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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


WINNETOU - VOL. III / Karl May
WINNETOU - VOL. III / Karl May

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

WINNETOU

Volume III 

 

Sans-ear

Desde a manhã daquele dia, eu vencera um bom trecho do caminho. Estava fatigado e a abafada soalheira atormentava-me. Em vista disso, resolvi fazer uma parada, a fim de descansar, e fazer a minha refeição. A campina estendia-se, diante de mim, ondulada, quase a perder de vista. Já há cinco dias, desde que o nosso grupo fora desbaratado por um bando de indígenas da tribo dos ogellallahs, que eu vinha viajando sozinho, sem encontrar um só vestígio de gente ou de animais.

Na zona em que agora me achava, não havia um arroio, um córrego ou qualquer outra espécie de aguada, muito menos ainda algum bosque, macegal ou cousa parecida. Apeei-me, maneei o cavalo e me abanquei numa elevação do terreno, de onde podia descortinar tudo o que se passasse em torno de mim, na amplidão da savana.

Havia motivos para eu agir com cautela. Partíramos em um grupo de doze homens, com destino ao Texas. Nessa mesma ocasião, as diversas tribos dos sioux deixavam as suas aldeias, em expedição de guerra, tomando o mesmo rumo nosso. Vários guerreiros dessa tribo haviam sido assassinados, e ela, segundo o costume nativo, ia tomar vingança. Ao termos conhecimento desse fato, tomamos todas as precauções possíveis; mas, não obstante tudo isso, nos chocamos com os vermelhos. Depois de um combate renhido e sangrento, no qual tombaram cinco dos nossos bravos companheiros, fomos desbaratados, e, seguindo os restantes, por diversas direções, nos extraviamos na campina, sem sabermos mais notícias uns dos outros.

Pelas minhas pegadas, os índios notaram, sem dúvida, que me encaminhara em direção ao sul e era bem fácil que me perseguissem para matar-me. Eu supunha que também os companheiros sobreviventes se tivessem dirigido para o sul, embora por outros caminhos. Em vista disso, precisava tomar toda precaução, sob pena de amanhecer, um belo dia, sem escalpo, a caçar, tranqüilamente, pelas Eternas Campinas dos indígenas...

Tirei da maleta um pedaço de xarque de búfalo, temperei-o, não com sal, mas com pólvora e saciei a fome, deitando-me, em seguida, para dormir um pouco. Não fazia muito que me deitara, quando, casualmente, olhando para trás, divisei no horizonte um ponto negro que se movimentava na minha direção. Graças à ondulação da campina, eu não podia ser visto. Assim pois, fiquei de alcatéia; notei depois que o ponto tomava a forma e as proporções de um cavaleiro, que atravessava a campina.

Quando o avistei pela primeira vez, ele se achava distante de mim cerca de milha e meia. Seu cavalo caminhava tão lerdo, que gastou meia hora para vencer uma milha. Continuando com os olhos fixos no horizonte, vi, com espanto, que, por trás do cavaleiro, mais quatro pontos, que não eram senão outros quatro cavaleiros, haviam surgido, e que se movimentavam também e seguiam as pegadas do primeiro. Este fato despertou-me vivamente a atenção. O cavaleiro da frente era um pele-branca conforme podia reconhecer pelo seu traje. Seriam os outros, talvez índio? Que o perseguiam? Assestei o binóculo: minha previsão fora acertada. Os vermelhos cada vez mais se aproximavam e daí a pouco, com o auxilio das lentes, verifiquei, pelas armas que conduziam, tratar-se de quatro ogellallahs, uma das mais ferozes tribos dos sioux. Estavam excelentemente montados, ao passo que o cavalo do pele-branca, parecia ser um animal de má qualidade. O pele-branca se aproximara já tanto de mim que o podia observar em seus mínimos detalhes.

Era de estatura baixa e esguia; à cabeça trazia um chapéu de feltro, sem abas, circunstância que aqui nas campinas não chamaria a atenção, mas que a mim me caiu na vista sem que o soubesse por que. Notei depois que o homem não tinha orelhas. No seu lugar, havia grandes cicatrizes, prova de que lhe tinham sido cortadas violentamente, com toda a certeza por inimigos.

Um enorme manto cobria-lhe o corpo de modo que mal se viam as suas pernas. Calçava um par de botas tão originais, que na Europa provocaria riso ao indivíduo mais casmurro. Era uma espécie de botas que os gaúchos da América do Sul fabricam e usam. Tira-se o couro da pata de um cavalo morto e, quente ainda, enfia-se o mesmo nos pés e ali se deixa esfriar. O couro cola-se à perna e aos pés, e, desse modo, se obtém um calçado muito cômodo, com o qual se tem a impressão de estar pisando com a própria sola dos pés. Ao serigote se achava preso um objeto que devia ser uma espingarda, mas que se assemelhava a um porrete. A sua montaria era uma égua que mais se parecia com um camelo do que com um exemplar da raça cavalar... Não tinha cauda, a cabeça era desproporcionalmente grande e as orelhas enormes causavam pavor. O animal parecia reunir naquela figura desconchavada características próprias de burro e dromedário...

Noutra circunstância, devido à minha inexperiência, teria achado graça da figura ridícula tanto do cavalo como do cavaleiro. Mas diante desse tipo original logo imaginei tratar-se de um daqueles caçadores das campinas bravias, aos quais é necessário primeiro conhecer-se de perto para apreciá-los no seu verdadeiro valor. Ele talvez não tivesse a menor idéia de que estava sendo perseguido por índios, os mais encarniçados inimigos dos campineiros, porque do contrário não teria cavalgado tão morosa e descuidadamente. Teria, antes, se virado de vez em quando para observar se o caminho estava “limpo”, como se costuma dizer no oeste.

Quando se aproximou de mim, à distância de uns cem passos, descobriu as minhas pegadas. Aliás, não sei dizer quem as descobriu primeiro, se foi ele ou o animal. Vi apenas que a égua parou por si, baixou a cabeça e depois agitou nervosamente as suas enormes orelhas. O cavaleiro ia apear a fim de examinar detidamente as minhas pegadas, quando, para poupar-lhe esse serviço, que lhe demandaria algum tempo, na ocasião precisa para se preparar, a fim de receber os índios que o seguiam bradei-lhe:

— Alô, camarada! Aproxime-se e se ponha de guarda, pois atrás do senhor vem o perigo vermelho!

Eu mudara de posição, de modo que ele agora me podia avistar. Também a égua ergueu a cabeça, olhou para mim, bateu os queixais como se quisesse engolir as minhas palavras e começou a sacudir o pedaço de rabo que ainda lhe restava.

— Alô, Mr.! — respondeu. — Para outra vez, não fale em voz alta. Nas campinas a gente nunca está seguro. Por trás de cada ondulação da planície, pode haver um inimigo oculto. Vamos “Tony”!

A essa voz de comando, a égua galopou para perto de mim e parou. Era um desses animais fiéis, tão comuns no oeste bravio, e que só servem e atendem ao seu dono.

— Eu sei muito bem até que ponto posso falar em voz alta — respondi-lhe. — De onde vem e para onde pretende ir?

— É um assunto, creio eu, que pouco lhe deve interessar! — retrucou bruscamente.

— Acha? O senhor é muito polido. Posso passar-lhe este atestado desde já, com toda consciência, embora só haja conversado com o senhor poucas palavras! Afianço-lhe, todavia, com sinceridade, que estou acostumado a obter resposta, quando pergunto alguma cousa a alguém!

— Hum! Pelo seu aspecto, parece ser um cavalheiro fino e de maneiras distintas! — disse, lançando-me um olhar depreciativo. — E é por isso que vou dar-lhe as informações que pediu. Acenou, ironicamente, para a frente e depois para trás, dizendo: — Vim de lá e vou para lá!

O homem começava a inspirar-me simpatia. A julgar pela sua atitude, eu estava sendo tomado por um desses caçadores domingueiros, como se costuma dizer no oeste bravio, referindo-se aos que praticam a caça por esporte ou aos que, embora profissionais, andam trajados com relativa distinção. O verdadeiro homem do oeste, porém, não dá valor nenhum à indumentária; todos desconfiam logo dos caçadores “almofadinhas” que encontram pelas savanas. “Ou são ladrões” ou “imbecis”, costumam dizer. Ora, eu me suprira, no forte Wilkers, de trajes novos e, de acordo com velho hábito, trazia as armas reluzentes, exterior que não me recomendava aos olhos dum legítimo explorador das savanas. Em vista disso, não tomei a mal o modo brusco, para não dizer grosseiro, com que o estranho personagem me acolhera.

— Pois então continue “para lá”! Mas acautele-se dos quatro índios que lhe vêm seguindo as pegadas! Não os notou ainda?

— Ele fixou-me os olhos, admirado, e respondeu:

— Não os notei?! Hihihihi! Quatro índios a me seguirem e eu não os notar! O senhor me parece um portento!... Aquela boa gente desde cedo que me vem escoltando, para que nada me suceda pelo caminho... Nem sequer me dei até agora ao trabalho de virar-me para observá-los. Conheço bem o sistema desses vermelhos: se conservarão distantes de mim enquanto fôr dia e, depois que eu tomar pouso, expedirão um batedor para observar-me. Por fim me assaltarão. Mas garanto-lhe que eles hoje errarão o cálculo. Vou cavalgar num círculo, de modo que quando eles menos esperarem, estou por trás deles. Se já não fiz, foi porque não encontrei ainda um terreno apropriado para essa manobra. Aqui, com essas ondulações nas campinas, não é nada difícil pôr em prática o meu plano. Convido-o a ficar aqui e esperar uns dez minutos: o senhor irá ver como um velho e experimentado campineiro prega uma peça aos canalhas dos peles-vermelhas! Come on, Tony!

Sem se preocupar mais com a minha presença ali, tocou a égua que galopou por entre as ondulações da campina, desaparecendo dentro de três minutos.

O seu plano era excelente e eu, no seu lugar, o adotaria também: cavalgaria em círculo e, antes que o inimigo percebesse a sua tática, já estaria sendo atacado pela retaguarda.

A proporção era de quatro contra um; talvez eu estivesse na iminência de fazer uso de minhas armas. Examinei-as e fiquei à espera do desenrolar dos acontecimentos.

Os índios cada vez se aproximavam mais, cavalgando, como é hábito seu, um atrás do outro. Já estavam bem próximos do local onde as pegadas do homenzinho original se confundiram com as minhas, quando o que vinha à frente parou o cavalo e virou-se para os outros. Parecia estranhar o fato de não ver mais o pele-branca a cujo encalço andavam. Realizaram uma breve conferência, durante a qual se reuniram em círculo. Eu poderia atingi-los facilmente com uma bala de minha “Mata-Ursos”. Mas não foi preciso. Dentro de instantes, detonou um tiro e em seguida outro. Dois índios caíram mortos de seus cavalos e, ao mesmo tempo, soava um longo brado de guerra: o... hi... hi... hiiii!

Mas esse brado de triunfo não fora proferido pelos índios e sim pelo homenzinho — permitam os leitores que assim o chame, pois ele ainda não se dignara a declinar-me o nome... — que surgiu logo em seguida de uma ondulação da campina. Daí a pouco desaparecia à minha frente. Fingiu fugir logo depois dos seus dois tiros. Sua égua era bem outra então. Não galopava, voava. Cavalo e cavaleiro pareciam identificados um com o outro. E o cavaleiro, mesmo a galope, tornou a carregar a espingarda com uma agilidade e segurança que eram de pasmar. Demonstrava com isso não ser a primeira vez que se achava numa situação dessas.

Por trás dele ouviu-se o estampido de dois tiros: os dois índios atiraram contra ele; erraram o alvo, porém. Os índios proferiram brados raivosos e, sacando das suas machadinhas, correram, furiosamente, ao seu encontro. O caçador, a esta altura, já havia carregado a arma e virado a égua. Tinha-se a impressão de que o animal percebera a intenção do cavaleiro, pois se espichou e se conservou imóvel e dura, como se fosse um cavalête de madeira. O homenzinho assestou a arma e bateu o gatilho. Ambos os índios tombaram, com as cabeças varadas por uma bala. Eu estava com a arma na mão, mas não fiz uso dela, pois o campineiro não chegou a necessitar do meu auxílio. Quando ele se apeou do cavalo para examinar os mortos, fui até lá para felicitá-lo.

— Então, sir, viu agora como se prega uma peça aos canalhas dos peles-vermelhas? — perguntou-me triunfante.

— Sim, mestre. Meus parabéns! Com o senhor pode-se aprender alguma cousa!

— Thank you!

As minhas felicitações e o meu riso pareceram-lhe duvidosos, pois olhou-me com energia e disse:

— Quem sabe se o senhor já não é afeito a manobras de guerra como a que acabo de praticar?

— Sou de opinião que não seria necessário o senhor fazer um círculo para atacar os índios. Num terreno como este, todo cheio de ondulações, em que a gente se pode esconder, basta que se tome uma boa dianteira ao inimigo, para chegar ao resultado a que o senhor chegou com menos tática. Um círculo seria aconselhável se se tratasse de campina rasa, sem obstáculo de espécie alguma.

— Pois não é que fala com acerto! Mas quem é o senhor?

— Sou um escritor.

— O senhor é escritor? Escreve livros? — Dizendo essas palavras, deu um passo para trás e olhou-me com um misto de espanto e de dó. — O senhor está doente?

A essas palavras levou a mão à testa, de modo que percebi logo a que espécie de doença ele se referia.

— Absolutamente não, sir! — respondi.

— Não? Então não o compreendo. Quando mato um búfalo é porque preciso de sua carne para o meu sustento. E o senhor por que motivo escreve livros?

— Para que eles sejam lidos!

— Sir, não me leve a mal! Mas é a maior tolice do mundo escrever-se livros. Aquele que quiser ler que escreva o seu livro! Eu também não mato búfalos para os outros. Sim, senhor! O senhor então é um “escrevinhador”! Que lástima! Um rapaz tão jovem e já tão doido! Mas, diga-me, que veio então fazer aqui nas savanas do oeste bravio? Pretende escrever aqui os seus livros?

— Não, isso só o farei depois de ter voltado para a pátria, quando relatarei tudo o que vi e vivi. Milhares de pessoas lerão os meus livros e por eles virão, a saber, o que se passa nas savanas, sem que seja necessário vir até cá.

— Então vai contar também alguma cousa a meu respeito?

— Claro que sim.

Recuou espantado mais um passo; depois, solene e grave, chegou-se mais para junto de mim, pôs a mão direita no cabo de sua faca e a esquerda no meu braço e disse:

— Sir, lá está o seu cavalo; monte-o e bata o pó dos sapatos, se não quiser experimentar algumas polegadas de lâmina fria entre as costelas! Perto do senhor não se pode pronunciar uma só palavra e nem mover com um braço, sem que o mundo inteiro venha a saber. Retire-se e já!

O homem mal alcançava-me até o ombro e no entanto falava-me com uma arrogância de pasmar. Longe de me encolerizar, divertia-me intimamente com aquela cena.

— Mas, devagar! Prometo escrever exclusivamente cousas bonitas a seu respeito! — esclareci-lhe.

— Retire-se! Já lhe ordenei e quero ser obedecido!

— Então dou-lhe minha palavra que não escreverei cousa alguma a seu respeito.

— Não acredito! Aquele que se senta a uma mesa para escrever livros para os outros é um doido varrido e um doido varrido não cumpre com a sua palavra. Retire-se, já lhe disse, e não espere que se esgote a minha paciência!

— E que sucederia então?

— Já o verá!

Olhei, rindo, para os seus olhos enfurecidos e disse tranqüilamente.

— Bem, pois quero ver! Não me retirarei!

— Então olhe! Que tal lhe parece esta lâmina?

— Não é má; disso vou dar-lhe uma prova.

Num abrir e fechar de olhos, agarrei-o, segurei-lhe o braço para trás e apertei-o com uma tal força que ele foi obrigado a gritar e a largar a faca. Essa agressão inesperada deixou o homem tão perplexo, que consegui amarrar-lhe as mãos às costas com a cinta de minha cartucheira, antes que ele se lembrasse de fazer o mais leve movimento para reagir.

— Com os diabos! — exclamou depois. — Que lhe deu na veneta? Que pretende fazer comigo?

— Alô, Mr.! Para outra vez não fale em voz tão alta — respondi-lhe valendo-me de sua expressão ao me dirigir a palavra pela primeira vez.

Apanhei a faca que se achava no chão, enquanto ele se esforçava, debalde, para libertar as mãos.

— Deixe disso! Para que esse esforço inútil? O senhor só conseguirá libertar-se quando eu quiser — exclamei. — Quero apenas provar-lhe que um “escrevinhador” está habituado a responder no mesmo tom às pessoas descorteses. O senhor quis agredir-me armado de faca, sem que eu o tivesse ofendido, ou prejudicado na menor coisa, e, por conseguinte, de conformidade com as leis das savanas, posso agora fazer do senhor o que quiser. Ninguém tinha o direito de me censurar se eu o fizesse “experimentar algumas polegadas da lâmina fria desta faca, entre as costelas”, em vez de fazer nas minhas, conforme me ameaçou há pouco.

— Pois faça-o! — disse com ar sombrio. — Folgaria muito se o senhor liquidasse duma vez com a minha vida, pois Sans-ear não sobrevive à vergonha de ser dominado e amarrado por um só homem, em campina aberta e em luta leal, frente a frente!

— Sans-ear? O senhor é o Sans-ear?! — exclamei.

Eu já ouvira falar muito desse afamado homem do oeste, que nunca foi visto em companhia de outros, por não considerar ninguém digno de ser seu companheiro. Há muito anos, num combate com os navajos, ele perdera as orelhas. Daí a sua alcunha de Sans-ear — que quer dizer “sem orelhas”; por esse nome era muito conhecido em todas as campinas bravias dos Estado Unidos e do México.

Ele não respondeu à minha pergunta e só depois que eu a repeti é que disse:

— O meu nome não é da sua conta! Se não fôr um bom nome, não será digno de ser pronunciado e se fôr um nome honrado, cabe-me, ante a inominável vergonha atual, ocultá-lo!

Aproximei-me dele e desatei as cordas.

— Aqui tem a sua faca e a sua espingarda: está livre. Vá para onde quiser.

— Deixe de pilhérias tolas! Devo partir, levando comigo a vergonha de haver sido dominado e amarrado por um greenhorn, que, por fim, ainda me dá de presente a vida?

— Agora, se eu tivesse sido vencido pelo cacique Winnetou, ou por um escoteiro da força de “Mão de Fogo” ou “Mão de Ferro”, aí sim, não seria vergonha, pois ser vencido por eles significa...

O velho causava-me pena: o meu golpe ferira-lhe, de fato, o amor próprio. Cabia-me consolá-lo, pois ele acabava de citar o nome pelo qual eu era conhecido em todas as fogueiras dos brancos e aldeias de indígenas.

— O senhor chama-me greenhorn?! — perguntei, interrompendo-o. — Então acha que um novato nas campinas seria capaz de lavrar um tento com o célebre Sans-ear?

— Mas quem é o senhor senão um greenhorn? O seu aspeto é de quem acaba de sair da loja de um alfaiate londrino, as suas armas estão reluzentes como se tivessem sido brunidas para uma representação teatral, ou para completar a indumentária de uma farra carnavalesca!

— Mas são excelentes armas! Disso, já lhe vou dar uma prova. Preste atenção!

Peguei de uma pedra do tamanho da moeda de um dólar e arrojei-a para o ar. Em seguida alvejei-a com minha arma, que acertou o alvo.

— Heavens! Mas que tiro certeiro! Atira sempre com tanta segurança?

— De vinte tiros, talvez não me falhe um.

— Então é um portento. Como se chama?

— “Mão de Ferro”.

— Não é possível! “Mão de Ferro” (*) deve ser muito mais velho do que o senhor, pois do contrário não o chamariam de “velho”.

— Mas se esquece de que no oeste bravio a palavra “velho” nem sempre significa ser idosa a pessoa a quem ela é aplicada.

— Tem razão! Mas, não me leve a mal, sir. “Mão de Ferro”, de uma feita, quase que ia sendo dominado por um urso cinzento com o qual lutava: antes de vencer a fera, ela arrancou-lhe uma boa parte dos músculos da espádua. Mesmo que a ferida sarasse radicalmente, ainda no local ficaria uma enorme cicatriz.

Abri o meu jaquetão e, depois, a camisa, dizendo-lhe:

— Pois então olhe aqui!

— Oh! Como a fera devia estar furiosa! Foi um milagre o senhor se ter escapado.

— Foi de fato. A luta com a fera deu-se lá embaixo no rio Red. Mesmo depois de vencê-la, estive estirado no solo durante duas semanas e teria perecido se Winnetou, o cacique dos apaches e cujo nome o senhor citou há pouco, lá não aparecesse para salvar-me.

— Então o senhor é de fato o célebre “Mão de Ferro”! Hum! Vou dizer-lhe uma cousa. Em primeiro lugar, diga-me cá: considera-me um indivíduo imbecil?

— Nem por sombra. O senhor cometeu apenas o erro de tomar-me por um greenhorn. Nada mais. E por persistir nesse erro é que o senhor deu a rata. Sim, um novato não estaria à altura de vencê-lo. Só se pode vencer Sans-ear de emboscada.

— Oh! Mas o senhor venceu-me em luta face a face e não de emboscada! Deve haver bem poucos homens que possuam força de búfalo como o senhor. Ser subjugado pelo senhor não é vergonha. Meu verdadeiro nome é Sam Hawerfield, e se me quiser fazer um obséquio trate-me por Sam!

— E o senhor, trate-me por Carlos, como me chamam todos os amigos, Aqui tem minha mão! Sejamos camaradas!

— Com muito prazer, sir! Se bem que Sam não é homem que aperte facilmente a mão de alguém. Mas, com o senhor, a cousa é outra. Mas, um favor: não vá quebrar minhas falanges, pois elas ainda terão que me prestar muitos serviços! Preciso delas, na verdade!

— Não tenha receio, Sam! Essa mão ainda vai prestar-me, talvez, muitos obséquios, da mesma forma como as minhas estarão sempre prontas para servi-lo. Bem; agora permita-me que eu repita a pergunta de há pouco: de onde vem e para onde pretende ir?

— Venho descendo do Canadá, onde estive prestando meus serviços a uma sociedade de madeireiros, e pretendo agora seguir para o Texas, e de lá, para o México, onde dizem que há atualmente muitos canalhas cujas facas e espingardas estão causando pavor!

— Pois é exatamente o meu caminho! Também me destino ao Texas e de lá

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(*) Em inglês, diz-se Old Sbaterband, que significa “Velho Mão de Ferro”.

 

seguirei para a Califórnia; não me fará, pois grande diferença se nesta viagem eu cavalgar também um pouquinho sobre o solo mexicano. Permite que eu o acompanhe?

— Se permito?! Oh! Com que alegria! O senhor já andou lá pelo sul e é portanto justamente o companheiro que me serve. Mas diga-me com. sinceridade: é de fato “escrevinhador”?

— Sim.

— Hum. Se os livros são escritos por “Mão de Ferro” o caso é diferente. Quanto a mim, afianço-lhe que preferia cair na caverna de um urso do que escrever livros. Em toda a vida não conseguiria escrever a primeira palavra. Mas, passando de um pólo a outro, como teriam vindo esses índios parar aqui? São ogellallahs, com os quais não se pode facilitar!

Contei-lhe o que sabia a respeito.

— Hum! — fêz então. — Nesse caso a zona não anda segura. Topei ontem com as pegadas de uns sessenta cavaleiros. Com toda certeza esses quatro vermelhos pertenciam àquele bando, e andavam em reconhecimento. Tem estado aqui por mais vezes?

— Não.

— A vinte milhas daqui a campina perde essas ondulações e a dez milhas mais para a frente existe uma aguada, para onde devem ter seguido os sessenta índios a fim de darem de beber aos cavalos. Nós nos desviaremos, naturalmente, mais para o sul, para evitarmos, deste modo, trilhar o mesmo caminho que eles, embora só vamos encontrar aguada amanhã à noite. Se partirmos já, atingiremos esta noite a linha férrea, recentemente construída ligando a cidade ao oeste bravio. Se lá chegarmos a tempo, teremos o prazer de ver a passagem dum trem.

— Estou pronto para a partida. Mas que faremos do corpo desses índios?

— Ora! Deixaremos aqui abandonados! Antes, porém, vou cortar-lhes as orelhas.

— É conveniente que os sepultemos, pois, se forem encontrados, darão logo pela nossa passagem por aqui.

— Deixe que os achem! É exatamente o que desejo.

Ele conduziu os cadáveres para um cômoro da campina, onde os enfileirou um ao lado do outro. Cortou-lhes as orelhas e as pôs nas mãos dos mortos.

— Agora sim! Os companheiros desses índios, quando os encontrarem, saberão logo que foram mortos por Sans-ear. Afianço-lhe que é bem desagradável quando no inverno o vento nos açoita a cabeça e não temos. orelhas para impedir que o frio penetre no ouvido. Tive de uma feita a inabilidade de me deixar pegar pelos vermelhos. Eu já havia morto muitos; a um, porém, cortara apenas a orelha, em vista de ter errado o alvo com a machadinha. E para castigo cortaram-me as duas orelhas, antes de me conduzirem ao poste do martírio de onde, por felicidade, consegui escapar. Portanto ficaram com as minhas orelhas, mas não com a vida! Para me desforrar, desse dia em diante, não tenho poupado ao inimigo orelhas que a minha faca pode alcançar. Quer ver? Conte! — E me mostrou a sua espingarda cheia de entalhes: cada um deles, me disse, representava a vida de um indígena tirada por ele.

Depois, fez quatro novos entalhes e explicou:

— Estes aqui são os de peles-vermelhas. Cá mais em cima estão mais oito entalhes, que representam as vidas de canalhas peles-brancas, apagadas ante a ação de minhas balas. A causa por que assim procedo contar-lhe-ei oportunamente. Falta-me ainda agarrar dois. Quando os encontrar, ficará satisfeita a minha vindita. Trata-se de pai e filho, os maiores canalhas que Deus pôs sobre a terra!

Seus olhos umedeceram-se subitamente, e a sua fisionomia assumiu uma expressão angustiosa...

— “Tony”! — chamou Sam.

A égua pastava ali perto. A esse chamado, ela aproximou-se, a galope, do cavaleiro e colocou-se de modo a facilitar a montada, pois era só pôr a mão ao pescoço e pular no serigote.

— Sam, o senhor monta um excelente animai! Quem vê a sua égua pela primeira vez é capaz de não dar um dólar por ela; no entanto, aquele que a observar bem, notará logo que o senhor não a vende nem por mil.

— Mil? Diga milhão. Conheço veios auríferos, por essas montanhas, dos quais, se quisesse, eu poderia tirar ouro aos montes; se um dia eu encontrar alguém que tenha feito jus à amizade de Sam Hawerfield, a este revelarei todo o segredo, tornando-o um homem riquíssimo. Portanto, não preciso desfazer-me de minha “Tony” para ganhar dinheiro. O senhor precisa saber que este a quem hoje chamam Sans-ear já foi outro homem bem diferente do que é hoje. Era feliz e a vida sorria-lhe com suas lindas manhãs de sol e prados verdejantes e floridos. Eu era um jovem granjeiro, tinha uma esposa, pela qual seria capaz de sacrificar mil vidas, e um filho que valia um sacrifício de dez mil. Costumava levar minha esposa para casa, montada numa égua chamada “Tony”. Esta égua depois pariu uma cria fêmea, ágil, inteligente prestativa como a mãe. Por que então não lhe havia eu de dar também o nome de “Tony”?

— É claro! — respondi-lhe, tocado pela inflexão de sentimentalismo com que inesperadamente passou a me falar.

— Well! Depois a potrilha criou dentes. Um bando de buscheadores tornava, naquela época, intranqüila a nossa zona. Esses indígenas queimaram minha quinta, assassinaram-me mulher e filho. Depois, mataram-me a égua a tiros, porque ela não permitia que estranhos a montassem. A potrilha escapou à sanha dos bárbaros, porque, no momento, se achava extraviada na mata. Quando voltei das caçadas, encontrei apenas essa potrilha, como única testemunha da minha felicidade de outrora. Que devo lhe contar mais? Oito dos bandoleiros tombaram varados pela bala de minha espingarda; os dois restantes ainda hei de pegar, pois aquele a quem Sans-ear segue a pista, nas mãos lhe cairá; poderá fugir até a Ásia, mas não me escapará. E é justamente por causa desses dois canalhas que pretendo seguir para o Texas e o México. É verdade! O jovem e esperançoso granjeiro de outrora transformou-se num sinistro corredor das campinas que só anseia por sangue e vingança; a potrilha transformou-se, depois, num monstrengo, que mais parece um bode do que cavalo. Mas é minha companheira inseparável e assim continuaremos até que uma seta, um tiro ou um golpe de machadinha venha abater um de nós. O sobrevivente, seja a égua ou eu, não resistirá por muito tempo à dor da separação.

 

ASSALTO FRUSTRADO A UM TREM

Saltando para o lombilho, continuou:

— Estou falando muito sobre cousas passadas. O senhor é o primeiro a quem relato os temporais da minha vida, embora o veja hoje pela primeira vez. Foi o primeiro e, creio, será também o último. O senhor deve ter ouvido falar muito em mim e com certeza também já lhe disseram que eu dificilmente permaneço sentado perto duma fogueira, junto com esta ou aquela pessoa. Menciono-lhe esta circunstância para comprovar-lhe que não o considero estranho. Mas um favor lhe peço. Esqueça-se de que hoje me atacou de surpresa, subjugando-me! Contudo, daqui por diante, lhe provarei que Sam Hawerfield não é nenhum fraco e que sabe, em ocasião de perigo, usar com vantagem, de sua grande destreza física... Também sei lutar.

Montei a cavalo e partimos. Sam Hawerfield dissera, antes, que tomaríamos o rumo do sul, no entanto agora seguia na direção do oeste. Não quis perguntar-lhe pela causa, pois ele deveria ter motivos para alterar a nossa rota. Da mesma forma não o inquiri sobre as razões que o levaram a apossar-se das quatro lanças dos indígenas mortos. Aquela figura fazia lembrar, com muita saudade, o meu velho amigo Sam Hawkens, de quem aliás era xará.

Havíamos cavalgado uma boa distância sem pronunciarmos uma só sílaba, quando Sam parou o cavalo. Apeou-se e fincou uma das lanças no cume de uma ondulação da campina. Agora eu sabia para que fim o meu companheiro trazia consigo aquelas armas: para guiar os índios pelo caminho que os devia conduzir aos companheiros mortos; além disso, ainda viriam a saber que o desejo de vingança de Sans-ear exigia novas vítimas.

Depois tirou da maleta oito panos de tecido reforçado e os repartiu comigo, dizendo:

— Apeie e com eles envolva os cascos de seu cavalo; assim enrolados   não imprimirão o menor vestígio no solo e os índios hão de pensar que por aqui passamos pelos ares... Agora o senhor prossiga viagem só, em direção ao sul, e espere-me na linha férrea de que lhe falei há pouca.  Primeiro vou fincar essas três lanças e depois lhe seguirei. Havemos de nos encontrar, mas se porventura nos perdermos: durante o dia o grito do gavião e durante a noite o uivo do coiote será o sinal convencionado.

Cinco minutos depois não nos avistávamos mais. Segui, pensativo, na direção que me fora indicada. Os panos nos cascos do cavalo impediam-no de andar ligeiro. Em vista disso, quando já cavalgara umas cinco milhas, apeei e desenrolei os cascos do animal. Os panos, aliás, destinavam-se apenas a ocultar nossas pegadas nas redondezas, onde se achavam as lanças cravadas no chão.

Agora o meu poldro poderia andar desembaraçadamente. A campina tornava-se cada vez mais plana; aqui e ali erguia-se uma nogueira ou cerejeira silvestre. O sol ainda se achava no horizonte, quando notei uma linha que, partindo do leste, seguia para o oeste.

Seriam os trilhos da via férrea citada por Sans-ear? Cavalguei naquela direção e vi que minha suposição fora acertada. Os trilhos se achavam sentados sobre dormentes da altura de um homem.

Senti uma sensação original ao ver aquela via férrea. Ao passar o trem, bastaria um sinal, para embarcar nele e voltar ao mundo civilizado.

Depois de amarrar o cavalo, saí pela campina à procura de lenha para a fogueira. Sobre o leito da linha havia um galho seco. Ao agarrá-lo, vi, com espanto, que ali se achava um martelo no solo. Devia ter sido abandonado havia bem pouco tempo, pois tinha ainda a cabeça reluzente, sinal de recente uso. Logo, naquele dia ou no dia anterior, alguém estivera lá!

Examinei o leito da linha, nada encontrando de suspeito. Em seguida avistei um gramado nas imediações, circunstância que despertou-me a atenção, por ser raríssima naquela zona. Além disso, sobre a grama, havia um rasto de homem. A pegada era ainda nova, podia ter, quando muito, umas duas horas; fora produzida por uma sapatilha indígena. Andaria alguma tropa de peles-vermelhas pelas imediações? Que relação teria a presença de índios com o martelo que ali encontrara? Mas refleti: muitos brancos usam também sapatilhas indígenas. Podia muito bem tratar-se dalgum operário que ali tivesse estado a consertar a linha e que usasse aquela cômoda espécie de calçado. Contudo, eu não podia ficar tranqüilo: precisava desvendar o mistério!

Um exame do local seria empresa arriscada. Nos macegais que beiravam a linha de ambos os lados, podia achar-se uma tropa de índios à espreita. Noutra circunstância, o martelo não me deixaria tão intranqüilo e eu teria empreendido um reconhecimento da zona, sem indecisão. Mas agora eu precisava ter toda cautela, pois sabia que os ogellallahs se achavam nessa região. Pus a espingarda a tiracolo e engatilhei o revólver. Rastejando pelos macegais, fiz o reconhecimento de um bom trecho da zona, sem resultado porém. Voltei pelo outro lado; também em vão. Esse reconhecimento eu efetuara ao oeste do local, onde deixara o meu cavalo, tendo depois me dirigido para o leste, onde, de começo, não encontrei igualmente nada de anormal. Dispus-me então a atravessar cautelosamente o leito da linha férrea; por isso arrastei-me de gatinhas sobre os trilhos. Tive então a impressão de que havia tocado com os dedos em solo úmido. Notei, também, não obstante a regular distância, que no solo havia uma figura em forma de círculo, que teria sido feita por alguém com algum fim. Examinei a figura com a mão e quase recuei espantado: tingi-me de sangue A figura era feita de areia que o sangue ainda úmido avermelhara. Examinei, depois, detidamente o local e verifiquei que uma poça de sangue havia sido encoberta com areia.

Nesse local ocorrera, sem dúvida, um assassinato; se fosse sangue de algum animal, ninguém teria necessidade de ocultá-lo. Mas quem era a vítima e quem era o assassino? Não havia pegadas na campina, pois em terreno duro, como era o da zona, não seria possível deixar vestígios. No entretanto, olhando para um gramado nas imediações, descobri sinais de alguém que arrastara algum corpo de pessoa, pelo local onde me achava.

Era extraordinariamente perigoso encaminhar-me para o local de onde partiam os ditos sinais. Do fato de estar ainda úmido o sangue e de serem recentes os vestígios, que eu percebera, podia-se concluir, sem receio de errar, que o crime fora praticado havia pouco tempo e que o assassino, ou os assassinos, ainda deviam encontrar-se pelas imediações. Descrevi, por isso, uma grande curva, para chegar ao gramado de onde partiam os vestígios.

Essa manobra foi feita com morosidade, pois eu precisava conduzir-me com toda a habilidade, ocultando-me o mais possível e evitando toda c qualquer espécie de ruído, a fim de não ser a minha presença notada. Felizmente, no lugar por onde descrevi a curva, havia numerosos arbustos que me encobriam; através deles eu poderia também avistar grande distância à frente, antes de ser visto por alguma pessoa. Mais adiante notava-se um grupo de cerejeiras silvestres, rodeadas de outros arbustos e de alguns macegais. Tive a impressão de que, debaixo daquelas cerejeiras, jazia qualquer cousa parecida com um corpo humano. Parecia estar o vulto encoberto com ramagens; o comprimento era o de uma pessoa. Estaria lá escondido o cadáver da vítima? Também podia ser um dos assassinos que, perpetrado o crime, ali se deitara a dormir. Fiquei ansioso por averiguar o que de positivo havia em tudo aquilo.

Mas, afinal, por que me ia expor a um tal perigo? Eu podia muito bem esperar Sam e com ele prosseguir tranqüilamente a jornada! É que um corredor das campinas tem necessidade de saber que espécie de inimigos tem por trás de si; o campineiro pesquisa tudo e anota até com os mínimos detalhes aquilo que vê ou desconfia ver nas savanas que atravessa. Essa precaução, que um professor de academia ou qualquer outro intelectual acharia ridícula, tem salvo a vida a muitos homens do oeste. Muitas vezes um campineiro, que costuma cavalgar de quarenta a cinqüenta milhas inglesas diariamente, não consegue sair do lugar, pois as pegadas e outros indícios que encontra, obrigam-no a meticuloso exame do caminho, o que embaraça sobretudo a rapidez da viagem. Ainda mesmo que nem sempre lhe aproveite o minucioso exame, trará, sem dúvida, grandes vantagens para outros, a quem encontra, enriquecendo a narração, que então lhe faz, com as suas observações muito lógicas e sensatas.

Tomei de um galho seco, em cuja extremidade coloquei o chapéu à guisa de bandeira, e encaminhei-me para o grupo de cerejeiras fazendo propositadamente um ruído de maneira a ser ouvido pela pessoa que lá se achasse. Apesar disso, ninguém se moveu no referido local: ou não havia inimigo algum ali, ou eu tinha diante de mim um tão astuto e inteligente, que fingia não me ouvir para surpreender-me com mais êxito.

Resolvi, então, arriscar tudo. Mais do que ser morto não me seria possível acontecer. De um pulo cheguei-me até as cerejeiras, de faca em punho, pronta para entrar em ação caso fosse necessário. Debaixo daquelas árvores havia um homem, disso eu não tinha agora a menor dúvida. Aproximei-me mais e certifiquei-me de que estava sem vida. Chegando-me até o cadáver, retirei os ramos que o cobriam. Vi então um quadro horrível! O homem estava com todo o corpo tinto de sangue, que lhe escorria da cabeça: fora escalpelado. Nas costas tinha cravada a ponta de uma flecha de guerra. Deduzi, pois, que o malfeitor ou os malfeitores haviam sido peles-vermelhas, que se achavam ainda — era fora de dúvida — pelas cercanias. Os indígenas, conforme atestava a ponta de flecha que vitimara aquele pele-branca, se achavam em expedição de guerra e não em caçada.

Onde se teriam eles metido? Precisava descobri-lo. As suas pegadas eram visíveis e, saindo do leito da via férrea, seguiam para a campina. De macega em macega, acompanhei aquelas pegadas, sempre pronto a receber de um momento para outro um flechaço de algum pele-vermelha oculto por ali, ou a usar de minha faca. Tratava-se de quatro peles-vermelhas, dois homens maduros e dois jovens, conforme se depreendia das pegadas. Nem tiveram o cuidado de apagar os sinais que deixaram no solo, motivo por que era de supor que se consideravam absolutamente seguros.

O vento soprava do sudoeste, rumo para onde seguiam as pegadas. Daí a pouco ouvi o relincho de um cavalo. Não me assustei, pois esse bufido ainda não denunciaria a minha presença. Prossegui, rastejando ou caminhando nas pontas dos dedos e dos pés, como se fosse um lagarto, até atingir o lugar de onde viera, uma vez que julguei haver notado tudo o que desejava saber. Foi quando vi, diante de mim, dentro de um macegal, sessenta cavalos, todos, com exceção de dois, arreados à indígena; estavam sem os serigotes, com certeza para os índios, que se achavam acampados próximos deles, se servirem como banco ou travesseiro. Junto aos animais se achavam duas sentinelas, ainda bem jovens. Um deles calçava umas amplas botas que, sem dúvida, haviam pertencido ao morto, pois encontrei este completamente despido. É que seus trajes e mais haveres, como de praxe entre os nativos, foram distribuídos entre os guerreiros. Este jovem fizera parte do grupo daqueles quatro cujas pegadas eu seguira.

O indígena mantém muitas vezes relações com brancos cuja língua não compreende. Em vista disso, entre peles-brancas e peles-vermelhas, foi adotada uma linguagem mímica. Em geral, todos os que percorrem o oeste bravio conhecem essas mímicas e o seu significado. Acontece que muitas vezes, tratando-se de pessoas de temperamento nervoso ou quando se discute calorosamente, essas mímicas se fazem acompanhar das palavras que a elas correspondem, palavras que naturalmente o interlocutor não compreende. Os dois guardas discutiam calorosamente por meio de mímica fazendo acompanhar os seus gestos das palavras que lhes correspondiam. Apontavam para o oeste, faziam o sinal de fogo e de cavalo. Referiam-se, pois, à locomotiva que os indígenas tratam de “cavalo de fogo”; erguiam os arcos e com eles faziam sinais de cavar a terra e de desferir marteladas, apontavam como para significar tiros, e faziam os movimentos de punhaladas e de golpes de machadinha. Enfim... eu já vira o bastante. Voltei pelo mesmo caminho, tomando a precaução de apagar o mais possível todos os sinais que deixara no solo. Devido a isso, demorei muito a chegar ao local onde deixara o meu cavalo. Este, nesse meio tempo, recebera visita, pois ao seu lado pastava a égua de Sam, que com ele fizera boa camaradagem. Sans-ear se abancara comodamente por trás dum macegal, e mastigava um enorme pedaço de carne de búfalo.

— De quantos índios se compõe o bando? — foi ele logo perguntando.

— Que bando?

— O que se acha nas imediações.

— Como chegou a essa conclusão?

— Parece que o senhor toma o velho Sans-ear por um greenhorn, tal qual o fiz há pouco com o senhor! Mas asseguro-lhe que está redondamente enganado, hihihihi!

Era uma risada característica de que ele sempre se servia para exprimir a certeza de vencer alguém em qualquer plano ou ponto de vista. Nisso ele muito se assemelhava ao velho Sam Hawkens, meu velho amigo e “professor”, do qual os leitores certamente ainda se lembram.

— Mas não o compreendo, Sam!

— Então quer que eu lhe diga? Que faria o senhor se, ao chegar aqui, encontrasse aquele martelo ao lado do meu cavalo?

— Esperaria pelo senhor.

— Realmente? Não estou muito inclinado a acreditar. Pois bem, o senhor aqui não se achava quando cheguei. Receando ter-lhe sucedido alguma cousa, saí-lhe ao encalço.

— Mas, reflita, eu poderia estar metido numa empresa que o senhor me embaraçaria com a sua chegada. Além disso, não precisava ter receio algum, pois “Mão de Ferro” nada empreende, sem tomar antes todas as precauções que o caso exige. Até que altura me seguiu as pegadas?

__Andei ziguezagueando por aí até chegar ao local onde os nativos mataram aquele pobre homem. Pude fazer o meu reconhecimento com relativa rapidez, pois eu sabia que o senhor se achava à minha frente, já tendo reconhecido a zona. Depois de haver examinado o morto, concluí de suas pegadas que havia saído a fazer um reconhecimentozinho e, então, para não o atrapalhar, voltei tranqüilamente para aqui onde tranqüilamente me vê a saborear este apetitoso xarque de búfalo. Portanto, vê que procedi da mesma forma que o senhor procederia, se estivesse em meu lugar. Mas afinal de quantos vermelhos se compõe o bando?

— De sessenta.

— Veja só! Deve ser o mesmo cujas pegadas encontrei ontem. Acham-se em caçadas ou em expedição de guerra?

— Em expedição de guerra.

— Acamparam por pouco tempo?

— Tiraram os aperos dos animais, deixando-os apenas com o bucal.

— Como veio a ter conhecimento desse plano?

— Observando-os.

— Mas como? Compreende a linguagem dos ogellallahs?

— Compreendo. Aliás, não os ouvi em seu idioma. Os dois guardas da cavalhada, perto dos quais estive, comentavam o assalto que iam realizar servindo-se de mímicas bastante inteligíveis.

— Isto às vezes não regula. O senhor pode ter-se enganado. Descreva-me os gestos que fizeram!

Descrevi o que vira. O homenzinho ergueu-se de um salto; dominou, porém, logo a sua agitação e tornou a sentar-se.

— Se foi assim — disse depois — o senhor os compreendeu muito bem e é dever nosso auxiliar os ferroviários. Mas não nos precipitemos. Essas cousas merecem ser feitas com toda a calma e reflexão. Primeiro combinaremos tudo, até os mínimos detalhes. São em numero de sessenta, não é assim? Hum! A minha espingarda tem lugar, quando muito, para mais dez entalhes. Onde farei depois os outros?

Apesar da situação de gravidade em que nos achávamos, tive um incontido desejo de dar uma gostosa gargalhada. O meu companheiro tinha diante de si sessenta indígenas, e, em vez de considerar essa enorme superioridade numérica, preocupava-se tão somente com a falta de lugar na espingarda para fazer os seus entalhes!

— Mas, afinal, quantos deles pretende abater?

— Isto eu mesmo ainda não sei. Mas creio que no máximo uns dois ou três, pois eles fugirão espavoridos ao dar com a presença de trinta a quarenta peles-brancas.

Ele contava, pois, também como eu, com o pessoal do trem para enfrentar os indígenas.

— O principal é sabermos qual o trem que pretendem assaltar — observei. — Seria uma espiga para nós se “tomássemos o trem errado”. Pode muito bem acontecer que saiam ao encontro do trem em rumo bem oposto ao de onde ele vem.

— Segundo as mímicas descritas pelo senhor, eles se referiam ao trem que procede das montanhas, e isso causa me admiração. Este trem traz mercadorias, por assim dizer, sem serventia. O do leste, sim; este constituiria excelente presa para os indígenas. Creio que o único meio de evitar um golpe em falso é dividirmo-nos. Eu seguirei a linha férrea por um rumo, o senhor por outro. Um de nós há de encontrar-se com o trem.

— Somos, realmente, obrigados a fazer isso. A não ser que tivéssemos absoluta certeza de qual seria o trem. Se ao menos soubéssemos como e quando chega o trem!...

— Quem poderia dizer-nos? Eu, em toda a minha vida, ainda não andei metido num troço daqueles, a que dão o nome de vagão, dentro do qual a gente, de medo, não sabe onde pôr os pés. Salve, pois, as campinas bravias e a minha boa “Tony”! Não encontrou ainda os índios no “serviço”?

— Não. Aliás, vi só os cavalos e as duas sentinelas. Mas de tudo se depreende que estão bem ao par da hora em que por aqui passará o trem. Por isso, pois, penso que antes da noite eles não farão o “serviço”. Daqui a uma hora, o mais tardar, começará a escurecer. Rastejaremos então até onde estão os nativos e saberemos de tudo.

— Well! Façamos assim.

— Talvez fosse aconselhável um de nós ficar aqui junto da linha. É bem possível que eles escolham exatamente este local para a depredação e o assalto.

— Não é necessário! Veja a minha “Tony”. É um animal astuto e de faro apurado. Aliás, o senhor já viu algum cavalo de campina não relinchar à aproximação de inimigos? Não. Pois fique sabendo que há um único que não relincha e este é a minha “Tony”. O bufido denuncia não só a presença do cavaleiro, mas também o local onde esse se acha. Por isso, desabituei “Tony” de relinchar à aproximação de algo de anormal Quando saio a pé, em reconhecimento, deixo-a sempre solta e o animal, assim que pressente o perigo, corre para o local onde me acho a prevenir-me, o que faz tocando-me com as narinas.

— Mas se ela não notar cousa alguma, conforme sucedeu hoje?

— O vento sopra justamente da zona onde os índios estão acampados e que fica muito próxima daqui. Dou, porém, o meu pescoço a cortar, se “Tony” não denunciar, a uma distância de mil metros, todo o pele-vermelha que aparecer! Ao demais, esses canalhas têm excelente acuidade visual e é bem possível que mesmo de longa distância, distingam o senhor deitado de barriga à beira dos trilhos. Portanto, se os vermelhos vierem destruir a linha aqui, “Tony” correrá a me avisar.

— Tem razão. Vou confiar tanto na “Tony” como no senhor. Conheço-o de hoje, mas tenho a impressão de que se pode fiar no senhor.

 

UMA ORIGINAL FÁBRICA DE CHARUTOS

Puxei um charuto de “fabricação própria” e o acendi. Sam arregalou os olhos e escancarou a boca. Suas narinas se dilataram e aspiravam avidamente o odor das folhas que ardiam, ao mesmo tempo que uma expressão de entusiasmo passava-lhe pelo semblante. O homem do oeste raramente tem ensejo de provar um bom fumo; no entretanto é, em via de regra, um fumador apaixonado.

— Wonderful...! Será possível? O senhor tem charutos?

— Claro! Creio que ainda há na maleta algumas dúzias. Aceita um?

— Venha, venha, venha com ele! O senhor é um homem a quem se deve dispensar toda espécie de consideração! Esplêndido!

Ele acendeu o seu charuto no meu, engoliu, segundo o hábito indígena, algumas baforadas, e depois as expeliu pela boca e pelo nariz. A sua fisionomia iluminou-se como se tivesse galgado o sétimo céu de Maomé.

— Que delícia! Quer que adivinhe a qualidade?

— Adivinhe, se fôr capaz! É conhecedor de charutos?

— Pelo menos tenho a pretensão de ser.

— Bem, então diga!

— É goosoot do legítimo da Virgínia ou Maryland!

— Enganou-se.

— Quê? Então é a primeira vez que não acerto. Não, tenha paciência! É goosoot, pois conheço-lhe o odor e o gosto.

— Não é!

— Então é charuto feito do legítimo fumo brasileiro, o melhor fumo do mundo!

— Também não.

— É sim, senhor! E fabricado com fumo da Bahia! A mim ninguém engana tratando-se de fumos!

— Afianço-lhe que não.

— Então que charuto é?

— Examine-o bem!

Puxei um do bolso, abri-o e dei-o para examinar.

— Mas é até um crime o senhor estragar o charuto deste jeito. É um artigo tão bom que qualquer caçador de castores, que não tenha fumado algum tempo, é capaz de lhe oferecer cinco ou seis peles por ele!

— Daqui a uns três dias terei maior quantidade.

— Daqui a... três dias? Maior quantidade? De onde a receberá?

— De minha fábrica.

— Queeê?! O senhor possui uma fábrica de charutos?

— Sim.

— Mas onde?

— Lá.

Apontei para o meu cavalo.

— Olhe, vou lhe pedir um favor! Não faça caçoadas de mau gosto comigo.

— Não é caçoada, não! Estou dizendo a verdade.

— Hum! Se eu não tivesse a certeza de ser o senhor o célebre “Mão de Ferro”, diria agora que não era bem certo da cachola!

— Sim, mas examine primeiro o fumo — disse eu, passando-lhe o charuto aberto.

Ele o fêz com todo o cuidado.

— Não conheço. Nunca vi semelhante qualidade. Mas é do bom! Excelente fumo!

— Bem, agora vou mostrar-lhe minha fábrica.

Dirigi-me ao cavalo, afrouxei-lhe a cincha e tirei de sob o serigote uma espécie de almofada, que abri.

— Aí tem. Ponha a mão dentro.

Ele meteu a mão dentro do saquinho e puxou-a cheia de folhas.

— Não me faça de tolo! São puras folhas de cerejeiras e figueiras!

— Exatamente! Misturadas com um pouco de cânhamo; e a capa dos charutos faço com as folhas de uma erva  campineira a que dão o nome de “pata de vaca”. Pois esta almofada é de fato a minha fábrica de charutos. Sempre que encontro dessas folhas, junto-as em quantidade necessária e as ponho na almofada debaixo do serigote. Em contato com o calor, as folhas fermentam. Eis aí a minha arte de fabricar charutos.

— Parece incrível!

— Não revele esse segredo a pessoas que ainda não estiveram no oeste! Pensarão que o senhor pertence a uma tribo da África, cujo paladar exige que se besuntem os seus artigos de fumar com pixe.

— Isto é me indiferente, contanto que o charuto me agrade. De resto, nem eu sei onde fica esta tal de África!

 

ESPIONANDO OS OGELLALLAHS

Ele não se deixou perturbar no seu prazer de fumar, com a revelação do meu sistema de fabricar charutos. Fumou o seu charuto até quando apenas podia apertar entre os dedos um toquinho já molhado, que mal podia pegar e pôr nos lábios.

Nesse meio tempo o sol desaparecera no ocaso. Começou a escurecer tão depressa que já devíamos pensar em executar o nosso plano.

— É agora? — perguntou Sam.

— Sim.

— Como começaremos?

— Iremos juntos até a cavalhada dos peles-vermelhas; depois nos separaremos para observar o seu acampamento e nos juntaremos de novo por trás deles.

— Bem. E se acontecer alguma cousa que nos obrigue à fuga, ocasião em que seria fácil perdermo-nos um do outro, fica combinado que iremos encontrar-nos lá no sul, na aguada. Há ali uma mata virgem que vai entestar com a campina, formando uma figura idêntica a uma cabeça de tartaruga. Junto à cabeça da tartaruga será o ponto de nosso encontro. O que chegar primeiro espera pelo outro.

— Está combinado. Avante, pois!

— Eu não tinha receio de que nos extraviássemos, mas em todo caso foi boa a idéia da combinação do encontro, pois desse modo estaríamos mais seguros.

Partimos.

Já escurecera tanto, que podíamos, sem risco nenhum, atravessar a linha férrea, andando em posição vertical. Depois quebramos para a esquerda, trazendo sempre a faca pronta para a eventualidade de uma luta. A vista do campineiro habitua-se facilmente a enxergar no escuro; enxergaríamos a muitos passos, à nossa frente, qualquer índio que de nós se aproximasse. Passando pelo corpo da vítima dos indígenas, encaminhamo-nos até o local onde os índios haviam deixado a cavalhada. Esta ainda ali se achava.

— Agora, o senhor pela esquerda e eu pela direita — cochichou Sam; feito o que, rastejou à minha frente.

Cortando uma curva por trás da cavalhada, cheguei a uma clareira do macegal onde vi os vultos escuros dos indígenas. Não haviam acendido fogueiras e conservavam-se tão silenciosos que eu ouviria o zumbido dum inseto perto deles. A um dos lados, um pouco distante do grosso da tropa, vislumbrei sentados três vultos de vermelhos, que, a palpite meu, se entretinham em palestra, porém em voz muito baixa ou por mímicas. Arrastei-me até lá com toda cautela.

Quando estava a uns seis passos deles, vi com espanto que um era pele-branca. Que é que este pretendia dos índios? Não se tratava dum prisioneiro, via-se logo pela regalia de que gozava. Tratava-se, talvez, dum desses troca-tintas das savanas, que ora se põem ao lado dos brancos, ora dos vermelhos, conforme as conveniências do momento, que lucram tanto em sua atividade de ladrões como de malfeitores. Também podia ser um dos peles-brancas aprisionados pelos índios, e que, para se salvarem, tomam por esposa uma mulher da tribo, de que passam então a fazer parte. Mas neste caso o seu traje, que eu divisava bem, deveria ser mais à indígena do que era.

Os outros dois eram caciques, conforme reconheci pelas penas de corvo que traziam ao alto da cabeça. Parecia tratar-se de duas tribos ou aldeias diversas que se tivessem aliado para realizar o mesmo propósito. Os três estavam sentados na orla do macegal, de onde me foi possível aproximar tanto, que podia escutar-lhes a conversa.

Depois de uma breve pausa, perguntou um dos caciques ao pele-branca, no linguajar misto (indígena e inglês) de que sempre se servem os brancos na conversação com os índios:

— Mas o meu irmão pele-branca tem absoluta certeza de que o “cavalo de fogo” que aí vem transporta uma tão grande quantidade de ouro?

— Tenho toda a certeza — respondeu o interrogado.

— Quem lhe disse?

— Um dos homens que mora nas baias do “cavalo de fogo”.

— E o ouro provem de Waikur? (*)

— Sim, senhor.

— E se destina ao pai dos peles-brancas (**) a fim de cunhar dólares?

— Sim.

— Pois afianço-lhe que o pai dos peles-brancas não receberá desse ouro nem o suficiente para cunhar meio penny! Viajarão muitos homens no “cavalo de fogo”?

— Isto eu não sei. Mas mesmo que venham muitos, meus irmãos peles-vermelhas hão de vencê-los totalmente!

— Os guerreiros ogellallahs vão colher muitos escalpos e as suas mulheres e filhas dançarão a dança da alegria. Acha que os cavaleiros do “cavalo de fogo” trazem muitas mercadorias de utilidade para os peles-vermelhas? Vestuário, armas, calicós?

— Trazem tudo isso e muito mais ainda. Mas os irmãos peles-vermelhas darão ao seu irmão pele-branca o que prometeram?

— Meu irmão pele-branca receberá todo o ouro e toda a prata que o “cavalo de fogo” trouxer. Nós não precisamos desses metais, pois em nossas montanhas há minas auríferas inesgotáveis, com as quais nem nos preocupamos. Ha-wo-mien, o cacique dos ogellallahs, — dizendo isso apontara para si próprio — veio um dia a conhecer um pele-branca inteligente e bravo, que lhe afirmou que o ouro não passava de um pó mortífero, lançado na terra pelo Mau Espírito, a fim de tornar os homens ladrões e assassinos.

_______________

 (*) Califórnia.

(**) Presidente dos Estados Unidos.

 

— Esse pele-branca de que fala era um grande idiota. Como se chamava?

— Não era nenhum idiota, não, mas um moço muito inteligente e um valente guerreiro. Os filhos dos ogellallahs achavam-se reunidos no Broad-forck a fim de tirar os escalpos de um grande número de escoteiros que haviam pegado muitos castores no seu território. Entre os caçadores de castores havia um pele-branca, que era considerado idiota porque colecionava insetos e plantas; tinha-se reunido aos escoteiros com o fim exclusivo de conhecer o oeste bravio. Mas na cabeça daquele branco morava a sabedoria e nos seus braços a força; a sua espingarda nunca errava o alvo e a sua faca não temia sequer os ursos gigantescos das montanhas rochosas. Ele tentou incutir no cérebro daqueles canalhas que procedessem com brandura com os peles-vermelhas. Mas riram-se dele e por isso todos foram mortos e os seus escalpos ainda hoje enfeitam a aldeia dos ogellallahs. Não obstante isso, não quis abandonar seus irmãos de raça e matou muitos indígenas; mas os vermelhos eram em maior número e o dominaram, embora com a sua machadinha, ele fosse como um carvalho que, quando tomba na mata, arrebenta tudo o que alcança. Foi aprisionado e conduzido para a taba dos ogellallahs. Estes não o mataram porque se tratava dum guerreiro corajoso e muitas filhas dos ogellallahs queriam ir para sua cabana tornar-se sua esposa. Ma-ti-ru, o maior dos caciques ogellallahs, quis dar-lhe a cabana de sua filha, e se ele não aceitasse a proposta teria que morrer. Mas ele desprezou a mais linda flor da campina, que era a filha daquele cacique, roubou o cavalo, as armas que lhe haviam sido tomadas ao ser aprisionado, matou vários guerreiros e fugiu.

— Que tempo faz isso?

— O sol, depois disso, venceu quatro invernos.

— E como se chamava esse tal pele-branca?

— O seu punho tinha a força da pata dum urso gigantesco; com ele conseguiu arrebentar o crânio de muitos vermelhos e também dalguns brancos; e em vista dessa sua força deram-lhe o nome guerreiro de “Mão de Ferro”.

De fato era uma de minhas antigas aventuras que Ka-wo-mien relatava naquele momento. Só então é que o reconheci e também o cacique que se achava a seu lado, o mesmo Ma-ti-ru que me aprisionara, de uma feita. O cacique falava a verdade, mas eu o censurava, em silêncio, por ter elogiado exageradamente a minha força e valentia.

— “Mão de Ferro”? Oh! Conheço-o — respondeu o pele-branca. — Ele se achava na colônia de caçadores de “Mão de Fogo” quando eu, à frente de um grupo de homens decididos, o assaltei em busca de peles e peliças. Do nosso grupo só consegui escapar eu com dois companheiros; eu teria muita vontade de encontrar novamente aquele canalha pelo caminho. Devolver-lhe-ia o seu capital acrescido de bons juros...

Reconheci também este. Era um chefe de bandoleiros peles-brancas que assaltaram uma vez o acampamento de “Mão de Fogo”, mas que tiveram uma tal recepção de nossa parte, que só conseguiram escapar apenas três homens. Era um desses ladrões das campinas a quem devemos temer mais do que aos indígenas mais selvagens, pois eles reúnem em si todas as más qualidades de ambas as raças.

Ma-ti-ru, que até então ainda não havia falado, ergueu a mão.

— Ai dele se cair novamente nas mãos dos vermelhos! Será amarrado ao poste dos martírios e Ma-ti-ru lhe cortará lentamente todos os músculos e tendões. Aquele maldito pele-branca matou vários guerreiros dos ogellallahs, roubou o cavalo do cacique e as suas armas, tornou a matar outros guerreiros, desprezou o coração da mais formosa filha das savanas e fugiu.

Aqueles três homens jamais imaginariam que a pessoa que tanto eles ameaçavam se achava ali a poucos passos deles!

— Os peles-vermelhas jamais o pegarão, pois ele atravessou as grandes águas e se dirigiu para as longínquas terras onde o sol queima como fogo onde o areal é mais vasto do que as savanas, onde urra o leão e onde aos homens é permitido ter muitas mulheres.

Algumas vezes, conversando à luz da fogueira, disse que pretendia visitar o deserto de Saara. De fato, fiz essa excursão e agora na minha presente jornada pelas campinas do oeste via, com surpresa, que a notícia dela corria celeremente, indo até as tabas dos indígenas. Concluí daí que no oeste, com as armas na mão, a gente se torna mais célebre do que na pátria, manejando a pena.

— Mas ele voltará — opinou Ma-ti-ru. — Aquele que respirar uma vez o ar puríssimo das savanas ansiará por ela durante todo o tempo em que Manitu o conservar com vida.

Nesse ponto o cacique tinha razão. Assim como os montanheses nas baixadas definham, saudosos dos alpes, onde viveram, e o marinheiro nem pela “Mão de Deus Padre” abandona o mar, também o campineiro não se dá bem a não ser na amplidão da savana. E eu de fato já me achava de volta às campinas!

Naquela ocasião Ka-wo-mien apontava para as estrelas:

— Meus irmãos peles-brancas queiram contemplar o céu! Está em tempo de nos dirigirmos para o caminho do “cavalo de Fogo”. O martelo que os meus guerreiros tomaram ao criado pele-branca do “cavalo de Fogo”, é suficiente para destruir os ferros por onde ele caminha?

Esse diálogo fez me saber quem era a vítima que eu encontrara lá debaixo das cerejeiras. Era um empregado da viação férrea, que percorria a linha para a examinar e consertar.

— O martelo é mais forte do que as mãos de vinte peles-vermelhas — respondeu o branco.

— E o meu irmão pele-branca sabe manejá-lo?

— Sim. Queiram os meus irmãos vermelhos acompanhar-me! Dentro de uma hora o trem chegará. Mas torno a lembrar-lhes: todo o ouro e prata que o “cavalo de Fogo” conduzir me pertence!

— Ma-ti-ru não costuma mentir! — assegurou o cacique com orgulho, erguendo-se. — O ouro é seu, e todo o mais, inclusive os escalpos dos peles-brancas, pertencem aos valentes guerreiros dos ogellallahs.

— E o senhor me fornecerá mulas para o transporte do ouro e os homens que forem necessários para defender-me durante a viagem para O Canadian?

— Receberá as mulas que precisar, e os guerreiros dos ogellallahs o acampanharão até as fronteiras do México, onde seu filho o esperará, conforme nos disse.

 

DESTRUINDO A LINHA FÉRREA

O cacique deu voz de comando a todos os guerreiros, que se levantaram. Retrocedi. Próximo ao local onde eu estava, percebi um leve ruído, como se uma fraca brisa agitasse algum galhinho de arbusto.

— Sam!

Eu pronunciei essa palavra como que cochichando, e, não obstante a distância de alguns passos, o vulto do meu companheiro ergueu-se do solo:

— Carlos!

Rastejei até junto dele.

— Que observou? — perguntei-lhe.

— Não muito; apenas os índios, tal como o senhor.

— E os ouviu?

— Nada, nem uma só palavra. E o senhor?

— Ouvi tudo. Mas, venha! Eles levantaram acampamento e vão seguir na direção do oeste; precisamos apressar-nos a fim de alcançarmos os nossos cavalos.

Prossegui de rasto acompanhado por Sam. Atingimos a linha e, saltando os trilhos, chegamos ao outro lado, onde estavam os nossos animais.

— Sam, monte e cavalgue meia milha ao longo da linha e lá espere por mim! É melhor eu não perder os indígenas de vista antes de me achar seguramente orientado.

— Mas não posso também eu me encarregar dessa tarefa de observar os índios? Até agora o senhor fez tão importantes espionagens que eu estou quase a me envergonhar de não haver ainda feito nada.

— Não é possível, Sam. Comecei eu esse serviço e é bom que também eu o conclua. Não faltará ocasião para o senhor trabalhar também, esteja certo disso!

— Dou-lhe razão. Seguirei para o local combinado!

Ele saiu a pé, rumo do oeste, ao longo da linha. Seria tarefa supérflua apagar os vestígios que seus pés largavam no solo. Quando Sam apenas havia desaparecido na escuridão, avistei os índios que cavalgavam, um a um, do outro lado da linha.

Segui-os de maneira a caminhar sempre paralelo a eles. Próximo ao local, onde se achava o martelo abandonado, os índios fizeram alto e subiram para a linha férrea. Dei volta e escondi-me num macegal; daí a pouco ouvi o ruído das marteladas sobre os trilhos. Os bandoleiros haviam dado início à obra nefanda de destruição da linha férrea.

Bem, agora chegara o momento de entrarmos verdadeiramente em ação. Abandonei o teatro da luta em perspectiva, e voltei. Dentro de cinco minutos alcancei Sam.

— Estão trabalhando nos trilhos? — perguntou-me o companheiro.

— Sim.

— Eu os ouvi. Pondo-se os ouvidos aqui sobre os trilhos, ouve-se toda a martelada que os bandidos desferem.

— Agora, avante, Sam! Dentro de três quartos de hora o trem chegará e eu preciso alcançá-lo antes que os selvagens avistem as luzes.

— Mas, ouça: não vou junto!

— Por quê?

— Se abandonarmos o lugar, perderemos depois muito tempo com novos reconhecimentos; assim, se me dirigir para perto dos nativos, estarei apto para lhe dar, na sua volta, informações seguras a respeito da marcha dos acontecimentos.

— Tem razão. E a sua “Tony”?

— Deixo-a aqui. Ela não sairá do lugar até a minha volta.

— Está bem! Estou certo de que o senhor não nos porá fora a partida!

— Eu não. Disso poder ter a certeza. Ande depressa. Encontrar-me-á, depois, aqui neste mesmo local.

 

PLANO DE COMBATE MAL CONCEBIDO

Montei e cavalguei tão depressa quanto a escuridão o permitia, em busca do trem. Era preciso alcançá-lo a uma distância tal que os índios não percebessem haver ele parado. As estrelas lançavam uma tênue claridade sobre a campina, de modo que se podia distinguir os objetos a uma distância de uns dez passos. Por isso consegui cavalgar ininterruptamente e com relativa rapidez até haver vencido três milhas.

Aí parei e maneei o cavalo a fim de evitar que, com o barulho do trem, ele se assustasse e saísse em disparada.

Juntei tanto capim seco quanto me foi possível e fiz uma tocha na qual despejei pólvora; depois sentei-me à beira do trilho, à espera do trem. De vez em quando punha os ouvidos nos trilhos a fim de escutar se já vinha perto.

Dez minutos depois, ouvia um rodar leve que aumentava de segundo em segundo. Avistei depois, muito ao longe, um ponto luminoso que parecia um estrela a tremeluzir no horizonte, mas que não podia ser estrela, pois que aumentava com rapidez. Era o trem que se aproximava.

Depois o ponto luminoso dividiu-se em dois. Estava em tempo. Acendi o monte de capim que fizera no solo e logo se ergueu uma enorme fogueira que foi, certamente, vista do trem. O ruído deste cada vez aumentava mais e eu já avistava o quebra-luz por cima da locomotiva. Dentro de um minuto o trem me alcançaria.

