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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Zoya / Danielle Stel
Zoya / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Zoya

 

          

 

       Zoya fechou novamente os olhos, enquanto a tróica voava sobre o solo gelado. A leve bruma da neve depositava-lhe pequenos beijos molhados na face e rendilhava-lhe as pestanas, ao mesmo tempo que o som dos guizos dos cavalos soava como música aos seus ouvidos.

       Eram os sons que amava desde a infância. Aos dezessete anos considerava-se crescida, era na verdade quase uma mulher e, contudo, ainda se sentia uma criança enquanto Feodor fazia avançar os cavalos pretos e luzidios com o estalido do chicote... mais depressa... mais depressa... através da neve.

       Quando voltou a abrir os olhos, avistou a aldeia mesmo à saída de Tsarskoie Selo. Sorriu intimamente e semicerrou os olhos para divisar os palácios geminados para lá dela, descalçando em seguida uma grossa luva forrada de pele, a fim de verificar quanto tempo demorara a viagem. Prometera à mãe que chegaria a casa a horas do jantar... e assim seria... se não ficassem muito tempo à conversa... Mas como poderia isso ser? Marie era a sua melhor amiga, quase uma irmã.

       O velho Feodor virou-se para trás e sorriu-lhe ao ouvi-la rir de excitação. Tinha sido um dia perfeito. Adorava as aulas de ballet e, até mesmo agora, conservava as sapatilhas enfiadas no assento, ao seu lado.

       Dançar era um prazer especial, sempre havia sido a sua paixão desde muito novinha e, por vezes, sussurrava em segredo a Marie que o maior desejo da sua vida era fugir para o Marinski para viver lá e praticar dia e noite com os outros bailarinos. Só a idéia provocava-lhe agora um sorriso. Era um sonho que não podia expressar em voz alta; as pessoas da sua classe não se tornavam bailarinas profissionais.

       Tinha, contudo, o talento, sabia-o desde os cinco anos, e as lições com Madame Nastova proporcionavam-lhe, pelo menos, o prazer de estudar o que mais gostava. Trabalhava arduamente ao longo das horas que lá passava, imaginando sem cessar que, um dia, Fokine, o grande mestre da dança, a descobriria. O pensamento desviou-se, todavia, rapidamente do ballet para a sua amiga de infância, enquanto a tróica atravessava a aldeia, a toda a velocidade, rumo a casa da sua prima Marie.

       O pai de Zoya, Konstantin, e o czar eram primos afastados e, tal como a de Marie, também a sua própria mãe era alemã.

       Possuíam tudo em comum, as paixões, os segredos, o mundo. Haviam partilhado os mesmos terrores e alegrias quando eram crianças e agora tinha de vê-Ia, embora tivesse prometido à mãe que não o faria. Que coisa estúpida! Por que razão não havia de vê-la? Não visitaria os que estavam doentes nos quartos e Marie estava ótima. No dia anterior mandara um bilhete a Zoya, comunicando-lhe o quanto estava desesperadamente aborrecida com os outros doentes, à volta dela. E, afinal, não era nada de grave. Apenas sarampo.

       Os camponeses apressavam-se a sair da estrada quando a tróica passava a toda a velocidade e Feodor incitava os três cavalos pretos que os transportavam. Trabalhara desde miúdo para o avô dela e já o pai, antes dele, trabalhara para a família. Só por Zoya teria arriscado enfrentar a ira do pai e o silencioso e elegante desagrado da mãe, mas Zoya prometera-lhe que ninguém viria a saber e já a levara lá inúmeras vezes. Zoya visitava as primas quase diariamente - que mal poderia haver em fazê-lo? - embora o pequeno e frágil filho do czar e as irmãs mais velhas tivessem sarampo.

       Alexis era apenas um miúdo e não um rapaz saudável, como todos sabiam. Mademoiselle Zoya era jovem, saudável, forte, e muito, muito bonita. Fora a criança mais bonita que Feodor alguma vez tinha visto, e Ludmilla, a sua mulher, tomara conta dela em bebê. A mulher morrera no ano anterior de febre tifóide, uma terrível perda para ele, sobretudo porque não tinham filhos. A sua única família era aquela para quem trabalhava.

       A Guarda Cossaca deteve-os junto ao portão e Feodor puxou bruscamente as rédeas dos cavalos arquejantes. A neve caía agora com mais força e dois guardas a cavalo aproximaram-se, com grandes gorros de pele e uniformes verdes, de expressão ameaçadora até verem de quem se tratava.

       Zoya era uma figura familiar em Tsarskoie Selo. Apressaram-se a saudar delicadamente, Feodor incitou de novo os cavalos e passaram a toda a velocidade junto à Capela Fedorovski, rumo ao Palácio Alexandre. Das muitas moradas imperiais, era esta a favorita da imperatriz. Raramente utilizavam o Palácio de Inverno em Sampetersburgo, exceto para bailes e eventos oficiais. Todos os anos, em Maio, se mudavam para a villa na propriedade de Peterhof e, depois de Verões passados no seu iate, o Estrela

       Polar, e em Spala, na Polônia, iam sempre para o Palácio Livadia, em Setembro.

       Zoya estava freqüentemente com eles, até regressar às aulas no Instituto Smolny. Contudo, o Palácio Alexandre era igualmente o seu favorito. Tinha uma paixão pelo famoso toucador cor de malva da imperatriz e pedira que o seu quarto, em casa, tivesse os mesmos esbatidos tons de opala do que o da tia Alix. A mãe sentia-se divertida que assim fosse e, no ano anterior, decidira fazer-lhe a vontade. Marie troçava dela sempre que a visitava, afirmando que o quarto lhe recordava demasiado o da mãe.

       Feodor desceu do assento e dois jovens pegaram nas rédeas dos cavalos nervosos, ao mesmo tempo que a neve lhe roçava a cabeça e ele estendia uma mão a Zoya. Os flocos agarravam-se ao pesado casaco de peles da jovem que tinha as faces vermelhas do frio e da viagem de duas horas de Sampetersburgo.

       «Teria apenas o tempo suficiente para tomar chá com a amiga», pensou de si para si e desapareceu na imponente entrada do Palácio Alexandre, enquanto Feodor se apressava a ir tratar dos cavalos.

       Possuía amigos nos estábulos e gostava de trazer-lhes notícias da cidade, passando algum tempo com eles à espera da sua jovem ama.

       Duas criadas pegaram-lhe no casaco, enquanto Zoya tirava vagarosamente o gorro de marta da cabeça, libertando uma farta e revolta cabeleira que levava muitas vezes as pessoas a parar e a olharem quando ela a usava solta, o que fazia freqüentemente no Livadia, no Verão.

       Alexis, o jovem filho do czar, gostava de gracejar com ela por causa do brilhante cabelo ruivo e acariciava-o com suavidade entre as mãos delicadas, sempre que ela o abraçava. Para Alexis, Zoya era praticamente como se fosse uma das suas irmãs. Nascida duas semanas antes de Marie, era da mesma idade, tinham temperamentos iguais e ambas o mimavam a toda a hora, tal como o resto das irmãs. Elas, a mãe e a família mais chegada tratavam-no por Baby. Mesmo agora, que tinha doze anos, ainda o viam assim e Zoya perguntou por ele com uma expressão séria. Uma das duas criadas abanou a cabeça.

       - Pobrezinho! - comentou. - Está coberto de manchas e com uma tosse horrível. Monsieur Gilliard tem passado o dia junto dele. Sua Alteza tem estado ocupada com as meninas.

       Alexis pegara o sarampo a Olga, Tatiana e Anastasia e tratava-se de uma verdadeira epidemia, motivo por que a mãe de Zoya quisera que ela se mantivesse afastada. Contudo, Marie não apresentara até ao momento quaisquer sintomas da doença e no bilhete que escrevera a Zoya no dia anterior suplicava-lhe que aparecesse... Vem ver-me, minha querida Zoya, se a tua mãe te deixar..

       Os olhos verdes de Zoya brilhavam. Abanou a farta cabeleira e alisou o grosso vestido de lã. Tinha despido o uniforme escolar depois da aula de ballet e percorreu a passo rápido o imenso corredor até à porta familiar que a levaria ao quarto espartano de Marie e Anastasia. A caminho, passou silenciosamente junto ao quarto onde o príncipe Meshcherski, o ajudante-de-campo do czar, estava sempre sentado a trabalhar. Contudo, ele nem se apercebeu quando, calçada com as pesadas botas, ela subiu as escadas sem fazer barulho, bateu à porta do quarto e ouviu a voz familiar:

       - Sim?

       Rodou a maçaneta com a mão esguia e graciosa e uma madeixa de cabelo ruivo pareceu antecedê-la quando enfiou a cabeça e avistou a prima e amiga, tranqüilamente de pé junto à janela. Os grandes olhos azuis de Marie brilharam de imediato e correu ao encontro dela, ao mesmo tempo que Zoya se lançava como uma flecha nos seus braços para a beijar.

       - Vim salvar-te, Mashka, minha querida!

       - Graças a Deus! Julguei que ia morrer de tédio. Todos aqui estão doentes. Até a pobre Anna ficou ontem de cama com sarampo. Está no quarto ao lado dos aposentos da minha mãe, que insiste em tratar de todos. Passou o dia a levar-lhes sopa e, quando estão a dormir, vai à ala ao lado cuidar dos homens. Até parece que há dois hospitais em vez de um... - comentou, fingindo puxar os cabelos castanhos e provocando o riso em Zoya. O Palácio Catarina, ao lado da casa, fora transformado em hospital no início da guerra e a imperatriz trabalhava ali incansavelmente, com o uniforme da Cruz Vermelha, esperando que as filhas lhe seguissem o exemplo; porém, de todas, Marie era a que menos gostava de tais obrigações.

       - Mal consegui agüentar! - desabafou. - Receava que não viesses. E a mãezinha ficaria tão zangada, se soubesse que te pedi.

       As duas jovens atravessaram o quarto de braço dado e sentaram-se junto à lareira. A divisão que partilhava com Anastasia era simples e austera. À semelhança das outras irmãs, Marie e Anastasia dispunham de camas simples de ferro, lençóis brancos engomados, uma pequena secretária e sobre a cornija da lareira havia uma fila de ovos da Páscoa de delicado fabrico.

       Marie guardava-os de ano para ano, feitos por amigos e oferecidos pelas irmãs. Eram de malaquite e madeira e alguns belamente talhados ou incrustados de pedras. Prodigalizava-lhes os mesmos cuidados que aos seus pequenos tesouros.

       Os aposentos das crianças nada exibiam da opulência ou luxo dos quartos dos pais ou do resto do palácio. E, atirado para cima de uma das duas cadeiras do quarto, havia um bonito xale bordado que Anna Virubova, uma grande amiga da mãe, lhe fizera. Tratava-se da mesma mulher a que Marie se referira quando Zoya entrara. E agora a sua amizade havia sido compensada por um caso de sarampo.

       A idéia fez com que as duas jovens exibissem um sorriso de superioridade por terem escapado à doença.

       - Mas sentes-te bem? - indagou Zoya com um olhar afetuoso e parecendo ainda mais frágil dentro do pesado vestido de lã cinzenta que pusera para se sentir mais quente na viagem de Sampetersburgo.

       Zoya era mais baixa do que Marie e ainda mais delicada, embora Marie fosse considerada a beleza da família. Herdara os fantásticos olhos azuis do pai e o seu encanto. E gostava muito mais de jóias e roupas bonitas do que as irmãs. Era uma paixão que partilhava com Zoya. Passavam horas a falar dos belos vestidos que tinham visto e a experimentar os chapéus e as jóias da mãe de Zoya, sempre que Marie aparecia de visita.

       - Estou ótima... Só que a mamã não me deixa ir à cidade com a tia Olga no domingo. - Era um ritual que adorava. Todos os domingos, a sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna levava-os a todos à cidade a almoçarem com a avó no Palácio Anitchkov e a visitar uma ou duas amigas, mas, com a doença das irmãs, tudo estava a ser cortado. O rosto de Zoya ensombrou-se ante as notícias.

       - Já o receava. E gostava tanto de mostrar-te o meu vestido novo. A avó comprou-mo em Paris. - A avó de Zoya, Eugenia Peterovna Ossupov, era uma mulher extraordinária. Pequena e elegante, possuía uns olhos que ainda emitiam um brilho de esmeralda aos oitenta e um anos. E todos insistiam que Zoya era muito parecida com ela. A mãe de Zoya era alta, esguia e lânguida, uma beleza loura de olhos azuis, do gênero que apetece proteger do mundo, e o pai sempre o fizera. Tratava-a como a uma criança delicada, muito diferente da exuberante filha. - A avó comprou-me um belíssimo vestido de cetim rosa enfeitado de perolazinhas.

       Gostava tanto que o visses! - insistiu. As duas jovens, idênticas a duas crianças, falavam de vestidos como se falassem dos seus ursos de pelúcia e Marie bateu palmas de satisfação.

       - Mal posso esperar! - exclamou. - Na próxima semana, todos estarão bem. Então, iremos, prometo. E nessa altura, vou fazer-te um quadro para aquele teu horrível quarto cor de malva.

       - Não te atrevas a dizer mal do meu quarto! É quase tão elegante como o da tua mãe!

       As duas jovens riram e Joy, a cocker spaniel das crianças, entrou aos saltos no quarto e roçou, satisfeita, os pés de Zoya, que aquecia as mãos à lareira, enquanto contava tudo a Marie sobre as outras raparigas do Smolny. Marie adorava ouvir-lhe as histórias, dado estar enclausurada no meio do irmão e das irmãs, com Pierre Gilliard como tutor e Mr. Gibbes a ensinar-lhes inglês.

       - Pelo menos, agora não temos aulas. Monsieur Gilliard tem andado muito ocupado com o Baby. E há uma semana que não o vejo. O paizinho diz que ele tem pavor de apanhar sarampo.

       As duas jovens riram novamente e Marie pôs-se a apanhar o cabelo ruivo de Zoya numa trança. Era um passatempo a que se dedicavam desde muito miúdas, o de entrançar mutuamente o cabelo enquanto conversavam sobre Sampetersburgo e as pessoas que conheciam, embora tudo estivesse muito mais calmo desde o começo da guerra.

       Os próprios pais de Zoya não davam tantas festas como dantes, com muita pena dela. Adorava falar com os homens de fardas reluzentes e observar as mulheres de vestidos elegantes e belas jóias. Dava-lhe novidades para contar a Marie e irmãs sobre os namoricas que observara, quem estava bonita e quem não estava e quem ostentava o mais espetacular colar de diamantes.

       Tratava-se de um mundo que não existia em nenhuma outra parte, o mundo da Rússia imperial. Zoya sempre vivera feliz nesse meio, uma condessa como a mãe e a avó antes dela, parente distante do czar por parte do pai, ela e a família sempre usufruindo de uma posição de privilégio e luxo, relacionadas com muitos nobres. Até a sua casa constituía uma versão mais pequena do Palácio Anitchkov, e as companheiras de folguedos eram as pessoas que faziam História, só que aos seus olhos tudo parecia vulgar e normal.

       - A Joy parece tão feliz - comentou, observando a cadela que brincava aos seus pés. - Que tal os cachorrinhos?

       - São um amor - retorquiu Marie esboçando um sorriso secreto e encolhendo os ombros bem torneados. - Oh, espera... - Deixou cair a longa trança que fizera do cabelo de Zoya e precipitou-se para a secretária, a fim de ir buscar algo de que quase se esquecera. Zoya supôs de imediato que se tratava da carta de um dos seus amigos, de uma fotografia de Alexis ou das irmãs. Marie dava sempre a sensação de ter tesouros a partilhar quando se encontravam, mas desta vez pegou num fresquinho e estendeu-o orgulhosamente à amiga.

       - O que é isso?

       - Uma coisa maravilhosa... toda para ti! - Depositou um beijo suave na face de Zoya que inclinou a cabeça sobre o fresquinho.

       - Oh, Mashka! É mesmo?... É! - Confirmou, aspirando. Era Lilas, o perfume favorito de Marie, que Zoya cobiçava há meses. Onde o arranjaste?

       - A Lili trouxe-mo de Paris. Pensei que te agradaria. Ainda tenho bastante do que a mamã me deu.

       Zoya fechou os olhos e respirou fundo, com uma expressão feliz e inocente. Os prazeres das duas jovens eram tão inofensivos e simples: os cachorrinhos, o perfume... e, no Verão, longos passeios pelos campos perfumados de Livadia... ou brincadeiras no iate real, enquanto deslizavam através dos fiordes.

       Era uma vida tão perfeita, até mesmo distante das realidades da guerra, embora por vezes falassem do assunto. Marie ficava sempre perturbada depois de passar um dia com os homens a que davam assistência no palácio ao lado da casa. Parecia-lhe tão cruel que fossem feridos e ficassem estropiados... que morressem... mas não mais do que a permanente e ameaçadora doença do irmão. A hemofilia de que ele sofria era freqüentemente o tópico das conversas mais secretas e sérias de ambas. Quase ninguém, excetuando a família, conhecia a verdadeira natureza da doença.

       - Ele está bem, não está? Quero dizer... o sarampo não... Os olhos de Zoya denotavam uma enorme preocupação quando pousou o precioso frasco de perfume e voltaram a falar de Alexis. A expressão de Marie era, contudo, tranqüilizadora.

       - Não me parece que o sarampo o prejudique. A mãezinha garante que a Olga está muito mais doente do que ele. - Olga era quatro anos mais velha do que elas e muito mais séria. Era também penosamente tímida, ao invés de Zoya, Marie ou das suas outras duas irmãs.

       - Hoje, tive uma aula de ballet maravilhosa - suspirou Zoya, no preciso momento em que Marie tocava a campainha para que lhe trouxessem chá. - Quem me dera poder fazer algo de extraordinário com isto.

       Marie riu. Não era a primeira vez que escutava os sonhos da sua querida amiga.

       - Como o quê? Ser descoberta pelo Diaghilev?

       As duas jovens soltaram uma gargalhada, mas os olhos de Zoya emitiam um intenso brilho, quando falou. Tudo nela era intenso, os olhos, o cabelo, a forma como mexia as mãos ou corria pelo quarto, ou rodeava a amiga com os braços. Era pequena, mas transbordante de força, vida e entusiasmo. O próprio nome significava vida e parecia a escolha perfeita para a rapariga que fora e a mulher em que se transformava aos poucos.

       - Falo a sério... e Madame Nastova garante que sou muito boa.

       - Marie riu novamente e os olhos das jovens encontraram-se, ambas com o mesmo pensamento... centrado em Mathilde Kschessinska, a bailarina que tinha sido amante do czar, antes de ele casar com Alexandra... um assunto totalmente proibido e apenas mencionado em noites escuras de Verão e sempre às escondidas dos adultos.

       Um dia, Zoya mencionara algo a esse respeito à mãe, e a condessa ficara furiosa, proibindo-a de o abordar novamente. Era, sem dúvida, um tema nada adequado para jovens. Contudo, a avó mostrara-se menos austera quando ela voltara a focá-lo e confessou num tom divertido que a mulher era uma talentosa bailarina.

       - Continuas a sonhar fugir para o Marinski? - Há anos que não falava no assunto, mas Marie conhecia-a bem, o bastante para saber quando estava a brincar ou não, e até que ponto falava a sério em relação aos seus sonhos privados.

       Sabia também que para Zoya era um sonho impossível. Um dia, a amiga casaria e teria filhos, seria tão elegante como a mãe, e não viveria na famosa escola de ballet. Era, contudo, divertido, falar de coisas assim, e sonhar numa tarde de Fevereiro, bebendo o chá em pequenos goles e observando Joy a cabriolar pelo quarto.

       A vida parecia bastante cômoda na altura, mau grado a presente epidemia imperial de sarampo. Com Zoya, Marie podia esquecer por um tempo os seus problemas, as suas responsabilidades. Desejava poder vir a ser tão livre quanto Zoya.

       Sabia perfeitamente que, algum dia, os pais escolheriam o homem com quem viria a casar. Todavia, tinham de pensar primeiro nas suas duas irmãs mais velhas... De olhos fixos no fogo, interrogou-se sobre se, na realidade, o amaria.

       - Em que estavas a pensar? - inquiriu Zoya num tom suave, enquanto o fogo crepitava e a neve caía lá fora. Já estava escuro e Zoya esquecera a sua pressa de regressar a casa. - Mashka?...

       Tinhas um ar tão sério. - Acontecia freqüentemente quando não estava a rir. Os olhos eram tão intensos, azuis e tão quentes e bondosos, contrariamente à mãe.

       - Não sei... Idiotices, suponho... - Esboçou um sorriso afetuoso à amiga. Ambas tinham quase dezoito anos e o casamento começava a aflorar-lhes à mente... talvez depois da guerra... Interrogava-me sobre com quem casaremos um dia. - Era sempre honesta com Zoya.

       - Também penso nisso de vez em quando. A avó diz que é quase altura de pensar no assunto. Acha que o príncipe Orlov seria um homem bom para mim... - E depois soltou uma súbita risada, abanou a cabeça e o cabelo soltou-se da trança que Mashka lhe fizera. Já alguma vez viste alguém e pensaste que deveria ser ele?

       - Não muito. A Olga e a Tatiana devem casar primeiro. E a Tatiana é tão séria. Nem sequer a imagino desejando casar-se. De todas, era ela a mais chegada à mãe e Marie imaginava-a facilmente a querer ficar eternamente no seio da família. - Mas seria engraçado ter filhos.

       - Quantos? - espicaçou-a Zoya.

       - Cinco, pelo menos. - Era o tamanho da sua própria família e sempre lhe parecera perfeita.

       - Eu quero seis - retorquiu Zoya, com uma certeza absoluta. Três rapazes e três raparigas.

       - Todos de cabelo ruivo! - Marie riu, troçando da amiga e debruçando-se sobre a mesa para lhe acariciar suavemente a face. És de fato a minha maior amiga. - Os olhos cruzaram-se e Zoya pegou-lhe na mão, beijando-a com um arrebatamento de criança.

       - Sempre desejei que fosses minha irmã. - Tinha, em vez disso, um irmão mais velho que a atormentava sem piedade, sobretudo por causa do cabelo ruivo. O dele era escuro como o do pai, embora também tivesse os olhos verdes. E possuía a tranqüila força e dignidade do pai. Era um jovem de vinte e três anos, cinco anos e meio mais velho do que a irmã.

       - Que tal está o Nicolai?

       - Um horror como sempre. Contudo, a mamã parece extremamente satisfeita por ele estar com a Guarda Preobrajenski aqui, e não algures, na frente. A avó diz que ele ficou para não perder nenhuma festa.

       Ambas riram e o momento sério passou. A porta abriu-se sem ruído para dar passagem a uma mulher alta que entrou no quarto e as observou um instante, antes que dessem pela sua presença. Um enorme gato cinzento seguira-a e também se mantinha a observar ao seu lado. Era a imperatriz Alexandra, vinda do quarto das doentes, onde estivera a tratar das outras três filhas.

       - Boa tarde, meninas. - Sorriu quando Zoya se virou, e as duas jovens puseram-se de pé. Zoya apressou-se a ir beijá-la. A czarina tivera sarampo há muitos anos e sabia que não havia risco de contágio.

       - Tia! Como estão todas?

       - Bom, não estão lá muito bem - suspirou com um sorriso fatigado, abraçando Zoya afetuosamente. - A pobre Anna parece ser a que está pior. - Referia-se à sua querida amiga Anna Virubova que, juntamente com Lili Dehn, era a sua companheira mais chegada.

       - E tu, miúda? Estás bem?

       - Estou, muito obrigada. - Corou, como freqüentemente lhe acontecia. Era o que mais odiava na sua compleição de ruiva, isso e queimar-se sempre sob o sol no iate real, ou quando iam a Livadia.

       - Surpreende-me que a tua mãe te deixasse visitar-nos, hoje.

       - Sabia o enorme medo que a condessa tinha do contágio. No entanto, as faces ruborizadas de Zoya indicaram-lhe o que a rapariguinha fizera mesmo sem o admitir e a czarina riu e acenou-lhe com um dedo. - É isso, portanto, o que fizeste? E o que vais dizer-lhe? Onde estiveste hoje?

       Zoya soltou uma risada culpada e depois admitiu diante da mãe de Marie o que planeara dizer aos seus.

       - Passei horas e horas na aula de ballet, a trabalhar imenso com Madame Nastova.

       - Percebo. É chocante que jovens da vossa idade inventem tais mentiras, mas devia ter sabido que não conseguiríamos manter-vos afastadas. - Virou-se depois para a filha. - Já deste o presente à Zoya, meu amor? - A imperatriz sorriu-lhes. Era habitualmente uma mulher reservada, mas o cansaço parecia torná-la mais vulnerável e calorosa.

       - Já! - informou logo Zoya, deliciada e com um gesto na direção do frasco de Lilas pousado em cima da mesa. - É o meu favorito! - Os olhos da czarina fitaram interrogativamente Marie e a filha soltou uma risada e saiu a correr do quarto, deixando a amiga a conversar com a mãe. - O tio Nicolau está bem?

       - Está, embora mal o veja. O pobre homem regressou a casa vindo da frente de combate para descansar e, em vez disso, vê-se aqui no meio de um cerco de sarampo.

       As duas riam quando Marie voltou com algo embrulhado num pedaço de cobertor. Ouviu-se um estranho pio, quase como se fosse um pássaro e, um momento depois, apareceu um focinho castanho e branco, com compridas orelhas e olhos brilhantes cor de ônix. Era um dos cachorrinhos da sua cadela.

       - Oh, é tão querido! Há semanas que não via nenhum! - Zoya estendeu a mão e o animal emitiu uma série de ganidos e lambeu-lhe os dedos.

       - É uma «ela» e chama-se Sava - indicou Marie num tom orgulhoso e fitando Zoya com um olhar excitado. - A mamã e eu queremos que fiques com ela. - Estendeu-lhe a cadelinha.

       - Para mim? Oh, céus... O que... - Estava prestes a replicar: «O que dirá a minha mãe?», mas não queria que lhe retirassem o presente e calou-se de imediato, só que a imperatriz entendera tudo.

       - Oh, meu Deus... A tua mãe não gosta de cães, pois não, Zoya? Tinha-me esquecido. Ficará muito zangada comigo?

       - Não!... não... de forma alguma - contrapôs num tom feliz, agarrando na cadelinha e apertando-a, enquanto Sava lhe lambia o nariz, a cara e os olhos; tentou esconder a cabeça, antes que a pequena spaniel lhe puxasse o cabelo. - Oh, ela é tão amorosa! É mesmo minha?

       - Fazias-me um grande favor se a levasses, minha querida retorquiu a imperatriz a sorrir, deixando-se cair numa das duas cadeiras com um suspiro. Parecia extremamente cansada e Zoya reparou que não despira o uniforme da Cruz Vermelha. Interrogou-se sobre se o usara para cuidar das crianças doentes e da amiga, ou se também trabalhara no hospital nesse dia. Tomava muito a peito a sua ocupação ali e insistia para que as filhas a imitassem.

       - Apetece-lhe um chá, mamã?

       - Muito. Obrigada, Mashka.

       Marie tocou a campainha para chamar a criada, que apareceu logo, sabendo que a czarina estava com elas e uma xícara de chá quente e acabado de fazer surgiu como por encanto. Marie serviu e as duas companheiras juntaram-se-lhe.

       - Obrigada, querida - agradeceu a czarina, virando-se em seguida para a prima afastada do marido. - A tua avó tem passado bem, Zoya? Há meses que não a vejo. Tenho estado tão ocupada. Já nem consigo ir a Sampetersburgo.

       - Está muito bem, obrigada, tia Alix.

       - E os teus pais?

       - Ótimos. A mamã sempre preocupada com a hipótese de o Nicolai ser mandado para a frente. O papá diz que lhe causa um enorme nervosismo.

       De fato, tudo causava um enorme nervosismo a Natalya Ossupov que era uma mulher muito frágil, e o marido acedia aos seus mínimos caprichos. A czarina dissera muitas vezes a Marie em particular que achava que essa atitude era muito pouco saudável para ele, mas Zoya, pelo menos, nunca adotara aqueles ares lânguidos. Era uma jovem cheia de vida e entusiasmo. Alexandra lembrava-se sempre da mãe de Zoya, reclinada numa cadeira, vestida de seda branca da cabeça aos pés, pálida e loura, enfeitada de pérolas e com um olhar aterrorizado, como se a vida fosse um fardo excessivo. No começo da guerra, pedira-lhe que a ajudasse no seu trabalho com a Cruz Vermelha, e Natalya respondera simplesmente que era incapaz de agüentar. Não era um dos espécimes mais corajosos perante a vida, mas a czarina absteve-se nesse momento de comentários e limitou-se a um aceno de cabeça.

       - Dá-lhe saudades minhas quando chegares a casa. - Ao ouvir estas palavras, Zoya olhou lá para fora e tomou consciência de como se fizera escuro. Pôs-se em pé de um salto e consultou o relógio, horrorizada.

       - Oh! Tenho de ir para casa! A mamã vai ficar furiosa!

       - Não duvides! - exclamou a czarina a rir e acenou-lhe com um dedo, enquanto se levantava e a sua figura pairava sobre a rapariguinha. - Não deves mentir à tua mãe sobre onde estás! E sei que ela ficará extremamente preocupada por te teres exposto ao nosso sarampo. Já o tiveste?

       - Não, não tive - declarou Zoya, a rir -, mas não vou apanhá-lo e se assim for... - Encolheu os ombros com outro ataque de riso e Mashka imitou-a. Era uma das coisas que Marie apreciava nela, a coragem e aquela despreocupação. Tinham-se metido juntas em alguns sarilhos ao longo dos anos, mas nada de perigoso nem verdadeiramente prejudicial.

       - Vou mandar-te para casa. E tenho de regressar até junto das crianças e da pobre Anna... - Beijou-as e saiu do quarto, enquanto Marie ia buscar a cadelinha onde esta se escondera e a embrulhava no cobertor, estendendo-a a Zoya.

       - Não te esqueças da Sava!

       - Posso mesmo ficar com ela? - inquiriu Zoya ao mesmo tempo que os olhares se cruzavam numa onda de afeto.

       - É tua. Foi sempre essa a idéia, mas quis fazer-te uma surpresa. Agasalha-a no casaco, no caminho para casa. Assim, ficará quente. - Sava tinha apenas sete semanas e nascera durante o Natal russo. Zoya ficara excitadíssima quando a vira pela primeira vez no dia de Natal, na altura em que a sua família viera jantar com a do czar. - A tua mãe vai ficar furiosa, não? inquiriu Marie à gargalhada e Zoya acompanhou-a naquela explosão de alegria.

       - Sim, mas digo-lhe que a tua ficaria terrivelmente desiludida, se a mandássemos de volta. A mamã ficará com imenso receio de ofendê-la. - As duas jovens ainda riam quando Marie a acompanhou até à porta no andar inferior e a ajudou a vestir o casaco, enquanto agarrava na cadelinha. Tapou os cabelos ruivos com o gorro e as duas amigas despediram-se. - Toma cuidado contigo e não adoeças!

       - Não faço tenção! - Estendeu-lhe igualmente o frasco de perfume e Zoya agarrou-o com a mão enluvada. A criada indicou-lhe que Feodor estava pronto.

       - Voltarei dentro de um ou dois dias... prometo... e obrigada! - Zoya abraçou-a e dirigiu-se rapidamente à tróica, onde Feodor a esperava. Este tinha as faces e o nariz vermelhos e ela sabia que ele estivera a beber com os amigos nos estábulos, mas não interessava. Precisaria de se manter quente, enquanto regressavam a toda a pressa a Sampetersburgo. Ajudou-a a sentar-se e sentiu-se aliviada ao ver que deixara de nevar. - Temos de apressar-nos, Feodor... a mamã vai ficar zangadíssima comigo, se chegar tarde.

       Sabia, porém, que não havia forma de chegar a tempo para o jantar. Já estariam sentados quando ela aparecesse... e a cadelinha!... Riu em voz alta enquanto o chicote estalava na noite gelada e a tróica avançava, puxada pelos três garbosos cavalos pretos. Um instante depois, atravessaram os portões e os cossacos montados nos cavalos transformaram-se numa mancha, ao mesmo tempo que atravessavam a aldeia de Tsarskoie Selo.

      

       Feodor fustigava os cavalos da tróica rumo a Nevski e Zoya apertava a cadelinha de encontro ao corpo, tentando recompor-se e inventar desculpas que apaziguassem a mãe. Ela sabia que, sendo Feodor a conduzi-la, estariam seguros, mas a mãe ficaria decerto furiosa por chegarem tão tarde e por ela ainda por cima levar a cadelinha.

       Em Fontanka, viraram subitamente à esquerda e os cavalos apressaram o passo, sabendo muito bem que estavam quase em casa e ansiosos por voltarem ao seu estábulo. Conhecendo bem o terreno, Feodor deu-lhes rédea solta e momentos depois estendia-lhe a mão para que descesse. Tomada de uma súbita inspiração, retirou a cadelinha do casaco e estendeu-lha com um olhar suplicante.

       - Por favor, Feodor... a imperatriz deu-ma... Chama-se Sava. Leva-a para a cozinha e entrega-a à Gallina. Desço mais tarde para ir buscá-la. - Os olhos de Zoya assemelhavam-se aos de uma criança assustada e Feodor riu e abanou a cabeça. - A condessa vai exigir a minha cabeça por isto, mademoiselle! E talvez a sua também.

       - Eu sei... Talvez o papá... - O papá que intercedia sempre a seu favor, que era sempre tão bom e generoso para a mãe.

       Tratava-se de um homem maravilhoso e a sua filha única adorava-o.

       - Rápido, Feodor. Tenho de me apressar.

       Passava das sete e tinha de mudar de vestido, antes de se apresentar na sala de jantar. Ele pegou no pequeno animal e Zoya subiu apressadamente os degraus de mármore do pequeno mas belo palácio. Parecia misturar os estilos russo e francês e fora construído pelo avô em homenagem à noiva.

       A avó vivia num pavilhão do outro lado do jardim, com um pequeno parque seu, mas Zoya não tinha tempo de pensar nela agora.

       Estava com muita pressa. Deslizou rapidamente para o interior, tirou o chapéu e entregou o casaco a uma criada que estava por perto. Voou pelas escadas que levava ao quarto, mas nesse momento ouviu uma voz atrás das costas.

       - Alto! Quem vai aí?

       - Cala-te! - sussurrou furiosa ao irmão, que se mantinha de pé ao fundo das escadas. - O que estás a fazer aí? - Ele exibia uma figura alta e elegante fardada e Zoya sabia que fazia parar o coração à maioria das suas amigas do Smolny. Ostentava as insígnias da famosa Guarda Preobrajenski, mas não se sentia impressionada nesse momento. - Onde está a mamã? - Mas já sabia, contudo, a resposta sem necessitar de perguntar.

       - Na sala de jantar, onde é que julgavas? Onde estiveste?

       - Por aí. Tenho de me apressar. - Ainda tinha de se mudar e o irmão demorava-a. - Estou atrasada.

       Ele riu, e os olhos verdes, tão semelhantes aos seus, emitiam um brilho divertido.

       - Acho melhor ires assim. A mamã ficará furiosa se te atrasares mais.

       Zoya hesitou uns segundos e fixou-o lá em baixo.

       - Ela disse alguma coisa?... Viste-a?

       - Ainda não. Cheguei mesmo agora. Queria falar com o papá depois do jantar. Vai mudar-te que eu distraio-os. - O irmão gostava mais dela do que julgava, a irmãzinha de que se vangloriava ante os amigos, que há anos estavam de olho nela.

       Contudo, tê-los-ia morto antes que lhe tocassem. Era uma beleza mas ainda não o sabia e era nova de mais para namoricar. Um dia, casaria com um príncipe, ou pelo menos alguém tão importante como o pai. Ele era um conde e um coronel, um homem que inspirava o respeito e a admiração dos que o conheciam. - Vai lá, ferazinha! gritou-lhe. - Despacha-te!

       Zoya voou até ao quarto e, passados dez minutos, desceu as escadas com um vestido de seda azul-marinho, de gola rendada.

       Detestava aquela vestimenta, mas sabia que agradava à mãe. Era um vestido juvenil, muito condigno, e não queria irritá-la ainda mais.

       Tomava-se impossível aparecer na ombreira da porta da sala de jantar sem atrair as atenções e, quando entrou com um ar submisso e casto, o irmão brindou-a com um sorriso malicioso do seu lugar entre a avó e a mãe. A condessa exibia um ar invulgarmente pálido num vestido de cetim cinzento com um belo colar de pérolas negras e diamantes; os olhos eram quase da mesma cor do vestido. Ergueu o rosto devagar e fitou a única filha com uma expressão triste.

       - Zoya! - Nunca erguia a voz, mas bastava fitá-la para se ver o desagrado. A jovem agüentou com firmeza e apressou-se a beijar-lhe a face fria, após o que olhou nervosamente de relance para o pai e a avó.

       - Lamento muito, mamã... atrasei-me... na aula de hoje de ballet... Tive de ir ver uma amiga... Lamento muito... Eu...

       - Onde estiveste exatamente? - inquiriu a mãe num tom de voz gelado. O resto da família observava a cena.

       - Eu... eu tive de ir... Eu...

       Natalya fixou-a bem nos olhos, enquanto Zoya tentava alisar o cabelo. Ainda dava a sensação de o ter penteado à pressa, o que era verdade.

       - Quero saber a verdade. Foste a Tsarskoie Selo?

       - Eu... - Era inútil mentir. A mãe era demasiado bonita, demasiado assustadora e demasiado controlada. - Sim, mamã - anuiu, sentindo-se de novo com sete anos, em vez de dezessete. - Lamento.

       - És uma tola! - Os olhos gelados de Natalya brilharam e virou-se com uma expressão infeliz para o marido. - Dei-lhe ordens específicas para não ir, Konstantin. Todas as crianças lá estão com sarampo e agora ficou exposta. Foi um ato de desobediência.

       Zoya fixou nervosamente o pai, mas os olhos dele emitiam um brilho de esmeralda idêntico ao seu e mal conseguia reprimir um sorriso. Embora amasse a mulher, adorava a filha. E desta vez Nicolai intercedeu a favor da irmã, o que era invulgar, só que ela parecia tão infeliz que sentiu pena.

       - Talvez lhe tivessem pedido que fosse e a Zoya não tivesse conseguido recusar.

       Todavia entre as suas qualidades contava-se a franqueza, e Zoya enfrentou a mãe, sentada agora no lugar, enquanto esperava que as criadas lhe servissem o jantar.

       - Fui eu que quis ir. A culpa foi apenas minha. A Marie tem estado tão sozinha.

       - Foi uma idiotice, Zoya. Voltaremos a discutir o assunto depois do jantar.

       - Sim, mamã. - Baixou os olhos para o prato e os outros prosseguiram a conversa sem a sua intervenção. Um momento depois, ergueu o rosto e, ao descobrir que a avó estava à mesa, sorriu alegremente. - Olá, avó. A tia Alix manda-lhe saudades.

       - Ela está bem? - A pergunta partiu do pai. A mãe continuava sentada, imersa numa beleza silenciosa e ainda obviamente desagradada com a filha.

       - Está sempre bem quando cuida dos doentes - respondeu a avó em seu lugar. - É algo de estranho na Alix. Parece sofrer de todos os males possíveis até ser requisitada por alguém mais doente e depois mostra-se espantosamente à altura. - A idosa condessa deitou um olhar intencional à nora e, em seguida, sorriu orgulhosa a Zoya. - A pequena Marie deve ter ficado satisfeita por te ver.

       - Ficou sim, avó - confirmou a jovem, agradecida. E acrescentou para tranqüilizar a mãe: - Nem sequer vi as outras.

       Estavam isoladas, algures. Até mesmo Madame Virubova está doente concluiu, arrependendo-se de imediato ao ver que a mãe a olhava, horrorizada.

       - Que estupidez, Zoya... Não consigo perceber porque foste até lá. Queres apanhar sarampo?

       - Não, mamã. Lamento mesmo - desculpou-se, embora nada houvesse de pena no seu rosto. Só as palavras ecoavam o arrependimento esperado. - Não era minha intenção atrasar-me tanto. Ia a sair quando apareceu a tia Alix para tomar chá conosco e não quis ser indelicada...

       - Nem devias. Ela é, afinal, a nossa imperatriz, além de nossa prima - interferiu a avó, que tinha uns olhos tão verdes como os de Zoya, e os do pai e os do irmão. Só os de Natalya eram de um pálido azul-acinzentado, semelhantes a um céu de frio Inverno sem esperança de Verão. A vida sempre lhe exigira demasiado, tivera um marido enérgico e robusto que a amava fogosamente e quisera mais filhos do que podia comportar. Dois haviam sido nato-mortos, tivera vários abortos e Zoya e Nicolai eram o resultado de partos difíceis. Passara um ano na cama depois de dar à luz cada um deles e agora dormia nos seus próprios aposentos.

       Konstantin adorava os seus amigos e desejara dar inúmeros bailes e festas, mas ela achava-os demasiado cansativos e usava a saúde débil como desculpa para a falta da alegria de viver e da sua enorme timidez. Dava-lhe um ar de gelado distanciamento, por detrás do qual escondia o fato de as pessoas a atemorizarem, sentindo-se muito mais feliz reclinada numa cadeira junto à lareira.

       No entanto, a filha parecia-se muito mais com o pai e, depois de Zoya dar a sua festa de debutante na Primavera, Konstantin ansiava pela perspectiva de a ter como companhia nas festas.

       Tinham falado durante muito tempo quanto a abandonarem a idéia de um baile e Natalya insistira em que não deviam encará-lo naquele tempo de guerra.

       Contudo, a avó de Zoya decidira o assunto por eles e Konstantin ficara muito aliviado. Haveria um baile, mal ela se formasse pelo Instituto Smolny em Junho, talvez não um baile tão faustoso como seria se não houvesse guerra, mas de qualquer maneira uma festa encantadora.

       - Há notícias do Nicolau? - inquiriu Konstantin. - A Marie disse alguma coisa?

       - Nada de significativo. A tia Alix diz que ele regressou da frente, mas acho que vai voltar em breve.

       - Eu sei. Vi-o na semana passada. Mas está bem, não está? Konstantin parecia preocupado, o que não escapou ao olhar do seu esbelto filho.

       Este soube, então, que o pai devia ter ouvido os mesmos boatos do que ele no aquartelamento, que Nicolau estava exausto e consumido pelo desgaste da guerra. Alguns sussurravam mesmo quanto à possibilidade de um esgotamento nervoso. Porém, com a bondade do czar e a sua constante preocupação com todos, era algo quase impensável. Era difícil imaginar que alguém pudesse ter um esgotamento ou desistir. Tratava-se de um homem profundamente amado pelos seus companheiros e sobretudo pelo pai de Zoya.

       Tal como Zoya e Marie, tinham sido amigos de infância e era padrinho de Nicolai, que fora batizado com este nome em sua honra; o próprio pai de Nicolau fora muito chegado ao pai de Konstantin. O afeto que tinham um pelo outro ultrapassava o sentido familiar; sempre haviam sido muito chegados e espicaçavam-se por ambos terem casado com alemãs, embora Alix parecesse ser um pouco mais resistente do que Natalya. Pelo menos, mostrava-se à altura da situação quando necessário, como o fizera a nível do seu trabalho na Cruz Vermelha, e agora na doença dos filhos.

       Natalya teria sido, por constituição física, incapaz de algo no gênero. A velha condessa ficara muito desapontada por o filho não ter desposado uma russa. O fato de uma alemã ter servido ao czar era apenas um ligeiro conforto.

       - E, a propósito, o que te traz aqui esta noite? - Konstantin virou-se para Nicolai com um caloroso sorriso. Orgulhava-se do filho e agradava-lhe que estivesse com a Preobrajenski e não na frente, do que não fazia segredo. Não tinha qualquer desejo de perder o seu único filho. As baixas russas haviam sido elevadas na batalha de Tannenberg, no Verão de 1914, devido aos terríveis reveses nos campos gelados da Galícia e queria que Nicolai estivesse bem a salvo em Sampetersburgo. Este era, pelo menos, um grande alívio para ele e para Natalya.

       - Queria falar consigo depois do jantar desta noite, papá. Expressava-se num tom calmo e firme e Natalya lançou-lhe um olhar nervoso. Esperava que não tivesse nada de inquietante a participar, pois ouvira recentemente a uma amiga que o filho andava envolvido com uma bailarina e teria muito que falar com o pai se ele lhe comunicasse que ia casar. - Nada de importante.

       A avó observou-o com um olhar perspicaz e soube que o neto mentira sobre a importância do que quer que tivesse a comunicar ao pai. Estava preocupado com algo, suficientemente preocupado para passar uma noite com todos, o que não se coadunava com ele.

       - Na verdade - acrescentou Nicolai, sorrindo para a família reunida -, vim assegurar-me de que este monstrinho andava a portar-se devidamente. - Olhou para Zoya que lhe correspondeu com uma expressão aborrecida.

       - Já sou uma mulher, Nicolai. Já não me porto mal. - Compôs um ar arrogante e acabou a sobremesa, enquanto o irmão ria à gargalhada.

       - Ah, sim? Imagina só... Ainda há momentos voavas pelas escadas, atrasada como de costume para jantar, com as botas molhadas e parecendo que te tinhas penteado com um ancinho... Estava preparadíssimo para continuar, e Zoya atirou-lhe um guardanapo, ao mesmo tempo que a mãe parecia à beira de desfalecer e lançava um olhar suplicante ao pai.

       - Manda-os parar, por favor, Konstantin! Põem-me tão nervosa!

       - É apenas uma canção de amor, minha querida - interferiu sabiamente a condessa Eugenia. - É a única forma de diálogo que conhecem nesta altura das suas vidas. Os meus filhos estavam sempre a puxar os cabelos e a atirar sapatos uns aos outros. Não é verdade, Konstantin? - Ele soltou uma gargalhada e deitou um olhar cúmplice à mãe.

       - Receio não ter sido muito bem-comportado quando era jovem, minha querida. - Fitou afetuosamente a mulher, passeou o olhar feliz pela mesa e seguiu o filho até uma sala contígua onde podiam falar em privado. À semelhança da mulher, também ele esperava que o filho não fosse comunicar-lhes que ia casar.

       Ao sentarem-se tranqüilamente junto à lareira, reparou de imediato na bonita cigarreira de ouro que Nicolai tirou do bolso do uniforme. Era um dos modelos mais típicos de Carl Fabergé, em rosa e ouro com uma bonita safira. Konstantin tinha quase a certeza de que provinha de Hollming ou Wigstrom.

       - Uma bugiganga nova, Nicolai? - Tal como a mulher, também lhe chegara aos ouvidos a história da alegadamente bonita bailarina.

       - Um presente de uma amiga, papá.

       Konstantin esboçou um sorriso indulgente.

       - Mais ou menos o que eu temia - Os dois homens riram e Nicolai franziu o sobrolho. Era jovem mas bastante vivido para a sua idade e tinha um espírito perspicaz a somar à aparência elegante. Era um filho que dava motivos de orgulho.

       - Não tem com que se preocupar. Apesar do que possa ouvir, estou apenas a divertir-me um pouco. Nada de sério, garanto-lhe.

       - Ótimo. Então, o que te trouxe aqui esta noite?

       Nicolai parecia preocupado e desviou os olhos da lareira para o pai.

       - Algo bastante mais importante. Tenho ouvido coisas desagradáveis sobre o czar, que está cansado, que está doente e que não devia liderar as tropas. Decerto também está ao corrente, pai.

       - Estou - anuiu com um lento aceno de cabeça e fitando o filho. - Mas continuo a acreditar que não nos deixará ficar mal.

       - Na noite passada, estive numa festa com o embaixador Paléologue, que esboçou um quadro muito triste. Pensa que os cortes de comida e combustível são muito mais graves do que admitimos, que o desgaste da guerra está a provocar estragos. Estamos a alimentar seis milhões de homens na frente e poucas condições temos de cuidar dos nossos aqui. Receia que possamos ir abaixo... que os Russos possam ir abaixo... e o czar Nicolau também... e... Então, pai? Acha que ele tem razão?

       Konstantin pensou demoradamente e, em seguida, abanou a cabeça.

       - Não, não acho. Acho que todos estamos esgotados e o Nicolau também. Contudo, isto é a Rússia, Nicolai, e não um pequeno e fraco país no meio de nenhures. Somos um povo pleno de vigor e força e, por mais difíceis que sejam as condições, não desfaleceremos. Nunca. - Era essa a sua crença, e Nicolai sentiu-se tranqüilizado.

       - A Duma volta a reunir-se, amanhã. Será interessante ver o que acontece.

       - Nada acontecerá, meu filho. A Rússia é e será eterna. Certamente o sabes. - Deitou um olhar afetuoso ao filho, que se sentiu melhor.

       - Sei. Talvez apenas precisasse de o ouvir dizer isso.

       - Todos precisamos. Tens de ser forte pelo Nicolau, por todos nós, pelo teu país. Todos temos de ser fortes agora e os bons tempos regressarão. A guerra não pode durar eternaMente.

       - É uma coisa horrível. - Ambos estavam conscientes da gravidade das baixas. Contudo, nada disso implicava necessariamente um fim ao que lhes era querido. Agora que pensava no assunto, Nicolai sentia-se idiota pela preocupação que o dominara. Só que o embaixador francês se mostrara tão convincente com as suas previsões. Ainda bem que decidira falar com o pai. A mãe anda bem? - Nicolai achara-a mais nervosa do que o habitual, ou talvez o fato se devesse a vê-Ia agora com menos freqüência, mas Konstantin limitou-se a sorrir.

       - Também anda preocupada com a guerra... e contigo... e comigo... e com a Zoya... Ela dá que pensar.

       - Mas está muito bonita, não está? - Referia-se a Zoya com um entusiasmo e uma admiração que negaria com veemência se alguém o dissesse à irmã. - Metade do meu regimento parece estar apaixonado por ela. Passo a maior parte do tempo a ameaçar matá-los.

       O pai sorriu e depois abanou a cabeça com uma expressão triste.

       - É uma pena que ela tenha de fazer o seu début em tempo de guerra. Talvez tudo esteja terminado em Junho. - Era uma esperança que ambos partilhavam, mas que Nicolai receava não ser provável.

       - Tem alguém em mente para ela? - inquiriu, curioso, Nicolai, que achava que vários dos seus amigos poderiam dar Ótimos pretendentes.

       - Não consigo s portar a idéia de perdê-la. Suponho que é um disparate. É demasiado viva para ficar entre nós muito mais tempo. A tua avó tem o príncipe Orlov em elevada consideração.

       - É velho de mais para ela. - Ultrapassara os trinta e cinco anos e Nicolai franziu defensivamente o sobrolho ante a idéia.

       De fato, não tinha a certeza de que alguém fosse suficientemente bom para a sua irmãzinha.

       Konstantin levantou-se, sorriu ao filho e deu-lhe uma pequena palmada no ombro.

       - Acho melhor voltarmos. Se não o fizermos, a tua mãe ficará preocupada. - Saíram da sala, e Konstantin rodeou os ombros do filho com o braço. Quando se juntaram às senhoras numa das salas de estar mais pequenas, Zoya implorava algo à mãe.

       - Então, o que fizeste agora, monstrinho? - Nicolai riu ante a expressão no rosto da irmã e apercebeu-se de que a avó virara costas para dissimular um sorriso. Natalya denotava uma palidez de morte e o rosto de Zoya estava corado de raiva quando fitou o irmão.

       - Não te metas nisto!

       - O que há, miúda? - Konstantin parecia divertido, até deparar com a expressão de censura no rosto da mulher. Ela achava-o demasiado brando em relação à filha.

       - Ao que parece - replicou a condessa num tom irritado -, a Alix deu-lhe um presente ridículo e não quero de forma alguma que o conserve.

       - Do que se trata, Deus do céu? Das suas famosas pérolas? Aceita-as, querida, podes sempre usá-las. - Konstantin estava de bom humor depois da conversa com Nicolai, e os dois homens trocaram um olhar cúmplice por cima da cabeça das mulheres.

       - Não é nada divertido, Konstantin, e espero que lhe digas exatamente o que eu disse. Tem de livrar-se imediatamente do presente.

       - Do que se trata? De peste? Uma cobra treinada? - troçou Nicolai.

       - Não. É um dos filhotes da Joy. - Lágrimas brilhavam nos olhos de Zoya, que fitou o pai, suplicante. - Por favor, papá... Se prometer ser eu a cuidar dela e nunca a perder de vista, nem deixar que saia do meu quarto e a conservar afastada da mamã... Por favor... - Lágrimas tremulavam nos seus olhos e tocaram no coração do pai, enquanto Natalya percorria a sala de um lado para o outro, com os olhos semelhantes ao brilho de diamantes.

       - Não! Os cães são portadores de doenças! E todos sabem perfeitamente como a minha saúde é delicada! - Estava longe de parecer frágil nesse momento, enquanto se mantinha no meio da sala, a imagem perfeita da fúria. Konstantin recordou-se de como se sentira atraído por ela da primeira vez que a vira, mas sabia também que Natalya não era uma mulher fácil.

       - Talvez se viver na cozinha... talvez nesse caso... - Deitou um olhar esperançado à mulher, quando ela avançou para a porta e a abriu.

       - Acabas sempre por lhe satisfazer os caprichos, não é, Konstantin?

       - Querida... não é um animal grande. É muito pequeno.

       - E têm mais dois e um gato, e o filho está sempre às portas da morte. - Referia-se, obviamente, ao mau estado de saúde crônico de Alexis.

       - Não tem nada a ver com os cães. Talvez a avó não se importe de ficar com a cadelinha em casa... - Olhou, esperançado, para a mãe e ela sorriu, intimamente satisfeita com aquela tempestade.

       Era mesmo de Alix, oferecer um cão a Zoya, sabendo como iria enfurecer a mãe. Existira sempre uma secreta rivalidade entre as duas mulheres, mas Alexandra era, afinal, a czarina.

       - Não me importo nada - ofereceu-se a condessa mais velha.

       - Muito bem. - Konstantin sentia que encontrara a solução perfeita, mas a porta bateu ruidosamente e sabia que só voltaria a ver a mulher na manhã seguinte.

       - E é com este final feliz que vou voltar ao meu pacífico aquartelamento - replicou Nicolai, sorrindo e esboçando uma vênia formal à avó.

       - Vê lá se voltas mesmo - vincou a avó com um sorriso mal dissimulado e soltando uma risada quando ele lhe desejou as boas-noites. - Ouvi dizer que estás a tornar-te um estróina, meu querido.

       - Não acredite em tudo o que ouve. Boa noite, avó. Despediu-se, beijando-a nas duas faces e tocou ao de leve no ombro do pai. - E, quanto a ti, ferazinha... - Abraçou carinhosamente a jovem ruiva quando a beijou e ela fitou-o com igual afeto. Porta-te bem. E tenta não apareceres em casa com mais animais de estimação. Vais enlouquecer a mãe.

       - Ninguém te encarregou do sermão! - retorquiu e depois voltou a beijá-lo. - Adeus, rapaz terrível.

       - Não sou um rapaz. Sou um homem, embora não saibas a diferença.

       - Saberia, se visse algum.

       Acenou-lhes da porta com uma expressão divertida e em seguida desapareceu, com toda a probabilidade para fazer uma visita à sua pequena bailarina.

       - Que jovem encantador, Konstantin. Recorda-me muito como tu eras - declarou, orgulhosa, a velha condessa, enquanto o filho sorria e Zoya se atirava para uma cadeira, com uma expressão contrariada.

       - Por mim, acho-o simplesmente um horror.

       - Ele fala de ti de uma forma muito mais carinhosa, Zoya Konstantinovna - replicou o pai sem erguer a voz. Orgulhava-se dos filhos e amava-os profundamente. Inclinou-se para a beijar na face e depois esboçou um sorriso calmo à mãe. - Vai mesmo ficar com a cadelinha, mamã? - perguntou à condessa Eugenia. - Temo que a Natalya nos corra a todos de casa, se insistir mais. - Abafou um suspiro. Havia alturas em que gostaria que a mulher fosse de trato um pouco mais fácil, sobretudo quando a mãe estava a olhar e julgando em silêncio. Contudo, há muito que Eugenia Ossupov formara a sua opinião da nora e provavelmente nada que Natalya fizesse agora a mudaria.

       - Claro. Gostaria de ter uma amiguinha.

       - Virou-se para Zoya com um ar zombeteiro e inquiriu: - Qual dos cães deles é o progenitor? O Charles do jovem czar Alexis ou o buldogue francês da Tatiana?

       - Nenhum deles, avó. É filha da Joy, a cocker spaniel da Marie. É tão querida. E chama-se Sava. - Zoya parecia contentíssima; assemelhava-se a uma criança quando se sentou junto aos joelhos da avó, e a mulher idosa pousou uma mão anquilosada mas amiga nos seus ombros.

       - Pede-lhe apenas que não batize o meu tapete favorito, o Aubusson, e seremos grandes amigas, garanto. - Acariciou o cabelo ruivo e revolto que caía sobre os ombros de Zoya. Desde criança que a jovem sempre adorara o toque das mãos da avó. Soergueu-se e beijou-a.

       - Obrigada, avó. Queria tanto ficar com ela.

       - E ficarás, pequenina... ficarás. - Levantou-se e dirigiu-se vagarosamente até junto do fogo, sentindo-se cansada mas em paz, enquanto Zoya ia buscar a cadelinha aos criados.

       A condessa virou-se para Konstantin e teve a sensação de que apenas haviam passado momentos desde que ele fora da idade de Nicolai e muito, muito mais novo. Os anos pareciam voar tão rapidamente, mas haviam sido generosos. O marido levara uma vida em pleno. Morrera três anos antes com oitenta e nove e sempre se sentira abençoada por tê-lo amado. Agora, Konstantin parecia-se com ele e recordava-lhe momentos felizes passados, sobretudo ao vê-lo junto de Zoya.

       - Ela é uma rapariguinha encantadora, Konstantin Nicolaevich... uma bela rapariguinha.

       - Parece-se muito consigo, mamã.

       Eugenia abanou a cabeça, mas o filho apercebeu-se pelo brilho dos olhos de que estava de acordo. Havia altura em que se identificava muito com a jovem e sentia-se sempre contente por Zoya ter tão pouco a ver com, a mãe. Mesmo quando desobedecia à mãe, a condessa achava uma coisa fantástica e há muito sentira que era um sinal do seu próprio sangue a correr nas veias de Zoya, o que ainda mais aborrecia Natalya.

       - Ela é algo de novo... é ela própria. Não devemos sobrecarregá-la com os nossos erros e falhas.

       - Em que é que falhou? Sempre foi boa para mim, mamã... para todos nós... - Era uma mulher respeitada e de quem se gostava.

       Uma mulher com objetivos e valores sólidos. Conhecia-lhe a sabedoria e apoiava-se nas suas inúmeras e sensatas opiniões.

       - Aqui está ela, avó! - Zoya reaparecera com a cadelinha nos braços, que era pouco maior do que as suas mãos, e a condessa pegou-lhe. - Não é um amor?

       - É maravilhosa... e continuará a ser até roer o meu melhor chapéu ou os meus sapatos favoritos... Mas não, por favor, meu Deus, o meu tapete Aubusson favorito. E se o fizeres acrescentou, acariciando a cabeça da cadelinha, como o fizera ao cabelo de Zoya, momentos antes -, transformo-te em sopa. Lembra-te disso. - A pequena Sava ladrou, como que a responder. - Alix foi muito simpática em dar-ta, miúda. Espero que lhe tenhas agradecido devidamente.

       - Ela estava com bastante receio que a mamã ficasse zangada confessou a neta com uma risada e tapando a boca num gesto gracioso.

       A avó soltou uma risada e Konstantin esforçou-se por conter um sorriso, em deferência para com a mulher.

       - Ela conhece muito bem a tua mãe, verdade, Konstantin? Olhou-o bem no fundo, levando-o a entender cada palavra.

       - A fragilidade física da Natalya não lhe tem facilitado as coisas nos últimos tempos. Talvez eventualmente... - Tentava defendê-la.

       - Deixa lá, Konstantin. - A condessa esboçou um gesto impaciente, apertou mais a cadelinha de encontro ao peito e deu um beijo de boas-noites à neta. - Vem ver-nos amanhã, Zoya. Ou tencionas voltar a Tsarskoie Selo? Irei contigo um destes dias fazer uma visita a Alix e às crianças.

       - Enquanto estiverem doentes, não, mamã, por favor... e a viagem será extenuante para si com este tempo.

       - Não sejas pateta, Konstantin - replicou a mãe com uma sonora gargalhada. - Tive sarampo há quase cem anos e nunca me preocupei com o tempo. Sinto-me bastante bem, muito obrigada, e tenciono manter-me assim pelo menos mais uma dúzia de anos, ou talvez mais. E sou suficientemente má para o conseguir.

       - Ótimas notícias - retorquiu o filho a sorrir. - Vou acompanhá-la ao pavilhão.

       - Não sejas pateta. - Recusou com um gesto e Zoya foi buscar-lhe a capa e tapou-lhe os ombros. - Ainda sou capaz de atravessar o jardim. Faço-o várias vezes por dia.

       - Então, não me retire o prazer de acompanhá-la, madame.

       Eugenia sorriu-lhe, vendo-o de novo como criança, pelo menos no seu coração, onde permaneceria um rapazinho para sempre, enquanto ela vivesse.

       - Sendo assim, muito bem, Konstantin. Boa noite, Zoya.

       - Boa noite, avó. E obrigada por ficar com a Sava. - A idosa senhora deu-lhe um beijo afetuoso e Zoya subiu as escadas até ao quarto cor de malva. Eles saíram para o ar frio.

       Zoya bocejou e sorriu ao pensar na cadelinha que Marie e a mãe dela lhe tinham oferecido. Fora um dia fantástico. Fechou suavemente a porta do quarto e prometeu a si própria que voltaria a Tsarskoie Selo dentro de um ou dois dias. Mas entretanto teria de pensar em algo de maravilhoso para levar a Mashka.

      

       Dois dias mais tarde, Zoya estava a planear voltar a Tsarskoie Selo para fazer uma visita a Marie, mas em vez disso chegou uma carta nessa manhã, antes do pequeno-almoço. Foi entregue pelo próprio Dr. Fedorov, o médico de Alexis, que viera à cidade buscar mais remédios e trouxera a desagradável notícia de que também Marie tinha caído à cama com sarampo.

       Zoya leu o bilhete com tristeza. Não só significava que não podia visitá-la, como também que talvez deixassem de se ver durante semanas, pois o Dr. Fedorov declarou que as visitas estavam proibidas por uns tempos, até se observar a evolução da doença. Anastasia estava a sofrer de problemas de ouvidos como resultado do sarampo e o jovem Alexis apanhara uma pneumonia.

       - Oh, meu Deus... - gemeu Natalya. - E tu também estiveste exposta. Tinha-te proibido que fosses e expuseste-te... Como foste capaz de me fazer uma coisa destas? Como te atreveste!

       Estava quase histérica com o pensamento da doença que Zoya podia ter inadvertidamente trazido para casa, e Konstantin chegou a tempo de ver a mulher desmaiar, mandando rapidamente a criada ao andar de cima buscar os sais. Tinha-lhe encomendado, para os colocar, uma embalagem especial Fabergé, em forma de um grande morango vermelho incrustado de diamantes, que ela conservava sempre por perto, na mesa-de-cabeceira.

       O Dr. Fedorov teve a gentileza de ficar o tempo suficiente para examinar Natalya no andar superior, enquanto Zoya escrevia um breve bilhete à amiga. Desejava-lhe uma rápida convalescença para poderem voltar a estar juntas e assinou-o em seu nome e no de Sava, que regara generosamente o tapete Aubusson na noite anterior. Contudo, a avó ficara mesmo assim com a cadelinha, embora ameaçando transformá-la em sopa, se não se portasse melhor.

       «... Gosto muito de ti, minha queridíssima amiga. Agora, põe-te boa depressa para que possa ir visitar-te.» Mandou-lhe dois livros, um deles, Os Bebês de Helen, que lera com agrado há umas semanas e que de qualquer maneira tencionava oferecer-lhe.

       Acrescentou um post scriptum, avisando Mashka de que não se servisse disso como desculpa para fazer novamente batota no tênis, como ambas haviam feito no Verão passado, quando tinham jogado no Livadia com duas das irmãs de Marie. Era o jogo favorito de ambas e Marie superava as outras, embora Zoya ameaçasse sempre vencê-la.

       «... Irei ver-te, mal a tua mãe e o doutor me deixarem. De todo o coração, a tua querida Zoya ...»

       Nessa tarde, Zoya viu de novo o irmão, o que, pelo menos, a distraiu e, enquanto esperavam o regresso do pai a casa, ele levou-a a dar uma volta na tróica da mãe. Esta não saíra do quarto o dia inteiro, tão transtornada se sentia com a notícia de que Marie apanhara sarampo e Zoya se expusera inadvertidamente. Zoya sabia que era bem possível que não aparecesse durante dias e ficou contente ante o divertimento proporcionado pelo irmão.

       - Porque vieste ver outra vez o papá? Passa-se alguma coisa, Nicolai?

       - Não sejas tonta. Porque havia de passar-se? És mesmo Pateta.

       «Contudo, esperta também.» Ficou espantado ao ver como a irmã sabia instintivamente que. ele viera falar com Konstantin, porque estava preocupado. No dia anterior, quando a Duma se reunira, Alexandre Kerenski fizera um discurso terrível que incluía um incitamento a assassinar o czar e Nicolai começava a temer que algo do que o embaixador Paléologue dissera fosse verdade.

       Talvez a situação estivesse pior do que julgavam e o povo se sentisse mais revoltado com as faltas do que suspeitavam. Sir George Buchanan, o embaixador britânico, afirmara o mesmo antes de partir para a Finlândia numa licença de dez dias. Nicolai ouvira muitas coisas nesses últimos dias, sentia-se preocupado, e estava ansioso por escutar a opinião do pai.

       - Só apareces de visita quando algo vai mal, Nicolai pressionou Zoya. Seguiam a toda a velocidade pela bonita Avenida Nevski. Havia neve caída de fresco no chão e nunca parecera mais bonita, mas Nicolai continuava obstinadamente a insistir que estava tudo bem e, embora a invadisse uma estranha sensação de medo, resolveu acreditar no irmão.

       - Mas que comentário encantador, Zoya. E, além disso, não é verdade. E indo direto ao assunto, é verdade que voltaste a perturbar a mamã? Ouvi dizer que está de cama por tua causa e teve de ser vista duas vezes pelo médico.

       - Foi só porque o doutor Fedorov lhe disse que a Mashka está com sarampo - retorquiu Zoya, encolhendo os ombros e com um sorriso travesso.

       - E és tu a seguir? - Nicolai sorriu-lhe e ela correspondeu.

       - Não sejas parvo. Nunca adoeço.

       - Não tenhas tantas certezas. Não tencionas voltar lá, não é verdade? - Por um instante, pareceu preocupado, mas ela abanou a cabeça com uma expressão de desapontamento infantil.

       - Não me deixarão. Ninguém pode visitá-los, agora. E a pobre Anastasia tem uma horrível dor de ouvidos.

       - Em breve todos estarão bons e poderás voltar.

       Zoya esboçou um aceno de cabeça e depois sorriu.

       - A propósito, Nicolai, como está a tua bailarina?

       O irmão sobressaltou-se e puxou-lhe uma madeixa de cabelo ruivo que se escapara para fora do gorro de pele.

       - O que te leva a pensar que tenho uma «bailarina»?

       - Toda a gente sabe, idiota... como sabiam da do tio Nicolau antes de ele se casar com a tia Alix. - Podia falar abertamente com ele; era, afinal, seu irmão, mas Nicolai desviou os olhos, chocado. Embora a irmã não tivesse papas na língua, esperava um pouco de decoro da sua parte.

       - Zoya! Como podes falar dessas coisas!

       - Posso dizer-te o que me apetecer. Como é ela? Bonita?

       - Não é nada! Simplesmente não existe. É isso que te ensinam no Smolny?

       - Não me ensinam nada - replicou, jovial. «Salvo uma ótima educação como ele recebera antes no Corpo Imperial dos Pajens, o colégio militar para os filhos de nobres e oficiais superiores.» Além disso, estou quase a acabar.

       - Imagino que ficarão contentíssimos por te ver pelas costas, minha querida. - Zoya encolheu os ombros e ambos riram. Por instantes, Nicolai julgou que a irmã desistira, mas ela era mais persistente do que julgara e dirigiu-se-lhe com um sorriso malicioso.

       - Continuas sem me falar da tua amiga, Nicolai...

       - És uma rapariga horrível, Zoya Konstantinovna.

       A jovem soltou uma risada e ele conduziu-a devagar a casa, regressando ao palácio onde viviam em Fontanka, e nessa altura o pai já tinha chegado. Fecharam-se os dois à chave na biblioteca de Konstantin, que dava para o jardim. Estava cheia de belos livros encadernados a cabedal e objetos que o pai colecionara ao longo dos anos, sobretudo as peças de malaquite de que tanto gostava.

       Havia também uma coleção de preciosos ovos da Páscoa Fabergé que Natalya lhe oferecia todos os anos, idênticos aos que o czar e a czarina trocavam em ocasiões importantes. De pé, encostado à janela e ouvindo o filho, Konstantin observava Zoya saltitando pela neve, a fim de ir visitar a avó e Sava.

       - Então o que acha, pai? - Quando Konstantin se virou novamente de frente para o filho, compreendeu que Nicolai estava preocupadíssimo.

