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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CANÇÃO DE TRÓIA / Colleen McCullough
A CANÇÃO DE TRÓIA / Colleen McCullough

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

                                   Narrado por Príamo

Nunca houve uma cidade como Tróia. O jovem sacerdote Calcas, enviado à egípcia Tebas durante o seu noviciado, regressou indiferente às pirâmides construídas ao longo da margem ocidental do Rio da Vida. Tróia, disse ele, era mais imponente, pois toda ela se erguia mais alto e os seus edifícios albergavam os vivos e não os mortos. No entanto, acrescentou, havia uma circunstância atenuante: os Egípcios possuíam deuses inferiores. Os Egípcios tinham movido as suas pedras com mãos mortais, ao passo que as poderosas muralhas de Tróia haviam sido erigidas pelos próprios deuses. Aplana Babilónia, disse ainda Calcas, também não podia competir com Tróia, pois tinha apenas a altura que era permitida pela lama do rio e as suas muralhas assemelhavam-se a uma obra de crianças.

Não se lembra homem nenhum de quando foram construídas as nossas muralhas, pois isso sucedeu há já muito, muito tempo. Contudo, todos os homens conhecem a história. Dárdano (filho do rei dos nossos deuses, Zeus) apossou-se da península que existe na ponta extrema da Ásia Menor, onde, a norte, o mar Euxino derrama as suas águas no mar Egeu, através do exíguo estreito do Helesponto. Dárdano dividiu este novo reino em duas partes. Deu a parte sul ao seu segundo filho, que chamou Dardânia ao seu domínio e instalou a capital na cidade de Lirnesso. Embora mais pequena, a parte norte é muitíssimo mais rica; foram-lhe conferidos a tutela sobre o Helesponto e o direito de impor tributos a todos os mercadores que entrem ou saiam do mar Euxino. A esta parte chamamos Tróada. A sua capital, Tróia, ergue-se sobre o monte do mesmo nome.

 

 

 

 

Zeus amava o seu filho mortal. Por isso, quando Dárdano pediu ao seu divino pai que desse a Tróia muralhas indestrutíveis, foi com grande prazer que Zeus satisfez o seu desejo. Por essa altura, havia dois deuses que não estavam nas boas graças de Zeus: Poseidon, senhor do mar, e Apolo, senhor da luz. Ordenou-lhes Zeus que seguissem para Tróia e construissem muralhas mais altas, mais grossas e mais fortes do que todas as outras. Era um trabalho muito pouco indicado para o delicado e enfastiado Apolo, que preferia pegar na sua lira a ficar todo sujo e transpirado - uma maneira, explicou ele ao ingénuo Poseidon, de ajudar a passar o tempo enquanto as muralhas iam subindo. E foi assim que Poseidon empilhou pedras atrás de pedras, enquanto Apolo lhe cantava as suas canções.

Poseidon, no entanto, não trabalhava de graça: com efeito, todos os anos, deveria ser depositada a soma de cem talentos de ouro no seu templo em Lirnesso.

O rei Dárdano concordou; desde tempos imemoriais que os cem talentos de ouro são pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso. O problema é que, precisamente na altura em que o meu pai, Laomedonte, subiu ao trono troiano, um terramoto devastador destruiu a Casa de Minos em Creta e arrasou o império da ilha de Tera. A nossa muralha ocidental ruiu e o meu pai contratou o engenheiro grego Éaco para a reconstruir.

Éaco fez um bom trabalho, ainda que a nova muralha não tivesse nem as linhas suaves nem a beleza do resto da grandiosa cintura de pedra erigida pelos deuses.

O contrato com Poseidon (pelos vistos, Apolo não se dignou sequer pedir o seu salário de músico), disse então o meu pai, deixara de ter validade. As muralhas, afinal de contas, não eram indestrutíveis. Portanto, os cem talentos de ouro pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso não voltariam a ser pagos. Nunca mais. Superficialmente, este argumento parecia válido - só que os deuses sabiam, com toda a certeza, aquilo que eu, então um rapaz, estava farto de saber: o rei Laomedonte era um sovina incurável e odiava ter de pagar o precioso ouro de Tróia a um templo situado numa cidade rival que era governada por uma dinastia rival, apesar de ligada à nossa pelo sangue.

Fosse qual fosse a verdadeira razão, o certo é que o ouro deixou de ser pago e nada de invulgar aconteceu durante aqueles anos em que eu, da criança que era, passei ao homem que sou.

Quando o leão apareceu, a ninguém passou pela cabeça que um tal sucesso pudesse estar relacionado com deuses ofendidos ou com as muralhas da cidade.

Nas verdejantes planícies a sul de Tróia, ficava a quinta onde o meu pai criava os seus cavalos, o único prazer que ele se permitia - embora, para o rei Laomedonte, até mesmo o prazer tivesse de dar lucro. Pouco tempo depois de Éaco, o Grego, ter concluído a construção da muralha ocidental, chegou a Tróia um homem vindo de uma terra longínqua - tão longínqua que, dela, só sabíamos que as suas montanhas suportavam o céu e que a sua erva era mais tenra e viçosa do que todas as outras ervas do mundo. O refugiado trazia consigo dez cavalos: três garanhões e sete éguas. Nunca tínhamos visto cavalos assim - corpulentos, velozes, graciosos, com abundantes crinas e compridas caudas e bonitos focinhos, bem comportados e dóceis. Esplêndidos para puxarem bigas! No instante em que o rei os viu, o destino do estrangeiro ficou traçado: morreu. Quanto aos seus cavalos, passaram a ser propriedade privada do rei de Tróia. O qual, graças a esses dez belos exemplares, criou uma raça tão famosa que mercadores de todo o mundo começaram a aparecer em Tróia, desejosos de comprarem éguas e machos castrados; sim, porque o meu pai era demasiado astuto para cair no erro de lhes vender um garanhão.

Pelo meio da quinta, passava um velho e sinistro caminho, outrora usado pelos leões que, no Verão, atravessavam a Ásia Menor rumo à Cítia, no norte, e que, no Inverno, seguiam para sul, para a Cária e a Lícia, onde o sol conservava o poder de aquecer as suas fulvas peles. As caçadas tinham-nos dizimado; o caminho dos leões transformara-se num rego por onde corriam as águas de um riacho.

Há seis anos, os camponeses acorreram ao palácio de meu pai, lívidos de medo. Não esquecerei nunca a calma do rei, quando lhe disseram que três das suas melhores éguas estavam mortas e que um garanhão fora gravemente mutilado e que tudo fora obra de um leão.

Laomedonte não era, de seu natural, propenso a acessos de cólera. Com uma voz rigorosamente controlada, ordenou a um destacamento dos Guardas Reais que se postasse no caminho em causa na Primavera seguinte e que matasse o animal.

Mas não era um leão vulgar, aquele leão! Aparecia todos os Outonos e Primaveras, mas tão furtivamente que ninguém o via; e matava muito mais do que a sua barriga precisava. Matava porque gostava de matar. Dois anos após o seu aparecimento, os Guardas Reais surpreenderam-no a atacar um garanhão. Avançaram para ele, batendo com as espadas nos escudos, com o que pretendiam encostá-lo a um canto a fim de poderem usar as suas lanças. Em vez disso, o leão rugiu o seu grito de guerra, correu na direcção dos soldados e passou por eles como um pedregulho deslizando por uma encosta. Os soldados dispersaram, mas o rei dos animais teve ainda tempo para matar sete homens antes de seguir o seu caminho sem um único arranhão.

Deste desastre resultou uma coisa boa. Um homem dilacerado pelas garras do animal sobreviveu e foi contar aos sacerdotes, e em particular a Calcas, que o leão tinha a marca de Poseidon; no seu pálido flanco, via-se claramente o tridente negro do deus. Calcas consultou imediatamente o Oráculo e anunciou que o leão pertencia a Poseidon. Que nenhuma mão troiana tocasse no animal!, exclamou Calcas, pois este era um castigo infligido a Tróia por se ter furtado ao pagamento dos cem talentos anuais ao senhor dos mares. E mais: o leão só se iria embora quando Tróia retomasse o devido pagamento.

De início, o meu pai ignorou Calcas e o Oráculo. No Outono seguinte, ordenou de novo aos Guardas Reais que matassem o leão. Mas Laomedonte tinha subestimado o medo que todos os homens comuns têm aos deuses: mesmo quando ameaçou os guardas com a morte, estes recusaram-se a obedecer. Furioso, mas decidido a não ceder, o meu pai informou Calcas de que se recusava a pagar ouro troiano a Lirnesso - os sacerdotes que pensassem numa alternativa. Calcas voltou a consultar o Oráculo, que anunciou, de uma forma muito clara, que havia realmente uma alternativa. Se, todos os Outonos e Primaveras, seis raparigas virgens escolhidas à sorte fossem acorrentadas e deixadas nos campos onde os cavalos pastavam para que o leão delas fizesse banquete, Poseidon ficaria satisfeito pelo menos por uns tempos.

Claro que o rei preferia dar virgens ao leão a perder ouro; e foi assim que o novo plano foi posto em prática. O problema é que o meu pai nunca confiou efectivamente nos sacerdotes nesta matéria particular, não por ser um homem sacrílego - dava aos deuses aquilo que achava que os deuses tinham direito -, mas porque detestava que outras pessoas ficassem com o ouro que, afinal, era só dele. Assim, todos os Outonos e Primaveras, todas as virgens de Tróia, meninas de não mais do que quinze anos, eram cobertas da cabeça aos pés com um pesado manto branco, de molde a que não fosse possível identificá-las, e levadas para o pátio de Poseidon, o Construtor de Muralhas, onde os sacerdotes escolhiam seis daqueles embrulhos tão brancos quanto anónimos para o sacrifício.

A manobra resultou. Duas vezes ao ano, o leão passava pelo seu caminho, matava as raparigas acorrentadas e deixava os cavalos incólumes. Para o rei Laomedonte, era um preço insignificante a pagar para que nem o seu orgulho, nem o seu comércio, saíssem molestados.

Há apenas quatro dias, foram escolhidas as seis virgens deste Outono. Cinco delas eram raparigas da cidade; a sexta era da cidadela, o palácio real. A mais amada das filhas do meu pai, Hesíona. Quando Calcas surgiu com a triste notícia, o rei nem queria acreditar.

- O quê? Então tu foste idiota ao ponto de não deixares nenhuma marca no manto dela? - replicou o meu pai. - A minha filha - a minha filha! - tratada do mesmo modo que todas as outras raparigas da cidade?

- Limito-me a obedecer às ordens de Poseidon - retorquiu calmamente Calcas.

- Não! Poseidon não ordenou que a minha filha fosse escolhida! O que ele ordenou foi que lhe dessem seis raparigas virgens - foi isso, apenas isso! Por isso, Calcas, trata de escolher outra vítima!

- Não posso, Grande Rei. E não havia maneira de convencer Calcas do contrário. Uma mão divina presidia à escolha: portanto, se Hesíona fora escolhida, só ela poderia satisfazer os termos do contrato.

Ainda que nenhum membro da corte tivesse assistido a este tenso e irado encontro, o certo é que, ao fim de pouco tempo, as novidades corriam já imparáveis pela cidadela. Bajuladores como Antenor condenavam energicamente o sacerdote, ao passo que os muitos filhos do rei - incluindo eu, o seu herdeiro - pensavam que Laomedonte teria finalmente de ceder e de pagar a Poseidon os cem talentos de ouro anuais. No dia seguinte, o rei convocou o seu Conselho. Participei, evidentemente, na reunião; o herdeiro tem de estar presente sempre que o rei toma uma decisão.

O rei Laomedonte parecia calmo; não havia nele nada que denunciasse a agitação que dentro dele fervia. Era um homem pequeno, o meu pai, já longe do vigor da juventude; eram da cor da prata os seus longos cabelos e da cor do ouro o comprido manto. A sua voz sempre nos surpreendeu; agora, era com uma voz grave, nobre, melódica, forte, que se dirigia aos seus conselheiros.

- A minha filha Hesíona - disse ele aos filhos, primos direitos e primos mais afastados - concordou em submeter-se ao sacrifício. Obedece assim à vontade do deus.

Talvez Antenor tivesse adivinhado o que o rei iria dizer a seguir; eu não adivinhei, e os meus irmãos também não.

- Meu pai! - exclamei, sem conseguir controlar-me. - Não podes permitir que isso aconteça! Qúando Tróia vive tempos difíceis, o rei pode sacrificar-se para salvar o seu povo, mas as suas filhas viirgens pertencem à virgem Ártemis e não a Poseidon!

O meu pai pouco se preocupava com o facto de o seu filho mais velho o repreender diante de toda a corte; os seus lábios franziram-se, o seu peito inchou, e logo veio a resposta:

- A minha filha foi escolhida, Príamo Podarkesl! Escolhida por Poseidon!

- Poseidon ficaria mais contente - repliquei, furioso - se pagasses os cem talentos de ouro ao templo de Lirnesso.

Nesse preciso momento, dei-me conta do sorriso satisfeito de Antenor. Ah, o que ele adorava as desavenças entre o rei e o seu herdeiro!

- Recuso-me - disse o rei Laomedonte - a pagar ouro que tanto nos custou a obter, a um deus que não conseguiu construir uma muralha capaz de resistir a um dos seus próprios terramotos!

- Não podes condenar Hesíona à morte!

- Eu não estou a condená-la à morte! A decisão foi de Poseidon!

O sacerdote Calcas mexeu-se um nada para logo ficar quieto.

- Um homem mortal como tu - disse eu - não deveria responsabilizar os deuses pelas suas próprias fraquezas!

Nota do tradutor: Podarkes é um termo do Grego antigo que significa de pés ligeiros», «veloz.

- Estás a dizer que eu tenho... fraquezas?

- Todos os homens mortais as têm - respondi. -Até mesmo o rei da Tróada!

- Podes retirar-te, Príamo Podarkes! Desaparece! Quem sabe? Pode ser que, no próximo ano, Poseidon exija que os herdeiros ao trono se submetam ao sacrifício!

Antenor continuava a sorrir. Obedeci a meu pai; saí e procurei consolo na cidade e no vento.

Um vento frio e húmido vindo do distante pico do monte Ida esfriou a minha raiva, enquanto atravessava o pátio lajeado à saída da Sala do Trono, a caminho dos degraus - duzentos, ao todo - que conduzem ao ponto mais alto da cidadela. Aí, muito acima da distante planície, cravei as minhas mãos em pedras que homens haviam moldado; sim, porque a cidadela não fora construída pelos deuses, mas sim pelos homens de Dárdano. Aqueles ossos da Mãe Terra, cuidadosamente trabalhados por mãos humanas, como que penetraram no mais íntimo do meu ser; com efeito, senti, nesse preciso instante, todo o poder que ao rei era inerente. Quantos anos, perguntei-me, quantos anos teria ainda de esperar até poder usar a tiara de ouro e sentar-me na cadeira de marfim que era o trono de Tróia? Os homens da Casa de Dárdano costumavam morrer muito velhos e Laomedonte não chegara ainda aos setenta.

Durante um longo tempo, observei o vaivém constante de homens e mulheres lá em baixo na cidade; depois, os meus olhos procuraram paragens mais distantes, as verdejantes planícies onde os preciosos cavalos do rei Laomedonte esticavam os seus longos pescoços para se alimentarem das tenras ervas. Mas essa era uma visão que contribuía apenas para agravar o meu sofrimento. Olhei então para oeste, para a ilha de Ténedo, e para o fumo das fogueiras com que os habitantes da pequena aldeia portuária de Sigeu combatiam o frio. Para norte, as águas azuis do Helesponto imitavam o céu; vi a longa curva acinzentada da praia, entre os estuários dos rios Escamandro e Simoente, os dois rios que irrigavam a Tróada e alimentavam os campos de trigo e cevada que ondulavam ao sabor de um vento que nunca se cansava de zumbir.

Por fim, o vento fez-me regressar ao grande pátio diante da entrada dos palácios, onde esperei que um criado me trouxesse o meu carro.

- Para a cidade - disse eu para o condutor. - Deixa que os cavalos te conduzam.

A estrada principal descia da cidadela para se juntar à curva da avenida que corria à volta das muralhas da cidade. As muralhas construídas por Poseidon. Na junção das duas ruas, erguia-se uma das três portas das muralhas, a Porta Ceia. Não me lembrava de alguma vez a ver fechada; dizia-se que isso só aconteceria em tempos de guerra e não havia no mundo uma nação que fosse forte o bastante para declarar guerra a Tróia.

A Porta Ceia tinha uma altura de vinte cúbitos e era feita de enormes toros de madeira unidos uns aos outros com pregos e chapas de bronze; tão pesada era que nem as maiores dobradiças do mundo poderiam movê-la. A Porta Ceia abria-se segundo um princípio que teria sido concebido pelo archeiro Apolo, enquanto descansava ao sol vendo Poseidon trabalhar. O fundo da porta assentava numa grande pedra redonda inserida numa cova funda e curva e envolvida por maciças correntes de bronze. Se a porta tivesse de ser fechada, trinta bois atrelados às correntes puxariam lentamente a porta, pois a enorme pedra redonda só assim giraria no fundo da sua cova.

Em menino, desejoso de assistir a um tal espectáculo, suplicara ao meu pai que mandasse atrelar os bois às correntes da pedra. O meu pai rira-se e recusara.

No entanto, agora, ali estava eu, um homem de quarenta anos, marido de dez esposas e possuidor de cinquenta concubinas, desejoso ainda de ver a Porta Ceia fechar-se.

Por sobre a porta, um arco ligava as muralhas, permitindo assim que não houvesse nenhuma interrupção no caminho que, no topo das muralhas, percorria todo o perímetro da cidade. A Praça Ceia permanecia permanentemente na sombra, graças àquelas fantásticas muralhas de construção divina; estas erguiam-se a uma altura de trinta cúbitos acima de mim, suaves e elegantes, brilhantes quando o sol as banhava.

Acenei para que o condutor seguisse em frente, mas, antes que ele pudesse dar o necessário movimento às rédeas, mudei de ideias e mandei-o parar. Um grupo de homens entrara pela Porta Ceia e encontrava-se agora na praça. Gregos. Isso era manifesto nos seus modos e vestuário. Usavam saiotes de cabedal ou calções também de cabedal, muito justos, que iam até ao joelho; alguns estavam nus da cintura para cima e outros envergavam blusas de cabedal abertas, deixando a descoberto o peito. Não faltavam os adornos na sua indumentária; algumas peças de roupa eram enfeitadas com desenhos a ouro, outras com borlas ou fitas de cabedal tingido; as suas cinturas eram estreitadas por amplos cintos de ouro e bronze cravejado de lápis-lazúli; contas de cristal polido pendiam dos lóbulos das suas orelhas; cada pescoço era cingido por um grande colar incrustado de pedras preciosas; e as suas cabeleiras, muito compridas, caíam livres em caracóis cuidadosamente moldados.

Os Gregos eram mais altos e mais esbeltos do que os Troianos, mas aqueles Gregos eram mais altos e mais esbeltos e tinham um ar mais violento e perigoso do que todos os homens que vi na minha vida. Só a riqueza das suas roupas e armas me permitiu concluir que não eram vulgares bandidos, já que traziam consigo lanças e espadas.

À sua frente, seguia um homem que era seguramente uma criatura única: um gigante que suplantava em estatura todos os outros membros do grupo. Devia ter seis cúbitos de altura e tinha uns ombros que mais pareciam montanhas negras. Negra como breu e pontiaguda, uma barba cobria o seu queixo poderoso e saliente, e o seu cabelo negro, embora cortado curto, erguia-se desgrenhado sobre a testa que se projectava sobre as órbitas como se fosse um toldo. A sua única peça de roupa era uma enorme pele de leão sustentada por uma alça sobre o ombro esquerdo e que descaía depois sob o braço direito; a cabeça do leão era como um capuz que trazia às costas, com a temível bocarra aberta, exibindo as poderosas presas.

O gigante virou-se e surpreendeu-me a olhar para ele. Subjugado, olhei-o nos olhos, uns olhos tão grandes quanto serenos - uns olhos que já tinham visto tudo, suportado tudo, vivido todas as degradações que os deuses poderiam impor a um homem. Olhos que faiscavam de inteligência. Senti-me mentalmente encostado à parede da casa que estava atrás de mim, o meu espírito completamente posto a nu, a minha mente um brinquedo nas mãos dele.

Apesar disso, consegui incutir algum vigor à minha débil coragem e, enchendo-me de brios, recompus-me do choque e assumi uma postura tão direita quanto possível; afinal de contas, era eu quem possuía um título grandioso, mais aquele carro ornamentado a ouro, mais aqueles cavalos brancos, melhores do que todos os que ele jamais vira. Afinal de contas, era eu o herdeiro deste reino, o mais poderoso de todos os reinos do mundo.

O gigante avançou por entre o tumulto da praça do mercado como se não houvesse tumulto nenhum e veio direito a mim com dois dos seus companheiros imediatamente atrás; então, com uma mão do tamanho de um presunto, afagou delicadamente os focinhos negros dos meus cavalos brancos.

- Diz-me: tu és do palácio? Da Casa Real? - perguntou-me ele com uma voz ressoante, ainda que sem sombra de arrogância.

- Eu sou Príamo Podarkes, filho e herdeiro de Laomedonte, rei de Tróia respondi.

- Eu sou Héracles - disse ele. Fitei-o boquiaberto. Héracles! Héracles estava em Tróia! Molhei os lábios secos.

- É uma grande honra para Tróia poder receber-te, Héracles. Gostaria de te convidar para casa de meu pai Havia uma doçura surpreendente no seu sorriso.

- Agradeço-te muito, príncipe. O convite inclui todos os meus homens?

Todos eles pertencem a casas nobres gregas: não envergonharão a tua corte, nem me deixarão envergonhado a mim.

- Claro, Héracles. Acenou para os dois homens que estavam na sua sombra, um sinal de que deveriam avançar.

- Posso apresentar-te os meus amigos? Este é Teseu, rei supremo da Ática, e este é Télamon, filho de Éaco, rei de Salamina.

Engoli em seco. O mundo inteiro conhecia Héracles e Teseu; os bardos cantavam incessantemente os seus feitos. Éaco, o pai do adolescente Télamon, reconstruíra a nossa muralha ocidental. Quantos outros nomes famosos haveria naquele pequeno grupo de Gregos?

Tal era o poder daquele nome que até mesmo o avarento do meu pai decidiu abrir os cordões à bolsa e oferecer ao famoso Héracles uma régia recepção. Assim, naquela mesma noite, o rei Laomedonte deu um banquete em honra de Héracles no salão do palácio, com muitas e variadas iguarias e bebidas servidas em baixela de ouro e com harpistas, bailarinas e acrobatas para entreter os convidados. Se eu sentira um temor reverente ao ver Héracles, também o meu pai experimentava agora esse sentimento; todos os gregos que faziam parte do grupo de Héracles eram reis pelos seus próprios méritos. Assim sendo, perguntei-me por que razão aceitavam seguir um homem que não reivindicava nenhum trono? Um homem que limpara estábulos? Que fora arranhado, mordido, dilacerado por todo o tipo de animais, desde o mosquito ao leão?

Sentei-me na mesa régia com Héracles à minha esquerda e Télamon à minha direita; o meu pai ficou sentado entre Héracles e Teseu. Embora a iminência da morte sacrificial de Hesíona ensombrasse a nossa hospitalidade, ocultávamos tão bem esse facto que disse para mim mesmo que os nossos convidados gregos não tinham dado por nada. A conversa fluía ligeira e fácil, pois eles eram homens cultivados, adequadamente instruídos em tudo, desde a aritmética mental às palavras dos poetas que, como nós, sabiam de cor. Restava saber uma coisa - por debaixo dessa capa, que género de homens eram os Gregos?

Eram poucos os contactos entre as nações da Grécia e as nações da Ásia Menor, entre as quais Tróia. De uma maneira geral, nós, os que vivíamos na Ásia Menor, pouca importância dávamos aos Gregos. Eram homens notoriamente sinuosos, famosos pela sua curiosidade insaciável - isso sabíamos nós; mas aqueles homens que estavam connosco deviam ser os melhores de entre os Gregos, já que os Gregos escolhiam os seus reis por razões estranhas ao sangue.

O meu pai, em particular, não atribuía importância nenhuma aos Gregos. Nos últimos anos, tinha firmado tratados com os diversos reinos da Ásia Menor, dando-lhes a maior parte do comércio entre o Euxino e os mares Egeus, o que significava que havia restringido severamente o número de navios mercantes gregos autorizados a passar pelo Helesponto. A Mísia e a Lídia, a Dardânia e a Cária, a Lícia e a Cilícia, não queriam partilhar o comércio com os Gregos, e por uma razão muito simples: de algum modo, os Gregos superavam-nos sempre, os Gregos obtinham sempre os melhores negócios, E o meu pai cumpriu a sua parte, mantendo os mercadores gregos o mais longe possível das águas negras do Euxino. Todas as esmeraldas e safiras, todos os rubis, todo o ouro e prata da Cólquida e da Cítia iam para as nações da Ásia Menor; os poucos mercadores gregos que haviam recebido a necessária autorização do meu pai tinham de concentrar os seus esforços no estanho e no cobre da Cítia.

No entanto, Héracles e os seus companheiros eram criaturas demasiado bem educadas para se porem a discutir temas tão controversos como embargos comerciais. Limitaram a sua conversa a observações elogiosas sobre a nossa cidade e as suas imponentes muralhas, sobre o tamanho da cidadela e a beleza das nossas mulheres - embora, no que tocava a mulheres, apenas conhecessem as escravas que iam de mesa em mesa, servindo guisados, distribuindo pães e carnes várias, enchendo de vinho as taças.

Como seria de esperar, ao tema das mulheres seguiu-se o dos cavalos; aguardei que Héracles abordasse o assunto, pois vira aqueles seus astutos olhos negros apreciando a qualidade dos meus cavalos brancos.

- Os cavalos que puxavam o carro do teu filho eram verdadeiramente magníficos - disse finalmente Héracles. - Nem mesmo a Tessália se pode gabar de possuir uma tão bela raça. Diz-me, Laomedonte, tens por hábito vender alguns daqueles belos espécimes?

Na expressão do meu pai, notaram-se imediatamente os traços da avareza.

- Siin, são de facto animais encantadores e é verdade que vendo alguns - mas temo que consideres o preço proibitivo. Costumo pedir mil talentos de ouro por uma boa égua.

Héracles pôs uma expressão pesarosa e encolheu os portentosos ombros.

- Talvez pudesse pagar-te esse preço, rei Laomedonte, mas, neste momento, tenho de comprar coisas mais importantes. O dinheiro que pedes é uma verdadeira fortuna.

E não voltou a falar de cavalos.

À medida que a tarde foi avançando e a luz declinando, o meu pai começou a ficar cada vez mais triste, pois não conseguia esquecer-se de que, no dia seguinte, a sua filha seria conduzida aos braços da morte. Vendo-o assim, Héracles pôs a mão no braço do meu pai, tentando consolá-lo.

- Diz-me, rei Laomedonte, o que te preocupa?

- Nada, meu amigo, nada.

Héracles fitou-o com aquele seu sorriso, tão estranhamente doce.

- Grande rei Laomedonte, o que eu leio nos teus olhos é preocupação. Conta-me tudo, peço-te.

E logo a história foi contada, ainda que o meu pai, como seria de esperar, desse de si mesmo uma imagem que não correspondia à realidade: todos os anos o seu reino era vítima de um leão que pertencia a Poseidon, os sacerdotes haviam ordenado o sacrifício de seis donzelas todos os Outonos e Primaveras, e, entre as escolhidas deste Outono, contava-se a filha que, entre todos os seus rebentos, ele mais amava - Hesíona.

Héracles escutou toda a história com um ar pensativo. Por fim, perguntou ao meu pai:

- Que disseram os sacerdotes? Que nenhuma mão troiana poderá erguer-se contra o animal? Foi isso, não foi?

Os olhos do rei brilharam.

- Precisamente, Héracles: nenhuma mão troiana.

- Nesse caso, os sacerdotes não se podem opor a que uma mão estrangeira se erga contra o leão... Não é verdade, rei Laomedonte?

- Sim, é uma conclusão lógica, Héracles. Héracles olhou de relance para Teseu.

- Eu já matei muitos leões - disse -, incluindo o de Nemeia, cuja pele envergo.

O meu pai rompeu a chorar.

- Oh, Héracles, livra-nos desta maldição! Se o fizeres, ficaremos eternamente em dívida para contigo. Falo, não só em meu nome, mas em nome de todos os Troianos, que já perderam trinta e seis filhas para darem de comer ao leão.

Aguardei a resposta de Héracles, numa deleitosa expectativa; o gigante seria tudo menos idiota: não se ofereceria para lutar contra um leão enviado por um deus, sem pedir em troca alguma recompensa...

- Rei Laomedonte - disse o gigante grego suficientemente alto para que todas as cabeças se virassem para ele -, proponho-te um contrato: eu mato o leão e, em troca, tu dás-me dois dos teus cavalos, um garanhão e uma égua.

Que podia o meu pai fazer? Praticamente encostado à parede, devido à natureza pública da proposta, o rei não tinha outra possibilidade senão concordar com o preço; se não concordasse, toda a corte - os seus parentes próximos e afastados - criticaria o seu desapiedado egoísmo. Acedeu, por isso, conseguindo mesmo imitar uma expressão alegre.

- Se conseguires matar o leão, Héracles, dar-te-ei aquilo que pedes. -Assim seja - disse Héracles, após o que, de súbito, ficou muito quieto, como que ausente: os seus grandes olhos pareciam não ver; nem pestanejavam, nem viam o que se passava à sua volta. Por fim, com um suspiro, pareceu regressar à terra. Olhou, não para o rei, mas para Teseu.

- Iremos amanhã, Teseu. O meu pai diz que o leão aparecerá ao meio-dia. Mesmo os outros gregos que estavam à mesa ficaram assombrados com tão estranho transe.

Com os delicados pulsos vergados ao peso das correntes, os tornozelos presos com grilhetas de ouro, vestidas com os seus mais belos trajes e com o cabelo primorosamente encaracolado e os olhos pintados, as seis raparigas esperavam que os sacerdotes chegassem ao pátio defronte do templo de Poseidon, o Construtor de Muralhas. Hesíona, a minha meia-irmã, estava entre elas, calma e resignada, embora um ligeiro tremor num dos cantos da sua meiga boca, traísse o medo que lhe ia na alma. Ressoavam no pátio o pranto e os lamentos de pais e parentes, o tinido das pesadas grilhetas, a respiração ofegante das seis aterrorizadas donzelas. Fiquei apenas o tempo suficiente para dar um beijo a Hesíona; depois, fui-me embora. Hesíona nada sabia da tentativa que Héracles ia fazer para a salvar.

Não lhe disse nada talvez porque, mesmo então, suspeitava que não nos veríamos livres da maldição tão facilmente - que, se Héracles matasse realmente o leão, Poseidon, o Senhor dos Mares, seria muito capaz de inventar algo de pior. As minhas apreensões dissiparam-se enquanto corria na direcção da pequena porta nas traseiras da cidadela onde Héracles reunira o seu grupo. O gigante escolhera apenas dois ajudantes para a caçada: o venerável guerreiro Teseu e o jovem Télamon. No último momento, demorou-se a falar com um outro membro do grupo, o rei Perítoo dos Lápitas; consegui ouvi-lo dizer a Perítoo que levasse todos os homens para a Porta Ceia por volta do meio-dia e que esperasse aí por ele. Héracles estava com pressa de partir, o que era compreensível; os gregos queriam chegar antes do Inverno aos domínios das Amazonas, onde pretendiam roubar a cinta da rainha Hipólita.

Depois daquele transe extraordinário ocorrido na noite anterior, no salão do palácio, ninguém punha em causa a convicção de Héracles de que o leão apareceria naquele dia - embora o leão nunca tivesse passado tão cedo pelas nossas terras. Mas Héracles sabia. Ele era filho do Senhor de Tudo, Zeus.

Eu tinha quatro irmãos germanos, todos eles mais novos do que eu: Titono, Clício, Lampo e Hicetáon. Acompanhámos Héracles integrados na escolta do nosso pai e chegámos ao local escolhido antes de os sacerdotes aparecerem com as donzelas. Héracles tratou imediatamente de inspeccionar o terreno; por fim, voltou para junto de nós e indicou a posição que ocuparia tendo em vista o ataque, determinando que Télamon empunharia o arco e Teseu a lança. A arma dele seria uma maça enorme.

Enquanto subíamos ao alto de um outeiro mais protegido, por causa do vento e também porque daí se via melhor, o nosso pai permaneceu no caminho à espera dos sacerdotes, visto que aquele seria o primeiro dia do sacrifício. Por vezes, as pobres raparigas eram obrigadas a esperar muitos dias, presas às suas grilhetas de ouro, tendo por cama o chão e por alimento a pouca comida que uns quantos jovens sacerdotes, cheios de medo, lhes levavam.

O Sol ia já alto quando surgiu o cortejo que saíra do santuário de Poseidon, Construtor de Muralhas. Os sacerdotes não permitiam que as lacrimosas raparigas parassem, empurrando-as constantemente; ao mesmo tempo, entoavam os seus cânticos rituais e batiam em minúsculos tambores com minúsculas baquetas amortecidas. Por fim, à sombra de um olmo, enterraram no chão grossas estacas a que prenderam as correntes, e desapareceram com a celeridade que a dignidade permitia. Quanto ao meu pai, subiu a toda a pressa a encosta na direcção do nosso esconderijo. Instalámo-nos na relva e esperámos.

Por um bocado, observei indolentemente tudo o que se passava lá em baixo, pois não contava que acontecesse alguma coisa antes do meio-dia. De súbito, o jovem Télamon saiu do seu esconderijo e correu como uma seta na direcção do local onde as raparigas se tinham agachado, debatendo-se com as suas correntes.

Ouvi o meu pai murmurar qualquer coisa acerca do atrevimento dos gregos no preciso momento em que o rapaz abraçou a minha meia-irmã e encostou a cabeça dela ao seu peito bronzeado e nu. Hesíona era uma bela rapariga, bela o bastante para atrair as atenções da maior parte dos homens: mas era uma loucura correr para ao pé dela quando o leão podia aparecer a qualquer momento! Perguntei-me se Télamon teria agido com a autorização de Héracles.

As mãos de Hesíona agarravam-se desesperadamente aos braços dele; Télamon baixou a cabeça para lhe murmurar qualquer coisa ao ouvido, depois beijou-a demorada e apaixonadamente, como nenhum homem fora autorizado a beijá-la em toda a sua curta vida. Por fim, secou-lhe as lágrimas com a mão e correu, despreocupadamente, para o sítio que Héracles lhe reservara. Conseguimos ouvir as risadas dos três gregos; fiquei a tremer de raiva. O sacrifício era sagrado! E, no entanto, aqueles homens atreviam-se a rir-se! Porém, quando voltei a olhar para Hesíona, constatei que ela havia perdido todo o medo, que se erguera do chão cheia de orgulho e que os seus olhos brilhavam - e tal era o seu brilho que eu, tão distante dela, podia vê-lo.

A hilariedade dos gregos manteve-se até ao fim da manhã; então, de um momento para o outro, calaram-se. Tudo o que ouvíamos era o inquieto vento troiano, soprando incessantemente.

Uma mão tocou-me no ombro. Pensando que o leão tinha aparecido, virei-me num ápice, o coração batendo desordenadamente. Mas era apenas Tissanes, um criado do palácio que trabalhava para mim. Inclinou a cabeça para me segredar:

- A princesa Hécuba pede a sua comparência, senhor. A criança está prestes a nascer e as parteiras dizem que a vida da princesa está presa por um fio.

Porque é que as mulheres escolhiam sempre o momento errado? Acenei a Tissanes para que se sentasse e estivesse quieto e calado e virei-me a fim de me concentrar no caminho: mais exactamente num sítio em que, após uma pequena elevação, surgia uma cova. Os pássaros tinham deixado de cantar e de se chamar uns aos outros. O vento parara. Um calafrio percorreu-me todo o corpo.

O leão começou a subir tranquilamente a pequena elevação. Em toda a minha vida, nunca vira um animal tão grande. Tinha uma pele castanho-clara, uma imensa juba negra e uma cauda que terminava numa espessa felpa igualmente negra. No flanco direito, lá estava a marca de Poseidon, o tridente. Quando ia a meio da descida, e já perto do local onde se encontrava Héracles, o leão parou, com uma das patas erguida, a cabeçorra bem alta, a cauda açoitando o ar, as narinas muito abertas. Então, viu as suas vítimas paralisadas de terror; a perspectiva de um belo banquete levou-o a tomar a decisão que tomou. Baixou a cauda, convocou toda a força dos seus músculos e avançou na direcção das raparigas a uma velocidade cada vez maior. Uma das donzelas deu um grito agudo e penetrante. A minha irmã resmungou qualquer coisa e a jovem calou-se.

Héracles ergueu-se da relva, um gigante vestido com uma pele de leão, a maça suspensa da sua mão direita. O leão parou, a bocarra aberta revelando os dentes amarelecidos. Héracles agitou a maça e soltou um rugido de desafio no momento em que o leão saltou. Mas Héracles saltou também, evitando a temível investida das garras e batendo com tal força na barriga tufada de negro do animal que este, num ápice, perdeu o equilíbrio. Os quadris do leão recuaram, mas uma garra ergueu-se para golpear o homem; contudo, nesse mesmo momento, a maça atingiu-O em cheio. Ouviu-se um horrendo ruído de esmagamento quando a arma entrou em contacto com o crânio do animal; a garra vacilou e o homem desviou-se. De novo a maça atingiu o crânio do animal: o segundo ruído foi mais suave do que o primeiro, pois o crânio estava já dilacerado. Mas aquilo nem fora um combate! O leão jazia já no caminho, a juba negra fumegando do sangue quente que escorria.

Enquanto Teseu e Télamon dançavam e davam vivas, Héracles pegou na sua faca e cortou a garganta do animal. O meu pai e os meus irmãos começaram a descer a encosta a toda a pressa, na direcção dos radiantes gregos, com o meu criado Tissanes avançando furtivamente na sua esteira, ao passo que eu segui na direcção contrária, rumo à minha casa. Hécuba, a minha esposa, ia dar à luz e a sua vida corria perigo.

As mulheres não eram importantes. A morte de parto era comum entre a nobreza e eu tinha mais nove esposas e cinquenta concubinas, para além de uma centena de filhos. No entanto, Hécuba era a mulher que eu mais amava; ela seria a minha rainha quando eu subisse ao trono. O filho, pouco contava. Mas que iria eu fazer se ela morresse? Sim, Hécuba era importante para mim, apesar de ser originária da Dardânia e de ter levado o seu irmão, Antenor, para Tróia.

Quando cheguei ao palácio, Hécuba estava ainda em trabalho de parto; como nenhum homem podia ter acesso aos mistérios das mulheres, passei o resto do dia a tratar dos meus assuntos, ou melhor, das tarefas que o rei desdenhava executar.

Ao anoitecer, comecei a sentir-me inquieto, pois o meu pai não me contactara e eu não ouvira ainda nenhum grito de alegria no interior dos majestosos palácios que encimavam a colina de Tróia. Aos meus ouvidos não chegara ainda nenhuma voz: nem grega, nem troiana. Apenas silêncio. Muito estranho.

- Príncipe! Príncipe! Era o meu criado. Estava lívido, os olhos esbugalhados de terror, tremia incontrolavelmente.

- Que aconteceu? - perguntei, lembrando-me de que ele ficara na quinta de meu pai para ver o leão.

Tissanes caiu de joelhos e as suas mãos prenderam-se aos meus tornozelos.

- Príncipe, só há instantes me atrevi a mexer-me! Depois... depois corri! Não falei com ninguém, vim direito ao palácio!

- Levanta-te, homem! Levanta-te e conta-me tudo!

- Príncipe, o seu pai, o rei, está morto! Os seus irmãos estão mortos! Todos morreram!

Uma imensa calma invadiu-me nesse instante. Finalmente era rei.

- Os Gregos também?

- Não, príncipe! Os gregos mataram-nos!

Fala devagar, Tissanes, e conta-me o que aconteceu. Héracles ficou muito contente com o seu feito. Ria-se e cantava enquanto esfolava o leão, ao passo que Teseu e Télamon tratavam das raparigas, libertando-as das correntes. Logo que a pele do leão foi estendida para secar, Héracles pediu ao rei que o acompanhasse às suas cavalariças. Queria escolher imediatamente o garanhão e a égua que lhe tinham sido prometidos, porque estava com muita pressa. - Tissanes parou, molhou os lábios secos.

- Continua.

- O rei ficou furioso. Negou que tivesse prometido o que quer que fosse. O leão, disse, não passara de um passatempo. Héracles matara-o por desporto. Héracles e os outros dois ficaram tão furiosos como o rei, mas o rei não estava disposto a ceder.

Ah, o meu pai, o meu pai! Não dar a um deus como Poseidon o que lhe é devido é uma coisa - as represálias dos deuses são lentas e ponderadas. Mas Héracles e Teseu não eram deuses. Eram heróis - e os heróis são muito mais perigosos e muito mais rápidos.

- Teseu estava lívido - prosseguiu o meu criado. - Cuspiu para o chão, na direcção dos pés do rei, e chamou-lhe ladrão e mentiroso. O príncipe Titono pegou na espada, mas Héracles meteu-se de permeio e dirigiu-se de novo ao rei. Pediu-lhe que capitulasse, que procedesse ao pagamento que havia sido acordado.

O rei respondeu que não permitiria que um bando de vis mercenários gregos o roubassem. Nesse mesmo instante, reparou que Télamon pusera o braço à volta da cintura da princesa Hesíona. Avançou para eles e esbofeteou Télamon. A princesa desatou a chorar - o rei esbofeteou-a também. Quanto ao resto, príncipe... é tudo tão horrível ... ! - O meu criado limpou o suor do rosto com a mão.

- Faz um esforço, Tissanes. Conta-me o que viste.

- Héracles, de súbito, pareceu ficar tão grande como um auroque. Pegou na sua maça e, com um só golpe, deitou por terra o rei. O príncipe Titono tentou apunhalar Teseu, mas foi logo trespassado pela lança de Teseu. Télamon pegou no seu arco e matou o príncipe Lampo. Por fim, Héracles pegou em peso no príncipe Clício e no príncipe Hicetaón e, batendo com as cabeças de ambos uma na outra, esmagou-as como se fossem amoras.

- E onde estavas tu enquanto tudo isso se passava, Tissanes?

- Eu... eu escondi-me, príncipe - disse o homem, de cabeça baixa.

- Bom, tu és um escravo e não um guerreiro. Prossegue.

- Os gregos pareciam ter caído em si... Héracles pegou na pele do leão e disse que já não tinham tempo para irem buscar os cavalos e que teriam de partir imediatamente. Teseu apontou para a princesa Hesíona e disse que, se não levavam os cavalos, então teriam de levar a jovem. Poderiam dá-la a Télamon, pois o rapaz estava enamorado dela e, desse modo, a honra grega não sairia molestada. Partiram imediatamente, rumo à Porta Ceia

- Afastaram-se já das nossas praias?

- Tratei de me informar a meio do caminho, príncipe. O guarda da Porta Ceia disse-me que a tarde mal começara quando Héracles apareceu. Mas não viu Teseu, nem Télamon, nem a princesa Hesíona. Todos os gregos seguiram pela estrada que vai até Sigeu, onde se encontrava o seu navio.

- E as outras raparigas? Tissanes baixou de novo a cabeça.

- Não sei, príncipe. A única coisa em que pensei foi em dar-lhe a notícia o mais depressa possível.

Essa é boa, Tissanes! Tu estiveste escondido até ao crepúsculo porque estavas cheio de medo! Vai ter com o chefe da casa do meu pai e diz-lhe que procure as raparigas. E que traga também os cadáveres de meu pai e dos meus irmãos. Conta-lhe tudo o que me contaste e ordena, em meu nome, que se faça tudo o que for necessário. Podes retirar-te, Tissanes.

Héracles limitara-se a pedir dois cavalos! Dois cavalos! Não haveria no mundo remédio para a cobiça? Não haveria na mente humana um mecanismo qualquer pelo qual a prudência obrigasse à generosidade? Ah, se ao menos Héracles tivesse esperado! Poderia ter apelado para a corte - todos nós ouvíramos a promessa de meu pai. Héracles acabaria por receber aquilo a que tinha direito.

Em vez disso, a ira e a cobiça haviam triunfado. E eu - eu era rei de Tróia. Esquecida Hécuba, dirigi-me ao salão principal do palácio e bati no gongo, convocando assim a assembleia da corte.

Desejosos de conhecerem o resultado do combate com o leão - e irritados por causa da hora tardia - vieram todos num instante. Não chegara ainda o momento de me sentar no trono; mantive-me de pé ao lado dele e fitei o pequeno mar de rostos curiosos: rostos que pertenciam aos meus meios-irmãos, aos meus primos de todos os graus, à alta nobreza que só pelo casamento se unira a nós. O meu cunhado Antenor estava presente, os olhos bem alerta. Acenei-lhe para que se aproximasse, após o que bati com o meu bastão no chão de lajes vermelhas.

- Nobres de Tróia, o leão de Poseidon foi morto por Héracles, o Grego, anunciei.

Antenor olhava-me de esguelha, intrigado. Sendo ele da Dardânia, não poderia ser amigo de Tróia. No entanto, Antenor era também irmão de Hécuba e, por causa dela, eu tolerava a sua presença.

- Deixei o local nesse momento, mas o meu criado ficou. Regressou há pouco e contou-me que os três gregos tinham assassinado o nosso rei e os meus quatro irmãos. Partiram no seu navio há demasiado tempo para que possamos agora persegui-los. E levaram um refém: a princesa Hesíona.

Era impossível prosseguir, tendo em conta o tumulto que se seguiu; sustive a respiração, debatendo comigo mesmo que porção da história poderia contar-lhes. Não, não lhes poderia dizer que o rei Laomedonte se recusara a cumprir uma promessa solene; Laomedonte estava morto e a sua régia memória teria de ser preservada; a memória de um rei não poderia ser maculada por um final tão miserável. Seria preferível dizer-lhes que os gregos haviam congeminado tamanha atrocidade em represália contra a política que negava aos seus mercadores o acesso ao mar Euxino.

Eu era o rei. Tróia e a Tróada eram minhas. Eu era o guardião do Helesponto e o zelador do Euxino.

Quando voltei a bater com o meu bastão, o ruído esbateu-se imediatamente. A diferença era tão grande, tão clara, agora que era rei!

- Diante da corte aqui reunida - disse eu -, juro solenemente que, enquanto for vivo, não esquecerei nunca aquilo que os gregos fizeram a Tróia. Este dia ficará para sempre na nossa história como um dia de luto: neste dia, todos os anos, os sacerdotes percorrerão as ruas da cidade, entoando cânticos que denunciarão os crimes dos mercenários gregos. E não descansarei enquanto Tróia não fizer com que os gregos se arrependam dos crimes cometidos!

«Antenor, nomeio-te chefe do meu governo. Prepara uma proclamação pública: a partir deste dia, nenhum navio grego será autorizado a atravessar o Helesponto e a entrar no Euxino. O cobre pode ser obtido noutros locais, mas o estanho vem todo da Cítia. E o cobre e o estanho juntos dão-nos o bronze! Nenhuma nação pode sobreviver sem bronze! De futuro, os Gregos terão de comprá-lo a um preço exorbitante às nações da Ásia Menor, pois estas terão o monopólio do estanho. Será a decadência das nações da Grécia!

Os vivas e aplausos foram ensurdecedores. Apenas Antenor mantinha uma expressão desconfiada; sim, teria de lhe contar toda a verdade, mas num encontro a sós. Entretanto, entreguei-lhe o meu bastão e apressei-me na direcção do meu palácio, onde - lembrei-me de súbito - Hécuba estava às portas da morte.

Uma parteira esperava-me ao cimo das escadas, o rosto molhado de lágrimas.

- Hécuba morreu, mulher? A velha bruxa olhou para mim com um sorriso desdentado, apesar da mágoa que aparentemente sentia.

- Não, não! Eu estou a chorar a morte de seu pai, o rei Laomedonte! A rainha está livre de perigo e deu à luz um belo e saudável menino.

Tinham levado Hécuba directamente do banco de parir para a sua grande cama, onde descansava agora, esgotada e lívida, com uma trouxa enfaixada na curva do braço esquerdo. Ninguém lhe contara as tristes notícias e eu só lhas contaria quando ela estivesse mais forte. Baixei-me para a beijar. Então, Hécuba desviou o pano que tapava a cara da criança. Este quarto filho que ela me dera parecia ser a encarnação do sossego. Por outro lado, não contorcia as feições como os recém-nascidos costumam fazer. Era de uma beleza extraordinária e a sua pele era muito suave e tão branca como o marfim, em vez de vermelha e engelhada. Um cabelo negro, encaracolado, cobria-lhe maciçamente o crânio; as pestanas eram negras e compridas; as sobrancelhas negras eram elegantes arcos sobre uns olhos cuja cor não conseguia distinguir: eram tão escuros, de facto, que não saberia dizer se eram azuis ou castanhos.

Hécuba fez-lhe cócegas sob o queixo perfeito.

Que nome lhe vais dar, príncipe?

Páris - respondi eu imediatamente.

Hécuba fitou-me perplexa.

- Páris? «Casado com a morte? É um nome sinistro, príncipe. Por que não Alexandre, como tínhamos previsto?