Acendi a tocha e levantei-a em forma de sinaleira por várias vezes. O maquinista reconheceu logo que se tratava de um sinal para parar, e por isso atendeu imediatamente: três apitos fizeram-se ouvir um atrás do outro, os freios foram arriados ruidosamente sobre as rodas e a locomotiva veio parar bem à minha frente. O maquinista baixou-se para mim e perguntou:

— Alô! Que pretende avisar com esse sinal? Quer embarcar?

— Não, sir! Pelo contrário, os senhores é que terão que desembarcar!

— Ora essa! É só o que faltava!

— Mas tenho a certeza de que desembarcarão, pois lá na frente há um bando de indígenas destruindo a linha.

— Que está dizendo? Um bando de índios? Está falando a verdade, homem?

— Não tenho motivos para proceder de outro modo!

— Que quer o senhor? — perguntou-me o chefe do trem que descera e viera ter comigo.

— Diz ele que há perigo vermelho na zona — respondeu o maquinista.

— Mas é verdade? Viu os indígenas?

— Sim, não só os vi como também os observei. São da tribo dos ogellallahs.

— Os mais ferozes que existem! De quantos se compõe o bando?

— De cerca de sessenta.

— Com os diabos! Neste ano já é o terceiro assalto de trem empreendido por esses canalhas; mas já os havemos de rechaçar. De há muito que eu estava à espera de uma oportunidade para tocá-los com a mão. . . A que distância estão daqui?

— Cerca de três milhas.

— Neste caso, cubra as luzes, maquinista! Esses bandoleiros têm vista aguçada. Ouça, o senhor fez jus à nossa eterna gratidão por nos haver prevenido do perigo! É um campineiro, conforme se vê pelo seu traje, não é assim?

— Cousa parecida. Tenho um companheiro comigo que está espreitando os vermelhos, enquanto os vim avisar.

— Foi boa a idéia. Mas faça espaço, pessoal! A cousa não é tão preta como parece à primeira vista; iremos, pelo contrário, passar por momentos de grande prazer!

A nossa conversa fora ouvida nos vagões e todos os passageiros desceram e se juntaram a nós, alvejando-nos com perguntas e mais perguntas! Mas àquela voz do chefe do trem restabeleceu-se a calma.

— Os senhores conduzem um carregamento de ouro e prata? — perguntei.

— Quem lhe disse?

— Observando os índios, ouvi-os dizer. Os nativos foram induzidos ao assalto por um desses malfeitores peles-brancas que cruzam as campinas praticando toda espécie de assalto e roubos. A este caberá, em partilha, todo o ouro e prata e aos índios as outras mercadorias que os senhores conduzem e também os escalpos do pessoal do trem e passageiros.

— Ah! Mas como veio o canalha a ter conhecimento desse transporte?!

— Parece que por intermédio de um funcionário ferroviário; em que circunstância este lhe revelou, não consegui saber.

— Já haveremos de descobrir tudo se o tal bandoleiro pele-branca nos cair vivo nas mãos, para o que faremos todos os esforços. Mas diga-me o seu nome e o de seu companheiro, para que a gente possa chamá-los por eles.

— Meu companheiro chama-se Sans-ear e eu...

— Sans-ear? Trata-se de um herói que vale por doze vermelhos! E o senhor?

— A mim tratam-me aqui nas campinas por “Mão de Ferro”

— “Mão de Ferro”, que há três meses lá na Montana, perseguido por mais de cem sioux desceu a Serra Nevada, sem deixar vestígios de sua passagem?

— Sim, sou eu mesmo.

— Sir, já ouvi falar muita cousa do senhor e sinto-me deveras feliz com este encontro! Mas, singular! O senhor já não salvou, há tempos, um trem que ia ser destruído pelos ponkas chefiados pelo cacique branco Parranoh?

— Exatamente. Acompanhava-me daquela feita o meu velho amigo Winnetou, o mais célebre indígena de todas as campinas bravias. Mas, sir, faça-me o favor! Tome, afinal, uma resolução! Não podemos perder tempo com mais explicações. Os índios sabem muito bem a que horas deve chegar o trem e podem suspeitar dalguma cousa se nos demorarmos muito por aqui!

— Sim, o senhor tem razão. Antes de tudo, eu desejaria saber que posição vão tomar os nativos. Quando se vai atacar um inimigo é preciso conhecer-se quais as disposições tomadas por ele.

— O senhor fala como um grande general, sir; infelizmente, porém, não lhe posso de momento dar outras informações a não ser as que já lhe prestei. Para preveni-los do perigo, eu não podia esperar até que os inimigos já estivessem com o “trabalho” feito e com posição tomada. Dessa missão encarregou-se o meu companheiro que, quando lá chegarmos, nos fornecerá maiores detalhes dos acontecimentos posteriores à minha vinda para aqui. Quando lhe pedi para tomar uma resolução, eu quis com isso me informar se estava ou não disposto a atacar os índios, fazendo com que o tiro lhes saísse pela culatra. Nada mais!

— Naturalmente que pretendo atacá-los e fazer gorar-lhes o plano macabro. Tenho obrigação de fazer esta gente perder de uma vez toda a sua criminosa cobiça pelos nossos carregamentos. O senhor e o seu camarada apenas não são suficientes para atacar os sessenta indígenas e nem se devem arriscar a...

— Cale! — redargüi-lhe. — Sabemos o que devemos e podemos arriscar melhor do que ninguém. Sans-ear ainda hoje de dia claro, abateu, sozinho, quatro peles-vermelhas que pretendiam agredi-lo; afianço-lhe mais que nós dois sozinhos mandaremos algumas dúzias de ogellallahs caçar nas “Eternas Campinas” sem que para isso necessitemos do auxílio do senhor e do seu pessoal! Aqui o que voga não é o número, mas outros elementos mais decisivos que se guardam no cérebro e no punho cerrado... Quando na escuridão da noite eu alvejar os índios com a minha espingarda de repetição sistema Henri, com a qual dou vinte e cinco tiros consecutivos sem carregá-la, os peles-vermelhas não sabem se lutam com dois ou com vinte inimigos. Ouça, pessoal, há entre os senhores alguém que conduza armas consigo?

Essa pergunta era, aliás, supérflua. Eu sabia muito bem que toda aquela gente usava armas. Mas o chefe de trem parecia alimentar o propósito de assumir o comando da “força” e isso eu não podia consentir de forma alguma. Para dirigir um ataque noturno a um bando de índios são necessárias mais qualidades de organização e execução do que era possível atribuir àquele funcionário, por mais valente e empreendedor que fosse. Como resposta ouvi um sim uníssono de todo o trem, ao que o chefe acrescentou:

— Trago como passageiros dezesseis trabalhadores de linha, armados de facas e espingardas; sabem manejá-las com admirável destreza; e mais vinte soldados que se dirigem para o forte Palwieh, armados de facas, espingardas e revólveres; além disso, alguns cavalheiros que viajam no trem não deixarão passar esta oportunidade para ministrar uma lição de mestre a esses bandoleiros das campinas. Vamos, pessoal, quem nos acompanhará?!

Todos, sem exceção, declararam-se prontos para tomar parte no ataque. Mesmo que entre eles houvesse algum que não estivesse disposto a isso, não manifestaria a sua recusa, a fim de não ser tomado por covarde. Gente desta marca, é claro, não nos seria de muita utilidade e, por isso, eu preferiria que ela ficasse no trem. Por isso declarei:

— Ouçam: os senhores são homens valentes e decididos, não há dúvida; mas nem todos poderão participar do combate; isto deverão reconhecer. Vejo aí algumas senhoras que aqui não poderemos deixar sem defesa. Mesmo que sejamos vencedores, sobre o que não tenho a menor dúvida, alguns índios desbaratados poderão fugir e, na fuga, passar por aqui e investir contra o trem abandonado; é preciso, pois, que deixemos aqui alguns cavalheiros denodados para a defesa do trem e das senhoras em qualquer eventualidade.

Realmente, oito homens se apresentaram prontos para “sacrificarem as suas preciosas vidas” defendendo o trem e as mulheres que nele viajavam. Eram os maridos de três das senhoras e mais cinco viajantes que me causavam a impressão de entenderem mais de preços de ferragens, louças, secos e molhados, fumos, etc, do que de manejo de armas, durante uma luta. Quanto aos primeiros eu não podia estranhar sua “bravura”. Tinham mais direito do que qualquer outro de estar ao lado das esposas, na ocasião de perigo. Quanto aos cinco outros...

Mas o trem não pode também ficar aqui sem funcionário. Quem o guarnecerá? — perguntei ao chefe.

— O maquinista e o foguista — foi a resposta. — Estes assumirão também o comando dos oito cavalheiros abnegados que aqui ficarão prontos para investirem contra os inimigos, se estes por aqui passarem. Eu, naturalmente, irei com o senhor e dirigirei o ataque.

— Está na sua vontade, sir! Com certeza já tem dirigido muitos combates semelhantes, não é assim?

— Não. Nunca tomei parte em combate algum. Mas isso não é preciso. Esses yambarikos (*) só sabem assaltar e dizimar os seus antagonistas, colhendo-os de emboscada. Num combate franco e em campo raso, porém, eles invariavelmente procuram salvação na fuga desordenada. A nossa tarefa será facílima!

— Não sou da mesma opinião, sir. Aqui se trata dos ogellallahs, os mais sanguinários indígenas da tribo dos sioux e são comandados pelos célebres caciques Ka-wo-mien e Ma-ti-ru.

— Creio que não quer dizer com isso que devo temê-los! Somos ao todo mais de quarenta homens, circunstância que sobremodo nos facilitará a vitória. Mandei encobrir as luzes para que os peles-vermelhas não notem que fui prevenido do assalto. Agora, porém, mudaremos de tática. Tiraremos a colcha que encobre os faróis, subiremos ao trem e o maquinista conduzirá a combinação a toda velocidade até o local em que eles destruíram a linha. Chegando lá, saltamos dos vagões e assaltaremos inopinadamente o inimigo, matando a todos sem que se escape um só deles, exceto o pele-branca que desejo aprisionar com vida. Depois recolocaremos os trilhos e prosseguiremos viagem. Tudo isso não nos causará um atraso maior no horário de que uma hora.

— Confesso que o senhor possui uma técnica admirável, mas de comandante de um regimento de cavalaria; nunca, porém, para dirigir um assalto a pé e nas circunstâncias do que temos em vista. Com o plano que acaba de expor, irá lançar os seus comandados numa morte certa e eu, francamente, serei obrigado a me abster de tomar parte na sua execução.

— Como? O senhor não pretende auxiliar-nos? Isto é covardia de sua parte ou se acha despeitado por não lhe ser confiada a direção do combate?

— Covardia? Se é verdade que o senhor tem ouvido contar muitas cousas de mim, constitui uma leviandade sua falar-me nestes termos, pois “Mão de Ferro” é muito homem para perder as estribeiras e com o seu punho provar-lhe que ele usa esse nome de guerra com honra e dignidade! E quanto ao despeito de que fala, declaro-lhe que não tenho dúvida em desinteressar-me pelo caso, sendo-me indiferente a quem daqui a pouco irão pertencer o trem e os escalpos de seu pessoal e dos seus passageiros. Quanto ao meu, saberei defendê-lo sozinho. Tenho certeza de que ninguém ousará tocar nele e ainda hei de usá-lo por muito tempo, se Deus quiser! Passem bem, senhores!

Virei-me para retirar-me. O chefe do trem pegou-me pelo braço.

— Pare! Isto também não é assim! Eu assumi o comando de todos, e o senhor terá que obedecer às minhas ordens. Não cometerei a tolice proposta pelo senhor de deixar o trem aqui a esta distância, pois sou responsável por tudo que nele conduzo. O meu plano fica de pé: o senhor nos guiará até o ponto onde estão os ogellallahs e só depois de lá chegarmos é que o trem partirá daqui. Um comandante de tropa precisa ter em vista todas as eventualidades de uma luta e os vagões poderão servir de esconderijo de onde resistiremos a luta, até que um trem vindo do leste ou do oeste nos traga reforço. Não estão de acordo com esse plano, pessoal?

Todos os passageiros concordaram com o chefe. Entre eles não havia um único homem do oeste, por isso acharam o seu plano excelente sob o ponto de vista prático.

____________

(*) Nome depreciativo que os brancos dão aos vermelhos.

 

 O chefe do trem ficou radiante com a solidariedade dos seus passageiros e ordenou-me arrogante:

— Portanto, embarque, senhor!

— Bem. O senhor ordena e eu obedeço!

Como um relâmpago pulei no lombo do meu poldro, que eu soltara durante a discussão.

— Oh! Não. Ordenei que embarcasse... mas no trem!

— Mas eu prefiro embarcar no meu poldro, onde me sinto mais em segurança... Também neste ponto as nossas opiniões divergem.

— O senhor não pode ter opiniões. Ordeno que apeie imediatamente!

Toquei o cavalo para perto dele, baixei-me e retruquei:

— O senhor parece que nunca tratou com um verdadeiro explorador do oeste, pois do contrário não me falaria nesse tom. Pois agora é o senhor mesmo que embarcará na locomotiva!

A essas palavras, agarrei-o pelo peito e puxei-o para cima. Fiz pressão no lombo do cavalo que se encostou à locomotiva; no mesmo instante o estrategista ferroviário voou como se fora um saco de pena para dentro da máquina e eu saí a galope.

A noite tornara-se tão clara que até o menor arbusto eu divisava ao longe, de modo que pude cavalgar com toda rapidez e dentro de um quarto de hora estava com Sam.

— E então? — perguntou-me, quando apeei. — Pensei que o senhor voltasse acompanhado de gente.

 

INCÊNDIO NA CAMPINA E O ESTOURO DA CAVALHADA

Narrei-lhe o ocorrido e ele disse:

— Fez bem, fez muito bem! Um ferroviário de meia-cara como aquele, julga-se mais do que nós, porque não nos penteamos três vezes por dia e nem usamos perfumes. Naturalmente, eles agora tentarão executar o famoso plano. Mas vão ter muitas surpresas, hihihihi!

Ao soltar essa risada ele fez a mensão de quem estivesse a tirar o escalpo a alguém. Depois continuou:

— Mas o senhor ainda nem me contou dos índios e do que observou na sua ida.

— Ah! Ka-wo-mien e Ma-ti-ru são os caciques dirigentes dos nativos.

— Oh! Mas então vai correr muito sangue.

— Junto com o bando anda um pele-branca que os avisou de que o trem trazia um carregamento de ouro e prata.

— Com toda certeza estes metais lhe pertencerão depois; o resto, inclusive os escalpos, aos índios.

— É isto mesmo o que combinaram.

— Era de prever, pois os indígenas não se importam com ouro e prata. Mas esse branco deve ser um desses malfeitores que perambulam pelas savanas praticando toda sorte de crimes!

— Sim. Conheço-o até. De uma feita assaltou com seu bando o acampamento de “Mão de Fogo”, mas foi forçado a abandonar a luta e desistir da “colheita”.

— Como se chama?

— Não sei; também nem nos deve interessar, pois esta laia de gente anda todo o dia a mudar de nome. Fez o senhor algum reconhecimento?

— Sim. Eles se dividiram e colocaram-se em ambos os lados da linha, no espaço compreendido entre a linha destruída e o local onde deixaram a cavalhada. Mas agora que faremos? Auxiliaremos os ferroviários ou vamos embora?

— É nosso dever sairmos em seu socorro, Sam. Ou, quem sabe, é de outra opinião?

— Absolutamente não! O senhor diz bem. É nosso dever ajudar aquela gente, não obstante a idiotice do chefe do trem. Além disso, não esqueça que os índios me devem as duas orelhas que me cortaram e essa dívida ainda não está toda saldada. Aposto minha “Tony” contra qualquer sapo vagabundo, que ao romper do dia o senhor encontrará muitos índios estirados ao longo da linha com as orelhas cortadas! Mas como começaremos?

— Dividimo-nos também e iremos postar-nos em ambos os lados da estrada de ferro entre os índios e a sua cavalhada.

— Bem! Mas me lembrei duma cousa. Que acha o senhor de um “estouro” da cavalhada?

— Hum! O melhor seria estarmos com o nosso plano bem estudado, a fim de evitar o extermínio completo dos índios. Mas, no caso presente, eu desaconselharia o “estouro”. Os ferroviários é que assaltarão os índios e a nós nada mais resta do que esperar o outro trem para preveni-lo também, ou dar um tal susto aos nativos que eles fujam espavoridos. Em ambos os casos os indígenas, no fim, se retirariam daqui. Mas se lhes soltarmos a cavalhada para que ela “estoure” em todas as direções da campina, teremos o inimigo sempre nas imediações. Nunca ouviu falar, Sam, que há ocasiões em que precisamos construir pontes de ouro para o inimigo atravessar?

— Não entendo essa linguagem! São palavras de domingos e dias santos que um campineiro desconhece. Eu até agora só conheci pontes de ferro, pedra e madeira. Mas... compreendi muito bem e concordo com o seu ponto de vista; mas quando me lembro da cara que iriam fazer os vermelhos no momento em que pretendessem montar a cavalhada e esta já andasse longe... Além disso, não lhes causaria pânico se fizéssemos a cavalhada “estourar” exatamente contra eles e atravessar pelo meio do bando em doida disparada?

— Sim, neste caso, sim; contudo aguardemos primeiro o desenrolar dos acontecimentos.

— Está certo. Mas num ponto terá que concordar comigo em qualquer dos casos!

— Em qual?

— Que eu elimine os dois guardas da cavalhada, mandando-os caçar tranqüilamente nas “Eternas Campinas”.

— Sou contra todo derrame inútil de sangue, mas aqui estou de acordo com o senhor. A morte dos dois guardas é necessária, pois, deste modo poderemos facilmente tomar conta da cavalhada. Vamos primeiro pôr os nossos animais em lugar seguro e, depois, avante!

Cavalgamos um trecho da campina e nos embrenhamos num macegal, onde amarramos bem os nossos cavalos, pois no caso de um estouro a cavalhada poderia passar por aqui e levar também os nossos juntos.

Então, descrevendo uma curva, voltamos para a retaguarda dos indígenas. Os faróis da locomotiva ainda não davam sinal de si. Ou o plano do condutor do trem encontrara opositores ou ainda não se haviam decidido a empreender o ataque sem a minha indicação.

Dirigimo-nos aos cavalos dos nativos, onde os dois guardas patrulhavam também as imediações. Um deles aproximava-se lentamente da moita por trás da qual nos achávamos. Quando passou por nós, a lâmina da faca de Sam cravou-lhe no coração e ele caiu morto sem proferir um ai. O outro teve a mesma sorte quando, depois, por ali passou. Quem não conhece as campinas não pode nem formar uma idéia da exasperação com que as duas raças se degladiam e de como os representantes dessas raças são sedentos pelo sangue do adversário.

Com o movimento que fiz a fim de não ver tombar a segunda vítima, os meus olhos deram com um cavalo que se achava ali perto. Estava ensilhado com serigote espanhol de estribos em forma de sapato, conforme se usa na América Central e do Sul. As demais peças de arreiamentos não eram também sistema indígena. Seria o animal de montaria do pele-branca, que induzira os índios ao assalto do trem? Aproximei-me. No serigote havia duas maletas estreitas, cujo conteúdo examinei. As mesmas continham alguns papéis e duas bolsas; eu não podia agora examinar o que havia dentro destas últimas. Apossei-me de tudo e guardei no bolso.

— E agora? — perguntou Sam.

— Dividimo-nos. Eu sigo para a direita e o senhor para a esquerda. Mas... pare! Olhe para a frente!

— O trem, é o trem, que se aproxima! Fiquemos agora aqui, para ver o que acontecerá.

Não havia dúvida que o plano do chefe do trem fora aceito integralmente. A locomotiva se aproximava lentamente, pois tinha necessidade de verificar o local onde a linha fora arrancada. Os dois faróis estavam acesos. O trem cada vez se aproximava mais até que parou justamente onde a linha havia sido destruída.

Como não deviam os vermelhos estar furiosos por verem a principal parte do seu plano burlada! Com certeza, concluíram que os ferroviários haviam sido prevenidos. Quanto a estes, o mais acertado seria se eles se conservassem calmamente no interior dos vagões. A princípio, pensei que iriam proceder deste modo, mas logo vi que me enganara, pois as portas foram abertas e os passageiros saltaram dos vagões prontos para o assalto. Dentre em breve reconheceriam o erro desse plano. Jogando-se uns de encontro aos outros, chegaram para frente dos faróis; melhor alvo os selvagens não poderiam desejar. Ouviu-se uma descarga, depois outra e o brado de guerra dos selvagens ecoou pela amplidão da campina.

Com as armas deflagradas os nativos se aproximaram do local, mas apenas encontraram os mortos e os feridos, pois os demais recuaram num instante a fim de alcançar o interior dos vagões. Alguns índios curvaram-se diante dos cadáveres a fim de lhes tirar o almejado escalpo, mas foram obrigados a desistir da idéia, pois foram alvejados do vagão.

A única salvação seria tocar para trás a locomotiva a todo vapor. Não tomaram, porém, essa medida. Talvez o maquinista e o foguista se tivessem refugiado com os companheiros dentro dos vagões.

— Agora vai haver um verdadeiro sítio — disse Sam.

— Creio que não. Os vermelhos sabem que só dispõem de tempo até a chegada do próximo trem. É provável que tentem assaltar o vagão.

— E nós? É difícil chegarmos a uma resolução.

— Uma resolução só será boa se a tomarmos no momento e a executarmos instantaneamente. Iremos até o local onde guardamos os nossos animais e depois cavalgaremos um trecho da campina a que atearemos fogo. Antes, porém, soltamos a cavalhada para que ela “estoure” a fim de evitar que o inimigo efetue o ataque iminente, e desse modo ficarão desprovidos de meios de fuga. Para a presente situação não há solução melhor.

— Com mil raios! Mas deste modo incendiaremos também os vagões.

— Absolutamente não! Isto é, não sei se o trem conduz inflamáveis e explosivos, mas o madeiramento dos vagões é bastante espesso para resistir ao fogo produzido por capim seco. Os índios, na iminência de serem atingidos pelas chamas, empreenderão a fuga ou combaterão o fogo com fogo.

— Mas já pensou no tempo que iremos gastar em acender fogo com auxílio de punks? Não podemos utilizar tochas, pois com elas denunciaríamos nossa presença ao inimigo.

— O campineiro está sempre preparado para tudo. Guardo e conservo para ocasião dessas uma boa quantidade de fósforos. Tome alguns!

— Bravos! Agora, primeiro o “estouro” da cavalhada e, depois, corramos em direção dos nossos cavalos.

— Pare, Sam. Notei agora que ia agindo com imperdoável imbecilidade! Nós nem precisamos dos nossos animais quando os índios possuem uma quantidade mais do que suficiente para o nosso uso. Eu vou lançar mão deste zaino.

— E eu deste alazão. Agora, cortemos os laços que prendem os demais, e o “estouro” se dará com a grandiosidade do seu espetáculo.

Corremos de cavalo em cavalo e os soltamos; em seguida, pusemos fogo nuns macegais secos que havia perto deles como também na grama, e saímos a galope. As chamas haviam atingido por enquanto a altura de umas duas polegadas, não podendo por isso serem vistas ainda pelos índios; podíamos, pois, completar a obra sem sermos vistos pelos nativos,

— Onde nos encontraremos depois? — perguntou Sam.

— Lá do outro lado da linha, no local não atingido pelo fogo; lá os índios não poderão ter chegado tão depressa, pois vão a pé.

— Está bem! Portanto, go on, alazão velho!

Com as rédeas soltas, a cavalhada dos índios se achava um tanto agitada; não tardou muito que os animais, ao sentir o cheiro do fogo, bufassem repetidamente. Muitos já alçavam a cola. O “estouro” estava para se dar a cada instante. Eu cavalguei pela direita da campina e Sam pela esquerda. Descrevi na savana uma curva com um raio de cerca de uma milha, apeando cinco vezes durante o trajeto, para atear fogo no capim. Encontrava-me à beira da linha quando me lembrei que não havíamos pensado num detalhe que possivelmente nos iria trazer algum transtorno: tínhamos esquecido os nossos cavalos.

Imediatamente dei de rédeas e galopei na direção do local onde os amarráramos. O círculo de fogo que envolvia a campina já iluminava todos os obstáculos em torno de nós. Ouvia-se, lá ao longe, o barulhão de cascos produzidos pelo “estouro” da cavalhada; nas proximidades ouvia-se um berreiro ensurdecedor de pavor, como só as gargantas selvagens sabem produzir. Debaixo dos vagões ardiam brandas chamas. Conforme eu previra, e dissera a Sam, os índios procuravam salvar-se com um contra-incêndio. À esquerda, lá em cima, achava-se o meu poldro ao lado da “Tony”; e mais além... sim, mais além vinha Sam galopando como flecha. Ele também no último momento dera pelo lamentável esquecimento.

Mas também as nossas montarias haviam sido notadas pelos indígenas; um grande número de vermelhos dirigia-se para elas, achando-se já dois deles a alguns passos do meu poldro e da “Tony”. Apertei mais a bandoleira da espingarda e, erguendo-me no serigote, saquei da machadinha de guerra. Com saltos de tigre, o animal que montava aproxima-se do local, chegando eu ao mesmo tempo que os dois nativos. Ao primeiro relance, conheci-os: eram os dois caciques.

— Para trás, Ma-ri-tu! Os cavalos são meus! O cacique virou-se e me reconheceu.

Sacou da faca e dum salto se achou ao lado do meu poldro. Ia apunhalá-lo; mas, nesse instante, foi atingido pela minha machadinha que o fez tombar ao solo. O outro saltou no serigote, mas não notou que meu cavalo estava amarrado.

— Ka-wo-mien, tu há pouco falavas de mim como traidor pele-branca! Agora vou eu, em pessoa, falar contigo!

Ele viu que, montado no cavalo amarrado, estava perdido; apeou-se ligeiro e ia desaparecer por trás dumas moitas, quando um golpe da minha machadinha o atingiu na cabeça na altura onde se achava espetada a pena de águia, caindo ele ao solo. Apeei depressa e apontei a espingarda de repetição para os demais peles-vermelhas. Três tiros fizeram tombar sem vida três nativos. Nesse meio tempo, o incêndio tomara proporções tais e já se aproximara de tal modo, que não restava mais tempo para continuarmos na luta. Cortei o laço que prendia meu poldro, montei-o e saí a galope. O zaino que eu montara antes já havia desaparecido.

— Carlos, vamos para aquela clareira do bosque!

Ao mesmo tempo que dizia essas palavras, Sam cortava as rédeas da “Tony” e tocava para o rumo citado. Quanto ao alazão, meu companheiro o saltara na campina, donde o animal conseguira fugir do fogo.

Atravessamos com felicidade a campina, sem sermos atingidos pelo fogo. e chegamos à clareira. O local onde então nos achávamos era o mesmo em que eu ateara o terceiro fogo. O solo estava carbonizado, mas já havia refrescado. À nossa frente havia uma vasta linha escura: era o caminho por onde eu viera há pouco. Nos flancos, porém, havia uma verdadeira onda de fogo que tornava o ar quase irrespirável.

Daí a pouco, porém, começou a melhorar de minuto em minuto e refrescava à proporção que o fogo se ia afastando de nós. Um quarto de hora após, apenas o horizonte se apresentava envolto em chamas. Ao nosso redor estava tudo tão escuro que não se podia ver a três passos, pois havia densas nuvens de fumaça.

Tive a impressão de estar sendo cozido numa das caldeiras do inferno — disse Sam. — É de admirar se o trem não sofreu danos.

— Creio que não. Os vagões já são construídos para resistir ao fogo, pois não raro o trem é obrigado a atravessar as chamas num incêndio das savanas.

— E, agora, que faremos? Os inimigos já nos viram e hão de sair ao nosso encalço.

— Ainda nos devem estar vendo, pois nos achamos entre eles e o horizonte rubro de fogo. Precisamos simular que nos vamos embora. Talvez suponham que fazemos parte dalgum grupo de caçadores contratados e que agora nos apressamos em juntar-nos a eles, a fim de buscar reforço. Tomaremos o rumo norte e depois, descrevendo uma curva, voltaremos para cá.

— Sou do mesmo parecer e acho que tudo isso ainda vai acabar, e alguns peles-vermelhas perderão suas orelhas. A sua machadinha agiu há pouco com perícia, hein?! Nunca pensei que fosse tão hábil no lançamento dessa arma.

— E não obstante, os alvejados não morreram! — respondi sem entusiasmo.

— Não morreram? Mas como?

— Não os alvejei com o intuito de matá-los. Quis apenas fazer-lhes perder os sentidos.

— Apenas fazer-lhes perder os sentidos? Pois foi uma asneira, fique sabendo! Eles estão sedentos do seu sangue. Poupou-lhes a vida e amanhã ou depois cairá nas mãos deles, que não o pouparão! Tome nota do que lhe estou dizendo!

— Tive razões para proceder assim; o senhor as conhece muito bem.

— Não sei de cousa alguma! Não vejo razão para o senhor praticar uma tolice dessas. Calculo que se tratava dos dois caciques e exatamente estes não deveriam ser poupados.

— Outrora fui prisioneiro deles. Poderiam ter-me morto; não o fizeram, porém. E pretende o senhor que eu fosse agora pagar-lhes a generosidade com ingratidão?! Lancei-lhes as machadinhas apenas com a metade da força, para que eles ficassem somente sem sentidos.

— Não me leve a mal, mas, repito, foi uma grande imbecilidade de sua parte! Como se esses vermelhos conhecessem gratidão! Estão lá agora a rir-se do senhor, dizendo que não tem força suficiente para arrebentar o crânio de um pele-vermelha. Tenho, todavia, uma esperança: talvez o fogo tenha completado a sua obra!

 

NA PISTA DE UM BANDIDO

Enquanto assim falávamos, galopávamos campina afora. A “Tony” mantinha o mesmo galope do poldro. Haviam passado apenas alguns minutos, quando, já descrita a curva, chegávamos novamente à linha férrea. Apeamos, amarramos os animais e rastejamos até o local do assalto.

A atmosfera estava saturada de cheiro de capim queimado e a vasta campina coberta de cinzas. Víamos distintamente os dois faróis da locomotiva. Mas em nenhum dos lados da linha se avistava um vulto sequer de selvagem. Aproximamo-nos e aguçamos mais a vista. O que eu previra antes, sucedera. Para fugir à ação do fogo, os vermelhos se refugiaram debaixo dos vagões. Lá estavam eles deitados uns ao lado dos outros e não se animavam a sair com receio de serem atingidos pelas balas do pessoal do trem.

Ocorreu-me então uma idéia. A sua execução era difícil, mas o efeito seria extraordinário.

— Sam, volte para os cavalos, a fim de que os vermelhos não se apoderem deles!

— Eles dão graças a Deus por estar em lugar “enxuto”!

— Pois eu vou enxotá-los dali!

— Com a espingarda?

— Não.

Esclareci-lhe meu plano e ele meneou a cabeça em sinal de aprovação.

— Well! Excelente idéia. Mas suba depressa para não ser surpreendido por eles. Na hora decisiva, aqui estarei com os cavalos, hihihihi! Depois passaremos por cima deles como búfalos sobre coiotes.

Sam rastejou para trás e eu para frente, sempre de faca entre os dentes para me defender, na eventualidade dum ataque. Alcancei, sem ser pressentido, o ponto da linha férrea onde se achava a locomotiva. Não pude ver se também debaixo desta estavam os nativos escondidos. Ergui-me lentamente e em dois pulos subi ao “cavalo de fogo”.

Um brado estridente se fez ouvir por baixo de mim. Pus a mão na chave e toquei a locomotiva para trás. Ouvi, então, muitos gritos, alguns de dor e outros de susto, que partiam de sob os vagões. Quando havia tocado a máquina uns trinta passos para trás, manobrei-a novamente para diante até o local donde saíra.

— Cão! — ouvi então alguém dizer ao lado. Olhei e vi um vulto que, armado de faca, procurava galgar a locomotiva.

Era um pele-branca. Desferi-lhe um violento ponta-pé que o fez cair ao solo.

— Aqui! — ouvi alguém exclamar. — Depressa, depressa!

À minha esquerda estava Sans-ear montado em sua “Tony” e trazendo o meu poldro pelas rédeas, ao passo que com a outra mão se defendia de dois selvagens que investiam contra ele; à minha frente vi alguns indígenas, que não haviam sido atingidos pelas rodas do trem, correndo para o local onde se achava a cavalhada. Os imbecis julgavam que, apesar do terrível incêndio, os animais ainda lá permaneciam.

Parei imediatamente a máquina, pulei para baixo e corri em direção do grupo. Os dois índios que lutavam com Sam, à voz deste, tiveram a sua atenção voltada para mim e fugiram a toda velocidade. Dois minutos depois eu alcançava o grupo de selvagens. A minha tarefa não era tão difícil, como à primeira vista possa parecer. Os índios estavam muito agitados pelo susto e quando viram que a cavalhada havia desaparecido, desandaram a fugir desordenadamente em todas as direções.

Nessa altura ouvi Sam dizer em altos brados:

— Chegou o dia do nosso ajuste de contas! Com os diabos! Aí está Fred Morgan! Para o inferno, contigo, Satanás! Afinal, olhei para a zona de onde partia o brado e vi, à luz do fogo que ainda ardia no horizonte, que o meu companheiro desferira um violento golpe contra o seu antagonista que, não tendo sido por ele atingido, desapareceu no burburinho dos fugitivos.

Sam esporeou a sua égua que saltava à maneira de um tigre para alcançar o inimigo. Não pude ver mais nada, pois um grupo de vermelhos, que de mim se acercou, deu-me bastante trabalho! Afinal, os índios não tiveram mais que fazer senão fugir.

Não os persegui. Já fora derramado bastante sangue e eu estava seguro que os índios, depois da lição que levaram, não se animariam a voltar. A fim de significar a Sam que ele deveria desistir da perseguição, imitei estridentemente o uivo do coiote e voltei para o trem.

O pessoal havia descido dos vagões e, enquanto o maquinista examinava a locomotiva, tratava dos mortos e feridos. O condutor entre eles blasfemava. Quando me avistou, berrou-me com fúria:

— Que lhe deu na cabeça de lançar mão da locomotiva e enxotar os vermelhos, quando nos seria fácil exterminá-los até o último?!

— Cale-se! Esteja satisfeito com a retirada deles, pois em vez dos senhores matá-los, eles é que os matariam.

— Quem ateou fogo na campina?

— Fui eu.

— Está louco? Também a mim teve a audácia de agredir. Sabe que tenho poderes para prendê-lo e entregá-lo à justiça?

— Não, não sabia, mas com prazer lhe dou licença para agarrar “Mão de Ferro”, prendê-lo no vagão e entregá-lo à justiça. Estou curioso por saber como o senhor conseguiria começar esta manobra!

Sentiu-se até certo ponto desconcertado.

— Não tive a menor intenção de tratar com aspereza — respondeu com inflexão de bondade na voz. — O senhor cometeu uma grande imprudência, é verdade, mas estou pronto para perdoá-lo.

— Obrigadíssimo, sir! Fico profundamente comovido, sempre que vejo os poderosos da terra inclinarem-se na prática de atos de generosidade como este... Que pretende fazer agora?

— Que mais poderei fazer do que restabelecer a linha e continuar a viagem interrompida? Ou, quem sabe, nos pretende prevenir da iminência de um segundo assalto?!

— Creio que não, sir. O seu plano foi tão bem ideado e tão excelentemente executado, que o inimigo nem sonha mais em aparecer aqui!

— Pretende mofar de mim, sir? Proibo-o terminantemente! O meu plano foi de fato excelente, mas que culpa tenho se eles eram tão numerosos e estavam tão bem preparados para nos receber?

— Como não, se o preveni de tudo?! Agora o senhor viu! Os ogellallahs sabem manejar as armas. Senão veja. Dos dezesseis trabalhadores da linha e dos vinte milicianos, nove caíram no campo da luta. Não sou o responsável por essas mortes. E se o senhor levar em conta que eu e meu companheiro sozinhos fizemos com que todos os índios fugissem, chegará à conclusão de quão outro teria sido o resultado se tivesse ouvido as minhas sugestões em vez de seguir a voz de sua vaidade!

Ele parecia ter muita vontade de me rebater; mas os outros se aproximaram e me deram toda a razão. Chegando-se a mim, perguntou-me à meia voz:

— Os senhores ainda ficam aqui até estarmos prontos para partir?

— É claro! Um homem do oeste nunca faz o serviço pela metade! Agora, ponham mãos à obra; acendam algumas fogueiras para alumiar a linha. Galhos secos ainda há suficientes por aí, poupados pelas chamas. Destaque também algumas sentinelas para nos prevenirem, no caso, pouco provável, aliás, de voltarem os vermelhos.

— Quem sabe se o senhor nos fará o favor de se encarregar desse serviço, sir? Ficar-lhe-íamos muito gratos.

— Que serviço?

— O de vigilância, pelas proximidades do trem.

— Era só o que faltava. Já trabalhei para os senhores! Arrisquei a minha vida, ao passo que os senhores se aboletaram, durante o perigo, em lugar bem seguro. Organize lá o seu serviço de vigilância que, a julgar pela sua estratégia, deve ser impecável...

— Mas não temos os sentidos da vista e da audição tão finos como o senhor.

— Apurem esses órgãos, que verão e ouvirão tão bem como eu! A prova disso já lhes vou dar. Silêncio! Apliquem o ouvido lá para a direita! Não percebem nada?

— Sim. O trotar dum cavalo. Com certeza é um selvagem que volta!

— Então julgam que um índio faria tal ruído antes de os assaltar? É o meu companheiro e eu os aconselho a fazer-lhe uma recepção cortês. Trata-se de Sans-ear, com quem não se brinca.

Era de fato Sam que chegava, aliás, com a atitude de quem queria estrangular o mundo inteiro.

— Ouviu o meu sinal? — perguntei-lhe.

Meneou apenas com a cabeça, em sinal de afirmação, e se dirigiu ao chefe do trem:

— É o senhor o homem que concebe tão esplêndidos planos de guerra?

— Sim, sou eu! — respondeu o homem com a maior ingenuidade deste mundo. Tive que fazer um grande esforço para conter uma gargalhada.

— Meus parabéns! Minha “Tony” tem mais inteligência do que o senhor! Sim, se continuar nessa marcha, virá a ser ainda um grande homem! Acautele-se, pois um dia ainda são capazes de elegê-lo presidente da república! Bem, “Tony”, fica aí que eu já volto!

O pobre ferroviário ficou desconcertado com a ironia de Sam e não sabia o que dizer. Mesmo que tivesse encontrado palavras, não lhe seria possível proferi-las, pois Sam havia desaparecido na escuridão da noite. Por que teria voltado Sam tão mal-humorado? Não seria devido ao encontro com Fred Morgan? Este, talvez, não era senão o mesmo bandoleiro pele-branca que eu havia derrubado da locomotiva. Daí a minutos o meu companheiro voltava. Eu me sentara na relva escassa que ali havia e apreciava os homens a trabalhar na reparação da linha destruída. Sam sentou-se a meu lado. Ainda não estava calmo. Pelo contrário, parecia ainda mais. enfurecido.

— Que há, afinal? — perguntei-lhe.

— Que há? — trovejou-me.

— Eles morreram?

— Se eles morreram?! Isto até é ridículo! Como podem dois caciques morrer se o senhor apenas coçou-lhes a cabeça com a machadinha, num local onde nem uma mosca os incomodava! Lembra-se do que eu disse há pouco ao chefe do trem?

— O quê?

— Que minha “Tony” tinha mais miolos na cabeça do que ele.

— E que mais?

— O resto é com o senhor. Tire lá as conclusões que bem lhe aprouver! A “Tony”, por exemplo, não faria o serviço pela metade. Mataria os caciques em vez de só deixá-los sem sentidos. Agora eles se foram batendo o pó dos sapatos!

— Oh! Quanto folgo com isso!

— Folga com isso?! Mas isso é uma tolice sem nome. Deixar que dois canalhas daqueles se escapem, quando os seus escalpos já estavam, por assim dizer, em nossas mãos.

— Já lhe expus as razões que me levaram a proceder assim, Sam; portanto deixe de tocar na mesma tecla. Diga-me antes que foi que o deixou tão mal-humorado?

— Ah, sim! Tinha-me esquecido disso. Sabe quem era aquele patife que há pouco conseguiu fugir-me?

— Sei, era Fred Morgan.

— Quem lhe disse?

— O senhor, ao reconhecê-lo, pronunciou o seu nome bastante alto para ser ouvido por mim.

— Ah, é?! Não me lembro disso. Adivinha quem é aquele sujeito!? A essa pergunta, e dada a agitação nervosa do velho, ocorreu-me uma lembrança.

— Não será porventura o assassino de sua esposa e de seu filho?

— Naturalmente! Quem havia de ser mais?

Ergui-me de um salto.

— Mas isto é demais! O senhor o pilhou?

— Fugiu, espavorido, o bandido! O canalha deitou a correr por vales e montanhas! Oh! Estou com tanta raiva que seria capaz de arrancar minhas orelhas se ainda as tivesse!

— Mas vi que o senhor o perseguiu a cavalo, abrindo brecha no meio da indiada fugitiva!

— Não adiantou nada. Perdi-o logo de vista, no meio da escuridão. Talvez ele se tenha atirado ao chão, de modo que passei por ele sem que o tivesse visto. Mas aquele cão ainda me cairá nas mãos. As pedras rolando se encontram, quanto mais os homens! A cavalhada se extraviou completamente; seguiremos os rastos e assim poderemos dentro em breve deitar-lhe a mão.

— Será tarefa dificílima, se bem que o rasto de um branco distingue-se perfeitamente do de um pele-vermelha. Mas quem nos garante que ele não tenha tido a inteligência de imitar o andar do indígena? Além disso, nem todos os terrenos podem recolher impressões de pés humanos.

— Tem razão. Mas que hei de fazer então?

Meti a mão na maleta e dela tirei as duas bolsas e os papéis que a mesma continha. Essa maleta, como os leitores devem estar lembrados, tirei-a do cavalo do pele-branca, na ocasião em que fomos soltar a cavalhada.

— Talvez encontremos aqui um ponto de partida para o propósito que visamos!

Abri as bolsas. Bem próximo de nós ardia uma fogueira que alumiava a linha em conserto; a sua claridade iluminava bem os objetos que tinha na mão, de modo a distingui-los perfeitamente.

— Pedras preciosas e das legítimas e um enorme diamante de alto quilate! Sam, eu tenho na mão uma grande fortuna! — exclamei tomado de surpresa. — Mas onde esse salteador conseguiu essas pedras e para que as conduzia consigo nas campinas? Com certeza não as adquiriu por meios lícitos, e a mim compete agora procurar o legítimo dono e devolver-lhe a fortuna.

— Diamante? Mostre-me! Em toda a minha vida não tive ainda a sorte de segurar nas mãos uma só pedrinha de tamanho valor.

Passei o diamante a Sam.

— É um diamante brasileiro! Contemple-o! — disse-lhe eu.

— Mas como os homens são criaturas singulares! Não é mais do que uma pedra, nem sequer possui um pouco de brilho. Não acha?

— Sim, no fundo não passa de um pedaço de carvão!

— Carvão, coque ou seja lá o que for; o caso é que eu não daria nem a minha velha espingarda por este troço! Que pretende fazer desse diamante?

— Devolvê-lo ao legítimo dono.

— Quem é ele?

— Não sei; mas já haveremos de saber, pois um tão formidável prejuízo ninguém suporta em silêncio: todos os jornais irão anunciar o desaparecimento dessa preciosa pedra.

— Hihihihi! Já amanhã vamos tomar assinaturas dos jornais? — perguntou o homem com inflexão irônica na voz.

— Talvez não seja necessário; é possível que encontremos nesses papéis a chave do enigma.

Examinando-os, encontrei dois mapas dos Estados Unidos e uma carta cujo envelope faltava. A missiva rezava:

 

“Galveston,...

Meu prezado pai:

Preciso de ti com urgência; vem imediatamente, quer te tenhas saído bem da aventura do diamante quer não. De qualquer modo, vamo-nos tornar homens ricos. Em meados de agosto, encontrar-me-ás em Sierra Rianca, no ponto em que o rio Pecos passa por entre os montes Shetel e Head-Pick. O resto verbalmente. Não deixes de vir!

Do teu — Patrik”.

 

A data desta carta não se podia ler, pois o papel estava rasgado logo depois da palavra “Galveston”; eis por que eu não me podia certificar de quando fora escrita. Li-a para Sam.

— Céus! — exclamou este, depois que terminei a leitura. Combina tudo, pois o filho daquele grandiosíssimo canalha chama-se Patrik e também é canalha como o pai. São exatamente esses dois que ainda estão me faltando para completar os dez entalhes de peles-brancas em minha espingarda. Mas diga-me: como se chamam os dois montes citados?

— Shetel e Head-Pick.

— Conhece-os?

— Um pouco.

— Conhece também o rio Pecos?

— Muito bem até.

— Então o senhor é o homem de que preciso. O nosso roteiro terminaria nos Texas e no México; não nos faria diferença, se déssemos mais alguns passos para a frente. Demais, eu ia seguir para aquelas regiões, por julgar que aqueles dois “bons amigos” lá se achavam. Mas como agora eles tiveram a gentileza de nos escrever informando onde podemos encontrá-los, precisando até a data, eu seria indelicado se continuasse a seguir o mesmo roteiro. Acompanhar-me-á se amanhã cedo não encontrarmos a pista daquele Fred Morgan?

— Naturalmente! Preciso apanhá-lo, pois dele é que poderei saber com exatidão quem é o dono desse diamante raríssimo.

— Então guarde novamente essa pedra e vamos ver o que estão fazendo esses famosos ferroviários!

O chefe do trem, seguindo o meu conselho, estabelecera um serviço de vigilância ao redor da linha em reparo. Os funcionários do trem auxiliavam os trabalhadores da linha nos serviços de recolocação dos trilhos; os passageiros, uns assistiam aos trabalhos e outros cuidavam dos mortos e feridos. Outros ainda entreolhavam-se enquanto estivemos a palestrar, mas não se animaram a vir interromper-nos. Só depois que calamos, vieram ao nosso encontro a fim de nos agradecer por lhes termos salvo a vida, fazendo com que os índios fugissem. Foram mais corretos do que o chefe do trem: perguntaram-nos se permitíamos que nos demonstrassem o seu reconhecimento com um presente. Pedi-lhes que me vendessem pólvora, chumbo, fumo, pão e fósforos, desde que trouxessem consigo provisões desses artigos. A essas palavras todos correram às suas malas e daí a pouco voltavam trazendo o que pedimos em grande quantidade. Deste modo estávamos supridos para muitos dias de viagem. Recusaram o pagamento que lhes queríamos fazer, não obstante a nossa insistência.

Assim se passou o curto espaço de tempo necessário para o conserto da linha. A ferramenta foi novamente recolhida à locomotiva e o chefe do trem aproximou-se de nós dizendo:

— Querem embarcar, senhores? Leva-los-ei, com prazer, até onde quiserem.

— Obrigado. Em vista do nosso roteiro, de nada nos adiantará. Não ficaremos no país!

— A quem pertencem os troféus da luta?

— De conformidade com as leis das savanas, pertencem todos os haveres dos vencidos aos vencedores.

— Nós fomos os vencedores, conseqüentemente temos o direito de nos apoderar de tudo o que os índios traziam consigo. Agarre, pessoal. Cada um de nós deve levar um objeto que nos recorde este memorável dia!

Nessa altura, Sam aproximou-se dele e disse:

— Quer ter a fineza de nos mostrar os índios a quem os senhores venceram e mataram, sir?

O homem olhou-o até certo ponto perplexo.

— Que pretende dizer com isso?

— Que, se o senhor matou algum índio, tem o direito de se apoderar de seus haveres. Do contrário, não.

— Sam, deixe-lhe este prazer! — exclamei. — Nós não necessitamos de coisa alguma que pertenceu aos indígenas.

— Se o senhor assim opina, concordo. Mas os escalpos, nestes os senhores não tocam! E o guarda-linha, que está morto lá debaixo daquelas cerejeiras, levarão também junto. Isto é sua obrigação. Pobre homem, morreu no cumprimento do seu dever!

Imediatamente a ordem foi atendida. Depois tiraram as armas e mais haveres dos índios que jaziam mortos no solo. Colocaram, em seguida, os corpos dos brancos num vagão e a locomotiva reencetou viagem a todo vapor. Ficamos de novo sozinhos, no silêncio da vasta savana.

— E agora, o que faremos? — perguntou Sam.

— Dormiremos.

— Não acha que os índios são capazes de voltar, agora que aqueles heróis ferroviários se retiraram do teatro das operações de guerra?

— Penso que não.

—- Pois é de admirar que aquele Fred Morgan não torne aqui, a fim de reaver a sua montaria e o valioso diamante!

— É pouco provável. Quem se dá ao trabalho inútil de procurar um cavalo que estourou numa campina incendiada? Além disso, ele sabe muito bem que, além dos ferrovários, há aqui outras pessoas diante de cujos olhos não pode aparecer, sob pena de se expor a graves perigos.

— Ele me reconheceu tão bem como eu a ele; e com que prazer, se lhe fosse possível, não me teria mimoseado com uma bala ou com uma punhalada!...

— Por hoje, estamos em segurança. Em todo caso, vamo-nos afastar um pouco da linha, para termos a certeza de que não seremos importunados.

— Well, então vamos!

Montamos a cavalo e galopamos uma milha, campina afora, rumo oeste. Aí chegados, apeamos, amarramos os animais e deitamo-nos, enrolados em nossas colchas.

Eu estava realmente fatigado e adormeci logo. Mais tarde, como se fora um sonho, ouvi o trem que procedia do leste rodar sobre os trilhos; e porque estivesse em modorra, adormeci logo de novo.

Quando acordei, o dia estava clareando. Sam se achava sentado ao meu lado e fumava um dos charutos que havíamos recebido dos passageiros.

— Bom dia! Há uma grande diferença entre essas ervas e o seu charuto patenteado, cuja fábrica o senhor mantém lá debaixo do serigote. Fume também um e depois vamos pôr mão à obra. Somos forçados a renunciar à merenda matinal, até encontrarmos aguada.

— Gostaria que não tardássemos a encontrá-la. Os cavalos estão sem forragem. Posso saborear o charuto em viagem. Vamos!

Desamarramos os animais.

— Iremos daqui em linha reta até a via férrea, pois assim não nos escapará nenhuma pegada,

— Cavalgaremos ao lado um do outro?

— Não. Iremos afastados. Avante!

As cinzas das savanas deviam ter recolhido com nitidez as pegadas dos ogellallabs, mas o vento que soprara à noite as desfizera por completa Chegamos à linha férrea, sem havermos encontrado algo de anormal.

— Viu alguma cousa? — perguntou Sam.

— Não.

— Também não vi nada. Mil raios levem o vento que sempre costuma chegar quando dele não precisamos. Não tivesse o senhor encontrado aquela carta, e estaríamos agora aqui de braços cruzados sem saber o que fazer.

— Então, avante, para o rio Pecos!

—  Bravos! Antes, porém, preciso dizer àqueles índios a quem eles devem a farra de ontem.

Apeou-se e eu virei o rosto para não ver aquela cena horrível. Daí a pouco, todos os índios, ali tombados mortos na véspera, estavam com as orelhas cortadas e presas às próprias mãos.

— Bem, agora vamos — disse Sam. — Para atingirmos a primeira aguada, precisamos cavalgar um bom trecho e eu estou ansioso por ver quem resistirá melhor, se o seu poldro ou a minha “Tony”.

— O seu animal conduz menos peso, pois o senhor é mais franzino do que eu.

— Sou mais franzino, mas tenho mais inteligência! Homem, ainda não me posso conter de indignação, por me haver escapado aquele Fred Morgan. Agora, só perdoarei a sua leviandade de haver poupado a vida aos dois caciques, no dia em que me ajudar a capturar os dois Morgan.

 

No Llano Estacado

Entre o Texas, Arizona, Novo México e o território Indiano, onde se erguem as serras Ozar, de Guadalupe e as montanhas dos Gualpes, cercadas estas pelos montes que envolvem, lá no alto, o curso do rio Pecos e as nascentes dos rios Red, das Sabinas, Trindade, Brazos e Colorado, existe uma vasta e árida extensão de território a que bem se poderia dar o nome de “Saara dos Estados Unidos”.

Desertos e imensos trechos de areal ardente sucedem-se a solos pedregosos e também ardentes que não permitem a existência, ainda que efêmera, da mais miserável vegetação. Rigorosas e inflexíveis noites frias sucedem dias de sol escaldante; nem um solitário oásis ou uma palmeira verdejante quebra, como no Saara, a monotonia do deserto morto; nem um regato de águas cristalinas umedece aqueles terrenos sáfaros; por toda a parte a morte com seu vulto pavoroso, de garras aduncas, está à espera de presas. Apenas aqui e acolá — e isso mesmo não sei por que força sobre-humana são criadas e mantidas — erguem-se algumas moitas solitárias de uma plantas de forma hirsuta; pés de cactos silvestres isoladamente ou em grupos aparecem, enigmaticamente, rebentando do solo adusto. Mas tais plantas não nos alegram a vista nem tampouco nos dão uma sensação de alívio naquela canícula sufocante; tostadas são as suas folhas e sem estética a sua forma; estão em geral cobertas de areia trazida pelos tufões. Ai do cavalo cujo cavaleiro ousar tocá-lo para esses oásis de cactos! Ficarão com as patas de tal modo feridas pelos espinhos duros como aço, que jamais conseguirão andar. O cavaleiro terá que ficar a pé e o animai perecerá à míngua, se o seu dono não lhe desfechar um tiro de misericórdia que lhe ponha termo aos atrozes sofrimentos.

Pois, apesar do aspecto tétrico deste deserto, há gente que se aventura a atravessá-lo. Nele há estradas para Santa Fé, Forte União, Passo do Norte e para as campinas e matas do Texas, onde há abundantes aguadas. Mas essa palavra estradas não se deve tomar na acepção estrita do termo. Não se trata aqui das lindas rodovias que cortam os países civilizados, facilitando o intercâmbio material e cultura entre os povos. É verdade que muitas vezes um cavaleiro destemido as trilha como se fosse uma flecha, ou um grupo de índios por elas cavalga como se o fizesse em campina aberta; é verdade ainda que muitas vezes nelas se encontrara carroças puxadas a bois, arrastando-se com a vagarosidade de uma lesma, (por entre os obstáculos, pois um verdadeiro trilho orientador do rumo não existe nestas estradas, a exemplo do que se dá com as existentes no areal de Brandenburgo, ou no deserto de Linenburgo. Cada viandante trilha pelo caminho que descobriu e por ele vai seguindo enquanto encontra os obstáculos que o orientam. Mas esses obstáculos, mesmo para as pessoas de excelente acuidade visual, pouco a pouco foram-se tornando sem significação, de modo que foi conveniente colocar marcos nesses lugares.

Entretanto, esse deserto, relativamente à sua extensão, exige o sacrifício de mais vítimas do que o do Saara. Corpos humanos, cadáveres de animais, fragmentos de arreios e viaturas jazem pelo caminho, narrando uma história muda que os ouvidos não percebem, mas que os olhos compreendem com todo cortejo de seus horrores. Pelos ares voejam bandos enormes de urubus, que acompanham qualquer movimento de ser vivo durante o caminho todo, como se tivessem à certeza de ir ao encalço de presa segura.

Mas como se chama este deserto? Os habitantes dos territórios limítrofes dão-lhe diferentes denominações, inglesas umas, francesas e espanholas outras; ele, porém, é mais conhecido pelo nome de Llano Estacado, devido às estacas fincadas pelas estradas a assinalar o rumo aos viajantes.

Por esse deserto cavalgavam dois homens cujos animais se achavam horrivelmente esfalfados. Os pobres cavalos estavam tão magros que pereciam arrimados pelos ossos; assemelhavam-se a um pássaro doente dentro de uma gaiola, prestes a morrer. Arrastavam as pernas cambaleantes, dando a impressão de que iam cair a todo momento ao solo para não se levantar nunca mais. Os olhos ensangüentados, a língua para fora da boca, onde não se via o menor vestígio de espuma, os lombos enxutos de suor, tudo isso vinha ressaltar a precária situação orgânica em que se encontravam as duas pobres cavalgaduras.

Esses dois cavalos era a “Tony” e o meu poldro; por conseguinte, os cavaleiros não podiam ser senão eu e Sam.

Durante cinco longos e intermináveis dias, viajamos pelo Llano Estacado, onde só encontramos algumas gotas de água estagnada num regato ressequido, no primeiro dia. Depois a água faltou-nos completamente e eu vinha pensando como seria prático introduzir-se camelos para o serviço de transporte por este deserto. Lembrava-me dos versos de Uhland:

 

Os cavalos estavam tão cansados

que os cavaleiros, pacientemente,

ao invés de montar — eram montados...

 

Mas nós não podíamos proceder da mesma forma que os cavaleiros do poeta, pois nos achávamos nas mesmas condições de miséria dos animais.

Sam, minúsculo, estava dependurado da sua égua, como se a ela ainda se achasse preso por um mero e feliz acaso. A sua boca conservava-se permanentemente aberta e os olhos exprimiam já o horror da inanição que se avizinhava. Quanto a mim, a língua pesava-me como chumbo; a garganta estava tão seca, que eu nem me animava a pronunciar uma palavra com medo de arrebentá-la ao menor esforço; as veias ardiam-me como se nelas houvesse derramado cobre derretido. Senti que daí à uma hora, quando muito, cairíamos desfalecidos dos cavalos para logo depois perecermos à míngua.

— Á... gua... á... gua! — gemia Sam.

Levantei a cabeça. Que deveria responder? Continuei em silêncio. De repente, meu cavalo estremeceu e ficou parado; envidei todos os esforços, mas não consegui fazê-lo caminhar. A velha “Tony” seguiu no mesmo instante, o exemplo do meu poldro.

— Apeemos! — exclamei. Cada sílaba dessa palavra causou-me dores horríveis. Parecia que a laringe, desde os pulmões até os lábios, estava espetada com alfinetes.

Desci e, com pernas trêmulas e hesitantes, caminhei para a frente puxando o animal pelas rédeas; este aliviado da carga, seguia-me lentamente. Sam também trazia o seu rocinante pelas rédeas. O meu pobre companheiro parecia ainda mais aniquilado que eu. Cambaleava e parecia a cada passo que ia cair. Deste modo arrastamo-nos, por assim dizer, a uma distância de meia milha, quando ouvi por trás de mim gemidos angustiosos. Olhei para trás. Meu bom companheiro Sam jazia no areal com os olhos cerrados. Cheguei-me para ele e sentei-me ao seu lado, onde me conservei mudo. Palavras não modificariam a nossa triste situação.

Então isso ia ser o fim de minha vida, a meta final da minha jornada! Ia pensar nos meus pais e irmãos que deixara lá na velha Alemanha; tentei concentrar o meu pensamento e orar. Mas não me foi possível, pois o cérebro me fervia. Éramos vítimas do mesmo deserto que já roubara a vida de tantos.

Procedentes de Santa Fé e do Paso del Norte, numerosos grupos de garimpeiros voltavam felizes para as suas cidades no leste, ansiosos por estreitar nos braços os entes amados dos quais há tanto tempo se achavam afastados. Haviam sido felizes em suas empresas e com o produto de seu trabalho iriam agora usufruir uma vida tranqüila no recesso do lar. Mas eram forçados a atravessar o Llano Estacado onde exatamente os espreitavam os maiores perigos de toda a sua jornada; estes perigos não eram apenas os de ordem climatéria, pois ao lado deles havia outros ainda muito maiores. Indivíduos que não obtiveram êxito em sua vida de garimpeiros e que perderam a vontade de se dedicar ao trabalho honesto, que tanto enobrece o homem, indivíduos moralmente decaídos, que cruzam o oeste praticando toda sorte de crimes e que são os representantes autênticos de todas as corrupções, fizeram das cercas do Llano Estacado o ponto de parada, a fim de matar e roubar os garimpeiros que regressam para as suas casas. Mas como os procuradores de ouro são em geral homens fortes, afeitos a todos os perigos, habituados a repelir com indômita bravura bandos de salteadores que os atacam nas minas para lhes roubarem o produto de seu trabalho, tornara-se empresa arriscada para os bandoleiros, — em geral covardes, pois só sabem vencer atacando de emboscada.

Em vista disso, esses malfeitores tiveram uma idéia como mais cruel não é possível conceber-se: arrancaram os marcos orientadores dos caminhos e os colocaram noutro rumo, de maneira que os garimpeiros se transportassem para as regiões ainda mais perigosas do deserto e se atirassem à morte pelo mais cruel dos meios — a inanição.

Depois, sim, os bandoleiros livres de perigo e sem terem necessidade de fazer o menor esforço, equipavam-se devidamente, levando tudo de que careciam para a jornada infernal, seguindo logo em procura dos mortos, a fim de se apossarem calmamente dos seus haveres. Daí, pois, a razão de se acharem, lá no deserto, expostas na areia às ossadas de centenas de homens honestos e trabalhadores, cujas famílias em vão esperam, talvez até hoje, pela sua volta, sem nunca mais saberem notícias deles.

De princípio, havíamos seguido confiadamente os marcos, e só agora, ao meio-dia, é que percebemos que eles nos conduziam por caminho errado. Eu não podia saber onde e nem desde quando nos afastáramos do verdadeiro caminho; não podíamos pensar em voltar, pois isso poderia ser pior, visto que a nossa debilidade física e a dos nossos animais não o permitiam. Sam estava impossibilitado de continuar a viagem, e também creio que eu não conseguiria caminhar mais nem uma milha inglesa, mesmo que dispendesse o resto de forças que ainda tinha. Uma coisa era certa: embora ainda vivos, já nos achávamos na sepultura se, sem perda de tempo, algum feliz imprevisto não nos viesse salvar.

Foi quando por sobre minha cabeça percebi um pio estrídulo. Olhei para cima e um urubu que, segundo me pareceu, levantara naquele instante vôo do solo dali das redondezas. A ave descreveu um círculo sobre nós, como se nos estivesse a contemplar como presa inevitável. Ali pelas imediações devia fazer alguma vítima do ardil armado pelos “bandoleiros do deserto”, como eram chamados os bandidos que operavam no Llano Estacado. Percorri com os olhos a zona ao redor de mim para ver se divisava algum vestígio.

Apesar do calor abrasante, da febre causada pelo sangue que me escorria dos olhos, produzindo-me horríveis dores, pude enxergar a uma distância de uns mil passos alguns pontos que não podiam ser nem pedras, nem qualquer outra elevação de terreno. Tomei de minha espingarda de dois canos e fiz um esforço para avançar.

Não tinha ainda vencido metade da distância citada, quando distingui três coiotes e vi, logo mais adiante, um pequeno bando de urubus. Notei que os coiotes se achavam em torno de um corpo, que devia ser de algum quadrúpede ou talvez de um homem, e que ainda não estava bem morto, do contrário aqueles animais carnívoros já teriam dilacerado a presa. A presença dos coiotes trouxe-me um raio de esperança, visto que esses animais não podem passar muito tempo sem água; logo não se teriam aventurado a se afastar muito do local onde houvesse algum arroio ou cousa que o valha. Primeiramente eu precisava certificar que espécie de corpo era o que eles cercavam; ia continuar o caminho, quando me ocorreu uma idéia que me levou a assestar a espingarda.

Estávamos próximos da inanição; pelas redondezas não havia água, mas o sangue daqueles bichos não nos poderia aliviar os sofrimentos ou, quiçá, salvar-nos? Eu estava tão enfraquecido que não podia assestar a arma com firmeza. Deitei-me, apoiei os braços no solo e desfechei os dois tiros. Dois coiotes rolaram no solo. Esse sucesso fez-me recuperar, em parte, as forças e saí correndo naquela direção. Um dos lobos das campinas fora atingido na cabeça. O outro tiro, porém, fora alvejado com tanta imperícia que dele me teria envergonhado se me achasse noutra situação. A bala arrebentara as duas pernas dianteiras do animal, que, berrando, rolava-se na areia.

Puxei da faca, abri a jugular do coiote morto, pus os lábios nessa veia e suguei-lhe o sangue com uma sofreguidão tal como se tratasse de um nectar olímpico. Depois de haver bebido bastante sangue, tirei uma caneca de couro que trazia à cinta, enchi-a e levei-a para o homem que, como morto, jazia na areia. Era um negro e apenas pus os olhos no seu rosto, não só preto como também sujo, quase deixei cair a caneca de tão estupefato que fiquei.

— Bob! — chamei.

A essa palavra, ele abriu um pouco os olhos.

— Água! — gemeu.

Ajoelhei-me diante dele, levantei-lhe o tronco e levei-lhe a caneca aos lábios.

— Bebe!

Ele abriu os lábios, mas a sua garganta ressequida quase que o impossibilitava de engolir. Demorou bastante tempo até eu conseguir fazer o asqueroso líquido descer-lhe garganta abaixo. Em seguida ele deixou cair novamente o tronco.

Agora eu precisava acudir Sam. Eu tirara primeiro o sangue do coiote morto, deixando o outro ainda com vida, para que Sam recebesse o líquido mais fresco.

Agarrei-o, pelo pescoço, não obstante o animal furioso me pregar os dentes, e conduzi-o para junto do meu companheiro. Lá apertei-o de encontro ao solo para que não pudesse mexer-se e abri-lhe a jugular.

— Sam, beba!

Ajudei meu pobre companheiro a sentar-se.

— Quer dar-me de beber? Oh! Oh!

Com ansiedade, pegou da caneca e a esvaziou de um trago. Tomei-a de suas mãos e a enchi de novo. Sam a esvaziou pela segunda vez.

— Sangue! oh! É bem mais saboroso do que muita gente pensa. Suguei as poucas gotas que o animal ainda tinha, e corri para o ponto em que estava o negro. O terceiro dos coiotes que havia fugido voltara e, não se preocupando com a presença de Bob, começara a devorar o próprio companheiro. Carreguei minha arma e abati-o também. Com o auxílio do seu sangue fiz o negro recuperar os sentidos e a faculdade de locomoção.

O viajante tem, às vezes, encontros admiráveis. Era um destes o que eu acabava de ter com este negro, meu velho conhecido. Quando estive em Louisville fui acolhido com cativante hospitalidade pelo seu amo, um joalheiro de nome de Marshall. Por essa ocasião vim a estimar ao negro fiel e respeitoso. Tomei então parte numas caçadas, em companhia dos dois filhos do joalheiro, os quais depois me acompanharam até o Mississípi. Eram dois belos rapazes de quem me tornei amigo. Mas como viera parar Bob, o lanudo negro, aqui no Llano Estacado?

— Está agora melhor, Bob? — perguntei.

— Mió, muito mió. Agora é que ele parecia me reconhecer. — Mas, mestre, será pussivi? O sinhô não é o mestre Carlo, aquele valente caçadô? Oh! nêgo Bob tá contente por tê encontrado bom mestre. Mestre salvo mestre Bem, que se não fosse o sinhô estaria agora morto, de verdade!

— Bernhard? Onde está Bernhard? Apontando para o sul!

— Está lá. Ou então ali; ali, ou ali — rodando sobre os calcanhares, indicou todas as direções. Ele mesmo não sabia onde andava o seu jovem amo.

— Mas que faz Bernhard aqui no Llano Estacado?

— Bob não sabe; Bem continuo viaje com us outro mestre.

— Quem é a gente com quem ele viaja?

— Os mestre são caçadô, são negociante são... oh! Bob não sabe bem o que todos os mestre são.

— Para onde pretendem eles seguir?

— Pra Califórnia, pra São Francisco, pra casa do jovem mestre Allan.

— Então Allan está em S. Francisco?

— Mestre Allan em S. Francisco compra muito ouro pro meu mestre Marshall, mas mestre Marshall não pricisa mais de ouro porque mestre Marshall morreu.

— Mas o senhor Marshall faleceu? — perguntei surpreendido, pois o velho joalheiro ainda gozava de perfeita saúde, quando eu estivera em sua casa.

— Sim, mas não morreu de doença, foi morto por um bandido.

— Foi assassinado? — perguntei com inflexão dolorosa na voz. — E por quem?

— Bob não sabe e ninguém sabe quem foi o miseráve matadô do meu bom patrão. Assassino veiu de noite, fincou faca no peito de mestre Marshall, levou toda pedra preciosa, toda jóia e ouro e tudo que era do meu patrão. Quem era o bandido e pra onde ele foi isso não sabe nem o xerife, nem o júri, nem mestre Bem e nem Bob.

— Quando se deu o crime?

— Já feis cinco méis; mestre Bern tá muito pobre; mestre Bem escreveu uma carta pro mestre Allan em Califórnia, mas não recebeu risposta, por isso resorveu í em pessoa até lá precurá mestre Allan.