       - Não me parece que isso signifique seja o que for. E mesmo que haja uma certa agitação nas ruas, o general Khabalov estará à altura, Nicolai. Não há motivo para receios. - Sorriu, satisfeito por o filho se preocupar tanto com o bem-estar da cidade e do país. - Está tudo em ordem. Mas não prejudica estar alerta. É o dever de um bom soldado. - E o filho era-o, tal como ele nos seus tempos de juventude e o pai antes dele. Se pudesse, o próprio Konstantin estaria na frente, mas era demasiado velho, por mais que amasse o seu primo, o czar, e o país.

       - O discurso do Kerenski à Duma não o preocupa, pai? O que ele está a sugerir é traição!

       - Mas ninguém pode tomar isso a sério, Nicolai. Ninguém vai assassinar o czar. Não se atreveriam. Além disso, o Nicolau é experiente bastante para se manter bem protegido. Penso que corre muito mais perigo em casa neste momento, com um bando de filhos e criados carregados de sarampo... - Sorriu meigamente. - ... do que nas mãos do seu povo. De qualquer maneira, vou telefonar ao embaixador Buchanan quando ele voltar e falar-lhe pessoalmente, se ele está assim tão preocupado. Gostaria de ouvir a sua opinião sobre o assunto e também a do Paléologue. Quando o Buchanan voltar de férias, combino um almoço com eles e serás obviamente bem-vindo. - Pretendia acima de tudo incentivar a carreira do filho.

       Nicolai era um rapaz inteligente e tinha um brilhante futuro pela frente.

       - Fiquei melhor depois de ter falado consigo, pai. - Todavia, desta vez os seus medos não foram assim tão facilmente apaziguados e, quando saiu de casa, continuava com uma impressão de perigo iminente. Sentiu-se tentado a ir até Tsarskoie Selo e reunir-se em privado com o primo, mas, pelo que ouvira sobre o quanto o czar estava cansado e preocupado com o filho, sabia que a altura não era a mais apropriada.

       Uma semana mais tarde, a 8 de Março, o czar Nicolau partiu de Sampetersburgo para regressar à frente, a oitocentos quilômetros, em Mogilev. E, nesse mesmo dia, verificou-se o primeiro sinal de revolta nas ruas, quando a fila para o pão se transformou em gente raivosa que abriu caminho até às padarias, gritando: «Dêem-nos pão!» Ao pôr do Sol, um esquadrão de cossacos apareceu para impor a ordem. E, mesmo assim, ninguém parecia preocupado. O embaixador Paléologue foi mesmo a ponto de organizar uma enorme festa. Estavam presentes o príncipe e a princesa Gorchakov, o conde Tolstoi, Alexandre Benois e o embaixador espanhol, o marquês de Villasinda.

       Natalya continuava a sentir-se indisposta, insistira que não podia sair de casa e Konstantin não queria deixá-la. Ficou satisfeito por não terem comparecido, quando no dia seguinte ouviu dizer que os revoltosos haviam virado um elétrico na orla da cidade. Na generalidade, ninguém parecia, contudo, alarmado.

       E, como que para tranqüilizar todos, o dia seguinte amanhecera luminoso e soalheiro. A Avenida Nevski abarrotava de gente, mas as pessoas pareciam bastante felizes e as lojas estavam abertas. Havia cossacos por perto, de olhar atento ao que se passava, mas pareciam de boas relações com o povo. Porém, no sábado, 10 de Março, verificou-se um saque inesperado e várias pessoas morreram em motins.

       Nessa noite, os Radziwill preparavam-se, contudo, para dar uma faustosa recepção. Era como se todos desejassem fingir que não estava a acontecer nada. Tornava-se, porém, difícil ignorar os relatos de tumulto e desordem.

       Gibbes, o tutor inglês de Marie, trouxe a Zoya uma carta de Mashka e ela quase se lhe atirou de braços abertos, mas ficou desconsolada ao ler que Marie se sentia pessimamente e que Tatiana também estava com problemas de ouvidos. Mas pelo menos Baby sentia-se um pouco melhor.

       - A pobre tia Alix deve andar tão cansada - disse Zoya à avó nessa tarde, sentada na sua sala de estar e com a pequena Sava ao colo. - Sinto-me tão ansiosa por voltar a ver a Marie, avó. - Há dias que estava inativa, pois a mãe tinha insistido em que não fosse às aulas de ballet por causa dos problemas na rua e, desta vez, o pai apoiara a ordem.

       - Tem um pouco de paciência, minha querida - incitara a avó.

       - Decerto não queres andar agora pelas ruas com toda essa gente infeliz e cheia de fome.

       - É assim tão mau para elas, avó? - Era uma situação difícil de imaginar no meio de todo o luxo de que usufruíam. Sentia um peso no coração só de pensar em pessoas tão desesperadamente esfomeadas. - Gostava que pudéssemos dar-lhes algo do que temos. Levavam uma vida tão confortável e fácil que lhe parecia uma crueldade todas aquelas pessoas com frio e fome à sua volta.

       - Todos o desejamos por vezes, miúda. - Os velhos olhos brilhantes afundaram-se nos seus. - A vida nem sempre é justa. Há muitas, muitas pessoas que nunca terão o que para nós é uma garantia diária: roupas quentes, camas macias, comida em abundância... para já nem falar de frivolidades como férias, festas e belos vestidos.

       - Tudo isso está mal? - Zoya parecia sobressaltada com a idéia.

       - Claro que não. Trata-se, contudo, de um privilégio e nunca devemos esquecê-lo.

       - A mamã diz que eles são gente vulgar e não apreciariam o que temos. É verdade?

       Eugenia fitou-a com uma ironia irritada, surpreendida por a nora ser ainda tão cega e idiota.

       - Não sejas ridícula, Zoya. Achas que alguém se oporia a uma cama quente, o estômago cheio, um belo vestido ou uma bela tróica? Só se fossem terrivelmente estúpidos. - A neta não acrescentou que a mãe também o afirmara, pois compreendia que não era assim.

       - Sabe, avó? É triste que não conheçam o tio Nicolau, a tia Alix, o Baby e as meninas. São pessoas tão boas, que ninguém se irritaria com eles se os conhecesse. - Era uma afirmação sensata e, no entanto, incrivelmente simplista.

       - O problema não está neles, querida... mas apenas nas coisas que defendem. É extremamente difícil para as pessoas, que se encontram do outro lado das janelas do palácio, lembrarem-se de que as pessoas lá dentro têm desgostos e dificuldades. Ninguém saberá quanto o Nicolau se importa com todos eles, quanto sofre com os seus males e como sentiu o coração partido ante a doença do Alexis. Nunca saberão, nem verão... também me faz sentir triste. O pobre carrega fardos tão pesados. E agora está de volta à frente. Deve ser difícil para a Alix. Espero que as crianças melhorem depressa para que possa ir visitá-las.

       - Também quero ir. Contudo, o papá não me deixa pôr um pé fora de casa. Vou levar meses a pôr-me em dia com Madame Nastova.

       - Claro que não levarás. - Eugenia observava-a e tinha a sensação de que ela ia ficando mais bonita à medida que se aproximava o dia em que faria dezoito anos. Era uma jovem graciosa com a cabeleira ruiva flamejante, os enormes olhos verdes, as pernas encantadoras e uma cintura que podia apertar-se com as duas mãos. Tratava-se de uma beleza de cortar a respiração.

       - Isto é um tédio, avó! - retorquiu, girando sobre um dos pés, e Eugenia riu-se.

       - Não estás propriamente a elogiar-me, querida. Durante muito tempo, houve muitas pessoas que me acharam aborrecida, mas nunca ninguém o disse de uma forma tão direta.

       - Desculpe. - Zoya riu. - Não me referia a si. Referia-me a estar presa aqui. E nem mesmo o estúpido do Nicolai veio fazer uma visita hoje.

       Contudo, nessa mesma tarde, vieram a saber porquê. O general Khabalov tinha pendurado cartazes enormes por toda a cidade, avisando que as assembléias e encontros públicos passavam a ser proibidos e os grevistas tinham de voltar aos seus empregos no dia seguinte. Qualquer oposição implicaria o imediato recrutamento e envio para a frente, mas ninguém prestara atenção aos cartazes.

       Grandes quantidades de manifestantes atravessaram as pontes do Neva vindos de Vyborg até à cidade e, às quatro e meia dessa tarde, surgiram os soldados e começaram a disparar na Avenida Nevski em frente do Palácio Anitchkov. Cinqüenta pessoas. foram abatidas e, horas depois, morreram mais duzentas e gerou-se uma súbita revolta entre os soldados. Uma companhia da Guarda Pavlovski recusou disparar e matou em vez disso o oficial no comando. Verificou-se o pandemônio e houve que chamar a Guarda Preobrajenski para os desarmar.

       Konstantin foi informado nessa noite e desapareceu durante horas, tentando inteirar-se do que estava a passar-se noutros locais e desejando certificar-se de que Nicolai tinha razão. Sentiu-se repentinamente envolto numa onda de pânico por saber que o filho corria perigo.

       Todavia, só conseguiu descobrir que os elementos da Guarda Pavlovski tinham sido desarmados com muito poucas baixas. «Muito poucas» pareceu-lhe de repente demasiadas e voltou a casa à espera de notícias. No regresso, avistou luzes nos Padziwill e questionou-se sobre a loucura de uma cidade que continuava a dançar, enquanto pessoas eram assassinadas. Interrogou-se também sobre se Nicolai tivera razão ao mostrar-se tão preocupado quanto ao futuro.

       Konstantin estava agora ansioso por falar com Paléologue e resolveu fazer-lhe uma visita na manhã seguinte. Foi só, porém, quando virou para Fontanka e avistou os cavalos no exterior da sua própria casa que sentiu um peso no coração e o desejo de fugir. Um terror repentino apoderou-se de todo o seu corpo e incitou os cavalos.

       Havia, pelo menos, uma dúzia de elementos da Guarda Preobrajenski cá fora, gritos e correrias, e transportavam algo ao mesmo tempo que ouviu um grito escapar-lhe dos próprios lábios e abandonou Feodor e a tróica quase antes de pararem.

       «Oh, meu Deus... oh meu Deus ...», exclamava intimamente e depois viu-o. Transportado por dois homens, o sangue espalhava-se pela neve. Era Nicolai.

       - Oh, meu Deus... - As lágrimas corriam pelas faces de Konstantin, quando se precipitou para diante e perguntou: Está vivo?

       Um dos homens mirou Konstantin e esboçou um aceno de cabeça.

       - Ainda - sussurrou. O jovem fora alvejado sete vezes por um dos elementos da Guarda Pavlovski, por um dos dele... um dos homens do czar... mas mostrara-se destemido e abatera o outro homem.

       - Tragam-no para dentro... depressa... - gritou a Feodor, que apareceu ao seu lado. - Vai buscar já o médico da minha mulher - rugiu, enquanto os jovens guardas o observavam, impotentes. Sabiam que não havia nada a fazer e fora por esse motivo que o haviam trazido para casa.

       Nicolai fitou o pai com olhos vítreos, mas reconheceu-o e sorriu. Parecia novamente uma criança quando Konstantin o agarrou nos braços robustos e o levou para dentro de casa.

       Pousou-o no sofá forrado do átrio de entrada, e os criados acorreram, pressurosos.

       - Tragam ligaduras... lençóis... depressa. Arranjem água quente. - Não tinha idéia do que faria com tudo aquilo, mas tinha de se fazer algo. Algo... o que quer que fosse... tinham de o salvar. Era o seu filho, haviam-no trazido para morrer em casa e não permitiria que isso acontecesse. Tinha de agir antes que fosse tarde de mais e sentiu repentinamente uma mão firme a afastá-lo e viu a sua própria mãe tomando a cabeça do rapaz e inclinando-se para lhe beijar a testa.

       - Tudo bem, Nicolai. A avó está aqui contigo... e a tua mãe e o teu pai...

       As três mulheres tinham começado a jantar sem esperarem por Konstantin, e Eugenia pressentira logo o que acontecera ao ouvir os homens entrarem. O resto dos guardas conservavam-se pouco à vontade no átrio e soou um grito horrível quando Natalya avistou o filho e desmaiou na ombreira da porta.

       - Zoya! - chamou Eugenia e a jovem correu para o seu lado, enquanto Konstantin se mantinha a ver o sangue do filho correr pelo chão de mármore e ensopar lentamente o tapete. Viu como Zoya tremia ao corresponder ao apelo da avó, ajoelhando junto ao irmão. Tinha o rosto da cor da cal e agarrou-lhe suavemente na mão.

       - Nicolai... - sussurrou. - Amo-te... Sou eu, a Zoya...

       - O que estás a fazer aqui? - A voz dele mal se ouvia e Eugenia apercebeu-se, ao olhá-lo, que ele já não as via.

       - Zoya - ordenou num tom de general que comanda os seus homens -, rasga o meu saiote... depressa... - De começo com suavidade, a jovem puxou as saias da avó, mas, ante a voz de comando, redobrou a força e, quando a avó se liberrou da roupa, Zoya rasgou-a em tiras e ficou a observá-la a ligar as feridas do irmão. A avó tentava deter a hemorragia, mas era tarde de mais e Konstantin chorava e ajoelhou-se para o beijar.

       - Papá?... Estás aí, papá? - Parecia novamente tão jovem.

       - Papá... amo-te... Zoya... sê boa rapariguinha...

       Sorriu-lhes e morreu nos braços do pai. Konstantin beijou-lhe os olhos e fechou-os com suavidade. Chorava desabaladamente, abraçando o filho que tanto amara, com o colete ensopado pelo seu sangue. Zoya mantinha-se lavada em lágrimas ao seu lado, e as mãos de Eugenia tremiam, sem, contudo, o desprender. Depois, virou-se devagar e fez sinal aos homens para que os deixassem a sós com o seu desgosto.

       Nesse momento chegou o médico e tentava reanimar Natalya, que continuava inerte na ombreira da porta. Levaram-na até aos seus aposentos no andar superior e Feodor manteve-se ali, com as lágrimas correndo livremente, enquanto um grito de lamento percorreu o átrio. Todos os criados haviam acorrido... tarde de mais para o socorrer.

       - Anda, Konstantin. Tens de deixar que o levem para cima Eugenia afastou meigamente o filho e conduziu-o até à biblioteca, onde o sentou numa cadeira e lhe serviu um brande.

       Nada podia dizer para minorar a dor e nem sequer tentou. Fez sinal a Zoya para que se mantivesse por perto e, ao dar-se conta da palidez da neta, forçou-a a beber um gole do brande do seu próprio copo.

       - Não, avó... não... por favor... - Engasgou-se com os vapores, mas a avó forçou-a a beber e depois virou-se novamente para Konstantin.

       - Ele era tão jovem... Meu Deus... meu Deus... mataram-no... - Abraçou-o, enquanto ele se balouçava na cadeira para trás e para a frente, chorando o seu filho único.

       Zoya lançou-se subitamente nos seus braços, agarrando-o como se ele fosse o seu único apoio no mundo e só conseguia pensar naquela tarde em que chamara «idiota» a Nicolai... e agora ele estava morto... o seu irmão estava morto... Fitou o pai, horrorizada.

       - O que está a acontecer, papá?

       - Não sei, pequenina... Mataram o meu filho... - Agarrou-a com força, enquanto ela chorava nos seus braços, e um pouco depois levantou-se e deixou-a aos cuidados da avó. - Leve-a para casa consigo, mamã. Tenho de ir ver como está a Natalya.

       - Está bem - respondeu Eugenia, muito mais preocupada com o filho do que com a idiota da mulher. Receava que a perda de Nicolai o destruísse. Estendeu a mão, tocou-lhe novamente e ele fitou-a bem nos olhos, uns olhos de grande sabedoria e que exibiam um incomensurável desgosto.

       - Oh, mamã! - exclamou e abraçou-a longamente, ao mesmo tempo que Eugenia estendia a mão e incluía Zoya naquele abraço.

       Depois, Konstantin soltou-se devagar e subiu as escadas que levavam aos aposentos da mulher. Zoya deixou-se ficar no átrio, seguindo-o com o olhar. O sangue de Nicolai tinha sido lavado do chão de mármore, o tapete fora retirado e ele jazia, silencioso e frio, na sala onde vivera desde a juventude. Nascera e morrera ali no breve espaço de vinte e três anos e com ele desaparecia um mundo que todos conheciam e amavam.

       Era como se nenhum deles pudesse voltar a encontrar a tranqüilidade. Eugenia sabia-o quando levou para o seu pavilhão Zoya, que tremia violentamente sob a capa, com os olhos cheios de choque e horror.

       - Tens de ser forte, miúda - retorquiu a avó no momento em que Sava avançou a correr ao encontro delas e Zoya recomeçou a chorar. - O teu pai vai precisar ainda mais de ti. E talvez... talvez nada volte a ser como dantes... para todos nós. Mas seja como for... - A voz tremeu-lhe ao pensar no neto moribundo nos seus braços, mas, embora a mão esguia lhe tremesse violentamente, abraçou Zoya e beijou-lhe a face macia – Lembra-te, miúda, quanto ele te amava...

      

       O dia seguinte foi um pesadelo. Nicolai estava deitado, lavado e limpo, no seu quarto da adolescência, vestido de uniforme e rodeado de velas. O Regimento Volinski amotinara-se, bem como o Semonovski, o Ismailovski, o Litovski, o Orarienbaum e, por fim, o mais orgulhoso de todos, o regimento do próprio Nicolai, a Guarda Preobrajenski. Todos eles se insurgiram. Viam-se por todo o lado bandeiras vermelhas erguidas bem alto e soldados com uniformes rasgados e bem longe dos homens que haviam sido outrora...

       Também Sampetersburgo não era a mesma cidade. Nada voltaria a ser o mesmo, a partir do momento em que os revolucionários tinham incendiado os tribunais ao princípio da manhã. O arsenal no Liteiny não tardou a pegar fogo, e depois o Ministério do Interior, o edifício do governo militar, o quartel-general de Okhrana, a polícia secreta e vários postos de polícias foram destruídos. Todos os presos tinham sido libertos da prisão e, ao meio-dia, a Fortaleza de Pedro e Paulo estava também nas mãos dos rebeldes.

       Era óbvio que se impunha algo de desesperado, e o czar tinha de voltar rapidamente para nomear um governo provisório que assumisse de novo o controlo. Este parecia, contudo, um esquema improvável e, quando o grão-duque Miguel falou com ele nessa tarde no quartel-general de Mogilev, prometeu regressar de imediato.

       Não conseguia entender o que acontecera em Sampetersburgo durante os dias em que se ausentara e insistiu em voltar e ver tudo com os próprios olhos antes de nomear ministros que lidassem com a crise. Só compreendeu o que se passava quando o presidente da Duma lhe mandou uma mensagem nessa noite, informando-o de que as vidas da sua família corriam perigo. A própria imperatriz não compreendia. Mas nessa altura era demasiado tarde. Muito, muito tarde para todos.

       Lili Dehn só nessa tarde tinha ido visitar Alexandra a Tsarskoie Selo e encontrou-a totalmente ocupada a cuidar das crianças doentes. Lili falou das desordens nas ruas e ela continuava sem entender que se tratava realmente de uma revolução e não de um mero motim.

       Na manhã seguinte e no meio de uma tempestade de neve, o general Khabalov enviou uma mensagem à czarina. Insistia em que ela viajasse imediatamente com as crianças. Mantinha um cerco ao Palácio de Inverno em Sampetersburgo com quinze mil homens fiéis, mas ao meio-dia todos o abandonaram. E, mesmo assim, a imperatriz não compreendeu. Recusou sair de Tsarskoie Selo antes que Nicolau voltasse. Sentia-se a salvo com os seus marinheiros mais leais, a Garde Equipage por perto, além de que as crianças estavam demasiado doentes para viajar. Nessa altura, Marie também desenvolvera uma pneumonia.

       Nesse mesmo dia, as mansões em redor da cidade foram saqueados e incendiadas, e Konstantin mandou todo o pessoal enterrar prata, ouro e ícones no jardim. Zoya foi fechada no pavilhão da avó com todas as criadas e puseram-se a coser freneticamente jóias nos forros da roupa de Inverno mais pesada.

       Natalya percorria a casa aos gritos. Entrava e saía do quarto de Nicolai, onde o corpo do filho permanecia. As tentativas para o enterrar eram impossíveis com o eclodir da revolução à volta deles.

       - Avó - sussurrou Zoya, enfiando um pequeno brinco de diamantes num botão que ia coser num vestido. - Avó... O que vamos fazer agora? - Enquanto tentava levar a tarefa a cabo embora os dedos lhe tremessem, tinha os olhos arregalados de medo, ouvindo os disparos ao longe.

       - Não podemos fazer nada até acabarmos isto... Despacha-te, Zoya... Assim... Cose as pérolas no meu casaco azul. - A idosa senhora trabalhava com frenesi, estranhamente calma, e Konstantin estava no Palácio de Inverno com Khabalov e o resto dos homens leais. Deixara-as de manhã cedo para ir até lá.

       - O que faremos com... - Era-lhe impossível pronunciar o nome do irmão, mas parecia-lhe horrível deixá-lo ali, enquanto cosiam pérolas nas bainhas dos vestidos da avó.

       - Cuidaremos de tudo a devido tempo. Agora, fica calma, miúda. Temos de esperar por notícias do teu pai.

       Sava conservava-se ganindo aos pés de Zoya, como se soubesse que a sua própria vida estava em risco. No começo dessa manhã, a velha condessa tentara trazer Natalya até ao pavilhão para junto dela, mas ela recusara abandonar a casa. Parecia meio louca e tentava falar com o filho morto, garantindo-lhe que tudo estava em ordem e o pai em breve regressaria a casa.

       Eugenia deixara-a na casa e levara a criadagem para casa dela a fim de fazerem o máximo, antes que os amotinados irrompessem e levassem tudo. Eugenia já tinha ouvido dizer que a mansão de Kschessinska fora saqueada e ia tentar salvar o que pudesse antes que chegassem ali. Cosia e interrogava-se sobre se conseguiriam chegar a Tsarskoie Selo.

       Em Tsarskoie Selo, a imperatriz não tinha mãos a medir. As crianças continuavam febris, Marie era o caso mais grave e Anna também estava doente. Os soldados rebeldes apareceram na aldeia ao fim dessa tarde; porém, receosos da guarda do palácio, contentaram-se em saquear a aldeia e disparar contra tudo e todos que lhes surgiam pela frente.

       As crianças ouviam os tiros dos seus quartos, e Alexandra reafirmava que eram apenas soldados em manobras. Contudo, nessa noite, mandou recado a Nicolau, implorando-lhe que regressasse a casa. Continuando sem entender quanto todos estavam desesperados, ele optou por voltar pelo caminho mais longo, sem querer interferir com as estradas usadas pelos comboios de tropas.

       Aos seus olhos, era inconcebível que já não tivesse um exército leal. Tanto a Garde Equipage como a guarda imperial, na sua maioria constituída por amigos pessoais, cuja missão sempre havia sido proteger o czar, a czarina e os seus filhos, tinham abandonado os postos. Os próprios soldados da guarnição de Tsarskoie Selo haviam optado pela deserção e traição. E Sampetersburgo caíra. Era quarta-feira, 14 de Março, e um mundo inteiro mudara de uma noite para outra. Tomava-se quase impossível conceber as implicações a nível geral.

       Os ministros e generais incitavam Nicolau a que abdicasse a favor do filho, mantendo o grão-duque Miguei como regente.

       Contudo, os frenéticos telegramas que eram mandados a Nicolau no seu regresso da frente, explicando-lhe a situação, não obtinham resposta.

       E no meio do seu silêncio, Zoya e a avó também não recebiam notícias. Há dois dias que Konstantin não aparecia em casa e era impossível saber dele. Só quando, por fim. Feodor se atreveu a percorrer as ruas, é que lhes trouxe as terríveis notícias que Eugenia temia há dias. Konstantin estava morto. Morrera no Palácio de Inverno juntamente com as últimas tropas leais, assassinado pelos seus próprios homens. Nem sequer havia um cadáver para trazer. Fora levado como muitos outros.

       Feodor regressou com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto e soluçava sem parar, contando a Eugenia o que acontecera a Konstantin. Zoya fitava-o, horrorizada, ouvindo o relato, e a avó girou sobre os calcanhares e ordenou às criadas que cosessem mais depressa.

       Nessa altura, todas as suas jóias e as de Natalya tinham sido escondidas e o resto teria de ficar para trás, pois tomara uma rápida decisão. Enterrariam Nicolai no jardim. Eugenia, Feodor e três dos homens mais novos, regressaram à casa e entraram silenciosamente no quarto. Há três dias que ele estava morto e não podiam esperar mais. Eugenia mantinha-se com uma expressão solene e de olhos secos, fitando-o e pensando no seu próprio filho. Era demasiado tarde para lágrimas; queria chorar por todos eles, mas agora tinha de pensar em Zoya e também em Natalya, em prol de Konstantin.

       Quando se preparavam para transportar o corpo, Natalya apareceu como um fantasma, deslizando pelos corredores, vestida com um comprido roupão branco, despenteada e olhando-os com uma expressão desvairada.

       - Onde vão com o meu menino? - Fitou a sogra com um olhar imperioso e todos perceberam que enlouquecera. Nem sequer parecia reconhecer Zoya. - O que estão a fazer, idiotas? - Estendeu a mão semelhante a uma garra para impedir os homens de o levarem, mas a velha condessa agarrou-a.

       - Tens de vir conosco, Natalya.

       - Mas para onde levam o meu menino?

       Eugenia não lhe respondeu, pois apenas a confundiria ainda mais ou provocaria um ataque de histeria. Sempre tivera um espírito fraco e, sem Konstantin para a defender da verdade, deixara de conseguir agüentar a situação. Estava completamente louca e Zoya percebeu, ao olhá-la.

       - Veste-te, Natalya. Vamos embora.

       - Para onde?

       Zoya ficou pregada ao chão, ao ouvir a resposta.

       - Para Tsarskoie Selo.

       - Mas não podemos. É Verão, e estão todos em Livadia.

       - Também iremos até lá. Contudo, primeiro temos de passar por Tsarskoie Selo. Agora, vamos vestir-nos, não vamos? - Agarrou-lhe num dos braços com firmeza e fez sinal a Zoya para que lhe agarrasse no outro.

       - Quem és tu? - Soltou o braço da jovenzinha assustada e só os olhos severos da avó impediram Zoya de fugir, aterrorizada, da mulher que fora sua mãe. - Quem são vocês? - repetia sem cessar para ambas, e a idosa mulher respondia-lhe com calma.

       No espaço de quatro dias perdera o filho e o neto em prol de uma revolução que nenhum deles compreendia inteiramente. Contudo, agora não havia tempo para questionar. Sabia que tinham de abandonar Sampetersburgo, antes que fosse tarde de mais. E sabia que, pelo menos em Tsarskoie Selo, estariam a salvo. Todavia, Natalya recusava-se a colaborar. Insistia em querer ficar, em que o marido chegaria a qualquer momento e dariam uma festa.

       - O teu marido espera-te em Tsarskoie Selo - mentiu Eugenia e um arrepio percorreu o corpo de Zoya, ante tudo o que acontecia à volta dela. Com uma força que nunca julgara possível na avó, ela envolveu Natalya numa capa e forçou-a a descer as escadas e a sair pelas traseiras até ao jardim, quando ouviram um som retumbante.

       Os saqueadores tinham chegado e abriam caminho à força até ao Palácio Fontanka. - Depressa - sussurrou Eugenia à jovem, que ainda no dia anterior era uma criança. - Procura o Feodor. Diz-lhe que apronte os cavalos... a velha tróica do teu pai!

       Em seguida, a idosa senhora avançou rapidamente até ao pavilhão, ofegante e agarrando no braço de Natalya. Gritava às criadas, ordenando-lhes que reunissem todas as roupas onde estavam cosidas as jóias e as metessem em sacos. Não tinham tempo para fazer malas. Tudo o que podiam levar... teria de ir na tróica.

       Enquanto dava ordens, vigiava o palácio do outro lado do jardim.

       Sabia que era apenas uma questão de tempo até abandonarem o palácio e chegarem ao pavilhão. Contudo, apercebeu-se subitamente de que Natalya já não estava ao seu lado e, ao dar meia volta, avistou uma figura de branco atravessando o jardim. Pôs-se a correr atrás da nora, mas era tarde de mais. Natalya regressara ao palácio. Quase em simultâneo, Eugenia avistou chamas saindo pelas janelas do andar superior e ouviu a respiração arquejante de Zoya nas suas costas.

       - Avó! - E, então, ambas viram a figura de branco a correr de janela em janela. Natalya movia-se por entre as chamas gritando e rindo e falando como que para os amigos. Era uma visão horrível e Zoya dispunha-se a correr para a porta, mas a avo agarrou-a.

       - Não! Não podes ajudá-la, agora! Há homens lá com ela. Matar-te-ão, Zoya!

       - Não posso deixar que a matem... Não posso!... Avó! Por favor! - Soluçava e debatia-se com uma força que a avó mal conseguia controlar, mas nesse preciso momento apareceu Feodor.

       - A tróica está pronta... por detrás das sebes... - Optara inteligentemente por fazer deslizar a tróica até uma rua lateral, de forma a que os saqueadores não os vissem do palácio.

       - Avó! - Zoya continuava a lutar e, de súbito, a avó esbofeteou-a.

       - Pára! Ela já está morta!... Temos de partir agora! - Não havia tempo a perder. Já avistara vários rostos perscrutando o jardim das janelas mais baixas do palácio.

       - Não posso deixá-la ali! - Implorava à avó que a largasse, mas a idosa mulher não cedeu.

       - Tens de fazê-lo! - Depois, a voz suavizou-se-lhe e apertou-a fortemente por instantes. Nesse momento, ouviu-se um som terrível, semelhante a uma explosão. Todo o andar superior estava agora em chamas e, quando se viraram, viram Natalya saltar, com o roupão branco em chamas, da janela de cima. Seria impossível sobreviver entre as chamas e a queda. A vida de Natalya chegara obviamente ao fim e era uma bênção para ela. Jamais recuperaria da dupla perda do marido e do filho e todo o mundo se desfizera em pedaços à sua volta.

       - Venham depressa! - pressionou Feodor e, com um rápido movimento, a velha condessa ergueu Sava do chão, colocou-a nos braços de Zoya e empurrou-a pela porta até à tróica que as aguardava.

      

       Quando a tróica se pôs em movimento, Zoya virou-se e avistou as chamas erguendo-se acima das árvores, devorando o que outrora fora a sua casa e era agora somente o invólucro da sua antiga vida. Todavia, momentos depois, Feodor guiou-as com perícia através das ruelas; as duas mulheres conservavam-se abraçados, com os sacos aos pés, cheios das roupas que tinham levado, as jóias ocultas nos forros e a pequena Sava tremendo de frio no colo de Zoya.

       Havia soldados nas ruas, mas nenhum tentou detê-los enquanto prosseguiam na direção dos arredores da cidade. Era quinta-feira, 15 de Março, e muito longe, em Pskov, o czar Nicolau lia os telegramas enviados pelos seus generais, dizendo-lhe que devia abdicar. O rosto denotava uma palidez de morte ao aperceber-se da traição que o rodeava, mas não estava mais pálido do que Zoya, que observava Sampetersburgo perder-se à distância.

       Passaram mais de duas horas antes de se verem nas estradas que levavam a Tsarskoie Selo e muito mais tempo antes de lá chegarem. Não tiveram notícias ao longo do percurso, nem um melhor entendimento do que acontecera. Zoya apenas conseguia pensar na imagem da mãe, com a roupa em chamas quando saltara para a morte das janelas do andar superior... e do irmão, como devia estar no momento em que as chamas o envolveram, morto no quarto onde tantas vezes o visitara em criança... Nicolai... «Idiota», chamara-lhe.

       Interrogou-se sobre se alguma vez se perdoaria... Ainda no dia anterior... quando tudo estava bem e a vida era normal.

       Tinha a cabeça enrolada num velho xale, os ouvidos doíam-lhe do frio, fazendo-a pensar em Olga e Tatiana e nas dores de ouvidos provocadas pelo sarampo. Esses simples acidentes haviam sido a sua vida há poucos dias atrás... Coisas insignificantes e estúpidas como febres, dores de ouvidos e sarampo.

       Mal conseguia raciocinar, enquanto a avó lhe agarrava firmemente a mão e ambas se interrogavam em silêncio sobre o que encontrariam em Tsarskoie Selo. A aldeia recortou-se diante dos seus olhos, à tarde, e Feodor deu algumas voltas em redor.

       Soldados disperses mandaram-nos parar duas vezes e por um momento Feodor pensou em dar mais velocidade à tróica. Contudo, sabia intuitivamente que todos podiam ser abatidos se o fizesse; portanto, abrandou e disse que transportava uma velha doente e a sua neta idiota.

       As duas mulheres fitaram os homens com um olhar vago, como se nada tivessem a esconder, e a idosa condessa sentiu-se grata por Feodor haver pensado em levar o trenó mais velho com a pintura estragado, mas cavalos em bom estado. Já não o usavam há anos e, embora tivesse sido bonito, deixara de o ser. Apenas os cavalos de extrema beleza sugeriam indícios de riqueza, e o segundo grupo de soldados aliviaram-nos de dois dos melhores cavalos pretos de Konstantin. Chegaram aos portões de Tsarskoie Selo com um único cavalo que se empinava, nervoso, puxando a velha tróica. A Guarda Cossaca não se via em parte alguma, não havia guardas, apenas uns soldados com ar de poucos amigos.

       - Identifiquem-se - gritou-lhes rudemente um homem, e Zoya ficou aterrorizada; porém, quando Feodor iniciou o costumado relato, Eugenia pôs-se de pé na parte de trás da tróica. Estava vestida com simplicidade, como Zoya, apenas com um velho xale a tapar-lhe o cabelo, mas emanava um ar imperial quando o fitou do alto e puxou Zoya para trás de si.

       - Eugenia Peterovna Ossupov. Sou uma velha mulher e prima do czar. Querem alvejar-me?

       Tinham-lhe morto o neto e o filho e, se quisessem matá-la agora, seriam bem-vindos. Estava, contudo, preparada para os matar antes, se pusessem um dedo em Zoya. A jovem não sabia, mas a avó tinha um pequeno revólver de cano de madrepérola escondido na manga e estava disposta e preparada para o usar.

       - Não há czar - retorquiu irado o homem, com uma faixa vermelha no braço, parecendo, de súbito, mais ameaçadora do que dantes. O coração da velha condessa batia acelerado, e Zoya estava aterrorizada. «O que pretendia dizer? Tinham-no morto?... Eram quatro da tarde... quatro da tarde e todo o mundo ruíra... mas Nicolau... também o teriam morto?... Como a Konstantin e Nicolai?»

       - Preciso de ver a minha prima Alexandra. - Eugenia expressava-se num tom imperial da cabeça aos pés, sem desviar os olhos do soldado. - E os filhos. - «Ou também os teriam morto?» O coração de Zoya batia desenfreadamente e sentava-se, gelada, por detrás das saias da avó, assustadíssima, enquanto Feodor se conservava de pé, tenso e observando em silêncio. Seguiu-se uma enorme pausa correspondente à avaliação do soldado, que recuou subitamente, falando aos compatriotas por cima do ombro.

       - Deixem-nas passar. Mas lembra-te, velha - acrescentou, virando-se para ela com uma expressão dura -, que já não existe czar. Abdicou há uma hora, em Pskov. Esta é uma nova Rússia.

       Com estas palavras, afastou-se para lhes dar passagem e, esperando cortar-lhe os dedos dos pés, Feodor fustigou o cavalo da tróica. Uma nova Rússia... um final a uma antiga vida... o velho e o novo fundindo-se numa horrível confusão, enquanto Eugenia se sentava, muito pálida, ao lado da neta. Zoya sussurrou-lhe ao passarem junto à Igreja Fedorovski, incapaz de acreditar no que tinha ouvido. O tio Nicolau não o faria...

       - Acha que é verdade, avó?

       - Talvez. A Alix vai contar-nos o que aconteceu.

       Contudo, reinava um estranho silêncio nas portas da frente do Palácio Alexandre. Não havia guardas, nenhuma proteção, não se via ninguém e, quando Feodor bateu com força à enorme porta do palácio, apareceram duas criadas nervosas e deixaram-nos entrar.

       O átrio parecia terrivelmente vazio.

       - Onde está toda a gente? - perguntou a velha condessa, e uma das criadas apontou para a ombreira da porta que Zoya conhecia tão bem e levava aos aposentos privados do andar superior. A mulher limpou com a ponta do avental as lágrimas que lhe corriam pela face e, por fim, respondeu:

       - A imperatriz está lá em cima com as crianças.

       - E o czar? - Os olhos verdes de Eugenia fixaram-se com intensidade na mulher que chorava desesperada.

       - Não ouviram?

       «Oh, meu Deus, não...», rezou Zoya.

       - Consta que abdicou a favor do irmão. Foi o que os soldados nos disseram há uma hora. Sua Alteza não acredita.

       - Mas então está vivo? - replicou Eugenia, sentindo uma onda de alívio a percorrer-lhe o corpo.

       - Pensamos que sim.

       - Graças a Deus. - Enrolou as saias à sua volta e deitou um olhar severo a Zoya. - Diz ao Feodor que traga tudo para dentro. Não queria que os soldados tocassem nas roupas, que tinham as jóias cosidas nos forros.

       Quando Zoya regressou, momentos depois, acompanhada por Feodor, a avó ordenou à criada que as conduzisse lá acima, até junto da czarina.

       - Sei o caminho, avó. Eu levo-a. - E atravessou sem ruído os corredores que tão bem conhecia, os corredores que ainda há dias percorrera com a amiga.

       O Palácio Alexandre apresentava-se misteriosamente calmo quando conduziu a avó ao andar superior e bateu ao de leve à porta de Marie; porém, não obteve resposta. Tinham-na mudado para uma das salas de estar da mãe, a fim de ser tratada com Anna Virubova e as irmãs.

       Foram avançando pelo corredor, batendo às portas, até que, por fim, ouviram vozes. Zoya esperou até as mandarem entrar e a porta abriu-se devagar, revelando Alexandra de pé, alta e magra, estendendo uma xícara de chá a uma das filhas mais novas.

       Anastasia tinha lágrimas nos olhos quando se virou para a porta e Marie sentou-se na cama e pôs-se a chorar ao ver Zoya.

       Zoya estava demasiado comovida para falar; atravessou a sala a correr e lançou-se nos braços da amiga, ao mesmo tempo que Eugenia beijava a prima, morta de cansaço.

       - Meu Deus, prima Eugenia! Como chegaram aqui? Estás bem?

       Até mesmo a idosa condessa sentiu dificuldade em falar quando beijou a alta e elegante mulher, que tinha um ar tão desesperadamente cansado. Os olhos cinzento-claros pareciam transbordar de uma vida de tristeza.

       - Viemos ajudar-te, Alix. E não podíamos ficar mais tempo em Sampetersburgo. Incendiaram a casa esta manhã, quando nos viemos embora. Partimos muito à pressa.

       - Não consigo acreditar... - Alexandra deixou-se afundar numa cadeira. - E o Konstantin?

       O rosto da idosa mulher empalideceu e o coração bateu acelerado sob o pesado vestido. Sentiu repentinamente o peso de tudo o que perdera e receou desmaiar aos pés da mulher mais jovem, mas não se podia permiti-lo ante tudo o que Alix tinha de suportar.

       - Morreu, Alix... - A voz falhou-lhe, mas não chorou. - E o Nicolai também... no domingo... A Natalya morreu quando a casa pegou fogo esta manhã. - Não lhe disse que a nora enlouquecera antes de saltar da janela, envolta em chamas. - É verdade o que dizem... sobre o Nicolau? - Receava perguntar, mas era necessário.

       Tinham de saber. Era tão difícil perguntar o que acontecera.

       - Quanto à abdicação? É impossível. Falam disso para nos assustar... mas hoje ainda não tive notícias dele. - Fitou as duas filhas que abraçavam Zoya, e as três jovens choravam. Zoya, acabara de lhes contar o sucedido com Nicolai e soluçava nos braços de Marie. Mesmo doente como estava, Marie consolava a amiga e nenhuma delas parecia reparar nas duas mulheres mais velhas. Todos os nossos soldados nos abandonaram... até mesmo... - A imperatriz quase parecia incapaz de pronunciar as palavras. - Até mesmo o Derevenko abandonou o Baby. - Era um dos dois soldados que estivera com o filho desde que ele nascera. Deixara-os ao romper dessa manhã sem uma palavra, ou um olhar por cima do ombro. O outro, Nagomy, tinha jurado ficar ao lado de Alexis até que o matassem e estava agora junto dele no quarto ao lado, com o Dr. Fedorov. O Dr. Botkin saíra para tentar encontrar mais medicamentos para as raparigas com Gibbes, um dos seus dois tutores. - É impossível compreender... os nossos marinheiros... Não consigo acreditar. Se, ao menos, o Nicolau estivesse aqui...

       - Ele virá, Alix. Temos de manter a calma. Como estão as crianças?

       - Estão todas doentes... De início, não consegui dizer-lhes. Mas agora sabem... Era impossível ocultar-lhes a verdade por mais tempo. - Suspirou e em seguida acrescentou: - O conde Benckendorff está aqui, jurou proteger-nos, e a baronesa Buxhoeveden chegou ontem, de manhã. Ficam, Eugenia Peterovna?

       - Se possível. Não temos hipótese de voltar a Sampetersburgo, agora... - Omitiu «se é que teremos». O mundo decerto voltaria a reerguer-se. Quando Nicolau voltasse... As notícias da sua abdicação eram sem dúvida uma mentira espalhada por revolucionários e traidores para os assustar e controlar.

       - Podes ficar no quarto da Mashka, se quiseres. E a Zoya...

       - Dormiremos juntas. O que posso fazer para te ajudar, Alix? Onde estão as outras? - A imperatriz esboçou um sorriso agradecido quando a idosa prima do marido despiu a capa e enrolou com cuidado as mangas do vestido simples que pusera.

       - Vai descansar. A Zoya fará companhia às raparigas, enquanto me ocupo dos outros.

       - Irei contigo. - E a velha senhora acompanhou-a firmemente durante todo o dia, servindo chá, refrescando testas febris e ajudando mesmo Alix a mudar os lençóis de Alexis, sem que Nagorny saísse lealmente do lado dele. Tal como Alix, também Eugenia tinha dificuldade em acreditar que Derevenko realmente o abandonara.

       Era quase meia-noite quando Zoya e a avó se enfiaram na cama, no quarto de Marie e Anastasia, e Zoya manteve-se acordada durante horas, ouvindo a avó que ressonava um pouco. Parecia-lhe impossível que ainda há menos de três semanas tivesse visitado Marie naquele mesmo quarto e Marie lhe oferecesse um frasco do seu perfume favorito, agora desaparecido, quando tudo se despedaçara à volta delas.

       Apercebera-se também de que nenhuma das raparigas tinha perfeita consciência do que acontecera. Nem ela própria estava muito segura de o compreender, mesmo depois de tudo o que vira em Sampetersburgo. Contudo, haviam estado tão doentes e encontravam-se tão afastadas da desordem das ruas, das revoltas, dos assassínios, dos saques. A visão da sua casa em chamas ameaçava ficar... bem como a visão do irmão a esvair-se em sangue no chão de mármore do Palácio Fontanka, há quatro dias. Era de manhã quando Zoya adormeceu. Uma nova tempestade de neve rugia lá fora e interrogou-se sobre quando o czar regressaria a casa e se a vida alguma vez voltaria à normalidade.

       Contudo, às cinco dessa tarde, a hipótese parecia inviável. O grão-duque Paul, o tio de Nicolau, apareceu em Tsarskoie Selo e trouxe notícias a Alexandra. Nicolau abdicara no dia anterior, transmitindo o poder ao seu irmão, o grão-duque Miguel, que tinha sido completamente apanhado de surpresa e não estava preparado para ocupar o trono.

       Apenas Alix e o Dr. Fedorov compreendiam de fato por que razão Nicolau não abdicara a favor do filho, mas do irmão. A gravidade da doença de Alexis era um segredo bem guardado. Estava a formar-se um governo provisório e Alexandra ouviu as notícias em silêncio e desejou de todo o coração poder falar com o marido.

       Nicolau chegou ao quartel-general em Mogilev na manhã seguinte para se despedir das suas tropas e foi daí que conseguiu, por fim, telefonar à mulher. O telefonema chegou quando Alexandra estava a ajudar o Dr. Botkin a cuidar de Anastasia e voou do quarto para lhe falar, rezando para que ele lhe dissesse que nada daquilo era verdade, mas o som da voz dele deitou-lhe todas as esperanças por terra.

       A vida deles, todos os sonhos e a dinastia estavam destruídos. Prometeu voltar assim que possível e, como sempre, inteirou-se com afeto sobre os filhos. E na noite seguinte, domingo, o general Kornilov deslocou-se de Sampetersburgo para saber se eram necessários medicamentos ou comida, e o primeiro pensamento dela foi para os soldados. Implorou-lhe que ajudasse a providenciar remédios e comida para os hospitais. Depois de os tratar durante tanto tempo, não conseguia esquecê-los, mesmo quando já não eram os «seus» soldados. O general garantiu-lhe que o faria e algo na visita lhe sugeriu que o pior estava para vir.

       Nessa noite, avisou Nagorny que não abandonasse a cabeceira de Baby e ficou sentada com as filhas até altas horas. Passava da meia-noite quando, por fim, recolheu ao quarto e a velha condessa bateu-lhe ao de leve na porta e levou-lhe uma xícara de chá. Ao detectar as lágrimas nos olhos da mulher mais nova, pôs-lhe suavemente as mãos nos ombros.

       - Há algo que possa fazer por ti, Alix?

       Ela abanou a cabeça, ainda orgulhosa, ainda austera, e agradeceu-lhe com os olhos.

       - Só queria que ele voltasse para casa. Subitamente... temo pelas crianças aqui. - Também Eugenia partilhava esse sentimento, mas não queria admiti-lo frente à sua jovem prima.

       - Estamos todos junto de ti. - Mas «todos» eram tão poucos, um punhado de mulheres idosas e amigos leais que podiam contar-se pelos dedos de uma mão. Tinham sido abandonados por todos, e o golpe tornava-se quase insuportável. Sabia, porém, que não podia ir abaixo agora. Tinha de manter-se forte pelo marido. - Agora, precisas de dormir um pouco, Alix.

       Alexandra passeou o olhar nervoso pelo famoso quarto em tons de malva e depois fixou, tristemente, a idosa mulher.

       - Há umas coisas que quero fazer... Tenho de... - As palavras saíam-lhe com dificuldade. - Quero queimar os meus diários esta noite... e as minhas cartas... Quem sabe se encontrarão qualquer maneira de usá-los contra ele.

       - É claro que não podem... - Mas, ao pensar na hipótese, Eugenia achou que concordava com Alexandra. - Queres que te faça companhia? - Não queria intrometer-se, mas a imperatriz parecia tão desesperada e só.

       - Gostaria de ficar só, se não te importas.

       - Compreendo - redargüiu e abandonou Alexandra à sua desafortunada tarefa.

       A imperatriz ficou sentada junto à lareira até de manhã, a ler cartas e diários, e queimando até mesmo as cartas da sua avó, a rainha Vitória. Queimou tudo à exceção da correspondência com o seu querido Nicolau e, durante dois dias, O desgosto foi criando raízes até quarta-feira, quando o general Kornilov regressou e pediu para lhe falar a sós.

       Encontraram-se, lá em baixo, numa das salas freqüentemente usadas por Nicolau. Tentou dissimular orgulhosamente a surpresa e a dor ao ouvir as palavras. Colocavam-na sob detenção domiciliária juntamente com a família, a criadagem e as crianças.

       Não queria acreditar, mas agora era inevitável. O fim chegara e todos tinham de enfrentá-lo. O general explicou que todos os que quisessem poderiam ficar, mas que, se optassem por ir embora, jamais regressariam a Tsarskoie Selo. Eram notícias horríveis e fez apelo a todas as suas forças para não desfalecer.

       - E o meu marido, general?

       - Pensamos que estará aqui de manhã.

       - E vão prendê-lo? - Sentiu um mal-estar físico ao formular a pergunta, mas agora tinha de saber. Precisava de saber tudo, o que poderiam esperar e o que enfrentavam. E depois de todos os relatos que ouvira nos últimos dias, supunha que deveria estar agradecida por não os terem morto a todos, mas, diante dos acontecimentos, a gratidão tornava-se difícil.

       - O seu marido ficará sob detenção domiciliária, aqui em Tsarskoie Selo.

       - E depois? - inquiriu com uma palidez de morte, mas a resposta não foi tão terrível quanto receara. Nesse momento apenas conseguia pensar no marido e nos filhos, na segurança e na vida deles. De bom grado se teria sacrificado por eles. Faria tudo, e o general Kornilov observava-a com uma admiração silenciosa.

       - O Governo Provisório deseja acompanhá-la, ao seu marido e à sua família a Murmansk. Poderá partir daqui. Enviá-la-emos de barco para Inglaterra, para o rei Jorge.

       - Percebo. E quando? - Denotava uma expressão gelada.

       - Mal possam tomar-se disposições, madame.

       - Muito bem. Esperarei a chegada do meu marido para comunicar às crianças.

       - E os outros?

       - Direi hoje a todos que se quiserem têm liberdade para ir embora, mas não podem voltar. Está bem assim, general?

       - Certamente.

       - E não fará mal a nenhum dos nossos familiares e fiéis amigos quando partirem, os poucos que restam?

       - Dou-lhe a minha palavra de honra, madame. - A palavra de um traidor em que lhe apetecia cuspir, mas manteve-se calma e senhoril, vendo-o afastar-se, e foi em seguida comunicar aos outros. Disse-lhes que eram livres de partir e incitou-os a fazê-lo, se o desejassem.

       - Não podemos esperar que fiquem, se não o desejarem. Partiremos para Inglaterra dentro de semanas e talvez seja mais seguro para vocês deixarem-nos agora... - Talvez mesmo antes do regresso de Nicolau. Não acreditava na totalidade que estivessem a colocá-los sob prisão domiciliária para os proteger.

       Contudo, os outros recusaram partir e, no dia seguinte, Nicolau regressou finalmente, com um ar extenuado e pálido, naquela manhã gelada e horrível. Entrou silenciosamente no átrio e por um longo momento limitou-se a ficar ali de pé. O pessoal comunicou de imediato a sua presença a Alix que desceu ao seu encontro e o fitou do outro lado da enorme entrada, os olhos cheios das palavras impossíveis de pronunciar, o coração pleno de compaixão pelo homem que amava. Nicolau avançou e tomou-a nos braços com força. Nada havia que pudessem dizer quando subiram devagar as escadas até junto dos filhos.

      

       Os dias seguintes ao regresso de Nicolau revelaram-se plenos de receio e de uma tensão silenciosa e ao mesmo tempo de alívio por ele estar em casa a salvo. Perdera tudo, mas, pelo menos, não o tinham morto. Sentou-se calmamente durante horas com o filho e Alexandra dedicou atenção às filhas. Era agora Marie quem estava mais doente, com uma pneumonia causada pelo sarampo. Tinha uma tosse horrível que lhe sacudia repetidamente todo o corpo e uma febre que parecia não baixar. Zoya nunca sala do lado dela.

       - Mashka... Bebe só um bocadinho... por mim...

       - Não posso... Dói-me muito a garganta. - Mal conseguia falar, e Zoya sentia-lhe a pele quente e seca ao tocar-lhe.

       Banhava-lhe a testa com água de rosas e falava-lhe em voz baixa sobre as partidas de tênis no Verão anterior, em Livadia.

       - Lembras-te daquela fotografia idiota que o teu pai tirou a todas, de cabeça para baixo? Trouxe-a comigo... Queres vê-Ia, Mashka?

       - Mais tarde... Doem-me muito os olhos, Zoya... Sinto-me pessimamente.

       - Chiu... Tenta dormir... Mostro-te a fotografia quando acordares. - Chegou mesmo a trazer a pequena Sava para a alegrar, mas Marie não se interessava por nada. Zoya só esperava que ela estivesse suficientemente bem para viajar até Murmansk e seguir de barco para Inglaterra.

       Partiriam dentro de três semanas e Nicolau disse que todos teriam de estar bem nessa altura. Chamava-lhe a sua última ordem imperial, o que provocou lágrimas em todos. Esforçava-se imenso por conseguir que todos se sentissem melhor e por manter as crianças felizes. Ele e Alix pareciam mais extenuados a cada dia que passava. Três dias mais tarde, Zoya avistou Nicolau de relance no corredor, e o rosto denotava uma palidez de cal. Uma hora depois soube o motivo. O seu primo inglês negara-se a recebê-lo por razões ainda não esclarecidos. Assim, a família imperial não partiria para Inglaterra. De início, pedira a Zoya e à velha condessa que os acompanhassem, mas agora ninguém sabia o que ia suceder.

       - O que vai acontecer, avó? - perguntou-lhe Zoya nessa noite, com um olhar aterrorizado. E se estivessem apenas a detê-los ali em Tsarskoie Selo para por fim os matarem?

       - Ignoro, miúda. O Nicolau dir-nos-á quando estiver decidido. Irão provavelmente para Livadia.

       - Acha que nos matarão?

       - Não sejas pateta. - Contudo, receava o mesmo. Deixara de haver respostas fáceis. Até os Ingleses lhe tinham retirado o tapete. Não havia outro lugar para onde irem, um lugar seguro.

       Achava que a estrada para Livadia era perigosa. Estavam encurralados em Tsarskoie Selo. E Nicolau parecia sempre tão calmo e incitava todos a que não se preocupassem, mas... como?

       Na manhã seguinte, quando Zoya saiu do quarto nos bicos dos pés e olhou através da janela, avistou Nicolau e a avó percorrendo devagar o jardim coberto de neve. Parecia não haver mais ninguém por perto e, ao observá-los, ele de ombros direitos e orgulhosos e a avó tão pequena, uma figura envolta numa capa preta sob a neve, julgou ver a avó a chorar. Em seguida, ele abraçou-a ternamente e desapareceram ambos atrás de uma esquina do palácio.

       Zoya dirigiu-se ao quarto que partilhavam e, pouco depois, a avó regressou, deixou-se cair numa cadeira com uma expressão triste e fitou a bonita neta. Há umas semanas atrás parecia ainda uma criança e agora, de súbito, ficara tão perspicaz e triste.

       Estava mais magra e parecia mais frágil, mas a avó sabia que os horrores das últimas semanas só a ajudariam a tomar-se mais forte.

       Precisaria da força dela. Todos precisariam.

       - Zoya... - Ignorava como lhe dizer, mas sabia que Nicolau estava certo. E tinha de pensar na segurança de Zoya. A jovem possuía uma longa vida pela frente e a avó de bom grado daria a sua para a proteger.

       - Passa-se alguma coisa, avó? - À luz do que acontecera nas duas últimas semanas, parecia uma pergunta ridícula, mas sentia que mais desgraças estavam iminentes.

       - Acabei de falar com o Nicolau, Zoya Konstantinovna... Ele quer que partamos já... enquanto ainda podemos...

       Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e levantou-se de um salto.

       - Porquê? - replicou. - Dissemos que ficaríamos com eles e eles vão partir em breve, não é, avó?... Não vão? - A idosa senhora não lhe respondeu. Pesava os pratos da balança da verdade e da mentira e a verdade ganhou como sempre.

       - Não sei. Dada a recusa dos Ingleses em recebê-los, o Nicolau. teme que as coisas não corram bem para eles. Sente que ficarão aqui prisioneiros, talvez por muito tempo, ou que os levarão para qualquer outro lado. Podemos ser eventualmente separados... e não pode oferecer-nos proteção, não a tem. E é impossível manter-te a salvo desses selvagens. Ele tem razão...

       Precisamos de ir... agora... enquanto ainda podemos. - Fitou tristemente a jovem que ainda há momentos fora uma criança; porém, não estava de forma alguma preparada para a dimensão da raiva de Zoya.

       - Não irei consigo! Não irei! Não os deixarei!

       - Tens de ir! Podes acabar na Sibéria, pequena idiota... sem eles! Temos de partir nos próximos dois dias. O Nicolau receia que a situação piore. Os revolucionários não o querem por aqui e, se os Ingleses não o aceitam, quem aceitará? É uma situação muito grave!

       - Então, morrerei com eles! Não pode obrigar-me a ir!

       - Posso fazer o que quiser e tens de obedecer-me, Zoya! É também essa a vontade do Nicolau! E não deves desobedecer às suas ordens! - Sentia-se quase demasiado cansada para enfrentar a jovem, mas sabia que tinha de apelar às suas últimas forças para a convencer.

       - Não deixarei a Marie aqui, avó. Ela está tão doente... e é tudo o que me resta... - Zoya pôs-se a soluçar e, qual rapariguinha, pousou a cabeça nos braços em cima da mesa. Era a mesma mesa onde ainda há um mês se sentara com Marie, quando ela lhe entrançara o cabelo e as duas haviam rido e conversado. Para onde fora esse mundo? O que acontecera a todos eles?... E Nicolai... a sua mãe e o pai...

       - Ainda me tens, pequenina... - A avó acariciou-lhe o cabelo, como Marie dantes o fizera. - Precisas de ser forte. É o que esperam de ti. Temos de fazer o que há a ser feito, Zoya.

       - Para onde iremos, então?

       - Ainda não sei. O Nicolau diz que toma as disposições necessárias. Talvez possamos ir para a Finlândia. E daí para França ou Suíça.

       - Mas lá não conhecemos ninguém! - exclamou com um ar aterrorizado e virando para Eugenia o rosto manchado de lágrimas.

       - Às vezes a vida é assim, minha querida. Temos de confiar em Deus e ir para onde o Nicolau nos manda.

       - Avó, não posso... - retorquiu, mas a avó mostrou-se firme.

       Era tão forte quanto o aço e duplamente resoluta. E Zoya não conseguia fazer-lhe frente, pelo menos por enquanto, e as duas sabiam-no.

       - Podes e irás e não deves dizer nada às crianças. Já têm problemas que cheguem. Não devemos sobrecarregá-las, nem seria justo.

       - O que direi à Mashka?

       Os olhos da velha senhora encheram-se de lágrimas ao fitar a neta que tanto amava e ao responder-lhe num sussurro pleno da sua própria tristeza pelos que haviam perdido e os que agora perderiam.

       - Diz-lhe apenas quanto gostas dela.

      

       Zoya entrou nos bicos dos pés no quarto onde Marie dormia e deteve-se um longo momento a observá-la. Detestava acordá-la, mas não conseguia ir-se embora sem se despedir. Não suportava a idéia de a deixar, mas agora era impossível voltar atrás. A avó esperavas lá em baixo e Nicolau planeara tudo para elas.

       Deveriam seguir pela longa estrada escandinava, através da Finlândia e Suécia, e em seguida Dinamarca. Dera a Eugenia os nomes de amigos da sua tia dinamarquesa e Feodor acompanhá-las-ia para as proteger. Tudo fora decidido. Apenas restava um último adeus à amiga. Observou-a a mexer-se, febril, sob os lençóis e depois Marie abriu os olhos e Zoya esforçou-se corajosamente por conter as lágrimas.

       - Como te sente? - sussurrou no quarto silencioso. Embora Anastasia estivesse a dormir noutro quarto com as suas duas irmãs, todas melhoravam lentamente. Só Marie continuava muito doente, mas Zoya tentou não pensar nisso naquele momento. Não podia pensar em nada, não podia permitir-se olhar para trás nem para a frente, não havia nada por que ansiar. Havia apenas... um curtíssimo momento com a sua mais querida amiga... e estendeu a mão, tocando-lhe na face. - Mashka... - Marie tentou sentar-se na cama e fitou a amiga com um olhar estranho.

       - Passa-se alguma coisa?

       - Não... Vou... vou regressar a Sampetersburgo com a minha avó. - Prometera a Alix que não lhe diria a verdade, pois seria demasiado duro para ela nessa altura. Contudo, Marie parecia preocupada. Sempre tivera um sexto sentido em relação à amiga, como era agora o caso. Estendeu o braço e agarrou na mão de Zoya, prendendo-a com força na sua mão febril.

       - É seguro?

       - Claro - mentiu Zoya, atirando o cabelo ruivo para trás. O teu pai não nos deixaria ir se não fosse seguro... - «Por favor, meu Deus, não permitas que chore agora, por favor...» Estendeu-lhe o copo de água e Marie afastou-o, fixando a amiga bem no fundo dos olhos.

       - Passa-se alguma coisa, não é verdade? Vais para qualquer lado?

       - Apenas para casa durante uns dias... Voltarei em breve. Inclinou-se para diante e abraçou Marie com força e os olhos cheios de lágrimas. - Agora tens de melhorar. Estiveste doente demasiado tempo. - Abraçaram-se com mais força e Zoya exibia um sorriso radioso quando se afastou, sabendo que a esperavam.

       - Escreves-me?

       - Claro. - Não conseguia ir-se embora e mantinha-se ali de pé, fitando-a, desejando absorver tudo, fixar tudo, a sensação da mão da amiga, a suavidade dos lençóis, o olhar dos seus belos olhos azuis. - Amo-te, Mashka. - As palavras tornaram-se um sussurro. - ... Amo-te tanto...

       - Também eu. - Marie deixou-se cair na almofada com um suspiro. Era fatigante sentar-se na cama e falar e depois teve um horrível ataque de tosse e Zoya amparou-a - Melhora, por favor. - Inclinou-se uma última vez para lhe beijar a face, sentiu os caracóis macios sob a mão e depois virou-se rapidamente e avançou até à porta, voltando-se para esboçar um derradeiro aceno. Contudo, Marie fechara novamente os olhos e Zoya encerrou a porta devagar, com o coração despedaçado e as lágrimas correndo, silenciosas. Despedira-se das outras há meia hora e parara agora do lado de fora do quarto do jovem Alexis. Nagorny mantinha-se ao seu lado e Pierre Gilliard também. O Dr. Fedorov ia a sair.

       - Posso entrar? - perguntou, limpando as lágrimas e ele tocou-lhe no braço num gesto de muda compreensão.

       - Está a dormir. - Zoya limitou-se a acenar com a cabeça e desceu apressadamente as escadas ao encontro da avó e do czar e da czarina que a aguardavam no átrio principal. Feodor já estava lá fora com dois dos melhores cavalos do czar atrelados à velha tróica em que tinham vindo. Quando avançou na direção deles com um andar de chumbo, sentia-se esgotada. Queria que tudo parasse, queria fazer recuar O relógio... voltar a subir as escadas até junto da amiga... Sentia-se como se estivesse a abandoná-los a todos, mas afastavam-na, na verdade, contra sua vontade.

       - Ela está bem? - Alexandra lançou um olhar preocupado a Zoya, esperando que Marie não se tivesse apercebido de toda aquela crua agonia.

       - Disse-lhe que íamos voltar a Sampetersburgo. - Zoya chorava agora copiosamente e a própria avó teve de lutar contra as lágrimas, quando Nicolau a beijou nas duas faces e lhe agarrou fortemente as mãos, com uma enorme tristeza no olhar mas um sorriso digno nos lábios. Embora Eugenia o tivesse ouvido soluçar nos aposentos da mulher na noite em que voltara, nunca demonstrou o seu desgosto aos outros. Encorajava todos com bravura e mostrou-se sempre encantador e calmo, como agora ao beijá-la à despedida.

       - Boa viagem, Eugenia Peterovna. Ansiamos por vos ver em breve.

       - Rezaremos por vocês todas as horas, Nicolau. - A velha senhora beijou-o na face. - Boa sorte para todos. - Virou-se depois para Alix, enquanto Zoya se mantinha ao lado com as lágrimas correndo-lhe pela face. - Toma conta de ti e não te canses de mais, minha querida. Espero que as crianças recuperem depressa.

       - Escreve-nos - pediu Alix num tom triste, como Marie dissera a Zoya há uns momentos. - Ficaremos ansiosamente à espera de notícias. - Depois virou-se para Zoya. Conhecera-a desde o nascimento, pois a sua filha e a de Natalya haviam nascido com uns meros dias de diferença e tinham sido amigas íntimas durante aqueles dezoito anos. - Sê boa rapariguinha, escuta a tua avó e toma conta de ti. - E sem uma palavra mais, abraçou-a, sentindo por instantes como se estivesse a perder a sua própria filha.

       - Amo-a, tia Alix... Amo-a tanto... Não quero ir... - Mal conseguia falar no meio dos soluços e depois virou-se para Nicolau, e ele abraçou-a como o teria feito o seu próprio pai, se ainda estivesse vivo.

       - Também te amamos e sempre te amaremos. Voltaremos a estar juntos um dia, garanto-te. E Deus vos proteja a ambas até então, minha pequenina. - Depois afastou-a suavemente com um pequeno sorriso. - Agora, têm de ir.

       Conduziu-as solenemente até ao exterior. A mulher agarrou no braço da avó e ajudaram-nas a subir para a tróica. Zoya chorava.

       A criadagem que restava viera despedir-se e também chorava.

       Conheciam Zoya desde criança e agora ela deixava-os e em breve os outros lhes seguiriam o exemplo. E o pensamento de nunca mais voltarem era aterrador. Era tudo em que Zoya conseguia pensar quando Feodor ergueu devagar o chicote e tocou pela primeira vez nos cavalos do czar.

       A tróica ganhou vida e sob aquela luz cinzenta afastaram-se subitamente de Alexandra e Nicolau que ficaram a acenar-lhes.

       Zoya virou-se, apertando a pequena Sava de encontro ao corpo. A cadelinha ganiu como se também soubesse que estava a deixar a casa para nunca mais regressar, e a jovem enterrou o rosto nos braços da avó. Não conseguia continuar a olhar para aquelas duas figuras que lhes acenavam, o Palácio Alexandre e, de súbito, a própria Tsarskoie Selo desaparecendo numa nuvem distante de neve... Zoya chorava de tristeza, pensando em Mashka... Mashka... a sua melhor e a mais querida amiga... o irmão... os pais... todos desaparecidos...

       Agarrou-se à avó e chorou. A velha senhora sentava-se estoicamente no trenó, de olhos fechados, com as lágrimas, rolando pelas faces, deixando para trás uma vida, tudo o quer alguma vez conhecera, um mundo que todos haviam amado... desaparecido como as neves, enquanto Feodor continuava a guiá-las e os cavalos de Nicolau as transportavam para longe de casa, de tudo e de todos os que tinham conhecido e amado.

       - Adieu, chers amis... - sussurrou Eugenia para a neve que caía... Adeus, queridos amigos...

       Só se tinham uma à outra agora, uma mulher muito ve1ha e uma rapariga muito jovem, fugindo de um mundo perdido e das pessoas que haviam amado. Nicolau e a sua família faziam agora parte da História. Nunca seriam esquecidos, sempre amados e jamais vistos por qualquer delas.

      

PARIS

       A viagem de Tsarskoie Selo até Beloostrov na fronteira finlandesa demorou sete horas, embora não ficasse distante de Sampetersburgo, mas Feodor tomou o cuidado de viajar por todas as estradas secundárias. Nicolau avisara-os de que era mais seguro, mesmo que lhes levasse mais tempo.

       E, para surpresa de Eugenia, atravessaram a fronteira sem dificuldade. Verificaram-se algumas perguntas, mas Eugenia deu repentinamente a sensação de se recolher mais sobre si própria e parecia uma velha, encolhida e fria, enquanto Zoya parecia mais criança do que nunca.

       Foi Sava que acabou por salvá-las. Os soldados da fronteira ficaram encantados com ela e depois de um momento de ansiedade fizeram-lhes sinal para que avançassem, e os três refugiados soltaram um suspiro de alívio quando a tróica avançou atrás dos cavalos de Nicolau. Feodor tivera o cuidado de usar os velhos arreios que trouxera de Sampetersburgo, abstendo-se de se servir de qualquer equipamento do estábulo do czar com a facilmente identificável águia dupla.

       A viagem de Beloostrov através da Finlândia em direção a Turku levou dois dias inteiros e, quando chegaram a altas horas da noite, Zoya sentia-se como se fosse ficar insensível para o resto da vida. Todo o corpo parecia congelado na posição em que viera, na tróica. A avó mal conseguia andar quando a ajudaram a sair, e o próprio Feodor parecia exausto.

       Descobriram uma pequena estalagem onde alugaram dois quartos e, de manhã, Feodor vendeu os cavalos por uma quantia ridiculamente baixa antes de os três se meterem num navio quebra-gelo, rumo a Estocolmo. Foi outro dia infindável no navio, que avançava devagar pelo meio do gelo entre a Finlândia e a Suécia, e os três companheiros mal falavam, imersos nos seus próprios pensamentos.

       Chegaram a Estocolmo ao fim da tarde e mesmo a tempo de apanhar o comboio da noite para Malmö. Uma vez em Malmö, seguiram de barco na manhã seguinte até Copenhaga e ali se instalaram num pequeno hotel. Eugenia tentou contatar os amigos da tia do czar, mas estavam ausentes e na manhã seguinte deixaram Copenhaga rumo a França num navio inglês.

       Nessa altura, Zoya sentia-se aturdida e enjoou horrivelmente no primeiro dia em que embarcaram. A avó achou-a febril, mas era impossível dizer se estava doente ou apenas exausta. Estavam todos esgotados depois da viagem de seis dias. Fora um tormento viajarem dia após dia de barco, de comboio e de tróica. O próprio Feodor dava a sensação de ter envelhecido dez anos numa semana, mas o problema residia também na tristeza de abandonarem a pátria.