- Chamar-se-á Páris - disse eu, desviando o olhar. Em breve, também Hécuba saberia que o nosso filho casara com a morte no dia em que nascera.

Deixei-a depois de a ter erguido um pouco mais sobre as almofadas. Quando me retirei do quarto, Hécuba embalava debilmente a criança contra os seus seios inchados.

- Páris, meu homem pequenino! - dizia ela. - És tão bonito ... ! Oh, os corações que tu vais destroçar! Todas as mulheres te amarão, Páris. Páris, Páris...

 

                                   Narrado por Peleu

Quando a ordem começou a imperar no meu novo reino da Tessália - e quando pude finalmente confiar nas pessoas que deixava em lolcos, sentindo-me seguro de que tratariam adequadamente dos meus assuntos - viajei até à ilha de Ciros. Exausto, ansiava pela companhia de um amigo; e a verdade é que, mesmo nessa altura, não tinha em lolcos um único amigo que pudesse rivalizar com o rei Licomedes de Ciros. Licomedes era um homem afortunado: nunca fora banido do reino de seu pai, como eu fora; nunca precisara de lutar desvairadamente para construir um novo reino para si mesmo, como eu precisara; nunca travara uma guerra para o defender, como eu travara. Os seus antepassados haviam governado aquela ilha rochosa desde o princípio dos tempos, dos deuses e dos homens, e ele subira ao trono depois de o pai ter morrido na cama, rodeado por filhos e filhas, esposas e concubinas; é que o pai de Licomedes aderira à Velha Religião, tal como Licomedes - a monogamia estava vedada aos governantes de Ciros!

Com a Velha ou com a Nova Religião, Licomedes teria por certo o mesmo tipo de morte que o pai, ao passo que eu não teria seguramente a mesma sorte. Invejava a sua tranquila existência, mas, enquanto passeava com ele nos seus jardins, apercebi-me de que Licomedes não gozara ainda muitos dos prazeres que a vida nos proporciona. O seu reino e o seu reinado pouco significavam para ele, ao contrário do que sucedia comigo; executava a sua obra de uma forma competente e conscienciosa, pois era ao mesmo tempo um homem generoso e um dirigente capaz, mas faltava-lhe algo que eu tinha: a determinação de lutar ferreamente por aquilo que era seu, já que, na realidade, nunca ninguém ameaçara tirar-lhe o que quer que fosse.

Eu conhecia plenamente o significado de palavras como perda, fome e desespero. E amava o meu novo reino da Tessália - tão duramente conquistado! - como ele nunca poderia amar Ciros. Tessália, a minha Tessália! Eu, Peleu, era rei supremo da Tessália! Outros reis deviam-me obediência - a mim, que só há poucos anos voltara às terras a norte da Ática. Era eu o rei dos Mirmidões, o povo de lolcos a quem chamavam Formigas.

O rei de Ciros interrompeu os meus pensamentos.

- Estás a pensar na Tessália - disse.

- Não consigo pensar noutra coisa. Licomedes ergueu uma mão branca e indolente.

- Meu caro Peleu, os deuses não me dotaram dos teus poderosos entusiasmos. Enquanto que eu ardo em fogo lento, tu és uma labareda refulgente e vibrante. Embora deva dizer que me sinto satisfeito com aquilo que sou. Se estivesses no meu lugar, só terias parado depois de teres conquistado todas as ilhas entre Creta e a Samotrácia.

Encostei-me ao tronco de uma nogueira e suspirei.

- E no entanto, meu amigo, estou muito, muito cansado. Já não sou o jovem de outros tempos.

- Uma verdade tão óbvia que nem vale a pena proclamá-la... - Os seus olhos pálidos examinavam-me atentamente. - Peleu - prosseguiu ele -, sabes com certeza que tens a reputação de seres o homem mais notável de toda a Grécia... Até mesmo Micenas é obrigada a reparar em ti.

Endireitei-me e continuei a andar.

- Eu sou igual a qualquer outro homem.

- Podes negá-lo à vontade, mas a verdade tem de ser dita! Tu tens tudo, Peleu! Um corpo belo e atlético, uma mente astuta e subtil, uma arte inquestionável no que toca à chefia de homens, um talento notável para inspirar o amor do teu povo - pois se tu até tens um rosto encantador!

- Continua com elogios desses, que eu pego já nas minhas coisas e vou-me embora.

- Sossega que já terminei. Para dizer a verdade, gostaria de discutir contigo uma questão muito específica. O meu péan de louvor à tua pessoa era apenas uma maneira de chegar a esse assunto...

Fitei-o com curiosidade.

- Ah sim? Licomedes molhou os lábios, franziu o sobrolho e, por fim, decidiu mergulhar de chofre em águas agitadas.

- Peleu, tu tens trinta e cinco anos. És um dos quatro reis supremos da Grécia e, portanto, possuis um poder extraordinário nesse território. Contudo, não tens esposa, ou seja, não tens rainha. E, ah - visto que és um adepto fiel da Nova Religião, o que quer dizer que escolheste a monogamia, como é que vais garantir a sucessão do trono da Tessália se não tens uma esposa?

Não consegui controlar o riso.

- Mas que impostor que tu me saíste, Licomedes! Já percebi tudo: escolheste uma esposa para o teu amigo!

Ele fitou-me com um ar manhoso.

- É possível... Amenos que tenhas outras ideias...

- Licomedes, devo dizer-te que penso muitas vezes no meu casamento. Infelizmente, porém, não gosto de nenhuma das candidatas.

- Pois eu conheço uma mulher a que talvez não resistas. Estou certo de que daria uma esposa esplêndida.

- Diz tudo, homem! Sou todo ouvidos.

- És todo ouvidos e estás todo excitado... Mas eu vou contar-te tudo. A mulher em questão é a grande sacerdotisa de Poseidon em Ciros. Ordenou-lhe o deus que se casasse, mas ela resistiu ao casamento. Eu não posso obrigar tão augusta sacerdotisa a obedecer às ordens de Poseidon ou às minhas ordens. Contudo, se quero salvar o meu povo e a minha ilha, tenho de convencê-la a casar-se.

Por essa altura, já eu o fitava com um espanto sem fim.

- Licomedes! Com que então eu não passo de um objecto para tu conseguires os teus fins! Francamente!

- Não, não! - exclamou ele, com uma expressão aflita. - Ouve-me até ao fim, Peleu!

- Poseidon ordenou-lhe que se casasse?

- Sim. Os oráculos dizem que, se ela não se casar, o Senhor dos Mares abrirá ao meio as terras de Ciros e levará a minha ilha para as profundezas do mar, fazendo dela mais um dos seus territórios.

- Disseste «oráculos»... Quer dizer que consultaste vários?

- Consultei até a pitonisa de Delfos e a floresta de carvalhos de Dodona. A resposta foi sempre a mesma - ou ela se casa, ou vocês morrem.

- Porque é que ela é tão importante? - perguntei, fascinado. Na sua expressão, o temor transpareceu de súbito.

- Porque ela é filha de Nereu, o Velho Deus do Mar. Assim sendo, ela é, pelo sangue, metade divina, metade humana - e há uma divisão na sua lealdade. A sua linhagem pertence à Velha Religião; no entanto, é a Nova Religião que ela serve. Peleu, tu conheces bem a agitação que varreu o nosso mundo grego desde que os impérios de Creta e Tera se desmoronaram. Pensa no caso de Ciros! Nunca fomos tão dominados pela Mãe como Creta ou Tera ou os reinos da ilha de Pélops

- aqui, foram sempre os homens que governaram -, mas a Velha Religião possui uma força inegável. Contudo, Poseidon é um deus da Nova Religião e nós estamos sob o seu domínio - para além de ser o Senhor dos Mares que nos rodeiam, Poseidon é também o Senhor dos Terramotos.

- Devo concluir, portanto - disse eu, lentamente -, que Poseidon está furioso com o facto de uma mulher da Velha Religião ser precisamente a sua sacerdotisa suprema. No entanto, Poseidon deve ter aprovado a nomeação dessa mulher.

- E aprovou! Mas agora está furioso - tu sabes como são os deuses, Peleu! Alguma vez os deuses foram coerentes? Apesar de ter aprovado a nomeação da sacerdotisa, agora está furibundo e não quer que o seu altar seja servido por uma filha de Nereu.

- Licomedes, Licomedes! Acreditas mesmo nessas histórias de homens e mulheres gerados pelos deuses? - perguntei eu, incrédulo. - Tinha-te em melhor juízo! Os homens e as mulheres que afirmam ser filhos de deuses são, na sua maior parte, simples bastardos - e, geralmente, filhos de um pastor ou de um moço de estrebaria.

Licomedes desatou a dar aos braços como uma galinha assustada.

- Sim, sim, sim! Eu sei que isso é verdade, Peleu, mas a verdade é que acredito! Tu nunca a viste, tu não a conheces. Eu já a vi, eu conheço-a. Nunca vi criatura mais estranha ... ! Basta uma pessoa olhar para ela, para logo ficar sem dúvidas: aquela mulher veio do mar!

Por essa altura, já eu me sentia francamente ofendido.

- Não posso acreditar no que estou a ouvir! Muito obrigado pela oferta! Queres impingir uma mulher doida ao rei supremo da Tessália? Pois bem, comigo é que ela não se casa!

Licomedes agarrou-me no antebraço com ambas as mãos.

- Peleu, achas-me capaz de uma baixeza dessas? Exprimi-me mal, é tudo - não queria ofender-te, juro-te que não! Só que... logo que te vi, ao fim de tantos anos, o meu coração disse-me que aquela era a mulher certa para ti. Não lhe faltam pretendentes nobres... Todos os solteiros bem nascidos de Ciros já lhe propuseram casamento. Mas ela tem-nos recusado a todos. Diz que está à espera daquele que o deus prometeu enviar-lhe - esse homem virá com um sinal divino.

Suspirei.

- Está bem, Licomedes, eu vou vê-la. Mas não te prometo nada! Entendido?

O recinto e o altar sagrados de Poseidon - de facto, não se tratava de um verdadeiro templo - situavam-se na outra ponta da ilha, a zona menos fértil e menos habitada; uma localização muito peculiar para o principal santuário do Senhor dos Mares. Os seus favores eram vitais para todas as ilhas, cercadas por todos os lados pelos seus líquidos domínios. A sua disposição determinava a prosperidade de um local ou a fome que grassava noutro; por alguma razão Poseidon era também aquele que fazia tremer a terra. Eu próprio vira os frutos da sua raiva: cidades inteiras destruídas, tão rasas e tão lisas como o ouro sob o martelo do artífice. Poseidon enfurecia-se por tudo e por nada e era muito cioso do seu prestígio; por duas vezes, tanto quanto se sabia, Creta fora arrasada pela violência da sua vingança, pois os seus reis, sentindo-se inchados de importância, haviam negligenciado a veneração que a Poseidon era devida. O mesmo acontecera com a ilha de Tera.

Se aquela mulher que Licomedes queria para minha esposa era filha de Nereu - que governara os mares no tempo em que Cronos governara o mundo do seu trono no Olimpo - não admirava que os oráculos exigissem o seu afastamento do cargo. Zeus e os seus irmãos não tinham tempo a perder com os velhos deuses que haviam derrubado - bom, e vendo bem as coisas, quem é que poderia perdoar a um pai que devorava os seus filhos?

Cheguei ao recinto sozinho e a pé, envergando um vulgar traje de caça e conduzindo a minha oferenda com uma corda. Queria que ela pensasse que eu era um anónimo membro do povo, queria que ela não suspeitasse sequer que eu era o rei supremo da Tessália. O altar erguia-se sobre um promontório sobranceiro a uma pequena enseada; avancei lentamente por entre o sagrado bosque que havia diante do altar, aturdido com o silêncio e com a sufocante religiosidade que impregnava o local. Até mesmo o mar chegava aos meus ouvidos como que abafado, ainda que as ondas não parassem de se erguer e de se esmagar, numa multidão de bolhas brancas, contra as rochas da torturada base do precipício. Diante do altar, um altar simples, desprovido de ornamentos, ardia a chama eterna sobre um tripé dourado; aproximei-me da chama, parei e puxei a minha oferenda para ao pé de mim.

Nesse momento, a sacerdotisa emergiu para a luz do sol, ainda que com alguma relutância, como se preferisse viver na sombra, numa versão mais fresca e líquida do dia. Fitei-a fascinado. Pequena, elegante, feminina, possuía, no entanto, uma qualquer qualidade que, de feminino, nada tinha. Em vez do vestido habitual das sacerdotisas, com todos os seus bordados e rufos, envergava uma simples túnica feita com o belo e transparente linho que os Egípcios tecem, e a cor da sua pele via-se claramente sob o linho, pálida e azulada, listrada porque o material fora mal tingido. Os lábios eram cheios, mas de um rosa desmaiado; os olhos, os olhos mudavam de cor consoante os matizes e os estados de ânimo do mar - cinzentos, azuis, verdes, até mesmo um púrpura tão escuro como o vinho; não usava qualquer pintura no rosto, excepto uma linha negra e muito fina desenhada em torno dos olhos e prolongada na direcção das sobrancelhas para lhe dar um ar vagamente sinistro. O cabelo dela não tinha cor nenhuma, era de um branco como o branco das cinzas, embora possuísse um brilho que, na escuridão de um quarto, o faria por certo parecer azul.

Avancei, conduzindo a minha oferenda.

- Suprema sacerdotisa, estou de visita à tua ilha e decidi fazer uma oferenda ao Pai Poseidon.

A sacerdotisa aquiesceu e segurou na corda. Depois, examinou o vitelo branco com um olhar conhecedor.

- O Pai Poseidon ficará satisfeito. Há muito que não via um tão belo animal.

- Como os cavalos e os touros são sagrados para ele, pensei que deveria oferecer-lhe aquilo de que ele mais gosta.

Ela fitou atentamente a chama do altar.

- O momento não é propício para um sacrifício. Farei a oferenda mais tarde disse.

- Como queiras, sacerdotisa. - Virei-lhe costas, decidido a ir-me embora.

- Espera.

- Sim?

- Tenho de dizer ao deus o nome do homem que lhe oferece o vitelo. Como te chamas?

- Peleu. Sou o rei de lolcos e o rei supremo da Tessália. Os olhos dela mudaram rapidamente de cor: o azul-claro passou a ser um cinzento-escuro.

- Não és um homem vulgar, Peleu. O teu pai era Éaco e o pai dele era o próprio Zeus. O teu irmão Télamon é rei de Salamina e tu pertences à realeza.

Sorri.

- Sim, eu sou filho de Éaco e irmão de Télamon. Quanto ao meu avô, não faço ideia quem foi. Embora duvide que fosse o rei dos deuses. Sinto-me mais inclinado a acreditar que fosse um bandido qualquer que se apaixonou perdidamente pela minha avó.

- A impiedade, rei Peleu - retorquiu ela serenamente -, conduz ao castigo divino.

- Não consigo encontrar em mim sinal de impiedade, sacerdotisa. É com a mais profunda fé que venero os deuses e lhes faço oferendas.

- No entanto, negas que Zeus tenha sido o teu avô.

- Tais histórias, senhora, são contadas para realçar os direitos de um homem a um trono - foi o que aconteceu com o meu pai, Éaco.

Ela afagou o focinho do vitelo com um ar ausente.

- Deves estar hospedado no palácio... Por que razão o rei Licomedes te deixou vir até aqui sozinho e sem seres anunciado?

- Porque eu assim o quis, senhora. Depois de ter amarrado o vitelo branco a uma argola que havia num dos pilares, virou-me as costas.

- Suprema sacerdotisa, quem aceita a minha oferenda? Olhando-me por cima do ombro, mostrou-me uns olhos de um cinzento frio e neutro.

- Eu sou Tétis, filha de Nereu. E não se trata apenas de rumores, rei Peleu. o meu pai é um grande deus.

Era tempo de partir. Agradeci-lhe e retirei-me.

Mas não fui muito longe. Armado de cuidados para que nenhum espião do santuário me visse, deslizei pelo caminho de cobras que conduzia à enseada, arrumei a lança e a espada atrás de uma rocha e deitei-me na areia quente, à sombra de um penhasco. Tétis. Tétis. Não havia dúvida: aquela mulher tinha nela o mar. Dei comigo até a querer acreditar que ela era filha de um deus, pois deixara-me enlear por aqueles olhos camaleónicos, pois vira neles todas as tempestades e bonanças que moldam o mar, pois vira neles um eco de um qualquer fogo frio que as palavras não podem descrever. E queria que ela fosse minha esposa.

Ela também estava interessada em mim; a minha idade e o meu cabedal de experiência levavam-me a essa conclusão. Faltava apenas saber quão forte era a sua atracção; dentro de mim, sentia já a advertência de que, naquele combate, a derrota poderia ser minha. Tétis recusara já um sem-número de pretendentes: por que haveria de me querer a mim? Embora não sentisse qualquer inclinação por homens, o certo é que, até então, as mulheres pouco mais tinham significado para mim do que a satisfação de um apetite que dilacera tanto os mais augustos deuses como os simples mortais. Por vezes, levava uma mulher da casa para dormir comigo, mas, na realidade, nunca sentira por nenhuma verdadeiro amor. Estivesse ela ou não ciente disso, Tétis pertencia-me. E como eu defendia a Nova Religião em todos os seus aspectos, Tétis não teria esposas rivais. Eu seria só dela.

O sol ardia-me agora nas costas com uma força cada vez maior. O meio-dia veio; despi o meu traje de caçador, para que os raios de Hélio penetrassem na minha pele. Mas não conseguia parar quieto. Acerta altura, soergui-me e fitei o mar, culpando-o da perturbação que sentia. Depois, cerrei os olhos e ajoelhei.

- Pai Zeus, concede-me os teus favores! Tu sabes que, da minha boca, só tens ouvido súplicas nos momentos de maior abandono e necessidade, tu sabes que, quando apelo à tua intervenção, é como se procurasse o auxílio de um avô! Mas é por isso que agora rezo, é por isso que agora apelo aos teus mais benévolos e doces sentimentos! Tu sempre me ouviste, porque eu nunca te aborreço com trivialidades. Ajuda-me agora, rogo-te! Dá-me Tétis como me deste lolcos e os Mirmidões e toda a Tessália! Dá-me a melhor das rainhas para o trono mirmidão, dá-me filhos possantes, capazes de ocuparem o meu lugar quando eu morrer!

De olhos cerrados, mantive-me ajoelhado por um longo tempo. Quando me levantei, verifiquei que nada tinha mudado. O que não era para admirar: os deuses não fazem milagres para instilarem a fé nos corações dos homens. Então, de súbito, vi-a. O vento agitava a sua frágil túnica como se fosse uma bandeira, o seu cabelo, sob a violência do sol, parecia cristal, o seu rosto erguido parecia extasiado. Ao lado dela, estava o vitelo branco; na mão direita, Tétis empunhava um punhal.

O vitelo caminhava para a morte tranquilamente; aninhou-se mesmo sobre os joelhos de Tétis quando ela se ajoelhou na areia que as ondas beijavam; e não lutou, nem gemeu de dor, quando ela lhe cortou a garganta, apertando-o contra si enquanto cintilantes fios escarlates se espalhavam pelas suas coxas e pelos braços nus. A água à volta dela ganhou um tom vermelho desmaiado, enquanto as caprichosas correntes sugavam o sangue do vitelo, diluindo-o na sua própria substância.

Ela não me tinha visto. E não me viu enquanto deslizava pelos caminhos do mar, arrastando o vitelo morto; quando a água lhe cobriu os seios, pôs o vitelo à volta da nuca e começou a nadar. Por fim, já a alguma distância da praia, encolheu os ombros e libertou o vitelo, que se afundou imediatamente. Uma rocha enorme e plana erguia-se do mar; nadou até à rocha, subiu para o seu leito duro e, por um momento, manteve-se de pé, uma silhueta desenhada contra o céu claro. Depois, deitou-se de costas, aconchegou a cabeça sobre os braços cruzados e, aparentemente, adormeceu.

Um ritual bizarro, um ritual que não era aprovado pela Nova Religião. Tétis aceitara a minha oferenda em nome de Poseidon, mas quem a recebera fora Nereu. Sacrilégio! E era ela a suprema sacerdotisa de Poseidon! Ah, Licomedes, tu tinhas toda a razão! Aquela mulher albergava as sementes de destruição de Ciros. Ela não dava ao Senhor dos Mares aquilo que lhe era devido, tão-pouco respeitava o Senhor dos Terramotos que Poseidon também era.

O ar estava calmo e suave, a água límpida; porém, enquanto caminhava na direcção das ondas, tremia tanto como se estivesse com as sezões. A água não conseguiu refrescar-me enquanto nadava; Afrodite apertara de tal modo as suas sedosas garras que me lacerava até os ossos. Tétis era minha e eu ia possuí-la. Salvava assim o pobre Licomedes e a sua ilha.

Quando cheguei à rocha, agarrei-me a uma saliência e ergui-me com um esforço que quase me fendeu os músculos; curvei-me sobre Tétis antes que ela pudesse aperceber-se de que eu estava mais perto dela do que o palácio de Ciros está perto da cidade. Mas Tétis não estava a dormir. Os olhos dela, agora de um verde suave, sonhador, estavam abertos. Então, afastou-se bruscamente de mim, e os seus olhos tornaram-se negros.

- Não me toques! - disse ela, ofegante. - Homem nenhum se atreve a tocar-me! Eu pertenço ao deus!

A minha mão estendeu-se num ápice, detendo-se a uma escassa distância do seu tornozelo.

- Os votos que fizeste não são permanentes, Tétis. Podes casar-te. E casarás comigo.

- Eu pertenço ao deus!

- De que deus falas tu? Quando falas, serves um deus, mas quando procedes aos sacrifícios, estás a servir outro deus! Tu pertences-me, Tétis, e acredita que a minha ousadia não conhece limites. Se o deus - seja ele quem for! - exigir a minha morte por isto, acredita que aceitarei a sua sentença.

Soltando um grito de aflição e pânico, tentou deslizar pela rocha na direcção do mar. Mas eu era mais rápido do que ela: agarrei-lhe numa perna e arrastei-a para mim; os dedos dela enclavinhavam-se na superficie arenosa, podia mesmo ouvir as suas unhas rasgando tudo aquilo em que se podiam cravar. Agarrei-a pelos pulsos, libertando-lhe o tornozelo, e ergui-a.

Lutou comigo como dez gatos selvagens, com todas as suas forças, pontapeando-me e mordendo-me silenciosamente enquanto os meus braços a apertavam. Uma dúzia de vezes escapou à tenaz dos meus braços, uma dúzia de vezes voltei a prendê-la. O sangue tingia-nos os corpos. A carne do meu ombro estava dilacerada, os lábios dela estavam fendidos, mancheias do cabelo de ambos rodopiavam ao sabor do vento que de súbito se levantara. Não era uma violação, nem eu pretendia que fosse; era um mero concurso de forças, homem contra mulher, a Nova Religião contra a Velha. Terminou como tais concursos devem terminar: com a vitória do homem.

Caímos sobre a rocha com uma violência que a deixou sem fôlego. O corpo dela estava agora acorrentado sob o meu, os ombros já não se debatiam. Olhei-a nos olhos.

- Perdeste o combate. Conquistei-te. Os lábios dela tremiam; virou-me a cara.

- Tu és ele. Eu soube disso logo que te vi no santuário. Quando jurei servi-lo, o deus disse-me que um homem viria um dia do mar, um homem do céu que retiraria o mar da minha mente e me tornaria a sua rainha. - Suspirou. - Pois que assim seja, se essa é a vontade do deus.

Com pompa e circunstância, sentei a nova rainha no trono de lolcos. Durante o primeiro ano da nossa união, Tétis ficou grávida. Era o culminar do nosso júbilo. Nunca fomos tão felizes como durante as nove luas em que esperámos pelo nascimento do nosso filho. Nenhum de nós admitia sequer que pudesse ser uma menina.

A minha própria ama, Aresune, foi nomeada chefe das parteiras; por isso, quando Tétis começou com as dores de parto, de nada me valeu o poder do trono; a velha ama impôs a sua autoridade e baniu-me para o outro extremo do palácio. Tive de aguardar que o carro de Febo desse uma volta inteira: durante esse tempo, refugiei-me na solidão, ignorando os criados que me rogavam que comesse ou bebesse. Nesse momento, a única coisa que sabia fazer era esperar... Até que, já a noite ia alta, Aresune veio ter comigo. Não se dera sequer ao trabalho de mudar de roupa; manchas de sangue espalhavam-se pelo seu vestido; mirrada e curvada, parecia encolhida dentro daquelas roupas ensaguentadas e, no rosto enrugado, a dor desenhara os seus traços. Os olhos, que, de tão fundos, pareciam duas covas negras, eram uma fonte de lágrimas.

- Era um rapaz, rei Peleu, mas não viveu o suficiente para inspirar o ar da vida. A rainha está bem. Perdeu algum sangue e está muito cansada, mas a sua vida não corre perigo. - As mãos escanzeladas contorciam-se uma na outra.

- Senhor, juro-lhe que não houve erro nenhum no meu trabalho! Um rapaz tão bonito, tão forte! Foi a vontade da deusa.

Não suportava que ela visse o meu rosto à luz da lamparina. O meu sofrimento era tanto que não conseguiria chorar. Num ápice, virei costas à minha ama e fui-me embora dali.

Vários dias passaram até conseguir arranjar forças para ir ver Tétis. Quando finalmente entrei no seu quarto, fiquei espantado com o que vi: Tétis parecia estar de óptima saúde e o seu ar não podia ser mais feliz. Disse tudo o que seria correcto dizer em tais circunstâncias, ensaiou mesmo algumas palavras que exprimiam tristeza, mas nada daquilo era verdadeiro! Tétis estava contente!

- O nosso filho está morto! - explodi. - A morte de um filho é insuportável! Ele nunca conhecerá o sentido da vida! Nunca ocupará o meu lugar no trono. Durante nove luas trouxeste-o no teu ventre - e afinal para nada!

Tétis afagou-me a mão com um ar vagamente protector.

- Oh, meu querido Peleu, não sofras mais! O nosso filho não tem uma vida mortal, mas já te esqueceste de que eu sou uma deusa? Como ele não respirou o ar da terra, pedi ao meu pai que concedesse ao nosso filho a vida eterna, e o meu pai acedeu ao meu pedido. O nosso filho vive agora no Olimpo - come e bebe com os outros deuses, Peleu! Não, ele nunca será o rei de lolcos, mas desfruta de algo que nenhum homem mortal jamais poderá desfrutar. Ao morrer, o nosso filho tornou-se imortal. Portanto, nunca morrerá.

O meu espanto transformou-se em repulsa. Olhei-a nos olhos e perguntei-me como era possível que Tétis se tivesse deixado enredar de tal maneira por aqueles disparates. Ela era tão mortal como eu e o fílho dela era tão mortal como nós dois. Então, reparei na confiança extrema que havia no seu olhar e não consegui dizer aquilo que ansiava dizer-lhe. Se acreditar em tais disparates lhe aliviava a dor, pois que acreditasse! A vida com Tétis ensinara-me que ela não pensava, nem se comportava, como as outras mulheres. Por isso, limitei-me a afagar-lhe a cabeça e retirei-me.

Seis filhos me deu Tétis e todos nados mortos. Quando Aresune me trouxe a notícia da morte do segundo rapaz, quase enlouqueci. Durante muitas luas, não consegui sequer abeirar-me de Tétis, pois sabia o que ela me diria - que o nosso filho era agora um deus. No fim, porém, o amor e o desejo levavam-me de volta aos seus braços e de novo percorríamos o medonho ciclo até ao fatal desenlace.

Quando a sexta criança nasceu morta - como era possível que tivesse morrido à nascença, se a gravidez durara as nove luas e a criança, no seu minúsculo carro funerário, parecia tão forte, apesar do tom azul-escuro da pele? - jurei que nunca mais daria filhos meus ao Olimpo. Mandei um emissário à pitonisa de Delfos e a resposta foi esta: Poseidon estava furioso porque eu lhe roubara a sua sacerdotisa! Quanta hipocrisia! Hipocrisia e loucura! Primeiro, não a queria; agora, mudara de ideias. Não duvidemos: não há no mundo um só homem que consiga entender o que pensam e o que fazem os deuses, Novos ou Velhos.

Durante dois anos, não vivi com Tétis, que continuava a querer conceber mais filhos para o Olimpo. Então, no final do segundo ano, levei um potro branco a Poseidon Criador de Cavalos e ofereci-o diante de todos os Mirmidões, o meu povo.

- Revoga a tua maldição e dá-me um filho vivo! - gritei. As entranhas da terra ribombaram, a cobra sagrada, que estava sob o altar, disparou como um relâmpago castanho, o chão agitou-se, percorrido de espasmos. Um pilar caiu mesmo ao meu lado, mas eu não me mexi. Entre os meus pés, surgiu uma fenda e quase sufocava com o cheiro a enxofre, mas mantive-me quieto e direito até que o tremor se esbateu e a fenda se fechou. O potro branco jazia no altar sem pinga de sangue e pateticamente quieto. Três luas depois, Tétis disse-me que estava grávida do nosso sétimo filho.

Ao longo das nove fatigantes luas que se seguiram, ordenei que a vigiassem como um falcão vigia pintaínhos; ordenei a Aresune que dormisse com ela todas as noites, ameacei as mulheres da casa com as torturas mais terríveis, caso a deixassem sozinha por um instante que fosse, a menos que Aresune se encontrasse por perto. Tétis suportava estes «caprichos», como ela lhes chamava, com paciência e bom humor; nunca discutia, nunca tentava infringir as minhas leis. Certa vez, ouvi-a cantar um estranho cântico da Velha Religião; um arrepio gelado percorreu-me o corpo. Porém, quando lhe ordenei que se calasse, Tétis obedeceu prontamente e nunca mais a ouvi entoar tais cânticos. Aproximava-se a hora em que daria à luz o sétimo filho. Comecei a nutrir algumas esperanças. Se eu sempre respeitara os deuses, por que razão não haveriam eles de me dar um filho vivo?

Possuía uma armadura que havia pertencido a Minos; era, entre todos os meus tesouros, aquele que eu mais prezava. Era um objecto extraordinário: sobre quatro camadas separadas de bronze e três de estanho, era forrada a ouro e incrustada com lápis-lazúli e âmbar, e ornamentada com um padrão maravilhoso de coral e cristal. O escudo, de idêntica construção, era tão alto como um homem e fazia lembrar dois escudos redondos sobrepostos; de facto, possuía como que uma cintura. A couraça e as grevas, o elmo e o saiote e as protecções dos braços, tinham sido feitos para um homem mais corpulento do que eu; por isso eu respeitava o falecido Minos, que usara aquela armadura nas suas viagens pelo reino cretense, confiando que nunca precisaria dela para se proteger, desejoso apenas de exibir diante do seu povo toda a sua riqueza. E quando Minos caíra, a armadura de nada lhe servira, pois Poseidon esmagara-o, bem como a Creta, porque nem Minos nem Creta queriam a Nova Religião. A Mãe Kubaba, a Grande Deusa da Velha Religião, Rainha da Terra e dos Céus, sempre reinara em Creta e em Tera.

Com a armadura de Minos, guardara uma lança de freixo das encostas do monte Pélion; tinha uma ponta pequena, feita com um metal chamado ferro, tão raro e precioso que a maior parte dos homens pensava tratar-se de uma lenda, pois poucos o tinham visto. A experiência havia provado que a lança atingia sempre o seu alvo, apesar de mais parecer uma pena na minha mão. Quando deixei de precisar dela, porque a guerra terminara, guardei-a com a armadura. A lança tinha um nome: Velha Pélion.

Antes do nascimento do meu primeiro filho, fora buscar estas raridades e limpara-as e polira-as, certo de que a armadura assentaria que nem uma luva ao meu filho. Porém, com as sucessivas mortes dos meus filhos, mandei-as de novo para os subterrâneos onde guardava os meus tesouros, condenando-as a viverem numa escuridão que não era mais negra do que o meu desespero.

Cerca de cinco dias antes do esperado nascimento do meu sétimo filho, peguei numa lamparina e desci os velhos e gastos degraus de pedra que conduziam às entranhas do palácio. Depois, avancei lentamente por infindáveis corredores até que avistei a grande porta de madeira da sala dos tesouros. Porque estava eu ali? perguntei a mim mesmo, mas não consegui encontrar uma resposta satisfatória. Abri a porta, preparando já os olhos para a escuridão; porém, em vez de escuridão, deparou-se-me uma luz dourada no extremo oposto da imensa câmara. Apaguei a minha lamparina e avancei furtivamente, com a mão no punhal. A sala estava atravancada de urnas e baús, cofres e indumentária sagrada; tinha de avançar com todo o cuidado.

Ao abeirar-me da luz, ouvi o inconfundível som de uma mulher chorando. Aresune, a minha ama, estava sentada no chão, embalando nos seus braços o elmo de ouro que havia pertencido a Minos; as belas plumas douradas do elmo balouçavam sobre a sua mão mirrada. Eram lágrimas brandas, mas amargas; ao mesmo tempo, entoava o cântico de luto de Egina, a ilha de onde ela e eu éramos originários, a ilha que fora o reino de Éaco. ó Kore! Aresune chorava já o meu sétimo filho!

Não podia deixá-la sem a consolar, não podia sair dali furtivamente, fingindo que não a tinha visto, que não a tinha ouvido. Quando a minha mãe lhe ordenara que me desse o seu seio, Aresune era já uma mulher madura; fora ela quem me criara, sob o olhar indiferente de minha mãe; seguira-me nas minhas deambulações por uma dúzia de estados, tão fiel como o mais fiel dos meus cães; e quando conquistei a Tessália, atribuí-lhe um importante cargo no meu lar. Por tudo isto, abeirei-me dela, toquei-lhe brandamente no ombro e supliquei-lhe que não chorasse. Tirei-lhe o elmo dos braços e estreitei o seu corpo velho e rígido, dizendo-lhe muitas meiguices tontas, procurando confortá-la com o meu próprio sofrimento. Por fim, Aresune acalmou-se, ainda que os seus dedos magros continuassem cravados na minha túnica.

- Meu querido rei, porquê? - disse ela, num tom plangente. - Porque a deixas fazer aquilo?

- Porquê o quê? O que é que eu deixo fazer? E a quem?

- À rainha - retorquiu ela, por entre soluços. Mais tarde, dei-me conta de que o sofrimento a deixara transtornada; caso contrário, nunca teria conseguido arrancar-lhe aquela confissão. Embora a amasse muito mais do que jamais amara minha mãe, Aresune sempre tivera uma consciência muito clara da diferença de estatuto que havia entre nós. Prendi-a com tal violência entre as minhas mãos que a pobre desatou a contorcer-se e a lamentar a sua sorte.

- O que é que a Rainha faz? - berrei.

- Mata os teus filhos! Todo eu tremia.

- Tétis? Os meus filhos? Que história é essa? Fala! A velha ama já não se debatia entre os meus braços. Fitava-me apenas, fitava-me horrorizada porque descobrira, naquele preciso momento, que eu não sabia nada.

Abanei-a.

- Aconselho-te a contares-me tudo, Aresune. Como é que a minha mulher mata os seus filhos? E porquê? Porquê?

Mas Aresune cerrou os lábios e nada disse; os seus olhos aterrados fixavam a chama da lamparina. Empunhei o punhal; encostei a sua temível ponta àquela pele velha e flácida.

 

1- Kubaba ou Cíbele; Kubaba era uma deusa da Anatólia a que Cíbele foi posteriormente assimilada. A origem de Cíbele é a Frígia. O seu culto espalhou-se por toda a Grécia e chegou também a Roma.

2- A autora utiliza um dos nomes de Perséfona, filha de Zeus e Deméter, Kore: neste caso, Perséfona é invocada na sua qualidade de rainha dos Infernos, ou seja, do mundo dos mortos.

 

- Fala, mulher, ou, por Zeus Omnipotente, juro-te que te arrancarei as unhas e os olhos - juro-te que tudo farei para te desatar a língua! Fala, Aresune, fala!

- Peleu - disse ela, com uma voz trémula -, se eu falar, ela amaldiçoar-me-á, e a maldição dela é muito pior do que qualquer tortura.

- Essa maldição seria funesta para Tétis, porque se viraria contra ela. Conta-me tudo.

- Eu pensava que sabias, que tinhas consentido... Quem sabe, talvez ela tenha razão - talvez a imortalidade seja preferível à vida na terra, porque os imortais não envelhecem.

- Tétis é louca - disse eu.

- Não, meu senhor. Tétis é uma deusa.

- Não é tal, Aresune! Apostaria a minha vida em como ela é tão mortal como tu!

Aresune não parecia convencida da condição mortal de Tétis; eu não conseguira abalar as suas superstições.

- Ela matou todos os teus filhos, Peleu. Com a melhor das intenções.

- Como é que ela faz isso? Toma alguma poção?

- Não, meu querido senhor. O processo é muito mais simples. Quando a sentamos no banco de parir, ela manda sair todas as mulheres excepto eu. Depois, ordena-me que ponha um balde cheio de água debaixo dela. Logo que a cabeça da criança sai de dentro dela, Tétis condu-la na direcção da água e aí a mantém até sufocar o bebé.

Os meus punhos cerravam-se e abriam-se.

- Então é por isso que os meninos têm aquela cor azul! - Ergui-me. Volta para junto dela, Aresune, ou dará pela tua falta. Juro-te, como teu rei, que nunca direi a ninguém que foste tu quem me contou a verdade. Farei com que ela não tenha a menor possibilidade de te fazer mal. Vigia-a de perto. Quando as dores de parto começarem, corre a avisar-me. Entendido?

Ela acenou que sim, já sem lágrimas nos olhos e sem culpa no coração. Depois, beijou-me as mãos e, no seu passo trôpego, retirou-se.

Fiquei ali um tempo infindo sem me mexer, enquanto as chamas das lamparinas se esbatiam. Tétis matara os meus filhos - e para quê? Por causa de um sonho impossível, de um sonho demente. Por superstição. Por uma ilusão. Privara-os do direito a tornarem-se homens. Cometera crimes tão vis que eu daria tudo para, naquele momento, poder trespassá-la com a minha espada. Mas Tétis trazia ainda no seu ventre o meu sétimo filho. A espada teria de esperar. E a vingança pertencia aos deuses da Nova Religião.

Cinco dias depois de ter falado com Aresune, a velha procurou-me. Corria como louca, o cabelo desgrenhado pelo vento. A tarde estava a chegar ao seu termo e eu fora aos estábulos a fim de examinar os garanhões, pois a época de acasalamento aproximava-se e os cavalariços queriam mostrar-me os casais que haviam escolhido.

Corri como um corcel rumo ao palácio, com Aresune empoleirada no meu pescoço.

- Que vais fazer? - perguntou-me ela quando a larguei diante da porta de Tétis.

- Vou entrar contigo - disse eu. Horrorizada, Aresune soltou um grito agudo.

- Meu senhor, meu senhor! Isso é proibido!

- Matar também é proibido - retorqui, e abri a porta.

O nascimento de uma criança é um mistério feminino, um mistério que não pode ser profanado pela presença de homens. Quando a Nova Religião venceu a Velha, houve coisas que não mudaram; a Mãe Kubaba, a Grande Deusa, continua a governar os assuntos das mulheres. E, em particular, tudo o que tenha a ver com o desenvolvimento dos frutos humanos - e com a sua colheita, estejam eles verdes, perfeitamente maduros ou secos e mirrados pela idade.

Quando entrei, ninguém me viu durante breves momentos; tive tempo para observar, cheirar, ouvir. A sala tresandava a suor e sangue e a outras coisas estranhas e aterradoras para um homem. O trabalho de parto ia avançado, pois as mulheres da casa estavam nesse momento a conduzir Tétis da sua cama para o banco de parir, onde as parteiras rondavam e instruíam numa azáfama constante. A minha mulher estava nua, o abdómen grotescamente inchado, quase luminoso de tão distendido. Dispuseram cuidadosamente as suas coxas sobre a dura superfície de madeira do banco; o assento do banco tinha no meio um amplo buraco, concebido para ajudar à distensão da extremidade do canal do parto, o local por onde saía o corpo do bebé, sendo a cabeça a primeira porção do corpo a assomar.

No chão, perto do banco, havia um balde de madeira transbordando de água, mas nenhuma das mulheres olhava sequer para ele, pois nenhuma delas sabia para que servia aquele objecto.

Mal me viram, quase voaram para mim, com a raiva estampada no rosto, pensando que o rei enlouquecera, determinadas a correrem comigo dali para fora. Com uma bofetada, deitei por terra aquela que ousou aproximar-se mais; as outras recuaram imediatamente. Aresune estava curvada sobre o balde, murmurando feitiços para afastar o mau olhado, e não se mexeu enquanto eu expulsava as mulheres e trancava a porta.

Tétis viu tudo. O seu rosto cintilava de suor e os seus olhos estavam negros como breu. Apesar disso, conseguia controlar a sua fúria.

- Vai-te embora, Peleu - disse ela, num tom brando. Respondi-lhe afastando Aresune, pegando no balde e despejando no chão a água do mar.

- Não matarás mais ninguém, Tétis! Este filho é meu!

- Matar? Matar? Oh, pobre idiota! Eu não matei ninguém! Eu sou uma deusa! Os meus filhos são imortais!

As minhas mãos cravaram-se nos ombros dela.

- Os teus filhos estão mortos, mulher! Estão condenados a viver como sombras errantes porque tu não os deixaste realizar os feitos que atraem o amor e a admiração dos deuses! Não pisarão nunca os Campos Elíseos, não serão nunca heróis, não encontrarão nunca o seu lugar entre as estrelas! Tu não és uma deusa! Tu és uma mulher mortal!

A resposta dela foi um estridente grito de aflição; as suas costas arquearam-se e as mãos agarraram os braços de madeira do banco com tanta força que as juntas dos dedos brilhavam que nem prata.

Aresune, entretanto, parecia ter despertado de um longo torpor.

- Chegou a hora! - exclamou. - Está prestes a nascer!

- A criança não será tua, Peleu! - rosnou Tétis. Começou a tentar juntar as pernas, o que contrariava o instinto que lhe ordenava que as abrisse.

- Vou esmagar a cabeça dele! - exclamou, a voz prenhe de raiva. Depois, desatou a gritar, um grito que parecia não ter fim. - Oh, Pai! Pai Nereu! Ele está a rasgar-me!

As veias ressaltavam-lhe na testa como se fossem cordões púrpura, as lágrimas corriam-lhe pelas faces. Mesmo assim, continuava a lutar para fechar as pernas. Apesar de desvairada de dor, convocou todas as fibras da sua vontade e uniu inexoravelmente as pernas e cruzou-as e entrelaçou-as para que ficassem tão fechadas como a porta que eu trancara havia pouco.

Aresune estava sentada no chão encharcado, a cabeça sob o banco; ouvi-a gritar, mas, logo a seguir, a velha ama desatou num riso que mais parecia um relincho.

- Ai! Ai! - guinchou ela por fim. - Peleu, é o pé dele! Ele vem ao contrário, é o pé dele! - Arrastou-se para o lado, levantou-se e, com a força de um jovem no seu velho braço, fez com que eu me virasse para ela. - Queres um filho vivo? - perguntou-me.

- Quero, quero!

- Então, abre-lhe as pernas! Os pés estão a sair primeiro, a cabeça dele não corre perigo!

Ajoelhei-me e agarrei com a mão esquerda o joelho mais alto de Tétis; de seguida, enfiei a mão direita sob esse joelho a fim de agarrar o outro; por fim, usei de toda a minha força para lhe afastar as pernas. Os ossos dela rangiam perigosamente; ela empinava a cabeça e vociferava maldições e cuspia algo que mais parecia uma chuva corrosiva, e o seu rosto - aqui o juro, pois eu não tirava os olhos dela e ela não tirava os olhos de mim -, o seu rosto ganhara as escamas e a forma da cabeça de uma serpente. Os joelhos começaram enfim a separar-se; eu era demasiado forte para ela. Não seria essa uma prova incontestável da sua condição mortal?

Aresune mergulhou sob as minhas mãos. Fechei os olhos e resisti à força de Tétis. Então, ouvi um som agudo e breve, um respirar convulsivo e, de repente, o quarto encheu-se do choro de um bebé vivo. Os meus olhos abriram-se num ápice. Fiquei a olhar incrédulo para Aresune e para a criatura em que ela pegava com uma mão, de cabeça para baixo - uma coisa medonha, molhada, escorregadia, que se contorcia e debatia e berrava com tal força que os seus berros chegariam por certo ao tecto dos céus - uma coisa com pénis e escroto, salientes sob a película membranosa. Um filho! Eu tinha um filho vivo!

Tétis permaneceu quieta e calada, o rosto vazio e parado. Mas os olhos dela não se tinham fixado em mim, mas sim no meu filho, que Aresune envolvia agora com um pano branco, depois de ter atado o cordão umbilical e de o ter limpo.

- Um filho que fará as delícias do teu coração! - riu-se Aresune. - O bebé mais forte e saudável que jamais vi! Foi pelo calcanhar direito que o puxei.

Entrei em pânico.

- O calcanhar! O calcanhar direito, velha! Está partido? Está deformado? Aresune afastou o pano e mostrou-me um calcanhar perfeito - o esquerdo e um pé e um calcanhar inchados e contundidos.

- Ambos os calcanhares estão intactos. O direito acabará por sarar e as marcas desaparecerão.

Tétis riu-se, um som débil e toldado.

- O calcanhar direito... Com que então foi assim que ele conseguiu respirar o ar da terra. O pé saiu primeiro... Não admira que me tenha rasgado tanto. Sim, as marcas desaparecerão, mas esse calcanhar direito será a sua ruína. Um dia, quando ele precisar de um calcanhar firme e possante, o calcanhar direito lembrar-se-á do dia em que ele nasceu e traí-lo-á.

Ignorei-a, estendendo os braços para Aresune.

- Dá-me o meu filho, Aresune! Deixa-me vê-lo! Deixa-me ver o amor da minha vida, a razão do meu ser, o meu filho! O meu filho!

Informei a corte de que tinha um filho. Quanta exultação, quanta alegria! Toda a lolcos, toda a Tessália, haviam sofrido comigo ao longo dos anos.

Porém, depois de todos terem partido, sentei-me no meu trono de imaculado mármore branco com a cabeça entre as mãos, quase morto de exaustão. As vozes começaram a esbater-se ao longe, e a noite começou a tecer as suas mais negras e solitárias teias. Eu tinha um filho vivo, mas deveria ter tido sete filhos vivos. A minha mulher era louca.

Penetrou descalça na câmara escassamente iluminada, envergando uma vez mais aquela túnica transparente e flutuante que eu lhe vira em Ciros. Com um rosto velho, enrugado, atravessou lentamente as geladas lajes do chão. O seu caminhar expressava bem o sofrimento do seu corpo.

- Peleu - disse ela, mal chegou ao estrado onde o meu trono assentava. Vira-a através dos meus dedos. Ergui a cabeça para falar com ela.

- Vou voltar para Ciros, marido.

- Licomedes não te quer.

- Nesse caso, irei para onde me queiram.

- Como Medeia, num carro puxado por cobras?

- Não. Farei a minha viagem nas costas de um golfinho.

Nunca mais a vi. Ao alvorecer, Aresune veio com dois escravos que me levantaram e levaram para a cama. Dormi tanto que, quando acordei, já o carro de Febo dera uma volta inteira ao nosso mundo; não me lembrei de um único sonho, mas lembrei-me de que tinha um filho. Corri ao seu quarto como se tivesse as sandálias aladas de Hermes nos meus pés e encontrei Aresune pegando nele, depois de ter mamado nos seios da sua ama - uma jovem saudável que perdera o seu bebé, disse-me logo a velha. Chamava-se Leucipa, um nome que significava «égua branca».

Era a minha vez agora. Peguei nele e constatei que o rapaz era pesado. O que não era para admirar, pois ele parecia ser feito de ouro. Um cabelo dourado, todo aos caracóis, uma pele dourada, sobrancelhas e pestanas douradas. Os olhos, que não largavam os meus, eram escuros, mas imaginei que, quando começassem a ver, seriam de um qualquer tom dourado.

- Como lhe vais chamar? - perguntou Aresune. Não sabia que resposta lhe dar. Ele tinha de ter o seu próprio nome, um nome que mais ninguém tivesse. Mas que nome? Olhei-lhe para o nariz, para as faces, para o queixo, para a testa, e achei-os tão delicadamente moldados... Um rosto mais parecido com o de Tétis do que com o meu. Os lábios, os lábios só poderiam ser dele, porque lábios era coisa que não tinha; uma simples fenda, ferozmente determinada e, no entanto, dolorosamente triste, era a sua boca.

- Aquiles - disse eu, finalmente. Ela concordou.

- Sem lábios. Um bom nome para ele, meu querido rei. - Depois, suspirou. -A mãe dele fez aquela profecia... Vais consultar a pitonisa de Delfos?

Abanei a cabeça.

- Não. A minha mulher é louca, não acredito nas suas predições. Mas a pitonisa diz a verdade - e eu não quero saber o que o destino reserva ao meu filho.

 

                                       Narrado por Quíron

Eu tinha um sítio preferido à saída da minha gruta, esculpida na rocha pelos éons divinos muito antes de os homens terem chegado ao monte Pélion. Era mesmo na ponta do penhasco, e muitos eram os momentos que eu passava sentado nessa espécie de banco, com uma pele de urso estendida em cima dele, para proteger os meus velhos ossos das duras carícias da pedra. Aí sentado, os meus olhos dominavam terra e mar como se fossem os olhos de um rei: o rei que eu nunca fui.

