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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CÂMARA / John Grisham
A CÂMARA / John Grisham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CÂMARA

Primeira Parte

 

A decisão de pôr a bomba no escritório do advogado judeu radical foi tomada com relativa facilidade. Só três pessoas estavam envolvidas no processo. A primeira era o homem do dinheiro. A segunda, um operacional local que conhecia o terreno. E a terceira, um jovem patriota zeloso, com uma habilidade especial para os explosivos e uma aptidão para desaparecer sem deixar rasto. Depois da explosão da bomba, fugiu do país e escondeu-se na Irlanda do Norte durante seis anos.

O nome do advogado era Marvin Kramer, um judeu do Mississípi da quarta geração, cuja familia de comerciantes tinha prosperado no Delta. Vivia numa casa anterior à Guerra Civil em Greenville, uma cidade junto ao rio com uma pequena mas influente comunidade judaica, um local agradável com uma história de poucos conflitos raciais. Era advogado, porque o comércio o aborrecia. Como a maioria dos judeus de ascendência alemã, a sua familia integrara-se profundamente na cultura do Sul e viam-se a si mesmos apenas como sulistas típicos que, por acaso, professavam uma outra religião. O anti-semitismo raramente vinha ao de cima. Durante a maior parte do tempo, misturavam-se com o resto da sociedade estabelecida e faziam a sua vida.

Marvin era diferente. O pai mandara-o para o Norte, para Brandeis, no fim dos anos 50. Passara aí quatro anos e depois mais três na faculdade de Direito em Colúmbia e, quando regressara a Greenville em 1964, o movimento dos direitos civis tinha o Mississípi como palco central. Marvin envolveu-se profundamente nesta luta. Menos de um mês depois de abrir o seu pequeno escritório de advocacia, foi preso juntamente com dois dos seus colegas de Brandeis, por tentar registar eleitores negros. O pai ficou furioso. A família sentiu-se embaraçada, mas Marvin não se importava nada com isso. Recebeu a sua primeira ameaça de morte aos vinte e cinco anos e começou a andar armado. Comprou uma pistola para a mulher, uma rapariga de Memphis, e deu instruções à criada negra para andar com uma na carteira. Os Kramer tinham dois filhos gémeos de dois anos de idade.

Em 1965, o primeiro processo de direitos civis interposto pelo escritório de Marvin B. Kramer e Associados (ainda não havia associados) alegava uma multiplicidade de práticas eleitorais discriminatórias por parte das autoridades locais. O processo foi notícia de primeira página em todos os jornais do estado e a fotografia de Marvin foi publicada. O seu nome também foi parar a uma lista do Klan de judeus a molestar. Aqui estava um advogado judeu radical, de barbas e coração piedoso, educado no Norte por judeus e marchando agora ao lado e em defesa dos negros no delta do Mississípi. Não seria tolerado.

Mais tarde, houve rumores de que o advogado Kramer pagara do seu próprio bolso a fiança de alguns Cavaleiros da Liberdade e outros trabalhadores dos direitos civis. Instruiu processos atacando as instalações só para brancos. Financiou a reconstrução de uma igreja negra destruída por uma bomba do Klan. Foi mesmo visto a acolher negros na sua própria casa. Discursou perante comunidades judaicas no Norte, incitando-as a participar na luta. Escreveu cartas devastadoras para os jornais, das quais poucas foram publicadas. O advogado Kramer marchava corajosamente para a perdição.

A presença de um guarda-nocturno que patrulhava benignamente junto aos canteiros impediu um ataque à casa dos Kramer. Havia dois anos que Marvin pagava ao guarda. Tinha sido polícia, andava pesadamente armado e os Kramer fizeram saber em toda a Greenville que estavam sob a protecção de um atirador experiente. Claro que o Klan sabia tudo acerca do guarda e também que devia deixá-lo em paz. Assim, foi tomada a decisão de colocar uma bomba no escritório de Marvin e não na sua casa.

O planeamento da operação propriamente dita levou muito pouco tempo, principalmente por haver tão poucas pessoas envolvidas. O homem do dinheiro, um ostensivo profeta e camponês branco chamado Jeremiah Dogan, era na época o Feiticeiro Imperial do Klan no Mississípi. O seu antecessor fora enviado para a prisão e Jerry Dogan estava a divertir-se imenso a dirigir os atentados à bomba. Não era estúpido. Na realidade, o FBI admitiu mais tarde que Dogan era eficiente como terrorista, porque delegava o trabalho sujo em pequenos grupos autónomos de choque que trabalhavam independentemente uns dos outros. O FBI tornara-se perito na infiltração de informadores no seio do Klan e Dogan não confiava em ninguém, excepto nos familiares e alguns cúmplices escolhidos. Era o proprietário do maior stand de venda de carros usados em Meridian, Mississípi, e ganhara muito dinheiro em toda a espécie de negócios escuros. Às vezes, pregava em igrejas rurais.

O segundo membro do grupo era um homem do Klan chamado Sam Cayhall, de Clanton, Mississípi, em Ford County, três horas a norte de Meridian e uma hora a sul de Memphis. Cayhall era conhecido do FBI, mas não a sua ligação a Dogan. O FBI considerava-o inofensivo, pois vivia numa área do estado em que a actividade do Klan era praticamente nula. Recentemente, tinham sido queimadas algumas cruzes em Ford County, mas não houvera explosões de bombas nem mortes. O FBI sabia que o pai de Cayhall pertencera ao Klan, mas no conjunto a família parecia bastante pacífica. O recrutamento de Sam Cayhall foi uma brilhante jogada de Dogan.

O atentado à bomba ao escritório de Kramer começou com um telefonema na noite de 17 de Abril de 1967. Suspeitando, com razão, que os seus telefones estavam sob escuta, Jeremiah Dogan esperou até à meia-noite e dirigiu-se ao telefone público de uma estação de serviço a sul de Meridian. Também suspeitava de que estava a ser seguido pelo FBI e tinha razão. Observavam-no, mas não faziam ideia do destino da chamada telefónica.

Sam Cayhall escutou em silêncio do outro lado, fez uma ou duas perguntas e, em seguida, desligou. Voltou para a cama e não disse nada à mulher. Ela sabia que era melhor não fazer perguntas. Na manhã seguinte, saiu de casa cedo e dirigiu-se à cidade de Clanton. Tomou o pequeno-almoço habitual no The Coffee Shop e fez uma chamada do telefone público do tribunal de Ford County.

Dois dias mais tarde, a 20 de Abril, Cayhall saiu de Clanton ao escurecer e guiou durante duas horas até Cleveland, Mississípi, uma cidade universitária no Delta, situada a uma hora de Greenville. Aguardou quarenta minutos no parque de estacionamento de um centro comercial, mas não viu quaisquer sinais de um Pontiac verde. Comeu frango frito num restaurante barato e, em seguida, dirigiu-se para Greenville para vigiar o escritório de advocacia de Martin B. Kramer e Associados. Dois dias antes, Cayhall passara um dia em Greenville e conhecia a cidade bastante bem. Descobriu o escritório de Kramer, depois passou pela sua imponente casa e a seguir procurou a sinagoga. Dogan dissera que a sinagoga talvez fosse a próxima, mas primeiro precisavam de atacar o advogado judeu. Por volta das onze, Cayhall regressara a Cleveland e o Pontiac verde estava estacionado não no parque de estacionamento mas na paragem de camiões da Estrada 61, um local secundário. Encontrou a chave da ignição debaixo do tapete do condutor, meteu-se no carro e deu um passeio pelos férteis campos agrícolas do Delta. Entrou numa estrada de terra batida e abriu o porta-bagagem. Numa caixa de cartão tapada com jornais, encontrou quinze barras de dinamite, três cápsulas e um estopim. Voltou para a cidade e esperou num café aberto toda a noite.

Precisamente às duas horas da manhã, o terceiro membro do grupo entrou no café de estrada cheio de gente e sentou-se em frente de Sam Cayhall. Chamava-se Rollie Wedge, um jovem que não tinha mais de vinte e dois anos, mas um veterano de confiança da luta contra os direitos civis. Dizia ser de Louisiana, mas que estava a viver presentemente nas montanhas num local onde não podia ser descoberto e, embora nunca se gabasse, disse várias vezes a Sam Cayhall que esperava morrer na luta pela supremacia branca. O seu pai era membro do Klan e empreiteiro de demolições e Rollie aprendera com ele a manejar explosivos.

Sam sabia muito pouco acerca de Rollie Wedge e não acreditou na maior parte do que ele lhe disse. Nunca perguntou a Dogan onde descobrira o garoto.

Beberam café e conversaram durante uma hora sobre coisas sem importância. Ocasionalmente, a chávena de Cayhall tremia com o nervosismo, mas a de Rollie mantinha-se tranquila e firme. Os seus olhos nunca piscavam. Já tinham trabalhado muitas vezes juntos e Cayhall maravilhava-se perante a frieza de alguém tão jovem. Relatara a Jeremiah Dogan que o garoto nunca se excitava, nem sequer quando se aproximavam dos alvos e ele manejava a dinamite.

O carro de Wedge fora alugado no aeroporto de Memphis. Retirou uma pequena mala do assento traseiro, trancou o carro e deixou-o na paragem de camiões. O Pontiac verde com Cayhall ao volante deixou Cleveland e dirigiu-se para sul pela Estrada 61. Eram quase três horas da manhã e não havia trânsito. Alguns quilómetros a sul da aldeia de Shaw, Cayhall virou para uma estrada escura de cascalho e parou. Rollie deu-lhe ordens para ficar no carro enquanto inspeccionava os explosivos. Sam fez o que lhe diziam. Rollie levou a mala para o porta-bagagem, onde fez o inventário da dinamite, das cápsulas e do rastilho. Deixou a mala no porta-bagagem, fechou-o e disse a Sam para seguir para Greenville.

Passaram pela primeira vez pelo escritório de Kramer às quatro horas da manhã. A rua estava deserta e escura e Rollie disse qualquer coisa no sentido de trabalhos que já tinha feito, aquele seria o mais fácil de todos.

- É uma pena não podermos pôr uma bomba na casa dele - disse Rollie suavemente enquanto passavam pela casa de Kramer.

- Sim, é uma pena - disse Sam nervosamente. - Mas têm um guarda, sabes...

- Sim, eu sei, mas o guarda seria fácil.

- Sim, acho que sim, mas há lá crianças, sabes.

- É matá-los enquanto são pequenos - disse Rollie. - Os bastardozinhos judeus crescem e tornam-se bastardos judeus adultos.

Cayhall estacionou o carro num beco nas traseiras do escritório de Kramer. Desligou a ignição e ambos abriram silenciosamente o porta- bagagem, retiraram a caixa e deslizaram ao longo de uma sebe que conduzia à porta das traseiras.

Sam Cayhall arrombou a porta com um pé-de-cabra e em poucos segundos estavam lá dentro. Duas semanas antes, Sam apresentara-se à recepcionista com a desculpa de pedir informações e, em seguida, pedira para usar a casa de banho. No átrio principal, entre a casa de banho e o que parecia ser o escritório de Kramer havia um armário estreito cheio de processos antigos e outra papelada legal.

- Fica ao pé da porta e vigia o beco - murmurou Wedge friamente e Sam fez exactamente o que lhe era dito. Preferia agir como vigia e evitar manejar os explosivos.

Rollie pousou rapidamente a caixa no chão do armário e ligou a dinamite. Era um trabalho delicado e o coração de Sam batia sempre rapidamente enquanto esperava. Virava sempre as costas aos explosivos, para o caso de alguma coisa correr mal.

Estiveram no escritório menos de cinco minutos. Em seguida, estavam de volta ao beco, caminhando despreocupadamente na direcção do Pontiac verde. Estavam a tornar-se invencíveis. Era tudo tão fácil. Tinham posto uma bomba num escritório de compra e venda de imóveis em Jackson, porque o proprietário vendera uma casa a um casal de negros. Um negociante judeu. Tinham posto uma bomba num pequeno jornal, porque o editor manifestara a sua neutralidade em relação à segregação. Tinham demolido uma sinagoga de Jackson, a maior do estado.

Atravessaram o beco às escuras e, enquanto o Pontiac verde entrava na rua lateral, acenderam os faróis.

Em cada um dos atentados anteriores, Wedge tinha usado um rastilho de quinze minutos, que se acendia simplesmente com um fósforo, muito semelhante a um foguete. E como parte do exercício, a equipa de bombistas gostava de atravessar de janelas abertas um ponto nos arrabaldes da cidade, no exacto momento em que a explosão destruía o alvo. Tinham ouvido e sentido cada uma das explosões anteriores, a uma distância confortável, enquanto escapavam tranquilamente.

Mas esta noite seria diferente. Sam virou algures numa rua errada e, subitamente encontravam-se parados numa passagem de nível, contemplando as luzes intermitentes, enquanto um comboio de mercadorias passava à frente deles com um ruído de ferros. Um comboio de mercadorias bastante comprido. Sam olhou para o relógio mais de uma vez. Rollie não disse nada. O comboio parou e Sam enganou-se novamente. Estavam perto do rio, com uma ponte à distância e a rua era ladeada por casas em ruínas. Sam olhou novamente para o relógio. A terra tremeria dentro de menos de cinco minutos e ele preferiria estar a rodar calmamente na escuridão de uma estrada solitária quando tal acontecesse. Rollie impacientou-se uma vez como se estivesse a ficar irritado com o condutor, mas não disse nada.

Outra volta, outra rua. Greenville não era uma cidade assim tão grande e se continuasse a virar, pensou Sam, talvez conseguisse encontrar o caminho que os levasse a uma rua conhecida. A quarta volta errada foi também a última. Sam carregou nos travões assim que compreendeu que tinha entrado numa rua de sentido único na direcção errada. Quando ele travou, o motor foi-se abaixo. Engrenou em ponto morto e ligou a ignição. O motor girou perfeitamente, mas não arrancou. Em seguida, o cheiro da gasolina.

- Raios! - exclamou Sam por entre os dentes cerrados. Raios!

Rollie recostou-se no assento e olhou pela janela.

- Raios! Está afogado! - Rodou novamente a chave com o mesmo resultado.

- Não gastes a bateria - disse Rollie lenta e calmamente.

Sam estava quase a entrar em pânico. Embora estivesse perdido, pressentia que não se encontravam longe do centro. Respirou profundamente e estudou a rua. Olhou de relance para o relógio. Não havia mais carros à vista. Estava tudo em silêncio. Era o cenário ideal para o rebentamento de uma bomba. Conseguia imaginar o rastilho a arder pelo chão de madeira. Conseguia sentir a vibração do solo. Conseguia ouvir o rugido da madeira, das chapas, dos tijolos e vidros a despedaçarem-se. Raios, pensou Sam enquanto tentava acalmar-se, podemos ser atingidos pelos fragmentos.

- O Dogan podia ter mandado um carro decente - resmungou consigo mesmo. Rollie não respondeu, mantendo os olhos fixos em qualquer coisa para lá da janela.

Tinham passado pelo menos quinze minutos desde que haviam saído do escritório de Kramer e estava na hora do fogo de artifício. Sam limpou as gotas de suor da testa e experimentou mais uma vez a ignição. Misericordiosamente, o motor pegou. Sorriu para Rollie que parecia completamente indiferente. Fez o carro recuar alguns metros e, em seguida, arrancou a toda a velocidade. A primeira rua pareceu-lhe familiar e dois quarteirões mais abaixo estavam na Main Street.

- Que tipo de rastilho usaste? - perguntou Sam finalmente, enquanto viravam para a Estrada 82, a menos de dois quarteirões do escritório de Kramer.

Rollie encolheu os ombros, como se fosse um problema seu e Sam não devesse perguntar. Abrandaram ao passarem por um carro da polícia estacionado e, em seguida, aceleraram novamente no extremo da cidade. Em poucos minutos, Greenville ficara para trás.

- Que tipo de rastilho usaste? - perguntou Sam novamente, com uma nota de irritação na voz.

- Experimentei uma coisa nova - respondeu Rollie sem olhar.

- O quê?

- Não compreenderias - disse Rollie e Sam abrandou.

- Um temporizador? - perguntou alguns quilómetros mais à frente.

- Qualquer coisa desse género.

Dirigiram-se para Cleveland em completo silêncio. Durante alguns quilómetros, enquanto as luzes de Greenville desapareciam na planície, Sam ficou à espera de ver uma bola de fogo ou de ouvir um rugido distante. Nada aconteceu. Wedge conseguiu mesmo passar pelo sono.

Quando chegaram, o café da paragem de camiões estava cheio de gente. Como sempre, Rollie saltou do assento e fechou a porta.

- Até à próxima - disse com um sorriso pela janela aberta e, em seguida, dirigiu-se para o carro alugado. Sam observou-o a afastar-se e maravilhou-se mais uma vez com a frieza de Rollie Wedge.

Passavam agora alguns minutos das cinco e meia da manhã e, para leste, uma sugestão de laranja começava a penetrar a escuridão. Sam conduziu o Pontiac verde para a Estrada 61 e dirigiu-se para sul.

O horror do atentado contra Kramer começou realmente mais ou menos na altura em que Rollie Wedge e Sam Cayhall se separaram em Cleveland. Começou com um despertador em cima de uma mesa de cabeceira perto da almofada de Ruth Kramer. Quando começou a tocar às cinco e meia da manhã, Ruth compreendeu imediatamente que estava muito doente. Tinha uma febre ligeira, uma terrível dor nas têmporas e sentia-se nauseada. Marvin amparou-a até à casa de banho próxima, onde ela permaneceu durante trinta minutos. Há um mês que circulava em Greenville um terrível vírus de gripe, que tinha agora entrado na casa dos Kramer.

Às seis e meia, a criada acordou os gémeos, Josh e John, agora com cinco anos, deu-Lhes banho rapidamente, vestiu-os e alimentou-os. Marvin pensou que seria melhor levá-los ao infantário como estava previsto, afastando-os de casa e, segundo esperava, do vírus. Telefonou a um médico amigo pedindo uma receita e deixou vinte dólares à criada para ir buscar o medicamento à farmácia dentro de uma hora. Despediu-se de Ruth, que estava deitada no chão da casa de banho com uma almofada debaixo da cabeça e um saco de gelo na cara, e saiu de casa com os filhos.

Nem todos os seus casos estavam relacionados com os processos de direitos civis; não havia casos desses em número suficiente no Mississípi em 1967 para sobreviver. Tratava de alguns casos criminais e de outras matérias civis de carácter geral: divórcios, partilhas, falências, direitos reais. E apesar do facto de o pai mal lhe dirigir a palavra e do resto dos Kramer nem sequer pronunciarem o seu nome, Marvin passava um terço do seu tempo no escritório a tratar dos negócios da família. Nessa manhã em particular, teria de estar no tribunal às nove horas da manhã para contestar num processo relativo à propriedade do tio.

Os gémeos adoravam o escritório de advocacia. Só tinham de estar no infantário às oito horas, por isso Marvin poderia trabalhar um pouco antes de deixar os rapazes e dirigir-se ao tribunal. Isto acontecia talvez uma vez por mês. Na realidade, quase nunca se passava um dia sem que um dos rapazes lhe pedisse para os levar ao escritório antes de irem para o infantário.

Chegaram ao escritório cerca das sete e meia da manhã e, uma vez lá dentro, os gémeos dirigiram-se directamente para a mesa da secretária e para a espessa pilha de papel de dactilografia, à espera de ser cortado, copiado, agrafado e dobrado em envelopes. O escritório era uma estrutura que se estendia, construído ao longo do tempo, com acrescentos aqui e ali. A porta principal abria para um pequeno átrio, onde a secretária da recepcionista se situava quase debaixo de uma escada. Havia quatro cadeiras encostadas à parede, para os clientes que esperavam. Havia revistas espalhadas debaixo das cadeiras. À direita e à esquerda do átrio havia pequenos gabinetes para os advogados - agora, Marvin tinha três sócios a trabalhar com ele. Um corredor partia directamente do átrio atravessando o centro do piso inferior, e por isso da porta principal era possível ver as traseiras do edifício a uma distância de cerca de dois metros e meio. O gabinete de Marvin era a sala maior do piso inferior e era a última porta à esquerda, ao lado do armário atravancado. Do outro lado do átrio, em frente ao armário, ficava o gabinete da secretária de Marvin. Chamava-se Helen, uma elegante jovem com a qual Marvin sonhava há dezoito meses.

No segundo andar ficavam os pequenos gabinetes de outro advogado e de duas secretárias. O terceiro andar não tinha aquecimento nem ar-condicionado e era utilizado como armazém.

Normalmente chegava ao escritório entre as sete e meia e as oito horas, porque apreciava uma hora tranquila antes de os outros chegarem e de o telefone começar a tocar. Como sempre, na sexta-feira, dia 21 de Abril, foi o primeiro a chegar.

Abriu a porta principal, acendeu a luz e parou no átrio. Avisou os gémeos para não desarrumarem a secretária de Helen, mas eles já estavam do outro lado do átrio e não ouviram uma palavra. Josh já tinha a tesoura na mão e John o agrafador quando Marvin enfiou a cabeça pela porta e os repreendeu. Sorriu para si mesmo e depois dirigiu-se ao gabinete, onde depressa mergulhou na investigação.

Cerca de um quarto para as oito, segundo se lembraria mais tarde no hospital, Marvin subiu as escadas até ao terceiro andar para ir buscar um antigo processo que, segundo pensara na altura, podia ser relevante para o caso que estava a preparar. Murmurou qualquer coisa consigo mesmo enquanto trepava os degraus. Como as coisas se passaram, o velho processo salvou-lhe a vida. Os rapazes estavam a rir algures ao fundo do átrio.

A explosão projectou-se para cima e na horizontal a vários milhares de metros por segundo. Quinze paus de dinamite no centro de um edifício de madeira reduzem-no a pó e cinzas numa questão de segundos. Foi preciso cerca de um minuto para que as lascas de madeira quebradas e outros destroços regressassem à terra. O chão pareceu tremer como num pequeno tremor de terra e, como as testemunhas mais tarde contaram, pedaços de vidro choveram sobre o centro de Greenville durante o que pareceu uma eternidade.

Josh e John Kramer encontravam-se a menos de quatro metros do epicentro da explosão e felizmente nunca tiveram consciência do que os atingiu. Os seus corpos mutilados foram encontrados sob dois metros e meio de destroços pelos bombeiros locais. Marvin Kramer, primeiro, foi lançado contra o tecto do terceiro piso e, depois, inconsciente, caiu junto com os restos do telhado na cratera fumegante que era o centro do edifício. Foi encontrado vinte minutos mais tarde e imediatamente transportado para o hospital. Em três horas, ambas as suas pernas tinham sido amputadas pelo joelho.

A explosão deu-se exactamente às sete horas e quarenta e seis minutos e isto já foi uma sorte. Helen, a secretária de Marvin, estava a sair da estação dos correios, a quatro quarteirões dali, e sentiu a explosão. Mais dez minutos e encontrar-se-ia lá dentro a fazer café. David Lukland, um dos jovens sócios da firma, vivia a três quarteirões e acabara de fechar a porta do apartamento quando ouviu e sentiu a explosão. Mais dez minutos e estaria a escolher o correio no seu gabinete do segundo andar.

Ateou-se um pequeno fogo no edifício de escritórios ao lado e, embora fosse rapidamente controlado, acrescentou muito à excitação. Por alguns momentos, o fumo foi muito denso, o que levou as pessoas a fugir.

Apenas dois transeuntes ficaram feridos. Uma secção de noventa centímetros de uma parede de seis metros quadrados caiu num passeio a cerca de noventa metros, balançou e atingiu Mrs. Mildred Talton em pleno rosto, quando saía do carro e olhava na direcção da explosão. Ficou com o nariz partido e uma ferida aberta, mas recuperou devidamente.

O segundo ferimento foi menor, mas muito significativo. Um estranho chamado Sam Cayhall caminhava lentamente na direcção do escritório de Kramer quando a terra tremeu tão fortemente que ele vacilou e tropeçou na berma da rua. Enquanto tentava levantar-se, foi atingido no pescoço e na face esquerda por pedaços de vidro. Abrigou-se atrás de uma árvore enquanto estilhaços e bocados choviam à sua volta. Contemplou a devastação à sua frente e depois fugiu.

O sangue escorria-lhe do rosto e ensopava-lhe a camisa. Estava em estado de choque e, mais tarde, não se recordaria muito claramente da cena. Conduzindo o mesmo Pontiac verde, afastou-se velozmente do centro e teria quase certamente saído mais uma vez de Greenville em segurança, se estivesse em estado de pensar e tivesse tomado cuidado. Dois polícias num carro-patrulha aceleravam em direcção ao centro comercial em resposta à chamada de bomba quando depararam com um Pontiac verde que, por qualquer razão, se recusava a afastar-se e a dar-lhes passagem. O carro-patrulha tinha as sirenes ligadas, luzes a piscar, buzinas a tocar e polícias a praguejar, mas o Pontiac verde estava simplesmente imobilizado na sua faixa e não se movia. Os polícias pararam, correram para ele, abriram a porta com um empurrão e encontraram um homem ensanguentado. As algemas fecharam-se em torno dos pulsos de Sam. Foi rudemente empurrado para o assento traseiro do carro da polícia e conduzido à prisão. O Pontiac foi apreendido.

A bomba que matara os gémeos Kramer era do tipo mais grosseiro. Quinze paus de dinamite estreitamente apertados com fita adesiva cinzenta. Mas não havia rastilho. Em vez dele, Rollie Wedge usara um dispositivo de detonação, um temporizador, um despertador de corda barato. Retirara o ponteiro dos minutos do relógio e fizera um pequeno orifício entre os números sete e oito. Nesse orifício inserira um pino de metal que, ao ser tocado pelo ponteiro das horas rolante, completaria o circuito e faria detonar a bomba. Rollie queria mais tempo do que aquele que um rastilho de quinze minutos podia proporcionar. Além disso, considerava-se um perito e queria experimentar novos dispositivos.

Talvez o ponteiro das horas estivesse ligeiramente deformado. Talvez o mostrador do relógio não fosse completamente plano. No seu entusiasmo, Rollie talvez Lhe tivesse dado corda de mais ou de menos. Talvez o pino de metal não estivesse certo com o mostrador. Afinal, era a primeira experiência de Rollie com um temporizador. Ou talvez o temporizador tivesse funcionado exactamente como planeado.

Mas fosse qual fosse a razão ou a desculpa, a campanha bombista de Jeremiah Dogan e do Ku Klux Klan derramara sangue judeu no Mississípi. E, para todos os efeitos práticos, a campanha terminara.

 

Depois de os corpos terem sido removidos, a polícia de Greenville selou a área em volta das ruínas e manteve a multidão afastada. Horas depois, o território foi entregue a uma equipa do FBI de Jackson e, antes de escurecer, uma unidade de demolição estava a examinar meticulosamente os destroços. Dezenas de agentes do FBI iniciaram solenemente a monótona tarefa de recolher cada pedacinho, examiná-lo, mostrá-lo a mais alguém e, em seguida, embalá-lo para ser ajustado num outro dia. Um armazém de algodão vazio nos arredores da cidade foi alugado e transformado em repositório dos destroços Kramer.

Com o tempo, o FBI acabaria por confirmar aquilo que presumira desde o início. Dinamite, um temporizador e alguns fios. Apenas uma bomba rudimentar construída por um mercenário com sorte suficiente para não se ter matado.

Marvin Kramer foi rapidamente enviado para um hospital mais luxuoso em Memphis e o seu estado dado como crítico, mas estável, durante três dias. Ruth Kramer foi hospitalizada em estado de choque, primeiro em Greenville e, mais tarde, levada de ambulância para o mesmo hospital em Memphis. Mr. e Mrs. Kramer partilhavam um quarto e também uma considerável quantidade de sedativos. Médicos e parentes sem fim velavam por eles. Ruth nascera e fora criada em Memphis, por isso havia muitos amigos para cuidarem dela.

À medida que a poeira assentava em volta do escritório de Marvin, os vizinhos, alguns comerciantes e outros funcionários de escritório, varriam os vidros do passeio e murmuravam entre si, observando a polícia e os bombeiros que começavam a escavar. Um poderoso rumor percorrera o centro de Greenville, afirmando que já fora detido um suspeito. Por volta do meio-dia, no dia da explosão, era do conhecimento geral entre os grupos de observadores que o nome do homem era Sam Cayhall de Clanton, Mississípi, que era membro do Klan e que, de uma forma qual quer, fora ferido no ataque. Um relatório dava pormenores horríveis de outros atentados de Cayhall com todo o tipo de ferimentos repulsivos e corpos desfigurados, mas todos envolvendo apenas pobres negros. Outro relatório falava do brilhante heroísmo da polícia de Greenville ao localizar este louco apenas poucos segundos depois da explosão. Nas notícias do meio-dia, a estação de TV de Greenville confirmou o que já era sabido, que as duas crianças tinham morrido, que o pai fora gravemente ferido e que Sam Cayhall se encontrava detido.

Sam Cayhall esteve prestes a ser libertado mediante o pagamento de uma multa de trinta dólares. Na altura em que foi conduzido à esquadra da polícia, tinha caído em si e desculpara-se suficientemente perante os furiosos polícias, por não se ter submetido como eles desejavam. Foi preso sob uma acusação menor e mandado para uma sala de detenção para lhe ser levantado o subsequente processo e ser libertado. Os dois agentes que haviam procedido à detenção partiram rapidamente para inspeccionar a explosão.

Um porteiro que também exercia funções de paramédico na prisão aproximou-se de Sam com uma mala de primeiros socorros envelhecida e lavou-lhe o sangue seco do rosto. A hemorragia tinha parado. Sam voltou a repetir que se deixara envolver numa briga num bar. Noite dura. O paramédico saiu e, uma hora mais tarde, um assistente prisional apareceu na janela de correr da sala de detenção com mais papéis. A acusação consistia na recusa de ceder caminho a um veículo de emergência e a multa máxima eram trinta dólares; se Sam pudesse pagar esta soma em dinheiro, estaria livre assim que os papéis estivessem prontos e o carro fosse liberado. Sam andava nervosamente de um lado para o outro na sala, olhando para o relógio e esfregando suavemente a ferida do rosto.

Seria obrigado a desaparecer. Existia um registo da sua detenção e aqueles idiotas não levariam muito tempo a relacionar o seu nome com o atentado e, então, bem, teria que fugir. Abandonaria o Mississípi, talvez se juntasse a Rollie Wedge e partisse para o Brasil ou outro sítio qualquer. Dogan dar-lhes-ia o dinheiro. Telefonaria a Dogan assim que saísse de Greenville. Tinha o carro na paragem de camiões de Cleveland. Aí trocaria de carro, dirigir-se-ia para Memphis e apanharia um autocarro da Greyhound. Era isso que ia fazer. Fora um idiota por ter regressado ao cenário do atentado mas, pensou, se mantivesse o sangue- frio aqueles palhaços libertá-lo-iam.

Passou meia-hora até o assistente prisional regressar com outro impresso. Sam entregou-lhe trinta dólares em dinheiro e recebeu um recibo. Seguiu o homem através de um corredor estreito até à entrada da prisão, onde foi notificado para comparecer no Tribunal Municipal de Greenville dentro de duas semanas.

- Onde está o carro? - perguntou ele enquanto dobrava a notificação.

- Vão trazê-lo. Espere aqui.

Sam olhou para o relógio e esperou durante quinze minutos. Através da pequena janela de uma porta de metal, observou carros a partir e a chegar ao parque de estacionamento em frente da prisão. Dois bêbados foram arrastados até à secretária por um polícia corpulento. Sam estremeceu e esperou.

Algures atrás dele, uma voz chamou-o suavemente:

- Mr. Cayhall. - Voltou-se e encarou um homem baixo usando um fato muito coçado. Um cartão de identificação foi agitado debaixo do nariz de Sam.

- Sou o detective Ivy do Departamento de Polícia de Greenville. Precisava de lhe fazer algumas perguntas. - Ivy acenou na direcção de uma fila de cadeiras de madeira ao longo de um corredor e Sam seguiu-o obedientemente.

Desde o primeiro momento em que se sentou à suja secretária em frente do detective Ivy, Sam Cayhall teve pouco a dizer. Ivy tinha pouco mais de quarenta anos, mas tinha o cabelo branco e pesadas rugas em volta dos olhos. Acendeu um Camel sem filtro, ofereceu um a Sam e, em seguida, perguntou-lhe como cortara a face. Sam brincou com o cigarro, mas não o acendeu. Deixara de fumar há anos e, embora sentisse a necessidade de recomeçar nesse momento crítico, limitou-se a batê-lo suavemente na mesa. Sem olhar para Ivy, respondeu que talvez se tivesse envolvido numa briga.

Ivy soltou uma espécie de grunhido com um pequeno sorriso como se esperasse aquele tipo de resposta e Sam compreendeu que se encontrava perante um profissional. Agora estava assustado e as mãos começaram a tremer-lhe. Ivy, evidentemente, reparou em tudo isto. Onde fora a briga? Com quem estivera a lutar? Quando é que fora? Porque é que tivera uma briga aqui em Greenville quando vivia a três horas de distância? Onde arranjara o carro?

Sam nada disse. Ivy inundou-o de perguntas, às quais Sam não podia responder porque as mentiras conduziriam a mais mentiras e Ivy tê-lo-ia todo embrulhado numa questão de segundos.

- Gostaria de falar com um advogado - disse Sam finalmente.

- Excelente, Sam, é exactamente isso que acho que deve fazer. - Ivy acendeu outro Camel e soprou para o tecto uma espessa nuvem de fumo.

- Tivemos a explosão de uma pequena bomba esta manhã, Sam. Sabia disso? - perguntou Ivy, erguendo ligeiramente o tom de voz de forma trocista.

- Não.

- Uma tragédia. O escritório de um advogado local chamado Kramer foi feito em pedaços. Há cerca de duas horas. Provavelmente, um trabalho do Klan, sabe. Não temos membros do Klan por aqui, mas Mr. Kramer era judeu. Deixe-me adivinhar... você não sabe nada do assunto?

- Exactamente.

- Muito, muito triste, Sam. Sabe, Mr. Kramer tinha dois filhos, Josh e John, e quis o destino que estivessem com ele no escritório quando a bomba explodiu.

Sam respirou pesadamente e olhou para Ivy. Conte-me o resto da história, suplicavam os seus olhos.

- E esses dois rapazinhos, gémeos, de cinco anos, tão bonitos e espertos, foram feitos em pedaços, Sam. Mais mortos do que a morte, Sam.

Sam baixou lentamente a cabeça até o queixo quase lhe tocar no peito. Sentia-se derrotado. Homicídio, duas acusações. Advogados, julgamentos, juízes, júri, prisão, tudo lhe passou rapidamente pela cabeça e ele fechou os olhos.

- Pode ser que o pai deles tenha sorte. Neste momento encontra-se no hospital, na sala de operações. Os garotos estão na casa mortuária. Uma autêntica tragédia, Sam. Suponho que você não sabe nada acerca desta bomba, pois não, Sam?

- Não, gostaria de falar com um advogado.

- Claro. - Ivy levantou-se lentamente e saiu da sala.

O pedaço de vidro foi extraído do rosto de Sam por um médico e enviado para um laboratório do FBI. O relatório não incluía surpresas - um pedaço de vidro semelhante ao das janelas da frente do edifício do escritório. O Pontiac foi rapidamente relacionado com Jeremiah Dogan em Meridian. No porta-bagagem foi encontrado um rastilho de quinze minutos. Um funcionário de entregas apareceu e explicou à polícia que vira o carro perto do escritório de Mr. Kramer cerca das quatro horas da manhã.

O FBI certificou-se de que a imprensa foi rapidamente informada do facto de que Mr. Sam Cayhall era há muito tempo membro do Klan e o principal suspeito de vários outros atentados bombistas. Segundo pressentiam, aquele era um caso difícil e encheram de elogios a polícia de Greenville. O próprio J. Edgar Hoover fez uma declaração.

Dois dias depois da explosão da bomba, os gémeos Kramer foram sepultados num pequeno cemitério. Na altura, viviam em Greenville cento e quarenta e seis judeus e, à excepção de Marvin Kramer e de seis outros, todos compareceram no funeral. E foram excedidos em número, numa proporção de dois para um, por jornalistas e fotógrafos de todo o país.

Na manhã seguinte, na sua pequena cela, Sam viu as fotografias e leu as histórias. O assistente prisional, Larry Jack Polk, era um simplório que se tornara num amigo porque, como confidenciara a Sam anteriormente, tinha primos que pertenciam ao Klan e sempre quisera aderir, mas a mulher não queria ouvir falar no assunto. Todas as manhãs trazia a Sam café acabado de fazer e jornais. Larry Jack confessara já a sua admiração pela perícia de Sam com as bombas.

Além das poucas palavras necessárias para continuar a manipular Larry Jack, Sam praticamente nada dizia. No dia seguinte ao atentado fora acusado de dois crimes capitais, por isso a câmara de gás ocupava-lhe os pensamentos. Recusou-se a dizer uma palavra a Ivy ou a qualquer outro polícia e o mesmo relativamente ao FBI. Claro que os repórteres faziam perguntas, mas não conseguiam passar por Larry Jack. Sam telefonou à mulher e disse-Lhe para ficar em Clanton com as portas trancadas. Sentava-se sozinho na sua cela de cimento e começou a escrever um diário.

Se Rollie Wedge tivesse de ser descoberto e relacionado com o atentado, então teria de ser encontrado pela polícia. Sam Cayhall prestara juramento como membro do Klan e para ele esse juramento era sagrado. Nunca, nunca denunciaria outro homem do Klan. Esperava que Jeremiah sentisse o mesmo no que dizia respeito ao seu próprio juramento.

Dois dias depois do atentado, um advogado sombrio de cabelo encaracolado, chamado Clovis Brazelton, fez a sua primeira aparição em Greenville. Era um membro secreto do Klan e tornara-se bastante famoso em Jackson por defender toda a espécie de ru fiões. Queria candidatar-se a governador, dizia que a sua plataforma eleitoral defenderia a preservação da raça branca, que o FBI era satânico, que os negros deviam ser defendidos mas não misturados com os brancos, etc. Fora enviado por Jeremiah Dogan para defender Sam Cayhall e, mais importante ainda, para se certificar de que Cayhall mantinha a boca fechada. O FBI andava em cima de Dogan por causa do Pontiac verde e ele temia uma condenação como co-autor.

Os co-autores, explicou Clovis ao seu novo cliente, são tão culpados como aqueles que realmente puxam o gatilho. Sam escutou, mas disse muito pouco. Tinha ouvido falar de Brazelton, mas ainda não confiava nele.

- Olha, Sam - disse ele como se estivesse a explicar alguma coisa a um aluno da primeira classe. - Eu sei quem colocou a bomba. O Dogan contou-me. Se ainda sei contar, somos quatro - eu, tu, o Dogan e o Wedge. Neste momento, o Dogan tem quase a certeza de que o Wedge nunca será encontrado. Não falaram, mas o rapaz é brilhante e a esta hora já está provavelmente noutro país. Só ficas tu e o Dogan. Francamente, estou à espera que o Dogan seja acusado a qualquer momento. Mas os polícias terão dificuldade em apanhá-lo, a menos que consigam provar que vocês conspiraram os dois para rebentar com o escritório do judeu. E a única forma de conseguirem prová-lo é se tu falares.

- Então, devo assumir as culpas? - perguntou Sam.

- Não, só tens de ficar calado acerca do Dogan. Nega tudo. Vamos inventar uma história qualquer acerca do carro. Deixa-me tratar do assunto. Vou mudar o julgamento para outro sítio, talvez nas montanhas ou outro lugar onde não haja judeus. Vou arranjar um júri composto só por brancos e resolverei tudo tão rapidamente que seremos ambos heróis. Deixa-me ser eu a tratar do caso.

- Achas então que não vou ser condenado?

- Que diabo, não. Sam, acredita em mim. Vamos arranjar um júri de patriotas, gente do teu tipo, Sam. Todos brancos. Todos preocupados com o facto de os filhos pequenos serem obrigados a ir à escola juntamente com crianças negras. Boa gente, Sam. Vamos seleccionar doze deles, colocá-los nas cadeiras dos jurados

e explicar-lhes como os malditos judeus encorajaram todo este dis parate dos direitos civis. Confia em mim, Sam, vai ser fácil. - E com isto, Clovis inclinou-se sobre a mesa, deu umas pancadinhas no braço de Sam e disse: - Confia em mim, Sam, já fiz isto antes.

Mais tarde, nesse dia, Sam foi algemado, rodeado pela polícia da cidade de Greenville e conduzido para um carro-patrulha que o esperava. Entre a prisão e o carro, um pequeno exército de fotógrafos retratou-o. Outro grupo dessa gente agressiva estava à espera no tribunal quando Sam chegou com a sua escolta.

Compareceu perante o juiz municipal acompanhado pelo seu novo advogado, o ilustre Dr. Clovis Brazelton, que prescindiu da audiência preliminar e executou um par de outras tranquilas manobras legais de rotina. Vinte minutos depois de ter saído da prisão, Sam estava de volta. Clovis prometeu regressar dentro de poucos dias para começarem a delinear a sua estratégia de defesa e, em seguida, encaminhou-se lá para fora e representou um excelente papel perante os jornalistas.

Foi necessário um mês inteiro para que o frenesim dos meios de comunicação começasse a dissipar-se em Greenville. Tanto Jeremiah Dogan como Sam Cayhall foram acusados de crime capital a 5 de Maio de 1967. O procurador-geral do distrito proclamou que iria pedir a pena de morte. O nome de Rollie Wedge nunca foi mencionado. A polícia e o FBI não tinham qualquer ideia de que ele existia.

Clovis, representando agora os dois réus, pediu com sucesso uma mudança de foro e a 4 de Setembro de 1967 o julgamento teve início em Nettles County, a trezentos e vinte quilómetros de Greenville. Transformou-se num circo. O Klan acampou no relvado fronteiro ao tribunal e encenou ruidosas manifestações praticamente de hora a hora. Enviaram membros do Klan de outros estados e até fizeram uma lista de oradores convidados. Sam Cayhall e Jeremiah Dogan tornaram-se símbolos da supremacia branca e os seus adorados nomes eram gritados mil vezes pelos seus admiradores encapuçados.

A imprensa observava e esperava. A sala do tribunal estava cheia de jornalistas e repórteres, de modo que os menos afortunados eram obrigados a esperar lá fora à sombra das árvores no relvado fronteiro. Observavam os membros do Klan e escutavam os seus discursos e quanto mais observavam e fotografavam, mais longos se tornavam os discursos.

Na sala do tribunal as coisas corriam bem para Cayhall e Dogan. Brazelton usara a sua magia e sentara doze patriotas brancos, como preferia chamar-lhes, na bancada do júri e, em seguida, começou a escavar buracos muito significativos no caso da acusação. Mais importante que tudo, as provas eram circunstanciais - ninguém vira realmente Sam Cayhall colocar a bomba. Clovis afirmou isto claramente nas suas alegações iniciais e atingiu o alvo. Na realidade, Cayhall era empregado de Dogan, que o enviara a Greenville em serviço e calhara encontrar-se perto do edifício Kramer num momento infeliz. Clovis quase chorou quando pensou naqueles dois adoráveis rapazinhos.

O rastilho da dinamite fora provavelmente deixado no porta bagagem pelo dono anterior, um tal Mr. Carson Jenkins, um negociante de lixo de Meridian. Mr. Carson Jenkins testemunhou que no seu trabalho estava sempre a lidar com dinamite e que era evidente que deixara simplesmente o rastilho no porta-bagagem quando vendera o carro a Dogan. Mr. Carson Jenkins era professor da escola dominical, um homenzinho tranquilo, trabalhador e terra-a-terra, completamente fiável. Também era membro do Ku Klux Klan, mas o FBI não tinha conhecimento disso. Clovis conduziu o seu testemunho sem uma falha.

O facto de o carro de Cayhall ter sido deixado na paragem dos camiões em Cleveland nunca tinha sido descoberto pela polícia nem pelo FBI. No seu primeiro telefonema da cadeia, tinha dado instruções à mulher para chamar o filho, Eddie Cayhall, para ir imediatamente a Cleveland buscar o carro, o que foi uma iniciativa de grande importância para a defesa.

Mas o argumento mais forte apresentado por Clovis Brazelton era o de que ninguém podia provar que os seus clientes tinham conspirado fosse o que fosse e, assim, como diabo poderíeis vós, jurados de Nettles County, mandar estes dois homens para a morte?

Depois de quatro dias de julgamento, o júri retirou-se para deliberar. Clovis garantiu aos clientes que iam ser absolvidos. A acusação tinha quase a certeza que isso ia acontecer. Os membros do Klan cheiraram a vitória e o barulho aumentou no relvado fronteiro.

Não houve nenhuma absolvição nem tão pouco condenações. Notavelmente, dois dos jurados fizeram finca-pé e insistiram na condenação. Ao fim de um dia e meio de deliberações, o júri declarou ao juiz um empate difícil de resolver. O julgamento foi declarado incorrecto e Sam Cayhall foi a casa pela primeira vez em cinco meses.

O novo julgamento teve lugar seis meses depois em Wilson County, outra área rural a quatro horas de Greenvile e a cerca de cento e sessenta quilómetros do local do primeiro julgamento. Tinha havido queixas contra o Klan por molestamento de possíveis jurados no primeiro julgamento, por isso o juiz, por razões nunca completamente explicadas, mudou o local do julgamento para uma área fervilhante de membros e simpatizantes do Klan. Mais uma vez o júri era inteiramente composto por brancos e certamente não-judeus. Clovis contou as mesmas histórias, com os mesmos argumentos fundamentais. Mr. Carson Jenkins disse as mesmas mentiras.

A acusação alterou um pouco a estratégia, mas sem resultado. O procurador retirou as acusações de crime capital e insistiu numa condenação apenas por homicídio. Não haveria pena de morte e o júri poderia, se quisesse, considerar Cayhall e Dogan culpados de homicídio não premeditado, uma acusação muito mais leve, mas mesmo assim uma condenação.

O segundo julgamento teve um elemento novo. Martin Kramer sentou-se numa cadeira de rodas na primeira fila e, durante três dias, fitou iradamente os jurados. Ruth tentara assistir ao primeiro julgamento, mas voltara para casa para Greenville, onde fora novamente hospitalizada por problemas emocionais. Desde o atentado que Marvin estava sempre a entrar e a sair da cirurgia e os seus médicos não lhe tinham permitido assistir ao espectáculo em Nettles County.

A maioria dos membros do júri não suportavam olhar para ele. Mantinham os olhos afastados dos espectadores e, para jurados, prestaram demasiada atenção às testemunhas. Porém, uma jovem, Sharon Culpepper, mãe de gémeos, não conseguia conter-se. Olhava repetidamente para Martin e muitas vezes os seus olhos encontraram-se. Ele suplicou-lhe justiça.

Sharon Culpepper foi a única dos doze que, inicialmente, votou a condenação. Durante dois dias foi insultada e pressionada pelos seus pares. Chamaram-lhe nomes e fizeram- na chorar, mas ela insistiu teimosamente.

O segundo julgamento terminou com o júri pendurado num resultado de onze a um. O juiz declarou o julgamento incorrecto e mandou todos para casa. Marvin Kramer regressou a Greenville e, em seguida, a Memphis para ser novamente operado. Clovis Brazelton pavoneou-se perante a imprensa. O procurador do distrito não prometeu um novo julgamento. Sam Cayhall regressou calmamente a Clanton, com a promessa solene de não repetir qualquer negócio com Jeremiah Dogan. E o próprio Feiticeiro Imperial regressou triunfantemente a Meridian, onde se gabou junto dos seus que a batalha pela supremacia da raça branca mal tinha começado, o bem derrotara o mal e assim sucessivamente.

O nome de Rollie Wedge só fora pronunciado uma vez. Durante um intervalo para almoço no segundo julgamento, Dogan murmurara a Cayhall que tinha recebido uma mensagem do garoto. O mensageiro era um desconhecido que falara com a mulher de Dogan num átrio à saída da sala de audiências. E a mensagem era bastante simples e clara. Wedge encontrava-se perto, nos bosques, a observar o julgamento e se Dogan ou Cayhall mencionassem o nome dele, as

suas casas e familias explodiriam num inferno.

 

Ruth e Marvin Kramer separaram-se em 1970. Mais tarde nesse mesmo ano, Marvin foi internado num hospital para doentes mentais e suicidou-se em 1971. Ruth regressou a Memphis e foi viver com os pais. Apesar dos seus problemas, tinham pressionado fortemente a realização de um terceiro julgamento. Na realidade, a comunidade judaica de Greenville agitou-se e manifestou-se, quando se tornou aparente que o procurador do distrito estava cansado de ser derrotado e tinha perdido o entusiasmo pelo processo contra Cayhall e Dogan.

Marvin foi enterrado ao lado dos filhos. Um novo jardim foi dedicado à memória de Josh e John Kramer e foram instituídas bolsas de estudo. Com o tempo, a tragédia das suas mortes perdeu uma parte do seu horror. Passaram-se anos e Greenville falava cada vez menos do atentado bombista.

Apesar das pressões do FBI, o terceiro julgamento nunca se concretizou. Não havia novas provas. Sem dúvida que o juiz alteraria novamente o local do julgamento. A acusação parecia desesperada mas, apesar disso, o FBI não desistiu.

Com Cayhall recusando-se a colaborar e Wedge indisponível, a campanha bombista de Dogan malogrou-se. Ele continuou a usar as suas vestes e a fazer os seus discursos e começou a imaginar-se a si próprio como uma força política de primeira grandeza. Os jornalistas do Norte mostravam-se intrigados com as suas espalhafatosas e mordentes palavras, sempre pronto a pôr o capuz e a dar entrevistas ultrajantes. Foi medianamente famoso durante algum tempo e apreciou imensamente o facto.

Mas no fim dos anos 70, Jeremiah Dogan era apenas outro rufião envergando a vestimenta de uma organização em rápido declínio. Os negros tinham direito de voto. As escolas oficiais já não praticavam a segregação. As barreiras raciais estavam a ser derrubadas em todo o Sul por juízes federais. Os direitos civis tinham chegado ao Mississípi e o Klan tinha provado lamentavelmente a sua inaptidão para manter os negros no lugar a que pertenciam. Dogan não conseguia atrair ninguém para a queima de uma cruz.

Em 1979 deram-se dois acontecimentos significativos para o ainda aberto, mas inactivo, caso do atentado Kramer. O primeiro foi a eleição de David McAllister como procurador do distrito em Greenville. Aos vinte e sete anos, tornou-se o mais jovem procurador do distrito da história de todo o estado. Ainda adolescente, entre a multidão, observara o FBI a pesquisar entre as ruínas do escritório de Marvin Kramer. Pouco depois da sua eleição, jurou que levaria os terroristas perante a justiça.

O segundo acontecimento foi a indiciação de Jeremiah Dogan por evasão fiscal. Depois de conseguir escapar durante anos ao FBI, Dogan tornou-se descuidado e arranjou problemas com o IRS. A investigação durou oito meses e dela resultou uma acusação de trinta páginas. Segundo ela, Dogan não tinha declarado mais de cem mil dólares de rendimentos entre os anos de 1974 e 1978. Incluía oitenta e seis acusações de crime e implicava um máximo de vinte e oito anos de prisão.

Dogan era totalmente culpado e o seu advogado (que não era Clovis Brazelton) começou imediatamente a sondar a possibilidade de um acordo. E aqui entrou o FBI.

Ao longo de uma série de reuniões agitadas e acaloradas com Dogan e o seu advogado, o governo ofereceu-lhe um acordo mediante o qual Dogan testemunharia contra Sam Cayhall no caso Kramer e, em troca, não teria de cumprir qualquer tempo de prisão por evasão fiscal. Nem um dia atrás das grades. Um duro regime de prova e multas, mas nada de prisão. Dogan não falava com Cayhall há mais de dez anos e já não era um membro activo do Klan. Havia muitas razões para considerar o acordo, a mais importante das quais era a questão de continuar a ser um homem livre ou passar cerca de dez anos na prisão.

Para o pressionar, o IRS arrestou todos os seus bens e planeou uma venda em execução. E para o ajudar a tomar uma decisão David McAllister convenceu um grande júri de Greenville a indiciá-lo mais uma vez, assim como ao seu amigo Cayhall, pelo atentado Kramer.

Dogan cedeu e aceitou o acordo.

Depois de doze anos a viver tranquilamente em Ford County, Sam Cayhall viu-se mais uma vez indiciado, preso e confrontado com a certeza de um julgamento e a possibilidade da câmara de gás. Foi obrigado a hipotecar a casa e a pequena quinta para pagar a um advogado. Clovis Brazelton estava ocupado com coisas mais importantes e Dogan deixara de ser um aliado.

Muita coisa mudara no Mississípi desde os dois primeiros julgamentos. Os negros tinham-se recenseado em grande número para votar e estes novos eleitores tinham feito eleger autoridades negras. Os júris compostos só por brancos eram raros. O estado tinha dois juízes de Direito negros, dois xerifes negros e era possível distinguir os advogados negros enxameando os corredores dos tribunais entre os seus irmãos brancos. Oficialmente, a segregação tinha terminado. E muitos brancos naturais do Mississípi começavam a olhar para trás e a perguntar-se o que teria gerado tanta confusão. Qual a razão de tanta resistência à concessão de direitos básicos para todos? Embora ainda houvesse muita coisa a fazer, o Mississípi de 1980era muito diferente do de 1967. E Sam compreendeu-o.

Contratou um famoso advogado criminal de Memphis, chamado Benjamin Keyes. A sua primeira táctica foi tentar impedir a indiciação, com o fundamento de que era injusto julgá-lo novamente depois de tão longo período. Este argumento revelou-se persuasivo e foi necessária uma decisão do Supremo Tribunal do Mississípi para resolver a questão. Por seis votos contra três, o tribunal decidiu que a indiciação podia prosseguir.

E prosseguiu. O terceiro e último julgamento de Sam Cayhall começou em Fevereiro de 1981numa pequena e fria sala de audiências de Lakehead County, um condado montanhoso no canto noroeste do estado. Muito poderia ser dito acerca do julgamento.

Havia um jovem procurador distrital, David McAllister, que teve um desempenho brilhante, mas possuía o detestável hábito de passar todo o seu tempo livre com a imprensa. Era bem-parecido, compassivo e falava bem e tornou-se evidente que este julgamento tinha uma finalidade. Mr. McAllister tinha ambições políticas de grande escala.

Havia um júri composto por oito brancos e quatro negros. Havia a amostra de vidro, o rastilho, os relatórios do FBI e todas as fotografias e provas dos dois primeiros julgamentos.

E finalmente havia o testemunho de Jeremiah Dogan, que subiu ao banco das testemunhas envergando uma camisa de ganga e que, com uma postura humilde, explicou solenemente ao júri como havia conspirado com Sam Cayhall para colocar uma bomba no escritório de Mr. Kramer. Sam fitava-o intensamente absorvendo cada palavra, mas Dogan desviou o olhar. O advogado de Sam pressionou-o severamente durante meio dia, obrigando-o a admitir que fizera um acordo com o governo, mas o mal estava feito.

Não representaria qualquer vantagem para a defesa de Sam Cayhall levantar a questão de Rollie Wedge. Porque fazê-lo seria na realidade admitir que Sam Cayhall estivera em Greenville com a bomba. Sam seria forçado a confessar-se co-conspirador e, perante a lei, seria tão culpado como o homem que tinha efectivamente colocado a dinamite. E para apresentar este cenário ao júri, Sam seria obrigado a testemunhar, o que nem ele nem o seu advogado desejavam. Sam não suportaria um contra-interrogatório cerrado, porque seria obrigado a contar uma mentira para esconder a precedente.

Além disso, nesse momento ninguém acreditaria na súbita história de um novo e misterioso terrorista, que nunca fora mencionado até aí e que ia e vinha sem ser visto. Sam sabia que o ângulo Rollie Wedge era fútil e nunca mencionou o seu nome, nem sequer ao próprio advogado.

No final do julgamento, David McAllister ergueu-se diante do júri numa sala de audiências completamente cheia e proferiu as suas alegações finais. Falou da sua juventude em Greenville e de como tivera amigos judeus. Não sabia que eles eram diferentes. Conhecia alguns dos Kramer, eram gente boa que trabalhava arduamente e honravam a cidade. Também brincara com crianças negras e aprendera que eram amigos maravilhosos. Nunca compreendera por que razão tinham de frequentar escolas diferentes. Contou uma história comovente de como sentira a terra tremer na manhã do dia 21 de Abril de 1967 e correra na direcção da Baixa, de onde subiam o fumo e as chamas. Durante três horas, mantivera-se atrás das barricadas da polícia e esperara. Vira a azáfama dos bombeiros quando encontraram Marvin Kramer. Vira-os precipitarem-se para os destroços quando encontraram as crianças. As lágrimas rolavam-lhe pelas faces, enquanto os pequenos corpos, cobertos por lençóis brancos, eram transportados lentamente para uma ambulância.

Foi uma esplêndida actuação e quando McAllister terminou a sala remeteu-se a um profundo silêncio. Vários jurados limpavam os olhos.

A 12 de Fevereiro de 1981, Sam Cayhall foi considerado culpado das duas acusações de crime capital e da acusação de homicídio premeditado. Dois dias mais tarde, o mesmo júri na mesma sala de audiências regressou com uma sentença de morte.

Foi levado para a penitenciária estatal de Parchman, onde começou a esperar o seu encontro com a câmara de gás. A 19 de Fevereiro de 1981, entrou pela primeira vez no corredor da morte.

 

Na sociedade de advogados Kravitz & Bane trabalhavam cerca de trezentos advogados, que coexistiam pacificamente debaixo do mesmo tecto em Chicago. Duzentos e oitenta e seis para ser exacto, embora fosse difícil manter a contagem porque, a cada momento, havia sempre uma dezena deles a sair pelas mais variadas razões e mais ou menos duas dezenas de novos recrutas, frescos, brilhantes e ávidos de combate. Embora fosse imensa a Kravitz & Bane não soubera apostar na expansão tão rapidamente como outras firmas; não se apoderara de sociedades mais fracas noutras cidades, fora lenta a arrebatar os clientes dos seus concorrentes e, por isso, tinha de suportar a distinção de ser apenas a terceira maior sociedade de Chicago. Possuía escritórios em seis cidades mas, para grande embaraço dos sócios mais jovens, o seu timbre de cabeçalho não ostentava um endereço em Londres.

Embora tivesse amolecido um pouco, a Kravitz & Bane ainda era conhecida como uma indomável sociedade de litigância. Tinha departamentos pacatos que se dedicavam aos direitos reais, ao direito fiscal e ao direito económico, mas os seus lucros provinham da litigância, dos processos. Quando a firma recrutava novos sócios, procurava os alunos mais brilhantes do terceiro ano, com as notas mais altas nos julgamentos simulados e nos debates.

Desejava homens jovens (e simbolicamente uma mulher de vez em quando), que pudessem ser rapidamente treinados no estilo rápido e feroz que os advogados da Kravitz & Bane tinham há muito tempo aperfeiçoado.

Havia um simpático mas pequeno grupo que se dedicava às queixas relativas a danos pessoais, um trabalho útil do qual retiravam cinquenta por cento deixando o resto aos clientes. Havia uma secção razoável que se dedicava à defesa dos crimes de colarinho branco, mas o réu de colarinho branco necessitava de uma considerável riqueza para conseguir os serviços da Kravitz & Bane. E depois havia as duas secções maiores, uma para os processos comerciais e outra para a defesa de casos de seguros. À excepção dos casos de danos pessoais, e no lucro bruto da firma, estes eram uma percentagem insignificante, a firma ganhava dinheiro em horas facturadas. Duzentos dólares por hora para os casos relativos a seguros, ou mais se o negócio o suportasse. Trezentos dólares para a defesa criminal. Quatrocentos tratando-se de um grande banco. E mesmo quinhentos dólares, quando os clientes eram grandes empresas cujos advogados preguiçosos se deixavam dormir em serviço.

A Kravitz & Bane fazia dinheiro à hora e deu origem a uma dinastia em Chicago. Os seus escritórios eram modernos, mas não luxuosos. Muito adequadamente, ocupavam o último andar do terceiro edifício mais alto da Baixa.

Como a maioria das grandes sociedades, ganhava tanto dinheiro que se sentia obrigada a estabelecer uma pequena secção pro bono, para cumprir as suas responsabilidades morais perante a sociedade. Sentia-se muito orgulhosa do facto de ter um sócio pro bono a tempo inteiro, um excêntrico e amável funcionário, E, Gardner Goodman, que ocupava um espaçoso gabinete com duas secretárias no sexagésimo primeiro andar. Partilhava um forense com um colega processualista. A brochura gravada a ouro da firma dava grande relevo ao facto de os seus advogados serem encorajados a apoiar projectos pro bono. A brochura proclamava que no ano anterior, 1989, os advogados da Kravitz & Bane tinham dedicado praticamente sessenta mil horas do seu precioso tempo a clientes que não podiam pagar. Projectos de alojamento de crianças, reclusos do corredor da morte, alienados mentais, toxicodependentes e, evidentemente, a sociedade estava profundamente preocupada com a situação dos sem-abrigo. A brochura incluía mesmo uma fotografia de dois jovens advogados, sem casaco, de mangas arregaçadas e gravatas soltas no pescoço, com manchas de suor nos sovacos e olhos cheios de compaixão, a executar qualquer tarefa menor no meio de um grupo de crianças de uma minoria, naquilo que parecia ser um aterro urbano. Os advogados a salvar a sociedade.

Adam Hall levava uma destas brochuras na sua pasta delgada, enquanto se encaminhava lentamente pelo corredor do sexagésimo primeiro andar na direcção do gabinete de E. Garner Goodman. Acenava com a cabeça e conversava com outro jovem advogado que nunca tinha visto antes. Na festa de Natal da firma, eram distribuídos à entrada cartões com os nomes. Alguns dos colegas mal se conheciam uns aos outros. Alguns sócios encontravam-se uma ou duas vezes por ano. Abriu uma porta e entrou numa pequena sala onde uma secretária parou de escrever à máquina e quase sorriu. Perguntou por Mr. Goodman e ela acenou educadamente na direcção de uma fila de cadeiras, onde ele devia esperar. Estava adiantado cinco minutos para uma entrevista marcada para as dez horas da manhã, como se tivesse importância. Era um caso pro bono. Esquece o relógio. Esquece as horas a facturar. Esquece os bónus por bom desempenho. Num desafio ao resto da firma, Goodman não admitia relógios nas suas paredes.

Adam folheou a pasta. Riu baixinho da brochura. Leu novamente o seu próprio pequeno currículo - universidade em Pepperdine, faculdade de Direito no Michigan, editor da revista de Direito, boa nota em casos de castigo cruel e invulgar, comentários acerca de casos recentes de condenação à morte. Um currículo bastante curto, mas afinal só tinha vinte e seis anos. Havia agora nove meses que trabalhava na Kravitz & Bane.

Leu e tomou notas de duas longas decisões do Supremo Tribunal dos Estados Unidos relativas a execuções na Califórnia. Olhou para o relógio e leu um pouco mais. Eventualmente, a secretária ofereceu-lhe café, que ele recusou delicadamente.

O gabinete de E. Gardner Goodman era um espantoso exemplo de desorganização. Era grande mas atulhado, com estantes alquebradas pelo peso e pilhas de arquivos poeirentos espalhados pelo chão. Pequenas pilhas de papel de todas as espécies e tamanhos cobriam a secretária no centro do gabinete. Recusas, lixo e cartas perdidas cobriam o tapete debaixo da secretária. Se não fossem as persianas de madeira fechadas, a janela facultaria uma esplêndida vista do lago Michigan, mas era óbvio que Mr. Goodman não passava muito tempo à janela.

Era um velho de barba cinzenta aparada e de espesso cabelo da mesma cor. A camisa branca estava penosamente engomada: Um grande laço às flores, a sua marca, tinha o nó precisamente debaixo do queixo. Adam entrou na sala e serpenteou cautelosamente por entre as pilhas de papéis. Goodman não se levantou, mas estendeu a mão numa saudação fria.

Adam entregou a pasta a Goodman e sentou-se na única cadeira vazia da sala. Esperou nervosamente, enquanto o currículo era estudado, a barba suavemente acariciada e a gravata repuxada.

- Porque é que você deseja fazer trabalho pro bono? - resmungou Goodman depois de um longo silêncio. Não levantou os olhos do currículo. Uma melodia de guitarra clássica flutuava suavemente de colunas de som escondidas no tecto.

Adam remexeu-se inquieto.

- Hum, por diversas razões.

- Deixe-me adivinhar. Quer servir a humanidade, retribuir algo à sua comunidade ou talvez se sinta culpado por passar tanto tempo nesta oficina facturando à hora e deseje limpar a sua alma, sujar as mãos, fazer algum trabalho honesto e ajudar os outros. Os olhos azuis e redondos dardejaram sobre Adam por cima dos óculos de aros negros empoleirados na ponta do seu nariz bastante pontiagudo. - Alguma das mencionadas?

- Na verdade, não.

Goodman continuou a analisar o currículo.

- Então foi entregue ao Emmitt Wycoff? - Estava a ler uma carta de Wycoff, o supervisor de Adam.

- Sim, senhor.

- É um bom advogado. Não gosto especialmente dele, mas tem um grande cérebro criminal, sabe. Provavelmente um dos nossos três melhores rapazes de colarinho branco. Mas um pouco abrasivo, não acha?

- É simpático.

- Há quanto tempo trabalha com ele?

- Desde o começo. Há nove meses.

- Então está connosco há nove meses?

- Sim, senhor.

- O que pensa de nós? - Goodman fechou a pasta e fitou Adam. Tirou lentamente os óculos e meteu a ponta de um dos aros na boca.

- Até aqui estou a gostar. É um desafio.

- Claro. Porque escolheu a Kravitz & Bane? Quero dizer, certamente que com as suas habilitações poderia ter ido para qualquer lado. Porquê aqui?

- Processo criminal. É isso que quero fazer e esta firma é famosa.

- Quantas ofertas recebeu? Vá lá, é só curiosidade.

- Várias.

- De onde?

- Principalmente de D. C. Uma em Denver. Não me candidatei a firmas de Nova Iorque.