       Falavam pouco, raramente dormiam e nenhum deles parecia ter fome. Era como se os corpos transbordassem de tristeza e não conseguissem suportar mais. Haviam deixado tudo para trás, um estilo de vida, mil anos de História, as pessoas que tinham amado e perdido. Tornava-se quase insuportáveis e Zoya viu-se a desejar que o navio fosse afundado pelos submarinos alemães a caminho de França. Longe da Rússia, era da grande guerra que as pessoas tinham medo e não da revolução. A jovem foi ao ponto de pensar que morrer às mãos de outrem teria sido mais fácil do que enfrentar um novo mundo que não desejava conhecer.

       Zoya recordava os milhares de vezes que ela e Marie tinham falado no sonho de viajar até Paris. Nessa altura, tudo soava tão romântico, tão excitante com todas as mulheres elegantes e os belos vestidos que comprariam. Agora, não haveria nada disso. Tinham apenas o pouco dinheiro que a avó pedira emprestado ao czar antes de partirem e as jóias cosido na roupa. Eugenia já tinha decidido vender muitas delas, depois de chegarem a Paris.

       Tinham igualmente de pensar em Feodor. Ele prometera procurar trabalho mal chegassem, jurara fazer tudo o que pudesse para as ajudar, mas recusara deixar que enfrentassem a viagem sozinhas.

       Nada tinha na Rússia e não conseguia imaginar uma vida sem servir os Ossupov. Morreria se o deixassem. Esteve tão mal quanto Zoya na viagem para França; nunca pusera os pés num barco e sentia-se cheio de medo, enquanto se agarrava, infelicíssimo, ao varandim.

       - O que vamos fazer, avó? - inquiriu Zoya, sentada e olhando desgostosa para a avó no pequeno camarote.

       Fora-se a grandeza dos iates imperiais, os palácios, os príncipes, as festas. Desaparecera o calor e o amor familiar, bem como as pessoas que tinham conhecido, o seu estilo de vida, até mesmo a segurança de saberem que tinham o suficiente que comer no dia seguinte. Restava-lhes apenas as suas vidas, e Zoya nem mesmo estava segura de a desejar. Só quena regressar a casa, a Mashka, à Rússia, fazer recuar o tempo e voltar a um mundo perdido, cheio de pessoas que já não existiam. O pai, o irmão, a mãe. E, à medida que seguiam viagem, Zoya interrogava-se sobre se Marie estaria melhor.

       - Temos de encontrar um apartamento pequeno - respondeu-lhe a avó. Há anos que não ia a Paris. Viajara muito pouco desde a morte do marido. Contudo, agora tinha de pensar em Zoya.

       Precisava de mostrar-se forte diante da jovem. Rezou para viver o suficiente para cuidar dela, mas não era Eugenia quem agora estava em perigo, mas a neta.

       A rapariga parecia muito doente e os olhos maiores do que nunca e encovados no rosto pálido. Quando a velha condessa lhe tocou, soube desde logo que ela estava a arder em febre. Nessa noite, começou com uma tosse horrível e a condessa receava que fosse pneumonia. Na manhã seguinte, a tosse piorou e, quando apanharam o comboio para Paris, em Bolonha, tornou-se óbvio que a doença a atacara. Começaram a aparecer-lhe manchas no rosto e nas mãos. A avó obrigou-a a levantar a saia de lã e verificaram que Zoya tinha sarampo.

       Eugenia estava preocupadíssima e mais ansiosa do que nunca para fazer chegar a neta a Paris. Era uma viagem de dez horas de comboio e chegaram pouco antes da meia-noite. Havia meia dúzia de táxis à porta da Gare du Nord e Eugenia mandou Feodor buscar um deles, enquanto ajudava Zoya a descer do comboio. Esta mal conseguia andar e apoiava-se com força à avó, de rosto tão afogueado como a brilhante cabeleira ruiva. Tossia horrivelmente e não dizia coisa com coisa devido à febre.

       - Quero ir para casa - choramingou, agarrada à cadelinha.

       Sava estava agora mais crescida e Zoya mal podia com ela quando seguiu a avó até fora da estação.

       - Vamos para casa, meu amor. O Feodor anda à procura de um táxi.

       Contudo, Zoya pôs-se a chorar, desfazendo a imagem da mulher em que se tornara ao fitar a avó com uma expressão de criança perdida.

       - Quero voltar para Tsarskoie Selo.

       - Sossega, Zoya... sossega...

       Feodor acenava freneticamente e tratava da bagagem. Eugenia guiou a neta com meiguice e ajudou-a a entrar no táxi antigo.

       Tudo o que ainda possuíam estava empilhado ao lado de Feodor e do motorista, e as duas entraram para o banco de trás com suspiros cansados. Não tinham reserva em parte alguma, não sabiam para onde ir e o motorista ouvia mal e era velho. Há muito que todos os homens novos tinham abandonado Paris, onde só haviam ficado os velhos e enfermos.

       - Alors?... On y va, mesdames? - Sorriu para o banco de trás e fez uma expressão surpreendida ao ver que Zoya chorava. - Elle est malade? Ela está doente? - Eugenia apressou-se a garantir-lhe que estava apenas muito cansada, como todos eles. - De onde vêm? prosseguiu o homem num tom amistoso e Eugenia tentou recordar-se do hotel onde ficara com o marido há anos, mas subitamente esqueceu tudo. Tinha oitenta e dois anos e estava esgotada. E precisavam de levar Zoya para um hotel e chamar um médico.

       - Pode recomendar-nos um hotel? Algo pequeno, limpo e não muito caro. - Ele premiu os lábios por momentos enquanto pensava, e Eugenia apertou instintivamente a mala de encontro ao corpo. Lá dentro levava o último e o mais importante presente da imperatriz. Alix dera-lhe um dos seus ovos de Páscoa imperiais, fabricados especialmente para ela há três anos por Carl Fabergé. Era uma peça maravilhosa de esmalte malva com fitas de diamantes e Eugenia sabia que era o seu mais importante tesouro. Quando tudo o mais falhasse, podiam vendê-lo e viver do que ele rendesse.

       - Importa-lhe onde fique, madame?... O hotel...

       - Desde que seja num bairro decente. - Podiam procurar outra coisa melhor depois e nessa noite só precisavam de quartos onde pudessem dormir. As comodidades, se ainda , fossem possíveis, viriam mais tarde.

       - Há um pequeno hotel à saída dos Campos Elísios, madame.

       O porteiro da noite é meu primo.

       - É caro? - inquiriu num tom ríspido, e ele encolheu os ombros. Via que não eram gente abastada, vestidas com aquelas roupas simples e o velho tinha ar de camponês. Pelo menos a mulher falava francês e achava que a rapariguinha também, embora chorasse a maior parte do tempo e tivesse aquela tosse horrível. Só esperava que não fosse tuberculose, que nessa altura varria Paris.

       - Não é mau. Peço ao meu primo que fale com o recepcionista.

       - Muito bem. Servirá - decidiu num tom imperial e recostou-se no táxi antigo. Era uma mulher muito enérgica, o que agradou ao motorista.

       O hotel ficava na Rue Marbeuf e era, de fato, muito pequeno, mas pareceu-lhes decente e limpo quando entraram no átrio. Havia apenas uma dúzia de quartos, mas o recepcionista garantiu que dois deles estavam vazios.

       Tinham de usar uma casa de banho comum no corredor o que era um choque para Eugenia, mas nem isso interessava agora. Puxou para trás os lençóis da cama que ela e Zoya iriam partilhar e verificou que estavam limpos. Despiu a neta depois de esconder a mala debaixo do colchão, e Feodor trouxe o resto das coisas.

       Concordara em ser ele a ficar com Sava. A condessa desceu mal deitou Zoya na cama e pediu ao recepcionista que mandasse chamar o médico.

       - Para si, madame? - inquiriu sem surpresa, pois estavam todos com um ar pálido e cansado e ela era, obviamente, muito velha.

       - Para a minha neta. - Não lhe disse que Zoya estava com sarampo, mas, duas horas mais tarde, quando o médico finalmente chegou, confirmou de imediato.

       - Ela está muito doente, madame. Tem de tratá-la com muito cuidado. Faz alguma idéia de como o apanhou?

       Seria ridículo responder que fora contagiada pelos filhos do czar da Rússia.

       - Através de amigas, penso. Fizemos uma viagem muito longa. O médico examinou o olhar perspicaz e triste e pressentiu que deviam ter sofrido muito. Contudo, nem mesmo ele podia sonhar a miséria que elas haviam presenciado naquelas últimas três semanas, quão pouco tinham ou o medo que as invadia quanto ao futuro. Viemos da Rússia... através da Finlândia, Suécia e Dinamarca.

       O médico fitou-a, surpreendido, e depois compreendeu subitamente. Outros tinham feito viagens idênticas nas últimas semanas, fugindo da revolução. E era fácil supor que mais viriam nos meses seguintes, se conseguissem escapar. A aristocracia russa, ou o que dela restava, fugia em bandos e muitos deles tomavam o rumo de Paris.

       - Lamento... lamento muito, madame.

       - Também nós. - Sorriu tristemente. - Não tem pneumonia, pois não?

       - Ainda não.

       - Há algumas semanas que a prima está com uma e têm contatado muito.

       - Farei o que puder, madame. Virei vê-Ia novamente de manhã.

       - Porém, quando ele voltou, Zoya piorara e, ao cair da noite, delirava de febre. O médico receitou-lhe um medicamento e disse que era a única esperança. E, na manhã seguinte, quando o recepcionista informou Eugenia que os Estados Unidos tinham acabado de entrar na guerra, quase lhe pareceu irrelevante. A guerra assumia contornos de insignificância agora, depois de tudo o que acontecera.

       Comeu as refeições no quarto e Feodor saiu para comprar remédios e fruta. Estavam a racionar o pão e tornava-se difícil obter algo, mas ele era engenhoso e conseguiu encontrar o que a condessa desejava. Sentia-se especialmente satisfeito consigo próprio por ter descoberto um motorista de táxi que falava russo.

       Tal como eles, há apenas uns dias que estava em Paris, era um príncipe de Sampetersburgo e Feodor achava que ele fora amigo de Konstantin, mas Eugenia não tinha tempo para o ouvir. Estava profundamente preocupada com Zoya.

       Passaram vários dias antes de a jovem dar sinal de saber onde se encontrava. Passeou os olhos pelo pequeno e simples quarto, fitou a avó e depois recordou-se que estavam em Paris.

       - Quanto tempo estive doente, avó? - Tentou sentar-se, mas ainda estava demasiado fraca, embora a tosse tivesse finalmente melhorado um pouco.

       - Desde que chegamos, meu amor, há cerca de uma semana. Preocupaste-nos muito a todos. O Feodor tem percorrido Paris inteira tentando encontrar fruta para ti. As faltas aqui são quase tão graves como na Rússia.

       Zoya esboçou um aceno de cabeça e pareceu viajar em pensamento para muito longe dali, enquanto olhava através da única janela do quarto.

       - Agora sei como a Mashka se sentia... e ela ainda estava muito mais doente do que eu. Interrogo-me sobre como estará agora.

       - Não conseguia refletir no presente.

       - Não deves pensar nisso - censurou meigamente a avó ao detectar-lhe o olhar de tristeza. - Tenho a certeza de que já se encontra bem. Há duas semanas que partimos.

       - Só duas semanas? - suspirou, fitando a avó. - Parece-me uma vida inteira. - Todos tinham essa sensação e a avó mal dormira desde que haviam saído da Rússia. Há dias que dormia sentada numa cadeira, receosa de perturbar o sono de Zoya partilhando a cama com ela e temendo não estar acordada se a neta precisasse dela, mas agora podia relaxar um pouco a vigília. Nessa noite, dormiria aos pés da cama e precisava quase tanto de descansar como Zoya.

       - Amanhã, tiramos-te da cama, mas primeiro tens de repousar, comer e pores-te forte novamente. - Deu uma palmadinha na mão de Zoya, que lhe esboçou um ligeiro sorriso.

       - Obrigada, avó. - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e levou a mão da velha senhora até junto do rosto. Até esse gesto lhe trazia dolorosas memórias de infância.

       - Pelo quê, miúda tonta? O que tens a agradecer-me?

       - Ter-me trazido para aqui... ser tão corajosa... e fazer tanto para nos salvar. - Acabara de tomar plena consciência da enorme distância que tinham percorrido e de como a avó fora extraordinária. A mãe decerto jamais seria capaz. Zoya teria tido de zelar pela mãe durante todo o caminho.

       - Construiremos uma nova vida aqui, Zoya. Verás. Um dia, seremos capazes de olhar para trás e tudo parecerá menos doloroso.

       - Não consigo imaginar... não consigo imaginar uma época em que as memórias deixem de magoar. - Sentia-se como se estivesse a morrer.

       - O tempo é muito generoso, minha querida. E sê-lo-á para nós, garanto-te. Teremos uma boa vida aqui. - «Mas não a vida que haviam tido na Rússia.» Zoya tentava não pensar nisso, mas muito mais tarde nessa noite, quando a avó estava a dormir, saiu sem ruído da cama, pegou no seu pequeno saco e encontrou a fotografia que Nicolau lhes tirara em Livadia, quando se divertiam no Verão anterior. Ela, Anastasia, Marie, Olga e Tatiana inclinavam-se para trás até estarem quase de cabeça para baixo, sorrindo depois das brincadeiras. Agora parecia-lhe idiota... idiota... e tão terno... mesmo naquele ângulo estranho, achava todas tão bonitas, ainda mais agora... as raparigas junto de quem crescera e tanto amava...

       Tatiana, Anastasia... Olga... e, obviamente, Mashka.

      

       O sarampo deixou Zoya muito enfraquecido, mas, para grande alívio da avó, pareceu recuperar no meio da beleza de Paris em Abril. Denotava agora uma seriedade que não possuía antes e a tosse não a abandonara por completo. Contudo, de vez em quanto havia um brilho de alegria no olhar, quase como dantes, e Eugenia sentia o coração mais leve.

       O hotel na Rue Marbeuf estava a custar-lhes caro, embora fosse simples, e Eugenia sabia que em breve teriam de encontrar um apartamento. Já tinham gasto uma boa parte do dinheiro que Nicolau lhes dera, e ela estava ansiosa por salvaguardar os seus magros recursos. No início de Maio verificou que seria obrigada a vender algumas jóias.

       Numa tarde soalheira, deixou Zoya com Feodor e foi visitar um ourives que o hotel lhe indicara na Rue Cambon, depois de descoser cuidadosamente um colar de rubis da bainha de um dos seus vestidos pretos. Meteu o colar na mala de mão e retirou uns brincos a condizer do seu esconderijo em dois botões forrados e bastante grandes. Os esconderijos haviam sido realmente úteis.

       Chamou um táxi antes de sair do hotel e, quando indicou a morada ao motorista, ele virou-se devagar e fitou-a. Era um homem alto, de aparência distinta e um bigode branco cuidadosamente aparado.

       - Não é possível... Condessa, é a senhora? - Ela fitou-o com mais atenção e depois sentiu que o coração lhe batia mais depressa. Era o príncipe Vladimir Markovski. Reconheceu-o, surpreendida; fora um dos amigos de Konstantin, e o filho mais velho dele chegara mesmo a propor casamento à grã-duquesa Tatiana e havia sido recusado. Tatiana achava-o demasiado frívolo. Tratava-se, contudo, de um rapaz encantador, como o era o pai. Como chegou aqui?

       Eugenia riu e abanou a cabeça ante a estranheza da vida naqueles tempos. Vira mesmo rostos familiares em Paris desde que ali estavam e, em duas ocasiões, chamara táxis e descobrira que conhecia os motoristas. Parecia que os nobres russos não tinham outra forma de ganhar a vida, todos sem habilidade para nada, elegantes, bem-nascidos e encantadores, pouco lhes restando fazer exceto conduzir um automóvel, como o príncipe Vladimir que a fitava cheio de contentamento. Ocorreram-lhe memórias agridoces de melhores dias e suspirou ao começar a explicar-lhe como tinham deixado a Rússia. O relato dele era muito semelhante, embora muito mais perigoso quando atravessara a fronteira.

       - Está alojada aqui? - Olhou para o hotel ao mesmo tempo que punha o carro em andamento e se dirigia à morada que ela lhe dera na Rue Cambon.

       - Sim, de momento. Contudo, a Zoya e eu temos de procurar um apartamento.

       - Ela está, então, consigo. Deve ser ainda uma rapariguinha. E a Natalya? - Sempre tinha achado a mulher de Konstantin extremamente bonita, embora muito nervosa, e não ouvira obviamente falar da morte dela quando os revolucionários assaltaram o Palácio Fontanka.

       - Foi morta... apenas uns dias depois do Konstantin... e do Nicolai. - Expressava-se quase num sussurro. Ainda lhe era difícil pronunciar os nomes, sobretudo a ele, porque os conhecera. O nobre esboçou um triste aceno de cabeça no banco da frente. Também ele perdera os dois filhos e viera para Paris com a filha solteira.

       - Lamento.

       - Lamentamos todos, Vladimir. E mais ainda o Nicolau e a Alexandra. Teve algumas notícias deles?

       - Nada. Apenas que ainda se encontram sob prisão domiciliária em Tsarskoie Selo. Só Deus sabe quanto tempo os vão manter lá. Pelo menos estão confortáveis, se não seguros. - Já ninguém estava seguro em nenhum lugar da Rússia. Pelo menos, as pessoas que conheciam. - Vai ficar em Paris? - Nenhum deles tinha qualquer outro lugar para onde ir e outros russos infiltravam-se diariamente, com surpreendentes relatos de fugas e perdas terríveis. Acorriam em quantidades crescentes a uma cidade já sobrecarregada.

       - Acho que sim. Pareceu-me melhor vir para aqui do que para qualquer outro sítio. Pelo menos, estamos seguras e é um lugar decente para a Zoya.

       Ele esboçou um aceno de concordância e conduziu o táxi velozmente pelo meio do trânsito.

       - Devo esperar, Eugenia Peterovna? - Doía-lhe o coração só de falar novamente russo e com alguém que sabia o seu nome. Ele estacionara diante do ourives.

       - Importava-se muito? - Seria confortável saber que ele estava ali e regressar ao hotel com ele, sobretudo se o ourives lhe desse uma elevada quantia em dinheiro.

       - Claro que não. Esperarei aqui. - Ajudou-a cuidadosamente a sair do carro e acompanhou-a até à porta da loja. Era fácil imaginar o que a levava ali. Era o mesmo que todos eles faziam, vendendo tudo o que podiam, os mesmos tesouros que haviam contrabandeado e que há semanas antes não passavam de bugigangas a que não ligavam.

       A condessa apareceu meia hora mais tarde com um ar digno e o príncipe Markovski não lhe fez perguntas, enquanto a transportava de volta ao hotel. Ela parecia, contudo, mais abatida quando a ajudou a sair do carro na Rue Marbeuf e esperou que tivesse conseguido o que precisava. Era muito velha para ser obrigada a sobreviver de expedientes e a vender as suas jóias num país estranho, sem ninguém que cuidasse dela e com uma jovem para cuidar. Não estava bem certo da idade de Zoya, mas sabia que era muito mais nova do que a sua filha, que tinha quase trinta anos.

       - Está tudo bem? - inquiriu, preocupado, quando a acompanhou até à porta e ela o fitou com um olhar magoado.

       - Acho que sim. Não são tempos fáceis. - Fixou o táxi à espera e depois o príncipe. Este fora um homem interessante na juventude e ainda era, mas, tal como nela, havia uma súbita diferença. Afetara a todos. A própria face do mundo não era a mesma desde a revolução. - Não é fácil para nenhum de nós, pois não, Vladimir?

       «E quando não houver mais jóias para vender, o que faremos?», interrogava-se. Nem ela nem Zoya eram capazes de conduzir um táxi e Feodor não falava uma palavra de francês nem era provável que aprendesse. Era quase mais um fardo do que uma ajuda, mas mostrara-se tão fiel e leal ao ajudá-las a escapar, que não podia abandoná-lo. Tinha de ser tão responsável por ele, como por Zoya.

       Todavia, dois quartos de hotel custavam o dobro de um e, com a insignificante quantia em dinheiro que recebera pelo colar de rubis e os brincos, pouca esperança tinha de que os fundos agüentassem muito mais tempo. Precisavam de pensar em algo muito criativo. «Talvez pudesse costurar», pensou, ao despedir-se de Vladimir com um ar distraído.

       E, de súbito, parecia mais velha do que há uma hora atrás, quando se dirigira ao ourives. O príncipe Markovski beijou-lhe a mão e negou-se a receber qualquer pagamento. Eugenia interrogou-se sobre se voltaria a vê-lo. Sentia agora o mesmo em relação a todos, mas dois dias depois, ao descer as escadas com Zoya e Feodor, encontrou-o à espera dela no átrio.

       Ao avistá-la, esboçou uma ligeira vênia e beijou-lhe a mão, fitando Zoya com um olhar bondoso e depois com evidente surpresa ante a beleza da jovem e quanto se desenvolvera.

       - Peço desculpa por me intrometer, Eugenia Peterovna, mas acabei de saber de um apartamento... É bastante pequeno, mas próximo do Palais Royal. Não é... a vizinhança ideal para uma jovem rapariguinha, mas... talvez... talvez possa servir. Falou no outro dia de como estava ansiosa por encontrar um sítio onde viver. Tem dois quartos. - Deitou um olhar de súbita preocupação para o velho Feodor, atrás delas. - Talvez não seja suficientemente grande para todos...

       - Claro que é. - Sorriu-lhe como se ele sempre tivesse sido o seu melhor amigo. Era repentinamente tão importante ver um rosto familiar, mesmo alguém que dantes não vira com freqüência. Era, pelo menos, um rosto de um passado não muito distante, uma relíquia da pátria e logo o apresentou a Zoya. - A Zoya e eu podemos partilhar um quarto. Fazemo-lo aqui no hotel e ela não parece importar-se.

       - E não me importo, avó. - Sorriu-lhe, amistosa, e mirou com curiosidade o alto e distinto russo.

       - Tomo, então, disposições para irem vê-lo? - Parecia muito interessado em Zoya, mas a avó não deu mostras de reparar.

       - Podemos vê-lo agora? Íamos sair para um passeio. - Estava uma bela tarde de Maio e tornava-se difícil acreditar que havia discórdias no mundo, e ainda mais difícil que toda a Europa estava em guerra e os Estados Unidos haviam finalmente aderido.

       - Vou mostrar-lhes onde fica e talvez vos deixem vê-lo agora.

       - Levou-as o mais rapidamente possível. Feodor ia sentado no banco da frente ao seu lado e Vladimir pôs as duas senhoras ao corrente dos últimos mexericos. Mais alguns conhecidos tinham chegado há uns dias, embora nenhum trouxesse aparentemente notícias de Tsarskoie Selo.

       Zoya escutou interessada os nomes que ele enumerava.

       Reconheceu a maioria, embora nenhum deles correspondesse a amigos íntimos. Mencionou também que Diaghilev estava em Paris e planeava uma exibição dos Ballets Russes. Atuariam no Châtelet e começariam a ensaiar na semana seguinte. Zoya sentiu o coração bater com mais força ante as palavras e mal reparou nas ruas que atravessavam para chegar ao apartamento.

       O apartamento em si era muito pequeno, mas dava para um jardim muito agradável de outra pessoa. Tinha dois quartos pequenos, uma reduzida sala de estar e no corredor havia uma casa de banho que teriam de partilhar com mais quatro apartamentos.

       Os outros eram obrigados a descer de outros andares; portanto tinham mais sorte do que a maioria. Situava-se, indubitavelmente, a uma enorme distância do palácio em Fontanka ou mesmo do hotel na Rue Marbeuf, mas não lhes restavam opções. A avó de Zoya tinha-a inteirado da escassa quantia recebida pelo colar de rubis.

       Haviam trazido outras jóias para vender, mas não lhes garantiam o futuro.

       - Talvez seja afinal pequeno de mais... - O principie Vladimir parecia subitamente embaraçado, mas não era mais embaraçoso do que a sua condição de ter de guiar um táxi.

       - Acho que servirá muito bem - pronunciou-se a condessa num tom despreocupado, mas já detectara o olhar de tristeza em Zoya.

       Do corredor emanava um cheiro horrível a urina à mistura com uma comida rançosa. Talvez um pouco de perfume... o cheiro a lilases de que Zoya tanto gostava... e as janelas abertas para o bonito jardim. Tudo podia ajudar, e a renda correspondia exatamente ao que podiam dispor. A condessa virou-se para Vladimir com um caloroso sorriso e agradeceu-lhe profusamente.

       - Temos de nos ocupar dos nossos - redarguiu-lhe num tom afetuoso, mas de olhos fixos em Zoya. - Vou levá-los de volta ao hotel. - Tinham decidido mudar na semana seguinte e, no caminho de regresso, Eugenia começou a elaborar uma lista dos móveis de que precisariam. Ia comprar o mínimo possível e, juntamente com Zoya, faria os reposteiros e as colchas. Planeava adquirir somente o essencial.

       - Um tapete pequeno no chão podia fazer com que a sala parecesse um pouco maior. - Falava alegremente e esforçava-se por não pensar nos preciosos Aubussons do pavilhão atrás do Palácio Fontanka. - Não achas, minha querida?

       - Uum?... Desculpe, avó. - Mantivera-se de cenho franzido a olhar pela janela enquanto desciam os Campos Elísios no carro de volta à Rue Marbeuf. Pensava em algo bem mais importante.

       Algo de que precisavam desesperadamente. Algo que lhes permitiria voltar a viver de forma decente, talvez não num palácio, mas num apartamento maior e mais confortável do que uma malcheirosa caixinha de fósforos. Agora, sentia-se ansiosa por regressar ao hotel e deixar a avó com as suas listas, planos e ordens de mandar Feodor à procura de mobiliário e de um bonito tapete.

       Agradeceram novamente ao príncipe Markovski quando as deixou no hotel, e Eugenia surpreendeu-se quando Zoya disse que ia dar um passeio, mas recusou, determinada, a companhia de Feodor.

       - Estarei perfeitamente sozinha, avó. Não me afasto. Vou só até aos Campos Elísios e volto.

       - Queres que te acompanhe, minha querida?

       - Não. - Sorriu à avó que tanto amava, pensando enquanto lhe devia. - Descanse um pouco. Tomaremos um chá quando eu voltar.

       - Tens a certeza de que irás bem sozinha?

       - Absoluta.

       A condessa deixou-a ir com relutância e subiu as escadas devagar, agarrada ao braço de Feodor. Era um bom exercício para começar a habituar-se às compridas escadas do apartamento.

       Mal saiu do hotel, Zoya dobrou a esquina e fez sinal a um táxi, rezando para que o motorista soubesse onde era e, quando chegasse lá, alguém percebesse do que iria falar. Era uma louca, louca esperança, mas sabia que tinha de tentar.

       - Para o Châtelet, por favor - indicou num tom imperial como se soubesse do que estava a falar e rezou em silêncio para que o homem a levasse lá.

       Depois de um instante de hesitação, verificou que as suas preces eram atendidas. Mal se atrevia a respirar enquanto o táxi seguia a toda a velocidade e deu uma choruda gorjeta ao motorista por ter descoberto o lugar e porque se sentia um pouco aliviada pelo fato de ele não ser russo. Era um pouco depressivo ver os membros de famílias que conhecera ao volante de táxis e falando tristemente sobre a família de Tsarskoie Selo.

       Entrou apressadamente e olhou em volta, voltando a pensar nas suas ameaças passadas de fugir para o Teatro Marinski. Viu-se a pensar em Marie e em como ela ficaria boquiaberta ante tudo aquilo. Zoya sorriu e pôs-se a procurar alguém, qualquer pessoa capaz de responder às suas perguntas. Descobriu, por fim, uma mulher, com fato de bailarina e praticando tranqüilamente na barra. Zoya pressupôs corretamente tratar-se de uma professora.

       - Ando à procura de Monsieur Diaghilev - anunciou e a mulher sorriu.

       - Ah, sim? Posso perguntar porquê?

       - Sou bailarina e gostaria de fazer uma audição. - Pôs de imediato todas as cartas na mesa e nunca parecera mais jovem, mais bonita, nem mais assustada.

       - Entendo. E ele já ouviu falar de si? - Parecia uma pergunta bastante cruel, e a mulher nem se deu ao trabalho de esperar resposta. - Vi que não trouxe nada para dançar, mademoiselle. Esse traje não é muito adequado para uma audição.

       Zoya baixou os olhos para a estreita saia de sarja azul, a camisa branca de marinheiro e os sapatos pretos de cabedal que usara diariamente durante as suas últimas semanas em Tsarskoie Selo. Corou até à raiz do cabelo, e a mulher sorriu-lhe. Era uma rapariga tão bonita, jovem e inocente. Tornava-se difícil acreditar que tivesse dotes de bailarina.

       - Desculpe. Talvez pudesse vir vê-lo, amanhã. - E acrescentou num sussurro: - Ele está aqui?

       - Não - sorriu a mulher mais velha. - Mas não tardará. Fará o ensaio geral aqui no dia onze.

       - Eu sei. Queria fazer uma audição para ele. Quero entrar no espetáculo e juntar-me ao corpo de bailado. - As palavras saíram-lhe de um jorro, e a mulher soltou uma galhada. - A sério? E onde tem praticado?

       - Na escola de Madame Nastova, em Sampetersburgo.. até há dois meses. - Desejou ter mentido e acrescentar «no Marinski», mas ele certamente descobriria a verdade. E a escola de ballet de Madame Nastova era também uma das mais prestigiadas da Rússia.

       - Se lhe arranjar um maillot e umas sapatilhas, dança para mim, agora? - A mulher parecia divertida, e Zoya hesitou apenas uma fração de segundo.

       - Sim, se quiser. - O coração batia-lhe como uma orquestra inteira, mas tinha de arranjar emprego e isso era tudo o que podia fazer e tudo o que desejava realizar. Parecia o mínimo que podia fazer por Eugenia.

       As sapatilhas que a mulher lhe deu magoavam-na terrivelmente e, ao dirigir-se ao piano, Zoya sentiu-se estúpida pela tentativa. Iria parecer idiota sozinha no palco e talvez Madame Nastova estivesse apenas a ser generosa quando afirmara que ela era muito boa.

       Porém, ante os primeiros acordes da música, esqueceu gradualmente o medo e começou a dançar e a fazer tudo o que Madame Nastova lhe ensinara. Dançou, incansável, durante quase uma hora sob os olhos críticos e semicerrados da mulher, mas nenhum dos traços do rosto denotava desprezo ou divertimento.

       Zoya estava esgotada quando a música parou finalmente e executou uma graciosa vênia na direção do piano. E, no silêncio da sala, os olhos das duas mulheres cruzaram-se e a mulher que se encontrava ao piano esboçou um ligeiro aceno de cabeça.

       - Pode voltar daqui a dois dias, mademoiselle? - Os olhos verdes de Zoya arregalaram-se e correu até junto piano.

       - Consegui emprego?

       A mulher mais velha abanou a cabeça e riu.

       - Não, não... mas ele nessa altura estará aqui. Veremos o que diz e os outros professores também.

       - De acordo. Arranjarei sapatilhas.

       - Não tem? - replicou a mulher, surpreendida, e Zoya fitou-a com uma expressão grave.

       - Deixamos tudo o que tínhamos na Rússia. Os meus pais e o meu irmão foram mortos na revolução e fugi com a minha avó, há um mês. Preciso de encontrar emprego. Ela é demasiado velha para trabalhar e não temos dinheiro. - Era uma afirmação simples mas que emocionou profundamente a outra mulher, embora não o demonstrasse.

       - Que idade tens?

       - Dezoito anos. E pratiquei doze.

       - És muito boa... Independentemente do que ele disser... ou os outros... não deixes que ninguém te assuste. És muito boa. Zoya soltou uma risada, pois era exatamente o que dissera a Marie naquela tarde em Tsarskoie Selo.

       - Obrigada! Muito obrigada! - Apetecia-lhe abraçá-la e beijá-la, mas dominou-se. Tinha receio de perder a oportunidade que lhe fora dada. Faria tudo para dançar para Diaghilev, e aquela mulher permitiria que concretizasse o desejo. Situava-se para além de tudo o que alguma vez sonhara. Talvez Paris não fosse afinal tão mau assim... não, se conseguisse tornar-se bailarina. - Melhorarei depois de voltar a dançar. Há dois meses que não pratico. Estou um pouco enferrujada.

       - Então, ainda és melhor do que penso. - Sorriu à bonita e jovem ruiva que se mantinha tão graciosa e elegante ao lado do piano e depois Zoya soltou um súbito suspiro. Prometera à avo que não demoraria e já saíra há quase duas horas.

       - Tenho de ir! A minha avó... Oh... Desculpe... - Saiu apressadamente para mudar de roupa e reapareceu com a saia azul e a blusa de marinheiro, um cisne de volta ao patinho. Voltarei daqui a dois dias... e obrigada pelas sapatilhas!... – Precipitou-se para a saída, mas voltou-se subitamente e gritou à mulher, que ficara a observá-la: - Oh... A que horas?

       - Duas! - respondeu a mulher e depois lembrou-se de mais uma coisa: - Como te chamas?

       - Zoya Ossupov! - replicou e desapareceu.

       A mulher ao piano sentou-se com um sorriso, lembrando-se da primeira vez que tinha dançado para Diaghilev há vinte anos... a jovem era indubitavelmente dotada... Zoya... pobre criança, passara bastante segundo o que dissera nas suas simples palavras... Era difícil imaginar-se novamente com dezoito anos e a exuberância de Zoya.

      

       Às duas horas de uma sexta-feira à tarde, Zoya chegou ao Châtelet com um pequeno saco, um maillot e um par de sapatilhas novas em folha. Tinha vendido o relógio para as comprar e não contara à avó onde ia. Nos últimos dois dias, Zoya só conseguira pensar na fantástica oportunidade que teria e rezara a todos os anjos-da-guarda e santos favoritos para não a estragar. E se fosse desajeitada... se caísse... se ele odiasse o seu estilo... se Madame Nastova lhe tivesse mentido durante todos aqueles anos? O medo levara a melhor e, ao chegar mais uma vez ao Chäelet, só lhe apetecia fugir, mas avistou a mulher para quem dançara há dois dias e subitamente era tarde de mais.

       O próprio Diaghilev apareceu e Zoya foi-lhe apresentada. E, num abrir e fechar de olhos, viu-se no palco, dançando para todos os que se encontravam a assistir, e esqueceu-se da presença deles.

       Verificou, surpreendida, que estava mais à vontade do que dois dias antes e a música parecia arrebatá-la e levá-la para longe.

       Quando acabou, pediram-lhe que voltasse a dançar, desta vez com um homem, e ele era muito bom, fazendo com que Zoya tivesse a sensação de voar pelos ares nas asas de anjos. Ao todo, dançou durante uma hora e meia e mais uma vez estava esgotada ao parar e as sapatilhas novas magoavam-na. Porém, ao virar-se para a audiência, sentia-se como se tivesse voado até à Lua. Todos esboçavam acenos de cabeça e pronunciavam palavras incompreensíveis. Pareceram conferenciar durante horas e, depois, um dos professores virou-se na sua direção e pronunciou através do palco, como se não fosse nada de importante:

       - Na próxima sexta-feira, quatro horas, répétition générale, aqui mesmo. Muito obrigado.

       Depois, viraram-lhe as costas e ela manteve-se pregada ao chão, com as lágrimas correndo-lhe pelas faces. Madame Nastova não tinha mentido e os deuses haviam sido generosos. Ignorava se aquilo significava que conseguira emprego e não se atrevia a perguntar-lhes. Apenas sabia que dançaria no ensaio na próxima sexta-feira à tarde.

       E talvez... talvez... se fosse muito, muito boa... Nem se atrevia a pensar enquanto mudava de roupa e voava através das portas. Desejava contar à avó, mas sabia que não podia. A idéia de Zoya vir a ser bailarina iria enlouquecê-la. Era preferível nada dizer, pelo menos de momento. Talvez que se, de fato, a deixassem dançar com os Ballets Russes... talvez, nessa altura...

       Contudo, na semana seguinte, vitoriosa, tendo arranjado emprego, pelo menos de momento, viu-se forçada a partilhar as boas novas.

       - Fizeste o quê? - A avó parecia chocada e extremamente surpreendida.

       - Uma audição para o Sergei Diaghilev e ele vai deixar-me dançar com os Ballets Russes. O primeiro espetáculo é na próxima semana. - Sentia o coração a bater acelerado, e a avó não parecia satisfeita.

       - Estás doida? Uma vulgar bailarina em palco? Imaginas o que diria o teu pai a uma coisa dessas? - Foi um golpe que lhe doeu demasiado e voltou-se para a avó que amava com um olhar magoado.

       - Não fale nele assim. Morreu. Não lhe agradaria nenhuma das coisas que nos aconteceram, avó. Mas aconteceram e temos de fazer alguma coisa. Não podemos ficar de braços cruzados e morrer à fome.

       - É isso, então? Tens medo que possamos morrer à fome? Vou encomendar-te um jantar duplo para esta noite, mas podes estar certa de que não subirás ao palco.

       - Subo, sim. - Fitou-a pela primeira vez com um olhar de desafio. No passado, apenas se atrevera a lutar assim com a mãe, mas não podia deixar que a avó a detivesse. Significava demasiado para ela, e era a única saída que tinham, de qualquer forma a única que conseguia divisar.

       Não queria trabalhar numa loja, nem esfregar soalhos, nem coser botões em camisas de homens, nem trabalhar para uma costureira ou pregar plumas num chapéu! E que mais havia para fazer? Nada. E, mais tarde ou mais cedo, seria esse o rumo que a vida tomaria. E a avó também o sabia.

       - Seja razoável, avó. Não recebeu praticamente nada pela venda do colar de rubis. E quantas jóias poderemos vender? Toda a gente aqui está a fazer o mesmo. Uma de nós tem de acabar por ir trabalhar e esta é a única coisa que sei fazer.

       - É ridículo. Antes do mais, o nosso dinheiro ainda não se esgotou e, quando isso acontecer, ambas poderemos conseguir empregos respeitáveis. As duas sabemos coser. Sei tricotar, e tu podes ensinar russo, francês ou alemão, ou mesmo inglês se te esforçares um pouco. - Tinham-lhe ensinado tudo isto no Instituto Smolny juntamente com outras coisas mais que, agora, de nada serviam. - Não existe motivo nenhum para te tornares uma bailarina como... como... - Estava tão furiosa que quase mencionou a mulher com quem Nicolau se envolvera alguns anos atrás. - Esquece. De qualquer maneira, não vou permitir-to, Zoya.

       - Não tem escolha, avó. - Expressava-se com um calmo desespero e foi a primeira vez que a avó a viu assim.

       - Tens de obedecer-me, Zoya.

       - Não o farei. É a única coisa que quero. E quero ajudá-la. Os olhos da velha senhora encheram-se de lágrimas ao fitar a neta.

       - As coisas chegaram a este ponto? - Aos seus olhos, era um pouco melhor do que a prostituição, mas não muito.

       - O que há assim de tão terrível em ser bailarina? Não a choca que o príncipe Vladimir conduza um táxi. É algo de tão respeitável? É muito melhor do que o que quero fazer?

       - É patético. - Eugenia fixou-a de coração destroçado. Ainda há três meses ele era um homem importante e há muito tempo o pai tinha peso. Agora tornou-se quase um mendigo... mas nada mais lhe resta, Zoya... É tudo o que pode fazer. Tudo acabou para ele e, pelo menos, está vivo. A tua vida ainda agora começou e não posso permitir que comece dessa maneira. Ficarás destroçada... Ocultou o rosto entre as mãos e pôs-se a soluçar. - E há tão pouco que possa fazer para te ajudar.

       Zoya ficou paralisada ao ver a avó chorar. Era a primeira vez que a via vacilar e tocou-lhe até ao mais fundo do seu ser, mas sabia que tinha de dançar com os Ballets Russes, independentemente do que pudesse acontecer. Não iria coser, tricotar, nem ensinar russo.

       Abraçou a avó e apertou-a com força.

       - Por favor, não chore, avó... Amo-a tanto...

       - Então, promete-me que não dançarás com eles... Por favor, Zoya... Suplico-te... não deves fazê-lo.

       Fixou a avó com um olhar triste e uma sapiência superior à sua idade. Crescera demasiado rapidamente naqueles últimos anos e não havia retorno possível. Ambas o sabiam, por mais que Eugenia tentasse evitá-lo.

       - A minha vida nunca mais voltará a ser igual, nem a sua, avó, nunca mais. Trata-se de algo que não podemos mudar, mas de que devemos simplesmente tirar o máximo partido. Não há retorno. Tal como o tio Nicolau e a tia Alix... Têm de fazer o que há a ser feito. Como eu... Por favor, não fique zangada...

       A velha condessa sentou-se na cadeira com uma expressão de derrota e fitou Zoya com um semblante infeliz.

       - Não estou zangada, estou triste. E sinto-me muito indefesa.

       - Salvou-me a vida. Tirou-me de Sampetersburgo... e da Rússia. Se não fosse a avó, tinham-me morto quando incendiaram a casa, ou talvez ainda pior... não pode mudar a História, avó. Apenas podemos dar o nosso melhor... e o meu melhor é dançar... Deixe-me fazê-lo... por favor... Por favor, dê-me a sua bênção.

       A idosa senhora fechou os olhos, pensou no filho único e abanou a cabeça devagar, fitando Zoya, mas Zoya tinha razão.

       Konstantin morrera. Todos tinham desaparecido. O que interessava isso agora? Mas, acontecesse o que acontecesse, Eugenia sabia que a neta faria o que desejava e, pela primeira vez desde que se lembrava, sentia-se demasiado cansada e velha para a enfrentar.

       - Tens a minha bênção. Mas és uma rapariguinha endiabrada, mesmo endiabrada! - Apontou-lhe o dedo e tentou sorrir através das lágrimas e depois interrogou-se sobre o modo como ela teria conseguido a audição. - Onde foste arranjar as sapatilhas? - Desde a chegada a Paris que Zoya não lhe pedira dinheiro.

       - Comprei-as. - Esboçou um sorriso malicioso. Pelo menos, era inventiva, algo que teria agradado ao pai.

       - Com o quê?

       - Vendi o relógio. De qualquer maneira, era feio. Foi uma das minhas colegas que mo deu. - E Eugenia apenas conseguiu rir. A neta era uma jovem fantástica, e a velha senhora amava-a muito por mais furiosa que estivesse.

       - Suponho que devo estar grata por não me teres vendido o meu.

       - Avó! Mas que idéia! Seria incapaz de fazê-lo! - Tentou parecer ofendida, mas ambas sabiam que não o estava.

       - Só Deus sabe do que és capaz!... Tremo só de pensar!

       - Parece o Nicolai... - Zoya sorriu tristemente ao pronunciar a frase, e os olhos cruzaram-se e não se desviaram. Era todo um mundo novo o que tinham pela frente, cheio de novos princípios, novas idéias, nova gente... e uma nova vida para Zoya.

      

       O seu primeiro ensaio com os Ballets Russes, a 11 de Maio, foi de arrasar. Acabou às dez dessa noite e Zoya regressou ao apartamento doida de alegria, mas tão cansada que mal conseguia mexer-se. Os pés tinham-lhe sangrado quando executara os pas de deux e os tours jetés uma, duas, vezes sem conta. Fazia com que os anos com Madame Nastova lhe parecessem uma brincadeira de criança.

       A avó esperavas na pequena sala de estar. Tinham-se mudado para o apartamento dois dias antes e comprado um pequeno divã e várias mesinhas. Havia candeeiros com horríveis abat-jours de franjas e um tapete verde enfeitado de tristes flores em tom púrpura. Muito longe dos Aubussons, das antiguidades e dos bonitos objetos que tinham amado. Era, porém, confortável, e Feodor mantinha-o limpo. No dia anterior, fora até ao campo com o príncipe Markovski e regressara a casa com o táxi cheio de lenha.

       Ardia um fogo acolhedor e a avó esperavas com uma chaleira de chá fumegante.

       - Então, pequenina? Que tal correu? - Continuava a esperar que Zoya recuperasse o bom senso e abandonasse a idéia de dançar com os Ballets Russes, mas detectou nos olhos da jovem que a esperança estava perdida. Não a via tão feliz desde que todo o pesadelo começara, exatamente há dois meses, com os motins na rua e a morte de Nicolai. Nada disso fora esquecido, mas a recordação parecia menos vincada quando ela se deixou cair nas desconfortáveis cadeiras e esboçou um sorriso de orelha a orelha.

       - Foi maravilhoso, avó... simplesmente maravilhoso... mas estou tão cansada que mal consigo mexer-me. - As longas horas de ensaio haviam sido terríveis, mas eram estranhamente um sonho tornado realidade e agora só conseguia pensar no espetáculo dali a duas semanas. A avó prometera ir e o príncipe Markovski apareceria na companhia da filha.

       - Não mudaste de idéias, pequenina?

       Abanou a cabeça com um sorriso cansado e serviu-se de uma xícara da chaleira a escaldar. Tinham-lhe dito nessa noite que dançaria nas duas partes do espetáculo e sentia-se muito orgulhosa do dinheiro que lhe haviam dado. Fê-lo deslizar para a mão da avó com um tímido ar de orgulho ante as lágrimas que encheram os olhos de Eugenia. As coisas haviam chegado, então, àquele ponto. Iria ser sustentada pelo ballet da neta. Era quase insuportável.

       - Para que é isso?

       - É para si, avó.

       - Ainda não precisamos. - Todavia, as paredes nuas que as rodeavam e o horroroso tapete verde contrariavam a afirmação. Tudo o que tinham estava no fio e usado e ambas sabiam que o dinheiro do colar de rubis não tardaria a desaparecer. Havia, obviamente, mais jóias, mas não as bastantes para as sustentar eternamente. - É, de fato, isto o que queres fazer? - perguntou Eugenia num tom triste, e Zoya acariciou-lhe a face ao de leve e depois beijou-a.

       - Sim, avó... Hoje foi maravilhoso. - Assemelhava-se ao sonho de dançar com os estudantes do Marinski e nessa noite escreveu a Marie uma comprida e corajosa carta em que lhe contava tudo, omitindo apenas o pequeno e horrível apartamento.

       Manteve-se sentada na minúscula sala de estar muito depois de a avó se ter ido deitar e escreveu-lhe sobre as pessoas que tinham visto, como era Paris e a excitação de dançar com os Ballets Russes. Quase conseguia divisar o sorriso de Marie.

       Endereçou a carta ao Dr. Botkin em Tsarskoie Selo e esperava que Marie a recebesse decorrido pouco tempo. Escrever-lhe fazia com que se sentisse mais próximo dela.

       No dia seguinte voltou ao ensaio e nessa noite verificou-se um raid aéreo. Os três refugiaram-se na adega sob o edifício e depois regressaram devagar ao andar superior quando tudo acabou.

       Era um sinal da guerra que rugia nas proximidades, mas Zoya não sentia medo. Apenas conseguia pensar na dança.

       O príncipe Markovski estava muitas vezes presente quando Zoya regressava a casa. Tinha sempre histórias para contar e aparecia freqüentemente com bolinhos e fruta, quando conseguia arranjá-los.

       Trouxe-lhes mesmo um dos poucos tesouros que ainda conservava, um valioso ícone que a avó não queria aceitar, mas ele insistiu.

       Eugenia estava consciente de como todos precisavam desesperadamente das coisas que podiam vender, mas Markovski limitou-se a acenar com a mão elegante de dedos compridos e afirmou que, de momento, tinha mais do que o necessário. A filha arranjara um emprego a ensinar inglês.

       E na noite do primeiro espetáculo, estavam todos lá, na terceira fila. Zoya comprara-lhes os bilhetes com o seu salário.

       Só Feodor não apareceu. Sentia-se igualmente orgulhoso dela, mas o ballet era algo fora do seu alcance, e Zoya trouxe-lhe um programa com o nome dela escrito a letras pequenas próximo do final. Até mesmo a avó ficara orgulhosa, embora tivesse chorado de tristeza ao assistir. Teria preferido o que quer que fosse a vê-Ia no palco como uma vulgar bailarina.

       - Foste maravilhosa, Zoya Konstantinovna! - O príncipe fez-lhe um brinde com champanhe, que comprara, quando regressaram ao apartamento. - Estamos todos muito orgulhosos de ti! - Sorriu feliz à jovem ruiva, mau grado um olhar austero e um fungar da filha. Esta sentia-se chocada pelo fato de Zoya se ter tornado bailarina. As duas nunca se tinham conhecido, e ela era uma rapariga alta e magra com todos os sinais exteriores de uma solteirona. A vida em Paris era-lhe insuportável. Detestava as crianças a quem ensinava inglês e custava-lhe ver o pai a conduzir um táxi.

       Contudo, Zoya não partilhava nem uma das suas arrogantes perspectivas. Os olhos pareciam brilhar-lhe de excitação. Tinha o rosto afogueado quando a farta cabeleira se soltou, depois de a ter apanhado, como um mar de chamas sobre os ombros. Era uma bonita rapariga e a excitação da noite contribuíra para lhe ressaltar a beleza.

       - Deves estar muito cansada, pequenina - disse o príncipe num tom bondoso ao servir a última taça de champanhe.

       - Nada mesmo - protestou Zoya, começando a dançar pela sala. Era muito mais fácil do que tinha sido o ensaio. Fora tudo o que sempre sonhara e mais. - Não estou cansada. - Sorriu e depois soltou uma pequena risada ao beber mais um gole do champanhe, enquanto Yelena, a filha dele, a brindava com um olhar de censura. Zoya queria ficar a pé toda a noite a contar-lhes histórias dos bastidores. Precisava de conversar sobre o assunto com pessoas que se interessavam.

       - Foste fantástica! - repetiu ele, e Zoya esboçou um sorriso.

       Era tão sério e tão velho, mas parecia preocupar-se com ela. De certa forma, desejava que o pai pudesse ter estado ali, embora sabendo que vê-Ia em palco lhe partiria o coração. No entanto, talvez, secretamente, se tivesse orgulhado dela... E Nicolai... Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ante o pensamento. Pousou o copo, virou costas e dirigiu-se à janela, detendo-se a fixar o jardim.

       - Estás encantadora esta noite! - sussurrou Vladimir ao seu lado, e ela ergueu o rosto com um brilho de lágrimas no olhar. O corpo elegante de Zoya era tão jovem e apetecível.

       Ardia de desejo, o que se tornava a tal ponto visível que ela recuou, com a súbita consciência do que não notara antes. O príncipe era ainda mais velho do que o pai e sentia-se chocada ante o que lhe detectou no olhar.

       - Obrigada, príncipe Vladimir - agradeceu calmamente e com uma repentina tristeza ante o desespero em que todos se encontravam, sedentos de amor e presos a um passado que ainda podiam partilhar. Em Sampetersburgo, ele nem a olharia duas vezes, apenas seria uma bonita rapariga, mas agora... agora, agarravam-se com todas as forças a um mundo perdido e às pessoas que ali haviam deixado. Ela era apenas uma forma de prolongar o passado. Gostaria de o ter dito a Yelena, quando ela se despediu de forma ríspida.

       Zoya voltou a pensar no príncipe Vladimir enquanto se despia e esperava que a avó regressasse da casa de banho do corredor.

       - Foi simpático em trazer-nos champanhe - comentou a avó, escovando o cabelo, de rosto emoldurado pela camisa de noite enfeitada que fazia com que parecesse mais nova sob a escassa luz.

       Outrora fora bonita, e os olhos das duas mulheres cruzaram-se e não se desviaram. Zoya interrogou-se sobre se ela saberia da atração de Vladimir. A mão dele tocara-lhe ao despedirem-se e agarrara-a com demasiada força ao beijá-la na face.

       - A Yelena parece tão triste, não acha? - perguntou Zoya, depois de um longo momento e sem responder ao comentário.

       Eugenia esboçou um aceno de concordância e pousou a escova com um ar solene.

       - Nunca foi uma criança feliz, tanto quanto me recordo. Os irmãos eram muito mais interessantes, mais parecidos com o Vladimir - redargüiu. Recordava o elegante filho do príncipe que pedira a mão de Tatiana. - É um homem atraente, não achas?

       Zoya virou costas por um momento e depois rodou sobre os calcanhares e declarou com franqueza:

       - Acho que ele gosta de mim, avó... Demasiado... - Hesitou e Eugenia franziu o sobrolho.

       - O que pretendes dizer?

       - Que ele... - Corou violentamente sob a luz fraca, exibindo de novo o ar de uma criança - Que ele... tocou-me na mão esta noite... - Parecia estúpido estar com aquelas explicações... Talvez o gesto nada significasse.

       - És uma rapariga bonita e talvez lhe despertes memórias. Acho que ele era muito amigo da tua mãe e sei que se dava muito com o Konstantin na juventude de ambos. Caçaram mais do que uma vez na companhia do Nicolau... Não sejas tão sensível, Zoya. É um homem bem-intencionado. E foi simpático em vir ver-te esta noite. Está apenas a ser bondoso, miúda.

       - Talvez - anuiu Zoya, despreocupada. Em seguida, apagaram a luz e meteram-se na estreita cama que partilhavam. No escuro, a jovem ouvia Feodor a ressonar no quarto ao lado e mergulhou no sono, pensando na magia do espetáculo.

       Contudo, na manhã seguinte, teve a certeza de que Vladimir não estava somente a ser bondoso. Esperava-a lá em baixo, quando saiu para o ensaio.

       - Queres uma boléia? - Ficou surpreendida ao vê-lo ali e ele trazia-lhe flores.

       - Não quero dar-lhe trabalho... Tudo bem. - Teria preferido percorrer a pé a distância que a separava do Châtelet. Ele fazia com que se sentisse subitamente desconfortável ante a forma como a olhava. - Gosto de andar a pé.

       Estava um dia bonito e sentia-se excitada por ir ensaiar novamente. Os Ballets Russes, eram o seu maior prazer daquele dias e não queria partilhá-lo com ninguém, nem mesmo com o elegante príncipe de cabelos brancos que lhe estendia rosas brancas com um gesto galante.

       As flores apenas contribuíam para que ficasse triste.

       Marie sempre lhe dera rosas brancas na Primavera, mas ele não poderia saber. Nada sabia sobre ela, era amigo dos seus pais, não dela, e sentiu-se repentinamente deprimida ao vê-lo ali de pé, de casaco gasto e colarinho enrugado. Como todos os restantes, deixara tudo para trás à exceção da vida, algumas jóias e o ícone que lhe oferecera há uns dias.

       - Talvez a avó gostasse que lhe fizesse uma visita sugeriu com um sorriso delicado, e ele pareceu magoado.

       - É assim que me vês? Como um amigo da tua avó? - Não queria responder-lhe afirmativamente, mas era essa a verdade. Parecia-lhe mil anos mais velho, ali de pé, olhando-a. - Consideras-me assim tão velho?

       - De forma alguma... Lamento... Tenho de ir... Vou chegar atrasada e zangam-se comigo.

       - Nesse caso, deixa-me levar-te. Podemos falar no caminho.

       Hesitou, mas iria chegar atrasada. Permitiu, relutante, que ele lhe abrisse a porta do táxi e entrou, deixando que as rosas brancas os se arassem, no assento. Era simpático da parte dele trazer-lhe presentes, mas sabia que dificilmente podia dar-se a esse luxo. Não era de admirar que Yelena se mostrasse aborrecida.

       - Como está a Yelena? - perguntou para passar o tempo e evitou-lhe os olhos, fixando os outros carros e só depois voltando a encará-lo. - Pareceu-me muito quieta na noite passada.

       - Não se sente feliz aqui - suspirou. - Não acho que muitos de nós se sintam. É uma mudança tão repentina e ninguém estava preparado... - Pronunciou as palavras e depois estendeu o braço e tocou-lhe na mão, sobressaltando-a com o seguimento da conversa:

       - Achas que sou velho demais para ti, minha querida Zoya?

       A voz prendeu-se-lhe na garganta e soltou delicadamente a mão.

       - É o amigo do meu pai - respondeu com uma expressão triste.

       - Torna-se difícil para todos nós, todos nos agarramos ao que já não temos. Talvez eu represente isso para si.

       - É o que pensas? - Sorriu. - Sabes que és muito bonita?

       Zoya sentiu-se corar e amaldiçoou no íntimo a suave tez que condizia com a farta cabeleira.

       - Muito obrigada. Mas sou mais nova do que a Yelena... Tenho a certeza de que ela ficaria muito perturbada... - Foi tudo o que conseguiu proferir, ansiando por que chegassem ao Châtelet e pudesse esquivar-se.

       - Ela tem a vida dela, Zoya. E eu tenho a minha. Gostaria de levar-te a jantar. Talvez ao Maxim's. - Era uma loucura: o champanhe... as rosas... a idéia de jantar no Maxim's. Estavam todos a morrer de fome, ele conduzia um táxi, ela dançava nos Ballets Russes e não fazia sentido que gastasse o pouco que tinha com ela. O príncipe era velho de mais, mas não queria ser indelicada.

       - Não me parece que a avó... - Virou uns olhos tristes na sua direção e ele pareceu descontente.

       - Ficarias melhor com um de nós, Zoya Konstantinovna, alguém que conheça o teu mundo, do que um jovem idiota.

       - Não tenho tempo para nada disso, Vladimir. Se me mantiverem nos Ballets, terei de trabalhar noite e dia para não perder o lugar.

       - Podemos descobrir tempo. Irei buscar-te à noite... - A voz tornou-se um sussurro e fitou-a com expectativa, mas ela abanou a cabeça com uma expressão infeliz.

       - Não posso... a sério que não. - Verificou, aliviada, que tinham chegado e virou-se para o fitar uma última vez. - Por favor, não espere por mim. Apenas quero esquecer... O que foi... é impossível recuperar. Não estaria certo para nós... por favor...

       Vladimir não pronunciou uma só palavra quando ela deslizou para fora do carro e se afastou a toda a pressa, deixando as rosas brancas no assento ao lado dele.

      

       - O Vladimir trouxe-te a casa? - A avó sorriu ao vê-la entrar e Zoya reparou com um aperto no coração que as rosas brancas se encontravam numa jarra ao seu lado.

       - Não. Um dos outros deu-me boleia. - Sentou-se com um sorriso e esfregou as pernas. - Hoje, foi difícil. - Contudo, não se importava, pois dançar com os Ballets Russes fazia com que se sentisse outra vez viva.

       - Ele disse que te trazia a casa - replicou Eugenia, franzindo o sobrolho. Trouxera-lhe pão fresco e um frasco de compota. Era um homem tão generoso e tratava-as tão bem. E, estranhamente, Eugenia sentia-se confortada ao pensar nele a tomar conta de Zoya.

       - Avó... - Zoya fitou-a, tentando encontrar as palavras. Não quero.

       - Porque não? Estás muito mais segura com ele do que com alguém que não conheças. - Ele próprio lho dissera nessa tarde quando fora ao apartamento deixar as rosas de Zoya, e o desgosto por ver a neta a dançar com os Ballets Russes atingiu-a, de novo, como uma faca no coração, mas sabia que nada poderia detê-la agora. E tinha de admitir que uma delas precisava de trabalhar, e Zoya era a única em condições de o fazer. Apenas desejava que tivesse encontrado outra ocupação, como as aulas de Yelena. E se Vladimir a tomasse sob a sua proteção, talvez a neta deixasse de dançar. O príncipe apenas o sugerira nessa tarde, o que fizera com que o visse sob uma perspectiva diferente. A de herói e salvador.

       - Avó... Acho que o príncipe Vladimir... Acho que tem algo mais em mente.

       - É um homem decente. Com boas maneiras e bem-nascido. Era um amigo do Konstantin. - Eugenia não queria abrir o jogo cedo de mais, embora Vladimir a tivesse convencido.

       - Mas era a isso mesmo que me referia. Era amigo do papá. E não meu. Deve ter sessenta anos.

       - É um príncipe russo e primo do czar.

       - O que justifica tudo? - retorquiu Zoya, irritada e levantando-se de um salto. - Não se importa que tenha idade bastante para ser meu avô?

       - Ele não quer o teu mal, Zoya... Alguém tem de tomar conta de ti. Estou com oitenta e dois anos... Não estarei eternamente ao teu lado... Tens de pensar nisso. - E, no íntimo, ficaria aliviada por saber que deixava Zoya nas mãos de Vladimir. Pelo menos, era alguém que conhecia, alguém que compreendia a vida que haviam levado antes. Ninguém em Paris o compreenderia à exceção dos seus e deitou um olhar implorativo a Zoya, suplicando-lhe em silêncio que pensasse no assunto, mas a jovem estava horrorizada.

       - Queria que casasse com ele? É esse o seu desejo? - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ante a idéia. - É um velho.

       - Tomaria conta de ti. Pensa em como tem sido bom para nós, desde que chegamos.

       - Não quero ouvir falar mais disto! - Correu para o quarto, bateu a porta e atirou-se para cima da cama, chorando desesperadamente. Era o que lhe restava? A perspectiva de casamento com um homem do triplo da sua idade, só porque era um príncipe russo? A idéia repugnava-a e fazia com que tivesse ainda mais saudades da vida e dos amigos perdidos.

       - Zoya... Não... querida, por favor... - A avó veio sentar-se na beira da cama e acariciou-lhe suavemente o cabelo. - Não estou a forçar-te a fazer algo que não queiras. Contudo, preocupo-me demasiado contigo. O Feodor e eu somos tão velhos... Tens de encontrar alguém que possa tomar conta de ti.

       - Tenho dezoito anos - soluçou. - Não quero casar com ninguém... E muito menos ele... - O príncipe em nada a atraía e odiava Yelena. A idéia de se ver condenada a viver com eles, punha-a histérica. Apenas desejava dançar, ganharia dinheiro bastante para se sustentar, a Feodor e à avó. Jurou para si própria que faria tudo de preferência a casar com um homem que não amava. Trabalharia noite e dia... Faria qualquer coisa...

       - Está bem... está bem... Por favor, não chores assim... por favor... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ao pensar na crueldade do seu destino. Talvez a neta tivesse razão. Fora apenas uma idéia. Vladimir era obviamente velho de mais, mas era um deles, o que se tornava muito importante aos seus olhos.

       Contudo, havia outros que tinham sobrevivido, havia igualmente homens mais novos. Talvez Zoya viesse a conhecer um deles e se apaixonasse. Era a sua maior esperança agora. Era a única esperança que lhe restava... essa e as poucas jóias escondidas na cama onde dormiam. Nada mais restava... à exceção de alguns diamantes e esmeraldas, uma fieira de pérolas requintadas e o ovo Fabergé que Nicolau lhe dera... e uma vida de sonhos quebrados.

       - Vá lá, Zoya... Seca as lágrimas. Vamos dar um passeio.

       - Não - recusou a neta num tom de voz infeliz, enterrando novamente o rosto na cama. - Ele estará à nossa espera, lá em baixo.

       - Não sejas ridícula - contrapôs Eugenia a sorrir, pensando como ela era ainda uma criança, embora tivesse crescido rapidamente nos últimos dois meses. - Tem uns modos impecáveis. Não é um desordeiro à solta pelas ruas. Deixa de ser idiota.

       Zoya rolou devagar e ficou de costas, parecendo de uma beleza incrível.

       - Desculpe, avó. Não quero torná-la infeliz. Prometo que tomarei conta de nós.

       - Não é o que quero para ti, pequenina. Quero que alguém tome conta de ti. É assim que deveria ter sido.

       - Todavia, tudo é diferente agora. Nada é como era. – Sentou-se, esboçando um sorriso tímido. - Talvez um dia venha a ser uma bailarina famosa. - Parecia entusiasmada com a idéia, e Eugenia soltou uma gargalhada.

       - Deus me ajude, mas quase acho que estás a gostar de tudo isto.

       - Adoro os Ballets Russes, avó - replicou Zoya com um sorriso franco.

       - Eu sei. E és muito boa. Contudo, não deves pensar nisso como algo que farás para toda a vida. Fá-lo agora, se tem de ser. Mas, um dia, as coisas voltarão a mudar. - Não era uma promessa, e sim uma oração.

       No entanto, quando Zoya pôs as pernas fora da cama e foi buscar o casaco, apercebeu-se de que não estava certa de querer a mudança. Adorava dançar com os Ballets Russes... muito mais do que a avó conseguia entender.

       Ao caminharem devagar rumo ao Palais Royal, observando as arcadas e os objetos expostos, Zoya sentiu um estremecimento de alegria que lhe invadia a alma. Paris era bonita e gostava das pessoas dali. A vida não era assim tão má. Sentiu-se repentinamente feliz e jovem. Demasiado jovem para desperdiçar a vida com o príncipe Vladimir.

      

       Zoya dançou com os Ballets Russes durante todo o mês de Junho e estava tão absorta no seu trabalho que mal se apercebia do que se passava no mundo. Ficou extraordinariamente surpreendida com a chegada do general Pershing e das suas tropas a 13 de junho.

       A cidade fervilhou, quando marcharam até à Praça da Concórdia e desfilaram junto ao Hotel Crillon. O povo gritava e acenava e as mulheres atiravam flores aos homens, gritando: «Víve l'Amérique!»

       Zoya mal conseguiu regressar ao Palais Royal, a fim de contar à avó o que tinha visto.

       - São aos milhares, avó!

       - Nesse caso, talvez a guerra acabe em breve para nós.

       Sentia-se exausta com os raids aéreos noturnos e uma parte secreta dela pensava que, se a guerra terminasse, talvez a situação mudasse novamente na Rússia e pudessem voltar. Contudo, a maioria das pessoas sabia que não havia esperança.

       - Quer ir dar um passeio e ver? - Os olhos de Zoya brilhavam.

       Havia algo de maravilhoso nos rostos esperançados dos franceses e nos homens vigorosos com uniformes de caqui, tão fortes e cheios de vida. Por todo o lado, parecia renascer a esperança, mas a avó limitou-se a abanar a cabeça.

       - Não tenho qualquer desejo de ver soldados nas ruas, miúda.

       - Nutria terríveis recordações, sentia-se a salvo em casa e incitou Zoya a que ficasse também. - Afasta-te deles. As multidões podem tornar-se rapidamente perigosas.

       Não havia, porém, qualquer indício de que assim fosse. Era um dia feliz para todos, e os ensaios haviam sido suspensos durante o resto da semana. Pela primeira vez num mês, Zoya dispunha de algum tempo para si, para ficar na cama, ir passear, sentar-se junto à lareira e ler. Sentia-se despreocupada e jovem e usufruía daquele momento.

       Nessa noite, sentou-se na sala de estar e escreveu uma longa carta a Marie, falando-lhe da marcha de Pershing e do seu trabalho no ballet. Parecia haver mais para lhe relatar agora, embora não mencionasse o príncipe Vladimir. Sabia que a amiga ficaria chocada se soubesse que a avó encorajava a conquista, mas tornara-se uma questão insignificante. Ele compreendera e, embora continuasse a trazer pão fresco à condessa enquanto Zoya trabalhava, há semanas que não se cruzavam.

       Enquanto escrevia a Marie nessa noite, a pequena Sava aninhava-se confortavelmente no seu colo, ressonando, feliz. «... Parece-se tanto com a Joy que me faz pensar em ti, mal entra aos saltos no quarto. Embora não precise deste tipo de coisas para te recordar. Parece-me incrível que estejamos em Paris e tu aí... e que não nos encontremos em Livadia neste Verão. Aquela fotografia idiota de todas nós está junto à minha cama... »

       Zoya olhava-a todas as noites, antes de adormecer. Trouxera igualmente uma fotografia de Olga com Alexis ao colo quando ele tinha três ou quatro anos... e uma muito bonita de Nicolau e Alexandra. Meras recordações agora, mas o fato de escrever à amiga conservava-as vivas no seu coração.

       Há uma semana, o Dr. Botkin enviara-lhe uma carta de Marie em que ela comunicava a Zoya que estava tudo bem, embora se mantivessem sob prisão domiciliária. Contudo, haviam-nos informado que iriam até Livadia, em Setembro. E estava recuperada.

       Desculpava-se por ter pegado o sarampo a Zoya e dizia que gostava de a ter visto coberta de manchas. A leitura das cartas provocava-lhe um sorriso por entre as lágrimas.

       Estava a reler a carta, quando chegou uma mensagem. Iria dançar Petruchka na Opéra para o general Pershing e as suas tropas. Como sempre, a avó não ficou nada feliz com as notícias.

       Dançar para os soldados ainda parecia pior do que o espetáculo no Châtelet, mas desta vez nem sequer tentou dissuadir Zoya, sabendo perfeitamente que não tinha qualquer hipótese de ser bem sucedida.

       Nessa altura, Pershing e os soldados estavam instalados no quartel-general da Rue Constantine, do outro lado dos Invalides, e ele vivia na margem esquerda, próximo da Rue de Varennes, num belo hôtel particulier que lhe fora cedido por Ogden Mills, um colega americano que estava em serviço algures na infantaria.

       - Esta noite, quero que o Feodor te acompanhe - decidiu a avó num tom sombrio, quando a neta se dispunha a sair para a Opéra.

       - Deixe-se disso, avó. Não podem ser diferentes dos generais russos. Tenho a certeza de que se comportarão devidaMente. Não vão tomar o palco de assalto para nos levarem com eles. - Nessa noite, Nijinski dançava com eles, e Zoya estava hilariante. Pisar o mesmo palco era algo que a ultrapassava. - Tudo correrá bem, garanto.