Estava velho, demasiado velho. Era sobretudo no Outono que me apercebia disso, pois era no Outono que começavam as dores que anunciavam o Inverno. Ninguém - e ainda menos eu - fazia ideia da minha idade; um tempo vem em que a realidade da idade fica como que paralisada, em que todos os anos e todas as estações se resumem afinal a um longo dia em que não fazemos outra coisa senão esperar pela morte.

O alvorecer prometia um dia de beleza e paz. Por isso, antes que o Sol se erguesse no céu, executei os meus poucos trabalhos domésticos, após o que saí para o ar fresco do monte. A minha gruta ficava bem no alto, quase que no cume da vertente sul do Pélion, sobranceira a um fundo precipício. Afundei-me na minha pele de urso para ver o Sol. Nunca me cansava de ver o mundo que dali se via; ao longo de incontáveis anos, do alto do Pélion, vigiara o mundo que se estendia sob os meus pés, a costa da Tessália e o mar Egeu. E enquanto via o Sol erguendo-se no horizonte, tirei alguns favos gotejantes de mel da caixa de alabastro onde guardava os meus confeitos e afundei neles as minhas gengivas desdentadas, sugando-os esfomeado. Aquele mel sabia a flores silvestres, a doces zéfiros, às florestas de pinheiros.

O meu povo, os Centauros, vivera no monte Pélion durante mais tempo do que os homens poderiam registar, servindo os reis da Grécia como preceptores dos seus filhos. De facto, nós éramos os melhores professores do mundo. Digo «éramos» porque eu sou o último dos Centauros; com a minha morte, morrerá a minha raça. No interesse do nosso trabalho, a maior parte dos Centauros escolhera o celibato; por outro lado, aqueles que se casavam nunca escolhiam mulheres de outros povos; por isso, as nossas mulheres, quando se cansaram de uma existência vulgar, pegaram nas suas coisas e partiram. Por essa razão, os nascimentos diminuíram drasticamente; com efeito, a maior parte dos nossos homens não tinha sequer tempo para fazer a viagem até à Trácia, a região para onde tinham ido as nossas mulheres a fim de se juntarem às Ménades e de participarem no culto de Dioniso. E, a pouco e pouco, uma lenda nasceu: a lenda segundo a qual os Centauros eram invisíveis porque tinham medo de se mostrar aos outros homens; e tinham medo porque - acrescentava a lenda - seriam meio homens, meio cavalos. Uma criatura sem dúvida interessante, caso tivesse existido. Mas não, tal criatura nunca existiu: os Centauros mais não eram do que homens, em tudo iguais aos outros homens.

O meu nome era conhecido em toda a Grécia; eu sou Quíron e fui o mestre da maior parte dos jovens que, em chegando à idade adulta, se tornaram heróis famosos: Peleu e Télamon, Tideu, Héracles, Atreu e Tiestes, isto para referir apenas alguns. Contudo, isso fora já há tanto tempo... Para dizer a verdade, enquanto assistia ao nascer do Sol, não era em Héracles, nem na sua estirpe, que eu pensava.

Abundam no monte Pélion as florestas de freixos, freixos mais altos e erectos do que todos os outros, um mar tremeluzente de um amarelo radioso nesta altura do ano, visto que todas as folhas, moribundas mas prenhes de luz, estremecem e caem ao sabor da mais ligeira das brisas. Aos meus pés, caía a pique o precipício, quinhentos cúbitos de rocha nua, sem uma sombra sequer de verde ou amarelo, e, sob o abismo, de novo a floresta de freixos erguendo os seus ramos para o céu e muitos pássaros com suas vozes distintas. Não ouvia nunca os sons dos homens, pois entre mim e os pináculos do Olimpo não havia outro homem. Estendendo-se muito ao longe e reduzida ao tamanho de um reino de formigas, surgia lolcos - e não será forçada esta descrição, pois chamavam Mirinidões, ou forrnigas, ao povo de lolcos.

Entre todas as cidades do mundo, tirando as de Creta e Tera antes de Poseidon as ter arrasado, lolcos era a única que não tinha muralhas. Quem ousaria invadir a pátria dos Mirmidões, que eram guerreiros sem par? A ausência de muralhas levava-me a amar ainda mais lolcos. É que eu odiava muralhas. Outrora, quando viajava, não suportava ver-me encerrado dentro das muralhas de Micenas ou Tirinto mais do que um ou dois dias. As muralhas eram estruturas construídas pela morte com pedras das pedreiras do Tártaro.

Deitei fora os favos de mel e peguei no meu odre, aturdido pelo sol que tingia de carmesim a amplidão da baía de Págasa, reverberando nas figuras douradas do telhado do palácio, dando nova cor às cores dos pilares e das paredes dos templos, do palácio e dos edifícios públicos.

Um caminho serpenteava desde a cidade até ao meu quase inexpugnável retiro, mas havia muito tempo que não era usado. Naquela manhã, porém, alguém decidira usá-lo; com efeito, ouvi um veículo aproximando-se. A raiva que senti destronou por completo a doce contemplação; levantei-me, cambaleante, decidido a enfrentar o insolente intruso e a mandá-lo dali para fora. Era um nobre e conduzia um veloz carro de caça, puxado por dois cavalos baios da Tessália; na túnica do homem, viam-se as insígnias da casa real. Eram claros os seus olhos e radioso o seu sorriso; desceu do carro com uma elegância que só os jovens conhecem e encaminhou-se na minha direcção. Recuei; naqueles tempos, o cheiro de um homem causava-me repulsa.

- O rei manda-te as suas melhores saudações, Quíron - disse o jovem.

- Que pretendes? Que pretendes? - perguntei, descobrindo, para meu grande pesar, que a minha voz soava rouca e áspera.

- Ordenou-me o rei que te trouxesse uma mensagem, Quíron. Amanhã, ele e seu irmão virão ter contigo: deixarão à tua guarda os seus filhos até estes crescerem. Deverás ensinar-lhes tudo aquilo que eles devem saber.

Todo o meu corpo se retesou de indignação. O rei Peleu que nem pensasse nisso! Estava demasiado velho para aturar meninos turbulentos. Há muito que deixara de ensinar. E não voltaria a ensinar - nem mesmo que os alunos fossem descendentes de uma casa tão ilustre como a de Éaco.

- Diz ao rei que fiquei furioso com a sua proposta! Não tenciono dar aulas ao filho dele, nem ao filho do seu régio irmão, Télamon. Diz-lhe que, se subir o Pélion amanhã, estará a perder o seu tempo. Quíron abandonou já o seu velho mester.

O jovem fitou-me desalentado.

- Quíron, eu não ousaria levar-lhe tal mensagem. O rei ordenou-me que te anunciasse a sua visita e foi isso que eu fiz. Mas Peleu não me encarregou de levar uma resposta.

Quando o carro de caça desapareceu, regressei ao meu banco e descobri que a paisagem que, momentos antes, contemplara, desaparecera sob um véu escarlate. O véu da minha raiva. Como se atrevia o rei a pensar que eu daria aulas ao seu filho - ou ao filho de Télamon, já agora? Anos antes, fora o próprio Peleu que enviara arautos a todos os reinos da Grécia, anunciando que Quíron, o Centauro, se retirara. Agora, Peleu dava o dito por não dito.

Télamon, Télamon... Tinha muitos filhos, mas havia dois que eram os preferidos... O mais velho era um bastardo, filho da princesa troiana Hesíona, e chamava-se Teucro. O outro era o seu herdeiro legítimo, Ájax. Por outro lado, Peleu tinha um único filho, um filho de Tétis, a sua rainha, miraculosamente nascido depois de seis crianças terem morrido à nascença. Chamava-se Aquiles. Que idade teriam agora Aquiles e Ájax? Eram meninos pequenos, certamente. Malcheirosos, ranhosos, algures entre o bicho e o homem. Que horror.

Morta a minha alegria, reduzida a cinzas a mínha raiva, regressei à minha caverna. Não havia maneira de recusar o trabalho. Peleu era o rei supremo da Tessália; eu era seu súbdito e tinha de obedecer-lhe. Por isso atentei no meu amplo e arejado retiro e senti um receio imenso dos dias e dos anos que viriam. A minha lira estava esquecida numa mesa, ao fundo da câmara principal; nas suas cordas, há tanto tempo caladas, o pó tinha-se acumulado. Fitei-a com olhos sombrios, relutantes; então, de repente, peguei nela e apaguei as provas da minha negligência. Não havia uma única corda que estivesse devidamente retesada; tive de afiná-las a todas; só depois disso pude tocar na minha velha lira.

Ah, e a minha voz! Perdera-se, morrera! Enquanto Febo conduzia o seu carro de oriente a ocidente, toquei e cantei, tentando convencer os meus dedos entorpecidos a reencontrar a antiga flexibilidade, ginasticando as mãos e os punhos, percorrendo para a frente e para trás a escala dos sons. Um professor ter de praticar diante dos alunos era uma coisa horrível; por isso, tinha de recuperar toda a prática perdida antes que eles chegassem. E só parei quando a escuridão inundou a caverna e as sombras silenciosas dos morcegos começaram a agitar as asas, demandando o seu refúgio, algures num local mais recôndito da montanha. Estava morto de cansaço, cheio de frio e de fome e o meu humor, garanto-lhes, não era o melhor.

Peleu e Télamon chegaram ao meio-dia. Vinham os dois juntos no carro real, seguido por um outro carro e por uma pesada e lenta carroça puxada por bois. Desci o caminho para os saudar e esperei de cabeça baixa. Havia anos que não via o rei supremo e uma eternidade que não via Télamon. Já de melhor humor, ergui os olhos para os ver. Sim, eles eram reis, aqueles dois homens que irradiavam força e poder. Peleu continuava o homem corpulento e pujante de sempre, Télamon mantinha a agilidade de outros tempos. Agora, ambos podiam dizer que os seus problemas se haviam dissipado - mas só depois de longos períodos de discórdia, guerra, preocupações. E os forjadores do metal das almas dos homens tinham deixado neles a sua marca indelével. O ouro dos seus cabelos esbatia-se já, antes que a prata os invadisse, mas não encontrava qualquer sinal de decadência nos seus corpos vigorosos, nos seus rostos duros e graves.

Peleu foi o primeiro a descer e acercou-se de mim antes que eu pudesse recuar; senti um arrepio de repulsa quando ele me abraçou afectuosamente; mas logo essa repulsa foi temperada pelo seu calor.

- A partir de uma certa altura, Quíron, já não é possível parecermos mais velhos. Como tens passado? Estás bem?

-Apesar de tudo, posso dizer que estou muito bem. Afastámo-nos um pouco dos carros. Lancei-lhe um olhar de revolta.

- Como podes pedir-me que volte a ensinar? Não fiz eu já trabalho que chegue? Não há mais ninguém no mundo capaz de instruír os vossos filhos?

- Quíron, tu não tens rival. - Fitando-me do alto da sua elevada estatura, Peleu agarrou-me no braço. - Sabes, com toda a certeza, que Aquiles significa tudo para mim. É o meu único filho - não haverá mais. Quando eu morrer, Aquiles ficará com ambos os tronos. Terá de ser por isso um homem educado. Eu próprio poderia educá-lo, mas faltam-me os fundamentos adequados. Só tu poderás instilar-lhe os rudimentos, Quíron, e tu sabes disso. Na Grécia, a posição dos reis hereditários é muito precária. Há sempre inimigos à espreita de uma oportunidade. - Suspirou, para logo acrescentar: - Além disso, Quíron, eu amo Aquiles mais do que a própria vida. Como poderia eu negar-lhe a educação que tive?

-   Fico a pensar se não terás já estragado o rapaz.

- Não, Quíron. Creio que Aquiles é incorruptível.

- Eu não quero este trabalho, Peleu. Desviou o olhar, franziu muito o sobrolho.

- Seria idiota da minha parte insistir. Mas... não queres ver ao menos os rapazes? Pode ser que mudes de ideias.

- Nem que fossem novos Héracles ou Peleus... Mas está bem. Já que assim desejas, vê-los-ei.

Peleu virou-se e acenou para dois rapazes que se encontravam junto ao segundo carro. Aproximaram-se lentamente, um atrás do outro; não conseguia enxergar o rapaz que vinha atrás. Não admira: o rapaz que vinha à frente era daqueles que faziam o possível por atrair as atenções. No entanto, era uma verdadeira decepção... Seria aquele o filho de Peleu, o adorado filho único? Não, não podia ser. Aquele só poderia ser Ájax; Aquiles seria ainda um menino por certo. Catorze anos? Treze? Já era tão alto como um homem, e os seus braços e ombros eram poderosos e musculados. Não tinha mau aspecto o rapaz, mas também não tinha nada de especial. Apenas um adolescente fisicamente desenvolvido, com um nariz ligeiramente achatado e uns olhos cinzentos impassíveis, nos quais não se via a luz de um verdadeiro intelecto.

- Este é Ájax - disse Télamon, cheio de orgulho. - Tem só dez anos, embora pareça muito mais velho.

Acenei para que Ájax se afastasse.

- E este é Aquiles? - perguntei, com um aperto na voz.

- Sim - disse Peleu, tentando dar uma impressão de distância. - Também está muito grande para a idade. Acaba de fazer seis anos.

De súbito, senti a garganta seca. Estava pasmado. Apesar de ter apenas seis anos, Aquiles possuía já uma magia muito sua, uma espécie de encantamento que ele usava sem o saber e que prendia os homens a ele e que os levava a amá-lo. Fisicamente, não era tão possante como o primo, mas, mesmo assim, era uma criança alta e dotada de uma forte constituição. Tinha uma postura muito descontraída para um menino da sua idade; distribuía o peso do seu corpo por uma só perna, enquanto a outra avançava apenas um pouco, e os braços caíam livres junto ao corpo, embora de um modo gracioso. Tranquilo e inconscientemente régio, parecia feito de ouro. O cabelo assemelhava-se aos raios de Hélio, as sobrancelhas brilhavam como cristal amarelo, a pele parecia ouro polido. Muito belo, excepto no que tocava à boca - apenas uma fenda riscada no rosto; uma boca dolorosamente triste, mas tão determinada que intimidaria qualquer um. Fitava-me gravemente com uns olhos que tinham a cor do final do alvorecer, amarelos e nublados; uns olhos cheios de curiosidade, dor, mágoa, espanto e inteligência.

Despedi-me de sete dos poucos anos que me restavam quando me ouvi dizer, «Serei o professor deles».

Peleu fitou-me com um sorriso radiante e Télamon abraçou-me; só agora tinham a certeza de que eu aceitava.

- Não ficaremos mais tempo - disse Peleu. - Na carroça, vem tudo o que eles precisam, e trouxe criados para cuidarem de ti. Diz-me, Quíron, a tua velha casa ainda não caiu?

- Continua de pé - respondi.

- Nesse caso, poderás hospedar os criados. Eles têm ordens para obedecerem a todas as tuas ordens. Falarás em meu nome, Quíron.

Pouco depois, foram-se embora.

Deixei os escravos a descarregar a carroça e avancei para os rapazes. Ájax erguia-se como a própria montanha, impassível e dócil, os olhos sem a menor sombra; aquele crânio poderoso teria de ser muito malhado até que a mente que lá estava dentro ganhasse consciência da sua verdadeira função. Aquiles fitava ainda o caminho por onde seguia o pai, os seus olhos enormes reluzindo das lágrimas que não chorara. Aquela separação assumia, para ele, uma extrema importância.

- Venham comigo, rapazes, vou mostrar-lhes a vossa nova casa. Seguiram-me silenciosamente até à caverna. Mostrei-lhes quão confortável poderia ser uma morada tão estranha. Mostrei-lhes as macias e espessas peles onde dormiriam, a área da câmara principal onde decorreriam as nossas aulas. Depois, levei-os até à beira do precipício e sentei-me no meu assento preferido, com um de cada lado.

Estão ansiosos por começarem a vossa instrução? - perguntei, mais para Aquiles do que para Ájax.

- Sim, meu senhor - disse Aquiles, cortesmente; o pai, pelo menos, dera-lhe lições de boas maneiras.

- O meu nome é Quíron. Podes tratar-me por Quíron.

- Sim, Quíron. O meu pai diz que eu devo aplicar-me nos estudos. Virei-me para Ájax.

- Na caverna, sobre uma mesa, encontrarás uma lira. Trá-la - mas tem cuidado, não a deixes cair.

O possante rapaz fitou-me sem qualquer animosidade.

- Eu nunca deixo cair nada - respondeu-me ele, como se aquela fosse a mais trivial das respostas.

As minhas sobrancelhas ergueram-se; havia nos meus olhos uma luzinha de divertimento que, no entanto, não acendeu qualquer resposta nos olhos cinzentos do filho de Télamon. Em vez disso, fez exactamente o que lhe disse: o bom soldado obedecendo às inquestionáveis ordens do seu chefe. Era o melhor que eu poderia fazer por Ájax, pensei. Transformá-lo no mais forte e capaz dos soldados. Ao passo que os olhos de Aquiles espelhavam a minha própria hilaridade.

- Ájax leva sempre muito a sério o que a gente diz - disse ele, com aquela voz tão agradável, firme e equilibrada, de que eu já gostava. Esticou uma mão para indicar a cidade, lá muito ao fundo.

- lolcos?

- Sim.

- Então aquilo, ali na colina, deve ser o palácio! Parece tão pequeno, visto daqui! Sempre pensei que fosse maior do que o Pélion, mas, visto daqui, é apenas uma casa como as outras.

- Todos os palácios são casas como as outras: basta que uma pessoa possa vê-los de longe.

- Sim, estou a perceber.

- Já estás com saudades do teu pai.

- Pensei que ia chorar, mas passou....

- Voltarás a vê-lo na Primavera. Verás que o tempo passará num instante. Não poderás preguiçar aqui; a preguiça é a mãe do descontentamento, das maldades, das travessuras das crianças.

Respirou fundo.

- O que é que eu vou ter de aprender, Quíron? Que preciso eu de saber para ser um grande rei?

- Demasiadas coisas, Aquiles. Não poderia responder-te a essa pergunta com poucas palavras. Um grande rei é uma fonte de conhecimento. Os reis são os melhores homens do seu povo, mas um grande rei é aquele que compreende que é o representante do seu povo diante do deus.

- Nesse caso, tenho de começar já a aprender. Ájax voltou com a lira. Segurava-a com todo o cuidado. Era um grande instrumento, parecido com as harpas dos Egípcios, construído a partir de uma enorme carapaça de tartaruga com cintilantes manchas castanhas e cor de âmbar, e tinha cravelhas de ouro. Encostei-a ao meu joelho e afaguei as cordas com um toque muito leve que produziu um belo som, mas não uma melodia.

- Vocês terão de conhecer todos os segredos da lira e de aprender as canções do vosso povo. O maior de todos os erros é ser-se impolido ou inculto. Terão de conhecer de cor a história e a geografia do mundo, todas as maravilhas do universo, todos os tesouros que há sob o regaço de Mãe Kubaba, que é a Terra. Ensiná-los-ei a caçar, a matar, a lutar com toda a sorte de armas, a fabricar as vossas próprias armas. Ficarão a conhecer as ervas que curam as doenças e as feridas. Ensiná-los-ei a extraírem remédios dessas ervas. Saberão também como usar talas para curar pernas ou braços partidos. Um grande rei dá mais valor à vida do que à morte.

- E a oratória? - perguntou Aquiles.

- Não faltará. Depois de aprenderem comigo, a vossa oratória terá um efeito poderoso sobre os corações dos vossos ouvintes, seja por via da alegria, seja por via da tristeza. Quando saírem daqui, saberão julgar equilibradamente os homens, tal como elaborar leis e executá-las. Ensinar-lhes-ei aquilo que o deus espera de vocês, porque vocês são os eleitos. - Sorri. - E isto é só o princípio!

Assentei a lira no chão, passei com a mão pelas cordas. Toquei apenas por breves momentos: então, chegado ao clímax, quando o último acorde se esbateu para dar lugar ao silêncio, comecei a cantar.

«Ele estava só e rodeado de inimigos. Hera, irritada, abriu de fúria os braços E o tecto dourado do Olimpo tremeu. Hera não abrandava a sua vigilância. Implacável a raiva da esposa de Zeus! No seu céu, afinal, Zeus não tínha poder, Pois prometera à gloriosa Hera Que o seu filho da terra seria servo. Euristeu, o frio e impiedoso amante, Sorria enquanto contava os ribeiros De suor que a Héracles impusera. Porque os filhos dos deuses têm de saber Que contra os deuses não podem revoltar-se E que essa é a diferença entre os homens E os deuses que deles fazem fáceis presas. Filho bastardo sem icor nas suas veias, Héracles pagou o preço da paixão. E pagou com sofrimento e degradação, Enquanto Hera se ria de ver Zeus a chorar ... »

Era a Balada de Héracles, que morrera havia não muitos anos antes. Enquanto cantava, observava atentamente os dois rapazes. Ájax escutava atentamente. Aquiles, tão vibrante como as cordas da lira, inclinou-se para mim, com o queixo apoiado nas mãos e ambos os cotovelos no braço do meu assento, os olhos a escassa distância do meu rosto. Quando finalmente afastei de mim a lira, deixou cair as mãos, suspirando exausto.

E foi assim que tudo começou e foi assim que tudo prosseguiu nos anos que haviam de vir. Aquiles avançava rapidamente em tudo, Ájax empenhava-se tenazmente na execução dos seus deveres. No entanto, o filho de Télamon não era propriamente um pobre tonto. Ájax tinha uma coragem e uma determinação capazes de fazerem inveja a qualquer rei e, de algum modo, conseguia sempre estar à altura daquilo que lhe era exigido. Porém, Aquiles é que era o meu rapaz, a minha alegria. Tudo o que eu lhe dizia era ciosamente guardado - para ser usado mais tarde, quando fosse um grande rei, como ele dizia, sorridente. Adorava aprender e destacava-se em todos os ramos do conhecimento. Era tão bom com as mãos como com a mente. Ainda guardo alguns dos desenhos e das tigelas de barro que então fez.

Porém, mais do que para as matérias eruditas, Aquiles nascera para a acção, para a guerra e os feitos heróicos. Mesmo do ponto de vista físico, Aquiles superava o primo, pois eram velocíssimas as suas pernas e gostava de manejar armas tanto como uma mulher cúpida adora mexer nas suas jóias. Com a lança, nunca falhava o alvo; quando pegava na espada, eu mal via a alada arma! Empunhar, atacar, golpear. Ah sim, ele nascera para ser chefe! Ele compreendia a arte da guerra sem qualquer esforço - por instinto. Era um caçador natural e, muitas vezes, regressava à caverna arrastando um javali demasiado pesado para trazer às costas, e, com os veados, conseguia correr atrás deles e lançar-lhes de perto a lança fatal. Uma única vez o vi aflito. Certa vez em que, depois de ter perseguido a presa a toda a velocidade, se estatelou redondo no chão, de tal modo que só ao fim de

 

Nota do tradutor: Icor era O etéreo fluido que, segundo a mitologia grega, corria nas veias dos deuses em vez do humano sangue.

algum tempo recuperou a consciência. Fora o seu pé direito, explicou, fora o seu pé direito que falhara.

 

Ájax podia ter violentos acessos de fúria, mas nunca vi Aquiles perder a compostura. Não era tímido nem retraído; possuía, contudo, no mais fundo de si mesmo, uma serenidade e um comedimento inabaláveis. Ele era o guerreiro pensador. Uma espécie rara. Poder-se-ia pensar que aquela cutilada que tinha no lugar da boca seria a tradução física do outro lado da sua natureza; porém, havia um único aspecto em que essa correspondência se revelava: quando havia alguma coisa que não estava de acordo com o seu sentido da justeza, era capaz de ser tão frio e inflexível como o vento norte que sempre traz a neve.

Aqueles sete anos deram-me mais prazer do que todo o resto da minha vida, graças não apenas a Aquiles, mas também a Ájax. O contraste entre os primos era tão notório, e eram tão excelentes os dois, que transformá-los em homens foi, para mim, uma obra amorosamente cumprida. De todos os rapazes que foram meus alunos, Aquiles foi aquele que mais amei. Chorei quando se foi embora pela última vez; e, durante muitas luas após a sua partida, a minha vontade de viver transformou-se num moscardo tão persistente como aquele que atormentou Io. Só ao fim de muito tempo consegui contemplar o remate dourado do telhado do palácio cintilando ao sol sem que uma névoa pairasse diante dos meus olhos - uma névoa que fazia com que esse remate dourado e o telhado se dissolvessem um no outro como minério no crisol.

 

                                     Narrado por Helena

Xantipa era uma opositora terrível; quando cheguei dos campos, vinha ofegante e exausta. Tínhamos atraído uma vasta audiência e não deixei de oferecer ao círculo dos rostos que nos admiravam o mais radioso dos meus sorrisos. Nenhum homem quis dar os parabéns a Xantipa por ter vencido o combate. Eles estavam lá unicamente para me verem. Quando o combate terminou, os homens rodearam-me, cobriram-me de elogios, usaram de todos os pretextos para me afagarem a mão ou o ombro; os mais atrevidos propuseram-me até - brincavam, é claro - que combatesse contra eles. Esquivei-me aos seus gracejos e sugestões com o maior dos agrados; infelizmente, não havia nas suas palavras o mínimo resquicio de subtileza.

Quanto à idade, eu era ainda uma criança. Os olhos deles, contudo, negavam isso; os olhos deles diziam de mim coisas que eu já sabia, pois havia nos meus aposentos espelhos de cobre polido e também eu tinha olhos. Embora fossem nobres da corte, nenhum deles era verdadeiramente importante. Sacudi-os para longe de mim como sacudiria a água depois de ter tomado banho, peguei na toalha de linho que a minha criada trazia e com ela envolvi as minhas pernas nuas e suadas no meio de um coro de protestos.

Foi então que vi meu pai para lá da multidão. O meu pai tinha assistido ao

combate? Mas que coisa rara! Pois se ele se recusava a ver as mulheres parodiando os desportos masculinos! A minha expressão de surpresa fez com que alguns dos nobres se virassem; e, num ápice, todos desapareceram. Fui ter com meu pai e beijei-o na face.

- Tens sempre um público tão entusiasta? - perguntou-me ele de sobrolho franzido.

- É verdade, pai - retorqui, enquanto dava um jeito na minha roupa. Talvez não saibas, mas sou muito admirada.

- Se não sabia, fiquei a saber. Devo estar a ficar velho, devo estar a perder os meus poderes de observação. Felizmente, o teu irmão mais velho não é cego nem velho. Disse-me esta manhã que talvez não fosse má ideia passar pelo campo onde as mulheres praticam desportos.

Fiquei furiosa.

- Não faz sentido nenhum Castor preocupar-se comigo! - retorqui.

- Estaríamos mal, se ele não se preocupasse contigo! Estávamos a chegar à porta da Sala do Trono.

- Vai lavar-te e vestir roupa nova, Helena. Depois, vem ter comigo. No rosto dele não havia a menor sugestão quanto ao que pretendia dizer-me; limitei-me a encolher os ombros e desatei numa corrida a caminho dos meus aposentos.

Neste estava à minha espera, ansiosa por poder cacarejar as suas censuras. Deixei-a tirar-me a toalha, desejosa como estava de um bom banho quente, da sensação do raspador na minha pele. Neste, que ainda não se calara, atirou a toalha para um canto e desapertou os cordões da minha tanga. Mas eu não ouvia nada do que ela dizia. Corri pelas lajes frias, saltei para a água quente do banho e desatei a chapinhar alegremente. Era a maior das delícias, sentir a água ondeando à minha volta, acariciando-me - e poder acariciar-me a mim mesma, porque os olhos velhos de Neste só conseguiriam ver alguma coisa se a água fosse tão límpida como a de uma nascente. E que agradável que era depois, quando ela me massajava com óleos fragrantes - e eu própria me massajava um pouco. Nunca eram demasiados aqueles momentos em que podia acariciar-me, mexer-me, proporcionar-me aqueles arrepios e frémitos a que outras raparigas, como Xantipa, pouco pareciam ligar. Talvez porque não tinham tido um Teseu a ensiná-las.

Uma das minhas outras criadas dispôs em círculos no chão a minha saia para que eu pudesse entrar pelo meio. Ergueram-na depois ao longo das minhas pernas e apertaram-na na cintura. Era pesada, mas eu já estava habituada àquele peso, pois envergava uma saia de mulher há já dois anos, desde que regressara de Atenas. A minha mãe achava demasiado ridículo que eu voltasse a vestir roupas de criança depois daquele episódio.

Vieram depois a blusa, atada sob os seios, e o amplo cinto e o avental que só poderiam ser apertados se eu sustivesse o suficiente a respiração. Uma diligente criada enfiou os meus caracóis no diadema de ouro, outra colocou-me nas orelhas um belo par de brincos de cristal. Estendi os meus pés nus um de cada vez e deixei-as enfiar pequenas alianças e sininhos em todos os meus dedos, estendi os braços para receber dezenas de tilintantes braceletes, estendi os dedos para os esperados anéis.

Quando acabaram, pus-me diante do maior dos meus espelhos e examinei a minha aparência com uns olhos críticos. A saia era a mais bonita que eu possuía, um mar de folhos e babados desde a cintura aos tornozelos, transbordando de contas de cristal e âmbar, amuletos de lápis-lazúli e ouro trabalhado, sininhos dourados e pingentes de faiança, de tal forma que todos os meus movimentos eram acompanhados por música. O meu cinto não estava suficientemente apertado; chamei duas mulheres das mais fortes para procederem a tal operação.

- Neste, porque é que eu não posso pintar de ouro os meus mamilos? perguntei. - De nada lhe vale queixar-se a mim, jovem princesa. Pergunte à sua mãe.

Mas, se quer um conselho, recorra a um tal artifício apenas quando precisar dele

- por exemplo, depois de ter dado à luz um filho, pois os seus mamilos ganharão um tom castanho-escuro.

Decidi que Neste era muito capaz de ter razão. Eu era, nesse particular, muito afortunada; os meus mamilos eram de um belo tom rosa e, pela sua forma, faziam lembrar um botão de rosa, os meus seios eram cheios e erectos.

Que dissera Teseu? Dois gordos cachorrinhos brancos com uns narizes cor-de-rosa. A minha disposição mudou por completo mal pensei nele; afastei-me bruscamente da minha imagem, e toda a saia tilintou e cintilou. Ah, daria tudo para voltar a estar nos seus braços ... ! Teseu, meu querido Teseu! A boca dele, as mãos, o modo como atormentava o meu corpo até que este já não aguentava mais e suplicava que ele o saciasse... Até ao dia em que os meus mui respeitáveis irmãos, Castor e Pólux, resolveram aparecer e levar-me de Atenas. Ah, se ao menos ele estivesse em Atenas quando eles chegaram! Mas Teseu estava em Cirios, com o rei Licomedes, e por isso ninguém ousou opor-se aos filhos de Tíndaro.

Deixei que as criadas traçassem uma linha de pó negro à volta dos meus olhos e pintassem de ouro as pestanas, mas recusei o carmim para as faces e os lábios. Não precisava de carmim nenhum - fora o que Teseu dissera. Depois, encaminhei-me para a Sala do Trono. O meu pai estava sentado numa espreguiçadeira junto à janela. Levantou-se imediatamente.

- Vem para aqui, que há mais luz - disse ele. Obedeci sem protestar; Tíndaro era o meu indulgente pai, mas também era o rei. Quando me viu banhada de sol, recuou uns passos e olhou-me como nunca havia olhado.

- Não há dúvida - disse ele. - Os olhos de Teseu viram mais e melhor do que todos os olhos da Lacedemónia! A tua mãe tinha razão: já és uma mulher.

Portanto, temos de fazer qualquer coisa antes que apareça outro Teseu.

O meu rosto ardia, mas nada disse.

- É tempo de te casares, Helena. - Reflectiu por um momento. - Que idade tens?

Catorze anos, pai. - Casamento! Mas que interessante!

- Não é demasiado cedo - disse ele. A minha mãe entrou nesse momento. Evitei os olhos dela: era uma sensação muito estranha, estar ali diante do meu pai, enquanto ele me apreciava com os olhos de um homem, e não com os de pai. Mas a minha mãe ignorou-me. Foi para ao pé dele e também ela tratou de me apreciar. Depois, trocaram um olhar demorado, conclusivo.

- Eu já te tinha dito, Tíndaro - disse ela.

- Eu sei, Leda. Ela precisa de um marido. A minha mãe desatou a rir-se: um riso sonoro, musical, que (diziam os rumores) deixara o omnipotente Zeus extasiado. Leda tinha mais ou menos a minha idade quando a encontraram nua e abraçada a um cisne, gemendo de prazer. A minha mãe arranjara rapidamente uma explicação para tão estranho caso. O cisne era Zeus! Zeus tinha-a desflorado! Mas eu, que era sua filha, não acreditava em tais histórias e imaginava o prazer que aquelas deliciosas penas brancas lhe teriam proporcionado. O pai dela casara-a com Tíndaro três dias depois e Leda dera à luz dois pares de gémeos: Castor e Clitemenestra, primeiro, Pólux e eu, depois. Ainda que, agora, aparentemente, toda a gente achasse que Castor e Pólux é que eram gémeos. Ou que tínhamos nascido todos do mesmo parto. Se assim fosse, quais seriam os filhos de Zeus e quais os de Tíndaro? Um mistério.

-As mulheres da minha casa amadurecem cedo e sofrem muitíssimo - disse Leda, rindo-se ainda.

O meu pai não se riu. Limitou-se a dizer que sim, num tom bastante triste.

- Não será difícil encontrar-lhe um marido. Serão tantos os pretendentes que terás de corrê-los com o teu bastão.

- Ora essa! A nossa filha pertence a uma nobre estirpe e o seu dote é muito valioso: poucos ousarão pedir a sua mão.

- Tolices, Tíndaro, tolices! Ela é tão bonita que nem precisa de dote. O rei supremo da Ática fez-nos um grande favor - espalhou louvores à sua beleza desde a Tessália a Creta. Não é todos os dias que um homem tão velho e gasto como Teseu faz uma loucura como raptar e desflorar uma rapariga de doze anos.

Os lábios de meu pai franziram-se de raiva.

- Preferia que esse assunto não fosse mencionado - disse ele, categórico.

- Só é pena é que seja mais bela do que Clitemenestra.

- Clitemenestra está bem para Agamémnon.

- Então é pena que não haja dois reis supremos de Micenas.

- Há outros reis supremos na Grécia - disse ele, num tom mais prático e eficiente.

Afastei-me sub-repticiamente da luz, pois não queria que reparassem que eu ainda ali estava e que me mandassem embora. O assunto - ou seja, eu própria era demasiado interessante. Gostava de ouvir as pessoas dizerem que eu era bela.

Especialmente quando acrescentavam que era mais bela do que Clitemenestra, a minha irmã mais velha, que se casara com Agamémnon, rei supremo de Micenas e rei supremo de toda a Grécia. Nunca gostara dela. Quando eu era pequena, ficava aterrorizada com os seus famosos acessos de cólera. Desatava a andar de um lado para o outro, o seu cabelo cor de fogo parecia eriçar-se de fúria, os seus olhos negros pareciam dardejar. Sorri um imenso sorriso só de pensar nela. O marido -rei supremo ou não - devia andar numa dança constante por causa das fúrias dela! No entanto... no entanto Agamémnon parecia capaz de controlá-la. De facto, era tão prepotente como Clitemenestra.

Os meus pais continuavam a debater o meu casamento.

- O melhor será mandar mensageiros a todos os reis - disse o meu pai.

- Sim - e quanto mais depressa, melhor. Embora a Nova Religião não veja com bons olhos a poligamía, há muitos reis que ainda não escolheram rainha. Idomeneu, por exemplo. Imagina só! Uma filha no trono de Micenas, e a outra no trono de Creta! Seria um verdadeiro triunfo!

- Creta não é já a potência de outros tempos - objectou o meu pai. - As duas posições não são equivalentes.

- Filoctetes?

- Sim, é um homem brilhante, e esperam-no grandes feitos, segundo se diz.

Contudo, Filoctetes é um dos reis da Tessália o que significa que deve vassalagem a Peleu, bem como a Agamémnon. Estou mais inclinado para Diomedes, que acaba de regressar da campanha de Tebas, coberto de riquezas e glória. Gosto da ideia de a nossa filha ficar em Argos, um reino tão perto do nosso. Se Peleu fosse mais jovem, tê-lo-ia escolhido sem pensar duas vezes, mas, segundo consta, Peleu recusa voltar a casar-se.

- Não vale a pena perdermos tempo com aqueles que não estão disponíveis

- retorquiu a minha mãe. - Há sempre uma outra hipótese... Menelau.

- Eu não me esqueci dele. Quem poderia esquecer-se de Menelau?

- Envia convites a todos, Tíndaro. Para além de reis, também há herdeiros. Ulisses, de ítaca, é agora o rei, pois o velho Laertes está senil. E Menesteu é um rei supremo da Ática muito mais estável do que Teseu jamais foi - agradeçamos a todos os deuses o facto de não termos de lidar com Teseu!

- Que queres dizer com isso, mãe? - perguntei eu, sentindo já um formigueiro percorrendo-me a pele. A minha esperança, a esperança que o meu coração acalentava, era que Teseu viesse buscar-me e desposar-me. Desde que voltara de Atenas que não ouvia falar de Teseu.

A minha mãe pegou nas minhas mãos, apertou-as com firmeza.

- Bom, Helena, é melhor que sejamos nós a dar-te a notícia. Teseu morreu. Foi morto no seu exilio em Ciros.

Afastei-me dela e corri dali para fora. Os meus sonhos estavam reduzidos a cinzas. Morto? Teseu estava morto? Teseu estava morto e uma parte de mim morrera também.

O meu cunhado Agamémnon chegou duas luas mais tarde e trazia consigo o seu irmão Menelau. Eu estava presente quando entraram na Sala do Trono - uma novidade para mim, mas uma novidade que me deixava eufórica; de súbito, todas as discussões giravam em torno de mim. Mensageiros tinham-nos avisado da sua chegada; por isso, o rei supremo de Micenas e de toda a Grécia entrou no palácio ao som de trombetas e os seus imperiais pés pisaram, não as vulgares lajes, mas uma passadeira de ouro.

Não conseguia decidir se gostava dele ou não; compreendia, no entanto, o temor que ele inspirava. Muito alto e direito e tão disciplinado como um soldado profissional, Agamémnon caminhava como se fosse o dono do mundo. No seu cabelo azeviche, espreitavam já alguns salpicos grisalhos; os olhos negros, faiscantes, podiam tornar-se de súbito ameaçadores; o nariz era altivamente adunco; os lábios finos encrespavam-se nos cantos, numa constante expressão de desdém.

Homens tão escuros eram invulgares na Grécia, uma terra de homens tão atléticos quanto brancos. Porém, em vez de ter vergonha da sua tez escura, Agamémnon exibia-a cheio de vaidade. Ainda que a moda ditasse que os homens rapassem a barba, o meu cunhado usava uma longa barba negra que havia sido transformada num sem-número de tranças apertadas e realçadas com fios de ouro; o cabelo, usava-o exactamente do mesmo modo. Envergava uma túnica de lã púrpura bordada com um complicado padrão de fio de ouro e, na mão direita, empunhava o ceptro imperial de ouro maciço - e com tanta facilidade como se o ceptro fosse feito de greda.

O meu pai levantou-se do trono e ajoelhou para lhe beijar a mão, prestando-lhe a homenagem que todos os reis gregos deviam ao supremo rei de Micenas. A minha mãe avançou para se juntar a eles. Por ora, todos me ignoravam, o que me dava tempo para apreciar Menelau, um dos meus pretendentes. Oh, oh! A expectativa deu lugar a uma profunda decepção. Metera na cabeça que Menelau seria uma réplica de Agamémnon, mas aquele homem nada tinha em comum com o irmão. Seria mesmo irmão germano do supremo rei de Micenas, filho de Atreu e da mesma mãe? Francamente: tal não parecia possível. Era pequeno. Atarracado. As pernas eram tão grossas e disformes que, enfiadas naqueles calções apertados que ele trazia, davam-lhe um ar profundamente ridículo. Os ombros eram redondos e curvados. Uma criatura mansa e tímida. Traços vulgaríssimos. O cabelo era igual ao da minha irmã: cor de fogo. Até era capaz de gostar um bocadinho mais dele se o cabelo fosse de outra cor.

O meu pai acenou-me. Avancei meio embaraçada e dei-lhe a minha mão. O visitante imperial fitou-me: um olhar escaldante, prenhe de admiração. Pela primeira vez, senti algo que viria a tornar-se muito comum: eu era muito simplesmente um animal valioso oferecido em leilão a quem pudesse pagar mais.

- É perfeita - disse Agamémnon ao meu pai. - Como é que consegues produzir filhos tão belos, Tíndaro?

O meu pai riu-se, enquanto abraçava a minha mãe pela cintura.

- Eu sou só responsável por metade - disse. Afastaram-se então e deixaram-me a conversar com Menelau, mas ainda pude ouvir a questão decisiva.

- Digam-me: afinal o que é que se passou realmente com Teseu? - perguntou Agamémnon.

Leda adiantou-se ao marido:

- Ele raptou-a, Agamémnon. Felizmente, os Atenienses chegaram no momento certo: apanharam-no antes que ele conseguisse desflorá-la. Castor e Pólux trouxeram-na virgem.

Mentirosa, mentirosa! Menelau não tirava os olhos de mim; retoquei um pouco o meu aspecto.

- Nunca tinhas estado em Arniclas - disse-lhe por fim. Ele murmurou qualquer coisa e baixou a cabeça, muito triste. - Que disseste? - perguntei.

- Na-na-na-nada - disse ele, e, desta feita, ouvi. Menelau ficara gago!

Os pretendentes acorreram a Amiclas. Menelau era o único que podia residir no interior do nosso palácio, graças à sua relação com a nossa família - e à influência do irmão. Os outros ficaram nas casas dos nobres da corte e no palácio destinado aos convidados. Uma centena de pretendentes. A descoberta mais animadora que fiz foi que nenhum deles era tão maçador ou insípido como o gago e ruivo Menelau.

Filoctetes e Idomeneu chegaram juntos; o corpulento e louro Filoctetes parecia a energia personificada, ao passo que o altivo Idomeneu se comportava com a arrogância consciente de quem nascera na Casa de Minos e que, depois de Catreu, seria o supremo rei de Creta.

Quando Diomedes entrou, concluí estar perante o melhor de todos os meus pretendentes. Um verdadeiro rei e guerreiro. Tinha o mesmo ar de experiência mundana que encontrara em Teseu, ainda que fosse moreno, ao passo que Teseu era louro; de facto, Diomedes era tão escuro como Agamémnon. Que belo que ele era! Alto e ágil, uma pantera negra. Os olhos dele cintilavam de um humor impudente, a boca parecia estar sempre a rir-se. E eu soube, nesse exacto instante, que seria ele o meu eleito. Quando falou comigo, o seu olhar arrebatou-me; a faca do desejo cravou-se bem funda dentro de mim, o meu sexo ansiava por aquele homem. Sim, eu escolheria o rei de Argos - para mais, como dissera o meu pai, Argos ficava tão perto...

Logo que chegou o último dos pretendentes, o meu pai ofereceu um monumental banquete. Sentei-me no estrado como se fosse já uma rainha, fazendo de conta que não reparava nos cem pares de ardentes olhos que constantemente me espreitavam. Quanto aos meus olhos, sempre que a ousadia mo permitia, procuravam Diomedes. O qual, inopinadamente, deixou de olhar para mim, para atentar num homem que avançava por entre os bancos, um homem cuja chegada foi saudada por vivas de alguns e carrancas de outros. Diomedes levantou-se de um salto, o desconhecido virou-se e abraçaram-se calorosamente. Após um rápido diálogo, o desconhecido seguiu na direcção do estrado a fim de saudar o meu pai e Agamémnon, os quais se encontravam já de pé. Agamémnon levantara-se?

O rei supremo de Micenas não se levantava nunca perante homem nenhum!

Era diferente, o recém-chegado. Era um homem alto, mas seria consideravelmente mais alto se as suas pernas fossem proporcionais ao resto do corpo. Mas não eram. Eram anormalmente curtas e algo arqueadas; a sua constituição musculada era demasiado imponente para estar empoleirada em cima de suportes tão atrofiados. O rosto era inegavelmente belo: os traços eram muito correctos e os olhos cinzentos eram grandes, luminosos, eloquentes. O cabelo era ruivo, o ruivo mais brilhante e mais agressivo que jamais vira; as cabeleiras de Clitemenestra e Menelau não eram nada ao pé daquele fogo que lhe adornava a cabeça.

Quando os seus olhos me fitaram, senti muito claramente todo o seu poder. Até estremeci. Quem era aquele homem?

O meu pai acenou impaciente para um criado, que correu a colocar uma cadeira régia entre ele e Agamémnon. Quem poderia ser aquele homem, para ser objecto de tantas honrarias? E para ficar tão pouco impressionado com essas honrarias?

- Apresento-te Helena - disse o meu pai.

- Não admira que quase toda a Grécia esteja aqui, Tíndaro - disse ele jovialmente, após o que pegou numa perna de galinha, cravando imediatamente na carne os seus dentes brancos. - Não há dúvida, os boatos eram verdadeiros -ela é de facto a mais bela mulher do mundo. Vais ter problemas com esta multidão de homens enfeitiçados, pois só poderás agradar a um e terás de desiludir todos os outros.

Agamémnon e o meu pai riram-se do comentário.

- Ulisses: estava à espera de que resumisses brilhantemente o problema logo que chegasses - disse o rei supremo.

Senti-me uma parva, agora que a minha surpresa e admiração se tinham esfumado. Claro: só poderia ser Ulisses. Que outro homem se atreveria a falar com Agamémnon como se este fosse um seu igual? Que outro homem poderia ter direito a uma cadeira especial no estrado régio?

Muita coisa ouvira acerca de Ulisses. O seu nome vinha à baila sempre que se falava de leis, de decisões, de novos tributos, de guerra. O meu pai, em tempos, chegara mesmo a deslocar-se a ítaca - uma viagem particularmente fatigante -só para o consultar. Era considerado o homem mais inteligente do mundo, mais inteligente ainda do que Nestor e Palamedes. E não era só inteligente; também era sábio. Não admira que, na minha imaginação, Ulisses fosse um venerável ancião de barbas brancas, todo curvado sob o peso de um século de existência, tão velho como o rei Nestor de Pilos. Quando Agamémnon tinha assuntos importantes a discutir mandava chamar Palamedes, Nestor e Ulisses, mas, normalmente, era Ulisses quem tinha a última palavra.

Dizia-se tanta coisa sobre a Raposa de ítaca, como lhe chamavam os homens. Dizia-se que o seu reino era formado por quatro pequenas ilhas rochosas e estéreis ao largo da costa ocidental, um pobre e desprezível domínio se comparado com a maior parte dos outros reinos. O palácio dele era modesto; o próprio Ulisses era agricultor, já que os seus nobres não podiam pagar-lhe os tributos adequados à posição de um rei; no entanto, o seu nome tornara famosas as quatro pequenas ilhas - ítaca, Leucádia, Zaquinto e Cefalónia.

Por essa altura, Ulisses não teria muito mais do que vinte e cinco anos - e, quem sabe, talvez fosse até mais novo, pois a sabedoria sempre envelhece o rosto de um homem.

Continuaram a conversar, esquecidos talvez de que eu estava à esquerda do meu pai e poderia ouvir tudo o que eles diziam, fingindo que não estava a escutar. Como do outro lado tinha Menelau, não havia conversas susceptíveis de me distraírem.

- Tencionas pedir a mão de Helena, meu astuto amigo? Ulisses pôs um ar malicioso.

- Tu conheces-me, Tíndaro.

- Claro que conheço, mas... porquê? Não estava à espera que tentasses conquistar uma beldade estonteante, mas a verdade é que Helena tem um belíssimo dote.

Ulisses fitou o meu pai com uma expressão algo decepcionada. -A minha curiosidade, Tíndaro - não te esqueças de que sou muito curioso! Achas que eu perdia um espectáculo destes?

Agamémnon sorriu, mas o meu pai riu-se bem alto.

- Espectáculo é mesmo a palavra certa! Mas que hei-de fazer, Ulisses? Olha só para eles! Cento e um reis e príncipes rosnando todos uns para os outros e perguntando-se quem será o felizardo - e decididos a contestar a escolha, por muito lógica ou política que esta seja.

Agamémnon resolveu finalmente falar.

- Isto transformou-se numa espécie de concurso. Quem será o preferido do supremo rei de Micenas e do seu sogro Tíndaro da Lacedemónia? Eles sabem que Tíndaro seguirá os meus conselhos! Creio que esta situação só poderá produzir uma coisa - uma inimizade duradoura.

- Sem dúvida. Reparem em Filoctetes: o modo como ele ergue o seu arrogante pescoço, o desprezo com que olha para os outros. Isto para não falar de Diomedes e Idomeneu. Ou de Menesteu. Ou de Euripilo. E assim por diante.

- Que havemos de fazer? - perguntou o rei supremo.

- Esse é um pedido formal de conselho, Agamémnon?

- Muito formal, Ulisses.

