito muito além dos quais poucos homens se tinham aventurado. Entrara ali como um homem, mas emergira como um íntimo do grande deus Horus e um adepto dos estranhos e arcanos mistérios que poucos homens nem sequer imaginavam.

Taita retornara ao mundo dos homens apenas quando sua Rainha Lostris o visitara num sonho, quando ele dormia na sua caverna de ermitão em Gebel Nagara. Mais uma vez ela era uma virgem de quinze anos, jovem e núbil, uma rosa do deserto em botão com o orvalho nas suas pétalas. Mesmo dormindo, seu coração enchera-se de amor e ameaçara explodir em estilhaços em seu peito.

— Querido Taita — Lostris havia sussurrado, enquanto tocava-lhe o rosto e o fazia despertar, — você foi um dos únicos dois homens a quem amei em minha vida. Tanus está comigo agora, mas antes que você também possa vir para mim, devo conferir-lhe mais uma incumbência. Você jamais me falhou. Sei que não irá falhar-me agora, não é, Taita?

— Estou às suas ordens, minha senhora. — A voz dele ecoava estranhamente em seus ouvidos.

— Em Tebas, a minha cidade de cem portões, esta noite nasceu uma criança. É o filho do meu próprio filho. Irão chamar essa criança de Nefer, que significa puro e perfeito de corpo e espírito. Meu desejo é que ele carregue o meu sangue e o sangue de Tanus para o trono do Alto Egito. Porém, perigos maiores e diversos já se concentram em torno do bebê. Ele não terá sucesso sem a sua ajuda. Somente você poderá protegê-lo e guiálo. Estes anos que você passou sozinho no deserto, as habilidades e os conhecimentos que adquiriu aqui foram apenas para esse propósito. Vá para Nefer. Vá agora, rapidamente, e permaneça com ele até que sua tarefa seja completada. Depois volte para mim, querido Taita. Estarei esperando por você, e a sua pobre virilidade mutilada lhe será restaurada. Você será um homem completo e pleno na próxima vez em que postar-se ao meu lado, sua mão em minha mão. Não me falhe, Taita.

— Nunca! — Taita havia gritado no sonho. — Em sua vida, nunca lhe faltei. Não irei lhe faltar agora, em sua morte.

— Sei que não.

Lostris sorriu um sorriso meigo, persistente, e sua imagem desapareceu na noite do deserto. Ele acordou, o rosto molhado de lágrimas, e juntou suas poucas posses. Parou na entrada da caverna apenas para verificar a sua direção pelas estrelas. Instintivamente, procurou pela brilhante estrela especial da deusa. No sétimo dia após a morte da rainha, na noite em que o longo ritual de embalsamamento fora completado, aquela estrela passara a cintilar onde nenhuma outra existira antes. Taita distinguiua e prestou homenagens a ela. Depois começou a andar com largas passadas pelo deserto, retornando na direção do Nilo e da cidade de Tebas, a linda Tebas de cem portões.

Isso acontecera mais de catorze anos atrás, e agora ele ansiava pelos lugares silenciosos, pois apenas ali seus poderes poderiam crescer novamente à sua força total para que pudesse levar a cabo a tarefa com a qual Lostris o incumbira. Somente ali ele poderia transmitir parte dessa força para o príncipe. Pois sabia que os poderes sombrios sobre os quais ela o alertara estavam concentrando-se em torno deles.

— Venha! — ele disse ao garoto. — Vamos descer e apanhar o seu deus-pássaro.

Na terceira noite depois de partir de Gallala, quando a constelação dos Asnos Selvagens chegou ao seu zênite ao norte do céu noturno, o faraó fez parar o esquadrão a fim de dar de beber aos cavalos e comer uma rápida refeição de carne seca, tâmaras e bolos frios dhurra de milhete. Depois ordenou que tornassem a montar. Não houve nenhum ressoar das trombetas de chifres de carneiro, agora, pois estavam no território freqüentemente percorrido pelas bigas de patrulha hicsas.

A coluna de soldados prosseguiu novamente, seguindo em passo de trote. Conforme adiantavam-se a paisagem mudava dramaticamente. Finalmente estavam fora das terras adversas, de volta às colinas acima do vale do rio. Abaixo deles podiam divisar a faixa de densa vegetação, distante e escura sob a luz da lua, que marcava o curso do grande riomãe Nilo. Tinham completado o amplo circuito em volta de Abnub e estavam por trás do principal exército hicso no rio. Embora representassem uma pequena força para ir contra um inimigo tal como Apepi, eram os melhores condutores de bigas do exército de Tamose, o que os tornava os melhores do mundo. Mas, principalmente, contavam com o elemento surpresa.

Quando o faraó propôs essa estratégia pela primeira vez e informou que iria liderar pessoalmente a expedição, seu conselho de guerra opôs-se a ele com toda a veemência que podiam exibir diante da palavra de um deus. Até o velho Kratas, que já havia sido o mais afoito e feroz guerreiro em todos os exércitos do Egito, puxara violentamente a espessa barba branca e vociferara:

— Pelo prepúcio apodrecido e supurado de Seth, eu não troquei seus cueiros sujos de merda para mandá-lo direto aos adoráveis braços de Apepi. — Talvez ele fosse o único homem que se atrevesse a falar com um deus-rei daquela maneira. — Envie outro para fazer um trabalho tão desprezível. Lidere a linha de combate, se isso lhe dá prazer, mas não desapareça no deserto para ser devorado pelos ghouls

e djinn. Você é o Egito. Se Apepi o capturar, terá capturado a nós todos.

De todo o conselho somente Naja o havia apoiado, mas Naja era sempre leal e verdadeiro. Agora eles tinham vencido através do deserto, e estavam na retaguarda do inimigo. Na aurora do dia seguinte iriam fazer um único ataque desesperado que dividiria o exército de Apepi e permitiria que mais cinco esquadrões do faraó, mil bigas, entrassem rapidamente para reunir-se a ele. Já sentia o melífero gosto da vitória na língua. Antes mesmo da próxima lua cheia ele estaria jantando nos salões do palácio de Apepi em Avaris.

Quase dois séculos haviam passado desde que os Reinos do Alto e do Baixo Egito haviam sido separados. Desde então, ou um usurpador egípcio ou um invasor estrangeiro tinha governado o reino do norte. Era o destino de Tamose expulsar os hicsos e unir novamente as duas terras. Somente então ele poderia usar a coroa dupla com a justificação e aprovação de todos os deuses antigos.

O ar noturno soprou em seu rosto, frio o bastante para entorpecer suas faces, e seu lanceiro acocorou-se atrás do guarda-lama a fim de se proteger. O único som era o esmigalhar das rodas da biga sobre o pedregulho áspero, as lanças retinindo suavemente em suas bainhas, e O abafado grito ocasional de aviso de ”Cuidado! Buraco!”, passado adiante através da coluna.

Subitamente o largo vádi

do Gebel Wadun abriu-se à frente do Faraó Tamose, e ele puxou as rédeas da parelha. O vádi era o caminho suave e plano que os levaria até a planície aluvial do rio. O faraó entregou as rédeas ao seu lanceiro e saltou para o solo. Estendeu os membros rígidos e doloridos e, sem se virar, escutou o ruído da biga de Naja aproximando-se atrás dele. Após um baixo comando as rodas rangeram para o silêncio, e então os passos leves e firmes de Naja ressoaram até o seu lado.

— Daqui o perigo da descoberta será mais intenso — Naja falou. — Olhe lá embaixo. — Apontou com o braço longo e musculoso por cima do ombro do faraó. Onde o vádi desembocava na planície abaixo deles uma única luz aparecia, o suave reluzir amarelado de uma lamparina a óleo. — Ali é o vilarejo de El Wadun. É oncle nossos espiões estarão esperando para nos guiar através das defesas hicsas. Irei na frente para o ponto de encontro a fim de deixar o caminho seguro. Espere aqui, majestade, e retornarei em seguida.

— Eu vou com você.

— Eu lhe imploro que fique. Pode haver uma emboscada, Mem. — Ele usou o nome de infância do rei. — Você é o Egito. É precioso demais para se arriscar.

O faraó virou-se para encarar o rosto que lhe era tão caro, magro e atraente. Os dentes de Naja reluziram brancos sob a luz das estrelas quando ele sorriu, e o faraó tocou-lhe o ombro de leve, mas com confiança e afeição.

— Vá bem depressa, e volte tão depressa quanto foi — ele consentiu. Naja tocou o próprio coração e correu de volta para a biga. Fez uma nova saudação quando passou por onde o rei estava, e Tamose sorriu ao retribuir a saudação e observou-o descer para os lados do vádi. Quando atingiu a areia lisa e dura do leito seco do rio, Naja chicoteou os cavalos e eles aumentaram a velocidade na direção do vilarejo de El Wadun. As rodas da biga deixaram um rastro profundo e escuro nas areias prateadas, antes que ele desaparecesse além da primeira curva do vádi. Depois que ele desapareceu o faraó retornou à coluna que aguardava mais abaixo, falando tranqüilamente com os soldados, chamando muitos deles pelo nome, rindo suavemente com eles, encorajando-os e elogiando. Não era de admirar que eles o amassem tanto e o seguissem com tanto entusiasmo para onde quer que ele os guiasse.

O Senhor Naja dirigia cautelosamente, mantendo-se próximo da margem sul do leito seco do rio. De vez em quando olhava para cima, na direção do topo das colinas, até que afinal reconheceu a torre de rocha crestada pelo vento que inclinava-se ligeiramente oblíqua contra o horizonte e grunhiu com satisfação. Um pouco mais adiante atingiu o ponto onde uma trilha indistinta saía do leito do vádi e serpenteava para cima do íngreme declive que levava à base da antiga torre de vigia.

Com uma breve palavra para seu lanceiro ele saltou para fora da biga e ajustou o arco de cavalaria no ombro. Então desprendeu o pote-de-fogo de cerâmica do anteparo da biga e começou a subir pela trilha. Esta era tão bem disfarçada que se ele não tivesse memorizado cada curva e desvio teria se perdido uma dezena de vezes antes de chegar ao topo.

Finalmente alcançou a plataforma superior da torre. Ela fora construída muitos séculos atrás e estava totalmente em ruínas. Não se aproximou da beirada, pois havia uma queda precipitosa para o vale abaixo. Em vez disso, encontrou o feixe de galhos secos escondido num nicho da parede, onde ele havia deixado, e arrastou-o para fora. Rapidamente montou uma pequena pirâmide com os gravetos, depois soprou os pedaços de carvão no pote-de-fogo, e quando estes reluziram, amassou um punhado de grama seca sobre eles. O fogo acendeu-se no mesmo instante, e ele acendeu o pequeno farol sinalizador. Não fez nenhuma tentativa de esconder-se, mas postou-se de forma que um observador lá em baixo o veria iluminado bem no alto da torre. As chamas desapareciam conforme os gravetos eram consumidos pelo fogo. Naja sentou-se para esperar na escuridão.

Pouco tempo depois escutou o barulho de cascalho sendo pisado na pedregosa trilha abaixo dos muros e emitiu um assovio agudo. Seu sinal foi retribuído, e ele levantou-se. Afrouxou a lâmina de bronze da espada curva em sua bainha e pôs uma flecha no arco, preparando-se para um ataque imediato. Momentos depois uma voz áspera chamou-o no idioma hicso. Ele respondeu com fluência e naturalidade na mesma língua, e os passos de pelo menos dois homens ressoaram na rampa de pedra.

Nem mesmo o faraó sabia que a mãe de Naja fora hicsa. Nas décadas de ocupação os invasores haviam adotado muitos dos costumes egípcios. Com a escassez de mulheres do seu próprio povo, muitos dos hicsos tinham tomado mulheres egípcias como esposas, e no decorrer das gerações as linhagens de sangue acabaram se tornando indistintas.

Um homem alto surgiu na plataforma. Usava um basinete de bronze que protegia a cabeça, e fitas multicoloridas estavam amarradas na barba cheia. Os hicsos adoravam as cores vivas.

Ele abriu os braços.

— Que as bênçãos de Seueth recaiam sobre você, primo — disse em voz baixa, enquanto Naja aproximava-se para abraçá-lo.

— E que ele sorria para você também, primo Trok, mas temos pouco tempo — Naja avisou-o, e indicou os primeiros leves dedos da aurora acariciando os céus ao oeste com um toque amoroso.

— Tem razão, primo.

O general hicso interrompeu o abraço e virou-se para pegar uma trouxa envolvida em linho do seu tenente, que mantinha-se logo atrás dele. Entregou-a para Naja, que desembrulhou-a enquanto reavivava as chamas no farol sinalizador. Sob a luz das chamas, inspecionou a aljava de flechas que o pacote continha. Ela era entalhada em uma madeira leve e rija e revestida de couro finamente tratado e esticado. O trabalho artesanal era soberbo. Era o equipamento de um oficial de alto posto. Naja girou a tampa protetora e retirou uma das flechas do recipiente. Examinou-a brevemente, girando a haste entre os dedos a fim de checar o equilíbrio e a simetria.

As flechas hicsas eram inconfundíveis. As penas da guarnição eram tingidas com as cores vivas do regimento do arqueiro, e a haste era marcada com o seu sinete pessoal. Mesmo se a investida inicial não fosse fatal, a ponta de pederneira era farpada e presa à haste de tal forma que se um cirurgião tentasse puxar a flecha da carne da vítima a ponta iria separar-se da haste e permaneceria no fundo do canal do ferimento, para lá apodrecer e provocar uma morte lenta e dolorosa. A pederneira era muito mais dura do que o bronze, e não se achataria nem dobraria mesmo que atingisse um osso.

Naja deslizou a flecha para dentro da aljava novamente e recolocou a tampa. Não havia corrido o risco de trazer consigo, na biga, tais mísseis tão facilmente reconhecíveis. Se fossem descobertos em seus equipamentos pelo lanceiro ou por seu pajem, a sua presença seria lembrada, e difícil de ser explicada.

— Ainda há muito o que discutir.

Naja acocorou-se e gesticulou para que Trok fizesse o mesmo. Conversaram em voz baixa até que, ao final, Naja se levantou.

— Já basta! Agora ambos sabemos o que deve ser feito. O momento para a ação finalmente chegou.

— Que os deuses sorriam para o nosso empreendimento.

Trok e Naja abraçaram-se outra vez e depois, sem outra palavra, Naja o deixou, correu levemente pela plataforma da torre e tomou a trilha estreita pela colina abaixo.

Antes de chegar ao sopé da colina encontrou um lugar para esconder a aljava. Era um nicho onde a rocha fora rompida ao meio pelas raízes de uma árvore espinhosa. Por cima da aljava ele colocou uma pedra do mesmo tamanho e quase com o mesmo formato da cabeça de um cavalo. Os galhos mais altos da árvore formavam uma cruz distinta contra o céu da noite. Ele reconheceria o lugar novamente sem nenhuma dificuldade.

Depois desceu pela trilha, até onde sua biga estava parada perto da margem do vádi.

O Faraó Tamose viu a biga retornando e soube pela maneira impetuosa com que Naja a guiava que algo desfavorável estava em marcha. Sem alarde, ordenou ao esquadrão que montasse e se postasse com as armas preparadas, prontos para enfrentar qualquer eventualidade.

A biga de Naja chocalhou pela trilha que vinha da margem do vádi. No instante em que chegou aonde o faraó esperava, ele saltou para fora do veículo.

— O que há de errado? — Tamose inquiriu.

— Uma bênção dos deuses — Naja respondeu, incapaz de evitar que a voz tremesse de excitação. — Eles deixaram Apepi sem defesa ao nosso poder.

— Como isso é possível?

— Meus espiões levaram-me até onde o rei inimigo está acampado, a uma curta distância de onde estamos agora. Suas tendas foram armadas bem atrás da primeira fileira de colinas, lá adiante. — Ele apontou para trás com a espada desembainhada.

— Você tem certeza de que é Apepi?— Tamose mal conseguia controlar sua própria excitação.

— Eu o vi nitidamente sob a luz da fogueira do acampamento. Cada detalhe dos seus traços. O nariz grande e adunco e a barba salpicada de prata reluzindo na luz do fogo. Não há como não reconhecer tal estatura. Ele eleva-se acima de todos os que o rodeiam, e usa a coroa de abutre na cabeça.

— Qual é a sua força militar? — o faraó indagou.

— Com sua habitual arrogância ele tem menos de cinqüenta guardacostas. Eu os contei, e metade deles está dormindo, as lanças empilhadas. Ele de nada suspeita, e suas fogueiras de vigia ardem vivamente. Um rápido ataque vindo da escuridão, e nós o teremos nas mãos.

— Leve-me para onde está Apepi — o faraó ordenou, e saltou para a plataforma da biga.

Naja guiou-os, e as macias areias prateadas do vádi abafavam o som das rodas. Naquele silêncio fantasmagórico o esquadrão deslizou em torno da última curva, e Naja ergueu o punho cerrado para o alto, a fim de ordenar que parassem. O faraó alinhou-se com ele e inclinou-se para a frente.

— Onde fica o acampamento de Apepi?

— Além do cume. Deixei meus espiões vigiando-o. — Naja apontou para a trilha na direção da torre de vigia no topo. — Na parte mais distante existe um oásis oculto. Um poço de água doce e palmeiras de tâmaras. As tendas dele estão armadas em meio às árvores.

— Levaremos uma pequena patrulha para fazer o reconhecimento do acampamento. Só então poderemos planejar nosso ataque.

Naja havia antecipado essa ordem, e com umas poucas ordens concisas selecionou um grupo de reconhecimento de cinco soldados. Cada um deles estava unido a ele por um juramento de sangue. Eram seus homens, de corpo e alma.

— Abafem o ruído das bainhas — Naja ordenou. — Não façam nenhum barulho.

Então, com o arco recurvado na mão esquerda, ele pisou na trilha. O faraó seguiu logo atrás dele. Subiram pela trilha rapidamente, até que Naja avistou os galhos em forma de cruz da árvore espinhosa recortados contra o céu da madrugada. Parou abruptamente e levantou a mão direita para que os outros ficassem em silêncio. Escutou com atenção.

— O que foi? — o faraó sussurrou bem atrás dele.

— Pensei ter ouvido vozes no cume — Naja respondeu —, falando a língua hicsa. Espere aqui, majestade, enquanto vou verificar a trilha mais à frente.

O faraó e os cinco soldados abaixaram-se e acocoraram-se ao lado da trilha, enquanto Naja prosseguiu pelo caminho furtivamente. Ele contornou uma grande pedra, e sua silhueta indistinta desapareceu das vistas. O amanhecer chegava rapidamente. O rei hicso logo estaria desmontando seu acampamento e seguindo em frente, para longe do alcance deles. Quando um assovio baixo ressoou até ele, pôs-se de pé com ansiedade. Era uma habilidosa imitação do chamado da madrugada do rouxinol.

O faraó desembainhou sua lendária espada azul.

— O caminho está livre — ele murmurou. — Venham, sigam-me. Subiram pela trilha, e o faraó alcançou a alta rocha que bloqueava o caminho. Fez a volta por ela e então parou abruptamente. O Senhor Naja o encarava a uma distância de vinte passos. Estavam sozinhos, ocultos pela rocha dos homens que seguiam o faraó. O arco de Naja estava completamente armado, e a flecha apontava direto para o peito nu do faraó. Antes mesmo de se mover, a total compreensão do que o confrontava explodiu na mente do faraó. Aquele era o ato hediondo e desprezível que Taita, com seus poderes clarividentes, havia pressentido no ar.

A luz estava forte o bastante para que ele distinguisse cada detalhe do inimigo a quem amara como um amigo. A corda do arco estava estirada com força contra os lábios de Naja, contorcendo-os num sorriso terrível, e seus olhos eram mel e ouro e cruéis como os de um leopardo selvagem, quando fitaram o faraó. A guarnição de penas da flecha era vermelha, amarela e verde e, à maneira hicsa, a ponta era feita de pederneira afiada como uma lâmina, projetada para atravessar o bronze da armadura e couraça do inimigo.

— Que você viva para sempre! — Naja formou as palavras em silêncio, como se fossem uma praga, e disparou a flecha. Esta voou do arco com um ruído seco e um zunido. Parecia ir bem devagar, como algum inseto voador venenoso. As penas giraram a haste, e ela fez um giro completo enquanto cobria a distância de vinte passos. Embora a visão do faraó estivesse aguçada e seus outros sentidos estivessem intensificados pelo perigo mortal no qual se encontrava, pôde mover-se apenas com a lentidão de um pesadelo, demasiado devagar para evitar o míssil. A flecha atingiu-o no centro do peito, onde o coração real batia em sua gaiola de costelas. Atingiu-o com o som de uma pedra atirada de uma grande altura num leito de espessa lama do Nilo, e metade da extensão da haste afundou em seu peito. Ele rodopiou com a força do impacto e foi atirado contra a rocha vermelha da grande pedra. Por um instante agarrou-se à superfície áspera com os dedos retorcidos. A ponta de pederneira o atravessara de um lado a outro. A farpa ensopada de sangue projetava-se através dos músculos contraídos que percorriam o lado direito da sua coluna.

A espada azul caiu do seu punho, e um gemido baixo escapou dos lábios abertos, o som abafado por um jorro de sangue vivido dos seus próprios pulmões. Ele começou a escorregar de joelhos, as pernas dobrando-se sob ele, as unhas deixando profundos sulcos na pedra avermelhada.

Naja atirou-se para a frente com um grito selvagem:

— Emboscada! Cuidado! — E passou um braço em torno do peito do faraó, abaixo da flecha projetada. Apoiando o rei moribundo, ele tornou a gritar: — Aqui, guardas! — E dois vigorosos soldados apareceram quase instantaneamente contornando a parede de pedra, respondendo ao seu chamado desesperado.

No mesmo instante eles viram como o faraó fora atingido e as vistosas penas na base da flecha.

— Hicsos! — um deles gritou, enquanto arrebatavam o faraó dos braços de Naja e puxavam-no para um abrigo atrás da rocha.

— Carreguem o faraó de volta para sua biga enquanto eu mantenho o inimigo a distância — Naja ordenou, e deu-lhe as costas, puxando outra flecha da aljava e soltando-a na trilha que ia em direção do cume deserto, gritando um desafio e depois respondendo ele mesmo um contradesafio com a voz abafada, no idioma hicso.

Pegou a espada azul de onde Tamose a deixara cair, retornou à trilha e alcançou o pequeno grupo de soldados que carregava o rei na direção de onde as bigas estavam à espera, no vádi.

— Foi uma armadilha — Naja lhes disse com urgência. — O topo da colina está fervilhando de inimigos. Devemos levar o faraó para um lugar seguro.

Naja podia ver, no entanto, que pela maneira como a cabeça do rei rolava debilmente nos ombros ele já estava além de qualquer socorro, e seu peito inflou-se com o triunfo. A coroa azul de guerra escorregou pela testa do faraó e caiu no chão, deslizando pela trilha abaixo. Naja pegou-a no instante em que passou por ela, lutando contra a tentação de colocá-la em sua própria cabeça.

— Paciência. O momento ainda não está maduro para isso — censurou a si mesmo em silêncio. — Mas o Egito já é meu, e todas as suas coroas e pompas e o poder. Eu me torno o Egito. Eu me torno parte da divindade.

Colocou a coroa sob o braço, protetoramente, e em voz alta gritou:

— Corram, o inimigo está na trilha bem atrás de nós. Corram! O rei não pode cair nas mãos deles!

As tropas abaixo escutaram os gritos selvagens na madrugada, e o cirurgião do regimento estava esperando por eles ao lado da biga do faraó.

Ele havia sido treinado por Taita, e embora carecesse da magia especial do ancião, era um médico habilidoso, e talvez fosse capaz de estancar até mesmo um ferimento tão terrível como aquele que perfurara o peito do faraó. Mas o Senhor Naja não iria correr o risco de sua vítima retornar do mundo dos mortos e dispensou o cirurgião bruscamente:

— O inimigo está quase nos alcançando. Agora não temos tempo para suas charlatanices. Devemos levá-lo de volta para a segurança das nossas próprias fileiras, antes de sermos atacados.

Ternamente ele retirou o rei dos braços dos homens que o carregavam e deitou-o na plataforma da sua própria biga. Quebrou a haste da flecha que se projetava do peito do rei e ergueu-a para o alto, para que todos os homens pudessem vê-la claramente.

— Este instrumento sangrento atingiu e derrubou o nosso faraó. Nosso deus e nosso rei. Que Seth amaldiçoe o porco hicso que a atirou, e que ele arda no fogo eterno por mil anos.

Seus homens grunhiram numa concordância guerreira. Com todo cuidado, Naja embrulhou a flecha num pedaço de linho e colocou-a no cesto na lateral da biga. Iria entregá-la ao conselho em Tebas, a fim de consubstanciar seu relatório sobre a morte do faraó.

— Um bom homem venha aqui para segurar o faraó — Naja ordenou. -— Trate-o com gentileza.

Enquanto o lanceiro do rei se apresentava, Naja retirou da cintura do faraó o cinturão onde a espada ficava embainhada, embainhou a espada azul e, cuidadosamente, guardou-a junto com suas próprias armas.

O lanceiro saltou na plataforma da biga e aninhou a cabeça de Tamose em seus braços. O vivido sangue vermelho borbulhava nos cantos da sua boca enquanto a biga fez um círculo e depois disparou pelo vádi seco com o restante do esquadrão esforçando-se para acompanhá-la. Mesmo estando apoiado pelos braços fortes do seu lanceiro, o corpo inerte do faraó sacudia cruelmente.

Olhando sempre à frente para que ninguém visse sua expressão, Naja riu baixinho. O som foi encoberto pelo barulho das rodas no cascalho e pelo bater do chassi sobre as pequenas pedras, que ele nem tentava evitar. Deixaram o vádi e correram na direção das dunas e dos lagos de natrão.

Já era o meio da manhã, e o sol claro e cegante estava em meio caminho no céu, quando finalmente Naja permitiu que a coluna fizesse uma parada e que o cirurgião se aproximasse novamente para examinar o rei. Ele não precisava das suas habilidades especiais para dizer que o espírito do faraó havia muito deixara seu corpo e iniciara a jornada para o mundo dos mortos.

— O faraó está morto — o cirurgião disse em voz baixa, quando endireitou-se com o sangue real cobrindo-lhe as mãos até os pulsos.

Um terrível grito de lamento começou na ponta da coluna e foi percorrendo toda a sua extensão. Naja deixou-os expressar o seu luto, depois mandou chamar os capitães das tropas.

— O Estado está sem um líder — disse a eles. — O Egito encontra-se em terrível perigo. Dez das mais rápidas bigas devem levar o corpo do faraó de volta para Tebas, com toda pressa. Deverei liderá-las, pois talvez o conselho queira que eu aceite o encargo de regente do Príncipe Nefer.

Ele havia plantado as primeiras sementes e viu, pelas suas expressões de admiração, que elas se haviam enraizado quase imediatamente. Prosseguiu, com um ar se mbrio e profissional que se adequava às trágicas circunstâncias que os supreenderam:

— O cirurgião deverá envolver o cadáver real antes que eu o leve para o templo funerário. Mas, neste meio tempo, precisamos encontrar o Príncipe Nefer. Ele deve ser informado da morte do pai e da sua própria sucessão. Esta é a questão de maior urgência do Estado, e da minha regência.

Ele havia assumido o título traqüilamente, e nenhum homem o questionou nem o olhou de soslaio. Naja desenrolou um rolo de papiro, um mapa do território desde Tebas até Mênfis, e estendeu-o no parapeito da sua biga. Examinou-o atentamente.

— Vocês devem dividir as tropas e vasculhar o interior à procura do príncipe. Acredito que o faraó o tenha enviado para o deserto em companhia do eunuco a fim de empreender os rituais da virilidade, portanto iremos concentrar nossas buscas ali, a partir de Gallala, onde o vimos pela última vez seguindo em direção do sul e do leste.

Com o olho aguçado de um comandante de exércitos, Naja determinou a área de buscas e ordenou que uma rede de bigas se espalhasse pela região para trazer o príncipe.

O esquadrão retornou a Gallala com o Senhor Naja na dianteira. Logo atrás vinha o veículo carregando o corpo parcialmente embalsamado do faraó. Às margens do lago de natrão Waifra, o cirurgião havia estendido o cadáver real e fizera a tradicional incisão em seu lado esquerdo. Através dela ele removera as vísceras e os órgãos internos. O conteúdo do estômago e dos intestinos tinha sido lavado na viscosa água salgada do lago. Depois todos os órgãos foram acondicionados com os cristais brancos do natrão evaporado da beirada do lago e guardados em jarros de cerâmica. A cavidade do corpo do rei foi preenchida com os sais de natrão, depois envolvida em faixas de linho ensopadas com o sal adstringente. Quando chegassem a Tebas, ele seria levado para seu próprio templo funerário e entregue aos sacerdotes e embalsamadores para os setenta dias rituais de preparação para o sepultamento. Naja ressentia-se com cada minuto passado na estrada, pois tinha uma pressa desesperada de retornar a Tebas antes que a notícia da morte do rei o precedesse. Ainda assim, nos portões da cidade arruinada ele perdeu mais um tempo precioso para instruir os capitães das tropas que deveriam empreender a busca ao príncipe.

— Vasculhem todas as estradas para o oeste. O eunuco é um velho pássaro ardiloso e terá ocultado todos os seus rastros, mas tentem farejálo — ordenou-lhes. — Existem vilarejos nos oásis de Satam e Lakara. Indaguem às pessoas. Vocês podem usar o chicote e o ferro quente para certificarem-se de que não estão escondendo nada. Procurem em todos os lugares secretos do deserto. Descubram onde estão o príncipe e o eunuco. Se me falharem, correrão o risco de morte.

Quando finalmente os capitães acabaram de reabastecer seus cantis de pele e estavam prontos para levar suas divisões para o deserto, ele os deteve com uma última ordem, e eles souberam pela sua voz e pelos ferozes olhos amarelados que aquela era a ordem mais decisiva de todas, e que desobedecê-la significaria a morte:

— Quando encontrarem o Príncipe Nefer tragam-no para mim. Não o entreguem a nenhuma outra mão, exceto a minha.

Havia batedores núbios com as divisões, escravos negros das selvagens terras do sul altamente experientes na arte de rastrear homens e feras. Eles iam correndo à frente das bigas conforme elas iam desaparecendo no deserto, e o Senhor Naja gastou mais alguns minutos preciosos observando-os partir. Seu júbilo era mesclado com a apreensão. Sabia que o ancião eunuco, Taita, era um iniciado; que possuía poderes estranhos e maravilhosos. Se há um único homem capaz de me deter agora, é ele. Gostaria de poder impedi-los eu mesmo, o eunuco e o menino, em vez de enviar subalternos para lançarem-se contra os artifícios do Mago. Mas o meu destino me chama em Tebas, e não me atrevo a retardar.

Correu de volta para sua biga e pegou as rédeas.

— Para a frente! — Deu a ordem para avançar com o punho cerrado. — Para a frente, para Tebas!

Conduziram os cavalos a toda velocidade, de forma que quando desceram em disparada pelas encostas das colinas ocidentais para a extensa planície aluvial do rio, o suor havia secado branco em seus flancos palpitantes, e os olhos estavam vermelhos e selvagens.

Naja havia retirado uma legião inteira dos Guardas Phat do exército acampado antes de Abnub. Explicara ao faraó que essas eram reservas estratégicas para suprir as deficiências e evitar um ataque hicso, caso a ofensiva falhasse. No entanto, a Guarda Phat era o seu regimento especial. Os comandantes estavam unidos a ele por juramento. Seguindo suas ordens secretas eles haviam recuado de Abnub e agora estavam esperando por ele no oásis de Boss, a apenas duas léguas de Tebas.

Os piquetes da guarda viram a poeira das bigas que se aproximavam e posicionaram-se com suas armas. O coronel Asmor e seus oficiais apareceram com as armaduras completas para encontrar o Senhor Naja. A legião, armada, colocou-se em formação atrás deles.

— Senhor Asmor! — Naja saudou-o da biga. — Tenho uma notícia terrível para levar ao conselho em Tebas. O faraó foi morto por uma flecha hicsa.

— Senhor Naja, estou pronto para cumprir suas ordens.

— O Egito é uma criança sem pai. — Naja parou a biga na frente das tropas de guerreiros emplumados e reluzentes. Elevou a voz, agora, para que fosse claramente ouvida nas fileiras da retaguarda. — O Príncipe Nefer ainda é uma criança, e ainda não está pronto para governar. O Egito encontra-se desesperadamente necessitado de um regente para liderá-lo, para que os hicsos não se aproveitem da nossa desordem.

Fez uma pausa e lançou um olhar significativo para o Coronel Asmor. Asmor ergueu o queixo ligeiramente, reconhecendo a confiança que Naja lhe depositara. Tinham-lhe sido oferecidas recompensas maiores do que ele jamais sonhara.

Naja ergueu a voz a um brado:

— Se o faraó tomba numa batalha, o exército tem o direito, por aclamação, de indicar um regente em campo. — Ficou em silêncio e permaneceu com um dos punhos cerrado no peito, e a lança na outra mão.

Asmor deu um passo adiante e virou-se de frente para as fileiras de guardas fortemente armados. Com um gesto teatral, removeu o capacete. Seu rosto era duro e sombrio. Uma pálida cicatriz de um ferimento de espada retorcia seu nariz para um lado, e a cabeça raspada estava coberta com uma peruca de crina de cavalo trançada. Ele apontou sua espada desembainhada para o céu e gritou, numa voz que havia sido treinada para sobressair-se no tumulto da batalha:

— Salve o Senhor Naja, regente do Egito!

Houve um longo momento de silêncio atônito, antes que a legião prorrompesse num rugido, como um bando de leões caçadores:

— Salve o Senhor Naja, regente do Egito!

Os clamores e gritos continuaram até que o Senhor Naja levantou o punho novamente, e no silêncio que se seguiu ele falou com toda clareza:

— Vocês me concedem uma grande honra! Aceito a incumbência com a qual me encarregaram.

— Bak-heri — eles gritaram e bateram nos escudos com suas espadas e lanças até que os ecos irrompessem como trovões distantes pelas colinas do escarpamento.

Em meio ao alvoroço, Naja chamou Asmor para perto.

— Posicione as fileiras de guardas em todas as estradas. Nenhum homem deverá sair deste lugar antes de mim. Nenhuma palavra sobre isso deverá chegar a Tebas antes de mim.

A jornada desde Gallala havia levado três dias de dura cavalgada. Os cavalos estavam exauridos, e até mesmo Naja estava exausto. Ainda assim, permitiu-se apenas uma hora para descansar, lavar a poeira da viagem e trocar de trajes. Então, com o rosto barbeado, os cabelos oleados e penteados, ele montou na biga cerimonial que Asmor deixara preparada e esperando na entrada da tenda. A folha de ouro que ornamentava a parte da frente do veículo brilhava sob a luz do sol.

Naja usava um saiote de linho branco, com uma placa peitoral de ouro e pedras semipreciosas cobrindo o peito nu e musculoso. Na cintura carregava a fabulosa espada azul em sua bainha dourada, que tirara do corpo morto do faraó. A lâmina era forjada de algum metal maravilhoso, mais pesado, mais duro e mais afiado do que qualquer bronze. Não existia outra como aquela em todo o Egito. Havia pertencido a Tanus, o Senhor Harrab, e chegara às mãos do faraó como seu legado.

O mais significativo dos seus acessórios, no entanto, era o que menos chamava a atenção. Em seu braço esquerdo, preso por uma simples faixa de ouro acima do cotovelo, estava o selo da águia azul. Como fizera com a espada, Naja o retirara do cadáver real de Tamose. Como regente do Egito, agora Naja tinha o direito de usar esse potente símbolo do poder imperial.

Sua escolta formou-se em torno dele, e a legião inteira estendeu-se atrás. Com cinco mil homens na retaguarda o novo regente do Egito iniciou sua marcha para Tebas.

Asmor cavalgava como seu lanceiro. Era jovem para o comando de toda uma legião, mas havia provado seu valor na batalha contra os hicsos e era o companheiro mais próximo de Naja. Ele, também, tinha o sangue hicso nas veias. Certa vez Asmor pensara que o comando de uma legião fosse o cume máximo das suas ambições, mas agora havia escalado as colinas e subitamente, diante dele, erguia-se o glorioso alpe dos postos elevados, do poder desagrilhoado e — ele atreveria-se sequer a pensar nisso? — a elevação aos mais altos escalões da nobreza. Não havia nada que ele não fizesse, nenhum ato tão imprudente ou indigno que não cometesse de boa vontade para apressar a ascensão do seu patrão Senhor Naja ao trono do Egito.

— O que nos aguarda agora, meu velho camarada?

Parecia que Naja havia lido seus pensamentos, pois a pergunta foi tão apropriada.

— As Flores Amarelas removeram do seu caminho todas as princesas da Casa de Tamose, exceto uma — Asmor respondeu, e apontou com a lança o outro lado das águas cinzentas e lodosas do Nilo para as distantes colinas ao leste. — Elas jazem ali em suas tumbas no Vale dos Nobres.

Três anos antes a praga das Flores Amarelas havia devastado os dois reinos. A doença ganhara esse nome devido às medonhas lesões amareladas que cobriam o rosto e o corpo dos acometidos antes que sucumbissem às febres ardentes da varíola. Não distinguia as pessoas, escolhendo suas vítimas em qualquer posição ou nível da sociedade, sem poupar egípcios ou hicsos, homens ou mulheres ou crianças, nem camponeses ou príncipes, ceifando-os todos como uma foice nos campos de milhete dhurra.

Oito princesas e seis príncipes da Casa de Tamose tinham morrido. De todos os filhos do faraó, somente duas meninas e o Príncipe Nefer Memnon haviam sobrevivido. Era como se os deuses tivessem deliberadamente decidido limpar o caminho para o trono do Egito para o Senhor Naja.

Havia aqueles que juravam que Nefer e suas irmãs também teriam morrido se o velho Mago Taita não executasse suas magias para salvá-los. As três crianças ainda traziam as minúsculas cicatrizes no antebraço, no lugar onde ele as cortara e colocara em seu sangue o encantamento mágico contra as Flores Amarelas.

Naja franziu a testa. Mesmo naquele momento do seu triunfo ainda se preocupava com os estranhos poderes que o Mago possuía. Nenhum homem poderia negar que ele encontrara o segredo da vida. Já vivera tanto tempo que ninguém sabia qual era a sua idade; alguns diziam que tinha cem anos, outros diziam duzentos. No entanto ele ainda caminhava e corria e conduzia uma biga como um homem em seu auge. Ninguém era melhor do que ele nos debíies, ninguém o superava no aprendizado. Certamente os deuses o amavam, e lhe concederam o segredo da vida eterna.

Uma vez que fosse o faraó, essa seria a única coisa que faltaria a Naja. Poderia ele extrair o segredo de Taita, o Mago? Primeiro, ele teria de ser capturado e levado juntamente com o Príncipe Nefer, mas nenhum dano lhe poderia ser causado. Era valioso demais. As bigas que Naja enviara para vasculhar os desertos iriam trazer-lhe de volta um trono sob a forma do Príncipe Nefer, e a vida eterna sob a forma humana do eunuco, Taita.

Asmor interrompeu seus pensamentos:

— Nós da leal Guarda Phat somos as únicas tropas ao sul de Abnub. O restante do exército está distribuído em formação de combate contra os hicsos, no norte. Tebas está sendo defendida por um punhado de garotos, velhos e aleijados. Não há nada em seu caminho, regente.

Quaisquer temores de que a legião armada seria impedida de entrar na cidade provaram ser infundados. Os portões principais foram escancarados assim que as sentinelas reconheceram o estandarte azul, e os cidadãos acorreram pra recebê-los. Carregavam folhas de palmeiras e guirlandas de lírios aquáticos, pois um rumor percorrera através da cidade de que o Senhor Naja trazia novidades de uma poderosa vitória sobre Apepi dos hicsos.

Mas os brados de boas-vindas e os risos logo cederam lugar aos selvagens lamentos de dor quando viram o cadáver real enfaixado sendo carregado na segunda biga, e ouviram os gritos dos primeiros condutores:

— O faraó está morto! Foi assassinado pelos hicsos! Que ele viva para sempre!

Aos prantos e lamentos as multidões seguiram a biga que carregava o cadáver real até o templo funerário, abarrotando as ruas, e na confusão ninguém pareceu perceber que as divisões dos homens de Asmor tinham assumido o comando dos guardas nos portões principais e, rapidamente, formado linhas de piquete em todas as esquinas e todas as praças.

A biga com o corpo de Tamose arrastara as multidões atrás de si. O restante da cidade normalmente fervilhante estava quase deserta, e Naja conduziu a galope a sua parelha através das ruas estreitas e tortuosas até o palácio do rio. Sabia que todos os membros do conselho iriam acorrer à câmara da assembléia assim que ouvissem a terrível notícia. Deixaram as bigas na entrada para os jardins, e Asmor e cinqüenta homens da escolta postaram-se em torno de Naja. Eles marcharam em formação cerrada através do pátio interno, passando pelos lagos artificiais repletos de jacintos e peixes do rio, que reluziam como jóias sob a superfície das límpidas piscinas.

A chegada de tal grupo de homens armados apanhou o conselho de surpresa. As portas da câmara estavam desguarnecidas. E apenas quatro membros já estavam reunidos. Naja parou na soleira da porta e analisouos rapidamente. Menset e Talla eram velhos e já estavam além dos seus poderes antes tão formidáveis; Cinka sempre fora fraco e vacilante. Havia somente um homem de força na câmara, com quem ele teria de ajustar contas.

Kratas era mais velho do que qualquer um deles, mas da maneira que um vulcão é velho. Suas vestes estavam desalinhadas, num claro indício de que ele viera direto do catre, mas não do sono. Diziam que ele ainda era capaz de manter suas duas jovens esposas e todas as cinco concubinas em ação, do que Naja não duvidava, pois os relatos dos seus feitos com as armas e suas aventuras amorosas eram legendários. As manchas frescas e úmidas no seu saiote de linho branco e o doce perfume natural de concupiscência feminina que o envolvia eram evidentes até mesmo de onde Naja estava. As cicatrizes nos seus braços e no peito nu eram testemunhas de uma centena de batalhas lutadas e vencidas através dos anos. O ancião já não se dava mais ao trabalho de usar as numerosas correntes de Ouro da Bravura e Ouro do Louvor que lhe foram concedidas -— de qualquer forma, o peso do precioso metal seria capaz de derrubar um boi.

— Nobres senhores! — Naja saudou os membros do conselho. — Vim lhes trazer tristes notícias. — Entrou na câmara com passos firmes, e Menset e Talla encolheram-se, encarando-o como dois coelhos observando a sinuosa aproximação de uma serpente naja. — O faraó está morto. Foi derrubado por uma flecha hicsa quando invadiu o reduto dos inimigos acima de El Wadun.

Os membros do conselho fitaram-no pasmos e em silêncio, todos exceto Kratas. Ele foi o primeiro a recuperar-se do choque da notícia. Sua tristeza igualava-se apenas com a sua ira. Pôs-se de pé com dificuldade e olhou atônito para Naja e sua escolta, como um velho búfalo surpreendido em seu espojadouro por um bando de filhotes de leão.

— Por que excesso de traiçoeira insolência você está usando o selo da águia em seu braço? Naja, filho de Timlat saído do ventre de uma prostituta hicsa, você não serve nem para rastejar na terra sob os pés do homem de quem saqueou esse talismã. Essa espada em sua cintura foi forjada por mãos muito mais nobres do que as suas patas macias. — O topo da cabeça calva de Kratas estava púrpura, e seu corpo frágil tremia de indignação.

Por um instante Naja foi tomado de surpresa. Como aquele velho monstro sabia que sua mãe fora de sangue hicso? Esse era um segredo muito bem guardado. Foi obrigado a lembrar-se de que aquele era o único homem, além de Taita, que poderia ter a força e o poder de arrebatar a coroa dupla das suas mãos.

Mesmo sem querer, deu um passo para trás.

— Eu sou o regente do real Príncipe Nefer. Uso o selo da águia por direito — respondeu.

— Não! — Kratas trovejou. — Você não tem o direito. Somente os homens grandiosos e nobres têm o direito de usar o selo da águia. O Faraó Tamose tinha o direito, Tanus, o Senhor Harrab, tinha o direito, e toda uma linhagem de poderosos reis antes deles. Você, patife dissimulado, não tem esse direito.

— Fui aclamado pelas minhas legiões de campo. Sou o regente do Príncipe Nefer.

Kratas foi na direção dele com passos largos, cruzando o salão da câmara.

— Você não é um soldado. Você foi totalmente vencido em Lastra e Siva pelos hicsos, seus parentes chacais. Você não é um estadista, nem um filósofo. Obteve alguma pequena distinção apenas por um lapso de julgamento do faraó. Eu o alertei contra você uma centena de vezes.

— Para trás, seu velho tolo! — Naja avisou-o. — Eu ocupo o lugar do faraó. Se você me tocar, estará ofendendo a coroa e a dignidade do Egito.

— Vou arrancar de você esse selo e essa espada. — Kratas não conteve seu avanço. — E, depois disso, talvez me dê o prazer de chicotear-lhe o traseiro.

Ao lado direito de Naja, Asmor sussurrou:

— A pena para lesa-majestade é a morte.

No mesmo instante Naja percebeu sua oportunidade. Ergueu o queixo e encarou diretamente os olhos ainda brilhantes do ancião.

— Você não passa de um velho saco de vento e estrume — desafiou. — Seu tempo já passou, Kratas, seu velho trêmulo e idiota. Não se atreva a encostar um dedo no regente do Egito.

Como ele pretendera, o insulto foi grande demais para que Kratas suportasse. Ele emitiu um grito e apressou os últimos poucos passos. Era supreendentemente rápido para um homem da sua idade e compleição, e agarrou Naja, erguendo-o na ponta dos pés, e tentou arrancar o selo da águia do seu braço.

— Você não serve...

Sem olhar em volta Naja falou com Asmor, que se mantinha a apenas um passo de distância do seu ombro com a espada desembainhada na mão direita.

— Ataque! — Naja falou em voz baixa. — E desfira um golpe profundo! Asmor deu um passo para o lado, abrindo o flanco de Kratas acima da cintura do saiote para desferir o golpe baixo por trás, direto nos rins. Com sua mão bem treinada o golpe foi firme e poderoso. A lâmina de bronze penetrou silenciosamente, facilmente como uma agulha num tecido de seda, direto até o cabo, depois Asmor girou-a na carne a fim de aumentar o canal do ferimento.

O corpo inteiro de Kratas enrijeceu, e seus olhos arregalaram-se. Ele afrouxou a mão e permitiu que Naja tornasse a tocar o chão. Asmor puxou a lâmina. Esta saiu relutantemente contra a pressão da carne aderente. O bronze reluzente estava manchado com o sangue escuro, depois um fio viscoso escorreu ensopando o saiote de linho branco de Kratas. Asmor golpeou-o novamente, dessa vez mais para o alto, direcionando a lâmina para a costela inferior. Kratas franziu o rosto e sacudiu a cabeça leonina, como se estivesse irritado com alguma bobagem infantil. Virou-se e começou a andar na direção da porta da câmara. Asmor correu atrás dele e atingiu-o outra vez, nas costas. Kratas continuou andando.

— Meu senhor, ajude-me a matar o cachorro — Asmor ofegou, e Naja desembainhou a espada azul e correu para juntar-se a ele.

A lâmina atingiu mais fundo do que qualquer bronze, enquanto Naja golpeava e cravava. Kratas cambaleou através das portas da câmara para o pátio, o sangue jorrando e esvaindo-se de uma dezena de ferimentos. Atrás dele os outros membros do conselho gritavam:

— Assassinato! Poupe o nobre Kratas! Asmor gritou tão alto quanto eles:

— Traidor! Ele pôs as mãos no regente do Egito!

E avançou novamente, mirando o coração, mas Kratas apoiou-se contra o muro que circundava o lago de peixes e tentou endireitar o corpo. No entanto, suas mãos estavam tão vermelhas e viscosas com seu próprio sangue que não conseguiam firmar-se no mármore polido. Ele desabou sobre a mureta baixa e, com um pesado espadanar da água, desapareceu sob a superfície.

Os dois homens brandindo as espadas pararam, encostando no muro para recuperar o fôlego enquanto as águas tingiam-se de rosado pelo sangue do ancião. Subitamente a cabeça calva emergiu para fora da piscina e Kratas aspirou o ar ruidosamente.

— Em nome de todos os deuses, esse velho desgraçado não vai morrer? — A voz de Asmor estava repleta de espanto e frustração.

Naja saltou da mureta para dentro do lago e ficou com a água pela cintura, assomando-se por cima do corpo que chapinhava. Colocou um dos pés na garganta de Krata e forçou sua cabeça para baixo da superfície. Kratas lutou e debateu-se sob ele, e as águas estavam turvas de sangue e lama remexida. Naja empurrou-o com o pé usando toda sua força e o manteve embaixo da água.

— Isso é como cavalgar num hipopótamo.

Ele riu sem fôlego, e imediatamente Asmor e os soldados juntaram-se a ele, cercando a beirada do lago. Rugiam de risos e zombarias:

— Beba seu último gole, velho patife.

— Você irá ao encontro de Seth banhado e perfumado como um bebê. Nem mesmo o deus será capaz de reconhecê-lo.

A luta do ancião foi enfraquecendo aos poucos, até que uma grande exalação de ar borbulhou à superfície, e finalmente ele ficou imóvel. Naja arrastou-se até a lateral do tanque e saiu. O corpo de Kratas emergiu lentamente na superfície e ficou boiando ali com o rosto para baixo.

— Tirem-no dali! — Naja ordenou. — Ele não deverá ser embalsamado, mas sim cortado em pedaços e enterrado com os outros bandidos, raptores e traidores no Vale do Chacal. Não marquem a sua sepultura.

Dessa maneira, seria negada a Kratas a chance de atingir o Paraíso. Ele seria condenado a vagar eternamente na escuridão.

Com a água pingando pela cintura, Naja voltou com passos largos à câmara do conselho. A essa altura, todos os outros membros do conselho tinham chegado. Eles haviam sido testemunhas do destino de Kratas e encolhiam-se, pálidos e trêmulos, em seus assentos. Olharam aterrorizados para Naja quando ele postou-se diante deles com a espada azul na mão.

— Meus nobres senhores, a morte sempre foi a penalidade para a traição. Há algum homem entre vocês que questionaria a justiça dessa execução? — Olhou para cada um deles e todos baixaram os olhos; os Guardas Phat mantinham-se ombro a ombro em torno das paredes da câmara, e, com Kratas morto, não havia ninguém para dar-lhes orientação.

— Meu senhor Menset — Naja destacou o presidente do conselho —, você endossa meu ato de executar o traidor Kratas?

Por um longo momento pareceu que Menser poderia desafiá-lo, mas então ele suspirou e baixou os olhos para as mãos sobre o colo.

— A punição foi justa — ele murmurou. — O conselho apoia os atos do Senhor Naja.

— E o conselho também ratifica a indicação do Senhor Naja como regente do Egito? — Naja perguntou suavemente, mas sua voz foi ouvida com nitidez na câmara repleta e silenciosa.

Menset levantou a cabeça e olhou em volta para seus companheiros de conselho, mas nenhum deles fitou-o de volta.

— O presidente e todos os conselheiros desta assembléia reconhecem o novo regente do Egito.

Finalmente Menset olhou direto para Naja, mas uma expressão tão sombria e desprezível crestava suas feições normalmente joviais que, antes daquela lua cheia, ele seria encontrado morto em sua cama. Por enquanto, Naja limitara-se a assentir.

— Aceito a tarefa e as graves responsabilidades com que os senhores me encarregaram. — Ele embainhou a espada e subiu no dossel para o trono. — Como meu primeiro pronunciamento oficial na qualidade de regente no conselho, desejo descrever aos senhores a valorosa morte do divino Faraó Tamose. — Fez uma pausa significativa e depois, pela hora seguinte, relatou em detalhes a sua versão da campanha fatal e do ataque nos altos de El Wadun. — Assim morreu um dos mais esplêndidos reis do Egito. Suas últimas palavras para mim, quando o carreguei pela colina abaixo, foram: ”Cuide do único filho que me restou. Proteja o meu filho Nefer até que ele esteja adulto o bastante para usar a coroa dupla. Guarde as minhas duas filhas pequenas sob suas asas e impeça que qualquer mal recaia sobre elas”.

O Senhor Naja não fez muito para ocultar sua terrível dor e precisou de alguns momentos para controlar as emoções. Depois prosseguiu, com firmeza:

— Não irei falhar ao deus que foi meu amigo e meu faraó. Já enviei minhas bigas para o deserto a fim de procurar o Príncipe Nefer e trazê-lo de volta para Tebas. Assim que ele chegar iremos entronizá-lo e colocaremos o chicote e o cetro em suas mãos.

Ouviu-se o primeiro murmúrio de aprovação entre os conselheiros, e Naja continuou:

— Agora, mandem chamar as princesas. Tragam-nas para a câmara imediatamente.

Quando elas passaram hesitantes através das portas principais, Heseret, a mais velha, estava trazendo pela mão a irmã pequena, Merykara. Merykara es tivera brincando de pega-pega com as amigas. Seu rosto estava afogueado pela corrida, e o corpo esguio orvalhava-se de suor. Ainda estava a alguns anos da feminilidade, portanto suas pernas eram longas e inquietas, e o peito nu era tão liso quanto o de um menino. Usava os longos cabelos negros presos num cacho lateral que pendia sobre seu ombro esquerdo e chegava quase à metade do roliço traseiro exposto. Ela sorriu timidamente para aquela formidável reunião de homens famosos e apertou com mais força a mão da irmã.

Heseret já havia visto a sua primeira lua vermelha e estava vestida com o saiote de linho branco e a peruca de uma mulher pronta para casar. Até os homens mais velhos olharam-na com avidez, pois ela herdara grande parte da celebrada beleza da avó, Rainha Lostris. Sua pele era lisa e sedosa. Os braços e pernas macios e bem formados e os seios nus eram como luas celestiais. Sua expressão era serena, mas os cantos da boca erguiam-se num sorriso secreto, malicioso, e havia um brilho intrigante nos imensos olhos verde-escuros.

— Adiantem-se, minhas lindas meninas — Naja chamou-as, e só então elas reconheceram o homem que era o amigo próximo e querido do seu pai.

Elas sorriram e seguiram confiantes na direção dele. Naja levantou-se do trono, desceu para encontrá-las e pousou as mãos no ombro delas. Sua voz e expressão eram trágicas.

— Vocês precisam ser corajosas, agora, e lembrar-se de que são princesas da casa real, pois tenho uma notícia muito triste para lhes dar. O faraó, seu pai, está morto.

Por um minuto elas pareceram não entender, então Heseret emitiu um lamento alto e agudo de dor, sendo imediatamente seguida por Merykara.

Com delicadeza, Naja passou os braços em torno delas e levou-as para sentar aos pés do trono, onde elas caíram de joelhos e se abraçaram, chorando inconsolavelmente.

— O sofrimento das princesas reais é evidente para que o mundo inteiro veja — Naja falou para a assembléia. — A confiança e a responsabilidade que o faraó colocou sobre mim são igualmente evidentes. Assim como tomei o Príncipe Nefer Memnon aos meus cuidados, agora tomo as duas princesas, Heseret e Merykara, sob a minha proteção.

— Agora ele tem a descendência real nas mãos. Mas não importa onde esteja no deserto, nem o quão forte e vigoroso seja o Príncipe Nefer — Talla sussurrou para seu vizinho —, creio que já esteja adoecendo para a morte. O novo regente do Egito deixou plenamente claro como será o seu estilo de governo.

Nefer estava sentado à sombra do penhasco que se assomava acima de Gebel Nagara. Não se movera desde que o sol exibira seus primeiros raios sobre as montanhas no outro lado do vale. No início, o esforço de manter-se imóvel fizera arder seus terminais nervosos e lhe provocara coceiras na pele como se insetos venenosos estivessem rastejando por ela. Mas sabia que Taita o observava, portanto forçara o corpo teimoso a lentamente obedecer à sua vontade e elevar-se acima das suas caprichosas imposições. Agora, finalmente encontrava-se num estado de exaltada percepção, com todos os sentidos sintonizados com o deserto à sua volta.

Podia sentir o cheiro da água que brotava da sua fonte secreta numa fenda do penhasco. Ela surgia devagar, uma gota de cada vez, e pingava numa bacia na rocha que não era muito maior do que as suas duas mãos unidas em concha, depois transbordava e escorria para a bacia seguinte, contornada com o verde das algas escorregadias. Dali ela corria para baixo, desaparecendo para sempre no interior das areias avermelhadas do fundo do vale. Ainda assim, muitas vidas eram sustentadas por aquele filete de água: borboletas e besouros, serpentes e lagartos, a graciosa e pequena gazela que dançava como aragens de pó de açafrão nas planícies que tremeluziam pelo calor, os pombos pintalgados com seus tufos de penas cor de vinho que faziam os ninhos nas altas saliências das rochas, todos bebiam ali. Foi por causa dessas preciosas lagoas que Taita o levara para aquele lugar, a fim de esperar pelo seu deus-pássaro.

Tinham começado a fazer a rede no dia em que chegaram a Gebel Nagara. Taita comprara a seda de um mercador em Tebas. A meada de fios havia custado o preço de um bom garanhão, pois fora trazida de uma terra distante ao leste do rio Indus, numa jornada que levara anos para ser completada. Taita mostrava a Nefer como tecer a rede com os fios delicados. A trama era mais forte do que espessos cordões de linho ou tiras de couro, mas quase invisível aos olhos.

Quando a rede estava pronta Taita insistira para que o menino apanhasse o chamariz sozinho.

— É o seu deus-pássaro. Você precisa capturá-lo por si mesmo — ele explicara. — Dessa maneira o seu direito será mais assegurado aos olhos do grande deus Horus.

Assim, sob a ardente luz do dia na base do vale, Nefer e Taita haviam analisado a rota para subir o penhasco. Ao cair da noite, Taita sentara-se ao lado da pequena fogueira na base do penhasco e entoara suavemente os seus encantamentos, atirando, a intervalos, um punhado de ervas no fogo. Quando a lua crescente surgiu para iluminar a escuridão da meianoite, Nefer iniciara a perigosa subida até a saliência onde os pombos empoleiravam-se. Havia apanhado dois dos grandes e agitados pássaros enquanto ainda estavam desorientados e confusos pela escuridão e pelo encantamento que Taita lhes lançara. Trouxe-os para baixo numa sacola de couro pendurada em suas costas.

Sob as instruções de Taita, Nefer havia arrancado as penas de uma asa de cada pássaro, para que não conseguissem mais voar. Depois eles escolheram um local próximo à base do penhasco e da fonte, porém exposto o bastante para tornar os pombos claramente visíveis do céu acima. Amarraram as pernas dos pombos com um fio de crina de cavalo numa pequena estaca de madeira enfiada no solo endurecido. Depois estenderam a rede diáfana e resistente por cima deles e prenderam-na com talos de grama de elefante seca, que iriam romper-se e cair quando o deuspássaro ali pousasse.

— Estenda a rede com delicadeza — Taita o ensinara —, nem muito esticada, nem muito frouxa. Ela deve apanhar o bico do pássaro e as suas presas de tal forma que ele não consiga lutar e machucar-se antes que possamos libertá-lo.

Quando tudo estava preparado para a satisfação de Taita, começaram a longa espera. Logo os pombos se acostumaram ao cativeiro e ciscavam avidamente os punhados de milhete dhurra que Nefer espalhava para eles. Aqueciam-se ao sol e espanejavam-se alegremente debaixo da rede de seda. Um dia sucedeu-se ao outro dia quente, batido pelo sol, e eles ainda esperavam.

No frescor da noite eles recolhiam os pombos, enrolavam a rede e depois iam em busca de alimento. Taita subia ao topo do penhasco e ali sentava-se na beirada, com as pernas cruzadas, observando o longo vale. Nefer ficava de tocaia lá em baixo, nunca no mesmo lugar, para que a caça fosse sempre apanhada de surpresa quando viesse beber na fonte. Do seu privilegiado ponto de observação, Taita fazia o seu encantamento de atração, que raramente falhava em seduzir as elegantes gazelas a uma distância razoável de onde Nefer esperava, com sua flecha preparada e o arco pronto para atirar. Todas as noites eles assavam os filés de gazela na fogueira na entrada da caverna.

A caverna havia sido o refúgio de Taita durante todos os anos depois da morte da Rainha Lostris, quando vivera ali como um ermitão. Era o seu lugar de poder. Embora Nefer fosse um noviço, e não tivesse uma compreensão profunda das habilidades místicas do ancião, não podia duvidar deles, pois lhe eram demonstrados diariamente.

Já estavam em Gebel Nagara por muitos dias até que Nefer começou a entender que não havia ido para lá somente para encontrar o seu deuspássaro: aquele interlúdio era uma extensão do treinamento e da instrução que Taita lhe ministrava prodigamente desde que a jovem lembrança de Nefer podia alcançar.

Mesmo as longas horas de espera ao lado dos chamarizes eram uma lição em si. Taita estava ensinando-o a ter controle sobre seu corpo e vontade, ensinando-o a abrir as portas da mente, ensinando-o a olhar dentro de si, a ouvir o silêncio e os sussurros aos quais os outros eram surdos.

Uma vez que ficou condicionado ao silêncio, Nefer tornou-se mais receptivo à profunda sabedoria e aos conhecimentos que Taita tinha para compartilhar. Sentavam-se juntos na noite do deserto, sob as rodopiantes configurações das estrelas que eram eternas mas tão efêmeras quanto os ventos e as correntes do oceano, e Taita descrevia-lhe maravilhas que pareciam não ter explicação, mas podiam ser compreendidas apenas pela expansão e extensão da mente. Ele pressentia que se mantinha meramente na vaga periferia desse conhecimento místico, porém sentia crescer dentro de si um imenso apetite por mais.

Certa manhã, quando Nefer saiu da caverna na luz acinzentada de antes do amanhecer, viu um agrupamento de figuras sombrias e silenciosas sentadas no deserto além da fonte de Gebel Nagara. Foi chamar Taita, e o ancião assentiu:

— Estiveram esperando a noite inteira. — O velho jogou um manto de lã sobre os ombros e foi ter com eles.

Quando eles reconheceram a silhueta embaçada de Taita, prorromperam em gemidos de súplica. Eram pessoas das tribos do deserto, e haviam levado as crianças até ele, crianças atingidas pelas Flores Amarelas, ardendo em febre e cobertas com as terríveis feridas da doença.

Taita prestou-lhes auxílio, enquanto eles permaneciam acampados atrás da fonte. Nenhuma das crianças morreu, e depois de dez dias a tribo trouxe presentes de milhete, sal e couro curtido, que deixaram na entrada da caverna. Em seguida, desapareceram na imensidão do deserto. Depois disso vieram outros, sofrendo de doenças e ferimentos causados por homens e feras. Taita socorreu a todos, e não recusou ninguém. Nefer trabalhava ao lado dele e aprendeu muito com o que viu e ouviu.

Não importava se havia os beduínos doentes e feridos para ser cuidados, ou se tinham de procurar alimentos, ou instruções e lições a ser aprendidas, todas as manhãs eles colocavam os pombos-chamarizes debaixo da rede de seda e esperavam ao lado deles.

Talvez por terem sentido a influência calmante de Taita, os pombos antes selvagens tornaram-se dóceis e obedientes como galinhas. Permitiam ser mauseados sem nenhum sinal de medo, e emitiam suaves arrulhos quando suas pernas eram presas nas pequenas estacas de madeira. Então acomodavam-se e enfunavam as penas.

Na vigésima manhã da estada deles ali, Nefer ocupou seu posto ao lado dos chamarizes. Como sempre, sem nem mesmo olhar direto para Taita, Nefer estava profundamente ciente da sua presença. Os olhos do ancião estavam fechados, e ele, como os pombos, parecia cochilar sob o sol. Sua pele era entrecruzada com inúmeras rugas muito finas e salpicada com manchas da idade. Parecia tão delicada que poderia esgarçar-se tão facilmente quanto o mais fino pergaminho de papiro. O rosto era sem pêlos, sem vestígios de barba ou sobrancelhas; somente os cílios frágeis, incolores como vidro, contornavam-lhe os olhos. Nefer ouvira seu pai dizer que a castração deixara o rosto de Taita imberbe e pouco marcado pela passagem do tempo, mas tinha certeza de que havia razões mais esotéricas para a sua longevidade e a persistência de sua força e poder de vida. Num vivido contraste com os seus outros traços, os cabelos de Taita eram espessos e fortes como os de uma mulher jovem e saudável, embora de uma vivida cor de prata. Taita tinha orgulho deles e os mantinha limpos e presos numa grossa trança que lhe caía pelas costas. Apesar de todo o conhecimento e a idade, o velho Mago não era imune à vaidade.

Esse pequeno traço de humanidade aumentou o amor de Nefer por ele, a ponto de sentir um aperto tão forte no peito que era quase doloroso. Desejou que houvesse algum meio com o qual pudesse expressá-lo, mas sabia que Taita já compreendia, pois Taita sabia tudo.

Estendeu a mão sub-repticiamente para tocar o braço do ancião enquanto ele dormia, mas de repente Taita abriu os olhos, focalizado e alerta. Nefer soube que ele não estivera dormindo, mas que todos os seus poderes estiveram se concentrando para trazer o deus-pássaro até os chamarizes. Soube que, de alguma forma, suas reflexões e seu movimento tinham afetado o resultado dos esforços do velho, pois sentiu a desaprovação de Taita com tanta nitidez como se ele estivesse falando.

Repreendido, ele se recompôs e recuperou o controle do corpo e da mente, da maneira como Taita lhe ensinara. Era como passar através de uma porta secreta para um lugar de poder. O tempo passava rapidamente, sem ser contado e sem má vontade. O sol erguia-se ao seu zênite e pareceu pender ali por um longo tempo. Subitamente Nefer foi abençoado com uma maravilhosa sensação de presciência. Era quase como se ele, também, estivesse suspenso acima do mundo e visse tudo o que acontecia abaixo. Viu Taita e a si mesmo sentados ao lado do poço de Gebel Nagara, e o deserto como uma poderosa barreira definindo os limites do Egito. Viu as cidades e os reinos, as terras divididas sob a coroa dupla, grandes exércitos em formação, as maquinações dos homens maldosos e a luta e o sacrifício dos bons e justos. Naquele momento, esteve ciente do seu destino com uma intensidade que quase dominou e esmagou a sua coragem.

Naquele mesmo instante, soube que seu deus-pássaro viria naquele dia, pois finalmente estava pronto para recebê-lo.

— O pássaro está aqui!

As palavras foram tão nítidas que, por um momento, Nefer achou que Taita havia falado, mas então se deu conta de que seus lábios não tinham se movido. Taita havia inserido o pensamento na mente de Nefer naquela maneira misteriosa que Nefer não era capaz de entender nem explicar. Não duvidou de que fosse verdade, mas no instante seguinte isso foi confirmado pelo enlouquecido bater de asas dos pombos-chamarizes, que pressentiram a ameaça no céu acima deles.

Nefer não fez nenhum movimento para indicar que havia ouvido e entendido. Não virou a cabeça nem ergueu os olhos para o céu. Não se atreveu a olhar para cima, temendo assustar o pássaro ou incorrer na ira de Taita. Mas estava ciente disso, com todas as fibras do seu ser.

O falcão real era uma criatura tão rara que poucos homens tiveram a chance de vê-lo na natureza. Pela centena de anos anteriores, os caçadores de todos os faraós tinham ido à procura dos pássaros, tinham-nos encurralado e prendido e, a fim de encher os viveiros reais, tinham até mesmo retirado os filhotes dos ninhos antes que estivessem emplumados. A posse desses pássaros era prova de que o faraó contava com a aprovação divina do deus Horus para reinar nesse Egito.

O falcão era o alter ego do deus: estátuas e pinturas mostravam-no com a cabeça de falcão. O faraó era ele próprio um deus, portanto poderia capturar, possuir e caçar o pássaro, mas qualquer outro homem que fizesse isso sofreria a pena de morte.

Agora o pássaro estava ali. O seu próprio pássaro. Taita parecia tê-lo conjurado do céu. Nefer sentiu o coração tomado por uma tal excitação, e os pulmões inflaram-se tanto, que ele achou que seu peito poderia explodir. Mas, ainda assim, não se atreveu a erguer a cabeça para o céu.

Então ele ouviu o falcão. Seu grito era um lamento fraco, quase perdido na imensidão do céu e do deserto, mas emocionou Nefer até o mais profundo do seu ser, como se o deus estivesse falando diretamente com ele. Segundos depois o falcão emitiu outro grito, bem acima dele, num tom mais estridente e mais selvagem.

Agora os pombos estavam enlouquecidos de terror, saltando contra os fios que os prendiam nas estacas, batendo as asas com tal violência que arrancavam as penas, e a corrente de ar erguia uma pálida nuvem de poeira em volta deles.

Bem no alto Nefer ouviu o falcão iniciar seu ataque aos chamarizes, com o vento cantando sobre suas asas num tom altissonante. Percebeu que finalmente era seguro levantar a cabeça, pois toda a atenção do falcão estaria concentrada na sua presa.

Olhou para cima e viu o pássaro mergulhar contra o doloroso azul do céu do deserto. Era algo de uma beleza divina. Suas asas dobravam-se para trás, como lâminas meio desembainhadas, e a cabeça arremessava-se para a frente. A força e o poder da criatura fizeram com que Nefer ofegasse alto. Já havia visto falcões daquela espécie nos viveiros do seu pai, mas nunca antes como aquele, com toda sua graça e majestade selvagens. Miraculosamente o falcão pareceu aumentar de tamanho, e suas cores ficaram mais intensas à medida que caía na direção de onde ele estava.

O bico recurvo era de um lindo e profundo amarelo, com a ponta afiada e negra como a obsidiana. Os olhos eram aguçados e dourados, com um recorte nos cantos; o pescoço cremoso e malhado como o arminho; as asas eram acastanhadas e negras; e a criatura inteira era tão magnífica em todos os detalhes que ele jamais duvidaria que fosse uma encarnação do deus. Queria possuí-la com uma intensidade que nunca imaginou ser possível.

Preparou-se para o momento do impacto quando o falcão atingiria a rede de seda e cairia na armadilha das volumosas dobras. Ao seu lado, sentiu que Taita fazia o mesmo. Eles correriam para a frente juntos.

Então algo aconteceu, algo que ele não acreditava que fosse possível. O falcão estava completamente concentrado no ataque, a velocidade do seu mergulho era tal que nada poderia tê-lo detido, exceto o impacto do arremesso contra os corpos macios e emplumados dos pombos. Porém, contra todas as probabilidades, o falcão arrebatou-se subitamente. Suas asas mudaram de direção e, por um instante, a força do vento ameaçou arrancar as penas das suas junções com o corpo. O ar zuniu sobre as penas estendidas, e o falcão mudou de direção, estava movendo-se rapidamente para cima outra vez, usando seu próprio impulso para fazer um arco no céu, até que, em segundos, fosse apenas um ponto negro contra o azul. Seu grito ressoou novamente no ar, lamentoso e distante, e depois ele desapareceu.

— Ele recusou! — Nefer murmurou. — Por que, Taita, por quê?

— Não cabe a nós compreender os caminhos dos deuses.

Embora tivesse permanecido imóvel durante todas aquelas horas, Taita levantou-se com o movimento lépido de um atleta bem-treinado.

— Ele não vai voltar? — Nefer perguntou. — Ele era o meu pássaro. Senti isso no meu coração. Era o meu pássaro. Ele precisa voltar.

— Ele é parte da divindade — Taita falou suavemente. — Não faz parte da ordem natural das coisas.

— Mas por que recusou? Deve haver algum motivo — Nefer insistiu.

Taita não respondeu imediatamente, mas foi soltar os pombos. Depois de todo esse tempo as penas das suas asas tinham crescido outra vez, mas quando ele libertou-lhes as pernas das tiras de crina de cavalo, eles não fizeram nenhuma tentativa de escapar. Um deles voejou e pousou em seu ombro. Com delicadeza, Taita tomou-o nas duas mãos e atirou-o para o alto. Só então a ave voou para o penhasco, na direção do seu poleiro na saliência mais elevada.

Ele observou-o por um momento e voltou para a entrada da caverna. Nefer seguiu-o devagar, o coração e as pernas pesados com o desapontamento. Na obscuridade da caverna, Taita sentou-se na beirada de uma pedra sob a parede dos fundos e inclinou-se para a frente para armar a fogueira de galhos e estrume de cavalo, até que as chamas se acenderam. Pesadamente, repleto de maus presságios, Nefer sentou-se em seu lugar costumeiro, na frente dele.

Ficaram em silêncio por um longo tempo, Nefer contendo-se, embora sua frustração pela perda do falcão fosse um tormento tão intenso como se tivesse enfiado a mão no fogo. Sabia que Taita só iria tornar a falar quando estivesse pronto. Finalmente Taita suspirou e disse num tom calmo, quase triste:

— Terei de conjurar os Dédalos de Ammon Rã.

Nefer estava atônito. Não havia esperado por isso. Em todo o seu tempo juntos, Nefer o vira conjurar Dédalos somente duas vezes. Ele sabia que o transe auto-induzido da divinação era uma pequena morte, que esgotava e exauria o ancião. Taita só empreenderia a terrível jornada para o sobrenatural quando não lhe restasse mais nenhum outro recurso.

Nefer manteve-se em silêncio e observou espantado enquanto Taita iniciava os rituais de preparação dos Dédalos. Primeiro ele amassou as ervas num pilão de alabastro entalhado e misturou-as numa vasilha de cerâmica. Depois despejou sobre elas a água quente de uma chaleira de cobre. O vapor que se ergueu numa nuvem era tão pungente que fez os olhos de Nefer lacrimejarem.

Quando a mistura esfriou, Taita retirou a sacola de couro curtido que continha os Dédalos do seu esconderijo nos fundos da caverna. Sentado diante do fogo, despejou os discos de marfim numa das mãos e esfregouos delicadamente entre os dedos, enquanto começava a entoar o encantamento a Ammon Rã.

Os Dédalos eram compostos de dez discos de marfim, que Taita havia entalhado. Dez era o número místico da maior potência. Cada entalhe retratava um dos dez símbolos de poder, e era uma obra de arte em miniatura. Enquanto cantava, ele manuseava os discos de forma que retiniam em seus dedos. Entre cada verso da invocação, ele soprava nos discos a fim de dotá-los com sua força vital. Quando eles adquiriram o calor do seu próprio corpo, Taita passou-os para Nefer.

— Segure-os e respire sobre eles — disse com urgência, e enquanto Nefer obedecia a essas instruções, Taita começou a balançar-se no ritmo dos versos mágicos que recitava. Lentamente seus olhos pareceram vidrar-se, à medida que ele se recolhia para os lugares secretos da sua mente. Já estava em transe quando Nefer arrumou os Dédalos em duas pilhas na frente dele.