       - Não irás só. Ou com o Feodor ou com o príncipe Vladimir. Escolhe. - Sabia perfeitamente qual seria a opção, embora intimamente o lamentasse, mas não voltara a pressionar Zoya quanto ao príncipe. De certa forma, a neta tinha razão. Havia uma grande diferença de idades.

       - Muito bem - retorquiu Zoya a rir. - Levo o Feodor. Mas ele vai ficar infelicíssimo à espera nos bastidores.

       - Não, se estiver à tua espera, minha querida. - O velho criado servia-as com uma devoção que roçava o fanatismo, e Eugenia sabia que Zoya estaria a salvo com ele ao seu lado. E Zoya apenas concordou para sossegar a avó.

       - Diz-lhe pelo menos que não deve pôr-se no meio do caminho.

       - Nunca o faria.

       Meteram-se juntos num táxi para a Opéra e, momentos depois, Zoya desapareceu no meio dos preparativos do espetáculo para Pershing e os seus homens. Sabia que havia outros festejos planeados para eles na Opéra Comique, na Comédie-Française e noutros teatros espalhados pela cidade. Paris recebia-os de braços abertos.

       E nessa noite, quando a cortina subiu, dançou como nunca. O fato de saber que Nijinski estava ali incitou-a, e Diaghilev falou-lhe pessoalmente no final do primeiro ato. Sentia-se como se fosse capaz de voar depois das suas generosas palavras, entregou-se de alma e coração e, quando a cortina desceu, ficou surpreendida por o espetáculo ter passado num ápice. Queria que aquela noite nunca mais acabasse.

       Esboçou as vênias com o resto do corpo de bailado e retirou-se com eles para o camarim comum. As primeiras bailarinas tinham obviamente os seus próprios camarins, mas decorreriam anos antes que pudesse formular esse desejo, só que não lhe importava.

       Apenas queria dançar e era o que acontecia. Dançara bem e sentia-se orgulhosa quando descalçou as sapatilhas. Doíam-lhe os dedos dos pés dos tacos de madeira, mas nem isso tinha qualquer significado. Era um pequeno preço a pagar por tamanha alegria.

       Até esquecera o general e os seus acompanhantes. Nessa noite, só conseguia pensar no ballet enquanto dançava, dançava, dançava... e ergueu os olhos, surpreendida, quando uma das professoras entrou.

       - Estão todos convidados para uma recepção na casa do general - anunciou. - Dois caminhões militares irão levá-los lá. – Deitou-lhes um olhar orgulhoso. Todos haviam feito boa figura a nível individual e generalizado. - Champanhe para todos! - acrescentou com um sorriso e todos se puseram a rir e a falar.

       Paris parecia ter recuperado vida com os americanos por perto. Havia festas e espetáculos por todo o lado e, de súbito, Zoya pensou em Feodor, que a esperava lá fora. Queria absolutamente ir com eles, ser como o resto das pessoas, mau grado os receios da avó.

       Deslizou sem ruído até ao exterior, foi à procura de Feodor e descobriu-o de pé junto à porta do palco, com um ar tão triste como ela dissera à avó que seria o caso. Sentia-se ridículo, rodeado por mulheres envoltas em tule e homens que passavam por ele seminus. A óbvia imoralidade do ambiente horrorizava-o.

       - Sim, mademoiselle?

       - Tenho de ir a uma recepção com o resto do corpo de bailado e não posso levar-te, Feodor - explicou. - Vai para casa ter com a avó e diz-lhe que irei assim que puder.

       - Não - recusou, abanando solenemente a cabeça. - Prometi à condessa Eugenia Peterovna que a levaria a casa.

       - Mas não podes acompanhar-nos. Garanto-te que estarei a salvo.

       - Ela ficará muito zangada comigo.

       - Não, não ficará. Eu própria lhe explicarei quando chegar a casa.

       - Esperarei. - Fitou-a sem se deixar demover, e Zoya sentiu vontade de gritar. Não queria uma dama de companhia. Queria ser como todos os outros. Afinal, já não era um bebê. Era uma jovem adulta, de dezoito anos. E talvez, se tivesse muita, muita sorte, Nijinski lhe dirigisse a palavra... ou novamente Mr. Diaghilev.

       Estava muito mais interessada neles do que em qualquer dos homens de Pershing. Contudo, primeiro tinha de convencer Feodor a ir para casa e, por fim, depois do que lhe pareceu uma discussão infindável, ele acedeu, embora sem deixar de vincar que a condessa decerto ficaria furiosa com ele.

       - Prometo-te que lhe explico tudo.

       - Muito bem, mademoiselle. - Levou a mão à testa, esboçou uma vênia e saiu pela porta do palco. Zoya soltou um suspiro de alívio.

       - O que era? - inquiriu uma das outras bailarinas, quando passou junto dela.

       - Apenas um amigo de família. - Sorriu.

       Ninguém conhecia a sua vida e ninguém queria saber. Apenas lhes interessava o ballet e não os relatos piegas de como conseguira juntar-se ao corpo de bailado e a presença do velho criado, qual guarda cossaco, embaraçava-a. Ficou aliviada ao vê-lo afastar-se e pôde voltar ao camarim e mudar-se para a recepção na casa do general Pershing. Estava toda a gente muito animada e alguém já lhes começara a servir champanhe.

       Amontoaram-se alegremente nos caminhões militares e atravessaram a Ponte Alexandre III entoando velhas canções russas e tiveram de lhes recordar mais do que uma vez que se portassem bem durante o percurso até à casa do general Pershing. Contudo, ele tinha um ar bondoso e recebeu-os agradavelmente, um homem alto e magro de uniforme, que circulava pelo elegante átrio de mármore.

       Por momentos, Zoya sentiu um baque no coração ao olhar em volta. O ambiente recordava-lhe os palácios de Sampetersburgo, embora obviamente em ponto pequeno. Todavia, o chão de mármore e a escadaria em caracol eram-lhe demasiado familiares e uma recordação demasiado viva do mundo que ainda há tão pouco tempo abandonara.

       Foram encaminhados até um enorme salão de baile com paredes forradas de espelhos e lareiras de mármore, tudo em autêntico estilo Luís XV. De súbito, Zoya voltou a sentir-se muito jovem enquanto os pares rodopiavam e riam e uma banda militar pôs-se a tocar uma valsa lenta. Outros bebiam champanhe. Invadiu-a um desejo imperioso de chorar ao ouvir a música e, ao faltar-lhe o ar, saiu para o jardim.

       Ficou silenciosamente de pé a observar uma estátua de Rodin, desejando não ter vindo, e nesse momento uma voz mesmo nas suas costas expressou-se suavemente na noite quente.

       - Posso ir buscar-lhe alguma coisa, mademoiselle? - A voz masculina era nitidamente americana, mas falava um francês impecável. Virou-se e deparou com um homem alto e atraente, de cabelo grisalho e uns olhos azul-claros. A primeira coisa que lhe prendeu a atenção foi que ele parecia bondoso. Dava a sensação de saber que algo estava mal e observou-a delicadamente, mas ela abanou a cabeça com as lágrimas ainda visíveis nas faces. - Está bem?

       Zoya esboçou um aceno de cabeça silencioso e depois virou-se, embaraçada, para limpar as lágrimas. Pusera um simples vestido branco que Alix lhe tinha dado no ano anterior. Era um dos poucos bonitos que conseguira trazer de Sampetersburgo, e estava encantadora.

       - Desculpe... eu... - Como podia expressar-lhe o que sentia? Só desejava que ele a deixasse entregue às suas recordações, mas o americano não fez menção de se afastar. - Tudo isto é tão bonito. - Foi tudo o que conseguiu dizer, mas logo lhe ocorreu o miserável apartamento perto do Palais Royal e voltou a lembrar-se de quanto as suas vidas haviam mudado num marcante contraste com o elegante jardim onde agora se encontrava.

       - Está com os Ballets Russes?

       - Sim. - Sorriu, esperando que ele esquecesse as lágrimas e ouvisse os acordes distantes de uma outra valsa. Pronunciou as palavras num tom orgulhoso, pensando novamente em como tinha sorte: - O Nijinski não esteve maravilhoso esta noite?

       O homem riu, embaraçado, aproximou-se um pouco mais e Zoya voltou a reparar em como era alto e atraente.

       - Receio não ser um grande apreciador de ballet. Foi um espetáculo oferecido a alguns de nós esta noite.

       - Ah! - exclamou, sorrindo. - E sofreu muito?

       - Sim - anuiu com uma gargalhada no olhar. - Até este momento. Quer uma taça de champanhe?

       - Talvez dentro de minutos. Isto é tão bonito. - O jardim irradiava uma paz imensa naquele momento em que todos dançavam, riam e rodopiavam no interior da casa. - Também vive aqui?

       - Alojaram-nos numa casa na Rue du Bac - respondeu com um sorriso. - Não é tão imponente como esta, mas é muito agradável e bastante próxima.

       Observava-lhe os movimentos. Era uma jovem calma e elegante e transmitia algo mais do que a graciosidade de uma bailarina ao aproximar-se dele. Notava-se uma aura de um porte quase real quando movia a cabeça e um olhar de uma incomensurável tristeza que lhe ensombrava o sorriso.

       - Faz parte do pessoal do general?

       - Sim. - Era um dos ajudantes-de-campo, mas poupou-a a pormenores. - Há muito que está com os Ballets Russes? - Era impossível que assim fosse, pois suspeitava tratar-se de uma rapariguinha, embora denotasse um porte vincado quando finalmente mudaram do francês para o inglês. Falava muito bem, depois de todos os seus estudos no Instituto Smolny.

       - Estou com eles há um mês - Sorriu. - Com grande desgosto da minha avó. - Riu e pareceu subitamente muito mais nova.

       - Os seus pais devem orgulhar-se muito de si. - Contudo, lamentou de imediato o comentário ao detectar-lhe a tristeza no olhar.

       - Os meus pais foram mortos em Sampetersburgo... em Março... - Quase sussurrou as palavras, e subitamente ele compreendeu. Vivo com a minha avó.

       - Lamento... pelos seus pais, quero dizer... - O brilho dos olhos azuis quase a fez chorar novamente. Era a primeira vez que falava assim com alguém. Os companheiros do ballet pouco sabiam a seu respeito, mas por qualquer motivo achava que podia contar-lhe tudo. Ele recordava-lhe estranhamente Konstantin, com a mesma elegância, a graciosidade com que se movia, o cabelo de madeixas grisalhas e os olhos brilhantes. - Veio para cá com a sua avó? Ignorava porquê, mas ela fascinava-o. Era tão jovem e bonita, com aqueles enormes e tristes olhos verdes.

       - Sim, viemos há dois meses... de... depois... - Todavia, foi incapaz de completar a frase, e ele aproximou-se, colocando-lhe suavemente a mão no braço.

       - Vamos dar um passeio, mademoiselle? - Zoya sentia-se segura com a mão no braço dele. - E depois talvez uma taça de champanhe.

       - Caminharam até à estátua de Rodin e voltaram, falando de Paris, da guerra, de temas que lhe eram menos dolorosos, e a jovem ergueu o rosto na sua direção, sorrindo.

       - E de onde é?

       - Nova Iorque. - Nunca pensara muito nos Estados Unidos. Parecia-lhe a uma enorme distância.

       - Como é?

       - Grande e agitada - respondeu com uma gargalhada e fitando-a. - Não tão bonito como aqui, receio, mas agrada-me. - Queria interrogá-la sobre Sampetersburgo, mas pressentiu que não era a altura nem o lugar. - Dança todos os dias?

       - Quase. Até ao espetáculo desta noite, tive uma semana de terias - replicou.

       - E o que faz... nos tempos livres?

       - Vou passear com a minha avó, escrevo aos amigos, leio... durmo... brinco com a minha cadela.

       - Parece uma vida agradável. De que raça é a cadela? - Eram perguntas disparatadas, mas queria conservá-la perto dele e ignorava porquê. A jovem tinha visivelmente metade da sua idade, mas era de uma beleza que lhe dilacerava o coração.

       - Uma cocker spaniel. - Sorriu. - Foi um presente de uma amizade muito grande.

       - Um cavalheiro? - Parecia intrigado e ela riu.

       - Não, não! Uma amiga! Na verdade, a minha prima.

       - Trouxe a cadela da Rússia consigo? - Sentiu se fascinado por ela, quando inclinou a cabeça e a cascata de cabelo ruivo lhe encobriu os olhos.

       - Sim, trouxe. E acho que para ela a viagem foi muito mais fácil. Cheguei a Paris com sarampo. - Voltou a erguer o rosto na sua direção e esboçou um sorriso, parecendo novamente uma miúda. - Uma estupidez, não foi? - Contudo, ele em nada a achava estúpida e tomou a súbita consciência de que nem sabia como ela se chamava.

       - De forma alguma. Acha que devemos apresentar-nos?

       - Zoya Ossupov. - Esboçou uma ligeira vênia e fitou-o.

       - Clayton Andrews. Capitão Clayton Andrews, suponho que devia ter dito.

       - O meu irmão também era capitão... na Guarda Preobrajenski. Julgo que nunca tenha ouvido falar. - Observou-o na expectativa e ele apercebeu-se novamente da tristeza espalhada no olhar.

       Aparentemente, mudava de humor à velocidade de um raio e, ao examiná-la pela primeira vez, compreendeu o que levava as pessoas a afirmar que os olhos são o espelho da alma. Os dela pareciam dar para um mundo mágico de diamantes, esmeraldas, lágrimas contidas, e desejou torná-la de novo feliz, fazê-la dançar, rir e sorrir.

       - Receio não saber muita coisa sobre a Rússia, Miss Ossupov.

       - Nesse caso estamos quites - retorquiu, sorrindo. - Nada sei sobre Nova Iorque.

       Ele acompanhou-a até ao salão de baile e trouxe-lhe uma taça de champanhe, enquanto os outros dançavam a valsa.

       - Apetece-lhe dançar?

       Zoya pareceu hesitar e, em seguida, esboçou um aceno de concordância. Ele pousou a taça dela numa mesa próxima e guiou-a pelo chão numa lenta e digna valsa, fazendo-a uma vez mais sentir-se como se dançasse nos braços do pai. Se fechasse os olhos, estaria de volta a Sampetersburgo... mas a voz dele interrompeu-lhe os pensamentos.

       - Dança sempre com os olhos fechados, mademoiselle? Troçava dela, e Zoya sorriu. Era bom estar nos seus braços, era bom dançar com um homem alto e robusto... numa noite mágica... numa bela casa...

       - Tudo isto é tão encantador... não é?

       - Agora, é. - Contudo, gostara de ter estado no jardim com ela. Era mais fácil falar-lhe ali do que no meio da música e daquela multidão. E, no final da dança, o general Pershing fez-lhe sinal; ele deixou-a e, quando voltou a procurá-la, a jovem desaparecera.

       Procurou-a por todo o lado e saiu novamente para o jardim, mas ela não se via em parte alguma e, quando se inteirou, responderam-lhe que o grupo do primeiro caminhão dos Ballets Russes deixara a festa. Regressou pensativamente ao seu alojamento, vagueando pela Rue du Bac, recordando o nome dela e os enormes olhos verdes e interrogando-se sobre quem seria. Havia algo de profundamente intrigante naquela jovem.

      

       - Da próxima vez que mandar o Feodor acompanhar-te a qualquer lado, Zoya Konstantinovna, queres, por favor, ter a bondade de não o mandares para casa?

       A velha condessa mostrava-se furiosa quando tomaram o pequeno-almoço juntas no dia seguinte. Feodor regressara com ar tímido e explicara que os soldados tinham convidado o corpo de bailado a ir algures e ele não estava incluído. A avó esperava-a quando ela voltou, quase demasiado furiosa para lhe dirigir a palavra, e, de manhã, a fúria não se apagara ao fitar Zoya.

       - Desculpe, avó. Não podia levar o Feodor comigo. Era uma bela recepção na casa do general Pershing. - Lembrou-se imediatamente dos jardins e do capitão que havia conhecido, mas não divulgou pormenores à avó.

       - Ah! Já chegamos a esse ponto, então? Entreter as tropas? E o que se segue? É precisamente esse o motivo por que as jovens não fogem para fazer parte do ballet. Não é digno. E não vou tolerá-lo. Quero que saias imediatamente do ballet!

       - Avó... por favor... sabe que não posso!

       - Podes, se te ordenar.

       - Avó... por favor, não faça isso... - Não lhe apetecia discutir. Passara uns momentos tão agradáveis na noite anterior... e o atraente capitão tinha sido tão simpático ou assim lhe parecera. Mesmo assim, não o referiu à avó. Não achou apropriado e, de qualquer maneira, sabia que os caminhos de ambos jamais se cruzariam de novo. - Desculpe. Não voltarei a fazê-lo. - Não que tivesse oportunidade. Era pouco provável que o general Pershing oferecesse festas aos Ballets Russes depois de todos os espetáculos.

       Levantou-se e a avó fixou-a.

       - Onde vais, agora?

       - Hoje, tenho um ensaio.

       - Estou tão cansada disto! - Pôs-se de pé e começou a andar à roda do quarto num passo ainda muito ágil. - Ballet, ballet, ballet! Chega!

       - Sim, avó.

       Eugenia ia vender outro colar, desta vez um de esmeraldas. Talvez, então, Zoya desistisse desses disparates por uns tempos. Tinha a sua conta. A jovem não era uma bailarina. Era uma criança.

       - A que horas chegarás a casa esta noite?

       - Devo estar de volta às quatro da tarde. O ensaio começa às nove da manhã e não tenho espetáculo.

       - Quero que penses em deixá-los. - Contudo, ambas sabiam que Zoya gostava demasiado do que fazia e o dinheiro ajudava, por mais que a idéia desagradasse à condessa. Na semana anterior, a neta comprara-lhe um belo vestido e um xale quente. E o salário também ajudava a pagar a comida, embora não houvesse extras, salvo os que Vladimir ainda trazia com a esperança de conseguir ver Zoya de relance.

       - Iremos dar um passeio esta tarde, quando eu regressa a casa.

       - O que te leva a pensar que me apetece passear contigo? resmungou a avó e Zoya riu.

       - Porque me ama muito. E eu a si. - Beijou-lhe a face e correu para a porta, como uma rapariguinha atrasada para as aulas.

       A velha senhora suspirou e levantou da mesa os pratos do pequeno-almoço. Era tão difícil tê-la ali. As coisas eram muito diferentes e a parte pior residia em que a idosa senhora detestava admitir para si própria que Zoya já não era uma criança e não era fácil controlá-la.

       Nesse dia, o ensaio de Zoya voltou a ser na Opéra como preparação de outro espetáculo no dia seguinte e ela dançou e praticou na barra durante horas seguidas. Quando acabou, antes das quatro, sentia-se cansada depois da recepção até tarde na casa do general Pershing. Era uma tarde soalheira da última semana de Junho e pôs-se a caminhar com um suspiro de satisfação.

       - Parece cansada, Miss Ossupov. - Virou-se, surpreendida, ao ouvir o seu nome e deparou com Clayton Andrews, de pé junto a um dos carros da comitiva do general Pershing.

       - Olá... Assustou-me.

       - Estou aqui à espera há duas horas - Riu e ela fitou-o de olhos muito abertos.

       - Esperou-me todo este tempo?

       - Não tive oportunidade de me despedir de si na noite passada.

       - Julgo que estava ocupado quando saí.

       - Eu sei. Deve ter regressado no primeiro caminhão. - Zoya esboçou um aceno de concordância, surpreendida por ele se ter dado ao trabalho de investigar. Não pensara que voltaria a vê-lo, mas sentia-se feliz que assim fosse. Clayton era tão atraente como o achara na noite anterior, tão alto, elegante e gracioso como parecera, quando haviam dançado a valsa. - Julguei que pudesse almoçar comigo. Mas é um tanto tarde, agora.

       - De qualquer maneira, tenho de ir para casa. - Sorriu-lhe com um ar de rapariguinha que acaba de sair das aulas. - A minha avó ficou terrivelmente zangada comigo.

       - Voltou a casa muito tarde? - perguntou, admirado ante o comentário. - Não reparei na hora a que saiu. - Ela era, então, tão jovem quanto julgara. Tinha um aspecto de rapariguinha, a inocência... e, contudo, uma expressão sábia no olhar.

       Contudo, Zoya riu ao recordar-se de ter afastado Feodor.

       - A minha avó mandou alguém para me acompanhar e mandei-o embora. Embora desconfie que ele tenha ficado tão satisfeito quanto eu. - Corou um pouco e ele riu.

       - Nesse caso, mademoiselle, posso oferecer-me para a escoltar? Levá-la-ei a casa. - Zoya hesitou, mas ele era tão obviamente um cavalheiro que não haveria mal nenhum. E quem iria saber? Podia deixá-lo um ou dois quarteirões antes do Palais Royal.

       - Muito obrigada. - Abriu-lhe a porta e ela deslizou para o interior do carro. Indicou-lhe onde vivia e o capitão pareceu totalmente à vontade durante todo o percurso até à casa. Mandou-o parar a um quarteirão de distância e ele olhou em volta.

       - É aqui que vive?

       - Não propriamente. - Sorriu e voltou a corar. - Achei por bem poupar à minha avó o desgosto de se irritar tão depressa comigo depois da noite passada.

       Clayton riu e o rosto tinha um ar muito jovem, apesar do cabelo grisalho.

       - Mas que rapariguinha sem vergonha! E posso pedir-lhe que jante comigo esta noite, mademoiselle?

       Zoya franziu o sobrolho e depois fitou-o.

       - Não sei bem. A minha avó sabe que esta noite não há espetáculo. - Seria a primeira vez que se comportaria de forma desleal para com ela e não estava muito segura do motivo que a levava a sentir que tinha de ser assim. Conhecia, porém, a opinião de Eugenia sobre os soldados.

       - A sua avó não a deixa sair acompanhada? - inquiriu, divertido e surpreendido.

       - Não sei bem - confessou Zoya. - Nunca o fiz, - Oh, céus... Posso perguntar-lhe que idade tem? - Talvez ela fosse ainda mais jovem do que pensava, mas esperava que não.

       - Dezoito - respondeu quase num tom de desafio, e ele riu uma vez mais.

       - Parece-lhe muito?

       - O suficiente. - Ele não se atreveu a perguntar para quê.

       - Ainda há bem pouco tempo, incitou-me a corresponder a um amigo da família. - E, no próprio momento em que pronunciou as palavras, corou. Achava uma estupidez falar-lhe de Vladimir, mas aparentemente ele não se importava.

       - E que idade tem esse? Vinte e um?

       - Oh, não! - Era Zoya quem ria agora. - É muito, muito mais velho do que isso. Tem, pelo menos, sessenta! - Desta vez, Clayton pareceu em simultâneo divertido e admirado.

       - Ah, sim? E o que acha a sua avó?

       - É complicado de mais para explicar. Além de que não gosto dele... É um velho.

       O capitão fitou-a com uma expressão grave por um momento, enquanto se conservavam sentados no carro.

       - Também eu. Tenho quarenta e cinco anos. - Desejava ser honesto para com ela logo de início.

       - E não é casado? - Parecia surpreendida e depois tomou consciência de que talvez fosse esse o caso.

       - Sou divorciado. - Fora casado com uma das Vanderbilt, mas tudo acabara há dez anos. Em Nova Iorque, era considerado um bom partido, mas, nos dez anos seguintes ao divórcio e por entre todas as mulheres com quem saíra, nenhuma o conquistara.

       - Está chocada?

       - Não. - Pensou no assunto e voltou a encará-lo, mais do que nunca convencida de que ele era um homem decente. - Por que razão se divorciou?

       - Julgo que a paixão morreu... Fomos sempre muito diferentes. Contudo, ela voltou a casar e somos bons amigos, embora não a veja freqüentemente. Está a viver em Washington.

       - Onde é isso? - Parecia-lhe um lugar muito distante e misterioso.

       - É próximo de Nova Iorque, mas não muito. Um pouco como Paris e Bordéus. Ou talvez Paris e Londres. - A jovem esboçou um aceno de cabeça. Fazia sentido. Ele consultou o relógio. Passara horas à espera dela e agora tinha de regressar. - E quanto ao jantar esta noite?

       - Não me parece que seja possível. - Deitou-lhe um olhar triste e ele sorriu.

       - Amanhã, então?

       - Tenho de dançar, amanhã à noite.

       - E que tal depois? - Mostrava-se persistente e, agora que a encontrara de novo, não tencionava deixá-la escapar.

       - Tentarei.

       - Chega. Até amanhã à noite, nesse caso. - Saltou do carro e ajudou-a a descer.

       Zoya agradeceu delicadamente a boleia e ele acenou-lhe e seguiu rumo à Rue Constantine com uma canção no coração.

      

       Pela primeira vez na vida, mentiu à avó. Foi no dia seguinte, quando saiu de novo para a Opéra. Sentiu-se culpada, mas, quando saiu de casa, já se perdoara a si própria pelo que parecia uma mentira inofensiva. «Perderia tempo a preocupar-se com uma ninharia», pensou. «No fundo, que mal tem jantar com um homem simpático?» Dissera-lhe que Diaghilev lhes oferecia uma ceia e todo o corpo de bailado tinha de ir.

       - Não espere a pé por mim! - gritara por cima do ombro, a fim de que Eugenia não lhe visse os olhos.

       - Tens mesmo de ir?

       - Tenho, avó! - Em seguida, saíra precipitadamente e dirigira-se ao ensaio.

       Depois do espetáculo, Clayton esperava-a com outro dos carros do general Pershing.

       - Tudo em ordem? - Sorriu-lhe e deslizou para trás do volante, fitando-a bem nos olhos. Estes diziam muito mais do que as palavras e eram da cor de esmeraldas em fogo. - Que tal esta noite?

       - Correu bem. Contudo, o Nijinski não dançou. Ele é fantástico, não acha? - Soltou uma gargalhada, ao lembrar-se de que ele não gostava de ballet. - Deixe lá. Esqueci-me que não gosta de ballet.

       - Talvez possa ser ensinado.

       Dirigiram-se ao Maxim's e Zoya arregalou os olhos quando transpuseram a porta. A luxuosa decoração de veludos, a gente elegante e os homens fardados presentes que ali jantavam, cortaram-lhe o fôlego. Parecia-lhe tudo tão adulto; pensou de imediato em como descreveria o que a rodeava na sua próxima carta a Marie.

       Todavia, Clayton Andrews seria algo difícil de explicar, até mesmo à sua maior amiga. Não sabia muito bem porque é que estava a jantar com ele, salvo que se mostrara muito bondoso e parecia muito feliz e à vontade. Viu-se a desejar abrir o coração apenas desta vez... ou talvez mais outra depois. Nada havia de mal. Era um homem respeitável e sentia uma certa excitação. Tentou não se portar como uma criança deslumbrada, quando se sentaram à mesa.

       - Com fome? - inquiriu feliz, fitando-a e mandando vir champanhe, mas ela apenas queria olhar em volta. - Já aqui tinha estado?

       Zoya abanou a cabeça, pensando no apartamento onde viviam e no hotel onde se haviam alojado antes. Ainda não tinham ido a restaurantes, desde a chegada. Ela e a avó cozinhavam refeições simples em casa e Feodor sentava-se à mesa com ambas todas as noites.

       - Não - respondeu, sem mais explicações. Teria sido difícil explicar-lho.

       - É bonito, não é? Costumava vir aqui, antes da guerra.

       - Viaja muito? Por regra, quero dizer.

       - Bastante. Já tinha vindo a Paris... antes de chegar aqui há três meses? - Lembrara-se e ela sentiu-se tocada.

       - Não. Mas os meus pais vinham muito aqui. Na verdade, a minha mãe era alemã, mas viveu quase sempre em Sampetersburgo.

       Clayton sentiu um desejo súbito de indagar como fora a revolução, mas pressentia o quanto lhe seria doloroso e conteve-se. E depois, apenas para fazer conversa, fez-lhe uma pergunta que lhe provocou uma gargalhada.

       - Alguma vez viu o czar, Zoya? - E, ante o olhar divertido que lhe detectou no rosto, riu também. - Disse alguma graça?

       - Talvez. - Sentia-se tão à vontade com ele que decidiu abrir-se um pouco. - Somos primos. - No entanto, ficou muito séria, ao recordar-se da sua última manhã em Tsarskoie Selo.

       Clayton deu-lhe uma pancadinha na mão e serviu mais champanhe.

       - Deixe lá... Podemos falar de qualquer outra coisa. Todavia, a jovem fitou-o no mais fundo da alma.

       - Não, não tem importância... Só que... - Engoliu as lágrimas, sem deixar de o olhar. - Sinto tantas saudades deles. Por vezes, interrogo-me sobre se voltarei a vê-los. Ainda estão sob prisão domiciliária, em Tsarskoie Selo.

       - Tem tido notícias? - inquiriu, surpreendido.

       - Recebo por vezes cartas da grã-duquesa Marie... Ela é a minha maior amiga. Estava muito doente quando nos viemos embora. Pegou-me o sarampo. Tinham todos sarampo quando partimos. - O capitão sentia-se no sétimo céu ao ouvi-Ia. O czar da Rússia era uma figura histórica e não apenas um primo daquela bonita jovem.

       - E cresceu junto deles?

       Zoya esboçou um aceno de cabeça e ele sorriu. Estivera certo, afinal. Havia muito mais naquela jovem do que pensara à primeira vista. Não era somente uma pequena bailarina. Era uma rapariga de família, com um passado notável. E ela começou a falar-lhe na casa onde crescera, sobre Nicolai... e a noite em que fora abatido a tiro e ela ficara em Tsarskoie Selo, antes de deixarem a Rússia.

       - Tenho fotografias maravilhosas de todos eles. Um dia mostro-lhas. Íamos juntos todos os anos para Livadia, em Agosto. Também vão este ano, pelo menos foi o que a Marie me escreveu na última carta. Festejamos sempre lá os anos do Alexis, ou no iate.

       Clayton Andrews observava-a, fascinado, enquanto falavam. Ela referia um mundo mágico, uma época invulgar da História, aos seus olhos um lugar-comum, primos e amigos, crianças, tênis e diversões. E agora dançava com o Ballets Russes. Não era de admirar que a avó a mandasse acompanhar. A jovem foi mesmo ao ponto de lhe falar de Feodor. E, no fim da noite, Clayton sentia-se como se os conhecesse a todos e tinha um peso no coração pela vida que ela perdera na Rússia.

       - O que vai fazer, agora?

       - Não sei - respondeu, com honestidade. - Quando não houver mais jóias para vender, acho que continuarei a dançar e viveremos disso. A avó está velha de mais para trabalhar e o Feodor não fala francês que chegue para arranjar um emprego, além de que também é velho. - «E quando eles morrerem?» Nem se atrevia a pensar. Ela era tão franca, inocente e jovem e contudo tinha visto tanta coisa.

       - Fiquei com a impressão de que o seu pai devia ter sido muito bom, Zoya.

       - E era.

       - Torna-se difícil imaginar perder tudo isso. E mais difícil ainda o pensamento de nunca mais voltar.

       - A avó acha que as coisas podem mudar depois da guerra. O tio Nicolau disse isso mesmo, antes de nos virmos embora. - «O tio Nicolau... o czar Nicolau...» A surpresa não desaparecera, enquanto continuava a ouvi-la. - Pelo menos, de momento, posso dançar. Dantes, desejava fugir para o Marinski, quando era uma miúda... - Riu ante a recordação. - Não é tão mau assim. Prefiro dançar a ensinar inglês, a coser ou a fazer chapéus. - Clayton sorriu à medida que ela enumerava as alternativas.

       - Tenho de confessar que não consigo imaginá-la a fazer chapéus.

       - Preferia morrer de fome. Mas não será esse o caso. A companhia dos Ballets Russes tem sido muito boa para mim. Contou-lhe a primeira audição e ele ficou intimamente maravilhado perante a sua coragem e ingenuidade. O próprio fato de jantar com ele era um ato de coragem. E ele não tinha intenção de se aproveitar. Gostava da jovem, embora ela pouco mais fosse do que uma criança. Via-a, porém, de uma forma diferente da da outra noite. Não se tratava apenas de um rosto bonito ou de um elemento do corpo de bailado. Era uma jovem de uma família ainda mais ilustre do que a sua e, embora nada lhe tivesse restado, mantinha a raça e a dignidade, algo que ele não queria violar. - Gostava que pudesse conhecer a avó - rematou, como se lhe lesse o pensamento.

       - Talvez um dia.

       - Ficará chocada por não termos sido devidamente apresentados. Ignoro se conseguirei explicar-lhe.

       - Podemos dizer que sou um amigo de Diaghilev - sugeriu, e Zoya soltou uma gargalhada.

       - Seria ainda pior. A avó odeia o meio! Preferia que me casasse com o príncipe Markovski, que agora conduz o táxi, do que fizesse parte do ballet. - Contudo, ao observá-la, percebeu porquê. Era assustador imaginá-la solta no mundo, desprotegida, desconhecida, uma presa fácil para todos, até mesmo para ele.

       Pagou a ceia e parecia triste quando a levou a casa.

       - Gostava de voltar a vê-la, Zoya. - Dava a sensação de que estava a dizer-lhe uma coisa banal, mas sentiu um repentino desconforto ante a clandestinidade das saídas. Ela era tão jovem e não queria de forma alguma magoá-la. - E se um dia aparecer para tomar chá com a sua avó?

       Zoya ficou horrorizada com a idéia.

       - O que lhe direi?

       - Pensarei em alguma coisa. Que tal no domingo à tarde?

       - Costumamos ir passear pelo Bosque de Bolonha.

       - Talvez pudéssemos ir de carro. Digamos às quatro?

       Zoya esboçou um aceno de cabeça, interrogando-se sobre o que diria à avó, mas a sugestão dele era mais simples do que todos os esquemas que pudesse engendrar.

       - Pode dizer-lhe muito simplesmente que sou ajudante-de-campo do general Pershing e nos conhecemos na recepção da noite anterior. Por regra, é mais fácil contar a verdade do que mentir.

       - Pareceu-lhe de novo Konstantin, como acontecera por várias vezes nessa noite e sorriu-lhe com uma expressão feliz.

       - O meu pai diria algo do gênero. - E, quando pararam em frente da morada dela, Zoya fitou-o, achando que ele estava muito elegante e digno na sua farda. Era um homem muito bem-parecido. Passei uma noite encantadora.

       - Também eu, Zoya... também eu. - Tocou-lhe ao de leve nos cabelos ruivos e desejou atraí-la de encontro ao corpo, mas não se atreveu.

       Acompanhou-a até à porta e ficou a vê-la desaparecer em segurança no interior. A jovem acenou uma última vez e subiu velozmente as escadas até ao apartamento.

      

       A apresentação de Clayton à avó correu muito mais facilmente do que qualquer deles ousara esperar. Zoya explicou, despreocupada, que o conhecera na recepção oferecida aos Ballets Russes pelo general Pershing e o convidara para tomar chá.

       De início, Eugenia mostrou-se hesitante, pois uma coisa era receber o príncipe Vladimir, que se encontrava numa situação idêntica, e outra alguém que mal conheciam.

       Zoya comprou meia dúzia de bolos, uma qualidade de pão muito procurada e a avó preparou uma chaleira de chá fumegante. Nada mais tinham que lhe oferecer, nem serviço de prata, guardanapos ou toalha bordados, ou bule, mas Eugenia estava muito mais preocupada com o motivo que o levava a visitá-las do que com os atavios do que podiam proporcionar-lhe.

       Todavia, quando Feodor lhe abriu a porta pontualmente às quatro da tarde, Clayton Andrews dissipou-lhe quase todos os receios. Trouxe flores para as duas e uma bela tarte de maçã e mostrou-se um cavalheiro da cabeça aos pés ao cumprimentar Zoya de uma forma bastante formal e a avó com um entusiasmo respeitoso.

       Nesse dia, mal pareceu notar a presença de Zoya, enquanto falava das suas viagens, do pouco conhecimento da História da Rússia e da sua juventude passada em Nova Iorque. Eugenia viu-se a recordar freqüentemente Konstantin, todo o seu calor, encanto e perspicácia. E quando, por fim, mandou Zoya para fora da sala a fim de preparar mais chá, deteve-se a observá-lo, sabendo perfeitamente porque é que ele viera visitá-la. Era demasiado velho para namoricar a jovem, mas, de fato, não conseguia antipatizar com ele. Era um homem delicado e interessante.

       - O que quer dela? - perguntou a velha senhora inesperadamente num tom suave enquanto Zoya ainda estava ausente da sala, e ele fitou-a com bondade e franqueza.

       - Não sei bem. Nunca tinha falado com uma rapariga da idade dela, mas acho-a fantástica em muitos aspectos. Talvez possa ser um amigo... de ambas?

       - Não brinque com ela, capitão Andrews. A minha neta tem toda uma vida pela frente e que pode ser mudada pelo que fizer agora. Ela parece gostar muito de si. Talvez seja suficiente. – Eugenia sabia melhor do que ele que a intimidade entre ambos faria com que a vida de Zoya não voltasse a ser a mesma. - Ela é ainda muito, muito jovem. - O capitão esboçou um aceno de cabeça, pensando na sabedoria daquelas palavras. Na semana anterior, pensara mais do que uma vez em como era idiota andar atrás de uma rapariga tão jovem. E quando deixasse Paris? Não seria digno aproveitar-se dela e depois seguir o seu caminho. - Num outro mundo, numa outra vida, isto nunca pareceria possível.

       - Tenho perfeita consciência de que assim é, condessa. Mas por outro lado... os tempos mudaram, não é verdade?

       - De fato, mudaram.

       Zoya voltou a entrar na sala e serviu uma xícara de chá a cada um. Mostrou em seguida a Clayton as suas fotografias do Verão anterior em Livadia, com Joy a brincar-lhe aos pés, o filho do czar sentado ao lado dela no iate e outras mais com Olga, Marie, Tatiana, Anastasia, a tia Alix e o próprio czar.

       Era quase uma lição de história moderna e Zoya ergueu os olhos mais do que uma vez na sua direção com um sorriso feliz, recordando e explicando, e ele soube, nesse momento, a resposta às perguntas de Eugenia. Sentia mais do que amizade por aquela jovem. Embora ela fosse quase uma criança, tinha algo de espantoso na alma, irradiava algo que lhe tocava no mais íntimo de si, algo que nunca sentira por ninguém.

       No entanto, como poderia oferecer-lhe o que quer que fosse? Tinha quarenta e cinco anos, era divorciado e viera combater em França. Nada podia oferecer-lhe nesse momento, se é que alguma vez poderia. Zoya merecia um homem mais novo, alguém que crescesse e risse com ela, alguém com quem partilhasse as recordações. Todavia, desejava abraçá-la e prometer-lhe que nada voltaria a magoá-la.

       Levou-as a passear de carro quando a jovem pôs as fotografias de lado e, ao pararem no parque, deteve-se a vê-Ia brincar com Sava na relva. A cadelinha saltava e ladrava, e Zoya corria de um lado para o outro, rindo à gargalhada, quase chocando com ela.

       Sem pensar, envolveu-a e abraçou-a e ela ergueu o rosto para ele com um riso semelhante ao que vira nas fotografias. Eugenia ficou a observá-los e temeu pelo futuro.

       Ao levá-las de regresso a casa, Eugenia agradeceu-lhe e fitou-o com uma expressão tranqüila, enquanto Zoya se afastava para entregar Sava a Feodor.

       - Pense bem, capitão. O que para si pode não passar de um interlúdio, é susceptível de mudar a vida da minha neta. Pense bem, suplico-lhe... e sobretudo... seja bom.

       - O que lhe disse, avó? - quis saber Zoya depois de Clayton se ter ido embora.

       - Agradeci-lhe a tarte de maçã e convidei-o a que nos visitasse outra vez - respondeu Eugenia, levando as xícaras.

       - Nada mais? Ele parecia tão sério, como se lhe tivesse dito algo de importante. E nem mesmo sorriu, ao despedir-se.

       - Talvez estivesse a refletir em tudo isto, miúda retorquiu e logo acrescentou: - Ele é, de fato, velho de mais para ti.

       - Isso pouco me interessa. É um homem tão bom.

       - É mesmo. - Eugenia esboçou um aceno de concordância, esperando, no íntimo, que ele fosse suficientemente bom para não repetir a visita. Zoya corria um risco excessivo ao lado dele e o que aconteceria se se apaixonasse? Podia revelar-se desastroso.

      

       As preces de Eugenia para que Clayton Andrews não voltasse estavam votadas ao fracasso. Depois de tentar manter-se afastado durante uma semana, viu-se a pensar constantemente nela, obcecado pelos seus olhos... o cabelo... a forma como ria... a forma como a vira brincar com Sava... as próprias fotografias que lhe mostrara da família do czar pareciam persegui-lo. Zoya tomara-as reais e, em vez de uma trágica figura histórica, o czar transformara-se num homem com uma mulher, uma família, três cães, e o próprio Clayton viu-se a lamentar a imensidade das perdas que ele sofrera enquanto se mantinha sob prisão domiciliária em Tsarskoie Selo.

       Ao mesmo tempo que ele pensava na jovem toda a semana, também esta não desviou o pensamento de Clayton por um único momento.

       Desta vez, apresentou-se novamente na casa de Zoya e não no ballet e, com a permissão da avó, levou-a a ver A Viúva Alegre.

       Na volta, a jovem contou tudo numa grande excitação, mal parando para tomar fôlego. Clayton riu e serviu champanhe.

       Trouxera-lhes uma garrafa de Cristal que serviu em taças de cristal. Sem pretender ofendê-las, desejava constantemente facilitar-lhes a situação e trazia-lhes os pequenos confortos que sabia faltarem-lhes: cobertores que insistia terem-lhe sido «dados», um conjunto de copos, uma toalha de mesa bordada e mesmo uma caminha para Sava.

       Eugenia apercebeu-se de que Clayton estava enamorado, tal como Zoya. Davam longos passeios no parque, almoçavam em pequenos cafés enquanto Clayton lhe explicava os uniformes que desfilavam junto deles, os zuavos, os ingleses e os americanos de caqui, os poilus (1) de casacos azuis e mesmo os Chasseurs d'Afrique.

         (1) Designação atribuída aos soldados franceses na Primeira Guerra Mundial. (N. da T.)

       Abordavam todos os temas, desde o ballet a bebês. Zoya insistia em que um dia queria ter seis filhos e ele ria ante a idéia.

       - Porquê seis?

       - Não sei - respondeu com um encolher de ombros e um sorriso feliz. - Prefiro números pares.

       Partilhou com ele a última carta de Marie. Contava que Tatiana adoecera novamente, embora desta vez sem gravidade e falava da fidelidade e bondade com que Nagorny tratava Alexis, sem nunca sair do seu lado. «... E o papá é tão bom para todos nós. Faz com que todos se sintam fortes, felizes e alegres...» Era difícil de imaginar e Clayton sentia um peso no coração ao escutar as palavras. Mas, quando se encontravam, falavam de muito mais coisas além da família do czar, falavam de todas as suas paixões, interesses e sonhos.

       Foi um Verão mágico e encantador para Zoya. Sempre que ela não estava a dançar, Clayton aparecia, levava-a a sair, trazia a ambas pequenos presentes e preciosos tesouros. E depois, em Setembro, todos os inocentes prazeres tiveram um final abrupto.

       O general Pershing anunciou aos ajudantes-de-campo que ia mudar o quartel-general para Chaumont, no Marne, e, dali a uns dias, Clayton teria de abandonar Paris. Nessa mesma altura, Diaghilev fazia planos para levar os Ballets Russes a Portugal e Espanha e Zoya viu-se confrontada com uma difícil decisão. Não podia deixar a avó sozinha e tinha de abandonar o corpo de bailado, o que quase a matou.

       - Podes dançar com um dos outros ballets, aqui. Não é o fim do mundo - encorajou Clayton, sem conseguir convencê-la. Nenhuma outra companhia era os Ballets Russes e partia-lhe o coração verse obrigada a deixá-los. As piores notícias chegaram, contudo, duas semanas depois do aniversário de Alexis. Zoya recebeu uma carta de Marie, enviada como sempre pelo Dr. Botkin. A 14 de Agosto, toda a família Romanov fora transferida da prisão domiciliária no Palácio Alexandre em Tsarskoie Selo para Tobolsk, na Sibéria.

       A carta fora escrita no dia anterior à partida, e Zoya não fazia idéia de onde estavam. Apenas sabia que tinham partido. O pensamento era quase insuportável. Sempre imaginara que a qualquer momento iriam para Livadia, onde estariam a salvo. Contudo, agora tudo mudara e uma garra de pavor apertou-lhe o coração ao ler a carta. Mostrou-a a Clayton antes de ele se ir embora e o capitão tentou inutilmente acalmá-la.

       - Voltarás a ter notícias dela em breve. Tenho a certeza, Zoya. Não deves estar assim tão assustada.

       «Mas como não estar?», interrogava-se. Ainda há poucos meses perdera tudo, assistira com demasiada clareza aos terrores da revolução, e os amigos e parentes encontravam-se, realmente, em perigo. Assustava-o pensar nisso agora, mas ninguém podia fazer nada para os ajudar. Há muito que o Governo americano reconhecera o Governo Provisório e todos receavam oferecer guarida ao czar e à família. Não havia hipótese de o salvar dos revolucionários.

       Apenas se podia rezar e acreditar que um dia ficariam livres. Era a única esperança que podia oferecer a Zoya. E, pior ainda, ele próprio era obrigado a partir.

       - Não é muito longe. Virei a Paris, sempre que puder, prometo.

       Zoya fitou-o com uma expressão trágica... A amiga... os Ballets Russes... e agora ele tinha de deixá-la. Há quase três meses que a cortejava e ela proporcionava-lhe um constante prazer e uma inocente diversão. Eugenia achava, aliviada e justamente, que ele não fizera nenhuma idiotice. Apenas gostava da companhia dela e via-a sempre que podia para passearem, irem ao teatro, jantar no Maxim's ou em qualquer bar. E ela parecia desabrochar com todo aquele interesse afetuoso e proteção. Assemelhava-se a ter de novo uma família e agora também ia perdê-lo e tinha de encontrar um emprego com um corpo de bailado menos importante. Por mais que a idéia lhe desagradasse, Eugenia sabia que dependiam do salário de Zoya.

       A 10 de Setembro, tinha encontrado outro emprego, mas com uma companhia de ballet que detestava, pois não tinham precisão, nem estilo, nem a rígida disciplina dos Ballets Russes a que Zoya estava habituada, além de que lhe pagavam muito menos.

       No entanto, pelo menos, ela, Feodor e a avó continuavam a ter de comer. As notícias da guerra não eram boas, os raids aéreos continuavam e, por fim, recebeu uma carta de Marie. Estavam a viver na casa do governador, em Tobolsk, e Gibbes, o tutor, continuava a dar-lhes lições.

       «... O papá lê-nos histórias quase todos os dias e construímos um estrado na estufa para apanharmos um pouco de sol, mas em breve fará frio de mais. Dizem que os Invernos aqui parecem intermináveis...» Olga fizera vinte e dois anos, e Pierre Gilliard também estava com eles. «... Ele e o papá cortam lenha quase todos os dias, mas, pelo menos, enquanto estão ocupados, podemos escapar a algumas das lições. A mamã parece muito cansada, mas o Baby preocupa-a tanto. Sentia-se muito doente depois da viagem, mas informo-te com satisfação que está muito melhor.

       Dormimos as quatro num quarto e a casa é muito pequena, mas ao mesmo tempo confortável. Talvez um pouco como o teu apartamento com a tia Eugenia. Dá-lhe saudades minhas, querida, minha querida, e escreve-me quando puderes. O fato de dançares parece fascinante. A mamã ficou chocada quando lhe contei e depois riu e disse que era mesmo teu ires até Paris para fugires e dançares!

       Todos te mandamos saudades e eu em especial...» E, desta vez, assinou a carta como há muito não o fazia: «OTMA». Era um código que tinham inventado em crianças para as cartas enviadas por todas e significando Olga, Tatiana, Marie, Anastasia. O coração de Zoya sentia a falta de todas elas.

       Agora que Clayton se fora embora, estava ainda mais sozinha.

       Só lhe restava o trabalho e regressar até junto da avó depois de cada espetáculo. Compreendia até que ponto Clayton a estragara com mimos. Quando ele estava por perto, havia sempre saídas, presentes, surpresas e planos. E agora, subitamente, não havia nada. Escrevia-lhe ainda mais freqüentemente do que escrevia a Marie para Tobolsk, mas as respostas dele eram breves e apressadas. Tinha muito que fazer em Chaumont, ao serviço do general Pershing.

       Outubro foi ainda pior. Feodor apanhou a gripe espanhola e a avó tratou-o durante semanas a fio; por fim, incapaz de comer ou beber, ou mesmo de ver, sucumbiu à doença, e as duas mulheres choraram em silêncio à sua cabeceira. Tinha-lhes sido leal e bondoso, mas, tal como um animal levado para muito longe de casa, não conseguira sobreviver num mundo diferente. Sorriu-lhes com ternura antes de morrer e sussurrou:

       - ... Agora, posso regressar à Rússia...

       Enterraram-no num pequeno cemitério nos arredores de Neuilly.

       Vladimir levou-as até lá no carro, e Zoya chorou durante todo o caminho de volta a casa, sentindo-se como se tivesse perdido o único amigo que lhe restava. Tudo lhe parecia subitamente sombrio, até o próprio tempo. Sem Feodor, nunca havia lenha suficiente e nem Eugenia nem Zoya conseguiram arranjar coragem para utilizar o quarto dele.

       Era como se a dor das perdas se revelasse interminável. Há quase dois meses que Clayton não vinha a Paris e, um dia, quando Zoya regressou tarde a casa do trabalho, teve um choque horrível ao abrir a porta e deparar com um homem na sala em mangas de camisa. E a jovem sentiu um baque no coração, pois ele pareceu-lhe um médico.

       - Aconteceu alguma coisa?

       Ele olhou-a, também surpreendido, fitando-a e momentaneamente silenciado pela sua inesperada beleza.

       - Desculpe, mademoiselle... eu... a sua avó...

       - Ela está bem?

       - Sim, claro. Penso que se encontra no quarto.

       - E quem é o senhor? - Zoya não entendia o que ele estava a fazer ali em mangas de camisa e quase desfaleceu ao ouvir a resposta.

       - Não lhe contou?... Vivo aqui. Mudei-me esta manhã. - Era um homem magro, pálido e ainda novo, na casa dos trinta, de cabelo ralo e uma perna aleijada. Coxeava nitidamente quando voltou ao quarto de Feodor e fechou a porta, ao mesmo tempo que Zoya se precipitava, furiosa, para o da avó.

       - O que foi fazer? Não acredito! - Zoya fitava-a, irritada, sentada na única cadeira do quarto; depois, notou que Eugenia mudara umas coisas para o quarto de ambas para que ficassem mais confortáveis. - Quem é aquele homem? - Expressou-se sem preâmbulos e incapaz de acreditar no que a avó fizera.

       - Aceitei um hóspede - respondeu Eugenia, erguendo tranqüilamente os olhos do tricô. - Não tínhamos alternativa. O ourives não me ofereceu absolutamente nada pelas pérolas e havia muito pouco que vender. Precisávamos de fazê-lo mais cedo ou mais tarde. - No rosto pairava-lhe uma calma resignação.

       - Não podia, pelo menos, ter perguntado, ou mesmo avisado? Não sou uma criança e também vivo aqui. Aquele homem é um estranho! E se nos mata durante o sono, ou nos rouba as últimas jóias? E se se embebeda... ou traz para cá mulheres horríveis?

       - Nesse caso, pedimos-lhe calmamente que saia, mas não te preocupes, Zoya. Parece-me um homem muito sério e tímido. Foi ferido em Verdun, no ano passado, e é professor.

       - Não me interessa o que ele é. Este apartamento é pequeno demais para termos aceite um estranho e ganhamos dinheiro suficiente com o ballet. Porquê isto? - Sentia-se como se tivesse perdido a casa a favor do desconhecido e só lhe apetecia sentar-se e chorar ante tamanha indignidade. Aos seus olhos, significava o derradeiro golpe. Contudo, para Eugenia, parecera a única saída.

       E não contara a Zoya, porque suspeitara qual seria a sua reação.

       E a raiva da neta só vinha confirmá-la. - Não consigo acreditar que tenha feito uma coisa destas!

       - Não tínhamos escolha, miúda. Talvez, mais tarde, possamos fazer algo diferente. Mas não agora.

       - Nem sequer poderei preparar uma xícara de chá, vestida com a camisa de noite - lamentou, com os olhos cheios de raiva e de tristeza.

       - Pensa nas tuas primas e como deve ser a vida em Tobolsk. Não consegues ter a mesma coragem? - As palavras fizeram com que Zoya se sentisse de imediato culpada e afundou-se na cadeira que a avó desocupara para ir até à janela.

       - Desculpe, avó... Só que... fiquei tão chocada... - Depois sorriu quase maliciosamente. - Acho que lhe preguei um susto de morte. - Correu para o quarto e trancou a porta depois de lhe gritar.

       - É um indivíduo novo e simpático. Deves pedir-lhe desculpa de manhã.

       Contudo, Zoya não lhe respondeu, pensando no extremo a que tinham chegado. Tudo parecia piorar de momento a momento. Até Clayton dava a sensação de a haver abandonado. Tinha prometido vir a Paris assim que pudesse, mas tudo indicava que de momento tal esperança não existia.

       Escreveu-lhe no dia seguinte, mas sentia uma tal vergonha que não conseguiu mencionar o hóspede. Ele chamava-se Antoine Vallet e pareceu aterrorizado ao vê-la de manhã. Desdobrou-se em desculpas, tropeçou num candeeiro, quase partiu uma jarra e abalroou-a ao fazer todos os esforços para lhe sair do caminho na cozinha. Zoya reparou que tinha uns olhos tristes e quase sentiu pena dele, mas ficou-se pelo «quase». Na realidade, ele invadira o último bastião que lhes restava e não estava ansiosa por partilhá-lo.

       - Bom dia, mademoiselle. Quer café? - ofereceu e, embora pairasse um aroma agradável na cozinha, a jovem abanou a cabeça.

       - Muito obrigada. Bebo chá - murmurou entre dentes.

       - Lamento. - Fitou-a com um misto de terror e admiração e abandonou a cozinha o mais rapidamente que pôde. Pouco depois saiu para dar aulas.

       Porém, nessa tarde, quando ela voltou do ensaio, lá estava ele, sentado na sala, à secretária, a corrigir exercícios. Zoya entrou no quarto, bateu com a porta, pôs-se a passear nervosamente de um lado para o outro e fitou a avó.

       - Presumo que isto significa que não posso usar novamente a secretária - retorquiu. Queria escrever uma carta ao Clayton.

       - Tenho a certeza de que ele não vai lá estar a noite inteira, Zoya.

       Todavia, até mesmo a avó parecia confinada ao quarto. Não tinha sítio onde estar sozinha, nenhuma forma de reunir idéias.

       A situação pareceu-lhe subitamente insuportável e lamentou não ter ido para Portugal com os Ballets Russes porém, ao dar meia volta, deparou com os olhos cheios à lágrimas de Eugenia, sentiu uma alfinetada no coração e ajoelhou-se aos pés dela, abraçando-a.

       - Lamento tanto... Não sei o que me deu. Estou apenas cansada e nervosa.

       No entanto, Eugenia sabia perfeitamente o que a preocupava.

       Era Clayton. Tal como o previsto, fora combater e Zoya tinha de regressar a uma vida sem ele. Era bom que nada mais tivesse acontecido e ele fosse um homem respeitável, caso contrário, seria muito mais difícil para a neta. Não perguntou à neta se tivera notícias dele. Quase esperava que ele não lhe escrevesse.

       Zoya dirigiu-se à cozinha, preparou o jantar para a avó e para ela e, ao ver que o jovem professor mantinha a cabeça levantada na direção dos agradáveis aromas, cedeu e convidou-o para jantar.

       - O que ensina? - perguntou delicadamente, sem, de fato, se preocupar. Reparou que as mãos lhe tremiam muito, parecia estar sempre assustado e nervoso e achou que os ferimentos de guerra haviam ido mais longe do que deixá-lo coxo. Parecia incuravelmente abalado.

       - Ensino História, mademoiselle. E suponho que dança no ballet.

       - Sim - anuiu num fio de voz. Não se sentia orgulhosa do corpo de bailado em que dançava presentemente, como se sentira quando estava nos Ballets Russes, embora por pouco tempo.

       - Sou um grande apreciador de ballet. Talvez pudesse vê-la dançar um dia destes. - Sabia que ele esperava ouvi-la responder que gostaria, mas foi incapaz de pronunciar as palavras. Não era verdade. - Gosto muito do quarto - anunciou, sem se dirigir a ninguém em particular e Eugenia esboçou um sorriso amável.

       - Estamos muito satisfeitas com a sua companhia.

       - O jantar está muito bom.

       - Obrigada - agradeceu Zoya, sem erguer os olhos. Ele continuou a falar, cingido a uma série de chavões irrelevantes e a jovem detestou-o mais do que nunca. Andava a coxear pela cozinha tentando ajudá-la a arrumar e depois acendeu a lareira da sala, o que a aborreceu, pois desperdiçava a pouca lenha que tinham, mas, já que a acendera, aproximou-se para aquecer as mãos. O pequeno apartamento estava gelado.

       - Fui uma vez a Sampetersburgo. - Dirigia-se-lhe num tom baixo, da secretária, mal se atrevendo a olhar aquela rapariga tão bonita e impetuosa. - É muito bonito.

       Zoya esboçou um aceno, virou-lhe as costas e fixou as chamas com lágrimas nos olhos, enquanto ele observava aquelas saudades silenciosas. Casara antes da guerra, mas a mulher tinha-o trocado pelo melhor amigo e o único filho de ambos morrera de pneumonia. Também tinha os seus desgostos, mas Zoya não pediu para os ouvir.

       Encarava-o como um homem que passara por uma situação de grande perigo e mal lhe sobrevivera. Além disso, longe de lhe reforçar o espírito, destruíra-o. Virou-se devagar e fitou-o, interrogando-se sobre o que levara a avó a aceitá-lo. Era-lhe insuportável pensar que haviam chegado ao desespero, mas tinha essa consciência, caso contrário, Eugenia nunca tomaria esta atitude.

       - Está tanto frio aqui. - Era apenas uma afirmação, mas ele levantou-se rapidamente e deitou mais uma acha no fogo.

       - Arranjarei mais lenha amanhã, mademoiselle. Vai ajudar. Quer mais uma xícara de chá? Posso preparar-lha.

       - Não, obrigada. - Interrogou-se sobre que idade teria. Dava a sensação de andar na casa dos trinta e tal. Tinha, de fato, trinta e um, mas a sua vida não fora nada fácil.

       E acrescentou, depois, num tom tímido:

       - Ocupei o seu quarto? - Tal explicaria o óbvio desagrado que ela sentia com a sua presença, mas Zoya limitou-se a abanar a cabeça e, depois, suspirou.

       - Um dos nossos criados veio conosco da Rússia. Morreu em Outubro. - Ele esboçou um aceno de concordância.

       - Lamento. Foram tempos difíceis para todos nós. Há quanto tempo está em Paris?

       - Desde Abril. Partimos logo após a revolução.

       - Tenho conhecido vários russos aqui - replicou, depois de esboçar um novo aceno de cabeça. - São pessoas boas e corajosas. - Gostaria de ter acrescentado «como você», mas não se atreveu. Ela tinha uns olhos tão brilhantes e fogosos e, quando sacudia a cabeça, o cabelo revoluteava como se fosse um fogo sagrado. - Há algo que gostaria que fizesse, já que estou aqui? Gostava muito de dar qualquer ajuda. Posso encarregar-me de recados para a sua avó. Também gosto de cozinhar. Talvez pudéssemos fazer o jantar por turnos.

       A jovem esboçou um aceno de cabeça. Talvez ele não fosse assim tão má pessoa. Mas estava ali. E ela não o queria. Em seguida, o homem reuniu os papéis e voltou para o quarto, fechando a porta atrás de si.

       Zoya ficou sozinha, de olhos fixos nas chamas e pensando em Clayton.

      

       À medida que o Inverno passava, as pessoas pareciam mais esfomeadas e mais pobres. O tempo piorou e, com a chegada de um número cada vez maior de emigrados a Paris, os ourives baixaram os preços.

       Eugenia vendeu o último par de brincos a 1 de Dezembro e ficou horrorizada com o pouco que recebeu em troca. Agora, viviam somente do salário de Zoya, que mal chegava para comerem e pagarem o apartamento. O príncipe Markovski também tinha os seus problemas para resolver. O carro avariava-se constantemente e parecia mais magro e com mais fome de cada vez que o viam. Continuava a falar corajosamente de melhores tempos e fazia referência a todos os recém-chegados.

       Face a tamanha pobreza, ao frio cruel e à falta de comida, Eugenia sentia-se ainda mais grata com a presença do hóspede. O seu magro salário mal lhe chegava para pagar o custo do quarto, mas mesmo assim conseguia trazer uns extras para casa, metade de um pão, lenha para o fogo ou mesmo uns livros para Eugenia. Conseguiu até arranjar-lhe alguns em russo, pois os emigrados pobres deviam ter vendido os livros por uma fatia de pão.

       Contudo, parecia nunca esquecer Zoya e Eugenia, e trazia quase sempre uma pequena oferta à jovem. Uma vez, ouvira-a dizer quanto gostava de chocolate e, por um qualquer milagre, conseguira arranjar uma pequena barra de chocolate.

       Com o correr das semanas, ela mostrou-se mais acessível, grata pelos presentes, mas mais grata ainda pela bondade com que ele tratava a condessa. Esta começara a sofrer de reumatismo nos joelhos, e subir e descer as escadas tornara-se-lhe doloroso.

       Um dia, Zoya chegou a casa de um ensaio à tarde e verificou que ele transportava a avó pelas escadas, o que, dada a sua perna deficiente, constituía uma penosa tarefa, mas nunca se queixou. Mostrava-se sempre desejoso de fazer mais, e Eugenia tornara-se-lhe muito chegada.Também percebia a enorme atração que ele tinha por Zoya. Mencionara o assunto mais do que uma vez à neta, mas ela insistia em que nunca reparara.

       - É incrível como não te dás conta do quanto ele gosta de ti, miúda. - Contudo, Zoya estava mais preocupada com a tosse horrível que abalava o corpo da avó ao pronunciar as palavras.

       Há semanas que apanhara uma constipação, e Zoya receava a gripe espanhola que matara Feodor ou a temida tuberculose que parecia devorar Paris. Até a sua própria saúde não era a mesma de outrora. Com uma alimentação tão precária e tanto trabalho, emagrecera imenso e a face juvenil parecia, de súbito, muito mais velha.

       - Como está hoje a sua avó? - perguntou Antoine calmamente uma noite, quando estavam a preparar o jantar na cozinha.

       Agora, tratava-se de um ritual noturno entre ambos. Já não trabalhavam por turnos nas noites em que ela estava ausente, mas em vez disso cozinhavam juntos e, quando Zoya tinha de ir dançar, ele próprio cozinhava para Eugenia, arranjando muitas vezes comida que comprava no regresso a casa com o parco dinheiro que ganhava com as aulas. À semelhança de todos os demais em Paris nessa altura, também os seus escassos fundos pareciam desaparecer. - Estava tão pálida esta tarde prosseguiu, fixando Zoya com um olhar preocupado, enquanto ela cortava duas cenouras velhas para repartir entre os três.

       Estava farta de guisado, mas era o que comiam praticamente todas as noites e era a maneira mais fácil de dissimular a qualidade inferior da carne e a falta quase total de legumes.

       - Ando preocupada com aquela tosse, Antoine - respondeu Zoya, fitando-c, do outro lado da cozinha. - Acho que piorou, não foi? - Ele concordou com um triste aceno de cabeça e acrescentou dois pequenos quadrados de carne à panela onde Zoya fervia as cenouras num caldo aguado. Nessa noite não havia pão.

       Era uma sorte que nenhum deles estivesse com muita fome. Amanhã, tenciono levá-la ao médico. - Contudo, tratava-se de uma despesa superior às suas posses e nada restava para vender, exceto a cigarreira do pai e três caixinhas de prata que haviam pertencido ao irmão, mas Eugenia obrigara-a a prometer que não as venderia.

       - Conheço um médico na Rue Godot-de-Mauroy. Se quiser, dou-lhe o nome. Ele é barato. - Fazia abortos para as prostitutas, mas era melhor do que a maioria dos do seu meio.

       Antoine fora consultá-lo várias vezes por causa da perna e achara-o hábil e bondoso. Agora tinha dores terríveis com aquele frio e umidade do Inverno.

       Zoya reparara que ele parecia coxear mais, mas aparentava mais felicidade do que quando viera viver com elas. Devia fazer-lhe bem regressar do trabalho a casa de pessoas decentes e ter de se preocupar com a avó dela. Nunca lhe ocorreu que os sentimentos que lhe dedicava o mantinham vivo e que, à noite, deitado na cama, sonhava com ela no quarto ao lado, a dormir enrascada em Eugenia.

       - Que tal a escola hoje? - perguntou, enquanto esperava que a água levantasse fervura. Fitava-o agora com um olhar mais bondoso. Antoine atrevia-se mesmo a gracejar com ela de vez em quando, e as trocas de palavras recordavam-lhe um pouco o irmão. Não era um homem bonito mas era inteligente, culto e possuía um bom sentido de humor. Ajudava durante os raids aéreos e as noites frias. Era o que as agüentava em lugar da comida, do calor e dos pequenos prazeres da vida.

       - Correu bem. Contudo, anseio pelas férias. Terei oportunidade de pôr a leitura em dia. Quer ir ao teatro um dia? Conheço alguém que nos deixará entrar na Opéra Comique, se estiver disposta a tentar.

       A frase transportou-a de volta a Clayton e aos dias mais amenos de Verão. Há uns tempos que não recebia notícias dele e pressupôs que andasse ocupado com o general Pershing. Este planeava toda a campanha francesa, e a jovem estava a par de que era tudo muito secreto. Só Deus sabia quando o veria de novo. Contudo, habituara-se à situação. Vira pela última vez tantas pessoas que amava. Era difícil imaginar alguém sem a sensação de perda. Obrigou-se a deixar de pensar em Clayton e a regressar a Antoine e à sua oferta de irem ao teatro.

       - Gostaria de ir ao museu um dia destes. - Ele era de fato uma boa companhia e muito culto, embora não no sentido das suas desaparecidas amizades russas. Mas era um homem muito calmo à sua maneira, o que lhe agradava.

       - Iremos sair, mal acabem as aulas. Que tal o guisado? indagou, fazendo-a rir.

       - Um horror, como sempre.

       - Gostava que pudéssemos ter alguns condimentos decentes.

       - E eu que pudéssemos arranjar alguns autênticos legumes e fruta. Se vir mais alguma cenoura velha, acho que grito. Quando penso no que costumávamos comer em Sampetersburgo, sinto vontade de chorar. Nessa altura, nem sequer pensava nisso. Na noite passada, fui mesmo ao ponto de sonhar com comida. - Na noite anterior, Antoine sonhara com a própria mulher, mas não lho confessou, limitando-se a esboçar um aceno de cabeça e a ajudá-la a pôr a mesa. - A propósito, que tal está a sua perna? - Sabia que Antoine não gostava de falar no assunto, mas embrulhara-lhe uma botija quente mais do que uma vez e ele levara-a para a cama e dissera que o ajudara.

       - O frio não é nada bom. Dê-se por satisfeita por ser jovem. A sua avó e eu não temos essa sorte. - Sorriu-lhe e ficou a vê-la deitar o magro guisado em três tigelas feias e rachadas. Zoya acabaria por chorar se pensasse na bonita louça de porcelana em que jantavam todas as noites no Palácio Fontanka.

       Havia tanta coisa que tinham tomado por garantido e nunca mais veriam. Era horrível pensar nisso agora e Antoine bateu à porta do quarto a fim de trazer Eugenia para jantar. Parecia, contudo, preocupado, quando voltou só e fitou Zoya sobre a pequena mesa de cozinha.

       - Ela diz que não tem fome - declarou. - Acha que devo ir buscar o médico para que a veja esta noite? - Zoya hesitou um longo momento, ponderando na decisão a tomar. Uma visita noturna a casa seria ainda mais cara do que se as atendesse no consultório.

       - Vejamos como ela está depois do jantar. Pode sentir-se apenas cansada. Vou levar-lhe chá daqui a pouco. Está deitada?

       Antoine abanou a cabeça com uma expressão preocupada.

       - Está a dormitar na cadeira, com o tricô no colo. - Há meses que Eugenia andava às voltas com um pequeno pedaço retangular de lã, garantindo que um dia seria uma camisola para Zoya.

       Sentaram-se os dois a jantar e, mediante um silencioso acordo, não tocaram na terceira tigela, embora estivessem com fome. Havia ainda uma hipótese de que Eugenia resolvesse jantar.

       - Que tal correu o ensaio? - Antoine mostrava-se sempre interessado no que ela fazia e, embora não fosse um homem bonito, havia uma expressão amável de rapazinho nos seus olhos. Tinha cabelo louro e ralo que apartava cuidadosamente com uma risca ao meio e mãos bonitas em que há muito reparara. Haviam deixado de tremer e, embora sentisse dores permanentes na perna, já não andava tão nervoso.

       - Tudo em ordem. Gostava que os Ballets Russes voltassem. Sinto a falta de dançar com eles. Esta gente não sabe o que anda a fazer. - Contudo, havia, pelo menos, dinheiro para comida. Um emprego era demasiado precioso para se perder no Inverno de 1917, em Paris.