Furiosa, dei-me conta de quão insignificante era o meu papel em todo aquele teatro. De súbito, apetecia-me chorar. Quem escolhia? Eu? Nem pensar! Eles

- Agamémnon e o meu pai - escolheriam por mim. Ainda que, apercebia-me disso agora, fosse nas mãos de Ulisses que estava o meu destino. E Ulisses, gostaria de mim? Nesse exacto momento, Ulisses piscou-me o olho. Senti-me desolada. Não, ele não gostava de mim. Não havia sombra de desejo naqueles belos olhos cinzentos. Ulisses não viera disputar a minha mão; viera porque sabia que precisavam dos seus conselhos. Viera unicamente para consolidar ainda mais o seu prestígio.

- Como sempre, terei muito gosto em ajudá-los - disse ele num tom insinuante, fitando agora o meu pai. - No entanto, Tíndaro, antes de abordarrnos o problema do casamento de Helena, um casamento que deverá ser politicamente adequado, tenho um pequeno favor a pedir-te.

Agamémnon pareceu ofendido; perplexa, perguntei-me que subtil negócio iria sair dali.

- Queres Helena para ti? - perguntou o meu pai. Que maneira mais grosseira de pôr as coisas!, disse para mim mesma.

Ulisses desatou numa tal risada que, por um momento, todo o salão se calou.

- Não, não! Não me atreveria a disputar a mão de Helena, pois a minha fortuna é desprezível e o meu reino vive numa eterna penúria! Pobre Helena! Imagina só: uma mulher tão bela confinada a uma rocha, no meio do mar Jónio! Não, eu não quero desposar Helena. É outra que eu quero.

Ah! - disse Agamémnon, mais tranquilo. - Quem é a felizarda?

ulisses preferiu dar a resposta ao meu pai.

- A filha do teu irmão Icário, Tíndaro. Penélope.

- Não será difícil - disse o meu pai, surpreendido.

- icário detesta-me e é natural que haja pretendentes muito melhores que eu.

- Eu tratarei disso - disse o meu pai.

- Está descansado que Penélope será tua - disse Agamémnon. Fiquei estupefacta! Era possível que eles entendessem o que Ulisses via em Penélope, mas eu não entendia. Conhecia-a bem; era minha prima direita. Para além de ser uma herdeira rica, não era feia; no entanto, era cá uma maçadora! Certa vez, surpreendera-me com um nobre da minha casa, a quem eu deixara que me beijasse os seios - claro que não o deixaria fazer mais do que isso! -, e pregara-me uma tal homilia! Que os desejos da carne eram baixos e degradantes, disse-me ela com aquela voz que ela tem, fria, comedida, sem sombra de emoção. E que deveria interessar-me pelas artes verdadeiramente femininas, como a tecelagem. Fiquei pasmada a olhar para Penélope, como se ela estivesse louca. A tecelagem!

Ulisses começara a falar; abandonei os meus pensamentos sobre a prima Penélope e pus-me à escuta.

- Julgo saber a quem tencionas conceder a mão da tua filha, Tíndaro, e compreendo as tuas razões. Contudo, o facto de escolheres este ou aquele pretendente é irrelevante. O que é relevante é que salvaguardes os teus próprios interesses, bem como os de Agamémnon - e o teu relacionamento com os cem infelizes, depois de teres anunciado a tua escolha. Creio que conseguiremos salvaguardar tudo isso - mas é preciso que façam exactamente aquilo que lhes vou dizer.

Agamémnon respondeu: - Faremos.

- Nesse caso, o primeiro passo a dar consistirá em devolver todas as prendas que os pretendentes ofereceram e em agradecer as suas generosas intenções do modo mais elegante possível. É essencial que nenhum destes homens te considere um ganancioso, Tíndaro.

O meu pai olhava-o com um ar pesaroso.

- É mesmo necessário?

- Não é necessário, Tíndaro: é imperioso.

- As prendas serão devolvidas - disse Agamémnon.

- óptimo. - Ulisses inclinou-se um pouco para a frente, os dois reis fizeram o mesmo. - Anunciarás a tua escolha de noite, na Sala do Trono. É preciso que o palácio esteja mal iluminado - esperemos que a Lua colabore - e que haja na atmosfera uma forte presença sagrada. Ordena a todos os sacerdotes que venham. Manda queimar grandes quantidades de incenso. O meu objectivo é oprimir os espíritos dos pretendentes e isso só pode ser alcançado através de cerimónias rituais. Não podes correr o risco de provocar reacções intempestivas da parte de guerreiros consideravelmente inflamados.

- Como queiras - disse o meu pai com um suspiro; Tíndaro detestava minúcias.

- Isto, Tíndaro, é só o princípio. No teu discurso, informarás os pretendentes de que idolatras a valiosa jóia que é a tua filha e que passaste horas sem fim rezando aos deuses para que te guiassem na difícil escolha. A tua escolha - dir-lhes-ás então - foi aprovada no Olimpo. Os augúrios são auspiciosos e os oráculos claros. Porém, o omnipotente Zeus impôs uma condição, a saber: antes que qualquer homem - excepto tu mesmo - saiba o nome do feliz vencedor, todos os homens terão de pronunciar um juramento a fim de apoiarem a tua escolha. Mas há mais. Todos os homens deverão também jurar que darão ao marido de Helena todo o apoio e cooperação de que este precisar. E que, se for preciso, todos eles irão para a guerra, a fim de defenderem os direitos e prerrogativas do marido de Helena.

Agamémnon ficou calado, o olhar perdido no espaço, mordendo os seus lábios e ardendo visivelmente de um qualquer fogo interior. O meu pai parecia simplesmente espantado. Ulisses recostou-se na cadeira, debicando mais uma perna de galinha, obviamente satisfeito consigo mesmo. De súbito, Agamémnon virou-se para ele e agarrou-o pelos ombros, as juntas dos dedos pálidas devido à violenta pressão das mãos, o rosto pressagiando ameaças. Ulisses, porém, sem qualquer receio, olhou para ele tranquilamente.

- Pela Mãe Kubaba, Ulisses, tu és um génio! - O rei supremo virou-se depois para o meu pai. - Tíndaro, sabes o que significa isto? Quem casar com Helena, disporá de alianças permanentes e irrevogáveis com quase todas as nações da Grécia! O futuro desse homem estará garantido! A sua posição será reforçada um milhar de vezes!

O meu pai, embora profundamente aliviado, franziu o sobrolho.

- Mas que juramento lhes hei-de eu impor? - perguntou. - Que juramento será capaz de os obrigar a algo que abominam?

- Só há um juramento capaz disso - disse Agamémnon lentamente. - O Juramento do Cavalo Esquartejado. Por Zeus, o Senhor dos Trovões, por Poseidon, o Senhor dos Terramotos, pelas filhas de Kore, pelo rio e pelos mortos.

As palavras caíam como gotas de sangue da cabeça de Medusa; o meu pai estremeceu, escondeu o rosto entre as mãos.

Nada impressionado, Ulisses mudou abruptamente de assunto.

- Que acontecerá no Helesponto? - perguntou ele a Agamémnon como se estivesse a ter a mais normal das conversas.

O supremo rei franziu o sobrolho.

- Não sei. Oh, mas afinal o que é que se passa com o rei Príamo de Tróia?

Porquê a sua cegueira perante as vantagens que obteria se deixasse os mercadores gregos entrarem no mar Euxino?

- Creio - disse Ulisses, escolhendo um bolo de mel para sobremesa - que Príamo tem muito a ganhar ao excluir os mercadores gregos. Ele já está rico com os tributos do Helesponto. Além disso, firmou tratados com os outros reis da Ásia Menor e estou certo de que fica com uma parte dos exorbitantes preços que nós temos de pagar pelo estanho e pelo cobre da Ásia Menor. A exclusão dos Gregos do Euxino significa mais dinheiro para Tróia, não menos.

- Télamon fez-nos muito mal quando raptou Hesíona! - disse o meu pai, furioso.

Agamémnon abanou a cabeça.

- Télamon fez o que estava certo. Tudo o que Héracles pediu foi que lhe pagassem o grande serviço que prestou a Tróia. Quando Laomedonte, aquele miserável sovina, se recusou a pagar-lhe, até mesmo um idiota saberia prever o desfecho.

- Héracles morreu há mais de vinte anos - disse Ulisses, deitando água no seu vinho. - Teseu também está morto. Só Télamon vive ainda. Télamon nunca aceitaria que o separassem de Hesíona, mesmo que Hesíona o desejasse. Essas histórias de rapto e violação já não convencem ninguém - prosseguiu Ulisses calmamente. Pelos vistos, nunca ouvira falar da história de Helena e Teseu. - Além disso, pouco têm a ver com política. A Grécia está a crescer. A Ásia Menor sabe disso. Portanto, que melhor política poderiam seguir Tróia e as outras nações da Ásia Menor senão recusar à Grécia aquilo que a Grécia tem de ter - o estanho e o cobre com que se faz o bronze?

- Sem dúvida - disse Agamémnon, afagando as tranças da barba. - Nesse caso... o que acontecerá se o embargo comercial de Tróia se mantiver?

- A guerra - retorquiu tranquilamente Ulisses. Mais tarde ou mais cedo, terá de haver uma guerra. Quando a situação se tornar insustentável - quando os nossos mercadores desatarem a exigir justiça em todas as Salas do Trono entre Cnossos e lolcos - quando já não tivermos estanho suficiente para transformarmos o nosso cobre em bronze e para produzirmos espadas e escudos e pontas de flechas - então haverá guerra.

A conversa ficou ainda mais maçadora do que já estava; bom, também é verdade que eu deixara de ser o tema central. Além disso, já não podia mais com aquele Menelau ao meu lado. O vinho começava a perturbar a reunião: eram cada vez menos os rostos que se viravam para me adorar. Levantei-me sub-repticiamente e escapei-me por uma porta que havia por detrás da cadeira do meu pai. Meti então pela passagem que seguia paralela ao salão: infelizmente, trazia aquela barulhenta saia e cada passo meu produzia uma música insuportável. A escadaria que dava acesso à ala das mulheres ficava no final dessa passagem; subi as escadas a correr sem que ninguém desse por mim e me ordenasse que regressasse ao salão. Agora, teria apenas de passar pelos aposentos da minha mãe. De cabeça baixa, afastei a cortina.

De repente, senti os meus braços dominados por vigorosas mãos. O meu grito de alarme foi imediatamente sufocado por uma dessas mãos. Diomedes! Com o coração a bater desvairadamente, fitei-o. Até então, não tivera oportunidade de estar a sós com Diomedes, e a conversa que mantivera com ele resumira-se a umas quantas saudações formais.

A luz da lamparina cintilava na sua pele e dava-lhe um brilho de âmbar; na coluna da sua garganta, uma corda batia veloz; permiti que os meus olhos beijassem os seus olhos escuros transbordantes de desejo e senti a mão dele afastando-se da minha boca. Que belo que era aquele homem! E eu amava tanto a beleza! Mas a beleza que eu mais amava era sem dúvida a dos homens.

- Vem ter comigo ao quintal - segredou-me. Abanei energicamente a cabeça.

- Deves estar louco! Larga-me que eu não contarei a ninguém que estavas à entrada dos aposentos da minha mãe! Larga-me!

O branco dos seus dentes cintilou: ria-se silenciosamente.

- Não saio daqui enquanto não me prometeres que vais ter comigo ao quintal. O banquete ainda está para durar - ninguém dará pela nossa falta. Eu desejo-te, rapariga! As tuas decisões, os teus subterfúgios, não me demoverão. Quero-te para mim e vais ser minha!

Tinha ainda a cabeça tonta da excitação do banquete; levei a mão à cabeça e esta, como se tivesse ganho vida própria, acenou que sim! Diomedes largou-me imediatamente e eu corri para os meus aposentos.

Neste estava à minha espera para me despir.

- Vai para a cama, velha! Eu dispo-me sozinha! Habituada como estava ao meu mau génio, Neste recolheu de bom grado ao seu quarto, deixando-me a desapertar os inúmeros laços com os mais trémulos dos dedos, a tirar o corpete e a blusa, a libertar-me da saia. Arranquei sinos, braceletes e anéis e, por fim, peguei no meu roupão de banho e vesti-o. Depois, corri pelo corredor, desci à pressa as escadas das traseiras e respirei fundo o ar fresco da noite. O quintal, dissera ele: com um sorriso, enxerguei na escuridão as couves e os outros legumes. Ninguém se lembraria de nos procurar no meio dos legumes!

Diomedes estava nu sob um loureiro. Despi o roupão, longe dele o suficiente para que pudesse apreciar-me sob a chuva do luar. Um momento depois, já ele estava ao meu lado, colocando o roupão no chão para que servisse de leito; por fim, abraçou-me e deitou-me sobre a Mãe Terra, aquela Mãe que, conforme as leis dos deuses, fortalece as mulheres e enfraquece os homens.

- Só dedos e línguas, Diomedes - murmurei. - Quero ir para o casamento com o hímen intacto.

Diomedes sufocou o seu riso entre os meus seios.

- Foi Teseu quem te ensinou a preservar a virgindade? - perguntou-me.

- Eu não preciso que me ensinem isso - retorqui, afagando os braços e os ombros dele, suspirando. - Não sou muito velha, mas sei que a minha cabeça é o preço que terei de pagar, se perder a virgindade com outro homem que não o meu marido.

Creio que, quando nos separámos, Diomedes partiu satisfeito, ainda que as suas expectativas não tivessem sido totalmente cumpridas. Porque nutria por mim verdadeiro amor, respeitara as minhas condições - tal e qual como Teseu. Não que eu tivesse ficado muito preocupada com a satisfação ou a insatisfação de Diomedes. O que contava realmente é que eu tinha ficado satisfeita.

Satisfação bem visível na noite seguinte, quando me sentei ao lado do trono do meu pai, caso tivesse havido olhos para a ver. Diomedes estava com Filoctetes e Ulisses no meio da multidão - demasiado longe de mim para que eu pudesse aperceber-me do que o seu rosto dizia. Para mais, a Sala do Trono, embelezada por frescos representando guerreiros dançando e por colunas escarlates, havia mergulhado numa imensa escuridão. Os sacerdotes surgiram então, trazendo consigo uma densa e enjoativa fumarada de incenso; silenciado todo o eventual alvoroço, a Sala do Trono ganhou a atmosfera solene, opressiva, de um verdadeiro templo.

Ouvi o meu pai dizer as palavras que Ulisses preparara; a opressão apoderou-se da sala como se fosse uma coisa viva. Trouxeram então o cavalo sacrificial, um belíssimo garanhão de uma alvura absoluta e com uns olhos cor-de-rosa, os cascos escorregando nas velhas lajes, a cabeça serpeando no cabresto dourado. Agamémnon pegou no enorme machado de cabeça dupla e brandiu-o com mãos experientes. O cavalo caiu por terra, mas muito lentamente, a crina e a cauda flutuando como algas ao sabor da corrente, enquanto o sangue jorrava abundante.

Enquanto o meu pai informava a audiência do juramento exigido, segui com horror os movimentos dos sacerdotes, que dividiam em quatro partes o cadáver do belíssimo animal. Não hei-de esquecer nunca essa cena: os pretendentes avançando um a um, equilibrando os seus dois pés sobre quatro peças de carne quente, pronunciando o terrível juramento de lealdade e obediência ao meu futuro marido. As vozes soavam débeis e apagadas, pois o poder e a masculinidade não resistiam ao pavor que a cerimónia infundia nas mentes daqueles homens. Rostos pálidos e suados surgiam para logo se esfumarem, ao sabor da luz dos archotes; um vento vindo não sei donde soprava incessante, gritando como uma sombra perdida.

A cerimónia chegou ao fim. A carcaça fumegante do cavalo jazia ignorada, os pretendentes erguiam os seus olhos, como que drogados, para o rei Tíndaro da Lacedemónia.

- Dei a mão da minha filha a Menelau - anunciou o meu pai. Ouvi um enorme suspiro, nada mais. Ninguém gritou um rápido protesto. Nem sequer Diomedes se ergueu furioso da sua cadeira. Os meus olhos encontraram-se com os dele quando os criados começaram a acender as lamparinas; os nossos olhos despediram-se, com meia centena de cabeças de permeio, sabendo que tínhamos sido derrotados. Creio que as lágrimas me corriam pelas faces enquanto o fitava, mas ninguém reparou nas minhas lágrimas. Por fim, a minha mão flácida deixou que a mão húmida de Menelau pegasse nela.

 

                                               Narrado por Páris

Regressei a Tróia a pé e sozinho, o arco e a aljava dependurados do ombro. Sete luas passara nas florestas e clareiras do monte Ida e não trazia comigo um único troféu para lhes mostrar. Adorava caçar, mas não suportava ver um animal cair por terra trespassado por uma seta; preferia vê-lo vivo e livre como eu. No que tocava a caçadas, os meus melhores momentos envolviam presas mais apetecíveis do que o veado ou o javali. Para mim, a mais interessante das caças era a que eu fazia aos habitantes humanos das florestas do Ida, as raparigas e pastoras selvagens. Quando uma rapariga caía, derrotada, só uma seta a trespassava, a de Eros; não havia rios de sangue, nem os gemidos que anunciavam a morte, mas apenas suspiros de doce contentamento, enquanto eu a estreitava nos meus braços, ofegante ainda do êxtase da perseguição e pronto a perder de novo o fôlego por obra e graça de uma outra espécie de êxtase.

Passava sempre a Primavera e o Verão no monte Ida; a vida na corte deixava-me louco de aborrecimento. Ah, o que eu odiava aquelas vigas de cedro, oleadas e polidas até se tornarem de um castanho cintilante, aquelas salas de paredes pintadas, aquelas torres sustentadas por colunas! Estar encerrado dentro de enormes muralhas era sufocar, era estar preso. Tudo o que eu queria era correr léguas e léguas de erva e árvores, deitar-me exausto sobre um leito perfumado pelas folhas que as árvores à terra ofereciam. Porém, todos os Outonos, tinha de regressar a Tróia e de passar o Inverno com o meu pai. Esse era o meu dever, ainda que simbólico. No fim de contas, eu era apenas o seu quarto filho de uma vasta prole. Ninguém me levava a sério - antes assim!

Num dia frio e ventoso, entrei na Sala do Trono no final de uma assembleia, envergando ainda as minhas roupas de montanha, ignorando os sorrisos de desdém, os lábios franzidos de reprovação. O crepúsculo esbatia-se já, para dar lugar à melancolia da noite; fora longa a reunião.

O meu pai, o rei, estava sentado na sua cadeira de ouro e marfim, sobre um estrado de mármore púrpura, ao fundo da sala, o seu longo cabelo branco requintadamente encaracolado, a sua imponente barba branca entrançada com finos fios de ouro e prata. Invulgarmente orgulhoso da sua provecta idade, era assim que ele mais gostava de estar: sentado, como um deus antigo, sobre um elevado pedestal, contemplando tudo aquilo que possuía.

Se a sala fosse menos imponente, o espectáculo que o meu pai oferecia talvez não fosse tão impressionante; contudo, segundo diziam, aquela sala era ainda maior e mais grandiosa do que a velha Sala do Trono do palácio cretense de Cnossos. Espaçosa o suficiente para albergar trezentas pessoas sem que parecesse apinhada de gente, o seu tecto altíssimo, para lá das vigas de cedro, fora pintado de azul e salpicado de constelações douradas. Possuía colunas maciças que afunilavam nas bases azul-escuras ou púrpura, simples capitéis redondos e plintos dourados. As paredes eram de mármore púrpura sem quaisquer relevos até à altura da cabeça de um homem; mais acima, exibiam frescos com cenas de leões, leopardos, ursos, lobos e caçadores - figuras a preto e branco, amarelas, carmins, castanhas e cor-de-rosa contra um fundo azul-pálido. Por detrás do trono, via-se um retábulo de ébano egípcio, incrustado com padrões de ouro, e os degraus que conduziam ao estrado régio eram debruados a ouro.

Entreguei o arco e a aljava a um criado e avancei por entre os cortesãos até chegar ao estrado. Ao ver-me, o rei inclinou-se para tocar suavemente na minha cabeça baixa com a esmeralda do seu ceptro de marfim, o sinal de que deveria erguer-me e abeirar-me dele. Beijei-lhe a face engelhada.

- Estou tão contente por te ver, meu filho! - disse ele.

- Quem me dera poder dizer-te que estou contente por voltar - retorqui.

O meu pai afastou-me para que eu me sentasse aos seus pés. Com um suspiro, observou:

- Ainda não perdi a esperança de te ver todo o ano em Tróia, Páris. Poderia fazer muito por ti, se tu não te ausentasses tanto.

Afaguei-lhe a barba porque ele gostava disso.

- Eu não quero levar uma vida de príncipe, meu pai.

- Mas tu és um príncipe! - Suspirou uma vez mais, mexeu-se nervoso no seu trono. - Embora sejas ainda muito novo, eu sei. Temos tempo.

- Não, pai, tempo é coisa que não temos. Tu pensas que eu ainda sou um rapaz, mas a verdade é que eu sou um homem há já muito tempo. Tenho trinta e três anos.

Príamo não ouviu nada do que eu disse, imaginei eu, pois vi-o erguer a cabeça e acenar com o seu bastão para alguém que estava ao fundo da sala: Heitor.

Páris insiste que tem trinta e três anos, meu filho! - disse ele quando Heitor parou junto aos três degraus. Apesar dos degraus, Heitor era alto o bastante para que o seu rosto ficasse ao mesmo nível do do nosso pai.

Os olhos escuros de Heitor examinaram-me atentamente.

- Suponho que deves ter essa idade, Páris. Eu nasci dez anos depois de ti e tenho vinte e três anos e seis luas. - Pôs um sorriso imenso e acrescentou: - Mas a verdade é que pareces muito mais novo!

Desatei a rir-me.

- Obrigado, irmãozinho! Tu é que pareces ter a minha idade. E tudo porque és tu o herdeiro. Ser o herdeiro de um trono envelhece um homem - fica-se acorrentado ao estado, ao exército, à coroa. Eu prefiro a eterna juventude da irresponsabilidade!

-Aquilo que está bem para um homem, não está necessariamente bem para outro homem - foi a sua tranquila resposta. - O meu apetite por mulheres é muito menos acentuado do que o teu: por isso, que importância tem que eu pareça velho antes de realmente o ser? Enquanto tu desfrutas das tuas incursões ao harém, eu sinto um prazer genuíno em comandar o exército sempre que há manobras. Por outro lado, o meu rosto poderá ficar prematuramente engelhado, mas o meu corpo permanecerá forte e capaz, ao passo que o teu vergar-se-á sob o peso de uma enorme pança!

Desisti. Heitor tinha uma facilidade sobrenatural para descobrir os nossos pontos fracos! Mal via um homem, localizava o seu ponto fraco e atirava-se a ele como um leão. E não tinha medo nenhum de usar as suas garras. O facto de ser o herdeiro transformara-o rapidamente num homem maduro. A exuberante, e irritante, juventude do ano anterior perecera como que por magia: Heitor moldara os seus inegáveis talentos à tirania do trabalho útil. Fosse como fosse, a verdade é que Heitor era corpulento o suficiente para aguentar essa tirania. Eu não era uma fraca figura, mas Heitor era muito mais alto do que eu e, quanto a largura, tinha o dobro da minha. Vestia-se de uma forma muito simples - e, portanto, com uma dignidade indesmentível; bastava-lhe um saiote e uma camisa de cabedal, a longa cabeleira negra entrançada, apanhada atrás num belo rabo-de-cavalo. Todos nós, os filhos de Príamo e Hécuba, éramos famosos pela nossa beleza, mas Heitor tinha algo mais: uma autoridade natural.

Quase sem dar por isso, vi-me de pé e afastado da companhia de meu pai; o velho Antenor indicara, com um ar mal-humorado, que pretendia falar com o rei antes que a assembleia terminasse. Heitor e eu escapulimo-nos do estrado real sem que ninguém desse pela nossa falta. - Tenho uma surpresa para ti - disse o meu irmão mais novo com um prazer tranquilo, enquanto atravessávamos as passagens aparentemente infindáveis que ligavam as alas e os palácios menos importantes da cidadela.

O palácio do herdeiro ficava ao lado do palácio real, daí que a caminhada não fosse demasiado longa. Quando entrei na ampla sala de entrada do palácio de Heitor, parei de repente e pus-me a olhar à minha volta, absolutamente estupefacto.

- Heitor! Onde é que ela está? Aquele que fora um armazém atravancado de lanças, escudos, armaduras e espadas, era agora uma sala. E também não tresandava a cavalos, ainda que Heitor adorasse cavalos. Não me lembrava da decoração das paredes do velho armazém, mas as paredes daquela sala brilhavam de árvores em tons jade e azul, de flores púrpura, de cavalos a preto e branco, cabriolando. O chão estava tão limpo que o seu mármore preto e branco cintilava. Trípodes e ornamentos haviam sido polidos, e cortinas púrpura, magnificamente bordadas, pendiam de argolas douradas em todas as portas e janelas.

- Onde é que ela está? - repeti. Heitor corou.

- Já não demora - resmungou. Ela entrou nesse mesmo instante. Examinei-a de alto a baixo e tive de concordar que o meu irmão tinha bom gosto; a sua esposa era extremamente bonita. Tão morena como ele, alta e robusta. E tão desajeitada como ele no que tocava aos contactos sociais; olhou uma só vez para mim e logo desviou os olhos.

- Apresento-te a minha esposa, Andrómaca - disse Heitor. Beijei-a na face.

- Aprovo inteiramente, irmãozinho! Mas Andrómaca não é destas bandas, pois não?

- Não. É filha do rei Eecião da Cilícia. Estive lá na Primavera, em representação do nosso pai, e trouxe-a comigo. Não foi planeado, mas... - e respirou fundo - aconteceu...

Andrómaca falou por fim, com óbvio embaraço.

- Quem é, Heitor? Exasperado, Heitor bateu com tanta força na sua coxa que quase me assustou.

- Mas quando é que eu aprenderei estas coisas? É Páris, o meu irmão. Algo de que não gostei assomou por um momento aos olhos dela. Ah! Aquela jovem tinha uma força imensa: bastava que o embaraço e a estranheza se dissipassem.

- A minha Andrómaca é muito corajosa - disse Heitor, inchado de orgulho, um braço à volta da cintura dela. - Deixou o seu lar e família para vir comigo para Tróia.

- Deveras? - disse eu polidamente, e por aí me fiquei.

Depressa me resignei à monotonia da vida dentro da cidadela. Enquanto o granizo batia nas persianas de concha de tartaruga ou a chuva caía em cascatas do topo das muralhas ou a neve atapetava os pátios, eu farejava e rondava os aposentos das mulheres, ansioso por encontrar uma fêmea nova e interessante - alguém que acendesse em mim pelo menos um décimo do desejo que as pastoras do monte ida tão facilmente incendiavam. Um trabalho que, sobre ser esgotante, não me incitava, bem pelo contrário, a dar o meu máximo. Um trabalho que nunca conduzia aos arrebatados e violentos exercícios que as mulheres do monte Ida me proporcionavam. Heitor tinha razão. Se correrias furtivas por corredores proibidos eram o meu desporto favorito, depressa ficaria com uma pança enorme.

Quatro luas após o meu regresso, Heleno entrou nos meus aposentos e instalou-se confortavelmente num banco almofadado junto a uma janela. Estava um dia radioso - bastante quente, o que, nos Invernos troianos, era uma raridade -

e a vista que se desfrutava dos meus aposentos era belíssima: os nossos olhos podiam abarcar toda a cidade e ainda o porto de Sigeu e a ilha de Ténedo.

- Quem me dera ter a influência que tu tens junto do nosso pai, Páris - disse-me Heleno.

- Bom, Heleno, acontece que tu és ainda muito novo, apesar de seres um filho imperial. A sabedoria é algo que só vem com a idade.

Heleno, que não fazia ainda a barba, era um jovem muito belo, com cabelos e olhos muito escuros, tal como todos os filhos imperiais de Hécuba. Era gémeo de Cassandra e contavam-se coisas muito estranhas acerca dos dois. Tinham dezassete anos apenas; a juventude de Heleno impedira que se tivesse desenvolvido entre nós uma verdadeira intimidade. Além disso, Heleno e Cassandra possuíam a Segunda Visão. Sobre eles pairava uma aura que deixava os outros (mesmo os seus irmãos e irmãs) manifestamente constrangidos. Essa estranha aura era menos evidente em Heleno do que em Cassandra. Pois ainda bem para Heleno: Cassandra era louca.

Eram ainda bebés quando foram consagrados ao serviço de Apolo. Esta decisão arbitrária conformara os seus destinos; se havia no seu íntimo alguma revolta contra tal decisão, a verdade é que nunca a exprimiram. De acordo com as leis promulgadas pelo rei Dárdano, um filho e uma filha do rei e da sua rainha, de preferência gémeos, tinham de presidir aos Oráculos de Tróia. Não admirava, pois, que Heleno e Cassandra tivessem sido escolhidos. Por ora, gozavam ainda de alguma liberdade; porém, logo que fizessem vinte anos, seriam formalmente entregues aos cuidados do trio que governava o culto de Apolo em Tróia: Calcas, Lacoonte e a mulher de Antenor, Teano.

Heleno vestia a longa e flutuante túnica dos religiosos. Aliando uma beleza extrema a uma expressão sonhadora, a sua figura, enquanto observava a cidade da minha janela, era impressionante o suficiente para me prender a atenção. Gostava mais de mim do que de todos os outros irmãos - fossem eles filhos de Hécuba, de qualquer outra esposa ou de uma concubina - porque eu não sentia a menor inclinação para a guerra ou para matar. Embora a sua natureza ascética fosse obviamente avessa às minhas aventuras com mulheres, Heleno gostava de conversar comigo, pois as minhas palavras eram mais pacíficas do que marciais.

- Trago-te uma mensagem - disse-me ele, sem se virar. Suspirei.

- O que é que eu fiz de mal?

- Nada que mereça censura. Disseram-me apenas que tens de participar numa assembleia a realizar depois da ceia.

- Não posso. Tenho um compromisso para depois da ceia.

- Terás de desistir desse compromisso. A mensagem que te trago é do nosso pai.

- Mas que seca! Porquê eu, Heleno?

- Não faço a mínima ideia. Pelos vistos, é um grupo muito pequeno. Alguns dos filhos imperiais, Antenor e Calcas.

- Um estranho grupo... Qual será o assunto?

- Vai, e logo saberás.

- Ai vou, vou! Também foste convidado? Heleno não me respondeu. De súbito, os seus belos traços arrepanharam-se e os olhos pareciam não ver nada à sua volta, ainda que vissem algo de indefinível: o olhar que associamos ao místico. Não era a priimeira vez que assistia a um transe visionário, mas nada fiz para o interromper; pelo contrário, observei com um extremo fascínio as alterações por que Heleno passava. Subitamente, porém, com um acentuado estremecimento de todo o corpo, o meu irmão regressou ao seu estado normal.

- Que viste? - perguntei.

- Eu não consegui ver... - disse ele lentamente, limpando o suor da testa. Um padrão. Dei-me conta de um padrão... O início de uma mudança que conduzirá a um desfecho inevitável.

- Alguma coisa deves ter visto, Heleno!

- Chamas... Gregos envergando armaduras... Uma mulher que, de tão bela, só poderia ser Afrodite... Navios - centenas e centenas de navios... Tu, o nosso pai, Heitor...

-Eu? Mas eu não sou importante!

- Acredita no que te digo, Páris: tu és importante - disse ele com uma voz cansada. Então, sem mais nem menos, levantou-se. - Preciso de falar com Cassandra. É muito frequente vermos as mesmas coisas, mesmo quando não estamos juntos.

Porém, também eu sentia vagamente aquela presença obscura, rodeando-nos como uma teia, e abanei a cabeça.

Não, não vás ter com ela. Cassandra destruirá a tua visão.

Heleno tinha razão: o grupo era, de facto, muito pequeno. Fui o último a chegar; sentei-me na ponta do banco onde já estavam sentados os meus irmãos Tróilo e ílio - porquê eles? Tróilo tinha oito anos, ílio apenas sete. Eram os dois últimos filhos de minha mãe e os seus nomes evocavam o espectro que tirara o trono ao rei Dárdano. Heitor também lá estava. Tal como o nosso irmão mais velho, Deífobo. Deífobo deveria ter sido nomeado herdeiro, mas todos aqueles que o conheciam - incluindo o nosso pai - sabiam que, ao fim de um ano de reinado, Tróia sucumbiria ao seu poder. Ganancioso, estouvado, violento, egoísta, imoderado - era com estes adjectivos que Deífobo era descrito. Sentia por nós um ódio terrível! Sobretudo por Heitor, que lhe usurpara o título a que tinha direito - pelo menos era isso o que ele pensava.

A inclusão do tio Antenor era lógica. O chanceler tinha de estar presente em todas as reuniões. Mas porquê Calcas? Uma criatura inquietante...

O tio Antenor fitava-me com uma expressão feroz e não era por eu ter chegado tarde. Com efeito, dois Verões antes, no monte Ida, disparara uma seta a um alvo fixado numa árvore, mas um vento repentino desviara o seu curso. Acabei por encontrar a seta alojada nas costas do filho mais novo de Antenor e da concubina que ele mais amava; o pobre rapaz andava a espiar uma pastora que se banhava nua numa fonte. O filho de Antenor estava morto e eu era culpado de homicídio involuntário. Não se tratava verdadeiramente de um crime; mesmo assim, eu teria de expiar a morte do jovem. E só havia uma maneira de a expiar: teria de encontrar um rei estrangeiro que estivesse disposto a presidir às cerimónias de purificação.

O tio Antenor não chegara ao ponto de clamar por vingança, mas a verdade é que não me perdoara. A ferocidade do seu olhar fez-me lembrar que ainda não fizera nada para encontrar o tal rei estrangeiro. Os reis eram os únicos sacerdotes aptos a conduzir os ritos de purificação exigidos por um caso de homicídio acidental.

O meu pai bateu no chão com a base do seu ceptro de marfim, cuja cabeça redonda cintilava de verde, pois continha uma enorme e perfeita esmeralda. - Convoquei esta reunião, porque quero discutir algo que me atormenta há já muitos anos - principiou o meu pai com a sua voz firme e forte. - Um acontecimento que voltou a dominar os meus pensamentos, porque me ocorreu, há Poucos dias, que o meu filho Páris nasceu precisamente no dia em que tudo se passou. Um dia de morte e perda. O meu pai Laomedonte foi assassinado. Tal como os meus quatro irmãos. A minha irmã Hesíona foi raptada e violada. Só o nascimento de Páris impediu que aquele dia fosse o mais negro de toda a minha vida.

- Pai, por que razão nos convocaste a nós? - perguntou Heitor num tom afectuoso. Ultimamente, sempre que a mente do nosso pai começava a divagar, Heitor tomava a seu cargo a tarefa de a reconduzir ao caminho certo; com efeito, a mente de Príamo revelava uma tendência cada vez mais acentuada para se perder em estranhas deambulações.

- Ah... eu não lhes disse? Bom, convoquei-te a ti, Heitor, porque és o herdeiro. Convoquei Deífobo, porque é o mais velho dos filhos imperiais. Heleno, porque será ele o encarregado dos Oráculos de Tróia. Calcas, porque é ele quem preside aos Oráculos enquanto Heleno não fizer vinte anos. Tróio e ílio, porque Calcas diz que há profecias a respeito deles. Antenor, porque ele estava presente nesse dia. E Páris, porque nasceu nesse dia.

- Qual é então o assunto desta reunião? - perguntou Heitor.

- Tenciono enviar uma embaixada formal a Télamon, rei de Salamina, logo que o estado do mar o permita - disse o nosso pai. Uma resposta que me parecia perfeitamente lógica, ainda que Heitor tivesse franzido muito o sobrolho, como que inquieto com a novidade. - Essa embaixada solicitará a Télamon o regresso da minha irmã a Tróia.

Fez-se silêncio. Antenor encaminhou-se para o espaço que havia entre o meu banco e o outro, após o que se virou para o meu pai. Coitado do meu tio, andava quase que curvado, devido a uma terrível doença dos ossos de que padecia há um ror de tempo; toda a gente achava que os estragos causados pela doença eram a causa do seu notório mau génio.

- Rei Príamo, isso não passa de uma aventura disparatada! - atirou ele, sem mais aquela. - Para quê gastar o ouro de Tróia numa coisa dessas? Sabes, tão bem como eu, que, ao longo dos seus trinta e três anos de exílio, Hesíona nunca nos fez saber que lamentava o seu destino. O filho dela, Teucro, será um bastardo; no entanto, ocupa uma posição extremamente importante na corte de Salamina e é amigo e mentor do herdeiro, Ájax. A resposta será «não», Príamo. Assim sendo, por que razão havemos de nos meter em trabalhos?

O rei levantou-se de um salto, furibundo.

- Estás a acusar-me de estupidez, Antenor? Não sabia que Hesíona estava satisfeita por estar exilada! Não, Télamon é que a impede de nos pedir ajuda!

Antenor agitou o punho cerrado.

- Eu estava a falar, rei Príamo! E quem está a falar, não deve ser interrompido! Porque insistes em pensar que fomos nós os ultrajados? Foi Héracles quem foi ultrajado: eu sei que, no fundo, até concordas comigo. Gostaria também de lembrar que, se Héracles não tivesse morto o leão, Hesíona não estaria hoje viva.

O meu pai tremia da cabeça aos pés. Apesar de serem cunhados, não havia sombra de afeição entre Antenor e Príamo. O coração de Antenor permanecia fiel à Dardânia: o inimigo dentro das nossas muralhas.

- Se fôssemos jovens - disse o meu pai, cada palavra uma seta -, haveria uma maneira de pôr termo a esta guerra constante. Poderíamos pegar em escudos e espadas e resolver a questão. Mas tu não passas de um inválido e eu estou demasiado velho. Repito: vou enviar uma embaixada a Salamina logo que seja possível. Entendido?

Antenor fitava-o com o maior desdém.

- Tu és o rei, a decisão é tua. Quanto a duelos - é natural que te aches demasiado velho, mas garanto-te que a minha invalidez não me impediria de te deixar feito em pedaços! Nada me daria mais prazer!

Dito isto, retirou-se. O meu pai regressou ao trono, mordiscando furiosamente na barba.

Levantei-me, surpreendido com o facto de me ter levantado, mas ainda mais surpreendido com aquilo que nesse instante comecei a dizer.

- Pai, eu ofereço-me para conduzir a tua embaixada. De qualquer modo, teria sempre de me deslocar ao estrangeiro, a fim de buscar a purificação que a morte do filho de Antenor exige.

Heitor riu-se e até bateu as palmas.

- Páris, deixa-me saudar a tua iniciativa! Mas Deífobo não gostou.

- Porque não eu, pai? Eu é que deveria ser nomeado! Eu sou o mais velho! Heleno declarou-se favorável a Deífobo; não conseguia acreditar no que estava a ouvir, pois Heleno detestava o nosso irmão mais velho.

- Pai, por favor, manda Deífobo! Se for Páris o escolhido, Tróia chorará lágrimas de sangue!

Com ou sem lágrimas de sangue, a decisão do rei Príamo estava tomada. Confiou-me a embaixada a Salamina.

Depois de todos terem partido, permaneci algum tempo com o meu pai.

- Estou tão contente, Páris! - disse ele, afagando-me o cabelo.

- O teu contentamento é prémio suficiente para mim. - De súbito, desatei a rir. - Se não conseguir trazer a tia Hesíona, pode ser que consiga trazer uma princesa grega em vez dela ... !

O meu pai riu-se também; a minha piada apontava para algo que não lhe desagradava.

- Não faltam princesas na Grécia, meu filho. Olho por olho, dente por dente: admito que, se seguíssemos essa norma, os Gregos receberiam o mais correcto dos castigos.

Beijei-lhe a mão. O ódio implacável que votava à Grécia e a tudo o que fosse grego era bem conhecido em Tróia; e eu fizera-o feliz. Que importava que a piada não fosse mais do que isso, uma simples piada sem quaisquer consequências, se o tinha feito rir?

Como parecia que o ameno Inverno ia terminar cedo, instalei-me em Sigeu durante vários dias, a fim de discutir a organização da frota com os comandantes e mercadores que participariam nela. Queria vinte navios grandes com tripulações completas e porões vazios; como era o Estado a pagar a conta, não iam faltar os voluntários. Embora sem perceber que demónio me levara a oferecer os meus serviços ao rei, o certo é que sentia uma excitação extraordinária perante a perspectiva de uma tal aventura. Em breve poderia ver longínquos lugares, lugares que muitos olhos troianos nunca veriam. Lugares gregos.

Terminada a reunião, decidi dar um passeio pelo porto, a fim de respirar aquele ar cortante e salgado e observar a azáfama dos homens na praia; os navios que, durante o Inverno, eram arrastados para um leito de seixos longe das águas, viam-se agora rodeados de uma pequena multidão que inspeccionava os costados revestidos a pez e concluía se as embarcações estavam ou não em condições de navegar. Um enorme navio escarlate manobrava nas proximidades da praia; os olhos da sua proa tentavam fixar-me e a figura que rematava o capuz curvo da sua popa era, obviamente, a minha própria deusa: Afrodite. Que construtor de navios a teria visto em sonhos (e em que sonhos?) para a ter representado de uma forma tão maravilhosa?

Por fim, o capitão do navio encontrou espaço suficiente para instalar os seus pesados costados entre os seixos; logo desceram as escadas de corda. Nesse instante, reparei que o navio trazia uma bandeira real na proa, decorada com incrustações escarlates e debruada a ouro - aquele navio trazia um rei estrangeiro! Avancei lentamente, ajeitando o meu manto em elegantes dobras.

O régio indivíduo desceu cuidadosamente. Era um grego. Uma conclusão fácil, dado o modo como estava vestido e a superioridade inconsciente com que ele

- como qualquer grego - olhava para o resto do mundo. Porém, à medida que o rei se foi aproximando, todo o meu espanto inicial se dissipou. Um homem de aspecto tão vulgar ... ! Não era especialmente alto, nem especialmente bem-parecido. E era ruivo. Sim, não havia dúvida: era grego. Pelos vistos, metade dos gregos eram ruivos. O saiote de cabedal fora tingido de púrpura e adornado a ouro, a franja que o debruava era de ouro, o amplo cinto era de ouro incrustado com pedras preciosas, a blusa púrpura abria-se para revelar um peito magro, e, à volta do pescoço, usava um imponente colar de ouro e jóias. Um homem muito rico.

Quando me viu, alterou o seu curso.

- Bem-vindo às praias de Tróia! - disse eu formalmente. - Sou Páris, filho do rei Príamo.

O homem pegou no braço que eu lhe estendera e envolveu-o com os seus dedos.

- Obrigado, príncipe. Eu sou Menelau, rei da Lacedemónia e irmão de Agamémnon, rei supremo de Micenas.

os meus olhos arregalaram-se de espanto.

- Gostaria de te oferecer o meu carro, rei Menelau - disse-lhe. - Poderemos seguir sem demora para a cidade.

O meu pai estava ocupado com as suas audiências diárias. Segredei ao arauto, o qual, imediatamente, abriu as portas de par em par.

- Rei Menelau, da Lacedemónia! - atroou o homem.

Entrámos juntos e deparou-se-nos uma multidão reduzida à mais absoluta imobilidade. Heitor estava de pé, ao fundo, com a mão estendida e a boca aberta devido a uma palavra que não chegara a pronunciar, Antenor estava meio virado para nós, e o meu pai estava sentado no seu trono, direito que nem um fuso, a mão apertando com tanta força o bastão que este não parava de tremer. Se o meu companheiro concluiu nesse instante que os Gregos não eram bem-vindos, a verdade é que não houve nele nada que o denunciasse; depois de o conhecer melhor, decidi que, provavelmente, não tinha reparado na hostilidade. Mirou a sala e o mobiliário e, pelos vistos, não ficou particularmente impressionado: fiquei a pensar como não seriam os palácios gregos, já que ele não abrira a boca de espanto.

O meu pai desceu do estrado e estendeu-lhe a mão.

- Sentimo-nos muito honrados com a tua visita, rei Menelau - disse ele. Apontando para um enorme divã juncado de almofadas, o meu pai pegou no braço do visitante. - Proponho-te que nos sentemos. Páris, vem ter connosco, mas primeiro diz a Heitor que venha também. E diz aos criados que nos tragam comida e vinho.

A corte estava muito quieta (só os olhos dos cortesãos andavam numa roda-viva), mas a conversa no divã era inaudível a dois passos de distância.

Terminadas as necessárias formalidades, o meu pai perguntou a Menelau os motivos da sua visita.

Trata-se de um caso de vital importância para o povo da Lacedemónia, rei Príamo - retorquiu Menelau. - Eu sei que aquilo que busco não se encontra nas terras troianas, mas Tróia pareceu-me o melhor local para dar início ao meu inquérito.

- Pergunta à vontade, rei Menelau. Menelau inclinou-se para a frente e virou-se, a fim de poder olhar para o rosto inexpressivo do meu pai.

- Rei Príamo, o meu reino está a ser assolado pela peste. Os meus sacerdotes não conseguiram adivinhar a causa. Procurei então a pitonisa de Delfos, que me disse que eu deveria ir pessoalmente procurar os ossos dos filhos de Prometeu e levá-los para Amiclas - a minha capital. Têm de ser enterrados em Amiclas. Só então venceremos a peste.

Ah! Afinal, a missão dele nada tinha a ver com a tia Hesíona, ou a escassez de estanho e cobre, ou os embargos comerciais no Helesponto. A missão de Menelau era muito mais vulgar. Perfeitamente comum. A luta contra a peste exigia medidas extraordinárias; havia sempre um ou outro rei vagueando pelos mares e pelas praias, à procura de um qualquer objecto que os Oráculos exigiam que levasse para casa. Perguntava-me, por vezes, se o objectivo dos Oráculos não seria mandar para longe o rei até que a doença chegasse ao seu inevitável fim. Uma forma de proteger o rei do castigo; se o rei permanecesse em casa, seria muito provável que morresse da mesma peste ou que acabasse por ser ritualmente linchado.

Claro que o rei Menelau tinha de ser hospedado. Talvez no ano seguinte o Oráculo ordenasse ao rei Príamo que pedisse ajuda ao rei Menelau... Os elementos da realeza, fossem quais fossem as suas divergências ou as suas nacionalidades, mostravam-se solidários em determinadas situações. Por isso, enquanto o rei Menelau se instalava na nossa cidade, os batedores do meu pai trataram de localizar os ossos dos filhos de Prometeu. Concluíram que estavam na Dardânia. O rei Anquises da Dardânia protestou energicamente, mas nada podia fazer. Estivesse ou não de acordo, teria de ficar sem as relíquias.

Foi-me atribuída a tarefa de velar pelo bem-estar de Menelau até que ele pudesse seguir, com toda a pompa que o seu cargo exigia, para a cidade de Lirnesso, onde reclamaria os ossos. O que me levou a fazer-lhe uma oferta que, em tais circunstâncias, era perfeitamente comum: a escolha de uma mulher de que ele gostasse, desde que a mulher em questão não tivesse sangue real.

Menelau desatou a rir-se, abanando enfaticamente a cabeça.

- Eu não preciso de outras mulheres, Páris! Basta-me a minha Helena! retorquiu.

Fiquei curioso, muito curioso.

- Deveras? - disse. Os olhos dele ganharam uma luminosidade extrema; dir-se-ia que o homem estava embriagado, não de vinho, mas de adoração.

Páris, eu estou casado com a mulher mais bela do mundo - disse ele, com a maior solenidade.

Sem perder a polidez que um tal diálogo impunha, dei rédea solta à minha incredulidade.

- Deveras, rei Menelau?

- Ah sim, Páris, sem a menor dúvida. Helena não tem rival neste nosso mundo.

- É mais bela do que a mulher do meu irmão Heitor?

- A princesa Andrómaca é uma pálida Selene, se comparada com o esplendor de Hélio - disse ele.

Gostaria que fosses mais preciso, Menelau.

O rei suspirou, agitOu os braços.

- Como descrever Afrodite? Como pintar a perfeição visual com meras palavras? Vai ver o meu navio, Páris, e atenta na figura de proa - Helena foi o modelo.

Semicerrei os olhos, tentando lembrar-me. Mas tudo o que consegui ver foi um par de olhos tão verdes como os de um gato do Egipto.

Ah, eu tinha de conhecer aquela beldade! Não que acreditasse nele - a figura de proa seria certamente superior ao modelo. Nenhuma das estátuas de Afrodite que conhecia poderia rivalizar com o rosto daquela figura (embora, verdade seja dita, os escultores não passassem de uns artífices medíocres que teimavam ein dar sorrrisos tontos, traços desgraciosos e corpos ainda mais desgraciosos às suas estátuas)

- Rei Menelau - disse eu, movido por um irresistível impulso. - Em breve, terei de conduzir uma embaixada a Salamina, a fim de me avistar com o rei Télamon e de inquirir sobre o bem-estar de minha tia Hesíona. Porém, enquanto estiver na Grécia, terei de submeter-me a um ritual purificador, visto que cometi um homicídio involuntário. Diz-me uma coisa: a Lacedemónia fica muito longe de Salamina?

- Bom, Salamina é uma ilha que fica ao largo do litoral ático, ao passo que a Lacedemónia fica no interior da ilha de Pélops, mas - não, não é uma viagem especialmente difícil.

- Rei Menelau, aceitarias presidir à cerimónia da minha purificação?

O rei fitou-me radiante.

- Claro que aceito! É o mínimo que posso fazer para retribuir a tua amabilidade. Visita-nos no próximo Verão e eu realizarei os necessários ritos. - De súbito, pÔs um ar altivo. - Duvidaste de mim, quando te falei da beleza de Helena

- sim, sim, eu sei que duvidaste! Os teus olhos traíram-te... Mais uma razão para visitares Amiclas - vê-la-ás com os teus próprios olhos. Depois disso, espero que me apresentes as tuas desculpas.