- Quanto dinheiro lhe oferecemos?

Adam remexeu-se novamente. Afinal, Goodman era um dos sócios. Sabia de certeza quanto pagava a firma aos novos associados.

- Mais ou menos sessenta. Quanto é que lhe pagamos a si? Isto divertiu o velho que sorriu pela primeira vez.

- Pagam-me quatrocentos mil dólares por ano para que possam ter o tempo deles disponível. Para darem umas palmadinhas nas costas uns dos outros e discursarem sobre os advogados e acerca da responsabilidade social. Quatrocentos mil, acredita?

Adam já ouvira rumores.

- Não se está a queixar, pois não?

- Não, sou o advogado com mais sorte da cidade, Mr. Hall. Pagam-me uma pipa de massa para fazer aquilo de que mais gosto e não tenho que me preocupar com o relógio de ponto nem com a facturação. É o sonho de qualquer advogado. É por isso que ainda me arrasto por aqui sessenta horas por semana. Tenho quase setenta anos, sabe?

Segundo se dizia na firma, na sua juventude, Goodman sucumbira à pressão do trabalho e quase se matara com álcool e comprimidos. Deixara de beber durante um ano, ao mesmo tempo que a mulher o deixara levando os filhos e, em seguida, convencera os colegas de que valia a pena darem-Lhe outra oportunidade. Só precisava de um gabinete onde a vida não dependesse dos ponteiros de um relógio.

- Que tipo de trabalho tem feito para o Emmitt Wycoff? perguntou Goodman.

- Muita pesquisa. Neste momento ele está a defender um grupo de empreiteiros do Ministério da Defesa e isso tem ocupado a maior parte do meu tempo. Apresentei uma petição no tribunal na semana passada - disse Adam com uma ponta de orgulho. Normalmente, os novatos eram mantidos à secretária durante os primeiros doze meses.

- Uma verdadeira petição? - perguntou Goodman com admiração.

- Sim senhor.

- Numa verdadeira sala de audiências?

- Sim senhor.

- Perante um verdadeiro juiz?

- Isso mesmo.

- Quem ganhou?

- O juiz decidiu a favor da acusação, mas foi por pouco. Se quer saber a verdade, fi-lo em bocadinhos. - Perante isto, Goodman sorriu, mas o jogo terminou rapidamente. Abriu novamente o currículo.

- O Wycoffjunta uma carta de recomendação altamente elogiosa. Não é muito próprio dele.

- Sabe reconhecer o talento - disse Adam com um sorriso.

- Presumo que se trata de um pedido muito significativo, Mr. Hall. Exactamente, qual é a ideia dele?

Adam parou de sorrir e aclarou a garganta. Sentiu-se subitamente nervoso e decidiu cruzar novamente as pernas.

- É, bem, é um caso de pena de morte.

- Um caso de pena de morte? - repetiu Goodman.

- Sim senhor.

- Porquê?

- Sou contra a pena de morte.

- E não somos todos, Mr. Hall? Escrevi livros sobre o assunto. Tratei de mais de duas dezenas desses malditos processos. Porque é que deseja envolver-se?

- Li os seus livros. Só quero ajudar.

Goodman fechou novamente o currículo e reclinou-se sobre a secretária. Dois pedaços de papel deslizaram flutuando até ao chão.

- É demasiado novo e demasiado inexperiente.

- Podia ficar surpreendido.

- Olhe, Mr. Hall, isto não é o mesmo que aconselhar alcoólicos na sopa dos pobres. São casos de vida ou de morte. É material de alta- tensão, filho. Não é divertido.

Adam acenou com a cabeça, mas não respondeu. Tinha os olhos fixos em Goodman e recusava-se a pestanejar. Um telefone tocou algures à distância, mas ambos o ignoraram.

- Algum caso em especial ou tem algum cliente novo para a Kravitz & Bane? - perguntou Goodman.

- O caso Cayhall - respondeu Adam lentamente. Goodman abanou a cabeça e puxou pelas pontas do laço.

- Sam Cayhall acaba de nos despedir. O Quinto Tribunal de Círculo decidiu na semana passada que ele tem realmente o direito de terminar o nosso mandato de representação.

- Li a decisão. Sei o que disse o Quinto Tribunal de Círculo. O homem precisa de um advogado.

- Não, não precisa. Estará morto dentro de três meses, com advogado ou sem advogado. Francamente, fico feliz por ele sair da minha vida.

- Precisa de um advogado - repetiu Adam.

- Está a representar-se a si próprio, o que, para ser totalmente honesto, é muito bom. Escreve as suas próprias petições e condensações, dirige a sua própria investigação. Tenho ouvido dizer que tem dado alguns conselhos aos seus companheiros do corredor da morte, mas só aos brancos, note-se.

- Estudei o processo todo.

Admirado, E. Garner Goodman fez girar lentamente os óculos.

- É meia tonelada de papel. Porque o fez?

- Estou intrigado com o caso. Observei-o durante anos, li tudo o que se tem escrito sobre o homem. Perguntou-me há bocado por que razão eu tinha escolhido a Kravitz & Bane. Bem, a verdade é que eu queria trabalhar no caso Cayhall e penso que esta firma trata do caso pro bono há, quê? oito anos?

- Sete, mas parecem vinte. O Mr. Cayhall não é um homem de convívio fácil.

- Compreensível, não é? Quero dizer, está na solitária há 9 quase dez anos.

- Não me faça sermões acerca da vida na prisão, Mr. Hall. Alguma vez esteve no interior de uma prisão?

- Não.

- Bem, eu já. Já estive no corredor da morte em seis estados. Fui insultado por Sam Cayhall com ele acorrentado à cadeira. Não é um homem simpático. É um incorrigível racista que odeia praticamente toda a gente e odiá-lo-ia também a si se o conhecesse.

- Acho que não.

- Você é um advogado, Mr. Hall e ele odeia os advogados ainda mais do que os negros e os judeus. Há quase dez anos que enfrenta a morte e está convencido de que é vítima de uma conspiração de advogados. Raios, há dois anos que andava a tentar despedir-nos. Esta firma gastou mais de dois milhões de dólares em tempo facturável para o manter vivo e a única preocupação que ele tinha era despedir-nos. Já perdi a conta ao número de vezes que se recusou a receber-nos, depois de termos viajado até Parchman só para falar com ele. É um louco, Mr. Hall. Procure outro caso. Que tal crianças maltratadas ou uma coisa no género?

- Não, obrigado. O meu interesse reside nos casos de pena de morte e estou mais ou menos obcecado com a história de Sam Cayhall.

Goodman voltou a pôr cuidadosamente os óculos na ponta do nariz e, em seguida, colocou lentamente os pés sobre um dos cantos da secretária. Cruzou as mãos sobre o peito da camisa engomada.

- Por que razão, se é que posso perguntar, está tão obcecado com Sam Cayhall?

- Bem, é um caso fascinante, não acha? O Klan, o movimento dos direitos civis, os atentados bombistas, o local torturado. O pano de fundo é um período tão rico da história da América. Parece muito antigo, mas tudo se passou há apenas vinte e cinco anos. É uma história arrebatadora.

Uma ventoinha de tecto começou a girar lentamente por cima dele. Passou-se um minuto.

Goodman voltou a colocar os pés no chão e apoiou-se nos cotovelos.

- Mr. Hall. aprecio o seu interesse pelo pro bono e posso garantir-Lhe muito trabalho neste domínio. Mas tem de procurar outro projecto. Não se trata de um tribunal fictício.

- E eu não sou um estudante de Direito.

- Sam Cayhall recusou definitivamente os nossos serviços Mr. Hall. Parece não ter compreendido isto.

- Quero uma oportunidade de me encontrar com ele.

- Para quê?

- Acho que posso convencê-lo a deixar-me representá-lo.

- Oh, realmente?

Adam respirou fundo, levantou-se e caminhou agilmente por entre as pilhas de papéis até à janela. Respirou fundo novamente.

Goodman observava e esperava.

- Tenho de contar-lhe um segredo, Mr. Goodman. Mais ninguém sabe além de Emmitt Wycoff e fui mais ou menos obrigado a confessar-lho. Tem de manter isto confidencial, está bem?

- Estou a ouvir.

- Tenho a sua palavra?

- Sim, tem a minha palavra - respondeu Goodman lentamente, mordendo uma das hastes dos óculos.

Adam espreitou por uma fenda da persiana e avistou um barco à vela no lago Michigan. Falou calmamente.

- Sou parente de Sam Cayhall.

Goodman nem pestanejou.

- Compreendo. Parente como?

- Ele tinha um filho, Eddie Cayhall. E Eddie Cayhall deixou o Mississípi cheio de vergonha quando o pai foi preso pelo atentado. Fugiu para a Califórnia, mudou de nome e tentou esquecer o passado. Mas um tal legado nunca deixou de atormentá-lo. Suicidou-se pouco depois de o pai ter sido condenado em 1981.

Goodman estava agora sentado na beira da cadeira.

- Eddie Cayhall era o meu pai.

Goodman hesitou ligeiramente.

- Sam Cayhall é seu avô?

- Sim. Só o soube quando tinha quase dezassete anos. A minha tia contou-me depois do funeral do meu pai.

- Uau!

- O senhor prometeu não dizer nada.

- Claro. - Goodman sentou-se na borda da secretária e pôs os pés em cima da cadeira. Fitou as persianas. - O Sam sabe que...

- Não. Nasci em Ford County no Mississípi, numa cidade chamada Clanton e não em Memphis. Sempre me disseram que tinha nascido em Memphis. Nessa altura o meu nome era Alan Cayhall, mas só o soube muito mais tarde. Tinha três anos quando deixámos o Mississípi e os meus pais nunca falavam do lugar. A minha mãe pensa que nunca mais houve qualquer contacto entre Eddie e Sam desde o dia em que partimos até ela lhe escrever para a prisão dizendo que o filho tinha morrido. Ele não respondeu.

- Raios, raios, raios - resmungou Goodman consigo próprio.

- Há muito mais a dizer, Mr. Goodman. Trata-se de uma família bastante esquisita.

- A culpa não é sua.

- Segundo a minha mãe, o pai de Sam era membro activo do Klan, tomou parte em linchamentos e tudo o mais. Portanto, venho de uma raça fraca.

- O seu pai era diferente.

- O meu pai suicidou-se. Poupo- lhe os detalhes, mas encontrei o corpo e limpei a porcaria antes de a minha mãe e a minha irmã chegarem a casa.

- E tinha dezassete anos?

- Quase dezassete. Foi em 1981. Há nove anos. Depois de a minha tia, irmã de Eddie, me ter contado a verdade, fiquei fascinado com a história sórdida de Sam Cayhall. Passei horas nas bibliotecas em busca de jornais antigos e revistas. Há muita coisa. Li a transcrição dos três julgamentos. Estudei as decisões da apelação. Na faculdade de Direito comecei a estudar a representação de Sam Cayhall por esta firma. O senhor e Wallace Tyner fizeram um trabalho exemplar.

- Ainda bem que aprova.

- Li centenas de livros e milhares de artigos sobre a Oitava Emenda e processos de pena de morte. Segundo creio, o senhor escreveu quatro livros e alguns artigos, também. Não passo de um caloiro, mas as minhas investigações foram impecáveis.

- E pensa que o Sam confiará em si como advogado?

- Não sei. Mas quer queira quer não, é meu avô e tenho de ir vê-lo.

- Nunca houve contactos...

- Nenhum. Eu tinha três anos quando partimos e é claro que não me lembro dele. Comecei mil vezes a escrever-lhe, mas nunca aconteceu. Não lhe sei dizer porquê.

- É compreensível.

- Nada é compreensível, Mr. Goodman. Não compreendo como nem porquê estou aqui sentado neste escritório neste momento. Sempre quis ser piloto, mas fui para a faculdade de Direito porque sentia uma vaga vocação para ser útil socialmente. Alguém precisava de mim e suponho que essa pessoa era o meu pai demente. Tive quatro ofertas de emprego, mas escolhi esta firma porque tinha a coragem de o representar gratuitamente.

- Você deveria ter contado isso a alguém, antes de ser contratado.

- Eu sei, mas ninguém me perguntou se o meu avô era cliente da firma.

- Devia ter dito qualquer coisa.

- Não vão despedir-me, pois não?

- Duvido. Onde esteve nos últimos nove meses?

- Aqui, trabalhando noventa horas por semana, dormindo sobre a secretária, comendo na biblioteca, preparando-me para o exame de estágio, o senhor sabe, as actividades habituais dos estagiários que vocês conceberam para nós.

- Estúpido, não é?

- Eu sou resistente. - Adam abriu uma fenda nas persianas para ver melhor o lago. Goodman observou-o.

- Porque é que não abre estas persianas? - perguntou Adam.

- É uma grande vista.

- Jáavi.

- Seria capaz de matar por uma vista como esta. O meu cubículo fica a metros de qualquer janela.

- Trabalhe arduamente, facture ainda mais arduamente e um dia isto tudo será seu.

- Não, obrigado.

- Vai deixar-nos, Mr. Hall?

- Provavelmente, eventualmente. Mas isso é outro segredo, está bem? Penso trabalhar no duro alguns anos e depois mudar. Talvez abrir o meu próprio escritório, onde a vida não dependa de um relógio. Quero fazer trabalho de interesse público, sabe, mais ou menos como o senhor.

- Então, ao fim de nove meses, já está desiludido com a Kravitz & Bane.

- Ainda não, mas pode muito bem acontecer. Não quero gastar a minha carreira a representar patifes ricos e empresas caprichosas.

- Então, não há dúvida que está no lugar errado.

Adam abandonou a janela e caminhou até à extremidade da secretária. Olhou para Goodman.

- Estou no sítio errado e quero uma transferência. Wycoff concorda em enviar-me para o nosso pequeno escritório em Memphis durante os próximos meses, para que eu possa trabalhar no caso Cayhall. Uma espécie de licença, com pagamento integral, claro.

- Mais alguma coisa?

- Acho que é tudo. Vai funcionar. Aqui não passo de um miserável estagiário, perfeitamente dispensável. Ninguém vai dar pela minha falta. Raios, há uma quantidade de jovens turcos ansiosos por trabalhar dezoito horas por dia e facturar vinte.

O rosto de Goodman descontraiu-se e mostrou um sorriso caloroso. Abanou a cabeça como se isto o tivesse impressionado.

- Planeou tudo, não foi? Quer dizer, escolheu esta firma porque representamos o Sam Cayhall e porque temos um escritório em Memphis.

Adam concordou com a cabeça sem um sorriso.

- As coisas funcionaram. Não sabia como e quando chegaria este momento, mas sim, planeei mais ou menos tudo. Não me pergunte o que vai acontecer a seguir.

- Ele estará morto dentro de três meses, se não for antes.

- Mas tenho de fazer alguma coisa, Mr. Goodman. Se a firma não me deixar tomar conta do caso, provavelmente, demitir-me-ei e tentarei por mim.

Goodman abanou a cabeça e pôs-se de pé.

- Não faça isso, Mr. Hall. Alguma coisa se há-de arranjar. Terei de apresentar o problema a Daniel Rosen, o sócio-gerente. Acho que ele concordará.

- Ele tem uma reputação terrível.

- E bem merecida, mas eu posso falar com ele.

- Ele consentirá se o senhor e o Wycoff o recomendarem, não é assim?

- Claro. Tem fome? - Goodman estava a estender a mão para o casaco.

- Um pouco.

- Vamos comer uma sanduíche.

A multidão da hora do almoço ainda não chegara ao café da esquina. Sócio e estagiário sentaram-se a uma pequena mesa de frente para a janela de onde podiam ver o passeio. O trânsito passava lentamente e centenas de peões apressavam-se, apenas a alguns metros de distância. O empregado de mesa serviu um Reuben gorduroso a Goodman e uma tigela de canja a Adam.

- Quantos prisioneiros estão no corredor da morte no Mississípi? - perguntou Goodman.

- Quarenta e oito no mês passado. Vínte e cinco negros e vinte e três brancos. A última execução foi há dois anos: Willie Parris. Sam Cayhall será provavelmente o próximo, excepto se acontecer um pequeno milagre.

Goodman mastigou rapidamente um grande naco. Limpou a boca com o guardanapo de papel.

- Eu diria antes um grande milagre. Legalmente não há muito mais a fazer.

- Há o sortido habitual das petições de última hora.

- Deixemos as conversas sobre estratégia para mais tarde. Suponho que nunca esteve em Parchman.

- Não. Desde que descobri a verdade, tenho-me sentido tentado a regressar ao Mississípi, mas ainda não o fiz.

- É uma imensa quinta no meio do delta do Mississípi, ironicamente não muito longe de Greenville. Qualquer coisa como sete mil hectares. Provavelmente o lugar mais quente do mundo. Fica perto da Estrada 49, exactamente como uma pequena aldeia desviada para oeste. Uma grande quantidade de edifícios e construções. A parte da frente pertence à administração e não está vedada. Existem cerca de trinta campos diferentes espalhados pela quinta, todos vedados e guardados. Cada campo é completamente independente. Alguns estão separados por quilómetros. Passamos por vários campos, todos cercados por grades de ferro e arame farpado, todos com centenas de prisioneiros deambulando por ali, sem fazer nada. Usam cores diferentes, conforme a respectiva classificação. É como se fossem todos jovens negros, deambulando ociosamente, alguns jogando basquetebol, outros limitam-se a ficar sentados à entrada dos edifícios. Ocasionalmente avistamos um rosto branco. Guiamos o carro, sozinhos e muito lentamente, por uma estrada de cascalho, passando pelos campos e pelo arame farpado, até chegarmos a um pequeno edifício aparentemente inócuo com um telhado plano. É rodeado por vedações altas com guardas de vigia no alto das torres. É uma instalação bastante moderna. Tem um nome oficial qualquer, mas toda a gente lhe chama simplesmente o Corredor.

- Parece um lugar maravilhoso.

- Eu pensei que fosse uma masmorra, sabe, escura e fria com a água a pingar do tecto. Mas é apenas um pequeno edifício baixo no meio de um campo de algodão. Na verdade, não é tão mau como os corredores da morte de outros estados.

- Gostaria de visitar o Corredor.

- Ainda não está preparado para isso. É um lugar horrível, cheio de pessoas deprimentes à espera de morrer. Eu já tinha sessenta anos quando o vi pela primeira vez e passei uma semana sem dormir. - Tomou um golo de café. - Não consigo imaginar como se sentirá quando lá for. O Corredor já é bastante mau quando estamos a representar um perfeito desconhecido.

- Ele é um perfeito desconhecido.

- Como tenciona dizer-lhe...

- Não sei. Hei-de pensar nalguma coisa. Tenho a certeza de que se limitará a acontecer...

Goodman abanou a cabeça.

- Isto é bizarro.

- Toda a família é bizarra.

- Lembro-me agora que o Sam tinha dois filhos, parece que um deles era uma rapariga. Já foi há muito tempo e foi o Tyner quem fez a maior parte do trabalho.

- A filha é a minha tia, Lee Cayhall Booth, mas tenta esquecer o seu nome de solteira. Casou numa familia rica e tradicional de Memphis. O marido é dono de um ou dois bancos e não dizem a ninguém o que se passou com o pai dela.

- Onde está a sua mãe?

- Em Ponland. Voltou a casar há alguns anos e falamos umas duas vezes por ano. Disfuncional seria um pleonasmo.

- Como é que conseguiu pagar os estudos em Pepperdine?

- Um seguro de vida. O meu pai tinha dificuldades em conservar um emprego, mas foi suficientemente sensato para fazer um seguro de vida. O período de espera tinha expirado há anos quando ele se suicidou.

- O Sam nunca falava da família.

- E a familia nunca fala dele. A mulher, a minha avó, morreu alguns anos antes de ele ser condenado. Eu não sabia disso, claro.

A maior parte da minha investigação genealógica foi feita junto da minha mãe, que fez o possível por esquecer o passado. Não sei o que se passa nas famílias normais, Mr. Goodman, mas a minha família raramente se reúne e quando dois ou mais de nós se juntam por acaso a última coisa de que falamos é do passado. Existem muitos e obscuros segredos.

Goodman mordiscava uma batata frita e ouvia atentamente.

- Falou numa irmã.

- Sim, tenho uma irmã, Carmen. Tem vinte e três anos e é uma rapariga linda e inteligente, que frequenta a universidade em Berkeley. Nasceu em l.A. por isso não passou pela mudança de nome como o resto de nós. Mantemo-nos em contacto.

- Ela sabe?

- Sim, ela sabe. A minha tia Lee contou-me primeiro a mim, imediatamente a seguir ao funeral do meu pai e, depois, como é normal, a minha mãe pediu-me para dizer a Carmen. Na altura ela tinha apenas catorze anos. Nunca manifestou qualquer interesse por Sam Cayhall. Francamente, o resto da família deseja apenas que ele desapareça sem fazer muitas ondas.

- Estão prestes a ver realizado esse desejo.

- Mas nada passará despercebido, pois não, Mr. Goodman?

- Não, nunca passa. Por um breve mas terrível momento Sam Cayhall será o homem mais falado do país. Vamos ver o mesmo velho filme da explosão da bomba e os julgamentos com o Klan a marchar em volta das salas de audiências. O mesmo velho debate acerca da pena de morte surgirá de novo. A imprensa invadirá Parchman. Em seguida, matá-lo-ão e, dois dias depois, tudo estará esquecido. Acontece sempre o mesmo.

Adam mexeu a sopa e escolheu cuidadosamente um pedaço de frango. Examinou-o durante um segundo e depois voltou a mergulhá-lo no caldo. Não tinha fome. Goodman comeu mais uma batata frita e tocou com o guardanapo nos cantos da boca.

- Suponho, Mr. Hall, que não está a pensar ser capaz de manter isto tudo em segredo?

- Já pensei no assunto.

- Esqueça.

- A minha mãe pediu-me para não o fazer. A minha irmã não quer ouvir falar do assunto. E a minha tia em Memphis arrepia-se toda só de pensar na remota possibilidade de sermos todos identificados como Cayhalls e arruinados para sempre.

- A possibilidade não é remota. Quando a imprensa acabar consigo, terão obtido velhas fotografias a preto-e-branco mostrando-o sentado nos joelhos do avôzinho. Será uma grande notícia, Mr. Hall. Pense nisso. O neto esquecido avançando no último momento, num esforço heróico para salvar o patife do velho avô enquanto o relógio avança inexoravelmente.

- A ideia não me desagrada de todo.

- Não é má, realmente. Vai chamar muito a atenção sobre a nossa pequena e bem-amada firma de advogados.

- O que levanta outra questão desagradável.

- Acho que não. Não há cobardes na Kravitz & Bane, Adam. Sobrevivemos e prosperámos no duro e desordenado mundo da lei de Chicago. Somos conhecidos como os maiores sacanas da cidade. Temos as peles mais duras. Não se preocupe com a firma.

- Então, vai concordar.

Goodman pousou o guardanapo na mesa e bebeu outro gole de café.

- Oh, é uma ideia maravilhosa, partindo do princípio de que o seu avô concorda. Se você conseguir trazê-lo de volta como cliente, voltaremos ao trabalho. Você será o chefe. Nós fornecemos-lhe daqui tudo aquilo de que precisar. Estarei sempre atrás de si. Vai resultar. Depois, matam-no a ele e você nunca se recomporá. Já vi morrer três dos meus clientes, Mr. Hall, um deles no Mississípi. Nunca mais voltará a ser o mesmo.

Adam concordou com a cabeça, sorriu e olhou para os peões no passeio.

Goodman continuou:

- Estaremos perto para o apoiar quando o matarem. Não terá de o suportar sozinho.

- Não é um caso desesperado, pois não?

- Quase. Falaremos de estratégia mais tarde. Primeiro, vou encontrar-me com o Daniel Rosen. Provavelmente quererá ter uma longa conversa consigo. Em segundo lugar, terá de ir ver o Sam para uma pequena reunião, por assim dizer. Essa é a parte difícil. Terceiro, se ele concordar, começamos a trabalhar.

- Obrigado.

- Não me agradeça, Adam. Duvido que ainda nos falemos quando tudo isto terminar.

- De qualquer maneira, obrigado.

 

A reunião foi organizada rapidamente. E. Garner Goldman fez o primeiro telefonema e, uma hora depois, todos os participantes cuja presença era imprescindível tinham sido convocados. Quatro horas depois, encontravam-se numa pequena e raramente utilizada sala de conferências, ao lado do gabinete de Daniel Rosen. Era o território de Rosen e isto perturbou Adam grandemente.

Segundo a lenda, Daniel Rosen era um monstro, embora dois ataques de coração o tivessem obrigado a abandonar parcialmente o trabalho e a abrandar um pouco. Durante trinta anos fora um advogado impiedoso na barra dos tribunais, o mais vil, indecente e, sem dúvida, um dos mais eficazes brigões das salas de audiências de Chicago. Antes dos ataques de coração, era conhecido pelo seu brutal horário de trabalho - semanas de noventa horas, orgias de trabalho até à meia-noite com escriturários e empregados forenses investigando e pesquisando. Várias mulheres o tinham abandonado. Quatro secretárias trabalhavam em conjunto como lou cas para ele, para manter o ritmo. Daniel Rosen fora a alma e o coração da Kravitz & Bane, mas já não era assim. O médico limitara as suas horas de trabalho no escritório a cinquenta por semana e proibira-lhe qualquer intervenção no tribunal.

Agora, Rosen, aos sessenta e cinco anos e a engordar, tinha sido unanimemente escolhido pelos bem-amados colegas para cuidar dos mais amenos prados da gestão de uma sociedade de advogados. Tinha a responsabilidade de supervisionar a bastante enfadonha burocracia que dominava a Kravitz & Bane. Era uma honra, explicaram sem grandes argumentos os outros sócios quando Lhe conferiram o cargo.

Até ali essa honra tinha-se mostrado batalha que amava e de que precisava desesperadamente, Rosen dedicava-se ao trabalho de gestão da firma de forma muito semelhante à preparação de um dispendioso processo. Contra-interrogava as secretárias e os escriturários acerca dos assuntos mais triviais. Confrontava os outros sócios e discursava durante horas sobre vagas questões de política da firma. Limitado à prisão do seu gabinete, convocava os sócios mais jovens para o visitarem e depois iniciava discussões, para lhes medir a força sob pressão.

Escolheu deliberadamente o assento fronteiro a Adam do outro lado da pequena mesa de conferências e segurou um estreito dossier como se possuísse um segredo mortal. E. Garner Goodman sentou-se curvado no assento ao lado de Adam, fazendo girar a gravata e coçando a barba. Quando telefonara a Rosen apresentando o pedido de Adam e lhe dera a notícia da sua ascendência, Rosen reagira disparatadamente como de costume.

Emmitt Wycoff estava de pé numa das extremidades da sala com um pequeno telefone celular colado à orelha. Tinha quase cinquenta anos, parecia mais velho e vivia diariamente num permanente estado de pânico rodeado de telefones.

Rosen abriu cuidadosamente o dossier diante de Adam e retirou um bloco de apontamentos amarelo.

- Porque é que não nos falou do seu avô quando o entrevistámos no ano passado? - começou ele em palavras cortantes e com um olhar feroz.

- Porque não me perguntaram - respondeu Adam. Goodman avisara-o de que a reunião poderia ser dura, mas ele e Wycoff levariam a melhor.

- Não se arme em espertalhão - rosnou Rosen.

- Vá lá, Daniel - disse Goodman revirando os olhos na direcção de Wycoff, que abanou a cabeça e olhou para o tecto.

- Não acha, Mr. Hall, que nos deveria ter informado de que era parente de um dos nossos clientes? Certamente que concorda que temos o direito de saber essas coisas, não é verdade? - O seu tom irónico era aquele que reservava habitualmente para encurralar as testemunhas que estavam a mentir.

- Vocês fizeram-me perguntas acerca de tudo o resto - respondeu Adam, muito controlado - Lembra-se da verificação de segurança? Das impressões digitais? Até falaram num polígrafo.

- Sim, Mr. Hall, mas o senhor sabia coisas que nós não sabíamos. E o seu avô era cliente desta firma quando o senhor se candidatou ao emprego e deveria ter-nos dito - Rosen tinha uma voz de inflexões ricas, que subia e descia com o talento dramático de um grande actor. Os seus olhos nunca abandonavam Adam.

- Não se trata bem de um avô típico - disse Adam tranquilamente.

- No entanto não deixa de ser seu avô e o senhor sabia que era nosso cliente quando se candidatou a um emprego nesta firma.

- Nesse caso, apresento as minhas desculpas - disse Adam.

- Esta firma tem milhares de clientes, todos bem colocados e pagando o máximo pelos nossos serviços, nunca pensei que um insignificante caso pro bono pudesse causar tantos problemas.

- O senhor aqui de má-fé, Mr. Hall. Seleccionou deliberadamente esta firma porque, na altura, representávamos o seu avô. E, agora, subitamente, aparece a solicitar o caso. Coloca-nos numa situação difícil.

- Situação difícil? - perguntou Emmitt Wycoff, dobrando o telefone e metendo-o no bolso. - Olha, Daniel, estamos a falar de um homem que se encontra no corredor da morte. Ele precisa de um advogado, raios!

- O seu próprio neto? - perguntou Rosen.

-Que interessa se se trata do seu próprio neto? O homem está com um pé na cova e precisa de um advogado.

- Ele despediu-nos, lembram-se? - ripostou Rosen.

- Sim, claro, e pode sempre voltar a contratar-nos. Vale a pena tentar. Anima-te.

- Ouve, Emmitt, cabe-me a mim preocupar-me com a imagem desta firma e a ideia de mandar um dos nossos jovens associados ao Mississípi para levar um pontapé no rabo e ver o seu cliente ser executado não me agrada nada. Francamente, acho que Hall devia ser despedido da Kravitz & Bane.

- Oh, óptimo, Daniel - disse Wycoff. - A resposta típica de um teimoso a uma questão delicada. Então, quem vai representar o Cayhall? Pensa nele por uns momentos. O homem precisa de um advogado! O Adam pode ser a sua única hipótese.

- Que Deus o ajude - resmungou Rosen.

  1. Garner Goodman decidiu falar. Cruzou ambas as mãos sobre a mesa e fitou Rosen intensamente.

- A imagem desta firma? Achas sinceramente que somos vistos como um bando de assistentes sociais mal pagos, devotados a ajudar as pessoas?

- Ou um bando de freiras a trabalhar nos projectos? - acrescentou Wycoff obsequiosamente, com um riso de escárnio.

- Como é que este caso poderia manchar a imagem da nossa firma? - perguntou Goodman.

A ideia da retirada nunca penetrara na cabeça de Rosen.

- É muito simples, Garner. Não mandamos os nossos estagiários para o corredor da morte. Podemos maltratá-los, tentar matá-los, esperar que trabalhem vinte horas por dia, mas não os mandamos para a batalha antes de estarem preparados. Bem sabes como os processos de pena de morte são densos. Que diabo, foste tu que escreveste os livros. Como podes esperar que Mr. Hall seja eficaz?

- Eu vigiarei tudo o que ele fizer - respondeu Goodman.

- Ele é realmente muito bom - acrescentou novamente Wycoff. - Sabes que ele memorizou todo o processo, Daniel?

- Vai resultar - disse Goodman. - Confia em mim, Daniel, já passei por muitas situações destas. Vou manter tudo sob controlo.

- E eu tirarei algumas horas para ajudar - acrescentou Wycoff. - Se for necessário até irei lá.

Goodman deu um salto e fitou Wycoff.

- Tu Pro bono?

- Claro, também tenho uma consciência.

Adam ignorou a disputa e fitou Daniel Rosen. Vá, despede-me, queria dizer. Vá, Mr. Rosen, acabe comigo, para que eu possa ir enterrar o meu avô e depois continuar com a minha vida.

- E se ele for executado? - perguntou Rosen na direcção de Goodman.

- Já os perdemos antes, Daniel, bem o sabes. Três, desde que dirijo o pro bono.

- Quais são as hipóteses dele?

- Muito escassas. Neste momento, está vivo em virtude de uma suspensão concedida pelo Quinto Tribunal de Círculo. Mas a suspensão será levantada em breve e será marcada uma nova data para a execução. Provavelmente no fim do Verão.

- Não falta muito tempo, então.

- Exactamente. Há sete anos que tratamos dos seus recursos e estão todos a seguir o seu curso.

- Entre todos os homens que se encontram no corredor da morte, a que propósito é que vieste a representar este idiota? perguntou Rosen.

- É uma história muito comprida e, neste momento, totalmente irrelevante.

Rosen tomou aquilo que pareciam ser algumas notas sérias no seu bloco.

- Não pensas por um momento sequer que poderás manter isto em segredo, pois não?

- Talvez.

- Talvez, uma ova. Imediatamente antes de o matarem, farão dele uma celebridade. Os meios de comunicação vão cercá-lo como uma alcateia de lobos. O senhor será descoberto, Mr. Hall.

- E depois?

- Depois, será uma grande notícia, Mr. Hall. Não está a ver os títulos:

 

         NETO PERDIDO HÁ MUITO TEMPO

         REGRESSA PARA SALVAR O AVÔ

 

- Pára com isso, Daniel - disse Goodman.

Mas ele continuou.

- A imprensa vai devorar tudo, não compreende, Mr. Hall? Vão desmascará-lo e comentar a loucura da sua família.

- Mas nós adoramos a imprensa, não é verdade, Mr. Rosen?

- perguntou Adam friamente - Somos advogados de barra. Não é suposto representarmos para as câmaras? O senhor nunca...

- Um bom ponto - interrompeu Goodman - Daniel, talvez não devesses aconselhar este jovem a ignorar a imprensa. Poderíamos contar a história de alguns dos teus êxitos.

- Sim, por favor, Daniel, prega sermões ao garoto sobre tudo o resto, mas acaba com a treta dos meios de comunicação - disse Wycoff com um sorriso mau. - Foste tu que escreveste o livro.

Por um momento, Rosen pareceu embaraçado. Adam observou-o com atenção.

- Pessoalmente, o cenário agrada- me bastante - disse Goodman torcendo a gravata e estudando as estantes atrás de Rosen. Na verdade, há muitas coisas a favor dele. Podia ser muito bom para nós, humildes advogados pro bono. Pensa nisso. Este jovem advogado lá em baixo a lutar como um louco para salvar do corredor da morte um famoso assassino. E é um dos nossos - Kravitz & Bane. Claro que toda a imprensa vai estar presente, mas que mal pode fazer isso?

- Se querem saber a minha opinião, é uma ideia maravilhosa - acrescentou Wycoff, exactamente no momento em que o seu minitelefone começava a tocar algures dentro de um bolso. Enterrou-o na face e afastou-se da reunião.

- E se ele morrer? Não ficaremos mal vistos? - perguntou Rosen a Goodman.

- É suposto ele morrer. É por isso que está no corredor da morte - explicou Goodman.

Wycoff parou de resmungar e fez deslizar o telefone para dentro de um bolso.

- Tenho que ir - disse ele, deslocando-se na direcção da porta, agora nervoso e apressado. - Em que é que ficamos?

- Continuo a não gostar disto - disse Rosen.

- Daniel, Daniel, sempre obstinado - disse Wycoff, parando na extremidade da mesa e apoiando- se sobre ela com ambas as mãos. - Sabes que a ideia é boa, só estás chateado porque ele não nos disse logo o que se passava.

- É verdade, ele enganou-nos e agora está a servir-se de nós. Adam respirou fundo e abanou a cabeça.

- Sê realista, Daniel. A entrevista dele foi há um ano. Já passou, homem. Esquece. Temos em mãos questões mais urgentes. Ele é brilhante, trabalha arduamente, é discreto, meticuloso nas investigações. Temos muita sorte em poder contar com ele. A família arranjou confusões, e depois? Certamente que não vamos despedir todos os advogados provenientes de familias disfuncionais.

- Wycoff sorriu para Adam. - Mais, todas as secretárias o acham bem- parecido. A minha opinião é que o mandemos para o Sul durante alguns meses e que regresse o mais depressa possível. Preciso dele. Tenho que ir-me embora - desapareceu e fechou a porta atrás de si.

A sala ficou em silêncio enquanto Rosen tomava notas, desistia e fechava o dossier. Adam quase sentiu pena dele. Aqui estava este grande guerreiro, o Charlie Hustle dos tribunais de Chicago, um grande advogado que, durante trinta anos, fizera tremer os jurados, aterrorizara os adversários e intimidara os juízes, agora sentado como um anotador, tentando desesperadamente agonizar sobre a questão de atribuir a um estagiário um processo pro bono. Adam compreendeu o humor, a ironia e a piedade.

- Vou ceder, Mr. Hall - disse Rosen, pondo uma nota altamente dramática na sua voz de baixo, quase murmurando, como se se sentisse terrivelmente frustrado com todo o caso. - Mas garanto-lhe uma coisa: quando o caso Cayhall estiver terminado e o senhor regressar a Chicago, vou recomendar o seu despedimento da Kravitz & Bane.

- Provavelmente não será necessário - disse Adam rapidamente.

- O senhor apresentou-se-nos sob falsos pretextos - continuou Rosen.

- Já pedi desculpa. Não voltará a acontecer.

- Além disso, é um espertalhão.

- Também o senhor, Mr. Rosen. Indique-me um bom advogado de barra que não seja espertalhão.

- Muito engraçado. Divirta-se com o caso Cayhall, Mr. Adam, porque será o seu último trabalho nesta firma.

- Quer que eu me divirta com uma execução?

- Calma, Daniel - disse Goodman, suavemente. - Acalma-te. Aqui ninguém vai ser despedido.

Rosen apontou a Goodman um dedo zangado.

- Juro que vou recomendar o seu despedimento.

- Óptimo. Tudo o que podes fazer é recomendar, Daniel. Levarei o caso ao comité e limitar-nos-emos a uma enorme discussão. Está bem?

- Mal posso esperar - rosnou Rosen enquanto se levantava.

- Vou já começar a mexer os cordelinhos. No fim da semana terei todos os votos necessários. Bom dia! - saiu ruidosamente da sala batendo com a porta.

Sentaram-se em silêncio ao lado um do outro, apenas a fitar do outro lado da mesa, por cima das costas das cadeiras vazias, as filas de grossos livros de Direito alinhados ordenadamente na prateleira e escutando o eco da porta a bater.

- Obrigado - disse Adam finalmente.

- Ele não é mau tipo, realmente - disse Goodman.

- Encantador, um verdadeiro príncipe!

- Conheço-o há muito tempo. Agora ele está a sofrer, sente-se realmente frustrado e deprimido. Não temos a certeza sobre o que fazer dele.

- E quanto à reforma?

- Já considerámos essa hipótese, mas nunca nenhum sócio foi obrigado a reformar-se. Por razões óbvias, é um precedente que gostaríamos de evitar.

- Ele está a pensar seriamente em despedir-me?

- Não se preocupe, Adam. Não vai acontecer. Prometo. Foi um erro não ter revelado tudo logo desde o início, mas é uma falta menor e perfeitamente compreensível. O senhor é jovem, está assustado e quer ajudar. Não se preocupe com o Rosen. Duvido que daqui a três meses ele continue neste cargo.

- Lá bem no fundo, acho que ele me adora.

- É bastante óbvio.

Adam respirou fundo e deu uma volta à mesa. Goodman tirou a tampa da caneta e começou a tomar notas.

- Não há muito tempo, Adam - disse ele.

- Eu sei.

- Quando é que pode partir?

- Amanhã. Faço as malas esta noite. São dez horas ao volante.

- O processo pesa quarenta e cinco quilos. De momento está na impressão. Envio-lho amanhã.

- Fale-me do nosso escritório em Memphis.

- Falei com eles há cerca de uma hora. O sócio-gerente é Baker Cooley e está à sua espera. Terão um pequeno gabinete e uma secretária para si e ajudarão no que puderem. Não são grande coisa no que diz respeito aos processos em tribunal.

- Quantos advogados têm?

- Doze. É uma pequena firma de luxo que absorvemos há dez anos, ninguém se lembra exactamente porquê. No entanto, são bons rapazes. Bons advogados. São os remanescentes de uma velha firma que prosperou com os comerciantes de algodão e de cereais e penso que é essa a ligação a Chicago. De qualquer forma, fica bem nos cabeçalhos. Já esteve em Memphis?

- Nasci lá, lembra-se?

- Oh, claro.

- Estive lá uma vez. Fui visitar a minha tia há alguns anos atrás.

- É uma velha cidade ribeirinha, muito bonita. Vai gostar dela.

Adam sentou-se do outro lado da mesa, em frente de Goodman.

- Como poderei apreciar seja o que for nos próximos meses?

- É verdade. Deve ir ao Corredor o mais depressa possível.

- Irei lá depois de amanhã.

- Muito bem. Vou telefonar ao director. Chama-se Phillip Naifeh e estranhamente é libanês. Há bastantes no delta do Mississípi. De qualquer maneira, é um velho amigo e avisá-lo-ei da sua ida.

- O director é seu amigo?

- Sim. Conhecemo-nos há muitos anos, no caso de Maynard Tole, um rapazinho perigoso que foi a minha primeira baixa nesta guerra. Foi executado em 1986, segundo creio, e eu e o director tornámo-nos amigos. Imagine que ele é contra a pena de morte, acredita?

- Não acredito.

- Detesta execuções. Estás prestes a aprender uma coisa, Adam: a pena de morte pode ter muitos adeptos no nosso país, mas as pessoas que são obrigadas a impô-la não a defendem. Vai conhecer estas pessoas: os guardas que se tornam íntimos dos presos, os administradores que têm de planear mortes eficientes e os empregados da prisão que ensaiam durante um mês. É um estranho canto do mundo e extremamente deprimente.

- Mal posso esperar.

- Vou falar com o director e obter autorização para a visita. Normalmente, dar-lhe-ão um par de horas. Claro que poderá demorar apenas cinco minutos se Sam não quiser um advogado.

- Ele vai falar comigo, não acha?

- Creio que sim. Não consigo imaginar como é que o homem vai reagir, mas certamente vai falar. Podem ser necessárias mais visitas para o levar a aceitar, mas vai conseguir.

- Quando é que o viu pela última vez?

- Há uns dois anos. Wallace Tyner e eu fomos até lá. Terá de entrar em contacto com o Tyner. Foi o homem de ponta deste caso nos últimos seis anos.

Adam concordou com um aceno de cabeça e passou à ideia seguinte. Nos últimos nove meses tinha andado a explorar o cérebro de Tyner.

- O que é que fazemos primeiro?

- Falaremos disso mais tarde. O Tyner e eu vamos reunir-nos amanhã de manhã para rever o caso. Porém, fica tudo em suspenso até termos notícias suas. Não podemos mexer-nos se não formos os representantes dele.

Adam estava a pensar nas fotografias dos jornais, a preto e branco, de 1967, quando Sam fora preso e nas fotografias das revistas, a cores, do terceiro julgamento em 1981 e no filme que ele montara num vídeo de trinta minutos acerca de Sam Cayhall.

- Qual é o aspecto dele?

Goodman pousou a caneta na mesa e brincou com a gravata.

- Estatura mediana. Magro, mas é raro vermos alguém gordo no corredor da morte, nervos e carne seca. Fuma sem parar, o que é vulgar porque pouco mais há para fazer e de qualquer forma eles estão para morrer. Uma marca estranha, Mont clair segundo me parece, numa embalagem azul. O cabelo cinzento e oleoso, tanto quanto me lembro. Aqueles tipos tomam banho todos os dias. Um pouco comprido atrás, mas isso foi há dois anos. Não perdeu muito cabelo. Barba cinzenta. Tem muitas rugas, mas é normal porque está perto dos setenta anos.

Fuma muito. Vai reparar que os brancos do corredor têm pior aspecto do que os negros. Estão fechados vinte e três horas por dia, por isso parecem ficar descorados. Muito pálidos, brancos com um aspecto quase doentio. O Sam tem olhos azuis, feições agradáveis. Suponho que Sam Cayhall deve ter sido um tipo bem-parecido.

- Depois de o meu pai morrer e eu saber a verdade acerca do Sam, fiz muitas perguntas à minha mãe. Ela não tinha muitas respostas, mas uma vez disse-me que entre o meu pai e o Sam não havia grandes parecenças físicas.

- Nem entre si e o Sam, se é aí que quer chegar.

- Sim, acho que sim.

- Ele não o vê desde o seu princípio de infância, Adam. Não vai reconhecê-lo. Não será assim tão fácil. Terá que dizer-lhe.

Adam fitou a mesa sem a ver.

- Tem razão. O que dirá ele?

- Não tenho a menor ideia. Penso que ficará demasiado chocado para dizer muita coisa. Mas é um homem muito inteligente.

não estúdou, mas leu muito e fala muito bem. Há-de pensar em algo para dizer. Mas pode demorar alguns minutos.

- Quase parece gostar dele.

- Não gosto, é um racista terrível e fanático e não mostrou qualquer remorso pelos seus actos.

- Está convencido de que é culpado.

Goodman grunhiu e sorriu para si mesmo e, em seguida pensou numa resposta. Tinham sido realizados três julgamentos para determinar a culpa ou a inocência de Sam Cayhall.

Durante nove anos o caso fora levado perante os tribunais de apelação e revisto por muitos juízes. Inúmeros artigos de jornais e revistas tinham investigado o atentado e aqueles que estavam por detrás dele.

- O júri achou que sim. Acho que só isso interessa.

- Mas e o senhor, pessoalmente, o que é que pensa?

- Leu o processo, Adam. Investigou durante muito tempo.

Não há dúvidas de que Sam participou no atentado.

- Mas?

- Há muitos mas. Há sempre.

- Não tinha qualquer experiência nem cadastro no manejo de explosivos.

- Certo. Mas era um terrorista do Klan e os atentados bombistas choviam. O Sam foi preso e os atentados pararam.

- Mas num dos atentados anteriores ao Kramer, uma testemunha afirma ter visto duas pessoas num Pontiac verde.

- Certo, mas a testemunha não foi admitida pelo tribunal e tinha acabado de sair de um bar às três horas da manhã.

- Mas uma outra testemunha, um motorista de camião, afirma ter visto Sam e outro homem a conversar num café de Cleveland algumas horas antes do atentado Kramer.

- Certo, mas o motorista de camião não disse nada durante três anos e não foi admitido como testemunha no último julgamento. Demasiado remoto.

- Então, quem foi o cúmplice de Sam?

- Duvido que alguma vez venhamos a saber. Não se esqueça, Adam, trata-se de um homem que foi submetido a julgamento por três vezes e, no entanto, nunca depôs. Não disse absolutamente nada à polícia, muito pouco aos seus advogados de defesa, nem uma palavra aos jurados e, nos últimos sete anos, não nos disse nada de novo.

- Acha que ele agiu sozinho?

- Não. Teve ajuda. O Sam carrega segredos terríveis, Sam. Nunca os revelará. Fez um juramento como membro do Klan e tem a ideia romântica e perversa de que se trata de um voto sagrado que jamais poderá violar. O pai dele também pertencia ao Klan, sabia?

- Sim, eu sei, não mo recorde.

- Desculpe. De qualquer forma, o jogo já está demasiado adiantado para procurar novas provas. Se ele de facto teve um cúmplice, deveria tê-lo revelado há muitos anos. Talvez devesse ter falado com o FBI. Talvez este conseguisse um acordo com o pro curador distrital. Não sei, mas quando uma pessoa é indiciada por duas acusações de crime capital e enfrenta a morte, normalmente começa a falar. Fala, Adam, salva a própria pele e deixa que o camarada se preocupe com a dele.

- E se não tiver havido nenhum cúmplice?

- Houve - Goodman pegou na caneta e escreveu um nome num pedaço de papel. Fê-lo deslizar por cima da mesa para Adam, que olhou para ele e disse:

- Wyn Lettner. O nome é familiar.

- Lettner foi o agente do FBI encarregado do caso Kramer. Agora está reformado e vive junto a um rio de trutas nas Ozarks. Adora contar histórias de guerra sobre o Klan e os tempos dos direitos civis no Mississípi.

- E falará comigo?

- Oh, sim. É um grande bebedor de cerveja e quando fica meio bebido começa a contar histórias incríveis. Não dirá nada de confidencial, mas sabe mais acerca do caso Kramer do que qualquer outra pessoa viva. Sempre suspeitei que ele sabe mais do que diz.

Adam dobrou o papel e meteu-o no bolso. Olhou para o relógio. Eram quase seis horas da tarde.

- Tenho que me despachar. Tenho que fazer as malas e tudo.

- Envio o processo amanhã. Tem que telefonar-me assim que falar com o Sam.

- Eu telefono. Posso dizer uma coisa?

- Claro.

- Em nome da minha família, tal como é, a minha mãe que se recusa a falar do Sam, a minha irmã que apenas murmura o seu nome e a minha tia que amaldiçoou o nome dos Cayhall, e em nome do meu falecido pai, gostaria de lhe agradecer, a si e a esta firma, aquilo que fizeram. Admiro-os profundamente.

- De nada. E eu também o admiro. Agora, ponha-se a andar para o Mississípi.

 

O apartamento era um sótão de uma só divisão, algures por cima do terceiro andar de um armazém do princípio do século mesmo à saída do Loop, numa zona da Baixa conhecida pelo crime, mas reputada como segura até ao escurecer. Em meados dos anos oitenta, o armazém tinha sido adquirido por um especulador S&L, que gastara muito dinheiro na sua modernização e instalações sanitárias. Dividiu-o em seis unidades, contratou um corretor de imóveis esperto e vendeu-as como apartamentos para jovens yuppies. Ganhou bom dinheiro quando o lugar se encheu de um dia para o outro de jovens banqueiros e corretores ambiciosos. Adam detestou o local. Ainda lhe restavam três semanas de um arrendamento de seis meses, mas não tinha outro sítio para onde ir. Seria obrigado a renovar o contrato por mais seis meses, porque a Kravitz & Bane esperava que trabalhasse dezoito horas por dia e não tivera tempo para procurar outro apartamento.

Nem tão-pouco tivera muito tempo para comprar mobília, claro. Um belo sofá de cabedal sem braços de qualquer espécie erguia-se solitário no chão de madeira, voltado para a velha parede de tijolo. Duas sacas de feijão - amarelo e azul - jaziam por perto para o caso improvável de aparecer uma multidão. À esquerda havia uma pequena área de cozinha, com um snack bar e três bancos de vime, e à direita do sofá ficava o quarto de cama com a cama por fazer e roupas espalhadas no chão. Seiscentos e cinquenta metros quadrados por mil e trezentos dólares por mês. O salário de Adam, como estagiário havia nove meses, começara em sessenta mil por ano e era agora de sessenta e dois. Deste salário bruto de pouco mais de cinco mil dólares por mês, mil e quinhentos eram retidos para os impostos estaduais e federais sobre o rendimento. Outros seiscentos nunca lhe chegavam às mãos, pois iam directamente para um fundo de reforma da Kravitz & Bane, que garantia um alívio da pressão a partir dos cinquenta e cinco anos, se o não matassem antes. Depois de pagar a renda, as outras despesas domésticas, quatrocentos dólares por mês para um Saab alugado e alguns gastos incidentais como comida congelada e algumas roupas de boa qualidade, restavam a Adam cerca de setecentos dólares para se divertir. Algum deste dinheiro era gasto com mulheres, mas aquelas que ele conhecia também tinham acabado de sair da universidade, com novos empregos e novos cartões de crédito, e geralmente insistiam em pagar a sua parte. Isto era óptimo para Adam. Graças à fé do pai nos seguros de vida, não tinha empréstimos de estudante a pagar. Embora existissem algumas coisas que gostaria de comprar, todos os meses depositava obstinadamente quinhentos dólares por mês em fundos de investimento. Sem qualquer perspectiva imediata de uma esposa e filhos, o seu objectivo era trabalhar muito, poupar muito e reformar-se aos quarenta anos.

Encostada à parede de tijolo havia uma mesa de alumínio com uma televisão em cima. Adam sentou-se no sofá, completamente nu, à excepção de uns calções curtos, com o controlo remoto na mão. Excepto a radiação incolor do ecrã, o sótão estava às escuras. Passava da meia-noite. O vídeo era um dos que ele montara ao longo dos anos - As Aventuras de um Bombista do Klan. Era como lhe chamava. Começava com um breve serviço noticioso arquivado por uma equipa local em Jackson, Mississípi, a 3 de Março de 1967, na manhã seguinte a uma sinagoga ter sido arrasada pela explosão de uma bomba. Era o quarto ataque conhecido contra alvos judeus nos últimos dois meses, dizia a repórter enquanto uma escavadora rugia atrás dela com um balde cheio de destroços. O FBI tinha poucas pistas e ainda menos palavras para a imprensa. A campanha de terror do Klan continua, declarou ela gravemente, e terminou.

O atentado Kramer vinha a seguir e a história começava com sirenes a gritar e a polícia a afastar as pessoas da cena. Um repórter local e o seu operador-de-câmara chegaram à cena com suficiente rapidez para captar a confusão inicial. Viam-se pessoas a correr na direcção dos restos do escritório de Marvin Kramer. Uma pesada nuvem de poeira cinzenta pairava por cima dos pequenos carvalhos do relvado fronteiro. As árvores estavam danificadas e sem folhas, mas de pé. A nuvem estava parada e não dava sinais de começar a dissipar-se. Em off, ouviam-se vozes a gritar acerca de um fogo e a câmara rodou e parou em frente do edifício ao lado, onde um fumo espesso se evolava de uma parede danificada. O repórter, sem fôlego e arquejando ao microfone, balbuciava incoerentemente acerca de toda a chocante cena. Apontava para um lado e para outro, enquanto a câmara saltava numa resposta tardia. A polícia empurrou-o, mas ele estava demasiado excitado para se importar. Um pandemónio glorioso surgira subitamente na tranquila cidade de Greenville e era o seu grande momento.

Trinta minutos mais tarde, de um outro ângulo, a voz soava mais calma ao descrever a frenética remoção de Martin Kramer de entre os destroços. A polícia alargou as barricadas e fez recuar a multidão, enquanto os bombeiros e os paramédicos levantavam o corpo e transportavam a maca por entre as ruínas. A câmara seguiu a ambulância enquanto ela se afastava velozmente. Depois, uma hora mais tarde e ainda de outro ângulo, o repórter mostrava-se muito composto e sombrio enquanto as duas macas com os pequenos corpos cobertos eram delicadamente transportadas pelos bombeiros.

O vídeo saltava do filme que mostrava a cena do atentado para a porta principal da cadeia e, pela primeira vez, havia um instantâneo de Sam Cayhall. Estava algemado e foi rapidamente empurrado para dentro de um carro que o esperava.

Como sempre, Adam pressionou um botão e voltou a passar a breve cena com o instantâneo de Adam. Era em 1967, vinte e três anos antes. Sam tinha quarenta e seis anos de idade. O cabelo era escuro e cortado curto, à moda da época. Tinha um pequeno penso sob o olho esquerdo, do lado mais afastado da câmara. Caminhava rapidamente, em passadas largas acompanhando os homens do xerife, porque as pessoas estavam a observar, a tirar fotografias e a gritar perguntas. Virou-se apenas uma vez ao som das vozes e... como sempre, Adam parou a fita e fitou pela milionésima vez o rosto do avô. Era uma fotografia a preto e branco e pouco nítida, mas os olhos de ambos encontravam-se sempre.

Mil novecentos e sessenta e sete. Se Sam tinha quarenta e seis anos, então Eddie tinha vinte e quatro e Adam quase três. Nessa altura, chamava-se Alan. Alan Cayhall que, em breve, iria residir num estado afastado, onde um juiz assinaria um decreto que lhe conferia um novo nome. Tinha visto muitas vezes este vídeo, perguntando-se onde estaria no preciso momento em que os rapazes Kramer eram assassinados: sete horas e quarenta e seis minutos da manhã, do dia 21 de Abril de 1967. Nessa altura a família vivia numa pequena casa na cidade de Clanton e, pro vavelmente, ainda estava a dormir não muito longe da vigilância da mãe. Ele tinha quase três anos e os gémeos Kramer apenas cimco.

O vídeo continuou com mais instantâneos de Sam a ser conduzido de e para diversos carros, prisões e salas de audiências.

Estava sempre algemado e desenvolvera o hábito de fitar o chão apenas alguns metros à sua frente. O rosto não apresentava qualquer expressão. Nunca olhava para os repórteres, nunca reconhecia as suas perguntas, nunca dizia uma palavra. Movia-se rapidamente, saindo das portas e entrando nos carros.

O espectáculo dos seus dois primeiros julgamentos fora amplamente registado pelos serviços noticiosos diários das cadeias de televisão. Ao longo dos anos, Adam conseguira recuperar a maior parte das fitas e editara cuidadosamente o material.

Havia o rosto barulhento e tempestuoso de Clovis Brazelton, o advogado de Sam, falando à imprensa sempre que tinha oportunidade. Mas as imagens de Brazelton tinham sido editadas pesadamente, com tempo. Adam desprezava o homem. Havia imagens

nítidas e amplas dos relvados dos tribunais, com as multidões de espectadores silenciosos, a polícia estadual fortemente armada e Os membros do Klan nas suas longas vestes, barretes em forma de máscaras sinistras. Havia breves vislumbres de Sam, sempre apressado, sempre a escudar-se das câmaras atrás de um polícia corpulento. Depois do segundo julgamento e do segundo empate dos jurados, Marvin Kramer deteve a sua cadeira de rodas em frente do Tribunal de Wilson County e, com lágrimas nos olhos, condenou Sam Cayhall, Ku Klux Klan e o mesquinho sistema judiciário do Mississípi. Enquanto as câmaras filmavam deu-se um lamentável incidente. Marvin localizou subitamente dois membros do Klan não muito longe nas suas vestes brancas e começou a gritar-lhes. Um deles gritou uma resposta, mas esta perdeu-se no calor do momento. Adam tentara tudo para recuperar as palavras do membro do Klan, mas sem resultado. A resposta permaneceria inintelígivel para sempre. Alguns anos antes na faculdade de Direito no Michigan, Adam encontrara um dos repórteres locais que estivera presente nesse momento, segurando um microfone não muito longe do rosto de Marvin. Segundo o repórter, a resposta vinda do outro lado do relvado tinha qualquer coisa a ver com o desejo de fazerem explodir o resto dos membros de Marvin. E esta resposta cruel devia ter algo de verdadeiro porque Marvin ficou furioso. Berrou obscenidades aos homens do Klan que se afastavam lentamente e fez girar as rodas da sua cadeira, encaminhando-se na sua direcção. Gritava, amaldiçoava e chorava. A mulher e alguns amigos tentaram detê-lo, mas ele libertou-se, as mãos manejando furiosamente as rodas. Rodou cerca de seis metros com a mulher a persegui-lo e as câmaras registando tudo, até que o passeio terminou e começou a relva. A cadeira de rodas virou-se e Marvin estatelou-se no chão. A manta que lhe cobria as pernas amputadas soltou-se, enquanto ele rolava velozmente na direcção de uma árvore. A mulher e os amigos rodearam-no imediatamente e, por um momento ou dois, ele desaparecia numa pequena trouxa no chão. Mas ainda era possível ouvi-lo. Enquanto a câmara recuava e apontava rapidamente aos dois homens do Klan, um dobrando-se a rir às gargalhadas e o outro completamente imóvel, um estranho gemido irrompeu da pequena multidão no chão. Marvin gemia, mas com o bramido arrepiante de um louco ferido. Era um som assustador ao cabo de alguns miseráveis segundos o vídeo saltou para a cena seguinte.

Adam sentiu lágrimas nos olhos a primeira vez que vira Martin rolar pelo chão, uivando e gemendo, mas embora as imagens oe e sons ainda lhe apertassem a garganta, há muito que deixara de chorar. Este vídeo era obra sua. Ninguém mais o vira além dele. E vira-o tantas vezes que as lágrimas já não eram possíveis.

A tecnologia aperfeiçoara-se enormemente entre 1968 e 1981 e o filme do terceiro e último julgamento de Sam era muito mais nítido. Fora em Fevereiro de 1981, numa bonita cidadezinha com uma praça atarefada e um singular tribunal em tijolo vermelho. O ar estava terrivelmente frio e talvez isso tivesse mantido afastadas as multidões de espectadores e manifestantes. Um relato do primeiro dia de julgamento incluía um instantâneo de três membros do Klan com os seus capuzes, amontoados à volta de um aquecedor portátil, esfregando as mãos e parecendo mais mascarados de Carnaval do que verdadeiros bandidos. Eram observados por cerca de uma dúzia de polícias estaduais, todos de uniforme azul. Porque nessa época o movimento dos direitos civis já era encarado mais como um acontecimento histórico do que como uma luta continuada, o terceiro julgamento de Sam Cayhall atraiu mais meios de comunicação social do que os dois anteriores. Aqui estava um membro confesso do Klan, um verdadeiro terrorista ao vivo da época distante dos Cavaleiros da Liberdade e dos atentados bombistas às igrejas. Aqui estava uma relíquia desses infames dias que fora seguido e estava agora a ser arrastado perante a justiça. A comparação com os criminosos de guerra nazis foi avançada mais do que uma vez.

Durante o seu último julgamento Sam não ficou sob custódia.

Era um homem livre e a sua liberdade tornava ainda mais difícil apanhá-lo nas câmaras. Havia breves instantâneos que o mostravam apressando-se na direcção de várias portas do tribunal. Sam envelhecera graciosamente nos treze anos passados desde o segundo julgamento. Ainda tinha o cabelo curto e bem penteado, mas agora meio cinzento. Parecia um pouco mais gordo, mas em forma. Movia-se agilmente pelos passeios e entrava e saía dos carros enquanto os meios de comunicação o perseguiam. Uma câmara apanhara-o a sair por uma porta lateral do tribunal e Adam parou a fita exactamente no momento em que Sam olhava directamente para a câmara.

Em 1989, oito breves anos depois do julgamento, David McAllister fora eleito governador do estado do Mississípi. Sem qualquer surpresa, as grandes parangonas da sua campanha haviam sido mais prisões, penas mais pesadas e uma defesa firme da pena de morte. Adam também o desprezava, mas sabia que numa questão de semanas, talvez de dias, estaria sentado no gabinete do governador em Jackson, Mississípi, pedindo um perdão.

O vídeo terminava com Sam mais uma vez algemado, a ser conduzido para fora do tribunal depois de o júri o ter condenado à morte. O seu rosto não tinha qualquer expressão. O advogado parecia estar em estado de choque e emitiu alguns comentários inócuos. O repórter terminou com a notícia de que Sam seria levado para o corredor da morte dentro de dias.

Adam pressionou o botão de rebobinar e fitou o ecrã em branco. Atrás do sofá sem braços estavam três caixas de cartão que continham o resto da história: as volumosas transcrições dos três julgamentos que Adam tinha adquirido ainda em Pepperdine cópias dos resumos, petições e outros documentos referentes aos

recursos que corriam desde a condenação de Sam, uma pasta volumosa e cuidadosamente indexada com cópias ordenadas de centenas de artigos de jornais e revistas acerca das aventuras de Sam como membro do Klan, material e investigações relacionadas com

a pena de morte e apontamentos da faculdade de Direito. Sabia mais acerca do avô do que qualquer outro ser vivo.

No entanto, Adam sabia que apenas aflorara a superfície.

Pressionou outro botão e viu o vídeo mais uma vez.

 

O funeral de Eddie Cayhall teve lugar menos de um mês depois de Sam ter sido condenado à morte. Foi realizado numa pequena capela de Santa Monica e contou com a presença de poucos amigos e ainda menos membros da família. Adam sentava-se num dos bancos da frente entre a mãe e a irmã. Estavam de mãos dadas e fitavam o caixão fechado apenas a alguns centímetros de distância. Como sempre, a mãe mostrava-se rígida e estóica. Os olhos humedeciam-se-lhe ocasionalmente e era obrigada a limpá-los com um lenço de papel. Ela e Eddie tinham-se separado e reconciliado tantas vezes que os filhos deixaram de saber onde estavam as roupas de quem. Embora o seu casamento nunca tivesse sido violento, tinham vivido num constante estado de divórcio - ameaças de divórcio, planos de divórcio, conversas solenes com os filhos acerca do divórcio, negociações para o divórcio, processos de divórcio, desistência do divórcio, promessas de evitar o divórcio. Durante o terceiro julgamento de Sam, a mãe de Adam mudara tranquilamente os seus perttences para a sua pequena casa e ficara junto de Eddie o mais tempo possível. Eddie deixou de ir trabalhar e retirou-se uma vez mais para o seu próprio mundo pequeno e escuro. Adam interrogou a a mãe, mas ela limitara-se a explicar em poucas palavras que o pai estava a atravessar outro período mau". As cortinas foram corridas, as persianas fechadas, as luzes ficaram permanentemente acesas, as vozes mantinham-se baixas e a televisão foi desligada, enquanto a familia suportava mais um dos maus períodos de Eddie.

Três semanas depois do veredicto estava morto. Matou-se a tiro no quarto de Adam, num dia em que sabia que Adam seria o primeiro a chegar a casa. Deixou uma nota no chão com instruções para Adam se apressar a limpar toda a porcaria antes de as mulheres chegarem a casa. Outra nota foi encontrada na cozinha.

Na altura Carmen tinha catorze anos, três anos menos que Adam. Fora concebida no Mississípi, mas nascera na Califórnia depois da apressada migração dos pais para oeste. Na altura em que ela nasceu, já Eddie tinha transformado legalmente a sua pequena família de Cayhalls em Halls. Alan tornara-se Adam.

Viviam em East l.A. num apartamento de três quartos com lençóis sujos nas janelas. Adam lembrava-se dos lençóis cheios de buracos. Fora a primeira de muitas residências temporárias.

Ao lado de Carmen no banco da frente estava uma mulher misteriosa conhecida como tia Lee. Acabara de ser apresentada a Adam e a Carmen como a irmã de Eddie, a sua única parente. Em crianças haviam-lhes ensinado a não fazer perguntas acerca da família, mas ocasionalmente o nome de Lee vinha à baila. Vivia em Memphis, a certa altura casara numa família rica de Memphis tivera um filho e não mantinha relações com Eddie devido a uma antiga divergência. As crianças, especialmente Adam, tinham desejado ardentemente encontrar um parente e como a tia Lee era a única mencionada fantasiavam a seu respeito. Queriam conhecê-la, mas Eddie sempre recusara dizendo que ela não era boa pessoa. Mas a mãe murmurava que Lee era realmente boa pessoa e que um dia os levaria a Memphis para a conhecerem.