       - Hoje num café, encontrei umas pessoas que estavam a falar do golpe de Estado na Rússia no mês passado. Foi uma discussão infindável. sobre o Trotski, o Lenine e os bolcheviques com dois pacifistas que se irritaram tanto que ameaçaram socar os outros dois. - Esboçou um sorriso malicioso. - Foi o pacifismo no seu melhor. Na realidade, gostei da discussão. - Na altura, reinava um sentimento de hostilidade contra os bolcheviques e Antoine partilhava a perspectiva pacifista, como muitos outros.

       - Interrogo-me sobre o efeito que terá nos Romanov retorquiu Zoya quase num sussurro. - Há muito tempo que não recebo uma carta da Sibéria.

       Preocupava-a, mas talvez o Dr. Botkin não tivesse conseguido fazer chegar as suas cartas a Mashka. Havia que ter este fato em consideração e esperar pacientemente por uma resposta. Nestes dias tudo parecia exigir paciência. Todos aguardavam melhores tempos.

       Somente esperava que sobrevivessem para ver. Falava-se mesmo na possibilidade de Paris ser atacada, o que parecia difícil de acreditar com todas aquelas tropas inglesas e americanas espalhadas por toda a França. Contudo, depois daquilo a que assistira na Rússia há uns meros nove meses, sabia que tudo era possível.

       Levantou-se e levou a tigela com o resto do caldo para o quarto da avó, mas regressou minutos depois e dirigiu-se em voz baixa a Antoine, que estava na cozinha.

       - Adormeceu. Talvez seja melhor deixá-la dormir. Tapei-a com um cobertor para que não arrefeça. - Era um dos cobertores que Clayton lhe dera no Verão anterior. - Não se esqueça de me dar o nome desse médico, amanhã, antes de ir dar aulas.

       Antoine esboçou um aceno de cabeça e fitou-a com uma expressão interrogativa:

       - Quer que vá consigo? - No entanto, ela limitou-se a abanar a cabeça, pois mantinha o seu forte sentido de independência. Não chegara até ali quase pelos seus próprios meios para agora depender de alguém, mesmo de alguém tão modesto como o hóspede.

       Acabou de lavar a louça e sentou-se na sala de estar, o mais próximo possível do fogo, aquecendo as mãos, enquanto ele a observava. As chamas desenhavam reflexos dourados no cabelo de Zoya e os olhos verdes pareciam dançar. Incapaz de resistir ao apelo, Antoine viu-se junto dela, em parte para se aquecer, em parte para lhe sentir a presença.

       - Tem um cabelo tão bonito... - declarou sem pensar e depois corou quando ela o fitou, surpreendida.

       - Também você - troçou, pensando nas trocas de palavras insultuosas com Nicolai, de que tanto gostavam. - Desculpe... Não pretendi ser indelicada... Estava a pensar no meu irmão. Contemplou o fogo e Antoine prosseguiu a observação.

       - Como era ele? - indagou num tom suave e julgou que o coração iria quebrar-se, tal era a ansiedade de estender a mão e tocar-lhe.

       - Era maravilhoso... atento, divertido, corajoso e audaz e muito, muito atraente. Tinha cabelos pretos como o meu pai c olhos verdes. - Depois, soltou uma súbita risada, ao lembrar-se. Adorava bailarinas. - A maior parte da família imperial nutria essa mesma simpatia. - Mas ficaria tão zangado comigo, agora. Fitou Antoine com um sorriso triste. - Ficaria furioso por eu dançar... - O pensamento vagueou uma vez mais, e Antoine não conseguia desviar o olhar.

       - Tenho a certeza de que compreenderia. Todos temos de fazer o que devemos para sobreviver. Não há muitas opções. Devem ter estado muito próximo do fim.

       - Estivemos. - E logo em seguida: - A minha mãe enlouqueceu quando o mataram. - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ao pensar nele sangrando de morte no átrio e na avó a atar inutilmente os saiotes à volta das feridas para tentar salvá-lo. Era um pensamento quase insuportável e, nesse momento, Sava aproximou-se sem fazer ruído da cadeira dela e lambeu-lhe a mão, trazendo-a ao presente.

       Permaneceram sentados durante muito tempo. Ele puxara a única outra cadeira do quarto e sentaram-se junto ao fogo, imersos nos seus próprios pensamentos, até que Antoine ganhou um pouco de coragem.

       - O que deseja fazer com a sua vida? Alguma vez ponderou isso?

       - Dançar, suponho - retorquiu, surpreendida com a pergunta.

       - E depois? - Antoine sentia-se curioso a respeito da jovem e raramente tinha oportunidade de a apanhar a sós sem Eugenia.

       - Dantes, queria casar e ter filhos.

       - E agora? Deixou de pensar nisso?

       - Praticamente. A maior parte das bailarinas nunca casam. Dançam até caírem, ou ensinam, o que quer que aconteça primeiro. A maioria das bailarinas que conhecia nunca se casara e não estava muito certa de se importar. Não havia ninguém com quem pudesse imaginar-se casada. Clayton era só um amigo, o príncipe Markovski era velho de mais, os homens do ballet estavam para lá das suas esperanças e era obviamente incapaz de se ver casada com Antoine. E não havia mais ninguém. Além disso, tinha de tomar conta de Eugenia.

       - Daria uma mulher fantástica. - Pronunciou a frase com um ar tão solene que ela riu.

       - O meu irmão tê-lo-ia achado louco. Sou uma péssima cozinheira e detesto coser. Não sei pintar aquarelas, nem tricotar. Nem estou muito certa de saber governar uma casa, embora isso pouco interesse agora... - Sorriu ante a idéia, enquanto ele a observava.

       - O casamento é algo mais do que cozinhar e coser.

       - Bom. Também não sei se sou boa nisso! - Corou e soltou uma gargalhada e ele corou também. Chocava-se com facilidade e ela chocara-o.

       - Zoya!

       - Desculpe. - Contudo, parecia mais divertida do que constrangida, ao acariciar a pequena Sava. Até a cadela emagrecera, pois só era alimentada com os magros restos da mesa.

       - Talvez um dia haja alguém que a leve a desejar abandonar a dança. - Antoine compreendera mal. Não tinha assim uma paixão tão grande pelo ballet, só que a alternativa era nula. Precisava de trabalhar para o seu sustento e de Eugenia, e a dança era a única coisa que sabia fazer. Pelo menos, era alguma   coisa.

       - É melhor meter a avó na cama, ou amanhã os joelhos matam-na. - Levantou-se, espreguiçou-se e Sava seguiu-a até ao quarto. Eugenia já tinha acordado e estava a vestir a camisa de noite. Quer o caldo, avó? - Continuava à espera dela na cozinha, mas ela abanou a cabeça com um sorriso cansado.

       - Não, querida. Estou cansada de mais para comer. Porque não o guardas para amanhã? - Com a cidade de Paris à fome, teria sido um crime desperdiçá-lo. - O que estiveste a fazer na sala?

       - A conversar com o Antoine.

       - É um bom homem - declarou, fitando intencionalmente Zoya, que pareceu não reparar.

       - Deu-me o nome de um médico na Rue Godot-de-Mauroy. Quero levá-la lá amanhã, antes de ir para o ensaio.

       - Não preciso de um médico. - Estava a apanhar o cabelo e, um momento depois, subiu com esforço para a cama. O quarto estava frio e sentia dores horríveis nos joelhos.

       - Essa tosse não me agrada.

       - Na minha idade, até ter tosse é uma bênção. Pelo menos ainda estou viva.

       - Não fale assim. - Só começara a dizer coisas daquelas depois da morte de Feodor. O desaparecimento dele deprimira-a muito, juntamente com o fato de saber que o dinheiro estava quase a chegar ao fim.

       Zoya vestiu também a sua camisa de noite, apagou a luz e abraçou com força a avó para a aquecer naquela noite de Dezembro.

      

       O médico a quem Zoya levou a avó afirmou tratar-se apenas de tosse e não de tuberculose. Valia a pena pagar o preço pelas boas notícias, mas Zoya tivera de dar-lhe praticamente o dinheiro que lhe restava. Até mesmo os baixos honorários eram demasiados para os seus bolsos vazios.

       Contudo, nada disse a Eugenia quando o príncipe Markovski as levou de volta ao apartamento no carro. Este lançou alguns olhares intencionais a Zoya, que ela ignorou, e deixou-o a falar com a avó no apartamento quando foi ensaiar. E, ao regressar nessa noite, achou que a avó parecia um pouco melhor. O médico dera-lhe um xarope para a tosse que estava a surtir efeito.

       Antoine, já estava na cozinha a preparar o jantar. Nessa noite trouxera frango, o que era uma invulgar regalia. Significava que não só teriam jantar, como canja para o dia seguinte. E ao pôr a mesa para os três, interrogou-se sobre se Mashka teria os mesmos problemas. Talvez um frango lhe parecesse um luxo, agora. Se estivessem juntas, ririam sobre o assunto. Mas agora não tinha com quem se rir.

       - Olá, Antoine. - Sorriu e agradeceu-lhe pelo nome do médico.

       - Não devias ter gasto o dinheiro - censurou Eugenia de uma cadeira perto do fogo. Vladimir trouxera-lhes lenha. Tomara-se subitamente um dia de riquezas inesperadas.

       - Deixe-se de parvoíces, avó.

       Os três regalaram-se com o frango que ele serviu na própria canja e, depois, Zoya bebeu chá com eles junto ao fogo. E quando a avó se foi deitar, Antoine ficou a conversar com ela. Era algo que nos últimos tempos faziam freqüentes vezes, e pelo menos tinha alguém com quem trocar impressões. Ele relembrava os Natais em criança e os olhos brilhavam-lhe. Adorava estar próximo dela.

       - O nosso Natal é mais tarde do que o vosso. É a 6 de Janeiro.

       - O Dia de Reis.

       - Há festejos maravilhosos por toda a Rússia. Ou havia.

       Suponho que aqui iremos à igreja russa. - De certa maneira ansiava por isso e, por outro lado, sabia que seria deprimente. Todas aquelas almas perdidas, de pé à luz das velas, lembrando um mundo perdido. Ignorava se conseguiria agüentar, mas a avó insistiria em que fossem. Esse ano, não haveria, obviamente, presentes. Não havia dinheiro com que os comprar.

       Todavia, quando chegou o Natal, Antoine surpreendeu-a. Trouxe-lhe um cachecol quente e um confortável par de luvas e um frasco minúsculo do perfume que ela uma vez mencionara. Foi o perfume que lhe tocou o coração e lhe fez subir lágrimas aos olhos. Era Lilas, de que Mashka tanto gostava e lhe dera meses atrás. Tirou a tampa do fresquinho e o aroma suave trouxe-lhe de volta o toque e o cheiro de tudo o que amava e da sua adorada Mashka. As lágrimas rolavam-lhe lentamente pelas faces quando o olhou e, sem pensar, num gracioso gesto de criança, pôs-lhe os braços à volta do pescoço e beijou-o. Foi um beijo fraterno, mas todo o corpo dele tremeu ao senti-la perto de si.

       Eugenia observava a cena, igualmente de lágrimas nos olhos.

       Ele não era o par que teria desejado para Zoya, mas era um homem decente e trabalhador e tomaria conta da neta. Antoine falara-lhe no assunto no dia anterior e ela dera a sua bênção. Sentia-se mais fraca de dia para dia e invadia-a o pavor de que, se morresse, não haveria ninguém para tomar conta de Zoya. Tinha de casar com ele agora para que o seu espírito ficasse em paz.

       Contudo, Zoya não fazia a mínima idéia do que haviam planeado quando lhe agradeceu. entusiasmada, o perfume. Antoine oferecera à avó um xale bordado e um livro de poemas russos. E Zoya sentiu se envergonhada por apenas lhe terem comprado um bloco de apontamentos e um livro sobre a Rússia.

       Descobrira-o num vendedor de livros no Quai d'Orsay, num pequeno e feio quiosque, mas era em francês e achou que poderia agradar-lhe. Mas não tanto quanto ela gostara do perfume.

       A avó saiu discretamente com os presentes e fechou a porta do quarto sem ruído, desejando-lhe sucesso intimamente e rezando para que Zoya fosse sensata e o aceitasse.

       - Deve ter gasto todo o seu dinheiro - retorquiu, ao mesmo tempo que remexia o fogo com uma longa tenaz de metal e Sava agitava a cauda. - Foi idiota mas também um gesto generoso, Antoine. Muito obrigada, Antoine. Usarei o perfume em ocasiões especiais. - Já decidira pô-lo dali a duas semanas no Natal russo. Não queria desperdiçá-lo antes.

       Antoine sentou-se na cadeira diante dela e respirou fundo, tentando ganhar coragem. Era treze anos mais velho do que ela, mas nunca se sentira tão aterrorizado em toda a vida. Até mesmo Verdun lhe causara menos medo do que enfrentar Zoya.

       - Queria falar-lhe de uma ocasião especial, Zoya, já que a menciona. - Sentiu um suor frio nas palmas das mãos quando ela lhe deitou um olhar estranho.

       - O que significa isso?

       - Significa... - O coração batia-lhe com força no peito. Significa... Amo-a. - Ela mal ouviu as palavras e fitou-o, surpreendida.

       - O quê?

       - Amo-a. Amo-a desde o dia em, que cheguei aqui. Julguei que suspeitasse.

       - Como havia de suspeitar? - Parecia admirada e irritada. Ele estragara tudo. Como podiam ser amigos agora frente a uma tal estupidez? - Mas nem sequer me conhece!

       - Há dois meses que vivemos na mesma casa. Chega. Nem sequer teria de ser muito diferente. Poderíamos continuar aqui, à exceção de que dormiria no meu quarto.

       - Que maravilha! - exclamou, levantando-se e começando a percorrer a sala de um lado para o outro. - Uma mera mudança de quartos e poderíamos continuar como até agora. Como é capaz sequer de o sugerir? Estamos todos a morrer de fome, não temos dinheiro e quer casar-se. Porquê? Porquê? Não o amo. Nem sequer o conheço, nem você a mim... Somos dois estranhos, Antoine!

       - Não somos estranhos, somos amigos. E alguns dos melhores casamentos começam precisamente assim.

       - Não penso dessa maneira. Quero estar apaixonada pelo homem com quem casar, louca e totalmente apaixonada. Quero que seja algo de maravilhoso e romântico.

       Antoine parecia tristíssimo ante aquela explosão, mas ela gritava mais com o destino que os juntara do que com o homem que lhe trouxera o seu perfume favorito.

       - A sua avó acha que podíamos ser muito felizes. - No entanto, era o pior que podia ter dito e ela pôs-se a percorrer a sala em grandes passadas.

       - Então, case-se com a minha avó! Não quero casar-me! Agora, não! Tudo à nossa volta está doente, frio e moribundo. Tudo está morto de fome, pobre e miserável. Que maneira de começar uma vida!

       - O que está, de fato, a dizer é que não me ama. - Sentou-se calmamente, disposto a aceitar até mesmo isso. E foi aquela atitude passiva que a acalmou. Sentou-se diante dele e tomou-lhe as mãos entre as suas, quentes.

       - Não, não amo. Mas gosto de si. Julguei que fosse meu amigo. Nunca pensei que houvesse algo mais por trás. Nada de sério, pelo menos. Nunca me disse... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

       - Tive medo. Promete pensar no assunto, Zoya?

       Contudo, a jovem abanou tristemente a cabeça.

       - Era incapaz, Antoine. Seria injusto para ambos. Merecemos os dois mais do que isso. - Olhou à volta deles e depois fitou-o novamente. - E, se nos amássemos, nada disto teria importância. Mas tem. Simplesmente não o amo.

       - Podia tentar. - Parecia tão novo, apesar dos danos e das perdas.

       - Não, não podia. Lamento... - Em seguida, abandonou a sala e fechou a porta do quarto sem ruído, deixando o perfume, o cachecol e as luvas em cima da mesa.

       Antoine olhou em redor, apagou as luzes e regressou ao seu quarto. Talvez ela mudasse de opinião. Talvez a avó conseguisse convencê-la. Achara aquele plano tão sensato. Sabia, porém, que a opinião dela provinha do desespero.

       - Zoya?

       A avó observava-a da cama de ambas, enquanto a neta se despia, de frente para o jardim. Eugenia não lhe via o rosto, mas suspeitava, instintivamente, que ela chorava. E, quando Zoya se virou já de camisa de noite, os olhos verdes lançavam chispas.

       - Porque o fez, avó? Porque o encorajou? Foi cruel para os dois. - Pensou na dor refletida na expressão de Antoine e sentiu-se mal. Mas não o suficiente para o desposar por piedade. Tinha de pensar em si também. E sabia que não o amava.

       - Não é cruel. É sensato. Tens de casar com alguém e ele tomará conta de ti. É professor, um homem respeitável e ama-te.

       - Não o amo.

       - És uma criança. Não sabes o que queres. - Suspeitava também que Zoya ainda sonhava com Clayton, um homem com o dobro da idade dela, de quem não tinha notícias desde Novembro.

       - Quero amar o homem com quem me casar, avó. É pedir assim tanto? - Lágrimas rolavam-lhe pelas faces ao afundar-se na única cadeira do quarto, apertando Sava de encontro ao corpo.

       - Normalmente, não, não é. Mas, na presente situação, é. Tens de ser sensata. Estou velha e doente. O que vais fazer quando eu morrer? Ficar aqui sozinha e continuar a dançar? Tornar-te-ás velha, azeda e amarga. Deixa-te desses disparates. Aceita-o e obriga-te a aprenderes a amá-lo.

       - Avó! Como pode dizer uma coisa dessas?

       - Porque vivi muito. O suficiente para saber quando lutar e quando desistir e quando assumir compromissos de coração. Não achas que gostaria de te ver casada com um príncipe elegante, em Sampetersburgo, numa casa como Fontanka? Contudo, já não há príncipes, andam todos ao volante de táxis. Fontanka desapareceu, a Rússia desapareceu. Isto é tudo o que existe, Zoya, talvez para sempre. Tens de te adaptar. Não te deixarei só. Quero saber que alguém tomará conta de ti.

       - Não lhe interessa que não o ame?

       Eugenia abanou tristemente a cabeça.

       - Não é importante, Zoya. Não, agora. Casa com ele. Acho que não te arrependerás.

       «Mas ele é feio», apetecia-lhe gritar. «... É aleijado...»

       Todavia, no fundo do coração sabia que nada disto importaria, se o amasse. A vida com Antoine seria sempre triste, seria sempre menos do que desejara. E a idéia de ter filhos dele levava-a a desejar chorar mais ainda. Não queria filhos dele, não o amava.

       Era simplesmente incapaz.

       - Não consigo - retorquiu com a sensação de que asfixiava.

       - Consegues, sim. E deves. Por mim, Zoya... fá-lo por num, antes que morra. Deixa-me saber que estás segura com um homem que te protegerá.

       - Protegerá do quê? Da fome? Estamos todos a morrer de fome. Ele não pode mudar a situação. E nem me interessa. Preferia morrer de fome aqui sozinha do que estar casada com um homem que não amo.

       - Não decidas já, pequenina. Pensa no assunto. Dá-lhe um tempo. Por favor... por mim... - Os olhos suplicavam, e Zoya chorava como se tivesse o coração partido. Contudo, na manhã seguinte, as lágrimas haviam desaparecido. Falou de imediato com Antoine.

       - Quero que saiba, sem que lhe reste sombra de dúvida, que não casarei consigo, Antoine. Quero esquecer que isto aconteceu.

       - Não posso. Sou incapaz de viver aqui, sabendo como a desejo.

       - Já me desejava antes - replicou, subitamente aterrorizada com a perspectiva de ficarem sem o hóspede.

       - Era diferente. Não o sabia e agora sabe.

       - Fingirei que nunca o disse. - Parecia novamente assustada como uma criança e ele esboçou um sorriso triste.

       - Não será possível. Tem a certeza, Zoya? Não pode pensar algum tempo?

       - Não. E não quero dar-lhe falsas esperanças. Não posso casar consigo. Nunca.

       - Há mais alguém? - Sabia que ela tinha um amigo americano, mas nunca pensara que havia algo de sério entre eles.

       - Não, não dessa maneira. Há apenas um sonho. Contudo, se desistir dos meus sonhos agora, não terei nada. São tudo o que me resta.

       - Talvez as coisas melhorem depois da guerra. Talvez consigamos um apartamento só para nós. - Os sonhos dele eram tão pequenos e os dela ainda tão grandes. Abanou a cabeça e, desta vez, ele acreditou.

       - Não posso, Antoine. Tem de acreditar em mim.

       - Então, terei de me mudar.

       - Não... por favor... juro que me manterei afastada. A avó ficará com o coração desfeito, se se for embora.

       - E você, Zoya? - A jovem observava-o, silenciosa. - Terá saudades minhas?

       - Julguei que era meu amigo - redargüiu tristemente.

       - Sou. Sempre o serei. Contudo, não posso ficar aqui. - Ele tinha um resto de orgulho, e, quando fez as malas nessa tarde, Zoya entrou em pânico. Implorou-lhe que não se fosse embora, prometendo-lhe quase tudo, exceto o casamento. Sem o contributo dele para renda e a comida, ficariam numa situação ainda mais desesperada. - Impossível - teimou Antoine. Eugenia falou com ele, prometeu-lhe que convenceria Zoya a ser sensata, mas nada o demoveu. Vira os olhos da jovem e ouvira as suas palavras. E ela tinha razão. Não podia casar com um homem que não amava. Não era esse gênero de mulher. - É melhor ir-me embora. Amanhã, procurarei outro quarto.

       - Ela é uma jovenzinha idiota. - E foi isso mesmo o que Eugenia disse à neta nessa noite. Estava a desperdiçar a única oportunidade que tinha de se casar.

       - Pouco me interessa se nunca me casar - replicou Zoya, mais uma vez debulhada em lágrimas.

       E, na manhã seguinte, quando se levantou, Antoine tinha-lhe escrito uma carta e ido embora com as suas coisas. Havia três notas amarrotadas em cima da mesa e na carta desejava-lhe felicidades. Sobre as notas, deixara o frasco de perfume que lhe tinha oferecido no Natal.

       Eugenia rompeu em soluços ao vê-lo, e Zoya meteu calmamente as três notas amarrotadas no bolso.

      

       Nas duas semanas seguintes pairou a tristeza no apartamento junto ao Palais Royal. O ballet encerrara durante três semanas e, embora tivessem passado palavra por intermédio de Vladimir, não apareceu nenhum hóspede.

       Desgostosa com a atitude de Zoya, Eugenia parecia haver envelhecido quase de uma noite para outra e, embora a tosse tivesse melhorado, estava debilitada. Censurava a neta quase diariamente por causa de Antoine e a situação financeira tornou-se tão desesperada que, pouco depois do Ano Novo, Eugenia desceu dificilmente as escadas e pediu a Vladimir que a levasse até ao ourives da Rue Cambon.

       A deslocação era praticamente inútil, mas sentia que não lhe restava alternativa. Abriu com cuidado o embrulho que trouxera e mostrou a cigarreira em ouro de Konstantin e três das caixinhas em prata de Nicolai. As tampas eram réplicas em esmalte das suas insígnias militares e estavam gravadas com frases divertidas e os nomes dos amigos; uma delas tinha uma pequena rã e outra uma fieira de elefantes brancos em esmalte. Representavam todas as coisas de que gostava ou que significavam algo para ele e haviam sido oferecidas por amigos. Há muito que prometera a si própria e a Zoya que nunca as venderia.

       O ourives reconheceu-as de imediato como peças de Fabergé, mas já vira mais de uma dúzia de objetos semelhantes.

       - Não posso oferecer muito - desculpou-se, e a soma que escreveu fez subir lágrimas aos olhos de Eugenia, mas tinham de comer. - Lamento, madame. - Ela inclinou a cabeça com uma silenciosa dignidade, falha de palavras, e aceitou a pequena quantia mencionada. Serviria para as manter pelo menos uma semana, se não comprassem algo demasiado extravagante.

       O príncipe Vladimir reparou que a velha senhora parecia pálida, mas não fez, como habitualmente, perguntas vulgares.

       Limitou-se a levá-la a casa, depois de pararem para comprar um pão e um frango magríssimo. Zoya esperava-os com um ar abatido mas extremamente bonita.

       - Onde esteve? - perguntou ao acomodar a avó numa cadeira e enquanto Vladimir descia as escadas para trazer mais lenha.

       - O Vladimir levou-me a dar uma volta. - Contudo, Zoya desconfiava que se tratava de algo mais.

       - É tudo? - Ia a responder afirmativamente, mas os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e começou a chorar, sentindo-se cansada e velha, e como se a vida tivesse cometido a sua traição final. Nem sequer podia permitir-se morrer. Ainda tinha de pensar em Zoya. - O que fez avó? - Zoya sentiu-se subitamente assustada, mas a velha senhora assoou-se ao lencinho de renda que ainda trazia.

       - Nada, minha querida. O Vladimir tinha-se oferecido para nos levar esta noite à Igreja de Santo Alexandre Nevski. - Era véspera de Natal para eles e Zoya sabia que todos os Russos em Paris compareceriam, mas não tinha a certeza se seria indicado para a avó ir assistir à missa da meia-noite na igreja. Talvez fosse melhor ficarem em casa. De qualquer maneira não lhe apetecia, mas a avó endireitou-se com uma expressão inamovível e sorriu a Vladimir, quando ele regressou com a lenha.

       - Tem a certeza de que quer ir, avó?

       - Claro. - E o que interessava, agora? - Nunca faltei à missa de Natal uma única vez na minha vida.

       Contudo, ambas sabiam que as esperava um ano difícil. Com tantas perdas, o serviço religioso apenas lhes lembraria o ano anterior em que tinham celebrado o Natal rodeadas pelos entes amados. E Zoya andara a pensar o dia inteiro em Mashka e nos outros, que passariam o Natal em Tobolsk.

       - Voltarei às onze - prometeu Vladimir, ao sair. Zoya estava a planear usar o seu melhor vestido, e a avó lavara e passara a ferro a sua única gola decente de renda para pôr no vestido preto que Zoya lhe comprara.

       Foi uma véspera de Natal solitária no silencioso apartamento, com o quarto de Antoine vazio e como que lançando-lhes uma censura. Eugenia oferecera-o a Zoya há uns dias, mas ela não conseguia decidir-se a mudar. Depois de Feodor e de Antoine, não queria o quarto e preferia continuar a dormir com a avó até encontrarem um novo hóspede.

       Nessa noite cozinhou o frango para a avó, assando-o com cuidado no pequeno fogão. Era um luxo não fazer canja, mas tratava-se do único presente que partilhavam e ambas se concentravam desesperadamente em esquecer anos anteriores, nos seus dias de riqueza. Na véspera de Natal ficavam sempre em casa, depois iam à igreja com a família à meia-noite e no dia seguinte a Tsarskoie Selo, para celebrar em conjunto com Nicolau e os outros.

       Agora e em vez disso, trocaram comentários sobre o frango, falaram da guerra, mencionaram Vladimir, tudo para evitar os seus próprios pensamentos. Quando Zoya ouviu uma ligeira pancada na porta, levantou-se para ir ver quem era, roçando por Sava que esperava um pouco dos restos do frango.

       - Sim? - Zoya interrogou-se sobre se seria a resposta às suas preces e um novo hóspede estava prestes a surgir, indicado por Vladimir ou um dos seus amigos. Era, contudo, uma hora estranha para aparecer e a jovem ficou pregada ao chão ao ouvir uma voz familiar... Não podia ser... mas era. Escancarou a porta e deteve-se a olhá-lo, completamente fardado, as ombreiras e o boné reluzindo com as insígnias, o rosto sério, mas os olhos azuis cheios de calor.

       - Feliz Natal, Zoya. - Era Clayton que estava ali, de pé. Há quatro meses que não o via, mas ele sabia a importância daquela data para elas e movera céus e terra para sair de Chaumont a tempo de a partilharem juntos. Tinha uma licença de quatro dias e queria passá-la com Zoya. - Posso entrar? - A jovem conservava-se, imóvel, incapaz de pronunciar uma palavra e fitando-o numa silenciosa admiração.

       - Eu... Meu Deus... és mesmo tu?

       - Acho que sim. - Sorriu e baixou-se meigamente para a beijar na face. O namoro do Verão anterior não fora mais longe do que isso, mas agora ansiava por tomá-la nos braços. Quase se esquecera de como ela era bonita, pensou ao observar a figura esguia e graciosa que tinha na frente.

       Zoya seguiu-o até ao interior, fitando, cheia de felicidade, os ombros largos e direitos. Os olhos inundaram-se-lhe de alegria quando ele cumprimentou a avó e reparou que trazia um saco de onde retirou tesouros fantásticos para elas.

       Havia pãezinhos acabados de sair do forno do quartel, chocolates, três enormes e grossas salsichas, uma alface fresca, algumas maçãs e uma garrafa de vinho das caves do general Pershing. Tratava-se de riquezas indescritíveis, muito longe do que haviam visto nos últimos meses. Zoya perscrutava-o com olhos redondos, felizes e uma expressão de adoração.

       - Feliz Natal, condessa - desejou Clayton num tom calmo. Tive saudades de ambas. - Mas nem metade das que Zoya sentira dele. Ainda se apercebia melhor de que era assim, agora na sua presença.

       - Obrigada, capitão. Como vai a guerra? - indagou Eugenia sem erguer a voz e observando a neta. O que viu aqueceu-lhe o coração e alegrou-a de imediato. Era aquele o homem que Zoya desejava, quer o soubesse ou não. Era bem visível.

       Clayton era elegante e tinha um porte orgulhoso, viril e alto na salinha de estar, dominando tudo à sua volta.

       - Infelizmente ainda não acabou, mas estamos a trabalhar nesse sentido. Devemos ter tudo sob controlo daqui a uns meses. Os restos do jantar permaneciam na mesa, agora já sem graça, e Zoya fitou os apetitosos chocolates. Riu ao oferecer um à avó e depois comeu dois como uma criança esfaimada, e Clayton soltou uma gargalhada. Estava tão feliz por a ver. - Não posso esquecer-me de quanto gostas desses chocolates - troçou, agarrando-lhe ternamente na mão.

       - Uumm!... maravilhosos!... muito obrigada!... - Eugenia ria ao observá-la. Parecia de novo tão jovem e feliz quando o capitão olhou por cima da cabeça dela e fitou a velha senhora. Esta tinha envelhecido nos últimos meses e ambas lhe pareciam mais magras, mais magras e mais cansadas, mas Zoya não perdera a beleza.

       Clayton ansiava por a envolver nos braços e apertá-la de encontro ao corpo.

       - Sente-se, por favor, capitão - convidou Eugenia, irradiando elegância e um porte orgulhoso, apesar da idade, da tristeza e dos constantes sacrifícios por Zoya.

       - Obrigado. E tencionam ir à igreja esta noite, minhas senhoras? - Sabia que para elas se tratava de um ritual. Zoya contara-lhe tudo sobre as procissões de velas na véspera de Natal e queria acompanhá-las. Fizera o impossível para passar aquela noite com elas, e Zoya esboçou um aceno de cabeça vincado, questionando a avó com os olhos.

       - Quer juntar-se a nós, sir? - convidou Eugenia.

       - Gostaria muito. - Abriu a garrafa e Zoya foi buscar os copos que ele lhes dera no Verão anterior e deteve-se a olhá-lo em silêncio enquanto ele servia o vinho.

       Assemelhava-se a um sonho vê-lo ali de uniforme, qual visão, e recordou-se subitamente do que dissera a Antoine. Não podia casar com um homem que não amasse. E soube que amava aquele homem. Podia casar-se com ele, independentemente da idade, de onde ele estivera ou do que lhes acontecesse...

       Tratava-se, porém, de pensamentos idiotas. Há dois meses que não tinha notícias. Não fazia idéia dos sentimentos dele nem de até que ponto lhe interessava. Apenas sabia que ele era generoso e bom e regressara à sua vida na véspera de Natal. Nada mais sabia. Contudo, ao observá-los, Eugenia sabia mais do que isso, mesmo mais do que o próprio Clayton naquele momento.

       Vladimir chegou pouco depois das onze. Prometera levá-las no carro à igreja e pareceu surpreendido ao deparar com Clayton. A condessa apresentou os dois homens, e Vladimir perscrutou a face do capitão, interrogando-se sobre quem era e o que fazia ali, mas os olhos de Zoya mostraram-se elucidativos. Era como se tivesse sobrevivido aos últimos meses apenas para usufruir daquele momento.

       Clayton seguiu-a até à cozinha, enquanto Eugenia servia um pouco de vinho ao príncipe, tocou-lhe suavemente no braço e atraiu-a devagar a si. Os lábios afloraram ao de leve o cabelo sedoso e fechou os olhos, quando a agarrou.

       - Senti terrivelmente a tua falta... pequenina... Queria escrever-te, mas não podia. Agora, é tudo top secret. É um milagre que me tenham deixado vir. - Estava intimamente envolvido em todos os planos de Pershing para a Força Expedicionária Americana. Afastou-se dela e baixou a cabeça, perscrutando-a com os brilhantes olhos azuis. - Tiveste saudades minhas?

       Zoya não conseguia falar e os olhos inundaram-se-lhe de lágrimas como resposta. Tudo tinha sido tão difícil para elas, a pobreza, a falta de comida, o frio Inverno, a guerra. Era tudo um pesadelo e, subitamente, ali estava ele, com os bolos, o vinho, e os fortes braços a envolver-lhe o corpo.

       - Muitas mesmo - murmurou com voz rouca e desviando os olhos. Receava fitá-lo, pois ele perceberia muita coisa.

       Contudo, sentia-se segura na presença dele, como se o tivesse esperado a vida inteira. Nessa altura, ouviu uma tosse delicada na ombreira da porta da cozinha e viraram-se os dois. Era o príncipe Vladimir que os observava com uma muda inveja.

       - Temos de sair dentro em pouco para a igreja, Zoya Konstantinovna. - Dirigiu-se-lhe em russo e os olhos encontraram-se por momentos com os de Clayton. - Acompanha-nos, sir? As senhoras vão a um serviço religioso da meia-noite.

       - Gostaria muito - respondeu, baixando os olhos para Zoya. Achas que a tua avó se importava?

       - Claro que não. - Zoya falou pelas duas, sobretudo por si própria, ao mesmo tempo que se interrogava sobre onde ele estaria alojado. Pensou em oferecer-lhe o quarto de Antoine, mas suspeitou corretamente que a avó não acharia conveniente. Não que interessasse realmente. Que significado possuía o decoro, se não havia comida, dinheiro, calor, e o mundo em que se vivera tinha desaparecido? Quem se importaria mesmo com o decoro? Tudo lhe parecia tão idiota, no momento em que Clayton lhe agarrou meigamente a mão e a levou até à cozinha.

       Sava seguia-os de perto, de focinho levantado, esperando por uns restos de comida. Zoya baixou-se calmamente e deu-lhe um dos seus preciosos bolinhos.

       A avó foi buscar o chapéu e o casaco e a jovem tirou o seu próprio casaco usado de um cabide perto da porta, enquanto os dois homens aguardavam, conversando delicadamente sobre a guerra, o tempo e as perspectivas de paz nos meses vindouros.

       Vladimir parecia observá-lo criticamente, mas não conseguia antipatizar com ele. O americano era, sem dúvida, velho de mais para Zoya, e Eugenia seria insensata se permitisse que algo acontecesse entre ambos. Quando a guerra acabasse, ele regressaria a Nova Iorque e esqueceria a bonita rapariga com quem se divertira em Paris.

       Contudo, Vladimir não podia, obviamente, censurá-lo por a desejar. Também ele a desejava, embora há mis de um mês andasse a cortejar uma das amigas da filha. Tratava-s de uma robusta rapariga russa de boas famílias que chegara a Paris na Primavera anterior, como o resto, e ganhava a vida a costurar. Ela e a filha estariam à sua espera na igreja.

       Clayton ajudou a velha condessa a descer as escaldas, sob o olhar de Zoya, e Vladimir liderou o caminho até ao táxi. Seguiram devagar através das ruas tranqüilas, e Clayton olhava em volta, sobretudo para Zoya. Teve a sensação de que a jovem precisava de se divertir e de umas boas refeições. Precisava também de um casaco novo, pois o velho parecia quase fio, quando o vento assobiou junto deles diante da Igreja de Santo Alexandre Nevski.

       Era uma bonita e antiga igreja e já havia muita gente no interior quando entraram. Ouviram a música do órgão dos degraus da frente e em redor soava o ameno murmúrio de vozes. O incenso emanava um cheiro suave e estava calor lá dentro. Os olhos de Zoya encheram-se repentinamente de lágrimas ao observar os rostos familiares e ao ouvir falar russo por todo o lado. Quase se assemelhava a voltar a casa, estando ali no meio de toda aquela gente, cada um deles com uma enorme vela na mão.

       Vladimir estendeu uma a Eugenia e outra a Clayton e Zoya recebeu uma de um miúdo. Ele ergueu o rosto com um sorriso tímido e desejou-lhe um bom Natal.

       E a jovem apenas conseguia pensar noutros Natais, noutros tempos... Mashka e Olga e Tatiana e Anastasia... a tia Alix e o tio Nicolau... e o débil Alexis... iam todos os anos juntos aos ofícios divinos da Páscoa que muito se pareciam com este... e, enquanto se debatia com as recordações, Clayton pegou-lhe ternamente na mão e manteve-a agarrada, como se pudesse ler-lhe a mente e descobrir o que ela sentia. Rodeou-lhe o ombro com o braço quando entoaram o primeiro hino e ficou extasiado ante a beleza das vozes russas.

       Lágrimas rolavam devagar pelas faces dos homens e muitas das mulheres choravam ao recordar-se da vida que haviam partilhado num lugar que jamais esqueceriam. Zoya pensou que tudo aquilo era quase superior às suas forças, a familiaridade dos cheiros, dos sons, das emoções. De olhos fechados, imaginou que Nicolai, a mãe e o pai se encontravam ali. Era um pouco como se tivesse voltado à infância, ali tão próxima de Clayton, e tentou fingir que ainda estavam na Rússia.

       Depois do serviço religioso, muitas pessoas conhecidas vieram falar-lhes. Os homens esboçavam uma vênia e beijavam a mão de Eugenia, os que haviam sido criados ajoelhavam-se brevemente aos seus pés e as pessoas choravam copiosamente e abraçavam-se.

       Clayton observava a cena, e Zoya apresentou-o a todos os que conhecia. Havia tantos rostos que achava familiares, embora não os conhecesse todos. No entanto, eles pareciam conhecê-la e a Eugenia. O grão-duque Cyril estava presente, bem como outros primos dos Romanov, todos com roupa velha, sapatos gastos e rostos que mal dissimulavam as preocupações. Era doloroso estar ali e ao mesmo tempo uma consolação, como se fosse uma breve viagem a um passado que todos desejavam recuperar e passariam uma vida inteira a relembrar.

       Eugenia parecia extenuada, mas conservava-se ao lado de Vladimir. Alta e orgulhosa, cumprimentava toda a gente e verificou-se um terrível momento quando o grão-duque Cyril se aproximou dela e se pôs a soluçar como uma criança. Nenhum deles conseguiu articular uma palavra, e Eugenia tocou-lhe numa bênção silenciosa.

       Nesse instante, Zoya agarrou-lhe ternamente no braço e, com um olhar para Vladimir, levou-a lá para fora até ao táxi. Fora uma noite difícil para todos, mas era muito importante também estarem ali. E ela recostou-se no assento com um suspiro cansado e um olhar que dizia tudo.

       - Foi um belo serviço. - Clayton expressou-se num tom calmo e muito comovido. Sentia-se-lhes o amor, o orgulho, a fé e a tristeza. E era como se, numa muda concordância, tivessem estado a rezar pelo czar, a mulher e os filhos. Clayton interrogou-se sobre se Zoya voltara a ter notícias de Marie, mas não queria perguntar-lhe diante de Eugenia. Era doloroso de mais. - Obrigado por me ter deixado vir.

       Clayton acompanhou-as até lá acima quando regressaram ao apartamento e Vladimir serviu o resto do vinho. Ao ver o olhar triste e o rosto cansado de Eugenia, Clayton lamentou não lhes ter trazido brande. Ateou novamente o fogo e acariciou, distraído, Sava, enquanto Zoya comia mais um bolinho.

       - Devia ir deitar-se, avó.

       - É o que farei daqui a um minuto. - Queria sentar-se um pouco a recordar e depois brindou todos com um olhar terno. Feliz Natal, crianças. Deus nos abençoe a todos. - Bebeu um gole de vinho e depois levantou-se devagar. - Agora, vou deixá-los. Sinto-me muito cansada.

       Clayton apercebeu-se de que ela mal podia andar. Zoya ajudou-a a ir até ao quarto e regressou uns minutos depois. Vladimir saiu pouco depois com um derradeiro olhar de inveja para Clayton. No entanto, ele sorriu-lhe. Era um homem de sorte por Zoya o fitar daquela maneira. Era tão jovem, tão alegre e tão bonita.

       - Feliz Natal, Zoya. - A tristeza ensombrava-lhe o olhar e ainda se sentia comovido com o serviço religioso da meia-noite.

       - Feliz Natal para si, príncipe Vladimir. - Beijou-a nas faces e desceu apressadamente as escadas de volta ao táxi. A filha e a amiga esperavam-no em casa.

       E, quando a porta se fechou, Zoya virou-se tranqüilamente para Clayton. Era tudo tão agridoce, o passado e o presente, a felicidade e a tristeza. As lembranças e realidade... Konstantin, Nicolai... Vladimir... Feodor... Antoine... e agora, Clayton...

       Ao fitá-lo, lembrou-se de todos e o cabelo brilhava-lhe como ouro à luz do fogo. Ele aproximou-se sem ruído, agarrou-lhe nas mãos, abraçou-a sem uma palavra e beijou-a.

       - Feliz Natal. - Disse-o em russo, como ouvira uma e outra e outra vez em Santo Alexandre Nevski. Zoya repetiu para ele e durante um longo momento não se separariam. Clayton acariciava-lhe o cabelo e ouviam o crepitar do fogo. Sava dormia ao lado deles. Amo-te... Zoya... - Ainda não quisera confessar-lho, quisera ter a certeza e, contudo, estava certo. Soubera-o desde Setembro, quando a deixara.

       - Também te amo. - Ela sussurrou as palavras que eram tão fáceis de lhe dirigir. - Oh, Clayton... Amo-te... - Contudo, havia a guerra e ele teria eventualmente de deixar Paris e regressar a Nova Iorque. Não podia permitir-se pensar nisso agora. Não podia.

       Clayton conduziu-a suavemente até ao sofá e sentaram-se de mãos dadas, como duas crianças felizes.

       - Preocupei-me tanto contigo. Quem me dera ter ficado aqui todos estes meses. - E agora restavam-lhes apenas quatro dias, uma ilhota de momentos num mar agitado que podia afogá-los a qualquer momento.

       - Sabia que irias voltar - sorriu Zoya. - Pelo menos, assim o esperava. - E estava mais do que nunca agradecida por não ter permitido que a avó a forçasse a casar com Antoine. Se lhe tivesse dado ouvidos, podia estar casada com ele, ou mesmo com Vladimir, quando Clayton regressasse.

       - Tentei lutar contra este sentimento, sabes? - Suspirou e estendeu as compridas pernas na feia carpete, que ainda ficara mais no fio durante os últimos meses. Tudo no apartamento parecia velho, sujo e miserável, à exceção da bonita rapariga ao seu lado, de olhos verdes e cabelo ruivo, o rosto de traços perfeitos, o rosto com que sonhara durante meses, mau grado todos os motivos que dera a si próprio para tentar esquecê-la. - Sou demasiado velho para ti, Zoya - prosseguiu. - Precisas de alguém novo, que descubra a vida contigo e te torne feliz. - «Mas quem? O filho de algum príncipe russo, um rapaz tão pobre quanto ela?» Na verdade, precisava de alguém que cuidasse dela e queria ser ele a desempenhar esse papel.

       - Tornas-me feliz, Clayton. Mais feliz do que o fui alguma vez... - Sorriu com franqueza. - ...De há muito, muito tempo para cá. - Virou-se para ele com uma expressão grave. - Não quero ninguém mais novo. Não me interessa se és velho ou novo. Só me interessa o que sentimos. Queria lá saber que fosses rico ou pobre, que tivesses cem ou dez anos. Quando se ama alguém, essas coisas não são importantes.

       - Algumas vezes são, miúda. - Ele era mais velho e mais sensato. - É uma época estranha, perdeste tudo e estás armadilhada aqui numa guerra e num país desconhecido. Somos ambos estranhos aqui... mas, mais tarde, quando acalmar, podes olhar para mim e perguntar o que estou a fazer junto de ti? - Sorriu-lhe, receoso de que a sua previsão pudesse transformar-se em realidade. - A guerra tem conseqüências bizarras. - Já vira acontecer a outros.

       - Para mim, esta guerra é eterna. Não posso regressar a casa. Oh... alguns deles pensam que um dia voltaremos... mas agora houve outra revolução. Tudo será sempre diferente. E agora estamos aqui. É esta a nossa vida, é esta a realidade... - Fitou-o com uma expressão séria, já longe de ser criança, por mais jovem que parecesse em idade verdadeira. - Só sei quanto te amo.

       - Fazes com que me sinta tão novo, pequena Zoya. - Voltou a apertá-la de encontro ao corpo e ela bebeu-lhe o calor e a força, todas as boas coisas que possuíra há muito, quando o pai a abraçava. - Fazes com que me sinta tão feliz.

       Desta vez, beijou-o e, de súbito, ele apertou-a mais e teve de lutar contra a paixão que o avassalava. Sonhara demasiado tempo com ela, ansiara e precisava dela e agora mal conseguiu dominar as emoções e o desejo.

       Levantou-se e aproximou-se da janela, pondo-se a olhar, o jardim. Depois, virou-se devagar, interrogando-se sobre o rumo que as suas vidas tomariam. Regressara a Paris para a ver e, contudo, sentia um súbito receio do que pudesse acontecer.

       Apenas Zoya parecia segura e calma, certa de que tomava a atitude indicada ao estar ao lado dele. Fitou-o com um olhar tranqüilo.

       - Não quero fazer nada que venhas a lamentar, miúda. - E depois: - Danças esta semana? - Ela abanou a ele sorriu:  Ótimo. Assim, teremos algum tempo antes do meu regresso a Chaumont. Suponho que agora tenho de te deixar. - Eram três da manhã, mas não estava cansada quando o acompanhou à porta, com Sava atrás.

       - Onde estás alojado?

       - Desta vez o general teve a bondade de me pôr à disposição a casa do Ogden Mill. - Era onde se tinham conhecido, o bonito hôtel particulier na Rue de Varennes, na margem esquerda, onda haviam passeado pelo jardim, na noite da recepção aos Ballets Russes. - Posso vir buscar-te, amanhã de manhã?

       - Gostava muito - respondeu com um aceno de cabeça feliz.

       - Virei às dez. - Voltou a beijá-la junto à ombreira da porta, sem saber para onde iriam, mas seguro até ao mais íntimo de si que agora não havia retorno.

       - Boa noite, capitão - troçou Zoya, com um brilho imenso no olhar.

       - Boa noite, meu amor - pronunciou ele meigamente e desceu apressadamente as escadas nuns pés com vontade de dançar. Era-lhe impossível deixar de sorrir, pensando que nunca tinha sido tão feliz na vida.

      

       - Na noite passada, deves ter-te deitado muito tarde comentou a avó num tom calmo, à mesa do pequeno-almoço. Zoya cortara-lhe algumas das maçãs às fatias e fizera uma preciosa torrada do pão que Clayton lhes trouxera.

       - Não muito. - Desviou os olhos e bebeu o chá em pequenos goles, comendo depois um chocolate.

       - Ainda és uma criança - replicou a avó quase tristemente, observando-a. Sabia o que ia seguir-se e temia pela neta. Ele era bom homem, mas a situação não se afigurava desejável. Fora o que Vladimir lhe dissera na noite anterior e tinha de concordar, mas sabia que não conseguiria deter Zoya. Talvez o capitão fosse mais sensato do que a neta, mas, dado ele ter percorrido todo o caminho desde Chaumont para a ver, achava pouco provável. E era óbvio para todos que ele estava desesperadamente apaixonado por Zoya.

       - Tenho dezoito anos, avó.

       - E daí? - redargüiu a velha senhora com um sorriso triste.

       - Não sou tão pateta como pensa.

       - És o suficiente para te apaixonares por um homem com idade suficiente para ser teu pai. Um homem que está num país estranho, com um exército em guerra, um homem que um dia regressará a casa, deixando-te aqui. Tens de pensar em tudo isso antes de fazeres uma parvoíce.

       - Não vou fazer nenhuma parvoíce.

       - Pensa bem. - Contudo, ela estava apaixonada, o que era bastante para já se sentir desgostosa com a sua partida. E ele partiria quando a guerra acabasse, se não mais cedo. - Não casará contigo. Tens de o saber.

       - De qualquer maneira, não quero casar com ele. - só que era uma mentira e ambas o sabiam.

       Quando Clayton chegou ao apartamento pouco depois do pequeno-almoço, detectou a reserva no olhar da velha senhora. Desta vez, trazia-lhe flores, três ovos frescos e outro pão.

       - Vou engordar com estas suas visitas, capitão - retorquiu com um sorriso gracioso. Ele era um homem encantador, mas continuava a temer por Zoya.

       - Não há esse risco, madame. Gostaria de nos acompanhar num passeio às Tulherias?

       - Gostaria. - Sorriu e quase também ela se sentiu jovem. Parecia trazer a luz do Sol e felicidade a todo o lado com os seus presentes e modos graciosos, tão semelhantes aos do seu filho, com os olhos afetuosos e o riso pronto. - Receio, porém, que os meus joelhos não concordem. Neste Inverno, tenho aparentemente um «pouco» de reumatismo. - O «pouco» a que se referia teria incapacitado uma mulher menos corajosa. Só Zoya suspeitava do quanto devia sofrer.

       - Permite-me, então, que leve a Zoya a dar um passeio? - Era um perfeito cavalheiro e ela gostava imenso dele.

       - É muito generoso em pedir-me. Não acho que conseguisse impedir Zoya. - Ambos riram e a jovem foi buscar as suas coisas.

       Do rosto emanava um brilho de felicidade que fazia esquecer as roupas usadas. Pela primeira vez desde há meses, desejou poder usar algo bonito. Tinha tantos vestidos encantadores em Sampetersburgo, todos queimados e desaparecidos agora, mas não esquecidos.

       Zoya despediu-se da avó com um beijo e a velha senhora ficou a vê-los sair, com uma sensação de felicidade, enquanto Clayton pegava na mão de Zoya. Pareciam iluminar a sala com toda aquela alegria. A jovem ia a conversar, entusiasmada, e ouviu-os a descer rapidamente a escada. Ele tinha à espera um dos carros do pessoal e que fora cedido pelo exército.

       - Onde gostarias de ir? - Sorriu-lhe, atrás do volante. Estou inteiramente ao teu serviço. - E também ela estava livre. Não tinha ensaios nem espetáculos com que se preocupar. Podia passar todos os minutos com Clayton.

       - Vamos ao Faubourg Saint Honoré. Quero ver as lojas. Nunca tenho tempo para fazer coisas desse gênero, além de que também não vale a pena. - Enquanto seguiam no carro, contou-lhe quanto ela e Mashka gostavam de roupas e que bonitos eram os vestidos da tia Alix. - A minha mãe andava sempre muito bem vestida - prosseguiu.

       - Mas nunca foi uma pessoa muito feliz. - Era uma confissão estranha, mas parecia tão natural contar-lhe tudo. Queria partilhar com ele todos os pensamentos, desejos, todos os sonhos e recordações para que a conhecesse melhor. - A mamã era muito nervosa. A avó diz que o papá a estragou com mimos. - Zoya soltou uma gargalhada, sentindo-se de novo jovem.

       - Também devias ser estragado com mimos. Talvez o sejas um dia, como a tua mãe.

       A jovem soltou uma risada alegre. Estacionaram o carro e saíram.

       - Não me parece que ficasse nervosa.

       Clayton riu também e pousou-lhe a mão no braço dele, enquanto iniciavam o passeio. As horas pareceram voar como se fossem apenas momentos.

       Almoçaram no Café de Flore e ele achou que a jovem parecia mais feliz do que no Verão anterior. Nessa altura, ainda se encontrava sob o efeito do choque, mas agora a dor diminuíra um pouco. Tinham passado nove meses desde que chegara a Paris. Ainda lhe custava acreditar que um ano antes estivera em Sampetersburgo, levando uma vida normal.

       - Tens tido notícias da Marie nos últimos tempos?

       - Finalmente, tive. Parece gostar de Tobolsk, mas tem tão bom feitio que é normal. Diz que vive numa casa pequena, que ela e as irmãs partilham um só quarto e o tio Nicolau passa o tempo a ler-lhes histórias. Diz também que, mesmo na Sibéria, continuam com aulas. Acham que dentro em breve poderão sair da Rússia. O tio Nicolau afirma que os revolucionários não lhes farão mal, que só querem mantê-los lá de momento. Contudo, parece uma atitude tão cruel e estúpida. - Zoya continuava furiosa com os Ingleses por não lhes terem dado asilo no anterior mês de Março. Se o tivessem feito, já poderiam estar todos juntos agora em Londres, ou Paris.

       - Tenho a certeza que a avó teria ido para Londres, se os soubesse lá.

       - Nesse caso, não te teria conhecido, pois não? E seria horrível. Talvez seja bom que tivesses vindo para Paris, enquanto esperas que deixem a Rússia. - Não queria alarmá-la, mas não sentia a confiança de alguns relativamente a que o czar e a família estariam a salvo na Rússia. Era, contudo, apenas uma impressão sua e não queria preocupá-la.

       Acabaram de almoçar e desceram o Boulevard St. Germain sob o sol de Inverno. O almoço no Cafle de Flore tinha sido agradável e ela sentia-se com todo o tempo do mundo nas suas mãos, liberta de espetáculos e de ensaios.

       Vaguearam algum tempo sem rumo e o acaso levou-os até à Rue de Varennes, perto da casa onde ele estava alojado.

       - Queres entrar um pouco na casa?

       Zoya conservava recordações felizes da noite em que se haviam conhecido e esboçou um feliz aceno de cabeça. Enquanto se aproximavam, ele falou-lhe de Nova Iorque, da sua infância e dos anos em Princeton. Contou que vivia numa casa na Quinta Avenida e ela achou todo o relato muito bonito.

       - Porque é que nunca tiveste filhos quando foste casado? Não querias? - Zoya tinha a inocência da juventude, a coragem de pisar terreno delicado, algo impensável quando se era mais velho. Nunca lhe ocorreu que talvez ele não pudesse tê-los.

       - Gostaria de ter tido filhos, mas não era esse o desejo da minha mulher. Ela era uma jovem muito bonita e egoísta e interessava-se muito mais pelos seus cavalos. Agora, tem uma bela herdade na Virgínia. Andavas muito a cavalo quando estavas na Rússia?

       - Sim - sorriu. - No Verão, em Livadia, e algumas vezes em Tsarskoie Selo. O meu irmão ensinou-me a montar aos quatro anos. Era muito mau e, sempre que eu caía, chamava-me estúpida. - Mas, pela forma como ela falava, Clayton percebeu quanto gostara dele.

       Nessa altura tinham chegado à casa dos Mill e Clayton serviu-se da chave para entrarem. Não havia mais ninguém lá nessa altura. Todo o pessoal do general estava em Chaumont.

       - Apetece-te uma xícara de chá? - perguntou, e os passos de ambos ecoavam no chão de mármore.

       - Sim. - Estava frio lá fora e esquecera-se das luvas no apartamento. E, de súbito, sem qualquer motivo, lembrou-se do gorro de marta que deixara na Rússia. Tinham posto pesados xales sobre as cabeças na altura da fuga. A avó achara com razão que chapéus de pele chamariam demasiado as atenções.

       Seguiu-o até à cozinha, e um momento depois a chaleira estava a fumegar. Ele serviu duas xícaras de chá e sentaram-se a falar até que o Sol se pôs devagar no jardim. Zoya sentia-se como se pudesse ficar ali sentada a conversar horas a fio, mas repentinamente as vozes emudeceram e apercebeu-se de que Clayton a olhava de uma forma estranha.

       - Devia levar-te a casa. A tua avó ficará preocupada. Passava das quatro horas e haviam estado ausentes o dia inteiro, mas Zoya avisara a avó de que talvez não fosse jantar a casa. Com os meros quatro dias da licença dele para partilharem, queriam estar o máximo de tempo juntos.

       - Disse-lhe que talvez regressássemos mais tarde. - E depois teve uma idéia. - Queres que faça o jantar aqui? - Parecia agradável não terem de sair e poderem ficar a conversar durante mais algumas horas, como haviam feito todo o dia. - Há comida?

       - Não sei - respondeu Clayton com um sorriso. Ela parecia-lhe tão jovem e bonita ali sentada. - Devia levar-te a algum lado. Talvez ao Maxim's. Não gostarias?

       - É pouco importante - redargüiu com franqueza. Apenas desejava estar com ele.

       - Oh, Zoya... - Deu a volta à mesa da cozinha e abraçou-a com força. Queria levá-la para fora da casa, antes que acontecesse algo que ela viria a lamentar. Sentia uma atração quase dolorosa pela jovem. - Não me parece que seja sensato ficarmos aqui - disse num tom calmo, com muito maior sensatez que ela.

       - O general ficará zangado por eu estar aqui? - Aquela inocência emocionou-o e baixou o rosto na sua direção, soltando uma gargalhada.

       - Não, amor, o general não ficará zangado. Mas não tenho a certeza de conseguir controlar-me por muito mais tempo. Acho-te demasiado bonita para estar contigo a sós. Nem sabes a sorte que tens por não ter saltado por cima da mesa para te agarrar. - Ela riu ante a imagem dada e encostou a cabeça, feliz, ao corpo dele.

       - É isso o que tem estado a planear fazer, capitão?

       - Não, mas gostaria. - Ambos estavam perfeitamente descontraídos quando ele lhe acariciou a longa cabeleira ruiva. Gostaria de fazer muitas coisas contigo... ir até ao Sul de França depois da guerra... e a Itália... Alguma vez estiveste lá? - Zoya abanou a cabeça e fechou os olhos. Era simplesmente um sonho estar ali com ele. - Acho que devíamos ir embora - repetiu Clayton num sussurro e a sala pareceu muito silenciosa. - Vou mudar-me. Não demoro um minuto. - Mas pareceu demorar uma eternidade e ela percorreu tranqüilamente as salas elegantes do andar principal e depois, movida por um súbito impulso malicioso, resolveu subir a escada de mármore a ver se conseguia encontrá-lo.

       Havia várias outras salas de estar no segundo andar, uma elegante biblioteca cheia de livros em francês e inglês, algumas portas fechadas e, depois, ouviu-o à distância. Cantava enquanto se mudava e ela sorriu, incapaz de se manter longe dele, ainda que por uns minutos.

       - Ei... - chamou, mas ele não a ouviu. A água corria na casa de banho e, quando voltou ao quarto, ela esperava-o, como um fauno muito quieto, na floresta. Clayton tinha apenas as calças vestidas e estava de tronco nu. Decidira barbear-se de novo rapidamente antes de a levar a jantar fora. Tinha uma toalha nas mãos e o rosto ainda escorria água quando a fitou com um olhar surpreendido.

       - O que fazes aqui? - Parecia quase receoso de si próprio, mas não da encantadora Zoya.

       - Estava solitária lá em baixo, sem ti. - Avançou devagar até junto dele, sentindo uma força magnética como nunca até então.

       Era como se fosse irresistivelmente atraída para ele, independentemente da sua vontade. Clayton deixou cair a toalha e abraçou-a de encontro ao corpo, beijando-lhe o rosto, os olhos e os lábios, saboreando a pele macia até ficar estonteado.

       - Vai lá para baixo, Zoya - pronunciou num tom rouco, desejando afastá-la, mas sem conseguir. - Por favor... - Ela fitou-o tão triste, quase magoada, mas sem medo.

       - Não quero...

       - Zoya, por favor... - Contudo, beijou-a uma e outra vez, sentindo o coração dela a bater aceleradamente de encontro ao seu peito.

       - Clayton, amo-te...

       - Também te amo. - E, por fim, afastou-se dela com um enorme esforço. - Não devias ter subido aqui, pateta. - Tentou aligeirar o momento, afastou-se e virou-se para tirar uma camisa do armário. Todavia, ao voltar-se, ela continuava no mesmo sítio, e deixou cair a camisa, avançando na sua direção. - Não consigo agüentar muito mais, pequenina, - Ela estava a enlouquecê-lo com a sua juventude e sensualidade. - Zoya, jamais me perdoaria, se...

       - Se... o quê? - A rapariga desaparecera e dera lugar a uma mulher que se conservava na sua frente. - Se me amasses? Que importância tem, Clayton? Já não há futuro... apenas o presente. O amanhã não existe. - Era a dura lição que aprendera no ano anterior. E sabia quanto o amava. - Amo-te. - Zoya era tão garota e em simultâneo orgulhosa e forte que lhe despedaçava o coração detectar nos olhos a ausência de medo e apenas o amor.

       - Ignoras o que estás a fazer. - Voltara a abraçá-la e embalava-a como se ela fosse uma criança. - Não quero magoar-te.

       - Não conseguirias... Amo-te demasiado... Nunca me magoarás.

       Clayton deixou de conseguir encontrar palavras para a mandar embora. Desejava-a demasiado, ansiara demasiado por ela. Premiu os lábios sobre os dela e, sem pensar, despiu-a, levou-a meigamente até à cama, acariciou-a e beijou-a. Ela correspondia num choro suave. As suas próprias roupas pareceram voar do corpo e perderam-se na enorme cama com o dossel a cobri-los como uma bênção. Reinou a escuridão, enquanto fizeram amor, mas com a luz que chegava da casa de banho via-lhe o rosto ao fazer amor, beijando-a, abraçando-a e amando-a como nunca amara nenhuma mulher até então.

       Pareciam ter decorrido horas antes de ficarem silenciosos, lado a lado, e ela suspirou, feliz, aninhando-se como uma cria em busca da mãe. Os olhos de Clayton estavam sérios e pensava no que tinham feito, rezando para que ela não ficasse grávida. Rolou para um dos lados e apoiou-se num dos cotovelos, detendo-se a observá-la.

       - Não sei se hei-de ficar furioso comigo ou deixar-me arrastar pela felicidade que sinto neste momento. Zoya... querida, estás feliz? - Sentia-se aterrorizado, mas ela esboçou um sorriso de mulher e estendeu-lhe os braços, ao mesmo tempo que o desejo o invadia uma vez mais. Mantiveram-se deitados, conversaram e fizeram amor até quase à meia-noite, hora a que ele olhou para o relógio da cama, horrorizado.

       - Oh, meu Deus, Zoya! A tua avó vai matar-me! - A jovem riu quando ele saltou para fora da cama e a arrastou. - Veste-te... E nem sequer te dei de comer!

       - Nem notei - retorquiu com uma gargalhada, qual rapariguinha, e ele virou-se e abraçou-a novamente.

       - Amo-te, minha louca. Sabias? Sou velho e adoro-te.

       - Ainda bem, porque também te amo e não és velho, és meu! Afastou o cabelo grisalho com um gesto meigo e aproximou-lhe o rosto do dela. - Lembra-te do quanto te amo, aconteça o que acontecer a qualquer um de nós. - Era uma lição que aprendera cedo na vida, esse desconhecimento do amanhã. O pensamento emocionou-o profundamente e abraçou-a com força.

       - Não vai acontecer nada, pequenina. Agora, estás a salvo.

       Pôs-lhe a correr um banho na enorme banheira, e aquele luxo era demasiado para ela. Durante uns minutos foi como se estivesse de volta ao Palácio Fontanka; porém quando pôs novamente o feio vestido de lã cinzento e enfiou os sapatos pretos usados, soube que não era assim. Usava meias de lã pretas para aquecer as pernas e, ao ver-se no espelho, teve a sensação de contemplar uma órfã.

       - Deus do céu. Estou um horror, Clayton. Como podes amar-me?

       - És bonita, pateta. Cada centímetro, o teu cabelo ruivo... tudo em ti - sussurrou, muito próximo, e assemelhava-se a respirar flores de Verão. - Adoro-te.

       Era-lhes difícil separarem-se, mas ele sabia que tinha de a levar a casa, ao apartamento no Palais Royal. Não havia forma dela poder passar a noite fora e, depois de a acompanhar pelas escadas até ao quarto andar, beijou-a uma última vez nos corredores sujos e miseráveis, e ela abriu a porta com a sua chave. Depararam com Eugenia adormecida numa cadeira, esperando-os. Os olhos cruzaram-se por um momento e depois Zoya inclinou-se e beijou-lhe meigamente a face.

       - Avó?... Desculpe ter-me atrasado, não devia ficar à espera...

       A velha senhora mexeu-se e sorriu-lhes, pois até mesmo naquele estado de torpor apercebia-se de como estavam felizes. Era como um sopro de Primavera naquela sala miserável, e soube que não conseguiria irritar-se.

       - Quis ter a certeza de que estavam bem. Divertiram-se? Fitou-os e perscrutou os olhos de Clayton, lendo somente a bondade e o amor que ele devotava a Zoya.

       - Imenso - respondeu a neta, sem qualquer culpabilidade. Agora, pertencia-lhe e nada poderia mudar a situação. - Jantou?

       - Comi um pouco do frango de ontem e um dos ovos que o capitão trouxe. Obrigada - agradeceu, virando-se para ele e tentando pôr-se em pé. - Foi uma maravilha, capitão.

       Clayton sentiu-se embaraçado por não lhe ter trazido mais coisas, mas estivera muito apressado naquela manhã. E voltou a tomar consciência de que não dera nada de comer a Zoya, interrogando-se sobre se ela estaria tão esfaimada quanto ele.

       Tinham estado distraídos durante longas e felizes horas, mas agora sentia-se a morrer de fome. A jovem leu-lhe o pensamento, fitou-o com um sorriso mal dissimulado e estendeu-lhe o saco com os bolinhos de chocolate. Ele engoliu um com uma expressão culpada e meteu-lhe outro na boca, após o que ajudaram Eugenia a ir até ao quarto.

       Zoya regressou um momento depois e beijaram-se novamente. Clayton detestava a idéia de ter de sair e voltar a casa, mas sabia que tal se impunha.

       - Amo-te - sussurrou, feliz, antes de ele se ir embora.

       - Apenas metade do que te amo - retorquiu ele num, sussurro.

       - Como podes dizer isso?

       - Sou mais velho e mais sabido - troçou e depois fechou a porta devagar; Zoya manteve-se de pé, de novo jovem, feliz e liberta. Em seguida, apagou tranqüilamente as luzes do apartamento.

      

       Clayton regressou na manhã seguinte, impecavelmente vestido e transportando um enorme cesto de comida. Desta vez, arranjara tempo para ir às compras.

       - Bom dia, minhas senhoras! - Eugenia reparou, com um olhar preocupado, que ele parecia excepcionalmente bem-humorado, mas nada podia fazer para os deter. Clayton trouxera carne e fruta e duas qualidades de queijo, bolinhos e mais chocolate para Zoya.

       Beijou-a de leve na face e insistiu para que a condessa os acompanhasse num passeio de carro. Seguiram, satisfeitos, pelo Bosque de Bolonha, conversando e rindo, e a própria Eugenia voltou a sentir-se mais jovem só de estar com eles.

       Desta vez foram almoçar à Closerie des Lilas e depois levaram-na a casa. Ela estava tão cansada que quase não conseguia subir as escadas, e Clayton transportou-a praticamente ao colo, recebendo em troca um sorriso de agradecimento. Divertira-se imenso e esquecera durante algum tempo a pobreza, a guerra e as preocupações.

       Sentaram-se a beber chá na sala e depois Zoya saiu novamente com Clayton. Voltaram à casa na Rue de Varennes e fizeram amor apaixonadamente horas a fio. Contudo, desta vez, ele insistiu em levá-la a jantar fora. Levou-a ao Maxim's e depois com muita pena a casa. Quando chegaram, Eugenia estava a dormir.

       Os dois amantes movimentaram-se silenciosamente na sala, comendo chocolates e sussurrando, beijaram-se à luz da lareira e partilharam sonhos. Zoya desejava poder ficar toda a noite com ele, mas era impensável e, quando ele saiu, sentindo-se novamente um rapazinho, prometeu voltar de manhã.

       No dia seguinte, atrasou-se mais do que no dia anterior e, às onze horas, Zoya começou a ficar preocupada. Não tinham telefone, o que lhes impedia qualquer contato, mas às onze e meia ele apareceu, lutando com um pacote enorme envolto em papel castanho. Pousou-o em cima da mesa da cozinha com um olhar satisfeito e misterioso e disse a Zoya que era uma coisa para a avó.

       Nessa altura, a velha condessa juntou-se-lhes e ele recuou, ficando a vê-la arrancar o papel para deparar com um samovar de prata muito bonito, gravado com o brasão da família russa que o trouxera para Paris e fora obrigada a vendê-lo. Nem sequer conseguia imaginar como o haviam feito chegar ali, mas ao vê-lo naquela manhã numa loja da margem esquerda, soubera desde logo que tinha de o comprar para Eugenia.