Selámos o pacto com um gole de vinho, após o que nos concentrámos no planeamento da viagem a Lirnesso, onde Menelau exumaria os ossos dos filhos de Prometeu, sob o olhar indignado do rei Anquises e do seu filho Eneias. Com que então Helena era tão bela como Afrodite! Perguntei-me como é que Anquises e Eneias reagiriam a essa comparação quando Menelau se saísse com ela - e sair-Se-ia com toda a certeza. É que, como toda a gente sabia, Anquises, na sua juventude, fora tão irresistivelmente belo que a própria Afrodite se humilhara para que ele fizesse amor com ela. Depois, a deusa fora-se embora, mas deixara-lhe Eneias. Pois é: as loucuras de juventude tinham sempre um preço!

 

                                            Narrado por Helena

Depois de os ossos dos filhos de Prometeu terem sido enterrados em Amiclas rodeados de preciosos artefactos, cada caveira coberta com uma máscara de ouro, os efeitos da peste começaram a esbater-se. Era maravilhoso poder passear de novo pela cidade, participar em caçadas nas montanhas, assistir aos jogos na arena que ficava por detrás do palácio! Não menos maravilhoso era ver os sorrisos de alegria nos rostos das pessoas, ouvi-las saudarem-nos e louvarem-nos quando passávamos por elas. O rei acabara com a peste e a felicidade voltara ao reino.

Só o coração de Helena não era feliz. Menelau vivia com um espectro a seu lado. Com o passar dos anos, fui-me tornando uma mulher cada vez mais apagada, cada vez mais grave - respeitável e obediente, sempre. Dei a Menelau duas filhas e um filho. O meu marido dormia na minha cama todas as noites. Nunca lhe recusava o acesso aos meus aposentos quando ele batia à porta. E ele amava-me. Perante o seu amor, eu não poderia fazer nada de mal. E era por isso que eu era uma esposa respeitável e obediente; não conseguia resistir a um homem que me tratava como se eu fosse uma deusa. Havia ainda outra razão: eu queria que a minha cabeça estivesse sempre presa aos meus ombros.

Se ao menos eu tivesse conseguido manter o meu corpo distante e frio quando ele veio ter comigo após o casamento! Mas não consegui. Helena era uma criatura toda ela de carne feita; uma criatura que não era imune às carícias de um homem, de qualquer homem - mesmo de um homem tão enfadonho e desajeitado cOmo o meu marido. Um homem, um homem qualquer, era melhor do que homem nenhum.

O Verão veio, o mais escaldante de que havia memória. As chuvas cessaram e os rios secaram, e, nos altares, os sacerdotes começaram a murmurar palavras agourentas. Tínhamos sobrevivido à peste; seria a fome o nosso próximo tormento? Por duas vezes, senti Poseidon, o Senhor dos Terramotos, gemer e mover as entranhas da terra, como se também ele estivesse inquieto. O povo comeÇou a a falar de maldições e os sacerdotes ergueram ainda mais as suas vozes quando o trigo morreu na terra ressequida; até a cevada, mais resistente do que o trigo, parecia encaminhar-se para o mesmo triste fim.

Porém, quando o calor do Verão atingiu um pico insustentável, o Senhor dos Trovões, exibindo o seu sombrio semblante, falou ao nosso reino. Num dia opressivo, sufocante, enviou os seus mensageiros, as nuvens que anunciam as tempestades, aglomerando-os contra o branco metálico do céu. Ia a tarde a meio quando o Sol se escondeu e a escuridão caiu sobre a terra; Zeus explodiu finalmente. Fazendo atroar todo o seu poder ao ponto de ensurdecer os humanos, disparou os seus raios com uma ferocidade tal que a própria Mãe se encolheu, tremendo de medo, pois cada dardo que a sua medonha mão lançava era uma coluna de puro fogo.

Tremendo de terror, transpirando de pânico, balbuciando rezas, refugiei-me num divã da pequena sala que usava perto das áreas públicas e tapei os ouvidos enquanto os trovões rebentavam e aquela luz tão branca e violenta descia vezes sem conta sobre a terra. Menelau, Menelau, onde estás?, perguntava-me eu, desvairada de medo.

Nesse momento, ao longe, ouvi a voz dele. Falava com invulgar animação com alguém que também falava Grego, embora com um acento estrangeiro. Disparei na direcção da porta e corri para os meus aposentos, pois não queria provocar o descontentamento do meu marido; como todas as mulheres do palácio, e porque o calor era muito, acostumara-me a vestir roupa feita de linho egípcio, muito leve e transparente.

Imediatamente antes do jantar, Menelau apareceu nos meus aposentos para me ver entrar no banho. Nunca tentava sequer tocar-me quando eu tomava banho; era a sua oportunidade de não fazer outra coisa senão olhar.

Minha querida - disse ele, pigarreando -, temos uma visita. Gostaria que esta noite vestisses o teu traje régio.

Fitei-o surpreendida.

- É assim tão importante, essa visita?

- Muito. É o meu amigo Páris, príncipe de Tróia.

- Ah sim, lembro-me de me teres falado dele.

- Quero que estejas mais bonita do que nunca, Helena, pois eu falei-lhe muito da tua beleza quando estive em Tróia. E Príamo - vê lá tu - mostrou-se céptico!

Sorridente, rebolei-me na água quente, fazendo transbordar a imensa banheira.

Prometo-te que nunca me terás visto tão bonita como nesta noite.

Tive a certeza de que nunca me tinham visto tão bela, no preciso instante em que entrei no salão de jantar, pouco antes de a corte se reunir para comer a última refeição do dia com o rei e a rainha. Menelau já lá estava, de pé junto à mesa régia, conversando com um homem que estava de costas para mim. Umas costas muito interessantes. Muito mais alto do que Menelau, o homem em questão tinha uma comprida e espessa cabeleira encaracolada que lhe chegava a meio das costas e estava nu da cintura para cima, no que seguia a moda cretense. Sobre os ombros, caía-lhe um enorme colar de pedras preciosas engastadas em ouro; braceletes de ouro e cristal adornavam-lhe os braços portentosos. Olhei para o seu saiote púrpura e para as pernas fortes e bem proporcionadas e senti uma excitação que há muitos anos desconhecia. De costas, era de facto uma bela visão; provavelmente - disse para mim mesma, desdenhando já do que não conhecia - tem uma cara de cavalo.

Dei um jeito nos folhos para que a música soasse. Menelau e o estrangeiro viraram-se. Olhei para o estrangeiro e apaixonei-me. Tão simples como isso. Apaixonei-me. Se eu era a mulher perfeita, ele era, seguramente, a perfeição feita homem. Fiquei parada e pasmada a olhar para ele. Defeito nenhum. A perfeição absoluta. E eu estava apaixonada. - Minha querida - disse Menelau, abeirando-se de mim -, apresento-te o príncipe Páris. Devemos-lhe todas as cortesias e atenções que pudermos prodigalizar-lhe - ele foi para mim um excelente anfitrião. - Menelau olhou para Páris, com as sobrancelhas bem erguidas. - Então, meu amigo, ainda duvidas de mim?

- Não - disse Páris. E de novo: - Não. Menelau sorriu radiante: graças à sua esposa, a noite estava ganha. Um pesadelo, aquele jantar! Rios de vinho eram servidos, ainda que - porque era mulher - eu não pudesse beber uma única gota. Mas que malévolo deus teria convencido Menelau a beber copo atrás de copo, quando, normalmente, era abstémio. Páris estava sentado entre nós dois, o que me impedia de fazer fosse o que fosse para, com modos suaves, convencer o meu marido a parar de beber. Por outro lado, aquele príncipe troiano também não se comportava com a circunspecção que seria de esperar. Claro que eu vira a atracção chamejando nos seus olhos negros no instante exacto em que se haviam, pela vez primeira, fixado em mim; mas havia tantos homens que reagiam assim e que, depois, se mostravam tão tímidos como cordeirinhos... Não era esse o caso de Páris. Ao longo de toda a refeiÇão, desfiou um rosário de escandalosos cumprimentos. Quanto aos seus olhares, eram descaradamente íntimos; dir-se-ia que os seus olhos se tinham esquecido de que estávamos sentados na mesa régia e que estávamos a ser vistos por uma centena de homens e mulheres da corte.

Num tumulto de medo e confusão, fiz o possível para que tais observadores (metade dos quais eram espiões de Agamémnon) pensassem que não se estava a passar nada de menos decente. Procurando mostrar-me cortês e fingindo uma descontracção que não sentia, desatei a perguntar a Páris como era a vida em Tróia, ou se em todas as nações da Ásia Menor se falava Grego, ou se Tróia ficava muito longe de nações como a Assíria ou Babilónia, ou se nessas nações também se falava Grego.

Conhecedor dos femininos artifícios, Páris respondeu-me facilmente e com autoridade, enquanto os seus olhos maliciosos vagueavam entre os meus lábios e o meu cabelo, entre os meus dedos e os meus seios.

À medida que a interminável refeição ia avançando, o discurso de Menelau tornava-se cada vez menos inteligível; o meu marido parecia não ver outra coisa senão o vinho que transbordava do seu copo. E Páris tornou-se cada vez mais atrevido. A certa altura, abeirou-se tanto de mim que pude sentir o seu hálito no meu ombro e cheirar o seu embriagante perfume. A pouco e pouco fui-me afastando dele, acabando por ficar sentada mesmo na ponta do banco.

- Os deuses são cruéis - sussurrou ele - por deixarem tanta beleza nas mãos de um único homem.

- Príncipe Páris, tem cuidado com o que dizes! Suplico-te: sê discreto! A resposta que ele me deu foi um sorriso. O coração pareceu afundar-se no meu peito. Presa de um fogo súbito, comprimi os joelhos um contra o outro.

- Eu vi-te esta tarde - prosseguiu ele, como se eu não tivesse dito nada, fugindo de nós. Tinhas um vestido tão transparente...

Um mar escarlate desenhava-se já sob a minha pele; pedia a todos os deuses que os muitos olhos que nos miravam não reparassem em nada do que se estava a passar.

A mão dele caiu e encontrou o meu braço. Dei um salto, tão intolerável era aquele toque; a sensação que produzira no meu corpo era idêntica ao que sentira quando o Senhor dos Trovões falara.

- Príncipe Páris, por favor! O meu marido pode ouvir-te! Rindo-se a bom rir, voltou a pôr a mão na mesa, mas de uma forma tão abrupta que fez tombar o seu copo; o vinho tinto espalhou-se como um lago pela pálida madeira. Acenei para que um criado viesse limpar a mesa, mas, enquanto eu acenava, ele abeirava-se uma vez mais de mim.

- Amo-te, Helena - disse ele. Os criados! Teriam ouvido? Porque é que os rostos dos criados nunca diziam nada, sempre que executavam as ordens dos seus superiores? Olhei de relance para Menelau: estava ébrio, muito ébrio, os seus olhos sonolentos miravam o vazio.

Com efeito, estava demasiado embriagado para ir ter comigo naquela noite. Os criados levaram-no para os seus aposentos e deixaram-me seguir sozinha para os meus. Por um longo período de tempo, deixei-me ficar sentada à janela do meu salão, pensando: Que havia de fazer? Como havia de passar os próximos dias talvez muitos, não sabia quantos - sabendo que aquele homem, aquele perigo, estaria presente? Uma única refeição ao seu lado e ficara arrasada. Seduzia-me despudoradamente, achando que o meu marido era demasiado idiota para se dar conta disso. Mas Menelau não se apercebera de nada unicamente por causa do vinho - e, no jantar do dia seguinte, Menelau estaria sóbrio. Mesmo o mais estúpido dos homens tem, dentro de si, um vigilante; além disso, não me admirava nada que um dos nobres da casa fosse intrigar junto dele. Agamémnon pagava-lhes para que eles espiassem tudo. Bastava que um deles decidisse que eu era infiel e, um dia depois, Agamémnon condenar-me-ia por infidelidade. Páris, ainda que fosse um príncipe troiano, perderia a sua cabeça. Tal como eu. Tal como eu!

Dividida entre o medo e o desejo, sofria horrivelmente. Ah, eu amava-o tanto! Mas que espécie de amor era aquele, tão súbito, tão avassalador tão de repente? À mera lascívia, sabia eu resistir; aprendera a resistir-lhe ao longo do meu casamento. O amor, em contrapartida, era irresistível. Ansiava estar com Páris por todos os motivos. Ansiava viver a minha vida com ele. Queria saber o que ele pensava, como é que ele vivia, o que é que ele sentia, como era a sua aparência enquanto dormia. A seta trespassara-me, a seta que levara Fedra ao suicídio, Dánae a atirar-se para uma arca que o seu pai lançara ao mar, Orfeu a enfrentar o reino de Hades em busca de Eurídice. A minha vida já não me pertencia; pertencia a Páris. Eu seria capaz de morrer por ele! Contudo... Que êxtase poder viver para ele!

Menelau entrou no meu quarto pouco depois de eu me ter deitado exausta, enquanto os galos cantavam estridentes e a orla do céu oriental empalidecia sob o nevoeiro. Com um ar constrangido, recusou-se a beijar-me.

- O meu hálito tresanda a vinho, minha querida. É estranho que eu tenha bebido tanto. Não faz sentido.

Acenei-lhe para que se sentasse ao meu lado.

- Como estás esta manhã, tirando o hálito? Menelau sorriu.

- Um pouco mal-disposto. - De súbito, franziu o sobrolho. -Helena, estou com um problema.

Fiquei com a boca seca; dei comigo a molhar os lábios. Um dos nobres da casa tinha-lhe contado tudo! Palavras! Eu tinha de encontrar as palavras certas!

- Um problema? - balbuciei.

- Sim. Um mensageiro de Creta acordou-me. O meu avô Catreu morreu e Idomeneu decidiu atrasar o funeral, a fim de que eu ou Agamémnon possamos cOmParecer. Claro que Idomeneu está à espera que seja eu. Agamémnon não pode sair de Micenas.

Sentei-me na cama, boquiaberta.

- Menelau! Tu não podes ir!

A minha veemência surpreendeu-o, mas entendeu-a como um cumprimento.

- Não há alternativa, Helena. Tenho mesmo de ir a Creta.

- E vais estar fora muito tempo?

- Pelo menos meio ano. Podias saber um bocadinho mais de geografia... Os ventos outonais levar-me-ão até Creta, mas terei de esperar pelos ventos do Verão para regressar.

- Oh - disse eu, e suspirei. - Quando tens de partir? Menelau apertou-me o braço.

- Hoje, minha querida. Terei de ir primeiro a Micenas, a fim de falar com Agamémnon, e, como terei de fazer-me ao mar a partir de Lerna ou Náuplia, não poderei passar por aqui. É pena, mas que havemos nós de fazer? - disse ele, deliciado com a minha consternação.

- Mas tu não podes partir, Menelau. Já te esqueceste de que tens um convidado real na tua casa?

- Páris compreenderá. Realizarei os ritos de purificação esta manhã, antes de partir para Micenas. Mas dir-lhe-ei também que permaneça aqui o tempo que quiser.

- Leva-o para Micenas contigo - disse eu, de súbito inspirada.

- Helena, francamente! A correr? Claro que ele pode ir a Micenas, mas com tempo!

- disse o meu tonto marido, ansioso por agradar ao convidado, mas cego perante o perigo que ele representava.

- Menelau, tu não podes deixar-me sozinha com Páris! - exclamei. Menelau pestanejou.

- Porque não? O que não falta na nossa corte são damas de companhia, Helena...

- Agamémnon pode não ser da mesma opinião. A minha mão apertava-lhe o antebraço; ele baixou-se para a beijar e para me afagar o cabelo.

- Helena, fica tranquila. As tuas preocupações são encantadoras, mas desnecessárias. Eu confio em ti. Agamémnon confia em ti.

Como explicar-lhe que era eu que não confiava em mim mesma?

Nessa tarde, desci a escadaria do palácio para me despedir do meu marido. De Páris, nem sinal.

Logo que os carros e carroças desapareceram, regressei aos meus aposentos e aí fiquei. Disse aos criados para me trazerem as refeições. Se Páris não me visse, era possível que se cansasse daquele jogo de sedução - e, quem sabe, podia ser que partisse para Micenas ou para Tróia. Por outro lado, deste modo, os nobres da corte também não teriam qualquer oportunidade de nos verem juntos.

Porém, quando a noite veio, não consegui dormir. Depois de muito vaguear pelo meu quarto, decidi sentar-me junto à janela. A mais absoluta escuridão caíra sobre Amiclas: não se via uma única luz e as montanhas pareciam anónimas corcundas da terra contra o pano de fundo de um céu estrelado. A lua cheia pairava imensa e prateada, derramando silenciosamente uma delicada luz pelo vale de Lacedemónia. Assomei à janela e, sorvendo o ar da noite com   um prazer extremo, deixei que toda esta quietude me penetrasse e aquietasse os nervos. Vivia ainda este apaziguamento encantado quando me dei conta de que ele estava atrás de mim, contemplando a beleza dos céus por cima do meu ombro. Não gritei, nem me virei, mas ele sabia que eu estava consciente da sua presença. As mãos dele envolveram os meus cotovelos e, suavemente, levaram o meu corpo a repousar contra o seu.

- Helena de Amiclas, és tão bela como Afrodite.

O meu corpo ficou sem forças. Movi um pouco a cabeça sob o seu queixo.

- Não tentes essa deusa, Páris. Ela detesta rivais.

- Mas não te detesta a ti, Helena... Não compreendes? Foi Afrodite quem me ofereceu Helena... Eu pertenço à deusa, sou o seu favorito.

- É por isso que, segundo se diz, nunca fizeste um filho?

- É. -As mãos dele moviam-se em círculos lentos na minha cintura, sem qualquer pressa, como se ele tivesse todos os dias do mundo para fazer amor comigo. Os lábios encontraram a minha nuca.

- Helena, nunca desejaste ardentemente deixar este palácio durante a noite e correr para as mais recônditas paragens da floresta? Nunca invejaste a leveza e a agilidade do veado? Nunca sonhaste correr tão livre como o vento e cair exausta sob o corpo do único homem que amas?

Duas respostas deu o meu corpo: um espasmo percorreu-me os tendões, mas a minha boca seca retorquiu: - Não. Eu nunca sonho com coisas dessas.

- Pois eu sonho. E, nos meus sonhos, tu estás sempre presente. Vejo a tua longa cabeleira loura flutuando enquanto corres, as tuas longas pernas lutando para que o caçador que eu sou não te consiga apanhar. Era assim que eu deveria ter-te conhecido, e não neste palácio vazio e sem vida. - As mãos dele abriram-me o roupão e descansaram, tão leves como plumas, sobre os meus seios.

-Ao pé de ti, todo o brilho dos palácios empalidece. Nesse momento, tudo se precipitou. Virei-me para os seus braços e olvidei tudo, excepto que ele era a minha outra metade, o meu companheiro natural. Que eu o amava, que eu o amava verdadeiramente.

Escrava dos seus desejos, jazia nos seus braços tão lânguida e mole como a boneca de trapos da minha filha. A manhã nascia, mas eu só queria que não nascesse mais manhã nenhuma.

- Vem para Tróia comigo - disse ele de súbito. Ergui-me para ver o seu rosto, para ver o meu amor reflectido naqueles belos olhos negros.

- Isso seria uma loucura - retorqui.

- Loucura, não; bom senso - Uma mão demorava-se no meu ventre, a outra brincava com o meu cabelo. - Tu não nasceste para seres esposa de um homem insensível e estúpido como Menelau. Tu nasceste para seres minha.

- Eu nasci nesta terra, nasci neste mesmo quarto. Eu sou a rainha. Os meus filhos vivem neste palácio. - Limpei as lágrimas que começavam a molhar-me as faces.

- Helena, tu pertences a Afrodite, tal como eu! Em tempos, jurei solenemente no templo de Afrodite que lhe daria tudo - preteri Hera e Palas Atena para a adorar apenas a ela. E pedi-lhe que me concedesse apenas uma coisa: uma mulher chamada Helena.

- Eu não posso abandonar o meu reino!

- Helena, tu não podes ficar. Eu não ficarei.

- Oh, amo-te tanto, Páris! Como poderei viver sem ti?

- Não viverás sem mim, Helena.

- Pedes-me o impossível. -As minhas lágrimas eram já um rio descendo pelas faces.

- De modo nenhum! Qual é o obstáculo, Helena? Os teus filhos? Esta pergunta fez-me reflectir. A minha resposta não poderia ter sido mais sincera.

- Não, de facto, não. O problema dos meus filhos é que... são tão vulgares! São iguais a Menelau. Até no cabelo! Até têm sardas...

- Se os teus filhos não são um obstáculo, então só vejo uma razão: Menelau. Seria? Não, não era. Pobre Menelau: dominado, oprimido, um mero títere nas mãos de Micenas. No fim de contas, que obrigações tinha eu para com ele? Eu não quisera casar com Menelau! As obrigações que tinha para com ele eram as mesmas que tinha para com o seu irmão, aquele homem de ar carrancudo e modos ameaçadores que nos usava a todos nós como simples peças num jogo monumental. Agamémnon não atribuía qualquer importância à pessoa que eu realmente era - aos meus desejos, às minhas necessidades, aos meus sentimentos.

- Irei contigo para Tróia - respondi por fim. - Não há nada que me prenda a Amiclas. Nada.

 

                                           Narrado por Heitor

O capitão do porto de Sigeu mandou-me um mensageiro com a notícia de que a frota de Páris regressara finalmente de Salamina; mal cheguei à sala onde o rei concedia as suas audiências diárias, ordenei a um pajem que fosse dar a notícia ao meu pai. Eram as audiências do costume, enfadonhas e intermináveis disputas por causa de propriedades, escravos, terras e outras causas que tais, uma embaixada da Babilónia, uma queixa em torno de direitos de pasto apresentada pelos nossos parentes nobres da Dardânia e defendida, como sempre, pelo tio Antenor.

A embaixada da Babilónia fora já recebida e o rei estava prestes a pronunciar a sua sentença acerca de um caso sem qualquer importância, quando as trombetas soaram e Páris avançou todo emproado pela Sala do Trono. Impossível não sorrir, dado o seu traje; transformara-se num consumado cretense! Tudo nele eram requintes, desde o saiote púrpura franjado de fios de ouro até às jóias e aos caracóis do cabelo. Estava com óptimo aspecto e parecia muito satisfeito consigo mesmo. Que andara ele a tramar para parecer um chacal que conseguia chegar à presa antes do leão? É claro que, nos olhos do nosso pai, brilhava já a luz do seu amor senil - como era possível que um homem sábio o bastante para estar sentado num trono ficasse tão cego perante coisas tão primárias como o encanto e a beleza?

Páris chegou rapidamente ao estrado e estava já a instalar-se no degrau de cima quando me aproximei. Antenor, um abelhudo incurável, encontrava-se também SUficientemente perto para poder ouvir toda a conversa. Decidi então colocar-me ostensivamente junto ao trono do meu pai.

- Trazes boas notícias, meu filho? - perguntou o rei.

- Acerca da tia Hesíona, não - disse Páris, abanando a cabeça, os anéis do cabelo num vaivém. - O rei Télamon mostrou-se extremamente cortês, mas recusOu-se categoricamente a entregar-nos a tia Hesíona.

O meu pai todo se inteiriçou: de súbito, a brandura dava lugar à fúria. Nunca conheci um ódio tão profundo como aquele. Por que razão - ao fim de tantos anos! - continuava o meu pai a abominar tão implacavelmente a Grécia? O silvo da sua respiração silenciou toda a sala.

- Como se atreve? Como se atreve Télamon a insultar-me? Viste a tua tia, tiveste oportunidade de falar com ela?

- Não, meu pai, não pude ver a tia Hesíona.

- Malditos sejam todos eles! - Empinou muito a cabeça e cerrou os olhos. ó poderoso Apolo, Senhor da Luz, Senhor do Sol e da Lua e das Estrelas, concede-me a oportunidade de reduzir a pó o orgulho grego!

Inclinei-me para ele e disse-lhe:

- Pai, acalme-se! Não estava à espera de outra resposta, pois não?

O rei Príamo virou a cabeça na minha direcção e abriu os olhos.

- Não, suponho que não. Obrigado, Heitor. Como sempre, és tu quem me faz regressar à fria realidade. Mas por que raio é que os Gregos hão-de levar sempre a sua avante? Por que raio é que hão-de ficar impunes se cometeram um crime - o rapto de uma princesa troiana?

Páris colocou a mão no joelho do nosso pai, afagou-o delicadamente. O rei olhou para ele e logo a sua expressão ganhou uma doçura nova.

- Pai, a arrogância grega não ficou impune. Eu dei-lhe o melhor dos castigos - disse Páris, os olhos muito brilhantes.

Chegara a pensar em retirar-me, mas houve qualquer coisa no tom com que Páris disse aquilo que me deteve.

- Como, meu filho?

- Olho por olho, dente por dente, meu pai! Os Gregos raptaram a tua irmã, não foi? Pois eu trouxe-te da Grécia uma presa muito mais valiosa do que uma simples rapariga de quinze anos! - Ergueu-se de um salto, tão cheio de si que já não suportava continuar sentado aos pés do rei Príamo.

- Pai - exclamou ele, com uma voz tão sonora que chegava às alturas do tecto -, eu trouxe-te Helena! A rainha da Lacedemónia, esposa de Menelau, o irmão de Agamémnon, e irmã da rainha Clitemenestra, esposa de Agamémnon!

Tão grande foi o choque que senti que fiquei sem saber o que dizer - uma tragédia, pois o tio Antenor pôde falar primeiro do que eu. Avançou tão depressa quanto pôde, erguendo as mãos - as juntas inchadas dos dedos faziam com que estas parecessem enormes e disformes garras.

- O que tu fizeste foi a mais estúpida das ingerências, digna do mais ignorante e imbecil dos homens! - atroou Antenor - Será possível que essa carinha efeminada não veja outra coisa senão saias? Já agora, podias ter feito jus à tua cegueira de pinga-amor e raptado a própria Clitemenestra! Os Gregos não se revoltaram por causa dos nossos embargos comerciais, nem por causa da escassez de estanho e cobre, mas vão revoltar-se por causa do que tu fizeste! Idiota! Imbecil! Deste a Agamémnon a oportunidade de que ele estava à espera há um ror de anos! Lançaste-nos para uma guerra que será a ruína de Tróia! O que te falta em tino, sobra-te em presunção! Ah, se ao menos o teu pai te tivesse enjeitado! Se ao menos ele tivesse sufocado à nascença a tua devassidão! Quando tivermos colhido todas as tempestades dos ventos que semeaste, nenhum Troiano pronunciará o teu nome sem cuspir de nojo!

Uma parte de mim aplaudiu silenciosamente o discurso do velho; com efeito, ele ecoava os meus próprios sentimentos. No entanto, ao mesmo tempo, amaldiçoava o tio Antenor. Que teria decidido o meu pai se Antenor se tivesse calado? Quando Antenor acusava, o rei defendia. Príamo podia até estar de acordo com Antenor, mas Antenor, com aquele discurso inflamado, empurrara-o para o lado de Páris.

O meu irmão estava estupefacto com a reacção.

- Pai, eu fi-lo por ti! - disse ele, suplicante. Antenor fitou-o com um sorriso de escárnio.

- Ah, sim, claro, claro que o fizeste pelo teu pai! E já te esqueceste do mais famoso de todos os oráculos? «Cuidado com a mulher grega que é raptada e levada para Tróia! Não achas que o oráculo fala por si?

- Não, eu não me esqueci do oráculo! - gritou o meu irmão. - Mas Helena não foi raptada! Ela veio comigo de livre vontade porque quer casar-se comigo! E, como prova disso, trouxe consigo um magnífico tesouro - ouro e jóias que chegam para comprar um reino! Um dote, pai, um dote! - E deu um risinho satisfeito. - Eu fiz pior aos Gregos do que raptar uma rainha - eu pus-lhes os cornos!

Antenor parecia ter perdido a batalha. Abanando lentamente a cabeça alva, refugiou-se entre os cortesãos. Páris fitava-me suplicante.

- Heitor, ajuda-me! - disse.

- Como posso ajudar-te? - perguntei furioso. Páris virou-se de novo para o pai, ajoelhou e, com os seus braços, envolveu as pernas do rei.

- Diz-me, meu pai: que mal poderá advir daquilo que eu fiz? - perguntou ele, tentando puxar o pai ainda mais para o seu lado. - Alguma vez a fuga voluntária de uma mulher deu origem a uma guerra? Helena veio de sua livre vontade! Helena não é uma menina pequena! Tem vinte anos, é uma mulher! Esteve casada durante seis anos - tem filhos! Imagina só quão terrível foi a sua vida para ter tomado esta decisão! Para ter deixado um reino e os seus filhos! Pai, eu amo-a! E ela ama-me! - exclamou ele, com uma voz pateticamente embargada, as lágrimas começando a deslizar pelas faces.

Ternamente, o rei afagou o cabelo de Páris.

- Quero vê-la - disse o nosso pai.

- Não, espera! - Era Antenor que voltava à carga.         Rei Príamo, antes de veres essa mulher, suplico-te que me oiças! Manda-a de volta para a sua terra, Príamo, manda-a de volta para a Lacedemónia! Manda-a de volta para Menelau sem que ninguém a veja - e apresenta as tuas mais sinceras desculpas e devolve-lhe todos os tesouros que ela trouxe e recomenda-lhe que corte a cabeça à esposa infiel! Porque é isso que ela merece! Amor ! Que amor é esse que abandona os filhos? Não será essa uma prova mais do que suficiente? Ela trouxe para Tróia um tesouro magnífico, mas não os seus filhos!

O meu pai não queria olhar para ele, mas devia saber o que todos nós estávamos a sentir, pois não fez qualquer tentativa para interromper o discurso.

Antenor pôde continuar a falar.

Príamo, eu receio o rei supremo de Micenas - e tu devias também receá-lo! O ano passado, ouviste Menelau gabar-se de que o seu irmão Agamémnon conseguira transformar toda a Grécia num obediente vassalo de Micenas! Que acontecerá, se Agamémnon optar pela guerra? Mesmo que o derrotemos, ele arruinar-nos-á. A riqueza de Tróia tem crescido desde tempos imemoriais por uma única razão - Tróia sempre evitou a guerra! A guerra destrói as nações, Príamo quantas vezes te ouvi dizer isso! O oráculo afirma que a mulher que há-de vir da Grécia será a nossa ruína. E, no entanto, tu queres vê-la! Presta atenção ao que os nossos deuses dizem! Não feches os teus ouvidos à sabedoria dos seus oráculos! Que são os oráculos senão uma oportunidade que os deuses dão aos mortais de entreverem o futuro? Tu prosseguiste a obra de Laomedonte, teu pai, e agravaste as suas medidas - enquanto Laomedonte se limitou a restringir o número de navios mercantes gregos com acesso ao Euxino, tu proibiste todos os navios gregos de entrarem no Euxino. E agora, os Gregos têm fome de estanho! Sim, eu sei que eles podem ir buscar cobre a ocidente, ainda que tenham de pagar um preço incomportável. Mas o estanho - onde poderão eles ir buscá-lo? A sítio nenhum! Apesar de serem ricos e poderosos.

Com o rosto sulcado de lágrimas, Páris ergueu os olhos para o rei.

- Pai, eu já te disse: Helena não foi raptada! Ela veio de sua livre vontade! Portanto, Helena não pode ser a mulher de que falam os oráculos - não ppode!

Desta feita, consegui ser mais rápido do que Antenor. Abandonei o estrado e falei.

- Páris, tu dizes que ela veio de sua livre vontade - mas que dirão os Gregos? Achas que Agamémnon dirá aos reis seus vassalos que o seu irmão é O mais ridículo dos homens - um cornudo? Não Agamémnon, que é o mais orgulhoso dos homens! Não, Agamémnon dir-lhes-á que Helena foi raptada. Antenor tem razão, pai. Estamos a um passo da guerra. E uma guerra contra a Grécia não nos afectará apenas a nós. Nós temos aliados, pai! Pertencemos a uma federação de estados da Ásia Menor. Temos tratados de comércio e amizade com todas as nações costeiras entre a Dardânia e a Cilícia, e também com todas as nações interiores até à Assíria e, a norte, até à Cítia. As terras costeiras são ricas e pouco povoadas - não possuem efectivos suficientes para enfrentar o invasor grego. Essas nações apoiam o nosso bloqueio e têm enriquecido com a venda de estanho e cobre aos Gregos. Caso haja uma guerra, crês que Agamémnon limitará a sua acção a Tróia? Não! Haverá guerra por todo o lado!

o meu pai olhava-me fixamente; olhei-o também, sem medo. Momentos antes, dissera-me, «Como sempre, és tu quem me faz regressar à fria realidade». Mas agora - disse para mim mesmo, desesperado - o meu pai abandonara a realidade. As minhas palavras e as de Antenor haviam tido um único efeito: levá-lo a tomar a posição contrária à que pretendíamos.

- Ouvi já tudo o que me interessa ouvir - disse ele, num tom gélido. Arauto, manda entrar a rainha Helena.

Aguardámos. Toda a sala estava tão quieta e calada como um túmulo. Lancei ao meu irmão um olhar feroz, perguntando-me como fora possível que tivéssemos permitido que Páris se houvesse transformado num tão consumado idiota. Páris virara as costas ao pai (ainda que mantivesse uma mão no joelho dele, afagando-o) e olhava fixamente para as portas, a boca encurvada num imenso sorriso de vaidade. Ele não tinha a menor dúvida de que estávamos todos à espera de uma surpresa maravilhosa: lembrava-me muito bem de Menelau ter dito que Helena era uma bela mulher. Mas eu sempre desconfiei de tais elogios quando as elogiadas eram rainhas ou princesas. Muitas eram as que recebiam tal epíteto só porque tinham o título.

As portas abriram-se de par em par e ela parou por um momento antes de avançar na direcção do trono. Ao sabor dos seus movimentos, a saia emitia um delicado tinido, transformando-a numa melodia viva. Dei comigo boquiaberto, a respiração suspensa; tive de forçar-me a exalar. Não havia dúvida: ela era a mais bela mulher que eu jamais vira. Até Antenor estava de boca aberta.

Com os ombros para trás e a cabeça imperiosamente erguida, caminhava com dignidade e graça, sem sombra de vergonha ou de timidez. De elevada estatura, para uma mulher, possuía o mais soberbo corpo que Afrodite dera a humanas fêmeas. Cintura estreita, ancas gracíosamente cheias, longas pernas. Não, não havia nela nada que não agradasse. Os seios! Nus, de acordo com a indecorosa moda grega, erectos e cheios, desconheciam todos os artifícios, excepto que os mamilos estavam pintados a ouro. Um tempo infindo pareceu passar até os nossos olhos Pousarem naquele pescoço de cisne. Superlativos, demasiados superlativos! A memória que tenho dela nesse dia é simples: Helena era simplesmente... bela.

Massas de cabelo ouro-pálido, sobrancelhas e pestanas negras, os olhos da cor da relva primaveril, maquilhados com um fino traço que subia nos cantos, à maneira das Cretenses e Egípcias.

Quanto do que estávamos a ver seria real e quanto não seria mais do que um encantamento? Nunca o saberei. Helena é a maior obra de arte que os deuses jamais puseram na Mãe Terra.

Para o meu pai, Helena era o Destino. Não tão velho que tivesse olvidado os prazeres que as mulheres nos davam, Príamo olhou para ela e apaixonou-se. Não sei se terá sido amor, se mera lascívia. Porém, como era demasiado velho para a roubar ao filho, preferiu considerar como um elogio a si mesmo o facto de um fílho seu ter conseguido seduzi-la e roubá-la ao marido, aos filhos, à sua própria terra. Inchado de orgulho, virou os seus olhos maravilhados para Páris.

Faziam sem dúvida um casal notável: ele, tão escuro como Ganimedes, ela, tão loura e branca como Ártemis da floresta. Apenas com uma breve caminhada, Helena vencera por completo a silenciosa sala. Nenhum dos homens presentes poderia continuar a censurar Páris pela loucura que cometera.

Logo que o rei dissolveu a assembleia, coloquei-me ao seu lado, subindo deliberadamente para o estrado e aproximando-me lentamente do trono. Ficava assim três degraus mais alto do que os amantes fugitivos e muito mais alto do que o trono de ouro e de marfim do meu pai. Normalmente, não exibia tão brutalmente o meu estatuto de herdeiro, mas a verdade é que Helena bulia-me com os nervos; queria que ela soubesse qual era o lugar exacto de Páris na corte - e qual era o meu lugar. Os seus estranhos e insondáveis olhos verdes fixaram-se no meu rosto.

- Querida rainha, este é Heitor, o meu herdeiro - disse o meu pai. Helena inclinou solene e regiamente a sua cabeça.

- Muito prazer em conhecer-te, Heitor. - Os olhos dela ganharam de súbito uma vivacidade coquete. - Por todos os deuses, Heitor, és um homem enorme!

Era obviamente uma provocação. Porém, não era o desejo que ela queria provocar em mim; no que tocava a homens, as suas inclinações iam mais para os efeminadamente belos como Páris do que para os guerreiros possantes como eu. Ainda bem que assim era: eu não sabia se conseguiria resistir-lhe.

- O maior de Tróia, rainha - retorqui, incapaz de disfarçar a tensão.

Ela riu-se.

- Não duvido, não duvido... - disse.

- Pai - disse eu - dás-me licença que me retire?

- Os meus filhos são verdadeiramente magníficos, não são, rainha Helena?

- disse o meu pai, inchado de satisfação. - Heitor é o orgulho do meu coração

- um grande homem! Um dia, será um grande rei!

Helena nada disse, enquanto me apreciava atentamente; porém, para lá do seu Olhar brilhante, a mente perguntava-se se não seria possível afastar-me e pôr Páris no meu lugar. Ela que pensasse o que quisesse! O tempo ensinar-lhe-ia que Páris abominava todo o tipo de responsabilidades.

Estava já prestes a sair quando o meu pai me chamou:

- Espera, espera! Heitor, diz a Calcas que quero falar com ele. Uma estranha ordem. Porque quereria o rei falar com aquele homem repulsivo, excluindo Lacoonte e Teano? Havia muitos deuses na nossa cidade, mas a nossa principal divindade era Apolo. O culto de Apolo era uma especificidade nossa, o que fazia com que os seus sacerdotes - Calcas, Lacoonte e Teano - fossem os prelados mais poderosos de Tróia.

Encontrei Calcas caminhando sonolentamente à sombra do altar dedicado a Zeus do Pátio. Não questionei sequer o facto de ele ali estar; Calcas era o tipo de homem cujos actos ninguém questionava. Envergava uma longa e ondeante túnica negra, bordada a prata com estranhos signos e símbolos, e a pele doentiamente branca da sua cabeça calva brilhava tenuemente à luz do entardecer. Certa vez, era eu ainda uma criança, descobrira um ninho de cobras, tão brancas como arminho, na cripta do palácio. Porém, depois de ter encontrado essas criaturas cegas e debilitadas, escravas de Kore, nunca mais me aventurara a descer à cripta. Calcas despertava em mim precisamente os mesmos sentimentos.

Dizia-se que Calcas viajara por todo o mundo, desde as terras dos Hiperbóreos ao rio do Oceano, desde terras muito a oriente de Babilónia a terras muito a sul da Etiópia. Aindumentária de Calcas fora imitada da dos sacerdotes de Ur e da Suméria. No Egipto, assistira aos rituais que haviam sido transmitidos, ao longo de muitas gerações de ilustres sacerdotes, desde o princípio dos deuses e dos homens. Outras coisas se diziam a respeito dele: que era capaz de preservar os corpos dos mortos, de tal modo que estes, ao fim de cem anos, pareciam não ter sofrido a corrosão natural do tempo; que Participara nos horrendos ritos do negro Seth; dizia-se até que beijara o falo de Osíris e que acedera assim ao supremo conhecimento. Nunca consegui gostar dele. Emergi dos pilares e avancei para o pátio. Ele sabia que era eu quem se aproximava, embora não tivesse olhado para mim uma única vez.

- Procuras-me, príncipe Heitor?

- Sim, sagrado sacerdote. O rei quer que vás ter com ele à Sala do Trono.

- Para falar com a mulher que veio da Grécia. Eu vou. Fui à frente dele - como era meu direito - pois ouvira falar de sacerdotes que julgavam poder tornar-se eminências pardas dos reis; não queria que Calcas nutrisse tais esperanças.

Enquanto Helena o fitava com uma repulsa constrangida, Calcas beijou as mãos do meu pai e aguardou que ele falasse.

- Calcas, o meu filho Páris trouxe uma noiva. Quero que os cases amanhã.

- Como te aprouver, rei Príamo. De seguida, o rei ordenou a Páris e Helena que se retirassem.

- Vai, Páris, e mostra a Helena o seu novo lar - disse ele para o meu estúpido irmão.

Saíram de mão dada. Desviei os olhos daquele espectáculo de felicidade. Calcas permanecia silencioso, imóvel.

- Sabes quem ela é, sacerdote? - perguntou o meu pai.

- Sei sim, rei Príamo: é Helena. A mulher grega raptada. Estava à espera dela.

Estaria mesmo? Ou teriam sido os seus espiões tão eficientes como sempre?

- Calcas, tenho uma missão para ti.

- Sim, rei Príamo.

- Preciso dos conselhos da pitonisa de Delfos. Vai a Delfos após o casamento e descobre o que significa Helena para nós.

- Sim, rei Príamo. Deverei obedecer à pitonisa?

- Claro. A pitonisa é a Boca de Apolo. Que se estaria a passar realmente ali, na Sala do Trono? perguntei-me. Quem enganava quem? As respostas estavam na Grécia. Todas as respostas pareciam estar na Grécia. Seria o Oráculo de Delfos servo do Apolo troiano ou do Apolo grego? Seriam os dois Apolos o mesmo deus?

O sacerdote retirou-se. Fiquei finalmente a sós com o meu pai.

- Tomaste uma decisão lamentável - disse-lhe eu.

- Não, Heitor, eu tomei a única decisão possível. - Ergueu as mãos irritado. - Não percebes que não podia mandá-la embora? O mal está feito, Heitor. Está feito desde o momento em que ela deixou o seu palácio de Amiclas.

- Nesse caso, pai, não a devolvas toda aos Gregos: devolve-lhes apenas a cabeça.

- É tarde de mais, Heitor - retorquiu ele, o seu pensamento vagueando já por outras paragens. - Tarde de mais... tarde de mais...

 

                                   Narrado por Agamémnon

Clitemenestra estava de pé junto à janela, banhada pelo sol. A luz semeava na sua cabeleira chamas acobreadas, tão ardentes e brilhantes como ela própria. A minha esposa não possuía a beleza de Helena, mas, para mim, os seus atractivos eram mais interessantes e o seu sexo mais forte. Clitemenestra era uma fonte viva de poder, não um simples ornamento.

A vista que dali se desfrutava sempre a encantara, talvez porque era o claro espelho da magnífica situação geográfica de que Micenas gozava. A nossa cidadela era mais elevada do que todas as outras. Dali se via uma paisagem imensa, desde a montanha do Leão ao vale de Argos, o extenso verde dos campos cultivados, e depois, mais acima, as montanhas que nos rodeavam, com as suas densas florestas de pinheiros sobranceiras a vastos olivais.

A certa altura, gerou-se um tumulto à porta do meu quarto; ouvia distintamente as vozes dos meus guardas, protestando que o rei e a rainha não queriam ser incomodados. Irritado e intrigado, levantei-me. Porém, não tinha dado ainda um passo quando a porta se abriu de par em par e Menelau entrou cambaleante. Veio direito a mim, caiu de joelhos, encostou a cabeça às minhas coxas e desatou a soluçar. Lancei um olhar aturdido a Clitemenestra, que fitava o meu irmão estupefacta.

- Que se passa? - perguntei, afastando-o dos meus joelhos e sentando-o numa cadeira, Mas a resposta de Menelau eram lágrimas, apenas lágrimas. Tinha o cabelo emaranhado e sujo, as vestes em desalinho, uma barba de três dias. Clitemenestra encheu um copo de vinho sem água e estendeu-mo. Depois de ter bebido, Menelau acalmou-se um pouco: pelo menos, os soluços abrandaram.

- Menelau, conta-nos o que se passa.

- Helena partiu!

Clitemenestra correu para ele. -Morreu?

- Não! Antes tivesse morrido! Helena deixou-me, Agamémnon!                  Soergueu-se na cadeira, fez um esforço para se controlar.

- Conta-me tudo devagar, Menelau - pedi-lhe.

- Regressei de Creta há três dias. Ela não estava lá... Ela fugiu, irmão - fugiu para Tróia com Páris.

Ficámos parados a olhar para ele, boquiabertos de espanto.

- Fugiu para Tróia com Páris - repeti eu, quando pude.

- Sim, sim! E levou consigo o tesouro!

- Não acredito - disse eu.

- Oh, podes acreditar, marido, podes acreditar! Aquela harpia estúpida e lasciva! silvou Clitemenestra. - Outra coisa não seria de esperar de uma mulher que se entregou a Teseu! Uma rameira, é o que ela é! Uma prostituta! Uma cadela amoral!

- Tento na língua, mulher! Ela mostrou-me os dentes, mas obedeceu.

- Quando aconteceu isso, Menelau? Com certeza que foi há menos de cinco luas!

- Há quase seis luas, irmão - foi no dia em que eu parti para Creta.

- Não é possível! Admito que não estive em Amiclas na tua ausência, mas tenho bons amigos na cidade - amigos que, sem demora, me teriam comunicado o sucedido.

- Ela lançou-lhes o mau olhado, Agamémnon! Helena foi ao Oráculo da Mãe Kubaba e falsificou a sua mensagem: o Oráculo, segundo ela, dizia que eu usurpara o trono da Lacedemónia. Depois, convenceu a Mãe Kubaba a amaldiçoar os meus nobres. Nestas condições, ninguém se atreveria a contar-te.

Sufoquei a raiva que sentia.

- Com que então, na Lacedemónia, a Mãe e a Velha Religião continuam a ser reis e senhores ... ! Deixa estar que eu trato disso ... ! Mais de cinco luas e eu sem saber de nada... - Encolhi os ombros. - Bom, agora já não há nada a fazer. Não vale a pena ir atrás de Helena.

-Não há nada a fazer? Não vamos fazer nada? - disse Menelau, erguendo-se de um salto. - Agamémnon, tu és o rei supremo! Tens de fazer tudo para que ela volte!

- Ela levou os filhos? - perguntou Clitemenestra.

- Não - disse ele. -Apenas o tesouro.

- Por aí se vê quais são as prioridades daquela cadela... -, rosnou a minha esposa. - Esquece-a, Menelau! Ficas muito melhor sem ela!

Menelau ajoelhou-se, de novo em lágrimas.

- Eu quero que ela volte! Eu quero que ela volte, Agamémnon! Dá-me um exército! Dá-me um exército e deixa-me seguir para Tróia!

- Levanta-te, irmão! Controla-te!

- Dá - me um exército! - exclamou ele, fora de si. Suspirei de enfado.

- Menelau, isto é um caso meramente pessoal. Não te posso dar um exército só para levares a tribunal uma prostituta! Admito que todos os Gregos têm razões de sobra para odiarem Tróia e os Troianos, mas nenhum dos reis meus vassalos consideraria a fuga voluntária de Helena razão suficiente para declararem guerra a Tróia.

- Tudo o que eu te peço é um exército formado pelas minhas e pelas tuas tropas, Agamémnon!

- Tróia reduziria os nossos homens a pó, Menelau. Consta que o exército de Príamo tem cerca de cinquenta mil soldados - expliquei-lhe eu.

Nesse instante, Clitemenestra deu-me uma cotovelada nas costas.

- Marido, já te esqueceste do Juramento? - perguntou. - Graças ao Juramento do Cavalo Esquartejado, podes formar um exército muito maior! Cem reis e príncipes pronunciaram esse Juramento!

Abri a boca para a informar de que as mulheres não passavam de uns seres idiotas, mas fechei-a imediatamente sem lhe dizer uma única palavra. A Sala do Trono não ficava longe; foi para lá que fui sem mais demoras. Sentei-me na Cadeira do Leão, as minhas mãos coladas às garras que rematavam os seus braços, e reflecti.

Um dia antes, apenas, recebera uma delegação de reis de toda a Grécia, protestando contra o encerramento do Helesponto e as consequências daí advindas. Já não tinham dinheiro que chegasse para comprar estanho e cobre aos estados da Ásia Menor. As nossas reservas de metais - e, em particular, de estanho - haviam chegado ao fim; as relhas dos arados, agora, eram feitas com madeira e osso. Se as nações da Grécia queriam sobreviver, teriam de acabar com a política troiana de deliberada exclusão dos mercadores gregos. A norte e a oeste, as tribos bárbaras começavam a concentrar-se, prontas a exterminarem-nos, tal como, outrora, nós havíamos exterminado os primitivos Gregos. E onde iríamos nós buscar o bronze necessário para produzir os milhões de armas de que precisávamos para enfrentarmos essas tribos?