Então, com um dedo, Nefer testou a temperatura da infusão na vasilha de cerâmica, como Taita lhe havia ensinado. Quando estava fria o bastante para não queimar a boca, ele se ajoelhou diante do ancião e, com as duas mãos, ofereceu-a a ele.

Taita bebeu-a até a última gota, e sob a luz do fogo seu rosto ficou tão branco quanto a cal das pedreiras de Aswan. Por mais algum tempo ele continuou entoando os cânticos, mas aos poucos sua voz caiu para um murmúrio, até desaparecer no silêncio. O único som era a sua respiração rouca enquanto sucumbia à droga e ao transe. Deixou-se cair no chão da caverna e ali permaneceu enroscado como um gato dormindo perto do fogo.

Nefer cobriu-o com seu xale de lã e ficou ao seu lado até que ele começasse a se remexer e gemer, e então o suor correu pela sua face. Seus olhos abriram-se e giraram nas órbitas até que apenas o branco fitasse cegamente as sombras escuras da caverna.

Nefer sabia que agora não havia nada que pudesse fazer pelo ancião. Ele havia viajado para muito longe, para o interior dos lugares sombrios onde Nefer não poderia alcançá-lo; e não conseguia mais suportar a aflição e o sofrimento que os Dédalos infligiam sobre o Mago. Calmamente ele se levantou, pegou o arco e a aljava nos fundos da caverna e depois apressou-se para fora. No outro lado das colinas o sol estava baixo e amarelado sob a névoa de poeira. Ele escalou as dunas ao leste, e quando atingiu o topo e olhou através dos vales, sentiu tão fortemente seu desapontamento pelo pássaro perdido, a preocupação com Taita em sua agonia da divinação, e a sensação de mau presságio sobre o que Taita descobriria em seu transe, que foi tomado por um impulso de correr, de fugir, como se um terrível predador o perseguisse. Vagou descendo pela encosta da duna, a areia cascateando e assoviando sob seus pés. Sentiu lágrimas de terror transbordarem dos olhos e caírem pelas faces ao vento, e correu até que o suor escorresse pelos seus flancos, seu peito ofegasse e o sol estivesse no horizonte. Então finalmente retornou na direção de Gebel Nagara e percorreu os últimos metros na escuridão.

Taita ainda estava encolhido debaixo do xale perto do fogo, mas agora estava dormindo mais tranqüilamente. Nefer deitou ao lado dele e, depois de um momento, caiu num sono inquieto, cheio de sonhos e assombrado por pesadelos.

Quando acordou, a aurora brilhava na entrada da caverna. Taita estava sentado junto ao fogo, assando cortes de gazela nas brasas. Ainda parecia pálido e doente, mas espetou um pedaço de carne na ponta da adaga de bronze e ofereceu-a a Nefer. O menino sentiu-se subitamente faminto, e comeu-a até o osso. Quando havia devorado a terceira porção da carne macia e adocicada, falou pela primeira vez:

— O que você viu, Taita? — perguntou. — Por que o deus-pássaro recusou?

— Isso estava obscurecido — Taita respondeu, e Nefer soube que a profecia fora desfavorável e que Taita o estava protegendo.

Comeram em silêncio durante algum tempo, mas agora Nefer mal sentia o gosto da comida, e finalmente perguntou em voz baixa:

— Você libertou os pombos chamarizes. Como vamos armar a rede amanhã?

— O deus-pássaro não irá retornar a Gebel Nagara — Taita falou simplesmente.

— Então eu nunca serei faraó no lugar do meu pai? — Nefer perguntou. Havia uma angústia profunda em sua voz, portanto Taita suavizou a resposta:

— Teremos de pegar o seu pássaro no ninho.

— Nós não sabemos onde encontrar o deus-pássaro. — Nefer parou de comer. Encarou Taita com uma expressão que inspirava piedade.

O ancião inclinou a cabeça em afirmação.

— Eu sei onde está o ninho. Isso me foi revelado nos Dédalos. Mas você precisa comer para manter as forças. Iremos partir amanhã logo cedo. É uma longa jornada até o local.

— E haverá filhotes no ninho?

— Sim — Taita falou. — Os falcões estão com filhotes. Os mais novos estão quase prontos para voar. Iremos encontrar o seu pássaro ali. — Em silêncio, acrescentou para si mesmo: ”Ou o deus nos revelará outros mistérios”.

Na escuridão antes do amanhecer eles carregaram os cavalos com os cantis de pele e os alforjes, e depois montaram por trás deles sem as selas. Taita guiou o caminho, contornando a frente do penhasco e tomando a rota mais fácil pelas colinas. Quando o sol já ia alto no horizonte eles deixaram Gebel Nagara bem para trás. Quando Nefer olhou à frente, arregalou os olhos com surpresa: bem diante deles havia o contorno da montanha, azul contra o azul do horizonte, ainda tão distante que parecia insubstancial e etéiea, algo feito de névoa e ar, em vez de terra e rocha. A sensação de que já havia visto aquilo antes o invadiu, e por um instante não soube como explicar nem a si mesmo. Então, a lembrança surgiu de repente, e ele disse:

— Aquela montanha. — Apontou para a frente. — É para lá que nós vamos, não é, Taita? — Falou com tal segurança que Taita virou-se para olhá-lo.

— Como sabe?

— Sonhei com ela esta noite — Nefer respondeu.

Taita voltou o olhar para a frente para que o menino não visse sua expressão. Pelo menos os olhos da sua mente estão se abrindo como uma flor do deserto na aurora. Ele está aprendendo a espiar através da escura cortina que oculta o futuro de nós. Sentiu uma profunda sensação de realização. Louvados sejam os cem nomes de Horus, nada havia sido em vão.

— É para lá que estamos indo, eu sei — Nefer repetiu, com toda certeza.

— Sim — Taita finalmente concordou. — Nós vamos para Bir Umm Masara.

Antes da hora mais quente do dia, Taita guiou-os para onde um arvoredo de ásperas acácias espinhosas crescia numa profunda ravina, as raízes sugando a água de alguma fonte muito abaixo da superfície. Depois que descarregaram os cavalos e lhes deram de beber, Nefer olhou em volta do bosque e em questão diminutos descobriu vestígios de outras pessoas que haviam passado por aquele caminho. Excitado, chamou Taita e mostrou-lhe as marcas de rodas deixadas por uma pequena divisão de bigas, dez veículos, pelos seus cálculos, além das cinzas de uma fogueira de acampamento, e a terra batida e amassada onde os homens tinham se deitado para dormir, com os cavalos amarrados aos troncos das acácias nas proximidades.

— Hicsos? — ele arriscou ansiosamente, pois o estrume dos cavalos ainda estava bastante fresco, não tendo mais do que alguns dias: seco na parte externa, mas ainda úmido quando ele quebrou um pedaço.

— Nossos. — Taita reconheceu as marcas das bigas. Afinal, fora ele quem fizera os primeiros modelos daqueles raios de rodas, muitas décadas atrás.

Abaixou-se subitamente e pegou um minúsculo ornamento de bronze em forma de roseta que havia caído da frente de uma das bigas e que estava meio enterrada na terra fofa.

— Uma das nossas divisões de cavalaria leve, provavelmente do regimento de Phat. Parte do comando do Senhor Naja.

— O que eles estariam fazendo aqui, tão longe das linhas? — Nefer perguntou, intrigado, mas Taita encolheu os ombros e virou-se para ocultar a apreensão.

O ancião abreviou a pausa para descanso e eles prosseguiram, enquanto o sol ainda estava alto. Lentamente os contornos da Bir Umm Masara ficaram mais nítidos e pareciam preencher metade do céu diante deles. Aos poucos podiam distinguir a corrosão e a escarificação dos desfiladeiros, dos despenhadeiros e penhascos. Quando atingiram o topo da primeira fileira de contrafortes, Taita verificou o cavalo e olhou para trás. Um movimento distante chamou-lhe a atenção, e ele ergueu a mão para proteger os olhos. Podia ver uma minúscula penügem de poeira branca a muitas léguas adiante, no deserto abaixo. Observou por algum tempo e viu que estava se movendo na direção do leste, para o mar Vermelho. Podia estar sendo causada por um bando de órix em movimento, ou por uma coluna de bigas de combate. Não fez nenhum comentário a respeito disso com Nefer, que se concentrava tanto na busca pelo falcão real que nem desviava os olhos da montanha à frente. Taita bateu os calcanhares nos flancos do cavalo e continuou cavalgando ao lado do garoto.

Naquela noite, quando acamparam a meio caminho da encosta da Bir Umm Masara, Taita falou em voz baixa:

— Não vamos acender a fogueira esta noite.

— Mas está tão frio — Nefer protestou.

— E nós estamos tão expostos, aqui, que um fogo poderia ser avistado a dez léguas através do deserto.

— Há inimigos ali? — A expressão de Nefer mudou, e ele com nervosismo olhou para a paisagem que escurecia. — Bandidos? Beduínos que atacam de surpresa?

— Sempre há inimigos — Taita falou. — É melhor o frio do que a morte.

Depois da meia-noite, quando o vento gelado acordou Nefer e o seu potro, Sonhador, bateu as patas e relinchou, ele rolou para fora do cobertor de pele de ovelha e foi acalmá-lo. Encontrou Taita ainda acordado, sentado a uma pequena distância.

— Olhe! — Taita ordenou, e apontou para a baixada. Havia um distante luzir e tremeluzir de luz. — Uma fogueira de acampamento — disse.

— Pode ser uma das nossas divisões. Os mesmos que deixaram as trilhas que vimos ontem.

— Pode ser, de fato — Taita concordou. — Entretanto, podem ser outras pessoas.

Após uma longa e pensativa pausa, Nefer falou:

— Já dormi o suficiente. Está muito frio, de qualquer forma. Devemos montar novamente e prosseguir. Não queremos que a aurora nos apanhe aqui, na encosta nua da montanha.

Carregaram os cavalos e, sob a luz da lua, encontraram uma trilha tosca feita pelas cabras selvagens que os levou até a encosta ocidental da Bir Umm Masara, de forma que quando a claridade começou a aumentar já estavam fora do alcance da visão de quaisquer observadores do acampamento distante.

A biga de Ammon Rã, o deus-sol, irrompeu furiosamente ao leste, e a montanha inundou-se de luz dourada. Os desfiladeiros estavam escuros com a sombra, tornados ainda mais sombrios pelo contraste, e abaixo deles o deserto era vasto e grandioso.

Nefer atirou a cabeça para trás e gritou com alegria:

— Olhe! Oh, olhe! — E apontou para o pico da montanha.

Taita seguiu seu olhar e viu dois pontinhos negros fazendo um amplo círculo contra o céu. A luz do sol refletiu num deles, que cintilou por um instante como uma estrela cadente.

— Falcões reais. — Taita sorriu. — Um casal.

Descarregaram os cavalos e encontraram um local privilegiado, de onde podiam observar os pássaros que voavam em círculos. Mesmo àquela distância eram majestosos e lindos, estando além da capacidade de Nefer expressá-los. Então subitamente uma das aves, o macho, que era menor, o terço, interrompeu o padrão de vôo e fez um movimento oblíquo contra o vento, as batidas das asas antes tão tranqüilas agora adquiriam uma súbita ferocidade.

— Ele encontrou — Nefer gritou, com a excitação e alegria de um verdadeiro falcoeiro. — Observe-o agora.

Quando o falcão iniciou o ataque, foi tão rápido que desviar os olhos por um instante significaria perder o abate. O terço disparou pelo céu abaixo como um dardo atirado. Um único pombo estava costeando, sem de nada suspeitar, perto da base do desfiladeiro. Nefer reconheceu o momento em que o pássaro emplumado ficou subitamente ciente do perigo e tentou evitar o falcão. Voltou-se tão violentamente na direção da segurança da encosta da rocha que girou de costas num vôo completo e frenético.

Por um instante a barriga ficou exposta. O terço penetrou-a com as duas garras, e o grande pássaro pareceu dissolver-se numa explosão de marrons arroxeados e fumaça azul. As penas espalharam-se numa longa nuvem sob o vento da manhã, e o falcão agarrou-a, cravando profundamente as presas na barriga do pombo, e voou com ele para o desfiladeiro. O matador e a sua vítima atingiram o cascalho da encosta a apenas uma curta distância de onde Nefer estava. O baque pesado da queda ecoou no penhasco e ressoou pelo desfiladeiro.

Naquele momento Nefer já estava dançando de excitação, e mesmo Taita, que sempre fora um amante das águias caçadoras, expressou seu prazer.

— Bak-her! — ele gritou, quando o falcão completou o ritual do abate com o distender das asas: estendeu suas asas magnificamente modeladas por cima do pombo morto, cobrindo-o e proclamando como seu aquele abate.

O falcão fêmea desceu para juntar-se a ele numa série de graciosas espirais e aterrissou na rocha ao lado do parceiro. Ele dobrou as asas para permitir que ela compartilhasse a presa abatida, e juntos desmembraram e devoraram a carcaça do pombo, rasgando-o com seus bicos afiados como lâminas e parando antes de cada investida para levantar as cabeças e olhar para Nefer, com aqueles ferozes olhos amarelos, enquanto engoliam os sangrentos fragmentos de carne e ossos e penas. Estavam totalmente cientes da presença dos homens e dos cavalos, mas toleravam-nos, contanto que mantivessem a distância.

Então, quando tudo o que restava do pombo era uma mancha de sangue na rocha e algumas penas esparsas, e as barrigas normalmente esguias dos falcões estavam estufadas de comida, o par lançou-se outra vez em vôo. As penas, fustigando-se agora para carregá-los, elevaram-se até a encosta lisa do penhasco.

— Siga-os! — Taita recolheu o saiote e disparou pela base do penhasco coberta de cascalhos. — Não os perca de vista!

Nefer era mais rápido e mais ágil, e manteve os olhos fixos nos pássaros que alçavam vôo enquanto corria pela encosta da montanha abaixo deles. Abaixo do pico a montanha dividia-se em agulhas gêmeas, poderosos pináculos de pedra escura, aterrorizantes mesmo olhando-se de baixo. Eles viram os falcões elevarem-se até esse majestoso monumento natural, até que Nefer percebeu para onde estavam se dirigindo. Onde a rocha se projetava, a meio caminho acima para a torre ocidental, havia uma fenda em formato de V na pedra. Enfiada nesta fenda havia uma plataforma de galhos e gravetos secos.

— O ninho! — Nefer esganiçou. — Lá está o ninho!

Ficaram parados juntos, as cabeças atiradas para trás, observando os falcões pousarem, um após o outro, na beirada do ninho, e começarem a arquejar e esforçarem-se para regurgitar a carne de pombo dos seus papos. Um leve som foi levado até Nefer pelo vento que soprava ao longo da face do penhasco: um coro de impacientes pios dos pássaros mais novos querendo ser alimentados. De onde estavam, ele e Taita não conseguiam avistar os filhotes de falcão, e Nefer saltitava de frustração.

— Se escalarmos o pico oriental, ali — ele apontou —, acho que poderemos olhar para dentro do ninho.

— Primeiro ajude-me com os cavalos — Taita ordenou, e eles amarraram-nos e os deixaram pastando nas esparsas moitas de grama da montanha, nutridas pelo orvalho carregado pelo vento do distante mar Vermelho.

A subida até o pico oriental tomou o restante da manhã, e embora Taita tivesse escolhido infalivelmente a rota mais fácil contornando o lado mais distante do pico, em alguns lugares o precipício abaixo deles fez com que Nefer prendesse o fôlego bruscamente e desviasse os olhos. Finalmente chegaram a uma beirada estreita bem abaixo do topo. Acocoraram-se ali por um instante, a fim de se recompor, e para admirar a grandeza da terra e do mar distante. Parecia que o todo da criação se espalhava abaixo deles, e o vento gemia em torno deles, enfunando o saiote de Nefer e esvoaçando os cachos dos seus cabelos.

— Onde está o ninho? — ele perguntou. Mesmo naquele lugar elevado e perigoso, muito acima do mundo, sua mente se fixava somente numa coisa.

— Venha! — Taita levantou-se e foi se arrastando de lado pela beirada, com a ponta das sandálias projetando-se no precipício.

Contornaram a esquina e aos poucos foram avistando o pico ocidental. Olharam através da face da rocha vertical a apenas uma centena de cúbitos de distância, mas separada deles por um abismo tal que Nefer cambaleou de vertigem.

Naquele lado do abismo eles estavam um pouco mais altos do que o ninho, e podiam olhar para dentro dele. A fêmea do falcão estava empoleirada na beirada, obscurecendo o seu conteúdo. Ela virou a cabeça e fitou-os implacavelmente, enquanto eles contornavam a beirada do pico. Eriçou as penas ao longo das costas, como um leão irado eriça a juba em ameaça. Depois emitiu um grito selvagem e lançou-se sobre o precipício, pendendo quase imóvel no vento, observando-os atentamente. Estava tão perto que todas as penas das suas asas eram claramente visíveis.

Seu movimento havia exposto o interior da fenda que continha o ninho. Um par de filhotes aconchegava-se na taça de galhos e gravetos forrada de penas e com pele de cabras selvagens. Já estavam completamente emplumados, e quase tão grandes quanto a mãe. Enquanto Nefer os olhava admirado, um deles levantou-se e abriu as asas, depois bateu-as com força.

— Ele é belíssimo — Nefer gemeu com anseio. — A coisa mais bela que já vi.

— Ele está praticando para o momento do vôo — Taita avisou-o com voz baixa. — Veja como está forte. Em poucos dias já terá saído do ninho.

— Virei buscá-los nesse mesmo dia — Nefer prometeu, e fez menção de voltar pela beirada, mas Taita o deteve colocando a mão em seu ombro.

— Isso não é algo que se possa fazer de qualquer jeito. Precisamos usar um pouco do tempo precioso a fim de planejar tudo cuidadosamente. Venha, sente-se ao meu lado.

Quando Nefer recostou-se em seu ombro Taita apontou para a rocha no lado oposto ao deles.

— Debaixo do ninho a rocha é lisa como um vidro. Por cerca de cinqüenta cúbitos não há nenhum apoio para as mãos, nem uma encosta onde apoiar os pés.

Nefer desviou os olhos do filhote e espiou para baixo. Seu estômago revirou, mas ele obrigou-se a ignorá-lo. Era como Taita dizia: nem mesmo um dos daimões das rochas, aquelas criaturas peludas e parecidas com coelhos que faziam dos lugares elevados o seu lar, poderia ter encontrado uma passagem naquele pedaço de rocha vertical.

— Como posso alcançar o ninho, Taita? Eu quero aqueles filhotes... quero tanto.

— Olhe acima do ninho. — Taita apontou para o outro lado. — Veja como a fenda continua até em cima, até a ponta do penhasco.

Nefer assentiu — não podia nem mesmo falar quando olhou para a trilha perigosa que Taita lhe mostrava.

— Nós vamos encontrar um meio de alcançar o topo acima do ninho. Traremos as cordas de arnês conosco. Do topo, eu irei baixá-lo até a fenda. Se você apoiar os pés descalços e os punhos nas laterais da abertura, poderá se sustentar, e eu irei mantê-lo firme com a corda.

Nefer ainda não conseguia falar. Sentia-se nauseado com o que Taita sugeria. Certamente nenhum ser humano seria capaz de fazer aquela escalada e sobreviver. Taita compreendeu o que ele estava sentindo e não insistiu numa resposta.

— Eu acho... — Hesitante, Nefer começou a recusar, mas então calou-se e olhou para o par de filhotes no ninho.

Ele sabia que esse era o seu destino. Um daqueles era o seu deuspássaro, e essa era a única maneira de obter a coroa dos seus pais. Desistir agora seria negar tudo para o que os deuses tinham-no escolhido. Ele precisava ir.

Taita pressentiu o momento em que o menino ao seu lado aceitou a tarefa e, dessa forma, tornou-se um homem. Sentiu uma profunda alegria em seu coração, pois esse também era o seu destino.

— Vou fazer uma tentativa — Nefer falou simplesmente, e levantou-se. — Vamos descer e nos preparar.

Na manhã seguinte eles deixaram o acampamento rudimentar e começaram a subir enquanto ainda estava escuro. De alguma forma, Taita era capaz de encontrar o caminho numa trilha que nem mesmo os olhos jovens de Nefer podiam discernir. Cada um deles carregava um pesado rolo de corda, feita de linho e crina de cavalo e usada para amarrar os cavalos. Levavam também um dos pequenos cantis de pele: Taita avisara que ficaria muito quente no pináculo quando o sol atingisse o seu auge.

Quando alcançaram o lado mais distante do pináculo ocidental, a luz do dia se fortalecera e podiam ver a encosta que se elevava acima deles. Taita passou uma hora analisando a melhor rota para a subida. Finalmente ficou satisfeito:

— Em nome do grande Horus, o todo-poderoso, vamos começar — ele disse, e fez o sinal do olho ferido do deus. Depois guiou Nefer de volta ao ponto que escolhera pra começar a escalada. — Vou guiar o caminho — disse ao menino enquanto amarrava uma extremidade da corda em volta da cintura. — Vá me dando corda enquanto subo. Veja bem o que faço, e quando eu chamá-lo, amarre-se e siga-me. Se você escorregar, estarei segurando.

No início Nefer subiu cautelosamente, seguindo o caminho que Taita havia tomado. Tinha a expressão concentrada e os nós dos dedos brancos pela tensão da corda que segurava. Taita murmurava palavras de encorajamento lá de cima, e a confiança do menino ia aumentando a cada movimento. Quando alcançou Taita, ele sorriu.

— Isso foi fácil.

— Vai ficar mais difícil - assegurou-lhe secamente, e prosseguiu para o pedaço seguinte de rocha.

Dessa vez Nefer saltitava atrás dele como um macaquinho, tagarelando com excitação e alegria. Pararam debaixo de uma abertura na face da rocha que se afilava próximo ao topo numa estreita rachadura.

— Isto aqui é parecido com a escalada que você terá de fazer para alcançar o ninho, quando chegarmos ao topo. Veja como eu prendo as mãos e os pés na abertura.

Taita entrou na abertura, semelhante a uma chaminé, e foi subindo devagar, mas sem nenhuma pausa. Quando a fenda se estreitou ele prosseguiu com firmeza, como um homem subindo uma escada. Seu saiote esvoaçava entre as pernas velhas e magras, e Nefer pôde ver sob o linho a grotesca cicatriz onde sua masculinidade fora decepada. Nefer já vira aquilo antes, e ficara tão acostumado que a terrível mutilação não o impressionava mais.

Taita chamou-o lá de cima, e dessa vez Nefer foi saracoteando pela rocha acima, entrando naturalmente no ritmo da subida.

E por que não seria assim? Taita tentou manter o orgulho dentro dos limites razoáveis. Nas suas veias corria o sangue de guerreiros e grandes atletas. Então ele sorriu, e seus olhos cintilaram como se fossem jovens novamente. E ele teve a mim para ensiná-lo — claro que se sobressai.

O sol estava somente na metade do caminho no céu quando finalmente pararam juntos no cimo do pico ocidental.

— Vamos descansar um pouco aqui. — Taita tirou o cantil de pele do ombro e sentou-se pesadamente.

— Não estou cansado, Taita.

— Mas vamos descansar assim mesmo. — Taita passou-lhe o cantil e observou enquanto ele engolia uma dezena de goles da água. — A descida até o ninho será mais difícil — disse, quando Nefer parou para tomar fôlego. — Não haverá ninguém para lhe mostrar o caminho, e há um lugar onde você não consegue ver os pés quando a rocha se inclina para dentro.

— Vou ficar bem, Taita.

— Se os deuses permitirem — Taita concordou, e virou a cabeça como que para admirar a glória da montanha, do mar e do deserto estendidos à frente deles, mas na verdade para que o menino não visse seus lábios enquanto fazia uma oração: — Estenda suas asas sobre ele, poderoso Horus, pois que é o seu escolhido. Abrigue-o, minha senhora Lostris, que tornou-se uma deusa, pois este é o fruto do seu ventre e o sangue do seu sangue. Afaste a sua mão dele, abominável Seth, e não o toque, pois você não pode triunfar sobre aqueles que protegem esta criança. — Suspirou enquanto reconsiderava a sabedoria de desafiar o deus da escuridão e do caos, então suavizou sua advertência com um pequeno suborno: — Ignore-o, bondoso Seth, e sacrificarei um boi em sua homenagem no seu templo de Abydos na próxima vez em que passar por lá. — Levantou-se. — Está na hora de fazer a tentativa.

Ele guiou o caminho através do cume e parou na orla mais distante, olhando para baixo na direção do acampamento e dos cavalos que pastavam, agora parecendo tão pequenos quanto camundongos recém-nascidos debaixo do precipício. A fêmea do falcão estava voando, circulando por cima do desfiladeiro. Taita achou que havia algo incomum em seu comportamento, especialmente quando ela emitiu um grito estranho, desesperado, como ele nunca ouvira antes de um falcão real. Não havia sinal do macho, embora ele perscrutasse os céus à sua procura.

Então baixou os olhos e olhou através do abismo para o pico principal da montanha e a saliência onde tinham estado no dia anterior. Isso possibilitou que se orientasse, pois o abaulamento da rocha o impedia que enxergasse o ninho. Moveu-se lentamente ao longo da borda, até encontrar o início da rachadura, que reconheceu como aquela que corria para baixo e se abria na fenda na qual os falcões haviam construído o ninho.

Pegou uma pedra solta e atirou-a na beirada. Ela rolou pela parede de pedra e fora das vistas. Taita esperava que isso pudesse alarmar o falcão macho para fora do ninho, e assim confirmar sua exata posição, mas ainda não havia sinal do pássaro. Somente a fêmea continuava seus círculos desnorteados e emitia seus gritos estranhos, solitários.

Taita chamou Nefer para perto e amarrou a extremidade da corda em volta da sua cintura. Verificou o nó cuidadosamente e então, um centímetro de cada vez, passou a corda inteira através dos dedos, checando se haveria qualquer ponto desgastado ou enfraquecido.

— Você tem a mochila de couro para carregar o filhote. — Verificou o nó com o qual Nefer a prendera no ombro, para que não atrapalhasse seus movimentos na subida.

— Pare de se preocupar tanto, Taita. Meu pai diz que às vezes você parece uma velha.

— Seu pai deveria demonstrar mais respeito. Eu limpei o traseiro dele quando era um bebê chorão, da mesma forma que limpei o seu.

Taita fungou e examinou novamente o nó na cintura do menino, retardando o momento fatal. Mas Nefer caminhou até a beirada e parou com as costas eretas acima do precipício, sem nenhum sinal de hesitação.

— Você está pronto?

O menino olhou por cima do ombro e sorriu com um lampejo dos dentes brancos e um brilho nos olhos verde-escuros. Aqueles olhos faziam Taita lembrar-se vividamente da Rainha Lostris. Com um aperto no peito, achou que Nefer era ainda mais gracioso do que fora o pai com aquela mesma idade.

— Não podemos ficar desperdiçando o dia inteiro aqui. — Nefer pronunciou uma das expressões favoritas do pai num tom altivo, imitando fielmente os modos reais.

Taita sentou-se e contorceu-se numa posição na qual poderia ancorar os calcanhares na fenda e recostou-se para apoiar-se contra a corda sobre o ombro. Assentiu para Nefer, e viu o sorriso brincalhão desaparecer do rosto do menino enquanto ele descia pela beirada do precipício. Taita foi soltando a corda à medida que Nefer descia.

Nefer alcançou a protuberância na parede e, pendurando-se implacavelmente na corda com as duas mãos, deixou as pernas descerem pelo desfiladeiro em busca de um apoio para os pés sob a saliência. Encontrou a rachadura com os dedos dos pés e enfiou o pé descalço dentro dela, girando o calcanhar a fim de apoiar-se, e então deixou-se escorregar para baixo. Olhou para cima uma última vez para Taita, tentou sorrir, mas fez uma careta doentia, depois balançou em torno da saliência. Antes que pudesse encontrar outro apoio, sentiu o pé escorregar na abertura e começou a girar na corda. Se perdesse o apoio do pé, iria rodopiar e balançar inutilmente por cima do abismo. Duvidava que o ancião lá em cima teria forças para puxá-lo de volta.

Agarrou-se desesperadamente na fenda, e seus dedos içaram-se, estabilizando-o. Investiu com a outra mão e agarrou o apoio seguinte. Estava por cima da saliência, mas o coração disparava, e a respiração sibilava em sua garganta.

— Você está bem? — A voz de Taita ressoou acima dele.

— Tudo bem — ele ofegou.

Olhou para baixo por entre os joelhos e viu a rachadura na rocha alargar-se por dentro do topo da fenda acima do ninho. Seus braços estavam cansados e começando a tremer. Ele estendeu a perna direita para baixo e encontrou outro ponto de apoio.

Taita estava certo: era mais difícil descer do que subir. Quando moveu a mão direita para baixo, viu que os nós dos dedos estavam feridos e notou uma pequena mancha de sangue na pedra. Descendo devagar, atingiu o ponto onde a rachadura se abria na fenda principal. Mais uma vez foi obrigado a contornar a borda e encontrar um apoio escondido.

No dia anterior, quando ele e Taita haviam conversado sobre isso sentados no lado oposto do abismo, esse ponto de transição parecera tão fácil, mas agora seus dois pés estavam balançando livremente por cima da borda da fenda, e o abismo parecia sugá-lo como uma boca monstruosa. Ele gemeu e segurou-se com ambas as mãos, congelando contra a face da rocha. Estava com medo, agora, os últimos vestígios de coragem tinham sido soprados para longe pelas rajadas de vento quente que o fustigavam, ameaçando arrancá-lo do penhasco. Olhou para baixo, e as lágrimas misturaram-se com o suor do seu rosto. O precipício acenava-lhe, atraindo-o com garras de terror, deixando-o nauseado.

— Mexa-se! — A voz de Taita chegou até ele, fraca mas repleta de urgência. — Você precisa continuar se mexendo!

Com um esforço imenso, Nefer obrigou-se a fazer outro esforço. Seus dedos dos pés arrastaram-se sob ele e encontraram uma saliência que parecia larga o bastante para lhe dar apoio. Abaixou-se com os braços doendo, tremendo. De repente o pé escorregou da beirada, e os braços estavam cansados demais para suportar o seu peso. Ele caiu, gritando.

Caiu apenas pelo espaço de dois braços, e então a corda apertou-se cruelmente contra sua carne, prendendo-lhe as costelas e sufocando a sua respiração. Ficou balançando no ar, seguro apenas pela corda e pelo velho acima dele.

— Nefer, você está me escutando? — A voz de Taita estava rouca com o esforço de segurá-lo. O menino gemeu como um filhotinho. — Você precisa agarrar-se em algum lugar. Não pode ficar pendurado aí.

A voz de Taita acalmou-o. Nefer piscou as lágrimas dos olhos e viu a rocha a apenas um braço de distância do seu rosto.

— Agarre-se! — Taita incitou-o, e Nefer viu que estava pendendo na frente da fenda.

A abertura era profunda o bastante para acomodá-lo, a saliência larga o bastante para que ficasse de pé, se ao menos pudesse alcançá-la. Estendeu a mão trêmula e tocou a parede da pedra com a ponta dos dedos. Começou a balançar-se na direção dela.

Pareceu uma eternidade de luta e esforço desesperado, mas finalmente ele alcançou a abertura e abaixou-se com o corpo dobrado ao meio para dentro dela. Encolheu-se ali, tremendo e ofegando.

Lá em cima, Taita sentiu o peso abandonar a corda e gritou um encorajamento:

— Bak-her, Nefer! Bak-herl Onde você está?

— Estou na fenda, acima do ninho.

— O que está vendo? — Taita queria manter a mente do menino concentrada em outras coisas, para que não tivesse tempo de pensar no vácuo sob seus pés.

Nefer enxugou o suor dos olhos com as costas da mão e espiou para baixo.

— Posso ver a beirada do ninho.

— A que distância?

— Está perto.

— Consegue alcançá-lo?

— Vou tentar.

Nefer apoiou as costas encurvadas no teto da fenda estreita e abaixou-se cuidadosamente. Lá em baixo podia apenas divisar os gravetos secos que se projetavam para fora do ninho. Conforme se inclinava mais, sua visão para dentro do ninho abria-se devagar, um pouco de cada vez.

Quando falou novamente, sua voz estava mais forte e excitada.

— Estou vendo o macho. Ele ainda está no ninho.

— O que ele está fazendo? — Taita gritou de volta.

— Parece que está dormindo. — A voz de Nefer soava intrigada. — Só consigo ver as costas.

O falcão macho estava imóvel, pousado na parte mais elevada do ninho. Mas como poderia estar dormindo e alheio a toda aquela comoção acima dele?, Nefer perguntou-se. Seu próprio medo foi esquecido, agora, com a excitação de ter o falcão tão perto e o ninho quase ao alcance das mãos.

Moveu-se mais depressa, com mais confiança, conforme o piso da fenda se nivelava sob seus pés, e havia mais espaço para ficar ereto.

— Estou vendo a cabeça. — O terço estava com as asas estendidas como se estivesse cobrindo uma presa. Ele é tão belo, Nefer pensou, e estou quase próximo o bastante para tocá-lo, e nem assim ele demonstra ter medo.

Subitamente se deu conta de que poderia apanhar o pássaro adormecido. Preparou-se para o esforço, prendendo o ombro dentro da fenda, os pés descalços numa posição segura abaixo dele. Lentamente inclinou-se na direção do falcão, depois parou com a mão estendida acima dele.

Havia minúsculas gotas de sangue nas penas avermelhadas. Vivas e reluzentes como rubis, elas cintilavam sob a luz do sol, e com uma súbita e vertiginosa sensação na boca do estômago, Nefer percebeu que o falcão estava morto. Foi dominado por uma terrível sensação de perda, como se algo de grande valor para ele lhe tivesse sido tirado para sempre. Parecia mais do que apenas a morte do falcão. O pássaro real significava algo mais: era o símbolo de um deus e de um rei. Enquanto ele o olhava, a carcaça do falcão pareceu transformar-se no cadáver do próprio faraó. Sufocado por um soluço, ele retirou a mão rapidamente.

Foi bem na hora, pois no instante seguinte ele ouviu um ruído seco, raspante, e uma explosiva sibilação no ar. Alguma coisa enorme e reluzentemente negra avançou para onde sua mão es tivera no momento anterior, e desabou no colchão de gravetos secos com tal força que o ninho inteiro balançou.

Nefer encolheu-se para o mais longe que o exíguo espaço na fenda lhe permitiu, e arregalou os olhos para a grotesca criatura que agora serpenteava e corcoveava diante do seu rosto. Sua visão parecia aguçada e aumentada, o tempo movia-se com a terrível lentidão de um pesadelo. Viu os filhotes mortos aconchegados no interior do ninho e, além da carcaça do falcão, a espessa e reluzente espiral de uma gigantesca e negra cobra naja enrolada em torno deles. A cabeça da serpente estava erguida, a sua crista, marcada com um nítido desenho de preto e branco, estava distendida.

A escorregadia língua escura cintilou entre os lábios finos, sorridentes. Os olhos eram de um negro insondável, cada um com uma estrela de luz refletida no centro, enquanto prendiam Nefer num olhar hipnotizante.

Nefer tentou gritar um alerta para Taita, mas nenhum som saiu da sua garganta. Não conseguia desviar os olhos do olhar terrível da cobra. Ela balançou a cabeça levemente, mas a espiral maciça que enchia o ninho do falcão pulsava e contorcia-se. Cada escama polida brilhava como uma jóia enquanto raspava contra os gravetos do ninho. A cauda era tão grossa quanto o braço de Nefer, e lentamente revolvia-se em si mesma.

A cabeça dispurou para trás, a boca abriu-se, e Nefer pôde ver o pálido revestimento da garganta. Presas quase transparentes surgiram eretas nas dobras da membrana macia: havia uma minúscula gota de veneno incolor na ponta de cada uma das presas aguçadas.

Então a repulsiva cabeça avançou para a frente, quando a cobra atacou o rosto de Nefer.

Nefer gritou e atirou-se encolhido para o lado, perdeu o equilíbrio e caiu de costas para fora da fenda.

Embora estivesse preparado para suportar qualquer súbito peso na corda, Taita quase foi arrancado do seu posto no topo do desfiladeiro quando o peso de Nefer atingiu a linha. A corda de crina de cavalo deslizou por entre seus dedos, cortando-lhe a carne, mas ele segurou com toda força. Podia ouvir o menino gritando incoerentemente lá embaixo, e sentiu-o balançar na extremidade da corda.

Nefer balançou como um pêndulo para fora da fenda, depois voltou direto para o ninho do falcão. A cobra naja havia se recobrado rapidamente do seu ataque abortado e estava novamente ereta e preparada. Fixou o olhar do menino e sacudiu a cabeça para encará-lo. Ao mesmo tempo, um agudo sibilar emergiu da sua garganta.

Nefer tornou a gritar e chutou o ar desesperadamente, enquanto voava direto para a cobra. Taita ouviu o terror naquele grito e começou a puxar a corda, puxando até sentir os velhos músculos estalando com o esforço.

A cobra atacou instintivamente os olhos de Nefer quando ele se aproximou, mas naquele instante o puxão de Taita na outra extremidade da corda tirou-o da linha de ataque. As mandíbulas abertas passaram a um dedo de distância da sua orelha, e depois, como um chicote de biga, o pesado corpo açoitou-lhe o ombro. Nefer gritou outra vez, sabendo que havia sido fatalmente atingido.

Enquanto balançava novamente por cima do precipício aberto, ele olhou para o ponto no ombro onde a serpente cravara as presas e viu o veneno amarelo-claro espalhar-se através da grossa tira de couro da mochila. Com uma imensa sensação de alívio ele tirou a sacola do ombro e começou a balançar de volta na direção de onde a cobra ainda permanecia ameaçadoramente, segurando a mochila como um escudo diante de si.

No instante em que estava ao alcance da cobra, ela atacou novamente, mas Nefer amorteceu o ataque com a mochila de couro. As presas da fera penetraram no couro com toda força. Quando Nefer balançou outra vez, a cobra foi levada com ele. Foi puxada para fora do ninho, uma bola retorcida de espirais e escamas polidas. Bateu contra as pernas de Nefer, a cauda pesada açoitando-o, sibilando ferozmente, nuvens de veneno espirrando das mandíbulas e escorrendo pela mochila de couro. Tão grande era o seu peso que o corpo inteiro de Nefer tremia violentamente.

Quase sem pensar, Nefer desvencilhou-se da mochila, os caninos da cobra ainda presos no couro. A sacola e a cobra caíram juntos, o corpo sinuoso ainda enroscando-se, serpenteando e açoitando furiosamente. Os sibilos penetrantes foram ficando mais fracos à medida que mergulhava no precipício. Pareceu cair por uma eternidade, até finalmente atingir as pedras abaixo. O impacto não a matou nem a feriu, e ela contorceu-se enquanto rolava pela encosta de cascalho, batendo nas rochas como uma imensa bola negra até que Nefer perdeu-a de vista.

Através da neblina de terror que enevoava sua mente, Nefer ouviu a voz de Taita. Estava enrouquecida pelo esforço e preocupação:

— Fale comigo. Está me escutando?

— Estou aqui, Taita. — A voz de Nefer estava trêmula e fraca.

— Vou puxá-lo para cima.

Lentamente, com um empuxo de cada vez, Nefer foi içado para cima. Mesmo estando tão atordoado, ele admirou-se com a força do ancião. Quando conseguiu alcançar a rocha, pôde aliviar um pouco do peso da corda, e foi mais rápido. Finalmente arrastou-se em volta da saliência e viu, com imenso alívio, Taita olhando para ele do topo, os traços envelhecidos, como aqueles de uma esfinge, fendidos em linhas profundas pelo esforço de puxar a corda.

Com um último impulso Nefer alcançou o topo e caiu nos braços do ancião. Ficou ali ofegando e soluçando, incapaz de falar com coerência. Taita abraçou-o. Ele também estava tremendo de emoção e cansaço. Aos poucos foram acalmando-se e recuperando o fôlego. Taita levou o cantil de pele aos lábios de Nefer e ele bebeu, engasgou, bebeu outra vez. Então olhou para o rosto de Taita com uma expressão tão miserável que o velho abraçou-o com mais força.

— Foi horrível. — As palavras de Nefer eram quase incompreensíveis. — Foi no ninho. Ela matou os falcões, todos eles. Ah, Taita, foi horrível!

— O que era, Nefer? — Taita perguntou delicadamente.

— Ela matou o meu deus-pássaro, e também o macho.

— Calma, rapaz. Beba um pouco mais de água. — Ele ofereceu o cantil. Nefer engasgou outra vez e foi tomado por um acesso de tosse. No instante em que conseguiu falar outra vez, ele arquejou:

— Ela tentou me matar, também. Era imensa, e tão negra.

— O que era, menino? Diga-me com clareza.

— Uma cobra naja, uma imensa e negra cobra. No ninho, esperando por mim. Já havia picado os filhotes e o falcão, e atacou-me assim que me viu. Nunca imaginei que uma cobra pudesse ficar tão grande.

— Você foi atingido? — Taita indagou aterrorizado, e fez com que Nefer se levantasse para examiná-lo.

— Não, Taita. Usei a mochila de couro como escudo. Ela nem me tocou — Nefer protestou, mas Taita despiu-lhe o saiote e obrigou-o a ficar nu e imóvel enquanto examinava seu corpo à procura de ferimentos.

Um dos dedos e os dois joelhos estavam raspados, mas além disso o corpo jovem e forte estava marcado apenas pela cártula faraônica na pele lisa do interior da coxa. O próprio Taita havia tatuado o desenho, e era uma obra-prima em miniatura que iria assegurar para sempre o direito de Nefer à coroa dupla.

— Graças ao grande deus que o protegeu —Taita murmurou. — Com a aparição dessa cobra, Horus enviou-lhe um presságio de terríveis eventos e perigos. — O rosto dele estava grave e tocado com as marcas do sofrimento e do luto. — Aquela não era uma serpente natural.

— Era sim, Taita. Eu a vi de perto. Era enorme, mas uma serpente de verdade.

— Então como chegou ao ninho? As cobras não sabem voar, e não há outro meio para escalar o penhasco.

Nefer fitou-o horrorizado.

— Ela matou meu deus-pássaro — murmurou.

— E matou o falcão real, o outro eu do faraó — Taita concordou sombriamente, a tristeza ainda em seus olhos. — Há mistérios aqui revelados. Eu vi suas sombras em minhas visões, mas estão confirmadas pelo que aconteceu a você neste dia. Existe uma coisa além da ordem natural.

— Explique isso para mim, Taita. — Nefer insistiu. Taita entregou-lhe o saiote.

— Primeiro precisamos descer desta montanha e voar para longe dos grandes perigos que nos ameaçam, antes que eu possa considerar as profecias.

Ele parou para olhar o céu, como se mergulhado em pensamentos. Então, baixou os olhos e fitou o rosto de Nefer.

— Vista suas roupas — foi tudo o que disse.

Assim que Nefer estava pronto, Taita guiou-o para o extremo do cume e começaram a descida. Esta foi rápida, pois já tinham aberto a trilha, e a urgência de cada movimento de Taita era contagiosa. Os cavalos estavam onde os tinham deixado, mas antes de montarem Nefer falou:

— O lugar onde a cobra atingiu as rochas fica perto daqui. — Apontou para a encosta de cascalhos abaixo do despenhadeiro, de onde o ninho do falcão ainda era visível. — Vamos procurar a carcaça. Se encontrarmos os restos, talvez você possa fazer um encantamento para destruir seus poderes.

— Seria um desperdício de tempo precioso. Não existe nenhuma carcaça. — Taita montou na sua égua. — Venha, Nefer. A cobra já retornou aos lugres sombrios de onde saiu.

Nefer estremeceu com o terror supersticioso, depois saltou para o lombo do seu potro.

Nenhum deles tornou a falar até que estivessem longe das encostas mais altas e já ao sopé das colinas ocidentais. Nefer sabia muito bem que quando Taita estava com aquele humor era um desperdício de esforço falar com ele, mas incitou o cavalo para o lado dele e salientou com todo respeito:

— Taita, este não é o caminho para Gebel Nagara.

— Não vamos voltar para lá.

— Por que não?

— Os beduínos sabem que estávamos perto da fonte. Eles dirão àqueles que nos procuram — Taita explicou.

Nefer estava confuso.

— Quem nos está procurando?

Taita virou a cabeça e olhou para o menino com tal piedade que ele silenciou.

— Vou explicar tudo quando sairmos desta montanha amaldiçoada e estivermos num lugar seguro.

Taita evitou os cumes das colinas, onde suas silhuetas poderiam ser visíveis contra o horizonte, e teceu uma trilha através dos vales e desfiladeiros. Sempre seguindo para o oeste, para longe do Egito e do Nilo, na direção do mar.

O sol já estava se pondo antes que ele freasse novamente a sua égua e dissesse:

— A estrada principal das caravanas fica bem atrás da próxima fileira de colinas. Precisamos atravessá-la, mas talvez os inimigos estejam nos observando dali.

Deixaram os cavalos amarrados num vádi oculto, com uns poucos punhados de milhete dhurra moído nos seus embornais de couro, para mantêlos satisfeitos, e depois subiram cautelosamente até o topo das colinas e encontraram um local privilegiado atrás de um banco de xisto púrpura, de onde podiam observar a estrada de caravanas abaixo.

— Ficaremos aqui até o escurecer — Taita explicou. — Depois atravessaremos.

— Eu não entendo o que você está fazendo, Taita. Por que estamos viajando para o oeste? Por que não voltamos a Tebas, para a proteção do faraó, meu pai?

Taita emitiu um leve suspiro e fechou os olhos. Como dizer a ele? Não posso esconder por mais tempo. No entanto ele ainda é uma criança, e eu deveria protegê-lo.

Foi quase como se Nefer tivesse lido seus pensamentos, pois pousou a mão no braço de Taita e disse em voz baixa:

— Hoje, na montanha, eu provei que sou um homem. Trate-me como adulto.

Taita assentiu.

— Você provou, de fato. — Antes de prosseguir ele tornou a passar os olhos ao longo da estrada abaixo, e imediatamente inclinou a cabeça. — Alguém está chegando! — avisou.

Nefer escondeu-se atrás do banco de xisto, e os dois viram a coluna de poeira erguendo-se rapidamente na estrada, vindo do leste. Naquele momento o vale estava mergulhado em sombras profundas, e o céu estava coberto com todos os gloriosos matizes do pôr-do-sol.

— Estão se movendo rápido. Não são mercadores, mas sim bigas de combate — Nefer falou. — Sim, posso vê-los agora. — Seus olhos vivos e jovens tinham distinguido o formato de uma biga principal, com os cavalos trotando à frente do condutor em sua alta carruagem. — Não são hicsos — continuou, conforme as silhuetas ficavam mais nítidas e aproximavam-se mais. — São nossos. Uma tropa de dez bigas. Sim! Estou vendo a flâmula no primeiro veículo. — A flâmula tremulante no comprido mastro de bambu elevava-se acima da nuvem de poeira. — É um grupo de Guardas Phat! Estamos a salvo, Taita!

Nefer pulou de pé e acenou as duas mãos por cima da cabeça.

— Aqui! — gritou. — Aqui, os Azuis. Eu estou aqui! Sou o Príncipe Nefer!

Taita estendeu a mão ossuda e puxou-o para baixo violentamente.

— Abaixe-se, seu pequeno tolo. Aqueles são os lacaios da cobra naja. Lançou outro rápido olhar por cima do banco e viu que o condutor

da biga principal devia ter avistado Nefer no horizonte, pois havia açoitado sua parelha de cavalos a um galope e cruzava a estrada na direção deles.

— Venha! — ele falou para Nefer. — Depressa! Eles não podem nos alcançar!

Arrastou o menino para fora do cume e desceram correndo pela encosta. Depois da sua relutância inicial, Nefer foi incitado pela pressa de Taita. Começou a correr de verdade, pulando de uma rocha para outra, mas não conseguia alcançar o ancião. As pernas compridas e magras de Taita voavam, e a sua crina de cabelos prateados esvoaçava atrás dele. Chegou primeiro onde estavam os cavalos, e montou na égua com um único salto.

— Não entendo por que estamos fugindo da nossa própria gente — Nefer ofegou. — O que está acontecendo, Taita?

— Monte! Não temos tempo para conversar. Precisamos sair daqui. Enquanto galopavam para fora da boca do vádi em direção do campo aberto, Nefer lançou um olhar ansioso por cima do ombro. A biga condutora chegou em disparada ao cume da colina, e o condutor emitiu um grito, mas a distância e o barulho das rodas abafaram suas palavras. Mais cedo naquele dia, Taita os guiara através de uma área de rochas vulcânicas, onde nenhuma biga conseguiria passar. Agora seguiam em direção a esse lugar, os cavalos correndo lado a lado, passo a passo.

— Se conseguirmos chegar até as rochas poderemos despistá-los durante a noite. Resta apenas um murmúrio da luz do dia. — Taita ergueu os olhos para os últimos raios do sol, que já mergulhara atrás das colinas ao leste.

— Um único cavaleiro sempre pode manter uma biga a distância — Nefer declarou com uma confiança que realmente não sentia.

Porém, quando olhou para trás viu que isso era verdade. Já estavam se afastando dos veículos que sacudiam e pulavam.

Antes que Nefer e Taita alcançassem a área de rochas as bigas já se haviam distanciado tanto que estavam quase obscurecidas pelas suas próprias nuvens de poeira e pela escuridão que aumentava. Assim que chegaram à margem das rochas foram forçados a diminuir a velocidade dos cavalos a um trote cauteloso, mas o terreno era tão íngreme que rapidamente foram reduzidos a um caminhar. No último brilho da luz Taita olhou para trás e viu a silhueta escura da biga principal parando na entrada do terreno difícil. Reconheceu a voz do condutor que gritou para eles, embora as palavras estivessem quase indistintas:

— Príncipe Nefer, por que está fugindo? Não há o que temer de nós. Somos os Guardas Phat, viemos para escoltá-lo até Tebas!

Nefer fez menção de virar a cabeça do cavalo.

— Aquele é Hilto. Conheço bem a voz dele. É um bom homem. Está chamando meu nome.

Hilto era um famoso guerreiro, que usava o Ouro de Louvor, mas Taita ordenou que Nefer seguisse em frente, com firmeza.

— Não se deixe ser enganado. Não confie em ninguém. Obediente, Nefer cavalgou para o terreno inóspito de rochas quebradas. Os gritos fracos atrás dele diminuíram e foram sufocados pelo eterno silêncio do deserto. Antes que pudessem ir mais longe a escuridão obrigou-os a desmontar e andar através dos lugares mais difíceis, onde a trilha serpenteante estreitava-se, e afiados pilares de pedra negra poderiam mutilar um cavalo descuidado ou destruir as rodas de qualquer veículo que tentasse segui-los. Finalmente tiveram de parar para dar de beber aos cavalos e deixá-los descansar. Sentaram-se bem juntos e, com sua adaga, Taita cortou uma fatia de pão de dhurra, que comeram enquanto conversavam em voz baixa.

— Fale-me sobre a sua visão, Taita. O que você realmente viu quando conjurou os Dédalos de Ammon Rã?

— Já lhe disse. Estava obscurecida.

— Sei que isso não é verdade. — Nefer balançou a cabeça. — Você disse isso para me proteger. — Estremeceu com o frio da noite e com a sensação de temor que estava sendo sua companheira constante desde aquela visita do mal ao ninho dos falcões. — Você viu algo de um augúrio terrível, eu sei. É por isso que agora estamos fugindo. Precisa me contar tudo sobre a sua visão. Eu tenho de entender o que está acontecendo conosco.

— Sim, você tem razão — Taita finalmente concordou. — Já é hora de você saber.

Estendeu o braço magro e puxou Nefer mais para perto sob o xale — o menino ficou surpreso com o calor do corpo frágil do ancião. Taita parecia estar organizando seus pensamentos, e depois falou:

— Na minha visão havia uma grande árvore crescendo nas margens do rio-mãe Nilo. Era uma árvore poderosa, e suas flores eram azuis como o jacinto, e sobre ela pendia a coroa dupla dos Reinos Alto e Baixo. Na sua sombra estavam toda a multidão deste Egito, homens e mulheres, crianças e velhos, mercadores e fazendeiros e escribas, sacerdotes e guerreiros. A árvore fornecia proteção a todos, e eles prosperavam e estavam satisfeitos.

— Essa foi uma boa visão. — Com ansiedade, Nefer a traduziu, da maneira que Taita o ensinara: — A árvore deve ser o faraó, meu pai. A cor da Casa de Tamose é azul, e meu pai usa a coroa dupla.

— Esse é o significado que eu interpretei.

— O que mais você viu, Taita?

— Vi uma serpente nas águas lodosas do rio, nadando na direção da árvore. Era uma serpente poderosa.

— Uma cobra naja? — Nefer adivinhou, com voz baixa e temerosa.

— Sim — Taita afirmou —, era uma grande cobra naja. Ela arrastou-se para fora das águas do Nilo e subiu na árvore, contorcendo-se em volta do tronco e dos galhos até parecer fazer parte da árvore, sustentando-a e dando-lhe força.

— Isso eu não entendo — Nefer murmurou.

— Então a cobra subiu até os galhos mais altos da árvore, atacou e enterrou as presas no tronco.

— Bondoso Horus. — Nefer estremeceu. — Você acha que era a mesma serpente que tentou me picar? — Não esperou pela resposta e continuou rapidamente: — O que você viu depois, Taita?

— Vi a árvore secar, cair e desfazer-se. Vi a cobra ainda se empinar triunfante no topo, mas agora ela usava, em sua maldosa cabeça, a coroa dupla. A árvore morta começou a lançar brotos verdes, mas conforme apareciam a serpente os atacava, e eles, também, eram envenenados e morriam.

Nefer ficou em silêncio. Embora o significado parecesse evidente, estava incapaz de verbalizar a sua interpretação da visão.

— Todos os brotos verdes da árvore foram destruídos? — perguntou afinal.

— Havia um que cresceu em segredo, sob a superfície da terra, até que estivesse forte. Então ele irrompeu como uma poderosa videira e travou um conflito com a cobra. Embora a cobra o atacasse com toda sua força e veneno, ele ainda sobrevivia e tinha uma vida toda própria.

— Qual foi o final do conflito, Taita? Qual deles triunfou? Qual deles usou a coroa dupla no final?

— Eu não vi o fim do conflito, porque estava obscurecido na fumaça e na poeira da guerra.

Nefer ficou em silêncio por tanto tempo que Taita achou que ele havia adormecido, mas então o menino começou a tremer, e Taita deu-se conta de que ele estava chorando. Finalmente Nefer falou, com uma terrível certeza e finalidade:

— O faraó está morto. Meu pai está morto. Essa foi a mensagem da sua visão. A árvore envenenada era o faraó. Esta foi a mesma mensagem do ninho dos falcões. O falcão morto era o faraó. Meu pai está morto, assassinado pela cobra.

Taita não conseguiu responder. Tudo o que pôde fazer foi apertar com mais força os ombros de Nefer e tentar transmitir-lhe força e conforto.

— Eu sou o broto verde da árvore — Nefer continuou. — Foi isso que você viu. Você sabe que a cobra está esperando para me destruir como fez com meu pai. É por isso que não deixou os soldados levarem-me de volta para Tebas. Você sabe que a cobra está lá à minha espera.

— Você está certo, Nefer. Não podemos voltar a Tebas antes que você esteja forte o bastante para se defender. Devemos fugir deste Egito. Existem terras e reis poderosos ao oeste. É meu propósito ir até eles e procurar um aliado para ajudar-nos a destruir a cobra.

— Mas quem é a cobra? Você viu o rosto dele na sua visão?

— Sabemos que ele se coloca perto do trono do seu pai. Pois na visão ele estava entrelaçado com a árvore e lhe dava sustentação. — Taita fez uma pausa e depois, como se tomasse uma decisão, continuou: — Naja é o nome da cobra.

Nefer arregalou os olhos para ele.

— Naja! — ele sussurrou. — Naja! Agora eu entendo por que não podemos voltar para Tebas. — Calou-se por um instante, e depois disse: —Vagando pelas terras ocidentais iremos nos tornar dois párias, mendigos.

— A visão demonstrou que você irá se fortalecer. Devemos confiar nos Dédalos de Ammon Rã.

Apesar da tristeza pelo pai, Nefer finalmente dormiu, mas Taita acordou-o na escuridão da madrugada. Montaram novamente e cavalgaram para o oeste até que o terreno difícil estivesse para trás e Nefer julgou sentir o cheiro do sal do mar na brisa do amanhecer.

— No porto de Seged encontraremos uma embarcação para nos levar até as terras dos hurritas. — Taita parecia ler o que se passava em sua mente. — O Rei Sargon da Babilônia e Assíria, esses poderosos reinos entre o Tigre e o Eufrates, é sátrapa do seu pai. Está unido ao seu pai num tratado contra os hicsos e todos os nossos inimigos mútuos. Creio que Sargon irá honrar esse tratado, pois é um homem honorável. Devemos confiar que ele irá nos acolher e favorecer o seu direito ao trono do Egito unido.

À frente deles o sol surgiu numa fornalha de luz, e quando chegaram ao topo da elevação seguinte viram o mar abaixo, cintilando como um escudo de guerra de bronze recém-forjado. Taita calculou a distância.

— Chegaremos à costa antes do pôr-do-sol. — Então, estreitando os olhos, virou-se para olhar para trás. Enrijeceu ao avistar não apenas uma, mas quatro colunas de poeira amarelada erguendo-se na planície atrás deles. — Hilto novamente! — exclamou. — Eu deveria saber que aquele patife não desistiria com tanta facilidade. — Deu um pulo e manteve-se de pé e ereto no lombo do cavalo para ter uma melhor visão, um antigo truque dos homens da cavalaria.

Ele deve ter feito um desvio em torno do terreno rochoso durante a noite. Agora formou um círculo de bigas numa extensa fileira a fim de vasculhar nossos rastros. Ele nem precisaria de um necromante para lhe dizer que estamos nos dirigindo para a costa oeste.

Rapidamente ele olhou em todas as direções à procura de um esconderijo. Embora a planície pedregosa e aberta por onde estavam viajando parecesse desprovida de qualquer destaque, divisou uma insignificante dobra do terreno que talvez pudesse servir de esconderijo se conseguissem chegar até lá em tempo.

— Desmonte! — ele ordenou a Nefer. — Precisamos nos manter o mais abaixados que for possível e não levantar nenhuma nuvem de poeira que eles possam avistar.

Em silêncio, repreendeu-se por não ter tido mais cuidado em cobrir seus rastros durante a noite. Agora, enquanto faziam a volta e levavam os cavalos na direção do esconderijo, tomou todo cuidado para evitar as faixas de terra macia e permanecer no pavimento natural de pedras, que não deixaria rastros. Quando chegaram ao local escondido, descobriram que era raso demais para ocultar um cavalo de pé.

Nefer olhou para trás com ansiedade. A coluna de poeira mais próxima estava menos de meia légua atrás deles, e aproximando-se depressa. As outras estavam espalhadas num amplo semicírculo.

— Não há lugar para nos esconder aqui, e agora é tarde demais para fugirmos. Eles já nos cercaram.

Taita deslizou para fora do lombo da sua égua, falou com ela num tom suave e abaixou-se para acariciar suas pernas dianteiras. A égua bateu as patas e bufou, mas, quando ele insistiu, ela abaixou-se com relutância e deitou de lado, ainda bufando em protesto. Taita tirou o saiote e usou-o para vendar-lhe os olhos, para que ela não ficasse tentada a levantar-se outra vez.

Depois, rapidamente, aproximou-se do potro de Nefer e realizou o mesmo truque. Quando os dois cavalos estavam deitados, ele falou bruscamente para Nefer:

— Deite ao lado do Sonhador e segure-o se ele tentar levantar. Nefer riu pela primeira vez desde que soubera da morte do pai. O jeito de Taita com os animais nunca falhava em encantá-lo.

— Como consegue que eles façam isso, Taita?

— Se falar com eles de maneira que entendam, eles farão qualquer coisa que lhes mandar. Agora, deite ao lado dele e mantenha-o quieto.

Deitaram-se ao lado dos animais e observaram as colunas de poeira circundando a planície à sua volta.

— Eles não serão capazes de seguir nosso rastro no chão de pedras, não é, Taita? — Nefer perguntou esperançoso.

Taita resmungou em resposta. Estava observando a aproximação da primeira biga. Na miragem dançante, parecia insubstancial, bruxuleante e distorcida como uma imagem vista através da água. Movia-se relativamente devagar, balançando de um lado para outro enquanto seguia a pista. Subitamente ela adiantou-se com mais determinação e propósito, e Taita pôde ver que o condutor havia encontrado seus rastros e os seguia.

O condutor da biga aproximou-se a ponto de eles conseguirem distinguir mais nitidamente os homens na plataforma. Estavam inclinados sobre a parte da frente, examinando o terreno pelo qual passavam. De repente Taita murmurou com desânimo:

— Pelo hálito fétido de Seth, eles têm consigo um rastreador núbio. O homem negro e alto estava ainda mais alto com o enfeite de cabeça feito de penas de garça que usava. A cinqüenta cúbitos do lugar onde eles se escondiam, o núbio saltou do veículo em movimento e começou a correr na frente dos cavalos.

— Eles estão naquele lugar onde nós viramos para o lado — Taita cochichou. — Que Horus esconda a nossa pista daquele negro selvagem.

Dizia-se que os rastreadores núbios podiam seguir até o rastro deixado por uma andorinha voando através do ar.

O núbio fez a biga parar com um gesto peremptório da mão. Havia perdido o rastro quando eles viraram para o terreno pedregoso. Abaixando-se, quase dobrado ao meio, ele circundou a terra lisa. À distância, parecia um pássaro serpentário caçando serpentes e roedores.

— Você não pode fazer um encantamento para nos esconder, Taita? — Nefer sussurrou, inquieto.

Taita havia feito encantamentos tantas vezes antes, quando estavam caçando gazelas nas planícies abertas, e muitas vezes tinha atraído os pequenos animais para dentro do fácil alcance de um tiro de arco e flecha, sem que elas nem percebessem a presença dos caçadores. Taita não respondeu, mas quando Nefer olhou de relance para onde ele estava, viu que o ancião tinha nas mãos o seu mais potente amuleto, uma estrela de ouro de cinco pontas, uma obra de arte lindamente confeccionada, o Talismã de Lostris. Nefer viu que, selado dentro dele, havia um cacho de cabelos que Taita havia cortado da cabeça da Rainha Lostris quando ela jazia na mesa do embalsamador antes da sua deificação. Taita tocou-o com os lábios enquanto recitava silenciosamente o cântico para Ocultação aos Olhos do Inimigo.

Na planície adiante o núbio endireitou-se com uma renovada expressão de propósito e olhou direto para onde eles estavam.

— Ele encontrou o desvio e o nosso rastro — Nefer falou, e ambos observaram a biga avançar por trás do núbio, que começou a correr na direção deles através do terreno pedregoso.

Taita falou baixinho:

— Eu conheço muito bem aquele demônio. Seu nome é Bay, e ele é o xamã da tribo Usbak.

Nefer ficou olhando com nervosismo enquanto a biga e o seu batedor aproximavam-se cada vez mais. O condutor elevava-se em cima da plataforma. Certamente conseguiria avistá-los dali. Mas não deu mostras de têlos visto.

— Não se mova. — A voz de Taita era tão suave como a leve brisa que soprava na planície.

Agora Bay, o núbio, estava tão perto que Nefer podia ver cada um dos talismãs no colar que balançava em seu amplo peito nu. Bay parou abruptamente, e suas feições escarificadas cerraram-se num franzir de cenho, enquanto virava a cabeça devagar, examinando tudo em volta, como um cão farejador sentindo o cheiro da caça em suas narinas.

— Quieto! — Taita sussurrou. — Ele está nos pressentindo.

Bay deu mais alguns poucos passos à frente e depois parou outra vez, erguendo a mão. A biga parou atrás dele. Os cavalos estavam irrequietos e nervosos. Hilto tocou a frente da biga com a ponta da lança em sua mão. O pequeno ruído raspante foi aumentado no silêncio.

Agora Bay olhava direto para o rosto de Nefer. Nefer tentou sustentar aquele olhar implacável sem piscar, mas seus olhos lacrimejaram com o esforço. Bay estendeu a mão e agarrou um dos amuletos do seu colar. Nefer percebeu que era o osso da costela flutuante de um leão devorador de homens. Taita tinha um daqueles em seu arsenal de amuletos e talismãs mágicos.

Bay começou a entoar um cântico suave, com sua voz africana melodiosa e profunda. Depois bateu com o pé descalço na terra dura, e cuspiu na direção de Nefer.

— Ele está penetrando na minha cortina — Taita falou sem emoção. De repente Bay sorriu e apontou direto para eles, com o amuleto do leão em seu punho cerrado. Atrás dele Hilto gritou, atônito, e arregalou os olhos para onde Taita e Nefer tinham sido subitamente revelados, deitados no chão a apenas uma centena de cúbitos de distância.

— Príncipe Nefer! Estamos à sua procura pelos últimos trinta dias! Graças ao grande Horus e Osíris, finalmente o encontramos!

Nefer suspirou e levantou-se, e Hilto saltou para fora da biga e postou-se apoiado num joelho diante dele. Tirou o capacete de bronze da cabeça e gritou, numa voz acostumada a dar comandos nos campos de batalha:

— O Faraó Tamose está morto! Salve, Faraó Nefer Seti. Que o senhor viva para sempre!

Seti era o nome divino do Príncipe, um dos cinco nomes de poder que lhe foram concedidos no nascimento, muito antes que sua ascensão ao trono estivesse assegurada. A ninguém era permitido usar esse nome divino até aquele momento, quando ele foi saudado pela primeira vez como o faraó.

— Faraó! O touro poderoso! Viemos para escoltá-lo até a Cidade Sagrada para que possa elevar-se em Tebas em sua própria divina imagem como Horus de Ouro.

— E se eu decidir não ir com você, Coronel Hilto? — Nefer perguntou.

Hilto pareceu desapontado.

— Com todo amor e lealdade, faraó, é a mais estrita ordem do regente do Egito que o senhor seja levado para Tebas. Devo obedecer a essa ordem, mesmo com o risco do seu desagrado.

Nefer olhou de soslaio para Taita e perguntou-lhe em voz baixa:

— O que devemos fazer?

— Devemos ir com eles.

 

Eles iniciaram o retorno a Tebas com uma escolta de cinqüenta bigas de combate lideradas por Hilto. Cumprindo ordens estritas, a coluna cavalgou primeiro para o oásis de Boss. Rápidos cavaleiros tinham sido enviados à frente para Tebas, e o Senhor Naja, regente do Egito, fora da cidade para o oásis a fim de encontrar-se com o jovem Faraó Nefer Seti.

No quinto dia o esquadrão de bigas, empoeirado e castigado pelos meses no deserto, trotou para dentro do oásis. Conforme entraram na sombra do dossel formado pelos bosques de palmeiras, um regimento completo dos Guardas Phat formou-se em fileiras para recebê-los. Os guerreiros tinham embainhado as armas e, em vez delas, carregavam folhas de palmeiras, que acenavam enquanto cantavam o hino ao seu monarca.

”Seti, poderoso touro.

Amante da verdade.

Ele das duas damas, Nekbet e Wadjet.

Serpente flamejante, grandioso em força.

Horus de Ouro, que faz os corações viverem.

Ele do junco e da abelha.

Seti, filho de Rã, deus do sol, vivendo por toda a eternidade.”

Nefer postava-se entre Hilto e Taita na base da biga principal. Sua roupa estava esfarrapada e empoeirada, e seus espessos cabelos salpicados de poeira. O sol queimara-lhe o rosto e os braços a uma cor de amêndoas maduras. Hilto guiou a biga ao longo da comprida alameda formada pelos soldados, e Nefer sorriu timidamente para aqueles homens nas fileiras a quem reconhecia, e eles saudavam-no espontaneamente. Eles tinham amado o seu pai, e agora o amavam.

No centro do oásis um aglomerado de tendas multicoloridas havia sido armado ao lado do poço. Na frente da tenda real o Senhor Naja, rodeado por uma multidão de cortesãos, nobres e sacerdotes, esperava para receber o rei. Ele estava pujante no poder e graça da regência, belo e cintilante em ouro e pedras preciosas, perfumado com doces ungüentos e loções aromáticas.

Às suas duas mãos estavam Heseret e Merykara, as princesas da Casa Real de Tamose. Seus rostos estavam pálidos como pérolas pela maquiagem, os olhos grandes e escurecidos com o kohl. Até mesmo os mamilos dos seios nus tinham sido pintados de vermelho como cerejas maduras. As perucas de crina de cavalo eram grandes demais para suas cabeças delicadas, e os saiotes, tão pesados com as pérolas e os fios de ouro que elas se mantinham rígidas como bonecas de madeira.

Quando Hilto fez parar a biga diante dele, o Senhor Naja adiantou-se e retirou dela o menino imundo. Nefer não tivera oportunidade de banhar-se desde que saíra de Gebel Nagara, e cheirava como um bode.

— Como seu regente eu o saúdo, faraó. Sou o seu servo e seu leal companheiro. Que você viva por cem anos — ele entoou, de forma que todos aqueles nas fileiras mais próximas pudessem ouvir cada palavra.

O Senhor Naja levou Nefer pela mão até o tablado do conselho, entalhado em preciosas madeiras negras do interior do continente africano e incrustado de marfim e madrepérola. Colocou-o em cima do tablado e depois caiu de joelhos, beijando os pés esfolados e encardidos de Nefer sem nenhum sinal de repugnância. As unhas dos pés estavam quebradas e emplastradas de lama escura.

Ele levantou-se e fez com que Nefer ficasse de pé, arrancando o saiote rasgado para que a tatuagem faraônica em sua coxa fosse revelada. Virou o menino devagar, de maneira que todos na audiência pudessem vê-la claramente.

— Salve, Faraó Seti, deus e filho dos deuses. Eis o teu sinal. Contemplem esta marca, todas as nações da Terra, e estremeçam diante do poder do rei. Curvem-se diante do poder do faraó.

Um grito vigoroso emergiu dos soldados e dos cortesãos aglomerados em volta do tablado.

— Salve, faraó! Em seu poder e majestade que ele viva para sempre! Naja guiou as princesas para diante, e elas ajoelharam-se na frente do irmão para fazer os votos de fidelidade e obediência. Suas vozes eram inaudíveis até que Merykara, a mais nova, não conseguiu mais se conter e atirou-se para cima do tablado numa agitação de saias adornadas de jóias. Correu para o irmão.

— Nefer — ela gritou —, senti tanto a sua falta. Pensei que você estivesse morto. — Nefer retribuiu o abraço desajeitadamente, até que ela se afastou e cochichou: — Você está com um cheiro terrível — e deu uma risadinha.

O Senhor Naja fez um gesto para que uma das amas reais retirasse a menina dali, e então, um a um, os poderosos senhores do Egito, liderados pelos membros do conselho, adiantaram-se para fazer o juramento de lealdade. Houve um momento desconfortável quando o faraó observou a multidão e perguntou numa voz clara, penetrante:

— Onde está o meu bom tio Kratas? Ele, entre todas as pessoas, deveria estar aqui para me saudar.

Talla murmurou uma explicação apaziguadora:

— O Senhor Kratas ficou incapacitado de comparecer. Isso será explicado mais tarde a Sua Majestade.

Talla, velho e fraco, agora era o presidente do conselho de Estado. Havia se tornado um instrumento nas mãos de Naja.

A cerimônia terminou quando o Senhor Naja bateu palmas.

— O faraó chegou de uma longa jornada. Ele precisa descansar antes do desfile principal de entrada na cidade.

Pegou a mão de Nefer com um gesto de proprietário e levou-o para a tenda real, cujas espaçosas galerias e salões poderiam acomodar um regimento inteiro das guardas. Ali o mestre do guarda-roupa, os perfumistas e os cabeleireiros, o encarregado de guardar as jóias reais, os valetes, os manicuristas, massagistas e as jovens do banho estavam esperando para recebê-lo.

Taita estava determinado a ficar ao lado do menino, onde poderia protegê-lo. Tentou incluir-se discretamente em meio a essa entonrage, mas sua figura magra e os cabelos prateados logo o destacaram, embora sua reputação e fama fossem tais que ele jamais teria passado disfarçadamente em qualquer lugar na Terra. Quase imediatamente um sargento-de-armas confrontou-o:

— Saudações, Senhor Taita. Que os sorrisos dos deuses recaiam sobre o senhor.

Embora o Faraó Tamose o tivesse elevado à nobreza no dia em que selara o acordo da sua manumissão, Taita ainda se sentia constrangido ao ser chamado por esse título.

— O regente do Egito deseja vê-lo. — O homem baixou os olhos para as roupas imundas e as sandálias velhas e empoeiradas do Mago. — Mas seria melhor não se apresentar diante dele nesse estado em que se encontra. O Senhor Naja detesta odores agrestes e aparência suja.

A tenda do Senhor Naja era maior e mais luxuosamente equipada do que a do faraó. Ele sentava-se num trono esculpido em ébano e marfim, decorado com ouro e a prata ainda mais preciosa, representando todos os principais deuses do Egito. O chão de areia estava coberto com tapetes de lã da Hurria, tecidos em cores maravilhosas, incluindo o luminoso verde que representava os campos verdejantes que cobriam as duas margens do Nilo. Desde a sua elevação a regente, Naja havia adotado aquele verde como a cor da sua casa.

Ele acreditava que aromas agradáveis encorajavam os deuses a ficar mais próximos, e o incenso queimava nos recipientes de prata suspensos por correntes nas estacas da tenda. Havia vasos de vidro cheios de perfume na mesa baixa diante do trono. O regente retirara a peruca, e um escravo segurava um cone de cera de abelha perfumada sobre sua cabeça raspada. Conforme a cera derretia, corria pelas suas faces e pescoço, refrescando-o e acalmando-o.

O interior da tenda estava perfumado como um jardim. Até mesmo as fileiras de cortesãos, embaixadores e pedintes que postavam-se diante do trono tinham sido induzidas a banhar-se e perfumar os corpos antes de entrar na presença do regente. Da mesma forma, Taita seguira o conselho do sargento-de-armas. Seu cabelo estava limpo e penteado numa cascata prateada sobre os ombros, e seu saiote de linho fora lavado e alvejado ao mais puro branco. Na entrada da tenda, ele ajoelhou-se em sinal de respeito ao trono. Ouviu-se um murmúrio de comentários e especulações quando ele colocou-se de pé. Os embaixadores estrangeiros encararam-no com curiosidade, e ele ouviu seu nome ser sussurrado. Até os guerreiros e os sacerdotes assentiram e inclinaram-se para perto uns dos outros, enquanto cochichavam: ”É o Mago”.