Era uma horrível notícia que eu recebia. Um assassinato, tendo por móvel o saque, havia roubado a tranqüilidade daquela família que vivia tão feliz; o seu chefe tombara à bala do bandido e os dois rapazes haviam sido reduzidos à extrema pobreza. Teriam mesmo desaparecido todas as jóias?

Instintivamente lembrei-me do diamante de que me apoderara de Fred Morgan. Não teria ele relações com o doloroso acontecimento que o negro acabava de me relatar? Mas o que levaria, neste caso, o criminoso a seguir de Louisville para a campina?

Que roteiro os senhores vêm seguindo? — perguntei.

— De Memphis ao forte Smith e de lá subimo as montanha e nos fumo pra Preston. Bob caminho, cavalgo e ando di carroça até chega maldito Estacado, onde não tem água pra bebê. Bob fico com muita sede até que caiu du cavalo que continuo a caminha sozinho deixando Bob atirado no chão. Bob teria murrido de sede se mestre Carlo não o salvasse, dando sangue pra Bob bebê... Oh! mestre salvou Bob e Bob gosta du mestre mais que do mundo intêro.

Continuei nas perguntas.

— De quantos homens se compunha à expedição de Bernhard?

— Novi home e Bob.

— Daqui para onde iam seguir?

— Bob não sabe. Bob sempri cavalga atrais e não ouviu o que os muito mestre faláro.

— Usa uma faca e uma espada. Os outros também se acham todos armados?

— Tudo tá armado de muitas espingarda, muitas faca, muitos revorvis e pistola.

— Quem dirige a expedição?

— Um home que se chama William.

— Faça um esforço para se lembrar para onde eles seguiram, quando caiu do cavalo!

— Não mi alembro.

— Em que dia e a que hora caiu do animal.

— Era já quasi noite. Oh!... Agora Bob si alembra: os mestres seguiro na direção du sol, quando Bob caiu.

— Está bem. Pode andar?

— Bob já corre outra veis como um viado. Sangue é bom remédio pra sede.

Realmente o líquido imundo havia me reanimado também de tal modo, que me desaparecera toda a febre; ao meu lado já se achava o meu companheiro Sam, em quem se operara a mesma transformação.

O grupo em que se achava Bernhard Marshall deveria estar tão esfalfado como nós, pois do contrário o jovem e bondoso joalheiro não teria deixado o seu fiel criado ao abandono no meio do deserto. Com certeza estavam com os intestinos e demais órgãos de tal modo ressequidos que não atinavam mais com o que se passava. Pela indicação de Bob, concluí que eles haviam tomado a direção do oeste, aliás a mesma que seguimos nós; mas como segui-los, como levar-lhes auxílios se também nós nos achávamos desprovidos de recursos e nem podíamos utilizar-nos de nossos cavalos?

Dirigi-me a Sam.

— Fica aqui junto dos cavalos, que talvez se reanimem, podendo, depois andar mais uma milha. Se dentro de duas horas eu não estiver de volta, segue as minhas pegadas.

— Está bem, Carlos. Mas não te afastes muito, pois o sangue dos coiotes não terá efeito muito prolongado.

Agora já nos tratávamos por “tu” e não por “senhor”, como ocorreu no primeiro dia do nosso encontro.

Examinei o solo e vi que as pegadas de Bob partiam de onde ele jazia para o rumo norte. Seguindo este vestígio, cheguei, dez minutos depois, a um ponto em que as pegadas de dez cavalos seguiam do leste para o oeste. Bob cavalgava a uma boa distância do grupo, razão por que, de certo, não foi visto, quando tombou do animal. Continuei a examinar as pegadas e notei que os animais estavam esfalfadíssimos, pois a cada passo cambaleavam, o que se concluía dos rastos de escorregões deixados na areia.

Essa circunstância tornava as pegadas ainda mais visíveis e eu as podia seguir com relativa rapidez.

 

BANCANDO O “MANDACHUVA”

Havia caminhado uma milha, quando alcancei um aglomerado de pés de cactos que se estendiam em linha até formarem uma verdadeira floresta que se perdia no horizonte. Estavam tão ressequidos que haviam adquirido uma cor amarelada.

Naturalmente que as pegadas por mim seguidas não se dirigiam para a perigosíssima floresta, mas a contornavam; continuei a segui-las, mas não por muito tempo, pois, de súbito, me veio uma idéia, que logo me dispus a executar.

Quando nas ardentes baixadas da península da Flórida o calor sufocante absorve a água até a última gota, os homens e animais ficam ameaçados de perecer de inanição e a terra, coberta por um céu de cobre, arde como chumbo derretido, não se vislumbrando na abóbada celeste o menor vestígio de uma nuvem salvadora a acenar com o refrigério de uma chuva providencial, os viajantes costumam atear fogo nos juncais e em todos os macegais secos e, daí a pouco, a chuva salvadora vem. Por duas vezes observei este fato, e quem está identificado com a natureza, conhecendo-lhe os mais recônditos segredos, está apto a considerar explicável esse fenômeno, dispensando quaisquer discussões científicas em torno do assunto.

Lembrei-me disso e achei o local apropriado para nele aplicar aquele processo de fazer chover. Cortei alguns galhos secos, acendi-os e pus fogo no macegal. Alguns minutos depois, no bosque de cactos, ardia um fogo de chamas vivas que cada vez mais aumentavam até que se ergueu um verdadeiro mar flamejante cujos confins não se podiam mais divisar.

Eu já assistira a muitos incêndios violentos nas campinas, mas nenhum deles apresentava o aspeto de belo-horrível que este me ofereceu à contemplação. Os troncos do cactos produziam um estrondo tamanho, que davam a impressão de ali se haverem concentrado numerosos exércitos para uma batalha. As labaredas pareciam querer alcançar o céu e a atmosfera se achava saturada de vapores chamejantes de permeio com gravetos secos a arder, que o calor jogava para o ar como flechas. O solo tremia-me debaixo dos pés e nos ares havia um barulhão semelhante ao do estrondo de uma batalha.

Era este o melhor socorro que, de momento, me era possível levar a Bernhard Marshall e aos seus companheiros de expedição. Voltei tranqüilo, não me preocupando com a circunstância de que iria, depois achar ou não as pegadas que ia seguindo. A esperança de salvar aquele amigo redobrou as minhas forças e dentro de meia hora eu chegava ao local de onde saíra há pouco.

Os meus companheiros já vinham ao meu encontro, montados nos cavalos que tentavam caminhar mais um trecho.

— Zounds, Carlos, que aconteceu lá na frente? De princípio julguei que nos achávamos diante de um terremoto e agora, ao que me parece, a areia deste malfado deserto pegou fogo.

— A areia não, Sam, mas os cactos que lá adiante se erguem em densas e enormes florestas.

— Mas como podiam pegar fogo? Quero crer que não foste tu quem o ateou!

— Por que não?

— Então foste tu, realmente! Mas dize-me com que fim?

— Para vir chuva.

— Chuva? Não me leves a mal, Carlos, mas enlouqueceste ou, para distrair-te, retiraste algum parafuso dessa cachola!

— Não sabes que entre determinadas tribos de selvagens os loucos é que são considerados como as pessoas mais sensatas?

— Espero que com isto não queiras afirmar haveres praticado uma ação sensata, metendo fogo nos cactos! O calor é agora duas vezes mais sufocante do que há pouco.

— O calor subiu para o ar e com ele vai desenvolver-se a eletricidade.

— Não me chegues perto com a tua eletricidade! Não a posso comer, não a posso beber e nem sei que espécie de criatura ela é.

— Não tardarás a ouvi-la, pois dentro em pouco, teremos aqui um lindo temporal, acompanhado dalguns trovões.

— Agora, pára, pobre Carlos! Estás completamente doido! Que pena, um rapaz tão moço!

Olhou-me de um modo tão apreensivo, que eu não podia ter a menor dúvida de que não pilherava. Apontei para o ar, dizendo:

— Não vês aqueles vapores que se condensam na atmosfera?

— Com todos os diabos, Carlos! Não és, no fim, tão louco como eu pensava.

— Eles estão formando uma nuvem que irá descarregar com violência.

— Carlos, se for assim como dizes, eu sou o maior asno e tu o homem mais inteligente dos Estados Unidos, ou, aliás, do mundo inteiro.

— Não exageres, Sam. Eu observei quando, em Flórida, aplicaram este processo e agora nada mais fiz do que imitá-lo, pois acho que uma chuva, por pouca que seja, não nos fará mal algum. Olha, lá está a nuvem formada! Assim que o bosque de cactos queimar completamente ela estourará. E se não me quiseres acreditar, espia a tua “Tony” como sacode o toco de rabo que ainda lhe resta, e, de narinas arreganhadas, fareja o ar. Também o meu poldro está sentindo cheiro de chuva, que não se estenderá muito além da zona dos cactos queimados. Vamos, pois, para lá para que a possamos aproveitar bem na ocasião oportuna!

Caminhamos a pé, mas bem que poderíamos ter montado, pois os animais mostravam-se tão dispostos quanto as suas forças o permitiam e caminhavam com passos firmes para a frente. O seu instinto previa o refrigério próximo.

A minha profecia cumpriu-se. Meia hora depois, a nuvem atingira um volume tal que sobre as nossas cabeças o firmamento escurecera. Depois caiu a chuva e com tanta intensidade, que produzia um ruído como se vinte punhos cerrados nos estivessem a bater nas costas; dentro de um minuto estávamos tão molhados como se houvéssemos caído nalgum rio. Os dois cavalos, de boca aberta, procuravam aproveitar as grossas gotas d’água. Passaram depois a cabriolar, e não tardamos a observar que haviam recuperado todas as forças perdidas. Nós mesmos sentíamos uma grande sensação de bem estar. Estendemos nossos lençóis de oleado, apanhamos a água e com ela enchemos os nossos cantis, depois de havermos bebido com fartura, é claro.

Bob estava radiante de alegria. Arreganhava a alva dentuça e fazia toda sorte de caretas. Pulava como um macaco.

— Mestre, oh mestre! que augua boa. Bob está com saúde, com saúde, com saúde! Bob está forti pra cavalgá e corrê até a Califórnia, sem pará! Mestre Bern também ganhô augua?

— Creio que sim, pois não acredito que ele esteja muito distante do bosque de cactos. Mas beba, beba mais ainda porque a chuva não tarda a cessar.

Tomou do chão o seu chapéu de abas largas, encheu-o e abriu os grossos lábios para beber.

Realmente, daí a instantes cessava a chuva, com o último trovão. Havíamos saciado a nossa sede, portanto, não tinha importância que a chuva parasse. Além disso, os nossos cantis estavam cheios do precioso líquido.

— Agora vamos comer alguma cousa, disse eu. — Depois prosseguiremos sem perda de tempo a ver se ainda alcançamos Marshall.

 

PRIMEIRO CONTATO COM OS “BANDOLEIROS DO DESERTO”

Levamos poucos minutos para fazer a nossa refeição, que constituiu, de um pedaço de xarque de búfalo. Depois montamos e continuamos viagem. Bob revelou-me um tão excelente corredor que acompanhava pari-passu o tranco dos nossos cavalos.

As pegadas dos expedicionários haviam sido desfeitas pela chuva; mas isto não nos trouxe transtorno algum, pois eu sabia em que direção a caravana seguira. Não demorou muito, encontramos uma capa de vime de garrafão, abandonada no deserto; havia sido atirada ali, sem dúvida por um dos expedicionários. O bosque de cactos era muito grande, pois o trecho carbonizado não tinha fim. Alegrava-me com isso, pois assim eu podia deduzir que a expedição fora também atingida pela chuva salvadora. Finalmente, atingíamos a extremidade da mata de cactos queimada, e logo depois divisei ao longe um grupo escuro que devia ser formado por homens e animais. Assestei o binóculo e contei nove homens e dez cavalos. Oito dos cavaleiros se achavam sentados ao solo, um, porém, montado a cavalo, se separara do grupo. Através das lentes, reconheci que era Bernhard Marshall. Nesta ocasião parou o cavalo, talvez por ter notado a nossa presença. Percebi o seu propósito. Ele se achara, em conseqüência do esgotamento físico e moral, num grande estado de indiferença que nem deu pelo desaparecimento do seu fiel criado; refeitas as suas forças com a chuva que caiu, readquiriu o seu vigor espiritual e só então se lembrou do negro, a quem agora ia procurar. Isto também se deduzia pelo cavalo de Bob que ele trazia pelo cabresto. Não me agradou a atitude dos seus companheiros, conservando-se sentados em vez de acompanhá-lo; eu estava em apostar como eram todos ianques que não dão valor algum à vida de um preto.

Virando-se, disse algumas palavras; de súbito, todos se ergueram, montaram a cavalo e pegaram das armas.

— Vá para frente Bob, para que eles te reconheçam! — disse o negro para si mesmo e deitou a correr; nós o seguimos a trote. Quando Marshall reconheceu o criado, ficou tranqüilo. Os companheiros apearam de novo e nos esperavam em atitude pacífica. Bob nos tomara apenas uma pequena dianteira, de modo que ouvimos bem quando ele avisou:

— Não atire, mestre, não atire! Vai fica munto contente! É mestre Carlo que só mata índio e bandido, mas dexa vivê Bob e seu patrão!

— Carlos?! Mas será possível? — exclamou Bernhard surpreendido fixando-me.

Quando eu estivera em sua casa trajava-me elegantemente. Naquela époça eu usava um simples cavanhaque e agora minhas barbas cerradas vinham quase até o meio do peito. Além disso, nunca me vira em trajes de escoteiro e por tudo isso não o levei a mal por não me haver reconhecido de longe. Quando me achava a uns trinta passos distante, ele viu então que Bob lhe prestara informação certa. De um salto, veio ao meu encontro, estendeu-me a mão, e, emocionado, perguntou:

— Mas, Carlos, que estou vendo? É o senhor mesmo? Eu pensei que pretendia seguir para o forte Benton e de lá para a Serra Nevada. Como veio parar aqui no sul?

— Estive realmente naquelas zonas, Bernhard. Lá, porém, fazia muito frio e resolvi empreender uma excursãozinha por esta região. Afinal, como vê, acho-me no celebérrimo Llano Estacado. Quer apresentar-me os seus companheiros?

— Naturalmente, Carlos! Afianço-lhe que um milhão de dólares não me seriam tão bem-vindos como a sua presença aqui! Apeie-se e aproxime-se.

Após a apresentação dos companheiros, atordoou-me com uma saraivada de perguntas, a que fui respondendo à medida do possível. Observando a comitiva, verifiquei compor-se de homens que se diziam caçadores de uma companhia de peles, e estavam tão singularmente vestidos e embaraçados com incômodas armas, que impossível seria tomá-los por homens do oeste. Eram os caçadô, de que me falara Bob, mas que eu tachara de aventureiros que se dirigem para o oeste com o fim de tentar a sorte, seja por caminhos honestos ou não. O mais velho dos caçadores que me apresentaram com o nome de William, era o dirigente da caravana. Depois de haver eu respondido às perguntas que me fizera Marshall, ele se dirigiu a mim. Sam parecia não haver tido boa impressão do homem.

— Agora já sabemos mais ou menos quem é o senhor e de onde vem; precisamos também saber para onde vai!

— Talvez para o Paso del Norte ou quem sabe para outra zona, sir, desde que assim o exija o nosso objetivo.

Achei necessário não lhe dizer mais nada por enquanto. Eu ainda não sabia bem quem era e, ademais, parecia um indivíduo mau.

— E qual é o objetivo que visam nesta jornada?

— Conhecer um pouco o mundo.

— É um trabalho que não causa tédio, e que não tem pressa de ser concluído. Com que então, deve ser um homem abastado, um milionário como revelam suas armas reluzentes!

Não me agradou a sua pergunta e principalmente o olhar perscrutador que me dirigiu nessa ocasião, bem como o tom de ironia com que pronunciou essas palavras. O homem era inexperiente, pois com tal atitude provocava-me maiores suspeitas. Resolvi não lhe dar muita confiança e por isso respondi-lhe secamente:

— Ricos e pobres aqui no Llano Estacado são iguais!

— Tem razão, sir. Ainda há meia hora estávamos arriscados a morrer todos de inanição, se não fôssemos salvos maravilhosamente. Foi um milagre como nunca se deu igual no deserto.

— Que milagre foi?

— O da chuva repentina, sir. Ou vêm dalguma zona que não foi beneficiada por ela?

— A chuva nos alcançou, pois foi exatamente nós que a provocamos.

— Provocaram? Que pretende dizer com isso, sir?

— Que, achando-nos tão ameaçados de morrer de insolação, como os senhores, reconhecemos como único meio de nos salvar, a provocação de nuvens, raios e trovões, com o corolário desejado: a chuva.

— Olhe, o senhor é um prosa! Fique sabendo que não somos gente a quem o senhor faz de tolo. Se está com essa intenção, afianço-lhe que arriscará a sua pele. Com toda certeza andou lá pelas margens do Utah, junto com os adventistas do sétimo dia, que afirmam conseguir fazer milagres semelhantes.

Deixei passar em julgado essas palavras pouco gentis e respondi:

— Sim, já andei por lá. Hoje, porém, não me preocupa o sétimo dia, mas sim o atual, hic et nune. Permite que nos juntemos ao seu grupo?

— Por que não? O senhor é amigo de Marshall e só essa circunstância já bastaria para não recusarmos o que pede. Como se aventuram a atravessar, em dois apenas, o Llano Estacado?

Desconfiado como eu estava do homem, passei a fingir-me de leviano e inexperiente para deste modo poder observá-lo melhor.

— Aventurar? Mas que há por aqui de perigoso? O caminho está demarcado e nele se entra para chegar, sem novidade, ao destino.

— Como o senhor encara a coisa com facilidade! Nunca ouviu falar nos “bandoleiros do deserto”?

— Que espécie de bandidos são estes?

— Aí está uma prova de sua inexperiência e leviandade! Não vou falar daquela estirpe de bandidos, pois dizem que não se deve pintar o diabo na parede. Mas uma cousa lhe afianço: para se arriscar a atravessar o Llano Estacado em dois, só mesmo tendo a bravura e combatividade dos célebres “Mão de Fogo” e “Mão de Ferro” e a inteligência de um Sans-ear, o perseguidor dos indígenas. Já ouviu um dia falar nesses homens?

— É possível, mas com certeza não dei grande atenção aos seus feitos. Que tempo precisamos cavalgar para sairmos deste deserto?

— Dois dias.

— E vamos trilhando por caminho certo?

— Por que haveríamos de tomar estradas erradas?

— Porque tive a impressão de que os marcos de um momento para o outro se dirigiram para o sudeste em vez do sudoeste.

— O senhor pode ter tido essa impressão, mas não um velho e experimentado viajante como eu. Conheço o Estacado como a palma de minhas mãos!

As minhas suspeitas se avolumavam. Se ele fosse de fato um viajante antigo e conhecedor da zona como afirmava, deveria ter notado que nos havíamos enveredado por um rumo bem diferente. Resolvi auscutá-lo melhor. Por isso perguntei-lhe:

— Por que motivo a companhia os destaca para as paragens longínquas do sul? Sempre ouvi dizer que no norte havia roedores de peles mais finas do que aqui.

— Oh, como é inteligente! Pois pele é pele! Além disso por aqui há maior quantidade de ursos do que lá no norte. E, depois, pretendemos aproveitar o outono em que se dá a migração dos búfalos, para abater milhares deles e tirar-lhes o couro.

— Oh! Mas eu sempre fui de opinião que lá em cima, nos parques e em suas redondezas, era muito mais fácil de caçar búfalos do que aqui! Bem, o senhor como prático deve saber melhor do que eu, que sou novo na terra. Sei que dos índios não precisam ter medo, pois a companhia aproveita os caçadores ao mesmo tempo para o serviço de estafetas e a carta de estafeta, dizem, é o melhor talismã contra as hostilidades dos indígenas. Será verdade?

— É a pura verdade. Em vez da sua hostilidade podemos contar com o auxílio dos índios em qualquer emergência.

— Então o senhor viaja provido de uma dessas cartas de estafeta?

— Naturalmente. Basta-me exibir o invólucro para que todo o índio me dispense a sua proteção.

— O senhor me está deixando curioso, sir. Não me podia mostrar a sua carta?

Notei que o homem se achava em apuros, que procurou disfarçar, fazendo um semblante carregado.

— O senhor não sabe o que é sigilo de correspondência, homem?! Tenho licença de exibir esta carta exclusivamente a índios.

— Mas não pedi para ler o conteúdo da carta. O senhor, pelo gesto, que faz, parece não estar provido nem com um documento que ateste a sua identidade perante um pele-branca, quanto mais perante um indígena!

— Perante um pele-branca, o meu documento de identidade é a espingarda! Tome nota disso para seu governo!

Portei-me como se me sentisse dominado por ele e calei-me, fingindo-me estar desconcertado. Sam não olhou para mim porque este gesto poderia dar na vista, mas olhou para a sua égua com uns olhares de aprovação que compreendi logo. Estava de acordo com a minha atitude. Virei-me depois para Marshall e lhe disse:

— Bob contou-me, Bernhard, para onde vão e qual o objetivo desta viagem. Não possuem pista alguma do assassino que tudo lhes roubou?

— Nem um vestígio. O crime hediondo deve ter sido perpetrado por mais de uma pessoa.

— Onde está Allan?

— Em S. Francisco. Pelo menos as suas últimas cartas eram datadas de lá.

— Well! Então os encontrarão com facilidade. Pretendem continuar viagem ou tomar pouso aqui?

— Ficou resolvido pousarmos aqui.

— Neste caso, vamos desencilhar os nossos animais.

Tiramos os arreios e mais equipamentos dos nossos cavalos e demos-lhe alguns grãos de milho. Evitamos trocar palavras durante esse serviço. Também nem era necessário, pois as nossas idéias combinavam. Quando dois caçadores cruzam juntos as planícies por algumas semanas, compreendem-se pelo olhar. Também com Marshall isoladamente não falei e nem lhe fiz secretamente o menor gesto. Assim, passou-se o resto do dia por entre palestras banais. Quando anoiteceu, eu disse a William:

— Distribua o serviço de vigilância, sir, pois estamos cansados e queremos dormir, mas antes precisamos saber que quarto nos tocará,

Ele atendeu ao meu pedido e verifiquei que não escalou nenhum dos caçadores para estar ao mesmo tempo de guarda junto comigo, Sam ou Marshall.

— Procure dormir no meio deles para ouvir o que falam durante a noite! — cochichei a Marshall, que me lançava uns olhares misteriosos, em face da distribuição original da guarda, feita por William.

Como não havia pastagem, os cavalos se deitaram no areal. Deitei-me ao lado do meu poldro, ao passo que os demais companheiros formaram um círculo. Eu tinha razões para não ficar no meio do grupo. Sam estava deitado em posição de poder enxergar todos os sinais que eu lhe fizesse. Os caçadores deste modo só poderiam conversar sobre assuntos secretos, quando de sentinela.

 

TIRO PELA CULATRA

As estrelas haviam surgido, mas envoltas num manto nebuloso, assim que sua luz não produzia a mesma claridade de outras noites. O primeiro quarto tocou a dois dos três comerciantes que, em caminho, se haviam também incorporado à comitiva, e correu sem que algo de anormal se registrasse. O segundo, William reservara para si e para o mais moço dos caçadores. Quando lhes tocou a vez ainda não haviam adormecido. Ergueram-se e cada um passou a rondar o seu meio círculo; observei-os e divisava nitidamente os dois pontos negros onde eles se encontravam. O local era próximo do cavalo do negro Bob. Folguei com isso. Com certeza não haviam entregue ao negro um desses excelentes corcéis das campinas cujos instintos denunciam invariavelmente a aproximação de qualquer pessoa ou animal.

Quando os dois guardas se encontravam, quedavam-se por alguns instantes a conversar. A permanência nas savanas me apurara os sentidos, por isso não me foi difícil concluir logo que estávamos no meio de homens, mal-intencionados.

Saí caminhando de gatinhas em direção ao cavalo de Bob. Minha previsão fora acertada. Tratava-se de um cavalo muito manso que não denunciou a minha aproximação nem com o mais leve movimento. Cheguei no momento em que os dois guardas se encontraram de novo naquele ponto. Antes deles se separarem, ouvi nitidamente o chefe da caravana dizer ao companheiro:

— Eu cuido dele e tu do negro. Não perceberão a nossa manobra. Daí a pouco se encontraram de novo e eu ouvi:

— Psiu! O sem orelhas é pequeno, e com um braço só executarás o serviço. O outro, porém, é corpulento, é preciso matá-lo quando estiver dormindo.

Não havia mais dúvida: eles planejavam a nossa eliminação do rol dos vivos! Qual o móvel de tal plano eu não podia saber. Voltaram novamente e William disse:

— Creio que os companheiros estarão de acordo em fazermos o “serviço” nos outros três também. É melhor assim. Estaremos livres desses importunos.

Com que então os três comerciantes que viajavam na caravana iam ter a mesma sorte que nós. Se eu não tivesse tido a idéia de os espreitar, os “caçadores” nos teriam morto sem grande trabalho. Agora os dois bandoleiros se encontraram outra vez.

— Bem, está tudo combinado! Não percam um só minuto! — concluiu William.

Portanto o interessante diálogo estava findo. As últimas palavras referiam-se à hora da execução do crime. Mas, para que hora fora combinado? Não era necessário sabê-lo porque era lógico que esperariam até ferrarmos no sono. Como eles ainda tinham um quarto de hora de guarda, resolvi antecedê-los no golpe sem perda de tempo.

Preparei-me para agarrá-los. Chegaram-se de novo até perto de mim e desta vez não pronunciaram uma só palavra. Ambos viraram-se ao mesmo tempo. Mas, ao passar por mim, agarrei William pelo pescoço e desferi-lhe violento soco na região temporal, que ele tombou ao solo sem pronunciar um gemido. Prossegui em seu lugar na ronda. Do outro lado encontrei-me com o outro. Peguei-o logo pela garganta e o arrojei também no chão sem sentidos. Os dois bandidos continuariam desacordados por uns dez minutos, disso tinha eu certeza. Por isto corri ao acampamento. Apenas dois estavam acordados: Sam, naturalmente, e Bernhard; a quem os meus sinais fizeram perder o sono.

Desamarrei o laço do serigote e Sam fez o mesmo.

— Apenas os três “caçadores” — conchichei-lhes. Em seguida bradei:

— Levantem, pessoal!

Todos se ergueram de um salto e ao mesmo tempo a nossa laçada segurava dois dos “caçadores” pelo tronco. Amarramo-los tão seguros que não se puderam mais mover. Bernhard segurou o terceiro, até que eu, desembaraçado dos outros dois, amarrei-o com o seu próprio laço. A cena foi tão rápida que tudo já estava concluído, quando um dos comerciantes, se acordando do espanto, comandou.

— Traidores no acampamento! Tomem das armas! Sam soltou uma gargalhada sarcástica.

— Deixa o teu “pau furado” em paz, meu jovem; tanto este como os outros estão sem o ouvido, hihihihi!

O meu companheiro fora tão previdente, que durante o tempo em que estive fazendo o reconhecimento tirara de todas as armas o ouvido, por onde se comunica o fogo à carga. Deste modo às espingardas estavam inutilizadas, enquanto não lhes recolocassem aquela peça. Este fato prova o quanto o companheiro me compreendia bem, sem que para isso fosse necessário eu lhe dizer uma só palavra.

— Estejam tranqüilos, cavalheiros, pois nada lhes sucederá! — acalmei-os. — Estes homens haviam planejado a nossa morte e a dos senhores também; por isto é que resolvemos imobilizá-los.

Apesar da escuridão notava-se o pavor de que se achavam tomados. Também o negro Bob de nós se aproximou dizendo:

— Patrão, patrão, eles também queriam mata Bob?

— Também a ti, Bob.

— Então têm que morre inforcado no “estacado” e num poste bem arto!

Os prisioneiros não pronunciaram uma só sílaba. Contavam talvez com a ajuda dos dois guardas...

— Bob, ali adiante jaz William e um pouco além o seu companheiro da guarda. Traga-os para cá! — ordenei ao preto.

— Eles já tão morto? — perguntou o criado.

— Não, mas sem sentidos.

— ]á vô busca!

O negro espadaúdo carregou um e depois o outro aos ombros e os depositou no solo perto de nós. Agora a calma já estava um tanto restabelecida e pude falar e esclarecer a minha atitude aos três negociantes. Depois do meu relato, eles se exaltaram e exigiram a execução imediata dos “caçadores”. Opus-me energicamente a isso.

— Estão enganados! — exclamei. — A savana também possui as suas leis. Se os tivéssemos surpreendido de armas na mão para tirar-nos a vida, cabia-nos o direito de matá-los no próprio local. Mas, nas circunstâncias em que foram surpreendidos, a lei não nos dá este direito. Precisamos antes de tudo formar um júri, para resolver o destino que lhes deveremos dar.

— Oh! Um júri! — exclamou o negro contente. — Depois do júri Bob vai enforcá todos cinco num poste bem arto!

— Não podemos instalar o júri já. Não acendemos fogueira e precisamos esperar primeiro o romper do dia. Cinco de nós podem dormir sossegadamente e dois montarão guarda para vigiar os prisioneiros.

Custou-me muito fazer prevalecer o meu ponto de vista, mas, finalmente, consegui que os cinco se deitassem, ao passo que com um dos comerciantes me encarreguei da vigilância dos prisioneiros. Depois de uma hora fomos rendidos naquele serviço. O último quarto, Sam o vigiou sozinho, pois àquela hora a aurora começava a romper e dois olhos eram suficientes para velar pelo nosso sono.

Durante toda à noite os prisioneiros conservaram-se em absoluto mutismo. Quando, porém, nos levantamos, verifiquei que William e seu companheiro começavam a acordar-se. Primeiramente tomamos a nossa refeição matinal. Aos cavalos foram distribuídas rações de milho e agora estávamos prontos para reencetar as negociações tendentes a combinar o fim a ser dado aos prisioneiros. Sam apontou para mim e disse:

— Este será o xerife e dará imediatamente início à instalação do júri.

— Não, Sam. Eu não assumo de modo algum a presidência dos trabalhos. Esta função compete a ti.

— A mim? Que idéia absurda! Não, aquele que escreve livros está mais na altura do cargo do que eu, pobre mísero e matuto campineiro analfabeto!

— Não sou cidadão norte-americano e não estou há tanto tempo nas savanas como tu. Se não aceitares a missão, sou obrigado a confiá-lo a Bob.

— Bob? Um negro como xerife? Isto seria a atitude mais ridícula que tomaríamos dentro deste maldito areal! Portanto, já que não há outro remédio eu... Aceito o cargo.

Ditas essas palavras, ele sentou-se, grave e circunspeto, dando a impressão de que os juizes nos tribunais das savanas sabiam portar-se com a mesma dignidade que os dos meios civilizados.

— Tomem seus lugares no círculo, meus senhores. Servirão de membros do júri e Bob, o negro, conservar-se-á de pé, desempenhando as funções de meirinho.

Bob apertou o cinturão de onde pendia a espada e procurou dar à fisionomia uma expressão de dignidade.

— Meirinho, tire as cordas aos prisioneiros, pois nos achamos num país de amplas liberdades, onde os próprios assassinos serão conduzidos livres à presença dos juizes!

— Mas si esses bandidos fugi todos cinco? — arriscou o negro.

— Obedeça! — trovejou-lhe Sans-ear. — Nenhum deles fugirá, pois tiramo-lhes as armas e antes de darem dez passos já as nossas balas os atingiriam.

As cordas foram desamarradas e os prisioneiros levantaram-se, conservando-se sempre em silêncio. Cada um de nós tinha as espingardas nas mãos; por conseguinte, numa fuga, os prisioneiros não podiam pensar.

— Tu te apresentas como William — começou Sam. — É este o teu verdadeiro nome?

O interrogado replicou raivosamente:

— Não darei uma única resposta! Os senhores próprios é que são assassinos, os senhores nos agrediram covarde e traiçoeiramente. Portanto os senhores é que deveriam ser entregues à justiça das savanas!

— Faze o que quiseres, meu jovem. És livre, podes falar ou calar à vontade. Mas uma cousa é certa: tomaremos a falta de resposta como confissão tácita do crime que premeditaram. Agora, dize-me: és realmente caçador duma companhia de peles?

— Sim.

— Prova-o! Onde está a carta de identidade?

— Não a tenho.

— Bem, meu jovem, isto basta para sabermos quem és. Queres ter a fineza de dizer-me o que falaste e resolveste com o teu companheiro, ontem à noite, no seu posto de guarda?

— Nada. Não falamos uma só palavra.

— Mas este cidadão aqui, por todos os títulos digno de fé, teve a feliz idéia de os espreitar e ouviu nitidamente o que combinaram. Tu não és nem nunca foste um campineiro, pois se assim fosses, terias organizado o plano com mais inteligência.

— Não somos campineiros? Com todos os diabos, termine a representação de sua comédia porque queremos provar-lhes que não tememos os senhores! Quem são afinal os senhores? Uns greenhorns que nos assaltaram quando dormíamos, com o fim de nos roubarem!

— Não te alteres desta forma, meu filho! Já vou dizer-te quem são estes greenhorns que não trepidam em arriscar as suas vidas quando o edifício da justiça se ameaça de abalo e quando as suas vidas correm perigo! Este homem aqui, depois de te haver observado e descoberto o plano criminoso que arquitetaste, arrojou-os, bem sozinho, ao solo com um soco e fez o serviço tão bem feito que ninguém deu pela coisa! E o dono deste valente punho que os fez tombar chama-se “Mão de Ferro”. Agora, tem a bondade de olhar para mim! Nunca ouviste falar num campineiro a quem os navajos tiraram as orelhas? Não se chamava ele Sans-ear? Pois aqui está ele em carne e osso, — e batendo no peito — sou eu, sou eu em pessoa! Pois fomos nós os dois que nos aventuramos sozinhos a atravessar o Llano Estacado e também fomos nós que ontem fizemos vir àquela chuva! Oh! Só mesmo nós! Ou talvez já ouviste falar que algum dia chovesse naturalmente no Llano Estacado?

Os homens ficaram visivelmente alarmados com esta nossa apresentação. William tomou em primeiro lugar a palavra. Ele refletira sobre a gravidade da situação e ao ouvir pronunciar os nossos nomes, concluíra que seria improfícua qualquer tentativa de violência.

— Se os senhores são realmente os homens que dizem ser, estamos serenos e tranqüilos, pois temos certeza de que agirão, segundo os ditames da justiça. Em vista disso, vou-lhes dizer toda a verdade. Eu, antigamente, não me chamava William. Resolvi, depois, trocar o nome, mas isto não constitui crime porque os verdadeiros nomes dos senhores também não são “Mão de Ferro” e Sans-ear! Cada um pode adotar o nome que bem entender.

— Perfeitamente. Mas não é pela troca do nome que és acusado perante o júri!

— E de assassino também não poderão acusar-me; não praticamos nenhum assassinato aqui contra os senhores e nem havíamos planejado praticá-lo. É verdade que ontem à noite estivemos arquitetando um plano para eliminar alguém do mundo. Mas citamos por esta ocasião o nome dos senhores?

O bom Sam, meio desnorteado, conservou-se por algum tempo cabisbaixo e pensativo e depois disse com inflexão de aborrecimento na voz:

— Não, realmente não citaram; mas das palavras que pronunciaram não se podia concluir outra cousa!

— Uma conclusão não é uma prova concreta. O tribunal das savanas é uma instituição digna de encômios e para que permaneça no nível elevado em que se acha, mister se torna que seus juizes procedam com justiça, baseando-se em provas materiais e não em meras suposições. Acolhemos com carinho “Mão de Ferro” e Sans-ear em nossa caravana e em paga dessa nossa hospitalidade pretendem eles matar-nos. Esta injustiça correria mundo, desde as campinas do oeste bravio até as cidades do Mississípi, desde o Golfo Mexicano até o lago dos Escravos; e todos haviam de dizer que os dois célebres caçadores não eram aqueles homens nobres e justiceiros, conforme rezam as tradições, mas sim bandidos e ladrões vulgares!

Confesso que o canalha defendia-se com brilhantismo. Sam, surpreendido pela formidável lógica desenvolvida pelo pseudo caçador, ficou a tal ponto emocionado que se ergueu de um salto e exclamou:

— ‘s death, isto ninguém dirá porque não os condenaremos. Sou de opinião que os senhores devem ser restituídos à liberdade. Qual a opinião dos demais juizes?

— Concordamos com os senhores. Devem ser postos em liberdade, pois não cometeram crime algum, são inocentes! — exclamaram os três comerciantes em coro.

Aliás, esses comerciantes, desde o começo, não estavam lá muito convencidos da culpabilidade dos criminosos.

— Também eu, pelo que sei deles, nada posso deduzir que concorra para a sua condenação, — declarou Bernhard, a quem a defesa desenvolvida pelo bandido havia impressionado também. — As suas verdadeiras profissões e os seus verdadeiros nomes não são da nossa conta, creio eu. Nem nos fica bem andarmos aí a fazer perguntas indiscretas. E quanto ao crime pelo qual iríamos julgá-los, deles só temos suposições e nenhuma prova concreta.

Bob, o negro fez uma cara decepcionada; vira, dum momento para outro, frustrada sua esperança de enforcar os bandidos. Quanto a mim, nada mais me restava do que me conformar com a maioria do júri. Este desfecho eu já o previra, razão por que não só adiara o julgamento para quando se tornasse dia como também entregara a presidência do tribunal a Sam. Como velho caçador, ele era de uma sagacidade rara; mas não sabia, por meio de um interrogatório inteligente e astucioso, conduzir um criminoso à confissão do crime. Nas planícies nunca se tem à vida segura; por que, pois, eliminar a vida de cinco homens que não chegaram a perpetrar o crime premeditado? Quiséssemos agir desta forma e teríamos que matar todo o indivíduo suspeito que a cada passo se encontra pelas savanas. Aliás, eu não tinha o menor interesse em executar aqueles homens; o que me interessava, isto sim, era a nossa segurança pessoal e para garanti-la, daqui por diante me seria fácil tomar as medidas mais eficientes. Mas uma pequena desforra eu resolvera tirar de Sam. Ele sempre me censurava os gestos de humanidade e, no entanto agora procedera do mesmo modo. Assim, quando ele se dirigiu a mim, a fim de ouvir a minha opinião, perguntei-lhe:

— Conheces ainda, Sam, a maior das vantagens da tua “Tony”?

— Qual? Ela tem tantas!

— Ora aquela que me expuseste no dia em que fiz os índios tombarem apenas sem sentidos!

— Não me recordo.

— Ora, pois vou te dizer: A sua vantagem maior é possuir mais inteligência do que tu!

— Oh! Recordo-me agora e tu mostras que também tens boa memória para estas coisas! Mas que culpa tenho eu de ser um simples campineiro e não um jurisconsulto? Talvez tu, em meu lugar, levasses esta gente a confessar o crime que premeditaram; por que não te fizeste de xerife conforme eu propusera? Enfim eles agora estão livres, pois o que o tribunal resolve não pode ser revogado.

— Claro. A minha opinião não influiria mais no veredicto do tribunal. Estão livres da acusação da tentativa de morte que lhes fizéramos, mas livres de todo ainda não. Mr. William, vou agora fazer-lhe uma pergunta e de sua resposta dependerá o modo por que os havemos de tratar daqui por diante! — disse eu ao “caçador”. — Qual a direção que se toma, para chegar mais depressa ao rio Pecos?

— A do oeste, em linha reta.

— Que tempo se gastará na viagem?

— Dois dias.

— Eu os considero “bandidos do deserto”, embora o senhor tivesse tido ontem a sagacidade de me prevenir contra essa casta de salteadores que atuam no Estacado. O senhor com o seu bando conduziu esta gente pela rota errada. Pois bem, ficarão todos os cinco nossos prisioneiros durante estes dias. Se dentro desse prazo não atingirmos aquele rio, ai dos senhores! Serão sumariamente executados. Então eu, em pessoa, dirigirei os trabalhos do tribunal! Agora já sabem o que lhes espera, se nos faltarem com a verdade!

E dirigindo-me aos meus companheiros, ordenei:

— Amarrem-nos aos cavalos e avante!

— Oh! Ah! Munto bem, isto sim, patrão mestre! — exclamou radiante Bob. — Se nois não chega ao rio, Bob enforca bandidos!

Daí a um quarto de hora achávamo-nos em caminho. Os prisioneiros amarrados nos cavalos iam no meio, escoltados por nós. Bob parecia não querer largar mais o seu cargo de meirinho; não deixava os prisioneiros, conservando-os à vista. Sam governava o grupo de trás e eu, com Bernhard, seguia na frente.

Os acontecimentos da véspera constituíam o tema de nossa palestra, mas achei de bom aviso não me estender em mais amplas considerações em torno do caso. Por fim, afastando-nos um pouco dos “caçadores”, perguntou-me ele:

— É verdade a afirmativa de Sans-ear de haver sido o senhor quem fez chover?

— Sim.

— Custa-me crer, embora eu saiba que o senhor só diz a verdade.

— Fiz chover para salvá-los.

Expliquei-lhe então o processo de que lancei mão para provocar a chuva, processo de que os profetas e homens da “medicina” de muitas tribos usam e granjeiam com ele uma auréola de divindade entre as suas tribos.

— Assim como diz, o processo é simples, não há dúvida. Mas muito poucos o conhecem. E nós todos lhe devemos a vida. Se não viesse aquela chuva, teríamos perecido de inanição no local em que nos encontrou.

— Não teriam morrido de inanição, não, mas assassinados! Senão, olhe para os arreios desses supostos “caçadores” das campinas! Eles não sofreram e nem sofreriam a menor sede. Se eu não tivesse verdadeiro pavor em ver o derrame de sangue humano, os teria fulminado a tiros. Como se chama o mais jovem deles que ontem esteve de guarda junto com William?

— Meercroft.

— Por certo que é também um nome suposto. Este rapaz, apesar de sua pouca idade, é o que mais suspeita me desperta e tenho uma vaga idéia de já ter visto uma cara parecida em situação pouco recomendável. Ai deles se no dia esperado não atingirmos o rio! Agora, relate-me os pormenores do assassinato e saque do seu pobre pai!

— Não há abundância de pormenores no caso. Allan seguira para S. Francisco, a fim de efetuar compra de ouro. Estávamos em casa na companhia apenas de Bob e da governanta; éramos, pois em quatro, visto que os trabalhadores moram fora. Papai costumava sair sempre à noite, conforme o senhor deve estar lembrado, e uma manhã encontramo-lo morto em frente à porta, e todas as jóias de valor que se achavam na loja e nas oficinas roubadas. Ele sempre trazia consigo uma chave que abria todas as portas. Tiraram-lhe, depois de morto essa chave geral e com seu auxílio penetraram em todos os compartimentos e fizeram o roubo calmamente, sem que ninguém os embaraçasse no ato criminoso.

— Não suspeitam de ninguém?

— Há apenas um dos auxiliares que conhecia o segredo da chave geral, mas as diligências policiais nada apuraram contra ele. Os auxiliares, depois da triste ocorrência, tiveram que ser todos despedidos e se encaminharam para diversas direções em busca de trabalho. Havia entre as jóias roubadas muitas de elevado valor. Fui obrigado a indenizá-las todas e mal sobraram-me recursos para empreender esta viagem em procura do meu irmão, do qual repentinamente deixamos de receber notícias.

— Não alimentam, pois, esperanças de descobrir o assassino ou assassinos e receberem a restituição, pelo menos da parte das jóias roubadas?

— Absolutamente nenhuma. Os criminosos, de posse do roubo já devem ter desaparecido de há muito do país. Embora tenhamos colocado anúncios nos principais jornais da América e da Europa, fazendo a descrição detalhada das jóias, creio que não colheremos resultado algum, pois os malfeitores sempre acham esconderijos seguros para ocultarem o produto de seus crimes.

— Eu teria vontade de ler um desses anúncios!

— Pois poderá lê-lo já. Trago sempre um número do Morning Herald comigo, para qualquer eventualidade.

 

SUSPEITA QUE SE CONFIRMA

Tirou do bolso o exemplar do jornal e me alcançou. Li toda a descrição das jóias com visível interesse e tive um arrepio pelo corpo como que a confirmar uma coisa que previra. Lembrei-me logo do diamante e mais jóias que tirara a Fred Morgan. Quando terminei a leitura, dobrei o jornal e o entreguei novamente ao dono, dizendo-lhe:

— Que diria o senhor se eu lhe descrevesse com exatidão os autores ou, pelo menos, um dos autores do crime?

— O senhor, Carlos? — perguntou ele apressado.

— E se além disso, o auxiliasse a recuperar pelo menos uma parte dos valores roubados?

— Não faça pilhérias, Carlos! O senhor estava nas savanas, quando se deu o assalto. Como então pretende ter descoberto o que outros que se achavam na cidade e estavam mais a par dos acontecimentos, não conseguiram?

— Bernhard, eu me tornei um homem um tanto rude. Mas feliz daquele que conserva, quando se torna homem prático, a crença que na juventude lhe incutiram no espírito! Há dois olhos que velam por tudo no mundo e uma mão invisível que, embora às vezes por caminhos que nos pareçam maus, nos guia para finalidades boas. E as savanas e Louisville não podiam deixar de estar ao alcance desta mão. Senão veja! Tirei a bolsa da maleta e lhe alcancei. Ele agarrou-a com agitação febril e, quando a abria, vi que sua mão tremia. Mal pôs os olhos dentro da bolsa, proferiu uma exclamação de alegria.

— Graças, meu Deus! O nosso diamante! Sim, é ele mesmo! Mas, Carlos, como conseguiu...

— Pare! — interrompi-o. — Domine-se! Os bandidos que vêm aí atrás não precisam saber do que estamos falando! Se o diamante e as outras pedras são as suas, do que, aliás, estou firmemente convencido, fique com elas! Para que o senhor não me tome por um dos bandidos, vou narrar-lhe as circunstâncias em que me apossei desses valores.

— Mas Carlos, que injustiça! Que pensa de mim? Como pode o senhor desconfiar que eu, de leve que fosse...

— Pare, pare! O senhor já nem fala, grita como se lá na Austrália precisassem saber do que estamos falando!

Ele estava louco de alegria. Alegrava-me de coração com o seu contentamento e doía-me não me ser possível restituir-lhe, com a parte das jóias roubadas, a vida do seu bom e extremoso pai.

— Conte, Carlos, conte! Estou ansioso por saber como as minhas pedras lhe vieram parar às mãos! — suplicou-me o pobre rapaz.

— Quase que também cheguei a prender o assassino e ladrão. Ele esteve tão perto de mim, que com um pontapé derribei-o da locomotiva e Sam saiu em seu encalço; em vão, porém. Mas espero apanhá-lo ainda, e isso o mais breve possível lá do outro lado do rio Pecos. Para lá ele se dirigiu a fim de praticar outro crime idêntico, do qual já temos notícia e vamos seguindo a pista.

— Conte, conte, Carlos!

Contei-lhe o assalto ao trem empreendido pelos ogellallahs, com todos os seus pormenores, e li-lhe também a carta que Patrik escrevera a Fred Morgan. O jovem ouviu-me com toda a atenção e, ao terminar o meu relato, exclamou:

— Nós o pegaremos, Carlos, e dele saberemos onde foi parar o resto das jóias.

— Não desande novamente a gritar, Bernhard! Estamos a poucos passos dos malfeitores que vamos conduzindo; além disso, no oeste devemos ser discretos mesmo em face das cousas mais simples, a fim de evitar que indivíduos mal-intencionados, que possam estar acoitados por aí, tirem partido de nossa verbosidade.

— Mas o senhor me entrega as pedras, sem mais formalidades, sem mais condições?

— Claro, pois lhe pertencem!

— Carlos, o senhor é o homem mais... contudo atenda-me um pedido que lhe faço com empenho!

Pôs a mão na bolsa e de lá tirou um brilhante.

— Faça-me o favor de aceitar esta jóia como lembrança minha!

— Era só o que faltava, Bernhard! O senhor não pode desfazer-se de cousa alguma. Não tem o direito de presentear nada, pois esses valores não são só seus, pertencem também ao seu irmão.

— Allan aprovará este meu ato!

— É bem possível; estou, mesmo, convencido disso. Mas reflita que essas pedras estão muito longe de constituírem os valores todos que lhes foram roubados. Fique, pois, com esse brilhante e, quando nos separarmos, dê-me algum objeto qualquer que não lhe custe nada e terá para mim grande valor estimativo, servindo-me de lembrança que conservarei com o maior carinho. Agora, porém, continue a cavalgar nesta direção, que eu vou esperar por Sam!

Deixei-o entregue à sua alegria e parei o cavalo, a fim de deixar passar a caravana e unir-me a Sam que cavalgava na retaguarda.

— De que assunto extraordinário estava a falar lá na frente, Carlos? — perguntou-me o companheiro.

— Sabes quem é o assassino do pai de Bernhard?

— Quem? Não acredito que tenhas descoberto?

— Como não!

— Well done! És um homem de muita sorte. Tu estás mesmo em condições de obter dormindo qualquer cousa por que outros lutam anos a fio. Espero que desta vez não te tenhas enganado! Afinal quem é o assassino do pai daquele rapaz?

— Fred Morgan.

— Hein? Fred Morgan?! Carlos, acredito muito em ti, porém, tudo, menos isso! Morgan é um canalha do oeste bravio que não se arrisca a pisar em cidades do leste, onde não se pode deixar ver pela polícia, que o tem fichado.

— Seja como quiseres. As pedras, porém, são as mesmas roubadas ao velho Marshall, depois de haver sido assassinado. Já as devolvi ao filho, um dos legítimos donos, como herdeiro que é do pai.

— Ah! Se fizeste isto é porque tens provas seguras de que lhes pertenceram de fato. Como o pobre rapaz deve estar satisfeito! Bom, isto constitui mais um motivo para eu procurar aquele Morgan e dizer-lhe algumas palavras confidenciais... Espero, em breve, fazer na minha espingarda o entalhe que lhe diz respeito!

— E que faremos depois de encontrá-lo e com ele justarmos contas?

— Que faremos depois disso? Hum! Por causa dele eu vim ao sul e teria ido ao México, ao Brasil e até à Terra do Fogo. Talvez que depois me disponha a seguir para a Califórnia onde, dizem, a gente vive sensacionais aventuras!

— Neste caso, te acompanharei até lá. Ainda tenho algum tempo e não gostaria de deixar o Bernhard fazer esta longa viagem sozinho.

— Muito bem! Estamos combinados, conto contigo! Antes de tudo, vamos ver se saímos com o pêlo intacto deste maldito areal e daquela não menos maldita cáfila de bandidos que vamos tocando por diante! Eles me agradam agora ainda menos do que hoje de manhã e muito especialmente aquele jovem que ontem montou guarda com William. Ele tem uma cara de bandoleiro como igual nunca vi na vida. Se não me engano, já o avistei uma ocasião praticando qualquer ação criminosa!

— Pois também eu tenho uma vaga idéia de já havê-lo encontrado nas mesmas circunstâncias. Vou puxar pela memória; é possível que me venha ainda a recordar de quem se trata.

Continuamos a cavalgar sem interrupção até o anoitecer, quando acampamos; tratamos dos cavalos, tomamos a nossa refeição que consistiu de xarque de búfalo, e nos deitamos a dormir. Os prisioneiros dormiram amarrados e de sentinela à vista. Pela manhã continuamos a cavalgada e, ao meio-dia, verificamos que o solo se tornava menos estéril. Os bosques de cactos que encontrávamos tinham mais seivas, e aqui e acolá erguiam-se pequenos lençóis de relva verde-amarelada que os nossos animais pastavam até deixar o solo nu. Pouco a pouco iam surgindo pequenos arbustos aglomerados. O deserto adquiria a feição de um prado e éramos obrigados a parar para satisfazer os nossos cavalos, que se deliciavam com o pasto verde que se lhes deparava. Não devíamos deixá-los comer demasiadamente e por isso amarramo-los de modo que só podiam pastar até o ponto em que os laços que os seguravam lhes permitiam alcançar. Agora podíamos ter a certeza de que, dentro em pouco, encontraríamos uma aguada qualquer e por isso já não mais poupávamos muito a água que trazíamos nos cantis.

 

NA CAVERNA DOS BANDOLEIROS

Comentávamos, satisfeitos, o fato de já se achar o fatídico Llano Estacado por trás de nós, quando William, aproximando-se, me perguntou:

— Sir, acredita agora que lhe falei a verdade?

— Sim, acredito. Reconheço a zona. Estamos próximos do rio Pecos.

— Então nos devolva as armas e nos solte. Nada lhes fizemos e temos o direito de fazer-lhe esta exigência.

— É possível que lhes assista este direito. Como, porém, não sou eu o único a quem cabe dispor sobre os senhores, vou consultar os companheiros.

Sentamo-nos na relva para deliberarmos. Abri a sessão com as seguintes palavras:

— Meus senhores, já saímos do deserto e entramos em território seguro; agora precisamos saber se continuaremos a viagem juntos. — E dirigindo-me aos negociantes, perguntei:

— Para onde pretendem os senhores seguir?

— Para o Paso del Norte, — foi a resposta.

— Nós os quatros seguiremos para Santa Fé; portanto o nosso caminho é outro, teremos que nos despedir. Antes, porém, resolvamos sobre o destino a ser dado a esses cinco prisioneiros.

Este assunto daí a pouco estava solucionado com a resolução unânime de se dar imediatamente liberdade aos “caçadores”. Aliás, essa resolução em nada prejudicava o meu plano. Devolvemos-lhes tudo o que lhes pertencia e eles se puseram logo em caminho. Ao serem perguntados para onde tencionavam seguir, William respondeu que iam seguir o curso do Rio Pecos até o Rio Grande del Norte em caçadas de búfalos. Mal se passara meia hora, que eles se haviam retirado, quando os comerciantes partiram também, e daí a instantes ambos os grupos desapareciam no horizonte.

Desde que os homens haviam partido, nós nos conservamos sentados imersos em profundo mutismo. Sam rompeu então o silêncio, perguntando-me:

— Que achas dos “caçadores”, Carlos?

— Que não vão seguir o curso do rio Peco até o rio Grande em caçadas de búfalos, conforme declararam.

— Well, sou da mesma opinião. Fizeste bem em dar-lhes pista  errada, declarando que seguiríamos para Santa Fé, hihihihi! Afinal, que faremos agora? Ficamos aqui ou continuaremos?

— Decido-me pelo primeiro dos casos. Persegui-los seria de maus resultados, pois eles estão certos de que tomaremos tal medida e se porão em guarda. Assim, o mais acertado será permanecermos aqui para descansar e deixar os animais pastarem até amanhã cedo.

— Mas se aqueles bandoleiros voltarem para nos agredir? — ponderou Marshall.

—Teremos, então, razão para liquidar com eles independentemente da realização de um júri. De resto, vou agora fazer um pequeno reconhecimento. Encarrego-me disso porque o meu cavalo é o que está menos cansado. Fiquem aqui até o entardecer, hora em que voltarei.

Não liguei importância às insistências de Sam para que fosse ele fazer o reconhecimento; montei a cavalo e segui as pegadas dos “caçadores”. Estes se dirigiam para o sudoeste por solos verdejantes, ao passo que os comerciantes se encaminhavam mais para o sul.

Segui as pisadas a trote. Os “caçadores” haviam começado a viagem a passo lento, porém, mais adiante, cavalgaram com mais velocidade, pois demorou meia hora até eu avistá-los. Eu sabia que eles não traziam binóculos consigo e, deste modo, poderia segui-los de maneira a conservá-los sempre ao alcance das lentes.

Algum tempo depois, vi, com surpresa, que um deles se separava do grupo e se dirigia em linha reta para o oeste. Vislumbrei naquela altura um pequeno bosque que tinha, no meio da campina, o formato de uma península. Lá devia haver algum arroio ou outra qualquer corrente d’água. Que fazer agora? Qual deles devia eu seguir? Os quatro ou aquele que se desviou da rota? Intimamente desconfiava de que este último tinha algum plano em vista, plano que se relacionava com o nosso grupo. O destino que os quatro tomavam era nos indiferente, o mesmo não se dando com o outro. Era de grande vantagem para nós conhecer o propósito que aquele cavaleiro concebera. Por isso decidi-me e segui-o.

Depois de três quartos de hora, vi-o desaparecer entre os macegais. Fiz o meu poldro galopar e descrevi um arco pelo caminho, a fim de não ser visto no caso do “caçador” voltar pela mesma vereda. Pouco distante do ponto, onde o bandoleiro do deserto se embrenhou no bosque, chegava eu dentro de alguns minutos. Entrei no bosque a cavalo e alcancei uma pequena clareira rodeada de pequenos arbustos. A clareira estava coberta por verdejante relva e era cortada por um poético regato, que já ao longe se fazia ouvir no murmúrio de suas águas argentinas. Apeei e amarrei o cavalo, de forma que ele pudesse beber e pastar. Debrucei-me à beira do regato e bebi de sua água, que era cristalina e fresca como se brotasse de uma rocha. Depois, me encaminhei para o rumo onde esperava encontrar as pegadas do cavaleiro.

Isto sucedeu logo depois e, pasmado, descobri que por ali havia passado maior número de cavaleiros, como descobri ainda que no meio do bosque havia também um caminho secreto com sinais de ser atravessado constantemente. Não seria aquele bosque o esconderijo dalguma quadrilha de salteadores? Evitei caminhar por ele. Era bem possível que em suas margens estivesse postado algum guarda, e a todo o momento eu poderia ser mimoseado com um “grão de azeitona” na cabeça! Peguei outro rumo paralelo a ele e, pouco depois, tive a minha atenção despertada por um relincho de cavalo.

Ia mesmo contornar uma touceira de arbustos para observar o cavalo que bufara, quando fui obrigado a recuar apressado. No meio de um macegal, do outro lado, se achava postado um homem com os olhos fixos na estrada, de forma que poderia ver quem por ela passasse. Era o guarda de cuja presença eu desconfiara. De sua presença ali podia deduzir-se que havia pelas redondezas um grupo de gente.

O homem nem me viu, nem me ouviu. Voltei, tomei novo rumo por uma curva, passando por trás dele, e dentro de pouco tempo eu havia reconhecido todo o terreno.

Voltei para a clareira e examinei bem o denso macegal que se erguia na sua orla, a ver se por ele não havia alguma entrada secreta que conduzisse a alguma caverna. Nada descobri. Mas devia existir e ali mesmo. Com certeza estava tão disfarçada, que difícil seria dar com os olhos nela. Essa minha suposição confirmava-se minutos depois, visto que ouvi altas vozes denunciarem a presença de alguns homens lá dentro.

Deveria arriscar um reconhecimento, ou não? Era perigoso, mas resolvi efetuá-lo. Abeirei-me do macegal e, depois de muito examiná-lo, descobri-lhe a entrada. Continuei, e, mais adiante, através da folhagem, divisei outra clareira. Na sua orla achavam-se amarrados nada menos de dezoito cavalos. Bem perto do local, onde me achava de gatinhas, vi sentados dezessete homens, ao lado dos quais havia grande número de objetos cobertos com peles de búfalos. Tive a impressão de se tratar da caverna de um bando de salteadores, onde eles guardavam os valores roubados para depois os repartirem entre si.

No momento, um dos homens falava aos demais. Era William. Eu podia compreender tudo o que dizia:

— Um deles deve ter-me espreitado, pois recebi, repentinamente, um soco na cabeça que me fez rolar ao solo, sem sentidos.

— Ah! Foste espreitado? — perguntou um com inflexão enérgica na voz. Tinha o sotaque e os trajes de mexicano. — Pois és um imbecil, que já não nos serve mais de nada. Como te foste deixar espreitar e logo no Llano Estacado, onde não há o menor acidente de terreno ou macegal para o observador se ocultar?!

— Não sejas tão severo, capitão! — disse William. — Se soubesses quem me observou, concordarias que até tu cairias na armadilha.

— Eu? Queres que te dê um tiro? E não só foste observado, como também arrojado ao solo com um simples soco, como uma criança, como uma múmia.

William enrugou a testa.

— Tu bem sabes, capitão, que não sou múmia. Aquele que desferiu o golpe, também te arrojaria ao solo, de uma só pancada.

O capitão deu uma gostosa gargalhada.

— Bem, continua na narrativa de tua desastrada missão.

— Também Patrik, que agora passou a chamar-se Meercroft, foi derrubado com um murro por aquele homem.

— O Patrik? Com toda a sua testa de búfalo? E o que mais? William contou-lhe o resto de sua aventura até o ponto em que os “caçadores” foram postos em liberdade.

— Caramba! Não sei onde estou que não te fulmino com um tiro. Sair acompanhado de quatro dos mais corajosos dos meus homens e se deixar dominar e prender por um canalha qualquer, por uma simples ave de arribação! Até pareces uma criança que nunca saiu do rabo da saia da mãe!

— Com mil raios, capitão! Sabes lá quem eram os nossos dois antagonistas, que se apresentaram um com o nome de Carlos e o outro com o de Sam Hawerfield! Se estes dois sujeitos, de espingardas na mão e de facas presas à cinta entrassem agora aqui, muitos dos presentes hesitariam em resistir ou em se entregar voluntariamente a eles. Eram “Mão de Ferro” e o pequeno Sans-ear!

O chefe do bando levantou-se apressado.

— Vil mentiroso! Com isto pretendes justificar a tua covardia e a dos teus companheiros!

— Pois, mata-me, capitão! Não contrairei um único músculo da face! Mas, por Deus que te estou dizendo a pura verdade!

— Mas não te terias enganado? — perguntou o capitão, já mais calmo.

— Absolutamente! Tenho toda a certeza.

— Se for verdade, por todos los santos, ambos terão que morrer, juntamente com o ianque e o seu negro. Do contrário, estes dois caçadores não descansarão enquanto não nos descobrirem e nos liquidarem.

— Nada nos farão, pois ouvi quando disseram continuar a jornada para Santa Fé.

— Cala-te! És mil vezes mais asno do que eles e, no entanto, não serias capaz de dizer-lhes a verdadeira direção que tomarias. Conheço muito bem os hábitos e costumes desse caçadores do norte. Se resolveram procurar as nossas pegadas, eles as acharão, mesmo que houvéssemos atravessado aos ares. Não estamos nem livres de sermos neste momento ouvidos por um deles, que se ache escondido aí pelo macegal!

Essas palavras tiraram-me um pouco a tranqüilidade. Mas o orador continuou:

— Sim, conheço muito bem o sistema de agir daquela gente, pois estive durante um ano inteiro junto com o famigerado Florimont, que era conhecido pelo nome de Track Smeller (*) entre os brancos, e As-ko-lab (**) entre os índios; com ele estudei o seu sistema de fazer reconhecimentos caminhando de gatinhas e a tática de lutar que usam para sempre saírem vencedores. Afianço-lhes que eles não seguirão para Santa Fé e nem abandonarão hoje o seu acampamento. Eles sabem muito bem que amanhã ainda encontrarão as pegadas de vocês e, além disso os seus cavalos, depois da estafante travessia do Estacado, precisam de descanso. Amanhã, porém, eles nos sairão ao encontro e conseguirão alcançar-nos. E, depois, embora saiamos vencedores, eles abaterão a metade do nosso bando. São valentes e têm boas armas! Ouvi dizer que aquele “Mão de Ferro” possui uma espingarda com a qual atira durante uma semana inteira, ininterruptamente, sem que seja preciso carregá-la. O diabo fabricou aquela arma para ele em troca de sua alma. Por isto e por outros motivos, temos que os assaltar hoje mesmo, à noite; esperaremos a hora em que “Mão de Ferro” e Sans-ear dormirem. São apenas quatro pessoas, e por isso não se servirão de mais de uma sentinela. Conheces bem o lugar onde estão acampados?

— Conheço — respondeu William.

— Então, preparem-se! À meia-noite em ponto, precisamos estar lá; iremos a pé, ficando os cavalos aqui. Aproximar-nos-emos de gatinhas e os assaltaremos de surpresa, de maneira que eles não tenham tempo de resistir.

O famoso capitão não nos conhecia tão bem como afirmou, pois do contrário teria tomado providências bem diversas. Nas campinas ocorre o mesmo que nos centros civilizados. Por toda parte perambulam homens com tendência para exagerar as cousas, fazendo de “uma pulga um elefante”, conforme se costuma dizer na gíria. Quando um campineiro se porta uma ou duas vezes com galhardia em face do inimigo, manejando com maestria as suas armas e tirando o máximo partido de sua sagacidade, já os seus feitos são depois relatados de fogueira em fogueira. E, consoante o velho ditado de “quem conta um conto, aumenta um ponto”, todos acrescentam por conta própria, para não ficarem calados, um episódio a mais; de modo que, dentro em pouco, aquele campineiro é considerado um herói sem igual, cujo nome, ao ser pronunciado, produz depois o efeito de uma arma. Como viram os leitores, até o diabo chegou a fabricar uma arma para mim, com a qual eu poderia atirar ininterruptamente uma semana inteira sem carregá-la... Essa arma miraculosa não era senão a minha espingarda de repetição sistema Henri, com a qual, é verdade, eu atirava vinte e cinco vezes sem carregar.

— Onde está o Patrik e os demais? — perguntou o chefe da quadrilha.

— Cavalgaram para o Head-Pick, onde Patrik vai encontrar-se com seu pai, conforme já te avisara. Eles assaltarão também os três comerciantes que conduzem

____________________

(*) — Farejador de sendas.

(**) — Coração de urso.

 

lindas armas e uma boa soma em dinheiro. Talvez que a esta hora já tenham até terminado este “serviço”.

— E depois Patrik me remeterá o dinheiro e as armas roubadas?

— Sim, por intermédio de dois dos homens. O outro o acompanhará até o Head-Pick.

— Melhores armas, porém, que as dos comerciantes, nos vai render o assalto que planejamos aos dois caçadores. Ouvi dizer que Sans-ear possui uma espingarda com a qual se pode alvejar numa distância de mil e duzentos metros.

Neste instante ouviu-se ao longe o uivo de um cão lebreiro. Fora um sinal muito mal convencionado, pois não existe desses cães nesta zona. Era para despertar a suspeita do menos atilado inimigo.

— É Antônio que chega com os marcos, que vamos fincar no Estacado — disse o capitão. — Dize-lhe para não descarregar lá fora, mas para trazê-los cá para dentro. Desde que estes dois caçadores andam pelas redondezas, toda cautela é pouca.

Agora eu não podia ter a menor dúvida de que me achava diante de uma quadrilha de bandoleiros do deserto, que aqui havia estabelecido o seu quartel general. Os objetos cobertos por peles de búfalos eram o produto que haviam tirado aos pobres viajantes depois de mortos de inanição no Llano Estacado. Neste instante, três cavaleiros entraram na clareira trazendo à garupa enormes feixes de varas que iam ser transformadas em marcos.

A chegada desses cavaleiros desviara de tal modo a atenção dos bandidos, que me era possível retirar-me calmamente sem ser visto; não quis fazê-lo, porém, sem deixar ali uma lembrança minha. O chefe da quadrilha, o tal “capitão”, que se afastara com o bando, um pouco do lugar, deixara no solo a sua cinta de onde pendiam uma faca e duas pistolas de dois canos e de cabo niquelado. Achava-se aquela peça de equipamento tão próxima de mim, que com o braço podia alcançá-la. Agarreia e tornei para o local onde ficara a minha montaria, tendo o cuidado de desfazer todos os vestígios que eu deixara pelo caminho. Desamarrei o animal, montei e voltei, desviando-me de tal modo da vereda primitiva, que impossível seria aos bandidos me avistarem.

Quando cheguei ao nosso acampamento, estava escurecendo. Notei nas fisionomias dos companheiros que estes se achavam tomados de cuidado por mim e esperavam com ansiedade o meu regresso.

— Oh! Aí vem o mestre! — exclamou o preto, com tal inflexão na voz, que eu podia deduzir não estar ele muito satisfeito comigo. — Oh! Bob tava com munto medo e também os meus companheiros tavam com cuidado em Carlo!

Os outros camaradas mostraram-se menos zangados. Deixaram-me apear e tomar lugar ao lado deles, antes de Sam começar as suas perguntas:

— E afinal? Que viu? Que observou?

— Os comerciantes foram mortos e saqueados!

— Isso eu já esperava. Estes “caçadores”, que não passam de bandoleiros do deserto, não deixariam de se desviar da rota que levavam para voltar por uma curva e assaltar os negociantes, à noite, se é que o não tivessem feito de dia.

— Adivinha quem é aquele Meercroft?

— Já muitas vezes tenho-te dito que prefiro lutar com um urso cinzento do que adivinhar alguma cousa!