Ao invés, fora Lee quem fizera a viagem até à Califórnia e juntos enterraram Eddie Hall. Ficou durante duas semanas após o funeral e travou conhecimento com a sobrinha e o sobrinho. Eles adoravam-na porque era pequena e moderna, usava jeans e t-shirts e andava descalça na praia. Levou-os às compras e ao cinema e deram grandes passeios na costa junto ao oceano. Deu toda a espécie de desculpas por não os ter visitado mais cedo. Ela queria fazê-lo, jurava, mas Eddie não o permitira. Não queria vê-la porque se tinham zangado no passado.

E foi a tia Lee quem se sentou com Adam num cais vendo o sol afundar-se no Pacífico e lhe falou finalmente do seu pai, Sam Cayhall. Enquanto as ondas batiam suavemente por debaixo deles, Lee explicou ao jovem Adam que ele vivera pouco tempo numa pequena cidade do Mississípi, ainda mal andava. Pegou-lhe na mão e de vez em quando dava-lhe palmadinhas nos joelhos, enquanto lhe contava a lúgubre história da família. Revelou os detalhes mais brutais das actividades de Sam no Klan, do atentado Kramer e dos julgamentos que tinham acabado por enviá-lo para o corredor da morte no Mississípi. Na sua história havia lacunas suficientemente grandes para encher bibliotecas, mas cobriu os pontos mais importantes com muita elegância.

Para um jovem inseguro de dezasseis anos que acabara de perder o pai, Adam aceitou a coisa muito bem. Fez algumas perguntas, enquanto um vento frio atingiu a costa fazendo-os abraçarem-se, mas durante a maior parte do tempo limitou-se a ouvir, não chocado nem zangado, mas com uma enorme fascinação. Esta terrível história era estranhamente satisfatória. Havia uma família algures! Talvez afinal ele não fosse assim tão anormal. Talvez existissem tias, tios e primos com vidas para partilhar e histórias para contar. Talvez existissem antigas casas construídas por verdadeiros antepassados e as terras e quintas nas quais se tinham instalado. Afinal tinha uma história.

Mas Lee era sensata e suficientemente rápida para identificar o interesse. Explicou que os Cayhall eram uma raça estranha e secreta que se mantinham isolados e afastavam estranhos. Não eram pessoas sociáveis e calorosas que se reuniam no Natal e no 4 de Julho. Ela vivia a uma hora de distância de Clanton e, no entanto, nunca os via.

Durante a semana seguinte, as visitas ao cais ao entardecer tornaram-se um ritual. Paravam no mercado e compravam um saco de uvas pretas e depois cuspiam as sementes para o mar e ali ficavam até escurecer. Lee contou histórias da sua infância no Mississípi com o irmão mais novo, Eddie. Viviam numa pequena quinta a quinze minutos de Clanton, com lagos para pescar e póneis para montar. Sam era um pai decente; não dominador mas também certamente nada carinhoso. A mãe era uma mulher fraca que não gostava de Sam, mas adorava os filhos. Perdera um bebé, um recém-nascido, quando Lee tinha seis anos e Eddie quase quatro e ficara de cama praticamente durante um ano. Sam contratara uma negra para tomar conta de Eddie e Lee. A mãe morrera de cancro e fora essa a última vez que os Cayhall se reuniram. Eddie fora discretamente à cidade para assistir ao funeral, mas tentara evitar toda a gente. Três anos mais tarde Sam fora preso pela última vez e condenado.

Lee tinha pouco a dizer acerca da sua própria vida. Deixara apressadamente a casa paterna aos dezoito anos, uma semana depois de acabar a escola secundária, e fora directamente para Nashville para se tornar famosa como cantora. De uma forma qualquer conhecera Phelps Booth, um estudante de Vanderbilt, cuja família era proprietária de bancos. Tinham acabado por se casar e instalar-se no que parecia ser uma existência miserável em Memphis. Tinham um filho, Walt, que era evidentemente um rebelde e vivia agora em Amsterdão. Estes eram os únicos pormenores.

Adam não conseguia perceber se Lee se transformara em alguma coisa além de uma Cayhall, mas suspeitava que sim. Quem poderia censurá-la?

Lee partiu tão tranquilamente como chegara. Sem um abraço i ou um adeus, afastou-se da casa deles ao entardecer e desapareceu.

Encorajou-os a escrever, o que eles fizeram ansiosamente, mas os telefonemas e as cartas dela foram-se tornando cada vez mais espaçados. A promessa de um novo relacionamento desvaneceu-se lentamente. A mãe deles inventava desculpas. Disse que Lee era boa pessoa, mas apesar disso era uma Cayhall e por isso atreita a ataques de melancolia e alheamento. Adam ficou destroçado.

No Verão seguinte à sua formatura em Pepperdine, Adam e um amigo atravessaram o país de carro até Key West. Pararam em Memphis e passaram duas noites com a tia Lee. Ela vivia sozinha num apartamento moderno e espaçoso situado numa encosta íngreme sobre o rio. Sentavam-se durante horas, só os três, a comer pizza caseira, a beber cerveja, a observar as barcaças e a falar sobre quase tudo. A família nunca foi mencionada. Adam estava excitado com a faculdade de Direito e Lee tinha muitas perguntas acerca do futuro dele. Mostrava-se vibrante, divertida e conversadora, a tia e hospedeira perfeita. Quando se despediram, os olhos dela encheram-se de lágrimas e pediu- lhe para voltar.

Adam e o amigo evitaram o Mississípi. Ao invés, dirigiram-se para este através do Tennessee e das Smoky Mountains. A certa altura, segundo os cálculos de Adam, encontraram-se apenas a cento e sessenta quilómetros de Parchman, do corredor da morte e de Sam Cayhall. Isso fora há quatro anos, no Verão de 1986, e já havia reunido uma grande caixa cheia de material acerca do avô. O vídeo estava quase concluído.

A sua conversa ao telefone na noite anterior fora breve. Adam dissera que iria residir em Memphis durante alguns meses e que gostaria de vê- la. Lee convidara-o para o seu apartamento, o mesmo sobre a costa, onde tinha quatro quartos e uma empregada

a meio tempo. Viveria com ela, insistira. Depois, ele dissera que iria trabalhar no escritório de Memphis, na realidade no caso de Sam. Houve um silêncio do outro lado da linha e, em seguida, uma oferta para ir de qualquer maneira, para conversarem sobre o assunto.

Adam tocou à campainha da porta alguns minutos depois das nove e deu uma olhadela ao seu Saab descapotável preto. O empreendimento era apenas uma fila de vinte unidades, todas empilhadas com telhados de tijolo vermelho. Um largo muro de tijolo com pesados gradeamentos de ferro no cimo protegia os seus habitantes dos perigos da Baixa de Memphis. Um guarda armado operava o único portão. Se não fosse a vista do rio do outro lado, os apartamentos não teriam qualquer valor.

Lee abriu a porta e beijaram-se no rosto.

- Bem-vindo - disse ela olhando para o parque de estacionamento e fechando em seguida a porta atrás dele. - Estás cansado?

- Na verdade não. É uma viagem de dez horas, mas demorei doze. Não tinha pressa.

- Tens fome?

- Não, parei algumas horas atrás - ele seguiu-a até à sala onde Gcaram a olhar um para o outro, tentando pensar em algo de apropriado para dizer. Ela tinha quase cinquenta anos e envelhecera muito nos últimos quatro anos. O cabelo era agora uma mistura equilibrada de cinzento e castanho e estava muito mais comprido. Tinha-o preso num rabo-de-cavalo. Os doces olhos azuis estavam vermelhos e preocupados, cercados por mais rugas.

Usava uma larga camisa de algodão ejeans desbotados. Lee ainda era moderna.

- É bom voltar a ver-te - disse ela com um sorriso agradável.

- Tem a certeza?

- Claro que tenho. Vamos sentar- nos no pátio - pegou-lhe na mão e conduziu-o através das portas de vidro para uma cobertura de madeira, onde cestos de fetos e buganvilias pendiam das traves de madeira. O rio estava por baixo deles. Sentaram-se em cadeiras de baloiço de verga branca.

- Como está a Carmen? - perguntou ela, enquanto servia chá gelado de um bule de cerâmica.

- Óptima. Ainda na faculdade em Berkeley. Falamos uma vez por semana. Namora um rapaz muito a sério.

- O que é que ela está a estudar agora? Já me esqueci.

- Psicologia. Quer fazer o doutoramento e depois talvez ensinar - o chá tinha muito limão e pouco açúcar. Adam sorveu lentamente. O ar ainda estava húmido e quente. - São quase dez horas - disse ele. - Porque é que está tanto calor?

- Bem-vindo a Memphis, querido. Vamos assar até Setembro.

- Não vou conseguir suportar.

- Habituas-te. Mais ou menos. Bebemos muito chá e ficamos em casa. Como está a tua mãe?

- Continua em Portland. Agora está casada com um tipo que fez fortuna no negócio de madeiras. Encontrei-me com ele uma vez. Tem cerca de sessenta e cinco anos, mas parece mais ter setenta. Ela tem quarenta e sete e parece não ter mais de quarenta. Formam Um casal lindo. Vão de avião para aqui e para ali, St. Barts, sul de França, Milão, todos os lugares onde os ricos devem ser vistos. É muito feliz. Os filhos estão crescidos. Eddie morreu. O passado está ordenadamente arrumado. E tem muito dinheiro. A vida dela está completamente em ordem.

- És duro demais.

- Sou demasiado benevolente. Na realidade ela não me quer por perto, porque sou um elo penoso com o meu pai e a sua família.

- A tua mãe ama-te, Adam.

- Oh, Deus, como é bom ouvir isso. Como é que sabe tanto?

- Sei apenas.

- Não sabia que a senhora e a minha mãe eram assim tão íntimas.

- Não somos. Descontrai-te, Adam, acalma-te.

- Peço desculpa. Estou ligado à corrente, é tudo. Preciso de uma bebida mais forte.

- Descontrai-te. Vamos divertir-nos um pouco enquanto estiveres por cá.

- Não é uma visita de diversão, tia Lee.

- Chama-me só Lee, está bem?

- Está bem. Amanhã vou visitar o Sam.

Ela colocou cuidadosamente o copo sobre a mesa, em seguida levantou-se e deixou o pátio. Voltou com uma garrafa de Jack Daniels e serviu uma dose generosa em ambos os copos. Deu um longo gole e olhou fixamente para o rio à distância.

- Porquê? - perguntou ela finalmente.

- Porque não? Porque ele é o meu avô. Porque está prestes a morrer. Porque sou advogado e ele precisa de ajuda.

- Ele nem sequer te conhece.

- Vai conhecer amanhã.

- Então, vais dizer-lhe?

- Sim, claro que Lhe vou dizer. Acredita? Vou realmente contra um dos profundos, escuros e malditos segredos dos Cayhall. O que acha disto?

ela agarrou o seu copo com ambas as mãos e abanou lentamente a cabeça.

- Ele vai morrer - murmurou ela sem olhar para Adam.

- Ainda não. Mas é bom saber que está preocupada.

- Estou preocupada.

- Realmente? Quando é que o viu pela última vez?

- Não comeces com isto, Adam. Tu não compreendes.

- Óptimo. Está certo: Então, explique-me. Estou a ouvir.

Quero compreender.

- Não podemos falar de outra coisa, querido? Não estou preparada para isto.

- Não.

- Podemos falar sobre isto mais tarde, prometo. Mas neste momento não estou preparada para isto. Pensei que iríamos apenas conversar e rir durante um bocado.

- Lamento, Lee. Estou farto de conversas e segredos. Não tenho passado, porque o meu pai convenientemente o apagou.

Quero saber tudo acerca disso, Lee. Quero saber a verdadeira gravidade da situação.

- É horrível - sussurrou ela, quase para si mesma.

- Muito bem. Agora já sou um rapaz crescido. Posso suportar isso. O meu pai abandonou-me antes de ter de o encarar, por isso receio que só reste a senhora.

- Dá-me um tempo.

- Não há tempo. Amanhã vou defrontar-me com ele – Adam sorveu longamente a bebida e limpou a boca à manga. - Há vinte e três anos a Newsweek disse que o pai de Sam também era membro do Klan, é verdade?

- Sim. O meu avô.

- Assim como vários tios e primos.

- Todo o maldito rancho.

- A Newsweek dizia também que era do conhecimento geral em Ford County que Sam Cayhall alvejara e matara um negro no início dos anos cinquenta e nunca fora preso por esse crime:

Nunca passou um dia na prisão. É verdade?

- O que é que isso interessa agora, Adam? Isso foi anos antes de nasceres.

- Então aconteceu realmente?

- Sim, aconteceu.

- E a senhora sabia!

- Eu vi.

- Viu? - Adam fechou os olhos sem acreditar. Respirou

pesadamente e afundou-se mais na cadeira de baloiço. O apito de um arrastão chamou-lhe a atenção e seguiu-o rio abaixo até passar por debaixo de uma ponte. O bourbon começava a fazer efeito.

- Falemos de outra coisa - disse Lee suavemente.

- Mesmo em pequeno - disse ele, ainda a observar o rio - adorava a história. Sentia-me fascinado pela forma como se vivia anos atrás: os pioneiros, as carroças, a corrida ao ouro, cowboys, índios, o povoamento do Oeste. Havia um miúdo na quarta classe que dizia que o seu trisavô tinha assaltado comboios e enterrado o dinheiro no México. Queria juntar um bando e fugir para procurar o dinheiro. Sabíamos que ele estava a mentir, mas era muito divertido alinhar na brincadeira. Interroguei-me muitas vezes acerca dos meus antepassados e lembro-me de ficar espantado por aparentemente não ter nenhuns.

- O que dizia o Eddie?

- Contou-me que tinham morrido todos e que se perdia mais tempo com a história da família do que com qualquer outra coisa.

Sempre que eu fazia perguntas acerca da família, a mãe puxava-me para o lado e dizia-me para parar porque isso poderia aborrecê-lo e ele podia ficar com um dos seus maus humores e fechar-se no quarto durante um mês. Passei a maior parte da minha infância a andar em bicos dos pés à volta do meu pai. À medida que fui crescendo, comecei a compreender que ele era um homem muito estranho, muito infeliz, mas nunca supus que cometeria suicídio.

Ela fez tilintar o gelo e bebeu a última gota.

- Há muito a dizer sobre isso, Adam.

- Então, quando é que vai dizer-mo?

Lee pegou delicadamente no bule e encheu ambos os copos.

Adam deitou bourbon em ambos. Passaram-se vários minutos enquanto eles bebiam e observavam o tráfego no Riverside Drive.

- Já esteve no corredor da morte? - perguntou ele finalmente, ainda a fitar as luzes ao longo do rio.

- Não - disse ela quase inaudivelmente.

- Ele está lá há quase dez anos e a senhora nunca foi vê-lo?

- Uma vez escrevi-lhe uma carta, pouco depois do último julgamento. Seis meses mais tarde, ele respondeu-me e disse-me para não ir. Disse que não queria que eu o visse no corredor da morte. Escrevi-lhe mais duas cartas, às quais nunca respondeu.

- Lamento.

- Não lamentes. Tenho muitas culpas na consciência, Adam.

Não é fácil falar delas. Dá-me apenas um pouco de tempo.

- Talvez fique em Memphis durante algum tempo.

- Quero que fiques aqui. Vamos precisar um do outro – ela hesitou e mexeu a bebida com o dedo indicador. - Quer dizer, ele vai morrer, não vai?

- Provavelmente.

- Quando?

- Dentro de dois ou três meses. Os seus recursos estão praticamente esgotados. Não há muito mais a fazer.

- Então, porque é que te vais envolver?

- Não sei. Talvez seja porque temos uma hipótese de lutar. Vou esforçar-me o mais que puder nos próximos meses e rezar por um milagre.

- Eu rezarei também - disse ela bebendo outro gole.

- Podemos falar sobre uma coisa? - perguntou ele, olhando subitamente para ela.

- Claro.

- Vive aqui sozinha? Enfim, é uma pergunta perfeitamente justa se também vou viver aqui.

- Vivo sozinha. O meu marido vive na nossa casa de campo.

- Ele vive sozinho? É só uma curiosidade.

- Às vezes. Ele gosta de raparigas novas, na casa dos vinte, normalmente empregadas do Banco. É suposto eu telefonar antes de lá ir. E eu espero que ele telefone antes de vir cá.

- Muito agradável e conveniente. Quem negociou esse acordo?

- Fomo-lo acenando ao longo dos anos. Há quinze anos que não vivemos juntos.

- Que casamento!

- Na verdade, resulta bastante bem. Aceito o dinheiro dele e não faço perguntas sobre a sua vida privada. Vamos juntos a pequenas funções sociais que nos são exigidas e ele sente-se feliz.

- E a tia é feliz?

- Quase sempre.

- Se ele a engana, porque é que não pede o divórcio e fica com o dinheiro? Posso representá-la.

- Um divórcio não resultaria. Phelps pertence a uma família tradicional, muito correcta e rígida, de gente miseravelmente rica Da velha sociedade de Memphis. Algumas destas famílias casaram entre si durante décadas. Na realidade, era suposto que ele casasse com uma prima em quinto grau, mas cedeu aos meus

encantos. A família opôs-se violentamente e um divórcio neste momento seria a admissão penosa de que a família tinha razão.

Além disso, são aristocratas de sangue azul e um divórcio litigioso seria humilhante para eles. Adoro a independência que representa aceitar o seu dinheiro e viver como quero.

- Alguma vez o amou?

- Claro. Estávamos loucamente apaixonados quando nos casámos. Foi em 1963 e a ideia de um grande casamento com a sua família de aristocratas e a minha familia de brancos pobres era pouco encorajadora. A mãe dele não falava comigo e o meu pai andava a queimar cruzes. Nessa altura, o Phelps não sabia que o meu pai era membro do Klan e eu, desejava ardentemente mantê-lo em segredo.

- Ele descobriu?

- Assim que o pai foi preso e acusado do atentado à bomba contei-Lhe. Ele, por sua vez, disse ao pai e o caso espalhou-se lentamente pela família Booth. Esta gente é muito eficiente a guardar segredos. É a única coisa que têm em comum com os CaEayhall.

- Então, pouca gente sabe que é filha do Sam?

- Muito pouca. Gostaria que se mantivesse assim.

- Tem vergonha de...

- Raios, sim, tenho vergonha do meu pai. Quem não teria? As palavras dela tornaram-se subitamente aguçadas e amargas. Espero que não tenhas qualquer imagem romântica deste pobre velho sofrendo no corredor da morte e prestes a ser crucificado injustamente pelos seus pecados.

- Não acho que ele deva morrer.

- Nem eu. Mas não há dúvida que matou bastante gente: os gémeos Kramer, o pai deles, o teu pai, e Deus sabe quem mais.

Devia continuar na prisão até ao fim dos seus dias.

- Não tem pena dele?

- Ocasionalmente. Se o dia me está a correr bem e o sol brilha, nesse caso posso pensar nele e recordar algum acontecimento agradável da minha infância. Mas esses momentos são muito raros, Adam. Ele trouxe muita infelicidade à minha vida e à de todos os que o rodeavam. Ensinou-nos a odiar toda a gente. Era mau para a nossa mãe. Toda a sua maldita família é má.

- Então, vamos matá-lo.

- Eu não disse isso, Adam, estás a ser injusto. Estou sempre a pensar nele. Rezo por ele todos os dias. Perguntei um milhão de vezes a estas paredes porque razão e como se transformou o meu pai numa pessoa tão horrível. Porque é que ele não pode ser um velhote simpático sentado neste preciso momento no alpendre com um cachimbo e uma bengala e talvez um pouco de bourbon num copo, evidentemente como remédio para o estômago? Porque é que o meu pai tinha de ser um membro do Klan que matou crianças inocentes e arruinou toda a familia?

- Talvez ele não tivesse intenção de as matar.

- Estão mortas, não estão? O júri disse que ele o tinha feito.

Foram feitos em pedaços e enterrados lado a lado na mesma campa. Quem se importa se tencionava ou não matá-los? Ele esteve lá, Adam.

- Podia ser muito importante.

Lee pôs-se de pé e agarrou-lhe na mão.

- Vem cá - insistiu ela. Avançaram alguns passos até à extremidade do pátio. Apontou para a silhueta de Memphis, a alguns quarteirões de distância. - Estás a ver aquele edifício plano, ali, de frente para o rio. O mais próximo de nós. Mesmo a três ou quatro quarteirões de distância.

- Sim - respondeu ele lentamente.

- O último andar é o décimo-quinto. Muito bem. Agora,

partindo da direita, conta seis andares para baixo. Estás a entender?

- Sim - Adam acenou afirmativamente e contou obedientemente. O edifício era um vistoso arranha-céus.

- Agora, conta quatro janelas para a esquerda. Há uma luz acesa. Estás a ver?

- Sim.

- Adivinha quem mora ali.

- Como poderia saber?

- Ruth Kramer.

- Ruth Kramer! A mãe?

- Exactamente.

- Conhece-a?

- Encontrámo-nos uma vez por acaso. Ela conhecia-me como Lee Booth, mulher do infame Phelps Booth, mas era tudo. Era um peditório para o ballet ou qualquer coisa assim. Sempre a evitei o mais possível.

- Deve ser uma cidade pequena.

- Pode ser muito pequena. Se lhe pudesses perguntar acerca de Sam, o que diria ela?

Adam fitou as luzes à distância.

- Não sei. Li que ela ainda se mostra muito amarga.

- Amarga? Ela perdeu toda a sua família. Nunca voltou a casar. Achas que quer saber se o meu pai tinha ou não intenção de matar os filhos dela? Claro que não. Sabe apenas que estão mortos Adam, mortos há vinte e três anos. Sabe que foram mortos por uma bomba colocada pelo meu pai e que se ele estivesse em casa

com a família, em vez de deambular por aí com os seus camaradas os pequenos Josh e John não estariam mortos. Pelo contrário teriam agora vinte e oito anos, provavelmente muito bem educados e casados; talvez com um ou dois bebés para Marvin e Ruth brincarem. Ela não quer saber a quem se destinava a bomba, Adam, só que foi lá colocada e explodiu. Os filhos dela estão mortos. É só isso que interessa.

Lee recuou e sentou-se na sua cadeira de baloiço. Voltou a fazer tilintar o gelo e tomou uma bebida.

- Não me compreendas mal, Adam. Sou contra a pena de morte. Provavelmente sou a única mulher branca de cinquenta anos neste país cujo pai se encontra no corredor da morte. É bárbaro, imoral, discriminatório, cruel, selvagem, subscrevo tudo isso.

mas não te esqueças das vítimas, está bem? Têm o direito de ser vingadas. Ganharam-no.

- A Ruth Kramer quer vingança?

- Por todos os meios, sim. Já não fala muito à imprensa, mas é muito activa nos grupos de vítimas. Há anos foi citada como Tendo dito que, quando Sam Cayhall fosse executado, ela se encontraria entre as testemunhas.

- Não exactamente um espírito de perdão.

- Não me lembro de o meu pai ter pedido perdão.

Adam voltou-se e sentou-se no parapeito com as costas voltadas para o rio. Observou os edifícios da Baixa e depois estudou os próprios pés. Lee bebeu mais.

- Bem, tia Lee, o que é que vamos fazer?

- Por favor, deixa o tia.

- Muito bem, Lee. Eu estou aqui e não me vou embora. Amanhã vou visitar o Sam e quando regressar tenciono ser o seu advogado.

- Pretendes manter o caso em segredo?

- O facto de na realidade eu ser um Cayhall? Não tenciono dizer a ninguém, mas ficaria surpreendido se o caso se mantivesse em segredo durante muito tempo. Entre os prisioneiros do corredor da morte, o Sam é famoso. A imprensa começará em breve algumas investigações.

Lee dobrou os pés debaixo dela e fitou o rio.

- Prejudicar-te-á? - perguntou suavemente.

- Claro que não. Sou advogado e os advogados defendem molestadores de crianças, assassinos, traficantes de droga, violadores e terroristas. Não somos gente popular. Como é que o facto de ele ser meu avô me pode prejudicar?

- A tua firma sabe?

- Disse-lhes ontem. Não ficaram exactamente deleitados, mas acabaram por aceitar. Na realidade, ocultei-lhes o facto quando me contrataram e foi errado. Mas penso que agora está tudo bem.

- E se ele te disser que não?

- Então, ficaremos seguros, não é? Nunca ninguém saberá e vocês ficarão a salvo. Regressarei a Chicago e esperarei que a CNN faça a cobertura do carnaval da execução. E com certeza virei até cá num dia frio de Outono e porei algumas flores na sua campa, provavelmente olharei para a sepultura e perguntarei novamente a mim próprio porque o teria ele feito e como se teria tornado num tal patife e porque terei eu nascido numa família tão desgraçada, sabe, as perguntas que tenho posto a mim próprio durante todos estes anos. Convidá- la-ei a vir comigo. Será uma espécie de pequena reunião de família, sabe, só nós Cayhall deslizando para o cemitério com um ramo de flores baratas e grossos óculos de sol para que ninguém nos reconheça.

- Pára com isso - disse ela e Adam viu as lágrimas. Corriam-lhe pelo rosto e já lhe chegavam ao queixo quando ela as limpou com os dedos.

- Lamento - disse ele e, em seguida, voltou-se para ver outra barcaça que se dirigia para norte através das sombras do rio.

- Lamento, Lee.

Portanto, ao fim de vinte e três anos regressara ao estado onde nascera. Não se sentia particularmente bem-vindo e embora não tivesse especial receio fosse do que fosse, teve o cuidado de se manter dentro do limite de velocidade e de não ultrapassar minguém. A estrada estreitava e mergulhava na planície do delta do Mississípi e, durante um quilómetro e meio, Adam observou um dique que serpenteava para a direita até finalmente desaparecer. Afrouxou ao atravessar a aldeia de Walls, a primeira localidade ao longo da Estrada 61 e seguiu o tráfego para sul.

Através das suas extensas investigações, sabia que esta auto-estrada servira durante décadas como o principal canal para centenas de milhares de negros pobres do delta que se dirigiam para norte, para Memphis, St. Louis, Chicago ou Detroit, em busca de trabalho e habitação decente. Fora nestas cidades e quintas, nestas casas em ruínas, nestes poeirentos armazéns rurais e nestas tabernas folclóricas ao longo da Estrada 61 que os blues nasceram e se fundiram para norte. A música encontrara uma casa em Mem phis, onde se tinha misturado com o gospel e o country, dando finalmente origem ao rock and roll. Ouvia uma velha cassete de uddy Waters quando entrou no infame condado de Tunica, segundo se dizia o mais pobre de todo o país.

A música pouco o acalmou. Tinha recusado o pequeno-almoço em casa de Lee, dissera não ter fome, mas na realidade tinha um nó no estômago. O nó crescia a cada quilómetro.

Imediatamente ao norte da cidade de Tunica, os campos tornaram-se mais vastos e estendiam-se até ao horizonte em todas as direcções. A soja e o algodão estavam pela altura do joelho. Um pequeno exército de tractores verdes e vermelhos com arados atrás cruzava as intermináveis filas ordenadas de folhagem. Embora ainda não fossem nove horas, o tempo já estava quente e húmido. O chão estava seco e nuvens de poeira erguiam-se no rasto de cada um dos arados. Ocasionalmente, um pulverizador de culturas surgia inesperadamente e humedecia com perícia a parte de cima dos campos e, em seguida, ganhava altura. O tráfego era abundante e lento e, por vezes, era quase obrigado a parar enquanto um monstruoso John Deere de qualquer espécie avançava vagarosamente como se a auto-estrada estivesse deserta.

Adam era paciente. Só o esperavam por volta das dez horas e não teria importância se chegasse atrasado.

Em Clarksdale deixou a Estrada 61 e dirigiu-se para sudeste pela 49, atravessando as pequenas localidades de Mattson, Dublin e Tutwiler e mais campos de soja. Passou por fábricas de descaroçar algodão, agora ociosas, mas esperando pela colheita. Passou por grupos de casas empobrecidas e roulottes sujas, todas por qualquer razão colocadas junto à estrada. Passou por uma ou outra casa de qualidade, sempre à distância, sempre majestosamente erguida à sombra de pesados carvalhos e ulmeiros e geralmente com uma piscina vedada de um dos lados. Não havia dúvidas sobre quem era o proprietário destes campos.

Um sinal na estrada indicava que a penitenciária estadual ficava a oito quilómetros e Adam instintivamente abrandou a marcha. Momentos mais tarde, encontrou-se com um grande tractor que se arrastava casualmente pela estrada e, em vez de ultrapassá-lo, decidiu segui-lo. O condutor, um velho branco com um boné sujo, fez-lhe sinal para passar. Adam acenou e manteve-se atrás do arado a uma velocidade de trinta quilómetros por hora. Não havia mais trânsito à vista. Um pedaço de terra ao acaso soltou-se de uma das rodas traseiras do tractor e parou apenas a alguns centímetros do Saab. Adam abrandou um pouco mais. O condutor sentou-se novamente no assento e acenou a Adam para passar. Adam mexeu-se e o rosto pareceu zangado, como se esta estrada fosse dele e não apreciasse idiotas que seguiam o seu tractor. Adam riu e voltou a acenar, mas continuou atrás dele.

Minutos mais tarde, avistou a prisão. Não havia altas vedações de malhas de ferro ao longo da estrada. Não havia brilhantes linhas de arame farpado para impedir a fuga. Não havia torres de vigia com guardas armados. Não havia grupos de prisioneiros gritando a quem passava. Ao invés, Adam viu uma entrada à direita e as palavras PENITENCIÁRIA ESTADUAL DO MISSISSÍPI estendendo-se em arco por cima dela. Ao lado da entrada havia vários edifício todos virados para a estrada e aparentemente não guardados.

Adam acenou mais uma vez ao condutor do tractor e, em seguida, saiu da estrada. Respirou fundo e estudou a entrada. Uma mulher de uniforme saiu de uma guarita situada sob o arco e fitou-o.

Adam conduziu lentamente na sua direcção e baixou o vidro.

- Bom-dia - disse ela. Tinha uma arma à cintura e um bloco na mão. Outro guarda observava do interior. - Em que podemos ser-lhe útil?

- Sou advogado e vim ver um cliente no corredor da morte - disse Adam em voz fraca, plenamente consciente do tom agudo e nervoso da sua voz. Acalma-te, disse a si próprio.

- Não temos ninguém no corredor da morte, senhor.

- Como?

- Não existe nenhum lugar chamado corredor da morte.

Temos alguns na Unidade de Segurança Máxima, abreviadamente USM, mas pode procurar em todo o lado que não encontrará nenhum corredor da morte.

- Muito bem.

- Nome? - perguntou ela estudando o bloco.

- Adam Hall.

- E o seu cliente?

- Sam Cayhall - quase esperava qualquer espécie de resposta a isto, mas a guarda não ligou importância. Virou uma folha e disse. - Espere aqui.

A entrada transformava-se num caminho de carros com árvores frondosas e pequenos edifícios de ambos os lados. Não era uma prisão, era uma pequena rua agradável de uma pequena cidade, onde a qualquer momento poderia surgir um grupo de garotos em bicicletas e patins. À direita ficava uma estrutura singular com um alpendre fronteiro e canteiros de flores. Um sinal indicava tratar-se do Centro dos Visitantes, como se houvesse lembranças e limonada à venda para os turistas ansiosos. Uma carrinha branca com três jovens negros e a inscrição Departamento Correccional do Mississípi gravada na porta passou sem abrandar.

Adam teve um vislumbre da guarda parada atrás do seu carro.

Estava a escrever qualquer coisa no bloco enquanto se aproximava da sua janela.

- De onde no Illinois? - perguntou ela.

- Chicago.

- Traz alguma máquina fotográfica, arma ou gravador?

- Não.

Ela estendeu a mão e colocou um cartão no painel de instrumentos do carro e disse:

- Tenho aqui uma nota segundo a qual é suposto o senhor falar com o Lucas Mann.

- Quem é?

- O advogado da prisão.

- Não sabia que devia falar com ele.

Ela segurou uma folha de papel a alguns centímetros do seu rosto.

- É o que diz aqui. Tome a terceira à esquerda ali em cima e em seguida, vire para as traseiras daquele edifício de tijolo vermelho - estava a apontar.

- O que é que ele quer?

Ela resfolegou e ao mesmo tempo encolheu os ombros, dirigindo-se para a guarita a abanar a cabeça. Advogados idiotas.

Adam carregou suavemente no acelerador, passou lentamente pelo Centro de Visitantes e desceu o caminho ensombrado.

em ambos os lados havia casas pintadas de branco onde, como soube mais tarde, os guardas da prisão e outros empregados viviam com as suas famílias. Seguindo as instruções da guarda, estacionou em frente de um velho edifício de tijolo. Dois condenados de confiança, usando as calças azuis da prisão com riscas brancas nas pernas, varriam os degraus da entrada. Adam evitou olhá-los e entrou.

Encontrou sem dificuldade o gabinete não identificado

de Lucas Mann. Uma secretária sorriu-lhe e abriu outra porta que dava para um grande gabinete, onde Mr. Mann se encontrava de pé atrás da secretária a falar ao telefone.

- Sente-se - murmurou a secretária, fechando a porta

atrás dele. Mann sorriu e acenou desajeitadamente enquanto escutava o telefone. Adam pousou a pasta sobre uma cadeira e ficou de pé atrás dela. O gabinete era espaçoso e limpo. Duas longas janelas davam para a estrada e deixavam entrar muita luz. Na parede da esquerda estava uma grande fotografia emoldurada de um rosto familiar, um jovem bem-parecido com um

sorriso sincero e um queixo forte. Era David MacAllister, governador do estado do Mississípi. Adam suspeitou que devia haver fotos idênticas penduradas em todos os gabinetes pertencentes ao governo do estado e também pregados em todos os corredores, armários e casas de banho sob a alçada do estado.

Lucas Mann esticou o fio do telefone e aproximou-se de uma janela, de costas voltadas para a secretária e para Adam. Certamente não parecia um advogado. Devia andar pelos cinquenta e tal anos com cabelo cinzento-escuro escorrido que, de qualquer forma, conseguia puxar e manter na parte detrás do pescoço. O seu traje era o último grito da moda, camisa de caqui severamente engomada com dois bolsos e uma gravata colorida, o primeiro botão desabotoado deixando ver uma t-shirt de algodão verde, calças castanhas largas igualmente engomadas com uma bainha perfeita de dois centímetros, caindo apenas o suficiente para deixar ver as peúgas brancas; os sapatos brilhavam imaculadamente.

Era óbvio que Lucas sabia como vestir-se e também era óbvio que estava envolvido numa outra prática de advocacia. Se usasse uma pequena argola na orelha esquerda, seria o hippie perfeito, envelhecido, convertido nos últimos anos às normas de sociedade.

O gabinete estava bem mobilado: uma secretária de madeira gasta que parecia impecavelmente organizada, três cadeiras de metal com almofadas de vinil, uma fila de arquivos desirmanados arrumados ao longo de uma parede. Adam continuou de pé atrás de uma cadeira e tentou manter a calma. Seria esta reunião exigida a todos os advogados de visita? Certamente que não. Havia cinco mil prisioneiros em Parchman. Garner Goodmann não mencionara nenhum encontro com Lucas Mann.

O nome era vagamente familiar. Algures, numa das suas caixas de ficheiros do tribunal e de recortes de jornais, vira o nome de Lucas Mann e tentava desesperadamente lembrar-se se era bom ou mau tipo. Qual seria exactamente o seu papel nos processos de pena de morte? Adam sabia com certeza que o inimigo era o Procurador-Geral do Estado, mas não conseguia encaixar Lucas no cenário.

Subitamente, Mann desligou o telefone e estendeu a mão a Adam.

- Muito prazer em conhecê-lo, Mr. Hall. Faz favor de se sentar - disse suavemente num papaguear amável, apontando para uma cadeira. - Obrigado por passar por aqui.

Adam sentou-se.

- Claro. É um prazer conhecê-lo - respondeu nervosamente.

- O que se passa?

- Algumas coisas. Primeiro, queria apenas conhecê-lo e cumprimentá-lo. Sou advogado aqui há doze anos. Faço a maior parte dos processos civis desta casa, sabe, todos os tipos de processos loucos propostos pelos nossos convidados, direitos dos presos, acções indemnização, esse tipo de coisas. Parece que somos processados todos os dias. Estatutariamente, também desempenho um pequeno papel nos casos de morte e penso que você veio visitar o Sam.

- Exactamente.

- Ele contratou-o?

- Não exactamente.

- Também não pensei que tivesse contratado. Isso representa um pequeno problema. Sabe, não é suposto um advogado visitar um recluso, a menos que realmente o represente e eu sei que Sam rescindiu os serviços da Kravitz & Bane.

- Portanto, não posso vê-lo? - perguntou Adam, quase com alívio.

- Não é suposto fazê-lo. Tive ontem uma longa conversa com o Garner Goodman. Conhecemo-nos há alguns anos no caso da execução de Maynard Tole. Conhece esse caso?

- Vagamente.

- Mil novecentos e oitenta e seis. Foi a minha segunda execução - disse ele, como se tivesse carregado pessoalmente no interruptor.

Estava sentado na beira da secretária e olhava para baixo, para Adam. A goma das calças estalou suavemente. A perna direita pendia da secretária.

- Tive quatro, sabe. Sam poderá vir a ser o quinto. De qualquer forma, o Garner representou o Maynard Tole e ficámos a conhecer-nos. É um cavalheiro excelente e um advogado feroz.

- Obrigado - disse Adam, porque não conseguiu pensar em nada melhor para dizer.

- Pessoalmente, odeio-as.

- Quer dizer que é contra a pena de morte?

- Quase sempre, sim. Na realidade, atravesso fases. Sempre que matamos alguém aqui, penso que o mundo enlouqueceu. Depois, invariavelmente, passo em revista um destes casos e lembro-me de como alguns destes crimes foram horríveis e brutais. A minha primeira execução foi Teddy Doyle Meeks, um vadio que violou, mutilou e assassinou um rapazinho. Não houve muita tristeza por aqui quando ele foi gaseado. Mas, olhe, podia ficar aqui eternamente a contar-lhe histórias de guerra. Talvez tenhamos tempo para isso mais tarde, está bem?

- Claro - respondeu Adam sem se comprometer. Não conseguia pensar em nenhum momento em que pudesse desejar ouvir histórias acerca de assassinos violentos e das suas execuções.

- Disse ao Garner que achava que o senhor não devia ser autorizado a visitar o Sam. Ele ouviu-me durante uns momentos e em seguida explicou, de modo muito vago, devo dizer, que talvez a sua ação fosse especial e que lhe deveria ser permitida pelo menos uma visita. Ele não me quis dizer o que era tão especial, percebe o que quero dizer? - Lucas esfregou o queixo ao dizer isto, como se quase tivesse resolvido o quebra-cabeças. - A nossa política é bastante estrita, especialmente para a USM. Mas o director fará aquilo que eu pedir - disse isto muito lentamente e as palavras ficaram a pairar no ar.

- Eu... hum... preciso realmente vê-lo.

- Bem, ele precisa de um advogado. Francamente, estou satisfeito por você ter vindo. Nunca executámos ninguém sem a Presença do seu advogado. Há uma grande quantidade de actos legais até ao último minuto e eu sentir-me-ei melhor se o Sam tiver um advogado - contornou a secretária e sentou-se do outro lado.

Abriu um dossier e estudou um pedaço de papel. Adam esperou, tentando respirar normalmente.

- Fazemos uma investigação bastante grande acerca dos nossos reclusos da morte - disse Lucas, ainda a olhar para o processo. A afirmação tinha o tom de um aviso solene. - Especialmente

quando os recursos já correram e a execução se aproxima. Sabe alguma coisa da familia do Sam?

Subitamente o nó no estômago de Adam transformou-se numa bola de basquete. Conseguiu encolher os ombros e abanar a cabeça ao mesmo tempo, para significar que não sabia nada.

- Tenciona falar com a familia do Sam?

Mais uma vez não houve resposta, mas apenas o mesmo encolher de ombros inepto, ombros muito pesados naquele momento.

- Quero dizer que normalmente nestes casos há muitos contactos com a família do condenado, à medida que a execução se aproxima. Provavelmente vai querer contactar com a familia dele. Sam tem uma filha em Memphis, uma Mrs. Lee Booth. Tenho o endereço se quiser - Lucas observou-o com desconfiança. Adam não conseguia mover-se. - Suponho que não a conhece, pois não?

Adam abanou a cabeça mas não disse nada.

- Sam tinha um filho, Eddie Cayhall, mas o desgraçado suicidou-se em 1981. Vivia na Califórnia. O Eddie deixou dois filhos, um filho nascido em Clanton, Mississípi, a 12 de Maio de 1964, que muito curiosamente é também a data do seu aniversário segundo a minha Lista de Advogados Martindale-Hubbel. Diz que você nasceu em Memphis nesse mesmo dia. Eddie também deixou uma filha que nasceu na Califórnia. Estes são os netos de Sam. Vou tentar contactá-los, se você...

- Eddie Cayhall era o meu pai - disse Adam subitamente e respirou fundo. Afundou-se mais na cadeira e fitou o tampo da secretária. O coração batia-lhe furiosamente, mas pelo menos conseguia novamente respirar. Sentiu os ombros subitamente mais leves. Até conseguiu exibir um pequeno sorriso.

O rosto de Mann não tinha qualquer expressão. Pensou durante um longo momento e em seguida disse com um laivo de satisfação:

- Já tinha calculado mais ou menos isso - começou imediatamente a folhear papéis como se o processo contivesse muitas outras surpresas. - O Sam tem sido um homem muito solitário no corredor da morte e interroguei-me muitas vezes acerca da sua família. Ele recebe algum correio, mas quase nenhum da família. Virtualmente não tem visitas, e também não quer nenhumas. Mas é um pouco invulgar um recluso tão famoso ser ignorado pela família. Especialmente sendo branco. Eu não me meto, compreende.

- Claro que não.

Lucas ignorou a resposta.

- Temos que fazer preparativos para a execução, Mr. Hall. Por ezemplo, temos que saber o que fazer com o corpo. O funeral e tudo mais. É aqui que a familia entra. Depois de ter falado ontem com o Garner, pedi à nossa gente em Jackson para localizar a familia. Na realidade foi bastante fácil. Também verificaram os seus documentos e descobriram imediatamente que o estado do Tennessee não possui qualquer registo de nascimento de Adam Hall a 12 de Maio de 1964. Uma coisa levou a outra. Não foi difícil.

- Já não me escondo.

- Quando é que soube do Sam?

- Há nove anos. A minha tia, Lee Booth, disse-me depois do funeral do meu pai.

- Teve algum contacto com o Sam?

- Não.

Lucas fechou o processo e recostou-se na sua cadeira que rangia.

- Portanto o Sam não tem qualquer ideia de quem você é nem porque está aqui?

- Exactamente.

- Uau - soprou ele na direcção do tecto.

Adam relaxou um pouco e endireitou-se na cadeira. Agora o gato tinha saído do saco e se não fosse Lee e os seus receios de ser descoberta ter-se-ia sentido completamente à vontade.

- Por quanto tempo poderei vê-lo hoje? - perguntou ele.

- Bem, Mr. Hall...

- Chame-me apenas Adam, está bem?

- Claro, Adam, na verdade temos dois conjuntos de regras para o Corredor.

- Desculpe, mas ao portão uma guarda disse-me que não havia nenhum corredor da morte.

- Oficialmente não. Nunca ouvirá os guardas ou qualquer outro membro do pessoal chamar-lhe outra coisa além de Unidade de Segurança Máxima, USM ou Unidade 17. De qualquer forma

quando o tempo de um recluso no Corredor está quase no fim abrandamos bastante as regras. Normalmente, a visita do advogado está limitada a uma hora por dia, mas no caso de Sam poderá ter todo o tempo de que precisar. Suspeito que terão muito de que falar.

- Portanto, não há limite de tempo?

- Não. Pode ficar todo o dia, se quiser. Tentamos facilitar as coisas nos últimos dias. Pode entrar e sair quando quiser, desde que não haja riscos para a segurança. Já estive no corredor da morte em cinco outros estados e, creia-me, nós tratamo-los melhor. i Raios, na Luisiana tiram o pobre tipo da sua unidade e colocam-no num sítio chamado a Casa da Morte, três dias antes de o matarem.

Falem de crueldade. Nós não fazemos isso. O Sam será tratado de forma especial até ao grande dia.

- O grande dia?

- Sim, é daqui a quatro semanas, sabia? A 8 de Agosto - Lucas estendeu as mãos para uns papéis no canto da secretária e depois entregou-os a Adam. - Isto chegou esta manhã. O Quinto Tribunal de Círculo levantou a suspensão ontem ao fim da tarde. O

Supremo Tribunal do Mississípi acabou de fixar a nova data de execução para 8 de Agosto.

Adam segurou os papéis sem olhar para eles.

- Quatro semanas - disse, abismado.

- Receio que sim. Levei uma cópia ao Sam há cerca de uma hora, por isso ele está de péssimo humor.

- Quatro semanas - repetiu Adam, quase para si mesmo. Olhou para o despacho do tribunal. O caso intitulava-se Estado do Mississipi v. Sam Cayhall - Acho que é melhor ir vê-lo, não acha? - perguntou sem pensar.

- Sim. Olhe, Adam, eu não sou um dos maus, está bem? Lucas pôs- se lentamente de pé e caminhou até à extremidade da secretária, onde se sentou delicadamente. Cruzou os braços e olhou para Adam. - Estou só a fazer o meu trabalho. Estarei envolvido porque tenho que vigiar este lugar e certificar-me de que as coisas são feitas legalmente, segundo as regras. Não apreciarei o facto, mas ficarei doido, muito tenso e todos me telefonarão - o director, os assistentes, o gabinete do procurador-geral, o governador, o Adam e uma centena de outros. Portanto, estarei no centro de tudo, muito embora não o deseje. É o mais desagradável neste trabalho. Só quero que compreenda que se precisar de mim estarei aqui, certo? E serei sempre justo e verdadeiro consigo.

- Está a partir do princípio que Sam me vai deixar representá-lo.

- Sim, estou a presumir isso mesmo.

- Quais são as hipóteses de a execução ter lugar dentro de quatro semanas?

- Metade, metade. Nunca se sabe o que farão os tribunais à última hora. Vamos começar a preparar as coisas mais ou menos daqui a uma semana. Temos uma lista bastante longa de coisas para fazer para nos prepararmos.

- Uma espécie de rascunho da morte.

- Qualquer coisa assim. Não pense que gosto disso.

- Suponho que todos aqui apenas fazem o seu trabalho, não é verdade?

- É a lei deste estado. Se a nossa sociedade quer matar os criminosos, então alguém terá de o fazer.

Adam colocou o despacho do tribunal na pasta e enfrentou Lucas.

- Obrigado, creio, pela hospitalidade.

- De nada. Depois de visitar o Sam, vou precisar de saber o que aconteceu.

- Mandar-lhe-ei uma cópia da procuração forense, se ele a assinar.

- É tudo o que preciso.

Apertaram as mãos e Adam dirigiu-se para a porta.

- Outra coisa - disse Lucas. - Quando levarem o Sam para a sala de visitas, peça aos guardas para lhe tirarem as algemas. Vou assegurar-me de que o fazem. Significará muito para o Sam.

- Obrigado.

- Boa-sorte.

 

A temperatura tinha subido pelo menos dez graus quando Adam saiu do edifício e passou pelos dois presos de con fiança que varriam a mesma poeira com os mesmos movimentos lânguidos. Parou nos degraus da frente e, durante uns momentos, observou alguns reclusos a recolherem lixo na estrada a menos de noventa metros. Numa vala, um guarda armado e a cavalo vigiava-os. O trânsito passava a grande velocidade sem abrandar. Adam perguntou-se que tipo de criminosos seriam estes que eram autorizados a trabalhar fora das vedações e tão próximo de uma estrada. Ninguém parecia preocupar-se com o assunto, excepto ele.

Caminhou a curta distância até ao carro e, quando abriu a porta e pôs o motor a trabalhar, já estava a suar. Seguiu o caminho que atravessava o parque de estacionamento por trás do escritório de Mann e, em seguida, virou à esquerda para a estrada principal da prisão. Passou mais uma vez por pequenas casas brancas e asseadas com flores e árvores no quintal da frente. Que pequena comunidade civilizada! Um sinal de trânsito com uma seta apontava para a esquerda, para a Unidade 17. Virou muito lentamente e em poucos segundos encontrou-se numa estrada de terra, que conduzia rapidamente a alguns muros a sério e arame farpado.

O Corredor de Parchman fora construído em 1954 e oficialmente designado como Unidade de Segurança Máxima ou sim plesmente USM. Uma placa de homenagem afixada numa parede listava a data, o nome do então governador, os nomes de várias entidades importantes e há muito esquecidas que, de qualquer forma, tinham contribuído para a construção e, evidentemente, os nomes do arquitecto e do empreiteiro. Era ultramoderna para a época, um edifício de um só piso de telhado plano de tijolo vermelho estendendo-se em dois grandes rectângulos a partir do centro.

Adam estacionou no parque térreo entre dois outros carros e olhou fixamente para ele. Não havia grades visíveis do exterior.

Nenhum guarda fazia a patrulha à sua volta. Se não fossem os muros e o arame farpado, quase poderia parecer uma escola primária dos subúrbios. Dentro de um pátio fechado na extremidade de uma das alas, um recluso solitário driblava uma bola de basquetebol num campo não relvado e atirava-a contra uma placa.

O muro em frente de Adam tinha pelo menos três metros e meio de altura e a parte superior era coroada por grossos fios de arame farpado e um rolo ameaçador de arame laminado. Corria directamente para o canto onde se juntava a uma torre de vigia, do alto da qual guardas vigiavam. O muro cercava o Corredor por todos os quatro lados com notável simetria e em cada um dos cantos havia uma torre idêntica que se elevava com uma casa de guarda cercada de vidro no topo. Mesmo atrás do muro começavam os campos cultivados e pareciam não ter fim. O Corredor ficava literalmente no meio de um campo de algodão.

Adam saiu do carro, experimentou um súbito ataque de claustrofobia e apertou a pega da sua fina pasta enquanto fitava através da corrente de ferro o pequeno edifício quente e plano onde matavam as pessoas. Despiu lentamente o casaco e reparou que a camisa já estava manchada e pegajosa no peito. O nó no estômago regressara como uma vingança. Os seus primeiros passos na direcção da casa da guarda foram lentos e desajeitados, principalmente porque tinha as pernas pouco firmes e os joelhos a tremer. As suas belas calças largas estavam sujas de poeira quando parou por baixo da torre de vigia e olhou para cima. Um balde vermelho, do tipo que poderia ser usado para lavar um carro, estava a ser descido por meio de uma corda por uma mulher séria em uniforme.

- Ponha as suas chaves no balde - explicou ela eficientemente, inclinando-se sobre o parapeito. O arame farpado no cimo do muro estava a cerca de metro e meio abaixo dela.

Adam fez rapidamente o que lhe era ordenado. Colocou cuidadosamente as chaves dentro do balde, onde se juntaram a cerca de uma dúzia de outros porta-chaves. Ela puxou-o novamente e ele ficou a vê-lo subir durante alguns segundos e, em seguida, parar. Ela amarrou a corda de uma forma qualquer e o pequeno balde vermelho ficou inocentemente pendurado no ar. Uma brisa suave tê-lo-ia feito mover suavemente mas, de momento, naquele vácuo sufocante, mal havia ar suficiente para respirar. Os ventos tinham morrido há muitos anos.

A guarda tinha terminado com ele. Algures alguém premiu um botão ou puxou uma alavanca, Adam não fazia a menor ideia quem, mas fez-se ouvir um zumbido e o primeiro dos dois enormes portões de ferro começou a deslizar alguns metros para ele poder entrar. Caminhou cerca de quatro metros e meio pela estrada de terra e depois parou enquanto o primeiro portão se fechava atrás de si. Estava a aprender a primeira regra básica da segurança nas prisões: todas as entradas protegidas tinham sempre duas portas ou portões trancados.

Quando o primeiro portão parou atrás dele e se fechou voltando ao lugar, o segundo soltou-se obedientemente e subiu ao longo do muro. Enquanto isto acontecia, um guarda muito forte, com braços tão compridos como as pernas de Adam, apareceu na porta principal da unidade e começou a caminhar lentamente ao longo do caminho de tijolo em direcção à entrada. Tinha um estômago duro e um pescoço grosso e estava mais ou menos à espera de Adam, enquanto Adam esperava que os portões trancassem tudo.

Estendeu uma enorme mão negra e disse:

- Sargento Packer - Adam apertou-a e reparou imediatamente nas brilhantes botas de cowboy que o sargento Packer usava nos pés.

- Adam Hall - disse ele tentando soltar a mão.

- Para visitar o Sam - disse Packer de modo afirmativo.

- Sim, senhor - disse Adam, perguntando-se se aqui toda a gente lhe chamaria Sam.

- É a sua primeira visita? - começaram a caminhar lentamente na direcção da fachada do edifício.

- Sim - disse Adam, olhando para as janelas abertas ao longo da fileira mais próxima. - Todos os reclusos do corredor da morte estão aqui? - perguntou.

- Sim. De momento temos quarenta e sete. Perdemos um na semana passada.

Estavam quase a chegar à porta principal.

- Perderam um?

- Sim. O Supremo Tribunal inverteu a decisão. Tivemos que o mudar para junto da população geral. Tenho que o revistar - estavam à porta e Adam olhou nervosamente à sua volta, tentando perceber onde exactamente tencionaria Packer conduzir a busca.

- Abra as pernas só um pouco - disse Packer agarrando na pasta e colocando-a no chão de cimento. As belas calças largas estavam agora no lugar. Embora estivesse tonto e momentaneamente sem o uso de todas as suas faculdades, Adam não conseguia lembrar-se, neste momento horrível, de alguém lhe ter dito alguma vez para abrir as pernas, mesmo só um bocadinho.

Mas Packer era um profissional. Apalpou com perícia em volta das meias, subindo bastante delicadamente até aos joelhos, que estavam mais do que um pouco trémulos, e em seguida em volta da cintura, tudo num abrir e fechar de olhos. Misericordiosamente, a primeira revista de Adam estava terminada segundos depois de ter começado, quando o sargento Packer fez uma passagem bastante rápida por baixo de ambos os braços, como se Adam pudesse usar um pequeno coldre de ombro com uma pequena pistola dentro dele. Packer enfiou destramente a mão dentro da pasta e, em seguida, devolveu-a a Adam:

- Hoje não é bom dia para ver o Sam - disse ele.

- Já ouvi dizer - respondeu Adam, lançando novamente o casaco por cima do ombro. Voltou-se para a porta de ferro, como se fosse agora chegado o momento de entrar no Corredor.

- Por aqui - resmungou Packer enquanto pisava a relva e virava a esquina. Adam seguiu-o obedientemente ao longo de outro pequeno atalho de tijolo vermelho, até chegarem a uma porta simples com ervas daninhas a crescer ao lado. A porta não tinha qualquer sinal.

- O que é isto? - perguntou Adam. Recordava-se vagamente da descrição que Goodman lhe fizera deste lugar, mas de momento todos os pormenores estavam pouco nítidos.

- A sala de conferências - Packer pegou numa chave e destrancou a porta.

Adam olhou em volta antes de entrar e tentou recompor-se. A porta ficava junto da secção central da unidade e ocorreu a Adam que talvez os guardas e os administradores não quisessem os advogados no caminho e a bisbilhotarem por ali. Daí a entrada exterior.

Respirou fundo e entrou. Não havia outros advogados de visita aos respectivos clientes e isto foi particularmente reconfortante para Adam. Este encontro poderia tornar-se tumultuoso e preferia conduzi-lo em privado. Pelo menos de momento a sala estava vazia. Era suficientemente grande para que vários advogados pudessem visitar e dar consulta, talvez com nove metros de comprimento e três e meio de largura, com chão de cimento e brilhantes luzes fluorescentes. A parede da extremidade mais afastada era de tijolo vermelho com três janelas lá no alto, iguais às do exterior das fileiras da unidade. Tornou-se imediatamente evidente que a sala de conferências fora acrescentada posteriormente.

O ar condicionado, uma pequena unidade de janela, rosnava furiosamente e produzia muito menos do que devia. A sala estava dividida por uma sólida parede de tijolo e metal; os advogados tinham o seu lado e os clientes o deles. Os primeiros noventa centímetros da divisória eram de tijolo e, em seguida, um pequeno balcão facultava aos advogados um lugar para colocarem os respectivos blocos e tomarem as suas notas. Uma grade verde e brilhante de metal grosso assentava solidamente no balcão e elevava-se até ao tecto.

Adam encaminhou-se lentamente para a ponta da sala, contornando uma grande variedade de cadeiras - cadeiras dos salvados do governo verdes e cinzentas, cadeiras desdobráveis, estreitos assentos de café.

- Vou trancar esta porta - disse Packer enquanto saía. Vamos trazer o Sam.

A porta bateu e Adam ficou sozinho. Escolheu rapidamente um lugar no fim da sala para o caso de chegar outro advogado, caso em que este certamente escolheria a posição mais próxima da outra extremidade, e poderia assim traçar estratégias com alguma privacidade. Puxou uma cadeira para junto do balcão de madeira, colocou o casaco sobre outra cadeira, pegou no bloco destapou a caneta e começou a roer as unhas. Tentou parar, mas não conseguiu. O estômago revoltava-se violentamente e os calcanhares tremiam-lhe descontroladamente. Olhou através da grade e observou a parte da sala pertencente aos reclusos: o mesmo balcão de madeira, o mesmo conjunto de cadeiras velhas.

No centro da grade à sua frente havia uma fenda, dez centímetros por vinte e cinco, e seria através deste pequeno orifício que defrontaria Sam Cayhall.

Esperou nervosamente, dizendo a si próprio para manter a calma, tranquilizar-se, podia resolver isto. Escreveu qualquer coisa no seu bloco, mas honestamente não conseguiu ler o quê. Enrolou as mangas. Olhou em torno da sala em busca de microfones ou câmaras ocultos, mas o local era tão simples e modesto que não conseguia imaginar ninguém à escuta. Se o sargento Packer servia de modelo, o pessoal era descuidado, quase indiferente.

Estudou as cadeiras vazias de ambos os lados da grade e perguntou-se quantos desesperados nas últimas horas da sua vida se teriam encontrado aqui com os seus advogados e escutado palavras de esperança. Quantas súplicas urgentes teriam passado através desta grade enquanto o relógio avançava inexoravelmente?

Quantos advogados se teriam sentado exactamente no lugar onde agora estava sentado e dito aos seus clientes que não havia mais nada a fazer, que a execução teria lugar? Era um pensamento sombrio e acalmou bastante Adam. Não era o primeiro a estar aqui e não seria o último. Era um advogado bem treinado, abençoado com uma mente rápida. Podia fazer o seu trabalho. Lentamente, as suas pernas pararam de tremer e deixou de roer as unhas.

Ouviu-se o ruído do fecho de uma porta e Adam arrepiou-se.

Abriu-se lentamente e um jovem guarda branco entrou do lado dos reclusos. Atrás dele, vestindo um fato-macaco vermelho-claro, as mãos algemadas atrás das costas, estava Sam Cayhall. Olhou em volta da sala, olhando de soslaio através da grade, até que os seus olhos se focaram em Adam. Um guarda puxou-o pelo cotovelo e conduziu-o para o lugar directamente em frente do advogado. Era magro, pálido e quinze centímetros mais baixo que ambos os guardas, mas eles pareciam deixar-Lhe muito espaço.

- Quem é o senhor? - uivou ele na direcção de Adam, que no momento tinha uma unha entre os dentes.

Um dos guardas empurrou uma cadeira para trás de Sam e o outro sentou-o nela. Ele fitou Adam. Os guardas recuaram e estavam prestes a sair, quando Adam disse:

- Não poderiam tirar as algemas, por favor?

- Não, senhor, não podemos.

Adam engoliu em seco.

- Tirem-nas, está bem? Vamos ficar aqui durante algum tempo - disse ele, reunindo um certo grau de autoridade. Os guardas olharam um para o outro, como se o pedido fosse inédito. Uma chave foi rapidamente apresentada e as algemas foram retiradas.

Sam não se mostrou impressionado. Fitou Adam iradamente através da abertura na grade, enquanto os guardas saíam ruidosamente. A porta bateu e a fechadura estalou.

Estavam sós, a versão Cayhall de uma reunião de familia. O ar condicionado batia e cuspia e, durante um longo momento, foi o único som que se ouviu. Embora tentasse corajosamente, Adam sentia-se incapaz de olhar Sam nos olhos por mais de dois segundos. Ocupou-se a tomar notas importantes no seu bloco e enquanto inumerava cada uma das linhas sentia o calor do olhar de Sam.

Finalmente, Adam meteu um cartão de visita pela abertura.

- O meu nome é Adam Hall. Sou advogado e trabalho com a Kravitz & Bane, em Chicago e Memphis.

Sam pegou pacientemente no cartão e examinou-o, frente e verso. Adam observava cada movimento. Os dedos estavam enrugados e manchados de castanho devido ao fumo do tabaco. O rosto era pálido, com uma única mancha de cor da barba cinzenta de cinco dias. O cabelo era comprido, cinzento e oleoso, puxado severamente para trás. Adam decidiu imediatamente que não se parecia nada com as imagens paradas do vídeo. Nem tão-pouco se parecia com as últimas fotografias dele mesmo, na altura do julgamento de 1981. Agora era um velho, com uma delicada pele descorada e camadas de finas rugas em volta dos olhos. Profundas

rugas de idade e sofrimento cavavam-se-lhe na testa. O único traço

atraente no seu rosto eram os penetrantes olhos azul-indigo que se levantaram do cartão.

- Vocês rapazinhos judeus nunca desistem, pois não? – disse ele num tom agradável e equilibrado. Não havia qualquer sugestão de raiva.

- Eu não sou judeu - respondeu Adam, devolvendo-lhe com êxito o olhar.

- Então, como é que consegue trabalhar para a Kravitz & Bane? - perguntou ele pondo o cartão de lado. As suas palavras eram suaves, lentas e denotavam a paciência de um homem que passara nove anos e meio sozinho numa pequena cela.

- Na nossa firma há igualdade de oportunidades.

- Que bom! Tudo muito correcto e legal, suponho. Perfeitamente conforme a todas as decisões e leis federais relativas aos direitos civis.

- Evidentemente.

- Quantos sócios tem agora a Kravitz & Bane?

Adam encolheu os ombros. O número variava de ano para ano.

- Cerca de cento e cinquenta, creio.

- Cento e cinquenta sócios. E quantas mulheres?

Adam hesitou enquanto tentava contar.

- Na realidade não sei. Provavelmente uma dúzia.

- Uma dúzia - repetiu Sam, mal movendo os lábios. As

mãos estavam cruzadas e quietas e os olhos não piscavam. Portanto, menos de dez por cento dos vossos sócios são mulheres:

Quantos sócios pretos têm?

- Poderíamos chamar-lhes negros?

- Oh, claro, mas evidentemente que esse termo também é muito antiquado. Agora, eles querem ser chamados de afro-americanos. Certamente que o senhor é suficientemente politicamente correcto para saber isso.

Adam acenou afirmativamente com a cabeça, mas não disse nada.

- E quantos sócios afro-americanos têm?

- Quatro, creio.

- Menos de três por cento. Ai, ai, não há dúvida que a Kravitz à Bane, esse grande bastião da justiça civil e da acção política liberal, discrimina realmente os afro-americanos e as mulheres americanas. Não sei o que dizer.

Adam escrevinhou algo ilegível no seu bloco. Claro que podia argumentar que quase um terço dos associados eram mulheres e que a firma diligenciava contratar os melhores estudantes de Direito negros. Poderia explicar comotinham sido processados por discriminação inversa por dois homens brancos, cujas ofertas de emprego tinham sido retiradas no último momento.

- Quantos sócios judeus-americanos têm? Oitenta por cento?

- Não sei. Isso realmente não me interessa.

- Bem, mas interessa-me a mim. Sempre me senti embaraçado por ser representado por esses fanáticos fanfarrões.

- Muita gente consideraria isso apropriado.

Sam meteu cuidadosamente a mão no único bolso visível do seu fato-macaco e tirou um maço azul de Montclairs e um isqueiro não recarregável. O fato-macaco estava desabotoado até meio do peito e uma espessa mancha de pêlos cinzentos aparecia na abertura. O tecido era um algodão muito leve. Adam não conseguia imaginar a vida neste lugar sem ar condicionado.

Acendeu o cigarro e exalou o fumo na direcção do tecto.

- Pensei que tinha terminado com vocês.

- Não me enviaram cá. Ofereci-me como voluntário.

- Porquê?

- Não sei. O senhor precisa de um advogado e...

- Porque é que está tão nervoso?

Adam afastou as unhas dos dentes e deixou de bater com os pés.

- Não estou nervoso.

- Claro que está. Já vi muitos advogados por aqui e nunca vi um tão nervoso como o senhor. O que se passa, rapaz? Tem medo que eu salte a grade e vá atrás de si?

Adam grunhiu e tentou sorrir.

- Não seja idiota. Não estou nervoso.

- Quantos anos tem?

- Vinte e seis.

- Parece ter vinte e dois. Quando é que terminou o curso de Direito?

- O ano passado.

- Que maravilha! Os bastardos judeus enviaram um caloiro para me salvar. Já sei há muito tempo que secretamente me desejam ver morto e isto agora prova-o. Matei alguns judeus e eles agora querem matar-me. Afinal, sempre tive razão.

- Admite ter matado os miúdos Kramer?

- Que diabo de pergunta é essa? O júri disse que sim. Durante nove anos, os tribunais de recurso têm confirmado que o júri tinha razão. Para que raio me vem com perguntas dessas?

- Precisa de um advogado, Mr. Cayhall. Estou aqui para o ajudar.

- Preciso de muitas coisas, rapaz, mas certamente que não preciso de um novato como tu para me dar conselhos. És perigoso filho, e és demasiado ignorante para o saber - mais uma vez as palavras soaram deliberadas e sem emoção. Segurou o cigarro entre o indicador e o dedo médio da mão direita e casualmente sacudiu a cinza numa pilha ordenada numa tigela de plástico. Os olhos pestanejavam ocasionalmente. O rosto não apresentava qualquer expressão ou sentimento.