— O sagrado Taita, adepto dos Dédalos.

— Taita, o Olho Ferido de Horus.

O Senhor Naja ergueu os olhos do papiro que estava examinando e sorriu para toda a extensão da tenda. Era de fato um belo homem, com os traços esculpidos e os lábios delicados. O nariz era reto e fino, e os olhos tinham a cor da ágata dourada, vividos e inteligentes. O peito nu era despojado de gorduras, e os braços eram esguios e musculosos.

Rapidamente Taita examinou as fileiras de homens que agora sentavam-se mais perto do trono. No curto espaço de tempo desde a morte do Faraó Tamose houvera uma redistribuição de poder e favores em meio aos cortesãos e nobres. Muitos rostos conhecidos estavam faltando, e muitos outros emergiram da obscuridade para a luz do sol da benevolência do regente. Não menos importante dentre esses era Asmor dos Guardas Phat.

— Aproxime-se, Senhor Taita.

A voz de Naja era baixa e agradável. Taita caminhou na direção do trono, e as fileiras de cortesãos abriram-se para deixá-lo passar. O regente sorriu para ele.

— Saiba que você conta com o nosso mais elevado apreço. Você desempenhou com distinção a tarefa que o Faraó Tamose lhe delegou. Forneceu ao Príncipe Nefer Memnon instrução e treinamento incalculáveis.

— Taita ficou atônito com aquela saudação calorosa, mas não demonstrou. — Agora que o príncipe tornou-se Faraó Seti, iremos precisar ainda mais da sua mão condutora.

— Que ele viva para sempre — Taita respondeu, e a pequena multidão ali reunida ecoou suas palavras.

— Que ele viva para sempre. Naja fez um gesto.

— Sente-se aqui, à sombra do meu trono. Até mesmo eu precisarei muito da sua experiência e sabedoria, no que se refere a comandar os assuntos do faraó.

— O regente real honra-me mais do que eu mereço.

Taita voltou-se para o Senhor Naja com uma expressão gentil. Era prudente jamais permitir que o inimigo oculto reconhecesse sua animosidade. Tomou o assento que lhe fora oferecido, mas recusou a almofada de seda, sentando-se no tapete de lã. As costas estavam eretas, os ombros retos.

Os negócios da Regência foram retomados. Estavam dividindo o Estado do General Kratas: como um traidor declarado, tudo o que Kratas possuía fora confiscado pela Coroa.

— Do traidor Kratas para o templo de Hapi e os sacerdotes dos mistérios — Naja leu no papiro, — todas as suas terras e as construções na margem leste do rio entre Dendera e Abnub.

Enquanto escutava, Taita lamentava a morte do seu mais velho amigo, mas não permitiu que a expressão demonstrasse a menor sombra de dor. Durante a longa jornada de volta do deserto, Hilto havia relatado como ocorrera a morte de Kratas, e depois acrescentara:

— Todos os homens, até os nobres e bons, andam na ponta dos pés na presença do novo regente do Egito. Menset está morto, ele que era o presidente do conselho de Estado. Morreu em seu sono, mas há aqueles que dizem que teve uma pequena ajuda para iniciar a jornada. Cinka está morto, executado por traição, embora não tivesse mais disposição para trair nem mesmo a velha esposa. Suas propriedades foram confiscadas pela Regência. Cinqüenta outros homens foram para o mundo dos mortos em companhia do bom Kratas. E todos os membros do conselho são cães de Naja.

Kratas havia sido a última ligação de Taita com os bons tempos quando Tanus, Lostris e ele eram jovens. Taita o amava com sinceridade.

— Do traidor Kratas para o regente do Egito, todo o estoque de milhete guardado em seu nome nos celeiros de Athribis — o Senhor Naja leu no papiro.

Isso representava cinqüenta barcaças, Taita calculou, pois Kratas havia sido um astuto investidor no comércio de milhete. O Senhor Naja recompensava-se generosamente pelo oneroso trabalho de assassinato.

— Estes estoques serão usados para o bem comum. — A expropriação estava qualificada, e Taita perguntou-se, sem nenhuma expressão, quem iria determinar o bem público.

Os sacerdotes e escribas ocupavam-se em registrar a divisão de bens em suas tábuas de argila. Estas seriam guardadas nos arquivos do templo. Enquanto Taita observava e ouvia, mantinha sua ira e sua tristeza trancadas no coração.

— Agora iremos proceder a uma outra importante questão real — o Senhor Naja falou, depois que os herdeiros de Kratas foram privados de toda sua herança e ele estava três laques

de ouro mais rico. — Estou considerando o bem-estar e a posição das princesas reais, Heseret e Merykara. Fiz uma consulta sincera aos membros do conselho de Estado. Todos eles concordaram que, para o próprio bem delas, eu deveria tomar tanto a Princesa Heseret como a Princesa Merykara em casamento. Como minhas esposas, ambas estarão sob minha total proteção. A deusa ísis é a protetora das duas virgens reais. Ordenei às sacerdotisas da deusa que consultassem os augúrios, e elas determinaram que esses casamentos agradam à deusa. Assim sendo, a cerimônia será realizada no templo de ísis em Luxor no dia da próxima lua cheia depois do sepultamento do Faraó Tamose e da coroação do seu herdeiro, o Príncipe Nefer Seti.

Taita permaneceu imóvel, o rosto sem expressão, mas por toda sua volta houve uma agitação e murmúrios diante de tal pronunciamento. As considerações políticas de um casamento duplo eram monumentais. Todos os presentes sabiam que a intenção do Senhor Naja era tornar-se um membro da Casa Real de Tamose pelo casamento, e dessa forma o seguinte na linha de sucessão.

Taita sentiu-se congelar até os ossos, como se tivesse acabado de ouvir a sentença de morte do Faraó Seti sendo bradada da Torre Branca no centro de Tebas. Restavam apenas doze dos setenta dias exigidos para o embalsamamento real do faraó morto. Imediatamente depois do encerramento de Tamose em sua tumba no Vale dos Reis, na margem oeste do Nilo, a coroação do seu sucessor e o casamento das suas filhas sobreviventes seriam realizados.

Então a cobra atacaria outra vez. Taita sentia a certeza disso. Foi desviado da sua preocupação com os perigos que cercavam o príncipe por uma agitação generalizada na aglomeração em torno dele, e deu-se conta de que, sem que ele ouvisse, o regente acabara de declarar que a recepção estava encerrada e estava se levantando e retirando-se através da abertura da tenda atrás do trono. Taita levantou-se juntamente com os outros para sair da tenda.

O Coronel Asmor adiantou-se para detê-lo, com um sorriso e uma reverência cortês.

— O Senhor Naja, regente do Egito, pede que o senhor permaneça aqui. Ele o convida para uma audiência privada.

Asmor agora era o coronel da guarda pessoal do regente, com a distinção de Melhor de Dez Mil. Num curto período de tempo ele se tornara um homem de poder e influência. De nada adiantaria, nem seria possível, recusar a intimação, e Taita assentiu.

— Sou o servo do faraó e do seu regente. Que ambos vivam mil anos. Asmor levou-o para os fundos da tenda e manteve a cortina aberta para que ele passasse. Taita descobriu-se no bosque de palmeiras lá fora, e Asmor conduziu-o através das árvores até onde uma tenda menor, de apenas um cômodo, fora erguida em separado. Uma dezena de guardas postava-se em círculo em volta desse pavilhão, pois era um lugar de reuniões secretas, ao qual a ninguém seria permitido aproximar-se sem a intimação do regente. A um comando de Asmor os guardas afastaram-se, e o coronel fez com que Taita entrasse no interior escurecido.

Naja ergueu os olhos da bacia de bronze onde estava lavando as mãos.

— Seja bem-vindo, Mago. — Sorriu calorosamente e indicou uma pilha de almofadas no centro do piso coberto de tapetes.

Enquanto Taita sentava-se, Naja fez um sinal para Asmor, que saiu para montar guarda na entrada da tenda, a espada desembainhada. Havia somente os três na tenda, e sua conversa não seria entreouvida.

Naja havia retirado as jóias e a insígnia do seu posto. Mostrava-se afável e amigável quando sentou-se numa das almofadas na frente de Taita. Indicou uma bandeja de doces e refrescos de frutas em tigelas de ouro, disposta entre eles.

— Por favor, refresque-se.

O instinto de Taita foi recusar, mas sabia que recusar a hospitalidade do regente seria o mesmo que anunciar sua própria hostilidade, e alertar Naja sobre a sua oposição mortal.

No entanto, Naja não tinha motivos para saber que Taita sabia das suas intenções em relação ao novo faraó, ou dos seus crimes e ambições futuras. Taita inclinou a cabeça em agradecimento e escolheu a tigela de ouro mais distante da sua mão. Esperou que Naja escolhesse outra tigela de refresco. O regente pegou-a entre as mãos, ergueu-a e bebeu o conteúdo sem hesitar.

Taita levou a tigela aos lábios e deu um gole no refresco. Segurou-o na língua por um instante. Havia aqueles que se gabavam de possuir venenos inodoros e indetectáveis, mas Taita estudara todos os elementos corrosivos, e até mesmo a fruta mais azeda não poderia mascarar seus sabores a ele. A bebida não estava contaminada, e ele a engoliu com prazer.

— Obrigado pela sua confiança — Naja falou gravemente, e Taita soube que ele se referia a algo mais além da sua aceitação do refresco.

— Sou um servo do rei e, portanto, do seu regente.

— Você é uma pessoa de valor inestimável para a Coroa — Naja retrucou. — Você serviu fielmente a três faraós, e todos eles confiaram em seus conselhos sem questionar.

— Você superestima meu valor, meu Senhor Regente. Sou um homem velho e fraco.

Naja sorriu.

— Velho? Sim, você é velho. Já ouvi dizer que tem mais de duzentos anos. — Taita inclinou a cabeça, sem confirmar nem negar. — Mas fraco? Não! Você é tão velho e tão monumental quanto uma montanha. Todos os homens sabem que sua sabedoria não tem limites. Até mesmo os segredos da vida eterna são seus.

A adulação era evidente e desavergonhada, e Taita perscrutou as entrelinhas em busca de motivos e significados ocultos. Naja ficou em silêncio, observando-o com expectativa. O que ele esperava ouvir? Taita fitouo nos olhos e sintonizou a mente para captar seus pensamentos. Estes eram tão fugazes e evanescentes como as velozes silhuetas dos morcegos contra o escurecido céu do pôr-do-sol.

Taita captou um pensamento completo, e subitamente entendeu o que Naja queria dele. O conhecimento deu-lhe poder, e o caminho à sua frente abriu-se como os portões de uma cidade capturada.

— Há mil anos todos os reis e todos os homens sábios têm procurado o segredo da vida eterna — ele disse suavemente.

— Talvez um único homem o tenha encontrado. — Naja inclinou-se para a frente com ansiedade, os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Meu senhor, as suas perguntas são profundas demais para um homem velho como eu. Duzentos anos não é a vida eterna. — Taita estendeu as mãos num gesto deprecatório, mas baixou os olhos, permitindo que Naja entendesse o que queria ouvir naquela negativa indiferente.

A coroa dupla do Egito e a vida eterna, ele pensou, e sorriu consigo mesmo, mantendo a expressão solene. Os desejos do regente eram poucos e simples.

Naja endireitou-se.

— Iremos falar sobre essas questões profundas num outro momento.

Um brilho triunfante surgiu nos seus olhos amarelados. — Mas, por agora, há algo mais que eu gostaria de lhe perguntar. Seria um meio de você provar que minha boa opinião a seu respeito é totalmente justificada. E você não encontraria limites à minha gratidão.

Ele gira e se contorce como uma enguia, Taita pensou, e um dia eu ainda acreditei que fosse apenas um soldado palerma. Ele foi capaz de ocultar a luz da sua lanterna de todos nós. Em voz alta, falou simplesmente:

— Se estiver dentro do meu poder, eu jamais negaria qualquer coisa ao regente do faraó.

— Você é adepto dos Dédalos de Ammon Rã — Naja falou, com uma determinação que impedia qualquer negativa.

Mais uma vez Taita teve um relance das profundezas sombrias da ambição daquele homem. Não somente a coroa e a vida eterna! Ele também deseja que o futuro lhe seja revelado, Taita admirou-se, porém assentiu humildemente e respondeu:

— Meu Senhor Naja, durante toda a minha vida estudei os mistérios, e talvez tenha aprendido um pouco.

— Toda a sua longa vida — Naja acrescentou sua própria ênfase à frase. — E aprendeu muitíssimo.

Taita curvou a cabeça e permaneceu em silêncio. Como cheguei a pensar que ele poderia me matar?, perguntou-se. Ele irá me proteger com a própria vida, pois é isso que acredita que guardo em minhas mãos — o segredo da sua imortalidade.

— Taita, bem-amado dos reis e deuses, quero que você consulte os Dédalos de Ammon Rã para mim.

— Meu senhor, eu nunca consultei os Dédalos para qualquer outra pessoa que não fosse uma rainha ou um faraó, ou alguém que não estivesse destinado a sentar-se no trono deste Egito.

— Pois pode muito bem ser que essa pessoa esteja lhe pedindo isso agora — o Senhor Naja falou, com um profundo significado em sua voz.

O Grande Horus entregou-o para mim. Eu o tenho nas mãos, Taita pensou, e disse:

— Curvo-me aos desejos do regente do faraó.

— Você irá consultar os Dédalos para mim ainda hoje? Estou mais que ansioso para conhecer os desejos dos deuses. — Os belos traços de Naja estavam vividos com a excitação e a ganância.

— Nenhum homem deve entrar nos Labirintos inconseqüentemente — Taita objetou. — Existem grandes perigos, não apenas para mim mas também para aquele que solicita a divinação. Levará algum tempo para preparar-me para a jornada ao futuro.

— Quanto tempo? — O desapontamento de Naja era evidente. Taita bateu na testa numa pantomima de profunda meditação. Deixe-o cheirar a isca por algum tempo, pensou. Isso o deixará mais ansioso para engolir o anzol. Finalmente, ergueu os olhos.

— No primeiro dia do festival do Touro de Ápis — disse.

Na manhã seguinte, quando emergiu da grande tenda, o Faraó Seti estava completamente diferente daquele moleque poeirento e malcheiroso que chegara ao oásis de Boss no dia anterior. Com fúria e fogo majestosos, que desalentaram o seu séquito, ele havia resistido às tentativas dos barbeiros de raspar-lhe a cabeça. Em vez disso, seus cachos escuros tinham sido ensaboados e penteados até cintilarem em tons avermelhados sob o sol da manhã. Por cima deles usava os uraeus, o diadema de ouro representando Nekhbet, a deusa abutre, e Naja, a cobra. As imagens estavam entrelaçadas em sua testa, com olhos de vidro vermelho e azul. Em seu queixo estava a falsa barba da realeza. Sua maquiagem fora habilidosamente criada de forma a realçar sua beleza, e as multidões apinhadas que esperavam diante da tenda suspiraram com admiração e espanto quando ajoelharam no solo em adoração. Suas unhas falsas eram de ouro lavrado, e havia sandálias de ouro em seus pés. No peito, uma das mais preciosas jóias da Coroa do Egito: o medalhão peitoral de Tamose, um retrato do deus Horus, o Falcão. Ele caminhou com um passo majestoso para alguém tão jovem, carregando o mangual e o cetro cruzados sobre o coração. Mantinha os olhos fixados solenemente à sua frente até que, com o canto do olho, avistou Taita na primeira fileira da multidão: girou os olhos nas órbitas para o ancião e depois fez um travesso arremedo de resignação.

Numa nuvem de perfume, oSenhor Naja seguia a um passo atrás dele, esplêndido com suas jóias e impressionante como autoridade. Em seu quadril pendia a espada azul, e no braço esquerdo ele usava o selo da águia.

Em seguida vinham as princesas, com as penas douradas da deusa ísis na cabeça e anéis de ouro nos dedos das mãos e dos pés. Tinham desaparecido os trajes incrustados e rígidos do dia anterior: do pescoço aos tornozelos elas estavam cobertas por longos vestidos, mas o linho era tão fino e transparente que a luz do sol o perpassava, como se fosse através da névoa do rio ao amanhecer. Merykara tinha os membros esguios e o peito liso como o de um menino. As linhas do corpo de Heseret eram moldadas em curvas voluptuosas, os seios tinham os mamilos rosados através das dobras diáfanas do tecido, e na base do seu ventre, na bifurcação das coxas, aninhava-se o escurecido triângulo da feminilidade.

O faraó montou na carruagem processional e tomou seu lugar no trono elevado. O Senhor Naja postou-se à sua mão direita, e as princesas sentaram-se aos seus pés.

As companhias de sacerdotes de cada um dos cinqüenta templos de Tebas abriram o cortejo, dedilhando as liras, batendo nos tambores e sacudindo os sistros, soprando os chifres, entoando orações e súplicas aos deuses.

Então os soldados de Asmor tomaram suas posições na procissão, e depois deles vinha o esquadrão de bigas de Hilto, todas elas recém-polidas e enfeitadas com flâmulas e flores. Os cavalos escovados reluziam como metal precioso, e fitas tinham sido amarradas em suas crinas. Os novilhos que seguiam no rastro da carruagem real eram todos imaculadamente brancos, suas corcovas maciças, decoradas com buquês de lírios e jacintos. Seus chifres e até os cascos eram folhados a ouro.

Os condutores eram escravos núbios completamente nus. Os cabelos foram raspados das suas cabeças e dos corpos, o que enfatizava ainda mais o tamanho dos seus genitais. Tinham sido untados da cabeça aos pés com espessos óleos, de forma que reluziam ao sol, negros como os olhos de Seth, num contraste magnífico com o pêlo muito branco dos novilhos. Eles incitavam as parelhas para a frente, e os novilhos trotavam através da poeira. Mil guerreiros dos Guardas Phat seguiam atrás deles e entoavam a uma só voz o hino de louvor. O populacho de Tebas abrira os portões principais da cidade para recebê-los e amontoava-se no topo dos muros. Por mais de um quilômetro além dos muros, eles tinham revestido a poeirenta superfície da estrada com folhas de palmeira, palha e flores.

Os muros, torres e prédios de Tebas eram todos construídos de tijolos cozidos ao sol — os blocos de pedra eram reservados para a construção de tumbas e templos. Raramente chovia no vale do Nilo, portanto essas construções nunca se deterioravam; estavam todas recém-caiadas e enfeitadas com bandeiras azuis-celestes da Casa de Tamose. A procissão passou através dos portões, com as multidões dançando, cantando e chorando de alegria, enchendo as ruas estreitas de forma que o passo da carruagem real assemelhava-se ao de uma tartaruga gigante. Em todos os templos ao longo do caminho a carruagem fazia uma parada demorada, e o faraó descia com solene dignidade para oferecer sacrifício ao deus que ali habitava.

Já era o final da tarde quando finalmente atingiram as docas na margem do rio, onde a barcaça real esperava para transportar o grupo do faraó até o palácio de Memnon, na margem oeste. Uma vez que embarcaram, duzentos remadores começaram a mover os remos. À batida do tambor eles os levantavam e desciam em uníssono, molhados e cintilantes como as asas de uma garça gigantesca.

Rodeados por uma frota de galés, falucas e outras pequenas embarcações eles fizeram a travessia sob o sol do fim de tarde. Mesmo quando chegaram à margem leste as obrigações do rei nesse seu primeiro dia ainda não tinham sido completadas. Uma outra carruagem real levou-o através das multidões até o templo funerário do seu pai, o Faraó Tamose.

Já estava eseuro quando subiram pela trilha elevada, iluminada em ambos os lados por fogueiras, e o populacho entregara-se durante todo aquele dia à cerveja e ao vinho oferecidos pelo tesouro real. A agitação era ensurdecedora quando o faraó desceu da carruagem no templo de Tamose e subiu pela escadaria entre fileiras de estátuas de granito representando seu pai e o deus Horus em toda a sua centena de aparências: Horus como a criança Harpócrates, com cachinhos e um dedo na boca, sugando o seio de ísis, ou acocorado numa flor de lótus, ou com a cabeça de falcão, ou como o sol alado. Parecia que o rei e o deus tinham se tornado apenas um.

O Senhor Naja e os sacerdotes levaram o faraó menino através dos portões de madeira para o interior do Salão dos Lamentos, onde a múmia de Tamose jazia em sua lápide de embalsamamento de diorito negro. Num altar separado na parede lateral, guardado por uma estátua negra de Anúbis, o deus dos cemitérios, estavam os jarros de alabastro perolado que continham o coração, os pulmões e as vísceras do rei.

Num segundo altar contra a parede no lado oposto, o sarcófago revestido de ouro estava pronto para receber o cadáver real. Na tampa do caixão havia um retrato do faraó feito em ouro, tão vivido que o coração de Nefer contorceu-se, contraído de dor, e lágrimas surgiram em seus olhos. Ele afastou-as piscando e seguiu os sacerdotes para onde o corpo do seu pai jazia, no centro do salão.

O Senhor Naja tomou sua posição de frente para Nefer, aos pés da lápide de pedra, e o alto sacerdote manteve-se à cabeça do falecido rei. Quando tudo estava pronto para a cerimônia da Abertura da Boca do Rei morto, dois sacerdotes retiraram o lençol de linho que cobria o cadáver, e Nefer encolheu-se involuntariamente quando baixou os olhos para o pai.

No decorrer de todas as semanas após a sua morte, enquanto Nefer e Taita estavam no deserto, os embalsamadores tinham trabalhado no corpo do rei. Primeiro tinham inserido uma colher de prata de cabo longo dentro da sua narina e, sem marcar-lhe a cabeça, extraíram a massa do cérebro. Removeram os olhos, que iriam putrificar rapidamente, e encheram a cavidade do crânio com sais de natrão e ervas aromáticas. Depois haviam mergulhado o cadáver num banho de sais altamente concentrados, com a cabeça exposta, e deixaram-no ali por trinta dias, trocando diariamente os ásperos fluidos alcalinos. As gorduras foram extraídas do cadáver, e a pele removida. Somente o cabelo e a pele da cabeça ficaram intactos.

Quando finalmente o cadáver foi retirado do banho de natrão, foi colocado na lápide de diorito e esfregado com óleos e tinturas de ervas. A cavidade oca do estômago foi preenchida com pedaços de linho embebidos em resinas e ceras. O ferimento de flecha no peito foi suturado, e amuletos de ouro e pedras preciosas colocados por cima. A haste farpada e quebrada que matara o rei fora removida do corpo do faraó pelos embalsamadores. Depois fora examinada pelo conselho de Estado, sendo em seguida selada num pequeno baú de ouro que o acompanharia na sepultura, um poderoso amuleto contra quaisquer futuros males que poderiam recair sobre ele durante a jornada através do mundo dos mortos.

Então, durante os quarenta dias remanescentes do embalsamamento, o cadáver foi deixado para secar completamente sob o vento quente do deserto que entrava pelas portas abertas.

Uma vez que ficou tão dessecado quanto um pedaço de lenha poderia ser enfaixado. As faixas de linho foram dispostas pelo corpo num desenho intrincado, enquanto encantamentos aos deuses eram entoados pelos coros de sacerdotes. Sob elas foram colocados mais talismãs e amuletos preciosos, e cada camada era pintada com resinas que secavam a uma dureza e brilho metálicos. Apenas a cabeça foi deixada descoberta, e então, na semana que antecedia a Abertura da Boca, quatro dos mais habilidosos artistas maquiadores da equipe de embalsamadores, usando cera e cosméticos, haviam restaurado as feições do rei à sua beleza natural.

Eles substituíram os olhos que estavam faltando por réplicas perfeitas de cristal de rocha e obsidiana. As partes brancas eram translúcidas, as íris e pupilas copiavam exatamente a cor natural dos olhos do rei. As órbitas de vidro pareciam dotadas de vida e inteligência, de forma que agora Nefer as fitava com espanto, esperando ver as pálpebras piscarem e as pupilas do seu pai aumentarem em reconhecimento. Os lábios tinham sido delineados e pintados de tal maneira que a qualquer momento poderiam sorrir, e a pele pintada parecia sedosa e quente, como se o vivido sangue ainda corresse sob ela. Os cabelos haviam sido lavados e arrumados com os conhecidos cachos, dos quais Nefer lembrava-se tão bem.

O Senhor Naja, o mais alto sacerdote e o coro começaram a entoar a encantação contra a morte pela segunda vez, mas Nefer não conseguia desviar os olhos do rosto do pai.

”Ele é o reflexo e não o espelho, Ele é a música e não a lira, Ele é a pedra e não o cinzel, Ele viverá para sempre.”

O alto sacerdote aproximou-se de Nefer e colocou a colher de prata em sua mão. Nefer havia sido treinado para o ritual, mas a mão tremia quando posicionou a colher na boca do pai e recitou:

— Eu abro vossos lábios para que tenhais o poder de falar mais uma vez. — Tocou o nariz do pai com a colher. — Eu abro vossas narinas para que possais respirar mais uma vez. — Tocou cada um dos magníficos olhos. — Eu abro vossos olhos para que possais contemplar mais uma vez a glória deste mundo, e a glória do mundo que virá.

Quando esse ritual finalmente terminou, o grupo real esperou enquanto os embalsamadores enrolavam a cabeça e pintavam as faixas com resinas aromáticas. Depois eles depositaram a máscara dourada sobre o rosto coberto, e novamente este reluziu com esplêndida vida. Contrariando os usos e costumes, havia apenas uma máscara e um sarcófago de ouro para o Faraó Tamose. Seu pai havia ido antes dele para sua tumba coberto por sete máscaras e sete sarcófagos, uns sobre os outros, cada um maior e mais adornado do que o anterior.

Pelo restante da noite Nefer ficou ao lado do sarcófago de ouro, rezando e queimando incensos, suplicando aos deuses que levassem seu pai para junto deles e o sentassem em meio ao panteão. Ao alvorecer ele saiu com os sacerdotes para o terraço do templo, onde o principal falcoeiro do seu pai os esperava. Ele trazia um falcão real em seu punho coberto por uma luva.

— Nefertem! — Nefer sussurrou o nome do pássaro. — Flor de Lotus. Retirou a magnífica ave do braço do falcoeiro e posicionou-a em seu próprio pulso, elevando-o de forma que a multidão popular reunida abaixo do terraço pudesse vê-la claramente. Em volta da perna direita do falcão havia uma minúscula plaqueta em ouro presa por uma corrente dourada. Na plaqueta estava gravada a cártula real do seu pai.

— Este é o deus-pássaro do Faraó Tamose Mamose. Este é o espírito do meu pai. — Nefer fez uma pausa para recompor-se, pois estava quase em lágrimas. Então continuou: — Agora eu liberto o deus-pássaro de meu pai. — Puxou o pequeno capuz de couro que cobria a cabeça do falcão. Os olhos aguçados piscaram na luz do amanhecer, e o pássaro agitou as penas. Nefer desamarrou as peias da perna, e o falcão abriu as asas. — Voe, espírito divino! — ele gritou. — Voe alto, para mim e para meu pai!

Atirou o pássaro para cima e, apanhado pelo vento da manhã, ele elevou-se rapidamente. Por duas vezes circundou o espaço logo acima dele e depois, com um grito selvagem e assombroso, voou através do Nilo.

— O deus-pássaro está voando para o leste! — o alto sacerdote clamou. Todos os membros da congregação que se postavam na escadaria do templo sabiam que essa era a menos propícia das profecias.

Nefer estava tão física e emocionalmente exausto que, enquanto observava o falcão distanciar-se, vacilou em seus pés. Taita amparou-o antes que ele caísse e guiou-o para longe dali.

De volta aos aposentos de Nefer no palácio de Memnon, Taita misturou uma poção e ajoelhou-se ao lado da sua cama para oferecer-lhe a bebida. Nefer bebeu um longo gole e depois baixou o copo, perguntando:

— Por que meu pai tem apenas um pequeno caixão, quando você me diz que meu avô foi levado à tumba em sete pesados sarcófagos de ouro que exigiram vinte bois fortes para puxar o carro funerário?

— Seu avô recebeu o mais rico funeral em toda a história da nossa terra, e levou consigo uma grande quantidade de bens para o mundo dos mortos, Nefer — Taita concordou. — Mas esses sete sarcófagos consumiram trinta laques de puro ouro, e quase empobreceram a nação.

Nefer olhou para o copo pensativamente, depois bebeu as últimas gotas da poção.

— Meu pai merecia um funeral tão rico quanto esse, pois era um homem poderoso.

— O seu avô pensou demais na vida após a morte — Taita explicou, pacientemente. — O seu pai pensou mais no seu povo e no bem-estar deste Egito.

Nefer pensou sobre isso por um momento, depois suspirou, acomodou-se no colchão de pele de cordeiro e fechou os olhos. Tornou a abri-los.

— Eu tenho orgulho do meu pai — disse simplesmente. Taita pousou a mão em sua testa numa bênção e sussurrou:

— E eu sei que, um dia, seu pai terá motivos para orgulhar-se de você.

Não era necessário o mau presságio do vôo do falcão Nefertem para alertar Taita de que haviam atingido o período mais terrível e fatal em toda a longa história do Egito. Quando saiu dos aposentos de Nefer e dirigiu-se para o deserto, era como se as estrelas tivessem congelado em seus cursos e todos os deuses antigos tivessem recuado e os desertado, abandonando-os em sua hora mais perigosa.

— Grande Horus, precisamos da sua orientação agora. O senhor segura esta Ta-meri, esta terra preciosa, em suas mãos. Não a deixe escorregar por entre seus dedos e despedaçar-se como cristal. Não nos dê as costas agora, quando estamos em agonia. Ajude-me, poderoso falcão. Instrua-me. Torne seus desejos claros para mim, para que eu possa cumprir sua vontade.

Assim rezando ele subiu as colinas na periferia do grande deserto. O bater do seu longo cajado nas pedras alarmou um chacal amarelo e o fez fugir precipitadamente pela encosta iluminada pela lua. Quando teve certeza de que não estava sendo observado, ele virou-se paralelo ao rio e apressou o passo.

— Horus, o senhor bem sabe que nos equilibramos na lâmina da espada entre a guerra e a derrota. O Faraó Tamose foi derrubado, e não há nenhum guerreiro para nos liderar. Apepi e seus hicsos no norte crescem em poder a ponto de tornarem-se quase invencíveis. Eles se unem contra nós e não podemos enfrentá-los. A coroa dupla dos dois reinos está podre como o verme da traição, e não pode sobreviver contra a nova tirania. Abra meus olhos, poderoso deus, e mostre-me o caminho, para que possamos triunfar contra as hordas invasoras dos hicsos do norte e contra o veneno destruidor em nosso sangue.

Pelo restante daquele dia Taita vagou através das colinas rochosas e pelos lugares silenciosos, orando e buscando descobrir o caminho à frente. Tarde da noite ele retornou na direção do rio e finalmente chegou ao seu destino final. Poderia ter escolhido chegar ali pelo meio mais direto de uma faluca, porém demasiados olhos teriam reparado em sua presença, e ele precisava daquele momento sozinho no deserto.

Na escuridão profunda, quando a maioria dos homens dormia, ele aproximou-se do templo de Bes à margem do rio. Uma tocha ardia em seu nicho acima do portão. Ela iluminava a figura entalhada do deus Bes, que guardava a entrada. Bes era o deus anão e deformado da embriaguez e jovialidade. Sua língua pendia entre os lábios entreabertos e maliciosos. Sob a luz vacilante da tocha, enviou a Taita um olhar embriagado, quando ele passou.

Um dos acólitos do templo estava esperando para receber o Mago. Levou-o para uma cela de pedrarias profundezas do templo, onde havia uma jarra de leite de cabra numa mesa, ao lado de um prato com pão de dhurra e um favo de mel. Eles sabiam que uma das fraquezas do Mago era o mel do pólen das flores de mimosa.

— Há três homens já aguardando sua chegada, meu senhor — o sacerdote mais jovem lhe disse.

— Traga Bastet primeiro à minha presença — Taita instruiu. Bastet era o escriba principal do nomarca de Mênfis. Era uma das mais valiosas fontes de informação de Taita. Não sendo um homem rico, carregava o fardo de duas belas mas onerosas esposas, e uma ninhada de filhos. Taita havia salvado seus filhos quando as Flores Amarelas devastaram a terra. Embora sem muita conseqüência no esquema das coisas, ele sentava-se perto do trono do poder, usando os ouvidos e uma memória fenomenal para um bom efeito. Tinha muito a dizer a Taita sobre o que havia transpirado na nomarquia desde a ascensão do novo regente, e recebeu seu pagamento com genuína gratidão.

— Sua bênção teria sido pagamento suficiente, poderoso Mago.

—As crianças não se alimentam de bênçãos—Taita falou, dispensando-o.

Em seguida veio Obos, o alto sacerdote do grande templo de Horus em Tebas. Ele devia esse compromisso a Taita, que intercedera por ele junto ao Faraó Tamose. Muitos nobres iam ao templo de Horus para fazer orações e sacrifícios, e todos confidenciavam ao alto sacerdote. O terceiro homem a reportar para Taita foi Nolro, o secretário do exército do norte. Ele também era um eunuco, e existia um vínculo entre aqueles que sofreram tal mutilação.

Desde os tempos da sua juventude, quando Taita descobrira-se pela primeira vez direcionando assuntos de Estado nas sombras por trás do trono, ele ficara ciente da absoluta necessidade de possuir informações impecáveis nas quais pudesse basear as decisões. Por todo o restante da noite e na maior parte do dia seguinte ele escutou esses homens, e questionou-os detalhadamente, de forma que quando estava pronto para retornar ao palácio de Memnon já se informara sobre todos os eventos importantes que transpiraram e sobre todas as tendências ocultas significativas e os remoinhos políticos que se desenvolveram enquanto ele estivera longe, no deserto de Gebel Nagara.

No final da tarde ele retomou o caminho de volta para o palácio, tomando a rota direta ao longo da margem do rio. Os camponeses que voltavam dos trabalhos nos campos o reconheceram, fizeram o sinal para boa sorte e vida longa e gritaram: ”Reze a Horus por nós, Mago”, pois todos sabiam que ele era um homem de Horus. Muitos lhe entregaram pequenas oferendas, e um lavrador convidou-o a compartilhar o seu jantar de bolos de milhete, gafanhotos tostados e leite de cabra ainda quente do úbere.

Quando a noite caiu ele agradeceu ao amigável lavrador, deu-lhe adeus e deixou-o sentado ao lado do fogo. Apressou-se através da noite, ansioso para não perder a cerimônia da elevação real. Era madrugada quando chegou ao palácio, e mal teve tempo de banhar-se e mudar os trajes antes de correr para os aposentos reais. Na porta, seu caminho foi barrado por dois guardas, que cruzaram as lanças diante da entrada.

Taita ficou atônito. Isso nunca acontecera antes. Ele era o tutor real, escolhido treze anos atrás pelo Faraó Tamose. Olhou com firmeza para o sargento da guarda. O homem baixou os olhos, mas manteve-se inflexível em sua negativa.

— Não quero ofendê-lo, poderoso Mago. Esta é uma ordem específica do comandante dos guarda-costas, o Coronel Asmor, e do camarista do palácio. Nenhuma pessoa que não tenha sido aprovada pelo regente poderá apresentar-se à presença real.

O sargento estava inflexível, portanto Taita deixou-o e apressou-se até o terraço onde Naja fazia o desjejum com um pequeno grupo dos seus favoritos pessoais e bajuladores.

— Meu Senhor Naja, você está plenamente ciente de que fui indicado pelo próprio pai do faraó para ser seu tutor e mentor. Foi-me concedido o direito de acesso a qualquer hora do dia e da noite.

— Isso foi há muitos anos, bom Mago — Naja respondeu calmamente, enquanto aceitava uma uva descascada da escrava que se mantinha atrás da sua banqueta e a enfiava na boca. — Estava certo naquela época, mas o Faraó Seti não é mais uma criança. Ele não precisa mais de uma ama-seca. — O insulto foi casual, mas não o deixou menos cortante. — Eu sou o regente dele. No futuro, ele vai me procurar para conselhos e orientação.

— Reconheço seus direitos e obrigações para com o rei, mas impedir que eu fique ao lado de Nefer é algo desnecessário e cruel — Taita protestou, mas Naja ergueu a mão num gesto soberano, a fim de silenciá-lo.

— A segurança do rei é de suprema importância — ele disse, e levantou-se da mesa do desjejum para indicar que a refeição e a entrevista estavam encerradas.

Seu guarda-costas aproximou-se mais, de forma que Taita foi obrigado a afastar-se.

Taita observou o séquito de Najja retirar-se do aposento e ir na direção da câmara do conselho. Não os seguiu imediatamente, mas virou para o lado e sentou-se na mureta de um dos tanques de peixes a fim de ponderar sobre aquele acontecimento.

Naja havia isolado Nefer. Ele era um prisioneiro em seu próprio palácio. Quando chegasse a hora ele estaria sozinho, cercado pelos seus inimigos. Taita procurou algum meio de protegê-lo. Mais uma vez considerou a idéia de fugir do Egito, de desaparecer com Nefer através do deserto em busca da proteção de algum poder estrangeiro até que ele crescesse em idade e força suficientes para retornar e reclamar seus direitos de nascimento. No entanto, ele tinha certeza de que Naja não apenas barrara a porta de entrada dos aposentos reais mas. também de que todas as rotas de saída de Tebas e do Egito já estariam fechadas.

Não parecia haver uma solução fácil, e depois de uma hora de meditação profunda Taita levantou-se. Os guardas na porta da câmara do conselho afastaram-se para dar-lhe passagem, e Taita desceu pelo corredor e tomou seu assento habitual no banco da frente.

Nefer estava sentado no tablado ao lado do seu regente. Usava a coroa hedjet mais leve do Egito Superior, e parecia pálido e macilento. Taita sentiu um lampejo de preocupação com a idéia de que ele já poderia estar sendo vítima de envenenamento lento, mas não detectou nenhuma aura moral circundando o menino. Concentrou-se em enviar uma corrente de força e coragem ao rapaz, mas Nefer enviou-lhe um olhar frio e acusador para puni-lo por ter perdido a cerimônia de elevação real.

Taita voltou sua atenção para os assuntos do conselho. Estavam considerando os últimos relatórios da frente de batalha do norte, onde o rei Apepi havia recapturado Abnub depois de um cerco que durara três dias. A desafortunada cidade mudara de mãos oito vezes desde a primeira invasão hicsa no reinado do Faraó Mamose, o pai de Tamose.

Se o Faraó Tamose não tivesse sido atingido pela flecha hicsa, sua ousada estratégia poderia ter evitado essa trágica inversão de forças. Em vez de agora serem forçados a se preparar para o próximo ataque hicso na direção de Tebas, os exércitos do Egito poderiam estar se insurgindo contra a capital inimiga de Avaris.

Taita descobriu que o conselho estava amargamente dividido em todas as considerações da crise. Estavam tentando encontrar culpados para essa derrota mais recente, quando estava claro para qualquer tolo ver que a morte prematura do faraó havia sido a causa principal. Ele deixara seu exército sem uma cabeça e um coração. Apepi aproveitara-se imediatamente da sua morte.

Escutando-os discutir Taita sentiu, com mais força do que nunca, que essa guerra era um abscesso crescente no corpo do Egito. Exasperado, levantou-se em silêncio e saiu da câmara do conselho. Não havia mais nada que pudesse fazer ali, pois eles ainda estavam discutindo sobre a quem deveria ser entregue o comando dos exércitos do norte para substituir o finado Faraó Tamose.

— Agora que ele se foi, não existe nenhum dos nossos comandantes que esteja à altura de Apepi, nem Asmor ou Teron, nem o próprio Naja — Taita resmungou consigo mesmo, enquanto se afastava. — A terra e os nossos exércitos estão sangrando por sessenta anos de guerras. Precisamos de tempo para recuperar nossas forças novamente, e para que um grande líder militar possa emergir das nossas fileiras.

Ele pensou em Nefer, mas levaria anos até que o rapaz pudesse assumir o papel que Taita sabia ser, pelos seus estudos dos Dédalos de Ammon Rã, o destino que lhe estava delineado.

”Eu preciso ganhar esse tempo para ele e mantê-lo seguro até que esteja pronto.”

Em seguida ele foi para a ala das mulheres do palácio. Por ser um eunuco, podia passar pelos portões, que estavam barrados aos outros homens. Três dias tinham passado desde que as princesas ficaram sabendo que em breve se tornariam noivas, e Taita sabia que devia tê-las visitado antes. Elas estariam confusas e aflitas, e extremamente necessitadas do seu conforto e conselhos.

Merykara foi a primeira a vê-lo quando ele entrou no pátio. Levantou-se num salto do lugar onde uma sacerdotisa de ísis a instruía com uma tabuleta de escrever e um pincel, e correu para ele com suas longas pernas, os cachos balançando em seus ombros. Atirou os braços em torno da cintura dele e abraçou-o com toda a força.

— Ah, Taita, onde você esteve? Procurei-o em toda parte nestes últimos dias.

Quando ela ergueu os olhos para ele, Taita viu que estivera chorando, pois estavam vermelhos e rodeados por olheiras escuras e profundas. Agora ela começava novamente, os ombros sacudiam com os soluços. Taita pegou-a no colo e abraçou-a até que ela se tranqüilizasse um pouco.

— O que é isso, minha macaquinha? Quem a deixou tão infeliz?

— O Senhor Naja irá me levar para um lugar secreto e fará coisas terríveis comigo. Ele irá colocar algo enorme e pontiagudo dentro de mim, que vai me ferir e me fazer sangrar.

— Quem lhe disse isso? — Taita teve dificuldade em controlar a ira.

— Magara e Saak. — Merykara soluçou. — Ah, Taita, você não pode impedi-lo de fazer essas coisas comigo? Por favor, ah, por favor!

Taita devia ter desconfiado que as duas garotas escravas núbias tinham sido as responsáveis por aquele terror. Normalmente suas histórias eram sobre espíritos malignos africanos e fantasmas, mas agora tinham algo mais com que atormentar a menina. Implacavelmente, Taita jurou retribuição às duas pequenas diabretes, e concentrou-se em aplacar os temores da princesa. Foram necessários todo seu tato e delicadeza, pois Merykara estava aterrorizada.

Ele guiou-a até um caramanchão num canto sossegado do jardim, sentou-se e ela acomodou-se em seu colo, pressionando a face em seu peito.

Evidentemente os temores da menina eram infundados. Mesmo depois do casamento, era contra a natureza, a lei e os costumes que Naja a levasse para o leito matrimonial antes que Merykara visse sua primeira lua vermelha, e esse evento ainda estava a anos de distância. Finalmente conseguiu acalmá-la, e levou-a até os estábulos reais para admirar e acariciar o potro que havia nascido naquela manhã.

Quando ela estava sorrindo e conversando novamente, Taita levou-a de volta para a zenana e realizou alguns pequenos milagres para sua diversão. Transformou uma jarra de água do Nilo num delicioso refresco de frutas apenas mergulhando o dedo no líquido, e ambos beberam juntos. Depois atirou um pedregulho no ar, e este se transformou num lindo canário, que voou para os galhos mais altos de uma figueira. Ali a ave ficou cantando e saltitando, enquanto a menina dançava e dava gritinhos de alegria.

Taita deixou-a, então, e foi à procura das duas escravas, Magara e Saak, dando-lhes uma tal sova verbal que em pouco tempo as duas estavam abraçando-se e gemendo pesarosamente. Ele sabia que Magara era sempre a líder em tais maldades, portanto retirou um escorpião vivo da orelha da garota e segurou-o a centímetros do seu rosto, o que a reduziu a tais paroxismos de terror que ela urinou em pequenos jatos pelas pernas.

Satisfeito, ele foi procurar Heseret. Conforme havia previsto, encontrou-a à margem do rio com sua lira. Ela olhou-o com um sorrisinho triste, mas continuou dedilhando as cordas. Taita sentou-se ao seu lado, na orla gramada sob os galhos de um salgueiro. A música que ela estava tocando era a favorita da sua avó. Fora Taita quem lhe ensinara, e então ela começou a cantar as palavras:

”Meu coração se agita como um pássaro ferido quando vejo o rosto do meu bem-amado. e minhas faces vicejam como o céu da aurora com o raio de sol do seu sorriso”.

A voz dela era doce e sincera, e Taita sentiu lágrimas em seus próprios olhos. Era como se estivesse ouvindo Lostris mais uma vez. Juntou-se a ela no coro. Sua voz ainda era clara e firme, sem o tremor da idade. Mais adiante, no rio, os remadores de uma galé que passava descansaram seus remos enquanto escutavam com expressões enlevadas, conforme o vento carregava a melodia.

Quando a música terminou Heseret deixou a lira de lado e virou-se para ele.

— Querido Taita, estou tão contente por você ter vindo.

— Lamento tê-la feito esperar, lua de todas as minhas noites. — Ela sorriu vagamente ao ouvir aquele apelido, pois sempre tivera uma natureza romântica. — Em que posso servi-la?

— Você precisa ir até o Senhor Naja e apresentar-lhe as minhas sinceras desculpas, mas não posso me casar com ele.

Ela era idêntica à avó, quando tivera aquela mesma idade. Lostris também o encarregara de uma tarefa impossível, com a mesma segurança e confiança na sua capacidade de desempenhá-la. Agora Heseret voltou os grandes olhos verdes para ele.

— Você entende, eu já prometi a Meren que serei sua esposa. — Meren era o neto de Kratas, e bom companheiro do Príncipe Nefer.

Taita já havia reparado na maneira como o rapaz olhava para Heseret, mas jamais suspeitara que ela retribuía seus sentimentos. Por um breve instante perguntou-se o quão longe eles teriam ido na direção da consumação daquela paixão, mas afastou o pensamento.

— Heseret, já lhe expliquei muitas vezes que você não é igual às outras moças. Você é uma princesa real. Seu casamento não pode ser realizado sob a luz da paixão da juventude. É algo de graves conseqüências políticas.

— Você não entende, Taita — Heseret falou suavemente, porém com a doce obstinação que ele temia. — Eu amo Meren, eu o amo desde que era apenas uma criança. Quero me casar com ele, e não com o Senhor Naja.

— Não posso desobedecer a um decreto do regente do Egito — ele tentou explicar, mas ela balançou a cabeça e sorriu.

— Você é tão sábio, Taita. Vai pensar em alguma coisa. Sempre pensa — ela disse, e ele sentiu que o coração poderia despedaçar.

— Senhor Taita, recuso-me a discutir o seu acesso ao faraó, ou o meu iminente casamento com as princesas reais. Minha decisão já foi tomada, em ambas as questões.

Para enfatizar que havia encerrado o assunto, Naja voltou sua atenção total para o papiro estendido sobre a mesa à sua frente. Passou-se tempo suficiente para que um balido de gansos selvagens se erguesse do pântano na margem esquerda, cruzasse as águas cinzentas do Nilo com batidas vigorosas das asas e atravessasse os jardins do palácio onde eles se encontravam. Finalmente Taita desviou os olhos do céu e levantou-se para sair. Quando inclinou-se diante do regente e começou a se afastar, Naja ergueu os olhos para ele.

— Não lhe dei permissão para sair.

— Meu senhor, achei que não precisaria mais de mim.

— Ao contrário, preciso com a máxima urgência. — Ele olhou para Taita e fez um gesto para que tornasse a se sentar. — Você está testando o meu bom temperamento e benevolência. Sei que estava habituado a realizar os Dédalos para o Faraó Tamose sempre que ele o chamava para fazêlo. Por que está protelando comigo? Como regente deste país, não vou aceitar mais delongas. Não estou pedindo isso para meu próprio lucro, mas para a sobrevivência da nossa nação nesta guerra com o norte. Preciso da orientação do panteão dos deuses. Você é o único que pode fornecêla para mim.

Naja levantou-se tão subitamente que a mesa à sua frente virou, espalhando rolos de papiro, pincéis e tinta nos ladrilhos de terracota. Não deu nenhuma atenção a isso, mas sua voz elevou-se a um grito:

— Eu lhe ordeno, com toda a autoridade do selo da águia... — Tocou o amuleto no braço direito. — Ordeno que invoque os Dédalos de Ammon Rã em meu benefício.

Taita inclinou a cabeça numa resignação teatral. Nas últimas semanas havia se preparado para esse ultimato, e retardara-se apenas para estender até o limite máximo aquele período de graça durante o qual Nefer estaria relativamente a salvo das ambições do regente. Ainda estava convencido de que o Senhor Naja não faria nenhum movimento fatal na direção de Nefer antes de receber a sanção dos Dédalos.

— A lua cheia é o período mais propício para os Dédalos — Taita falou. — Já fiz os preparativos.

Naja afundou de volta na banqueta.

— Você fará aqui, nos meus aposentos — disse.

— Não, Senhor Regente, isso não seria o ideal. — Taita sabia que, se fosse para obter ascendência sobre Naja, deveria mantê-lo fora de equilíbrio. — Quanto mais próximos estivermos da influência dos deuses, mais acuradas serão as previsões. Já combinei tudo com os sacerdotes do templo de Osíris em Busíris. Será ali que irei invocar os Dédalos, à meia-noite na lua cheia. Irei conduzir o mistério no santuário do templo. A espinha dorsal do deus, o pilar-djed, desmembrado pelo seu irmão, Seth, está guardado ali. Essa relíquia sagrada irá aumentar a força das nossas deliberações. — A voz de Taita estava grave com o significado do arcano. — Somente o senhor e eu estaremos presentes no santuário. Nenhum outro mortal poderá entreouvir o que os deuses têm a lhe dizer. Um dos regimentos de Asmor deverá guardar os arredores do santuário.

Naja era um homem de Osíris, e sua expressão estava solene. Taita sabia que ele ficaria impressionado pela hora e lugar que escolhera.

— Se é como você diz, que assim seja — Naja concordou.

A viagem para Busíris na barcaça real levou dois dias, com o regimento de Asmor seguindo em quatro galeras navais. Atracaram na praia amarelada sob as muralhas do templo, e os sacerdotes estavam à espera para receber o regente com salmos e oferendas de goma arábica e mirra. O gosto do regente por tais substâncias perfumadas já era conhecido por todo o país.

Foram levados aos aposentos que tinham sido preparados para eles. Enquanto Naja se banhava, se perfumava e se refrescava com frutas e sucos, Taita visitou o santuário em companhia do mais elevado sacerdote e fez um sacrifício ao grande deus Osíris. Mais tarde, atendendo à sutil sugestão de Taita, o alto sacerdote retirou-se e deixou-o a sós a fim de fazer os preparativos para a noite. O Senhor Naja nunca estivera presente na invocação dos Dédalos — poucas pessoas estiveram. Taita iria realizar um espetáculo impressionante para ele, mas não tinha intenção de sujeitar-se à exaustiva e penosa provação do ritual autêntico.

Depois do pôr-do-sol o sumo sacerdote entreteve o regente com um banquete. Em sua honra, serviu o famoso vinho dos vinhedos que circundavam o templo. Fora em Busíris que o grande deus Osíris introduzira as uvas pela primeira vez no Egito. Quando a saborosa safra havia suavizado o regente e o restante da companhia, os sacerdotes apresentaram uma série de atos teatrais que representavam a história da vida do grande deus. Em cada um desses atos Osíris era representado com diferentes colorações de pele, branco com as faixas de uma múmia, negro para o reino dos mortos, vermelho para o deus da retribuição. Sempre portava as insígnias do governante, e seus pés eram atados juntos, como os de um cadáver. No ato final seu rosto era pintado de verde, para simbolizar seu aspecto vegetal. Como com o milhete dhurra, que significava vida e sustento, Osíris foi enterrado na terra, que significava a morte. Na escuridão do reino dos mortos ele germinou como a semente de milhete, depois emergiu no glorioso ciclo da vida eterna.

Enquanto os quadros-vivos eram encenados, o sumo sacerdote recitava os nomes de poder do deus: ”Olho da Noite”, ”O Ser Eternamente Bom”, ”Filho de Geb” e ”Wennefer, Perfeito em Majestade”.

Depois, cercados pela fumaça dos incensos, sob a batida dos gongos e tambores, os sacerdotes entoaram o poema épico da luta entre o bem e o mal. A lenda relatava como Seth, invejoso do seu irmão virtuoso, trancou Osíris num baú e atirou-o no Nilo, para que afundasse. Quando seu corpo morto emergiu na margem, Seth cortou-o em pedaços e escondeu as diversas partes. Ali em Busíris ele escondeu o püar-djed, a espinha dorsal, ísis, irmã de ambos, procurou e encontrou todas as partes do corpo e reuniu-as. Depois, copulou com Osíris. Enquanto estavam colados na união, suas asas insuflaram o sopro de vida novamente para dentro dele.

Bem antes da meia-noite o regente do Egito já havia consumido uma jarra do vinho rico e encorpado, e encontrava-se num estado nervoso, suscetível, com as superstições religiosas incitadas pelos sacerdotes. Quando o raio prateado da lua cheia penetrou através da abertura precisamente alinhada no teto do templo e moveu-se suavemente através das bandeiras da nave na direção da porta fechada do santuário, o sumo sacerdote fez um sinal e todos os outros sacerdotes levantaram-se e saíram em procissão, deixando o Senhor Naja e Taita sozinhos.

Quando o cântico dos sacerdotes que saíam foi reduzido a um pesado silêncio com a distância, Taita tomou o regente pela mão e guiou-o pela nave iluminada pela lua até as portas do santuário. Conforme se aproximavam, as grandes portas revestidas de bronze iam se abrindo como se por vontade própria. O Senhor Naja arregalou os olhos, e sua mão tremeu sob a de Taita. Ele tentou recuar, mas o Mago forçou-o para a frente.

O santuário estava iluminado por quatro braseiros, um em cada canto da pequena câmara. Havia uma banqueta baixa no centro do piso coberto de lajotas. Taita levou Naja até ali e fez um gesto para que se sentasse. Quando ele o fez, as portas fecharam-se atrás deles, e Naja olhou em volta temeroso. Fez menção de levantar-se, mas Taita pousou a mão em seu ombro para refreá-lo.

— Não importa o que presenciar ou ouvir, não se mova. Não fale. Se valoriza sua vida, não faça nada. Não diga nada.

Taita deixou-o sentado e, com passos majestosos, aproximou-se da estátua do deus. Ergueu as mãos e, subitamente, estava segurando um cálice de ouro pela haste. Levantou-a para o alto e pediu que Osíris abençoasse seu conteúdo, depois levou-a para Naja e incitou-o a beber. O líquido viscoso como mel tinha o sabor de amêndoas amassadas, pétalas de rosa e cogumelos. Taita bateu palmas e o cálice desapareceu.

Ele estendeu as mãos vazias e fez um passe místico para a frente e para trás, diante do rosto de Naja, e num piscar de olhos os Dédalos de Ammon Rã encheram suas mãos em concha. Naja reconheceu as peças de marfim graças aos fantásticos relatos que ouvira sobre o ritual. Taita convidou-o a cobri-los com suas mãos, enquanto recitava uma invocação a Ammon Rã e ao deus do panteão.

— Grandioso em luz e fogo, furioso em divina majestade, aproxime-se e atenda a nossa súplica.

Naja encolheu-se na banqueta quando as peças do Dédalo esquentaram ao toque, e foi com alívio que entregou-as de volta para Taita. Estava transpirando profusamente enquanto observava o velho levá-las através do santuário e deixá-las aos pés da gigantesca estátua de Osíris. O Mago ajoelhou-se ali, inclinou-se sobre elas. Por um instante não se ouviu nenhum som dentro da câmara, exceto pelo chiar das chamas, nenhum movimento, exceto pelas sombras lançadas pela luz tremulante dos braseiros, dançando nas paredes de pedra.

Então, abruptamente, um grito terrível e desincorporado ecoou através do santuário. Soava como se, mais uma vez, os órgãos vitais do deus estivessem sendo arrancados do seu corpo pelo irmão maligno. Naja gemeu baixinho e cobriu a cabeça com o xale.

Mais uma vez fez-se silêncio, até que subitamente as chamas dos braseiros ergueram-se tão alto a ponto de alcançar o teto e transformarem-se de amarelas paru tons ardentes de verde e violeta, vermelhas e azuis. Enormes nuvens de fumaça encheram a câmara. Naja engasgou e tossiu. Sentia como se estivesse sufocando, e foi tomado por uma vertigem. Podia ouvir a própria respiração reverberando na cabeça.

Taita virou-se devagar para encará-lo, e Naja estremeceu de terror, pois o Mago estava transformado. Seu rosto reluzia com uma luz esverdeada, como o rosto do deus ressuscitado. Uma substância verde espumava-lhe na boca entreaberta e escorria pelo seu peito, e os olhos eram órbitas vazias que lançavam raios prateados sob a luz dos braseiros. Sem mover os pés ele deslizou na direção de onde Naja estava sentado, e da boca cheia de espuma fluíram as vozes de uma horda selvagem de demônios e djinns, um coro terrível de gritos e gemidos, sibilos e gritos, risos insanos e histéricos.

O Senhor Naja tentou se levantar, mas os sons e a fumaça pareciam preencher seu cérebro, e a escuridão dominou-o. Suas pernas cederam sob seu peso e ele caiu para a frente, desabando nas lajotas num desmaio profundo.

Quando o regente do Egito recobrou a consciência, o sol estava alto, cintilando nas águas do rio. Ele encontrou-se deitado nos colchões de seda sobre o convés da barcaça real, debaixo de um toldo amarelo.

Olhou em volta turvamente

viu as velas das galeras de escolta, brancas como as asas da garça contra o verde luxuriante das margens. A luz do sol era estonteante, e ele fechou os olhos novamente. Sentia uma sede terrível, a garganta como se tivesse engolido um punhado de pedras afiadas, e havia um latejar na cabeça como se todos os demônios da sua visão estivessem presos ali dentro. Ele gemeu, estremeceu e vomitou copiosamente num balde que um dos escravos lhe estendia.

Taita aproximou-se dele, levantou-lhe a cabeça e deu-lhe uma beberagem fresca, feita com alguma mistura que logo aliviou a dor em sua cabeça e soltou os gases presos em seu ventre inchado, permitindo que fossem expelidos pelo seu orifício inferior em crepitantes lufadas de vento malcheiroso. Quando ele se recuperou o bastante para falar, sussurrou:

— Conte-me tudo, Taita. Não me lembro de nada. O que os Dédalos revelaram?

Antes de responder, Taita enviou todos os marinheiros e escravos para fora do alcance da sua voz. Depois ajoelhou-se ao lado do colchão. Naja pousou a mão trêmula em seu braço e murmurou penosamente:

— Não me lembro de nada depois que... — Hesitou, como se os terrores da noite anterior retornassem para ele, e estremeceu.

— Estamos quase chegando em Sebennytos, majestade — Taita informou-o. — Estaremos em Tebas antes do cair da noite.

— O que aconteceu, Taita? — Naja balançou o braço de Taita. — O que os Dédalos revelaram?

— Grandes maravilhas, majestade. — A voz de Taita tremia de emoção.

— Maravilhas? — O interesse de Naja foi despertado, e ele lutou para se sentar. — Por que me chama de ”majestade”? Eu não sou o faraó.

— Isso é parte do que me foi revelado.

— Conte-me! Conte-me tudo!

— O senhor não se lembra de como o teto do templo abriu-se como as pétalas de uma flor de lótus e o grande caminho desceu até nós através do céu noturno?

Naja balançou a cabeça e depois assentiu, incerto.

— Sim, creio que sim. Esse caminho era uma escadaria de ouro?

— O senhor se lembra — Taita elogiou-o.

— Nós subimos pela escadaria dourada. — Naja olhou-o, esperando confirmação.

— Fomos levados para cima montados em dois leões alados — Taita assentiu.

— Sim, eu me lembro dos leões, mas depois disso tudo é vago e nebuloso.

— Esses mistérios embotam a mente e nublam os olhos que não estão acostumados. Até eu mesmo, um adepto do sétimo e último grau, fiquei espantado com tudo o que passamos — Taita explicou gentilmente. — Mas não se desespere, pois os deuses ordenaram-me a explicá-los todos ao senhor.

— Fale, bondoso Mago, e não poupe nenhum detalhe.

— Montados nas costas dos leões alados nós cruzamos os negros oceanos e sobrevoamos os picos das montanhas brancas, com todos os reinos da terra e dos céus espalhados abaixo de nós.

Naja assentiu avidamente.

— Continue!

— Finalmente chegamos à cidadela onde os deuses habitam. As fundações alcançavam as profundezas do mundo dos mortos, e os pilares sustentavam o céu e todas as estrelas. Ammon Rã voou acima de nós num esplendor de fogo, e todos os outros deuses do panteão estavam sentados em tronos de prata e ouro, de fogo, cristal e safiras.

Naja piscou várias vezes, focalizando-o com dificuldade.

— Sim, agora que você está me dizendo, eu me lembro. Os tronos de safira e diamantes. — A desesperada necessidade de acreditar era como um fogo dentro dele. — Então o deus falou? — Ele arriscou. - Falou comigo, não foi?

— Sim. Numa voz tão alta quanto a queda de uma montanha, o grande deus Osíris nos falou: ”Bem-amado Naja, você sempre foi fiel em sua devoção a mim. Isso será recompensado”.

— O que ele quis dizer? Ele deixou isso claro, Taita? Taita assentiu, solene.

— Sim, majestade.

— Você está usando esse título novamente. Diga-me por quê.

— Como queira, majestade. Vou lhe dizer cada palavra. O Grande Osíris ergueu-se em toda a sua terrível glória e, depois de tirá-lo das costas do leão alado, colocou-o ao lado dele no trono de fogo e ouro. Ele tocou sua boca e seu coração e concedeu-lhe o título de Irmão Divino.

— Ele me chamou de Irmão Divino? O que isso quer dizer?

Taita reprimiu um lampejo de irritação. Naja sempre fora um homem esperto, aguçado e perceptivo. Normalmente não precisava que cada detalhe fosse tão laboriosamente soletrado. Os efeitos da essência do cogumelo mágico que Taita lhe administrara na noite anterior, e da fumaça narcotizante dos braseiros, não tinham se esvaído de todo. Talvez se passassem dias antes que ele começasse a pensar com clareza outra vez. Talvez eu deva aplicar cores mais fortes, ele decidiu, e continuou:

— Eu também fiquei confuso com tais palavras. O significado não estava claro para mim, mas então o grande deus falou novamente: ”Dou-lhe as boas-vindas ao panteão do paraíso, Irmão Divino”.

O rosto de Naja clareou, e sua expressão tornou-se orgulhosa e triunfante.

— Ele não estava me deificando, Taita? Certamente não pode haver outro significado, senão esse.

— Se houve alguma dúvida, foi imediatamente esclarecida, pois Osíris pegou a coroa dupla do Alto e do Baixo Egito, colocou-a sobre a sua cabeça e tornou a falar: ”Salve, Irmão Divino! Salve, faraó que deverá ser”.

Naja estava em silêncio, agora, mas fitou Taita com os olhos cintilando. Depois de um longo silêncio, Taita prosseguiu:

— Com a coroa em sua testa, sua santidade foi manifestada. Eu ajoelhei-me à sua frente e idolatrei-o com os outros deuses.

Naja não fez nenhum esforço para ocultar as emoções. Estava em êxtase. Estava tão vulnerável como se estivesse em orgasmo. Taita aproveitou o momento.

— Então Osíris falou novamente: ”Nestas coisas maravilhosas, o seu guia deverá ser o Mago Taita, pois ele é um adepto de todos os mistérios e o mestre dos Dédalos. Siga suas instruções fielmente, e todas as recompensas que prometi serão suas”.

Ele observou a reação de Naja. Havia sido um tanto contundente demais, pensou, porém o regente pareceu aceitar a censura sem resistência.

— O que mais, Taita? O que mais o grande deus tinha a me dizer?

— Nada mais ao senhor, mas agora ele falou diretamente para mim. Suas palavras penetraram nas profundezas da minha alma, pois ele depositou uma pesada carga em meus ombros. Estas foram as palavras exatas, cada uma delas marcada com fogo em meu coração: ”Taita, mestre dos Dédalos, daqui em diante você não terá outro amor, lealdade ou obrigação. Você é o servo do meu irmão real e divino, Naja. Sua única preocupação será ajudá-lo a cumprir seu destino. Não irá cessar até que veja a coroa dupla do Alto e do Baixo Egito colocada em sua cabeça”.

— Nenhuma outra lealdade ou amor — Naja repetiu em voz baixa. Agora parecia ter superado boa parte dos efeitos danosos da provação. Suas forças retornavam, e o habitual brilho de astúcia já surgia em seus olhos amarelados. — E você aceitou o encargo que o grande Osíris lhe entregou, Mago? Diga a verdade, você é o meu homem agora, ou negou a palavra do grande pai?

— Como eu poderia negar ao grande deus? — Taita respondeu simplesmente. Baixou a cabeça e pressionou a testa nas tábuas do convés. Com ambas as mãos tomou o pé direito de Naja e colocou-o sobre a própria cabeça. — Eu aceito o encargo que os deuses me indicaram. Sou seu servo, Divina Majestade. De alma, coração e mente, pertenço ao senhor.

— E quanto às suas outras obrigações? E quanto ao juramento de fidelidade que fez ao Faraó Nefer Seti em seu nascimento e, até mais recentemente, em sua coroação?

— Majestade, o grande deus Osíris absolveu-me de tudo o que veio antes. Nenhum juramento é válido, agora, exceto por este que agora lhe faço.

Naja ergueu-lhe a cabeça e fitou-o nos olhos, procurando qualquer traço de mentira ou perfídia. Taita retribuiu o olhar com serenidade. Podia pressentir as dúvidas do regente, as esperanças e suspeitas pululando como um cesto de ratos vivos esperando para ser servidos de refeição aos falcões nos viveiros reais. O desejo é pai da ação, Taita pensou. Ele irá permitir-se a acreditar, porque mais do que tudo é o que deseja.

Observou as dúvidas desaparecerem naqueles olhos amarelados, e Naja abraçou-o:

— Acredito em você. E quando eu estiver usando a coroa dupla você terá recompensas muito além do que espera ou imagina.

Nos dias que se seguiram Naja manteve Taita sempre ao seu lado, e o velho aproveitou essa nova posição de confiança para mudar algumas das intenções não declaradas do regente. Por insistência de Naja, Taita fez outros exames dos augúrios. Sacrificou um cordeiro e examinou suas entranhas, libertou um falcão dos viveiros reais e observou o seu padrão de vôo. Com isso, foi capaz de determinar que o deus não sancionaria o casamento de Naja com as princesas pelo menos até o início da próxima inundação das águas do Nilo, ou a enchente certamente iria falhar. Isso seria um desastre que nem mesmo Naja poderia arriscar. A vida do Egito dependia das inundações do grande rio. Com essa profecia Taita havia adiado o perigo para Nefer e a agonia das duas princesas.

Naja protestou e discutiu, mas desde aquela terrível noite em Busíris descobriu ser quase impossível resistir às previsões de Taita. Com isso tornou-se mais receptivo às notícias ameaçadoras que chegavam das frentes de batalha no norte. Sob as ordens de Naja, e contra os conselhos de Taita, os egípcios haviam lançado um contra-ataque desesperado a fim de tentar retomar Abnub. Eles falharam, perdendo trezentas bigas e quase um regimento inteiro na medonha batalha em volta da cidade. Agora Apepi parecia estabilizado para enviar um ataque definitivo através dos desmoralizados e enfraquecidos regimentos egípcios e tomar Tebas de assalto. Não era o momento para um casamento, com o que até Naja concordou, e a segurança de Nefer estava assegurada por um pouco mais de tempo.

Um constante fluxo de refugiados já fugia de Tebas por estrada e rio, na direção do sul. O volume de caravanas de comércio do oeste diminuiu de forma alarmante, à medida que os mercadores esperavam para ver os resultados da iminente ofensiva hicsa. Todos os produtos estavam com estoques escassos e os preços dispararam.

— A única maneira de se evitar uma derrota aniquiladora nas mãos de Apepi será o senhor negociar uma trégua — Taita aconselhou o regente.

Taita estava prestes a acrescentar que em nenhuma circunstância a trégua seria uma rendição, que iriam meramente utilizar aquele adiamento para reforçar a sua posição militar, mas Naja não lhe permitiu a chance de alongar-se.

— Também acredito nisso, Mago — ele concordou, ansiosamente. — Muitas vezes tentei convencer meu querido companheiro, o Faraó Tamose, da sabedoria desse recurso. Mas ele nunca me deu ouvidos.

— Precisamos de tempo — Taita explicou, porém Naja fez um gesto para silenciá-lo.

— Claro que você está certo. — Naja estava animado com aquele apoio inesperado.

Ele tentou sem sucesso convencer os membros do conselho a concordar com a paz com os hicsos, mas nenhum deles, nem mesmo Cinka, o apoiara. Mesmo o leal Asmor havia arriscado sua fúria, jurando cair sobre sua própria espada antes de rendê-la a Apepi. Havia sido uma equilibradora revelação encontrar a honra florescendo num terreno tão improvável, e descobrir que mesmo como regente havia limites que ele não poderia ultrapassar no conselho.

A paz com os hicsos era a pedra angular da visão de Naja, uma visão dos dois reinos reunidos sob o governo de um único faraó. Somente um faraó que fosse parte egípcio e parte hicso poderia esperar atingir tal realização, e ele sabia, sem nenhuma dúvida, que era isso que os deuses lhe tinham prometido através dos Dédalos.

Ele prosseguiu com sinceridade:

— Eu deveria saber que você, Taita, é a única pessoa que não se deixaria cegar pelo preconceito. Todos os outros clamam ”Sem rendição”, e ”A morte em vez da desonra”. — Ele balançou a cabeça. — Você e eu podemos ver que o que não conseguirmos obter pela força das armas, talvez possamos conseguir por meios mais sutis. Depois de sessenta anos no vale do Nilo, os hicsos estão se tornando mais egípcios do que asiáticos. Foram seduzidos pelos nossos deuses, pela nossa filosofia e nossas mulheres. O seu sangue selvagem foi suavizado e adocicado pelo nosso. Seus modos selvagens foram temperados pelas nossas maneiras nobres.

A resposta do regente à sua sugestão foi tão esmagadora que Taita ficou surpreso. Havia muito mais ali do que ele suspeitava. A fim de ganhar tempo para pensar nisso, e acumular mais indícios das verdadeiras intenções de Naja, ele murmurou:

— Essas são palavras sábias. Como poderemos levar a cabo esta trégua, Senhor Regente?

Naja estava mais que disposto a explicar:

— Sei que existem muitos, entre os hicsos, que concordam com esses sentimentos. Não precisaria de muito para que eles se unissem a nós. Então poderemos trazer paz e união aos dois reinos.

Os véus começavam a se rasgar. Taita subitamente lembrou-se de uma suspeita que certa vez ele ouvira ser expressada, mas que rejeitara na ocasião.

— Quem são estes hicsos simpatizantes? — perguntou. — Estão em posições elevadas? Próximos a Apepi?

— São nobres, de fato. Um deles ocupa um lugar no conselho de guerra de Apepi. — Naja parecia prestes a falar mais sobre isso, mas calou-se com evidente esforço.

Era o bastante para Taita. O fraco rumor acerca das conexões hicsas no passado de Naja devia ter consistência, e se isso fosse verdade todo o restante se encaixava. Mais uma vez, ficou assombrado com a profundidade e extensão das ambições de Naja.

— Seria possível nos encontrarmos com esses nobres e falar com eles? — Taita perguntou, cauteloso.

— Sim — Naja confirmou. — Poderíamos alcançá-los em questão de dias.

Para Taita as implicações daquela simples declaração eram enormes. O regente do Egito tinha aliados secretos nas fileiras do inimigo tradicional. O que mais sobre ele estaria oculto? Até onde mais seus dedos avaros teriam atingido? Um arrepio percorreu a espinha de Taita, e os cabelos prateados em sua nuca se eriçaram.

Era esse o amigo querido que estava ao lado do faraó quando ele foi atacado. Ali estava a única testemunha da morte do faraó. Aquela criatura de ambições ilimitadas e propósitos cruéis admite ser um amigo íntimo e confidente de nobres hicsos, e fora uma flecha hicsa que matara o faraó. A que profundidade iria aquela trama?

Taita não permitiu que nada disso se refletisse em seu rosto, mas assentiu pensativo, e Naja prosseguiu rapidamente:

— Estou certo de que poderemos chegar a um acordo com os hicsos, e prevejo uma co-regência entre mim e Apepi, com um conselho de Estado comum. Então a sua influência poderia ser necessária para persuadir os nossos próprios conselheiros a ratificar a união. Talvez você possa consultar os Dédalos novamente e fazer com que os desejos dos deuses sejam conhecidos.

Naja estava sugerindo que ele fizesse uma invocação fraudulenta. Ele suspeitaria de que fora isso que acontecera em Busíris? Taita achava que não, mas devia anular aquela idéia imediatamente. Sua expressão ficou firme.

— Em qualquer questão relativa aos Dédalos, invocar o nome do deus Ammon Rã em vão, ou desvirtuar o seu oráculo, seria o mesmo que buscar uma terrível retribuição.

Naja apressou-se em se retratar:

— Não estou sugerindo tal irreverência, mas através dos Dédalos os deuses já me deram sua sanção.

Taita grunhiu.

— Primeiro devemos determinar se esse pacto é viável. Talvez Apepi acredite que sua posição militar seja inexpugnável e se recuse a nos encontrar. A despeito de quaisquer abordagens que façamos para a paz, ele pode decidir prosseguir com a guerra até o amargo fim.

— Não creio que isso vá acontecer. Eu lhe darei os nomes dos nossos aliados do outro lado. Você deverá procurá-los secretamente, Taita. Você é bem conhecido e respeitado mesmo entre os hicsos, e lhe darei um talismã que irá provar que foi enviado por mim. Você é o melhor emissário para a nossa causa. Eles irão ouvi-lo.

Taita ficou pensativo por algum tempo. Tentou calcular se poderia obter quaisquer vantagens futuras, para Nefer e as princesas, daquela situação, mas naquele estágio não conseguiu descobrir nenhuma. O que quer que acontecesse, Nefer ainda corria um perigo mortal.

Havia apenas um único curso certo aberto a Taita se fosse para assegurar a sobrevivência de Nefer, e este era tirá-lo do Egito enquanto Naja ainda estava no poder. Haveria uma oportunidade de fazer isso agora? Naja estava lhe oferecendo um salvo-conduto para a fronteira. Poderia ele usar isso para levar Nefer consigo? Em questão de segundos, concluiu que não poderia. Seus contatos com o menino faraó ainda estavam severamente restritos por Naja. Ele nunca tinha permissão de ficar a sós com o menino. Nem mesmo lhe era permitido sentar próximo a ele nas sessões do conselho, ou enviar-lhe sequer um recado inocente. A única vez, nas últimas semanas, que lhe fora permitido aproximar-se dele foi quando Nefer desenvolvera uma agonizante dor de garganta. Então Taita pudera entrar nos aposentos reais para cuidar dele, mas tanto Naja como Asmor tinham estado presentes, observando tudo o que transpirava, ouvindo cada palavra que era dita. Devido à sua aflição Nefer não fora capaz de falar além de um sussurro, mas seus olhos nunca deixaram o rosto de Taita, e ele agarrou-lhe a mão quando chegou o momento de se separarem. Isso acontecera mais de dez dias atrás.

