Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
WINNETOU
Volume I
Sempre que me lembro do índio, vem-me à mente o turco. Ainda que pareça singular, as duas raças se assemelham. Consideramos o último como representante de uma raça em decadência; o primeiro é o símbolo de um povo que está a extinguir-se.
Realmente, a nação vermelha repousa no leito de morte! Desde a Terra do Fogo até além dos mares americanos, o gigante jaz no solo, abatido por um destino cruel que dele não se compadece! Lutou com todas as forças contra esse destino, mas em vão; suas forças foram-se esvaindo pouco a pouco; hoje, só lhe resta uma lenta respiração e as convulsões que, de vez em quando, agitam seu corpo nu e anunciam o fim próximo da vida.
Será ele culpado dessa morte prematura? Mereceu tal sorte?
Se é verdadeiro o axioma “todo ser animado tem direito à vida”, não só para as criaturas consideradas isoladamente como para a coletividade, a raça vermelha não tem menos direito à existência que a branca e deve, pois, exigir que lhe permitam o desenvolvimento político e social. Dizem que o índio não possui qualidades que lhe permitem desenvolver-se. É verdadeira essa afirmativa? Não! A raça branca encontrou meios, deram-lhe tempo para progredir; pouco a pouco, o branco passou de caçador a pastor; de pastor a guerreiro; depois se fez agricultor e, mais tarde, industrial. Muitos séculos se passaram até que se civilizasse. À raça vermelha, porém, não concederam tempo, nem proporcionaram meios. Exigem que o índio, num salto gigantesco, atinja o supremo grau de civilização!
A lei que obriga o fraco a se curvar diante do forte existe em toda a criação e prevalece em toda a terra. Sua crueldade é apenas aparente; ela pode ser cristamente suavizadora, porque a eterna verdade, que criou essa lei, criou também o eterno amor. Mas porventura essa lei foi aplicada cristamente à raça indígena? Não!
Não foi apenas com hospitalidade acolhedora, mas com uma consagração quase divina, que os índios receberam em suas tabas os primeiros “peles-brancas” que os procuraram. E que lhes deram em paga de tão cativante hospitalidade? Indiscutivelmente aos índios pertenciam as terras por eles habitadas; delas foram despojados. Quanto sangue correu e quanta crueldade foi perpetrada, sabem-no aqueles que leram a história dos famosos “Conquistadores”. Seguindo-lhes o exemplo, a maioria dos que exploraram, posteriormente, o oeste bravio procediam, em geral, da mesma forma desumana. O branco vinha com palavras suaves nos lábios, mas trazia à cintura o punhal homicida e, na mão, o bacamarte. Prometia paz e amor e dava guerra e ódio. O vermelho teve de recuar, cedendo, palmo a palmo, o terreno. De tempos em tempos concediam aos índios direitos “perpétuos” sobre os “seus” territórios, mas, pouco depois, repeliam-nos cada vez mais para longe. “Compravam-lhes” as terras, mas, ou não lhes pagavam ou faziam-no com mercadorias sem valor, que eles não podiam utilizar. Mas a “água de fogo” (aguardente) e várias moléstias contagiosas, às vezes endêmicas que despovoavam tabas e tabas, os peles-brancas distribuíram fartamente entre os pobres índios. Toda vez que o vermelho queria fazer valer os seus direitos, respondiam-lhe com pólvora e chumbo e ele era forçado a render-se às armas dos peles-brancas.
Amargurados, os índios vingavam-se em qualquer branco que encontravam, isoladamente ou em grupos. Os combates e os massacres eram constantes. Em conseqüência, o índio, caçador orgulhoso e audaz, valente e leal, sincero e amigo da verdade, foi-se tornando traiçoeiro, desconfiado e mentiroso. A culpa dessa degenerescência é única e exclusiva do branco.
Onde estão hoje as lindas manadas de poldros bravios, das quais o índio laçava o seu animal de montaria? Onde estão os búfalos que lhe davam a carne para o sustento e que outrora, aos milhões, pastavam pelas lindas savanas do oeste bravio? De que vive hoje o índio? Dos alimentos que lhe fornecem os brancos? É irrisório! Quanta impureza contêm esses alimentos! A farinha é misturada com grande percentagem de areia e gesso! A carne é de gado magro e, em geral, pesteado! Tudo o que lhe devem, enfim, pagam com mesquinhez. Deverá o vermelho viver da agricultura? Poderá contar com uma colheita, ele, o órfão do direito, a quem repelem cada vez para mais longe?
A outrora altiva e orgulhosa figura do índio, montado em seu poldro fogoso, tornou-se triste e andrajosa; apenas farrapos lhe cobrem a nudez. Ele, que com sua força indômita, abatia os ursos cinzentos das montanhas, hoje vive sombrio e cabisbaixo a mendigar ou, quiçá,... furtar o alimento que lhe é indispensável.
É a raça indígena que agoniza; estamos assistindo seus últimos instantes. Impassíveis, mas cheios de piedade, lhe fecharemos os olhos. É doloroso presenciar o ocaso de uma raça! Ocorrem-nos, então, muitos pensamentos; não teriam os peles-vermelhas contribuído, com sua cultura, embora em parcela mínima, para a civilização da humanidade, se lhes tivessem proporcionado meios de desenvolverem suas forças e seus dons? O índio não se deixou assimilar porque era um caráter firme; e por isso deveria ser condenado à morte? Não poderia ser salvo? Para que o bisão não desapareça, oferece-se-lhe asilo, o Parque Nacional; e por que não se concede àquele que era o legítimo dono do país um lugar onde viver, desenvolver-se e civilizar-se?
Mas, de nada valem reflexões, incapazes de impedir o desaparecimento do indígena. Lamento-o, mas não lhe posso valer; chorarei sua morte, mas minhas lágrimas não o chamarão à vida.
Vivi com os índios e sobretudo a lembrança de um deles enche-me, até hoje, o coração. Ele, o mais sincero, o mais devotado dos amigos, um legítimo representante de sua raça oprimida caiu também à bala assassina do inimigo. Eu o estimei como a ninguém e ainda hoje amo o povo ao qual ele pertenceu. Daria a vida para salvar a sua, tal como ele centenas de vezes fez por mim; morreu salvando um amigo. Sua memória, entretanto, viverá nestas páginas, como vive no meu coração. A ele, Winnetou, o grande cacique dos apaches, quero erguer, neste livro, um monumento. Bem o mereceu e se conseguir do leitor que forme um juízo justo do povo a que serviu, como cacique fiel, sentir-me-ei fartamente recompensado.
Um Greenhorn
Caro leitor, sabes o que significa a palavra greenhorn?
É um título depreciativo que se lança em rosto a alguém para magoá-lo, para feri-lo.
Green quer dizer verde e horn, chifre. Daí o chamar-se greenhorn ao indivíduo ainda verde; verde porque, recém-chegado a uma terra, é estranho ao meio, aos usos e costumes.
Por isso, ele precisa ter muito tato e muito cuidado para escapar ao ridículo, em sociedade.
Greenhorn é o indivíduo que não cede a cadeira às senhoras; que cumprimenta o chefe da família antes de fazer uma inclinação respeitosa às senhoras e senhoritas presentes; é o indivíduo que, ao carregar uma espingarda, introduz mal o cartucho, ou que a carrega, introduzindo a bala, a bucha e, por último, a pólvora; é o indivíduo que, ou não fala o inglês, ou, se o faz, é com extrema correção, mostrando-se infenso ao dialeto anglo-americano; um greenhorn só fuma charuto e detesta o americano que masca fumo fino; um greenhorn, se recebe uma ofensa de um irlandês corre ao juiz de paz em vez de, como um verdadeiro americano, fulminá-lo ali mesmo, com uma bala; um greenhorn toma as pegadas de um turco pelo rasto de um urso e um hiate de caça por um dos vapores que cruzam o Mississipe; um greenhorn não se constrange de colocar as botas sujas sobre os joelhos do seu companheiro de viagem; um greenhorn, quando jornadeia pelas campinas, carrega, para a higiene pessoal, uma esponja do tamanho de uma canastra gigante e cinco quilos de sabão; leva consigo uma bússola que, ao cabo de três ou quatro dias, orienta por todos os rumos, menos, porém, pelo norte; um greenhorn anota oitocentas expressões indianas; mas, quando se encontra diante de um pele-vermelha, verifica, decepcionado, haver trocado a caderneta de notas pela última carta que recebera da família; um greenhorn, ao caçar, só no momento de dar o primeiro tiro, descobre que, em lugar de pólvora, comprara carvão moído; um greenhorn estuda dez anos astronomia e, no entanto, por mais que consulte os astros, não consegue saber que horas são; um greenhorn coloca uma faca à cinta de tal modo, que, ao curvar-se, a lâmina lhe espeta a coxa; um greenhorn, nos descampados do oeste bravio, acende uma fogueira cujas chamas ultrapassam os cimos das árvores, e se espanta ao ser descoberto pela indiada feroz; enfim, o greenhorn é... um greenhorn, e de greenhorn não passava eu na época em que comecei a viver os fatos que relato a seguir.
Não se pense, porém, que eu estivesse convencido, ou desconfiasse, mesmo de leve, que semelhante chacota tanto me conviesse. Oh! não, é esta uma qualidade bastante vantajosa do greenhorn, considerar como tal todas as criaturas, nunca a si mesmo.
Bem ao contrário, tinha-me na conta de homem extraordinariamente ilustrado e de invulgar experiência da vida. Pois não havia levado a minha existência inteira a estudar, sem jamais haver temido exames?! Que a vida é que constitui, na realidade, a verdadeira escola superior, onde toda a gente se submete, diariamente, às mais duras e rigorosas provas, sem ter tempo para se preparar, nisso não pensava, então, o meu espírito juvenil.
Circunstâncias especialíssimas e a febre de aventuras fizeram-me atravessar o oceano e dirigir-me para os Estados-Unidos, onde as perspectivas do futuro se apresentavam, então, para um jovem ativo, muito mais risonhas do que hoje.
Poderia ter-me fixado nos estados de leste, onde encontraria excelente acolhimento, mas o oeste me seduzia.
Longa não seria a minha permanência naquelas regiões. Por isso tanto as terras do leste como as do oeste me serviam.
Perfeitamente equipado, cheguei a S. Luis, num belo dia de sol.
Quis a sorte conduzir-me à casa de uma família alemã, onde fiquei como preceptor.
Com essa família, mantinha relações um armeiro, Mr. Henry, que exercia o seu ofício com a dedicação e o desprendimento de um verdadeiro artista e que se intitulava a si mesmo, com orgulho — Henry, the gunsmith (Henrique, o armeiro).
Esse homem era um filantropo, embora aparentasse o contrário.
Outras relações sociais não mantinha ele.
Frio e rude era o trato que dava à freguesia.
Só a excelência e o acabamento perfeito de seu trabalho justificavam o grande movimento da oficina.
Soube que perdera tragicamente mulher e filhos.
Jamais me tocara no assunto doloroso. Pela maneira, porém, como algumas vezes se expressava, suponho, fora coisa de emboscada e assassínio.
Fora, talvez, essa circunstância que lhe vestira de rudeza o gesto e a palavra. Talvez... Nem percebia ele o seu feitio grosseiro, pois que, no íntimo, era deveras bom e generoso. Muitas vezes se umedeceram seus olhos ao ouvir-me discorrer sobre a pátria e a família, às quais, ainda hoje, me liga o coração.
Por que aquele velho se afeiçoara a mim, jovem e estrangeiro, não o soube até que, num momento de desabafo, ele me revelou a razão daquele seu sentimento por mim.
Vinha, amiúde, visitar-me à hora em que eu dava lições aos meus pequenos, lições a que assistia pacientemente até o fim. Depois, entretinha-se a conversar e, por fim, convidava-me a acompanhá-lo à oficina.
Até então, aquele homem não manifestara tal preferência por ninguém. E eu, entre desconfiado e receoso, evitava abusar de seus convites. O meu retraimento, porém, não lhe agradava de forma alguma. Lembro-me, ainda hoje, da fisionomia encolerizada com que me recebeu, uma noite em que fora ter com ele, e do tom com que me interpelou, sem sequer responder ao meu good evening (boa noite), com que o saudei.
— Onde se meteu ontem, sir?
— Em casa.
— E anteontem?
— Também em casa.
— Ora, não me engane!
— Digo a verdade, Mr. Henry.
— Tolices! Não, um pássaro novo, não fica dois dias no ninho; mete o bico em toda a parte, exceto onde deve.
— Onde, pois devo meter o bico?
— Aqui, em minha companhia, compreende? Já de há muito que desejo perguntar-lhe uma coisa.
— E por que já não o fez?
— Porque não quis, fique sabendo.
— Quando, então, se resolverá a querer?
— Talvez hoje.
— Então, vá perguntando sem receio — disse-lhe, enquanto me sentava perto do torno em que ele trabalhava.
Olhou-me admirado, meneou a cabeça e continuou:
— Sem receio?! Como se eu necessitasse permissão para falar a um greenhorn!
— Greenhorn?!! — exclamei, enrugando a testa, pois sentia-me profundamente melindrado. Quero crer, Mr. Henry, que essa palavra foi pronunciada irrefletidamente e sem a menor intenção de ofender-me.
— Como não?! Eu a pronunciei com toda a convicção. O senhor é um greenhorn, e que greenhorn! O senhor tem os textos dos seus livros, todos na memória, não? É verdade! É de pasmar o que os senhores estudam lá na Europa! O senhor sabe, com toda a precisão, a que distância da terra se acha cada estrela; pode ler o que Nabucodonosor escreveu sobre pedras; o senhor conhece o peso do ar, que não pode ver! E, como sabe tudo isso, pensa que é um homem sensato! Mas... faça uma viagem duns cinqüenta anos pela vida e, então, saberá em que consiste a verdadeira inteligência do universo. Compreendeu, agora, que o que o senhor leu não vale, praticamente, nada, absolutamente nada e que aquilo que o senhor sabe, vale menos ainda? O senhor nem sequer sabe atirar!
Esta última frase fora acentuada com um tom de tão extraordinário menosprezo e com tal força, que não pude duvidar da sua sinceridade.
— Não sei atirar?! — redargüi-lhe a sorrir. Era, talvez, isso o que me queria perguntar há pouco?
— Exatamente. Responda.
— Dê-me uma boa arma e eu lhe responderei, Antes, não.
Depôs, ao lado, o cano do bacamarte em que trabalhava, afastou-se do torno e, aproximando-se com os olhos fixos em mim, exclamou:
— Dar-lhe uma arma, sir? Era só o que faltava! Minhas armas só vão ter às mãos de quem com elas se sabe haver com honra.
— Este será o meu procedimento.
O homem olhou-me de soslaio, voltou ao torno e, retomando o cano do bacamarte abandonado, prosseguiu no trabalho, resmungando:
— Que greenhorn! Irrita-me a sua ousadia!
Deixei-o resmungar: conhecia-o de sobejo. Tirei um cigarro do bolso e acendi-o. Seguiram-se uns vinte minutos de silêncio. Não se contendo por mais tempo o velho, levantou o cano do bacamarte, olhou-o contra a luz, examinando-o atentamente, e, já mais calmo, disse:
— Atirar é mais difícil do que olhar para as estrelas ou ler todas as pedras de Nabucodonosor, compreende? O senhor, já algum dia, teve porventura, uma arma na mão?
— Acho que sim.
— Quando?
— Já faz muito tempo, mas muitas vezes.
— Também já apontou e atirou?
— Sim.
— E acertou?
— Naturalmente.
Ao ouvir isso, o velho largou rapidamente o cano que estava examinando, fixou-me e disse com energia:
— Sim, acertou; mas... em quê?
— No objetivo, é claro.
— Hein? O senhor me quer passar essa peta?!
— Peta, não senhor; falo-lhe a verdade.
— Diabos o levem, sir! Arre! Não entendo o senhor! Tenho certeza de que, tendo por alvo uma cerca de vinte varas de altura por cinqüenta de comprimento, o senhor perderia o tiro. No entanto está aí, a falar em atirar, com tamanha seriedade que estou quase a extravasar toda a bílis. Não sou um dos meninos de quem o senhor é preceptor, ouviu? Um greenhorn que não sabe outra coisa senão andar às voltas com livros, quer saber atirar!! Levou a vida inteira a se recrear com brochuras de todas as bitolas, inclusive alfarrábios turcos e árabes, e pretende, apesar de tudo ter tido, o tempo necessário para aprender a atirar. Pois pegue daquela velha espingarda, ali do prego, e aponte como se estivesse à procura do ponto de mira. Essa arma é própria para caçar ursos, é a melhor que me veio às mãos até hoje.
Tomei da arma e fiz pontaria.
— O quê?! — exclamou, erguendo-se de súbito. — O que é isto? O senhor lida com a arma mais pesada que até hoje tenho visto, como se lidasse com uma simples bengala? É dotado de tanta força muscular?
Em vez de responder-lhe, agarrei-o pelo casaco abotoado e ergui-o do chão, com o braço direito.
— Raios! — bradou. — O senhor é ainda mais forte do que o meu Bill.
— O seu Bill?! Quem é?
— Era o meu filho, que... bem, deixemos isso. Está morto, como os outros. Prometia ser um guapo rapaz; mas, numa ausência minha, apagou-se aquela vida. O senhor se parece um tanto com ele. Tem o mesmo talhe de rosto, os mesmos olhos, a mesma boca; por isso é que lhe tenho... bem, isso não é da sua conta.
E uma expressão de profunda mágoa ensombrou-lhe a fisionomia. Passou a mão no rosto e, em tom mais animado, prosseguiu:
— Sir, é pena que, com essa musculatura soberba, se tenha dedicado até agora apenas aos livros. Deve ter praticado muitos exercícios físicos, não?
— Sim.
— É verdade?
— Por que havia de mentir?
— Boxe?
— Não se cultiva este esporte na minha pátria; mas em ginástica e luta romana eu o acompanho.
— Equitação?
— Também.
— Esgrima?
— Um pouco, recebi algumas instruções.
— Homem, não exagere!
— O senhor quer experimentar?
— Obrigado. Basta-me a prova de há pouco! Mesmo porque tenho que trabalhar. Sente-se.
Voltou ao torno e eu o acompanhei. Seguiu-se um diálogo monossilábico. Henry parecia preocupado com algo importante. Repentinamente, interrompendo o trabalho, disse:
— O senhor estudou Matemática?
— Era uma das minhas ciências prediletas.
— Aritmética? Geometria?
— Naturalmente.
— Topografia?
— Oh! Aprecio-a imensamente. Muitas vezes, por mero prazer, andei às voltas com o teodolito.
— Sabe, portanto, fazer medições.
— Sim, tomei parte muitas vezes em medições, tanto zenitais como azimutais, embora não me considere, lá por isso, um completo geodesista.
— Muito bem! Muito bem!
— Por que me faz tantas perguntas Mr. Henry?
— Porque tenho motivos, compreende? O senhor não precisa conhecê-los já. A seu tempo os saberá. Devo, antes de tudo, verificar, sim, verificar, se o senhor atira, realmente.
— Submeta-me à prova.
— É o que tenciono fazer, pode ficar tranqüilo. Amanhã, a que horas começam as suas aulas?
— Às oito.
— Pois bem, espero-o às seis. Iremos à linha de tiro, onde costumo experimentar minhas armas.
— Por que tão cedo?
— Porque não quero esperar mais tempo. Estou ansioso por provar-lhe que o senhor é um greenhorn. Por enquanto, basta! Chamam-me outras obrigações mais importantes.
Parecia haver terminado o cano da espingarda; de uma caixa tirou um ferrinho poligonal, que começou a limar. Notei que o ferro era inteiramente perfurado. Tamanha atenção Mr. Henry empregava nesse trabalho, que a minha presença, ali, parecia passar-lhe despercebida. Seus olhos brilhavam, quando suspendia o ferrinho e o contemplava. Executava o trabalho com verdadeiro carinho. Aquele pedacinho de ferro devia ser de invulgar estimação e eu estava curioso por descobrir a razão disso. Não me contive e interroguei-o:
— Vai transformar esse ferrinho em uma peça de espingarda?
— Sim — respondeu-me, como que lembrando-se de que eu ainda me achava ali.
— Não conheço nenhum tipo de arma que possua essa peça.
— Acredito. Esse tipo está por ser fabricado: Tipo Henry.
— Ah! Uma nova invenção?
— Yes.
— Então desculpe-me, se fui indiscreto. Naturalmente é segredo.
Espiou durante algum tempo por todos os orifícios da peça, mirou-a em todos os sentidos, ajustou-a à parte posterior do cano e, finalmente, respondeu-me:
— Sim, é um segredo, mas que confio-lhe, porque sei que o guardará, embora o senhor não passe de um legítimo greenhorn. Isto vai ser uma espingarda, e uma espingarda de repetição, para vinte e cinco tiros.
— Impossível!
— Cale-se. Não sou tão tolo que me vá entregar a tarefas irrealizáveis.
— Mas, neste caso, devia provê-la de culatras para os vinte e cinco cartuchos.
— Tudo está previsto.
— Mas as suas dimensões não prejudicarão a eficiência da arma?
— É um só recipiente, leve e facilmente manejável. Ei-lo — e mostrou-me o ferrinho.
— Hum! Não entendo do ofício, mas e o calor? Não irá o cano esquentar demasiadamente?
— Não, no material e no preparo do cano é que está o meu segredo. De que se espanta? Acha, por acaso, indispensável detonar sempre os vinte e cinco tiros?
— Dificilmente isso se dará.
— Pois então? Este ferro formará um cilindro, o qual se moverá, excentricamente. Cada um dos vinte e cinco orifícios conterá o mesmo número de cartuchos, de modo que, a cada tiro dado, o cilindro voltará, dando lugar à entrada de novo cartucho no cano. Essa idéia me absorvia há longos anos; não havia forma, entretanto, de chegar a um resultado satisfatório; agora, porém, parece-me que realizei o meu sonho. Como armeiro, já ganhei nome. Agora vou celebrizar-me e ganhar dinheiro, muito dinheiro.
— E, com ele, uma consciência pesada.
Fixou-me, estupefato, por alguns momentos, e disse sublinhando as palavras:
— Consciência pesada? Como?
— Então, o senhor acha que a consciência de um assassino não deve ser pesada?
— Quer significar com isso, que sou um assassino?
— Por enquanto não.
— Ou que vou virar assassino?
— Sim, pois facilitar o assassínio é crime idêntico ao de assassino.
— Diabos o levem! Jamais instigarei um assassínio.
— Um não, muitos, a morte sem conta e em massa.
— Como?! Não o entendo.
— Se o senhor inventa uma arma, com a qual é possível atirar vinte e cinco vezes consecutivas e entrega essa arma às mãos de qualquer indivíduo, não demorará muito que se registre, não só nos sertões como nas montanhas, uma formidável mortandade. Os pobres índios serão abatidos como coiotes1, e, em poucos anos, não existirá um só. Quer então sobrecarregar a consciência com uma responsabilidade assim terrível?
Olhou-me estarrecido, sem pronunciar uma só palavra.
— E, — prossegui — se qualquer homem, a troco de dinheiro, puder adquirir uma dessas armas perigosas, o senhor dentro em breve as venderá aos milhares, mas os rebanhos de búfalos e de poldros selvagens serão dizimados, desaparecendo com eles o
1 Espécie de lobo, que em grande quantidade povoava as campinas do oeste norte-americano.
alimento dos “vermelhos”. Caçadores, às centenas, se armarão com a sua espingarda e demandarão o oeste. O sangue humano, em promiscuidade com o dos animais, correrá em ondas formidáveis e, em breve, aquém e além das Montanhas Rochosas, as terras estarão despovoadas de seres vivos.
— A morte! — exclamou Henry — O senhor, de fato, veio recentemente da Alemanha?
— Sim.
— E nunca havia estado aqui?
— Não.
— E no oeste bravio, também não?
— Não.
— Portanto é um perfeito greenhorn, que fala de boca cheia, como se fosse o bisavô de todos os índios, como se já tivesse vivido milhares de anos. Homem, não julgue que suas palavras me esquentarão o sangue! E, mesmo que tudo fosse, de fato como o senhor pensa, em nada me poderia perturbar a consciência. Nunca me passou pela cabeça instalar uma fábrica de armas. Sou um homem reservado e não tenho têmpera para aturar centenas de operários.
— Mas, para ganhar dinheiro, o senhor poderia tirar patente do seu invento e, depois, vendê-la.
— Não, sir, até agora nada me tem faltado e, de futuro, julgo que também nada me faltará. E, agora, pode retirar-se. Não estou disposto, por hoje, a ouvir mais trinados de passarinhos. Aprenda primeiro a voar, para depois cantar.
Não levei a mal a aspereza das palavras; era do seu temperamento e eu lhe conhecia bem as intenções. Simpatizava comigo e estava inclinado a ajudar-me em tudo que lhe fosse possível. Despedi-me dele e retirei-me logo.
Não podia, então, fazer idéia da importância que para mim ia ter aquela noite, e tampouco do papel saliente que, na minha vida, ia desempenhar a invenção de Henry e a sua pesada espingarda “mata-ursos”.
Para a prova do dia seguinte, estava bem preparado. Havia feito muitos exercícios de tiro e tinha certeza de que me sairia bem.
Pontualmente, às seis horas da manhã, achava-me em casa de Henry. Este já me esperava. Estendeu-me a mão e, sublinhando as palavras com um sorriso irônico, disse:
— Seja bem-vindo, sir! Traz uma fisionomia de vencedor! Espero que acerte no muro de que lhe falei ontem.
— Sim, senhor.
— Bem! Veremos! Levarei uma arma leve e o senhor a espingarda “mata-ursos”.
E, tomando de um rifle de dois canos, deu-me a “mata-ursos”.
Partimos.
Ao chegarmos à linha de tiro, carregou as duas armas e, com o rifle, disparou duas vezes. Era, em seguida, a minha vez. Tinha de atirar com a pesada espingarda, que desconhecia ainda.
Ao primeiro tiro, atingi apenas a margem do círculo que limitava o centro.
No segundo, já me aproximei mais e nenhum dos outros deixou de atingir o ponto negro que assinalava o centro do alvo.
A admiração de Henry crescia, a cada tiro dado.
Novas experiências. Agora, com o rifle. E novo sucesso.
Finalmente, passado o primeiro momento de surpresa, Henry exclamou:
— Sir, ou o senhor tem o diabo no corpo ou nasceu para “homem do oeste”. Não havia ainda visto um greenhorn atirar com tanto acerto. Por que não se faz “homem do oeste”? A carreira não o tenta?
— Por que não?
— Muito bem! Veremos o que se pode fazer desse greenhorn. Cavalga bem?
— Para o gasto.
— Para o gasto? Hum! Então não o faz com a mesma perfeição com que atira?
— Ora? Que tem a equitação de complicado? Montar é mais difícil. Depois de estar em cima, desafio o cavalo que conseguir atirar-me ao chão.
— Realmente, o senhor não se engana: montar é o mais difícil, por que é tarefa sua; cair ao solo é mais fácil, porque disso se encarrega o cavalo.
— Comigo, porém, nenhum cavalo terá esse trabalho.
— Veremos! Está disposto a submeter-se à prova?
— Com prazer.
— Então, venha! São apenas sete horas. Iremos à casa de Jim Korner, o almocreve1. Ele tem um cavalo baio que lhe será posto à disposição.
Voltamos para a cidade e fomos procurar o almocreve. Em casa deste havia um vasto pátio para equitação, rodeado de numerosas baias. Korner atendeu-nos prontamente.
— Este jovem afirma que não existe cavalo capaz de pô-lo fora da sela. Responda-lhe. Que diz o senhor a esse respeito? Permite que ele monte o seu baio?
O almocreve mediu-me de alto a baixo, fixou-me uns olhos perscrutadores, moveu a cabeça, em sinal de aprovação e acrescentou:
— A envergadura me parece boa e bastante elástica. Ademais, os moços não quebram o pescoço tão facilmente. Se o jovem gentleman (cavalheiro) quiser experimentar o meu baio, não me oponho.
Deu as ordens necessárias e, daí a pouco, dois peões traziam pelas rédeas o fogoso animal, que a custo sofreavam.
O velho Henry começava a recear pela minha sorte. Pediu-me que desistisse da prova.
Eu nada temia e considerava aquela prova uma questão de honra. Não acedi. Pedi um chicote, afivelei as esporas e montei, não obstante a resistência do animal.
Mal alcançara a sela, os peões deitaram a correr, abandonando o lugar.
O baio deu dois enormes saltos, para o ar e para o lado, e eu me firmei nos estribos. O baio começou a corcovear e eu a resistir galhardamente. Enfurecido, entrou a galopar em direção da parede; o meu chicote, porém, forçou-o a mudar de rumo. Seguiu-se uma luta tenaz entre cavalo e cavalheiro, no decorrer da qual, várias vezes, me vi em sério perigo. Fiz valer os meus escassos conhecimentos de equitação e mantive-me firme até o fim.
Quando apeei, o cavalo tinha o corpo alagado em suor e arquejava de cansaço. Eu tinha as pernas trêmulas da energia despendida; mas vencera.
O almocreve estava meio apreensivo pela vida do cavalo. Mandou cobri-lo com uma manta. Depois, disse-me:
1- Homem que se ocupa em conduzir bestas de carga; carregador (N. do Digitalizador).
— Não esperava por isto, meu caro jovem. Pensei que, ao primeiro corcovo, o baio o cuspiria da sela. O senhor nada me deve e, se me quisesse fazer um favor, pedir-lhe-ia que voltasse aqui, a fim de terminar o adestramento do animal que, sendo de raça e bem domado, poderá render-me um bom dinheiro; não me importa pagar-lhe bem pelos seus serviços.
— Se quiser, será para mim um divertimento.
Henry ainda não pronunciara uma palavra, depois que eu me apeara. Limitava-se a fitar-me admirado. Depois, a bater palmas, disse:
— Esse greenhorn é extraordinário! Quase matou o cavalo, em vez de bater com os costados na areia. Quem lhe ensinou tudo isso, sir?
— O acaso, que me entregou de uma feita um cavalo austríaco indomável, que ninguém se atrevia a montar. Aos poucos o fui amansando e o adestrei com risco da própria vida.
— Arre! agradeço semelhante esporte! Ainda bem que tenho a minha poltronazinha estofada, que jamais protesta, quando nela me sento. Bem, vamo-nos embora. Fiquei tonto. Mas não foi em vão que o vi atirar e fazer exercícios de equitação; disso pode estar convencido; não foi debalde, não.
Separamo-nos. Por alguns dias o velho não me apareceu, nem tive oportunidade de procurá-lo. Uma tarde que ele sabia ser de folga para mim, voltou a visitar-me.
— Vamos dar um passeio?
— Aonde?
— À casa de uns gentlemen que desejam conhecê-lo.
— A mim? E por quê?
— Ora! Essa é boa! Então o senhor não sabe? Porque eles nunca viram um greenhorn. Está aí.
— Bem, iremos. Assim me conhecerão.
Henry apresentava um semblante tão manhoso, que logo desconfiei de alguma surpresa.
Fomos. Percorremos diversas ruas e, afinal, chegamos a um escritório, ao qual dava acesso uma porta de vidro. Henry penetrou ali tão apressadamente, que não pude ler bem os letreiros dourados da porta de vidro. Apenas pude distinguir as palavras: Office e surveying. Logo após, vi que não me enganava.
Fomos recebidos por três cavalheiros, que me trataram com muita cortesia, se bem que não pudessem disfarçar a curiosidade que eu lhes despertava. Sobre a mesa viam-se mapas e plantas juntamente com toda a espécie de instrumental topográfico. Achavamo-nos dentro de um gabinete de Geodésia. Não podia perceber o objetivo do meu amigo nessa visita. Nenhuma encomenda tinha a fazer, nenhuma informação a pedir. Logo devia ter sido levado ali pelo prazer de palestrar cordialmente. E isso não tardou a suceder, girando a conversa sobre os objetos ali expostos. Folguei com isso, porque podia tomar parte mais ativa na palestra, pois era um assunto que eu conhecia melhor do que homens, coisas e acontecimentos norte-americanos, dos quais nunca ouvira falar.
Nesse dia, Henry parecia interessar-se extraordinariamente pela geodésia; deixei-me arrastar, por tal forma, que não cessava de falar, respondendo às perguntas dos cavalheiros presentes, discriminando os instrumentos e o seu uso, descrevendo as plantas e os desenhos que se achavam sobre a mesa. Na verdade, eu era um perfeito greenhorn, visto não ter descoberto logo o intuito daquelas perguntas. Só depois que falei sobre a natureza e diferenciações dos levantamentos por meio das coordenadas polares e das diagonais, das medidas perimétricas, do cálculo das repetições trigonométricas, foi que os senhores fizeram disfarçadamente um sinal de aprovação ao armeiro e eu percebi então ao que fora levado. Levantei-me logo, a fim de convidar Henry para nos retirarmos. Despedimo-nos dos cavalheiros, que nos tratavam agora com mais cordialidade ainda, do que de começo. A certa distância do escritório, Henry parou e, pondo-me a mão sobre o ombro, disse-me com fisionomia cheia de satisfação:
— Mas, sir, jovem, homem, cavalheiro, enfim greenhorn, que grande alegria proporcionou-me hoje! Estou verdadeiramente orgulhoso!
— Por quê?
— Porque se conduziu belamente, diante daqueles senhores; foi além da minha expectativa.
— Expectativa? Não compreendo.
— Também não é necessário. O caso é, porém, bem simples. O senhor há dois dias falou-me que entendia alguma coisa de geodésia; para certificar-me disso, conduzi-o à presença desses senhores, que são bons camaradas meus, para que o examinassem. Saiu-se galhardamente do exame.
— Pelo que se conclui, Mr. Henry, o senhor duvidou da minha palavra e se tal fato se repetir, não o visitarei mais.
— Não faça isso, não se torne ridículo. Então não vê que simpatizo com o senhor, pela sua semelhança com meu filho? Tem ido ao almocreve?
— Diariamente, pela manhã.
— Como vai o baio?
— Vai bem, está ficando domado; receio, apenas, que aquele que o comprar não se vá dar tão bem com ele quanto eu. O animal habituou-se muito comigo e não aceita outro cavaleiro.
— Folgo, folgo muitíssimo com isto; então, ao que parece, o cavalo só serve para greenhorns. Vamos até aquela rua. Conhece aquele dining-house, lá do outro lado, onde se janta bem e se bebe ainda melhor? Pois o exame prestado hoje pelo senhor com tanto brilho vai ser, agora, ali festejado.
Não podia compreender a Henry. Como estava mudado! Um homem taciturno e retraído jantar num restaurante! A sua fisionomia se transformara e a própria voz tomara um timbre mais claro e alegre do que antes. Exame, dissera ele. Ouvia essa palavra sem dar-lhe a menor significação.
A partir desse dia, Henry visitava-me diariamente e tratava-me como a um amigo que receia perder dentro em pouco. Entretanto, não me deixava por muito tempo orgulhoso desta preferência. Procurava sempre abafar o meu entusiasmo com a palavra greenhorn.
E, coisa singular, agora, tanto os meus alunos como os seus pais, demonstravam-me mais consideração. Surpreendia-os, fixando-me olhares discretos, os quais eu não compreendia; mas a sua expressão parecia de carinho e de pena.
Cerca de três semanas depois de nossa visita ao escritório de engenharia, a mãe de meus alunos pediu-me que não saísse aquela noite, pois estava convidado a jantar com a família. O jantar, segundo me disse, era motivado pela visita de Mr. Henry e de dois gentlemen, dos quais um se chamava Sam Hawkens e era um afamado homem do oeste. Como greenhorn nunca ouvira pronunciar tal nome, mas regozijava-me intimamente pela oportunidade que se me oferecia de conhecer um autêntico e até afamado caçador e explorador das campinas.
Como era de casa, não precisava esperar o toque da sineta e, um pouco antes da hora marcada, dirigi-me para a sala de jantar. Ali chegado, notei, com surpresa, que a sala estava preparada, não para um jantar comum, mas para uma grande festa. A pequena Emy estava só na sala. Surpreendi-a com o dedo na compota de morangos.
Ao avistar-me, abandonou a compota e olhou-me assustada, e mais ainda se assustou ante o olhar de severa censura, com que a fitei. Correu ao meu encontro e, para recuperar a minha estima, passou a contar-me os segredos dos últimos dias que, — dizia ela — muito a entristeciam. Depois, percorrendo, com olhar pesaroso, a sala toda, disse: Your farewell feast (sua festa de despedida). Pareceu-me havê-la entendido mal; mas a menina repetiu a frase: Your farewell feast.
O jantar da minha despedida? Impossível! Provavelmente a pequena interpretara mal alguma frase ouvida aos adultos. Ouvi vozes na sala de visitas; eram os convidados que chegavam. Chegavam três ao mesmo tempo, conforme combinação prévia, o que mais tarde soube. Henry apresentou-me um jovem aparentemente desconjuntado, como sendo Mr. Black; depois, Sam Hawkens, o homem do oeste.
O homem do oeste! Confesso que, quando lhe lancei um olhar admirado, tive uma decepção. Semelhante figura jamais havia eu visto. Mais tarde, é verdade, vim a conhecê-lo melhor e a julgá-lo com mais justiça. Só a figura já despertava a atenção: imagine-se que este homem comparecia a uma festa, na casa de uma família de distinção, envergando os mesmos trajes, que devia usar no oeste bravio, na caçada de búfalos, ursos, etc.! Conservou o chapéu na cabeça e a espingarda na mão, durante a apresentação. Debaixo das abas do largo chapéu de feltro, cuja cor e cuja forma bastariam para tirar o sono ao mais perito pesquisador de antiqualhas, dentre uma densa floresta de desalinhadas barbas negras, irrompia assustador um nariz colossal. A densidade da barba, além do formidável nariz, nada mais deixava ver senão os dois olhos pequenos, inteligentes e perscrutadores, que me fixavam com visível curiosidade. Ele contemplava-me com a mesma curiosidade com que eu admirava a sua figura exótica. Mais tarde vim a saber o motivo por que tanto se interessava por mim.
Aquela cabeça esquisita encimava um corpo não menos estranho. Descia-lhe até os joelhos um jaquetão de caça, destinado, sem dúvida, a uma pessoa muito mais corpulenta. O nosso homem dava a impressão de uma criança enfiada no camisão de dormir do avô. Completavam-lhe a indumentária excêntrica umas calcinhas muito curtas e muito apertadas, que lhe faziam ressaltar o cambotismo das pernas; e um par de botas indianas, nas quais o dono, em qualquer emergência, poderia encontrar esconderijo seguro. Não me animaria a tocar a sua espingarda, senão com extremo cuidado. Mais parecia valente porrete do que arma de fogo. Era impossível imaginar-se uma mais completa caricatura do caçador das campinas. No entanto, não tardou o dia em que viesse a conhecê-lo bem!
Depois de olhar-me detidamente, perguntou ao armeiro, com um tom de voz infantil:
— É este o jovem greenhorn, do qual o senhor me havia falado, Mr. Henry?
— É.
— Bem. Não me desagrada. Faço votos que Sam Hawkens lhe agrade também, hihihi!
Com essa risadinha original, que eu haveria de ouvir milhares de vezes, ele se dirigiu para a porta que no momento se abria, dando passagem aos donos da casa. Estes cumprimentaram o caçador das campinas em tom que revelava certa intimidade. Em seguida, convidaram-nos a passar para a sala de jantar.
Obedecemos todos e com surpresa minha, vi que Sam Hawkens se dirigia para a sala de chapéu na cabeça e espingarda na mão! Só depois de tomarmos os lugares indicados foi que, referindo-se à sua espingarda, à guisa de escusa, nos disse:
— Um verdadeiro homem do oeste nunca perde de vista a sua arma!
E à espingarda:
— Ficarás aí dependurada à porta, minha brava e querida Liddy.
Liddy era a espingarda. Mais tarde vim a saber que era costume de muitos exploradores das campinas darem nome às armas como a um ser animado. Dizendo aquelas palavras, o caçador dirigiu-se para a porta, dependurou a arma e junto dela deixou o chapéu. Fiquei, então, atônito ao ver que a cabeleira basta não lhe pertencia, mas que estava presa ao chapéu. Era de assustar o aspecto que apresentava a sua cabeça calva e vermelha como sangue. A senhora deu um grito e as crianças começaram a chorar amedrontadas. Ele, porém, não se perturbou e, voltando-se para nós, disse calmamente:
— Não se assustem; não é nada! Usei os meus próprios cabelos, desde criança, com todo o orgulho, até que uma dúzia de índios pawnes um dia arrancaram-mos todos juntamente com o couro. Quase desesperei da sorte, mas sou forte, conformei-me, hihihi! Fui, depois a Tekama, onde comprei esta peruca que me custou bom dinheiro. Não faz mal, porque os cabelos postiços são muito mais práticos do que os que perdi, principalmente no verão. Posso retirá-los quando suo, hihihi!
Acabou de arranjar o chapéu ao lado da espingarda, desprendeu a peruca e colocou-a de novo na cabeça. A seguir, despiu, o jaquetão, que colocou sobre uma cadeira. O jaquetão fora consertado inúmeras vezes. Ostentava remendo sobre remendo, de modo que se tornara tão duro que talvez nem a seta de um índio seria capaz de atravessá-lo.
Agora, podíamos observar bem as suas pernas finas. Exibia à cinta uma faca comprida e duas pistolas. Quando retomou o lugar, em sua cadeira, perpassou um olhar pelos presentes, começando por mim e disse:
— Mag. Mylady, não seria melhor, antes de iniciarmos a refeição, expormos a esse greenhorn o motivo por que estamos aqui? Se não me engano...
Suspendeu a frase e a dona da casa, dirigindo-se a mim e apontando para o mais novo dos convivas, falou:
— O senhor talvez ainda não saiba que Mr. Black é o seu sucessor nesta casa.
— Meu sucessor? — murmurei tomado de espanto.
— Sim, como hoje festejamos a sua partida, fomos obrigados a admitir outro preceptor para nossos filhos.
— Minha partida?!
Lamento hoje que não me houvessem fotografado naquele momento, porque deveria encarnar a personificação da surpresa.
— Sim, sua partida, sir — respondeu-me ela com um sorriso bondoso nos lábios, e acrescentou:
— Sentimos imensamente a sua partida; nós todos lhe queremos muito bem; por isso mesmo, não desejamos cortar-lhe a carreira, opondo embaraços à sua felicidade, que desejamos com fervor; os nossos melhores votos hão de acompanhá-lo. Em nome de Deus, o senhor encetará a viagem amanhã.
— Encetar viagem?! Amanhã?! Para onde?!
Nessa altura Sam Hawkens, que se achava a meu lado, bateu-me no ombro e disse rindo-se:
— Para onde? Para o oeste bravio, comigo. O senhor foi aprovado no exame com brilhantismo, hihihi! Os outros agrimensores seguem amanhã, a cavalo, e o senhor terá de acompanhá-los infalivelmente; eles não podem esperar pelo senhor. Eu e Dick Stone fomos contratados para guias. Subiremos, acompanhando o curso do rio Canadian até chegarmos ao Novo México. Penso que o senhor não quererá permanecer aqui como um greenhorn!
Só então abri os olhos. Tudo isso fora negócio arranjado. Agrimensor, talvez para a construção da nova e grande estrada de ferro planejada. Que boa idéia! Não fora preciso empenhar-me. Henry esclareceu-me.
— Já lhe disse a razão por que lhe quero bem. O senhor está aqui em casa de gente muito boa, não há dúvida, mas a profissão de preceptor não condiz com um jovem de sua têmpera, a quem o destino reserva tarefas muito mais importantes. O senhor terá de ir para o oeste. Assim sendo, dirigi-me a Atlantic and Pacific Company solicitando que o submetesse a exame, sem que o senhor o soubesse. Foi aprovado. Eis o contrato.
Entregou-me o documento. Quando vi nele inscrito o meu ordenado, mal me contive de espanto.
Ele, porém, prosseguiu:
— Todos irão a cavalo. O senhor precisará, portanto, de um bom animal. Comprei o baio. É seu, dou-lhe de presente. O senhor precisa também de armas. Vou presentear-lhe a minha “mata-ursos”, a espingarda pesada, que, para mim, já não tem serventia, ao passo que o senhor com ela atinge o alvo máximo. Que diz de tudo isso, heim?
Quis balbuciar algumas palavras, opondo-me a todas essas gentilezas, e não consegui. Aquela boa gente estava resolvida a fazer-me feliz e a minha resistência os teria magoado profundamente.
A dona da casa tomou novamente lugar à mesa e nós a acompanhamos. Jantamos e não se falou mais no assunto.
Só após o jantar, recebi maiores esclarecimentos. A estrada de ferro em projeto, partiria de S. Luís, atravessaria os territórios Indianos, o Novo México, Arizona e Califórnia, até a costa do Pacífico. Resolvera-se explorar e medir todo esse enorme trecho por seções isoladas. A seção que coube a mim e a mais três agrimensores e um engenheiro-chefe estava situada entre as nascentes do rio Pecos e o sul do rio Canadian. Os três competentes guias, Sam Hawkens, Dick Stone e Will Parker, estavam encarregados de nos conduzir ao local referido, onde uma legião de exploradores e homens do oeste zelariam pela nossa segurança. Além disso, o nosso acampamento e nós mesmos, individualmente, estávamos aparelhados para a defesa. Cumpria-me, agora, apresentar-me aos meus colegas, que moravam na casa do engenheiro-chefe. Para lá rumei, em companhia de Henry. Fui recebido com todo o cavalheirismo. Sabiam que tudo para mim fora surpresa, por isso, perdoaram-me de bom grado o ter-me apresentado tarde. Feitas as despedidas à família com a qual convivera durante alguns meses, encaminhei-me para a casa de Henry. Percebendo que lhe vinha trazer os meus agradecimentos, interrompeu-me logo às primeiras palavras, sacudindo-me os braços e dizendo-me ao seu estilo simples e rude:
— Cale-se! Fiz tudo isso apenas para mandá-lo ao oeste e, assim, dar serviço à minha “mata-ursos”. Se o senhor voltar, procure-me para contar-me as suas aventuras. Então veremos se ainda será o que é hoje: um greenhorn, conforme demonstra.
Dizendo isso, me foi empurrando porta fora, sem maiores formalidades. Mas, quando me achava já na rua e antes de ser fechada a porta, vi que lhe brilhavam lágrimas nos olhos.
Klekih-pêtra
O lindo outono norte-americano já nos anunciava o seu termo; havia três meses que entráramos em atividade, porém não nos fora possível ainda concluir a nossa tarefa, embora as demais seções, medidos os trechos, iniciassem já, entre expansões de júbilo, a viagem de regresso.
Dois motivos retardaram nossos trabalhos. O primeiro estava nas dificuldades topográficas da zona a nós confiada.
Dois traçados para a via férrea nos haviam sido apresentados: um deveria atravessar as campinas, seguindo o curso do rio Canadian; o outro iria até as nascentes deste rio, partindo de Novo México e atravessando vales e precipícios. Como a nossa seção estava situada entre o Novo México e o Canadian, tínhamos que escolher dessas duas direções a mais favorável para a estrada projetada. Éramos forçados, pois, a intermináveis explorações dos terrenos, a medições comparativas, etc., o que nos custava muito tempo. Acrescentem-se a essas dificuldades todas, as decorrentes de nos acharmos em zona muito perigosa, onde perambulavam tribos de comanchos, kiowas e apaches, que consideravam como inimigos mortais, quantos tratassem de construir estradas pela zona, que pensavam ser de sua propriedade. Devíamos ser precavidos para que os peles-vermelhas não nos surpreendessem no serviço, e essa circunstância já de si muito contribuía para a morosidade dos trabalhos.
Para despistar os índios, éramos forçados a não nos alimentarmos de caça e tudo nos era trazido de Santa Fé, em carroças puxadas a bois. Infelizmente esse meio de transporte não era seguro e, não raro, tínhamos de retardar os trabalhos à espera do que nos era enviado.
O segundo motivo baseava-se na maneira como foi organizada a nossa seção. Disse, linhas acima, que, em S. Luís, eu fora recebido cavalheirescamente pelo engenheiro-chefe e pelos três agrimensores. Realmente, a impressão que tivera desses senhores levou-me a crer no mais completo êxito da nossa tarefa; cedo, porém, percebi que me havia enganado. Meus colegas eram ianques autênticos, que em mim viam apenas o alemão inexperiente, o greenhorn. Dominados pela ânsia de ganhar dinheiro, não se preocupavam com o cumprimento exato e consciencioso dos seus deveres. Como alemão honrado, constituía eu um entrave à sua ambição. Daí a razão de haverem logo surgido hostilidades contra mim. Não dei importância a esse fato e procurei cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Demais, nao tardou muito que verificasse serem muito medíocres os conhecimentos geodésicos de meus colegas. Encarregavam-me dos trabalhos mais sérios e difíceis e levavam vida tranqüila e feliz, entregando-se, tanto quanto possível, a um dolce far niente. Nada tinha eu a opor contra isso, pois a minha concepção da vida é esta: tanto mais forte se torna o homem, quanto mais possa produzir.
Mr. Bancroft, o engenheiro-chefe, o mais competente dos meus companheiros, era em excesso amigo do álcool. Tinham chegado uns barris de aguardente, procedentes de Santa Fé e, desde então, usava mais essa bebida do que os aparelhos topográficos. Sucedia, mesmo, ficar ele horas a fio, estendido no solo, completamente desacordado. Os agrimensores Riggs, Marcy e Wheeler alcoolizavam-se também, para não serem lesados, segundo diziam, pois, como o chefe, haviam contribuído pecuniariamente para a compra daquela bebida. Era um verdadeiro desafio. Chefe e auxiliares trabalhavam sempre com o cérebro perturbado pelos vapores alcoólicos.
Assim, era eu o único a trabalhar com regularidade, enquanto os outros se alternavam nas bebedeiras e nos sonos prolongados, em honra de deus Baco.
Wheeler era um pouco mais consciencioso e reconhecia que eu trabalhava pelos demais, sem obrigação alguma. Não há dúvida que, desse modo, a boa marcha dos trabalhos era grandemente prejudicada.
Quanto aos restantes membros da seção, também muito deixavam a desejar. Ao chegarmos ao acampamento, encontramos doze homens do oeste, os quais aguardavam a nossa vinda. De início, como novato que era, tive-os em muito alta conta; bem depressa, porém, reconheci que estávamos escoltados por indivíduos de baixa condição moral.
Cabia-lhes zelar pela nossa defesa e auxiliar-nos em todos os trabalhos de medição. Felizmente durante três meses, nada ocorreu de anormal e não me foi preciso apelar para os seus serviços; e quanto ao auxílio que nos deviam prestar nas medições, posso aqui asseverar, sem receio de cometer injustiça, que a nossa seção se transformara na sinecura dos doze maiores vadios dos Estados-Unidos.
Imagine-se em que condições deploráveis marchava a disciplina no acampamento.
Como engenheiro-chefe, Bancroft era o responsável por tudo. De fato, ele procurava agir com energia, mas não era obedecido. Suas ordens eram desacatadas, todos o ridicularizavam e ele então se limitava a blasfemar, como raro tenho visto um homem fazer; dirigia-se ao barril de aguardente e, ali, “afogava” a sua cólera. Riggs, Marcy e Wheeler não agiam de modo muito diverso. Pelo exposto, veêm que a mim competia arvorar-me em chefe de serviço. E o fiz de fato; fi-lo, porém, de modo imperceptível para os demais. Jovem e inexperiente como era, devia agir cautelosamente, sob pena de não ser obedecido pelos que me cercavam. Se cometesse a imprudência de tomar a direção do acampamento, com maneiras autoritárias, os meus esforços se tornariam infrutíferos, expor-me-ia ao ridículo e a desobediência não tardaria a se fazer sentir. Procedi, pois, com a máxima habilidade, fazendo-lhes crer que agiam por si mesmos. Habituaram-se a essa autoridade suave, a mim se dirigiam dezenas de vezes por dia, atuavam sob a influência de minhas ordens, no entanto continuavam a me chamar greenhorn.
Na execução desse meu programa, eu era poderosamente prestigiado por Sam Hawkens e seus dois companheiros, Dick Stone e Will Parker. Eram três experimentados, inteligentes e sinceros homens do oeste; tão excelentes qualidades não havia reconhecido em Sam, naquele nosso primeiro encontro em S. Luís. Seus nomes eram respeitados em todo o oeste. Procuravam sempre o meu convívio, retraindo-se dos outros; procediam, porém, habilmente para que não se melindrassem. Sam Hawkens, apesar da sua singularidade humorística, contribuiu sobremodo para que minhas ordens fossem cumpridas pelos trabalhadores, que muito o respeitavam.
Assim criou-se entre nós uma situação que eu desejaria classificar de suseranidade. Tomou-me sob sua proteção, sem que para isso pedisse o meu prévio consentimento. Eu era o greenhorn, ele, o experimentado homem do oeste, cujas palavras e ações para mim deviam ter a força da infalibilidade. Nas horas de descanso, ministrava-me lições teóricas a respeito do que é necessário saber e conhecer, quando se viaja e explora o oeste bravio. Foi o meu professor do curso preparatório, como, mais tarde, Winnetou seria o meu mestre do curso superior! Chegou a fazer um laço e com ele exercitava-me, servindo-me, ele próprio e o seu cavalo de alvo. Em breve tornei-me hábil na arte de laçar; a minha laçada dificilmente deixava de atingir o alvo e isso constituía indizível satisfação para Sam Hawkens.
— Bravo, meu jovem sir! Muito bem! — dizia ele. — Entretanto, não se vanglorie desse elogio! Um mestre-escola tem o dever de estimular o mais atrasado dos seus alunos; já fui professor de muitos jovens exploradores do oeste e todos eles aprenderam a atirar o laço mais facilmente que o senhor. No entanto, se continuar os exercícios com essa sofreguidão, é possível que daqui a uns seis ou oito anos, não lhe chamem mais greenhorn. Até lá, porém, terá de se consolar com o ditado: muitas vezes o tolo consegue o mesmo, e até mais, do que o homem sensato!
Ele me fazia tal preleção com aparente serenidade e eu a ouvia do mesmo modo; no entanto, percebia que sua opinião era bem oposta. Bendizia a cada momento as instruções de Sam Hawkens; deixara-me absorver inteiramente pelos trabalhos de minha profissão e se não fora ele, não me teria exercitado no que necessitava saber como caçador das campinas. Esses exercícios eram feitos secretamente, em lugar tão distante do acampamento, que nenhum dos companheiros nos podia observar. Assim o queria Sam e quando, uma vez, o interroguei sobre a causa dessa medida, respondeu-me:
— É uma prova de simpatia, sir. O senhor é tão inábil, que eu me envergonharia até o fundo d’alma, se os outros assistissem aos seus desastrados exercícios, hihihihi!
A consequência disso é que os companheiros, no que respeitava ao manejo de armas e adestramento físico, não confiavam em mim; tal circunstância, porém, nem de leve me aborrecia.
Apesar de todos os contratempos, os nossos trabalhos, haviam avançado de tal modo, que dentro de uma semana poderíamos ter ligação com o acampamento próximo. A fim de avisá-lo teríamos de expedir um escoteiro. Bancroft declarou que essa viagem ele próprio desejava fazê-la e que levaria consigo um dos nossos homens do oeste, como guia. Não era a primeira vez que nos comunicávamos com as demais seções; o contato havia sido constante, tanto com a seção da retaguarda como com a da vanguarda, por meio de estafetas que elas nos enviavam, o que provava a atividade dos engenheiros que as dirigiam.
Bancroft determinara a sua partida para a madrugada de um domingo. Achou, porém, indispensável promover, na véspera, uma bebedeira em sua despedida, para a qual convidara todos os companheiros, menos a mim. Hawkens, Stone e Parker não atenderam ao convite, ficando a meu lado. Como eu havia previsto, a bebedeira se prolongou até pela madrugada e o engenheiro-chefe com seus auxiliares, completamente embriagados, adormeceram na relva, abrigados pelas moitas. Nem mais podíamos cogitar da viagem projetada. Agora, que fazer? O emissário devia seguir e aquela gente, na melhor das hipóteses, dormiria até o entardecer. Melhor seria que eu empreendesse a viagem. Mas, pensava: seria conveniente que eu me afastasse do acampamento? É certo que no meu regresso, daí a uns dias, o serviço estaria ainda no mesmo pé, porque, na minha ausência, ninguém trabalharia. Sobre isso trocava idéias com Sam Hawkens, quando este, mostrando-me alguém que aparecia na direção do oeste, disse:
— Já não é necessária a sua viagem. Pode enviar o recado por aqueles cavaleiros que lá vêm.
Seguindo com a vista a indicação dada, vi dois homens a cavalo que de nós se aproximavam. Eram brancos. Num deles reconheci um velho escoteiro, que já estivera algumas vezes no acampamento, trazendo-nos notícias das seções coirmãs. A seu lado cavalgava um homem, ainda moço, que não se vestia como um homem do oeste. Nunca o vira. Fui a seu encontro; quando os alcancei, fizeram parar os cavalos e o desconhecido perguntou-me quem era. Quando lhe declinei o meu nome, ele contemplou-me com um olhar que era tão amável quanto perscrutador, e disse-me:
— Ah! O senhor é o jovem alemão que aqui trabalha, enquanto os demais levam boa vida! Saberá quem sou. Chamo-me White.
Era o chefe da próxima seção, para onde ia ser enviada a mensagem. A sua vinda ao nosso acampamento devia ter um motivo. Apeou-se, estendeu-me a mão e olhou ao redor, dando com Bancroft e seus companheiros, que dormiam entre as moitas. Abriram-se-lhe os lábios, num sorriso que mais tinha de irônico que de amável.
— Estão embriagados? — perguntou-me ele.
Acenei com a cabeça afirmativamente.
— Todos?
— Sim. Mr. Bancroft devia hoje empreender viagem até o seu acampamento e festejou, ontem, a despedida, oferecendo aos companheiros um copo de aguardente. Mas... eu vou chamá-lo e...
— Não vá — interrompeu ele. — Deixe-os dormir! Folgo em poder falar-lhe sem ser ouvido. Retiremo-nos um pouco e não os despertemos. Quem são aqueles três homens que, há pouco, estavam a seu lado.
— Sam Hawkens, Will Parker e Dick Stone, nossos escoteiros de confiança.
— Ah! Hawkens, o singular caçador do oeste. Bom homem; já ouvi falar dele. Os três podem acompanhar-nos.
Com um aceno, chamei os três companheiros para junto de nós, depois disse:
— Mr. White, deve ser algo importante o que o traz aqui pessoalmente.
— Nada mais do que certificar-me dos serviços da seção vizinha e o desejo de falar-lhe. Os trabalhos da nossa seção estão concluídos. Aqui, creio que não os terminaram.
— O terreno acidentado que nos foi confiado e as dificuldades que encontramos nas medições devido a tais acidentes, são as causas da morosidade dos trabalhos e eu poderia...
— Compreendo, compreendo — interrompeu-me Mr. White. — Infelizmente, sei de tudo. Se o senhor não houvesse trabalhado por três, Bancroft ainda estaria acampado onde iniciou o serviço.
— Não é exato, Mr. White, e não sei como poderia ter chegado a tão errônea conclusão; não fui só eu quem trabalhou neste acampamento; é verdade que o meu dever...
— Cale-se, sir, cale! Entre a sua e a minha seção eram constantemente movimentados os escoteiros; interroguei-os sobre o que aqui se passava, sem que o senhor o soubesse. Mostra muita elevação de caráter, tomando, neste momento, a defesa daqueles ébrios; mas, quero ouvir a verdade, doa a quem doer. Já que a sua nobreza dificulta o meu objetivo, desisto de falar-lhe, vou interrogar Sam Hawkens. Sentemo-nos!
Encaminhamo-nos para a nossa tenda. Ele sentou-se sobre a grama e nós fizemos o mesmo. Em seguida, começou o visitante a interrogar Sam Hawkens, Stone e Parker, os quais tudo relataram, sem deturpar a verdade dos fatos; aqui e ali eu procurava tomar parte na palestra, argumentava, tentava, enfim, suavizar as fortes acusações por eles feitas aos meus colegas agrimensores, mas vi logo que esses apartes nenhum efeito produziam na opinião de Mr. White. Ao contrário, várias vezes obrigou-me ao silêncio, fazendo-me ver que as minhas palavras não modificariam a sua maneira de pensar.
Depois de haver ouvido tudo, ordenou que lhe exibisse os desenhos e o diário do acampamento. Eu não estava obrigado a obedecer-lhe; atendi-o, porém, porque do contrário, sentir-se-ia ofendido; além disso, estava certo de suas boas intenções para comigo. Mr. White examinou tudo minuciosamente e com visível interesse; por fim, não pude negar-lhe haver sido eu o único desenhista e redator, pois dos companheiros não havia nos desenhos um só risco e no livro uma só letra.
— Mas, nesse diário não se pode aquilatar a atividade de cada um dos engenheiros isoladamente. O senhor avançou demais no seu provável espírito de coleguismo.
Hawkens com a fisionomia astuta, atalhou-o:
— Mr. White, examine-lhe o bolso do jaquetão! Ali está uma lata vazia de sardinha onde estão colocados alguns papéis que constituem, se não me engano, o seu diário particular e que está redigido de maneira bem diferente desse outro que acaba de ler e no qual encobre ele a indolência dos colegas.
Sam sabia que eu fizera desenhos e anotações particulares e que os guardava no bolso do jaquetão. Aborreci-me de sua tagarelice. White pediu-me que lhe mostrasse esses documentos. Que havia de fazer? Por acaso os meus colegas mereceriam que por eles me sacrificasse, se nem gratos se mostravam a tudo isso e, mais ainda, procuravam tudo ocultar? Não! Não desejava prejudicá-los, mas também não devia ser descortês com Mr. White. Entreguei-lhe, pois, o meu diário, com a condição de nunca falar dele a ninguém. Leu tudo e devolveu-mo, dizendo:
— De justiça cabia-me levar este diário comigo e entregá-lo a quem devia julgar. Os seus colegas são homens incapazes e não deveriam receber um só dólar que fosse de honorários ou ajuda de custa. Ao senhor, porém, deveria ser pago o triplo do que percebe. Enfim, seja como quer. Um conselho, porém, lhe darei: guarde esse diário particular, porque mais tarde lhe será muito útil. Bem, agora vamos acordar esses grandes homens! Levantou-se e procurou fazer ruído. Os homens saíam de trás das moitas; tinham os olhos injetados e a fisionomia de ébrios. Bancroft quis mostrar-se grosseiro porque os haviam despertado. Tornou-se, porém, cortês, quando o cientifiquei de que Mr. White, o engenheiro-chefe da seção vizinha, estava no acampamento. Não se conheciam, pessoalmente, e, após os cumprimentos, Bancroft ofereceu a White um copo de aguardente; foi infeliz. White recusou energicamente o oferecimento e valeu-se do ensejo, para iniciar uma censura ao procedimento do nosso chefe, que, ao que parece, nunca ouvira, em toda a sua vida, palavras tão severas. Bancroft, surpreso, ficou por alguns instantes a ouvir o libelo, sem pronunciar uma só sílaba. Por fim, tomando bruscamente, pelo braço, aquele que tão francamente o acusava, bradou-lhe:
— Senhor, quer dizer-me e já, como se chama?!