Adam tomava notas sem sentido e, em seguida, tentou novamente fixar os olhos de Sam através da fenda.

- Olhe, Mr. Cayhall, sou advogado e tenho uma forte convicção moral contra a pena de morte. Estudei com profundidade os temas da Oitava Emenda e posso ser-lhe útil. É por isso que estou aqui. Sem quaisquer encargos.

- Sem quaisquer encargos - repetiu Sam. - Que generosi dade! Compreendes, filho, que presentemente recebo três ofertas por semana de advogados que pretendem representar-me de graça? Grandes advogados. Advogados famosos. Advogados ricos. Alguns, verdadeiras cobras escorregadias. Estão todos desejosos de se sentarem onde estás agora, interpor todas as petições e apelos de última hora, dar as entrevistas, correr atrás das câmaras, segurar a minha mão nas últimas horas, vê-los gasearem-me e depois dar mais uma conferência de imprensa, depois assinar um contrato para um livro, talvez para um filme, talvez uma mini-série de televisão sobre a vida e época de Sam Cayhall, um autêntico assassino do Klan. Sabes, filho, sou famoso e aquilo que fiz é agora lendário. E como estão prestes a matar-me, estou prestes a tornar-me ainda mais famoso. Por isso, os advogados querem-me. Valho muito dinheiro. Um país doente, não é?

Adam estava a abanar a cabeça.

- Não quero nada disso, prometo. Ponho-o por escrito. Assinarei um acordo completo de confidencialidade.

Sam riu.

- Certo, e quem o fará cumprir depois da minha morte?

- A sua família - disse Adam.

- Esquece a minha família - disse Sam firmemente.

- Os meus motivos são puros, Mr. Cayhall. A minha firma representou-o durante sete anos, por isso sei praticamente tudo do seu processo. Também fiz muitas investigações sobre os seus antecedentes.

- Junta-te ao clube. A minha roupa interior foi examinada por uma centena de jornalistas estúpidos. Parece que há muita gente que sabe muito a meu respeito e todo este conhecimento combinado não parece ter absolutamente nenhuma utilidade para mim, de momento. Tenho quatro semanas. Sabias isso?

- Tenho uma cópia da decisão.

- Quatro semanas e gaseiam-me.

- Então, vamos ao trabalho. Tem a minha palavra de que nunca falarei à imprensa, a menos que me autorize a fazê- lo, que nunca repetirei nada do que me disser e que nunca assinarei qualquer contrato para um livro ou para um filme. Juro.

Sam acendeu outro cigarro e olhou fixamente para qualquer coisa em cima do balcão. Esfregou suavemente a têmpora direita com o polegar direito, o cigarro a escassos centímetros do cabelo. Durante muito tempo, o único som era o que provinha do velho ar condicionado. Sam fumava e meditava. Adam rabiscava no bloco e sentia-se bastante orgulhoso porque os pés já não se moviam e o estômago já não lhe doía. O silêncio era estranho e imaginou, correctamente, que Sam poderia sentar-se, fumar e pensar durante dias no mais completo silêncio.

- Conhece o Barroni? - perguntou Sam tranquilamente.

- Barroni?

- Sim, Barroni. Saiu a semana passada no Nono Círculo. Um caso da Califórnia.

Adam espremeu o cérebro em busca de um vestígio de Barroni.

- Talvez o tenha visto.

- Talvez o tenha visto? És bem educado, muito lido, etc. E talvez tenhas visto o Barroni? Que raio de advogado de meia-tigela és tu?

- Não sou um advogado de meia-tigela.

- Certo, certo. E Texas Cekes? Certamente leste esse?

- Quando é que saiu?

- Há seis semanas.

- Em que tribunal?

- Quinto Círculo.

- Oitava Emenda?

- Não sejas estúpido - gemeu Sam com desgosto genuíno - Achas que eu ia perder o meu tempo a ler casos de liberdade de expressão? É o meu rabo que está aqui sentado, rapaz, estes são os meus pulsos e tornozelos, que vão ser amarrados. É o meu nariz que o veneno vai atingir.

- Não. Não me lembro de Eekes.

- O que é que tu lês?

- Todos os casos importantes.

- Leste o Barefoot?

- Claro.

- Fala-me do Barefoot.

- O que é isto, um interrogatório?

- Isto é aquilo que eu quero que seja. De onde era

Barefoot? - perguntou Sam.

- Não me lembro. Mas o nome completo era Barefoot

Estelle, um caso marcante de 1983, em que o Supremo Tribunal defendeu que, durante os recursos, os reclusos do Corredor da Morte não podem guardar pretensões válidas para mais tarde.

Mais ou menos.

- Oh, leste-o! Nunca achaste estranho que o mesmo possa mudar de ideias sempre que quer? Pensa nisso. Durante dois séculos, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos permitiu execuções legais. Dizia que eram constitucionais ao abrigo da Oitava Emenda. Depois, em 1972, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos leu a mesma Constituição inalterada e considerou a pena de morte ilegal. Em seguida, em 1976, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos declarou que, afinal, as execuções eram constitucionais. O mesmo bando de perus vestindo os mesmos vestidos negros no mesmo edifício de Washington. Agora, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos está novamente a alterar as regras com a mesma Constituição. Os do Reagan estão fartos de ler recursos, por isso declaram as avenidas fechadas. A mim parece-me estranho.

- Parece estranho a muita gente.

- E o Dulaney? - perguntou Sam, inspirando profundamente. A sala tinha pouca ou nenhuma ventilação e acima deles estava a formar-se uma nuvem.

- De onde é que é?

- Luisiana. Com certeza que o leste.

- Tenho a certeza que sim. Na realidade, provavelmente li mais casos que o senhor, mas nem sempre me preocupo em memorizá-los, a menos que planeie usá-los.

- Usá-los onde?

- Petições e recursos.

- Portanto, já trataste de casos de pena de morte. Quantos?

- Este é o primeiro.

- Porque é que isto não me tranquiliza? Aqueles advogados judeus-americanos da Kravitz & Bane mandaram-te aqui para fazeres a experiência comigo, não foi? Arranjar um pouco de prática no terreno para o espetar no currículo.

- Já lhe disse... eles não me mandaram para cá.

- E o Garner Goodman? Ainda está vivo?

- Sim, é da sua idade.

- Então não lhe resta muito tempo, pois não? E o Tyner?

- Mr. Tyner está bem. Dir-lhe-ei que perguntou.

- Oh, por favor, não te esqueças. Diz-lhe que sinto realmente a falta dele, na realidade, dos dois. Diabos, levou- me quase dois anos para os despedir.

- Fartaram-se de trabalhar para si.

- Diz-lhes que me mandem a conta - disse Sam rindo para si mesmo, o seu primeiro sorriso durante a reunião. Apagou metodicamente o cigarro na tigela e acendeu outro. - A verdade, Mr. Hall, é que detesto advogados.

- É o meio americano.

- Foram os advogados que me perseguiram, indiciaram, acusaram, processaram, lixaram e depois me enviaram para este lugar. Desde que estou aqui, têm-me caçado, lixado um pouco mais, têm

-me mentido e agora voltaram na tua forma, um estagiário zeloso sem nenhuma pista acerca de como encontrar o maldito tribunal.

- Poderá ter uma surpresa!

- Seria um diabo de uma surpresa, filho, se soubesses distinguir o teu rabo de um buraco no chão. Serias o primeiro palhaço da Kravitz & Bane a estar na posse de uma tal informação.

- Mantiveram-no afastado da câmara de gás nos últimos sete anos.

- E devo mostrar-me agradecido? Há quinze residentes no Corredor que estão cá há mais tempo que eu. Porque devo ser eu o seguinte? Estou cá há nove anos e meio. Treemont está cá à catorze anos. Claro que ele é afro-americano e isso ajuda sempre. Eles têm mais direitos, sabes. É muito mais difícil executar um deles porque fosse o que fosse que tivessem feito é sempre culpa de outrem.

- Não é verdade.

- Como diabo é que sabes o que é verdade? Há um ano ainda estavas na escola, ainda vestias jeans desbotadas durante todo

o dia e bebias cerveja nas festas da escola com os teus amiguinhos idealistas. Ainda não viveste, filho. Não venhas dizer-me o que é a verdade.

- Portanto, é a favor de execuções rápidas para os afro-americanos?

- Não seria má ideia, realmente. De facto, a maioria dos bandidos merece o gás.

- Tenho a certeza que é uma opinião minoritária no da mone.

- Bem podes dizê-lo.

- E o senhor, evidentemente, é diferente e não devia estar aqui.

- Não, eu não devia estar aqui. Sou um preso político, enviado para aqui por um egomaníaco que me usou para os seus próprios objectivos políticos.

- Podemos falar da sua culpa ou inocência?

- Não, mas não fiz o que o júri disse que fiz.

- Portanto teve um cúmplice? Foi outro que colocou a bomba?

Sam esfregou os profundos sulcos da testa com o dedo médio, como se estivesse a afastar um pássaro. Mas não estava. Mergulhara subitamente num profundo e prolongado transe. A sala de conferências estava muito mais fresca do que a sua cela. A conversa não tinha sentido, mas pelo menos era uma conversa com outra pessoa além do guarda ou do camarada invisível da cela ao lado. Levaria o seu tempo, faria isto durar o mais tempo possível.

Adam estudou as suas notas e ponderou o que deveria dizer a seguir. Há vinte minutos que estavam a conversar, na realidade a discutir, sem qualquer objectivo definido. Estava decidido a contar a história da sua família antes de se ir embora. Só não sabia como fazê-lo.

Passaram-se minutos. Nenhum olhou para o outro. Sam acendeu outro Montclair.

- Porque é que fuma tanto? - perguntou Adam finalmente.

- Preferia morrer de cancro do pulmão. É um desejo vulgar no corredor da morte.

- Quantos maços por dia?

- Três ou quatro.

Passou-se outro minuto. Sam terminou lentamente o cigarro e perguntou amavelmente:

- Onde é que estudaste?

- Na faculdade de Direito do Michigan. Mas fiz a graduação em Pepperdine.

- Onde fica isso?

- Na Califórnia.

- Foi aí que cresceste?

- Sim.

- Quantos estados têm a pena de morte?

- Trinta e oito. Mas a maior parte deles não a utiliza. Só parece ser popular no extremo sul, Texas, Florida e Califórnia.

- Sabes que a nossa estimada assembleia legislativa mudou a lei aqui. Agora podemos morrer por meio de uma injecção letal. É mais humano. Não é simpático? Porém, não se aplica a mim, uma vez que já fui condenado há anos. Vou ter que aspirar o gás.

- Talvez não.

- Tens vinte e seis anos?

- Sim.

- Nasceste em 1964.

- Exactamente.

Sam tirou outro cigarro do maço e bateu o filtro no balcão.

- Onde?

- Em Memphis.

- Tu não compreendes, filho. Este estado precisa de uma execução e por acaso sou eu a próxima vítima. A Luisiana, o Texas e a Florida estão a matá-los como moscas e os cidadãos cumpridores da lei deste estado não conseguem compreender porque razão a nossa pequena câmara não está a ser usada. Quanto mais violento é o crime, mais as pessoas pedem execuções. Fá-las sentir-se melhor, como se o sistema estivesse a trabalhar arduamente para eliminar os assassinos. Os políticos nas suas campanhas prometem abertamente mais prisões, sentenças mais duras e mais execuções.

Foi por isso que aqueles palhaços de Jackson votaram pela injecção letal. É suposto ser mais humano, menos objeccionável e portanto mais fácil de implantar. Compreendes?

Adam acenou ligeiramente com a cabeça.

- Está na altura de ter uma execução e calhou na minha vez.

É por isso que estão a pressionar como o diabo. Não se pode detê-los.

- Mas certamente podemos tentar. Quero essa oportunidade.

Finalmente Sam acendeu o cigarro. Inalou profundamente e, em seguida, soprou o fumo através de uma pequena fenda entre os lábios. Inclinou-se ligeiramente para a frente apoiado nos cotovelos e espreitou pelo buraco da grade.

- De que parte da Califórnia vens?

- Do sul de l.A. - Adam fitou de relance os olhos penetrantes e em seguida afastou o olhar.

- A tua família ainda lá vive?

Uma dor terrível atravessou o peito de Adam e por momentos o seu coração parou. Sam puxou uma fumaça do cigarro sem pestanejar.

- O meu pai morreu - disse ele com a voz tremente e afundou-se alguns centímetros na cadeira.

Um longo minuto decorreu enquanto Sam continuava bem equilibrado na beira da sua cadeira. Finalmente perguntou:

- E a tua mãe?

- Vive em Portland. Voltou a casar.

- Onde está a tua irmã? - perguntou ele. Adam fechou os olhos e baixou a cabeça.

- Está na universidade - murmurou ele.

- Penso que o nome dela é Carmen, não é? - perguntou Sam suavemente.

Adam acenou afirmativamente com a cabeça.

- Como é que sabe? - perguntou por entre os dentes cerrados.

Sam afastou-se da grade e recostou-se na cadeira desdobrável de metal. Deixou cair no chão o cigarro que estava a fumar sem olhar para ele.

- Porque vieste aqui? - perguntou ele numa voz muito mais firme e dura.

- Como é que soube que era eu?

- A voz. É igual à do teu pai. Porque vieste aqui?

- O Eddie mandou-me.

Os seus olhos encontraram-se brevemente e, em seguida, Sam afastou os seus. Inclinou-se lentamente para a frente e colocou ambos os cotovelos sobre os joelhos. Tinha o olhar fixo em qualquer coisa no chão. Ficou completamente imóvel.

Em seguida, colocou a mão direita sobre os olhos.

 

Phillip Naifeh tinha sessenta e três anos de idade e estava a dezanove meses da reforma. Dezanove meses e quatro dias. Tinha sido superintendente do Departamento Correccional do Estado durante vinte e sete anos e, durante esse período, sobrevivera a seis governadores, um exército de legisladores estaduais, um milhar de processos interpostos pelos presos, inumeráveis renovações dos tribunais federais e mais execuções do que gostava de recordar.

O director, como preferia ser chamado (embora o título não existisse oficialmente segundo a terminologia do Código do Mississípi) era um libanês de sangue, cujos pais tinham emigrado nos anos 20 e se tinham instalado no delta. Prosperaram com uma pequena mercearia em Clarksdale, onde a sua mãe se tornara algo conhecida pelas suas sobremesas libanesas caseiras. Fora educado em escolas públicas, frequentara a universidade fora, regressara e, por razões há muito esquecidas, envolvera-se na justiça criminal.

Odiava a pena de morte. Compreendia o desejo que a sociedade sentia dela e tinha memorizado há muito tempo todas as razões que justificavam a sua necessidade. Era uma forma de dissuasão. Eliminava os assassinos. Era o castigo final. Satisfazia a necessidade de retribuição do público. Aliviava a angústia da família da vítima. Quando pressionado, sabia tornar os argumentos tão persuasivos como qualquer promotor. Na realidade, acreditava em um ou dois deles.

Mas o fardo da morte real pesava sobre os seus ombros e detestava esta horrível parte do seu trabalho. Era Phillip Naifeh quem acompanhava o condenado desde a sua cela até à Sala de Isolamento, como era chamada, para sofrer a última hora antes da morte. Era Phillip Naifeh quem o conduzia à porta ao lado, à Câmara, e inspeccionava o amarrar das pernas, das mãos e da cabeça. Algumas últimas palavras?", proferira ele vinte e duas vezes em vinte e sete anos. Competia-Lhe ordenar aos guardas que fechassem a porta da câmara e acenar ao executor para puxar as alavancas, a fim de misturar o gás mortal. Tinha realmente observado os rostos dos dois primeiros enquanto morriam, mas depois decidira que era melhor observar os rostos das testemunhas na pequena sala atrás da câmara. Tinha que seleccionar as testemunhas. Tinha que fazer uma centena de coisas, descritas no manual que explicava como matar legalmente os reclusos do corredor da morte, incluindo

declarar a morte, retirar o corpo da câmara, a sua pulverização para retirar quaisquer vestígios de gás do corpo, etc.

Testemunhara uma vez perante um comité legislativo em Jackson e exprimira as suas opiniões em relação à pena de morte.

Tinha uma ideia melhor, explicara ele para orelhas moucas, e o plano manteria os assassinos condenados na Unidade de Segurança Máxima em completo isolamento, onde não podiam matar, fugir nem ser sujeitos ao regime de liberdade condicional. Acabaram por morrer no corredor da morte, mas não às mãos do estado.

Este testemunho fora notícia de primeira página e quase levara ao seu despedimento. Dezanove meses e quatro dias pensou para si mesmo, enquanto passava suavemente os dedos pelo espesso cabelo cinzento e lia lentamente as últimas decisões do Quinto Círculo. Lucas estava sentado do outro lado da secretária à espera.

- Quatro semanas - disse Naifeh, pondo a decisão de parte.

- Quantos recursos restam? - perguntou ele num balbuciar suave.

- O sortido habitual de recursos de última hora - respondeu Mann.

- Quando é que isto chegou?

- De manhã cedo. Sam vai apelar da decisão para o Supremo Tribunal e provavelmente será ignorado. Isso deve levar mais ou menos uma semana.

- Qual é a sua opinião, doutor?

- Neste momento já foram apresentadas todas as questões de mérito. Votaria numa probabilidade de cinquenta por cento de acontecer dentro de quatro semanas.

- É muito.

- Algo me diz que este poderá escapar.

No interminável funcionamento da roleta da pena de morte uma probabilidade de cinquenta por cento era quase uma certeza.

O processo teria que ser iniciado. O manual teria que ser consultado. Depois de anos de intermináveis recursos e adiamentos, as últimas quatro semanas passariam num abrir e fechar de olhos.

- Já falou com o Sam? - perguntou o director.

- Rapidamente. Entreguei-lhe esta manhã uma cópia da decisão.

- Garner Goodman telefonou-me ontem e disse que iam mandar um dos seus jovens associados para falar com ele. Tratou disso?

- Falei com o Garner e falei com o jovem. O nome dele é Adam Hall e está neste momento com o Sam. Deve ser interessante. O Sam é avô dele.

- É o quê?

- Ouviu-me bem. Sam Cayhall é o avô paterno de Adam Hall. Estávamos a fazer ontem uma investigação de rotina sobre o Adam Hall e encontrámos alguns pontos duvidosos. Telefonei para

o FBI em Jackson e em duas horas tinham provas circunstanciais suficientes. Confrontei-o com elas esta manhã e ele confessou.

Não penso que esteja a tentar esconder o facto.

- Mas tem um nome diferente.

- É uma história muito comprida. Nunca mais se viram desde que Adam era bebé. O pai dele fugiu do estado depois de o Sam ter sido preso pelo atentado. Mudou-se para o Oeste, alterou o nome, vadiou de um lado para o outro, sem emprego certo, um autêntico falhado. Suicidou-se em 1981. De qualquer forma, o Adam vai para a universidade e obtém resultados excelentes. Vai para a faculdade de Direito do Michigan, uma das Dez Mais do país, e foi editor da revista de Direito. Arranja um emprego na Kravitz & Bane e aparece esta manhã para o encontro com o avô.

Naifeh estava agora a alisar o cabelo com ambas as mãos e abanava a cabeça.

- Óptimo! Como se precisássemos de mais publicidade, de mais jornalistas idiotas a colocarem questões verdadeiramente estúpidas.

- Estão agora em reunião. Presumo que o Sam vai aceitar que o miúdo o represente. Espero bem que sim. Nunca executámos um recluso sem um advogado.

- Devíamos matar alguns advogados sem os reclusos - disse Naifeh com um sorriso forçado. A sua antipatia pelos advogados era lendária e Lucas não se importava. Compreendia. Certa vez calculara que Phillip Naifeh fora réu em mais processos do que qualquer outra pessoa na história do estado. Tinha ganho o direito a detestar advogados.

- Reformo-me daqui a dezanove meses - disse, como se Lucas nunca tivesse ouvido falar do assunto - Quem é a seguir ao Sam?

Lucas pensou durante um minuto, tentando catalogar o volume de recursos de quarenta e sete reclusos.

- Na realidade, ninguém. O Homem da Pizza esteve perto há quatro meses, mas obteve uma suspensão. Provavelmente expira mais ou menos dentro de um ano, mas há outros problemas no seu caso. Não vejo outra execução nos próximos dois anos.

- O Homem da Pizza? Desculpe.

- Malcolm Friar. Matou três entregadores de pizzas numa semana. No julgamento alegou que o motivo não fora o roubo, mas que tinha fome.

Naifeh ergueu ambas as mãos e acenou afirmativamente com a cabeça.

- Está bem, está bem, já me lembro. É ele o mais próximo depois do Sam?

- Provavelmente. É difícil dizer.

- Eu sei - Naifeh afastou-se lentamente da secretária e foi até junto de uma janela. Os sapatos estavam algures debaixo da secretária. Enfiou as mãos nos bolsos, firmou os dedos dos pés na carpete e pensou profundamente durante alguns momentos. Fora hospitalizado depois da última execução, uma pequena palpitação no coração, como o médico preferira chamar-lhe. Passara uma semana no hospital a observar a sua pequena palpitação num monitor e jurara à mulher que nunca mais conseguiria suportar outra execução. Se conseguisse de qualquer forma sobreviver à de Sam, retirar-se-ia com a pensão completa.

Voltou-se e fitou o seu amigo Lucas Mann.

- Não vou fazer esta, Lucas. Vou passar o fardo a outro, um dos meus subordinados, um homem mais novo, um bom homem, um homem em quem posso confiar, um homem que nunca presenciou um destes espectáculos, um homem que está ansioso por manchar as mãos de sangue.

- O Nugent não.

- Esse mesmo. O coronel na reserva George Nugent, o meu assistente de confiança.

- Ele é doido.

- Sim, mas é o nosso doido, Lucas. É um fanático dos pormenores, da disciplina, da organização, raios, é a escolha perfeita. Vou dar-lhe o manual, dizer-lhe o que quero e ele vai fazer um espantoso trabalho ao matar Sam Cayhall. Será perfeito.

George Nugent era superintendente-assistente em Parchman. Tinha-se tornado famoso ao implantar um campo de treino muito bem sucedido para reclusos pela primeira vez. Era uma provação brutal de seis semanas, no decorrer da qual Nugent se pavoneava

empertigadamente de botas pretas, praguejando como um sargento de instrução militar e ameaçando com uma violação de grupo à menor infracção. Os prisioneiros raramente voltavam a Parchman.

- O Nugent é um doido, Phillip. É tudo uma questão de tempo até ele magoar alguém.

- Exactamente! Agora já percebeu. Vamos deixá-lo magoar o Sam, mas da forma correcta. Segundo as regras. Deus sabe o quanto Nugent adora ter regras para seguir. É a escolha perfeita, Lucas. Vai ser uma execução sem falhas.

Na realidade, aquilo não interessava muito a Lucas Mann. Encolheu os ombros e disse:

- O senhor é que manda!

- Obrigado - disse Naifeh. - Mas vigie o Nugent, está bem? Eu vigio deste lado e você vigia a parte legal. Vamos conseguir.

- Esta vai ser a maior de sempre - disse Lucas.

- Eu sei. Vou ter que acalmar-me. Sou um homem velho.

Lucas recolheu o seu dossier em cima da mesa e dirigiu-se para a porta.

- Telefono-lhe depois de o rapaz se ir embora. É suposto ele falar comigo antes de se ir embora.

- Gostaria de o conhecer - disse Naifeh.

- É um rapaz simpático.

- Que família, hem?

O rapaz simpático e o seu avô condenado tinham passado quinze minutos em silêncio, sendo o único som audível na sala o matraquear incomodativo do ar condicionado. A certa altura

Adam dirigiu-se para a parede e agitava a mão em frente das ventoinhas poeirentas. Havia um rasto de ar frio. Inclinou-se sobre o balcão com os braços cruzados e fitou a porta, o mais longe possível de Sam. Estava assim inclinado a olhar, quando a cabeça do sargento Packer apareceu.

- Vim só verificar se estava tudo bem - disse ele, olhando primeiro para Adam e depois para o outro lado da sala e através da grade para Sam, que estava inclinado para a frente na cadeira com uma mão a cobrir o rosto.

- Estamos bem - disse Adam sem convicção.

- Óptimo, óptimo - disse Packer e fechou apressadamente a porta. Ela fechou-se e Adam regressou lentamente à cadeira. Puxou-a para mais perto da grade e descansou sobre os cotovelos. Sam ignorou-o durante um minuto ou dois e em seguida limpou os olhos à manga e sentou-se. Olharam um para o outro.

- Precisamos de falar - disse Adam tranquilamente. Sam acenou que sim mas não disse nada. Limpou novamente os olhos, desta vez à outra manga. Tirou um cigarro e colocou-o entre os lábios. A mão tremeu-lhe enquanto acendia o isqueiro.

Puxou rapidamente.

- Então, és realmente o Alan - disse ele em voz baixa e brusca.

Acho que fui. Só o soube depois de o meu pai morrer. Nasceste em 1964.

Exactamente.

- O meu primeiro neto.

Adam acenou afirmativamente e afastou o olhar.

- Desapareceste em 1967.

- Qualquer coisa assim. Não me lembro, sabe. As minhas primeiras recordações são da Califórnia.

- Ouvi dizer que o Eddie tinha ido para a Califórnia e que a outro filho. Mais tarde alguém me disse que ela se chamava Carmen. Ao longo dos anos fui sabendo coisas daqui e dali, sabia que vocês estavam todos algures no sul da Califórnia, mas ele fez um bom trabalho ao desaparecer.

- Mudávamo-nos muito quando eu era criança. Acho que ele tinha dificuldade em manter-se nos empregos.

- Não sabias nada de mim?

- Não. A família nunca era mencionada. Descobri tudo depois do funeral dele.

- Quem te disse?

- A Lee.

Sam fechou os olhos firmemente por um momento e depois

fumou novamente.

- Como está ela?

- Bem, acho eu.

- Porque é que foste trabalhar para a Kravitz & Bane?

- É uma boa firma.

- Sabias que eles me representavam?

- Sim.

- Então, planeaste tudo isto?

- Durante cerca de cinco anos.

- Mas porquê?

- Não sei.

  • - Deves ter uma razão.

- A razão é óbvia. É o meu avô, não é? Goste-se ou não, o

senhor é o que é e eu sou o que sou. E agora estou aqui... o que vamos fazer?

- Acho que deves ir-te embora.

- Não me vou embora, Sam. Há muito tempo que me preparo

para isto.

- Que te preparas para quê?

- O senhor precisa de representação legal. Precisa de ajuda. É por isso que estou aqui.

- Já não posso ser ajudado. Estão decididos a gasear-me por várias razões. Não precisas de envolver-te nisto.

- Porque não?

- Bem, primeiro, porque é um caso desesperado. Vais magoar-te se te meteres no assunto e não tiveres êxito. Em segundo lugar, a tua verdadeira identidade será revelada. Vai ser muito embaraçoso. A vida será muito mais fácil para ti se continuares a ser Adam Hall.

- Sou Adam Hall e não pretendo mudar. Também sou seu neto e não podemos alterar isso, pois não? Então, qual é o problema?

- Vai ser embaraçoso para a tua família. O Eddie fez um belo trabalho tentando proteger-vos. Não estragues tudo.

- O meu disfarce já foi descoberto. A minha firma sabe e eu disse ao Lucas Mann e...

- Esse idiota vai dizer a toda a gente. Não confies nele nem por um minuto.

- Olhe, Sam, o senhor não compreende. Não me interessa o que ele diga. Não me importo que o mundo saiba que sou seu neto. Estou farto destes segredinhos sujos de família. Agora já sou um rapaz crescido, já posso pensar por mim próprio. Além disso sou advogado e estou a ficar com a pele grossa. Posso lidar com isto.

Sam relaxou um pouco na cadeira e olhou para o chão com um pequeno sorriso agradável, do género que os homens adultos dirigem frequentemente aos rapazes pequenos quando estes tomam

atitudes além da sua idade. Resmungou qualquer coisa e muito lentamente acenou com a cabeça.

- Tu não compreendes, rapaz - disse ele novamente, agora num tom paciente e comedido.

- Então explique-me - disse Adam.

- Levaria muito tempo.

- Temos quatro semanas. Pode falar muito em quatro semanas. es

- Exactamente, o que é que tu queres ouvir? Adam inclinou-se ainda mais para a frente apoiado nos cotovelos, com a caneta e o bloco a postos. Os olhos estavam apenas a uns centímetros da fenda na grade.

- Primeiro, quero falar acerca do processo... recursos, estratégias, os julgamentos, o atentado, quem estava consigo nessa noite...

- Ninguém estava comigo naquela noite.

- Podemos falar disso mais tarde.

- Estamos a falar agora. Eu estava sozinho, ouviste?

- Muito bem. Em segundo lugar, quero saber da minha família.

- Porquê?

- Porque não? Para quê manter as coisas escondidas? Quero saber acerca do seu pai e do pai dele e dos seus irmãos e primos.

Quando tudo terminar, poderei não gostar dessas pessoas, mas tenho o direito de saber algo sobre elas. Fui privado dessas informações durante toda a minha vida e quero saber.

- Não é nada de especial.

- Oh, realmente. Bem, Sam, eu acho que já é alguma coisa especial ter conseguido estar aqui, no corredor da morte. É um clube bastante exclusivo. Acrescente a isso o facto de ser branco da classe média e ter quase setenta anos de idade, e torna-se ainda mais notável. Quero saber como e porquê o senhor chegou até aqui. O que o levou a fazer essas coisas? Quantos membros do Klan havia na minha família? E porquê? E quantas outras pessoas foram mortas no processo?

- E tu pensas que vou confessar-te tudo isso?

- Sim, acho que sim. Vai acabar por fazê-lo. Sou seu neto o único parente vivo que ainda se importa consigo. Vai falar Sam, vai falar comigo.

- Bem, uma vez que me vou mostrar tão falador, de que mais falaremos?

- Eddie.

Sam respirou fundo e fechou os olhos.

- Não pedes muito, pois não? - disse ele suavemente. Adam escrevinhou no seu bloco qualquer coisa sem sentido.

Estava na hora do ritual de outro cigarro e Sam executou-o ainda com mais paciência e cuidado. Outra nuvem de fumo azul juntou-se ao poço de nevoeiro que pairava acima das suas cabeças. As suas mãos estavam novamente firmes.

- Quando terminarmos com o Eddie, de quem queres falar?

- Não sei. Acho que isto nos vai manter ocupados durante quatro semanas.

- Quando é que falamos de ti?

- Quando quiser - Adam meteu a mão na pasta e retirou uma pasta fina. Fez deslizar uma folha de papel e uma caneta pela abertura. - Isto é uma procuração para representação legal. Assine no fundo.

Sem Lhe tocar, Sam leu-a à distância.

- Portanto, assino novamente contrato com a Kravitz & Bane.

- Mais ou menos.

- O que é que queres dizer, mais ou menos? Diz aqui que eu concordo em deixar que aqueles judeus me representem novamente. Levei uma eternidade para conseguir despedi-los e, raios, nem sequer estava a pagar-lhes.

- O acordo é comigo, Sam, certo? Nunca mais vai ver aqueles tipos, a não ser que o deseje.

- Não desejo.

- Muito bem. Por acaso trabalho para a firma e por isso o acordo tem que ser com a firma. É fácil.

- Ah, o optimismo da juventude. Tudo é fácil. Aqui estou eu, sentado a menos de trinta metros da câmara de gás, com o relógio a andar cada vez mais depressa ali na parede, cada vez mais alto, e tudo é fácil.

- Assine o maldito papel, Sam.

- E depois?

- Depois começamos a trabalhar. Legalmente não posso fazer nada por si até ter uma procuração. O senhor assina e começamos a trabalhar.

- E qual é a primeira parte do trabalho que gostarias de fazer?

- Recapitule para mim o caso Kramer, passo a passo.

- Já foi feito um milhar de vezes.

- Vamos fazê-lo novamente. Tenho um grosso caderno cheio de perguntas.

- Já foram todas colocadas.

- Claro, Sam, mas não foram respondidas, pois não? Sam enfiou o filtro entre os lábios.

- Nem foram feitas por mim, pois não?

- Pensas que estou a mentir?

- Está?

- Não.

- Mas não contou a história toda, pois não?

- Que diferença faz, doutor? Leste o Bateman.

- Sim, decorei o Bateman e sei que existem nele alguns pontos fracos.

- Advogado típico.

- Se houver novas provas, há formas de as apresentar. O que estamos a tentar fazer, Sam, é criar confusão suficiente para que um juiz qualquer ache que deve pensar uma segunda vez. E uma terceira. Em seguida, concede uma suspensão para poder saber mais.

- Eu sei como se joga, filho.

- Adam, o meu nome é Adam.

- Sim e chama-me só avô. Suponho que pretendes apelar para o governador.

- Sim.

Sam inclinou-se ligeiramente na cadeira e aproximou-se da grade. Com o indicador da mão direita, começou a apontar para um ponto qualquer situado no centro do nariz de Adam. O rosto tornara-se mais duro e os olhos estreitaram-se.

- Ouve-me, Adam - rosnou ele, abanando o dedo para trás e para a frente. - Se eu assinar este papel, tens de prometer-me que nunca falarás com esse bastardo. Nunca. Compreendes?

Adam observou o dedo, mas não disse nada.

Sam decidiu continuar.

- É um raio de um filho da mãe. É mau, fraco, absolutamente corrupto e perfeitamente capaz de disfarçar tudo com um sorriso bonito e um corte de cabelo limpo. Ele é o único motivo pelo qual estou sentado no corredor da morte. Se contactares com ele por qualquer forma, deixas imediatamente de ser meu advogado.

- Então, sou seu advogado.

O dedo baixou e Sam acalmou-se um pouco.

- Oh, é possível que te dê uma oportunidade, que te deixe praticar um pouco comigo. Sabes, Adam, a profissão de advogado é mesmo lixada. Se eu fosse um homem livre, tentando ganhar a minha vida, preocupando-me com os meus assuntos, pagando os meus impostos, cumprindo as leis e tudo o mais, não conseguiria encontrar nenhum advogado que quisesse cuspir-me em cima excepto se tivesse dinheiro. Mas aqui estou eu, um assassino condenado, sentenciado à morte, sem um tostão sequer de meu e tenho advogados de todo o país pedindo para me representar. Grandes e ricos advogados, com nomes compridos antecedidos de iniciais e seguidos de números, advogados famosos que possuem jactos e programas de televisão. Podes explicar isto?

- Claro que não. Nem me interessa.

- É uma profissão nojenta, essa que arranjaste.

- A maior parte dos advogados são honestos e trabalhadores.

- Claro. E a maioria dos meus companheiros daqui, do corredor da morte, seriam padres ou missionários se não tivessem sido injustamente condenados.

- O governador pode vir a ser a nossa última oportunidade.

- Então, podem gasear-me imediatamente. Aquele burro pomposo provavelmente vai querer assistir à minha execução e, em seguida, dará uma conferência de imprensa e explicará todos os pormenores ao mundo. É um pequeno verme que conseguiu chegar onde chegou por minha causa. E se puder explorar-me durante mais umas fracções de segundo, raios, vai fazê-lo. Afasta-te dele.

- Podemos falar disso mais tarde.

- Estamos a falar agora, creio eu. Vais dar-me a tua palavra antes de eu assinar este papel.

- Mais alguma condição?

- Sim. Quero acrescentar aqui uma coisa de forma que, se eu decidir despedir-te, a firma não conteste. Não deve ser difícil.

- Deixe ver.

A procuração foi novamente passada pela abertura e Adam escreveu um parágrafo claro na parte inferior. Devolveu-o a Sam que o leu lentamente e o colocou em cima do balcão.

- Não assinou - disse Adam.

- Ainda estou a pensar.

- Posso fazer algumas perguntas enquanto está a pensar?

- Podes.

- Onde é que aprendeu a manejar explosivos?

- Aqui e ali.

- Houve pelo menos cinco atentados bombistas antes do Kramer, todos com o mesmo tipo, todos muito básicos - dina mite, cápsulas e estopim. O Kramer, claro, foi diferente porque foi usado um temporizador. Quem lhe ensinou a fazer bombas?

- Alguma vez acendeste um foguete?

- Claro.

- O princípio é o mesmo. Um fósforo no rastilho, corre como doido e depois bum!

- O temporizador é um pouco mais complicado. Quem o ensinou a ligar um?

- A minha mãe. Quando é que pensas cá voltar? - Amanhã.

- Muito bem. Então, vamos fazer o seguinte. Preciso de algum tempo para pensar acerca disto. Não quero falar por agora e evidentemente que não pretendo responder a um monte de perguntas. Deixa-me estudar este documento, fazer algumas alterações e encontramo-nos novamente amanhã.

- Estamos a perder tempo.

- Perdi quase dez anos aqui. O que significa mais um dia? - Podem não me autorizar a voltar se eu não for o seu representante legal. Esta visita é um favor.

- Uns tipos formidáveis, não são? Diz-lhes que és meu advogado para as próximas vinte e quatro horas. Eles deixam-te entrar.

- Temos muito que conversar, Sam. Eu gostaria de começar com isto.

- Preciso de pensar, está bem? Depois de se ter passado nove anos sozinho numa cela, tornamo-nos muito bons a pensar e a ana lisar. Mas não se pode fazer isso rapidamente, percebes? Leva mais tempo a compreender as coisas e a ordená- las. Agora tenho a cabeça a andar à roda, percebes. Foi um valente choque! - Está bem.

- Será melhor amanhã. Então poderemos falar, prometo. - Claro - Adam pôs a tampa na caneta e meteu-a no bolso.

fez deslizar o processo para dentro da pasta e relaxou-se na cadeira.

- Vou estar em Memphis nos próximos meses.

- Memphis? Pensei que vivias em Chicago.

- Temos um pequeno escritório em Memphis. Trabalharei lá. O número está no cartão. Telefone sempre que quiser ou for possível.

- O que acontece quando tudo isto terminar?

- Não sei. Talvez regresse a Chicago.

- És casado?

- Não.

- E a Carmen?

- Não.

- Como é ela?

Adam cruzou as mãos atrás da cabeça e examinou a nuvem de fumo acima das suas cabeças.

- É muito inteligente, muito bonita. É muito parecida com a mãe.

- A Evelyn era uma rapariga linda.

- Ainda é bonita.

- Sempre pensei que o Eddie tivera muita sorte em conquistá-la. Porém, não gostava da fam0ia dela.

E ela certamente não gostava de Eddie, pensou Adam para si próprio. O queixo de Sam inclinou-se quase até tocar o peito.

Esfregou os olhos e beliscou a cana do nariz.

- Esta coisa da família vai exigir algum trabalho, hem? disse ele sem olhar.

- Sim.

- Posso não ser capaz de falar de algumas coisas.

- Vai sim. Deve-me isso, Sam. E deve-o a si mesmo.

- Não sabes do que estás a falar e não ias querer saber tudo.

- Tente. Estou farto de segredos.

- Porque é que queres saber tanto?

- Para poder tentar compreender.

- Isso será uma perda de tempo.

- Eu é que terei de decidir isso, certo?

Sam colocou as mãos nos joelhos e levantou-se lentamente.

Respirou fundo e olhou para Adam através da grade.

- Agora gostaria de ir-me embora.

Os seus olhos encontraram-se através dos estreitos losangos da divisória.

Claro - disse Adam - Posso trazer-lhe alguma coisa? Não, mas volta.

- Prometo.

Onze

Packer fechou a porta e trancou-a e saíram juntos da estreita sombra da porta da sala de conferências para o cegante sol do meio-dia. Adam fechou os olhos e parou um segundo, procurando desesperadamente nos bolsos os seus óculos de sol. Packer esperou pacientemente, os olhos sensatamente ocultos por um par de grossos Raybans de imitação e o rosto protegido pela larga pala do boné da farda de Parchman. O ar era sufocante e quase visível. O suor cobriu imediatamente o rosto e os braços de Adam; finalmente encontrou os óculos de sol na pasta e colocou-os.

Piscou os olhos, fez uma careta e, quando finalmente conseguiu ver, seguiu Packer pelo caminho de tijolo e relva queimada em frente da unidade.

- O Sam está bem? - perguntou Packer. Tinha as mãos nos bolsos e não parecia ter pressa.

- Suponho que sim.

- Tem fome?

- Não - respondeu Adam olhando para o relógio. Era quase uma hora da tarde. Não tinha a certeza se Packer Lhe estava a oferecer comida da prisão ou outra coisa, mas preferiu não arriscar.

- É pena. Hoje é quarta-feira e isso quer dizer que há grelos de nabo e pão de milho. Muito bom.

- Obrigado - Adam tinha a certeza que no fundo dos seus genes era suposto ele adorar grelos de nabo e pão de milho. O menu do dia deveria fazer-lhe crescer água na boca e ânsias no estômago. Mas considerava-se californiano e, tanto quanto sabia, nunca vira grelos de nabo.

- Talvez para a semana - disse ele, mal acreditando que lhe estavam a oferecer almoço no Corredor.

Estavam junto do primeiro dos portões duplos. Enquanto se abria, Packer, sem tirar as mãos dos bolsos, perguntou:

- Quando é que volta?

- Amanhã.

- Tão depressa?

- Sim. Vou andar por aqui durante algum tempo.

- Bem, foi um prazer conhecê-lo.

Enquanto Adam atravessava o segundo portão, o balde vermelho iniciou a sua descida. Parou a alguns centímetros do chão e procurou entre a colecção que se encontrava no fundo até encontrar a sua chave. Nunca olhou para cima, para a guarda.

Uma carrinha mini branca com insígnias oficiais na porta e nos lados estava à espera junto do carro de Adam. A janela do condutor foi baixada e Lucas Mann inclinou-se para fora.

- Está com pressa?

Adam olhou novamente para o relógio.

- Na realidade, não.

- Óptimo. Entre. Preciso de falar consigo. Vamos dar uma volta por aí.

Adam não queria dar uma volta rápida por ali, mas de qualquer forma tinha pensado em passar pelo gabinete de Mann. Abriu a porta do passageiro e atirou o casaco e a pasta para o banco de trás. Graças a deus, o ar estava no máximo. Lucas, fresco e ainda impecavelmente engomado, parecia estranho sentado ao volante de uma carrinha mini. Afastou-se da USM e dirigiu-se para o caminho principal.

- Como é que correu? - perguntou. Adam tentou lembrar-se da exacta descrição que Sam fizera de Mann. Qualquer coisa relacionada com o facto de não se poder confiar nele.

- Bem, penso eu - respondeu ele, cuidadosamente vago.

- Vai representá-lo?

- Acho que sim. Vai pensar no assunto esta noite e quer ver-me novamente amanhã.

- Não há problema, mas tem que obter a procuração amanhã.

Precisamos de uma autorização escrita dele.

- Tê-la-ei amanhã. Onde vamos? - Viraram à esquerda e afastaram-se da fachada da prisão. Passaram pela última das asseadas casas brancas com árvores frondosas e canteiros de flores e agora seguiam através de campos de algodão e de feijão que se estendiam interminavelmente.

- A nenhum sítio em especial. Pensei apenas que gostasse de ver um pouco da nossa quinta. Precisamos de falar de algumas coisas.

- Estou a ouvir.

- A decisão do Quinto Tribunal de Círculo foi tornada pública a meio da manhã e já recebemos pelo menos três telefonemas de jornalistas. Cheira-lhes a sangue, claro, e querem saber se isto poderá ser o fim do Sam. Conheço alguns desses tipos, já falei com eles por ocasião de outras execuções. Alguns são bons tipos, mas a maioria são uns idiotas detestáveis. Mas seja como for andam todos a perguntar pelo Sam e querem saber se ele tem ou não advogado. Vai representar-se a si próprio até ao fim? Você sabe, esse género de tretas.

Num dos campos à direita estava um grande grupo de reclusos de calças brancas e sem camisa. Estavam a trabalhar e suavam abundantemente, as costas e o peito encharcados a brilhar sob o sol abrasador. Um guarda a cavalo vigiava-os, armado de uma espingarda.

- O que estão aqueles homens a fazer? - perguntou Adam.

- A colher algodão.

- São obrigados a isso?

- Não, são todos voluntários. Ou isto ou ficam sentados na cela todo o dia.

- Estão vestidos de branco. Sam estava vestido de vermelho e vi um grupo na estrada vestido de azul.

- Faz parte do sistema de classificação. O branco significa que estes homens são de risco mínimo.

- Quais são os seus crimes?

- Tudo. Droga, assassínio, reincidentes, o que quiser. Mas portaram-se bem desde que vieram para cá, por isso vestem de branco e é-lhes permitido trabalhar.

A carrinha mini virou num cruzamento e os muros e o arame farpado tornaram-se novamente visíveis. À esquerda ficava uma série de barracões modernos com dois andares, estendendo-se em todas as direcções a partir de um núcleo central. Se não fossem o arame farpado e as torres de vigia, a unidade assemelhar-se-ia ao dormitório de uma universidade.

- O que é aquilo? - perguntou Adam apontando.

- A unidade trinta.

- Quantas unidades existem?

- Não tenho a certeza. Estamos sempre a construir e a deitar abaixo. Cerca de trinta.

- Parece nova.

- Oh, sim. Há quase vinte anos que temos problemas com os tribunais federais, por isso temos construído imenso. Não é segredo que o verdadeiro director deste sítio foi juiz federal.

- Os jornalistas podem esperar até amanhã? Preciso de saber o que pensa o Sam. Não gostaria nada de falar com eles hoje e depois as coisas correrem mal amanhã.

- Acho que posso demorá-los mais um dia. Mas não vão esperar muito tempo.

Passaram pela última torre de vigia e a unidade 30 desapareceu. Andaram pelo menos três quilómetros até o brilhante arame farpado de outra instalação aparecer por cima dos campos.

- Falei com o director esta manhã, depois de você chegar - disse Lucas. - Disse que gostaria de o conhecer. Vai gostar dele.

Detesta execuções, sabe. Esperava reformar-se dentro de dois anos sem ter que assistir a mais nenhuma, mas agora parece duvidoso.

- Deixe-me adivinhar. Ele só está a fazer o seu trabalho não é?

- Aqui estamos todos a fazer o nosso trabalho.

- É aí que quero chegar. Tenho a impressão que aqui toda a gente me quer dar palmadinhas nas costas e falar em voz triste do que vai acontecer ao pobre velho Sam. Ninguém o quer matar, estamos todos a fazer o nosso trabalho.

- Há muita gente que deseja ver o Sam morto.

- Quem?

- O governador e o procurador-geral. Tenho a certeza de que conhece o governador, mas é com o procurador-geral que deve ter cuidado. É óbvio que ele pretende vir a ser governador. Por qualquer razão, elegemos neste estado uma quantidade destes políticos jovens e ambiciosos que parecem não conseguir estar quietos.

- O nome dele é Roxburgh, não é?

- Exactamente. Adora as câmaras e espero que dê uma conferência de imprensa esta tarde. Se se mantiver à altura, vai assumir todo o crédito da vitória no Quinto Círculo e prometer diligenciar todos os esforços no sentido de executar o Sam dentro de quatro semanas. É o gabinete dele que trata destes assuntos, sabe. E, depois, ficaria muito surpreendido se o próprio governador não aparecesse nas notícias da noite tecendo um ou dois comentários. O meu ponto é este, Adam: vai haver grandes pressões de cima no sentido de não haver mais suspensões. Querem ver o Sam morto para obterem os seus próprios dividendos políticos. Vão espremer tudo o que puderem.

Adam observou o campo seguinte enquanto passavam. Numa laje de cimento entre dois edifícios estava a decorrer um jogo de basquetebol, com pelo menos doze jogadores de cada lado. Eram todos negros. Junto ao campo, uma fila de halteres estavam a ser levantados e atirados por alguns levantadores pesados. Adam reparou em alguns brancos.

Lucas virou para outra estrada.

- Há ainda outra razão - continuou ele. - A Luisiana anda a matar condenados a torto e a direito. O Texas já executou seis este ano. A Florida, cinco. Nós não temos uma execução há dois annos. Alguns dizem que andamos a arrastar os pés. É tempo de mostrar a esses outros estados que somos tão sérios como eles no que diz respeito a um bom governo. Ainda na semana passada, em Iackson, um comité legislativo fez inquéritos sobre o assunto. Ezistem várias declarações dos nossos líderes sobre os interminá veis adiamentos nestes assuntos. Não é surpreendente que tenham decidido que a culpa é dos tribunais federais. Há muita pressão no sentido de matar alguém. E por acaso o Sam é o próximo.

- Quem é que anda atrás do Sam?

- Ninguém realmente. Podem passar-se dois anos antes de os ter novamente tão próximo. Os miseráveis andam em círculos.

- Porque é que me está a dizer isto?

- Eu não sou o inimigo? Sou o advogado da prisão, não o do estado do Mississípi. E você nunca cá esteve antes. Pensei que talvez gostasse de saber destas coisas.

- Obrigado - disse Adam. Ainda que as informações não tivessem sido pedidas, seriam certamente úteis.

- Ajudarei em tudo o que puder. Os telhados dos edifícios avistavam-se no horizonte.

- Ali é a entrada da prisão? - perguntou Adam.

- Sim.

- Gostaria de ir-me embora agora.

O escritório de Memphis da Kravitz & Bane ocupava dois andares de um edifício chamado Brinkley Plaza, um edifício de 1920, situado na Baixa, na esquina da Main com a Monroe. A Main Street também era conhecida como o Mid-America Mall. Os carros e camiões tinham sido banidos quando a cidade tentara revitalizar a Baixa e substituíra o asfalto por mosaicos, fontes e árvores ornamentais. No Mall só era permitido o tráfego de peões.

O próprio edifício fora revitalizado e cuidadosamente renovado. O átrio principal era de mármore e bronze. Os escritórios da K&B eram grandes e luxuosamente decorados com antiguidades - paredes revestidas a madeira de carvalho e tapetes persas.

Adam foi escoltado por uma secretária jovem e atraente até ao gabinete de canto de Barker Cooley, o sócio director. Apresentaram-se, apertaram as mãos e admiraram a secretária enquanto ela saía da sala e fechava a porta. Cooley olhou de soslaio por demasiado tempo e pareceu suster a respiração até a porta fechar completamente e a visão desaparecer.

- Bem-vindo ao sul - disse Cooley, expirando finalmente e sentando-se na sua magnífica cadeira giratória de cabedal vermelho.

- Obrigado. Suponho que falou com o Garner Goodman.

- Ontem. Duas vezes. Ele pôs-me ao corrente. Temos

uma simpática sala de reuniões ao fundo deste corredor com telefone, computador e muito espaço. É sua até, hum, durante o tempo necessário.

Adam acenou afirmativamente e olhou em volta do escritório.

Cooley tinha pouco mais de cinquenta anos, um homem ordenado, com uma secretária organizada e uma sala limpa. As palavras e mãos eram rápidas e apresentava o cabelo cinzento e as olheiras negras de um contabilista extenuado.

- Que tipo de trabalho fazem aqui? - perguntou Adam.

- Não fazemos muito processo e certamente nenhum trabalho criminal - respondeu ele rapidamente, como se os criminosos não fossem autorizados a pisar com os seus pés sujos as espessas alcatifas e os belos tapetes daquele estabelecimento. Adam lembrou-se da descrição que Goodman fizera da filial de Memphis – uma associação de doze bons advogados, cuja aquisição anos antes pela Kravitz & Bane era agora um mistério. Mas o endereço suplementar ficava bem nos cabeçalhos da firma.

- Praticamente só fazemos direito comercial, de sociedades - continuou Cooley. - Representamos alguns bancos antigos e fazemos muito trabalho com títulos para as unidades governamentais locais.

Trabalho excitante, pensou Adam.

- A própria firma data de há cerca de cento e quarenta anos, a propósito é a mais antiga de Memphis. Já existia na época da Guerra Civil. Dividiu-se e deu algumas voltas e por fim fundiu-se com os rapazes de Chicago.

Cooley contou esta pequena história com orgulho, como se a raça tivesse alguma coisa a ver com a prática da advocacia em 1990.

- Quantos advogados? - perguntou Adam, tentando preencher os buracos de uma conversa que se iniciara lentamente e não conduzia a lado nenhum. - Uma dúzia. Onze empregados forenses. Nove funcionários.

Dezassete secretárias. Mais 10empregados vários de apoio. Não é um mau negócio para esta parte do mundo. Porém, não tem nada a ver com Chicago.

Nisso tens razão, pensou Adam.

- Estou ansioso por fazer uma visita. Espero não atrapalhar.

- Nem por sombras. Receio, porém, que não possamos ser de grande ajuda. Somos tipos das empresas, sabe, advocacia de escritório, muita papelada e tudo isso. Há vinte anos que não vejo uma sala de audiências.

- Não vou ter problemas. Mr. Goodman e os tipos lá de cima prometerão ajudar-me.

Cooley pôs-se de pé de um salto e esfregou as mãos como se não soubesse o que fazer delas.

- Bem, hum, Darlene será a sua secretária. Na realidade, ela faz parte de um grupo, mas afectei-a mais ou menos ao seu serviço. Ela dar-lhe-á uma chave e informações sobre o parque de estacionamento, a segurança, os telefones, os copiadores, as impressoras. Tudo ultramoderno. Equipamento realmente bom. Se necessitar de um empregado forense, é só dizer, podemos tirar um de um dos outros e...

- Não, isso não será necessário. Obrigado.

- Bem, então, vamos dar uma vista de olhos ao seu gabinete. Adam seguiu Cooley pelo corredor vazio e tranquilo e sorriu para si próprio ao pensar nos escritórios de Chicago. Aí os corredores estavam sempre cheios de advogados apressados e secretárias atarefadas. Os telefones tocavam incessantemente, as copiadoras, faxes e intercomunicadores apitavam constantemente, dando ao lugar o aspecto de uma arcada. Era uma casa de doidos, dez horas por dia. A solidão só era possível nas alcovas das bibliotecas ou talvez nas esquinas do edifício, onde trabalhavam os sócios.

Este lugar era tão silencioso como uma casa mortuária. Cooley abriu uma porta empurrando-a e acendeu um interruptor.

- Que tal? - perguntou ele, acenando os braços num largo círculo. A sala era mais do que adequada, um gabinete estreito e comprido com uma bela mesa polida ao centro e cinco cadeiras de cada lado. Numa extremidade, fora montado um posto de trabalho provisório com um telefone, computador e uma cadeira de executivo. Adam caminhou ao longo da mesa, deitando um olhar às estantes cheias de livros de Direito muito bem ordenados, mas não usados. Espreitou por entre as cortinas da janela.

- Bela paisagem - disse olhando para os pombos e as pessoas do hall, três andares mais abaixo.

- Espero que seja adequado - disse Cooley.

- É muito agradável. Servirá perfeitamente. Manter-me-ei à parte e procurarei não os atrapalhar.

- Disparate. Se precisar de alguma coisa, telefone-me - Cooley encaminhava-se lentamente para Adam. - Porém, há uma coisa - disse ele com as sobrancelhas subitamente sérias.

Adam encarou-o.

-O que é?

- Há algumas horas recebi um telefonema de um jornalista daqui, de Memphis. Não conheço o homem, mas ele disse que há anos que segue o caso Cayhall. Queria saber se a nossa firma ainda está encarregada do caso, sabe. Sugeri-lhe que contactasse Chicago. Nós, evidentemente, não temos nada a ver com o caso - tirou um pedaço de papel do bolso da camisa e entregou-o a Adam. Tinha um nome e um número de telefone.

- Vou tratar disso - disse Adam.

Cooley aproximou-se mais um passo e cruzou os braços sobre o peito.

- Olhe, Adam, não somos advogados de barra, sabe. Trabalhamos com empresas. O dinheiro é óptimo. Somos muito discretos e evitamos a publicidade, compreende.

Adam acenou lentamente com a cabeça, mas não disse nada.

- Nunca tocámos num caso criminal, certamente nada tão grande como isto.

- Não querem correr o risco de ficar com alguma sujidade agarrada, hum?

- Não disse isso. Nem por sombras. Não. Só que as coisas aqui são diferentes. Não estamos em Chicago. Por acaso, os nossos maiores clientes são alguns velhos banqueiros muito conservadores e correctos e, bem, só estamos preocupados com a nossa imagem. Compreende o que quero dizer?

- Não.

- Claro que compreende. Não tratamos com criminosos e bem, somos muito sensíveis a respeito da imagem que projectamos aqui em Memphis.

- Não trata com criminosos?

- Nunca.

- Mas representam grandes bancos?

- Ora, Adam. Você sabe onde quero chegar. Esta área da advocacia está a mudar rapidamente. Liberalizações, fusões, falências, um sector verdadeiramente dinâmico do Direito. A concorrência entre as grandes sociedades de advogados é feroz e não queremos perder clientes. Raios, todos querem os bancos.

- E o senhor não quer ver os seus clientes manchados pelos meus?

- Olhe, Adam, você é de Chicago. Vamos manter este caso onde ele pertence, está bem? É um caso de Chicago, tratado pelos vossos homens de lá. Memphis não tem nada a ver com isso, está bem?

- Este escritório faz parte da Kravitz & Bane.

- Sim, e este escritório não tem nada a ganhar se for ligado a escumalha como o Sam Cayhall.

- Sam Cayhall é meu avô.

- Merda! - os joelhos de Cooley tremeram e os braços caíram-lhe do peito. - Está a mentir!

Adam deu um passo na direcção dele.

- Não estou a mentir e se por acaso tem objecções a fazer à minha presença aqui, é melhor telefonar para Chicago.

- Isto é horrível - disse Cooley enquanto recuava e se dirigia para a porta.

- Telefone para Chicago.

- Talvez faça isso - disse ele quase para si próprio, abrindo a porta e desaparecendo, a resmungar mais qualquer coisa.

Bem-vindo a Memphis, disse Adam sentando-se na sua nova cadeira e olhando para o ecrã em branco do computador. Pousou o pedaço de papel na mesa e olhou para o nome e número de telefone. Foi atingido por uma dor de fome aguda e compreendeu que não comia nada há horas. Eram quase quatro. Sentiu-se subitamente fraco, cansado e esfomeado.

Colocou suavemente ambos os pés em cima da mesa junto ao telefone e fechou os olhos. O dia era uma mancha, desde a ansiedade de guiar até Parchman e avistar o seu portão principal, ao inesperado encontro com Lucas Mann, ao horror de entrar no Corredor e ao medo de enfrentar Sam. E agora o director queria conhecê-lo, a imprensa queria fazer perguntas, a filial de Memphis da sua firma queria que tudo fosse feito em silêncio. Tudo isto em menos de oito horas.

O que aconteceria no dia seguinte?

Sentaram-se lado a lado no sofá fundo e almofadado com uma tigela de pipocas feitas no micro-ondas entre eles. Tinham os pés descalços em cima da mesa do café, entre meia dúzia de embalagens de cartão de comida chinesa e duas garrafas de vinho. Espreitavam por cima dos dedos dos pés para ver televisão. Adam segurava o controlo remoto. A sala estava às escuras. Comia pipocas lentamente.

Há muito tempo que Lee não se movia. Tinha os olhos cheios de lágrimas, mas não dizia nada. O vídeo começou pela segunda vez.

Adam carregou no botão de Pausa quando Sam apareceu pela primeira vez, algemado, sendo levado da cadeia para uma audiência.

- Onde estavas quando soubeste que ele tinha sido preso? perguntou ele sem olhar para ela.

- Aqui, em Memphis - disse ela tranquilamente, mas com voz forte. - Estávamos casados apenas há alguns anos. Eu estava em casa. O Phelps telefonou-me e disse que tinha havido um atentado à bomba em Greenville, pelo menos duas pessoas tinham morrido. Possivelmente tinha sido o Klan. Disse-me para ver as notícias ao meio-dia, mas eu tive medo. Algumas horas mais tarde a minha mãe telefonou-me e disse que tinham prendido o papá pelo atentado. Disse que estava na cadeia em Greenville.

- Como reagiste?

- Não sei. Chocada. Assustada. Eddie veio ao telefone e disse que o Sam tinha dado instruções para que ele e a mãe fossem buscar o carro a Cleveland. Lembro-me que o Eddie dizia que ele tinha finalmente conseguido, tinha finalmente conseguido. Matara alguém. O Eddie estava a chorar e eu comecei a chorar também e lembro-me que foi horrível.

- Trouxeram o carro?

- Sim. Nunca ninguém soube. Nunca se falou nisso em nenhum dos julgamentos. Tínhamos receio que a polícia descobrisse e obrigasse o Eddie e a mãe a testemunhar. Mas nunca aconteceu.

- Onde é que eu estava?

- Deixa-me ver. Vocês moravam numa pequena casa branca em Clanton e tenho a certeza que estavas lá com a Evelyn. Acho que na altura ela não trabalhava. Mas não tenho a certeza.

- O que é que o meu pai fazia na altura?

- Não me lembro. A certa altura foi gerente de um armazém de peças de automóveis em Clanton, mas estava sempre a mudar de emprego.

O vídeo continuou com imagens de Sam a ser escoltado de e para a cadeia e o tribunal e em seguida a notícia de que fora formalmente acusado dos crimes. Adam fez uma pausa.

- Algum de vocês foi alguma vez visitá-lo à cadeia?

- Não, enquanto esteve em Greenville, não. A fiança dele era muito elevada, meio milhão de dólares, creio.

- Era meio milhão, sim!

- E a princípio a família tentou arranjar o dinheiro para pagar.

A mãe, claro, queria que eu convencesse o Phelps a passar um cheque. O Phelps, evidentemente, disse que não. Não queria envolver-se no assunto. Discutimos amargamente, mas eu não podia realmente culpá-lo. O pai ficou na cadeia. Lembro-me que um dos irmãos dele tentou hipotecar algumas terras, mas não conseguiu.

Eddie não quis ir à cadeia para o ver e a mãe não era capaz. Não tenho a certeza se Sam nos quereria lá.

- Quando é que saímos de Clanton?

Lee inclinou-se para a frente e pegou no copo de vinho que estava em cima da mesa. Bebeu um pouco e pensou por uns momentos.

- Acho que ele estava na cadeia há cerca de um mês. Um dia fui visitar a mãe e ela disse-me que o Eddie andava a falar em ir-se embora. Não acreditei. Ela disse que ele se sentia embaraçado e humilhado e não conseguia encarar as pessoas na cidade.

Acabava de perder o emprego e não queria sair de casa. Telefonei-lhe e falei com Evelyn. O Eddie não quis atender o telefone. Ela disse que ele estava deprimido e triste e tudo isso.

lembro-me de lhe ter dito que todos nos sentíamos assim. Perguntei-lhe se se iam embora e ela disse redondamente que não.

Cerca de uma semana mais tarde, a mãe telefonou-me de novo e disse-me que vocês tinham feito as malas e partido a meio da noite. O senhorio telefonava a pedir a renda e ninguém tinha visto o Eddie. A casa estava vazia.

- Gostava de me lembrar de alguma coisa.

- Só tinhas três anos, Adam. A última vez que te vi estavas a brincar perto da garagem da pequena casa branca. Eras tão engraçado e meigo.

- Ei, obrigado.

- Passadas várias semanas, o Eddie telefonou-me e pediu-me para dizer à mãe que estavam no Texas e todos bem.

- Texas?

- Sim. Muito mais tarde, a Evelyn disse-me que vaguearam para oeste. Ela estava grávida e ansiosa por se instalar num lugar qualquer. Ele voltou a telefonar e disse que estavam na Califórnia.

Essa foi a última chamada em muitos anos.

- Anos?

- Sim, tentei convencê-lo a voltar para casa, mas mostrou-se sempre inflexível. Jurou que nunca havia de voltar e acho que falava a sério.

- Onde estava a família da minha mãe?

- Não sei. Não eram de Ford County. Parece que viviam na Jórgia ou talvez na Florida.

- Nunca os conheci.

Carregou novamente no botão e o vídeo prosseguiu. O primeiro julgamento começou em Nettles County. A câmara enquadrou o relvado do tribunal com o grupo de membros do Klan, filas de polícia e enxames de curiosos.

- Isto é incrível - disse Lee.

Ele parou novamente.

- Foste ao julgamento?

- Uma vez. Entrei às escondidas na sala de audiências e ouvi as alegações finais. Ele proibiu-nos de assistir a qualquer dos seus três julgamentos. A mãe não seria capaz. Tinha a pressão arterial completamente descontrolada e estava a tomar muitos medicamentos. Praticamente não se levantava.

- O Sam sabia que lá tinhas estado?

- Não. Sentei-me ao fundo da sala de audiências com um cachecol na cabeça. Ele nunca me viu.

- O que estava o Phelps a fazer?

- Escondido no escritório, a cuidar dos negócios, a rezar para que ninguém descobrisse que Sam Cayhall era seu sogro. A nossa primeira separação data de pouco tempo depois deste julgamento.

- O que é que te lembras do julgamento, da sala de audiências?

- Lembro-me de pensar que o Sam conseguira um bom júri, os seus iguais. Não sei como é que o advogado dele o conseguiu, mas escolheram os melhores campónios brancos que encontraram. Observei que os jurados reagiam ao acusador e que escutavam atentamente o advogado de Sam.

- Clovis Brazelton.

- Era um bom orador e eles bebiam-lhe as palavras. Fiquei chocada quando o júri não chegou a um veredicto e o julgamento foi declarado incorrecto. Estava convencida que ele ia ser absolvido. Acho que ele também ficou chocado.

O vídeo prosseguiu com reacções ao julgamento incorrecto, generosos comentários de Clovis Brazelton, outro instantâneo de Sam a sair da sala de audiências. Em seguida, começou o segundo julgamento, semelhante ao primeiro.

- Durante quanto tempo trabalhaste nisto? - perguntou ela.

- Sete anos. Era caloiro em Pepperdine quando a ideia me ocorreu - passou rapidamente pela cena patética de Martin Kramer a cair da cadeira de rodas depois do segundo julgamento e parou no rosto sorridente de umajornalista local, enquanto tagarelava acerca da abertura do terceiro julgamento do famoso Sam Cayhall. Estava-se agora em 1981.

- Sam foi um homem livre durante treze anos - disse Adam.