Taita descobrira que Naja havia escolhido novos tutores para substituí-lo, e Asmor providenciara instrutores dos Guardas Azuis para continuar os exercícios de Nefer na equitação e manejo de bigas, na esgrima e no arco. Nenhum dos seus amigos podia visitá-lo. Até o seu companheiro Meren tinha recebido ordens de ficar longe dos aposentos do faraó.

Se ele fizesse uma tentativa de levar Nefer e falhasse, não apenas estaria sacrificando a confiança de Naja mas também colocaria o rapaz em terrível perigo. Não, ele poderia utilizar essa surtida através das linhas para o território hicso apenas para fazer planos mais cuidadosos para a segurança do jovem faraó.

— É meu dever, um dever que me foi concedido pelos deuses, ajudálo de todas as maneiras. Irei incumbir-me dessa missão — Taita falou.

Qual é o caminho mais seguro para que eu passe pelas linhas hicsas? O senhor diz que sou bem conhecido entre eles, e assim serei reconhecido. Naja havia previsto esse argumento.

— Você deverá usar a antiga rota de bigas através das dunas e descer pelo vádi em Gebel Wadun. Meus amigos do outro lado mantêm essa estrada sob vigilância.

Taita assentiu.

— Essa é a estrada ao longo da qual o Faraó Tamose encontrou a morte. Nunca viajei para além de Gallala. Precisarei de um guia para mostrarme o restante do caminho.

— Enviarei o meu próprio lanceiro e um esquadrão dos Azuis para escoltá-lo — Naja prometeu. — Mas a estrada é longa e difícil. Você precisa partir imediatamente. Cada dia, cada hora, pode fazer a diferença.

Taita havia conduzido a biga por todo o trajeto desde a cidade arruinada de Gallala com apenas quatro paradas. Tinham feito a viagem em meio dia a menos do que Naja e Tamose levaram para cobrir a mesma rota, e a um custo menor das condições dos animais.

Os tropeiros nos nove veículos que o seguiam estavam espantados com a reputação do Mago. Eles o conheciam como o pai da corporação da cavalaria, pois ele fora o primeiro egípcio a construir uma biga e a domar uma parelha para puxá-la. Sua celebrada viagem de Tebas a Elefantine a fim de levar a notícia da vitória do Faraó Tamose sobre os hicsos tinha o peso de uma lenda. Agora, enquanto seguiam sua biga através das dunas, descobriram que a lenda tinha fundamento. O vigor do velho era impressionante, e sua concentração jamais vacilava. As mãos firmes mas delicadas nas rédeas nunca se cansavam, à medida que, hora após hora, ele incitava os cavalos a dar o máximo. Ele impressionara todos os homens do esquadrão, e não menos aquele que cavalgava ao lado dele na biga.

Gil era o lanceiro de Naja. Tinha um rosto áspero, escurecido pelo sol, e o corpo leve, o que era desejo para um condutor de bigas, mas possuía também uma força férrea e excelente humor. Tinha de ser um dos melhores para ser selecionado a seguir na biga do comandante.

Com a lua crescendo e o clima em seu calor máximo, eles tinham seguido viagem através do frescor da noite. Agora, ao alvorecer, pararam para descansar. Depois de dar água aos cavalos, Gil foi para onde Taita estava sentado, de frente para o vádi de Gebel Wadun, e entregou-lhe um jarro de cerâmica com água. Taita bebeu um longo gole e engoliu a água amarga que tinham trazido consigo de Gallala, sem o menor sinal de repugnância. Era a primeira vez que bebia, desde a última parada à meia-noite.

O velho feiticeiro é duro como um viajante beduíno, Gil pensou com admiração, e postou-se a uma distância respeitosa para aguardar quaisquer ordens de Taita.

— Onde fica o lugar em que o faraó foi atacado? — Taita perguntou finalmente.

Gil protegeu os olhos contra o brilho do sol que despontava e indicou para baixo no vádi, na direção onde o leito seco do rio desembocava na planície.

— Ali embaixo, meu senhor. Perto daquela distante fileira de colinas.

A primeira vez em que Taita questionara Gil havia sido diante do conselho, quando o lanceiro dera evidências sobre as circunstâncias da morte do faraó. O conselho chamara todas as pessoas que pudessem saber de alguma coisa, a fim de testemunhar no inquérito. Taita lembrava-se de que o depoimento de Gil havia sido coerente e digno de crédito. Ele não se intimidara com a pompa do conselho e dos seus membros ilustres, mas falara como o soldado simples e honesto que era. Quando lhe foi mostrado, ele reconhecera a flecha hicsa como aquela que atingira o Faraó Tamose. A haste havia sido quebrada ao meio. O Senhor Naja a cortara para aliviar a dor do ferimento.

Essa fora a primeira vez que se encontraram. Tinham conversado brevemente uma ou duas vezes desde que saíram de Tebas, mas até agora não surgira oportunidade para uma conversa mais longa.

— Há mais alguém aqui que esteve com vocês naquele dia? — Taita perguntou.

— Apenas Samos, mas ele estava esperando com as bigas no vádi quando fomos atacados — Gil respondeu.

— Quero que você me indique o lugar exato, e quero que me leve até o campo de batalha — Taita falou.

Gil encolheu os ombros.

— Não houve batalha, apenas uma escaramuça. Haverá muito pouco o que ver. É um lugar árido. No entanto, será como o poderoso Mago comanda.

A tropa montou e desceu a encosta íngreme do vádi numa só fileira. Não chovera ali por cem anos, e nem mesmo o vento do deserto apagara as marcas das bigas do faraó, que ainda estavam fundas e fáceis de se distinguir. Quando chegaram à base do vádi Taita continuou seguindo-as, suas próprias rodas fincadas nos sulcos profundos que tinham sido deixados.

Estavam em alerta para uma emboscada dos hicsos, e olharam para os dois lados do vádi, mas embora uma rocha dançasse no calor da miragem, não havia sinal do inimigo.

— Lá está o ponto de vigia. — Gil apontou à frente, e Taita avistou a silhueta retorcida recostando embriagadamente contra o azul pálido do céu.

Viraram uma outra curva do leito do rio, e mesmo à distância de duzentos passos Taita pôde divisar a área de confusas marcas de rodas, onde as bigas do esquadrão do faraó haviam parado e circulado, e onde muitos homens tinham desmontado e tornado a montar sobre a areia macia do vádi. Taita fez um sinal à sua pequena escolta para que diminuísse a velocidade e seguiram adiante em marcha lenta.

— Aqui foi onde o faraó desmontou, e seguimos em frente com o Senhor Naja para espionar o acampamento de Apepi. — Gil indicou.

Taita parou a biga e sinalizou para que os outros fizessem o mesmo.

— Espere por mim aqui — ordenou ao sargento do veículo seguinte, depois virou-se para Gil. — Você vem comigo. Mostre-me o campo de batalha.

Gil guiou-o pela trilha íngreme. No início ia devagar, em respeito ao homem mais velho, mas logo percebeu que Taita o acompanhava passo a passo, e apressou-se mais. O declive aumentava, e a superfície tornava-se mais acidentada conforme avançavam. Até mesmo Gil respirava com dificuldade quando finalmente chegaram ao aglomerado de grandes rochas a meio caminho para a colina, que quase bloqueava a trilha.

— Eu só cheguei até aqui — Gil explicou.

— Então onde o faraó foi atacado? — Taita olhou em volta, para a encosta íngreme mas aberta. — Onde as tropas hicsas estavam escondidas? De onde foi lançada a flecha mortal?

— Não sei lhe dizer, meu senhor. — Gil balançou a cabeça. — Eu e o restante dos homens recebemos ordens de esperar aqui, enquanto o Senhor Naja seguiu em frente, para além daquelas pedras.

— Onde estava o faraó? Ele seguiu com Naja?

— Não. Não a princípio. O rei esperou aqui conosco. O Senhor Naja ouviu alguma coisa lá em cima, foi verificar e desapareceu das nossas vistas.

— Eu não entendo. Em que ponto vocês foram atacados?

— Nós esperamos aqui. Eu podia ver que o faraó estava ficando impaciente. Depois de um momento

Senhor Naja assoviou de trás das rochas. O faraó levantou-se. ”Vamos, rapazes!”, ele nos disse, e subiu pela trilha.

— Você estava bem atrás dele?

— Não, eu estava perto do final da fileira.

— E viu o que aconteceu em seguida?

— O faraó desapareceu por trás das pedras. Depois começou a gritar, e ouvimos o barulho de luta. Escutei vozes dos hicsos, e flechas e lanças atingindo as rochas. Corri para a frente, mas a trilha estava impedida pelos nossos homens, que tentavam contornar as pedras aqui para alcançar a luta.

Gil correu para a frente a fim de mostrar-lhe onde a trilha se estreitava e contornava a pedra mais alta.

— Aqui foi o máximo que consegui chegar. Então o Senhor Naja estava gritando que o faraó fora atingido. Os homens à minha frente acorreram e subitamente trouxeram o rei até onde eu estava. Creio que ele já estava morto, então.

— A que distância os hicsos estavam? Quantos homens havia? Eram de cavalaria ou infantaria? Você reconheceu os regimentos? — Taita inquiriu.

Todos os hicsos usavam insígnias distintivas, algo que as tropas egípcias sabiam muito bem.

— Eles estavam bem próximos — Gil respondeu. — E havia uma boa quantidade deles. Pelo menos um esquadrão.

— De que regimento? — Taita insistiu. — Você distinguiu suas plumas? Pela primeira vez Gil mostrou-se incerto, e um tanto envergonhado.

— Meu senhor, na verdade não coloquei os olhos no inimigo. O senhor entende, eles estavam atrás daquelas rochas ali.

— Então como sabe quantos eram, e qual era a força? — Taita franziu a testa.

— O Senhor Naja estava gritando... — Gil interrompeu-se e baixou os olhos.

— Algum dos outros, à exceção de Naja, avistou o inimigo?

— Não sei, honrado Mago. Entenda, o Senhor Naja ordenou que voltássemos pela trilha até as bigas. Podíamos ver que o rei estava mortalmente ferido, provavelmente morto. Perdemos toda a coragem.

— Você deve ter falado sobre isso mais tarde, com seus companheiros. Algum deles lhe disse que se confrontou com o inimigo? Que atingiu um dos hicsos com uma flecha ou uma lança?

” Gil balançou a cabeça, em dúvida.

— Não me lembro. Não, creio que não.

— Além do rei, alguém mais ficou ferido?

— Ninguém.

— Por que você não falou sobre isso ao conselho? Por que não lhes disse que não havia visto o inimigo? — Taita estava furioso, agora.

— O Senhor Naja nos instruiu a responder às perguntas brevemente, e a não desperdiçar o tempo do conselho com longos relatos sobre a nossa participação na luta. — Gil encolheu os ombros, envergonhado. — Suponho que nenhum de nós queria admitir que fugimos sem lutar.

— Não se sinta envergonhado, Gil. Você cumpriu as ordens — Taita falou, num tom mais gentil. — Agora, suba nestas pedras e mantenha os olhos abertos. Ainda estamos em território hicso. Não vou me demorar.

Taita seguiu adiante lentamente e contornou a pedra que bloqueava a trilha. Fez uma pausa e examinou o terreno à frente. Daquele ângulo podia apenas divisar o topo da torre de vigia arruinada. A trilha seguia para a direção dela, numa série de pequenos degraus. Depois desaparecia sobre o topo de uma encosta, que era relativamente aberta, com pouca cobertura para uma emboscada hicsa, apenas uns poucos aglomerados de rochas e troncos de árvores dispersos. Então ele se lembrou de que tudo acontecera à noite. Mas alguma coisa o perturbava. Taita foi invadido por uma vaga sensação de maldade, como se estivesse sendo observado por uma força poderosa e maligna.

Essa sensação ficou tão forte que ele permaneceu imóvel sob o sol e fechou os olhos. Abriu a mente e a alma, tornando-se uma esponja seca para absorver quaisquer influências da atmosfera que o cercava. Quase imediatamente a sensação ficou ainda mais forte: havia coisas terríveis ali, mas o foco do mal emanava de algum ponto não muito distante dele. Abriu os olhos e caminhou devagar na direção disso. Não havia nada a ser visto, exceto uma outra rocha e uma árvore retorcida, porém ele era capaz de sentir o cheiro do mal no ar quente, um odor fraco mas apodrecido de uma besta selvagem.

Ele parou e fungou, como um cão de caça, e imediatamente o cheiro do ar tornou-se poeirento e seco, mas limpo. Isso lhe provou que o fedor elusivo era algo além da lei natural. Ele estava captando o eco de um mal que havia sido perpetrado naquele lugar, mas, quando tentava distinguilo, desapareceu. Deu um passo à frente, depois outro, e mais uma vez o fedor nauseante o envolveu. Um outro passo, e agora o cheiro era acompanhado por uma sensação de grande tristeza, como se ele tivesse perdido algo de valor inestimável, algo que jamais poderia ser substituído.

Teve de obrigar-se a dar o passo seguinte na trilha rochosa, e naquele instante algo o atingiu com uma força capaz de tirar-lhe o ar dos pulmões. Ele gritou em agonia e caiu de joelhos, agarrando o peito, incapaz de respirar. Era uma dor extrema, a dor da morte, e ele lutou contra isso como se lutasse contra uma serpente o

o atacasse. Conseguiu atirar-se de volta para a trilha, e imediatamente a dor cessou.

Gil ouviu-o gritando e apareceu ofegando na trilha. Acudiu Taita e ajudou-o a levantar-se.

— O que foi? O que o aflige, meu senhor? Taita empurrou-o para longe.

— Vá! Deixe-me! Você corre perigo aqui. Isto não é coisa de homens, mas de deuses e demônios. Vá! Espere por mim no sopé da colina.

Gil hesitou, mas então viu a expressão naqueles olhos reluzentes e recuou como se visse um fantasma.

— Vá! — Taita gritou, numa voz que Gil jamais desejaria ouvir novamente, e ele correu.

Por um longo tempo depois disso Taita lutou para trazer a mente e o corpo de volta para seu próprio controle, para que o capacitasse a enfrentar as forças que se uniam contra ele. Alcançou a algibeira no cinturão e retirou o Talismã de Lostris. Prendeu-o na mão direita e deu um passo à frente outra vez.

Quando chegou ao ponto exato na trilha, a dor atingiu-o novamente com uma intensidade ainda mais selvagem, como uma flecha fincada através do peito, e ele mal conseguiu impedir-se de gritar enquanto recuava para trás, e novamente a dor cessava como acontecera antes.

Ofegando, baixou os olhos para o solo pedregoso. A princípio parecia sem marcas e em nada diferente de qualquer outro ponto da íngreme trilha que ele cruzara. Então uma sombra pequena e etérea apareceu na terra. Conforme ele olhava, ela se transformava, tornando-se uma reluzente poça vermelho-escura. Devagar, ele caiu de joelhos.

— O sangue do coração de um rei e um deus — sussurrou. — Aqui, neste exato lugar, morreu o Faraó Tamose.

Reunindo as forças, e com a voz firme e baixa, iniciou uma invocação a Horus, tão potente que apenas um adepto do sétimo grau se atreveria a verbalizar. Na sétima repetição ouviu o farfalhar de asas invisíveis, que agitaram o ar do deserto à sua volta.

— O deus está aqui — ele sussurrou, e começou a rezar.

Rezou pelo seu faraó e amigo, invocando Horus para que aliviasse seu sofrimento e cessasse sua tortura.

— Permita que ele escape deste lugar terrível — ele implorou ao deus. — Deve ter sido assassinato, para que sua alma continue presa aqui.

Enquanto rezava fazia os sinais para o exorcismo do mal. Diante dos seus olhos a poça de sangue começou a diminuir, como se estivesse sendo absorvida pela terra seca. Quando a última gota desapareceu, Taita ouviu um som fraco, disforme, como o choro de uma criança adormecida, e o peso terrível da perda e da dor desapareceu dos seus ombros. Quando levantou-se, foi tomado por uma grande sensação de alívio. Deu um passo na direção do ponto onde a poça de sangue estivera. Mesmo com os pés firmemente plantados ali, não sentiu nenhuma dor, e a sensação de bem-estar permaneceu intata.

— Vá em paz, meu amigo e meu rei, e que você possa viver por toda a eternidade — disse em voz alta, e fez o sinal para a vida longa e felicidade.

Taita virou-se, e teria começado a descer até onde as bigas esperavam se algo não o obrigasse a parar de repente. Levantou a cabeça e sentiu novamente o cheiro do ar. Ainda havia um leve odor do mal, apenas um traço muito fraco. Cautelosamente ele voltou a subir a encosta, passando pelo local onde o faraó morrera, e seguiu em frente. A cada passo que dava o fedor do mal ficava mais forte, até o ponto de provocar-lhe náuseas. Mais uma vez ele deu-se conta de que aquilo era algo além da ordem natural. Prosseguiu, até que depois de vinte passos medidos o mau cheiro começou a diminuir. Taita parou e voltou alguns passos. Imediatamente o cheiro ficou mais forte. Foi testando para a frente e para trás, até encontrar o centro. Então desviou-se para fora da trilha e descobriu-o ainda mais forte, quase sufocante.

Ele estava parado sob os galhos retorcidos de uma árvore espinheira, que crescia do lado da trilha. Olhou para cima e viu que os galhos tinham um formato estranho, como se tivessem sido dispostos por mãos humanas para adquirir a forma distinta de uma cruz que se destacava contra o azul do céu. Baixou os olhos, e uma rocha do tamanho e formato da cabeça de um cavalo chamou-lhe a atenção. Ela havia sido recentemente removida, depois recolocada em sua posição original. Taita levantou-a da depressão onde se encontrava e viu que a pedra cobria um nicho entre as raízes da árvore. Deixou a pedra de lado e espiou dentro do buraco. Havia alguma coisa ali, e ele estendeu a mão para verificar o que seria, com todo cuidado — era o tipo de abrigo que poderia ocultar uma serpente ou um escorpião.

Retirou um objeto magnificamente entalhado. Observou-o por um instante antes de perceber que era uma aljava de flechas. Não havia dúvidas quanto a sua origem, pois o desenho era em heráldico hicso, e a imagem gravada no revestimento de couro era de Seueth, o deus-crocodilo reverenciado pelos guerreiros hicsos.

Taita girou a tampa e descobriu que a aljava continha cinco flechas de guerra, pintadas de verde e vermelho. Não havia como enganar-se. Ele próprio examinara em detalhes a flecha quebrada e coberta de sangue que Naja levara diante do conselho. Elas eram idênticas à flecha que matara o faraó.

Estendeu-a para a luz e olhou atentamente para o sinete entalhado na haste pintada. Era a cabeça estilizada de um leopardo, segurando entre os dentes a letra T hierática. Aqjjíle era um detalhe que ele também vira na flecha fatal. Essa flecha era idêntica. Taita girou-a várias vezes entre as mãos, como se tentasse extrair dela um último grão de informação. Levou-a até o nariz e cheirou-a. Havia apenas o cheiro de madeira, tinta e penas. O odor desagradável que o guiara até lá desaparecera.

Por que o assassino do faraó esconderia sua aljava? Depois da batalha os hicsos tinham tomado posse do território. Teriam todo o tempo que quisessem para reaver suas armas. Aquele era um objeto bonito e valioso. Nenhum guerreiro o abandonaria, a não ser que fosse forçado a isso, Taita pensou.

Por mais de uma hora ele vasculhou a encosta da colina, mas não encontrou nenhum outro item que fosse de seu interesse, nem tornou a detectar o odor sobrenatural de putrefação e maldade. Quando desceu para onde as bigas esperavam, na areia do vádi, levava a aljava escondida sob a túnica.

Esperaram escondidos no vádi até depois do cair da noite. Então, com as rodas recém-untadas com gordura de carneiro para impedi-las de ranger, as patas dos cavalos cobertas com protetores de couro, e todas as armas soltas cuidadosamente abafadas, seguiram para o interior do território hicso, guiados por Gil.

O lanceiro conhecia bem a região, e embora Taita não fizesse nenhum comentário, imaginou com que freqüência o rapaz não teria feito aquele trajeto com seu mestre, e que outros encontros não teriam sido feitos com o inimigo.

Agora estavam percorrendo a planície aluvial do Nilo. Por duas vezes tiveram de sair da estrada e esperar, enquanto grupos de homens armados, anônimos da escuridão, passavam pelo seu esconderijo. Depois da meia-noite chegaram a um templo abandonado de algum deus esquecido, encravado na encosta de uma colina baixa de argila. A caverna era grande o bastante para abrigar o esquadrão inteiro, veículos, cavalos e homens. Ficou imediatamente evidente que já havia sido usado antes com esse propósito: lamparinas e ânforas de óleo estavam escondidas sob o altar em ruínas, e fardos de forragem para os cavalos estavam estocados no santuário.

Assim que removeram as rédeas dos cavalos e os alimentaram, os tropeiros comeram sua própria refeição e depois acomodaram-se nos colchões de palha seca, e em pouco tempo estavam roncando. Nesse meio tempo, Gil trocara seu uniforme de cavalaria por um indefinível traje de camponês.

— Não posso usar um cavalo — ele explicou a Taita. — Isso atrairia interesse demais. A pé levarei meio dia para alcançar o acampamento em Bubasti. Não me espere antes da noite de amanhã. — Esgueirou-se para fora da caverna e desapareceu na noite.

O honesto Gil não é apenas o soldado simplório que parece, Taita pensou enquanto se acomodava para esperar que os aliados do Senhor Naja respondessem à mensagem que Gil lhes estava levando.

Tão logo amanheceu ele postou uma sentinela no topo da colina, onde emergia o respiradouro do templo subterrâneo. Um pouco antes do meio-dia um assovio baixo através do respiradouro avisou-os do perigo, e Taita subiu para reunir-se à sentinela. Vindo do leste, uma caravana de burros pesadamente carregados encaminhava-se diretamente para a entrada do templo, e Taita calculou que esses eram os mercadores que usavam o templo como um caravançará improvisado. Era quase certo que tinham sido eles que deixaram os estoques de ferragem no santuário. Ele arrastou-se pela colina abaixo, mantendo-se fora das vistas da caravana que se aproximava. No meio da estrada, dispôs num padrão um punhado de pedras de quartzo branco, enquanto recitava três versos do Livro Assírio da Montanha do Mal. Depois, afastou-se para aguardar a chegada da Caravana.

O burro que liderava o grupo estava a cerca de cinqüenta cúbitos à frente do restante. Era evidente que o animal conhecia o templo e as delícias ali guardadas, pois não precisava do encorajamento do seu condutor para seguir num trote. Quando alcançou a pilha de pedras de quartzo no caminho, o pequeno animal recuou tão violentamente que a carga em seu lombo escorregou e foi parar sob a barriga. Ele começou a escoicear e galopar ao mesmo tempo, correndo através da planície e para longe do templo, as patas voando em todas as direções. Seus relinchos e zurros afetaram o restante dos animais na coluna, e logo todos eles estavam recuando e atirando a cabeça contra as rédeas, escoiceando seus condutores e correndo em círculos, como se atacados por um enxame de abelhas.

Os condutores da caravana passaram o resto da tarde recolhendo e reunindo os fugitivos, acalmando os animais aterrorizados, antes de conseguirem alinhar-se novamente na estrada, na direção do templo. Dessa vez a figura corpulenta e ricamente trajada do condutor principal marchava à frente, arrastando o burrico relutante atrás de si, com um longo arreio. Ele viu as pedras no meio da estrada e parou. A coluna atravancou-se atrás dele, e os outros condutores adiantaram-se. Seguiu-se uma improvisada conferência, com vozes elevadas e braços agitando-se. Suas vozes foram levadas até onde Taita estava, escondido entre as oliveiras na encosta da colina.

Finalmente o líder deixou os outros e adiantou-se sozinho. De início seus passos eram firmes e seguros, mas logo se tornaram mais lentos e tímidos, até que ele parou, hesitante, e a distância analisou o desenho das pedras de quartzo. Então ele cuspiu na direção das pedras e deu um pulo para trás, como se esperasse que elas retribuíssem o insulto. Finalmente fez o sinal contra mau-olhado, virou-se e correu de volta para seus companheiros, gritando e acenando para que recuassem. Os outros não precisavam de muita persuasão. Logo a caravana inteira recuava ao longo da mesma estrada por onde tinha vindo. Taita desceu a colina e espalhou as pedras, permitindo que a influência que elas continham se dispersasse e abrindo caminho para os outros visitantes que eram esperados.

Eles chegaram ao anoitecer, vinte homens armados cavalgando em velocidade, com Gil liderando-os num corcel emprestado. Passaram velozmente pelas pedras espalhadas e chegaram à entrada do templo, onde desmontaram com um tilintar de armas. O líder era um homem alto, de ombros largos, com sobrancelhas espessas e escuras e um nariz adunco e vermelho. O bigode grosso e negro caía até o peito, e fitas coloridas estavam amarradas em sua barba.

— Você é o Mago. Certo? — ele disse, com um forte sotaque.

Taita não achou oportuno deixá-los saber que falava o idioma dos hicsos como qualquer um deles, portanto respondeu modestamente em egípcio, sem afirmar nem negar os poderes mágicos.

— Meu nome é Taita, um servo do grande deus Horus. Rogo que as bênçãos dele recaiam sobre você. Vejo que é um homem de poder, mas não sei o seu nome.

— Meu nome é Trok, Chefe Supremo do Clã do Leopardo e comandante do norte do exército do Rei Apepi. Você tem uma oferenda para mim, Mago?

Taita abriu a mão direita e mostrou-lhe um fragmento quebrado de porcelana azul, a metade superior de uma minúscula estátua votiva do deus Seueth. Trok examinou-o brevemente, depois tirou um outro fragmento de porcelana da algibeira em seu cinturão e encaixou os dois pedaços. As bordas quebradas uniam-se perfeitamente, e ele grunhiu com satisfação.

— Venha comigo, Mago.

Trok saiu para a noite com passos largos, e Taita ao seu lado. Subiram a colina em silêncio, e acocoraram-se um de frente para o outro sob a luz das estrelas. Trok manteve a espada embainhada entre os joelhos, e a mão pousada em seu punho. Mais por hábito do que por desconfiança, Taita pensou, porém assim mesmo o líder guerreiro era um homem que inspirava respeito.

— Você me traz notícias do sul — Trok falou, numa afirmação e não uma pergunta.

— Meu senhor, já soube da morte do Faraó Tamose?

— Soubemos da morte do pretendente tebano de prisioneiros capturados quando tomamos a cidade de Abnub. — Trok teve o cuidado de não reconhecer, por palavra ou inferência, a autoridade do faraó egípcio. Para os hicsos, o único governante dos dois reinos era Apepi. — Também ouvimos dizer que agora uma criança é pretendente ao trono do Alto Egito.

— O Faraó Nefer Seti tem apenas catorze anos — Taita confirmou, igualmente cuidadoso ao insistir no título de faraó quando falou dele.

Ainda faltam alguns anos para atingir a maioridade. Até lá o Senhor Naja age como seu regente.

Trok inclinou-se para a frente com súbito interesse. Taita sorriu por dentro. O serviço de espionagem hicso era realmente fraco, se ainda não tinham ao menos aquela informação sobre as questões do Alto Reino. Então recordou-se da campanha que, um pouco antes da morte do rei, ele e o Faraó Tamose haviam empreendido contra os informantes e espiões hicsos, em Tebas. Tinham identificado e prendido mais de cinqüenta. Depois do interrogatório com tortura, executaram um a um. Taita sentiu uma presunçosa satisfação diante da confirmação de que haviam interrompido o fluxo de informações ao inimigo.

— Então você vem a nós com a autoridade do regente do sul. — Taita detectou um estranho ar de triunfo em Trok, quando ele perguntou: — Que mensagem você traz de Naja?

— O Senhor Naja deseja que eu entregue sua proposta diretamente a Apepi — Taita tergiversou. Não queria fornecer a Trok mais informações do que as estritamente necessárias.

Trok ressentiu-se imediatamente com isso.

— Naja é meu primo — disse, friamente. — Ele desejaria que eu ouvisse cada palavra que enviou.

Taita mantinha tal controle das emoções que não demonstrou surpresa, embora aquela fosse uma grave indiscrição da parte de Trok. Suas suspeitas sobre os antecedentes do regente foram confirmadas, mas sua voz estava contida quando respondeu:

— Sim, meu senhor, disso eu sei. No entanto, o que tenho para Apepi é de tal importância...

— Você me subestima, Mago. Tenho a total confiança do seu regente. — A voz de Trok estava áspera com a exasperação. — Sei muito bem que você veio oferecer uma trégua a Apepi, e para negociar uma paz duradoura com ele.

— Não posso lhe dizer mais nada, meu senhor. — Aquele Trok podia ser um guerreiro, mas não era um conspirador, Taita pensou, porém sua voz e expressão não se modificaram quando falou: — Só posso entregar minha mensagem ao rei hicso Apepi. — O senhor pode me levar até ele?

— Como quiser, Mago. Fique com a boca fechada, embora não haja nenhum propósito para isso. — Trok levantou-se, irritado. — O Rei Apepi está em Bubasti. Iremos para lá imediatamente.

Num silêncio afetado ambos retornaram ao templo subterrâneo, onde Taita chamou Gil e o sargento dos guarda-costas à sua presença.

— Vocês fizeram bem seu trabalho — disse-lhes —, mas agora devem voltar a Tebas tão secretamente quanto vieram para cá.

— O senhor não retornará conosco? — Gil perguntou ansiosamente. Era evidente que se sentia responsável pelo velho Mago.

— Não. — Taita balançou a cabeça. — Vou permanecer aqui. Quando fizer seu relato ao regente, diga-lhe que estou a caminho para encontrarme com Apepi.

Sob a luz fraca das lamparinas a óleo os cavalos foram arreados às bigas, e em pouco tempo estavam prontos para partir. Gil retirou o alforje de couro de Taita da biga e entregou-o a ele. Depois, saudou-o respeitosamente.

— Foi uma grande honra viajar em sua companhia, meu senhor. Quando eu era criança, meu pai me contou muitas histórias sobre as suas aventuras. Ele participou do seu regimento em Asyut. Era o capitão da ala esquerda.

— Qual era o nome dele?

— Lasro, meu senhor.

— Sim — Taita assentiu. — Lembro-me bem dele. Perdeu o olho esquerdo na batalha.

Gil fitou-o com espanto e admiração.

— Isso aconteceu há quarenta anos, e o senhor ainda se lembra!

— Trinta e sete — Taita corrigiu-o. — Vá em paz, jovem Gil. Invoquei seu horóscopo ontem à noite. Você terá uma vida longa e conseguirá muitos méritos.

O lanceiro tomou as rédeas e cavalgou para dentro da noite, emudecido pelo orgulho e satisfação.

Nesse meio tempo a tropa de Trok também já havia montado e estava pronta para partir. Deram a Taita o cavalo no qual Gil havia retornado ao templo. Taita atirou seu alforje no lombo do animal e seguiu atrás deles. Os hicsos não tinham os mesmos escrúpulos que os egípcios acerca de montar com as pernas abertas, e cavalgaram velozmente para fora da caverna, rumando para o oeste, na direção oposta àquela tomada pela coluna de bigas.

Taita seguiu no centro do grupo de hicsos fortemente armados. Trok os guiava, e não convidou Taita para cavalgar ao seu lado. Estivera distante e indiferente desde que Taita se recusara a lhe fornecer diretamente a mensagem de Naja. Taita estava satisfeito em ser ignorado, pois tinha muito em que pensar. Em especial sobre a revelação da confusa linhagem de Naja, que abria um grande número de fascinantes possibilidades.

Cavalgaram através da noite, seguindo para o oeste na direção do rio e da principal base inimiga em Bubasti. Embora ainda fosse noite, encontraram mais e mais tráfego na estrada. Havia longas fileiras de carroças e carretas, todas carregando pesadas cargas de suprimentos militares, movendo-se na mesma direção que eles. Retornando na direção de Avaris e Mênfis, havia uma quantidade semelhante de veículos vazios, que tinham descarregado suas cargas.

Quando se aproximavam do rio, Taita avistou as fogueiras das tropas hicsas acampadas em torno de Bubasti. Era um campo de luz tremeluzente que se estendia por muitos quilômetros em ambas as direções ao longo da margem do rio, uma imensa aglomeração de homens e animais, invisíveis na escuridão.

Não existia nada na terra semelhante ao cheiro de um exército acampado. Este ficava mais intenso à medida que se aproximavam, até tornar-se insuportável. Era uma mistura de muitos odores, o cheiro das fileiras de cavalaria, esterco e fumaça, de couro e grãos mofados. Acima de tudo havia o cheiro de homens sujos e seus ferimentos infeccionados, comida e cerveja fermentada, lixo a céu aberto e imundície, o fedor de amoníaco das latrinas, e o fedor ainda mais penetrante de cadáveres não enterrados.

Subjacente a toda essa sufocante mistura de odores, Taita captou um outro cheiro doentio. Julgou reconhecê-lo, mas foi somente quando um dos sofredores cambaleou bebedamente diante do seu cavalo, obrigando-o a puxar os arreios subitamente, que ele viu as manchas rosadas em seu rosto pálido, e teve certeza. Agora sabia por que Apepi falhara até então em aproveitar sua vitória em Abnub, por que não enviara suas bigas de combate para o sul, na direção de Tebas, onde o exército egípcio estava desguarnecido e à sua mercê. Taita incitou seu cavalo até a montaria de Trok e perguntou em voz baixa:

— Meu senhor, quando foi a primeira vez que a praga atingiu suas tropas?

Trok freou tão bruscamente que seu cavalo dançou e circulou sob ele.

— Quem lhe disse isso, Mago? — inquiriu. — Essa doença maldita é uma das suas feitiçarias? Foi você quem jogou essa pestilência sobre nós?

Ele trotou para a frente, sem esperar resposta. Taita seguiu a uma distância discreta, mas seus olhos estavam ocupados captando cada detalhe do que acontecia à sua volta.

Nessa hora a luminosidade estava aumentando, e um sol fraco e enevoado mal aparecia através do pesado manto de névoa e fumaça que cobria a terra e borrava o céu da aurora. Isso dava à paisagem um aspecto estranho, sobrenatural, como uma visão do mundo dos mortos. Homens e animais eram transformados em figuras escuras e demoníacas, e sob as patas dos cavalos a lama da recente inundação era escura e gelatinosa.

Eles passaram pela primeira das carroças de sepultamento, e os homens em volta de Taita usaram os mantos para cobrir a boca e o nariz contra o fedor e os humores malignos que pairavam nos cadáveres nus e intumescidos, amontoados numa alta pilha na traseira da carroça. Trok incitou seu cavalo para ultrapassá-la rapidamente, mas adiante deles havia muitos outros veículos igualmente carregados, quase bloqueando a estrada.

Mais à frente, passaram por um dos campos crematórios, onde mais carroças estavam descarregando o mórbido fardo. A lenha era um produto escasso naquela região, e as chamas não eram suficientemente fortes para consumir a grande quantidade de cadáveres. Elas crepitavam e tremeluziam quando a gordura exsudava da carne apodrecida, e lançavam nuvens de fumaça negra e oleosa que sufocavam a garganta dos vivos que a respiravam.

Quantos entre aqueles mortos seriam vítimas da praga?, Taita perguntou-se. E quantos morreram nas lutas com o nosso exército?

A praga era como um espectro sinistro que marchava passo a passo com qualquer exército. Apepi estivera ali em Bubasti por muitos anos, em acampamentos enxameados de ratos, abutres e aves marabu comedoras de carniça. Seus homens amontoavam-se com a própria imundície, os corpos infestados de moscas e piolhos, comendo alimentos podres e bebendo a água dos canais de irrigação, nos quais o efluente das sepulturas e pilhas de esterco eram drenados. Essas eram as condições nas quais a praga florescia.

Mais perto de Bubasti os acampamentos tornavam-se mais numerosos, tendas, cabanas e choupanas aglomeradas bem próximas às muralhas e valas que cercavam a cidade fortificada. Os mais afortunados, entre as vítimas da praga, dormiam sob frágeis tetos de folhas de palmeira, uma proteção insuficiente contra a forte luz do sol. Outros jaziam na lama esmagada dos campos, abandonados à sede e aos elementos. Os mortos misturavam-se aos moribundos, aqueles feridos em batalha deitados lado a lado com os atacados pela disenteria.

Embora os seus instintos fossem os de um curandeiro, Taita nada poderia fazer para socorrê-los. Estavam condenados pelo próprio grande número, pois o que poderia um só homem fazer para socorrer a tantos? Além do mais, eram os inimigos do Egito, e estava claro para ele que a pestilência era um castigo dos deuses. Se ele curasse um único hicso, poderia significar que esse seria mais um para marchar em Tebas e transformar sua amada cidade em chamas e rapinagem.

Entraram na fortificação e descobriram que as condições não eram muito melhores por trás das muralhas. As vítimas da praga jaziam onde tinham sido abatidas pela doença, e ratos e cães párias devoravam seus cadáveres e mesmo aqueles que ainda estavam vivos porém abatidos demais para se defender.

O quartel-general de Apepi era o prédio principal em Bubasti, um palácio maciço e escarrapachado de tijolos e colmo no centro da cidade. Os criados pegaram os cavalos nos portões, mas um deles carregou o alforje de Taita. O Senhor Trok guiou Taita através dos pátios e corredores escurecidos, onde incenso e sândalo queimavam em braseiros de bronze a fim de abafar o fedor da praga que flutuava no ar que vinha da cidade e dos acampamentos nos arredores, mas cujas chamas tornavam o ar aquecido quase insuportável. Mesmo ali, nos quartéis-generais, os gemidos das vítimas da praga ressoavam lugubremente através dos cômodos, e figuras encolhidas jaziam nos cantos escuros.

As sentinelas os detiveram diante da porta de bronze nos mais profundos recessos do prédio, mas assim que reconheceram a silhueta corpulenta de Trok afastaram-se e deram-lhes passagem. Nessa área ficavam os aposentos particulares de Apepi. Nas paredes pendiam magníficos tapetes, e a mobília era de madeira preciosa, mármore e madrepérola, muitas delas pilhadas dos palácios e templos do Egito.

Trok levou Taita para dentro de uma antecâmara pequena mas luxuosamente mobiliada e deixou-o ali. Escravas trouxeram-lhe uma jarra de refresco de frutas e um prato de tâmaras e romãs maduras. Taita bebericou o suco, mas comeu apenas um pouco da fruta. Ele era sempre abstêmio.

Foi uma longa espera. Um raio de sol que passava através da única janela alta moveu-se sonolentamente ao longo da parede oposta, medindo a passagem do tempo. Deitando-se num dos tapetes, ele usou seu alforje como travesseiro, cochilando, sem nunca cair no sono profundo, e despertando imediatamente a qualquer ruído. A intervalos, ouvia o som distante de mulheres que choravam e o penetrante lamento de dor em algum lugar atrás das paredes maciças.

Finalmente escutou o bater de passos pesados na passagem lá fora, e as cortinas que cobriam a entrada foram abertas. Uma figura troncuda postou-se na soleira. Ele usava apenas um saiote de linho vermelho, preso à imensa barriga por uma corrente de ouro. O peito era coberto com pêlos crespos e grisalhos, espessos como os de um urso. Havia pesadas sandálias em seus pés, e grevas de couro duro e polido cobriam suas tíbias. Mas não carregava nenhuma espada ou outra arma. Os braços e pernas pareciam tão sólidos quanto os pilares de um templo e estavam cobertos de cicatrizes de batalha, algumas esbranquiçadas e sedosas, muitas curadas; outras, mais recentes, eram roxas e de aparência furiosa. A barba e o denso matagal de cabelos também eram grisalhos, mas lhes faltavam as habituais fitas ou trancas. Não tinham sido tratados com óleo nem penteados, e estavam descuidadamente desalinhados. Os olhos escuros eram selvagens e distraídos, e os lábios grossos sob o nariz adunco estavam contorci-dos como se em dor.

— Você é Taita, o médico — ele disse.

Sua voz era poderosa, mas sem nenhum sotaque, pois havia nascido em Avaris e adotara muito da cultura e modo de vida egípcios.

Taita conhecia-o bem: para ele Apepi era o invasor, o bárbaro sangrento, o inimigo mortal do seu país e do seu faraó. Foi necessário o exercício do seu autocontrole para manter a expressão neutra e a voz calma, quando respondeu:

— Eu sou Taita.

— Ouvi falar das suas habilidades — disse Apepi. — Preciso delas agora. Venha comigo.

Taita pendurou o alforje no ombro e seguiu-o para fora da antecâmara. O Senhor Trok esperava ali com uma escolta de homens armados. Estes rodearam Taita enquanto ele seguia o rei hicso para os recônditos do palácio. À frente o som de choro tornou-se mais alto, até que Apepi abriu as pesadas cortinas que escondiam uma outra passagem e pegou o braço de Taita para empurrá-lo para dentro.

Dominando o cômodo apinhado havia um grande contingente de sacerdotes do templo de ísis em Avaris. Os lábios de Taita contorceram-se ao reconhecê-los pelos enfeites de cabeça feitos com penas de garça. Estavam entoando cânticos e sacudindo sistros sobre o braseiro num canto, no qual as pinças cauterizadoras ardiam em brasa. A rixa profissional de Taita com aqueles charlatães remontava a duas gerações.

Além dos curandeiros, vinte outras pessoas juntavam-se em volta do leito do doente no centro do cômodo, cortesãos e oficiais armados, escribas e outros oficiais, todos parecendo solenes e funéreos. A maioria das mulheres ajoelhava-se no chão, gemendo e lamentando. Apenas uma fazia alguma tentativa de cuidar do menino que jazia na cama. Ela não parecia muito mais velha do que o seu paciente, provavelmente uns treze ou catorze anos, e molhava-lhe o corpo com uma esponja com água aquecida e perfumada, tirada de uma vasilha de cobre.

Com um único olhar Taita viu que era uma jovem muito bonita, com um rosto determinado e inteligente. Sua preocupação com o doente era evidente, sua expressão amorosa e as mãos rápidas e competentes.

Taita voltou a atenção para o menino. O corpo nu também era bem formado, embora devastado pela doença. Sua pele estava marcada com o estigma característico da praga, e coberto de transpiração. Em seu peito havia as feridas abertas e inflamadas, nos lugares onde tinha sido sangrado e cauterizado pelos sacerdotes de ísis. Taita viu que ele já se encontrava nos estágios finais da doença. Os cabelos grossos e escuros estavam ensopados de suor, caindo sobre os olhos que desapareciam sob as cavidades arroxeadas, abertos e brilhantes de febre, mas sem nada ver.

— Este é Khyan, meu filho mais novo — Apepi falou, e foi para o lado da cama, olhando para o menino com uma expressão desalentada. — A praga o levará, a não ser que você o salve, Mago.

Khyan gemeu e virou para o lado, dobrando os joelhos com agonia até o peito lacerado. Com um ruído explosivo uma mistura de fezes líquidas e sangue jorrou entre as nádegas enrugadas, espalhando-se no lençol ensopado. A menina que cuidava dele imediatamente limpou seu traseiro com um pano, depois enxugou a sujeira nos lençóis sem nenhuma demonstração de repugnância. No canto os curandeiros renovaram seus cânticos, e o sumo sacerdote pegou um par de pinças ardentes do braseiro e aproximou-se da cama.

Taita deu um passo à frente, barrando o caminho do homem com o seu cajado.

— Saia! — ele disse calmamente. — Você e seus açougueiros já fizeram estragos suficientes aqui.

— Preciso queimar a febre do corpo dele — o homem protestou.

— Saia! — Taita repetiu com severidade e depois, para os outros que se aglomeravam no quarto: — Saiam, todos vocês!

— Eu o conheço bem, Taita. Você é um blasfemador, e íntimo dos demônios e espíritos malignos! — O sacerdote manteve-se inflexível, brandindo o instrumento de bronze ardente ameaçadoramente. — Eu não temo a sua magia. Você não tem autoridade alguma aqui. O príncipe está aos meus cuidados.

Taita deu um passo para trás e jogou o cajado aos pés do sacerdote, que deu um grito e recuou quando a vara de madeira começou a contorcer-se e sibilar e serpentear na direção dele sobre o piso de lajotas. Subitamente a serpente ergueu-se, a língua bifurcada disparando entre os lábios, e os olhos negros reluzindo.

No mesmo instante houve uma correria para a porta. Cortesãos e sacerdotes, soldados e servos entraram em pânico, agarrando-se e empurrando-se para abrir caminho, tentando ser os primeiros a sair dali. Em sua pressa de escapar, o sumo sacerdote tropeçou no braseiro, depois gritou enquanto pulava descalço sobre o carvão espalhado.

Em segundos o aposento estava deserto, exceto por Apepi, que não se movera, e a menina ao lado do leito. Taita abaixou-se e pegou a serpente pela cauda. Imediatamente esta ficou rígida, reta e de madeira. Ele apontou o cajado restaurado na direção da garota.

— Quem é você? — perguntou.

— Eu sou Mintaka. Este é o meu irmão. — Ela pousou a mão protetoramente nos cabelos úmidos do menino, e ergueu o queixo com um ar de desafio. — Faça o que quiser, Mago, mas eu não irei deixá-lo. — Seus lábios tremiam, e os olhos escuros arregalavam-se de terror. Era evidente que estava apavorada com a reputação dele e com o cajado-serpente que Taita lhe apontava. — Não tenho medo do senhor — ela disse, depois moveu-se em torno da cama até que esta estivesse entre eles.

— Ótimo — Taita falou, ríspido. — Dessa forma você terá mais utilidade para mim. Quando foi a última vez que o menino bebeu?

Ela levou um instante para se recompor.

— Não bebeu nada desde esta manhã.

— Será que aqueles charlatães não perceberam que ele está morrendo de sede, tanto quanto da doença? Ele transpirou e evacuou a maior parte da água do corpo. — Taita grunhiu e pegou o jarro de cobre da mesinha ao lado da cama, cheirando seu conteúdo. — Isso aqui está poluído com o veneno dos sacerdotes e com os humores da praga. — Atirou o jarro contra a parede. — Vá até as cozinhas e encontre outro jarro. Certifique-se de que esteja limpo. Encha-o com a água do poço, e não do rio. Corra, menina!

Ela saiu correndo, e Taita abriu o alforje. Mintaka retornou quase imediatamente com um jarro cheio de água limpa. Taita preparou uma poção e aqueceu-a no braseiro.

— Ajude-me a dar isso a ele — ele ordenou à menina quando a poção ferveu.

Mostrou-lhe como posicionar a cabeça do irmão e a massagear-lhe a garganta enquanto ele pingava o líquido em sua boca. Em pouco tempo Khyan engolia com facilidade.

— O que posso fazer para ajudar? — o rei perguntou.

— Meu senhor, não há nada que possa fazer aqui. O senhor é melhor em destruir do que em curar.

Taita dispensou-o sem tirar os olhos do paciente. Houve um longo silêncio, depois o ruído dos passos pesados de Apepi, que se retirava do aposento.

Logo Mintaka perdeu o medo do Mago, e provou ser uma assistente rápida e disposta. Parecia capaz de antecipar os desejos de Taita. Forçou o irmão a beber enquanto Taita fervia outra poção no braseiro. Juntos, conseguiram que o menino bebesse sem perder uma gota. Ela ajudou-o a espalhar um ungüento calmante nas feridas que lhe cobriam o peito. Depois enrolaram Khyan em lençóis de linho e ensoparam-no com água do poço, a fim de esfriar-lhe o corpo ardente.

Quando ela foi sentar-se ao seu lado para descansar um pouco, Taita tomou-lhe a mão e virou a palma para cima. Examinou as bolhas avermelhadas na parte interna do pulso, mas Mintaka tentou puxar a mão.

— Não são manchas da praga. — Ela ruborizou, envergonhada. — São picadas de pulga. Este lugar está infestado de pulgas.

— Onde as pulgas picam, a praga aparece — Taita falou. — Tire as vestes.

Ela levantou-se e, sem hesitar, deixou a roupa cair até os tornozelos. O corpo nu, embora esguio e núbil, era também forte e atlético. Os seios estavam apenas despontando, os mamilos pontiagudos como frutinhos começando a amadurecer. Um triângulo de pêlos macios aninhava-se entre as longas pernas.

Uma pulga pulou em seu ventre pálido. Rapidamente Taita pegou-a no ar e esmagou-a entre as unhas. O inseto deixara uma trilha de pontinhos rosados em volta do umbigo da menina.

— Vire-se — ele ordenou, e ela obedeceu.

Mais um dos repugnantes insetos percorria-lhe as costas, na direção das nádegas firmes. Taita apanhou-o entre os dedos e amassou a reluzente carapaça negra. Esta estourou num espoucar de sangue.

— Você será a próxima paciente se não se livrar destes seus bichinhos de estimação — ele disse, e mandou-a buscar uma vasilha de água nas cozinhas.

No braseiro ele ferveu as flores púrpura do piretro e lavou-a da cabeça aos pés com a poção. Apanhou mais quatro ou cinco pulgas que tentaram escapar do banho pungente saltando para fora da pele da menina.

Mais tarde Mintaka sentou ao lado dele enquanto seu corpo nu secava, e ficou conversando distraidamente enquanto ambos examinavam suas roupas, removendo as últimas pulgas e seus ovos das dobras e costuras. Estavam tornando-se amigos rapidamente.

Antes do cair da noite Khyan evacuou outra vez, mas esparsamente, e sem sangue. Taita cheirou as fezes, e o fedor dos humores da praga estava mais fraco. Administrou uma destilação mais forte das ervas, e juntos eles forçaram Khyan a beber mais uma jarra inteira da água do poço. Na manhã seguinte a febre cessara e Khyan repousava com mais conforto. Ele finalmente urinou, algo que Taita declarou ser benéfico, embora a urina fosse de um amarelo-escuro e acre. Uma hora depois ele tornou a urinar, um líquido mais claro e não tão malcheiroso.

— Veja, meu senhor — Mintaka exclamou, acariciando as faces do irmão. — As manchas vermelhas estão desaparecendo, e a pele está mais fresca.

— Você tem o toque curativo de uma ninfa do paraíso — Taita lhe falou. — Mas não se esqueça da água do jarro. Está vazio.

Ela correu na direção das cozinhas, e voltou quase imediatamente com um jarro cheio. Enquanto dava água ao irmão, começou a entoar uma canção de ninar hicsa, e Taita ficou encantado com a doçura e nitidez da sua voz:

"Escute o vento na relva, meu querido, Durma, durma, durma. Escute o barulho do rio, meu menino, Sonhe, sonhe, sonhe...".

Taita observou-lhe o rosto. Da maneira hicsa, era um tantinho largo demais, e as faces proeminentes. A boca era grande, os lábios cheios, o nariz largo. Nenhum desses traços era perfeito em si mesmo, mas cada um se equilibrava e combinava com os outros, e o pescoço era longo e gracioso. Os olhos amendoados eram realmente magníficos sob as sobrancelhas arqueadas. A expressão era alerta e inteligente. Era um tipo diferente de beleza, pensou, mas, assim mesmo, beleza.

— Olhe! — Ela interrompeu a canção e riu. — Ele está acordado! Os olhos de Khyan estavam abertos e voltados para ela.

— Você voltou para nós, seu pestinha terrível. — Quando ela ria, os dentes eram perfeitos e muito brancos sob a luz da lamparina. — Estávamos tão preocupados. Não faça mais isso, nunca mais. — Ela abraçou-o para esconder as lágrimas de alegria e alívio que cintilavam em seus olhos.

Taita olhou além do par na cama e viu a figura corpulenta de Apepi na soleira. Taita não sabia por quanto tempo ele estivera ali, mas o rei assentiu para ele sem sorrir, depois virou-se e desapareceu.

Naquela noite Khyan conseguiu sentar-se com um pouco de ajuda da irmã e beber a sopa que ela lhe levou aos lábios. Dois dias depois as manchas desapareceram de todo.

Três ou quatro vezes por dia Apepi visitava o filho. Khyan ainda estava fraco para se levantar, mas assim que o pai aparecia ele tocava o coração e os lábios em sinal de respeito.

No quinto dia ele vacilou para fora do leito e tentou prostrar-se diante do rei, mas Apepi o deteve e levou-o de volta para os travesseiros. Embora seus sentimentos pelo menino fossem muito evidentes, Apepi tinha pouco a dizer e saiu quase imediatamente, mas na porta ele virou-se para Taita e ordenou-lhe que o seguisse, com uma breve inclinação da cabeça.

 

Apepi e Taita estavam sozinhos no topo da mais alta torre do palácio. Haviam subido duzentos degraus para atingir aquela altura, e dali tinham a vista do rio que passava pela cidadela capturada de Abnub, que ficava a vinte quilômetros rio acima. Tebas estava a menos de duzentos quilômetros além dela.

Apepi dera ordens às sentinelas para descerem e deixarem-nos a sós naquele local elevado, de forma que não seriam espionados nem ouvidos. Ele postou-se olhando para o grande rio cinzento na direção do sul. Usava o traje completo de guerra, as grevas de couro e o peitoral da armadura, o cinturão da espada adornado com rosetas de ouro, e sua barba trançava-se com fitas vermelhas, combinando com a túnica cerimonial. Incongruentemente, usava a uraeus de ouro, a coroa de abutre e cobra, sobre os densos cabelos grisalhos. Taita enfureceu-se ao ver que aquele invasor e espoliador considerava-se o faraó de todo o Egito e usava a insígnia sagrada, mas sua expressão manteve-se serena. Em vez de demonstrar seu desagrado, concentrou a mente para captar os pensamentos de Apepi. Esses eram uma teia intrincada, tão profundos e tortuosos que Taita não conseguiu discerni-los claramente, mas podia pressentir a força interior que fazia de Apepi um adversário tão medonho.

— Ao menos uma coisa que dizem a seu respeito é verdade, Mago —

Apepi rompeu o longo silêncio. — Você é um médico de grande perícia.

Taita permaneceu calado. — Você pode fazer um encantamento para curar a praga dos meus exércitos, como fez com meu filho? — Apepi perguntou. — Eu lhe pagaria um laque de ouro. Tanto ouro quanto dez cavalos fortes consigam carregar. Taita sorriu levemente.

— Meu senhor, se eu pudesse fazer tal encantamento poderia muito bem conjurar uma centena de laques do nada, sem o esforço de curar os seus rufiões.

Apepi virou a cabeça e retribuiu o sorriso, mas este estava desprovido de qualquer humor ou boa vontade.

— Quantos anos você tem, Mago? Trok diz que tem mais de duzentos anos. É verdade?

Taita não deu mostras de tê-lo ouvido, e Apepi continuou:

— Qual é o seu preço, Mago? Se não é o ouro, o que posso lhe oferecer? A pergunta era retórica, e ele não esperava resposta, mas afastou-se do parapeito da torre e postou-se com as mãos nos quadris. Baixou os olhos para os acampamentos do seu exército e os campos crematórios mais adiante. As fogueiras ainda queimavam, e a fumaça baixa espalhava-se através das águas verdes do rio e para o deserto mais à frente.

— O senhor conquistou uma vitória, meu senhor — Taita falou com suavidade —, mas faz bem em contemplar as piras dos seus mortos. O faraó terá reforçado e reagrupado suas forças antes que a praga seja extinguida e seus homens estejam prontos para lutar novamente.

Apepi balançou a cabeça com desagrado, como um leão sacudindo as moscas da juba.

— Sua persistência me aborrece, Mago.

— Não, meu senhor, não sou eu, mas sim a verdade e a lógica que o aborrecem.

— Nefer Seti é uma criança. Eu o derrotei uma vez, e farei isso de novo.

— Mas o que é mais crucial ao senhor é que não há praga nos exércitos dele. Os seus espiões devem lhe ter dito que o faraó possui cinco outras legiões em Aswan e mais duas em Asyut. Elas já estão no rio, seguindo para o norte com a correnteza. Estarão aqui antes da lua nova.

Apepi resmungou baixinho, mas não retrucou. Taita prosseguiu, implacável:

— Sessenta anos de guerra exauriram os dois reinos até a última gota. O senhor passaria o legado de Salitis, seu próprio pai, sessenta anos de derramamento de sangue? É isso que seus filhos irão herdar do senhor?

Apepi rodeou-o, franzindo o cenho.

— Não me pressione tanto, Mago. Não insulte meu pai, o divino deus Salitis. — Após um intervalo suficiente para expressar sua desaprovação, Apepi tornou a falar: — De quanto tempo você precisaria para arranjar uma negociação com esse pretenso regente do Reino Alto, esse Naja?

— Se o senhor me der o salvo-conduto através das suas linhas e uma galé rápida para me transportar, posso estar em Tebas em três dias. O retorno com a correnteza será ainda mais rápido.

— Enviarei Trok com você, para sua segurança. Diga a Naja que me encontrarei com ele no templo de Hathor na margem oeste em Perra, além de Abnub. Você conhece o lugar?

— Conheço bem, meu senhor.

— Lá poderemos conversar — Apepi falou. — Mas diga-lhe para não esperar demasiadas concessões de minha parte. Eu sou o vitorioso, ele o derrotado. Pode ir, agora.

Taita manteve-se imóvel.

— Pode ir, Mago — Apepi dispensou-o pela segunda vez.

— O Faraó Nefer Seti tem quase a mesma idade que a sua filha Mintaka — Taita falou, teimosamente. — Talvez o senhor queira levá-la consigo para Perra.

— Com que propósito? — Apepi encarou-o desconfiado.

— Uma aliança entre a sua dinastia e a dos faraós Tamosianos poderia selar a paz entre os dois reinos.

Apepi esfregou as fitas em sua barba para esconder o sorriso.

— Por Seueth, você trama com a mesma astúcia com que mistura uma poção, Mago. Agora, saia daqui antes que a minha paciência se esgote.

O templo de Hathor havia sido escavado numa encosta rochosa acima do rio durante o reinado do Faraó Sehertawy, centenas de anos antes, mas recebera acréscimos de todos os faraós desde então. As sacerdotisas formavam uma irmandade rica e influente, que de alguma forma tinha conseguido sobreviver às longas guerras civis entre os reinos, e até prosperar nos tempos difíceis.

Vestidas com suas túnicas amarelas elas estavam reunidas no pátio do templo entre as duas maciças estátuas da deusa. Uma destas retratava Hathor como a vaca malhada com chifres de ouro, e a outra era a sua manifestação humana, a mulher alta e bela que usava a coroa de chifres e o disco dourado do sol na cabeça.

As sacerdotisas entoavam um cântico e chocalhavam os sistros enquanto o séquito do Faraó Nefer Seti enchia o pátio na ala oeste e os cortesãos do Rei Apepi entravam através das colunatas da ala leste. A ordem de chegada na conferência havia sido uma questão de debates tão acalorados que as negociações quase foram interrompidas antes mesmo de começarem. O primeiro a chegar teria o prestígio do beneficiado na posição de poder, enquanto o segundo pareceria como o suplicante, implorando por paz. Nenhum dos dois lados estava disposto a ceder a vantagem.

Foi Taita quem sugeriu o expediente da chegada simultânea. Com muito tato, ele também estabelecera a vexatória questão acerca das insígnias a ser usadas pelos dois protagonistas. Ambos se absteriam de usar a coroa dupla. Apepi usaria a coroa deshret vermelha do Baixo Egito, enquanto Nefer Seti se limitaria a usar a coroa hedjet branca do Alto Egito.

As comitivas dos dois governantes lotaram o espaçoso pátio, as fileiras encaravam-se umas às outras sombrias e sérias. Somente alguns passos os separavam fisicamente, mas a amargura e o ódio de sessenta anos de discórdias formavam uma poderosa barreira entre eles.

O silêncio hostil foi quebrado por uma agitada fanfarra de chifres de carneiro e pelo trovoar dos gongos de bronze. Esse era o sinal para que os grupos reais emergissem das alas opostas do templo.

O Senhor Naja e o Faraó Nefer Seti caminharam solenemente e tomaram seus lugares nos tronos de encosto alto, enquanto as duas princesas, Heseret e Merykara, depois de os seguir timidamente, sentaram-se aos pés do trono de Naja, pois eram suas noivas. As duas jovens estavam tão maquiadas que seus rostos tinham tanta expressão quanto a da estátua de Hathor, sob cuja sombra se sentavam.

Ao mesmo tempo a família real hicsa emergiu da ala oposta do templo. Apepi os liderava, uma figura guerreira e impressionante em sua armadura completa de guerra. Ele olhou para o outro lado do pátio, para o faraó menino. Oito dos seus filhos o seguiam; apenas Khyan, o mais novo, não se recuperara da praga o suficiente para empreender a jornada rio acima. Como o pai, estavam todos com armas e armaduras, caminhando e postando-se com o mesmo ar de bravata.

Uma formidável seleção de rufiões sedentos de sangue, Taita pensou enquanto os examinava de onde estava, próximo ao trono de Nefer.

Apepi levara consigo apenas uma das suas muitas filhas. Como uma rosa do deserto em meio a um bosque de cactos espinhosos, o contraste com seus irmãos fazia com que a beleza de Mintaka se destacasse. Ela avistou a figura alta e os cabelos prateados de Taita na multidão no lado oposto, e seu rosto iluminou-se com um sorriso tão radioso que, por um momento, pareceu que o sol penetrara através dos toldos estendidos sobre o pátio. Nenhum dos egípcios jamais colocara os olhos sobre ela, e houve um discreto murmúrio e agitação através das fileiras. Não estavam preparados para aquela visão. O mito conhecido dizia que todas as mulheres hicsas eram tão corpulentas quanto os homens, e duas vezes mais feias.

O Faraó Nefer Seti inclinou-se um pouco para a frente e, apesar da solenidade da ocasião, esfregou o lóbulo da orelha sob a coroa branca. Esse era um hábito que Taita havia tentado quebrar, e Nefer fazia o gesto apenas quando estava intensamente interessado em alguma coisa ou quando estava distraído. Taita não vira Nefer por mais de dois meses — Naja os mantivera separados desde o seu retorno do quartel-general de Apepi em Bubasti —, porém conhecia tão bem o menino, era tão sintonizado com sua mente, que ainda podia ler seus pensamentos facilmente. Pressentiu que Nefer se encontrava numa efervescência de entusiasmo e vibração, tão intensa como se tivesse acabado de avistar uma gazela movendo-se ao alcance da flecha, ou estivesse prestes a montar um potro bravio, ou tivesse lançado uma águia contra uma garça e a observasse dar início ao bote.

Taita nunca o sentira reagir daquela maneira diante da presença de um membro do sexo oposto. Nefer sempre encarara as mulheres, incluindo as irmãs, com um desdém majestoso. No entanto, menos de um ano se passara desde que ele fora lançado às águas turbulentas da puberdade, e na maior parte desse tempo estivera isolado com Taita nos desertos de Gebel Nagara, onde nada houvera para lhe captar a atenção da maneira como Mintaka estava fazendo agora.

Taita sentiu-se orgulhoso do que havia conquistado com tão pouco esforço. Teria complicado todos os seus planos e aumentado o perigo em que se encontravam se Nefer tivesse demonstrado uma antipatia violenta pela menina hicsa. Se os dois se casassem, Nefer seria o genro de Apepi e ficaria sob sua proteção. Até mesmo Naja teria de pensar duas vezes antes de causar danos a alguém tão poderoso e perigoso. Mintaka poderia, involuntariamente, salvar Nefer das maquinações e ambições do regente. Pelo menos essa era a intenção de Taita ao promover a união.

Durante o curto espaço de tempo em que haviam cuidado de Khyan, Taita e Mintaka tinham desenvolvido uma forte amizade. Agora Taita as-sentiu quase imperceptivelmente, e retribuiu o sorriso dela. Então o olhar de Mintaka moveu-se para além dele. Olhou com interesse para as nobres egípcias no lado oposto. Ouvira falar sobre elas, mas era a primeira vez que as via. Rapidamente seu olhar concentrou-se em Heseret. Com um instinto feminino, reconheceu alguém tão atraente quanto ela mesma, e uma possível futura rival. Heseret reagiu a ela exatamente da mesma forma, e ambas trocaram um olhar breve, mas altivo e mutuamente hostil. Depois Mintaka ergueu os olhos para a impressionante figura do Senhor Naja e encarou-o com fascinação.

Ele era uma visão esplêndida, tão diferente do seu próprio pai e irmãos. Reluzia com ouro e pedras preciosas, e suas vestes de linho cintilavam com a pureza do branco. Ela era capaz de sentir o seu perfume através da distância que os separavam como um campo de flores silvestres. O rosto dele era uma máscara de maquiagem, a pele quase luminosa e os olhos delineados e destacados com o kohl. No entanto ela achou que aquela era a beleza fatal de uma serpente, ou de um inseto venenoso. Estremeceu e voltou os olhos para a figura no trono ao lado do regente.

O Faraó Nefer Seti a fitava com tal intensidade que ela prendeu o fôlego. Os olhos dele eram tão verdes — foi a primeira coisa que a atingiu, e ela quis desviar os olhos mas descobriu que não podia. Em vez disso, começou a ruborizar.

O Faraó Nefer Seti parecia tão digno e divino sob a coroa branca e com a falsa barba no queixo que ela se sentiu aturdida. Então, subitamente, o faraó enviou-lhe um sorriso sincero e conspiratório. No mesmo instante o rosto dele tornou-se juvenil e atraente e, em conseqüência, ela começou a respirar mais rápido e ruborizou ainda mais. Com grande esforço, desviou os olhos, passando a analisar a estátua da deusa Hathor com grande atenção.

Foi necessário algum tempo para que ela recobrasse o controle, e então percebeu que o Senhor Naja, regente do Alto Egito, estava falando. Em tons contidos ele saudou Apepi, diplomaticamente referindo-se a ele como o rei dos hicsos, mas evitando qualquer referência às suas pretensões ao território egípcio. Mintaka ficou observando atentamente os lábios dele se moverem, mas estava ciente dos olhos de Nefer sobre si e determinada a não olhar para ele.

A voz do Senhor Naja era sonora e entediante, e finalmente ela não conseguiu mais se conter. Lançou um olhar rápido e furtivo para Nefer, pretendendo afastá-lo imediatamente, mas os olhos dele ainda estavam presos nos seus. Reluziam com um riso silencioso, e isso a deixou fascinada. Mintaka não tinha uma natureza tímida, mas dessa vez seu sorriso foi envergonhado e hesitante, e ela sentiu o rosto arder de rubor novamente. Baixou os olhos e focalizou-os em suas mãos no colo, retorcendo os dedos até dar-se conta de que estava irrequieta, então parou. Manteve as mãos imóveis, mas agora estava irritada com Nefer por ter perturbado a sua calma. Ele era apenas um precioso almofadinha egípcio. Qualquer um dos meus irmãos é mais másculo, e duas vezes mais bonito. Ele está apenas tentando me fazer de tola, encarando-me daquele jeito. Não vou olhar para ele. Vou ignorá-lo completamente, ela decidiu, e sua determinação durou até o momento que o Senhor Naja parou de falar e seu pai levantou-se para responder a ele.

Ela lançou um outro rápido olhar para Nefer, sob os cílios escuros e pesados. Ele estava olhando para seu pai, porém no instante em que o olhar de Mintaka lhe tocou o rosto, seus olhos voltaram-se rapidamente para ela. Mintaka tentou deixar a expressão severa e proibitiva, mas assim que ele sorriu os lábios dela também se moveram em retribuição. Ele realmente é tão belo quanto alguns dos meus irmãos, concedeu, depois deu mais uma rápida espiada. Ou, talvez, tanto quanto qualquer um deles. Baixou os olhos outra vez para o colo e pensou a respeito disso. Depois lançou um outro olhar furtivo, só para ter certeza. Talvez ele fosse mais bonito do que todos os seus irmãos, até mesmo do que Ruga. Imediatamente sentiu como se estivesse traindo seu irmão mais velho, e justificou a opinião: Mas de um jeito diferente, claro.

Olhou de relance para Ruga: com a barba adornada de fitas e sobrancelhas escuras, ele era um guerreiro completo. Ruga é um homem de bela aparência, ela pensou com lealdade.

Nas fileiras no lado oposto, Taita parecia não a estar observando, mas não perdeu sequer uma nuance daquela sub-reptícia troca de olhares entre Nefer e Mintaka. E viu mais do que isso. O Senhor Trok, primo de Naja, estava postado bem atrás do trono de Apepi, a pouca distância de Mintaka. Seus braços estavam cruzados no peito, e ele usava braceletes de ouro sólido. Sobre um dos ombros pendia um arco pesado e recurvado, sobre o outro uma aljava de flechas revestida de ouro folhado. Em volta do pescoço havia correntes de ouro de valor e louvor. Os hicsos tinham adotado as honrarias e condecorações militares egípcias, bem como suas crenças e costumes. Trok observava a princesa hicsa com uma expressão inescrutável.

Houve mais uma breve troca de olhares entre Mintaka e Nefer, que Trok seguiu com uma expressão sombria, pensativa. Taita podia pressentir sua raiva e ciúme. Era como se a quente e opressiva nuvem do khamsin, a terrível tempestade de areia do Saara, estivesse se formando no horizonte do deserto. Isso eu não havia previsto, Taita pensou. O interesse de Trok em Mintaka é romântico ou político?, perguntou-se. Será que ele a deseja, ou a encara meramente como uma escada para o poder? Seja qual for o caso, isso é perigoso, e algo que devemos levar em consideração.

Os discursos de saudações estavam finalizando, e nada de importante tinha sido dito: a negociação da trégua seria iniciada numa sessão secreta no dia seguinte. Os dois lados estavam levantando-se dos seus tronos e trocando reverências e saudações, e os gongos começaram a bater, e as cornetas de chifres de carneiro a ressoar novamente, enquanto se retiravam.

Taita lançou um último olhar para as fileiras hicsas. Apepi e seus filhos desapareceram por uma passagem guardada pelos altos pilares de granito, encimados pelas cabeças gêmeas da deusa. Com um olhar final para trás, Mintaka seguiu o pai e os irmãos. O Senhor Trok a seguia de perto, e também lançou um último olhar para o Faraó Nefer Seti, por cima do ombro. Depois, ele também marchou por entre os pilares. Quando fez isso, as flechas em sua aljava retiniram levemente, e os adornos coloridos captaram a atenção de Taita. Ao contrário das aljavas de guerra feitas de couro, com suas tampas para evitar que as flechas caíssem, essa era revestida de ouro, e a extremidade estava aberta, de forma que as pontas adornadas das flechas elevavam-se por cima do ombro dele. As penas eram vermelhas e verdes, e uma lembrança maligna emergiu na mente de Taita. Trok marchou através do portal, deixando Taita observando-o enquanto se afastava.

Taita voltou à cela de pedra no anexo do templo, que lhe fora reservada pela duração da conferência de paz. Bebeu um pouco de refresco, pois estivera muito quente no pátio, depois foi para a janela na espessa parede de pedra. Um bando de pássaros coloridos saltitava e gorjeava no para-peito e no terraço abaixo. Enquanto ele os alimentava com o milhete dhurra moído, eles se sentavam em seus ombros ou iam comer em sua mão. Taita ficou pensando sobre os acontecimentos da manhã e começou a juntar todas as percepções disparatadas que havia reunido durante a cerimônia de abertura.

Seu prazer e divertimento pelo que havia transpirado entre Mintaka e Nefer foram esquecidos, quando passou a pensar em Trok. Considerou o relacionamento do homem com a princesa hicsa e as complicações que poderiam surgir quando ele tentasse impor seus planos para o jovem casal.

Seu rumo de pensamentos foi interrompido quando reparou numa sombra furtiva surgindo ao longo da beirada do terraço no lado de fora da janela. Era um dos gatos do templo, emaciado, cheio de cicatrizes e falhas no pêlo. Rastejava silenciosamente na direção dos pássaros que saltitavam nas bandeiras da janela, comendo os grãos de milhete dhurra ali espalhados.

Os olhos de Taita estreitaram-se, e ele concentrou-se no gato. O velho animal parou e espiou em volta, desconfiado. Subitamente suas costas arquearam-se, e cada pêlo em seu corpo eriçou-se, enquanto olhava para um ponto vazio à sua frente. O gato emitiu um guincho estridente, fez um giro completo e correu pelo terraço até alcançar uma palmeira. Voou pelo tronco alto e alcançou as folhas mais altas, onde se pendurou pateticamente. Taita atirou mais um punhado de grãos para os pássaros e reuniu seus pensamentos.

Mesmo durante a longa jornada juntos, Trok havia mantido a aljava de guerra firmemente presa no ombro, e não havia ocorrido a Taita comparar uma das flechas que ela continha com aquelas que ele encontrara no local do assassinato do faraó. Ele podia apenas adivinhar quantos outros oficiais hicsos teriam adornos vermelhos e verdes nas flechas, e provavelmente seria um grande número, embora cada um pudesse ter o seu próprio sinete. Havia apenas uma maneira de conectar Trok à morte do Faraó Tamose, e através dele implicar o seu primo Naja. Essa era a análise de uma das suas flechas. E como ele faria isso sem levantar suspeitas?, perguntou-se.

Mais uma vez foi distraído dos seus pensamentos. Ouviu vozes na passagem no lado de fora da sua cela. Uma delas era jovem e clara, que ele reconheceu imediatamente. As outras eram mais grossas, implorando e protestando.

— O Senhor Asmor deu ordens específicas...

— Eu não sou o faraó? Vocês não devem me obedecer? Desejo visitar o Mago, e vocês não se atrevam a me impedir. Afastem-se, os dois.

A voz de Nefer era forte e imperiosa. O timbre incerto da puberdade desaparecera, e ele falava com o tom de um homem.

O jovem falcão está estendendo as asas,e mostrando as garras, Taita pensou, e virou-se da janela, limpando os grãos das mãos para cumprimentar o seu rei.

Nefer afastou a cortina que cobria a passagem da porta e entrou. Dois guardas armados seguiram-no inutilmente, aglomerando-se na soleira atrás dele. Nefer ignorou-os e encarou Taita com as mãos nos quadris.

— Taita, estou muito descontente com você — Nefer falou.

— Isso muito me aflige. — Taita fez uma reverência profunda. — De que maneira o ofendi?

— Você tem me evitado. Sempre que mando chamá-lo eles me dizem que você partiu numa missão secreta com os hicsos, ou que retornou ao deserto, ou qualquer outra história desse tipo. — Nefer fingiu desdém para mascarar sua alegria por estar novamente com o velho Mago. — Então, de repente, você surge do nada, como se nunca tivesse partido, mas ainda assim me ignora. Nem mesmo olhou na minha direção durante a cerimônia. Por onde esteve?