— Chamo-me White; já lhe foi dito há pouco.
— E quem é o senhor?
— Engenheiro-chefe da seção vizinha.
— Alguém dos senhores tem jurisdição sobre nós outros?
— Penso que não.
— E então? Chamo-me Bancroft e sou engenheiro-chefe desta seção. Não recebo ordens de ninguém e muito menos do senhor, Mr. White.
— É verdade que somos funcionários da mesma categoria — respondeu-lhe este. — Não estamos obrigados a receber ordens um do outro. Mas, considero grave obrigação que assiste a qualquer de nós, reconhecendo que alguém está a prejudicar os interesses da empresa para a qual trabalhamos, censurá-lo e chamá-lo ao caminho do dever. Sua tarefa aqui parece estar mais junto ao barril de aguardente do que na estrada a demarcar. Há duas horas, quando aqui cheguei, pude contar entre engenheiros e trabalhadores, dezesseis pessoas embriagadas e, assim...
— Há duas horas, — interrompeu-lhe bruscamente Bancroft — então já está há tanto tempo aqui?
— Sim, senhor! Examinei os levantamentos e demais papéis e verifiquei quem os fêz. Aqui parece estar a verdadeira terra da promissão. Enquanto um homem, o mais jovem de todos, sozinho produz todo o trabalho que aí está, os senhores se entregam à indolência e embriaguez. É vergonhoso!
Nesta altura, Bancroft, irado, dirigiu-se a mim.
— O senhor e não outro foi quem lhe contou isso. Negue agora mentiroso, vil traidor!
— Não — respondeu White — Esse jovem colega portou-se como cavalheiro e para os senhores só teve referências elogiosas. Defendeu-os e eu o aconselho a pedir-lhe desculpas por lhe ter dirigido palavras ofensivas.
— Eu pedir-lhe desculpas?! É só o que faltava! — respondeu Bancroft, rindo-se com sarcasmo. — Esse greenhorn que nada sabe, que não estabelece diferença entre um triângulo e um quadrado, tem a pretensão de ser agrimensor. Não progredimos nas medições, porque o seu trabalho era quase inútil, obrigando-nos a perdas de tempo com corrigendas e ratificações; e agora, em lugar de reconhecer a sua incompetência, calunia-nos perante o senhor, assim...
Não pôde prosseguir. Tivera já muita paciência e deixara aqueles camaradas durante muito tempo formar de mim o juízo que bem lhes aprouvesse. Chegara, porém, o momento de provar-lhes que estavam enganados. Tomei Bancroft pelo braço, apertei-o tão violentamente, que o forcei a interromper a frase e disse-lhe:
— Mr. Bancroft está alcoolizado, não descansou o suficiente. Admitindo, pois, que esteja ainda ébrio, perdôo-lhe as palavras ofensivas que me dirigiu.
— Eu embriagado? Está, certamente, fora de si para pensar assim.
— Sim, senhor! Em-bri-a-ga-do! Se assim não fosse e se refletidamente houvesse pronunciado aquelas palavras, ver-me-ia obrigado a reagir. Ouça-me bem! Atreva-se, agora, a negar novamente o seu estado de embriaguez!
Eu o segurava, ainda fortemente, pelo braço; sem dúvida, nunca pensara ele em temer o greenhorn; não era homem fraco, entretanto, notara a expressão severa do meu semblante e achava-se intimidado; pude ler-lhe na fisionomia. Não queria confirmar que se achava alcoolizado e não se atrevia a sustentar a imputação que há pouco me fizera. Apelou, pois, para a proteção dos doze homens do oeste que serviam no acampamento, bradando:
— Mr. Rattler, os senhores consentem que este homem me agrida? Não estão aqui para cuidar de nossa defesa?
Rattler era um homem corpulento e de muita força, indivíduo de maus instintos, o melhor companheiro de Bancroft nas bebedeiras. Não me apreciava e, portanto, foi com satisfação que viu chegar o momento de manifestar-me a sua hostilidade. Correu em direção a mim, segurou-me pelo braço, tal qual eu segurava o de Bancroft e respondeu:
— Não. Jamais consentirei, Mr. Bancroft! Esse criançola nos pretende ameaçar e difamar. — Solte já Mr. Bancroft, menino, do contrário lhe mostrarei que formidável greenhorn é.
Dirigia-me essa intimação ao mesmo tempo que me sacudia o braço. Folguei com isso. Agradava-me esse adversário; convinha-me mais do que Mr. Bancroft, porque era mais forte. Bruscamente, desprendi os meus braços de suas mãos e respondi-lhe:
— Eu, um menino, um greenhorn? Repita isso, Mr. Rattler, e já; do contrário atiro-o ao solo.
— A mim? — disse rindo. — Como é tolo esse greenhorn. Acredita que eu...
Não pôde prosseguir, porque um murro na região temporal fê-lo rolar, sem sentidos, pelo chão. Durante momentos, reinou profundo silêncio, que foi interrompido pela exclamação dos camaradas de Rattler:
— Com todos os diabos! Permaneceremos aqui de braços cruzados, enquanto essa ave de arribação, esse alemão intruso maltrata e agride o nosso chefe?! Pauladas nele!
Dizendo isso, investiram contra mim; recebi o primeiro com um formidável pontapé na boca do estômago; é um bom golpe para pôr um adversário fora de combate; é necessário, porém, muita firmeza na outra perna, a fim de manter o equilíbrio do corpo. O homem caiu ao solo, curvei-me, dei-lhe um novo golpe, deixando-o sem sentidos. Levantei-me, num pulo, e, sacando os dois revolveres do cinturão, bradei:
— Quem mais? Venha quem quiser!
O bando de Rattler não se animou a vingar a queda do companheiro; olhavam interrogativamente, uns para os outros. Preveni-os, então:
— Ouçam o que digo: o primeiro que der um passo para mim ou que fizer menção de puxar das armas, receberá uma bala na cabeça! Tenham lá os greenhorns na conta que tiverem; quero provar-lhes, porém, que um greenhorn alemão é suficiente para derrotar doze homens do oeste da força dos senhores.
Neste ínterim, Sam Hawkens colocou-se a meu lado, dizendo:
— E eu, Sam Hawkens, desejo preveni-los: este jovem, este greenhorn alemão está sob a minha proteção especial. Aquele que lhe tocar num cabelo, servirá de alvo ao meu revólver.
Dick Stone e Will Parker manifestaram-se solidários comigo e da mesma opinião de Sam. Amedrontados os adversários desistiram de qualquer agressão contra mim. Blasfemando e ameaçando vingança futura, trataram de reerguer os dois companheiros, que jaziam no solo sem sentidos.
Bancroft achou mais prudente recolher-se à sua tenda. White olhava-me pasmado e, meneando a cabeça, disse, em tom de surpresa:
— Sim, senhor! Em suas mãos jamais desejaria cair. Deveria chamar-se Schatterhand1 porque derrubou com um só golpe um homem alto e forte como uma árvore. Isso nunca vi!
Tal maneira de falar muito agradava a Sam Hawkens, que caminhava, esfregando as mãos de contente e dando daquelas suas risadinhas tão características. Daí a pouco, detendo-se diante de mim, exclamou:
— Schatterhand, hihihihi! Um greenhorn conquistando um nome de guerra, e que nome! Schatterhand — Old Schatterhand! Lembra esse nome o Old Firehand2, o homem do oeste, forte como um urso. Que dizem disso, Dick e Will?
Não ouvi o que lhe responderam, porque a minha atenção estava voltada para Mr. White, o qual, chamando-me à parte, disse:
— Agrada-me extraordinariamente, sir. Está disposto a seguir comigo?
— Disposto ou não, Mr. White, não devo seguir.
— Por quê?
— Porque ainda não terminei a missão que me trouxe aqui.
— Não importa. Responderei por tudo.
— De nada me adiantará, uma vez que eu em pessoa não possa assumir a responsabilidade do trabalho. Vim para auxiliar a medição e não me retirarei, enquanto esse serviço não estiver concluído.
— Bancroft e seus companheiros hão de concluí-lo.
— Sim, mas de que maneira! Não, eu tenho de ficar aqui!
— Mas não se esqueça de que correrá sérios perigos!
— Por quê?
— Ainda pergunta? Deve reconhecer que granjeou inimigos mortais nesta contenda.
— Não. Nada lhes havia feito.
— Sim, até há pouco. Agora, porém, depois do incidente que acabo de presenciar,
1- Mão de ferro;
2- Mão de fogo.
a cordialidade entre eles e o senhor teve fim.
— Pode ser. Não os temo, porém. Justamente agora que conquistei o respeito dessa gente, nenhum deles se atreverá a me impedir o caminho. Além disso, tenho Hawkens, Dick e Parker do meu lado.
— Bem, faça o que quiser; não se esqueça, porém, de que uma vontade que conduz o homem ao reino dos céus, muitas vezes é também seu guia ao inferno. Lá poderia aproveitar os seus serviços. Espero, porém, que ao menos me acompanhará até alguma distância.
— Quando?
— Agora.
— Mas já vai partir, Mr. White?
— A situação que aqui encontrei não me seduz a uma permanência mais do que a estritamente necessária.
— Antes, de partir, coma, ao menos, alguma coisa.
— Não é necessário; temos provisão na sacola.
— Não quer despedir-se de Bancroft?
— Não desejo.
— Mas aqui veio em serviço!
— Sim, mas prefiro falar-lhe, pois é mais sensato do que ele. O meu fim principal era preveni-los contra os peles-vermelhas.
— Viu-os?
— Ainda não; mas vi-lhes as pegadas; estamos na época da emigração dos búfalos e poldros bravios em direção ao sul; os índios abandonam agora suas aldeias para as caçadas e preparo de carnes. Os kiowas não precisamos recear, porque com eles já nos entendemos a respeito do traçado da via férrea; mas os comanchos e apaches, que tudo ignoram, não devem avistar-nos. Quanto à minha seção, tenho os serviços terminados e vou abandonar esta zona. Procurem aqui abreviar os trabalhos; dia a dia, torna-se mais perigoso conservar o acampamento nesta zona. Ensilhe o seu cavalo e pergunte a Sam Hawkens se nos quer acompanhar.
— Claro, Sam não nos abandonaria.
Aliás, pretendia trabalhar, mas era domingo e o domingo é o dia do Senhor; todos os cristãos, mesmo no oeste bravio, reúnem-se para cumprir o seu dever religioso. Além disso, fizera jus a um dia de descanso. Dirigi-me à tenda de Bancroft, avisei-o de que não trabalharia e que, em companhia de Sam, iria com Mr. White até um certo trecho.
— Vá para o diabo e que este lhe quebre o pescoço — respondeu-me ele.
Bem longe estava de supor que tão dura praga daí a pouco quase seria executada.
Já algum tempo não montava o meu baio, que naquele domingo estava num dos seus grandes dias; tornara-se excelente animal e já me alegrava de poder participar isso, mais tarde, ao velho armeiro Henry.
Partimos. Fazia uma linda manhã de outono e alegres cavalgávamos pelas campinas afora; palestrávamos animadamente sobre assuntos variados, inclusive sobre a grandiosidade da obra que ia ser a estrada de ferro em projeto.
White deu-me as senhas necessárias para me pôr em contato com a sua seção e, ao meio-dia, paramos numa aguada, a fim de descansar os cavalos e fazer uma refeição frugal. White prosseguiu viagem, com o seu escoteiro, e nós ficamos palestrando sobre coisas de religião.
Hawkens era piedoso e o assunto lhe agradava.
Antes de empreendermos o nosso regresso, baixei-me no arroio, para, com a mão em concha, beber um pouco de água. Percebi, então, a impressão de um pé no solo. Chamei para o fato a atenção de Hawkens que, depois de examinar cuidadosamente a pegada, disse:
— Tinha razão Mr. White quando nos preveniu contra os índios.
— Acha que sejam pegadas de índios, Sam?
— Sim. Qual a sua impressão, sir?
— Nenhuma.
— Quê?! Deve ter formado algum juízo a respeito.
— Que poderei pensar, a não ser que por aqui andou um pele-vermelha?
— E não receia?
— É só o que faltava!
— Tem ao menos cuidado?
— Também não.
— Sim, ainda não conhece os peles-vermelhas!
— Espero conhecê-los. Não serão diferentes dos outros homens; são inimigos dos seus inimigos e amigos dos seus amigos. E como não é meu intuito tratá-los com hostilidade, acho que nada devo recear deles.
— É um perfeito greenhorn e assim continuará toda a vida! Sabe lá o senhor o que é tratar bem a um índio? Os peles-vermelhas são diferentes de nós. Faço votos que, com essa sua ingenuidade e inexperiência, não vá cair morto ou prisioneiro dos índios.
— Quando terá andado esse índio por aqui?
— Há dois dias, mais ou menos.
— Trata-se, talvez, de algum observador?
— Sim, um observador à procura de búfalos, porque, reinando atualmente a paz entre as diferentes tribos, não é admissível que se trate de algum batedor guerreiro. Era um índio muito inexperiente, talvez de pouca idade.
— Por quê?
— Porque um guerreiro experimentado não comete a leviandade de deixar a impressão do pé sobre a terra úmida, onde fatalmente será visto durante muitos dias. Isso são coisas de greenhorns. Este era um greenhorn vermelho tal como o senhor é um greenhorn branco, hihihihi! E os greenhorns brancos são ainda mais tolos que os vermelhos; tome nota disso, sir.
Ao chamar-me tolo, queria demonstrar-me sua amizade sincera e sua confiança.
Montamos a cavalo e partimos; poderíamos ter tomado o mesmo caminho por onde viéramos, mas, como agrimensor que era, devia conhecer o trecho que nos fora confiado para medir. Em vista disso, fizemos uma curva pela direita e cavalgamos paralelamente ao caminho anterior.
A CAÇADA DE BÚFALOS
Chegamos a um vale coberto de gramado; as ladeiras eram cercadas de um lado e outro por arbustos e encimadas por uma densa mata. Mal havíamos andado alguns minutos nesse poético vale, Sam parou o cavalo e olhou atentamente para a frente.
— Viva! — exclamou ele. — Ei-los, realmente, ei-los e são os primeiros!
— O que é? — perguntei-lhe.
Vi bem distante uns vinte pontos negros que se movimentavam lentamente.
— O que é?! — repetiu ele, mexendo-se vivamente em cima dos arreios. — Não se acanha de fazer essa pergunta? Ah! esquecia-me de que é um greenhorn e um refinado greenhorn!!! Então não vê, nem tendo os olhos abertos? Pois, muito digno e caro sir, queira ter a fineza de adivinhar o que é aquilo, onde agora repousam os seus lindos olhos!
— Adivinhar? Hum! Tomaria aquilo por veados, se não soubesse que esses animais andam em manadas nunca superiores a dez. Aliás, estou quase a afirmar que aqueles, embora ao longe pareçam minúsculos, são muito maiores que veados.
— Veados, hihihihi! — desatou ele a rir. — Veado aqui nas nascentes do Canadian! Demonstra conhecimentos de mestre! Agora, num ponto acertou e acertou lindo! Aqueles animais são, realmente, muito maiores do que veados.
— Ah! Caro Sam, acaso não serão búfalos?
— Sim, búfalos! Bisões, verdadeiros bisões, que emigram para o sul, os primeiros que vejo este ano! Agora vejo como Mr. White tinha razão. Bisões e índios. Dos peles-vermelhas, vimos uma pegada, mas os bisões, aí os temos em tamanho natural, diante dos olhos. Que tal acha tudo isso?
— Temos de ir até lá!
— Naturalmente!
— Observá-los!
— Observá-los? Mas observá-los de fato? — perguntou-me ele estarrecido.
— Sim, eu nunca vi um bisão e desejava, agora, espiá-los.
Sentia, nesse momento, o interesse de um zoologista e Sam, não me podendo compreender, respondeu:
— Espiá-los, só espiá-los! Tal como um menino curioso espreita pela fresta de uma gaiola os coelhinhos que estão lá dentro! Oh! Meu greenhorn, não sei que lhe acontecerá! Não vou observá-los nem espreitá-los; vou caçá-los, com todas as formalidades!
— Mas hoje é domingo! — disse impensadamente.
Ele, encolerizado, retrucou:
— Faça o favor de calar, sir! Então um verdadeiro homem do oeste cogita do dia em que está, quando tem diante de si um búfalo? Dele se aproveita a carne, compreende, e que carne! Uma coxa de bisão é mais adorável do que as ambrósias ou ambrosianas, ou seja lá como se chame essa coisa de que se alimentavam os antigos deuses da Grécia. Hei de obter hoje uma coxa de bisão, embora isso me custe a vida! O vento que nos sopra de frente é favorável. À esquerda, nas encostas do vale, brilha o sol e, à direita, há sombras. Vamos para lá, porque os animais não darão, antes do tempo, pela nossa presença. Venha!
Examinou a sua Liddy e verificou se os dois canos estavam em ordem. Seguindo o seu exemplo, examinei também a minha “mata-ursos”. Observando-me, disse:
— Ao que parece, pretende tomar parte na caçada, sir?
— Naturalmente!
— Seria uma linda aventura, mas, dentro de dez minutos, o bisão o teria transformado em mingau, pois não é canário que se coloque no dedo para fazê-lo cantar.
— Mas eu pretendo...
— Cale-se e obedeça! — interrompeu-me ele, num tom que nunca empregara ao falar-me. — Não quero ter a sua morte a pesar-me na consciência e, se não me ouvir, lançar-se-á nas garras da morte certa; faça o que bem lhe aprouver em outra ocasião, agora, porém, não admito desobediências às minhas ordens!
Não fossem as boas relações em que vivíamos e, por certo, teria recebido de mim uma resposta bem violenta; limitei-me a cavalgar à sombra projetada no vale pela mata, em sua retaguarda. Daí a pouco se dirigiu a mim, mais calmo, e disse:
— Vejo apenas vinte. Gostaria que visse quando tropas de mil búfalos atravessam as savanas em correrias! Já vi desfilarem rebanhos de dez mil e até mais. Constituíam o pão dos índios, que os brancos agora tomaram! Os peles-vermelhas poupavam esses animais; abatiam, apenas, os necessários para sua alimentação. Os brancos, porém, lançam-se com verdadeira fúria sobre esses pobres animais, como se os considerassem daninhos; depois de saciarem a fome com a sua carne, prosseguem na caçada apenas pelo prazer de derramar sangue! Se continuarem assim, desaparecerão, dentro em pouco, todos os búfalos, e, com eles, os índios. Que esse clamor suba a Deus! O mesmo ocorre em relação aos rebanhos de cavalos. Havia tropas de mil e mais poldros; agora consideramo-nos felizes, quando há cem deles reunidos.
Já nos achávamos a uns quatrocentos passos de distância da manada de búfalos, sem que estes se apercebessem de nós. Hawkens fêz parar o cavalo. Os animais prosseguiram lentamente vale acima. Na frente marchava um velho e gigantesco reprodutor, que eu contemplava admirado; devia medir no mínimo dois metros de altura e três de comprimento; nessa ocasião ainda não sabia avaliar o peso de um bisão, hoje porém, calculo que pesasse mais ou menos mil e oitocentos quilos.
— Aquele é o guia do rebanho, — disse-me Hawkens — o mais feroz e perigoso de toda a tropa. Quem quiser meter-se com ele, faça primeiro o seu testamento. Eu vou abater aquela fêmea, que vem à direita. Observe a bala que lhe vou mandar! Bem no peito, em direção ao coração. É o melhor e mais certeiro tiro, exceto nos olhos. Mas quem seria capaz de cometer a loucura de enfrentar um bisão para atirar-lhe nos olhos! Fique aqui, mêta-se naquele capão e não o abandone antes da minha chegada. Saia dali só quando o chamar!
Esperou que me ocultasse na capoeira, depois cavalgou lentamente para a frente. Sentia-me entusiasmado. Lera diversas descrições de caçadas de búfalos; a esse respeito ninguém me contaria novidades; mas vai grande distância da descrição à caçada real. E era pela primeira vez que me encontrava no oeste bravio, diante desses animais. Que caças havia eu até aí abatido? Nenhum valor tinham os meus feitos de caçador, diante de tão gigantescos animais. Por isso o leitor talvez tenha pensado que eu iria obedecer às ordens de Sam Hawkens, não participando dessa caçada; mas deu-se exatamente o contrário. Há pouco tencionava apenas observar aqueles animais; agora, porém, achava-me possuído de um desejo, de uma verdadeira ânsia de travar conhecimento com aqueles gigantes; Sam escolhera uma fêmea! Que covardia! Um homem deve escolher sempre o mais forte e, por isso, eu me dispus a enfrentar o reprodutor mais forte da tropa!
O meu baio estava irrequieto, também nunca vira búfalo; assustara-se e tentava disparar; custava-me contê-lo; não seria melhor que o obrigasse a galopar ao encontro do reprodutor? Eu estava calmo e por isso hesitei algum tempo entre partir e permanecer ali.
Sam aproximou-se cerca de trezentos metros dos búfalos; daí, esporeando o cavalo, galopou em direção à tropa; passou pelo touro que ia na frente, o touro-guia, a fim de chegar até o animal escolhido; este, impelido pela velocidade adquirida na carreira, escorregou e não pôde fugir; alvejado pelo meu companheiro, estremeceu e deixou pender a cabeça; não vi se caiu ao solo, porque algo mais sério me prendeu a atenção.
O reprodutor gigantesco, que puxava a manada, dera um formidável salto e investira contra Sam. Que animal terrível! Cabeça grande e dura, testa larga, dois chifres curtos, mas fortes; densas crinas que caíam ao longo do pescoço e no peito! Realmente o quadro era terrível! Que força e engenho seriam necessários para abater tão formidável animal. Era preciso decidir, hesitação seria fatal. Que fazer? Levar-me-ia o baio? Decidiu-me um impulso generoso: irei, embora me custe a vida. Ao sair da capoeira, o meu cavalo tentou fugir para a esquerda; violentamente fí-lo galopar em direção ao búfalo-gigante. Este, ouvindo o ruído, voltou-se e se preparou para receber cavaleiro e cavalo nos cornos ameaçadores. Ouvi que Sam gritava com todas as forças; não pude, porém, dirigir-lhe o olhar. Refleti: atirar sobre o búfalo, não me era possível, porque não me achava em boa posição, além disso, o baio, assustado, não me obedecia e procurava arrojar-se exatamente contra o animal. O bisão urrava terrivelmente e, atirando as patas traseiras, procurava atingir-me; num grande esforço, fiz o cavalo avançar e, de um salto, colocar-se atrás do búfalo, no momento em que as suas aspas chegaram quase a roçar-me nas pernas.
Com o salto dado, o cavalo foi cair num lamaçal em que se debatia o búfalo; por sorte havia tirado o pé dos estribos, pois daí a pouco o cavalo rodava; fiquei de pé e pronto para a luta, com a espingarda na mão. O búfalo virou-se para o meu lado e investiu na direção do cavalo, que já se levantara e se preparava para a fuga; ao fazer isso, o búfalo oferecia-me os flancos para o tiro; apontei; agora, pela primeira vez, a espingarda “mata-ursos” ia agir na realidade; mais um salto e o bisão alcançaria o cavalo; atirei e ele ficou parado em meio do salto, não sei se de susto ou se atingido pelo tiro; imediatamente, alvejei-o de novo. O reprodutor-gigante levantou lentamente a cabeça, soltou um urro, que me causou estremecimento, balanceou o corpo per alguns instantes e, por fim, caiu pesadamente ao solo.
Tive vontade de gritar de alegria, diante dessa difícil vitória; entretanto tarefa mais séria me esperava. O meu cavalo disparara ladeira abaixo, à direita, enquanto eu via Sam Hawkens galopar do outro lado da rampa do vale, perseguido por outro bisão, um pouco menor do que aquele que eu abatera há pouco.
Quando irritado, o bisão não abandona o adversário e ninguém imagina a resistência que é capaz de opor a quem o ataca; em agilidade, rivaliza com o cavalo.
Assim, pois, o touro não abandonava o meu companheiro; Hawkens via-se forçado a obrigar o cavalo a movimentos que facilmente o cansariam e aos quais não poderia resistir por muito tempo. Urgia socorrê-lo. Não havia tempo a perder; não me podia certificar se o perigo que correra estava afastado, isto é, se o meu bisão estava ou não morto; carreguei novamente os dois canos da “mata-ursos” e corri para o outro lado do vale. Sam viu-me e, querendo vir ao meu encontro, conduziu o cavalo na minha direção. Foi infeliz, porém: o búfalo, que se achava na sua retaguarda, baixou a cabeça e, de uma só cornada, atirou aos ares cavalo e cavaleiro, investindo ferozmente contra eles. Sam bradava por socorro a plenos pulmões. Achava-me distante uns cento e cinqüenta passos e não podia perder um só instante. O tiro, a longa distância, seria mais certeiro; se eu o retardasse, Sam estaria talvez perdido e se não atingisse o animal, conseguiria ao menos, desviá-lo do meu amigo. Parei, fiz pontaria e atirei. O búfalo, ferido no peito, levantou a cabeça e virou-se lentamente à procura de quem o alvejara. Viu-me e em carreira veloz dirigiu-se a mim; com febril agilidade carreguei mais uma vez os dois canos da espingarda e, ao terminar a operação, o búfalo se achava apenas a trinta metros de distância. O bisão já corria menos e dos seus olhos jorrava sangue. Ajoelhei-me e fiz pontaria. O animal estacou e levantou a cabeça como para me ver melhor; ao fazer isso, colocou os olhos diante dos dois canos da arma; alvejei o olho direito e, depois, o esquerdo. Um leve estremecimento passou-lhe pelo corpo, que pesadamente caiu ao solo. Fui ao encontro de Sam que já se dirigia a mim.
— Alô! — exclamei; — ainda vive? Está muito ferido?
— Não, apenas o pé direito, ou o esquerdo, se não me engano, dói-me um pouco, por causa da queda que levei juntamente com o cavalo.
— E o seu cavalo?
— Ainda vive, mas o búfalo abriu-lhe o ventre; para abreviar-lhe os sofrimentos, teremos de matá-lo. Pobre animal! O bisão está morto?
— Espero que sim, vamos examiná-lo.
Examinamos o animal e vimos que estava morto. Hawkens, contemplando-o, disse num profundo suspiro:
— Oh! Como esse búfalo estúpido me deu que fazer; um búfalo-fêmea seria mais delicado. É justo o que digo sempre: com os búfalos-machos a gente não se deve meter! hihihihi!
— Como foi que ele o atacou?
— Mas não viu?
— Não.
— Depois que abati a fêmea, o meu cavalo galopou ainda, sem que pudesse sustê-lo, passando junto ao touro. Irritei-o sem querer e tentou atacar-me a cornadas; dei-lhe de presente a última bala que tinha a minha “Liddy”; mas, ao que parece, não o tornei mais sensato; pelo contrário, mostrou grande predileção por mim, à qual eu não podia corresponder... Perseguiu-me de tal modo, que não me foi possível carregar a arma; atirei-a fora, para, com as mãos desembaraçadas, melhor poder governar o cavalo! Pobre cavalo! Fêz o possível, mas não se salvou.
— Por que fêz aquela volta para tomar a direção do lugar onde eu me achava? Se não fora isso, o cavalo estaria salvo.
— Estaria salvo?! Fala como um velho experimentado. Arre! Isso não esperava de um greenborn!
— Os greenhoms possuem, também, o seu lado bom.
— Sim, realmente, se não fosse o senhor, estaria agora nas mesmas condições do meu pobre cavalo. Vamos vê-lo! Pobre animal!
Encontramo-lo realmente em triste estado. Os intestinos dependuravam-se nos rasgões que lhe fizera o búfalo no ventre; gemia que causava dó. Sam procurou sua arma, carregou-a e deu-lhe o tiro de misericórdia, tirou-lhe os arreios e as rédeas e disse-me:
— Agora vou me ensilhar a mim mesmo. Eis o resultado da grande luta!!
— Sim. E onde poderá agora arranjar outro cavalo? — perguntei-lhe.
— Isso é o que menos me preocupa. Apanharei outro.
— Um poldro?
— Sim. Os búfalos já estão aí; iniciaram a sua migração para o sul; não tardará a vez dos poldros; conheço esses animais.
— Poderei acompanhá-lo nessa nova aventura?
— Naturalmente. É bom que se exercite também nisso. Bem, vamos ver o bisão que matou; talvez ainda viva; esses “Matusalens” das campinas têm muito fôlego e não morrem tão depressa.
O animal estava morto e agora que ali se achava estirado, podíamos melhor avaliar as suas colossais dimensões. Sam, depois de examiná-lo, exclamou:
— Parece impossível! Sabe onde alvejou o bisão?
— Onde?
— Exatamente na região apropriada. É muito velho esse búfalo e eu, sinceramente, refletiria dez vezes, antes de me dispor a atacá-lo. Sabe qual o qualificativo que lhe cabe, sir?
— Qual é?
— O de leviano; é o homem mais leviano do mundo.
— Leviano?
— Sim! O homem mais leviano que o sol cobre.
— Nunca fui leviano na minha vida.
— Pois então foi agora, pela primeira vez. Compreendeu? Eu lhe ordenara que não se envolvesse com a vida dos búfalos, e permanecesse naquela capoeira à minha espera. Por que não me obedeceu?
— Nem eu mesmo sei.
— E esta! Então não sabe por que faz as coisas?! E isso não é ser leviano?!
— Penso que não. Deve ter havido algum motivo superior, que me levasse a proceder assim.
— Neste caso, o senhor deveria saber qual era esse motivo.
— Talvez tenha sido porque me deu uma ordem, pois não costumo receber ordens.
— Quando alguém é bem intencionado e o previne dos perigos, aí então é que o senhor se obstina em ir-lhes ao encontro.
— Não vim ao oeste para fugir aos perigos que sobejam aqui.
— Muito bem. Mas é um greenhorn ainda e deve ter mais cuidado. Se não queria obedecer à minha ordem, por que se foi atirar justamente a esse búfalo gigante, em vez de abater uma fêmea, muito menos perigosa?
— Quis ser cavalheiro!
— Cavalheiro! Oh! Esse greenhorn quer-se mostrar cavalheiro aqui no oeste, hihihihi!
Sam Hawkens ria a bom rir. Ainda rindo, prosseguiu:
— Um verdadeiro homem do oeste aqui nas campinas não cogita de cavalheirismo, quando procura ser útil a si próprio.
— Pois foi este o meu caso.
— Como?
— Escolhi o macho porque tem muito mais carne do que a fêmea.
Olhou-me, por algum tempo, admirado e retrucou:
— Muito mais carne! Mas não é que este rapaz abateu um búfalo-macho perigoso, por causa da carne, hihihihi! Chego a crer que duvidou da minha coragem quando escolhi a fêmea em lugar do bisão.
— Isso não, embora achasse mais varonil escolher o bisão.
— Comer carne de um búfalo-macho. Mas como é inteligente esse greenhorm! Esse bisão deve contar no mínimo dezoito ou vinte primaveras e todo o corpo é formado de muitos ossos, tendões e couro; à pouca carne que tem não se pode mais dar esse nome; é mais dura do que a sola de suas botas e não poderá mastigá-la embora a ponha a cozer durante dias a fio. Todo homem do oeste experimentado prefere a fêmea ao macho porque aquela tem a carne mais macia e nutritiva. Veja, pois, mais uma vez que formidável greenhorn é o senhor! Não tive tempo de observá-lo. Como decorreu a sua leviandade de há pouco, a luta com o búfalo?
Narrei-lhe tudo. Mediu-me com um olhar, de alto a baixo, sacudiu novamente a cabeça e disse-me:
— Vá buscar o seu cavalo para conduzir esta carne para o acampamento.
Obedeci a ordem. Sinceramente, decepcionaram-me as suas maneiras. Ouviu toda a minha narrativa sem uma única palavrinha de reconhecimento. Não me zangara, porém; afinal, não me moviam palavras lisonjeiras, nem me arrastara à aventura a ânsia de elogio.
Quando voltei com o cavalo, Sam ajoelhou-se sobre a fêmea morta e cortou-lhe com extraordinária perícia as duas coxas traseiras, separando-as do couro.
— Bem, — disse ele — teremos um belo assado para logo à noite e um assado como há muito não temos. Ponha nos arreios. É para mim, o senhor, Will e Dick. Se os outros quiserem poderão vir buscar aqui.
— Se é que nesse meio tempo, o búfalo não fôr devorado pelos coiotes e outros animais carnívoros — atalhei eu.
— Oh! Outra prova de sua rara inteligência! É claro que o cobriremos com ramos de árvores, colocando pedras por cima. Desse modo, só o urso, ou outro animal da sua força pode tocá-lo.
Cortei grossos ramos de árvores do bosque próximo e conduzi pesadas pedras para o local. Cobrimos o animal e carreguei o meu cavalo. Enquanto isso perguntei:
— E que faremos do reprodutor?
— Nada. E que havíamos de fazer dele?
— Mas não se pode aproveitar, ao menos, o couro?
— O senhor é curtidor? Eu não!
— Li uma vez que o couro do búfalo era conservado e vendido por bom preço.
— Ah! Leu isto? Então deve ser verdade. Tudo o que escrevem sobre o oeste é a pura verdade, a santa verdade, hihihihi! Há caçadores que pelo couro abatem os búfalos; eu mesmo já o fiz; agora, porém, não nos convém conduzir esse fardo tão pesado.
Partimos e, não obstante termos de marchar a pé, cabresteando meu cavalo com as coxas do bisão nos arreios, chegávamos daí a meia hora ao acampamento, porque este, de fato, não distava muito do vale onde abati os meus dois primeiros búfalos.
O fato de chegarmos a pé e voltar Sam sem o seu cavalo, chamou a atenção dos nossos companheiros. Perguntaram-nos o que ocorrera.
— Caçamos búfalos e o meu cavalo foi morto por um deles — respondeu-lhe Sam Hawkens.
— Búfalos, búfalos, caçaram búfalos! — ouvia-se em todo o acampamento. — Onde? Onde?
— Distante daqui, meia hora. Trouxemos as coxas para nós. O resto, se quiserem podem ir buscar.
— Iremos! Oh! Se iremos! — exclamou Rattler, dirigindo-se a mim, como se nada houvesse ocorrido enrre nós. — Onde é o local?
— Sigam as nossas pegadas. Têm olhos — respondeu-lhe Sam.
— De quantos búfalos se compunha o rebanho?
— De vinte.
— E quantos abateram?
— Uma fêmea.
— Só? Para onde foram os outros?
— Embora. Vão procurá-los. Sei lá onde eles foram passear; não lhes perguntei, hihihihi!
— Mas só uma fêmea — disse um dos da roda, em tom depreciativo. — Dois caçadores e de vinte búfalos só abateram um!
— Faça melhor se puder! Caçaria, talvez, os vinte e mais alguns. Na verdade, lá encontrarão mais dois búfalos reprodutores, abatidos a tiro, por este jovem gentleman.
— Reprodutor! Atirar num velho reprodutor, só mesmo um greenhorn seria capaz de tal asneira!
— Riam-se dele, mas não se esqueçam de olhar os bisões; afirmo-lhes que, com isso, este rapaz salvou-me a vida.
— A vida? Como?
Estavam todos ansiosos para ouvir a descrição da aventura, mas ele se recusou a satisfazê-los.
— Não estou agora disposto a falar no assunto. Peçam ao meu companheiro que lhes conte, se acharem melhor saber primeiro da aventura para depois buscar a carne à noite, no escuro.
Sam tinha razão. O sol já ia desaparecendo e não tardava o anoitecer. Viram que também eu não estava inclinado a satisfazer-lhes a curiosidade: montaram, pois, a cavalo e se foram em busca da carne. Foram-se todos porque nenhum deles quis ficar no acampamento. Não tinham confiança uns nos outros. Entre caçadores honestos, que vivem em relação de amizade, pertence a todos a caça abatida por um deles. No seu regresso, vi logo que entre eles não existia esse espírito nobre, pois se haviam conduzido como feras disputando o melhor e maior pedaço do búfalo, por entre imprecações e blasfêmias. Logo que eles partiram tirei dos areios as coxas do búfalo e desensilhei o cavalo. Enquanto isso, Sam contou as minhas aventuras a Parker e Stone; ouvi-o dizer:
— Podem acreditar; foi tal qual lhes estou contando; o homem escolheu o mais forte dos reprodutores e o abateu, como se fora um velho e atilado caçador de búfalos das campinas do oeste; claro, aparentemente não dei importância ao feito; classifiquei-o, até, de leviandade e repreendi-o severamente; mas sei o que vai sair dali.
— Eu também sei — disse Stone. Ele vai tornar-se um bravo homem do oeste.
— E muito breve — ouvi Parker dizer.
Durante essa palestra eu me achava atrás da tenda, de modo que não me podiam ver.
— Sim, — prosseguiu Hawkens — ele nasceu para isto. E que força tem! Não puxou, ontem, a nossa pesada carroça sozinho e sem o auxílio de ninguém?! Onde dá um golpe, durante anos não nasce capim! Mas, prometem-me uma coisa?
— Que é? — perguntou Parker.
— Não lhe demonstrem o juízo que dele fazemos.
— Por que não?
— Porque poderia envaidecer-se e lá se ia a esperança de torná-lo herói do oeste.
— Não há perigo.
— Há, sim! Ele é muito modesto e não é inclinado a vaidade, mas sempre é grande erro elogiar; poderíamos enfraquecer o seu caráter. Continuem, pois, francamente, a chamar-lhe greenhorn; na realidade que mais é? Embora possua qualidades capazes de torná-lo um homem ativo do oeste, ainda não está bem formado e precisa exercitar-se muito.
— Sam, agradeceu-lhe por lhe ter salvo a vida?
— Não faltava mais nada!
— Não? E que estará ele agora pensando do senhor?
— É-me indiferente. Naturalmente considera-me grosseiro e ingrato, e talvez mais; mas tudo isso para mim é secundário; o essencial é que não modifique o seu caráter e continue a ser o que é. Claro que o meu desejo foi abraçá-lo e beijá-lo naquela ocasião, mas... era preciso conter-me:
— O quê? — exclamou Stone. — Beijá-lo? Abraçá-lo ainda se podia arriscar, mas beijá-lo não!
— Oh! Mas, por quê?
— Por quê? Mas então nunca se olhou a um espelho, nunca se mirou nas águas cristalinas de algum regato? Esta cara, estas barbas e este nariz indecente! Homem, quem conceber a idéia de beijá-lo, de unir os seus lábios a essa boca, ou perdeu o juízo, ou está sofrendo de ataques!
— Hum! Oh! Ah! Como é bom amigo! Quer dizer com isso que sou feio! E o senhor que pensa que é?! Um tipo perfeito? Ora deixe-se disso! Dou-lhe a minha palavra que se nós dois tomássemos parte num concurso de beleza, o primeiro lugar seria meu, o seu talvez o último, hihihihi! Mas deixemos de frivolidades e voltemos ao nosso greenhorn. Não lhe apresentei os meus agradecimentos e nem os apresentarei; mas daqui a pouco, quando a coxa do búfalo estiver assada, ele receberá o melhor pedaço; eu mesmo vou escolhê-lo, porque o mereceu. E sabem que pretendo fazer amanhã?
— Que será? — perguntou Stone.
— Proporcionar-lhe uma grande satisfação.
— De que forma?
— Procurarei um meio de fazê-lo apanhar um poldro bravio.
— Ah! Pretende laçar poldros bravios?
— Sim, preciso de um cavalo, pois não vê que estou a pé? Quer emprestar-me o seu para a caçada? Hoje passaram os búfalos, amanhã certamente tocará a vez aos poldros. Creio que será o sulficiente descermos a campina, onde anteontem estivemos fazendo medições, para encontrar algum rebanho.
Não quis ouvir mais; fiz uma volta, a fim de me aproximar dos companheiros, sem que desconfiassem que lhes ouvira a palestra.
Acendeu-se o fogo e, junto dele, foram fincadas duas forquilhas para servirem de apoio ao espeto; a coxa foi disposta de maneira conveniente; por Sam Hawkens que, virando-a lentamente sobre a fogueira, mostrava nisso grande perícia. A fisionomia risonha que fazia, quando assava a carne, dava-me vontade de rir.
Quando os nossos companheiros voltaram da campina, com a carne que deixamos lá, seguiram o nosso exemplo, fazendo diversas fogueiras. Entre eles não reinava a mesma paz e cordialidade. Como cada um quisesse assar para si, faltava lugar, e o resultado foi que comeram os seus assados ainda meio crus.
Como prometera Sam, deu-me a melhor parte da caça; pesava talvez um quilo e meio e eu devorei tudo. Não sou gastrônomo; mas só aquele que viajou pelo oeste poderá dizer a quantidade de carne que lá exige o nosso organismo para se manter. Para a sua alimentação o homem precisa, além de matérias inorgânicas, uma certa quantidade de albumina e carbono que, num meio civilizado, é fácil obter na alimentação diária e na proporção necessária. O homem do oeste que, durante muitos meses, não visita as zonas habitadas, vive exclusivamente de carne, que contém muito pouco carbono; eis por que está obrigado a comer muita carne, a fim de absorver o carbono necessário à vida. Absorve, entretanto, muitas vezes, quantidades exageradas de albumina, que lhe são prejudiciais.
Certo dia, vi um velho campeiro comer três quilos e meio de carne e ao perguntar-lhe se estava satisfeito, respondeu-me:
— Sou obrigado a estar satisfeito porque não tenho mais carne; se me quiser dar uma parte da sua porção, faça-o logo, antes que o senhor a devore toda!
Durante a refeição, os outros companheiros comentavam a nossa caçada. Quando lá chegaram, ao que depreendi de sua conversa, mudaram de opinião a respeito de minha leviandade.
AS PEGADAS DE POLDROS
No dia seguinte, fiz como se quisesse me dirigir ao trabalho, Sam chegou-se, então, a mim e disse;
— Deixe os seus instrumentos, sir, temos hoje um serviço muito mais interessante.
— Qual é?
— Já saberá; prepare o seu cavalo e vamos partir.
— Passear? Não, o serviço está em primeiro lugar.
— Que tolice! Basta o que já se tem atormentado com esse serviço. Demais, acho que ao meio-dia estaremos de volta. Poderá então medir e calcular à vontade; nada terei a objetivar.
Fiz a Bancroft a necessária comunicação e partimos. Sam mostrava-se misterioso; eu, porém, não quis dizer que já lhe conhecia a intenção. Andamos pelo trecho já por nós medido, até atingirmos a campina mencionada por ele e que media três quilômetros de largura e o dobro de comprimento; era cercada por elevações cobertas de selvas. Como fosse atravessada por um grande arroio nela havia umidade e, em seu solo, erguiam-se viçosos capins. Ao norte podia-se atingir essa campina por dois morros que ali se erguiam e ela terminava ao sul por um lindo vale. Ao chegarmos à campina, Sam parou e lançou um olhar investigador, como que a espreitar o que havia ao longe; prosseguimos, depois, até o riacho. De repente soltou um brado, apeou-se do cavalo e, atravessando o arroio, foi parar num lugar, onde havia grama pisada. Examinou, detidamente, os rastos sobre a grama, voltou e, montando novamente, andamos em nova direção, não como até agora, para o norte; daí a pouco havíamos atingido o oeste da campina. Aqui apeou e amarrou bem o cavalo numa pastagem. Depois que examinou as pisadas de animais na grama, não pronunciou mais uma palavra; mas tinha o semblante iluminado por íntima satisfação, tal qual uma selva escura, quando recebe os raios e o calor do sol.
Ordenou-me, então:
— Apeie-se e amarre fortemente o seu cavalo. Vamos esperar um pouco.
— Mas para que esse cuidado? — perguntei-lhe, embora conhecesse a razão.
— Porque, do contrário, poderá perder o animal. Muitas vezes tenho visto cavalos fugirem, nessas ocasiões.
— Em que ocasiões?
— Então não tem nenhuma idéia do que vamos fazer?
— Não.
— Adivinhe!
— Encontraremos poldros bravios?
— Por que supõe isso?
— Porque já tenho lido algo a respeito.
— De quê?
— Li que cavalos mansos, quando não bem amarrados, procuram acompanhar os rebanhos de poldros bravios.
— Vá para o diabo! Tudo o senhor leu e daí a dificuldade em fazer-lhe surpresas. Eis por que aprecio mais as pessoas que não sabem ler.
— Queria fazer-me uma surpresa?
— Naturalmente.
— Com uma caçada de poldros?
— Sim.
— Não ia fazer surpresa, pois já sei de tudo.
— É mesmo. Hum! Bem! Os poldros já estiveram aqui.
— O que examinou há pouco eram as suas pegadas?
— Sim, passaram ontem por aqui; compreende? Era o rebanho da vanguarda; uma espécie de batedores que estão a examinar o caminho para a marcha. Esses animais são de um inteligência e sagacidade raras; antes do grosso do rebanho empreender a marcha, enviam pequenas patrulhas para a frente e para os flancos; têm os seus oficiais exatamente como os exércitos; o seu principal condutor é invariavelmente um experimentado, fogoso e possante garanhão. Quer nas pastagens, quer nas marchas são sempre os garanhões que vão à frente do rebanho. Seguem, depois, as éguas e bem no centro vão os potrilhos. Desse modo, em qualquer emergência, os garanhões podem defender com toda facilidade as éguas e os potrilhos. Já lhe expliquei o modo de laçar um poldro. Teria aproveitado a explicação?
— Naturalmente.
— Está disposto a laçar poldros?
— Sim.
— Pois terá esta manhã para isso.
— Obrigado; mas não posso aproveitá-la.
— Oh! Por que não?
— Porque não preciso de cavalos.
— Mas quando se apresenta oportunidade, um homem do oeste, não cogita se precisa ou não de cavalo!
— Neste caso não será um bravo e nobre homem do oeste, como suponho que sejam todos.
— Como?
— Sim, ainda ontem me falou dos brancos que abatiam búfalos, apenas pelo prazer de derramar sangue. Considero isso um atentado à vida de nossa fauna e à propriedade dos peles-vermelhas, pois vêm roubar-lhes a alimentação. Creio que é da mesma opinião.
— Claro!
— E o mesmo ocorre em relação aos cavalos. Não seria capaz de roubar a liberdade a um só desses lindos poldros, desde que não necessitasse dele para meu serviço.
— Muito bem, sir. Belo gesto! Assim todo homem, todo cristão devia pensar e proceder. Mas quem lhe falou aqui em roubar a liberdade a um poldro? Fez exercícios de laço e agora desejo apenas submetê-lo a exame.
— Isto é outra coisa. Neste caso, concordo.
— Bem! Comigo a coisa já é mais séria; preciso de um cavalo e vou laçar um poldro. Agora ouça: sente-se com firmeza nos arreios e conserve o cavalo de rédea curta, quando atirar o laço; do contrário o poldro, de um arranco, arrojá-lo-á ao solo e arrastará o seu baio. Depois, se isso suceder, o senhor não será mais um cavaleiro garboso, mas um simples infante como eu. Compreendeu?
Ia prosseguir, quando atentou para os dois morros, que ficam ao norte da campina. Lá surgira um cavalo, um só. Caminhava lentamente e sem pastar; virava a cabeça, ora para um, ora para outro lado, como a examinar o caminho.
— Está vendo? — disse-me, baixinho. A comoção fazia-o falar em voz baixa, embora nos achássemos a grande distância do animal. — Não lhe disse que hoje seria a vez deles? Aquele é o batedor, que vem na vanguarda, a fim de verificar se o caminho está seguro para a marcha do rebanho. Que garanhão inteligente! Como olha em todas as direções! A nós não poderá ver, porque o vento lhe sopra nos olhos. É este o lugar que nos convém.
O poldro dirigiu-se para a frente, desviou-se para a direita e, em seguida, subiu à esquerda, virou-se ainda uma vez e desapareceu exatamente no local onde o víramos pela primeira vez.
— Observou o animal? — perguntou Sam. — Conduziu-se com prudência, aproveitando o bosque para se ocultar. Creio que um batedor indiano não faria serviço mais perfeito.
— Realmente! Estou pasmado!
— Agora regressou ao rebanho, a fim de avisar ao seu general que o campo está limpo. Mas, contudo, parece que se enganou, hihihihi! Aposto que dentro de dez minutos, a tropa surgirá; preste atenção. Sabe como devemos proceder?
— Como?
— Galope até a saída do bosque e lá fique postado; quanto a mim irei até a entrada e lá me ocultarei. Quando a tropa aparecer, deixá-la-ei passar para sair depois em sua perseguição; em disparada, irão até a saída do bosque, de onde retrocederão em correria, ao encontrá-lo; assim, nesse vaivém laçaremos dois dos melhores animais; destes eu escolherei um para minha montaria; o outro será solto depois. Está de acordo?
— Mas que pergunta! Não entendo de caçada de poldros, ao passo que o senhor é um mestre no assunto; nada mais me resta, pois, do que obedecer às suas ordens.
— Bem! Tem razão! Tenho abatido muitos poldros bravios e a muitos “civilizei” em poucos minutos! Chamando-me, pois, mestre, não conta novidade. Bem, vamos à ação, vá para o seu posto, do contrário será tarde.
Cavalgamos. Ele seguiu para o norte, eu para o sul. A minha “mata-ursos” me estorvaria muito na caçada que ia empreender. Sempre tinha lido que um homem do oeste só abandona a sua arma na certeza absoluta de estar livre de qualquer perigo; como não possuía tal certeza, pois a cada instante poderia surgir do bosque algum índio ou animal bravio, limitei-me a amarrá-la fortemente nos tentos, de maneira que não me batesse ao cavalgar.
Entretanto, atingira, meu posto e esperava, ansioso, pela chegada dos poldros. Parei perto de umas árvores, amarrei uma das extremidades do laço ao serigote e deixei a rodela com a laçada à mão, pronta para o momento de atirar.
A entrada do bosque ficava tão distante, que não poderia ver os poldros, quando lá surgissem. Só os avistaria, quando Sam os perseguisse. Estava talvez a um quarto de hora no meu posto, quando avistei, lá embaixo, uma infinidade de pontos negros que se moviam e cada vez aumentavam mais; a princípio, tinham o tamanho de pardais, logo o de gatos, de cães, de bezerros e, por fim, se aproximaram tanto que os distingui em seus tamanhos naturais. Eram os poldros que em correria louca e perseguidos por Sam dirigiam-se para o meu posto.
Como eram belos esses animais! As crinas balouçavam sobre o pescoço e as caudas, ao vento, mais pareciam feixes de penas finíssimas! Eram, no máximo, trezentos, no entanto parecia-me que, com as patas, pisavam toda a terra. Vinha à frente um lindo garanhão tordilho, que puxava o rebanho. Belo animal! Não teria resistido à tentação de laçá-lo, se não soubesse que no oeste é um perigo para o caçador das campinas montar tordilhos. Um cavalo com o pêlo claro, de longe anunciaria o cavaleiro aos inimigos.
Agora tocava a vez de me apresentar à cavalhada. Saí de sob as árvores e galopei para a campina. O efeito não se fêz esperar. O tordilho da ponta, como se fora atingido por uma bala, deu um salto para trás. O rebanho parou; ouviu-se um prolongado e angustioso bufar; era a voz do comando: retrocesso de todo o esquadrão. O tordilho corria como se fora uma flecha para a outra extremidade da tropa que voltou em disparada na direção do local donde procedia.
Acompanhei-os vagarosamente. Não devia apressar-me, pois o rebanho havia de voltar, tocado por Sam. Durante este tempo, fiquei matutando em algo que me intrigara. Embora os cavalos tivessem estado apenas por um momento na minha frente, pude observar que entre eles havia uma mula; talvez me houvesse enganado, mas parecia-me havê-la visto bem. Essa mula marchava na fila da frente, logo atrás do tordilho-guia; quer dizer que a cavalhada não só a admitira como igual, como lhe dera um posto na sua hierarquia.
Daí a pouco voltava de novo a tropa para retroceder pela segunda vez; vi, então, que não estava enganado; havia entre eles uma mula baia com listas negras nos flancos. O fato me impressionou e, apesar da enorme cabeça e das orelhas compridas, era um belo animal; as mulas são, em certos casos, mais úteis que os cavalos; têm o passo mais seguro e não escorregam nas descidas fortes. São vantagens, que, aliás, devem ser postas na balança. Naturalmente as mulas são também muito teimosas. Já vi algumas que, embora matando-as à chibata, não davam um passo para a frente, sem estarem, entretanto, carregadas em demasia e sendo a estrada ótima. São obstinadas.
Aquela mula parecia-me muito mais fogosa, tinha o olhar mais vivo do que toda a cavalhada do rebanho; apoderou-se de mim o desejo irresistível de laçá-la. Com toda certeza, tratava-se de um animal que, fugindo do seu dono, na passagem de algum rebanho, a ele se agregara e se identificara com os poldros bravios.
Eis que voltou a tropa perseguida por Sam; os poldros não podiam mais prosseguir nesse vaivém; a tropa se deixaria atropelar para o lado e dividira-se; a mula ficara junto com a parte maior do rebanho; corria fogosa bem ao lado do tordilho-guia. Preferi essa parte do rebanho e Sam parecia concordar comigo.
— Vamos atravessar a tropa; tomará a direita e eu a esquerda — ordenou-me ele.
Esporeamos os nossos cavalos e alcançamos o rebanho, antes de chegar ao bosque; os poldros lá não penetraram e, retrocedendo, tentaram passar por nós; para impedi-los, avançamos a galope contra a tropa, que se dispersou em todas as direções, qual uma ninhada de pintos diante de um gavião; o tordilho-guia e a mula abandonaram-na e passaram em disparada, rente a nós; perseguimo-los! Sam, manejando o laço, disse:
— Sempre o mesmo greenhorn e assim há de ser toda vida!
— Por quê?
— Porque está perseguindo o velho pastor tordilho e disso só um greenhorn será capaz, hihihihi! Suas gargalhadas estridentes abafaram minhas palavras de resposta, continuando ele assim a pensar que eu queria apanhar o tordilho. Vá lá! Sam, atirando o laço, conseguira segurar o animal; deveria, porém, manter-se firme para lhe resistir ao arranco, exatamente como há pouco me aconselhara. Assim fêz, porém, tarde. Não encurtou as rédeas do cavalo, sendo assim arrastado campina afora; daí a momentos voava pelos ares e era arrojado ao solo.
Galopei para junto de meu companheiro, a fim de ver se estava ferido. Já se levantara.
— Ora imagine! O cavalo de Dick Stone escapou-me juntamente com a mula, sem me dizer adeus, hihihihi!
— O senhor está ferido?
— Não. Apeie depressa e me dê o cavalo. Necessito dele!
— Para quê?
— Para perseguir os fugitivos, homem! Ande depressa, apeie-se!
— É só o que faltava; quer enriquecer o rebanho com o meu baio?! Dizendo isso, apliquei as esporas no meu cavalo e fui em perseguição dos animais. Estavam já muito longe e se haviam reunido novamente aos poldros que, indo e vindo de um lado para outro, enleavam-se no laço em grande confusão. Aproximei-me e, conseguindo apanhar a corda que prendia a mula e o cavalo fiz com ela várias voltas na mão, certo de que, assim, poderia segurá-los. Voltei; encurtava cada vez mais o laço até que, apertando o pescoço da mula, sufoquei-a e fi-la cair.
— Segure bem até que eu consiga acalmar essa miserável, depois solte — disse-me Hawkens, saltando para o lombo da mula que jazia ao solo.
— Agora! — exclamou ele.
Soltei o laço; ele afrouxou a argola e montou o animal, que, dum salto, ergueu-se do solo. Ficou por instantes parado como que tomado de susto; de repente, porém, voltando-lhe o ânimo, começou a corcovear violentamente. O cavaleiro entretanto se conservava firme na montaria.
— Não há de me derrubar! — bradava o homenzinho. Tenta fugir para o rebanho, mas hei de amansá-la em seguida.
Enganara-se: A mula não lhe obedeceu e, quando ele menos esperou, atirou-o ao chão e não sei como não quebrou todas as costelas de Sam, que foi obrigado a deixar os arreios. Apeei-me; agarrei o laço e enrolei-o fortemente na raiz dum denso arbusto, que ali vicejava. O animal, já então livre do cavaleiro, ergueu-se; o laço que ainda lhe estava preso ao pescoço estirou e a mula rodou novamente.
Sam passou a mão pelas costelas e, com visível desagrado, exclamou:
— Solte esse animal; ninguém conseguirá amansá-lo.
— É só o que faltava! Não tenho medo dele. Há de me obedecer. Veja agora.
Desenrolei o laço da raiz e montei na mula que, recuperando o fôlego, levantou-se rapidamente; vali-me então do meu sistema de domar que consistia em fazer com as coxas forte pressão no lombo do animal; o meu companheiro não conhecia esse sistema e eu nisso lhe levava vantagem. Daí a pouco, tentou derrubar-me, tal como procedera com Sam; recalquei-lhe o lombo, violentamente, como fizera antes, dando com isso a impressão de querer dobrar-lhe as costelas, o que a amedrontou extraordinariamente; quando fazia menção de arrojar-se ao solo eu lhe apertava a laçada no pescoço e puxava-a violentamente para cima; deste modo consegui sustê-la de pé. Foi uma luta violenta: força contra força; achava-me fatigado; a mula suava e o suor escorria-lhe pelo lombo; espumava; seus movimentos, porém, tornavam-se cada vez mais vagarosos e involuntários. Já não bufava enraivecida e por fim, perdendo as forças, caiu pesadamente ao solo, onde permaneceu inerte.
Respirei profundamente; tinha a impressão de que todos os nervos e articulações se me haviam rompido.
— Céus! Que homem é o senhor! — exclamou Sam — Tem muito mais força do que o animal. Se se olhasse num espelho, ficaria assustado.
— Acredito.
— Os olhos estão saltados, os lábios intumescidos e o rosto azulado!
— Isso acontece quando um greenhorn não quer deixar-se derrubar por um animal; se eu fosse um velho e experimentado caçador das campinas, mestre em caçadas de poldros, então deixaria o meu cavalo fugir juntamente com o poldro bravio, e qualquer mula me derrubaria!
Com expressiva angústia, ele pediu-me:
— Não divulgue esse fato, eu lhe peço, sir! Afianço-lhe que isso pode suceder ao mais atilado caçador das campinas; o senhor esteve, ontem e hoje, nos seus grandes dias; a sorte tem-lhe sido favorável!
— Espero que dias como estes se sucedam! Como vão as suas costelas e demais ossos?
— Não sei! Depois verei. Agora posso dizer-lhe que me dói todo o corpo; também numa besta como aquela, nunca montaria em toda minha vida! No entanto, tenho esperanças de conseguir, ainda, amansá-la!
— Já está mansa! Veja como jaz ali estendida; causa pena! Vamos ensilhá-la e pôr-lhe o freio; o senhor irá nela, de regresso para o acampamento.
— Não. O animal vai continuar com os seus pinotes.
— Não será mais capaz disso. Aquela está curada e ainda o verei satisfeito por tê-la apanhado.
— Acredito! Desde o princípio, não desviei os olhos dela, enquanto o senhor tencionava laçar o tordilho, no que cometeria formidável asneira!
— Mas tem certeza disso?
— Naturalmente! Seria, repito, uma formidável asneira!
— Não é isso que lhe pergunto. Tem certeza de que eu queria laçar o tordilho?
— Qual foi então o poldro de sua preferência?
— Justamente essa mula.
— É verdade?
— Claro. Por ser greenhorn, não deixo de saber que constitui sério perigo cavalgar tordilhos ou quaisquer outros animais de pêlo claro, nas campinas do oeste. Agradou-me a mula, logo que a vi à frente do rebanho!
— Pelo que vejo o senhor é inteligente e sabe conhecer cavalos!
— Desejaria, caro Sam, que conhecesse melhor ainda os homens do que eu os animais. Vamos! Ajude-me a erguer o animal.
Levantamos a mula. Ela tremia. Pusemos-lhe o freio e os arreios; não se moveu, nem bufou. E, quando Sam a montou, começou a trotar e obedecia-lhe em tudo, como se fora animal já domado.
— Essa já teve dono, que deve ter sido bom cavaleiro, — disse Sam; — certamente é um animal fugitivo que se juntou ao rebanho. Vou chamá-la “Mary”.
— Portanto, a mula “Mary” e a espingarda “Liddy”!
— Sim! São dois nomes lindos, não acha? Tenho um pedido a fazer-lhe, sir! Vai fazer-me um grande favor!
— Oh! Com que prazer!
— Não fale mais no que sucedeu hoje comigo; saberei recompensá-lo!
— Ora essa! Não me fale em recompensas, porque era exatamente esta a resolução que tomara.
— Oh! Não, o senhor merece uma recompensa; imagine como os nossos colegas haviam de rir a bom rir se soubessem das condições em que Sam Hawkens obteve a sua nova mula! Se guardar segredo dar-lhe-ei...
— Faça o favor de calar-se, não perca mais palavras com o assunto. É meu mestre e amigo! Mais não lhe preciso dizer.
Seus olhos umedeceram-se de lágrimas e exclamou entusiasmado:
— Sim, sou seu amigo, sir, e se pudesse ter a certeza de que me dedica um pouco da sua amizade, isso traria grande contentamento e indizível prazer ao meu velho coração.
Estendi-lhe a mão.
— Pois esse prazer posso proporcionar-lhe, Sam; pode estar certo de que lhe dedico amizade, grande amizade. Estimo-o como... como... como se deve estimar a um velho, bravo e dedicado titiozinho! Basta-lhe isso, Sam?
— Oh! Sim! Estou muito contente e pronto a dar-lhe aqui mesmo e já uma prova de dedicação. Diga-me qual a prova que deseja! Quer que... que... quer, por exemplo, que eu devore essa “Mary” com couro e ossos, diante dos seus olhos deslumbrados? Ou devo transformar-me em guisado e comer-me a mim mesmo? Ou ainda...
— Pare! — interrompi, sorrindo. — Não vale a pena; em ambos os casos perderia o amigo; no primeiro ficaria empanturrado; no segundo, morreria de indigestão, pois dificilmente conseguiria digerir essa peruca. Já me tem feito inúmeros favores e creio que, futuramente, terá ocasiões de sobra para demonstrar-me amizade. Deixe, portanto, a sua “Mary”, conserve também a vida e prepare-se para regressarmos ao acampamento. Preciso trabalhar.
— Trabalhar! Já trabalhou bastante! Arre! Se isso aqui não foi trabalhar... então, não sei que nome se dará ao que fêz!
Amarrei o cavalo de Dick Stone, e prendi-o; montamos e partimos; o rebanho de poldros entretanto, já estava longe; a mula obedecia ao cavaleiro que não se cansava de exclamar, satisfeito:
— Tem escola essa “Mary”, e boa escola! A cada passo me convenço mais que de hoje em diante estou bem montado! Ela se recorda agora do que havia aprendido e esquecera no meio dos poldros.
— Se não se recordar, poderá ensiná-la; não é muito velha.
— Que idade pensa que ela tem?