- O que é que ele fez?

- Manteve-se isolado, cuidava da quinta, tentou retomar o fio à meada. Nunca me falou acerca do atentado ou das suas actividades no Klan, mas gostava da atenção de que gozava em Clanton, Era uma espécie de lenda local e tinha uma certa vaidade nisso. A saúde da mãe piorou e ele ficou em casa a cuidar dela.

- Nunca pensou em ir-se embora?

- Não, a sério que não. Estava convencido de que os seus problemas legais estavam terminados. Fora julgado duas vezes e escapara de ambos. Nenhum júri no Mississípi condenaria um homem do Klan nos anos sessenta. Pensou que era invencível. Ficou perto de Clanton, evitou o Klan e vivia pacificamente. Pensei que ia passar os seus últimos anos a cultivar tomate e a pescar.

- Alguma vez perguntou pelo meu pai?

Ela acabou de beber o vinho e colocou o copo em cima da mesa. Nunca ocorrera a Lee que um dia lhe poderiam pedir para recordar em pormenor esta pequena história triste. Esforçara-se tanto por esquecer.

- Lembro-me que durante o primeiro ano que passou em casa me perguntava ocasionalmente se tivera notícias do meu irmão. Claro que não. Sabíamos que vocês estavam algures na Califórnia e esperávamos que estivessem bem. O Sam é muito orgulhoso e muito teimoso, Adam. Nunca pensaria na hipótese de vos ir procurar e dizer ao Eddie para voltar para casa. Se o Eddie tinha vergonha da família, então Sam achava melhor que ele ficasse na Califórnia - ela parou e afundou-se mais no sofá.

- Em mil novecentos e setenta e três diagnosticaram um cancro à minha mãe e eu contratei um detective privado para procurar o Eddie. Ele trabalhou durante seis meses, levou-me uma data de dinheiro e não descobriu nada.

- Eu tinha nove anos, quarta classe, estávamos em Salem Oregon.

- Sim, depois a Evelyn disse-me que tinham passado algum tempo no Oregon.

- Estávamos sempre a mudar-nos. Até chegar ao meu oitavo ano, todos os anos havia outra escola. Depois instalámo-nos em Santa Mónica.

- Vocês eram ardilosos. Eddie deve ter contratado um bom advogado, porque todos os traços dos Cayhall foram eliminados. O imvestigador chegou mesmo a utilizar colaboradores locais, mas não conseguiu nada.

- Quando é que ela morreu?

- Em mil novecentos e setenta e sete. Já estávamos sentados na igreja prestes a começar o funeral quando o Eddie se esgueirou por uma porta lateral e se sentou atrás de mim. Não me perguntes como é que ele soube da morte da mãe. Simplesmente apareceu em

Clanton e em seguida desapareceu. Não disse nem uma palavra ao sam. Conduzia um carro alugado para que ninguém pudesse verificar a matrícula. Voltei para Memphis no dia seguinte e ele estava lá à espera no meu caminho de carros. Bebemos café durante duas horas e falámos de tudo. Tinha fotografias da escola, tuas e da Carmen, era tudo maravilhoso no luminoso sul da Califórnia. Um bom emprego, uma bela casa nos subúrbios, Evelyn era mediadora de imóveis. O sonho americano. Disse que nunca mais voltaria ao Mississípi, nem mesmo para o funeral do Sam. Depois de me obrigar a jurar segredo, falou-me dos novos nomes e deu-me o seu número de telefone. Não o endereço, apenas o número de telefone.

Qualquer quebra do segredo, ameaçou ele, e desapareceria novamente. Disse-me para não lhe telefonar, a menos que se tratasse de uma emergência. Disse-lhe que gostaria de ver-vos, a ti e à Carmen e ele respondeu que talvez um dia. Por vezes parecia o mesmo Eddie de sempre, mas outras vezes era uma pessoa diferente. Abraçou-me, disse-me adeus e nunca mais o voltei a ver.

Adam accionou o controlo remoto e o vídeo prosseguiu. As imagens nítidas e modernas do terceiro e último julgamento passaram rapidamente e ali estava Sam, subitamente trinta anos mais velho, com um novo advogado enquanto se escapuliam por uma porta lateral do tribunal de Lakehead County.

- Assististe ao último julgamento?

- Não, ele disse-me para me afastar.

Adam parou o vídeo.

- Quando é que o Sam compreendeu que andavam novamente atrás dele?

- É difícil dizer. Certo dia, apareceu uma pequena história num jornal de Memphis sobre o novo procurador de distrito de Greenville que pretendia reabrir o caso Kramer. Não era grande notícia, apenas dois ou três parágrafos no meio do jornal.

Lembro-me de a ter lido com horror. Li-a dez vezes e fiquei a olhar para ela durante uma hora. Depois de todos aqueles anos, o nome de Sam Cayhall aparecia novamente no jornal. Não podia acreditar. Telefonei-lhe e, claro, ele também tinha lido. Disse para não me preocupar. Cerca de duas semanas mais tarde apareceu outra notícia, desta vez um pouco maior, com o rosto de McAllister no meio. Telefonei ao pai e ele disse que estava bem. Foi assim que tudo começou, de forma bastante calma e de repente, explodiu. A família Kramer apoiou a ideia e, em seguida a NAACP envolveu-se no assunto. Um dia tornou-se evidente que McAllister estava decidido a pressionar um novo julgamento e que não ia desistir. Sam ficou doente e aterrado, mas tentou mostrar-se corajoso. Tinha ganho duas vezes, dizia, poderia voltar a fazê-lo.

- Telefonaste ao Eddie?

- Sim. Assim que se tornou evidente que haveria nova acusação, telefonei-lhe e contei-lhe. Ele não disse muita coisa, não disse praticamente nada. Foi uma conversa muito breve e prometi mantê-lo informado. Acho que ele não aceitou muito bem a notícia. Não levou muito tempo a tornar-se notícia a nível nacional e tenho a certeza que Eddie seguiu tudo nos meios de comunicação.

Viram as partes restantes do terceiro julgamento em silêncio. O rosto de grandes dentes de McAllister aparecia por toda a parte e mais do que uma vez Adam desejou ter filmado um pouco mais.

Sam foi levado pela última vez algemado e o ecrã ficou em branco.

- Mais alguém viu isto? - perguntou Lee.

- Não, foste a primeira pessoa.

- Como é que recolheste isto tudo?

- Levou tempo, algum dinheiro e muito esforço.

- É incrível.

- Quando eu estava na escola secundária, tínhamos um tonto, um professor de Ciência Política. Autorizava-nos a vasculhar os jornais e revistas e a debater as questões do dia. Alguém trouxe uma história de primeira página do l.A. Times sobre o próximo Julgamento de Sam Cayhall no Mississípi. Discutimos o assunto intensamente e depois seguimo-lo atentamente quando ocorreu.

Todos, incluindo eu próprio, ficamos satisfeitos quando ele foi considerado culpado. Mas houve uma grande discussão sobre a Pena de morte. Algumas semanas mais tarde o meu pai tinha morrido e tu contaste-me finalmente a verdade. A ideia de que os meus amigos pudessem descobrir horrorizava-me.

- E descobriram?

- Claro que não. Sou um Cayhall, um mestre na arte de guardar segredos.

- Não vai ser segredo por muito tempo.

- Não, não vai.

Houve uma longa pausa enquanto fitavam o ecrã em branco.

Finalmente, Adam carregou num botão e o televisor apagou- se.

Atirou o controlo remoto para cima da mesa.

- Lamento, Lee, se tudo isto te embaraçar. A sério. Gostaria que houvesse uma maneira de o evitar.

- Não compreendes.

- Eu sei. E não consegues explicar, não é? Tens medo do Phelps e da família?

- Desprezo o Phelps e a família dele.

- Mas gostas do seu dinheiro.

- Ganhei esse dinheiro, percebes? Aturei-o durante vinte e sete anos.

- Receias que os teus clubezinhos te ponham de parte? Que te expulsem dos círculos sociais?

- Pára com isso, Adam.

- Desculpa - disse ele. - Foi um dia estranho. Estou a sair do armário, Lee. Estou a confrontar-me com o meu passado e acho que espero que todos se mostrem igualmente ousados. Desculpa.

- Qual é o aspecto dele?

- O de um homem muito velho. Muitas rugas e pele pálida. Está demasiado velho para estar encerrado numa cela.

- Lembro-me de falar com ele alguns dias antes do último julgamento. Perguntei-lhe porque razão não tinha simplesmente fugido, desaparecido na noite, escondendo-se num sítio qualquer da América do Sul. E sabes que mais?

- O quê?

- Disse que tinha pensado nisso. A mãe tinha morrido há muitos anos. O Eddie desaparecera. Tinha lido livros sobre Mengele, Eichmann e outros criminosos nazis que tinham desaparecido na América do Sul. Chegou mesmo a falar de São Paulo, disse que era uma cidade com vinte milhões de habitantes, cheia de refugiados de toda a espécie. Tinha um amigo, segundo julgo outro membro do Klan, que poderia arranjar-lhe os papéis e ajudá-lo a esconder-se. Pensou muito no caso.

- Quem me dera que o tivesse feito. Talvez o meu pai ainda fosse vivo.

- Dois dias antes de ir para Parchman, visitei-o na prisão de Greenville. Foi a nossa última visita. Perguntei-Lhe porque é que não tinha fugido. Disse que nunca imaginara que pudesse ser condenado à morte. Eu não podia acreditar que durante anos ele fora um homem livre, que poderia facilmente ter fugido. Fora um grande erro, disse ele, não ter fugido. Um erro que haveria de lhe custar a vida.

Adam colocou a tigela das pipocas sobre a mesa e inclinou-se lentamente na direcção dela. Pousou-lhe a cabeça no ombro. Ela pegou-lhe na mão.

- Lamento que te vejas envolvido nisto - murmurou ela.

- Ele parecia tão lamentável ali sentado no seu fato-macaco vermelho do corredor da morte.

Lyde Packer deitou numa caneca com o seu nome gravado uma generosa dose de café forte e começou a preencher a papelada da manhã. Trabalhava no Corredor há vinte e um anos, os últimos sete como comandante de turno. Todas as manhãs, durante oito horas, era um dos quatro sargentos de fila encarregados de catorze condenados, dois guardas e dois presos de confiança. Completou os seus impressos e verificou um quadro.

Havia uma nota para telefonar ao director. Outra nota dizia que F. M. Dempsey tinha poucos comprimidos para o coração e desejava ver o médico. Todos queriam ver o médico. Bebeu o café a ferver enquanto saía do gabinete para a inspecção da manhã. Verificou os uniformes dos dois guardas da porta da frente e disse ao branco mais jovem para cortar o cabelo.

A USM não era mau sítio para trabalhar. Regra geral, os reclusos do corredor da morte eram tranquilos e bem comportados.

Passavam vinte e três horas por dia sozinhos nas suas celas, separados uns dos outros e, portanto, incapazes de se meterem em sarilhos. Passavam dezasseis horas por dia a dormir. Eram alimentados nas celas. Era-lhes concedida uma hora de recreio por dia no exterior, a sua hora de saída" como lhe chamavam, e se preferissem podiam gozar esse tempo a sós. Todos tinham televisão ou rádio, ou ambos, e depois do pequeno-almoço todas as quatro fileiras se animavam com a música, as notícias, telenovelas e calmas conversas através das grades. Os reclusos não conseguiam ver os vizinhos da cela ao lado, mas conversavam com facilidade.

Ocasionalmente, rebentavam discussões relativas ao volume de som da música de alguém, mas estas pequenas escaramuças eram rapidamente resolvidas pelos guardas. Os reclusos tinham certos direitos e também alguns privilégios. A remoção de uma televisão ou de um rádio era devastadora.

O Corredor gerava uma estranha camaradagem entre os condenados. Metade eram brancos e metade negros, mas todos tinham sido condenados por assassínios brutais. Mas havia pouca preocupação acerca dos feitos passados e dos registos criminais e geralmente pouco interesse pela cor da pele. Entre a população geral da prisão, bandos de toda a espécie faziam um trabalho eficaz de classificação dos reclusos, normalmente com base na raça. Porém, no Corredor, os homens eram julgados pela forma como suportavam a sua reclusão. Quer gostassem uns dos outros quer não, estavam todos fechados em conjunto neste pequeno canto do mundo à espera da mone. Era uma pequena fraternidade maltrapilha de deslocados, vagabundos, bandidos absolutos e assassinos a sangue-frio.

E a morte de um podia significar a morte de todos. A notícia da nova sentença de morte de Sam foi segredada ao longo das fileiras e através das grades. Quando a notícia chegara aos telejor nais no dia anterior, o Corredor tornara-se visivelmente mais silencioso. Todos os reclusos desejavam subitamente falar com os seus advogados. Havia um interesse renovado por todas as matérias legais e Packer reparara que muitos deles folheavam os seus processos com as televisões e os rádios desligados.

Passou por uma porta pesada, tomou um longo gole e caminhou tranquila e silenciosamente ao longo da Fila A. Catorze celas todas iguais, um metro e oitenta de largura e dois metros e setenta de comprimento, viradas para o corredor. A parte da frente de cada uma das celas era constituída por uma parede de grades de ferro, de modo que em nenhum momento um recluso tinha absoluta privacidade. Fosse o que fosse que estivesse a fazer - a dormir, a usar a casa de banho - ficava sujeito à observação dos guardas. Estavam todos deitados, enquanto Packer abrandava o passo em frente de cada pequeno quarto e procurava uma cabeça debaixo dos lençóis. As luzes das celas estavam apagadas e a fileira estava às escuras. O homem do átrio, um recluso com privilégios especiais, acordá-los-ia ou obrigá-los-ia a levantar às cinco horas. O pequeno-almoço seria servido às seis - ovos, torradas, doce, por vezes bacon, café e sumo de frutas. Em poucos minutos, o Corredor voltaria lentamente à vida, à medida que quarenta e sete homens sacudiam o sono e retomavam o interminável processo da morte. Acontecia lentamente, um dia de cada vez, quando outro miserável nascer do sol colocava uma nova cobertura de calor nas suas pequenas bolsas privadas de inferno. E acontecia rapidamente, tal como no dia anterior, quando um tribunal rejeitava algures um pedido, uma petição ou um recurso e decidia que uma execução deveria ter lugar em breve.

Packer sorvia o café, contava as cabeças e prosseguia lentamente o seu ritual matinal. Geralmente, a USM decorria calmamente, quando as rotinas não eram quebradas e os horários eram cumpridos. Havia muitas regras no manual, justas e fáceis de cumprir. Todos as conheciam. Mas uma execução tinha o seu próprio ritual com uma política diferente e directrizes variáveis, que normalmente perturbavam a tranquilidade do Corredor. Packer tinha um grande respeito por Philip Naifeh, mas maldito fosse se não escrevia um livro antes e depois de cada execução. Havia uma grande pressão para fazer tudo correcta, constitucional e compassivamente. Nunca tinha havido duas mortes iguais.

Packer odiava execuções. Acreditava na pena de morte porque era um homem religioso e quando Deus dissera olho por olho, queria dizer isso mesmo. Porém, preferiria que elas fossem efectuadas noutro lugar e por outras pessoas. Felizmente, tinham sido tão raras no Mississípi que o seu trabalho prosseguira calmamente com poucas interferências. Passara por quinze em vinte e um anos, mas apenas quatro desde 1982.

Falou tranquilamente a um guarda no final da fileira. O sol começava a espreitar pelas janelas abertas por cima do corredor da fileira. O dia ia ser quente e sufocante. Seria também muito mais tranquilo. Haveria menos queixas a respeito da comida, menos pedidOs para ver o médico, uma série de discussões esparsas, mas no conjunto seriam um grupo dócil e preocupado. Já havia um ano ou talvez mais desde que uma suspensão fora retirada tão próximo da execução. Packer sorriu para si próprio enquanto procurava uma cabeça debaixo dos lençóis. Este dia ia ser realmente tranquilo.

Durante os primeiros meses de Sam no corredor, Packer tinha-o ignorado. O manual oficial proibia tudo o que ultrapassasse os contactos necessários com os reclusos e Packer achara que Sam era uma pessoa fácil de deixar em paz. Era um membro do Klan. Odiava negros. Falava pouco. Era amargo e mal-humorado, pelo menos nos primeiros dias. Mas a rotina de não fazer nada durante

oito horas por dia suaviza gradualmente as arestas e, com o tempo, alcançaram um grau de comunicação que se compunha de um punhado de palavras breves e grunhidos. Depois de nove anos e meio a verem-se todos os dias, Sam podia mesmo ocasionalmente dirigir um sorriso a Packer.

Havia dois tipos de assassinos no Corredor, decidira Packer após anos de estudo. Havia os assassinos a sangue- frio que voltariam a fazê-lo se tivessem essa hipótese e havia aqueles que tinham simplesmente cometido um erro e jamais pensariam em derramar mais sangue. Os do primeiro grupo deveriam ser rapidamente gaseados. Os do segundo grupo causavam grande desconforto a Packer, porque as suas execuções não tinham qualquer finalidade. A sociedade não sofreria, nem sequer notaria, se esses homens fossem libertados da prisão. Sam era um sólido membro do segundo grupo. Poderia regressar a sua casa, onde em breve morreria uma morte solitária. Não, Packer não desejava que Sam Cayhall fosse executado.

Regressou novamente ao longo da Fileira A, bebendo o seu café e olhando para as celas escuras. A sua fileira era a mais próxima da Sala de Isolamento, que ficava ao lado da Sala da Câmara: Sam estava na cela número seis da Fileira A, literalmente a menos de vinte e sete metros da câmara de gás. Alguns anos atrás pedira para ser mudado, devido a uma briga idiota com Cecil Duff, na altura seu vizinho de cela.

Agora Sam estava sentado no escuro na beira da sua cama. Packer parou e aproximou-se das grades.

- B'dia, Sam - disse suavemente.

- B'dia - respondeu Sam, piscando os olhos na direcção da Packer. Então, Sam ergueu-se no centro da cela e virou-se para a porta. Usava uma t-shirt branca suja e calções largos, a vestimenta habitual dos reclusos no Corredor devido ao muito calor. As regras exigiam que os fatos-macaco vermelhos fossem usados fora das celas, mas dentro usavam o mínimo de vestuário possível.

- Vai ser muito quente - disse Packer, a habitual saudação da manhã.

- Espera até Agosto - respondeu Sam, a resposta-padrão à habitual saudação da manhã.

- Estás bem? - perguntou Packer.

- Nunca me senti melhor.

- O teu advogado disse que voltaria hoje.

- Sim. Foi isso que ele disse. Acho que vou precisar de montes de advogados, hem, Packer?

- Parece que sim - Packer bebeu um gole de café e olhou o corredor. As janelas atrás de si estavam viradas a sul e um fio de luz do sol filtrava-se através delas. - Até logo, Sam - disse ele e afastou-se lentamente. Verificou as celas restantes e encontrou todos os seus rapazes. As portas fecharam-se atrás de si com um clique, quando ele saiu da Fileira A e regressou à portaria.

A única luz da cela ficava por cima da pia de aço inoxidável - feita de aço inoxidável para não poder ser partida e depois usada como arma ou meio de suicídio. Debaixo da pia havia uma sanita de aço inoxidável. Sam acendeu a sua luz e lavou os dentes. Eram quase cinco e meia. O sono fora difícil.

Acendeu um cigarro e sentou-se na borda da cama, estudando os pés e fitando o chão de cimento pintado que, de uma forma qualquer, retinha o calor no Verão e o frio no Inverno. Os seus únicos sapatos, um par de sapatos de borracha que detestava, estavam debaixo da cama. Possuía um par de peúgas de lã, com as quais dormia no Inverno. Os seus outros bens consistiam numa televisão a preto e branco, um rádio, uma máquina de escrever, seis t-shirts com buracos, cinco pares de calções brancos simples, uma escova de dentes, um pente, uma tesoura de unhas, uma ventoinha e um calendário de parede. O seu bem mais valioso era uma colecção de livros de Direito que tinha juntado e memorizado ao longo dos anos. Também estavam arrumados ordenadamente nas estantes de madeira grosseiras do outro lado do beliche. Numa caixa de cartão, no chão entre as estantes e a porta, havia uma acumulação de volumosos processos, a história cronológica legal do processo do Estado do Mississipi Sam Cayhall. Também esta fora memorizada.

O seu balancete era magro e curto e para além da sentença de morte não tinha outras responsabilidades. A princípio a pobreza perturbara-o, mas há muitos anos que tais preocupações se tinham desvanecido. A lenda da familia sustentava que o seu bisavô fora um homem rico, proprietário de muitos hectares de terra e de escravos, mas nenhum dos Cayhall contemporâneos possuía grande coisa. Conhecera condenados que tinham agonizado perante os testamentos, como se os seus herdeiros se incomodassem a discutir as suas velhas televisões e revistas pornográficas. Estava a considerar a hipótese de preparar as suas últimas vontades e testamento e legar as suas peúgas de lã e roupa interior suja ao estado do Mississípi ou talvez à NAACP.

À sua direita estava J. B. Gullitt, um rapaz branco e iletrado que violara e matara uma rainha de beleza regressada a casa. Três anos antes, Gullit estivera a poucos dias de ser executado, antes de Sam intervir com uma elaborada petição. Sam apontava várias questões não resolvidas e explicava ao Quinto Círculo que Gullin não tinha advogado. Fora imediatamente decretada uma suspensão e Gullitt tornara-se seu amigo para sempre.

À esquerda estava Hank Henshaw, o conhecido líder de um bando de rufiões há muito esquecido, conhecido como Mafia dos Pescoços Vermelhos. Hank e o seu bando heterogéneo tinham certa noite desviado um camião de dezoito rodas, planeando apenas roubar a carga. Mas o condutor estava armado e fora morto no tiroteio que se seguira. A familia de Hank estava a pagar bons advogados e portanto não se esperava que fosse executado nos próximos anos.

Os três vizinhos chamavam Rodésia à sua pequena secção da USM.

Sam atirou o cigarro para a sanita e deitou-se na cama. No dia anterior ao atentado Kramer passara por casa do Eddie em Clanton, não conseguia lembrar-se porquê, excepto que levava espinafres frescos da horta e tinha brincado com o pequeno Alan, agora Adam, durante alguns minutos no pátio da frente. Era Abril; estava calor, recordava-se, e o neto estava descalço. Lembrava-se do pequeno pé rechonchudo com um penso rápido em volta de um dos dedos. Cortara-o numa pedra, explicara Alan muito orgulhoso.

O miúdo adorava pensos rápidos, ostentava sempre um num dedo ou num joelho. Evelyn segurava nos espinafres e abanava a cabeça, enquanto ele mostrava orgulhosamente ao avô uma caixa cheia de adesivos sortidos.

Fora a última vez que vira Alan. O atentado ocorrera no dia seguinte e Sam passara os dez meses seguintes na prisão. Quando o segundo julgamento terminara e fora libertado, Eddie e a família tinham partido. Era demasiado orgulhoso para os procurar. Ouvira rumores e comentários acerca do seu paradeiro. Lee dissera que eles estavam na Califórnia, mas que não conseguia encontrá-los.

Anos mais tarde, falara com Eddie e soubera do segundo filho - uma rapariga chamada Carmen.

Ouviram-se vozes no extremo da fileira. Em seguida a descarga de um autoclismo, depois um rádio. O Corredor da Morte acordava para a vida. Sam penteou o cabelo oleoso, acendeu outro Montclair e estudou o calendário. Era dia 12 de Julho. Tinha vinte e sete dias.

Sentou-se na borda da cama e estudou os pés durante mais algum tempo. J. B. Gullitt ligou a televisão para apanhar as notícias e enquanto Sam ofegava e coçava os tornozelos ouviu a delegação b: da NBC em Jackson. Depois da ronda local de tiroteios, roubos eassassínios, o apresentador divulgou as últimas notícias de que uma execução se estava a preparar em Parchman. O Quinto Círculo, relatou ele ansiosamente, levantara a suspensão de Sam, o recluso mais famoso de Parchman, e a data fora marcada para 8 de Agosto. As autoridades acreditavam que os recursos de Cayhall se tinham esgotado, dizia a voz, e que a execução poderia vir a realizar-se.

Sam ligou a sua própria televisão. Como habitualmente, o som antecedeu a imagem em cerca de dez segundos e ele ouviu o próprio procurador-geral predizer justiça para Mr. Cayhall ao cabo de todos aqueles anos. Uma face granulosa materializou-se no ecrã cuspindo as palavras e, em seguida, houve um sorriso e um franzir de testa simultâneos à Roxburgh, imerso em profundos pensaHmentos enquanto expunha perante as câmaras o cenário de arrastar finalmente Mr. Cayhall para a câmara de gás. De regresso ao apresentador, um garoto local com uma barbicha esparsa, que desenvolveu a história recordando rapidamente o horrível crime de Sam enquanto em fundo, por cima do seu ombro, se via uma ilustração grosseira de um membro do Klan com uma máscara e um barrete pontiagudo. Uma arma, uma cruz em chamas e as letras KKK, 8 de Agosto, terminaram a ilustração. O garoto repetiu a data como se os espectadores devessem assinalá-la nos respectivos calendários e tirar um dia de folga. Em seguida, passaram ao boletim meteorológico.

Desligou a televisão e encaminhou-se para as grades.

- Ouviste Sam? - perguntou Gullitt da porta ao lado.

- Sim.

- Vai ser uma loucura, pá.

- Sim.

- Pensa no lado bom.

- E qual é?

- Só tens mais quatro semanas disto - Gullitt riu ao soltar esta piada, mas não por muito tempo. Sam tirou alguns papéis do processo e sentou-se na beira da cama. Não havia cadeiras na cela. Leu a procuração de Adam, um documento de duas páginas com página e meia de conversa fiada. Em todas as margens, Sam escrevera notas claras e precisas a lápis. E acrescentara parágrafos na parte posterior das folhas. Ocorreu-lhe mais uma ideia e ainda encontrou espaço para acrescentar. Com um cigarro nos dedos da mão direita, segurou o documento com a esquerda e leu-o mais uma vez. E outra ainda.

Finalmente Sam estendeu a mão para a estante e retirou cuidadosamente a sua velha máquina de escrever portátil. Equilibrou-a perfeitamente sobre os joelhos. Inseriu uma folha de papel e começou a escrever.

Dez minutos depois das seis as portas da extremidade norte da Fileira A tilintaram e abriram-se e dois guardas penetraram no corredor. Um empurrava um carrinho com catorze tabuleiros ordenadamente arrumados nas ranhuras. Pararam diante da cela número um e fizeram deslizar o tabuleiro de metal por uma estreita abertura da porta. O ocupante da cela número um era um cubano magro que esperava sem camisa junto das grades. Agarrou o tabu leiro como um refugiado esfomeado e sem uma palavra levou-o para a beira da cama.

O menu daquela manhã compunha-se de dois ovos mexidos, quatro pedaços de pão branco torrado, uma gorda fatia de bacon, dois pequenos recipientes de geleia de uvas, uma pequena garrafa de sumo de laranja pré-embalado e uma grande chávena de plástico cheia de café. A comida era quente e reconfortante e fora distinguida com a aprovação dos tribunais federais.

Continuaram para a cela seguinte onde o recluso estava à espera. Estavam sempre à espera, sempre de pé junto à porta como cães esfomeados.

- Estão atrasados onze minutos - disse o recluso tranquilamente enquanto pegava no tabuleiro. Os guardas não olharam para ele.

- Processa-nos - disse um deles.

- Tenho os meus direitos.

- Os teus direitos são uma chatice.

- Não fale comigo dessa maneira. Vou processá-lo por isso. O seu comportamento é abusivo.

Os guardas afastaram-se na direcção da porta seguinte sem darem mais resposta. Era apenas parte do ritual diário.

Sam não estava à espera junto da porta. Estava ocupado a trabalhar no seu pequeno escritório de advocacia quando o pequeno-almoço chegou.

- Já calculava que estivesses a escrever - disse um dos guardas quando pararam em frente da número seis. Sam colocou lentamente a máquina em cima da cama.

- Cartas de amor - disse enquanto se levantava.

- Bem, seja o que for que estejas a escrever, é melhor apressares-te, Sam. O cozinheiro já anda a falar na tua última refeição.

- Digam-lhe que quero pizza feita no micro-ondas. Provavelmente ele estraga isso. Fico-me por cachorros quentes e feijão. - Sam recebeu o seu tabuleiro através da abertura.

- É como quiseres, Sam. O último pediu bife e camarão. Imaginas? Bife e camarão num lugar destes.

- E conseguiu?

- Não. Perdeu o apetite e em vez disso encheram-no de Valium.

- Não é uma má forma de se morrer...

- Calado! - gritou J. B. Gullitt da cela ao lado. Os guardas empurraram o carro alguns centímetros mais para a frente e pararam defronte de J. B. que se agarrava às grades com ambas as mãos. Mantiveram-se à distância.

- Bem, bem, não estamos ansiosos esta manhã? - disse um deles.

- Porque é que vocês, seus idiotas, não podem simplesmente servir a comida em silêncio? Quero dizer, vocês acham que desejamos acordar todas as manhãs e ouvir os vossos comentários engraçadinhos? Dá-me a comida, pá.

- Ei, J. B. lamentamos muito. Pensávamos que vocês se sentiam sós, só isso.

- Pensaram mal - J. B. pegou no seu tabuleiro e afastou-se.

- Muito sensível - disse um dos guardas enquanto se deslocavam na direcção de outra pessoa para atormentar.

Sam colocou a comida em cima da cama e misturou um pacote de açúcar no café. A sua rotina diária não incluía ovos mexidos com bacon. Guardaria as torradas e a geleia para comer durante a manhã. Beberia o café cuidadosamente, racionando-o até às dez horas, a sua hora de exercício e de sol.

Equilibrou a máquina de escrever nos joelhos e começou a martelar as teclas.

A versão legal de Sam estava concluída cerca das nove e meia. Sentia-se orgulhoso dela, um dos seus melhores esforços nos últimos meses. Mastigou um pedaço de torrada enquanto revia o documento pela última vez. A dactilografia era impecável, mas desactualizada, o resultado de uma máquina antiga. A linguagem era efusiva e repetitiva, floreada e recheada de palavras nunca pronunciadas por humildes laicos. Sam era quase fluente na terminologia legal e conseguia manter uma conversa com qualquer advogado.

Na extremidade do corredor uma porta abriu-se com estrondo e, em seguida, fechou-se. Passos pesados aproximaram-se correctamente e Packer apareceu.

- O teu advogado chegou, Sam - disse ele retirando um conjunto de algemas do cinto.

Sam levantou-se e puxou os calções para cima.

- Que horas são?

- Passa um pouco das nove e meia. Que diferença faz?

- É suposto gozar a minha hora de recreio por volta das dez.

- Queres a tua hora de recreio ou queres falar com o teu advogado?

Sam ponderou o problema enquanto enfiava o fato-macaco vermelho e metia os pés nas sandálias de borracha. Vestir-se era um processo rápido no corredor da morte.

- Posso compensar mais tarde?

- Veremos.

- Quero a minha hora de recreio, sabe.

- Eu sei, Sam, vamos.

- É muito importante para mim.

- Eu sei, Sam. É muito importante para toda a gente. Vamos tentar compensá-la mais tarde, está bem?

Sam penteou o cabelo com grande esmero e, em seguida, lavou as mãos com água fria. Packer esperou pacientemente. Queria dizer qualquer coisa a J. B. Gullitt, qualquer coisa sobre a disposição em que se encontrava nessa manhã, mas Gullitt já estava novamente a dormir. A maioria deles estava a dormir. O recluso médio do corredor da morte estava acordado para o pequeno-almoço e durante cerca de uma hora de televisão, antes de se deitar para a sesta da manhã. Embora o seu estudo não fosse de maneira nenhuma científico, Packer calculava que eles dormiam entre quinze e dezasseis horas por dia. E conseguiam dormir com o calor, o suor, o frio e no meio do barulho das televisões e dos rádios aos gritos.

O barulho era muito menor nessa manhã. As ventoinhas zumbiam e guinchavam, mas não havia troca de gritos.

Sam aproximou-se das grades, virou as costas a Packer e estendeu ambas as mãos através da estreita ranhura da porta.

Packer colocou-lhe as algemas e Sam foi até à cama buscar o documento. Packer acenou com a cabeça a um guarda na extremidade do corredor e a porta de Sam abriu-se electronicamente. Em seguida, fechou-se.

Nestas situações, as correntes nas pernas eram opcionais e com um preso mais novo, talvez um com uma determinada atitude e um pouco mais de força, Packer tê-las-ia provavelmente usado. Mas era apenas o Sam. Era um velho. Até onde conseguiria correr? Que danos poderia causar com os pés?

Packer colocou gentilmente a mão no braço de Sam e conduziu-o pelo corredor. Pararam junto da porta, uma fila de mais grades, esperaram que se abrisse e fechasse e sairam da fileira A.

Outro guarda seguiu-os ao chegarem a uma porta de ferro que Packer abriu com uma chave que trazia no cinto. Atravessaram-na e ali estava Adam sentado sozinho do outro lado do gradeamento verde.

Packer retirou as algemas e deixou a sala.

Adam leu-o lentamente da primeira vez. Durante a segunda leitura tomou algumas notas e sentiu-se divertido com algumas das expressões. Vira trabalhos piores de advogados treinados. E também vira trabalhos muito melhores. Sam sofria da mesma angústia que afligia a maior parte dos estudantes do primeiro ano de Direito. Usava seis palavras quando uma teria sido suficiente. O seu latim era horrível. Havia parágrafos inteiros completamente inúteis. Mas no conjunto não era mau para um leigo.

O acordo de duas páginas tinha agora quatro, perfeitamente dactilografado com margens correctas e apenas dois erros de dactilografia e uma palavra mal escrita.

- Fez um trabalho bastante bom - disse Adam colocando o documento sobre o balcão. Sam fumou um cigarro e fitou-o através da abertura. - Basicamente é o mesmo acordo que lhe entreguei ontem.

- É basicamente muito diferente - disse Sam corrigindo- o.

Adam deu uma olhadela às suas notas e depois disse:

- Parece estar preocupado com cinco áreas. O governador, livros, filmes, a revogação e quem será testemunha da execução.

- Estou preocupado com muitas coisas. Essas por acaso não são negociáveis.

- Ontem prometi-lhe que não teria nada a ver com livros e filmes.

- Muito bem. Passemos adiante.

- A linguagem da revogação está óptima. Quer o direito de revogar a minha procuração e a da Kravitz & Bane em qualquer momento e por qualquer razão, sem qualquer discussão.

- Da última vez levei muito tempo para conseguir despedir esses sacanas judeus. Não quero passar novamente pelo mesmo.

- É razoável.

- Não me interessa se achas razoável ou não. Está no acordo e não é negociável.

- Bastante justo. E não quer falar com mais ninguém além de mim.

- Certo. Ninguém na Kravitz & Bane poderá tocar no meu processo. Aquele lugar fervilha de judeus e não os quero envolvidos, percebes? O mesmo quanto aos negros e às mulheres.

- Olhe, Sam, podemos pôr de parte os insultos? Que tal chamarmos-lhes simplesmente pretos?

- Opa. Lamento. E que tal fazermos as coisas como deve ser e chamarmos-lhes afro- americanos, judeus americanos e americanas do sexo feminino? Tu e eu seremos irlandeses-americanos e também americanos brancos do sexo masculino. Se necessitares de ajuda da tua firma, tenta ficar com os germano-americanos ou os italo-americanos. Uma vez que vives em Chicago, talvez possamos usar também alguns polacos-americanos. Chi, seria simpático, não? Seríamos verdadeiramente correctos e multiculturais e politicamente correctos, não é verdade?

- Como quiser.

- Já me sinto melhor.

Adam fez uma marca junto das suas notas.

- Vou concordar.

- Claro que vais, se queres o maldito acordo. Mas mantém as minorias afastadas da minha vida.

- O senhor está a presumir que elas estão ansiosas por se meter nela.

- Não presumo coisa nenhuma. Tenho quatro semanas de vida e preferiria passar o meu tempo com pessoas em quem confio.

Adam leu novamente um parágrafo da página três do rascunho de Sam. A linguagem conferia a Sam autoridade exclusiva para seleccionar duas testemunhas para a sua execução.

- Não entendo esta cláusula sobre as testemunhas - disse Adam.

- É muito simples. Se chegarmos a esse ponto, haverá cerca de quinze testemunhas. Uma vez que eu vou ser o convidado de honra, terei o privilégio de seleccionar duas. O estatuto, se tiveres oportunidade de o reler, apresenta uma lista daqueles que têm que estar presentes. O director, por acaso um libanês-americano, é discreto na selecção das restantes. Normalmente, fazem uma lotaria com a imprensa para seleccionar quais os abutres que são autorizados a assistir.

- Então para que é que quer esta cláusula?

- Porque o advogado é sempre uma das duas testemunhas escolhidas pelo gaseado. Sou eu.

- E o senhor não quer que eu testemunhe a execução?

- Exactamente.

- Está a partir do princípio que eu vou querer testemunhar.

- Não estou a partir de coisa nenhuma. É apenas um facto que os advogados mal podem esperar para ver o pobre cliente gaseado quando isso se torna inevitável. Depois, mal podem esperar por se ver em frente às câmaras a gritar e a protestar contra a injustiça.

- E pensa que eu vou fazer isso?

- Não, não penso nada disso.

- Então, porquê esta cláusula?

Sam inclinou-se para a frente com os cotovelos apoiados no balcão. O nariz estava apenas a escassos centímetros da grade.

- Porque tu não vais assistir à execução, está bem?

- Combinado - disse ele casualmente e passou a outra página. - Não vamos chegar aí, Sam.

- Óptimo, rapaz. É isso que eu quero ouvir.

- Claro que talvez venhamos a precisar do governador. Sam grunhiu enojado e relaxou-se na sua cadeira. Cruzou a perna direita sobre o joelho esquerdo e fitou Adam intensamente.

- O acordo é muito simples.

Na realidade era. Quase uma página inteira era dedicada a um venenoso ataque a David McAllister. Sam esquecera a lei e usara palavras como vil, egotista e narcisista e mencionava mais do que uma vez o seu insaciável desejo de publicidade.

- Portanto, tem objecções a fazer ao governador – disse Adam.

Sam grunhiu.

- Não acho que seja boa ideia, Sam.

- Não estou muito interessado naquilo que pensas.

- O governador pode salvar-lhe a vida.

- Ah, sim. Ele é a única razão porque estou aqui, no corredor da morte, à espera de morrer na câmara de gás. Porque diabo quereria ele salvar-me a vida?

- Eu não disse que ele quereria. Disse que podia. Vamos manter as nossas opções em aberto.

Sam sorriu maliciosamente durante um longo minuto enquanto acendia um cigarro. Pestanejou e rolou os olhos, como se aquele garoto fosse o ser humano mais estúpido que encontrava havia décadas. Em seguida, inclinou-se sobre o cotovelo esquerdo e apontou para Adam com um dedo em riste:

- Se achas que o David McAllister me vai conceder um perdão no último minuto, então és louco. Mas deixa-me dizer-te o que ele vai fazer. Vai usar-nos, a ti e a mim, para absorver toda a publicidade imaginável. Vai convidar-te para o seu gabinete no capitólio do estado e antes de chegares avisará os meios de comunicação. Ouvir-te-á com notável sinceridade. Confessará sérias reservas quanto à minha execução. E depois de saíres dará algumas entrevistas e divulgará tudo o que lhe disseste. Apresentará novamente o caso Kramer. Vai falar dos direitos civis e toda essa treta radical de pretos. Provavelmente até chorará. Quanto mais me aproximar da câmara de gás, maior se tornará o circo dos meios de comunicação. Ele vai tentar tudo por tudo por se encontrar no meio. Vai encontrar-se contigo todos os dias, se o permitirmos. Vai levar-nos ao arame.

- Não poderá fazer isso sem nós.

- Mas vai fazê-lo. Toma nota do que te digo, Adam. Uma hora antes de eu morrer, ele dará uma conferência de imprensa algures - provavelmente aqui ou na mansão do governador – e perante o brilho de milhares de câmaras negará o meu pedido de clemência. E o maldito terá lágrimas nos olhos.

- Não fará mal falar com ele.

- Óptimo. Vai falar com ele. E depois de o fazeres, invocarei o parágrafo segundo e vais recambiado para Chicago.

- Pode ser que ele goste de mim. Poderíamos ser amigos.

- Oh, ele vai adorar-te. És o neto do Sam. Que grande história! Mais repórteres, mais câmaras, mais jornalistas, mais entrevistas. Ele adoraria conhecer-te para te levar à trela atrás de si. Diabo!

poderias conseguir reelegê-lo!

Adam virou outra página, tomou mais algumas notas e demorou uns momentos num esforço para se afastar do governador.

- Onde é que aprendeu a escrever assim? - perguntou.

- No mesmo sítio que tu. Fui ensinado pelos mesmos espíritos sábios que te facultaram a instrução. Juízes mortos.

Meritíssimos juízes. Advogados sinuosos. Professores entediantes. Li as mesmas porcarias que tu leste.

- Não está mal - disse Adam, estudando outro parágrafo.

- Encanta-me que penses assim.

- Parece que exerce muito por aqui.

- Exercer. O que é exercer? Porque é que os advogados exercem? Porque é que não podem simplesmente trabalhar como toda a gente? Os canalizadores exercem? Os condutores de camiões ezercem? Não, simplesmente trabalham. Mas os advogados, não.

Raios, não. São especiais e exercem. Com todo o seu maldito exercício, pensaríamos que sabem o que raio andam a fazer. Pensaríamos que acabariam por ser bons em alguma coisa.

- Gosta de alguém?

- Essa pergunta é idiota.

- Porque é que é idiota?

- Porque estás sentado desse lado do muro. E podes sair por essa porta e guiar daqui para fora. E esta noite poderás jantar num bom restaurante e dormir numa cama macia. A vida é ligeiramente diferente deste lado. Sou tratado como um animal. Tenho uma jaula. Tenho uma sentença de morte que autoriza o estado do Mississípi a matar-me dentro de quatro semanas e por isso, filho, sim, é difícil ser afectuoso e compassivo. Nesta altura é difícil gostar das pessoas. Por isso a tua pergunta é idiota.

- Está a querer dizer que era afectuoso e compassivo antes de vir para aqui?

Sam olhou através da abertura e inalou o fumo do cigarro.

- Outra pergunta estúpida.

- Porquê?

- É irrelevante, doutor. És um advogado, não um psiquiatra.

- Sou seu neto. Por isso, estou a autorizado a fazer-lhe perguntas sobre o seu passado.

- Pergunta. Podes não obter resposta.

- Porque não?

- O passado foi-se, filho. É história. Não podemos desfazer o que está feito. Nem sequer podemos explicar tudo.

- Mas eu não tenho passado.

- Então és realmente uma pessoa de sorte.

- Não tenho tanto a certeza.

- Olha, se esperas que eu preencha todas as lacunas, receio que tenhas vindo procurar a pessoa errada.

- Muito bem. Com quem deverei então falar?

- Não sei, não é importante.

- Talvez seja importante para mim.

- Bem, para ser sincero, neste momento não estou muito preocupado contigo. Acredites ou não, estou muito mais preocupado comigo. Comigo e com o meu futuro. Comigo e com o meu pescoço. Há um grande relógio a avançar algures, a avançar muito rapidamente, não achas? Por uma qualquer estranha razão, não me perguntes porquê, consigo ouvir a maldita coisa e estou a ficar verdadeiramente ansioso. Acho muito difícil preocupar-me com os problemas dos outros.

- Porque se tornou membro do Klan?

- Porque o meu pai também pertencia ao Klan.

- Porque se tornou ele membro do Klan?

- Porque o seu pai já pertencia ao Klan.

- Óptimo. Três gerações.

- Quatro, acho eu. O coronel Jacob Cayhall lutou com Nathan Bedford Forrest na guerra civil e segundo a lenda da família foi um dos primeiros membros do Klan. Era meu bisavô.

- Tem orgulho nisso? - Isso é uma pergunta?

- Sim.

- Não é uma questão de orgulho - Sam acenou afirmativamente com a cabeça na direcção do balcão. - Vais assinar esse acordo?

- Sim.

- Então assina.

Adam assinou ao fundo da última página e entregou o docu mento a Sam.

- Estás a fazer perguntas muito confidenciais. Como meu advogado, não poderás dizer nem uma palavra.

- Eu compreendo a relação.

Sam assinou o seu nome a seguir ao de Adam e em seguida estudou as assinaturas.

- Quando é que passaste a chamar-te Hall?

- Um mês antes do meu quarto aniversário. Foi um caso de familia. Fomos todos convertidos ao mesmo tempo. Claro que não me lembro.

- Porque é que ele manteve o Hall? Porque não fez um corte radical e escolheu Miller ou Green ou qualquer coisa assim?

- Isso é uma pergunta?

- Não.

- Ele andava a fugir, Sam. E queimava as pontes no caminho.

Calculo que quatro gerações fossem suficientes para ele.

Sam colocou o contrato numa cadeira ao seu lado e acendeu metodicamente outro cigarro. Exalou o fumo para o tecto e fitou Adam.

- Olha, Adam - disse lentamente, a voz subitamente muito mais suave -, vamos deixar os assuntos de família de lado por algum tempo, está bem? Talvez voltemos ao assunto mais tarde. Neste momento preciso de saber o que vai acontecer comigo.

Quais as minhas hipóteses, percebes? Coisas assim. Como é que paramos o relógio? O que é que metemos a seguir no processo?

- Depende de várias coisas, Sam. Depende daquilo que me disser acerca do atentado.

- Não compreendo.

- Se existirem factos novos, podemos apresentá-los. Há formas, acredite. Encontraremos um juiz que nos ouça.

- Que tipo de factos novos?

Adam virou para uma página em branco do seu bloco e garatujou a data à margem.

- Quem entregou o Pontiac verde em Cleveland na noite antes do atentado?

- Não sei, um dos homens do Dogan, creio.

- Não sabe o nome dele?

- Não.

- Ora, Sam.

- Juro. Não sei quem o fez. Não cheguei a ver o homem. O carro foi colocado num parque de estacionamento. Encontrei-o.

Era suposto ser deixado no local onde o encontrei. Não cheguei a ver o homem.

- Porque é que não foi localizado durante os julgamentos?

- Como queres que saiba? Era apenas um cúmplice menor, creio. Andam atrás de mim. Porque se haviam de importar com um moço de recados? Não sei.

- A dos Kramer foi a bomba número seis, não é verdade?

- Acho que sim - Sam inclinou-se novamente para a frente com o rosto quase a tocar na grade. A voz era baixa, as palavras cuidadosamente escolhidas como se alguém pudesse estar a ouvir algures.

- Acha que sim?

- Foi há muito tempo, sabes? - fechou os olhos e pensou durante uns momentos. - Sim, a sexta.

- O FBI disse que era a sexta.

- Então isso resolve a questão. Eles têm sempre razão.

- O mesmo Pontiac verde foi usado num ou em todos os atentados anteriores?

- Sim, pelo menos em dois, que me lembre. Usávamos mais do que um carro.

- Todos fornecidos pelo Dogan?

- Sim, ele era concessionário de automóveis.

- Eu sei. Foi o mesmo homem que entregou o Pontiac para os outros atentados?

- Nunca vi nem conheci ninguém que entregasse os carros para os atentados. Dogan não trabalhava dessa forma. Era extremamente cuidadoso e os seus planos eram minuciosamente detalhados. Não sei isto directamente, mas tenho a certeza de que o homem que entregava os carros não fazia a mínima ideia de quem eu era.

- Os carros já traziam a dinamite?

- Sim. Sempre. Dogan possuía armas e explosivos suficientes para uma pequena guerra. A polícia federal também nunca encontrou o arsenal dele.

- Onde é que aprendeu a lidar com explosivos?

- No campo de treino do KKK.

- Provavelmente hereditário, não?

- Não, não era.

- Estou a falar a sério. Como é que aprendeu a detonar explosivos?

- É muito básico e simples. Qualquer idiota poderia aprender isso em trinta minutos.

- E depois com um pouco de prática, uma pessoa torna-se perita.

- A prática ajuda. Não é muito mais difícil do que atear

foguetes. Acende-se um fósforo, qualquer fósforo serve, e coloca-se na extremidade de um rastilho comprido até que o rastilho pegue fogo. Depois corremos como o diabo. Se tivermos sorte, não explodirá antes de decorridos quinze minutos.

- E isso é algo que é mais ou menos absorvido instantaneamente por todos os membros do Klan?

- A maior parte daqueles que conheci sabiam fazê-lo.

- Ainda conhece alguns membros do Klan?

- Não. Eles abandonaram-me.

Adam observou-lhe cuidadosamente o rosto. Os ferozes olhos azuis eram firmes. As rugas não se mexiam. Não havia qualquer emoção, nenhum sentimento, desgosto ou ira. Sam devolveu o olhar sem pestanejar.

Adam voltou a consultar o bloco de notas.

- A dois de Março de mil novecentos e sessenta e sete uma bomba explodiu no Templo Hisrch em Jackson. Foi o senhor?

- Vais direito ao assunto, não é?

- É uma pergunta fácil.

sam torceu o filtro entre os lábios e pensou por um segundo.

- Porque razão é isso importante?

- Limite-se a responder à maldita pergunta - disse Adam zangado. - É demasiado tarde para brincar.

- Nunca me fizeram essa pergunta antes.

- Bem, acho que hoje é o seu grande dia. Um simples sim ou não serve.

- Sim.

- Usou o Pontiac verde?

- Acho que sim.

- Quem estava consigo?

- O que te leva a pensar que havia alguém comigo

- Porque uma testemunha disse que viu um Pontiac verde afastar-se a toda a velocidade alguns minutos antes da explosão. E disse que havia duas pessoas no carro. Chegou mesmo a fazer uma identificação aproximada do senhor como condutor.

- Ah, sim. O nosso amigo Bascar. Li a seu respeito nos jornais.

- Ele estava perto da esquina da Fortification Street com a State quando o senhor e o seu companheiro passaram.

- Claro que estava. E acabava de sair de um bar às três horas da manhã, bêbado como um cacho e estúpido como tudo para começar. Bascar, como certamente sabes, nunca se aproximou de uma sala de audiências, nunca colocou a mão sobre uma Bíblia e jurou dizer a verdade, nunca se viu confrontado com um contra-interrogatório, nunca se apresentou senão depois de eu ter sido preso em Greenville e meio-mundo ter visto fotografias do Pontiac verde. A sua tentativa de identificação só ocorreu depois de o meu rosto ter aparecido chapado em todos os jornais.

- Portanto ele está a mentir?

- Não, provavelmente é apenas um ignorante. Não te esque' ças, Adam, de que nunca fui acusado desse atentado. Bascar nunca foi pressionado. Nunca prestou testemunho ajuramentado. Segundo creio, a sua história foi revelada quando um repórter de um jornal de Memphis vasculhou as tascas e as casas de prostitutas durante tempo suficiente para encontrar alguém como Bascar.

- Vamos tentar de outra forma. Tinha ou não tinha alguém consigo quando colocou uma bomba na sinagoga de Hirsch Temple a dois de Março de mil novecentos e sessenta e sete?

O olhar de Sam dirigiu-se para alguns centímetros abaixo da abertura, depois para o balcão e finalmente para o chão. Afastou-se ligeiramente da divisória e recostou-se na cadeira. Como era de prever, o maço de Montclairs foi retirado do bolso da frente e levou um tempo interminável a escolher um, a bater-lhe o filtro e a introduzi-lo entre os lábios húmidos. O acender do fósforo foi outra breve cerimónia, mas que ficou finalmente concluída e uma nova nuvem de fumo ergueu-se na direcção do tecto.

Adam observou e esperou, até se tornar evidente que nenhuma resposta rápida seria produzida. A própria demora era uma admissão. Bateu nervosamente com a caneta no bloco. Respirava rapidamente e notou um aumento das batidas do coração. Sentiu uma agitação no estômago vazio. Seria esta a oportunidade? Se houvera um cúmplice, então talvez tivessem trabalhado juntos e talvez Sam não tivesse realmente colocado a dinamite que matara os Kramer. Talvez

este facto pudesse ser apresentado algures a um juiz receptivo que

ouvisse e garantisse uma suspensão. Talvez. Seria possível?

- Não - disse Sam mais suavemente do que nunca, mas de modo muito firme enquanto olhava para Adam através da abertura.

- Não acredito.

- Não houve nenhum cúmplice.

- Não acredito, Sam.

Sam encolheu os ombros casualmente como se nada lhe interessasse menos. Cruzou as pernas e entrelaçou os dedos em volta do joelho.

Adam respirou fundo, escreveu qualquer coisa rotineiramente como se estivesse à espera disto e passou para uma página em branco.

- A que horas chegou a Cleveland na noite de vinte de Abril de 1967?

- De qual das vezes?

- Da primeira.

- Saí de Clanton por volta das seis. Guiei duas horas até Cleveland. Portanto, cheguei lá por volta das oito.

- Para onde foi?

- A um centro comercial.

- Porque foi lá?

- Para ir buscar o carro.

- O Pontiac verde?

- Sim, mas não estava lá. Por isso fui até Greenville para dar uma olhadela.

- Já lá tinha estado antes?

- Sim. Algumas semanas antes tinha inspeccionado o local.

Cheguei mesmo a entrar no escritório do judeu para dar uma olhadela.

- Isso foi muito estúpido, não foi? Quero dizer, a secretária dele identificou-o no julgamento como o homem que entrou para pedir informações e pediu para usar a casa de banho.

- Muito estúpido. Mas por outro lado não era suposto ser apanhado. Não era suposto ela voltar a ver o meu rosto - mordeu o filtro e chupou com força. - Uma jogada muito má. Claro que é muito fácil estar agora aqui sentado a analisar tudo em segunda mão.

- Quanto tempo se demorou em Greenville?

- Mais ou menos uma hora. Depois regressei a Cleveland para ir buscar o carro. Dogan tinha sempre planos pormenorizados com várias alternativas. O carro estava estacionado no local B, junto a uma paragem de camiões.

- Onde estavam as chaves?

- Debaixo do tapete.

- O que é que fez?

- Peguei no carro e fui dar uma volta. Saí da cidade, atravessei uns campos de algodão. Encontrei um lugar solitário e estacionei o carro. Abri a mala para verificar a dinamite.

- Quantos paus?

- Quinze, creio eu. Usava entre doze e vinte, dependendo do edifício. Vinte para a sinagoga porque era nova, moderna, construída em cimento e pedra. Mas o escritório do judeu era uma velha estrutura de madeira e sabia que quinze seriam suficientes.

- Que mais havia no porta-bagagem?

- O costume. Uma caixa de cartão com a dinamite. Duas cápsulas. Um rastilho de quinze minutos.

- Só isso?

- Sim.

- Tem a certeza?

- Claro que tenho a certeza.

- E então o temporizador? O detonador?

- Oh, claro, tinha-me esquecido. Estava noutra caixa mais pequena.

- Descreva-o.

- Porquê? Leste as transcrições dos julgamentos. O perito do FBI fez um excelente trabalho de reconstrução da minha pequena bomba. Leste isso, não leste?

- Muitas vezes.

- E viste as fotografias que usaram no julgamento. As com fragmentos e peças do temporizador. Viste tudo isso, não viste?

- Vi. Onde é que o Dogan arranjou o relógio?

- Nunca lhe perguntei. Podia comprar-se em qualquer drugstore. Era apenas um despertador de corda barato. Nada de especial.

- Este foi o seu primeiro trabalho com um relógio?

- Sabes bem que foi. As outras bombas foram detonadas por meio de um rastilho. Porque me fazes estas perguntas?

- Porque quero ouvir as suas respostas. Li tudo, mas quero ouvi-lo da sua boca. Porque quis atrasar o rebentamento da bomba Kraner?

- Porque estava cansado de acender rastilhos e correr como o diabo. Queria um intervalo maior entre colocar a bomba e senti- la explodir.

- A que horas a colocou?

- Por volta das quatro da manhã.

- A que horas era suposto rebentar?

- Por volta das cinco.

- O que é que correu mal?

- Não explodiu às cinco. Explodiu alguns minutos antes das oito e nessa altura estavam pessoas no edifício e algumas delas morreram. E é por isso que estou agora aqui sentado com este fato-macaco vermelho a perguntar-me qual será o cheiro do gás.

- Dogan testemunhou que a escolha de Marvin Kramer como alvo fora um esforço conjugado de ambos, que o Kramer estava há dois anos numa lista de alvos do Klan, que o uso do relógio foi sugestão sua como forma de matar o Kramer porque a sua rotina era previsível e que agiu sozinho.

Sam ouviu pacientemente fumando o seu cigarro. Semicerrou os olhos em duas fendas estreitas e acenou afirmativamente com a cabeça para o chão. Em seguida, quase sorriu.

- Bem, receio que o Dogan tenha enlouquecido. Os federais perseguiram-no durante anos e finalmente ele cedeu. Não era um homem muito forte, sabes - respirou profundamente e olhou para Adam. - Mas há alguma verdade nisso. Não muita, mas alguma.

- Tencionava matá-lo?

- Não, não andávamos a matar pessoas; apenas a rebentar com os edifícios.

- E a casa dos Pinder em Vicksburg? Foi obra sua?

Sam acenou lentamente com a cabeça.

- A bomba explodiu às quatro da manhã quando toda a família Pinder dormia profundamente. Seis pessoas. Milagrosamente houve apenas um ferimento ligeiro.

- Não foi um milagre. A bomba foi colocada na garagem. Se quisesse matar alguém, tê-la-ia colocado junto da janela de um dos quartos.

- Metade da casa ruiu.

- Sim, e eu podia ter usado um relógio e limpado uma mão cheia de judeus enquanto comiam o pão deles ou lá o que é.

- Porque não o fez?

- Como já disse, não queríamos matar pessoas.

- O que andavam a fazer?

- A intimidar, a retaliar. Impedir os malditos judeus de financiar o movimento dos direitos civis. Estávamos a tentar manter os africanos no seu lugar - nas suas próprias escolas, igrejas e bairros e nas suas casas de banho, longe das nossas mulheres e crianças. Judeus como Marvin Kramer promoviam uma sociedade inter-racial e agitavam os africanos. O filho da mãe precisava de ser mantido na linha.

- Vocês mostraram-lhe mesmo como era, não foi?

- Teve o que merecia. Lamento pelos pequenos.

- A sua compaixão é dilacerante.

- Ouve, Adam, e ouve bem. Não tencionava ferir ninguém.

A bomba estava preparada para explodir às cinco horas da manhã, três horas antes da sua hora habitual de chegar ao escritório. Os filhos só se encontravam lá porque a mulher estava com gripe.

- Mas não sente nenhum remorso pelo facto de Marvin ter ficado sem as duas pernas?

- Realmente não.

- Nenhum remorso por ele se ter suicidado?

- Foi ele que puxou o gatilho, não fui eu.

- É um homem doente, Sam.

- Sim, e vou ficar muito mais doente quando aspirar o gás.

Adam abanou a cabeça desgostoso, mas calou-se. Mais tarde poderiam discutir acerca da raça e do ódio; não que neste momento esperasse fazer alguns progressos com Sam nesses assuntos.

Mas estava determinado a tentar. Agora, porém, tinham que discutir os factos.

- Depois de inspeccionar a dinamite, o que fez?

- Voltei à paragem de camiões para beber café.

- Porquê?

- Talvez tivesse sede. - Muito engraçado, Sam. Veja lá se tenta responder simplesmente às perguntas.

- Estava à espera.

- De quê?

- Precisava de matar umas horas. Nessa altura era cerca de meia-noite e eu queria passar o menos tempo possível em Greenville. Por isso, fiquei a matar o tempo em Cleveland.

- Falou com alguém no café?

- Não.

- Estava cheio.

- Na verdade não me lembro.

- Sentou-se sozinho?

- Sim.

- A uma mesa?

- Sim - Sam conseguiu sorrir ligeiramente porque sabia o que se aproximava.

- Um motorista de camião chamado Tommy Farris disse que viu um homem muito parecido consigo na paragem de camiões nessa noite e que esse homem esteve muito tempo a beber café com um homem mais novo.

- Nunca encontrei Mr. Farris, mas segundo creio sofreu de amnésia durante três anos. Nem uma palavra a ninguém, que me lembre, até que outro repórter o encontrou e ele conseguiu ter o seu nome nos jornais. É espantoso como essas testemunhas-mistério aparecem anos depois dos julgamentos.

- Porque é que o Farris não testemunhou no seu último julgamento?

- Não me perguntes. Suponho que porque não tinha nada a dizer. O facto de eu ter bebido café sozinho ou acompanhado horas antes da explosão da bomba dificilmente seria relevante.

Além disso, tomei café em Cleveland e não tinha nada a ver com o facto de eu ter ou não cometido o crime.

- Portanto, Farris estava a mentir?

- Não sei o que Farris estava a fazer. Nem me interessa. Eu estava sozinho. Só isso importa.

- A que horas saiu de Cleveland?

- Por volta das três, acho.

- E dirigiu-se directamente para Greenville?

- Sim, e passei pela casa dos Kramer, vi o guarda sentado no alpendre, passei pelo escritório, deixei passar mais algum tempo e mais ou menos por volta das quatro estacionei por trás do escritório, escapuli-me pela porta das traseiras, coloquei a bomba num armário do átrio, voltei para o meu carro e afastei-me.

- A que horas saiu de Greenville?

- Tinha planeado partir depois de a bomba explodir. Mas, como sabes, passaram-se vários meses até conseguir realmente sair da cidade.

- Onde foi quando saiu do escritório do Kramer?

- Encontrei um pequeno café na auto-estrada, mais ou menos a meio quilómetro do escritório do Kramer.

- Porque foi lá?

- Para beber café.

- Que horas eram?

- Não sei. Por volta das quatro e meia.

- Estava cheio?

- Uma mão-cheia de pessoas. Era apenas um vulgar restaurante aberto toda a noite com um cozinheiro gordo numa t-shirt suja e uma criada que mascava pastilha elástica.

- Falou com alguém?

- Falei com a criada quando pedi o café. Talvez tenha comido um donut.

- E estava a beber uma bela chávena de café, a pensar na vida, à espera que a bomba explodisse.

- Sim. Gostava sempre de ouvir a bomba rebentar e ver a reacção das pessoas.

- Portanto, já fizera isso antes?

- Algumas vezes. Em Fevereiro desse ano coloquei uma bomba num escritório imobiliário em Jackson - judeus que tinham vendido uma casa a uns pretos numa zona de brancos – e tinha acabado de me sentar num café a menos de três quarteirões de distância quando a bomba explodiu. Nessa altura usei um rastilho, por isso tive que apressar-me, estacionar rapidamente o carro e arranjar uma mesa. A rapariga acabara de me servir o café quando o chão tremeu e todos ficaram imóveis. Gostei realmente disso. Eram quatro da manhã e o café estava cheio de motoristas de camião e carregadores, havia mesmo alguns polícias a um canto e, claro, correram para os carros e afastaram-se rapidamente com as luzes a piscar. A minha mesa tremeu com tanta força que o café se entornou.

- E isso excitou-o verdadeiramente?

- Sim. Mas os outros trabalhos foram demasiado arriscados.

Não tive tempo de procurar um café ou restaurante, por isso limitei-me a dar uma volta durante alguns minutos à espera do divertimento. Acertava sempre cuidadosamente o relógio e por isso sabia quando iria explodir. Quando estava no carro, gostava de estar nos limites da cidade, sabes - Sam fez uma pausa e soltou uma grande fumaça do cigarro. As suas palavras eram lentas e cuidadosas. Os olhos dançavam um pouco enquanto falava das suas aventuras, mas as palavras eram medidas. - Eu assisti ao rebentamento da bomba Pinder - acrescentou.

- E como fez isso?

- Eles viviam numa grande casa nos subúrbios, muitas árvores, numa espécie de vale. Estacionei na encosta de um monte, a cerca de quilómetro e meio e estava sentado debaixo de uma árvore quando explodiu.

- Que pacífico!

- E era realmente. Lua cheia, noite fresca. Tinha um grande panorama da rua e podia ver o telhado quase todo. Estava tudo tão calmo e em paz, todos dormiam e, de repente, bum! o telhado explodiu em mil pedaços.

- Qual foi o pecado de Mr. Pinder?

- Apenas o facto geral de ser judeu. Adorava pretos. Abraçava sempre os africanos quando eles vinham do Norte e agita vam tudo. Adorava marchar e participar nos boicotes com os africanos. Suspeitávamos de que financiava muitas das suas actividades.

Adam tomava notas e tentava absorver tudo aquilo. Era difícil de digerir, porque era quase impossível de acreditar. Talvez afinal de contas a pena de morte não fosse uma ideia assim tão má.

- Voltando a Greenville. Onde ficava esse café?

- Não me lembro.

- Como se chamava?

- Foi há vinte e três anos. E não era o tipo de local que desejamos recordar.

- Ficava na estrada oitenta e dois?

- Penso que sim. O que vais fazer? Passar o tempo a procurar o cozinheiro gordo e a criada relaxada? Duvidas da minha história?

- Sim, duvido da sua história.

- Porquê?

- Porque não me sabe dizer onde aprendeu a fazer uma bomba com um detonador de relógio.

- Na garagem atrás da minha casa.

- Em Clanton?

- Fora de Clanton. Não é assim tão difícil.

- Quem o ensinou?

- Ensinei a mim mesmo. Tinha um desenho, um pequeno manual com diagramas e isso. Passos um, dois e três. Não era grande coisa.

- Quantas vezes experimentou esse tipo de dispositivo antes do Kramer?

- Uma.

- Onde? Quando?

- Nos bosques por trás da minha casa. Levei dois paus de dinamite e toda a parafernália necessária e fui até à garganta de um pequeno ribeiro nos bosques. Funcionou perfeitamente.

- Claro. E fez todos esses estudos e pesquisas na sua garagem?

- Foi o que eu disse.

- O seu próprio pequeno laboratório.

- Chama-lhe o que quiseres.

- Bem, o FBI realizou uma busca cuidadosa na sua casa, garagem e todas as instalações enquanto estava detido. Não encontraram qualquer traço da existência de explosivos.

- Talvez sejam estúpidos. Talvez eu tenha sido muito cuidadoso e não tenha deixado nenhuma pista.