— Majestade, há umas orelhas compridas por aqui. — Taita olhou na direção dos guardas.

Imediatamente Nefer virou-se para eles, irado.

— Já ordenei mais de uma vez que vocês saíssem. Se não me obedecerem agora farei com que ambos sejam enforcados.

Eles se retiraram com expressões infelizes, mas não se afastaram muito. Taita ainda podia ouvir seus murmúrios e o retinir das armas enquanto esperavam na passagem, por trás da cortina. Ele espichou a cabeça na abertura da janela e sussurrou:

— Tenho um barco atracado no pier. Sua Majestade gostaria de pescar?

Sem esperar pela resposta, Taita levantou a saia do seu chiton e pulou Pelo parapeito da janela. Olhou por cima do ombro. Nefer esquecera sua raiva e sorria deliciado enquanto corria através da cela para juntar-se a ele. Taita saltou para o terraço e Nefer o seguiu. Como cabuladores de aula, esgueiraram-se pelo terraço e desceram pelas palmeiras de tâmaras até o rio.

Havia guardas no pier, mas não tinham recebido ordens de restringir o jovem faraó. Eles o saudaram e afastaram-se respeitosamente, enquanto a dupla acomodava-se no pequeno barco de pesca. Cada um deles pegou um remo e começou a remar. Taita conduziu-os para uma das estreitas passagens nos bancos de papiros, e em minutos estavam sozinhos nas águas pantanosas, escondidos na confusão de desvios secretos.

— Por onde você esteve, Taita? — Nefer abandonou o ar majestoso. — Senti muito a sua falta.

— Vou lhe contar tudo — Taita assegurou-lhe. — Mas primeiro você precisa me dizer tudo o que lhe aconteceu.

Encontraram um ancoradouro tranqüilo numa pequena lagoa cercada de papiros, e Nefer relatou tudo o que lhe acontecera desde a última vez que tiveram a chance de conversar em particular. Fora mantido sob as ordens de Naja numa gaiola de ouro, sem poder ver nenhum dos antigos amigos, nem mesmo Meren ou as suas próprias irmãs. Suas únicas distrações tinham sido os estudos dos papiros da biblioteca do palácio, a prática de manejo da biga e os exercícios com as armas, sob o treinamento do velho guerreiro Hilto.

— Naja não me permitia sequer sair para caçar com o falcão, ou pescar, sem que Asmor me seguisse como uma ama-seca — ele queixou-se amargamente.

Nefer não sabia que Taita estaria presente na cerimônia de boas-vindas no templo até vê-lo ali. Acreditava que ele estivesse em Gebel Nagara. Naquela primeira oportunidade, quando Naja e Asmor estavam trancados no conclave para a trégua com Apepi, Trok e os outros senhores de guerra hicsos, ele havia enfrentado os guardas e forçara seu caminho para fora dos aposentos onde estivera confinado, saindo em busca de Taita.

— A vida é tão monótona sem você, Taita. Às vezes acho que vou morrer de tédio. Naja precisa permitir que fiquemos juntos outra vez. Você deveria fazer um feitiço contra ele.

— Isso é algo que podemos considerar. — Taita evitou a sugestão habilmente. — Mas agora não temos muito tempo. Naja irá enviar o exército inteiro à nossa procura, quando descobrir que não estamos no templo. Preciso lhe contar as minhas novidades.

Rapidamente, fazendo um resumo simples, ele contou a Nefer o que lhe acontecera desde o último encontro. Explicou o relacionamento entre Naja e Trok e descreveu como visitara o local da morte do Faraó Tamose e a descoberta que fizera ali.

Nefer ouviu sem interromper, mas quando Taita falou sobre a morte do seu pai, os olhos encheram-se de lágrimas. Ele desviou o rosto, tossiu e enxugou os olhos com as costas das mãos.

— Agora você pode avaliar o perigo que está correndo — Taita falou.

Estou certo de que Naja tem muito a ver com o assassinato do faraó, e o quanto mais perto chegarmos da verdade, maior se torna o perigo.

— Um dia irei vingar o meu pai — Nefer jurou, e sua voz era fria e dura.

— E eu o ajudarei nisso — Taita prometeu. — Mas agora precisamos protegê-lo da maldade de Naja.

— Como planeja fazer isso, Taita? Nós podemos fugir do Egito, como tínhamos planejado antes?

— Não. — Taita balançou a cabeça.

- Claro que já considerei essa possibilidade, mas Naja nos tem aprisionados aqui com toda segurança. Se tentássemos fugir outra vez pela fronteira, ele colocaria mil bigas atrás de nós.

— O que podemos fazer, então? Você também corre perigo.

— Não. Eu convenci Naja de que ele não terá sucesso sem a minha ajuda.

Taita descreveu a falsa cerimônia de invocação no templo de Osíris, e como Naja acreditou que Taita poderia compartilhar com ele o segredo da vida eterna.

Nefer sorriu diante da astúcia do Mago.

— Então qual é o seu plano?

— Precisamos esperar a hora certa, seja para fugir, seja para livrar o mundo da presença maligna de Naja. Nesse meio tempo, irei protegê-lo da melhor maneira que puder.

— Como fará isso?

— Naja enviou-me até Apepi para arranjar essa conferência de paz.

— Sim, eu sei que você foi para Avaris. Eles me disseram, quando exigi vê-lo.

— Não para Avaris, mas sim para o quartel-general de Apepi em Bubasti. Uma vez que Apepi concordou em encontrar-se com Naja, fui capaz de convencê-lo de que deveriam selar o acordo com um casamento entre você e a filha de Apepi. Quando você estiver sob a proteção do rei hicso, o punhal de Naja será neutralizado. Ele não se atreverá a lançar o país de volta numa guerra civil por anular o tratado.

— Apepi me dará a filha em casamento? — Nefer fitou-o com espanto. — Aquela de vestido vermelho, que vi na cerimônia desta manhã?

— Sim — Taita concordou. — O nome dela é Mintaka.

— Eu sei o nome dela — Nefer assegurou-lhe com veemência. — É o mesmo nome da pequena estrela no cinturão da constelação do Caçador.

- Sim, é ela. — Taita assentiu. — Mintaka, a jovem feia de nariz grande e boca engraçada.

— Ela não é feia! — Nefer inflamou-se, levantando-se tão rápido que quase virou o barco e derrubou a ambos na lama da lagoa. — Ela é a mais bela... — Quando viu a expressão de Taita, corrigiu-se. — Isto é, ela tem uma aparência bastante agradável de se olhar. — Sorriu timidamente. — Você sempre me pega. Mas deve admitir que ela é bela, Taita.

— Se você gosta de nariz grande e boca engraçada...

Nefer pegou um peixe morto no fundo da embarcação e atirou na cabeça dele. Taita desviou o corpo.

— Quando posso falar com ela?—Nefer perguntou, tentando soar como se fosse algo de pouca importância para ele. — Ela não fala egípcio, fala?

— Fala tão bem quanto você — Taita assegurou-lhe.

— Então quando poderei me encontrar com ela? Você poderia arranjar isso para mim.

Taita antecipara o pedido.

— Você poderia convidar a princesa e o seu séquito para uma caçada aqui nos pântanos, e talvez para um piquenique depois.

— Enviarei Asmor com o convite ainda esta tarde — Nefer decidiu, mas Taita balançou a cabeça.

— Ele iria falar com o regente, primeiro, e Naja veria o perigo imediatamente. Ele nunca irá permitir, e uma vez que seja alertado, fará tudo o que estiver em seu poder para evitar que vocês fiquem juntos.

— O que devemos fazer, então? — Nefer parecia agitado.

— Vou falar com ela pessoalmente — Taita prometeu, e naquele momento ouviram gritos abafados que vinham de diferentes direções nos pântanos e o barulho de remos na água. — Asmor descobriu que você desapareceu e já enviou os guardas para levá-lo de volta — Taita falou. — Isso prova o quanto será difícil enganá-lo. Agora, ouça com cuidado, pois temos pouco tempo antes de nos separarmos novamente.

Falaram depressa, fazendo planos para trocar recados em quaisquer emergências e arranjos para colocar os outros planos em andamento, mas o tempo todo os gritos e ruídos ficavam mais altos, aproximando-se mais. Em poucos minutos uma galé leve lotada de homens armados irrompeu através da cortina de papiro, impulsionada por vinte remadores. Um grito elevou-se no convés de comando:

— Lá está o faraó! Rumem para o barco de pesca!

Os hicsos haviam montado um campo de exercícios na planície aluvial limítrofe ao pântano de papiros do rio. Quando Taita desceu do templo, dois batalhões dos guardas de Apepi estavam exercitando-se com as armas sob um céu sem nuvens, no qual o sol da manhã ardia. Duzentos homens completamente armados praticavam corridas de revezamento através do pântano, movendo-se penosamente com a lama até a cintura, enquanto esquadrões de bigas realizavam evoluções intrincadas na planície, com colunas de quatro formando uma única fileira à frente, depois desdo-brando-se em filas de homens lado a lado. A poeira redemoinhava atrás das rodas velozes, as pontas das lanças reluziam com a luz do sol, e as penas coloridas dançavam sob o vento.

Taita acocorou-se para observar por um momento a fileira de cinqüenta arqueiros atirando a cem cúbitos, cada homem lançando cinco rápidas flechas. Depois eles corriam na direção dos alvos feitos de espantalhos, recolhiam as flechas e atiravam novamente na fileira seguinte de alvos de duzentos cúbitos de distância. O açoite do instrutor caía pesado nas costas de qualquer homem que fosse lento ao cruzar o campo aberto, ou que errasse o alvo ao atirar. As tachas de bronze nas correias de couro deixavam marcas de sangue vivo nos lugares em que elas batiam através das túnicas de linho.

Taita avançou sem ser incomodado. Conforme passava, os pares de lanceiros que praticavam os lançamentos e bloqueios padronizados, emitindo gritos de guerra, interrompiam os exercícios e ficavam em silêncio. Seguiam-no com um olhar respeitoso. Taita tinha uma reputação temível. Somente depois que ele passava os homens retomavam as lutas.

Na extremidade do campo, na relva baixa ao lado do pântano, uma única biga corria através de uma rota de marcas e alvos. Era uma das bigas de exploração avançada, com as rodas raiadas e estrutura de bambu trançado, muito veloz e leve o bastante para que dois homens a erguessem e a carregassem sobre um obstáculo.

A biga era puxada por um par de magníficas éguas, pertencentes à cavalaria particular do Rei Apepi. As patas atiravam pedaços de turfa no ar quando rodeavam as marcas no final do percurso e voltavam a todo galope, com a leve biga balançando e sacudindo atrás.

O Senhor Trok estava conduzindo, inclinando-se para a frente com as rédeas enroladas nos punhos. Sua barba esvoaçava ao vento, o bigode e as fitas coloridas eram atiradas sobre os ombros enquanto incitava os cavalos com gritos selvagens. Taita teve de reconhecer sua habilidade: mesmo a tal velocidade ele mantinha a parelha sob perfeito controle, percorrendo um trajeto estreito entre as marcas, fornecendo ao arqueiro ao seu lado a melhor chance de atingir os alvos pelos quais passavam.

Taita apoiou-se no cajado enquanto observava a biga correr a todo galope. Era impossível não reconhecer a figura esguia e ereta e a postura majestosa. Mintaka vestia uma saia vermelha que deixava os joelhos à mostra. As tiras trançadas da sandálias subiam até a panturrilha bem formada. Usava uma proteção de couro no punho esquerdo e uma armadura de couro moldada no formato dos seios pequenos e arredondados. O couro protegeria os mamilos delicados do chicotear do arco quando ela atirava as flechas nos alvos, conforme passavam.

Mintaka reconheceu Taita, gritou uma saudação e acenou com o arco sobre a cabeça. Os cabelos escuros estavam cobertos por uma rede finamente trançada e balançavam sobre os ombros a cada sacudir da biga. Ela não usava maquiagem, mas o vento e o exercício haviam ruborizado suas faces e fornecido um brilho aos olhos. Taita não podia imaginar Heseret cavalgando como lanceira numa biga de batalha, mas as atitudes dos hicsos em relação às mulheres eram diferentes.

— Que Hathor sorria para você, Mago! — Ela riu quando Trok fez a biga parar subitamente diante dele.

Taita sabia que Mintaka adotara a delicada deusa como sua mestra, em vez de uma das monstruosas divindades dos hicsos.

— Que Horus a ame para sempre, Princesa Mintaka — Taita retribuiu a bênção. Era um sinal da sua afeição o fato de referir-se a ela pelo título real, mesmo sem reconhecer seu pai como rei.

Ela saltou para fora da biga por entre uma nuvem de poeira e correu para abraçá-lo, erguendo-se para atirar os braços em torno do seu pescoço, de forma que o couro pontiagudo da sua armadura penetrou nas costelas dele. Ela sentiu-o encolher-se e recuou.

— Acabei de acertar em cinco cabeças — gabou-se.

— As suas habilidades de guerreira só são excedidas pela sua beleza. — Ele sorriu.

— O senhor não acredita em mim — ela desafiou. — Acha que só porque sou uma garota não sei manejar um arco. — Não esperou que ele retrucasse e correu de volta para a biga, saltando para dentro. — Siga em frente, Senhor Trok — comandou. — Dê mais uma volta. A toda velocidade.

Trok sacudiu as rédeas e fez uma curva tão fechada que a roda interna nem se moveu. Então, enquanto se alinhava para a frente, gritou: "Ha! Ha!", e partiram a toda velocidade pela trilha.

Cada alvo estava colocado em cima de um poste, ao nível dos olhos do arqueiro. Tinham o formato de cabeças humanas, cada um entalhado num bloco de madeira. Não havia engano quanto à sua nacionalidade. Cada uma delas era a caricatura de um guerreiro egípcio completo, com o capacete e a insígnia regimental, e os traços pintados eram grotescos como os de um ogro.

Não há muita dúvida quanto à opinião do artista a nosso respeito, Taita pensou com ironia.

Mintaka puxou uma flecha do recipiente no frontal da biga e colocou-a no arco. Apontou para o alvo, as penas amarelo-vivas tocando-lhe os lábios como num beijo. Trok conduziu a biga na direção do primeiro alvo, tentando fornecer-lhe um tiro fácil, mas o solo era íngreme. Embora ela flexionasse os joelhos para amortecer os solavancos, balançava com o movimento do veículo.

Quando o alvo surgiu ao seu alcance, Mintaka soltou a flecha, e Taita descobriu que prendia o fôlego por ela. Mas não precisava se preocupar, pois ela manejava o arco leve com perfeita perícia. A flecha penetrou no olho esquerdo da caricatura e ali permaneceu, os penachos amarelos reluzindo sob o sol.

— Bak-her! — ele aplaudiu, e ela riu deliciada enquanto a biga corria.

Ela atirou mais duas vezes. Uma das flechas alojou-se profundamente na testa, e a outra na boca do alvo. Era um tiro excelente, mesmo para um guerreiro veterano, quanto mais para uma menina.

Trok virou a biga em torno da marca mais distante e voltaram. As orelhas dos cavalos estavam baixadas, as crinas esvoaçando. Mintaka atirou novamente, acertando outra flecha direto no nariz exageradamente grande da caricatura.

— Por Horus! — Taita exclamou, surpreso. — Ela atira como um djinn!

O último alvo aproximou-se depressa, e Mintaka equilibrava-se graciosamente, as faces rosadas e os dentes brancos cintilando enquanto mordia o lábio em concentração. Ela atirou, e a flecha voou para o alto e à direita, errando a cabeça por muito pouco.

— Trok, seu desajeitado! Você passou direto naquele buraco justamente quando eu atirei! — ela gritou.

Saltou para fora da biga enquanto esta ainda se movia e encarou Trok com raiva.

— Você fez isso de propósito, para que eu parecesse uma tola na frente do Mago!

— Sua Alteza, estou mortificado com a minha própria incompetência. O poderoso Trok estava tão constrangido quanto um menininho diante da fúria dela. Taita percebeu que os sentimentos dele por Mintaka eram tão ardentes quanto havia suspeitado.

— Você não está perdoado. Não lhe permitirei mais o privilégio de me conduzir novamente. Nunca mais.

Taita ainda não testemunhara tal demonstração de geniosidade da parte dela, e isso, juntamente com a recente exibição de tiro ao alvo, elevou a boa opinião que tinha dela a um nível mais alto. Ali estava uma esposa adequada para qualquer homem, até mesmo para um faraó da dinastia Tamosiana, ele decidiu, mas teve o cuidado de não demonstrar nenhum sinal de leviandade, temendo que Mintaka pudesse voltar sua raiva contra ele. Porém, não precisava se preocupar, pois assim que ela se virou para ele, seu sorriso floresceu outra vez.

— Quatro acertos em cinco tiros é bom o bastante até para um guerreiro do Percurso Vermelho, Sua Alteza — Taita assegurou-lhe. — E foi realmente um buraco traiçoeiro pelo qual você passou.

— Você deve estar com sede, Taita. Eu estou.

Mintaka tomou a mão dele sem nenhuma afetação e guiou-o para onde as suas servas tinham estendido um tapete de lã tecida na beirada do rio e disposto ali pratos com doces e jarras de refresco.

— Há tantas coisas que preciso lhe perguntar, Taita — ela falou quando ele sentou-se ao seu lado no tapete. — Não o vi desde que você partiu de Bubasti.

— Como está o seu irmão Khyan? — Ele adiou a pergunta dela.

— Já está tão travesso como sempre — ela riu. — Até mais, se isso for possível. Meu pai ordenou que ele se juntasse a nós aqui assim que estiver completamente recuperado. Ele deseja que toda a família esteja com ele quando assinar a trégua.

Conversaram sobre trivialidades por mais algum tempo, porém Mintaka estava distraída. Taita esperou que ela tocasse no assunto que lhe ocupava a mente. Ela surpreendeu-o virando-se de repente para Trok, que se postava ali perto com uma expressão de cão abandonado.

— Pode nos deixar agora, meu senhor — ela lhe disse friamente.

— Irá cavalgar comigo amanhã cedo, princesa? — Trok quase implorou.

— Talvez amanhã eu esteja ocupada com outras coisas.

— E depois de amanhã? — Até o bigode dele parecia cair tristemente.

— Pegue meu arco e minha aljava antes de ir — ela ordenou, ignorando a pergunta. Ele os levou até ela como se fosse um lacaio, deixando-os ao seu lado.

— Adeus, meu senhor. — Mintaka voltou-se novamente para Taita. Trok hesitou ali por mais alguns segundos, depois marchou na direção da biga. Enquanto ele se afastava, Taita murmurou:

— Há quanto tempo Trok está apaixonado por você? Ela olhou-o espantada, depois começou a rir.

— Trok, apaixonado por mim? Ora, isso é ridículo! Trok é tão velho quanto as pirâmides de Gizé, deve ter quase trinta anos! E já tem três esposas, e só Hathor sabe quantas concubinas!

Taita retirou uma das flechas da aljava ricamente adornada e inspecionou-a casualmente. Os penachos eram azuis e amarelos, e ele tocou o minúsculo sinete entalhado na ponta.

— As três estrelas do cinturão do Caçador — ele comentou —, com Mintaka sendo a mais brilhante.

— Azul e amarelo são minhas cores preferidas. — Ela assentiu. — Minhas flechas são confeccionadas para mim por Grippa. Ele é o fabricante de flechas mais famoso de Avaris. Cada uma das flechas que faz é perfeitamente reta e equilibrada. Seus adornos e sinetes são obras de arte. Veja como ele entalhou e pintou a minha estrela.

Taita girou a flecha entre os dedos e admirou-a por inteiro, antes de recolocá-la na aljava.

— Qual é o sinete da flecha de Trok? — perguntou com casualidade. Ela fez um gesto de aborrecimento.

— Não sei. Por mim, poderia ser um cão selvagem, ou um boi. Já tive o bastante de Trok por hoje, e por muitos dias que virão. — Mintaka serviu o refresco na tigela de Taita. — Sei que você gosta de mel.

Ostensivamente ela havia mudado de assunto, e Taita esperou que ela escolhesse o próximo.

— Agora tenho algumas coisas delicadas que gostaria de conversar com você — ela admitiu timidamente.

Pegou uma flor silvestre no gramado e começou a dobrá-la para iniciar uma guirlanda, ainda sem olhar para ele, mas as faces que já haviam perdido o afogueado do exercício ruborizaram outra vez.

— O Faraó Nefer Seti tem catorze anos e cinco meses, é quase um ano mais velho que você. Ele nasceu sob o signo do Cabrito, que combina perfeitamente com o seu, que é Gato.

Taita antecipara-se a ela, e Mintaka fitou-o atônita.

— Como sabia o que eu iria lhe perguntar? — Então, ela bateu palmas. — Claro que você sabia. Você é o Mago.

— Por falar no faraó, eu vim lhe entregar uma mensagem da Sua Majestade — Taita falou.

Imediatamente toda a atenção dela focalizou-se nele.

— Uma mensagem? Ele sabe que eu existo?

— Ah, ele sabe muito bem. — Taita bebericou o refresco. — Isso aqui precisa de um pouco mais de mel. — Despejou o mel na tigela e mexeu.

— Não caçoe de mim, Mago — ela disparou. — Dê-me logo a mensagem.

— O faraó convida você e seu séquito para uma caçada aos patos nos pântanos, amanhã cedo, e depois para um piquenique na Ilha da Pequena Pomba.

O céu da alvorada tinha os tons de uma lâmina de espada recém-saí-da das brasas da forja. O topo dos papiros formava um friso escuro abaixo dele. Nessa hora antes do nascer do sol não havia nenhuma brisa para fazê-los acenar, ou qualquer som para quebrar a imobilidade.

Os dois barcos de caça estavam ancorados nos opostos extremos de uma pequena lagoa, firmes contra a parede de juncos que cercava a água aberta. Menos de cinqüenta cúbitos os separavam. Os caçadores reais haviam inclinado as altas hastes dos papiros para formar um teto protetor sobre os caçadores.

A superfície da lagoa estava lisa e intata, refletindo o céu como um espelho de bronze polido. Havia luz suficiente apenas para que Nefer divisasse a graciosa silhueta de Mintaka no outro barco. Ela mantinha o arco no colo e sentava-se tão imóvel quanto uma estatueta da deusa Hathor. Qualquer outra garota em que ele podia pensar, especialmente as suas irmãs Heseret e Merykara, estaria saltitando por ali como um canário num galho, e trinando duas vezes mais alto.

Mentalmente ele relembrou o breve encontro daquela manhã. Estivera escuro, sem que o mais fraco brilho da aurora diminuísse a glória da estrela panóplia que pendia sobre o mundo, cada estrela tão cheia e cintilante que parecia que ele poderia estender a mão e colhê-las como se fossem figos maduros numa árvore. Mintaka descera pela trilha que vinha do templo, seu caminho iluminado pelos tocheiros e com as servas seguindo logo atrás. Usava um capuz de lã sobre a cabeça para protegê-la do ar frio do rio, e não importava o quanto ele se esforçasse para olhar, o rosto permanecia na escuridão.

— Que o faraó viva mil anos.

Essas foram as primeiras palavras que ele a ouviu pronunciar. Sua voz era mais doce do que a música de uma flauta. Foi como se dedos invisíveis lhe acariciassem a nuca. Nefer levou alguns momentos para encontrar a própria voz.

— Que Hathor lhe conceda seu amor por toda a eternidade — disse.

Nefer havia consultado Taita acerca da saudação que deveria empregar, e ensaiara aquela frase até decorá-la. Pensou ter visto o cintilar dos seus dentes quando ela sorriu sob o capuz, e foi encorajado a acrescentar algo mais que Taita não sugerira. Surgiu-lhe na mente num lampejo de inspiração. Ele apontou para o céu estrelado e disse:

— Veja! Lá está a sua estrela.

Ela ergueu a cabeça para olhar a constelação do Caçador. A luz das estrelas iluminou-lhe o rosto, de forma que ele a viu pela primeira vez desde que ela descera pela trilha. Nefer prendeu o fôlego subitamente. A expressão dela era solene, mas ele achou que jamais havia visto algo tão encantador.

— Os deuses a colocaram ali especialmente para você. — O elogio escapou dos seus lábios.

Imediatamente o rosto dela iluminou-se, deixando-a ainda mais bela.

— O faraó é tão galanteador quanto bondoso.

Ela fez uma reverência breve, ligeiramente brincalhona. Depois entrou no barco que a esperava. Não olhou para trás quando os caçadores reais começaram a remar na direção do pântano.

Agora ele repetia as palavras dela consigo mesmo, como se fosse uma prece.

— O faraó é tão galanteador quanto bondoso.

Uma garça alçou vôo no meio do pântano. Como se fosse um sinal, logo em seguida o ar foi subitamente repleto com o som de asas. Nefer quase se esquecera do motivo por que estavam ali, o que era uma medida da sua distração, pois amava a caçada com uma paixão singular. Ele desviou os olhos da figura no barco no outro lado do lago e pegou uma das varetas.

Ele havia decidido usar as varetas em vez de arco e flecha, pois tinha certeza de que ela não teria a força nem a perícia para usar armas mais pesadas. Isso lhe daria uma distinta vantagem. Quando habilidosamente lançada, a vareta atingia uma distância maior do que a flecha. Seu peso maciço era mais provável de derrrubar uma ave do que a flecha de ponta rombuda, que poderia ser desviada pela densa plumagem das aves aquáticas. Nefer estava determinado a impressionar Mintaka com sua perícia na caçada.

O primeiro bando de patos surgiu voando contra o céu da aurora. Tinham lustrosas penas pretas e brancas, e um visível calombo no topo dos bicos. A ave que vinha à frente desviou-se, liderando as outras para fora do alcance. Naquele momento os patos traidores começaram a chamar sedutoramente. Estes eram aves capturadas e treinadas, que os caçadores haviam colocado nas águas abertas da lagoa e presas ali por uma linha em volta da perna, que estava ancorada a uma pedra na margem lodosa.

Os patos selvagens voltaram formando um amplo círculo, e depois começaram a descer e alinhar-se para pousar na água com os traidores. Posicionaram suas asas e desceram, perdendo o peso rapidamente, passando direto sobre o barco de Nefer. O faraó calculou seu momento com todo o cuidado, depois levantou-se com a vareta posicionada e pronta para ser atirada. Esperou até que o pássaro líder se sobressaísse e depois atirou, lançando a vareta com um leve desvio. O pato viu o míssil chegando e inclinou uma das asas para evitá-lo. Por um instante parecia que iria conseguir, mas então ouviu-se um baque, houve uma explosão de penas e a ave caiu num mergulho descontrolado, com a asa quebrada. Atingiu a água com um pesado espadanar, mas recobrou-se quase imediatamente e mergulhou sob a superfície.

— Depressa! Vá atrás dele! — Nefer gritou.

Quatro garotos escravos, nus, estavam postados na água, apenas a cabeça à mostra. Eles agarraram a lateral do barco com os dedos dormentes, batendo os dentes de frio.

Dois deles nadaram para recolher o pássaro caído, mas Nefer sabia que seria em vão. Sem outro ferimento exceto a asa quebrada, o pato poderia mergulhar e nadar muito mais do que eles, indefinidamente.

Uma ave perdida, ele pensou amargamente, e antes que pudesse atirar a segunda vareta o vôo dos patos formara um ângulo ao longo da lagoa, indo direto para onde estava o barco de Mintaka. Ainda mantinham um vôo baixo, ao contrário dos marrecos, que teriam disparado direto para cima. No entanto iam muito rápido, as asas em formato de lâminas assoviando pelo ar.

Nefer quase não levara em conta a caçadora no outro barco. Àquela velocidade e altura os alvos seriam difíceis demais até para o arqueiro mais experiente. Em rápida sucessão duas flechas foram lançadas ao encontro dos patos dispersos. O som do duplo impacto ecoou nitidamente através da lagoa. Depois duas aves estavam caindo com aquele olhar inerte, as asas soltas e a cabeça pendida, perfeitamente abatidas no ar ao mesmo tempo. Caíram na água e ali flutuaram, imóveis. Os nadadores as apanharam com facilidade e nadaram de volta para o barco de Mintaka, levando as carcaças presas nos dentes.

— Duas flechas de sorte — Nefer expressou sua opinião. No fundo do barco, Taita acrescentou, sem sorrir:

— Dois patos sem sorte.

Agora o céu estava repleto de aves, cada uma erguendo-se nas nuvens escuras quando os primeiros raios de sol atingiam as águas. Tão densos eram os bandos que, a distância, parecia que os canteiros de junco estavam incendiando-se e lançando nuvens de fumaça escurecida.

Nefer havia ordenado que vinte galés leves, e mais outro tanto de barcos pequenos, patrulhassem as águas abertas num raio de três milhas do templo de Hathor, e que espantassem quaisquer aves aquáticas que sobrevoassem a área. As multidões aladas nunca diminuíam. Não somente dezenas de variedades de patos e gansos mas também íbis e garças, coelheiros e cegonhas. De todas as alturas, desde bem acima até quase as pontas flutuantes dos papiros, elas voavam em bandos escurecidos, ou em formações em V com rápidos batidas de asas. Elas grasnavam, gritavam, piavam e emitiam lamentos.

A intervalos, através da cacofonia das aves, ressoava um repique de risos e gritinhos femininos e infantis, quando as jovens escravas de Mintaka incitavam-na a esforçar-se mais.

Seu arco leve era bem apropriado para a tarefa. Este era rápido para alinhar-se e lançar sem exigir força demasiada. Ela não estava atirando as tradicionais flechas de pontas rombudas, mas sim usando pontas de metal afiado, que tinham sido forjadas especialmente para ela por Grippa, o famoso fabricante de armas. As pontas pontiagudas penetravam através da densa camada de plumagem e iam direto para os ossos. Sem que nenhuma palavra tivesse sido trocada, ela percebera que Nefer pretendia fazer daquela caçada um concurso, e estava provando que seus instintos competitivos eram tão aguçados quanto os dele.

Nefer fora seriamente provocado pela sua primeira falha e pela inesperada perícia de Mintaka com o arco. Em vez de concentrar-se em sua própria tarefa, ele ficou distraído pelo que acontecia no outro barco. Todas as vezes em que olhava naquela direção parecia-lhe que as aves abatidas caíam do céu. Isso o frustrou ainda mais. Seu bom senso desertou-o, e começou a atirar as varetas ora muito cedo, ora muito tarde. A fim de tentar compensar, ele tensionou-se e passou a impulsionar o braço, em vez de usar o corpo inteiro para lançar a vareta. Rapidamente o braço direito se cansou, e então, instintivamente, ele encurtou o arco do braço que atirava e inclinou o cotovelo, quase destroncando o pulso como resultado.

Normalmente ele podia contar um acerto de seis entre dez varetas lançadas, mas agora estava perdendo mais da metade. Sua frustração aumentou. Muitos dos pássaros que abatia estavam apenas atordoados ou levemente feridos, e escapavam dos escravos mergulhando sob a superfície e nadando para os espessos canteiros de papiros, ficando submersos sob o tapete de raízes e hastes. O número de aves mortas empilhadas no fundo do barco crescia lamentavelmente devagar. Em contraste, os alegres gritinhos no outro barco prosseguiam quase sem pausa.

Em desespero, Nefer descartou as varetas encurvadas e pegou o pesado arco de guerra, mas era tarde demais. Seu braço direito estava quase exaurido pelo esforço com as varetas. Seus lances eram trabalhosos, e ele atirava atrás dos pássaros mais rápidos, e adiante dos mais lentos. Taita observou enquanto o rapaz caía cada vez mais fundo na armadilha que ele próprio armara. Um pouco de humilhação não lhe fará mal algum, disse a si mesmo.

Com umas poucas palavras de aconselhamento ele poderia ter corrigido os erros de Nefer: quase cinqüenta anos atrás Taita escrevera os textos normativos, não apenas sobre o manejo e táticas das bigas mas também sobre o manejo do arco. Por uma vez sua simpatia não estava completamente com o rapaz, e ele sorriu intimamente enquanto observava Nefer errar outra vez e Mintaka abater duas aves num mesmo vôo, enquanto sobrevoavam sua cabeça.

No entanto, sentiu piedade pelo seu rei quando um dos escravos de Mintaka nadou através da lagoa e apoiou-se na lateral do barco de Nefer.

— Sua Alteza Real, a Princesa Mintaka, espera que o poderoso faraó possa desfrutar de dias perfumados de jasmim e noites estreladas repletas com o canto do rouxinol. No entanto, seu barco está começando a afundar com o peso das sacolas, e ela está faminta pelo desjejum que, ela diz, lhe foi prometido há algumas horas.

Um gracejo inoportuno!, Taita pensou, enquanto Nefer fechava o cenho furiosamente diante de tal impertinência.

— Você pode dar graças a qualquer que seja o deus dos macacos ou cães que idolatra, escravo, pelo fato de eu ser um homem compassivo. Do contrário eu mesmo arrancaria a sua cabeça e a mandaria para sua patroa em resposta a essa pilhéria.

Era hora de Taita interferir cuidadosamente:

— O faraó desculpa-se pela distração, mas estava desfrutando tanto do esporte que nem percebeu o passar do tempo. Por favor, diga à sua patroa que iremos todos fazer o desjejum imediatamente.

Nefer lançou-lhe um olhar fulminante, mas deixou o arco de lado e não fez nenhum esforço para revogar a decisão de Taita. Os dois pequenos barcos rumaram na direção da ilha em formação fechada, de forma que as pilhas de patos abatidos no convés podiam ser prontamente comparadas. Nem uma palavra foi dita pela tripulação de qualquer um dos barcos, mas todos estavam cientes dos resultados da caçada daquela manhã.

— Majestade — Mintaka chamou, do outro lado —, gostaria de lhe agradecer por esta manhã realmente agradável. Não posso me lembrar da última vez em que me diverti tanto. — A voz dela era alegre, e o sorriso angelical.

— Você é demasiado bondosa e generosa. — Sem sorrir, Nefer fez um majestoso gesto de menosprezo. — Achei que foi um esporte bastante insatisfatório.

Ele virou-se e, mal-humorado, manteve os olhos fixos no horizonte de juncos e água. Mintaka não demonstrou o menor constrangimento diante daquele evidente esnobismo, mas virou-se para as escravas.

— Vamos cantar para o faraó alguns versos de "O Macaco e o Jumento". Uma das servas entregou-lhe a flauta, e ela tocou a abertura, depois

começou a cantar o primeiro verso da tola cantiga infantil. As jovens servas uniram-se a ela no coro, que envolvia engraçadas imitações dos animais e risos incontroláveis.

Os lábios de Nefer curvaram-se de divertimento, mas ele havia adquirido uma postura de fria dignidade, da qual não poderia recuar. Taita percebia o quanto ele desejava juntar-se à diversão, porém mais uma vez prendera-se na própria armadilha.

O primeiro amor é uma alegria não mitigada, Taita pensou com uma ironia solidária, e para a delícia das jovens no outro barco, improvisou uma nova versão do que o macaco disse ao jumento, que era muito mais engraçada do que aquela que a precedera. Elas deram gritinhos e bateram palmas de contentamento. Nefer sentiu-se excluído e ficou ostensivamente amuado.

Atracaram na ilha ainda cantando. A margem era interrompida por um banco íngreme, e a lama abaixo dela era escura e gelatinosa. Os barqueiros saltaram para o lado, no lamaçal que ia até os joelhos, e seguraram o primeiro barco enquanto os escravos carregavam a princesa e as servas até a terra seca acima do banco.

Assim que estavam todos a salvo em terra firme, o barco real atracou e os escravos apressaram-se em carregar Nefer para o outro lado, onde se reuniria a Mintaka no banco elevado. Ele os descartou com um gesto imperioso. Já sofrera humilhações suficientes por uma manhã, e não iria diminuir ainda mais sua dignidade usando dois escravos molhados e semi-nus como apoio. Equilibrou-se facilmente na prancha, e todo o séquito observou respeitosamente, pois era uma visão esplêndida. Mintaka tentou não demonstrar as emoções, mas pensou que ele fosse a criatura mais bela que jamais vira, alto e esguio com seu corpo de menino apenas começando a adquirir os contornos firmes da masculinidade. Até mesmo a expressão carrancuda e mal-humorada a encantava.

Ele é feito da matéria com a qual os heróis e os grandes faraós são moldados, ela pensou, num excesso de ardor romântico. Só desejaria não tê-lo irritado tanto. Foi uma indelicadeza, e antes que este dia termine eu o farei rir outra vez, como Hathor é minha testemunha.

Nefer lançou-se através da abertura entre o barco e o alto barranco, aterrissando como um jovem leopardo que houvesse saltado do galho de uma acácia. Aterrissou graciosamente no alto barranco a quase um braço de distância de onde ela estava. Parou ali, consciente de que todos os olhos estavam pousados sobre si.

Então o barranco deslizou sob ele. Um pedaço do frágil barro seco no qual estava parado desmanchou-se sob seus pés. Por um doloroso momento ele girou os braços, tentando equilibrar-se, depois caiu de costas no pântano.

Todos ficaram olhando boquiabertos e horrorizados, desconcertados pelo espetáculo do Egito Real sentado com a lama negra do Nilo até a cintura, uma expressão atônita no rosto.

Por um longo momento ninguém moveu-se nem falou. Então Mintaka começou a rir. Não pretendia fazê-lo, mas aquilo foi demais para o seu autocontrole, e depois que começou a rir não conseguia mais parar. Era um riso tão delicioso e contagiante que nenhuma das servas pôde resistir. Elas também prorromperam em risinhos e risadinhas que contagiaram os caçadores e barqueiros. Até mesmo Taita juntou-se a eles, gargalhando à solta.

Por um instante Nefer pareceu prestes a desatar em lágrimas, mas então a sua raiva, mantida em rédeas curtas, explodiu. Ele pegou um punhado da espessa lama escura e atirou-o na princesa que ria. A humilhação deu força ao seu braço e melhorou o seu alvo, e Mintaka estava tão impotente pelo riso que foi incapaz de desviar-se ou abaixar-se, e foi atingida direto no rosto. O riso cessou, e ela encarou Nefer com os olhos arregalados sob a máscara de lama.

Foi a vez dele de rir. Ainda sentado no pântano, atirou a cabeça para trás e deu vazão a toda a frustração e humilhação com uma bela gargalhada. Quando o faraó riu, todo mundo riu com ele. Os escravos, os barqueiros e os caçadores redobraram seus gritos de divertimento.

Mintaka recobrou-se rapidamente do susto e então, sem nenhum aviso, lançou-se sobre o barranco para o ataque. Caiu por cima de Nefer com todo seu peso. Ele foi tão completamente tomado de surpresa que nem mesmo conseguiu respirar fundo, antes de ser sufocado sob a lama, com Mintaka sentada em sua cabeça.

Ele debateu-se sob a superfície, tentando voltar para a margem lamacenta, mas o peso dela o mantinha preso. Mintaka segurava-lhe o pescoço com as duas mãos. Ele tentou tirá-la dali, mas ela estava lisa e escorregadia como uma enguia, coberta pela lama. Com um grande esforço ele ergueu-a apenas o bastante para que pudesse estender a cabeça para fora e tomar um fôlego rápido, então ela saltou por cima dele outra vez. Nefer conseguiu reverter a situação e ficar por cima dela, mas foi necessária muita força para segurá-la. Ela remexia-se e chutava com uma força supreendente. Sua túnica enrolara-se em torno da cintura, e suas pernas estavam nuas e lisas. Ela enganchou uma das pernas nas dele e prendeu-o. Agora estavam face a face, e ele podia sentir o calor do corpo dela através da lama escorregadia.

Seus rostos imundos estavam a apenas centímetros de distância, os cabelos dela caíam em seus olhos, e ele ficou surpreso ao ver que ela lhe sorria através da camada de lama. Sorriu de volta, e logo estavam ambos rindo. Mas nenhum deles cedeu à derrota, e continuaram lutando.

O peito dele estava nu, e a túnica dela tão molhada e fina que era como se nem existisse. Suas pernas nuas ainda enroscavam-se nas dele. Nefer abaixou uma das mãos para tentar soltar-se e, sem querer, a mão direita tocou o traseiro arredondado e firme, que se sacudia com grande energia.

Nefer ficou ciente de uma estranha e agradável sensação que parecia envolver todo o seu corpo, e a urgência em subjugá-la desapareceu completamente. Estava bem satisfeito em abraçá-la e deixá-la debater-se contra ele, desfrutando daquela sensação nova e extraordinária.

Mintaka parou de rir subitamente e, por sua vez, fez uma descoberta momentânea. Entre os corpos de ambos surgira uma protuberância que, apenas momentos atrás, não existia. Era tão flexível e grande que ela não teria deixado de perceber. Ela moveu os quadris a fim de testar sua natureza, mas cada vez que o fazia a protuberância ficava maior. Aquilo era algo que ultrapassava sua experiência, e, num espírito de aventura, ela repetiu o movimento.

Ela mal havia reparado que Nefer cessara os esforços violentos para afastá-la e que o braço esquerdo dele enlaçava o seu tronco. A mão esquerda dele segurava-lhe o traseiro, e na vez seguinte em que ela empurrou os quadris para examinar a protuberância, ele imitou seu movimento, empurrando os seus para encontrá-la, e a mão apertou-a mais contra si. A protuberância avançou contra ela, como se fosse algum animalzinho com vida própria.

Mintaka jamais antecipara a sensação que a envolveu. Subitamente aquela criatura misteriosa adquiriu uma importância que ia além de tudo o que ela sonhara até então. Todo o seu ser encheu-se com um calor sonhador, agradável. Com uma intenção consciente, ela baixou uma das mãos para segurá-lo, para capturá-lo como se fosse um gatinho, ou um filhote de cachorro.

Então, com um choque que a atingiu como um soco no estômago, lembrou-se de todas as histórias horripilantes que as jovens escravas tinham lhe contado sobre aquela coisa, e o que os homens faziam com ela. Em mais de uma ocasião elas lhe tinham descrito isso com detalhes espantosos. Até agora ela havia considerado tais descrições como pura invenção, pois em nada se assemelhavam com os pequenos e bambolean-tes apêndices que seus irmãos mais novos carregavam naquela região das suas anatomias.

Lembrou-se particularmente do que Saak, a jovem escrava numidiana, lhe dissera:

— Você não vai querer desperdiçar mais nenhuma prece a Hathor, depois de ter visto o deus de um só olho quando ele está furioso.

Mintaka afastou-se do abraço de Nefer e sentou-se na cama, encaran-do-o com consternação. Nefer também esforçou-se para ficar sentado, e retribuiu seu olhar com uma expressão de espanto. Os dois ofegavam como se tivessem corrido por quilômetros.

Os risos e gritos do alto barranco aos poucos foram cessando, enquanto os espectadores percebiam que algo inconveniente acontecera, e o silêncio tornou-se desconfortável. Taita logo o rompeu, com sua fala macia:

— Majestade, se demorar-se demais neste exercício de natação acabará servindo de desjejum para qualquer crocodilo que passar.

Nefer levantou-se e foi até onde Mintaka estava sentada. Ajudou-a a pôr-se de pé como se ela fosse feita do vidro mais delicado.

Pingando lama e água do Nilo, com os cabelos embaraçados numa confusão lamacenta pelo rosto e ombros, a princesa foi levada pelas servas até um poço escondido pelos ramos de junco. Quando reapareceu, momentos depois, estava completamente limpa de qualquer traço de lama e sujeira. As servas haviam levado uma muda de roupa, portanto Mintaka estava resplandescente numa túnica limpa e seca, bordada com fio de seda e pérolas, e havia braceletes de ouro em seus braços e um colar de turquesa e contas de vidro coloridas em seu pescoço. Os cabelos, embora ainda úmidos, tinham sido penteados e presos cuidadosamente.

Nefer correu para encontrá-la e levou-a até uma gigantesca árvore, sob a qual um banquete fora armado na sombra. No início o jovem casal mostrava-se contido e tímido, ambos ainda espantados pelo momentâneo despertar que tinham compartilhado, mas logo a alegria natural de ambos reafirmou-se, e juntaram-se aos risos e conversas, embora seus olhos continuassem se encontrando e quase todas as palavras que pronunciavam fossem dirigidas um ao outro.

Mintaka adorava charadas e desafiou-o a decifrar uma adivinhação. Tornou-a ainda mais difícil para Nefer ao proferi-la no idioma dos hicsos.

— Tenho um olho e um nariz pontiagudo. Perfuro as minhas vítimas muitas vezes, mas sem nunca derramar sangue. O que eu sou?

— Essa é fácil! — Nefer riu, triunfante. — Você é uma agulha de costura.

E Mintaka atirou as mãos para o alto, rendendo-se.

— Penalidade! — as jovens servas gritaram. — O faraó acertou. Penalidade!

— Uma canção! — Nefer exigiu. — Mas não a canção do macaco. Já tivemos o suficiente dela por um dia.

— Então vou cantar A Canção do Nilo — ela concordou, e quando terminou a música Nefer exigiu que cantasse outra. — Só se você me ajudar, majestade.

A voz dele era de um robusto tenor, mas sempre que o desafiava ela encobria seu erro e o fazia parecer muito melhor do que era.

Claro que Nefer havia levado o tabuleiro e as pedras do jogo bao. Taita o ensinara a amar o jogo, e ele se tornara um especialista. Quando cansou-se das cantigas, convidou Mintaka para uma partida.

— Você terá de ser paciente comigo. Sou uma novata — ela avisou, enquanto ele armava as peças no tabuleiro.

O bao era um jogo egípcio, e dessa vez ele estava confiante em superá-la.

— Não se sinta mal com isso — Nefer encorajou-a. — Eu vou lhe ensinando.

Taita sorriu, porque ele e Mintaka haviam jogado o bao durante algumas horas no palácio em Bubasti, quando ambos cuidavam do irmão dela. Ao final de dezoito movimentos as pedras vermelhas dela dominavam o castelo oriental, e estavam ameaçando o centro dele.

— Eu fiz a coisa certa? — ela perguntou com doçura.

Nefer foi salvo por um grito que veio da margem do rio, e ergueu os olhos para ver uma galera com a bandeira do regente, que se aproximava rapidamente do canal.

— Que pena. Justamente agora, quando o jogo estava ficando interessante. — Começou a recolher as pedras com entusiasmo.

— Não podemos nos esconder deles? — Mintaka perguntou, mas Nefer balançou a cabeça.

— Eles já nos avistaram.

Nefer estivera esperando aquela visita durante toda a manhã. Mais cedo ou mais tarde o regente ficaria sabendo daquela escapada ilícita e mandaria Asmor em busca do seu pupilo desgarrado.

A galé embicou no banco de areia abaixo de onde eles estavam, e Asmor desembarcou. Aproximou-se do grupo com passadas largas.

— O regente está muito descontente com sua ausência. Ele solicita que o senhor retorne ao templo imediatamente, pois questões de Estado aguardam a sua atenção.

— E eu, Senhor Asmor, estou muito descontente com as suas péssimas maneiras. — Nefer tentou recuperar um pouco da dignidade ferida.

— Não sou um vassalo nem um servo doméstico para que se dirija a mim dessa forma, e você tampouco demonstrou respeito pela Princesa Mintaka.

— Porém, não havia como escapar do fato de que estava sendo tratado como uma criança.

Ainda assim ele tentou melhorar as coisas e convidou Mintaka para voltar com ele em seu barco, enquanto as servas seguiam na segunda embarcação. Taita manteve-se discretamente nos fundos do barco, sendo que aquela era a primeira oportunidade deles para conversar em particular. Sem estar bem certo do que esperar da parte dela, Nefer ficou atônito quando, em vez de incomodar-se com trivialidades educadas, Mintaka imediatamente lançou-se numa discussão sobre as chances de sucesso ou fracasso da conferência de paz entre os seus lados opostos. Logo impressionou-o com a sua perspicácia política e seus fortes pontos de vista.

— Se fosse permitido a nós, mulheres, governarmos este mundo, esta guerra estúpida jamais teria começado — ela concluiu, mas ele não poderia deixar que isso passasse em branco.

Discutiram animadamente durante todo o trajeto de volta para o templo. A jornada foi curta demais para o gosto de Nefer, e quando chegaram a terra firme ele tomou-lhe a mão.

— Eu gostaria de vê-la novamente.

— Eu também gostaria muito — ela respondeu, sem retirar a mão.

— Em breve — ele insistiu.

— Muito em breve. — Ela sorriu e, com delicadeza, retirou a mão. Nefer sentiu-se estranhamente abandonado ao vê-la afastar-se na direção do templo.

— Meu senhor, o senhor-esteve presente na invocação dos Dédalos de Ammon Ra. O senhor sabe do imenso fardo que me foi colocado pelos deuses. Sabe que jamais poderei escarnecer dos seus desejos expressos e que, portanto, estou comprometido com seus interesses. Tive bons motivos para acompanhar o rapaz no que foi, afinal, uma escapadela inocente.

Mas Naja não era tão facilmente aplacado. Ainda estava furioso por Nefer ter conseguido escapar da vigilância de Asmor e passado a manhã inteira nos pântanos com a princesa hicsa.

— Como posso acreditar nisso quando você ajudou Nefer? Não! Você instigou essa leviandade.

— Meu Senhor Regente, o senhor deve entender o quanto é crucial para o nosso empreendimento o fato de eu contar com a total confiança do faraó. Se eu der a impressão de estar escarnecendo da suas ordens e da sua autoridade, isso fará com que o rapaz acredite que ainda sou o homem dele. E tornará mais fácil de realizar a difícil tarefa que me foi entregue pelos Dédalos.

Diplomaticamente Taita rebateu cada uma das acusações do regente, até que ele parou de esbravejar, limitando-se a meros grunhidos mal-humorados.

— Isso não deve tornar a acontecer, Mago. Claro que confio na sua lealdade. Você seria realmente um tolo em desobecer às ordens expressas dos deuses. No entanto, no futuro, sempre que Nefer sair dos seus aposentos, deverá estar acompanhado por Asmor e uma escolta completa dos seus guardas. Não posso correr o risco de ele desaparecer.

— Meu senhor, como vão as negociações com o chefe hicso? Há algo que eu possa fazer para que o senhor assegure um resultado bem-sucedi-do nessa questão?

Habilmente, Taita direcionou os cães farejadores para um cheiro diferente, e Naja os acompanhou.

Apepi está indisposto. Esta manhã ele teve um acesso de tosse tão intenso que expeliu sangue e teve de sair da câmara de conferência. Embora ele próprio não possa participar, não permitirá que qualquer outro fale em seu nome, nem mesmo o Senhor Trok, que normalmente conta com a sua confiança. Só os deuses sabem quanto tempo irá levar até que aquele urso retorne à conferência. Talvez sejamos obrigados a desperdiçar dias, ou até semanas.

— Qual é a enfermidade de Apepi? — Taita perguntou.

— Não sei... — Naja interrompeu-se quando uma idéia lhe ocorreu.

Por que não pensei nisso antes? Com suas habilidades, você seria capaz de curar qualquer que seja a doença dele. Vá vê-lo imediatamente, Mago, e faça o melhor que puder.

Enquanto se aproximava dos aposentos do rei, Taita podia ouvir Apepi através do pátio. Ele suava como um leão selvagem preso numa armadilha, e os urros ficavam mais altos conforme Taita entrava na câmara. Quando passou pela soleira da porta, quase foi derrubado por três sacerdotes de Osíris que fugiam da presença do rei em terror, e uma pesada bacia de bronze retiniu contra a parede. Essa fora atirada do outro lado do quarto pelo rei hicso, que se sentava nu numa confusão de peles e lençóis amassados, no centro do cômodo.

— Por onde tem andado, Mago? — ele rugiu, assim que avistou Taita. — Mandei Trok à sua procura antes do amanhecer. Por que chega aqui somente no meio da tarde para me salvar destes sacerdotes infernais com seus venenos malcheirosos e suas pinças ardentes?

— Eu não vi Trok — Taita explicou. — Mas vim assim que o Senhor Naja me disse que o senhor estava indisposto.

— Indisposto? Eu não estou indisposto, Mago. Estou à beira da morte.

— Vamos ver o que pode ser feito para salvá-lo.

Apepi virou-se sobre a barriga peluda, e Taita viu o inchaço grotesco e arroxeado nas suas costas. Tinha o tamanho de ambos os pulsos cerrados do rei. Quando Taita tocou-o levemente com a ponta do dedo, Apepi berrou outra vez e começou a transpirar profusamente.

— Com cuidado, Taita. Você é tão ruim quanto todos os sacerdotes do Egito juntos.

— Como foi que isso apareceu? — Taita deu um passo para trás. — Quais foram seus sintomas?

— Começou com uma forte dor no peito. — Apepi tocou-o. — Depois comecei a tossir, e a dor ficou mais aguda. Eu sentia alguma coisa se mover aqui dentro, depois a dor pareceu mover-se para minhas costas, e apareceu esse inchaço. — Ele estendeu a mão sobre o ombro para tocar o lugar inchado e gemeu novamente.

Antes de mais nada Taita administrou-lhe uma poção de Shepenn Vermelha, a flor do sono. Era uma dose que teria derrubado um filhote de elefante, mas embora os olhos de Apepi ficassem enevoados e a voz pastosa, ele continuou lúcido. Taita tornou a apalpar o inchaço, e o rei gemeu, mas sem fazer nenhum outro protesto.

— Há algum objeto estranho alojado profundamente em sua carne, meu senhor — ele finalmente declarou.

— Isso não é uma grande surpresa para mim, Mago. Homens malignos, a maioria deles egípcios, têm enfiado objetos estranhos na minha carne desde a última vez em que suguei as tetas da minha ama-de-leite.

— Eu poderia pensar que fosse uma ponta de flecha ou uma lâmina, mas não há ferimento de entrada — Taita considerou.

— Use os seus olhos, companheiro. Estou coberto de ferimentos. — De fato, o corpo cabeludo do rei estava todo marcado com antigas cicatrizes de batalha.

— Vou ter de cortar para retirar o objeto — Taita avisou. Apepi rosnou.

— Então faça isso, Mago, e pare de tagarelar.

Enquanto Taita selecionava um escalpelo de bronze em seu baú, Apepi pegou seu grosso cinturão de couro no chão e dobrou-o ao meio. Colocou-o entre os dentes e preparou-se para a faca.

— Venham aqui! — Taita chamou os guardas que estavam na porta. — Venham e segurem o rei.

— Saiam, seus idiotas! — Apepi contra-ordenou. — Não preciso de homem algum para me segurar.

Taita posicionou-se sobre ele, calculou o ângulo e a profundidade do corte, depois fez uma incisão rápida e profunda. Apepi emitiu um grito abafado entre os dentes presos no cinturão, mas não se moveu. Taita recuou quando um jorro de sangue escuro e pus espesso e amarelo explodiu do ferimento. Um fedor horrível encheu o cômodo. Taita largou o escalpelo e percorreu o dedo no fundo da abertura. O sangue saía em borbotões em torno dela, mas ele sentiu algo duro e pontudo no fundo da incisão. Pegou o fórceps de marfim que deixara à mão e sondou pela abertura até sentir a ponta tocar em algo sólido.

Apepi havia parado de gritar e jazia ali sem nenhum movimento, exceto pelo estremecer involuntário dos músculos das costas. Respirava com um resfolegar porcino através do nariz. Na terceira tentativa Taita pegou o objeto com as pontas do fórceps e remexeu-o até sentir que ele cedia e começava a subir para a superfície. Quando saiu — o último milímetro com um jorro de pus e detritos —, Taita levantou-o contra a luz que vinha da janela.

— Uma ponta de flecha — ele anunciou. — E estava alojada ali havia muito tempo. Admira-me que não tenha necrosado anos atrás.

Apepi cuspiu o cinturão e sentou-se, rindo tremulamente.

— Pelos testículos peludos de Seueth, eu reconheço essa belezinha. Um dos seus rufiões atirou-a em mim em Abnub, dez anos atrás. Naquela época meus cirurgiões disseram que ela se alojara tão perto do coração que eles não poderiam alcançá-la, por isso deixaram-na ali, e eu a tenho eestado desde então.

Ele pegou o triângulo de pederneira da mão ensangüentada de Taita e admirou-o com o orgulho de um proprietário.

— Sinto-me como uma mãe com seu primeiro recém-nascido. Vou mandar fazer um talismã com isso, para usar no pescoço com uma corrente de ouro. Irá desviar qualquer outro tiro. O que acha, Mago?

— Tenho certeza de que será altamente eficaz, meu senhor. — Taita encheu a boca com o vinho quente e mel que deixara preparados numa vasilha, e usou um tubo de metal para lavar o pus e o sangue, injetando-o profundamente no ferimento.

— Que desperdício de bom vinho — Apepi falou, depois pegou a vasilha com ambas as mãos e bebeu todo o restante do conteúdo. Atirou-a contra a parede no outro lado do cômodo e arrotou. — Agora, como recompensa pelos seus serviços, tenho uma história muito interessante para lhe contar, Mago, que nos remete de volta à nossa última conversa na torre em Bubasti.

— Estou ouvindo com toda atenção a cada palavra de sua senhoria. Taita inclinou-se sobre ele e começou a fazer um curativo na ferida,

usando faixas de linho e murmurando o encantamento para a cicatrização de ferimentos:

"Eu te aglutino, ser de Seth.

Eu fecho tua boca vermelha, ser do grande mal".

Apepi interrompeu rispidamente:

— Trok ofereceu um laque de ouro como preço do dote para Mintaka. As mãos de Taita pararam de se mover. Ele ficou imóvel, com as bandagens ao meio do tronco arredondado de Apepi.

— E o que o senhor respondeu a ele, majestade?

Estava tão perturbado que o título real lhe escapou antes mesmo que percebesse. Aquele era um acontecimento perigoso e inesperado.

— Eu disse a ele que o preço do dote era de cinco laques. — Apepi sorriu. — O cachorro está tão excitado com a minha cadelinha que seu cacete está levantado entre seus olhos a ponto de cegá-lo, mas apesar de tudo o que ele me roubou no decorrer dos anos, nem assim jamais conseguirá juntar cinco laques. — Ele arrotou outra vez. — Não se preocupe, Mago, Mintaka é valiosa demais para ser desperdiçada com alguém como Trok, quando posso usá-la para acorrentar o seu pequeno faraó aos meus domínios.

Ele levantou-se e ergueu um dos braços grossos e musculosos, tentando espiar por baixo dele para o curativo nas costas, como um velho galo com a cabeça sob a asa.

— Você me transformou numa múmia antes do tempo — ele riu. — Mas fez um bom trabalho. Vá e diga ao seu regente que estou pronto para arriscar mais uma fungadela em seu perfume e que irei encontrá-lo na câmara de conferências novamente, daqui a uma hora.

Naja foi apaziguado pelo sucesso de Taita e pelo recado de Apepi. Qualquer suspeita que ele tivesse acerca da deslealdade de Taita foi eliminada.

— Aquele velho patife Apepi está no ponto — Naja gabou-se. — Está prestes a fazer mais concessões do que pensa, e foi por isso que fiquei tão furioso quando ele interrompeu a conferência e foi para os seus aposentos. — Estava tão satisfeito consigo mesmo que não conseguia ficar sentado. Levantou-se e começou a andar pelo piso de pedra. — Como está ele, Mago? Você deu-lhe alguma poção que possa ter-lhe enevoado a mente?

— Ministrei-lhe uma dose capaz de derrubar um búfalo — Taita assegurou-lhe.

Naja atravessou o cômodo até o seu baú de cosméticos e borrifou o perfume de um frasco de vidro verde na palma da mão, depois esfregou-a na nuca.

— Bem, vou aproveitar-me bem disso — ele disse. Andou na direção da porta, depois olhou por cima do ombro. — Venha comigo — ordenou. — Talvez eu tenha de usar os seus poderes antes de acabar com Apepi.

Comprometer Apepi ao tratado não era a tarefa fácil que Naja havia sugerido. Ele não demonstrou nenhum efeito adverso fosse do ferimento, fosse da medicação, e ainda estava esbravejando, gritando e batendo o punho cerrado na mesa por muito tempo depois que o vigia das muralhas do templo chamou a meia-noite. Nenhum acordo que Naja oferecia parecia o bastante para ele, e finalmente até Taita estava exausto com tanta intransigência. Naja suspendeu a conferência e, com o cantar dos galos no pátio, arrastou-se para a cama.

No dia seguinte, quando tornaram a se reunir ao meio-dia, Apepi não estava mais receptivo do que antes, e as negociações foram ainda mais conturbadas. Taita usou de toda sua influência para acalmá-lo, mas Apepi permitia-se ser cortejado apenas muito lentamente. Assim, foi somente no quinto dia que os escribas puderam começar a escrever os termos do tratado nas tábuas de argila, tanto na escrita hierática quanto com os hieróglifos, traduzidos nos idiomas hicso e egípcio. Eles trabalharam até tarde da noite.

Até aquele momento Naja havia excluído o Faraó Nefer Seti do conclave. Ele o mantivera ocupado com tarefas triviais, aulas com os tutores e exercícios com as armas, encontros com embaixadores e delegações de mercadores e sacerdotes, todos que buscavam concessões ou donativos. No final, Nefer havia se rebelado, portanto Naja enviou-o para caçar e praticar falcoaria com os filhos mais jovens de Apepi. Essas excursões não eram os mais amigáveis dos eventos, e o primeiro dia terminara com uma ruidosa disputa envolvendo uma sacola, que quase levou a uma troca de socos.

No segundo dia, atendendo à sugestão de Taita, a Princesa Mintaka reuniu-se ao grupo de falcoaria para agir como pacificadora entre as duas facções. Mesmo seus irmãos mais velhos dedicavam-lhe uma considerável admiração e condescendiam com ela quando, em qualquer outra ocasião, teriam desembainhado as espadas e corrido para devastar o grupo de egípcios. Da mesma forma, quando Mintaka estava cavalgando ao lado dele em sua biga de batalha, os instintos guerreiros de Nefer eram aplacados. Mal reparava no comportamento ameaçador e fanfarrão dos grosseiros parentes dela e desfrutava da sua inteligência e erudição, isso sem mencionar a sua proximidade física. No espaço restrito da biga, freqüentemente eram atirados um contra o outro enquanto sacudiam no terreno íngreme, correndo ao encalço dos bandos de gazelas fugitivas. Então Mintaka o agarrava e apoiava-se nele, mesmo quando o perigo imediato já passara.

Quando Nefer retornou ao templo, depois da primeira excursão, mandou chamar Taita com a desculpa de lhe descrever o dia de esportes, mas estava distante e distraído. Mesmo quando Taita lhe perguntou sobre a performance do seu falcão preferido, Nefer não demonstrou muito entusiasmo. Até que, subitamente, comentou num tom sonhador:

— Você não fica espantado, Taita, ao ver como as moças são macias e quentes?

Na manhã do sexto dia os escribas tinham completado o trabalho, e as cinqüenta tábuas do tratado estavam prontas para ser ratificadas. Só então Naja chamou o faraó para tomar parte nos procedimentos. Da mesma forma, todos os filhos de Apepi, incluindo Mintaka, deveriam estar presentes à cerimônia.

Mais uma vez o pátio do templo estava repleto com uma cintilante congregação de realeza e nobreza quando, em tons estentóricos, o Arauto Real começou a ler o texto do tratado. Imediatamente Nefer foi absorvido pelo seu conteúdo. Ele e Mintaka tinham-no discutido em detalhes durante os dias que passaram juntos, e trocado olhares significativos sempre que julgavam ter detectado uma falha ou omissão nos termos. No entanto essas eram poucas, e Nefer tinha certeza de que detectara a influência discreta de Taita em muitas partes do longo documento.

Finalmente chegara a hora de afixar os selos. Após uma série de toques das cornetas de chifres de carneiro, Nefer pressionou sua insígnia na argila úmida e Apepi fez o mesmo. Nefer ficou incomodado ao ver que o rei hicso havia usurpado a prerrogativa faraônica ao adotar a insígnia sagrada.

Enquanto Naja observava com uma expressão enigmática sob a pesada maquiagem, os novos co-governantes dos dois reinos trocaram um abraço. Apepi envolveu o corpo esguio de Nefer num abraço de urso, e a congregação explodiu em gritos de "Bak-her! Bak-her!". Os homens batiam suas armas nas armaduras, ou o cabo das lanças no piso de pedra.

Nefer descobriu-se quase dominado pelos poderosos odores corporais de Apepi. Um dos hábitos egípcios que os hicsos não haviam adotado era o conceito de higiene pessoal. Nefer consolou-se com o pensamento de que, se ele achara o odor repugnante, então Naja levaria um choque quando o rei fosse lhe demonstrar sua afeição. Educadamente ele desvencilhou-se do abraço do seu co-faraó, mas Apepi sorriu-lhe com aquele seu jeito avuncular e pousou uma das patas peludas em seu ombro. Depois, virou-se para a frente do pátio lotado.

— Cidadãos deste poderoso país, que está novamente unido, eu lhes penhoro minha obrigação e meu amor patriótico. Como prova disso, ofereço em casamento a mão da minha filha, Princesa Mintaka, ao Faraó Nefer Seti, que é o meu co-governante deste Egito. O Faraó Nefer Seti, que divide comigo a coroa dupla dos Reinos Alto e Baixo, e que deverá ser o meu filho, e cujos filhos serão meus netos!

Houve um longo momento de total imobilidade no pátio, enquanto a assembléia tentava assimilar aquele espantoso pronunciamento. Então a multidão explodiu em gritos e aplausos de aprovação ainda mais entusiásticos, e o bater de armas e pés no chão tornou-se ensurdecedor.

O Faraó Nefer Seti tinha uma expressão no rosto que, fosse em qualquer outro mortal, poderia ser descrito como um sorriso idiota. Seus olhos estavam fixos em Mintaka, no lado oposto do pátio. Ela estava congelada, a mão cobrindo a boca como se para impedir-se de gritar, e os olhos arregalavam-se de espanto enquanto os dirigia para o pai. Lentamente um forte rubor cobriu-lhe o rosto e, tímida, ela virou os olhos para encontrar os de Nefer. Os dois olharam-se como se não houvesse mais ninguém à sua volta.

Taita observava tudo aos pés do trono do faraó. Concluiu que Apepi escolhera o momento exato para anunciar sua decisão. Agora não haveria nenhuma possibilidade de que alguém — Naja, Trok ou qualquer outro — se colocasse no caminho daquele casamento.

Taita aproximou-se do trono de Naja. Sob a maquiagem o regente encontrava-se em pleno estado de consternação, particularmente consciente da sua difícil situação. Se Nefer casasse com a princesa, estaria fora do seu alcance. Ele viu a coroa dupla escorregando para longe das suas mãos. Naja devia ter pressentido o olhar de Taita, pois voltou-se na direção onde ele estava. Por apenas um instante Taita olhou para dentro da alma dele, e foi como se estivesse olhando um poço seco, repleto de cobras naja, das quais o regente recebera o nome. Então Naja velou os cruéis olhos amarelados, sorriu friamente e assentiu com aprovação, mas Taita sabia que seus pensamentos eram furiosos. No entanto, tais pensamentos eram tão rápidos e complexos que nem mesmo ele conseguiu acompanhá-los.

Taita virou a cabeça e avistou a figura corpulenta do Senhor Trok nas fileiras hicsas no outro lado. Ao contrário do regente, Trok não fazia nenhuma tentativa de disfarçar seus sentimentos. Estava furioso. A barba parecia eriçar-se, e o rosto estava inflamado com um escuro rubor. Ele abriu a boca como se fosse gritar um insulto ou um protesto, depois fechou-a e pousou uma das mãos no punho da espada. Os nós dos dedos esbranquiçaram-se com a força da empunhadura, e por um breve instante Taita achou que ele estava prestes a desembainhar a espada e atravessar o pátio correndo na direção de Nefer. Com um imenso esforço ele recuperou o controle de si mesmo, alisou a barba e, virando-se abruptamente, saiu do pátio. A comoção era tal que quase ninguém reparou em sua partida. Somente Apepi observou-o, com um sorriso cínico.

Enquanto Trok desaparecia entre os altos pilares de granito de Hathor, Apepi retirou a mão do ombro de Nefer e dirigiu-se para o trono de Naja. Ergueu o regente com a maior facilidade das suas almofadas e abraçou-o com um vigor ainda maior do que quando abraçara o faraó. Seus lábios estavam pressionados na orelha de Naja quando sussurrou:

— Nada mais de truques egípcios a partir de agora, minha flor cheirosa, ou eu os enfiarei em seu traseiro tão fundo quanto meu braço consiga alcançar.

Largou Naja novamente nas almofadas, depois sentou-se no trono que havia sido colocado ao lado para ele. Naja empalideceu e levou às narinas um lenço de linho ensopado de perfume, enquanto tentava recuperar a presença de espírito. Onda após onda de aplausos ressoava no pátio. Quando finalmente diminuíram, Apepi martelou as patas imensas nos braços do trono e encorajou-os a aplaudir ainda mais, e a gritaria e balbúrdia recomeçaram. Ele estava se divertindo imensamente e manteve a multidão aplaudindo até que todos estivessem quase exaustos.

Com a coroa deshret do Baixo Egito na cabeça, ele era a figura dominante. Ao lado dele Nefer, mesmo sob a autoridade da alta coroa hedjet, era um mero adolescente. Finalmente, depois de uma última explosão de aplausos, Naja levantou-se e ergueu os dois braços. Um silêncio grato instalou-se.

— Que a sagrada virgem se aproxime!

Guiada numa procissão pelas suas acólitas, a suma sacerdotisa do templo avançou na direção do trono duplo. À sua frente, duas sacerdotisas traziam as coroas pshent do duplo reino. Enquanto o coro do templo entoava louvores à deusa, as veneráveis mulheres mais velhas removiam as coroas únicas da cabeça dos co-governantes e as substituíam pelas coroas duplas, significando a reunificação do Egito. Então ela pronunciou sua trêmula bênção aos dois faraós e ao novo país e retirou-se para as profundezas do templo. Houve um pequeno intervalo de indecisão, pois aquela era a primeira vez na longa história do Egito que uma cerimônia de reunificação era realizada, e não havia protocolos estabelecidos para ser seguidos.

Habilmente Naja aproveitou a oportunidade. Mais uma vez ele se levantou e foi para a frente de Apepi.

— Neste dia feliz e auspicioso, regozijamo-nos não apenas com a união dos dois reinos mas também com o contrato de casamento entre o Faraó Nefer Seti e a linda Princesa Mintaka. Dessa forma, que seja conhecido através dos dois reinos que o casamento se realizará neste templo no dia em que o Faraó Nefer Seti comemorar a sua maioridade, ou preencher uma das condições para ratificar seu direito à coroa e governar em seu próprio direito, sem um regente para protegê-lo e aconselhá-lo.

Apepi franziu a testa, e Nefer fez um leve gesto de desalento, mas era tarde demais. O anúncio fora feito em sessão aberta e, como regente, Naja havia falado com a autoridade de ambas as cabeças coroadas. A não ser que Nefer capturasse seu próprio deus-pássaro, ou vencesse na corrida do Percurso Vermelho, dessa forma ratificando seu direito ao trono, Naja havia efetivamente evitado que o casamento se realizasse por um bom número de anos.

Foi um golpe de mestre, Taita pensou amargamente, mas admirou a perspicácia política que o originara. Naja havia evitado que o desastre recaísse sobre si graças à rapidez de pensamento e intervenção na hora exata. Agora, enquanto sua oposição se encontrava em desequilíbrio, ele foi ainda mais longe:

— Com uma notícia igualmente feliz, eu convido o Faraó Apepi e o Faraó Nefer Seti para celebrarem meu próprio casamento com as princesas Heseret e Merykara. Essa jubilosa cerimônia será realizada daqui a dez dias, no primeiro dia do festival da Ascensão de ísis, no templo de Isis, na cidade de Tebas.

Portanto, em dez dias o Senhor Naja se tornaria um membro da família real Tamosiana, e seria o próximo na sucessão do Faraó Nefer Seti, Taita pensou sombriamente. Agora sabemos, sem a menor dúvida, quem era a cobra no ninho do falcão real, nos penhascos de Bir Umm Masara.

Pelos termos do tratado de Hathor, a base de Apepi permaneceria em Avaris, e a de Nefer Seti em Tebas. Cada um governaria o seu reino anterior, mas em nome de um biunvirato. Duas vezes por ano, no início e no final da inundação do Nilo, os dois reis deveriam comparecer a uma assembléia comum em Mênfis, onde todas as questões concernentes aos dois reinos seriam resolvidas, novas leis decretadas e apelações legais consideradas.

No entanto, antes que os dois faraós se separassem, cada um para tomar seu posto em sua respectiva capital, Apepi e seu séquito iriam navegar rio acima, juntamente com as frotas de Nefer Seti, até Tebas. Lá iriam participar do duplo casamento do Senhor Naja.

O embarque simultâneo dos dois comboios no ancoradouro abaixo do templo foi um acontecimento caótico que se prolongou por toda a manhã. Taita misturou-se à aglomeração de barqueiros e carregadores, escravos e passageiros importantes. Até ele estava impressionado com as montanhas de bagagem e equipamentos empilhados na praia, esperando para ser carregadas nos barcos, falucas e galés. Em vez de cavalgarem através da longa e íngreme estrada, os regimentos de Tebas e de Avaris haviam desmontado suas bigas e carregavam-nas, juntamente com os cavalos, para as barcaças de transporte. Isso contribuía grandemente para a confusão na margem do rio.

Por uma vez Taita não era o centro das atrações: havia trabalho para manter todos plenamente ocupados. De vez em quando um homem erguia os olhos do que estava fazendo, reconhecia-o e lhe pedia as bênçãos, ou uma mulher lhe trazia o filho doente para ser tratado. No entanto, aos poucos ele foi capaz de abrir caminho ao longo da praia, procurando disfarçadamente as bigas e equipamentos do regimento do Senhor Trok. Reconheceu-os pelos penachos verdes e vermelhos, e conforme se aproximava, distinguia a figura inconfundível de Trok entre seus homens. Taita esgueirou-se mais para perto e viu-o parado junto a uma pilha de equipamentos e armas, passando um sermão no seu lanceiro:

— Seu babuíno idiota, como foi que empacotou meu equipamento? Lá está o meu arco favorito, completamente desprotegido. Qualquer imbecil poderá passar por cima dele com o cavalo.

Seu humor do dia anterior não havia melhorado, e ele afastou-se com Passos duros pelo ancoradouro, vergastando com o chicote qualquer infeliz que cruzasse seu caminho. Taita observou-o parar para falar com outro dos seus sargentos e depois tomar a trilha para o templo.

Assim que ele desapareceu Taita aproximou-se do lanceiro. O soldado usava apenas calções e sandálias, e quando ele pegou um dos baús com o equipamento de Trok e seguiu vacilando sob o peso até a barcaça ancorada, Taita viu o nítido avermelhado circular da porrigem em suas costas nuas. O lanceiro entregou o baú ao barqueiro, no convés da embarcação, e depois voltou. Pela primeira vez avistou Taita parado ali perto e tocou o peito com o punho cerrado, saudando-o respeitosamente.