— Não terá mais de cinco anos.
— Também sou dessa opinião. Depois vou examiná-la; agradeço este animal ao senhor, só ao senhor. Foram dois dias aziagos para mim; mas para o meu amigo foram cheios de glória. Aposto que não pensa em tomar parte, tão depressa, em caçadas de búfalos e poldros.
— Por que não? Aqui, no oeste, devemos estar preparados para tudo. Espero tomar parte noutras caçadas.
— Hum! Por que não? Faço votos para que delas se saia tão bem como destas duas. Ontem, principalmente, a sua vida esteve presa por um fio de cabelo, arriscou-a demais! Nunca se esqueça de que é um greenhorn! Ora, onde se viu alguém esperar calmamente a aproximação de um búfalo para alvejar-lhe os olhos?! Onde se viu coisa igual! O senhor não tem a menor noção da vida das campinas e, por isso, não apreciou o bisão na sua devida forma! De futuro, acautele-se mais e não se aventure tanto! A caça ao bisão é muito perigosa; só há uma que a excede em perigo.
— Qual é?
— A de ursos.
— Refere-se aos ursos pretos com focinhos amarelos?
— Aos que têm focinho amarelo? Não! Esses são animais dóceis e de muito boa paz. Refiro-me aos ursos cinzentos que vivem nas Montanhas Rochosas. O senhor que conhece tantos livros, nunca leu alguma coisa a respeito desses ursos?
— Sim.
— Felicite-se se nunca encontrar uma fera dessas pelo caminho; quando um desses animais se põe de pé, mede meio metro de altura mais do que o homem; uma dentada sua bastará para transformar-lhe a cabeça em mingau; quando atacado, enfurece-se e não abandona o adversário antes de dilacerá-lo.
— Ou o seu adversário a ele?
— Oh! Eis outra prova de sua leviandade! Falar de um colosso de nossas campinas, como se falasse desses ursinhos que se vêem por aí.
— Isso não; nem de longe pretendo depreciar as forças dessa fera; mas invencível, como afirma, também não é. Nenhuma fera é invencível, nem mesmo o urso cinzento.
— Isso com certeza o senhor também leu nos livros?
— Sim.
— Hum! Creio que os livros que leu, são os únicos culpados da sua leviandade, porque, a não ser quando aplica as suas instruções, é até um homem sensato. Estou a dizer que seria capaz de avançar para um desses ursos, como ontem fêz com os bisões!
— Se não houvesse outro remédio, sim!
— Se não houvesse outro remédio! Tolice! Que pretende dizer com essas palavras? Remédio sempre há; é só querer.
— O remédio é fugir da fera, quando se é covarde. É assim que pensa?
— Sim; mas não fale em covardia; não é covardia fugir de tais monstros; pelo contrário, atacá-lo seria suicídio, simplesmente suicídio.
— Não penso assim. Se a fera, surpreendendo-me, não me der tempo para fugir, serei forçado a me defender, e se atacar os meus camaradas, terei de correr em seu auxílio. São esses os dois casos em que nunca devemos fugir ao perigo por temível que seja. Além disso, penso que um homem do oeste pode dominar uma fera dessas e, exercitando assim a sua coragem, terá ocasião de saborear-lhe a pata e o presunto que dela se prepara, e que é um dos melhores petiscos que se encontram nas campinas.
— O senhor é um homem incorrigível e começo a temer pela sua sorte. Dê graças a Deus se Este não lhe proporcionar ocasião de saborear um petisco desses! Nem por isso deixo de concordar que, em todo o planeta, não há carne mais saborosa do que a pata e o presunto do urso cinzento das Montanhas Rochosas; é ainda melhor que coxa de búfalo.
— Não precisa preocupar-se com a minha sorte. Existem nessas redondezas ursos cinzentos?
— Por que não? Vivem em todas as montanhas, seguem as correntes d’água e chegam mesmo a penetrar nas campinas. Ai daquele que o encontrar. Não falemos mais nisso!
Tanto ele como eu não podíamos supor que no dia seguinte, esse mesmo assunto voltaria a nos impressionar e que uma dessas perigosas e temíveis feras iria atravessar-se em nosso caminho. Não tínhamos mais tempo para prosseguir na palestra; chegáramos ao acampamento. O percurso que devíamos fazer, diminuíra muito, visto que, em nossa ausência, fora medido um grande trecho. Bancroft e mais os três agrimensores haviam desenvolvido grande atividade, a fim de provar a sua capacidade de trabalho. A nossa chegada despertou a atenção de todos.
— Mula! Uma mula! Ecoou por todo o acampamento — Onde a conseguiu, Hawkens? — Quem lha deu?
— Foi-me enviada diretamente — respondeu ele com toda a seriedade.
— Não é possível. Mas por quem, por quem?
— Pelo correio rápido e por dois cêntimos. Talvez queiram ver o invólucro!
Uns riam, outros ralhavam; ele, porém, conseguiu o seu propósito: ninguém mais o importunou. Quanto a Dick Stone e Well Parker, não sei como os tratou o nosso homenzinho, porque imediatamente me entreguei ao serviço com a turma de agrimensores. A medição progredira e no dia seguinte, iniciaríamos os trabalhos no lugar onde, na véspera, déramos caçada aos búfalos.
O ENCONTRO COM O URSO CINZENTO
Era noite. Enquanto no acampamento tudo era silêncio, Sam Hawkens e eu palestrávamos como bons amigos. Preocupavam-me ainda as caçadas e pensava na possibilidade de sermos novamente visitados pelos búfalos; a manada que encontráramos podia bem ser a vanguarda, enquanto o grosso da tropa viria depois.
— Qual nada, sir! Os bisões não são menos prudentes que os poldros; os rebanhos por nós perseguidos regressaram ao ponto de partida e preveniram do perigo o resto da tropa, que empreenderá a migração por outro rumo, desviando-se cautelosamente daquele vale.
Isto me tranqüilizara. Na manhã seguinte, transferimos o acampamento para além do local onde nos achávamos. Hawkens, Stone e Parker não participaram da mudança, porque deviam ir à campina treinar a nova mula. Lá havia campo suficiente para o trabalho que o nosso homenzinho ia empreender.
Quanto a nós, agrimensores, ocupamo-nos do transporte dos instrumentos, no que fomos acompanhados pelos companheiros de Rattler. Assim aproximamo-nos do local, onde abatêramos os búfalos. Ao chegar, vi, com surpresa, que o velho bisão não se achava onde o deixáramos. Observamos: a relva estava marcada e as pegadas seguiam rumo ao bosque próximo.
— Santo Deus, será possível! — bradou Rattler. — Quando viemos em busca da carne, examinamos detidamente os bisões que estavam sem vida; não obstante, parece que, depois disso, conseguiram reviver e andar...
— Acha possível? — perguntei-lhe.
— Então o senhor acha que se o búfalo não revivesse, poderia caminhar?!
— Ora esta! Não digo isso; perguntei-lhe apenas se acha possível que alguém o haja retirado daqui.
— Como? Quem havia de levá-los?
— Ora! Os índios, por exemplo. Anteontem, vimos pegadas lá em cima.
— Oh! Como um greenhorn sabe conversar fiado! Donde poderiam vir esses índios?
— De qualquer parte.
— Certamente! Talvez tenham vindo do céu, pois, do contrário, as suas pegadas estariam aqui; haveríamos de vê-las! Não. Os animais viviam ainda, e, depois, reanimados, arrastaram-se para o bosque vizinho; veja, há rastos no capim. Vamos até lá.
Rattler e os companheiros dirigiram-se para o bosque; supunham, talvez, que eu os acompanhasse; entretanto, não o fiz; a maneira irônica e descortês com que Rattler me falara desagradou-me e, de resto, tinha muito que fazer e a mim me era indiferente o destino que tomara o bisão. Mal me dispusera a iniciar o trabalho e não havia tocado ainda nas balizas quando ouvi brados de socorro, partidos do bosque e a detonação de dois ou três tiros; distingui a voz de Rattler que exclamava:
— Depressa! Subam nas árvores, do contrário, estamos todos perdidos! O monstro não subirá.
A quem se referirão? Pensei com meus botões. Eis que aparece um dos trabalhadores trazendo estampados no semblante o terror e a angústia.
— Que houve? — perguntei-lhe.
— Um urso! E que enorme urso! Um urso cinzento! — respondeu, encaminhando-se apressadamente para o meu lado.
— Socorro! Socorro! A fera me pega! Oh! Oh! Oh!
Pobre homem! Nas garras de tal fera que poderia fazer? Não podia tardar. Era preciso socorrê-lo imediatamente. Mas como? Estava desarmado. Deixara a minha espingarda na tenda, não por imprevidência, mas porque me embaraçaria no manejo dos instrumentos. Além disso, nós, os agrimensores, quando em campo, tínhamos uma legião de homens para zelar pela nossa segurança e defesa. Que fazer agora? Correr à tenda, seria perda de tempo e o urso devoraria o homem; era preciso ir em seu auxílio como me achava; tinha à cintura apenas uma faca e os dois revólveres; mas o que me adiantavam essas armas se devia enfrentar um urso cinzento? Esse animal pertence à família dos ursos de eras remotas. Medem até três metros de comprimento e cheguei a abater exemplares que pesavam quinhentos e quarenta quilos. A sua força muscular é tal que um veado, um poldro ou um bisão-novilho são vencidos por ele em poucos minutos. O cavaleiro só consegue fugir à sanha dessas feras, quando monta um cavalo bastante resistente e ágil; do contrário, o urso o alcança com relativa facilidade. Dada a força e a resistência do animal, aquele que consegue matá-lo é considerado herói pelos índios.
Corri para o bosque. Para ali o urso arrastara os restos dos bisões e, no arrastar, apagaram-se-lhe as pegadas, razão por que trabalhávamos tranqüilamente, sem prever o que aconteceria.
Foi um momento terrível! Atrás de mim, gritavam os agrimensores, que corriam às tendas em busca de armas; na minha frente, gritavam os homens do oeste e de permeio ecoavam os gemidos do companheiro em luta com a fera, dentro do bosque.
Aproximei-me rapidamente. Ouvi logo os bufidos1 do animal.
Apenas cheguei, vi os corpos dos bisões completamente estraçalhados; à esquerda e à direita homens que, trepados às árvores, fugiam aos ataques da fera; mais adiante um dos trabalhadores que, tentando subir a uma árvore, fora surpreendido pelo urso e se achava dependurado a um galho; o animal, que se pusera de pé, arranhava-lhe as coxas
1- O urso cinzento é caracterizado pela ausência de voz; não dá urros, mas, na raiva ou na dor, solta bufidos originais. — N. T.
e o ventre. Estava condenado à morte o pobre companheiro, irremediavelmente perdido! E que poderia eu fazer para salvá-lo? Melhor seria que me retirasse (e ninguém me poderia censurar) do que assistir àquele espetáculo que se desenrolava diante de mim. Entretanto, sentia-me irresistivelmente atraído à luta. Tomei uma das armas que se achavam no chão e que infelizmente tinha a cápsula deflagrada; avancei para o urso e desferi-lhe um coronhaço na cabeça; a arma, como vidro, despedaçou-se-me nas mãos; crânios como aqueles nem a cutelo se poderia partir; não obstante o fracasso da tentativa, conseguira, ao menos, desviar a fera de sua vítima. O monstro voltou a cabeça, lentamente, como que admirado da minha audácia; parecia medir-me de alto a baixo, ao mesmo tempo que hesitava em conservar a sua presa ou avançar contra mim; essa hesitação salvou-me a vida; veio-me uma idéia, a única, talvez que, no momento, poderia salvar-me. Saquei do revólver, enfrentei o urso e alvejei-o várias vezes nos olhos, a exemplo do que fizera com os bisões; tão depressa quanto possível, afastei-me para o lado à espera de novo ataque, desta vez, armado com a faca de campanha.
Permanecesse eu no lugar onde estivera antes e teria pago com a vida a minha audácia; o animal, como que fascinado, de um salto, arrojou-se para o local de onde eu o alvejara, pronto para dilacerar-me. Não me encontrando ali, cada vez mais furioso, saltava à minha procura, mas em vão; cavava a terra, arranhava o tronco das árvores, arrancava arbustos, estava verdadeiramente irado! Talvez o faro pudesse conduzi-lo até mim, mas a fúria não o deixou seguir os seus instintos. Finalmente, passou a cuidar mais dos ferimentos do que de quem os ocasionara. Sentou-se e, bufando, passou as patas dianteiras sobre os olhos. Levantei-me, rapidamente, e por duas vezes cravei-lhe a faca entre as costelas, sem conseguir atingir-lhe o coração. A fera avançou; eu, porém, de um salto, fugi enquanto ela com redobrada fúria, procurava-me por todos os lados. Durou alguns minutos esta situação. Perdera muito sangue e estava visivelmente extenuada. Sentou-se de novo para esfregar os olhos e isso me proporcionou ocasião de apunhalá-lo e, desta vez, com mais êxito. O animal deu alguns passos ainda e caiu pesadamente ao solo, soltando um bufido; tentou sentar-se, mas faltaram-lhe as forças; estirou-se e não se moveu mais.
— Graças a Deus! — exclamou Rattler do cimo de uma árvore. — O monstro está morto. A nossa vida correu sério perigo. Que horror!
— Não sei por que teve tanto horror. O senhor cuidou até muito bem de si! Agora pode descer!
— Não, não, ainda não! Primeiro verifique bem se está morto o monstro.
— Está morto, sim!
— O senhor não pode afirmar isso, porque não imagina como essa fera é dura de morrer. Examine-a, pois, primeiro!
— Para o senhor? Se quiser saber se a fera está morta, desça e venha examiná-la; é um afamado homem do oeste, ao passo que eu sou um greenhorn e nada mais.
Voltei-me para o outro companheiro, a vítima do urso; estava preso a um tronco da árvore com as pernas pendentes; cessara de gritar e estava inerte. Tinha o rosto desfigurado e os olhos vidrados, as carnes das coxas estavam dilaceradas e os intestinos caídos. Domei o meu pavor diante do quadro, e chamei-o.
— Olá, sir! Desprenda-se do tronco, que eu o ajudarei a descer.
Não me respondeu; não lhe notei um só sinal de que me compreendera. Pedi aos seus camaradas que descessem das árvores para me auxiliarem; os famosos “heróis das campinas” não se moveram de seus lugares, antes que eu tocasse na fera para provar-lhes que estava realmente morta. Só então desceram e ajudaram-me a desprender o homem da árvore. Foi tarefa um tanto difícil; seus braços estavam tão fortemente seguros ao galho, que foi preciso o emprego da força para desprendê-los. Estava morto.
O fim trágico que tivera aquele homem não parecia impressionar seus companheiros, que se retiraram indiferentes e dirigiram-se para o lugar onde estava o urso.
Rattler, que estava com eles, disse:
— Inverteram-se os papéis; há pouco o urso pretendia devorar-nos, agora somos nós que o havemos de comer. Depressa, pessoal; tirem-lhe o couro, para podermos cortar o presunto e as patas.
Ajoelhou-se diante do animal, e desembainhou a faca para começar a tirar o couro. Eu o observei:
— Seria mais heróico, que tivesse utilizado essa faca, há pouco, quando o urso ainda tinha vida. Agora é tarde. Não se incomode e desista dessa tarefa.
— Quê?! Quer talvez proibir-me de cortar um assado?
— Naturalmente, Mr. Rattler!
— E com que direito?
— Com o direito indiscutível que tenho sobre o animal. Fui eu quem o matou.
— Não é verdade! Não terá a coragem de sustentar que um greenhorn é capaz de abater um urso cinzento a facadas! Quando avistamos a fera, disparamos nossas armas.
— E, um pouco mais do que apressados, refugiaram-se no topo das árvores; sim, isso é verdade, a pura verdade!
— Mas, as nossas balas o atingiram; elas, e não o arranhão de sua faca, causaram-lhe a morte. O urso é nosso e dele faremos o que bem nos aprouver. Compreendeu?
Estava realmente resolvido a carnear o urso; eu, porém, tornei a preveni-lo:
— Desista dessa tarefa, Mr. Rattler; do contrário, eu o obrigarei a respeitar as minhas palavras; compreendeu agora?!
Como persistisse em desobedecer à minha advertência, agarrei-o, ajoelhado como estava, pelos quadris e o arrojei longe, de encontro a uma árvore, onde bateu violentamente. De momento, revoltado como estava, era-me indiferente quebrar-lhe ou não um dos membros. Enquanto ele voava pelos ares, saquei do último revólver que me restava para prevenir-me contra alguma provável agressão. O meu adversário ergueu-se; fulminou-me com um olhar colérico, puxou da faca e disse:
— Vai me pagar! Já me agrediu duas vezes e garanto-lhe que não o fará pela terceira. — Dizendo isto, tentou avançar contra mim.
Apontei-lhe o revólver e ameacei-o:
— Mais um passo e atiro; embainhe a faca. Vou contar até três e se ainda tiver a faca na mão, alvejo-o. Preste atenção: um... dois... e...
A MORTE DE KLEKIH-PÊTRA
— Homens, que é isto? Estão doidos? Por que motivo estão os peles-brancas quebrando os pescoços um do outro? Parem!
Olhamos para o lugar donde partia essa voz e vimos um homem sair de trás duma árvore. Era de estatura pequena, compleição franzina e corcunda; trajava quase como os brancos e estava armado de espingarda e faca. Não se podia, no momento, dizer se era um branco ou um índio. O feitio do rosto assemelhava-se ao dos silvícolas, ao passo que a pele, agora tostada pelo sol, fora talvez branca. Tinha a cabeça descoberta; cabelos negros pendiam-lhe até os ombros. Vestia calças, camisa de caça e sapatos, tudo de couro. Seus olhos refletiam uma inteligência invulgar e a sua figura, embora deformada, nada tinha de ridícula. Aliás, as deformações naturais não devem ser motivo de riso para nós. A caridade assim nos ensina; porém, Rattler, que não tinha sentimentos delicados, ao avistar o recém-chegado, exclamou, sorrindo, ironicamente:
— Oh! Olhem lá um anão corcunda, um verdadeiro monstrengo! Não sabia que por aqui, no lindo oeste, existiam semelhantes aberrações da natureza.
O forasteiro mediu-o de alto a baixo e, em tom calmo e refletido, respondeu-lhe:
— Dê graças a Deus por gozar de boa saúde e perfeição física! Saiba que não devemos cuidar somente da saúde do corpo, mas também da do espírito, e, nesse particular, ao que vejo, não devo temer-lhe confronto.
Fêz um movimento de desprezo com a mão, e dirigiu-se a mim:
— Mas, tem uma força brutal, sir! No exercício que acaba de fazer, atirando aos ares esse homem possante, ninguém o imitará com facilidade! Deleitei-me com esse espetáculo!
Em seguida tocou o urso cinzento com o pé e disse:
— No encalço deste monstro andamos nós; mas chegamos tarde; é pena!
— Pretendia abatê-lo?
— Sim. Descobrimos, ontem, as pegadas dele e corremos todas estas campinas, subimos todas as montanhas que as rodeiam, atravessamos os matos e entramos nos brejos e, afinal, foi tudo em vão.
— Fala no plural, sir. Não anda só?
— Não. Acompanham-me dois gentlemen!
— Quem são eles?
— Assim que descobrir com quem trato, dir-lhe-ei quem somos. Deve compreender que nestas paragens toda a prudência é pouca. Encontram-se mais homens maus que bons. — E lançando um olhar a Rattler e aos de sua roda, prosseguiu em tom amável:
— Afinal conhece-se logo um gentleman, em quem se pode confiar. Ouvi a última parte de sua palestra e já sei mais ou menos quem é!
— Somos agrimensores, sir. A nossa seção compõe-se de um engenheiro-chefe, quatro agrimensores, três escoteiros e quatro homens do oeste, cuja tarefa é defender-nos contra ataques eventuais.
— Hum! No que diz respeito à última parte, estou convencido de que não precisa de ninguém para defendê-lo... Voltemos ao assunto. Então, são agrimensores? Acham-se aqui em atividade?
— Sim.
— Que estão medindo?
— Estamos demarcando uma estrada de ferro.
— Que deverá passar por aqui?
— Sim.
— Compraram, então, esses terrenos?
A essa pergunta seu olhar perdeu o brilho e sua fisionomia tornou-se grave. Parecia ter motivos para pedir tais esclarecimentos. Respondi-lhe:
— Foi-me confiada a tarefa de fazer esta medição e é o que estou fazendo; quanto ao mais, não me cabe indagar.
— Hum! Sim! Mas bem sabe que não está procedendo como homem de bem. As terras onde se acham pertencem aos índios: aos apaches, da tribo dos mescaleros. Posso afirmar-lhe, porque disso tenho absoluta certeza: até agora não as venderam a ninguém e nem concertaram qualquer acordo nesse sentido com quem quer que seja.
— Que tem o senhor com isso? — exclamou Rattler, interrompendo-o. — Não se envolva com assuntos alheios; cuide dos seus.
— Pois é justamente o que estou fazendo, sir. Sou apache, aliás, sou mescalero.
— Ora, não seja ridículo! Seria preciso ser cego para não se ver que é branco.
— Está enganado. Não deve julgar-me pela pele e sim pelo nome: chamo-me Klekih-pêtra que, no dialeto dos apaches, significa “pai branco”.
Creio que Rattler já ouvira falar nesse nome porque, em tom de admiração irônica, deu um passo para trás e disse:
— Oh! Klekih-pêtra, o famoso professor dos apaches! Pena é que seja corcunda! Deve ser muito perseguido pela chacota dos moleques peles-vermelhas.
— Ah! Isso talvez seja verdade, sir! Mas não importa. Estou habituado a ouvir chacotas exclusivamente de moleques, porque homens sensatos nunca procedem desta forma. E, afinal, agora que já sei quem são os senhores e o que fazem aqui posso, também, dizer-lhes quem são os meus companheiros; é melhor mostrá-los e já.
Voltou-se e em linguajar indiano, que eu não compreendia, gritou para dentro do mato, de onde surgiram logo dois vultos interessantes. Cheios de dignidade, caminhavam a passos lentos em direção a nós. Eram índios, pai e filho, como logo à primeira vista se percebia.
O mais velho era de estatura um pouco acima da mediana e de compleição forte; sua postura denotava algo de verdadeiramente nobre e seus movimentos denunciavam a grande agilidade de que era dotado. O rosto tinha os característicos do indígena, porém, os traços eram mais delicados do que os dos peles-vermelhas em geral; os olhos tinham uma expressão serena, quase suave, expressão de tranqüilo e íntimo recolhimento, que devia dominar os seus companheiros de tribo! Tinha os cabelos amarrados ao alto da cabeça, em forma de capacete, ostentando uma pena de águia, distintivo dos caciques de tribos. O traje compunha-se de sapatos de couro, faixa franjada e de um jaquetão de caçador, feito também de couro. Na cinta, usava a faca e uma bolsa, onde guardava um sem-número de miudezas necessárias a um homem do oeste. A “bolsa de medicina” era trazida no pescoço, em forma de colar, e ao seu lado pendia o calumet1, com seu fornilho recortado, em estilo sagrado.
Na mão levava uma espingarda de dois canos, cuja coronha estava ornada de tachas de prata. Era esta a arma que mais tarde havia de celebrizar seu filho Winnetou, o qual passou, então, a chamá-la “espingarda de prata”.
O mais jovem ostentava os mesmos trajes que seu pai, porém, mais elegantes. Os sapatos eram feitos de couro de ouriço-caixeiro e a faixa e o jaquetão eram bordados com fios vermelhos. Também ele usava a “bolsa de medicina” e o calumet ao pescoço. O seu armamento consistia, como o do pai, de uma faca e de uma espingarda de dois canos. Trazia a cabeça também descoberta e tinha os cabelos amarrados, em parte, ao alto da cabeça, porém não usava a pena de cacique; a cabeleira era basta e ia até abaixo dos ombros. Quantas damas elegantes não lhe invejariam a linda cabeleira negra! O rosto refletia ainda mais nobreza que o de seu pai. Aparentava ter a minha idade e sua figura causou-me impressão profunda. Que extraordinárias virtudes deviam ornar aquele jovem coração! Olhamo-nos mutuamente por alguns instantes; seus olhos negros tinham um brilho aveludado e fitavam-me com expressão de grande simpatia, parecendo que me saudavam.
— Eis os meus amigos e companheiros, — disse Klekih-pêtra, referindo-se, primeiro ao pai e, depois, ao filho: — Este é Intschu-tschuna2, o maior cacique dos mescaleros, reconhecido, também, como chefe pelas demais tribos dos apaches; este é Winnetou, seu filho, portador, apesar de sua pouca idade, de um passado cheio de heroísmo mais brilhante que o de dez guerreiros juntos em toda a sua vida. Seu nome e seus feitos heróicos hão de ser cantados em todos os recantos e até os confins desta imensa savana.
O tom em que falava Klekih-pêtra, parecia exagerado, mais tarde, porém, certifiquei-me de que estava ainda muito aquém do verdadeiro valor e heroísmo do jovem indígena. Rattler, com uma grande gargalhada, retrucou:
— Tão jovem e já portador de tantos feitos heróicos?! Digo “feitos heróicos” por ironia, porque conheço demasiado a atividade dessa gente: assaltos e roubos; todos os peles-vermelhas são ladrões!
Foi uma ofensa brutal. Os três recém-chegados simularam não a compreender. Aproximaram-se do urso e o fitavam. Klekih-pêtra ajoelhou-se e passou a examiná-lo.
— O monstro foi abatido a punhaladas e não a bala — disse ele, dirigindo-se a mim.
Do seu esconderijo, ouvira a minha discussão com Rattler e queria demonstrar que eu tivera razão.
1- Cachimbo da paz;
2- Bom Sol.
— Veremos — respondeu Rattler. — O que sabe um infeliz corcunda, mestre-escola, sobre caçadas de ursos? Depois de lhe tirarmos o couro verificaremos, com toda a precisão, qual dos ferimentos lhe ocasionou a morte. Não me deixo ludibriar nos meus direitos por um simples greenhorn!
Winnetou, curvando-se então para o urso, examinou-lhe a ferida que sangrava; em seguida levantou-se e, dirigindo-se a mim, perguntou:
— Quem foi que cravou a faca no urso cinzento?
Falava inglês corretamente.
— Eu — respondi-lhe.
— Por que o meu jovem irmão pele-branca não o matou a tiros?
— Porque não trazia espingarda comigo.
— Mas aqui pelo chão, vejo espingardas abandonadas!
— Não são minhas. Seus donos atiraram-nas longe e subiram nas árvores numa disparada louca.
— Quando seguíamos as pegadas do urso, ouvimos, ao longe, gritos angustiosos; donde partiam?
— Daqui.
— Uff! Os esquilos e zorrilhos trepam nas árvores à aproximação do inimigo. Ao homem, porém, isso não fica bem; tendo coragem ele pode aniquilar a fera mais possante e perigosa. Foi exatamente o que sucedeu com meu irmão pele-branca. Dou-lhe meus parabéns junto com a minha profunda admiração pelo ato heróico que praticou. Por que chamam-lhe aqui greenhorn?
— Porque estou no oeste recentemente, pela primeira vez.
— Os peles-brancas são homens singulares. Entre eles dá-se o nome de greenhorn a um jovem que abate um urso a facadas, ao passo que os demais que, covardemente fogem da fera e se aboletam no topo das árvores a gritar de medo, consideram-se a si próprios bravos homens do oeste! Os peles-vermelhas são mais justiceiros: para eles um homem valente nunca é covarde e um poltrão nunca é homem valente.
— Meu filho disse muito bem — confirmou o cacique, num inglês não tão correto como o do jovem. — Esse pele-branca já não é mais um greenhorn. Quem abate o urso cinzento, o monstro das montanhas, deve ser considerado grande herói e aqueles, que, fugindo da fera, galgam o cimo das árvores, deveriam saudá-lo com palmas de gratidão e nunca com zombarias! Bem! Bem, vamos para a campina ver o que estão aqui fazendo estes peles-brancas.
Oh! Que diferença de caráter havia entre os meus companheiros e esses índios por eles desprezados. O espírito de justiça, falava neles muito mais alto do que nos nossos homens. Não devia ser assim. Que tristeza! O procedimento daqueles silvícolas era uma verdadeira audácia. Eram apenas três e não ignoravam de quantos homens se compunha o nosso grupo. Atirar-se-iam a grandes perigos, se transformassem em seus inimigos os homens do oeste que nos acompanhavam; mas disso não cogitavam. Saíram, com passo firme e digno, em direção à campina, abandonando a clareira onde nos achávamos. Acompanhamo-los. De repente, Intschu-tschuna deu com os olhos numa estaca fincada no chão. Parou e, dirigindo-se a mim, perguntou:
— Que é isto? Os peles-brancas pretendem, por acaso, demarcar estas terras?
— Sim, senhor.
— E para quê?
— Para abrir uma estrada de ferro.
Seus olhos perderam aquele brilho sereno, tomaram uma expressão terrivelmente colérica e, quase em tom de violência, perguntou-me:
— E o senhor pertence a essa gente?
— Sim, senhor.
— E ajudou a medição?
— Sim.
— E é remunerado por esse serviço?
— Sim.
Lançou-me um olhar desprezível e, dirigindo-se a Klekih-pêtra, disse num tom desdenhoso:
— Teus ensinamentos são belos, mas não podem ser postos em prática. Apenas encontramos este jovem pele-branca, sentimo-nos encantados pelo seu coração nobre, índole sadia, caráter impoluto; agora, que ouvimos? Ouvimos-lhe a confissão de que, mediante recompensa material, está aqui auxiliando a nos roubarem as terras! Os brancos, podem, na aparência, parecer melhores uns que os outros; no íntimo, são todos iguais.
Para ser sincero, confesso que realmente não me foi possível, no momento, encontrar palavras para a minha defesa. Sentia-me intimamente envergonhado: o cacique tinha razão; era exatamente como dizia. Poderia sentir-me bem ali, eu, agrimensor cristão e profundamente moralista?
O engenheiro-chefe e os demais agrimensores haviam-se retirado e, refugiados na tenda, espreitavam receosos, o temível urso. Quando chegamos ao acampamento, vieram ao nosso encontro, mostrando-se surpreendidos por nos verem em companhia de índios. Perguntaram-nos como havíamos conseguido abater o urso ao que Rattler se apressou em responder:
— Fui eu que o matei; ao meio-dia almoçaremos patas de urso. Os três recém-chegados olharam-me esperando a minha reação.
— Afirmo que fui eu que o apunhalei. Aqui estão três peritos que confirmam o que estou dizendo; entretanto, não darei por terminado o assunto; esperemos Hawkens, Stone e Parker que voltarão em breve da campina; ouviremos seus pareceres, que serão decisivos. Até então ninguém tocará no animal.
— Com mil diabos! Não sei por que hei de conformar-me com o parecer desses cretinos! Vou já tirar o couro, esquartejar o urso e ai daquele que me interromper nesse serviço. Tenho algumas dúzias de balas para os miolos desse atrevido!
— Não fale tão alto porque o obrigarei a calar, Mr. Rattler! Não temerei as suas balas, nem seguirei o seu exemplo de há pouco, garanto-lhe; não me fará subir às árvores, tome nota disso! Agora podem ir até o bosque; mas, vejam bem, com o único objetivo de sepultar o nosso inditoso companheiro que jaz morto, lá. Creio que não pretendem deixá-lo exposto aos corvos e às demais aves de rapina.
— Morreu alguém? — perguntou-me Bancroft, assustado.
— Sim, Rollins — respondeu-lhe Rattler. Esse pobre diabo pereceu nas garras da fera, por causa da ignorância de um seu companheiro; poderia se ter salvo, se não fora isso.
— Como? Por causa de quê?
— Ora, agiu exatamente como nós: procurou subir a uma árvore; e teria atingido o seu fim, com toda a facilidade, se esse miserável greenhorn não tivesse irritado a fera, levando-a ao encontro do nosso pobre companheiro; o urso furioso, investiu contra Rollins, dilacerando-lhe o corpo.
Era demais. Emudeci, a princípio, em face de tamanho atrevimento. Não. Não devia permitir tão grosseira adulteração da verdade feita na minha presença! Perguntei-lhe, pois, apressadamente:
— Tem certeza do que diz, Mr. Rattler?
— Sim.
— Com que então Rollins ter-se-ia salvo se eu não tivesse impedido?
— Sim.
— Entretanto, ao que vi, o monstro já o tinha nas garras, quando cheguei.
— Está mentindo.
— Pois bem. Digo-lhe que ouvirá a verdade e sofrerá as conseqüências de seus atos pouco recomendáveis.
A estas palavras, arranquei o revólver de suas mãos e vibrei-lhe uma bofetada, que o fêz cair ao solo a uns seis ou oito passos de distância. Levantou-se rapidamente e, de faca em punho, investiu contra mim. Com a mão esquerda aparei-lhe o golpe, enquanto com a direita, desferia-lhe violento soco no temporal, fazendo-o cair novamente sem sentidos a meus pés.
— Uff, uff — exclamou Intschu-tschuna admirado, esquecendo a imparcialidade a que estava obrigado, na qualidade de cacique de uma tribo; logo, porém, procurou conter o seu entusiasmo.
— Eis Schatterhand de novo em cena — disse o agrimensor Wheeler.
Não liguei importância a essas palavras, pois minha atenção estava presa aos companheiros de Rattler. Estavam visivelmente indignados, mas nenhum deles se atrevia a me atacar; cochichavam e blasfemavam, mas não iam além disso.
— Mr. Bancroft, peço-lhe que repreenda severamente a Rattler. Nunca o molestei, entretanto vive a provocar-me. Receio um homicídio aqui no acampamento. Destitua-o de suas funções e se isso não lhe fôr do agrado, retirar-me-ei.
— Oh, sir! A coisa não é tão grave!
— Sim, senhor, é mais grave do que julga. Aqui faço-lhe entrega da sua faca e do seu revólver. Não lhe devolva essas armas, antes que ele se acalme, porque, declaro-lhe de uma vez por todas: sei defender-me e, se Rattler me agredir novamente, mato-o. Chamam-me greenhorn, mas fiquem cientes: conheço perfeitamente as leis das campinas. Tenho o direito de matar, no mesmo instante aquele que me fizer qualquer ameaça.
Essa advertência valia não só a Rattler, mas também aos que lhe eram fiéis; todos guardaram silêncio. Inschu-tschuna falou, então, ao engenheiro-chefe:
— Neste instante, meus ouvidos perceberam que, entre estes peles-brancas, o senhor é que tem a voz de comando. Não é assim?
— Perfeitamente — respondeu o interrogado.
— Pois então, preciso falar-lhe.
— A respeito de quê?
— Já o saberá. Conserve-se de pé; os homens sentar-se-ão, enquanto conversamos.
— Quer ser nosso hóspede?
— Não. É impossível. Como posso ser seu hóspede, se estão nas minhas terras, nos meus matos, nos meus vales, nas minhas campinas? Os peles-brancas que se sentem. Quem são aqueles que lá vêm?
— São dos nossos.
— Pois então que venham para cá, a fim de tomarem parte na conversa.
Eram Hawkens, Dick e Will que regressavam das campinas. Como experimentados que eram, não estranhavam a presença de índios ali; mas, quando lhes disse de quem se tratava, tomaram-se de cuidados.
— Quem é aquele outro? — perguntou-me Sam.
— Seu nome é Klekih-pêtra e Rattler chamou-o de mestre-escola.
— Klekih-pêtra, o mestre-escola? Ah! Já ouvi falar dele. É um homem misterioso, um pele-branca que vive há muito tempo entre os apaches e, ao que parece, é uma espécie de missionário, embora não seja padre. Folgo em vê-lo. Vou sondá-lo, hihihihi!
— Se é que ele se deixe sondar!
— Não me há de morder; isso nunca me aconteceu. Há mais alguma novidade?
— Sim.
— O que é?
— Um assunto muito importante.
— Vamos, conte-me então.
— Lembra-se da advertência que ontem me fez?
— Não sei de que se trata. Adverti-o de muitas coisas.
— Um urso cinzento.
— Como? Quê?... Com que então andou por aqui uma dessas feras?
— E que urso!
— Onde, onde? Está brincando comigo!
— Nada disso. Lá embaixo, dentro do bosque.
— De fato, de fato? Santo Deus! Suceder isto e justamente quando nos achávamos ausentes! Houve mortos?
— Sim, um, Rollins.
— E o senhor, que fêz? Guardou distância?
— Sim.
— Muito bem! Mas estou quase não acreditando no que diz.
— Pois pode crer. Guardei exatamente a distância necessária para que não me pudesse tocar, enquanto eu o apunhalava quatro vezes, entre as costelas.
— Está doido? Atacou-o a faca?
— Sim. Não tinha a espingarda comigo.
— Mas que homem! Um verdadeiro greenhorn. Trouxe propositadamente para as campinas uma pesada “mata-ursos” e, quando o urso aparece, mata-o a faca em vez de fazê-lo a bala. Mas será isso possível? E como se saiu?
— Tão bem que Rattler afirma ter sido ele quem matou o monstro e não eu.
Narrei-lhe, então, o sucedido, inclusive a minha altercação com Rattler.
— O senhor é um homem incrivelmente leviano! Nunca viu um urso cinzento e atreve-se a enfrentá-lo como se fosse brincar com um Lulu da Pomerânia! Quero ver o animal. Venham Dick e Will! Precisam também conhecer esta outra aventura tola do nosso greenhorn.
Iam sair, quando Rattler, que recuperara os sentidos, levantou-se. Sam dirigindo-se a ele disse:
— Mr. Rattler, devo preveni-lo: sei que tornou a se envolver na vida deste meu jovem amigo. Se isto se repetir, esteja certo, tratarei de acabar com essa sua valentia de fantoche. A minha paciência esgotou-se. Tome nota!
Após isto, retiraram-se. Rattler lançou-me um olhar cheio de ódio, mas não disse nada; parecia uma bomba prestes a explodir.
Os dois índios e Klekih-pêtra se haviam sentado na relva. O engenheiro-chefe ocupara um lugar diante deles, mas não haviam ainda iniciado a palestra, pois esperavam a chegada de Sam, a fim de ouvir a sua opinião. Este voltava, logo após e, ainda de longe, exclamou:
— Mas que asneira! Primeiro alvejou o urso e depois fugiu. Quando não se pode atingir o alvo, nunca se dá o tiro; seria mais prudente deixar o monstro em paz, porque, nesse caso, não atacaria ninguém. O estado de Rollins é horrendo! Afinal, quem abateu o animal?
— Eu — respondeu Rattler, apressadamente.
— O senhor? E de que maneira?
— A bala.
— Bem. Creio. Está certo.
— Logo vi que me daria razão.
— Sim, o urso morreu em conseqüência de um balaço.
— Portanto, a sua carne me pertence. Ouviu, minha gente? Sam Hawkens está a meu favor, — gritou Rattler triunfante.
— Sim, pertence-lhe! Sua bala passou acima da cabeça do urso e cortou-lhe a ponta da orelha; e, perdendo a ponta de uma das orelhas, morre um urso daqueles?! Hihihi! Se foram disparados vários tiros, quem os deu estava com medo e em disparada, motivo pelo qual nenhum deles acertou o alvo, a não ser um que atingiu a ponta da orelha! Mas que valentes punhaladas! Duas do lado do coração e mais duas no meio deste. Quem apunhalou a fera com tanta segurança?
— Eu — respondi-lhe.
— O senhor só?
— Sim, e mais ninguém.
— Então o urso lhe pertence. Isto é, como aqui formamos um grupo, o couro é seu e a carne será distribuída a todos nós, como lhe aprouver. Assim se procede no oeste bravio. Que tal acha, Mr. Rattler?
— Vá para o diabo!
Pronunciou algumas imprecações e dirigiu-se para a carroça, onde estava o barril de aguardente. Vi-o encher uma caneca, e estava certo de que não abandonaria o barril antes de cair embriagado. Agora que a questão dos direitos de propriedade sobre o urso estava, pois, liquidada, Mr. Brancroft convidou o cacique dos apaches a expor os seus pedidos e reclamações:
— Não é um pedido que lhes faço, mas uma ordem que lhes quero dar — disse Intschu-tschuna, com orgulho.
— Não recebemos ordens — assegurou-lhe o engenheiro-chefe, no mesmo tom.
O semblante do cacique encolerizou-se; dominando-se, porém, replicou calmamente:
— Queira o meu irmão, pele-branca, responder-me, com a verdade, algumas perguntas que lhe vou fazer. Possui, porventura, uma casa na terra onde mora?
— Sim.
— Junto à mesma há um jardim?
— Sim.
— E, se o vizinho pretendesse abrir um caminho que lhe atravessasse o jardim, o meu irmão pele-branca, consentiria nisso?
— Não!
—As terras do outro lado e toda a região a leste do Mississipi pertencem aos peles-brancas. Que diriam estes se, amanhã, os índios para lá seguissem e pretendessem construir uma estrada para o “cavalo de fogo”?
— Claro que os repeliriam.
— O meu irmão falou a verdade. Agora, os peles-brancas vêm para as terras que nos pertencem; apanham-nos os poldros, matam-nos os búfalos; procuram ouro e pedras preciosas em nossas terras e, por fim, querem ainda construir uma estrada, por onde hão de passar os seus “cavalos de fogo”. Este caminho há de conduzir até nós maior número de peles-brancas que nos atacarão e nos forçarão a entregar-lhe ainda o pouco que nos deixaram. E que diremos nós a respeito de tudo isso?
Bancroft silenciou.
— Temos porventura, menos direitos do que vós? Sois cristãos e viveis a nos falar de amor; no entanto entendeis possuir o direito de nos matar e roubar a bel prazer querendo ainda obrigar-nos a sermos honestos para convosco. É isso amor? Dizeis que o vosso Deus é o bom pai de todos os brancos e de todos os vermelhos. Mas, porventura, terá Ele, agora, nos abandonado, enquanto para vós continua a ser pai carinhoso? Não pertenciam todas as terras do mundo aos peles-vermelhas? Tomaram-nas; e que nos deram em troca? Misérias, misérias e misérias! Vós nos enxotais, nos fazeis retroceder e nos haveis de reduzir a uma estreita região e nos sufocareis e morreremos miseravelmente. Por que isso? Necessitais de mais espaço? Não; é apenas por espírito de ambição, visto que as vossas terras são tão grandes que nelas ainda cabem milhões, muitos milhões de brancos. Cada um de vós pretende ser proprietário de um estado ou de um país inteiro; o vermelho, porém, que é o verdadeiro dono de tudo isso, não deve possuir nada, nem sequer um cantinho para repousar o corpo fatigado. Klekih-pêtra, que aqui está a meu lado, falou-me dos vossos livros sagrados. Neles se lê que o primeiro homem teve dois filhos, dos quais um matou o outro; o sangue deste, dizeis, clamou aos céus por vingança. E não é o que se está passando, atualmente, entre os dois irmãos, o pele-branca e o pele-vermelha? Não sois vós Caim e nós Abel? E, ainda mais: exigis que nos deixemos matar, sem nos defendermos! Fomos, de aldeia em aldeia, enxotados, repelidos para longe, cada vez para mais longe; agora moramos aqui, e aqui estais a demarcar um caminho para os “cavalos de fogo” sobre a pouca terra que ainda nos resta. Não temos os mesmos direitos que vós em vossa casa e em vosso jardim? Quiséssemos aplicar as nossas leis e teríamos de matar-vos a todos. Mas não; queremos apenas que as vossas leis tenham aplicação igual em relação a nós. Fazeis vós assim? Não! As vossas leis têm duas faces e costumais voltá-las segundo as conveniências do momento. Quereis construir aqui uma estrada para o “cavalo de fogo”? Pedistes-nos a necessária licença?
— Não, porque não necessitamos dela.
— Como não? São vossas estas terras?
— Penso que sim.
— Não, elas nos pertencem. Vós comprastes estas terras de nós?
— Não.
— Nós vos presenteamos com elas?
— Não; a mim não.
— Nem ao senhor nem a ninguém. Se fósseis honesto, antes de virdes aqui demarcar a estrada, perguntaríeis a quem para cá o enviou, se havia adquirido o terreno necessário para isso; se lhe respondesse afirmativamente, competia-lhe, ainda, exigir-lhe a exibição de provas que autenticassem a aquisição da propriedade. Mas assim não o fêz. Proíbo-vos, pois, a todos vós, de prosseguirdes na medição.
Essa proibição ele a pronunciou em tom amargo e grave. Admirava esse silvícola. Eu lera muitos livros sobre a raça vermelha, nunca, porém, imaginara ouvir um índio falar tão acertadamente. Intschu-tschuna falava um inglês claro e fluente; a sua lógica, como a forma de expressão que usava, eram de homem instruído. Seria Klekih-pêtra, o mestre-escola, a quem ele devia tudo aquilo?
O engenheiro-chefe encontrava-se em situação difícil. Se quisesse ser sincero e amante da verdade, nada teria a opor à acusação do cacique. Tentou rebatê-la, tentou defender-se, sofismando e, não o conseguindo, dirigiu-se a mim:
— Mas, sir, não ouve o que se está dizendo? Interesse-se pelo assunto e diga, também, algumas palavras.
— Obrigado pela consideração, Mr. Bancroft. A minha função aqui é de agrimensor e não de advogado. Resolva lá o que bem entender. Vim para efetuar as medições e não para resolver assuntos que não me dizem respeito.
Nessa altura, o cacique observou, em tom decisivo:
— Não necessitamos, mesmo, de mais discussões; já disse que não consinto a vossa permanência aqui. Quero que, ainda hoje, levanteis acampamento e inicieis a viagem de regresso à cidade donde viestes. Decidi: quereis obedecer-me ou não? Vou retirar-me agora, com meu filho Winnetou e estarei de volta, no espaço de tempo que os brancos chamam de uma hora. Então, dar-me-eis a resposta. Se vos retirardes, continuaremos irmãos; do contrário, o “machado da paz” será arrancado do solo. Sou Intschu-tschuna, cacique de todos os apaches. É só! Howgh!1
Levantou-se e o mesmo fêz Winnetou. Retiraram-se e seguindo a passos lentos vale abaixo, desapareceram numa curva. Klekih-pêtra conservara-se sentado. O engenheiro-chefe dirigiu-se a ele, pedindo-lhe um conselho. Klekih-pêtra respondeu:
— Faça o que entender, sir. Concordo plenamente com o ponto de vista do cacique; cada vez torna-se mais hediondo esse crime que os brancos vão praticando contra a raça vermelha. Como branco, porém, estou convencido de que em vão reagem os peles-vermelhas. Se hoje se retirarem daqui, amanhã virão outros completar o trabalho começado. De uma coisa, porém, quero preveni-los: a ameaça do cacique não deixará de se cumprir.
— Para onde foi ele?
— Certamente em busca dos nossos cavalos.
— Os senhores andam a cavalo?
1- Howgh! É uma palavra indiana de reforço e significa amém, basta, assim seja, etc. N. T.
— Naturalmente. Escondemos os animais quando descobrimos que o urso estava próximo. O caçador que procura esta fera, não pode estar montado.
Levantou-se também e saiu passo a passo, certamente, para evitar novas perguntas de Bancroft. Segui-o e perguntei-lhe, não obstante o seu retraimento:
— Permite-me que o acompanhe? Prometo-lhe nada dizer ou fazer que o aborreça. Interesso-me extraordinariamente por Intschu-tschuna e seu filho Winnetou.
Não lhe quis dizer que também a sua pessoa me despertara a atenção.
— Sim, acompanhe-me, sir. Retirei-me do convívio dos brancos; não quero saber mais deles; mas o senhor agradou-me e, por isso, convido-o a dar um passeio. Parece-me ser o mais sensato desses homens. Tenho razão?
— Sou o mais jovem, mas não sou presunçoso e creio que nunca o serei. Talvez seja isso o que me imprime essa aparência de bondade.
— Mas, não é verdade que todo o americano é mais ou menos assim?
— Não sou americano.
— Que é então, se não lhe contraria a pergunta?
— Contrariar-me, por quê? Não tenho motivos para ocultar a minha nacionalidade. Amo imensamente a minha pátria; sou alemão.
— Alemão! — disse, erguendo a cabeça. — Seja, pois bem-vindo. Deve ter sido este o motivo por que logo senti grande atração pelo senhor. Nós, alemães, somos homens singulares; nossos corações como que pressentem um certo parentesco, antes mesmo de sabermos que pertencemos a essa pátria querida; pena é que não seja uma nação mais unida! Um alemão que se tornou apache! Não lhe parece isto um milagre?
— Milagre, não; os desígnios de Deus parecem-nos, muitas vezes, inexplicáveis, mas são, na realidade, naturais.
— Desígnios de Deus! Por que fala em Deus e não na providência, no destino, na sorte?
— Porque sou cristão e não renego o meu Deus!
— Bravo, tem razão; é um homem feliz! O caminho de Deus nos parece muitas vezes extraordinário, mas é natural, senão vejamos: antes alemão estudioso, cientista de nome feito, agora, apache convencido; tudo isso parece um milagre, no entanto o caminho que me conduziu a tal destino é bastante natural.
Quando iniciamos a palestra, Klekih-pêtra permitira que o acompanhasse, mas meio contrariado; agora estava satisfeito em poder desabafar o coração. Notei logo que se tratava de um caráter boníssimo, razão por que evitei fazer-lhe a mínima pergunta sobre o seu passado. O mesmo não fêz em relação a mim! Foi logo inquirindo, francamente, sem cerimônias, sobre a minha situação. Respondi-lhe tudo com as minúcias que desejava. Não nos distanciáramos muito do acampamento e deitamo-nos embaixo de uma árvore. Pude, então, observar melhor o seu semblante. Nele desenhavam-se nitidamente os traços característicos do desgosto, da miséria, da privação! Seus olhos brilhavam, ora pesarosos, ora coléricos, ora cheios de dúvida, ora receosos. Quem sabe se até o desespero, por vezes, não lhe enchera a alma! Entretanto sua fisionomia era tão serena como um lago e de expressão tão profunda como um oceano, cujos mistérios são insondáveis. Quando tudo lhe havia contado, meneou a cabeça e disse:
— Está no início da luta de cujo termo eu já me vou aproximando; para o meu jovem amigo será essa luta apenas exterior; não interior. Deus está a seu lado, e nunca o abandonará. Comigo foi muito diferente; havia perdido a graça de Deus, quando saí da pátria, e comigo trouxe, em lugar da riqueza que nos prodigaliza uma fé pura, o que de mais torturante se pode conceber: a consciência culpada.
A estas palavras dirigiu-me um olhar perscrutador e, notando que eu permanecia com o semblante calmo e inalterado, perguntou-me:
— Mas não se assusta, diante do que lhe declaro?
— Não.
— Mas, nem diante de uma consciência culpada? Reflita!
— Oh! Não, não creio que, possuindo tal caráter, tivesse cometido a baixeza de ser ladrão ou assassino!
Apertou-me a mão e falou:
— Agradeço-lhe de coração, no entanto engana-se. Fui ladrão, porque roubei, oh, roubei muito! E quantas propriedades preciosas! Fui livre-pensador, em haver abjurado a minha religião e em provar, fui assassino! Quantas, quantas almas assassinei! Era professor numa academia; onde, não vem ao caso dizê-lo. O meu maior orgulho consistia em ser o maior entusiasmo, que toda a crença em Deus não passava de rematada tolice. Era excelente orador, atraía e empolgava os meus ouvintes e as más sementes que deste modo semeei, germinaram todas, sem se perder uma só. Constituí-me, assim, assassino e ladrão, matava no auditório a fé e dele roubava uma das maiores virtudes: a da fidelidade à sua crença. Veio, depois o tempo da revolução; quem não respeita a Deus, não respeita o rei, nem os princípios de autoridade. Tornei-me líder dos descontentes, que ingeriam, com sofreguidão, o veneno lançado pelas minhas palavras, veneno que eu, aliás, considerava remédio santo; reuniram-se, em bandos, e pegaram armas. Quantos deles pereceram em combate! Eu era o seu assassino e não só deles mas de outros que pereceram depois nas masmorras, nas enxovias. Procuraram-me por toda parte; mas eu conseguira fugir; abandonei a pátria sem me afligir com a extensão das desgraças que ocasionara aos outros; não tinha pai, não tinha mãe, tampouco irmãos ou outros quaisquer parentes; ninguém chorava por mim, mas a quantos fazia eu chorar!! Nisso eu não pensava, até que um dia minha consciência despertou em virtude de um golpe moral violento que sofri, e que quase me prostrou sem vida. Na véspera de atingir as fronteiras salvadoras, fui perseguido pela polícia, que andava no meu encalço. Era numa aldeia fabril, formada de população pobre; refugiei-me, confiado no acaso, numa pobre vivenda, e confessei o meu perigo, sem declinar o meu nome, a uma boa velhinha e a uma sua filha, que encontrei na sala da frente. Esconderam-me em atenção aos seus maridos que tinham sido, ao que me disseram, meus correligionários e companheiros de cruzada. Depois, num cantinho escuro, estivemos sentados e elas, debulhadas em lágrimas, relataram-me a extensão da desgraça que lhes martirizava o coração. Eram pobres, mas viviam felizes; a filha casara-se há um ano, seu marido ouvira um dos meus discursos e por ele se deixara seduzir; na sessão seguinte, compareceu, acompanhado do sogro; o veneno de minhas palavras fizera, também, efeito sobre o velho e, assim, a minha atuação nefasta, desgraçara quatro pessoas: o moço tombara na luta, na luta inglória, a que se arrojara; o velho fora condenado a vários anos de prisão. Isto contaram-me as mulheres que me salvaram e de cuja desgraça eu era a causa; citaram o meu nome como sendo o do líder do movimento subversivo. Este foi o tremendo golpe que me atingiu o coração e que me reconduziria à crença perdida. O remorso iniciara sua obra. Restava-me a liberdade, mas tinha a alma em chagas e o crime que eu cometera jamais poderia ser julgado pela justiça humana. Vaguei, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, dedicava-me ora a esta, ora àquela ocupação, sem conseguir recuperar o sossego. A consciência martirizava-me atrozmente. Quantas vezes andei beirando o suicídio; mas dele sempre me desviava uma mão invisível; a mão de Deus, essa mesma mão divina que me havia de conduzir depois de longos anos de remorsos, de dor e sofrimentos, à casa de um padre alemão, o qual adivinhando o infortúnio de minha alma levou-me a confessar-lhe toda a minha desgraça. E fi-lo para felicidade minha! Obtive, depois de longa espera e grande penitência, perdão dos meus pecados, recuperando a fé e o sossego íntimo. Louvado seja Deus!
Klekih-pêtra pronunciou essas palavras de mãos postas e erguendo quase em êxtase, seus olhos para o céu.
— Para me fortalecer moralmente, fugi do mundo e dos homens — prosseguiu ele. — Fui para o deserto bravio. Mas não basta a fé; essa árvore deve produzir os frutos da ação; e agora eu queria agir, exatamente em contraposição ao que fizera outrora. Vi, então, como a raça vermelha lutava desesperadamente para sobreviver; vi os assassinos dilacerarem-lhe o corpo e brotou-me na alma a compaixão e o desejo irresistível de me colocar a seu lado, de ir em sua defesa. O destino dos pobres silvícolas estava traçado; não poderia salvá-los, restava-me, porém, auxiliá-los numa coisa: suavizar-lhes a morte, e na hora extrema, fazer brilhar para eles o sol do amor e o calor da reconciliação! Aliei-me aos apaches, a cujo caráter e modo de vida me adaptei; captei-lhes a confiança, ganhei-lhes o coração. Desejaria que viesse a conhecer bem Winnetou; ele é, por assim dizer, minha obra. Este jovem é extraordinário. Fosse filho de um rei europeu, e seria um dia príncipe da paz, mas, como herdeiro de um cacique de tribo, perecerá como todos os de sua raça. Oh! Quisera viver até vê-lo cristão. Mas, já que considero isso impossível, nada mais me resta do que estar sempre a seu lado e assisti-lo em todos os perigos e necessidades. É meu filho espiritual; amo-o mais que a mim próprio; e, se uma bala mortal atirada contra ele, se desviasse de sua trajetória e viesse atingir o meu coração, morreria feliz, sabendo que, por ele dei a vida, e essa morte seria a última penitência dos meus antigos pecados!
Ficou silencioso e baixou a cabeça. Eu me achava profundamente impressionado e não pronunciei uma só palavra porque mesmo, ante tão sérias e graves revelações, todas as palavras seriam frívolas. Tomei da sua mão e apertei-a com efusão. Compreendeu-me, o que demonstrou com um leve inclinar da cabeça. Passara-se algum tempo, e ele baixinho, disse:
— Por que confio-lhe hoje todo o meu segredo? Vejo-o, pela primeira vez e talvez pela última. Quem sabe se não foi a Providência Divina que nos reuniu, hoje, aqui. Veja: eu, que outrora renegava Deus, hoje tudo atribuo à Sua santíssima vontade. De uma hora para outra, todo o meu ser se modificou; tenho o coração aflito, entretanto, não me atormenta a dor: é a sensação que temos no outono, ao cair das folhas. Em que circunstâncias irá desprender-se a folha de minha vida?! Leve, sem ruído e em paz? Ou será arrancada antes de desfolhar?
Olhava com saudade o vale que se estendia lá em baixo de onde surgiram, daí a pouco Intschu-tschuma e Winnetou, que vinham em nossa direção, a cavalo e trazendo o animal de Klekih-pêtra. Levantamo-nos a fim de voltarmos ao acampamento, onde chegamos em companhia dos dois índios.
Na carroça, vi Rattler. Com o rosto inchado e vermelho encaminhou-se para nós; bebera tanta aguardente, que se achava completamente alcoolizado. Dava a impressão de nos querer agredir e por isso tomei as necessárias precauções.
O cacique e seu filho apearam-se e se aproximaram de nós. Formamos, durante algum tempo, um grande círculo.
— Afinal, os meus irmãos de pele-branca já resolveram partir ou permanecer aqui? — perguntou Intschu-tschuna.
O engenheiro-chefe respondeu:
— Mesmo que tivéssemos de partir, seríamos obrigados a ficar algum tempo aqui, até receber as ordens dos nossos superiores; hoje, ainda enviarei um emissário a Santa Fé, a fim de consultá-los; depois, poderei tesponder-lhe.
A idéia não fora mal concebida, pois até a volta do emissário, teríamos os trabalhos concluídos. O cacique, porém, respondeu em tom imperioso:
— Não espero tanto tempo. Os meus irmãos de pele-branca terão de dizer-me imediatamente qual a resolução que tomam.
Rattler enchera uma caneca com aguardente e chegara de novo até nós. Julguei que me iria provocar, mas não; dirigiu-se aos dois índios e disse, numa risada atrevida:
— Se os índios beberem comigo, faremos o que eles querem; do contrário, ficaremos aqui. O jovem que dê início! Eis, Winnetou, a “água do fogo”, beba-a.
Alcançou a caneca a Winnetou que a recusou, afastando-a de si e dando um passo atrás.
— Quê? Não queres beber comigo? É uma recusa afrontosa. Toma, — disse, arremessando a caneca ao rosto de Winnetou, antes que o pudéssemos impedir — maldito pele-vermelha! Saboreia-a, já que não queres bebê-la! — Esse gesto constituía, segundo os preceitos indígenas, ofensa gravíssima que merecia ser, ali mesmo, vingada, embora de modo menos violento; Winnetou desferiu um golpe no rosto do atrevido, atirando-o ao solo. Este levantou-se calmamente; pensei que iria investir novamente contra o índio, entretanto, olhou apenas o jovem apache com olhar ameaçador e voltou de novo para a carroça.
Winnetou, enxugando o rosto, mostrava o semblante carregado, não se podendo adivinhar o que lhe ia no íntimo.
— Pergunto pela última vez, — disse o cacique — os peles-brancas se retirarão ainda hoje deste vale?
— Não podemos — foi a resposta.
— Pois bem, então nós é que nos retiramos. Não reinará a paz entre nós.
Fiz ainda uma tentativa para harmonizar a situação; baldados foram meus esforços e os três se encaminharam para os seus cavalos. Nessa altura, ressoou a voz de Rattler:
— Longe, bem longe! Cães vermelhos; mas a bofetada que me deu vai me pagar e bem paga.
Com rapidez que não era de esperar de quem se achava embriagado, Rattler tomou de uma espingarda, que estava na carroça e fêz pontaria contra Winnetou que, estando em campo raso, forçosamente deveria ser atingido. Agira com extrema rapidez, mas um movimento ágil e feliz de seu mestre havia de salvar o apache. O pequeno Klekih-pêtra, atônito, gritava;
— Retira-te, Winnetou, retira-te ligeiro!
Ao mesmo tempo, pulou no campo colocando-se na frente do jovem; estourou o tiro; a bala atingiu o mestre-escola que ainda tentou andar alguns passos, mas caiu ao solo. No mesmo instante, Rattler caía também atingido pelo golpe que eu lhe dera, pois que, de um salto, chegara até a carroça, a fim de desviar o tiro; fora tarde; por toda a parte ecoou um grito de aflição; apenas os dois apaches permaneceram mudos e ajoelhados diante do amigo que se sacrificara pelo filho espiritual. Examinaram-lhe a ferida. A bala atingira-lhe o peito, bem perto do coração; o sangue jorrava com abundância. Corri também até lá; seus olhos estavam cerrados e o rosto lívido e macilento.
— Deite-lhe a cabeça no colo — disse a Winnetou. — Se abrir os olhos e o ver terá morte mais tranqüila.
Obedeceu-me, sem dizer palavra; fitava o semblante do moribundo que, abrindo os olhos vagarosamente viu Winnetou curvado sobre ele. Um sorriso santo lhe aflorou aos lábios; com voz apenas perceptível, disse:
— “Winnetou, schi ya Winnetou” — Winnetou, oh! Meu filho Winnetou!
Depois parecia procurar mais alguém. Encontrou-me e, em alemão, disse:
— Fique-lhe... fiel... prossi. . . ga a mi... nha o... bra...!
Levantou a mão, que tomei entre as minhas e respondi:
— Ficarei; continuarei a sua obra, pode estar tranqüilo!
Sua fisionomia adquiriu, então, uma expressão sobrenatural e ele rezou com voz cada vez mais sumida:
— Eis que cai minha fo... lha! Arran... cada antes... do... des... fo... lhar... úl... ti... ma peni... tên... cia meus pe... ca... dos anti... gos... como... meu... de... sejo... Deus Nos... so... Se... nhor, per... doe meus peca... dos. Gra... ças eu... já... vou...!
Cruzou as mãos e, após um forte jato de sangue saído da ferida, deixou pender a cabeça: estava morto.
Agora sabia o que o levara, há pouco, a desabafar o coração: Providência Divina, dissera-me ele. O seu anelo era morrer por Winnetou; oh! cedo vira satisfeito esse desejo! Seu último pensamento, foi, como também o desejara, para Deus. Deus é o amor! Deus é misericórdia! E o perdão ele concede ao pecador arrependido!
Winnetou deitou a cabeça do morto na relva e olhou para seu pai, interrogativamente.
— Lá está o assassino; eu o derrubei; é vosso! — disse eu.