- Ou talvez a bomba tenha sido colocada por alguém com experiência de explosivos.

- Não. Lamento.

- Quanto tempo ficou no café em Greenville?

- Durante muito tempo. As cinco vieram e passaram. Depois eram quase seis. Saí alguns minutos antes das seis e passei pelo escritório do Kramer. O lugar parecia óptimo. Alguns madrugadores já andavam por ali e eu não queria ser visto. Atravessei o rio e guiei até Lake Village, Arkansas e, em seguida, regressei a Greenville. Nessa altura eram sete horas, o sol já nascera e as pessoas andavam de um lado para o outro. Nenhuma explosão.

Estacionei o carro numa rua lateral e dei uma volta por ali. A maldita coisa não explodia. Depois não podia entrar, sabes. Andei andei, ouvindo com atenção, esperando que a terra tremesse. Nada aconteceu.

- Viu o Marvin Kramer e os filhos entrarem no edifício?

- Não. Virei uma esquina e vi o carro dele estacionado e pensei, diabos! e fiquei bloqueado. Não conseguia pensar. Mas depois pensei, que raio, ele não passa de um judeu e fez muitas coisas más. Depois pensei nas secretárias e outras pessoas que podiam trabalhar ali e dei novamente a volta ao quarteirão. Lembro-me de

O lhar para o relógio quando eram vinte para as oito e ter pensado que talvez devesse fazer um telefonema anónimo para o escritório e dizer ao Kramer que havia uma bomba no armário. E se não acreditasse em mim, poderia ir verificar e depois fugir.

- Porque não o fez?

- Não tinha moedas. Deixara todos os meus trocos como gorjeta para a criada e não queria entrar numa loja e pedir trocos.

Devo dizer-te que estava muito nervoso. Tinha as mãos a tremer e não queria agir de modo suspeito em frente de ninguém. Era um estranho, certo? Era a minha bomba que estava ali, certo? Estava numa pequena cidade onde todos se conhecem e o mais certo é lembrarem-se de todos os estranhos quando há um crime. Lembro-me de caminhar pelo passeio, do outro lado da rua em frente do Kramer, e diante de uma barbearia havia um quiosque de jornais e um homem que procurava moedas nos bolsos. Quase lhe pedi uma moeda para fazer um telefonema rápido, mas estava nervoso demais.

- Porque é que estava nervoso, Sam? Acabou de dizer que não se importava de ferir o Kramer. Era a sua sexta explosão, não era?

- Sim, mas as outras foram fáceis. Acender o rastilho, bater com a porta e esperar alguns minutos. Estava sempre a pensar naquela secretária bonitinha do escritório do Kramer, a que me tinha deixado ir à casa de banho. A mesma que mais tarde testemunhou no julgamento. E continuava a pensar nas outras pessoas que trabalhavam no escritório dele, porque quando entrara naquele dia vira pessoas por toda a parte. Eram quase oito horas e eu sabia que o escritório abriria dentro de minutos. Sabia que muita gente estava prestes a morrer. A minha cabeça deixou de funcionar. Lembro-me de ficar parado junto de uma cabina telefónica a um quarteirão de distância, a olhar para o relógio e depois para o telefone, dizendo a mim mesmo que tinha de fazer o telefonema. Finalmente entrei e procurei o número, mas quando fechei a lista tinha-o esquecido. Por isso, procurei novamente e comecei a ligar, mas lembrei-me que não tinha moedas. Então decidi ir à barbearia pedir algumas moedas e parei junto da montra de vidro e olhei para dentro. Estava cheia. Estavam em fila junto da parede, a falar e a ler jornais, e havia uma fila de cadeiras, todas ocupadas por homens que falavam ao mesmo tempo. Lembro-me que alguns deles olharam para mim e depois mais um ou dois começaram a fitar-me, por isso afastei-me.

- Para onde foi?

- Não tenho a certeza. Havia um escritório ao lado do Kramer e lembro-me de ver um carro estacionar em frente. Pensei que talvez fosse uma secretária ou alguém prestes a entrar no escritório do Kramer e acho que estava a caminhar na direcção do carro quando a bomba explodiu.

- Portanto, estava do outro lado da rua?

- Acho que sim. Lembro-me de abanar as mãos e os joelhos enquanto os vidros e os destroços caíam à minha volta. Mas não me lembro de muita coisa depois disso.

Houve uma ligeira pancada na porta do lado de fora e, em seguida, o sargento Packer apareceu com uma grande chávena de plástico, um guardanapo de papel, uma colher e natas.

- Pensei que talvez precisasse de um pouco de café. Desculpem interromper - colocou a chávena e os acessórios em cima do balcão.

- Obrigado - disse Adam.

Packer virou-se rapidamente e dirigiu-se para a porta.

- Dois quadrados de açúcar e um de nata - disse Sam do outro lado.

- Sim senhor - respondeu Packer sem abrandar. Desapareceu.

- Têm bom serviço por aqui - disse Adam.

- Maravilhoso, simplesmente maravilhoso.

 

É evidente que não serviram café a Sam. Ele soube-o imediatamente, mas Adam não. Por isso, após alguns minutos de espera, Sam disse:

- Bebe.

Ele próprio acendeu outro cigarro e deu alguns passos por trás da cadeira, enquanto Adam mexia o açúcar com a colher de plástico. Eram quase onze horas, Sam perdera a sua hora de saída e não acreditava que Packer arranjasse tempo para o compensar.

Andou de um lado para o outro, agachou-se algumas vezes, executou meia dúzia de flexões, os joelhos a estalar e as articulações a saltarem sempre que ele se erguia e baixava tropegamente.

Durante os primeiros meses do seu primeiro ano no Corredor, disciplinara-se bastante com este exercício. A certa altura, fazia cem flexões e cem abdominais por dia na sua cela todos os dias. O seu peso desceu para uns perfeitos setenta e dois quilos e meio enquanto a dieta de poucas calorias seguia o seu curso. Tinha o estômago liso e duro. Nunca estivera tão saudável.

Porém, pouco tempo depois compreendeu que o Corredor seria a sua última morada e que um dia o estado o mataria ali. Qual a vantagem de uma boa saúde e braços fortes quando uma pessoa está fechada vinte e três horas por dia à espera da morte? Lentamente, os exercícios cessaram. O fumo intensificou-se. Entre os camaradas, Sam era considerado um homem de sorte, principalmente porque tinha dinheiro no exterior. Um irmão mais novo

Donnie, vivia na Carolina do Norte e todos os meses enviava a sam uma caixa de cartão cuidadosamente embalada contendo dez embalagens de cigarros Montclair. Sam fumava em média três ou quatro maços por dia. Queria matar-se antes de o estado chegar a fazê-lo. E preferia morrer de uma qualquer doença prolongada, uma doença que exigisse um tratamento dispendioso, que o estado do Mississípi seria constitucionalmente obrigado a suportar.

Tudo indicava que ia perder a corrida.

O juiz federal, que assumira o controlo de Parchman na sequência de um processo relativo aos direitos dos presos, tinha emitido ordens completas revendo os procedimentos correccionais fundamentais. Tinha definido cuidadosamente os direitos dos presos. E tinha definido pormenores mínimos, tais como a área de cada cela do Corredor e a quantidade de dinheiro que cada recluso podia possuir. Vinte dólares era o máximo. Era chamado de pó" e vinha sempre do exterior. Os reclusos do corredor da morte não eram autorizados a trabalhar e a ganhar dinheiro. Os mais felizardos recebiam alguns dólares por mês de parentes e amigos. Podiam gastá-los na cantina situada no meio da USM. As bebidas não alcoólicas eram conhecidas como frascos". Os rebuçados e os chocolates eram zu-zus" e wham-whams". Os verdadeiros cigarros em pacotes eram belas pernas" e pães quentes". A maioria dos reclusos não recebia nada do exterior. Negociavam, faziam trocas e ganhavam dinheiro suficiente para comprar folhas de tabaco soltas que enrolavam em papel fino e fumavam lentamente. Sam era realmente um felizardo.

Sentou-se e acendeu outro cigarro.

- Porque é que não depôs no julgamento? - perguntou o seu advogado do outro lado da rede.

- Qual julgamento?

- Boa. Nos dois primeiros julgamentos.

- Não foi preciso. Brazelton escolheu bons júris, todos brancos, boa gente simpática que compreendia as coisas. Eu sabia que não seria condenado por aquelas pessoas. Não havia necessidade de depor.

- E no último julgamento?

- Isso é um bocado mais complicado. Keyes e eu discutimos o assunto muitas vezes. A princípio, ele pensou que podia ajudar, porque eu poderia explicar ao júri quais eram as minhas intenções. Não era suposto ninguém ficar ferido, etc. A bomba deveria ter explodido às cinco horas da manhã. Mas sabíamos que o contra-interrogatório ia ser brutal. O juiz já tinha decidido que os outros atentados podiam ser discutidos para provar certas coisas. Seria obrigado a admitir que tinha realmente colocado a bomba, os quinze paus, o que evidentemente era mais do que suficiente para matar pessoas.

- Então, porque é que não depôs?

- Dogan. Aquele sacana mentiroso disse ao júri que o nosso plano era matar o judeu. Era uma testemunha muito eficaz. Quero dizer, pensa nisto, ali estava o antigo Mago Imperial do Klan do Mississípi como testemunha de acusação contra um dos seus próprios homens. Era material quente. O júri engoliu tudo.

- Porque é que o Dogan mentiu?

- O Jerry Dogan enlouqueceu, Adam. Quero dizer, enlouqueceu mesmo. A polícia federal perseguiu-o durante quinze anos - pôs-lhe os telefones sob escuta, seguiu-lhe a mulher por toda a cidade, incomodou os parentes, ameaçou os filhos, batia-Lhe à porta a todas as horas da noite. Tinha uma vida desgraçada. Havia sempre alguém a observar e a escutar. Depois descuidou-se e o IRS caiu-Lhe em cima. Eles e o FBI disseram-lhe que podia ser condenado a um máximo de trinta anos. Dogan cedeu à pressão. Depois do meu julgamento, ouvi dizer que o tinham mandado para fora durante algum tempo. Sabes?

para uma instituição. Recebeu tratamento, regressou a casa e morreu pouco depois.

- O Dogan morreu?

Sam imobilizou-se a meio de uma fumaça. O fumo escapava-se-Lhe da boca e subia em espirais passando-lhe junto ao nariz e em frente dos olhos, que de momento fitavam incrédulos através

da abertura os olhos do neto.

- Não sabes o que aconteceu ao Dogan? - perguntou.

A memória de Adam percorreu instantaneamente os inúmeros artigos de jornal e as incontáveis histórias que tinha coleccionado e indexado. Abanou a cabeça.

- Não. O que foi que aconteceu ao Dogan?

- Pensava que sabias tudo - disse Sam. - Pensava que

tinhas decorado tudo a meu respeito.

- Sei muito a seu respeito, Sam. Mas realmente não estou muito interessado em Jeremiah Dogan.

- Ardeu no fogo de uma casa. Ele e a mulher. Estavam a dormir uma noite quando, por qualquer razão, uma linha de gás começou a largar propano. Os vizinhos disseram que foi como uma bomba a explodir.

- Quando aconteceu isso?

- Exactamente um ano depois do dia em que testemunhou contra mim.

Adam tentou escrever aquilo, mas a caneta não se mexia. Estudou o rosto de Sam à procura de uma pista.

- Exactamente um ano?

- Sim.

- É uma bela coincidência.

- Eu estava aqui, claro, mas ouvi comentários aqui e ali. A polícia considerou o caso acidental. Na realidade, acho que até houve um processo contra a companhia de gás.

- Portanto, não pensa que ele tenha sido assassinado?

- Claro que penso que ele foi assassinado.

- Muito bem. Por quem?

- Na verdade, o FBI veio até cá e fez-me algumas perguntas. Acreditas? A polícia federal a meter o nariz por aqui. Um par de garotos do Norte. Estavam ansiosos por visitar o corredor da morte, mostrarem os seus cartões e conhecerem um verdadeiro terrorista do Klan ao vivo. Estavam tão assustados que até tinham medo da pró pria sombra. Fizeram-me perguntas estúpidas durante uma hora e depois foram-se embora. Nunca mais tive notícias do assunto.

- Quem poderia ter assassinado o Dogan?

Sam mordeu o filtro e extraiu do cigarro a última baforada de fumo. Esmagou-o no cinzeiro exalando através da abertura. Adam afastou o fumo com movimentos exagerados, mas Sam ignorou-o.

- Muita gente - resmungou.

Adam fez uma anotação à margem para falar novamente a respeito de Dogan mais tarde. Primeiro, investigaria e depois abordaria o assunto mais uma vez numa conversa futura.

- Só para a discussão - disse ele, ainda a escrever -, parece que devia ter deposto para contrariar o testemunho de Dogan.

- Quase o fiz - disse Sam com uma ponta de desgosto. Na última noite do julgamento, eu, o Keyes e a sua associada, esqueci-me do nome dela, ficámos acordados até à meia-noite a discutir se eu devia ou não depor. Mas pensa só, Adam. Eu teria sido obrigado a admitir que colocara a bomba, que ela tinha um dispositivo temporizador preparado para detonar mais tarde, que tinha estado envolvido em outros atentados à bomba e que estava do outro lado da rua quando a explosão se deu. Além disso, a acusação tinha provado claramente que Marvin Kramer era um alvo. Quer dizer, com os diabos, eles mostraram ao júri as escutas do FBI. Devias ter ouvido. Ligaram aqueles enormes altifalantes na sala de audiências e colocaram o gravador em cima de uma mesa em frente do júri como se fosse uma bomba de verdade. E ouvia-se o Dogan a falar ao telefone com o Wayne Graves, a voz era rouca mas perfeitamente audível, a falar em rebentar uma bomba no Kramer por isto e por aquilo e a gabar-se de como mandaria o seu grupo, como me chamava, a Greenville para tratar do assunto. As vozes naquela fita soavam como fantasmas do inferno e o júri não perdeu palavra. Muito eficaz. E depois, claro, havia o testemunho do próprio Dogan. Nesse momento eu teria parecido ridículo, tentando depor e convencer o júri de que na realidade não era mau tipo. O McAllister ter-me-ia engolido vivo. Por isso decidimos que não iria depor. Olhando para trás, foi uma má jogada. Eu devia ter falado.

- Mas a conselho do seu advogado não o fez?

- Olha, Adam, se estás a pensar em atacar o Keyes com base em defesa ineficaz, esquece. Paguei muito dinheiro ao Keyes, hipotequei tudo o que tinha e ele fez um bom trabalho. Há muito tempo o Goodman e o Tyner pensaram em ir atrás do Keyes, mas não encontraram nada de errado na sua representação. Esquece.

O processo Cayhall na Kravitz & Bane tinha pelo menos cinco centímetros de investigação e de memorandos sobre a questão da representação de Benjamin Keyes. Defesa ineficaz no decurso do julgamento era um argumento-padrão nos recursos de pena de morte, mas não tinha sido usado no caso de Sam. Goodman e ljner tinham discutido o assunto longamente, trocando longos memorandos entre os gabinetes situados respectivamente no sexagésimo-primeiro e no sexagésimo-sexto andares em Chicago.

O memorando final declarava que Keyes tinha feito tão bom trabalho no julgamento que não havia nada a atacar.

O processo incluía também uma carta de três páginas de Sam proibindo expressamente qualquer ataque a Keyes. Não assinaria nenhuma petição que o fizesse, jurava.

Porém, o último memorando fora escrito sete anos antes, num momento em que a morte era uma possibilidade remota. Agora as coisas eram diferentes. As questões tinham que ser ressuscitadas ou até criadas. Era o momento de agarrar tudo.

- Onde se encontra agora o Keyes? - perguntou Adam.

- A última coisa que ouvi dizer foi que aceitou um emprego em Washington. Escreveu-me há cerca de cinco anos e disse que já não exercia. Ficou muito abalado quando perdemos. Acho que nenhum de nós esperava por isso.

- Não esperava ser condenado?

- Realmente não. Já tinha vencido duas vezes, sabes. E da terceira vez o meu júri incluía oito brancos, ou anglo-americanos como deve dizer-se. Por pior que o julgamento corresse, acho que nunca acreditei verdadeiramente que eles iam condenar-me.

- E o Keyes?

- Oh, ele estava preocupado. Certamente que não levámos as coisas a brincar. Passámos meses a preparar-nos para o julgamento. Ele negligenciou os seus outros clientes e até a familia durante semanas, enquanto nos preparávamos. O McAllister aparecia todos os dias nos jornais, segundo parecia, e quanto mais ele falava, mais nós trabalhávamos. Emitiram a lista de potenciais jurados, quatrocentos, e passámos dias a investigar essas pessoas.

A sua preparação prévia ao julgamento foi impecável. Não éramos ingénuos.

- A Lee disse-me que considerou a hipótese de fugir.

- Ah, disse?

- Sim, disse-mo na noite passada.

Sam bateu o cigarro seguinte no balcão e admirou-o durante alguns momentos como se fosse o último.

- Sim, pensei nisso. Passaram quase treze anos antes do McAllister vir atrás de mim. Era um homem livre, diabos, tinha quarenta e sete anos de idade quando o segundo julgamento terminou e eu regressei a casa. Quarenta e sete anos de idade e tinha sido absolvido por dois júris e tudo isso ficara para trás. Era feliz. A vida decorria normalmente. Tratava da terra e dirigia uma serração, bebia café na cidade e votava em todas as eleições. A polícia federal vigiou-me durante alguns meses, mas acho que se convenceram que eu tinha desistido das bombas. De vez em quando, um repórter ou um jornalista abelhudos apareciam em Clanton e faziam perguntas, mas ninguém falava com eles. Eram sempre do Norte, idiotas como o diabo, rudes e ignorantes e nunca ficavam durante muito tempo. Um dia um foi até minha casa e não queria ir-se embora. Em vez de ir buscar a espingarda, limitei-me a soltar-lhe os cães e eles morderam-lhe o rabo. Nunca mais voltou - riu para si próprio e acendeu o cigarro. - Nem nos meus sonhos mais loucos previ isto. Se tivesse tido a mais ligeira desconfiança, a mais pequena pista, de que isto poderia acontecer- me, então teria fugido há anos. Era completamente livre, compreendes, não havia restrições. Teria ido para a América do Sul, mudado de nome, desaparecido duas ou três vezes e depois tinha-me instalado num lugar qualquer como São Paulo ou o Rio.

- Como o Mengele.

- Qualquer coisa assim. Nunca o apanharam, sabes. Nunca apanharam uma data desses tipos. Neste momento, estaria a viver numa bela casinha, a falar português e a rir de idiotas como o David McAllister - Sam abanou a cabeça, fechou os olhos e sonhou com o que poderia ter sido.

- Porque é que não se foi embora quando o McAllister começou a fazer barulho?

- Porque fui estúpido. Aconteceu muito lentamente. Foi como um pesadelo tornado realidade em pequenos segmentos. Primeiro, o McAllister foi eleito com todas as suas promessas. Depois, alguns meses mais tarde, o Dogan foi apanhado pelo IRS. Comecei a ouvir boatos e a ler pequenas notícias nos jornais. Mas recusei-me simplesmente a acreditar que poderia acontecer. Antes de me ter dado conta, o FBI estava a seguir-me e não podia fugir.

Adam olhou para o relógio e sentiu-se subitamente cansado. Estavam a falar há mais de duas horas e sentia necessidade de ar fresco e de sol. A cabeça doía-lhe devido ao fumo dos cigarros e a sala estava a ficar cada vez mais quente. Atarrachou a tampa da caneta e guardou o bloco na pasta.

- É melhor ir andando - disse ele na direcção da divisória.

- Provavelmente voltarei amanhã para outra sessão.

- Estarei aqui.

- Lucas Mann deu-me luz verde para o visitar quando quisesse.

- Um raio de um sujeito, não é?

- Não é má pessoa. Só está a fazer o seu trabalho.

- Tal como o Naifeh, o Nugent e todos os outros brancos.

- Brancos?

- Sim, é calão para autoridades. Na realidade, ninguém me quer matar, só estão a fazer o seu trabalho. Há aquele idiota com nove dedos que é o carrasco oficial - o tipo que mistura o gás e insere a lata. Pergunta-lhe o que está a fazer enquanto me amarram e ele responderá Estou só a fazer o meu trabalho, O capelão da prisão, o médico da prisão o psiquiatra da prisão, juntamente com os guardas que me vão escoltar até lá e os paramédicos que me retirarão, bem, são todos boas pessoas, não têm realmente nada contra mim, mas estão apenas a fazer o seu trabalho.

- Não vai chegar a isso, Sam.

- Isso é uma promessa?

- Não, mas pense de modo positivo.

- Sim, o pensamento positivo é muito popular aqui. Eu e os rapazes somos muito bons em espectáculos motivacionais, bem como em programas de viagem e compras domésticas. Os africanos preferem Soul Train.

- A Lee está preocupada consigo, Sam. Pediu-me para lhe dizer que pensa em si e reza por si.

Sam mordeu o lábio inferior e olhou para o chão. Acenou lentamente com a cabeça, mas não disse nada.

- Ficarei em casa dela durante o próximo mês, mais ou

menos.

- Ela ainda está casada com aquele tipo?

- Mais ou menos. Ela quer vê-lo.

- Não.

- Porque não?

Sam levantou-se cuidadosamente da cadeira e bateu na porta atrás dele. Voltou-se e olhou para Adam através da rede. Observaram-se mutuamente até que um guarda abriu a porta e levou Sam.

 

O garoto saiu há cerca de uma hora com autorização, embora eu não a tenha visto por escrito - explicou Lucas Mann a Philip Naifeh, que estava de pé junto da janela a observar um grupo de recolha de lixo ao longo da estrada. Naifeh tinha dores de cabeça, dores nas costas e estava a meio de um dia globalmente horrível, que incluíra três telefonemas matutinos do governador e dois de Roxburgh, o procurador- geral. Sam, evidentemente, fora a causa dos telefonemas.

- Portanto, ele arranjou um advogado - disse Naifeh enquanto pressionava cuidadosamente um punho contra o meio dos rins.

- Sim e gosto realmente do garoto. Passou pelo meu gabinete quando ia a sair e parecia que tinha sido atropelado por um camião. Acho que ele e o avô estão a passar um momento difícil.

- As coisas vão piorar para o avô.

- Vão piorar para todos nós.

- Sabes o que é que o governador me pediu? Queria saber se podia obter uma cópia do manual sobre como efectuar uma execução. Disse-lhe que não, que na realidade não podia ter uma cópia. Ele respondeu que era o governador deste estado e sentia que devia ter uma cópia. Tentei explicar-lhe que não se tratava realmente de um manual, mas apenas de um pequeno livro de folhas soltas com encadernação preta que é totalmente revisto sempre que gaseamos alguém. Como é que se chama, quis ele saber. Disse-lhe que não tinha nome, na realidade não tem nenhum nome oficial porque, graças a Deus, não é usado muitas vezes, mas por outro lado eu próprio costumo referir-me a ele como o livrinho negro.

Ele pressionou um pouco mais, eu fiquei um pouco mais zangado desligámos e quinze minutos mais tarde o advogado dele, aquele nojo marreco com lunetas a apertar-lhe o nariz...

- Larramore.

- Larramore, telefonou-me e disse que de acordo com esta e aquela secção do Código o governador tem direito a uma cópia do manual. Mandei-o esperar, peguei nas secções do código, fi-lo esperar dez minutos e depois lemos juntos a lei e, claro, como de costume, ele estava a mentir, a fazer bluffe a imaginar que sou um imbecil. Nada disso está escrito na minha secção do código.

Desliguei-lhe o telefone. Dez minutos mais tarde, o governador voltou a telefonar, todo delico-doce, disse-me para esquecer o pequeno livro negro, que está muito preocupado com os direitos constitucionais do Sam e tudo o mais e só quer que eu o mantenha informado dos progressos. Verdadeiramente encantador – Naifeh mudou o peso de um pé para o outro e enterrou os punhos nas costas enquanto olhava pela janela.

- Depois, meia-hora mais tarde, telefona o Roxburgh e adivinha o que ele queria saber? Queria saber se eu tinha falado com o governador. Estás a ver, o Roxburgh pensa que eu e ele somos muito chegados, velhos amigos políticos, sabes e portanto podemos confiar um no outro. E por isso diz- me, confidencialmente claro, de amigo para amigo, que pensa que o governador vai tentar explorar esta execução para obter dividendos políticos. - Que disparate! - disparou Lucas.

- Claro, eu disse ao Roxburgh que não podia acreditar que ele pensasse uma coisa dessas acerca do governador. Falei muito seriamente e ele ficou também muito sério e prometemos um ao outro vigiar o governador de perto e se notássemos qualquer sinal de que ele estava a manipular esta situação então telefonaríamos imediatamente um ao outro. Roxburgh disse que havia coisas que poderia fazer para neutralizar o governador se ele saísse da linha. Não me atrevi a perguntar o quê ou como, mas ele parecia muito seguro de si próprio.

- Então, quem é o idiota mais chapado?

- Provavelmente o Roxburgh. Mas é uma chamada dura - Naifeh espreguiçou-se cuidadosamente e encaminhou-se para a secretária. Estava descalço e tinha a fralda da camisa de fora. Era óbvio que tinha dores. - Ambos têm um insaciável apetite de publicidade. São como dois rapazinhos mortalmente aterrorizados de que o outro consiga ganhar um rebuçado maior. Odeio-os a ambos.

- Toda a gente os odeia excepto os eleitores.

Ouve uma pancada forte na porta, três batidas fortes a intervalos precisos.

- Deve ser o Nugent - disse Naifeh e as suas dores intensificaram-se subitamente. - Entre.

A porta abriu-se rapidamente e o coronel na reserva George Nugent entrou na sala, parando apenas ligeiramente para fechar a porta e encaminhou-se oficialmente na direcção de Lucas Mann, que não se levantou mas lhe apertou a mão.

- Mr. Mann - saudou Nugent rispidamente e depois avançou e sobre a mesa apertou a mão a Naifeh.

- Sente-se, George - disse Naifeh apontando na direcção de uma cadeira vazia ao lado de Mann. Naifeh desejava ordenar-lhe que acabasse com a atitude militar, mas sabia que não serviria de nada.

- Sim, senhor - respondeu Nugent sentando-se sem dobrar as costas. Embora os únicos uniformes de Parchman fossem usados pelos guardas e pelos presos, Nugent tinha conseguido arranjar um para si mesmo. A camisa e as calças eram de um verde-azeitona escuro, perfeitamente combinadas e perfeitamente engomadas, com pregas e vincos precisos, que aguentavam milagrosamente todo o dia sem a menor ruga. As calças desciam até alguns centímetros acima do tornozelo, onde desapareciam dentro de um par de botas de combate pretas, engraxadas e polidas pelo menos duas vezes por dia, num perpétuo estado brilhante. Uma vez correra o leve boato de que uma das secretárias ou um dos presos de confiança vira uma mancha de lama numa das solas, mas o boato nunca fora confirmado.

O botão de cima estava aberto de modo a formar um triângulo ezacto, que deixava ver uma t-shirt cinzenta. Os bolsos e as mangas apresentavam-se vazios e sem adornos, sem medalhas nem condecorações e Naifeh suspeitava há muito que isso era motivo de grande humilhação para o coronel. O corte de cabelo era estritamente militar com pele nua acima das orelhas e uma fina camada de rebentos cinzentos no alto. Nugent tinha cinquenta e dois anos, servira o país durante trinta e quatro anos, primeiro como soldado na Coreia e mais tarde como capitão no Vietname, onde fizera a guerra atrás de uma secretária. Fora ferido num acidente de jipe e enviado para casa com uma nova condecoração.

Há dois anos que Nugent servia admiravelmente como superintendente-assistente, um subordinado leal e fiável de Naifeh. Adorava pormenores, regulamentos e regras. Devorava manuais e estava constantemente a elaborar novos procedimentos e directivas e alterações para os guardas ponderarem. Era uma significativa dor de cabeça para o director, mas apesar disso necessário. Não era segredo para ninguém que o coronel desejava o lugar de Naifeh dentro de alguns anos.

- George, eu e o Lucas temos estado a falar acerca do caso Cayhall. Não sei o que é que sabe sobre os recursos, mas o Quinto Círculo levantou a suspensão e estamos confrontados com uma execução dentro de quatro semanas.

- Sim, senhor - disse Nugent, absorvendo e catalogando cada palavra. - Li nos jornais de hoje.

- Óptimo. Aqui o Lucas é de opinião que esta pode mesmo acontecer, não é Lucas?

- Há boas hipóteses. Mais de cinquenta por cento - disse Lucas sem olhar para Nugent.

- Há quanto tempo está cá, George?

- Dois anos e um mês.

O director calculou qualquer coisa enquanto esfregava as têmporas.

- Perdeu a execução Parris?

- Sim senhor, por algumas semanas - respondeu com um laivo de desapontamento.

- Então, ainda não passou por nenhuma?

- Não senhor.

- Bem, são horríveis George. Simplesmente horríveis. É de longe a parte pior deste trabalho. Francamente não estou preparado para isso. Esperava retirar-me antes de usarmos novamente a câmara, mas agora parece duvidoso. Preciso de ajuda.

As costas de Nugent, embora já estivessem penosamente direitas, pareceram endireitar-se ainda mais. Acenou rapidamente com a cabeça, os olhos a dançar em todas as direcções.

Naifeh sentou-se delicadamente na sua cadeira, fazendo uma careta ao encostar-se no cabedal macio.

- Uma vez que não me sinto preparado, George, Lucas e eu estávamos a pensar que talvez pudesses fazer um bom trabalho com este.

O coronel não conseguiu reprimir um sorriso. Depois, desapareceu rapidamente e foi substituído por uma expressão muito severa.

- Tenho a certeza que serei capaz de tratar do assunto, senhor.

- Também tenho a certeza que sim - Naifeh apontou para uma capa preta ao canto da secretária. - Temos uma espécie de manual. Está aí, a recolha da sabedoria resultante de duas dezenas de visitas à câmara de gás nos últimos trinta anos.

Nugent semicerrou os olhos e focou-os no livro negro. Reparou que as folhas não eram todas regulares e uniformes, que na realidade havia uma variedade de papéis arquivados e metidos desleixadamente no meio do texto, que a própria pasta estava gasta e surrada. Em poucas horas, decidiu rapidamente, o manual seria transformado numa obra-prima digna de publicação. Essa seria a sua primeira tarefa. A papelada seria imaculada.

- Porque é que não o lê esta noite e nos encontramos novamente amanhã?

- Sim senhor - respondeu ele manhosamente.

- Nem uma palavra a ninguém acerca disto antes de falarmos novamente, está bem?

- Não senhor.

Nugent fez um aceno de cabeça hábil a Lucas Mann e saiu do gabinete abraçado ao livro negro como uma criança com um novo brinquedo. A porta fechou-se atrás dele.

- É um doido - disse Lucas.

- Eu sei. Nós vigiamo-lo.

- É melhor que o façamos. É tão doido que era capaz de tentar levar o Sam para a câmara de gás este fim-de-semana.

Naifeh abriu uma gaveta da secretária e tirou um frasco de comprimidos. Engoliu dois mesmo sem água.

- Vou para casa, Lucas. Preciso de me deitar. Provavelmente ainda morro antes do Sam.

- É melhor apressar-se.

A conversa telefónica com E. Garner Goodman foi breve. Adam explicou com algum orgulho que ele e Sam tinham um acordo de representação por escrito e que já tinham passado quatro horas juntos, embora tivessem conseguido pouco. Goodman queria uma cópia do acordo e Adam explicou que, de momento, ainda não havia cópias, que o original estava guardado em segurança numa cela do corredor da morte e, além disso, só haveria cópias se o cliente assim o decidisse.

Goodman prometeu rever o processo e pôr-se a trabalhar. Adam deu-lhe o número de telefone de Lee e prometeu falar todos os dias. Desligou o telefone e fixou duas aterrorizadoras mensagens telefónicas ao lado do seu computador. Eram ambas de repórteres, uma de um jornal de Memphis e outro de uma estação de televisão em Jackson, Mississípi.

Baker Cooley falara com ambos os repórteres. Na verdade, uma equipa de televisão de Jackson apresentara-se à recepcionista e só saíra depois de Cooley fazer algumas ameaças. Toda esta atenção perturbara a rotina entediante da filial de Memphis da Kravitz & Bane. Cooley não estava satisfeito com o facto. Os outros sócios tinham pouco a dizer a Adam. As secretárias eram profissionalmente bem-educadas, mas mostravam-se ansiosas por se manterem afastadas do seu gabinete.

Os repórteres sabiam, avisara Cooley gravemente. Sabiam acerca de Sam e Adam, o ângulo neto-avô, e embora não tivesse a certeza como tinham sabido, certamente que não fora por ele. Ele não dissera a ninguém até que, evidentemente, a notícia se espalhara e fora obrigado a reunir os sócios e associados antes da hora do almoço e a revelar-lhes tudo.

Eram quase cinco horas. Adam estava sentado à secretária com a porta fechada, escutando as vozes no hall enquanto os funcionários, os forenses e outro pessoal assalariado faziam os últimos pre parativos antes de sairem. Decidiu que não tinha nada a dizer ao

repórter da televisão. ligou o número de Todd Marks do Memphis Press. Uma mensagem gravada guiou-o através das maravilhas do correio de voz e ao cabo de alguns minutos Mr. Marks atendeu na sua extensão de cinco dígitos e disse apressadamente:

- Todd Marks.

A sua voz parecia a de um adolescente.

- Daqui fala Adam Hall, da Kravitz & Bane. Tinha um recado para lhe dar.

- Sim, Mr. Hall - respondeu Marks efusivamente, imediatamente amigável e já sem pressas - Obrigado por telefonar, eu... hum... bem, nós... hum... ouvimos um boato de que o senhor estava encarregado do caso Cayhall e... hum... só estava a tentar confirmar.

- Eu represento Mr. Cayhall - disse Adam com palavras comedidas.

- Sim, bem, foi o que ouvimos dizer. E... hum... o senhor é de Chicago?

- Sou de Chicago.

- Compreendo. Como é que... hum... como é que obteve o caso?

- A minha firma representa Mr. Cayhall há sete anos.

- Sim, claro. Mas ele não prescindiu recentemente dos vossos serviços?

- Sim, mas agora contratou novamente a firma - Adam conseguia ouvir o bater das teclas enquanto Marks juntava as palavras num computador.

- Compreeendo. Ouvimos também um rumor, estou certo de que é apenas um boato, de que Mr. Cayhall é seu avô.

- Onde ouviu isso?

- Bem, sabe, temos as nossas fontes e somos obrigados a protegê-las. Não posso realmente dizer-lhe qual foi a nossa fonte, sabe.

- Sim, eu sei - Adam respirou fundo e deixou Marks à espera durante um minuto. - Onde está o senhor agora?

- No jornal.

- E onde é que isso fica? Não conheço a cidade.

- Onde está o senhor?

- Na Baixa. No nosso escritório.

- Não estou muito longe. Posso estar aí dentro de dez minutos.

- Não, aqui não. Vamos encontrar-nos noutro sítio qualquer. Um barzinho tranquilo algures.

- Óptimo. O Peabody Hotel fica na Union, a três quarteirões de distância do seu escritório. Há um bar simpático junto do átrio chamado Mallards.

- Estarei lá dentro de quinze minutos. Só nós os dois, está bem?

- Claro.

Adam desligou o telefone. O contrato de Sam continha algumas cláusulas soltas e ambíguas que tentavam impedir o seu advogado de falar à imprensa. Essa cláusula tinha mais buracos do que qualquer advogado poderia atravessar, mas Adam não queria forçar a questão. Após duas visitas, o avô continuava a ser um mistério. Não gostava de advogados e despediria prontamente outro, mesmo o próprio neto.

O Mallards estava a ficar rapidamente cheio de jovens profissionais fatigados que precisavam de uma bebida forte antes da viagem até aos subúrbios. Poucas pessoas viviam realmente na Baixa de Memphis, por isso os banqueiros e os corretores encontravam-se em inúmeros outros bares e engoliam cerveja em garrafas verdes e sorviam vodka sueco. Enchiam o bar e juntavam-se em torno das pequenas mesas para discutir a direcção do mercado e o futuro das taxas de juro. Era um lugar elegante, com autênticas paredes de tijolo e chão de madeira verdadeira. Uma mesa perto da porta estava cheia de tabuleiros com asas e fígados de frango enrolados em bacon. Adam identificou um jovem de jeans que segurava um bloco de notas. Apresentou-se e sentaram-se a uma mesa de canto. Todd Marks não tinha mais de vinte e cinco anos. Usava óculos de aros de arame e cabelo até aos ombros. Era cordial e parecia um pouco nervoso. Pediram Heinekens.

O bloco de notas estava em cima da mesa, preparado para acção, e Adam decidiu assumir o controlo da situação.

- Vamos estabelecer algumas regras básicas - disse. Primeiro, tudo o que eu disser será confidencial, o que quer dizer que não poderá citar-me de maneira nenhuma. Concorda?

Marks encolheu os ombros como se estivesse de acordo, mas não era exactamente essa a sua ideia.

- Está bem - respondeu.

- Acho que vocês lhe chamam informações confidenciais ou algo assim.

- Exactamente.

- Responderei a algumas das suas questões, mas não muitas. Estou aqui porque quero esclarecer as coisas, certo?

- É justo. O Sam Cayhall é seu avô?

- Sam Cayhall é meu cliente e deu-me instruções no sentido de não falar à imprensa. Por isso não pode citar-me. Estou aqui para confirmar ou negar e é tudo.

- Muito bem, mas ele é seu avô?

- Sim.

Marks respirou fundo e saboreou este facto incrível que, sem dúvida, conduzia a uma história sensacional. Já estava a ver os cabeçalhos.

Depois compreendeu que devia fazer mais algumas perguntas. Tirou cuidadosamente uma caneta do bolso.

- Quem é o seu pai?

- O meu pai já faleceu.

Uma longa pausa.

- Muito bem. Então, o Sam é o pai da sua mãe?

- Não. O Sam é o pai do meu pai.

- Muito bem. Porque é que têm apelidos diferentes?

- Porque o meu pai mudou de nome.

- Porquê?

- Não quero responder a essa pergunta. Não quero ter de falar muito na história da família.

- Cresceu em Clanton?

- Não, nasci lá mas parti quando tinha três anos de idade. Os meus pais mudaram-se para a Califórnia. Foi aí que cresci.

- Portanto, não vivia perto de Sam Cayhall?

- Não.

- Conhecia-o?

- Conheci-o ontem.

Marks pensou na pergunta seguinte, mas graças a Deus a cerveja chegou. Beberam juntos sem dizer nada.

Marks fitava o bloco-notas, escrevinhou qualquer coisa e, em seguida, perguntou.

- Há quanto tempo trabalha na Kravitz & Bane?

- Há quase um ano.

- Há quanto tempo trabalha no caso Cayhall?

- Há dia e meio.

Tomou um longo gole e observou Adam como se estivesse à espera de uma explicação.

- Olhe, hum, Mr. Hall...

- O meu nome é Adam.

- Muito bem, Adam. Parece-me que a sua história tem muitos saltos. Poderia ajudar-me um bocadinho?

- Não.

- Está bem. Li algures que Cayhall tinha despedido recentemente a Kravitz & Bane. Estava a trabalhar no caso quando isto sucedeu?

- Já Lhe disse. Há apenas dia e meio que trabalho no caso.

- Quando é que visitou pela primeira vez o corredor da morte?

- Ontem.

- Ele sabia que o senhor vinha?

- Não quero falar desse assunto.

- Porque não?

- Esta questão é altamente confidencial. Não vou falar das minhas visitas ao corredor da morte. Confirmarei ou negarei apenas as coisas que você pode obter algures.

- O Sam tem mais filhos?

- Não vou falar da família. Tenho a certeza de que o seu jornal já falou no assunto.

- Mas foi há muito tempo.

- Então investigue.

Outro longo golo e mais uma longa olhadela ao bloco.

- Quais são as probabilidades de a execução ocorrer real mente no dia oito de Agosto?

- É muito difícil dizer. Não gostaria de especular.

Mas os recursos já correram todos, não é verdade?

- Talvez. Digamos que tenho o trabalho talhado para mim.

- O governador poderá conceder um perdão?

- Sim.

- É uma possibilidade?

- É altamente improvável. Terá de perguntar-Lhe.

- O seu cliente dará algumas entrevistas antes da execução?

- Duvido.

Adam olhou para o relógio como se subitamente tivesse de apanhar um avião.

- Mais alguma coisa? - perguntou ele e depois acabou de beber a cerveja.

Marks colocou a caneta num dos bolsos da camisa.

- Podemos voltar a falar?

- Depende.

- De quê?

- Da forma como tratar o assunto. Se desenterrar coisas sobre a família, esqueça.

- Devem ter grandes esqueletos no armário.

- Sem comentários - Adam levantou-se e estendeu a mão.

- Prazer em conhecê-lo - disse enquanto apertavam as mãos.

- Obrigado, eu telefono-lhe.

Adam passou rapidamente pela multidão reunida no bar e desapareceu no átrio do hotel.

 

Entre todas as estúpidas e minuciosas regras impostas aos reclusos no Corredor, a que mais irritava Sam era a regra dos doze centímetros. Esta pequena jóia do génio regulamentar impunha um limite sobre o volume de documentos legais que um recluso do corredor da morte podia ter na sua cela. Os documentos não podiam ter uma espessura superior a doze centímetros, depois de colocados uns em cima dos outros e apertados. O processo de Sam não era muito diferente do dos outros reclusos e ao cabo de cinco anos de uma guerra de recursos o processo enchia uma grande caixa de cartão. Como diabo era suposto ele estudar e investigar com limitações tais como a regra dos doze centímetros?

Packer entrara por várias vezes na sua cela com um metro, que agitava como um chefe de banda, e depois colocava cuidadosamente junto dos papéis. Sam estava sempre para além do limite, tendo sido uma vez apanhado, segundo as medições de Packer, com cinquenta e três centímetros. E Packer preenchia sempre um RVR, um relatório de violação das regras, e o processo institucional de Sam era acrescentado com mais alguns papéis. Sam perguntava-se frequentemente se o seu processo guardado no edifício principal da administração teria mais de doze centímetros. Esperava que sim. E quem se ralava? Há nove anos e meio que o mantinham fechado numa gaiola com o único propósito de suspender a sua vida para poderem um dia tirar-lha. Que mais lhe poderiam fazer?

De todas as vezes Packer concedera-lhe vinte e quatro horas para reduzir a espessura do seu processo. Normalmente, Sam enviava alguns centímetros para o irmão na Carolina do Norte. 214

Algumas vezes enviara relutantemente alguns centímetros a E. Garner Goodman.

No momento tinha ultrapassado o limite em cerca de trinta centímetros. E tinha debaixo do colchão um arquivo de casos recentes do Supremo Tribunal. E tinha cinco centímetros ao lado onde Hank Henshaw o vigiava na estante. E mais sete centímetros e meio na outra porta ao lado no monte de papéis de J. B. Gullitt.

Sam revia todos os documentos e cartas de Henshaw e Gullitt.

Henshaw tinha um bom advogado, contratado com dinheiro da família. Gullit tinha um tolo de uma importante firma de D. C. que nunca vira uma sala de audiências.

A regra dos três livros era outra limitação desconcertante sobre aquilo que os reclusos podiam guardar nas suas celas. Esta regra dizia simplesmente que um recluso do corredor da morte não podia possuir mais do que três livros. Sam possuía quinze, seis na sua cela e nove espalhados pelas celas dos seus companheiros do Corredor. Não tinha tempo para a ficção. A sua colecção incluía exclusivamente livros de Direito sobre a pena de morte e a Oitava Emenda.

Tinha terminado um jantar de carne de porco cozida, feijão, pão de milho e estava a ler um processo do Nono Tribunal Círculo da Califórnia acerca de um recluso que encarara a morte tão calmamente que os seus advogados o julgaram doido. Por isso preencheram uma série de petições defendendo que o seu cliente era realmente demasiado louco para ser executado. O Tribunal de Círculo estava cheio de liberais que se opunham à pena de morte e agarraram-se a este novo argumento. A execução foi suspensa. Sam gostava deste caso. Desejara muitas vezes estar sob a alçada do Nono Tribunal de Círculo em vez do Quinto.

Gullitt disse da cela ao lado:

- Tenho um papagaio, Sam - e Sam foi até às grades.

Lançar um papagaio era a única forma de correspondência para os reclusos de celas muito afastadas. Gullitt entregou-Lhe a nota. Era de Preacher Boy, um patético rapaz branco que vivia à distância de sete celas. Aos catorze anos tornara-se pregador de província, pregador regular do fogo e do enxofre do inferno, mas a sua carreira fora abreviada, e talvez adiada para sempre, quando foi acusado da violação e assassínio da mulher de um diácono. Agora tinha vinte e quatro anos e residia no Corredor há três anos; recentemente fizera um regresso glorioso ao Evangelho. A nota dizia:

Caro Sam, neste momento estou a rezar por ti. Acredito sinceramente que Deus interferirá nesta questão e acabará com tudo isto. Mas se o não fizer, peço-Lhe que te deixe partir rapidamente, sem dor e sem mais nada, e te leve para casa. Com amor, Randy.

Que maravilha, pensou, eles já estão a rezar para que eu parta rapidamente, sem dor nem nada. Sentou-se na beira da cama e escreveu uma breve mensagem num pedaço de papel.

Caro Randy:

Obrigado pelas orações. Preciso delas. Também preciso de um dos meus livros. O seu título é Bronstein Death Penalty Review. É um livro verde. Manda-mo. Sam.

Entregou a mensagem a J. B. e ficou à espera com os braços enfiados nas grades, enquanto ela descia a fileira. Eram quase oito horas, ainda estava quente e húmido, mas misericordiosamente a noite caía lá fora. A noite faria descer a temperatura para vinte e muitos graus e, com as ventoinhas a girar, as celas tornavam-se toleráveis.

Sam recebera vários papagaios nesse dia. Todos exprimiam simpatia e esperança. Todos ofereciam a ajuda que podiam. A música descera de tom e os gritos que irrompiam ocasionalmente quando os direitos de alguém eram atropelados não se tinham feito ouvir. Pelo segundo dia consecutivo, o Corredor mostrara-se um lugar mais tranquilo. As televisões soavam todo o dia e pela noite fora, mas o volume era mais baixo. A fileira A apresentava-se notavelmente mais calma.

- Arranjei um novo advogado - disse Sam tranquilamente inclinado sobre os cotovelos, com as mãos pendendo para fora da cela. Vestia apenas uns calções curtos. Quando falavam de uma cela para a outra, conseguia ver as mãos e os pulsos de Gullitt, mas nunca o seu rosto. Todos os dias, quando era levado lá para fora, para a sua hora de exercício, Sam caminhava lentamente pela fileira e fitava os olhos dos seus companheiros. E eles fitavam-no a ele. Tinha memorizado os seus rostos e conhecia- lhes as vozes. Mas era cruel viver ao lado de um homem durante anos e ter longas conversas sobre a vida e a morte vendo-lhe apenas as mãos.

- Óptimo, Sam. Estou satisfeito por saber isso. - Sim, um garoto muito arguto, segundo penso.

- Quem é ele? - Gullit tinha as mãos entrelaçadas. Não se mexeram.

- O meu neto - Sam disse isto em voz apenas suficientemente alta para Gullitt ouvir. Podia confiar-se-lhe um segredo.

Os dedos de Gullitt moveram-se ligeiramente enquanto ele ponderava a resposta.

- O teu neto?

- Sim, de Chicago, de uma grande firma. Pensa que talvez tenhamos uma hipótese.

- Nunca me disseste que tinhas um neto.

- Há vinte anos que não o via. Apareceu ontem e disse-me que era advogado e queria defender a minha causa.

- Por onde andou ele nos últimos dez anos?

- A crescer, penso eu. É apenas um garoto. Vinte e seis anos creio.

- Vais deixar um garoto de vinte e seis anos tomar conta do teu caso?

Isto irritou Sam um pouco.

- Neste momento da minha vida não tenho exactamente muitas opções.

- Diabos, Sam, sabes mais sobre leis do que ele.

- Eu sei, mas será bom ter um verdadeiro advogado lá fora a escrever petições e recursos em computadores de verdade e a entregá-los nos tribunais competentes, sabes. Será bom ter alguém que pode correr para os tribunais e discutir com os juízes, alguém que possa lutar com o estado em pé de igualdade.

Isto pareceu satisfazer Gullit porque ficou calado durante vários minutos. As mãos estavam quietas, mas depois começou a esfregar os dedos e isto, claro, queria dizer que alguma coisa o estava a preocupar. Sam esperou.

- Tenho andado a pensar numa coisa, Sam. Isto tem estado a afligir-me todo o dia.

- O que é?

- Bem, já há três anos que estou aqui e tu estás aqui, sabes, e és o meu melhor amigo no mundo. És a única pessoa em quem posso confiar e não sei o que fazer se te levarem pelo corredor fora até à câmara. Quer dizer, sempre te tive aqui para cuidar dos meus assuntos legais, coisas que nunca compreenderei, e sempre me deste bons conselhos e me disseste o que fazer. Não posso confiar no meu advogado em D. C. Nunca me escreve nem telefona e não sei o que diabo está a acontecer com o meu caso. Quer dizer, não sei se me falta um ano ou se me faltam cinco e isso é o suficiente para me pôr doido. Se não fosses tu, neste momento já estaria louco. E se tu não conseguires safar-te? - nesse momento as mãos dele saltavam e gesticulavam intensamente. Calou-se e as mãos aquietaram-se.

Sam acendeu um cigarro e ofereceu um a Gullitt, a única pessoa do corredor da morte com quem partilhava as coisas. Hank Henshaw à sua esquerda não fumava. Sopraram por momentos, cada um atirando nuvens de fumo para a fila de janelas dispostas na parte superior do hall.

Finalmente Sam disse:

- Não vou para lado nenhum, J. B. O meu advogado diz que temos boas hipóteses.

- Acreditas nele?

- Acho que sim. É um rapaz esperto.

- Deve ser estranho, pá, ter um neto como teu advogado. Não consigo imaginá-lo - Gullitt tinha trinta e um anos, casado, com filhos e queixava-se frequentemente do namorado da mulher. uma mulher cruel que nunca o visitava e uma vez lhe escreveera uma pequena carta com a boa notícia de que estava grávida. Gullitt amuara durante dois dias, até finalmente admitir perante Sam que lhe batera durante anos e que ele próprio perseguira várias mulheres. Escrevera novamente um mês depois dizendo que lamentava. Uma amiga emprestara-lhe dinheiro para um aborto, explicava, e afinal não queria o divórcio. Gullitt não podia ter ficado mais contente.

- É um pouco estranho, suponho - disse Sam. - Ele não se parece nada comigo, é parecido com a mãe.

- Então o garoto simplesmente apareceu e disse que era o teu neto há muito perdido?

- Não, a princípio não. Falámos durante algum tempo e a voz dele parecia-me familiar. Parecia-se com a do pai.

- O pai dele é teu filho, certo?

- Sim, mas morreu.

- O teu filho morreu?

- Sim.

O livro verde chegou finalmente do Preacher Boy com outra nota acerca de um sonho magnífico que tivera duas noites antes.

Adquirira recentemente o raro dom espiritual de interpretar os sonhos e mal podia esperar para partilhá-lo com Sam. O sonho ainda estava a revelar-se-lhe e assim que o tivesse todo conjugado descodificá-lo-ia, desvendá-lo-ia e revelá-lo-ia a Sam. Eram boas notícias, isso já ele sabia.

Pelo menos parou de cantar, disse Sam para si próprio quando acabou de ler a nota e sentou-se na cama. Preacher Bo fora também um cantor de cânticos de todas as espécies e sobretudo um poeta e periodicamente sentia-se tomado pelo espírito, ao ponto de fazer serenatas na fileira, alto e bom som, a todas as horas do dia e da noite. Era um tenor não treinado com poucos agudos mas um volume incrível, e as queixas furiosas surgiam rapidamente quando ele lançava para o corredor as suas novas melodias. Normalmente, o próprio Packer intervinha para acabar com o chinfrim. Sam tinha mesmo ameaçado intervir legalmente e apressar a execução do garoto se a gritaria não parasse, uma atitude sádica da qual, mais tarde, pediu desculpa. O pobre garoto era simplesmente doido e se vivesse tempo suficiente tencionava utilizar uma estratégia de insanidade sobre a qual lera no caso da Califórnia.

Deitou-se na cama e começou a ler. A ventoinha enfunava as páginas e fazia circular o ar pegajoso, mas em poucos minutos os lençóis da cama estavam molhados. Dormiu na humidade até às primeiras horas antes da madrugada, quando o Corredor estava

quase fresco e os lençóis quase secos.

 

A Auburn House nunca fora uma casa ou um lar, mas durante décadas fora uma pequena igreja elegante de tijolo amarelo com vitrais. Situava-se por trás de uma feia vedação de ferro num lote sombrio a alguns quarteirões da baixa de Memphis. Grafiti maculavam o tijolo amarelo e os vitrais tinham sido substituídos por madeira prensada. Há anos que a congregação se mudara para leste, para longe do centro da cidade, para a segurança dos subúrbios. Tinham levado os bancos, os livros de orações e até o campanário. Um segurança caminhava ao longo da vedação, pronto para abrir o portão. Ao lado ficava um edifício de apartamentos em ruínas e um quarteirão atrás situava-se um projecto habitacional federal em deterioração, de onde vinham os pacientes da Auburn House.

Eram todas jovens mães, adolescentes sem excepção, cujas mães também haviam sido adolescentes e cujos pais eram geralmente desconhecidos. A média de idades era de quinze anos. A mais jovem tivera apenas onze. Vinham do projecto com um bebé sentado na anca e por vezes outro agarrado às saias. Vinham em grupos de três ou quatro e faziam destas visitas um acontecimento social. Vinham sozinhas e assustadas. Juntavam-se no velho santuário que era agora uma sala de espera onde era exigida a papelada. Esperavam com os bebés, enquanto os mais crescidinhos brincavam debaixo das cadeiras. Conversavam com as amigas, outras raparigas do projecto que iam a pé até à Auburn House porque os

canos eram raros e elas demasiado jovens para conduzir.

Adam estacionou num pequeno campo ao lado e pediu informações ao segurança. Ele examinou Adam cuidadosamente e, em seguida, indicou a porta principal, onde duas jovens seguravam os seus bebés e fumavam. Passou entre elas, acenando e tentando mostrar-se educado, mas elas limitaram-se a fitá-lo. Lá dentro encontrou uma dúzia de mães idênticas sentadas em cadeiras de plástico com crianças zumbindo aos seus pés. Uma jovem sentada atrás de uma secretária apontou para uma porta e disse-lhe para tomar o corredor da esquerda.

A porta do pequeno gabinete de Lee estava aberta e ela falava gravemente com uma paciente. Sorriu para Adam.

- São só cinco minutos - disse, segurando o que parecia ser uma fralda. A paciente não tinha nenhuma criança nos braços, mas esperava uma para breve.

Adam deambulou lentamente pelo corredor e encontrou a casa de banho dos homens. Quando saiu, Lee estava à sua espera no átrio. Beijaram-se na face.

- O que achas da nossa pequena operação? - perguntou ela.

- O que fazem vocês exactamente aqui? - caminharam ao longo do estreito corredor de tapetes gastos e paredes a descascar.

- A Auburn House é uma organização não lucrativa que funciona com pessoal voluntário. Trabalhamos com mães jovens.

- Deve ser deprimente.

- Depende da maneira como se encara a questão. Bem-vindo ao meu gabinete - Lee fez um sinal na direcção da porta e entraram. As paredes estavam cobertas de mapas coloridos, mostrando uma série de bebés e os alimentos que comiam; outro apresentava, em palavras simples escritas com grandes letras, as doenças mais vulgares dos recém-nascidos; uma outra ilustração, tipo desenho animado, salientava as vantagens dos preservativos. Adam sentou- se e examinou as paredes.

- Todas as nossas garotas vêm dos projectos, por isso podes imaginar a instrução pós-natal que recebem em casa. Nenhuma delas é casada. Vivem com as mães, as tias ou as avós. A Auburn House foi fundada há vinte anos por algumas freiras, para ensinar estas garotas a criar bebés saudáveis.

Adam acenou com a cabeça na direcção do poster dos preservativos.

- E a evitar os bebés?

- Sim. Não fazemos planeamento familiar, nem queremos fazer, mas nunca é demais mencionar o controlo dos nascimentos.

- Talvez devessem fazer mais do que simplesmente mencioná-lo.

- Talvez. Sessenta por cento dos bebés nascidos neste condado no ano passado nasceram fora do casamento e os números sobem todos os anos. E todos os anos há mais casos de crianças maltratadas e abandonadas. Partiria o teu coração. Alguns destes pequeninos não têm nenhuma hipótese.

- Quem financia isto?

- É tudo privado. Passamos parte do tempo a tentar recolher dinheiro. Trabalhamos com um orçamento muito pequeno.

- Quantas conselheiras como tu existem?

- Mais ou menos uma dúzia. Umas trabalham algumas tardes por semana e outras aos sábados. Eu tenho sorte. Posso trabalhar aqui a tempo inteiro.

- Quantas horas por semana?

- Não sei. Quem as conta? Chego aqui por volta das dez e vou-me embora depois de escurecer.

- E fazes isto de graça?

- Sim. Vocês chamam-Lhe pro bono, acho eu.

- É diferente com os advogados. Fazemos trabalho voluntário para nos justificarmos e ao dinheiro que ganhamos, é a nossa pequena contribuição para a sociedade. Continuamos a ganhar muito dinheiro, compreendes. Isto é um pouco diferente.

- É compensador.

- Como descobriste este lugar?

- Não sei, foi há muito tempo. Era membro de um clube social, um clube de chá, e encontrávamo-nos uma vez por mês para um almoço maravilhoso e para discutir as formas de reunir algum dinheiro para os menos afortunados. Um dia uma freira falou-nos da Auburn House e adoptámo-la como a nossa obra de caridade. Uma coisa levou à outra.

- E não recebes nem um centavo?

- O Phelps tem muito dinheiro, Adam. Na realidade, doo muito à Auburn House. Agora temos uma festa anual de recolha de fundos no Peabody, traje de noite e champagne, e eu obrigo o Phelps a insistir com os seus amigos banqueiros para comparecerem com as mulheres e deixarem dinheiro. No ano passado, recolhemos mais de duzentos mil.

- Para onde vai esse dinheiro?

- Algum vai para o pessoal. Temos duas funcionárias a tempo inteiro. O edifício é barato, mas ainda assim custa dinheiro. O resto vai para alimentos para os bebés, medicamentos e literatura. Nunca é suficiente.

- Portanto, de certo modo, diriges este sítio?

- Não. Pagamos a um administrador. Sou apenas uma conselheira.

Adam estudou o poster colocado atrás dela, aquele que mostrava um volumoso preservativo amarelo serpenteando inofensivamente pela parede. Partindo das investigações e estudos mais recentes, calculou que estes pequenos dispositivos não eram utilizados pelos adolescentes, apesar das campanhas na televisão, dos slogans nas escolas e dos blocos publicitários da MTV feitos por estrelas de rock responsáveis. Não conseguia pensar em nada pior do que estar sentado todo o dia neste pequeno gabinete decadente a falar das assaduras das fraldas com mães de quinze anos de idade.

- Admiro-te por isto - disse ele, olhando para a parede que ostentava o poster da comida dos bebés.

Lee acenou afirmativamente, mas não disse nada. Tinha os olhos cansados e estava pronta para partir.

- Vamos comer - disse ela.

- Onde?

- Não sei, em qualquer lado.

- Vi o Sam hoje. Passei duas horas com ele.

Lee afundou-se na cadeira e colocou lentamente os pés em cima da secretária. Como habitualmente, usava jeans desbotadas e um camiseiro.

- Sou advogado dele.

- Ele assinou o acordo?

- Sim. Ele próprio preparou um, com quatro páginas. Ambos o assinámos e, portanto, agora é comigo.

- Estás assustado?

- Aterrorizado. Mas posso tratar do assunto. Falei com um repórter do Memphis Press esta tarde. Ouviram o boato de que Sam Cayhall é meu avô.

- O que lhe disseste?

- Não podia realmente negar, pois não? Ele queria fazer todo o tipo de perguntas acerca da família, mas eu disse-lhe pouco. Tenho a certeza de que ele vai investigar e descobrir mais algumas coisas.

- E a meu respeito?

- Certamente que não lhe falei de ti, mas ele vai começar a investigar. Lamento.

- Lamentas o quê?

- Lamento que talvez venham a revelar a tua verdadeira identidade. Serás assinalada como a filha de Sam Cayhall, assassino, racista, anti-semita, terrorista, membro do Klan, o homem mais velho que alguma vez foi conduzido à câmara de gás e gaseado como um animal. Vão expulsar-te da cidade.

- Já passei por coisas piores.

- O quê?

- Ser mulher de Phelps Booth.

Adam riu com a frase e Lee conseguiu mostrar um sorriso. Uma senhora de meia-idade assomou à porta aberta e disse a Lee que se ia embora. Lee pôs-se de pé de um salto e apresentou rapidamente o sobrinho jovem e bem- parecido, Adam Hall, um advogado de Chicago, que estava de visita. A senhora saiu do gabinete devidamente impressionada e desapareceu no hall.

- Não devias ter feito isso - disse Adam.

- Porque não?

- Porque amanhã o meu nome aparecerá no jornal... Adam Hall, advogado de Chicago e neto.

Antes de poder evitá-lo, Lee abriu ligeiramente a boca. Em seguida, encolheu os ombros como se não se importasse, mas Adam viu o medo nos olhos dela. Que erro tão estúpido, dizia ela para si própria.

- Quem se rala? - disse enquanto pegava na mala e na pasta.

- Vamos procurar um restaurante.

Foram a uma casa próxima, um restaurante italiano familiar com pequenas mesas e poucas luzes situado num bangalô adaptado. Sentaram-se num canto escuro e pediram bebidas, chá gelado para ela e água mineral para ele. Quando o criado se afastou, Lee inclinou-se sobre a mesa e disse:

- Adam, há uma coisa que preciso de dizer-te. Ele acenou afirmativamente, mas não disse nada.

- Sou alcoólica.

Os olhos dele semicerraram-se e em seguida ficaram imóveis. Nas duas últimas noites tinham bebido juntos.

- Foi há cerca de dez anos - explicou ela, ainda inclinada sobre a mesa. A pessoa mais próxima estava a uma distância de quatro metros. - Houve muitas razões, algumas das quais provavelmente poderás adivinhar. Passei pela recuperação, saí curada e durou um ano. Depois, novamente a reabilitação. Já passei pelo tratamento três vezes, o último há cinco anos. Não é fácil.

- Mas ontem à noite tomaste uma bebida. Várias bebidas.

- Eu sei. E na noite anterior também. E hoje esvaziei todas as garrafas e deitei fora a cerveja. Não há nem uma gota no apartamento.

- Por mim está óptimo. Espero não ter sido eu a causa.

- Não, mas preciso da tua ajuda, está bem? Vais viver comigo durante alguns meses e vamos ter alguns momentos maus. Só quero que me ajudes.

- Claro, Lee. Gostaria que me tivesses dito assim que cheguei. Não bebo muito. Posso beber ou não beber.

- O alcoolismo é um animal estranho. Às vezes posso estar a ver outras pessoas a beber e isso não me incomoda nada. Depois vejo um anúncio de cerveja e começo a transpirar. Vejo numa revista um anúncio de um vinho de que costumava gostar e o desejo é tão intenso que sinto náuseas. É uma luta terrível.

As bebidas chegaram e Adam sentiu receio de tocar na sua água mineral. Deitou-a sobre o gelo e mexeu com uma colher.

- É de familia? - perguntou, quase certo que era assim.

- Acho que não. Quando éramos pequenos, o Sam escapava-se e bebia um pouco, mas escondia-o de nós. A mãe da minha mãe era alcoólica, por isso a minha mãe não tocava em bebidas. Nunca vi álcool em casa.

- Como aconteceu?

- Gradualmente. Quando saí de casa, mal podia esperar para experimentar, porque era uma coisa proibida em casa quando eu e o Eddie estávamos a crescer. Depois conheci o Phelps e ele vem de uma familia de intensos alcoólicos sociais. Tornou-se um refúgio e depois uma muleta.

- Farei tudo o que puder. Lamento.

- Não lamentes. Gostei de tomar uma bebida contigo, mas está na hora de me deixar disso, sim? Já caí do cavalo três vezes e tudo começa sempre com a ideia de que posso tomar uma bebida ou duas e manter tudo controlado. Uma vez passei um mês a beber vinho limitando-me a um copo por noite. Em seguida, passei a copo e meio, dois copos, três copos. Depois, reabilitação. Sou alcoólica e nunca hei-de ultrapassar o facto.

Adam levantou o copo e tocou no dela.

- Ao cavalo! Vamos cavalgá-lo juntos - beberam as bebidas sem álcool.

O criado era um estudante que fez rapidamente uma ideia daquilo que eles deveriam comer. Sugeriu o ravioli do chefe, simplesmente porque era o melhor da cidade e estaria na mesa em dez minutos. Eles concordaram.

- Perguntei-me muitas vezes o que farias no teu tempo livre, mas tive receio de perguntar - disse Adam.

- Já trabalhei. Depois do Walt nascer e ir para a escola comecei a ficar aborrecida, por isso o Phelps arranjou-me um emprego na companhia de um dos seus amigos. Grande salário, belo escri tório. Tinha a minha própria secretária que sabia muito mais do

que eu acerca do meu trabalho. Despedi-me ao fim de um ano. Casei rica, Adam, portanto não é suposto trabalhar. A mãe do Phelps ficou horrorizada por eu ganhar um salário.

- O que fazem as mulheres ricas durante o dia?