— Venha até aqui, soldado — Taita chamou-o. — Há quanto tempo você tem essa coceira nas costas?

Instintivamente o homem virou o braço por cima do ombro e coçou-se com tanta força que arrancou sangue.

— Essa maldita coisa está me incomodando desde que capturamos Abnub. Acho que é um presente de uma daquelas sujas prostitutas egípcias... — Ele interrompeu-se, com ar de culpa. Taita sabia que ele estava falando sobre uma mulher que estuprara durante a captura da cidade. — Perdoe-me, Mago, agora nós somos aliados e concidadãos.

— É por isso que irei curá-lo da sua aflição, soldado. Vá até o templo e peça um jarro de banha de porco, depois traga-o para mim. Irei preparar-lhe um ungüento.

Taita sentou na pilha de bagagens de Trok, e o lanceiro saiu correndo pela praia. Em meio aos equipamentos estavam três arcos de guerra — Trok fora injusto em sua acusação, pois cada um dos arcos estava desmontado e cuidadosamente embrulhado em seus recipientes de couro.

O assento de Taita era formado por uma pilha de baús de madeira. E isso não era por acaso, pois ele havia visto que o primeiro baú continha o selo de Grippa, o fabricante de flechas de Avaris que confeccionava as flechas para os oficiais hicsos mais graduados. Taita lembrou-se que conversara com Mintaka sobre o trabalho de Grippa. Disfarçadamente ele retirou a adaga da sua bainha sob o chiton, cortou a corda que prendia a tampa do baú e levantou-a. Uma camada de palha seca protegia as flechas, e sob elas estavam acondicionadas alternadamente a ponta de pedra contra a haste enfeitada de penas verdes e vermelhas. Taita pegou uma delas e girou-a entre os dedos.

O sinete entalhado saltou-lhe aos olhos, a cabeça estilizada do leopar-do com a letra T hierática entre as mandíbulas. A flecha era idêntica àquela que ele encontrara na aljava, na cena do assassinato do faraó. Era o último fio que faltava na trama de traição e perfídia. Naja e Trok estavam inexoravelmente ligados na trama sangrenta, cuja forma total ele poderia apenas adivinhar, por enquanto.

Taita guardou a flecha incriminadora sob as dobras do chiton e fechou a tampa do baú. Tornou a amarrar a corda habilmente e esperou que o lanceiro retornasse.

O velho soldado ficou mais do que grato pelo tratamento de Taita, e aproveitou para implorar por mais um favor:

— Um amigo meu está com a sífilis egípcia, Mago. O que ele deve fazer?

Taita achava engraçado o fato de que os hicsos chamavam-na de sífilis egípcia, e os egípcios, por sua vez, retribuíam a homenagem. Parecia que nenhum homem jamais a contraía, mas sempre tinha um amigo que sofria da doença.

A cerimônia e o banquete em comemoração ao casamento do Senhor Naja com as duas princesas Tamosianas foram os mais luxuosos de que se tinha registro. Taita recordou que excedia de longe, em esplendor, qualquer um dos casamentos do Faraó Tamose ou do seu pai, o Faraó Mamose, ambos filhos divinos de Ra. Que vivessem para sempre.

Aos cidadãos comuns de Tebas, o Senhor Naja forneceu quinhentas cabeças de boi de primeira, duas barcaças de milhete dos celeiros do Estado e cinco mil grandes potes de cerâmica contendo a melhor cerveja. Os festejos prosseguiram durante uma semana, mas nem mesmo as bocas famintas de Tebas poderiam devorar tais quantidades de comida em tão pouco tempo. Os remanescentes do milhete e da carne, que foi defumada para ser preservada, alimentaram a cidade durante meses, depois disso. No entanto, a cerveja foi uma outra questão: eles beberam tudo na primeira semana.

O casamento foi celebrado no templo de ísis, na presença dos dois faraós, seiscentos sacerdotes e quatrocentos convidados. Quando entrava no templo, cada convidado era presenteado com uma jóia comemorativa, encravada de marfim, ametista, coral ou qualquer outra pedra preciosa, com o nome do convidado gravado entre os nomes do regente e das noivas.

As duas noivas chegaram ao encontro do noivo em uma das carruagens oficiais, puxadas pelos sagrados bois brancos, que eram conduzidos por escravos núbios nus. O caminho estava revestido com folhas de palmeiras e flores, e uma biga seguia à frente da carruagem nupcial atirando anéis de ouro e cobre para as multidões felizes e delirantes que se alinhavam por todo o trajeto. O entusiasmo do povo era devido, em não pouca medida, à generosidade do Senhor Naja no fornecimento da cerveja.

As meninas estavam vestidas com linhos diáfanos e brancos como nuvens, e a pequena Merykara quase se encurvava sob o peso do ouro e pedrarias que lhe cobriam o corpo pequeno. As lágrimas abriam sulcos através do kohl e da maquiagem. Heseret apertava-lhe a mão com força para tentar consolá-la.

Quando chegaram ao templo foram recebidas pelos dois faraós, enquanto desembarcavam da grande carruagem oficial. Nefer sussurrou para Merykara, levando-a até a nave do templo:

— Não chore, minha gatinha. Ninguém irá machucá-la. Você estará de volta aos seus aposentos de menina antes mesmo da sua hora de dormir.

Para registrar seu protesto em relação ao casamento das irmãs, Nefer tentara evitar a obrigação de levar a irmã mais nova até o santuário, mas Taita o fizera raciocinar:

— Não podemos evitar que isso aconteça, embora você saiba o quanto tentamos. Naja está determinado. Seria crueldade da sua parte se não estivesse presente para confortá-la nesse episódio mais amedrontador da curta existência dela.

Com relutância, Nefer acabara concordando.

Logo atrás deles Apepi levava Heseret. Ela estava linda como uma ninfa do paraíso em seus mantos brancos e jóias cintilantes. Meses atrás ela havia se resignado ao destino que os deuses lhe reservaram, e seu desalento e horror aos poucos deram lugar à curiosidade e a uma secreta antecipação. O Senhor Naja era um homem de aparência magnífica, e suas amas, servas e companheiras de folguedos tinham-no discutido em ávidos detalhes, salientando interminavelmente suas virtudes mais óbvias e, com risinhos ofegantes, especulando como seriam seus atributos ocultos.

Talvez como conseqüência dessas conversas, recentemente Heseret vinha experimentando sonhos intrigantes. Num deles estivera correndo nua por um jardim luxuriante nas margens do rio, sendo perseguida pelo regente. Quando olhou para trás, por cima do ombro, viu que ele também estava nu, mas que era humano apenas até a cintura. Dali para baixo era um cavalo, exatamente como o garanhão favorito de Nefer, o Sonhador. Quando ele estava entre as éguas, ela muitas vezes vira o Sonhador naquele mesmo estado impressionante que o regente agora exibia, e sempre sentira-se estranhamente emocionada com a visão. No entanto, justamente quando o regente a alcançou e estendeu a mão para segurá-la, o sonho terminou de repente, e ela descobriu-se sentada na cama, ofegante. Sem dar-se conta do que estava fazendo, deslizou a mão por baixo das cobertas e tocou-se. Seus dedos tinham voltado molhados e escorregadios. Ela ficara tão perturbada que não conseguira mais dormir e retomar o sonho onde havia parado, embora tentasse com muito esforço. Queria saber qual seria o final daquela experiência perturbadora. Na manhã seguinte sentia-se inquieta e irritada, e despejou o mau humor em todos que a cercavam. Daquele dia em diante seu interesse juvenil por Meren começou a diminuir. De qualquer forma, ela passara a vê-lo apenas raramente: desde a morte do avô pelas mãos do Senhor Naja, a fortuna dele dissipara-se, e a família caíra em desgraça. Ela acabou percebendo que ele era um rapaz pobre, um soldado comum sem nenhum favorecimento ou perspectivas. O nível social do Senhor Naja era quase igual ao dela, e a fortuna dele excedia de longe a sua própria.

Agora ela mantinha um ar recatado e casto, enquanto Apepi a levava pela longa galeria do templo até o santuário. O Senhor Naja esperava ali pelo grupo nupcial, e embora estivesse cercado pelos cortesãos e oficiais em belos trajes e uniformes magníficos, Heseret tinha olhos apenas para ele.

Naja usava um enfeite de cabeça adornado com penas de avestruz para emular o deus Osíris, e postava-se ainda mais alto do que Asmor e o Senhor Trok, que o flanqueavam. Quando Heseret aproximou-se dele, sentiu o seu perfume. Era uma mistura de essências de flores de uma terra além de Indus, e também continha o precioso âmbar-gris, encontrado apenas raramente à beira mar, um prêmio dos deuses das profundezas do oceano. O aroma excitou-a, e ela tomou a mão que Naja lhe oferecia sem hesitação, fitando aqueles fascinantes olhos amarelados.

Quando Naja ofereceu a outra mão a Merykara ela prorrompeu em altos soluços, e Nefer nada pôde fazer para reconfortá-la. Ela continuou soluçando a intervalos, durante a longa cerimônia que se seguiu.

Quando finalmente o Senhor Naja quebrou as jarras com água do Nilo para marcar o encerramento da cerimônia, as multidões ofegaram de espanto: as águas do grande rio, em cujas margens ficava o templo, adquiriram uma cor azul intensa. Em volta da primeira curva Naja fizera com que uma fileira de barcaças ficasse ancorada de uma margem a outra, e a um sinal emitido do telhado do templo os tripulantes haviam jogado jarros de pigmento azul nas águas. O efeito foi de tirar o fôlego, pois azul era a cor da dinastia Tamosiana. Naja estava declarando ao mundo as suas novas conexões faraônicas.

Observando do topo da ala oeste, Taita viu o rio mudar de cor e estremeceu com uma sensação de presságio. Parecia que, por um momento, o sol escurecia no céu egípcio, enquanto as águas azuis adquiriam a cor do sangue. Mas quando ele olhou para cima não havia nenhuma nuvem, nem um bando de aves para bloquear os seus raios, e quando olhou para baixo as águas estavam novamente azuis.

Agora Naja pertence à linhagem real, e Nefer está privado até dessa proteção. Sou o único escudo que lhe restou, e sou apenas um homem, e velho. Meus poderes serão suficientes para afastar a cobra do filhote de falcão? Dê-me forças, divino Horus. O senhor tem sido meu escudo e minha lança por todos estes anos. Não me abandone agora, poderoso deus.

O Senhor Naja e suas duas esposas seguiram em pompa pela avenida sagrada, guardada pelas fileiras de leões de granito, até os portões do palácio. Lá eles desmontaram e foram em procissão pelos jardins até o salão de banquetes. Muitos dos convidados haviam chegado antes deles e estavam provando o vinho dos vinhedos do templo de Osíris. A comoção foi ensurdecedora, quando o grupo nupcial entrou. Naja trazia uma jovem esposa em cada mão. O trio avançou com dignidade através da multidão, e inspecionou brevemente as montanhas de presentes empilhadas no centro do salão, que se adequavam a tal ocasião importante. Apepi enviara uma biga revestida de ouro. Era tão brilhante que mesmo sob a fraca luz do salão era difícil olhar para ela diretamente. O Rei Sargon da Babilônia enviara cem escravos, cada um levando um baú de sândalo repleto de jóias, pedras preciosas ou vasos de ouro. Todos ajoelharam-se diante do regente e ofereceram seus fardos. Naja tocou cada um deles como sinal de aceitação. O Faraó Nefer Seti, por sugestão do Senhor Naja, havia transferido ao seu novo cunhado cinco valiosas propriedades na margem do rio. Os escribas calcularam que todos esses tesouros valiam mais de três laques de puro ouro. O regente tornara-se quase tão rico quanto o seu faraó.

Quando o trio nupcial tomou seus lugares na ponta da mesa, os cozinheiros do palácio começaram a servir o banquete que consistia em quarenta pratos diferentes, servidos por mil escravos. Havia trombas de elefante, línguas de búfalo e filés de cabras montesas núbias, carnes de javali, gazela e cabrito, de lagarto e píton, de crocodilo e hipopótamo, boi e ovelha. Todos os tipos de peixe do Nilo foram servidos, desde o bagre, cuja carne era macia e gordurosa, até a perca, de carne branca. Do mar do norte havia o atum, tubarão, lagostins e caranguejos, trazidos pelas galés velozes desde o delta. As aves do ar, incluindo cisnes, três tipos de marreco, inúmeras variedades de pato, codornas e codornizes, eram assadas ou grelhadas, marinadas com vinho ou mel silvestre, ou recheadas com ervas e temperos do Oriente. A fumaça aromática dos fornos e o perfume de comida eram saboreados pelas multidões de pedintes e plebeus nos portões do palácio, e por aqueles que se alinhavam nas margens distantes do rio, ou enchiam as falucas, todos buscando uma visão mais próxima das festividades.

Para entreter os convidados havia músicos e cantores, acrobatas e adestradores de animais. Enfurecido pelo barulho, um dos enormes ursos marrons rompeu as correntes e fugiu. Um grupo de nobres hicsos, liderado pelo Senhor Trok, perseguiu-o através dos jardins com gritos embriagados e matou o amedrontado animal na beira do rio.

Ao cair da noite a maior parte dos convidados estava embriagada, ou tão entupidos de comida que poucos foram capazes de se levantar quando o Senhor Naja e suas noivas se retiraram. Assim que chegaram aos seus aposentos particulares, Naja chamou as amas para levarem Merykara ao seu próprio quarto.

— Tratem-na com delicadeza — ele as avisou. — A pobre criança está dormindo em pé.

Então ele tomou Heseret pela mão e levou-a aos seus suntuosos apartamentos, que davam vista para o rio. As águas escuras do Nilo cintilavam com o reflexo das estrelas.

Assim que entraram na alcova, as servas de Heseret levaram-na para trás do biombo de bambu, para remover seu vestido de noiva e as jóias.

Cobrindo a cama nupcial havia uma pele de carneiro que fora alvejada a um branco imaculado. O Senhor Naja inspecionou-a cuidadosamente, e quando se assegurou da sua perfeição, saiu para o terraço e aspirou profundamente o ar fresco do rio. Um escravo levou-lhe uma vasilha com vinho temperado, e ele bebeu com prazer. Era o primeiro que se permitia, durante toda a noite. Naja sabia que o segredo mais vital da sobrevivência era manter a mente clara na presença dos inimigos. Observara os seus convidados embriagarem-se a um estado lamentável. Até mesmo Trok, em quem ele depositava tanta confiança, havia sucumbido à sua natureza animal — quando Naja o vira pela última vez, ele estava vomitando copiosamente num balde estendido por uma linda escrava líbia. Quando acabou de vomitar, Trok limpara a boca nas saias da jovem e depois as erguera sobre a cabeça dela, empurrara a garota no chão e a possuíra por trás. A natureza altiva de Naja ficara ofendida com aquela exibição.

Ele retornou ao quarto quando dois escravos entraram carregando um caldeirão de água quente, no qual flutuavam pétalas de lótus. Naja deixou o vinho de lado e foi banhar-se. Um dos escravos enxugou e penteou seus cabelos, enquanto o outro lhe trouxe uma túnica branca e limpa. Ele os dispensou e retornou ao leito nupcial. Deitou-se, estendeu as pernas longas e elegantes e descansou a cabeça na cabeceira de marfim adornada de ouro.

Na extremidade do cômodo ouvia-se o farfalhar de tecidos e sussurros femininos. Uma vez ele reconheceu a risadinha de Heseret, e o som deixou-o excitado. Apoiou-se no cotovelo e olhou através da tela de bambu. Os vãos eram largos o bastante para lhe permitir relances excitantes da pele clara e macia.

O poder e a aspiração política eram os motivos principais para aquele casamento, mas não os únicos. Embora fosse um guerreiro por profissão e um aventureiro por temperamento, Naja tinha uma natureza voluptuosa e sensual. Durante anos havia observado Heseret furtivamente, e seu interesse aumentara a cada estágio na jornada dela em direção à feminilidade; desde a infância até a adolescência, e então para aquele período torturante em que os botões dos seus seios floresceram e a gordura infantil desaparecera, deixando seu corpo delicado e gracioso. O cheiro dela também mudara: sempre que ela estava por perto, ele detectava o leve e doce almiscarado feminino que o enfeitiçava.

Certa vez, quando estava caçando, Naja havia cruzado com Heseret e duas das suas amigas, que colhiam flores de lótus para trançar em guirlandas. Ela olhara para ele, quando Naja se postara acima dela na margem do rio, e suas saias molhadas tinham se colado às pernas, de forma que a pele reluzia através do fino linho. Ela afastara os cabelos do rosto com um gesto inocente que, mesmo assim, fora intensamente sensual. E embora sua expressão tivesse permanecido séria e casta, os olhos amendoados revelaram que ela possuía um traço lascivo e sensual, que o deixou fascinado. Essa revelação durara apenas um momento, antes que ela chamasse as amigas e saísse correndo através dos campos relvados na direção do palácio. Ele ficara observando as longas pernas molhadas e cintilantes, as nádegas arredondadas oscilando sob a saia de linho, e subitamente sua respiração tornara-se curta e rápida.

A recordação deixou-o mais excitado. Ele ansiava para que ela saísse de trás do biombo, mas, perversamente, queria adiar o momento para que pudesse desfrutar ainda mais da antecipação. Finalmente aconteceu. Duas das servas guiaram-na para fora e depois saíram em silêncio, deixando-a sozinha no centro do cômodo.

A túnica de dormir ia desde o pescoço até os tornozelos. Era feita de uma seda rara e preciosa das terras orientais, na cor de creme, e tão fina que parecia flutuar em torno dela como a névoa do rio, ondulando a cada respiração que ela dava. Havia uma lamparina a óleo num tripé atrás dela, e a suave luz amarela brilhava através da seda, salientando as curvas dos seus quadris e ombros, de forma que reluziam tão suavemente quanto o marfim polido. Seus pés descalços e as mãos estavam pintados com hena. O rosto fora lavado de toda a maquiagem, o sangue jovem sob a pele imaculada coloria delicadamente as suas faces e os lábios tremiam como se estivesse à beira das lágrimas. Ela inclinou a cabeça de um jeito quase infantil e olhou para ele por entre os olhos semicerrados. Seus olhos eram verdes, e o sangue dele apressou-se outra vez ao detectar o mesmo brilho malicioso, que tanto o intrigou na primeira vez.

— Vire-se — ele disse com delicadeza, mas sua garganta estava tão seca como se tivesse chupado o suco de um caqui verde.

Ela obedeceu, mas com um movimento sonolento, girando os quadris, o ventre reluzindo suavemente sob a seda. As nádegas ondularam, redondas e lustrosas como ovos de avestruz, e as tranças reluzentes dos seus cabelos balançaram.

— Você é linda. — A voz dele falhou.

Agora a sombra de um sorriso erguia os cantos da boca de Heseret, e ela umedeceu-a com a ponta da língua, tão rosada como a de um gatinho.

— Fico feliz porque o meu Senhor Regente me aprecia.

Ele levantou da cama e foi até ela. Tomou-lhe a mão, que era quente e macia. Levou-a para a cama, e ela seguiu-o sem hesitação. Ajoelhou na pele branca de carneiro e inclinou a cabeça, de forma que os cabelos cobriram-lhe o rosto. Naja postou-se acima dela e inclinou-se, até que seus lábios a tocaram. Ela exalava a fragrância elusiva de uma mulher jovem e saudável no primeiro jorro de excitação física. Ele acariciou-lhe os cabelos, e ela olhou-o através da cortina escura. Então ele separou as tranças e segurou-lhe o queixo entre os dedos. Devagar, provocando-se, fez com que ela levantasse o rosto.

— Seus olhos são iguais aos de Ikona — ela sussurrou.

Ikona era o leopardo domesticado pertencente a ele: o animal sempre a amedrontava e fascinava. Agora ela sentia as mesmas emoções, pois ele era esguio e felino como o grande gato, os olhos amarelos e implacáveis. Com o instinto de mulher, ela pressentiu crueldade e impiedade neles, o que evocou emoções que ela jamais experimentara antes.

— Você também é belo — ela murmurou, e era verdade. Nesse momento, ela deu-se conta de que ele era a criatura mais bela que já havia visto.

Ele beijou-a, e sua boca surpreendeu-a. Tinha o sabor de alguma fruta madura que ela jamais comera e, com toda naturalidade, ela abriu os próprios lábios para saboreá-la. A língua era ondulante e rápida como a de uma serpente, mas isso não a repugnou. Ela fechou os olhos e tocou-a com a sua. Então ele colocou as mãos em sua nuca e pressionou a boca com mais força contra a dela. Heseret estava tão enlevada com o beijo que, quando Naja envolveu seu seio com a mão apanhou-a desprevenida. Ela arregalou os olhos e ofegou. Tentou afastar-se, mas ele abraçou-a, acariciando-a com um toque gentil e experiente que aplacou seus temores. Ele acariciou seu mamilo, e a sensação percorreu-a através de todo o seu corpo, provocando-lhe um arrepio desde os braços até a ponta dos dedos. Ela sentiu um agudo desapontamento quando ele afastou a mão. Naja a fez levantar-se de forma que ela ficasse de pé sobre a pele de carneiro, com os seios na altura do rosto dele.

Com um único movimento ele arrancou a sua túnica de seda e deixou-a cair no chão. Depois, quando passou a sugar o seu mamilo, ela gemeu alto. Ao mesmo tempo, as mãos dele deslizaram por entre suas pernas e acariciaram o macio ninho de pêlos escuros.

Heseret não tinha a menor vontade de resistir ao que ele estava fazendo. Em vez disso, entregou-se totalmente. Pelo que as suas escravas lhe tinham contado, ela estivera aterrorizada com a idéia de que ele pudesse machucá-la, mas suas mãos, embora rápidas e fortes, eram delicadas. Ele parecia conhecer o seu corpo melhor do que ela mesma, e brincava com ele com tal perícia que ela descobriu-se mergulhando mais e mais fundo, mais e mais rápido sob a superfície, mergulhando e afundando naquele mar de novas sensações.

Veio à tona apenas mais uma vez, quando subitamente abriu os olhos e descobriu que ele também havia tirado a túnica e que se postava nu por cima dela. Lembrou-se do sonho no qual ele tinha aquela mesma coisa ali embaixo, como o garanhão Sonhador. Olhou para baixo com nervosismo, mas não era em nada parecido com o sonho: era liso e rosado, apesar de firme como um osso, num formato perfeito e limpo como uma coluna de templo. Seus medos evaporaram-se, e mais uma vez ela rendeu-se às suas mãos e seus lábios. Houve somente um rápido instante de dor aguda, mas isso foi muito mais tarde, e passageira, sendo rapidamente substituída por uma estranha, mas maravilhosa, sensação de plenitude. Então, bem depois, ouviu-o gritar acima dela. O som despertou algo em seu próprio corpo, transformando o prazer quase insuportável em seu próprio tipo de dor, e agarrou-se a ele com toda a força dos seus braços e pernas, e também gritou.

Por mais duas vezes naquela noite encantada e demasiado breve ele obrigou-a a gritar com o mesmo frenesi de prazer, e quando a aurora penetrou na alcova com sua luz rosa e prateada, ela ainda aconchegava-se em seus braços. Sentia-se como se toda a sua força vital lhe fora arrancada, como se seus ossos tivessem ficado moles e maleáveis como a lama do rio, e havia uma dor suave e profunda em seu ventre, que ela saboreou.

Ele deslizou para fora dos seus braços e ela protestou, com o pouco de forças que lhe restavam:

— Não vá. Ah, por favor, não vá, meu senhor. Meu belo senhor.

— Não será por muito tempo — ele sussurrou e, com delicadeza, puxou a pele de carneiro sob o corpo dela.

Heseret viu as manchas sobre a pele branca como neve, o sangue vivido como pétalas de rosa. Ela havia experimentado apenas aquela breve dor com o penetrar da sua feminilidade.

Ele carregou a manta de pele até o terraço, e ela observou-o na soleira da porta quando ele a pendurou no parapeito. A distância ouviu-se o vago ruído de aplausos, quando os cidadãos que esperavam lá em baixo viram a prova da sua virgindade sendo exibida. Ela não se importava em nada com a aprovação das hordas de camponeses, mas ao admirar as costas nuas do seu marido sentiu o peito e o ventre incharem-se de amor por ele. Quando ele voltou, ela o recebeu de braços abertos.

— Você é magnífico — ela sussurrou, e adormeceu em seus braços. Mais tarde foi acordando aos poucos e descobriu que todo o seu ser

estava repleto com uma leveza e uma sensação de alegria que nunca conhecera antes. A princípio não teve certeza de qual seria a fonte de tal bem-estar. Então, sentiu o calor do corpo dele junto ao seu.

Quando abriu os olhos, viu que ele a observava com aqueles estranhos olhos amarelos, ele sorriu.

— Que esplêndida rainha você seria — ele disse.

E estava sendo sincero. Durante a noiteNaja descobrira nela qualidades que nem suspeitara antes. Pressentiu que encontrara nela alguém cujos desejos e instintos estavam em perfeita harmonia com os seus.

— E que esplêndido faraó você seria para este Egito. — Ela também sorriu e espreguiçou-se voluptuosamente. Então riu baixinho, tocando-lhe a face. — Mas isso jamais poderia acontecer. — Parou de sorrir e perguntou, séria: — Poderia?

— Existe apenas um obstáculo em nosso caminho — ele respondeu. Não precisou dizer mais nada, pois viu uma expressão de maliciosa concordância surgir nos olhos dela. Heseret estava completamente do lado dele.

— Você é a adaga, e eu serei a sua bainha. Não importa o que me pedir, eu jamais lhe falharei, meu belo senhor.

Ele pousou um dedo nos lábios dela, inflamados e inchados pelos seus beijos.

— Vejo claramente que há pouca necessidade de palavras entre nós, pois nossos corações batem em uníssono.

 

O séquito do rei Apepi permanceu em Tebas por quase um mês depois do casamento. Eram convidados do Faraó Nefer Seti e do seu regente, e foram tratados com honrarias de realeza. Taita encorajava a estada prolongada. Tinha certeza de que Naja não tomaria nenhuma atitude contra Nefer enquanto Apepi e a filha estivessem em Tebas.

Os visitantes reais passavam os dias caçando ou praticando a falcoaria, visitando os inúmeros templos nas duas margens do rio dedicados a todos os deuses do Egito, ou em campeonatos entre os regimentos dos reinos do norte e do sul. Havia corridas de biga, concursos de arco e flecha, e corridas a pé. Havia até campeonatos de natação, nos quais os campeões escolhidos atravessavam a nado toda a largura do Nilo para receber como prêmio uma estátua dourada de Horus.

No deserto eles caçavam gazelas e órix com as bigas, ou usavam os velozes sacres para a caça das grandes abetardas. Nenhum falcão real restara nos viveiros do palácio, pois todos tinham sido soltos durante os ritos funerários do pai de Nefer. Ao longo das margens do rio os convidados caçavam garças e patos, e pescavam com varas os bagres nas águas rasas. Caçavam o cavalo do rio, o poderoso hipopótamo, com a frota de galés de guerra, com Nefer no comando da sua própria galé, chamada de Olho de Horus. A Princesa Mintaka ficava aos seu lado e dava gritinhos excitados quando os enormes animais emergiam à superfície, as costas cravadas de lanças enquanto as águas ficavam rosadas com o seu sangue.

Durante aqueles dias Mintaka estava quase sempre ao lado de Nefer. Cavalgava em sua biga quando caçavam e entregava-lhe a lança quando corriam ao encalço de um órix a galope. Ela levava seu próprio falcão no braço quando vasculhavam as touceiras de junco à procura das garças. Nos piqueniques de caça no deserto, ela sentava-se com ele e lhe preparava petiscos. Escolhia para ele as uvas mais doces e as descascava com seus dedos longos e ágeis, depois as colocava em sua boca.

Todas as noites havia banquetes no palácio, e também neles ela se sentava ao lado esquerdo de Nefer, o lugar tradicional para a mulher, para que nunca bloqueasse o braço do seu homem para a espada. Ela o fazia rir com sua aguçada inteligência, e era uma mímica extraordinária: imitava Heseret com perfeição, pestanejando e girando os olhos e falando "meu marido, o regente do Egito" no tom portentoso que Heseret passara a usar.

Embora tentassem, nunca conseguiam ficar completamente sozinhos. Naja e Apepi cuidavam para que isso não acontecesse. Quando Nefer apelou para a ajuda de Taita, nem mesmo ele conseguiu maquinar um encontro secreto entre os dois. Nunca ocorreu a Nefer que Taita não havia se esforçado muito para isso, ou que estava tão determinado quanto os outros a mantê-los inocentes. Muito tempo atrás Taita havia engenhado um encontro para Tanus e a sua amada Lostris, e as conseqüências disso ainda ecoavam como um trovão através dos anos. Quando Nefer e Mintaka jogavam o bao, havia sempre uma platéia de jovens escravas, enquanto os cortesãos e o ubíquo Asmor pairavam nas proximidades. Nefer aprendera bem sua lição e não mais subestimava a perícia de Mintaka no tabuleiro. Jogava com ela como se estivesse jogando com Taita. Passou a conhecer seus pontos fortes e a reconhecer suas poucas fraquezas: ela sempe protegia demais o castelo, e se ele a pressionava o bastante nesse quadrante, às vezes ela oferecia uma abertura nos flancos. Por duas vezes ele explorou essa tática e rompeu suas defesas, mas na terceira vez ele descobriu, tarde demais, que ela antecipara sua jogada e lhe preparara uma armadilha. Quando ele expusera seu castelo, ela cravou uma linha de batalha na abertura, e riu com tanto gosto quando ele foi obrigado a capitular que Nefer quase, mas não de todo, a perdoou. As partidas eram tão concorridas que no final adquiriam proporções épicas, de forma que até mesmo Taita passava horas observando-os, e de vez em quando assentia com aprovação ou sorria o seu sorriso leve, de ancião.

O amor deles era tão evidente que lançava um brilho em todos aqueles que os rodeavam, e por onde estivessem sempre havia risos e alegria. Quando a biga de Nefer disparava pelas ruas de Tebas, com Mintaka ao seu lado como lanceira, os cabelos escuros esvoaçando ao vento como uma bandeira, as donas de casa corriam para fora, e os homens paravam com suas labutas para gritar saudações e bons augúrios. Até Naja sorria benignamente para eles, e ninguém desconfiaria do quanto ele se ressentia pelo fato de que a atenção do populacho se desviava das suas próprias núpcias e das suas noivas.

Trok era a única presença sombria nas festivas caçadas, nos piqueni-ques no campo e nos banquetes no palácio.

O tempo em que ficavam juntos passava depressa demais.

— Há sempre muita gente à nossa volta — Nefer sussurrou por cima do tabuleiro de bao. — Eu quero ficar sozinho com você ao menos por alguns minutos. Faltam apenas três dias para a sua partida para Avaris com seu pai. Podem se passar meses, até anos, antes que tornemos a nos encontrar, e há tanto que quero lhe dizer, mas não com todos esses olhos e ouvidos apontados para nós como flecha!

Ela assentiu, depois moveu uma pedra que, em sua preocupação, ele deixara de ver. Nefer baixou os olhos e quase descontou, até perceber que agora seu castelo estava sob um ataque direto. Três movimentos depois ela rompeu a sua linha de batalha. Ele conseguiu se manter por mais algum tempo, mas suas forças estavam dispersas, e o resultado era inevitável.

— Você me apanhou quando eu estava distraído com outras coisas — Nefer resmungou. — Isso é tão típico das mulheres.

— Sua Majestade, eu não proclamo ser mais nada além de uma mulher. — Ela usou o título num tom de ironia que penetrava como a adaga incrustada de pedras que usava na cintura. Depois, inclinou-se para a frente e cochichou: — Se ficarmos sozinhos, você promete respeitar a minha castidade?

— Eu juro pelo olho ferido do grande deus Horus que nunca, enquanto viver, lhe causarei qualquer vergonha — ele falou enfático.

Ela sorriu.

— Meus irmãos não ficarão muito contentes por ouvir isso. Eles bem gostariam de uma desculpa para cortar-lhe o pescoço. — Ela fixou nele os magníficos olhos escuros. — Ou, se falharem com o pescoço, alguma outra parte da sua anatomia os deixaria satisfeitos.

A oportunidade deles surgiu no dia seguinte. Um dos caçadores reais chegou das colinas acima do vilarejo de Dabba para avisar que um leão saíra do deserto ao oeste e atacara o gado durante a noite. Ele saltara pelos cercados e matara oito dos aterrorizados animais. Ao amanhecer os homens do vilarejo, brandindo tochas acesas, soprando chifres, batendo tambores e gritando loucamente, afugentaram o leão.

— Quando isso aconteceu? — Naja perguntou.

— Três noites atrás, Sua Graça. — O homem estava prostrado diante do trono. — Eu subi o rio assim que pude, mas a correnteza está forte, e os ventos caprichosos.

— O que aconteceu à fera? — o rei Apepi interrompeu, ansioso.

— Voltou para as colinas, mas enviei dois dos meus melhores rastreadores núbios para segui-lo.

— Alguém o avistou? De que tamanho ele é? É leão ou leoa?

— Os habitantes do vilarejo dizem que é um macho grande, com uma enorme juba negra.

Havia mais de sessenta anos que não se ouvia notícias da aparição de leões nas terras ao longo do rio. Eles eram caça reservada à realeza, e tinham sido caçados impiedosamente por sucessivos faraós, não apenas pelos danos que infligiam nas criações de animais dos camponeses mas também por serem o mais procurado troféu da caça real.

Durante a longa e amarga batalha das guerras com os hicsos, os faraós de ambos os reinos tinham se preocupado com outras coisas, e a caça aos leões havia diminuído. Além disso, os cadáveres humanos deixados nos campos de batalha tinham fornecido uma fácil fonte de alimentos para a satisfação dos animais. Nas últimas décadas eles haviam vicejado, a quantidade aumentado muitas vezes, bem como a sua ousadia.

— Mandarei embarcarem as bigas nas barcaças imediatamente — Apepi decidiu. — Com as atuais condições do rio, estaremos em Dabba amanhã logo cedo. — Ele sorriu e bateu o punho na palma da outra mão. — Por Seueth, eu gostaria de ter uma chance com esse velho de juba negra. Desde que desisti de matar egípcios sinto falta de um esporte de verdade.

Naja franziu a testa diante do gracejo.

— Majestade, espera-se que o senhor retorne a Avaris depois de amanhã.

— Tem razão, regente. No entanto, a maior parte da bagagem já está embarcada e as frotas estão prontas para partir. Além disso, Dabba fica em meu caminho para casa. Posso parar um ou dois dias para reunir-me à caçada.

Naja hesitou. Ele não era tão viciado em caçadas a ponto de querer negligenciar os inúmeros assuntos de Estado que exigiam sua atenção. Estava ansioso pela partida de Apepi, cuja presença turbulenta e inculta em Tebas havia muito já o enfastiara. Ele tinha também outros planos em marcha, que só poderiam ser concluídos depois que Apepi deixasse Tebas. Entretanto, não poderia permitir que o faraó hicso saísse sozinho numa caçada no Alto Reino. Não seria apenas uma grosseria, mas também imprudente deixar que Apepi se comportasse no reino do sul como se tivesse todo o direito a fazê-lo.

— Majestade — Nefer interferiu antes que Naja pudesse formular uma recusa adequada —, nós teremos o maior prazer em nos reunir à caçada.

Nefer viu uma oportunidade de praticar o esporte magnífico, pois nunca tivera a chance de perseguir um leão com sua biga, nem de testar sua própria coragem enfrentando seu tutor. Porém, mil vezes mais importante, a caçada poderia retardar a partida de Mintaka. Essa feliz circunstância talvez até fornecesse a oportunidade que até então não tiveram de ficar sozinhos por algum tempo. Antes que Naja pudesse impedilo, Nefer voltou-se para o caçador, que ainda jazia com a testa pressionada no piso.

— Bom trabalho, meu bom homem. Você receberá um anel de ouro como recompensa. Volte imediatamente a Dabba na faluca mais veloz da nossa frota. Faça os preparativos para a nossa chegada. Iremos atrás dessa fera com todo o aparato.

Nefer lamentava apenas que Taita não estaria com ele durante sua primeira caça ao leão, para oferecer-lhe conselhos e ensinamentos. O ancião havia desaparecido no deserto em mais uma das suas periódicas e misteriosas incursões, e ninguém sabia quando iria retornar.

Bem cedo na manhã do dia seguinte, o grupo de caça desembarcou na margem do rio abaixo do vilarejo de Dabba. Depois todos os cavalos e as vinte bigas foram carregadas do pequeno comboio de barcaças e galés. Enquanto isso era feito, os lanceiros afiavam as lâminas das lanças, verificavam os arcos de caça e checavam o equilíbrio e prumo das flechas. Enquanto os cavalos eram alimentados e escovados, os caçadores comiam um generoso desjejum que os habitantes do vilarejo lhes forneceram.

O clima era de entusiasmo, e Apepi mandou chamar o rastreador que voltara das colinas para que fizesse seu relato.

— É um leão muito grande. O maior que já vi a oeste do rio — o homem lhes disse, aumentando ainda mais a excitação geral.

— Você o viu mesmo? — Nefer indagou. — Ou apenas viu os seus rastros?

— Eu o vi claramente, mas só a distância. Ele é alto como um cavalo e anda com o porte majestoso de um monarca. A juba ondula como as hastes do milhete dhurra sob o vento.

— Por Seth, o sujeito é um poeta — Naja zombou. — Atenha-se aos fatos e abstenha-se das belas palavras, criado.

O caçador tocou o coração com o punho para demonstrar sua contrição, e prosseguiu com o relato num tom mais contido:

— Ontem ele recolheu-se num vádi arborizado a duas léguas daqui, mas saiu ao cair da noite para rondar em busca de presa. Já se passaram quatro dias desde a última vez em que comeu, e está faminto e caçando outra vez. Durante a noite ele tentou derrubar um órix, mas este conseguiu escapar e fugiu.

— Onde você espera encontrá-lo hoje? — Nefer perguntou, num tom mais gentil do que aquele que Naja usara. — Se ele caçou deve estar com sede, além de estar com fome. Onde ele irá beber?

O caçador olhou-o com respeito, não apenas pela sua eminência real, mas também pelo conhecimento que ele demonstrava acerca da vida selvagem.

— Depois daquela tentativa de apanhar o órix ele foi para um terreno rochoso, onde não pude mais seguir-lhe os rastros. — Apepi fez um gesto de desagrado, e o caçador apressou-se em acrescentar: — Mas espero que ele saia para beber água esta manhã, num pequeno oásis. Um lugar oculto e que poucos conhecem, com exceção dos beduínos.

— Quanto tempo demora para chegarmos a esse lugar? — Nefer perguntou, e o homem deslizou o braço pela parte de um arco, indicando o progresso do sol na passagem de três horas. — Então não temos tempo a perder. — Sorriu para o homem e virou-se para chamar o capitão das tropas de bigas. — Quanto falta, soldado?

— Está tudo pronto, majestade.

— Soe o toque de montar — Nefer ordenou, e as cornetas de chifres ressoaram enquanto os caçadores espalhavam-se na direção das bigas.

Mintaka caminhava ao lado de Nefer. Nessas circunstâncias informais toda a dignidade real foi esquecida, e eram simplesmente um rapaz e uma garota numa excursão excitante. Mas o Senhor Trok estragou aquela ilusão: no momento em que saltou para dentro da sua biga e pegou os arreios, ele falou ao Rei Apepi, que estava no outro lado:

— Majestade, não é sensato permitir que a princesa acompanhe um rapaz inexperiente. Não é nenhuma gazela que estamos caçando agora.

Nefer congelou e lançou um olhar ultrajado a Trok. Mintaka pousou a mão delicada em seu braço nu.

— Não o provoque — ela disse. — Ele é um formidável lutador, com um temperamento terrível, e se você o desafiar, nem mesmo a sua elevada posição irá protegê-lo.

Nefer desvencilhou-se da mão dela furiosamente.

— Minha honra não me permitirá ignorar tal insulto.

— Por favor, meu querido, por mim, deixe passar.

Era a primeira vez que ela usava tal termo carinhoso. E o fez de propósito, sabendo o efeito que provocaria nele: ela já estava aprendendo a lidar com seus humores voláteis usando um instinto feminino bem avançado para a sua idade e experiência. No mesmo instante Nefer esqueceu-se de Trok e da ofensa à sua honra.

— De que você me chamou? — ele perguntou com a voz rouca.

— Você não é surdo, meu querido. — Os olhos dele brilharam ao ouvir o termo pela segunda vez. — Você escutou muito bem. — E ela sorriu.

A voz trovejante de Apepi rompeu o silêncio.

— Não se preocupe, Trok. Estou enviando a minha filha para cuidar do faraó. Ele estará totalmente a salvo. — Apepi riu com zombaria e sacudiu os arreios. Quando sua parelha de cavalos saltou para a frente, ele gritou outra vez. — Já desperdiçamos metade da manhã aqui. Caçadores, iniciem a perseguição!

Nefer manobrou a biga logo atrás de Apepi, cortando a frente da parelha de Trok. Ao passar por ele enviou-lhe um olhar frio e disse:

— Você foi insolente. Pode estar certo de que voltaremos a falar sobre isso, Senhor Trok.

— Receio que agora ele seja seu inimigo, Nefer — Mintaka murmurou. — Trok tem uma terrível reputação, e um temperamento ainda pior.

Guiados pelo caçador real, que cavalgava num pônei raquítico mas rijo, a coluna de caçadores começou a subir as colinas nuas e pedregosas. Seguiram a trote, poupando os cavalos, deixando que tomassem fôlego após cada lance mais íngreme. Depois de uma hora encontraram um dos rastreadores núbios à sua espera no topo da colina, e ele correu para fazer seu relato ao caçador. Conversaram com veemência por um momento, depois o caçador trotou de volta para informar o grupo real.

— Os núbios vasculharam as colinas, mas sem encontrar nenhum rastro novamente. Eles têm certeza de que o leão irá beber no poço, mas sem querer afungentá-lo esperaram até que nós chegássemos.

— Leve-nos até a água — Apepi ordenou, e seguiram em frente. Antes do meio do dia chegaram a um vale raso. Não estavam muito distantes do rio, mas ali parecia o meio do deserto, proibitivo e seco. O caçador trotava ao lado da biga de Apepi, e disse:

— O poço fica na entrada desse vale. A fera provavelmente estará escondida nas proximidades.

Naturalmente Apepi, o guerreiro mais velho, assumiu o comando, e Nefer não disputou o direito dele de fazê-lo.

— Vamos nos dividir em três esquadrões e cercar o oásis. Se o animal aparecer nós o teremos cercado. Meu Senhor Regente, cuide do lado esquerdo. Faraó Nefer Seti, fique no centro. Eu cobrirei o flanco direito. — Ele brandiu o pesado arco de guerra sobre a cabeça. — Aquele que for o primeiro a tirar sangue ganhará o troféu.

Todos eles eram condutores experientes, e a nova formação das bigas evoluiu rapidamente. Estenderam uma rede larga para circundar o poço. Nefer tinha o arco sobre o ombro e desenrolara as rédeas dos punhos, pronto para soltá-las no instante em que precisasse das duas mãos para atirar. Mintaka pressionou-se contra ele. Mantinha a longa lança preparada para entregar-lhe. Eles haviam aperfeiçoado aquela troca de armas no decorrer das últimas semanas, e ele sabia que poderia confiar que ela passaria a lança à sua mão no instante exato em que precisasse.

Aproximaram-se do oásis em marcha lenta, rodeando-o firmemente. Os cavalos pressentiam a tensão dos seus condutores, ou talvez já tivessem captado o cheiro do leão. Sacudiam a cabeça, giravam os olhos e sopravam pelas narinas, batendo as patas nervosamente.

A fileira de veículos fechou-se lentamente em volta do pequeno pedaço de touceiras baixas de grama que ocultava o poço. Quando o círculo ficou completo, Apepi ergueu a mão acima da cabeça para sinalizar que parassem. O caçador real desmontou e seguiu a pé, levando o pônei. Aproximou-se com cautela da esparsa vegetação marrom.

— Se o leão estivesse aqui, certamente já teríamos avistado um animal tão grande — Mintaka falou com voz trêmula, e Nefer amou-a ainda mais por aquela pequena demonstração de medo.

— Um leão pode achatar-se até se tornar parte do solo, e você poderia passar bem perto dele sem nem mesmo suspeitar da sua presença — ele disse.

O caçador avançou mais alguns passos, parando para ouvir e perscrutar cada arbusto e cada touceira de mato em seu caminho. Em certo momento ele abaixou-se, pegou um punhado de pedras pequenas e começou a atirá-las sistematicamente em cada possível esconderijo.

— O que ele está fazendo? — Mintaka sussurrou.

— O leão vai rugir antes de atacar. Ele está tentando provocá-lo para obrigá-lo a se revelar.

O silêncio era rompido apenas pelo ruído das pedras, pelo resfolegar dos cavalos e pelo bater inquieto das suas patas. Cada um dos caçadores já armara sua flecha e estava pronto para atirar a qualquer momento. Subitamente ouviu-se um guincho e um estrépito na vegetação cerrada. Todos os arcos levantaram-se ao mesmo tempo, e os lanceiros prepararam suas armas. Mas todos relaxaram em seguida e pareceram envergonhados quando uma cegonha de bico cor de chocolate alçou-se para o ar e voou através do vale, na direção do rio.

O caçador precisou de um minuto para recobrar-se do susto, depois retomou seu caminho, um passo de cada vez, penetrando mais no esconderijo até chegar à nascente. A água salobra vertia gota a gota e enchia a rasa bacia no solo rochoso, quase o insuficiente para saciar a sede de um grande predador. O caçador ajoelhou-se para examinar a beirada da bacia em busca de algum sinal, depois balançou a cabeça e levantou-se. Com mais rapidez ele retornou através dos arbustos, e finalmente montou no pônei e trotou até a biga de Apepi. Os outros caçadores se aproximaram para escutar seu relato, mas o caçador estava desconcertado.

— Majestade, cometi um erro de julgamento — ele disse a Apepi. — O leão não veio nesta direção.

— E agora, rapaz? — Apepi não fazia nenhum esforço para esconder seu desapontamento e irritação.

— Este era o local mais promissor para procurarmos, mas existem outros. Do lugar onde ele foi visto pela última vez poderia ter cruzado o vale, ou pode estar escondido perto daqui esperando que escureça, antes de vir beber. Há outros esconderijos mais adiante. — Ele apontou para as encostas rochosas.

— Onde mais? — Apepi inquiriu.

— Há outro poço no próximo vale, mas os beduínos estão acampados ali. Talvez eles tenham afugentado a fera. Existe outra pequena nascente abaixo daquelas colinas ao leste. — Ele apontou para a baixa fileira de picos arroxeados no horizonte. — O leão poderia estar em qualquer um desses lugares, ou em nenhum — admitiu. — Ele também pode ter voltado atrás e estar na orla da planície, onde há abundância de água. Talvez tenha sido atraído pelo cheiro do gado e das cabras, tanto quanto pela sede.

— Você não tem a menor idéia de onde ele está escondido, não é? — o Senhor Naja inquiriu com impaciência. — Devíamos cancelar a caçada e voltar para as embarcações.

— Não! — Nefer intercedeu. — Nós mal começamos. Como podemos desistir tão rápido?

— O rapaz tem razão — Apepi concordou. — Devemos prosseguir, mas ainda há muito terreno para cobrirmos. — Ele fez uma pausa, depois tomou uma decisão. — Teremos de nos dividir e vasculhar cada área separadamente. — Olhou para Naja. — Meu Senhor Regente, você leva o seu esquadrão para o acampamento dos beduínos. Se eles viram o animal, irão direcioná-lo. Eu irei até a nascente abaixo das colinas. — Virou-se para Trok. — Você leva três bigas para o vale. Um dos rastreadores irá com você para procurar sinais. — Para Asmor ele disse: — Leve três bigas e vasculhe a orla do vale até Dabba, para o caso de ele ter retornado ao local onde atacou pela última vez. — Então olhou para Nefer: — Faraó, você procura no lado oposto, ao norte na direção de Achmim.

Nefer percebeu que estava sendo designado a cobrir a área menos promissora, mas não se queixou. Esse novo plano significava que ele e Mintaka estariam distantes da vigilância direta dos seus guardiões. Naja, Asmor e Trok estavam sendo enviados em direções diferentes. Esperou que alguém chamasse a atenção para isso, mas estavam todos tão envolvidos com a caçada que ninguém pareceu dar-se conta do significado daquela movimentação. Exceto Naja.

Ele olhou fixamente para Nefer. Talvez estivesse pesando a conveniência de opor-se às ordens de Apepi, mas no final devia ter percebido que isso seria insensato e concluído que Nefer estaria guardado pelo deserto com tanta eficiência quanto estaria por Asmor: não havia lugar para onde fugir, e se ele levasse Mintaka consigo em alguma louca aventura, teria os exércitos inteiros dos dois reinos à sua procura, como enxames de abelhas selvagens.

Naja desviou os olhos quando Apepi prosseguiu falando, determinando um ponto de encontro e dando as últimas ordens. Finalmente as trombetas soaram o sinal de montar e avançar, e as cinco colunas seguiram para o vale. Ao chegarem à planície dividiram-se em seus esquadrões separados e tomaram as direções divergentes.

Quando finalmente os outros esquadrões desapareceram em meio às colinas, Mintaka inclinou-se para mais perto de Nefer e murmurou:

— Até que enfim Hathor demonstrou sua misericórdia a nós.

— Acredito que tenha sido Horus quem nos favoreceu — Nefer sorriu para ela. — Mas irei aceitar essa benevolência de quem quer que tenha vindo.

Havia duas outras bigas no esquadrão de Nefer, comandadas pelo Coronel Hilto, o velho soldado que o descobrira com Taita, quando tentavam fugir do Egito. Ele servira sob as ordens do pai de Nefer e era leal até a morte: Nefer sabia que poderia confiar nele sem reservas.

Nefer guiou-os numa velocidade rápida, querendo aproveitar ao máximo o que restava da luz do dia, e depois de uma hora de viagem a vasta visão da planície do rio abriu-se sob eles. Ele parou para admirar a vista por uns poucos minutos. O rio era como uma esmeralda encravada no verde luxuriante dos prados e plantações que o cercavam.

— Como é bonito, Nefer — Mintaka falou, quase sonhadora. — Mesmo quando estivermos casados, deveremos sempre nos lembrar de que esta terra nos possui, e nós não a possuímos.

Às vezes ele se esquecia de que ela nascera em Avaris e tinha um direito tão forte à terra quanto ele. Sentiu o coração encher-se de orgulho pelo fato de que ela a amava como ele próprio, e sentia o mesmo dever patriótico.

— Nunca vou me esquecer disso, não com você ao meu lado.

Ela ergueu o rosto para ele, e seus lábios estavam levemente entreabertos. Ele podia sentir seu hálito suave, e a tentação de tocar aqueles lábios com os seus foi quase irresistível. Então sentiu o olhar de Hilto e dos outros homens, e com o canto do olho viu que um deles sorria maliciosamente. Ele afastou-se de Mintaka e fitou Hilto com frieza. Estivera ensaiando sua próxima ordem desde que deixaram o restante do grupo de caça.

— Coronel, se o leão estiver aqui provavelmente estará escondido em algum lugar na encosta das colinas abaixo de nós. — Indicou a área com um gesto largo. — Quero estender a área de buscas de um lado a outro.

O flanco esquerdo deve estar na orla da planície, e o nosso direito até aqui em cima, no alto das colinas. Iremos vasculhar na direção norte. — Fez um gesto amplo, mas Hilto parecia em dúvida e coçou a cicatriz em seu rosto.

— É uma área extensa, majestade. É quase meia légua até o fundo do vale. Haverá vezes em que ficaremos fora das vistas uns dos outros.

Nefer podia ver que ia contra todos os instintos militares de Hilto espalhar a sua frente de maneira tão esparsa, e prosseguiu rapidamente, a fim de apaziguá-lo:

— Se realmente nos separarmos, tornaremos a nos reunir no terceiro cume daquela pequena colina à frente. Isso nos dará um bom ponto de referência. — Apontou para uma visível pilha de rochas a uns oito quilômetros à frente. — Se algum de nós atrasar-se para o encontro, os outros deverão esperar até que o sol esteja naquele ângulo, antes de sair em busca do veículo desgarrado.

Nefer dera a si mesmo umas poucas horas antes que começassem a procurar por ele e Mintaka. Mas Hilto ainda hesitava.

— Imploro a indulgência de Sua Majestade, mas o Senhor Naja encarregou-me estritamente de...

Nefer interrompeu com um tom ríspido e a expressão dura.

— Você pretende discutir com o seu faraó?

— Nunca, majestade! — Hilto estava chocado com a acusação.

— Então cumpra sua obrigação, soldado.

Hilto saudou-o com profundo respeito e correu de volta para sua biga, gritando ordens urgentes aos seus homens. Quando o esquadrão partiu pela encosta abaixo, Mintaka sorriu para Nefer, provocando-o.

— ”Cumpra sua obrigação, soldado”! — ela imitou o tom autoritário, e riu. — Por favor, nunca me olhe daquele jeito, nem use aquele tom comigo, majestade. Tenho certeza de que morreria de medo.

— Nós temos pouco tempo — ele falou. — Precisamos aproveitar ao máximo e encontrar um lugar onde possamos ficar sozinhos.

Ele virou a biga de volta para as colinas, de forma que não poderiam ser vistos do vale do rio, nem pelas bigas na encosta mais baixa, e enquanto avançavam a trote ambos perscrutavam ansiosamente o terreno à frente.

— Veja, ali! — Mintaka apontou para a direita.

Um pequeno bosque de árvores espinhosas estava quase escondido por uma dobra no terreno, apenas o topo das árvores aparecia. Nefer virou naquela direção e encontraram uma estreita ravina que havia sido cortada, no transcorrer de milênios, por dentro da encosta, pelo vento e pelas intempéries. Devia haver uma fonte subterrânea, pois as árvores estavam robustas. A densa folhagem oferecia sombra e privacidade no calor do meio do dia. Nefer conduziu a biga até a sombra. Assim que pararam, Mintaka saltou para fora.

— Solte os arreios e deixe os cavalos descansarem um pouco — ela sugeriu.

Nefer hesitou, depois balançou a cabeça. Aquilo ia contra o seu treinamento: numa posição separada e sem proteção como estavam, ele deveria estar com o veículo pronto para qualquer alarme ou fuga súbitos. Pulou para fora da biga e foi encher o balde com a água do cantil, para dar aos cavalos. Mintaka foi ajudá-lo. Trabalharam lado a lado, em silêncio.

Agora que o momento pelo qual tanto haviam esperado chegara, estavam tímidos e quietos. De repente viraram-se de frente um para o outro, ao mesmo tempo, e falaram em uníssono.

Nefer disse:

— Eu queria lhe dizer... Mintaka falou:

— Acho que devíamos...

Calaram-se e riram envergonhados, parados bem juntos sob a sombra. Mintaka ruborizou e baixou os olhos, e Nefer afagou a cabeça do garanhão.

— O que você ia dizer?

— Nada. Nada de importante. — Ela balançou a cabeça, e ele viu que seu rosto estava rubro e afogueado.

Nefer adorava ver as cores colorindo suas faces. Ela ainda não olhava para ele, e sua voz era tão baixa que ele quase não ouviu, quando ela perguntou:

— O que você ia dizer?

— Quando penso que você irá embora daqui a uns poucos dias, sinto como se meu braço direito fosse cortado, e tenho vontade de morrer.

— Ah, Nefer. — Ela fitou-o, e seus olhos estavam grandes e úmidos com a turbulência do primeiro amor. — Eu amo você. Amo você de verdade.

No mesmo instante ambos atiraram-se nos braços um do outro, e seus dentes bateram com um clique. O lábio inferior de Nefer foi apanhado entre eles, fazendo brotar uma gota de sangue, de forma que o beijo teve um sabor salgado. O abraço era inexperiente, desajeitado e frenético. Evocava os sentimentos mais primitivos e descontrolados em ambos. Agarraram-se juntos, gemendo com a força de tais sensações novas. Embora o corpo dela estivesse achatado contra o dele, Nefer tentou apertá-la ainda mais forte, e ela prendia-se a ele como se quisesse mesclar suas carnes separadas numa só entidade, como o barro nas mãos de um ceramista. Ela levantou a mão, passou os dedos pelos cabelos dele e gemeu baixinho.

— Não quero perdê-la, nunca — ele falou, interrompendo o beijo. — Não quero perdê-la jamais.

— Não quero deixá-lo nunca... nunca! — ela ofegou, e beijaram-se novamente, se possível com mais fúria do que antes.

Dali em diante estavam ambos nos reinos inexplorados da mente e do corpo. Cavalgavam numa biga que estava fora do controle, conduzida pelos cavalos desembestados do amor e do desejo.

Ainda abraçados eles mergulharam na macia areia branca do vádi, e agarraram-se mutuamente como se fossem inimigos. Seus olhos estavam selvagens e cegos, a respiração ofegante e entrecortada. O tecido da saia dela rasgou-se como um papiro nas mãos dele, e ele deslizou-as por entre a abertura. Ela gemeu como se numa agonia mortal, mas as pernas entreabriram-se, e ela ficou imóvel e suplicante. Nenhum deles tinha a menor idéia de para onde aquilo os levaria. Tudo o que Nefer desejava era sentir sua pele nua contra a maciez da pele dela. Era uma necessidade profunda, da qual sua vida parecia depender. Ele arrancou a própria túnica e eles pressionaram os corpos um contra o outro, ambos absorvidos na sensação extasiante do calor da pele jovem contra a firmeza musculosa. Então, sem nenhum pensamento consciente, ele começou a rhover-se contra ela, balançando ritmicamente, e ela acompanhou os movimentos como se estivessem voando numa biga num solo íngreme.

Então, abruptamente, ela sentiu algo duro pressionando imperiosamente os portais da sua feminilidade, e experimentou uma urgência inegável de ajudá-lo a penetrar, a recebê-lo em seus mais íntimos recônditos.

Então a realidade atingiu-a subitamente. Ela debateu as pernas loucamente, arqueando as costas e lutando com uma força renovada, como uma gazela nas presas de um leopardo.

— Não, Nefer! — ela gritou. — Você prometeu! Pelo olho ferido de Horus, você prometeu!

Ele saltou para longe dela, encolhendo-se como se tivesse sido atingido por um açoite. Fitou-a nos olhos arregalados e aterrorizados. Quando falou, a voz estava rouca e ofegante, como se tivesse corrido por uma longa distância.

— Mintaka, meu amor, minha querida. Não sei o que aconteceu comigo. Foi loucura. Eu não tive intenção. — Fez um gesto de desespero. — Eu preferia morrer a quebrar meu juramento e lhe trazer a desonra.

Ela respirava com tanta dificuldade que não pôde responder de imediato. Afastou os olhos do corpo nu dele, e Nefer continuou, penosamente:

— Por favor, não me odeie. Eu não sabia o que estava acontecendo.

— Não odeio você, Nefer. Eu jamais poderia odiá-lo. — O sofrimento dele era tão insuportável de se ver que ela queria atirar-se de volta em seus braços e reconfortá-lo. Mas sabia que isso seria perigoso. Usou a roda da biga como apoio para se levantar. — Eu sou tão culpada quanto você. Nunca deveria ter permitido que isso acontecesse.

Ela sentia as pernas trêmulas, e tentou afastar os cabelos que caíam pelo rosto. Nefer também se levantou e deu um passo na direção dela, mas, quando ela recuou, parou imediatamente.

— Eu rasguei a sua saia — ele disse. — Não pretendia fazer isso. Mintaka olhou para baixo e viu o quanto estava exposta — estava quase tão nua quanto ele. Rapidamente juntou as pontas da saia e afastou-se ainda mais.

— Você precisa se vestir — sussurrou e, mesmo contra a própria vontade, baixou os olhos para ele.

Ele era tão belo, e ela sentiu o desejo brotar outra vez. Obrigou-se a desviar os olhos. Nefer abaixou-se depressa, pegou o chiton descartado e amarrou-o em torno da cintura.

Permaneceram num silêncio culpado, desconfortável. Mintaka procurava desesperadamente as palavras que pudessem distraí-los daquele momento terrível. Seu próprio corpo veio em sua ajuda. Sentiu uma pressão urgente na bexiga cheia.

— Preciso ir!

— Não — ele implorou. — Perdoe-me, eu não tive intenção. Isso não tornará a acontecer. Fique comigo, não me deixe.

Ela sorriu.

— Não, você não está entendendo. Estarei longe por um instante apenas. — Fez um gesto inequívoco ao apertar a saia rasgada. — Não vou demorar.

O alívio dele foi quase patético.

— Ah, sim, eu entendo. Vou preparar a biga.

Ele virou-se para os cavalos e ela deixou-o, entrando nas profundezas do bosque.

O leão observou-a chegar através das árvores, indo na direção de onde ele estava. Suas orelhas empinaram-se contra o crânio, e ele pressionou mais o corpo contra o solo pedregoso.

Era um animal velho, já passado do seu auge. Havia pêlos brancos no escuro e espesso matagal da sua juba. As costas certa vez tiveram um brilho azulado, mas agora eram levemente acinzentadas pela idade. Os dentes estavam gastos e manchados, e uma das longas presas estava quebrada junto à gengiva. Embora ainda pudesse derrubar um novilho crescido e matá-lo com um único golpe das enormes patas, as garras estavam gastas e quebradiças, de forma que era difícil agarrar uma presa mais ágil. Na noite anterior ele perdera um órix, e sua fome era uma dor permanente, insistente nas entranhas.

Ele observou a criatura humana com seus olhos amarelos, e o lábio superior ergueu-se num esgar silencioso. Quando era um filhote, sua mãe ensinara-lhe a alimentar-se da carne morta que rapinavam nos campos de batalha. Ele não tinha a repugnância natural que a maioria dos animais carnívoros sente pelo gosto de carne humana. No correr dos anos ele matara e banqueteara-se com essa carne, sempre que a oportunidade se apresentava. Viu a criatura que se aproximava como uma presa natural.

Mintaka parou a cinqüenta passos de onde ele estava, e olhou em volta. O instinto do leão, durante a preparação para o ataque, era evitar o olhar direto com sua presa. Ele manteve a cabeça baixada no solo e estreitou os olhos. Não era o momento do ataque, e a cauda mantinha-se rija e estendida.

Mintaka foi para trás do tronco de uma das árvores, abaixou-se e esvaziou a bexiga. O focinho do leão franziu-se em rugas profundas ao sentir o odor da urina. Isso aguçou seu interesse. Mintaka tornou a se levantar e deixou a saia rasgada cair novamente sobre os quadris. Deu as costas para o leão e começou a retornar para onde Nefer a esperava,

O leão sacudiu a cauda de um lado para o outro, um prelúdio para o ataque. Levantou a cabeça, e a cauda negra chicoteou contra seus flancos.

Mintaka ouviu o farfalhar e o bater rítmico da cauda, parou e olhou para trás, intrigada. Deparou-se direto com o olhar amarelo da fera. Ela gritou, um som alto e desesperado que fez com que o coração de Nefer parasse por um segundo. Ele fez um giro e num instante viu a cena: a garota e a fera acocorada, encarando-a.

— Não corra! — ele gritou. Sabia que, se corresse, ela despertaria o reflexo felino e o leão a atacaria. — Já vou!

Nefer pegou o arco e a aljava na biga e correu na direção dela, retirando uma das flechas enquanto o fazia.

— Não corra! — repetiu em desespero, mas naquele momento o leão rosnou.

Era um som terrível, que parecia reverberar nos ossos de Mintaka e fazer o chão tremer sob seus pés. Ela não conseguia controlar o terror que a invadira. Fez um giro e disparou cegamente na direção de Nefer, soluçando a cada passo.

No mesmo instante a juba do leão eriçou-se como uma aura escura em torno da cabeça, e ele lançou-se na perseguição, indo direto atrás dela como um relâmpago negro através das árvores. Alcançou-a como se ela ainda estivesse enraizada no chão.

Nefer parou de súbito, largou a aljava para ficar com ambas as mãos livres, e armou o arco. Apoiou a haste da flecha entre os dentes e mirou o peito maciço e ofegante do animal. Embora a distância fosse curta, era um tiro difícil. A fera aproximava-se de lado, e Mintaka estava na linha direta do seu tiro. Acima de tudo, ele sabia que um ferimento no animal não salvaria Mintaka. Teria de dirigir a ponta da flecha diretamente para um dos órgãos vitais da fera para derrubá-la, e dar a Mintaka uma chance de fugir. Porém não havia tempo para um cálculo preciso, o leão estava quase por cima dela.

O leão vinha rosnando a cada passo, torrões de terra e pedregulhos eram arrancados sob o peso das enormes patas. Os olhos amarelos eram terríveis. Nefer avançou apenas um pouco, permitindo uma distância mínima para o disparo da flecha, e gritou, com toda urgência que conseguiu reunir:

— Abaixe-se, Mintaka! Dê-me espaço para atirar!

Eles haviam desenvolvido um acordo íntimo no decorrer das semanas em que caçaram juntos, e ela aprendera a confiar nele implicitamente. Mesmo em seu estado de puro terror, Mintaka ainda conseguiu escutá-lo. Sem hesitar, interrompeu a corrida subitamente e atirou-se no chão, quase sob as mandíbulas do leão que avançava.

No exato instante em que ela abaixou, Nefer soltou a flecha. Esta disparou da corda do arco. Aos olhos enlouquecidos de medo de Nefer, a flecha parecia mover-se através do espaço que os separava como o vôo prazeroso de algum pássaro. Passou por cima de Mintaka, já começando a cair, parecendo minúscula, lenta e inofensiva contra um animal tão imponente.

Então ela bateu sem nenhum ruído, e Nefer quase esperou que a haste frágil se quebrasse, sendo desviada com desprezo pelo leão que rosnava, furioso.

No momento em que a boca do animal escancarou-se, exibindo a fileira de presas manchadas, a ponta da flecha desapareceu na espessa cobertura de pêlos negros que revestia seu peito. O impacto não produziu nenhum som, mas a flecha penetrou profundamente, deixando apenas as penas da haste à mostra.

Nefer achou que atingira, o coração. O leão deu um salto para o alto numa convulsão monumental, e os rosnados se transformaram numa explosão de rugidos contínuos, capazes de provocar uma chuva de folhas secas da árvore acima dele. Então a fera girou num círculo, batendo a pata no próprio peito, mastigando a ponta projetada da haste da flecha até estilhaçá-la. Mintaka jazia quase embaixo das patas que voavam, debatiam-se.

— Saia de perto dele! — Nefer gritou. — Corra!

Ele abaixou-se, pegou uma segunda flecha na aljava e correu para a frente, posicionando a flecha no arco enquanto cruzava a distância.

Mintaka levantou-se num pulo. Recobrou a presença de espírito o suficiente para não impedir que o alvo fosse atingido se corresse na direção de Nefer; então atirou-se atrás do tronco da árvore mais próxima.

O movimento foi o bastante para chamar a atenção do leão ferido novamente para ela. Agora em dor e fúria, mais do que com fome, ele disparou atrás dela. As garras amareladas arrancaram uma lasca de madeira úmida do tronco da árvore atrás do qual Mintaka se acocorava.

— Venha! Eu estou aqui! Venha me pegar! — Nefer gritou em desespero, tentando desviar a atenção do leão sobre si.

O animal virou a cabeça imensa e coroada pela juba na direção dele, e Nefer atirou a flecha seguinte com um movimento desesperado. Seus braços estavam tremendo, e o tiro foi apressado e impreciso. A ponta da flecha atingiu a fera muito por trás, perfurando profundamente sua barriga, e ela tossiu com a ferroada. O leão desistiu de Mintaka e avançou para Nefer.

Embora estivesse mortalmente ferido e bem mais lento, não havia chances de Nefer escapar daquele renovado ataque. Ele havia atirado a sua última flecha, e a aljava jazia no chão, fora do seu alcance. Abaixou a mão e retirou a adaga da bainha em seu cinturão.

Era uma arma frágil contra a fera furiosa. A fina lâmina de bronze não era comprida o bastante para penetrar até o coração, mas Nefer já ouvira o caçador real contar histórias de escapadas miraculosas de situações tão fatais quanto aquela. Enquanto o leão lançava-se num salto mortal, Nefer caiu para trás, sem nem mesmo tentar resistir ao peso e ímpeto da fera. Ficou caído entre as patas dianteiras, e o leão abriu as mandíbulas em toda extensão e atirou a cabeça para a frente, a fim de esmagar o crânio de Nefer com as presas terríveis. Seu hálito era tão fétido, com o cheiro de carne pútrida e covas abertas, que Nefer sentiu o vômito quente subir pela garganta. Ele imobilizou-se por um instante e lançou a mão direita, com a adaga, profundamente nas mandíbulas abertas. O leão mordeu instintivamente.

Nefer tinha a adaga presa com firmeza no punho, com a lâmina para cima, e quando o leão fechou a mandíbula a ponta atravessou direto o seu céu da boca. Nefer retirou a mão antes que as presas pudessem esmagar os ossos do seu punho, mas a adaga mantinha a boca do leão aberta, de forma que ele não poderia morder.

O animal rasgava-o com as duas patas dianteiras, as garras completamente estendidas. Nefer desviava-se e debatia-se sob o corpo pesado, evadindo-se de alguns dos golpes, mas a túnica fora arrancada, e ele sentia as garras pontiagudas penetrando na carne. Sabia que não poderia agüentar por muito mais tempo. Involuntariamente, gritou para o leão acima dele:

— Deixe-me, criatura imunda! Saia de cima de mim!

O leão ainda rugia, e o sangue do palato ferido espirrava numa nuvem vermelha, mesclado com o hálito fétido e a saliva quente, no rosto de Nefer.

Os gritos dele galvanizaram Mintaka, e quando ela espiou de detrás do tronco, Nefer era um espetáculo sangrento sob o peso do leão. Ele estava sendo vergastado até a morte, e seus próprios temores foram esquecidos.

O arco de Nefer estava preso sob seu corpo, e sem a aljava de flechas seria inútil para ela. Mintaka atirou-se para fora do esconderijo atrás da árvore e disparou na direção da biga. Os gritos e rugidos atrás dela incitavam-na, e ele correu até que o coração estivesse prestes a explodir.

À sua frente os cavalos estavam aterrorizados pelo cheiro e os rugidos da fera. Eles recuavam e atiravam a cabeça para o alto, escoiceando a esmo. Teriam fugido muito antes se Nefer não tivesse prendido a trava nas rodas da biga, de forma que podiam apenas girar em círculos no lugar. Mintaka correu por entre as patas que voavam por todos os lados e saltou para dentro da biga. Pegou as rédeas soltas e gritou para a parelha:

— Ho! Aí, Sonhador! Segure firme, Martelo!

Em muitas das suas prévias excursões, Nefer a deixara conduzir a biga, portanto os cavalos conheciam sua voz e reconheceram o seu toque nas rédeas. Rapidamente ela os controlou, mas pareceu uma eternidade, pois podia ouvir os gritos de Nefer e os rugidos ensurdecedores do leão. No momento em que controlou a parelha ela inclinou-se para o lado e soltou a trava da roda. Fez com que os cavalos dessem a volta para a esquerda e conduziu-os direto para onde estavam o leão e a sua vítima.

Martelo empacou, mas Sonhador obedeceu. Mintaka pegou o chicote que Nefer jamais usava neles e bateu no lombo de Martelo, com toda força.

— Ha! — gritou. — Mexa-se, Martelo!

Assustado, o animal deu um pulo para a frente, e dispararam na direção do leão. Toda a atenção dele se concentrava na vítima que gritava entre suas patas dianteiras, e ele não ergueu os olhos para a biga que se aproximava.

Mintaka largou o chicote

agarrou a longa lança que estava na biga. Ela a carregara para Nefer durante as horas de caçada, e agora sentia-a leve e familiar em sua mão direita. Guiando a parelha com a mão esquerda, inclinou-se para o lado e ergueu a lança até o alto. Quando passaram pelo leão, sua cabeça estava baixa, e a nuca completamente exposta. A junção da espinha e do crânio era coberta pela juba densa e escura, mas Mintaka calculou o ponto e atirou a lança com toda a força do seu medo e do seu amor por Nefer.

O lançamento teve o mesmo ímpeto da biga que voava. Para surpresa dela, a lâmina penetrou de imediato, profundamente, na nuca do animal.

Ela sentiu um leve tique na mão, no ponto exato em que as vértebras se uniam, afundou mais a lança para destruir a coluna vertebral.

Conforme a biga disparava, a haste da lança era arrancada da sua mão. Mas o leão desabou numa pilha inerte por cima de Nefer. Não se moveu mais, instantaneamente morto.

Ela ainda cavalgou por alguns metros antes de conseguir que os cavalos enlouquecidos parassem, depois forçou-os a voltar para onde Nefer jazia debaixo da imensa carcaça. Teve a presença de espírito de prender a trava, antes de saltar para fora da biga.

Era evidente o quanto Nefer estava ferido. Pela quantidade de sangue que o cobria, Mintaka achou até que ele poderia estar morto. Caiu de joelhos ao lado dele.

— Nefer, fale comigo. Você pode me ouvir?

Para seu imenso alívio ele virou a cabeça na direção dela, e os olhos estavam abertos e focalizados.

— Você voltou — ele ofegou. — Bak-her, Mintaka, bak-her!

— Vou tirar você daí.

Ela podia ver que o peso imenso da fera abatida estava impedindo que ele respirasse. Levantou-se e tentou puxá-lo pela cabeça.

— A cauda — Nefer murmurou dolorosamente através da máscara de sangue. — Vire-o pela cauda.

Ela apressou-se em obedecer, e agarrou a longa cauda, puxando-a com toda a força. Lentamente o traseiro do animal começou a se mover, toda a carcaça mexeu-se pesadamente, e Nefer estava livre.

Mintaka ajoelhou-se e ajudou-o a sentar, mas ele cambaleou e apoiou-se nela.

— Hathor, ajude-me — ela implorou. — Você está terrivelmente ferido. Há tanto sangue...

— Nem todo esse sangue é meu — ele falou com dificuldade, mas da coxa direita jorrava uma fonte vermelha, onde as garras tinham atingido uma veia.

Taita o instruíra longamente sobre o tratamento de ferimentos de batalha, e ele enfiou o polegar na carne dilacerada e pressionou-o até que o jato de sangue diminuísse.

— Pegue o cantil — ele disse, e Mintaka correu para a biga e levou-a até ele.

Segurou o cantil de pele enquanto ele bebia sofregamente, e depois, com toda ternura, lavou o sangue e a sujeira do seu rosto, aliviada ao ver que estava intato. No entanto, quando inspecionou os outros ferimentos, teve dificuldade em esconder o choque diante da gravidade deles.