— “Água de fogo!”
Apenas essa palavra saiu da boca do cacique; e em que tom desprezível ele a pronunciou!
— Quero ser vosso amigo, vosso irmão, quero ir convosco! — estas palavras fugiram-me dos lábios.
O cacique teve um gesto de profundo desprezo, cuspiu-me na face e disse:
— Retire-se, vil roubador das nossas terras. Aventure-se a seguir-nos e o esmagarei!
Fosse outra a pessoa que assim me ofendia, e lhe teria respondido com a mais grave afronta. E por que não o fiz? Merecera eu, porventura, esta lição? Não. Suportei tudo, porém, se a ofensa se repetisse, creio que nem a promessa que fizera ao morto em hora extrema conteria a minha vingança.
Os brancos permaneciam mudos e atônitos. Que fariam os dois apaches? Nem sequer nos olharam mais. Levantaram o cadáver, amarraram-no aos arreios e partiram a passo. Não pronunciaram uma só palavra de ameaça e vingança e não se voltaram uma só vez, em nossa direção. Esse procedimento era para temer ainda mais do que se nos tivessem ameaçado com a morte mais terrível.
— Isto foi horrível e bem se pode tornar mais horrível ainda — disse Sam Hawkens. — Lá está Rattler no chão, sem sentidos. Que faremos dele?
Não respondi; ensilhei o meu cavalo e parti; ansiava por estar só, ao menos para desfazer um pouco as impressões dessa horrível meia hora que passara! Já era tarde, quando, cansado e abatido, voltei ao acampamento.
Seguindo os “apaches”
Para evitar o trabalho de arrastar o urso a grande distância, transferimos o nosso acampamento, para o lugar onde eu o abatera. Para conduzi-lo até o descampado onde acendêramos o fogo fora necessária a força conjugada de dez homens, tanto pesava o animal. Quando regressei ao acampamento, embora a horas tardias, encontrei todos ainda acordados, com exceção de Rattler que dormia profundo sono; o estado de embriaguez em que se achava era tal que foi necessário carregá-lo para cama. Sam tirara o couro do urso, deixando, porém, a carne intacta. Apeei do cavalo, acomodei-o e, aproximei-me do fogo. O meu companheiro, chegando-se a mim, falou:
— Onde andou até agora, sir? Esperávamos ansiosamente a sua chegada, pois desejávamos provar o urso e não nos era permitido cortar-lhe a carne, sem seu consentimento. Para não perder tempo, despi-lhe a fatiota, que fora muito bem talhada, não deixando ver uma só ruga, hihihi! Não se zangue por isso. Espero que determine agora como devo fazer a partilha. Pretendemos preparar um assado e comê-lo antes de dormir.
— Faça como lhe aprouver. Pertence a todos.
— Bem. De uma coisa, porém, quero avisá-lo: os melhores pedaços são as patas e não há prato mais saboroso; são ainda melhores quando, conservadas por algum tempo, chegam a ser atacadas pelos vermes. Entretanto, acho que não se deve esperar, pois receio que muito breve apareçam por aqui os apaches, a nos perturbarem, e perderemos o petisco. Será, pois, melhor que o saboreemos hoje; se formos vencidos pelos vermelhos, levaremos, ao menos, o prazer de ter aproveitado a caça. Tem alguma coisa a opor, sir?
— Não!
— Bem! Mãos à obra! Parece-me que apetite não falta a ninguém.
Separou as patas e cortou-as em tantos pedaços quantos eram os convivas. Quanto a mim, reservou-me a melhor parte; coloquei-a de lado; tinha fome, mas não podia comer. Estava fatigado e o exercício fazia-me sentir necessidade de alimento; era-me, porém, impossível aceitar qualquer coisa. Não esquecera ainda a cena de sangue ocorrida à tarde; via-me junto de Klekih-pêtra e nos meus ouvidos soavam ainda as declarações que me fizera e que encerravam a sua última confissão; finalmente, meditava nas palavras que proferira e que pareciam profetizar o fim próximo que tivera. Sim, a folha de sua vida não caíra na época do desfolhar, mas fora arrancada violentamente à haste; e arrancada por quem? Por que motivo? Em que circunstâncias? Lá estava o homicida, tinha o espírito ainda perturbado pelos vapores do álcool; desejaria prostrá-lo sem vida, mas, desprezava-o. Fora esse mesmo sentimento que levara os dois apaches a não vingarem, imediatamente, a morte do seu amigo. — “Água de fogo” — dissera Intschu-tschuna em tom de menosprezo! Quanta acusação, quanta censura encerrava essa palavra! Como me entristecia aquela morte! Entretanto, consolava-me o pensamento de ter Klekih-pêtra tombado vítima de uma bala que devia matar Winnetou; era a sua aspiração. Mas, e a súplica que me fizera de permanecer ao lado do seu discípulo e completar-lhe a obra iniciada? Minutos antes dissera que nos víamos pela primeira e última vez, significando talvez com isso que eu não devia pensar em viver com os apaches; como, pois, poderia confiar-me aquela tarefa que me obrigava ao convívio íntimo dos índios? Não teria ele refletido? Ou anteveria, com a alma próxima do além, o futuro que estava reservado a seu filho espiritual? Daí a algum tempo, cumpri o que havia prometido e não saberia dizer o que mais me comovera, se a compaixão pelo moribundo, se a profunda simpatia que me inspirava Winnetou. Admirava-o!
Notara-o desde o nosso primeiro encontro e a sua atitude, bem como a do pai diante do que acontecera, eram dignas de exemplo; qualquer outro, branco ou vermelho, se lançaria contra o assassino de seu amigo; entretanto aquele homem não lhes mereceu um só olhar e nem o mais leve movimento denunciou a revolta que lhes ia na alma. Agiríamos nós do mesmo modo? Assim meditava, junto à fogueira, quando Sam Hawkens me interrompeu:
— Em que pensa, sir? Não tem fome?
— Não desejo comer.
— Ah! Prefere talvez atormentar-se com pensamentos tristes. Deve reagir. Contristou-me grandemente a cena desta tarde, mas o homem do oeste tem que se habituar a estas coisas. Não é sem razão que denominam o oeste a “escura e sanguinolenta campina”. Pode crer que este solo está ensopado de sangue e quem não lhe quiser sentir o hálito, que permaneça em casa. Não se deixe impressionar; dê-me cá a pata do urso para que eu a prepare para o senhor.
— Obrigado, Sam; não quero comer nada. Já pensaram no destino que darão a Rattler?
— Já trocamos idéias a esse respeito.
— Afinal, qual será a sua pena?
— Pena? Acha que devemos castigá-lo?
— Claro!
— De que maneira pensa que o havemos de punir? Remetê-lo para S. Francisco, Nova York, ou Washington e denunciá-lo como assassino?
— Tolice! A autoridade aqui, somos nós; ele incorreu nas leis do oeste.
— Vejam como um greenhorn conhece as leis do oeste! Veio, talvez, da velha Germânia para ser um senhor juiz?! Era este Klekih-pêtra parente seu ou, ao menos, seu amigo?
— Não. Vimo-nos pela primeira vez.
— Eis o ponto de partida da questão; o oeste bravio tem suas leis fixas e originais que impõem olho por olho, dente por dente, sangue por sangue. Registra-se um assassínio: ou o parente mais próximo elimina o criminoso no próprio local do crime, ou forma-se um júri que dita e executa a sentença; assim é que se expurgam as campinas dos maus elementos que constituem perigo para os caçadores honestos.
— Pois bem, formemos um júri!
— Seria preciso alguém que acusasse.
— Serei eu!
— Com que direito?
— Com o direito que me assiste de não concordar que tal crime fique impune.
— Ora essa! Fala tal como um greenhorn. Poderia acusar em dois casos: no de ser o morto seu parente, ou amigo, ou no de ser o senhor, em pessoa, o morto, hihihihi! Está num desses casos?
— Sam, a questão não permite zombaria!
— Eu sei, eu sei! Falei deste modo, com o único intuito de esclarecer-lhe o caso; na realidade, pela lei do oeste, o morto é, naturalmente, a primeira pessoa revestida do legítimo direito de exigir o castigo do seu assassino, seguindo-se-lhe os parentes e amigos. Portanto, aqui ninguém se pode arrogar o direito de acusador; e, onde não há quem acuse, não se pode haver quem defenda. Não existe, pois, em vista disso, fundamento legal para a formação de um júri.
— Quer dizer, então, que Rattler ficará impune?
— Ninguém disse isto. Não se precipite dessa forma! Dou-lhe minha palavra de honra que será punido; isto é tão certo, como os tiros que dou com minha “Liddy”. Os apaches hão de tratar disto.
— E a pena será, também, extensiva a nós?
— Isto é certo! Mas pensa que evitaríamos o perigo se castigássemos Rattler? Os apaches consideram não só a ele, mas a todos nós como assassinos, e como tais nos hão de tratar, quando lhes cairmos nas mãos.
— Mesmo se o afastarmos de nós?
— Mesmo assim; atacar-nos-iam sem indagar se Rattler está ou não conosco. Mas de que forma nos livraríamos dele?
— Poderíamos expulsá-lo do acampamento.
— Já pensamos nisso, e chegamos à conclusão de que não nos assiste esse direito; e, mesmo que o tivéssemos, dele não lançaríamos mão, porque não seria agir com inteligência.
— Mas, Sam, não compreendo o seu ponto de vista. Se alguém não me agrada ou não me serve, dele me separo; cresce a razão se se trata de um bandido! Somos, então, obrigados a conservar por mais tempo em nossa companhia, um ébrio e assassino?
— Infelizmente, somos! Rattler foi contratado, nas mesmas condições que eu, Stone e Parker, para os serviços da seção; só aqueles que o contrataram e remuneram têm o direito de dispensar-lhe os serviços. Somos obrigados a seguir rigorosamente a lei.
— Seguir rigorosamente a lei em relação a quem todos os dias espezinha as leis, tanto de Deus como dos homens!
— Ainda assim! O que diz é verdade, mas uma falta não nos deve arrastar a outra maior; devemos ser justos, e é por isso que nós, os homens do oeste, quando somos obrigados, em determinados casos, a agir como autoridade, tudo fazemos para não macular nosso bom nome. Demais, que iria fazer Rattler, se o obrigássemos a deixar o acampamento?
— Isto seria lá com ele!
— E conosco também! Correríamos, então, sérios perigos; voltar-se-ia contra nós. É preferível tê-lo conosco, e vigiá-lo, do que expulsá-lo, ficando sujeitos à sua vingança. Creio que concorda comigo.
Dizendo isso, dirigia-me um olhar significativo; compreendi que me queria mostrar os companheiros de Rattler, que, certamente, fariam causa comum com ele e nenhuma confiança nos mereciam.
— Sim, depois de me haver feito olhar os fatos por este prisma, reconheço que devemos apenas desprezá-lo. O que agora me preocupa são os apaches que, sem dúvida, aqui virão, a fim de se vingarem.
— Virão; o silêncio tanto do cacique como de seu filho constituem séria ameaça. Procederam não só com extraordinário orgulho, como também com grande inteligência. Se exercessem no momento o direito que a lei das campinas lhes assegurava, teriam morto, ali mesmo, apenas a Rattler; entretanto, têm suas vistas voltadas para todos nós; consideram-nos inimigos, pois pretendemos roubar-lhes as terras e propriedades. Dominaram a cólera e partiram sem nos fazer mal; voltarão para lavar a afronta. Se assim procederem, poderemos preparar-nos para uma morte horrível, pois a estima que dedicavam a Kleki-pêtra está a lhes exigir pronta vingança.
— Eis as conseqüências dos atos de um ébrio! Voltarão por certo, em muito maior número.
— Naturalmente! E tudo depende da época em que o fizerem. Teríamos, aliás, tempo para fugir, mas seríamos forçados a abandonar os serviços, quase concluídos.
— Podemos desviar-nos.
— Quando pensam terminar os trabalhos, se neles empregarem o melhor dos seus esforços?
— Em cinco dias.
— Hum! Não sei da existência de aldeias apaches, nas proximidades. Os mescaleros mais próximos têm suas cabanas distantes daqui três dias a cavalo. Intschu-tschuna e Winnetou viajarão vagarosamente, pois conduzem o corpo de Klekih-pêtra, e só poderão atingir a sua povoação, em quatro dias; lá obterão reforços e voltarão, levando assim uma semana de viagem. Se pretendem terminar os trabalhos em cinco dias, poderemos arriscar-nos a continuar a medição.
— E se falhar o seu cálculo? Podemos admitir que os apaches conduzissem o cadáver a um lugar seguro e voltassem para nos agredir, pela retaguarda. É de admirar que os dois índios, principalmente sendo caciques, se afastem a tão longa distância, sem serem acompanhados dos guerreiros da sua tribo; e quem nos garantirá que não tenham encontrado reforço muito próximo daqui? Além disso, estamos na época das caçadas de búfalos, e é bem possível que Intschu-tschuna e Winnetou dirijam algum grupo de caçadores, que se achem nas imediações e que deles se tenham afastado apenas por pouco tempo. Convém, pois, que sejamos precavidos.
Sam Hawkens fêz um trejeito e com o semblante iluminado por um sorriso de satisfação, disse:
— Como é inteligente! É verdade, hoje os pintos, quando deixam a casca, sabem mais que a galinha. Para ser sincero, o que acaba de expor tem fundamento. Dou-lhe toda a razão. Devemos estar de sobreaviso e ter em conta todas as probabilidades que, há pouco, lembrou. É preciso averiguar para onde se dirigiram os dois apaches. É o que vou fazer esta madrugada.
— Acompanho-o — disse Will Parker.
— Também vou — declarou Dick Stone. Sam Hawkens refletiu e respondeu:
— A permanência dos meus companheiros é necessária aqui. Compreendem?
Com um olhar indicou os amigos de Rattler. Tinha razão; não os deveríamos deixar sós, porque poderiam provocar alguma desordem no acampamento.
— Mas o amigo não pode ir só.
— Poderia, se quisesse; mas vou escolher um companheiro.
— E quem será?
— Este greenhorn.
— Não; ele não pode sair — observou o engenheiro-chefe, que já despertara.
— Por que não, Mr. Bancroft?
— Preciso de seus serviços.
— Desejava saber para quê?
— Naturalmente, para a medição; se temos de estar prontos dentro de cinco dias é necessário que todos se esforcem para conseguirmos esse fim. Não posso prescindir de um só dos agrimensores.
— Sim, é necessário o esforço de todos. Como chefe, nada tem feito; até agora, este greenhorn tem trabalhado por todos; é justo, pois, que agora trabalhem todos por ele!
— Quer repreender-me, Mr. Hawkens? Declaro-lhe que não admito!
— Ponderação não é repreensão.
— Mas como tal soaram-me suas palavras.
— É possível; e se assim foi, nada tenho a ratificar. Não haverá grande atraso nas medições; trabalharão, amanhã, quatro agrimensores em vez de cinco. Tenho um determinado objetivo: quero levar este jovem greenhorn, que já foi denominado Scbatterhand.
— Posso saber qual é o seu objetivo?
— Por que não? Quero ensiná-lo a seguir a pista dos índios. Ser-lhe-á de grande utilidade saber distinguir com perfeição o curso das pegadas!
— Sua atitude não se justifica, pois que isso nenhuma vantagem traz ao serviço que nos foi confiado.
— Compreendo. Entretanto, há outro motivo: o caminho por onde devo viajar é perigoso. Será, pois, conveniente que eu tenha um companheiro dotado de grande força física e que seja bom atirador.
— Não vejo em que isto nos possa ser útil.
— Não? Pois admira-me! O senhor se tem revelado um gentleman, de grande inteligência e larga visão! — disse Sam Hawkens em tom irônico. — Reflita: se eu for morto no caminho, por inimigos que pretendam atacar o acampamento, ninguém poderá avisá-los do perigo e serão assaltados; isso, porém, não acontecerá, se estiver em minha companhia esse greenhorn, que, embora tenha mãos de moça, é dotado de uma enorme força e, certamente, me salvará. Compreendeu agora?
— Hum! Sim!
— Ouça ainda. Eis o motivo principal: convém que ele me acompanhe, pois aqui poderia ser alvo de provocações que poderiam ter conseqüências terríveis. Rattler o tem sob as vistas e, quando aquele ébrio acordar, é bem possível que se lembre de agredir este jovem. Devemos evitar que tal aconteça, principalmente agora. Deixo-lhes, pois, o que não posso aproveitar; levo-o comigo. Opõe-se, ainda, aos meus desejos?
— Não; ele que o acompanhe!
— Bem. Estamos entendidos. — Dirigiu-se em seguida a mim: — Conhece a tarefa árdua que o espera amanhã? É bem possível que não tenhamos tempo para nos alimentar; aconselho-o, pois, a aceitar ao menos um bocado da pata do urso.
— Bem, vou prová-la.
— Prove-a, prove-a! Conheço o resultado dessas provas, hihihi! Depois disso, não se deterá facilmente. Dê-me a pata, vou assá-la; um greenhorn não entende disso; preste atenção, para aprender! Outra vez que eu tenha de preparar um destes petiscos, pode estar certo de que não sentirá nem o cheiro dele; eu mesmo o devorarei todo.
O bom Sam tinha razão: mal provara o petisco preparado com maestria, o apetite voltou-me, e comi enquanto restou um pedaço do assado.
— Está vendo! Está vendo! — disse Sam, rindo-se. — É mais agradável saborear a carne do urso, do que combatê-lo; já sabe disso; agora, vou preparar novos assados que serão a provisão da viagem de amanhã. Devemos estar preparados para tudo; é bem possível que não tenhamos tempo para abater uma caça e prepará-la. Enquanto isso, vá deitar-se, descanse e durma um bom sono, porque amanhã partiremos com o alvorecer; necessitamos, pois, refazer as nossas energias.
— Bem, vou dormir; mas, diga-me, que cavalo montará amanhã?
— Que cavalo? Nenhum.
— De que modo vai então?
— Que pergunta! Pensa que montarei um jacaré ou algum pássaro? Naturalmente que vou em minha mula, em minha “Mary”.
— Eu não faria isso!
— Por quê?
— Ainda não a conhece suficientemente.
— Mas, em compensação, ela me conhece muito bem! O animal me respeita, hihihi!
— Mas, numa exploração como a que vamos empreender, é preciso ter muita cautela. O animal nos pode pôr a perder.
— É? Realmente?
— Sim. Sei que muitas vezes os bufidos de um cavalo custam a vida do cavaleiro.
— Oh! Também sabe disto? É um homem prudente; isso também leu nos livros, sir?
— Sim.
— Logo vi! Deve ser muito interessante essa leitura. Se eu não fosse um homem do oeste, ficaria em casa, comodamente instalado num canapé, lendo histórias de índios. Creio que, com isso, poderia ficar mais belo e gordo, embora só se possam comer as patas dos ursos no papel!... Desejaria apenas saber se esses gentlemen que escrevem estas coisas, atravessaram o velho Mississipi e se vieram até aqui.
— É bem possível.
— Sim? Acredita?
— Certamente.
— Eu não. Tenho motivos para duvidar.
— Quais são?
— Vou dizer-lhe: outrora também sabia escrever, mas hoje estou completamente esquecido e não consigo sequer desenhar o meu nome. A mão que, durante tanto tempo, manejou as rédeas do cavalo, a faca, a espingarda e o laço não se presta mais para desenhar essa espécie de garranchos que se chamam letras. O bom homem do oeste, não sabe mais escrever; e quem não o fôr, não deve escrever sobre coisas que não conhece.
— Hum! Para escrever um livro sobre o oeste não é necessário permanecer nesta região até que esqueça o que aprendeu.
— Está errado, sir! Já lhe disse que só nós, homens do oeste, poderíamos descrever a vida das campinas. Mas para isso não temos tempo.
— Por quê?
— Porque para escrever um livro teríamos de abandonar este lugar, onde não há tinta nem papel. Isso não seria possível, pois as campinas são como o mar, nunca serão abandonadas pelos que as amam. Não. Os autores desses livros não estiveram no oeste, porque se chegassem a conhecê-lo, não o abandonariam, para pretearem algumas centenas de páginas de papel.
— Não. Eu, por exemplo, sei de alguém que, tendo conhecido estas campinas, aprendeu a amá-las e deseja tornar-se um bravo caçador; entretanto quer voltar ao meio civilizado, justamente para escrever sobre o oeste.
— Quem é ele? — perguntou, olhando-me curioso.
— Pode adivinhar.
— Adivinhar?... Refere-se a si próprio?
— Exatamente.
— Santo Deus! Pretende fazer parte dessa classe de parasitas, que vivem a escrever livros?
— Claro.
— Deixe disso, sir, deixe disso! Peço-lhe por amor de Deus! Morrerá na miséria, pode estar certo.
— Duvido.
— Pois eu afirmo. Posso até jurar. Tem acaso uma idéia do que fará?
— Sim.
— Qual?
— Vou viajar, conhecer países e povos e, depois, voltarei à minha pátria para escrever o que observei e me impressionou.
— Com que fim?
— Para tornar-me mestre dos meus leitores e fazer-me rico.
— Irra! Mestre dos seus leitores! Fazer-se rico! Parece que está doido! Não poderá ensinar o que não sabe. Como poderá um greenhorn, um refinado greenhorn, alimentar a estulta pretensão de um dia vir a ser o mestre dos seus leitores! Garanto-lhe que não haverá quem leia as suas obras. Agora, diga-me: por que pretende isso? Não terá o mundo professores suficientes? Será necessário que o senhor vá aumentar-lhes o número?
— Ouça, meu amigo: ensinar é ser útil à sociedade; é escolher uma profissão santa.
— Ora essa! O homem do oeste é mil vezes mais útil! Isso posso afirmar eu que o sou e não o senhor que começa, agora, a conhecer a vida das campinas. Causa-me riso a sua idéia. Ser mestre dos seus leitores! Tornar-se rico como escrivinhador de livros! Que idéia! Que idéia louca! E quanto vale um desses livros que pretende escrever?
— Um, dois, três dólares, conforme o tamanho e a importância da obra.
— Bravo! E quanto custa uma pele de castor? Já pensou nisso? Se se fizesse caçador, ganharia muito mais do que escrevendo livros que não serão lidos e que, se porventura alguém os ler, só aprenderá tolices neles. Ganhar dinheiro! Isto se consegue aqui, muito mais facilmente, pois ele está atirado pelas campinas e nos rochedos e no fundo dos rios. E quanta miséria irá sofrer como escrivinhador! Em lugar da água cristalina das fontes do oeste, beberá a tinta negra de que se servirá para escrever; mastigará a pena de ganso, em vez de saborear a pata do urso ou a coxa do búfalo. Sobre sua cabeça, em lugar deste céu azul, de puro anil, terá o teto da casa sombria e triste das cidades; debaixo dos pés, em vez do suave e macio tapete de relva, terá o prosaico soalho. Aqui, monta um cavalo ágil e voa célere pelas campinas; lá irá sentar-se num canapé, que talvez tenha o estofamento roto; aqui, é um homem livre, passeia seu olhar pela vastidão destas formosas paisagens e respira o ar puro e são que Deus nos manda todos os dias; lá estará diante de uma mesa, numa sala mal ventilada e onde, o pouco ar que respirará, será saturado de miasmas, que lhe consumirão a energia; o senhor lá... bem, não quero prosseguir; tenho os nervos irritados. Mas, digo-lhe: se insistir no seu propósito, será o homem mais digno de dó que Deus pôs sobre a terra!
Dirigiu-me esse discurso, em tom de aborrecimento; seus olhos faiscavam e a pequena porção de seu rosto, que a barba cerrada não cobria, tornava-se vermelha como brasas. Conhecia-lhe o fraco e percebi, desde logo, a causa de sua irritação; desejava, porém, ouvi-la de seus lábios e, para isso, deitei mais azeite ao fogo.
— Mas, caríssimo Sam, estou certo de que lhe seria extremamente agradável ler as minhas impressões; sei que isso lhe causaria imensa satisfação.
— Imensa satisfação? A mim? Ora, retire-se da minha presença. Que asneira! Já é tempo de saber que não gosto de pilhérias!
— Não faço pilhéria, falo sério.
— Sério! Maldita seja essa seriedade! Em que me poderia isto satisfazer?
— O meu bom amigo Sam também iria figurar nos meus livros.
— Eu? Eu?
— Sim, o senhor. Haveria de escrever sobre a sua pessoa.
— Sobre a minha pessoa? Sobre o que faço e o que falo?
— Sim; narraria o que passei aqui; falaria de nossa vida e, como o senhor sempre me acompanha, é claro que deveria aparecer no meu livro.
Ao ouvir as minhas palavras, pegou da espingarda, pôs de lado o assado, que estava preparando, durante a palestra, e colocou-se diante de mim em atitude ameaçadora, gritando:
— Diga-me seriamente em presença destas testemunhas: pretende realizar o que acaba de dizer?
— Naturalmente.
— Bem! Convido-o a retirar o que disse e exijo, sob juramento, que prometa não tocar mais no assunto e desistir do seu propósito,
— Mas, por quê?
— Porque o matarei a tiros ou a golpes de coronha, com a minha velha “Liddy”. Retire o que disse e desista da idéia!
— Não!
— Sou obrigado a matá-lo!
— Pois, mate-me.
Ergueu, algumas vezes, a velha arma, preparou-a como se fosse atirar, e depois, arremessando-a ao solo, juntou as mãos e, como a suplicar, exclamou:
— O homem perdeu o juízo, ficou doido, bem doido! Percebi-o logo, quando falou em escrever livros e tornar-se professor de seus leitores; eram fundados os meus receios, porque só um doido se conserva calmo e impassível, quando se vê ameaçado pela coronha da minha “Liddy”! Que faremos dele agora? Creio que será difícil curá-lo!
— Não é caso de cura, meu caro Sam; estou em juízo perfeito.
— Por que se nega então a fazer-me a vontade, e a jurar o que lhe peço? Prefere a morte? Não há dúvida; está doido!
— Ora! Não me mataria, Sam Hawkens; disso estou certo.
— Tem certeza de que eu não seria capaz de matá-lo! Infelizmente acertou, pois preferia suicidar-me a tocar-lhe num só fio de cabelo.
— Não posso, entretanto, fazer o que me pede: não jurarei. Para mim a palavra é juramento. Não permito que me arranquem promessas com ameaças, mesmo que sejam feitas com a “Liddy”. Não sou tão tolo como pensa. E, quanto às razões que tenho, para me fazer escrivinhador de livros mais tarde, quando tiver tempo, hei de expô-las.
— Agradeço-lhe! Não há esclarecimento possível para uma coisa destas! Professor de seus leitores! Ganhar dinheiro como escrivinhador! Ridículo!
— E que honra, Sam.
— Que honra?
— A honra de ser lido por todos; tornar-me-ei um homem célebre! Sam ergueu-se e, levantando o espeto em que preparava o assado, bradou:
— Sir, cale-se por favor, ou lhe atiro estes cinco quilos de carne. É o que merece, pois muito se assemelha, em suas tolices, ao urso que abateu. Tornar-se célebre escrevendo livros! Já viram mais estulta pretensão? Que entende por celebridade? Ensinar-lhe-ei como se poderá tornar célebre. Veja lá a pele do urso; corte-lhe as orelhas e ponha-as no seu chapéu; tire-lhe as garras e os dentes, faça um colar desses troféus, e coloque-o ao pescoço. Assim faz o homem inteligente do oeste e também o índio, que tem a coragem de atacar essa fera. Então, sim, onde quer que esteja ouvirá, a uma voz: eis o homem que matou o urso cinzento! Todos o admirarão e, cheios de respeito, abrirão caminho à sua passagem! Seu nome será pronunciado de cabana em cabana, de aldeia em aldeia. Só assim se tornará célebre; compreendeu?! Coloque agora, livros em seu chapéu, ponha-os também ao pescoço! Que dirão os que assim o virem? Que está doido! Esta será a celebridade que há de encontrar, fazendo-se escritor!
— Mas, caro Sam, por que precipitar-se desta maneira? Devem-lhe ser indiferentes os meus atos!
— Como? Indiferentes? A mim? Com todos os diabos! Quero-o como a um filho e não me posso desinteressar pelas asneiras que comete! É triste, forçoso é confessar! E é este jovem que tem força de búfalo, músculos de poldro, tendões e nervos de cervo, olhos de lince, ouvidos de rato e cabeça capaz de conter uns dois quilos de massa encefálica; que atira, como um velho atirador, monta, como a “fada da savana”, e ataca um urso cinzento, como se este fora um porquinho da índia, um verdadeiro explorador das campinas que, em pouco tempo, se fez caçador mais adestrado que aqueles que se exercitam durante vinte anos, e é um homem destes, que quer voltar à pátria para escrever livros! Onde se viu isto?! É para enlouquecer uma pessoa! E deverá alguém admirar-se de que um honesto homem do oeste, movido das melhores intenções, se encolerize diante de semelhantes disparates?
Interrogava-me com os olhos e, naturalmente, esperava uma resposta; eu, porém, não dei; conseguira dele o que queria. Tranqüilamente, improvisei, dos meus arreios, um travesseiro, estirei-me no capim e fechei os olhos.
— Que procedimento é este — perguntou Sam, ainda com o espeto na mão — não mereço, então, uma resposta?
— Sim — respondi-lhe. — Boa noite, bom Sam; durma bem!
— Já quer dormir?
— Sim; foi o que o amigo me aconselhou há pouco.
— Isto foi há pouco; agora, porém, ainda não liquidamos nossas contas!
— Como não!
— Não; preciso ainda falar-lhe.
— Dou por terminado o assunto; já sei o que desejava saber.
— Desejava saber? O quê?
— Isto tudo que me acaba de revelar tão nervosamente.
— Eu, nervoso? Vamos, fale!
— Oh! Simplesmente que nasci para o oeste e que já estou mais adestrado do que muitos caçadores que percorrem as savanas durante vinte anos.
Deixou o espeto, tossiu várias vezes, nervosamente, e bradou:
— Com todos os diabos...! Este jovem... este greenhorn... me... hm, hm, hm!
— Boa noite, Sam Hawkens, durma bem — repeti-lhe sem me voltar.
Encolerizado, exclamou:
— Sim, durma, carrasco! É o melhor que pode fazer, pois, enquanto tiver um olho aberto, não terei tranqüilidade. Entre nós está tudo acabado; vim a conhecê-lo e percebi que é um homem a quem todos devem temer.
Falava em tom colérico e suas palavras pareciam significar que estava realmente terminada a nossa amizade; entretanto, momentos depois, já com voz amável, disse:
— Boa noite, sir; adormeça depressa, para estar bem disposto, quando acordar!
Como era bom e sincero o pobre velho Sam Hawkens!
Dormi realmente um bom sono, até a hora em que ele me despertou. Parker e Stone já estavam de pé; os outros dormiam ainda, inclusive Rattler. Depois de uma pequena refeição, demos de beber aos cavalos e partimos, não se tendo esquecido Sam de instruir os nossos dois companheiros na maneira de agir no caso de ocorrer alguma anormalidade no acampamento, durante a nossa ausência. Era a primeira exploração desta natureza, que eu empreendia, e estava curioso por saber o resultado que teríamos. Mais tarde, muitas e muitas vezes repeti estas viagens.
Tomamos o caminho que haviam seguido os dois apaches, vale abaixo e depois pela curva do mato; suas pegadas ainda estavam visíveis sobre a grama e até eu, o greenhorn, as percebi; seguiam para o norte, enquanto julgávamos que deveriam dirigir-se para o sul. Depois da curva do vale, demos com um caminho desnudado, cuja grama parecia ter sido devorada pelos insetos e onde encontramos, ainda, sinais da passagem dos índios; continuamos e, a alguma distância, encontramo-nos em uma campina. Seguia-se, depois, uma pequena planície coberta de relva. Há três quartos de dia que os apaches por ali haviam passado, entretanto, notavam-se ainda os sinais que tinham deixado na planície. Sam, que até agora não pronunciara uma só palavra, meneou a cabeça, dizendo:
— Estes sinais não me agradam!
— Mas, a mim, agradam-me muito.
— Porque é um greenhorn, que se meteu na cabeça que eu o elogiara, comparando-o aos caçadores das campinas! É incrível! É o cúmulo das pretensões! Então, agradam-lhe aquelas pegadas? Sim, acredito, porque são bem visíveis e até um cego as poderia perceber. Eu, porém, que sou velho corredor das savanas, julgo-as suspeitas.
— Não me parece que tenha razão.
— Cale-se, respeitável sir! Não o trouxe para que estivesse a lançar-me às barbas suas opiniões infantis. Quando dois índios deixam sinais visíveis de sua passagem devemos desconfiar, tanto mais que partiram, declarando-se nossos inimigos. É de supor que nos queiram atrair a uma cilada, pois, é claro, esperam que os sigamos.
— Em que poderá consistir essa cilada?
— Ainda não se pode saber.
— E onde estará ela armada?
— Naturalmente ao norte. Facilitaram-nos, extraordinariamente, a tarefa de segui-los nessa direção; não tivessem o intuito de nos atrair para lá, teriam o cuidado de destruir os sinais.
— Hum! — resmunguei.
— O quê? — perguntou-me.
— Nada.
— Oh! Parece-me que quis dizer alguma coisa.
— Deus me livre!
— Por quê?
— Tenho razões para calar-me, pois não desejo ouvir novas repreensões. Não sou inteligente e não devo manifestar minhas “opiniões infantis”.
— Não diga tolices! Entre amigos não se pesam palavras; quem deseja aprender deve falar e perguntar! Diga-me por que resmungou há pouco?
— Porque minha opinião é contrária à sua! Não admito a hipótese de uma cilada.
— Bem! E por quê?
— Os dois apaches voltaram à sua aldeia e pretendem reunir os guerreiros para nos virem atacar. Eles não podem perder tempo, não só porque poderíamos fugir-lhes, como porque o transporte de um cadáver, no verão, não lhes permite delongas. A viagem apressada, foi, pois, a causa de não pensarem em nos despistar.
— Hum! — resmungou Sam, voltando-se.
— Embora erre em minhas suposições, creio que poderemos prosseguir, sem receio, na exploração, pois a planície é vasta e nos será fácil avistar o inimigo à distância, o que nos permitirá a retirada em segurança.
— Hum! — tornou a resmungar, olhando-me de soslaio. — Fala-me do cadáver. Com este calor, crê que o tenham levado consigo?
— Sim.
— Não o teriam sepultado no caminho?
— Não. Klekih-pêtra era estimado por todos e o ceremonial dos índios exige, certamente, que lhe sejam prestadas todas as honras. Essa solenidade deverá terminar com a morte do assassino, precisamente, no dia do enterro. Creio, portanto, que conservarão o cadáver, e voltarão em busca de Rattler. Conheço-os e digo-lhe que é isso o que podemos esperar.
— Mas, como os conhece? Nasceu na terra dos apaches?
— Que tolice! Conheço-os através dos livros, desses mesmos livros que lhe inspiram pavor!
— Bem. Sigamos.
Não discordou, mas, de vez em quando, olhava-me desconfiado e um leve movimento de sua barba espessa revelou-me que havia em tudo isso algo de incompreensível para a sua inteligência.
Galopávamos planície afora. Era uma savana coberta de relva rasteira como todas as que se encontram nas nascentes do rio Canadian e do rio Pecos. As pegadas formavam invariavelmente três linhas, parecendo que os cavalos seguiam sempre ao lado um do outro, assim como os vi partir do acampamento. Como deveria ter sido penosa a tarefa de conservar o cadáver firme sobre o cavalo; até aqui não havíamos encontrado o menor indício de que eles tivessem descansado; mas, pensava eu, muito mais longe não poderiam ir, sem parar um pouco.
Sam Hawkens julgou que chegara o momento de assumir a sua cátedra, explicando-me como se podia descobrir pelas pegadas, se o animal andara a passo, a trote ou a galope. Alguns minutos mais e avistamos um mato que parecia atravessar a campina e, entretanto, em conseqüência da curva que fazia a planície, ficava-nos, pouco depois, à esquerda. Não era o bosque tão espesso que não pudéssemos atravessá-lo, mas, como a pista nos mostrava uma volta feita pelos apaches, eu, pouco experiente, tomei por ela, sem procurar atalho. Mais tarde, melhor conhecedor da vida do oeste, não seguiria esse caminho, evitando assim perda de tempo.
Mais adiante estreitava-se a campina, formando uma faixa aberta, onde vegetavam algumas árvores. Atingimos, então, o lugar em que os apaches haviam parado. Era em uma brenha onde se erguiam enormes carvalhos. Aproximamo-nos com cuidado e, depois de estarmos certos de que, já há muito, haviam os índios prosseguido viagem, embrenhamo-nos no matagal. A um dos lados do bosque a relva estava machucada. Concluímos que os apaches ali haviam descansado o cadáver, para penetrarem no mato; abriram passagem, cortando galhos de carvalho e arrancando arbustos que deixaram à beira do caminho.
— Que teriam feito dos galhos de carvalho? — Perguntou Sam, dirigindo-me olhares de mestre.
— Uma padiola ou algum leito de ramos para conduzir o cadáver.
— E como sabe isto?
— Pelo que concluí.
— Como?
— Já há muito, esperava eu por isto. Conservar firme um cadáver no cavalo, não é fácil; e eu já havia previsto que teriam de procurar algum auxílio.
— Não é mal pensado. Já leu também alguma coisa a esse respeito em seus livros?
— Não isso precisamente, mas algo semelhante. Nos livros, pode-se aprender muita coisa e adaptá-la depois com as modificações que cada caso exige.
— Hum! Singular! Parece que esteve realmente no oeste quem assim escreveu! Chegamos às mesmas conclusões. Veremos se são acertadas.
— Suponho que tenham feito não uma padiola, mas um leito.
— Por que pensa assim?
— Para conduzir uma padiola com o cadáver seriam precisos dois cavalos, que seguissem um ao lado do outro ou um após outro; enquanto que assim, bastaria um animal.
— Perfeitamente; mas desse modo deixariam enormes vestígios que, para os apaches, poderiam constituir perigo. É de supor oue aqui tenham estado pouco antes do anoitecer; poderemos agora descobrir se acamparam ou continuaram durante a noite.
— Estou inclinado à última das hipóteses, pois tinham dupla razão para acelerar a viagem.
— Certifiquemo-nos.
Apeamos e, levando a cabresto os animais que cavalgávamos, seguimos a pista; era muito diversa da que até aqui havíamos observado: eram pegadas de três animais que caminhavam dispostos de maneira diferente. Eram cavalos que puxavam o leito improvisado, que devia ser constituído de dois galhos dispostos lateralmente e de outros que se lhes atravessavam. Aí, fora sem dúvida colocado o cadáver.
— Devem ter seguido um após outro, — disse Sam, — o que me causa estranheza, pois, há espaço suficiente para caminharem lado a lado. Continuemos.
Prosseguimos na exploração e eu refletia sobre o motivo que os teria levado a mudar assim a posição dos animais. Pareceu-me, por fim, ter descoberto a causa.
— Sam, atenda: os dois homens procuram nos enganar, e se assim procederam, isto é, se prepararam esse leito para o defunto foi não tanto para se aliviarem da carga, mas para se poderem separar e nos deixarem perceber os vestígios feitos no solo.
— O quê? Acha que eles se tenham separado? Não o farão, nem em sonho, hihihi!
— Em sonho não, mas acordados!
— Pois bem, diga-me como chegou a essa conclusão; creio que os livros o estão enganando.
— Não trato propriamente dos livros, mas das conclusões a que pude chegar pela leitura que tenho.
— E então?
— Até aqui o senhor tem sido o mestre; cabe-me agora a vez de dirigir-lhe algumas perguntas.
— Quanta sabedoria brotará de seus lábios! Estou curioso.
— Que razão teria levado os índios a viajarem desta nova forma? Não seria, certamente, comodidade nem tampouco companheirismo.
— Não; mas, para que quem os seguisse não pudesse saber quantos eram os cavaleiros.
— Creio que, de fato, foi esta a razão que os levou a fazerem isso.
— Não sei!
— Por que cavalgam os dois em coluna de ganso, quando há lugar para mais de três cavalos andarem lado a lado?
— Acaso, ou talvez atenção para com o morto; um segue à frente, como guia, o outro vigia para que o cadáver não caia.
— É bem possível; mas penso que têm pressa de nos atacarem; e o transporte do corpo de Klekih-pêtra está demorado; é bem provável que um deles siga adiante para avisar do ocorrido a seus companheiros.
— É fantasia sua! Afirmo-lhe que por motivo algum se separarão. Por que havia eu de discutir? Talvez não tivesse razão. Ele era um escoteiro experimentado, eu um pobre greenhorn; calei-me sem desviar os olhos do solo, atento aos sulcos deixados sobre a grama.
Pouco depois, atingimos uma lagoa rasa e larga que, na primavera, recebia as águas da montanha, conservando-se seca durante o resto do ano.
Podíamos ver-lhe, agora, o leito arenoso, enxuto, aqui e ali coberto de seixos, nos quais, como se sabe, não é possível ficar a impressão de uma pegada.
Enquanto atravessávamos, meu olhar não se desviara do solo.
Se a minha suposição fosse acertada, seria esta a melhor ocasião para um dos apaches tomar rumo diferente, andando sempre sobre o cascalho e podendo facilmente, desviar-se sem que disso nos apercebêssemos; quanto ao outro, prosseguiria o caminho, conduzindo o animal que arrastava o leito do cadáver. As pegadas desses dois cavalos, dispostos um após outro, poderia ser tomadas como de três cavalos, e isso despistaria o mais experimentado e sagaz observador.
Eu, que cavalgava atrás de Sam, notei, antes de atingirmos a margem oposta, à esquerda num monte de areia, desviando-se do rumo que seguíamos, a impressão nítida do casco de um cavalo que resvalara. Hawkens continuava o caminho e chameio-o:
— Volte pela esquerda, Sam!
— Por quê? — perguntou-me.
— Vou mostrar-lhe uma coisa, venha depressa.
Descemos pela margem coberta de grama. Não havíamos galopado uns duzentos metros, quando percebemos nitidamente, partindo da lagoa e continuando pela grama, rumo ao sul, as pegadas de um cavalo.
— Que significa isto, Sam? — perguntei-lhe, orgulhoso de haver acertado.
— Rastos de cavalo — respondeu admirado.
— E donde vêm?
Olhando para a areia úmida, disse:
— Certamente dali, da lagoa.
— Deve ser! E quem seria o cavaleiro?
— Sei lá.
— Eu sei.
— Quem, então?
— Um dos dois apaches.
— Um dos dois? Não é possível! — disse ele, franzindo o sobrolho.
— Sim! Separaram-se, bem como eu esperava. Voltemos a examinar o outro caminho e veremos que há sinais de dois cavalos apenas.
— Seria de pasmar! Veremos! Estou curioso!
Voltamos ao caminho primitivo e, finalmente, o meu companheiro, cheio de admiração, concordou comigo.
— Como chegou a descobrir, lá em baixo, aquela pegada?
— Vi a impressão de um casco de cavalo, num monte de areia, e dai concluí o resto.
— Isso sim! Mostre-me essa impressão, vamos até lá! Acompanhou-me e mostrei-lhe o rasto; olhou-me, ainda mais desconfiado do que há pouco:
— Sir, quer falar-me a verdade?
— Acha que já lhe menti alguma vez?
— Hum! Parece ser um homem amante da verdade e honrado; entretanto, no caso presente, não me inspira confiança. Nunca andou pelas campinas?
— Não.
— E em parte alguma do oeste bravio?
— Não.
— Em nenhuma zona dos Estados Unidos?
— Nunca!
— Ou quem sabe se existe algum outro país com selvas e campinas bravias, por onde tenha andado?
— Não. Nunca saí da minha pátria a não ser agora.
— Pois então, vá para o diabo! É uma criatura incompreensível!
— Oh! Sam Hawkens! É assim que trata a quem considera como amigo?
— Não me leve a mal se, num casos desses, perco a calma! Um greenhorn que pela primeira vez viaja pelas savanas, um inexperiente, tentando deixar embaraçado um velho e experimentado homem do oeste! Em face disso, para uma pessoa se manter com sangue frio, era preciso que se tornasse um esquimó no verão e um groenlandês no inverno! Quando tinha a sua idade, era dez vezes mais inteligente que o senhor; agora que estou velho, parece-me que sou dez vezes mais tolo. E não deverá isto entristecer um explorador das campinas que se presa em manter intatas as suas tradições e sem mácula os seus sentimentos de honra?!
— Não há motivos para encarar o caso por esse prisma!
— Oh! Tudo isso me magoa profundamente, pode estar certo! Vejo-me obrigado a confessar que andou acertado em suas conclusões. E por que isso?
— Porque pensei e concluí de acordo com a lógica dos fatos, o que é de capital importância num caso desses.
— Concluiu o que? Algum trabalho de medição?
— Não. Refiro-me ao que deduzi.
— Não entendo! Isso para mim é palavra para dias de grandes festas, a que um homem do oeste muito raramente assiste e, portanto, não está na altura de compreender.
— Ora, refleti do seguinte modo: quando os índios pretendem despistar alguém cavalgam uns após os outros; foi exatamente o que fizeram os apaches. Isto deve compreender e, por conseguinte, não são palavras para dias de grande festa!
— Claro. Assim eu compreendo!
— Foi pensando assim que cheguei a esta conclusão. O verdadeiro homem do oeste deve saber pensar e quero lhe dar um exemplo. Deseja ouvir?
— Claro, por que não?!
— Seu nome é Hawkens, que quer dizer falcão, não é verdade?
— Sim!
— Pois bem, ouça: o falcão come o rato do campo. Está certo?
— Sim; quando consegue apanhá-lo.
— Pois bem, eis a conclusão: o falcão come ratos do campo; o senhor chama-se Hawkens, logo, deve comer ratos do campo!
Sam fitou-me, por algum tempo, com desprezo, e falou:
— Sir, está hoje disposto a divertir-se à minha custa? Não admito! Estou longe de ser palhaço, e não o deixarei dançar sobre a minha cabeça. Ofendeu-me gravemente, chamando-me comedor de ratos e, o que é mais, de ratos do campo que são roedores asquerosos. Exijo explicação. Que pensa do duelo?
— Que é coisa grandiosa!
— Sim. E estudou o assunto não é verdade?
— Sim.
— Então deve estar preparado para me dar satisfações. Portanto, vou mandar-lhe as minhas testemunhas, compreendeu?
— Perfeitamente. Mas, já estudou esta questão de duelo?
— Não entendo disso — declarou-me, mostrando-se contrariado.
— Se não conhece as regras do duelo, não sabe o que significam as testemunhas, e portanto, não me pode lançar um desafio. Vou dar-lhe, em vista disso, uma satisfação.
— Qual?
— Faço-lhe presente da pele do urso cinzento.
Seus olhinhos adquiriram novo brilho.
— Mas é sua; precisa dela.
— Não; faço-lhe presente.
— É verdade?
— Sim.
— Oh! Aceito o presente com imensa alegria. Obrigado, sir, muitíssimo obrigado! Como os outros vão ficar invejosos! Sabe o que vou fazer dessa pele?
— O quê?
— Um novo jaquetão de caça trabalhado em couro de urso! Que sucesso! Vou fazê-lo eu mesmo. Sou excelente especialista. Veja com que bom gosto consertei este que uso!
Referia-se ao traje antediluviano que usava. O conserto feito com “perícia de mestre” consistia num pedaço de couro costurado sobre outro; de tantos remendos assim dispostos, aquela peça do seu vestuário adquirira a grossura de uma tábua.
— Mas, — acrescentou cheio de satisfação — fique com os dentes e as garras, porque não preciso; ademais são troféus de alta valia, pois foram conquistados com risco de vida. Farei deles um colar para o senhor. Também nisso sou perito. Aceita?
— Aceito.
— Muito bem, muito bem! Deste modo ambos ficamos contentes. É um homem bondoso, porque presenteia Sam Hawkens com uma preciosa pele de urso. Agora, pode afirmar que como ratos e até ratões de campo, porque não me ofenderei mais. E, quanto a esta história de livros, concordo, afinal, que não é de todo má, como à primeira vista me pareceu. Realmente, num livro, pode-se aprender alguma coisa. Vai escrever algum?
— Talvez vários.
— Acerca de suas aventuras?
— Sim.
— E vou figurar neles?
— Neles figurarão apenas os meus maiores amigos, pois, deste modo, presto-lhes uma homenagem.
— Agora, o caso é outro. Tinha compreendido muito mal. Quer dizer, então, que também eu serei homenageado em seus livros?
— Se me permitir.
— Pois bem, permito-o; mas neste caso far-me-á um favor!
— Pois não!
— Não escreva em seus livros que eu não descobri as pegadas do índio. É incrível que Sam Hawkens tenha cometido semelhante erro! Envergonhar-me-ia, intimamente, diante de seus leitores. Se tiver a bondade de ocultar esse fato, permito-lhe que escreva à vontade, sobre aquela história de ratos, de falcões que comem ratos, e de Hawkens que são falcões... O que seus leitores pensarem dos alimentos que como, me é indiferente; mas é preciso que não me conheçam como um homem do oeste que deixa fugir um índio. Isto me humilharia!
— Não é possível fazer-lhe a vontade, caro Sam!
— Não? E por quê?
— Porque em meus livros vou descrever as pessoas tais como são. Neste caso, será preferível deixá-lo fora, pois não pretendo adulterar nem omitir nada sobre a verdade dos acontecimentos.
— Não; quero figurar no seu livro! Aliás, reconheço que neles deve falar a verdade. Se contar os meus erros, eles servirão, ao menos, de advertência a quem for tão tolo quanto eu, hihihi! Portanto, estamos entendidos.
— Perfeitamente.
— Então vamos continuar a viagem.
— Por onde? Pelo atalho?
— Não, por aqui.
— Sim. Aqui passou o cavalo de Winnetou.
— Como chegou a esta conclusão?
— Quem seguiu por aqui, cavalgava lentamente, levando o cadáver; o outro, porém, desviou-se para prosseguir a galope, a fim de chegar mais rapidamente à aldeia e reunir guerreiros que nos virão atacar. Este último, é lógico, deve ter sido o cacique Intschu-tschuna.
— Sim. Sou da mesma opinião. O cacique não nos interessa, de momento. Vamos seguir os vestígios de seu filho.
— Mas por quê?
— Porque preciso saber se descansou ou se cavalgou a noite toda. É isto o que mais nos deve interessar. Continuemos o nosso caminho.
Cavalgamos a trote, sem que nada de importante ocorresse. A região que atravessávamos não despertava interesse. Sam só consentiu em interromper a viagem, uma hora antes do meio-dia.
— Basta; voltemos. Winnetou viajou toda a noite; tem grande pressa em reunir guerreiros; é eminente o ataque ao nosso acampamento. É possível mesmo que isso suceda antes dos cinco dias que precisamos para terminar os serviços da medição.
— Seria um desastre!
— Realmente! Se suspendermos os serviços, não ficará a medição concluída e, se permanecermos aqui, seremos assaltados. Precisamos falar seriamente sobre o assunto a Mr. Bancroft.
— E se conseguíssemos evitar o perigo?
— Como?
— Poderíamos refugiar-nos nalgum sítio seguro e, depois, quando os apaches se retirassem, voltaríamos para concluir os trabalhos.
— Sim, talvez fosse possível; vamos ouvir a opinião dos outros. Apressemo-nos a fim de atingir o acampamento antes da noite.
Voltamos pelo mesmo caminho. Não poupáramos os animais, mesmo assim o meu baio estava fogoso como se não houvesse caminhado durante o dia, e a “Mary” parecia ter saído a pouco da estrebaria. Em pouco tempo, vencêramos largo trecho da estrada; chegamos a uma boa aguada, onde demos de beber aos animais, deixando-os descansar por uma hora. Deitamo-nos também na relva, atrás das árvores.
ENCONTRO COM OS “KIOWAS”
Conservamo-nos em silêncio. Pensava em Winnetou e na guerra que os apaches nos iam fazer. Sam Hawkens cerrara os olhos; dormia. Procurava recuperar a noite perdida na véspera. Podia fazê-lo, porque eu estava vigilante e, além disso, em toda a nossa viagem de regresso nada havíamos notado de suspeito.
Foi então que pude verificar a admirável agudeza de sentidos de que são dotadas as pessoas e os animais do oeste bravio. A mula achava-se entre as moitas e comia as folhas dos arbustos que ali vegetavam. O meu baio estava a pouca distância, e pastava.
De repente, a mula soltou um bufido, como que a prevenir-nos de que alguma coisa de anormal se passava. Sam Hawkens acordou e, de um salto, pôs-se de pé.
— Estava dormindo; o sinal da “Mary” me despertou. Aproxima-se de nós algum homem ou algum animal. Onde está a minha mula?
— Naquele mato. Vamos lá.
Ao penetrarmos no mato vimos a “Mary” escondida e como que a espreitar desconfiada, entre os arbustos. Suas longas orelhas moviam-se; agitava a cauda. Quando nos viu acalmou-se. O animal tivera realmente muito boa escola e Sam podia regozijar-se de tê-la apanhado, em vez de um cavalo.
Através das árvores vimos seis índios que vinham em nossa direção. Andavam montados. O da frente, de estatura não muito alta, mas musculoso, vinha de cabeça baixa como que examinando as pegadas. Todos usavam calções de couro e camisas de lã escura. Vinham armados de espingarda, facas e machadinhas. Seus rostos reluzentes estavam pintados com uma lista azul e outra vermelha.
A presença desses selvagens despertava-me sérios cuidados; Sam, entretanto, não se acautelou e foi logo dizendo:
— Que encontro! Isto vai nos salvar, sir.
— Salvar? Como? Fale mais baixo! — Já se acham próximos de nós e facilmente nos poderão ouvir.
— Quero mesmo que nos ouçam; são kiowas. Aquele que vem à frente é o “Bao”, que na língua deles quer dizer “raposa”. É guerreiro valente e muito astuto, como o nome está a indicar. O cacique dessa tribo chama-se Tangua, índio empreendedor e meu amigo. Trazem nos rostos pintadas as cores de guerra e, certamente, andam em viagem de observação. Mas não sei se atualmente estão em guerra com outra tribo.
A palavra kiowa pronuncia-se ke-i-ó-va. Essa tribo de índios vermelhos parece ser uma mistura de Shaf-honen e Pueblo Indianen.
Distribuíram-se pelo oeste americano, constituindo, depois, uma forte tribo de numerosas ramificações, que se espalharam pelo deserto de Texas até Novo México. Essa tribo é muito bem organizada e rica em cavalhadas. Devido à sua inclinação para o assalto e roubo é sério perigo para a raça branca, e por isso os colonos das regiões limítrofes são os seus mais encarniçados inimigos. Também os apaches não são seus amigos e com eles não vivem em paz. É que os kiowas, na ânsia de roubar e assassinar, não respeitam a vida nem a propriedade dos seus próprios irmãos peles-vermelhas. São, numa palavra, verdadeiros bandos de salteadores.
O seis índios kiowas estavam perto de nós; eu não podia perceber como poderiam eles nos salvar; só mais tarde viria a compreender as palavras de Sam. Seis índios, pouco ou nada nos adiantariam e, de momento, só me restava ficar satisfeito em sabê-los amigos de Sam, porque, deste modo, não precisávamos receá-los.
Seguindo-nos as pegadas vieram até o mato, e, percebendo que havia gente, voltaram e deram de rédea aos seus possantes cavalos, fugindo talvez às balas das nossas armas. Sam soltou então um brado ensurdecedor, brado que os índios conheciam, pois pararam logo os cavalos e olharam para trás. Chamou-os novamente, acenando-lhes também com as mãos. Compreenderam; reconheceram Sam e por isso voltaram e aproximaram-se de nós. Vinham a todo galope em nossa direção, como a nos quererem derrubar; entretanto, permanecíamos firmes. À pequena distância, detiveram-se e apearam.
— O nosso irmão pele-branca, Sam, está aqui! — disse o chefe dos observadores. — Como achou ele o caminho até seus irmãos peles-vermelhas?
— Bao, a raposa astuta, encontrou-me, porque seguiu-me as pegadas. — respondeu Sam.
— Sim; pensávamos estar na pista dos cães vermelhos que procuramos — disse Bao, num inglês mal falado, porém, compreensível.
— A quem se refere o meu irmão pele-vermelha?
— Aos apaches, da tribo dos mescaleros!
— Por que os trata assim? Houve alguma desavença entre eles e os meus irmãos, os bravos e valentes kiowas?
— O machado da paz, entre nós e aqueles asquerosos urubus, foi arrancado.
— Folgo em ouvi-lo; queira sentar-se, meu irmão, porque tenho a relatar-lhe algo de importante.
Bao fitou-me com olhares perscrutadores e disse:
— Nunca vi este pele-branca; é ainda jovem; será um guerreiro? Já conquistou um nome?
Se Hawkens lhe houvesse dito o meu nome alemão, este, por certo, nenhum efeito teria produzido. Lembrou-se, porém, das palavras ditas por White, e respondeu:
— Este meu querido irmão e amigo atravessou, há pouco, a imensidade do oceano e é um grande guerreiro entre o seu povo. Nunca vira os animais do oeste bravio, e, no entanto, para salvar-me a vida, lutou com dois búfalos, abatendo-os; e, encontrando um urso cinzento das Montanhas Rochosas, apunhalou-o; em ambas as lutas não recebeu um só ferimento!
— Uff! — exclamaram os peles-vermelhas, admirados.
Sam prosseguiu:
— Sua pontaria nunca falha e tem tanta força física que, de um golpe, arroja ao solo o inimigo mais possante. Daí o nome que lhe deram os peles-brancas do oeste: “Mão de ferro”.
Sim, senhores! Sem que o esperasse, estava agora armado com um nome de guerra, nome que, daí por diante, sempre usei no oeste. Isto é costume nesta região, onde, muitas vezes, nem os melhores amigos se conhecem pelo nome verdadeiro.
Bao estendeu-me a mão e disse, em tom amável:
— Se “Mão de Ferro” o permitir, seremos irmãos e amigos. Admiramos esses homens valentes e por isso, será bem-vindo em nossa taba.
Queria dizer: “Precisamos companheiros fortes que nos ajudem a roubar; reúne-te, pois, aos nossos e serás bem recebido pela nossa tribo.” Não obstante, respondi a Bao com as palavras que sempre usava:
— Estimo os peles-vermelhas, porque são filhos do grande Espírito que é também o pai dos peles-brancas. Somos todos irmãos; unamo-nos, pois, contra todos os inimigos que vierem contra nós e contra eles!
Um sorriso de satisfação iluminou-lhe o semblante.
— “Mão de ferro”, fumemos o “cachimbo da paz”. — disse ele.
Sentou-se conosco, apresentou-me um cachimbo, cujo odor era insuportável; encheu-o com uma mistura que deveria ser de fumo e que no entanto era uma combinação de beterraba socada, folhas de cânhamo e de carvalho, esterco seco, pedaços de sapatos e unhas cortadas; feito isto, acendeu o fornilho, ergueu-se, assoprou a fumaça para o ar e exclamou:
— Lá em cima mora o Espírito do Bem, na terra crescem e vivem os animais e as plantas que Ele destinou aos kiowas.
Soprando a fumaça, aos quatro pontos cardeais, prosseguiu:
— Nestas direções moram os homens de peles-brancas e vermelhas que se apoderaram indevidamente do que nos pertence. Haveremos de procurá-los e vingar-nos. Tenho dito. Howgh!
Essa saudação era bem diversa das que eu lera e das que mais tarde tantas vezes ouvi: o kiowa proclamara, com palavras expressivas, que todas as riquezas da fauna e da flora eram de propriedade da sua tribo; por isso, não só lhe assistia o direito, como também o dever de roubar. E deveria eu mostrar-me amigo dessa gente? Assim era necessário: quem se alista numa fanfarra, está obrigado, pelo menos, a fingir que sopra num instrumento!
Bao deu o “cachimbo da paz” a Sam que, fazendo seis inclinações, disse:
— O grande Espírito não encara os homens segundo as suas cores, porque estas prestam-se a pinturas e podem enganar, mas segundo os sentimentos de cada um. Os guerreiros da afamada tribo dos kiowas são valentes, destemidos e fiéis. Meu coração está ligado ao grande Espírito e assim ficará para todo o sempre. Howgh!
E quem assim falava era Sam Hawkens, o homem minúsculo e divertido que sabia tornar suportáveis todas as coisas e todas as situações. Suas palavras foram acolhidas com exclamações de alegria.
O meu companheiro passou-me o cachimbo; cabia-me a vez de fumar; era forçado, pelas circunstâncias, a acompanhá-los; dominei-me, para não me mostrar contrariado. Aprecio imensamente o fumo e, em toda a minha vida, nunca rejeitei um cigarro ou um charuto, por fortes que fossem. Cheguei mesmo a fumar o célebre fumo conhecido por “três homens”. Dizia-se que para fumá-lo seria preciso que três homens segurassem o fumante para que este, entontecido, não tombasse ao solo. Estava certo de que a imunda mistura, que os índios haviam feito, não me faria cair. Levantei-me, fiz com a mão esquerda o gesto exigido pelo ritual dos índios, soprei a fumaça em direção ao céu e depois à terra:
— Do céu vem-nos o sol e a chuva; dele manam todas as bênçãos. A terra acolhe em seu seio o calor e a umidade e, em troca dessa valiosa dádiva, nos fornece búfalos e poldros, ursos e cervos, abóbora e milho e, sobretudo, a nobre planta com a qual os peles-vermelhas preparam o kinnikinnick que, nos fornilhos dos cachimbos da paz, exalam o aroma do amor e da confraternização.
Lera que os índios denominavam kinnikinnick suas misturas de fumo e apressei-me em demonstrar o meu conhecimento. Depois, tirei nova fumarada que soprei em direção aos quatro pontos cardeais. O aroma da mistura tornara-se mais insuportável, entretanto, continuei:
— No ocidente, erguem-se as Montanhas Rochosas e no oriente estendem-se as planícies; ao norte refulgem, ao sol, os lagos e, ao sul, ondeam as grandes águas do mar. Fossem minhas estas terras, e eu as ofertaria aos bravos guerreiros da tribo dos kiowas, meus irmãos. Desejaria que este ano caçassem dez vezes mais búfalos e cinqüenta vezes mais ursos que o número de guerreiros de sua tribo. Que o grão de milho adquirisse as dimensões da abóbora e que as abóboras fossem tão grandes que, da casca de uma, se pudesse fazer vinte das de tamanho comum. Howgh!
Era fácil desejar-lhes todas essas coisas boas; ficaram satisfeitos, como se os meus votos já se tivessem realizado. Foi a saudação mais astuta que pronunciara na minha vida e foi recebida pelos índios com estridentes exclamações de júbilo; essa explosão de entusiasmo não tivera precedentes, pois em ocasiões dessas, eles costumam conservar a maior serenidade. Mas tantas dádivas, ninguém lhes desejara até agora, eis por que suas exclamações se prolongavam.
Bao apertou-me a mão repetidas vezes, assegurou-me sua amizade e, ao pronunciar o seu howgh, abriu de tal modo a boca que facilmente coloquei-lhe o cachimbo entre os dentes compridos e amarelados. Silenciou logo, a fim de poder gozar aquele sabor infernal.