       A velha senhora susteve a respiração e deu um passo atrás, admirando-o, sentindo uma momentânea picada de tristeza, pois sabia como adorava os seus tesouros e quanto lhe custara vendê-los. Ainda chorava as cigarreiras de que tinha sido forçada a desfazer-se pouco antes do Natal. Contudo, era incapaz de desviar os olhos do samovar e do generoso benfeitor que o trouxera.

       - Capitão... é bom de mais para nós... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e beijou-o com ternura, aflorando com a face acetinada a carne viril que lhe recordava a do próprio filho e a do marido. - É tão generoso.

       - Só desejaria poder fazer mais. - Trouxera um vestido de seda branca a Zoya e ela arregalou os olhos, deliciada, quando o desembrulhou. Fora desenhado por uma costureira que ele encontrara na margem esquerda, uma mulher chamada Gabrielle Chanel. Tinha uma pequena loja e parecera-lhe surpreendentemente dotada. Ela própria lhe mostrara o vestido e parecia jovial e animada, o que era invulgar naqueles dias para os Parisienses, desgostados pela guerra. - Gostas? - Zoya correu para o quarto, a fim de o experimentar e apareceu irradiando uma imensa beleza. O vestido era puro e simples e o branco-pérola acentuava maravilhosamente o cabelo ruivo. Só desejava ter uns bonitos sapatos a condizer e o colar de pérolas que o papá lhe oferecera e que ardera com Fontanka.

       - Adoro-o, Clayton! - Nesse dia, levou-o para almoçar com ele e, mais tarde, ficou estendido no chão do quarto dele.

       O dia seguinte era o último da licença e ele partia às quatro dessa tarde. Ela não conseguia suportar a idéia quando fizeram amor pela última vez e agarrou-se-lhe como uma criança a afogar-se, enquanto ele a beijava. Quando Clayton a levou de volta ao apartamento, a própria Eugenia parecia triste por vê-lo partir. As despedidas na vida delas haviam sido demasiado dolorosas.

       - Tenha cuidado, capitão... Rezaremos todos os dias por si. Como faziam agora por tantos outros! Agradeceu-lhe a imensa bondade com que as tratara, e ele parecia deter-se, sem desejar ir embora, incapaz de deixar Zoya por um momento, quanto mais por meses. Não fazia idéia de quando poderia voltar a Paris.

       Eugenia deixou-os discretamente a sós. As lágrimas encheram os olhos de Zoya, que o fitava na pequena sala de estar, com o samovar de prata dominando tudo o resto. No entanto, a jovem só o via a ele e lançou-se-lhe nos braços que estavam ávidos de a receber.

       - Amo-te tanto, pequenina... Por favor, por favor, tem cuidado! - Sabia como a vida era potencialmente perigosa para ela em Paris. Ainda havia a eventualidade de que Paris pudesse ser atacada e ele rezava pela segurança da amada, sem a largar. Voltarei assim que puder.

       - Jura-me que terás cuidado. jura! - ordenou-lhe ela por entre lágrimas, pois não conseguia suportar a idéia de perder mais alguém que amava, e muito menos alguém que lhe era tão querido.

       - Promete-me que não lamentarás o que fizemos. - Continuava preocupado e tinha um receio enorme de que ela pudesse ter engravidado na primeira vez em que haviam feito amor. Depois disso tivera cuidado, mas não da primeira vez. Ela apanhara-o de surpresa e o desejo que sentira havia sido superior ao resto.

       - Nunca lamentarei nada. Amo-te demasiado.

       Seguiu-o pelas escadas até ao carro e ficou a acenar até ele desaparecer, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces, enquanto ele se afastava, talvez para sempre.

      

       Contrariamente ao que ele prometera, não voltou a ter notícias. As estratégias e manobras eram agora top secret e eles encontravam-se desligados de todos, no Marne, a tentar proteger Paris.

       Em Março, desencadeou-se a última grande ofensiva alemã e eles ficaram à espera do melhor momento para atacar, mesmo às portas da cidade. Havia bombardeamentos nas ruas e Eugenia tinha medo de sair.

       A estátua de São Lucas foi decapitada por bombas na Madeleine. E por todo o lado havia pessoas com fome, frio e medo.

       Diaghilev deu uma oportunidade a Zoya de se escapar. A 3 de Março partia para mais uma tournée em Espanha com o ballet, mas a jovem insistiu que não poderia deixar Eugenia sozinha, em Paris.

       Ficou, assim, em Paris, mas a maioria dos espetáculos foi suspensa. Agora era perigoso andar pelas ruas. E só por milagre conseguiu sobreviver à destruição da Igreja de St.Gervais-St.Protais junto ao Hôtel de Ville na Sexta-Feira Santa. Optara por se deslocar até lá em vez de ir a Santo Alexandre Nevski e saiu momentos antes de as bombas atingirem os telhados e as paredes ruírem, matando setenta e cinco pessoas e ferindo perto de cem.

       Os comboios para Lião e para o Sul iam cheios de gente em pânico que fugia de Paris. Mas, quando Zoya sugeriu à avó que partissem, a velha senhora mostrou-se furiosa.

       - E quantas vezes achas que o farei? Não! Não, Zoya! Deixa-os matarem-me aqui! Deixa que se atrevam! Fugi da Rússia e não voltarei a fugir! - Era a primeira vez que Zoya a via chorar naquela raiva desesperada. Passara exatamente um ano desde que tinham deixado tudo para trás e fugido da Rússia. E, desta vez, não havia Feodor, não lhes restava nada para vender, nem sítio para onde irem. Era absolutamente inútil.

       O próprio Governo francês estava a preparar-se para fugir, se necessário. Tinham feito planos para se mudarem para Bordéus, mas Foch jurara defender Paris até ao fim, nas ruas e em cima dos telhados. Todos os espetáculos e ensaios de Zoya foram cancelados em Maio. E, nessa altura, os Aliados conheciam o sabor da derrota no Mame. Com Pershing ali, Zoya só conseguia pensar em Clayton.

       Sentia-se horrorizada com a eventualidade de ele ser morto e não tivera notícias desde que o capitão deixara Paris.

       As únicas notícias que recebera chegaram numa carta de Marie que o Dr. Botkin conseguira enviar-lhe e ficou surpreendida por saber que se tinham mudado para Iekaterimburgo, nos Urales, no mês anterior. E as palavras de Marie davam-lhe a entender que tudo piorara. Já não podiam trancar as portas dos quartos e os soldados seguiam-nas mesmo quando iam à casa de banho. Zoya estremeceu ao ler tudo aquilo, cheia de saudades da amiga de infância e temendo sobretudo por Tatiana que era tão cerimoniosa e tímida. A idéia das circunstâncias em que eles viviam era-lhe quase insuportável.

       «... Nada nos resta, senão agüentar. A mamã obriga-nos a cantar hinos, sempre que os soldados começam com as suas horríveis canções, lá em baixo. Tratam-nos com muita dureza, agora. O papá diz que não devemos fazer nada que os irrite. Deixam-nos sair um pouco até lá fora, à tarde, e passamos o resto do tempo a ler ou a coser ... »

       Os olhos de Zoya encheram-se de lágrimas ante as palavras seguintes:

       «... e sabes bem como odeio coser, querida Zoya. Tenho escrito poesia para passar o tempo. Mostro-te tudo quando voltarmos a estar finalmente juntas. Parece difícil imaginar que ambas temos dezenove anos. Costumava achar que dezenove era tanta idade, mas agora parece-me cedo de mais para morrer. Só a ti posso dizer estas coisas, minha adorada prima e amiga. Rezo para que estejas feliz em Paris. Agora tenho de sair para o nosso exercício. Todos te mandamos saudades que peço tornes extensivas à tia Eugenia.» Desta vez não assinara com OTMA, o código habitual, mas simplesmente «a tua querida Mashka».

       Zoya ficou muito tempo sentada no quarto, lendo repetidamente as palavras, encostando a carta à face como se o contato com o papel lhe trouxesse de volta o contato da amiga. Sentiu repentinamente um medo horrível por eles. Tudo parecia piorar em todo o lado, mas, pelo menos, o corpo de bailado em que ela dançava recomeçou a trabalhar em Junho. Ela e Eugenia ansiavam desesperadamente por aquele dinheiro e nem sequer haviam conseguido encontrar outro hóspede.

       As pessoas deixavam Paris para não mais voltarem. Ata mesmo alguns dos emigrados russos tinham ido para sul, mas Eugenia continuava a recusar partir. Fora até onde as forças lho permitiam.

       A meio de Julho fazia calor, mas ainda reinava a fome na cidade. Zoya ficou horrorizada ao ouvir de Vladimir que ele e Yelena tinham andado a caçar pombos no parque para os comer.

       Garantiu que eram surpreendentemente gostosos e ofereceu-se para lhe levar um, mas Zoya recusou, enojada com a idéia.

       Dois dias depois, quando começava a desesperar que a guerra viesse a acabar, Clayton reapareceu como uma visão num sonho. Zoya quase desmaiou ao vê-lo. Foi na véspera do Dia da Bastilha e observaram juntos as paradas desde o Arco do Triunfo à Praça da Concórdia. Os uniformes eram extremamente bonitos sob o sol luminoso, com os Chasseurs Alpins de bonés e fardas pretas, os Life Guards ingleses, o Bersaglieri italianos de chapéu em bico e mesmo uma brigada de cossacos antibolcheviques com gorros de pele; porém nesse dia, ela só tinha olhos para Clayton.

       Quando regressaram à casa na Rue de Varennes, tão profundamente apaixonados como sempre, bateram com toda a força à porta, à meia-noite. A polícia militar andava a convocar toda a gente, as licenças haviam sido canceladas e a ofensiva alemã começara em força. O Exército alemão encontrava-se apenas a oitenta quilômetros e os Aliados tinham de os deter.

       - Mas não podes ir agora... - exclamou Zoya com os olhos cheios de lágrimas, apesar das suas tentativas de se mostrar corajosa. - Acabaste de chegar! - Clayton chegara apenas nessa manhã e, depois de seis meses sem ele, era-lhe insuportável vê-lo partir.

       Contudo, não havia alternativa. O capitão tinha meia hora para se apresentar no quartel-general da polícia militar na Rue St. Anne. Mal teve tempo de a levar a casa antes de o escoltarem de volta até junto do general Pershing. Aos olhos de Zoya parecia uma terrível crueldade disporem de tão pouco tempo juntos antes de ele regressar à frente e arriscar de novo a vida. E, qual criança abandonada, ficou sentada na sala de estar, e chorou pela noite fora, até que a avó lhe trouxe uma xícara de chá para a consolar.

       No entanto, as lágrimas que verteu por Clayton nada foram comparativamente às que derramou uns dias mais tarde. A 20 de Julho, Vladimir apareceu no apartamento com uma expressão solene e um exemplar do Izvestia, o jornal russo. Quando abriu a porta, Zoya pressentiu imediatamente que algo terrível acontecera ao conduzi-lo até ao interior, indo em seguida buscar a avó ao quarto.

       Vladimir começou a chorar quando lhe estendeu o jornal. Parecia uma criança de coração partido, o cabelo branco era quase da mesma cor do rosto e repetia incessantemente:

       - Mataram-no... Oh, meu Deus... mataram-no...

       Viera logo ter com elas, tinham o direito de saber, pois todas eram afinal primas Romanov.

       - O que quer dizer? - inquiriu Eugenia, fitando-o horrorizada e soerguendo-se na cadeira, quando ele lhe mostrou a notícia no jornal. Informava que o czar Nicolau fora executado a 16 de Julho. E também que a família tinha sido mudada em segurança. Mudada para onde?

       Zoya sentiu desejo de gritar: onde está a minha querida Mashka?... Onde estão eles?... Como se percebesse o que estava a passar-se, Sava começou a ganir baixinho enquanto os três russos se sentavam e choravam pelo homem que tinha sido o seu pai, o seu czar... e era o muito amado primo das duas mulheres. Os sons da tristeza pairaram na sala durante muito tempo.

       Por fim, Vladimir levantou-se e dirigiu-se até à janela, de cabeça baixa e um peso indizível no coração. Por todo o mundo, os russos que o haviam amado estariam a chorar, até mesmo os camponeses em nome de quem a temida revolução fora engendrada.

       - Que dia terrível! - exclamou num sussurro. - Que a sua alma descanse em paz - desejou, voltando-se para as mulheres.

       Eugenia parecia ter cem anos e Zoya denotava uma palidez mortal. A única cor do seu rosto residia nos fogosos olhos verdes, congestionados de lágrimas que continuavam a cair-lhe silenciosamente pelas faces. Apenas conseguia pensar naquela manhã em Tsarskoie Selo, quando ele se despedira com um beijo e lhe dissera que se portasse bem... «Amo-o tio Nicolau...» Ressoavam ainda as suas próprias palavras no cérebro... e depois ele dissera que também a amava. E agora estava morto. Desaparecido para sempre. E os outros?

       Voltou a ler as palavras do Izvestia...«A família foi mudada em segurança.»

      

       Julho pareceu arrastar-se como um pesadelo. O fato de Nicolau ter sido morto parecia pesar-lhes aos ombros como um fardo insuportável. A tristeza marcava uma posição. Os russos choravam-no por toda a cidade de Paris, enquanto a guerra se desenrolava à sua volta.

       Zoya foi convidada para a festa de casamento de uma das bailarinas que conhecia. Chamava-se Olga Khoklova e desposara Pablo Picasso há umas semanas em Santo Alexandre Nevski, mas Zoya não tinha desejo de ir onde quer que fosse. Usava as poucas roupas pretas que tinha em sinal de luto pelo primo.

       Em Agosto, Diaghilev voltou a mandar-lhe um telegrama, desta vez com uma oferta de que se juntasse ao corpo de ballet para uma tournée em Londres, mas não podia deixar a avó nem lhe apetecia ver ninguém. Mal conseguia ir trabalhar e apenas o fazia diariamente para terem comida na mesa.

       Em Setembro, os Aliados avançaram de novo e, decorridas umas semanas, os Alemães tentavam negociar a paz com eles. Zoya continuava, porém, sem receber notícias de Clayton. A jovem mal se atrevia a pensar nele. Se algo lhe acontecesse, sabia que não conseguiria continuar a viver. Era demasiado a suportar, demasiado para pensar, impossível de entender.

       O tio Nicolau estava morto. As palavras martelavam-lhe incessantemente na cabeça. Escrevera três cartas a Marie desde que soubera as notícias, mas ainda não obtivera resposta. Já não sabia do paradeiro do Dr. Botkin e, se a família mudara, como se dizia no jornal, era impossível saber quanto tempo as cartas demorariam a chegar até ela.

       Depois de um infindável mês de Outubro de silêncio dos que amava, chegou Novembro e com ele a paz.

       Estavam sentadas na sala quando ouviram a notícia, e escutaram os gritos nas ruas, o júbilo, os sinos da igreja, os canhões. Tinha finalmente acabado. Todo o mundo estremecera mas agora acabara finalmente. A grande guerra chegara ao fim.

       Serviu calmamente uma xícara de chá à avó e ficou à janela, observando os festejos na rua, sem uma palavra. Tropas dos Aliados por toda a parte, americanas, inglesas, francesas, mas ela nem sequer sabia se Clayton estava vivo, mal se atrevendo a acalentar esperanças. Virou-se e fitou Eugenia, tão velha agora, tão frágil, atormentada pela mesma tosse do Inverno anterior e com os joelhos tão fracos que lhe era impossível sair do apartamento.

       - Agora tudo vai melhorar, pequena Zoya - disse num tom suave, entrecortado pela tosse. Sabia o que se passava na mente da neta. Desde que Clayton deixara Paris, à meia-noite do Dia da Bastilha, que não tinha notícias dele. - Ele voltará para ti, pequenina. Confia um pouco. Precisas de ter fé. - Sorriu-lhe ternamente, mas a alegria desaparecera dos olhe de Zoya. Perdera em demasia. E preocupava-se em demasia.

       - Como pode dizer isso? Com tanta gente desaparecida... Como pode acreditar que alguém voltará?

       - O mundo continua. Pessoas nascem e morrem e outras nascem depois delas. só a nossa tristeza é tão dolorosa. O Nicolau já não sofre. Está em paz.

       - E os outros? - Escrevera cinco cartas a Marie, sem haver obtido resposta a qualquer delas.

       - Apenas podemos rezar pela sua segurança. - Zoya esboçou um aceno de cabeça. Já ouvira tudo aquilo antes. Sentia-se irritada com o destino que lhes tirara tanta coisa.

       Nos primeiros dias depois do armistício era impossível andar pelas ruas e só saía para ir buscar comida. Mais uma vez as reservas eram quase nulas. Não havia espetáculos e tinham de sobreviver com a escassa quantia que poupara. Tudo lhe parecia subitamente tão cansativo!

       - Posso ajudá-la a levar isso, mademoiselle? - Sentiu que alguém lhe puxava a baguette de baixo do braço e virou-se com palavras iradas na ponta da língua, disposta a matar pelo pão, ou a defender-se de um soldado atrevido. «Nem todas em Paris querem ser beijadas por um jovem arrebatado de uniforme», pensou ao dar meia volta, de punhos cerrados, e soltou uma exclamação abafada, deixando cair a preciosa baguette quando ele a atraiu de encontro ao corpo.

       - Oh... oh... - Lágrimas jorraram-lhe imediatamente dos seus olhos ao refugiar-se, aliviada, nos seus braços. Ele estava vivo... Oh, céus... ele estava vivo... Era como se fossem os dois únicos sobreviventes ao cimo da terra... os únicos sobreviventes de um mundo perdido, ao entregar-se, apaixonada, a Clayton.

       - Assim é melhor! - Fitou-a bem do alto, com o uniforme sujo e amachucado, o rosto áspero da barba que não fazia há dias.

       Acabara de chegar a Paris e fora logo procurá-la. Já falara com Eugenia, ela dissera-lhe que Zoya saíra para comprar comida e ele descera precipitadamente as escadas para a encontrar na rua.

       - Estás bem? - perguntou Zoya rindo e chorando ao mesmo tempo, e ele beijava-a sem cessar, tão aliviado quanto ela por ambos terem conseguido sobreviver.

       Face a tudo, parecia um milagre, e ele nem sequer lhe disse como conhecera a morte de perto tantas vezes, no Marne. Não interessava agora. Ele estava vivo, ela estava a salvo, e agradeceu silenciosamente aos anjos-da-guarda, enquanto se dirigiam de volta ao apartamento pelo meio da multidão.

       Desta vez, Clayton estava alojado num pequeno hotel da margem esquerda, juntamente com dúzias de oficiais. Pershing regressara à casa dos Mill e tornava-se difícil estarem a sós, mas roubavam os momentos de privacidade que podiam e uma vez atreveram-se até a fazer amor silenciosamente no quarto de Antoine, muito depois de Eugenia ter ido dormir. Ela estava muito cansada e passava a maior parte do tempo a dormir. Há meses que Zoya andava preocupada com a saúde da avó, mas até mesmo esses receios pareceram apagar -se à luz do seu encontro com Clayton.

       Uma noite, a altas horas, falaram de Nicolau, e ele confessou-lhe que sempre havia temido que tal acontecesse. E Zoya deu-lhe conta do seu receio quanto aos outros.

       - O jornal russo dizia que se tinham mudado em segurança... Mas para onde? Escrevi cinco vezes à Mashka e não recebi resposta.

       - É possível que o Botkin já não consiga fazer sair as cartas. Pode não querer dizer nada, miúda. Tens de ter fé replicou num tom calmo, ocultando-lhe os seus próprios temores.

       - Pareces a avó a falar - sussurrou-lhe no quarto às escuras, onde se mantinham aninhados.

       - Algumas vezes, sinto-me velho. - Reparara como a velha senhora parecia frágil desde Julho. Não estava bem e pressentia que Zoya também o sabia. Eugenia tinha agora quase oitenta e quatro anos e os últimos dois anos haviam sido duros para todos. Era espantoso que tivesse sobrevivido. Contudo, ambos esqueceram essas preocupações quando os corpos se fundiram e fizeram amor até ele descer as escadas nos bicos dos pés, antes do amanhecer.

       Nas semanas seguintes, passaram o máximo de tempo juntos, mas a 10 de Dezembro, praticamente um mês depois do fim da guerra, ele era a imagem da tristeza quando lhe apareceu. Iam mandá-lo de volta aos Estados Unidos no fim da semana; porém, mais importante do que isso, tomara uma decisão dolorosa a respeito dela.

       Zoya ouviu-o dizer que se ia embora, como se vivesse um sonho. Parecia-lhe impossível acreditar. O momento que nunca enfrentara, o dia que julgara nunca acontecer... tudo desabava finalmente sobre os dois.

       - Quando? - perguntou com um peso no coração.

       - Dentro de dois dias. - Não despregou os olhos dos dela, pois havia mais a dizer. E interrogava-se sobre se teria coragem de o fazer.

       - Não nos dão muito tempo para despedidas, pois não? retorquiu Zoya, tristemente. Estavam sentados na sua pequena e miserável sala, e o dia apresentava-se cinzento. Eugenia dormia tranqüilamente no quarto, como agora era seu hábito. Zoya regressara ao trabalho, mas a avó parecia não ter dado por isso. Voltarás a Paris? - perguntou Zoya, como se ele fosse um estranho, sentindo-se distanciada e preparando-se para o que se seguiria. Já houvera tantas despedidas na sua vida e não tinha a certeza de conseguir sobreviver àquela.

       - Não sei.

       - Estás a esconder-me alguma coisa. - Talvez fosse casado e tivesse dez filhos em Nova Iorque. Tudo era possível agora. A vida já a atraiçoara demasiado... Não que tivesse sido o caso de Clayton. Contudo, agora até contra ele estava irritada.

       - Zoya... Sei que para ti não fará sentido, mas tenho pensado muito... a nosso respeito. - A jovem esperou, cega pela dor. Era surpreendente como, no momento em que se pensava que já não podia haver mais dor, ela parecia não ter fim. - Quero libertar-te, que leves a tua própria vida aqui. Pensei em levar-te para Nova Iorque... Queria muito. Contudo, não me parece que a condessa agüentasse a viagem e... Zoya... Parecia sufocado com as palavras em que andava a pensar há dias. - Zoya... - sou velho de mais para ti. Já te disse antes. Não é justo, Quando tiveres trinta, terei quase sessenta.

       - Que diferença faz? - Nunca partilhara o medo dele quanto à diferença de idades e fitava-o, irritada, magoada pelo seu afastamento, sobretudo agora. - O que estás a dizer é que não me amas.

       - Estou a dizer que te amo demasiado para te impor o fardo de um velho. Tenho quarenta e seis anos e tu dezenove. Não é justo. Mereces alguém jovem e fogoso e, depois de tudo acalmar aqui, encontrarás outra pessoa a quem amares. Nunca tiveste essa oportunidade. Eras uma criança quando saíste da Rússia há dois anos. Lá foste sempre protegida e chegaste aqui, durante a guerra, com pouco mais do que a roupa que trazias no corpo. Um dia, a vida voltará ao normal e conhecerás alguém mais próximo da tua idade. Parecia subitamente firme... quase como Konstantin. - Seria um erro levar-te para Nova Iorque. Seria egoísta da minha parte. Estou a pensar em ti e não em mim. - Todavia, ela não entendia nada disso, quando o fitou, raivosa, e as lágrimas lhe saltaram dos olhos.

       - Foi tudo um jogo para ti, não foi? - Estava a ser cruel, mas era o que desejava. Queria magoá-lo tanto quanto ele a magoara. - Não passou disso. Um romance de guerra. Uma pequena bailarina para te divertires enquanto estiveste em Paris.

       Apetecia-lhe esbofeteá-la, mas conteve-se.

       - Ouve-me. Não foi nada disso. Não sejas idiota, Zoya. Tenho mais do dobro da tua idade. Mereces melhor do que isso.

       - Ah... percebo - redargüiu com um brilho de fúria nos olhos verdes. - Como a vida feliz que levo aqui. Esperei metade desta guerra por ti, mal respirando com medo que fosses morto e agora apanhas um barco e regressas a Nova Iorque. Fácil para ti, não é verdade?

       - Não, não é. - Virou-se para que ela não lhe visse as lágrimas nos olhos. Talvez fosse melhor assim. Talvez fosse melhor que ela ficasse furiosa com ele. Não lhe sentiria tanto a falta como seria o seu caso. - Amo-te muito. - Voltou-se e enfrentou-a com uma expressão tranqüila enquanto ela se dirigia à porta e a abria de par em par.

       - Sai. - Clayton parecia surpreendido. - Para quê esperar mais dois dias? Porque não acabar tudo agora?

       - Gostaria de me despedir da tua avó.

       - Está a dormir e duvido que desejasse despedir-se de ti. De qualquer maneira, nunca lhe agradaste. - Apenas queria que ele se fosse embora para poder chorar em paz.

       - Zoya, por favor... - Queria tomá-la novamente nos braços, mas sabia que não era justo. Era melhor deixá-la sentir que fora ela a terminar, deixá-la com algum orgulho. Era melhor que fosse ele a ficar com o coração despedaçado.

       Odiou-se quando desceu as escadas devagar e o som da porta a bater com força lhe ecoou nos ouvidos. Odiou-se por se envolver com ela. Sempre soubera que ela sairia magoada, só não se apercebera de que também ele o ficaria.

       Contudo, estava certo que agira da melhor forma. Não havia retorno. Era velho de mais para ela e, mesmo que agora a magoasse, ela ficava melhor sem ele e poderia encontrar um homem da sua idade, começar uma vida nova.

       Sentiu o coração destroçado nos dois dias seguintes e, no dia antes da partida, recebeu um cheque de cinco mil dólares. Meteu-o numa carta dirigida à avó de Zoya, pedindo-lhe que o guardasse e o informasse se pudesse fazer algo por elas mais tarde. Acrescentou que seria sempre um amigo e ansiaria a neta enquanto vivesse. «Fiz isto para bem dela, posso garantir-lhe. E porque também suspeito ser essa a sua vontade. Ela é mais nova do que eu. Voltará a apaixonar-se. Tenho a certeza. E agora, despeço-me com o coração cheio de tristeza e afeto.»

       Assinara a carta e, na manhã em que partiu, mandara-a entregar por um cabo do pessoal do general Pershing.

       Partiu na manhã da chegada do Presidente e de Mrs. Wilson.

       Houve um desfile em honra deles nos Campos Elísios à hora em que ele se afastava lentamente pelo Havre, pensando em Zoya.

      

       Depois de Clayton a ter deixado, Zoya passou semanas a chorar no antigo quarto de Antoine e julgou que morreria de desgosto. Nada parecia importar-lhe. Pouco se lhe dava morrer de fome. Fazia sopa para a avó, e ficou surpreendida que tivessem dinheiro bastante para a comprar.

       Pouco depois da partida de Clayton, Eugenia mandara o príncipe Markovski uma vez ao banco e depois metera algumas notas na mão de Zoya.

       - Consegui poupar este dinheiro. Serve-te dele para comprares o que quiseres. - Contudo, nada havia que ela precisasse ou quisesse. Ele fora-se embora. Parecia-lhe o fim da vida. Todavia, o dinheiro que a avó aparentemente poupara e lhe dera para comprar comida permitiu-lhe ficar em casa sem trabalhar. Disse-lhes que estava doente e que não se importava que a despedissem.

       Os Ballets Russes estavam de volta e podia ter dançado com eles se quisesse. Contudo, nem isso queria, agora. Não queria nada, nem comida, nem amigos ou emprego e sobre tudo nenhum homem. Ele fora um idiota em dizer-lhe que precisava de uma pessoa mais nova. Não precisava de ninguém. Exceto de um médico para Eugenia. Esta apanhara uma gripe terrível na noite de Natal. Insistira em querer ir à igreja. Contudo, estava fraca de mais mesmo para se sentar, e Zoya pediu-lhe que se deitasse sossegada e, quando o príncipe Vladimir chegou, incitou-o a que trouxesse imediatamente um médico, mas passaram-se horas antes de ele voltar com um.

       O médico era um homem velho, de ar bondoso, que aprendera russo em criança e dirigiu-se a Eugenia na sua língua natal. A idosa senhora parecia ter esquecido o seu impecável francês.

       - Ela está muito doente, mademoiselle - sussurrou a Zoya, na sala de estar. - Pode não resistir a esta noite.

       - Mas isso é ridículo. Estava boa esta tarde. - Tão boa quanto era possível, naquelas circunstâncias. O médico tinha de estar enganado.

       Zoya sabia que não conseguiria sobreviver mais uma perda. Não conseguiria simplesmente enfrentá-la.

       - Farei tudo o que estiver ao meu alcance. Chame-me logo se ela piorar. O senhor pode encontrar-me em casa. - Ele próprio tinha voltado recentemente da frente e praticava medicina ao domicílio. Fitou o príncipe Vladimir, que esboçou um aceno de cabeça triste e olhou em seguida para Zoya.

       - Ficarei consigo. - A jovem anuiu. Sabia que nada tinha a recear dele. Há quase um ano que vivia com uma mulher, e a filha ficara tão furiosa que se mudara e estava a viver num convento, na margem esquerda.

       - Obrigada, Vladimir. - Foi preparar uma xícara de chá para a avó e, quando entrou sem fazer ruído no quarto, encontrou-a quase a delirar. Tinha o rosto a arder em febre e o corpo parecia ter encolhido numa questão de horas.

       Zoya apercebeu-se subitamente de quanto peso ela havia perdido nos últimos tempos. Não era tão visível quando estava vestida, mas agora parecia desesperadamente frágil e, ao abrir os olhos, precisou de esforçar-se para ver quem era Zoya.

       - Sou eu, avó... Chiu... não fale. - Tentou ajudá-la a beber o chá, mas Eugenia afastou a xícara, murmurando incoerências e voltou a adormecer.

       Só ao amanhecer é que se mexeu e falou. A neta passara a noite na cadeira a vigiá-la e acorreu de imediato ao seu lado para ouvir as palavras. A avó acenara com a mão, e Zoya aproximou-se devagar, deu-lhe a beber um gole de água pelos lábios gretados e também um pouco do remédio que o médico deixara, mas via que Eugenia tinha piorado muito.

       - ... Tens de...

       - Avó... não fale... Vai cansar-se.

        A velha senhora abanou a cabeça. Sabia que isso era pouco importante nesse momento.

       - ... Tens de agradecer por mim ao americano... Diz-lhe que me sinto muito grata... Tencionava pagar-lhe...

       - O quê? - inquiriu Zoya, admirada. Por que razão estava ela grata a Clayton? Por as deixar? Por a abandonar e regressar a Nova Iorque?

       Contudo, Eugenia esboçou um fraco aceno com a mão na direção da pequena secretária ao canto do quarto.

       - ... Procura... no meu cachecol vermelho...

       Zoya abriu a gaveta e encontrou-o. Tirou-o para fora, pô-lo em cima da secretária, abriu-o e soltou uma exclamação abafada. Havia ali uma fortuna. Quase cinco mil dólares, quando os contou.

       - Meu Deus, avó!... Quando é que ele lhe deu isto? - Estava boquiaberta e não compreendia. Porque teria feito tal coisa?

       - ... Mandou-o quando se foi embora... Ia devolvê-lo... mas tive medo... Se precisasses dele... sabia que ele tinha boas intenções. Devolvemo-lo quando pudermos... - Contudo, procurava algo atrás dela enquanto falava, qualquer coisa que julgava estar escondido naquele sítio, e Zoya viu que a avó começava a ficar agitada e receou que lhe fizesse ainda pior.

       - Avó, deite-se... por favor... - Ainda não recuperara da surpresa causada pela verdadeira fortuna que Clayton enviara. Era um gesto generoso, mas que a levou a sentir-se de novo irritada contra ele. Não precisavam de caridade. Era demasiado fácil comprá-las... mas a que preço; depois, franziu subitamente o sobrolho ante o velho cachecol de lã que a avó segurava nas mãos trêmulas e aparentemente tirara de trás da almofada.

       Era o cachecol que usava no dia em que tinham deixado Sampetersburgo. Lembrava-se muito bem e agora a avó estendia-lho com um pequeno sorriso nos lábios descorados.

       - Nicolau... - Mal conseguia falar e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. - ... Tens de manter isso a salvo, Zoya... com muito cuidado... Quando não restar mais nada, vende... mas só quando estiveres desesperada... Não antes... Nada mais resta.

       - A cigarreira do papá e a do Nicolai?... - inquiriu, mas a velha senhora abanou a cabeça.

       - ... Vendi-as há um ano... Não tínhamos escolha. - Contudo, Zoya escutou as palavras, como se lhe cravasse um punhal no coração. Não lhes restava nada agora, nenhum objeto, nenhuma recordação, apenas memórias e o que quer que a avó segurava nas mãos.

       Zoya agarrou cuidadosamente no cachecol, desembrulhou-o em cima da cama e soltou uma exclamação abafada... Era o ovo da Páscoa que Nicolau dera a Alix quando Zoya tinha sete anos... Maravilhoso, fabricado por Fabergé, uma verdadeira obra de arte.

       O ovo da Páscoa em si era de um esmalte malva-pálido com fitas de diamantes à volta e uma pequena mola abria-o, revelando um cisne de ouro em miniatura num lago de água-marinha. Chorando baixinho, tocou na alavanca que se lembrava existir debaixo da asa do cisne. O cisne abriu as pequenas asas douradas e avançou devagar na sua palma da mão.

       - Conserva-o a salvo, pequenina... - sussurrou a avo e fechou os olhos.

       Zoya voltou a embrulhar o ovo no cachecol e agarrou ternamente na mão de Eugenia.

       - Avó... - A condessa abriu novamente os olhos com um sorriso calmo.

       - Fique comigo... não parta, por favor... - Pareceu-lhe que a velha senhora estava mais confortável e respirava com mais facilidade.

       - Sê uma boa rapariguinha, miúda... Sempre me orgulhei tanto de ti... - Sorriu de novo, e Zoya começou a soluçar.

       - Não, avó... - As palavras soavam a despedida e ela não a deixaria morrer. - Não me deixe só, avó... por favor... - Contudo, a velha senhora limitou-se a sorrir e fechou os olhos uma última vez. Dera o seu último presente à jovem que tanto amara, garantira-lhe segurança para uma nova vida, mas agora tudo havia terminado. - Avó... - sussurrou Zoya no quarto silencioso, mas os olhos de Eugenia mantinham-se fechados. Descansava em paz. Desaparecida com os restantes. Eugenia Peterovna Ossupov regressara a casa.

      

       Enterraram-na no cemitério russo à saída de Paris, e Zoya manteve-se silenciosamente de pé ao lado do príncipe Vladimir e de um punhado de gente que conhecera Eugenia. Não era íntima de nenhum deles. Os seus anos em Paris haviam sido principalmente passados com Zoya e não tinha paciência para as queixas e memórias depressivas dos outros emigrados. Estava ocupada com o presente e não obcecada com o passado.

       Morreu a 6 de Janeiro de 1919 no pequeno apartamento, no mesmo dia em que Theodore Roosevelt morreu a dormir, e Zoya sentou-se a olhar pela janela, acariciando Sava.

       Era impossível absorver os acontecimentos dos últimos dias e mais inconcebível pensar numa vida sem a avó. Ainda estava sob a influência do choque provocado pelo ovo imperial que a avó escondera durante quase dois anos e o dinheiro que Clayton lhe dera ao partir. Chegaria para viver até ao ano seguinte se não se excedesse nas despesas e, pela primeira vez durante todo aquele tempo, não sentia desejo de dançar.

       Não desejava ver o ballet, nem fazer o que quer que fosse novamente.

       Só desejava ficar ali sentada com a cadela e morrer em paz. Depois refletiu, culpabilizada, em como a avó ficaria zangada com ela ante esses pensamentos. A avó estivera sempre comprometida com a vida e não com a morte.

       Viveu calmamente durante uma semana sem ver ninguém e parecia mais magra e muito pálida, quando Vladimir lhe bateu à porta. O príncipe tinha um ar tenso e estava obviamente preocupado com ela, e Zoya sobressaltou-se ao ver que havia alguém por detrás dele no corredor escuro, quando abriu a porta. Talvez tivesse trazido o médico para a observar, mas ela não queria ver ninguém e muito menos o médico.

       Tinha meias de lã e um vestido preto e apanhara o cabelo ruivo que formava um marcado contraste com o rosto cor de marfim.

       - Sim? - Vladimir hesitou. Quase sentira medo de o trazer ali, medo que o choque fosse demasiado violento, mas sabia que assim tinha de ser.

       - Olá, Vladimir. - Sem dizer uma palavra, ele afastou-se para o lado e Zoya soltou uma exclamação abafada ao deparar com Pierre Gilliard.

       Os olhos de Pierre encheram-se de lágrimas ao vê-Ia. Parecia terem decorrido mil anos desde que se haviam encontrado no dia em que ela partira de Tsarskoie Selo. Avançou um passo na sua direção e Zoya caiu-lhe nos braços. Em seguida ergueu o rosto numa súplica, mal conseguindo articular as palavras por entre os soluços:

       - Eles chegaram finalmente? - Gilliard era o tutor com quem as filhas imperiais tinham estudado toda a vida, e Zoya sabia que ele as acompanhara até à Sibéria, mas ele limitou-se a abanar a cabeça, incapaz de responder.

       - Não... - balbuciou por fim. - Não... não chegaram - Ficou a aguardar mais notícias e, sentindo o corpo a transformar-se em pedra, avançou até à miserável sala de estar, seguida por ele. Pierre estava magro, extenuado e muito pálido. Vladimir deixou-os sós. Fechou a porta devagar quando saiu e desceu as escadas lentamente até ao táxi.

       - Estão bem? - O coração ameaçava saltar-lhe do peito enquanto aguardava a resposta de Pierre Gilliard e, quando estavam sentados nas cadeiras um em frente do outro, ele estendeu o braço e tomou-lhe as mãos entre as suas. As dela estavam geladas quando Gilliard começou a falar:

       - Acabei de chegar da Sibéria... Tinha de ter a certeza antes de vir... Deixámo-los em Iekaterimburgo, em Junho. Disseram-nos que tínhamos de partir. - Era como se pretendesse desculpar-se, mas Zoya apenas queria ouvir que Mashka e os outros estavam bem. Mantinha-se sentada num silêncio de pedra, com as mãos geladas e trêmulas.

       - Não estava lá então quando... quando o... Nicolau... - Era incapaz de pronunciar as palavras, mas ele compreendeu o abanou tristemente a cabeça.

       - O Gibbes e eu tivemos de partir... mas regressamos em Agosto. Deixaram-nos entrar na casa, só que estava vazia, mademoiselle. - Não conseguiu dizer-lhe o que tinham descoberto, os buracos de balas e os vestígios de sangue lavado. - Disseram-nos que eles se tinham mudado para outro lugar, mas o Gibbes e eu receamos o pior.

       Aguardou o resto com o coração a saltar-lhe no peito, certa de que a história teria um final feliz. Depois de todo aquele tempo, só podia ter.

       A vida não podia ser tão cruel que deixasse os bolcheviques matarem as pessoas que tanto amava... um frágil rapazinho e quatro raparigas que haviam sido suas primas e amigas e a mãe que as amava. Já bastava que o pai tivesse morrido. Era impossível pior do que isso. Observou-lhe o rosto enquanto ele prosseguia a narrativa, de olhos fechados e lutando contra as lágrimas. Ainda estava exausto da viagem e só chegara a Paris na noite anterior, decidido a vê-la.

       - Chegamos a Iekaterimburgo no dia do aniversário do Alexis, mas não estavam. - Suspirou. - Permaneci desde então. Tinha a certeza, mesmo depois de ver os buracos de balas na casa, que ainda estavam vivos.

        Zoya sentiu que lhe faltava a respiração e fitou-o.

       - Buracos de balas? Mataram o tio Nicolau em frente dos filhos?

       - Mataram o Nagorny três dias antes... Ele tentou impedir um soldado de roubar as medalhas do Alexis. Este deve ter ficado com o coração despedaçado. Passara a vida inteiro com ele. ... O fiel Nagorny, que se recusara a abandoná-los. Não haveria fim?

       - A meio de Julho, os bolcheviques disseram-lhes que os parentes iam tentar salvá-los e que tinham de mudar, antes que lhes descobrissem o paradeiro.

       Zoya pensou nas cartas de Mashka anteriores a isso, dizendo-lhe onde estavam. «Mas quem ia tentar salvá-los?»

       - A sangrenta revolução imperava desde Junho e era quase impossível chegar a qualquer lugar - prosseguiu. - Contudo, apareceram à mela-noite e ordenaram-lhes que se vestissem...

       A voz morreu-lhe na garganta, e Zoya agarrou-lhe as mãos com tanta força que o magoou enquanto o fitava, duas pessoas abandonadas numa ilha deserta, os outros desaparecidos... Mas para onde? Esperou pelo resto, sem pronunciar uma palavra. Dali a pouco, ele iria dizer-lhe que eles vinham a caminho de Paris...

       - Desceram as escadas, a imperatriz, Nicolau e os filhos... A Anastasia ainda tinha o Jimmy com ela. - «O pequeno cocker spaniel do Alexis.»

       Pierre pôs-se novamente a chorar ante a recordação de toda a cena. - ... E a Joy... - Sava ganiu como se reconhecesse o nome da mãe e ele continuou: - ... Nessa altura, o pequeno Alexis já não podia andar, estivera muito doente... Disseram-lhes que se vestissem e levaram-nos para o rés-do-chão, a fim de aguardarem transporte... O Nicolau mandou-os trazer cadeiras para Alexandra e Alexis e estava... - Mal conseguia prosseguir... - ... estava com ele no colo, quando eles chegaram... Agarrava-o quando eles abriram fogo.

       Zoya sentiu que o coração se transformava num pedaço de pedra.

       Devia ter sido o momento em que haviam assassinado Nicolau... Gilliard, porém, continuou a relatar, soluçando: - Mataram-nos a todos, Zoya Konstantinovna... Abriram fogo sobre todos. Só o Alexis viveu um pouco mais do que os outros e bateram-lhe na cabeça com os canos das espingardas, enquanto ele se agarrava ao pai... e depois mataram o pequeno Jimmy. A Anastasia tinha desmaiado e, ao gritar, mataram-na com as baionetas e depois...

       Zoya chorava em silêncio, incapaz de acreditar no que ouvia.

       - E depois... puseram-nos numa mina e cobriram-nos com ácido... Morreram, pequena Zoya... todos eles... até mesmo o pobre e meigo Baby.

       Nessa altura, a jovem abraçou-o e apertou-o, enquanto ele chorava.

       Mesmo agora, passados meses, nem ele conseguia acreditar.

       - Descobrimos a Joy, um dos soldados deixara-a entrar, e estava quase morta de fome quando a encontraram perto da mina... a ganir pelas crianças que amava. E, ó Zoya, ninguém alguma vez virá a saber quanto eram queridos ou quanto os amávamos.

       - ... Oh, meu Deus... Oh, meu Deus... A minha pobre e querida Mashka... morta com espingardas e baionetas... como deve ter-se sentido assustada...

       - O Nicolau tentou detê-los... mas não havia nada que os detivesse. Se nos tivessem deixado ficar... mas não teria modificado nada. - Não lhe contou que o Exército Branco chegara para libertar Iekaterimburgo oito dias depois. Apenas oito dias.

       Zoya fitou-o com um olhar vazio. Nada lhe importava agora. Nada voltaria a importar-lhe... nem a ela... nem a eles... Ocultou o rosto entre as mãos e chorou, abraçada a Pierre.

       - Tinha de lhe contar pessoalmente... Lamento tanto... tanto... - Tão poucas palavras para a perda de pessoas fantásticas. Nada haviam compreendido naquele último dia em Tsarskoie Selo e ela já sabia que devia ter ficado com eles, os bolcheviques poderiam tê-la morto também... deveriam tê-la, morto com baionetas e balas como tinham morto Mashka e todos eles... e Baby...

       Pierre deixou-a e prometeu voltar no dia seguinte depois de ter dormido. Foi-lhe insuportável fitá-la ao partir, encarar o olhar despedaçado e o rosto inexpressivo. E, quando ficou novamente sozinha, Zoya pegou em Sava e embalou-a para trás e para diante, chorando e gritando no apartamento vazio:

       - Oh, avó... Eles morreram... Mataram-nos a todos... - E, por fim, apenas um sussurro permaneceu no silêncio, enquanto Zoya pronunciava o nome dela pela última vez... jamais suportaria voltar a dizê-lo... E murmurou baixinho:

       - Minha Mashka...

      

       Depois de ter ouvido as notícias trazidas por Pierre Gilliard, Zoya sentiu-se, durante vários dias, como se estivesse em estado de choque.

       A juntar à dor da morte da avó havia a agonia de saber da execução. No dia seguinte quando voltou, Pierre disse-lhe que o Dr. Botkin morrera com os restantes, o que explicava o motivo de nenhuma das cartas ter chegado ao destino, mas também não havia ninguém para responder.

        E soube igualmente que o grão-duque Miguel também fora morto a tiro, uma semana antes da execução de Nicolau, Alexandra e dos filhos.

       Quatro outros grão-duques tinham sido assassinados depois. A lista parecia ser infindável. Era como se quisessem destruir toda uma raça, um capítulo inteiro da História. E os pormenores eram de uma brutalidade para além das palavras.

       Perante o que agora sabia, era compreensível que a Conferência de Paz de Versalhes nada quisesse dizer para ela. Aos seus olhos, a guerra e até mesmo o seu final deixaram de ter qualquer significado. Perdera os pais, o irmão, a avó, os primos, os amigos e a pátria e até mesmo o homem que amava a deixara.

       Sentada no pequeno apartamento dia após dia, a olhar através da janela, a vida parecia-lhe um deserto.

       Pierre Gilliard veio visitá-la mais vezes antes de partir. Ia regressar à pátria, à Suíça, para descansar antes de voltar à Sibéria e ajudar o prosseguimento da investigação. Contudo, nem isso lhe parecia importante. Nada o era. Para Zoya, tudo acabara.

       No fim de Janeiro, Paris tinha recuperado a alegria e os soldados americanos pareciam encher as ruas. Havia festas, espetáculos especiais e paradas, tudo em honra dos dignitários que chegavam dos Estados Unidos para conferenciar em Versalhes, celebrar o fim da «Grande Aventura» e iniciarem a nova era de paz que despontava.

       No entanto, para Zoya nada havia a celebrar. Vladimir foi visitá-la algumas vezes depois de Pierre Gilliard partir rumo a Berna a fim de se juntar à mulher, mas Zoya mal falava e Vladimir ficava a observá-la, temendo pela sua sanidade e segurança. As notícias tinham-se espalhado pelos emigrantes e houve lágrimas infindáveis e um luto silencioso. Os Romanov deixariam uma imensa saudade e jamais seriam esquecidos pelos que os haviam conhecido.

       - Deixe-me levá-la a dar um passeio de carro, miúda. Só lhe faria bem ir a qualquer lado.

       - Tenho tudo o que preciso aqui, Vladimir. - Fitou-o com tristeza, acariciando suavemente a pequena Sava. Ele trazia-lhe comida como fizera quando tinham chegado a Paris. Desesperado, até lhe comprou vodca. Talvez, se não houvesse outra solução, pudesse afogar as mágoas.

       Mas a garrafa ficou por abrir e a vodca intocada, como a maior parte da comida que trouxera. Dava a sensação de que ela se dispusera a morrer, ansiosa por se juntar aos outros.

       Várias das mulheres que ele conhecia também passavam por casa dela, mas na maior parte das vezes Zoya não respondia, quando elas batiam à porta. Limitava-se a ficar sentada muito quieta, esperando que se fossem embora, sentada sozinha no apartamento às escuras.

        No fim de Janeiro, Vladimir sentiu-se assustado e falara mesmo com um médico. Aparentemente nada podiam fazer, exceto esperar a viragem da maré. Contudo, ele receava que ela fizesse algo drástico antes.

       Continuava a pensar na jovem ao fim de uma das tardes, quando conduziu o táxi até Crillon, esperando que um dos importantes americanos o mandasse parar. E depois, como que em resposta a uma prece, olhou para o outro lado da rua e avistou-o.

       Buzinou freneticamente e acenou, mas o indivíduo alto e fardado desapareceu no hotel e, quando Vladimir saltou para fora do carro, rezou para que não tivesse sido uma ilusão. Atravessou a rua com a velocidade de um raio e entrou no hotel, conseguindo apanhá-lo antes que ele entrasse num elevador. Clayton Andrews virou-se com um olhar surpreendido quando Vladimir o chamou. Saiu lentamente do elevador, receando que algo terrível pudesse ter sucedido.

       - Graças a Deus que é você - suspirou Vladimir, aliviado e esperando que ele ainda estivesse disposto a ver a jovem. Não estava certo do que acontecera entre os dois, mas sabia que tinha havido qualquer desentendimento antes de Clayton abandonar Paris.

       - Aconteceu-lhe alguma coisa? - Foi tudo o que Clayton conseguiu pensar ao detectar a expressão no rosto de Vladimir.

       Chegara no dia anterior e tivera de se conter para não ir vê-Ia. Contudo, sabia que era inútil torturar-se ou a Zoya. Estavam melhor assim. Queria que ela tivesse uma nova vida e se se mantivesse por perto não a ajudaria a encontrá-la, por mais que lhe sentisse a falta.

       Mal pusera os pés em Nova Iorque, tinham-lhe pedido que regressasse a Paris e desse uma ajuda nas muitas reuniões associadas ao Tratado de Versalhes, antes de abandonar definitivamente o exército. E regressara bastante alvoroçado. Ignorava se teria força suficiente para voltar a Paris e não a ver.

       - Trata-se da Zoya? - perguntou ao príncipe, assustado pelo olhar dele, que dizia mais do que todas as palavras.

       - Há algum sítio onde possamos conversar? - retorquiu Vladimir, observando o átrio cheio de gente e fitando de novo Clayton. Tinha muita coisa para lhe contar. Clayton consultou o relógio. Dispunha de duas horas livres. Esboçou um aceno de cabeça e seguiu Vladimir até lá fora, na direção do táxi convenientemente à espera.

       - Responda-me, homem. Ela está bem? Aconteceu-lhe alguma coisa?

       O príncipe exibia um ar triste quando ligou o motor do carro. Tinha os punhos da camisa roçados e o casaco gasto, mas conservava o bigode impecavelmente aparado e o cabelo de um branco de neve. Tudo em si emanava nobreza e distinção. Havia agora tantos iguais a ele em Paris. Condes, príncipes, duques e homens de boas famílias ao volante de táxis e a servir às mesas.

       - Não lhe aconteceu nada, capitão - respondeu, e Clayton soltou um suspiro de alívio. - Pelo menos, não diretamente. - Seguiram até ao Deux-Magots, escolheram uma mesa lá atrás e Clayton mandou vir dois cafés. - A avó morreu há três semanas.

       - Já o receava. - Ela parecia tão doente e debilitada quando deixara Paris há mais de um mês.

       - Contudo, pior do que isso, recebeu a visita de Pierre Gilliard que veio da Sibéria para a ver. A notícia foi terrível. Não saiu do apartamento desde essa altura. Receio que enlouqueça, para ali sentada, a chorar por eles. É de mais. - Tinha lágrimas nos olhos e lamentou que Clayton não tivesse encomendado uma bebida mais forte. De bom grado beberia uma vodca simples. Só de pensar na jovem, doía-lhe o coração. Coisas demasiadas haviam acontecido a todos eles, sobretudo a Zoya.

       - O Gilliard estava presente quando mataram o czar? - Ele próprio sentia uma enorme tristeza só de pensar nisso, embora nunca o tivesse conhecido. Contudo, Zoya dera-lhe vida com os seus relatos de Livadia, do iate e de Tsarskoie Selo e agora quase lhe parecia familiar.

       - Parece que os soldados dos sovietes o mandaram embora e ao tutor inglês pouco antes, mas regressaram dois meses depois e há meses que andam a falar com soldados, guardas e camponeses locais de Iekaterimburgo, ajudando nas investigações do Exército Branco. Conhecem a maioria e ele quer regressar e falar com mais alguns. Só que deixou de ser importante - replicou com um olhar velho e triste dirigido a Clayton Andrews. - Estão todos mortos... todos eles... assassinados ao mesmo tempo que o czar... até mesmo as crianças - acrescentou. Não sentia vergonha das lágrimas que lhe rolavam pelas faces. Chorava sempre que pensava no assunto. Tinha perdido tantos e tão bons amigos. Todos tinham. Todavia, Clayton Andrews parecia chocado, horrorizado e ciente do efeito que produziria em Zoya.

       - A Marie também? - Era uma derradeira esperança... a bem de Zoya... mas Vladimir limitou-se a abanar a cabeça.

       - Todos eles. Mortos. - Contou a Andrews pormenores que Gilliard não se atrevera a relatar a Zoya, sobre ácido, mutilações e fogo. O que ela sabia já bastava. Haviam pretendido varrê-los da superfície da Terra, sem deixarem vestígios. É, contudo, impossível apagar a beleza, dignidade e graciosidade e pessoas tão profundamente boas e encantadoras. Os corpos haviam desaparecido, mas o espírito viveria para sempre.

       - Como é que a Zoya recebeu a notícia?

       - Não tenho a certeza que sobreviva. Anda a emagrecer de dia para dia. Não come, não fala, não sorri. Parte-se-me o coração só de a ver. Vai visitá-la? - Estava pronto a implorar-lhe. Ela tinha de continuar a viver. A avó já era de idade, mas Zoya era jovem e alegre e, aos dezenove anos, a sua vida estava apenas no começo. Não suportaria vê-Ia chegar ao fim agora. Tinha de continuar a viver e transportar a beleza que todos haviam visto para uma nova vida e não enterrá-la como estava a fazer.

       Clayton Andrews suspirou, enquanto mexia o café com um ar pensativo. O que Vladimir lhe tinha contado era extremamente chocante e, mais do que isso, despedaçava-lhe o coração... nem o rapazinho escapara... fora o que o próprio Pierre Gilliard dissera ao ouvir as notícias «As crianças!... As crianças, não!» Contudo, fitou tristemente o príncipe, pensando novamente em Zoya.

       - Não estou certo de que queira ver-me!

       - Deve tentar. Por ela. - Não se atreveu a perguntar ao homem se ele ainda a amava. De qualquer maneira, sempre o achara velho de mais para ela e dissera-o a Eugenia. No entanto, ele era a única esperança que restava e vira o brilho nos olhos de Clayton, no ano em que fora assistir aos serviços religiosos de Natal com eles. Pelo menos nessa altura, não duvidava que amasse profundamente a jovem. - Na maioria das vezes, não atende quando batem à porta - prosseguiu. - Às vezes, limito-me a deixar-lhe comida cá fora e ela recolhe-a, embora não tenha a certeza se a come.

       - O príncipe fazia-o em memória da avó. Gostaria que alguém fizesse o mesmo por Yelena. E agora estava a suplicar a Clayton Andrews que fosse vê-Ia. Teria feito qualquer coisa para a ajudar. Quase lamentava que Gilliard tivesse aparecido, mas precisavam de saber, não podiam prolongar eternamente a esperança.

       - Farei o que puder - prometeu, Clayton, consultando o relógio. Tinha de regressar ao hotel para uma daquelas infindáveis reuniões. Levantou-se, pagou o café e agradeceu a Vladimir no caminho de volta, interrogando-se sobre se ela o receberia. Aos olhos de Zoya, abandonara-a e sabia que a jovem não entendera os seus motivos. Achava que ela agora o odiava e talvez fosse melhor para seu bem. Mas não podia deixá-la para ali a morrer. O quadro pintado por Vladimir era um pesadelo.

       Nessa noite, assistiu, impaciente, às reuniões e às dez horas saiu, fez sinal a um táxi e indicou a morada ao motorista. Foi um alívio descobrir que o homem era um francês e não um dos aristocratas russos.

       Ao chegar, o prédio pareceu-lhe dolorosamente familiar e hesitou um momento antes de subir as escadas devagar. Ignorava o que dizer, talvez nada houvesse a dizer. Talvez o que pudesse fazer se resumisse a estar ali.

       A subida até ao quarto andar pareceu-lhe interminável e os corredores eram ainda mais frios, escuros e fétidos do que se recordava. Deixara-a apenas há seis semanas, mas, naquele breve espaço de tempo, mudara tanta coisa, acontecera tanta coisa. Conservou-se muito tempo do lado de fora da porta, à escuta, interrogando-se sobre se ela estaria a dormir e depois sobressaltou-se ao ouvir passos.

       Bateu ao de leve uma vez e os passos pararam. Pararam durante muito tempo e, quando ela julgou que ele se fora embora, ouviu-os de novo, desta vez com os latidos de Sava. O coração ameaçava saltar-lhe do peito ao pensar nela ali tão perto, mas não podia ser egoísta, pois era a jovem quem agora interessava. Viera até ali para a ajudar a ela e não a si, e forçou-se a pensar assim quando bateu de novo e falou através da porta.

       - Télégramme! - anunciou. - Télégramme! - Era um truque baixo, mas sabia que, de outra forma, Zoya não abriria a porta. Os passos aproximaram-se e a porta abriu-se um pouco; porém, de onde ele estava, ela não conseguia vê-lo. E, com um único passo e uma ligeira pressão, abriu mais a porta e empurrou-a para o lado, falando meigamente. Devia ter mais cuidado, mademoiselle.

       Zoya soltou uma exclamação abafada e o rosto denotou uma palidez de morte. Clayton ficou chocado ao ver quanto ela emagrecera. O príncipe tinha razão. Estava com uma aparência terrível ao fitá-lo com os enormes olhos assustados.

       - O que fazes aqui?

       - Dei um salto de Nova Iorque para ver como estavas. - Tentou parecer despreocupado, mas o aspecto dela falava por si. Situava-se para lá do riso, para lá do amor e interesse.

       - Porque vieste aqui? - inquiriu, zangada e frágil, quase lhe partindo o coração. Desejava apertá-la de novo nos braços, mas não se atreveu.

       Receou quebrar-lhe os ossos.

       - Queria ver-te. Estou aqui por causa das negociações do Tratado de Paz em Versalhes. - Ainda se conservavam na ombreira da porta e ele olhou-a interrogativamente quando Sava veio lamber-lhe a mão. A cadelinha não se esquecera, mesmo que Zoya já não se interessasse em lembrar-se. - Posso entrar uns minutos?

       - Porquê? - Fitava-o com uns olhos grandes e tristes, mas mais bonita que nunca.

       E foi incapaz de continuar a mentir-lhe.

       - Porque ainda te amo, Zoya, é por isso. - Não era éssa a resposta que planeara, mas não conseguiu evitar as palavras.

       - Deixou de ser importante.

       - Para mim, é.

       - Não era há seis semanas, quando te foste embora.

       - Nessa altura também era muito importante. Achei que estava a tomar a atitude certa. Achei que tinhas direito a mais do que podia oferecer-te. - Materialmente, podia oferecer-lhe tudo, mas não podia dar-lhe juventude nem os anos que desperdiçara antes de a conhecer. Na altura, parecera-lhe importante, mas agora já não estava tão seguro face a tudo o que Vladimir lhe dissera. - Deixei-te porque te amava e não o contrário. - Contudo, soube, tal como então, que ela não compreendia. Não era minha intenção abandonar-te. Não fazia idéia de que aconteceria tanta coisa depois de partir.

       - O que queres dizer? - inquiriu, olhando-o com uma expressão triste e sentindo que ele sabia, mas sem uma certeza absoluta.

       - Estive com o Vladimir esta tarde.

       - E o que é que ele te contou? - Mantinha-se muito rígida e afastada dele, fitando-o no mais fundo e ele deixou que o coração voasse ao seu encontro. Ela sofrera tanto. Não era justo. Devia ter acontecido a outra pessoa. Não a ela, a Eugenia ou aos Romanov... ou a Vladimir. Sentia pena de todos, mas acima de tudo amava-a.

       - Ele contou-me tudo, pequenina. - Deu mais um passo na sua direção e tornou-a nos braços, verificando admirado que ela não se debatia. - Contou-me sobre a tua avó... - Hesitou, mas apenas um momento. - ... E sobre os teus primos... e a pobre Mashka... - Zoya engoliu um soluço, virou a cara e depois, como se o dique se tivesse rompido subitamente, desatou a soluçar nos seus braços e ele fechou a porta com o pé e levou-a como a uma criança até ao sofá, sem a largar um momento. A jovem chorou durante muito tempo, tremendo da cabeça aos pés enquanto lhe contava tudo o que ouvira da boca de Gilliard, e Clayton continuou a abraçá-la. Por fim, a sala ficou de novo em silêncio e ouvia-se apenas um fungar ocasional. Ela virou os olhos verdes na sua direção e Clayton beijou-a ternamente, como tinha ansiado desde que a deixara. - Gostaria de ter estado aqui quando ele veio.

       - Também teria gostado - confessou, chorando novamente. - Tudo tem sido tão terrível desde que te foste embora... e a Mashka... oh, meu Deus, a pobre Mashka... Pelo menos, o Pierre disse que as balas a mataram rapidamente. Mas os outros...

       - Não penses mais nisso. Tens de deitar tudo para trás das costas.

       - Como posso? - Continuava sentada ao colo dele e recordava-se das suas conversas de há muito tempo com o pai.

       - Tem de ser, Zoya. Pensa na tua avó, pensa em como foi corajosa. Levou-te para fora da Rússia numa tróica, rumo à liberdade. Não te trouxe até aqui para que desistisses da esperança, abandonasses tudo e ficasses sentada neste apartamento até morreres de fome. Trouxe-te para que tivesses uma vida melhor, para te salvar a vida. Não deves de forma alguma desperdiçá-la. Seria uma afronta ante a sua memória e tudo o que tentou fazer por ti. Tens de honrá-la e fazer tudo que puderes para levares uma boa vida.

       - Suponho que tens razão, mas é tão difícil agora - retorquiu, após o que ergueu os olhos e acrescentou: - Ela contou-me sobre o dinheiro antes de morrer. Ia devolver-to, mas tenho-me servido dele. - Corou e pareceu-se mais com ela própria.

       - Assim o esperei. - Mostrava-se satisfeito porque, pelo menos, fizera algo por ela. - O Vladimir diz que não danças há meses.

       - Desde que a avó adoeceu e depois de ela ter morrido e o Pierre vir aqui... Não consegui voltar.

       - Tudo bem. - Olhou por cima do ombro dela e fixou o samovar com um sorriso nostálgico.

       - O que queres dizer? O Diaghilev pediu-me mais uma vez que partisse em tournée com eles. E agora podia, se quisesse. - Fungou de novo, mas desta vez ele riu-se.

       - Não, não podias.

       - Porque não?

       - Porque vais para Nova Iorque.

       - Vou? - redargüiu, surpreendida. - Porquê? - Parecia mais do que nunca uma criança, e ele sorriu-lhe.

       - Para casares comigo, é esse o motivo. Tens exatamente duas semanas para juntares as tuas coisas e depois partimos. O que te parece? Fitou-o de olhos arregalados.

       - Estás a falar a sério?

       - Sim, estou. Se me quiseres. - Apercebeu-se, sobressaltado, que ela agora era uma condessa, mas não por muito tempo. Casaria com ela antes de deixarem Paris. E, então, seria Mrs. Clayton Andrews para o resto da vida. - Se for idiota bastante para aceitar o peso de um homem de idade, o problema é seu, Miss Ossupov. Não vou avisá-la mais.

       - Ótimo. - Agarrou-se-lhe como uma criança perdida, chorando novamente, mas desta vez eram lágrimas de alegria e não de tristeza.

       - Na verdade, leva algumas coisas contigo agora - retorquiu, pousando-a suavemente no chão. - Vou arranjar-te um quarto no hotel. Vou vigiar-te antes de partirmos. Não quero ter de desatar a bater nessa porta aos gritos de «télégramme» nas duas próximas semanas. - Zoya riu e secou as lágrimas.

       - Foste muito indelicado!

       - Não tanto como tu a fingires que não estavas em casa. Não interessa. Vai buscar as tuas coisas. Podemos voltar aqui dentro de dias e levar o que quiseres contigo.

       - Não tenho muita coisa. - Passeou o olhar pela sala. Não havia praticamente nada que quisesse levar, excetuando talvez o samovar e algumas das coisas da avó. Queria deixar o passado para trás e começar uma vida nova ao lado dele. E depois, presa de um súbito terror, inquiriu erguendo o rosto: - Falas mesmo a sério? - E se ele mudasse de opinião? Se voltasse a deixá-la ou a abandonasse em Nova Iorque? Clayton detectou todo o medo e comoveu-se.

       - Claro que sim, miúda. Devia ter-te levado comigo quando me fui embora. - Contudo, ambos sabiam que ela não podia ter deixado a avó e esta também não estava em condições de viajar. - Ajudo-te a fazer as malas.

       Meteu tudo numa mala pateticamente pequena e depois lembrou-se da cadela. Não podia abandoná-la e era a única amizade que tinha, à exceção, obviamente, de Clayton.

       - Posso levar a Sava para o hotel?

       - Claro - Pegou na cadelinha que tentava freneticamente lamber-lhe o queixo e agarrou na malinha de Zoya, enquanto ela apagava as luzes.

       Era altura de ir para casa. Fechou a porta sem olhar para trás e seguiu Clayton pelas escadas, rumo a uma nova vida.

      

       Levou-lhe menos de um dia a arrumar as suas coisas. Empacotou o samovar, os livros, o tricô da avó, os xales dela e a sua roupa, a toalha de renda, mas pouco mais havia. Deu o resto a Vladimir, a alguns amigos e ao padre de Santo Alexandre Nevski.

       Despediram-se de Vladimir e ela prometeu escrever. E, dentro de dias, viu-se ao lado de Clayton diante de um padre e tornou-se sua mulher. Assemelhava-se a um sonho quando o olhou com as lágrimas correndo-lhe pelas faces. Perdera tudo e agora até o nome desaparecera.

       Contudo, agarrava-se a ele como se Clayton fosse a própria vida, quando regressaram ao hotel. Era como se receasse que ele pudesse mudar de opinião.

       Passaram mais dois dias em Paris e depois apanharam o comboio para a Suíça. Haviam decidido passar ali a lua-de-mel e confessou a Clayton que gostaria de voltar a ver Pierre Gilliard antes de partir.

       Levaram dois dias a chegar a Berna, pois o comboio parava infindavelmente em todas as estações, mas, quando acordou no último dia, faltou-lhe a respiração. As montanhas cobertas de neve saudaram-na e, por um momento, teve a sensação de estar de volta à Rússia.

       Gilliard foi esperá-los ao comboio e foram almoçar a casa dele com a mulher, que fora ama das crianças Romanov. Abraçou Zoya que chorava, e Clayton ouviu-lhes as recordações durante o almoço. Era doloroso mas em simultâneo partilhavam imensa ternura e memórias felizes.

        - Quando volta? - indagou Clayton sem erguer a voz, enquanto Zoya foi ver umas fotografias na companhia da mulher de Gilliard.

       - Mal recuperemos forças. A vida na Sibéria foi muito dura para a minha mulher. Não quero levá-la comigo. O Gibbes e eu combinamos encontrar-nos para ver se conseguimos descobrir mais alguma coisa.

       - E isso ainda interessa? - Clayton interpelava-o honestamente. Tudo parecia haver terminado e não valia a pena manter um elo com o passado doloroso. Dissera o mesmo a Zoya, mas Gilliard parecia obcecado com a situação. Agora ainda lhe era mais real, mas tornava-se compreensível, pois permanecera vinte anos com os filhos do czar e eles eram toda a sua vida.

       - Para mim, interessa. Não descansarei até saber tudo, até descobrir qualquer deles que tenha sobrevivido. - Era uma nova idéia.

       - Há alguma hipótese?

       - Não acredito que haja. Mas preciso de ter a certeza, ou nunca mais descansarei.

       - Amava-os muito...

       - Todos nós. Eram uma família extraordinária e até mesmo vários guardas da Sibéria tornaram-se mais brandos depois de os conhecerem.

       Tinham de os mudar constantemente para manter o ambiente de dureza. Os bolcheviques sentiam-se frustrados. O Nicolau era bondoso para todos, até mesmo para os que lhe haviam destruído o império. Acho que nunca se perdoou por ter abdicado a favor deles. Estava sempre a ler livros de História e afirmou-me que um dia o mundo diria que ele falhara... que desistira... Acho que lhe despedaçou o coração.

       Era uma análise do homem que os outros jamais conheceriam. Um perscrutar de uma época que não voltaria para nenhum deles. A magnitude do que todos eles haviam vivido superava até mesmo o que possuía para oferecer a Zoya em Nova Iorque. Sabia, porém, que ela lá seria feliz. Nunca mais sentiria frio nem fome. Pelo menos, tinha isso a oferecer-lhe. Já pensara em comprar-lhe unia casa. A sua mansão de granito na Quinta Avenida parecia-lhe de súbito pequena de mais.

       Passaram três dias em Berna e depois levou-a a Gênova e a Lausana. Regressaram a Paris no final de Fevereiro e apanharam o Paris para Nova Iorque. Partiu um belo dia do Havre com as suas quatro chaminés bem erguidas. Tratava-se de um bonito navio, o orgulho da French Line e mantivera-se parado durante três anos, pois tinha sido lançado a meio da guerra.

       Zoya portou-se como uma criança excitada durante a maior parte da viagem. Engordara um pouco e os olhos tinham voltado a brilhar. Jantaram várias vezes no camarote do capitão e dançavam pela noite fora.