— Meu saco de dormir está na biga. — A voz dele estava mais fraca.

Quando ela trouxe o que ele pedira, Nefer pediu-lhe que desenrolasse a manta, onde ela encontrou uma sacola que continha uma espécie de estojo de primeiros socorros. Ela pegou uma agulha e um fio de seda. Ele mostrou-lhe como prender a veia que vazava. Era uma tarefa que ela podia fazer com facilidade, e não hesitou nem tremeu. Suas mãos estavam ensangüentadas até os punhos quando, com os dedos firmes, puxou o fio pela artéria aberta, depois fechou a abertura na carne. Ainda sob as instruções dele, usou pedaços do chiton destruído para amarrar o ferimento. Era uma cirurgia rudimentar, mas suficiente para estancar o pior sangramento.

— Isso é tudo o que podemos fazer agora. Vou ajudá-lo a subir na biga e o levarei para onde um cirurgião possa fazer o restante. Ah, se ao menos Taita estivesse aqui.

Ela correu novamente para a biga e levou os cavalos até onde ele estava. Nefer apoiava-se no cotovelo, olhando para a carcaça do leão ao seu lado.

— Meu primeiro leão — ele sussurrou com dificuldade. — Se não tirarmos a pele o troféu vai se estragar.

No calor da emoção e da terrível preocupação por ele, Mintaka perdeu a calma.

— Essa é a maior estupidez masculina que já ouvi em minha vida. Você arriscaria a sua própria vida por um pedaço de pele malcheirosa?

Furiosa, foi ajudá-lo a se levantar. Foi necessário um esforço extremo de ambos para que ele se pusesse de pé. Nefer apoiou-se nela com todo seu peso enquanto arrastava-se até a biga, e desabou assim que entrou no veículo.

Mintaka usou uma manta de pele de carneiro para deixá-lo o mais confortável possível, depois subiu e pegou as rédeas.

— Para que lado? — perguntou.

— O restante do esquadrão deve estar bem adiante no vale, agora, e estarão seguindo depressa demais para que os alcancemos. Além disso, estão seguindo na direção errada — ele disse. — Os outros caçadores estão espalhados pelo deserto?

Toderíamos procurá-los o dia inteiro sem encontrá-los.

— Precisamos voltar para onde a frota está ancorada, em Dabba. Há um cirurgião nas embarcações.

Ela chegara à conclusão mais plausível, e ele assentiu. Mintaka incitou os cavalos e saíram do bosque, subindo o terreno elevado novamente na direção sul.

— São mais de três horas até Dabba — ela falou.

— Não se cortarmos caminho através da curva do rio — ele respondeu. — Podemos reduzir a volta em até quatro léguas.

Mintaka hesitou e olhou para o leste na direção do deserto ermo, que ele queria tentar.

— Eu poderia me perder — murmurou temerosa.

— Eu a guiarei — ele disse, confiante nas instruções que Taita lhe dera na viagem pelo deserto. — É a nossa melhor chance.

Ela fez os cavalos virarem para a esquerda, tendo como ponto de referência uma colina azulada na direção que Nefer lhe apontara.

Quando estavam fortes e bem, ambos deliciavam-se com o movimento da biga correndo sobre o terreno escarpado, mantendo-se firmes nas pernas jovens. Mas agora, embora ela mantivesse os cavalos num caminhar lento, ou num trote, a colisão com cada pedra ou elevação, a queda em cada buraco, era transmitida através do rígido chassi para o corpo ferido de Nefer. Ele encolhia-se e transpirava, mas tentava esconder a dor e o desconforto. Com o passar das horas, entretanto, os ferimentos enrijeceram, e a dor tornou-se insuportável. Ele gemeu alto depois de um impacto particularmente forte, e mergulhou na inconsciência.

Imediatamente Mintaka parou os cavalos e tentou reavivá-lo. Molhou um pedaço de linho com água e espremeu algumas gotas entre os lábios dele. Depois umedeceu o rosto pálido, suado. Mas quando tentou trocar os curativos dos ferimentos, descobriu que o corte na perna estava sangrando novamente. Fez de tudo para estancá-lo, mas conseguiu apenas reduzir o sangramento a um lento pingar.

— Você ficará bem, meu amor — ela disse, com uma confiança que não sentia.

Abraçou-o com delicadeza, beijou-o na testa e retomou as rédeas.

Uma hora mais tarde, deu a Nefer e aos cavalos o que restava da água, ficando ela mesma sem beber. Depois postou-se o mais alto que pôde na biga e olhou em volta para as colinas pedregosas e nuas que dançavam e oscilavam na miragem do calor. Sabia que estava perdida. Será que vagueei demais na direção oeste?, perguntou-se, olhando para o sol e tentando calcular sua posição. Aos seus pés Nefer virava a cabeça e gemia, e ela olhou para ele com uma expressão corajosa e sorriu:

— Não falta muito agora, meu bem. Deveremos avistar o rio depois da próxima colina.

Tornou a ajeitar a manta de pele sob a cabeça dele, depois levantou-se, pegou as rédeas e se recompôs. Subitamente deu-se conta do quanto estava cansada: cada músculo em seu corpo doía, e seus olhos estavam ardendo e vermelhos pelo brilho do sol e pela poeira. Obrigou a si mesma e à parelha a seguir adiante.

Em pouco tempo os cavalos estavam exibindo sinais de exaustão. Tinham parado de transpirar, e a branca camada de sal secava em seus lombos. Mintaka tentou instigá-los a um trote, mas como não reagiam ela desceu, pegou o garanhão pela cabeça e guiou-os. Agora ela própria arrastava-se, mas finalmente encontrou os rastros de uma biga num vale arenoso e animou-se.

— Estão seguindo para o oeste — murmurou entre os lábios que estavam começando a inchar e rachar. — Eles nos levarão de volta para o rio.

Continuou movendo-se ao longo dos sulcos das rodas por algum tempo, até parar atônita, ao encontrar as suas próprias marcas de pés à sua frente. Levou algum tempo para dar-se conta de que estivera andando num círculo e seguindo os próprios rastros.

Finalmente o desespero tomou conta dela. Caiu de joelhos, indefesa e perdida, e sussurrou para Nefer, que continuava inconsciente:

— Sinto muito, meu querido. Eu falhei com você.

Acariciou o rosto dele, afastando os cabelos molhados. Então ergueu os olhos para o topo da baixa colina ao leste e piscou. Balançou a cabeça para clarear a visão, fechou os olhos para descansá-los por um segundo, depois tornou a olhar. Sentiu o ânimo voltar outra vez, mas ainda não tinha certeza se o que via era uma ilusão ou realidade.

No topo da colina acima deles, uma figura esguia postava-se contra o horizonte, apoiando-se no longo cajado. Os cabelos prateados brilhavam como uma nuvem, e a brisa leve e quente do deserto empurrava a longa túnica contra as pernas finas como as de uma garça. Ele olhava na direção deles.

— Ah, Hathor e todas as deusas, não pode ser... — ela murmurou. Ao seu lado, Nefer abriu os olhos.

— Taita está por perto — sussurrou. — Estou sentindo a presença dele.

— Sim. Taita está aqui. — Sua voz mal saía, e ela colocou as mãos na garganta, chocada. — Mas como ele sabia onde nos encontrar?

— Ele sabe. Taita sabe — Nefer respondeu, depois fechou os olhos e mergulhou novamente na inconsciência.

Agora o ancião já estava descendo a encosta íngreme na direção deles, e Mintaka levantou-se com esforço e correu para encontrá-lo. Rapidamente seu cansaço desapareceu, e ela acenou e gritou para ele, quase delirante de alegria.

Taita conduziu a biga pelo escarpamento na direção do rio e do vilarejo de Dabba. Os cavalos respondiam ao seu toque, movendo-se a um passo macio que poupava o rapaz ferido na plataforma. Taita parecia saber, com algum instinto profundo, exatamente de que remédios e curativos Nefer iria precisar, pois os levara consigo. Depois de medicar os ferimentos, ele levara os cavalos a uma nascente oculta nas proximidades, e a água salobra os reanimara. Depois, acomodando Mintaka na plataforma, virou os cavalos na direção de Dabba e do rio.

Ao seu lado, Mintaka implorara, quase em lágrimas, para que ele explicasse como ficara sabendo que precisavam dele, e onde encontrá-los. Taita sorriu com delicadeza e incitou os cavalos:

— Devagar agora, Sonhador! Firme, Martelo!

Deitado no piso, Nefer estava profundamente sedado com a flor do sono, mas as feridas tinham sido limpas, desinfetadas e cobertas com bandagens de linho.

Um pôr-de-sol vermelho e raivoso caía sobre o Nilo como uma sarça ardente. Os barcos da frota ainda estavam ancorados na margem, como brinquedos de criança à meia-luz.

Apepi e Naja foram cavalgando desde o vilarejo de Dabba para encontrá-los. O Senhor Naja estava extremamente agitado, e Apepi começou a berrar com a filha assim que ela esteve ao alcance da sua voz:

— Por onde esteve, criança estúpida? Metade do exército está à sua procura!

A agitação do Senhor Naja diminuiu assim que ele se aproximou o bastante para ver Nefer todo enfaixado e inconsciente na plataforma da biga. Ficou quase animado quando Taita explicou a extensão dos ferimentos do faraó.

Semiconsciente, Nefer foi carregado até a margem do rio numa maca, e levado a bordo de uma das galés por um grupo de barqueiros.

— Quero que o faraó seja levado a Tebas o mais rápido possível — Taita falou a Naja —, mesmo que isso signifique viajar durante a noite. Existe um grande risco de que as feridas putrifiquem. Isso acontece com ferimentos recebidos dos grandes felinos. É quase como se as presas e as garras contivessem algum veneno virulento.

— Você pode ordenar que a galé parta imediatamente — Naja falou em frente da companhia, mas depois pegou o braço de Taita e levou-o para mais longe da margem, onde não poderiam ser entreouvidos. — Tenha em mente, Mago, o encargo que lhe foi dado pelos deuses. Eu percebo claramente a divina intervenção deles nestas circunstâncias extraordinárias. Se o faraó morrer devido aos ferimentos, ninguém, em qualquer dos reinos, poderá dizer que a morte não foi natural.

Ele nada mais disse, mas fitou o rosto de Taita com aqueles penetrantes olhos amarelados.

— O desejo dos deuses prevalecerá acima de tudo o mais — Taita concordou em voz baixa mas enigmática.

Naja leu em sua resposta o que queria ouvir.

— Nós temos um acordo, Taita. Eu deposito minha confiança em você. Vá em paz. Eu seguirei para Tebas depois de cuidar de Apepi. — Esse comentário soou estranhamente aos ouvidos de Taita, mas ele estava distraído demais para refletir sobre isso. Naja exibiu um sorriso misterioso e acrescentou: — Quem sabe? Talvez tenhamos notícias importantes um para o outro quando nos encontrarmos outra vez.

Quando Taita correu de volta para a galé e entrou na pequena cabine onde Nefer estava, encontrou Mintaka ajoelhada ao lado do leito, em lágrimas.

— O que foi, minha querida? — ele perguntou gentilmente. — Você tem sido tão corajosa como uma leoa. Lutou como um guerreiro das guardas. Como pode desmanchar-se em desespero agora?

— Meu pai vai me levar de volta para Avaris de manhã, mas eu devo ficar com Nefer. Sou sua prometida. Ele precisa de mim. Nós precisamos um do outro. — Ergueu os olhos infelizes para ele, e Taita pôde ver o quanto ela estava física e emocionalmente exausta.

Ela agarrou-lhe a mão.

— Ah, Mago! Você não quer procurar meu pai e pedir que ele permita que eu vá a Tebas para ajudá-lo a cuidar de Nefer? Ele lhe dará ouvidos.

Mas Apepi riu com desprezo quando Taita tentou dissuadi-lo.

— Colocar meu carneirinho ao alcance de Naja? — Ele balançou a cabeça, divertido. — Confio em Naja tanto quanto num escorpião. Quem sabe que truques ele tentaria, se eu lhe desse essa moeda preciosa com que negociar? Quanto ao seu jovem filhotinho, Nefer, ele estaria por cima dela como uma águia numa abetarda, se é que já não o fez. — Ele riu outra vez. — Não quero enfraquecer o valor da moeda da virgindade dela. Não, Mago, Mintaka voltará para baixo das minhas asas e ficará em Avaris até o dia do casamento. E nenhum dos seus encantamentos mágicos me fará mudar de idéia quanto a isso.

Com tristeza, Mintaka foi despedir-se de Nefer. Ele estava à margem da consciência, fraco pelo sangue que perdera e pela droga. Mas quando ela o beijou, ele abriu os olhos. Ela falou baixinho, jurando seu amor, e ele a fitava intensamente enquanto a ouvia. Antes que ela se levantasse para partir, retirou o pingente que trazia no pescoço.

— Aqui dentro há uma mecha dos meus cabelos. É a minha alma, e eu a entrego a você. — Colocou-o na mão dele e dobrou-lhe os dedos em torno do pingente.

Mintaka permaneceu sozinha na margem do Nilo enquanto a veloz galé que levava Nefer e Taita enfrentava a correnteza. Com vinte remadores e a ondulação branca sob a proa, a embarcação seguiu na direção de Tebas. Mintaka não acenou para a silhueta alta e esguia de Taita na popa, mas ficou observando-o com desespero.

Na manhã seguinte houve um encontro final entre Apepi e o regente, Senhor Naja, a bordo da barcaça real hicsa. Todos os nove filhos de Apepi estavam presentes, e Mintaka sentava-se ao lado do pai. Apepi a mantivera com rédeas curtas desde a tarde anterior, quando o barco que levava o Faraó Nefer Seti partira. Por longa experiência, conhecia a filha voluntariosa bem o bastante para não confiar nem em seu juízo nem em seu senso de obrigação e obediência filial quando ela estava determinada a fazer alguma coisa.

A cerimônia de despedida teve lugar no convés da galé de Apepi, com declarações solenes de confiança e devoção mútuas pela paz.

— Que perdure por mil anos! — Naja entoou, enquanto entregava a Apepi o Ouro da Eternidade, uma honraria que criara para aquela ocasião auspiciosa.

— Mil vezes mil! — Apepi retrucou com igual gravidade, enquanto a corrente da ordem, incrustada de pedras preciosas e semipreciosas era colocada em torno dos seus ombros.

O regente e o rei abraçaram-se com a afeição de irmãos, depois Naja foi levado à sua própria galé. Quando as duas frotas divergiram-se, uma para retornar a Tebas e outra para descer com a correnteza as centenas de léguas até Mênfis e Avaris, as tripulações saudaram umas às outras até perderem-se de vista. Guirlandas, folhas de palmeiras e botões de flores foram atirados de uma embarcação a outra, cobrindo a superfície do grande rio.

A urgência da viagem do Rei Apepi não exigia que sua frota navegasse na escuridão daquela noite sem lua, portanto ao entardecer eles ancoraram em Balasfura, no lado oposto ao templo de Hapi, o deus hermafrodita meio-hipopótamo do Nilo. O rei e sua família desembarcaram e sacrificaram um boi imaculadamente branco no altar do santuário. O sumo sacerdote desentranhou o animal que berrava, e com ele ainda vivo retirou e examinou as entranhas a fim de ler os auspícios para o rei. O sacerdote ficou estarrecido ao ver que as vísceras do animal estavam infestadas de vermes brancos e malcheirosos, que transbordaram no piso do templo numa massa fervilhante. Tentou esconder do rei aquele terrível fenômeno e estendeu o manto, começando a balbuciar falsas tolices, mas Apepi empurrou-o para o lado e arregalou os olhos diante da horrível visão. Até ele ficou visivelmente abalado, e por uma vez estava subjugado quando saíram do templo e retornaram à margem do rio, onde Trok e os oficiais sob seu comando lhe haviam preparado um banquete e divertimentos.

Até mesmo os galos negros e sagrados do templo recusaram-se bicar as entranhas contaminadas do sacrifício. Os sacerdotes atiraram a medonha sujeira no fogo do templo, mas em vez de consumir as entranhas, o fogo, que estivera ardendo desde a Antigüidade, foi apagado por elas. Os sinais não poderiam ser mais nefastos, mas o sumo sacerdote ordenou que as entranhas fossem enterradas, e o fogo reaceso.

— Nunca vi um presságio tão infeliz — ele disse aos seus acólitos. — Tal sinal do deus Hapi pode apenas pressagiar algum evento terrível, como a guerra ou a morte do faraó. Devemos rezar durante toda esta noite para que o Faraó Nefer Seti se recupere dos ferimentos.

Na margem do rio o Senhor Trok mandara armar tendas com cortinas vermelhas, amarelas e verdes para receber a família real. Bois inteiros assavam em covas cheias de brasas ardentes, e ânforas que continham os melhores vinhos estavam esfriando nas águas do rio. Os escravos subiam pela margem com dificuldade, arrastando-se sob o peso delas quando eram esvaziadas pela companhia, e Apepi berrava ordens para que outras jarras fossem trazidas.

O humor sombrio do rei melhorava a cada copo que bebia, e logo encorajou os filhos a juntarem-se a ele para entoarem as canções obscenas do exército. Algumas eram tão indecentes que Mintaka alegou cansaço e dor de cabeça e, acompanhada pelas suas escravas, levantou-se para se retirar para a barcaça ancorada longe da margem. Tentou levar consigo o irmão mais novo, Khyan, mas Apepi interferiu. O bom vinho o ajudara a esquecer a apreensão causada pela divinação no templo.

— Deixe o menino onde está, sua pequena megera. Ele precisa aprender a apreciar a boa música. — Abraçou o garoto num excesso de afeição e levou a vasilha com vinho aos lábios dele. — Beba um gole. Isso o fará cantar ainda melhor, meu príncipe.

Khyan adorava o pai, e tal camaradagem pública encheu-o de orgulho e idolatria por seu herói. Finalmente o pai o tratava como um homem e guerreiro. Embora engasgasse um pouco, conseguiu esvaziar a vasilha, e toda a companhia, liderada pelo Senhor Trok, aplaudiu-o como se ele tivesse matado seu primeiro inimigo numa batalha.

Mintaka hesitou. Dedicava ao irmão mais novo um sentimento de proteção quase maternal, mas concluiu que o pai estava fora de si. Com toda dignidade, seguiu com as servas para a margem do rio e, sob os apupos zombeteiros e inebriados da companhia, subiram à bordo da barcaça.

Mintaka deitou em sua cama e ficou ouvindo os sons da folia. Tentou acalmar-se para dormir, mas Nefer não lhe saía do pensamento. A sensação de perda que conseguira sufocar durante todo o dia, além da preocupação com os ferimentos dele, inundaram-na novamente, e, embora tentasse evitá-las, as lágrimas emergiram. Ela sufocou os soluços nos travesseiros.

Finalmente mergulhou num sono sem sonhos, do qual despertou com dificuldade. Havia bebido um pouco de vinho, mas sentia-se drogada, e a cabeça doía. Perguntou-se o que a teria acordado. Então escutou vozes ásperas através da lateral da quilha, e sentiu a barcaça balançar sob o peso dos homens que subiam a bordo. Havia risos e vozes embriagadas, e passos pesados no convés acima dela. Pelos comentários, parecia que seu pai e. seus irmãos estavam sendo carregados a bordo. Não era incomum que os homens da sua família se embriagassem até chegar naquele estado, mas ela estava preocupada com Khyan.

Mintaka pulou para fora da cama e começou a se vestir, mas sentia-se estranhamente zonza e confusa. Cambaleou enquanto subia para o convés.

A primeira pessoa que viu foi o Senhor Trok. Ele estava direcionando os homens que carregavam Apepi. Eram necessários seis deles para segurar o corpo inerte e imenso. Os seus irmãos mais velhos encontravam-se no mesmo estado lastimável. Ela sentiu-se com raiva e envergonhada por eles.

Então viu Khyan sendo carregado por um barqueiro, e correu para ele. Agora tinham incluído Khyan naquilo, pensou com amargura. Não descansariam até que o transformassem num bêbado como eles.

Ordenou ao barqueiro que levasse Khyan para a cabine do pai e o deixasse na cama, onde ela o despiu e obrigou-o a tomar um destilado de ervas. A poção havia sido preparada por Taita como uma espécie de curatudo, e parecia ser bastante eficaz. Finalmente Khyan murmurou e abriu os olhos, depois caiu imediatamente num sono profundo mas natural.

— Espero que ele aprenda a lição — Mintaka falou consigo mesma.

Não havia mais nada que pudesse fazer, a não ser deixá-lo dormir. Além disso ela ainda sentia-se letárgica, e a dor de cabeça era insuportável. Voltou para a própria cabine e, sem incomodar-se em tirar as roupas, caiu na cama e sucumbiu ao sono quase imediatamente.

Na outra vez em que acordou achou que estava tendo um pesadelo, pois ouvia gritos e estava sufocando com nuvens de densa fumaça, que lhe escaldavam a garganta. Antes de estar completamente consciente, descobriu-se sendo arrancada da cama, enrolada num cobertor de peles e carregada para o convés. Ela lutou, mas estava tão impotente quanto um bebê preso por garras poderosas.

No convés a noite sem lua estava iluminada por chamas ardentes. Elas rugiam para fora da escotilha aberta da barcaça real, subindo pelos mastros e enfarpelando-se numa infernal torrente alaranjada. Ela nunca havia visto uma quilha de madeira queimar, e a velocidade e ferocidade das chamas deixaram-na horrorizada.

Mas não pôde olhar por muito tempo, pois sentiu que era rapidamente carregada através do convés e para dentro de uma faluca ancorada à espera. Seus sentidos retornaram subitamente, e ela recomeçou a debater-se e gritar.

— Meu pai! Meus irmãos! Khyan! Onde eles estão?

A faluca foi empurrada com a correnteza e agora ela lutava com todas as suas forças para se libertar, mas os braços que a prendiam eram implacáveis. Mintaka conseguiu virar a cabeça para ver o rosto do homem que a segurava.

— Trok! — Ela estava furiosa com a presunção dele, com a maneira como a prendia e ignorava seus protestos. — Solte-me! É uma ordem!

Ele não respondeu. Segurava-a com facilidade, mas estava observando a galé incendiada com uma expressão calma, desapaixonada.

— Volte! — Mintaka gritou. — A minha família! Volte para buscá-los! A resposta dele foi disparar uma ordem para os remadores:

— Mais depressa!

Eles obedeceram, e a faluca balançou sob a correnteza. Os homens observavam a embarcação que ardia em chamas com fascinação. Ouviam-se gritos agonizantes daqueles que ficaram presos sob o convés.

Abruptamente uma parte do convés desabou numa torre de chamas e fagulhas. Os cabos de amarração queimaram-se, e a galé girou lentamente e foi carregada pela correnteza.

— Por favor! — O tom de voz de Mintaka mudou. — Por favor, Senhor Trok, a minha família! Não pode permitir que morram queimados!

Agora os gritos na embarcação cessaram e foram substituídos pelo trovoar baixo das chamas. Lágrimas corriam pelas faces de Mintaka, mas ela continuava impotente sob as garras de Trok.

Subitamente a escotilha principal do convés em chamas foi aberta, e a tripulação da faluca ofegou horrorizada quando uma figura emergiu. Os braços de Trok apertaram-se em torno de Mintaka, quase a ponto de quebrar-lhe as costelas.

— Não pode ser! — ele gritou.

Vista através da fumaça e das chamas, parecia uma aparição das profundezas do mundo dos mortos. Nu e coberto de pêlos, a imensa barriga protuberante, Apepi cambaleou na direção da lateral da barcaça. Carregava nos braços o corpo do filho mais novo, e a boca estava aberta, procurando por ar naquele holocausto de fogo.

— O monstro é duro de matar. — A ira de Trok era mesclada com o medo.

Mesmo em seu próprio infortúnio Mintaka percebeu o significado de tais palavras.

— Você, Trok! — ela sussurrou. — Você é o responsável por isso. Trok ignorou a acusação.

Os pêlos no corpo de Apepi chamuscaram e, numa lufada de calor, desapareceram, deixando-o nu e escurecido. Então a pele começou a encher-se de bolhas e a cair em farrapos. A barba espessa e os cabelos explodiram em chamas como uma tocha ensopada de breu. Ele não se movia mais, porém postou-se com as pernas entreabertas e ergueu Khyan bem alto acima da sua cabeça. O menino estava tão queimado quanto ele, e a carne viva exibia-se vermelha e molhada onde a pele fora arrancada. Talvez Apepi estivesse tentando atirá-lo dentro do rio para que escapasse das chamas, mas suas forças lhe faltaram e, finalmente, permaneceu ali como um colosso em chamas, incapaz de reunir as últimas reservas para jogar o filho para a segurança das águas frias do Nilo.

Mintaka não conseguia se mover e foi silenciada pelo horror daquele espetáculo. Para ela, pareceu durar uma eternidade, até que subitamente o convés sob os pés de Apepi abriu-se com um forte estampido. Ele e o filho desapareceram através da abertura, e uma alta cascata de chamas, fagulhas e fumaça sumiu nas entranhas da quilha.

— Está acabado. — A voz de Trok não exibia compaixão nem tristeza. Soltou Mintaka tão de repente que ela caiu no chão da embarcação. Ele virou-se para a tripulação horrorizada. — Remem para a minha galé — ordenou.

— Você fez isso com a minha família — Mintaka repetiu, enquanto se levantava. — Vai pagar por isso. Juro que vai. Eu irei fazê-lo pagar.

Mas ela sentia-se zonza e dolorida, como se tivesse levado uma surra de chicote. Seu pai se fora, aquela figura monumental em sua vida a quem ela havia odiado um pouco mas amado muito. Sua família se fora, todos os seus irmãos, até o pequeno Khyan, que fora mais um filho do que irmão para ela. Ela o vira arder e sabia que aquela visão terrível a acompanharia até o fim dos seus dias.

A faluca parou ao lado da galé do Senhor Trok, e ela não protestou mais quando ele a pegou no colo como se fosse uma boneca e a carregou a bordo, depois para a cabine principal. Trok deitou-a na cama com uma delicadeza pouco característica.

— As suas escravas estão a salvo. Vou enviá-las a você — ele disse, e saiu.

Mintaka escutou a porta sendo travada por uma barra, depois o barulho dos passos dele subindo para o convés, depois cruzando-o acima da sua cabeça:

— Quer dizer que sou uma prisioneira? — ela murmurou, mas isso parecia não ter importância, depois de tudo o que presenciara.

Escondeu o rosto no travesseiro, que tinha o cheiro rançoso do suor de Trok, e chorou até que suas lágrimas se esgotassem. Depois dormiu.

A quilha incendiada da barcaça real de Apepi vagou até a margem oposta ao templo de Hapi. No amanhecer, a fumaça erguia-se alto no ar parado, mesclada com o cheiro de carne queimada. Quando Mintaka acordou, o odor havia penetrado na cabine e a deixara enjoada. A fumaça parecia agir como farol, pois o sol mal se erguera acima das colinas ao oeste antes que a frota do Senhor Naja surgisse na curva do rio. As escravas levaram a notícia a Mintaka:

— O Senhor Naja está chegando com todas as tropas — elas lhe disseram com excitação. — Ontem ele nos deixou para retornar a Tebas. Não é estranho que tenha conseguido chegar aqui tão depressa, quando deveria estar a vinte léguas rio acima?

— Muito estranho — Mintaka concordou, sombria. — Devo vestirme e estar preparada para qualquer que seja a nova atrocidade que me aguarda agora.

Toda sua bagagem desaparecera no incêndio, mas suas servas emprestaram as roupas das outras damas nobres da frota. Lavaram e cachearam seus cabelos, depois vestiram-na com uma túnica simples de linho, faixa e sandálias douradas.

Antes do meio-dia uma escolta armada subiu a bordo da galé, e ela seguiu-os no convés. Seus olhos dirigiram-se primeiro para as tábuas de madeira escurecidas da barcaça real, que jaziam na margem mais distante. Nenhum esforço havia sido feito para recuperar quaisquer corpos do desastre. Aquela era a pira funerária da sua família. A tradição hicsa exigia que se fizesse a cremação, e não o embalsamamento e elaborados procedimentos e cerimônias funerárias.

Mintaka sabia que seu pai teria aprovado a maneira da sua própria partida, e isso lhe deu um pequeno conforto. Então ela pensou em Khyan e desviou os olhos. Foi com grande esforço que conteve mais um fluxo de lágrimas quando desceu para a faluca que esperava e foi levada à margem abaixo do templo de Hapi.

O Senhor Naja estava esperando com toda a sua companhia reunida para encontrá-la. Ela permaneceu distante e pálida, quando ele a abraçou.

— Este é um momento difícil para todos nós, princesa — ele disse. — Seu pai, o Rei Apepi, era um guerreiro poderoso e um grande estadista. Tendo em vista o recente troado entre os dois reinos, e a junção deste Egito em um só todo sagrado e histórico, ele deixa um vácuo perigoso. Para o bem de todos, este deverá ser preenchido imediatamente.

Ele tomou-lhe a mão e levou-a para o pavilhão, que na noite anterior fora o cenário de banquetes e festividades, mas onde agora estava reunida em solene conclave a maior parte da nobreza e oficialato dos dois reinos.

Ela avistou Trok à frente dessa aglomeração. Era uma figura impressionante, com seu uniforme completo de guerreiro. Trazia a espada num cinturão adornado de ouro e o arco pendendo do ombro. Atrás dele, agrupados em fileiras, estavam todos os seus oficiais, sombrios, frios e ameaçadores apesar das alegres fitas amarradas nas barbas. Eles olharam para ela, sem sorrir, e Mintaka ficou amargamente consciente de que era a última descendente de Apepi, abandonada e desprotegida.

Imaginou a quem poderia apelar, e em quem ainda poderia confiar. Procurou por algum rosto conhecido e amigável na multidão. Eles estavam todos ali, os conselheiros do seu pai, seus generais e companheiros de batalhas. Então ela viu os olhos deles desviarem do seu rosto. Ninguém sorriu nem retribuiu seu olhar. Ela jamais se sentira tão sozinha em toda sua vida.

Naja guiou-a até uma banqueta almofadada num dos lados do pavilhão. Quando ela sentou-se, Naja e seu séquito formaram uma parede em torno dela, escondendo-a das vistas de todos. Mintaka tinha certeza de que aquilo havia sido deliberadamente preparado.

O Senhor Naja abriu o conclave com um lamento pela morte trágica do Rei Apepi e seus filhos. Depois lançou-se a um louvor ao faraó morto. Rememorou seus inúmeros triunfos militares e seus feitos de estadista, culminando com a participação no tratado de Hathor, que levara a paz aos dois reinos exauridos por décadas de guerras e lutas:

— Sem o Rei Apepi, ou um faraó poderoso para guiar os assuntos do Baixo Reino e governar em conjunto com o Faraó Nefer Seti e seu regente em Tebas, o tratado de Hathor está em perigo. Um retorno dos horrores e das guerras dos últimos sessenta anos anteriores ao tratado é algo impensável.

O Senhor Trok bateu a bainha da espada contra a fivela de bronze e gritou:

— Bak-her! Bak-her!

Imediatamente o aplauso foi imitado pelos comandantes militares atrás dele, e aos poucos espalhou-se por toda a assembléia, até transformar-se num estrondo ensurdecedor.

Naja permitiu que continuasse por um momento, depois ergueu as duas mãos. Quando todos ficaram em silêncio, ele continuou:

— Nas trágicas circunstâncias da sua morte, o Rei Apepi não deixou nenhum herdeiro à Coroa. — Habilmente, ele deixou passar qualquer menção a Mintaka. — Como uma medida de emergência, consultei os conselheiros e governadores dos dois reinos. A escolha deles para o novo faraó foi unânime. Com uma só voz eles convidaram o Senhor Trok de Mênfis a tomar as rédeas do poder, para colocar a coroa dupla sobre si e guiar a nação adiante, na direção das nobres tradições estabelecidas pelo Rei Apepi.

O silêncio que se seguiu a tal proclamação foi profundo e surpreso. Os homens olhavam uns para os outros com expressões atônitas, e só então perceberam que, enquanto estiveram absorvidos no discurso do Senhor Naja, dois regimentos do exército do norte, leais e comandados por Trok, tinham saído silenciosamente dos bosques de palmeiras e cercado toda a assembléia. As espadas estavam embainhadas, mas cada uma das mãos enluvadas pousava no punho da arma. Seria necessário apenas um instante para desembainharem as lâminas de bronze. Uma atmosfera de consternação e desalento caiu sobre todos eles. Mintaka aproveitou o momento. Levantou-se da banqueta onde estivera escondida e gritou:

— Meus senhores e leais cidadãos deste Egito...

Mas não pode continuar. Quatro dos mais altos guerreiros hicsos cercaram-na, ocultando-a. Batiam as espadas contra as armaduras e gritavam em uníssono:

— Vida longa ao Faraó Trok Uruk!

O grito foi imitado pelo restante do exército. No alegre alvoroço que se seguiu, um par de braços fortes segurou Mintaka e levou-a através da turba ruidosa. Ela debateu-se em vão, os movimentos eram despercebidos, e a voz inaudível em meio à tempestade de aplausos. Na margem do rio conseguiu virar-se nos braços do seu captor e olhou para trás. Acima das cabeças da multidão, teve um relance do Senhor Naja erguendo a coroa dupla sobre a cabeça do novo faraó.

Então foi arrastada até a faluca e levada de volta para a cabine na galé do Senhor Trok, onde ficou trancada e vigiada pelos guardas.

Mintaka permaneceu com as escravas na pequena e confinada cabine, esperando para saber qual seria o seu destino quando o novo faraó retornasse a bordo. As jovens estavam aterrorizadas e tão confusas quanto ela. No entanto, tentou reconfortá-las. Quando elas se acalmaram um pouco, animou-as com seus jogos favoritos. Estes logo se esgotaram, e ela pediu uma flauta. A sua fora perdida na embarcação do seu pai, mas logo emprestaram uma de um guarda.

Mintaka estabeleceu umacompetição, fazendo cada uma das jovens dançar no estreito espaço da cabine. Elas estavam rindo e batendo palmas quando ouviram o novo faraó chegar a bordo. As meninas ficaram em silêncio, mas Mintaka instigou-as a continuar, e logo estavam tão alegres como antes.

Mintaka não se juntou a elas na diversão. Anteriormente, já havia explorado com cuidado os seus arredores. Ao lado da sua cabine havia uma outra bem menor, quase do tamanho de um armário, que servia de latrina. Continha um grande vaso sanitário de cerâmica com uma tampa e, ao lado, um jarro de água. O anteparo que dividia as duas cabines era fino e frágil. Os construtores do barco tinham se preocupado em poupar peso. Mintaka estivera abordo daquela galé em tempos mais felizes, quando ela e o pai foram convidados do Senhor Trok. Ela sabia que a cabine principal ficava do outro lado daquele anteparo.

Mintaka esgueirou-se para a latrina. Apesar de todo o barulho que as meninas estavam fazendo, ouviu vozes masculinas atrás da divisória. Reconheceu os tons firmes e autoritários de Naja, e as respostas abafadas de Trok. Cuidadosamente encostou o ouvido contra a placa de madeira da divisória, e no mesmo instante as vozes ficaram mais nítidas, as palavras audíveis.

Naja estava dispensando os guardas que os acompanharam a bordo. Ela os ouviu sair marchando, e depois um longo silêncio. Tão longo que ela pensou que Naja estivesse sozinho no salão. Escutou o ruído do vinho sendo despejado numa taça e a voz de Naja, carregada de sarcasmo:

— Majestade, será que já não se refrescou o bastante?

Então, pelo riso inconfundível de Trok, e pela dificuldade dele em falar, Mintaka percebeu que estava bebendo quando respondeu à provocação de Naja:

— Vamos lá, primo, não seja tão severo. Beba um gole comigo. Vamos beber ao sucesso dos nossos empreendimentos. Beba à coroa em minha cabeça, e àquela que em breve abençoará a sua.

O tom de Naja aplacou-se um pouco:

— Um ano atrás, quando começamos a planejar, tudo parecia tão impossível, tão remoto. Éramos então depreciados e esquecidos, tão distantes do trono quanto a lua é distante do sol, e no entanto aqui estamos, os dois faraós dividindo entre nós o todo do Egito.

— E dois faraós se foram à nossa frente—Trok acrescentou.—Tamose com sua flecha fincada no coração, e Apepi, o grande sapo, cozido em sua própria banha juntamente com todos os porquinhos. — Ele gargalhou alto, triunfante.

— Por favor, fale mais baixo. Você está sendo indiscreto, mesmo a sós comigo — Naja censurou-o gentilmente. — Seria melhor nunca mais repetir essas coisas. Deixe nossos segredos irem com Tamose para sua tumba no Vale dos Reis, e com Apepi para o fundo do rio.

—Venha!—Trok insistiu. — Beba comigo por tudo o que conquistamos.

— Por tudo o que conquistamos — Naja concordou. — E por tudo o que ainda temos pela frente.

— Hoje o Egito, e amanhã os tesouros e riquezas da Assíria, Babilônia e o resto do mundo! Não haverá obstáculos em nosso caminho.

Mintaka ouviu Trok engolir ruidosamente. Depois houve um forte baque na divisória, na altura do seu ouvido. Assustada, ela deu um pulo para trás, mas então percebeu que Trok havia atirado a taça vazia contra o painel, estilhaçando-a. Ele arrotou alto e prosseguiu:

— Entretanto um detalhe ainda permanece. O filhote de Tamose ainda está com a sua coroa na cabeça.

Enquanto escutava, Mintaka mergulhava num turbilhão de emoções que a arrastava de um lado para o outro. Havia ouvido, horrorizada, enquanto eles discutiam friamente os assassinatos do seu pai, dos seus irmãos e do Faraó Tamose, mas não estava preparada para o que tinham a dizer a respeito de Nefer.

— Não por muito tempo — Naja falou. — Isso será resolvido assim que eu voltar a Tebas. Está tudo arranjado.

Mintaka pressionou as mãos na boca para impedir-se de gritar. Eles iriam assassinar Nefer com tanta frieza quanto assassinaram os outros. Seu coração parecia encolher no peito, e ela sentiu-se impotente e indefesa. Era uma prisioneira sem nenhum amigo. Tentou pensar em algum meio de enviar um aviso a Nefer, pois somente naquele instante soube da extensão do seu amor por ele: faria qualquer coisa que estivesse em seu poder para salvá-lo.

— É uma pena que o leão não tenha feito o serviço completo para você — Trok falou, — em vez de tê-lo apenas arranhado um pouco.

— Mas a fera deixou o terreno bem preparado. Nefer só precisa de um pequeno empurrão, e eu lhe darei um funeral ainda mais esplêndido do que dei ao seu pai.

— Você sempre foi um homem generoso. — Trok riu, embriagado.

— Já que estamos falando da cria de Tamose, vamos falar também sobre o que restou da linhagem de Apepi — Naja sugeriu, com voz sedosa. — A princesinha deveria ter queimado com o restante deles, não foi isso que combinamos?

— Eu decidi mudar isso. — A voz de Trok estava pastosa. Ela ouviuo encher outra taça.

— É perigoso deixar a semente de Apepi não ceifada — Naja avisouo. — Mintaka pode facilmente tornar-se uma chefe nominal no futuro, um ponto de reagrupamento para revoltas e insurreições. Livre-se dela, primo, e faça isso logo.

— Por que você não fez o mesmo com as filhas de Tamose? Por que elas ainda estão vivas? — Trok desafiou-o, na defensiva.

— Eu me casei com elas — Naja salientou —, e Heseret já me pertence. Ela fará qualquer coisa que eu lhe pedir. Nós compartilhamos as mesmas ambições. Ela está tão ansiosa quanto eu para ver o irmão Nefer enterrado. Ela anseia pela coroa quase tanto quanto eu anseio pelo meu cetro real.

— Assim que sentir a minha abelha em sua pequena flor de lótus rosada, Mintaka agirá da mesma forma — Trok declarou.

Mintaka sentiu um arrepio na espinha. Mais uma vez foi atirada num redemoinho de emoções. Estava tão chocada com a imagem que a presunção de Trok evocara que quase não ouviu o comentário de Naja:

— Então a menina o segura pelos seus testículos, primo — Naja falou, mas o tom não era de brincadeira. —É ousada e indisciplinada demais para o meu gosto, mas espero que você desfrute dela. Mas tenha cuidado, Trok, há algo de selvagem na garota. Ela pode ter mais poder do que você pensa.

— Vou casar-me com ela imediatamente e engravidá-la o mais rápido possível — Trok assegurou-lhe. — Com um filho no ventre ela ficará mais obediente. Mas há muitos anos ela acendeu um fogo em minhas entranhas que só poderá ser extinguido pelos seus doces e jovens sumos.

— Eu gostaria que você usasse mais a cabeça e menos o seu cacete, primo. — A voz de Naja era resignada. — Vamos esperar que essa sua paixão não nos cause arrependimentos. — Mintaka ouviu o piso de madeira ranger quando Naja se pôs de pé. — Então, que os deuses o protejam, meu primo. Nós dois temos assuntos sérios a resolver. Devemos nos separar amanhã, mas iremos nos encontrar, conforme já foi planejado, em Mênfis, no fim da inundação do Nilo.

Durante o restante da viagem rio abaixo de Balasfura, Mintaka ficou confinada à galé de Trok. Enquanto estavam ao largo ela podia subir ao convés, mas quando ancoravam ou atracavam, ela ficava trancada na cabine, com os guardas na porta.

Isso acontecia com freqüência, pois em todos os templos por que passavam ao longo do caminho Trok descia para fazer sacrifícios e agradecimentos ao deus ou deusa residente, por sua elevação ao trono do Egito. Embora ninguém ainda soubesse disso, Trok também avisava a esses deuses que logo estaria se reunindo a eles no panteão, como um dos seus iguais.

Exceto por essas restrições, as tentativas de Trok de cair nas boas graças de Mintaka sobravam em perseverância tanto quanto faltavam em sutileza. A cada dia ele lhe dava pelo menos um presente maravilhoso. Certa vez foi um par de cavalos brancos, que ela deu ao capitão da galé. No outro dia foi uma biga cravejada de pedrarias, que havia sido capturada pelo seu pai do rei da Líbia. Ela deu-a ao coronel da guarda do palácio, que fora um esteio para Apepi. Outra vez foi um rolo de maravilhosa seda do Oriente, e em outra um baú de prata cheio de pedras preciosas, que ela distribuiu entre as escravas. Quando elas se enfeitaram com as pedrarias, Mintaka as fez desfilar na frente de Trok.

— Esses adornos baratos ficam bem nas escravas — comentou com desprezo —, mas não em uma dama da nobreza.

O novo faraó estava determinado, e quando passaram por Asyut ele apontou para uma propriedade fértil e luxuriante que se estendia por quase uma légua ao longo da margem oeste.

— Tudo isso agora é seu, alteza, um presente meu para você. Aqui está o título de propriedade. — Trok entregou-lhe o documento com um floreio e um esgar.

Ela mandou chamar os escribas naquele mesmo dia e os fez elaborar uma carta de alforria, libertando todos os escravos que pertenciam à propriedade, e uma segunda escritura, transferindo toda a terra para as sacerdotisas do templo de Hathor em Mênfis.

Quando Mintaka tentava esquecer sua tristeza e luto relaxando com as jovens escravas, dançando e cantando, jogando o bao e trocando charadas, Trok tentou juntar-se às brincadeiras. Fez com que duas das meninas dançassem com ele o Vôo das Três Andorinhas, depois voltou-se para Mintaka.

— Proponha-me uma charada, princesa — ele pediu.

— O que tem o cheiro de um búfalo, parece um búfalo, e quando saltita com as gazelas o faz com a mesma graça de um búfalo? — ela perguntou com doçura.

As meninas deram risadinhas quando Trok ruborizou.

— Desculpe, alteza, mas isso é obscuro demais para mim — ele disse, e afastou-se rapidamente para juntar-se aos seus oficiais.

No dia seguinte ele havia perdoado, mas não esquecido, o insulto. Quando ancoraram no vilarejo de Samalut, ordenou à trupe de artistas itinerantes, acrobatas e músicos que subissem a bordo para entreter Mintaka. Um dos mágicos era um homem bonito, com uma tagarelice divertida, mas seu repertório de truques era velho, e ele os executava sem finesse. Porém, assim que descobriu que a trupe estava desfrutando da paz que viera com o tratado de Hathor e estava a caminho de Tebas, onde esperavam apresentar-se diante da corte do faraó do sul, Mintaka ficou encantada com a apresentação, especialmente com a do mágico cujo nome era Laso. Depois da apresentação ela os convidou para um lanche com refrescos e tâmaras com mel. Fez um gesto para que o mágico se sentasse nas almofadas aos seus pés. Ele logo superou a admiração por ela e presenteou-a com algumas histórias, que a fizeram rir alegremente.

Aproveitando a cobertura fornecida pelos risos e conversas das meninas, Mintaka pediu a Laso para entregar uma mensagem ao famoso Mago, Taita, quando chegasse a Tebas. Quase conquistado pela condescendência dela, Laso concordou prontamente. Primeiro ela salientou o segredo e a delicadeza da tarefa, depois fez deslizar para a mão dele um rolo de papiro, que ele escondeu sob o chiton.

Mintaka sentiu um imenso alívio enquanto observava os trovadores voltarem a terra. Estivera procurando desesperadamente um meio de enviar um aviso para Taita e Nefer. O papiro continha declarações do seu amor por Nefer, bem como um alerta sobre as intenções assassinas de Naja, e um aviso de que Heseret não podia mais ser confiável, pois havia se juntado aos inimigos. Prosseguiu relatando as verdadeiras circunstâncias da morte do pai e dos irmãos. Finalmente, contou como Trok planejava tomá-la como esposa, apesar de ela estar prometida a Nefer, e pediu a Nefer que interferisse com toda a sua autoridade a fim de impedir que isso acontecesse.

Calculou que a trupe levaria mais ou menos dez dias para chegar a Tebas, e prostrou-se no convés para rezar a Hathor, pedindo que seu aviso não chegasse tarde demais. Naquela noite ela dormiu bem pela primeira vez desde os terríveis eventos em Balasfura. Pela manhã estava quase alegre, e as meninas comentaram o quanto estava bonita.

Trok insistiu que ela se juntasse a ele para o desjejum no convés. Os cozinheiros haviam preparado um banquete deslumbrante. Havia outros vinte convidados, e Trok sentou-se ao lado de Mintaka. Ela disse a si mesma que não permitiria que tal imposição lhe tirasse o bom humor. Ignorou Trok descaradamente e direcionou todo o seu encanto e inteligência aos oficiais do exército que estavam presentes.

No final da refeição Trok bateu palmas pedindo atenção, e foi recompensado com um silêncio obsequioso.

— Tenho um presente para a Princesa Mintaka.

— Ah, não! — Ela encolheu os ombros. — O que será desta vez?

— Creio que Sua Alteza o julgará mais do seu gosto do que as minhas pobres ofertas anteriores. — Trok parecia tão satisfeito consigo mesmo que ela começou a ficar preocupada.

— A sua generosidade é mal dirigida, meu senhor. — Ela não se dirigiria a ele por nenhum dos seus inúmeros títulos reais. — Milhares dos seus súditos, vítimas da guerra e da praga, estão passando fome e mais necessitados do que eu.

— Isso é algo especial, que terá valor somente para você — ele assegurou-lhe.

Ela atirou as mãos para o alto, com resignação.

— Sou apenas mais uma entre seus leais súditos — disse, sem fazer esforço para esconder o sarcasmo. — Se insiste, longe de mim negar-lhe qualquer coisa.

Trok bateu palmas novamente, e dois dos seus guardas chegaram ao convés carregando um grande saco de couro cru. O cheiro que este exalava era forte e desagradável. Algumas das meninas deram gritinhos de nojo, mas Mintaka permaneceu sem nenhuma expressão quando os soldados pararam à sua frente.

Trok assentiu, e eles soltaram os cordões que prendiam a ponta do saco, depois derrubaram o conteúdo no piso do convés. As escravas gritaram horrorizadas, e mesmo alguns dos homens emitiram exclamações de repugnância.

A cabeça humana decepada rolou pelas tábuas de madeira até os pés de Mintaka, e ali ficou, fitando-a com os olhos arregalados e assombrados. Os cachos longos estavam endurecidos com o sangue escuro e seco.

— Laso! — Mintaka sussurrou o nome do inepto mágico a quem confiara a sua mensagem para Tebas.

— Ah! Você se lembra do nome dele. — Trok sorriu. — Seus truques devem tê-la impressionado tanto quanto a mim.

Sob o calor do verão a cabeça começara a se decompor, e o cheiro era muito forte. As moscas surgiram rapidamente e arrastaram-se para dentro das órbitas abertas. Mintaka sentiu vontade de vomitar, mas engoliu em seco. Viu que um pedaço do papiro estava enfiado entre os lábios roxos de Laso.

— Ora, ora, parece que o último truque dele foi o mais divertido. Trok abaixou-se e retirou o papiro manchado de sangue. Segurou-o

de forma que Mintaka tivesse certeza de que era a sua própria insígnia que selava a mensagem, depois jogou o papiro no braseiro, onde pedaços de cordeiro estavam sendo assados. Ele queimou rapidamente, e as cinzas desmancharam-se num pó acinzentado.

Trok fez um gesto para que a cabeça fosse removida. Um dos soldados pegou-a pelos cabelos, jogou-a de volta no saco e levou-a. A companhia permaneceu num silêncio chocado por um longo instante, exceto por uma das meninas, que soluçava baixinho.

— Sua Alteza Real, o seu divino pai de ilustre memória deve ter tido alguma premonição sobre o destino que o aguardava — Trok dirigiu-se a ela com gravidade. Mintaka estava perturbada demais para retrucar. — Antes da sua trágica morte ele falou comigo. Deixou-a sob a minha proteção. Eu fiz um juramento a ele, e aceitei esse encargo sagrado. Você jamais precisará apelar a qualquer outro por proteção. Eu, Faraó Trok Uruk, sou o seu prometido. — Ele pousou a mão direita sobre a cabeça dela, e na outra mão ergueu outro rolo de pergaminho. — Esta é a minha proclamação real que anula o compromisso de casamento da Princesa Mintaka da Casa de Apepi com o Faraó Nefer Seti da Casa de Tamose. A proclamação foi ratificada pela insígnia do Senhor Naja, aceitando-a e confirmando-a em nome do Faraó Nefer Seti. — Ele entregou o papiro ao seu camareiro com uma rápida instrução: — Mande fazer cem cópias desta proclamação e faça com que sejam publicamente exibidas em todas as cidades deste Egito.

Então, com ambas as mãos, fez com que Mintaka se levantasse.

— Você não estará sozinha por mais muito tempo. Iremos nos tornar marido e mulher antes do nascer da Lua de Osíris.

Três dias depois o Faraó Trok Uruk chegou a Avaris, a sua capital militar no Baixo Reino, e imediatamente dedicou-se com energia infatigável a tomar em suas mãos todos os assuntos de Estado e as armadilhas do poder.

O povo estava delirante de alegria com as notícias do tratado de Hathor e com a promessa de paz e prosperidade nos anos futuros. No entanto, houve certa confusão e desalento quando um dos primeiros atos do novo faraó foi decretar uma outra maciça convocação obrigatória para o exército. Logo ficou claro que ele tinha a intenção de duplicar o tamanho dos regimentos de infantaria e construir mais duas mil bigas de batalha.

Perguntaram a Trok, mas não diretamente, onde ele esperaria encontrar um novo inimigo, agora que o Egito estava novamente unido e em paz. A perda dos trabalhadores dos campos de milhete e das pastagens para o exército resultou numa escassez de alimentos e numa aguda elevação dos preços nos mercados. As despesas com novas bigas, armas e equipamentos militares exigiram um aumento nos impostos. Agora havia rumores de que Apepi, a despeito de ser um fomentador de guerras, de cobrar altos impostos e de desprezar os deuses, não tinha sido um governante tão ruim quanto julgavam que fosse.

No espaço de semanas Trok ordenou que se iniciassem as obras de ampliação e reformas no palácio em Avaris, para onde pretendia mudar-se com sua noiva, a Princesa Mintaka. Os arquitetos estimavam que essas obras custariam mais de dois laques de ouro. Os murmúrios ficaram ainda mais elevados.

Bem ciente do crescente descontentamento, Trok enfrentou-o com a proclamação da sua própria divindade e elevação ao panteão. Em poucos dias deveriam começar os trabalhos para a construção do seu templo num local escolhido ao lado do magnífico templo de Seueth, em Avaris. Trok estava determinado a fazer com que o seu templo suplantasse em esplendor aquele do seu irmão deus. Os arquitetos estimavam que a construção exigiria pelo menos cinco mil trabalhadores, cinco anos e outros dois laques de ouro.

A revolta iniciou-se no delta, onde os homens de um regimento de infantaria, que estiveram sem receber os soldos por mais de um ano, assassinaram seus oficiais e marcharam para Avaris, conclamando a população a erguer-se e unir-se a eles contra o tirano. Trok enfrentou-os com trezentas bigas perto de Manashi, e acabou com todos eles no primeiro ataque.

Ele castrou e empalou em estacas quinhentos amotinados. Como uma floresta macabra, eles adornavam os dois lados da estrada por meia légua além do vilarejo de Manashi. Os líderes da revolta foram amarrados na traseira das bigas e arrastados até Avaris para expressar seus agravos. Infelizmente nenhum dos prisioneiros sobreviveu à jornada: quando chegaram, mal eram reconhecíveis como seres humanos. A pele e grande parte da carne foram arrancadas enquanto eles eram arrastados através do solo pedregoso. Pedaços retalhados de carne e lascas de ossos foram espalhados pelas vinte léguas do caminho, para a delícia dos cães, dos chacais e abutres.

Umas poucas centenas dos amotinados escaparam do massacre e desapareceram no deserto. Trok não se deu ao trabalho de mandar perseguilos além das fronteiras ocidentais, pois aquela questão insignificante já havia ocupado demais a sua atenção e atrasado o seu casamento em meses. Ele correu de volta para Avaris usando três pares de cavalos em sua furiosa impaciência.

Enquanto Trok estava longe, Mintaka tentara por mais duas vezes enviar uma mensagem a Taita em Tebas. O primeiro dos seus mensageiros fora um eunuco do harém, um negro gordo e bondoso que ela conhecera por toda a vida. Havia um laço especial entre os eunucos dos dois reinos, que transcendia a raça ou país. Mesmo durante os anos em que os dois reinos estavam separados, Soth, pois este era o nome do eunuco, havia honrado sua ligação especial com Taita, e fora seu amigo e confidente.

No entanto os espiões de Trok eram ubíquos e alertas. Soth nem conseguiu chegar a Asyut e foi levado de volta numa sacola de couro, semimorto. Morreu quando sua cabeça foi mergulhada num caldeirão de água fervente. Seu crânio, com a carne arrancada pela fervura, a ossada limpa e polida e as órbitas dos olhos preenchidas com pedras de lápis-lazúli, foi entregue a Mintaka como presente especial do Faraó Trok.

Depois disso Mintaka nem sequer podia pensar em recrutar um outro mensageiro, e assim condená-lo a uma morte cruel. Mesmo assim uma das suas escravas líbias, Thana, que conhecia a profundidade do amor da sua senhora, ofereceu-se para levar a mensagem. Ela não era uma das jovens mais belas, pois tinha um olho vesgo e o nariz grande, mas era leal, amorosa e sincera. Por sugestão dela, Mintaka vendeu-a a um mercador que iria viajar para Tebas no dia seguinte. Ele levou Thana consigo, mas três dias depois ela estava de volta em Avaris, amarrada pelos pulsos e tornozelos à lateral da biga de um dos guardas da fronteira.

Trok encarregou-se de Thana quando voltou de Manashi: condenou-a à morte por amor, e ela foi entregue ao regimento que havia liderado o ataque em Manashi. Mais de quatrocentos homens saciaram-se com ela até que, no anoitecer do terceiro dia, ela sangrou até a morte.

Por três dias Mintaka chorou por ela, sem cessar.

O casamento do Faraó Trok Uruk com a Princesa Mintaka Apepi foi realizado de acordo com a antiga tradição hicsa, que tinha sua origem cem anos antes, e a cem léguas ao oeste, na vasta estepe descampada além das montanhas da Assíria, de onde seus ancestrais haviam avançado para a conquista do Egito.

Ao amanhecer do dia do casamento, um grupo de duzentos parentes e membros da tribo da Princesa Mintaka irrompeu nos aposentos onde ela fora mantida em cativeiro desde o seu retorno a Avaris. Não houve resistência dos guardas, que estavam esperando aquela incursão. Os membros da sua facção carregaram Mintaka para fora e cavalgaram na direção do oeste em formação cerrada, com a princesa ao meio, gritando brados de desafio e brandindo bastões e cajados. Qualquer tipo de arma com lâmina fora banida das festividades.

Quando o grupo da noiva já ganhava alguma vantagem, o noivo liderou um grupo da sua própria tribo, os leopardos, na perseguição. Os fugitivos não tinham demonstrado nenhuma urgência em escapar, e assim que os perseguidores foram avistados eles voltaram e lançaram-se alegremente à luta. Embora não fossem permitidas adagas e espadas, dois homens tiveram os membros fraturados, e houve uns poucos crânios rachados. Nem mesmo o noivo escapou sem cortes e arranhões. No final, Trok exigiu o seu prêmio. Agarrou Mintaka pela cintura e carregou-a para a sua biga.

A resistência de Mintaka não foi encenação, e com as unhas ela infligiu um profundo arranhão no lado direito do rosto de Trok, que por pouco não atingiu o olho, e o sangue que pingava estragou o colorido esplendor do seu traje.

— Ela lhe dará muitos filhos guerreiros! — os partidários dela gritavam em admiração pela ferocidade da resistência de Mintaka.

Sorrindo deliciado com o espírito beligerante da sua noiva, Trok levou-a triunfante de volta para o seu templo, onde os sacerdotes recém-ordenados da sua ordem esperavam para realizar os rituais finais.

Por enquanto o templo era apenas uma fundação aberta com altos pilares de blocos de pedra, mas isso não diminuiu o prazer dos convidados nem o entusiasmo do noivo, quando se postaram sob a cobertura de juncos trançados enquanto o sumo sacerdote amarrava Mintaka a ele com uma corda.

No ponto culminante da cerimônia, Trok cortou a garganta do seu cavalo de guerra favorito, um belo garanhão marrom, como sinal de que valorizava mais a sua noiva do que o seu outro bem precioso. Enquanto o animal tombava escoiceando e com o sangue jorrando pela carótida aberta, os convidados gritaram em aclamação e carregaram o casal para a biga revestida de flores.

Trok conduziu a biga de volta para o palácio, com um braço firmemente enlaçado em torno da noiva, sem correr nenhum risco de uma segunda fuga. O exército alinhava-se pelo trajeto, apinhando-se em torno do veículo, e uma chuva de presentes de amuletos e talismãs de boa sorte caía na plataforma. Outros entregavam taças de vinho a Trok conforme ele passava, e ele as bebia, derrubando grande parte do líquido em sua túnica, onde se misturava com o sangue do animal sacrificado.

Quando chegaram ao palácio, Trok estava ensopado de sangue e vinho tinto, transpirando e empoeirado pela cavalgada e pela luta para a conquista da esposa, imprudente pelo vinho e alucinado de luxúria.

Carregou Mintaka através da multidão para seus novos aposentos, e os guardas na porta afastaram os convidados com as espadas empunhadas. No entanto, eles não se dispersaram, mas circundaram o palácio entoando encorajamentos ao noivo e conselhos obscenos à noiva.

No quarto de dormir Trok atirou Mintaka sobre a pele de cordeiro branca que cobria a cama e usou as duas mãos para livrar-se do cinturão da espada, tentando soltar a fivela e praguejando vigorosamente quando esta não cedia. Mintaka caiu na cama e no instante seguinte saltou para fora dela como um coelhinho sendo expulso da sua toca por um furão.

Correu para a porta do terraço e tentou abri-la. As barras que a trancavam por fora tinham sido colocadas por ordem de Trok. Em desespero, ela tentou abrir o painel com as unhas, mas as portas eram sólidas e grossas e nem mesmo tremeram sob seu ataque.

Atrás dela Trok tinha se livrado do cinturão, e a espada caiu no piso de lajotas com um ruído metálico. Aproximou-se dela cambaleando.

— Lute o quanto quiser, minha belezinha — falou com a voz pastosa. — Meu cacete fica em brasas quando você chuta e grita.

Passou o braço em torno da cintura dela e estendeu a outra mão para agarrar-lhe os seios.

— Por Seueth, que fruto maduro e suculento é este?

Apertou com força os dedos calejados pelo manejo da espada e das rédeas da biga. A dor aguda penetrou em seu peito, e ela gritou e debateu-se em seus braços, tentando novamente atingir-lhe os olhos com as unhas. Ele segurou-lhe o punho.

— Você não vai fazer este truquezinho duas vezes. — Pegou-a no colo e carregou-a de volta para a cama.

— Babuíno! — ela gritou. — Seu macaco peludo e malcheiroso! Animal nojento!

— Você canta uma doce canção de amor, pequenina. Meu coração e meu cacete ficam inchados quando ouço o quanto você me deseja.

Atirou-a novamente na cama, e dessa vez prendeu-a com o braço enorme e musculoso em seu peito. O rosto estava a centímetros do dela. A barba machucava-lhe as faces, e o hálito cheirava a vinho azedo. Ela desviou o rosto para o lado. Ele riu e prendeu o dedo no decote da túnica que ela usava, rasgando-a até a altura da cintura.

Ele capturou-lhe os seios e apertou-os com muita força, a ponto de deixar marcas vermelhas na pele delicada. Beliscou os mamilos e puxouos até que ficassem escurecidos, depois deslizou a mão direita pelo seu ventre. Enfiou um dedo brincalhão no umbigo dela, depois tentou forçar a mão entre as suas coxas. Mintaka cruzou as pernas com força, tentando impedi-lo.

Subitamente ele ergueu o corpo, abriu-lhe as pernas e sentou por cima dela com todo o seu peso, para que ela não pudesse mais se debater, e arrancou-lhe a túnica. Mintaka estava nua sob ele. O corpo dele era treinado pela guerra, caçadas e jogos violentos, e embora sua visão estivesse distorcida pela dor, lágrimas e terror, ela teve uma impressão dos ombros largos e músculos protuberantes, braços e pernas grossos e fortes como os galhos de um cedro-do-líbano.

Ainda prendendo-a sob si, ele virou-se até que seu próprio ventre estivesse pressionado contra o dela, e os pêlos que lhe cobriam o peito eram ásperos contra os seios dela. Com um terror crescente, Mintaka sentiu o pênis maciço tentando penetrá-la.

Ela lutou não somente pela sua dignidade e modéstia, mas como se fosse para salvar a própria vida. Tentou morder o rosto dele, mas seus dentes pequenos eram amortecidos pela barba espessa. Enfiou as unhas nas costas dele e sentiu a pele soltar-se, mas ele nem pareceu perceber.

Trok tentava forçar o joelho entre as coxas dela, mas Mintaka as mantinha firmemente fechadas, prendendo uma perna por cima da outra. Cada músculo do seu corpo estava congelado pelo medo e pela repulsa, duro como o granito da estátua da deusa.

Os dois estavam transpirando, ele mais profusamente. O suor gotejava do seu corpo, lubrificando a pele de ambos, de forma que o membro enorme deslizou pela barriga dela e forçou a junção das suas coxas.

De repente ele ergueu o tronco e desferiu um tapa pesado no rosto dela. O golpe sacudiu suas mandíbulas cerradas, ferindo os lábios e o nariz. Ela sentiu o sangue jorrar em sua boca, e a escuridão envolveu-a.

— Abra as pernas, cadela! — ele resfolegou por cima dela. — Abra essa fenda quente e me deixe entrar.

Ele investia os quadris com força, e ela sentiu o membro desprezível escorregando pelo seu ventre. Mesmo com a dor e a escuridão conseguiu impedi-lo de penetrar, mas sabia que não conseguiria resistir por muito mais tempo. Ele era pesado e poderoso demais.

— Hathor, ajude-me! — Ela fechou os olhos e rezou. — Deusa bondosa, não permita que isso aconteça!

Ouviu-o gemer por cima dela e abriu os olhos. O rosto dele estava inchado e escuro com o sangue congestionado. Sentiu-o arquear as costas, como se estivesse com dor. Os olhos dele arregalaram-se, injetados de sangue. A boca abriu-se num ricto terrível.

Mintaka não entendia o que estava acontecendo. Por um instante achou que a deusa escutara sua prece e o atingira no coração com um dardo divino. Então sentiu o líquido quente espalhar-se pelo seu ventre, tão quente que parecia escaldar-lhe a pele. Finalmente o jorro repugnante escorreu e secou. De repente ele gemeu outra vez e desabou por cima dela. Permaneceu imóvel, e ela não se atreveu a se mexer, temendo incitá-lo novamente. Ficaram assim por um longo tempo, até que no silêncio do quarto ambos ficaram cientes dos gritos lascivos da multidão que esperava no lado de fora dos muros do palácio. Trok ergueu-se e olhou para ela.

— Você me envergonhou, sua pequena vagabunda. Fez com que eu derramasse minha semente em vão.

Antes que ela percebesse o que ele estava prestes a fazer, Trok agarrou-a pela nuca e forçou-lhe o rosto contra a pele de carneiro branca.

— Não tenha medo, usarei o sangue do seu nariz, se não posso ter o do seu pote de mel.

Empurrou-a para o lado, inspecionou a mancha vermelha do sangramento do seu rosto contra a pura lã branca e sorriu satisfeito. Depois saltou para fora da cama e marchou, completamente nu, até as portas do terraço, escancarando-as com um chute e estilhaçando as tábuas de madeira. Desapareceu na claridade do dia.

Com um pedaço do lenço de linho Mintaka limpou a gosma nojenta que endurecia em seu ventre. Havia marcas escuras em seus seios e pernas. Seu medo transformou-se em fúria.

O cinturão e a espada de Trok estavam caídos onde ele os deixara. Silenciosamente ela deslizou para fora da cama e retirou a lâmina de bronze da bainha. Esgueirou-se até a porta que levava ao terraço e espremeu-se contra a soleira.

Lá fora Trok recebia os aplausos da multidão e sacudia a manta de pele para que todos vissem.

— Ela adorou! — ele respondeu a um comentário que lhe fora gritado.

— Quando acabei com ela, estava molhada como os pântanos do delta, e tão quente quanto o Saara!

Mintaka apertou com mais força o punho da pesada espada e preparou-se.

— Adeus, meus amigos — Trok gritou. — Agora voltarei para mais uma mordida naquele doce figo!

Ela ouviu os pés descalços roçarem as lajotas enquanto ele retornava, e depois viu a sombra atravessar a entrada. Usando as duas mãos, ergueu a espada na altura do ventre.

Quando ele entrou no quarto ela posicionou-se e, com toda sua força, atirou-se contra ele, tendo como alvo o meio caminho entre a cavidade do umbigo e a densa penugem escura de onde pendia a pesada excrescência dos genitais.

Certa vez, muito tempo atrás, quando caçava com o pai, ela o observara preparar o ataque a um leopardo monstruoso que não percebera a presença deles. O felino fora alertado pelo ruído da corda do arco do seu pai, e instantaneamente saltara para o lado, antes que a flecha atingisse o alvo. Trok possuía o mesmo instinto animal para o perigo e a sobrevivência.

O impulso dela ainda estava no ar, quando ele fez um giro afastando-se da afiada ponta de bronze. Esta voou na espessura de um dedo para além do ventre peludo, sem derramar nem uma gota de sangue. Então ele agarrou-a pelos pulsos com uma única mão imensa. Apertou-os até que ela sentisse os ossos esmigalharem-se, e teve de soltar a arma, que caiu ruidosamente no chão.

Ele estava rindo enquanto a arrastava através do quarto, mas era um som horrendo. Atirou-a de costas no leito amassado e cheirando a suor azedo.

— Você é minha mulher, agora — ele disse, postando-se em cima dela.

— Você me pertence, como uma égua ou uma cadela. Precisa aprender a me obedecer e respeitar.

Ela afundou o rosto no lençol amarrotado, recusando-se a olhar para ele. Trok pegou o cinturão da espada que jazia ao lado da cama.

— Esta lição de obediência é para o seu próprio bem. Um pouco de dor agora irá nos poupar muita infelicidade e sofrimento mais tarde.

Ele pegou o cinturão nas mãos. Era de couro polido, adornado com placas de ouro e rosetas de metal. Balançou-o no ar e desferiu um golpe nas costas das pernas nuas de Mintaka. Este chicoteou a pele branca e deixou um vergão com as marcas das rosetas num vermelho mais vivo. Ela foi pega tão de surpresa que, mesmo sem querer, gritou alto.

Ele riu diante da sua dor, e ergueu novamente o cinturão. Mintaka girou o corpo para longe dele, mas o golpe seguinte atingiu seu braço direito, e o outro pegou-a no ombro. Ela impediu-se de gritar outra vez, e tentou esconder a dor forçando um sorriso de desprezo e cuspindo nele como um lince. Isso enfureceu-o, e ele bateu com mais força.

Trok derrubou-a para fora da cama e seguiu-a enquanto ela se arrastava pelo chão. Vergastou-lhe as costas, e quando ela se encolheu como uma bola, atingiu-a nos ombros e no traseiro. Falava com ela enquanto desferia os golpes, que adquiriram um ritmo constante, pontuando as palavras com o esforço que fazia.

— Você nunca mais irá erguer a mão contra mim, hah! Na próxima vez em que eu procurá-la, hah! Você vai se comportar como uma esposa amorosa, hah! Ou então farei com que quatro dos meus homens a segurem, hah! Enquanto monto em você, hah! E quando eu terminar, hah! Vou surrá-la novamente, hah! Deste jeito, hah!

Ela cerrou as mandíbulas enquanto os golpes choviam sobre si, até que finalmente não pôde mais lutar, mas misericordiosamente ele afastou-se, com a respiração pesada.

Ele vestiu a túnica empoeirada e suja de sangue, prendeu o cinturão na cintura e enfiou a espada na bainha, depois arrastou-se até a porta. Ali parou e olhou para ela.

— Lembre-se de uma coisa, mulher, ou eu domo as minhas éguas ou, por Seueth, elas morrem nas minhas mãos. — Depois virou-se e saiu.

Mintaka ergueu a cabeça devagar e viu-o sair. Não conseguia falar. Em vez disso, encheu a boca de saliva e cuspiu atrás dele, formando uma mancha avermelhada com o sangue dos seus lábios inchados.

Foi muito tempo depois do minguar da Lua de Isis que os ferimentos de Mintaka cicatrizaram e hematomas transformaram-se em manchas verde-amareladas na pele clara e macia. Fosse por intenção, fosse por sorte, Trok não lhe arrancara nenhum dos dentes, não quebrara nenhum osso, nem deixara o rosto marcado.

Desde o calamitoso dia do casamento, ele a deixara em paz. Na maior parte do tempo estava em campanhas no sul. Mesmo quando retornava a Avaris por curtos períodos, ele a evitava. Talvez fosse repelido pela má aparência dos seus ferimentos, ou talvez estivesse envergonhado da própria incapacidade de consumar o matrimônio. Mintaka não ponderou sobre isso com muita profundidade, mas dava graças por estar livre, por um tempo, das suas brutais atenções.

Outras graves rebeliões aconteceram no sul do reino. Trok reagira com selvageria. Atacou os insurgentes, chacinou aqueles que se opunham a ele, apossou-se das suas propriedades e vendeu suas famílias como escravos. O Senhor Naja havia enviado dois regimentos para ajudá-lo nessas operações contra os rebeldes, apoiando seu primo e faraó e, ao mesmo tempo, compartilhando das pilhagens.

Mintaka soube que Trok havia voltado a Avaris em triunfo três dias atrás, mas ainda não o vira. Agradeceu à deusa por isso, mas foi prematuro. No quarto dia ele mandou chamá-la. Mintaka deveria participar de uma sessão extraordinária do conselho de Estado. A questão era tão urgente que lhe foi permitida apenas uma hora para se preparar. A mensagem de Trok a avisava de que se ela decidisse ignorar tal convocação ele mandaria seus guardas para arrastá-la ao conclave. Ela não tinha escolha, e suas escravas a vestiram para a ocasião.

Aquele era o primeiro evento no qual Mintaka aparecia em público, desde o casamento. Com a maquiagem cuidadosamente aplicada, ela estava tão bela como sempre quando tomou seu lugar no trono da rainha, abaixo daquele do faraó, no salão luxuosamente redecorado da assembléia. Tentou manter uma expressão distante e ficar indiferente aos procedimentos, mas sua frieza desapareceu assim que reconheceu o mensageiro real, que entrou e prostrou-se entre os dois tronos. Ela inclinou-se para a frente, atenta.

Trok saudou o arauto e depois ordenou-lhe que se levantasse e proclamasse as notícias ao conselho. Quando o homem pôs-se de pé, Mintaka percebeu que ele estava tomado por uma profunda emoção. Teve de limpar a garganta várias vezes antes de pronunciar uma palavra, e quando finalmente falou foi numa voz tão trêmula que no início Mintaka não entendeu o que ele estava dizendo. Escutava as palavras, mas não podia obrigar-se a aceitá-las.

— Sua Majestade Sagrada Faraó Trok Uruk, Rainha Mintaka Apepi Uruk, distintos membros do conselho de Estado, cidadãos de Avaris, irmãos e concidadãos deste Egito, eu trago notícias trágicas do sul. Eu preferia morrer em batalha a ter de lhes dar esta notícia. — Fez uma pausa e tossiu outra vez. Depois, a voz elevou-se forte e clara. — Fiz a viagem numa galé veloz descendo o rio desde Tebas. Viajando dia e noite, parando apenas para a troca dos remadores, levei doze dias para chegar a Avaris.

Ele fez outra pausa, estendeu os braços num gesto de desespero.

— No mês passado, na véspera do festival de Hapi, o jovem Faraó Nefer Seti, a quem todos nós amamos, e em quem depositamos tanta confiança e esperança, morreu em decorrência dos terríveis ferimentos que recebeu em Dabba, enquanto caçava um leão feroz.

Houve um suspiro de desespero em uníssono. Um dos conselheiros cobriu os olhos e começou a chorar silenciosamente. O arauto continuou, rompendo o silêncio:

— O regente do Alto Reino, Senhor Naja, que pertence à família real de Tamose pelos laços do casamento, e que é o próximo na linha de sucessão, foi entronizado no lugar do finado faraó. Ele purifica a terra em seu nome de Kiafan, ele perdura até a eternidade em seu nome de Naja, o temor por ele através do mundo é grandioso em seu nome de Faraó Naja Kiafan.