Foi a minha primeira “ação sagrada” entre os índios, pois fumar no cachimbo da paz é considerado por eles uma solenidade muito séria e de não menos sérias conseqüências. Quantas vezes, mais tarde, tive de fumar o calumet, concentrando-me convicto da dignidade e religiosidade do ato.
Agora não; estava contente por ter passado o cachimbo ao índio. Tirei do bolso um charuto e fumei-o, para desfazer o mau gosto produzido pela mistura indígena. Todos os olhares voltaram-se para mim! Bao admirado deixou cair o cachimbo; ele desejaria muito mais fumar um só charuto do que saborear mil vezes o kinnikinnick, entretanto, agarrou-o e pô-lo novamente entre os dentes.
Como estivéssemos sempre em comunicação com Santa Fé, por meio de carroças puxadas a boi, e de onde adquiríamos tudo de que necessitávamos, não me tinha sido difícil suprir-me de charutos. Eram de pouco preço e eu preferia fumar a me alcoolizar, como faziam os colegas. Na perspectiva de só voltarmos no dia seguinte, levei comigo uma provisão de charutos para dois dias. Estava, pois, em condições de satisfazer o desejo dos peles-vermelhas; ofereci um charuto a cada um deles. Bao pôs imediatamente o cachimbo de lado e acendeu o seu charuto; os outros procederam de maneira diversa: puseram o charuto todo na boca e o comiam. Como são diferentes os paladares! Jurei, em silêncio, jamais oferecer-lhes alguma coisa para fumar!
Agora terminaram as formalidades e os peles-vermelhas estavam alegres e contentes. Sam começou:
— Meus irmãos disseram que o “machado da paz” fora arrancado e que se acham em guerra com os mescaleros-apaches. Não sabia disso. Desde quando quebraram a paz?
— Já decorreu um espaço de tempo que os peles-brancas chamam duas semanas. Certamente o meu irmão Sam se achava afastado e por isso nada soube.
— É verdade; estive muito longe. Pensava que viviam em paz. Qual o motivo por que os meus irmãos pegaram em armas?
— Os apaches mataram quatro dos nossos guerreiros.
— Onde?
— No rio Pecos.
— Mas não é lá que habitam os kiowas.
— Não; lá habitam os mescaleros.
— Que foram os guerreiros fazer na aldeia dos mescaleros?
Com a maior calma o índio respondeu:
— Um bando dos nossos saíra a fim de assaltar os mescaleros à noite e roubar-lhes os cavalos. Mas os inimigos estavam vigilantes; defenderam-se como leões e mataram os nossos bravos companheiros. Por isso foi arrancado o “machado da paz”.
Eram, pois os kiowas os únicos culpados de haverem perdido seus companheiros; no entanto, iam guerrear os apaches, porque estes usaram do direito de defender a vida e a propriedade. Tive ímpeto de ser franco e dizer-lhes o mal que tinham feito. Cheguei, mesmo, a iniciar uma frase, mas Sam acenou-me para que silenciasse e continuou:
— Os apaches já sabem que os guerreiros, seus irmãos, saíram para atacá-los?
— Julga que seríamos tão tolos em preveni-los? Saímos para assaltá-los, de surpresa, matá-los e carregarmos os cavalos e demais objetos de que precisamos.
Era horrível: Não pude mais me conter e perguntei-lhe:
— Por que pretendem os meus irmãos tomar-lhes os cavalos? Sempre ouvi dizer que a opulenta tribo dos kiowas possui mais cavalos do que necessita para a montaria dos seus guerreiros!
Bao encarou-me sorrindo, e disse:
— Meu jovem irmão “Mão de ferro” atravessou recentemente as grandes águas, para chegar até aqui; portanto não conhece o modo de viver e de pensar do nosso povo. Sim, temos muitos cavalos; os peles-brancas querem comprá-los, mas em tamanha quantidade que os que temos não bastam para satisfazer a encomenda. Falaram-nos sobre os cavalos dos apaches, oferecendo-nos por cada um a mesma quantidade de mercadorias e aguardente que dão por um dos cavalos dos kiowas. Em vista disso, os nossos guerreiros partiram em busca das tropas dos mescaleros.
Que miséria! Estes negociantes de cavalos eram responsáveis, não só pela morte daqueles quatro guerreiros como pelo derramamento de sangue que era iminente. Mediante paga, em aguardente, levavam os kiowas a roubarem. Necessitava desabafar o coração, mas Sam energicamente acenou-me e prosseguiu:
— Meu irmão Bao anda em exploração?
— Sim.
— Quando chegam os guerreiros?
— Estão a um dia de viagem daqui.
— Quem os conduz?
— Tangua, o cacique.
— De quantos guerreiros compõe-se o bando?
— De duzentos.
— Mas os meus irmãos kiowas pensam surpreender os apaches.
— Vamos deitar-lhes a mão tal como a águia deita as garras à gralha; sem que nos vejam e sem que tenham tempo para reagir.
— O meu irmão engana-se. Os apaches já sabem que os kiowas pretendem assaltá-los.
Bao sacudiu a cabeça em sinal de incredulidade e respondeu:
— E como poderiam ter sabido? Seus ouvidos alcançam até as cabanas dos kiowas?
— Sim.
— Não o compreendo, meu irmão Sam Hawkens. Queira ser mais claro.
— Os apaches têm “ouvidos” que caminham e sabem andar a cavalo. Vimos ontem dois deles que haviam estado na aldeia dos kiowas, para espreitá-los.
— Uff! Dois ouvidos? Quer dizer, dois observadores ou espiões?
— Exatamente.
— Neste caso, devo voltar imediatamente para encontrar o cacique. Trouxemos apenas duzentos guerreiros, porque mais não seria necessário, se os atacássemos de surpresa. Mas, como nos esperam, é preciso que aumentemos o efetivo de guerra.
— Os meus irmãos não refletiram, pois, maduramente. Intschu-tschuna, o cacique dos apaches, é um guerreiro de extraordinária inteligência. Quando viu que a sua gente havia morto quatro kiowas, contou logo com a vingança, iniciou a mobilização para esperar o ataque e, pessoalmente, fez o trabalho de espião.
— Ele mesmo?
— Sim; ele e seu filho Winnetou.
— Uff! Também este! Se soubéssemos disso, teríamos aprisionado os dois. Bem; agora sei que nos esperam. Vou avisar o nosso cacique, para que mande vir reforço da aldeia. “Mão de ferro” e Sam irão comigo?
— Sim.
— Então montem depressa.
— Calma. Devagar. Antes disso, preciso muito falar-lhe.
— Fale-me no caminho.
— Não. Vou acompanhá-lo, mas não até onde está Tangua, o cacique dos kiowas; quero que vá comigo ao nosso acampamento.
— O meu irmão Sam está muito enganado!
— Não. Ouça primeiro o que lhe vou dizer: sua tribo quer aprisionar, com vida, Intschu-tschuna, o cacique dos apaches?
— Uff! — exclamou Bao, como que eletrizado.
Os índios ouviram com a máxima atenção.
— Desejam também prender seu filho Winnetou?
— Uff, uff! E isso seria possível?
— Com toda a facilidade.
— Conheço muito meu irmão Sam Hawkens, para julgar que fosse capaz de me dirigir uma pilhéria, o que eu não admitiria.
— Ora essa! Estou falando sério. Os bravos guerreiros kiowas poderão aprisionar o cacique e seu filho com vida, uma vez que sigam as minhas instruções.
— E onde os prenderemos?
— Em nosso acampamento.
— Não sei onde está localizado.
— Irá ver, pois sei que me acompanhará com satisfação, depois de ouvir o que lhe quero contar.
Sam falou-lhe, então, dos nossos trabalhos, dos objetivos que tínhamos e contra os quais os kiowas não se opunham e, finalmente, do nosso encontro com os dois apaches.
— Causou-me admiração ver os dois caciques sozinhos e concluí, então, que andassem dando caça aos búfalos e se tivessem separado, apenas por instantes, de seus guerreiros. Finalmente fiquei a par de tudo. Os dois apaches estiveram na aldeia dos kiowas, a fim de espiá-los e o fato de haverem os principais chefes se encarregado deste trabalho, significa que lhe dão muita importância. Regressaram, agora, à sua taba. A viagem de Winnetou será morosa, porque conduz o cadáver do mestre-escola; Intschu-tschuna seguiu na frente e fará tudo para acelerar a viagem, reunir guerreiros e atacar-nos.
— Mais um motivo para que me apresse e vá ao encontro do meu cacique, preveni-lo dos acontecimentos!
— Queira o meu irmão ter calma; espere que eu acabe de falar! Os apaches pretendem tomar duas vinganças: vingarão a morte de Klekih-pêtra e o ataque à sua taba. Mandarão contra os kiowas um grande bando; e contra nós virão em menor número. Dirigirá o ataque ao nosso acampamento o próprio cacique e seu filho, que depois se reunirão ao bando maior. Antes de seguir ao encontro do cacique, me acompanhará para conhecer o lugar onde estamos. Depois seguirá e porá Tangua a par de tudo. Este, com duzentos guerreiros, marchará para o nosso acampamento, e ali aguardará a chegada de Intschu-tschuna com seu pequeno bando, para aprisioná-lo. Os apaches não trarão mais de cinqüenta homens; nós somos vinte peles brancas e guerrearemos, é claro, a seu lado. Ser-nos-á fácil dominar os apaches. Depois de aprisionarmos os dois caciques, poderemos cantar vitória, pois isso representa ter preso todos os guerreiros. Tangua conservará os dois caciques como reféns, pela liberdade
dos quais pode exigir dos apaches o que bem lhe aprouver. Não está o meu irmão de acordo com o meu plano?
— Sim. O plano é excelente. Quando o cacique tiver conhecimento dele, ficará satisfeitíssimo.
— Bem, vamos partir imediatamente, a fim de alcançar o acampamento, antes do anoitecer.
Montamos e partimos a galope. Os animais haviam descansado e galopavam céleres como o vento. Sem cuidar da pista dos dois apaches, seguimos em linha reta para encurtar o caminho.
Para falar sinceramente, o plano de Sam Hawkens não me seduzia. Pelo contrário, aborrecera-me. Winnetou, aquele jovem apache nobre e leal, ia ser atraído com seu pai a uma cilada! Se isso sucedesse, ambos estariam perdidos e com eles todos os apaches. Por que Hawkens concebeu semelhante plano?! Sabia da minha simpatia para com o jovem apache! Também ele, o velho escoteiro, por diversas vezes, me falara cheio de admiração e entusiasmo das qualidades de caráter e dos feitos heróicos de Winnetou!
Todos os meus esforços, durante o caminho, para dele me aproximar e afastá-lo dos kiowas, foram baldados. Pretendia, sem que os índios o percebessem, fazê-lo desistir daquele plano e aconselhar-lhe outro. Parecia pressentir o meu propósito e não se afastava de Bao. Sua atitude deixava-me ainda mais indignado. Chegamos à noitinha ao acampamento; vinha de mau humor. Desensilhei o cavalo e deitando-me na grama, preparava-me para a forte discussão que teria com Sam. Ele, porém, não me queria atender e passou a relatar aos companheiros de acampamento as circunstâncias do nosso encontro com os kiowas.
A princípio, assustaram-se com o aparecimento dos índios; mas, depois, ficaram satisfeitos ao sabê-los nossos amigos e aliados, pois, deste modo, não precisaríamos mais temer o ataque dos apaches. Poderíamos agora, cercados e defendidos pelos duzentos kiowas, concluir, sossegadamente os nossos trabalhos de medição e estarmos certos de que o ataque dos mescaleros não nos causaria mal algum.
Os kiowas tiveram digna recepção; os nossos companheiros ofereceram-lhe um lauto jantar, deram-lhes o que restava ainda do urso, e, finda a refeição, os índios montaram e partiram ao encontro do cacique Tangua. Pretendiam viajar toda a noite, a fim de entregarem a mensagem à sua gente o mais depressa possível. Só depois de haverem partido, é que Sam veio ter comigo. Deitou-se a meu lado e disse-me no seu habitual tom de reflexão:
— Está hoje carrancudo, sir. Deve padecer de algum mal moral ou físico, hihihi! Que tem, afinal? Sofre?
— Sim! — disse em tom pouco amável.
— Pois então abra-me o coração e conte-me a sua mágoa. Vou curá-la!
— Muito folgaria com isso, senhor Sam! Mas duvido.
— Vou curá-lo, vou curá-lo! Pode estar certo disso.
— Pois bem, diga-me então qual a sua impressão a respeito de Winnetou?
— Excelente. E creio que a sua também!
— No entanto, vai lançá-lo a uma emboscada, arruinando-o na certa.
— Lançá-lo numa emboscada? Acaso serei capaz disso?
— Mas, ele vai ser aprisionado!
— Claro. E que tem isso?
— Será a sua ruína, pois entre os kiowas estará irremediavelmente perdido!
— Mas não acredite em fantasmas, sir. Winnetou é-me tão simpático, admiro-o tanto que, se um dia, estiver em perigo, arriscarei minha própria vida para salvá-lo.
— Mas, então, por que procede assim?
— Para evitar que sejamos presos e martirizados por ele e sua gente.
— E depois?
— Depois, hum! Desejaria defender Winnetou, sir?
— Não só desejaria, como vou defendê-lo! Se for aprisionado, hei de livrá-lo. E, se as armas entrarem em ação, puxarei da minha e me porei a seu lado para combater por ele. Falo-lhe leal e sinceramente!
— Será essa realmente a sua atitude?
— Sim, prometi a um moribundo defender esse jovem apache e essa promessa para mim é juramento!
— Folgo muito em saber. Estamos de acordo.
— Mas — disse impaciente — esse seu belo gesto de agora não está concorde com o plano apresentado a Bao, e com o projeto de atrair Winnetou a uma cilada.
— Oh! Bem notei que desejava falar-me, durante a viagem, mas não me foi possível atendê-lo, porque, do contrário, ruiria por terra o que eu idealizara. Minha intenção é bem diversa! Não faltaria mais nada senão deixar que qualquer pessoa penetrasse o meu pensamento, hihihi! Mas, ao senhor, esclarecerei tudo. Ouça, pois: Penso que Intschu-tschuna e Winnetou, andavam, quando os encontramos, em viagem de exploração. Antes disso, porém, haviam armado seus guerreiros para virem receber os kiowas.
Certamente, os apaches tinham deixado a aldeia e, pela pressa com que o cacique viajava, é de supor que desejasse encontrá-los o mais breve possível. Pelos meus cálculos, Intschu-tschuna os encontrará amanhã muito cedo. Depois de amanhã, à noite, nos poderão atacar. Veja, pois, como estamos próximos do perigo. Foi feliz o nosso encontro com os kiowas, pois, estando em guerra com os apaches, nos poderão auxiliar; virão agora, com os seus duzentos guerreiros, acampar aqui e...
— E vou disso prevenir Winnetou.
— Por Deus não o faça! Com novos guerreiros reforçariam suas fileiras e estaríamos perdidos mesmo com os duzentos kiowas! Não; para nossa salvação, devem ser aprisionados; terão a morte diante dos olhos. Depois, nós os livraremos secretamente e irão em busca dos companheiros para atacarem os nossos aliados. Quanto a nós, em sinal de gratidão, desistirão de tirar vingança. Talvez exijam que lhes entreguemos Rattler, o que não recusaremos. Que tal o meu plano, gentleman melindrado?
Estendi-lhe a mão e respondi:
— Estou tranqüilo, meu caro Sam; seu plano é, na verdade, excelente!
— Então! Sam Hawkens poderá ter até o defeito de comer ratos do campo, mas também tem o seu lado bom, hihihi! Está agora mais satisfeito comigo?
— Sim, meu velho Sam!
— Então durma, porque amanhã terá muito que trabalhar. Vou por Stone e Parker a par dos acontecimentos para que saibam como andam as coisas.
Não era esse velho Sam um bom homem, sincero, serviçal e amável? Não tinha muito mais de quarenta anos; suas espessas barbas cobriam-lhe quase inteiramente o rosto, deixando um formidável nariz à mostra; seu jaquetão, grosso e duro, mais parecia feito de tábua que de couro. Tudo nele contribuía para fazê-lo parecer mais velho do que era.
Demais, é bom fazermos aqui algumas referências à palavra “velho”, nos Estados Unidos old. Aqui, como na Alemanha, e creio que também em alguns outros países essa palavra não indica apenas idade avançada; em sentido figurado, constitui um termo com que demonstramos, às vezes, carinho para com a pessoa a quem ele é aplicado. Com dizer “velho” amigo e camarada não queremos, em absoluto, afirmar que esse amigo e camarada seja pessoa idosa; ao contrário, é comum ver-se aplicar esse adjetivo a pessoas bem jovens. No idioma alemão, esses casos são ainda mais freqüentes do que em qualquer outro. Aqui no oeste bravio a palavra “velho” é empregada, muitas vezes, como expressão reforçativa.
Também o apelido Schatterhand, que me fora dado, como nome de guerra, era reforçado pelo adjetivo — old — velho.
Depois que Sam se retirou, procurei dormir; mas os companheiros de acampamento, satisfeitos com a próxima chegada dos kiowas, faziam tal algazarra que não me foi possível conciliar o sono; além disso, os pensamentos me atormentavam o espírito. Sam falara-me do seu plano, como se não receasse nenhuma probabilidade de fracasso. Eu, porém, não participava desse otimismo. Projetávamos libertar Winnetou e seu pai, mas não pensáramos nos demais apaches. Iríamos, porventura, deixá-los em poder dos kiowas, salvando apenas os seus chefes? Parecia-me injusto; entretanto, éramos apenas quatro e não poderíamos libertar, secretamente, todos os apaches; era preciso que nenhuma suspeita recaísse sobre nós.
Sam também não previra que os apaches não se entregariam sem reagir. E justamente os dois caciques que tencionávamos libertar, lutariam valentemente, preferindo a morte à prisão. Como afastá-los, pois, desse perigo? Não deveríamos permitir que morressem em combate.
Não achava solução para o caso e só me tranqüilizava pensando que Sam Hawkens, com certeza, já idealizara algum meio de evitar o desastre. De qualquer modo estava resolvido a colocar-me do lado dos caciques e, se fosse preciso, morrer lutando por eles.
Na manhã seguinte tomei parte nos trabalhos de medição. Todos agora esforçavam-se mais e o trabalho progredia rapidamente. Rattler conservava-se afastado. À noite, embora o terreno fosse mais difícil, demarcáramos um trecho duas vezes mais extenso do que os dos outros dias. Estávamos cansados e, após o jantar, deitamo-nos. O acampamento fora transferido para adiante em virtude do avanço dos trabalhos. No dia seguinte, trabalhávamos com o mesmo afinco, mas, ao meio dia, fomos interrompidos. Chegavam os kiowas. Seus batedores encontraram facilmente o acampamento, porque as nossas pegadas estavam ainda bem visíveis.
Eram mais de duzentos guerreiros possantes, que montavam excelentes cavalos e vinham armados de espingardas, facas e machadinhas. O cacique era, realmente, um vulto temível, de fisionomia sombria, onde brilhavam dois olhos astutos e cuja expressão não inspirava confiança. Transparecia neles o roubo, a rapinagem e o banditismo! Chamava-se Tangua, termo que, literalmente, significa cacique. Quando o contemplei, temi bastante pela sorte de Intschu-tschuna e Winnetou, que lhe iriam cair nas mãos.
Os kiowas tinham vindo para o acampamento como amigos e aliados; mas nem por isso a sua atitude era de cordialidade. Davam-me a impressão do tigre que se alia ao leopardo para a caçada e, depois de vitorioso, devora também o seu próprio companheiro.
Tangua e Bao, o chefe dos seus observadores, vinham à frente do bando vermelho; quando chegaram ao acampamento, não nos cumprimentaram e, com um movimento de braço, deram instruções para que os índios nos fechassem num círculo. Em seguida, o chefe galopou para a nossa carroça e levantou-lhe a tolda para verificar o que continha. Pareceu agradar-se, pois apeou a fim de examinar detidamente as mercadorias.
— Oh! — disse Sam Hawkens que estava a meu lado. — Parece considerar-nos como boa presa. Sem nos dirigir uma só palavra, examina o que possuímos. Julga que Sam Hawkens é tão tolo que negociou com um lobo, pensando ser um cordeiro. Está enganado, e muito enganado. Vou já provar-lhe.
— Deixe-se de imprudência, Sam! Nada podemos contra duzentos homens.
— Sim, mas não há de ser nada. Talvez eles estejam a brincar conosco, hihihihi!
— Brincar? Entretanto, cercaram-nos.
— Bem! Isto também estou vendo! Ou pensa que não tenho olhos? Ao que me parece, não fomos muito felizes na escolha destes aliados. O fato de nos terem cercado prova que nos pretendem devorar, juntamente com os apaches. Mas, esse bocado há de ser difícil para eles. Venha comigo, quero mostrar-lhe como costumo falar a ladrões dessa espécie! Conheço Tangua e, embora ele ainda não me tenha visto, sabe perfeitamente que faço parte do pessoal deste acampamento. Sua atitude não só faz com que eu me aborreça como também que todos nós suspeitemos dele e de seu bando. Veja o olhar belicoso que nos dirigem. Vou mostrar-lhes que Sam Hawkens está presente.
Trazíamos nossas espingardas e assim fomos até a carroça, onde se achava Tangua. Lá chegados, Sam lhe perguntou:
— Com que então o famoso cacique dos kiowas tem vontade de passar, neste momento, deste para o outro mundo?! Quer viajar para as eternas campinas?
O interrogado que se achava de costas, curvado, ao examinar as mercadorias, virou-se e respondeu grosseiramente:
— Por que me interrompem os peles-brancas, fazendo-me uma pergunta tola? Tangua há de reinar no outro mundo, como um grande cacique. Mas levará ainda muito tempo até que empreenda viagem para lá.
— Cuidado! Talvez vá empreendê-la dentro de um minuto!
— Como?
— Desça da carroça e venha comigo, quero falar-lhe. Ande depressa!
— Eu continuarei aqui!
— Bem, então voará pelos ares!
Dizendo isso, Sam afastou-se um pouco, como se quisesse fugir de algum perigo. O cacique saltou da carroça e, segurando o braço de Sam, disse:
— Voar pelos ares? Por que diz isso?
— Para preveni-lo.
— De que?
— Da morte que teria encontrado, se não descesse imediatamente da carroça.
— Uff! A morte está dentro da carroça?
— Sim.
— Quero vê-la!
— Mais tarde, talvez. Não lhe disseram os exploradores qual a nossa tarefa aqui?
— Sim. Sei que pretendem construir um caminho de ferro para os peles-brancas.
— Exatamente! Um caminho desses atravessa rios, precipícios e rochas, as quais temos de rebentar com explosivos. Pensei que soubessem disso.
— Sei muito bem. Mas que terá isto a ver com a minha morte? Por que fui quase levado por ela?
— Já explico. Sabe com que se rebentam as rochas, que estão na linha da nossa estrada de ferro? Julga, talvez, que seja com essa pólvora com que se carregam as armas.
— Não me conta novidade. Bem sei que os peles-brancas tem outra invenção com que podem destruir até um morro inteiro!
— Justamente! E é esse preparado que está ali dentro da carroça, onde há pouco esteve o meu irmão kiowa. Está muito bem empacotado, mas quem não o conhece e não sabe como deve tratá-lo, corre muito perigo de vida. Só no tocar de leve ele explode, e atira a pessoa, em milhões de pedaços, pelos ares!
— Uff, uff! — exclamou visivelmente amedrontado. — Estive perto desse terrível explosivo?
— Sim, e tão perto que se não saltasse depressa da carroça, atendendo ao meu chamado, a esta hora já estaria no outro mundo. E em que estado lamentável! Seria um amontoado informe de carne, sem a “bolsa de medicina” e o escalpo. Em tal estado não poderia, no outro mundo, empunhar o bastão de cacique! Seus restos seriam, então, reduzidos a pó e este, esparso pelas estradas.
Um índio, que chegar ao outro mundo, sem a “bolsa de medicina” e o escalpo, será recebido com desprezo pelos heróis já falecidos; terá de se esconder, enquanto os outros vivem na opulência. Assim ensina a fé dos peles-vermelhas. Que desgraça para o índio que chegar no além sem a sua bolsa e o seu escalpo! Apesar de sua cor escura, o cacique deixava perceber que o sangue lhe subira ao rosto.
— Uff! Ainda bem que este pele branca me preveniu em tempo. Mas por que guarda esse preparado na carroça, onde há tantos objetos de utilidade?
— Então queria que o puséssemos no chão, para, ao menor contato, explodir e ocasionar graves desastres? Afianço-lhe que mesmo dentro da carroça é perigoso! Quando há uma explosão, tudo o que estiver ao redor voa pelos ares.
— Também os homens?
— Claro; homens, animais, tudo o que estiver por perto.
— Então vou avisar os meus guerreiros que não se aproximem desse lugar.
— Avise, Tangua; do contrário, o descuido de um será fatal para todos nós. Veja: acabo de salvar-lhe a vida e velo por todos os guerreiros kiowas; se assim procedo é porque são nossos aliados. Não me teria enganado neste ponto? Quando os amigos se encontram, saúdam-se mutuamente e juntos fumam o “cachimbo da paz”. Quererá o cacique suprimir essa cerimônia no nosso encontro?
— Já fumaste o cachimbo com Bao, o meu observador!
— Apenas eu e este jovem guerreiro pele-branca; os outros ainda não. Se o irmão pele vermelha não saudar os irmãos peles-brancas é porque a sua amizade para conosco não é verdadeira.
Tangua refletiu por algum tempo, e assim se desculpou:
— Estamos em viagem de guerra e não trazemos conosco o kinnikinnick da paz.
— Os lábios do cacique dos kiowas não falam por seu coração! Vejo a bolsa com o kinnikinnick pendente daquele cinto. Não seria necessário que todos fumassem o calumet; Tangua fumará por seus guerreiros e eu, por todos os peles-brancas do acampamento; feito isso, consideramos selada a amizade e a aliança entre os vermelhos e os brancos.
— Mas, para que fumaremos, se já somos velhos conhecidos e irmãos? Consideremos, pois, já feita a cerimônia.
— Seja! Mas, daqui por diante, faremos o que nos aprouver e não consentiremos que aprisionem os apaches aqui!
— Sam irá preveni-los? — perguntou, com olhos faiscantes.
— Não. Não cometeria essa leviandade. São nossos inimigos, e virão atacar-nos; entretanto, não direi aos kiowas as condições em que os poderão prender.
— Não preciso; eu as conheço.
— Oh! Saberá, porventura, donde vêm e o lugar onde os poderá encontrar?
— Saberei em seguida. Vou expedir os meus batedores.
— Não o fará, pois é bastante inteligente para saber que os apaches descobririam a pista dos espiões e se preparariam para a luta; dessa forma, não conseguirá deitar-lhes a mão. Entretanto, se o cacique executar o meu plano, eles serão cercados de surpresa pelos guerreiros, que os apanharão com vida.
Vi que suas palavras haviam produzido efeito. Tangua, depois de pensar alguns segundos, disse:
— Falarei aos kiowas.
Afastou-se de nós, dirigiu-se a Bao e chamou mais alguns índios para deliberar.
— Antes de resolver definitivamente, — disse Sam, dirigindo-se a mim, — ele quer consultar os guerreiros, o que prova que não estavam intencionados.
— Procedem mal, pois o senhor é seu amigo.
— Amigo? Os kiowas não sabem ser amigos! São ladrões, vivem exclusivamente do roubo e aqui temos uma carroça com numerosos objetos que para eles são de grande valor e que os estão seduzindo. Disso certamente os observadores fizeram ciente o cacique e é coisa deliberada: seríamos roubados por estes vermelhos.
— E agora?
— Agora, afinal, não precisamos mais receá-los.
— Se isto fosse certo, ficaria muito satisfeito.
— Sim, creio que estamos livres do perigo de sermos roubados, depois do susto que o cacique levou. Estou certo de que estava a fazer o inventário das mercadorias que iam servir de presa à sua tribo. Mas, agora, sabendo que ali se acha a dinamite, nenhum desses vermelhos ousará chegar até a carroça. Espero que este temor nos seja também, no futuro, de grande proveito. Vou pôr uma lata de sardinha no bolso e procurarei convencê-los de que é um explosivo. Sei que também o senhor possui uma, onde guarda os apontamentos; faça uso dela em caso de necessidade.
— Aproveitarei a sua idéia. Faço votos que o ardil surta o efeito esperado. E, diga-me, que pensa a respeito do “cachimbo da paz”?
— Que tinha resolvido não fumá-lo conosco; mas, agora, vão mudar de resolução. O meu argumento demoveu o cacique de sua idéia primitiva e o mesmo conseguirá ele, agora em relação a seus companheiros. Mas, apesar disso, não devemos confiar neles.
— Veja pois, Sam, como eu tinha razão! Contava executar o seu plano com o auxílio destes peles-vermelhas; agora eles vêm ao nosso encontro, mas com o propósito de nos espoliar do que nos pertence. Estou curioso por ver o fim de tudo isto!
— O fim não será outro senão o que eu espero, pode estar certo, sir! O cacique pretendia, primeiro nos saquear sossegadamente, e, depois, receber os apaches e prendê-los, sem nossa participação. Mas, agora, compreendeu que os mescaleros são bastante astutos para não se deixarem surpreender e matar facilmente. Como disse a Tangua, os apaches haveriam de seguir as pegadas dos seus observadores e estes lhes cairiam nas mãos como o rato nas unhas do gato. Aí vem ele. Agora decidiremos.
Antes mesmo que o cacique nos falasse, já conhecíamos a decisão dos peles-vermelhas, porque, a uma voz dada por Bao, os guerreiros desfizeram o círculo e apearam todos. Tangua tinha a fisionomia menos sinistra.
— Resolvi com os meus guerreiros — disse o cacique — que fumássemos, Sam Hawkens e eu, o calumet; essa cerimônia será válida para todos.
— Isto esperávamos nós — respondeu Sam — porque sempre o consideramos como homem prudente. Os guerreiros kiowas que formem em semicírculo para servirem de testemunhas de que fumamos o cachimbo da paz e da amizade!
Assim foi feito. Seguiu-se a cerimônia e nós, os brancos dirigimo-nos a cada um dos vermelhos e apertamos-lhes as mãos. Podíamos estar certos de que, pelos menos por hoje e por alguns dias ainda, não alimentavam propósitos hostis em relação a nós. É claro que não poderíamos saber se mais tarde mudariam de idéia.
Quando digo fumar o calumet ou “cachimbo da paz” valho-me da expressão de uso corrente entre os povos civilizados, pois o índio não usa a palavra fumar, mas “beber fumo”. Na realidade, engole a fumaça, para depois expeli-la, de uma só vez, lentamente, pela boca e pelas narinas.
Neste particular o índio se assemelha um tanto ao turco, que também não adota o termo fumar. Fumo em turco é tüntiln. Fumar cachimbo é tüntün ou tshibuk itschmek; itschmek não quer dizer fumar, mas beber.
Os índios têm o cachimbo em tão alta conta que o seu nome, em geral, é o mesmo com que designam cacique. Na língua da tribo dos jemes, como também no dialeto de todos os apaches, observa-se esse fato. Entre os primeiros, cacique é fui e cachimbo fui-schasch e, no dialeto dos apaches, cacique é natan e cachimbo, natan-tsé, A desinência tsé significa pedra, e designa tanto o cachimbo cujo fornilho é de pedra, como qualquer outro. O fornilho dos cachimbos da paz são feitos de argila “santa” colhida em Dakota.
Depois de feita esta aliança de amizade, talvez provisória, Tangua convocou uma grande assembléia deliberativa, na qual também nós, os peles-brancas, deveríamos tomar parte. Este fato não me agradou, pois a assembléia iria interromper os nossos trabalhos de medição que desejávamos concluídos com urgência. Pedi a Sam que intercedesse junto ao cacique para que a reunião se efetuasse à noite; é que eu lera que tais congressos, além de muito demorados, quase sempre terminavam em desordem. Hawkens falou a Tangua e participou-me o resultado da conferência.
— Como verdadeiro índio, ele não se deixa demover, em ponto algum, do seu propósito. Os apaches demoram ainda a chegar e, por isso, quer realizar uma sessão em que eu exponha o meu plano. Logo após deve realizar-se um lauto almoço para o qual temos provisões suficientes; além disso, os kiowas contribuirão com o xarque que trouxeram em seus cargueiros. Felizmente, consegui que somente eu, Dick Stone e Will Parker tomemos parte na assembléia. Quanto aos outros, concorda o cacique que trabalhem na medição.
— Concorda? Como se, para trabalharmos, necessitássemos da sua permissão! Hei de conduzir-me de tal modo, em sua presença, que me considerará completamente independente.
— Não crie dificuldades, sir! Faça, antes, como se não percebesse essa arrogância; para que tudo corra bem, não devemos irritar os índios.
— Mas eu desejaria tomar parte nas deliberações!
— Não é necessário.
— Não? Pois penso o contrário. É preciso que eu saiba o que vão resolver.
— Eu saberei.
— E tomar alguma iniciativa que eu julgue desacertada?
— Que julgue desacertada? Vejam esse greenhorn! Tem a pretensão de pensar que lhe cabe sancionar ou vetar as iniciativas de Sam Hawkens! Quem sabe quer também que eu lhe solicite permissão para aparar as unhas ou consertar os sapatos?
— Não tenho essa intenção! Desejaria apenas estar certo de que nenhuma deliberação seria tomada no sentido de assassinar os dois apaches.
— Quanto a isso, pode confiar no seu velho Sam Hawkens. Os dois apaches não sofrerão coisa alguma. Dou-lhe minha palavra! Isto lhe satisfaz?
— Sim; respeito muito a sua palavra e tenho a certeza de que tudo fará para cumpri-la!
— Bem! Vá trabalhar e pode estar certo de que tudo será resolvido de acordo com a sua opinião.
Tinha de me conformar, pois ansiava por terminar a medição, antes do encontro com os apaches. Fomos para o serviço e a ele nos dedicamos com afinco; tanto Bancroft como seus companheiros esforçaram-se quanto possível para o bom êxito do trabalho. Eu falara com eles, expondo os motivos por que era necessário concluir a medição o mais rápido possível.
— Se não trabalharmos com ardor — disse-lhes eu — não aprontaremos o serviço antes da chegada dos apaches, e possivelmente estaremos perdidos. Cairemos em suas mãos ou nas dos kiowas, se estes vencerem a luta. Do contrário, se terminarmos a tarefa, antes da sua chegada, talvez nos seja possível abandonar este lugar, pondo em segurança as nossas pessoas e o material que temos.
Não lhes tivesse eu falado desse modo, e teriam, talvez, conservado a indolência de sempre; assim, consegui o meu propósito. No íntimo, porém, não pretendia retirar-me; estava ligado a Winnetou e devia esperá-lo. Os outros poderiam fazer o que lhes aprouvesse; quanto a mim, estava resolvido a permanecer ali até me convencer de que nenhum perigo corria a vida daquele apache.
O meu trabalho era dobrado. Competia-me medir, fazer a escrita e os desenhos. Fazia estes em duplicata: uns, entregava ao engenheiro-chefe, outros, guardava comigo; talvez fossem úteis futuramente. O nosso acampamento estava ameaçado de sérios perigos, e isto, se não houvesse outros motivos, seria bastante para justificar a minha precaução.
A assembléia prolongou-se, conforme eu previra, até a noite; terminara, justamente, à hora em que nós, forçados pela escuridão, abandonávamos o trabalho e voltávamos. Os kiowas estavam de ânimo alegre, pois Sam Hawkens tivera a leviandade ou, talvez, a inteligência de oferecer-lhes aguardente. Para isso não se dera ao trabalho de pedir consentimento a Rattler... Queimavam diversas fogueiras, ao redor das quais os vermelhos estavam sentados; os cavalos pastavam, e mais adiante, na escuridão, viam-se as sentinelas distribuídas pelo cacique.
Sentei-me junto de Sam e seus inseparáveis companheiros Parker e Stone; jantei e corri os olhos pelo acampamento, que, com a presença dos recém-chegados, apresentava um aspecto fora do comum. Examinava os semblantes daqueles indígenas e em nenhum conseguia descobrir traços de nobreza, capazes de fazer crer que tratassem com generosidade os inimigos que lhes viessem a cair nas mãos. A aguardente fora pouca; não os embriagara, mas, como não estavam habituados a tomá-lo, por lhes ser difícil obtê-la, notava-se uma certa animação de espírito. Movimentavam-se com vivacidade e falavam em voz mais alta do que de costume.
Como era natural, perguntei a Sam sobre o resultado das deliberações.
— Pode ficar tranqüilo, nada sucederá ao seus dois apaches queridos.
— Mas, se procurarem defender-se?
— Não poderão fazê-lo. Serão subjugados e amarrados antes que isso lhes passe pela cabeça.
— Acha isso possível?
— Sim. É muito simples. Os apaches virão por determinado caminho. Será capaz de adivinhar qual seja?
— Sim. Dirigir-se-ão primeiramente ao local onde nos encontraram para, de lá, seguirem a nossa pista até aqui.
— Exatamente! Não é tão tolo quanto parece. É de grande importância sabermos, em primeiro lugar, o caminho pelo qual se dirigirão para cá e, depois, mais ou menos o dia de sua chegada.
— Não poderemos calcular precisamente; mas devemos chegar a alguma conclusão a esse respeito.
— Sim; para quem tem inteligência é fácil chegar a uma conclusão; mas tão vaga, que nada nos adiantaria. Quem, em situação difícil como a nossa, agir em dúvida, está exposto a perder-se. Certeza, absoluta certeza é de que precisamos.
— Só poderíamos ter certeza absoluta, se distribuíssemos observadores, medida que o caro amigo não aconselha, pois acha que, neste caso, os apaches nos descobririam pelas pegadas de nossos observadores.
— Se fossem peles-vermelhas, veja bem! Que aqui estamos, sabem os apaches; se encontrarem pegadas de peles-brancas, de nada poderão desconfiar. Mas, se ao contrário, derem com sinais de peles-vermelhas, imediatamente tomarão medidas de precaução. E o senhor, que é um homem inteligente, responda-me qual a conclusão a que chegariam se encontrassem pegadas de kiowas?
— Concluiriam que estes índios estão nas proximidades.
— Acertou! Não fora querer poupar-me a peruca, e agora tirar-lhe-ia o chapéu.
— Obrigado, Sam! Desejo ser digno dessa homenagem... Mas, continuemos! É de opinião que devemos expedir batedores brancos e não vermelhos, ao encontro dos apaches?
— Sim, mas apenas um.
— Não será pouco?
— Não, trata-se de um homem em quem se pode ter absoluta confiança; chama-se Sam Hawkens, se não me engano, e come ratos, hihíhí! Conhece-o, sir?
— Sim; se aceitar a incumbência poderemos ficar tranqüilos, porque não se deixará descobrir.
— Não me deixarei descobrir, mas procurarei ser visto.
— Como? Os apaches devem avistá-lo?
— Sim.
— Mas neste caso, o prenderiam.
— Isto não lhes passará pela cabeça; são bastante inteligentes e não tomarão essa medida: hei de fazer de tal modo que eles não me verão a passear despreocupadamente, e concluirão que nos sentimos tão seguros como no seio de Abraão. A mim não me farão coisa alguma, sabem que provocariam sérias suspeitas se eu não regressasse ao acampamento. Dirão que ainda hei de lhes cair nas mãos e não terão pressa de prender-me.
— Mas, Sam, não haverá possibilidade de que eles o avistem sem que o senhor os veja?
— Sir, — disse zombando — está a mofar de mim; nossas relações estão cortadas! Então, irei deixar que me avistem sem que eu os observe!? Os olhos de Sam Hawkens são pequeninos, mas vivos! Os apaches não vêm marchando logo com o grosso do bando; à frente, virão alguns observadores que não me passarão despercebidos. Hei de colocar-me de tal modo que verei a todos. Saiba, sir, que há lugares onde o escoteiro mais astuto não encontra abrigo seguro e é forçado a se postar a descoberto. Devem-se preferir esses lugares, quando espiamos quem nos pode ver. Assim que avistar os mescaleros correrei a preveni-los, e os senhores, contornando o acampamento, poderão se ocultar dos apaches.
— Mas, se os batedores derem, neste caso, com a presença dos kiowas e retrocederem para avisar o cacique?
— E acha que darão com a presença dos kiowas? Homem de Deus, greenhorn e muito distinto jovem, pensa que Sam Hawkens não reflete? Nessa ocasião já terei tudo preparado para que não avistem aqui qualquer coisa que possa denunciar a presença dos índios! Esses nossos muito “queridos amigos”, esta “gloriosa” falange de kiowas há de se ocultar muito bem e só no momento preciso aparecerá. Naturalmente, teremos de dispor as coisas de tal modo que os batedores não avistem mais do que as pessoas que se achavam no acampamento, quando aqui estiveram Winnetou e seu pai!
— Oh! Agora sim, suas palavras, soam de outro modo!
— Obrigado! Os observadores dos apaches podem circundar-nos e espreitar-nos à vontade; ficarão certos de que estamos tranqüilos e nada de anormal aguardamos. Quando retrocederem, sairei em seu encalço para observar a marcha dos guerreiros em direção ao nosso acampamento. Não nos atacarão durante o dia e sim à noite. Para efetuar o ataque hão de procurar antes colocar seu bivaque o mais próximo possível.
— E levar-nos-ão presos ou talvez mesmo matem alguns dos nossos!
— Ouça, sir, o senhor causa-me pena! Quer ser um homem de estudos e não sabe que, quando alguém não se quer deixar prender, foge! Se até um coelho ou qualquer inseto sabe disso! Hum! Então não conseguiu aprender nada em seus livros?
— Não, porque um homem valente do oeste não estuda a ciência de fugir. Então acha que nos devemos pôr em segurança?
— Sim. Acenderemos uma grande fogueira. Enquanto ela arder, é certo que os inimigos se conservarão escondidos. Quando o fogo se extinguir e ficarmos às escuras, abandonaremos o local e nos dirigiremos para onde estão os kiowas, a fim de conduzi-los para a frente. Enquanto isso os apaches avançam para o acampamento onde não encontram uma só pessoa, hihihi! Ficarão, naturalmente, tomados de espanto e acenderão novamente a fogueira para nos procurarem. Então seremos nós que os veremos, sem sermos vistos e os poderemos atacar. Que susto levarão! Será um golpe do qual se falará por muito tempo e se dirá: foi um plano de Sam Hawkens.
— Sim, estaria tudo muito bem, se as coisas corressem segundo o seu desejo.
— Correrão! Deixe ao meu cuidado!
— Sim, e depois? Daremos secretamente liberdade aos apaches?
— Pelo menos a Intschu-tschuna e Winnetou.
— E aos outros não?
— A tantos quantos nos fôr possível, sem que sejamos descobertos.
— E que sucederá aos demais?
— Nada de grave, sir; garanto-lhe que os kiowas se preocuparão mais com a captura dos fugitivos do que com os prisioneiros que ficarem. E se, porventura, se mostrarem sanguinários, Sam Hawkens estará presente para defender os apaches presos. Não quebremos a cabeça com o que possa suceder depois. O que vier a acontecer mais tarde, só mais tarde veremos. Por ora, tratemos de procurar um lugar apropriado para a execução do plano; disto tratarei amanhã pela madrugada. Por hoje, basta; de amanhã em diante começaremos a agir.
— Tem razão. É inútil falar e arquitetar novos planos; aguardemos os acontecimentos.
UMA EMBOSCADA PARA OS “APACHES”
A noite estava calma. Levantara-se um vento que, pouco a pouco, se transformara em vendaval. Pela manhã tivemos frio como raramente sucede nesta região. Dormíamos sob cobertas quentes e, não obstante, acordamos com frio. Sam Hawkens, olhando o céu disse:
— Hoje vai acontecer algo raro nesta região: vai chover. Isto facilitará extraordinariamente o nosso plano.
— Como? — perguntei.
— Não vê como a grama está pisoteada pelos cavalos? Assim será
fácil aos mescaleros concluir que há mais gente no nosso acampamento. Mas, se chover, a grama revigorará rapidamente e desaparecerão as pegadas, — que, em caso contrário, se tornarão ainda mais visíveis daqui a dois ou três dias. Vou já partir com os peles-vermelhas.
— À procura de esconderijo, de onde desenvolvam o ataque?
— Sim. Poderia ir só e depois vir buscá-los. Mas, quanto mais depressa forem, tanto melhor; a chuva apagará também os novos sinais que deixaremos sobre a relva. Enquanto isso, pode continuar, tranqüilo, no seu serviço de medição.
Participou a sua resolução ao cacique e este concordou com ela; alguns minutos mais e os índios, acompanhados de Sam e seus dois companheiros, montavam e partiam. O esconderijo escolhido por Sam ficava situado na linha que teríamos de seguir em nossas medições. Do contrário, na hora do ataque, iríamos demorar muito, o que traria suspeitas aos apaches.
Do lugar onde trabalhávamos, seguimos com o olhar os kiowas até que os perdemos de vista. Ao meio dia, chovia torrencialmente. No meio dessa tromba dágua regressaram Sam e os companheiros ao acampamento. Só quando estavam próximos, foi que pudemos avistá-los, tão densa era a chuva. Haviam encontrado um lugar apropriado que Parker e Stone iriam, mais tarde, me mostrar. Depois de se suprir de provisões, Sam partiu para o posto de observação, não obstante a forte chuva que ainda caía. Preferiu desempenhar sua tarefa a pé, pois poderia ocultar-se mais facilmente do que se montasse a “Mary”. Quando desapareceu, tive a impressão de que grande catástrofe se aproximava de nós a passos rápidos.
Subitamente o tempo melhorou e o sol brilhante nos sorriu, tão quente como no dia anterior. Havíamos interrompido os trabalhos e agora podíamos recomeçá-los.
Achávamo-nos numa savana não muito extensa, cheia de planuras e cercada de bosques por três lados. Era um terreno muito vantajoso para medição e nosso trabalho progrediu extraordinariamente. Durante o serviço verifiquei que, realmente, a chuva nos trouxera os benefícios previstos por Sam; pela manhã, os kiowas haviam cavalgado pela nossa linha de medição e, no entanto, nenhuma impressão se notava no solo. Quando viessem os apaches longe estariam de supor que tínhamos duzentos aliados ocultos pelas redondezas.
Ao anoitecer, abandonamos o serviço. Stone e Parker avisaram-nos de que estávamos próximos ao local escolhido para o combate. Gostaria de vê-lo de perto, mas já era tarde.
Na manhã seguinte, depois de pouco tempo de trabalho, alcançamos um arroio que, num determinado ponto formava uma espécie de lagoa de alguma profundidade ao passo que o resto era, em geral, muito raso. Uma estreita nesga de savana, resguardada de ambos os lados por árvores e arbustos, ligava uma ilhota situada no centro da lagoa ao terreno enxuto. Em conseqüência da chuva do dia anterior, este arroio transbordara,
— Eis o local escolhido por Sam — disse Stone, olhando em torno, como velho conhecedor da região; — para o fim que temos em vista, não pode haver lugar mais apropriado.
Essa sua observação levou-me a examinar o terreno.
— Onde estão os kiowas, Mr. Stone? — perguntei.
— Ocultos, bem ocultos — respondeu. — Por mais que se esforce não descobrirá um só vestígio e, no entanto, eles nos podem ver e observar detidamente.
— Donde?
— Espere, sir! Primeiro vou dizer-lhe por que Sam, o astuto, escolheu este local. A savana por onde há pouco caminhamos, está serpenteada de árvores e arbustos; isto facilita aos apaches a tarefa de nos observarem, pois os arbustos lhes servem de excelente abrigo. Veja esta nesga de savana; uma fogueira acesa sobre ela ilumina todo o terreno que há pouco percorríamos e pelo qual os inimigos se dirigirão a nós; o clarão atrairá os apaches, que, cobertos pelas árvores e arbustos, poderão aproximar-se comodamente. Afianço-lhe, sir, que não poderíamos desejar melhor ponto para sermos atacados pelos peles-vermelhas.
Sua fisionomia iluminava-se de satisfação ao dizer isto; o engenheiro-chefe, porém, não o acompanhou nesse entusiasmo e disse, meneando a cabeça:
— Que espécie de homem é o senhor, mister Stone? Alegra-se porque vai ser atacado! Garanto-lhe que isto me aborrece de tal forma que estou resolvido a fugir.
— Para cair mais facilmente nas mãos dos apaches! Não faça essa tolice Mister Bancroft! Naturalmente, alegro-me com a escolha desse local; se este torna fácil a tarefa dos apaches mais fácil nos torna depois a nossa para prendê-los. Olhe! Lá ao alto, no meio do mato, estão os kiowas. Seus observadores, aboletados no cimo das mais altas árvores, viram-nos chegar. E verão também os apaches porque, lá daquela altura, podem descortinar toda a savana.
— E de que nos adiantarão os kiowas — disse Bancroft — no caso de sermos atacados, se estão ocultos do outro lado das águas?
— Conservam-se lá provisoriamente; não podem acampar aqui. Os batedores dos apaches os descobririam com facilidade. Mas assim que os investigadores vermelhos se retirarem, os índios descerão para se ocultarem naquela ilhota.
— Mas os observadores dos apaches não poderão aproximar-se da ilhota?
— Podem, porém, não permitiremos.
— Neste caso, teremos de corrê-los daqui e no entanto, aparentemente, não esperamos que eles venham atacar-nos. Como me explica isso?
— Muito facilmente! Não devemos, em caso algum, agir como se estivéssemos em seu encalce e deixaremos que se aproximem da ilhota. Esta se liga à margem do riacho, numa extensão apenas de trinta passos, que entrincheiraremos com os nossos cavalos.
— Fazer trincheiras com cavalos? É possível?
— Sim. Amarraremos os animais nas árvores e poderemos estar certos de que nenhum índio terá a imprudência de se aproximar deles sem que a sua presença nos seja anunciada com bufidos. Portanto, deixaremos os observadores, calmamente, fazerem suas explorações. Na ilhota não entrarão. Quando se retirarem para avisar os guerreiros, os kiowas avançarão para nela ocuparem posição. Assim, os apaches se aproximarão, aguardando a noite.
— Mas, se não esperarem tanto? — perguntei-lhe interrompendo a palestra. — Ser-nos-á impossível recuar!
— Esta circunstância não seria perigosa, — respondeu Stone — porque os kiowas viriam imediatamente em nosso socorro.
— Mas, então, a luta não se desenrolaria, sem derramento de sangue, e é justamente isto que tencionamos evitar.
— É verdade, sir. Mas, aqui no oeste, uma gota de sangue a mais ou a menos não deve ser objeto de cogitações. Demais, não é necessário preocupar-se, pois, por este motivo os apaches evitarão atacar-nos enquanto estivermos acordados. Levarão em conta que, embora sejamos vinte, resistiremos quanto possível. Não, eles hão de poupar seu sangue e sua vida como nós. Esperarão que apaguemos a fogueira e nos retiremos da ilhota.
— E que vamos fazer nesse meio tempo? Poderemos trabalhar?
— Sim, mas na hora decisiva deverão estar todos aqui.
— Bem; não percamos tempo. Trabalhemos para que possamos adiantar ainda o serviço.
Atenderam ao meu apelo. Estava convencido de que todos prefeririam fugir, naquele momento; mas o serviço não ficaria concluído; e não estando a medição terminada, eles, segundo disposições do contrato, não teriam direito à remuneração alguma. Conformaram-se, porque, mesmo que tentassem fugir, seriam apanhados pelos apaches. Compreenderam desde logo que estavam relativamente mais seguros aqui e, por isso, resolveram ficar. Quanto a mim, confesso que não permanecia indiferente ao futuro desenrolar dos acontecimentos. Estava em sobressalto. Não por medo, porque mais deveria temer quando abati os búfalos e o urso cinzento. Mas estavam em jogo vidas humanas e isso me inquietava. A minha nada me importava, porque saberia defendê-la; mas e a de Intschu-tschuna e Winnetou? Nesses últimos dias pensava sempre neste e sentia-o cada vez mais ligado ao meu coração. Tornara-se para mim uma espécie de ídolo; fazia, por assim dizer, parte integrante da minha alma. Coisa singular! Mais tarde vim a saber que Winnetou, nessa época, alimentava os mesmos sentimentos em relação a mim!
A minha intranqüilidade não se acalmou mesmo durante o serviço, mas tinha certeza de que desapareceria no momento decisivo; por isso eu ansiava por aquela hora; entretanto, não tardaria a ver realizados os meus desejos, pois, pouco depois do meio-dia, vimos Sam Hawkens chegar ao local da medição. O homenzinho estava visivelmente fatigado, mas os seus olhos astutos brilhavam com extraordinária vivacidade.
— Tudo conseguido?! Noto sua fisionomia sorridente, querido e velho Sam!
— Como? Onde notou? No meu nariz ou na sua imaginação? — disse ele sorrindo.
— Na minha imaginação? Ora essa! Basta fitar seu semblante para não duvidar.
— Então quer dizer que os olhos me traem. Bem, outra vez, já sei! Em todo caso, tem razão. Tudo consegui; foi além da minha expectativa.
— Então avistou os observadores?
— Observadores? Se os vi? Muito mais, muito mais do que os observadores. Vi todo o bando, o grosso da expedição. E não só os vi, como também os ouvi, como nos estamos ouvindo agora.
— Ouviu-os? Então diga-me depressa o que ouviu deles.
— Não já e nem aqui. Recolha os aparelhos e vá para o acampamento. Irei em seguida; antes, tenho de ir ter com os kiowas, a fim de comunicar-lhes o que ouvi, e instruí-los quanto ao modo de agir.
Dirigiu-se ao arroio, atravessou-o num salto e correu para o bosque. Reunimos todos os instrumentos de topografia e dirigimo-nos ao acampamento, onde aguardamos a chegada de Sam. Não ouvimos seus passos, mas, quando ainda não o esperávamos, ouvimos-lhe a voz, que, em meio do grupo, exclamava com ênfase:
— Eis-me aqui, grandes homens! Os senhores não parecem ter olhos e ouvidos! Até um elefante, cujas pisadas se ouvem ao longe, seria capaz de esmagá-los, sem que o percebessem!
— Sim, mas não pisou como um elefante — respondi-lhe.
— Talvez. Quis apenas mostrar-lhes como pode um homem meter-se entre um grupo, sem ser pressentido. Não falavam; o silêncio era profundo e, no entanto, não me viram e nem ouviram. Assim aconteceu, ontem, quando espiava os apaches.
— Conte-nos, conte-nos depressa!
— Bem. Vou contar-lhes, mas quero sentar-me; estou cansado; estou acostumado a cavalgar, mas não a caminhar. É realmente mais nobre ser soldado de cavalaria que de infantaria.
Sentou-se, examinou-nos um por um com o olhar e disse, meneando significativamente a cabeça:
— Hoje, à noite, vai começar o baile!
— Hoje à noite? — perguntei-lhe, tomado de surpresa e contentamento, pois ansiava pelo desfecho dos acontecimentos. Bem, muito bem!
— Hum! O senhor parece desejoso de cair nas mãos dos apaches! E tem razão; alegro-me por não precisarmos estar aqui por muito tempo esperando. É sempre desagradável esperar um acontecimento, que pode tomar rumo diferente do que esperamos.
— Rumo diferente? Há algum motivo para apreensões?
— Absolutamente não! Bem ao contrário! Estou convencido de que tudo correrá às mil maravilhas. Mas, todo homem experiente sabe que uma criança, mesmo dócil e querida, pode ser mais tarde um formidável bandoleiro. O mesmo sucede com os fatos. As coisas mais lindas, podem, às vezes, por acaso tomar caminho errado e fatal.
— E não é possível que isso aconteça no caso presente?
— Não. Pelo que vi e ouvi será completa a nossa vitória.
— Que ouviu? Conte-nos!
— Calma, calma, meu jovem siri Vamos por partes! O que ouvi, não lhes posso dizer já, porque devem conhecer os acontecimentos precedentes. Parti daqui, abaixo de chuva. Não precisava esperar que ela cessasse, porque o jaquetão me abrigava, hihihi! Cheguei perto do lugar onde estivemos acampados, quando os dois apaches estiveram entre nós; lá fui obrigado a me esconder, porque vi três peles-vermelhas que andavam em observação. São batedores apaches, pensei, e não vão adiante, porque aqui é o fim de suas explorações. Assim aconteceu. Afastaram-se um pouco do local, sem darem pelas minhas pegadas, e sentaram-se debaixo de uma frondosa árvore, onde o terreno parecia menos molhado. Lá estiveram duas horas, como que à espera de alguém. Sentei-me, igualmente, e esperei. Precisava saber o que sucederia. Nisto, aproximou-se um grupo de cavaleiros com as cores da guerra. Reconheci logo Intschu-tschuna e Winnetou acompanhados de seus apaches.
— Quantos eram?
— Tal qual eu esperava. Contei mais ou menos uns cinqüenta peles-vermelhas. Os batedores sairam de sob as árvores e prestaram esclarecimentos aos dois caciques. Avançaram alguns passos, e os caciques com seus guerreiros, seguiram-nos lentamente. Continuei. A chuva apagara as pegadas, mas as estacas fincadas por nós ao solo serviam-lhes de guia. E como não! Quisera em toda a minha vida de homem do oeste, ter uma pista tão nítida para seguir. Marchavam com toda a precaução. Contavam encontrar-nos a cada curvatura do mato, a cada canto da brenha. Gostei muito de observá-los; cada vez mais me convenço de que são eles o primeiro povo das nações vermelhas! Intschu-tschuna é um bravo índio e Winnetou não o é menos. Todos os movimentos dos dois caciques tinham sido calculados previamente. Não se dizia uma só palavra; entendiam-se por sinais. Começou a anoitecer. Apearam-se, passaram a rascadeira nos cavalos e embrenharam-se mato a dentro,, onde pretendiam acampar até o amanhecer.
— Foi aí que os ouviu?
— Sim. Como são índios inteligentes não acenderam fogueira alguma e porque Sam Hawkens é tão inteligente quanto eles concluiu que, facilmente, não poderiam avistá-lo. Assim arrastei-me de gatinhas até próximo do acampamento e pude ouvir perfeitamente o que diziam:
— E compreendeu tudo?
— Que pergunta! Costumo compreender o que ouço!
— Pergunto se falavam no dialeto anglo-americano.
— Falavam no dialeto dos mescaleros, que compreendo sofrivelmente. Procurei aproximar-me cada vez mais até chegar bem perto dos dois caciques. Trocavam algumas frases em sistema indiano, sintéticas, porém, bastante claras. Tenho muita experiência e sei o que faço.
— Mas, vamos, conte-nos tudo! — pedi-lhe, quando fêz uma pausa.
— Pois então cuidado, sir, não vá entontecer de alegria! Falavam, realmente, em nós. Querem pegar-nos com vida.
— Então não pretendem matar-nos?
— Sim, querem matar-nos, mas não já. Pretendem aprisionar-nos, depois nos conduzirão ao povoado dos mescaleros, no rio Pecos onde nos matarão lentamente, amarrados ao poste dos martírios. Tal como fazemos às carpas, que apanhamos: engordamo-las, para, depois, matá-las. Causará admiração o assado que hão de fazer do velho Sam, principalmente quando este, com seu jaquetão, fôr posto a arder, hihihi!
Depois de rir à vontade, com seu risinho singular, prosseguiu:
— Referiram-se muito especialmente a Mr. Rattler que está sentado entre nós, a olhar-me com seus olhos iluminados, como se o céu com toda a sua santidade estivesse à sua espera para abrir-lhe o portão. Sim, Mr. Rattler, preparam-lhe uma sopa na qual não me quero envolver. Seu sofrimento na coluna do martírio consiste em ser atravessado por um espeto envenenado, apunhalado, baleado e enforcado; a essas “cerimônias” deverá ser submetido, uma após outra, até empreender a sua viagenzinha às savanas de além túmulo. Os suplícios ser-lhe-ão impostos com extrema lentidão, para que possa gozar da “viagem”, deleitando-se com os panoramas que se descortinam pelo caminho! E, se apesar de tudo, resistir e não morrer, será enterrado vivo na sepultura de Klekih-pêtra, de quem é assassino.
— Meus Deus!! Pretendem fazer isso? — perguntou Rattler, mortalmente pálido.
— Claro que sim! E bem merece essa pena; ninguém poderá salvá-lo. Depois de morrer debaixo de todos esses suplícios, espero que não cometerá outro hediondo homicídio.
— O corpo de Klekih-pêtra foi embalsamado. Deve o amigo saber que os peles-vermelhas do sul conhecem processos de embalsamação que conservam os cadáveres por longo tempo sem se decomporem. Cheguei a ver múmias de crianças indianas que, mortas há mais de cem anos, estavam tão bem conservadas como se ainda tivessem vida na véspera. Se nos aprisionarem, teremos ocasião de assistir à transformação do corpo de Rattler numa dessas múmias!
— Não ficarei aqui! — exclamou o assassino — Fugirei. A mim não me prenderão!
Quis evadir-se, mas Sam o deteve e fê-lo sentar, prevenindo-o:
— Não se afaste um só passo daqui, se tem amor à vida. Afirmo-lhe que os apaches, a esta hora, talvez já tenham ocupado todas as redondezas. Cairia imediatamente em suas mãos.
— Está certo disso, Sam? — perguntei-lhe.
— Sim. Não é ameaça tola que estou fazendo, pois tenho motivos para afirmar o que digo. Já acertei noutros pontos. Um grupo já saiu ao encontro dos kiowas; os caciques se reunirão a eles depois de terminada a luta conosco. Daí a razão da rapidez com que estão dispostos a nos atacar. Para reunir guerreiros, não lhes foi necessário ir ao povoado; em meio do caminho, encontraram as tropas que haviam partido para a luta com os kiowas; entregaram o corpo de Klekih-pêtra ao “homem da medicina”, escolheram dentre a tropa cinqüenta bons ginetes e se tocaram para cá.
— Onde estão as tropas que marcharão contra os kiowas?
— Não sei. Não ouvi nada a este respeito, Também isto nos é indiferente.
Neste ponto Sam não tinha razão. Não nos era indiferente o lugar onde se achava a grande tropa dos apaches. Sam continuou:
— Quando já ouvira o que desejava, poderia ter regressado; mas à noite era-me difícil apagar as pegadas; e queria ainda observá-los pela manhã. Por isso conservei-me toda noite escondido e só parti, quando os apaches levantaram acampamento. Segui-os até uma distância de seis milhas; tomei depois por um atalho e vim dar ao nosso acampamento. Bem. Eis tudo que tinha a dizer-lhes.
— Mas, o amigo Sam não teria sido visto?
— Não.
— E tomou precauções para que eles não lhe descobrissem a pista?
— Sim.
— Mas disse-me que se deixaria avistar e...
— Já sei, já sei! E teria feito. Mas não foi necessário porque... Escute! Ouviu?
Fora interrompido por um tríplice grito, semelhante ao de uma águia.