— Meercroft era um nome suposto; o seu verdadeiro nome é...

— Nem tão tolo seria eu para crer que se tratava de nome verdadeiro.

Concluí a minha frase interrompida:

— ...Patrik.

— Pa... trik Mor... gan! — exclamou Sam, com a fisionomia tão sombria como nunca o vira desde que com ele fizera relações. — Patrik Morgan! Mas será possível! Oh! Sam Hawerfield, velho burro! Como foste idiota, tendo aquele bandido nas mãos, presides um júri reunido para julgá-lo e depois o mandas calmamente embora! Mas, Carlos, tens plena certeza de que é ele mesmo?

— Absoluta certeza; e agora eu sei por que eu tinha uma vaga idéia de já o haver visto. O jovem bandoleiro é muito parecido com o pai.

— Ali right, agora mil luzes iluminam-me o cérebro. Bem eu dizia que já o havia pilhado de uma feita praticando algum crime. Mas onde está ele?

— A esta hora deve estar massacrando os três comerciantes e depois seguirá acompanhado de um dos bandidos do Estacado para o Head-Pick, onde se encontrará com o pai.

— Então, de pé minha gente! Partiremos já em sua perseguição.

— Devagar, Sam! Não vês que já é noite e no escuro não lhe poderemos seguir as pegadas e, além disso, temos de nos preparar para receber uma visita mui honrosa?

— Uma visita? Mas quem nestas miseráveis paragens se lembrará de nos visitar?

— Aquele Patrik pertence a uma quadrilha de bandidos, que possui o seu reduto lá adiante no interior de um bosque. O chefe da quadrilha é um mexicano, a quem eles tratam de “capitão”, o qual na companhia do velho Florimont, não adquiriu tão má escola, não! Observei os salteadores, no momento em que William lhes relatava a nossa aventura. À meia-noite em ponto eles pretendem efetuar o ataque contra nós.

— Então pensam que vamos ficar acampados aqui?

— Pelo que ouvi, sim.

— Pois agora mesmo é que não mudaremos de acampamento. Serão recebidos aqui mesmo. Quantos homens são?

— Vinte e um.

— É um efetivo um pouco grande para nós quatro. Que achas, Carlos? Acendemos uma fogueira e colocamos nossos trajes em frente dela, de modo que eles suponham que somos nós; ao mesmo tempo nos postamos lá adiante, de maneira que eles ficarão colocados entre nós e a fogueira. Assim dispostos, se tornarão alvo seguro para as nossas espingardas.

— O plano é bom — opinou Marshall — é, aliás, o único com viabilidade de execução para o momento.

— Bravos! Então vamos colher lenha — acrescentou Sam, erguendo-se do solo.

— Fica sentado! — retruquei-lhe. — Então achas que com este plano rechaçaremos vinte e um assaltantes?

— Por que não? Aos primeiros tiros, eles desandarão a fugir, pois não sabem o que têm pela frente, supondo, talvez, que nesse meio tempo o nosso grupo tenha aumentado com a chegada de amigos.

— Mas se aquele “capitão” tiver inteligência bastante para perceber o nosso truque? Então a nossa situação se tornará insustentável e seremos esmagados pelo inimigo.

— Realmente. Esta eventualidade o caçador experimentado precisa levar sempre em conta, quando organiza um plano.

— E se formos mortos, tu não tirarás vindita aos Morgans!

— Tens razão! Então opinas que nos retiremos, antes que eles ponham mãos à obra?

— Era só o que faltava! Concebi outro plano, a meu ver mais exeqüível.

— Então desembucha!

— Enquanto nos procuram, invadiremos o seu esconderijo e nos apoderamos de sua cavalhada e dos haveres que lá estão ocultos.

— Boa idéia! Mas tu falas em apreender-lhes a cavalhada; achas que eles vêm a pé?

— Foi o que combinaram, e, daí, concluo que abandonarão o reduto duas horas antes da meia-noite, tempo que precisam para, a pé, chegarem até aqui.

— Mas tens confiança no êxito do teu plano?

— Certamente. Se os esperarmos aqui, poremos as nossas vidas em jogo; e se lhes tirarmos os cavalos, as munições e as provisões, eles não poderão, por algum tempo pelo menos, continuar no seu banditismo e nós não teremos necessidade de deflagrar um só tiro.

— Mas eles deixarão o reduto guarnecido por um guarda.

— Conheço bem o lugar onde se posta a sentinela.

— Mas depois nos perseguirão.

— Isto também farão se ficarmos aqui, quando tivermos de bater em retirada.

— Bem, concordo contigo. Quando partiremos?

— Podemos fazê-lo dentro de quinze minutos, quando já estiver bem escuro.

— Oh! vai sê munto bom! — disse o negro. — Bob vai junto e traiz tudo o que os ladrões roubaram. É mió do que fica aqui e os bandidos mata Bob.

Escureceu de tal forma que não víamos a dez passos à nossa dianteira. Partimos. Eu cavalgava à frente e os outros me seguiam, um a um, como fazem os indígenas.

Naturalmente que não nos dirigimos em linha reta para a caverna dos bandidos. Cortamos um enorme semicírculo e fizemos alto a uma milha do esconderijo. Aí amarramos os cavalos e a pé nos encaminhamos para o esconderijo. Embora Marshall e o negro não estivessem práticos em andar de gatinhas, não tardou que chegássemos ao macegal onde estivera a sentinela. Uma luz bruxuleante vista no esconderijo denotava que neste fora acesa uma fogueira ou talvez uma simples tocha. Em torno de nós, porém, estava tão escuro que podíamos caminhar de pé e descuidadamente na clareira. Chegamos ao ponto de onde ouvi toda a conversa entre o “capitão” e William e ouvimos de novo, antes que nos tivéssemos baixado, a voz do chefe da quadrilha. Avancei um trecho e vi que todos se achavam no meio da clareira armados e prontos para partir. O “capitão” ainda falava:

— Se estivéssemos encontrado a menor pegada, eu diria que um dos caçadores já esteve aqui a nos observar. Onde foram, pois, parar as pistolas? Ah! Talvez eu as tenha perdido na cavalgada da manhã. Bem, Hoblyn, avistaste, realmente, todos quatro sentados juntos?

— Sim, todos quatro. Três brancos e um negro, e os cavalos pastavam ao lado. Um dos animais não tem rabo e se parece com um bode sem chifres.

— É a velha égua de Sans-ear, tão célebre quanto ele. Não te notaram?

— Não; eu cavalguei com William até determinado ponto e depois me arrastei pelo solo até onde pude ver tudo com nitidez.

O discípulo do velho Florimont foi tão inteligente e precavido, que mandou um batedor observar-nos. Por sorte que isto se deu quando eu já havia regressado e me achava sentado junto com os companheiros.

— Bem, então tudo vai calhar às mil maravilhas. Tu, William, estás cansado e por isto ficarás aqui no Hide Spot, e tu, Hoblyn, farás a guarda da estrada; os restantes, porém, avante!

 

EXTINGUINDO A CAVERNA DOS BANDOLEIROS

Pela luz escassa da fogueira vi dezenove homens saírem da caverna, onde só haviam ficado dois. Mal haviam transposto a clareira, eu já estava junto de Sam.

— Em que pé estão os acontecimentos? Ao que parece, eles vão indo.

— Sim. Dois apenas ficaram na caverna. Um guarnecerá a estrada e o outro, que é William, ficará no reduto. William está desarmado, mas o guarda tem a espingarda na mão. Por enquanto nada faremos, pois eles podem ter esquecido alguma cousa e um deles voltará ao esconderijo.

Depois, o guarda foi ocupar o seu lugar. Caminhava despreocupadamente de um lado para outro, dando demonstrações de que se achava convencido de que nada de perigoso ocorria pelas cercanias. Agora não precisávamos mais recear que algum dos bandidos voltasse e não podíamos adiar por mais tempo o nosso propósito.

Esgueiramo-nos por uma touceira de moitas, Sam por um lado e eu. por outro. Quando a sentinela passou por nós, Sam agarrou-a rapidamente pela garganta, apertou-a fazendo-a perder os sentidos sem pronunciar uma palavra Rasguei de seu velho jaquetão de pano umas tiras, fiz uma mordaça e pus-lhe na boca. Em seguida, com o próprio laço que ele trazia à cintura, amarramos-lhe as mãos e os pés.

— Agora o outro! — comandei. Penetramos na caverna. William estava sentado junto à fogueira e assava um pedaço de carne. Achava-se de costas viradas para mim e assim pude aproximar-me sem que ele visse.

— Segure a carne mais para o alto, William, do contrário ela se queimará — disse-lhe eu.

Levantou-se e virou. Quando deu com os olhos em mim e me reconheceu, ficou mudo e inerte, tal o susto que levou.

— Ah! Sim! Boa-noite! Ia quase me esquecendo de saudá-lo. Peço-lhes desculpas por este meu gesto descortês — continuei.

— “Mão.. -. de... Fer... ro” — balbuciou arregalando os olhos. — Que quer aqui?

— Vim devolver a pistola do “capitão”, que levei comigo hoje de tarde quando aqui estive fazendo-lhe uma visitinha, no momento em que o senhor lhe relatava a nossa aventura.

Espalhando as pernas como se estivesse se preparando para um salto, olhou em torno à procura de sua espingarda. Apenas a sua faca de campanha estava ao seu lado.

— Fique sentado sossegadamente, meu caro e mui honrado bandoleiro do deserto. Qualquer movimento seu de reação lhe custará a vida. Em primeiro lugar, estas pistolas do seu chefe estão carregadas e, em segundo, basta o senhor lançar um olhar para a saída da caverna para ser alvejado por uma bala.

Ele olhou para trás e deu com os olhos em Sam, que lhe apontava a espingarda.

— Com mil raios! Estou perdido!

— Talvez não, desde que se sujeite às nossas determinações. — Bernhard e Bob venham!

A este meu chamado em voz alta, apareceram os dois companheiros que se achavam do lado de fora da clareira.

— Lá naquele serigote está preso um laço. Desprende-o, Bob, e amarra este homem!

— Céus e infernos! Pretendem prender-me de novo! Mas só o conseguirão depois de eu morto!

Ao dizer isso, o bandoleiro cravou a faca de campanha no seu próprio coração e tombou pesadamente ao solo.

— Deus de misericórdia! Salvai a sua alma! — exclamei instintivamente e em tom de prece.

— Este canalha carrega talvez mais de cem vidas humanas na consciência! — exclamou Sam com inflexão abafada na voz. — Não pode ter havido uma punhalada mais merecida!

— Ele justiçou-se a si próprio — retruquei. — Graças a Deus que nós não fomos forçados a fazê-lo.

Depois, mandei Bob buscar Hoblyn. Daí a minutos, o negro voltou com ele e o depositou no solo ao nosso lado. Tiramos-lhe a mordaça c o prisioneiro tomou profunda inspiração. Cheios de horror, os seus olhos divagavam pelo corpo do companheiro de banditismo.

— Serás um homem morto, tal qual este aí, se te negares a responder com a verdade as perguntas que te vamos fazer.

— Direi tudo! — prometeu o prisioneiro atônito.

— Dize-me onde está escondido o ouro?

— Está enterrado ali na orla da clareira, por baixo duns sacos de farinha.

Primeiramente, afastamos as peles de búfalos e passamos a examinar os objetos que elas cobriam. Ali havia uma formidável fortuna constituída de todos os valores que são transportados através do Llano Estacado: armas de todas as qualidades e sistemas, pólvora, chumbo, cartuchos, laços, arreiamentos, bolsas, cobertores, trajes completos de viagem e de caçadores, colares, imitação de pérolas, que os indígenas muito apreciam, instrumentos diversos, ferramenta, grandes provisões de carnes secas e outros mantimentos; todos estes objetos, pelos vestígios que apresentavam, demonstravam que haviam sido roubados. Por detrás deste monte havia alguns sacos de farinha, que Bob afastou com tanta facilidade como se estivesse lidando com uma bolsinha, e passamos a cavar o solo. Em pouco tempo desenterramos uma tão grande quantidade de pós e grãos de ouro, que precisaríamos de um cavalo-cargueiro para transportá-la.

Um calafrio de morte me correu a espinha ao me lembrar que numerosos garimpeiros haviam perdido a vida por causa daqueles objetos. Os garimpeiros, quando terminam a exploração de minas, conduzem para as suas casas apenas uma pequena quantidade do precioso metal colhido. O resto convertem em dinheiro ou cheques bancários nos próprios locais das minas, onde seguidamente aparecem mercadores que se dedicam a esse ramo de negócio. Os que morreram na cilada armada pelos bandoleiros do deserto conduziam, é fora de dúvida, aqueles papéis consigo no momento em que tombaram no Estacado para morrer de inanição. E onde foram parar aqueles títulos de valor?

— Onde estão o dinheiro e os cheques bancários que vocês tomaram às vítimas?

— Num outro esconderijo distante daqui. O “capitão” resolveu não os ocultar nesta caverna, porque fazem parte do nosso bando alguns indivíduos em quem ele não confia muito.

— Neste caso, só ele é que conhece o lugar do esconderijo?

— Sim, só ele e o “tenente”.

— Quem é o “tenente” da quadrilha?

— Patrik Morgan.

Esclareceu-se-me um ponto da carta que tomara ao velho Morgan. “De qualquer maneira vamos nos tornar homens ricos” dizia-lhe o filho naquela missiva. Teria ele concebido uma traição aos seus camaradas de rapinagem?

— Não tens ao menos uma pálida idéia do local?

— Ao certo, não sei. Mas, ao que parece, o “capitão” não tem muita confiança no “tenente”. Este, na companhia de mais um camarada, seguiu hoje para o rio Pecos, e amanhã eu, com mais dois homens, iremos segui-lo e observá-lo secretamente.

— Ah! Mas o “capitão”, neste caso não lhe descreveu o local com toda a precisão?

O interrogado calou-se, embaraçado.

— Responde! Se não o fizeres, serás um homem morto, já te disse.

Se, porém, disseres a verdade, seremos indulgentes para contigo, embora todos, sem exceção, mereçam ser sumariamente fuzilados.

— O senhor acertou. O “capitão” fêz-me a descrição exata do local.

— E onde fica?

— Era para eu seguir daqui em linha reta e matar o “tenente” a tiros, no momento em que ele fosse se aproximando do esconderijo. Este fica num pequeno vale, que conheço muito bem, pois lá já estive de uma feita. Ao senhor a descrição pouco interessará, pois, mesmo de posse dela, não encontrará o esconderijo.

— Mas ele te descreveu apenas o vale ou também o local onde estão enterrados os valores?

— O “capitão” não seria tão tolo em me descrever este local. A ordem que recebi foi de matar o “tenente”, assim que ele se aproximasse do vale, e nada mais!

— Bem, serás poupado, com a condição de que nos acompanhes até o vale referido.

— Estou pronto a isso.

— Mas, toma nota: estarás perdido, no momento em que descobrirmos que nos conduzes por caminho errado. Não irás conosco como homem livre, mas como prisioneiro.

— Well, disse Sam. Terminamos as nossas pesquisas aqui. Afinal que faremos agora?

— Levaremos apenas o ouro, e do resto, somente aquilo de que carecemos: armas, munição, fumo, mantimentos e também um pouco daquelas pérolas imitadas para presentearmos os índios que encontrarmos pelo caminho. Vão separando tudo enquanto eu vou dar uma chegada até os cavalos dos bandidos, a fim de examiná-los.

Escolhi quatro excelentes cargueiros mexicanos e três poldros de montaria. Eram melhores do que os animais montados por Bernhard e Bob. Dois deles podiam ser trocados pelos dos dois companheiros; o terceiro eu o destinara a Hoblyn.

Entre as presas que fizemos aos bandidos, havia várias cangalhas para transporte de cargas. Apossei-me do número suficiente para conduzir o que levávamos. Do resto da mercadoria de que não quisemos nos apoderar, fizemos um monte, e despejando pólvora em cima, ateamos fogo. Deste modo os bandidos ficavam sem recursos para continuar, pelo menos durante algum tempo, nas suas pilhagens.

— E que faremos do resto da cavalhada? — perguntou Sam.

— Bob soltará na campina. A medida não é muito aconselhável, mas doi-me matar os pobres animais que culpa nenhuma têm em servir a bandoleiros. Dêm início a viagem, que ainda ficarei aqui para atear fogo nas mercadorias.

— Por que não faz logo para irmos juntos?

— O fogo será visto ao longe. Os bandoleiros do deserto, não nos encontrando no acampamento e vendo o fogo, voltarão a toda pressa, e, apesar da escuridão, poderão nos perseguir e alcançar. Assim, é melhor que eu os deixe tomar uma dianteira e depois cavalgarei velozmente atrás, por outra vereda, a fim de preveni-los para que se ocultem ou tomem novo caminho.

— É boa a idéia! Então, vamos minha gente! — comandou o velho campineiro.

Ele ia à frente levando os cargueiros pelo cabresto, e Marshall e Bob escoltando Hoblyn fechavam a pequena caravana. Enterrei o cadáver de William, pus fogo na pólvora e fiquei parado ao lado do meu animal à espera dos acontecimentos. Assim se passou um quarto de hora; resolvi partir, pois os bandidos poderiam voltar a cada instante e me surpreenderiam ainda ali. O fogo atingira proporções assustadoras e, devido à grande quantidade de cartuchos lá deixados e que não nos fora possível levar, produzia estrondo semelhante ao de uma batalha. Montei e esporeei o meu poldro para sair do alcance da claridade produzida pelas chamas. O fogo destruiu todos os haveres roubados pelos “bandoleiros do deserto”.

 

Na pista dos dois criminosos

Lá nos confins do Texas, Arizona e Novo México, à margem dos afluentes do Rio Grande del Norte, erguem-se as montanhas das serras Rianca e Guadalupe, onde caminhos íngremes serpenteiam em derredor de elevações bravias e selvagens. Ao lado destes caminhos estendem-se grandes matas virgens alternadas de alguns bosques limpos de macegal, de precipícios horríveis a desprender a toda hora enormes blocos de rochas, de vales disformes formando cavernas e furnas, por onde perambula o urso cinzento, o monstro das montanhas, que, por onde passa, espalha o terror e a morte.

Apesar do tétrico dessa zona, por ela ainda encontram passagens manadas de milhares de bisões, que por lá empreendem a migração da primavera; por lá ainda surgem peles-brancas e peles-vermelhas, que, se desaparecem de um momento para o outro, ninguém sabe dizer para onde foram ou o fim que levaram, pois as montanhas, as rochas e a mata virgem são mudas e jamais poderão contar às histórias que se desenrolam naquela região povoada de perigos.

O caçador audaz, que atravessa esta região, em mais nada deve confiar do que na sua espingarda. Nesta região encontram refúgio os egressos da civilização, que por qualquer motivo não se podem deixar avistar pela polícia dos meios civilizados; nesta região perambulam os indígenas que declararam guerra a toda raça branca, porque a raça branca pretende exterminá-los. No meio da mata vislumbra-se, através das ramagens, de quando em vez, ora o boné de pêlo de castor dum escoteiro possante, ora o sombrero de amplas abas dum mexicano, ora o pericote dum indígena. Que faz essa gente aqui? Por que veio para essa triste zona sem contato com o resto do mundo? Só pode haver uma resposta a esta pergunta: veio compelida pelas suas más ações, pelo ódio e pelo desejo de vingança, ou ainda por outros motivos que nem merecem uma referência!

A vasta zona de caça dos apaches e dos comanchos estende-se pelas campinas, indo até o sopé das montanhas, onde confina. Nas fronteiras dessa zona registram-se lances heróicos, dos quais nenhum tratado de história faz menção. Em conseqüência dos contínuos e sangrentos entrechoques daquelas duas tribos, sucede muitas vezes que hordas de indígenas desbaratadas refugiam-se naquelas serras, onde a cada passo são obrigadas a lutar com violência em defesa da vida.

Em suma, é uma das regiões mais perigosas dos Estados Unidos. Há apenas um vale, na serra, por cujo desfiladeiro se consegue descer para a savana.

Havíamos alcançado este vale, que, aliás, por diversas vezes eu já atravessara, mas em companhia de numerosos e valentes companheiros. Agora éramos apenas quatro, e, além disso, estávamos tresnoitados pela vigília constante a que nos obrigava o prisioneiro que trazíamos, que podia, de um momento para outro, rebelar-se e fugir, embora se mostrasse obediente e dócil.

Ele cavalgava no meio de nós, ao lado de Bob. Sam ia à frente com os cargueiros e eu o seguia em companhia de Marshall, que, durante essa longa viagem, se revelou um bom cavaleiro.

Era de manhã e o sol já havia atingido o cume da montanha que nos ficava em frente, do outro lado do rio. Embora estivéssemos em meados de agosto, os seus raios nos beneficiavam, pois nessas paragens montanhosas o rei dos astros costuma desaparecer logo depois do meio dia. As noites eram bem frias, e as manhãs, além de frias, muito úmidas, de tal forma que éramos obrigados a conservar os cobertores aos ombros durante algumas horas.

Durante o dia, Hoblyn cavalgava sempre desamarrado no meio do grupo; de noite, porém, nós o amarrávamos. Ele tinha a sua vida empenhada para garantir a verdade de suas indicações.

— Ainda temos que cavalgar muito para a Shetel e Head-Pick? — perguntou-me Marshall.

— Amanhã alcançaremos a montanha, informou-me Hoblyn, se não tivermos que nos desviar pela direita.

— Não seria melhor dirigirmo-nos diretamente à montanha, onde nos encontraremos com Fred Morgan?

— Mesmo assim não devemos dirigir-nos diretamente para lá, pois ele nos poderia avistar. O bandido sem dúvida já se acha no local convencionado, pois estamos hoje a catorze de agosto. Mas Patrik cavalgou na direção do vale e eu acho que onde está o pai, está também o filho. Demais, Patrik nos leva uma dianteira quando muito de algumas horas, pois temos lhe acompanhado permanentemente as pegadas. Esta noite ele acampou a umas seis milhas daqui e partiu à mesma hora que nós, isto é, ao romper do dia; estará, no máximo, três horas à nossa frente.

— Cuidado! — exclamou, neste instante, Sam lá na frente. — Ali na orla do mato ainda há um galhinho verde de arbusto no solo. Ele não pode ter prosseguido viagem há muito tempo: por aqui passou alguém há pouco!

Aproximamo-nos do galhinho e Sam apanhou-o, examinou-o e passou-me, dizendo:

— Examina bem isto, Carlos!

— Hum! Aposto que este ramo foi colhido há uma hora, quando muito.

— Sou do mesmo parecer. Não estás vendo aqueles rastos? Baixei-me.

— São de dois homens. Deixa-me examiná-los bem.

Tirei do bolso dois gravetinhos com os quais eu medira os rastos de Patrik, na noite em que o observei no Llano Estacado.

— São dele. As medidas combinam! Não devemos continuar viagem, por enquanto, Sam!

— Tens razão. Ele não deve perceber que alguém o vem acompanhando. Mas se os bandoleiros apearam-se aqui, o fizeram certamente levados por algum propósito. Ali deixaram os cavalos, que pisotearam todo o solo, e por aqui cruzaram a pé, dirigindo-se para o mato. Vamos dar uma olhadela.

Deixamos os companheiros à nossa espera e nos entranhamos pelo mato. Caminhamos um bom pedaço quando Sam, que ia à frente, ficou parado. Bem diante dele havia um trecho do solo socado e sobre ele uma nesga de musgo frouxo replantada recentemente. O aspeto era o de ter sido ali enterrada alguma cousa, tendo sido depois recalcados os musgos. Baixei-me e arranquei-os.

— Uma enxada! — exclamou Sam.

— Realmente aqui está o vestígio de uma enxada.

Debaixo dos musgos, ao lado da terra frouxa, havia um sinal nítido de uma enxada, que ali estivera guardada por algum tempo.

— Esta ferramenta foi retirada daqui. Quem a teria escondido? — perguntou Sam.

— Este enigma é muito fácil de decifrar. Quando o “capitão”, acompanhado do “tenente”, escondeu o tesouro no vale, a enxada, depois de algum tempo de viagem, tornara-se lhes incômoda para transportar e a esconderam aqui. Agora Patrik a retirou de novo, pois precisa dela para desenterrar o tesouro. É bem provável que lá fora encontremos vestígios de que a levou. Deixaram algum sinal convencionado naquela árvore, para que um fique sabendo que o outro está no vale.

Cobri novamente o vestígio da enxada com musgo e voltei para a orla da mata. Realmente, no tronco duma árvore que ali se erguia, havia três entalhes recentes e uns galhinhos quebrados lançados ao chão.

— Que se conclui de tudo isso? — perguntou Sam.

— Ora, é muito simples. Que Patrik se dirigiu para o vale.

— É preciso que lá cheguemos antes. Resta agora saber se ele se encaminhará diretamente para o vale ou se primeiro pretende encontrar-se com o pai.

— Saberemos isso já.

Aproximei-me dos nossos companheiros e me dirigi a Hoblyn:

— Fica muito longe o caminho que nos conduz deste rio ao vale?

— Não, quando muito duas horas de viagem, se não me falha a memória.

— Então toquemo-nos para o vale. Se ele seguiu por este caminho, irá diretamente ao esconderijo, mas, se dele se desviar, é porque primeiro foi ao encontro do pai. Conforme a direção que tenha tomado, disporemos as coisas. Deve-se ter demorado muito aqui, pois se retirou no máximo há uma hora. Em vista disso, é conveniente retardarmos um pouco a nossa partida, visto que ele, por este ou por aquele motivo, pode ter feito algum alto pelo caminho e notará a nossa chegada.

— Allright, Carlos! Esperemos um pouco. Mas não seremos tão imprevidentes, como ele, deixando nossos cavalos no campo. Puxemos os animais para o meio daquelas árvores debaixo das quais podemos sentar-nos para fazer a nossa refeição. Desde o amanhecer que não ponho um pedaço de carne na boca.

 

ENCONTRO COM WINNETOU

Seguimos o seu alvitre e nos abancamos debaixo das árvores, na relva verdejante. Apenas nos havíamos acomodado, Hoblyn proferiu um leve brado e apontou para umas árvores adjacentes.

— Olhem para lá! Naquele desfiladeiro pareceu-me ver algum objeto luminoso semelhante à ponteira de uma lança.

— Impossível — disse Sam. — Como pode distinguir-se, a esta distância, uma ponteira de lança?!

— Ele tem razão — Sam — disse-lhe eu. — Se o olhar cair casualmente no ponto onde surge a ponteira, é bem possível distingui-la. Mas essas armas só índios as usam, e neste caso... Realmente, agora também vi o reluzir da ponteira. São índios e demo-nos por felizes por termos ficado aqui. Se houvéssemos continuado viagem, os nativos nos teriam percebido, pois o sol bate contra nós.

Tirei o binóculo do bolso e assestei-o contra o desfiladeiro. O que vi bastava para me deixar apreensivo.

— Aqui, Sam! Contempla aqueles sujeitos mais de perto. São no mínimo cento e cinqüenta.

O meu companheiro tomou do binóculo e, depois de observar, passou-o para Bernhard, dizendo:

— Veja a cara daqueles peles-vermelhas! Já se encontrou algum dia com estes comanchos?

— Não. Então são comanchos?

— Sim. Tendo em vista a zona, também poderiam ser apaches; mas estes usam o pericote da cabeleira diferente do daqueles que lá vêm descendo. Não notou a tinta vermelha e azul com que pintaram as caraças? É um sinal de que se acham em expedição de guerra. Em vista disso, afiaram bem as ponteiras das lanças e trazem as aljavas repletas de flechas envenenadas, com as quais, pelo menos eu, não estou muito disposto a entrar em contato.

— Fatalmente nos verão.

— Ainda se pudéssemos sair daqui para apagar nossas pegadas lá fora e levantar os galhos verdes lançados ao chão por Patrik! Mas isso não é possível.

— Também de nada adiantaria, Sam. Eles encontrariam as nossas pegadas ali e por certo que as seguiriam.

— Disso sei eu; a questão é que, enquanto isso, poderíamos continuar viagem e tomar-lhes uma dianteira, que nos pusesse a salvo de sua sanha,

— Tens razão. Mas talvez eu possa retirar os galhos sem sairmos daqui! As pegadas dos cavalos estão ali tão perto!

Fiz um gancho dum galho de árvore e pesquei os arbustos do solo. Depois agarrei folhas secas com que cobri as pegadas, sem pisar no caminho.

— Vamos ver se isto nos serve de alguma coisa — disse Sam. — A mim é que tu não enganarias com este processo de encobrir vestígios!

— Por que não?

— Existe algum pinheiro à margem do caminho?

Ele tinha razão. Entre a folhagem, que espalhei pelo caminho marginado de árvores, havia alguns espinhos de pinheiro. Este erro não era mais possível corrigir. Os índios haviam descido o desfiladeiro e pararam. Depois de uma curta deliberação, expediram alguns guerreiros para fazer reconhecimentos.

— Heigh-day, não vêm para cá! — exclamou Sam, contente.

— Como sabe disso? Não vejo nada que me leve a ter a mesma opinião — disse Bernhard.

— Explica-lhe isso, Carlos, já que o tomaste como discípulo.

— É muito simples — declarei, atendendo ao apelo de Sam. — Dos três guerreiros destacados para o reconhecimento, dois, beirando a montanha, desceram o curso do rio, e o outro se dirige diretamente a este em procura dum passo, por onde os indígenas possam vadeá-lo a nado. Pretendem, pois, atravessar o rio e não virão para cá, pois se assim não fosse, os batedores subiriam o curso do rio. Os outros dois saíram em procura de pegadas a ver se a zona está livre de perigos.

Pouco tempo depois voltaram os três batedores. Pareciam nada haver encontrado de anormal, pois o bando pôs-se logo em movimento na direção do rio. Agora podíamos contá-los a olho nu e concluir que o seu número havia excedido ao meu cálculo. O bando, em sua totalidade, estava constituído de indígenas jovens e possantes, que deviam pertencer a duas tribos diversas ou a duas aldeias, visto que eram chefiados por dois caciques, que marchavam à frente.

— Aqueles dois com as penas de águia no pericote são os caciques? — perguntou Bernhard, curioso.

— Sim.

— Ouvi dizer que costumavam montar tordilhos, o que não sucede com estes!

— Tordilho! Hihihihi! — exclamou Sam, rindo-se gostosamente.

— Neste caso, foi mal-informado, Bernhard! — esclareci. — Lá nas cidades, é possível que os generais montem um tordilho de sua predileção; aqui, com os caciques, dá-se o contrário. O indígena só em extrema necessidade monta um cavalo de pêlo claro. Numa caçada, os cavalos de pêlo claro espantam as caças, e numa expedição de guerra são avistados ao longe pelo inimigo. Um tordilho só é de grande vantagem num combate debaixo de neblina e mesmo assim, o cavaleiro tem que se trajar de branco para não ser distinguido em cima do cavalo. De uma feita, tomei parte num combate nessas condições com ótimos resultados.

Nesse meio tempo, o bando atingira a margem do rio e o vadeava.

Respiramos, aliviados, pois não nos achávamos mais na iminência do perigo. Sam passou a mão pelo pescoço de sua égua e perguntou:

— Que achas de tudo isso, “Tony”? E se aqueles indígenas nos apanhassem e me cortasse as orelhas e a ti a cauda? Que prejuízo seria o nosso, hein? Ora, não se ria “Tony”, pois já não nos aconteceu isso um dia?! Mas, Carlos, que vai ser agora de Patrik e do outro bandoleiro do deserto, que o acompanha? Os índios descobrirão com certeza as suas pegadas.

— Nada sofrerão — respondeu Hoblyn.

— Não? Por quê?

— Porque o conhecem. São comanchos, da tribo dos racurroh, com os quais ele e o capitão fumaram o cachimbo da paz. Conseguiram esta aliança de amizade porque trocaram com aquela tribo muitas mercadorias que lhes sobravam.

— Isto é grave, pois é bem provável que Patrik obtenha a sua adesão contra nós.

— Esperemos primeiro o desenrolar das coisas, Sam — disse eu consolando-o. — Patrik não será tão tolo para levar os índios ao vale. No caso de se encontrarem, fará um pequeno alto, fumará o calumet com os caciques e depois será novamente senhor de suas ações e se separará dos indígenas.

Aproximei-me do bosque e olhei na direção do rio para observar os nativos. Haviam atravessado o rio e desapareciam na curva da montanha. Quando ia voltar para o grupo, lancei instintivamente o olhar na direção do desfiladeiro, de onde vieram os nativos, e ocultei-me imediatamente, convidando os companheiros a fazerem o mesmo. Sam perguntou:

— Que há? Que há? Chegam outros índios?

— Parece que sim. Pelo menos um está postado lá na saída do desfiladeiro.

O escoteiro ainda estava com o meu binóculo na mão e o pôs nos olhos.

— Zounds, é mesmo! É um só, mas atrás dele, por certo, está o bando. Mas que vejo?! Não é comancho! O que está lá parado é um apache autêntico!

— Divisaste-o bem?

— Sim, e por sinal que é um cacique. Usa cabeleira que lhe vem até o lombo do cavalo que monta. Está cavalgando em direção ao rio.

— Dá-me o binóculo!

Não pude mais vê-lo, pois o índio já se achava no rio e encoberto por uma elevação do solo.

— Sabes o que há em tudo isso, Carlos? — perguntou Sam. — Aqueles comanchos estão sendo, sem o saberem, seguidos pelos apaches, e este cacique veio para frente a fim de conservá-los sempre à vista. O cacique está procedendo com rara inteligência; não vê que não seguiu pelas pegadas dos comanchos, mas desviou-se do caminho a fim de tomar-lhes dianteira e depois observá-los na margem da vereda? Sai daí, Carlos, esses índios têm as vistas muito aguçadas. Voltando, poderá enxergar-te. Tapem as narinas dos cavalos. Estes costumam relinchar à aproximação de nativos, Minha “Tony”, não, ela é mais inteligente do que qualquer cavalo! Agora, todo o silêncio é pouco: ele vem chegando.

Não podíamos vê-lo, porque nos achávamos escondidos num denso macegal que circundava a árvore; mas nem haviam transcorrido cinco minutos depois que Sam havia pronunciado as últimas palavras, ouvimos o ruído de cascos de cavalos.

O índio chegava devagar, medindo o terreno. Teria visto algum galho de arbusto ou as nossas pegadas? Neste instante, ele se achava na minha frente e dera com os olhos nos espinhos de pinheiros que eu espalhara pelo chão para encobrir as nossas pisadas.

Como um relâmpago, sacou da machadinha de guerra, pois suspeitou que algo havia dentro do macegal.

— Fogo, Carlos! — comandou Sam.

Eu, porém, mais depressa do que ele, saí do macegal e corri-lhe ao encontro.

— Winnetou! Pretende o grande cacique dos apaches matar o seu irmão?

Ele largou imediatamente a machadinha e os seus olhos se marejaram de lágrimas. Cessada a estupefação do primeiro momento, o apache exclamou cheio de alegria:

— Carlos!!!

Apenas pronunciou este nome; a inflexão que deu à voz dizia, entretanto, eloqüentemente da alegria e do entusiasmo que lhe inundavam a alma, sentimentos a que um índio de nobreza prefere não dar expansão, guardando-os no coração. Depois abraçou-me e apertou-me de encontro ao peito. Eu me alegrei imensamente com aquele encontro.

— Que faz meu irmão neste ponto do rio Pecos? — perguntei-lhe. O meu grande amigo pôs primeiro a machadinha na cinta, e depois respondeu:

— Os canalhas dos comanchos abandonaram suas aldeias para entregar seu sangue aos apaches. O Grande Espírito está a dizer que Winnetou vai tirar-lhes os escalpos. E que faz o meu irmão aqui neste vale? Não me havia dito, há varias luas atrás, que ia voltar para a casa de seus pais e irmãos? De lá não pretendia seguir para o grande deserto, que é mais pavoroso ainda do que o Mapimi e o Estacado?

— Visitei meus pais e meus irmãos e já estive no deserto do Saara. Mas a fada Savana constantemente me aparecia de dia e de noite em sonhos. Resolvi, então, atender ao seu chamado, e aqui estou novamente.

— Meu irmão pele-branca fez muito bem. O coração das campinas é grande e nobre e todo aquele que sente uma vez a sua pulsação poderá ir embora mas não tardará que volte. Howgh!

Puxou o seu cavalo pelas rédeas, entrou comigo no macegal e pusemo-nos debaixo das árvores. Foi aí que ele deu com os olhos nos meus companheiros; embora nada lhe tivesse dito sobre a presença dos mesmos, o cacique não se mostrou surpreendido: simulou que não os notara.

Tirou o cachimbo da maleta do serigote, encheu-o de fumo e sentou-se solenemente junto de nós.

— Winnetou vem do norte, onde foi buscar argila santa para o seu calumet e Carlos será o primeiro a fumá-lo.

— Há aqui outros campineiros que se sentirão honrados se fumarem também o calumet com o meu irmão pele-vermelha.

— Winnetou só fuma com homens valentes, em cujos corações não se aninhem falsidades e em cujos lábios more a verdade! Estou tranqüilo, porém, porque sei que meu irmão só aceita por companheiros homens de tal envergadura moral.

— O grande cacique dos apaches ouviu falar em Sans-ear, o valente e inteligente explorador das campinas?

— Winnetou o conhece através das suas proezas; nunca teve oportunidade de vê-lo. Sans-ear é astucioso como uma serpente, inteligente como a raposa e valente como a jaguar. Bebe o sangue dos homens de pele-vermelha e assinala suas mortes na coronha da espingarda; mas os homens de pele-vermelha mataram-lhe a mulher e o filho. Sans-ear é uma alma nobre, um homem que só diz a verdade e só mata os peles-vermelhas maus. Vejo o seu cavalo; porque não se aproxima ele de Winnetou, a fim de fumar o calumet com o cacique dos apaches?!

Sam ergueu-se e aproximou-se do meu grande amigo. Notei que se sentia até certo ponto acanhado na presença do homem conhecido como o guerreiro mais nobre e valente de todas as savanas.

— Meu irmão de pele-vermelha disse bem — balbuciou Sam lacrimejante. — Sans-ear só mata os maus; os bons, porém, está sempre pronto para defender em qualquer emergência, mesmo com risco de vida!

Acenei também para Bernhard, e disse ao cacique, antes que ele respondesse a Sam:

— Queira também o cacique dos apaches ter um olhar para este outro meu companheiro. Era um homem muito rico; os bandoleiros peles-brancas, porém, assassinaram-lhe o pai e roubaram-lhe todos os diamantes e todo o dinheiro. O assassino acha-se aqui no rio Pecos e há de morrer varado pelo punhal do filho da vítima!

— Winnetou é seu irmão e o ajudará a pegar o assassino do seu pai. Howgh!

Eu conseguira pois para Bernhard um aliado, um protetor como melhor ele nem podia desejar. O apache acendeu o cachimbo. Depois de soprar três baforadas para o céu e três para a terra, expeliu-as na direção dos quatro pontos cardeais, e passou-me o calumet. Segui a mesma cerimônia e dei o cachimbo para Sam que, depois de fumá-lo seguindo o mesmo ritual indígena, deu-o a Bernhard. Quando este terminou a cerimônia, devolveu-o a Winnetou. Depois Sam perguntou ao apache.

— O meu irmão pele-vermelha está com muitos guerreiros aqui nas imediações?

— Uff!

Essa interjeição era sinal de surpresa. Sam ainda não conhecia os hábitos e costumes dos apaches e, como só recebera aquela resposta, julgou que o cacique o havia entendido mal; por isso repetiu a pergunta:

— O meu irmão pele-vermelha está com muitos guerreiros aqui nas imediações?

— Uff! Queira meu irmão dizer-me quantos ursos são precisos para amassar mil formigas?

— Apenas um.

— E quantos crocodilos para engolir cem sapos?

— Basta um.

— E quantos caciques dos apaches são precisos para esmagar essas moscas de racurroh! Quando Winnetou desenterra o machado da paz, não costuma sair acompanhado dos seus guerreiros, mas sozinho; ele não é o cacique de uma tribo isolada, mas o rei de todos os apaches; basta estender a mão em qualquer direção, milhares de guerreiros atendem ao seu chamado para cumprir-lhe as ordens. Tem muitas línguas que lhe contam o que fazem os filhos dos comanchos, e possui muitas facas e machadinhas de guerra para exterminar os seus inimigos da terra!

Depois, dirigindo-se a mim:

— Queira meu irmão dizer o que pretende desses homens que o acompanham!

Fiz-lhe um sucinto, porém completo relato dos acontecimentos que nos levaram ao rio Pecos. Ouviu-me atentamente e depois ficou por algum tempo meditativo. Deu uma última tragada, botou o cachimbo no bolso e levantou-se:

— Queiram meus irmãos peles-brancas acompanhar-me! Desamarrou o seu cavalo, puxou-o para fora e montou-o. Coloquei-me ao seu lado e cavalgamos a galope, prosseguindo pelo mesmo caminho em que viéramos. Montava um baio ossudo que eu já conhecia de há tempo. O cavalo tinha o aspecto de um animal de tração esfalfado; só um conhecedor como Winnetou é que se decidiria em tomá-lo para montaria. Era invencível no galope, calmo no trotar e possuía uma formidável resistência. A sua sagacidade em nada ficava a dever à égua de Sam, e por mais de uma vez com suas patas fez lobos cinzentos, inclusive o puma, se porem em fuga. Quando Winnetou o montava, pareciam identificar-se cavalo e cavaleiro. O animal conhecia todos os desejos e resoluções do dono e nas marchas mais forçadas nunca faltaram às forças do incomparável corcel.

Quando alcançamos as pegadas dos comanchos, percebemos que a horda seguira certa de pisar terreno seguro, pois não tivera o menor trabalho de disfarçar de leve que fosse os vestígios que deixava após a sua passagem. Cavalgamos durante uma hora e parávamos em todas as curvaturas de matas, a fim de reconhecer o terreno em nossa frente. Achávamo-nos ao canto de uma mata e dispúnhamo-nos a contorná-la, quando Winnetou fez parar o seu cavalo.

Com a mão direita apontou para a frente e com a esquerda fazia o sinal para nos conservarmos em silêncio. Estiquei a cabeça e agucei as vistas e os ouvidos, mas não consegui divisar ou ouvir cousa alguma que me chamasse à atenção.

O apache desprendeu a espingarda da sela, pôs a faca de campanha à frente, e desapareceu mata adentro sem nos dizer uma só palavra.

— Que haverá, Carlos? — perguntou Sam.

— Não sei.

— É um esquisito este apache! Então não nos podia ter dito do que se tratava!

— Ele prefere agir a falar. Viu algo de suspeito e foi ver de que se trata. Isto devias ter notado pelo seu gesto; razão por que ele não precisava perder tempo com palavras.

— Mas podia dizer-nos, ao menos, que espécie de objeto lhe despertou desconfiança.

— Isto já veremos.

— Mas ao menos saberíamos agora que atitude tomar.

— Já sabemos, sem que fosse necessário o apache nos dizer uma palavra. Cabe-nos esperar aqui até a sua volta ou até ele dar um sinal para nos aproximar.

— Mestre, oh mestre! Tou ovindo uma coisa! — disse Bob interrompendo a nossa discussão.

— Que está ouvindo?

— Grita um homi.

— Onde?

— Lá, atrais do canto.

Olhei para os outros interrogativamente, mas ninguém tinha ouvido coisa alguma. Entretanto o negro podia ter razão.

Ressoou neste instante — agora todos ouvimos — o piar de uma gralha. Todos tomariam aquele grito como proferido por uma gralha autêntica, mas eu sabia muito bem que ele partira dos lábios do apache, pois este sinal era antigamente por nós adotado em nossas jornadas.

— Uma gralha aqui! — exclamou Sam. — Eu queria saber onde se encontra esta espécie de bicho!

— A “espécie de bicho”, que proferiu aquele grito, tu viste hoje, pela primeira vez. Não é outro senão Winnetou, que nos chama. Para frente: lá está ele na orla da mata!

 

A HISTÓRIA DE UM CRIME

Cavalguei levando o animal de Winnetou pelas rédeas, e os companheiros me acompanharam. O cacique se achava parado a uns cem metros de distância à beira do mato e desapareceu assim que notou havermos percebido o seu sinal. Chegados ao local, apeamos e nos embrenhamos na floresta. Pouco adiante, debaixo de uma árvore, encontramos Winnetou e aos seus pés jazia amarrado com a sua própria cinta um jovem. Dirigia os olhares atônitos para o apache e gemia na surdina.

— Múmia!

Apenas esta palavra pronunciou o apache, afastando-se desdenhosamente do prisioneiro. Este era um pele-branca. Quando me avistou, suspirou, aliviado. Julgou talvez que como eu era da sua raça podia interceder em seu favor. Esta esperança cresceu, quando logo apareceu Sam.

— Um branco, um ianque por que o trata meu irmão pele-vermelha como inimigo?

— Ele tem olhos de bandido — respondeu Winnetou.

De repente, por trás de nós, ecoou um brado estridente. Virei-me e vi Marshall com olhar espantado contemplando o prisioneiro.

— Mas Holfert! Por Deus, como veio parar aqui?

— Marshall, Marshall! — balbuciava o jovem, de onde se deduzia tratar-se de algum conhecido do joalheiro. Mas queria me parecer que o prisioneiro não se agradou muito da presença do meu companheiro.

— Quem é este homem? — perguntei.

— É de Denoxville e chama-se Holfert. Era um dos auxiliares de nossa joalheria — respondeu Bernhard.

Um auxiliar de Marshall, aqui nas proximidades do local, onde esperávamos encontrar Morgan! Isso me trouxe desconfianças.

— Quando liquidaram o negócio, ele ainda estava na casa?

— Sim.

Dirigindo-me ao prisioneiro:

— Mr. Holfert, de há muito que andamos a sua procura. Queira agora ter a bondade de nos dizer onde se acha presentemente o seu bom amigo Fred Morgan!

O homem assustou-se.

— É um detetive, sir?

— Quem sou, saberá a seu tempo. Contudo devo dizer-lhe que eu não desejaria agir judicialmente contra o senhor, pois estou inclinado a acreditar que tenha sido induzido por outrem. Portanto, responda! Onde está Morgan?

— Solte-me primeiro. Depois lhe direi tudo.

Bernhard fez cara de quem estivesse ouvindo algo inacreditável.

— Não faltava mais nada senão soltá-lo! Todavia permito que lhe afrouxem um pouco a cinta. Bob, afrouxa um pouco a cinta que prende este homem!

O negro se aproximou e acocorou-se diante do ex-empregado de Marshall.

— Bob, até tu? — exclamou Holfert estupefato.

— Bob também tá aqui, yes! Onde tá mestre Bern, também tá nego Bob. Por que não quis fica em Louisville e veiu pra montanha? Por que te amarrar o?

O criado afrouxou-lhe a cinta de modo que ele pudesse ficar de pé. Continuei o interrogatório:

— Bem, pela terceira vez lhe pergunto: onde está Morgan?

— Em Head-Pick.

— Durante quanto tempo esteve agora com ele?

— Mais de um mês.

— Em que ponto se encontrou com Morgan?

— Ele me mandou chamar em Austin e eu me dirigi para aquela cidade, onde estivemos juntos.

— Mandou chamá-lo? Então já eram velhos conhecidos? O interrogado calou-se. Saquei do revólver.

— Mire este objeto aqui, Holfert! Sei muito bem quem é o senhor. Espero, porém, que não se negará a contar-me alguns detalhes acerca do assassinato do seu patrão e do saque da sua joalheria. Se se conservar nesse mutismo ou se me responder com informações mentirosas, esvasiarei esta arma sobre o seu corpo de patife! Aqui no oeste pune-se um bandoleiro sem processo, sumariamente; não é como lá nas cidades.

— Eu não sou nenhum bandoleiro! — gaguejou o homem tomado de pavor.

— Eu já lhe disse que sei muito bem quem o senhor é! Resta-nos agora averiguar se é um criminoso induzido ao crime ou se é um bandoleiro consciente. Portanto responda: conhece Morgan há mais tempo?

— Aquele homem é meu parente chegado.

— E algum dia ele foi visitá-lo em Louisville?

— Sim.

— Conte o resto. Não estou nada disposto a formular-lhe uma infinidade de perguntas! Vá dizendo tudo o que sabe! Pense no revólver!

— Se Marshall se retirar daqui, narrar-lhe-ei toda a verdade.

Fui obrigado a levar em consideração a lamentável perturbação de espírito em que se achava o criminoso, tão inesperadamente pegado por nós.

— A sua vontade será satisfeita!

Fiz um sinal, e Bernhard desapareceu. Como eu já supunha, descreveu uma curva e voltou postando-se do outro lado de modo a não ser visto pelo interrogado.

Eu quisera naquele momento ler o que lhe ia no espírito.

— Bem, prossiga, Bernhard já se retirou!

— Morgan visitou-me muitas vezes. Fui fraco; acedi aos seus constantes rogos e tornei-me seu parceiro no jogo.

— Ele o visitava em sua residência particular?

— Sim, nunca no negócio. Nas primeiras paradas, eu ganhava e tornei-me um jogador viciado. Depois passei a perder. E fui perdendo cada vez mais até que lhe fiquei a dever mil dólares no jogo. Não me era possível satisfazer-lhe o pagamento daquela vultosa soma e ele ameaçou-me com a justiça, pois eu lhe fornecera letras com a assinatura falsificada do meu patrão. Não me podia salvar e não tive outro remédio senão dizer-lhe onde se achava a chave principal que abria todos os compartimentos da loja e oficinas.

— E sabia qual o propósito que alimentava?

— Sim. Combinamos dividir os valores roubados e depois seguir para o México. Antes disso, porém, tínhamos que nos separar, a fim de não chamar a atenção da polícia, evitando deste modo sermos perseguidos e presos. Combinamos um encontro em Austin para mais tarde.

— Foi o senhor que lhe disse que o falecido Marshall trazia sempre a chave geral consigo?

— Fui eu sim, porém nunca supus que ele fosse assassinar o meu patrão. Disse-me que ia apenas fazê-lo perder os sentidos. Espreitamos o meu chefe, mas Morgan, em vez de desferir-lhe uma pancada na cabeça, cravou-lhe a lâmina do punhal no coração. Abrimos a porta e largamos o cadáver em frente ao balcão. Esvaziamos a loja e oficinas do que havia de valor e dividimos logo o produto do roubo.

—Ele ficou com os brilhantes e o senhor com o resto, não é assim?

— Foi assim mesmo. Como sou profissional, não me foi difícil converter, em dinheiro, embora com prejuízo, a parte que me tocou...

— Continue! Ah! Já percebi. O dinheiro apurado Morgan lhe roubou agora, na sua última permanência com ele!

— Acertou!

— O senhor foi tão tolo em acreditar que um indivíduo perverso como aquele procederia lealmente com o senhor? Isto logo podia compreender que, atraindo-o para as selvas, o seu companheiro de crime o fez com o propósito de se apoderar do produto total do roubo, sem risco de ser pilhado pela polícia! De que forma lhe roubou agora o dinheiro?

— Ele esteve ontem à noite de guarda. Eu dormia. Senti que me tocavam no corpo e acordei-me. Morgan já me havia desarmado e tirado a carteira. Colocou-me a faca no peito pronta para apunhalar-me. O medo deu-me forças. Arrojei-o ao solo, corri para o mato e fugi. Ele saiu em minha perseguição, mas como estava muito escuro consegui escapar. Caminhei toda à noite, pois eu estava convencido de que ao amanhecer ele haveria de seguir as minhas pegadas. Há pouco é que me aventurei a esconder-me aqui para dormir um pouco, mas não me foi possível, devido a um bando de indígenas que passou. Em vista desse encontro, eu desisti do repouso e ia continuar a viagem, quando avistei este pele-vermelha e me escondi novamente; ele, entretanto, me achou.

O homem estava visivelmente fatigado. Talvez precisamente esta circunstância o levou a confessar, sem rebuços, o crime, pois o seu timbre de voz não denunciava o menor vestígio de remorso ou agitação íntima.

Dirigindo-me a Bernhard, disse:

— Este homem é seu! Que pretende fazer dele?

Não me respondeu. No seu coração travara-se a luta entre o desejo de vingar a morte do pai e o sentimento de compaixão. Fez, depois, algumas perguntas ao prisioneiro e se dirigiu em seguida a nós:

— O canalha mereceria morrer. Contudo, vamos perdoá-lo, deixando-o livre. Deus há de justiçá-lo.

— Isto constitui um castigo ainda maior do que se o condenássemos a uma morte rápida. Completamente desarmado, sem cavalo, enfim sem recursos de espécie alguma e, além de tudo, um inexperiente nas campinas selvagens, o homem pereceria dentro de pouco.

— Neste caso, leva-lo-emos conosco até que se nos ofereça oportunidade de soltá-lo.

— Mas isto nos embaraçaria sobremodo, pois já temos um prisioneiro conosco, com quem seria capaz de fazer causa comum.

— Se tal acontecer, seremos quatro contra dois.

— Não me refiro à sua força física. Quero dizer que é muito possível surgirem outros imprevistos em virtude dos quais eles estariam em condições de nos proporcionar grandes transtornos. Também não quero ser o seu julgador. Poderíamos fornecer-lhe um dos nossos animais cargueiros e algumas armas para ele poder retirar-se. Consulte Winnetou sobre o que devemos fazer!

Winnetou se achava ao lado e ouvia todas as nossas negociações. Aproximou-se e tirou a cinta que manietava Holfert e ordenou:

— Levante-se!

O prisioneiro ergueu-se. Winnetou apontou para a sua mão:

— O pele-branca lavou o sangue que lhe manchava esta mão?

— Sim — respondeu o prisioneiro, espantado com o tom em que o cacique lhe falava.

— Com isto confirma que tomou parte na execução do crime hediondo. O sangue de uma mão homicida não se lava com água, mas com o sangue do próprio criminoso. Assim quer Manitu e assim quer também o Grande Espírito das savanas. O pele-branca está vendo aquele ramo verde, lá na margem do rio?

— Sim.

— Vá buscá-lo! Se conseguir apanhá-lo, será perdoado e conservará a vida, pois o ramo verde é o símbolo da paz e da indulgência.

Nós todos estávamos tomados de surpresa em face da singular condição imposta por Winnetou ao prisioneiro. Holfert encaminhou-se para a margem do rio, que distava de nós uns quatrocentos passos. A condição que lhe fora imposta era facílima de cumprir, pois o ramo não se achava no leito mas na beira deste, na margem do rio e numa posição bem acessível. Alcançou-a e estendeu o braço para apanhar o ramo. Nesse instante Winnetou apontou a sua espingarda de prata; o tiro deflagrou e Holfert tombou no rio com a cabeça varada por uma bala.

Com calma e sangue frio, o apache carregou novamente o cano deflagrado.

— O pele-branca não trouxe o ramo verde: teve que morrer. O Espírito da Savana é justiceiro e complacente. Não indulta ninguém para depois de indultado se atirar à ruína certa. Aquele bandido pele-branca, se lhe déssemos liberdade, seria morto pelos comanchos ou pelos bandidos do deserto e devorado pelos abutres.

Em seguida montou a cavalo e continuou viagem sem olhar para nós, que o acompanhávamos, silenciosos e sérios.

As pegadas dos comanchos continuavam visíveis. Como já disse, não tomaram providência alguma para, ao menos, disfarçá-las. Que eles andavam em expedição de guerra, provava-o a pintura de suas caras. Com toda certeza o objetivo de sua expedição ficava muito distante, porque do contrário marchariam com mais precaução. Winnetou conhecia o objeto da expedição dos comanchos; mas era demasiadamente reservado para fazer declarações, a não ser que julgasse vantajoso fazê-las. Ia pôr-me a seu lado quando adiante de nós ouvimos um, dois e três estampidos de espingarda.

Fizemos imediatamente alto. Winnetou fez sinal para recuar-mos e voltou até uma curvatura do mato. Ali paramos. O cacique apeou-se e se entranhou pelo mato, de onde voltou em seguida, fazendo-nos um sinal para que nos aproximássemos dele.

— Comanchos e dois peles-brancas!

Ditas essas palavras, o apache entrou novamente no mato e nós três o seguimos. Bob ficou para vigiar Hoblyn e os cavalos.

Diante de nós, o vale do rio estendia-se numa esplanada, onde vimos um quadro surpreendente. Os dois caciques dos comanchos haviam fincado suas lanças na margem direita do rio, tendo encostado nelas os seus escudos. Debaixo de uma frondosa árvore estavam sentados e fumavam o “cachimbo da paz” com dois pe!e- brancas, que haviam tomado lugar ao lado deles. Os animais dos quatro homens pastavam nas imediações. Aos nossos olhos desenrolava-se uma cena guerreira e selvagem, embora com caráter pacífico: os indígenas se entregavam a exercícios de combate simulado, nos quais costumam pôr em relevo a sua destreza no manejo de armas e agilidade em montar e governar os cavalos. Os nativos se achavam a uma distância regular, de modo que não se podiam distinguir-lhes as feições. Apelei para o binóculo e passei a examiná-los. Em seguida disse a Sans-ear:

— Sam, vê quem são aqueles peles-brancas! Passei-lhe o binóculo que ele assestou com ansiedade.

— ‘s death, não é outro senão o tal Fred Morgan com o seu filho! Como vieram a se encontrar aqui e juntar-se com os índios?

— É facilmente explicável. Patrik vinha cavalgando à nossa frente e o velho Morgan procedia de Head-Pick em perseguição de Holfert. Deste modo tinham que se encontrar. Dos índios, eles não precisam se ocultar, conforme ouviste Hoblyn dizer.

— É isto mesmo. Mas aquele encontro com os comanchos não nos é nada vantajoso.

— Por quê?

— Mas é claro; como retiraremos aqueles bandidos do meio dos peles-vermelhas?

— Eu espero que os dois ladrões não continuem por muito tempo juntos com os indígenas; não são tolos para deixarem os selvagens descobrirem o tesouro que pretendem desenterrar.

— Então o melhor seria ficarmos aqui para observá-los.

— Sim, aqui é de momento o lugar mais seguro para nós, pois não acredito que um deles venha até aqui.

— Mas é provável que Morgan se lembre de dar uma batidazinha por aqui, a fim de procurar Holfert, a cujo encalço anda — opinou Marshall.

— Também acho pouco provável. Tanto os comanchos como o filho o informaram, com certeza, não o haver encontrado e Morgan suporá então que o seu cúmplice haja tomado outro rumo. Não seria melhor levar os nossos animais para algum esconderijo?

Winnetou meneou a cabeça em sinal de aprovação e eu saí do macegal para dar execução à minha proposta. Descarregamos os animais cargueiros, pois estávamos em perspectiva de uma parada mais prolongada, e mandei que conduzissem as nossas montarias para os fundos da mata. Quando Hoblyn avistou a esplanada do vale, estendeu o braço e disse:

— Sir, lá em cima, à direita, está o desfiladeiro por onde teremos que seguir depois.

— Lá? Mas nos será fatal!

— Por que, Carlos? — perguntou Sam.

— Porque não poderemos atingi-lo antes daqueles dois canalhas. Deves ter em vista que os mesmos, assim que os comanchos levantarem acampamento, prosseguirão viagem para lá.

— Não tenha receio, sir — atalhou Hoblyn. — Este caminho só é conhecido por mim e pelo “capitão”. O “tenente”, porém, seguirá por outro que sobe o curso de um afluente do Pecos.

— Bom, se for assim nada precisamos temer e podemos ficar aqui tranqüilamente a observá-los.

Os comanchos se haviam dividido em dois grupos e faziam exercícios de combates simulados, tanto em ordem unida como em ordem aberta, e revelavam uma resistência e tenacidade que causariam admiração a qualquer observador europeu. Os animais que montavam não estavam ensilhados e nem buçal traziam. Eles costumam estender sobre o lombo do animal uma capa de lona ou de pele; em cada lado dessa capa está costurada uma corda muito forte e larga, que é enrolada pelo corpo do animal e serve para o cavaleiro nela enfiar os braços numa das extremidades e os pés na outra. Este apero original permite ao cavaleiro transformar, em qualquer emergência, o cavalo em couraça, de que se serve na ofensiva contra o inimigo, deste modo, entrincheirado por trás do cavalo, maneja as armas. Os guerreiros são tão exercitados nessas manobras que, como um raio, saltam ora para um ora para outro lado, desferindo flechaços ou descarregando as espingardas contra o antagonista. E mesmo cavalgando durante esses combates, terçam armas com firmeza e precisão tal, que raramente uma flecha ou uma bala por eles deflagrada erra o alvo.

Toda a nossa atenção se achava voltada para os exercícios dos comanchos, tendo eu apenas uma vez olhado para o macegal de onde viéramos. Foi a nossa sorte, pois nessa ocasião avistei dois cavaleiros que vinham» examinando, com cuidado, as pegadas dos comanchos.

— Cuidado, minha gente! Lá vêm dois cavaleiros! Todos olharam para o rumo indicado e Hoblyn exclamou:

— Arre! É o “capitão” em companhia de Conchez.

— Apaguemos, imediatamente, as pegadas que deixamos na mata!

Em dois minutos fizemos este serviço. Todos voltaram para o primitivo local. Apenas Winnetou e eu nos conservamos próximos da estrada, num ponto de onde podíamos observar bem o chefe dos bandidos e o seu comparsa.

Já vinham bem próximos e teriam dobrado a curvatura do mato se, naquele instante do acampamento dos comanchos, não ressoasse um ensurdecedor brado de guerra, que mais parecia um berreiro em coro de mil feras. Agacharam-se e conduziram a cavalhada para o local, onde antes tínhamos os nossos animais. Voltamos de gatinhas para perto de nossos companheiros de jornada.

Por trás dos dois bandidos havia dois pinheiros, um ao lado do outra. Consegui dirigir-me de gatinhas para aquele ponto, a fim de ouvi-los. Saquei da machadinha de guerra para o caso de precisar defender-me.

— São comanchos! — exclamou o “capitão”. Não precisamos recear coisa alguma. Precisamos, porém, descobrir quem são os dois peles-brancas que se acham em sua companhia.

— A distância é grande e não podemos distinguir as pessoas.

— Examinemo-lhes os vestuários. Um deles não conheço e o outro está encoberto pelo cacique. Esperemos até que este saia de sua frente.

— Mas “capitão”, olhe aquele alazão no meio da cavalhada. Um animal daqueles é raro aqui nas savanas!

— Caramba! É a montaria do “tenente”!

— Também acho, e então aquele branco que está por trás do cacique não é outro senão o “tenente”.

— É ele mesmo. Agora deu um passo à frente. Que faremos?

— Sim, se eu ao menos soubesse o que o senhor pretendia dele, poderia, talvez, dar-lhe um conselho!

— Bem, agora chegou o momento de revelar-te o que me leva a segui-lo. É que nesta zona e não no Hide Spot, conforme consta entre os companheiros, ocultei a parte mais importante dos nossos tesouros. Tomei tal resolução porque há membros em nossa quadrilha, nos quais não posso confiar. O local exato, onde está enterrado o tesouro, ninguém mais sabe senão eu e o “tenente”. Este esperou o pai, e, em vez de marcar o encontro na nossa caverna, combinou realizá-lo aqui no rio Pecos; esta sua atitude confirma as desconfianças que de há muito venho tendo dele, e como, por ocasião de sua última cavalgada ao Llano Estacado, de lá se dirigiu diretamente para aqui, sem antes procurar falar comigo, mais se fortaleceu em mim a suspeita de que ele tinha em vista roubar-nos o tesouro. Aquele encontro com os índios se deu por mera casualidade. Agora resta-nos resolver se iremos diretamente ao acampamento dos comanchos infligir o castigo que merece o canalha traidor, ou se o seguiremos para apanhar ambos em flagrante, cometendo a traição.

— Eu opino pela última das atitudes. Se o procurarmos lá com os índios, não conseguiremos provar-lhe que estamos senhores do seu plano de traição. Ele rebaterá a nossa asserção, procurando provar, com lógica e argumentos, que aqui veio simplesmente para receber o pai. Depois disso, quem sabe se ainda lhe restará um caminho para atingir o seu fim? Somos dois como eles; mas não podemos garantir que os índios não encampem a sua causa. Com os peles-vermelhas nunca se pode contar!

Conchez esforçava-se por fazer prevalecer o seu ponto de vista; tinha, pelo que eu concluí, grande interesse em conhecer o ponto exato do esconderijo, onde se achava enterrado o tesouro.

— Afinal, sou obrigado a concordar contigo. Os racurrohs andam em expedição de guerra e não se demorarão aqui mais do que uns quinze minutos. Em seguida, Patrik seguirá para a zona do tesouro. Terá que andar um bom trecho até chegar à curva por onde se segue para o esconderijo; eu, porém, conheço um outro caminho, pelo qual lá chegaremos antes dele. Não conseguirá desenterrar coisa alguma se é que... o tesouro ainda está enterrado lá.

— Se o tesouro ainda está enterrado lá? Quem o poderá ter roubado se só os senhores dois conhecem o esconderijo.

— Hum! Sans-ear e “Mão de Ferro”, que nos pregaram aquela formidável peça!

— Aqueles? Mas como poderiam descobrir o segredo?

— De modo muito simples. Eu ia mandar Hoblyn seguir secretamente Patrik e cometi a imprudência de ministrar-lhe antes disso as necessárias instruções neste sentido. Pois Hoblyn desapareceu sem deixar vestígio e não me sai da idéia que ele tenha feito causa comum com os dois caçadores a fim destes lhe pouparem a vida.

— Hum! Neste caso, seria preferível que nós...

— Nós o quê? — atalhou o “capitão”, nervosamente.

— ... nos dirigíssemos diretamente aos comanchos.

— Para comunicar-lhes o nosso segredo, a fim de que nos roubem o tesouro?!

— Não! De resto, temos ainda tempo para combinar um plano decisivo, pois, ao que vejo, os peles-vermelhas vão fazer ainda uma refeição!

Se Conchez se levantasse para se dirigir aos cavalos teria dado com os olhos em mim; por este motivo recuei um trecho; se me houvesse demorado mais um segundo, não escaparia do alcance de suas vistas.

Voltei para junto dos companheiros e comuniquei-lhes o resultado da minha observação.

— Não falaram nada dos três “caçadores” que seguiram os comerciantes? — perguntou Sam. — Um deles deve ter acompanhado Patrik.

— Não falaram cousa alguma a esse respeito. É provável que Patrik o tenha assassinado, a fim de poder atuar com mais desembaraço. Mas agora que faremos daqueles dois bandidos que lá estão em companhia dos índios?

— Nada. Deixa-los-emos em paz, Carlos! Winnetou sacudiu a cabeça.

— Queiram meus irmãos de pele-branca ter em vista que só possuem um escalpo! Ou quem sabe têm algum sobressalente...?

— Mas quem nos tiraria o escalpo? — perguntou Sam.

— Os canalhas dos racurrohs.

— Jamais conseguirão. Não tardarão em partir, pois se acham em expedição de guerra.

— Meu irmão é um caçador valente e possui raros dotes de inteligência e sagacidade, mas não conhece o caminho que vão seguir os comanchos; esses homens de pele-vermelha se dirigem na presente expedição às montanhas, para a sepultura do seu finado cacique Tschu-ga-chat (*) conforme procedem todos os anos no dia em que

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(*) O “Fumaça Negra”.

 

transcorre um ano em que ele foi morto por Winnetou, o cacique dos apaches.

Finalmente, explicava-se a razão por que o apache seguia aquele bando de comanchos.

— Dará no mesmo, — redargüiu Sam. — Se eles se acham no caminho para tal fim, não se darão ao trabalho de perder tempo por nossa causa ou por causa dos bandidos.

— Eu também sou contra o derramamento inútil de sangue — ponderei.

— Meus irmãos de pele-branca façam lá o que melhor lhes aprouver — disse o apache. — Eles poupam um inimigo que é assassino e ladrão. E em recompensa desse ato de indulgência, irão eles próprios cair nas mãos dos bandidos. Howgh!

Causava-me pesar ter que contrariá-lo. Eu já vira há pouco jorrar o sangue de um semelhante; sinto-me revoltado com o uso de armas contra inimigos indefesos, embora se trate de bandoleiros; só justifico este ato num caso de legítima defesa.

Achava-me mergulhado nessas meditações, quando, do acampamento dos comanchos, partiu novamente um brado que denotava alguma ocorrência imprevista. Este brado foi respondido do rio e, dentro de poucos minutos, os guerreiros formaram um círculo em torno dos dois caciques e dos dois peles-brancas. Em seguida montaram todos a cavalo e partiram. Eu, que havia avançado, um trecho, voltei.

— Que houve? — perguntou Bernhard.