Os gritos de lamento pela morte do faraó e os brados de aclamação pelo seu sucessor encheram o salão.

Em meio ao tumulto, Mintaka fitava o arauto com os olhos fixos e arregalados. Sob a maquiagem seu rosto estava pálido, e os olhos não precisariam do kohl para ficar grandes e trágicos. O mundo parecia escurecer à sua volta, e ela cambaleou em seu assento. Embora tivesse ouvido a morte de Nefer ser planejada e arquitetada, convencera-se de que isso não aconteceria. Tinha se obrigado a acreditar que, mesmo sem os seus avisos, Nefer, com Taita para ajudá-lo, de alguma forma iria evitar a maligna teia urdida por Naja e Trok.

Trok a observava com um sorrisinho dissimulado, triunfante, e ela soube que ele regozijava-se com o seu sofrimento. Mas não se importava mais. Nefer se fora, e com ele toda a sua vontade e sua razão para resistir e prosseguir vivendo. Levantou-se do trono e, como uma sonâmbula, saiu do salão. Esperou que o marido ordenasse que voltasse, mas ele não o fez. Na consternação e lamentos gerais poucos convidados repararam na sua saída. Aqueles que perceberam estavam cientes da sua terrível dor. Recordaram-se de que um dia ela fora a prometida do finado faraó, e perdoaram sua quebra de decoro e protocolo.

Mintaka ficou em seus aposentos por três dias e três noites, sem comer. Bebia apenas um pouco de vinho misturado com água. Ordenou a todos que a deixassem sozinha, até as suas servas. Não queria ver ninguém, nem mesmo os médicos que Trok lhe enviara.

No quarto dia mandou chamar a suma sacerdotisa do templo de Hathor. Elas ficaram juntas por toda a manhã, e quando a anciã partiu do palácio havia coberto a cabeça raspada com o manto branco, em sinal de luto.

Na manhã seguinte a sacerdotisa voltou com duas de suas acólitas, que carregavam uma grande cesta de folhas de palmeira trançadas. Deixaram o cesto diante de Mintaka, depois cobriram a cabeça e se afastaram.

A sacerdotisa ajoelhou ao lado de Mintaka e perguntou em voz baixa:

— Tem certeza de que quer tomar o caminho da deusa, minha filha?

— Não há mais nada pelo que viver — Mintaka respondeu simplesmente.

No dia anterior a sacerdotisa tentara dissuadi-la durante horas, mas agora fazia uma última tentativa:

— Você ainda é jovem... Mintaka ergueu a mão delicada.

— Mãe, talvez eu não tenha vivido muitos anos, mas neste curto período experimentei mais dor e sofrimento do que muitos encontram no transcorrer de suas longas vidas.

A sacerdotisa inclinou a cabeça e disse:

— Vamos rezar para a deusa. — Mintaka fechou os olhos e ela prosseguiu: — Senhora abençoada, poderosa vaca dos céus, senhora da música e do amor, onisciente, toda-poderosa, escute as preces das suas filhas que

a amam.

Alguma coisa dentro do cesto se moveu, e houve um leve sussurro, como a brisa do rio perpassando as moitas de papiro. Mintaka sentiu um frio no estômago e soube que era o primeiro sopro da morte. Escutava a oração, mas seus pensamentos estavam com Nefer. Lembrava-se vividamente de tudo o que tinham compartilhado, e em sua mente a imagem dele surgiu como se ainda estivesse vivo. Ela viu novamente seu sorriso, e a maneira como mantinha a cabeça perfeitamente equilibrada entre os ombros fortes. Perguntou-se em que ponto ele estaria em sua terrível jornada através do mundo dos mortos, e rezou pela segurança dele. Rezou para que ele alcançasse as colinas verdejantes do paraíso, e para que ela pudesse reunir-se a ele em breve. Irei ao seu encontro em pouco tempo, meu querido, ela prometeu.

— Sua bem-amada filha, Mintaka, esposa do divino Faraó Trok Uruk, implora pelo favor que a senhora prometeu àqueles que sofreram demais neste mundo. Permita que ela encontre o seu negro mensageiro, e através dele descubra a paz em seu seio, poderosa Hathor.

A sacerdotisa terminou a prece e esperou. O passo seguinte seria dado apenas por Mintaka. Mintaka abriu os olhos e olhou para o cesto, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Lentamente, estendeu as duas mãos e ergueu a tampa. O interior da cesta era escuro, mas havia movimento lá dentro, um serpentear pesado, lânguido, um cintilar de negro sobre negro, como óleo espirrado na água de um poço profundo.

Mintaka inclinou-se para espiar no interior, e lentamente uma cabeça escamada ergueu-se ao seu encontro. Enquanto emergia para a luz, a crista abriu-se como um leque, com desenhos em negro e marfim. Os olhos eram tão brilhantes como contas de vidro. Os lábios finos curvavam-se num sorriso sardônico, e a língua negra e bipartida tremulou entre eles, provando o ar e o cheiro da jovem que estava à sua frente.

Elas olharam-se, a menina e a serpente, por uma centena de lentas batidas do seu coração. Por um instante a serpente recuou, como se estivesse se preparando para atacar, mas depois elevou-se delicadamente outra vez, como alguma flor mortal numa longa haste.

— Por que ela não faz o seu trabalho? — Mintaka perguntou, com os lábios próximos o bastante dos da cobra para que um beijo fosse trocado.

Ela estendeu a mão, e a serpente virou a cabeça para ver os dedos aproximarem-se. Mintaka não demonstrava nenhum temor. Gentilmente acariciou a parte de trás da crista distendida. Em vez de atacá-la, a cobra virou-se de lado, como um gato oferecendo a cabeça para um afago.

— Faça o que tem de ser feito — Mintaka implorou à deusa, mas a sacerdotisa balançou a cabeça, intrigada.

— Isso é algo que eu nunca vi — ela sussurrou. — Você precisa atacar o mensageiro com a sua mão. Certamente isso fará com que ele lhe entregue o presente da deusa.

Mintaka afastou a mão, com a palma aberta e os dedos separados. Mirou a cabeça da serpente e estava a ponto de bater, quando imobilizou-se com surpresa e baixou a mão. Intrigada, olhou em volta do quarto escurecido, nos cantos escuros, depois diretamente para a sacerdotisa.

— Você falou outra vez? — perguntou.

— Eu nada falei.

Mintaka levantou a mão novamente, mas dessa vez a voz estava mais próxima e nítida. Ela reconheceu-a com um arrepio de medo supersticioso e sentiu os cabelos na nuca eriçarem-se.

— Taita? — ela murmurou, olhando em volta. Quase esperou que ele estivesse parado ao seu lado, mas o quarto ainda estava vazio, exceto pelas duas ajoelhadas diante do cesto. — Sim! — ela disse, como se respondesse a uma instrução ou uma pergunta. Escutou o silêncio e assentiu duas vezes, depois repetiu: — Ah, sim!

A sacerdotisa não ouvia nada, mas sabia e compreendia que acontecera alguma intervenção mística em seus procedimentos. Não ficou surpresa quando a serpente mergulhou de volta para as profundezas do cesto. Recolocou a tampa e levantou-se.

— Perdoe-me, Mãe — Mintaka falou suavemente. — Não irei tomar o caminho da deusa. Ainda há muito o que fazer neste mundo.

A sacerdotisa pegou o cesto e disse à menina:

— Que a deusa a abençoe lhe conceda a vida eterna. Afastou-se para a porta e deixou Mintaka sentada na semi-escuridão do quarto. Ela ainda parecia estar ouvindo uma voz que a anciã era incapaz de escutar.

 

Taita levou Nefer de Dabba para Tebas profundamente sedado com a flor do sono. Assim que a galé aportou no ancoradouro de pedra abaixo do palácio, Taita desembarcou-o numa liteira protegida por um cortinado, a fim de protegê-lo dos olhares das pessoas comuns. Não seria sensato que o estado crítico do faraó fosse conhecido pelo povo da cidade. Tinham havido ocasiões anteriores em que a morte de um rei lançara a cidade e todo o Estado num insano desespero, causando especulações devastadoras no comércio de milhete, além de tumultos, saques e o colapso de todos os costumes e convenções da sociedade.

Assim que Nefer foi acomodado em seus aposentos reais no palácio, Taita pôde cuidar dele com segurança e isolamento. Sua primeira preocupação foi examinar novamente as terríveis lacerações na parte frontal das pernas e no abdome e verificar se teriam havido quaisquer modificações mórbidas.

Seu maior temor era que as entranhas tivessem sido perfuradas e que seu conteúdo vazasse para a cavidade do estômago. Se isso acontecesse, de nada adiantaria a sua perícia. Taita abriu as bandagens, examinou os cortes com delicadeza, cheirou a secreção à procura do odor de fezes e ficou imensamente aliviado quando não descobriu nenhum sinal de contaminação. Com o auxílio de uma seringa, desinfetou os ferimentos mais profundos com uma mistura de vinagre e especiarias do Oriente. Depois costurou-os firmemente com fios de tripa de gato e tornou a envolvê-los em bandagens, usando toda a sua habilidade, tocando-os com o Talismã de Lostris, confiando à deusa o seu neto a cada volta que dava com a faixa de linho.

Nos dias que se seguiram Taita foi reduzindo gradualmente a dosagem da flor do sono, e foi recompensado quando Nefer recobrou a consciência e sorriu para ele.

— Taita, eu sabia que você estava comigo. — Depois, olhou em volta, ainda zonzo com a droga. — Onde está Mintaka?

Quando Taita explicou o motivo da ausência dela, o desapontamento de Nefer foi quase palpável, e ele estava fraco demais para disfarçar. Taita tentou consolá-lo, dizendo que a separação era apenas temporária e que em breve ele estaria bem o bastante para fazer a viagem para o norte até Avaris.

— Nós encontraremos uma boa desculpa para que Naja permita que você faça a jornada — Taita assegurou-lhe.

Durante algum tempo a recuperação de Nefer foi encorajadora. No dia seguinte ele estava se sentando, e comeu uma boa refeição de pão dhurra e sopa de grão-de-bico. No outro dia deu alguns passos apoiado nas muletas que Taita lhe fizera, e pediu carne na refeição. A fim de não lhe aquecer o sangue, Taita proibiu a carne vermelha, mas permitiu que comesse peixes e aves.

No outro dia Merykara foi visitar o irmão, e passou a maior parte do dia com ele. Seu riso alegre e conversa infantil animaram-no. Nefer perguntou por Heseret, e quis saber por que ela também não fora vê-lo. Merykara respondeu com evasivas e convidou-o a jogar outra partida de bao. Desta vez ele abriu deliberadamente o seu castelo central para que ela ganhasse.

No dia seguinte a terrível notícia sobre a tragédia em Balasfura chegou a Tebas. Os primeiros relatos eram de que Apepi e toda a sua família, incluindo Mintaka, tinham perecido nas chamas. Nefer foi novamente devastado, dessa vez pela dor. Taita precisou preparar uma outra poção com a flor do sono, mas no espaço de algumas horas os ferimentos na sua perna inflamaram. Nos dias que se seguiram o estado dele piorou, e em pouco tempo estava às portas da morte. Taita permanecia ao lado dele e o via debater-se e tresvariar em delírios, enquanto as lívidas linhas escarlates da morbidez percorriam como rios de fogo as suas pernas e o seu ventre.

Depois veio a notícia do Baixo Reino de que Mintaka sobrevivera à tragédia que engolfara o restante da sua família. Quando Taita sussurrou essa maravilhosa novidade em seu ouvido, Nefer pareceu entender e reagir. No outro dia estava fraco mas lúcido, e tentou convencer Taita de que estava forte o bastante para empreender a longa jornada, a fim de estar ao lado de Mintaka naquele momento de aflição. Taita dissuadiu-o com delicadeza, mas prometeu que assim que Nefer estivesse suficientemente saudável ele usaria de toda a sua influência para convencer o Senhor Naja a permitir que ele fosse. Com esse objetivo por que lutar, Nefer mais uma vez esforçou-se para melhorar. Taita podia vê-lo combater as febres e os humores malignos em seu sangue com a pura força de vontade.

O Senhor Naja retornou do norte, e horas depois Heseret foi visitar Nefer pela primeira vez desde que ele chegara ao palácio. Levou-lhe presentes e guloseimas, um pote de mel silvestre no favo e um magnífico tabuleiro de bao feito de ágata colorida, com as pedras esculpidas em marfim e coral negro. Ela mostrou-se meiga, infinitamente gentil e preocupada com o seu sofrimento, pedindo desculpas por tê-lo negligenciado.

— Meu marido, o regente do Alto Egito, o ilustre Senhor Naja, esteve longe todas estas semanas — ela explicou —, e lamentei tanto a ausência dele que não seria uma companhia muito agradável para alguém tão enfermo quanto você esteve. Tive medo de que minha infelicidade pudesse afetá-lo, meu pobre e querido Nefer.

Ela ficou por uma hora, cantou para ele e relatou alguns acontecimentos da corte, muitos deles escandalosos. Finalmente pediu licença para se retirar.

— Meu marido, o regente do Alto Reino, não gosta que eu me afaste dele por muito tempo. Nós estamos muito apaixonados, Nefer. Ele é um homem maravilhoso, tão bondoso e dedicado a você e ao Egito. Você precisa aprender a confiar nele completamente, como eu confio. — Ela levantou-se e depois, como se só então se tivesse lembrado, acrescentou distraidamente: — Você deve ter ficado aliviado ao saber que o Faraó Trok Uruk e o meu querido marido, o regente do Alto Egito, concordaram, por razões de Estado, em cancelar o seu noivado com aquela pequena selvagem hicsa, Mintaka. Lamentei tanto por você quando soube que um casamento tão indigno lhe havia sido imposto. Meu marido, o regente do Alto Egito, foi contra isso desde o início, tanto quanto eu.

Depois que ela saiu Nefer afundou debilmente nos travesseiros e fechou os olhos. Quando Taita chegou, pouco depois, ficou intrigado com aquela súbita recaída. Removeu as bandagens e viu que a infecção nos ferimentos havia se deflagrado novamente, e que o pus malcheiroso secretado pelo ferimento mais profundo estava grosso e amarelado. Permaneceu com ele a noite inteira, aplicando toda sua perícia e os seus poderes para afastar as sombras do mal que circundavam o jovem faraó.

Ao amanhecer Nefer estava em coma. Taita ficou sinceramente alarmado com o seu estado. Não poderia ser explicado apenas pelo sofrimento do rapaz. Subitamente, uma comoção na porta do quarto assustou-o e enfureceu-o. Estava prestes a pedir silêncio quando ouviu a voz imperiosa do Senhor Naja ordenando aos guardas para que se afastassem. O regente irrompeu no quarto e, sem falar com Taita, parou ao lado do corpo inerte de Nefer e examinou-lhe o rosto pálido, abatido. Após um longo momento, endireitou-se e fez um sinal para que Taita o seguisse até o terraço.

Quando Taita saiu atrás dele, Naja estava com os olhos fixos no rio. Na margem mais distante um esquadrão de bigas praticava manobras e evoluções. Estranhamente, tinham havido muitas preparações para a guerra desde o tratado de Hathor.

— Deseja falar comigo, meu senhor? — Taita perguntou. Naja virou-se para ele. A expressão estava sombria.

— Você me desapontou, velho — ele disse, e Taita baixou a cabeça, sem nada dizer. — Eu esperava que agora o caminho para o meu progresso, o meu destino que foi previsto pelos deuses, já estivesse livre de impedimentos. — Encarou Taita com a expressão dura. — No entanto parece que, em vez de permitir que isso aconteça, você fez tudo em seu poder para evitar que acontecesse.

— Tudo tem sido um fingimento. Eu fingi estar cuidando do meu paciente, quando na verdade estava fomentando os seus interesses. Como pode ver por si mesmo, o faraó encontra-se à beira do grande abismo. — Taita fez um gesto na direção do quarto onde Nefer jazia. — Certamente pode pressentir as sombras fechando-se cada vez mais em volta dele. Meu senhor, estamos quase atingindo nosso objetivo. No espaço de dias o caminho à sua frente estará desimpedido.

Naja não se convenceu.

— Estou chegando no limite da minha paciência — avisou, e saiu do terraço com passos duros. Cruzou o quarto sem nem mesmo olhar para o corpo imóvel na cama.

Durante aquele dia o estado de Nefer flutuou entre o coma profundo e acessos de transpiração inquieta e delírios. Quando ficou claro que a perna estava lhe provocando uma intensa agonia, Taita removeu as faixas de linho e viu que a coxa inteira estava grotescamente inchada. Os pontos que fechavam o ferimento estavam distendidos e penetravam fundo na carne quente, púrpura. Taita soube que não se atreveria a remover o rapaz enquanto sua vida pendia por um fio tão frágil. Os planos que fizera com tanto cuidado no decorrer das últimas semanas não poderiam ter prosseguimento, a não ser que tomasse medidas drásticas. Qualquer interferência com o ferimento naquele estado era o mesmo que arriscar um envenenamento fatal do sangue, mas não havia outro caminho aberto para ele. Arrumou seus instrumentos e banhou a perna inteira numa solução de vinagre. Depois forçou uma outra forte dose da flor do sono entre os lábios de Nefer, e enquanto esperava que a droga fizesse efeito, rezou a Horus e à deusa Lostris pedindo proteção. Então pegou o escalpelo e cortou um dos pontos que uniam os dois lados do ferimento.

Foi tomado de surpresa pela maneira como a carne abriu-se e pelo fluxo nauseante de sangue e podridão amarela que jorrou. Usou uma colher de ouro para curetá-la, e quando sentiu o metal atingir uma obstrução endurecida nas profundezas do ferimento, perscrutou-a com uma pinça de marfim e agarrou o objeto. Finalmente conseguiu arrancá-lo. Levou-o para a luz na janela e viu que era uma lasca da garra do leão, quase da metade do tamanho do seu dedo mínimo, que devia ter-se quebrado quando a fera atacava Nefer.

Colocou um tubo de ouro na ferida para permitir que drenasse, depois tornou a enfaixá-la. Quando a noite chegou, a recuperação de Nefer era miraculosa. De manhã ele estava fraco, mas a febre em seu sangue havia cessado. Taita deu-lhe um tônico fortificante e colocou o Talismã de Lostris em sua perna. Enquanto velava por ele por volta do meio-dia, decidindo o que fazer, ouviu um leve roçar na porta do terraço. Taita abriu uma fresta, e Merykara esgueirou-se para dentro do quarto. Estava abalada, e estivera chorando. Atirou-se na direção de Taita e abraçou-lhe as pernas.

— Eles me proibiram de vir aqui — sussurrou, e não precisou explicar quem eram ”eles”. — Mas eu conheço os guardas do terraço, e me deixaram passar.

— Calma, minha criança. — Taita afagou-lhe os cabelos. — Não se aflija tanto.

— Taita, eles vão matá-lo.

— Quem são eles?

— Os dois. — Merykara começou a soluçar novamente, e sua explicação quase não fazia sentido. — Eles pensaram que eu estivesse dormindo, ou que não iria entender o que estavam conversando. Não disseram o nome dele, mas sei que estavam falando sobre Nefer.

— E o que disseram?

— Eles irão mandar chamá-lo. Quando você deixar Nefer sozinho, disseram que não levará muito tempo. — Ela interrompeu-se e engoliu em seco. — Isso é tão terrível, Taita! A nossa própria irmã, e aquele homem horrível... aquele monstro.

— Quando? — Taita sacudiu-a de leve, para que se refizesse.

— Em breve. Muito em breve. — A voz dela ficou mais firme.

— Eles disseram como, princesa?

— Noom, o cirurgião da Babilônia. Naja disse que ele irá enfiar uma fina agulha pela narina de Nefer, até o seu cérebro. Não haverá sangramento, nem qualquer outro sinal.

Taita conhecia Noom muito bem: tinham debatido um contra o outro na biblioteca de Tebas, discutindo o tratamento correto para membros fraturados. Noom havia se retirado, vergastado pela eloqüência e conhecimento de Taita. Tinha uma inveja profunda da reputação e dos poderes de Taita. Era um rival e um inimigo feroz.

— Os deuses irão recompensá-la, Merykara, pela sua coragem em vir nos avisar. Mas agora precisa ir, antes que descubram que esteve aqui. Se suspeitarem de você, irão fazer com você o mesmo que planejam para Nefer.

Depois que ela saiu Taita sentou-se por um momento para organizar os pensamentos, rever os seus planos. Não poderia agir sozinho e teria de confiar em outros, mas escolhera os melhores e os mais confiáveis. Eles estavam prontos para a ação, e esperando pela sua ordem. Não poderia mais adiar.

A uma ordem sua os escravos trouxeram chaleiras de água quente, e Taita lavou Nefer cuidadosamente, dos pés à cabeça, e trocou os curativos dos ferimentos, colocando uma cobertura de lã de carneiro na abertura da ferida em sua perna, que ainda estava drenando.

Quando terminou, avisou os guardas para que não deixassem ninguém passar, e barrou todas as entradas para o quarto. Rezou durante algum tempo, e depois atirou incenso no braseiro, e na fumaça azul e aromática fez uma encantação antiga e potente para Anúbis, o deus da morte e dos cemitérios.

Só então preparou o elixir de Anúbis numa lamparina nova e intata. Aqueceu a mistura no braseiro até que ficasse na temperatura do sangue, e levou-a para a cama onde Nefer dormia tranqüilamente. Com delicadeza, virou a cabeça dele para o lado e inseriu o bico da lamparina em seu ouvido. Despejou o elixir dentro do seu tímpano, uma viscosa gota de cada vez. Limpou o excesso meticulosamente, cuidando para que não tocasse a sua própria pele. Depois tapou o ouvido de Nefer com uma pequena bola de lã e empurrou-a para o fundo da passagem, até que não pudesse ser detectada por ninguém, exceto num exame mais detalhado.

Esvaziou nos carvões do braseiro o que sobrou do elixir, e este desapareceu numa nuvem de vapor acre. Depois encheu a lamparina com óleos e acendeu o pavio. Deixou-a com as outras lamparinas num canto do quarto.

Voltou para a cama e abaixou-se ao lado dela. Observou o peito de Nefer subir e descer com a respiração. Cada uma delas era mais lenta, e a intervalos cada vez mais longos. Finalmente, cessaram de todo. Taita posicionou os dedos no pescoço de Nefer, atrás da orelha, e sentiu o lento pulsar da força da vida dentro dele. Aos poucos isso também foi se esvaecendo, até transformar-se apenas num leve flutuar, como as asas de um inseto minúsculo que exigiria toda a sua perícia e experiência para ser detectado. Com os dedos da mão esquerda ele contou as batidas da força da vida em seu próprio pescoço, e comparou as duas.

Finalmente suas próprias batidas eram de trezentos, contra um único e quase indetectável pulsar no pescoço de Nefer. Delicadamente ele fechou os olhos do rapaz e colocou um amuleto nas pálpebras, na preparação tradicional do cadáver. Em seguida amarrou uma faixa de linho sobre eles, e outra faixa sob o queixo para impedir que a boca abrisse. Trabalhou rapidamente, pois havia perigo em cada minuto que Nefer permanecesse sob a influência do elixir. Por fim foi até a porta e removeu a barra que a trancava.

— Mande chamar o regente do Alto Reino. Ele deve vir imediatamente para ouvir a terrível notícia sobre o faraó.

O Senhor Naja chegou com surpreendente presteza. A Princesa Heseret estava com ele, e eram seguidos por uma multidão de amigos íntimos, que incluía o Senhor Asmor, o médico assírio Noom, e muitos membros do conselho.

Naja ordenou aos outros que esperassem no corredor que dava para os aposentos reais, enquanto ele e Heseret entravam no quarto. Taita levantou-se do seu lugar ao lado da cama para recebê-los.

Heseret chorava ostensivamente e cobria os olhos com um xale de linho bordado. Naja olhou para o corpo enfaixado que jazia rígido na cama, depois para Taita, com uma pergunta no olhar. Em resposta, Taita assentiu levemente. Naja mascarou o brilho de triunfo em seus olhos, e ajoelhou-se ao lado da cama. Pousou a mão no peito de Nefer e sentiu o calor desaparecendo lentamente, sendo substituído por uma frieza crescente. Naja rezou a Horus em voz alta, pois esse era o deus patrono dos faraós mortos. Quando levantou-se, segurou o braço de Taita com firmeza.

— Console-se, Mago, você fez tudo o que lhe era exigido. Não lhe faltarão recompensas. — Ele bateu palmas, e quando o guarda surgiu correndo através da porta, ordenou: — Convoque os membros do conselho para reunirem-se.

Eles encheram o quarto numa procissão solene e formaram um círculo em volta da cama.

— Dêem passagem para o bom doutor Noom — Naja ordenou. — Ele irá confirmar o pronunciamento do Mago sobre a morte do faraó.

As fileiras abriram-se para o assírio passar. Os longos cachos dos cabelos caíam até os ombros, e a barba também havia sido encaracolada à maneira da Babilônia. Sua túnica arrastava-se no chão e era adornada com bordados que simbolizavam estranhos deuses e desenhos mágicos. Ele ajoelhou-se ao lado do leito de morte e começou o exame no cadáver. Cheirou os lábios de Nefer com o nariz comprido e adunco, de cujas narinas emergiam tufos de cabelo negro. Depois pousou o ouvido no peito de Nefer e escutou, durante cem batidas do ansioso coração de Taita. Ele contava muito com a inaptidão do médico assírio.

Depois Noom retirou um comprido alfinete de prata da barra da túnica e abriu a mão inerte de Nefer. Espetou profundamente num ponto embaixo da unha e ficou observando, à espera de alguma reação muscular ou uma gota de sangue.

Finalmente ele levantou-se devagar, e Taita achou que havia evidências de um profundo desapontamento nos lábios curvados e na expressão lúgubre, quando balançou a cabeça. Taita refletiu que certamente lhe tinham sido oferecidas recompensas indizíveis se ele usasse aquele alfinete para um outro efeito.

— O faraó está morto — ele anunciou, e todos em volta da cama fizeram o sinal contra mau-olhado e contra a ira dos deuses.

O Senhor Naja atirou a cabeça para trás e emitiu o primeiro grito de lamento, e Heseret, parada atrás dele, acompanhou-o com sua adorável e sonora voz.

Taita ocultou a impaciência enquanto esperava que todos os pranteadores passassem pela cama e, um a um, saíssem do quarto. Somente quando Naja e Heseret, Noom e os vizires das nomarquias do Alto Egito permaneceram, Taita adiantou-se.

— Senhor Naja, eu imploro a sua indulgência. O senhor bem sabe que fui o tutor e servo do Faraó Nefer Seti desde que ele nasceu. Devo a ele respeito e obediência, mesmo agora na morte. Suplico-lhe que me conceda um privilégio. O senhor me permitiria ser o encarregado de transferir o cadáver para o Salão dos Lamentos, e ali fazer a incisão para remover o coração e as vísceras? Eu consideraria isso como a maior honra que o senhor poderia me conceder.

O Senhor Naja pensou por um instante, depois assentiu.

— Você fez por merecer essa honra. Eu o encarrego do transporte do corpo sagrado do faraó até o templo funerário e do início do processo de embalsamamento, fazendo a primeira incisão.

O velho guerreiro Hilto atendeu rapidamente ao chamado de Taita. Estivera esperando na sala dos guardas junto aos portões do palácio. Consigo, ele levou o xamã núbio Bay, e quatro dos seus homens de maior confiança. Um desses era Meren, o amigo e companheiro de infância de Nefer Agora ele era um excelente alferes da guarda, alto em estatura e íntegro de espírito. Taita lhe pedira particularmente para participar daquela tarefa.

Entre si, eles carregavam a comprida cesta trançada que os embalsamadores usavam para transportar os cadáveres para o templo funerário. A cesta vazia parecia mais pesada do que se podia esperar.

Taita os fez entrar na câmara mortuária e sussurrou para Hilto:

— Rápido, agora! Cada segundo é precioso.

Ele já enrolara Nefer num longo lençol branco, com a dobra solta cobrindo-lhe o rosto. Os carregadores da mortalha deixaram a cesta ao lado da cama e transferiram reverentemente o corpo de Nefer para dentro dela. Taita colocou almofadas em volta do corpo para protegê-lo durante o transporte, depois fechou a tampa e assentiu.

— Para o templo — disse. — Tudo está pronto.

Taita confiou sua sacola a Meren, e eles moveram-se rapidamente através das passagens e pátios do palácio. Os sons de lamentos e prantos os seguiram. Os guardas baixavam a ponta das suas armas e ajoelhavam-se quando o faraó morto passava. As mulheres cobriam o rosto e gemiam. Todas as lamparinas tinham sido apagadas, e os fogos nas cozinhas foram abafados de forma que nenhuma fumaça saía pelas chaminés.

Na entrada do pátio um esquadrão das bigas de Hilto os aguardava. Os carregadores colocaram a cesta na plataforma da primeira biga e prenderam-na com tiras de couro. Meren deixou a sacola de couro com os instrumentos de Taita no frontal da biga, e Taita montou e pegou as rédeas. As trombetas do regimento soaram um toque fúnebre, e a coluna moveu-se devagar através dos portões.

A notícia da morte do faraó havia se espalhado pela cidade como a praga. Os cidadãos amontoavam-se em volta dos portões, lamentando e ululando conforme a coluna passava. Multidões alinhavam-se ao longo da rota pelo rio. Mulheres, gritando lamentos, corriam à frente e atiravam as sagradas flores de lótus sobre a cesta.

Taita apressou os cavalos a um trote, depois a meio galope. Estava desesperado para levar o cesto ao santuário do templo funerário. O templo do pai de Nefer ainda não fora demolido, embora o Faraó Tamose tivesse sido levado havia meses para sua tumba nas colinas ao leste. Nenhum templo tinha sido construído para Nefer, ainda: ele era tão jovem que sua expectativa de vida estendia-se muito à sua frente. Sua morte prematura não lhes deixara alternativa senão usar a construção preparada para seu pai.

O pórtico e os altos muros de granito rosado do templo estavam erguidos numa baixa prominência de frente para o verde rio. Os sacerdotes, reunidos às pressas, esperavam para receber a coluna. As cabeças estavam recém-raspadas e besuntadas de óleo. Os tambores e sistros batiam num ritmo lento quando Taita subiu pela trilha ampla e parou a biga aos pés da escadaria que levava ao Salão dos Lamentos.

Hilto e seus guerreiros pegaram o cesto e subiram as escadas equilibrando-o nos ombros. Os sacerdotes prostravam-se atrás deles, cantando lamentosamente. Diante das portas de madeira abertas do Salão dos Lamentos os carregadores pararam, e Taita virou-se para os sacerdotes.

— Pela graça e autoridade do regente do Egito, eu, Taita, fui encarregado da retirada das vísceras do faraó. — Fixou no sumo sacerdote um olhar hipnotizante. — Todos os outros deverão esperar no lado de fora, enquanto realizo esta tarefa sagrada.

Ouviu-se um murmúrio de consternação entre os sacerdotes de Anúbis. Aquilo era uma impropriedade que ia contra a tradição e sua própria autoridade. Mas Taita manteve o olhar fixo e severo no sacerdote e depois, lentamente, ergueu a mão direita exibindo o Talismã de Lostris. O sacerdote conhecia, por temerosa reputação, o poder daquela relíquia.

— Como o regente do Egito decretou — ele capitulou —, iremos rezar no lado de fora, enquanto o Mago realiza sua tarefa.

Taita guiou Hilto e os carregadores através da entrada e solenemente eles deixaram o cesto no chão, ao lado da lápide de pedra negra no centro do Salão dos Lamentos. Taita olhou para Hilto, e o velho comandante marchou para as portas com grande dignidade, fechando-as nas caras dos sacerdotes. Depois correu de volta para Taita. Abriram o cesto, tiraram o corpo enfaixado de Nefer e depositaram-no na lápide negra.

Taita tirou o tecido que cobria o rosto de Nefer. Ele estava pálido e tão belo quanto uma escultura de marfim do jovem deus Horus. Com toda delicadeza ele virou a cabeça de Nefer para o lado, e fez um sinal para Bay, que levou a sacola de couro com os instrumentos para perto dele e abriu-a. Taita pegou a pinça de marfim, inseriu-a no ouvido de Nefer e retirou o tampão de lã. Encheu a própria boca com um líquido vermelho escuro de um frasco de vidro, e através de um tubo de ouro, lavou os resíduos do elixir de Anúbis do tímpano de Nefer. Quando fez um exame profundo das passagens do ouvido, ficou aliviado ao ver que não havia nenhuma inflamação. Em seguida inseriu um ungüento calmante nos orifícios do ouvido e tornou a tampá-los. Bay tinha o antídoto do elixir já preparado em outrj) frasco. Quando ele abriu a tampa, este liberou um forte odor de cânfora e enxofre. Hilto ajudou-o a levantar Nefer numa posição sentada, e Taita ministrou-lhe todo o conteúdo do frasco.

Meren e os outros observavam tudo com total incompreensão. Subitamente Nefer tossiu uma tosse áspera e, com um terror supersticioso, eles pularam para longe da lápide e fizeram o sinal contra o mal. Taita massageou as costas nuas de Nefer e ele tossiu outra vez, vomitando um pouco de bile amarela. Enquanto Taita continuava com seus esforços para reanimá-lo, Hilto ordenou aos homens que ajoelhassem e fizessem um juramento mortal de guardar segredo sobre tudo o que estavam testemunhando. Pálidos e trêmulos eles juraram por suas vidas.

Taita pousou o ouvido nas costas de Nefer, escutou por um momento e depois assentiu. Massageou-o outra vez, e escutou mais um pouco. Fez um sinal para Bay, que pegou um ramo de ervas secas na sacola e queimou a extremidade numa lamparina do templo. Taita estendeu o ramo sob o nariz de Nefer. O rapaz aspirou a fumaça e tentou afastar o rosto. Finalmente satisfeito, Taita tornou a enfaixá-lo no lençol de linho e fez outro sinal para Bay e Hilto.

Os três voltaram para o cesto. Os outros sufocaram um arquejo de surpresa quando Taita ergueu o fundo falso e revelou um outro cadáver deitado no compartimento abaixo. Aquele corpo também estava envolvido num lençol branco.

— Venham! — Hilto ordenou. — Tirem-no daqui!

Sob o olhar atento de Taita e as instruções firmes de Hilto, eles trocaram os dois corpos. Deitaram Nefer no compartimento oculto da cesta, mas não recolocaram ainda o fundo falso. Bay abaixou-se ao lado do cesto para examinar Nefer e checar o seu estado. Os outros depositaram o cadáver desconhecido na lápide de pedra.

Taita retirou o lençol e revelou o corpo de um jovem com mais ou menos a mesma idade e constituição física de Nefer. Tinha os mesmos cabelos escuros e espessos. Havia sido responsabilidade de Hilto procurar aquele cadáver. No clima atual daquele país, isso não fora difícil. A praga ainda florescia nas regiões mais pobres da nomarquia. Além disso, havia os restolhos das ruas e becos da cidade, as vítimas de assassinato, arruaças ou salteadores.

Hilto havia considerado todas essas fontes. No entanto, no final encontrara, em circunstâncias tão perfeitas que não poderia ser apenas coincidência, o substituto ideal para o jovem faraó. Os intendentes da cidade tinham apanhado aquele rapaz em flagrante, no momento em que ia roubar a bolsa de um dos mais influentes mercadores de milhete de Tebas, e os magistrados não hesitaram em condená-lo à morte por enforcamento. O rapaz condenado era tão parecido com Nefer que poderia passar por seu irmão. Além do mais, era forte e saudável, diferente das vítimas da praga ou inanição. Hilto falara com o comandante da guarda da cidade que fora o encarregado de cumprir a execução, e durante aquela conversa amigável três pesados anéis de ouro trocaram de mãos. Ficou ajustado que o enforcamento seria adiado até que Hilto lhe desse a ordem, e que seria feito com um mínimo de estragos aparentes à vítima que a habilidade do executor pudesse abarcar. O prisioneiro recebera a justiça naquela mesma manhã, e o corpo ainda não esfriara.

Os canopos estavam arrumados no pequeno altar na extremidade do salão. Taita ordenou a Meren que fosse pegá-los e abrisse as tampas, deixando-os prontos para serem enchidos. Enquanto ele fazia isso, Taita virou o cadáver e fez uma profunda incisão em seu lado esquerdo. Havia pouco tempo para sutilezas cirúrgicas. Enfiou a mão na abertura, extraiu as vísceras e depois, usando as duas mãos, inseriu o escalpelo mais profundamente no interior do cadáver. Primeiro cortou o diafragma para obter acesso à cavidade do peito, depois foi mais fundo, passando pelos pulmões, fígado e pâncreas, até cortar a traquéia acima da sua junção com os pulmões. Finalmente virou o cadáver de barriga para baixo, ordenou a Meren que separasse as nádegas e, com golpes firmes, liberou os músculos do esfíncter pelo ânus. Agora todo o conteúdo do interior do peito e do abdome estava solto.

Taita depositou-o na lápide de pedra numa massa única. Meren empalideceu, cambaleou e tapou a boca com a mão.

— Não no chão, na bacia — Taita ordenou bruscamente.

Meren havia lutado contra os regimentos de Apepi no norte. Havia matado um homem e não fora afetado pela carnificina dos campos de batalha, mas agora correu para a bacia de pedra no canto e vomitou ruidosamente.

Ensangüentado até os cotovelos, Taita começou a separar em pilhas o fígado, os pulmões e as entranhas. Depois que isso foi feito, levou as entranhas e o estômago para a bacia, onde já repousava a contribuição de Meren. Extraiu o conteúdo do estômago e das entranhas desmembradas e guardou os órgãos em seus vasos. Encheu cada vaso com os sais de natrão, e selou as tampas. Depois lavou as mãos e braços nas bacias de bronze cheias de água, preparadas exatamente para tal propósito.

Lançou um olhar de indagação para Bay, e o núbio assentiu com sua cabeça raspada, assegurando a Taita o bom estado de Nefer. Trabalhando com uma pressa controlada, Taita suturou a incisão abdominal. Depois enfaixou a cabeça até que os traços do rosto ficassem ocultos. Depois disso, ele e Hilto carregaram o cadáver para a grande banheira com sal de natrão e mergulharam-no na mistura alcalina, até que somente a cabeça enfaixada ficasse à tona. O cadáver permaneceria no banho, com a cabeça coberta, pelos próximos sessenta dias. No final desse tempo, os sacerdotes iriam remover a bandagem e descobririam a substituição. Até lá, no entanto, Nefer e Taita já estariam bem longe.

Demoraram mais algum tempo para lavar a lápide com baldes de água, e guardar os instrumentos de Taita, antes de estarem prontos para partir. Taita ajoelhou-se ao lado do cesto onde Nefer estava e pousou a mão em seu peito para sentir o calor da pele, e checar a sua respiração. Era lenta e estável. Taita ergueu uma das pálpebras e viu a pupila reagir à luz. Satisfeito, levantou-se e fez um gesto para que Hilto e Bay cobrissem o compartimento secreto. Quando isso foi feito e começaram a recolocar a tampa da cesta, Taita os impediu.

— Deixem aberto — ordenou. — Deixem os sacerdotes verem que está vazio.

Os carregadores pegaram o cesto pelas alças, e Taita guiou-os para a porta. Quando se aproximaram, Hilto as abriu de todo, e os sacerdotes amontoaram-se para a frente. Lançaram apenas um olhar distraído para o cesto vazio quando este foi carregado para fora, e depois acorreram para dentro do Salão dos Lamentos com uma pressa quase indecente, para engajarem-se nas tarefas que lhes tinham sido usurpadas.

Ignorados pela multidão que se aglomerava fora do templo, os homens de Taita colocaram o cesto na primeira biga e seguiram em coluna de volta para a cidade.

Quando passaram pelos portões principais, encontraram as ruas estreitas quase desertas. O populacho migrara ou para o templo funerário a fim de rezar para o jovem faraó, ou correra para o palácio para aguardar o anúncio do seu sucessor, embora houvesse poucas dúvidas a respeito de quem seria o próximo faraó do Alto Reino.

Hilto guiou a biga até o alojamento da guarda próximo ao portão oeste, e a cesta foi carregada através da entrada dos fundos dos seus aposentos privados. Ali, tudo estava pronto para receber Nefer. Eles o retiraram do compartimento oculto e Taita, com a ajuda de Bay, deu início à tarefa de reavivá-lo completamente. No espaço de algumas horas ele estava bem o bastante para comer um pequeno pedaço de pão de milhete e beber uma tigela de leite de égua e mel.

Finalmente Taita julgou que era seguro deixá-lo por algum tempo aos cuidados de Bay, e conduziu sua biga através das ruas estreitas e vazias. À sua frente, ouviu o súbito clamor de aplausos e gritos enlouquecidos. Quando chegou aos arredores do palácio viu-se cercado pela densa multidão de cidadãos que comemoravam a ascensão do novo faraó.

— Vida eterna a Sua Sagrada Majestade o Faraó Naja Kiafan! — eles gritavam com leal fervor, e passavam as jarras de vinho de mão em mão.

Tão densas eram as multidões que Taita foi forçado a deixar a biga com Meren e fazer o restante do trajeto a pé. Nos portões do palácio os guardas reconheceram-no, e usaram suas lanças para abrir-lhe passagem. Assim que chegou ao palácio correu para o grande salão, e encontrou mais uma aglomeração de obsequiosa humanidade. Todos os oficiais militares, cortesãos e dignitários do Estado estavam esperando para jurar lealdade e fidelidade ao novo faraó, mas a reputação de Taita e seu olhar intimidador fizeram com que a multidão o deixasse passar entre as fileiras.

O Faraó Naja Kiafan e sua rainha estavam no gabinete particular atrás das portas na extremidade do salão, mas Taita teve de esperar apenas um pouco antes de ter acesso à presença real.

Para sua perplexidade, viu que Naja já estava usando a coroa dupla, e segurando os símbolos da realeza contra o peito. Ao lado dele a Rainha Heseret parecia ter florescido como uma rosa do deserto sob as carícias da chuva. Estava mais bela do que nunca, pálida e serena sob a maquiagem, os olhos imensos pelo kohl habilmente aplicado.

Quando Taita entrou, Naja dispensou aqueles que o cercavam e logo os três estavam a sós. Isso, em si, era um sinal de grande favorecimento. Então Naja aproximou-se para abraçá-lo.

—- Mago, eu jamais deveria ter duvidado de você — ele disse, a voz ainda mais sonora e imperiosa do que antes. — Você conquistou minha gratidão. — Tirou da mão direita um magnífico anel de ouro e colocou-o no dedo indicador de Taita. — Esta é uma pequena amostra da minha estima.

Taita pensou que ele houvesse colocado um poderoso talismã em suas mãos: apenas uma mecha dos cabelos de Naja, ou um pedaço das suas unhas teriam sido mais potentes.

Heseret adiantou-se e beijou-o.

— Querido Taita, você sempre foi fiel à minha família. Irá receber ouro, terras e influência além de qualquer coisa que já ambicionou.

Depois de todos aqueles anos, ela o conhecia tão pouco.

— Sua generosidade é excedida apenas pela sua beleza — ele disse, e ela iluminou-se. Depois ele virou-se para Naja. — Eu fiz o que os deuses me ordenaram, Sua Graça. Mas custou-me muito. Não foi tarefa fácil ir contra meu senso de obrigação e os comandos do meu próprio coração. O senhor sabe que eu amava Nefer. Agora devo ao senhor esta mesma obediência e amor. Porém, por um breve período de tempo, preciso prantear Nefer e fazer as pazes com o seu espírito.

— Seria de fato muito estranho se você não lamentasse pelo faraó morto — Naja concordou. — O que deseja de mim, Mago? Basta dizer as palavras.

— Sua Graça, peço-lhe permissão para sair para o deserto e ficar sozinho por algum tempo.

— Quanto tempo? — Naja perguntou, e Taita pôde ver que ele estava alarmado com a idéia de perder a sua chave para a vida eterna, pois realmente acreditava que Taita a tinha em suas mãos.

— Não muito, majestade — Taita assegurou-lhe.

Naja pensou por um momento. Nunca fora um homem de decisões apressadas. Finalmente suspirou e foi para a mesa sobre a qual havia pena e papiro. Rapidamente escreveu um salvo-conduto e selou-o com sua insígnia real. Era evidente que o selo fora entalhado havia muito, em antecipação à sua sucessão. Enquanto Naja esperava que a tinta secasse, disse:

— Você pode ausentar-se até o início da próxima inundação do Nilo, mas depois precisa retornar para mim. Este salvo-conduto lhe permitirá viajar ao largo e valer-se de qualquer alimento e equipamentos que possa necessitar dos meus celeiros reais, em qualquer parte dos meus domínios.

Taita prostrou-se em gratidão, mas Naja o fez levantar-se num outro extraordinário ato de condescendência.

— Vá, Mago! Mas volte para nós no dia marcado, para receber as recompensas que tanto merece.

Segurando o papiro, Taita afastou-se de costas para a porta, fazendo os sinais de bênção.

Saíram de Tebas nas primeiras horas da manhã seguinte, quando a maior parte da cidade ainda dormia e até os guardas no portão oeste bocejavam e tinham os olhos pesados.

Nefer ia deitado na traseira da carroça puxada por quatro cavalos. Aqueles animais tinham sido cuidadosamente escolhidos por Hilto. Eram fortes e saudáveis, mas não excepcionais de maneira que pudesse suscitar inveja ou comentários. A carroça estava carregada com suprimentos e equipamentos essenciais de que pudessem precisar assim que deixassem o vale do rio. Hilto estava vestido como um próspero fazendeiro, Meren como seu filho e Bay como escravo deles.

Nefer foi acomodado num colchão de palha na carroça, sob uma cobertura de couro curtido. Agora estava completamente consciente e capaz de compreender tudo o que Taita lhe dizia. Apesar do salvo-conduto real, o sargento da guarda foi meticuloso. Não reconheceu Taita sob seu capuz, por isso subiu na traseira da carroça para inspecionar o conteúdo. Quando puxou a cobertura de couro e Nefer olhou-o com seus traços pálidos e abatidos, o rosto manchado pelas marcas inequívocas da praga que Taita havia aplicado, o sargento da guarda blasfemou horrorizado e pulou para fora da carroça, fazendo os sinais contra o mal com tanta veemência que derrubou sua lamparina, que estilhaçou aos seus pés.

— Saiam daqui! — ele gritou freneticamente para Hilto, que segurava as rédeas. — Leve esse maldito doente para fora da cidade!

Por outras duas vezes, nos dias que levaram para cruzar a planície litorânea do rio e alcançar as colinas que marcavam as fronteiras entre as terras cultivadas e o deserto, foram parados por patrulhas militares. A cada vez o papiro real e a vítima da praga foram suficientes para enviálos novamente a caminho, com apenas um atraso muito breve.

Pelo comportamento das patrulhas era evidente que, em Tebas, a substituição dos cadáveres ainda não fora descoberta, e que nenhum alarme havia sido dado. Assim mesmo Taita ficou aliviado quando subiram as colinas para o deserto e seguiram a antiga rota de comércio ao oeste, na direção do mar Vermelho.

Agora Nefer já conseguia sair da cama na carroça e, por curtos períodos, caminhar um pouco ao longo dela. No início estava claro que, a despeito das suas negativas, a perna ainda doía muito, mas logo ele caminhava com mais facilidade e por períodos mais longos.

Descansaram por três dias na antiga cidade arruinada de Gallala. Reabasteceram os cantis no poço escasso e amargo e deixaram os cavalos recuperarem-se dos rigores da estrada difícil, pedregosa. Bay e Taita trataram das suas patas e cascos. Quando estavam prontos para retomar a jornada, afastaram-se do caminho conhecido: viajando no frescor da noite, tomaram a trilha conhecida apenas por Taita que levava a Gebel Nagara. Bay e Hilto varriam seus rastros e cobriam todos os sinais da sua passagem.

Chegaram à caverna no meio da noite iluminada pelas estrelas brilhantes. Não havia água suficiente na minúscula nascente para suprir a tantos homens e cavalos, portanto assim que a carroça foi descarregada Hilto e Bay voltaram, deixando apenas Meren para servir a Taita e Nefer. Hilto havia se exonerado do seu regimento sob o pretexto de má saúde, e portanto era livre, com Bay, para retornar a cada lua cheia a fim de levar suprimentos, remédios e notícias de Tebas.

O primeiro mês em Gebel Nagara passou rapidamente. No ar seco e limpo do deserto os ferimentos de Nefer cicatrizaram sem mais recaídas, e logo ele estava mancando pelo deserto para caçar com Meren. Eles assustavam as lebres e as surpreendiam com suas lanças, ou Taita sentava-se nos rochedos acima da fonte e fazia o seu encantamento para atrair as gazelas ao alcance das flechas.

No final do mês Hilto retornou de Tebas com Bay. Levaram a notícia de que o subterfúgio de Taita ainda não fora descoberto e que o Faraó Naja Kiafan, juntamente com toda a população, ainda acreditava que o cadáver de Nefer estivesse banhado em salmoura no Salão dos Lamentos.

Também levaram notícias das insurreições no Baixo Reino e sobre as terríveis represálias do Faraó Trok em Manashi. As inquietações também tinham surgido no Alto Reino, onde Naja, como Trok, aumentara os impostos e ordenara o alistamento dos homens no exército.

— As pessoas estão iradas por estar havendo tal aumento das forças armadas, quando existe paz através de todo o país — Hilto relatou. — Acho que a insurreição armada logo se espalhará pelo Alto Reino, onde Naja irá rechaçá-la com a mesma sutileza com que Trok agiu no norte.

Aqueles que aplaudiram a ascensão desses dois faraós logo terão motivos para se arrepender.

— Que outras notícias você tem do Baixo Reino? — Nefer perguntou ansioso.

Hilto lançou-se a uma longa dissertação sobre as novidades acerca do comércio e os preços do milhete, sobre a visita de um enviado especial assírio à corte do Faraó Trok. Nefer escutou com impaciência, e quando Hilto terminou, perguntou:

— Quais são as notícias sobre a Princesa Mintaka? Hilto pareceu confuso.

— Nenhuma, que eu saiba. Creio que ela está em Avaris, mas não posso ter certeza.

Num determinado ponto da viagem Hilto havia cruzado com um bando de órix, e pediu a permissão de Taita para segui-los e caçá-los. A carne seca iria incrementar seus suprimentos, portanto Taita concordou prontamente. Mas decretou que Nefer ainda não estava forte o bastante para juntar-se ao grupo de caça. Estranhamente, isso não pareceu deixar o rapaz infeliz: em vez disso, sugeriu que Taita saísse com o grupo de caça a fim de usar seus poderes para encontrar a presa e para esconder os caçadores quando fossem atacar.

Assim que ficou sozinho na caverna, Nefer pegou o pequeno baú de cedro com os rolos de papiro e material de escrita que Hilto lhe levara, e começou a compor uma carta para Mintaka. Sabia, com toda a certeza, que agora os relatos sobre a sua morte tinham sido recebidos em Avaris. Lembrou-se do seu próprio sofrimento terrível quando ouvira o falso relato da morte de Mintaka com sua família em Balasfura, e queria poupá-la da mesma agonia. Também queria explicar que haviam sido Naja e Trok os responsáveis pela anulação do noivado deles, mas no que se referia a ele, Nefer, ainda a amava para além da sua própria esperança de vida eterna, e não descansaria até o momento em que ela fosse sua esposa.

Tudo isso teve de ser expresso numa linguagem que, se o papiro caísse em mãos erradas, não fizesse sentido para nenhuma pessoa além de Mintaka.

Saudou-a em sua abertura como a ”Primeira Estrela”. Ela se lembraria de como, quando conversavam sobre a origem do seu nome, lhe dissera:

— Recebi o nome da terceira estrela no cinturão do Caçador celestial. E ele retrucara:

— Não, não a terceira. Você é a primeira estrela em todo o firmamento. Nefer desenhou os símbolos hieráticos com todo cuidado — sempre fora excelente em caligrafia. Assinou como o ”Tolo de Dabba”, certo de que ela reconheceria a referência à sua impropriedade quando ficaram sozinhos no deserto.

Naquela noite, quando os caçadores voltaram e estavam banqueteando-se com a carne fresca de órix, Nefer esperou a oportunidade para falar com Hilto em particular. Esta surgiu quando Taita saiu do círculo em torno da fogueira para caminhar na noite do deserto por um momento. Hilto levara vários jarros de cerveja juntamente com a carga de suprimentos de Tebas, e Taita desfrutara de uma ou duas tigelas, mas um dos poucos sinais que demonstrava da sua idade era a velocidade com a qual a cerveja passava através dele.

Assim que ele se afastou, Nefer inclinou-se para mais perto de Hilto e sussurrou:

— Quero que você se encarregue de uma tarefa especial para mim.

— Ficarei muito honrado com isso, majestade. Nefer passou-lhe o pequeno rolo de papiro.

— Guarde isso como a sua própria vida — ele ordenou, e depois que Hilto escondeu-o sob o xale, Nefer deu-lhe ordens para que fosse entregue à princesa em Avaris. Concluiu com mais um aviso: — Não fale a ninguém sobre isso. Nem mesmo ao Mago. Pelo seu juramento sagrado!

Na noite seguinte Hilto e Bay partiram de Gebel Nagara ao pôr-do-sol, quando o ar começava a refrescar. Fizeram os votos de lealdade a Nefer, pediram a bênção de Taita e um amuleto para proteção, depois seguiram para o deserto iluminado pelas estrelas. Os cavalos subiram a primeira encosta das dunas e seguiram em direção das pedras prateadas pela lua, que estalavam enquanto esfriavam na noite.

Caminhando à frente dos cavalos, Bay subitamente recuou, emitiu uma exclamação em seu idioma selvagem e agarrou o talismã de osso de leão que levava no pescoço. Apontou para a estranha forma que emergira nas sombras dos rochedos.

Hilto ficou ainda mais agitado.

— Afaste-se, sombra maligna — ele gritou, estalou o chicote e fez o sinal contra o mal, depois balbuciou uma encantação para afastar os fantasmas e espíritos malignos.

— Paz, Hilto — a aparição falou finalmente. A lua estava tão clara que fazia com que a cabeça dacriatura reluzisse como prata derretida. — Sou eu, Taita, o Mago.

— Não pode ser! — Hilto gritou. — Deixei Taita em Gebel Nagara ao pôr-do-sol. Você é alguma sombra terrível do mundo dos mortos, fingindo ser o Mago.

Taita adiantou-se e pegou a mão com que Hilto segurava o chicote.

— Sinta o calor da minha carne — ele-disse, depois levou a mão de Hilto para seu rosto. — Sinta o meu rosto e escute a minha voz.

No entanto, foi somente quando Bay tocou o peito de Taita com seu osso de leão, cheirou seu hálito para certificar-se de que não tinha o fedor da tumba e declarou que ele era quem dizia ser que o velho guerreiro ficou relutantemente convencido.

— Mas como chegou aqui à nossa frente? — ele indagou, confuso.

— Estes são os meios dos iniciados — Bay falou misteriosamente. — É melhor nunca fazer essa pergunta.

— Hilto, você está levando consigo algo que nos coloca em perigo mortal — Taita interrompeu as trivialidades. — Exala o odor da morte e confusão.

— Não sei o que poderia ser — Hilto falou, incerto.

— É algo que lhe foi confiado pelo próprio Egito — Taita insistiu —, e você sabe disso muito bem.

— Pelo próprio Egito. — Hilto coçou a barba e balançou a cabeça. Taita estendeu a mão e, com um suspiro, Hilto capitulou sem mais resistências. Pegou a sacola de couro em seu cinturão e retirou o rolo de papiro. Taita tomou-o da sua mão.

— Não fale a ninguém sobre isso — Taita avisou-o. — A ninguém, nem mesmo ao faraó. Ouviu bem, Hilto?

— Ouvi, Mago.

Taita segurou o rolo na mão direita e manteve os olhos fixos sobre ele. Após alguns segundos um minúsculo ponto iluminado surgiu no papiro, um filete de fumaça enroscou-se no ar da noite, depois incendiou-se subitamente.

Taita deixou-o queimar entre os dedos sem nem mesmo piscar sob o calor, depois desfez as cinzas em poeira.

— Isso é magia — Hilto ofegou.

—Uma proeza simples — Bay murmurou —, que até mesmo um aprendiz poderia realizar.

Taita levantou a mão direita para dar-lhes a bênção.

— Que os deuses os mantenham a salvo durante a jornada — disse, e observou a carroça afastar-se, mesclando-se com a escuridão.

Quando Taita postou-se novamente ao lado da pequena fogueira na caverna de Gebel Nagara, aquecendo os velhos ossos contra o frio do deserto, observou a silhueta adormecida de Nefer coberta por uma manta de pele contra a parede escura.

Não estava zangado com a patética tentativa do rapaz de superá-lo em astúcia. A idade não fizera definhar o seu senso de humanidade, nem apagara as lembranças dos tormentos da paixão, e ele compreendia o desejo de Nefer de mitigar os temores e o sofrimento de Mintaka. Além disso havia a profunda afeição, beirando o amor, que ele passara a sentir por Mintaka.

Ele jamais confrontaria Nefer com quais conseqüências aquele ato de compaixão poderia ter desencadeado. Iria permitir-lhe o narcótico de acreditar que Mintaka em breve saberia que ele estava vivo.

Acocorou-se ao lado de Nefer e, sem tocá-lo, delicadamente foi abrindo caminho para o ser interior do rapaz. Graças ao longo exercício desse poder sobre seu paciente, conseguiu prontamente. Nefer remexeu-se, gemeu e resmungou algo que não fez sentido. Mesmo no sono profundo o poder de Taita, lançado como uma teia sobre ele, tocou-o e levou-o a um estado quase desperto.

O corpo dele fizera bem a jornada ao longo da estrada para a total recuperação. Taita sondou mais fundo. Seu espírito é forte, e ele nada perdeu com as provações pelas quais passou. Não demorará muito até que possamos nos mover para o nosso próximo empenho.

Taita voltou para o fogo e colocou mais alguns galhos de acácia sobre ele. Depois acomodou-se num canto, não para dormir, pois na sua idade precisava apenas de algumas horas de sono a cada noite, mas para abrir a mente às correntes geradas pelos eventos, alguns distantes e outros muito mais próximos. Deixou-as redemoinhar em torno de si como se fosse uma pedra em meio à correnteza da existência.

A lua seguinte passou mais depressa que a anterior, enquanto Nefer ficava mais forte e mais inquieto. A cada dia seu manquejar ficava menos perceptível, até que finalmente desapareceu. Logo ele estava apostando corridas com Meren desde a planície do vale até o topo das colinas. Tais competições tornaram-se uma parte rotineira das suas vidas no oásis. No início Meren ganhava facilmente, mas logo isso mudou.

Ao alvorecer do vigésimo dia depois da partida de Hilto, eles começaram a correr na entrada da caverna e dispararam através do fundo do vale pedregoso ombro a ombro, mas quando começaram a subir a encosta da duna, Nefer tomou a dianteira. A meio caminho do topo ele deslanchou subitamente a uma velocidade vigorosa, deixando Meren esforçando-se para acompanhá-lo. No topo da colina ele virou para trás e riu para Meren, pousando as mãos nos quadris com um gesto triunfante. No vento da manhã seus cabelos longos e densos flutuaram sobre os ombros. O sol erguia-se atrás dele, e os raios dourados lançavam uma nuvem de luz em torno da sua cabeça.

Taita observava tudo isso lá embaixo, e estava prestes a voltar para dentro da caverna quando um som sinistro no silêncio do deserto o fez parar. Levantou o rosto para o céu e viu um ponto escuro descrevendo um círculo amplo contra o azul, e sentiu a divina presença do deus muito próxima. O grito ressoou outra vez, fraco e distante, mas penetrava no coração: o grito inesquecível de um falcão real.

No topo da duna Nefer também escutou, e virou a cabeça à procura da origem do ruído. Avistou a forma minúscula e ergueu as duas mãos na direção dela. Como se o gesto fosse um comando, o falcão lançou-se num mergulho, parecendo triplicar em tamanho. O vento batendo contra as asas eretas assoviava enquanto ele mergulhava direto para Nefer. Se a ave o atingisse àquela velocidade, iria rasgar-lhe a carne e quebrar seus ossos, mas Nefer nem pestanejou enquanto ela vinha direto para seu rosto erguido.

No último segundo possível o falcão estendeu as asas e pairou sobre a cabeça do rapaz. Nefer estendeu o braço e quase conseguiu tocar a magnífica plumagem do seu peito. Por um instante Taita imaginou que a ave talvez se permitisse ser capturada, mas então ela mudou as batidas das asas e elevou-se novamente para o céu. Mais uma vez emitiu o grito belo e desesperado, depois disparou na direção do sol, e pareceu desaparecer dentro da esfera flamejante.

Em sua última visita a Gebel Nagara, Hilto levara para Nefer um arco de guerra de tamanho adulto. Sob as instruções de Taita o rapaz praticava todos os dias, fortalecendo os músculos das costas e dos ombros até conseguir empunhar a arma, estender o fio em toda sua extensão e fazer o alvo sem que os braços começassem a se cansar e tremer. Então, a uma palavra de comando de Taita, atirava a flecha formando um arco no alto para cair direto no alvo, a duzentos cúbitos de distância.

Nefer havia cortado um pesado galho de acácia num bosque oculto ao pé dos morros e o entalhara, raspara e polira até que adquirisse o equilíbrio e peso perfeitos em suas mãos. No frio do amanhecer, ele e Taita lutavam à maneira tradicional. Primeiro Nefer recuava, em respeito à idade de Taita, mas o Mago tirara sangue do seu tornozelo e fizera um galo na sua cabeça. Furioso e humilhado, o rapaz atacou para valer, mas o ancião era rápido e ágil. Pulava para fora do alcance do cajado de Nefer, depois avançava para desferir um golpe doloroso num cotovelo ou joelho desprotegidos.

Taita havia perdido pouco da sua perícia com a lâmina. Hilto lhes levara um conjunto de pesadas espadas de ponta curva, e quando Taita decidiu que já haviam praticado o bastante com os cajados de luta, pegou as espadas e instruiu Nefer e Meren através de todo o repertório de cortes, ataques e defesas. Ele os fez repetir cada manobra por cinqüenta vezes, e depois começou outra vez. Quando finalmente fez uma pausa para a ceia, Nefer e Meren estavam afogueados e ensopados de suor, como se tivessem dado um mergulho no Nilo. A pele de Taita, no entanto, estava seca e fresca. Quando Meren comentou lastimavelmente sobre isso, ele riu:

— Transpirei a minha última gota de suor antes mesmo de você ter nascido.

Nas outras tardes Nefer e Meren despiam-se completamente, untavam os corpos com óleo e lutavam corpo a corpo, enquanto Taita arbitrava os ataques e gritava avisos e instruções. Embora Meren fosse um pouco mais alto e com os ombros e membros mais pesados que Nefer, este tinha um equilíbrio natural, e Taita lhe ensinara como usar o peso do oponente a seu favor. Os dois rapazes igualavam-se golpe a golpe.

À noite, Taita e Nefer sentavam-se junto ao fogo e debatiam sobre todos os assuntos, desde medicina e política até guerras e religião. Muitas vezes Taita expunha uma teoria, depois pedia a Nefer que descobrisse quaisquer falhas em suas afirmações e argumentos. Ele inseria armadilhas ocultas e detalhes ilógicos nessas lições, e cada vez com mais freqüência e com maior alegria, Nefer os descobria e questionava. Além disso, sempre havia o tabuleiro de bao para ser decifrado, na tentativa de desenredar as leis e as infinitas possibilidades inerentes aos movimentos e padrões das pedras.

— Se você puder compreender tudo o que há para saber sobre as pedras do bao, saberá tudo o que precisa saber sobre a própria vida — Taita falou. — As sutilezas e nuances do jogo sintonizam e aguçam a mente para os mistérios maiores.

O mês passou tão depressa que foi com um pequeno choque de surpresa que Nefer, enquanto corria em disparada pelo deserto perseguindo uma gazela mortalmente ferida, de repente avistou no horizonte, distorcida pela miragem, uma pequena nuvem de poeira amarelada e, abaixo dela, o formato distante de uma carroça retornando do vale do rio. No mesmo instante esqueceu a gazela e correu ao encontro de Hilto. Embora Hilto estivesse acostumado às demonstrações de perícia física dos seus homens, ficou impressionado com a velocidade com que Nefer cobriu o terreno através do calor escaldante.

— Hilto! — Nefer gritou, ainda a distância e sem o menor sinal de cansaço. — Que os deuses o protejam e lhe concedam a vida eterna! Que notícias você traz? Quais são as novidades?

Hilto fingiu não entender o significado de tal pergunta, e enquanto Nefer caminhava ao seu lado começou um extenso relato sobre os eventos políticos e sociais dos reinos.

— Houve outra rebelião no norte. Dessa vez Trok teve mais dificuldade em desbaratá-la. Perdeu quatrocentos homens em três dias de intensas batalhas, e metade dos rebeldes escapou da sua ira.

— Hilto, você sabe que não é isso que desejo ouvir. Hilto indicou Bay com um gesto de cabeça.

— Talvez este não seja o melhor momento para tocarmos em determinados assuntos — sugeriu com tato. — Majestade, não deveríamos conversar mais tarde, em particular?

Nefer foi obrigado a conter a impaciência.

Naquela noite, quando reuniram-se em volta da fogueira na caverna, foi uma agonia para Nefer ter de escutar Hilto fazer outro longo e detalhado relatório a Taita, sendo que a parte mais importante disso foi o fato de que a substituição dos cadáveres fora descoberta quando os sacerdotes de Anúbis tinham retirado as bandagens da cabeça no Salão dos Lamentos. O Faraó Naja Kiafan havia feito o possível para abafar a notícia e evitar que esta se tornasse de conhecimento público, pois as fundações do seu trono estariam abaladas se o povo suspeitasse que Nefer ainda estava vivo. No entanto, era impossível manter em segredo um evento tão extraordinário quando muitas pessoas, sacerdotes e cortesãos, tinham conhecimento dele. Hilto relatou que os rumores percorriam as ruas e mercados da cidade de Tebas, além das cidades e vilarejos nos arredores.

Em parte como resultado desses rumores, a inquietação nos dois reinos tornara-se mais espalhada e mais ajustada. Os rebeldes estavam denominando-se de Facção Azul. Azul era a cor da dinastia Tamosiana; Naja escolhera o verde como sua própria cor real, e a de Trok era vermelha.

Acrescentado a isso, as revoltas fermentavam no leste. Os faraós egípcios tinham enviado o embaixador hurrita de volta ao seu senhor, o Rei Sargon da Babilônia, aquele poderoso reino entre o Tigre e o Eufrates, exigindo que o tributo anual de Sargon fosse aumentado em vinte laques de ouro. Era um valor exagerado, com o qual Sargon jamais concordaria.

— Então isso explica a intensa formação de exércitos nos dois reinos — Taita falou quando Hilto fez uma pausa em seu relato. — Finalmente está claro que os dois faraós cobiçam as riquezas da Mesopotâmia. Estão determinados a conquistá-la. Depois da Babilônia irão voltar-se para a Líbia e Chaldea. Não descansarão até que o mundo inteiro esteja sob seu domínio.

Hilto mostrou-se espantado.

— Eu não havia considerado isso, mas o senhor deve estar certo.

— Eles são tão ardilosos quanto dois velhos babuínos pilhando os campos dos fazendeiros ao longo da margem do rio. Sabem que a guerra é um fator de união. Se marcharem contra a Mesopotâmia, a população os seguirá num frenesi patriótico. O exército adora a perspectiva de glória e pilhagens. Os mercadores adoram a perspectiva de um aumento no comércio e dos lucros. Esse é um meio maravilhoso de fazer com que as pessoas se esqueçam das suas queixas e injustiças.

— Sim. — Hilto assentiu. — Agora eu entendo.

— Mas, claro, isso é uma vantagem para nós — Taita refletiu. — Estive pensando num asilo para nós. Se estiver em guerra contra Trok e Naja, então Sargon irá nos receber ao seu lado.

— Nós vamos deixar o Egito? — Hilto indagou. Taita explicou:

— Agora que Naja e Trok já sabem que Nefer está vivo, eles virão atrás de nós. O caminho para o leste é o único que está aberto a nós. Não será por muito tempo, apenas até obtermos força e apoio através dos dois reinos e nos tornarmos poderosos aliados. Então retornaremos para exigir de volta o direito hereditário do Faraó Nefer.

Todos encararam-no em silêncio enquanto recobravam-se do choque de tal idéia. Nenhum deles pensara tão à frente, e jamais lhes ocorrera que seriam obrigados a deixar o país natal.

Foi Nefer quem rompeu o silêncio.

— Não podemos fazer isso — ele disse. — Eu não posso sair do Egito. Taita olhou para os outros e inclinou a cabeça levemente, num sinal para que saíssem. Obedientes, Hilto, Bay e Meren levantaram-se e saíram da caverna.

Taita havia antecipado aquela situação. Sabia que seria necessária toda a sua astúcia para resolvê-la, pois Nefer adquirira a sua expressão determinada e fizera a declaração no tom de teimosia que Taita tão bem conhecia. Sabia que seria difícil dissuadir Nefer da sua posição. O rapaz olhava fixo para o fogo, e Taita percebeu que deveria forçá-lo a romper o silêncio. Quando ele o fizesse, a posição de Taita ficaria fortalecida.

— Você deveria ter discutido esse plano comigo — Nefer falou afinal. — Não sou mais uma criança, Taita. Sou um homem e faraó.

— Eu lhe falei sobre as minhas intenções — Taita retrucou em voz baixa.

Permaneceram em silêncio outra vez, olhando as chamas da fogueira, e Taita podia ver as rachaduras surgindo na determinação de Nefer. Finalmente o rapaz tornou a falar:

— Você entende, há Mintaka.

Taita nada falou. Intuitivamente, ele entendia que estavam aproximando-se de uma crise em seu relacionamento. Esta teria de acontecer em algum momento, e ele não fez nenhum esforço para evitá-la.

— Eu enviei uma mensagem para Mintaka — disse Nefer. — Disse que a amo e fiz um juramento pela minha vida e meu espírito eterno de que não a desertaria.

Agora Taita rompeu seu silêncio.

— Você tem certeza de que Mintaka recebeu esse seu juramento impensado que colocava você, ela e todos os que o rodeiam em perigo mortal?

— Sim, claro. Hilto... — Nefer calou-se, e sua expressão mudou quando olhou para Taita através das chamas da fogueira.

Subitamente ele levantou-se e saiu com passos largos pela entrada da caverna. Não se movia como um garoto, mas sim como um homem, um homem irado. Naqueles poucos meses, havia se modificado completamente. Taita sentiu uma profunda satisfação. O caminho que tinham pela frente seria difícil, e Nefer precisaria de toda essa força recém-descoberta e de toda a sua determinação.

— Hilto! — Nefer chamou na escuridão. — Venha até mim. Talvez Hilto tivesse percebido uma nova autoridade em seu tom, pois foi rapidamente e ajoelhou-se diante de Nefer.

— Majestade? — ele reverenciou.

— Você entregou a mensagem que lhe confiei? — Nefer inquiriu. Hilto olhou para Taita ao lado do fogo.

— Não olhe para ele — Nefer disparou. — Eu estou lhe fazendo a pergunta. Responda-me.

— Eu não entreguei a mensagem — Hilto respondeu. — O senhor deseja saber o motivo por que não o fiz?

— Eu sei muito bem qual foi o motivo — Nefer falou ameaçador. — Mas escute bem: se você me desobedecer intencionalmente em qualquer outra ocasião no futuro, irá receber a pena máxima.

— Entendo, meu senhor — Hilto falou impassível.

— Se alguma outra vez tiver de escolher entre o faraó e um velho intrometido, você escolherá o faraó. Isso está claro para você?

— Claro como o sol do meio-dia. — Hilto baixou a cabeça em penitência, mas sorriu sob a barba.

— Você esteve evitando as minhas perguntas, Hilto. Agora, quais são as notícias sobre a princesa?

Hilto parou de sorrir e abriu e fechou a boca, tentando encontrar coragem para lhe dar as terríveis notícias.

— Fale! — Nefer ordenou. — Já esqueceu seu dever tão depressa?

— Graciosa Majestade, as notícias não serão do seu agrado. Seis semanas atrás a Princesa Mintaka casou-se com o Faraó Trok Uruk, em Avaris.

Nefer permaneceu tão imóvel quanto uma estátua de granito. Por um longo momento, o único som na caverna era o estalar da lenha no fogo. Então, sem mais uma palavra, Nefer passou por Hilto e saiu para a noite do deserto.

Quando retornou, a aurora era uma leve promessa rosada no céu ao leste. Hilto e Meren estavam enrolados em suas mantas de pele nos fundos da caverna, mas Taita encontrava-se na mesma posição junto ao fogo em que Nefer o deixara. Por um instante ele achou que o ancião também estivesse dormindo. Então Taita levantou a cabeça e fitou-o com os olhos tão vivos e alertas quanto as chamas da fogueira.

— Eu estava errado, e você estava certo. Preciso de você agora, mais do que nunca, meu velho amigo — Nefer falou. — Você não irá me abandonar?

— Você nem precisava perguntar — Taita respondeu com suavidade.

— Não posso deixá-la com Trok — disse Nefer.

— Não.

Nefer foi sentar-se diante de Taita, que respirou fundo, devagar. A tempestade havia passado. Eles ainda estavam juntos.

Nefer pegou um galho queimado e empurrou-o mais fundo na fogueira. Depois olhou novamente para Taita.

— Você tentou me ensinar a visualizar a distância — ele disse. — Eu nunca adquiri o dom. Não até esta noite. Lá fora, na escuridão e no grande silêncio, tentei outra vez visualizar Mintaka. Dessa vez eu vi alguma coisa, Taita, mas apenas indistintamente, e não consegui entender.

— O seu amor o fez sensitivo à aura dela — Taita explicou. — O que você viu?

— Vi apenas sombras, mas senti uma dor e sofrimento devastadores. Sabia que essas eram as emoções de Mintaka, não as minhas.

Taita olhava para o fogo sem nenhuma expressão, e Nefer prosseguiu:

— Você precisa visualizá-la para mim. Há alguma coisa terrivelmente errada. Só você pode ajudá-la agora, Taita.

— Você tem algum objeto de Mintaka? — ele perguntou. — Algum presente ou lembrança que ela lhe deu?

Nefer levou a mão ao colar em seu pescoço. Tocou o pequeno pingente de ouro que pendia na corrente.

— Este é o meu bem mais precioso.

Taita estendeu a mão por cima da fogueira.

— Dê-me.

Nefer hesitou, depois fechou a mão e manteve o amuleto ali encerrado.

— Além dos meus, os dela foram os últimos dedos a tocá-lo. Contém uma mecha dos seus cabelos

— Então é altamente potente. Contém a essência dela. Entregue-me, Nefer, se quiser que eu a ajude.