- Carregam os pecados do mundo. Primeiro, têm que certificar-se que o maridinho sai para o trabalho e, em seguida, planeiam o dia. É preciso instruir e supervisionar os criados. As compras são divididas em pelo menos duas partes, manhã e tarde, consistindo as da manhã, sobretudo, em telefonemas para a Quinta Avenida a encomendar provisões. As compras da tarde por vezes são feitas pessoalmente e, evidentemente, com o motorista à espera no parque de estacionamento. O almoço ocupa a maior parte do dia, porque leva horas a planear e pelo menos duas horas a executar. Normalmente, é um pequeno banquete a que comparecem mais das mesmas almas atormentadas. Depois há a responsabilidade social inerente ao facto de se ser uma mulher rica. Pelo menos três vezes por semana comparece a chás em casa das amigas, onde mordiscam biscoitos importados e lamentam a sorte dos bebés abandonados e das mães que fumam erva. Depois, é o regresso apressado a casa para se prepararem para o regresso do maridinho das guerras do escritório. Bebe o seu primeiro martini com ele junto da piscina, enquanto quatro pessoas lhes preparam o jantar.

- E o sexo?

- Ele está cansado demais. Além disso, provavelmente tem uma amante.

- Foi isso que aconteceu com o Phelps?

- Acho que sim, embora ele não se pudesse queixar do sexo. Tive um filho, fiquei mais velha e ele sempre teve um suprimento fixo de jovens louras nos seus bancos. Não acreditarias no escritório dele. Está cheio de mulheres lindas, com dentes e unhas impecáveis, todas de saias curtas e longas pernas. Sentam-se atrás de bonitas secretárias e falam ao telefone e esperam as ordens dele. Tem um pequeno quarto ao lado da sala de reuniões. O homem é um animal.

- Portanto, desististe da dura vida de mulher rica e mudaste-te?

- Sim, não era uma mulher rica lá muito boa, Adam. Odiava aquilo. Foi divertido durante muito pouco tempo, mas eu não conseguia adaptar-me. Não tinha o tipo de sangue adequado. Quer acredites quer não, a minha família não era conhecida nos círculos sociais de Memphis.

- Deves estar a brincar.

- Juro. E para ser uma mulher rica adequada com futuro nesta cidade é necessário vir de uma família de fósseis ricos, de preferência com um bisavô que tenha feito fortuna no algodão. Eu não me adequava.

- Mas ainda jogas o jogo social.

- Não, ainda apareço, mas apenas pelo Phelps. É importante para ele ter uma mulher da sua idade com um toque grisalho, uma mulher madura que pareça bem num vestido de noite e diamantes e possa passar um bocado a aturar os seus aborrecidos amigos.

Saímos três vezes por ano. Sou uma espécie de mulher-troféu a envelhecer.

- Parece-me que ele desejaria uma verdadeira mulher-troféu, uma das suas louras elegantes.

- Não, a familia ficaria destroçada e há muito dinheiro em jogo.

O Phelps caminha sobre cascas de ovos à volta da familia. Quando os pais morrerem, ele estará pronto para se mostrar como é.

- Pensava que os pais dele te odiavam.

- Claro que sim. É irónico que sejam eles a razão pela qual continuamos casados. Um divórcio seria escandaloso.

Adam riu e abanou a cabeça espantado.

- É uma loucura!

- Sim, mas funciona. Eu sou feliz. Ele é feliz. Ele tem as suas pequenas. Eu divirto-me com quem quero. Não fazemos perguntas.

- E quanto ao Walt?

Ela pousou lentamente o copo de chá em cima da mesa e desviou o olhar.

- O que se passa com ele? - perguntou sem olhar.

- Nunca falas dele.

- Eu sei - disse ela brandamente, ainda a observar qualquer coisa do outro lado da sala.

- Deixa-me adivinhar. Mais esqueletos no armário. Mais segredos.

Ela olhou-o tristemente e, em seguida, encolheu os ombros como se dissesse que se lixe.

- Afinal ele é meu primo em primeiro grau - disse Adam.

- E que eu saiba, excluindo a hipótese de outras revelações futuras, é o meu único primo.

- Não gostarias dele.

- Claro que não. É parte Cayhall.

- Não. É todo Booth. O Phelps queria um filho, porquê não sei. Por isso tivemos um filho. O Phelps, claro, tinha pouco tempo para ele. Sempre demasiado ocupado no banco. Levou-o ao clube dele e tentou ensinar-lhe a jogar golfe, mas não deu resultado. O Walter nunca gostou de desportos. Certa vez foram ao Canadá caçar faisões e quando regressaram não falaram um com o outro durante uma semana. Não era um maricas, mas também não era do tipo atlético. Phelps fora um grande desportista na escola secundária - futebol, râguebi, boxe, tudo. O Walt tentou jogar, mas simplesmente não tinha jeito. O Phelps foi ainda mais duro com ele e o Walt revoltou-se. Por isso, o Phelps, sempre autoritário, mandou-o para um colégio interno. O meu filho saiu de casa aos quinze anos.

- Que faculdade é que ele frequentou?

- Passou um ano em Cornell e depois desistiu.

- Desistiu?

- Sim. Depois do primeiro ano foi para a Europa e ainda continua lá.

Adam analisou o rosto dela e esperou pelo resto. Beberricou a água e estava prestes a falar quando o criado apareceu e colocou rapidamente uma grande tigela de salada entre ambos.

- Porque é que ele ficou na Europa?

- Foi para Amesterdão e apaixonou-se.

- Uma simpática rapariga holandesa?

- Um simpático rapaz holandês.

- Compreendo.

Subitamente ela ficou muito interessada na salada, que deitou no prato e começou a cortar em pedacinhos. Adam fez o mesmo e comeram em silêncio durante algum tempo, enquanto o restaurante se enchia e tornava mais barulhento. Um casal atraente de yuppies fatigados sentou-se na pequena mesa ao seu lado e pediu bebidas fortes.

Adam barrou um pãozinho com manteiga, deu uma dentada e em seguida perguntou:

- Como reagiu o Phelps?

Ela limpou os cantos da boca.

- A última viagem que eu e o Phelps fizemos juntos foi a Amesterdão para procurar o nosso filho. Ele tinha partido há quase dois anos. Escrevera algumas vezes e telefonava-me ocasionalmente, mas depois toda a correspondência se interrompeu. Estávamos preocupados, claro, por isso fomos até lá e instalámo-nos num hotel até o encontrarmos.

- O que andava ele a fazer?

- A trabalhar como criado num café. Usava um brinco em cada orelha. Tinha o cabelo rapado. Roupas esquisitas. Usava aquelas malditas socas com meias de lã. Falava um holandês perfeito. Não queríamos fazer uma cena, por isso pedimos-lhe que fosse ter connosco ao hotel. Ele veio e foi horrível, simplesmente horrível. Phelps tratou do assunto como o idiota que é e os prejuízos foram irreparáveis. Voltámos para casa. Phelps fez uma grande cena modificando o testamento e revogando o fundo de Walt.

- Ele nunca mais voltou a casa?

- Nunca. Encontro-me com ele em Paris uma vez por ano. Ambos vamos sós, é a única regra. Ficamos num bom hotel e passamos uma semana juntos, a passear pela cidade, a comer bem, a visitar os museus. É o ponto alto do meu ano. Mas ele odeia Memphis.

- Gostava de o conhecer.

Lee observou-o cuidadosamente e depois os seus olhos encheram-se de lágrimas.

- Deus te abençoe. Se estás a falar a sério, adorava que viesses comigo.

- Estou a falar a sério. Não me interessa se ele é gay. Gostaria de conhecer o meu primo direito.

Ela respirou profundamente e sorriu. O ravioli chegou em dois pratos transbordantes com vapor a subir em todas as direcções. Um grande pão de alho foi colocado na extremidade da mesa e o criado desapareceu.

- O Walt sabe acerca do Sam? - perguntou Adam.

- Não, nunca tive coragem para lhe dizer.

- Ele sabe alguma coisa de mim e da Carmen? Do Eddie? Alguma coisa da gloriosa história da família?

- Sim, um pouco. Quando ele era rapazinho, disse-lhe que tinha primos na Califórnia, mas que nunca vinham a Memphis. O Phelps, claro, disse-lhe que os primos da Califórnia pertenciam a uma classe social muito mais baixa e, portanto, não eram dignos da sua atenção. O Walter foi educado pelo pai para ser um snob, Adam, tens de compreender isso. Frequentou os colégios mais prestigiados, andou pelos clubes mais elegantes e a sua familia era um bando de primos Booth todos iguais. São todos pessoas infelizes.

- E o que pensam os Booth de ter um homossexual na família?

- Detestam-no, claro. E ele detesta-os.

- Já gosto dele.

- Não é mau rapaz. Quer estudar arte e pintura. Estou sempre a mandar-lhe dinheiro.

- O Sam sabe que tem um neto homossexual?

- Acho que não. Não sei de ninguém que pudesse dizer-lho.

- Eu provavelmente não lho direi.

- Por favor, não o faças. Ele já tem bastante com que se preocupar.

O ravioli arrefeceu o suficiente para ser comido e eles apreciaram-no em silêncio. O criado trouxe mais água e chá. O casal sentado ao lado deles pediu uma garrafa de vinho tinto e Lee olhou-a mais do que uma vez.

Adam limpou a boca e descansou por momentos. Inclinou-se sobre a mesa.

- Posso fazer-te uma pergunta pessoal? - disse calmamente.

- Todas as tuas perguntas parecem ser pessoais.

- Certo. Então posso fazer mais uma?

- Faz.

- Bem, estava só a pensar. Esta noite disseste-me que és alcoólica, que o teu marido é um animal e o teu filho homossexual. É muito para uma única refeição. Mas haverá mais alguma coisa que eu deva saber?

- Deixa-me pensar, sim, o Phelps também é alcoólico, mas recusa-se a admiti-lo.

- Mais alguma coisa?

- Foi processado duas vezes por assédio sexual.

- Muito bem. Esquece os Booth. Mais algumas surpresas do nosso lado da família?

- Nem sequer arranhámos a superfície, Adam.

- Já receava isso.

 

Uma estrondosa trovoada cruzou o Delta antes da madrugada e Sam foi acordado pelo estralejar de um relâmpago. Ouviu as gotas de chuva baterem com força na janela aberta sobre o átrio. Em seguida, ouviu-as pingar e formarem uma poça junto à parede perto da sua cela. A humidade da cama tornou-se subitamente fria. Talvez nesse dia não fizesse tanto calor. Talvez a chuva se mantivesse e escondesse o sol e talvez o vento arrastasse a humidade para longe por um dia ou dois. Tinha sempre esta esperança quando chovia, mas normalmente no Verão uma trovoada significava apenas o chão encharcado que, sob o sol escaldante, produzia um calor ainda mais sufocante.

Levantou a cabeça e ficou a ver a chuva cair pelas janelas e formar poças no chão. A água cintilava na luz reflectida por uma lâmpada amarela à distância. À excepção desta luz ténue, o Corredor estava às escuras. E em silêncio.

Sam adorava a chuva, especialmente à noite e especialmente no Verão. O estado do Mississípi, na sua ilimitada sabedoria, tinha construído a sua prisão no local mais quente que conseguira encontrar. E tinha concebido a sua Unidade de Segurança Máxima segundo as linhas de um forno. As janelas para o exterior eram pequenas e inúteis, construídas dessa forma por razões de segurança, claro. Os planeadores desta pequena filial do inferno tinham decidido igualmente que não existiria ventilação de qualquer género, nenhuma hipótese de uma brisa penetrar ou do ar húmido sair. E depois de terem construído aquilo que consideraram como uma instituição penal modelo, decidiram que não instalariam nenhum ar condicionado. Erguer-se-ia orgulhosamente ao lado da

soja e do algodão e absorveria do solo o mesmo calor e humidade. E quando a terra secasse, o Corredor simplesmente assaria, tal como as colheitas.

Mas o estado do Mississípi não podia controlar o clima e quando as chuvas chegavam e arrefeciam o ar, Sam sorria para si próprio e rezava uma pequena oração de graças. Afinal, havia um ser mais alto encarregado de controlar as coisas. O estado era impotente quando chovia. Era uma pequena vitória.

Pôs-se lentamente de pé e esticou as costas. A cama consistia num pedaço de espuma, um metro e oitenta por setenta e seis centímetros, dez centímetros de espessura, também chamado de colchão. Assentava sobre uma estrutura de metal solidamente pregada ao chão e à parede. Era coberta por dois lençóis. Por vezes, no inverno, distribuíam cobertores. As dores nas costas eram vulgares no Corredor, mas com o tempo o corpo habituava-se e havia menos queixas. O médico da prisão não era considerado um amigo dos reclusos do corredor da morte.

Deu dois passos e passou os cotovelos através das grades. Escutou o vento e os trovões e observou as gotas a caírem pelo parapeito da janela e salpicarem o chão. Como seria maravilhoso atravessar aquela parede e caminhar pela relva molhada do outro lado, vaguear pelos campos da prisão sob a chuva que caía, completamente nu e louco, completamente encharcado com a água a pingar dos cabelos e da barba.

O horror do corredor da morte é que se morre um pouco todos os dias. A espera mata. Vivemos numa gaiola e quando acordamos marcamos mais um dia e dizemos a nós próprios que estamos um dia mais perto da morte.

Sam acendeu um cigarro e observou o fumo a subir na direcção das gotas de chuva. Acontecem coisas estranhas com o nosso absurdo sistema judicial. Os tribunais dão sentenças num sentido num dia e noutro sentido no dia seguinte. Os mesmos juízes chegam a conclusões diferentes sobre questões habituais. o tribunal ignora uma moção ou apelo esquisitos durante anos e, depois, certo dia reconhece-o e concede o perdão. Os juízes morrem e são substituídos por outros que pensam de modo diferente. Os presidentes vão e vêm e nomeiam os amigos para os tribunais. O Supremo Tribunal decide num sentido e depois noutro.

Por vezes a morte seria bem-vinda. E se lhe dessem a escolher entre a morte de um lado e a vida no corredor da morte de outro, Sam aceitaria rapidamente o gás. Mas havia sempre esperança, sempre a leve e brilhante promessa de que alguma coisa, algures, no vasto labirinto da selva judicial, fizesse vibrar em alguém uma corda e o seu caso fosse invertido. Todos os moradores do Corredor sonhavam com o milagre celeste da reversão. E os seus sonhos levavam-nos de um miserável dia para o seguinte.

Sam tinha lido recentemente que existiam na América quase dois mil e quinhentos reclusos condenados à morte e no ano anterior, 1989, só dezasseis tinham sido executados. O Mississípi tinha executado apenas quatro desde 1977, o ano em que Gary Gilmore insistira na criação de um pelotão de fuzilamento no Utah. Aqueles números transmitiam alguma segurança. Fortaleciam a sua decisão de interpor ainda mais recursos.

Fumou através das grades enquanto a tempestade passava e a chuva parava. Tomou o pequeno-almoço enquanto o sol nascia e às sete horas acendeu a televisão para ouvir as notícias da manhã. Acabara de dar uma dentada num pedaço de torrada fria quando subitamente o seu rosto apareceu no ecrã por trás de uma apresentadora do telejornal da manhã de Memphis. Ela relatou ansiosamente a excitante história principal do dia, o caso bizarro de Sam Cayhall e do seu novo advogado. Parecia que o seu novo advogado era o neto há muito perdido, um tal Adam Hall, um jovem advogado da enorme firma de advogados de Chicago, Kravitz & Bane, a qual representara Sam nos últimos sete anos. A fotografia de Sam tinha pelo menos dez anos, a mesma que usavam sempre que o seu nome era citado na TV ou na imprensa. A foto de Adam era um pouco mais estranha. Era óbvio que não posara para ela. Alguém a tirara na rua quando ele não estava a olhar. Ela explicou com olhos assustados que o Memphis Press dessa manhã informava que Adam Hall confirmara ser realmente o neto de Sam Cayhall. Esquematizou rapidamente o crime de Sam e disse duas vezes a data da sua iminente execução. Mais tarde daremos mais pormenores desta história, prometeu ela, talvez já nas notícias do meio-dia. Depois passou ao resumo dos crimes da noite anterior.

Sam atirou a tosta para o chão perto das estantes e ficou a olhar para ela. Um insecto encontrou-a quase de imediato e rastejou sobre e em volta dela meia dúzia de vezes antes de decidir que não era boa para comer. O seu advogado já tinha falado à imprensa. O que é que ensinam a estes tipos na faculdade de Direito?

Darão alguma instrução sobre o controlo dos media?

- Sam, estás aí? - perguntou Gullitt.

- Sim, estou aqui.

- Acabo de ver-te no canal quatro.

- Sim, também vi.

- Estás chateado?

- Estou bem.

- Respira fundo, Sam. Está tudo bem.

Entre os homens condenados a morrer na câmara de gás, a expressão Respira fundo" era usada frequentemente e considerada apenas como uma tentativa de gracejo. Estavam sempre a dizê-la uns aos outros, normalmente quando algum estava zangado. Porém, quando usada pelos guardas, estava longe de ter graça. Era uma violação constitucional. Fora mencionada em mais de um processo legal como exemplo do tratamento cruel dispensado no corredor da morte.

Sam concordou com o insecto e ignorou o resto do pequeno-almoço. Bebeu o café e fixou o chão.

Às nove e meia o sargento Packer estava na fileira à procura de Sam. Estava na altura da sua hora no exterior. As chuvas tinham-se afastado e o sol abrasava o Delta. Packer tinha consigo dois guardas e um par de perneiras de ferro. Sam apontou para as cadeias e perguntou:

- Isso é para quê?

- Para a segurança, Sam.

- Vou só lá fora apanhar ar, não é verdade?

- Não, Sam. Vamos levar-te à biblioteca legal. O teu advogado quer encontrar-se aí contigo, para que possam conversar no meio dos livros de Direito. Agora vira-te.

Sam estendeu ambas as mãos pela abertura da porta. Packer algemou-as pouco apertadas e, em seguida, abriu a porta e Sam saiu para o corredor. Os guardas ajoelharam-se e estavam a prender as perneiras de ferro quando Sam perguntou:

- E a minha hora de saída?

- O que se passa com ela?

- Quando é que a tenho?

- Mais tarde.

- Disseste o mesmo ontem, mas não aconteceu nada. Mentiste-me ontem. Agora estás a mentir outra vez. Vou processar-te por isto.

- Os processos levam muito tempo, Sam. Duram anos.

- Quero falar com o director.

- E tenho a certeza de que ele também quer falar contigo, Sam. Agora, queres ir falar com o teu advogado ou não?

- Tenho direito ao meu advogado e também tenho direito à minha hora de saída.

- Deixa de o chatear, Packer! - gritou Hank Henshaw, a menos de um metro de distância.

- Estás a mentir, Packer! Estás a mentir! - acrescentou J. B. Gullitt do outro lado.

- Calma, rapazes - disse Packer friamente. - Nós vamos tomar conta do velho Sam.

- Claro, levá-lo-iam hoje para a câmara de gás se pudessem - gritou Henshaw.

As perneiras de ferro já estavam colocadas e Sam arrastou-se até à sua cela para ir buscar um dossier. Apertou-o contra o peito e gingou pela fileira abaixo com Packer ao seu lado e os dois guardas atrás.

- Fá-los passar um mau bocado, Sam - gritou Henshaw enquanto se afastavam.

Ouviram-se outros gritos de apoio a Sam e insultos a Packer enquanto saíam da fileira. Passaram através de um conjunto de portas e a Fileira A ficou para trás.

- O director disse que esta tarde tens direito a duas horas lá fora e duas horas por dia até ao fim - disse Packer enquanto passavam lentamente por um pequeno corredor.

- Até ao fim de quê?

- Desta confusão.

- Que confusão?

Packer e a maior parte dos guardas chamavam às execuções confusão.

- Sabes o que quero dizer - disse Packer.

- Diz ao director que é mesmo um amor. E pergunta-lhe se continuo a ter duas horas se esta confusão não acontecer, está bem? E de caminho, diz-lhe que eu penso que ele é um filho da mãe mentiroso.

- Ele já sabe isso.

Pararam junto de uma parede de grades e esperaram que a porta se abrisse. Atravessaram-na e pararam novamente junto de dois guardas na porta principal. Packer escreveu rapidamente umas notas num quadro e saíram lá para fora, onde uma carrinha branca estava à espera. Os guardas agarraram Sam pelos braços e ergueram-no, a ele e às suas cadeias, pela porta lateral. Packer sentou-se à frente ao lado do motorista.

- Esta coisa tem ar condicionado? - perguntou Sam rispidamente ao motorista, cujajanela estava aberta.

- Sim - disse o motorista enquanto se afastavam da portaria da USM.

- Então, liga essa maldita coisa.

- Pára com isso, Sam - disse Packer sem convicção.

- Já é suficientemente mau transpirar durante todo o dia numa gaiola sem ar condicionado, mas ainda é mais estúpido estar aqui sentado a sufocar. Liga a maldita coisa. Tenho os meus direitos.

- Respira fundo, Sam - cantarolou Packer e piscou o olho ao motorista.

- Isso vai sair-te caro, Packer. Vais desejar nunca ter dito isso.

O motorista carregou num botão e o ar começou a circular. A carrinha passou pelos portões duplos e afastou-se lentamente do Corredor pela estrada de terra.

Embora estivesse algemado e agrilhoado, esta breve viagem ao exterior era refrescante. Sam parou de resmungar e ignorou imediatamente os outros passageiros da carrinha. A chuva deixara poças nos buracos cheios de erva ao lado da estrada e lavara as plantas do algodão, que tinham agora a altura dos joelhos. Os caules e as folhas eram verde-escuros. Sam lembrou-se de que apanhara algodão quando era rapaz e em seguida afastou rapidamente o pensamento. Treinara o cérebro para esquecer o passado e nas raras ocasiões em que uma memória da infância lhe atravessava o espírito abafava-a rapidamente.

A carrinha avançava lentamente e sentiu-se grato por isso. Olhou para dois reclusos sentados debaixo de uma árvore a observar um camarada a levantar pesos ao sol. Havia uma vedação à volta deles, mas como era agradável, pensou ele, estar ao ar livre, a andar, a falar, a fazer exercício, a sonhar, sem nunca pensar na câmara de gás, sem nunca se preocupar com o último recurso.

À biblioteca de Direito chamavam-lhe Raminho, porque era demasiado incompleta para ser considerada um ramo adulto. A principal biblioteca de Direito da prisão situava-se no meio da quinta, noutro campo. A Raminho era usada exclusivamente pelos reclusos do corredor da morte. Ficava pegada às traseiras de um edifício da administração, só com uma porta e sem janelas. Sam estivera lá muitas vezes no decurso dos últimos nove anos. Era uma pequena sala com uma razoável colecção de livros de Direito vulgares e informações actualizadas. Tinha ao centro uma velha mesa de reuniões, com prateleiras de livros alinhadas ao longo das quatro paredes. De vez em quando, um recluso de confiança oferecia-se como bibliotecário, mas era difícil encontrar uma ajuda decente e os livros raramente se encontravam onde era suposto estarem. Isto irritava muito Sam, porque admirava a ordem e desprezava os africanos e acreditava que a maioria, senão todos, os bibliotecários eram negros, embora não pudesse ter a certeza.

À porta, os dois guardas tiraram as grilhetas a Sam.

- Tens duas horas - disse Packer.

- Tenho o tempo que quiser - disse Sam esfregando os pulsos como se as algemas os tivessem partido.

- Claro, Sam, mas tenho a certeza de que, daqui a duas horas, quando vier buscar-te, te enfiarei dentro da carrinha.

Packer abriu a porta enquanto os guardas tomavam posição ao lado dela. Sam entrou na biblioteca e bateu com a porta atrás de si.

Pousou o dossier em cima da mesa e olhou para o advogado.

Adam estava de pé junto da extremidade mais afastada da mesa, a segurar um livro enquanto esperava pelo seu cliente.

Ouvira vozes lá fora e vira Sam entrar na sala sem guardas e sem algemas. Ficou ali no seu fato-macaco vermelho, muito mais pequeno agora sem a espessa divisória de metal entre eles.

Estudaram-se um ao outro por momentos através da mesa, neto e avô, advogado e cliente, estranho e estranho. Foi um momento embaraçoso, durante o qual se estudaram um ao outro, sem que nenhum soubesse o que fazer com o outro.

- Olá, Sam - disse Adam caminhando na sua direcção.

- B'dia. Vi-nos na televisão há umas horas.

- Sim, já leu o jornal?

- Ainda não, só chega mais tarde.

Adam empurrou o jornal por cima da mesa e Sam agarrou-o.

Segurou-o com ambas as mãos, instalou-se numa cadeira e ergueu o jornal a uma distância de doze centímetros do nariz.

Leu cuidadosamente e examinou as fotografias de si próprio e de Adam.

Era evidente que Todd Marks passara a maior parte da noite a investigar e a fazer telefonemas. Verificara que um certo Alan Cayhall nascera em Clanton, Ford County, em 1964 e que o nome do pai registado na certidão de nascimento era um tal Edward S. Cayhall. Verificara a certidão de nascimento de Edward S. Cayhall e descobrira que o seu pai era Samuel Lucas Cayhall, o mesmo homem que agora se encontrava no corredor da morte. Contava que Adam Hall confirmara que o nome do pai fora alterado na Califórnia e que o avô era Sam Cayhall.

Tivera o cuidado de não citar Adam directamente, mas apesar de tudo violara o seu acordo. Não havia dúvidas que os dois tinham conversado.

Citando fontes anónimas, a história explicava como Eddie e a família tinham deixado Clanton em 1967, depois da prisão de Sam, e fugido para a Califórnia, onde mais tarde Eddie se suicidara. A pista terminava aí, porque obviamente Marks não tivera tempo suficiente para confirmar nada na Califórnia. A fonte ou fontes anónimas não mencionavam a filha de Sam residente em Memphis, por isso Lee fora poupada. A história perdia calor com uma série de não comentários de Baker Cooley, Garner Goodman, Phillip Naifeh, Lucas Mann e de um advogado que trabalhava no gabinete do procurador-geral em Jackson. No entanto, Marks terminava em força com uma recapitulação sensacionalista do atentado Kramer.

A história vinha na primeira página do Press, acima do cabeçalho principal. A velha fotografia de Sam encontrava-se à direita e junto dela havia uma estranha fotografia de Adam da cintura para cima. Lee trouxera-lhe o jornal horas antes, quando ele estava sentado no terraço a observar o tráfego matinal no rio. Beberam café e sumo e leram a história uma vez e outra. Depois de muita análise, Adam decidira que Todd Marks colocara um fotógrafo à saída do hotel Peabody e quando Adam saíra da sua pequena reunião para o passeio fora fotografado. O fato e a gravata eram definitivamente os que usara no dia anterior.

- Falaste com este palhaço? - rosnou Sam colocando o jornal em cima da mesa. Adam sentou-se em frente dele.

- Encontrámo-nos.

- Porquê?

- Porque ele telefonou para o nosso escritório de Memphis, disse que ouvira alguns boatos e eu queria que ele percebesse as coisas correctamente. Não é nada de mais.

- As nossas fotografias na primeira página não são nada de especial?

- Já passou por isso antes.

- E tu?

- Não posei exactamente. Foi uma emboscada, percebe? Mas acho que não tenho mau aspecto.

- Confirmaste-lhe estes factos?

- Sim, concordámos em que seria uma história de fundo e que não poderia citar-me. Nem era suposto utilizar-me como fonte. Ele violou o nosso acordo e está lixado comigo. Também colocou um fotógrafo, por isso foi esta a primeira e última vez que falei com o Memphis Press.

Sam olhou para o jornal durante uns momentos. Estava tranquilo e as suas palavras foram tão lentas como sempre. Conseguiu esboçar um sorriso.

- E confirmaste que eras meu neto?

- Sim, não posso realmente negá-lo, pois não?

- Queres negá-lo?

- Leia o jornal, Sam. Se o quisesse negar, estaria na primeira página?

Isto pareceu satisfazer Sam e o seu sorriso alargou-se um pouco. Mordeu o lábio e fitou Adam. Depois retirou metodicamente um maço de cigarros novo e Adam olhou em volta à procura de uma janela.

Depois de acender o primeiro, Sam disse:

- Afasta-te da imprensa. São impiedosos e estúpidos. Mentem e cometem erros por descuido.

- Mas eu sou advogado, Sam. É inato.

- Eu sei. É difícil mas tenta controlar-te. Não quero que isto suceda de novo.

Adam estendeu a mão para a pasta, sorriu e puxou alguns papéis para fora.

- Tenho uma ideia maravilhosa para lhe salvar a vida esfregou as mãos e depois tirou uma caneta do bolso. Estava na hora de começar a trabalhar.

- Estou a ouvir.

- Bem, como pode imaginar, tenho andado a fazer muita investigação.

- É para isso que te pagam.

- Sim e construí uma pequena teoria maravilhosa, uma nova petição que tenciono interpor na segunda-feira. A teoria é simples. O Mississípi é um dos únicos cinco estados que ainda usam a câmara de gás, certo?

- Certo.

- E a Assembleia Legislativa do Mississípi em 1984 aprovou uma lei dando aos condenados a oportunidade de escolher entre uma injecção letal ou a câmara de gás. Mas a nova lei aplica-se apenas aos condenados depois de 1 de Julho de 1984. Não se aplica a si.

- Está correcto. Acho que cerca de metade dos tipos que estão no Corredor poderão escolher No entanto, ainda faltam anos.

- Uma das razões pelas quais a Assembleia Legislativa aprovou a injecção letal foi para tornar as mortes mais humanas. Estudei a história legislativa da lei e houve muita discussão dos problemas causados ao estado pela execução na câmara de gás. A teoria é simples: tornando as execuções rápidas e sem dor haverá menos queixas constitucionais quanto à sua crueldade. As injecções letais levantam menos problemas legais, por isso as execuções tornam-se mais fáceis de realizar. Então, a nossa teoria é que uma vez que o estado adoptou a injecção letal, isso significa que a câmara de gás se tornou obsoleta. E porque é que é obsoleta? Porque é uma forma cruel de matar pessoas.

Sam ficou a fumar e a pensar no assunto por um momento e acenou lentamente.

- Continua - disse.

- Atacamos a câmara de gás como método de execução.

- Vais limitar-te ao Mississípi?

- Provavelmente. Sei que houve problemas com o Teddy Doyle Meeks e com o Maynard Tole.

Sam rosnou e soprou fumo para cima da mesa.

- Problemas? Bem podes dizê-lo.

- O que é que sabe?

- Vá lá, eles morreram a quarenta e cinco metros de mim. Sentámo-nos nas nossas celas durante todo o dia e pensámos na morte. Todos no Corredor sabem o que aconteceu a esses rapazes.

- Fale-me deles.

Sam inclinou-se para a frente apoiado nos cotovelos e ficou a olhar de modo ausente para o jornal à sua frente.

- O Meeks foi a primeira execução efectuada no Mississípi ao fim de dez anos e eles não sabiam o que estavam a fazer. Foi em 1982. Eu estava cá há quase dois anos e até aí vivíamos num mundo de sonho. Nunca pensávamos em câmaras de gás, bolas de

cianeto ou últimas refeições. Estávamos condenados à morte mas, que diabo, não estavam a matar ninguém, porque havíamos de nos preocupar? Mas o Meeks acordou-nos. Mataram-no, portanto poderiam certamente matar os outros.

- O que Lhe aconteceu? - Adam lera uma dúzia de histórias sobre a grosseira execução de Teddy Doyle Meeks, mas queria ouvir a história de Sam.

- Tudo correu mal. Já viste a câmara?

- Ainda não.

- Ao lado existe uma pequena sala onde o executor mistura a sua solução. O ácido sulfúrico encontra-se numa lata que ele retira do seu pequeno laboratório para um tubo que corre para o fundo da câmara. Com o Meeks, o executor estava bêbado.

- Vá lá, Sam.

- Não o vi, certo. Mas todos sabem que estava bêbado. A lei estadual designa um executor oficial do estado e o director e o seu bando não pensaram nisso senão quando faltavam poucas horas para a execução. Não te esqueças que ninguém acreditava que o Meeks ia morrer. Estávamos todos à espera de uma suspensão no último minuto, porque ele já chegara àquele ponto duas vezes. Mas não houve suspensão e eles andaram de um lado para o outro tentando encontrar o executor oficial do estado. Encontraram-no bêbado. Era um canalizador, penso eu. De qualquer forma, a sua primeira mistura não resultou. Colocou a lata no tubo, puxou uma alavanca e todos esperaram que Meeks respirasse profundamente e morresse. Meeks susteve a respiração o mais tempo que pôde e depois inalou. Nada aconteceu. Eles esperaram. Meeks esperou. As testemunhas esperaram. Todos se voltaram lentamente para o executor, que também esperava e se amaldiçoava. Voltou à sua pequena sala e preparou outra mistura de ácido sulfúrico. Depois, teve que retirar a lata anterior do tubo, o que demorou dez minutos. O director, Lucas Mann e o resto dos imbecis andavam de um lado para o outro, à espera, insultando e amaldiçoando este canalizador bêbado, que finalmente despejou a nova lata e puxou a alavanca. Desta vez o ácido sulfúrico foi parar onde era suposto - numa tigela debaixo da cadeira à qual Meeks estava amarrado. O executor puxou a segunda alavanca, deixando cair as bolas de cianeto, que também se encontravam debaixo da cadeira, flutuando sobre o ácido sulfúrico. As bolas caíram e sem dúvida o gás subiu na direcção do local onde Meeks se encontrava a suster a respiração. Podem ver-se os vapores, sabes. Quando finalmente inalou uma grande quantidade, começou a tremer e a contorcer-se e ficou assim alguns momentos. Por uma razão qualquer, há uma barra de metal que atravessa a câmara de cima a baixo e passa directamente atrás da cadeira. Na altura em que Meeks se imobilizou e todos pensaram que ele estava morto, a cabeça dele começou a bater para a frente e para trás contra a barra, a bater como o diabo. Os olhos rolavam-lhe nas órbitas, tinha a boca toda aberta, espumava e estava ali a bater com a nuca na barra. Foi horrível.

- Quanto tempo levou a morrer?

- Não se sabe. Segundo o médico da prisão, a morte foi instantânea e sem dor. De acordo com algumas das testemunhas oculares, o Meeks continuou a ter convulsões, a ofegar e a bater com a cabeça durante cinco minutos.

A execução de Meeks dera muitos argumentos aos abolicionistas da pena de morte. Não restavam muitas dúvidas que ele sofrera intensamente e foram escritos muitos relatos da sua morte. A versão de Sam era notavelmente semelhante à das testemunhas oculares.

- Quem lhe contou isso? - perguntou Adam.

- Alguns dos guardas falaram do assunto. Não comigo, evidentemente, mas a notícia espalhou-se rapidamente. Houve protestos públicos, que teriam sido muito piores se o Meeks não fosse uma pessoa tão desprezível. Todos o odiavam. E a sua pequena vítima sofrera muito, por isso era difícil mostrar simpatia.

- Onde estava quando ele foi executado?

- Na minha primeira cela, na fileira D, no lado mais afastado da câmara. Nessa noite, trancaram toda a gente, todos os reclusos de Parchman. Aconteceu imediatamente depois da meia-noite, o que é mais ou menos divertido porque o estado tem um dia inteiro para realizar a execução. A sentença de morte não especifica uma hora determinada, mas apenas um dia determinado. Por isso estes bastardos anseiam por despachar tudo o mais depressa possível. Programam todas as execuções para um minuto depois da meia-noite. Dessa forma, se houver uma suspensão, eles terão o dia todo para os seus advogados conseguirem levantá-la. Buster Moac foi dessa maneira. Amarraram-no à cadeira à meia-noite, depois o telefone tocou e eles levaram-no novamente para a sala de espera e suaram durante cinco horas enquanto os advogados corriam de um tribunal para outro. Finalmente, quando o sol já estava a nascer ataram-no pela última vez. Penso que sabes quais foram as suas últimas palavras.

Adam abanou a cabeça.

- Não faço a menor ideia.

- O Buster era meu amigo, um tipo de classe. Naifeh perguntou-lhe se tinha algumas últimas palavras e ele disse que sim, que na verdade tinha qualquer coisa a dizer. Disse que o bife que tinham cozinhado para a sua última refeição estava mal passado demais. Naifeh resmungou qualquer coisa no sentido de ter de falar com o cozinheiro. Depois, Buster perguntou se o governador Lhe concedera um perdão de última hora. Naifeh respondeu que não. Então, o Buster disse: Bem, digam a esse filho da mãe que perdeu o meu voto. Bateram com a porta e gasearam-no.

Sam sentia-se obviamente divertido com isto e Adam foi obrigado a dar uma gargalhada embaraçada. Olhou para o seu bloco enquanto Sam acendia outro cigarro.

Quatro anos depois da execução de Teddy Doyle Meeks, os recursos de Maynard Tole chegaram a um impasse e foi necessário utilizar novamente a câmara. Tole era um caso pro bono da Kravitz & Bane. Um jovem advogado chamado Peter Wiesenberg representara Tole sob a supervisão de E. Garner Goodman. Tanto Wiesenberg como Goodman tinham testemunhado a execução, que em muitos aspectos foi terrivelmente semelhante à de Meeks. Adam não discutira a execução de Tole com Goodman, mas estudara o processo e lera os relatos das testemunhas oculares escritos por Wiesenberg e Goodman.

- E quanto ao Maynard Tole? - perguntou Adam.

- Era um africano, um militante que matara uma data de pessoas num assalto e, claro, atirara a culpa de tudo para o sistema. Referia-se sempre a si próprio como um guerreiro africano. Ameaçou-me várias vezes, mas durante a maior parte do tempo andava apenas a vender lobos:

- A vender lobos?

- Sim, isso quer dizer que um tipo fala mal, diz porcarias. É vulgar entre os africanos. Sabes, eles são todos inocentes. Todos os malditos sem excepção. Estão aqui porque são negros e o sistema é branco e embora tenham violado e matado isso é culpa de outra pessoa.

- Portanto, ficou satisfeito quando ele foi?

- Não disse isso. Matar é errado. É errado os africanos matarem, como é errado os anglos matarem. E é errado o povo do estado do Mississípi matar os reclusos do Corredor da Morte. O que eu fiz foi errado, mas o facto de me matarem remedeia alguma coisa?

- O Tole sofreu.

- Tal como o Meeks. Encontraram um novo executor e este acertou à primeira. O gás atingiu Tole e ele entrou em convulsões, começou a bater com a cabeça na barra de metal, exactamente como o Meeks, excepto que tinha evidentemente uma cabeça mais dura que o Meeks porque continuava a bater com ela na barra.

Continuou durante muito tempo e finalmente Naifeh e o seu pessoal ficaram realmente ansiosos, porque o rapaz não morria e as coisas estavam a começar a ficar perigosas, por isso conduziram as testemunhas para fora da sala. Foi bastante mau.

- Li algures que ele levou dez minutos a morrer.

- Lutou intensamente, é o que sei. Claro que o director e o médico dele disseram que a morte foi imediata e sem dor. Típico. Porém, fizeram uma pequena alteração nos procedimentos depois do Tole. Na altura em que executaram o meu amigo Moac, tinham concebido uma engraçada cinta para a cabeça feita de tiras de cabedal e fivelas e ligada à maldita barca de metal. Com o Moac, e mais tarde com o Jumbo Parris, ataram as cabeças tão firmemente que não havia maneira de eles baterem e fustigarem a barra. Um belo retoque, não achas? Assim fica tudo mais fácil para o Naifeh e para as testemunhas porque agora não têm que assistir a tanto sofrimento.

- Está a compreender onde quero chegar, Sam? É uma forma horrível de morrer. Atacamos o método. Procuramos testemunhas que prestem depoimento acerca dessas execuções e tentamos convencer um juiz a declarar a câmara de gás inconstitucional. - E depois? Pedimos a injecção letal? Qual é o interesse?

Parece um bocado estúpido da minha parte dizer que não quero morrer na câmara, mas, que diabo, as injecções letais servem muito bem. Ponham-me na valeta e encham-me de drogas. Morro na mesma, não é? Não compreendo.

- Certo, mas deste modo ganhamos tempo. Atacamos a câmara de gás, obtemos uma suspensão temporária e depois vamos até aos tribunais superiores. Podemos encravar tudo durante anos.

- Já foi feito.

- O que quer dizer com isso?

- Texas, mil novecentos e oitenta e três. Um caso chamado Larson. Os mesmos argumentos foram invocados sem qualquer resultado. Os tribunais disseram que as câmaras de gás funcionam há cinquenta anos e se mostraram bastante eficientes a matar de modo humano.

- Sim, mas há uma grande diferença.

- Qual?

- Não estamos no Texas. Meeks, Tole, Moac e Parris não foram gaseados no Texas. E, a propósito, o Texas já passou para a injecção letal. Puseram de lado a sua câmara de gás porque encontraram uma forma melhor de matar. A maior parte dos estados com câmara de gás trocaram-na por uma melhor tecnologia.

Sam levantou-se e caminhou até ao outro lado da mesa.

- Bem, quando chegar a minha vez, sem dúvida que quero partir com a melhor tecnologia - caminhou em grandes passadas ao longo da mesa, para trás e para diante três ou quatro vezes e, em seguida, parou. - São cinco metros e quarenta de um lado ao outro desta sala. Posso caminhar cinco metros e quarenta sem encontrar barras. Compreendes o que significa passar vinte e três horas por dia numa cela de um metro e oitenta por dois metros e setenta? Caminhou mais um pouco, fumando enquanto ia e vinha.

Adam observou a frágil figura balançando-se ao longo da extremidade da mesa com um rasto de fumo atrás dele. Não tinha meias e calçava sapatos de borracha azul-marinho que rangiam quando caminhava. Subitamente parou, tirou um livro de uma prateleira, atirou-o com força para cima da mesa e começou a virar as páginas com um floreado. Após alguns minutos de intensa pesquisa, encontrou exactamente o que procurava e passou cinco minutos a ler.

- Aqui está - resmungou para si mesmo. - Sabia que já tinha lido isto.

 

- O que é?

- Um caso de mil novecentos e oitenta e quatro na Carolina do Norte. O nome do homem era Jimmy Old e Jimmy evidente mente não queria morrer. Tiveram que o arrastar para a câmara, a dar pontapés, a chorar e a gritar e foi difícil amarrá- lo. Bateram com a porta, despejaram o gás e o queixo caiu-lhe sobre o peito. Depois, a cabeça rolou-Lhe para trás e começou a estrebuchar. Virou-se para as testemunhas, que não viam mais nada além do branco das suas órbitas, e começou a salivar. A cabeça balançava-se e girava sem parar enquanto o corpo tremia e a boca espumava. Continuou assim durante muito tempo e uma das testemunhas, um jornalista, vomitou. O director ficou farto daquilo e fechou as cortinas negras para que as testemunhas não pudessem ver mais nada.

Calcularam que Jimmy Old Íevou catorze minutos a morrer.

- Parece-me cruel.

Sam fechou o livro e colocou-o cuidadosamente na estante. Acendeu um cigarro e examinou o tecto.

- Virtualmente todas as câmaras de gás foram construídas há muito tempo pela Eaton Metal Products em Salt Lake City. Li algures que a do Missuri foi construída pelos reclusos. Mas a nossa pequena câmara foi construída pela Eaton e todas são basicamente iguais, feitas de aço, de forma octogonal, com uma série de janelas aqui e ali para que seja possível assistir à morte. Não há muito espaço dentro da própria câmara, apenas um assento de madeira com tiras a toda a volta. Há uma tigela de metal directamente debaixo da cadeira e apenas alguns centímetros acima da tigela um pequeno saco de bolas de cianeto que o executor controla com uma alavanca. Também controla o ácido sulfúrico que é introduzido por meio de uma lata. A lata é despejada na tigela através de um tubo e quando a tigela está cheia de ácido o executor puxa a alavanca e deixa cair as bolas de cianeto. Isto origina o gás, que evidentemente causa a morte e que, claro, foi concebido para ser rápido e indolor.

- Não foi concebida para substituir a cadeira eléctrica?

- Sim. Nos anos vinte e trinta, todos tinham a cadeira eléctrica e era o dispositivo mais maravilhoso que já tinha sido inventado. Lembro-me que quando era rapaz havia uma cadeira eléctrica portátil que simplesmente transportavam num atrelado e levavam de condado para condado. Paravam junto da prisão local, traziam os condenados algemados, alinhavam-nos no exterior do atrelado e depois matavam-nos um a um. Era uma forma eficiente de aliviar as cadeias superpovoadas - abanou a cabeça incrédulo. - De qualquer forma é evidente que eles não sabiam o que estavam a fazer e houve algumas histórias horríveis de pessoas a sofrer. Trata-se da pena capital, não é? Não da tortura capital. E não era só no Mississípi. Muitos estados usavam essas velhas cadeiras eléctricas com um bando de idiotas a premirem os interruptores e houve toda a espécie de problemas. Atavam um desgraçado, carregavam no interruptor, davam-lhe um bom choque mas não o suficiente, o tipo ficava a assar lá dentro mas não morria, por isso esperavam alguns minutos e repetiam. Isto podia continuar durante quinze minutos. Não colocavam os electrodos de modo correcto e não era invulgar saltarem chamas e faíscas dos olhos e dos ouvidos. Li uma história de um homem que recebeu uma voltagem insuficiente. O vapor invadiu-lhe a cabeça e os olhos saltaram-lhe das órbitas. O sangue escorria-lhe pelo rosto. Durante uma electrocussão, a pele fica tão quente que durante uns minutos não se pode tocar na pessoa, por isso nos velhos tempos tinham que esperar que arrefecesse para poderem declarar a morte. Há muitas histórias acerca de homens que ficavam imóveis após o primeiro choque e depois começavam novamente a respirar. Nestes casos, era evidente que Lhe aplicavam nova corrente. Isto podia acontecer quatro ou cinco vezes. Era horrível, por isso aquele médico do Exército inventou a câmara de gás como uma forma mais humana de matar pessoas. Mas, como dizem agora, tornou-se obsoleta devido ao aparecimento da injecção letal.

Sam tinha uma audiência e Adam estava cativado.

- Quantos homens morreram na câmara do Mississípi?

- Foi usada pela primeira vez por volta de 1954. Desde então e até 1970 mataram trinta e cinco homens. Nenhuma mulher. Depois de Furman em 1972, esteve inactiva até Teddy Doyle Meeiv ser executado em 1982. Desde então usaram-na três vezes, por tanto temos um total de trinta e nove. Eu serei o quadragésimo.

Começou novamente a andar de um lado para o outro, agora mais lentamente.

- É uma forma terrivelmente ineficiente de matar pessoasdisse ele, mais ou menos como um professor perante uma sala de aulas. - E é perigosa. Perigosa evidentemente para o desgraçado amarrado à cadeira, mas também para aqueles que se encontram no exterior da câmara. Estas malditas coisas são velhas e até certo ponto todas têm fugas. Os selos e as vedações apodrecem e desfazem-se e o custo da construção de uma câmara sem fugas é proibitivo. Uma pequena fuga pode ser mortal para o executor ou qualquer pessoa que se encontre por perto. Há sempre uma mão-cheia de pessoas - Naifeh, Lucas Mann, talvez um padre, o médico, um ou dois guardas - de pé na pequena sala mesmo ao lado da câmara. Há duas portas para esta pequena sala e durante a execução estão sempre fechadas. Se houvesse uma fuga de gás da câmara para a sala, atingiria provavelmente Naifeh ou Lucas Mann e eles cairiam mesmo ali no chão. Pensando nisso, não seria má ideia.

- As testemunhas também correm grande perigo e nem sequer o imaginam. Não há nada entre elas e a câmara, excepto uma fila de janelas, que são velhas e igualmente sujeitas a fugas. Também se encontram numa pequena sala com a porta fechada e se houver uma fuga de gás, por mais pequena que seja, estes idiotas curiosos também serão gaseados.

- Mas o verdadeiro perigo vem depois. Há um fio ligado às costelas do condenado que passa por um buraco da câmara para o exterior, onde um médico vigia o bater do coração. Assim que o médico afirma que o homem está morto, abrem uma válvula na parte superior da câmara e é suposto o gás evaporar-se. A maior parte evapora. Esperam cerca de quinze minutos e depois abrem a porta. O ar frio do exterior usado para evacuar a câmara provoca problemas, porque se mistura com o gás restante e se condensa no interior. Cria uma armadilha mortal para todos os que entrarem lá. É extremamente perigoso e a maioria destes palhaços não compreendem como é grave. Há resíduos de ácido prússsico em todas as coisas - paredes, janelas, chão, tecto, porta e, claro, o homem morto.

Pulverizam a câmara e o corpo com amoníaco para neutralizar os restos do gás e, em seguida, a equipa de remoção, ou lá como se chama, entra com máscaras de oxigénio. Lavam mais uma vez o recluso com amoníaco ou líxivia, porque o veneno se escapa dos poros da pele. Quando ainda está amarrado à cadeira, cortam-lhe as roupas, colocam-nas num saco e queimam-nas. Antigamente, só permitiam ao condenado vestir uns calções de forma a facilitar-lhes o trabalho. Mas agora são tão simpáticos que nos autorizam a usar o que quisermos. Portanto, se chegar tão longe, vou divertir-me imenso a escolher o guarda-roupa.

Cuspiu no chão ao pensar nisso. Praguejou entredentes e deu a volta à extremidade mais afastada da mesa.

- O que acontece ao corpo? - perguntou Adam, algo envergonhado por insistir em questões tão sensíveis, mas apesar de tudo ansioso por concluir a história.

Sam resmungou uma ou duas vezes e em seguida meteu o cigarro na boca.

- Sabes qual é o tamanho do meu guarda-roupa?

- Não.

- Compõe-se de dois destes fatos-macaco vermelhos, quatro ou cinco conjuntos de roupa interior limpa e um par destes lindos sapatos de borracha, que parecem restos de um saldo de negros. Recuso-me a morrer com um destes fatos vermelhos. Pensei em exercer os

meus direitos constitucionais e caminhar até à câmara completamente nu. Não seria um espectáculo? Estás a ver aqueles idiotas a tentar empurrar-me e atar-me e a fazer tudo por tudo para não me tocar nas partes íntimas? E quando me conseguirem amarrar, pego no pequeno monitor do coração e coloco-o junto dos testículos. O doutor não ia adorar? E certificar-me-ia de que as testemunhas me viam nu. Acho que é isso que vou fazer.

- O que acontece ao corpo? - perguntou Adam novamente.

- Bem, depois de estar suficientemente lavado e desinfectado vestem-no com as roupas da prisão, tiram-no da cadeira e colocam-no num saco. Põem-no numa maca, que vai para uma ambulância que o leva a uma casa funerária, algures. A partir daí a família toma conta de tudo. A maioria das famílias.

Sam estava agora de pé de costas voltadas para Adam, a falar para uma parede e encostado a uma estante. Ficou em silêncio durante muito tempo, silencioso e quieto enquanto fitava o canto.

Pensava nos quatro homens que conhecera e que já tinham ido para a câmara. No corredor havia uma regra não escrita, segundo a qual ninguém ia para a câmara com o fato vermelho da prisão. Ninguém lhes dava a satisfação de morrer com as roupas que os tinham obrigado a usar.

Talvez o irmão, aquele que lhe mandava o fornecimento mensal de cigarros, o ajudasse com uma camisa e um par de calças. Umas meias novas também seria agradável. E qualquer coisa, excepto os sapatos de borracha. Preferia ir descalço a usar aquelas malditas coisas.

Voltou-se e caminhou lentamente na direcção do lado da mesa onde Adam se encontrava e sentou-se.

- Gosto da ideia - disse ele muito calmo e composto. Vale a pena tentar.

- Óptimo. Vamos ao trabalho. Quero que descubra mais casos como o do Jimmy Old na Carolina do Norte. Vamos procurar todas as execuções na câmara de gás falhadas e erradas que for possível. Citamo-las todas no processo. Quero que faça uma lista das pessoas que poderão testemunhar a respeito das execuções do Tole e do Meeks. Talvez até do Moac e do Pams.

Sam já estava novamente de pé, a tirar livros das estantes e a falar consigo próprio. Empilhou-os sobre a mesa, dúzias deles, e depois mergulhou entre as folhas.

 

Os campos de trigo estendiam-se por quilómetros e depois tornavam-se mais íngremes junto ao sopé dos montes. As majestosas montanhas limitavam à distância a terra cultivada. Num extenso vale sobre os campos, com uma vista de muitos quilómetros em frente e com as montanhas como barreira por trás, o campo nazi espalhava-se por mais de quarenta hectares. As vedações de arame farpado estavam ocultas sob os arbustos e demais vegetação. As carreiras de tiro e os campos de treino de combate estavam escondidas da mesma forma para impedir a detecção por meios aéreos. Acima do solo divisavam-se apenas duas inocentes cabanas de madeira e, vistas do exterior, pareciam apenas alojamentos de pesca. Mas sob elas, na profundeza dos montes, havia dois eixos com elevadores que desciam para um labirinto de grutas naturais e artificiais. Enormes túneis, suficientemente largos para deixar passar carrinhos de golfe, corriam em todas as direcções ligando uma dúzia de salas diferentes. Uma das salas tinha uma tipografia. Duas eram armazéns de armas e munições. Três das maiores eram alojamentos. Outra, mais pequena, era uma biblioteca. A sala maior, uma caverna com doze metros de altura, era o átrio central onde os membros se reuniam para os discursos, os filmes e as sessões.

Era um campo ultramoderno, com pratos de satélite que alimentavam as televisões com notícias de todo o mundo, computa dores ligados a outros campos para o rápido fluxo de informações, máquinas de fax, telefones celulares e todos os outros dispositivos electrónicos em voga.

Todos os dias eram recebidos no campo nada menos que dez jornais levados para uma mesa numa sala junto à biblioteca, onde eram lidos em primeiro lugar por um homem chamado Roland.

Vivia no campo durante a maior parte do tempo, juntamente com vários outros membros que faziam a manutenção do local.

Quando os jornais chegavam da cidade, normalmente por volta das nove horas da manhã, Roland servia-se de uma grande chávena de café e começava a ler. Não era uma tarefa aborrecida.

Viajara muitas vezes em volta do mundo, falava quatro línguas e tinha um apetite voraz de conhecimentos. Se alguma história lhe chamava a atenção, marcava-a, fazia uma cópia e entregava-a ao computador.

Os seus interesses eram muito variados. Mal olhava para a secção de desporto e nunca reparava nos anúncios. A moda, os acontecimentos sociais e outras secções do mesmo género eram vistas com pouca curiosidade. Coleccionava histórias sobre grupos semelhantes ao seu - arianos, nazis, o KKK. Ultimamente, assinalava muitas histórias da Alemanha e da Europa de Leste e sentia-se fascinado pelo renascimento do fascismo nesses países. Falava fluentemente alemão e passava pelo menos um mês por ano no grande país. Observava os políticos e a sua profunda preocupação com os crimes raciais e o desejo de restringir os direitos de grupos como o seu. Observava o Supremo Tribunal. Seguia os julgamentos dos skinheads nos Estados Unidos. Seguia as atribulações do KKK.

Normalmente passava duas horas todas as manhãs a absorver as notícias mais recentes e a decidir quais as histórias que deveriam ser guardadas para referência futura. Era trabalho de rotina mas apreciava-o imensamente.

Esta manhã em especial seria diferente. O primeiro sinal de problemas foi uma fotografia de Sam Cayhall num canto da primeira secção de um diário de S. Francisco. A história tinha apenas três parágrafos, mas cobria suficientemente a notícia quente de que o mais velho residente do corredor da morte na América seria

agora legalmente representado pelo neto. Roland leu-a três vezes antes de acreditar, depois marcou-a para ser guardada. Uma hora depois, leu a mesma história cinco ou seis vezes. Dois jornais traziam o instântaneo de Adam Hall que fora publicado no jornal de Memphis no dia anterior.

Roland seguira o caso de Sam Cayhall durante muitos anos e por várias razões. Primeiro, era o tipo de caso que normalmente interessava aos seus computadores - um velho terrorista do Klan dos anos sessenta a cumprir pena no corredor da morte. As listagens Cayhall já tinham trinta centímetros de espessura. Embora não fosse certamente advogado, Roland partilhava a opinião dominante de que os recursos de Sam se tinham esgotado e estava prestes a morrer. Isto agradava bastante a Roland, mas guardava esta opinião para si. Sam Cayhall era um herói para os partidários da supremacia branca e o próprio pequeno grupo de Roland já tinha sido convidado a participar em manifestações antes da execução. Não tinham nenhum contacto directo com Cayhall porque ele nunca respondera às suas cartas, mas era um símbolo e queriam tirar o máximo partido da sua morte.

O último nome de Roland, Forchin, era de origem cajun da zona de Thibodaux. Não tinha número de Segurança Social, nunca preenchera declarações de impostos e, no que dizia respeito ao governo, ele não existia. Possuía três passaportes falsos, um dos quais era alemão e outro alegadamente emitido pela República da Irlanda. Roland atravessava fronteiras e serviços de imigração sem quaisquer problemas.

Um dos outros nomes de Roland, desconhecido de qualquer outras pessoas era Rollie Wedge. Tinha fugido dos Estados Unidos em 1967; após o atentado Kramer e vivera na Irlanda do Norte. Vivera também na Líbia, em Munique, em Belfast e no Lbano. Fizera dois breves regressos aos Estados Unidos em 1967 e 1968 para assistir aos dois julgamentos de Sam Cayhall e Jeremiah Dogan. Nessa altura, viajava sem esforço com documentos perfeitos.

Houve mais algumas viagens breves aos Estados Unidos, todas necessárias devido à confusão Cayhall. Mas à medida que o tempo passava, cada vez se preocupava menos. Mudara-se para este bunker há três anos para divulgar a mensagem do nazismo. Já não se considerava um membro do Klan. Agora, era um orgulhoso fascista.

Quando terminou as suas leituras da manhã, tinha encontrado a história de Cayhall em sete dos dez jornais. Colocou-os num cesto de metal e decidiu ir ver o sol. Deitou mais café na sua chávena de plástico e tomou o elevador para o átrio de uma cabana vinte e quatro metros acima. Estava um belo dia, frio e cheio de sol, sem uma única nuvem à vista. Subiu ao longo de um estreito caminho na direcção das montanhas e em dez minutos estava a olhar para o vale abaixo de si. Os campos de trigo avistavam-se à distância.

Há vinte e três anos que Roland sonhava com a morte de Cayhall. Partilhavam um segredo, um pesado fardo que só seria aliviado quando Sam fosse executado. Admirava enormemente o homem. Ao contrário de Jeremiah Dogan, Sam honrara o seu juramento e nunca falara. Passando por três julgamentos, vários advogados, inúmeros recursos e milhões de interrogatórios, Sam Cayhall nunca vacilara. Era um homem honrado e Roland queria vê-lo morto. Oh, evidentemente que fora obrigado a fazer algumas ameaças a Cayhall e a Dogan durante os dois primeiros julgamentos, mas isso fora há muito tempo. Dogan cedera sob pressão, falara e testemunhara contra Sam. Por isso, Dogan morrera.

Este garoto preocupava-o. Como toda a gente, Roland perdera o rasto do filho de Sam e da respectiva familia. Sabia da filha em Memphis, mas o filho desaparecera. E agora isto, este jovem advogado bem-parecido e bem-educado, pertencente a uma grande firma de advogados judeus, aparecera de lugar nenhum e estava decidido a salvar o avô. Roland sabia o suficiente sobre execuções para compreender que nas últimas horas os advogados tentam tudo. Se Sam tivesse de ceder, seria agora e na presença do neto.

Atirou uma pedra pela encosta abaixo e viu-a desaparecer de vista. Teria de ir a Memphis.

O sábado era normalmente apenas mais um dia de trabalho intenso na Kravitz & Bane de Chicago, mas as coisas eram um pouco mais brandas na filial de Memphis. Adam chegou ao escritório às nove e encontrou apenas outros dois advogados e um forense a trabalhar. Fechou-se na sua sala e desceu as persianas.

No dia anterior ele e Sam tinham trabalhado durante duas horas e quando Packer regressara à biblioteca legal com as algemas e as grilhetas tinham conseguido cobrir a mesa com dezenas de livros de Direito e blocos. Packer esperara impacientemente, enquanto Sam voltava a colocar os livros nas prateleiras.

Adam reviu as suas notas. Introduziu a sua própria investigação no computador e reviu a petição pela terceira vez. Já tinha mandado uma cópia por fax a Garner Goodman, que a revera e devolvera pelo mesmo meio.

Goodman não se mostrava optimista quanto a um julgamento justo nesta acção, mas nesta fase do processo não havia nada a perder. Se por acaso fosse realizada uma audiência expedita num tribunal federal, Goodman estava pronto a testemunhar sobre a execução de Maynard Tole. Ele e Peter Wiesenberg tinham sido testemunhas. Na realidade, Wiesenberg ficara tão doente perante o espectáculo de uma pessoa viva a ser gaseada que se demitira da firma e aceitara um emprego como professor. O seu avô sobrevivera ao holocausto, mas não a avó. Goodman

prometera contactar Wiesenberg e confiava que ele se prestaria a testemunhar.

Por volta do meio-dia, Adam estava cansado do escritório. Abriu a porta e não ouviu quaisquer sons no piso. Os outros advogados tinham partido. Saiu do edifício.

Dirigiu-se para oeste, passando o rio para o Arkansas, passou pela paragem de camiões e pelo trilho de cães de West Memphis e, finalmente, atravessou o congestionamento de trânsito e prosseguiu para o campo. Passou pelas aldeias de Earle, Parkin e Wynne, onde começavam as montanhas. Parou para tomar uma coca-cola numa mercearia, à porta da qual três velhos de fato-macaco desbotado sacudiam as moscas e suportavam o calor. Baixou a capota do carro e afastou-se a toda a velocidade.

Duas horas mais tarde parou novamente, desta vez na cidade de Mountain View, para comer uma sandes e pedir informações. Calico Rock não ficava longe seguindo pela estrada acima, disseram-lhe, era só seguir o rio White. Era uma estrada linda, serpenteando pelo sopé dos Ozarks, através de densos bosques e regatos de montanha. O rio White corria à esquerda e estava pejado de pescadores de trutas em barcos de borracha.

Calico Rock era uma pequena cidade num alcantilado acima do rio. Três armazéns de pesca alinhavam-se na margem leste junto à ponte. Adam estacionou junto ao rio e caminhou até ao primeiro, um armazém chamado Calico Marina. O edifício flutuava sobre pontões e estava preso próximo da margem por grossos cabos. Uma fila de barcos para alugar, vazios, estavam presos junto ao cais. De uma bomba de gasolina solitária emanava um cheiro pungente a gasolina e a óleo. Uma tabuleta listava os preços dos barcos, guias, material e licenças de pesca.

Adam caminhou até à doca coberta e admirou o rio apenas a alguns metros de distância. Um jovem com as mãos sujas saiu de uma sala das traseiras e perguntou em que poderia ser-lhe útil. Examinou Adam da cabeça aos pés e aparentemente concluiu que não se tratava de um pescador.

- Estou à procura de Wyn Lettner.

O nome Ron estava bordado sobre o bolso da camisa e ligeiramente coberto de uma camada de gordura. Ron regressou à sua sala e gritou Mr. Lettner! " na direcção de uma porta de rede que conduzia a uma pequena loja: Ron desapareceu.

Wyn Lettner era um homem enorme, com mais de um metro e oitenta de altura, com uma grande estrutura e muito peso a mais. Garner descrevera-o como um bebedor de cerveja e Adam lembrou-se do facto ao olhar para o seu estômago proeminente. Devia andar perto dos setenta anos, com o cabelo fino e grisalho ordenadamente enfiado dentro de um boné. Havia pelo

menos três fotografias de jornal do agente especial Lettner indexadas algures nos dossiers de Adam e em todas elas ele se mostrava o Gentle-Man-padrão - fato escuro, camisa branca, gravata estreita, corte de cabelo militar. E nessa altura era muito mais elegante.

- Sim senhor - disse em voz alta enquanto atravessava a porta de rede, a limpar migalhas da boca. - Sou Wyn Lettner.

Tinha uma voz profunda e um sorriso prazenteiro. Adam estendeu a mão e disse:

- Sou Adam Hall, prazer em conhecê-lo.

Lettner pegou-lhe na mão e apertou-a vigorosamente. Os antebraços eram maciços e os bícepes volumosos.

- Sim senhor - trovejou ele. - O que posso fazer por si? Felizmente a doca estava deserta, à excepção de Ron, que não estava visível, mas fazia ouvir os ruídos produzidos por uma ferramenta qualquer na sua sala. Adam hesitou um pouco e disse:

- Bem, sou advogado e represento Sam Cayhall.

O sorriso alargou-se mostrando duas fieiras de fortes dentes amarelos.

- Tem um trabalho à sua medida, hem? - disse com uma gargalhada dando uma palmada nas costas de Adam.

- Acho que sim - disse Adam, embaraçado, enquanto esperava outro ataque.

- Gostaria de falar acerca do Sam.

Lettner ficou subitamente sério. Acariciou o queixo com uma mão gorda e observou Adam com os olhos semicerrados.

- Li tudo nos jornais, filho. Sei que o Sam é seu avô. Deve ser duro para si. Mas vai ficar mais duro - depois sorriu novamente. - Mais duro para o Sam também - os olhos piscaram como se acabasse de dizer uma piada e esperasse que Adam irrompesse às gargalhadas.

Adam não compreendeu a graça.

- O Sam tem menos de um mês, sabe - disse, certo de que Lettner lera igualmente sobre a data da execução.

Subitamente, uma mão pesada pousou no ombro de Adam e empurrou-o na direcção da loja.

- Entre para aqui, filho. Vamos falar do Sam. Quer uma cerveja?

- Não, obrigado - entraram numa sala estreita com material de pesca pendurado nas paredes e no tecto, com frágeis prateleiras de madeira cheias de comida, bolachas, sardinhas, salsichas de lata, pão, carne de porco com feijão, bolos, tudo o necessário para um dia no rio. Um refrigerador de bebidas sem álcool estava a um canto.

- Sente-se - disse Lettner, apontando para um canto junto da caixa registadora. Adam sentou-se numa cadeira de madeira vacilante, enquanto Lettner procurava numa arca frigorífica e retirava uma garrafa de cerveja. - De certeza que não quer uma?

- Talvez mais tarde - eram quase cinco horas.

Tirou a tampa, bebeu pelo menos um terço da garrafa ao primeiro gole, estalou os lábios e depois sentou-se numa velha cadeira de cabedal, que fora sem dúvida retirada de uma carrinha.