— Encontraram alguma cousa no rio; talvez o corpo de Holfert. Winnetou se pôs a escutar. Se se confirmasse a minha suposição, a nossa presença estaria denunciada.

— Acha o meu irmão que as águas conduzem um cadáver à tamanha distância?

— Em certos casos, sim. O rio nesta altura é fundo e tem muita correnteza.

Sem dizer mais palavras, o apache ergueu-se e desapareceu pela esquerda por entre as árvores. Encoberto pela mata, seguiu rio acima até que não o avistamos mais. Por certo que se dirigira para o rio, onde a nado foi procurar o que havia despertado a atenção dos comanchos.

Embora eu o conhecesse como um excelente nadador, considerava perigosa a tarefa de que se incumbira. Em primeiro lugar, era provável que o “capitão”, levado pela curiosidade, se dirigisse também para o mesmo local do rio, e em segundo, os comanchos poderiam facilmente deduzir que onde há um cadáver com um ferimento produzido por bala, por perto deve também estar a pessoa que ocasionou tal ferimento. Por isso, era de admitir que a sua retirada fora apenas simulada e que não demorariam a voltar a fim de reconhecer a zona.

Daí a um quarto de hora o “capitão” se dirigiu para o rio. Cumprira-se a minha previsão. Não podíamos retê-lo.

Cavalgaram até o acampamento dos comanchos e de lá para o rio. Winnetou com certeza se despira e depusera as armas, levando apenas a faca consigo. Competia-me correr em seu socorro, pois o meu amigo se achava na iminência de um grande perigo. Agarrei a espingarda.

— Não arredem o pé daqui!

Dizendo isso, saí do nosso esconderijo e corri para o rio, onde o Holfert tombara. Ainda não havia alcançado aquele ponto, quando o “capitão” postado à margem detonou a sua espingarda na direção das águas. Não atingira o alvo. Eu conhecia quanto Winnetou era exímio mergulhador. Aproximei-me um instante e logo vi o apache voltar à tona, nadar para a margem e se atracar em luta corporal com o tal “capitão”. Conchez ergueu então a carabina. Eu não tinha outro remédio senão alvejá-lo com a espingarda e isto de modo que apenas o ferisse, pois queríamos agarrá-lo com vida. Com a rapidez de um raio, Winnetou, tendo conseguido soltar um dos braços, segurou o cano da carabina de Conchez no momento que este ia bater o gatilho. O tiro deflagrou para o ar. Desvencilhou-se completamente do “capitão”, arrancou a carabina da mão de Conchez e teve tempo ainda de dar um pulo para o lado, pois o “capitão” neste meio tempo desferira-lhe um coronhaço, que foi bater no solo.

Dispunha-se a se atracar com os dois, quando por trás dele ecoou um berreiro dos demônios. Eram os comanchos que chegavam a galope. Eu tivera razão quando supus que a sua retirada fora apenas simulada. Haviam voltado e agora acudiam ao tiro do “capitão”.

Mas Winnetou percebera o tropel dos inimigos, tomou a espingarda do “capitão”, que por sorte era de um cano só, jogou o carabineiro n’água e atirou-se no rio; com verdadeiro salto de pantera enfurecida, nadou pelo seu curso acima. Daí a dez minutos o apache chegava ao local onde deixara a roupa e, embrenhando-se pelo mato, que o ia ocultando, chegou ao local do nosso esconderijo. Eu havia sido notado pelos inimigos e corri em direção dos companheiros.

— Ergam-se depressa! Temos que fugir!

— All devils! Para onde? — perguntou Sam. — Pois lá vêm os comanchos e no meio deles os dois peles-brancas!

— Isto é uma sorte. Eles passarão por nós e, quando chegarem lá em cima terão muito que fazer, entregando-se à tarefa de procurar as pegadas de Winnetou. Depressa para os cavalos! Assim que os comanchos tiverem passado, montem e galopem para a margem do rio, seguindo as pegadas dos comanchos para que eles depois não as distingam. Eu ficarei aqui para cobrir a retirada e esperar a volta do apache.

— Well, avante, pois! — exclamou Sam.

Os comanchos passaram. O mato erguia-se entre eles e o nosso esconderijo, de modo que não fui visto. Eu estava ocupado em apagar os vestígios de nossa parada naquele ponto, quando percebi um leve ruído no macegal contíguo. Winnetou dele saiu e se postou na minha frente.

— Uff! Os chacais dos comanchos procuram as pegadas do apache. Onde estão os companheiros do meu irmão pele-branca?

— Cavalgaram na frente.

— As idéias do meu irmão são sempre ótimas. Os seus companheiros não precisarão nos esperar muito tempo! Iremos já.

Vestiu-se apressadamente, pois ainda trazia o seu vestuário na mão, e saímos da tocaia. Um olhar lançado para a frente nos convenceu da ausência completa de comanchos.

— Que encontrou o meu irmão no rio?

O corpo do pele-branca. Winnetou por duas vezes procedeu hoje como um menino desajuizado. Mas ele de nada receia e os seus irmãos peles-brancas vão desculpá-lo!

Era uma confissão que o orgulhoso apache certamente não fazia a nenhum outro a não ser a mim. Nada pude lhe responder, pois o seu corcel voava como uma flecha dando trabalho ao meu poldro para acompanhá-lo.

Lá, onde o caminho conduz, à direita, para a montanha, as pegadas dos comanchos se desviaram e os nossos ali haviam parado. Sam apeara para enrolar os cascos dos cavalos com panos. Para este fim foi cortado um dos cobertores que tomáramos aos “bandidos do deserto”. Depois prosseguimos pelo desfiladeiro. Winnetou seguia atrás de nós a pé, a fim de apagar algumas pegadas que, apesar de enrolados os cascos, os animais ainda deixavam no solo.

Quando passamos pela primeira curvatura do desfiladeiro, fiz parar o cavalo.

— Que pretendes fazer, Carlos? — perguntou Sam.

— Fazer um alto a fim de observar a atitude que vão tomar os peles-vermelhas.

— Well, é boa a idéia! Deste modo saberemos se eles vêm em nosso encalço.

Os companheiros continuaram a cavalgar e eu me meti no mato. Não me achava muito tempo na tocaia, quando percebi tropel de cavalos. Os comanchos voltavam, mas não o bando todo, porém, metade. Onde ficara o resto? Os dois Morgans vinham junto e o “capitão” e Conchez não se achavam no grupo. Os nativos cavalgavam morosamente e de vistas voltadas para o chão. Lá onde apeáramos para envolver com pano os cascos dos animais, eles, pararam. O cacique que dirigia aquele bando apeou rapidamente e apanhou do chão um objeto, que não pude divisar o que era. O citado objeto foi exibido aos nativos e o solo mais detidamente examinado. Feito o que, combinaram qualquer coisa e o cacique e os dois peles-brancas se separaram do bando e penetraram a pé no desfiladeiro.

Examinando minuciosamente os mínimos detalhes do desfiladeiro, os homens se aproximavam; momentos perigosos para mim! Graças, porém, às precauções que tomáramos, eles não descobriram o menor vestígio de nossa presença.

Ao passarem por mim, vi o objeto que o cacique apanhara do chão. Eram alguns fios de lã que caíram ao solo ao cortarmos o cobertor com que enrolamos os cascos dos animais. Fora um descuido lamentável: a nossa vida estava agora presa por aqueles fios!...

Caminharam mais um pouco pelo interior do desfiladeiro e depois regressaram ao ponto de partida. Convenceram-se de que ninguém, nem a pé, nem a cavalo, havia andado pelo desfiladeiro. Julgando-se por isso bem seguros, descuraram do silêncio que se deve manter quando se faz qualquer reconhecimento.

— Por aqui não andou ninguém! — ouvi Morgan dizer. — Aquelas pegadas eram dos nossos próprios cavalos.

— Mas quem era aquele índio e os dois peles-brancas que não conseguimos mais encontrar? — perguntou-lhe o filho.

— Já havemos de saber. É possível que eles nos tenham escapado. O indígena estava nu, razão por que não pudemos ver a que tribo pertencia.

— Mas que excelente serviço nos prestou aquele índio, se é que o cadáver era o de Holfert, conforme afirmas.

— Era dele sim. Mas como passou o indígena pelo local onde estávamos parados, sem que o avistássemos? Ele já se acharia lá quando chegamos, ou veio depois disso?

— Eu penso que...

Mais não pude ouvir, pois já se haviam afastado muito. Pelo diálogo, porém, podia ter a certeza de que nos achávamos fora de perigo, pelo menos por enquanto. O “capitão” certamente achara de melhor aviso não se apresentar aos nativos. Assim procedeu, por certo, porque, só deste modo, poderia surpreender o “tenente” na prática da traição. Era óbvio que eu punha em dúvida a hipótese de conseguirem eles escapar à vista aguçada dos comanchos.

Neste momento os três batedores se juntaram de novo ao bando, que, a uma voz do cacique, fez meia volta e desapareceu por entre as árvores. Tendo conseguido o meu objetivo, apressei-me em alcançar os companheiros que já haviam avançado tanto, que só daí a meia hora os alcancei. Winnetou olhou-me interrogativamente e eu relatei-lhe tudo o que vira.

— Well! — exclamou Sam. — Conseguimos então pregar uma linda peça àqueles peles-vermelhas!

— Os filhos dos comanchos têm olhos e não vêm e os seus ouvidos estão entupidos de tal modo, que não percebem os passos dos inimigos. Queiram os meus irmãos peles-brancas tirar as “sapatilhas” dos cavalos!

Com satisfação cumprimos a determinação de Winnetou, pois com os cascos assim enrolados os pobres animais eram obrigados a fazer um grande esforço para atravessar o escabroso caminho.

Era uma cavalgada penosa a que estávamos realizando. O desfiladeiro estava serpenteado por blocos de rocha e por árvores que já haviam resistido aos temporais das duas idades... Quanto mais avançávamos, mais bravia se tornava a zona; e à noitinha, chegávamos ao sopé de uma montanha que, paralela com a Serra do Norte, se estende para o sul. Subimos a serra, e quando o sol entrou havíamos topado com um excelente local para pousarmos.

A noite decorreu debaixo de toda a calma e tranqüilidade. Uma pequena cavalgada que eu fizera de manhã bem cedo, de retorno ao nosso caminho, deu-me a certeza de não havermos sido perseguidos.

Continuamos na jornada. Pouco a pouco, iam cessando os matos, pois começava a escassez de aguadas. Havia pela região uma imensidade de riachos de leitos secos. Todos esses leitos estavam eivados de sulcos profundos, dando um testemunho vivo de quão violentas eram as águas que por eles haviam corrido.

Prosseguindo sempre para frente, rumo do oeste, depois de uma longa caminhada, vimos diante de nós a Serra Branca.

Ao sopé desta serra, encontramos novamente uma imensidade de correntes d’água, que afluíam para o rio Pecos. Mais adiante se achava o vale de um dos principais rios tributários do Pecos. Tinha a extensão de milha e meia e uma largura que só se poderia atravessar em meia hora de cavalgada. Ao derredor, erguiam-se montanhas cobertas por matos, e à beira do rio havia verdejantes pastagens. Infelizmente não nos era possível soltar os nossos cavalos ali, pois a nossa presença seria denunciada. Este vale não era outro senão o procurado por nós, isto é, o vale onde se achava guardado o tesouro dos “bandoleiros do deserto”.

— Mas este vale é de fato o que pretendemos alcançar? — perguntei a Hoblyn, pois seria possível que ele se houvesse enganado.

— Conheço-o muito bem, sir. Lá em baixo, onde se erguem aquelas frondosas árvores, acampei pela primeira vez em companhia do “capitão”.

Propus procurar um dos vales mais próximos, a fim de ali deixar as nossas montarias. Lá ficaria um do grupo montando-lhe guarda e deste modo poderíamos agir sossegadamente.

— A idéia não é má, não há dúvida; mas não pode acontecer que repentinamente tenhamos necessidade de nossas montarias? Não permito que minha “Tony” fique a uma distância muito grande!

— Well, então vamos procurar um ponto seguro aí nesse mato para os animais. Eu seguirei por este lado com Bob; Winnetou seguirá pelo outro. Quanto aos senhores, aqui ficarão até a nossa volta.

Apeei, tomei da minha espingarda e, juntamente com o negro, penetrei na mata. Este trecho era bastante íngreme na direção da montanha e o solo estava atulhado de árvores derribadas e blocos de rochas, que se desprendiam da montanha. Difícil seria trazer os cavalos para cá. Subitamente, Bob, que caminhava paralelamente e a alguma distância de mim, proferiu um alto brado.

— Mestre, mestre, vem cá ligêro!

Atendi imediatamente ao seu chamado e notei que ele lançava mão de um pedaço de pau, que se achava no solo e se preparava para desferir um golpe.

— Que houve, Bob?

Mestre, vem ligêro acudí nego Bob! Não, não vem é mió corre lá em baixo chama os ôtro mestre prá ajuda a mata a fera.

Não precisei perguntar-lhe a que fera se referia, pois vi sair do mato cerrado um urso cinzento, um daqueles ursos gigantes das montanhas Rochosas, que constituem o terror dos exploradores do oeste bravio.

Eu viera recentemente da África. Ouvira o leão soltar nas selvas bravias aquele urro a que os árabes chamam de rad, que significa trovão; ouvira o berro do tigre de Bengala, e o coração, embora as mãos não me tremessem por essas ocasiões, pulsava descompassadamente! Mas o bufido abafado dessa qualidade de ursos, o seu tamanho desproporcionado, as suas unhas agudas e suas presas terríveis, fazem, mesmo tratando-se do mais atilado caçador, correr-lhe um calefrio de morte por todo o corpo.

A oito passos, quando muito, na minha frente, o monstro se pôs em pé sobre as patas traseiras e abriu as garras e presas para mim. Um de nós era demais no mundo. A sorte havia de decidir se era ele ou eu! Apontei a arma para um dos seus olhos e bati o gatilho. Conservando, como sempre me acontece em situações dessas, a presença de espírito, detonei-lhe outro tiro. Abrindo o macegal, desviei-me para o lado e saquei da faca à espera do urso para apunhalá-lo. A fera, como se nem fosse atingida, correu em linha reta para o ponto onde me postara primeiro. Cravei-lhe a faca precisamente no momento em que erguia uma das patas dianteiras para me apanhar. Atingida pela minha faca, ficou parada por um instante e cambaleou; deu um bufido que se assemelhava mais a um uivo, e caiu pesadamente no chão, onde ficou estirada. Uma das balas atingira-lhe os miolos e a outra o coração. Uma pantera ou um jaguar com aqueles balaços teriam logo tombado.

— Oh, muito bem mestre, — exclamou Bob, aboletado no topo de uma árvore. — O urso tá bem morto, mestre?

— Está. Pode descer!

— Mas vê bem, mestre, se tá morto mêmo, sinão ele come Bob!

— Está bem morto. Pode vir!

Com a mesma agilidade que subira, o negro desceu da árvore. Mas quando se aproximou, hesitou em chegar-se à fera. Eu próprio cheguei-me ao monstro com toda a precaução e cravei-lhe novamente a faca no coração.

— Oh! este urso é mais grande que nego Bob! Mestre, dá pra se come a carne da fera?

— Sim. As patas e o lombo são até um petisco!

— Oh! mestre, dá também pro nego Bob um pedaço da pata e do lombo, Bob também gosta muito de petisco!

— Como os demais companheiros, receberás a tua parte também. Agora, fica aqui, que eu não me demorarei!

— Pra eu espera aqui? Mas mestre, si o animal torna a vive?

— Subirás de novo à árvore!

— Então é mió eu subi antes de mestre saí daqui.

Realmente, o negro subiu depressa a uma árvore, antes que eu me retirasse. E, no entanto, posso afirmar que o bom negro não era nenhum covarde. Num combate, numa guerrilha corpo a corpo, homem e homem, era destemido. Mas entre combate com homens e uma luta com uma fera monstro como aquela, vai uma grande diferença. Além disso, nunca havia encontrado um urso cinzento, e, por isso eu não devia estranhar aquele seu excesso de precaução. Dei primeiro uma batida pelas proximidades a ver se não havia por ali algum outro exemplar daquela fauna ou talvez uma família inteira dela. Mas felizmente nada encontrei. Havia apenas as pegadas da que eu abatera, e por isso eu podia estar descansado. Ao demais, eu e Bob não íamos ficar muito tempo a sós, pois os companheiros, tendo ouvido o deflagrar dos tiros, correram para o lado de onde haviam partido, ignorando a espécie de inimigo que eu tinha pela frente.

Foram unânimes em declarar ser o maior exemplar que até então haviam visto, e Winnetou baixou-se a fim de besuntar a sua “bolsa de medicina” no sangue da fera.

— Meu irmão pele-branca atirou com maestria e manejou a faca com destreza. A alma da fera deve estar a esta hora grata ao senhor, pois não lhe proporcionou agonia longa, antes a fez desprender-se quase que repentinamente do corpo. Ela agora está nas “Eternas Campinas” ao lado dos seus antepassados!

É crença entre os indígenas que todo o urso cinzento tem a alma de um célebre guerreiro ou caçador, que na terra foi obrigada a ficar a fim de purgar algumas de suas faltas terrenas. Ele auxiliou-me a esfolar o urso e cortar-lhe os pedaços mais apetitosos da carne. O resto cobrimos com musgos e folhas secas para evitar algum bando de urubus, que facilmente orientariam algum provável inimigo que andasse perto de nós, no vale.

O apache encontrara um local apropriado para ocultarmos os nossos animais, local que eu fui examinar. Como ainda era dia claro, arriscamo-nos a acender uma fogueira para assar as saborosas patas do urso. A nossa refeição constituiu nesse dia um verdadeiro banquete de gente rica...

Quando escureceu e já estando os cavalos acomodados, enrolamo-nos em nossos cobertores, a fim de dormir. A guarda já fora distribuída. À noite e à manhã seguinte se passaram sem novidade.

Havíamos guarnecido a entrada do vale. Chegou a vez de Sam entrar de sentinela. Pouco depois de ter rendido o seu antecessor, voltou.

— Eles aí vêm! — avisou.

— Quem? — perguntei.

— Ah! Isto não posso afirmar com precisão, pois estão ainda muito longe e não posso distingui-los.

— Quantos são?

— Dois a cavalo.

— Deixa ver!

Corri para a entrada do vale e reconheci, através das lentes do meu binóculo, que se tratava dos dois Morgans, os quais teriam que andar ainda uns quinze minutos para chegarem ao vale. Felizmente todos os vestígios de nossa presença haviam sido desfeitos, e como possuíamos superioridade numérica sobre eles, poderíamos esperá-los com toda a calma.

Ia retirar-me na companhia de Sam, quando ouvi um estalido dentro do macegal. Seria outro urso cinzento? Pusemos-nos a escutar e concluímos tratar-se de duas criaturas que desciam a montanha.

— Com os diabos, Carlos! Que será?

— Tratemos de averiguar. Penetremos depressa no macegal! Escondemo-nos de tal modo que, embora as macegas nos tapassem completamente, estávamos prontos para nos defender com as armas nas mãos, se a isso fôssemos levados. Talvez fossem duas feras. Alguns minutos mais tarde, porém, vimos que não se tratava de feras nem de caça, mas de dois homens que puxavam os cavalos pelas rédeas. E esses homens não eram outros senão o “capitão” e Conchez. Os seus animais mostravam-se esfalfadíssimos e também os cavaleiros davam mostras de haver feito uma viagem bastante penosa.

Bem perto de nosso esconderijo fizeram alto; dali eles podiam descortinar o vale ao longe.

— Finalmente! — exclamou o “capitão” com um suspiro de alívio. — Foi uma cavalgada como igual tão cedo não pretendo empreender! Mas ainda chegamos a tempo. Ninguém esteve ainda aqui.

— Baseado em que faz o senhor essa afirmação? — perguntou Conchez.

— O esconderijo onde está enterrado o tesouro acha-se intacto; vejo-o daqui. Portanto os Morgans ainda não chegaram e quem mais se aventuraria a se atirar para paragens tão longínquas?!

— Talvez o senhor tenha razão. Quer dizer que nem pensa em Sans-ear e “Mão de Ferro”?

— Não. Só se eles seguiram os Morgans, mas neste caso topariam com os comanchos que lhes embargariam a viagem.

— Mas quem era aquele índio nu que encontramos no rio Pecos e de quem era aquele cadáver de pele-branca que boiava no rio?

— É um assunto que pouco nos interessa. Ninguém nos poderá fazer nada, pois temos os comanchos a nosso favor contra qualquer um que nos tenha seguido.

— Mas tem absoluta certeza de que os índios vêm vindo aí?

— Tão certo como estar aqui a seu lado. Se o índio era algum dos seus inimigos — o que não creio, visto que um apache não teria o arrojo de se tocar para lá — eles o mataram e depois nos seguiram. Com a pressa que trazíamos, deixamos-lhes pegadas mais nítidas que um rebanho de búfalos deixaria no solo.

— E se eles nos encontrarem aqui?

— Não faz mal, são nossos amigos. Poderão quando muito se admirar de não nos termos dado a conhecer, pelo que lhes exporei, a seu tempo, as razões que nos induziram a proceder assim. Contar-lhes-ei o que desconfio do “tenente”... Caramba! Dou o meu pescoço a cortar se não é ele que lá vem!

— É ele mesmo!

— Vai às mil maravilhas! Vou mostrar-lhe o que significa iludir o seu “capitão” e camaradas de quadrilha.

— Eles vêm só, o que prova que os comanchos estão em caminho. Mas, diga-me, “capitão”, pretende desenterrar hoje o tesouro na... minha presença?

— Sim.

— E a quem pertencerá depois?

— A nós.

— A nós?! Explique-se melhor, “capitão”. Este nós pode significar toda a quadrilha e também nós dois tão-somente.

— Qual dos casos preferiria?

— Isto é mais fácil de pensar do que de dizer, “capitão”. Em vista da situação reinante na caverna de nossa quadrilha, seria conveniente que não voltássemos mais lá. Depois de tanto tempo de luta e trabalho estafante, a gente também faz jus ao descanso e comodidade; creio que nesse esconderijo o senhor tenha o suficiente para levar daqui por diante vida folgada, sobrando ainda alguma coisa para mim, que também sou filho de Deus!

— Fala como um iluminado! Não posso deixar de lhe dar razão. Mas antes de mais nada, precisamos pôr as mãos em cima daqueles dois canalhas. Vamos, subamos mais um trecho! Há lá um ponto como melhor não poderíamos desejar e fica bem pertinho do tesouro.

Ocorreu-me uma idéia. O “capitão” não se teria referido ao local que escolhêramos para acampamento? Eles tomaram aquela direção puxando os cavalos e nós os seguimos.

Iam tão despreocupados e certos de não estarem sendo vigiados, que nem deram pelos sinais que eu me esquecera de apagar na orla da mata. Os meus companheiros desconfiaram logo que algo de anormal havia e se ergueram. Ainda hoje não me posso esquecer da cara desenxabida que os dois patifes fizeram ao deparar no acampamento com o índio que viram no rio Pecos. Quase soltei uma gargalhada.

— Hoblyn! — exclamou Conchez, reconhecendo o seu companheiro de banditismo.

— Hoblyn? — perguntou o “capitão”. — Realmente! Como vieste parar aqui em Serra Branca e quem são estes teus companheiros?

Eu, que me achava por trás do grupo, aproximei-me dele, bati-lhe no ombro e lhe disse:

— Tudo é gente conhecida, “capitão”! Aproxime-se, sem-cerimônia, sente-se e ponha-se à vontade!

— Quem é o senhor? — perguntou-me.

— Primeiro vou-lhe apresentar esses cavalheiros. A mim deixarei por último. Este pele-preta chama-se Bob e foi um dos melhores amigos de um tal Marshall, a quem o senhor também deve ter conhecido. Este senhor é um filho de Marshall, de Louisville, do qual lhe falei há pouco e que pretende dizer algumas palavras em segredo a mister Morgan e seu filho, que projetam roubar-lhe hoje os ovos do ninho... Este cavalheiro bronzeado é Winnetou. Creio que já ouviu falar nele, dispensando-me de mais detalhadas declarações. Aquele outro cavalheiro chamam Sans-ear e, finalmente, a mim costumam chamar-me de “Mão de Ferro”.

O homem ficou perplexo que nem atinou em pronunciar uma só palavra; apenas conseguiu gaguejar:

— Será... possível?

— Como não, sir? Sente-se e ponha-se tão à vontade como eu quando o observei em sua caverna, nas proximidades do Llano Estacado. Estive naquela ocasião comodamente deitado por trás do senhor e levei ainda as suas duas pistolas como recordação. Anteontem ainda estive perto do senhor, no momento em que desabafava as suas mágoas com este seu companheiro de “trabalho”. Bob, guarde as armas desses dois cavalheiros e amarrem-nos um pouquinho, para que fiquem mais a gosto.

— Senhor! — urrou o “capitão”.

— Não se altere! Falamos com os senhores no tom em que se deve falar a bandidos. Não tente qualquer resistência porque será esforço baldado. Antes que os dois Morgans alcancem o vale os senhores estarão amarrados, amordaçados ou... mortos se ousarem reagir.

Tudo ocorreu tão repentinamente que eles nem tempo tiveram para pensar em reação.

— Diga-me, “capitão”, onde fica o esconderijo que os Morgans pretendem esvasiar sorrateiramente? — perguntei-lhe.

— O tesouro não pertence ao senhor!

— Como queira; mas talvez ainda venha parar em nossas mãos. Não pretendo forçá-lo a confessar o seu segredo, mas espero que a uma outra pergunta que eu lhe fizer não se negará a responder. Que é feito daqueles célebres “caçadores” que atravessaram o Estacado com o “tenente” e que fim levaram os três comerciantes que os acompanharam?

— Os comerciantes... hum! não sei, pois...

— Well, compreendo. E os “caçadores”?

— Dois deles devem ter voltado para a nossa caverna, e o terceiro foi assassinado em caminho pelo “tenente”. Encontramos o seu corpo.

— Logo pensei! Agora ponham, sem-cerimônia, essa mordaça à boca. Assim procedemos para que não dêm sinais de nossa presença àqueles patifes que vêm vindo lá adiante.

Logo que terminamos a nossa tarefa de amarrar e amordaçar os dois bandoleiros, os Morgans surgiram na entrada do vale. Ficaram parados por um instante e percorreram as imediações com o olhar. Em seguida, Patrik, esporeando o animal, chegou a trote, seguido do pai. Pareciam não tencionar demorar muito no vale. A uns vinte passos do nosso acampamento erguiam-se umas touceiras de amoreira silvestre. Para lá se tocaram os dois bandidos.

— É aqui, papai!

— Mas que lugar esplêndido! Quem diria que um formidável tesouro está aí oculto?!

— Sim, mãos à obra! Não sabemos quem eram aqueles dois peles-brancas que apareceram lá no rio a lutar com o “capitão” e nem sabemos também se os comanchos conseguiram prendê-los.

Apearam e amarraram os cavalos à margem do regato. Os animais saciaram a sede e depois começaram a pastar. Enquanto eles pastavam, os dois ladrões, depondo as armas, deram início à obra, começando por arrançar, munidos de facas, a touceira de amoreiras. Depois cavaram a terra que se achava solta.

— Ei-lo aqui! — disse Patrik, depois de admirar por alguns minutos um pacote feito de pele de búfalo.

— É só isso?

— É; e é mais que suficiente. São papéis-moeda, cheques bancários e outros títulos de alto valor. Agora fechemos o buraco e batamos o pó dos sapatos, enquanto é tempo.

— Ainda é cedo! Fiquem mais um pouco a nos alegrar com a sua amável visita!

Estas palavras foram pronunciadas por Sam, ao mesmo tempo que eu, num pulo, me cheguei aos bandidos de espingarda apontada.

Sam se achava diante dos.dois homens qual tigre enfurecido, pronto para se atirar à presa. No primeiro momento, os bandoleiros ficaram estupefatos, mas refizeram-se logo do susto e tentaram apanhar as armas. Apontei-lhe o revólver, dizendo:

— Não arredem um pé! Qualquer movimento para fugir ou pegar em armas custa-lhes a vida.

— Quem são os senhores? — perguntou o velho Morgan.

— Pergunte ao seu filho, que agora se deu ao esporte de chamar-se Meercroft!

— Quem lhes dá o direito de nos assaltar?

— Nós mesmos, da mesma forma que os senhores se arrogaram o direito de assaltar e roubar homens de bem como o senhor Marshall, de Louisville, de assaltar os trens com o fim de matar e roubar os passageiros e funcionários, de assaltar a granja de Sam Hawerfield, matando-lhe a esposa e o filho! Façam-nos a fineza de se deitarem ao solo!

— Era só o que faltava!

— Hão de fazer imediatamente, bastando para isso declinar-lhes os nossos nomes. Aqui está Winnetou, o cacique dos apaches; este é Sans-ear, que outrora se chamava Sam Hawerfield; quem eu sou, o seu filho já lhe deve ter dito. Portanto, vou contar até três, e se então não se deitarem, os eliminaremos a tiros, como se fossem dois míseros coiotes. Um... dois...

Com os punhos cerrados e rangendo os dentes os bandoleiros obedeceram a ordem.

— Bob, amarre esses canalhas!

— Bob vai amarra bandido bem amarrado, mestre! declarou o preto e cumpriu com a palavra, pois amarrou-os de tal modo que eles, amordaçados, rolavam de dor pelo chão.

Bernhard até agora montara guarda ao prisioneiro. Quando Sam o rendeu, ele se aproximou do assassino do seu pai. Quando Fred Morgan o viu, arregalou os olhos como se tivesse um fantasma diante de si.

— Marshall!

Este lançou-lhe um rápido olhar e não disse uma só palavra. Mas o olhar dizia mais do que palavras. O pobre rapaz estava tomado da idéia firme de vingar a morte do pai!

— Bob, traga os outros dois prisioneiros. Vamos realizar um júri rápido para julgar esses homens. Não temos muito tempo a perder com bandidaços.

O negro trouxe o “capitão” e Conchez. Também Hoblyn veio acompanhando-os. Até aqui ele havia mantido melhor conduta do que era de se esperar dum bandido.

— Quem usará da palavra? — perguntou Bernhard.

— Carlos, assume tu a presidência do júri! — apelou Sam.

— Não. Todos nós tomamos parte no processo. O único neutro é Winnetou. Além disso, ele é o cacique das campinas e ninguém está tanto à altura do cargo quanto ele.

Todos concordaram com a minha proposta. O cacique meneou a cabeça acedendo.

— O cacique dos apaches está ouvindo a voz do Espírito das Savanas; ele será um juiz às direitas no julgamento desses peles-brancas. Queiram os meus irmãos depor as armas, pois só homens pacíficos podem atuar como juizes.

Obedecemo-lo.

— Como se chama este pele-branca?

— Hoblyn — respondeu Sam.

— Qual o crime de que é acusado?

— Trata-se de um bandoleiro do deserto.

— Os meus irmãos viram-no matar um seu semelhante?

— Não.

— Ele confessou espontaneamente que era um assassino?

— Não.

— Ao lado de quem esteve ele ultimamente? Dos bandoleiros do deserto ou dos meus irmãos?

— Do nosso.

— Então queiram os meus irmãos julgá-lo com o coração e não com a espingarda! Winnetou deseja que este homem seja posto em liberdade, com a condição de regenerar-se, deixando completamente a vida de bandido. É uma criança ainda; só Manitu sabe que circunstâncias superiores, de que ele nem é talvez culpado, o arrastaram para o meio daqueles bandidos!

Todos concordaram com o ponto de vista do apache; a sua sentença me tocou de tal modo o coração, pois eu tinha a mesma opinião a respeito de Hoblyn de quem passara a ter pena, que agarrei a espingarda e a faca que pertenceram ao velho Morgan e as dei a Hoblyn. Deste modo ele passara de prisioneiro a homem livre e, absolvido da culpa, começou a ser tratado por nós como igual.

— Agarre essas armas! É de novo um homem livre e pode andar armado! — disse-lhe.

— Obri.. .ga.. .do... meu bom sir — gaguejou o rapaz banhado em pranto. — Winnetou... tem... razão! Vou provar-lhes... como — não se enganaram... comigo. Nunca cheguei a... matar ninguém e nem... roubar. Estava há poucos... dias na caverna. O “capitão” me encontrou na... cidade e me levou dizendo que era para me ensinar a arte de caçador. Escolheu-me para matar o “tenente” porque não tinha confiança em mais ninguém do bando. Eu não ia matar o “tenente”, mas fugir. Por duas vezes eu quis voltar para casa e o “capitão” me ameaçou de morte se eu o fizesse.

— Está bem, meu rapaz! — disse Winnetou, fazendo um esforço supremo para conter a sua comoção. — Meus senhores, continuemos o interrogatório: quem é este outro pele-branca?

— O chefe da quadrilha dos bandoleiros do deserto.

— Isto basta. Condenemo-lo à morte! Ou os meus irmãos são de outro parecer?

Ninguém o contrariou, passando a sentença em julgado.

— E aquele ali?

— Conchez.

— É um nome que só usam os homens falsos do sul. Qual a sua profissão?

— Bandoleiro do deserto.

— Que queria ele aqui? Roubar os seus próprios irmãos de banditismo. Também morrerá.

Como anteriormente, todos concordaram com a sentença. Winnetou continuou:

— Mas não serão mortos pelas mãos de um homem de bem! Como se chama este último?

— Patrik.

 —Tirem-lhe as cordas. Ele lançará estes bandidos, amarrados como estão para não poderem nadar, dentro do rio. Nenhuma arma tocará o corpo desses criminosos perversos. Não são dignos disso!

Bob tirou as cordas de Patrik. E enquanto o vigiávamos com os canos de nossas espingardas, o bandido executou a ordem de Winnetou com uma solicitude e sangue frio tais, que só de um bandido era de se esperar. Patrik estava perdido, e visível era a sua satisfação em poder, antes de ser executado, servir de carrasco aos seus antigos companheiros de caverna. Estes se achavam tão fortemente amarrados que não lhes era possível tentar a menor resistência. Tive que desviar deles os meus olhos. Não me era possível assistir a uma execução que, embora dez vezes merecida era crudelíssima.

Dentro de dois minutos tudo estava consumado. Patrik deixou-se amarrar novamente.

— E quem são estes dois peles-brancas? — perguntou Winnetou.

— São pai e filho.

— De que delito os acusam os meus irmãos?

— Acuso-os de haverem assassinado a minha mulher e o meu filho! — respondeu Sam.

— E eu os acuso de haverem morto meu pai e roubado todos os valores que existiam na sua loja e oficina de joalheria! — acrescentou Bernhard.

— Eu denuncio o pai como cabeça do assalto e saque de um trem. e assassinato de um funcionário ferroviário. Acuso o filho de haver tentado contra minha vida e a dos meus companheiros. É o bastante, nem precisamos levar em conta outros crimes hediondos praticados anteriormente pelos acusados.

—- Meu irmão disse bem: é o bastante e eles terão que morrer. O pele-preta queira executá-los!

— Pare — exclamou Sam. — Não devo abrir mão dos meus direitos. O crime praticado por eles ajudando a matar minha mulher e meu filhinho é o mais antigo; venho-os seguindo já há anos e anos e eles agora me pertencem; a mim pertencem as suas vidas e os entalhes que se referem a esses facínoras terão que ser feitos na minha espingarda! Feito isso, Sans-ear estará satisfeito e então estará pronto para dormir com a sua “Tony” o sono da morte nos precipícios das montanhas ou lá fora na campina, onde os esqueletos de milhares de caçadores se acham expostos ao sol!

— A exigência do meu irmão pele-branca é razoável. Queira ele tomar os assassinos das mãos dos demais.

— Sam, — sussurei-lhe ao ouvido, não manches as tuas mãos com o sangue desses vis criminosos, matando-os amarrados e indefesos como estão. Confia essa tarefa ao negro! Uma vingança dessas deslustra os sentimentos de cristão e constitui um pecado!

O rude caçador olhou-me absorto e emudeceu. A fim de dar-lhe tempo para refletir, encaminhei-me junto com Bernhard para o cavalo de Fred Morgan. Encontramos na maleta do serigote algumas pérolas que Bernhard reconheceu serem de sua propriedade. Nada mais havia ali. Examinamos depois os seus bolsos, onde encontramos finalmente, costurado ao forro de uma camisa de pele de búfalo, um invólucro feito com couro de cervo. O referido pacote continha regular importância em dinheiro corrente. Indubitavelmente era a parte de Holfert roubada por Morgan na vésperas. Bernhard tomou posse do invólucro.

 

ENTRE OS COMANCHOS

Naquele instante ouvi partido do local onde se achavam os nossos cavalos, um angustioso relincho. Pareceu-me que era do meu poldro. Toquei-me imediatamente para lá e vi que o meu animal, com a cauda no ar, as crinas eriçadas e o olhar faiscante, fazia um esforço inaudito para arrebentar a corda que o prendia. Ou havia algum animal feroz ali por perto ou de nós se aproximava algum bando de indígenas. Proferi um brado de advertência que não pôde ser ouvido, pois no mesmo instante ressoou um ensurdecedor berreiro como se mil diabos estivessem a gritar em desafio.

Precipitei-me para o local, onde antes deixara os companheiros, e olhei através das ramagens. O que minhas vistas descortinaram era horrível. Uma onda de indígenas escurecia o local. Três ou quatro ajoelhavam-se sobre Sam, que tinha sido arrojado ao solo; dois ao mesmo tempo se haviam lançado contra Winnetou a quem no momento derrubavam no chão. Hoblyn, com o crânio arrebentado, jazia sobre uma poça de sangue e Bernhard nem se reconhecia no meio de tantos nativos que se achavam atracados com ele. Não pude ver onde estava Bob.

Portanto, os racurrohs haviam de fato seguido o “capitão”, e durante o júri se aproximaram imperceptivelmente do nosso acampamento e assaltaram tão inesperadamente os meus companheiros, que pensar numa reação seria verdadeira loucura. Que podia eu fazer por eles? Nada; a única cousa que me restava era pôr-me a salvo. Fácil me seria, é verdade, eliminar uma dúzia de selvagens, mas que adiantaria? A não ser Hoblyn, nenhum dos outros haviam ainda tombado sem vida.

Eu conhecia os hábitos e costumes dos comanchos: eles prenderiam os meus companheiros com vida a fim de conduzi-los para a sua aldeia e lá executá-los com todas as formalidades, no poste dos martírios. Voltei, pois, para junto de meu cavalo, desamarrei-o e, puxando-o pelas rédeas, subi a montanha com a rapidez que me era possível. Os índios viram-me entrar no mato e não tardariam a procurar-me.

A sensível elevação da montanha dificultava-me sobremodo a subida, levando o cavalo pela rédea. Quando, porém, atingi a crista de serra, cessou a mata que me embaraçava também. Montei e cavalguei pelo dorso da serra com uma velocidade como se todo o bando de indígenas estivesse a me perseguir. Mais adiante a serra descia para outro vale. Não tive a menor preocupação em desfazer as pegadas que deixava por trás de mim na louca disparada que levava. Eu sabia que os nativos as encontrariam facilmente e haviam de segui-las, e por isso eu queria confundi-los com uma cavalgada a esmo.

Deste modo cavalguei ininterruptamente durante uma grande parte do dia, seguindo sempre o rumo do oeste, até chegar a uma vertente d’água, que de muito serviria para o objetivo que eu tinha em vista. Puxei o meu cavalo para o regato, que corria sobre um leito rochoso em que não se podem deixar pegadas e, depois, cavalguei leito acima até uma distância que julguei cansar o inimigo de tanto me procurar, pelos vestígios. Em seguida, envolvi os cascos do animal com pano e voltei para o ponto de partida da minha fuga.

O sol, já muito baixo, não tardaria a desaparecer, quando atingi a serra, em cujo sopé se achava o vale tremendo. Para diante eu não podia continuar; procurei um solo musgoso para nele acampar. Meu cavalo, tendo andado com as patas envoltas em pano, se achava tão fatigado que nem teve disposição para pastar e deitou-se ao meu lado.

Quão depressa mudara a situação! Mas eu não estava inclinado a me entregar a meditações de ordem sentimental; no caso presente só ações é que nos podiam valer, e para eu agir com êxito precisava da calma indispensável em circunstâncias dessas. Fiz a minha oração e adormeci para acordar-me quando o sol já brilhava alto no firmamento. Era raro eu dormir tanto.

Procurei, em primeiro lugar, uma zona oculta onde houvesse pastagens para o animal. Depois de amarrá-lo ali, dirigi-me para o local da catástrofe de ontem. Era uma tarefa bastante perigosa, mas era preciso empreendê-la em benefício dos meus companheiros.

Quando já havia quase atingido a base da serra, ouvi um sinal por trás de mim:

— Psit!

Olhei para trás, mas nada pude distinguir.

— Psit! Tornei a olhar.

— Psit, mestre!

Ah! Lá em cima havia um pau ôco de onde surgia a cabeça de Bob, que me olhava risonho, pondo à mostra a sua alva dentuça.

— Espera mestre, Bob já vai!

Daí a minutos, o negro se aproximou de mim e disse:

— Mestre, convido o sinhô pra descansa um pôco naquela minha sala de visita. Nenhum índio ha de encontra o inteligente nego Bob e seu bom mestre Carlo!

Embrenhei-me mais na mata e, minutos depois, me achava ao pé da árvore ôca cuja abertura era encoberta por barbas de pau.

— Que sorte! Como foste encontrar este esplêndido esconderijo? — perguntei-lhe.

— Um bicho disparo de Bob, entrou nesta grande casa e dispois olho pela janela. Matutei: bicho não é mió do que eu e Bob enxoto bicho e se aboleto na sua casa tal como faizem os branco enxotando índio de suas terra!

— Que espécie de bicho era, Bob?

— Bob não conhece. Tinha quatro perna dois óio e um rabo. Calculei tratar-se de um desses ursos não ferozes, que habitam essas paragens.

— Quando descobriste esta árvore?

— Logo que os índio chegáro.

— Com que então, desde ontem estás metido no ôco desta grossa árvore?! Que viste e ouviste durante todo esse tempo?

— Bob viu e ouviu muntos índio.

— E que mais?

— Nada.

— E os índios não estiveram aqui?

— Estivéro aqui e procuraro Bob. Dispois fizero fogo e assaro o lombo do urso que nóis, não, o mestre mato. Fiquei com raiva porque eles comem o nosso urso!

A indignação do negro era bem justificável, não há dúvida, mas não havia possibilidade de mudar a situação!

— E que mais?

— Quando foi de manhã os índios todo se retiraro.

— Para onde?

— Bob não sabe porque não pôde í junto, mas muntos índio saíra do vale. Da pequena janela lá de cima Bob pôde vê tudo. Junto cos índios satro também mestre Bern mestre Winnetou e mestre Sam, todos tinham muntas cordas no corpu.

— E que mais? E depois?

— Dispois? índio andou caminhando gatinha aqui ocalá a procura Bob, mas Bob é nego inteligente!

— Quantos índios ficaram ainda aqui?

— Bob não sabe; mais sabe o lugâ onde eles tão.

— Onde?

— Lá no urso morto. Bob pode enxerga eles pela janela.

Olhei para cima. A árvore era accessível, pois Bob lá estivera oculto. Tentei subi-la e consegui. Penetrei no ôco e pelo orifício a que Bob dava o nome de “janela” podia relancear os olhos em torno de todo o vale. Realmente, no local onde deixáramos o urso, divisei a figura de um índio acocorado. O bando se retirara e deixara secretamente no vale uma guarnição para nos prender quando voltássemos, hipótese que era fácil de admitir.

Que atitude devia eu tomar? Desci da árvore.

— Lá junto do urso só está um índio, Bob — disse-lhe eu.

— Nalgum outro logá deve está mais dois.

— Espera-me aqui, de onde não deves arredar o pé!

— Mestre quê procura outros índio? Não é mió mestre ficá aqui com Bob.

— Vou salvar os companheiros!

— Sarvá mestre Bern. Oh! mestre Carlo, isto é bom e munto bonito, Bob cada vez tá gostando mais do mestre Carlo. Bob vai também junto pra sarvá mestre Bern, mestre Sam e mestre Winnetou.

— Não, Bob. O melhor serviço que nos podes prestar de momento é ficares muito quietinho aqui mesmo para que os índios não te surpreendam.

Abandonei a árvore. Alegrava-me imensamente por saber que ao menos um dos meus amigos estava salvo, embora este fosse o negro! Jamais cogitei de cores ou raças quando se achava em jogo a vida de um homem! Fora inteligente a idéia dos índios postando guardas em torno do urso.

A sua carne poderia nos servir de ponto de atração, o que facilitaria o nosso aprisionamento.

Uma hora depois me achava distante uns cinco passos do índio que guardava o urso. O indígena estava sentado imóvel como uma estátua, apenas movendo a mão direita com a qual brincava com um apito feito de bambu, que lhe pendia do pescoço. Eu sabia que com esse apito o nativo podia assobiar; quem sabe se um assobio com aquele instrumento seria algum sinal convencionado entre os guerreiros que guarneciam o vale?

O nativo era ainda jovem: podia ter, quando muito, uns dezoito anos de idade. Talvez fosse a primeira expedição de guerra em que tomava parte. O asseio de suas vestes e o bem cuidado de suas armas me faziam supor que se tratava do filho de algum cacique. Devia matá-lo? Possuía o direito de destruir aquela vida jovem e esperançosa? Não!

Aproximei-me, peguei-lhe pela garganta e desferi-lhe um dos meus socos na região temporal, deixando-o sem sentidos. Amarrei-o e coloquei-lhe uma mordaça. Feito o que, prendi-o ao tronco de uma árvore, cercada de arbustos, de forma que ele não podia ser visto. Tomei-lhe o apito feito com bambu e com ele dei um assovio. Imediatamente ouvi um ruído na mata, ao lado, donde saiu correndo um índio já idoso. Um coronhaço de minha espingarda fê-lo cair ao chão. Não pretendia matá-lo, mas apenas tirar-lhe os sentidos. Devia haver mais de três ou quatro índios no vale. Apitar, chamando toda essa gente e matá-la um a um, seria uma inominável crueldade contra a qual reagia a minha alma de cristão. Antes de tudo, precisava averiguar o lugar onde os ocupantes do vale haviam guardado os animais de montaria. Era um empreendimento arriscado. Imitei o curto relincho de um cavalo e no mesmo instante, do local de onde saíra o índio, vários animais me responderam.

Agora precisava confiar na minha sorte; amarrei o velho com sua cinta e outras cordas que trazia consigo, peguei o jovem aos ombros e saí, protegido pelas árvores e pela curva do vale, onde se achavam os cavalos dos indígenas. Lá se achavam seis cavalos; uma prova de que devia haver mais nativos pelas redondezas. Estes indubitavelmente deveriam se achar lá na frente, na entrada do vale. Desse modo, pois, me sobrava muito tempo a fim de preparar-me para o que desse e viesse.

Voltei para a “sala de visitas” de Bob. Este havia galgado a árvore c se refugiara novamente no ôco. Olhava pela “janela”; quando me viu de longe, desceu logo e pôs-se a me olhar através das ramagens da mata.

— Oh mestre pego índio, mato índio?

— Não. Quero conservá-lo simplesmente como prisioneiro. Queres ajudar-me a salvar Bernhard?

— Oh, Bob seria feliz si pudesse sarvá mestre. Que devo fazê pra isso?

— Toma este índio e o conduz serra abaixo até a entrada do vale. Chegando lá, coloca-o no chão e espera por mim.

— Bob vai fazê como manda mestre Carlo.

— Mas não mexas nas cordas. Se ele consegue livrar-se, tu estarás perdido.

— Bob não deixa índio escapa.

— Então, anda!

O possante negro pôs o indígena às costas e com ele desceu a serra. Voltei para os cavalos dos comanchos. Era tarefa penosa conduzir os animais serra abaixo, devido ao terreno acidentadíssimo. Mas sozinho, seria mais fácil desobrigar-me da empresa, do que apelando para o auxílio de Bob. Os cavalos dos indígenas têm verdadeiro horror de negros; deixam-se montar por eles, é verdade, mas logo depois empacam, não havendo nada que os faça sair do lugar.

O que eu há pouco supusera, confirmara-se: os nossos haveres, inclusive os que trouxéramos da caverna do Llano Estacado, estavam perdidos. O ouro é um pó mortífero: de cem, que para a sua conquista lutam nas jazidas e nas campinas, noventa encontram morte certa. O brilho e o som do cobiçado metal despertam demônios sinistros e só ao poder destes é que ele se curva.

Tomei das cordas que ali havia em grande quantidade e amarrei uns aos outros pela cauda, de modo que os animais marchassem em linha. Peguei o da frente pelas rédeas e puxei a cavalhada serra abaixo. Passei um trabalhão enorme para trazer os animais. Os quatro índios restantes deveriam achar-se a uma grande distância para não perceber o tropel e os bufidos da cavalhada semi-selvagem. Contudo, eu atingira com felicidade a entrada do vale e os índios se achavam agora a pé, não lhes sendo possível, deste modo, alcançar o grosso do bando em busca de reforço. Ao mesmo tempo falhara-lhes o objetivo principal, que era prender a mim e ao negro Bob.

O negro se achava debaixo de uma árvore na entrada do vale e guardava o prisioneiro. A sós com o prisioneiro, êle devia ter passado um mau quarto de hora, receando que a cada momento surgisse do mato algum pele-vermelha para tirar-lhe a presa e matá-lo. A sua fisionomia, pois, iluminou-se de satisfação quando me viu. Respirou profundamente aliviado.

— Oh! Que bom que chego mestre Carlo; índio fazia olhares de tinhoso, uivô ronco como um bicho. Bob deu um bofetão no fucinho do vermeio que ele teve que cala a boca!

— Não deves bater no prisioneiro, Bob! Isto não é próprio de cavalheiro e além disso constitui um insulto do qual os índios só se desagravam matando o ofensor. Se ele for solto e te encontrar um dia, tu estarás perdido!

— Nego Bob perdido? Oh, oh! mestre! Então vô mata logo índio duma vêis pra que não fuja.

Realmente ele puxou de seu enorme canivete de campanha e colocou a ponta no peito do indígena.

— Que é isso, Bob? Não admito que o mates! Deixando-o viver, teremos muito mais vantagens. Ajuda-me a amarrá-lo no cavalo.

Desamordacei o índio.

— Meu irmão pele-vermelha queira respirar, mas fica proibido de falar a não ser quando eu lhe perguntar alguma cousa.

— Ma-ram falará quando bem lhe aprouver — replicou o pele-vermelha. — O pele-branca, quer eu fale, quer eu fique calado, irá matar-me e cortar-me o escalpo.

— Ma-ram conservará a sua vida e o seu escalpo; “Mão de Ferro” mata somente o inimigo em combate.

— O pele-branca é o “Mão de Ferro”? Uff! Uff!

— Estou dizendo a verdade. Ma-ram não é mais meu inimigo, mas meu irmão. “Mão de Ferro” vai reconduzi-lo à cabana de seu pai, na aldeia dos comanchos.

— O pai de Ma-ram é To-kei-chun, o grande cacique dos comanchos, que governa os guerreiros dos racurrohs; mas ele matará Ma-ram porque se deixou aprisionar pelo pele-branca.

— Meu irmão quer ser de novo livre? O indígena olhou-me admirado.

— Se o meu jovem irmão pele-vermelha prometer que não foge e se me acompanhar à aldeia de sua tribo, o desamarrarei e lhe darei um cavalo; também as suas armas que lá estão presas ao serigote lhe serão devolvidas.

— Uff! “Mão de Ferro” tem um punho forte e um coração grande! Não é como os demais peles-brancas. Mas não tem duas línguas?

— Não! Sempre falo a verdade. Promete o meu irmão obedecer-me até chegarmos à presença de To-kei-chun?

— Ma-ram promete!

— E cumpre a promessa?

— Sim. Manitu não quer que Ma-ram minta!

— Então receba de minhas mãos o fogo da paz. Este fogo o devorará se ousar quebrar a palavra!

Fui até o local onde estavam guardadas as nossas montarias. Do serigote tirei três charutos dos “havaneses” de minha fabricação. Acendi-os e fumamos com as formalidades do ritual indígena.

— Os peles-brancas não têm um Grande Espírito que lhes forneça argila santa para o fabrico de seus cachimbos? — perguntou o jovem nativo, finda a cerimônia.

— Os peles-brancas têm um espírito maior do que todos os outros, que lhes forneceu com abundância argila santa para o preparo do cachimbo; mas só o fumam em suas cabanas. Fora de lá, usam esses charutos que são mais cômodos de carregar.

— Uff! Charutos?! O Grande Espírito dos peles-brancas é inteligente! Esses charutos são mais leves de conduzir do que o cachimbo.

Bob arregalava os olhos admirado de me ver agora fumar, displicentemente, nas imediações de tão ferozes inimigos e na companhia de um índio, a quem antes mandara amarrar ao cavalo.

— Mestre, também Bob qué fuma a páiz!

— Aqui tens um charuto, mas fuma-o montado, pois partiremos imediatamente.

O comancho escolheu dentre a cavalhada apreendida a sua montaria e subiu ao lombo do animal. Segundo observações que colhera nas minhas longas jornadas pelo oeste bravio, desde o momento em que fumei o charuto com o indígena não precisava mais recear que ele fugisse. Bob montou um dos cavalos indígenas, mas depois de ingentes esforços. Os demais foram conservados amarrados, como se achavam, pela cauda um do outro a fim de tocá-los por diante. Em seguida, montei no meu poldro e começamos a viagem.

À saída, o vale desenvolvia-se numa planície a perder de vista no horizonte. Por ela cavalgamos, procurando as pegadas do grosso dos comanchos. Atingimo-las daí a pouco tempo e isso sem sermos notados pelos índios que ficaram no vale. De repente, estes se fizeram ouvir em brados furiosos que ecoavam ao longe. Não nos importamos, naturalmente, com o berreiro e prosseguimos calmamente na cavalgada. Ma-ram conservou o domínio de si próprio a tal ponto, que nem sequer contraiu um músculo da face e nem se deu ao trabalho de olhar para trás.

Sem trocarmos uma palavra, continuamos seguindo as pegadas até o anoitecer, quando atingimos outro trecho do rio Pecos e encontramos um local apropriado para tomarmos pouso. Num saco, costurado à capa que cobria o cavalo do comancho, havia uma regular provisão de xarque. Desse modo, não passaríamos fome, nem nos daríamos ao trabalho de abater caças. Havíamos tomado uma tão grande dianteira dos quatro comanchos, que eles não nos alcançariam durante a noite.

Ma-ram deitou-se logo a dormir e eu me revesava com Bob no serviço de vigilância. Quando começou a amanhecer, tirei a capa e os freios aos cavalos que conduzimos e os enxotei para o rio. Os animais o atravessaram a nado e desapareceram depois na mata, que se erguia na margem oposta. O índio assistiu a tudo sem dizer uma só palavra.

As pegadas, cuja trilha continuávamos, eram bem visíveis, prova de que os comanchos se consideravam perfeitamente salvos da perseguição de qualquer inimigo. Cavalgaram seguindo sempre a margem direita do rio Pecos, seguindo-o até o ponto em que o mesmo confina com a serra Guadalupe. Nesta altura, constatei com surpresa, que as pegadas se dividiam. A maior parte dos selvagens se dirigira para a serra, ao passo que os demais continuavam ininterruptamente pelo mesmo caminho.

Apeei-me a fim de examinar o caminho. No meio das pegadas dos que prosseguiram pelo mesmo rumo, encontrei com toda nitidez as de “Tony”, cujo sinal dos cascos eram por mim demasiadamente conhecidos sem que me pudesse enganar. Um pouco antes encontramos vestígios de acampamento. Dirigi-me a Ma-ram:

— Os filhos dos comanchos subiram a serra, em romaria, com o fim de visitar o túmulo do seu cacique?

— Meu irmão acertou.

— E estes outros aqui — apontei para as pegadas dos demais — seguiram para a frente, a fim de conduzir os prisioneiros à taba?

— Assim o determinaram os dois caciques dos racurrohs.

— Os filhos dos racurrohs conduzem também os tesouros dos dois peles-brancas?

— Os tesouros continuam no seu poder, por não saberem a qual dos peles-brancas pertencem.

— E onde fica a taba mais próxima dos racurrohs?

— Na savana situada entre este rio e aquele outro a que os peles-brancas dão o nome de Rio Grande del Norte.

— Quer dizer na savana que fica entre as duas serras?

— Tal qual diz o meu irmão.

— Então desistiremos de seguir as pegadas; cavalgaremos diretamente para o sul.

— Meu irmão fará naturalmente como melhor achar; mas deve ter em vista que por aquelas bandas não há água para beber.

— Eu já sei por que o comancho não quer seguir o rumo por mim alvitrado!

— Queira o meu irmão dizer-me!

— Os filhos dos comanchos cavalgam com os seus prisioneiros ao longo do rio, em cujo trajeto terão que fazer uma grande curva; e se nós cavalgarmos em linha reta para o sul, alcança-los-emos antes de sua chegada à taba.

Emudeceu. Ele percebera que eu penetrara no seu pensamento. Contei as pegadas dos que seguiram rumo acima e verifiquei que eram de dezesseis animais. Winnetou, Bernhard e Sam haviam sido, pois, escoltados por treze nativos. Deviam estar amarrados com todo o cuidado, e se os alcançasse, eu os libertaria melhor por meio de astúcia do que com o emprego de violência.

Enveredei-me para o sul e deixei que os cavalos empregassem todas as suas forças.

Foi uma cavalgada fastidiosa e difícil, pois eu não conhecia a região e não poderia obter de Ma-ram os dados suficientes. Perto de nós, brilhavam agora as águas do Pecos, que alcançávamos novamente.

O mato descia conosco serra abaixo e acompanhava-nos costeando o rio, savana adentro. Num regato que afluía para o Pecos, encontramos novamente a senda dos comanchos. Era do dia anterior, provavelmente deixada ao meio-dia; não muito distante dali, num segundo regato, os vermelhos haviam feito uma parada, por certo para deixar minorar o calor do dia.

Também eu resolvi que descansássemos um pouco aí, escolhendo, porém, um local para isso que não ficasse muito perto do rio, mas mais afastado, num bosque que nos oferecia a necessária defesa contra algum inimigo que eventualmente nos surgisse durante o descanso. Esta medida de precaução foi bem aplicada, pois mal me havia abancado no solo ao lado de Ma-ram, voltou Bob, que fora até o rio tomar banho com o seu cavalo, e me preveniu:

— Oh, mestre, ali adiante vem cavaiêros, um, dois, cinco e seis. Vamos fugí ou mata?

De um salto caminhei para a orla do capão e avistei, de fato, seis cavalos, que vinham em nossa direção, a toda velocidade. Dois dos que vinham atrás pareciam conduzir pacotes amarrados ao lombo. Num dos da frente, que se achavam mais próximos, distingui um cavaleiro. Tínhamos, pois, apenas dois inimigos pela frente, se é que se tratava de inimigos; não obstante a grande distância, vi que o cavaleiro não era um indígena, mas um pele-branca.

Mas por trás do grupo, vinham cinco cavaleiros, em louca disparada; eram índios que dentro de cinco minutos apanhariam os dois fugitivos. Só poderia tratar-se de uma perseguição; a fim de resolver qual a atitude a tomar, assestei o binóculo para ambos os grupos.

— Zounds! — saiu-me instintivamente dos lábios, pois o da frente não era outro senão o velho Morgan e no grupo de trás, cavalgava o seu filho Patrik.

Deveria matá-los ou apanhá-los com vida? Não, com o sangue desses salteadores eu não desejava macular as mãos! Mas em todo caso, levei a espingarda em posição de atirar e parei para aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Eles disparavam rente ao rio e os nativos já se achavam a uns quinhentos passos. Eu já ouvia os relinchos dos seus cavalos e agora ali vinham os fascínoras e iam passar por nós. Resolvi apertar o gatilho e o fiz por duas vezes. As balas atingiram os animais na cabeça, caindo logo. Os demais cavalos de montaria, que não se achavam montados, vinham presos a estes e, com os estampidos se assustaram, tentando desprender-se das cordas que os seguravam. Os cavaleiros haviam sido jogados ao solo a uma grande distância. Preparava-me para investir contra eles.

— O hi... hi... hihiiiiii! — ecoou o brado de guerra dos selvagens que se aproximavam, com o qual Ma-ram fez coro, e no mesmo instante eu estava sitiado. Três machadinhas de guerra e duas facas reluziram sobre minha cabeça.

— Cha! — bradou Ma-ram, ao mesmo tempo que fazia um sinal para parar. — Esse pele-branca é amigo de Ma-ram!

Imediatamente me largaram, mas as conseqüências de sua agressão não podiam ser corrigidas: os dois salteadores jogados ao solo tiveram tempo de se reerguer e fugir para o mato próximo. Os cavalos, com a gritaria dos índios, haviam estourado e se lançaram ao rio. Eram os nossos animais cargueiros. Traziam carga pesada e em vista disso, logo que se atiraram ao rio, foram ao fundo.

Quatro dos índios pularam em perseguição dos fugitivos, o quinto ficou comigo.

— Queira o meu irmão pele-vermelha dizer-me por que motivo perseguem os peles-brancas?

— Os dois brancos têm boca como cobra e as suas línguas têm duas pontas. Apesar de se dizerem nossos amigos, assassinaram durante a noite o guarda e fugiram depois com os tesouros que lhes apreendêramos.

— Com o ouro também?

— Levaram os metais e os “talismãs de papel”, que se achavam enrolados numa pele de búfalo.

Deixou-nos parados e apressou-se em acompanhar os seus companheiros. Pelo que se depreendia, os dois Morgans tiveram receio de que os comanchos não lhes devolvessem mais os tesouros e, por isso, resolveram eliminá-los, para deles se apossarem. Com as palavras “talismã de papel” o nativo queria referir-se ao dinheiro em papel e cheques bancários que já havíamos tomado aos salteadores.

O rio, no local onde os cavalos se atiraram, descrevia uma curva, formando deste modo fortes redemoinhos, que nos tiraram todas as esperanças de readquirir o pó mortífero!

Que nos restava agora fazer? A preocupação com os prisioneiros nos falava mais alto do que o desejo de deitarmos novamente as mãos sobre os salteadores. Estes, aliás, tinham por trás de si os cinco comanchos aos quais poderíamos deixar confiadamente a sua captura.

— Por que atirou o meu irmão pele-branca nos cavalos e não nos cavaleiros? — perguntou Ma-ram. — “Mão de Ferro” não aprendeu a fazer miras?

— Por que “Mão de Ferro” não matou Ma-ram em cujo peito já tinha colocado a ponta de sua faca? Matou os cavalos porque desejava falar com os cavaleiros.

— O meu irmão não se aflija, porque falará ainda com eles, pois vai ajudar os cinco irmãos comanchos a procurá-los.

— Não sairei em sua perseguição. Os guerreiros comanchos são sábios e valentes; eles prenderão aqueles malfeitores peles-brancas e os conduzirão à sua taba, Queira Ma-ram montar o seu cavalo e acompanhar-me!

Os acontecimentos haviam-me tirado toda a vontade de descansar e, além disso, uma idéia fixa me atormentava o cérebro: os nossos amigos se achavam escoltados por treze comanchos. Descontados os cinco que vieram em perseguição dos criminosos e mais o que se achava de sentinela e que fora assassinado pelos Morgans, só restavam sete peles-vermelhas que constituíam a escolta. Nessas condições, seria mais fácil promover a sua libertação.

Forcei agora mais os cavalos do que dantes. Até o escurecer, havíamos vencido um trecho tal que, examinando as pegadas com todo cuidado, concluí que o pequeno contingente de vermelhos havia passado recentemente por aí ao meio-dia. A fuga dos Morgans, o assassínio do pele-vermelha que dava sentinela e mais a convicção de que não se achava ninguém no seu encalço, fizeram que eles demorassem a viagem.

Embora Ma-ram se achasse ansioso por acampar, foi obrigado a acompanhar-me mais quatro milhas inglesas, até que escureceu de tal forma, que não era mais possível enxergar as pegadas. Então ordenei que apeasse para tomar pouso. Quando amanheceu o dia, partimos logo. Agora as pegadas saíam da margem do rio e entravam pela savana, seguindo sempre para o sul. Aqui e ali topamos com trilhos feitos por manadas de búfalos, pelos quais seguíamos, e, à medida que eu examinava as pegadas, via que cada vez mais nos aproximávamos dos comanchos. Já eu pensava em alcançá-los ao meio-dia, quando dei com as vistas num ponto pisoteado por animais, e daqui em diante as pegadas de, no mínimo, uns quarenta cavaleiros seguiam também para o sul.

— Uff! — exclamou Ma-ram.

Não disse mais nada, mas seus olhos se iluminaram de contentamento e sua fisionomia tornou-se depois risonha. A escolta que conduzia os nossos companheiros havia topado com uma tropa de comanchos, que a protegera e acompanhara até a aldeia.

— Qual é a distância daqui até o acampamento dos comanchos? — perguntei ao índio.

— Os racurrohs não têm acampamento; eles construíram uma aldeia na savana ainda maior do que as cidades dos peles-brancas. Se meu irmão cavalgar ligeiro, a alcançará antes do sol desaparecer por trás das campinas.

Ao meio dia fizemos um pequeno alto e, realmente, à tardinha, surgiu uma linha negra no horizonte; com o auxílio do binóculo verifiquei grandes fileiras de cabanas.

Por causa das próximas caçadas de búfalos, os índios haviam estabelecido aqui uma aldeia consideravelmente grande e pareciam tão absorvidos pela recepção dos prisioneiros, que não encontramos um índio pelas imediações e conseguimos aproximar-nos bastante da taba.

Fiz parar o cavalo.

— É lá a aldeia dos comanchos? — perguntei.

— É lá mesmo — respondeu Ma-ram.

— O cacique estará na taba?

— O pai de Ma-ram está sempre com os seus filhos.

— Quer ter a fineza de ir na frente avisá-lo de que “Mão de Ferro” pretende fazer-lhe uma visita?

Olhou-me um tanto surpreendido de soslaio.

— Mas “Mão de Ferro” não receia tantos inimigos? Ele mata búfalos e urso cinzento, o monstro das montanhas, mas não conseguirá matar os comanchos que são tantos quantos são as árvores das matas.

— “Mão de Ferro” mata as feras das selvas, mas não os seus irmãos peles-vermelhas. Ele nunca temeu os sioux, os kiowas, os apaches e nem os comanchos, pois é amigo de todo o guerreiro valente e leal; desfecha sua espingarda somente contra os maus e os traidores. Meu irmão queira ir ter com seu pai e eu o espero aqui.

— Mas Ma-ram é seu prisioneiro; e se lhe fugir?

— Ma-ram já não é mais meu prisioneiro; tragou comigo a fumaça da paz; está solto!

— Uff!

A essas palavras esporeou o cavalo e galopou para a aldeia. Apeei-me juntamente com Bob; sentamo-nos na relva e deixamos que os animais pastassem. O bom negro fazia uma fisionomia profundamente apreensiva.

— Mestre que vão os índio fazê do nego Bob, se mestre leva Bob junto pra sua ardeia?

— Isso só depois veremos.

— Dispois tarveis seja tarde. Dispois os índio matam Bob e queimam Bob vivo debaixo dum posti.

— Talvez não te aguarde nada de perigoso. Somos obrigados a entrar na aldeia dos comanchos para salvar o teu patrão Bernhard.

— Oh sim! Nego Bob vai sarvá seu bom patrãozinho Bern; ele deixa os índio esfolá, cosinhá e come Bob desde que sórtem mestre Bern!

O negro fez acompanhar a sua decisão heróica dum arreganho de dentes, que por certo tiraria o apetite a qualquer índio que pretendesse devorá-lo. Em seguida, tomou de um pedaço de xarque de búfalo, a fim de antes de sua morte pelo martírio, alimentar-se um pouco...

Não foi preciso esperarmos muito tempo pelo resultado que teria o aviso de nossa chegada, pois, pouco tempo depois, uma tropa de cavaleiros se dirigia ao nosso encontro. Foram-se desviando para os lados até que nos fecharam num círculo, círculo que debaixo dum berreiro dos demônios e o reluzir de armas cada vez se apertava mais, parecendo que os peles-vermelhas queriam derrubar-nos a patas de cavalos. Um grupo de quatro caciques se dirigiu para nós, mas depois continuou para frente. Bob se atirou ao chão; eu, porém, continuei sentado e não movi a cabeça nem para a direita e nem para a esquerda.

— Oh, índio vai mata mestre e Bob a pata de cavalo! — berrava o negro, levantando a cabeça a fim de verificar se a situação ainda não estava mudada.