       Quase se sentia culpada por se divertir assim. Deixara tanta gente para trás no seu mundo perdido, mas Clayton não lhe permitia que pensasse nisso agora. Apenas queria que ela seguisse em frente, para a nova vida que partilhariam. Falava na casa que construiriam, nas pessoas que iriam conhecer e nos filhos que teriam. Esperava-a toda uma vida pela frente.

       Ainda não fizera vinte anos e tudo estava apenas no começo.

       E na noite antes de chegarem a Nova Iorque, ela deu-lhe o presente de casamento que andara a guardar. Continuava embrulhado no cachecol da avó. Clayton soltou uma exclamação ao deparar com o ovo e o seu desenho elaborado. Ela pousou o pequeno cisne de ouro em cima da mesa e mostrou-lhe como funcionava.

       - É a coisa mais bonita que vi em toda a minha vida... Não, a segunda mais bonita.

       Zoya fitou-o, desapontada, pois desejara que ele gostasse tanto daquele ovo quanto ela. Significava tanto aos seus olhos. Era a única relíquia que conservava do passado.

       - Qual foi a primeira?

       - Tu, meu amor. Tu és a mais bela e a melhor.

       - Pateta! - exclamou a rir.

       Fizeram amor durante toda a noite e ainda estavam acordados quando a Estátua da Liberdade se recortou no horizonte, ao apartarem a Nova Iorque na manhã seguinte.

      

NOVA IORQUE

       Zoya ficou no convés a observar, admirada, enquanto o Paris aportava no cais da French Line no Hudson. Vangloriavam-se de terem a maior prancha de desembarque do mundo e ela vestia um fato Chanel preto que Clayton lhe tinha comprado antes de deixarem Paris.

       Nessa altura, Chanel mudara-se para a Rue Cambon e os seus modelos pareciam muito mais interessantes do que os de Poiret, embora não fosse tão famosa. Zoya usava um chapéu a condizer, apanhara o cabelo, e sentira-se muito chique quando o comprara, mas agora invadia-a uma súbita sensação de estar mal vestida.

       As mulheres à sua volta ostentavam roupas e peles caras e não vira tantas jóias desde que deixara a Rússia. Apenas tinha a fina aliança de casamento de ouro que Clayton lhe enfiara no dedo quando haviam casado.

       Não se via vestígios de champanhe em parte alguma, contrariamente a quando haviam partido do Havre. Os navios franceses tinham de respeitar uma nova proibição sobre o álcool e era necessário fazer desaparecer todas as bebidas alcoólicas, mal ultrapassavam o limite de cinco quilômetros. Apenas podiam servir álcool em águas internacionais, contrariamente aos navios americanos que não serviam nenhum. Este fato aumentava a popularidade dos navios franceses e ingleses.

       A linha do horizonte de Nova Iorque não se assemelhava a nada do que alguma vez vira. Longe estavam as igrejas, catedrais, espiras e a antiga elegância da Rússia ou o gracioso esplendor de Paris. Tudo isto era moderno, vivo e excitante, fazendo-a sentir-se muito jovem quando ele a conduziu até ao seu Hispano-Suiza e o motorista arrumou as malas no porta-bagagens.

       - O que achas, pequenina? - Observava-a com uma expressão radiosa, enquanto seguiam pela Quinta Avenida e se dirigiram à mansão que ele outrora partilhara com a mulher. Era elegante, pequena e fora decorada por Elsie de Wolfe. As duas mulheres tinham sido boas amigas e ela decorara as casas dos Astor e dos Vanderbilt em Nova Iorque, bem como as de muitos dos seus amigos em Bóston.

       - É uma maravilha, Clayton! - Sentia-se a anos-luz das estradas cobertas de neve em que viajara de tróica, rumo a Tsarskoie Selo.

       Havia cavalos e carros nas ruas, mulheres de casacos de cores vivas orlados de pele e homens caminhando apressados ao seu lado. Todos pareciam felizes e contentes, e os olhos de Zoya dançavam quando desceu do carro e contemplou a mansão de tijolo. Indubitavelmente mais pequena do que o Palácio Fontanka, era, segundo os padrões americanos, muito grande e, quando se viu de pé no vestíbulo de mármore, duas criadas de uniforme cinzento, com avental e touca, pegaram-lhe no casaco e ela esboçou-lhes um sorriso tímido.

       - Esta é Mistress Andrews - anunciou Clayton, apresentando-a a ambas e à idosa cozinheira que entrou com mais duas criadas, vinda da cozinha.

       O mordomo era inglês e tinha um ar muito sério e a casa ostentava todos os sinais que tanto agradavam a Mrs. Wolfè, antiguidades franceses misturadas com «moderne», como gostava de lhe chamar. Clayton já dissera a Zoya que poderia mudar o que quisesse, que queria que ela se sentisse em casa. Contudo, a jovem adorava o que via.

       Amplas portas-janelas francesas davam para um jardim coberto de neve e Zoya bateu palmas como uma criança. Clayton riu e conduziu-a ao andar de cima, até ao quarto de dormir. Havia colchas de cetim rosa na cama, reposteiros e um lustre encantador e também um quarto de vestir com paredes forradas de cetim rosa só para ela e roupeiros que lhe lembravam os da mãe. E riu ao ver os seus poucos vestidos pendurados quando a criada lhe desfez as malas nessa tarde.

       - Receio que as criadas fiquem muito desapontadas - declarou a rir, nua no quarto de vestir, antes de jantar. Acabara de tomar um banho na luxuosa banheira de mármore... longe da imagem terrível da pequena banheira na divisão ao fundo do corredor no apartamento próximo do Palais Royal. Nunca mais teria de partilhar a casa de banho com os vizinhos. Tudo lhe parecia um sonho quando olhava à volta e para o homem que a salvara das tristezas da sua vida em Paris. Não fazia idéia da riqueza dele nem da importância que ele tinha na sociedade de Nova Iorque. De uniforme e com os seus modos simples não havia qualquer motivo para desconfiar. - Porque não me falaste disto tudo?

       - Não teria tido qualquer importância. - Clayton sabia que não era esse o motivo por que ela o amava, o que se tornava reconfortante. Era um alívio não ser perseguido por debutantes fora de prazo ou filhas das amigas da falecida mãe, recentemente viúvas, divorciadas ou à caça de um marido próspero.

       Mais importante para Zoya era o fato de ele ser afetuoso e bom e de lhe ter salvo a vida.

       - Ficava sempre tão embaraçada quando te falava na vida em Sampetersburgo,... Receava que te parecesse excessivo.

       - E pareceu... - Riu. - Mas também encantador... como a minha bela noiva. - Ficou a vê-Ia enfiar a roupa interior nova de cetim e depois decidiu tirar-lha com a mesma rapidez.

       - Clayton! - Mas não protestou quando ele a levou para a cama.

       Todas as noites apareciam atrasados para o jantar, e Zoya sentia-se embaraçado com a visível desaprovação do mordomo.

       Os criados não se mostravam calorosos e a jovem tinha consciência de um murmurar sempre que andava pela casa. Serviam-na mas com relutância e, sempre que possível, mencionavam a antiga mulher dele. A ex-Mrs. Andrews fora aparentemente o máximo da perfeição. A empregada conseguira mesmo deixar um exemplar da Vogue no seu quarto de vestir e aberta nas páginas onde Cecil Beaton falava com entusiasmo do último vestido dela e de uma festa que dera para as suas amigas em Virgínia.

       - Ela era lindíssima, não? - perguntou Zoya suavemente uma noite, quando estavam sentados junto à lareira do quarto. Contudo, ali, a lareira apenas realçava a decoração e não era uma necessidade para que sobrevivessem. Pensou com tristeza mais do que uma vez em Vladimir no seu apartamento gelado e nos outros amigos, literalmente a morrerem de fome em Paris. Sentia-se culpada por tudo o que Clayton lhe dava.

        - Ela quem? - Fitou-a sem compreender.

       - A tua mulher. - Ela chamava-se Margaret.

       - Vestia-se muito bem quando queria. Mas tu também, pequena Zoya. Ainda nem sequer começamos a ir às compras.

       - Estragas-me com mimos. - Sorriu-lhe timidamente, corando de uma forma que o emocionava. Atraiu-a de encontro ao corpo.

       - Mereces muito mais do que alguma vez te darei. - Queria recompensá-la por tudo o que ela perdera, por tudo o que tinha sofrido em Paris depois de abandonar a Rússia. O ovo imperial da Rússia estava orgulhosamente exposto por cima da lareira no quarto, juntamente com as fotografias dos pais dele em elegantes molduras de prata e três pequenas estatuetas em ouro que tinham pertencido à mãe. - És feliz, miúda?

       - Como deixar de o ser? - retorquiu com um olhar luminoso no quarto tranqüilo. Clayton apresentou-a aos amigos e levava-a a todo o lado na sua companhia, mas ambos tinham consciência do ressentimento das outras mulheres. Era bonita, era jovem e parecia requintada nos vestidos luxuosos que ele lhe comprava. - Porque me detestam tanto? Sentiu-se mais do que uma vez incomodada porque as mulheres deixavam de falar à sua chegada e hostilizavam-na.

       - Não te detestam. Apenas têm ciúmes.

       Tinha razão; porém, no final de Maio, Clayton sentiu-se furioso pelos rumores que se haviam desencadeado. Alguém pusera a circular que Clayton Andrews casara com um, vulgar bailarina de Paris... Mencionava-se vagamente o Folies-Bergère e um bêbedo do seu clube chegara a perguntar se ela dançara o can-can. Clayton esteve prestes a bater-lhe.

       Numa festa, uma mulher perguntou a outra, ao verem Zoya dançar, se era verdade que ela fora uma prostituta paga em Paris.

       - Deve ter sido. Vê só como ela dança!

       Zoya dominava os passos do novo fox-trot na perfeição sob as cuidadosas instruções de Clayton. E ele, elegante e orgulhoso, acompanhava-a naquele rodopio, tão obviamente apaixonado pela sua bela e jovem mulher que todos a odiavam. Tinha vinte anos, uma cinturinha de vespa, pernas bonitas e o rosto de um anjo.

       Quando soavam os acordes da valsa, sentia lágrimas a picarem-lhe os olhos enquanto giravam e fitava-o com a memória da noite em que se haviam conhecido e outras dolorosas de muito antes. Se fechasse os olhos, estava de novo em Sampetersburgo... dançando com Konstantin ou o elegante e jovem Nicolai no uniforme da Guarda Preobrajenski... ou mesmo Nicolau, no Palácio de Inverno. Lembrava-se do baile de debutante que nunca tivera e agora não lhe parecia doloroso. Ele compensara-a e era mesmo capaz de olhar para as fotografias de Mashka com um sorriso triste, mas sem lágrimas. Transportaria eternamente os amigos no coração.

       - Amo-te tanto, Pequenina... - sussurrou quando dançavam no baile dos Astor em Junho e ela parou subitamente e fitou-o, como se tivesse visto um fantasma. Os pés haviam ficado pregados ao chão e empalideceu. - Passa-se alguma coisa? - murmurou Clayton.

       - É impossível... - Parecia doente e ele sentiu-lhe a mão fria na dele. Um homem alto e extremamente elegante acabara de entrar na sala acompanhado por uma bonita mulher com um chamativo vestido azul.

       - Conhece-los?

       Todavia, ela não conseguia falar. Era o Príncipe Obolenski ou alguém muito semelhante, e a mulher que lhe dava o braço parecia ser a grã-duquesa Olga, a tia das jovens grã-duquesas que as levara todos os domingos à cidade a almoçar com a avó, antes de parar para tomar chá no Palácio Fontanka com Zoya.

       - Zoya!... - Clayton receou que ela desmaiasse quando a mulher soltou uma exclamação surpreendida e se precipitou na direção deles. Zoya lançou-se nos braços dela.

       - Querida... és mesmo tu?... Oh, minha querida Zoya... - A encantadora Olga abraçou-a e ambas choraram lágrimas de alegria, transbordantes das ternas lembranças dos entes amados que haviam perdido, enquanto Clayton e o príncipe Obolenski as observavam. - Mas o que estás a fazer aqui?

       Zoya esboçou uma ligeira vênia e virou-se a fim de apresentar o seu elegante marido.

       - Olga Alexandrovna, posso apresentar-lhe o meu marido, Clayton Andrews? - Ele inclinou-se, beijou a mão da grã-duquesa e depois Zoya explicou que Olga era a irmã mais nova do czar.

       - Onde tens estado desde... - Tinha dificuldade em pronunciar as palavras, quando os olhos se cruzaram. Não a via desde que ambas haviam saído de Tsarskoie Selo.

       - Estive em Paris com a avó... Ela morreu a seguir a Natal.

       A grã-duquesa voltou a abraçar a jovem e todos no salão de baile testemunharam o acontecimento; nas horas seguintes, a notícia espalhou-se por todo o lado. A nova mulher de Clayton Andrews era uma condessa russa. Os relatos sobre Folies-Bergère dissiparam-se e o príncipe Obolenski referiu os fantásticos e exóticos bailes do Palácio Fontanka.

       - A mãe dela era a mulher mais bonita que conheci na vida. Obviamente fria, como todas as alemãs, mas de uma beleza espantosa. E o pai era um homem encantador. Foi uma perda terrível quando o mataram. Tantos homens fantásticos que desapareceram. - Pronunciou as palavras com pena, bebendo uma taça de champanhe, mas com menos emoção do que as mulheres. Zoya nunca mais saiu de perto de Olga durante a noite. Estava a viver em Londres, mas deslocara-se Nova Iorque para visitar uns amigos. Estava alojada com príncipe Obolenski e a mulher, Alice Astor.

       A cidade de Nova Iorque ficou rapidamente a par das origens de Zoya, da sua família nobre e, pouco depois. tornara-se uma coqueluche da sociedade. Cecil Beaton fazia a crônica de cada um dos seus movimentos e eram convidados para todos os lados. As pessoas que a haviam posto de lado passaram repentinamente a adorá-la.

       Elsie de Wolfe queria redecorar a casa e depois fez uma notável sugestão. Ela e as amigas haviam comprado uma série de antigas herdades em East River e estavam a remodelar as velhas casas numa rua chamada Sutton Place. Ainda não era moda, mas sabia que assim seria, quando chegasse ao fim do trabalho.

       - Porque não me deixa decorar uma delas para si e para o Clayton? Estava a fazer esse trabalho numa casa destinada a William May Wright, o acionista, e Cobina, a mulher. Contudo, Zoya achava que estavam muito bem na confortável mansão de tijolo.

       Zoya deu o seu primeiro jantar em honra da grã-duquesa Olga antes de ela regressar a Londres, e o seu destino tomou um rumo a partir de então. Estava fadada a tornar-se a menina-bonita de Nova Iorque, para grande satisfação do marido. Clayton satisfazia-lhe todos os caprichos e encarregou secretamente Elsie de Wolfe de remodelar uma das casas de Sutton Place para eles. Era, de fato, o supra-sumo da elegância e, quando Zoya a viu, arregalou os olhos de espanto.

       Não era tão exuberante como a nova casa dos Wright, onde tinham estado na noite anterior e onde conhecera Fred Astaire e Tahulah Bankhead. O mais chocante de tudo havia sido a casa de banho forrada a marta, mas não havia esses excessos na casa dos Andrews. Definia-se por uma elegância suave, chão de mármore, quartos arejados e cheios de tesouros que Elsie de Woolfe se assegurara de poderem agradar à jovem condessa russa. As pessoas tinham começado a tratá-la assim, mas ela sempre insistia em que agora era Mrs. Andrews. A idéia de usar o título parecia-lhe ridícula, embora os americanos parecessem adorá-lo.

       Nessa altura, havia muitos outros emigrantes em Nova Iorque, recém-chegados de Paris e Londres e alguns deles diretamente da Rússia, trazendo relatos da sua fuga enquanto a guerra civil rugia entre as forças vermelhas e brancas, que tentavam assumir o poder sobre a angustiada nação.

       Contudo, os russos brancos em Nova Iorque divertiam-na freqüentemente. Havia, sem dúvida, os verdadeiros aristocratas, muitos dos quais conhecia, mas dúzias de outros vangloriavam-se de títulos que nunca haviam tido na Rússia. Havia príncipes, princesas e condessas por todo o lado.

       Uma noite, ficou boquiaberta ao ser apresentada a uma princesa imperial que logo reconheceu como a mulher que fizera chapéus para a mãe, mas não disse nada de embaraçoso quando foram apresentadas. E, mais tarde, a mulher pediu que não a denunciasse aos russos ainda de luto.

       Ela própria recebia muitos dos nobres que haviam sido amigos dos pais. Contudo, o passado morrera e não havia conversa, ilusão ou qualquer recordação dolorosa que o fizesse reviver. Queria olhar em frente, tomar-se uma parte integral da vida que levava. E só no Natal se permitiu lembrar com lágrimas renovadas, enquanto se conservava ao lado de Clayton, entoando os cânticos familiares russos e segurando a vela que ardia em memória dos que tinha amado e perdido. O Natal foi uma época difícil, mas, nessa altura, já há nove meses que estava em Nova Iorque e tinha notícias excitantes para Clayton.

       Esperou até regressarem a casa da igreja e, quando estavam deitados na enorme cama de dossel em Sutton Place, aguardou para lhe dizer até terem feito amor.

       - Estás o quê? - Parecia completamente apanhado de surpresa e ficou logo receoso de poder tê-la magoado. - Porque não me disseste? - Os olhos brilhavam-lhe e Zoya chorava de alegria.

       - Só soube há dois dias. - Riu como se fosse a guardiã do segredo mais importante do mundo. Ainda não se via, mas ela sabia e, desde que o médico lhe dera a notícia, sentia-se como se conhecesse o verdadeiro significado da vida. Desejara o filho de Clayton mais do que qualquer outra coisa no mundo e beijou-o, feliz, deixando que ele a observasse em adoração. Ainda não tinha vinte e um anos e ia ter um filho.

       - Quando nasce?

       - Ainda falta muito, Clayton. Não antes de Agosto. - Ele ofereceu-se para mudar para outro quarto, a fim de não lhe perturbar o sono, e Zoya riu-se com a preocupação. - Não te atrevas! Se mudares para outro quarto, vou contigo!

       - Poderia ter a sua graça. - Parecia divertido. Elsie de Wolfe dera-lhes quartos suficientes por onde escolher. E, na Primavera, Zoya mandara-a preparar um berçário. Era todo decorado em azul-claro com murais suaves e luxuosos cortinados.

       Tratava-se de uma nova aposta para Mrs. Wolfe que se divertira com os Rolls em miniatura de Cobina Wright Junior, mas se sentiu satisfeita com as perspectivas mais rígidas de Zoya quanto ao mais adequado para as crianças. Zoya sempre denotara a dignidade e bom gosto com que nascera e acrescentara o seu toque pessoal à casa em Sutton Place. Tinha uma aura de tranqüilidade e requinte de que todos falavam. Há muito que tinham vendido a mansão de tijolo na Quinta Avenida e contratado pessoal novo.

       E no dia em que Alexis Romanov, o querido e meigo Baby,teria completado dezessete anos, deu à luz o primeiro filho. O parto correu facilmente e dele resultou um robusto rapazinho de quatro quilos que soltou o primeiro vagido enquanto o pai passeava nervosamente de um lado para o outro, fora do quarto.

       Zoya estava quase a dormir com o pequeno querubim nos braços quando Clayton a viu finalmente. O bebê tinha o cabelo ruivo da mãe e um rosto redondo. Estava todo embrulhado em rendas, e lágrimas de alegria correram lentamente pelas faces de Clayton ao vê-lo.

       - Oh, é tão bonito... parece-se mesmo contigo...

       - Só no cabelo... - murmurou, sonolenta. O médico dera-lhe algo para dormir e fitou o marido com um ar sonhador. - Tem o teu nariz. Assemelhava-se a um pequeno botão de rosa no rosto angelical, e Clayton riu, acariciando o sedoso cabelo ruivo. Zoya fitou-o, então, suplicante e perguntou: - Podemos chamar-lhe... Nicolau? Nicholas?...

       - Se quiseres. - Gostava do nome e sabia quanto significava para ela. Era não só o nome do czar como o do falecido irmão.

       - Nicholas Konstantin... - sussurrou, brindando-o com uma expressão de felicidade, e depois adormeceu, ao mesmo tempo que o seu adorado marido a velava; por fim, saiu do quarto nos bicos dos pés, agradecido por todas as dádivas da vida. Ao cabo de todos aqueles anos, tinha um filho... um filho! Nicholas Konstantin Andrews.

       «Soa bem», pensou a rir e desceu as escadas para festejar com uma taça de champanhe.

       - Ao Nicholas! - brindou, sozinho na sala e com um sorriso nos lábios. - À Zoya!

      

       Os anos seguinte voaram sobre asas de anjos, cheios de pessoas, arrebatamento e festas. Zoya encaracolou o cabeço que o horrorizou, descobriu os cigarros e depois achou que eram uma idiotice. Cecil Beaton escrevia constantemente sobre ela e as famosas festas na casa que construíram para os Verões em Long Island.

       Viram o último espetáculo de Nijinski em Londres, e Zoya ficou muito triste ao saber que ele enlouquecera e fora internado numa instituição em Viena. Contudo, o ballet já não fazia parte da sua vida, à exceção dos espetáculos a que compareciam ocasionalmente com os Vanderbilt ou os Astor, Assistiam a torneios de pólo, recepções, bailes e organizaram eles próprios uma série deles. A única vez que moderou o ritmo foi em 1924 quando descobriu que estava grávida novamente. O príncipe de Gales acabara de os visitar em Long Island, depois de assistir a um desafio de pólo. Desta vez, passou bastante mal e Clayton esperava que tal significasse que teria uma menina. Aos cinqüenta e dois anos, ansiava por ter uma filha.

       Ela nasceu na Primavera de 1925, o mesmo ano em que Josephine Baker se tornou a coqueluche de Paris. O coração de Clayton encheu-se de alegria quando viu a recém-nascida pela primeira vez. Tinha o mesmo brilhante cabelo ruivo da mãe e do irmão Nicholas e soube de imediato impor a sua presença aos admiradores. Chorava quando as suas ordens não eram satisfeitas e foi a menina dos seus olhos, mal nasceu.

       Alexandra Marie Andrews foi batizada com o vestido de batizado que há quatro gerações se conservava na família Clayton. Fora feito em França durante a guerra de 1812 e, quando o vestiu, parecia uma das duquesas imperiais.

       O cabelo era da cor do da mãe, mas os olhos eram os de Clayton e tinha uma personalidade muito própria. Aos dois anos, dominava até mesmo o irmão. Nicky, como lhe chamavam, tinha a delicadeza do pai e a alegria de viver que fora apanágio do irmão de Zoya. Era uma criança que todos admiravam e de que todos gostavam, sobretudo a mãe.

       Contudo, aos quatro anos, Sasha fazia andar todos numa roda-viva. Até a velha Sava fugia, aterrorizada, quando a via zangada. A cadela tinha doze anos e continuava com eles, sempre nos calcanhares de Zoya quando ela estava em casa ou atrás do pequeno Nicky, a quem adotara.

       - Sasha! - exclamou a mãe, desesperada, quando, ao regressar a casa, a encontrou com as suas melhores pérolas e tendo despejado um frasco inteiro de Lilas, o perfume que ainda usava e Clayton lhe comprava sempre. - Não deves fazer coisas dessas!

       A própria ama sentia dificuldade em controlá-la. Era uma jovem francesa que tinham trazido de Paris, mas não havia censuras nem ralhos que impressionassem a pequena condessa.

       - Ela é mesmo assim, mamã! - desculpou-a Nicholas da porta. Tinha nessa altura oito anos e era tão elegante como o pai. - É uma rapariga. As raparigas gostam de usar coisas bonitas.

       Os olhos cruzaram-se com os de Zoya e ela sorriu. Era tão bom, tão compreensivo, tão parecido com Clayton. Gostava de todos, mas era Alexandra, Sasha como lhe chamavam, a testar-lhe a paciência.

        À noite, iam ao Cotton Club e depois dançar em Harlém. E meses antes tinham assistido a uma fabulosa festa oferecida no fantástico apartamento de Condé Nast, na Park Avenue. Cole Porter também marcara obviamente presença e Elsie de Wolfe, que queria decorar uma casa para Zoya, em Palm Beach. Todavia, dada a sua pele delicada, ela não gostava de sol e contentava-se em ir até lá de passagem todos os anos, quando ficavam com os Whitney.

       Nesse ano, Zoya comprou a roupa a Lelong e tornou-se muito amiga da sua encantadora mulher, a princesa Natalie, que era filha do grão-duque Paul e também russa como Ziva. E Tallulah Bankhead repreendera a jovem mais do que uma vez por ela não usar bastante bâton.

       Os bailes com vestidos de fantasia estavam na moda e Clayton adorava-os. Tinha cinqüenta e sete anos e continuava loucamente apaixonado pela mulher, embora a espicaçasse sem cessar nesse ano, dizendo-lhe que ela tinha finalmente idade para estar casada com ele, agora que fizera trinta, Hoover tinha sido eleito presidente, derrotando o governador AI Smith de Nova Iorque. Calvin Coolidge decidira não voltar a candidatar-se. E o governador de Nova Iorque era Franklin Roosevelt, um homem interessante e casado com uma mulher inteligente, embora não fosse bonita. Contudo, Zoya apreciava a companhia dela e as conversas que partilhavam, ficando sempre satisfeita quando os Roosevelt os convidavam para jantar.

       Assistiram à peça Capríce com eles e, embora Clayton se mostrasse entediado, Zoya e Eleanor adoraram-na. Viram em seguida Street Scene, que ganhou o Prêmio Pulitzer. Todavia, Clayton confessou que se divertia muito mais no cinema. Era doido por Colleen Moore e Clara Bow. E Zoya gostava, igualmente de Greta Garbo.

       - És como os estrangeiros - troçava Clayton mas ela deixara de parecer estrangeira aos olhos de quem quer que fosse. Decorridos dez anos, Zoya integrara-se por completo na vida de Nova Iorque. Adorava o teatro, o ballet e a ópera levara o pequeno Nicky a ver O Cavaleiro da Rosa com eles em Janeiro, só que ele ficou chocado ao ver uma mulher a fazer o papel de homem.

       - Mas é uma rapariga! - exclamara em voz alta, chocado, e as pessoas do camarote ao lado sorriram. Zoya agarrou-lhe ternamente na pequenina mão e sussurrou-lhe uma explicação aceitável relacionada com o primor das vozes. - Que horror - declarou e enfiou-se no assento, enquanto Clayton sorria, sem muita certeza de não concordar com o filho.

       Nicholas interessou-se muito mais pelos vôos de Lindbergh. E Clayton e Zoya foram ao casamento de Lindbergh com Anne, a filha do embaixador Morrow, em Janeiro, pouco antes de mudarem para Long Island, onde passariam o Verão.

       Os miúdos sentiam-se felizes ali e a própria Zoya gostava de dar longos passeios pela praia, conversando com Clayton os amigos, ou ficando sozinha, a meditar nos Verões da sua juventude, em Livadia, na Crimeia.

       Por vezes, ainda pensava neles, seria impossível o contrário. As figuras do passado continuavam presentes no seu coração, mas as recordações eram agora mais tênues e havia alturas em que tinha dificuldade em definir os rostos.

       Na comija da lareira do quarto, tinha fotografias de Marie e das outras jovens em molduras Fabergé. Aquela em que estavam todas de cabeça para baixo continuava a ser a sua preferida e o pequeno Nicholas também lhes conhecia os nomes e os rostos. Gostava de ouvir falar sobre como eram, o que tinham dito e feito, as maldades de criança e intrigava-o que ele e Alexis, o filho do czar, partilhassem o mesmo dia de anos.

       Também gostava de ouvir «as partes tristes», como lhes chamava... sobre o tio Nicolai, em honra de quem recebera o nome. Zoya falava-lhe das discussões, partidas e desapontamentos entre ambos e garantiu-lhe que ela e Nicolai tinham lutado quase tanto como ele e Sasha. Aos quatro, ele achava que ela era uma chata do pior. E havia outros em casa da mesma opinião. O pai mimava-a mais do que agradava a Zoya, mas nem pensar em repreender a filha na presença dele.

       - É uma criança, querida. Não a perturbes.

       - Mas se não a disciplinarmos agora, Clayton, ela será um monstro aos doze anos.

       - A disciplina é para os rapazes - replicava, mas também era incapaz de ralhar a Nicholas. Era bondoso para todos e, nesse Verão, brincou com eles um tempo infindo na praia.

       Nessa altura, o rei Jorge voltara a ter força e poder na Grã-Bretanha. Zoya enervava-se sempre ao ver fotografias dele. Parecia-se tanto com o seu primo direito, o czar, que era sempre um choque aquele rosto a fitá-la de um retrato. A própria neta, Isabel, tinha só um ano menos do que Sasha.

       Nesse Verão, o que mais impressionou o pequeno Nicholas foi uma exibição de Yehudi Menuhin em Nova Iorque. O miúdo era um prodígio no violino e apenas três anos mais velho do que Nicholas, o qual ficou fascinado pela sua maneira de tocar. Falou no assunto durante algumas semanas, e Zoya ficou satisfeitíssima.

       Clayton andava a ler na praia A Oeste Nada de Novo e, nesse Verão, divertiu-se a jogar na bolsa. Desde Março que as ações subiam e desciam e as pessoas faziam enormes fortunas. Nos últimos dois meses, Clayton comprara dois colares de diamantes a Zoya com uma fração dos lucros obtidos. Mas ela estava muito triste com a notícia de que Diaghilev morrera em Veneza, em Agosto. Teve a sensação de que se fechava mais um capítulo da história para ela e falou no assunto a Clayton, enquanto passeavam na praia, depois de ter sabido a notícia.

       - Se ele não me tivesse deixado dançar, teríamos morrido de fome.

       Eu não sabia fazer mais nada - replicou, olhando tristemente para Clayton, e ele pegou-lhe na mão, recordando como a vida havia sido dura nessa altura, o horroroso apartamento próximo do Palais Royal, a quase inexistência de comida durante a guerra. Tinham sido, na realidade, tempos difíceis, mas pertencendo a um passado distante, e ela fitou-o com um sorriso. - E depois apareceste tu, meu amor... - Nunca se esquecia de que ele a salvara.

       - Teria aparecido outra pessoa.

       - Não alguém que pudesse amar como te amo - redargüiu meigamente. Ele inclinou-se para a beijar e detiveram-se longamente a olhar os últimos raios do pôr do Sol do Verão. Regressariam a Nova Iorque no dia seguinte. Nicholas tinha de ir para a escola e Sasha ia começar a freqüentar o jardim-infantil. Zoya pensou que lhe faria bem começar a contatar com outras crianças, embora Clayton não tivesse tantas certezas. No entanto, confiava sempre esse tipo de assuntos à mulher.

       Jantaram de novo com os Roosevelt, praticamente a seguir ao regresso. Também eles tinham voltado da sua casa de Verão em Campobello. E, uma semana mais tarde, os Andrews deram uma festa para celebrar o começo de uma nova época social. O príncipe Obolenski apareceu como era seu hábito e com ele centenas de outros igualmente famosos.

       O mês pareceu voar entre festas, teatro, bailes, e Outubro chegou num abrir e fechar de olhos. Clayton andava preocupado pois o negócio das ações não corria bem e telefonou a John Rockefeller a convidá-lo para almoçar, mas ele viajara até Chicago por uns dias e teria de esperar para o ver.

       Contudo, duas semanas mais tarde, Clayton sentia-se demasiado perturbado para almoçar com quem quer que fosse. As suas ações estavam a baixar, mas não queria dizer a Zoya para não a afligir. Na verdade, apostara todos os seus bens na bolsa há uns meses. Estava tudo a correr tão bem que tivera a certeza de conseguir triplicar a fortuna da família.

       Na quinta-feira, vinte e quatro, todos se desfaziam das ações, e os conhecidos de Clayton pareciam em pânico. Nessa tarde deslocou-se à bolsa e voltou aterrorizado e no dia seguinte as coisas pioraram. Na segunda-feira, verificou-se o desastre total e à noite Clayton soube que estava arruinado. A bolsa fechou à uma hora num vão esforço de deter a frenética venda das ações, mas para Clayton era tarde de mais. A bolsa ficaria fechada durante o resto da semana, mas ele já perdera tudo o que possuíam. Apenas lhes restava as casas e o conteúdo. Tudo o mais desaparecera. Clayton regressou a casa a pé, sentindo um enorme peso no peito. Mal conseguiu encarar Zoya, ao entrar no quarto.

       - Querido?... O que aconteceu?... - Ele tinha o rosto cor de cinza quando se virou para a olhar. Zoya estivera a escovar o cabelo que deixara crescer novamente, pois odiava os caracóis tão em moda, mas ele pareceu nem a ver ao atravessar o quarto, detendo-se junto à lareira com um olhar vazio. - O que aconteceu? - Deixou cair a escova e correu para junto dele. - Clayton... Clayton, o que se passa?

       O marido fitou-a de uma forma que lhe recordou subitamente o pai, quando Nicolai fora morto.

       - Perdemos tudo, Zoya... tudo... Fui um idiota... - Tentava explicar-lhe o que sucedera enquanto ela o fitava de olhos muito abertos, depois do que o abraçou e apertou de encontro ao corpo, deixando-o chorar. - Meu Deus... Como pude ser tão estúpido... O que faremos, agora?

       O coração dela quase parou. Era como na revolução. Contudo, havia sobrevivido e, desta vez, tinham-se um ao outro.

       - Venderemos tudo... trabalharemos... sobreviveremos, Clayton. Não interessa. - Contudo, ele soltou-se dos braços dela, pondo-se a percorrer o quarto de um lado para o outro, frenético ante a conscientização de que estavam arruinados e o mundo desabara à sua volta.

       - Estás doida? Tenho cinqüenta e sete anos... O que achas que posso fazer? Conduzir um táxi como o príncipe Vladimir? E tu? Regressares ao ballet? Não sejas idiota, Zoya... Estamos arruinados! Arruinados! As crianças morrerão à fome... - Chorava quando ela lhe pegou nas mãos, que estavam geladas.

       - Não morrerão à fome. Posso trabalhar e tu também. Se vendermos o que temos, podemos viver durante anos desse dinheiro. - Só os colares de diamantes chegariam para lhes dar casa e comida muito tempo; ele, porém, abanou a cabeça com uma expressão triste, pois encarava a situação de uma outra forma. Já vira um seu conhecido saltar da janela do gabinete. E Zoya desconhecia as enormes dívidas que ele contraíra, sabendo que possuía dinheiro para as cobrir quando quisesse.

       - E a quem venderás? A todos os outros que também perderam a camisa? É tudo inútil, Zoya...

       - Não, não é - replicou num tom suave. - Temo-nos um ao outro e as crianças. Quando saí da Rússia, partimos numa tróica sem nada, cobertas de trapos, com dois dos cavalos do tio Nicolau e as jóias que conseguimos coser nas bainhas das roupas e sobrevivemos. - Ambos pensaram em simultâneo na miséria do apartamento dela de Paris, mas haviam sobrevivido e agora ela tinha-o e aos filhos. - Pensa no que os outros perderam... Pensa no tio Nicolau. e na tia Alix... Não chores, Clayton... Se eles conseguiram ter coragem, não há nada que seja impossível encarar, meu amor... - Mas ele limitava-se a chorar nos braços dela, incapaz de fazer frente à situação.

       Nessa noite, quando desceram para jantar, ele mal pronunciou qualquer palavra. Zoya tentava pensar, fazer planos, decidir o que vender e a quem vender. Possuíam duas casas, todas as antiguidades que Elsie de Wolfe, agora Lady Mendl, os ajudara a descobrir, quadros, objetos... uma infinidade.

       Assemelhava-se a planear uma fuga, enquanto fazia sugestões e tentava acalmá-lo. Todavia, ele subiu ao andar de cima com passo pesado e, ao falar-lhe do quarto de vestir, preparando-se para se deitar, não conseguiu arrancar-lhe uma única resposta. Sentia-se preocupadíssima com ele. Fora um rude golpe, mas, depois de sobreviver a tudo o mais que lhe acontecera na vida, recusava deixar-se abater agora.

       Ajudá-lo-ia a lutar, ajudá-lo-ia a sobreviver, esfregaria soalhos, se fosse necessário. Não se importava e, ao pôr-se à escuta, interrogou-se sobre se ele saíra do quarto ao lado. Há vários minutos que não dizia nada.

       - Clayton? - Entrou no quarto vestida com uma camisa de noite que ele lhe comprara há um ano, em Paris. Soltou uma exclamação abafada ao avistá-lo, prostrado no chão, como se tivesse caído, correu para o seu lado e virou-o de costas. Contudo, ele fitou-a com olhos vazios. - Clayton! Clayton!... - Pôs-se a soluçar, gritando o nome dele, batendo-lhe na face, tentando arrastá-lo pelo chão, como se tudo o que fizesse servisse para o reanimar. No entanto, ele não se mexia, não via e já não podia ouvi-la.

       Clayton Andrews morrera de um ataque de coração, incapaz de sobreviver à perspectiva de perder mais do que podia agüentar e, quando caiu de joelhos ao lado dele e chorou, apoiando-lhe a cabeça no regaço, Zoya fitou-o, incrédula. O homem que amara estava morto. Abandonara-a. Desesperada e só, novamente pobre, o sonho em que se tornara a sua vida voltou a transformar-se em pesadelo.

      

       - Mamã, porque é que o papá morreu? - Sasha fitava Zoya com os grandes olhos azuis, ao voltarem do cemitério, no Hispano-Suiza.

       Toda a gente em Nova Iorque comparecera, mas ela mal os vira.

       Sentia-se como que envolta numa névoa, ao olhar para a criança, com o pesado véu preto ocultando-lhe o rosto, as mãos enfiadas em luvas negras e os filhos numa angústia muda, sentados ao seu lado.

       Nicholas mantivera-se junto dela no funeral, um homenzinho agarrando-lhe na mão, de olhos cheios de lágrimas enquanto o coro cantava a docemente triste Ave-Maria. Contudo, outros como ele haviam morrido na semana anterior, alguns por vontade própria, outros abatidos pelo golpe que não haviam conseguido suportar. Fosse como fosse, tinha-o perdido.

       - Não sei, querida... Não sei porquê... Teve um terrível, e... foi para o céu ter com Deus. - Mal conseguia articular as palavras e Nicholas observava-a.

       - Está no céu com o tio Nicolau e a tia Alix? - perguntou Nicholas e ela fitou-o.

       Conservara-os vivos para ele, mas para quê? O que interessava agora? Todos os que amava tinham desaparecido... à exceção dos filhos.

       Abraçou-os com força ao sair do carro e conduziu-os precipitadamente para casa. Não convidara ninguém, não queria ver ninguém, não queria dar explicações, nem dizer-lhes nada. Já bastava ter de contar às crianças.

       Decidira aguardar uns dias; já dissera à maioria da criadagem que podia ir embora. Ficava apenas com uma criada e a ama e poderia ser ela própria a cozinhar. E o motorista também partiria quando ela vendesse os carros. Ele prometera fazer tudo o que pudesse para a ajudar.

       Conhecia várias pessoas que tinham gostado do Alfa Romeo de Clayton e do Mercedes de que se servia e o Híspano-Suiza fora desejado por todos. Apenas se interrogava sobre se ainda haveria alguém que os comprasse.

       A velha cadelinha Sava aproximou-se e lambeu-lhe a mão, como se percebesse, enquanto Zoya se mantinha sentada junto à lareira no quarto, fixando o sítio onde ele morrera há uns dias. Parecia inacreditável que tivesse desaparecido... que Clayton não estivesse ali... e agora tinha tanto que fazer. No dia seguinte ao da morte dele, convocara os advogados e eles tinham prometido explicar-lhe tudo.

       Quando o fizeram, as notícias nada tinham de bom. A situação era ainda pior do que Clayton receara. Deixara dívidas enormes e não restava nenhum dinheiro. Os advogados aconselharam-na a vender a casa de Long Island por qualquer preço e com todo o recheio. Seguiu o conselho e foram eles a colocá-la no mercado para venda. Nem sequer lá foi buscar as suas coisas. Sabia que seria incapaz. Todos estavam a fazer o mesmo, os que não se suicidavam ou fugiam das casas pela calada a meio da noite, a fim de evitar as contas e o pagamento das hipotecas.

       E só no sábado conseguiu decidir-se a enfrentar os filhos. Tomara as refeições com eles, mas movia-se como uma máquina, de sala em sala, apenas lhes falando quando tinha de o fazer. Contudo, mal conseguia pensar. Havia tanto que fazer, tanto que embalar, tanto que vender e nenhum lugar para onde irem, depois de o fazer.

       Sabia que tinha de arranjar emprego, mas ainda nem sequer conseguia pensar no assunto. Não conseguia pensar em nada e fitava-os com um olhar angustiado. Sabia que Sasha era demasiado nova para entender, mas tinha de dizer a Nicholas e só com muita dificuldade foi capaz de agüentar a dor nos olhos do filho quando o tentou.

       De fato, apenas conseguiu abraçá-lo com muita força e ambos choraram o marido e o pai que haviam amado. Sabia, porém, que tinha de ser forte, tão forte quanto a avó o fora por ela e em circunstâncias ainda piores. Chegou a ponderar em regressar a Paris com os filhos, pois a vida talvez fosse mais barata, mas também lá as pessoas tinham problemas, e Sergei Obolenski confidenciara-lhe que havia agora quatro mil russos ao volante de táxis em Paris. E tudo seria demasiado estranho para eles. Zoya decidiu que deviam permanecer em Nova Iorque.

       - Nicholas... meu amor... vamos ter de nos mudar - As palavras pareciam duras e estranhas e ele fitou-a com um olhar confuso.

       - Porque o papá morreu?

       - Sim... Não... Bom, na verdade, porque... - «Porque agora somos pobres... porque não podemos dar-nos ao luxo de continuar a viver aqui... porque...» - ... Porque vamos passar uns tempos difíceis. Não podemos ficar aqui. - Nicholas olhou-a com curiosidade, tentando mostrar-se corajoso, e Sasha brincava com a cadela, ao mesmo tempo que a ama saía da sala, debulhada em lágrimas. Sabia que teria de os deixar e sentia o coração despedaçado por se separar das crianças de quem cuidara desde que tinham nascido. Contudo, Zoya dissera-lho no dia anterior. Já não havia forma ocultar a verdade.

       - Vamos ser pobres, mamã?

       - Sim - respondeu, pois sempre fora honesta com o filho. - Da forma a que penso que te referes. Não vamos ter uma casa grande, nem uma porção de carros. Mas vamos ter ac coisas importantes... exceto o papá...

       - Sentiu um nó na garganta. - ... Temo-nos, porém, uns aos outros, querido. E será sempre assim. Lembras-te do que te contei sobre o tio Nicolau, a tia Alix e as crianças quando as levaram para a Sibéria? Foram muito corajosos e encararam tudo quase como um jogo. Sempre souberam que o importante era estarem juntos, amarem-se uns aos outros e serem fortes... e é o que nos cabe fazer agora.

       As lágrimas corriam-lhe pelas faces enquanto falava, mas Nicholas fitava-a com uma expressão solene e tentando desesperadamente entender.

       - Vamos para a Sibéria? - Foi a primeira vez que pareceu intrigado, e ela sorriu.

        - Não, querido, não vamos. Vamos ficar aqui em Nova Iorque.

       - Onde viveremos? - Como todas as crianças, estava interessado nas realidades mais simples.

       - Num apartamento. Terei de encontrar um sítio par vivermos.

       - Será bonito?

       Pensou imediatamente nas cartas que Mashka lhe escrevera de Tobolsk e Iekaterimburgo.

       - Torná-lo-emos bonito, garanto.

       - Podemos levar a cadela? - acrescentou, fitando-a de novo com um olhar triste.

       Os olhos de Zoya encheram-se de lágrimas ao observar Sava a brincar com Sasha no chão e voltou a fixá-lo.

       - Claro que sim - respondeu. - Ela acompanhou-me desde Sampetersburgo. - Quase sufocou, mas fixou-o com um olhar tranqüilo e acrescentou: - Não vamos deixá-la, agora.

       - Posso levar os meus brinquedos?

       - Alguns... os que conseguirmos meter no apartamento, prometo.

       Sorriu, um pouco tranqüilizado.

       - Ainda bem. - E depois voltou a fazer uma expressão triste, pensando no pai e no fato de nunca mais o ver. - Vamos dentro em pouco?

       - Acho que sim, Nicholas. - O miúdo esboçou um aceno de cabeça e, com um último abraço, levou Sasha e a cadela e abandonaram o quarto.

       Zoya deixou-se ficar sentada no chão, rezando para ser tão forte como Eugenia o tinha sido com ela e, nesse momento, Nicholas entrou nos bicos dos pés e fitou-a.

       - Amo-te, mamã - pronunciou.

       Ela envolveu-o nos braços e tentou suster as lágrimas.

       - Também te amo, Nicholas... Amo-te muito, muito...

       Nicholas aproximou-se ainda mais e meteu-lhe algo na mão, sem uma palavra.

       - O que é isto?

       Era uma moeda de ouro, e ela sabia quanto o filho se orgulhava dela. Clayton dera-lhe apenas há uns meses e ele mostrara-a a toda a gente, durante semanas.

       - Podes vendê-la, se quiseres. Então, talvez não sejamos tão pobres.

       - Não... não, meu amor... é tua. O papá deu-ta.

       Nicholas manteve-se muito direito, tentando reprimir as lágrimas.

       - O papá teria querido que eu tomasse conta de vocês.

       Zoya limitou-se a abanar a cabeça, incapaz de falar, apertando a moeda na mão. Abraçou-o com muita força e levou-o até ao quarto dele.

      

       Os Wright também haviam perdido o seu dinheiro. Cobina e a filha tinham organizado um número musical de clube noturno, vestindo roupa de vaqueiro e engraçados chapéus. Ela e Bill estavam a divorciar-se e a casa de Sutton Place fora vendida por uma ninharia.

       Outras mulheres vendiam os casacos de peles em átrios de hotel e trocavam-se pôneis de pólo por dinheiro a pronto. Zoya divisava por todo o lado o mesmo tipo de pânico que se verificara há doze anos em Sampetersburgo, mas sem a ameaça física da revolução.

       A própria casa deles em Long Island foi vendida por pouco mais do que o preço dos carros ali guardados, e os advogados de Clayton aconselharam-na a agarrar a oportunidade. «Cholly Knickerbocker» fazia o relato de novas humilhações quase diariamente. A coluna era, na verdade, escrita por um indivíduo chamado Maury Paul e o que ele descrevia era quase inacreditável, referindo senhoras da sociedade que se tornavam empregadas de mesa e lojistas.

       Algumas não haviam sido afetadas pelo desastre financeiro, mas, ao passear os olhos por Sutton Place, Zoya tinha a sensação de que estava quase deserto. A sua criadagem fora embora, à exceção da ama que cuidava das crianças.

       Sasha parecia não entender o desaparecimento de Clayton, mas Nicholas tornara-se uma criança pensativa e sossegada e fazia constantes perguntas a Zoya sobre onde iam morar e quando venderiam a casa. Ela teria enlouquecido se não sentisse tanta pena do miúdo. Recordava-se dos seus próprios medos durante a revolução. Os olhos de Nicholas assemelhavam-se a dois profundos lagos verdes de dor e preocupação.

       Parecia um homem pequeno enquanto a observava a escolher roupa mais prática no quarto.

       Seria inútil levar os requintados vestidos de noite, todos os Poiret, Chanel, Lanvin e Schiaparelli. Embrulhou-os e entregou-os à ama para que os vendesse no átrio de entrada do Plaza. Tamanha indignidade seria demasiado humilhante, se ela não estivesse excessivamente preocupada.

       Necessitavam de todo o dinheiro que conseguissem arranjar.

       E, por fim, vendeu a casa com o mobiliário que Elsie de Wolfe lhes comprara, os quadros, os tapetes persas, até mesmo a louça de porcelana e os cristais. Mal chegou para as dívidas de Clayton e apenas lhes rendeu o suficiente para viverem uns meses.

       - Não ficaremos com nada, mamã? - perguntou Nicholas olhando em volta com uma expressão triste.

       - Só com o que precisaremos no novo apartamento. - Andou à procura de casa durante dias a fio em bairros que nunca vira e, por fim, descobriu uma de duas pequenas divisões na Rua 17 da zona ocidental da cidade.

       Tratava-se de um pequeno apartamento com duas.janelas que davam para as traseiras de um outro prédio. Era mínimo, escuro e havia um quase insuperável cheiro a lixo. Durante três dias ela própria fez a mudança com a ajuda da ama e de um velho negro que contratou por um dólar.

       Levaram duas camas, uma secretária, o maple do toucador, um pequeno tapete e alguns candeeiros. E pendurou o quadro de Nattier que Elsie de Wolfe lhes trouxera recentemente de Paris. Receava levar as crianças para aquele local, mas no fim de Novembro a casa em Sutton Place vendeu-se e, dois dias mais tarde, despediram-se com lágrimas e um beijo da ama e, de pé, no átrio de entrada de mármore, Zoya deteve-se enquanto ela beijava Sasha e todos choravam.

       - Voltaremos aqui, mamã? - perguntou Nicholas fitando-a e tentando mostrar-se corajoso, mas o queixo tremia-lhe e tinha os olhos muito abertos ao examinar o que o rodeava pela última vez. Zoya de bom grado lhe teria poupado esta dor, mas pegou-lhe na mãozinha e ajeitou o casaco à volta dos ombros antes de lhe responder.

       - Não, querido, não voltaremos. - Empacotara quase todos os brinquedos dos miúdos e um caixote de livros para ela, embora fosse incapaz de se concentrar em alguma coisa agora. Alguém lhe oferecera O Adeus às Armas de Hemingway, mas o livro permanecera por abrir na sua mesa-de-cabeceira. Mal conseguia pensar quanto mais ler e ia estar ocupada à procura de emprego.

       O dinheiro que recebera pela venda da casa apenas serviria para os sustentar uns meses, se tivessem sorte. As coisas haviam perdido o valor e toda a gente estava a vender casas, peles, antiguidades e tesouros. Tudo valia apenas o que as pessoas podiam pagar, e o mercado estava a transbordar de objetos luxuosos que agora nada valiam.

       Parecia inacreditável que alguns não tivessem sido afetados pela crise, pois Cholly Knickerbocker continuava a referir-se a casamentos, festas e bailes. Havia ainda gente que dançava no Embassy Club todas as noites ou no Casino de Central Park, ao som da música de Eddy Duchin.

       Contudo, Zoya sentia-se como se nunca mais viesse a dançar e as crianças desceram os degraus da frente pela última vez, de malas na mão, e Sasha com a melhor boneca enfiada debaixo do braço. E como se tudo tivesse acontecido somente no dia anterior, apenas conseguia pensar no incêndio do Palácio Fontanka... na camisa de noite da mãe em chamas quando ela saltou da janela... e em Eugenia empurrando-a pela porta das traseiras do pavilhão até Feodor e à tróica que as esperava.

        - Mamã?... - Sasha falava com ela desde que tinham entrado no táxi e Nicholas acenava à ama que se mantinha a chorar no passeio. Ia ficar em casa de amigos e já tivera uma oferta de emprego dos Van Alen, em Newport. - Mamã... responde-me... - Sasha puxava-lhe com insistência pela manga ao mesmo tempo que Zoya indicava a nova morada, de olhos baços e o rosto sombrio.

       Sentia-se como se estivesse novamente a deixar Clayton... a casa que tinham partilhado... a vida que sempre fora tão fácil. Dez anos passados num abrir e fechar de olhos, olhos cheios de lágrimas agora, tamanhas eram as saudades que dele tinha. Recostou-se no assento e fechou os olhos com tristeza, esforçando-se por se concentrar nos filhos.

       - Desculpa, Sasha... O que disseste? - A voz era um sussurro quando abandonaram Sutton Place pela última vez. Desaparecera a beleza e a vida fácil a que haviam posto um abrupto ponto final naquele dia fatídico de Outubro.

       - Perguntei quem é que ia tomar conta de nós? - Era maior a curiosidade de quem se encarregaria dela do que a tristeza de ter perdido a ama. Era tudo muito estranho e confuso, até mesmo para Nicholas, que tinha mais quatro anos.

       - Eu, minha querida.

       Sasha mostrou-se surpreendida e Nicholas fitou a mãe com aquele sorriso terno que sempre lhe recordava Clayton. Era quase doloroso olhá-lo agora. Tudo lhe lembrava o que haviam perdido, como acontecera nos dias em que tinham abandonado a Rússia.

       - Eu ajudo-te, mamã - declarou Nicholas num tom orgulhoso e esforçando-se por não chorar. - Tomarei conta de ti e da Sasha. - Sabia que era esse o desejo do pai e não o deixaria ficar mal. Transformara-se subitamente no homem da família. Num único mês, todo o seu mundo seguro e feliz ficara virado de pernas para o ar, mas estava decidido a manter-se à altura da situação, tal como Zoya. Ela recusava um novo sabor a derrota. Lutaria por eles... trabalharia... e um dia... um dia... estariam novamente seguros e a salvo.

       - Cozinharás para nós, mamã? - perguntou Sasha, tirando a boneca à mãe e alisando-lhe o cabelo. A boneca chamava-se Annabelle e tinha o ar de ser bem tratada.

       As suas outras bonecas estavam à espera no novo apartamento. Zoya fizera todo o possível para que o lugar parecesse confortável e familiar, mas nada havia de familiar nos feios arredores, quando o táxi parou na Rua 17 da zona ocidental. A jovem mulher estremeceu ao olhar em volta, chocada por todo aquele aspecto sombrio, e o rosto de Nicholas denotava o mesmo ao seguir a mãe pelas escadas e tentando afastar o enjôo causado pelos cheiros horríveis.

        - Aqui cheira mesmo mal! - exclamou Sasha que subia atrás de Zoya.

       O motorista levou-lhes as malas e Zoya pagou-lhe dos escassos fundos. Jurou que nunca mais andaria de táxi. Podiam apanhar um autocarro ou andar a pé. Não haveria mais táxis, nem mais carros. Vendera o Híspano-Suíza aos Astor.

       Zoya conduziu-os até ao único quarto do apartamento, onde havia duas camas, dominando tudo o mais. Os brinquedos encontravam-se arrumados ao lado e os quadros do berçário de Sasha tinham sido cuidadosamente pendurados sobre a sua cama.

       Ao lado da de Nicholas, colocara um retrato de Clayton, muito elegante com o seu uniforme durante a guerra. Trouxera uma mala cheia de fotografias dela, de Clayton e dos filhos, e outras, já a amarelecer e emolduradas, de Nicolau e Alexandra e das crianças em Livadia e Tsarskoie Selo. Trouxera igualmente o precioso ovo imperial, cuidadosamente enrolado num par de peúgas de Clayton. Guardara também numa caixa os seus botões de punho e alfinetes de gravata, mas as jóias dela seriam vendidas em leilão.

       Para os que ainda tinham dinheiro, deparavam-se oportunidades fantásticas por todo o lado, colares de diamantes, tiaras e belos colares de esmeraldas, «apanhados» a troco de ninharias em leilões ou vendas privadas. O desespero de uma família transformava-se subitamente na boa sorte de outra.

       - Onde vais dormir, mamã? - Nicholas parecia novamente preocupado quando percorreu o apartamento e verificou que havia um único quarto.

       Nunca vira alojamentos tão pequenos e até mesmo os criados de Sutton Place tinham tido melhores quartos do que aqueles. O sítio era feio e apertado.

       - Vou dormir aqui no sofá, querido. É muito confortável. - Sorriu-lhe e inclinou-se para o beijar na face ao ver que os olhos do filho se enchiam de lágrimas.

       Era injusto ter de fazer aquilo aos filhos e lutou contra uma sensação de fúria que começara recentemente a sentir por Clayton. Outros tinham sido mais perspicazes do que ele, menos audazes, e menos idiotas ao arriscar tudo o que tinha.

       Se não tivesse morrido, poderiam ter sobrevivido de outra forma... os dois... Podiam, pelo menos, ter enfrentado o destino lado a lado, mas agora estava mais sozinha do que nunca. Todo o peso assentava nos seus ombros, como achava que devia ter sido o caso de Eugenia. Aquela coragem e força da avó serviam-lhe de exemplo ao olhar para o filho que lhe oferecia a cama no quarto que iria partilhar com a irmã.

       - Podes dormir na minha cama, mamã. Dormirei aí.

       - Não, querido... Ficarei bem. - E depois com um sorriso corajoso: - Todos ficaremos. Agora, tens de tomar conta da Sasha, enquanto faço o jantar.

       Pendurou os casacos de todos, contente por ter trazido roupas quentes para eles. O apartamento era frio e não havia sequer uma lareira, como no apartamento de Paris.

       - Porque não levas a Sava à rua? - A velha cadelinha mantinha-se sentada junto à porta, como se esperasse voltar novamente a casa, como todos.

       Nicholas pôs-lhe a trela e disse a Sasha que se portasse bem enquanto ia lá abaixo e a mãe lhes cozinhava o frango que trouxera da casa em Sutton Place. No entanto, ela sabia muito bem que as provisões que trouxera não durariam muito, nem tão-pouco o dinheiro.

       O Natal foi um dia como qualquer outro, à exceção da boneca que comprou a Sasha e do relógio de pulso que conservara das coisas de Clayton para oferecer a Nicholas.

       Abraçaram-se num esforço imenso para não chorar e pensando na imensidade de todas as perdas.

       O apartamento estava gelado, os armários vazios e as jóias de Zoya tinham sido leiloadas. Estava decidida a conservar o ovo imperial, mas além disso quase nada restava e sabia que tinha de encontrar um emprego depressa; contudo, não sabia aonde, e isso atormentava-a dia e noite.

       Pensou em trabalhar numa loja, mas não queria deixar as crianças sozinhas o dia inteiro. Sasha não andava na escola e não podia abandoná-la enquanto Nicholas freqüentava a escola pública juntamente com as crianças do bairro, a maioria vestida de farrapos e vivendo em barracas espalhadas pelo rio Hudson.

       Os bairros de lata surgiam por todo o lado, pululando de pessoas que haviam sido acionistas, homens de negócios e advogados. Cozinhavam as refeições em caldeirões ao ar livre e rebuscavam os arredores à noite à procura de comida e de objetos que pudessem usar. Zoya sentia o coração despedaçado ao ver aquelas crianças de grandes olhos esfonicados e rostos magros, as faces vermelhas do frio, acolhendo-se junto às fogueiras para se aquecerem fora das barracas.

       Comparado com toda aquela miséria, o apartamento parecia um paraíso e lembrava os filhos, quase diariamente, de como deviam sentir-se agradecidos. No entanto, até para ela era difícil ao ver o dinheiro a desaparecer e pôs-se desesperadamente à procura de emprego. Tinha de ser algo que pudesse fazer à noite, quando as crianças estivessem a dormir ou, pelo menos, seguras em casa.

       Sabia que podia confiar em Nicholas para tomar conta de Sasha depois de ter regressado da escola. Era responsável e bom para a irmãzinha, brincando com ela, ajudando-a a reparar os brinquedos e falando sem cessar sobre o pai. O tema era-lhe por de mais doloroso ao observá-los e ia até à sala onde chorava em silêncio, acariciando a velha Sava. A cadelinha estava agora quase cega e Nicholas tinha de a transportar ao colo pelas escadas, quando ia passeá-la à rua sob o frio agreste.

       Era Janeiro quando Zoya se dirigiu da Rua 17 da zona ocidental até à Sexta Avenida, junto à Rua 49, movida por um plano louco. Sabia que era louco, mas não lhe ocorria mais nada. Apresentara-se em vários restaurantes, só que os proprietários tinham entrevistado outras tantas mulheres como ela. «Qual a sua experiência como empregada de mesa?», perguntavam. Ela deixaria cair as bandejas, partiria a louça e seria requintada de mais para trabalhar longas horas a troco de um parco salário. Insistia em que seria capaz, mas mandavam-na embora e não havia mais nada que soubesse fazer, exceto dançar, mas não no ballet, como em Paris.

       Em desespero, chegara a pensar na prostituição, a que outras também haviam recorrido, mas sabia que era incapaz. A memória de Clayton era demasiado forte e pura, ele era o único homem que amara e não conseguia suportar a idéia de outro homem a tocá-la, nem mesmo para dar de comer aos filhos.

       Dançar era a única coisa que sabia, mas também estava consciente de que aos trinta anos não podia regressar ao ballet, depois de ter passado mais de onze anos sem praticar. Continuava a ser flexível e elegante, mas estava demasiado velha e sentia-se com mil anos quando entrou no teatro de que ouvira falar. Já estivera no Ziegfeld e tinham-lhe dito que lhe faltava altura. Assim, restava-lhe tentar o chamado teatro burlesco.

       Situava-se a cinco quarteirões do Ziegfeld Theater. Quando entrou pela porta do palco, o teatro estava naturalmente a abarrotar de mulheres seminuas que tentou ignorar, enquanto procurava alguém com quem pudesse falar.

       - Ah, sim? É bailarina? - retorquiu num tom de mofa a mulher que tratava desses assuntos.

       - Fui.

       - Com quem?

       Engoliu em seco, sabendo que parecia demasiado afetada com o seu simples vestido preto Chanel. Devia ter posto qualquer coisa mais alegre e ousada, mas há muito que vendera todos os vestidos de noite e apenas tinha a roupa sóbria e quente que recolhera nos seus armários de Sutton Place, o que sabia ser-lhe útil no gelado apartamento.

       - Dancei com os Ballets Russes em Paris. E pratiquei Rússia antes disso.

       - Uma bailarina, hein? - A idéia parecia diverti-la imenso, e Zoya conservava-se muito quieta, com o cabelo ruivo apanhado e o rosto sem pintura. - Escute bem, senhora. Não está numa casa de repouso para velhas bailarinas. Isto é o Fitzhugh's Dance Hall! - Pronunciou o nome com orgulho, e Zoya sentiu-se invadir por uma repentina onda de fúria.

       - Tenho vinte e cinco anos - mentiu. - E era muito boa.

       - Sim? Em quê? Aposto que nunca fez nada do gênero antes. - Era verdade, mas também o era que estava disposta a fazer o que quer que fosse pelos filhos. Lembrou-se subitamente da sua audição para os Ballets Russes, há treze anos em Paris.

       - Deixe-me tentar... só uma vez... Posso aprender... Por favor... - Os olhos encheram-se-lhe involuntariamente de lágrimas na altura em que um indivíduo baixo e de charuto passou por perto, a fitou de relance e gritou para dois homens que transportavam peças do cenário:

       - Seus idiotas! Vão partir isso! - E, em seguida, com uma expressão aborrecida, agitou o charuto na direção da mulher que falava com Zoya.

       - As malditas raparigas apanharam sarampo... Achas normal? Arranjei um grupo de velhas peritas em sapateado e adoecem como se fossem raparigas... três delas a semana passada... mais sete agora... Merda, o que vou dizer às pessoas que pagaram uma data de massa para ver o espetáculo? Que vão ver um bando de gajas a acenar-lhes os traseiros cheios de manchas? Era o que faria, se tivessem aparecido para trabalhar.

       - Acenou o charuto na direção de Zoya e para lá dela, como se a sua presença não contasse, o que era verdade.

       Sem esperar que ele lhe falasse diretamente, tomou a palavra.

       - Gostaria de fazer uma audição para um emprego como bailarina.

       Agora tinha apenas um leve sotaque mas ainda óbvio, só que nenhum deles a identificou como russa. A mulher julgara que ela era francesa, com aquele luxuoso vestido preto e o porte elegante.

       - Sabe sapatear? - perguntou, virando-se para a avaliar, mas sem parecer impressionado.

       - Sim. - Decidiu poupar-lhe explicações.

       - Uma bailarina - replicou a outra mulher com evidente desprezo.

       - Já teve sarampo? - perguntou-lhe. Era muito mais importante para ele, com dez coristas doentes e sabe-se lá quantas expostas a apanhá-lo nas próximas semanas.

       - Já tive - murmurou, rezando para que ainda soubesse dançar. Talvez tivesse esquecido tudo. Talvez...

       Encolheu os ombros e voltou a meter o charuto apagado entre os lábios.

       - Deixa que ela mostre o que vale, Maggie. Se conseguir aguentar-se e fizer alguma coisa, pode ficar até as outras voltarem. - Depois, virou costas e a mulher de nome Maggie pareceu aborrecida. A última coisa que precisavam era de uma gaja elegante e pálida que se achava boa de mais para um número de revista. Mas ele tinha razão, pois, com as outras doentes, estavam com problemas.

       - Okay - acedeu, relutante, e depois gritou lá para trás: - Jimmy! Levanta o cu e vem tocar! - Um homem negro com um sorriso enorme apareceu e olhou para Zoya.

       - Ei, querida. O que queres que toque? - perguntou, sentando-se ao piano. E ela quase riu, presa de um terror nervoso. O que lhe responderia? Chopin? Debussy? Stravinsky?

       - O que é que costuma tocar para as audições? - replicou, e ele sorriu.

       Era fácil concluir que se tratava de uma aristocrata branca a passar um mau bocado e teve pena dela, com aqueles grandes olhos verdes e um sorriso implorativo. Parecia uma criança e interrogou-se sobre se ela alguma vez dançara. Ouvira falar de outras que tinham ido trabalhar em cabarés, executando números inventados por elas, como Cobina Wright e Cobina Junior.

       - De onde é? - Maggie estava a falar com outra pessoa, enquanto eles conversavam. E Jimmy concluiu que gostava dela.

       Zoya sorriu-lhe, orando intimamente para não fazer má figura, mas valia a pena correr o risco.

       - Da Rússia, há muito tempo. Vim para cá depois da guerra.

       Jimmy baixou a voz e olhou-a nervosamente por cima do. ombro.

       - Já dançou alguma vez? Diga-me a verdade enquanto a Maggie não está a ouvir. Não posso ajudá-la se não souber a verdade.

       - Estive no ballet quando era jovem. Há onze anos que não danço sussurrou, agradecida.

       - Deus do céu... - Abanou a cabeça, desgostoso. - O Fitzhugh's Dance Hall não tem ballet... - Era, sem dúvida, a declaração do ano, pois nesse preciso momento duas coristas seminuas passaram por eles. - Ouça prosseguiu em tom de confidência. - Vou tocar uma coisa lenta. Limite-se a rolar os olhos e a sorrir, dê um pouco ao traseiro, mostre as pernas e tudo correrá bem. Tem alguma roupa consigo? - Mas bastou olhá-la para saber a resposta.

       - Lamento, eu...

       - Não interessa. - E, nesse momento, Maggie voltou a prestar-lhes atenção.

       - Vais ficar para aí sentado nesse cu negro todo o dia, Jimmy, ou fazemos uma audição? Pessoalmente, que se dane, mas o Charlie quer que eu a veja. - Deitou um olhar maldoso a Zoya e ela rezou para não se sair mal. Contudo, seguiu as instruções dele, e Charlie, o diretor, voltou a passar, murmurando entre dentes ao observá-la. Queria que se apressasse, pois ainda tinha de fazer uma audição a dois novos cômicos e a uma stripper.

       - Merda. Exatamente o que não preciso aqui... uma senhora pronunciou, como se fosse um insulto. - ... Abana o cu... Isso.. assim... Vejamos as pernas... Mais.

       Ela corou e levantou a saia, continuando a dançar ao som do ritmo que Jimmy lhe marcava. Tinha umas belas pernas e a graciosidade de treze anos a dançar nunca a abandonara.

       - O que és, céus? - gritou-lhe o homenzinho, e ela corou mais. - Uma virgem? As pessoas não vêm aqui rezar, mas ver boazonas a dançar. Achas que podes fazê-lo sem parecer que acabaste de ser violada?

       - Tentarei, sir... Darei o meu melhor...

       - Ótimo. Então, volta aqui esta noite, às oito. - Maggie afastou-se com evidente desdém, e Jimmy levantou-se de um salto e veio abraçá-la.

       - Ei! Conseguimos!

       - Não tenho palavras para agradecer - retorquiu, apertando-lhe a mão e com um olhar grato. - Tenho dois filhos, Eu... nós... - Lutava novamente para suster as lágrimas enquanto o velho negro a observava. - Preciso muito do emprego... - As lágrimas correram-lhe pelas faces e limpou-as com um misto de alívio e embaraço, incapaz de falar por momentos.

       - Não se preocupe. Vai sair-se bem. Até esta noite. - Sorriu e regressou ao jogo de cartas em que estava a perder quando Maggie o chamara.

       Zoya percorreu a pé todo o caminho de regresso ao apartamento pensando no que acabara de fazer. Contrariamente à sua audição com os Ballets Russes há uns anos, não a invadia um sentimento de vitória e realização. Somente alívio por ter um emprego e um sentimento de embaraço e degradação; no entanto, tratava-se da única coisa que podia fazer e era à noite, não tendo de deixar Sasha com pessoas conhecidas. De momento, parecia-lhe o emprego ideal, só que era terrível.

       Nessa noite, explicou a Nicholas que tinha de sair. Não disse porquê ou onde ia. Não queria ter de lhe explicar que aceitara um emprego como corista. O eco das palavras de Charlie soava-lhe aos ouvidos: «Abana o cu... Deixa-me ver essas pernas... O que és tu? Uma virgem?» Sob a perspectiva deles, era. Com quase trinta e um anos e apesar das dificuldades da vida, sempre fora protegida de pessoas como ele e da gente para quem ia dançar.

       - Onde vais, mamã?

       - Sair um pouco. - Já deitara Sasha. - Não fiques de pé até muito tarde - avisou e beijou-o, apertando-o um mento, como se fosse a caminho da sua própria execução. - Vai para a cama daqui a meia hora.