— São os observadores dos kiowas, — disse-me — que estão aboletados no cimo das árvores. — Ordenei-lhes que fizessem esses sinais, quando avistassem os apaches na savana. Venha, sir, quero ver se tem boa vista.
O convite fora dirigido a mim. Ergueu-se para seguir e eu peguei da espingarda, preparando-me para acompanhá-lo.
— Alto! Abandone a espingarda; o homem do oeste nunca deve abandonar a sua arma; mas, neste caso, a regra tem exceção, pois nos devemos conduzir como se nada receássemos. Sairemos ao campo como se estivéssemos a juntar lenha para a fogueira. Dessa atitude, concluirão os apaches que acamparemos esta noite aqui, o que é vantajoso para nós.
Saímos a passo, ao lado um do outro, descuidadosamente, caminhando por entre as fileiras de árvores e amontoados de arbustos, até atingirmos a savana. Apanhamos então alguns galhos secos e não encontramos nenhum vestígio dos apaches. Se alguém ali estivesse, estaria escondido entre moitas da savana, situadas a alguma distância umas das outras.
— Avista alguém? — perguntou-me Sam, depois de algum tempo.
— Não — respondi-lhe.
— Nem eu.
Aguçamos nossas vistas, mas nada conseguimos descobrir. E, no entanto, soube mais tarde por Winnetou, que ele estivera, talvez a uns cinqüenta passos de nós, por trás duns arbustos, donde nos observava. Não é bastante que se tenha boa vista, é preciso ter muita prática, o que não se dava comigo, naquela época. Hoje descobriria imediatamente a presença de Winnetou, ainda que me deixasse guiar pelos mosquitos que, atraídos ali pela presença de uma pessoa, formam ao redor dos arbustos uma nuvem densa.
Palestramos sobre assuntos sem importância, e apanhamos lenha, em maior quantidade do que necessitávamos.
— Deixaremos um monte para os apaches, — disse Sam — para que, quando tivermos desaparecido, possam reacender imediatamente a fogueira.
Escureceu. Sam escolheu um lugar oculto para posto de observação e lá ficou. Queria observar a chegada dos espiões apaches, o que podíamos contar como certo, pois tinham necessidade de explorar os caminhos. A fogueira fora acesa e suas chamas iluminavam a nesga de terra onde nos encontrávamos. Como os apaches nos deviam considerar um aglomerado de homens tolos! Essa fogueira servia-lhes para mostrar o caminho até nós, mesmo que estivessem a longa distância.
Jantamos; depois, começamos a andar tranqüilamente em torno da fogueira, como se nada de grave esperássemos. As espingardas achavam-se a regular distância, porém, em direção à ilhota, para que pudéssemos pegá-las rapidamente, no momento da retirada. A entrada da ilhota estava, conforme determinara Sam, impedida pelos cavalos. Três horas, mais ou menos, depois de escurecer, vimos Sam que corria silenciosamente em nossa direção; ao chegar ao grupo, disse baixinho:
— Os batedores vêm aí; são dois: um deste, o outro daquele lado. Eu os vi e ouvi: aproximavam-se de nós por ambos os lados da pequena nesga de gramado.
Sam sentou-se e começou a palestrar sobre o primeiro assunto que lhe ocorreu; respondíamos, e isso deu lugar a uma animada palestra que tinha por fim fazer crer aos observadores apaches da nossa despreocupação. Sabíamos que se achavam nas proximidades, a nos observar atentamente, mas evitávamos lançar olhares desconfiados.
Era importante perceber o momento exato da retirada dos investigadores. Nada podíamos ver e ouvir; entretanto, não se devia perder um só minuto pois, assim que se retirassem, o grosso da coluna avançaria contra nós. Era necessário que os kiowas ocupassem a ilhota, sem perda de tempo. Sam ergueu-se, fêz como se saísse à procura de mais lenha, entrou por umas moitas; eu o acompanhei. Assim nos certificamos de que os exploradores já se haviam retirado. Sam, saindo detrás das árvores, levou as duas mãos à boca, e deu três brados semelhantes ao coaxar do sapo-boi. Era o sinal convencionado para a vinda dos kiowas. Como estivéssemos à margem do arroio, o brado de Sam não produziu eco. Em seguida, voltou ao seu ponto de observação, para avisar-me da próxima chegada do grosso do inimigo.
Não haviam transcorrido ainda dois minutos, depois do brado de Sam, quando chegaram os kiowas, de arrasto, um a um. Já não se achavam no mato, pois, para atender ao chamado com mais rapidez, haviam avançado um longo trecho e saltado o arroio. Como répteis, arrastaram-se em direção à ilhota.
Sam voltou para junto de nós:
— Aproximam-se como eu previra, por ambos os lados. Não deitem mais lenha ao fogo! Devemos ter o cuidado de deixar algumas brasas a arder, depois que se apagar a chama; desta maneira, os apaches poderão reacendê-la com maior rapidez.
Dispusemos a reserva de lenha em torno da fogueira, para que as chamas não nos denunciassem a retirada simulada. Feito isso, cada um de nós estava forçado a tornar-se um ator. Sabíamos da presença de cinqüenta apaches em nossas imediações, e tínhamos de nos conduzir como se ignorássemos tudo. Estávamos em perigo de vida. Imaginávamos que os apaches efetuariam o ataque na hora em que lhes parecesse estarmos a dormir. Mas, se tal não acontecesse? Se nos atacassem imediatamente? Teríamos o auxílio dos duzentos kiowas mas, neste caso, seríamos forçados à luta a derramamento de sangue, o que nos poderia custar a vida. Era iminente a catástrofe e o que eu previra sucedeu: achava-me calmo, tão calmo como se me preparasse para jogar uma partida de xadrez ou dominó. Era interessante observar os demais companheiros. Rattler deitado, com as pernas estendidas, virará o rosto para o lado, fingindo dormir. No seu rosto transparecia um medo mortal. Os famosos homens do oeste olhavam-se com a palidez da morte estampada nas fisionomias; tentavam tomar parte na palestra, mas só pronunciavam palavras desarticuladas. Dick Stone e Will Parker, sentados junto a nós, mantinham-se numa serenidade tal, como se em todo o mundo não existisse um só apache! Sam Hawkens contava anedotas, fazendo-nos rir bastante.
Passado algum tempo, adquirimos a certeza de que, realmente, os apaches esperavam que dormíssemos. A fogueira estava quase a extinguir-se e julguei de bom aviso não retardar por mais tempo o desenrolar dos acontecimentos. Por isso, bocejando por diversas vezes, espreguicei-me, dizendo:
— Estou cansado e vou dormir. Ainda fica, Sam Hawkens?
— Não; farei o mesmo. A fogueira está a apagar-se. Boa noite.
— Boa noite! — disseram, também, Stone e Parker. Afastamo-nos e nos deitamos. As chamas foram-se tornando cada vez menos intensas, até que se apagaram de todo; apenas as brasas ardiam ainda por entre as cinzas. Mas, a sua claridade não nos podia atingir devido à lenha que dispuséramos em torno. Estávamos deitados completamente às escuras. Chegara a vez de nos pormos em segurança. Tomei da minha arma e arrastei-me lentamente para a frente. Sam vinha ao meu lado e os demais nos seguiam. Para abafar algum ruído que, porventura, se fizesse ouvir, encaminhei-me logo aos cavalos e, puxando um deles pelo cabresto, obriguei-o a pisotear. Conseguimos, finalmente, chegar até os kiowas, que já se achavam à espreita do inimigo, semelhantes a uma pantera feroz.
— Sam, — disse eu baixinho — para pouparmos as vidas dos dois caciques apaches, precisamos evitar que os kiowas se atirem contra eles.
— Sim.
— Encarrego-me de Winnetou; o senhor, Dick e Stone agarrarão o velho Intschu-tschuna.
— O senhor encarrega-se de um, enquanto nós, que somos três, tomamos conta do outro; não está bem!
— Sim! Subjugarei Winnetou com facilidade ao passo que os senhores terão tarefa mais difícil; terão de segurar o velho de um modo tão enérgico, que não se possa mover e ganhar terreno, porque, se lhe derem tempo para que se defenda, facilmente sairá vencedor.
— Bem. Mas para que os kiowas não nos tomem a dianteira, avancemos e sejamos os primeiros a entrar em luta.
Colocados a alguns passos do fogo, aguardávamos com grande ansiedade o brado de guerra dos apaches, porque antes disto sabíamos que não iniciariam o ataque. É praxe, entre eles, o cacique soltar esse brado, e ser imitado, numa algazarra infernal, pelos guerreiros. Esse vozerio tem por fim atrapalhar os inimigos, diminuindo-lhes a resistência. Pode-se imitar esse sinal, gritando-se hiiiiiiiiih! e batendo nos lábios, com a mão aberta.
Os kiowas estavam na mesma expectativa ansiosa. Cada um queria ser o primeiro e, por isso, foram avançando cada vez mais e nos empurrando sempre para frente. Isso nos colocava cada vez mais próximos dos apaches, o que tornava perigosa a situação; desejava ardentemente que o ataque se operasse sem demora.
Meu desejo foi logo satisfeito. Soou o brado de guerra e em seguida ouviu-se uma gritaria de mil demônios. Ouvimos, logo, passos largos e verdadeiros saltos. Subitamente, silenciou tudo. Durante alguns minutos nada se percebeu. Poder-se-ia ouvir, como se costuma dizer, o caminhar de uma formiga. Em seguida ouvimos a voz de Intschu-tschuma bradar — Ko! Essa palavra significa fogo; portanto ele ordenara que reacendessem a fogueira. As brasas ardiam ainda e a lenha seca e os gravetos, que ali havíamos deixado, queimavam com facilidade. Segundos depois, a fogueira estava acesa e as suas chamas, elevando-se a enorme altura, iluminavam ao longe.
Intschu-tschuna e Winnetou estavam ao lado um do outro; em torno deles os guerreiros formavam um círculo. No momento em que as chamas se elevaram, os apaches, surpreendidos, descobriram que nos havíamos retirado.
— Uff, uff, uff! — exclamaram admirados.
Winnetou já revelava, apesar de sua pouca idade, grande circunspecção e admirável presença de espírito, que mais tarde tantas vezes pude admirar. Concluiu logo que devíamos estar nas proximidades, e que os apaches, assim iluminados pelas chamas da fogueira, constituiriam alvo seguro para as nossas armas. Por isso, ordenou:
— Tatischa, tatischa! — o que queria dizer: Afastem, afastem! Preparava-se para se afastar, mas eu, saindo-lhe à frente, embarguei-lhe o passo. Rapidamente aproximara-me dos que cercavam o jovem cacique. Abri o caminho, à direita e à esquerda, rompendo o círculo de apaches, aos encontrões; Hawkens, Stone e Parker acompanharam-me. Exatamente no instante em que Winnetou pronunciara o seu tatischa, tatischa, saltei-lhe à frente; olhamo-nos por momentos. Como um raio, levou a mão à cinta para puxar da faca; mas não conseguiu, porque o arrojei ao solo, sem sentidos. Ao mesmo tempo, notei que os meus companheiros já haviam subjugado Intschu-tschuna.
Os apaches gritavam coléricos, mas suas vozes foram abafadas pela gritaria infernal do kiowas, que se atiraram contra eles.
Como eu havia rompido o cerco dos apaches, achava-me em pleno campo de luta. Duzentos kiowas contra cinqüenta apaches, portanto, quatro contra um! Mas os valentes guerreiros de Winnetou resistiam quanto lhes era possível. Fui mesmo obrigado a defender-me de alguns deles, que derrubei, e só então pude respirar melhor. A resistência tornara-se mais fraca; e cinco minutos após terminava a luta. Cinco minutos apenas, o que não era de admirar devido à grande desproporção de número.
O cacique Intschu-tschuna jazia, amarrado, no chão e a seu lado, desfalecido, o jovem Winnetou, que também fora amarrado. Não fugiu um só apache, e isto porque a essa brava gente repugnava a idéia de abandonar os dois caciques já subjugados e empreender uma fuga. Muitos deles estavam feridos, assim como alguns kiowas; infelizmente três kiotvas e cinco apaches caíram mortos. Não desejávamos que corresse sangue, mas, devido à resistência enérgica dos apaches, os kiowas fizeram mais uso das armas do que pretendiam. Os vencidos estavam aprisionados; mas isso não era covardia. Com a proporção de quase cinco contra um, bastava que três kiowas segurassem um apache e um ou dois dos restantes o amarrassem.
Os cadáveres foram colocados de lado, e como os feridos kiowas fossem prontamento socorridos pelos da sua tribo, nós, os peles-brancas, tratamos de curar os feridos dos apaches. Nesse trabalho não só encontramos olhares sombrios a nos encararem, como até resistência da parte de alguns feridos. Eram demasiado orgulhosos para se deixarem tratar pelos adversários e preferiam que lhes corresse o sangue das feridas. Pouco me preocupei com esta resistência, pois seus ferimentos eram de natureza leve.
Quando terminamos os nossos serviços de socorro, tratamos de resolver como os prisioneiros deviam passar a noite. Queria que lhes dispensassem o tratamento mais suave possível, mas Tangua atalhou:
— Estes homens não lhes pertencem mas sim a nós. A mim, portanto, compete dar o destino que merecem.
— O que?! — perguntei-lhe.
— Pretendíamos conservá-los vivos até regressarmos à nossa aldeia; mas como pretendemos, antes disso, atacar o seu povoado, e para o atingirmos precisamos empreender uma viagem dalguns dias, não estou disposto a carregá-los conosco durante esse tempo. Serão martirizados aqui mesmo!
— Todos?
— Sim!
— Por quê?
— Porque quero castigar a sua presunção.
— Que presunção?
— Não disse o pele-branca que os apaches aprisionados pertenciam à sua gente? É uma presunção estulta.
— Não é presunção. Pertencem-nos de direito!
— Não, pelas leis do oeste, os prisioneiros pertencem a quem os aprisionou. Fiquem unicamente com os apaches subjugados pelos senhores, contra o que não me oponho. Mas aqueles que foram por nós aprisionados, nos pertencem.
— Uff, uff! Como fala com inteligência! Quer então ficar, também, de posse de Intschu-tschuna e Winnetou?
— Naturalmente.
— E se eu não os entregar?
— Terá de entregar!
Falava-me num tom hostil; respondia-lhe com clareza e precisão. Sacou de sua faca, fincou-a até o cabo, no solo, e declarou, em tom ameaçador:
— Atrevam-se a pôr as mãos num só dos meus apaches, que seu corpos serão atravessados pela minha faca.
Falou de um modo resoluto; mas ter-lhe-ia mostrado que não me deixo intimidar por ameaças, se Hawkens não me dirigisse naquele instante um olhar, aconselhando-me calma e precaução. Preferi, pois, silenciar.
Os apaches jaziam amarrados à roda da fogueira e o mais simples seria deixá-los ali mesmo, onde, sem grandes trabalhos, podiam ser vigiados. Mas Tangua quis mostrar-me que considerava os apaches como presa sua e que podia dispor dos mesmos como melhor entendesse, por isto deu ordem para amarrá-los às árvores ali existentes.
A ordem foi executada e, como era de esperar, não com meios brandos. Os kiowas portaram-se com barbarismo, amarrando os infelizes apaches de modo brutal, para proporcionar-lhes as maiores dores possíveis. Nenhum dos martirizados modificou a fisionomia ao ser supliciado. Estavam afeitos aos sofrimentos e ao rigor das mais cruéis torturas. Os dois caciques, então, foram os que mais sofreram. Amarraram-lhes as cordas de tal modo que o sangue parecia jorrar-lhes da pele. Assim amarrados não era possível fugirem e, no entanto, Tangua mandou guarnecer o acampamento.
Nossa fogueira ardia ainda na extremidade interna da faixa de gramado que conduzia ao arroio. Aí nos achávamos acampados, mas havíamos deliberado não tolerar a presença de um só kiowa que nos impossibilitasse de livrar Winnetou e Intschu-tschuna; aliás esse receio era desnecessário, porque nenhum deles procurava aproximar-se de nós. Desde a sua chegada ao nosso acampamento nunca se tinham mostrado cordiais e amigos; pior agora, depois da acalorada discussão que eu tivera com o seu cacique. Os olhares frios e desprezíveis que nos lançavam, não podiam, de forma alguma, conquistar-nos a confiança e amizade e felizes seríamos se nos separássemos em paz.
Acenderam várias fogueiras, diantes de nós, na savana onde acamparam. Não falavam no idioma usado entre os peles-brancas e vermelhas, mas no dialeto de sua tribo. Não queriam que os compreendêssemos e isso constituía para nós mais um indício desfavorável a respeito de seus propósitos. Consideravam-se vitoriosos e a sua atitude era de intolerável superioridade.
Era difícil realizar o nosso plano, pois apenas quatro pessoas poderiam tomar parte no trabalho: Sam Hawkens, Dick Stone, Will Parker e eu. Aos mais não deveríamos revelar o nosso segredo, porque eles seriam contra o mesmo e, talvez, até fossem comunicá-lo aos kiowas. Estavam todos acampados conosco, mas esperávamos que mais tarde fossem dormir. Como, de momento nada podíamos fazer devido à sua presença e também como devíamos estar descansados para a nossa tarefa, Sam propôs que descansássemos um pouco.
Deitamo-nos e, não obstante a minha agitação, adormeci logo. Mais tarde, Sam me despertou. Naquela época, eu ainda não sabia ler as horas pelas estrelas, mas deveria ser um pouco mais de meia noite. Os nossos companheiros dormiam; o fogo se apagara. Os kiowas mantinham acesa apenas uma das fogueiras. Podíamos falar, porém, baixinho. Parker e Stone também estavam acordados.
— Não devemos sair todos daqui, bastam dois para ir lá fazer o serviço — disse-me Sam.
— Um desses dois quero ser eu — declarei em tom formal.
— Oh! Não se apresse, caro sir! Há perigo de vida!
— Sei disso.
— E quer arriscar a sua?
— Sim.
— Bem. É um homem valente. Mas não há só este perigo; vamos enfrentar outro talvez maior.
— Qual é?
— A dificuldade que a pessoa encontrará para executar o plano.
— É verdade.
— Folgo que o reconheça. Portanto, creio que desistirá do seu propósito.
— Não desisto.
— Tenha juízo, sir! Eu e Dick Stone iremos.
— Não, senhor!
— É ainda muito inexperiente, e não sabe engatinhar.
— É possível. Justamente hoje, porém, quero provar que muitas vezes, nos podemos sair bem na execução de uma tarefa que não conhecemos. Basta para isso um pouquinho de boa vontade.
— E muita habilidade, sir! E é o que não tem.
— Pois já lhe darei uma prova do contrário.
— Como?
— Sabe se o cacique Tangua está dormindo?
— Não.
— E, no entanto, nos seria de muita utilidade sabê-lo, não acha, Sam?
— Realmente. Daqui irei de gatinhas, certificar-me.
— Não; irei eu.
— O senhor? Por que?
— Para provar-lhe a minha habilidade.
— Ah, sim! Mas, se fôr descoberto?
— Terei uma excelente saída; direi que me queria certificar se os guardas estavam vigilantes.
— Bem. Mas, afinal, para que me quer dar semelhante prova?
— Para conquistar a sua confiança. Creio que se me sair bem, não se negará a levar-me em sua companhia para ajudar no trabalho.
— Hum! A esse respeito, falaremos depois da prova.
— Pois sim; concorda então, preliminarmente, que eu vá observar Tangua?
— Sim; mas tenha muito cuidado! Se fôr surpreendido, a sua atitude despertará suspeitas, se não agora, depois que derem pela fuga de Winnetou. Dirão todos que foi o senhor quem o fêz fugir.
— No que, aliás, não se enganarão...
— Aproveite-se de toda árvore, de toda moita para abrigo e desvie-se dos caminhos iluminados pela fogueira. Conserve-se sempre no escuro.
— Observarei tudo o que me recomenda, Sam!
— Assim espero. Pelo que vejo, ainda estão acordados trinta kiowas, no mínimo, fora os guardas. Se agir com habilidade, não lhe pouparei louvores e me convencerei que daqui a uns dez anos, conseguiremos fazê-lo um homem do oeste perfeito, embora não passe atualmente de um greenhorn, tão verde e inexperiente como não se encontra em nenhuma parte, hihihihi!
Ajustei o revólver e a faca à cinta, a fim de não perdê-los pelo caminho e, deitado de bruços, engatinhei, dirigindo-me aparentemente ao leito de Tangua. Hoje, quando penso nesse fato, é que avalio na devida forma, a enorme responsabilidade que me acarretava a tarefa que pretendia executar, sobre a qual não falara nem mesmo a Sam. É que a minha intenção não era vigiar Tangua, conforme fizera crer ao velho caçador das campinas.
Estimava Winnetou e a ele me sentia ligado de todo coração; desejava ardentemente poder manifestar-lhe um dia o meu afeto, praticando algum ato em que arriscasse por ele a minha vida. E, para isso, não poderia haver melhor ocasião do que esta: dar-lhe liberdade. Mas queria fazer isto, sem a participação de ninguém! E agora, afinal, Sam ia frustrar-me o plano querendo encarregar-se, com Parker e Stone, da tarefa que eu anelava desempenhar. Mesmo que fosse bem sucedido vigiando Tangua, Sam não mudaria de resolução. Por isso, nem por sombras pensei em submetcr-me à prova proposta por mim mesmo. Não; não iria em direção a Tangua, mas diretamente a Winnetou! Fazendo isso, não arriscava apenas a minha vida, mas a dos meus companheiros, porque se fosse surpreendido sofreriam comigo as conseqüências da minha imprudência. Apesar de pensar em tudo isso, no meu espírito jovem e generoso, predominava a idéia de salvar o amigo. Já lera e ouvira falar muitas vezes no oeste, de como, andando de gatinhas, se espreita um inimigo. Principalmente Sam, falava-me e fazia-me constantes demonstrações desse modo de locomoção. Eu mesmo já fizera alguns exercícios, mas nem de longe conseguira a perfeição de que necessitava para o que tinha em vista alcançar. Entretanto, não desistiria do meu intento. Achava-me deitado sobre a grama e arrastei-me para dentro das moitas. Daí até a árvore na qual Intschu-tschuna e Winnetou estavam amarrados, havia cerca de cinqüenta passos. Deveria mover-me de modo que só a biqueira das botas tocasse o solo; mas, para isso, é necessário uma tal força nos dedos dos pés e das mãos que só se pode adquirir com longo treino; por isso, arrastava-me, apoiando-me ao solo com os joelhos e braços, como um quadrúpede. Andava cautelosamente; procurava limpar o solo de qualquer graveto que, quebrando, fizesse ruído e despertasse a atenção dos kiowas. Eram, pois, morosos, muito morosos os meus passos; entretanto conseguia ir avante.
Os apaches estavam amarrados numa árvore que se erguia à beira da nesga da savana que conduzia ao arroio, e, cinco passos à sua frente, um kiowa, com os olhos fixos neles, fazia-lhes sentinela; era difícil a minha tarefa, e talvez irrealizável. Tinha esperança de conseguir desviar, de qualquer modo, a atenção do guarda, embora fosse por alguns instantes. Para isso, procurava pedras para atirar às macegas próximas; infelizmente, em todo o caminho, não encontrei uma só; entretanto, num vale seco encontrei um pouco de areia, ali deixada pelas águas transbordadas do arroio; ligeiro, apanhei um punhado dela, coloquei-a nos bolsos e prossegui.
Em meia hora, vencera metade do caminho. Vinte e cinco passos em meia hora!
Depois de engatilhar mais uma boa meia hora, achei-me, finalmente, por trás de Winnetou e de seu pai, a uma distância apenas de uns quatro passos. Não me poderia ter aproximado deles se, ao pé da árvore, não houvesse umas macegas com algumas trepadeiras, que me ocultavam da sentinela. Logo atrás, à esquerda desta, havia alguns arbustos espinhosos, que, talvez, me fossem também úteis.
Arrastei-me, primeiramente, para junto de Winnetou, atrás do qual permaneci deitado em silencio, a observar o guarda que parecia fatigado, conservando os olhos semicerrados e abrindo-os apenas de vez em quando. Folguei com isso. Antes de tudo, era necessário verificar como Winnetou estava amarrado. Procurei alcançá-lo e tateei-lhe os pés e as coxas; receei que com algum movimento denunciasse a minha presença, mas, felizmente, tal não sucedeu; sentiu que alguém lhe tocara, mas era bastante inteligente e precavido para se dominar. Verifiquei que lhe haviam amarrado os pés, unindo os tornozelos e, além disso, outra corda prendia-os à árvore em várias voltas. Com dois cortes, apenas, poderia desprendê-los. À luz da fogueira, notei que suas mãos estavam amarradas para trás e que de um só golpe poderia livrá-las.
Entretanto, havia a possibilidade de um novo perigo, no qual não pensara: se libertasse Winnetou, este, certamente, empreenderia logo a fuga. E, dado o alarme, apanhar-me-iam em flagrante. Mas, — refleti — haja o que houver, hei de salvá-lo; é bem possível que o cacique dos apaches volte em meu socorro com o grosso da tropa.
Como me enganei com Winnetou! Ainda não o conhecia! Mais tarde, quando recordamos aqueles instantes, contou-me o que pensara: ao sentir que a minha mão o havia tocado, julgou ser algum apache; estavam todos presos, é verdade, mas era possível que algum houvesse conseguido fugir, durante a luta, e corresse ao grosso da tropa para cientificá-la do ocorrido. Estava certo de que recuperaria a liberdade e aguardava o corte salvador. De forma alguma, empreenderia, porém, a fuga, deixando seu pai e, mesmo depois que este estivesse solto, permaneceriam imóveis, por algum tempo; não despertariam a atenção dos que os vigiavam e evitariam a prisão do seu libertador.
Cortei, primeiro, as duas cordas que lhe prendiam os pés. Na posição em que me achava, não poderia alcançar a corda que prendia as mãos, sem que corresse o risco de feri-lo. Era preciso, pois, que me levantasse mas, neste caso, seria visto pela sentinela; lembrei-me então da areia que recolhera e, atirando-a sobre as macegas, consegui despertar a atenção do pele-vermelha. Agitou-o um movimento de surpresa, para cair logo em nova calma. Repeti o ato; a curiosidade o obrigou a encaminhar-se para o lugar donde provinha o ruído, dando-me as costas. Levantei-me, então, àgilmente, e cortei a corda que lhe prendia as mãos. Os longos cabelos de Winnetou roçaram-me pelo rosto; cortei-lhe uma madeixa; de novo, deixei-me cair no solo.
Conservaria aquela madeixa para que testemunhasse que fora eu quem o havia libertado.
Para satisfação minha, Winnetou não fêz o menor movimento, mantendo-se na mesma posição. Dirigi-me, pois, a Intschu-tschuna; examinei-lhe as cordas como o fizera em relação ao filho. Estava amarrado tal como Winnetou e, como ele, permaneceu imóvel, ao sentir o contato de minhas mãos. Libertei-o sem dificuldade usando do mesmo processo, para desviar a atenção da sentinela.
Era de bom aviso não deixar vestígios; os kiowas não deviam saber a maneira como tinham sido salvos os dois apaches. Juntei, pois, as cordas e iniciei a “viagem” de regresso.
Quando os caciques fugissem, o guarda daria o alarme e era preciso, que não me encontrassem nas imediações. Era, pois, forçado a apressar-me. Cautelosamente atingi o nosso acampamento; na volta gastara, porém, muito menos tempo.
Os meus três companheiros estavam cheios de cuidado pela minha sorte. Quando cheguei, Sam disse baixinho:
— Já estávamos receosos, sir! Sabe quanto tempo demorou?
— Quanto?
— Quase duas horas.
— Exatamente. Creio que permaneci lá uma hora.
— Por que ficou tanto tempo?
— Para certificar-me de que o cacique realmente dormia.
— E como fêz a observação?
— Olhei-o longamente e, como não se moveu, concluí que dormia.
— Ouçam Dick e Will! Para certificar-se de que o cacique dormia esteve uma hora inteira a contemplá-lo. Será sempre um greenhorn, e um greenhorn incorrigível! Não encontrou um processo de observação mais inteligente? Seria o suficiente atirar-lhe um graveto ou um pouquinho de areia. Se estivesse acordado, mover-se-ia, hihihihi!
— É possível. Mas saí-me bem da prova, isto é o principal! Enquanto falávamos, eu olhava atentamente para os dois apaches, em ansiosa expectativa. Admirava-me de que ainda permanecessem junto às árvores como se estivessem amarrados. Já podiam ter fugido. O motivo, porém, era simples como mais tarde soube. Winnetou imaginou que eu iria também libertar seu pai e esperava um sinal meu. Intschu-tschuna, por sua vez, pensou do mesmo modo. Como o sinal esperado não chegava, Winnetou, valendo-se de um momento em que o kiowa estava de olhos fechados, fêz um sinal com o braço para mostrar que estava livre; o mesmo sinal fêz-lhe Intschu-tschuna, em resposta, e repentinamente desapareceram.
— Sim, é verdade, saiu-se bem da sua prova — concordou Sam Hawkens. Contemplou durante uma hora o semblante do cacique sem ser visto.
— Por isso espero que concordará em levar-me na sua companhia para salvar Winnetou.
— Hum! Espera libertar os caciques bombardeando-os durante uma hora inteira com olhares?
— Não; cortarei as cordas que os amarram.
— Diz isto com uma facilidade, como se fosse a mesma coisa que cortar um galhinho de arbusto. Não está vendo que tem sentinela à vista?
— Sim, vejo!
— A sentinela faz o mesmo que o senhor; bombardeia os presos com o olhar. Ainda é muito inexperiente para poder libertá-los. É tarefa tão árdua que talvez nem eu próprio consiga executá-la. Veja, sir, só engatinhar daqui até lá, constitui obra de mestre, e, quando chegar pode ainda suceder que... Que houve?
Enquanto falava, lançara o olhar para o lugar onde estavam os apaches e vira, com espanto, que haviam desaparecido. Como se nada soubesse, perguntei:
— Que estava dizendo, Sam?
— O quê?! É verdade ou estou equivocado?
Esfregou os olhos e prosseguiu:
— É verdade! Dick e Will olhem, vejam se os dois caciques ainda estão lá!
Surpresos olhavam na direção indicada quando a sentinela, dando com a falta dos dois prisioneiros, soltou um brado ensurdecedor. Despertaram todos os que dormiam. O guarda, gritando no seu idioma, relatou-lhes o ocorrido e houve, então, um tumulto indescritível.
Todos correram para a árvore, inclusive os nossos companheiros. Acompanhei-os, pois devia conduzir-me como se de nada soubesse. Antes, porém, desfiz-me da areia que me restava.
Libertara apenas os dois caciques; quisera livrar a todos, mas tentar isto seria uma loucura!
Duzentos homens se aglomeraram, em terrível confusão, no lugar onde, ainda há pouco, se achavam os dois fugitivos. Era uma gritaria infernal! Ouviam-se imprecações de todos os lados. Por aquela agitação, podia imaginar o que fariam de mim, se a verdade viesse à luz. Finalmente, ouviu-se a voz de comando do cacique Tangua, ordenando silêncio e dando ordens; em seguida, os kiowas espalharam-se pela savana à procura dos dois apaches, não obstante a escuridão da noite. O cacique estava irado; vingava-se na sentinela, despojando-a da “bolsa de medicina” que calcava aos pés, significando com isso que ele era um homem sem honra.
A “bolsa de medicina” não se destina a conduzir medicamentos. A palavra medicina, só depois da aparição dos brancos, é que passou a ser usada pelos índios. Os meios de cura dos peles-brancas eram-lhes desconhecidos; atribuíam os efeitos dos medicamentos a um segredo de magia. Desde então, passaram a chamar “medicina” tudo o que se relacionava com a magia, com objetos sagrados. Cada tribo tem, naturalmente, palavras que, em seus idiomas, designam a mesma coisa. Assim, na linguagem dos mandams, é hapenesch, na dos turkaroras, yunjuh queth, na dos pés pretos, nehtowa, na dos sioux, wehkon, e na dos riccarehs, wehrootih.
Todo índio usa a sua “medicina”. O adolescente, quando quer ser admitido entre os guerreiros desaparece, repentinamente, da tribo e procura a solidão. Aí se submete a rigoroso jejum, sem se alimentar e sem beber coisa alguma. Durante esse tempo medita, profundamente, sobre as suas esperanças e aspirações. A excitação de espírito, que provém do jejum a que se submete, traz esse estado de prostração febril em que dificilmente distingue a fantasia da realidade. Julga-se tomado de inspiração superior. Os sonhos são-lhe sobrenaturais. Chegado o noviço a este estado, espera ver, em sonhos ou na imaginação, um objeto ou animal qualquer, e o primeiro que vir constituirá a sua “medicina”; e lhe será durante toda a vida “objeto santo’. Assim, por exemplo, se sonhou com um morcego, não descansará, enquanto não apanhá-lo e, quando o consegue, volta para a sua tribo e entrega-o ao “homem da medicina”, o mágico, que conhece processos especiais para prepará-lo. Depois o animal é colocado num saquinho que o índio trará sempre ao pescoço e que, daí por diante, será para ele, a sua mais grata relíquia.
“Medicina” perdida, honra perdida! O infeliz que, por qualquer motivo, se vê privado desse objeto santo só conseguirá reabilitar-se, quando matar um famoso inimigo, mostrando a “medicina” deste à tribo. Daí em diante, esta “medicina” passará a ser sua.
Pode-se, pois, calcular quão severo foi o castigo imposto pelo cacique à sentinela, arrancando-lhe a “medicina”. O índio não pronunciou uma só palavra de excusa ou de cólera; colocou a espingarda a tiracolo e desapareceu por entre as árvores. A partir desse dia, morreu para sua tribo e por ela só será readmitido nas condições expostas.
A cólera do cacique fêz-se sentir não só contra aquele guerreiro como também contra mim. Chegou-se e gritou:
— Queria esses dois apaches? Persiga-os agora e prenda-os!
Quis desviar-me dele, sem responder, mas, segurando-me pelo braço, bradou:
— Não ouviu o que lhe ordenei? Obedeça!
Com um movimento brusco, quase o joguei ao solo e disse:
— Obedecer às suas ordens? Terá porventura o direito de exigir que lhe obedeça?
— Sim! Sou o cacique deste acampamento e estão todos obrigados a me prestarem obediência!
Puxando da lata de sardinha que guardara no bolso, gritei-lhe:
— Quer que lhe dê a resposta que merece, fazendo-o em mil pedaços, voar com seus guerreiros? Mais uma palavra e os aniquilarei a todos com esta “medicina”.
Desejava certificar-me se este gesto produziria o efeito visado. Oh! Como produziu! Deu um salto para trás e disse:
— Uff, uff! Fique com a sua “medicina” e guarde-a para os seus, cão igual aos apaches!
Fora uma ofensa, que eu não deixaria passar sem a devida vingança, se não fora de toda a prudência não irritar mais os kiowas contra nós, em vista de sua formidável superioridade numérica.
Nós, os brancos, regressamos para o nosso reduto, onde os companheiros discutiam o acontecimento, sem que alguém encontrasse explicação para ele. Eu permanecia em silêncio. Agradava-me possuir o segredo da fuga, enquanto os demais procuravam em vão explicá-la. A madeixa do cabelo de Winnetou acompanhou-me em toda a minha vida no oeste e ainda hoje a conservo.
O ataque dos “apaches”
Embora não considerássemos os kiowas como inimigos declarados, sua atitude levava-nos a temer pela nossa segurança. Por esta razão, à hora de dormir, resolvemos que cada um de nós, revesando-se de hora em hora, fizesse sentinela ao acampamento. Assim fizemos, e os peles-vermelhas, notando essa medida de precaução, mostravam-se agora ainda mais hostis.
Ao romper do dia, fomos despertados pelo guarda. Notamos que os kiowas se ocupavam em procurar a pista dos dois fugitivos, que não haviam conseguido capturar à noire. Encontraram as pegadas e seguiram-nas: elas iam ter ao lugar, onde, antes do ataque, haviam deixado os cavalos, naturalmente vigiados por alguns companheiros. Intschu-tschuna e Winnetou montaram e seguiram com seus guardas, deixando o restante dos animais. Ao saber disso, Sam, com fisionomia astuta, perguntou-me:
— Sabe, sir, por que os caciques procederam deste modo?
— Sim. Não é difícil descobrir.
— Oh! Um greenhorn não deve ter a presunção de tirar conclusões exatas de um mero acaso. É preciso ter muita experiência para responder à minha pergunta.
— É justamente o que tenho.
— O senhor? Desejaria saber onde a adquiriu!
— Nos livros.
— Sempre os seus livros! Uma coisa ou outra poderá o amigo aproveitar em seus livros. Quero provar-lhe, porém, que não conhece absolutamente nada. Responda-me: por que levaram os caciques e os guardas apenas os cavalos que montavam, deixando os que pertenciam aos prisioneiros?
— Para a montaria desses mesmos prisioneiros.
— Como?
— Estes homens ainda terão muita necessidade de seus cavalos.
— É dessa opinião? Para que necessitarão desses animais?
Não me sentia ferido em meu amor-próprio com o juízo que fazia de mim. Conhecia-lhe o sistema e, calmamente, respondi:
— Para o seguinte: primeiro, os caciques não tardarão a voltar com o grosso do grupo, a fim de libertar os prisioneiros; por que haviam de levar então os cavalos para trazê-los de novo? Segundo, se os kiowas não esperarem os apaches e abandonarem esta zona, será melhor se os prisioneiros tiverem suas montarias. Serão conduzidos para a aldeia dos kiowas, e poderão fugir durante o percurso. Se não tiverem seus cavalos, terão de caminhar a pé, correndo o risco de serem mortos pelos kiowas a fim de evitar a morosidade da viagem.
— Hum! A idéia não é tão tola quanto me parecia. Mas, esqueceu uma terceira hipótese: será também possível que os kiowas matem seus prisioneiros, mesmo que estes tenham cavalos para a viagem.
— Não é possível.
— Não? Sir, como pode declarar impossível o que Sam Hawkens acha realizável?
— Sam parece esquecer que estou aqui.
— Como! Está aqui?! Considera sua presença como um acontecimento extraordinário?
— Não. Quero dizer que, enquanto eu estiver aqui, os apaches prisioneiros não serão trucidados.
— Realmente? Que homem admirável hihihihi! Um greenhorn, um único homem quer impedir que duzentos kiowas executem o que melhor lhes parecer!
— Tenho certeza de que não estou só!
— Não? Com quem conta?
— Com Sam, Dick Stone e Will Parker. Tenho absoluta certeza de que reagirão, para evitar o martírio dos apaches.
— Muito obrigado. Estou orgulhoso! Afinal é sempre alguma coisa conquistar a confiança de um grande personagem!
— Ouça, Sam; estou falando sério e não tenciono fazer pilhéria com um assunto destes. Quando se trata de defender a vida de tantos homens, deve cessar toda a brincadeira.
Aqui, Sam, fitando-me com ironia, disse:
— Thuender-Storm! Fala realmente sério? Então, mostrar-lhe-ei outra fisionomia. Como pensa defender os apaches? Com os demais companheiros não podemos contar, e nós seremos apenas quatro para investir contra duzentos kiowas! Espera sairmos vencedores na luta?
— Não cogito de resultado. Apenas não tolero que, em minha presença, seja cometido semelhante barbarismo.
— Mas sua intervenção de nada valerá aos apaches que, do mesmo modo, serão assassinados; só haverá uma diferença: será o senhor seu companheiro de infortúnio! Confia no seu nome “Mão de ferro”? Espera, talvez, derrubar duzentos guerreiros a soco?
— Tolice! Nada disso, sei perfeitamente que nós os quatro não poderemos vencer os duzentos kiowas. Mas, para impedir o bárbaro atentado, não será preciso o emprego da violência. A astúcia produz muitas vezes, melhores resultados.
— Leu isso nalgum livro!
— Claro!
— E adiantou muito. Essa leitura tornou-o um homem sensato! Quisera vê-lo um dia astucioso! Os peles-vermelhas farão o que entenderem, pouco se preocupando com nossas ameaças e ardis.
— Bem! Vejo que não posso confiar nos companheiros; no momento saberei agir sozinho!
— Por Deus, sir! Não faça tolices; nunca deve agir por si só, e sim deixar-se guiar por nós. Não digo que não defenda os apaches se fôr necessário; mas nunca tive o hábito de querer o impossível. Não queira derrubar muros com a cabeça.
— Também não pretendo fazer o impossível. Demais, não sabemos ainda o que resolveram os kiowas a respeito dos seus prisioneiros, sendo, portanto inúteis quaisquer discussões sobre o assunto. Mas, se depois, fôr necessário agir em defesa dos apaches, saberei encontrar meio de socorrê-los.
— É possível; mas um homem previdente não se fia nisso. A maneira de proceder futuramente não me interessa. Temos um único problema a resolver; que faremos, no caso de serem os apaches trucidados?
— Não deixaremos que cheguem a esse ponto.
— Não deixaremos?! Sir, não o compreendo; fale mais claro!
— Protestaremos, antes, contra o assassínio dos prisioneiros.
— Esse protesto não terá o resultado esperado.
— Então, obrigarei o cacique a proceder de acordo com a minha vontade.
— E como fará?
— Desde que não encontre outro meio, dominarei a sua pessoa, pondo-lhe a faca ao peito.
— Para apunhalá-lo?
— Se não me obedecer.
— Oh! Senhor! Como é violento! — exclamou espantado. — Não duvido de que o faça. É muito capaz disso!
— Garanto-lhes que procederei deste modo!
— Aos poucos desfez-se a expressão de espanto do rosto de Sam, e ele prosseguiu:
— Ouçam; a idéia não é má. O único meio de conseguirmos o que queremos é ameaçar de morte o cacique. É interessante verificar que também um greenhorn pode ter boas idéias.
Quis prosseguir, mas Bancroft aproximou-se de nós e convidou-me a trabalhar. O engenheiro tinha razão. Não podíamos perder tempo, se quiséssemos terminar o serviço, antes do regresso de Intschu-tschuna e Winnetou, acompanhados de muitos guerreiros.
Estivemos até o meio-dia em atividade ininterrupta; a essa hora, Sam veio ter comigo.
— Sou obrigado a interrompê-lo, sir, pois os kiowas parecem querer fazer alguma coisa aos apaches.
— Alguma coisa? Isto é muito vago. Não sabe o que pretendem?
— Parece quererem matá-los no poste dos martírios!
— Quando? Mais tarde ou já?
— Naturalmente, já; do contrário eu não viria aqui ter com o senhor.
Fazem preparativos que me levam a concluir que os prisioneiros serão su-pliciados. E quer parecer-me que vão já iniciar os suplícios.
— Vamos impedi-los. Onde está o cacique?
— Entre seus guerreiros.
— Precisamos que ele se retire de lá; quer encarregar-se de trazê-lo até aqui?
— Sim; mas de que forma?
Lancei um olhar perscrutador para trás: os kiowas já não se achavam mais no lugar, onde ontem acampáramos. Seguiram os trechos por nós medidos e se instalaram à beira dum bosquezinho da savana. Rattler e sua gente estavam junto aos peles-vermelhas; Sam Hawkens perambulara nas proximidades, a fim de observá-los, enquanto Parker e Stone estavam pouco adiante de mim. Entre mim e os kiowas erguiam-se algumas moitas, que me protegiam; os vermelhos não podiam ver o que se passava aqui.
— Diga-lhe simplesmente que desejo falar-lhe, mas que não me é possível abandonar o trabalho. Assim virá ter comigo, — disse a Sam.
— Espero que sim; mas se trouxer alguns guerreiros?
— Destes encarrego o senhor, Dick e Will; o cacique ficará por minha conta. Aprontem as cordas para amarrá-los. O serviço deve ser feito rapidamente e debaixo do maior silêncio possível.
— Bem! Não sei se as medidas que pretende tomar são acertadas; mas como não me ocorrem outras melhores, far-lhe-ei a vontade. Arriscaremos a vida; mas, como não desejo morrer, espero sair da luta, apenas com alguns ferimentos, hihihihi!
Com aquele seu risinho original, retirou-se. Meus colegas não estavam muito distantes, porém não ouviram a palestra, nem me ocorreu contar-lhes os meus propósitos, pois estava convencido de que tudo fariam para frustrar-me o plano. Suas vidas, pensavam eles, eram muito mais preciosas que a dos prisioneiros apaches.
Tinha consciência absoluta do perigo a que me ia expor. Deveria a ele arrastar também Dick Stone e Will Parker sem avisá-los? Não. Perguntei-lhes se queriam ficar fora, ao que Stone me respondeu:
— Nunca, sir! Considera-nos tão covardes que abandonemos um amigo na hora do perigo? Seu plano constitui uma verdadeira aventura, mas desejamos, com todo o ardor, participar da sua execução. Não é assim, meu velho Will?
— Sim — disse Parker. Quero ver se nós, os quatro, não bastamos para lutar com aqueles duzentos peles-vermelhas. Estou antegozando a cena que farão, correndo num berreiro infernal, em direção a nós, sem nada nos poderem fazer!
Eu continuava atentamente o trabalho, quando depois de algum tempo Stone chamou-me:
— Prepare-se, sir; lá vêm eles.
Olhei. Sam vinha junto de Tangua. Infelizmente três peles-vermelhas o acompanhavam.
— Um homem para cada um de nós. Encarrego-me do cacique. Tenham, porém, o cuidado de segurá-los pela garganta para que não possam gritar, e esperem até que eu dê começo; não se precipitem.
Fui ao encontro de Tangua a passos lentos; Stone e Parker me acompanharam. Quando nos encontramos, achávamo-nos atrás de umas moitas e os kiowas, que estavam longe de nós, não nos podiam ver. O cacique mostrava-se contrariado e, em tom grosseiro, interpelou-me:
— O pele-branca, denominado “Mão de ferro” mandou-me chamar. Esqueceu que sou o cacique dos kiowas?
— Não esqueci.
— Então deveria ir ter comigo em vez de me obrigar a vir até aqui. Mas como sei que há pouco tempo se acha nesta terra e, portanto, ainda tem de aprender a ser cortês, perdôo-lhe a falta. Que quer? Seja breve, porque não posso perder tempo.
— Por que tem tanta pressa?
— Vamos supliciar os apaches.
— Quando?
— Agora.
— Por que tão depressa? Julguei que iriam transportá-los para a vossa aldeia, a fim de lá, na presença de vossas mulheres e filhas, fazê-los morrer no poste do martírio.
— Sim; tencionávamos proceder deste modo, mas eles estorvariam a expedição de guerra em que nos achamos e, por este motivo, morrerão hoje mesmo.
— Peço-lhe que lhes poupe a vida.
— Não me peça, nada! — gritou-me.
— Não quer falar com a mesma cortesia com que lhe falo? Faço apenas um pedido. Se eu tivesse a intenção de dar uma ordem, sim, teria motivo para se tornar grosseiro.
— Nada quero ouvir de outros; nem um pedido, nem uma ordem. Um pele-branca não me fará modificar minhas resoluções.
— Talvez! O senhor tem o direito de matar os prisioneiros? Não quero ouvir a resposta, porque já a conheço e não discuto suas razões; mas há grande diferença entre o assassínio rápido e uma morte lenta pelo suplício. Não permitiremos que martirizem os apaches, em nossa presença.
A estas palavras, respondeu-me, em tom de menosprezo:
— Não permitem? Que pensam? Os prisioneiros me pertencem e deles farei o que me aprouver, sem dar satisfações a quem quer que seja.
— Mas foram parar às suas mãos, graças ao nosso auxílio; portanto, temos os mesmos direitos e desejamos que eles continuem com vida!
— Podem desejar o que quiserem, que a mim pouco me importa.
Com um gesto de desprezo, quis retirar-se, mas, com um golpe, atingi-lhe o temporal fazendo-o rolar por terra; ele não desfaleceu completamente e tentou levantar-se, sendo eu obrigado a derrubá-lo novamente.
Em seguida, vi Sam Hawkens ajoelhado sobre um pele-vermelha, que segurava pelo pescoço; Stone e Parker lutavam com o segundo; o terceiro fugira a gritar.
Fui em auxílio de Sam. Quando havíamos amarrado o kiowa, Dick e Will já haviam feito o mesmo ao outro.
— Os senhores não agiram com inteligência; por que deixaram escapar o terceiro?
— Porque agarrei justamente este contra quem Stone também avançara — respondeu Parker. — Perdemos com essa confusão, apenas dois segundos, que o outro aproveitou para fugir.
— Não importa — disse Sam Hawkens à guisa de conselho. Não haverá maiores conseqüências, a não ser que abreviaremos o início da festa. Os guerreiros estarão aqui dentro de dois ou três minutos. Vamos tratar de obter campo livre para a luta.
Amarramos, ligeiro, também o cacique. Os agrimensores viram, com grande espanto, o que fazíamos e o engenheiro-chefe, num pulo, chegou até nós e gritou horrorizado:
— Mas que lhes fizeram os índios? Isto nos vai custar a vida!
— Muitos males sucederão, sem dúvida, sir, se não se associar, imediatamente, a nós — respondeu Sam. — Chame os seus auxiliares e venha conosco. Nós os protegeremos.
— Os senhores nos protegerão? Isto até é...
— Silêncio! — bradou-lhe Sam. — Sabemos perfeitamente o que dizemos! Se o senhor e seus empregados não ficarem ao nosso lado estarão perdidos. Portanto, não perca tempo!
Carregamos os três índios amarrados para a campina aberta, onde os deitamos sobre a relva. Bancroft e os seus agrimensores seguiram-nos. Escolhemos a campina rasa para nosso ponto de parada, porque, num descampado, estaríamos mais em segurança do que num lugar de onde não pudéssemos avistar ao longe.
— Quem falará com os peles-vermelhas quando chegarem? Talvez eu? — perguntei.
— Não, sir — respondeu Sam. — Deixe que eu fale, pois não conhece a salada, que é o dialeto dos kiowas. Auxilie-me, porém, no momento preciso, fingindo que vai apunhalar o cacique.
Mal havia ele pronunciado essas palavras, ouvimos os brados raivosos dos índios que, momentos depois, apareciam saindo das moitas que nos tinham servido de abrigo. Vinham um a um; não marchavam em formatura regular. Essa circunstância nos favorecia, pois um bando em forma seria mais difícil obrigar a parar.
O corajoso Sam saiu-lhes ao encontro e, levantando os dois braços, fêz-lhes sinal para que estacionassem. Ouvi Hawkens dizer-lhes algumas palavras, que não compreendi. Não conseguiu entretanto ser obedecido e só depois de repetir, por algumas vezes, a ordem, é que os kiowas se detiveram. Sam falou-lhes e, por diversas vezes, percebi que se referia a mim.
Determinei a Stone e Parker que levantassem o cacique e o conservassem de pé; feito isso, puxei da faca e ameacei apunha-lá-lo.
Os peles-vermelhas gritavam apavorados.
Sam continuou a falar-lhes. Do bando, separou-se um índio, que devia ser o subcacique. Juntamente com Sam, encaminhou-se, a passos lentos, e com toda dignidade, em minha direção. Quando chegaram, Sam mostrou-lhes os três índios amarrados, dizendo:
— Veja que lhe falei a verdade; são nossos prisioneiros.
O subcacique, que estava visivelmente enraivecido, contemplou os três companheiros e respondeu:
— Estes dois guerreiros peles-vermelhas vivem ainda; mas o cacique está morto, ao que me parece.
— Não está morto. “Mão de ferro” atirou-o ao solo aturdido; não tardará a recuperar os sentidos; sente-se conosco e espere. Quando o cacique voltar a si, deliberaremos com ele. Mas se um dos kiowas se levantar contra nós, a faca de “Mão de ferro” será cravada no coração de Tangua; disto pode estar certo!
— Por que levantarão a mão contra nós, se somos amigos?
— Amigos? Não creio!
— Pois eu creio. Não fumamos o “cachimbo da paz”?
— Sim; mas é uma paz em que não se pode confiar!
— Por quê?
— Pelo hábito que tem os kiowas de ofenderem seus amigos e aliados!
— Não é verdade.
— O cacique ofendeu “Mão de ferro” e não os podemos considerai como irmãos e amigos! Veja, ele começa a fazer movimentos!
Tangua, que Stone e Parker deitaram de novo na relva, começava, realmente, a se movimentar; não tardou a abrir os olhos e, olhando-nos como que a recordar o que se passara, exclamou:
— Uff, uff! “Mão de ferro” arrojou-me ao solo. Quem me amarrou assim?
— Eu — respondi-lhe.
— Tirem-me as cordas. Ordeno-lhes!
— Há pouco, não atendeu ao meu pedido, agora sou eu que não atenderei à sua ordem. Nada nos pode ordenar!
Levantou os olhos e olhou-me furiosamente, dizendo, entre dentes:
— Cale-se menino, senão o esmagarei!
— Seria mais aconselhável que ficasse em silêncio. Há pouco, ofendeu-me e eu o venci. “Mão de ferro” não permite que o maltratem sem reagir. Procure ser cortês, do contrário, será muito pior.
— Exijo que me libertem! Se não me libertarem, os meus guerreiros me hão de vingar.
— Neste caso, seria Tangua o primeiro a morrer; ouça o que lhe quero dizer: se um de seus guerreiros tentar chegar até aqui, sem nossa licença, a lâmina desta faca se cravará em seu coração.
Pus-lhe a ponta da faca no peito, para que reconhecesse que estava sob nosso domínio.
Seguiu-se uma pausa; Tangua parecia nos querer ferir com os olhos; depois, esforçando-se para dominar o rancor, perguntou-me em tom mais calmo:
— Que querem de mim?
— Nada mais do que aquilo que pedi, há pouco; que os apaches não sejam supliciados.
— Será, talvez, capaz de exigir que não os matemos de maneira alguma!
— Mais tarde, façam deles o que quiserem; mas, enquanto estiverem em nosso acampamento, não permito que lhes suceda coisa alguma.
Seguiu-se outra pausa. Não obstante as cores de guerra que lhe cobriam o rosto, notei que nele transparecia uma expressão de raiva, de ódio. Julgava que o nosso duelo de palavras iria se prolongar, quando me disse:
— Será feita a sua vontade; ainda irei além do que pede se aceitar a proposta que lhe vou fazer.
— Que proposta?
— Antes de tudo, devo dizer-lhe que não temo sua faca! Sei que evitará apunhalar-me, porque se isso fizer, em poucos minutos, será estrangulado pelos meus guerreiros. Por mais valente que seja o pele-branca, não conseguirá vencer duzentos homens; portanto rio-me de sua ameaça. Poderia não satisfazer os seus desejos, e sei que nada me sucederia; não obstante, os apaches não serão martirizados. Prometo-lhe, ainda, não os matar, uma vez que por eles se proponha arriscar a vida, lutando corpo a corpo.
— Com quem?
— Com o guerreiro que eu designar.
— Com que arma?
— Somente a faca. Se fôr apunhalado, os apaches terão de morrer também; porém, se conseguir apunhalar o kiowa, poupar-lhe-ei a vida.
— E serão postos em liberdade?
— Sim.
Vi logo que o movia uma segunda intenção. Certamente considerava-me como o elemento mais perigoso dos peles-brancas, e queria, de qualquer forma, eliminar-me. Era certo que escolheria entre os seus guerreiros, o mais hábil para aquele combate singular. Contudo, respondi, sem refletir por muito tempo:
— Estou de acordo. Combinemos as condições do duelo, fumemos o “cachimbo do juramento” e a luta poderá ter início.
— Deixe-se de tolices — exclamou Sam. — Não posso consentir que aceite essa proposta, sir!
— Não é tolice, caro Sam!
— É, e a maior que pode haver. Na luta de honra é necessário que tanto as forças combatentes como as compensações sejam iguais, e isto não sucede no caso presente.
— Como não!
— Absolutamente não. Já lutou com alguém corpo a corpo, a faca?
— Não.
— Aí está! Terá, naturalmente, como adversário um mestre no punhal. Agora, medite nas conseqüências da vitória do guerreiro kiowa. Se o senhor fôr apunhalado, morrerão os apaches também; mas, se no contrário, ferir o seu contendor, quem morrerá? Ninguém.
— Mas os apaches ficam com vida.
— E acredita nisso?!
— Sim, pois vamos fumar o “cachimbo da paz”, que terá o valor de juramento.
— Não creia no juramento de quem tem o cérebro cheio de más intenções! E mesmo que o cacique fale sinceramente, o senhor, afinal, não passa de um greenhorn, e...
— Pare com sua história, caro Sam; repetidas vezes tem visto que o greenhorn sabe o que faz.
Não obstante, ele falou ainda por longo tempo; Dick Stone e Will Parker aconselhavam-me a não aceitar o duelo; eu, porém, permanecia firme no meu propósito, e, em vista disso, Sam exclamou desanimado:
— Bem, por mim, faça o que quiser; não me oporei mais! Vou, entretanto, fiscalizar a luta, para que corra dentro da lei e ai daquele que nos tente enganar. Alvejá-lo-ei com a minha “Liddy” e irão despedaçar-se contra as nuvens.
Afinal ficou assim combinado: seria figurado, na areia, o número oito que se compõe de duas argolas ou zeros. Cada um dos combatentes se postaria dentro de uma dessas argolas, e donde não se poderia arredar durante a luta. Não haveria contemplações: um dos contendores devia morrer, sem que a ninguém assistisse o direito de vingança. As demais condições e conseqüências, já haviam sido convencionadas.
Depois de entrarmos em acordo, livrei o cacique das cordas e com ele fumei o calumet. Depois também dei liberdade aos outros dois índios que com ele foram ao encontro dos companheiros, a fim de avisá-los do que iria acontecer.
O engenheiro-chefe e os outros agrimensores faziam-me acres censuras; não lhes dei atenção. Também Sam, Dick e Will não estavam de acordo comigo, mas não me agastavam com suas razões. Sam disse-me, cheio de cuidados pela minha sorte:
— Poderia ter feito coisa melhor do que aceitar esse duelo satânico! Sempre dizia e digo ainda: o senhor é extremamente leviano! Que resultado terá em ser apunhalado, hein? Responda-me!
— Naturalmente, a morte; nada mais.
— Nada mais? Ouça, tenha bondade de não fazer essas caçoadas de mau gosto! A morte nunca traz compensações.
— Como não?
— Qual será?
— A de sermos enterrados.
— Cale-se, nobre sir! Só sabe magoar-me; lamento não haver dedicado minha amizade a pessoa mais digna.
— Magoa-se de fato, caro Sam?
— Claro que me magôo. Não me faça pergunta tão tola! É quase certo que irá morrer; que farei neste mundo, depois de chegar à velhice? He, he, he! que estou a dizer? Preciso ter sempre um greenhorn comigo para com ele altercar e me divertir. Que será de mim depois que o senhor morrer?
— Poderá encontrar outro greenhorn com quem se divertirá.
— Isto é mais fácil dizer do que acontecer, pois um greenhorn tão completo e incorrigível como o senhor, não encontrarei em toda a minha vida. Mas digo-lhe, sir, se lhe acontecer alguma coisa, esses vermelhos me terão na lembrança para sempre. Avançarei como um velho Ulando furioso contra eles e...
— Rolando, Rolando e não Ulando, caro Sam — interrompi-o.
— É-me indiferente ser um Rolando furioso ou um Ulando; o caso é que não permitirei que seja apunhalado. E os seus sentimentos de humanidade? Sei que tem bom coração e não gosta de matar. Creio que não alimenta o propósito de poupar o pele-vermelha com quem vai lutar!
— Hum, hum!
— Hum, hum, não, sir! Aqui não se resmunga. O caso é de vida ou morte!
— E se o ferisse apenas?
— Neste caso, o duelo não terá valor, conforme as condições estabelecidas.
— Não é isso, refiro-me à probabilidade de eu o ferir de tal modo, que ele não possa prosseguir na luta.
— Isso de nada valerá, pois não será considerado vencedor e terá de iniciar novo combate com outro guerreiro. Então, não conhece as condições? O vencedor, para ser considerado como tal, terá de matar, — e bem morto, ouviu? — o adversário. Se o prostrar ferido, de modo que não possa continuar a combater, é necessário que acabe de matá-lo, do contrário o duelo não terá valor. Deixe de consciência, num caso destes! Se pretende tornar-se um verdadeiro homem do oeste, terá de experimentar muitas vezes sua faca em carne humana. Tenha em vista que esses kiowas são ladrões, únicos culpados de tudo o que está acontecendo, e virá a acontecer; quiseram roubar cavalos aos apaches. Se matar um homem destes, salvará a vida de muito bravos mescaleros; se o poupar, estará perdido. Agora, diga-me se está disposto a investir contra esse kiowa com a coragem de um verdadeiro homem do oeste que não desmaia nem recua, quando vê jorrar algumas gotas de sangue. Diga-me com sinceridade e estarei tranqüilo.
— Para se acalmar, peço-lhe que se convença, de uma vez por todas, que não serei em nada indulgente para com meu adversário, pois estou certo de que também não me poupará. Procedendo deste modo, salvarei muitas vidas! Lá, no velho mundo, cavalheiros de alta linhagem se degladiam por ninharias; aqui, está em jogo coisa bem diversa; vou enfrentar não um cavalheiro, mas um ladrão e assassino pele-vermelha. Prometo-lhe não entrar em luta, com sentimentos generosos. Não verei em minha frente mais que um bandido capaz de todas as ferocidades.
— Bravo! Confio na sua palavra. Já encaro os acontecimento com mais serenidade; no entanto, sinto no coração a mesma dor que sentiria se visse um filho partir para a guilhotina. Estou aflito. Preferia lutar em seu lugar. Sir, faça-me esta concessão!
— Não, bom Sam! Penso que antes deve morrer um greenhorn do que um ativo homem do oeste, e, de resto...
— Não, cale-se. Comigo nada se perde! Eu, um homem velho, nada mais posso fazer no mundo; mas um jovem, uma risonha esperança...
— Cale-se — interrompi. — Seria covardia e desonra, fazer-me substituir no duelo! Aliás, nem o cacique o permitiria, pois constituo para ele o principal objetivo da luta.
— É com isso que não me posso conformar! Deus queira lhe falhe o objetivo! Cuidado, lá vem eles!
Os índios chegavam em marcha lenta. Não vinham os duzentos, porque alguns ficaram para montar guarda aos prisioneiros. Marchavam, dirigidos por Tangua, em direção ao local do duelo. Lá chegados, formaram três quartos de círculo; o restante, deveria ser preenchido pelos peles-brancas. A um aceno do cacique, avançou um índio de musculatura verdadeiramente hercúlea, que depôs todas as armas, exceto a faca. Despiu, depois, a parte superior do corpo. Quem visse esse peito possante, agora desnudo, temeria realmente pela minha sorte. O cacique conduziu-o ao lugar onde devíamos combater, dizendo, como quem está certo da vitória:
— Eis aqui Metan-akwa (*), o mais forte guerreiro dos kiowas, a cuja faca até agora ninguém resistiu; o inimigo cai sob a ação desta lâmina como se fosse fulminado. Lutará com o pele-branca “Mão de ferro”.
— Com mil demônios! — cochichou-me Sam; este índio é um verdadeiro Golias! Ouça, sir, está perdido!