Escutara os reis meus vassalos e prometera-lhes uma solução. Sabendo que não havia outra solução senão a guerra - mas sabendo também que muitos desses reis recusariam a mais desesperada das medidas. Agora, um dia depois, tinha nas minhas mãos os meios necessários. Clitemenestra mostrara-me como. Eu era Um homem no pleno apogeu das suas capacidades e participara já em muitas guerras - e era um bom guerreiro, um bom militar. Sim... eu era capaz de chefiar uma invasão de Tróia! Helena servir-me-ia de pretexto... O astuto Ulisses previra a guerra sete anos antes, quando aconselhara o falecido Tíndaro a exigir o Juramento aos pretendentes de Helena.

Se queria que o meu nome permanecesse vivo depois da minha morte, teria de deixar grandes feitos aos vindouros. Haveria no mundo maior feito do que a invasão e conquista de Tróia? O Juramento permitir-me-ia dispor de cerca de cen mil soldados - um número suficiente para executar uma tal missão em dez dias. E com Tróia em ruínas, quem me impediria de concentrar os meus esforços nos estados costeiros da Ásia Menor, quem me impediria de reduzi-los a meros satélites de um império grego? Pensei no bronze, no ouro, na prata, no electro, nas jóias, nas terras a conquistar. Tudo isso seria meu: bastava-me invocar o Juramento do Cavalo Esquartejado. Sim, eu poderia construir um império para o meu povo!

A minha esposa e o meu irmão, de pé a meio da sala, não tiravam de mim os olhos; endireitei-me no trono, falei-lhes com um ar grave.

- Helena foi raptada - disse eu. Menelau abanou a cabeça, com a mais infeliz das expressões.

- Quem me dera que tivesse sido, Agamémnon! Mas a verdade é que não foi. Helena não precisou de nenhuma coacção para fugir.

Apetecia-me bater-lhe. Era isso que costumava fazer-lhe quando éramos pequenos. Claro que não lhe bati, mas confesso que tive de fazer um grande esforço para reprimir os meus impulsos. Pela Mãe, que idiota que era o meu irmão! Como era possível que o nosso pai, Atreu, tivesse feito aquele idiota chapado?

- Estou-me marimbando para a verdade, Menelau! - atirei-lhe, furioso. Dirás a toda a gente que ela foi raptada! A mais leve sugestão de que a fuga dela foi voluntária destruirá tudo - ainda não percebeste? Se obedeceres às minhas ordens sem discussões, garanto-te que, recorrendo ao Juramento, reunirei um exército imenso!

O mais infeliz dos homens ganhou um ânimo novo; a escuridão deu lugar à luz.

- Isso mesmo, Agamémnon, isso mesmo! Olhei de relance para Clitemenestra. Havia nos seus lábios um amargo sorriso. O meu irmão era um imbecil, a irmã dela não lhe ficava atrás, e ambos estávamos perfeitamente conscientes disso.

Um criado encontrava-se ao fundo da sala, demasiado longe para ouvir a nossa conversa; bati as palmas para que se aproximasse.

- Vai chamar Calcas - ordenei.

O sacerdote entrou na sala momentos depois. Prostrou-se a meus pés. Olhei-lhe para a nuca, perguntando-me que motivo o trouxera efectivamente a Micenas. Calcas era um troiano da mais alta nobreza. Até há pouco tempo, fora um dos supremos sacerdotes de Apolo em Tróia. Aquando de uma peregrinação a Delfos, a pitonisa dissera-lhe que deveria servir Apolo em Micenas. Ordenara-lhe ainda que não regressasse a Tróia e que nunca mais voltasse a servir o Apolo troiano. Depois de ter aparecido na minha corte, mandei um enviado a Delfos para confirmar a história; a pitonisa não deixou margem para dúvidas - era tudo verdade. Calcas teria de ser sacerdote de Micenas porque o Senhor da Luz assim o queria. Tenho de admitir, por outro lado, que nunca me dera razões para que eu suspeitasse de uma eventual traição. Dotado da Segunda Visão, informara-me, poucos dias antes, de que o meu irmão me viria procurar devido a um grave problema.

A sua aparencia era desagradável, pois Calcas era uma raridade entre as raridades - um albino verdadeiro. A cabeça era completamente calva, a pele tão branca como a barriga de um peixe. Os olhos eram rosa-escuro e muito vesgos, numa cara enorme e redonda que exibia uma expressão permanente da mais absoluta estupidez. Pura ilusão: Calcas seria tudo, menos estúpido.

Enquanto se endireitava, tentei sondar a sua mente. Contudo, era impossível ler fosse o que fosse naqueles olhos nublados, como que cegos.

- Calcas, há quanto tempo deixaste o rei Príamo?

- Há cinco luas, rei Agamémnon.

- O príncipe Páris já tinha regressado de Salamina?

- Não, rei Agamémnon.

- Podes retirar-te. Notei no seu ar que tinha ficado ofendido por eu o ter tratado tão sumariamente; era evidente que, em Tróia, estava habituado a ser tratado com mais deferência. Mas Tróia adorava Apolo como deus supremo, ao passo que, em Micenas, o deus supremo era Zeus. Devia ser uma humilhação terrível para ele, um troiano, ser obrigado por Apolo a servir numa terra onde era rebaixado.

Bati de novo as palmas.

- Chamem o arauto-mor. Menelau suspirou, lembrando-me que continuava ali, na Sala do Trono; embora eu não me tivesse esquecido, por um só momento, de que Clitemenestra ainda ali estava.

- Coragem, irmão. Nós traremos Helena de volta. Ninguém pode infringir o Juramento do Cavalo Esquartejado. Terás o teu exército na Primavera do próximo ano.

O arauto-mor entrou. -Arauto, enviarás mensagens a todos os reis e príncipes da Grécia e de Creta que pronunciaram o Juramento do Cavalo Esquartejado, diante do rei Tíndaro, há sete anos. O funcionário encarregado dos Juramentos sabe de cor os seus nomes. Os teus mensageiros recitarão aquilo que te vou ditar: «Rei – ou príncipe, ou seja lá o que for - eu, vosso suserano, Agamémnon, rei dos reis, ordeno-vos que se desloquem imediatamente a Micenas, a fim de discutirmos o Juramento que pronunciaram aquando do casamento da rainha Helena com o rei Menelau.» Decoraste tudo?

Orgulhoso da sua memória, o arauto-mor acenou que sim.

- Decorei tudo, rei Agamémnon.

- Então, faz o que te ordenei.

Clitemenestra e eu livrámo-nos de Menelau, dizendo-lhe que precisava de um banho. Desandou imediatamente, todo feliz; Agamémnon, o irmão mais velho, tinha a situação controlada - portanto, o menino podia descansar.

- Supremo rei da Grécia é um título grandioso - disse Clitemenestra mas rei supremo do Império Grego é incomparavelmente melhor.

Fitei-a com um sorriso arreganhado.

- Também acho, mulher.

- Agrada-me a ideia de Orestes herdar um tal título - disse ela, sonhadora. Um comentário que dizia tudo sobre Clitemenestra. No seu coração selvagem, a minha rainha era uma chefe, uma mulher que achava humilhante ter de se vergar ao poder de alguém ainda mais forte do que ela. Eu estava perfeitamente consciente das ambições dela; sabia que ela ansiava substituir-me no trono, que ansiava fazer renascer a Velha Religião e usar o rei unicamente como um símbolo vivo da sua fertilidade. E mandá-lo para o machado quando a terra gemesse de dor. O culto de Mãe Kubaba, na ilha de Pélops, não estava ainda suficientemente reprimido. O nosso filho, Orestes, era muito pequeno ainda; nascera quando eu já desesperava de ter um filho varão. Electra e Crisótemis eram já púberes quando ele nascera. Um filho varão era um rude golpe para Clitemenestra; a minha mulher nutrira a esperança de governar através de Electra; ultimamente, porém, transferira toda a sua afeição para Crisótemis. Electra adorava o pai, não a mãe. Contudo, Clitemenestra não desarmava. Agora que tínhamos a certeza de que Orestes, um bebé forte e saudável, sucederia ao pai, a mãe esperava que eu morresse antes que ele tivesse a idade necessária para subir ao trono. Depois, governaria através dele. Ou através da nossa filha mais nova, Ifigénia.

Alguns dos homens que haviam pronunciado o Juramento do Cavalo Esquartejado chegaram a Micenas antes de Menelau ter regressado de Pilos com o rei Nestor. De Micenas a Pilos era uma longa distância; muitos dos reis que vieram viviam mais perto da minha capital. Palamedes, o filho de Náuplio, não demorou muito a chegar. A sua presença alegrou-me muito: só Ulisses e Nestor eram mais sábios do que ele.

Estava a conversar com Palamedes na Sala do Trono, quando reparei que havia alguma agitação entre o pequeno grupo de reis menos importantes que se encontravam na sala. Palamedes, reparando no mesmo que eu, sufocou um risinho.

- Por Héracles, que colosso! Deve ser Ájax, o filho de Télamon. Que vem ele cá fazer? Era apenas uma criança quando o Juramento foi pronunciado e o pai dele não estava lá.

o jovem avançou decididamente na nossa direcção: era sem dúvida o homem mais corpulento de toda a Grécia; os seus ombros e a sua cabeça erguiam-se mais alto do que todos os presentes. Pertencendo a um grupo de jovens que aderia a um regime rigorosamente atlético, Ájax desprezava a comum blusa; fosse qual fosse a estação do ano, fizesse frio ou sol, andava de tronco nu e descalço. Não conseguía tirar os olhos do seu peito maciço, dos poderosos músculos dos braços e das pernas, sem sombra de gordura. De cada vez que punha um pé nas minhas lajes de mármore, parecia até que as paredes tremiam.

- Dizem que Aquiles, o primo dele, é quase tão grande como ele - comentou Palamedes.

- Isso não nos interessa - retorqui, irritado. - Os senhores do norte nunca se dignam prestar homenagem a Micenas. A Tessália, pensam eles, é suficientemente forte para ser independente.

- Bem-vindo, filho de Télamon - disse eu. - Que te traz a Micenas? Os seus olhos infantis examinaram-me serenamente.

- Vim oferecer os serviços de Salamina, rei Agamémnon, em representação de meu pai, que se encontra doente. Disse-me que seria uma boa experiência para mim.

Fiquei sinceramente satisfeito. Pena que o outro filho de Éaco, Peleu, fosse tão arrogante. Télamon reconhecia os seus deveres para com o rei supremo; em contrapartida, ninguém estaria à espera de que Peleu, Aquiles e os Mirmidões aparecessem.

-Agradecemos a tua presença, filho de Télamon. Sorrindo, Ájax deixou-nos e encaminhou-se, com a sua possante passada, na direcção de alguns amigos que o saudavam freneticamente. De súbito, porém, parou, e virou-se para mim.

- Esquecia-me de uma coisa, rei Agamémnon. O meu irmão Teucro está comigo. Ele pronunciou o Juramento.

Palamedes estava ainda a rir-se, ainda que ocultasse o riso com uma mão.

- Será que vamos abrir uma escola para rapazinhos do campo, Agamémnon?

- Sim, é de facto pena que o rapaz seja um brutamontes. Mas não podemos menosprezar as tropas de Salamina.

À hora do jantar, ao entardecer, tinha já comigo Palamedes, Ájax, Teucro, o outro Ajax da Lócrida, conhecido como o pequeno Ájax, Menesteu, o rei supreMo da Ática, Diomedes de Argos, Toas da Etólia, Eurípilo de Orménion, e outros mais; para minha grande surpresa, alguns dos que tinham vindo não haviam pronunciado o Juramento. Disse-lhes que tencionava invadir a península de Tróia conquistar a cidade e libertar o Helesponto. Pensando na reabilitação do meu irmão, alonguei-me na descrição das perfídias de Páris, mas a verdade é que nenhum dos presentes se deixou iludir; eles sabiam muito bem quais eram as verdadeiras razões daquela guerra.

- Nos últimos tempos, os nossos mercadores têm-nos massacrado com protestos: querem, e com razão, que o Helesponto seja reaberto. Precisamos de mais estanho e cobre. Os bárbaros canibais do norte e do oeste já começaram a cobiçar as nossas terras. Alguns de nós governam estados que se tornaram demasiado populosos, com todas as consequências que daí advêm - pobreza, agitação, motins, conspirações. - Fitei-os com um ar grave. - Que ninguém se iluda: Helena não é o único objectivo desta guerra. Esta expedição contra Tróia e os estados do litoral da Ásia Menor não conduzirá apenas a uma acumulação de riquezas e à obtenção de bronze barato. Esta expedição oferece-nos a oportunidade de colonizar territórios ricos e pouco povoados com os nossos excedentes populacionais. O mundo em torno do Egeu fala já Grego com mais ou menos sotaque. Mas imaginem que todo esse mundo em torno do Egeu se torna grego! Imaginem a Grécia não como um simples reino, mas como um império!

Ah, eles adoravam ouvir tais palavras! Todos morderam avidamente o isco; terminado o discurso, nem precisei de invocar o Juramento, e ainda bem que assim foi. A avareza era melhor capataz do que o medo. Claro que Atenas me apoiava inteiramente; nunca duvidei da cooperação de Menesteu. Cooperação que encontrei também em Idomeneu de Creta, o terceiro rei supremo. Mas o quarto Peleu - não me apoiaria. Quando muito, contaria apenas com a ajuda de alguns dos seus reis vassalos.

Vários dias depois, chegou Menelau com Nestor. Ordenei que trouxessem imediatamente o ancião à minha presença. Mandei embora Menelau e reunimo-nos, com Palamedes, no meu salão privado; mandava a prudência que Menelau continuasse a acreditar que Helena era a única e exclusiva razão para aquela guerra. Não lhe ocorrera ainda qual seria o inevitável desfecho do suposto resgate de Helena - e ainda bem. Logo que estivesse nas nossas mãos, Helena teria de dizer adeus à sua cabeça.

Não fazia ideia de qual seria a idade do rei de Pilos. Era eu ainda um rapaz e já ele era um velho de cabelos brancos. Era senhor de uma sabedoria notável e o seu discernimento continuava tão agudo como no tempo em que eu era um jovem; não havia sinal de senilidade nos seus penetrantes e brilhantes olhos azuis, não havia sombra de tremuras nos seus dedos carregados de anéis.

- Diz-me, Agamémnon, afinal qual é a verdadeira razão de tudo isto? perguntou-me. - O teu irmão está cada vez mais tonto! A sua saúde mental não melhorou nada... Tudo o que me disse foi que Helena fora raptada - uma história muito estranha... Nunca me pareceu que Helena precisasse de ser forçada... E não me venhas dizer que Menelau convenceu o irmão a satisfazer-lhe os caprichos! Uma guerra por causa de uma mulher? Francamente, Agamémnon.

Meu caro Nestor, as razões desta guerra são o estanho, o cobre, o alargamento das vias mercantis, a livre passagem através do Helesponto e a colonização do litoral da Ásia Menor. A fuga de Helena com o tesouro do meu irmão é, muito simplesmente, o mais perfeito dos pretextos.

- Hum. - Nestor franziu os lábios. - Fico contente por te ouvir falar assim. Estás a contar com quantos homens?

-As informações de que dispomos referem oitenta mil soldados. Com mais de vinte mil ajudantes não combatentes, teremos mais de cem mil homens. Deveremos fazer-nos ao mar em cerca de mil navios, na próxima Primavera.

- Uma campanha gigantesca, Agamémnon. Espero que estejam a planeá-la com todos os cuidados.

- Naturalmente - retorqui eu com um ar altivo. - No entanto, será uma guerra muito breve - um tão grande número de homens arrasará Tróia em poucos dias.

Os olhos dele arregalaram-se de surpresa.

- Achas que sim? Tens mesmo a certeza disso, Agamémnon? Alguma vez estiveste em Tróia?

- Não.

- Mas já deves ter ouvido falar das muralhas troianas...

- Claro que já ouvi falar! No entanto, Nestor, não há muralhas que resistam a uma centena de milhar de homens.

- Talvez... Dar-te-ia, porém, um conselho: espera que os teus navios aportem a Tróia. Poderás então ter uma ideia mais precisa da situação. Tróia, ao que se diz, é o oposto de Atenas, que possui uma cidadela fortificada e uma única muralha que se estende na direcção do mar. Não, Tróia encontra-se completamente cercada por verdadeiros baluartes. Acredito que o desfecho da campanha seja a tua vitória. Mas acredito também que será uma longa campanha...

- Teremos de concordar que, quanto a este ponto, divergimos, rei Nestor retorqui eu, firmemente.

Nestor suspirou.

- Seja como for, nem eu, nem nenhum dos meus filhos, pronunciou o Juramento; contudo, podes contar com o nosso apoio. Se não acabarmos com O poder de Tróia e dos estados da Ásia Menor, Agamémnon, nós - e a Grécia!

depressa perecerão! - Pôs-se a olhar para os anéis, após o que perguntou: Onde está Ulisses?

- Mandei um mensageiro a ítaca.

- Oh! Ulisses não vem com simples mensagens... - disse Nestor.

- Tem de vir! Ele também jurou!

- Os Juramentos nada significam para um homem como Ulisses. Não que possamos acusá-lo de sacrilégio - mas a verdade é que foi ele quem concebeu todo este plano! Provavelmente, pronunciou muito baixinho o Juramento do fim para o princípio e ninguém deu por isso. No fundo, Ulisses é um homem que adora a tranquilidade e, segundo consta, adaptou-se com a maior das felicidades à rotina doméstica. Disseram-me que havia perdido todo o seu velho interesse pela intriga. Não, Agamémnon, ele não quererá ir contigo. Mas tens de contar com ele entre os teus chefes.

- Eu sei, rei Nestor.

- Então vai buscá-lo tu - retorquiu Nestor. - Leva Palamedes contigo. E soltou um risinho malandro. - Para apanhar um ladrão, não há melhor do que outro ladrão...

-Achas que leve Menelau? Os olhos dele cintilaram de divertimento.

- Sem a menor dúvida. Sempre é uma maneira de pôr Menelau a falar mais de sexo e menos de economia...

Fizemos a primeira etapa da nossa viagem por terra e, numa pequena aldeia da costa ocidental da ilha de Pélops, embarcámos rumo a ítaca. Mal chegámos à praia, examinei a ilha e confesso que fiquei triste com o que vi - era uma ilha pequena, rochosa, algo árida; enfim, não seria por certo o mais adequado dos reinos para a mente mais notável do mundo. Enquanto avançava a pé por um caminho de pastores que conduzia à única cidade da ilha, amaldiçoei Ulisses por nem sequer se preocupar em assegurar a existência de transportes na única praia da ilha onde um barco poderia aportar. Na cidade, contudo, conseguimos encontrar uns quantos burros infestados de pulgas; profundamente satisfeito por nenhum dos meus cortesãos estar presente (que triste espectáculo, o rei supremo empoleirado num burro!), segui na direcção do palácio.

Apesar de pequeno, o palácio foi uma verdadeira surpresa. O exterior era magnífico, os pilares eram enormes, as pinturas levavam-nos a pensar que o interior seria por certo sumptuoso. Claro que o dote da esposa de Ulisses incluíra vastas extensões de terra, baús cheios de ouro e jóias reais. O pai de Penélope, Icário, fartara-se de protestar contra uma tal união, pois não queria dar a filha a um homem que, até para ganhar uma corrida, usava de artimanhas! A verdade, porém, é que agora Penélope era a esposa de Ulisses.

Contava que Ulisses estivesse à nossa espera no pórtico; era mais do que provável que a notícia da chegada tivesse chegado já ao palácio, levada pelos habitantes da cidade. Porém, quando finalmente deixámos os nossos ignóbeis corcéis, verificámos que o palácio estava tão silencioso quanto deserto. Nem os criados se dignavam aparecer! Tomei o comando do grupo e avancei pelas salas do palácio

- por Zeus, que frescos maravilhosos! Excelentes, sem dúvida! - sentindo-me mais perplexo do que ofendido por descobrir que, de uma ponta a outra do palácio, não havia sinal de vida. Nem sequer aquele maldito cão, Argos, que Ulisses levava para todo o lado, se dignava ladrar aos visitantes.

Um par de magníficas portas de bronze disse-nos onde ficava a Sala do Trono; Menelau abriu-as. Ficámos no vão da porta, pasmados, apreciando a qualidade da arte e a perfeita distribuição das cores, até que os nossos olhos repararam numa mulher que estava sentada no último degrau do estrado do trono e que chorava rios de lágrimas. A cabeça estava parcialmente tapada pelo manto; porém, quando o ergueu, logo descobrimos de quem se tratava, pois o seu rosto estava tatuado com uma teia azul, a qual tinha no meio uma aranha carmim: a insígnia de uma mulher consagrada a Palas Atena, no seu disfarce de tecedeira. Penélope era tecedeira.

Levantou-se num repente e logo caiu de joelhos para beijar a bainha do meu saiote.

- Rei Agamémnon! Não estávamos à tua espera! Ah, é muito triste a recepção que te ofereço! - E rompeu de novo a chorar.

Fiquei parado a olhar para aquela cena, sentindo-me o mais ridículo dos homens: uma mulher histérica enroscada nas minhas pernas! Olhei de relance para Palamedes e não consegui evitar um sorriso. Como esperar o trivial, se estávamos na corte de Ulisses?

Palamedes inclinou-se para mim e disse-me ao ouvido:

- Rei Agamémnon, vou dar uma volta às imediações para ver se descubro alguma coisa. Dás-me licença?

Acenei que sim, após o que tratei de erguer a chorosa Penélope.

- Então, prima, acalma-te. Conta-me o que se passa - disse-lhe.

- Foi o rei, primo! - disse ela. - O rei enlouqueceu! Ah, primo, Ulisses está louco varrido ... ! Nem sequer reconhece a sua esposa! Está lá em baixo, no pomar sagrado! Fala sozinho e só diz disparates, coitado!

Palamedes regressou a tempo de ouvir aquilo.

- Temos de ir vê-lo, Penélope - disse eu.

- Vão vê-lo, vão... - disse ela, soluçando. Penélope conduziu-nos até às traseiras do palácio, de onde se viam terras de cultivo que se espalhavam em todas as direcções; o centro de ítaca era muito mais fértil do que o litoral. íamos nós a descer a escadaria das traseiras quando apareceu uma velha com um bebé ao colo.

- Rainha, o príncipe não pára de chorar! Há muito que devia ter mamado! Penélope pegou logo na criança, embalando-a nos seus braços.

- É o filho de Ulisses? - perguntei.

- Sim, é Telémaco. Fiz-lhe umas cócegas no rosto, após o que tratei de avançar; o destino do seu pai era muito mais importante. Passámos por oliveiras muito velhas - tão velhas que os seus troncos torturados eram mais grossos do que touros - e vimo-nos por fim numa área murada que seria talvez o pomar, ainda que tivesse mais terra seca do que árvores de fruto. E foi nesse instante que vimos Ulisses. Menelau murmurou qualquer coisa numa voz estrangulada, mas eu nem murmurar consegui. Ulisses estava a arar a terra com o duo mais estranho que eu jamais vira preso a um arado - um boi e uma mula! Os animais puxavam cada um para seu lado, o arado erguia-se da terra e girava obliquamente, os sulcos que fazia na terra eram tão tortuosos como Sísifo. Sobre a cabeleira vermelha, Ulisses trazia um chapéu de feltro de camponês e atirava não sei o quê, a esmo, por sobre o ombro esquerdo.

- Que está ele a fazer, Penélope? - perguntou Menelau.

- A semear sal - respondeu ela, impassível. Tagarelando disparatadamente consigo mesmo, rindo-se desvairadamente, Ulisses continuou a arar e a semear o seu sal. Tinha-nos visto certamente, mas os seus olhos não nos tinham reconhecido. Não havia dúvida: o brílho daqueles olhos era inconfundível, era o brilho da loucura! Perdêramos o homem de quem mais precisávamos!

Não suportava assistir por mais tempo àquela triste cena.

- Vamos embora, deixemo-lo em paz - disse.

O arado estava agora perto de nós e os animais estavam cada vez mais furiosos, cada vez mais incontroláveis. Então, sem mais nem menos, Palamedes tirou o bebé dos braços de Penélope e, numa corrida, foi pô-lo a uma escassa distância dos cascos do boi. Com um grito estridente, Penélope tentou correr para salvar a criança, mas Palamedes deteve-a. Nesse momento, o estranho duo parou; Ulisses correu para a frente do boi e pegou no filho.

- Que se passa? - perguntou Menelau. - Ele afinal está bom da cabeça?

- Tão bom da cabeça como qualquer um de nós - retorquiu Palamedes, sorridente.

- Fingiu que estava louco? - perguntei.

- Claro, rei Agamémnon. Porque só desse modo poderia escapar ao Juramento...

- Mas como é que tiveste a certeza disso? - perguntou Menelau, aturdido.

- Encontrei um criado à saída da Sala do Trono. O pobre homem tinha um defeito: falava pelos cotovelos. Contou-me que Ulisses consultara ontem o Oráculo. Ao que parece, se ele for para Tróia, terá de permanecer vinte anos longe de Ítaca - disse Palamedes, satisfeito com o seu pequeno triunfo.

Ulisses entregou o bebé a Penélope - que, agora, estava a chorar a sério.

Toda a gente sabia que Ulisses era um grande actor, mas, pelos vistos, Penélope não lhe ficava atrás. Estavam mesmo bem um para o outro. Os olhos cinzentos de Ulisses não largavam Palamedes, enquanto o seu braço descansava sobre os ombros da mulher. Era uma cara de poucos amigos, a de Ulisses. Palamedes atraíra o ódio de alguém que era capaz de esperar uma vida inteira pela vingança perfeita.

- Fui descoberto - disse Ulisses, sem sombra de arrependimento. Sempre é verdade que precisas dos meus serviços, rei Agamémnon?

- Preciso, sim, Ulisses. Mas diz-me: porquê uma tão grande relutância?

- Porque a guerra contra Tróia será longa e sangrenta, rei Agamémnon, e eu não gostaria nada de participar nela.

Outro que assegurava que seria uma longa campanha! Mas como poderia Tróia resistir a cem mil homens, por muito altas que fossem as suas muralhas?

Regressei a Micenas com Ulisses, depois de o ter posto a par de todos os factos. Não valia a pena dizer a Ulisses que Helena fora raptada. Como de costume, o rei de Ítaca revelou-se uma mina de conselhos e informações. Nem por uma vez se virou para ver a sua ilha esbater-se no horizonte; nem por uma vez deu mostras de que teria saudades da mulher - nem ela dele, já agora. Ulisses e Penélope, a mulher da face tatuada com uma teia, eram criaturas que sabiam controlar muito bem as suas emoções e que viviam num mundo de segredos.

Quando chegámos ao Palácio do Leão, verifiquei que o meu primo Idomeneu de Creta já tinha chegado. Estava desejoso de participar na minha expedição a Tróia - por um preço, evidentemente. Pediu-me o título de co-comandante: um pedido que tratei de satisfazer sem demora. Co-comandante ou não, curvar-se-ia perante as minhas ordens. Idomeneu tivera uma paixão assolapada por Helena e reagiu muito mal à sua fuga (a ele, também tive de contar a verdade).

Poucos tinham faltado à chamada. Entretanto, enquanto os meus funcionários decoravam aquilo que havia a decorar, todos os construtores de navios da Grécia se lançaram energicamente ao trabalho. Felizmente, nós, os Gregos, éramos os melhores construtores de navios do mundo e possuíamos vastas florestas de pinheiros e abetos, todo o pez de que precisávamos, graças à muita resina, e escravos em número suficiente para darem os seus cabelos que depois seriam misturados com o pez, e suficientes cabeças de gado para obtermos a necessária pele para as velas. Não tínhamos a menor necessidade de encomendar navios a estrangeiros que, assim, ficariam a conhecer os nossos planos. O total era ainda melhor do que eu tinha previsto: com efeito, foram-me prometidos mil e duzentos navios e mais de cem mil homens.

Logo que a frota começou a ser construída, convoquei o meu conselho restrito. Nestor, Idomeneu, Palamedes e Ulisses estudaram comigo todos os pormenores da campanha. Por fim, pedi a Calcas que realizasse um augúrio.

- Uma boa ideia - disse Nestor, que gostava de se mostrar deferente com os deuses.

- Que te disse Apolo, sacerdote? - perguntei a Calcas. - Tudo correrá bem na nossa expedição?

Calcas não hesitou.

- Só se da tua expedição fizer parte Aquiles, o sétimo filho do rei Peleu.

- Oh, Aquiles, Aquiles! - exclamei, furioso. - Para onde quer que me vire, só oiço esse nome!

Ulisses encolheu os ombros.

- É um grande nome, Agamémnon.

- Essa é boa! O rapaz ainda nem sequer tem vinte anos!

- Mesmo assim - disse Palamedes - creio que deveríamos informar-nos melhor acerca dele. - Virou-se para Calcas. - Quando saíres, sacerdote, diz a Ájax, o filho de Télamon, que venha ter connosco.

Calcas não gostava de receber ordens dos Gregos. Mas obedecia, o albino vesgo. Ter-se-ia apercebido de que eu mandara espiar todos os seus movimentos? Só por precaução...

Ájax apareceu pouco depois.

- Fala-me de Aquiles - disse eu. Este simples pedido levou-o a desfiar um rosário de superlativos que, pelo menos a mim, me deixaram com os nervos em franja. Por outro lado, não nos disse nada que nós já não soubéssemos. Agradeci-lhe e mandei-o embora. Mas que brutamontes!

- Então? - perguntei ao meu conselho.

- Aquilo que nós pensamos ou deixamos de pensar não interessa para o caso, Agamémnon - disse Ulisses. - O sacerdote diz que temos de ter Aquiles.

- Mas Aquiles não virá se Agamémnon lho ordenar - disse Nestor.

- Muito obrigado, isso também eu sei! - atirei-lhe.

- Acalma-te, Agamémnon - disse o ancião. - Peleu já não é nenhum jovem. Ele não estava presente aquando do Juramento. Nada o obriga a apoiar-nos, tão-pouco nos ofereceu o seu apoio. No entanto, pensa um pouco, Agamémnon... Imagina o que não seria o nosso exército se pudéssemos contar com os Mirimidões!

A sua voz enfatizou aquele nome mágico: «os Mirmidões»... Impôs-se na sala um pesado silêncio que o próprio Nestor quebraria momentos depois.

- Preferia ter um mirmidão nas minhas costas do que meia centena de homens de outros povos - disse.

- Nesse caso - disse eu, decidido a castigar alguns dos meus conselheiros, sugiro-te, Ulisses, que leves Nestor e Ájax a Lolcos e que solicites ao rei Peleu os serviços de Aquiles e dos Mirmidões.

 

                                                     Narrado por Aquiles

Estava já perto dele: já lhe sentia o cheiro desagradável, já lhe sentia a fúria.

Empunhando firmemente a lança, rastejei na sua direcção por entre as moitas. Sentia já o seu hálito enquanto ele farejava à sua volta, sentia o pó que as suas patas levantavam ao revolverem o chão. Foi então que o vi. Era tão grande como um touro pequeno, o corpanzil assente em curtas e vigorosas pernas, a cerda negra eriçada, os beiços largos e cruéis abertos, revelando as presas encurvadas e amarelecidas. Os olhos dele eram os olhos de quem estava condenado ao Tártaro; via já as fúrias diante de si; a ira tremenda das brutas feras dominava-o por completo. Velho, selvagem, um assassino de homens.

Gritei bem alto para lhe dizer que estava ali. De início, não se mexeu; depois, lentamente, virou para mim a cabeça maciça. Uma nuvem de pó ergueu-se do chão enquanto dava às patas, enquanto baixava o focinho e rasgava um bocado de terra com as presas, ganhando forças para a carga. Avancei para ele, mantendo a minha Velha Pélion preparada para o embate, desafiando-o a avançar também. A visão de um homem enfrentando-o com tamanha ousadia era para ele uma novidade; por um momento, pareceu ficar sem saber o que fazer. Depois, desatou num trote portentoso que fazia tremer o chão, um trote que depressa se transformou num verdadeiro galope. Era espantoso, simplesmente espantoso, que uma tão grande criatura conseguisse correr tão depressa.

Calculei a altura a que ele investiria e permaneci onde estava, as mãos cravadas na Velha Pélion, a ponta um pouco para cima, a base no chão. Estava mais perto agora. Impelido por todo o peso que os seus ossos suportavam, poderia ter deitado abaixo um tronco de árvore que se lhe atravessasse no caminho. Quando vi as chispas de fogo dos seus olhos, agachei-me e, logo de seguida, arremeti contra ele e enterrei-lhe no peito a Velha Pélion. Ele abraçou-me; caímos os dois no chão e as minhas vestes e o meu corpo logo ficaram encharcados daquele sangue que jorrava fumegante. Porém, depressa me ergui e, com as mãos ferradas na haste da lança, arrastei-o: uma tarefa difícil, já que os meus pés escorregavam naquele sangue lodoso. E foi assim que ele morreu, assombrado com o facto de ter encontrado alguém mais forte do que ele. Arranquei-lhe do peito a Velha Pélion, cortei-lhe as presas - um belíssimo troféu para adornar o elmo de um guerreiro e ali o deixei ficar: ali morrera, ali apodreceria.

Não muito longe, avistei uma pequena enseada. Desci por um caminho de cobras, ao fundo do qual passava um riacho que serpeava a caminho do mar. Ignorando o cintilante convite das águas do riacho, corri pela areia a caminho das ondas. Com a água do mar, limpei o sangue que o javali me deixara nos pés e nas pernas, no meu fato de caça e na Velha Pélion. Depois de ter despido a roupa e de a ter posto a secar na areia, corri para as ondas e nadei preguiçosamente por um tempo. Por fim, deitei-me na areia, ao pé da lança e das roupas.

É possível que tenha dormido por um breve período. Ou, quem sabe, talvez o sortilégio estivesse, já nesse momento, a produzir o seu efeito. Por muito que tente lembrar-me, não saberei dar uma resposta. Só sei que a minha percepção das coisas se apagou. Quando voltei a mim, o Sol estava já a esconder-se por detrás das copas das árvores e o ar arrefecera um pouco. Tempo de partir: Pátrocles já devia estar ansioso.

Levantei-me, decidido a pegar nas minhas coisas e a vestir-me, mas, COm esse simples acto, todo o meu equilíbrio mental se desmoronou. Como explicar O inexplicável? Depois de tudo passado, só encontrei uma palavra para definir aqueles momentos: a palavra «sortilégio». Um período durante o qual me vi separado da realidade, embora me mantivesse ligado a uma qualquer espécie de mundo, Um cheiro fétido, que associei à morte, invadiu-me as narinas, e a praia toda se encolheu e ficou do tamanho de um grão, ao passo que um templo que havia no promontório se ergueu de súbito, tornando-se tão desmesuradamente grande que cheguei a pensar que as paredes gigantescas se despenhariam e cairiam em cima de mim. Aquele mundo era um mundo de contradições, em que o pequeno se tornava gigantesco e o grande minúsculo.

Dei-me conta de que, dos cantos da minha boca, escorria uma água salobra. Então, vencido pelo terror, arrasado por uma desolação solitária feita de lágrimas e impotência, deixei-me cair de joelhos na areia; por outro lado, e apesar de toda a minha juventude e força, nada podia fazer para erradicar o pavor mortal que me invadia. A minha mão esquerda começou a tremer, o lado direito do meu rosto crispava-se em espasmos, a minha espinha endireitava-se para logo se arquear. Apesar de tudo, consegui não perder a consciência e, com hercúlea força, impedi que as convulsões atingissem um paroxismo do qual por certo não haveria regresso. Quanto tempo terá durado o sortilégio? Não faço ideia. Sei apenas que, quando recuperei a minha força natural, o Sol já se tinha posto e o céu estava tingido de rosa, O ar estava quieto, parado, repleto da música das aves.

Tremendo como um homem acometido de sezões, levantei-me; na boca, sentia um sabor a qualquer coisa de pútrido. Não parei para me vestir ou para pegar na Velha Pélion. Tudo o que queria era regressar ao acampamento, era morrer nos braços de Pátrocles.

Mal me viu, Pátrocles correu ao meu encontro. Inquieto com o meu estado, tratou logo de me deitar num leito de peles quentes, junto à fogueira. Bebi um nada de vinho e, momentos depois, comecei a sentir a vida - a normal vida humana - retornando aos músculos, aos tendões, aos ossos; já liberto das garras do pânico, sentei-me no meu leito e, com uma gratidão maior do que o mundo, escutei o martelar ainda nervoso do meu coração.

- Que aconteceu? - ouvi Pátrocles perguntar.

- Um sortilégio - respondeu a minha voz estrangulada. - Um sortilégio.

- O javali feriu-te? Deste alguma queda?

- Não, nada disso. Matei o javali com a maior facilidade. Depois, fui até à praia a fim de lavar o sangue que o animal derramara. Foi então que o sortilégio tomou conta de mim.

Pátrocles caiu de joelhos, os olhos esbugalhados.

- Que Sortilégio, Aquiles?

- Foi... foi como se a morte tivesse vindo ao meu encontro. Eu cheirei a morte, senti o seu sabor na minha boca. A enseada ficou minúscula, o templo tornou-se gigantesco - o mundo rodopiava e ganhava uma nova forma como se Proteu fosse o mundo. Pensei que ia morrer, Pátrocles! Nunca me senti tão sozinho! Estava tão paralisado como um velho e sentia tanto medo como o mais vil dos cobardes! Mas eu não sou velho, nem cobarde! Por isso... que se terá passado comigo? Que estranha coisa era aquele sortilégio? Terei eu pecado contra algum deus? Terei eu ofendido o Senhor dos Céus ou o Senhor dos Mares?

No seu rosto, lia eu apenas preocupação e apreensão; dir-me-ia, mais tarde, que, efectivamente, eu estava com o aspecto de quem dera à morte o beijo de boas-vindas, pois não havia nas minhas faces pinga de sangue e todo eu tremia COMO uma árvore nova varrida pelo vento e as feridas e os arranhões sucediam-se de alto a baixo ao longo do meu corpo nu.

- Descansa agora, Aquiles, deixa-me proteger-te do frio. Pode não ter sido Um Sortilégio. Talvez fosse apenas um sonho.

- Um sonho, não. Um pesadelo - disse eu.

- Come qualquer coisa e bebe mais vinho. Alguns camponeses trouxeram-nos peles, em sinal de reconhecimento por teres morto o javali.

Agarrei-me ao braço dele.

- Se não te tivesse encontrado, teria enlouquecido, Pátrocles. Não suportaria morrer sozinho.

Envolveu as minhas mãos nas suas, beijou-as.

- Aquiles, eu sou muito mais teu amigo do que teu primo. Aconteça o que acontecer, eu estarei sempre ao teu lado.

A sonolência veio finalmente, uma suave sensação que afugentava o medo. Sorri, estendi o braço para lhe afagar o cabelo.

- Tu por mim e eu por ti. Sempre assim foi.

- E sempre assim será - respondeu ele.

De manhã estava já perfeitamente bem. Pátrocles acordara antes de mim, a fogueira já estava acesa, um coelho crepitava num espeto. E também havia pão, trazido pelas camponesas, que assim agradeciam o meu feito.

- Pareces completamente recomposto - disse Pátrocles, com um sorriso imenso, passando-me um naco de coelho assado sobre uma fatia de pão.

- E estou mesmo - retorqui, pegando na comida. -As tuas recordações do que se passou continuam tão vívidas como ontem à noite?

Uma pergunta que me fez estremecer; contudo, o pão e o coelho erradicaram num ápice todo o medo.

- Sim e não - respondi. - Foi um sortilégio, Pátrocles. Algum deus falou comigo e eu não entendi a mensagem.

- O tempo resolverá esse mistério - disse ele, entregando-se já às pequenas tarefas domésticas de todos os dias. Nunca permitia que eu partilhasse com ele essas tarefas. Por muito que eu fizesse, nunca consegui convencê-lo a desistir desse hábito de me servir como a um amo.

Pátrocles tinha mais cinco anos do que eu. O rei Licomedes de Ciros adoptara-o como seu herdeiro quando o pai de Pátrocles, Menécio, morrera, muito tempo antes, na ilha. Pátrocles era meu primo, pois Menécio fora filho bastardo do meu avô Éaco; sentíamos profundamente esse elo de sangue, pois ambos éramos filhos varões únicos e também não tínhamos irmãs. Licomedes tinha-o em alta estima, o que não espantava ninguém. Com efeito, Pátrocles era, entre os homens, uma raridade; ele era um homem verdadeiramente bom.

Concluído o desjejum e levantado o acampamento, vesti um saiote, calcei umas sandálias e tratei de encontrar novas armas: um punhal de bronze e uma outra lança. - Espera por mim aqui, Pátrocles. Não demorarei. As minhas roupas e o meu troféu estão ainda na praia, Tal como a Velha Pélion.

- Deixa-me ir contigo - disse ele imediatamente, com um ar receoso.

- Não. Isto é só entre mim e o deus que quis falar comigo. Pátrocles baixou a cabeça, resignado.

- Como queiras, Aquiles.

Achando o caminho mais fácil desta vez, cheguei à praia tão depressa como um leão. A enseada pareceu-me perfeitamente inocente. Não, não era a enseada a fonte do sortilégio. Nesse exacto instante, os meus olhos, vagueando sem pressas pelo promontório, detiveram-se no templo. O meu coração desatou a bater pesadamente. A minha mãe era uma sacerdotisa não oficial de Nereu e vivia algures naquele lado da ilha - seria aquele o seu domínio? Teria eu penetrado no seu território por engano, teria eu profanado algum mistério da Velha Religião e sido castigado por isso mesmo?

Subi lentamente ao ponto mais alto do promontório e abeirei-me do templo, lembrando-me agora das gigantescas paredes que o sortilégio me fizera ver.

Ah! sim, não tinha agora qualquer dúvida: aquele era o domínio de minha mãe! Não me avisara o rei Licomedes de que deveria ter o máximo cuidado com aquelas paragens onde a minha mãe, desafiando o poder do rei, instalara a sua residência?

Ela estava à minha espera nas sombras junto ao altar. De súbito, dei-me conta de que precisava de usar a Velha Pélion como se ela fosse uma bengala; as minhas pernas haviam perdido toda a força; quase não conseguia manter-me direito. A minha mãe! Uma mãe que eu nem sequer conhecia!

Tão pequena de estatura! Pouco mais alta do que a minha cintura... O cabelo era uma alvura azulada, os olhos de um tom cinzento-escuro, a pele tão transparente que deixava ver as veias.

- Tu és o meu filho: aquele a quem Peleu negou a imortalidade.

- Sim, eu sou o teu filho.

- Foi ele que te mandou?

- Não. O nosso encontro deve-se a um mero acaso - disse eu, apoiando-me na Velha Pélion.

Que deveria um homem sentir quando pela primeira vez vê a sua mãe? Édipo sentiu um desejo lascivo e fez da mãe esposa e rainha. Pelos vistos, porém, não havia em mim nada do que movera Édipo, pois não sentia resquício algum de desejo, ou de admiração pela sua beleza ou pela sua visível juventude. O que eu sentia, julgo que poderia ser resumido pelas palavras espanto, constrangimento e -sim, rejeição. Aquela estranha mulher matara os meus seis irmãos e traíra o meu pai, a quem eu amava.

Odeias-me! - gritou ela, aparentemente ofendida.

- Não é ódio. Mas não gosto de ti.

- Que nome te deu Peleu?

- Aquiles. Ela atentou na minha boca e aquiesceu com desprezo.

- Um nome muito apropriado ... ! - disse. -Até mesmo os peixes têm lábios... Tu não tens nada que se pareça com lábios. A sua ausência faz com que o teu rosto, que poderia ser belo, se assemelhe a algo de incompleto. Uma saca com uma fenda...

Ela tinha razão: eu odiava-a.

- Que fazes em Ciros? Peleu veio contigo?

- Não. Todos os anos passo seis luas em Ciros. Sou genro do rei Licomedes.

- Casado? Já? - disse ela, com notória maldade.

- Casei-me aos treze anos. Já tenho quase vinte. O meu filho tem seis anos.

- Lamentável, lamentável... E a tua mulher? Ainda é uma criança, como tu?

- A minha mulher chama-se Deidamia e é mais velha do que eu.

- Enfim, o melhor dos casamentos para Licomedes. E para Peleu também. Dominaram-te - amansaram-te - com a maior facilidade.

Incapaz de encontrar uma resposta, não lhe disse nada. Ela também se manteve calada. Um silêncio interminável. Eu, que fora tão bem ensinado pelo meu pai e por Quíron a mostrar deferência perante os mais velhos, não quebraria o silêncio: seria uma falta de educação. Talvez ela fosse realmente uma deusa, ainda que o meu pai o negasse sempre que bebia um pouco mais do que o costume.

- Deverias ter sido imortal - disse ela por fim. Desatei a rir.

- Eu não quero a imortalidade! Eu sou um guerreiro, gosto das coisas humanas! Respeito os deuses, mas nunca desejei ser um deles.

- Nunca pensaste no que significa ser-se mortal.

- Que pode significar ser-se mortal, senão que terei de morrer?

- Precisamente - disse ela, num tom brando. - Terás de morrer, Aquiles. E a ideia da morte não te assusta? Dizes que és um homem, um guerreiro. Mas os guerreiros morrem cedo, antes dos homens de paz.

Encolhi os ombros.

- Em paz ou em guerra, o destino de um homem é sempre a morte. E eu prefiro morrer jovem e em plena glória do que velho e coberto de ignomínia.

Por um instante, os seus olhos ganharam um tom azul enevoado e o seu rosto ficou marcado por uma tristeza que não a imaginava capaz de sentir. Uma lágrima deslizou pela face translúcida, mas ela afastou-a impacientemente e de novo se tornou uma criatura destituída de piedade.

- É demasiado tarde para discutir estas questões, meu filho. Tu terás de morrer. Mas posso oferecer-te uma escolha, porque eu vejo o futuro. Eu conheço o teu destino. Muito em breve, alguns homens virão e pedir-te-ão que participes numa grande guerra. Se fores, morrerás. Se não fores, chegarás a velho e gozarás de uma imensa felicidade. Jovem e em plena glória, ou velho e coberto de ignomínia. A escolha é tua.

Pestanejei, surpreendido, e desatei-me a rir.

- Mas que raio de proposta é essa? A escolha é óbvia... Já te disse: prefiro morrer jovem e coberto de glória.

- Sugiro-te que penses um pouco no que é a morte...

Aquelas palavras penetraram-me como se fossem veneno. Olhei-a nos olhos e vi-os nadarem e dissolverem-se, e vi o rosto dela tornar-se informe, e vi o céu por cima dela diluir-se e flutuar sob os seus pés minúsculos. Tétis crescia imensa, gigantesca. No momento em que a sua cabeça penetrou as nuvens, soube que o sortilégio voltara a dominar-me - e quem me enfeitiçara. Água salobra escorria-me dos cantos da boca, o fedor da podridão enchia-me as narinas, o terror e a solidão fizeram-me cair de joelhos diante dela. A minha mão esquerda começou a tremer, o lado esquerdo do meu rosto contorcia-se em espasmos. Desta feita, porém, o sortilégio foi mais longe: perdi a consciência.

Quando acordei, a minha mãe estava ao meu lado no chão, esfregando ervas docemente fragrantes entre as palmas das mãos.

- Levanta-te - ordenou-me.

Incapaz de pôr um mínimo de ordem nos meus pensamentos, o corpo e a mente debilitados, levantei-me lentamente.

- Aquiles, ouve-me com atenção! - exclamou ela com uma voz poderosa. Ouve-me com atenção! Vais pronunciar um Juramento da Velha Religião -um Juramento muito mais grave e terrível do que todos os da Nova Religião. Jurarás diante de Nereu, meu pai, o Velho Rei do Mar - diante da Mãe, pois é ela que a todos nós dá vida - diante de Kore, Rainha do Horror, diante dos governantes do Tártaro, lugar de tormento - diante da deusa que eu sou. Jurarás agora, sabendo que um tal Juramento não poderá ser infringido. Se o infringires, enlouquecerás para toda a eternidade e Ciros afundar-se-á sob as ondas, tal como Tera depois do grande sacrilégio. - Apertou-me o braço com uma força impressionante. - Ouviste-me bem, Aquiles? Ouviste-me bem?

- Sim - tartamudeei.

- Tenho de te salvar de ti mesmo - disse ela, partindo um ovo velho e muito duro em cima de sangue gorduroso e deixando que o sangue se espalhasse pelo altar. Depois, pegou-me na mão direita e mergulhou-a no sangue e no ovo. - Agora jura!

Repeti as palavras que ela me ia dizendo.

Eu, Aquiles, filho de Peleu, neto de Éaco e bisneto de Zeus, juro que regressarei imediatamente ao palácio do rei Licomedes e que me vestirei como uma mulher. Permanecerei entre as paredes do palácio durante um ano, sempre vestido de mulher. Quando aparecer alguém a perguntar por Aquiles, esconder-me-ei no harém e não falarei com ninguém, nem mesmo através de intermediários. Deixarei que o rei Licomedes fale em meu nome e obedecerei a tudo o que ele disser. E tudo isto eu juro por Nereu, pela Mãe, por Kore, pelos governantes do Tártaro e pela deusa Tétis.

Mal concluí o juramento, a minha confusão desvaneceu-se; o mundo reencontrava os seus contornos verdadeiros e as suas cores normais e eu conseguia pensar de novo com clareza. Mas já era demasiado tarde. Nenhum homem poderia abjurar um tal juramento. A minha mãe tinha-me atado de pés e mãos à sua vontade.

- Maldita sejas! - gritei, começando a chorar. - Maldita sejas! Fizeste de mim uma mulher!

- Há uma mulher em todos os homens - disse ela, com um sorriso malicioso.