— Isso nem lhes passa pela idéia. Querem apenas experimentar se somos corajosos ou se os tememos.

— Experimenta nois? Que venha índios excomungados, Bob vai mostra como não tem medo de ninguém.

Tornou a sentar-se e isso foi a tempo, pois os caciques haviam apeado e se encaminhavam para nós. O mais velho deles tomou a palavra:

— Por que não se levanta o pele-branca à aproximação do cacique?

— Porque com isso quer significar que o cacique lhe é bem-vinda Os meus irmãos peles-vermelhas queiram tomar lugar ao meu lado!

— Os caciques dos comanchos só se sentam ao lado de um cacique. Onde está a aldeia do pele-branca e onde os seus guerreiros?

Agarrei a machadinha de guerra com a mão direita.

— Um cacique deve ser forte e valente. Se os peles-vermelhas não acreditarem que sou um cacique, queiram se dignar a lutar comigo; então verão se falei a verdade ou não.

— Como se chama o pele-branca?

— Os guerreiros vermelhos e brancos e os caçadores chamam-me “Mão de Ferro”.

— Esse nome não lhe deram, o pele-branca mesmo o adotou pretensiosamente.

— Se os caciques peles-vermelhas aceitarem o meu desafio, que tomem logo da machadinha ou da faca; eu, porém, lutarei apenas com os meus braços. Howgh!

— O pele-branca diz essas palavras para se engrandecer; permitiremos que dê uma prova de sua coragem. Queira montar a cavalo e acompanhar os guerreiros dos racurrohs!

— Os guerreiros fumarão o cachimbo da paz comigo?

— Primeiro decidirão se podem fazê-lo.

— Podem fazê-lo sim, pois os procuro com espírito de paz! Montei a cavalo e Bob subiu também para a sua cavalgadura indígena.

Ninguém dos peles-vermelhas parecia preocupar-se com ele. O índio é ainda mais orgulhoso em face da raça negra do que da branca. Eu, porém, fui conduzido no meio dos caciques e a todo galope seguimos para a aldeia. Galopamos por entre as fileiras de cabanas, até chegarmos a uma maior, onde fizemos alto e apeamos.

Não vi mais o negro Bob. Eu me achava cercado por todos os guerreiros que me foram receber. O cacique, que há pouco usara da palavra, pegou na minha espingarda.

— Queira o pele-branca entregar-nos as suas armas!

— Conservar-me-ei armado, pois vim ter com os senhores voluntariamente e não como prisioneiro!

— Contudo o pele-branca terá que nos entregar as armas até que os peles-vermelhas saibam com que fim os procurou.

— Os peles-vermelhas temem o pele-branca? Aquele que exigiu que eu lhe entregue as armas é porque tem temor.

O cacique sentiu ofendida a sua honra de guerreiro e dirigiu aos outros três um olhar interrogativo; deve ter lido nos seus olhos alguma resposta tranqüilizadora, pois continuou:

— Os guerreiros dos comanchos não sabem o que é temor. Queira o pele-branca conservar as suas armas!

— Como se chama o meu irmão pele-vermelha?

— “Mão de Ferro” está falando com To-kei-chun, diante de quem tremem os mais destemidos inimigos!

— Peço ao meu irmão To-kei-chun que me destine uma cabana para descansar, até que os comanchos resolvam conceder-me a honra de uma conferência mais demorada!

— O pele-branca teve boa idéia. O cacique vai indicar-lhe uma cabana, onde pode descansar até findar o conselho deliberativo que os racurrohs vão realizar a fim de resolver se fumarão ou não o cachimbo da paz com ele.

Acenou-me com a mão e saiu andando; eu o acompanhei, levando o meu poldro pelas rédeas. Os indígenas haviam formado uma espécie de rua entre as fileiras de cabanas, pela qual passamos; notei muitas caras jovens e idosas de mulheres nativas a dirigir-me olhares furtivos através das janelas. Muitas delas se aventuraram a chegar até o buraco, a que davam o nome de porta. Felizmente essa tribo de comanchos não era aquela que Winnetou de uma feita derrotou no Mapimi.

As cabanas estavam levantadas com o mesmo sistema usado pelos indígenas do norte. Seguiam também em certos pontos os mesmos usos e costumes. O trabalho da ereção das cabanas era entregue exclusivamente às mulheres, como, aliás, todo e qualquer outro serviço interno por mais pesado que fosse. Os homens se entregavam exclusivamente à guerra, à caça e à pesca.

As mulheres, depois de curtirem as peles dos animais, com um pedaço de carvão, desenham sobre a mesma a forma da parede de uma cabana; depois cortam a pele por esses desenhos e as costuram com finos fios de couro. Também o madeiramento destinado às cabanas é buscado pelas mulheres no mato e depositado no local destinado a erigir a aldeia.

A cabana para a qual o cacique me conduziu, era pequena e se achava desabitada. Amarrei o meu poldro do lado de fora, abri o cortinado da porta, constituído de duas meias peles, e entrei sem dar mais atenção ao cacique, que, aliás, também pouco me ligou, visto que nem se deu ao trabalho de acompanhar-me até o interior da cabana.

Não me achava ainda dois minutos no interior da cabana, quando se abriu o cortinado e uma índia muito velha entrou trazendo um leito feito de estacas e o largou a um canto. Desapareceu depois para voltar em seguida trazendo uma panela de barro, já rachada. A panela continha água e um ingrediente que não pude ver o que era. A indígena colocou-a ao fogo para ferver.

Eu me havia deitado e a olhava sem dizer uma palavra. Eu sabia muito bem, que, segundo os costumes e hábitos dos nativos, desceria muito de minha dignidade se mantivesse uma palestra com uma mulher velha. Além disso, percebi que me achava num “posto de observação” e que era possível estar sendo observado por vários olhos, através de qualquer buraco ou fenda.

A panela começou a ferver e pelo cheiro vi logo que a velha me ia servir uma refeição de carne de rês. Realmente, daí a uma hora colocou a panela fervendo diante de mim e abandonou a cabana para que eu pudesse jantar à vontade.

Jantei e confesso que a coxa de búfalo estava de lamber os dedos. Não desprezei igualmente o angu, muito embora o asseio da panela muito deixasse a desejar e o angu estivesse preparado sem sal, que para os nativos é um tempero intragável.

Para fazer justiça, devo dizer que os comanchos me estavam dispensando uma bem cativante hospitalidade, e ainda hoje sou capaz de apostar a minha cabeça como a panela de barro em que me serviram o jantar era  a única existente em toda a taba!

Terminada a refeição, deitei-me sobre o leito trazido pela velha, e utilizei o meu cobertor como travesseiro. Pela fresta do cortinado verifiquei que haviam forrageado o meu animal e que dois nativos patrulhavam, a minha cabana, caminhando de um lado para o outro. Mais tarde apagou-se o fogo que ardia na cabana e eu adormeci tranqüilo. Achava-me em vésperas de importantes acontecimentos, mas de nada me adiantaria-passar uma noite em claro. Na manhã seguinte, acordei com um ruído crepitante: abri os olhos e vi a velha que acendera novamente o fogo e sobre o mesmo colocara a panela a ferver.

Ela cumpria com a sua tarefa sem me dirigir sequer um olhar e eu nem por sombra me achava magoado com aquela falta de atenção. Tomei a refeição matinal com o mesmo apetite da véspera e decidi ir um pouco para a frente da cabana. Mas, mal havia eu levantado o cortinado, um dos guardas ameaçou-me com a ponta de sua lança como se pretendesse abrir-me o ventre debaixo para cima.

Não devia deixar passar tal atitude sem uma enérgica reação, sob pena de ver decaída de uma vez por todas a minha fama de guerreiro intrépido. Agarrei a lança pela ponta, dei com ela um empurrão no índio que a empunhava e depois puxei-a de novo de volta. Com o movimento violento que imprimi na arma, o indígena caiu no chão bem diante dos meus pés deixando a lança na minha mão.

— Uff! — berrou erguendo-se do solo como um tigre e sacando de sua faca.

— Uff! — exclamei também eu, puxando da faca e com a mão esquerda atirando a lança conquistada para o interior da cabana.

— Queira o pele-branca devolver-me imediatamente a minha lança!

— Queira o pele-vermelha ir buscá-la, se quiser!

A isso ele não se animava, conforme se depreendia visivelmente de sua fisionomia. Mas não tardou em receber reforço, pois o outro guarda que rondava por trás da cabana veio em socorro, pondo-me a lança em frente ao rosto, urrando:

— Queira o pele-branca entrar para a cabana!

Repetiu-se a mesma cena anterior, e desta vez os dois índios rolaram, no chão ao mesmo tempo. Agora acharam que era demais! Proferiram um brado com o qual alarmaram toda a aldeia.

Enfrente à minha cabana, havia outra, consideravelmente alterosa, em cuja parede se achavam costurados três escudos. Ao brado dos guardas, à janela daquela cabana assomou um rosto feminino, a fim de verificar a causa do rebate. Dois olhos negros e faiscantes repousaram em mim e a cabecinha desapareceu novamente. Daí a pouco, daquela cabana saíram os quatro caciques que se dirigiram diretamente a mim. A um sinal dado por To-kei-chun os guardas se afastaram.

— Que está fazendo o pele-branca aqui diante da cabana?

— Creio que não ouço bem! O pele-vermelha com certeza quer é perguntar o que fazem esses guardas em frente à residência que me foi reservada!

— Destaquei os guardas para vigiar a sua cabana a fim de que nada de desagradável lhe suceda e, por isso, o pele-branca deve permanecer no interior da sua residência!

— Mas então To-kei-chun tem homens maus entre a sua tribo ou o seu povo tem em tão baixa conta as suas ordens que são precisos guardas para fazer cumpri-las? “Mão de Ferro” dispensa o auxílio de patrulhas e arrebentará com o seu punho o crânio de todo aquele que dele se aproximar com propósitos mentirosos e hostis! Os meus irmão peles-vermelhas podem recolher-se tranqüilamente à sua cabana; eu agora vou dar um passeiozinho pela sua taba, e depois voltarei, a fim de falar com os senhores.

Entrei na minha cabana, para buscar a espingarda que não deveria deixar lá; quando, porém, queria sair fui obstado por uma dúzia de lanças apontadas contra mim. Portanto, me achava aprisionado! Deveria reagir ou não? Voltei e com o auxílio da machadinha de guerra fiz um buraco aos fundos da cabana, por onde saí. Quando surgi pelos fundos, deparei primeiro com fisionomias alteradas; logo depois levantou-se um berreiro infernal como se centenas de ursos se levantassem desprendidos das correntes que os amarravam. Os caciques que haviam regressado para a sua cabana, voltaram de novo e em vertiginosa carreira, o que não ficava bem à sua dignidade de chefes de tribos. Como se sabe, os caciques em geral costumam, quando se dirigem aos seus súditos ou a estranhos, caminhar com passos lentos e comedidos. Invadiram a horda de nativos entre os quais abriam caminho e pareciam querer atracar-se comigo.

Não me era possível usar das armas, porque então estaria perdido e comigo os meus companheiros. Usei então de um estratagema: agarrei o binóculo e bradei:

— Acalmem-se, do contrário estarão perdidos todos os filhos dos comanchos!

Não conheciam com certeza aquele instrumento de ótica. E mesmo que o conhecessem ignoravam o mal que provavelmente com o auxílio dele se poderia ocasionar.

— Que pretende o pele-branca fazer? — perguntou To-kei-chun. — Por que não fica na sua cabana?

— “Mão de Ferro” é um grande feiticeiro entre os peles-brancas — respondi. — Ele vai mostrar aos peles-vermelhas como é capaz de matar as almas de todos os comanchos.

Pus o binóculo no bolso e agarrei a espingarda de repetição.

— Queiram os peles-vermelhas olhar para o poste que se ergue lá diante daquela cabana!

Apontei para uma estaca fincada defronte a uma das cabanas mais distantes. Apontei a arma e deflagrei o tiro. Acertei na estaca bem na ponta, fazendo um orifício na mesma; ouviu-se então um murmúrio de aplausos gerais. O selvagem aplaude os atos de valentia e habilidade mesmo quando demonstrados pelos inimigos mais figadais. O segundo tiro acertou uma polegada abaixo do primeiro; o terceiro foi alvejado também uma polegada abaixo do segundo. Ao terceiro tiro não se ouviu, porém, aplauso algum, pois os índios pensavam que existiam apenas armas de dois canos e nunca ouviram falar numa espingarda nas condições da minha, com a qual se atiram vinte e cinco vezes consecutivamente sem carregá-la. Ao quarto tiro, a onda efervescente e burburinhante de indígenas parou de súbito e ficou imóvel, como que estarrecida. Dei vinte tiros e os projetis atingiram todos a estaca de madeira que de alto a baixo, de polegada em polegada, ficou com um orifício produzido pela bala. Coloquei a espingarda ao ombro e disse calmamente:

— Viram agora os peles-vermelhas como “Mão de Ferro” é um grande feiticeiro? Aquele que lhe fizer algum mal terá fatalmente que morrer! Howgh!

Atravessei então a multidão de nativos sem que um deles ousasse embargar os meus passos. Em ambos os lados das fileiras de cabanas, mulheres e moças se achavam paradas à porta e contemplavam-me com profundo respeito e admiração, como se eu fosse um ente sobrenatural. Podia estar satisfeito com a impressão que causara aos selvagens.

Mais adiante, defronte de uma cabana, se achava postada uma sentinela. Lá devia estar recolhido um dos prisioneiros. Qual deles seria? Eu ainda refletia se deveria perguntá-lo ao guarda ou não, quando ouvi uma voz muito minha conhecida dizer:

— Mestre, oh, mestre! Sorta o nego Bob duma veiz! Índio prendeu Bob e vão mata e come Bob.

Aproximei-me da cabana, abri o cortinado e soltei o negro. O guarda estava tão estupefato que não opôs nenhuma resistência ao meu ato; o mesmo sucedendo com a enorme multidão de nativos que me acompanhavam curiosos.

— Foste logo metido aqui quando chegamos à aldeia? — perguntei ao preto.

— Sim, mestre índio tirou Bob do cavalo e meteu ele naquele rancho intê agora!

— Vem e conserva-te por trás de mim!

Havíamos passado apenas por mais quatro cabanas quando os quatro caciques, com um grande acompanhamento, vieram ao nosso encontro; por outro rumo, contornaram as fileiras de cabanas, com o fim de interromper o meu passeio. Levei logo a mão na coronha da espingarda, mas To-kei-chun já de longe, por meio de um aceno, deu-me a entender que não vinha com propósitos hostis. Parei e fiquei à sua espera.

— Onde pretende ir o meu irmão pele-branca? Queira ter a bondade de acompanhar-nos ao local do conselho deliberativo, pois os caciques desejam falar-lhe!

Anteriormente, chamavam-me simplesmente pele-branca, agora, porém, “irmão pele-branca”. Como eu subira no conceito daqueles nativos!

— Antes, preciso saber se os irmãos peles-vermelhas estão dispostos a fumar o calumet comigo!

— Primeiro vão falar com o irmão pele-branca e se as suas palavras forem sinceras, será considerado como um filho dos comanchos!

— Então queiram os meus irmãos ir na frente. “Mão de Ferro” os seguirá!

Retrocedemos, passando pela minha cabana. Num descampado que havia mais para o alto deparei com a “Tony”, e os cavalos de Winnetou e Bernhard Marshall. Os prisioneiros, porém, não se achavam ali por perto, pois do contrário eu teria visto guardas patrulhando a prisão.

Afinal, chegamos ao ponto em que as cabanas se estendiam e formavam um campo em forma de círculo. Por certo era este, o local dos conselhos deliberativos.

Os caciques se encaminharam para o meio do círculo e se abancaram na relva. Muitos nativos se aproximaram do chefe; todos se sentaram defronte ao mesmo, formando um semi-círculo. Não fiz cerimônias e sentei-me também, acenando para Bob tomar lugar por trás de mim. Essa minha atitude pareceu desagradar ao caciques.

— Por que se sentou o pele-branca? Não sabe então que vamos realizar um conselho a seu respeito?

Fiz um sinal de escárnio.

— Como ousam os peles-vermelhas se abancar cinicamente no solo? Então não sabem que “Mão de Ferro” vai realizar um conselho a seu respeito?

Percebi que minha resposta os surpreendera.

— O pele-branca tem uma linguagem ousada! Contudo permitiremos que continue sentado. Mas por que cargas d’água e com licença de quem ele soltou o pele-preta e comete ainda o abuso de trazê-lo para o recinto do conselho? Então não sabe que um negro nunca deve estar sentado junto de peles-vermelhas?

— O pele-preta é meu criado; se lhe ordenar que se sente onde eu bem entender, ele senta, embora na roda estejam abancados mais de mil caciques! Estou pronto, podem começar com esse tal de conselho!

Eu sabia muito bem que só por meio de audácia é que me seria possível salvar. Quanto mais atrevido eu me portasse, sem no entanto ofendê-los diretamente, tanto mais me impunha diante de seus olhos. Uma obediência passiva seria a minha desgraça.

To-kei-chun acendeu o calumet, que correu a roda; a mim, porém, não passaram o cachimbo. Quando findou essa cerimônia, o cacique levantou-se e deu início à sua oração. Na presença de estranhos, os índios costumam manter-se em mutismo; mas quando numa reunião desandam a falar, o ambiente em nada fica a dever ao das reuniões das sociedades alemãs. Há caciques entre os peles-vermelhas, que, devido ao seu talento de oratória, adquirem fama que corre as savanas. Possuem a mesma habilidade e a mesma retórica de grandes oradores dos tempos antigos e modernos. O seu tom de oratória faz lembrar o dos povos orientais. O cacique começou o seu discurso como em geral costumam os peles-vermelhas fazer quando se delibera a respeito de um representante da raça civilizada: fazendo uma brutal acusação contra a raça branca.

— O pele-branca queira ouvir, pois To-kei-chun, o cacique dos comanchos, vai falar! Já lá vão muitos sóis, os peles-vermelhas moravam bem sozinhos nas terras entre as duas grandes águas. Construíam cidades, plantavam árvores, caçavam bisões. A eles pertenciam os raios do sol, as águas da chuva, as gotas do orvalho; a eles pertenciam os mares, os rios, os regatos; a eles pertenciam as florestas, as montanhas e as campinas deste vasto país. Eles tinham mulheres e filhos, irmãos e irmãs e viviam felizes, protegidos por Manitu e o Grande Espírito das savanas. Vieram depois os peles-brancas, cujas faces possuem a cor da neve, mas cujos corações são mais negros do que as manchas produzidas pela fumaça. A princípio vieram em pequeno número, e, como se fossem Manitu em pessoa, os acolhemos em nossas cabanas, nada lhes deixando faltar para o seu conforto moral e físico. Mas eles trouxeram consigo as espingardas e a “água de fogo”; trouxeram consigo outros deuses e outros sacerdotes, trouxeram consigo, junto com a traição inominável e a mentira sarcástica sempre a lhes sorrir nos lábios, muitas doenças que ocasionaram a morte de milhares de peles-vermelhas. Cada vez em maior número atravessavam as grandes águas e se dirigiam para cá. As suas línguas eram falsas e suas facas pontiagudas; os peles-vermelhas neles acreditaram, mas se enganaram. Foram forçados a lhes entregar as terras em que se achavam as sepulturas de seus antepassados; foram enxotados de suas tabas e de seus territórios de caça e expulsos, cada vez mais para longe; sempre que resistiam a essa injustiça, eram mortos aos montes, como se fossem manadas de búfalos, ou bandos de urubus. Para poder vencê-los com mais facilidade, os brancos semearam a discórdia entre as tribos vermelhas, que se matam umas às outras como coiotes nas campinas. Malditos os brancos! Que a maldição caia sobre eles na mesma quantidade das estrelas do céu e das árvores das matas!

Uma estridente aclamação coroou o preâmbulo da oração do cacique, que falava em voz tão alta, que era ouvido ao derredor e também a alguma distância da taba. Depois o orador prosseguiu:

— Pois um desses peles-brancas, a que me referi há pouco, procurou a taba dos comanchos. Este homem tem a cor dos mentirosos e a linguagem dos traidores. Os guerreiros dos comanchos ouvirão, porém, a sua defesa e procederão com justiça a seu respeito. Queira o pele-branca toma a palavra!

O orador sentou-se e os demais caciques levantaram-se, um após outro, pronunciando discursos mais ou menos no mesmo tom e se referindo ao mesmo assunto. Durante as orações, eu tirara do bolso o livro de notas e traçara a caricatura dos caciques, orando na minha frente, cercados pelos seus guerreiros.

Quando o quarto cacique terminou de falar, To-kei-chun acenou para mim e perguntou:

— Que esteve o pele-branca a fazer, enquanto os caciques dos comanchos falavam?

Rasguei a folha do caderno, levantei-me e a entreguei para ele.

— Uff — exclamou pondo os olhos no papel.

— Uff! Uff! Uff! — ecoou depois quando os três caciques olharam para a caricatura. To-kei-chun acrescentou:

— É um grande feitiço! O pele-branca “enfeitiçou” as almas dos comanchos neste pedaço de pele. Aqui está To-kei-chun e os seus três irmãos, e, mais para cima, os seus guerreiros e as cabanas! Que pretende o pele-branca fazer com isso?

— Os peles-vermelhas já verão.

Tomei-lhe depressa a folha de papel da mão e deixei os guerreiros que se achavam por trás de mim lançar o olhar sobre a mesma. Não ficaram menos espantados do que os seus chefes. Em seguida amassei o papelzinho, transformei-o numa pílula e coloquei-o no cano da espingarda.

— To-kei-chun, tu mesmo disseste que eu havia “enfeitiçado” a alma dos comanchos no papel; agora coloquei essas almas no cano de minha espingarda. Querem ver como dou um tiro para o ar e o vento estraçalha horrivelmente todas as almas, de modo que elas jamais chegarão às “Eternas Campinas” para o descanso e conforto eterno?

A impressão causada por esta fanfarronada foi mais drástica do que eu esperava. Os quatro caciques levantaram-se apavorados e, ao meu redor, ouvi um berreiro de angústia que causava dó. Apressei-me a acalmá-los:

— Queiram os peles-vermelhas se sentar para fumar o calumet comigo! Se me tratarem como irmão, devolverei suas almas.

Os nativos mais que depressa retomaram os seus lugares e To-kei-chun pôs fumo no calumet. Veio-me, naquele momento, uma idéia com a qual talvez eu tornaria aquela gente ainda mais complacente. Um dos outros três caciques tinha pregado ao seu jaquetão, manufaturado de pele de búfalos, dois botões de latão do tamanho de um pfenig. Aproximei-me e lhe falei:

— O meu irmão pele-vermelha quer ter a fineza de me emprestar essa jóia; devolverei em seguida.

Antes que ele tivesse tempo para recusar a minha solicitação, já eu lhe tinha arrancado os dois botões do casaco e recuei calmamente alguns passos, sem me importar com a sua estupefação.

— Os meus irmãos de pele-vermelha estão vendo estes botões em cada uma de minhas mãos. Agora tenham a bondade de prestar bem atenção!

Fiz como se tivesse atirado os botões para o ar e apresentei-lhes as mãos espalmadas, completamente vazias.

— Queiram agora os meus irmãos olhar: onde estão os botões?

— Desapareceram! — disse o dono, com mal contida cólera.

— Sim, desapareceram lá em cima, sol adentro. O meu irmão se quiser reaver aquela relíquia derrube-a de lá com um tiro!

— Isso não consegue um pele-vermelha, nem branca e nem mesmo um feiticeiro por mais milagroso que seja!

— Não?! Pois eu consigo. Prestem bem atenção, que os botões vão cair do céu!

Tomei, não de minha espingarda, mas da velha espingarda de dois canos, que se achava do lado de To-kei-chun, apontei-a para o ar e bati o gatilho. Alguns segundos em seguida caiu ao meu lado um objeto de certa dureza. O dono, munido de uma faca, cavou a terra e desenterrou o botão.

— Uff! É de fato um dos meus talismãs.

Aproveitando a confusão dos nativos, coloquei o outro botão no cano da arma e apontando-a em linha reta para cima deflagrei o tiro. Todos os olhares se dirigiram para o ar. De repente, Bob proferiu um brado agudo e começou a esfregar um dos ombros, exclamando:

— Mestre, mestre acerto em Bob, bem no ombro dele!

Realmente, o botão caíra-lhe sobre um dos ombros e se achava no chão ao seu lado. O cacique correu a juntá-lo e recolocou os dois botões no jaquetão, com uma expressão fisionômica de quem esta disposto dali por diante a não permitir mais que suas relíquias fossem dar um girozinho pelo sol... Esse simples estratagema, que qualquer criança, depois de nele se exercitar, conseguirá fazer com toda facilidade, impressionou extraordinariamente os selvagens. Eu havia atirado dois botões para o sol e depois de lá os arrancara a tiros! Realmente, eu jogara os botões para o ar, pois do contrário um deles não teria penetrado tão fundo na terra e o preto não teria recebido um golpe tão violento que o obrigou ainda a fazer caretas que causariam pavor a uma criança travessa. Os caciques estavam imóveis, sentados nos seus lugares, visivelmente desconsertados, sem saber como se conduzirem daí por diante; a assistência aguardava com ansiedade o desenrolar dos acontecimentos. Resolvi tirar os caciques do apuro: agarrei um calumet que se achava no chão, enchi-o com kinikinik, cuja bolsa se achava também ali perto, e tomei a palavra:

— Meus irmãos acreditam no meu Grande Espírito e com toda a razão, pois o seu Manitu é também o meu Manitu; Ele é o Senhor do Céu e da Terra, o Pai de todos os povos e deseja que todos vivam em paz e em concórdia! O número de peles-vermelhas não excede ao da grama que circunda esta cabana; os peles-brancas, porém, são mais numerosos do que os arbustos que vicejam em todas as montanhas e planícies. Eles atravessaram as grandes águas e aqui vieram para enxotar os peles-vermelhas; procederam muito mal. Mas por que os vermelhos hostilizam todos os peles-brancas indistintamente? Então os meus irmãos peles-vermelhas ignoram que existem muitas nações de peles-brancas e que apenas três delas os enxotaram de seus territórios de caçadas? Os filhos dos comanchos pretendem ser injustos, odiando os inocentes juntamente com os culpados? “Mão de Ferro” pertence à formidável e poderosa tribo de peles-brancas que edificaram suas tabas na Germânia. As tribos da Germânia fizeram algum mal ao peles-vermelhas? Os grandes caciques da Germânia odeiam os caciques das três nações más que perseguem os indígenas; portanto, os guerreiros da tribo da Germânia são amigos dos peles-vermelhas! Queiram os meus irmãos olhar para “Mão de Ferro”! Pende de sua cinta algum escalpo de indígena? A sua sapatilha, o seu jaquetão e a sua facha estão ornadas com cabelos dos seus irmãos peles-vermelhas? Quem pode afirmar que ele algum dia mergulhou sua mão no sangue dos homens da raça vermelha? “Mão de Ferro”, juntamente com os seus amigos, estava sesteando no mato, quando os guerreiros dos racurrohs fumaram o cachimbo da paz com dois de seus inimigos; e, no entanto, tocou ele num cabelo que fosse dos racurrohs? Ele aprisionou Ma-ram, o filho do grande cacique To-kei-chun, mas não o matou: devolveu-lhe as suas armas e o conduziu à cabana de seu pai. Ele não poderia ter morto os seis guerreiros dos racurrohs? Não o fez, porém amarrou simplesmente um deles para que, encontrado pelos companheiros, pudesse ser solto. “Mão de Ferro” não desfechou a sua espingarda contra os dois peles-brancas que assassinaram o guarda e fugiram com o ouro? Não tem ele a alma dos seus irmãos peles-vermelhas dentro do cano de sua espingarda? Entretanto, não deseja deflagrar a arma para que as almas não se percam. Não tem ele poder para atirar todos os talismãs dos comanchos para o sol e depois deixá-los lá? Sim, ele podia fazer tudo isso, e, no entanto, não o faz; antes deseja ser irmão dos comanchos e com eles fumar o calumet. Os caciques dos comanchos são valentes, sábios e justiceiros, e aquele que duvidar disto será morto pela arma que “Mão de Ferro” possuí e que deflagra mil tiros sem parar. Em vista dessas excelsas virtudes dos racurrohs, vou fumar com eles o calumet!

Acendi o cachimbo de barro, que nesse meio tempo se apagara, dei duas fumaçadas, para o céu e para a terra, e quatro em direção dos pontos cardeais, passando depois o calumet a To-kei-chun. Eu conseguira de fato pegá-lo de sopetão. Ele tomou do cachimbo, tirou as suas seis fumaçadas e passou-o adiante. Depois de haver tocado a vez do último cacique, este me devolveu o cachimbo. Só então me sentei no meio dos quatro chefes dos comanchos.

— Afinal, irá o meu irmão pele-branca devolver-nos agora as nossas almas? — perguntou, apreensivo, um dos cinco caciques.

Eu precisava responder com toda precaução.

— Preciso saber antes disso se afinal sou considerado agora como um filho dos comanchos!

— “Mão de Ferro” está agora em liberdade. Vou escolher-lhe para residência uma das mais confortáveis cabanas e daqui por diante poderá fazer o que lhe aprouver e ir para onde quiser.

— Qual a cabana que me vai ser destinada?

— “Mão de Ferro” é um grande guerreiro. Receberá a cabana que escolher.

— Então queiram os meus irmãos acompanhá-lo na escolha de sua residência!

Levantaram os quatro caciques para acompanhar-me. Segui pela fileira de cabanas até encontrar uma, diante da qual se achavam postados quatro guardas. Pus a mão à boca, imitei o uivo do coiote e imediatamente do interior daquela cabana o uivo foi respondido. Encaminhei-me apressadamente até a porta.

— Aqui será a residência de “Mão de Ferro”!

Os caciques olharam perplexos um para o outro, pois essa circunstância não fora prevista por eles.

— Esta cabana não pode ser concedida a meu irmão pele-branca.

— Por quê?

— Porque nela moram os inimigos dos comanchos.

— E quem são esses inimigos?

— Dois peles-brancas e um pele-vermelha.

— Como se chamam?

— O pele-vermelha chama-se Winnetou e é cacique dos apaches, e um dos peles-brancas é o célebre Sans-ear, o assassino dos indígenas.

Mas eles não saberiam que eu era o companheiro dos prisioneiros? Realmente eu não falara com Ma-ram nenhuma palavra a esse respeito; mas Patrik não lhes teria dito?

— “Mão de Ferro” quer ver esses homens!

Dita essas palavras, fui logo entrando cabana a dentro e os caciques acompanharam-me instintivamente.

Os meus amigos jaziam no solo com as mãos e pés amarrados, e além disso ainda se achavam presos a uma viga da cabana. Haviam reconhecido a minha voz, mas não manifestaram nem com o menor gesto a sua satisfação por me ver no acampamento dos comanchos.

— Que fizeram esses homens aos comanchos? — perguntei.

— Mataram-nos alguns guerreiros.

— E meu irmão pele-vermelha viu quando eles mataram?

— Não, mas os guerreiros dos racurrohs viram.

— Os guerreiros dos racurrohs terão que apresentar provas disso. Quanto a esta cabana pertencerá a mim, e estes cavalheiros de agora em diante serão meus hóspedes!

Puxei da faca para cortar as cordas que prendiam os prisioneiros; um dos caciques segurou-me, então, o braço.

— Estes homens estão condenados à morte no poste das torturas. O meu irmão pele-branca não os terá como hóspedes!

— E quem ousará proibir-me?

— Os quatro caciques dos racurrohs!

— Eles que arrisquem!

Coloquei-me entre os quatro comanchos e os prisioneiros. Nesse meio tempo, Bob entrara também na cabana.

— Bob, corte essas cordas! Comece pelas de Winnetou!

Bob primeiramente ia dirigir-se ao seu patrão, mas obedeceu em seguida a minha ordem, com certeza porque teve a mesma idéia que eu, isto é, que Winnetou, depois de livre, poderia nos prestar mais serviços no momento do que Bernhard.

— O pele-preta que embainhe sua faca e já! — trovejou o mesmo cacique que comigo falava; mas já era tarde, pois Bob num instante terminara de cortar as cordas de meu grande amigo.

— Uff! — exclamou o indígena quando viu a sua ordem desacatada pelo negro. Tentou lançar-se sobre Bob no momento em que este se ajoelhara para soltar Sans-ear.

Pulei em socorro do negro e o cacique investiu contra mim armado de faca, atingindo-me o braço por me ter desviado para o lado. Não teve tempo de tirar a faca do meu corpo, pois desferi-lhe um valente pontapé que o prostrou; fiz o mesmo com o outro cacique. Em seguida agarrei outro pela garganta, ao passo que Winnetou, apesar dos braços inchados pela pressão das cordas, se encarregava de To-kei-chun. Segundos depois, os quatro chefes dos racurrohs estavam imobilizados no chão.

Do lado de fora se achavam os guardas; contudo éramos os senhores da cabana e os caciques estavam, daí a pouco, amarrados e amordaçados.

— Heavens, que foi socorro em tempo! — exclamou Sans-ear, enquanto fazia massagens nos braços doloridos pelo estancamente de sangue. — Carlos, agora conta-me como conseguisse fazer toda essa diabrura!

— Mais tarde, Sam. Agora, porém, armem-se, antes de mais nada. Tirem as armas desses quatro caciques!

Carreguei, para qualquer eventualidade, a espingarda de repetição. Durante este tempo ministrei algumas instruções a respeito da atitude que deveríamos tomar. No caso de sermos agredidos, determinei que desacordássemos com coronhaços os quatro caciques, assim que estes voltassem a si. Em seguida saí da cabana. Os guardas, em atenção à permanência na mesma dos quatro caciques, se haviam distanciado um pouco e mais adiante se achava um bando enorme de indígenas, que nos havia seguido por curiosidade. Dirigi-me aos guardas.

— Meu irmão pele-vermelha já sabe que “Mão de Ferro” foi declarado um cacique dos comanchos?

O baixar dos olhos significava uma resposta afirmativa.

— Os guerreiros peles-vermelhas guardarão rigorosamente a cabana e não deixarão ninguém nela penetrar, seja quem for; salvo se os meus colegas resolverem o contrário.

Depois me dirigi ao bando e falei:

— Os meus irmãos irão imediatamente convocar os guerreiros que se acham na taba para um grande conselho deliberativo que se realizará daqui a minutos!

Os nativos se espalharam em todas as direções e eu me encaminhei para o citado local.

Aquele que estiver a par dos costumes indígenas, classificará a minha atitude de uma temeridade medonha; mas seria injusto tal conceito. O indígena não é de modo algum o “selvagem”, conforme nô-lo descrevem. Ele possui os seus costumes e as suas leis invioláveis. Quem souber tirar partido desses costumes e dessas leis, corre pouco perigo no seu meio. Ao demais, aqui se tratava de uma questão de vida ou de morte, e mais do que a vida eu não poderia pôr em jogo.

Em caminho consegui desfazer os vestígios do insignificante golpe de faca que eu levara do cacique. Chegado ao local das reuniões, sentei-me no mesmo lugar que ocupara antes. Dentro de dez minutos, todo o círculo estava tomado pelos guerreiros dos comanchos. No centro ficou um lugar livre, ocupado há pouco pelos caciques. As assembléias das coletividades alemãs nunca têm início sem um prévio vozeiro dos participantes. Aqui, porém, entre estes “selvagens” notava-se um silêncio por assim dizer religioso. Todos chegavam com passos graves e sem pronunciar uma só sílaba; procuravam os seus respectivos lugares, onde sentavam e se conservavam imóveis. No lugar destinado aos caciques haviam tomado assento quatro índios já idosos, que deviam ser sub-caciques.

Fiz um aceno aos substitutos dos caciques, que se aproximaram e se sentaram à minha frente.

— “Mão de Ferro” foi agraciado com a dignidade de cacique dos comanchos. Não ouviram os meus irmãos dizer tal?

— Sim, ouvimos — respondeu um por todos.

— Foi-lhe confiada a escolha de uma cabana para sua moradia e ele escolheu aquela onde se achavam recolhidos os prisioneiros. Desde então essa cabana era ou não de sua propriedade?

— Sim, pertencia a “Mão de Ferro”!

— E, no entanto, negaram-lhe o direito de propriedade sobre a dita cabana! São os caciques dos comanchos uns mentirosos vulgares que a cada passo estão a quebrar a palavra empenhada? Os prisioneiros pediram e “Mão de Ferro” lhes dispensou a sua proteção. Era me permitido negar essa proteção?

— Não.

— Pois bem, “Mão de Ferro” tomou os prisioneiros debaixo de sua proteção e declarou-lhes que os trataria como hóspedes. Não era permitido a “Mão de Ferro” fazer essa concessão?

— Não só lhe era permitido como também era seu dever fazê-lo.

Mas lá por isso não lhe assiste direito algum de arrancá-los à ação da justiça; cabe-lhe, em vista da atitude que tomou, protegê-los e depois... morrer com eles no poste dos martírios!

— Bem, era-lhe proibido cortar as cordas que prendiam os prisioneiros?

— Absolutamente não!

— Então “Mão de Ferro” agiu no exercício dos direitos que lhe assistiam: mas, não obstante essa circunstância, um dos caciques dos comanchos tentou assassiná-lo. Desviei-me, porém, e sua faca atingiu-me o braço. Que faz o comancho quando alguém invade a sua cabana?

— Mata o invasor atrevido.

— E também a todos os seus coniventes?

— A todos!

— Meus irmãos são sábios e justiceiros. Os quatro caciques do racurrohs pretenderam assassinar-me; não os matei, mas apenas os arrojei sem sentido ao solo; estão amarrados no interior de minha cabana e se acham vigiados pelos meus hóspedes. Sangue por sangue, clemência por clemência. Exijo a liberdade dos meus hóspedes em troca da liberdade dos caciques! Queiram os meus irmãos deliberar nesse sentido e eu aguardarei o resultado da deliberação. Mas não se aventurem a molestar os meus hóspedes, porque então estes matarão os caciques. Outro não poderá penetrar na cabana, além de “Mão de Ferro”.

Nenhum traço em suas fisionomias demonstrava a impressão que o meu relato deveria causar-lhes. Afastei-me a uma distância tal que não me era possível ouvir o que deliberavam. Aqueles índios pelo que me foi dado observar agora, constituíam o conselho dos sábios que se reúne sob a presidência do cacique mais idoso. Ao seu aceno, aproximaram-se deles alguns nativos que receberam a incumbência de transmitir aos guerreiros o novo estado de cousas. A enunciação do fato causou uma certa agitação na assistência, sem que eu notasse algo contra a minha pessoa. A deliberação continuou por muito tempo ainda, até que três dos conselheiros se encaminharam para mim. Um deles usou da palavra.

— O nosso irmão pele-branca considera os caciques como seus prisioneiros em sua cabana?

— Claro que sim!

— Neste caso pediríamos que nô-los pusesse à disposição para realizarmos um conselho a fim de julgá-los pela falta cometida!

— Meus irmãos esquecem-se de que não lhes cabe realizar reuniões de conselhos para julgar caciques, a não ser quando estes se revelam réprobos e covardes num combate? Os caciques dos racurrohs quiseram matar “Mão de Ferro”, estão presos na cabana deste e só ele tem o direito de puni-los?

— E que pretende fazer deles?

— Mata-los-á se não obtiver a liberdade de seus hóspedes.

— Mas estes hóspedes são seus conhecidos?

— Sim.

— Considere que no meio deles está Sans-ear, o assassino de peles-vermelhas!

— Os meus irmãos já o surpreenderam matando um pele-vermelha?

— Não. E Winnetou, o Pimo (*), que já assassinou centenas de comanchos!

— E no meio desses comanchos havia algum racurroh?

— Não. E quem é o terceiro pele-branca?

— Um nortista que nunca brigou com um guerreiro indígena.

— Se o meu irmão matar os caciques responderá por esse crime. Matá-lo-emos também, juntamente com os seus hóspedes.

— Os meus irmãos estão a troçar! Quem se aventuraria a matar “Mão de Ferro”?! No momento que quiser, ele põe a alma de todos no cano de sua espingarda.

Viram-se em dificuldades e passaram a refletir. De forma alguma poderiam louvar a atitude dos seus chefes.

— Queira meu irmão esperar até que voltemos!

Afastaram-se de mim e realizaram nova reunião do conselho. Tanto quanto eu podia alcançá-los com as vistas, em nenhuma atitude dos nativos havia demonstração de ódio ou raiva contra mim. Eu me conservava altaneiro e falava-lhes em termos discretos e comedidos. Portanto não se julgavam diminuídos em manter negociações

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(*) Palavra injuriosa com que os comanchos insultam os apaches, seus inimigos figadais.

 

comigo. Depois de meia hora, os três emissários vieram novamente ter comigo.

— “Mão de Ferro” será atendido. Recuperará a sua liberdade e a dos seus companheiros durante a quarta parte do tempo de um sol.

Ahn! Concluíram pelo velho sistema indígena de soltar os prisioneiros para depois numa caçada interessante e cheia de lances tornar a prendê-los. E em paga do “presente grego” exigiam a liberdade absoluta dos seus caciques! Um quarto de sol, denominação que os nativos dão ao dia, seriam seis horas apenas, tempo que nos dariam de dianteira para em seguida sair ao nosso encalço. Seria um tratado unilateral. Seis horas era muito pouco tempo. Mas se o prazo passasse a ser contado antes da noite, a nossa dianteira se prolongaria; poderíamos cavalgar a noite toda sem que eles nos pudessem perseguir, visto que à noite não enxergariam as nossas pegadas. Eu seria um tolo se nas circunstâncias atuais não concordasse com o que propunha o indígena. Contudo deveria manifestar-me ainda com certa reserva.

— “Mão de Ferro” aceita a proposta desde que os racurrohs devolvam aos seus hóspedes as armas que lhes tomaram.

— Serão devolvidas.

— Bem como tudo o mais que lhes pertencia?

Referia-me especialmente aos objetos de valor que Bernhard trazia consigo e os quais eu ignorava se os indígenas lhes haviam tomado ou não.

— Devolveremos tudo o que lhes tiramos!

— Meus hóspedes foram aprisionados pelos racurrohs sem que nada lhes tivessem feito de mal; os caciques, no entanto, deverão ser soltos, embora tenham atentado contra a minha vida.

— Que outras condições exige o meu irmão?

— Esta punhalada que recebi no braço custará aos caciques três cavalos, escolhidos por mim entre a cavalhada dos racurrohs; em troca dar-lhes-ei três dos nossos.

— Meu irmão é manhoso como a raposa; sabe que os seus animais estão esfalfados. No entanto estamos prontos a satisfazer essa exigência. Quando soltará os caciques de sua cabana?

— Quando me retirar.

— E nos devolverá então as nossas almas que se acham no cano de sua espingarda?

— Sim.

— Então pode ir para onde quiser. “Mão de Ferro” é um grande guerreiro e um chacal astuto; os espíritos dos caciques estavam conturbados quando com ele fumaram o cachimbo da paz! Howgh!

As negociações estavam encerradas e eu podia retirar-me. A passos lentos dirigi-me para a minha cabana. Eu estava sendo aguardado com ansiedade pelos companheiros e o fato de eu penetrar só na cabana constituía para eles uma prova de que nada de grave sucedera.

— E afinal? — perguntou Bernhard que não pôde conter a sua curiosidade.

— Os indígenas lhe tiraram as jóias e o dinheiro?

— Não. Por quê?

— Porque se lhe tivessem tomado, iriam devolvê-las agora. Estamos em liberdade por seis horas!

— Em liberdade, mestre! — exclamou Bob. — Oh! Livre Bob e mestre Bem!

— Well — disse Sam. Também é tudo o que podemos desejar. Mas em que pilhada fomos cair! Que será feito de minha “Tony”?

— Ser-te-á devolvida juntamente com tudo que te tiraram. Os nossos animais restantes estão demasiadamente esfalfados para resistirem a cavalgada forçada que seremos obrigados a empreender. Resolvi, pois, embora me desfaça com mágoa do meu poldro, trocá-los por outros três que escolherei na cavalgada dos comancbos.

— Que maravilha, Carlos — disse Sam, rindo-se; seis horas de dianteira e cinco bons cavalos, isto basta para nos pôr a salvo. Sim, espero que não escolhas três bodes em lugar de três boas montarias!

Contei-lhes sucintamente as minhas aventuras depois que deles me separei. Não havia ainda terminado o meu relato, quando do lado de fora ressoou um brado. Cheguei à porta e dei com os olhos na velha que me preparara as duas refeições.

— É para o pele-branca ir até lá!

— Lá onde?

— Para junto de Ma-ram.

Era um chamado singular. Entendi-me primeiro com os meus companheiros e saí em companhia da velha. Ela me conduziu a uma cabana fronteira, a que eu ocupara ontem. Diante da mesma havia dois cavalos ensilhados, um dos quais montava Ma-ram.

— Queira meu irmão pele-branca acompanhar-me para escolher os cavalos.

Montei e seguimos para a savana, onde encontramos uma numerosa tropa de cavalos amarrados. O jovem guia conduziu-me diretamente a um lindo puro sangue, amarrado um pouco distante da manada.

— É a melhor montaria dos racurrohs! Ma-ram recebeu-o de presente de seu pai, agora presenteia-o ao seu irmão “Mão de Ferro”, em troca do escalpo que lhe poupou!

Eu me senti surpreendido com aquela valiosa e quase generosa dádiva, pois montando aquele corcel jamais comancho nenhum me alcançaria. Naturalmente que aceitei o presente e escolhi para Bernhard e Bob, dois bons animais, com os quais podiam estar satisfeitos.

Voltamos para a taba, onde Ma-ram parou defronte da sua cabana.

— Queira meu irmão apear e entrar!

Não me ficava bem recusar o convite. O jovem ofereceu-me um bolo preparado pelos indígenas. Provei-o e achei-o saboroso. Depois despedi-me de Ma-ram. Quando me ia retirando, vi a indiazinha de olhos negros que me fitara com tanto interesse pela manhã. Ela fazia um pacote com provisões e corou ao avistar-me.

— Quem é esta filha dos racurrohs? — perguntei a Ma-ram.

— É Hi-lah-dih, (*) filha do cacique To-kei-chun. Ela pede que aceite o que lhe vai oferecer em sinal de reconhecimento por haver o senhor poupado a vida de seu pai e de seu irmão Ma-ram.

Estendi a mão à indígena.

— Manitu que lhe dê a graça de uma vida longa e farta de venturas, minha flor mimosa das savanas. Os seus olhos são expressivos e puros como as águas cristalinas de um poético regato e a sua tez é mimosa como o arminho! Que a menina seja ditosa

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(*) Fonte límpida

 

em sua existência toda!

Montei a cavalo e conduzindo os demais, galopei para a cabana onde estavam os meus companheiros. Todos ficaram entusiasmados com o cavalo que escolhi.

— Carlos, — disse Sam — é um corcel quase tão bom como a minha “Tony”; a única diferença é que esta tem o rabo um pouco mais curto e as orelhas um pouco mais compridas. Felizmente os peles-vermelhas nos devolveram tudo o que nos haviam tirado. Agora faltam exatamente seis horas para anoitecer. É preciso, pois, que partamos.

— E veremos se esses peles-vermelhas nos alcançarão.

Pusemos nos cavalos o que nos pertencia, desprendemos as cordas aos-prisioneiros e lhes tiramos as mordaças.

— Mestre, — disse Bob — agora vamo a galope pros índio não nos persegui.

Os caciques não se moveram, enquanto permanecemos na cabana. Montamos e saímos. As ruas das tabas estavam desertas; não se via um indígena. Indubitavelmente, porém, a nossa partida foi observada por todos. Apenas na cabana de To-kei-chun tive a impressão de ver uns olhinhos muito negros e muito expressivos a fitar-me. Os corações de centenas de guerreiros batiam naquele instante, sem dúvida, em expectativa ansiosa para nos capturar mais tarde. Mas, pelo menos, dois havia naquela taba, que pediam a Manitu que nos livrasse de cair novamente nas mãos dos comanchos.

 

Nova pista dos bandidos

Atravessáramos o rio Colorado e já havíamos transposto o território de Pautas, quando atingimos a desembocadura oeste da serra Nevada e fizemos uma parada para descansar à margem de um dos lagos de Mona. Era um local já bem distante do território dos comanchos. Havíamos cavalgado por savanas aparentemente sem fim, por entre montanhas, cujos cumes pareciam atingir o céu e por enormes trechos desertos; por mais resistentes que sejam os cavalos e os cavaleiros, em viagem tão escabrosa, têm que se deixar vencer pelo cansaço.

E o que nos levara a empreender tão longa cavalgada até termos Califórnia em nossa frente? Primeiramente, Marshall pretendia procurar o irmão naquela região e depois, éramos de opinião que os dois Morgans, após haverem perdido no rio Pecos, tão repentinamente, o tesouro roubado, haviam seguido para lá que é onde existem veios auríferos inesgotáveis.

E tínhamos razões para admitirmos aquela hipótese.

Depois de deixarmos a aldeia dos comanchos, com seis horas de liberdade, cavalgamos durante toda a tarde e a noite inteira, de forma que ao meio-dia já tínhamos a serra Guadalupe muito por trás de nós. A égua de Sam e o cavalo de Winnetou, apesar da viagem forçada, estavam em admiráveis condições de resistência; os outros animais de nossas montarias não demonstravam também o menor sinal de esfalfamento. Durante toda a viagem não percebemos o menor vestígio de estarmos sendo perseguidos e alguns dias depois, quando transpusemos o Rio Grande del Norte, estávamos completamente a salvo do “perigo comancho”.

A oeste do rio, as cordilheiras de Sonora se elevam em várias montanhas na direção do norte; atingimo-las sem termos aventuras dignas de registro.

Acampamos para a refeição do meio-dia num passo situado no cume duma elevação. Winnetou se postara de vigia numa rocha, que se erguia perto de nós e de onde se descortinava tudo ao derredor, numa grande distância.

— Uff! — exclamou ele subitamente; deitou-se no solo e arrastou-se para baixo, na direção do nosso acampamento.

Tomamos naturalmente de nossas armas e nos erguemos.

— Lá vêm uns peles-vermelhas.

— Quantos?

— Muitos!

Levantou as mãos estirando oito dedos.

— Oito! E de que tribo?

— Winnetou não pôde distinguir, pois os peles-vermelhas despiram as insígnias.

— Andam em expedição de guerra?

— Não estão com as caras besuntadas de tinta e areia, mas vêm armados com armas de guerra.

— A que distância ainda se acham?

— Dentro de um quarto de hora estarão aqui. Os meus irmãos vão agora se dividir. Winnetou com Sans-ear marchará para a frente, Marshall com o pele-preta para a retaguarda, ocultando-se ambos por trás da rocha, e meu irmão Carlos ficará aqui junto dos cavalos.

Tendo dito isto, o apache puxou os cavalos para trás dum montão de pedras a fim de ocultá-los, e se escondeu. Os três companheiros tomaram as posições indicadas pelo jovem cacique. Eu permaneci sentado, virado para o rumo de onde vinham os nativos.

Mal havia transcorrido o quarto de hora, percebi um tropel de cavalos; fiz como se nada tivesse ouvido, conservando, porém, os oito vultos de peles-vermelhas à vista. Estes haviam notado a minha presença e pararam os cavalos. O solo rochoso não recolhia pegadas: portanto não podiam saber se eu me achava acompanhado.

Levantei-me lentamente com a espingarda na mão; os nativos avançaram e pararam novamente uns dez passos à minha frente. O que vinha à vanguarda perguntou:

— Que está fazendo o pele-branca aqui nas montanhas?

— Descansando de uma longa jornada.

— De onde vem?

— Das margens do rio Grande.

— E para onde pretende seguir?

— Uff! — exclamou um dos outros, antes que me fosse possível responder à última pergunta. — Os guerreiros dos comanchos viram este pele-branca nas margens do Pecos. Estava na companhia de Ma-ram, o filho do cacique, e descarregou a sua espingarda contra os dois peles-brancas, que os meus irmãos perseguiam.

Aquele índio portanto pertencera à escolta dos cinco que, por me haverem agredido, deixaram os dois Morgans fugir. Não o reconheci porque daquela feita ele tinha o rosto pintado com as cores de guerra, tendo-me sido possível apenas um rápido olhar para os guerreiros.

— Para onde seguiu depois o pele-branca com Ma-ram? — perguntou-me o chefe do contingente, após esse esclarecimento.

— Para a taba dos comanchos.

— Como o pele-branca se encontrou com Ma-ram?

— Eu o aprisionei no vale, onde ele ficou, quando os guerreiros dos comanchos se retiraram levando presos Winnetou, Sans-ear, um pele-branca e um negro.

A essas palavras os comanchos sacaram das facas.

— Uff! — exclamou o chefe. — Ele aprisionou Ma-ram! E onde ficaram os demais peles-vermelhas?

— Não lhe fiz mal algum. Um deles amarrei e os outros quatro não tiveram olhos e nem ouvidos para ver e ouvir que eu aprisionara o filho de To-kei-chun.

— Mas Ma-ram estava solto, quando o vimos na companhia do pele-branca — observou o índio que há pouco fizera aquele esclarecimento.

— Logo depois de prendê-lo, restituí-lhe a liberdade, pois prometera acompanhar-me pacificamente à taba dos comanchos.

— Uff! Que pretendia o pele-branca lá?

— Libertar o cacique dos apaches e Sans-ear. Aprisionei os quatro caciques dos racurrohs e só os soltei em troca da liberdade dos meus amigos. Consegui retirar-me com eles, dando-me os comanchos o prazo de um quarto de sol para fugir a salvo de perseguição.

— E os prisioneiros fugiram?

— Fugiram!

Causava-me prazer enfurecê-los um pouco com esse relato.

— Neste caso o pele-branca terá que morrer!

O chefe do bando pegou de sua espingarda. Era o único que possuía essa arma. Os demais estavam armados apenas com arcos, flechas e facas.

— Os peles-vermelhas morrerão antes de erguerem as armas, pois não temo oito indígenas! Mas os guerreiros dos comanchos nada me farão se eu lhes assegurar que ainda hoje poderão prender Winnetou, Sans-ear, o matador de índios, e o outro pele-branca com o seu preto.

— Uff! Onde?

— Aqui mesmo! — Apontei para a direita e para a esquerda, — Lá está Winnetou com Sans-ear e ali o pele-branca com o preto.

De um lado e do outro vinham os meus companheiros avançando para a frente com as espingardas em riste. Foi quando recuei um passo e apontei a espingarda para o chefe.

— Os peles-vermelhas que se considerem deste momento em diante nossos prisioneiros; queiram descer imediatamente dos cavalos! — ordenei-lhes.

Homem contra homem, sobravam ainda três índios; mas as nossas espingardas os dominariam. Os nativos não podiam fugir nem pela direita, nem pela esquerda e os flancos estavam rodeados de montanhas intransponíveis. Não era de admirar, pois, que o chefe dos indígenas descansasse a sua espingarda e me perguntasse:

— Não vêm os peles-brancas que não nos achamos numa expedição de guerra?

— E no entretanto quiseram matar-me! Mas o pele-branca não quer derramar o sangue de seus irmãos da raça vermelha; queiram, pois, apear, e fumar o calumet da paz conosco!

O nativo hesitou a princípio em atender o meu convite, julgando haver nele um ardil.

— Como se chama o meu irmão pele-branca? — perguntou o índio.

— Chamam-me “Mão de Ferro”.

— Uff! Se é o “Mão de Ferro”, podemos ter fé nas suas palavras. Queiram os meus irmãos peles-vermelhas apear!

Tirou o calumet do arreio e sentou-se ao meu lado. Seus comandados o acompanharam nesse gesto. Os meus camaradas se aproximaram também, e todos fumamos o calumet com as cerimônias do ritual indígena. Bernhard cometeu a grave falta de passar o cachimbo também a Winnetou, Este o recusou, dizendo:

— O cacique dos apaches está sentado ao lado dos comanchos porque o seu irmão deseja viver em paz com eles. Mas o calumet ele não fuma com os racurrohs! Poderão falar tranqüilamente com o seu irmão pele-branca, mas depois de se separarem evitem encontrar-se com Winnetou pelo caminho, sob pena dele os mandar fazer companhia aos chacais mortos nos desertos!

Bernhard deveria ter previsto esta cena desagradável. Os comanchos fizeram como se não tivessem ouvido aquelas frases do apache. Para desanuviar o ambiente carregado, mudei de assunto, perguntando ao chefe dos comanchos:

— Os peles-vermelhas continuaram a perseguir os dois peles-brancas?

— Sim.

— E não os prenderam?

— Não. Os traidores penetraram no território dos inimigos dos comanchos e estes tiveram que recuar.

— Mas como conseguiram escapar, pois ficaram sem as montarias?

— Roubaram dois cavalos dos comanchos.

— Ah! Mas estes não tinham olhos para ver os ladrões e nem ouvidos para perceber os seus passos?

— Os racurrohs, em romaria, se haviam dirigido para o túmulo do cacique morto e, quando voltaram, encontraram o guarda assassinado e a falta de dois de seus melhores animais.

Realmente, fora este o único caminho para os Morgans se porem a salvo; mas para assim procederem era preciso uma audácia fora do comum. Os bandoleiros eram dois homens arrojados, com quem o inimigo nunca poderia facilitar. Mas em nossas mãos eles haveriam de cair, embora tivéssemos que dar a volta ao mundo. Por isso este encontro com os comanchos fora de incalculáveis vantagens para nós.

Os peles-vermelhas se demoraram pouco e, antes que partissem, perguntei ao chefe:

— Onde viu o meu irmão pele-vermelha o último vestígio daqueles dois caçadores?

— A dois sóis daqui. Pretende meu irmão continuar na sua perseguição?

— Sim. E se os encontrar, estarão irremediavelmente perdidos!

— Uff! O pele-branca fala ao coração dos comanchos. Que siga sempre o curso do sol até atingir um enorme vale que está situado entre o norte e o sul. Lá chegado, vá em direção do sul, onde encontrará vestígios de duas fogueiras acesas pelos dois canalhas. Até lá estiveram os comanchos, sendo, porém, obrigados a retroceder porque ali começa o território dos navajos.

— A que distância se achavam os meus irmãos dos bandidos, quando tiveram que retroceder?

— Quase a meio sol. Os comanchos teriam continuado na perseguição, mas avistaram no vale uma nova aldeia dos seus inimigos, onde fatalmente teriam encontrado a morte.

— Os guerreiros dos comanchos poderão dizer ao cacique To-kei-chun que Winnetou, Sans-ear e “Mão de Fogo” vão perseguir os dois traidores. Diga a Ma-ram que se lembre sempre de “Mão de Ferro”, porque este sempre pensa nele. É meu bom amigo!

Winnetou se havia afastado e não ouvia a nossa palestra.

— Winnetou, o apache, sairá agora em nossa perseguição?

— Não; ele é meu amigo e os comanchos fumaram o calumet comigo e os companheiros; por isso o cacique os deixará em paz.

Montaram a cavalo e se foram. Fizemos o mesmo. Os comanchos seguiram para o oeste para levar a notícia de que nos haviam encontrado, e nós, para o sul, levando conosco a certeza de ainda capturar os Morgans.

 

APRISIONADOS POR UM RANCHEIRO

Encontramos tudo de conformidade com a descrição do chefe do grupo de comanchos. Como os apaches viviam em paz e em boas relações de amizade com os navajos, chegamos com Winnetou até a sua aldeia. Aí soubemos que os nossos fugitivos haviam estado apenas algumas horas junto com os navajos, tendo-se informado do caminho para o Colorado. Também citaram o lago de Mona, e, embora tivessem passado vários dias, as pegadas dos fugitivos ainda se acham bem visíveis, robustecendo este fato a nossa convicção de conseguirmos deitar-lhes a mão.

Chegamos à serra Nevada e cavalgamos por uma extensa planície trilhada por pegadas recentes de tropas de búfalos. Tínhamos grande interesse em nos encontrarmos .com algum desses animais; já há vários dias que vínhamos alimentando-nos com xarque, e, embora a nossa provisão ainda desse para alguns dias de viagem, uma coxa daquela rês ou um filé constituiria naquele momento verdadeiro maná para nós.

Com este propósito, atalhei, na companhia de Bernhard, que nunca tomara parte em caçada de búfalos, pela direita, direção que, pela vegetação do lugar, nos fazia supor alguma aguada, para onde indubitavelmente se havia dirigido alguma manada daquelas reses.

Estávamos em pleno meio-dia, de sol ardente, hora em que os animais gostam de se refrescar nas aguadas e pastar em suas imediações.

Realmente, não foi baldada a minha esperança, pois surgiram nos no horizonte quatro daqueles animais, a cujo encontro galopamos imediatamente. Infelizmente, porém, os búfalos não tardaram a nos avistar, obrigando-nos a tocar os cavalos em disparada a fim de não perdê-los de vista, pois já fugiam. O meu cavalo deu uma demonstração cabal de sua resistência e velocidade, voava como se o seu montador fosse um jóquei, tendo deixado o animal de Bernhard muito atrás. Essa caçada deu lugar a que eu verificasse possuir um animal de resistência própria para as savanas. Avistei em boa posição um búfalo que, em vez de abater a tiros, resolvi laçar. O meu laço não estava dotado de uma rodela de couro como o dos indígenas, mas sim de uma argola de metal, por onde a corda desliza com mais facilidade.

Na planície alcancei as reses. Eram um macho possante e três fêmeas, das quais escolhi a de pêlo mais liso e lustroso por me parecer de carne mais macia. Apartei-a dos outros búfalos, passei para o seu lado e atirei-lhe a laçada. O meu animal portou-se com brilhantismo: assim que atirei o laço, ele calçou as quatro pernas no solo e ficou imóvel, duro como se fosse um cavalete fincado ao chão. A laçada atingira o pescoço do búfalo que deu um arranco capaz de me derrubar o cavalo se este não fosse tão forte. O búfalo fêmea caiu ao solo e eu apeei depressa para sangrá-lo: depois dei um coronhaço tão violento na nuca, que lhe quebrei o pescoço. O cavalo acompanhou-me com os olhos, e, logo que viu a minha tarefa concluída, deu uns passos para a frente, afrouxando o laço. Cheguei-me ao bravo animal e o amimei passando a mão pelas ancas e pelo pescoço; ele, grato por aquela carícia, esfregou a cabeça nas minhas espáduas.

Tirei a laçada da cabeça do búfalo e me dispunha a carneá-la quando Bernhard chegou:

— Cheguei tarde! — disse ele com inflexão de queixa na voz. — Devo sair em perseguição dos outros que fugiram?

— Não. Esta rês nos basta e terá que me ajudar a carneá-la.

Ele apeou-se e ajudou-me a virar a rês para o outro lado. Notamos então, que ela trazia uma marca feita a fogo no quarto.

— Ah! Era um búfalo manso e pertencia, sem dúvida, ao rebanho de alguma estância, fazenda ou rancho.

— E era nos permitido neste caso abater esta rês?

— Sim. As reses nesta região têm apenas o valor que possui o seu couro. Todo o viajante tem o direito, conforme uso corrente, de abater um animal destes para a sua alimentação, ficando apenas com a obrigação de entregar o couro ao dono da rês.

— Neste caso teremos que procurar o dono desta!

— Também não. Encontrando algum estabelecimento pastoril aqui pela imediações, basta que o procuremos a fim de dizer o local onde deixaremos o couro. Durante as grandes matanças anuais é muito comum os fazendeiros abaterem alguns gados que não lhes pertencem e que se extraviaram pelo seu campo. Se isto ocorre, devolvem o couro ou fazem a permuta no caso do outro também ter abatido, nas mesmas condições, alguma rês do primeiro.

A rês se achava a uns cinco passos de uma moita. Mal havíamos terminado de carnear o animal, percebi um ruído a que Bernhard acompanhou com um brado de susto. Olhei para ele e vi que fora preso por um laço que lhe atiraram da moita. Peguei da espingarda que se achava ao meu lado, transpus a moita e notei um cavaleiro em trajes mexicanos que galopava arrastando Bernhard pelo laço.

Eu não podia hesitar, pois do contrário com aqueles arrastões dentro em pouco Bernhard estaria morto. Apontei a espingarda, mirei o cavalo do mexicano e desfechei o tiro. O cavalo deu mais alguns passos e tombou ao solo, morto. Corri até lá, o cavaleiro fora atirado ao solo e já se havia levantado. Quando me avistou, tentou fugir, o que pôde fazer, pois eu não podia segui-lo uma vez que em primeiro lugar me competia atender Bernhard. A laçada havia-lhe preso de tal modo que o rapaz não podia mover-se. Afrouxei o laço e vi logo que não fora ferido, pois começou a andar com o mesmo desembaraço de sempre.

— Arre, mas que valente arrastão! Que queria, afinal, este sujeito comigo?

— Também não sei.

— Por que não alvejou o canalha em vez do cavalo?

— Primeiro, porque ele é um ser humano e o cavalo não. Em segundo lugar, porque a sua morte de nada lhe adiantaria, pois não vê que o laço estava preso ao serigote? O cavalo continuaria na disparada.

— É mesmo! — disse examinando o seu corpo para ver se nada havia sofrido.

— Voltemos para junto da rês, a fim de terminarmos quanto antes a sua carneação. Receio que algo de mais grave ainda nos possa suceder aqui!

— Creio que estamos no meio de perigos permanentes, visto que aos achamos em território indígena!

— Está muito enganado. Achamo-nos, não em território indígena, mas numa daquelas regiões perigosas, onde perambulam, em vez de los índios bravos, como os tratam os espanhóis, toda a casta de salteadores mexicanos e ianques, gatunos que cometem as mais inimagináveis tropelias. Não tardará, talvez, a vê-los e ouvi-los!

Separamos os melhores pedaços da rês, que colocamos sobre o cavalo; logo depois nos pusemos a caminho para nos encontrarmos com os companheiros. Logo os encontramos, pois haviam feito alto à nossa espera. Quando Bob viu a provisão de carne fresca, que trazíamos, gritou ainda de longe:

— Oh! Lá vem o mestre com um bom bife. Bob vai come até não pude mais! Nego Bob vai logo apanha lenha pra assa a coxa do búfalo.

O negro juntou logo às palavras a ação, e, enquanto ele assava com rara perícia, a coxa do búfalo, eu ia contando a nossa aventura há pouco vivida. Logo que o assado ficou pronto, causou pasmo a todos o enorme pedaço que desapareceu no meio dos grossos lábios do negro. Estava tão absorto na sua mastigação que nem ouviu quando Sam preveniu:

— Lá ao longe são cavaleiros que se aproximam ou cavalos que estão pastando?

Olhei com o binóculo para a zona indicada.

— São oito cavaleiros.

— Ter-nos-ão avistado?

— Naturalmente. De há muito que já devem ter notado a fumaça.

— E que espécie de cavaleiros são?

— Pelos chapéus de abas largas e pelos serigotes de cabeça alta, que usam, podemos concluir que são mexicanos.

— Neste caso, por precaução, empunhemos as nossas armas: é possível que essa visita se relacione com o cavaleiro, cujo cavalo acabas de matar.

O grupo cada vez se aproximava mais de nós e, quando chegou bem perto, parou. Eram todos mexicanos, um fazendeiro e sete peões, conforme as aparências. Num dos peões reconheci o cavaleiro que há pouco perdera a sua montaria ferida pela minha espingarda. Conferenciaram primeiro, tendo depois se dividido pelos dois flancos para envolver-nos num cerco.

— Parece que pretendem falar conosco, hihihihi! — cochichou Sam — Eu sozinho posso repeli-los!

O cerco cada vez se apertava mais; não tardou que o fazendeiro se aproximasse de nós. Falou-nos naquele dialeto, misto de espanhol e de inglês:

— Quem são os senhores?

Sam respondeu por nós:

— Somos mormons, viemos das cidades dos lagos salinos e nos dirigimos para a Califórnia, em missão de nossa seita.

— Pois afianço-lhes que irão fazer maus negócios! E quem é aquele indígena?

— Não é indígena e sim um esquimó da Nova Holanda, o qual vamos exibir, mediante pagamento de entradas, no caso de realmente não sermos bem sucedidos em nossos negócios.

— E o negro?

— Não é negro, é um advogado de Kamtschatka, que vai a S. Francisco tratar de um processo.

O pobre mexicano devia possuir parcos conhecimentos geográficos, como, aliás, a maioria de seus patrícios! Disse então:

— Esplêndida caravana! Três missionários mormons e um advogado e alienígena roubam-me uma rês e tentam ainda assassinar o meu vaqueiro! Vou mostrar-lhes o que significa essa violação de nossas leis! Os senhores estão presos: acompanhem-nos ao meu rancho.