       - Quando voltas? - quis saber, fitando-a, desconfiado da porta do quarto.

        - Mais tarde.

       - Passa-se alguma coisa, mamã? - Era uma criança intuitiva e estava a aprender muito cedo as cruéis reviravoltas do destino que podem mudar o curso da vida num momento.

       - Não, nada, meu querido. - Sorriu-lhe. - Garanti-te. - Pelo menos, teriam algum dinheiro.

       Contudo, não estava de forma alguma preparada para as piadas ordinárias, as raparigas vulgares, a roupa espalhafatosas e os comediantes que a beliscavam quando ela passava apressadamente junto deles.

       Porém, quando a música começou e o pano subiu, deu o seu melhor à multidão risonha e excitada, e ninguém se queixou quando ela perdeu o compasso mais do que uma vez. Contrariamente aos Ballets Russes de outrora, aqui ninguém dava por nada. Apenas queriam ver um grupo de raparigas bonitas praticamente despidas. Havia contas e lentejoulas, curtos calções de cetim com sapatos a condizer e inúmeras boas de plumas e enormes toucados.

       Tratava-se de uma pobre imitação do que as raparigas do Ziegfeld usavam e lamentou mais do que uma vez o destino por ser baixa de mais para ser contratada pelo bondoso Florenz Ziegfeld. Zoya devolveu a roupa à rapariga que lha tinha emprestado e regressou lentamente a casa sem ter tirado a pintura. Ficou ainda mais chocada quando um homens ao passar por ela lhe ofereceu um níquel pelo «melhor que pudesse fazer por ele» num vão de escada próximo. Correu durante todo o resto do caminho até casa, lavada em lágrimas c pensando na vida terrível que a esperava no Fitzhugh's Dance Hall.

       Nicholas dormia a sono solto quando ela voltou e beijou-o ternamente, manchando-lhe a face de bâton, pensando em como ele parecia um anjo e igual ao pai. Era impossível que Clayton tivesse desaparecido... a tivesse abandonado a tudo aquilo... Se soubesse... mas era tarde de mais para lamentos. Regressou nos bicos dos pés à sala de estar onde dormia, tirou a pintura e vestiu a camisa de noite. Longe iam as sedas, cetins e enfeites. Tinha de usar grossos vestidos de flanela para se proteger do gelo do apartamento.

       E, de manhã, preparou o pequeno-almoço a Nicholas antes de ele ir para a escola: um copo de leite, uma fatia de pão e uma laranja que comprara no dia anterior. Mas ele não se queixou. Sorriu-lhe, deu-lhe uma palmadinha na mão e saiu a correr, depois de beijar Sasha.

       Nessa noite, ela voltou ao teatro, como nas semanas seguintes, até as bailarinas regressarem curadas do sarampo. Mas Charlie comunicou-lhe entre dentes que podia ficar, que tinha umas pernas bonitas e não lhe causava problemas. Jimmy festejou com uma cerveja roubada do seu bar favorito, ao lado. Ela agradeceu e bebeu um gole para não o magoar. Omitiu que fazia trinta e um anos nesse mesmo dia.

       Jimmy era o seu único amigo. As outras haviam pressentido imediatamente que ela era «diferente». Nunca partilhavam piadas e, de fato, mal lhe dirigiam a palavra, quando falavam dos namorados e dos homens que as perseguiam nos bastidores. Algumas chegavam a fugir com homens que lhes ofereciam dinheiro.

       Era o que Charlie apreciava nela. Não era muito divertida, mas era certinha. No primeiro ano, deram-lhe um aumento. Zoya nem conseguia acreditar que ficara tanto tempo, mas não havia saída, nenhum lugar para onde ir e ninguém que lhe pagasse. Disse a Nicholas que dançava num pequeno grupo de bailado e deixou-lhe o número de telefone do teatro para o caso de uma emergência. No entanto, agradeceu a Deus por ele nunca lhe ter telefonado. E, pressentindo que ela se envergonhava do que fazia, Nicholas nunca lhe pediu para assistir a um espetáculo. Uma noite, Sasha acordara com tosse e febre e o filho esperara a pé que ela chegasse, mas não quisera telefonar-lhe para o teatro e preocupá-la. Nicholas revelou-se em todos os aspectos uma ajuda e um enorme conforto.

       - Voltaremos a ver os nossos amigos? - perguntou-lhe calmamente uma tarde, enquanto ela lhe cortava o cabelo e Sasha brincava com Sava.

       - Não sei, querido.

       Recebera uma carta da ama há uns meses. Sentia-se feliz na casa dos Van Alen e tinha imensas histórias sobre o début, no início do Verão, de Barbara Hutton e do de Doris Duke, em Newport. Parecia uma ironia que ela ainda fizesse parte desse mundo e Zoya não. Todavia, tal como eles a haviam evitado quando ela aparecera, convencidos de que fora uma bailarina do Folies-Bergère, era ela quem os evitava agora, sabendo que se tornara finalmente uma corista.

       Sabia também que, tendo perdido tudo como muitas outras do seu meio, deixara de lhes despertar qualquer interesse. A condessa que havia sido e tanto os impressionara já não o era. Não era ninguém. As águas tinham-se fechado sobre ela. Tal como sobre Clayton e muitos outros. O único de quem sentia ocasionalmente saudades era Sergei Obolenski e a sua corte de aristocratas russos. Só que eles não compreenderiam no que se tornara a sua vida, nem porque fazia o que fazia. Ele continuava casado com Alice Astor.

       Nessa altura, Elsa Maxwell escrevia uma coluna social e, de vez em quando, ao ler o jornal, Zoya debruçava-se sobre as histórias de Cholly Knickerbocker relativas às pessoas que ela conhecera quando estava casada com Clayton. Tudo lhe parecia agora tão irreal, como se nunca as tivesse conhecido. Havia relatos de ruínas financeiras, suicídios, casamentos, divórcios. Sentia-se feliz por não fazer parte da lista.

       Leu igualmente a notícia da morte de Pavlova em Haia, devido a pleurisia. Em Maio, levou as crianças à inauguração do Empire State Building. Corria o ano de 1931 e estava uma bela tarde de Maio.

       Nicholas contemplou, respeitoso, a imponente construção. Subiram no elevador, pararam na plataforma de observação no centésimo segundo andar, e a própria Zoya sentiu-se como se voasse. Foi a tarde mais feliz que passavam de há muito tempo a essa parte e regressaram ao apartamento sob uma atmosfera primaveril, com Sasha na frente deles, rindo e brincando. Tinha, então, seis anos e era dona de uns belos caracóis e um rosto muito semelhante ao de Clayton.

       Quando passaram, havia pessoas a venderem maçãs na rua e mais do que uma mulher admirou as duas bonitas crianças. Nicholas ia fazer dez anos em Agosto, mas muito antes já a cidade se encontrava sob um calor opressivo. E o 2 de julho foi o dia de maior calor que alguma vez se registrou.

       Os dois miúdos ainda estavam acordados quando ela saiu para trabalhar de vestido branco de algodão estampado com pequenas flores azuis. Nicholas sabia que ela trabalhava, mas continuava sem saber onde e também não lhe parecia importante.

       Deixou-lhes um jarro com limonada e recordou a Nicholas que devia vigiar Sasha. As janelas estavam escancaradas para que o ar entrasse no apartamento, semelhante a uma fornalha.

       - Não a deixes sentar-se demasiado perto das janelas - avisou Zoya e deteve-se a ver Nicholas, puxando a miúda de cabelo louro para o quarto deles. Sasha vestia somente cuecas e estava descalça, parecendo angelical ao dizer adeus à mãe. - Ficam bem? - perguntou como sempre que os deixava, mas com um peso no coração ao percorrer a distância que a separava do teatro. Mal conseguia andar sob aquele calor tórrido. Mesmo de noite, a rua parecia queimar sob os pés e os buracos nas solas dos sapatos ainda tornavam a deslocação mais incômoda. Por vezes interrogava-se sobre como tudo acabaria, como iriam sobreviver e quanto tempo conseguiria manter-se no palco com aquelas plumas e roupa ridícula.

       Nessa noite pouca gente assistiu ao espetáculo, pois estava demasiado calor para se ir a algum lugar. As pessoas que ainda tinham posses retiraram-se para Newport e Long Island, e as outras mantiveram-se em casa sem fazer nada ou sentadas nos degraus. Sentia-se exausta quando, por fim, regressou a casa e não pensou em nada quando ouviu as sirenes à distância.

       Foi só ao aproximar-se da sua rua que o fumo acre lhe entrou pelas narinas e todo o corpo lhe tremeu ao avistar os carros de bombeiros e o que lhe pareceu o bairro em chamas quando dobrou a esquina. Soltou uma exclamação horrorizada, começou a correr, e uma mão gelada parecia apertar-lhe a garganta ao ver os carros de bombeiros no exterior do prédio onde moravam.

       - Não!... Não!... - Gritava e tentava abrir caminho por entre a multidão que se mantinha de pé na rua, observando os três prédios a arder. Havia fumo por todo o lado e sentiu-se sufocar quando avançou e foi detida pelos bombeiros à porta do prédio.

       - Não pode entrar aí, minha senhora!... - Gritavam uns para os outros no meio do incêndio, pontuado pelo som aterrador das derrocadas. Havia explosões de vidros, e um deles provocou-lhe um corte no braço, que começou a sangrar e lhe manchou o vestido. Um dos homens puxou-a à força para trás. - Disse-lhe que não podia entrar!

       - Os meus filhos! - arquejou. - Os meus bebês!... - Debatia-se com uma força sobre-humana e, por um momento, escapou-lhe, mas ele voltou a agarrá-la. - Largue-me! - Virou-se na sua direção e o homem prendeu-lhe os braços com as mãos fortes, enquanto os vizinhos observavam a cena num mudo terror. - Os meus filhos estão ali... Oh, meu Deus... por favor... - Soluçava incontrolavelmente, quase sufocada pelo fumo que lhe queimava os olhos e a garganta quando ele gritou para dois dos homens que voltaram a correr ao interior do prédio. Já tinham trazido várias idosas e um homem novo estava desmaiado na rua, enquanto dois bombeiros tentavam reanimá-lo.

       - Ei, Joe! - chamou o bombeiro e voltou-se rapidamente para Zoya. Onde estão eles, minha senhora? Em que apartamento?

       - No último andar... um menino e uma menina... - Sufocava naquele ar cheio de fumo e já vira que as escadas não passavam do terceiro andar.

       - Deixe-me ir... por favor... por favor... - Ele passou a informação aos colegas que voltaram a correr ao edifício durante o que pareceu horas...

       Zoya observava, sabendo que, se eles morressem, a sua vida terminaria. Os filhos eram tudo o que lhe restava no mundo, a sua razão de continuar a existir.

       Contudo, os bombeiros não reapareceram e outros três entraram no prédio, munidos de machados e com expressões ansiosas. Ouviu-se um som horrível e uma explosão de faíscas e chamas quando uma parte do telhado desabou e Zoya quase perdeu os sentidos.

       Tinha os olhos esbugalhados de terror e precipitou-se subitamente para diante, resolvida a encontrá-los ou a morrer com eles. Passou a toda a velocidade pelos bombeiros, continuou a correr mas, nessa altura, como que em resposta às suas preces, avistou os bombeiros avançando na sua direção, dois deles com fardos nos braços, e ouviu uma criança a chorar no meio do estrondo do incêndio.

       Viu que era Nicholas a agitar os braços e a chamá-la. O terceiro bombeiro pegou-lhe ao colo como se ela fosse uma criança, e os três homens precipitaram-se para fora do edifício, no preciso momento em que o fogo ia devorá-los. Mal tinham chegado à rua, quando o estrondo no interior do prédio aumentou. Um muro de chamas ergueu-se nas costas dos fugitivos e Nicholas abraçou-a, chorando e gritando pelo seu nome, enquanto ela lhe cobria a face de beijos, apercebendo-se depois de que Sasha estava inconsciente.

       Ajoelhou-se no passeio ao lado da filha, gemendo e murmurando o nome dela, enquanto os bombeiros lutavam desesperadamente por lhe salvar a vida. Por fim, a criança soltou um grito abafado e mexeu-se. Zoya deitou-se junto dela e chorou, acariciando-lhe os caracóis e abraçando-a.

       - Meu bebê... minha querida... - Sentia que era o castigo por os ter deixado sós a noite inteira. Só conseguia pensar em como teria sido se ao regressar a casa... Era quase impensável. Manteve-se ali na rua, agarrando os filhos e observando o desabar do prédio, que levava tudo o que possuíam.

       - Só interessa que estejam vivos - repetia, lembrando-se da noite em que a mãe morrera no incêndio do Palácio Fontanka.

       Os bombeiros permaneceram até ao romper de mais um dia abrasador de Julho e declararam que apenas dali a uns dias alguém poderia entrar.

       Teriam de encontrar outro sítio onde ficarem, antes de tentarem procurar nas cinzas o que quer que restasse dos seus pertences.

       Zoya pensou nas fotografias de Clayton que se haviam perdido... nas pequenas recordações que conservara... as fotogratas dos pais, dos avós, do czar... pensou no ovo imperial que guardara para a eventualidade de precisar de vendê-lo, mas não podia preocupar-se com nada disso agora.

       O importante era que Nicholas e Sasha estavam vivos. E depois, com uma dolorosa picada no coração, lembrou-se de Sava. A cadela que trouxera de Sampetersburgo há tanto tempo tinha morrido no incêndio.

       - Não consegui trazê-la, mamã... Estava escondida debaixo do sofá quando os homens entraram - soluçou Nicholas. - Queria trazê-la, mamã... mas eles não me deixaram...

       - Chiu... querido, não chores... - O longo cabelo ruivo soltara-se durante a luta que travara com os bombeiros para ir buscar os filhos e espalhava-se sobre o vestido branco de flores azuis. Tinha vestígios de cinzas no rosto e a camisa de noite de Nicholas tresandava a fumo. Estava entranhado, mas nunca lhe cheirara tão bem, ou significara tanto aos seus olhos como naquele momento. - Amo-te tanto... Ela era muito velhinha, Nicky... Chiu... meu querido, não chores... - Sava tinha quase quinze anos e chegara até àquele momento com eles, mas Zoya apenas conseguia pensar nos filhos.

       Uma vizinha acolheu-os, e Zoya e as crianças dormiram no chão da sala em cima de cobertores. Por mais que tomassem banho e ela lavasse o cabelo, continuavam a cheirar a fumo, mas, de cada vez que olhava lá para fora e avistava o prédio em ruínas do outro lado da rua, apercebia-se da sorte que haviam tido. Estremecia só de olhar. No dia seguinte telefonou para o teatro e disse que não ia trabalhar.

       Nessa noite, percorreu a pé a distância que a separava do teatro para ir buscar o último pagamento. Não lhe interessava que morressem de fome, mas não voltaria a deixá-los sozinhos... nunca mais.

       O pagamento chegaria para lhes comprar roupa e alguma comida, mas não tinham onde ficar nem para onde ir e, totalmente exausta, foi à procura de Jimmy para se despedir dele. - Vai deixar-nos? - Sentia-se triste que ela se fosse embora, mas compreendeu ao ouvir a história.

       - Não posso continuar a fazer isto. Se alguma coisa tivesse acontecido... - E podia voltar a acontecer. Era um pecado deixá-los sós. Teria de encontrar qualquer outra coisa, nas ele limitou-se a esboçar um aceno de cabeça. Não estava surpreendido e achava bem.

       - De qualquer maneira, não pertence aqui. Nunca pertenceu. - Sorriu. Toda a sua raça emergia da forma como se movimentava, embora nunca lhe tivesse falado do passado, mas doía-lhe sempre o coração ao vê-Ia levantar a perna com as outras. - Arranje outra coisa. Um bom emprego com a sua gente. Este não é um lugar para si. - Contudo, há um ano e meio. que trabalhava ali e servira para lhe pagar a renda. - Não tem família nem amigos a quem recorrer? - Zoya abanou a cabeça, pensando uma vez mais na sua sorte por não ter perdido os filhos. - Tem algum sítio para onde voltar? A Rússia ou algo assim? - Ela sorriu ante a ignorância dele sobre a devastação ocorrida.

       - Cá me arranjarei - retorquiu, sem na realidade ter a mínima idéia do que fazer.

       - Onde estão agora?

       - Na casa de um vizinho. - Jimmy sentiu vontade de a convidar a ficar em Harlém, mas sabia que não lhe conviria. O tipo de pessoas como ela iam dançar ao Cotton Club para se divertirem e não mudavam para Harlém com um velho pianista de um clube.

       - Bom. Dê-me notícias, sim?

       Inclinou-se, beijou-a na face e os olhos brilharam-lhe quando ela foi buscar o dinheiro. Apertou-lhe calorosamente a mão no momento em que ela se foi embora, satisfeito com o que fizera. Só mais tarde nessa noite é que ela descobriu o dinheiro na mala. Cinco notas de vinte dólares que Jimmy lhe metera na mala enquanto fora receber. Ganhara-os a jogar às cartas nessa tarde e sentira-se contente por poder dar-lhe aquele dinheiro.

       Zoya sabia que só podia ter sido ele. Pensou em voltar ao teatro e devolver-lho, mas sabia quanto lhe era necessário. Em vez disso, escreveu um bilhete a agradecer e prometeu pagar-lhe, assim que pudesse. Contudo, sabia que tinha de arranjar um emprego e um lugar onde pudessem viver.

       No final da semana, o prédio arrefecera o suficiente para permitir que os residentes lá voltassem. Pouco havia que pudessem salvar e dois dos apartamentos tinham ficado completamente destruídos; ao subir as escadas pouco seguras, Zoya susteve a respiração e interrogou-se sobre o que iria encontrar. Abriu a porta com dificuldade e vasculhou o chão com uma pá. O cheiro a fumo ainda pairava no ar e toda a sala ficara destruída.

       Os brinquedos, a roupa das crianças e a maioria da sua fora consumida, mas sabia que provavelmente nunca deixariam de cheirar a fumo. Meteu os pratos numa caixa recuperada do fogo e verificou, surpreendida, que a mala das fotografias ainda ali estava, intocável.

       Sustendo a respiração, pôs-se a remexer no que fora uma arca e subitamente avistou-o... O esmalte estava rachado, mas o resto mantinha-se intacto. O ovo imperial resistira. Fitou-o com muda surpresa e pôs-se a chorar... Era uma relíquia de uma vida perdida. Nada mais havendo a salvar, meteu os restos das coisas das crianças numa única caixa, o seu vestido Chanel, dois saia-casacos e um vestido de linho cor-de-rosa e o único par de sapatos.

       Demorou apenas dez minutos a levar tudo para baixo e, quando se voltou para dar uma última vista de olhos, deparou com Sava por baixo do sofá... deitada e tranqüila, como se estivesse a dormir. Zoya ficou uns minutos em silêncio a observá-la e depois fechou a porta devagar e desceu as escadas apressadamente com as caixas, ao encontro dos filhos que a esperavam do outro lado da rua.

      

       Depois de agradecer profusamente aos vizinhos pela sua generosidade, Zoya alugou um pequeno quarto de hotel com algum do dinheiro que Jimmy lhe tinha dado. Já lhe restava menos de metade após comprar roupa nova às crianças e um vestido decente para si que não cheirasse a fumo Tinham de comer num restaurante todas as noites. Falavam no que iriam fazer, e Nicholas fitava-a com expectativa; porém, uma noite ao ler o jornal à procura de emprego, ocorreu-lhe subitamente uma idéia. Não se tratava de algo que faria se pudesse escolher, mas não podia. Tinha de deitar mão à realidade, mesmo que a embaraçasse.

        No dia seguinte, pôs o vestido novo, escovou cuidadosa o cabelo e desejou ter ainda algumas das suas jóias, mas apenas lhe restava a aliança de casamento e um certo porte, quando se contemplou calmamente no espelho.

       - Onde vais, mamã? - perguntou Nicky, ao observar o vestido.

       - Vou arranjar emprego. - Desta vez, não se sentia incomodada quando os filhos a olharam.

       - Sabes fazer alguma coisa? - retorquiu Sasha inocentemente e Zoya riu.

       - Não muito.

       Contudo, percebia de roupas, usara as melhores nos últimos dez anos e, mesmo em criança, ela e Marie tinham estudado tudo o que as mães e outros familiares haviam usado. Sabia arranjar-se com estilo e talvez pudesse ensinar outros a fazê-lo. Havia muitas mulheres com dinheiro bastante para se darem a esse luxo.

       Apanhou o autocarro depois de confiar Sasha aos cuidados do irmão e, nervosa por os deixar sozinhos, desceu próximo da morada indicada no anúncio. Ficava na Rua 51, à saída da Quinta Avenida. Ao chegar à porta, verificou que o estilo correspondia ao que esperara. Um porteiro fardado ajudava as senhoras a saírem dos automóveis e, uma vez lá dentro, avistou senhoras elegantes e alguns homens observando os luxuosos artigos da loja.

       Havia vestidos e chapéus e uma linha extraordinariamente bonita de sapatos de fabrico próprio. As empregadas estavam bem vestidas e muitas tinham um porte aristocrático. «Era o que devia ter feito logo de início», censurou-se, tentando afastar a imagem do incêndio e rezando para que as crianças estivessem bem. Era a primeira vez que as deixava sozinhas desde aquela noite e jamais teria a certeza de que estavam bem fora da sua vista, mas sabia que isto era algo que tinha de fazer. Não lhe restava qualquer alternativa.

       - Posso ajudá-la, madame? - perguntou uma mulher de cabelo grisalho com um vestido preto, quando Zoya olhou em volta. - Deseja ver alguma coisa? - O sotaque era visivelmente francês e Zoya virou-se para ela com um sorriso composto. Tremia por dentro, mas rezava para que não se notasse quando lhe respondeu no impecável francês que falava desde criança.

       - Posso falar com o gerente, por favor?

       - Ah... que bom ouvir alguém falar francês! - exclamou a mulher de idade, a sorrir. Parecia uma professora elegantemente vestida de um colégio para jovens. - Sou eu. Deseja alguma coisa?

       - Sim - respondeu Zoya num tom baixo, de forma a que ninguém pudesse ouvi-la. - Sou a condessa Ossupov e ando à procura de emprego. - Seguiu-se um momento de silêncio enquanto os olhares das duas mulheres se cruzavam e, depois de uma interminável espera, a francesa esboçou um aceno de cabeça.

       - Percebo. - Interrogava-se sobre se a jovem mulher seria uma fraude, mas o seu porte tranqüilo sugeria quem dizia ser, e a francesa esboçou um gesto discreto na direção de uma porta fechada nas suas costas. Importa-se de vir ao meu gabinete, madame? - O título não era importante para ela, mas sabia que podia sê-lo para as suas clientes, como Barbara Hutton, Eleanor Carson, Doris Duke e as amigas. Tinha uma clientela de elite e os títulos significavam muito para a maioria delas. Muitas casavam com príncipes e condes, só para poderem usufruir dos títulos.

       Zoya seguiu-a até uma sala de estar elegantemente decorada em tons de preto e branco. Era onde mostrava os seus vestidos mais caros e a única rival era Chanel que trouxera recentemente os seus artigos para os Estados Unidos, mas liavia lugar para ambas em Nova Iorque.

       A francesa chamava-se Axelle Dupuis e chegara de Paris há uns anos, tendo montado aquele elegante salão conhecido apenas por «Axelle». No entanto, há anos que era um must de Nova Iorque. Zoya chegara a comprar-lhe um vestido mas não usara obviamente o seu nome russo e, por sorte, Madame Dupuis não se recordava dela.

       - Tem alguma experiência no ramo? - inquiriu, observando Zoya atentamente. O vestido que ela usava era barato e os e os sapatos estavam gastos, mas as mãos graciosas, a forma como se movimentava e o penteado indicavam alguém que conhecera melhores tempos. Falava além disso francês, não que fosse muito importante ali. E parecia exibir um estilo nato, mesmo vestida sem luxo. Axelle sentia-se intrigada. - Já alguma vez trabalhou em moda?

       - Não - respondeu Zoya honestamente e abanando a cabeça. – Mudei-me de Sampetersburgo para Paris depois da revolução. - Já era capaz de pronunciar as palavras, agora que coisas piores tinham acontecido e tinha de pensar em Nicky e Sasha. Por eles, rastejaria por aquele emprego e não conseguiu ler nada no rosto da mulher quando ela preparou um chá para ambas.

       O serviço de chá em prata era muito bonito e a louça de porcelana, francesa. Tinha um porte elegante e observou atentamente Zoya quando ela bebeu um gole. Coisas deste gênero eram importantes devido à sua clientela, as mais elegantes e exigentes mulheres do mundo. Não podia permitir-se que fossem servidas por pessoas sem maneiras e rudes e ficou satisfeita ao examinar Zoya com argutos olhos cinzentos.

       - Quando foi para Paris, trabalhou em moda? - Axelle sentia-se curiosa. Havia algo de inconfundivelmente aristocrata naquela jovem mulher quando Zoya a fixou.

       - Dancei com os Ballets Russes. Era a única coisa que sabia fazer e éramos muito pobres. - Decidira ser honesta com ela, pelo menos até certo ponto.

       - E depois?

       Zoya esboçou um sorriso triste, sentada muito direita na sua cadeira.

       - Casei com um americano e vim para cá em mil novecentos e dezenove. - «Há doze anos...» - O meu marido morreu há dois anos. Era mais velho do que eu... - Não falou à francesa de tudo o que tinham perdido. Deixara de ser importante e queria salvar a dignidade de Clayton, mesmo depois da sua morte. - Tenho dois filhos para sustentar e perdemos tudo o que possuíamos num incêndio... Não que fosse muito...

       - A voz morreu-lhe ao pensar no pequeno apartamento onde Sava morrera e fixou Axelle. - Preciso de um emprego. Sou velha demais para voltar a dançar. - Varreu as imagens do clube e prosseguiu: - ... e sei algumas coisas sobre roupa. Antes da guerra... - Hesitou, mas forçou-se a continuar, pois, se ia apoiar-se no título, teria de lhe fazer referência. Em Sampetersburgo, as mulheres eram elegantes e bonitas... - Sorriu, sem que Axelle deixasse de a observar.

       - É parente dos Romanov? - Muitas russas insignificantes haviam feito esta reivindicação, mas havia algo naquela jovem mulher que deixava antever tal possibilidade. Estava disposta a acreditar quando os olhos verdes de Zoya a fixaram e se expressou na sua voz meiga, pegando na xícara de chá como uma aristocrata.

       - Sou prima do falecido czar, madame.

       Não disse mais nada, e Axelle refletiu demoradamente. Valia a pena tentar. Ela podia ser o que as clientes desejavam... e como adoravam condessas! Axelle sabia que a idéia de terem uma condessa a atendê-las seria um fator de suprema excitação.

       - Podia dar-lhe uma oportunidade, senhora... condessa, acho que deveria tratá-la assim. Aqui, tem de usar o seu título.

       - Claro. - Zoya tentava parecer calma, mas apetecia-lhe gritar de alegria, como se fosse uma criança... Ia ter um emprego! No Axelle's! Era perfeito! No Outono, os dois miúdos estariam na escola e ela regressaria a casa às seis da tarde. Era respeitável... era perfeito... Não conseguiu reprimir um sorriso de alívio e Axelle correspondeu. - Obrigada, madame. Muito obrigada.

       - Vejamos como se sai. - Levantou-se para indicar que a audiência tinha terminado, e Zoya apressou-se a imitá-la e pousou a xícara no tabuleiro sob o olhar extremamente agradado de Axelle. - Quando gostaria de começar?

       - Na próxima semana convém-lhe?

        - Perfeito. Às nove horas. Em ponto. E... Condessa - acrescentou pronunciando a palavra com o à-vontade da prática e olhando para o vestido de Zoya -, talvez antes de ir, queira escolher um vestido para usar... algo preto ou azul-escuro... - Pensou no seu adorado Chanel preto que não conseguira recuperar do incêndio. Tresandava a fumo, por mais que se esforçasse por tirar o cheiro.

       - Muito obrigada, madame.

       - De nada. - Inclinou a cabeça num gesto delicado e transpôs de novo a porta que dava para a sala principal onde uma mulher com um enorme chapéu branco soltava exclamações ante os sapatos. Fez recordar a Zoya que teria de comprar sapatos novos com o pouco dinheiro que possuía e apercebeu-se subitamente de que se esquecera de perguntar qual era o salário. Contudo, era irrelevante. Tinha um emprego, fosse lá por que preço. Era muito melhor do que vender maçãs na rua.

       Deu a notícia às crianças mal regressou e foram dar um passeio no parque, depois do que voltaram ao hotel para fugir ao calor. Nicholas estava tão excitado como ela, e Sasha perguntou com os olhos azuis muito abertos se também tinham vestidos para menina.

       - Não, meu amor, não têm. Mas compro-te um vestido novo assim que puder. - Comprara-lhes o mínimo depois do incêndio, tal como para ela, mas agora um novo dia nascera. Tinha um emprego respeitável e esperava ganhar um salário decente. Não teria de voltar a dançar.

       Depois, interrogou-se com um sorriso sobre se veria algumas das suas antigas amigas no Axelle's. Haviam-na posto de lado quando chegara de França para depois a adorar. Tinham-na esquecido completamente quando Clayton morrera e abandonado depois de perderem tudo. Como as pessoas eram falsas; não que se importasse. Só os filhos tinham valor.

       O resto chegara e partira, viera e fora-se novamente embora. Não lhe interessava. Haviam sobrevivido mesmo assim... A vida voltava a parecer-lhe infinitamente preciosa.

      

       Os seus dias na loja eram longos e cansativos e as mulheres que atendia muito exigentes. Eram impetuosas e mimadas, algumas incapazes de se decidirem, mas mostrava-se sempre paciente e achava que sabia o que lhes ficava bem.

       Era capaz de pegar num vestido, puxar aqui, enfiar ali e. subitamente, a mulher parecia desabrochar quando se olhava ao espelho... conseguia escolher o chapéu perfeito para o vestido certo... um raminho de flores... uma pequena pele... os sapatos encantadores. Criava imagens que se transformavam em poesia, e a patroa estava satisfeitíssima com o seu trabalho.

       No Natal, Zoya conseguira uma posição de relevo no Axelle's, superara todos em vendas e as clientes perguntavam sempre pela condessa. Era condessa para aqui, condessa para ali... e não pense, condessa... e, oh, condessa, por favor... Axelle observava-a em ação, sempre discreta e com um porte digno, vestida com elegância, as luvas brancas imaculadas quando vinha trabalhar, o cabelo impecavelmente penteado e um leve sotaque que aumentava o mistério. E Axelle cedo espalhara que ela era prima do czar. Exatamente aquilo de que precisava para a loja e, quando Sergei Obolenski também veio conhecer aquela «condessa» de que todos falavam, fitou-a, estupefato, vendo as lágrimas que lhe enchiam os olhos.

       - Zoya! O que estás a fazer aqui?

       - A divertir-me. - Não mencionou os dois anos brutalmente difíceis a que sobrevivera.

       - Que tontice! Mas, de fato, talvez seja divertido, sim! Tens de vir jantar conosco. Contudo, recusou sempre. Já não tinha roupa, tempo, ou mesmo energia para andar com os conhecidos dele. Tudo isso acabara para ela.

       Todas as noites regressava a casa até junto dos filhos, que a esperavam no apartamento da Rua 39, próximo de East River, para onde conseguira mudar-se a tempo do Natal. Os dois andavam em colégios decentes e os salários regulares e comissões que Axelle lhe pagava não lhe permitiam luxos, mas chegavam para levarem uma vida confortável, o que era uma grande melhoria por comparação aos dois últimos anos quando dançava no Fitzhugh's Dance Hall.

       Estava a trabalhar para Axelle quando o bebê Lindbergh foi encontrado morto em Maio de 1932 e leu, surpreendida, que Florenz Ziegfeld morrera em Julho do mesmo ano. Interrogou-se sobre como teria sido trabalhar para ele e não no Fitzhugh's Dance Hall. Interrogou-se também sobre o que seria feito de Jimmy. Há muito que lhe devolvera os cem dólares que ele lhe metera furtivamente na mala quando estava tão desesperada, mas nunca mais tinha tido notícias. Ele era parte de uma outra vida, outro capítulo encerrado enquanto continuava a trabalhar como condessa no Axelle's. E ficou muito emocionada quando Eleanor Roosevelt veio vê-Ia e comprar alguma roupa à loja durante a campanha eleitoral. Recordava-se com entusiasmo dos velhos amigos de Clayton e mandou-lhes um telegrama quando Frank1in ganhou e enviou a Eleanor um bonito gorro de pele, que ela disse que usaria na inauguração em Março e Axelle ficou satisfeitíssima.

        - Sabe indubitavelmente lidar com elas, ma chère - elogiou a elegante francesa.

       Gostava de Zoya e sentia-se encantada com o pequeno Nicholas. O miúdo tinha os modos de um jovem príncipe e as histórias que Obolenski lhe contara uma tarde sobre Zoya e as filhas do czar tornavam-se agora muito credíveis. Ela era uma mulher invulgar nascida numa época de infelicidade. Se as coisas tivessem acontecido de uma outra forma, poderia casar-se com um príncipe da sua estirpe e viver num dos palácios que frequentara em criança. Parecia injusto, mas não mais do que a depressão que se notava por todo o lado. Nesse ano, toda a gente à exceção da clientela de Axelle parecia estar a morrer de fome.

       Na quadra natalícia, Zoya foi com Nicholas ao cinema ver o filme Tarzan e ele ficou encantado. Depois, foram tomar chá. Ele andava na Trinity School e saía-se bem. Era um bom estudante e uma criança inteligente e, aos onze anos, afirmava que um dia seria um homem de negócios, como o pai o fora. Sasha queria ser estréia de cinema. Zoya tinha-lhe 'comprado uma boneca Shirley Temple e ela nunca a abandolava, juntamente com Annabelle, que sobrevivera ao incêndio. Eram crianças felizes, embora tivessem passado por tempos difíceis.

       Na Primavera, Zoya tornou-se assistente de Axelle. Tal significava mais dinheiro e mais prestígio e deixava mais tempo livre à própria Axelle. Zoya convenceu Axelle a permitir que Elsie de Wolfe redecorasse a loja, e o negócio pareceu disparar em flecha.

       - Bendito seja o dia em que atravessou aquela porta - exclamou Axelle, sorrindo, por sobre as cabeças das entusiasmadas clientes no primeiro dia em que voltaram a abrir depois da nova decoração. O próprio presidente da câmara, Fiorello La Guardia, apareceu, e o negócio ia de vento em popa.

       Deu um casaco de marta a Zoya como presente e a jovem mulher soltou uma exclamação de espanto. Era de marta criada em fazenda e ressaltava-lhe a elegância quando apanhava o autocarro diariamente para ir ter com os filhos. No ano seguinte, conseguiu mudar-se para um novo apartamento. Ficava somente a três quarteirões do Axelle's, e cada um dos filhos tinha agora o seu quarto. Nicholas tinha doze anos, quase treze, e sentia-se aliviado por se haver liberto um pouco de Sasha.

       Dois anos mais tarde, no décimo primeiro aniversário de Sasha, Axelle convidou Zoya a ir com ela a Paris, na primeira viagem de negócios.

       Nicholas ficou na casa de um amigo e contratou uma baby-sitter para tomar conta de Sasha durante três semanas.

       Partiu com Axelle no Queen Mary no meio de uma grande excitação e de champanhe. Detendo-se a olhar a Estátua da Liberdade quando o navio arrancou lentamente de Nova Iorque, Zoya pensava no que conseguira durante aquele tempo, desde a morte de Clayton. Haviam passado sete anos. Tinha agora trinta e sete e sentia-se como se houvesse vivido várias vidas.

       - Em que estás a pensar, Zoya? - Axelle estivera a observá-la, muito calma e direita junto ao varandim, à medida que avançavam para mar aberto. Estava elegantemente arranjada com um vestido verde-esmeralda da cor dos olhos e um pequeno gorro de pele na cabeça e, ao virar-se para fixar a patroa, os olhos eram quase da mesma cor do mar.

       - Pensava no passado.

       - Acontece com freqüência, julgo - replicou Axelle num tom calmo. Respeitava-a muito e interrogava-se sobre a razão por que ela não saía mais. Oportunidades não lhe faltavam. As clientes eram doidas por ela e havia sempre um monte de convites em cima da sua secretária dirigidos simplesmente à «condessa Zoya». Contudo, ela só raramente sala e dizia sempre que «já fizera tudo isso antes». - Talvez Paris traga alguma excitação à tua vida. - Zoya limitou-se a rir e abanou a cabeça.

       - Tive excitação bastante na minha vida, muito obrigada. - Revoluções e guerras e o casamento com um homem que adorara. Continuava apaixonada por Clayton depois de todos aqueles anos e sabia que voltar a ver Paris seria doloroso sem ele. Era o único homem que tinha amado e sabia que nunca haveria outro como ele... exceto o filho, talvez... Sorriu ante a idéia e respirou a brisa marítima. - Vou a Paris em trabalho anunciou bruscamente a Axelle e depois riu ante as palavras da mulher mais velha.

       - Não estejas assim tão segura, minha querida.

       Regressaram depois ao camarote. Zoya desfez as malas e colocou as fotografias dos filhos junto à cama. Não precisava de mais nada, nem nunca precisaria. Nessa noite deitou-se com um livro novo e elaborou uma lista das roupas que iam encomendar em Paris.

      

       Axelle reservara quartos no Ritz, convenientemente localizado na Place Vendôme e resplandecente de todo o luxo que Zoya não esquecera.

       Tinham passado anos desde que tomara banho numa funda banheira de mármore, igual à que tinha na casa de Sutton Place. Fechou os olhos e usufruiu de todo o prazer da funda banheira cheia de água quente.

       Começariam as compras na manhã seguinte, mas naquela primeira tarde Zoya saiu calmamente do hotel para dar um passeio e foi invadida pelas recordações ao vaguear pelas ruas, avenidas e os parques que outrora partilhara com Clayton.

       Foi tomar uma bebida ao Café de Flore e depois, incapaz de se controlar, apanhou um táxi para o Palais Royal e deteve-se em silêncio diante do prédio onde vivera com Eugenia. Haviam passado dezessete anos desde que ela morrera, dezessete anos de bons e maus momentos e trabalho duro Junto dos seus amados filhos. As lágrimas correram-lhe devagar pelas faces, perante as recordações da avó e do falecido marido.

       Era quase como se esperasse que ele lhe batesse no ombro, como na noite em que se haviam conhecido. Ainda conseguia ouvir-lhe a voz, como se lhe tivesse falado horas antes.

       Em seguida, virou costas lentamente, foi até às Tulherias e sentou-se num banco, imersa nos seus pensamentos, observando as crianças a brincar à distância. Interrogou-se sobre como seria trazer Nicholas e Sasha até ali, uma vida em certos aspectos mais fácil do que em Nova Iorque; porém, o seu trabalho no Axelle's conferira um novo rumo à sua existência.

       Há cinco anos que estava com Axelle e era excitante encontrar-se do lado das compras, em vez de ter de esperar no meio de hordas de mulheres mimadas e exigentes. Conhecia tão bem as mulheres. Havia algumas com quem lidava bem, mulheres que compreendia e conhecera toda a sua vida. Lembrara-se mais do que uma vez da sua própria mãe.

       E os homens também gostavam de Zoya, pois ela era tão capaz de lhes vestir as mulheres como arranjar discretamente roupa para as amantes que traziam à loja. Nunca lhe escapava uma alcoviteirice dos lábios, uma crítica maldosa, mas apenas bom gosto e sugestões interessantes. Axelle sabia que sem ela o sucesso da loja jamais teria atingido aquele ponto. «A condessa», como todos lhe chamavam, adicionava um chique incontestável às vidas dos ricos nova-iorquinos.

       Contudo sentiu-se repentinamente muito, muito longe dali. Sentiu-se de novo urna jovem e ao mesmo tempo triste, pensando na nova vida que se iniciara para ela desde a última vez que estivera em Paris.

       Ao apanhar um táxi de volta ao hotel, o coração deu-lhe um salto no peito, interrogando-se sobre se poderia encontrar Vladimir Markovski.

       Nessa noite, no hotel, procurou o número na lista telefônica, mas o nome não constava. Desconfiava que ele já teria morrido nessa altura. Deveria estar próximo dos oitenta anos, se fosse vivo.

       Nessa noite, Axelle convidou-a para jantar no Maxím's, mas, com um olhar nostálgico, recusou e disse que estava muito cansada e queria descansar antes de iniciarem a volta à procura das novas coleções. Não explicou a Axelle que a recordação de Clayton a levá-la a jantar lá seria por de mais dolorosa. Aqui, via-se obrigada a fechar constantemente as portas ao passado.

        Parecia-lhe apenas a um passo de Sampetersburgo. Tudo estava tão próximo. Não se encontrava a meio mundo de distância. Encontrava-se nos lugares que descobrira com Eugenia e Vladimir, nos sítios onde Clayton a levara. Era quase doloroso estar ali e ansiava por deitar mão ao trabalho a fim de esquecer o passado e ocupar-se com o presente.

       Nessa noite telefonou a Nicholas para casa do amigo e contou-lhe tudo sobre Paris. Prometeu que um dia o traria com ela. Era uma cidade tão bonita e desempenhara um papel tão importante na sua vida. O filho disse-lhe que a amava e tivesse cuidado com ela. Mesmo aos catorze, quase quinze anos agora, não receava mostrar emoções.

       - É o russo que existe em ti - espicaçava-o Zoya por vezes, pensando em quanto se parecia com Nicolai, sobretudo quando o ouvia troçar de Sasha. O telefonema para a filha foi igualmente típico. Sasha dera-lhe uma lista de compras de tudo o que queria de Paris, que incluía um vestido vermelho e vários pares de sapatos franceses. À sua maneira, era tão amada quanto Natalya o fora e quase tão exigente. Interrogou-se sobre o que Mashka teria pensado deles, ou de corno teriam sido os seus próprios filhos, caso houvesse vivido e casado.

       Nessa noite foi um alívio adormecer e fugir às recordações. A viagem a Paris revelou-se muito mais difícil do que pensara e sonhou com Alexis, Marie e Tatiana, e as ouvia, tendo acordado às quatro da manhã e sendo incapaz de voltar a adormecer até quase às seis. Na manhã seguinte, sentia-se cansada quando mandou vir croíssants e café.

       - Alors, estamos prontas? - perguntou Axelle, aparecendo à porta com um belo conjunto Chanel vermelho, o cabelo branco impecavelmente penteado e a bolsa Hermés ao ombro. Parecia novamente muito francesa e Zoya pusera um vestido de seda azul e um casaco a condizer de Lanvin. Era da cor do céu, e apanhara o cabelo ruivo num rolo elegante.

       Ambas pareciam muito parisienses quando o porteiro lhes abriu a porta de um táxi, e Zoya reconheceu o sotaque do motorista. Era um dos inúmeros e idosos russos que continuavam a guiar táxis em Paris; porém, quando lhe perguntou se conhecia Vladimir, limitou-se a abanar a cabeça.

       Não se lembrava de lhe ouvir o nome nem de o ter conhecido. Era a primeira vez em anos que Zoya falava russo. Até mesmo com Sergei Obolenski falava francês. E Axelle escutou a musicalidade das palavras, até pararem nos Estúdios Schiaparelli, na Rue de la Paix.

       Tinham combinado começar por ali e foi uma loucura. Encomendaram dúzias de camisolas diferentes para a loja, conversaram longamente com a estilista, explicando as necessidades e preferências da clientela. Ela era uma mulher interessante e ficaram intrigadas ao descobrir que tinha apenas mais três anos que Zoya. Usufruía de um êxito notável à época, quase tão grande como o de Gabrielle Chanel, ainda instalada na Rue Cambon. Foi lá que se dirigiram a seguir c, mais tarde nesse mesmo dia, à Casa Balenciaga, onde Zoya escolheu vários vestidos de noite e os experimentou para lhes sentir o cair e o toque, enquanto Axelle a observava.

       - Devias ter sido estilista também - disse-lhe Axelle a sorrir. - Tens uma intuição surpreendente para roupas.

       - Sempre gostei de roupas bonitas - confessou, rodopiando nas intrincadas criações do gênio espanhol. - Mesmo em crianças, Marie e eu costumávamos olhar para as roupas que as nossas mães e as amigas delas usavam. - Riu ante a lembrança. - E éramos horríveis quanto às que achávamos que tinham mau gosto.

       Axelle apercebera-se do olhar distante e perguntou num tom suave.

       - Era tua irmã?

       - Não - apressou-se Zoya a responder. Era raro abrir as portas do passado a alguém e muito menos a Axelle, com quem mantinha quase sempre uma relação de negócios, mas estava demasiado próximo de casa naquele momento. - Era minha prima.

       - Uma das grã-duquesas? - Axelle pareceu logo impressionada quando Zoya esboçou um aceno de cabeça afirmativo. - Que coisa terrível tudo aquilo.

       Regressaram depois ao negócio e, na manhã seguinte, foram ver os esboços de Dior, tendo jantado no quarto nessa noite. Passaram em revista as listas do que tinham encomendado, do que tinham gostado e do que achavam que ainda precisavam. Axelle não ia comprar uma parte de tudo aquilo, mas queria apenas ver, a fim de desenhar esboços para a costureira que ocasionalmente lhe copiava os esboços de outros. Era muito habilidosa e dava muito dinheiro a ganhar a Axelle.

       Encontraram-se pessoalmente com Christian Dior, um homem encantador, e Axelle apresentou Zoya com o seu título. Nesse dia estava lá Lady Mendl, ex-Elsie de Wolfe, e, depois de elas saírem, forneceu a Dior os pormenores da vida de Zoya com Clayton.

       - Foi uma coisa horrível. Perderam tudo em mil novecentos e vinte e nove - explicou no momento em que apareceu WaIly Simpson. Dior era um grande fã dela, a qual entrou com os dois buldogues anões.

       Nessa tarde, Zoya e Axelle voltaram a visitar Elsa Schiaparelli, desta vez no seu salão mais luxuoso, construído na Place Vendôme há dois anos, e Zoya riu com o divertido sofá que Salvador Dali desenhara para ela com a forma de lábios. Falaram novamente nas camisolas e nos vários casacos que Axelle queria encomendar. Contudo, estavam a atingir rapidamente os limites do seu orçamento. Axelle queixou-se que o dinheiro desaparecia, pois era tudo encantador. Vivi uma altura excitante no âmbito da moda em Paris.

        Schiaparelli deixou-as, pois tinha uma entrevista com fabricante de casacos americano. Tal como Axelle, também ele era um dos seus melhores clientes estrangeiros, explicou quando uma das assistentes entrou e lhe murmurou algo ao ouvido.

       - Desculpam-me, minhas senhoras? A minha assistas vai mostrar-lhes os tecidos em que o casaco pode ser encomendado. Mister Hirsch espera-me no meu gabinete. - Despediu-se igualmente de Zoya, e as duas mulheres conferenciaram muito tempo com a assistente e encomendaram o casaco em vermelho, preto e num cinza que agradou particularmente a Zoya. Parecia favorecer as cores mais discretas, como na sua própria roupa. Pusera um vestido de um nu malva-claro, desenhado por Madame Grès, e que Axelle a deixara comprar com um enorme desconto.

       Quando saíram da loja, uma hora mais tarde, foram seguidas por um homem alto, com um tufo de cabelo preto e um rosto que parecia talhado em mármore por um mestre. Voltaram a vê-lo no elevador do hotel.

       - Não estou a segui-Ias. Também vivo aqui - declarou, olhando para Zoya com uma expressão juvenil. Depois estendeu a mão a Axelle. - Acho que compraram uns artigos, minha linha. Sou o Simon Hirsch.

       - Claro - sorriu ela, parecendo de novo muito francesa, agora que estava ali. O sotaque até se acentuara mais. - Sou a Axelle Dupuis - disse e lembrou-se rapidamente de Zoya. - Apresento-lhe a condessa Ossupov, a minha assistente. - Foi a primeira vez desde há muito tempo que Zoya se sentiu embaraçada com o título. Ele parecia um homem tão simples e agradável que se achou idiota ao dar-se ares quando lhe estendeu a mão.

       Tinha o aperto forte de um homem que dirigia um império seu e fitou os olhos verdes de Zoya com os seus, meigos e castanhos.

       - É russa? - inquiriu quando o elevador parou no andar delas, e Zoya sorriu, corando um pouco, um defeito que achava que a atormentaria durante a vida inteira.

       - Sou - anuiu num tom suave e admirando a forma como ele se movimentava. O quarto dele era aparentemente ao lado do delas e percorria os amplos corredores, fazendo de súbito com que parecessem demasiado estreitos. Tinha os ombros de um jogador de futebol e a energia de um rapazinho, enquanto caminhava.

       - Também eu. Ou melhor, a minha família. Nasci em Nova Iorque. Sorriu e as duas mulheres pararam junto ao quarto de Zoya. - Divirtam-se com as vossas compras. Bonne chance! - desejou num francês com um forte sotaque ao desaparecer no quarto.

       - Céus, como me doem os pés... - comentou Axelle quando entraram no quarto de Zoya e tiraram os sapatos. - Ainda bem que o conhecemos. Tem uma boa linha. Queria dar mais uma vista de olhos, antes de voltarmos. Precisamos de mais casacos para o próximo Outono e podemos comprar-lhe alguns modelos, se nos fizer um preço aceitável.

       Sorriu e Zoya mandou vir chá, depois do que passaram uma vez mais em revista as encomendas feitas. Só lhes restavam mais quatro dias na cidade, antes de regressarem a Nova Iorque no Queen Mary.

       - Na verdade, devíamos pensar mais em chapéus e sapatos - redargüiu Zoya pensativamente, fechando os olhos. Ternos de lhes dar mais do que apenas vestidos, fatos de noite e conjuntos... Foi sempre esse o nosso ponto forte. O aspecto geral de que tanto gostam.

       - É nisso que somos boas. - E depois fixou a bonita mulher de vestido cor de malva, de cabelo solto, e caindo-lhe como uma cascata pelos ombros. - Atraente, não?

       - Quem? - retorquiu Zoya de olhos muito abertos e obviamente confusa. Estava a tentar resolver se deviam encomendar a Chanel os chapéus a condizer com os fatos e se também deviam pensar em algumas das suas fabulosas jóias. As clientes possuíam tantas jóias pessoais, que não estava bem certa de que compreendessem a elegância do que Chanel estava a fazer.

       - O homem dos casacos de Nova Iorque, claro. Se tivesse vinte anos menos, tinha-o agarrado. - Zoya riu ante a imagem de uma senhora como Axelle a agarrar alguém. Quase conseguia ver o homem a voar pelo quarto, com a etiqueta de Axelle e riu face a idéia.

       - Gostava de ver.

       - Tem um rosto marcado, mas muito simpático. Gosto de homens assim. - Era quase tão alto como Clayton mas muito mais largo de ombros, e Zoya não voltara a pensar nele, desde que se haviam separado.

       - Vamos juntas quando eu for ao salão de exposição dele. Talvez te convide para jantar, pois são ambos russos. - Estava a brincar, mas não totalmente. Bem vira a forma como ele olhara para Zoya e o interesse estampado no rosto ao ouvir o título.

       - Não sejas idiota, Axelle. O pobre homem estava apenas a ser delicado.

       - Mon dieu! Esta minha vista não engana - redargüiu, acenando com um dedo a Zoya. - És nova de mais para te comportares como uma freira. Nunca sais com ninguém? - Era a primeira vez que se atrevia a fazer uma pergunta do gênero, mas estavam longe de casa e as perguntas pessoais tornavam-se mais fáceis ali, longe da loja e das clientes.

       - Nunca - sorriu Zoya com um ar estranhamente calmo. - Não desde que o meu marido morreu.

       - Mas isso é horrível! Que idade tens agora? - Esquecera-se.

       - Trinta e sete, ou seja de mais para agir como une debutante. Já vemos dessas que cheguem na loja. - Soltou uma risada, e Axelle semicerrou os olhos numa censura amistosa enquanto Zoya servia mais uma xícara de chá do tabuleiro de prata. Os luxos do Ritz começavam a tomar-se um hábito agradável.

       - Não sejas ridícula! - protestou. - Nessa idade, eu tinha dois amantes.

       - Deitou um olhar malicioso à sua jovem amiga. - Infelizmente, eram ambos casados. - Contudo, um deles ajudara-a a montar a loja. Era um boato que Zoya  tinha ouvido antes, mas a que nunca dera muito crédito. Talvez, afinal, fosse verdade. - De fato - acrescentou -, encontro-me com um homem muito simpático em Nova Iorque. Não se pode passar o resto da vida entre a loja e os filhos. Um dia crescerão e depois?

       Zoya riu, mas apreciou a preocupação de Axelle.

       - Trabalharei ainda mais. Na minha vida não há lugar para um homem, Axelle. Estou na loja até às seis da tarde todos os dias e depois ocupo-me da Sasha e do Nicky até às nove ou dez. Quando tomo banho, leio o jornal e um ou outro livro, passou o tempo. Adormecia sobre o prato, se alguém me levasse a sair. - Axelle sabia quanto ela trabalhava, mas tinha pena. Havia um doloroso vazio na vida da amiga mais nova e Axelle nem mesmo tinha a certeza de que ela se desse conta.

       - Talvez devesse despedir-te para teu próprio bem - brincou a mulher mais velha, mas ambas sabiam que não havia esse perigo. Zoya era agora demasiado importante para ela. Encontrara, finalmente, um porto seguro.

       Contudo, na manhã seguinte, quando regressaram à casa Dior, desta vez para discutir sapatos, avistaram Simon Hirsch a sair de um táxi.

       - Vejo que nos encontramos novamente. Tenho de tomar cuidado, ou acabam por vender os mesmos casacos que eu! - Todavia, não parecia preocupado. Voltou a mirar Zoya, vestida com um conjunto de linho rosa que quase lhe dava um ar de rapariguinha.

       - Não corre esse risco, Mister Hirsch - garantiu-lhe Axelle. - Viemos discutir sapatos.

       - Graças a Deus. - Seguiu-as até ao interior, encontraram-se de novo à saída e desta vez riram os três. - Talvez devêssemos combinar os horários para poupar tempo e dinheiro em táxis. - Sorriu a Zoya e consultou o relógio. Estava bem vestido, com sapatos ingleses de encomenda, um fato de bom corte e o relógio que tinha no pulso acabara de ser comprado na Cartier. - Têm tempo para almoçar ou estão demasiado ocupadas, minhas senhoras? - Zoya preparava-se para recusar, mas Axelle surpreendeu-a ao aceitar. E, sem mais delongas, Simon Hirsch fez sinal a um táxi e indicou a morada do novo Hotel George V. - Servem almoços excelentes. Fiquei lá da última vez que estive em Paris. - Exibia uma expressão grave, quando se aproximaram do hotel, mesmo à saída dos Campos Elísios. - Nessa altura, há um no, fui à Alemanha, mas desta vez não vou voltar. Foi extremamente desagradável. - Não se alargou sobre o tema pois saíram e, ao chegarem à sala de jantar, o chefe de mesa conduziu-os a uma mesa excelente. Mandaram vir o almoço, e ele perguntou a Axelle se iam a mais algum lado, mas ela respondeu que apenas tinham tempo para Paris. - Comprei uns tecidos fantásticos em Inglaterra e na Escócia antes de vir por causa da minha linha de homem. Belos artigos - replicou, encomendando o vinho, e Zoya manteve-se muito quieta na cadeira a observá-lo. - Contudo, não voltaria a pôr os pés na Alemanha - garantiu novamente. - Sobretudo com toda esta situação do Hitler.

       - Acha que ele vai realmente fazer o que se diz por aí? - Zoya ouvira falar na sua hostilidade para com os Judeus, mas não sabia bem se devia acreditar.

       - Não me parece que haja qualquer dúvida. Os nazis criaram uma atmosfera de anti-semitismo que se infiltrou por todo o país. Quase têm medo de falar uns com os outros. Na minha opinião, conduzirá a um grave problema. - Os olhos mostravam-se calmos mas com um brilho de raiva, e Zoya esboçou um aceno de cabeça.

       - Parece difícil de acreditar. - No entanto, também a revolução o era.

       - Esse tipo de loucura é sempre. A minha família deixou a Rússia por causa dos massacres dos judeus. E agora estão a começar aqui, obviamente de uma forma mais subtil, mas não muito. Não há nada de muito subtil na caça aos Judeus. - Os olhos emitiam um fulgor de raiva e as duas mulheres escutavam-no. Depois, e como que para mudar de assunto, virou-se para Zoya com um sorriso interessado. - Quando deixou a Rússia, condessa?

       - Por favor, trate-me por Zoya. - Corou, embaraçada. - Na «vida real», o meu nome é Zoya Andrews. - Os olhos encontraram-se e mantiveram-se fixos e, depois, ela desviou o rosto antes de responder à pergunta. - saí da Rússia em mil novecentos e dezessete. Logo após a revolução.

       - Deve ter passado uma época difícil. A sua família acompanhou-a?

       - Só a minha avó. - Agora já era capaz de falar no assunto. Levara quase vinte anos a consegui-lo. - Os outros foram mortos antes de virmos, a maioria. E alguns, um ano mais tarde. - Hirsch não se apercebeu de que ela se referia ao czar, nunca lhe ocorrendo que estivesse tão bem relacionada.

       - E foi, então, para Nova Iorque?

       - Não. - Sorriu agradavelmente, enquanto o empregado servia o vinho. Era um vinho Ótimo de 1926, encomendado por Simon. - Viemos para Paris. Vivi aqui dois anos antes de ir para Nova Iorque com o meu marido. - Os olhos dele procuraram a aliança e verificaram com pena que ainda continuava no dedo, mas Axelle também deu pelo olhar e conhecia Zoya o suficiente para saber que ela não daria mais explicações.

       - A condessa é viúva - interferiu providencialmente, e Zoya fitou-a, aborrecida.

       - Desculpe - pronunciou em tom grave, mas era visível que a informação lhe interessava. - Tem filhos?

       - Dois. Um filho e uma filha. - Parecia orgulhosa quando respondeu e ele sorriu. - E o senhor, Mister Hirsch? - Estava apenas a ser delicada enquanto aguardavam o almoço, mas Axelle parecia muito satisfeita com a conversa. Gostava dele e era óbvio que estava muito interessado em Zoya. - Também tem filhos?

       - Não. - Sorriu, abanando a cabeça com uma expressão de pena. Nunca casei, nem tive filhos. Não tive tempo. Passei os últimos vinte anos a construir um negócio. A maior parte da minha família trabalha para mim. O meu pai só se reformou no ano passado e penso que a minha mãe finalmente desistiu. Considera que, se não me casei até aos quarenta, já não há muita esperança que o faça. Costumava pôr-me doido. Sou filho único e ela queria dez netos ou coisa assim.

       Zoya sorriu maliciosamente, recordando as suas primeiras conversas com Mashkca, de como falavam em quantos filhos desejavam. Ela queria seis e Mashka quatro ou cinco, mas nenhuma das suas vidas correra como esperavam.

       - Possivelmente casará daqui a uns anos e irá surpreendê-la com cinco pares de gêmeos.

       Simon Hirsch fingiu engasgar-se com o vinho e depois pareceu divertido.

       - Terei de lhe dizer isso... ou talvez não, para que não me venha com a mesma conversa. - Nessa altura  trouxeram o almoço, finos croquetes de peixe para Axelle e codorniz para Zoya. Ele encomendara um bife e desculpou-se pelo seu gosto típico americano. - Posso fazer-lhes perguntas sobre a vossa viagem de compras, minhas senhoras, ou é tudo muito secreto? - Zoya sorriu e trocou um olhar com Axelle, parecia muito descontraída e respondeu em lugar dela.

       - Não acho que tenhamos muitos segredos a esconder-lhe, Mister Hirsch, exceto talvez o dos nossos casacos. - Todos riram e Zoya falou-lhe em algumas das coisas que haviam comprado, sobretudo das camisolas a Schiaparelli.

       - Aquele pulôver novo que ela está a fazer é sensacional - replicou Zoya com uma expressão satisfeita. - E os sapatos que encomendamos hoje na Dior são uma maravilha.

       - Terei de ir à loja ver tudo quando chegar. Compraram algum do novo rosa shocking da Elsa? - Gostava muito da cor, estava a planear inseri-Ia na nova linha e interrogava-se sobre a opinião de Zoya.

       - Ainda não tenho muitas certezas a esse respeito. É um pouco viva para algumas das nossas clientes.

        - Acho-a fantástica.

       Zoya sorriu. Era tão estranho ouvir aquele homem de aspecto rude, que mais parecia um jogador de futebol, a discutir o rosa shocking de Elsa Schiaparelli, mas não havia dúvida de que os casacos dele eram os de melhor corte dos Estados Unidos e era óbvio que tinha olho para a moda e as cores e sabia o que estava a fazer.

       - O meu pai era alfaiate - explicou Hirsch -, e o pai dele também. Abriu a Hirsch & Co. com os dois irmãos no Lower East Side. Faziam roupas e casacos para as pessoas conhecidas e depois alguém da Sétima Avenida ouviu falar deles, começou a encomendar-lhes artigos e o meu pai mandou tudo para o diabo... - Olhou com uma expressão de desculpa para Zoya que estava por demais interessada na história para se preocupar com a linguagem. ... Mudou-se para a Sétima Avenida, abriu uma oficina e, quando entrei no negócio, virei tudo de pernas para o ar com uma coisa chamada... moda.

       «Tivemos bastantes discussões - prosseguiu -, e, quando os meus tios se reformaram, atirei-me de cabeça, com lãs inglesas e algumas cores que quase puseram o meu pai a chorar. Também começamos a fazer casacos de senhora e... bom, nos últimos dez anos chegamos onde eu tinha previsto de início. É uma linha de qualidade, sobretudo agora que o meu pai se reformou e levo novos modelos de Paris.

       - É uma história interessante, Mister Hirsch - comentou Axelle. Era o tipo de história que construíra o sucesso do seu país adotado. - Os seus casacos são lindíssimos. Vendemo-los muito bem.

       - Fico satisfeito. - Sorriu e via-se que era um homem que estava à vontade na sua pele. Fizera um enorme sucesso e quase sozinho. - O meu pai disse que eu ia arruinar o negócio. Foi um verdadeiro voto de confiança quando se retirou no ano passado e agora finge que já não está interessado. Mas, sempre que saio, os meus alfaiates e costureiras dizem-me que ele aparece às escondidas e controla os ateliers. - Zoya riu e ele virou-se de novo para ela. - E a senhora, condessa... desculpe, Zoya... como foi parar à Axelle's?

       - Oh! - Riu, sentindo-se estranhamente à vontade com ele e mais próxima de Axelle do que alguma vez até então. - Por um longo e difícil caminho. - Depois, fez uma expressão séria. - Perdemos tudo no crash de vinte e nove - replicou com honestidade, e Axelle também sabia desse pormenor. - De uma noite para a outra, tivemos de vender as nossas duas casas, a mobília, as minhas roupas e peles, até mesmo a louça de porcelana.

       Era a primeira vez que falava realmente do assunto a Axelle e com à vontade.

       - Tinha dois filhos para sustentar e praticamente nenhuma especialidade. Dancei com os Ballets Russes aqui em Paris durante a guerra e também com outra companhia de bailado, nas em mil novecentos e vinte e nove tinha trinta anos e um pouco de idade a mais para voltar a dançar no ballet.

       Fitou-os com um sorriso divertido, e Axelle não estava de forma alguma preparada para o que ouviu a seguir.

       - Candidatei-me às Ziegfeld Follies, mas não tinha altura bastante e por isso consegui um emprego a dançar num teatro de terceira categoria.

       Axelle quedou-se boquiaberta, e Simon Hirsch fitou-a com um enorme respeito. Não eram muitas as mulheres capazes de passar da riqueza à miséria tão corajosamente nem de admitir terem dançado num clube.

       - Deves sentir-te surpreendida, Axelle. Ninguém sabe disto, nem mesmo os meus filhos. Foi horrível. Trabalhei lá durante um ano e meio e detestei cada minuto. Uma noite... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ante a recordação. - Uma noite houve um incêndio horrível quando eu estava a trabalhar e quase perdi os meus filhos. Eles são tudo o que me interessa e não podia deixá-los mais vezes sozinhos à noite; por isso, meti o que restava em dois caixotes, mudei-me para um hotel, um amigo emprestou-me cem dólares e bati à porta da Axelle.

       «Acho que ela nunca soube como eu estava desesperada - rematou com um olhar grato para a amiga, enquanto Axelle tentava deglutir o que acabara de ouvir, sentindo vontade de chorar. - E tive muita sorte por me ter dado emprego. Nunca saí de lá e espero não sair. - Sorriu aos seus ouvintes, sem saber quanto os comovera, sobretudo Simon. - E todos viveram muito felizes para sempre.

       - Que história! - exclamou ele, surpreendido, e Axelle levou um lenço rendado aos olhos.

       - Porque não me contaste tudo isso nessa altura?

       - Receava que não me contratasses. Teria feito tudo para conseguir esse emprego. Fui mesmo ao ponto de me vangloriar do título, algo que nunca fizera antes. - Riu, bem-humorada. - Se o tivesse feito, tenho a certeza de que me poriam a dançar enquanto alguém gritava dos bastidores: «E agora a nossa condessa!» Riram os três, mas Zoya mais à vontade do que os outros. Eles continuavam impressionados com a história e só Axelle sabia como as pessoas teriam sido maldosas, se soubessem que a condessa Ossupov dançara numa espécie de cabaré.

       - Na vida faz-se o que tem de se fazer - replicou. - Durante a guerra, alguns dos nossos amigos chegaram a apanhar pombos no parque para comer. - Simon interrogou-se sobre o que mais teria vivido. A revolução fora certamente um golpe brutal, com a morte de toda a família antes de ela ter fugido. Havia muito mais naquela figura vestida com o bonito fato de linho cor-de-rosa. Muito mais. E ele queria saber tudo. Foi com pena que viu o almoço chegar ao fim e as deixou no Ritz a caminho de se encontrar com o representante de uma fábrica francesa de onde queria encomendar mais tecidos.

       Apertou a mão a Zoya, que se mantinha junto ao táxi, e observou-a demoradamente ao afastar-se, pensando em como ela era uma mulher incrível. Queria saber tudo sobre ela, como escapara, como sobrevivera, qual era a sua cor favorita, o nome do cão, os piores medos enquanto criança.

       Parecia-lhe uma loucura, mas, no espaço de uma mera tarde, sabia que se apaixonara pela mulher dos seus sonhos. Levara quarenta anos, mas encontrara-a numa tarde, em Paris, a cinco mil quilômetros de casa.

      

       Foi com pena que Zoya viu chegar ao fim a viagem. Tinham-se divertido bastante e, na última noite, haviam jantado no Cordon Bleu e regressado devagar ao hotel. Axelle desejou-lhe uma boa noite de sono e agradeceu-lhe a ajuda na escolha da linha de Outono para a loja. Ainda estava surpreendida com a história que Zoya contara ao almoço, há uns dias, quando haviam almoçado no George V com Simon Hirsch. Conferiu-lhe uma nova sensação de respeito pela coragem de Zoya.

       Não voltaram a encontrá-lo e Zoya interrogou-se sobre se ainda estaria na cidade. Deixara-lhe um bilhete a agradecer-lhe o almoço e a desejar-lhe sorte para o resto da viagem e depois tinham andado ocupadas com o negócio. Haviam comprado os chapéus e, por fim, algumas das jóias na Casa Chanel.

       No último dia, Zoya fora às compras para os filhos. Descobrira, de fato, o vestido vermelho que Sasha desejava e comprou para Nicholas um bonito casaco, alguns livros em francês, língua que ele falava muito bem, e um pequeno relógio de ouro na Cartier que lhe lembrava o de Clayton. Comprou ainda para Sasha uma boneca francesa e uma pulseirinha em ouro.

       Tinha as malas carregadas com o que lhes comprara e já fechadas e preparadas para a viagem de volta ao Havre na manhã seguinte. Contudo, havia algo mais que estava a planear fazer essa noite e de que não falara. a Axelle.

       O dia seguinte era a Páscoa russa e decidira, depois de muita hesitação, ir à missa da meia-noite na catedral russa de Santo Alexandre Nevski. Fora uma resolução difícil de tomar. Tinha ido lá no passado, acompanhada por Clayton, Vladimir e Eugenia. Sabia, porém, que era incapaz de deixar Paris sem lá voltar uma vez mais. Era como se uma parte dela continuasse ali e jamais ficaria livre enquanto não regressasse lá c enfrentasse a situação. Nunca mais voltaria a casa. Sampetersburgo ficava demasiado longe, mas esta última peça do que fora a sua vida tinha de ser tocada e agarrada e sentida uma última vez, antes de regressar a Nova Iorque e até junto dos filhos.

       Despediu-se de Axelle e, às onze e meia, desceu as escadas e mandou parar um táxi. Indicou ao motorista o endereço na Rue Daru e, quando a viu, susteve a respiração... Ainda era a mesma... nada tinha mudado desde a véspera de Natal, há muito tempo, quando lá fora com a avó e Clayton.

       O oficio religioso ofereceu a mesma beleza de que se recordava e manteve-se solenemente de pé com os outros russos, cantando e participando no serviço, erguendo a vela e chorando em silêncio, sentindo a falta de todos e ao mesmo tempo a proximidade deles.

       Estava triste e ao mesmo tempo es