- Condenaste-me à desonra!

- Não; impedi que morras cedo - retorquiu ela, e deu-me um empurrão. Vá, agora volta para Licomedes. Não precisarás de lhe explicar nada. Quando chegares ao palácio, já ele saberá de tudo. - Os seus olhos tornaram-se de novo azuis.

Fiz isto apenas por amor, Aquiles, meu pobre filho sem lábios. Eu sou a tua mãe.

Não disse nada a Pátrocles, quando o encontrei. Peguei nas minhas coisas e dei início à jornada que havia de nos conduzir ao palácio. E ele, concordando sempre com tudo o que eu queria, não me fez uma única pergunta. Ou talvez já       Soubesse aquilo que Licomedes seguramente sabia quando chegámos ao seu palácio. Estava à nossa espera no pátio, com um ar abatido, derrotado.

- Recebi uma mensagem de Tétis - disse ele.

- Nesse caso - disse eu -, já sabes o que temos de fazer.

- Sim, já sei.

A minha mulher estava sentada à janela quando entrei no seu quarto. Ao ouvir a porta, virou-se para mim. Com um sorriso cansado, abriu muito os seus braços para que eu a abraçasse. Beijei-a na face e logo os meus olhos se fixaram no porto e na pequena cidade que se viam da janela.

- É tudo o que tens para me dar depois de tantos dias fora? - perguntou ela, mas sem qualquer sinal de indignação; Deidamia nunca se irritava.

- Com certeza que já estás a par daquilo que toda a gente sabe - disse eu com um suspiro.

Tens de te vestir como uma mulher e de te esconder no harém do meu pai disse ela. - Mas só quando tivermos visitas, e nós não temos muitas visitas.

A madeira de uma das ripas da persiana começou a desfazer-se tal era a força com que eu a agarrava - tal era a minha angústia.

- Como é que eu vou fazer isto, Deidamia? Que humilhação! Que vingança perfeita! Aquela cadela escarnece da minha masculinidade!

Deidamia, aflita, levou logo a mão direita ao amuleto que afastava o mau olhado.

- Aquiles, não a enfureças mais! Ela é uma deusa! Trata-a com respeito!

- Nunca! - disse eu cheio de raiva. - Ela não tem qualquer respeito por mim, pela minha masculinidade. Ah, toda a gente se rirá de mim!

Deidamia ficou horrorizada com as minhas palavras.

- Aquiles, não vejo razão nenhuma para as pessoas se rirem! Não é caso para se rirem, bem pelo contrário.

 

                                                Narrado Por Ulisses

Os ventos e as correntes seriam sempre mais favoráveis do que o longo e tortuoso caminho por terra; por isso, seguimos por mar rumo a lolcos, sempre perto da costa. Já perto do porto, subi ao convés com Ájax; era a primeira vez que visitava a pátria dos Mirmidões e lolcos pareceu-me uma bela cidade, uma cidade de cristal tremeluzindo sob o sol de Inverno. Não tinha muralhas. Por detrás do palácio, erguia-se o monte Pélion, engrinaldado pela brancura imaculada da neve.

Ajeitei melhor as peles sobre os ombros e soprei nas mãos para as aquecer; olhei de relance para Ájax, que estava tão despido como sempre.

- Desces tu primeiro, colosso? - perguntei-lhe. Ájax aquiesceu tranquilamente; o gigante não tinha a menor inclinação para a normal conversação humana. Uma perna maciça ergueu-se sobre a amurada, encontrou o primeiro degrau da escada de corda, e o resto do corpo desapareceu rapidamente. O seu vestuário era o mesmo que lhe vira nos salões de Micenas: um saiote. E a sua bela pele não revelava o menor sinal de frio. Deixei-o descer até à praia e chamei-o depois, pedindo-lhe que nos arranjasse um transporte qualquer. Bem conhecido em lolcos, Ájax poderia escolher à vontade o transporte mais adequado.

Nestor estava todo atarefado a fazer as suas trouxas no abrigo construído no convés de ré.

- Pedi a Ájax que nos arranjasse um carro. Achas que estás em condições de descer até à praia ou preferes esperar aqui? - perguntei-lhe eu com um ar irónico. Adorava picar Nestor.

- Porquê? Crês porventura que estou senil? - atirou-me ele, erguendo-se de um salto. - É claro que espero na praia!

Resmungando, encaminhou-se decidido para o convés; afastando impacientemente a mão do marinheiro que tentava ajudá-lo, desceu a escada de corda com a agilidade de um rapaz. Ah, o maldito do velho!

Peleu estava à nossa espera para nos dar as boas-vindas. Estivera muitas vezes com ele era eu ainda um rapaz e ele um homem no apogeu das suas capacidades. Porém, desde então, nunca mais o vira. Era agora um homem velho, mas, na sua aparência, havia ainda a altivez de um rei. Um homem bem-parecido -e sábio. Pena que tivesse apenas um filho; sendo filho de Peleu, Aquiles teria de se esforçar muito se quisesse manter a reputação da sua casa.

Confortavelmente sentados diante do grande trípode de fogo, com vinho quente e adoçado à discrição, tratei de explanar as razões da nossa visita. Apesar de Nestor ser mais velho, eu fora eleito porta-voz da delegação; se a missão falhasse, o culpado seria eu e o patife do velho teria sempre escapatória.

- Peleu, Agamémnon enviou-nos a lolcos para que te pedíssemos um favor. Os seus astutos olhos examinaram-me atentamente.

- Helena - disse ele. -As notícias viajam depressa.

- Estava à espera de um mensageiro imperial, mas a verdade é que esperei em vão. No porto de lolcos, ninguém viu passar uma tal personagem.

- Como tu não pronunciaste o Juramento do Cavalo Esquartejado, não faria sentido que Agamémnon enviasse um mensageiro imperial. Nada te obriga a aderir à causa de Menelau.

- Pois ainda bem, Ulisses. Estou demasiado velho para ir para a guerra. Nestor decidiu que eu estava com demasiados rodeios.

- Na realidade, meu caro Peleu, não é a ti que procuramos - disse ele. Com efeito, o que pretendemos é assegurar os serviços do teu filho.

O rei supremo da Tessália pareceu de súbito abatido.

- Aquiles... Bom, eu tinha esperança de que não lhe fizessem tal convite, mas, de certo modo, estava à espera dele... Não duvido, aliás, que Aquiles aceite de bom grado a proposta de Agamémnon.

- Nesse caso, permites que lhe apresentemos o nosso pedido? - perguntou Nestor.

- Claro que permito - retorquiu Peleu. Sorri aliviado.

- Agamémnon agradece-te, Peleu. E eu também te agradeço. Do fundo do coração.

Fitou-me demorada e fixamente.

- Mas tu tens um coração, Ulisses? - perguntou. - Pensava que só possuías uma mente.

Uma imagem desfilou por um instante diante dos olhos da minha memória. Era Penélope, pensei, e logo a imagem se esbateu. Fitei Peleu como ele me fitava a mim.

- Não, Peleu, eu não tenho coração. Que falta faz o coração aos homens? Ter coração é um perigo, Peleu.

- Então sempre é verdade o que se diz de ti. - Pegou no seu copo, que estava sobre a mesa assente no trípode, um belo exemplar da arte egípcia. - Se Aquiles resolver participar na guerra de Tróia - disse ele então - chefiará os Mirmidões. Há mais de vinte anos que o meu povo se prepara para uma dura campanha.

Alguém entrou nesse momento; Peleu sorriu e estendeu-lhe a mão.

- Ah, Fénix! Meus senhores, apresento-lhes Fénix, meu amigo e camarada de muitos, muitos anos. Temos convidados prestigiosos, Fénix - apresento-te o rei Nestor, de Pilos, e o rei Ulisses, de ítaca.

- Eu vi Ájax lá fora - disse Fénix, fazendo uma respeitosa vénia. A sua idade estaria entre a de Peleu e a de Nestor, mas era ainda um homem poderoso, com uma aparência marcial e o físico típico dos Mirmidões - branco, grande e atlético.

- Fénix, acompanharás Aquiles a Tróia - disse Peleu. - Cuidarás dele como eu cuidaria. Protegê-lo-ás do seu destino.

- Nem que para tal tenha de dar a vida, rei Peleu. Belas palavras, pensei eu, impaciente, mas já chegava de conversa.

- Podemos então falar com Aquiles? - perguntei. Peleu e Fénix fitaram-nos espantados.

- Não sabiam que Aquiles não está em lolcos? - perguntou Peleu.

- Não está? Então onde está ele? - perguntou Nestor.

- Em Ciros. Todos os anos, o meu filho passa as seis luas do Inverno na ilha de Ciros - ele está casado com Deidamia, a filha de Licomedes.

Irritado, dei uma palmada na coxa.

- Nesse caso, teremos de fazer mais uma viagem por mar em pleno Inverno.

- Não, de modo nenhum - disse Peleu, muito afável. - Eu mandarei chamá-lo e comunicar-lhe-ei o vosso pedido.

Porém - fosse lá pelo que fosse - eu sabia que, se não fôssemos nós a procurá-lo, nunca veríamos Aquiles. Abanei a cabeça e retorqui: - Não, rei Peleu, Agamémnon não estaria de acordo. Ele disse-nos que deveríamos falar pessoalmente com Aquiles.

E foi assim que fizemos nova viagem e demandámos novo porto e, chegados a este porto, demandámos novo palácio; a diferença estava em que este novo palácio pouco mais era do que uma casa grande. Ciros era uma ilha pobre. Licomedes deu-nos as boas-vindas, mas, logo que nos sentámos para comer uma frugal refeição e beber mais frugalmente ainda, comecei a ter uma insólita sensação que, a um nível mais superficial, se traduzia por aquilo a que chamamos pele de galinha. Havia algo de estranho naquilo tudo - e não apenas no comportamento de Licomedes. Uma tensão muito peculiar impregnava a atmosfera do palácio. Criados - todos eles homens - apareciam para logo desaparecerem sem sequer olharem para nós; a fisionomia de Licomedes não conseguia esconder a pesada pressão do medo; o seu herdeiro, Pátrocles, entrou na sala e saiu tão rapidamente que cheguei a pensar se o rapaz não teria sido inventado pela minha imaginação. Porém, o mais insólito de tudo era que não se ouvia um único som feminino! Não se ouvia uma única mulher - mesmo que distante - a rir-se ou a lamentar-se, ou a gritar, ou a desfazer-se em lágrimas. Que coisa mais estranha! Claro que as mulheres não participavam nos assuntos dos homens, mas não era menos verdade que elas tinham plena consciência da sua importância na ordem instituída e que gozavam de liberdades que nenhum homem se atrevia a negar-lhes. Não esqueçamos que, durante a Velha Religião, eram elas quem governava.

A minha pele de galinha transformara-se num inquietante formigueiro, o meu nariz começava a detectar o velho e conhecido cheiro a perigo; olhei de relance para Nestor: sim, ele sentia o mesmo que eu. Ergueu muito as sobrancelhas e suspirou: não, eu não me tinha enganado. Havia ali um problema qualquer...

Pátrocles, o belo herdeiro, regressou entretanto. Examinei-o mais atentamente, perguntando-me qual poderia ser o seu papel naquela estranha situação. Era um rapaz terno e amável e tinha coragem e valentia de sobra; pareceu-me, porém, que os seus apetites de homem iam todos num sentido - e excluíam as mulheres. Bom, a escolha era dele. Ninguém o censuraria por preferir homens. Não se notariam muito esses apetites, naquela noite, pois o belo Pátrocles estava muito apagado. Mais exactamente: tinha um ar infeliz.

- Rei Licomedes - disse eu -, a nossa missão é muito urgente. Procuramos o teu genro Aquiles.

Houve um silêncio bizarro, intangível; Licomedes quase deixava cair         u copo, após o que se levantou desajeitadamente.

- Meus senhores, Aquiles não se encontra em Ciros.

- Não está cá? - perguntou Ájax, desanimado.

- Não. - Licomedes parecia embaraçado. - Ele - ele teve uma violenta discussão com a sua esposa - com a minha filha - e partiu para o continente, jurando nunca mais regressar.

- Também não está em lolcos - informei eu, afavelmente.

- Confesso que esperava que não estivesse, Ulisses. Ele disse que ia para a Trácia.

Nestor suspirou.

- Por todos os deuses! Parece que estamos condenados a não encontrar nunca o jovem Aquiles, não é verdade?

Nestor dirigira-se a mim, mas não lhe respondi imediatamente, pois dei-me conta de que uma curiosa leveza impregnara de súbito a tensa atmosfera, de que um imenso alívio fizera sossegar os corações de Licomedes e Pátrocles. Sim, o meu instinto não me tinha enganado. Havia ali um problema muito grave e Aquiles estava no centro desse problema. Levantei-me.

- Visto que Aquiles não está em Ciros, creio que será melhor partirmos sem demora, Nestor.

Esperei, sabendo que Licomedes era obrigado, por Zeus hospitaleiro, a brindar-nos com as costumeiras cortesias - se isso não sucedesse, estaria a transgredir as leis divinas. E, enquanto esperava, virei-me de modo a que Nestor pudesse ver-me o rosto; então, lancei-lhe um olhar que era um verdadeiro alerta.

Licomedes fez a oferta que dele se esperava.

- Passem esta noite no meu palácio. O rei Nestor deveria descansar um pouco. Ainda bem que alertara Nestor; em vez de retorquir que estava com energia suficiente para declarar guerra ao Olimpo, Nestor pôs um ar patético, transformando-se, como que por magia, na encarnação de todas as desgraças da velhice. Mas que malandro, aquele velho!

- Agradeço-te muito, rei Licomedes! - exclamei aliviado. - Nestor estava tão cansado esta manhã... O que ele sofre com estes ventos frios ... ! - Baixei os olhos. - Espero que a nossa presença não seja para ti um incómodo.

Mas era mesmo um incómodo. Nunca ocorrera a Licomedes que eu poderia aceitar o seu convite formal, já que a nossa missão era um fracasso e teríamos de regressar rapidamente a Micenas a fim de transmitirmos as tristes notícias a Agamémnon. No entanto, tratou de disfarçar com afáveis sorrisos a sua decepção. Tal como Pátrocles.

Deixei passar algum tempo e fui ter com Nestor ao seu quarto. Sentei-me no braço de uma cadeira enquanto Nestor repousava num banho fumegante, e um velho criado - que coisa rara: de novo um homem! - lhe raspava a pele engelhada, retirando-lhe o sal e a sujidade. Logo que Nestor saiu da banheira, todo entrouxado em toalhas de linho, o homem partiu.

- Que achas disto tudo? - perguntei a Nestor.

- Esta casa está assombrada por alguma sombra - disse ele com a maior das certezas. - Seria lógico que a eventual discussão de Aquiles com a esposa e que a sua eventual partida para a Trácia tivessem provocado uma reacção deste género. No entanto, creio que não foi isso o que se passou. Seja qual for o problema, não é essa a causa.

- Creio que Aquiles está aqui - neste mesmo palácio! Nestor arregalou os olhos.

- Não! - replicou. - Escondido, está, mas não aqui.

- Está aqui - insisti. - Toda a gente sabe que Aquiles é um jovem tão impulsivo quanto belicoso. Licomedes e Pátrocles só conseguem controlá-lo se ele estiver por perto... Portanto, Aquiles só pode estar neste palácio.

- Mas porquê? Aquiles não se submeteu ao Juramento e Peleu também não. A honra deles não seria minimamente afectada se se recusassem a combater em Tróia.

- Ah, mas Aquiles quer ir! Desesperadamente! Os outros é que não querem que ele vá. E, não sei como, ataram-no de pés e mãos.

- Que havemos de fazer então?

- Que achas? - contrapus. -Acho que temos de dar umas voltas por este pequeno edifício... Eu, de preferência, durante o dia. Posso fingir que estou senil. Tu poderás investigar quando toda a gente estiver a dormir. Crês que Aquiles é prisioneiro de Licomedes?

Não, isso era impossível.

- Licomedes não se atreveria, Nestor. Se Peleu soubesse, tornar-se-ia mais temível do que Poseidon. Arrasaria esta ilha. Não, creio que a prisão de Aquiles é um qualquer juramento.

- Lógico - comentou Nestor, começando a vestir-se. - Ainda falta muito para o jantar?

- Ainda temos algum tempo.

- Então vai descansar um pouco, Ulisses, enquanto eu faço a minha ronda. Nestor veio acordar-me para o jantar. Parecia extremamente irritado.

- Que a peste os leve a todos! - resmungou. - Se o esconderam aqui, esconderam-no muito bem. Percorri o palácio desde o telhado às caves e nem sinal de Aquiles! O único sítio onde não pude entrar foram os aposentos das mulheres. Têm um guarda à porta.

- Então é aí que ele está - disse eu, levantando-me. - Hmmm!

Descemos juntos à sala de jantar, perguntando-nos se Licomedes se teria tornado um verdadeiro Assírio, pois os homens assírios proibiam as mulheres de jantarem com eles. Um homem a cuidar dos banhos? As mulheres do palácio todas escondidas? Um guarda à porta dos seus aposentos? Muito estranho... Licomedes não queria que ouvíssemos mexericos: por isso, era preciso que as suas mulheres se mantivessem longe de nós.

Mas havia mulheres na sala de jantar, ainda que atiradas para o canto mais sombrio da sala. Estava à espera de que Licomedes deixasse as mulheres do palácio comerem na sala; o palácio e as cozinhas do palácio eram tão pequenos que, se as mulheres fossem servidas nos seus aposentos, haveria um verdadeiro caos culinário que deixaria os convidados muito mal impressionados.

Contudo, nem sinal de Aquiles. Nenhuma daquelas indistintas formas femininas era suficientemente corpulenta para pertencer a Aquiles.

- Porque é que segregas as mulheres? - perguntou Nestor quando a comida chegou e nos sentámos à mesa de honra com Licomedes e Pátrocles.

- As mulheres ofenderam Poseidon - respondeu rapidamente Pátrocles.

- E? - perguntei eu.

- Poseidon proibiu-as de manterem contactos com os homens durante cinco anos.

Ergui as sobrancelhas de espanto.

- Mesmo os contactos sexuais?

- Não, esses não.

- Isso parece mais uma exigência da Mãe do que de Poseidon - observou Nestor, bebendo um gole de vinho.

Licomedes encolheu os ombros. -A ordem foi de Poseidon, não da Mãe.

- Através de Tétis, a sua sacerdotisa? - perguntou o rei de Pilos.

- Tétis não é sacerdotisa de Poseidon - retorquiu Licomedes, visivelmente constrangido. - O deus recusou-se a aceitá-la. Por isso, agora, Tétis serve a Nereu.

Depois de a comida ter desaparecido (tal como as mulheres), tratei de me juntar a Pátrocles, deixando Licomedes à mercê de Nestor.

- Lamento imenso não ter podido encontrar-me com Aquiles - disse eu.

- Terias gostado dele - disse Pátrocles, num tom perfeitamente inexpressivo.

- Imagino que ele teria adorado ir para Tróia.

- Sim. Aquiles nasceu para a guerra.

- Bom, não tenciono passar a Trácia a pente fino para o encontrar! Aquiles ficará por certo muito triste quando souber o que perdeu.

- Sim, muito triste.

- Fala-me um pouco mais dele, Pátrocles. Do seu aspecto, da sua maneira de ser... - disse eu num tom o mais sedutor possível, pois uma coisa sabia já acerca de Pátrocles: era Aquiles o homem a quem ele havia dado o seu amor.

O seu rosto jovem todo se iluminou.

- É um pouco menos corpulento do que Ájax... Tão - tão gracioso quando caminha! E é muito belo.

- Ouvi dizer que não tinha lábios. Como pode um homem sem lábios ser belo?

- Porque - porque - gaguejou Pátrocles, à procura das palavras certas.

- Terias de conhecê-lo para compreenderes, Ulisses. A boca dele comove-nos até às lágrimas, tão intensa é a dor que ela exprime! Aquiles é a beleza personificada.

- Parece-me demasiado bom para ser verdade - disse eu. Pátrocles quase caíra na armadilha. Por pouco não me dizia que eu era um idiota por duvidar dele, por pouco não me dizia que, se eu quisesse, iria naquele preciso momento buscar o seu modelo de excelência física para que eu visse com os meus próprios olhos... Mas cerrou os lábios com toda a sua força - e não chegou a proferir as palavras que o amor ditava. E nem precisava: eu já tinha a resposta que queria.

Antes de nos retirarmos, conferenciei com Nestor e Ájax, após o que fomos para a cama dormir o sono dos justos. Mal a manhã se anunciou, fui com Ájax até à cidade. Deixara alojado na cidade o meu primo Sinão; não era sensato exibir todos os tesouros ao mesmo tempo e Sinão era um verdadeiro tesouro. Escutou impassível as minhas instruções, após o que recebeu das minhas mãos um dos vários sacos de ouro que Agamémnon me entregara para custear as nossas despesas. Àquilo que era meu, era eu mais agarrado; um dia, todos os meus bens seriam do meu filho. Quanto a Agamémnon, tinha dinheiro de sobra para pagar por Aquiles.

A corte dormia ainda quando regressei ao palácio, embora Ájax não me acompanhasse. Ájax tinha certas tarefas a executar na cidade. Nestor estava acordado e a tratar da sua bagagem; não tencionávamos manter Licomedes em suspenso. Claro que o rei de Ciros protestou muito cortesmente quando lhe anunciámos que estávamos de partida. Rogou-nos que ficássemos mais tempo, mas, desta feita, declinei educadamente o convite, para seu imenso alívio.

- Onde está Ájax? - perguntou Pátrocles.

- Disse-lhe que desse uma volta pela cidade e que perguntasse às pessoas se sabiam para onde Aquiles tinha ido - retorqui, após o que me virei para Licomedes. - Rei Licomedes, gostaria de te pedir um pequeno favor: és capaz de chamar todas as pessoas livres que vivem no teu palácio à Sala do Trono?

Licomedes pareceu espantado, primeiro, e desconfiado depois.

- Bom...

- São ordens de Agamémnon, caso contrário não to pediria. O rei supremo de Micenas ordenou-me que apresentasse os seus agradecimentos a todas as pessoas livres da corte. Já o fiz em lolcos, terei de fazê-lo também em Ciros. Determinou Agamémnon que deverão comparecer todos os membros da corte, incluindo as mulheres. A proibição do deus não te impedirá que as convoques.

Mal disse estas palavras, alguns dos meus marinheiros entraram, trazendo grandes quantidades dos mais diversos presentes. Pequenas lembranças para as mulheres: contas, roupas, frasquinhos de perfume, boiões de óleos, unguentos e essências, belíssimas lãs e diáfanos linhos. Pedi que me trouxessem mesas, a fim de que os homens pudessem descarregar as suas pesadas cargas. Mais marinheiros vieram, desta feita com prendas para os homens: protecções para os braços, revestidas a bronze, escudos, lanças, espadas, couraças, elmos e grevas. Mais mesas pedi para que estas prendas fossem descarregadas.

A cobiça lutava com a prudência nos olhos do rei; quando Pátrocles o advertiu do perigo, agarrando-lhe no braço, Licomedes libertou-se da mão do herdeiro e bateu as palmas para chamar o chefe dos criados.

- Convoca toda a corte para a Sala do Trono. As mulheres não deverão aproximar-se dos homens, de acordo com a proibição decretada por Poseidon.

A sala encheu-se de homens, as mulheres chegaram depois. Nestor e eu tratámos de examiná-las atentamente. Vãos esforços: nenhuma delas podia ser Aquiles.

- Rei Licomedes - disse eu então -, o rei Agamémnon deseja agradecer-te e à tua corte a hospitalidade e ajuda. -Apontei para os montes de presentes desti nados às mulheres. -Aquelas são as prendas para as mulheres - Virei-me para as armas e armaduras. - Estas, são as prendas para os homens.

Ambos os sexos desataram num murmurar deliciado, mas ninguém se mexeu enquanto o rei não fez sinal para que avançassem. Depois, correram para as mesas e, com a felicidade estampada nos rostos, desataram a escolher as prendas que mais lhes agradavam.

- Esta prenda é para ti, rei Licomedes - disse eu, estendendo-lhe um objecto envolvido em linho.

Radiante de prazer, Licomedes desembrulhou o objecto em questão: um machado cretense, a cabeça dupla de bronze, a haste de madeira de carvalho.

Nesse preciso momento, ouviu-se nas proximidades do palácio um penetrante grito de alarme. Alguém fizera soar uma trombeta e, ao longe, todos ouvimos Ájax soltando um estridente grito de guerra, típico dos homens de Salamina. Logo a seguir, ouviu-se um barulho inconfundível: o ruído de homens vestindo as suas armaduras. Ájax voltou a gritar, mais perto agora, como se estivesse a retirar. As mulheres desataram aos gritos enquanto fugiam aflitas para o vão da porta, os homens desataram numa confusão de perguntas, e o rei Licomedes, com uma lividez de moribundo, esqueceu-se até do seu machado.

- Piratas! - gritou o rei, sem saber o que fazer. Ájax gritou uma vez mais, mais alto e muito mais perto, um grito de guerra das encostas do Pélion, um grito de guerra que só Quíron ensinava. Perante a imobilidade expectante que entretanto se instalara na Sala do Trono, peguei no machado e ergui a sua cabeça dupla.

Mas houve mais alguém que se mexeu: alguém que irrompeu pela Sala do Trono com tal força e violência que as mulheres, apinhadas no vão da porta, rodopiaram como simples canilhas das tecedeiras. A criatura em questão parecia ser uma mulher... Depressa percebemos por que razão Licomedes não se atrevera a mostrá-la à nossa embaixada! Despindo impacientemente a túnica de linho e revelando assim um peito tão magnificamente musculado que eu próprio fiquei de olhos arregalados de admiração, a valente mulher correu para a mesa onde estavam empilhadas as armas. Finalmente encontráramos Aquiles.

Deitou para o chão tudo o que estava em cima de uma mesa, pegou num escudo e numa lança e logo se ergueu pronto para a luta. Encaminhei-me na sua direcção, oferecendo-lhe o machado.

- Minha senhora, use antes este machado! É uma arma mais adequada para uma mulher tão corpulenta... - Passei-lhe o machado, uma pesada arma para os meus pobres braços. - Estou na presença do príncipe Aquiles, não é verdade?

Ah, o jovem Aquiles era realmente uma estranha criatura! Alguém que poderia ter sido o mais belo dos homens, mas que, de facto, não o era - apesar de todos os louvores de Pátrocles. Ainda que a causa não fosse exactamente a boca, ou a ausência dela. Aliás, aquela fenda que tinha no lugar dos lábios conferia à sua expressão um pathos que só lhe ficava bem. Em Aquiles, a ausência de beleza - sempre achei isso, desde o momento em que o conheci - vinha de dentro, não de fora. Os olhos eram um mar de orgulho e suprema inteligência; não, de facto, Aquiles não era um brutamontes como Ájax.

- Os meus agradecimentos! - exclamou ele, rindo-se tanto como eu. Ájax entrou na Sala do Trono empunhando ainda as armas que usara para criar o pânico nas proximidades do palácio; mal viu Aquiles, desatou aos berros.

Um instante depois, já o abraçava com tal força que, fosse eu o abraçado e teria ficado por certo com a caixa torácica esmagada. Aquiles libertou-se de Ájax aparentemente sem sofrer qualquer dano e pôs um braço por cima dos ombros dele.

- Ájax, Ájax! O teu grito de guerra trespassou-me como a mais aguçada das flechas! Eu não podia deixar de responder, não consegui ficar quieto nem mais um momento! Quando deste o grito de guerra do velho Quíron, era a mim que estavas a chamar - como poderia eu resistir? - Olhou de relance para Pátrocles e estendeu-lhe uma mão. - Vem, Pátrocles, vem para ao pé de nós! Vamos para a guerra contra Tróia! O meu maior desejo vai ser satisfeito! O Pai Zeus respondeu às minhas súplicas!

Licomedes estava fora de si, chorava, contorcia aflito as mãos.

- Meu filho, meu filho, que vai ser de nós? Quebraste o juramento que fizeste diante de tua mãe! Ela vai arrasar-nos!

Um pesado silêncio caiu sobre a sala. Num ápice, Aquiles perdeu toda a alegria. Ergui as sobrancelhas para Nestor; suspirámos ambos. Tudo estava explicado.

- Não estou a perceber, pai. Como é que eu quebrei o juramento? - disse finalmente Aquiles. - Eu limitei-me a responder a um estímulo... Sem pensar, reagi a um apelo que me foi instilado era eu ainda um menino pequeno. Ouvi Ájax e respondi. Não quebrei nenhum juramento. A astúcia de um outro homem destruiu as grilhetas desse juramento.

- Aquiles diz a verdade - disse eu, bem alto. - Eu enganei-o. Nenhum deus poderá considerá-lo culpado da quebra de um juramento.

Claro que duvidaram de mim, mas o mal estava feito. Aquiles ergueu exultante os braços e logo se virou para Pátrocles e Ájax, abraçando os dois.

- Primos, nós vamos para a guerra! - disse, com um sorriso de tremenda alegria. Depois, lançou-me um olhar grato. - É o nosso destino. Apesar dos seus hediondos sortilégios, a minha mãe nunca conseguiu transformar a minha verdadeira natureza. Eu nasci para ser guerreiro, para lutar ao lado dos maiores homens da nossa época, para alcançar a fama eterna e a glória imorredoira! Aquilo que ele disse era provavelmente verdade. Olhei de soslaio para aquele esplêndido trio de jovens e lembrei-me da minha mulher e do meu filho, da eternidade que o meu exílio duraria. Aquiles alcançaria sem dúvida a fama eterna e a glória imorredoira na guerra de Tróia; mas eu trocaria de bom grado o meu quinhão de fama e de glória pelo direito a regressar a casa no dia seguinte.

Afinal, até consegui voltar a ítaca, sob o pretexto de que tinha de organizar pessoalmente o meu contingente para a guerra de Tróia. Agamémnon não ficou nada contente quando me viu partir de Micenas; eu representava para ele uma apetecível bengala.

Passei três preciosas luas com a minha Penélope tecedeira. Um tempo com que não contáramos, mas que eu não poderia prolongar. Enquanto a minha pequena frota enfrentava o alteroso mar de Pélops, decidi rumar a Áulida por terra.

Atravessei rapidamente a Etólia, pois não parei para descansar nem de noite nem de dia. Cheguei finalmente à montanhosa Delfos, onde Apolo, Senhor da Profética Boca, tinha o seu santuário, e onde a sua sacerdotisa, a pitonisa, pronunciava os seus infalíveis oráculos. Perguntei-lhe se o oráculo de ítaca estava certo, ou seja, se eu passaria realmente vinte anos longe da minha pátria. A resposta dela não poderia ter sido mais simples e directa: - Sim. - Acrescentou que era essa a vontade da minha protectora, Palas Atena. Perguntei-lhe porquê. A única resposta que me deu foi um risinho.

Reduzidas a cinzas as minhas esperanças, avancei na direcção de Tebas, onde deveria encontrar-me com Diomedes, que vinha de Argos. Porém, a cidade de Tebas, agora não mais do que ruínas, estava deserta; Diomedes não se atrevera a demorar-se naquela cidade sombra. Não lamentei a solidão e iniciei sem demora a última e curta etapa da minha viagem, fazendo-me ao camínho que conduzia ao estreito de Eubeia e à praia de Áulida.

O local de lançamento da expedição fora demoradamente debatido; mil ou mais navios precisavam de algumas léguas de espaço e as águas tinham de ser abrigadas. Portanto, Áulida era uma boa escolha. A praia tinha mais de duas léguas de comprido e a ilha de Eubeia, não muito longe do litoral, protegia-a dos ventos e das correntes mais impetuosos.

Eu era o último a chegar. Postei-me no alto da colina sobranceira à praia e apreciei o espectáculo. Até mesmo os meus cavalos pareciam dar-se conta de que havia qualquer coisa de ameaçador no ar, pois pararam, esquivaram-se e desataram a empinar-se, que é o que os cavalos fazem quando lhes ordenamos que se aproximem de carne putrefacta. O meu condutor teve de se esforçar para os controlar. Por fim, porém, lá conseguiu convencê-los de que não havia perigo nenhum.

Diante dos meus olhos, espraiava-se um mar de navios! Aos meus pés, ao longo de toda a praia, estendiam-se duas filas de navios, navios de proas altas, pintados de vermelho e negro, cada um deles construído para levar pelo menos cem homens, com espaço suficiente para cinquenta homens manobrarem os remos enquanto os outros cinquenta descansavam, cada um deles com um mastro alto para receber convenientemente a vela. Fiquei a pensar em quantas árvores não teriam sido derrubadas para construir aqueles mais de mil navios, na multidão de gotas de suor que não teriam molhado os seus costados até que o último prego tivesse sido pregado, até que cada um daqueles barcos estivesse em condições de enfrentar o mar. Navios, navios, navios. Do alto da colina pareciam pequenos, mas a verdade é que conduziriam a Tróia oitenta mil soldados e várias dezenas de milhar de não combatentes. Mentalmente, aplaudi Agamémnon. Ele ousara - e vencera. Ainda que aquelas duas filas de navios não saíssem da praia de Áulida, o esforço já teria valido a pena porque o feito era esplêndido. Esqueci a beleza da terra; as montanhas ficaram de repente muito pequenas, o mar ficou reduzido a um instrumento passivo, existente apenas para que Agamémnon, o rei dos reis, o usasse a seu bel-prazer. Ri-me bem alto e gritei, «Agamémnon, venceste!

Avancei pela pequena aldeia piscatória de Áulida a um rápido trote, ignorando a multidão de soldados que enchia a sua única rua. Quando a aldeia ficou para trás, parei, sem saber o que fazer. No meio de tantos navios, onde ficava o quartel-general? Chamei um oficial.

- Qual é o caminho para a tenda de Agamémnon, o rei dos reis? - perguntei. Examinou-me vagarosamente, palitando os dentes enquanto apreciava a minha armadura, o meu elmo repleto de presas de javali, o portentoso escudo que pertencera ao meu pai.

- Quem pergunta? - quis saber o impertinente.

- Um lobo que já devorou ratazanas muito maiores do que tu.

Surpreso com a resposta, engoliu em seco e respondeu-me educadamente.

- Segue por esta estrada e, daqui a pouco, volta a perguntar.

- Ulisses de ítaca agradece-te.

O quartel-general de Agamémnon era temporário, constituído por boas tendas de cabedal, razoavelmente grandes e confortáveis. Não construíra nada de sólido ou duradouro, exceptuando um altar de mármore sob um solitário plátano, uma pobre e desolada árvore que lutava contra o sal e contra o vento na esperança de que, agora que a Primavera chegara, o verde voltasse a ser a sua cor. Depois de ter deixado o meu condutor e os meus cavalos entregues aos cuidados dos guardas imperiais, fui escoltado até à maior das tendas.

Estavam lá todos os homens realmente importantes: Idomeneu, Diomedes, Nestor, Ájax e o seu homónimo, a quem chamávamos o Pequeno Ájax, Teucro, Fénix, Aquiles, Menesteu, Menelau, Palamedes, Meríona, Filoctetes, Eurípilo, Macáon, Podalírio e Toas. O sacerdote albino, Calcas, estava muito sossegado a um canto, os olhos vermelhos saltitando de homem em homem, calculando, avaliando; os seus olhos vesgos não me enganavam. Por um momento, observei-o sem que ele desse por isso, tentando perscrutar o que lhe iria na alma. Não gostava dele, não só por causa da sua aparência repulsiva, mas também porque havia algo de menos tangível na sua máscara que me inspirava uma intensa sensação de desconfiança. Sabia que Agamémnon sentira o mesmo de início. Porém, depois de muitas luas a espiar o homem, chegara à conclusão de que Calcas era leal. Eu não estava assim tão seguro... Aquele homem era muito esperto. Além de que era troiano.

Aquiles saudou-me jubilosamente.

- Ulisses, porque demoraste tanto? Os teus navios chegaram há meia lua!

- Vim por terra. Tive de tratar de algumas coisas.

- Chegaste mesmo a tempo, meu velho amigo - disse Agamémnon. - Vamos dar início ao nosso primeiro conselho formal.

- Então sou mesmo o último?

- O último dos que realmente contam, Ulisses. Sentámo-nos. Calcas saiu do seu cantinho para empunhar, com uma garra frouxa, o Bastão do Debate. Apesar do tempo primaveril e ensolarado, fora preciso acender lamparinas, pois era escassa a luz que entrava pela fresta da porta da tenda. Como era de norma num conselho de guerra formal, todos envergávamos armaduras. Agamémnon tinha uma belíssima armadura de ouro, incrustada com ametistas e lápis-lazúli; fiz votos para que, quando soasse a hora da batalha, tivesse uma armadura mais adequada para o efeito. Recebendo das mãos de Calcas o Bastão do Debate, encarou-nos com uma expressão orgulhosa.

- Convoquei este primeiro conselho, obviamente para discutir a viagem e não a campanha. Porém, em vez de ordenar, creio que seria melhor responder às vossas perguntas. Creio que não será necessário um debate formal. Calcas empunhará o Bastão. Contudo, se algum dos presentes desejar fazer um discurso mais demorado, poderá fazê-lo à vontade. - Com um ar satisfeito, passou o Bastão a Calcas.

- Quando planeias partir? - perguntou Nestor placidamente.

- Na próxima lua nova. Deleguei as principais tarefas de organização em Fénix, que é, entre todos nós, o marinheiro mais experiente. Fénix nomeou já uma equipa especial de oficiais que está a estudar a ordem de partida dos navios, quais os contingentes mais rápidos e quais os mais lentos, quais os navios que deverão levar tropas indispensáveis e quais os que deverão transportar cavalos e não combatentes. Sossega, Nestor: não será o caos quando desembarcarmos.

- Quem é o piloto-chefe? - perguntou Aquiles.

- Télefo. Viajará comigo na nau capitânia. Cada piloto tem ordens para manter o seu navio à vista de pelo menos uma dúzia de outros. Desse modo, a frota permanecerá intacta - se as condições de tempo forem favoráveis, é claro. As tempestades dificultarão o nosso avanço, mas esta época do ano é propícia às viagens e Télefo está a treinar todos os pilotos com extremo cuidado.

- Quantos são os navios de abastecimento? - perguntei eu. Agamémnon pareceu ficar um pouco melindrado com a pergunta. Não estava à espera de que lhe fizessem perguntas tão práticas.

- Cinquenta navios, Ulisses. A nossa campanha será curta e incisiva.

- Só cinquenta? Para mais de cem mil homens? Vão acabar com a comida em menos de uma lua.

- Em menos de uma lua - retorquiu o rei supremo de Micenas - teremos toda a comida de Tróia à nossa disposição. - A sua expressão dizia mais do que as meras palavras: Agamémnon tomara uma decisão e dela não se desviaria. Ah, mas porquê precisamente naquele ponto - o ponto mais problemático, mais imprevisível? Mas Agamémnon, por vezes, era assim mesmo - e nada do que eu, ou Nestor, ou Palamedes, lhe disséssemos, poderia ter alguma influência sobre ele.

Aquiles levantou-se e pegou no Bastão.

- Este problema preocupa-me, rei Agamémnon. Estou convencido de que deverias prestar tanta atenção aos abastecimentos como às embarcações, à viagem ou mesmo às tácticas de batalha. Mais de cem mil homens comerão mais de cem mil canecas de cereais por dia, mais de cem mil nacos de carne, mais de cem mil ovos ou queijos por dia - e beberão mais de cem mil copos de vinho misturado com água por dia. Se os abastecimentos não forem cuidadosamente organizados, o exército passará fome. Cinquenta navios, como disse Ulisses, não chegarão para mais de uma lua. E se mantivéssemos esses cinquenta navios em constante trânsito entre a Grécia e a Tróada, trazendo mais mantimentos? Que acontecerá se a campanha for mais longa do que esperas?

Se Nestor, Palamedes e eu não conseguíamos demovê-lo, que hipóteses teria um rapazito como Aquiles? Agamémnon tinha os lábios franzidos e cerrados e, em cada face, uma mancha vermelha.

Louvo muito a tua preocupação, Aquiles - disse ele num tom afável. Contudo, sugiro-te que não te preocupes tanto: eu encarregar-me-ei de tudo.

Nada convencido, Aquiles entregou o Bastão a Calcas e sentou-se. Ao sentar-se, porém, comentou, aparentemente para ninguém em particular: - Bom, o meu pai sempre disse que só um chefe tolo deixa aos outros os cuidados a ter com os seus soldados. Creio, por isso, que levarei mantimentos adicionais para os meus Mirmidões nos meus próprios navios. E vou alugar uns quantos navios mercantes para levar mais.

Uma mensagem que teve um efeito imediato: alguns dos outros decidiram, nesse mesmo instante, seguir o exemplo de Aquiles.

E Agamémnon apercebeu-se claramente disso. Vi os seus cismáticos olhos escuros demorando-se no rosto ávido e fresco do jovem Aquiles e suspirei. Agamémnon estava com ciúmes. Que se passara em Áulida na minha ausência? Estaria Aquiles a conquistar partidários e Agamémnon a perdê-los?

Na manhã seguinte reunimo-nos para passar revista às tropas. Para irmos de uma ponta à outra da praia, demorámos a maior parte do dia; tremiam-me os joelhos depois de ter passado tanto tempo de pé sobre os estribos de vime do meu carro (e, ainda por cima, levava a armadura vestida). Duas filas de navios erguiam-se acima de nós; navios imponentes, com os costados vermelhos listrados com costuras negras de breu, as proas bicudas pintadas de azul e rosa, os grandes olhos das proas fitando-nos inexpressivamente.

Os soldados beneficiavam das sombras projectadas pelos navios. Cada homem envergava uma armadura completa e empunhava um escudo e uma lança prontos a serem usados; filas intermináveis de homens, todos eles leais a uma causa de que nada sabiam, excepto que, num futuro próximo, haveria despojos a dividir por todos. Ninguém saudava os seus soberanos, ninguém corria para melhor ver os seus reis.

No extremo da longa linha de homens e navios, encontravam-se as embarcações de Aquiles e os homens de que tanto ouvíramos falar mas que nunca havíamos visto: os Mirmidões. Tinha experiência suficiente para não esperar que eles fossem diferentes - contudo, os Mirmidões eram mesmo diferentes. Altos, brancos e louros, os olhos uniformemente azuis ou verdes ou cinzentos sob belos elmos de bronze, armaduras completas de bronze em vez da habitual armadura de cabedal do comum dos soldados. Cada homem empunhava um feixe de dez lanças em vez das usuais duas ou três; empunhavam ainda pesados escudos, da altura de um homem, não muito inferiores ao meu veterano escudo, e as suas armas eram espadas e punhais, em vez de flechas ou fundas. Sim, não havia dúvida: aquelas eram tropas da primeira linha, as melhores de que dispúnhamos.

Quanto a Aquiles, Peleu devia ter gasto uma fortuna para equipar o seu único filho para a guerra. O carro de Aquiles era decorado a ouro, os cavalos eram indiscutivelmente os melhores do cortejo - três garanhões brancos da Tessália, os arreios cintilando de ouro e jóias. Não sei de onde viera a armadura que Aquiles envergava, mas sei que conhecia apenas uma armadura melhor do que a dele: a que estava guardada no meu cofre-forte. Tal como a armadura de Agamémnon, também a de Aquiles era revestida a ouro, ainda que sobre um fundo de bronze e estanho: enfim, era tão pesada aquela armadura que, muito provavelmente, só Aquiles e Ájax teriam físico para a suportar. Toda a armadura fora decorada com símbolos e padrões sagrados e embelezada com âmbar e cristal. Empunhava apenas uma lança: no meio de tanto brilho, a lança marcava um contraste incrível, pois, sobre ser um feio objecto, não possuía brilho nenhum. O condutor do carro era o primo Pátrocles. Ah, que espertos que eles eram! Quando o cortejo dos reis era obrigado a parar, os cavalos de Aquiles começavam a falar!

«As nossas saudações, Mirmidões!», exclamava o cavalo mais próximo dos soldados, agitando a cabeça até que a sua longa crina branca flutuava como uma bandeira.

«Nós servi-los-emos corajosamente, Mirmidões!», diziam os lábios do cavalo do meio, o mais calmo.

«Não temam por Aquiles enquanto formos nós a puxar o seu carro!», dizia o mais distante, numa voz mais relinchada que as dos outros.

Os Mirmidões olhavam para os cavalos com sorrisos imensos e batiam no chão com os seus feixes de lanças para saudarem os régios cavalos. Em contrapartida, Idomeneu, que seguia no carro à frente de Aquiles, por mais de uma vez se virou para trás boquiaberto, como se estivesse a ver uma assombração.

Mas eu percebera o truque, pois vinha mesmo atrás do carro dourado de Aquiles. Era Pátrocles quem falava, reduzindo ao mínimo os movimentos dos seus lábios! Esperto, o amigo de Aquiles!

O tempo continuava ensolarado e a brisa suavíssima; tudo apontava para uma partida normal e uma travessia calma. Porém, na noite anterior à largada, não consegui dormir e tive de me levantar para dar um longo e inquieto passeio pela praia, tendo por única companhia as estrelas que no céu brilhavam. Estava a contemplar o perfil de um navio próximo quando surgiu alguém por entre as dunas.

- Também não consegues dormir?

Não precisei de fazer um grande esforço para saber de quem se tratava. Só Diomedes procuraria Ulisses de preferência a qualquer outro. Um bom amigo, o meu camarada de tantas guerras. E tão cheio de cicatrizes dessas guerras ... ! Entre todos os que iam para Tróia, Diomedes era, sem dúvida, o homem mais castigado por armas inimigas. Combatera em todas as campanhas, pequenas ou grandes, desde Creta até à Trácia, e pertencera ao segundo grupo dos Sete contra Tebas, os Sete que haviam conquistado e arrasado a cidade, desse modo realizando aquilo que os seus pais não tinham conseguido fazer. Diomedes era uma criatura apaixonada e implacável, logo, bastante diferente de mim; eu era implacável, sem dúvida, mas não me deixava levar por paixões; o meu espírito era perpetuamente temperado pelo gelo que havia na minha mente. Devo confessar que o invejava, pois Diomedes havia jurado construir um templo com as caveiras dos seus inimigos e cumprira a sua promessa. O pai dele fora Tideu, um rei de Argos particularmente famoso, mas o filho era muito melhor do que o pai. Em Tróia, Diomedes não falharia. Seguira de Argos para Micenas com toda a fogosa ânsia que o seu coração poderia albergar, já que amava loucamente Helena, e, tal como o pobre Menelau, também ele se recusara a acreditar que Helena fugira de livre vontade. Nutria por mim uma elevada estima, um sentimento que, por vezes, me parecia próxima da adoração que se tem pelos heróis. Eu... um herói? Que coisa mais estranha!

- Amanhã vai chover - disse ele, erguendo o seu longo pescoço e contemplando as profundezas do céu.

- Vai chover? Mas não há nuvens... - objectei. Diomedes encolheu os ombros.

- Doem-me os ossos, Ulisses. O meu pai dizia que um homem marcado pela guerra - ossos partidos, a carne dilacerada por lanças ou flechas, enfim, tudo isso - podia prever a chuva e o frio. Esta noite, as dores eram tais que nem consegui dormir.

Ouvira já falar de um tal fenómeno e devo dizer que fiquei seriamente apreensivo.

- Para bem de todos nós, espero que, pelo menos desta vez, os teus ossos se enganem. Mas diz-me, Diomedes, por que razão me procuraste?

Fitou-me com um sorriso arreganhado.

- Eu sabia que a Raposa de Ítaca não dormiria enquanto não sentisse as ondas sob o seu navio. Queria falar contigo.

Pondo o meu braço sobre os seus largos ombros, conduzi-o na direcção da minha tenda.

- Falemos, então. Tenho vinho e um bom lume no trípode.

Instalámo-nos em divãs, com o lume entre nós e copos cheios à nossa disposição. A tenda estava quente e mergulhada numa semiobscuridade e os divãs bem guarnecidos de almofadas; o vinho sem água era também uma boa maneira de atrair o sono. Era altamente improvável que alguém viesse incomodar-nos; de qualquer modo, para evitar um eventual importuno, baixei a cortina da porta da tenda.

- Ulisses, tu és o homem mais notável e capaz desta expedição a Tróia -disse ele com o ar mais sério deste mundo.

Não consegui evitar o riso.

- Não, nem pensar! Esse homem é Agamémnon! Ou então Aquiles. -Agamémnon? Aquele autocrata presumido e teimoso que nem um burro? Não, de modo nenhum! Ele pode ficar com os louros, mas apenas porque é o rei supremo, e não por ser o maior dos vultos aqui presentes. Quanto a Aquiles, bom, Aquiles não passa de um rapazito. Claro, claro que o rapaz tem tudo para vir a ser um dos grandes! Possui uma inteligência superior. Sim, de facto pode vir a revelar-se um homem formidável. Mas, por enquanto, falta-lhe a experiência. Sabe-se lá... até pode ser que meta o rabinho entre as pernas e desate a fugir mal veja sangue derramado.

Sorri.

- Não, Aquiles não é desses.

- Muito bem, admito que não seja. Mas Aquiles nunca poderá ser o vulto mais notável do nosso exército, porque esse vulto és tu, Ulisses. A conquista de Tróia só poderá ser obra tua.

- Que disparate, Diomedes! - disse eu, afavelmente. - Que pode a inteligência de um homem fazer em dez dias?