Sam com fisionomia manhosa virou-se para mim e perguntou:

— Vamos, Carlos? Quem sabe se no rancho dele há alguma cousa melhor para a gente comer!?

— Sim, vamos experimentar! Se o homem não for um fazendeiro possuidor de inúmeros capatazes e peões, mas um simples e pobre rancheiro, nada conseguirá fazer-nos!

— Well, vamos divertir-nos um pouco com essa gente! Sam se dirigiu novamente ao mexicano:

— Mas pretende realmente nos molestar por causa daquela ninharia, señor?

— Não sou um señor, mas um Don, sou um poderoso, um fidalgo e costumam chamar-me de Don Fernando de Venango e Colona de Molynares de Gajalpa e Rostredo, tomem nota disso!

— Heigh-day, como é um grande Senhor! Neste caso somos obrigados a obedecê-lo; estamos, porém, certos de que mereceremos a graça de sua indulgência!

Não fizemos o menor movimento de reação; erguemo-nos, apagamos o fogo e montamos a cavalo. Bob riu-se satisfeito:

— Oh, que bom! Nego Bob virô advogado de... Bob não se alembra mais! No rancho deve te munta comida boa e também qualqué coisa de mió pra bebê do que água. Bob vai mora no rancho como num palácio!

 

UM TRIBUNAL PITORESCO

Em seguida, formando um quadrado, tocamos a galope porque doutro modo não sabem cavalgar os mexicanos, campo afora. Por esta ocasião tive ensejo de observar mais de perto as vestimentas dos mexicanos. São lindas, românticas como raramente se encontram em qualquer outro país. O chapéu, sombrero como o tratam, com amplas abas e copa bem baixa, é feito de feltro marrom ou de palhinhas também conhecidas na Europa, pois delas é que se fazem os custosos chapéus de Panamá. O chapéu de um señor, seja este señor de fazenda, estância ou rancho ou ainda de uma quadrilha de bandoleiros, em geral tem a aba levantada num dos lados e presa por um pregador de latão, ornado de pedras preciosas ou de vidro fantasia; isto vai de acordo com as posses de quem o usa.

O mexicano usa casaco curto e aberto, com mangas largas. As mangas, as costuras das costas e a frente são abundantemente ornadas com fios de fina lã, algodão ou seda. Também costumam bordá-las e enfeitá-las com fios dourados, prateados, etc.

Ao pescoço usam um lenço preto, cujas pontas amarram na frente com um nó. As pontas desse lenço desceriam até a cintura, se não as atirassem sobre os ombros; isso concorre para dar um pitoresco aspecto ao cavaleiro.

As calças são de um modelo especial; presas por uma larga cinta à cintura, bem apertadas nos quadris, das pernas para baixo cada vez vão se alargando mais. As costuras das calças são também bordadas com fios de cores vivas, em vez de botões, como as bombachas dos gaúchos. Até as botas feitas de couro envernizado são bordadas. Completa-as um par de esporas de tamanho descomunal. Estas são, em geral, de prata, de aço ou latão ordinário; alguns as usam até de chifre, dotadas de uma ponteira mais do que suficiente para produzir ferimentos profundos na barriga dos pobres animais. O tamanho dessas esporas excede o das usadas na Idade Média. Com as rosetas medem, em média, dez polegadas, das quais, no mínimo, seis mede o dispositivo, onde se acham presas as rosetas. Estas são do tamanho de um dobrão! A espora toda pesa duas libras, e, às vezes, até mais.

O mexicano, em geral, anda montado em animais possantes, capazes de resistir às mais duras correrias e às mais penosas viagens, tanto nas campinas como através de terrenos acidentados. Além disso, o mexicano é adestrado em todas as armas por eles usadas, armas que nem à noite, quando dorme, abandona.

Uma das armas mais em voga é uma pistola de cano comprido, com a qual, em qualquer emergência, consegue transformar em espingarda curta e desferir coronhaços mortais no inimigo. Com essas pistolas ele dá um tiro certeiro a uma distância de cento e cinqüenta passos. Outra arma, não menos perigosa, constitui o laço que eles manejam com invulgar maestria, tanto contra animais como contra homens.

Depois de cavalgarmos mais de meia hora, surgiu diante de nós, a uma distância regular, um conjunto de casinhas, que supomos logo ser o rancho. Lá chegando, entramos para o terreiro e apeamos.

— Señora Eulalia, señorita Alma, venham, venham ver quem vem comigo! — disse o rancheiro em voz alta, dirigindo-se para a casa principal.

A esse chamado, duas criaturas vieram correndo para a porta com tanta velocidade, que instintivamente tive que me lembrar dos versos de Schiller:

 

Surgiram à porta escancarada, rapidamente,

Duas figuras feminis de olhar candente.

 

Sim, eram duas damas, uma señora e uma señorita, conforme declarara o rancheiro; mas a criada de baias de um camponês de Linneburg teria, perto delas, a aparência de uma grande dama. Ambas se achavam descalças e de cabeça descoberta. Não pude distinguir bem se a horrível enroscadura, que traziam à cabeça, era pericoté dos cabelos ou não. Um vestido curto cobria-lhes as coxas, e dos joelhos para baixo, até o tornozelo, usavam um calçado imundo, semelhante a um cano de botas com joelheira. O tronco era protegido por uma espécie de blusa que, em épocas remotas, fora, talvez, de tecido branco, mas que agora tinha a aparência de haver sido utilizada para a limpeza de uma chaminé.

Como eu estava dizendo, as duas damas vieram à porta, depois saíram para a rua em vertiginosa carreira e ficaram boquiabertas, com os olhos arregalados postos em nós.

— Quem nos trás o senhor aí, Don Fernando de Venango e Colona? — perguntou a velha rangendo os dentes enfurecida. — Que trabalhão enorme vai me dar se esses homens completamente estranhos pretenderem, como hóspedes nossos, comer, beber, jogar, dormir e cuspir aqui em casa. Isso eu não admito, antes prefiro sair a correr campo fora e deixar o senhor sozinho neste triste rancho, na companhia dessa sua tropa de bagaceira que arrebanhou, sabe lá Deus onde! Antes eu nunca tivesse me fiado em sua lábia, abandonando o meu lindo S. José, onde eu vivia tranqüila e com todas as comodidades! E além disso...

— Mas, mamãe, a senhora não vê que aquele Don ali, o mais moço deles, é muito parecido com o nosso bom Don Allano! — atalhou a moça, apontando para Bernhard Marshall.

— Que seja parecido, mas não é ele! — replicou a velha visivelmente enraivecida por haver sido interrompida em sua veemente verborragia. — Quem, são, afinal esses homens? Já basta o serviço que tenho para manter a arrumação do rancho e cozinhar para nós e para toda essa cáfila de peões e capatazes, que vivem a me aborrecer a paciência! Muitas vezes chego a não saber se tenho cabeça ou não, e, além disso, ainda me encarregam dos trabalhos de hospedar cinco pessoas estranhas...

— Mas señora Eulalia, eu não trouxe esses homens como hóspedes! — atalhou o rancheiro.

— Não trouxe como hóspedes? Mas como então Don Venango e Colona?

— Como prisioneiros, señora Eulalia.

— Como prisioneiros? Por que os prendeu Don Fernando de Venango de Molynares?

— Eles nos mataram uma vaca e três vaqueiros, prezada señora Eulalia! Era interessante ver o cinismo com que o rancheiro exagerava a nossa culpa!

— Uma vaca e três vaqueiros! — exclamou a velha com as mãos imundas postas para o céu e num gesto tão intempestivo, que assustou os nossos cavalos, deixando-os de orelhas levantadas e crinas eriçadas. — Mas isto é horrível... tão horrível que está a bradar ao trono de Deus! O senhor pegou-os em flagrante delito, Don Fernando de Venango de Gajalpa e Rostredo?

— Não só na prática de um, mas na de todos os crimes, señora Eulalia. E esses canalhas não só mataram as vítimas como ainda as assaram e comeram!

D. Eulalia arregalou novamente os olhos:

— Assaram e comeram? A vaca ou os três vaqueiros, Don Fernando de Gàjalpa e Rostredo?

— Primeiramente a vaca, señora Eulalia.

— Primeiramente! E depois, Don Fernando Rostredo e Venango?

— Depois? Nada mais, pois os interrompemos de modo que tiveram que desistir de continuar na prática de tão hediondo delito. Prendemo-los e os conduzimos para aqui, señora Eulalia.

— Prenderam os homens e os trouxeram para aqui! Oh! Todo o mundo sabe como os senhores são valentes ginetes! Afinal quem são esses homens, Don Fernando de Molynares e Colona?

— Estes três brancos são missionários das cidades do mormons, e se dirigem para S. Francisco da Califórnia para converter aquela região ao seu credo.

— Socorro! Socorro! Missionários que roubam e matam vacas e que come vaqueiros assados! Don Fernando de Rostredo e Venango!

— Este preto, que se parece com um negro, é um advogado de... de... de lá das regiões onde moram os habitantes da Terra do Fogo! Ele pretende apoderar-se indebitamente de uma herança, em nome do seu constituinte, señora Eulalia!

— Apoderar-se indebitamente? Mas isso não significa roubar, Don Fernando de Venango de Molynares?

— Mais ou menos, señora Eulalia!

— Oh! Então não é de admirar que ele também se apodere indebitamente de vacas e vaqueiros! E o último deles, Don Fernando de Colona e Gajalpa?

— O seu aspecto é semelhante ao de um indiano bravo(*), mas é um hotentote da... Groenlândia. Os missionários pretendem exibi-lo mediante pagamento de entradas, señora Eulalia.

— Oh! Oh! Oh! E que pretende fazer dessa gente, Don Fernando de Molynares de Gajalpa e Venango?

— Enforcá-los ou fuzilá-los. Reúna todo o meu pessoal, señora Eulalia!

— Todo o seu pessoal? Mas já está todo aí na sua companhia menos a crioula Bety que lá vem vindo pé por pé! Mas agora é que me ocorreu uma cousa: vejo que não falta ninguém do seu pessoal e no entanto o senhor afirma que lhe mataram três vaqueiros? Como se explica isso, Don Fernando Rostredo de Colona?

— Já encontrará a explicação, señora Eulalia! E dirigindo-se aos peões:

— Fechem todas as porteiras e cancelas, señores, para que os prisioneiros não possam fugir! Eu vou imediatamente realizar um júri que os punirá com todos os rigores das leis!

_______________

(*) Nome que os mexicanos dão aos índios ferozes.

 

No modesto estabelecimento pastoril havia, aliás, uma única cancela, ou ainda, projeto de cancela. Esta foi fechada com um forte cadeado; mas mesmo assim qualquer criança poderia galgá-la.

— Bem, — continuou o rancheiro. — Traga-me agora uma cadeira, señora Eulalia! Amarrem os cavalos aos moirões que aí estão e depois começaremos o júri!

Não nos opusemos à execução das ordens dadas pelo tal Don Venango. Com o afastamento dos cavalos, adquirimos maior espaço e naturalmente não tínhamos o menor temor do curso e resultado final do júri.

Em vez de uma trouxeram, porém, três cadeiras. Na do meio tomou lugar Don Fernando, e a seu lado, a señora Eulalia e señorita Alma, com os seus “trajes talares” há pouco descritos. Quanto a nós nos reuníramos a um grupo no meio de um quadrado formado pelos vaqueiros.

— Começarei o interrogatório, tomando nota dos nomes dos réus. — declarou o rancheiro, abrindo a sessão. — Como te chamas?

— Bob — respondeu o negro a quem a pergunta era dirigida.

— Verdadeiro nome de ladrão! E tu?

— Winnetou.

— Winnetou? Um nome roubado, pois assim chama-se o maior e o mais célebre cacique de todas as tribos indígenas. E tu?

— Marshall.

— Veja, tem o mesmo nome do outro! — apressou-se a moça em dizer, dirigindo-se à señora Eulalia.

— Um nome ianque. Nenhum ianque presta! E tu?

— Sans-ear.

— Também um nome roubado, pois assim se chama um velho caçador das campinas, que é conhecido até nas mais longínquas regiões como o mais valente dos campineiros e o mais célebre inimigo dos indígenas! E tu?

— “Mão de Ferro”.

— Outro nome roubado! Não são apenas ladrões; são ainda mentirosos e embusteiros!

Avancei uns passos de modo a ficar bem ao lado do vaqueiro que laçara Bernhard e o arrastara.

Fixei o rancheiro energicamente e retruquei:

— Não estamos mentindo! Quer que o prove?

— Pois prove!

De chôfre o meu punho cerrado entrou em contato com a cabeça do vaqueiro e este tombou ao solo sem proferir um ai!

— Está convencido agora de que não uso um nome roubado? Em vista do golpe a que assistiu, não está agora convencido de que de fato sou o “Mão de Ferro”?

— Üúú... úúú... ú... úúúúúú! Alma, segura-me, estou desmaiando! Estou atacada de mareo ou de tétano! — gritava a señora Eulalia, abrindo os braços para se atirar de encontro ao peito de Don Fernando. Este quis pular, mas a carga que se recostava ao peito impedia-o de fazer qualquer movimento e ele não se animou a se desembaraçar da mesma. O rancheiro urrava como um leão e ameaçava-nos com céus e infernos, fazendo coro com ele a señorita Alma. O mexicano a cavalo luta com verdadeiro denodo, mas a pé é um mau combatente e os vaqueiros que nos cercavam, não se achavam fora dessa regra. Quando nós os cinco, logo depois do meu soco de guerra, pegamos das espingardas e apontamos para eles, ficaram visivelmente desconsertados. Tomei, então, a palavra:

— Não tenham receio, señores. Não lhes faremos nenhum mal, desde que se portem com sensatez. Queremos apenas chamar-lhes a atenção para um engano em que incidiram e depois disso, estarão livres de fazer de nós o que entenderem.

Aproximei-me mais até chegar às três cadeiras, onde fiz uma inclinação respeitosa.

— Señora Eulalia, eu sou um grande admirador da beleza e excelsas virtudes femininas. Permita que lhe peça para acordar-se e conceder-me a graça de um olhar?

— Ahhh!

Com este profundo gemido de alívio, ela abriu os seus pequenos olhos de basilisco (*) e deu à sua fisionomia amarelada uma expressão que poderia ser de desprezo, mas que se assemelhava mais a temor e desconsêrto.

— Linda dama, talvez já tenha ouvido falar em cours d’amour, das cortes amorosas dos tempos idos em que a dama mais admirada presidia os júris e todos se inclinavam ao seu veredicto! O júri que Don Fernando está realizando para nos julgar deve ser considerado insubsistente, pois ele faz também parte do processo e portanto não pode, por justiça, funcionar como juiz. Pedimos a D. Fernando para passar os poderes, de que está investido, às vossas níveas e delicadas mãozinhas. Assim ficaremos certos de que a senhora julgará e punirá realmente os verdadeiros culpados!

— É este realmente o seu desejo, señor? — perguntou-me a dama gaguejando e num tom de voz semelhante ao ruído produzido por uma escova quando é esfregada num assoalho que se lava...

— É, sim; não só o nosso desejo, mas também o nosso anelo! Aliás, não estamos devidamente paramentados para falar a uma dama de sua distinção, mas deverá levar em conta que nos achamos já há meses em jornada pelo oeste bravio, onde não se pode cuidar da indumentária. A bondade, porém, é um dos maiores ornamentos da alma feminina, e assim esperamos ser perdoados como também atendidos no pedido que lhe fazemos com fervor!

— Os senhores realmente são os homens cujos nomes citaram há pouco?

— Somos, sim senhora, D. Eulalia!

— Está ouvindo, Don Fernando de Venango e Gajalpa? Estes afamados señores me investiram das funções de juíza para julgar a sua causa O senhor sabe muito bem que não admito que me contrariem! Concorda com essa indicação?

O rancheiro mostrou uma fisionomia de azedume, mas, ao que parecia, era completamente dominado por D. Eulalia; além disso, ficou talvez satisfeito em poder respirar com mais alívio; por isso, respondeu-lhe:

— Sim, assuma a presidência do júri, señora Eulalia! Estou convencido de que mandará enforcar esses homens.

— Segundo o crime que cometeram, será a minha sentença, Don Fernando de Colona e Molynares!

Depois se dirigiu a mim:

— Fale, señor! Concedo-lhe a palavra!

_____________

(*) Lagarto fabuloso, a que se atribuía o poder de matar com a vista.

 

— D. Eulalia, se a senhora se achasse em viagem há longos dias e, dada à falta de recursos que há nas savanas, estivesse com fome e encontrasse numa campina a pastar uma vaca bem gorda, não lhe era permitido abater esta rês para a sua alimentação contanto que se dispusesse a reservar o couro para o seu dono?

— Naturalmente. Em toda parte a lei dá esse direito!

— Não, em toda parte, não!

— Pois o... o rancheiro tentou impedir-me,

— Silêncio! Silêncio, Don Fernando!! Quem está agora com a presidência do júri sou eu e o senhor só poderá falar quando eu lhe conceder a palavra! Está ouvindo?! — disse ela no momento em que D. Fernanda se levantou para protestar.

O rancheiro resignadamente tornou a sentar-se na sua cadeira. Também pelo semblante dos vaqueiros podia concluir-se que D. Eulalia é quem. tinha verdadeiramente a voz de mando no rancho.

— Pois este foi o nosso crime, D. Eulalia — continuei. — Veio depois o vaqueiro que aí está estirado no solo, laçou o meu companheiro Bernhard Marshall e tê-lo-ia morto se eu não desfechasse um tiro no cavalo fazendo-o tombar sem vida!

— Marshall! Este nome me é muitíssimo caro! Um señor Allano Marshall morava na casa de minha irmã em S. Francisco.

— Allano Marshall. Não era de Louisville nos Estados Unidos? — perguntei admirado.

— Naturalmente, naturalmente é este mesmo e não outro! Conhece-o?

— Claro. Este meu companheiro que se chama Bernhard Marshall e mora em Louisville, onde possui uma joalheria, é seu irmão.

— Santa Lauretta! Sim, tudo combina! Joalheiro também era Allano e disse que tinha um irmão que se chamava Bernhard. Alma, o coração não te enganou. Venha aos meus braços, señor Bernhard, pois usted é bem-vindo nesta casa!

Embora Bernhard estivesse radiante de alegria por ter sabido ao menos, notícias de seu irmão, apenas levou a mão da dama à altura onde deviam estar situados os seus lábios e diplomaticamente evitou dar-lhe ou receber um abraço.

— Eu vim aqui, — disse ele depois — somente com o fim de procurar o meu irmão. Onde se acha ele agora, D. Eulalia?

— Alma, minha filha, esteve recentemente em visita à minha irmã. Quando ela voltou, Allano se preparava para seguir para as minas auríferas. Estes señores são todos seus amigos, señor Bernhard?

— Todos! Devo-lhes muito, devo-lhes a minha liberdade e a própria vida! Este cavalheiro aí chama-se “Mão de Ferro”, salvou-me de morrer de inanição na unha dos bandidos do Llano Estacado e depois libertou-me da aldeia dos comanchos, onde me achava preso e ia ser executado no poste dos martírios.

Tornou novamente a erguer as mãos postas para o ar.

— Será isso possível? Tais aventuras viveu o senhor? Oh, terá que nos contar todas elas! Mas como se explica ser o senhor um mormon quando o seu irmão não o era?!

— Não somos mormons, D. Eulalia! Dissemos aquilo ao rancheiro por exclusivo espírito de pilhéria.

Mais do que depressa a dama virou-se para o rancheiro dizendo-lhe:

— Está ouvindo, Don Fernando de Venango e Gajalpa! Esses homens não são mormons, nem assassinos e ladrões! Absolvo-os, e são considerados a partir de agora, nossos hóspedes de honra e ficarão nesta casa durante o tempo que quiserem! Alma, corra até a cozinha e traga a garrafa com “Basilikjulep”! Precisamos beber em regozijo pela chegada desses nobres cavalheiros.

Ao ouvir pronunciar a palavra “Basilikjulep”, a fisionomia do rancheiro readquiriu a sua vivacidade costumeira. Pelo que deduzi, só lhe era permitido pela sua governanta ingerir aquela bebida em ocasiões solenes, e por isso, não era de estranhar que também ele agora estivesse a bendizer o momento em que abatemos uma rês no seu campo. Percebi ainda que, graças ao “julep” ele ia reconciliar-se conosco.

A señorita Alma saiu correndo — estou quase a dizer que as sujeiras que lhe cobria os pés encardidos chegavam a rachá-los — e voltou em seguida trazendo na mão uma garrafa bojuda e alguns copos de considerável tamanho. Todo aquele que conhece a espécie de bebida a que os ianques chamam de “julep”, está agora a dizer que nós, por dever de cortesia, apenas tocamos com os lábios nos copos e que as damas não lhe quiseram sentir nem o cheiro. Quanto a nós, a suposição é acertada; quanto às damas, porém, devo dizer que esvaziaram os seus copos com uma sofre-guidão tal, como se estivessem a sorver néctar divino... Winnetou não tomou uma só gota daquela bebida infernal, pois, por princípio, repudiava toda e qualquer espécie de “água de fogo”. O rancheiro foi repetindo os tragos até que a sua resoluta governanta lhe arrancou intempestivamente a garrafa da mão.

— Não beba demais, Don Fernando de Venango e Rostredo! O senhor sabe muito bem que tenho apenas duas garrafas desta excelente marca. Conduza esses cavalheiros à sala de visitas. Nós, as damas, vamos primeiro nos preparar para depois irmos todos tomar uma refeição. Venha, Alma! Adios, señores!

As damas sumiram-se por trás de um armário; lá deveria estar, sem dúvida, o seu vestiário; nós, porém, fomos conduzidos a um compartimento a que D. Eulalia dera o pomposo nome de “sala de visitas” mas que em outra qualquer parte se chamaria eira. Uma mesa e alguns bancos feitos de madeira tosca havia na “sala de visitas” e por isso fomos logo nos acomodando. Notamos então que os vaqueiros tomaram apressadamente conta dos nossos cavalos e pressurosamente examinavam os conteúdos de nossas maletas e sacos de viagem presos aos arreios. Em virtude desse gesto, saí para a rua a fim de pôr a nossa “bagagem” em segurança, pois é sabido que o melhor vaqueiro é, via de regra, o melhor gatuno... Determinei que Bob ficasse junto dos cavalos, a fim de vigiá-los na pastagem fronteira à casa, onde eles se achavam.

— Mestres vão come agora cumida munto boa lá na sala de janta. Pruquê nego Bob não pode cume também em veiz de cuida dos cavalo?! — exclamou o negro um tanto contrafeito.

— Porque és mais forte e valente do que Winnetou e Sans-ear e, assim, posso ter confiança em ti que cuidarás de nossos bons cavalos!

— Oh! Ah! O mestre tem razão em dizê isso! Bob é forte e valente e vigiará com todo cuidado os anima dos mestre!

Eu conseguira com aquela minha tirada harmonizar as cousas com o negro. Voltando à “sala de visitas”, lá mantivemos uma palestra bastante monossilábica, até que chegaram as damas da casa. Contrastando com a aparência há pouco apresentada, elas se achavam vestidas com toda a elegância e usavam uma indumentária idêntica às do mundo elegante da Alameda, no México.

Os trajes das senhoras mexicanas, com exceção de um ou outro detalhe, acompanham a moda européia. Chapéus e boinas não são adotados e nem mesmo as lojas de modas mais exageradas tentaram jamais um esforço em introduzi-los. No seu lugar, as mexicanas usam o rebozo, um chalé de dois metros de comprimento e que cobre ao mesmo tempo a cabeça. Em sociedade, as damas o usam em geral nos ombros tal qual as damas européias. Mas quando saem à rua, seja para visitar uma amiga ou seja para passear, o rebozo é sempre colocado na cabeça com as pontas caídas para as costas de modo a deixar o rosto descoberto. Como é feito de tecido tênue serve também para cobrir não só a cabeça e as costas, como também serve de véu que envolve, neste caso, não só a cabeça, o rosto e os ombros, mas também todo o busto.

O rebozo de uma mexicana de distinção deve ser tecido por mão de mulher indígena. E como se trata de um trabalho todo feito à mão, leva dois anos para ser executado; daí ser muito elevado o preço que pedem por aquela peça de vestuário feminino. Há rebozos que custam até uma fortuna.

Foi ostentado o rebozo que se nos apresentaram as duas damas. Haviam lavado as mãos e os pés, que estavam agora metidos em sapatos e finas meias. Se não as tivesse visto antes em suas vestes caseiras, ou, para melhor me expressar, rancheiras, pelo menos a jovem me teria causado uma impressão satisfatória.

 

CARDÁPIO INFERNAL

Tomaram lugar à mesa, a fim de fazerem as “honras da casa”; a crioula encarregou-se do serviço de mesa. Deu na vista a insistência das damas em falar sempre a respeito do señor Allano e em vista disso, suspeitei que o jovem e simpático joalheiro tivesse sido cortejado pela señorita Alma, que ainda hoje por ele se achava enamorada.

O cardápio era bem a la mexicana: carne de rês com arroz corado por muita pimenta espanhola com que fora temperado; angu com alho em abundância; hortaliças secas com bastante cebolas; carne de carneiro coberta com pimenta do reino; frango condimentado com muita pimenta, alho e cebola. A boca ardia-me horrivelmente; como estivesse com garganta acebolada e estômago entupido de alhos, logo me lembrei do poeta:

 

Mal o manjar satânico ingerira

e eis que me senti em convulsões mortais:

A Averno pareceu-me que engolira,

com os seus milhões de numes infernais...

 

As delicadas damas, porém, pareciam menos sensíveis do que “Mão de Ferro”, pois em valentes bocados se deliciaram com o “manjar satânico”, fazendo-o acompanhar do “julep”, também não menos infernal. Depois seguiu-se o indispensável cigarillo, fumado também por D. Eulalia e señorita Alma. Para que Bob não ficasse atrás, um dos vaqueiros conduziu-lhe para a pastagem, numa velha e pisoteada esteira de palha, a sua refeição. Levou-lhe também um vidro vazio de remédio cheio de “julep”. Talvez que em caminho a terrível aguardente misturada com alguns restos de remédio se transformasse num específico miraculoso contra os carbúnculos ...

Nem cogitávamos de prosseguir a nossa viagem durante aquele dia. A señorita Alma, como ostra em rochedo, se apegara a Bernhard, parecendo não o querer largar mais com suas perguntas a respeito de Allano; eu, pobre caçador das campinas, era obrigado a suportar a massada de assistir, cortês e atento, à rechonchuda señora Eulalia. O quanto fora intempestiva no nosso primeiro encontro, agora se desmanchava em amabilidades para comigo. De “Mão de Ferro” subi para o tratamento titular de Don Carlos; finalmente, ao nos levantarmos da mesa, ela perguntou o que o seu “querido Carlos” ia levar de lembrança da viagem para a sua esposa ou noiva na Alemanha. Eu não podia, naturalmente, responder a essa pergunta de sentido oculto, manhosamente feita, dizendo-lhe uma inverdade. Por isso assegurei-lhe que não me assistia o menor direito de levar um souvenir de voyage para noiva ou esposa na Alemanha, visto que na lista de registro civil da minha pátria, como nas de todos os países do mundo, eu figurava como solteiro e nem me lembrava ainda de mudar de estado. A fim de não a estorvar por mais tempo em seus afazeres domésticos, pedi-lhe licença para dar um passeio pelas imediações e inspecionar durante o mesmo os nossos cavalos. Dirigi-me para a pastagem fronteira, onde com os animais se achava Bob.

Este estava deitado de barriga para o chão e com os braços e pernas fazia toda sorte de movimentos para mim até então desconhecidos. Dir-se-ia que ele estava a ensaiar uma ópera de Wagner num aklony. (*)

— Bob!

A este meu chamado o negro ergueu a cabeça.

— Oh, mestre, mestre!

— Que há?

— Oh, mestrêêêêêêê. Bob foi come toda aquela droga e agora Bob ta queimando por dentro como fogo. Mestre acuda o nego Bob senão o mêgo Bob vai morre!

Era a conseqüência da carga dupla de pimenta, alho e cebolas que o negro ingerira. O vidro de remédio estava completamente vazio. Precisava socorrê-lo imediatamente, pois o pobre do negro fazia uma cara de quem estava, realmente, prestes a morrer.

— Precisas beber alguma cousa para aliviar as dores e a ardência, meu pobre Bob! Que preferes: água, leite ou Basilikjulep?

Como um raio, ele se ergueu do solo e fitou-me agradecido.

— Mestre, oh! mestre! Leite e água não ajuda nada; só o “julep” poderá sarvá o pobre nego Bob!

— Então corre até a casa e diga a D. Eulalia que morrerás se ela não te der um pouco de “julep”!

O preto saiu em desabrida correria e voltou realmente daí a pouco — fiquei pasmado quando o vi — trazendo meia garrafa daquela aguardente na mão. Recebera o resto da provisão de “julep” que ainda havia.

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(*) Instrumento constituído de vinte e quatro peças de bambus e que pesa 50 libras.

 

— Miss Eulalia de primêro não quis dá “julep” pro nego Bob, mas quando Bob disse que vinha mandado du mestre Carlo, ela deu toda a garrafa. Que bom!

— Então beba! Ficará melhor!

O jantar nos foi servido na mesma sala. A señora Eulalia sentou-se ao meu lado. Durante a refeição ela cochichou-me:

— Don Carlos, tenho um segredo para revelar-lhe!

— Então tenha a fineza de dizer! Qual é?

— Não direi aqui! Depois do jantar vá esperar-me naqueles três plátanos lá fora.

 

OUTRA PISTA SEGURA

Uma entrevista! Não devia recusá-la, pois talvez ela tencionasse fazer-me alguma comunicação importante. No decorrer do jantar os vaqueiros conduziram os nossos animais para as baias, mas deixaram a porteira aberta. Transpu-la e fui deitar-me debaixo de um dos plátanos. Tive, porém, que abandonar pouco depois aquela cômoda posição, pois D. Eulália não tardou a chegar. Ela deu início à entrevista.

— Don Carlos, muito obrigada pela sua atenção! Pedi-lhe esta entrevista porque tenho um importante segredo a confiar-lhe. Eu poderia ter-lhe dito lá na sala, mas escolhi este local porque...

— Porque estávamos sentado ao lado um do outro e a senhora teve facilidade de combinar o encontro, não é assim? — fui logo atalhando por causa das dúvidas...

— É isso mesmo. Eu precisava lhe falar a respeito do señor Allano e dos dois bandidos que o perseguem. Estes estiveram em nosso rancho.

— Ahn! Quando? — perguntei com inflexão de alívio na voz. Ficara não só satisfeito por que ia conhecer talvez outros pormenores sobre Allano, como também por me haver certificado de que o segredo que a dama ia confiar-me não se tratava dalguma declaração de amor.

— Anteontem bem cedo eles se foram embora.

— Para onde?

— Pela serra Nevada, para S. Francisco. Falei muito a respeito do señor Allano e eles resolveram fazer-lhe uma visita.

Era uma importante comunicação a que a dama me estava fazendo. Compreendi logo todo o enredo da história. D. Eulalia gostava muito de falar a respeito de Allano a quem quer que fosse. Em palestra com os dois bandoleiros, citara sem dúvida o nome do jovem joalheiro; os fascínoras então depararam com uma oportunidade futura para se vingar de Bernhard que lhes tomara os haveres roubados; saqueariam o irmão, que viajava com apreciáveis valores.

— Mas a senhora sabe com certeza que realmente eram os dois bandidos, D. Eulalia?

— Eram sim, os mesmos bandidos que o senhor me descreveu hoje ao meio-dia na mesa do almoço, com a diferença apenas dos nomes, pois aqui deram outros bem diferentes.

— Fizeram eles muitas perguntas a respeito de Allano e da sua irmã?

— Sim. Pediram-me até que lhes desse um sinal, para poder provar depois na casa de minha irmã que eles estiveram aqui. Não percebendo nada de mal, atendi-lhes o pedido.

— Qual foi esse sinal?

— Uma carta que o marido de minha irmã me escrevera, um dia para S. José.

— Seu cunhado ainda vive?

— Sim. É o proprietário do Hotel Valladolid, situado na Sutters-treet; chama-se Enrico Gonzales.

— Desde quando a sua filha Alma voltou da casa do seu cunhado?

— Há três meses.

— Quer a senhora ter a fineza de me descrever rigorosamente o tipo desses dois homens?

D. Eulalia o fêz e eu fiquei certo de que realmente os homens não eram outros senão os dois Morgans. Essa comunicação ela podia ter feito na mesa à vista de todos, contudo, dada a relevância do assunto, eu não a censurava por me haver coagido a dar este passeiozinho ao ar livre. Por este motivo apresentei-lhe meus agradecimentos pelo interesse que tomou pela causa, e ela deixando-me, foi para casa.

 

O DORMITÓRIO DUM RANCHO

Ao entrar na sala, um pouco mais tarde, estava sendo esperado. Os companheiros queriam dormir e antes precisávamos sortear a guarda, medida que mesmo aqui no rancho não dispensávamos. Feito isso, procuramos o dormitório que nos fora reservado.

Para se ter uma idéia das condições do nosso dormitório é preciso conhecer-se o interior de um desses ranchos. Em geral, eles se compõem de um único compartimento, que a señora Eulalia qualificou de “sala de visitas”. Aí moram e dormem todos os de casa, em patriarcal comunidade com os hóspedes eventuais. Por “todo os de casa” compreendem-se também as vacas leiteiras, animais de montaria, ovelhas, cabritos, porcos, galinhas, cães e gatos. Assoalho não existe nessas casas, sendo o solo socado, pelo que adquire quase a dureza de uma pedra. Sobre este costumam espargir grama e musgos secos para servir de leito, gramas e musgos que constituem, às vezes, uma permanente moradia de escorpiões, aranhas, centopéias e muitas outras castas de insetos venenosos. O poncho serve de cobertor.

À mesma organização obedecia o rancho em que estávamos hospedados. Don Fernando de Venango, señora Eulalia, señorita Alma, a negra, os vaqueiros e finalmente nós os cinco deitamo-nos todos ao lado um do outro, como num albergue alemão, no qual, mediante a paga de três pfenigs, tem-se o direito de passar a noite estirado num monte de capim, tendo o encosto de uma cadeira quebrada por travesseiro. Eu gostaria mais de dormir do lado de fora. ao ar livre, mas isso seria menosprezar a hospitalidade que nos concedera D. Eulalia. Seria, mesmo, considerado uma ofensa se tal eu fizesse.

Na manhã seguinte, bem cedo, partimos com os melhores votos de boa viagem de todos os moradores do rancho; mesmo o vaqueiro a quem eu arrojara ao solo com um soco, teve que nos apresentar os seus votos de boa viagem, não sei se para ser agradável à D. Eulalia ou se espontaneamente.

Don Fernando de Venango e Colona de Molynares de Gajalpa e Rostredo acompanhou-nos um bom pedaço do caminho, regressando somente ao meio-dia. O amável rancheiro parecia não querer mais separar-se dos “missionários mormons”, embora por causa destes se tivesse esgotado toda a sua provisão de “Basilikjulep” que havia em casa.

 

NA CALIFÓRNIA

Em vista das informações confidenciais de D. Eulalia, não nos era mais necessário seguir à risca o nosso roteiro, por isso atingimos os lagos de Mona, fizemos aí uma parada muito mais rápida do que antes tencionáramos fazer; os nossos animais haviam descansado no rancho quase um dia inteiro.

Depois dessa parada, continuamos a cavalgada subindo a serra Nevada e de lá, em linha reta para S. Francisco, que era a meta de nossa jornada.

A cidade fica situada na extrema ponta do cabo, tendo o mar a oeste, e, a leste, a maravilhosa baía, cuja entrada fica ao norte. O porto de S. Francisco é talvez o mais lindo e seguro do mundo e ocupa uma área tão grande que nela seria possível reunir as frotas de todos os países. Por toda parte o vaivém da atividade múltipla e variada de uma população laboriosa. Nas ruas, uma multidão efervescente e burburinhante de gente de todos os tipos e nacionalidades. Com os americanos e europeus convivem já numerosos peles-vermelhas meio civilizados, que vêm ao mercado trazer as suas caças; é aí que pela primeira vez recebem pelo produto do seu trabalho um preço que se pode qualificar de ínfimo e enganoso. Ali cruza o orgulhoso mexicano ostentando os seus trajes característicos, entre o suabo cordato, o monótono inglês e o francês dinâmico; o hindu de vestes brancas em promiscuidade com o sujo e imundo judeu polonês; o dandy elegante com o comerciante que efetua transações com os garimpeiros, dos quais arrancam, por seus preços extorsivos os olhos da cara, como se diz na gíria. Mais adiante o persa, o nativo e o chinês em boa camaradagem com o mongol dos confins da Ásia.

E toda esta gente o que veio fazer na Califórnia? Tentar a vida, ganhar dinheiro, ficar rico, e isso no menor espaço de tempo possível! Todos sabem que tempo é ouro e que aquele que detém o outro para uma conversa inútil, é um indivíduo nocivo à comunidade, e por isso tenta-se logo desviá-lo do caminho.

No meio desse burburinho, atravessamos, sem sermos molestados sequer com os olhares curiosos, até chegarmos ao Hotel Valladolid. Era um hotel ao estilo da Califórnia, instalado num amplo prédio de madeira de um só andar, idêntico aos bares das sociedades de tiros alemãs.

Entregamos os nossos animais ao encarregado das baias, que os conduziu a uma pequena estrebaria; quanto a nós, passamos para o bar do hotel, que, apesar de bem espaçoso, estava tão repleto que a muito custo conseguimos uma mesa. O garçom veio logo nos atender. Cada um de nós mandou vir o que lhe apetecia e, depois de servidos, comecei a pedir as minhas informações.

— Ser-me-á possível falar com Mr. Gonzales?

— Yes, sir. Quer falar com ele mesmo?

— Se for possível, sim.

Minutos depois, um cavalheiro de estatura alta apresentou-se em nossa mesa dizendo ser o señor Enrico.

— Tenha a bondade de nos informar se um senhor Allano Marshall ainda se acha hospedado no seu hotel! — pedi

— Não sei, señor, não o conheço, não conheço ninguém e nem me preocupo, já por hábito e princípio, com o nome dos meus hóspedes. Isto são atribuições de minha senhora! Cada um no seu ofício — é o lema cá de casa.

— E poderei falar com a señora?

— Também não sei. Pergunte a uma das caixeiras!

Pronunciando essas palavras, o hoteleiro se retirou sem mais formalidades. Parecia que a sua posição em face da señora era a mesma que a do rancheiro em relação à D. Eulalia. À sala chegava o cheiro de um apetitoso assado; devíamos, pois, nos achar nas proximidades da cozinha. Comecei a percorrer a sala com o olhar, com o fim de ver de onde vinha o agradável odor e, por esta ocasião, notei uma figura esbelta de mulher que, trazendo algum utensílio na mão, procurava passar às pressas no acanhado espaço que havia entre a nossa e a mesa vizinha. Detive-a, pegando-a delicadamente no braço.

— Onde está a señora, minha pequena?

— Vous êtes un âne!

Ah! Uma francesa! Puxou indignada o braço que eu segurava e se foi embarafustando-se pela primeira porta a dentro. Levantei-me e percorri a sala a ver se encontrava alguém que com mais solicitude me fornecesse a informação de que eu carecia. Na ponta de uma fileira de mesas, encontrei outra moça. Perguntei-lhe:

— Mademoiselle, quer ter a fineza de informar-me se poderei falar à señora!

— I am not mademoiselle!

E lá se foi a moça salão afora. Portanto tratava-se de uma inglesa ou de uma norte-americana! Mas se seu andasse por toda a sala a perguntar às serviçais, que encontrava, pela sua nacionalidade, anoiteceria sem que me fosse possível avistar-me com a dona da casa! Afinal, lá num ângulo da sala estava uma moça que parecia acompanhar-me, interessada» com o olhar. Continuei a andar e, mal havia avançado um pouco no salão, pareceu-me ser aquela fisionomia já minha conhecida. Quem seria? Encaminhei-me diretamente para a moça e quando dela me aproximei, a pequena, de braços abertos, me veio ao encontro numa atitude de quem pretendia jogar uma luta romana comigo.

— Mas, vizinho, será possível? Quase que não o reconheci! Por que anda assim com uma barba tão longa?! Como está diferente!

— Oh! A Gustavinha, filha do senhor Eberbach! Também eu quase que não a ia reconhecendo, pois já está moça feita, e que linda moça! Mas como saiu da Alemanha e veio parar na América, e aqui na Califórnia?

— Mamãe faleceu pouco depois de ter o senhor vindo para a América. Dias depois, esteve um agente em nossa casa e papai deixou-se convencer por ele. A cousa aqui tornou-se bem diferente do que nós pensávamos. Papai e os meus irmãos se dirigiram para as montanhas, onde dizem haver ouro em profusão, e me deixaram aqui, onde sou bem tratada, até o seu regresso.

— Depois conversaremos com mais calma, Gustavinha! Agora, porém, diga-me onde posso encontrar a dona do hotel! Já perguntei a mesma cousa a duas colegas suas e elas me responderam com grosserias.

— Explica-se o motivo. Ninguém nesta casa deve consentir que se trate a patroa por señora, mas sim por Dona, de preferência Dona Elvira.

— Vou tomar nota disso! Afinal, conseguirei falar com ela?

— Vou perguntar. Onde está sentado?

— Lá na segunda mesa daquela fileira.

— Então volte para lá; vou anunciá-lo à Dona Elvira.

 

AUDIÊNCIA PROTOCOLAR

Era mais um dos encontros inesperados que tenho assinalado nesta obra. Meu pai e o daquela moça eram vizinhos e compadres. Agora o mestre marceneiro — tal fora a profissão do senhor Eberbach — estava metido nas minas de ouro a tentar a sorte! Os seus dois filhos o haviam acompanhado, e a filha, quem diria que eu havia de encontrá-la aqui, na primeira estalagem em que cheguei! Mais uma vez se confirma o velho axioma de que as pedras rolando se encontram, quanto mais os seres humanos! Fiquei satisfeito em rever a Gustavinha, a irrequieta Gustavinha que, quando criança de colo, tanto se afeiçoara a mim e travessamente, ao carregá-la, punha a minha basta cabeleira em desalinho, soltando risadas inocentes. Bem me lembro de que ela acariciava o meu rosto com seu narizinho. Naquela época jamais poderia pensar em encontrá-la, um dia, na Califórnia.

A moça, daí a instantes, voltava.

— A senhora o receberá, embora não seja hora de audiência.

— Hora de audiência?! Uma hoteleira dando-se ao luxo de possuir horas designadas para audiências, Gustavinha?!

A moça encolheu os ombros, rindo-se zombeteiramente, e disse:

— Pelo menos a deste hotel se dá a este luxo, Carlos! As suas audiências são duas vezes por dia, pela manhã, das onze ao meio-dia e à tarde, das seis às sete. Quem quiser falar com ela depois desta hora, só poderá mediante uma recomendação muito especial!

Acabando de dizer isso, a minha vizinha fixou-me uns olhares significativos e deu uma risadinha.

— Ah! Compreendi a razão por que a hoteleira me fez exceção. Muito obrigado, Gustavinha! Muita gente mal sabe de quanto nos vale uma boa e gentil vizinha.

— É isso mesmo, Carlos! Não fiz mais do que meu dever! Bem, deixemos disso e venha comigo até a presença da patroa!

A impressão que me causava aquilo tudo era a de que ia ser recebido em audiência por uma alta personalidade da política ou da administração do país. Fui conduzido a um pequeno compartimento contíguo, que se achava mobiliado quase que no mesmo estilo das salas de espera dos palácios governamentais e onde, por indicação de Gustavinha, tomei lugar até que o porteiro, postado na porta ao lado, tocasse a campainha para eu entrar para a sala das audiências.

Achei tudo muito interessante e tive que esperar meia hora até que o porteiro fez o esperado sinal. Passei então para outra sala atapetada, onde havia coleções de mobiliários e outros utensílios de decoração a entupir quase que por completo o compartimento. Dessa sala passava-se para o quarto de Dona Elvira, ricamente mobiliado e decorado. A hoteleira estava sentada num sofá, com as mãos apoiadas num mapa; ao colo tinha um violão, ao lado um trabalho de crochê começado e na frente um painel, com a observação nota bene, colocado entre o sofá e a janela de modo que tirava toda a luz do quarto; no painel viam-se duas pinturas principiadas; uma delas, se é que não me enganei, representava a cabeça de um gato ou a de uma mulher velha, sem o barrete de dormir...; a outra figura devia ser, também, a de um animal, cuja espécie não pude decifrar.

Inclinei-me respeitosamente diante da grande dama. Ela parecia não haver notado a minha presença e continuou, absorta, com os olhares fixos em um ponto do plafond, onde aliás, nada divisei. Finalmente ergueu rapidamente a cabeça e perguntou:

— A que distância fica a lua da terra?

Não me surpreendeu aquela pergunta, pois eu já esperava por um gesto extravagante daquela senhora. Respondi-lhe:

— A vinte e cinco mil milhas, aliás, às segundas-feiras; aos sábados, porém, ela dista da superfície da terra cinqüenta mil milhas.

— Acertou!

A dama passou a estudar novamente aquele ponto do plafond. Depois, repentinamente, virando-se de novo, para mim, perguntou-me:

— De que são fabricadas as passas de uvas?

— De uvas, é claro!

— Muito bem!

Voltou outra vez a contemplar o citado ponto, para depois perguntar-me:

— Que é Poil de chèvre?

— Uma peça de vestuário, hoje pouco em moda!

— Muito bem! E agora seja bem-vindo, señor! Gustavinha intercedeu junto a mim em seu favor; contudo tenho por hábito, antes de me dirigir às pessoas que me procuram, submetê-las primeiro a um exame. Os alemães são conhecidos pelo seu vasto saber e em virtude disso, escolhi as questões mais difíceis no domínio das ciências humanas, a fim de argüi-lo. O senhor saiu-se brilhantemente deste exame! É um moço de alta cultura. Gustavinha contou-me que o senhor cursou várias academias e viajou por todo o mundo a fim de conhecer os costumes dos diferentes povos. Tenha a bondade de sentar-se, señor.

— Muito agradecido, Dona Elvira de Gonzales! — respondi, sentando-me, modestamente, ao canto de uma poltrona.

— O senhor tenciona hospedar-se na minha casa?

— Sim.

— Concedo-lhe permissão para isso, porque vejo que é um cavalheiro muito gentil e culto; e se tiver um pouquinho de boa vontade, poderá também mudar de indumentária, a única cousa que não lhe recomenda lá muito bem... Esteve na Espanha?

— Sim, Dona Elvira.

— Que diz deste mapa de minha pátria, por mim traçado? Passou-me o mapa. Tratava-se de cópia dum original muito ordinário que a dama fizera, através de um papel de seda.

— Fidelíssimo, Dona Elvira de Gonzales!

Ela recebeu o meu elogio como sendo muito natural e merecido e respondeu toda cheia de si:

— Sim, nós mulheres, finalmente, resolvemos nos emancipar e o nosso maior triunfo tem sido no campo da ciência e das belas artes, onde hoje dominamos os homens. Senão, atente para esses dois quadros; são incomparáveis na grandiosidade da harmonia do seu conjunto artístico. A sensibilidade de suas linhas, a sua perspectiva, o seu reflexo de luz são simplesmente adoráveis! O senhor é um artista, mas, não obstante, preciso submetê-lo ainda a um exame. Que lhe representam esses quadros?

Eu teria sofrido uma derrota verdadeiramente ignominiosa, se não estivesse agora mais próximo do quadro do que dantes. Por isso, respondi-lhe com a maior audácia deste mundo:

— Uma hidra marinha!

— Muito bem! É a primeira pessoa de talento artístico que contemplou esse quadro, pois nenhuma outra soube dizer o que ele representava. É verdade que a figura não é lá muito parecida com uma hidra marinha, mas do mesmo modo como o espírito do explorador audaz penetra regiões que antes jamais conseguira atingir, também ao artista é dado conceber vultos que os seus olhos jamais viram. E o que representa este desenho aqui?

— É o gorila do célebre Du Chailly.

— Muito bem! O senhor é o homem mais culto que tenho visto na minha vida, pois, antes do senhor, ninguém reconheceu tão ligeiro nos meus quadros a hidra marinha e o gorila.

O orgulho que senti àquelas palavras laudatórias, produziram-me no espírito o mesmo efeito que à via gástrica ocasionaram-me aquelas toneladas de pimenta, cebola e alho que continham as refeições servidas pela bondosa D. Eulalia, no rancho de Don Fernando. A sua genial irmã, apontando para a porta de entrada, disse:

— Dirijo o meu estabelecimento sem que minhas mãos de artista tenham o mínimo contato material com as cousas de sua administração. Os hóspedes primeiramente são recebidos por mim em audiência, ocasião em que julgo da conveniência ou não de aceitá-los. Sim, porque aqui não é qualquer um que se hospeda. O senhor é digno dessa distinção. Inscreva o seu nome no registro de hóspedes, que se acha sobre aquela mesa. Ali há também pena e tinta.

Fi-lo e depois perguntei-lhe:

— Permite que também inscreva os nomes dos meus companheiros de viagem?

— Mas o senhor tem companheiros?

— Sim.

— Quem são eles? Comecei pelo preto.

— Bob, o meu criado, de cor preta.

— Logo vi, pois um homem que possui o dom artístico para reconhecer logo ao primeiro golpe de vista a minha hidra marinha, deve viajar acompanhado de criado! Mas o nome deste não deve ser registrado. E quem mais?

— Winnetou, o cacique dos apaches.

A mulher fez um movimento de surpresa.

— O célebre Winnetou?

— Ele em pessoa!

— Preciso vê-lo. O senhor terá a fineza de apresentá-lo a mim. Inscreva depressa o seu nome. É uma honra para nós tê-lo como hóspede.

— Também está em minha companhia, Sans-ear o...

— Já sei: o matador de índios!

— Ele mesmo.

— Inscreva-o, inscreva-o! O senhor viaja em muito boa companhia. E quem mais?

— E finalmente, Bernhard Marshall, um joalheiro de Louisville, em Kentucky.

Ao enunciar-lhe o nome de Bernhard, a matrona quase que se ergueu de um salto do sofá.

— Que me está dizendo! Um joalheiro Marshall de Louisville!

— Sim, ele tem um irmão de nome Allano, que teve a sorte de obter permissão para hospedar-se no seu hotel, Dona Elvira de Gonzales!

— Logo vi que eram irmãos. Inscreva o seu nome também e em letras bem grandes! Aos senhores vou destinar o melhor e mais confortável dormitório. O Hotel Valladolid não tem propriamente quartos, para alugar, pois os hóspedes dormem todos juntos em vastos alojamentos coletivos situados nos fundos da casa uns e no sótão outros. Mas os senhores irão ficar muito satisfeitos e desde já ficam convidados a jantarem comigo no meu refeitório particular!

— Muitíssimo agradecido, Dona Elvira! Afianço-lhe que costumo apreciar no devido alcance uma tão cativante hospitalidade! Ando em jornada com o fim de colher dados para a publicação de um livro e neste não deixarei de mencionar, de maneira muito especial, o importante estabelecimento, que é o luxuoso Hotel Valladolid!

— Faça-o, senhor, peço que o faça, se bem que o seu traje não me dá a menor impressão de vê-lo um dia sentado a uma escrivaninha. Não tem algum objeto a pedir-me? Oh, quão feliz eu me sentiria se pudesse servi-lo.

— Um objeto propriamente não, mas preciso de algumas informações.

— Quais?

— Allano Marshall ainda se acha hospedado no seu hotel?

— Não. Deixou a minha casa há uns três meses.

— E para onde se dirigiu?

— Para as jazidas auríferas do Sacramento.

— Depois disso, soube notícias suas?

— Apenas uma vez. Mandou dizer-me o local para onde deveria eu enviar as cartas que recebêssemos destinadas a ele.

— E lembra-se qual o local que o jovem joalheiro indicou?

— Muito bem até, pois ele indicou a casa de um conhecido de nosso estabelecimento: Mr. Hobley em Yellow-water-ground, um negociante em cuja casa de negócio os garimpeiros encontram à venda tudo de que necessitam.

— Depois de sua partida, chegou alguma carta para ele?

— Algumas, que eu sempre remetia na primeira ocasião que encontrava. E, recentemente, aqui estiveram dois homens à procura do señor Allano. Eram fregueses seus que tinham muita urgência em falar-lhe. Também a estes indiquei o novo endereço daquele meu distinto hóspede.

— Quando partiram esse dois homens?

— Ontem, pela manhã.

— Um deles era idoso e outro ainda jovem?

— Exatamente. Pareciam ser pai e filho. Vieram recomendados pela minha irmã, que lhes dispensou hospedagem ao passarem por lá.

— Ah! Quer dizer pelo rancho de Don Fernando de Venango Colona de Molynares de Gajalpa e Rostredo?

— O que, o senhor conhece esse homem?

— Muito bem até a sua irmã D. Eulalia, também; estivemos em sua casa e D. Eulalia espontaneamente teve a gentileza de dar-me uma carta de recomendação para a senhora, Dona Elvira de Gonzales.

— Mas será possível?! Conte, señor, conte tudo!

Relatei-lhe, omitindo naturalmente os pormenores desagradáveis, o nosso encontro com D. Eulalia e Don Venango e a dona do hotel ouviu-me com toda atenção. Quando terminei, ela declarou:

— O senhor é o primeiro alemão que soube tratar uma dama espanhola de alta linhagem, com a cortesia da pragmática. Já estou antevendo horas deliciosas de arte por que irei passar durante o jantar de hoje. À hora do ágape mandarei avisá-lo. Adiós!

Fiz uma inclinação respeitosa que, por certo, não harmonizava muito com o traje que ostentava, e retirei-me do quarto; passando pela sala contígua, fui novamente para o bar. Quando entrei nessa dependência, os olhares curiosos dos garçons, garçonetes e camareiras não se desviaram de mim. Gustavinha Eberbach veio logo ao meu encontro.

— Mas que sucesso, meu bom vizinho! O senhor está com sorte! Tanto tempo! Nunca ninguém esteve tanto tempo em audiência com a Dona. Deve ter-lhe caído muito na graça!

— Ao contrário — respondi rindo-me. — Ela permite que me hospede em sua casa, somente com a condição de mudar de indumentária. A Dona disse que com este vestuário eu me parecia com um chimpanzé dos confins da África.

— Hum! Aliás ela não deixa de ter a sua razão. Vou conduzi-lo ao meu quarto e arrumar-lhe tudo de que necessita para adquirir uma aparência externa mais decente: aparelho de barba, água, sabão, enfim tudo, tudo!

— Não será necessário, Gustavinha, pois a Dona vai mandar conduzir-nos ao nosso alojamento.

— Não creia nisso. Tenho ordens de ir saber dela qual o quarto que lhes será destinado, somente às oito horas, nem mais nem menos.

— Iremos receber o melhor dos alojamentos. Onde fica ele? Todos os alojamentos do hotel ficam lá em cima, no sótão. Os senhores, por certo, vão alojar-se no mais arejado deles. Neste instante soou a campainha do lado.

— É ela, vizinho, que me chama. Preciso ir logo atendê-la, pois quando me chama fora de horas é porque há algo de extraordinário e tem algumas instruções reservadas a ministrar-me.

Ela saiu quase correndo e eu voltei para a mesa onde me esperavam os companheiros; estes, não obstante o aparecimento de um indígena ou caçador das campinas em S. Francisco ser cousa banalíssima, tinham todas as atenções dos freqüentadores do bar voltadas para si. Principalmente o porte majestoso, a distinção das maneiras e os gestos discretos e comedidos de Winnetou, atraíam os olhares curiosos de todos. Também a falta de orelhas de Sam deveria convencer aquela gente de que o meu companheiro havia vivido uma série infindável de aventuras sensacionais.

— Afinal, que arranjou? — perguntou-me Bernhard.

— O seu irmão partiu daqui há três meses e a dona do hotel só uma vez recebeu notícias suas, procedentes de Yellow-water-ground. As suas cartas lhe foram remetidas para aquele destino.

— Onde fica este lugar?

— Tanto quanto me recordo, trata-se dum rio afluente do Sacramento, onde foi encontrado muito ouro. Ao que dizem, o vale esteve por algum tempo tumultuante de garimpeiros; estes, porém, tempos depois, subiram o rio, visto que as probabilidades de êxito no vale não haviam correspondido à expectativa do começo.

— Não teria ele depositado nada aqui na cidade?

— Não me lembrei de perguntar à Dona Elvira.

— Seria conveniente perguntar ainda hoje.

— Teremos logo ocasião para isso, pois a Dona convidou-nos a todos para jantar em seu refeitório particular.

— Oh, foi muito amável! Além disso, vou pedir informações ao banco com o qual trabalhamos nesta cidade. Talvez Allano tenha estado lá.

Nesse momento minha amável vizinha se dirigia para nós.

— Fui chamada por sua causa. O jantar é às nove e devo mostrar-lhe já o seu quarto.

— Quarto? Mas eu pensava que o hotel não dispunha de quartos propriamente ditos!

— Bem aos fundos há uma construção nova que dispõe de alguns compartimentos, entre os quais duas salas de que a Dona só lança mão quando recebe visita de parentes.

— Neste caso, D. Alma quando aqui esteve, alojou-se lá?

— Ouvi dizer que sim. Naquele tempo eu ainda não estava aqui.

— Não ouviu também dizer se D. Alma conheceu um senhor Allano Marshall que naquele tempo se achava hospedado aqui?

— Oh, sim! Falou-se e riu-se muito a esse respeito. Ela procurou fazer-lhe a corte com uma insistência tal, que o pobre rapaz nem se podia mexer dentro de casa. Mas, deixemos a vida alheia e venha ver o quarto. A dona já me entregou a chave.

Levantamo-nos e acompanhamo-la. Os dois compartimentos que nos foram destinados, em relação às demais instalações da casa, mereciam ser qualificados de confortáveis e luxuosos; um deles foi ocupado por Winnetou e Sans-ear e o outro por mim e Marshall. Bob ficou alojado num galpão asseado que havia no pátio e destinado aos peões.

A solícita filha do meu vizinho na Alemanha arranjou-nos tudo de que necessitávamos para dar ao nosso exterior uma aparência mais “civilizada”. Em vista disso, daí a pouco estávamos em condições de dar uma volta pela cidade; Winnetou não quis acompanhar-nos no passeio, pois era demasiadamente orgulhoso para servir de objeto de curiosidade pública nas ruas e praças. Também Sam preferiu ficar no hotel, descansando, estirado na cama.

— Que vou fazer na cidade? — perguntou ele. — Sei andar, graças a Deus, e em vista disso não preciso exercitar-me nas ruas de S. Francisco. Casas e gente também tenho visto muitas. Faça com que saiamos depressa desse ar abafado da cidade, para as savanas, do contrário de tanto tédio e monotonia, as orelhas são capazes de crescer-me novamente... e então eu era uma vez... Sans-ear!

O bom Sam se achava em S. Francisco havia apenas um quarto de hora e já sentia nostalgia da savana. Qual será então o estado d’alma do nativo que, depois de ter reagido contra o branco que o vence e enxota dos seus territórios de caça, onde também se acham os túmulos de seus antepassados, é metido numa cela escura e mal arejada das prisões de Filadélfia e Ambur!

Saímos, Marshall e eu; acompanhei o meu amigo até o estabelecimento bancário com que mantinha transações. Fomos informados de que Allano lá estivera por várias vezes e depois se dirigiu para as minas, onde pretendia demorar pouco tempo, voltando a S. Francisco, em seguida. Havia levantado todos os fundos dos Marshall, depositados no banco, para com os mesmos fazer aquisição de ouro.

Depois disto, perambulamos sem rumo pela cidade até que Marshall me conduziu a um estabelecimento comercial, onde havia expostos à venda trajes de todos os estilos. Nessa loja podia-se adquirir desde o mais fino e requintado traje mexicano, até a roupa mais simples de campeiro. A cada estilo de traje correspondia um armário envidraçado; eram vestimentas completas.

O propósito de Bernhard era fácil de se perceber. Os nossos trajes, embora manufaturados com tecidos e couros resistentes, haviam sofrido tanto, na viagem acidentada que vínhamos fazendo, que estavam em mísero estado de conservação. Já não eram trajes, mas verdadeiros andrajos. É verdade que nos havíamos barbeado e aparado o cabelo um ao outro. A nossa aparência já não era mais a mesma de horas antes. E assim, precisávamos completar a transformação do nosso exterior, com trajes mais decentes. Durante a compra, observei que Bernhard tinha muito bom gosto. Comprara para si um traje meio mexicano e meio indígena, que lhe assentava muito bem. Os preços eram altos, mas correspondiam também à situação de S. Francisco, onde a vida naquela época era caríssima.

— Chegou a sua vez, Carlos. Compre também uma fatiota e as demais peças de vestuários de que precisa! — disse o meu companheiro, depois de já completamente transformado. Vou ajudá-lo a escolher.

Realmente eu tinha necessidade de adquirir algumas roupas, mas os preços por que ali eram oferecidas, não estavam bem de acordo com as minhas posses. Nunca pertenci àquela classe de gente infeliz, que de toda parte onde mete a mão consegue tirar uma bota de cem marcos e que conduzem por onde viajam um saco cheio de “lembranças” das cidades e lugares já visitados... Eu pertencia, sim, à invejável classe de gente que esposa o princípio de ganhar hoje para adquirir o que necessita amanhã para a sua subsistência. Em vista disso, talvez, é que fiz uma fisionomia resignada ao ver que Marshall, logo depois de pronunciadas essas palavras, começou a escolher roupas para mim.

Escolheu-me as seguintes peças de vestuário: uma camisa de caçador, de couro branco de cervo, bordada a capricho por mãos de alguma indígena; um jaquetão de campineiro, trabalhado em couro búfalo; um par de botas feitas de couro de urso e cujos canos, em forma de fole, eu podia puxar até a altura das coxas, e, finalmente, um boné de castor enfeitado com pele de cascavel. Não tive outro remédio senão passar para um vestiário contíguo e vestir toda aquela roupa; quando voltei, Bernhard já havia pago também o que escolhera para mim. Quis zangar-me com o meu companheiro, mas não me foi possível.

— Deixe de escrúpulos comezinhos, Carlos! Devo-lhe muito, muito mais ainda do que isso e se não quiser aceitar essa minha oferta, debitar-lhe-ei a despesa e na primeira oportunidade faremos ajuste de contas.

Também para Sam pretendia Bernhard adquirir alguma cousa; desaconselhei-o, porém, porque eu sabia muito bem quanto inseparável era o homenzinho de sua roupa de escoteiro, roupa de que ele não se desfazia por dinheiro e nem por cousa alguma. Além disso, Sam tinha uma estatura invulgar para a qual não havia na loja traje algum que servisse.

Quando regressamos para o Hotel Valladolid, Bob ficou muito satisfeito ao ver-me com vestimenta nova.

— Oh! mestre Carlo tá agora com estampa mió. Tá tão fino como Bob, se Bob também arrecebesse uma fatiota nova di presenti!

Olhei-o agradecido pela bondosa comparação do negro, que eu sabia dotado de boa alma.

 

O BANDITISMO NAS REGIÕES AURÍFERAS

Sam Hawerfield não pôde suportar por muito tempo o acanhamento das quatro paredes do quarto. Veio para o bar, onde sozinho tomou lugar a uma das mesas. Chamou-me com um aceno, quando me viu entrar.

— Ouça-me! — disse Sam à meia voz. — Aí na mesa do lado, há uma conversa que pode talvez nos ser de algum interesse.

— Em que sentido?

— Registraram-se lá em cima, nas minas, fatos nada agradáveis. Perambula por lá uma infinidade de “selvagens”, que não são índios, mas peles-brancas, conforme se depreende da palestra, os quais assaltam os garimpeiros de emboscada para tirar-lhes os haveres e alguma cousa mais... Aquele que ali está sentado, por um triz não caiu nas mãos dos bandidos. Está agora a contar a sua odisséia. Ouça-o!

Numa mesa ao nosso lado estavam vários cavalheiros, que denotavam haver conhecido bem de perto os perigos e as vicissitudes da vida. Um deles relatava um episódio de sua vida e os outros o ouviam com visível ansiedade.

— Well, — prosseguiu o narrador — sou um homem, como todos sabem, afeito aos perigos da vida. Tanto nas savanas, como no amor ou na terra, nas montanhas e nos vales do oeste bravio, vivi episódios que muitos, talvez, não acreditarão. Conheci bem de perto os piratas do Mississipi e os bandoleiros das campinas e por mais de uma vez com eles tercei armas, em combates sangrentos e renhidos; acho possível, por isso, muitas aventuras contadas por campineiros e das quais muitos duvidariam, considerando-as inverossímeis. Mas, cenas como as que se estão passando lá em cima e no meio de uma zona habitada, não me entrariam pela imaginação se eu não as tivesse assistido bem de pertinho!

— E mesmo assim, soa como se fosse uma peta — replicou um dos ouvintes. — Era uma caravana de quinze homens para enfrentar oito apenas; não seria vergonhoso para os senhores, se o que diz fosse verdade?

— Sim, o senhor diz muito bem e é mesmo capaz das maiores bravatas sendo assaltado como nós o fomos, mas... sentado nas mesas dos botequins e cafés. Vá, porém, lá para aquela zona! Éramos, não há dúvida, quinze homens ao todo, seis tropeiros e nove garimpeiros. Se o senhor se fiar nos tropeiros, estará perdido, e dos nove garimpeiros, três estavam atacados de febre e tão depauperados, que mal se sustinham no serigote, de modo que não estavam em condições de desfechar um tiro e nem sequer uma facada certeira. Então, nessas condições, insiste ainda em zombar, dizendo que éramos quinze contra oito?!

— Bem, se foi assim, modifico a minha opinião; aliás, não tive a menor intenção de zombar do amigo, desculpe-me. Mas naquela estrada há sempre grande movimento de cavaleiros, carroceiros e mesmo pedestres, e a qualquer hora devia haver gente nas imediações para socorrê-los!

— Ah! É? Quem impede os bandoleiros de escolher para a realização de suas façanhas exatamente uma hora em que não há movimento de tráfego na estrada? Talvez o senhor?...

— Bem não duvido do que está a nos contar. Mas o senhor faz uma confusão dos diabos. Quer reatar o fio da narrativa para que vejamos a seqüência natural dos fatos e para que melhor o possamos compreender?

— Pois não, farei o que pede, homem! Como estava dizendo, encontramos nos lagos das Pirâmides uma zona como outra mais rica em ouro não havia, de modo que oito semanas depois cada um de nós havia extraído cem quilogramas de ouro granulado. Não nos foi possível continuar na exploração, pois o solo era úmido e três dos companheiros foram atacados de reumatismo articular agudo, em conseqüência do frio que apanharam. Não é tarefa agradável estar-se de manhã à noite dentro d’água até acima da cintura extraindo o ouro. Retiramo-nos, pois, da mina e fomos para Yellow-water-ground, onde vendemos o ouro colhido a um ianque que por ele nos pagou uma soma bem maior do que a que nos ofereciam os comerciantes gananciosos, que a peso de ouro limpo nos forneciam uma libra de farinha deteriorada ou meia de fumo ordinário. Todavia, o ianque fez ainda um bom negócio; se me não falha a memória, chamava-se ele Marshall e viera de Kentucky.

Bernhard virou-se ligeiro, perguntando-lhe:

— Ele ainda se acha no mesmo local?

— Não sei, nem isso é da minha conta! Deixe-me em paz com perguntas inúteis; se querem que eu relate os fatos, seguindo a sua seqüência natural, conforme me pediu este senhor aqui, não devo ser interrompido! Mas, este Marshall, Allano Marshall, lembro-me agora, adquiriu-nos todo o ouro que havíamos extraído. Se fôssemos previdentes, nos teríamos retirado imediatamente da zona. Mas, primeiramente, queríamos descançar do trabalho esfalfante a que nos entregáramos, além de que os companheiros doentes precisavam de tratamento, e, finalmente, não havíamos encontrado uma boa oportunidade para empreender essa longa viagem. Murmurava-se por toda parte sobre assaltos e saques havidos no trajeto da rodovia, citando-se até nomes de garimpeiros que nunca mais voltaram a Sacramento e nem a S. Francisco.

— Mas esses assaltos e saques se deram realmente?