— Ora!
— Tolice! Há só um meio de domar esse pele-vermelha.
— Qual?
— Faça com que a luta não se prolongue, procure abreviá-la, porque se se cansar estará perdido. Como está o seu pulso?
Segurou-me o pulso, e disse:
— Graças a Deus, não vai além de sessenta pulsações! Tudo está bem. Não se sente nervoso! Não tem medo?
— É só o que faltava! Estar nervoso e ter medo, justamente no momento em que necessito de sangue frio e certeza de vista! O nome desse gigante condiz com sua figura. Porque é forte e invencível no punhal, o cacique escolheu-o para lutar comigo. Veremos se é, de fato, invencível.
Enquanto conversávamos, eu desnudara, também, o tronco. Não fora isso condicionado por nós, mas concordei, para não suporem que eu tivesse, debaixo da roupa, algum objeto que me defendesse dos golpes. Entreguei a Sam a minha “mata-ursos” e o revólver e me postei em meio da arena. Hawkens estava nervoso; eu não
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(*) Metan-akwa- o faca-raio.
tinha o menor receio. Coragem é a primeira condição para quem está em perigo.
Com um machado foi desenhado um oito sobre a areia e Tangua convidou-nos a tomar posição. O “Faca-raio” mediu-me com um olhar desprezível e disse, em voz alta:
— O corpo deste débil pele-branca não tremerá ao enfrentar-me? Mal havia pronunciado essas palavras, e pisei na parte sul da argola do oito. Nesta posição, o sol batia-me nas costas, ao passo que iluminava o rosto do pele-vermelha; pensarão, talvez, que fui desleal, conseguindo essa vantagem; procurei sim, vingar-me do índio que de mim zombava. Não era ocasião de cavalheirismo. O caso era de vida ou morte. É hor-rivel pensar que devemos matar um homem; mas, poupar o meu adversário, seria entregar-lhe a minha vida. Haveria de vencer aquele Sansão. Permanecia calmo e contemplava friamente aquela figura imponente; demais, não tinha motivos para me considerar mau lutador apesar de ser a primeira vez que me encontrava armado de faca em semelhante combate.
— Mas, como é atrevido o pele-branca! — prosseguiu o “Faca-raio” em tom sarcástico. Espere, minha faca há de humilhá-lo já. O grande Espírito o entregará em minhas mãos, depois de lhe haver tirado o juízo.
Entre os índios é freqüente o uso desse jogo de frases, antes da luta, e eu seria tomado como covarde se não lhe respondesse.
— O índio luta com palavras; o branco o espera a faca; tome seu lugar, se nada teme.
Pulou furioso para a outra argola do oito e disse:
— Temer? Eu? Metan-akwa ter medo? Ouvi, ó guerreiros dos kiowas! Tirarei a vida a esse pele-branca de um golpe.
— Cuide que o meu primeiro golpe lhe será mortal. Agora, cale-se. Dever-se-ia chamar “Avat-ya”, (*) em lugar de Metan-akwa.
— Avat-ya, avat-ya. E se atreve assim a me insultar? Vamos, aos urubus serão entregues, em breve, seus intestinos.
Sua última ameaça foi de grande importância; pois avisava-me onde pretendia ferir-me. Não me visaria o coração, mas o ventre.
Achávamo-nos tão próximos um do outro, que seria bastante curvar-mo-nos para nos atingir. Não tirava os olhos de mim. Tinha o cabo da faca preso ao dedo mínimo, mostrando a lâmina, que tinha o corte voltado para cima, entre o polegar e o indicador. A posição da arma significava que o golpe seria ascendente.
Já lhe conhecia a intenção; o principal, agora, era não perder o momento em que ele me iria atacar. Sabia que uma contração da pálpebra, no adversário, anuncia o início da luta.
— Ataque-me — disse ele a provocar-me.
— Não torne à conversa e entre em ação, maldito pele-vermelha — respondi-lhe.
Fora grave a ofensa e a ela se deveria seguir uma resposta colérica ou o ataque; observei-lhe os olhos e o contrair das pálpebras do índio avisou-me que teria começo o duelo. No mesmo instante tentou abrir-me o ventre com um golpe violento que aparei, àgilmente, visando o seu ante-braço, que descarnei. Não fora eu tão ágil e estaria perdido.
— Terrível pele-branca! — gritou o meu adversário, recuando e deixando cair a faca ao solo.
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(*) Garganta ou Prosa
— Não fale, lute — respondi-lhe, erguendo de novo o braço e... enterrando-lhe no coração a lâmina da faca. Retirei no mesmo instante a arma; o golpe fora bem dado, e um jato de sangue quente jorrou-me no rosto. O gigante cambaleou, tentou gritar, mas soltou apenas um gemido abafado e caiu morto.
Os índios uivavam de raiva; apenas um deles não se unia a esses gritos desesperados que me faziam lembrar uma malta de cães danados: era Tangua, o cacique. Aproximou-se do morto, curvou-se e examinando-lhe os bordos da ferida, levantou-se; contemplou-me com um olhar que nunca pude esquecer, pois nele havia um misto de raiva, medo e admiração. Ia retirar-se sem pronunciar uma palavra, quando exclamei:
— Veja; estou ainda no meu lugar! Metan-akwa, porém, abandonou o seu e jaz prostrado sem vida. Quem venceu?
— “Mão de ferro” — respondeu furioso e seguiu; mas não tinha caminhado uns cinco ou seis passos, quando voltou. — “Mão de ferro” é um pele-branca, filho do espírito negro. Nosso homem da medicina lhe tirará essa magia e então terá de nos entregar a vida!
— Faça do homem da medicina o que quiser; quanto ao cacique, é preciso cumprir a palavra empenhada.
— Que palavra? — perguntou irônico.
— De que pouparia a vida dos apaches.
— Não os mataremos; estava combinado e saberei cumprir o que prometi.
— E serão soltos?
— Sim; vão recuperar a sua liberdade. O que Tangua, o cacique dos kiowas, diz é executado.
— Então irei, com os meus amigos, libertá-los.
— Isto farei eu próprio, quando chegar a ocasião.
— Já chegou, pois venci o duelo.
— Cale-se! Porventura tratamos disso quando combinamos a luta? Eu determinarei a ocasião de libertá-los. Não mataremos os apaches, mas não nos caberá a culpa de morrerem de fome e sede! É bem possível que morram antes que os livremos.
— Homem sem palavra! — disse-lhe eu.
— Cale-se; não o quero mais ouvir; eu...
Não completou a sua ameaça, pois as palavras lhe ficaram presas à garganta; olhava-me espantado, enquanto eu terminava a sua frase.
— ... eu o arrojarei por terra, pois é o maior dos mentirosos! Recuou alguns passos, puxou da faca e disse:
— Afaste-se; não se aproxime de mim. Se me tocar, mato-o.
— Assim dizia o “Faca-raio” e assim quis fazer; entretanto, ei-lo morto. A Tangua sucederá o mesmo. A respeito dos apaches, falarei com meus irmãos peles-brancas. Se lhes tocar num só fio de cabelo, todo o seu bando terá fim trágico. Saiba que possuímos um processo com o qual faremos voar pelos ares todos os kiowas, com seu cacique.
Depois destas palavras, abandonei o lugar onde se realizara a luta e fui ter com Sam, que não ouvira o que eu estivera a falar com o cacique. Veio radiante ao meu encontro e, tomando-me as duas mãos, entusiasmado, exclamou:
— Seja bem-vindo! Seja bem-vindo! Digo isso porque regressa do reino dos mortos, onde sem dúvida esteve! Mas, homem, amigo, camarada, jovem, filho, greenhorn, que criatura é o senhor! Nunca vira um búfalo e abateu o mais possante do rebanho! Nunca encontrara um urso cinzento das montanhas Rochosas, e o matou a punhaladas! Nunca vira um poldro bravio, e laçou dentre eles exatamente a minha “Mary”! E agora enfrenta o mais forte e famoso lutador dos peles-vermelhas e mata-o com uma punhalada certeira no coração, sem receber um só ferimento, sem verter uma só gota de sangue! Dick e Will, venham cá e contemplem este jovem agrimensor alemão! Que faremos dele?
— Um oficial — disse Stone sorrindo.
— Um oficial? Que queres dizer com isto?
— Mostrou mais uma vez que não é um greenhorn; vamos elevá-lo a oficial e mais tarde a mestre.
— Que não é mais um greenhorn? Elevá-lo a oficial? Stone, não tenho nada a opor ao que diz, mas não faça asneiras! Este camarada é um greenhorn, e um greenhorn como não há outro, do contrário, não se arriscaria a lutar com um índio-gigante; mas os homens levianos são os que têm mais sorte e o camponês mais tolo é o que colhe maiores batatas. É o caso deste nosso companheiro, tolo, leviano e greenhorn! Se ele ainda vive, não deve isso a si próprio, mas à sua tolice! Quando se iniciou a luta, meu coração cessou de bater; mal podia respirar e me concentrei no desenrolar dos acontecimentos. Um golpe e uma punhalada certeira e o gigante rolava no chão! Afinal, conseguimos o que desejávamos: a liberdade dos prisioneiros apaches.
— Engana-se — respondi-lhe, sem zangar-me pelo modo com que me falara.
— Engano-me? Como?
— O cacique, quando tal nos prometeu, fêz uma ressalva em silêncio e, agora, pretende usar dela.
— Logo vi que tinha segunda intenção; que alega ele?
Repeti-lhe as palavras de Tangua; indignou-se e foi ter com o cacique a fim de chamá-lo à palavra. Aproveitei esta ocasião para vestir-me e armar-me. Os kiowas estavam firmemente convencidos de que o “Faca-raio” me apunhalaria e o resultado do duelo trouxe-lhes luto e mais ódio contra nós. Desejariam atacar-nos e aniquilar-nos a todos, mas não lhes era permitido, pois, fumando o “cachimbo da paz”, significava que os parentes e amigos do vencido não tinham o direito de vingança. Mas, em todo o caso, esperavam encontrar em breve um pretexto qualquer para hostilizar-nos. Continham, pois, sua raiva e se preocupavam, exclusivamente, com o corpo do índio que tombara na luta. Lá fora Hawkens procurar o cacique e conclui que dele não ouvira palavras muito amáveis. Voltou, realmente, contrariado e anunciou-nos.
— O cacique não quer, de fato, cumprir sua palavra. Pretende, ao que parece, deixar os prisioneiros morrerem de fome. E isto diz ele que não é matar! Mas estaremos alerta, e talvez consigamos ainda zombar dos seus propósitos sinistros, hihihihi!
— Cuide que ele não zombe de nós — observei-lhe. — É difícil defender alguém, quando se necessita tanto de defesa.
— Duvido! Receia esses peles-vermelhas, sir?
— Ora! Que não os receio, devem saber tanto como eu.
— Entre nós há grande diferença: o senhor é um greenhorn; investe como um touro contra um lenço vermelho, contra aquilo que eu não me atreveria a tocar; se se trata, porém, de agir com coragem e prontamente, põe-se a refletir. Que pensa a respeito do que, há pouco, se deu?
— A respeito de que?
— Da luta, da qual saiu vencedor.
— Creio que deve estar satisfeito comigo!
— Não é a isso que me refiro. Falo da reprovação que merece o seu procedimento.
— Quem o reprova? Talvez o senhor?
— Meu Deus! Não me compreende. Diga-me, sir: lá na sua pátria, já foi condenado à guilhotina por haver assassinado um homem?
— Penso que não, pelo menos não me lembro.
— Então nunca matou ninguém?
— Não.
— Portanto, cometeu hoje o primeiro homicídio. Em que estado de espírito se acha agora? Isto é o que lhe pergunto.
— Hum! A sensação não é nada agradável. Queira Deus que não me veja obrigado a repetir esse ato. Sinto-me atormentado, pesa-me a consciência.
— Nada de pensamentos pueris! Pode acontecer, nesta região, que diariamente deva agir assim para salvar a vida. Em tais casos deve... Céus!! Eis que chegam os apaches! Teremos novo combate. Preparemo-nos para a luta!
Ressoou de fato, onde se achavam os prisioneiros, com sentinela à vista, um brado ensurdecedor! Era o brado de guerra dos apaches. Intschu-tschuna e Winnetou, contra toda a expectativa, estavam de volta. Os kiowas, que se achavam junto de nós, ficaram tomados de espanto. Tangua exclamou:
— Os inimigos atacam nossos irmãos! Corramos em seu socorro. Dirigia-se aos apaches, quando Sam, impedindo-lhe a passagem, exclamou:
— Não pode ir até lá; estamos cercados. Pensa que os dois caciques apaches ignoram que aqui está com a maioria dos guerreiros? Acha que eles atacarão apenas os guardas? Não tardarão a...
Não pôde prosseguir, porque o brado de guerra se ouvia em torno de nós. Achavamo-nos na campina aberta, mas nela havia algumas moitas, por trás das quais os apaches de nós se aproximaram sem que os víssemos. Agora, de todos os lados, saltavam índios. Os kiowas fizeram fogo, tombando alguns mescaleros, mas em número muito reduzido. Iniciou-se o combate.
— Não matemos os apaches — disse eu a Sam, Parker e Stone.
Como se aproximassem de nós, recuamos um pouco, para não sermos arrastados à luta. O engenheiro-chefe e os três agrimensores reagiram e foram mortos a tiros. O quadro era horrível. Olhava para os corpos dos meus colegas, e não percebi que os apaches investiam contra nós. Em vão dizíamos que éramos seus amigos; atacavam-nos armados de faca e machadinhas, obrigando-nos a reagir contra a vontade. Fiz tombar vários deles e, conquistando-lhes, em pouco, o respeito, consegui que me deixassem, por instantes, em paz.
Aproveitei essa folga, para examinar o que se passava em redor. Os apaches haviam atacado todos os kiowas e Sam, havendo também notado isto, exclamou:
— Vamo-nos embora. Embrenhemo-nos pelas moitas!
Dick Stone e Will Parker seguiram-nos. Refleti um pouco e olhei para o lugar onde jaziam os meus colegas. Queria socorrê-los, mas era tarde. Dirigi-me, afinal, para as moitas; ainda não as atingira, quando vi aparecer Intschu-tschuna:
— O homem que rouba as nossas terras! — exclamou correndo ao meu encontro e ameaçando ferir-me. Antes que me alcançasse, procurei dizer-lhe que era seu amigo. Não ouviu e me atacou ainda com mais fúria. Não havia remédio: devia feri-lo, para não ser morto. Aparei o golpe que me desferia, com a minha “mata-ursos” e o agarrei pela garganta, obrigando-o a deixar cair a espingarda ao solo. Nesta altura, ouvi por trás de mim uma exclamação de júbilo:
— É Intschu-tschuna, o chefe dos apaches. Preciso do seu couro, quero o seu escalpo!
Voltando-me, vi que Tangua havia tomado também a direção das moitas. Largou a espingarda, sacou da faca e ajoelhou-se defronte ao cacique inanimado; ia matá-lo. Agarrei-o pelo braço e ordenei:
— Deixe-o! Eu o venci, pertence-me.
— Cale-se, praga de branco! — respondeu ele — Não lhe devo satisfações. O cacique me pertence; largue-me, porque do contrário eu...
Com a ponta da faca atingiu-me a mão. Não quis apunhalá-lo; agarrei-o e tirei-o de perto de Intschu-tschuna; conseguindo isso, apertei-o na garganta, deixando-o sem
movimento. Curvei-me sobre o cacique dos apaches cujo rosto estava salpicado pelo sangue vertido do meu ferimento. Neste momento, ouvi um ruído e virei-me para ver do que se tratava. Este movimento salvou-me, pois recebi no ombro uma violenta coronhada que fora desferida para atingir-me a cabeça. Se isso sucedesse, ficaria com o crânio em pedaços. O golpe fora de Winnetou, que tomara a mesma direção de seu pai. Por trás de uma moita, viu-me junto do cacique que, ensangüentado, parecia estar sem vida. Winnetou resolveu, então, ferir-me de morte, mas felizmente errou o alvo. Largando sua arma, sacou da faca e avançou contra mim.
A situação era a mais crítica possível. O golpe agitara-me todo o corpo e paralisara-me o braço. Com prazer, eu teria feito esclarecimentos a Winnetou; mas tudo se passou tão rapidamente, que não houve tempo para declarações. De novo, veio contra mim; tentou apunhalar-me no coração. Consegui, porém, desviar ligeiramente o corpo; fui atingido na altura do bolso do casaco, onde guardava a lata com papéis; a lâmina, escorregando, atingiu-me a boca, atravessando a língua. Em seguida, retirou o punhal e agarrou-me pela garganta para me ferir novamente. Um receio mortal me fazia fraquear; eu podia mover só um braço; consegui agarrar-lhe a mão direita, que apertei violentamente, forçando-o a deixar cair a faca; tomei-lhe o braço esquerdo na altura do cotovelo e apertei-o, de maneira que, para evitar fraturá-lo, estava obrigado a soltar-me a garganta. Prosseguiu a luta e, em pouco, o índio estava subjugado. Agora, era forçoso mantê-lo como estava, pois se conseguisse se desvencilhar eu estaria perdido. Apertei-lhe as coxas com um joelho e com o outro premi-lhe um dos braços; com a mão que tinha ainda livre segurei-o pela nuca, enquanto ele, com a outra mão, procurava apanhar a faca, sem o conseguir. Iniciou-se uma luta verdadeiramente satânica, entre nós. Winnetou, que nunca fora vencido, parecia ter musculatura de ferro e tendões de aço. Houve uma ocasião em que eu poderia falar-lhe; uma palavra bastaria para esclarecer tudo. Mas, com a boca a jorrar sangue, em virtude do ferimento que recebera, não consegui pronunciar uma só palavra. Ele tudo fazia para dominar-me e eu apertava-lhe o corpo contra o solo, impedindo-lhe os movimentos. Tão fortemente lhe premia a garganta com as pontas dos dedos, que ele perdeu a respiração; eu não queria, de modo nenhum, sufocá-lo, por isso suspendi, por um momento, a pressão que fazia e deixei que respirasse; aproveitou a ocasião para levantar a cabeça; era-me favorável o movimento. Com um novo golpe, fiz que Winnetou perdesse os sentidos; eu vencera o invencível. Respirei profundamente, mas com precaução, a fim de evitar que o sangue, que jorrava da boca me afogasse, ía-me levantar, quando ouvi um brado colérico e recebi na cabeça uma coronhada, que me fêz perder os sentidos.
A VITÓRIA DOS “APACHES”
Quando recuperei os sentidos, era noite; estivera sempre desacordado. Tudo me parecia um pesadelo: tinha a impressão de ter caído nas calhas de um roda de moinho, que não se podia mover; a água, no entanto, com a mesma impetuosidade caía-me sobre o corpo, fazendo-me sofrer; dores horríveis me atormentavam, principalmente na cabeça e no ombro. Pouco a pouco, entretanto, fui percebendo que delirava; não era realidade, mas também não era sonho. Aquele ruído não era das águas; era fantasia; as dores que sentia não eram produzidas pela queda dágua, mas pelos golpes que recebera de Winnetou. O sangue corria-me da boca e ameaçava descer pela garganta, asfixiando-me. Um terrível estertor despertou-me completamente. Eu mesmo o produzira.
— Ele se movimenta! Graças a Deus, recuperou os sentidos — ouvi a voz de Sam que falava.
— Sim, é verdade! — disse Dick Stone.
— Veja, ele abre os olhos! Ele vive, vive! — acrescentou Will Parker.
Eu abrira, realmente, os olhos. O que vi não era consolador: encontrávamo-nos, ainda, no lugar onde se desenrolara a luta; ardiam vinte fogueiras e entre elas caminhavam uns quinhentos apaches, muitos dos quais estavam feridos. Um considerável número de mortos, apaches e kiowas, jaziam no solo. Em torno achavam-se os prisioneiros kiowas, fortemente amarrados; entre eles, Tangua, o cacique. Não vi o engenheiro-chefe e os três agrimensores, porque haviam morrido logo depois de feridos; pereceram vítimas de sua imprudência. Não muito distante de nós, estava um homem recurvado em círculo, prostrado no solo, como os que, na inquisição, eram torturados no cavalete espanhol. Era Rattler. Os apaches assim o martirizavam. É verdade que aquele homem fizera, de certo modo, jus ao castigo; mas nem por isso, seus sofrimentos atrozes deixavam de nos provocar compaixão. Seus companheiros haviam tombado na luta, logo no início; a ele, porém, pouparam a vida, porque, como assassino de Klekih-pêtra, estava condenado a morrer lentamente, supliciado no poste do martírio.
Também eu tinha as mãos e os pés amarrados, o mesmo se dando com Parker e Stone, que se achavam à minha esquerda; à direita estava sentado Sam Hawkens. Tinha os pés presos por cordas e a mão direita estava amarrada às costas; deixavam livre a esquerda, para que, conforme soube mais tarde, me pudesse prestar algum auxílio.
— Graças aos céus! Recuperou os sentidos, sir! — disse-me ele depois de acariciar-me o rosto com a mão, que tinha livre. Como foi que o derrubaram?
Quis responder-lhe, mas não pude, pois tinha a boca cheia de sangue.
— Ponha fora o sangue, — disse-me ele.
Cuspi fora o sangue mas, apesar disso, apenas consegui balbuciar algumas palavras ininteligíveis, porque a boca se me encheu novamente. Com tão grande perda de sangue sentia-me esgotado. Só pude responder-lhe balbuciando as palavras, em longos intervalos, de modo que Sam mal compreendeu.
Respondi-lhe:
— Lutei com Intschu-tschuna... Winnetou socorreu... Punhalada língua... Coronhada cabeça... de... não sei.
As palavras que deveriam completar as frases afogaram-se no sangue.
— Com todos os diabos! Quem esperava por esse desfecho? Entregar-nos-íamos com prazer, mas os apaches não nos quiseram ouvir. Por isso, embrenhamo-nos nas moitas à espera de que eles se acalmassem um pouco; julgamos que houvesse tomado o mesmo caminho e em vão o procuramos. Como não o encontrássemos, encaminhei-me para a orla das moitas. Vi então um grupo de mescaleros num berreiro infernal, rodeando Winnetou e Intschu-tschuna, que pareciam mortos, mas que logo se restabeleceram. O senhor também jazia ali como morto. Levei tamanho susto, que fui buscar Dick Stone e Will Parker e corremos até lá, a fim de verificar se ainda estava com vida. Como era de esperar, fomos imediatamente presos. Em vão fiz ver a Intschu-tschuna que éramos amigos e que nós mesmos ontem planejáramos a sua libertação. Ria sardônicamente às minhas palavras, e se ainda tenho livre este braço, agradeço-o a Winnetou. Foi também quem lhe fez curativos, passando-lhe a atadura ao pescoço; se não fora isso, não recuperaria os sentidos e morria esvaindo-se em sangue. Foi muito profundo o ferimento?
— Atra-ves-sou a... lín... gua — balbuciei.
— É perigoso. Poderá vir-lhe uma febre. Desejaria estar em seu lugar, pois um homem afeito a todas as agruras da vida, como eu, resistiria com mais facilidade, do que um greenhorn que, suponho, nunca viu sangue jorrar de uma ferida. Não recebeu outros ferimentos?
— Coronhada... cabeça... ombro... — respondi-lhe.
— Oh! julguei que fosse apenas a facada. Deve doer-lhe muito a cabeça; mas a dor aliviará; o principal será que não lhe tenham tirado o pouco de juízo que ainda restava... O único perigo está no ferimento da língua. Eu vou...
Mais não ouvi, porque desfaleci.
EM LUTA COM A MORTE
Recuperei os sentidos e vi que não estava no mesmo lugar; senti o pisotear de muitos cavalos, e abri os olhos. Achava-me — imaginem! — deitado na pele do urso cinzento que abatera. Com ela haviam preparado uma espécie de rede, que dependuraram entre dois cavalos e dessa forma eu era conduzido. Estava de tal modo enterrado na pele, que só podia ver a cabeça dos animais e o céu. O sol estava abrasador e, banhando-me o corpo, castigava-me horrivelmente.
— Água, água! — quis gritar, porque estava morto de sede. Não consegui, porém, pronunciar uma só sílaba ou um suspiro que fosse ouvido. Julguei haver soado a minha hora derradeira e, como todo moribundo, quis concentrar os meus pensamentos em Deus e na vida eterna; desmaiara outra vez.
Daí por diante, em delírio, me via lutando com índios, búfalos e ursos; fazia expedições a estepes ressequidas e nadava, durante meses, em lagos sem margens... era uma febre violenta; lutava com a morte. Ouvia, ao longe, bem ao longe, a voz de Sam Hawkens; via uns olhos aveludados diante de mim; eram os de Winnetou! Depois sentia-me morrer; colocaram-me no ataúde e me enterraram; ouvia distintamente o ruído da terra que caía sobre o meu esquife; fiquei, depois, durante uma eternidade, sob a terra, até que, um dia, levantou-se a tampa do caixão e este desapareceu. Via o céu límpido; os quatro cantos da sepultura submergiram. Seria isso realidade? Passei a mão pela testa e...
— Aleluia! Aleluia! Ressuscitou; recuperou a vida! — exclamou Sam, jubiloso.
Voltei a cabeça.
— Viram como passou a mão pela testa, voltando-se?! — bradava o homenzinho.
Curvou-se sobre mim. Vi distintamente, por entre as barbas espessas, que tinha uma expressão de intensa alegria.
— Vê-me, sir, muito prezado sir? — perguntou-me. — Abriu os olhos e já fêz um movimento! Vive ainda. Está vendo-me?
Quis responder-lhe mas não pude; não só por causa da fraqueza em que me achava, como porque a língua me era pesada; sacudi a cabeça em sinal de assentimento.
— E ouve-me? — prosseguiu. Fiz um movimento afirmativo.
— Vejam-no, vejam-no!
Sua cabeça desapareceu e vi surgir em seu lugar as de Stone e Parker. Lágrimas de alegria rolavam pelas faces desses bons amigos. Queriam, também, falar-me, mas Sam os afastou, dizendo:
— Deixem-me; quero falar-lhe! eu, só eu!
Pegou-me das duas mãos e, levando-as aos lábios, perguntou:
— Tem fome e sede, sir? Conseguiria comer ou beber alguma coisa? Sacudi a cabeça negativamente, porque não me achava com disposição para tomar qualquer alimento ou qualquer líquido, devido ao abatimento que se apoderara de meu organismo.
— Não? Realmente, não? Santo Deus, será possível! Sabe há quanto tempo está aqui deitado?
Acenei negativamente com a cabeça.
— Três semanas! Imagine! Não sabe onde está, nem o que sucedeu depois de haver sido ferido! Sobreveio-lhe uma febre violenta e com ela o tétano. Os apaches quiseram enterrá-lo; implorei, pedi a Winnetou, que conseguiu de seu pai licença para, só depois que seu corpo começasse a se decompor, então enterrá-lo. Sejamos gratos ao filho do cacique! Irei buscá-lo!
Fechei os olhos e continuei inerte, numa doce paz de espírito, que desejaria conservar para toda a eternidade. Mas ouvi passos; alguém apalpou-me os braços e reconheci a voz de Winnetou.
— Sam Hawkens não se teria equivocado? “Mão de ferro” estaria realmente acordado?
— Sim, podemos afirmar, porque o vimos bem. Respondeu-nos às perguntas, sacudindo a cabeça.
— Operou-se, então, um grande milagre! Seria preferível que permanecesse no estado em que se achava! Por que foi chamado à vida para morrer novamente? Deverá perecer com seus companheiros!
— Entretanto, este é o melhor amigo dos apaches!
— Por duas vezes arrojou-me ao solo!
— Porque a isso foi forçado!
— Não é verdade!
— Sim. A primeira vez foi para salvar-lhe a vida. Se Winnetou reagisse seria morto pelos kiowas; a segunda vez agiu em defesa própria. Queríamos entregar-nos voluntariamente aos apaches, mas não nos foi possível, porque os seus guerreiros não nos atenderam.
— Isto diz Hawkens com o fito de salvá-lo.
— Não; diz a verdade!
— Seus lábios mentem. Tudo será em vão, só servirá para convencer que são inimigos ainda mais encarniçados que os kiowas. E porque não veio o pele-branca ao nosso encontro para nos avisar? Se fosse nosso amigo, nos teria prevenido de tudo; não seríamos, então, atacados e aprisionados.
— Mas sabíamos que os apaches queriam vingar a morte de Klekih-pêtra; e, se não o fizessem, levados por sentimento de gratidão, procurariam impedir que prosseguíssemos nos nossos trabalhos.
— São desculpas! Os brancos consideram Intschu-tschuna e Winnetou criaturas ainda mais tolas que as crianças?
— Absolutamente não! É pena que “Mão de ferro” tenha desmaiado novamente. Ele poderia confirmar o que digo.
— Mentiria também; os peles-brancas são embusteiros. Conheci apenas um que foi homem de bem, em cujo coração habitava a verdade; era Klekih-pêtra, cuja vida nos roubaram. Este “Mão de ferro”! Enganei-me com ele! Vi sua força e audácia e comecei a admirá-lo. Seu olhar era sincero e nobre e eu pensei poder tê-lo como amigo. Mas, afinal, não tardei em conhecer a dura realidade. Era ladrão de terras como os outros; nada fêz para evitar que fôssemos atraídos a uma cilada, e, por duas vezes, arrojou-me ao solo, maltratando-me. Não sei como o Grande Espírito pôde criar homem tão possante, com um coração tão falso!
Há pouco, quando Winnetou se aproximou de mim, quis vê-lo; estava, porém, exausto e o organismo não me obedeceu ao desejo. Agora, porém, que o ouvia, procurava reagir e abri os olhos; vi o jovem cacique a meu lado; ostentava um traje de linho e achava-se desarmado; trazia às mãos um livro, cujo título, em letras douradas, consegui ler: Hiawatha. Portanto esse índio, filho de um povo selvagem, sabia ler, era dotado de sentimentos artísticos e amava as coisas elevadas. Os versos de Longfelow nas mãos de um apache! Era coisa que nunca imaginara ver, nem em sonhos!
— Abriu de novo os olhos — exclamou Sam.
Winnetou voltou a contemplar-me, e perguntou depois:
— Conseguirá falar?
Sacudi a cabeça negativamente.
— Dói-lhe o corpo?
A mesma resposta.
— Seja sincero para comigo! Quando se desperta da morte, deve-se ser leal. É verdade que os quatro peles-brancas queriam salvar-nos?
Fiz dois sinais afirmativos.
Tratou-me então com desprezo e exclamou com profunda indignação:
— Mentira, mentira, mentira! Não respeita sua condição especial de moribundo! Se falasse a verdade, intercederia junto a meu pai para que não fosse morto; restaria-me a esperança de vê-lo um dia regenerado. Mas não é digno disso. Morrerá supliciado. Para que possa resistir e, assim, ter morte lenta, irá receber um tratamento especial, a fim de recuperar as forças e a saúde. No estado atual não resistirá e sucumbirá ao primeiro suplício, o que não constitui pena suficiente para seu crime.
Fechei os olhos, porque não me foi possível conservá-los abertos por mais tempo. Oh! se pudesse falar! Sam Hawkens, sempre falador, não fizera a defesa de que necessitávamos; fora fraca. Eu teria falado de outro modo. Como se adivinhasse esse meu pensamento, o nosso homenzinho se dirigiu a Winnetou:
— Mas já demos provas de que estivemos a seu lado; os guerreiros apaches iam ser entregues ao suplício e “Mão de ferro” salvou-os, batendo-se em duelo de morte com o “Faca-raio”. Arriscou a vida pelos seus guerreiros e, agora, querem matá-lo!
— Nenhuma prova apresentaram. Tudo não passa de história mal contada.
— Pergunte a Tangua, o cacique dos kiowas, que ainda está em suas mãos.
— Perguntei-lhe.
— Que disse?
— Que mentes. “Mão de ferro” não lutou com “Faca-raio”; este caiu morto na luta com os nossos guerreiros.
— O que ele disse é uma maldade sem nome! Tangua bem sabe que éramos amigos dos apaches e, para vingar-se, quer lançar-nos à ruína.
— Jurou-me perante o Grande Espírito, portanto, creio nele. Repito-lhe o que há pouco dizia a “Mão de ferro”: se me tivessem confessado sinceramente a verdade, poderiam contar com as minhas boas graças. Klekih-pêtra incutiu-me no coração o sentimento de paz e ternura. Não sou inclinado à vingança, e meu pai sempre atende ao que lhe peço. Eis por que não exigimos dos kiowas que nos paguem com sangue a dívida contraída; para ressarcir nossos danos, queremos apenas que nos entreguem cavalos e armas e tudo quanto nos levaram. As negociações não estão ainda terminadas; devemos chegar a um acordo, quanto ao preço do resgate, o que não tardará. Rattler é o assassino de Klekih-pêtra; vai morrer! Apesar de serem os senhores seus companheiros, poupa-los-íamos se fossem sinceros; não são, e por isso participarão do seu infortúnio.
Fora longo o discurso de Winnetou, que costumava falar pouco; é que o nosso destino estava mais em seu coração que em suas mãos.
— Mas, como pretende que nos declaremos seus inimigos, quando, na verdade, os estimamos.
— Silêncio! Estou certo que morrerá com a mentira nos lábios. Até agora os deixamos mais livres que os demais prisioneiros, para que pudessem prestar assistência a “Mão de ferro”. Mas vejo que não são merecedores desta generosidade e serei, daqui por diante, mais severo. O doente não precisa de auxílio. Sigam-me! Vou mostrar-lhes um lugar, donde não se poderão afastar!
— Isto é que não, Winnetou! — exclamou Sam. — É impossível separar-me de “Mão de ferro”!
— É possível, porque ordeno! Minha ordem deve ser cumprida!
— Mas suplicamos ao menos...
— Cale-se! — interrompeu o apache em tom severo. — Não admito que me contrariem. Querem acompanhar-me voluntariamente ou preferem que os mande amarrar e arrastar para lá!?
— Estamos sob o seu domínio e não nos resta senão obedecer. Quando nos será permitido ver “Mão de ferro”?
— No dia do martírio.
— Antes não?
— Não!
— Então, permita-nos que lhe digamos adeus!
Tomou das minhas mãos e senti-lhe o roçar das barbas no meu rosto; beijava-me. Parker e Stone fizeram o mesmo; depois, seguiram Winnetou e fiquei por algum tempo só, até que alguns apaches me transportaram para outro lugar, que não pude ver, pois não conseguia abrir os olhos. Adormeci.
Não posso ter idéia do tempo que durou o meu sono, sentia que fora profundo e prolongado. Quando acordei, não me foi difícil abrir os olhos; sentia-me melhor, muito melhor, movia a língua e podia levar a mão até a boca.
Surpreendido, vi que me achava no interior de um quarto, cujas paredes eram de pedra. A luz vinha-me por uma pequena abertura, e o meu leito ficava a um canto. Fizeram-me a cama com várias peles de ursos dispostas umas sobre as outras e cobriram-me com uma finíssima colcha indiana. Junto à porta achavam-se sentadas duas mulheres indígenas, uma era avançada em anos, outra jovem; prestavam-me seus serviços como enfermeiras e guardavam-me. A primeira tinha a fisionomia abatida, era cansada, e os trabalhos que lhe confiavam haviam-lhe alquebrado as forças. Assim era entre os índios: enquanto os homens guerreavam, as mulheres se encarregavam de todos os trabalhos, por pesados que fossem. A jovem era de beleza impressionante. Uma longa túnica azul cobria-lhe o corpo, ajustando-se ao pescoço; à cintura trazia um cinto de couro de cascavel; não ostentava jóias e seu único adorno era o lindíssimo cabelo, que lhe caía em trancas até os pés. Parecia-se com Winnetou, tanto nos cabelos como no aveludado dos olhos. As faces eram bem contornadas, e duas covinhas encantadoras poderiam causar inveja às damas elegantes dos salões europeus. Para não me despertar, ela falava em voz baixa com a anciã; quando sorria, uma fileira de dentes alvos aparecia entre os lábios rosados... Ela não teria mais de dezoito anos e eu estava quase certo de que era irmã de Winnetou.
As duas mulheres ocupavam-se em adornar com fios vermelhos um cinto de couro branco. Ergui-me sem grande esforço; sentia-me muito mais forte. Os meus movimentos chamaram a atenção da anciã, que exclamou admirada:
— Uff! Aguan inta-hinta!
Aguan inta-hinta queria dizer: Ele está melhor. A jovem, abandonando o trabalho, encaminhou-se para o meu leito.
— Despertou — disse-me ela num inglês fluente que me causou admiração. — Deseja alguma coisa?
Tentei responder-lhe, mas lembrei-me de que não podia falar. Sentindo-me, porém, mais forte, consegui com esforço dizer:
— Sim, te-nho... vários de-se-jos...
Como fiquei contente de poder falar! Parecia-me estranha a minha voz que soava agora abafada. Durante três semanas, não pudera pronunciar uma só sílaba.
— Fale baixo ou então por sinais — disse ela. — Nscho-tschi nota que sente dor ao falar.
— Nscho-tschi é seu nome? — perguntei-lhe.
— Sim.
— Pois agradeça a quem lhe deu tão lindo nome! Bem parece, na verdade, um lindo dia, um dia radiante de primavera, em que as flores começam a exalar perfumes.
É que Nscho-tschi quer dizer “lindo dia”. Ela corou e lembrou-me:
— Não me disse há pouco que tinha vários desejos?
— Sim; porém, diga-me antes se aqui está por minha causa.
— Sim; recebi ordens de lhe servir de enfermeira.
— De quem recebeu essa ordem?
— De Winnetou, meu irmão.
— Imaginei logo que era irmã dele; seus traços muito se assemelham aos do jovem e valente guerreiro.
— O branco quis matá-lo!
Essas palavras soavam meio afirmativas, meio interrogativas; ao pronunciá-las, dirigiu-me um olhar tão perscrutador, que parecia querer penetrar-me até o fundo do coração.
— Não.
— Mas ele acha que sim e considera-o seu inimigo. Não é verdade que arrojou duas vezes ao solo, aquele a quem, até então, ninguém subjugara!?
— Sim, uma vez para salvá-lo, outra para me defender. O jovem apache despertou-me simpatia desde que o vi pela primeira vez.
Seus olhos de novo me fitaram longamente:
— Winnetou não pensa que seja assim. Sente dores na boca?
— Agora não.
— Conseguirá engolir alguma coisa?
— Vou tentar. Tem permissão para me dar de beber?
— Sim; dar-lhe-ei água e lhe lavarei a boca.
Retirou-se acompanhada da outra mulher. Estive a pensar. Não podia compreender o que se passava. Winnetou considerava-me inimigo, mas designara, para minha enfermeira, sua própria irmã! Só mais tarde deveria desvendar aquele mistério!
Depois de algum tempo, voltaram as duas índias. A jovem trouxe-me água fresca numa bilha, como as que usavam na sua tribo. Ela mesma quis prestar-me esse serviço, pois achava que me seria difícil servir-me pelas próprias mãos. Bebi com dificuldade; sentia dores horríveis, mas tinha de saciar a sede que me devorava.
Como se senti bem! Nscho-tschi certamente o percebeu, pois disse:
— Fêz-lhe bem. Mais tarde trarei outra coisa. Quer lavar-se?
— Vou tentar.
— Experimente!
A velha trouxera um porongo com água; Nscho-tschi colocou-o ao lado do leito, alcançando-me um tecido, em forma de toalha. Tentei lavar-me, mas foi em vão; estava ainda muito debilitado. Então ela, umedecendo a toalha, começou a lavar-me as mãos e o rosto; assim tratava aquele a quem considerava inimigo mortal do seu irmão e de seu pai. Concluída a tarefa, perguntou-me, deixando aflorar aos lábios um sorriso:
— Como é magro! Foi sempre assim?
Magro, eu? Nem pensara nisso! Três semanas de febre violenta de que dificilmente me salvara! Acrescente-se a isso a completa impossibilidade de tomar alimentos! Passei a mão pelas faces e respondi:
— Nunca estive assim!
— Então contemple sua imagem no espelho desta água. Olhei e recuei admirado! Parecia um fantasma, uma caveira!
— Que milagre ainda viver! — exclamei.
— Sim; Winnetou é da mesma opinião. Resistiu admiràvelmente à viagem até aqui. O Grande Espírito concedeu-lhe um físico extraordinariamente forte, porque de outro modo não resistiria a uma viagem penosa de cinco dias.
— Cinco dias? Onde nos achamos?
— Em nosso povoado, no rio Pecos.
— Todos os guerreiros que aprisionaram foram trazidos para cá?
— Sim, todos.
— E os prisioneiros kiowas também se acham aqui?
— Também. Aliás já deviam estar mortos. Outra tribo, a estas horas, já os teria feito sucumbir no poste dos martírios. Mas Klekíh-pétra, o nosso bom mestre-escola, ensinou-nos a ser bondoso como o Grutulc Espírito manda. Por isso, poderão regressar incólumes ao seu povoado, pagando-nos o preço do resgate.
— E os meus três companheiros? Sabe onde estão?
— Estão amarrados num compartimento igual a este, porém, mais escuro.
— Como vão eles?
— Não sofrem privações; a todos que serão submetidos à morte pela tortura, é dispensado o melhor tratamento possível; assim tornam-se fortes e resistirão por mais tempo ao suplício, do contrário, o castigo não será completo.
— Com que então eles vão morrer?
— Sim.
— Eu também?
— Também!
No tom em que falava, não se percebia o menor sentimento de piedade. Seria essa formosa jovem tão cruel, que não lhe impressionasse a morte de um homem?
— Posso falar com eles?
— Não!
— Nem ao menos vê-los, embora de longe?
— Tampouco.
— Então, talvez possa mandar-lhes um recado.
— Também disto está proibido.
— Mas queria dizer-lhes apenas que me sinto melhor. Ela refletiu e respondeu:
— Vou interceder junto de meu irmão, para que seu pedido seja satisfeito.
— Winnetou virá ter comigo?
— Não.
— Mas preciso falar-lhe!
— Ele, porém, não quer!
— Mas o que tenho a dizer-lhe é de absoluta importância.
— Para quem?
— Para mim e meus companheiros.
— Não virá. Confie-me o recado, que lhe transmitirei.
— Não, muito obrigado! Bem lhe podia confiar tudo porque é digna disso, mas se ele é tão orgulhoso, que se sente diminuído em vir até aqui, não o serei menos; nada lhe mandarei dizer.
— Não o verá antes do dia da sua morte. Vamos retirar-nos. Se necessitar de qualquer coisa faça um sinal; será imediatamente atendido.
Dizendo isso, tirou do bolso um apito que me entregou; retirou-se, em seguida, acompanhada da anciã.
Em que aventura me achava envolvido! Estivera gravemente doente; faziam tudo para restabelecer-me, a fim de me fazerem morrer depois, lentamente supliciado. Aquele que me condenara a tal morte, designara sua própria irmã, para me assistir durante a enfermidade!
A palestra com a índia, dado o estado de enfraquecimento em que me achava, fatigara-me e depois que ela se retirou, adormeci.
Quando despertei, algumas horas mais tarde, tinha muita sede e fome. Chamei. A anciã atendeu-me imediatamente; com certeza estava muito perto; perguntou-me alguma coisa, que não compreendi; ouvi apenas as palavras ischa e ischtla, cujo significado ignorava; perguntava se eu desejava comer ou tomar alguma coisa. Por sinais, fiz-me compreender e ela se retirou. Pouco depois chegava a jovem Nscho-tschi que trazia uma terrina e uma colher. Ajoelhou-se junto ao leito, e deu-me o alimento, com toda a solicitude. Os índios, em geral, não usam esses utensílios, que foram introduzidos, entre os apaches, por Klekih-pétra.
A terrina continha uma sopa de carne, engrossada com farinha de milho. Os índios costumam socar esta farinha entre duas pedras. A farinha destinada ao consumo de Intschu-tschuna, porém, era moída num moinho de mão, especialmente construído por Klekih-pêtra; esse moinho constituiu, depois, um valioso objeto de museu.
Eu sofria então horrivelmente e a cada nova colherada de alimento, as dores aumentavam, mas era preciso aceitar alguma coisa para não morrer de fome. As lágrimas corriam-me pelas faces. Nscho-tschi notou e, depois de me dar a última colher de sopa, disse:
— Como está enfraquecido! Entretanto conserva o espírito forte; é um herói. Oh! quanto sinto que o senhor não tenha nascido apache em vez de pele-branca mentiroso e embusteiro!
— Não minto; não minto nunca; hei de prová-lo ainda.
— Quanto a mim, de bom grado acreditaria; mas só houve um pele-branca que falava a verdade; era Klekih-pêtra, a quem todos amávamos. Era um aleijado, porém, seu espírito e seu coração eram sadios e puros! Assassinaram-no sem que lhes tivesse ofendido, por isso, morrerão e serão com ele sepultados.
— Como, ainda não foi enterrado?
— Não.
— Mas é impossível que seu corpo se tenha conservado até agora!
— Jaz num ataúde bem fechado, onde não penetra o ar. Antes de morrer, o senhor o verá.
Depois dessa notícia “consoladora”, retirou-se. É horrível a um condenado ao suplício, ver diante de si, antes da morte, um cadáver! Entretanto, eu não podia crer na minha condenação. Ao contrário, tinha esperança de me salvar, possuía prova da nossa inocência: a madeixa do cabelo de Winnetou, que lhe cortara quando o libertei.
Mas — só agora me ocorria — estaria ainda de posse dessa prova? Não a teriam tirado de mim? Assustei-me ao pensar na madeixa; não me lembrara, até aqui, que os índios costumam despojar os prisioneiros de tudo que trazem consigo. Precisava, pois, examinar meus bolsos.
Ostentava ainda todo o meu vestuário. Três semanas com febre violenta e conservava a mesma roupa! Não se podem descrever situações como esta! Por certo os leitores invejarão o homem que tenha viajado por países tão distantes, sem pensar, talvez, que toda a medalha tem reverso e que são bem agudos os espinhos da roseira! Quantas cartas tenho recebido de leitores de minhas obras que, cheios de entusiasmo, participam-me que farão também suas viagens! Informam-se do orçamento, do armamento e equipagem necessárias para tais jornadas; muito poucos, porém, falam do conhecimento que devem possuir e das línguas que devem falar. A esses jovens ávidos de aventuras, respondo sempre com sinceridade, mostrando-lhes toda a série de sofrimentos que esperam o explorador das campinas do oeste.
Examinei, pois, os bolsos; apenas me haviam tirado as armas: lá estava a lata de sardinhas, com os meus desenhos e, entre eles, a madeixa de cabelo de Winnetou. Guardei novamente e adormeci tranqüilo. À noitinha, mal havia acordado, apareceu-me Nscho-tschi, que me trazia alimento e água fresca. Desta vez, tomei-o sem o seu auxílio e, durante a refeição, fiz-lhe várias perguntas, algumas das quais ela deixava sem resposta. Por certo recebera instruções que era obrigada a seguir. Havia muita coisa que eu não deveria saber! Perguntei-lhe, também, por que haviam poupado o que eu possuía, ao ser preso.
— Porque assim determinou meu irmão — respondeu.
— Sabe a causa dessa determinação?
— Não, porque não perguntei; tenho, porém, coisa melhor a dizer-lhe.
— O que é?
— Estive com os três peles-brancas que foram presos também.
— Nscho-tschi mesma? — perguntei satisfeito.
— Sim. Disse-lhes que estava melhor e que não tardaria a ficar bom. Sam pediu-me que lhe entregasse um objeto que fêz nestas três semanas de prisão.
— Que é?
— Winnetou permitiu-me que lhe entregasse. Ei-lo. É um homem arrojado e valente, matou o urso cinzento a punhaladas! Sam contou-me tudo.
Entregou-me um colar feito dos dentes e unhas do urso que eu matara; as pontas das duas orelhas serviram-lhe de ornamento.
— Como pôde ele fazer esse colar? — perguntei admirado. — Não lhe tiraram a faca?
— Sim. “Mão de ferro” foi o único que ficou de posse do que lhe pertencia, exceto as armas. Sam pediu a meu irmão a devolução das unhas e dentes do urso para fazer-lhe o colar; Winnetou não só satisfez o seu desejo, como forneceu-lhe todos instrumentos necessários ao seu trabalho.
Coloque-o ao pescoço, pois não terá muito tempo para orgulhar-se desse troféu.
— Porque breve vou morrer?
— Sim.
Tomou-me o colar das mãos e pôs-me ao pescoço. Daí por diante sempre o usei.
Respondi à formosa índia:
— Poderia ter trazido esta lembrança mais tarde; não havia pressa. Espero usá-la por muitos anos.
— Não se iluda! Vai viver pouco tempo.
— Não creio. Os guerreiros não me matarão!
— Como não?! Foi resolvido no Conselho dos Anciãos.
— Mas, estou certo, o Conselho tomará outra resolução, quando souber que sou inocente.
— Mas, se não acreditarem?
— Hão de acreditar, pois apresentarei provas.
— Apresente essas provas! Apresente! Como eu ficaria contente se soubesse que não é traidor e mentiroso! Diga-me que prova apresentará e comunicarei a Winnetou.
— Que venha até cá, se quiser vê-la.
— Não virá!
— Então não apresentarei prova alguma. Não costumo mendigar amizades, nem mandar emissários a quem pode vir ter comigo!
— Como guerreiro ele é orgulhoso! Com que prazer eu lhe traria o perdão de Winnetou! Desta maneira nada alcançará.
— Não preciso de perdão; nada lhe fiz. Quero pedir-lhe outro favor.
— Qual?
— Se, porventura puder falar de novo a Sam, diga-lhe que esteja tranqüilo; assim que me restabelecer, todos recuperaremos a liberdade.
— Não creia nisto! É uma esperança vã.
— Não é esperança, mas absoluta certeza. Mais tarde, verá que tenho razão.
O tom em que falei era de absoluta convicção, e ela, não ousando contrariar, retirou-se.
Minha prisão ficava, pois, às margens do rio Pecos; pela abertura do meu quarto, avistava o declive do rio, cujo vale deveria ser muito mais largo. Gostaria muito de ver a povoação onde me achava; não podia, porém, sair do leito e, mesmo que me restabelecesse, creio que não me seria permitido abandonar a prisão.
Quando a noite veio, a anciã voltou e sentou-se a um canto. Trouxe um lampeão, feito de um porongo, e que nos deu, durante toda a noite, uma luz escassa. Esta mulher estava encarregada dos serviços mais grosseiros, ao passo que Nscho-tschi, além de dedicada e solícita enfermeira, era a hospitalidade em pessoa.
Durante a noite dormi profundamente e, na manhã seguinte, achava-me mais forte que na véspera. Seis vezes trouxeram-me alimento e o cardápio era sempre o mesmo: sopa de carne engrossada com farinha de milho; é um prato nutritivo e, sobretudo, de fácil digestão; assim continuou até que, podendo engolir melhor, serviram-me carne.
Minha saúde melhorava dia a dia. Os músculos recuperavam novo vigor e os ferimentos apresentavam sensíveis melhoras. Nscho-tschi continuava a mesma: sempre amável e boa, mas na firme convicção de que a morte se aproximava de mim. Mais tarde, percebi que ela se compadecia da minha sorte. Fui injusto, pois, quando afirmei que aquela jovem era cruel. Perguntei-lhe se me era permitido abandonar, por instantes, a prisão. Respondeu-me negativamente, acrescentando que dia e noite dois guardas me vigiavam. Em atenção ao meu estado de saúde, não me haviam amarrado, disse ela; não tardariam, porém, a fazê-lo.
Essa declaração me tornou mais prudente. Fiava-me na madeixa de cabelo; mas essa prova bem poderia, também, falhar. Restava-me, ainda, a força física que devia ser exercitada, mas, de que modo?
Só me deitava sobre as peles de urso, quando dormia; o resto do tempo permanecia sentado, ou caminhava pela prisão. Pedi à filha do cacique que conseguisse uma pedra que me servisse de banco, pois não estava habituado a me sentar no solo. O meu desejo foi satisfeito por Winnetou, que mandou trazer para a minha prisão várias pedras de diferentes tamanhos e que me serviam de aparelho de ginástica, com os quais me exercitava. Em presença da minha enfermeira, mostrava-me débil; na realidade, porém, depois de quatorze dias, levantava facilmente a maior das pedras, quatro vezes consecutivas. Cada vez progredia mais, de modo que, transcorridas três semanas, senti que havia recuperado a força perdida.
Já me achava lá há seis semanas, e não ouvira falar dos kiowas; já teriam voltado à sua aldeia? Era um pesado encargo para os apaches alimentar durante tanto tempo duzentos homens! É verdade que os kiowas deviam pagar o seu resgate; e quanto mais durassem as negociações do acordo, tanto maior seria o seu preço.
NOVAMENTE NAS GARRAS DA MORTE
Foi por uma linda manhã de outono, radiante de sol! Nscho-tschi trouxe-me uma refeição matinal; sentou-se ao solo, junto de mim, em vez de retirar-se logo, como costumava fazer. Seus olhos tornavam-se cada vez mais ternos e tinham uma expressão de tristeza; observando-a, vi que lhe rolavam lágrimas pelas faces.
— A jovem chora? — perguntei-lhe — Por que se aflige assim?
— Pelo que hoje vai acontecer.
— Mas... quê?
— Os kiowas serão postos em liberdade. Seus cavalos chegaram ontem à noite, conduzindo o que era necessário para o resgate.
— E por que se aflige? Alegre-se antes.
— Não sabe o que diz e nem pressente o que lhe está reservado para hoje. A despedida dos kiowas será comemorada com a sua morte e a dos três companheiros no poste dos martírios.
Há muito esperava por este dia; no entanto, estremeci a essas palavras. Era chegado o momento decisivo; eram as minhas últimas horas! Que será feito de mim, hoje à noite, ao pôr do sol?
Tomei tranqüilamente a refeição; quando terminei, a formosa índia se ergueu e se retirou. Antes de chegar à abertura do compartimento, voltou até o meu leito e, com os olhos rasos de lágrimas, disse:
— Falo pela última vez! Adeus! Chama-se “Mão de ferro” e é um valente guerreiro. Seja, também, forte quando o supliciarem! Sua morte muito aflige a Nscho-tschi; mas ela se consolará se às maiores torturas, não lhe ouvir uma queixa! Proporcione-me essa alegria; morra como herói!!
Após essa súplica, apressou-se a sair. Acompanhei-a e estive a contemplá-la, quando o cano de uma espingarda tocou-me o peito. As sentinelas cumpriam o seu dever. Se avançasse mais um passo, seria morto ou ferido.
Na fuga não podia pensar, pois não conhecia o terreno que pisava; ser-me-ia fatal. Voltei, então para o quarto.
Que fazer? Aguardaria os acontecimentos e, no momento oportuno, apelaria para a prova da minha inocência, a madeixa de cabelo de Winnetou. Olhei ainda uma vez para o vale; seria loucura pretender fugir. Lera, é verdade, muitas descrições de aldeias indianas, porém ainda não vira nenhuma. Suas construções são dotadas de excelentes meios de defesa.
São feitas em geral com blocos de rochas e compõem-se de vários andares. Cada pavimento recua um trecho e é dotado de um avarandado. Seguindo essa ordem, o conjunto da construção forma uma pirâmide de degraus. Esses pavimentos, não são, como as construções dos povos civilizados, acessíveis por meio de escadas internas. Para atingir os diversos pavimentos, os índios se servem de escadas externas, que encostam à parede sempre que saem ou entram em suas residências. À aproximação de inimigos, essas escadas são recolhidas, de forma que os mesmos não podem atingir o edifício piramidal, a não ser que conduzam escadas consigo; mas mesmo assim, o ataque careceria de eficiência, devido à reação dos índios dos demais andares, os quais, postados nos respectivos avarandados, estão em posição vantajosa para rechaçar o inimigo.
Num dos pavimentos de uma dessas pirâmides achava-me preso. De repente, ouvi passos. Winnetou chegava em companhia de cinco apaches. Dirigiu-me um olhar perscrutador e disse:
— Queira “Mão de ferro” informar-me se já está restabelecido.
— Não, ainda não estou.
— Mas, pode falar?
— Sim.
— E caminhar também?
— Creio que sim.
— Sabe nadar?
— Um pouco.
— Ainda bem. Sabe em que dia deveria ver-me?
— No dia da minha morte.
— Acertou. Pois é chegado este dia. Levante-se; vai ser amarrado.
Seria tolice resistir. Eram seis apaches que facilmente me dominariam. Poderia, é verdade, lutar e vencer alguns deles, mas isso complicaria mais a minha situação. Levantei-me, pois, e estendi-lhes as duas mãos. Amarraram-nas e depois passaram-me as cordas pelos pés, de modo que me era possível andar devagar e, mesmo, subir, porém, não poderia correr. Em seguida, conduziram-me para a plataforma. Aí havia uma escada que levava ao próximo andar. Não se tratava de uma escada comum; era um poste de madeira com profundos entalhes, que serviam de degraus; três dos vermelhos desceram por ela; acompanhei-os, o que não me foi difícil, não obstante as cordas que me prendiam; os demais apaches seguiram-me e, continuando nesta ordem, fomos sempre descendo, andar por andar. Em todos os avarandados, víamos mulheres e crianças, que nos olhavam com curiosidade, mas silenciosas e, depois, nos seguiam; quando atingimos o andar térreo e saímos para a rua, estávamos em companhia de centenas delas, que constituíam o público que havia de presenciar o drama da nossa execução.
Como previra, a povoação dos apaches achava-se situada num vale lateral que terminava no rio Pecos. Este não é, em absoluto, um rio caudaloso; no verão e no outono ele é mais raso do que no inverno e na primavera; contudo, há regiões profundas, onde, nem em épocas de calor, as águas diminuem; em suas margens abundam bons gramados, que são preferidos pelos índios, para seus povoados, devido à excelente pastagem. O vale do rio ficava a uma distância de meia hora; para lá nos encaminhamos; um velho cedro que crescera na margem oposta do rio ia desempenhar papel saliente nesse dia.
Era grande o movimento de índios na praia; ali se achava a nossa carroça que fora apreendida pelos apaches. Mais adiante, pastava a cavalhada trazida pelos kiowas, que constituía o resgate de seus prisioneiros, juntamente com barracas e armamento que estavam sendo descarregados. No meio de tudo, movimentava-se Intschu-tschuna com a sua gente; encarregavam-se da avaliação. Junto dele vi Tangua que, com os seus guerreiros, já fora posto em liberdade. Havia na praia, uns seiscentos índios que ostentavam vestes vermelhas.
Quando nos viram chegar, formaram um semicírculo ao redor da carroça, para onde fui conduzido. Os kiowas estavam entre os apaches, Havia quatro postes erguidos onde vi amarrados os meus três companheiros; pouco depois fui também preso a um deles. Havia lenha pelo chão o que era indício de que, depois de passarmos por uma série de torturas, seríamos queimados vivos.
Pelo que vi, meus companheiros não haviam passado mal na prisão; estavam bem nutridos e mostravam-se tranqüilos.
— Oh! Tocou também a sua vez, sir! É uma operação bem simples que nos vão fazer, mas a que não resistiremos; não há organismo que suporte uma intervenção cirúrgica nestes postes; e, além de tudo, seremos queimados. Que me diz de tudo isso, sir?
— Tem esperança de salvação, Sam? — perguntei-lhe.
— Não sei quem nos poderia livrar. Durante três semanas, procurei uma idéia salvadora, mas não a encontrei. Estivemos presos num cubículo escuro, bem amarrados e vigiados por diversos guardas. Como conseguiríamos fugir? Que tal o trataram?
— Muito bem.
— Creio. Vê-se pela fisionomia; engordaram-no como a um ganso para batizado! Como vai do ferimento?
— Regularmente. Como está ouvindo, já posso falar, e sinto-me bem.
— Acredito. Hoje será curado radicalmente! Daqui a horas não sofrerá mais; nada restará do senhor! Tudo será reduzido a um montezinho de cinzas. Estamos, parece, irremediavelmente perdidos; no entanto, tenho um pressentimento de que não vamos morrer. Creia-me, não estou amedrontado e tampouco preocupado com a sorte. Tenho a impressão de que à ultima hora nos aparecerá um salvador.
— É possível. Também eu ainda não perdi as esperanças! Seria até capaz de apostar que hoje à noite, depois deste dia de perigos, nós nos vamos sentir muito bem.
— Isto só mesmo de seus lábios, de refinado greenhorn! Sentir-se muito bem! Tolice! Darei graças a Deus, se viver até lá, embora não me sentindo muito bem!
— Já lhe tenho dito e muitas vezes provado que os greenhorns alemães não são tolos como os daqui.
— Como? Que pretende dizer com isto? Fala de um modo muito original! Surgiu-lhe alguma boa idéia?
— Sim. Lembrei-me de uma coisa.
— De que?
— Lembrei-me daquela noite em que Winnetou e seu pai conseguiram fugir.
— E por causa disso, surgiu-lhe uma idéia? É tarde. Não adivinháramos, então, que iríamos passar uma temporada com os apaches, comodamente instalados em luxuosos aposentos. Que idéia lhe veio, pensando naquela noite?
— A idéia de uma madeixa de cabelo...
— Madeixa de cabelo! — exclamou surpreendido. — Não está com o juízo perfeito!
— Creio que estou em pleno juízo.
— Mas por que fala em madeixas de cabelo? Recebeu de sua namorada, e agora quer presenteá-la aos apaches?
— Nada disso! A madeixa que possuo é de um homem!
Olhou-me como que duvidando do meu equilíbrio mental:
— Ouça, caro sir, não está bom da cabeça. Tem a madeixa no cérebro e não no bolso; não posso atinar como poderíamos ser libertados destes postes, por uns fios de cabelo!
— Hum! Trata-se da idéia de um greenhorn e nada mais nos resta que esperarmos para ver-lhe o efeito; entretanto estou amarrado e aqui não permanecerei.
— Creio! Amarrado não, mas, reduzido a cinzas!
— Livrar-me-ei, antes de iniciarem as torturas.
— De que forma?
— Vão obrigar-me a nadar.
— A nadar? — perguntou olhando-me como um médico psicopata olha para um cliente!
— Sim, e isto não posso fazer amarrado; ter-me-ão de soltar.
— Quem lhe disse que iria nadar?
— Winnetou.
— E quando começará esse trabalho?
— Agora.
— Se ele assim disse, é como se raios solares nos iluminassem através de nuvens densas. Será para lutar pela sua vida?
— É o que penso.
— Então o mesmo se dará conosco; não creio que procedam de modo diferente em relação a nós; sendo assim, a nossa situação não é tão desesperadora como eu supunha.
— Sou da mesma opinião. Talvez seja possível salvar-nos.
— Oh! Não seja tão otimista! Se nos obrigarem a lutar pela vida, é claro que dificultarão o mais possível a nossa tarefa. Mas houve casos semelhantes em que o prisioneiro conseguiu safar-se. O senhor aprendeu natação?
— Sim.
— Sabe nadar bem?
— Tão bem, que penso não precisar temer nenhum pele-vermelha.
— Não seja pretensioso! Estes índios nadam admiravelmente; melhor que um peixe!