- Então vão finalmente acabar com o velho Sam? - perguntou ele.

- Estão a tentar com muita força.

- Quais são as probabilidades?

- Não muito boas. Temos o sortido habitual de apelos de última hora, mas o relógio está a avançar.

- O Sam não é mau tipo - disse Lettner com uma ponta de remorso e, em seguida, bebeu mais um pouco com outro longo sorvo. O chão rangia tranquilamente, enquanto a doca flutuava com o rio.

- Quanto tempo esteve no Mississípi? - perguntou Adam.

- Cinco anos. O Hoover nomeou-me depois do desaparecimento dos três trabalhadores dos direitos civis. Mil novecentos e sessenta e quatro. Criámos uma unidade especial e começámos a trabalhar. Depois do caso Kramer, o Klan perdeu um pouco a força.

- E estava encarregado de quê?

- Mr. Hoover foi muito específico. Disse-me que deveria tentar a todo o custo infiltrar-me no Klan. Queria preparar-lhes uma armadilha. Para dizer a verdade, começámos muito tarde no Mississípi. Houve uma série de razões para isso. Hoover odiava os Kennedy e eles estavam a pressioná-lo muito, por isso ele arrastou os pés. Mas quando aqueles três rapazes desapareceram, fomos obrigados a mexer-nos. Mil novecentos e sessenta e quatro foi um ano dos diabos no Mississípi.

- Eu nasci nesse ano.

- Sim, o jornal dizia que nasceu em Clanton. Adam acenou afirmativamente com a cabeça.

- Não o soube durante muito tempo. Os meus pais disseram-me que tinha nascido em Memphis.

A porta tilintou e Ron entrou na loja. Olhou para eles e depois estudou as sardinhas e as bolachas. Observaram-no e esperaram. Ele olhou para Adam como se dissesse: Continua a falar. Não estou a ouvir.

- O que é que queres? - perguntou-lhe Lettner bruscamente. Ele agarrou numa lata de salsichas de Viena com a mão suja e mostrou-lha. Lettner concordou com a cabeça e acenou na direcção da porta. Ron dirigiu-se para ela, olhando para os bolos e para as batatas fritas ao passar.

- É bisbilhoteiro como tudo - disse Lettner depois de ele ter desaparecido. - Falei algumas vezes com o Garner Goodman. Foi há anos. É um pássaro estranho.

- É o meu patrão. Foi ele que me deu o seu nome, disse que falaria comigo.

- Falar sobre o quê? - perguntou Lettner e em seguida

bebeu mais um gole.

- O caso Kramer.

- O caso Kramer está encerrado. A única coisa que resta é o Sam e o seu encontro com a câmara de gás.

- Quer que ele seja executado?

Ouviram-se passos seguidos de vozes e a porta abriu-se novamente. Um homem e um rapaz entraram e Lettner levantou-se.

Precisavam de comida e provisões e durante dez minutos fizeram compras, falaram e decidiram onde é que o peixe estava a morder.

Lettner teve o cuidado de guardar a sua cerveja debaixo do balcão na presença dos clientes.

Adam tirou uma bebida sem álcool do refrigerador e saiu da loja. Caminhou ao longo da beira da doca de madeira junto ao rio e parou perto da bomba de gasolina. Dois adolescentes num barco estavam a pescar junto da ponte e Adam compreendeu de súbito que nunca tinha pescado na sua vida. O pai não fora homem de passatempos e divertimentos. Nem tinha sido capaz de manter um emprego. De momento, Adam não conseguia lembrar-se do que o pai fazia com o seu tempo.

Os clientes saíram e a porta bateu. Lettner dirigiu-se para a bomba de gasolina.

- Gosta de pescar? - perguntou admirando o rio.

- Não, nunca pesquei.

- Vamos dar um passeio. Preciso de verificar um sítio duas milhas abaixo do rio. É suposto haver muito peixe.

Lettner transportava a arca frigorífica que colocou cuidadosamente dentro de um barco. Desceu da doca e o barco baloiçou violentamente de um lado para o outro, enquanto ele agarrava o motor.

- Venha - gritou para Adam, que estava a estudar a distância de setenta e cinco centímetros entre ele próprio e o barco. - E agarre nessa corda - gritou Lettner novamente, apontando para uma corda fina atada a um arpéu.

Adam soltou a corda e desceu nervosamente para o barco, que balançou exactamente quando ele pousou os pés. Escorregou, caiu de cabeça e esteve quase a dar um mergulho. Lettner desatou às gargalhadas enquanto puxava a corda de ignição do motor. Ron, evidentemente, observara tudo e sorria estupidamente na doca. Adam ficou embaraçado, mas riu-se como se tudo aquilo fosse muito engraçado. Lettner armou o motor, a proa do barco saltou e partiram.

Adam agarrou-se às alças de ambos os lados enquanto aceleravam pela água, passando debaixo da ponte. Em breve, Calico Rock ficara atrás deles. O rio virava e serpenteava através de montes e por entre penhascos rochosos. Lettner conduzia o barco com a mão e com a outra segurava uma cerveja fresca. Alguns minutos depois, Adam acalmou um pouco e conseguiu tirar uma cerveja da arca sem perder o equilíbrio. A garrafa estava gelada. Segurou-a com a mão direita e continuou agarrado ao barco com a esquerda. Atrás dele, Lettner assobiava ou cantava qualquer coisa. O agudo rugido do motor impedia qualquer conversa.

Passaram por uma pequena doca de pesca, onde um grupo de citadinos estava a comprar peixe e a beber cerveja e por uma flotilha de jangadas de borracha cheias de adolescentes que fumavam qualquer coisa e apanhavam sol. Acenaram a outros pescadores, concentrados nas suas tarefas.

Finalmente o barco abrandou e Lettner manobrou-o cuidadosamente através de uma curva, como se estivesse a ver o peixe lá em baixo e tivesse que posicionar-se de modo perfeito. Desligou o motor.

- Vai pescar ou beber cerveja? - perguntou ele fitando a água.

- Beber cerveja.

- Já calculava - a garrafa assumiu subitamente uma importância secundária, enquanto pegava na cana e a lançava para um sítio na direcção da margem. Adam observou durante alguns segundos e quando não viu resultados imediatos recostou-se e pendurou os pés sobre a água. O barco não era confortável.

- Vem pescar muitas vezes? - perguntou.

- Todos os dias. Faz parte do meu trabalho, sabe, parte dos serviços que presto aos meus clientes. Tenho que saber onde é que o peixe está a morder.

- Trabalho árduo.

- Alguém tem de fazê-lo.

- O que o trouxe para Calico Rock?

- Tive um ataque de coração em setenta e cinco, por isso tive que reformar-me do Bureau. Tinha uma boa pensão e tudo isso mas, que diabo, uma pessoa cansa-se de estar sentada todo o dia. Eu e a minha mulher descobrimos este sítio e a marina estava para venda. Um erro conduziu a outro e aqui estou eu. Passe-me uma cerveja.

Lançou novamente enquanto Adam lhe passava a cerveja. Contou rapidamente catorze cervejas ainda no gelo. O barco balouçava com o rio e Lettner agarrou num remo. Pescava com uma mão, remava com a outra e conseguia equilibrar uma cerveja fresca entre os joelhos. A vida de um guia de pesca.

Abrandaram debaixo de umas árvores e o sol ficou misericordiosamente escondido por uns momentos. Com ele o lançamento parecia fácil. Sacudia a cana com um ligeiro movimento do pulso e mandava o anzol para onde queria. Mas o peixe não estava a morder. Lançou para o meio do rio.

- O Sam não é mau tipo - já dissera isto uma vez.

- Acha que ele deve ser executado?

- Isso não é da minha conta, filho. O povo do estado quer a pena de morte, por isso está na lei. O povo disse que o Sam era culpado e em seguida disse que ele deveria ser executado, por isso quem sou eu?

- Mas deve ter uma opinião.

- Para que serve? Os meus pensamentos não valem nada.

- Porque é que diz que o Sam não é mau tipo?

- É uma longa história.

- Ainda temos catorze cervejas.

Lettner riu-se e o largo sorriso voltou. Bebeu da garrafa e olhou para o rio, para longe da linha.

- O Sam não nos preocupava, compreende. Não estava activo nas coisas realmente feias, pelo menos não a princípio. Quando aqueles voluntários dos direitos civis desapareceram, entrámos em força. Espalhámos dinheiro por todo o lado e num ápice tínhamos toda a espécie de informadores do Klan. Basicamente, aqueles tipos eram apenas camponeses brancos ignorantes e sem um tostão e nós apostámos na sua ânsia de dinheiro. Nunca teríamos encontrado aqueles três rapazes se não tivéssemos espalhado algum dinheiro. Cerca de trinta mil, segundo me lembro, embora não tenha lidado directamente com o informador. Raios, filho, eles estavam enterrados num dique. Encontrámo-los e isso deu-nos uma boa imagem, compreende. Finalmente, tínhamos feito qualquer coisa. Fizemos algumas prisões, mas as condenações foram difíceis. A violência continuou. Punham bombas em igrejas e casas de negros tão frequentemente que não conseguíamos acom panhá-los. Aquilo era uma guerra. A situação piorou, Mr. Hoover ficou mais zangado e nós espalhámos ainda mais dinheiro.

- Ouça, filho, não vou dizer-lhe nada de útil, compreende? - Porque não?

- Posso falar acerca de algumas coisas, mas não de outras.

- O Sam não estava sozinho quando colocou a bomba no escritório do Kramer, pois não?

Lettner sorriu novamente e examinou a linha. Tinha o carreto no colo.

- De qualquer maneira, no fim de mil novecentos e sessenta e cinco e início de sessenta e seis, tínhamos uma grande rede de informadores. Na realidade não era difícil. Descobríamos que um tipo pertencia ao Klan e seguíamo-lo. Seguíamo-lo até a casa à noite, acendendo as luzes atrás dele, estacionando à frente da casa. Normalmente, isto assustava-os de morte. Depois seguíamo-lo até ao trabalho, por vezes falávamos com o patrão, mostrávamos a identificação, agíamos como se estivéssemos prestes a disparar sobre alguém. Íamos falar com os pais dele, mostrávamos-lhes os nossos distintivos e os nossos fatos escuros, fazíamos ouvir o sotaque ianque e aquela pobre gente do campo cedia literalmente diante dos nossos olhos. Se o tipo frequentava a igreja, seguíamo-lo num domingo e no dia seguinte íamos falar com o pastor.

Dizíamos-lhe que ouvíramos um boato terrível de que o senhor tal e tal era membro activo do Klan e se sabia alguma coisa do assunto. Agíamos como se fosse um crime ser um membro do Klan. Se o tipo tinha filhos adolescentes, seguíamo-los nos seus encontros, sentávamo-nos atrás deles no cinema, apanhávamo-los estacionados nos bosques. Era apenas pura perseguição, mas resultava. Finalmente, telefonávamos ao desgraçado ou apanhávamo-lo sozinho num sítio qualquer e oferecíamos-lhe dinheiro. Prometíamos deixá-lo em paz e funcionava sempre. Normalmente, nessa altura estavam com os nervos completamente destroçados e só queriam colaborar. Vi-os chorar, filho, acredite. Chorar realmente quando finalmente se aproximavam do altar e confessavam os seus pecados - Lettner riu na direcção da sua linha, que estava bastante inactiva.

Adam bebeu um gole da sua cerveja. Talvez se a bebessem toda ele acabasse eventualmente por soltar a língua.

- Uma vez apanhei um tipo, nunca o esquecerei. Apanhámo-lo na cama com a amante negra, o que não era invulgar. Quer dizer, aqueles tipos andavam por ali a queimar cruzes e a disparar contra lares negros e depois esgueiravam-se como loucos para se encontrarem com as suas namoradas negras. Nunca compreendi porque razão as raparigas negras os suportavam. De qualquer maneira, ele tinha uma pequena cabana de caça no meio dos bosques e usava-a como ninho de amor. Certa tarde encontrou-se aí com ela para uma rapidinha e quando tinha terminado e estava pronto para se ir embora abriu a porta e nós tirámos-lhe uma fotografia. Também tirámos uma fotografia dela e depois falámos com ele. Era diácono ou ancião numa igreja qualquer de aldeia, um verdadeiro pilar, sabe, e falámos com ele como se fosse um cão. Mandámo-la embora, sen támo-nos com ele na pequena cabana e em breve ele estava a chorar.

Do modo como as coisas decorreram, ele foi uma das nossas melhores testemunhas. Mas mais tarde foi para a cadeia.

- Porquê?

- Bem, parece que enquanto ele se divertia com a namorada a mulher fazia um mesmo com um miúdo negro que trabalhava na quinta. A senhora ficou grávida, o bebé era mestiço, por isso o nosso informador foi ao hospital e matou a mãe e o filho. Passou quinze anos em Parchman.

- Óptimo.

- Nessa altura não conseguíamos muitas condenações, mas perseguíamo-los a tal ponto que eles tinham medo de fazer alguma coisa. A violência tinha abrandado consideravelmente quando o Dogan resolveu começar a perseguir os judeus. Isso apanhou-nos desprevenidos, tenho que admitir. Não tínhamos nenhuma pista.

- Porque não?

- Porque ele foi esperto. Compreendeu da pior forma que os seus próprios homens o denunciariam, por isso decidiu operar com uma pequena unidade.

- Unidade? Significa isso mais de uma pessoa?

- Qualquer coisa assim.

- O Sam e quem mais?

Lettner grunhiu e riu ao mesmo tempo e decidiu que o peixe se tinha mudado para outro lado. Colocou o carreto e a linha no barco e puxou a corda de arranque. Partiram, correndo mais uma vez rio abaixo. Adam deixou os pés fora de borda e em breve os mocassins de cabedal e os tornozelos nus estavam encharcados. Tomou um gole de cerveja. O sol começava finalmente a desaparecer por trás dos montes e apreciou a beleza do rio.

A paragem seguinte foi numa faixa de água parada por baixo de um penhasco com uma corda pendurada. Lettner lançou e deu linha, sem qualquer resultado, e assumiu o papel de interrogador. Fez uma centena de perguntas sobre Adam, a fuga para oeste, as novas identidades, o suicídio. Explicou que quando o Sam estava na cadeia tinham investigado a família e sabiam que ele tinha um filho que acabava de deixar a cidade, mas como Eddie parecia ser inofensivo não continuaram a investigação. Em vez disso, passaram o tempo a vigiar os irmãos e os primos de Sam. Ficou intrigado com a juventude de Adam e com a forma como fora educado quase sem conhecimento da existência dos parentes.

Adam fez algumas perguntas, mas as respostas foram vagas e imediatamente transformadas em mais perguntas acerca do seu passado. Adam estava a defrontar-se com um homem que passara vinte e cinco anos a fazer perguntas.

Um terceiro e último local possível não ficava longe de Calico Rock e pescaram até escurecer. Depois de cinco cervejas, Adam reuniu coragem suficiente para molhar um anzol. Lettner era um instrutor paciente e em poucos minutos Adam apanhara uma truta impressionante. Por um breve interlúdio, esqueceram-se de Sam, do Klan e de outros pesadelos do passado e pescaram simplesmente. Beberam e pescaram.

O primeiro nome de Mrs. Lettner era Irene e deu as boas-vindas ao marido e ao seu inesperado convidado com graça e indiferença. Enquanto Ron os conduzia a casa, Wyn explicara que Irene estava habituada a visitantes inesperados. Sem dúvida que se mostrou impassível quando eles cambalearam pela porta dentro e lhe entregaram uma fieira de trutas.

A casa dos Lettner era uma vivenda sobre o rio, a um quilómetro e meio da cidade. O alpendre das traseiras era gradeado para o proteger dos insectos e um pouco abaixo dele disfrutava-se uma esplêndida vista sobre o rio. Sentaram-se em cadeiras de balouço no alpendre e abriram outra rodada de cerveja enquanto Irene fritava o peixe.

Pôr comida na mesa era uma nova experiência para Adam e comeu o peixe que pescara com grande apetite. Sabe sempre melhor, assegurou-lhe Wyn enquanto engolia e bebia, quando somos nós que o apanhamos. Mais ou menos a meio da refeição, Wyn passou para o uísque. Adam recusou. Queria apenas um copo de água, mas o machismo levou-o a continuar com a cerveja. Não podia fraquejar neste ponto. Lettner certamente que o puniria.

Irene bebeu vinho e contou histórias do Mississípi. Tinha sido ameaçada várias vezes e os filhos recusavam-se a visitá-los. Eram ambos do Ohio e as respectivas famílias estavam constantemente preocupadas com a segurança deles. Esses é que foram tempos, disse ela mais do que uma vez com uma certa saudade da excitação. Tinha um orgulho enorme no marido e na sua actuação durante a guerra dos direitos civis.

Deixou-os depois do jantar e desapareceu algures na vivenda. Eram quase dez horas e Adam estava pronto para dormir. Wyn levantou-se agarrado a uma trave de madeira e pediu licença para uma visita à casa de banho. Regressou em devido tempo com dois novos uísques em copos altos. Deu um a Adam e regressou à sua cadeira de baloiço.

Balançaram-se e beberam em silêncio por alguns momentos e depois Lettner disse:

- Então está convencido que o Sam teve ajuda.

- Claro que teve ajuda - Adam tinha perfeita consciência que a sua língua estava espessa e as palavras lentas. O discurso de Lettner era notavelmente articulado.

- E porque tem tanta certeza?

Adam baixou o pesado copo e jurou não tomar mais nenhuma bebida.

- O FBI fez uma busca à casa de Sam depois da explosão da bomba, certo?

- Certo.

- O Sam estava na prisão em Greenville e vocês obtiveram um mandado.

- Eu estive lá, filho. Fomos com uma dúzia de agentes e estivemos lá três dias.

- E não encontraram nada.

- Bem pode dizê-lo.

- Nem vestígios de dinamite. Nem rasto de cápsulas, rastilhos ou detonadores. Nem rasto de qualquer dispositivo ou substância usada em qualquer das bombas. Certo?

- Certo. Então onde quer chegar?

- O Sam não tinha quaisquer conhecimentos de explosivos, nem qualquer experiência no seu uso.

- Não, eu diria que tinha uma experiência bastante grande na sua utilização. O Kramer foi o sexto atentado à bomba, tanto quanto me lembro. Aqueles malditos andavam a colocar bombas como doidos e não conseguíamos detê-los. Você não estava lá. Eu estive no meio de tudo. Tínhamos perseguido o Klan e tínhamo-nos infiltrado a tal ponto que eles tinham medo de se mexer e, então, de repente, uma outra guerra eclodiu e havia bombas a rebentar por todo o lado. Escutávamos onde era suposto escutarmos. Torcíamos braços conhecidos até se partirem. E não tínhamos qualquer pista. Os nossos informadores não tinham pistas. Era como se um outro ramo do Klan tivesse subitamente invadido o Mississípi sem nada dizer ao antigo.

- Sabia alguma coisa do Sam?

- O nome dele constava dos nossos registos. Segundo me lembro, o pai dele também tinha sido membro do Klan e talvez um ou dois dos irmãos. Tínhamos os nomes deles, mas pareciam inofensivos. Viviam na parte norte do estado, numa área que não era conhecida pela especial violência do Klan. Provavelmente queimaram algumas cruzes, alvejaram algumas casas, mas nada de comparável ao Dogan e ao seu bando. Tínhamos as mãos cheias de assassinos. Não tínhamos tempo para investigar todos os membros do Klan do estado.

- Então como explica a súbita viragem de Sam para a violência?

- Não posso explicar. Ele não era nenhum menino de coro, certo? Já tinha matado antes.

- Tem a certeza?

- Ouviu o que eu disse. Ele alvejou e matou um dos seus empregados negros no início dos anos cinquenta. Nunca passou um dia na cadeia por isso. Na verdade, embora não tenha a certeza, acho que nem sequer foi preso por isso. Pode ter havido ainda outra morte. Outra vítima negra.

- Prefiro não saber.

- Pergunte-lhe. Veremos se o velho sacana tem coragem para o admitir perante o próprio neto - bebeu mais um gole. - Ele era um homem violento, filho, e certamente que tinha capacidade para colocar bombas e matar pessoas. Não seja ingénuo.

- Não sou ingénuo. Estou apenas a tentar salvar a sua vida.

- Porquê? Ele matou dois rapazinhos inocentes. Duas crianças. Compreende isto?

- Foi condenado pelos crimes. Mas se essas mortes foram erradas, então também é um erro o estado matá-lo.

- Não acredito nessa conversa. A pena de morte é boa demais para essa gente. É demasiado limpa e estéril. Sabem que estão prestes a morrer, por isso têm tempo de rezar as suas orações e dizer adeus. E as vítimas? Quanto tempo tiveram para se preparar?

- Portanto quer que o Sam seja executado?

- Sim, quero vê-los todos executados.

- Pensava que tinha dito que ele não era mau tipo.

- Menti. O Sam Cayhall é um assassino a sangue-frio. E é culpado como o diabo. De que outra forma poderemos explicar o facto de as bombas terem parado assim que ele foi preso?

- Talvez tivessem ficado receosos depois do caso Kramer...

- Eles? Quem diabo são eles?

- Sam e o seu parceiro. E o Dogan.

- Muito bem. Vou acompanhá-lo. Vamos partir do princípio que o Sam teve um cúmplice.

- Não, vamos partir do princípio que o Sam foi o cúmplice. Vamos partir do princípio que o outro tipo era o perito em explosivos.

- Perito? Tratava-se de bombas muito grosseiras, filho. As primeiras cinco não passavam de alguns paus embrulhados juntos com um rastilho. Acende-se o fósforo, corre-se como um danado e quinze minutos mais tarde, bum! A bomba Kramer não era mais do que um engenho de segunda classe com um despertador ligado. Tiveram sorte em não ter explodido quando estavam a brincar com ela.

- Acha que foi deliberadamente preparada para explodir quando explodiu?

- O júri achou que sim. O Dogan disse que tinham planeado matar o Kramer.

- Então porque andava o Sam por ali? Porque é que se encontrava suficientemente perto para ser atingido pelos destroços?

- Terá de perguntar isso ao Sam, o que evidentemente já fez. Ele alega que teve um cúmplice?

- Não.

- Então isso resolve a questão. Se o seu próprio cliente diz que não, de que raio é que anda à procura?

- Acho que o meu cliente está a mentir.

- Então é uma pena para o seu cliente. Se ele quer mentir e proteger a identidade de alguém, porque é que você se há- de importar?

- Porque me iria ele mentir?

Lettner abanou a cabeça, frustrado, murmurou qualquer coisa e tomou um pouco de bebida.

- Como diabo quer que eu saiba? Não quero saber, está bem? Honestamente, tanto me faz que o Sam esteja a mentir como a dizer a verdade. Mas se ele não se abre consigo, seu advogado e seu neto, então que o mandem para a câmara de gás.

Adam tomou um longo golo e fitou a escuridão. A verdade é que, por vezes, se sentia um idiota ao investigar para tentar provar que o seu próprio cliente lhe estava a mentir. Tentaria mais uma vez e depois falaria de outra coisa.

- Não acredita nas testemunhas que viram o Sam com outra pessoa?

- Não. Mostravam-se muito inseguras, tanto quanto me lembro. O tipo da paragem de camiões só apareceu ao fim de muito tempo. O outro tipo tinha acabado de sair de uma taberna. Não eram credíveis.

- Acredita no Dogan?

- O júri acreditou.

- Não perguntei pelo júri.

Finalmente, a respiração de Lettner estava a ficar mais pesada e parecia estar a apagar-se.

- Dogan era um louco e um génio. Disse que a bomba era para matar e eu acredito nele. Não se esqueça, Adam, de que eles quase limparam uma familia inteira em Vicksburg. Não consigo lembrar-me do nome...

- Pinder. E está a dizer que eles fizeram isto e aquilo.

- Estou só a acompanhá-lo, está bem? Estamos a partir do princípio que o Sam tinha um companheiro com ele. Colocaram a bomba na casa dos Pinder a meio da noite. Uma familia inteira podia ter morrido.

- O Sam disse-me que colocou a bomba na garagem para que ninguém ficasse ferido.

- O Sam disse-lhe isso? Admitiu que o tinha feito? Então porque diabo me anda a fazer perguntas acerca de um cúmplice? Parece-me que precisa de dar ouvidos ao seu cliente. O filho da mãe é culpado, Adam. Ouça-o.

Adam bebeu mais um pouco e as pálpebras tornaram-se-lhe mais pesadas. Olhou para o relógio, mas não conseguiu ver.

- Fale-me das fitas - disse ele, bocejando.

- Que fitas? - perguntou Lettner, bocejando também.

- As fitas do FBI que passaram no julgamento de Sam. Aquelas em que o Dogan falava com o Wayne Graves acerca de colocarem uma bomba no Kramer.

- Tínhamos montes de fitas. E eles tinham montes de alvos. O Kramer era apenas um entre muitos. Que diabo, tínhamos uma fita com dois membros do Klan a falarem em rebentar uma bomba numa sinagoga no decurso de um casamento. Queriam trancar as portas e despejar gás pelas condutas do aquecimento, para matar toda a congregação. Sacanas doentes, homem. Não era o Dogan, mas apenas dois dos seus idiotas a dizerem baboseiras e por isso não ligámos. O Wayne Graves era membro do Klan mas também constava da nossa folha de pagamentos e autorizara-nos a pôr os seus telefones sob escuta. Certa noite telefonou ao Dogan, disse que estava a falar de uma cabina e acabaram por falar do golpe contra o Kramer. Também falaram de outros alvos. Foi muito eficaz no julgamento do Sam. Mas as fitas não nos ajudaram a impedir a explosão de uma única bomba. Nem nos ajudaram a identificar o Sam.

- Não faziam ideia de que o Sam Cayhall estava envolvido?

- Absolutamente nenhuma. Se o idiota tivesse saído de Greenville quando devia, provavelmente continuaria a ser um homem livre.

- O Kramer sabia que era um possível alvo?

- Dissemos-lhe. Mas nessa altura ele já estava habituado a ameaças. Mantinha um guarda em casa - as palavras começavam a ficar ligeiramente entarameladas e o queixo descaíra-Lhe um ou dois centímetros.

Adam pediu licença e cuidadosamente dirigiu-se à casa de banho. Ao regressar ao alpendre, ouviu um ressonar pesado. Lettner escorregara da cadeira e apagara-se com a bebida na mão. Adam tirou-Lha e depois foi à procura de um sofá.

 

A manhã estava quente, mas parecia febril no assento da frente do jipe excedente do Exército que não tinha ar condicionado nem outras comodidades. Adam transpirava e mantinha a mão na pega da porta, que esperava que se abrisse rapidamente no caso de o pequeno-almoço de Irene lhe vir à boca.

Tinha acordado no chão ao lado de um sofá estreito numa sala que tomara pelo escritório, mas que era na realidade a casa de banho junto à cozinha. E o sofá era um banco, explicara Lettner com úma gargalhada, em que ele costumava sentar-se para tirar as botas. Depois de passar busca à casa, Irene acabara por encontrar o seu corpo e Adam pedira muitas desculpas até ambos lhe pedirem que parasse. Ela insistira num pequeno-almoço substancial. Era o único dia da semana em que comiam carne de porco, uma tradição habitual na casa dos Lettner, e Adam sentara-se à mesa da cozinha bebendo avidamente água gelada, enquanto o bacon fritava, Irene cantarolava e Wyn lia o jornal. Ela também mexera ovos e preparara bloody marys.

O vodka amortecera um pouco a dor de cabeça de Adam, mas nada fez para lhe acalmar o estômago. Enquanto balançavam em direcção a Calico Rock pela estrada esburacada, Adam temia sentir-se enjoado.

Embora Lettner tivesse ficado inconsciente primeiro, de manhã parecia notavelmente saudável. Nem sinal de ressaca. Comera um prato cheio de gordura e biscoitos e bebera apenas um bloody mary. Lera diligentemente o jornal e comentara isto e aquilo e Adam calculou que ele era um daqueles alcoólicos funcionais que se enfrascavam todas as noites mas se libertavam facilmente.

A aldeia estava à vista. A estrada tornou-se subitamente mais suave e o estômago de Adam parou de balançar.

- Peço desculpa pela noite passada - disse Lettner.

- De quê? - perguntou Adam.

- Sobre o Sam. Fui muito duro. Eu sei que ele é seu avô e que está muito preocupado. Na realidade não desejo que o Sam seja executado. Ele não é mau tipo.

- Eu digo-lhe.

- Sim, tenho a certeza que ele ficará encantado. Entraram na cidade e viraram em direcção à ponte. - Há mais uma coisa - disse Lettner. - Sempre suspeitá mos que Sam tinha um companheiro.

Adam sorriu e olhou através da sua janela. Passaram por uma pequena igreja, com pessoas idosas de pé à sombra de uma árvore nos seus vestidos mais bonitos e fatos limpos.

- Porquê? - perguntou Adam.

- Pelas mesmas razões. Sam não tinha nenhuma experiência de bombas. Nunca estivera envolvido em actos violentos do Klan. As duas testemunhas, especialmente o motorista de camião de Cleveland, sempre nos preocuparam. O motorista não tinha razões para mentir e parecia tremendamente seguro de si. Sam não parecia nada ser do tipo de iniciar a sua própria campanha bombista.

- Então quem é o homem?

- Honestamente não sei - pararam junto do rio e Adam abriu a sua porta por uma questão de segurança. Lettner recostou-se sobre o volante e inclinou a cabeça na direcção de Adam. Depois da terceira ou quarta bomba, acho que talvez a da sinagoga de Jackson, alguns judeus graúdos de Nova Iorque e de Washington encontraram-se com LBJ, que por sua vez chamou Mr. Hoover, que por sua vez me chamou a mim. Fui a D. C. onde me encontrei com Mr. Hoover e com o presidente e eles pressionaram-me bastante. Regressei ao Mississípi com uma determinação renovada. Caímos em cima dos nossos informadores. Quer dizer, magoámos algumas pessoas. Tentámos tudo, mas sem qualquer resultado. As nossas fontes simplesmente não sabiam quem estava por trás das bombas. Só o Dogan sabia e obviamente que não o dizia a ninguém. Mas depois da quinta bomba, que acho que foi no jornal, tivemos um palpite.

Lettner abriu a sua porta e foi até à frente do jipe. Adam juntou-se-lhe e observaram o rio que corria lentamente através de Calico Rock.

- Quer cerveja? Tenho-a gelada na loja do isco.

- Não, por favor, agora estou meio enjoado.

- Estava só a brincar. De qualquer forma, o Dogan era dono daquele enorme depósito de carros usados e um dos seus empregados era um velho negro analfabeto, que lavava os carros e varria o chão. Anteriormente tínhamo-nos aproximado cautelosamente do velho, mas ele mostrara-se hostil. Mas sem mais nem menos disse a um dos nossos agentes que tinha visto o Dogan e outro homem a pôr qualquer coisa na mala de um Pontiac verde alguns dias antes.

Disse que esperara, depois abriu a mala e viu que era dinamite. No dia seguinte, ouviu dizer que tinha explodido outra bomba. Sabia que o FBI andava a cercar o Dogan, por isso achou que valia a pena falar-nos do assunto. O ajudante do Dogan era um membro do Klan chamado Virgil, também seu empregado. Por isso fui visitar o Virgil. Bati à porta dele às três horas da manhã, bati como o diabo, sabe, como sempre fazíamos nesse tempo, e ele acendeu rapidamente a luz e saiu para o alpendre. Tinha cerca de oito agentes comigo e todos enfiámos os nossos distintivos debaixo do rosto de Virgil. Ele estava assustado de morte. Disse-Lhe que sabíamos que tinha entregue a dinamite em Jackson na noite anterior e que podia apanhar trinta anos. Podíamos ouvir a mulher dele a chorar do outro lado da porta de rede. Virgil estava a tremer e quase a chorar. Deixei-lhe o meu cartão com instruções para me telefonar nesse mesmo dia antes do meio-dia e ameacei-o se contasse a Dogan ou a qualquer outra pessoa. Disse-lhe que o vigiaríamos vinte e quatro horas por dia.

Duvido que o Virgil tenha voltado a dormir. Tinha os olhos vermelhos e inchados quando se encontrou comigo algumas horas mais tarde. Tornámo-nos amigos. Disse que as bombas não eram trabalho do grupo habitual de Dogan. Não sabia muito, mas ouvira o suficiente de Dogan para saber que o bombista era um homem muito jovem vindo de outro estado. Esse tipo viera não se sabe de onde e era suposto ser muito bom em explosivos. Dogan escolhia os alvos, planeava os trabalhos, depois chamava esse tipo, que se introduzia sub-repticiamente na cidade, colocava as bombas e desaparecia.

- Acreditou nele?

- Em quase tudo, sim. Fazia sentido. Tinha que ser alguém novo, porque nessa altura tínhamos crivado o Klan de informadores. Conhecíamos praticamente todos os seus movimentos.

- O que aconteceu ao Virgil?

- Passei algum tempo com ele, dei-Lhe algum dinheiro, sabe, a rotina habitual. Eles queriam sempre dinheiro. Fiquei convencido de que ele não fazia ideia de quem andava a colocar as bombas. Nunca admitira que tinha estado envolvido, que tinha entregado carros e dinamite e nós não o pressionámos. Não andávamos atrás dele.

- Ele esteve envolvido no caso Kramer?

- Não, o Dogan usou outra pessoa nesse caso. Por vezes, o Dogan parecia ter um sexto-sentido sobre o momento adequado para baralhar as coisas, para alterar as rotinas.

- O suspeito do Virgil certamente não parece ser o Sam Cayhall, pois não? - perguntou Adam.

- Não.

- E não tinham suspeitos?

- Não.

- Ora, Wyn. De certeza que vocês tinham uma ideia qualquer.

- Juro. Não tínhamos. Pouco depois de termos encontrado o Virgil, explodiu a bomba Kramer e acabou tudo. Se o Sam tinha um companheiro, então o companheiro abandonou-o.

- E o FBI nunca mais ouviu nada?

- Nem um pio. Tínhamos o Sam, que parecia extremamente culpado.

- E, claro, vocês estavam ansiosos por encerrar o caso.

- Certamente. E lembre-se que as bombas pararam. Não houve mais bombas depois de o Sam ser apanhado, não se esqueça. Tínhamos o nosso homem. Mr. Hoover estava satisfeito. Os judeus estavam satisfeitos. O presidente estava satisfeito. Depois não conseguiram condená-lo a catorze anos, mas isso era diferente. Todos ficaram aliviados por as bombas terem parado.

- Então porque é que o Dogan não denunciou o verdadeiro bombista quando denunciou o Sam?

Tinham vagueado até à margem, até um ponto apenas a alguns centímetros da água. O carro de Adam estava perto. Lettner limpou a garganta e cuspiu para o rio.

- Testemunharia contra um terrorista em liberdade? Adam pensou durante uns segundos. Lettner sorriu, mostrou os grandes dentes amarelos e em seguida deu uma gargalhada, enquanto se encaminhava para a doca.

- Vamos beber uma cerveja.

- Não, por favor, tenho que ir.

Lettner parou, apertaram as mãos e prometeram encontrar-se de novo. Adam convidou-o a ir a Memphis e Lettner convidou-o a vir novamente a Calico Rock, para pescar e beber mais. De momento, o seu convite não foi bem recebido. Adam mandou cumprimentos a Irene, pediu novamente desculpa por ter desmaiado na casa de banho e agradeceu-lhe a conversa.

Deixou para trás a pequena cidade, conduzindo cuidadosamente pelas curvas e montes, ainda com cuidado para não incomodar o estômago.

Quando entrou no apartamento, Lee estava a lutar com um prato de massa. A mesa estava posta com porcelanas, pratas e flores frescas. A receita era macarrão no forno e as coisas não estavam a ir bem na cozinha. Mais do que uma vez no decurso da semana anterior, ela confessara ser uma péssima cozinheira e agora estava a prová-lo. Havia panelas e tachos espalhados pelos balcões da cozinha. O avental raramente usado estava cheio de molho de tomate. Ela riu quando se beijaram nas faces e disse que havia uma pizza congelada se as coisas piorassem.

- Estás com um aspecto horrível - disse ela, fitando-o subitamente nos olhos.

- Foi uma noite difícil.

- Cheiras a álcool.

- Tomei dois bloody marys ao pequeno-almoço. E agora preciso de outro.

- O bar está fechado - ela pegou numa faca e avançou para um monte de vegetais. Um zucchini era a próxima vítima.

- O que fizeste por lá?

- Embebedei-me com um homem do FBI. Dormi no chão entre a máquina de lavar e a máquina de secar roupa.

- Que agradável! - esteve quase a cortar-se. Afastou a mão da tábua de cortar e examinou o dedo. - Viste o jornal de Memphis?

- Não. Devia ver?

- Sim. Está ali - apontou para um canto do bar

- Alguma coisa má?

- Lê!

Adam pegou na edição de domingo do Memphis Press e sentou-se numa cadeira junto da mesa. Na primeira página da segunda secção encontrou subitamente o seu rosto sorridente. Era uma fotografia familiar, tirada não há muito tempo quando era estudante do segundo ano de Direito no Michigan. A história ocupava metade da página e a sua fotografia era acompanhada de muitas outras - Sam, claro, Marvin Kramer, Josh e John Kramer, Ruth Kramer, David McAllister, o procurador-geral, Steve Roxburgh, Naifeh, Jeremiah Dogan e Mr. Elliot Kramer, o pai de Marvin.

Todd Marks estivera ocupado. O seu relato começava com uma história sucinta do caso que ocupava toda uma coluna, depois passava rapidamente para o presente e recapitulava a mesma história que escrevera dois dias antes. Descobrira mais alguns dados biográficos de Adam - faculdade em Pepperdine, faculdade de Direito no Michigan, editor da revista de direito, resumo da sua carreira na Kravitz & Bane. Naifeh tinha muito pouco a dizer, apenas que a execução seria levada a cabo de acordo com a lei. McAllister, por seu lado, mostrava-se muito sensato. Vivera com o pesadelo Kramer durante vinte e três anos, dizia gravemente, pensando nele todos os dias da sua vida desde que acontecera. Tivera a honra e o privilégio de acusar Sam Cayhall e levar o criminoso perante a justiça e só a execução poderia encerrar este horrível capítulo da história do Mississípi. Não, disse ele depois de muito pensar, a ideia da clemência estava fora de questão. Simplesmente não seria justo para os pequenos Kramer. E assim por diante.

Era evidente que Steve Roxburgh também tinha apreciado esta entrevista. Estava preparado para enfrentar os últimos esforços de Cayhall e do seu advogado para impedir a execução. Ele e o seu pessoal estavam preparados dezoito horas por dia para satisfazer os desejos do povo. Este assunto já se tinha arrastado por tempo suficiente, teria ele dito mais do que uma vez, e era tempo de fazer justiça. Não, não estava preocupado com os desafios legais de última hora de Mr. Cayhall. Tinha confiança na sua perícia como advogado, o advogado do povo.

Sam Cayhall recusou-se a comentar, explicava Marks, e não foi possível contactar Adam Hall, como se Adam estivesse ansioso por falar, mas simplesmente não tivesse sido possível encontrá-lo.

Os comentários da família eram simultaneamente interessantes e desanimadores. Elliot Kramer, agora com setenta e sete anos e ainda a trabalhar, era descrito como uma pessoa viva e saudável, apesar dos problemas de coração. Era também muito amargo. Culpava o Klan e Sam Cayháll não apenas pelo assassínio dos seus dois netos, mas também pela morte de Marvin. Esperara vinte e três anos pela execução de Sam e esse momento nunca chegaria suficientemente depressa. Censurou severamente um sistema judicial que permite a um condenado viver quase dez anos após o júri o ter sentenciado à pena de morte. Não tinha a certeza se iria testemunhar a execução, os seus médicos é que diriam, mas desejava estar lá. Queria estar lá e olhar Sam Cayhall nos olhos quando o amarrassem.

Ruth Kramer mostrou-se um pouco mais moderada. O tempo curara muitas feridas, dizia ela, e não tinha a certeza de como se sentiria após a execução. Nada poderia devolver-lhe os filhos. Tinha pouco a dizer a Todd Marks.

Adam dobrou o jornal e colocou-o ao lado da cadeira. Sentiu subitamente um nó no seu frágil estômago e lembrou-se de Steve Roxburgh e David McAllister. Uma vez que o advogado esperava salvar a vida de Sam, era assustador verificar que os seus inimigos estavam tão ansiosos pela batalha final. Era um novato. Eles eram veteranos. Especialmente Roxburgh já passara por aquilo antes e dispunha de pessoal especializado, que incluía um famoso especialista conhecido por Dr. Morte, um experiente e talentoso advogado com a paixão das execuções. Adam não tinha nada, além de um exaustivo processo cheio de recursos sem sucesso e uma oração para que acontecesse um milagre. Neste momento, sentia-se completamente vulnerável e desesperado.

Lee sentou-se ao lado dele com uma chávena de café expresso.

- Pareces preocupado - disse ela, acariciando-lhe o braço.

- O meu companheiro das docas não foi de grande utilidade.

- Parece que o velho Kramer está furioso.

Adam esfregou as têmporas e tentou minorar a dor.

- Preciso de um analgésico.

- Que tal um Valium?

- Óptimo.

- Tens mesmo fome?

- Não, o meu estômago não está muito bom.

- Óptimo. O jantar foi eliminado. Um pequeno problema com a receita. É pizza congelada ou nada.

- Nada me parece bom. Nada excepto um Valium.

 

Adam lançou as suas chaves para o balde vermelho e observou-o enquanto subia a seis metros acima do solo, onde parou e girou lentamente na ponta da corda. Caminhou até ao primeiro portão, que estremeceu antes de se abrir de par em par. Caminhou até ao segundo portão e esperou. Packer saiu pela porta principal a trinta metros de distância, espreguiçando-se e bocejando, como se tivesse estado a dormir no Corredor.

O segundo portão fechou-se atrás dele e Packer estava à espera ali perto.

- Bom-dia - disse ele.

Eram quase duas horas, o momento mais quente do dia. Um meteorologista matinal da rádio tinha previsto alegremente o primeiro dia do ano com uma temperatura de quarenta graus.

- Olá, sargento - disse Adam como se fossem agora velhos amigos. Caminharam ao longo do caminho de tijolos até à pequena porta com as ervas daninhas em frente. Packer abriu-a e Adam entrou.

- Vou buscar o Sam - disse Packer sem pressas e desapareceu. As cadeiras do seu lado da divisória estavam dispersas. Duas estavam viradas, como se os advogados e visitantes tivessem brigado. Adam aproximou uma delas do balcão na extremidade mais afastada, o mais longe possível do ar condicionado.

Retirou uma cópia da petição que interpusera às nove horas dessa manhã. Segundo a lei, nenhum pedido ou questão podia ser formulado perante um tribunal federal sem ter sido primeiro apresentado e recusado por um tribunal estadual. A petição atacando a câmara de gás tinha sido entregue no Supremo Tribunal do Mississípi ao abrigo das leis estaduais de indulto após a condenação. Na opinião de Adam e também de Garner Goodman, era apenas uma formalidade. Goodman trabalhara na petição durante o fim-de-semana. De facto, trabalhara todo o dia de sábado, enquanto Adam estava a beber cerveja e a pescar trutas com Wyn Lettner.

Sam chegou como de costume, com as mãos algemadas atrás das costas, sem nenhuma expressão no rosto e fato-macaco vermelho desabotoado quase até à cintura. Os cabelos cinzentos do peito estavam húmidos de transpiração. Tal como um animal bem treinado, virou as costas a Packer, que retirou rapidamente as algemas e em seguida saiu pela porta. Sam procurou imediatamente os cigarros e certificou-se de acender um antes de se sentar e dizer:

- Bem-vindo.

- Entreguei isto às nove horas desta manhã - disse Adam, fazendo deslizar a petição pela estreita abertura na divisória. - Falei com a funcionária do Supremo Tribunal de Jackson. Ela parece pensar que o tribunal decidirá o assunto com a devida brevidade.

Sam aceitou os papéis e olhou para Adam.

- Podes apostar. Vão recusá-la com o maior prazer.

- O estado é obrigado a responder imediatamente, portanto neste mesmo momento temos o procurador-geral a trabalhar furiosamente.

- Óptimo. Poderemos ver as últimas no noticiário da noite. Provavelmente convidou as câmaras para o seu escritório enquanto preparam a resposta.

Adam despiu o casaco e alargou a gravata. A sala estava húmida e já estava a transpirar.

- O nome Wyn Lettner diz-Lhe alguma coisa?

Sam pensou no assunto durante um momento antes de falar e, como habitualmente, falou com palavras comedidas.

- Talvez. Não tenho a certeza. Na altura sabia quem ele era. Porquê?

- Estive com ele durante o fim-de-semana. Agora está reformado e tem um armazém de pesca no rio White. Tivemos uma longa conversa.

- Que agradável! E o que conseguiste exactamente?

- Ele diz que continua a pensar que havia mais alguém consigo.

- Deu-te alguns nomes?

- Não. Nunca tiveram um suspeito, ou pelo menos é o que ele diz. Mas tinham um informador, um membro do pessoal do Dogan, que disse ao Lettner que o outro tipo era alguém novo, não do bando habitual. Pensavam que era de outro estado e que era muito jovem. Era tudo o que Lettner sabia.

- E acreditas nisso?

- Não sei em que acreditar.

- Que diferença faz isso agora?

- Não sei. Poderia dar-me alguma coisa para usar enquanto tento salvar-lhe a vida. Estou desesperado, acho.

- E eu não?

- Estou à procura de pistas, Sam. Sôfrego e tentando preencher lacunas.

- Portanto a minha história tem lacunas?

- Acho que sim. O Lettner disse-me que sempre tiveram dúvidas porque não encontraram vestígios de explosivos quando passaram busca à sua casa. E o senhor não tinha qualquer experiência no seu uso. Disse que o Sam não parecia ser do tipo de iniciar a sua própria campanha bombista.

- E acreditas em tudo o que o Lettner diz?

- Sim, porque faz sentido.

- Deixa-me fazer-te uma pergunta. E se eu te dissesse que havia outra pessoa? E se te desse o nome, o endereço, o número de telefone, o tipo de sangue e a análise de urina dessa pessoa? O que farias com isso?

- Começava a berrar como o diabo. Interporia petições e recursos aos montes. Agitaria os meios de comunicação e apresentaria o senhor como um bode expiatório. Tentaria fazer da sua inocência sensação, esperando que alguém reparasse, alguém como um juiz de apelação.

Sam acenou afirmativamente com a cabeça devagar, como se isto fosse bastante rídiculo e exactamente aquilo que esperava.

- Não resultaria, Adam - disse ele cuidadosamente, como se estivesse a ensinar uma criança. - Tenho três semanas e meia.

Conheces a lei. Não serve de nada começar a gritar que foi o John Doe, quando John Doe nunca foi mencionado.

- Eu sei. Mas fá-lo-ia de qualquer maneira.

- Não resultaria. Pára de tentar encontrar o John Doe.

- Quem é ele?

- Ele não existe.

- Existe sim.

- Porque tens tanta certeza?

- Porque quero acreditar que está inocente, Sam. É muito importante para mim.

- Já te disse que estou inocente. Coloquei a bomba, mas não tinha intenção de matar ninguém.

- Mas porque é que colocou a bomba? Porque é que pôs uma bomba na casa dos Pinder e na sinagoga e no escritório da imobiliária? Porque é que andava a lançar bombas contra pessoas inocentes?

Sam limitou-se a fumar e a olhar para o tecto.

- Porquê o ódio, Sam? Porque é tão simples? Porque é que foi ensinado a odiar os negros, os judeus, os católicos e qualquer pessoa ligeiramente diferente de si? Alguma vez perguntou a si próprio porquê?

- Não, nem tenciono fazê-lo.

- Então é apenas o senhor. É o seu carácter, a sua personalidade, tal como a altura ou a cor azul dos olhos. É qualquer coisa que nasceu consigo e não pode ser mudada. Foi passada nos genes pelo seu pai e pelo seu avô, todos eles fiéis membros do Klan e é qualquer coisa que vai levar orgulhosamente para o túmulo, não é?

- É uma forma de vida. Era tudo o que eu sabia.

- Então o que sucedeu com o meu pai? Porque é que não conseguiu contaminar o Eddie?

Sam esmagou o cigarro no chão e inclinou-se para a frente apoiado nos cotovelos. As rugas dos cantos dos olhos e da testa estreitaram-se. O rosto de Adam estava directamente em frente à abertura, mas ele não o fitou. Em vez disso, fixou os olhos na base da divisória.

- Então é isso. Chegou a altura de termos uma conversa sobre o Eddie - a voz era muito mais suave e até as palavras eram mais lentas.

Onde é que errou em relação a ele?

- Isto obviamente não tem nada a ver com a pequena festa de gás que me estão a preparar, pois não? Não tem nada a ver com pedidos nem com recursos, advogados e juízes, petições e suspensões. Isto é uma perda de tempo.

- Não seja cobarde, Sam. Diga-me onde é que errou com o Eddie. Ensinou-lhe a palavra preto? Ensinou-o a odiar as crianças negras? Tentou ensinar-lhe a queimar cruzes ou a construir bombas? Levou-o ao seu primeiro linchamento? O que é que fez com ele, Sam? Onde é que errou?

- O Eddie só soube que eu pertencia ao Klan quando já estava na escola secundária.

- Porquê? Certamente que não se envergonhava do facto. Era uma grande fonte de orgulho familiar, não era?

- Não era algo de que falássemos.

- Porque não? O senhor pertencia à quarta geração Cayhall de membros do Klan, com raízes até à guerra civil ou qualquer coisa assim. Não foi isso que me contou?

- Sim.

- Então, porque é que não sentou o pequeno Eddie nos joelhos e não lhe mostrou o álbum de família? Porque não lhe contou histórias de embalar dos heróicos Cayhall, que deambulavam à noite com máscaras sobre os rostos corajosos e queimavam cabanas de negros? Sabe, histórias de guerra, de pai para filho.

- Repito, não eram coisas de que falássemos.

- Bem, então quando ele ficou mais velho, tentou recrutá-lo?

- Não. Ele era diferente.

- Quer dizer, não odiava?

Sam inclinou-se para a frente e tossiu, a tosse profunda, curta e seca dos fumadores. O rosto ficou vermelho enquanto lutava para respirar. A tosse piorou e cuspiu no chão. Pôs-se de pé e dobrou-se pela cintura com as duas mãos nas ancas, tossindo repetidamente enquanto andava de um lado para o outro tentando parar a tosse.

Finalmente uma pausa. Endireitou-se e respirou rapidamente. Engoliu e cuspiu de novo, depois acalmou-se e inspirou lentamente. O ataque tinha passado e o rosto empalideceu novamente de súbito. Sentou-se na cadeira em frente de Adam e puxou intensamente uma fumaça do cigarro, como se a culpa da tosse fosse de qualquer dispositivo ou hábito. Levou o seu tempo, respirando profundamente e limpando a garganta.

- Eddie era uma criança meiga - começou asperamente. Herdou-o da mãe. Não era maricas. Na realidade, era tão duro como todos os outros rapazinhos - uma longa pausa, outra fumaça. - Não muito longe da nossa casa vivia uma família de pretos...

- Poderíamos chamar-lhes negros, Sam? Já lhe pedi isso antes.

- Desculpa. Havia uma família africana perto de nós. Os Lincoln. O nome dele era Joe Lincoln e trabalhava para nós há muitos anos. Tinha uma mulher de facto e uma dúzia de filhos de facto. Um dos rapazes era da mesma idade do Eddie e eram inseparáveis, os melhores amigos. Não era invulgar nesse tempo. Brincava-se com quem quer que vivesse mais próximo. Acredites ou não, até eu tive companheiros de infância africanos. Quando o Eddie começou a ir à escola, ficou muito aborrecido porque ele ia num autocarro e o seu amiguinho africano noutro. O nome do garoto era Quince. Quince Lincoln. Mal podiam esperar pela hora de chegar a casa da escola para irem brincar na quinta. Lembro-me que o Eddie se mostrava sempre perturbado por não poderem ir à escola juntos. E o Quince não podia dormir na nossa casa nem o Eddie podia passar a noite com os Lincoln. Estava sempre a fazer-me perguntas, querendo saber porque razão os africanos de Ford County eram tão pobres, viviam em casas em ruínas, não tinham roupas bonitas e havia tantos filhos em cada família. Sofria realmente com isso e isso tornava-o diferente. À medida que crescia, simpatizava cada vez mais com os africanos. Tentei falar com ele.

- Claro que sim. Tentou endireitá-lo não foi?

- Tentei explicar-lhe as coisas.

- Tais como?

- Como a necessidade de manter a separação entre as raças. Não há nada de errado nas escolas iguais, mas separadas. Nada de errado com as leis que proibem a miscigenação. Nada de errado no facto de manter os africanos no seu lugar.

- Onde é o lugar deles?

- Sob controlo. Deixem-nos à solta e vejam só o que acontece. Crime, drogas, SIDA, nascimentos ilegítimos e uma decadência geral nos padrões morais da sociedade.

- E então a proliferação nuclear e as abelhas assassinas?

- Percebes onde quero chegar.

- E os direitos básicos, conceitos radicais como o direito de voto, o direito de usar casas de banho públicas, o direito de comer em restaurantes e dormir em hotéis, o direito de não ser discriminado na procura de emprego, na habitação e na educação?

- Pareces o Eddie.

- Ainda bem!

- Quando estava a terminar a escola secundária argumentava desse modo, da forma como os africanos estavam a ser maltratados. Saiu de casa aos dezoito anos.

- Sentiu a falta dele?

- A princípio acho que não. Discutíamos muito. Ele sabia que eu pertencia ao Klan e detestava-me. Pelo menos era o que ele dizia.

- Portanto, pensava mais no Klan do que no seu próprio filho?

Sam fitou o chão. Adam garatujou num bloco. O ar condicionado batia e falhava e, por momentos, pareceu finalmente decidido a parar.

- Era um garoto meigo - disse Sam tranquilamente. Costumávamos ir pescar juntos, era o que mais fazíamos em conjunto. Eu tinha um velho barco e passávamos horas no lago a pescar carpas, gorazes e às vezes percas. Depois ele cresceu e deixou de gostar de mim. Tinha vergonha de mim e, claro, isso magoava-me. Ele esperava que eu mudasse e eu esperava que ele visse a luz como todos os outros miúdos brancos da sua idade. Mas nunca aconteceu. Afastámo-nos quando ele ainda estava na escola secundária, depois começou aquela treta dos direitos civis e deixou de haver esperança.

- Ele participou no movimento?

- Não. Não era estúpido. Podia simpatizar com eles, mas mantinha a boca fechada. As pessoas daqui não andavam por aí a dizer esses disparates. Já havia judeus e radicais do Norte em número suficiente para agitar as coisas. Não precisavam de ajuda.

- O que é que ele fez quando saiu de casa?

- Alistou-se no exército. Foi uma maneira fácil de sair da cidade, afastar-se do Mississípi. Esteve fora três anos e quando voltou trouxe uma mulher. Viviam em Clanton e quase não os víamos. Falava ocasionalmente com a mãe, mas não tinha muita coisa a dizer-me. Estávamos no início dos anos sessenta e o movimento africano estava a ficar abalado. Havia muitas reuniões do Klan, muita actividade, quase toda a sul. O Eddie mantinha-se afastado. Era muito sossegado, não tinha muita coisa a dizer.

- Então nasci eu.

- Nasceste mais ou menos na altura em que aqueles três trabalhadores dos direitos civis desapareceram. Eddie teve a coragem de me perguntar se eu estava envolvido no assunto.

- E estava?

- Raios, não. Não soube quem tinha sido durante quase um ano.

- Eram membros do Klan, não eram?

- Eram sim.

- Ficou satisfeito quando os três rapazes foram assassinados?

- Como diabo pode ser isso relevante para mim e para a câmara de gás em mil novecentos e noventa?

- O Eddie soube quando se envolveu com os atentados bombistas?

- Ninguém sabia em Ford County. Não tínhamos andado muito activos. Como já disse, a maior parte era a sul, à volta de Meridian.

- E o senhor mal podia esperar para se envolver!

- Precisavam de ajuda. Os federais tinham-se infiltrado de tal modo que praticamente não se podia confiar em ninguém. O movimento dos direitos civis estava a avançar muito rapidamente. Era preciso fazer alguma coisa. Não me envergonho disso.

Adam sorriu e abanou a cabeça.

- O Eddie tinha vergonha, não tinha?

- O Eddie não sabia nada do assunto até ao caso dos Kramer.

- Porque é que o envolveu?

- Não o envolvi.

- Envolveu sim. Disse à sua mulher para ir chamar o Eddie e ir até Cleveland buscar o carro. Foi acessório depois do facto. - Eu estava na cadeia e estava assustado. E nunca ninguém soube. Foi inofensivo.

- Talvez o Eddie não pensasse assim.

- Não sei o que pensava o Eddie. Na altura em que saí da prisão ele tinha desaparecido. Tinham desaparecido todos. Nunca mais o vi até ao funeral da mãe e nessa altura entrou e saiu sem uma palavra a ninguém - esfregou as rugas da testa com a mão esquerda e depois passou-a pelo cabelo oleoso. O rosto estava triste e, quando olhou através da abertura, Adam viu vestígios de humidade nos seus olhos.

- A última vez que vi o Eddie estava a entrar no carro à porta da igreja depois do funeral. Estava com pressa. Tive o pressentimento que nunca mais o veria. Estava ali porque a mãetinha morrido e eu sabia que essa seria a sua última visita a casa. Não havia mais nenhuma razão para ele voltar. Eu estava nos degraus da frente da igreja com a Lee e ambos o vimos afastar-se. Ali estava eu a enterrar a minha mulher e a ver o meu filho desaparecer pela última vez.

- Tentou encontrá-lo?

- Não, na verdade não. A Lee disse-me que tinha um número de telefone, mas não sentia vontade de suplicar. Era óbvio que ele não queria nada comigo, por isso deixei-o em paz. Perguntava-me muitas vezes o que seria feito de ti e lembro-me de dizer à tua avó como seria bom voltar a ver-te. Mas não estava preparado para passar muito tempo tentando encontrar-vos.

- Teria sido difícil encontrar-nos.

- Foi o que ouvi dizer. A Lee falava com o Eddie de vez em quando e dava-me notícias. Parecia que vocês andavam a mudar-se por toda a Califórnia.

- Frequentei seis escolas em doze anos.

- Mas porquê? O que andava ele a fazer?

- Várias coisas. Ele perdia o emprego e nós mudávamo-nos porque não podíamos pagar a renda. Então a mãe arranjava um emprego e mudávamos para outro lugar qualquer. Depois o pai ficava furioso com a minha escola por qualquer motivo vago e retirava-me.

- Que tipo de trabalho fazia ele?

- Certa vez trabalhou nos correios, até ser despedido. Ameaçou processá-los e durante muito tempo manteve uma pequena guerra contra o sistema postal. Não conseguiu arranjar nenhum advogado que tomasse conta do seu caso, por isso enchia-os de papelada. Tinha sempre uma pequena secretária com uma velha máquina de escrever e caixas cheias de papéis; estes eram os seus bens mais valiosos. Sempre que nos mudávamos, ele tinha muito cuidado com o seu escritório, como lhe chamava. Não se preocupava com mais nada, não havia muita coisa, mas protegia o escritório como a própria vida. Lembro-me de muitas noites estar deitado na cama a tentar dormir e ouvir aquela maldita máquina de escrever a bater a toda a hora. Odiava o governo federal.

- Assim é que é.

- Mas por razões diferentes, acho. Um ano o IRS andou atrás dele, o que sempre achei estranho, pois ele não ganhava o suficiente para pagar três dólares de impostos. Por isso ele declarou guerra ao Rendimento Infernal, como lhe chamava, e aquilo arrastou-se durante anos. O estado da Califórnia revogou-lhe a carta de condução por um ano quando ele não a renovou e com isto violou toda a espécie de direitos civis e humanos. A mãe teve que lhe servir de motorista durante dois anos, até ele se render à burocracia. Estava sempre a escrever cartas ao governador, ao presidente, aos senadores dos Estados Unidos, aos congressistas, a qualquer pessoa com um cargo e um estado-maior. Fazia um escândalo por isto e por aquilo e quando lhe respondiam declarava uma pequena vitória. Guardava todas as cartas. Uma vez envolveu-se numa discussão com um vizinho do lado, qualquer coisa relacionada com um cão que urinava no nosso alpendre e então gritaram um com o outro por cima da vedação. Quanto mais zangados ficavam, mais poderosos se tornavam os seus amigos e ambos estavam prestes a fazer telefonemas para toda a espécie de gente importante que castigaria imediatamente o outro. O pai correu para dentro de casa e em poucos segundos regressou à discussão com treze cartas do governador do estado da Califórnia. Contou-as em voz alta, sacudiu-as em frente do nariz do vizinho e o pobre tipo ficou esmagado. Fim da discussão. O cão nunca mais urinou no nosso alpendre. Claro que todas as cartas lhe diziam, em tom amável, que se fosse lixar.

Embora não se apercebessem, estavam ambos a sorrir quando a pequena história chegou ao fim.

- Se ele não conseguia manter um emprego, como é que vocês sobreviviam? - perguntou Sam, fitando-o pela abertura.

- Não sei. A mãe trabalhava sempre. Tinha muitos recursos e às vezes conseguia ter dois empregos. Caixeira numa mercearia. Empregada de farmácia. Podia fazer fosse o que fosse e lembro-me de um ou dois bons empregos como secretária. A certa altura, o pai obteve uma licença para vender seguros de vida e isso tornou-se um part-time permanente. Acho que era bom nisso, porque as coisas melhoraram quando me tornei mais velho. Podia trabalhar no seu próprio horário sem ter de dar contas a ninguém. Isto agradava-lhe, embora odiasse companhias de seguros. Processou uma por cancelar uma apólice ou coisa assim. Não compreendi realmente o que se passou e ele perdeu o caso. Claro que culpou de tudo o advogado, que cometeu o erro de enviar a Eddie uma longa carta cheia de afirmações fortes. O pai esteve a escrever durante três dias e quando a sua obra-prima ficou pronta mostrou-a à mãe. Vinte e uma páginas indicando os erros e as mentiras do advogado. Ela limitou-se a abanar a cabeça. Lutou com aquele pobre advogado durante anos.

- Que tipo de pai era ele?

- Não sei. É uma pergunta difícil, Sam.

- Porquê?

- Pela forma como morreu. Fiquei zangado com ele durante muito tempo depois da sua morte e não compreendia como é que ele podia ter decidido deixar-nos, decidido que não precisávamos mais dele, que era tempo de ir-se embora. E depois de ter sabido a verdade, fiquei zangado com ele por me ter mentido durante todos aqueles anos, por me ter mudado o nome e fugido. Foi uma confusão terrível para um garoto. Ainda é.

- Ainda estás zangado?

- Na verdade, não. Tenho tendência a recordar as coisas boas do Eddie. Foi o único pai que tive, por isso não tenho que odiá-lo. Não fumava, não bebia, não jogava, não tomava drogas, não andava atrás de mulheres, não batia nos filhos nem nada disso. Tinha problemas em conservar um emprego, mas nunca ficámos sem comida e sem abrigo. Ele e a mãe andavam constantemente a falar de divórcio, mas não resultava. Ela foi-se embora várias vezes e depois ele mudava-se. Era perturbante, mas eu e Carmen habituámo-nos a isso. Tinha os seus dias negros, ou maus momentos, como lhes chamávamos, quando se retirava para o seu quarto, trancava a porta e baixava as persianas. A mãe reunia-nos à sua volta e explicava que ele não estava a sentir-se bem e que devíamos ficar calados. Nem televisão nem rádio. Ela apoiava-o muito quando ele se retirava. Ficava no quarto durante dias e depois saía subitamente como se nada tivesse acontecido. Aprendemos a viver com os maus momentos do Eddie. Parecia e comportava-se de modo normal. Estava quase sempre ali quando precisávamos dele. Jogávamos baisebol no pátio das traseiras e passeávamos. Levou-nos à Disneylândia umas duas vezes. Acho que era bom homem e bom pai, só tinha aquela faceta estranha e escura que ocasional mente vinha à superfície.

- Mas não eram íntimos.

- Não, não éramos íntimos. Ele ajudava-me nos trabalhos de casa e nos projectos científicos e insistia em boas notas. Falávamos acerca do sistema solar e do ambiente, mas nunca acerca de raparigas, sexo e carros. Nunca sobre a família e os antepassados. Não havia intimidade. Ele não era uma pessoa calorosa. Houve alturas em que precisei dele e ele estava trancado no seu quarto.

Sam esfregou os cantos dos olhos, depois inclinou-se novamente para a frente apoiando-se nos cotovelos com o rosto muito próximo da divisória e olhou directamente para Adam.

- E a morte dele? - perguntou.

- O quê?

- Como aconteceu?

Adam esperou muito tempo antes de responder. Podia contar esta história de muitas maneiras. Poderia ser cruel, odioso e brutalmente sincero e dessa forma destruir o velho. Sentiu-se fortemente tentado a fazê-lo. Tinha que ser feito, dissera a si próprio muitas vezes. Sam precisava de sofrer; era necessário atirar-lhe à cara a culpa do suicídio de Eddie. Adam desejava realmente magoar o velho sacana e fazê-lo chorar.

Mas ao mesmo tempo desejava contar a história rapidamente, mascarando as partes mais dolorosas e, em seguida, passar a outro assunto. O pobre velho sentado preso do outro lado da divisória já estava a sofrer o suficiente. O governo planeava matá-lo em menos de quatro semanas. Adam suspeitava de que ele sabia mais acerca da morte de Eddie do que dizia.

- Estava a atravessar um mau momento - disse Adam fitando a divisória mas evitando Sam. - Estava no quarto há três semanas, o que era mais tempo do que o habitual. A mãe estava sempre a dizer-nos que ele estava a melhorar, só mais uns dias e ele sairia. Acreditámos nela, porque aparentemente ele conseguia sempre libertar-se. Escolheu um dia em que a mãe estava a trabalhar e a Carmen em casa de uma amiga, um dia em que sabia que eu seria o primeiro a chegar a casa. Encontrei-o deitado no chão do meu quarto, ainda agarrado à a