— Um momento, chegarei até lá! Em vista de tudo isso, resolvemos adiar a partida para algumas semanas mais tarde; mas os preços dos artigos de consumo lá nas minas são de arrancar os olhos da cara, e como todos sabiam que agora as nossas algibeiras já não se achavam mais vazias, a nossa distração durante esse tempo todo, foi esquivar-nos com desculpas diplomáticas dos jogadores trapaceiros e de muitas outras castas de parasitas de que Sacramento está infestado. Finalmente, os companheiros ficaram melhor do reumatismo e nós resolvemos não retardar mais a viagem, juntando-nos a uma caravana de cinco garimpeiros que desistiram de trabalhar naquela zona. Éramos, pois, nove pessoas; alugamos alguns muares e isso deu lugar a que o grupo fosse acrescido de seis tropeiros. Estávamos muito bem armados e o nosso aspeto era o de que cada um se achava em condições de combater com dez contendores. A viagem, no seu começo, não foi cercada de perigo, mas os companheiros tornaram a ficar atacados de febre. De resto, com as chuvas, a estrada tornara-se tão barrenta que nos dificultava sobremodo a viagem. Vencíamos, num dia inteiro, quando muito, oito milhas inglesas, e, mesmo à noite, no interior de nossas barracas, não estávamos seguros de ser açoitados pelas trombas d’água que caíam. Com a chuvarada, o estado de saúde de nossos companheiros agravou-se, aumentando a febre. Por fim, para podermos transportá-los, fomos obrigados a amarrá-los aos serigotes.

— Mau, mau! — sussurrou um dos presentes. — Já fiz uma viagem dessas condições e sei quanto ela tem de penosa!

— Well! Havíamos já vencido a terça parte do caminho, quando anoiteceu; fomos procurar um local próprio para o nosso acampamento. Cessara de chover desde cedo. Estávamos ocupados em armar as barracas depois de ter acendido uma fogueira que iluminava o nosso derredor como se fosse dia claro. Eis que, subitamente, ouvimos uma salva de tiros em torno de nós. Eu me achava deitado de ventre no solo a amarrar um dos prendedores da barraca à estaca fincada no chão, motivo por que não fui avistado logo. Ergui-me logo e ainda em tempo de ver os seis tropeiros montar a cavalo e porem se em fuga desordenada. Mas fizeram a “retirada” com tamanha passividade que os bravos (*) teriam tempo para fuzilá-los umas dez vezes. Dispunha-me a tomar da espingarda, mas o que vi me fez desistir disso. As balas dos oito salteadores foram tão certeiras, que os cinco companheiros que estavam sãos tombaram todos sem vida e lá ficaram estirados no solo! Eles estavam à luz da fogueira, e, exatamente, no instante em que eu ia assestar a minha espingarda, os três enfermos caíram também sem vida. Fui eu o único que escapou da morte. Que fariam os senhores no meu lugar?

— Damn! Eu investira contra os bandidos e faria o que estivesse em minhas forças — opinou um.

— Eu varreria alguns deles a bala! — assegurou outro.

— Muito bem. Isto os senhores dizem, mas não o teriam feito. Atracar-me com os   bandoleiros   seria   verdadeira   loucura;   e   alvejá-los   à   bala   seria      também

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(*) Bandidos.

 

desaconselhável, pois se assim agisse eu estaria perdido. Não devia ficar com vida uma só testemunha do assalto, é lógico que assim tencionavam os salteadores e, para conseguir essa finalidade, eles me teriam perseguido até que me pilhassem; além disso, mais do que dois ou três não me seria possível matar.

— Mas, afinal, que fez então?

— Trazia o meu dinheiro no bolso, em moeda corrente; minha mula se achava distante do teatro do massacre. Enquanto os bandidos varejavam as barracas, arrastei-me até o local em que ficaram as mulas e desamarrei a minha montaria. Neste momento, um dos salteadores proferiu uma casquinada seguida dum ensurdecedor assovio e... adivinhem o que sucedeu!

— O quê?

— Os tropeiros voltavam para as barracas. Haviam feito causa comum com os bandoleiros e vinham receber a parte que lhes tocava por nos haverem traído. Os canalhas haviam aumentado o efetivo: eram agora catorze. Enquanto os tropeiros transacionavam com os seus companheiros, eu, montando na mula, saí a galope, batendo o pó dos sapatos. Por sorte minha, o animal era dócil e não uma dessas mulas obstinadas que, quando empacam, não há nada que as faça sair do lugar. A mula não galopava, voava como uma flecha. Ouvi por trás de mim vozes a me praguejar e logo depois o tropel de animais. Estava, porém, muito escuro e eu consegui escapar sem ser visto e pilhado pelos bandidos.

— E depois?

— Continuei viagem a galope para S. Francisco, onde, creio eu, estão me vendo agora! Dou graças a Deus haver conseguido escapar incólume e estar agora aqui a saborear esta deliciosa cervejinha.

— Não os reconheceu?

— Usavam máscaras pretas. Apenas um deles, o chefe da quadrilha, segundo me pareceu, retirou a máscara para, depois da casquinada, proferir um assovio ensurdecedor, o que fez pondo a mão à boca. Tenho a sua fisionomia gravada na memória e o reconheceria imediatamente se um dia ele me caísse diante dos olhos. Era um mulato e tinha uma cicatriz na face, abaixo do olho direito, proveniente certamente de um ferimento por faca.

— E os tropeiros?

— Poderia reconhecê-los também, mas nunca mais voltarei para aquele inferno, onde o diabo esparge e funde o seu ouro com o fim de atrair as almas à morte, à ruína!

— Como se chamavam os muleiros (*)? É sempre bom saber-se o nome de tais “cavalheiros”.

— Um deles se chamava Sanchez; mas antes disso já deve ter usado muitos outros nomes. Calculo que a maior parte desses canalhas pertence aos Hounds (**) que se espalharam por todos os distritos auríferos, disfarçados em agentes comerciais, tropeiros, muleiros, a preparar o caminho para a ação da quadrilha, encaminhando as vítimas para as emboscadas. Os mineiros deviam, a exemplo do que já se fez em outros tempos, organizar uma comissão de vigilância, que se encarregaria de perseguir

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(*) Tocador de mulas cargueiras.

(**) Assim eram denominados os salteadores que, em bandos numerosíssimos, dominavam as regiões auríferas da Califórnia, constituindo um cancro social que só foi extirpado pela população que se congregou para esse fim.

 

e dizimar essas hordas de bandidos, que infestam os distritos auríferos, até não haver mais um só deles! Só assim a ordem e a segurança públicas estariam consolidadas. No atual estado de coisas não é possível explorar-se aquela região! Bem, — terminei a minha história, que contei seguindo a seqüência natural dos fatos!

— Agora, o senhor permita-me — disse-lhe Bernhard — que lhe faça algumas perguntas a respeito de Allano Marshall, de quem o senhor falou há pouco; ele é meu irmão.

— Seu irmão? Realmente parece-se muito com ele! Estou pronto a prestar-lhe as informações que puder.

— Que tempo faz que o viu pela última vez?

— Bem, umas cinco semanas.

— Ele ainda se encontra em Yellow-water-ground?

— Não sei. Lá nas minas, hoje se está aqui, amanhã ali.

— O meu irmão não me escreveu mais, apesar de haver recebida as minhas cartas.

— Não esteja tão certo disso! Atente para o que há pouco acabei de dizer. Há correio daqui para as minas? Sim, mas isto a que o senhor dá tal denominação, não é correio. Afianço-lhe que muitas cartas são remetidas para lá e de lá para cá sem que nunca tivessem chegado às mãos dos destinatários. A primeira casa a que se chega lá em cima é uma taverna, cujo dono pertence aos Hounds; depois, há um estabelecimento comercial, cujo proprietário faz parte dos Hounds. Se o senhor, para se distrair, joga cartas com três parceiros, pelo menos dois, senão os três, são dos Hounds; se o senhor trabalhar de sociedade com algum garimpeiro que por lá encontrar, nalguma mina, o seu sócio é membro dos Hounds e lhe roubará a sua parte em ouro colhido; se o senhor for um homem possante, com o qual é possível sair-se mal numa luta corporal, ele o denunciará aos “bravos”, consócios seus, que cruzam a zona para o assaltarem, depois de ser o senhor atraído pelo seu próprio sócio a uma emboscada; tiram-lhe então todos os haveres, inclusive a própria vida. Do conselho distrital fazem parte Hounds disfarçados em qualquer profissão honesta, o guarda da estrada é Hounds; os almocreves e os arrieiros são Hounds; os donos de bares são Hounds; os “médicos” são Hounds; enfim, quase todos são Hounds! E por que não podem os encarregados dos correios ser Hounds também? Senão muita correspondência não seria extraviada, sem nunca chegar ao seu destino.

Era uma explanação pouco tranqüilizadora a que ouvíamos a respeito da situação reinante nas jazidas auríferas.

— Pretende seguir para lá em procura do seu irmão?

— É este o único fim de minha viagem.

— Well, então vou dar-lhe um conselho. Se o senhor o aceitar ou não, é lá com o senhor! Daqui de S. Francisco partem dois caminhos que conduzem para as diferentes jazidas auríferas; um para o sul, por uma cadeia de montanhas, denominada Nova Almada, onde se encontram grandes minas de mercúrio e cinábrio em estado natural, o outro, quase que diretamente para o norte, apenas com uma pequena inclinação para o oeste, conduz para o distrito de Sacramento. Sabe onde, neste último distrito, fica situado o Yellow-water-ground?

— Sei apenas que ele forma um vale pedregoso do Sacramento; nada mais.

— O caminho costeia três quartas partes da baía de S. Francisco, atravessa depois o rio S. Joaquim, em direção ao vale do Sacramento. Basta subir sempre por este e qualquer caminhante ou em qualquer mina onde o senhor tocar, o informará com toda a precisão onde fica situado o ponto e lá será o termo de sua viagem. Se não tiver muita bagagem consigo, atingi-lo-á dentro de cinco dias. Desaconselho-o, porém, a tomar este caminho.

— Por quê?

— Primeiro, porque, embora seja o mais cômodo, não é o mais curto. Em segundo lugar, a referida estrada está cheia de Hounds que tornam insegura a vida de um viajante. É verdade que eles preferem os viajantes que vêm aos que vão para as minas, mas pode muito bem ser que eles desconfiem que o senhor carrega valores consigo e o atacarão para roubá-lo. E, finalmente, em terceiro lugar, a estrada é em todo o seu trecho pavimentada à custa dos dólares que esfolam de todos os que nela viajam, cobrando-lhes impostos extorsivos. Nos hotéis, por onde o senhor passar, a civilização já anda de tal forma que os hoteleiros extraem contas de hospedagem. Mas uma dessas contas é mais fácil de ler do que de pagar... A conta vem assim discriminada: Aluguel da cama, um dólar; aluguel do quarto, um dólar, aluguel da casa onde está instalado o quarto, um dólar; aluguel do terreno onde está edificada a casa com o quarto, um dólar, luz consumida, um dólar — cobram-lhe a luz e, no entanto o seu quarto é iluminado pela lua, pois o que eles chamam de quarto é o pátio da casa e a cama é um monte de palhas já servidas para este fim, há longos anos. Pelo serviço do garçom, um dólar, pelo lavatório, um dólar — e, no entanto, para andar limpo, o senhor tem necessidade de recorrer às águas do Sacramento —, pela toalha, um dólar — e o senhor enxuga-se na manga do casaco; a única cousa que se paga ali e que realmente se recebe é: formulário desta conta, um dólar. Que tal lhe parece isso, Mr. Marshall?

— É, não é mau... para o hoteleiro!

— Sou da mesma opinião. Em virtude disso, vou ensinar-lhe um outro caminho melhor do que aquele pelo qual, se andar bem montado, alcançará Yellow-water-ground em quatro dias. O senhor toma a barca e atravessa a baía e de lá segue sempre rumo do San John, depois contorna para o leste e quando chegar ao rio Sacramento terá atingido o seu objetivo, ou pelo menos estará bem perto dele. Este caminho é abundante em correntes d’água.

— Muito obrigado, sir, seguirei o seu conselho!

— Well! E se o senhor encontrar-se em Sacramento com um mulato que tenha uma cicatriz abaixo do olho direito, faça-o provar a sua faca ou uma bala de sua espingarda; garanto que desse modo o senhor terá praticado uma boa ação!

 

JANTAR À ESPANHOLA

Nesse permeio, chegara à hora do jantar e Gustavinha nos veio chamar. Ela conduziu-nos a uma sala onde havia uma mesa coberta com tanto luxo como se nela se fosse realizar um jantar em honra dalgum grande da Espanha. O hoteleiro nem deu um ar de sua graça... Dona Elvira recebeu em pessoa os hóspedes, que eu lhe ia apresentando com a enunciação de seus respectivos nomes e com um ar de quem realmente falava a uma alta personalidade em audiência.

Como o desejo de Dona Elvira era impressionar os presentes, dirigiu ela, mas de um modo ridículo, a palestra para o campo das ciências e das artes e nós a ouvíamos com interesse. Quando se sentiu suficientemente lisonjeada por nós, passou a interessar-se também pelas nossas personalidades, pedindo que lhe narrássemos as aventuras por nós vividas na presente jornada.

Quando a hoteleira deu por terminado o ágape, declarou:

— Señores, creio haver-lhes provado quanto sei tratar com distinção os meus hóspedes prediletos e espero por isso que ficarão durante muito tempo hospedados no meu estabelecimento que, no gênero, não há similar nos Estados Unidos.

— Dona Elvira de Gonzales, sentimo-nos honrados pela sua fidalga hospitalidade, que agradecemos com abundância de coração. Pretendemos nos demorar durante muito tempo em seu hotel, porém, não agora, pois somos obrigados a fazer uma pequena excursão amanhã bem cedinho.

— Para onde?

— Para o Sacramento, a fim de procurar Allano, que traremos conosco para se hospedar na sua casa.

— Muito bem, meus señores! Ponho à sua disposição tudo de que necessitarem; a conta apresentar-lhes-ei mais tarde, e se tiverem ainda algum desejo, exponham-no à Gustavinha, que está encarregada de atendê-los. Espero que me dirão adiós amanhã cedo, antes de partirem.

Dito isto, saiu da sala e nós a acompanhamos, seguindo depois para as cavalariças a fim de ver os nossos cavalos; logo depois, recolhemo-nos aos nossos quartos para dormir. Na manhã seguinte, tomamos a barca e atravessamos a baía de S. Francisco.

 

NO SACRAMENTO

Seguimos a direção exata que nos ensinara o garimpeiro e, na noite do terceiro dia, atingimos a serra de San John, de lá seguindo rumo do nascente. No dia seguinte, ao meio-dia, cavalgamos pelo rio Sacramento abaixo, e a cada passo encontrávamos vestígios do febril afã dos garimpeiros, que por toda parte haviam revolvido a terra em procura do “pó mortífero”, cujo brilho fascina os olhos, confunde os espíritos e anestesia os corações!

Já se tem falado e escrito tanto a respeito dos trabalhos nas jazidas auríferas, que me abstenho de fazer qualquer referência a esse respeito; direi apenas que a febre do ouro é contagiosa até para o homem menos ambicioso, uma vez que ele se ache rodeado de homens de olhos fundos nas órbitas, vestidos, a maior parte das vezes, com mulambos e que sacrificam a sua saúde e até a vida no afã de se tornarem ricos. Pobres riquezas que muitos desbaratam tão depressa quando a alcançam! Estes pobres homens trabalham às vezes durante meses consecutivos, de sol a sol, sem auferirem a mínima parcela de resultados apreciáveis que compensem o seu árduo labor. Pragas e maldições acompanham em geral cada golpe por eles dado nas jazidas; o terrível fantasma da fome, da miséria, do desespero deles se aproxima a passos rápidos e os pobres garimpeiros desanimam e querem desistir para entregar-se a outras tarefas... É então quando ouvem um boato de que em tal ou qual lugar alguém descobriu enormes e inesgotáveis veios auríferos, que estão fazendo a fortuna de muitos garimpeiros ativos. Imediatamente pegam da bátea (*) e seguem o novo rumo, a fim de se tornarm vítimas imbeles da espantosa epidemia: a sede do ouro!

À noite chegávamos ao Yellow-water-ground. Era um extenso e estreito vale onde corria um pequeno regato, tributário do Sacramento. De alto a baixo, as margens do regato estavam cheias de vestígios de jazidas auríferas. A terra por toda parte estava revolvida. Passávamos por numerosas barracas; contudo, era palpável o sintoma de que a época áurea dos exploradores de minas de ouro já passara...

No meio do vale levantava-se uma casa de madeira, baixa, mas larga e espaçosa. Na porta, escrito a giz, lia-se o convidativo letreiro: Stop on boarding-house of yellow-water-ground. O dono deste estabelecimento comercial, hotel e bar, devia estar em condições de dar-nos as informações de que precisávamos. Apeamos, pois; deixamos Bob junto dos cavalos e entramos.

Os bancos feitos de madeira tosca estavam tomados em parte por figuras rústicas e em parte, por figuras em cujos semblantes lia-se a descrença, a miséria, o desespero; eram homens meio vencidos que nos contemplavam com curiosidade.

— Novos mineiros, disse um, proferindo uma casquinada. Deixai-os! Talvez tenham mais sorte do que nós... Venha cá, oh! pele-vermelha, tome um trago comigo!

Winnetou fez como se nem tivesse ouvido o convite. Nisso o homem levantou-se do seu lugar com o copo na mão e aproximou-se provocadoramente do apache.

— Maroto, então não sabe que é um insulto lançado à face de um mineiro, quando se recusa a sorver um trago com ele? Responda-me se quer ou não tomar um trago comigo e pagar também outro para bebermos à minha saúde?!

— O guerreiro pele-vermelha não ingere “água de fogo”, mas com isso não pretende insultar o pele-branca! — respondeu Winnetou enérgica, mas cortesmente.

— Então, tome e vá para o diabo!

A essas palavras, o garimpeiro decaído atirou o copo com o seu conteúdo no rosto de Winnetou e sacou logo da faca, num salto, para cravá-la no coração do cacique dos apaches; mas foi infeliz na sua investida: Winnetou num salto de tigre rebateu o golpe e fez o agressor tombar ao solo com o coração atravessado pela lâmina da sua faca. Imediatamente ergueram-se os demais de faca em riste. Mas as nossas espingardas já estavam apontadas para eles; também Bob, que da rua vira o movimento, postara-se na porta com a espingarda pronta para o tiro.

— Parem! — exclamou o hoteleiro, dirigindo-se aos mineiros. Procederam muito mal, pois o atrito não foi com os senhores, e deveria ser resolvido entre Jim e o índio. Por que se meteram onde não foram chamados?!  Nell, retira daí o corpo do pobre Jim!

Os garimpeiros tornaram a sentar-se. As nossas espingardas assestadas produziram neles o mesmo efeito que as palavras do hoteleiro. O garçom saiu detrás do balcão, agarrou o morto às costas e conduziu-o para os fundos, a fim de colocá-lo numa escavação abandonada e cobri-lo com um pouco de terra, conforme ordenou depois o dono da casa. Aquele Jim viera para cá a fim de procurar ouro e achou a morte por sua própria culpa. Quantas cenas idênticas se registram nas minas!...

Sentamo-nos a uma mesa distante da dos demais.

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(*) Peneira para joeirar ouro

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— Que pretendem tomar? — perguntou, solícito, o hoteleiro.

— Cerveja — respondeu Bernhard.

— Porter ou Ale?

— A melhor delas!

— Então tomem Ale, pessoal! É uma cerveja muito boa, de Burton, em Staffordshire.

Eu estava curioso por provar a cerveja que o hoteleiro pretendia ter importado da Inglaterra e até da cidade mundialmente afamada por sua excelente cerveja, para o vale do Sacramento... Foram nos servidas cinco garrafas, das quais levei imediatamente um para Bob, que continuava a cuidar dos cavalos. O preto meteu o gargalo na boca, parecendo que ia engolir toda a garrafa, e bebeu-a duma só vez. Mas mal tirara a garrafa da boca, arregalou assustadoramente os olhos e abriu a boca numa careta pavorosa; proferiu um gemido idêntico ao do náufrago, que, à tona d’água, pela última vez avista a terra.

— Que te aconteceu? — perguntei supondo que se houvesse ferido com o gargalo.

— Mestre, me acódi senão Bob vai morre. Bob tomou veneno di rato.

— Veneno? Mas não era cerveja inglesa Ale?

— Ale? Não, oh, não! Bob conhece Ale. Bob tomo veneno. A boca e as tripa de Bob estão ardendo como arsênico.

Bob evidentemente não conhecia cerveja. Como podia aquela deliciosa bebida transformar-se em arsênico! Voltei para o bar e cheguei ainda em tempo de ouvir a observação do hoteleiro:

— Mas, antes de mais nada, preciso saber se estão em condições de pagar o que bebem!

Bernhard, visivelmente ofendido, pôs a mão no bolso para tirar o dinheiro.

— Deixe, Bernhard! Esta conta é comigo! — atalhou Sam. — Quanto custa a cerveja?

— A três dólares a garrafa, importa em quinze dólares.

— É barato, homem; ainda mais com a garrafa, não é assim?

— Claro, a garrafa está incluída no preço.

— Mas a deixaremos aqui, pois homens como nós que conhecemos minas inexgotáveis de ouro, onde basta nos baixar para retirar grandes quantidades, não fazem questão de um pedaço de vidro! Traga a sua balança aqui para a mesa!

— Quer fazer o pagamento em ouro?

— Sim.

Sam tirou de sua bolsa tiracolo alguns nuggets, dos quais um tinha o tamanho dum ôvo de pomba.

— Com mil raios, homem, onde encontrou estas peças de ouro? — perguntou o hoteleiro.

— Nas minhas jazidas.

— Onde estão elas situadas?

— Mais ou menos na América. Não tenho boa memória e por isso não me recordo de momento do local exato. Só me lembro disso quando preciso de ouro.

O hoteleiro teve que se conformar com esta recusa; os seus olhos, porém, brilhavam de ganância quando pesou uma das peças de ouro e devolveu o troco em dinheiro. Ele calculou o ouro por um preço ínfimo e a sua balança devia também estar viciada... Sam, porém, embolsou o troco com um ar de quem não se preocupa com uma onça a mais ou uma onça a menos. Ele trazia, sem que os companheiros o soubessem, uma boa soma em ouro no meio da munição e agora me lembrei do que me dissera quando foi do nosso primeiro encontro: que sabia um local onde havia ouro suficiente para tornar riquíssimo o homem que se revelasse seu verdadeiro amigo.

Passamos então a provar a cerveja. Se tivéssemos vindo diretamente da savana para cá, podia ser que pudéssemos tragá-la! Mas como no Hotel Valladolid, Dona Elvira nos servira boa cerveja, não nos foi possível beber aquela sem náuseas. Era evidente que o homem cozinhava ele mesmo a sua cerveja com certas ervas e outros ingredientes e depois a engarrafava nas garrafas rotuladas de Ale, vendendo-as à razão de três dólares apenas. Além disso, o hoteleiro, esquecendo-se da atitude esquiva de Sam, sentara-se conosco à mesa e voltara de novo a perguntar onde se achavam situadas as suas jazidas auríferas.

— As minas que o senhor conhece ficam muito distantes daqui, sir?

— Qual delas? Conheço umas quatro ou cinco?

— Quatro ou cinco? Impossível! Do contrário o senhor não se abalançaria a vir até este triste vale onde já desenterraram todo o ouro que havia...

— Se o senhor acredita ou não, isto é lá com o senhor, acho eu!

— E o senhor retira apenas a quantidade de ouro de que precisa?

— Claro.

— Que leviandade, que imprevidência! E se agora vierem outros e tirarem aquilo que o senhor poderia ter posto em seguro?

— Isto nunca se dará.

— Pois eu lhe compro uma dessas minas, sir!

— Não tem dinheiro para efetuar essa transação. Seria capaz de dispor de uma soma suficiente para pagar em dólares ou cheque bancário uns seis mil quilos de ouro?

— Com os diabos! Tanto assim? Neste caso eu arranjaria um sócio e até dois ou três; para isso me serviria aquele Allan Marshall que por aqui chegou trazendo uma bonita soma em dólares e se retirou levando consigo uma considerável fortuna. Aquele, sim, conhecia o seu ofício!

— Como?

— Tinha um auxiliar que demitiu por que o roubou. Este depois me contou tudo. O seu patrão converteu em dinheiro o ouro em pó e os nuggets maiores enterrou na sua cabana. De repente, porém, ele desapareceu sem que ninguém saiba para onde foi.

— Tinha cavalos consigo?

— Apenas um de montaria. Ontem ainda ele foi procurado aqui.

— Ah! Por quem?

— Por três homens, dois brancos e um mulato, que me pediram notícias dele. Também os senhores parecem conhecê-lo!

— Sim, e pretendíamos também procurá-lo. Para onde se dirigiram os três?

— Saíram em procura do lugar onde esteve a sua barraca; depois voltaram e estiveram durante muito tempo lendo uns papéis que lá encontraram. Um deles consegui ver: tratava-se dum mapa.

— E depois:

— Perguntaram onde ficava o vale do Short Rivulet. Ensinei-lhes o caminho e eles se dirigiram para lá.

— Mas com uma simples descrição do caminho eles dificilmente terão encontrado o vale Short Rivulet!

— Conhece-o?

— Estive uma vez lá. O senhor não nos poderia mostrar o local onde esteve armada a barraca de Allan?

— Pois, não; daqui o senhor pode avistá-lo. É lá à direita daqueles espinhais. Quando chegar lá, verá logo as cinzas no local do fogo e outros vestígios mais.

— E como se chama o homem que foi o auxiliar dele?

— Fred Buller. Está agora trabalhando na segunda jazida à esquerda de quem desce a estrada.

 

UMA “CONFERÊNCIA” REMUNERATIVA

Fiz um sinal para Bernhard, deixamos o bar e nos encaminhamos regato acima. Na jazida mencionada paramos. Apenas dois homens trabalhavam no arroio.

— Good day, cavalheiros! Querem ter a fineza de me informar qual dos senhores é Fred Buller? — perguntei.

— Yes, sir; sou eu — respondeu um dos garimpeiros.

— Dispõe de tempo para responder algumas perguntas que pretendo fazer-lhe?

— Talvez, desde que isso me renda um bom lucro. Aqui no trabalho das minas, todo o minuto vale dinheiro!

— Quanto o senhor cobra por dez minutos de tempo?

— Três dólares.

— Aqui os tem! — disse Marshall, passando-lhe a importância pedida.

— Obrigado, sir! Pelo que vejo, os senhores são muito generosos!

— Talvez lhe demos ainda maior prova de nossa generosidade, desde que responda bem às nossas perguntas — assegurei-lhe para aguçar a sua ganância.

— Well, sir; então faça as perguntas!

Os olhos daquele homem eram os de um refinado ladrão. Qual seria a melhor maneira de começar com ele? Meditei um segundo e decidi fingir-me de canalha, como ele, para melhor captar-lhe a confiança.

— Não lhe seria possível acompanhar nos ali para o lado para que possamos falar mais confidencialmente?

— Com os diabos, sir, os senhores, pelo que vejo, conduzem excelentes armas! Não seria essa atitude arriscada para mim?

— Ah! O homem não estava com a consciência tranqüila!

— Sim, excelentes armas para os nossos inimigos, mas também muito dinheiro para os nossos amigos. Venha sem receio!

Ele titubeou ainda um pouco, mas por fim resolveu atender-nos.

— Bem, vá lá que seja!

Saiu de dentro do arroio e nos acompanhou para um dos lados.

— Não estiveram anteontem três homens com o senhor?

— Sim.

— Dois brancos e um mulato?

— Justamente. Por quê?

— Os brancos eram pai e filho?

— Isso mesmo. O mulato é meu conhecido e também dos dois cavalheiros.

— Ah! — não sei como me ocorreu no momento esta idéia, — O mulato também eu conheço. Tinha uma cicatriz na face direita?

— Exatamente. Onde conheceu o meu amigo cap... isto é, de onde conhece sir Shelley?

— Fizemos de uma feita um negócio e agora eu precisava muito falar lhe. Para onde seguiu ele?

— Não sei, sir.

Dizia a verdade: via-se lhe nos olhos.

— Que queriam aqueles homens do senhor?

— Sir, os dez minutos já se passaram!

— Ainda não! Sei muito bem que lhe vieram perguntar pelo paradeiro do seu antigo patrão, Marshall, sir! Contudo lhe daremos mais cinco dólares para responder às nossas perguntas até o fim.

Bernhard pagou-lhe adiantadamente, como da primeira vez, aquela soma.

— Obrigado, sir! Os senhores são bem outros homens do que aqueles tais de Morgans e o sir Shelley, e por isso vou fornecer-lhes informações mais detalhadas do que as que prestei àqueles. Como o senhor já fez um negócio, com ele deve saber também quanto Shelley é sovina. Quer tudo de graça. Dizem que teve um procedimento nada recomendável com um companheiro de Sid...

O homem gaguejou, espantado, à palavra cujas primeiras letras acabava de pronunciar.

— Sidney-Coves, vá logo dizendo! Conheço também aquela história.

— Também? Então o senhor sabe muito bem quanto pode valer às vezes uma informação aparentemente sem importância. Para onde aqueles três sujeitos foram eu não sei; vi apenas que deram uma rigorosa busca lá no local da barraca do meu ex-patrão, onde acharam um papel. Oh! Se o sir Shelley tivesse falado comigo com “voz mais sonora”, como os senhores estão fazendo, eu lhes teria dado papéis de muito maior importância.

— E de que forma deveremos continuar a falar com o senhor para recebermos esses papéis de que fala?

Ele riu-se canalhamente e acrescentou: já lhes dei a entender... Portanto, por meio de uma conferência paga a dólares! Era de fato um sujeito refinadíssimo.

— Que espécie de papéis são os que o senhor possui?

— Várias correspondências.

— De quem e dirigidas a quem?

— Oh! sir! Como lhe poderei responder esta pergunta, sem saber antes se os senhores estão dispostos a falar comigo no meu “idioma”?!

— Pois faça preço!

— Cem dólares.

— Não me leve a mal a franqueza! O senhor se apossa da correspondência do seu ex-patrão para entregá-las ao “capitão” dos bravos e, como este não lhe quis dar a importância exigida, fica com ela, porque é de parecer que aquilo que podia trazer vantagens ao “capitão” nenhum mal lhe fará. Pois afianço lhe que essa atitude pode lhe acarretar más conseqüências. Amanhã ou depois, quando as cousas tiverem tomado novo rumo, já ninguém mais se interessará por essa correspondência e nada receberá mais por ela; além disso, em que posição ficará o senhor perante a nossa organização?

Eu arriscaria a dizer-lhe estas palavras baseadas tão somente no que até agora ouvira falar a respeito dos Hoands. Não tinha certeza nenhuma do que estava dizendo. Contudo, pela fisionomia do canalha, vi logo que eu tivera uma feliz idéia. O sujeito aceitou logo a minha oferta.

— Agora me convenci de que realmente o senhor já teve uma “transação” com o “capitão” pois sabe de tudo e é senhor dos segredos de nossa agremiação. Por isso não hesito mais em entregar-lhe os papéis mediante a remuneração de cinqüenta dólares.

— Onde tem essa correspondência?

— Acompanhem-me até a nossa barraca!

Seguimo-lo até onde estava localizada aquela coisa que ele tratava de “nossa barraca”. Era quatro paredes de barro, cobertas com uma lona toda furada. No interior da barraca devia chover como na rua! A um canto se achava uma trouxa de roupa, de onde Buller trouxe um pacote amarrado com farrapos de pano. Abriu-o e passou-me duas cartas. Eu ia agarrá-las, mas o homem puxou ligeiro a mão dizendo:

— Calma, sir, não se afobe! Primeiro dê-me o dinheiro!

— Não lhe pagarei sem que ao menos me seja dado ler os endereços.

— Bem, concordo, mas segurando eu as cartas e o senhor lendo a certa distância. Estou muito “escovado”. Não caio mais tão facilmente em “embrulhos”!

Buller recuou uns passos e à distância nos exibiu os envelopes que lemos.

— Realmente! Bernhard dá lhe o dinheiro!

As cartas eram endereçadas ao pai de Bernhard que Allan ainda não sabia ter sido assassinado. Bernhard tirou apressadamente o dinheiro do bolso; entretanto, percebeu o olhar que eu lhe dirigia e compreendeu ser singular ele pagar uma tão elevada soma por duas cartas, cujo seqüestro tantos prejuízos lhe haviam causado! Mas mesmo assim, pagou ao ladrão, que agarrou o dinheiro com volúpia. Quando o estava guardando naquele pacote imundo, vimos reluzir alguma cousa semelhante a ouro e Bernhard, nervosamente, avançou contra Buller arrebatando-lhe o pacote de onde tirou um relógio de ouro.

— Que pretende fazer com o meu relógio? — perguntou o meliante.

— Abrir-lhe a capa que cobre o mostrador a fim de ver que horas são.

— Não está com corda — replicou tentando, reapossar-se do objeto. — Devolva-me!

— Calma — retruquei segurando-lhe ambos os braços. — Mesmo que esteja parado poderemos ver a que horas cessou a corda!

— Mas é o relógio de Allan! — exclamou Bernhard.

— De fato? Como se apoderou desse relógio? — trovejei ao gatuno

— O senhor tem alguma cousa com isso? — respondeu-me tentando desprender-se de minhas mãos.

— Tenho, sim, senhor! Este cavalheiro é irmão da pessoa a quem este relógio pertenceu. Portanto responda já de que maneira veio a possuir esse objeto!

— É um presente do meu ex-patrão.

— Está mentindo! — replicou-lhe Bernhard. — Veja esses brilhantes, Carlos! — Um relógio fino como este, que vale no mínimo uns trezentos dólares, não se presenteia a um auxiliar de categoria modestíssima como foi este homem junto de meu irmão.

Eu segurava Buller pelos dois braços. O gatuno fazia um esforço inaudito para se desprender, mas debalde.

— Quem são os senhores? Quem lhes dá o direito de varejar a minha barraca? Vou bradar por socorro e mandar linchá-los! — exclamava o homem fora de si.

— Não cometa tolices, homem; do contrário, Linch se encarregará de executar a sua própria pessoa! Ao primeiro grito que proferir apertar-lhe-ei a garganta com um pouquinho mais de força.

Eu passara a segurar-lhe ambos os braços com a mão esquerda, e com a direita ameaçava-lhe a garganta na altura da carótida. Estava completamente dominado por mim.

— Não achei mais nada — declarou Bernhard, concluindo a busca.

— Pois então solte me e me devolva o relógio! — disse Buller em tom de desafio.

 

— Tome cuidado! — respondi-lhe. — Segura-lo-ei até resolvermos o que faremos do senhor? — Que faremos dele, Bernhard?

— Está convencido de que ele roubou o relógio de meu irmão?

— Claro.

— E ele está disposto a restituí-lo?

— Que remédio!

— E que castigo lhe daremos?

— Seremos indulgentes com ele. De nada nos adiantará o seu linchamento. Pelo crime que praticou, devolverá gratuitamente o relógio e as cartas.

— Gratuitamente? Mas, como fazer se já recebi o dinheiro?

— Muito simples. Restituir-nos-á imediatamente e sem vacilar os cinqüenta, os cinco e os três dólares que nos extorquiu há pouco, julgando-se senhor da situação. É uma sentença muito benigna, dê graças aos céus! Bernhard. Tire lhe o dinheiro do bolso!

Bernhard atendeu-me, não obstante o homem haver esperneado um pouco; depois soltei o ladrão. Mal se viu livre, pulou para fora e desandou a correr pela estrada embarafustando-se porta adentro lá no bar, onde antes estivéramos.

Seguimo-lo lentamente e já de longe percebemos berreiros enfurecidos. Redobramos os passos. Os nossos cavalos estavam defronte à porta, mas não víamos Bob. Entramos apressadamente no bar aonde nos vimos num campo de luta. Num dos ângulos da casa estava Winnetou segurando o ladrão do relógio com a mão esquerda pela garganta e com a direita, erguia a espingarda para desferir-lhe o golpe; ao seu lado Sans-ear atracado em luta corporal com alguns hóspedes. A um outro ângulo se achava Bob, a quem no momento arrancaram a espingarda, defendendo-se como um leão de faca em punho. Conforme depois vim, a saber, Buller convidara os mineiros que se achavam na taverna para lincharem a mim e a Bernhard, tendo Sans-ear embargado-lhe os passos. Como os garimpeiros estivessem furiosos ainda com a morte de Jim e o taverneiro convencido de que Sam não aceitaria a sua proposta para a compra da mina aurífera, estabeleceu-se, sob o seu patrocínio, aquele charivari que teria custado a vida aos nossos três companheiros, se nós os dois não houvéssemos chegado ainda a tempo.

Winnetou e Sam ainda podiam se manter na luta; precisaríamos em primeiro lugar acubir Bob.

— Atirar, só em caso de absoluta necessidade! Ponha a espingarda em posição de desfechar um coronhaço, Bernhard! — comandei.

Dizendo isso, fui logo investindo contra os garimpeiros e não demorou nem um minuto o negro já estava ao nosso lado, de espingarda na mão. Como um tigre que se tivesse soltado da jaula, o preto pulou contra os inimigos. Estes não possuíam armas de fogo. Foi a nossa sorte.

— Ah! Carlos — exclamou Sam. — Abandonemos as coronhas e lancemos mão das machadinhas de guerra! Arrazemos tudo duma vez!

 

DOIS CASTIGOS ORIGINAIS

Obedecemo-lo. Mas aquilo já não era mais um embate, era antes um brinquedo. Mal reluziram as nossas machadinhas e mal dois ou três garimpeiros foram atingidos levemente por elas, toda a horda saiu porta afora em desordenada fuga. Ocorrera tudo isso em dois minutos. Logo depois nos achávamos a sós com o taverneiro e Buller.

— Roubaste realmente dinheiro e um relógio deste homem, Carlos? — perguntou Sam.

— Epa! Antes ele é que se apoderou indebitamente de duas cartas de Allan dirigidas ao pai e roubou-lhe o relógio.

— E cometeram a imprudência de soltá-lo! Bem, isto não é da minha conta. Mas irá receber agora a sua paga por ter irritado esses zangões auríferos contra nós.

— Creio que não pretendes matá-lo, Sam!

— Isto ele nem merece! Prenda-o, Winnetou!

O apache segurou tão fortemente o homem que este não se podia mover. Sam puxou da faca. Um ligeiro corte, um grito de dor proferido por Buller... Sam cortara-lhe a ponta do nariz.

— Agora sim, meu bravo rapaz! Fique sabendo que não é louvável provocar-se o linchamento de honrados homens do oeste. Quando se mete o nariz em assuntos tão graves, perde-se em geral a sua ponta... E o nosso mestre taverneiro das dúzias? Ah, lá está ele! Venha até aqui, meu caro, e deixe-me ver quantas polegadas de excesso de nariz possui!

O taverneiro pareceu não se ter agradado do convite. Aproximou-se, hesitante, apenas uns passos.

— Eu espero que, cavalheiros como parecem ser, não me vão pagar desta forma a acolhida hospitaleira que lhes dispenso! — disse o hoteleiro, trêmulo.

— Acolhida hospitaleira? Chama de acolhida hospitaleira cobrar  três dólares por uma garrafa de um cozimento imundo que nem o demônio seria capaz de tragar?!

— Bem, lhes devolverei imediatamente o dinheiro, meus senhores!

— Não, fique com o dinheiro e não tenha medo! Quem daqui por diante fabricaria Ale e Porter se o mandássemos desta vida para melhor?... Agora vamos, companheiros, pois os vermes auríferos são muito capazes de voltar e seremos então obrigados a liquidar com uma dúzia deles!

Com esta resolução, porém, Bob não estava satisfeito.

— 0 que, mestre Sam; já quê í embora? Não. Por quê não castiga primêro tavernêro por ter dado pra Bob bebê veneno de rato. Bob vai se cobra deste desaforo!

O preto agarrou uma das garrafas cheias que se achavam sobre a mesa, pois não as havíamos bebido, e deu ao dono da casa.

— Toma, tu mêmo, essa porcaria, bandido! Ligêro senão Bob mata a tiro semvergonha di tavernêro!

O hoteleiro, negociante e taverneiro foi forçado a beber aquela mistura nauseante. Mas mal havia ingerido aquela garrafa, já Bob lhe apresentava outra.

— Toma também esta!

Não teve o homem outro remédio senão ingerir também aquela.

— Agora toma mais essa. Si não fizé, Bob mata bodeguêro!

Desta forma o homem foi obrigado a beber as quatro garrafas que havíamos deixado sobre a mesa e era tragicômico ver a careta que fazia ao engolir o infernal cozimento.

— Ohn, ohn! — exclamou o preto, segurando a barriga de tanto rir. — Agora hotelêro bebeu quatro veiz treis dolars e está com a barriga cheia de gaizes azuis!

Estávamos despachados. Winnetou soltou o ladrão que, com a carótida premida, não pudera antes soltar um só gemido; agora, porém passou a berrar com grande furor; montamos a cavalo e nos fomos. E não foi fora de tempo, pois nas proximidades da casa vimos os garimpeiros se reunindo armados de armas de fogo. Felizmente, porém, havia ainda pequeno número deles e por isto alcançamos o rio Sacramento sem sermos importunados.

— Onde fica o vale Short Rivulet? — perguntou Bernhard.

— Por enquanto cavalgaremos rio acima — respondeu Sam.

 

NA SENDA DE ALLAN MARSHALL

Prosseguimos a trote rápido até atingirmos uma distância, em que nos consideramos fora do alcance dos garimpeiros.

— Agora vamos apear! — ordenou Bernhard. — Preciso ler as cartas. Apeamos e sentamo-nos na relva. Bernhard abriu as cartas e as leu.

— São as duas últimas cartas escritas por Allan — declarou ele. — Meu irmão queixa-se amarguradamente por não lhe respondermos as cartas e numa das missivas faz uma observação que nos é de grande interesse. Ei-la:

“... de resto, estou fazendo aqui melhores negócios do que antes supunha. O pó e as granulações de ouro remeti-os por portador de confiança para Sacramento e S. Francisco, onde alcançam muito melhor preço do que aquele que me pagam aqui. Deste modo consegui dobrar a soma que se achava à nossa disposição no Banco. Agora, porém, vou deixar Yellow-water-ground onde não há mais nem a quarta parte do movimento de explorações das jazidas de antes, e, além disso, os caminhos que conduzem para S. Francisco e Sacramento estão de tal modo infestados por salteadores, que a gente não pode mais se arriscar a fazer alguma remessa de ouro para lá. Desconfio até, em vista de certas cousas que me chegaram ao ouvido e outras por mim vistas, que os bravos projetam visitar o meu acampamento. Para despistá-los vou sair inesperadamente desta localidade sem deixar de mim o menor vestígio. Deste modo, os bandoleiros não conseguirão seguir-me, para assaltar-me de emboscada, como costumam fazer. Sairei daqui com destino ao vale Short Rivulet levando comigo mais de cem libras de nuggets. Soube que naquele vale estão explorando várias jazidas auríferas e assim, lá encontrarei negócios que talvez ocuparão a minha atividade durante um mês inteiro. Depois disso, transpondo o Lynn, seguirei para o porto de Humboldt, onde espero encontrar vapor que me conduza a S. Francisco.

— Tudo combina! — atalhou Sam. — Não é isso singular, Carlos? Pois os Morgans sabiam de tudo. E quem lhes contou, hein?

— Talvez os papéis que os dois bandidos acharam na barraca de Allan faziam alguma referência a respeito.

— É possível — disse Bernhard. — Há aqui um tópico que talvez nos sirva de ponto de partida. Ouçam!

“... embora eu não viaje em numerosa companhia. Não preciso sequer de um guia, pois baseado no último mapa editado, organizei um roteiro de viagem pelo qual me poderei dirigir com segurança...”.

— Teria ele perdido este roteiro ou inadvertidamente posto fora o seu bosquejo? — perguntei.

— É bem provável — opinou Sam. — Um homem do oeste Allan não é, e por isso ignora, talvez que muitas vezes no mais insignificante descuido, a gente, quando viaja pelo oeste bravio, põe a vida em jogo. E mesmo que ele tenha chegado incólume até lá, resta saber de que forma se arranjou com os indígenas-serpentes que possuem lá a sua aldeia e o seu território de caça, que se distende para o Lewis-Sued-Fork.

— São tão ferozes como os comanchos? — indagou Bernhard, tomado de cuidados.

— São como os indígenas em geral: nobres para com os amigos e terríveis para com os inimigos ou com os que supõem sê-lo. Nós, por exemplo, não precisamos receá-los, porque já estive várias vezes como hóspede em sua taba e todo indígena-serpente conhece Sans-ear, senão pessoalmente pelo menos através do nome.

— Serpente? — perguntou Winnetou. — O cacique dos apaches conhece os shoshones (*) que são seus irmãos. Os guerreiros dos shoshones são valentes e leais; eles vão alegrar-se por tornar a ver Winnetou com quem fumaram tantas vezes o calumet.

 

TRÁGICO DESENLACE

Bem, duas prováveis dificuldades estavam removidas. Tanto Sans-ear como Winnetou mantinham boas relações com aquela tribo e ambos conheciam também a região, onde estava situado o vale do Short Rivulet. Ambos nos serviriam agora de guias.

O terreno pelo qual tínhamos que cavalgar era muito montanhoso, pois havíamos deixado o rio Sacramento e nos dirigíamos para o sêrro de S. José. Era íngreme este caminho, mas, mesmo assim, o mais facilmente acessível ao nosso objetivo, que era o de apanhar os dois salteadores. É verdade que estes nos levavam uma dianteira de dois dias, mas haviam tomado um outro caminho sem dúvida mais longo do que este. Sim, porque por este, que trilhávamos, eles não passaram, do contrário teríamos dado com as suas pegadas.

Do sêrro de S. José desviamo-nos para o noroeste. Depois de transcorrida uma semana de nossa partida de Yellow-water-ground, topamos com uma cadeia de montanhas onde havia uma elevação que ultrapassava as demais pela grande altura do seu cume; ao sopé levantava-se uma floresta de árvores que perdem as folhas no outono, floresta que se ia desenvolvendo cada vez mais cerrada até converter-se numa verdadeira mata virgem. Em cima, no planalto da  montanha  colossal,  havia  um  lago

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(*) Shoshones é o nome que os nativos dão à tribo da serpente ou snake.

 

que, devido ao seu aspecto sombrio e ao conjunto taciturno do local, denominavam Black-eye (*). Nele desaguava o Short Rivulet, cujas nascentes procediam do oeste.

Cavalgamos vagarosamente montanha acima até chegarmos ao seu planalto. Daqui por diante, o caminho melhorava sensivelmente, e um pouco antes de escurecer, chegávamos ao braço sul do Black-eye, de tal profundidade que as águas pareciam um enigma, cuja decifração trazia consigo a morte certa.

Nos vales das montanhas havia sombra, mas em cima o sol brilhava prestes a desaparecer no poente. Poderíamos muito bem cavalgar mais um trecho pela margem do lago, a fim de examiná-lo mais detidamente.

— Prosseguiremos viagem? — perguntou Bernhard, ansioso e esperançado talvez por ver o irmão ainda naquele dia.

— Não. Os meus irmãos e o cacique dos apaches acamparão hoje aqui neste local — disse o cacique no seu laconismo proverbial.

— Well — concordou Sam. — Aqui há musgos para nos servirem de leito e os animais encontrarão pastagem em abundância no vale do rio. E se encontrarmos algum matinho ou outro esconderijo qualquer, poderemos acender uma fogueira de fogo lento, como as dos indígenas, para assarmos a caça que Bob abateu hoje.

Sim, Bob pela primeira vez abatera naquele dia uma caça e ele se orgulhava em poder com isso comprovar mais uma vez quanto ele era um membro útil da caravana. Depois de algumas pesquisas da zona, encontramos um lugar como Sam desejara.

Pouco depois o fogo ardia e Sam assava a caça. Neste meio tempo anoitecera e o fogo iluminava apenas um insignificante perímetro da zona em que nos achávamos. Sam serviu-nos o seu saboroso quitute e nos deitamos a dormir até de manhã cedo.

Logo que acordamos, levantamos acampamento e não demoramos a chegar ao vale do Short Rivulet. O arroio era pobre de água e, ao que parecia, na estação estival secava completamente.

Encontrávamos pelo caminho barracas fragmentadas, terras revolvidas, palhoças destruídas, enfim, inúmeros outros vestígios do trabalho estafante dos garimpeiros, que ali estiveram a explorar a zona, e de um formidável e renhido combate que ali se devia ter travado.

Evidentemente, os garimpeiros haviam sido assaltados pelos bandoleiros. Não encontramos, porém, nenhum cadáver no teatro da luta.

De pesquisa em pesquisa, divisamos mais para o alto em plena mata, uma enorme barraca destruída e que fora levantada debaixo de uma árvore frondosa. Não havia ali vestígio de espécie alguma, um único objeto que nos levasse a descobrir quem ali estivera instalado.

Oh! que decepção sofrerá Bernhard que estava convicto de encontrar o seu irmão.

— Nesta enorme barraca morou Allan — afirmou com voz trêmula. O pobre rapaz teve esse pressentimento, pressentimento que muitas vezes não engana! Cavalgamos ao redor do vale cercado por mata cerrada e nessa cavalgada encontramos as pegadas dos bandoleiros, que se retiraram para o oeste na direção da montanha gigantesca.

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(*) Olho negro

 

— Allan daqui tencionava seguir para Lynn e de lá para o porto de Humboldt. Com certeza tomou de fato aquele rumo e os bandidos o seguiram! — disse Bernhard visivelmente apreensivo.

— Precisávamos primeiro averiguar se de fato ele chegou a seguir aquela rota. A circunstância de não encontrarmos cadáveres aqui não comprova que os garimpeiros assaltados tenham escapado da morte. Penso que os bandoleiros lançaram os cadáveres no lago.

E era mesmo bem possível que no fundo das águas do Black-eye estivessem agora sepultados aqueles que haviam sonhado com a deusa Fortuna. O demônio do ouro os arrancara talvez do sonho de riqueza, fortuna e bem-estar para arrojá-los à realidade da morte...

— E quem teriam sido os bandoleiros? — perguntou Marshall, indignado.

— O mulato e os dois Morgans que de há muito nos vêm fugindo, embora tenhamos seguido as suas pegadas.

— Mas desta vez eles hão de nos cair nas mãos! — assegurou Sans-ear. — E então não pertencerão a mais ninguém senão a Sam Hawerfield que tem uma velha conta a ajustar com eles!

— Bem, para a frente em sua perseguição!

As pegadas por enquanto não estavam bem visíveis para podermos contá-las; depois, porém, quando chegamos mais embaixo, vimos que cada cavaleiro seguia o seu trilho. Eram vinte. Durante um bom trajeto examinei minuciosamente os vestígios no solo e o resultado a que cheguei foi o seguinte: era uma caravana de dezesseis cavaleiros que tocavam quatro cargueiros pela frente. Portanto, a viagem devia ser vagarosa e poderíamos alimentar a esperança de pilhá-los antes de alcançarem Allan.

Ao meio-dia alcançamos o lugar onde a caravana fizera a sua primeira parada. Continuamos a cavalgar até a noite quando não enxergávamos mais os vestígios. Acampamos então e dormimos algumas horas. Mal rompeu o dia, prosseguimos nas pegadas, e, antes do meio-dia, alcançamos o seu segundo acampamento noturno. Portanto, eles nos levavam uma vantagem apenas de um dia. Até a noite queríamos alcançar a parte extrema do Sacramento, mas em caminho deparamos com um sintoma alarmante. É que as pegadas se haviam dividido. Naquele ponto o rio descreve um arco, no meio do qual nos achávamos agora. As pegadas de seis cavalos de montaria e dos quatro animais cargueiros, desviaram-se para a esquerda e as dos demais prosseguiram pela mesma rota de antes.

— All devils, isto é fatal! Será plano de guerra ou mero acaso? — disse Sam.

— Em relação a nós talvez seja acaso — respondi.

— Mas por que cargas d’água haviam eles de se dividir? — perguntou Bernhard.

— Tudo isso é bastante compreensível — observei. — Os cargueiros que transportavam as presas colhidas pelos bandoleiros no Black-eye, estorvavam-lhes a marcha rápida; por isso foram conduzidos para algum esconderijo seguro e os demais se tocaram com redobrada marcha para a frente a fim de alcançar Allan o mais depressa possível. Combinaram neste caso algum ponto no Sacramento onde depois de saquearem Allan, irão encontrar-se todos para dividir as presas.

— Well, neste caso deixemos que os cargueiros sigam para onde quiserem e galopemos para frente. A minha “Tony” já de há muito que se acha zangada por estarmos fazendo uma viagem de lesma!

— Viagem de lesma?! Arre! Se assim classificas as nossas últimas cavalgadas, não sei o que é viajar apressado! Ao demais, Sam, há aqui outro ponto a considerar: qual dos dois Morgans pretendes para ti?

— Zounds, que pergunta, Carlos! Pois sabes muito bem! Os dois, naturalmente!

— Hum, isto não vai dar certo!

— Por quê?

— Pois não vês que Fred Morgan mandou tocar os cargueiros para ramo diferente do caminho que seguimos? E sabes a quem ele confiou esses cargueiros?

— A quem?

— Naturalmente que a ninguém mais senão ao seu filho!

— É mesmo! Ora, nisso não havia pensado eu? Que faremos agora?

— Qual dos dois preferes apanhar primeiro?

— O velho!

— Bem, se é assim, partamos já e sempre em linha reta.

À noite atingimos realmente a parte alta do Sacramento, em cujas margens acampamos. Pela manhã continuamos sempre rente às pegadas, que estavam bem nítidas. Ao meio-dia, chegávamos a uma planície onde os vestígios dos que perseguíamos eram tão recentes, que eles não deviam se achar a mais de cinco milhas distantes de nós.

Esporeamos os cavalos para alcançarmos quanto antes possível a caravana de bandoleiros. Devíamos chegar tão perto deles que, à noite, nos pudéssemos aproximar, de gatinhas, do seu acampamento. Encontrávamos nos num estado de agitação febril. Tínhamos, finalmente, diante de nós os bandidos que vínhamos perseguindo há tanto tempo, em luta com toda a sorte de peripécias. O meu cavalo galopava velozmente e, ao seu lado, o animal de Winnetou o acompanhava. Que é isso aqui? Pegadas de cem cavalos no mínimo. O solo apresentava vestígios de nele haver sido ferida uma luta. Numa folha verde de um arbusto viam-se mesmo gotas de sangue!

Examinamos bem a zona. À esquerda, havia as pegadas de três cavalos que se dirigiram para a planície, ao passo que um largo trilho feito com cascos de cavalos seguia em linha reta.

Continuamos por este trilho a galope. Os cavaleiros deviam ser indígenas, pois os animais não eram ferrados e, como Allan não podia andar muito longe dali, com certeza defrontara-se com os peles-vermelhas. Não havíamos cavalgado nem uma milha, quando se descortinou diante de nossas vistas uma enorme aldeia indígena.

— Shoshones! — exclamou Winnetou.

— Os índios-serpentes! — acompanhou Sam.

Cavalgamos sem parar rumo à taba.

No meio da aldeia estava reunido um grupo de cem guerreiros e entre eles se achava um cacique. Quando nos viram, abriram o círculo e tomaram de suas espingardas e machadinhas de guerra.

— Ko-tu-cho! — exclamou Winnetou, galopando em direção do cacique como se o quisesse esmagar a patas de cavalo; a um só passo diante dele parou subitamente o animal.

O cacique dos shoshones, não obstante a arriscada prova de equitação realizada por Winnetou, ficou parado e não contraiu nem um músculo da face. Ao reconhecer Winnetou, estendeu-lhe a mão cheio de alegria:

— Winnetou, o cacique dos apaches! Está em festa a taba dos shoshones! Nas cabanas dos guerreiros reinará hoje grande alegria e o coração do cacique vai ter o conforto de uma convivência que tanto aprecia! Oh! Ko-tu-cho estava saudoso por tornar a ver o seu jovem e valente irmão!

— E a mim — atalhou Sam — o cacique dos “serpentes” não conhece mais? Sou o seu amigo Sans-ear!

— Oh! Se não conhece! Ko-tu-cho nunca se esquece dos seus bons irmãos e amigos! Sejam bem-vindos na taba dos nossos guerreiros!

Nisso ouço ali perto um brado lancinante. Virei-me e vi Bernhard ajoelhado diante de uma figura de homem tombada ao solo. Corri para junto dele. Aquele ao lado de quem se achava o nosso companheiro, estava morto, com o peito varado por uma bala. Era um branco e tão parecido com Bernhard, como um irmão se pode parecer com outro. Compreendi tudo! Eu mal resistia ao quadro chocante!

Os demais também se aproximaram. Ninguém conseguiu pronunciar uma só palavra, pois, todos esforçavam-se para sufocar o pranto prestes a rebentar. Bernhard também não dizia uma só palavra. Beijava os cabelos, as faces, os lábios do morto. Enlaçou, depois, o irmão pela cintura e caiu em convulsões. Cerca de uma hora depois, ergueu-se e, esforçando-se por aparentar serenidade, inquiriu:

— Quem o matou?

O cacique dos shoshones respondeu:

— Ko-tu-cho enviara os seus guerreiros ao campo para fazerem exercícios; nisso os guerreiros avistaram três peles-brancas e atrás deles mais catorze em atitude de quem os vinha perseguindo. Quando catorze homens perseguem três apenas é porque os primeiros não são valentes e nobres. Em vista disso, os meus guerreiros galoparam a socorrer os três cavaleiros que vinham na frente. Mas não puderam impedir que os perseguidores fizessem uma carga contra os três peles-brancas e este que aí está foi atingido. Depois os guerreiros prenderam onze dos assassinos e três conseguiram escapar. Este pele-branca, porém, morreu, e nada, pois, pudemos fazer para salvar-lhe a vida. Os outros dois que o acompanhavam estão descansando no leito do cacique.

— Preciso vê-los. Este morto é meu irmão, filho de meu pai — acrescentou, lembrando-se do significado diferente que para os indígenas tem a palavra irmão.

— O meu irmão pele-branca chegou na companhia de Winnetou e Sans-ear, irmãos e amigos dos shoshones, e por isso Ko-tu-cho o atenderá no que pede. Queira acompanhar-me!

Fomos conduzidos a uma grande cabana onde os prisioneiros se achavam amarrados e estirados ao solo. Entre eles estava o mulato, com a cicatriz na face direita. Os dois Morgans não se achavam entre os prisioneiros.

— Que pretendem os meus irmãos peles-vermelhas fazer desses bandoleiros brancos? — perguntei.

— O meu irmão os conhece também?

— Sim! São assassinos que têm a morte de muita gente na consciência!

— Então os meus irmãos de pele-branca queiram julgá-los! Troquei com os demais um olhar de entendimento e respondi:

— Eles mereceram a morte, mas falta-nos o tempo para submetê-los a júri. Confiamos essa tarefa aos nossos irmãos peles-vermelhas.

— Meu irmão faz muito bem!

— Mas onde estão os dois brancos que estavam na companhia do morto?

— Iremos até lá. Queiram os meus irmãos seguir-me!

Fomos levados a uma segunda tenda onde dois homens dormiam; estavam vestidos de tropeiros. Foram despertados, mas as informações que nos prestaram de nada nos adiantaram. Via-se que eram simples serviçais de Allan e que não se achavam em condições de nos fornecer nenhum dado elucidativo sobre todo o desenrolar dos acontecimentos. Voltamos para perto do morto.

Bernhard, nesses últimos meses, havia passado por uma escola áspera; tornara-se tanto física como sentimentalmente mais duro. No entretanto, suas mãos tremiam quando ele se aproximou do morto, para examiná-lo. Retirou dos bolsos tudo o que o irmão trazia consigo. Contemplava minuciosamente todos os objetos que já conhecia e, quando enrolou tudo num lenço e juntou também as duas cartas, beijou-as e sentiu-se atacado de uma crise nervosa. Eu, que me achava ao seu lado, também não pude conter as lágrimas que me rolavam pela face.

Assistiam a cena comovente os shoshones, cujo cacique fazia uma fisionomia de menosprezo quando nos contemplava. Winnetou não suportou aquela atitude e, apontando para nós, esclareceu:

— Não pense o cacique dos shoshones que estes homens são uns fracos, uns covardes. O irmão deste morto combateu com bravura contra os “bandoleiros do deserto” e contra os comanchos. E quanto a esse outro, o meu irmão já o deve conhecer pelo nome: é o célebre “Mão de Ferro”.

Um leve murmúrio correu pela fileira dos shoshones e o seu cacique se aproximou de nós estendendo-nos a mão.

— O dia de hoje será festejado em toda a aldeia dos shoshones. Os meus irmãos serão hospedados em nossas cabanas; alimentar-se-ão de nossas provisões e fumarão comigo o calumet; depois irão assistir aos exercícios dos nossos guerreiros.

— Nós nos consideraremos hóspedes dos irmãos peles-vermelhas, mas não hoje; voltaremos ainda aqui. Agora, porém, confiamos aos nossos irmãos shoshones a guarda do corpo e dos haveres aqui deixados pelo morto, pois partimos imediatamente à procura dos assassinos fugitivos — declarei.

— Sim, deixo aqui o corpo de Allan e não esperarei mais um só segundo! Precisamos capturar os covardes assassinos! Quem me acompanha na perseguição?

— Todos nós, naturalmente! — respondemos em coro. Winnetou e Sam montaram a cavalo. Ko-tu-cho deu uma ordem à meia voz aos seus guerreiros e daí a pouco um deles trouxe-lhe um fogoso corcel arreiado.

— Ko-tu-cho acompanhará os seus irmãos. Os haveres do morto serão guardados na cabana do cacique e as mulheres e filhas de nossas tribos entoarão os cânticos de lamentações junto ao cadáver do pobre moço!

 

CAPTURA DE UM DOS BANDIDOS

Fora realmente uma visita curta e comovente esta que fizemos aos valentes e nobres shoshones. Partimos ao encalço dos bandidos.

As suas pegadas eram bem visíveis. Levavam uma vantagem de mais de duas horas sobre nós.

Os animais, porém, pareciam conhecer o nosso propósito. Corriam com tanta velocidade que produziriam faísca se o solo fosse de pedra. Apenas a montaria de Bob mostrava-se um tanto esfalfada, mas o negro tocava-a com tamanha violência que o animal era forçado a galopar parelho com os nossos.

A metade da tarde já se passara e precisávamos alcançar os fugitivos antes da noite. Assim decorreram-se três horas. Apeei para examinar melhor as pegadas. Os facínoras podiam estar, quando muito, a uma milha de nós.

Tomava de vez em quando o binóculo para olhar o horizonte no rumo das pegadas. Finalmente divisei três pontos que pareciam movimentar-se lentamente para a frente.

— Lá estão eles!

— Para frente então — exclamava Bernhard fora de si, tocando ainda mais o cavalo.

— Parem! Assim não podemos capturá-los; precisamos cercá-los de ambos os lados. O meu animal e o do cacique dos shoshones estão em melhores condições. Eu irei pela direita e Ko-tu-cho pela esquerda, e dentro de vinte minutos os patifes estarão em nossas mãos. Nem perceberão a nossa chegada.

— Uff! — exclamou o cacique dos shoshones, e, como se fosse de mola, tomou logo à esquerda, executando minha ordem. Segui pela direita e em dez minutos havia perdido de vista os meus companheiros, embora eles também cavalgassem com velocidade. Eu já devia me achar paralelamente aos perseguidos. Quinze minutos depois, atalhei pela esquerda e, com o auxílio das lentes, vi os três assassinos por trás de mim e, mais adiante, o cacique dos shoshones atalhando pela esquerda. Ele galopou na direção dos malfeitores e eu fiz o mesmo.

Não tardaram a nos avistar. Olhando para frente, depararam comigo, e para trás viram-se seguidos pelo cacique.

Continuávamos, o cacique de um lado e eu do outro, a cavalgar pelos flancos de encontro aos bandidos que já estavam bem perto. Nisso, um deles, em quem reconheci Fred Morgan, assestou a espingarda e desfechou um tiro contra Ko-tu-cho; no mesmo momento, o cacique e mais o cavalo tombaram no chão. Julguei que o tiro houvesse morto um dos dois, mas me enganara, pois, um segundo depois, o cavaleiro galopava com mais garbo ainda e sacava da machadinha de guerra, a terrível arma em que os indígenas são tão treinados. Portanto, fora um dos estratagemas nos quais os índios são tão exercitados. Numa circunstância dessas, uma leve pressão das coxas sob o lombo do animal basta para este se atirar ao solo levantando-se em seguida. Nesse meio tempo a bala sibilou por sobre a cabeça de ambos.

Quando me aproximei, Ko-tu-cho já havia derrubado um e investia contra o outro, ao passo que eu avancei como um leão contra Fred Morgan. Queria apanhá-lo com vida e não prestei atenção ao fato de estar ele armado de espingarda de dois canos, um dos quais ainda estava carregado. Ele assestou a arma contra mim; mas como o seu cavalo corcoveasse, o tiro veio de raspão, furando-me apenas a manga do jaquetão de couro.

— Hurrah! Aqui está “Mão de Ferro”! — bradei.

Atirei o laço, o meu animal retrocedeu a galope; senti um arrancão e, olhando para trás, vi que a laçada pegara o bandido pelo tronco imobilizando-lhe ambos os braços. Ao mesmo tempo vi Sam atingir o local com os dois companheiros. O terceiro salteador descarregou a espingarda contra Bernhard, mas não foi bem sucedido: caiu atingido pelo tiro de Sans-ear e pela machadinha do cacique.

Apeei. Finalmente, havíamos apanhado Fred Morgan! Este perdera os sentidos em virtude da queda do cavalo, quando a laçada o segurou. Tirei-lhe o meu laço e o amarrei com o seu. Nisso, os dois companheiros se aproximaram do assassino. Bob foi o primeiro a apear. Puxou da faca e disse:

— Oh! Bob vai mata ben devagarinho salteadô infame qui mato meu patrão e mestre Allano!

— Pare! — exclamou Sam segurando-lhe a mão. — Este homem me pertence.

— Os outros estão mortos? — perguntei.

— Todos dois — respondeu Bernhard, com o sangue a escorrer de sua coxa direita.

— Está ferido!

— Apenas de raspão.

— Mesmo assim é grave; temos ainda uma longa cavalgada a fazer, pois precisamos seguir os que conduziram os cargueiros. Que faremos de Morgan?

— Isto é comigo! — disse Sam. — Pertence-me e a mim compete justiçá-lo. Vou entregá-lo a Bernhard e Bob, para conduzi-lo à aldeia dos shoshones até a nossa volta. Bernhard está ferido, precisa velar o corpo do seu irmão; Bob ficará com ele. Creio que nós os quatro somos mais do que suficientes para liquidar com a outra parte dos patifes.

— O plano é bom, para frente, pois!

Morgan foi cuidadosamente amarrado ao seu cavalo e conduzido à taba por Bernhard e Bob. Nós esperamos ainda um pouco para que os animais descansassem e pastassem.

— Não devemos demorar muito — ponderei. — Precisamos aproveitar o resto do dia enquanto ainda enxergamos as pegadas para ganharmos terreno.

— Para onde pretendem os meus irmãos peles-brancas seguir?

— Para o rio Sacramento, entre os montes S. João e S. José.

— Então, estejam descansados. O cacique dos shoshones conhece palmo a palmo o caminho que conduz para lá. Não temos, pois, necessidade de seguir pegadas e assim cavalgaremos à noite. Deixe os animais pastar sossegadamente.

— Não devíamos ter mandado aquele Morgan para a taba antes de submetê-lo a um interrogatório — disse Sam.

— Isso faremos mais tarde — respondi — aliás, poderemos muito bem prescindir desta formalidade. Será executado sem interrogatório e outras delongas. A sua culpa está mais do que dez vezes comprovada.

— Mas, ao menos podíamos saber dele onde estão os outros com os cargueiros!

— Psiu! Julgas por acaso que ele nos teria dito alguma cousa?

— Talvez sim.

— Não. Nada o faria confessar o local onde se acham o filho e os haveres roubados; ele sabe muito bem que com isso não melhoraria a sua sorte.

— Meu irmão Carlos tem razão! — confirmou Winnetou. — Além disso, os olhos dos peles-brancas e dos dois peles-vermelhas são bastante aguçados para descobrir o paradeiro dos ladrões e assassinos.

— A quem procuram os meus irmãos? — perguntou o cacique dos shoshones, fazendo uma exceção aos seus hábitos indígenas de nunca se mostrarem curiosos diante de estranhos. Na ocasião ele se achava no meio de homens em quem confiava e por isso talvez resolvera abandonar a sua proverbial reserva.

— O resto do bando de salteadores chefiados pelo prisioneiro.

— Quantos ainda faltam?

— Seis.

— A estes os meus irmãos matarão, um a um. Nós os encontraremos e os conduziremos para