— E eu melhor que lontra, que pega os peixes e os devora!...
— Exagera!
— Não. A natação foi sempre o meu esporte predileto. Se, realmente, os apaches me oferecem essa oportunidade, estou convencido de que ainda desta vez o meu espírito não voará para a eternidade.
— Assim o desejo, sir! E é de esperar que também a nós se apresente uma oportunidade dessas, mesmo que pereçamos na luta, pois é preferível morrer assim, do que ser martirizado neste poste.
Não fôramos impedidos de falar.
Winnetou, sem nos prestar grande atenção, se achava a poucos passos distante; a seu lado, palestravam Intschu-tschuna e Tangua; os apaches que me haviam escoltado, organizavam um círculo em torno de nós.
No meio deles, achavam-se sentadas as crianças e por trás destas, as mulheres e donzelas, entre as quais vi Nscho-tschi que, raramente, desviava os olhos de mim; em seguida, estavam formados os adolescentes, por trás dos quais os guerreiros amadurecidos serviam de cerra-filas. Intschu-tschuna, que se achava, junto com Winnetou e Tangua, num espaço amplo entre nós e os espectadores, tomou a palavra:
— Meus irmãos, irmãs e filhos de peles-vermelhas, e também os homens da tribo dos kiowas, queiram ouvir o que lhes vou dizer!
Fêz uma pausa e, quando notou que a atenção de todos voltava-se para ele, continuou:
— Os peles-brancas são os mais ferozes inimigos dos povos vermelhos! Raramente um deles nos lança o olhar de amigo. O mais nobre dentre esses brancos veio para o seio dos apaches, para deles se tornar verdadeiro pai; por isso, demos-lhe o nome de Klekih-pêtra — pai de pele-branca. Meus irmãos e irmãs conheceram seu grande caráter e por ele tinham veneração. Queiram, pois, confirmar o que digo!
— Howgh! — exclamaram os índios a uma voz. O cacique prosseguiu:
— Klekih-pêtra nos ensinou muita coisa que não conhecíamos, que nos era útil; falou-nos, também, da religião dos brancos e do Grande Espírito que é o Criador de todos os homens; esse Grande Espírito ordenou que brancos e vermelhos fossem bons amigos, porque são irmãos! Mas acaso os brancos seguiram esses sublimes preceitos ditados pelo grande Espírito? Não! E os meus irmãos que confirmem!
— Howgh! — exclamaram todos em coro.
— Eles vieram até nós para nos roubarem as propriedades e nos desbaratarem. Conseguiram-no, porque são mais numerosos. Lá onde outrora pastavam os búfalos e os poldros, construíram grandes cidades, que são o centro irradiador da nossa ruína. As savanas e os sertões, onde, feliz, perambulava o caçador vermelho, foram cortados por caminhos, onde passam os “cavalos de fogo”, que conduzem até nós os inimigos. E quando o pele-vermelha, fugindo-lhe à sanha, procura abrigar-se no território apertado que lhe deixaram, e onde pensa morrer tranqüilamente, eis que surgem os brancos, a lançarem, nestas nesgas, novos marcos para a passagem do “cavalo de fogo”. Encontramos uma dessas turmas e com eles procuramos um entendimento amistoso. Fizemos ver que essa região não lhes pertencia, e que era nossa propriedade. Não conseguiram vencer nosso argumento, antes o aceitaram como justo, mas, quando os convidamos a abandonarem nossas propriedades, desistindo de atravessar as nossas pastagens, não nos atenderam e mataram Klekih-pêtra, a quem todos amávamos e respeitávamos! Queiram os meus irmãos e irmãs confirmarem esta verdade!
— Howgh! — ecoou em toda a praia.
— Transportamos para aqui o corpo de nosso mestre e o guardamos, para sepultá-lo no dia da vingança; este dia começou no alvorecer de hoje. Klekih-pêtra vai ser enterrado e com ele o seu assassino. Junto prendemos aqueles que se achavam em sua companhia no momento do crime. São seus amigos e companheiros e nos lançaram nas mãos dos kiowas; agora, procuram negar esse fato! Entre outras tribos, o que apuramos contra eles seria o suficiente para submetê-los à morte do poste dos martírios; desejamos, porém, seguir os ensinamentos de Klekih-pêtra e sermos juízes íntegros. Já que negam haverem agido como nossos inimigos, resolvemos inquiri-los e fazer a revisão do processo; seu destino será ditado de acordo com o que apurarmos. Queiram meus irmãos e irmãs expressar a sua solidariedade!
— Howgh! — exclamaram os apaches.
— Ouça, sir, isto nos é de grande vantagem — disse-me Sam. — Se se dispõem a nos inquirir, poderemos salvar-nos. Ser-nos-á, então, possível provar-lhe a inocência. Esclarecerei tudo e os convencerei de tal modo, que nos restituirão a liberdade.
— Sam, nada conseguirá — respondi-lhe.
— Não? Por quê? Julga, porventura, que não sei falar?
— Não, não é isso. Desde pequeno deve ter sido um palrador; mas estamos presos, há seis semanas e, até hoje, nada obteve em nosso favor e não conseguiu que os apaches mudassem de opinião a nosso respeito.
— Tampouco o senhor!
— Realmente, Sam! Primeiro estive no leito de morte e não consegui falar; quando recuperei a fala e a saúde, não me apareceu um só dos guerreiros peles-vermelhas. Deve convir que nunca consentiram que eu falasse a um dos caciques, para apresentar-lhes defesa.
— E o seu êxito será agora o mesmo.
— Por que?
— Porque nada obterá deles. É um greenhorn e não possui habilidade para intervir em assunto tão delicado; longe de melhorar-nos a situação, mais a complicará. O que lhe resta é a formidável força física; porém, de nada nos adiantará, pois aqui só nos pode salvar a astúcia e a inteligência prática, qualidades que não possui e não tem culpa disso; nasceu sem esses requisitos e sem eles há de morrer. Seja sensato, recolha-se à sua miserável insignificância e deixe-me agir! Saberei fazer a nossa defesa.
— Desejo-lhe, então, muitas felicidades e espero que obtenha melhor êxito do que até agora, meu caro Sam!
— Não se incomode! Saberei agir na altura do meu bom nome e de minhas tradições de velho homem do oeste bravio!
Essa troca de palavras fora imperceptível para os nossos algozes; Intschu-tschuna e Winnetou palestravam cordialmente com Tangua, mas tinham o olhar fixo em nós. Falavam, pois, a nosso respeito. Os olhares dos dois apaches tornavam-se cada vez mais sombrios e os gestos do cacique dos kiowas provocavam-nos suspeitas. Sabe Deus quanta mentira não dizia, com o fito de nos arrastar à morte! Os caciques dos apaches colocaram-se à direita, em nossa frente, e Tangua postou-se ao meu lado. Dirigindo-se a nós, falou novamente Instchu-tschuna, em voz alta, para ser ouvido por todos:
— Compreenderam o que disse há pouco? Vou lhes proporcionar ensejo de dizerem a verdade e apresentarem sua defesa. Respondam às perguntas que lhes vou fazer:
— Pertencem aos peles-brancas, que demarcavam o caminho para o “cavalo de fogo”?
— Sim; devo acrescentar que nós os três não tomamos parte nas medições; éramos apenas encarregados de zelar pela segurança dos agrimensores, durante os trabalhos — respondeu Sam. E quanto a este companheiro, que se chama “Mão de ferro”...
— Cale-se! — interrompeu-lhe o cacique. — Responda-me às perguntas que lhe faço e nada mais! Se falar mais do que deve, mandar-lhe-ei chibatar, até que o sangue lhe corra pelo corpo! Portanto, fazia parte do grupo de peles-brancas! Dê-me uma resposta breve: “sim” ou “não”!
— Sim — respondeu Sam, para não ser castigado.
— “Mão de ferro” tomou parte nas medições?
— Sim.
— E os três zelaram pela segurança de semelhante gente?
— Sim.
— Por conseguinte, mais grave se torna a situação. Aquele que defende um ladrão é duplamente criminoso. Rattler, o bandido, era seu companheiro?
— Sim; mas, nunca o consideramos como amigo, pois...
— Cale-se! — disse Intschu-tschuna. Tem o direito de responder apenas àquilo que lhe pergunto. Conhece as leis do oeste?
— Sim.
— Qual a pena aplicada ao ladrão de cavalos?
— A morte.
— Que tem mais valor, um cavalo ou estas vastas terras, que nos pertencem?
Sam não respondeu, pois se o fizesse ditaria sua própria sentença de morte.
— Responda-me, ou mandarei chibatá-lo. Sam resmungou:
— Pois mande! Sam Hawkens não admite que o façam falar debaixo de ameaças.
— Fale, Sam; é melhor para nós.
— Bem — respondeu-me. — Já que quer, falarei; mas preferia calar diante daquela pergunta...
— Vamos! Que tem mais valor um cavalo ou estas terras?
— As terras.
— Portanto, mais merece a pena de morte o que rouba terras que o que rouba cavalos. Existe ainda a agravante de serem companheiros do assassino de Klekih-pêtra. Como ladrões de terras, a pena seria de serem mortos a tiros, sem serem supliciados, mas, como são amigos desse assassino, morrerão no poste dos martírios! Contudo, o processo não esta concluído. Lançaram-nos nas mãos dos kiowas, que eram nossos inimigos mortais?
— Não.
— É mentira!
— É verdade!
— Mas como? Não seguiu com “Mão de ferro” a nossa pista, depois que deixamos seu acampamento?
— Sim.
— Pois então! Eis a prova de que eram nossos inimigos!
— Não. Ameaçavam-nos e, segundo as regras do oeste, devíamos seguir-lhes a pista, a fim de verificar se haviam ido embora ou não. Podíamos admitir que Intschu-tschuna e Winnetou se tivessem ocultado para, depois, atirar contra nós. Só por isto seguimos suas pegadas.
— Por que não foi sozinho? Havia necessidade de levar consigo este “Mão de ferro”?
— Para ensiná-lo a ler pegadas, pois é novato no oeste.
— Mas, se a sua intenção era pacífica, e se só nos seguiram como medida de precaução, qual o motivo por que apelou para o auxílio dos kiowas?
— Porque pensamos que voltariam com os seus guerreiros para nos atacarem.
— E mesmo que assim fosse, teriam necessidade desse auxílio?
— Sim
— Não havia outros meios de defesa?
— Não.
— Mentes, novamente. Para escapar ao nosso ataque, bastaria que obedecessem à minha ordem: abandonar as terras que não lhes pertenciam. E por que não o fizeram?
— Porque não nos era possível a retirada, antes de concluir a medição.
— Então pretendiam consumar o roubo e, para não serem interrompidos, apelaram para os kiowas! Todo aquele que provoca o inimigo contra nós é também nosso inimigo e terá de morrer. É mais um motivo para perecerem no poste dos suplícios. Demais, não só conduziram os kiowas contra nós, como os auxiliaram a combater-nos. Não foi assim?
— O que fizemos, foi apenas para evitar derramamento de sangue!
— É ridículo o que diz! Não veio, então, ao nosso encontro para nos observar, quando nos dirigíamos ao acampamento dos peles-brancas?
— Perfeitamente!
— E conseguiu espreitar-nos?
— Sim.
— E esteve uma noite oculto perto de nós a ouvir o que deliberávamos?
— É verdade.
— Não conduziu os peles-brancas até aquele arroio, a fim de nos atrair a uma cilada? Não fêz os kiowas se internarem no mato, para depois nos atacarem?
— É verdade, mas a isso fui obrigado porque...
— Cale-se. Quero respostas breves e não desejo ouvir discurso. Não nos foi armada uma emboscada? Quem a idealizou?
— Eu.
— Afinal, falou a verdade. Muitos de nós fomos feridos, outros mortos e os demais aprisionados. De tudo são os brancos os culpados. Todo sangue derramado está bradando por vingança e isto constitui motivo suficiente para que sejam mortos!
— Mas fazia parte do meu plano que...
— Cale-se! Não perguntei agora coisa alguma. O Grande Espírito enviou-nos um salvador invisível que cortou as cordas que prendiam a mim e a Winnetou. Corremos, então, para o local onde deixáramos nossos cavalos e lançando mão apenas dos que necessitávamos, galopamos em busca dos guerreiros que expedíramos contra os kiowas; eles haviam descoberto a pista do inimigo e andavam já no seu encalço, razão por que no dia seguinte estávamos de volta e empreendíamos o ataque. Sofremos muitas perdas; contamos, ao todo, dezesseis mortos, além de muitos feridos. Tudo por culpa sua, e por isso terão de morrer. Não são dignos de compaixão.
— Queremos justiça e não compaixão — interrompeu Sam. — Posso provar-lhe que...
— Afinal, quer ou não calar-se? — exclamou Intschu-tschuna colérico. — Só pode falar, quando o interrogo. Já terminei o meu interrogatório, no entanto, como está aí a tagarelar sobre justiça, não condenarei baseado somente no seu próprio depoimento; vou acarear uma testemunha ocular de todos os acontecimentos. Tem a palavra Tangua, o cacique dos kiowas! São estes peles-brancas nossos amigos?
— Não — respondeu o velho kiowa.
— Pretenderam poupar-nos?
— Não; ao contrário, tudo fizeram para mais irritar-me contra os apaches, pediram-me, até, que não tivéssemos piedade e que matássemos todos!
Essa inverdade indignou-me de tal modo, que fui obrigado a quebrar o mutismo em que até ali me conservara. Disse-lhe, de cabeça erguida, e face a face:
— O que está a dizer é uma infâmia tal, que se eu tivesse uma só mão livre, obrigá-lo-ia a calar.
— Infame! — urrou ele. — Quer que lhe bata? — perguntou, levantando a mão.
— Bata-me se tem coragem de agredir um homem impossibilitado de reagir! E, dirigindo-me a Intschu-tschuna: — E fala em interrogatórios e justiça, quando a um acusado não lhe dá a liberdade de dizer o que entende em sua defesa? Se respondermos uma só palavra mais do que pretende ouvir, seremos castigados. Intschu-tsdvna procede como julgador mau, bárbaro e injusto! Organizou o interrogatório de tal modo que das respostas, sejam quais forem, resultará a nossa condenação, a nossa ruína! Aquilo que nos poderia salvar, não nos é permitido dizer. Somos coagidos e não podemos dizer a verdade, porque Intschu-tscliuna nos amença de maus tratos. Dispensamos tais interrogatórios e abjuramos tal justiça. Iniciem, pois, os suplícios e deixem de falsidade! Não ouvirão um só gemido. Sabemo-nos tão fortes como os apaches ou mais ainda. É sublime morrer condenado por uma justiça odiosa e falsa!
— Uff, uff! — ouviu-se na fileira das moças. Era a irmã de Winnetou.
— Uff, uff! — imitaram muitos apaches!
A coragem é um atributo que os índios tem em grande consideração, e reconhecem em seus próprios inimigos. Daí o brado de admiração que se ouviu entre a assistência.
Prossegui:
— Quando vi Intschu-tschuna e Winnetou, pela primeira vez, disse-me o coração que eram homens valentes e justiceiros, a quem eu devia amar e respeitar! Enganei-me, porém, pois são bem diferentes do que julguei. Dão ouvidos às palavras dum mentiroso, e não permitem que a verdade clara se faça ouvir. Sam Hawkens deixou-se intimidar; eu, porém, não temo as ameaças e escarneço dos homens que oprimem os vencidos, quando, amarrados ao poste do suplício, não se podem defender. Estivesse em liberdade e falaria agora em tom muito diferente. Covardes!
— Insulta-me! Chama-me mentiroso! — bradou Tangua. — Parto-lhe os ossos!
Pegou de sua arma e virou-a para desferir-me uma coronhada. Winnetou, de um salto, impediu que me agredisse:
— O cacique dos kiowas que se acalme! Este “Mão de ferro” falou, na verdade, com muita audácia; concordo, porém, em algumas de suas asserções. Peço a Intschu-tschuna, o cacique de todos os apaches, permissão para que este jovem diga o que julgar de interesse para sua defesa!
Tangua acalmou-se e Intschu-tschuna se dispôs a satisfazer o pedido do filho. Aproximou-se de mim:
— “Mão de ferro” se assemelha a uma ave de rapina; belisca mesmo depois de presa. Não derrubou Winnetou por duas vezes? Não me fêz desmaiar arrojando-me ao solo?
— Porventura agi voluntariamente? Quem me obrigou a agir dessa forma?
— Eu? — perguntou admirado.
— Sim; estávamos resolvidos a nos entregar sem resistência; mas os guerreiros apaches não deram ouvidos às nossas palavras. Assaltaram-nos com violência, obrigando-nos a reagir. Não vê que apenas ferimos os guerreiros, quando nos seria fácil matá-los? Chegamos, mesmo, a fugir, com o intuito único de não feri-los em maior número. Nesta ocasião veio Intschu-tschuna ao meu encontro e me agrediu sem atender às minhas palavras. Tive de me defender e poderia tê-lo morto a tiro ou a punhaladas; limitei-me, porém, a deixá-lo sem sentidos, porque era seu amigo e queria poupar-lhe a vida; em seguida chegou Tangua, o cacique dos kiowas, e tentou cortar-lhe o escalpo; para impedi-lo, lutei, vencendo-o. Por conseguinte não lhe salvei a vida só, mas também o escalpo. Depois, quando...
— Ele está mentindo — bradou Tangua, furioso.
— Mas é isto mentira? — perguntou Winnetou.
— Claro! Então meu irmão Winnetou duvida da minha palavra?
— Cheguei na ocasião. O cacique dos kiowas jazia no solo sem sentidos e meu pai também; portanto, não está mentindo. Queira “Mão de ferro” prosseguir!
— Assim, venci Tangua para salvar Intschu-tschuna; foi então que chegou Winnetou. Não o vi, mas dele recebi um golpe que me atingiu a boca cortando-me a língua. Desde então não pude mais, pronunciar uma só palavra; se pudesse, dir-lhe-ia que o apreciava muito e que desejava ser seu irmão e amigo. Além desse ferimento, tinha um braço paralizado; porém, mesmo assim, o venci; caiu desmaiado por terra, nas mesmas condições de seu pai. Se quisesse, teria morto os dois, mas não o fiz.
— Não o conseguiu, — respondeu Intschu-tschuna — graças à intervenção de um dos meus guerreiros que o atacou pelas costas.
— Não, não o teria feito; estes três peles-brancas não se apresentaram e entregaram voluntariamente? Se se considerassem inimigos dos apaches não teriam assim procedido.
— Apresentaram-se porque viram que não havia fuga possível e, assim, tomaram a atitude mais aconselhável no momento. Concordo que suas palavras, em muitos pontos, parecem exprimir a verdade, mas, quando pela primeira vez arrojou meu filho Winnetou ao solo, deixando-o sem sentidos, não o fêz obrigado.
— Fui obrigado, sim.
— Como? Obrigado por quem, se ele e nem guerreiro algum o agrediu?
— Obrigado pela prudência. Pretendíamos salvar Winnetou e Intschu-tschuna. Os dois são guerreiros valentes; iriam reagir e, na reação, poderiam ser feridos e mortos. Era justamente o que desejávamos evitar; por isso, imobilizei Winnetou, e o cacique foi subjugado pelos meus companheiros. Espero que darão crédito às minhas palavras.
— Mentirosas, mentirosas, de começo ao fim! — exclamou Tangua. — Cheguei precisamente, quando o arrojou ao solo. Não eu, mas ele tentou tirar-lhe o escalpo; corri, então, em seu auxílio, e o branco me prostrou sem sentidos. O mau espírito mora em seu punho, porque mesmo o homem mais valente não lhe resiste.
Virei-me, então, e lhe disse, ameaçadoramente:
— Sim, ninguém resiste ao meu punho. Aplico-o com o fim de não matar nem derramar o sangue dos meus semelhantes. Mas outra vez que lutar com Tangua, hei de feri-lo e pode estar certo de que não sairá, então, da luta com um desmaio apenas.
— Lutar comigo! — riu-se com sarcasmo. — Será queimado e suas cinzas espalhadas ao vento.
— Não pense nisto; serei solto muito antes do que pensa e depois lhe exigirei satisfações.
— Daria com prazer. Gostaria, por isso, que seu desejo fosse realizado. Com que satisfação lutaria, para vencê-lo.
Intschu-tschuna pôs um fim a esse diálogo.
— É muita audácia de “Mão de ferro” falar em ser solto; então não reconhece que incorreu em vários crimes para com os apaches? Mesmo que alguns deles lhe sejam injustamente imputados, sobram ainda outros que deverá espiar, não alterando, portanto, sua sorte. Demais, por enquanto, só argumentou com palavras; não apresentou uma só prova.
— Mas não viram que derrubei Rattler no dia em que ele atirou contra Winnetou e a bala atingiu Klekih-pêtra? Então não é isto uma prova da amizade?
— Não. Porque se pode admitir que alguma rixa anterior, ou outro qualquer motivo o levasse a praticar aquele ato! Tem mais alguma coisa a dizer em sua defesa?
Agora não; talvez mais tarde.
— Diga já; mais tarde não lhe será permitido falar.
— Não desejo falar agora; se, mais tarde, quiser dizer alguma coisa em minha defesa, terão de me ouvir. “Mão de ferro” não permite que lhe menosprezem as palavras! Se agora resolvi silenciar, fi-lo levado exclusivamente pela curiosidade de ouvir minha sentença.
Intschu-tschuna afastou-se de mim e fêz um sinal à assistência. Do meio desta destacaram-se alguns guerreiros idosos que se sentaram em companhia dos três caciques; estava formado, pois, o Conselho Deliberativo. No decorrer deste, Tangua envidou todos os esforços para que a minha sentença fosse a mais severa possível. Enquanto isso, eu e meus três companheiros, trocamos idéias.
— Estou curioso em saber da resolução desses “jurisconsultos”! — disse Dick Stone — Boa coisa não será.
— Estou convencido de que a sentença deles vai custar-nos a cabeça — opinou Will Parker.
— Eu também — disse Sam Hawkens. — Esses bárbaros não nos crêem, embora lhes digamos toda a verdade e lhes apresentemos todas as provas! — Não se portou mal, sir! Admirei-me muito de Intschu-tschuna.
— Por que? — perguntei-lhe.
— Porque suportou-lhe a tagarelice, durante tanto tempo. A mim, obrigou-me sempre a calar.
— Tagarelice? Está falando sério, Sam?
— Sim.
— Obrigado pela distinção!
— Chamo tagarelice a toda conversa que não produz o efeito visado. Seu discurso não produziu resultado algum.
— Julgo o contrário.
— Mas sem razão.
— Oh! tenho razão de sobra para assim pensar; Winnetou falou-me num suplício de natação, portanto já é assunto resolvido. Isto de interrogatórios e “Conselhos Deliberativos” não passa de aparatos para nos atemorizarem. A sentença será bem mais suave.
— Sir, não se fie nisso! Então supõe que lhe vão oferecer oportunidade para salvar-se com a natação?!
— Sim.
— Infantilidade, infantilidade! Acredito que vão obrigá-lo a nadar, desde que Winnetou já o disse. Mas sabe em que direção deve seguir?
— Em qual?
— Nas garras da morte. Depois de morto, não esqueça estas minhas palavras, nem negue que tive razão, hihihi!
Este homenzinho original, mesmo na situação gravíssima em que nos achávamos, não perdia ocasião de dar suas risadinhas. Estas não duraram muito, terminara o Conselho; os guerreiros que dele participaram, voltaram ao semicírculo. Intschu-tschuna anunciou em altas vozes:
— Ouvi, guerreiros dos apaches e dos kiowas, a deliberação tomada a respeito destes quatros peles-brancas! No Conselho dos Anciãos já fora resolvido enxotá-los para o rio e obrigá-los a nadar e lutar uns com os outros e, por fim, reconduzi-los à terra e queimá-los vivos a fogo lento, a fim de prolongar-lhes a agonia. Mas “Mão de ferro”, o mais jovem deles, segundo o que ouvistes, acaba de falar e em muitos pontos concorda com ele a sabedoria dos velhos. Mereceram a morte; parece, porém, que seus propósitos em relação a nós não eram tão sinistros como julgávamos. Por isso o conselho modificou a deliberação primitiva, e entregou ao Grande Espírito o seu julgamento.
Fêz uma pausa, aumentando ainda mais a ansiedade reinante. Sam aproveitou para observar:
— Upa! Isto parece que vai ser interessantíssimo, sir! Compreendeu o que ele disse?
— Estou procurando compreender! — respondi-lhe.
— O que foi, então?
— Parece que eles pretendem atirar-nos a um duelo, no qual decidirá a inspiração divina. Adivinhei?
— É isto mesmo, um duelo. Mas com quem? Sobre este ponto é que estou curioso.
Fomos interrompidos pelo cacique, que prosseguiu:
— O pele-branca denominado “Mão de ferro” parece ser o mais distinto dentre eles; portanto, nas suas mãos porei a decisão; será um dos combatentes. O adversário não será designado por escolha: serei eu, Intschu-tschuna, o cacique de todos os apaches!
— Santo Deus! — exclamou Sam, agitado... — a luta será entre o senhor e ele!
— Uff, uff! — ouviu-se o brado de admiração dos peles-vermelhas.
Pasmavam de querer o cacique lutar comigo. Bem poderia subtrair-se ao perigo a que se ia expor, designando um dos seus guerreiros para me enfrentar. Em seguida, justificou sua atitude:
— O brilho das tradições sem mácula de Intschu-tschuna e Winnetou ficou empanado depois que foram arrojados ao solo por um pele-branca. Precisamos, pois, desagravar a nossa honra, lutando um de nós com ele. Winnetou se abstem, porque sou o mais velho e o primeiro cacique; desafrontando a minha honra, desafronto também a sua; matarei “Mão de ferro”.
Seguiu-se nova pausa.
— Pode estar satisfeito, sir! Vai ter morte mais rápida do que nós. Poupou-lhe várias vezes a vida, para agora tombar em suas mãos.
— Veremos!
— Não preciso ver, porque já sei de tudo antecipadamente. Ou julga porventura que esse combate singular será com armas iguais?
— Suponho que sim.
— Pois afianço-lhe que, em casos destes, concertam as condições do duelo de tal modo, que os brancos só têm a perder. Ouça o que lhe estou dizendo!
Intschu-tschuna retomou a palavra:
— Desamarremos “Mão de ferro” e o levemos ao rio, onde terá de nadar; não receberá arma alguma; eu o perseguirei empunhando apenas uma machadinha. Se “Mão de ferro” atingir a margem oposta, e fôr até aquele cedro, sem ser ferido, estará salvo, e será posto em liberdade com os companheiros. Se eu o matar, porém, antes de chegar lá, seus companheiros serão fuzilados. Queiram todos os guerreiros pronunciar o sinal de que ouviram minhas palavras e que as aplaudem!
— Howgh! — respondeu a assistência em coro.
Imaginem como ficamos agitados; Sam, Dick e Will ficaram mais inquietos do que eu.
— Sim senhor! — disse Sam. — Esses patifes agiram com muita inteligência. Vai lutar porque é o mais distinto de nós! Cinismo! O senhor vai lutar, ou antes, nadar, porque sabem que é um greenhorn. Esta é que é a verdade. Que designassem a mim para nadar! Sam Hawkens atravessaria as ondas como uma truta, mas, com o senhor, estamos perdidos. No entanto, sir, veja bem: nossas vidas em suas mãos. Se morrer, arrastando-nos também à morte, cortaremos relações e não lhe dirigiremos uma só palavra. Pode ficar certo!
— Não se apoquente, caro Sam! — respondi-lhe. — Farei o que fôr possível. De resto a escolha não foi tão má. É mais fácil para mim, do que para o senhor, salvar a todos nós.
— Faço votos para que seja assim. A luta será de vida ou morte. Não poupe Intschu-tschuna. Deixe-se de sentimentalismos.
— Verernos.
— Veremos, não. Não há nada para ver. Poupá-lo, será perder-nos. Fia-se, talvez, em seu punho?
— Sim.
— Nada lhe adiantará, pois não haverá ocasião para aplicá-lo. Não se aproximará do senhor.
— Estou convencido do contrário. Como então vai procurar matar-me?
— Com a machadinha, naturalmente; saiba que não usam essa arma só em luta corpo a corpo; atiram-na à distância com rara perícia. Intschu-tschuna o matará quando sair a nado, lançando-lhe a arma à distância. Não atingirá a outra margem do rio; de nada lhe valerão seu desporte e força física.
— Sei disso, caro Sam; um pouco de astúcia eqüivale à muita força.
— Astúcia é coisa que nunca possuiu. Digo-lhe que Sam Hawkens, o homem mais ardiloso do mundo, não percebe de que forma poderá vencer o cacique por meio de artimanhas. Que adiantam ardis contra uma machadinha bem atirada.
— Como não, Sam?! Adiantam e muito!
— De que forma?
— Verá. Estou certo de conseguir o meu fim.
— Dá-nos essa esperança, apenas para nos aliviar o coração.
— Nada disso!
— Sim, e pretende nos consolar com isso! Mas de que valerá o consolo, se minutos após, enfrentaremos a morte?
— Tranqüilizem-se. Tenho um excelente plano arquitetado.
— Ainda mais essa! Aqui não há outro plano senão nadar em direção à outra margem e ser alvejado pela machadinha.
— Mas ouçam: se eu morrer afogado estaremos salvos!
— Morrer afogado, salvos?! Deve ser porque se acha quase no leito da morte que está a dizer tantas asneiras.
— Sei o que estou dizendo. Ouçam: se eu morrer afogado nada mais teremos a temer.
Pronunciei essas últimas palavras às pressas, pois os três caciques se encaminhavam em nossa direção. Intschu-tchuna disse:
— Vamos desamarrar “Mão de ferro”, porém, não ouse ele fugir. Mais de duzentos homens serão mandados em sua perseguição e será preso!
— Não temam! Mesmo que a fuga me fosse possível, não a procuraria, pois seria indignidade abandonar os companheiros.
Tiraram-me as cordas e agitei os braços, a fim de examinar-lhes o movimento.
— É grande honra para mim lutar com o célebre cacique dos apaches; para este, porém, a luta não constitui motivo de honra!
— Por quê?
— Porque escolheu um adversário fraco, que há algum tempo, quando se banhava em um arroio, esteve na iminência de perecer afogado. Que será dele tendo de atravessar um rio largo como este? Não, não ousarei empreender essa aventura.
— Uff! uff! — Já não me agrada! Winnetou e eu somos os mais exímios nadadores da tribo; que significará para mim uma vitória em condições tão desiguais?
— O cacique está armado e eu não! Portanto irei ao encontro da morte, arrastando os meus companheiros. Contudo, queira darme algumas instruções sobre a luta. Quem entrará primeiro nágua?
— O pele-branca.
— E Intschu-tschuna me perseguirá?
— Sim.
— E em que altura me agredirá?
— Quando bem me aprouver — respondeu-me com orgulho e menosprezo, como quem está certo da vitória.
— Quer dizer que poderá ser, no meio do rio, antes de atingir a outra margem?
— Sim.
Simulando estar cada vez mais apreensivo e acovardado, continuei a perguntar:
— Assistindo-lhe o direito de matar-me, poderei, igualmente, atentar contra a sua vida?
Olhou-me compassivo e parecia dizer: “Pobre diabo, alimenta porventura esta esperança?! Não, isto não passa dos primeiros estertores da agonia que se vai iniciar. São frases ditadas pela angustia da morte!
— É uma luta de vida ou morte — disse o cacique — e tem o direito de matar para chegar com vida àquele cedro.
— E a sua morte não me traria outras conseqüências?
— Não. Se eu o matar, seus companheiros morrerão; mas, se eu morrer, não serão considerados mais prisioneiros. Estarão livres e poderão partir para onde quiserem. — Voltou-se e eu despi o jaquetão e a botas. Quando depunha as armas, ouvi Sam dizer:
— Que desgraça! Quisera que se visse num espelho, sir, e ouvisse o tom de profunda amargura com que pronunciou as últimas palavras.
Eu sabia muito bem por que pronunciara as palavras naquele tom.
Não era possível, porém, explicá-lo a Sam; os três caciques me ouviriam. Minha atitude era para convencer a Intschu-tschuna que ia lutar com um adversário fraco.
— Mais uma pergunta! — disse-lhe antes de acompanhá-lo. — Se formos salvos, ser-nos-á devolvido o que nos pertence?
Com uma risada curta e impaciente, pois considerava insensata a minha pergunta, respondeu.
— Sim.
— Tudo?
— Tudo!
— Também os cavalos e as armas?
— Já disse que tudo! — bradou colérico. — Não tem ouvidos? Um sapo quis voar em aposta com uma águia, e perguntou que lhe daria se saísse vencedor! Se fôr tão tolo em nadar, como perguntar, envergonhar-me-ei de ser seu adversário. Antes tivesse escolhido uma mulher velha da tribo para enfrentá-lo.
Atravessando o semicírculo, que se abrira à nossa passagem, encaminhamo-nos para o rio. Passei por Nscho-tschi que me lançou um olhar de despedida. Os índios avançaram e deitaram-se na relva, para apreciarem comodamente o drama que se ia desenrolar.
Achava-me em extremo perigo. Quer nadasse em curva, quer em zig-zag, a machadinha do cacique me atingiria. Só havia um caminho de salvação: mergulhar, no que eu era hábil.
Mas disso não me podia fiar. Era forçado a subir à tona, a fim de respirar, e ofereceria a cabeça à machadinha sinistra! Não me era, assim, possível flutuar fora do alcance dos olhos e da ação do adversário. Que fazer? Medi o rio de baixo para cima, e vi, com grande alegria, que o terreno favorecia sobremodo a execução do meu plano.
Achavamo-nos em meio de um areal. Um bosque distava de nós apenas uns cem passos, aí o rio fazia uma curva que se perdia de vista. Quatrocentos metros abaixo terminava o areal.
No caso de me atirar à água e não vir à tona, me considerariam afogado e procurariam meu corpo rio abaixo, por conseguinte deveria procurar salvação na extremidade contrária, isto é, na parte de cima do rio. Avistei então um lugar menos profundo no rio que constituía um excelente local para um refúgio curto. Mais acima, as águas estavam repletas de lenhas e pedaços de pau, que me poderiam facilitar a execução do plano.
Intschu-tschuna despiu-se, ficando apenas com a leve calça indiana; pegou da machadinha e colocou-a à cintura.
— Podemos começar. Atire-se à água!
— Permita que examine se as águas são profundas? — perguntei visivelmente preocupado.
Em sua fisionomia floria um sorriso de desdém. Mandou vir uma vara, com a qual sondei o rio. Não encontrei o fundo. Isso me agradava extraordinariamente, mas procurei parecer ainda mais desanimado e comecei a umedecer a testa, como quem receia ser acometido de alguma síncope; ouvi murmúrios gerais de menosprezo; conseguira, pois, em parte, o fim visado. Sam exclamava:
— Por amor de Deus, sir, desista! Não posso ver isto! Deixe que nos matem. É preferível do que ter diante dos olhos semelhante quadro.
Pensava no que estaria Nscho-tschi julgando de mim naquele instante! Voltei-me. A fisionomia de Tangua era de desprezo; Winnetou mordia os lábios de raiva por já haver um dia dedicado sua admiração a esse homem covarde. Sua irmã baixara os olhos decepcionada. Não me olhava, achava-me indigno da sua simpatia.
— Estou pronto!... — bradou-me Intschu-tschuna, Por que está a demorar?’ Vamos, covardão!
— Então, não haverá outro meio? — perguntei. — Não poderão resolver minha sorte doutra maneira?
Ouviu-se uma gargalhada geral, sobressaindo-se a de Tangua, de quem depois, ouvi:
— Dê liberdade a esse homem vil! Dê-lhe a vida de esmola! Um guerreiro que se preza, não deve macular as mãos num covarde como esse!
Urrando furiosamente, qual um tigre irritado, Intschu-tschuna disse:
— Para a água, do contrário arremessar-lhe-ei a machadinha.
Sentei-me assustado à margem, fui escorregando devagar, como se tivesse medo da própria água.
— Ande! — gritou Intschu-tschuna, batendo-me com o pé as costas. Era o que eu desejava. Atirei-me à água e proferindo um estridente brado de angústia desapareci. Daí a instantes, alcançava o fundo do rio; levantei a cabeça e nadei debaixo d’água, rio acima. Pouco depois, ouvi um ruído: Intschu-tschuna pulara também n’água e seguira-me. Conforme vim a saber depois, era sua primitiva intenção deixar-me nadar até a outra margem e, lá, matar-me de um golpe. Em vista de minha covardia, porém, seguiu-me logo, a fim de matar-me no que surgisse à tona. Com um poltrão desses não se deve perder tempo, pensara ele.
Mais adiante subi, mas de modo que ninguém me pudesse ver; só ao cacique seria possível, mas, felizmente, ele olhava para outro ponto. Respirei profundamente e submergi, nadando até o lugar que se achava entulhado de madeiras, onde respirei de novo; as madeiras ocultavam-me bem e me foi possível ficar mais tempo à flor dágua para descansar. Vi o cacique a regular distância, à tona dágua, em atitude de fera que espreita a saída de sua presa para estraçalhá-la. Restava-me agora uma única etapa, aliás a maior, para atingir a outra margem. Venci-a igualmente, chegando são e salvo. Não me encaminhei ainda para o cedro, pois devido à distância que me achava do cacique, tinha muito tempo para atingi-lo; ocultei-me entre algumas macegas e vi, com espanto, que uma turma de peles-vermelhas lançara-se ao rio e com varas sondavam-lhe o leito à procura do corpo de “Mão de ferro”. Eu poderia correr em direção ao cedro, dando a luta por terminada com a minha vitória, mas não desejava que ela fosse obtida exclusivamente por meios ardilosos.
Tive então vontade de dar uma lição a Intschu-tschuna, que nadava de baixo para cima à minha procura. Não lhe veio a idéia lançar o olhar para a outra margem, onde já me encontrava. Das moitas, escorreguei-me para a água e nadei pela margem, ficando apenas com o nariz e a boca de fora; quando cheguei defronte aos índios, que se achavam na outra margem, mergulhei e avancei um pequeno trecho em direção a meus algozes.
— Sam Hawkens! Somos os vencedores! — gritei emergindo d’água. Os vermelhos ouviram-me e olharam para o lado de onde gritei. Que gritaria infernal ouvi então! Intschu-tschuna, dando com os olhos em mim, bateu com os braços e nadou como uma flecha em minha direção. Não podia deixá-lo aproximar-se muito de mim e por isso voltei à margem do rio.
— Prossiga, sir, — bradava Sam; — prossiga para a frente. Corra para o cedro!
Sim, fácil me era atingi-lo, mas não o desejava! Queria dar-lhe uma boa lição e haveria de dá-la; não me afastei da margem, antes que ele se achasse muito próximo dela. Se ficasse n’água, me atingiria facilmente, mas estando em terra firme só poderia usar a machadinha depois de atingir a margem e pisar também em terra.
O cedro ficava a uns trezentos metros. Quando vencera metade dessa distância, parei. Vi, então, que Intschu-tschuna alcançava naquele momento a terra e subia a rampa; alcançar-me não lhe seria mais possível, só a machadinha me podia atingir. Sacou-a da cinta e correu em minha direção. Continuei firme; mas, quando o vi perto, voltei-me e simulei uma fuga. Pensei; enquanto estiver parado não me atirará a arma, pois seria fácil desviar-me dela; o mais prudente seria alcançar-me e matar-me. Só lançaria a arma contra mim, se eu, em fuga, lhe desse as costas. Empreendi, pois, essa fuga, mas dei apenas uns vinte pulos e parei, virando-me rapidamente.
Estava em boa posição e ele, levantando a machadinha, atirou-me. Dei dois ou três passos para o lado e a arma passou por mim e foi cravar-se na areia, tal como eu desejava. Corri até lá, apanhei-a e, em vez de me dirigir para o cedro, encaminhei-me a passos lentos ao encontro do cacique. Manejei a arma e bradei-lhe ameaçadoramente:
— Pare, Intschu-tschuna! Mais uma vez enganou-se com “Mão de ferro”. Quer receber golpes de sua própria machadinha?
Ele parou gritando:
— Como conseguiu fugir-me n’água? O mau espírito mais uma vez lhe socorreu no momento extremo!
— Não creia nisso. O único espírito que me salvou foi o bom “Manitou”, o Grande Espírito que esteve do meu lado.
Notei que às minhas palavras, seus olhos brilharam revelando uma idéia secreta. Disse-lhe, prevenindo:
— Que me pretende agredir de surpresa, vejo-o na sua fisionomia. Não o faça porque será a sua morte. Nada lhe sucederá porque aprecio as suas qualidades e também as de Winnetou; mas, se investir contra mim, serei obrigado a defender-me. Sabe que, mesmo desarmado, eu o subjugaria, quanto mais munido desta arma. Seja, pois, prudente e...
Não pude continuar. A fúria que o dominava, deixou-o fora de sí; com as mãos crispadas, quais garras sinistras, investiu contra mim. Já supunha que conseguira dominar-me, quando, desviando-me para o lado, dele me desvencilhei, e o cacique, depois de outra investida, foi cair ao solo. Imediatamente cheguei-me a ele e, com os joelhos, comprimi-lhe os braços contra o corpo; com a mão esquerda, apertei-lhe a carótida e empunhando a machadinha com a direita, perguntei:
— Intschu-tschuna pede perdão?
— Nunca!
— Abrir-lhe-ei o crânio, se não o fizer.
— Mate-me! — urrava ele, num vão esforço por se libertar.
— Não! É o pai de Winnetou e deve viver! Porém, sou forçado a imobilizá-lo, por momentos.
Bati-lhe com a parte chata da machadinha sobre a cabeça, e ouvi um gemido; seus membros contorceram-se e desmaiou. Do outro lado do rio, os vermelhos ficaram convencidos de que eu lhes havia morto o chefe. Amarrei os braços do cacique com a cinta e o transportei para o cedro. Assim fiz porque pelas condições estipuladas para o duelo estava eu obrigado a atingir aquela árvore. Larguei-o, e voltei depressa para a margem, pois vi que do lado oposto diversos peles-vermelhas, acompanhados de Winnetou, lançavam-se n’água e nadavam em nossa direção.
Se eu não tratasse de esclarecer o caso, estaríamos em perigo, meus companheiros e eu. Assim, bradei aos meus adversários:
— Recuem! O cacique ainda vive; nada lhe fiz, mas se se aproximarem, matá-lo-ei. Apenas a Winnetou consinto que venha até aqui. Preciso falar-lhe.
Os peles-vermelhas não atendiam às minhas palavras e continuaram nadando, até que Winnetou ergueu a cabeça e pronunciou algumas palavras que não pude compreender. Eles obedeceram, retrocedendo, e Winnetou continuou a nadar. Fui ao seu encontro. Quando voltamos, ao atingirmos a margem, disse-lhe:
— Felizmente ordenou a seus guerreiros que voltassem. Iam lançar seu pai no perigo.
— Mas não o matou?
— Não. Forçou-me a tirar-lhe os sentidos, nada mais. Não quis entregar-se e agi em legítima defesa.
— Mas poderia tê-lo morto. Estava em suas mãos.
— Não gosto de matar o inimigo e muito menos o pai de Winnetou, ao qual sinto-me ligado por laços de coração! Aqui tem suas armas! Julgará a minha vitória e a seu espírito de justiça confio o cumprimento da palavra empenhada.
Tomou da machadinha que lhe alcançava e fitou-me por longo tempo. Seu olhar tornava-se suave e admirado. Por fim disse-me:
— Mas quem é “Mão de ferro”? Quem o poderá compreender?
— Ainda hão de me compreender!
— Entrega-me esta arma, sem a certeza do cumprimento da palavra dada! Não compreende o alcance deste gesto? Não vê que com ela coloca nas minhas mãos a sua vida?
— Nada receio! Possuo o vigor dos meus braços e a infalibilidade do meu punho. Demais, Winnetou não é um mentiroso, um embusteiro, um covarde! Não; é um guerreiro valente que se envergonharia duma atitude menos digna! Tem em elevada conta o cumprimento da palavra dada!
Estendeu-me então a mão e respondeu-me, com os olhos rasos de lágrimas;
— Tem razão! Está em liberdade; assim como todos os peles-brancas, com exceção de Rattler. Tem confiança em mim; oh! se me fosse possível ter igual confiança num branco!
— Ainda virá a tê-la; esperemos que passe o tempo. Agora, venha comigo para junto de seu pai!
— Sim, vamos! Tenho de zelar por ele, pois se meu pai obrigar “Mão de ferro” à luta, a morte lhe será certa!
Encaminhamo-nos para o cedro, onde desamarramos os braços de Intschu-tschuna. Winnetou auscultou-o e disse:
— Vive, o desmaio vai ser prolongado; depois terá cruciantes dores de cabeça. Não devo permanecer aqui e, por isso, vou enviar alguns homens para cuidá-lo. Queira o meu irmão “Mão de ferro” acompanhar-me!
Era a primeira vez que me tratava como irmão. Quantas vezes, mais tarde, ouvi pronunciar esta palavra! E um tom de sinceridade, e devotamento envolvia-lhe a frase!
Voltamos para o rio e nadamos em direção ao lado oposto. Os vermelhos ainda lá se achavam reunidos em ansiosa expectativa, e viram-nos chegar. Viram que palestrávamos amistosamente e convenceram-se de que me haviam julgado injustamente. Foi este o motivo por que fiz questão de enfrentar-me com Intschu-tschuna peito a peito, preferindo essa luta à vitória fácil que obteria na contenda. Ao chegarmos em terra disse Winnetou, tomando-me a mão:
— “Mão de ferro” venceu, e está livre com os seus três companheiros.
Ao ouvir tais palavras, Tangua me dirigiu um olhar sombrio. Ainda ajustaria contas com ele, exigindo satisfações de suas mentiras e de seu esforço para nos arrastar à morte; castigá-lo-ia, não só para desagravo como para que conhecesse o valor dos peles-brancas. Passamos por ele e Winnetou nem sequer lhe dirigiu um olhar. Conduzia-me aos postes dos martírios, onde estavam amarrados os meus companheiros.
— Aleluia! — exclamou Sam. — Estamos salvos; mas homem, jovem alemãozinho, meu amigo, como conseguiu semelhante vitória?!
Winnetou pôs-me nas mãos sua faca:
— Corte-lhes as cordas. Bem merece essa distinção!
Aceitei com alegria o oferecimento. Assim que livrei os três amigos, senti seis braços que me apertavam no auge do entusiasmo. Sam beijou-me a mão e com suas barbas umedecidas pelas lágrimas, disse entre soluços que lhe embargavam a voz:
— Sir, meu querido sir! Se um dia o esquecer, que o primeiro urso cinzento que encontrar me devore vivo. Como conseguiu essa vitória? Mostrou tanto medo da água que, ao desaparecer, todos pensavam que havia morrido.
— Mas, querido Sam, então não se lembra das minhas palavras: “Se eu morrer afogado estaremos salvos”?! Pois com elas estava a revelar-lhe o ardil que imaginara, para fugir da machadinha fúnebre e chegar, sem um ferimento, ao cedro, marco da vitória!
Disse, então, Winnetau:
— “Mão de ferro” disse isso antes de lançar-se à água? Então foi tudo plano preconcebido?!
— Sim — confirmei.
— Meu irmão agiu, pois, com talento. Agora compreendo todo o seu plano ardiloso: não só é forte como o urso cinzento, mas astucioso como a raposa das campinas! Quem fôr seu inimigo que se cuide!
— Sim, mas meu inimigo foi também Winnetou e nada lhe sucedeu.
— Fui seu inimigo, mas não o serei jamais!
— Portanto, não crê em Tangua, o vil mentiroso, mas em mim?
Lançou-me o mesmo olhar que me dirigira, há pouco, na outra margem do rio, e estendendo-me a mão, disse:
— Seus olhos são a expressão viva da sinceridade e os traços de sua fisionomia não revelam o menor indício de mentira. Creio que fala a verdade, meu caro irmão!
Eu me vestira e abri a lata de sardinha; tirei a madeixa de seus cabelos e passando-a às mãos de Winnetou, disse:
— Bem! Já que meu irmão Winnetou fala desse modo, vou mostrar-lhe que não se engana! Eis a prova de minha inocência. Conhece estes cabelos?
Recuou, admirado, exclamando:
— É meu cabelo! Quem lhe deu?
— Intschu-tschuna, ainda há pouco, ao ditar-nos a sentença de morte, afirmou que, quando os caciques estavam amarrados às árvores pelos kiowas, o Grande Espírito mandou um salvador invisível para libertá-los. Sim, o seu salvador agiu de modo invisível, porque os kiowas não deviam vê-lo. Mas, hoje, não está mais obrigado a se ocultar daquela tribo. Creio que tem agora uma prova convincente de que nunca fui seu inimigo, antes amigo sincero e dedicado, capaz de sacrificar a própria vida!
— Mas... foi o senhor quem nos desamarrou? Estarei mesmo em presença do nosso salvador, daquele a quem devemos a vida e a liberdade?
Assim falou Winnetou, com grande comoção e, tomando-me pela mão, levou-me até onde se achava sua irmã, num lugar elevado, onde todos nos viam e ouviam, e disse:
— Nscho-tschi, eis aqui o valente guerreiro que nos salvou, quando os kiowas, depois de nos aprisionarem, amarraram-nos às árvores! A ele a nossa gratidão!
A estas palavras, apertou-me ao peito, beijando-me as faces. Ela estendeu-me a mão e pronunciou apenas a palavra — Perdoe!
Em vez de me agradecer, pedia perdão! Perdão de que? Compreendi; em silêncio, fizera-me injustiça; pois já devia conhecer-me melhor e, no entanto, quando me mostrei ardilosamente medroso, julgou-me covarde! Agora, a consciência a obrigava a reconhecer que eu era inocente.
Estendendo-lhe a mão, respondi:
— Nscho-tschi deve lembrar-se do que lhe dizia sempre; tudo está confirmado. Minha irmã crê em minhas palavras?
— Sim, creio nas palavras do meu irmão pele-branca.
Tangua achava-se próximo e estava visivelmente perturbado. Aproximei-me dele e disse, fitando-o firmemente:
— Tangua, o cacique dos kiowas, é mentiroso ou ama a verdade?
— Pretende insultar-me? — perguntou com arrogância.
— Absolutamente não. Quero apenas saber até que ponto devo apreciar-lhe o caráter. Responda!
— “Mão de ferro”, saiba que amo a verdade!
— Veremos. Mantém sua palavra, quando faz uma promessa?
— Sim!
— Assim deve ser, porque aquele que não cumpre o que promete é desprezível. Lembra-se, ainda, do que disse há pouco?
— Quando?
— Há pouco, quando eu estava preso.
— Disse, então, muita coisa.
— Perfeitamente. Mas bem deve saber a que me refiro.
— Não.
— Bem, lembrar-lhe-ei. Queria exigir-me satisfações.
— Disse-lhe isto?
— Sim, disse. E disse mais: que teria de lutar comigo para vencer-me.
Minhas palavras o intimidaram talvez, pois me respondeu indeciso:
— Não me lembro de haver dito isso. Certamente entendeu mal.
— Não; entendi bem. Winnetou estava presente e apelo para o seu testemunho.
— Sim — confirmou, solícito Winnetou. — Tangua quis exigir satisfações de “Mão de ferro” e disse ainda que havia de vencê-lo.
— Vê, pois, que realmente proferiu essas palavras. Quer sustentá-las agora?
— Exige isso?
— Claro. Chamou-me de sapo, animal desprezível, homem sem coragem, e fêz tudo para me arrastar à morte. Aquele que se presta a isso, deve ter dignidade para me enfrentar e defender-se.
— Cale-se! Eu só luto com caciques!
— Eu sou cacique!
— Prove-o!
— Bravo! Vou prová-lo, enforcando-o àquela árvore se se negar a dar a satisfação que exijo.
Ameaçar um índio com a forca, constitui ofensa grave. Puxou imediatamente da faca e bradou:
— Quer que o apunhale?
— Sim, porém, não como pretende; lutemos no campo da honra, homem contra homem, faca contra faca.
— É só o que faltava. Não me sujeitarei a lutar com “Mão de ferro”.
— Mas há pouco, quando eu estava amarrado, não falava deste modo, covarde!
O índio quis investir contra mim, mas Winnetou, colocando-se entre nós, disse:
— O meu irmão “Mão de ferro” tem razão. Tangua o ofendeu; se não cumprir agora com sua palavra, será considerado covarde e merecerá ser banido de sua tribo. O assunto há de ser resolvido sem demora, porque os apaches não admitem que se diga que tiveram homens vis como hóspedes. Que pensa o cacique dos kiowas?
Este, antes de responder, lançou um olhar em torno. Havia quatro vezes mais apaches do que kiowas; e, de resto, achando-se estes na aldeia daqueles, não lhes era possível tentar um ataque:
— Refletirei — respondeu o cacique, desviando-se.
— Para um guerreiro valente que preza sua honra, não há reflexão possível num caso desses — respondeu Winnetou — Ou aceita a luta ou será considerado covarde!
Ele deu um salto e gritou:
— Tangua, um covarde? Rasgarei o ventre daquele que diz semelhante infâmia!
— Disse e repito — respondeu Winnetou calmamente. — Será um covarde se não aceitar o desafio do pele-branca.
— Aceito!
— Imediatamente?
— Sim. Quero ver correr-lhe sangue e já.
— Bem, escolhamos as armas para o duelo.
— A quem compete a escolha?
— A “Mão de ferro”.
— Por quê?
— Porque foi ofendido.
— Não. A escolha será feita por mim, porque também me ofendeu; de resto sou um cacique e ele não passa dum atrevido pele-branca.
— “Mão de ferro” é muito mais que um cacique vermelho.
— Isso afirma ele, mas não apresenta provas. Ameaças não são provas.
Atalhando o diálogo, decidi a questão:
— Tangua que escolha; me é indiferente a arma com que hei de vencê-lo.
— Não me vencerá! — gritou o kiowa. — Pensa que vou escolher o soco, com que a todos vence, ou a faca, com que derrotou “Faca-raios”, ou a machadinha com que inutilizou o próprio Intschu-tschuna?
— Mas, qual será então a arma?
— A espingarda. Medir-nos-emos a tiros e eu hei de lhe perfurar o coração.
— Bem! Concordo com a escolha. Mas ouviu, meu irmão Winnetou, o que Tangua acaba de confirmar?
— O que?
— Que lutei com “Faca-raio” e matei-o na luta, e se o fiz, foi para salvar os apaches prisioneiros; o kiowa, porém, havia negado esse fato até agora. Vê-se, pois, que eu tinha razão quando o chamei de mentiroso.
— Mentiroso? Eu? — trovejou o kiowa. Pagar-me-á com a vida a ofensa. Dêem-me depressa a arma! Que a luta comece e já, pois quero fazer calar este infame! Pegou da espingarda. Winnetou mandou um índio ao castelo em busca da minha “mata-ursos” e da munição, que me fora apreendida ao ser preso.
Winnetou havia conservado o que me pertencia, pois, apesar de ser meu inimigo, interessava-se vivamente por mim. Em seguida, disse-me:
— Meu irmão “Mão de ferro” determinará a distância e o número de tiros que deverão ser dados.
— É-me indiferente — respondi. Quem escolheu as armas, que decida também sobre este ponto.
— Sim, compete a mim — disse Tangua. Duzentos passos e tantos tiros quantos forem necessários para ser prostrado um de nós dois, de modo que não se possa mais combater.
— Está bem — disse Winnetou; fiscalizarei a luta. Atenção: primeiro atira um, depois o outro. Estarei de lado com a espingarda em punho e alvejarei aquele que fizer fogo sem ser sua vez. Quem dará, porém, o primeiro tiro?
— Naturalmente eu — respondeu o kiowa. Winnetou meneou ironicamente a cabeça, dizendo:
— Tangua quer também todas as vantagens para si! O pele-branca dará o primeiro tiro.
— Não, respondi; façamos-lhe a vontade. Dará um tiro, e eu outro e a luta estará terminada.
— Não — disse o kiowa — Atiraremos até cair um de nós, sem se poder levantar.
— É o mesmo, pois o primeiro tiro o prostará por terra.
— Prosa!
— Cale-se! Aliás, eu deveria matá-lo; mas não o farei. O menor castigo que lhe posso dar é alvejar-lhe as pernas, deixando-o inutilizado. Arrebentar-lhe-ei o joelho direito. Fique sabendo desde já.
— Ouviram? — disse Tangua, rindo-se com desdém. — Um pele-branca que pelos próprios companheiros é chamado greenhorn; tem a petulância de dizer que me arrebentará o joelho direito à distância de duzentos passos. Riam-se dele, guerreiros, riam-se dele!
Olhou em torno, mas ninguém sorriu.
— Têm medo! Vou mostrar-lhes como saberei rir depois. Vamos, marque os duzentos passos.
Enquanto isso, voltaram os índios trazendo-me a mata-ursos; examinei-a; achava-se em boas condições de funcionamento; os dois canos estavam carregados. Para adquirir maior certeza, detonei os dois tiros e pus nova carga. De repente apareceu-me Sam:
— Sir, tenho cem perguntas a fazer-lhe e, no entanto, não encontro oportunidade. Agora, responda-me apenas uma delas: — Pretende realmente alvejá-lo nos joelhos?
— Sim.
— Apenas?
— O castigo basta.
— Não, absolutamente não! Esse bandoleiro não é digno de viver. Pense que nós, como os apaches, sofremos exclusivamente por causa dele e de sua tribo.
— Disso são os brancos os maiores culpados, porque os induziram ao crime!
— Eles não se deixam induzir; agiram por sua própria iniciativa. Em seu lugar, eu atravessaria o crânio desse índio com uma bala, pois é isso que ele pretende fazer com o senhor.
— Não. Alvejará o meu peito; estou convencido disso.
— Mas não o atingirá. As espingardas desses índios de nada valem. Os duzentos passos estavam marcados e tomamos posição. Eu, como sempre, em tais circunstâncias, achava-me calmo. Tangua, porém, não deixava de falar e Winnetou, que se achava entre nós, disse:
— O cacique dos kiowas queira calar-se e atender à luta. Vou contar até três e aquele que atirar, sem lhe tocar a vez, será alvejado pela minha arma!
A assistência achava-se presa de ansiosa expectativa. Formaram em duas linhas: à nossa direita e esquerda. Reinava profundo silêncio.
— Queira o cacique dos kiowas iniciar o duelo — disse Winnetou — um... dois... e três!
Estava tranqüilo e apresentava meu peito à bala do inimigo. Tangua que, à primeira palavra de Winnetou, acestara a espingarda, puxou o gatilho e a bala passou por mim; não atingira o alvo!
— Agora atire “Mão de ferro” — ordenou Winnetou; — um... dois...
— Pare! — interrompi-lhe. — Coloquei-me ereto e francamente diante da arma de Tangua; mas ele está virado e oferece-me não a frente, mas um dos flancos.
— Esse direito me assiste — respondeu-me o cacique. — Porventura, ao concertarmos as condições da luta, cogitamos da posição em que nos devíamos postar em face um do outro?
— Tem razão — disse eu. — Tangua que tome a posição que bem lhe agradar. Volta-me o seu flanco direito na certeza de que o não atingirei. Vou mostrar-lhe como se engana. Poderia alvejá-lo, sem fazer essa observação. Mas sou sincero. A bala de minha espingarda vai alojar-se em seu joelho direito.
— Não atire com palavras mas com bala! — o cacique exclamou irônico.
— Agora atire — repetiu Winnetou; — um... dois... três! Detonei a arma. Tangua proferiu um brado de dor, contorceu-se e rolou ao solo!
— Uff, uff, uff! — ecoou no meio dos índios, os quais correram até junto do cacique para ver onde fora ferido.
Encaminhei-me, também, e todos abriram caminho à minha passagem.
— Nos dois joelhos! Nos dois joelhos! — foi a voz que se ouviu. Winnetou ajoelhou-se diante do cacique vencido e examinou-lhe os ferimentos; depois, vendo-me chegar, disse:
— A bala alojou-se exatamente no lugar desejado pelo meu irmão pele-branca; ambos os joelhos estão feridos e Tangua nunca mais poderá cavalgar para dirigir assaltos e roubos às propriedades alheias!
Ao ver-me, o ferido proferiu um dilúvio de imprecações. Dominei-o com o olhar e o obriguei a silenciar por momentos.
— Eu avisei, mas o cacique dos kiowas não me deu ouvidos; é o único culpado!
Ele não ousou lamentar-se porque não o é permitido aos índios, mesmo sofrendo as dores mais atrozes; mordeu os lábios, olhou e disse, rangendo os dentes:
— Estou ferido e não posso regressar à minha taba. Sou forçado a ficar entre os apaches.
Winnetou sacudiu a cabeça e respondeu em tom decisivo:
— Terá de seguir; não dispomos de agasalho para os ladrões de nossos cavalos e assassinos de nossos guerreiros. Não exercemos vingança sangrenta, contentando-nos com animais e objetos, como preço do resgate; mais do que isso não nos pode exigir. Um kiowa não encontra abrigo em nosso povoado.
— Mas, não posso viajar a cavalo; não poderei regressar!
— “Mão de ferro” esteve mais gravemente ferido e também não podia montar, contudo viajou para aqui. Pense sempre nele, pois ser-lhe-á útil esse pensamento. Ordeno que os kiowas abandonem, hoje mesmo, estas plagas; todo aquele que amanhã ainda fôr encontrado em nossos campos será nosso prisioneiro e morrerá. Howgh!
Winnetou saiu, convidando-me a segui-lo. Quando deixamos a multidão, vimos seu pai que, a nado, atravessava o rio com os dois índios que haviam sido destacados para o acompanharem. Winnetou dirigiu-se à margem e eu fui ter com Sam, Dick e Will.
— Até que afinal é nosso, exclusivamente nosso! — exclamou Sam. — Antes de mais nada, diga-me que cabelos mostrou a Winnetou?
— Era uma madeixa que lhe cortara.
— Quando?
— Quando o libertei juntamente com seu pai.
— Com que então... com que então... o senhor, um greenhorn, foi quem os livrou daquela vez?
— Certamente.
— E sem que até agora nos tivesse dito alguma coisa!
— Não era necessário!
— Mas, como conseguiu libertá-los?
— Agindo como um greenhorn!
— Fale sério, sir! Era tarefa dificílima!
— Sim, tão difícil que nem mesmo Sam estava com vontade de executá-la.
— E o senhor a executou! Ou estou doido ou sou um imbecil, hihihihi!
— Ambos os casos, Sam!
— Não diga tolices! Solta os caciques, carrega a madeixa do cabelo de um deles, e disso tudo não nos revela uma só palavra. Sim! Tem uma fisionomia sincera, mas hoje não se pode confiar em ninguém! E como foi essa aventura de hoje? Esclareça-me o caso. Morreu afogado e depois resolveu ressuscitar; como foi isso?
Contei-lhe tudo. Quando terminei, exclamou:
— Mas homem, greenhorn! Pela segunda vez pergunto-lhe: Nunca esteve no oeste bravio?
— Não.
— Nem em outro qualquer ponto dos Estados Unidos?
— Também não.