- Dez dias? - disse ele, com um ar trocista. - Pela Mãe, é muito mais provável que sejam dez anos! Isto é uma guerra a sério, não uma caçada.     - Pôs o copo vazio no chão. - Mas eu não te procurei para falar de guerras. De facto, queria pedir a tua ajuda.

-A minha ajuda? Mas tu é que és o guerreiro experimentado, não eu, Diomedes!

- Não, isto não tem nada a ver com campos de batalha! Quanto a batalhas, até posso travá-las de olhos vendados ... ! Não, eu preciso da tua ajuda noutros domínios, Ulisses. Quero ver como trabalhas. Quero ver como é que consegues controlar-te. - Inclinou-se um pouco para a frente e prosseguiu: - Sabes, eu preciso de alguém que vigie o meu terrível mau génio, alguém que me ensine a dominar o meu demónio interior, em vez de o deixar em total liberdade, como tem sido costume - uma liberdade cujo preço é demasiado elevado para mim. Pensei que talvez pudesse ficar com alguma da tua frieza, se te visse agir, se te visse organizar, comandar, combater.

A simplicidade dele comoveu-me.

- Nesse caso, Diomedes, a solução é simples: junta-te a mim. Diz aos teus pilotos que mantenham os teus navios perto dos meus, participa comigo em todas as missões, coloca as tuas tropas ao lado das minhas quando chegar a hora da batalha. Qualquer homem precisa de um bom amigo que o anime - é o único remédio para a nossa solidão, para as saudades que temos do lar e da pátria.

Diomedes estendeu a mão por sobre as vivas chamas, aparentemente sem se aperceber de que o fogo quase lambia o seu pulso. Os meus dedos envolveram o seu antebraço; assim selávamos o nosso pacto de amizade, assim partilhávamos a nossa solidão, tornando-a menos opressiva.

Devemos ter adormecido já a noite ia alta, pois acordei à primeira luz da manhã com o bramido de um vento ameaçador, um vento que cantava nas enxárcias daquela multidão de navios, que chiava sonoro e impiedoso em torno das proas. Do outro lado da fogueira, agora reduzida a cinzas, Diomedes começou a mexer-se, maculando a ágil beleza do seu despertar com um ronco de dor.

- Os meus ossos ainda me doem mais do que ontem à noite - disse ele, sentando-se.

- E com razão! Temos vendaval! Diomedes levantou-se lentamente, foi até à cortina, espreitou lá para fora e voltou para o seu divã.

- É o vento norte, o pai de todas as tempestades. Garanto-te que até neve vamos ter. Não, Ulisses, não partiremos hoje. As nossas embarcações iriam parar todas ao Egipto.

Um escravo surgiu com um trípode com um lume novo, fez as camas e trouxe-nos água quente para nos lavarmos. Não havia razão para pressas; Agamémnon ficaria tão desconsolado que não convocaria conselho nenhum antes do meio-dia. A minha cozinheira trouxe-nos bolos de mel ainda quentes e pão de cevada, e queijo de ovelha e vinho quente e adoçado para terminar o repasto. Era uma boa refeição, e ainda melhor porque era partilhada; e assim estivemos um ror de tempo, aquecendo as mãos no lume, até que Diomedes regressou à sua tenda para vestir a indumentária que o conselho exigia. Quanto a mim, vesti um saiote de cabedal e uma blusa, apertei as correias das botas altas e pus por cima dos ombros um manto forrado a pele.

O rosto de Agamémnon estava tão sombrio e tempestuoso como o dia; a fúria e a humilhação travavam uma guerra sem tréguas nos seus rígidos traços, agora que os seus planos haviam ruído. Havia nele o secreto medo de parecer ridículo aos olhos dos outros chefes, agora que a sua grandiosa aventura se desmoronara antes mesmo de ter começado.

- Convoquei Calcas para que realize um augúrio! - exclamou ele repentinamente.

Suspirando resignados, e apertando bem os mantos, fizemo-nos ao vendaval. A vítima encontrava-se no altar de mármore sob o plátano, as pernas presas por correias. E Calcas envergava uma túnica púrpura! Púrpura? Mas que raio acontecera em Áulida antes da minha chegada? Agamémnon devia tê-lo em altíssima consideração para o deixar vestir uma túnica púrpura!

Uma coincidência demasiado estranha, pensei eu enquanto aguardava que a cerimónia começasse; duas luas de tempo perfeito e, precisamente no dia previsto para a nossa partida, todos os elementos conspiravam para a atrasar. A maior

parte dos reis decidira voltar para as suas tendas, bastante mais quentes e agradáveis do que o vento e a saraiva que teriam de suportar se assistissem à cerimónia. Só os mais velhos ou aqueles que dispunham de mais poder ficaram para apoiar Agamémnon e testemunhar a mensagem do augúrio: eu próprio, Nestor, Diomedes, Menelau, Palamedes, Filoctetes e Idomeneu.

Era a primeira vez que via Calcas realizar um augúrio e tive de admitir que era um especialista. Com umas mãos que, de tão trémulas, quase não conseguiam erguer a faca adornada com jóias, o rosto da cor da cera, cortou com um movimento brusco a garganta da vítima, quase virando o grande cálice de ouro enquanto o segurava para apanhar o sangue; quando derramou o sangue sobre o frio mármore, este pareceu fumegar. Depois, abriu a barriga do animal e começou a interpretar a disposição das entranhas de acordo com a prática dos sacerdotes treinados na Ásia Menor. Os seus movimentos eram rápidos e disrítmicos e a sua respiração tão estertorosa que conseguia ouvi-la sempre que o vento abrandava por um momento.

Inopinadamente, rodopiou e ficou de frente para nós.

- Escutem a palavra do deus, ó reis da Grécia! Eu vi a vontade de Zeus, o Senhor de Tudo! Ele virou-lhes as costas, ele recusa-se a abençoar esta aventura! A sua cólera obscurece os motivos que o levaram a tomar esta atitude, mas uma coisa eu sei: é Ártemis quem está sentada ao seu colo e que lhe pede que se mostre intransigente! Não consigo ver mais, pois a sua fúria cega-me!

Era mais ou menos aquilo de que estava à espera, pensei, ainda que a referência a Ártemis constituísse um toque inegavelmente hábil. Contudo, justiça seja feita, Calcas parecia mesmo um homem perseguido pelas Filhas de Kore, um homem que fora despojado de tudo, excepto da sua vida, numa fracção mínima de tempo. Havia nos seus olhos uma angústia sincera. Não parava de me surpreender, aquele homem; de facto, era óbvio que ele acreditava em tudo o que dissera, ainda que tivesse preparado antecipadamente toda a sua actuação. Todos os homens que possuem o poder de influenciar os outros me interessam; porém, nunca nenhum sacerdote me interessou tanto como Calcas.

Mas a tua actuação ainda não terminou, pensei eu; faltam ainda alguns detalhes. Aos pés do altar, Calcas rodopiou e abriu muito os braços, as mangas enormes adejando, empapadas de sangue, ao sabor do vento, a cabeça inclinada para trás, a linha dessa inclinação revelando que o sacerdote estava a olhar para o plátano. Atentei no que os seus olhos viam: os ramos ainda nus, os botões carcomidos ainda por abrir. Um ninho ocultava-se entre dois ramos, um ninho onde um pássaro chocava os seus ovos. Um vulgar pássaro castanho, igual a tantos outros.

A cobra do altar coleava já ao longo do ramo, a gula estampada nos frios olhos negros. Calcas juntou os seus braços, ainda erguidos, até que ambas as mãos apontaram para o ninho; com a respiração suspensa, seguimos os movimentos da cobra. Acerta altura, a terrífica boca do réptil abriu-se para, num ápice, engolir o pássaro inteiro; enquanto o devorava, as suas cintilantes escamas castanhas, ao revolverem-se, faziam lembrar uma série de tatuagens vivas. Depois, devorou os ovos um a um: seis, sete, oito, nove, contei eu. A mãe e os nove ovos, tal fora o repasto.

Como é costume entre os animais da sua espécie, a cobra, depois de saciada a gula, ficou parada onde estava, parada e enroscada no fino ramo como se fosse uma estátua arrancada à pedra. Os seus olhos fixavam impassíveis o sacerdote: a frígida penetração do seu olhar não era perturbada pelos movimentos que, nos olhos dos humanos, são normais.

Calcas virou-se para nós como se um qualquer deus tivesse espetado uma estaca no seu estômago. Gemia um gemido brando. Então, falou de novo.

- Escutem-me, ó reis da Grécia! Acabam de testemunhar a mensagem de Apolo! Ele fala quando o Senhor de Tudo se recusa a falar! A cobra sagrada engoliu a ave e os seus nove ovos. A ave é a estação que ora se avizinha. Os seus nove filhos que morreram nos ovos são as nove estações que a Mãe não deu ainda à luz. A cobra é a Grécia! A ave e os seus ovos são os anos que a Grécia demorará a conquistar Tróia! Dez anos serão precisos para conquistar Tróia! Dez anos!

O silêncio que se seguiu era tão profundo que parecia ter vencido o ruído constante da tempestade. Por um longo tempo, ninguém se mexeu ou falou. Nem eu sabia o que pensar de tão espantosa actuação! Seria este sacerdote estrangeiro um verdadeiro vidente? Ou estaríamos perante uma mistificação muito bem elaborada? Olhei para Agamémnon, perguntando-me quem levaria a melhor: se a sua certeza de que a guerra não duraria mais do que uns breves dias, se a sua fé no sacerdote. Era uma luta violenta, pois Agamémnon era, do ponto de vista religioso, um homem supersticioso. Mas, no fim, foi o seu orgulho que venceu. Encolhendo os ombros, deu meia volta e foi-se embora. Fui eu o último a partir. Enquanto ali estive, não tirei os olhos de Calcas. Estava de pé e tão imóvel como uma pedra, os olhos fixos nas costas do rei supremo. Havia nos seus olhos um rancor evidente, o que não admira: a sua primeira exibição de poder fora pura e simplesmente ignorada.

Os dias foram seguindo o seu implacável caminho e a Primavera ia j'á avançada e os ventos fortes e os dilúvios de chuva continuavam. Fustigado pelo vento, o mar levantava-se em ondas tão altas como o convés do mais imponente dos navios; impossível partir em tais condições. Todos aguardávamos, cada um segundo o seu jeito peculiar. Aquiles treinava impiedosamente os Mirmidões, Diomedes enfiava-se na minha tenda e punha-se a andar de um lado para o outro com uma impaciência cada vez maior, Idomeneu divertia-se nos braços das cortesãs que trouxera de Creta, Fénix cacarejava como uma galinha demente para os pilotos parados em terra, Agamémnon mordiscava a barba e recusava-se a dar ouvidos a conselhos, enquanto os soldados mandriavam e jogavam aos dados, discutiam e bebiam. Por outro lado, dar de comer a tanta gente estava a tornar-se uma missão quase impossível, pois as equipas disso encarregadas tinham de vencer léguas e léguas de lama para levar comida suficiente a todas as vorazes bocas.

Quanto a mim, tanto me fazia. O meu exílio duraria vinte anos: que me importava o modo como ele começava? Poucos eram aqueles que se reuniam todos os dias, ao meio-dia, para assistirem à interpretação dos augúrios. Nenhum de nós esperava ouvir da boca de Calcas uma razão clara para a hostilidade do grande deus. A lua nova deu lugar à lua cheia que logo se esvaziou e a tempestade sempre sem amainar; começávamos a pôr, muito seriamente, a hipótese de os navios não partirem. Em passando mais uma lua, os ventos tornar-se-iam mais imprevisíveis e, em chegando o fim do Verão, teríamos de nos despedir de Tróia até ao ano seguinte.

Mais por causa do fascínio que Calcas me inspirava, do que por nutrir alguma esperança de que o grande deus erguesse o seu véu e nos deixasse entrever os seus motivos, nunca perdia o ritual do meio-dia. Aliás, também não havia nada que sugerisse que aquele dia particular seria diferente de todos os outros. Limitei-me a estar presente, na minha qualidade de observador de Calcas. Apenas Agamémnon, Nestor, Menelau, Diomedes e Idomeneu me fizeram companhia. Reparara, de passagem, que a cobra do altar emergira da sua gulosa hibernação e voltara ao seu nicho.

Mas aquele dia, afinal, foi diferente. Quando estava a sondar as entranhas da vítima, Calcas virou-se de repente e apontou a Agamémnon um longo e ossudo dedo escorrendo sangue.

Aí está aquele que impede a partida! - gritou ele. - Agamémnon, rei dos reis, tu não deste à archeira aquilo que lhe era devido! A fúria dela, durante tanto tempo adormecida, acabou por despertar, e Zeus, o seu divino pai, atendeu às suas súplicas de justiça. Rei Agamémnon: enquanto não deres a Ártemis aquilo que lhe prometeste há dezasseis anos, a tua frota não partirá!

Ninguém fazia a mínima ideia do que se tratava. Agamémnon vacilava sob a violência do choque e o seu rosto, de súbito, parecia o de um cadáver. Calcas sabia do que estava a falar.

O sacerdote desceu os degraus, o corpo hirto de ultraje.

- Dá a Ártemis aquilo que lhe negaste há dezasseis anos e então Poderás fazer-te ao mar! De outro modo, será impossível! Zeus omnipotente falou!

Cobrindo o rosto com as mãos, Agamémnon recuou perante aquela visão fatídica, de púrpura vestida.

- Não posso! Não posso! - gritou.

- Então, desmobiliza os teus soldados - disse Calcas.

- Eu não posso dar à deusa aquilo que ela quer! Ela não tem o direito de mo pedir! Se eu sonhasse que o desfecho seria este - ah, eu nunca teria feito tal promessa! Ela é Ártemis, casta e santa! Como é possível que me exija tal coisa?

- Ela exige apenas o que lhe é devido. Dá-lhe o que ela pede e poderás partir - repetiu Calcas, a voz tão fria como o vento. Se te recusares a cumprir o voto que fizeste há dezasseis anos, a Casa de Atreu mergulhará na escuridão e tu morrerás na mais terrível ruína.

Avancei para Agamémnon e, com toda a minha força, arranquei-lhe as mãos que cravara no rosto.

- Que prometeste a Ártemis, Agamémnon? Com os olhos cheios de lágrimas, o rei supremo agarrou-se aos meus pulsos como um homem prestes a afogar-se se agarra a um cabo do navio.

- Um voto estúpido, Ulisses, um voto impensado! Estúpido! Há dezasseis anos, Clitemenestra estava prestes a dar à luz a nossa última filha... Contudo, o trabalho de parto arrastou-se durante três dias sem qualquer resultado... Ela não conseguia dar à luz a criança! Então, pedi a todos os deuses - à Mãe, a Hera, a Misericordiosa, e a Hera, a Estranguladora, aos deuses e deusas do lar, do parto, das crianças, das mulheres. Nenhum me respondeu - nenhum!.

As lágrimas continuavam a cair, mas Agamémnon prosseguiu.

- Desesperado, orei a Ártemis, apesar de ela ser virgem e não gostar de mulheres fecundas. Pedi-lhe que ajudasse a minha mulher a dar à luz uma bela e saudável criança. Em troca, prometi-lhe a mais bela criatura que nascesse nesse ano no meu reino. Pouco depois, Clitemenestra dava à luz Ifigénia. E, no fim desse ano, mandei mensageiros a toda a Micenas, a fim de que me trouxessem as criaturas nascidas nesse ano que considerassem mais belas. Cabritos, vitelos, cordeiros, até mesmo pássaros. Ofereci a Ártemis todos esses belos animais, ainda que, no fundo, soubesse que a deusa não ficaria satisfeita. E, de facto, Ártemis rejeitou todos os sacrifícios.

Seria possível que, no mundo, não houvesse nunca mudança? Sabia já o desfecho daquela horrenda história - era como se ele estivesse pintado numa parede diante dos meus olhos. Porque eram os deuses tão cruéis? Porquê?

Termina, por favor, Agamémnon - disse-lhe.

- Certo dia, estava com a minha mulher e a bebé quando Clitemenestra comentou que Ifigénia era a mais bela criatura de toda a Grécia - mais bela, disse, do que a própria Helena. Antes que ela concluísse a frase, já eu sabia que Ártemis lhe pusera as palavras na boca. A archeira queria a minha filha. Só com a minha filha ficaria satisfeita. Mas eu não podia fazer isso, Ulisses. Nós abandonamos crianças recém-nascidas, mas os sacrifícios humanos não são praticados na Grécia desde que a Nova Religião baniu a Velha. Pedi por isso à deusa que compreendesse por que razão eu não podia fazer o que ela queria. O tempo foi passando e, como ela nada fazia, pensei que tinha compreendido. Agora, vejo que ela estava apenas à espera de uma oportunidade. Ela quer aquilo que eu não lhe posso dar, a vida que ela permi tiu que nascesse, e insiste em que eu lhe dê essa vida ainda virgem. A vida da minha filha é um círculo perfeito. Mas eu não posso permitir um sacrifício humano! Dei ao meu coração a dureza fria do metal: se eu perdera o meu filho (estar longe dele vinte anos não era o mesmo que perdê-lo?), por que haveria ele de poupar a sua filha? Agamémnon tinha mais duas filhas. A sua ambição obrigara-me a separar-me de tudo o que me era querido - por que não haveria ele de sofrer também? Se homens de estatuto inferior eram forçados a obedecer aos deuses, por que não haveria o rei supremo - o representante de todos diante dos deuses - de lhes obedecer também? Agamémnon fizera uma promessa e adiara o seu cumprimento durante dezasseis anos apenas porque essa promessa o afectava pessoalmente. Se a mais bela criatura nascida nesse ano tivesse sido o filho de outro homem, Agamémnon teria realizado o sacrifício e não ficaria com nenhum peso na consciência. Por tudo isto, olhei-o bem nos olhos, o coração consumido pela dor do exilio, e sucumbi ao apelo de um demónio que vivia dentro de mim desde o dia em que o oráculo pronunciara o meu destino.

- Cometeste uma transgressão terrível, Agamémnon - disse eu. - Se Ifigénia é o preço que Ártemis exige, então terás de pagá-lo! Oferece à deusa a tua filha! Se não o fizeres, o teu reino ruirá e a expedição a Tróia fará de ti o homem mais ridículo de todos os tempos!

Ah, o que ele odiava o ridículo! Para Agamémnon, nem mesmo o mais querido membro da sua familia poderia significar tanto como o seu reino, como o seu orgulho. Vi o conflito desenhando-se claro no seu rosto, vi o desespero e o sofrimento, vi a visão da sua miserável queda na ignomínia e no ridículo. Então, o pobre rei supremo virou-se para Nestor, procurando apoio.

- Nestor, Nestor, que hei-de eu fazer? Dividido entre o horror e a piedade, o velho rompeu a chorar.

- É um dilema terrível, Agamémnon! Mas temos de obedecer aos deuses. Se Zeus omnipotente te disse que deves dar à archeira aquilo que ela pede, então não tens alternativa. Lamento muito, mas tenho de concordar com Ulisses.

Chorando desolado, o nosso rei supremo pediu o apoio de cada um dos outros; um a um, lívidos e graves, todos lhe deram a mesma resposta que eu.

Só eu observava atentamente Calcas, perguntando-me se o velho não teria feito um inquérito discreto sobre o passado de Agamémnon. Quem poderia esquecer o ódio e o desejo de vingança que encontrei no seu rosto no dia em que a tempestade começara? Um homem muito subtil - para além de troiano.

Depois de todos os principais chefes se terem recusado a apoiar Agamémnon, a resolução do caso não excederia o âmbito da logística. Agamémnon, convencido - graças a mim - de que não tinha outra alternativa senão sacrificar a sua filha, explicou-nos quão difícil seria separar a jovem da mãe.

- Clitemenestra não permitirá que tragam Ifigénia para Áulida, sabendo que ela vai ser vítima da faca do sacerdote - disse ele, de súbito velho e alquebrado.

- A rainha pedirá o apoio do povo - e o povo apoiá-la-á.

- Há soluções para isso.

- Que soluções?

- Eu falarei com Clitemenestra, Agamémnon. Dir-lhe-ei que, devido à tempestade, Aquiles ficou tão impaciente que pretende regressar sem demora a lolcos e levar consigo os Mirmidões. Dir-lhe-ei ainda que tiveste a brilhante ideia de lhe oferecer a mão de Ifigénia desde que ele permaneça em Áulida. Clitemenestra não se oporá. Chegou a dizer-me, aliás, que gostaria muito que Ifigénia se casasse com Aquiles.

- Mas isso será uma desonra para Aquiles! - exclamou Agamémnon, com um ar desconfiado. - Aquiles não consentirá. Já o conheço bem e sei que ele é um homem recto - o que não admira, pois é filho de Peleu!

Exasperado, ergui os olhos para o céu.

- Agamémnon, Aquiles nunca saberá! Não tencionas contar esta história a toda a gente, pois não? Cada um de nós jurará de bom grado um voto de absoluto segredo. O sacrifício humano não conquistaria nenhum coração entre os nossos homens - começariam a pensar em quem seria o próximo. Porém, se nenhum rumor transpirar, tudo correrá bem e Ártemis ficará apaziguada. Aquiles nunca saberá!

- Muito bem. Falarás então com Clitemenestra - disse ele. Quando abandonámos o sagrado recinto, tratei de isolar Menelau.

- Menelau, queres que Helena volte para ti? Uma onda de dor inundou-lhe o rosto.

- Por todos os deuses, Ulisses, não conheces já a resposta?

- Então ajuda-me - ou a frota nunca partirá!

- Farei tudo o que me pedires, Ulisses!

- Agamémnon vai enviar um mensageiro a Clitemenestra. Esse mensageiro chegará antes de mim. O homem dir-lhe-á que ignore a minha história e que se recuse a entregar-me a rapariga. Tens de interceptar esse mensageiro.

A sua boca transformou-se nesse instante numa linha fina e dura.

- Juro-te, Ulisses, que serás o único a falar com Clitemenestra. Fiquei satisfeito. Por Helena, Menelau seria capaz de fazer tudo.

A minha missão não poderia ter sido mais fácil. Clitemenestra ficou deliciada com o suposto casamento que Agamémnon arranjara para a sua querida filha. Além disso, agradava-lhe o facto de Ifigénia ir casar-se com um homem que estava prestes a embarcar para uma guerra no estrangeiro. Clitemenestra adorava Ifigénia; o casamento com Aquiles permitir-lhe-ia manter a rapariga perto de si até que Aquiles regressasse de Tróia. Rejubilou o Palácio do Leão enquanto Clitemenestra tratava das bagagens da filha sem a ajuda de nenhuma criada e a iniciava nos mistérios da vida das mulheres. Acompanhou a liteira de Ifigénia até esta atravessar a Porta do Leão, enquanto a sua filha mais velha, Crisótemis, que ainda estava solteira, chorava de frustração e inveja. Ao passo que Electra, a mais velha de todas, uma réplica magra, amarga e muito pouco atraente do pai, assistia à partida do alto das muralhas, com o irmão Orestes, ainda bebé, ao colo. Entre ela e a mãe não havia qualquer laço afectivo - isso era bem visível.

Quando a liteira parou na Porta do Leão, Clitemenestra afastou as cortinas e beijou a ampla testa branca de Ifigénia. Tremi. A rainha suprema era uma mulher atreita a amores e ódios extremos; que faria ela quando soubesse a verdade (e acabaria por sabê-la)? Se, um dia, Clitemenestra viesse a odiar Agamémnon, o rei supremo teria boas razões para temer a sua vingança.

Ordenei aos homens que conduzissem a liteira tão rapidamente quanto possível, ansioso como estava por chegar a Áulida. Sempre que parávamos para descansar ou acampar, Ifigénia desatava a conversar comigo - que admirava imenso Aquiles, dizia ela, que o apreciara demoradamente, sem que ele desse por nada, no Palácio do Leão, que se apaixonara perdidamente por ele, que seria maravilhoso casar-se com ele, porque esse era o desejo do seu coração.

Armara-me para não sentir pena dela, mas, por vezes, confesso que não era fácil; os seus olhos eram tão inocentes, tão felizes! Mas Ulisses era um homem mais forte do que todos os outros naquela parte do ser que aos homens dá resistência e que os leva a vencer a adversidade.

Depois de a noite ter caído, ordenei que levassem a liteira, com as cortinas baixas, para o acampamento imperial. Sem mais demoras, conduzi Ifigénia a uma pequena tenda que ficava perto da do seu pai. Deixei-a com ele. Menelau ficou à porta, já que eu temia que a presença de Ifigénia reduzisse a pó a determinação de Agamémnon. Considerando que seria mais sensato não chamar a atenção dos reis e das suas tropas para a chegada de Ifigénia, decidi não colocar nenhum guarda de sentinela à tenda dela. A minha sentinela seria Menelau.

 

                                         Narrado Por Aquiles

Todos os dias, à chuva e ao frio, exercitava os meus soldados, aquecendo-os com trabalho duro. Outros chefes permitiriam que os seus homens mandriassem, mas os Mirmidões sabiam que eu não era desses. Adoravam as condições em que viviam, gostavam da disciplina rígida e sentiam-se superiores aos demais soldados, pois sabiam que eram mais profissionais do que todos os outros.

Não me dava sequer ao trabalho de comparecer no quartel-general imperial. Francamente, achava que não valia a pena. E quando surgiu a segunda lua, não mais do que um pavio aceso no céu, todos nós começámos a pensar que a expedição a Tróia não se concretizaria. Para dizer a verdade, contávamos já que, mais dia menos dia, surgisse a ordem de desmobilização.

Na primeira noite de lua cheia, Pátrocles saiu com Ájax, Teucro e o Pequeno Ájax. Eu também fora convidado, mas preferi declinar o convite, pois não estava com disposição para frivolidades, quando tudo apontava para o ignominioso fim da grandiosa empresa. Por um bocado, toquei melodias na minha lira e cantei; depois, deixei-me arrastar para uma espécie de inércia sonolenta.

O ruído produzido por alguém que entrara na minha tenda fez-me erguer a cabeça. De súbito, vi uma mulher abrindo a porta da tenda, uma mulher que envergava um manto húmido, fumegante. Fiquei perplexo a olhar para aquela visão, mal crendo no que os meus olhos viam. Então, a mulher avançou, afastou a cortina da entrada, baixou o capuz do manto e abanou a cabeça para libertar a longa cabeleira de umas quantas gotas de chuva.

- Aquiles! - exclamou ela, os olhos brilhando como âmbar acastanhado.

- Eu vi-te em Micenas quando espreitei pela porta atrás do trono do meu pai! Oh, estou tão feliz!

Por essa altura, já eu me tinha levantado; porém, continuava boquiaberto de espanto.

A jovem não tinha mais de quinze ou dezasseis anos: cheguei a essa conclusão ainda antes de ela ter despido o manto e de me ter mostrado uma pele que fazia lembrar um mármore leitoso tenuemente percorrido por veios e dois nédios seios. A boca era de um suave rosa e meigamente encurvada, o cabelo era da cor do fogo mais brilhante. Tão viva era ela que o ar à sua volta parecia quebrar-se; havia um fresco riso no seu rosto e uma força oculta sob a sua extrema juventude.

-A minha mãe nem precisou de convencer-me - prosseguiu ela, já que eu nada dizia. - Não consegui esperar até amanhã para te dizer quão feliz me sinto!

Era contigo que Ifigénia queria casar-se!

Senti um estranho sobressalto. Ifigénia ?A única Ifigénia que eu conhecia era a filha de Agamémnon e Clitemenestra! Mas que estranha conversa era aquela? Por quem me teria ela tomado? Continuei de olhos fixos nela como um idiota chapado, sem dizer nada, como se me tivesse esquecido de todas as palavras do mundo.

O meu silêncio e o puro espanto do meu rosto acabaram por transformar a expressão da jovem: um prazer ardente dava agora lugar a uma ansiedade prenhe de incertezas.

- Que fazes tu em Áulida? - consegui finalmente dizer. Nesse preciso instante, Pátrocles entrou, viu-nos e parou.

- Uma visita, Aquiles? - Piscou-me o olho. - Eu vou-me embora.

Atravessei rapidamente o espaço que nos separava e segurei-o pelo braço.

- Pátrocles, a rapariga diz que é Ifigénia! - murmurei. - Deve ser a filha de Agamémnon! E, pelo que diz, pensa que eu mandei um mensageiro a Micenas e que a pedi em casamento!

- Por todos os deuses! - exclamou Pátrocles, agora muito pouco divertido. - Será uma conspiração para te desacreditarem? Um teste à tua lealdade?

- Não sei.

- E se a levássemos para a tenda do pai? Mais calmo agora, ponderei uma tal hipótese.

- Não. É óbvio que ela se escapuliu da sua tenda. Ninguém sabe que ela está aqui. Vamos fazer o seguinte: eu detenho-a na minha tenda, enquanto tu espias a tenda de Agamémnon, procurando saber o que se passa. Tens de ser quase tão rápido como o relâmpago.

Pátrocles desapareceu nesse mesmo instante.

- Senta-te, Ifigénia - disse eu para a visitante, e logo me deixei cair numa cadeira. - Posso oferecer-te água? Bolos?

Não me respondeu. Um momento depois, já estava sentada no meu colo, os braços enroscados no meu pescoço, a cabeça encostada ao meu ombro. Inclinei-me um pouco com a intenção de a levantar, mas os meus olhos detiveram-se nos tumultuosos caracóis da sua cabeleira e logo mudei de ideias. Era uma criança - e estava apaixonada por mim. Aos olhos dela, eu era velho: uma sensação nova para mim. Há cerca de meio ano que não via Deidamia e aquela rapariga despertava em mim emoções muito diferentes. A minha preguiçosa e convencida esposa tinha mais sete anos do que eu - fora ela quem me cortejara, não eu. Para um rapazito de treze anos, que acabava de despertar para as funções sexuais do seu corpo, ser iniciado por uma mulher mais velha era maravilhoso. Agora, dava comigo muitas vezes a perguntar-me o que sentiria por Deidamia quando regressasse de Tróia, pois deixaria de ser um rapaz para passar a ser um homem endurecido pela guerra. Ah, era tão agradável ter Ifigénia nos meus braços, sentir não os perfumes que as mulheres mais velhas usavam, mas sim o doce e natural odor da juventude!

Sorridente e satisfeita, ergueu a cabeça para me fitar; depois, voltou a pousá-la no meu ombro. Senti os seus lábios acariciando-me a garganta; os seios, colados ao meu peito, queimavam como brasas. Pátrocles, Pátrocles, despacha-te! Depois, disse-me palavras que não consegui ouvir; afaguei-lhe a densa cabeleira cor de fogo e ergui-lhe a cabeça para que pudesse ver o seu rosto encantador.

- Que disseste? - perguntei. Ela corou.

- Só perguntei se não me ias beijar. Fiquei aflito.

- Não. Olha para a minha boca, Ifigénia. A minha boca não foi feita para beijar. Só pode beijar quem tem lábios.

- Então, deixa-me beijar-te todo. Deveria tê-la afastado de mim nesse exacto momento, mas não consegui. Em vez disso, deixei que os seus lábios, tão suaves como as penas de um cisne, vagueassem pelo meu rosto, roçassem as minhas pálpebras fechadas, se aninhassem no meu pescoço, onde os nervos têm sobre o coração de um homem uma acção mágica, pois põem-no a martelar desordenadamente. Ansiando estreitá-la contra mim até que ela pedisse tréguas para respirar, tive de lutar contra mim mesmo para lhe ordenar que parasse e para a olhar nos olhos com o ar mais sério deste mundo.

- Já chega, Ifigénia. Deixa-te estar quieta agora. - E mantive-a quieta até que, finalmente, Pátrocles chegou.

O meu amigo permaneceu à porta. Os seus olhos escarninhos interrogavam-me. AfaStei dela os meus braços e ergui-os no ar, dividido entre o riso e a irritação. Não era costume de Pátrocles troçar de mim. Com suaves afagos, fi-la sair do meu colo e sentei-a na cadeira. No rosto de Pátrocles, não havia já sinal de troça; pelo contrário, havia sombras e muita fúria no seu rosto. Quando me abeirei dele, disse-me que só falaria quando tivesse a certeza de que ela não conseguiria ouvir.

- Congeminaram uma bela conspiração, Aquiles.

- Era o que eu pensava. Que conspiração?

- Tive sorte, Aquiles. Agamémnon e Calcas estavam sozinhos na tenda do rei supremo. Consegui esconder-me e ouvir quase tudo o que diziam. - Respirou fundo. Tremia. -Aquiles, eles usaram o teu nome para convencerem Clitemenestra a deixar partir a filha! Disseram-lhe que tu querias casar com Ifigénia antes de partirmos para Tróia. Mas a realidade é bem diferente: amanhã, Ifigénia vai ser sacrificada a Ártemis, a fim de expiar um qualquer delito - não sei qual - que Agamémnon cometeu contra a deusa.

A raiva é algo que todos os homens sentem, embora alguns mais do que outros. Não me imaginava presa fácil dessa emoção, mas a verdade é que, logo que Pátrocles terminou, senti-me invadido por uma tão grande raiva que, de um momento para o outro, esqueci tudo o que me haviam ensinado sobre bom senso, ética, princípios ou decência. Os deuses no Olimpo deviam ter tremido. A minha boca pareceu desligar-se dos meus dentes e todo o meu corpo se agitava como se o sortilégio tivesse voltado a atormentar-me. Estou certo de que, se Pátrocles não me tivesse agarrado com uma força que lhe desconhecia, teria corrido naquele mesmo instante à tenda de Agamémnon e cortado ao meio o rei supremo e o sacerdote com o meu machado!

- Aquiles, pensa! - disse-me ele muito baixinho. - Pensa! Crês que ficarás a ganhar se os matares? O sangue deles é preciso para que a frota parta! Pelo que pude ouvir, pareceu-me evidente que o nosso rei supremo só tomou esta decisão depois de ter sido muito atormentado e intimidado!

Cerrei com tanta força os punhos que consegui libertar-me dele.

- Estás à espera de que eu me limite a assistir a tudo e a aplaudir? Eles usaram o meu nome para perpetuarem um crime que é proibido pela Nova Religião! Um crime bárbaro! Um crime que empesta o próprio ar que respiramos! E, além disso, usaram o meu nome! -Abanei-o tanto que os seus dentes começaram a bater uns nos outros. - Repara na pobre rapariga, Pátrocles! Serás capaz de ficar parado e de assistir ao seu sacrifício como se ela fosse um cordeiro?

- Não, tu não me entendeste, Aquiles! - disse ele, aflito. - O que eu queria dizer era que deveríamos examinar o caso com a cabeça fria, e não com a fúria que sempre cega os homens! Aquiles, pensa! Pensa!

Tentei pensar. Lutei contra mim mesmo para pensar. O demónio da loucura fervia dentro de mim com tal violência que, para o dominar, quase me matava. Até que, por entre a confusão, a lógica, com passos titubeantes, regressou ao meu espírito. Tínhamos de enganá-los! Haveria por certo uma maneira de os enganarmos! As minhas mãos envolveram as mãos de Pátrocles.

- Pátrocles: serias capaz de fazer qualquer coisa que eu te pedisse?

- Qualquer coisa, Aquiles. Tudo.

- Então, procura Automedonte e Alquimos. Podemos confiar sempre neles, seja qual for a empresa: eles são Mirmidões. Diz a Alquimos que tem de encontrar um veado ainda novo e de pintar os seus chifres de ouro. Terá de ter o animal amanhã de manhã, bem cedo! Podes confiar inteiramente em Automedonte. Tu e ele devem esconder-se atrás do altar antes de o sacrifício começar. Terás o veado contigo, preso a uma corrente de ouro. Calcas costuma usar imenso fumo nos seus rituais. Quando Ifigénia estiver no altar e as nuvens de fumo se tornarem muito espessas - o sacerdote só lhe cortará a garganta se o fumo impedir Agamémnon de ver - retira a rapariga do altar e deixa o veado no seu lugar. Calcas, como é evidente, perceberá que alguém o enganou. Mas Calcas gosta de estar vivo. Não dirá que houve ali mão humana: dirá apenas que se trata de um milagre!

- Sim, é capaz de resultar... Mas diz-me: depois de a termos tirado do altar, o que é que fazemos? - Há um pequeno esconderijo atrás do altar: o local onde costumam guardar a vítima. Esconde-a aí até todos partirem. Depois, trá-la para a minha tenda. Mandá-la-ei para a mãe, com uma mensagem explicando tudo o que se passou. Conseguirás fazer o que te peço?

- Sim, Aquiles. E tu? Que vais tu fazer?

- Há muito que não assisto aos augúrios de Calcas, mas, amanhã, chegarei a tempo para assistir à cerimónia. Por ora, mandá-la-ei de volta para a sua tenda. Não sei como é que ela veio para aqui sem ninguém dar por ela, mas é absolutamente necessário que ela regresse à sua tenda sem que ninguém a veja. Eu próprio a levarei.

- Talvez a tivessem deixado vir - disse Pátrocles.

- Não. Nunca permitiriam que ela passasse comigo tempo suficiente para perder a virgindade. Ártemis gosta de virgens.

Pátrocles franziu o sobrolho.

- Aquiles, não seria melhor se a mandássemos de volta para a mãe imediatamente?

- Não posso, Pátrocles. Isso implicaria uma confrontação aberta com Agamémnon. Se tudo correr bem amanhã no sacrifício, teremos partido para Tróia antes de Clitemenestra estar a par de tudo.

-Acreditas então que a morte de Ifigénia é necessária para que o tempo melhore? - perguntou ele num tom muito peculiar.

-Não. Creio que o tempo melhorará por si mesmo dentro de um ou dois dias. Pátrocles, eu não me atrevo a correr o risco de uma confrontação aberta com Agamémnon. Será possível que não entendas? Eu quero estar presente em Tróia!

- Sim, eu entendo. - Encolheu os ombros. - Bom, tenho de ir. O pobre Alquimos morrerá de susto quando eu lhe disser que tem de encontrar um veado novo! Ficarei com Automedonte o resto da noite. Se não receberes nenhuma mensagem dizendo que o plano correu mal, podes estar certo de que amanhã, ao meio-dia em ponto, estaremos atrás do altar!

- óptimo. Furtivamente, Pátrocles saiu para a noite chuvosa. Ifigénia tinha estado a ver-nos, os olhos muito abertos.

- Quem era? - perguntou ela, curiosa.

- O meu primo Pátrocles. Há problemas com os homens.

- Ah. - Pensou um pouco e disse: - É muito parecido contigo. Mas os olhos dele são azuis. E é mais pequeno.

- E tem lábios. Ela riu-se.

- Isso torna-o um homem igual aos outros. Eu gosto da tua boca tal e qual como ela é, Aquiles.

Peguei nela, obrigando-a a levantar-se.

- Agora tens de ir para a tua tenda, antes que alguém descubra a tua escapadela.

- Ainda não - disse ela, com um ar sedutor, afagando-me o braço.

- Imediatamente, Ifigénia.

- Nós casamo-nos amanhã. Porque é que não me deixas passar contigo a noite?

- Porque tu és filha do supremo rei de Micenas e a filha do supremo rei de Micenas tem de se casar virgem. A sacerdotisa confirmará essa virgindade antes do casamento. E depois, eu terei de mostrar os lençóis do tálamo nupcial para provar que sou teu marido em todos os aspectos - disse eu firmemente.

Ela fez beicinho.

- Mas eu não quero ir!

- Queiras ou não queiras, terás de ir, Ifigénia. - Envolvi-lhe o rosto nas minhas mãos. - Antes de eu te levar para a tenda, quero que me prometas uma coisa.

- A ti prometo tudo - disse ela, sorridente, animada.

- Não contes ao teu pai, nem a qualquer outra pessoa, que vieste ver-me. Se contares, desconfiarão da tua virgindade.

Ela sorriu.

- Só mais uma noite, então! Acho que consigo suportar. Leva-me para a minha tenda, Aquiles.

Pátrocles não me mandou nenhuma mensagem dizendo que havia problemas. Muito antes do meio-dia, vesti a minha armadura, aquela que o meu pai me dera e que provinha do tesouro de Minos, e encaminhei-me para o altar sob o plátano. Tudo parecia correr bem; suspirei de alívio. Pátrocles e Automedonte já deviam estar a postos.

Oh, as expressões dos reis quando me viram! Ulisses deu imediatamente o braço a Agamémnon, Nestor encolheu-se entre Diomedes e Menelau, ao passo que Idomeneu parecia atemorizado e constrangido. Era óbvio: todos eles estavam envolvidos naquilo. Saudei-os muito informalmente e deambulei um pouco pelo recinto, como se estivesse ali por mero acaso. Atrás de nós, ouviu-se o som de passos na erva encharcada; Ulisses encolheu os ombros, apercebendo-se de que já não havia tempo para me convencerem a partir. Não que eu adivinhasse os seus pensamentos. Em Ulisses, a própria simpatia e normalidade eram resultado da sua subtileza. O homem mais perigoso do mundo. Ruivo e canhoto: claros indícios do mal.

Como que movido por uma vaga curiosidade, virei-me para ver Ifigénia abeirando-se lenta e orgulhosamente do altar, o queixo bem erguido; porém, uma tremura ocasional dos lábios traía o profundo terror que lhe ia na alma. Quando me viu, recuou como se eu tivesse feito menção de lhe bater; fitei as janelas dos seus olhos e vi esfumarem-se as suas derradeiras esperanças. O choque transformou-se em ira, uma emoção amarga e corrosiva que nada tinha a ver com o tipo de raiva que eu sentira quando Pátrocles me revelara a conspiração. Ela odiava-me, ela abominava-me, ela fitava-me tal e qual como a minha mãe. Enquanto os meus olhos imperturbáveis se viravam para o altar, ansiando pelo momento em que pudesse explicar-lhe tudo.

Diomedes juntara-se a Ulisses. De facto, ajudavam Agamémnon a manter-se de pé, os braços sob as axilas dele. As feições do rei supremo eram um límpido espelho do horror que sentia, o seu rosto ganhara uma lividez cadavérica. Calcas empurrou Ifigénia, espetando-lhe um dedo nas costas. A filha de Agamémnon não vinha acorrentada. Podia imaginar o desprezo que sentia por eles - ela era a filha de Agamémnon e Clitemenestra e o seu orgulho era uma fortaleza inexpugnável.

Aos pés do altar, virou-se para nos olhar e era apenas desprezo o que havia nos seus olhos; depois, subiu os poucos degraus e, com um movimento suave, deitou-se sobre a mesa, as mãos juntas sob os seios, o perfil delineado contra o mar lúgubre, alteroso. Não chovera nessa manhã; o leito de mármore da morte estava seco.

Calcas atirou um sortido de substâncias pulverizadas para as chamas que se erguiam em três trípodes colocados em torno do altar; nuvens de fumo verde e outras de fumo tão amarelo como a bílis ergueram-se imediatamente, espalhando um fedor insuportável a enxofre e putrefacção. Empunhando uma grande faca ornamentada com jóias, Calcas desatou a andar de um lado para o outro como um enorme e obsceno morcego. Quando o seu braço se ergueu e a faca faiscou, permaneci tão imóvel como uma estátua, horrorizado e, no entanto, fascinado. A cintilação da lâmina deslocou-se então para baixo; nuvens de fumo engoliram o sacerdote, eclipsaram-no. Alguém gritou, um grito estridente, gorgolejante, que logo se transformou num estertor. Os corpos dos presentes pareciam ter-se transformado em pedra. Então, uma rajada de vento varreu a fumarada. Ifigénia jazia no altar, o sangue correndo por um sulco que havia no mármore, deslizando a caminho de uma enorme taça que Calcas segurava.

Agamémnon desatou a vomitar. Até mesmo Ulisses se sentiu nauseado com o miserável espectáculo. Mas eu não conseguia desprender os meus olhos de Ifigénia, daquele corpo que a morte levara. A minha boca abriu-se num único uivo de tortura. A loucura inundou-me as veias. A minha espada estava já na minha mão quando corri para Agamémnon; se Ulisses e Diomedes não estivessem ali para o proteger, tê-lo-ia degolado num ápice; o vomitado escorria-lhe agora pela barba que tantos cuidados lhe merecia. Deixaram-no cair como uma pedra para me deterem; desesperados, procuravam arrancar-me a espada, mas eu obrigava-os a dançar à minha volta como se eles não fossem mais do que títeres. Idomeneu e Menelau correram a ajudá-los; até o velho Nestor avançou trôpego para o meio da rixa. Por fim, os cinco conseguiram agarrar-me e deitar-me no chão. O meu rosto ficou a uma escassa distância do de Agamémnon. Amaldiçoei-o até que a minha voz se transformou num mero grito. De súbito, porém, toda a minha força se escoou. Desatei a chorar. Só assim conseguiram arrancar a espada às garras dos meus dedos. Por fim, ergueram-nos aos dois do chão.

- Usaste o meu nome para cometeres este crime hediondo, Agamémnon! exclamei, o rosto lavado em lágrimas, o coração já sem raiva mas impregnado do ódio mais profundo. - Permitiste que a tua filha fosse sacrificada! E para quê? Apenas para satisfazeres o teu orgulho! Com este crime, o rei supremo transformou-se, aos meus olhos, no mais vil dos escravos! Não és melhor do que eu. No entanto, eu sou pior do que tu. Se não tivesse cedido à minha ambição, poderia ter impedido que isto acontecesse. Mas ouve bem o que te digo, rei dos reis! Vou enviar uma mensagem a Clitemenestra, informando-a do que se passou aqui. Não pouparei ninguém - e muito menos eu próprio! A nossa honra foi irremediavelmente maculada. Este crime é, para todos nós, uma maldição!

- Eu tentei impedir que isto acontecesse... - protestou o descoroçoado Agamémnon. - Mandei uma mensagem a Clitemenestra, mas o mensageiro foi assassinado. Eu tentei, Aquiles, eu tentei... Ao longo de dezasseis anos, tentei impedir que este dia chegasse. A culpa é dos deuses. Caímos na sua armadilha.

Cuspi para os pés dele.

- Não culpes os deuses pelos teus próprios erros, rei supremo! Nós é que somos fracos! Nós somos mortais!.

Não sei como, cheguei à minha tenda; a primeira coisa para onde olhei foi a cadeira onde eu a abraçara. Pátrocles estava sentado noutra e chorava. Quando me ouviu entrar, pegou numa espada e ajoelhou diante de mim, estendendo-me a arma.

- Que é isto? - perguntei, sem saber se o meu coração suportaria novas angústias.

Com a ponta da espada encostada à garganta, Pátrocles oferecia-me o punho.

- Mata-me, Aquiles, mata-me! Eu traí-te! Eu manchei a tua honra!

- Eu próprio me traí, Pátrocles. Eu próprio manchei a minha honra.

- Mata-me! - implorou. Peguei na espada e atirei-a para o chão.

- Não! - respondi-lhe.

- Eu mereço morrer!

- Todos nós merecemos morrer, mas não será esse o nosso destino - disse eu, desapertando já as correias da minha couraça.

Pátrocles tratou de me ajudar: os hábitos não se perdem nunca, mesmo quando a dor nos despedaça o coração.

- Eu sou o único culpado, Pátrocles. Ah, o meu orgulho e ambição ... ! Como pude deixar que a sorte dela ficasse dependente de fios tão ténues, tão finos? Começava já a amá-la, teria casado com ela de bom grado. Não teria qualquer pejo em divorciar-me de Deidamia - o meu casamento com ela mais não foi do que o resultado de um astucioso plano tramado pelo meu pai e por Licomedes. Disseste-me que mandasse imediatamente Ifigénia para o palácio da mãe. Um conselho sensato, Pátrocles. Eu respondi-te que não porque não quis pôr em perigo a minha posição neste exército. Dei ouvidos ao meu orgulho e à minha ambição, cedi à minha fraqueza.

Despira já toda a armadura. Pátrocles tratou de guardá-la no seu baú. Um meu criado, do princípio ao fim.

- Que aconteceu afinal? - perguntei-lhe enquanto enchia de vinho os nossos copos.

- De início, tudo correu bem - disse ele, sentando-se diante de mim. Não foi difícil arranjar o veado. - Sombras percorreram os seus olhos, anunciando lágrimas. - Mas decidi não partilhar a glória com Automedonte. Queria que todos os teus elogios fossem só para mim. Por isso, fui sozinho para trás do altar. De repente, porém, o veado começou a ficar agitado e desatou a balir. Tinha-me esquecido de o drogar! Se Automedonte estivesse comigo, teríamos conseguido calá-lo. Mas eu estava sozinho e não consegui dominá-lo. Calcas, entretanto, descobriu-me. Ele é um guerreiro, Aquiles! Mal me viu, pegou no cálice e deu-me uma pancada forte na cabeça. Quando recuperei os sentidos, estava atado de pés e mãos e com um pano enfiado na boca. É por isso que quero que me mates. Se eu tivesse levado comigo Automedonte, o desfecho teria sido outro.

- Matar-te, Pátrocles, implicaria que me matasse a mim mesmo. São soluções demasiado fáceis... Temos de viver: só vivendo, poderemos cumprir inteiramente o nosso castigo. Mortos, não sentiríamos nada, seríamos apenas sombras - e as sombras desconhecem tanto a dor como a alegria. Não seria um castigo justo, Pátrocles - disse eu, bebendo um vinho que me sabia a fel.

Pátrocles aquiesceu.

- Sim, eu compreendo. Enquanto for vivo, não poderei esquecer nunca os meus ciúmes. E tu, enquanto viveres, não poderás esquecer nunca a tua ambição. Um destino muito pior do que a morte.

Mas Pátrocles não vira o seu olhar, não vira o desprezo. Não viveria a vida toda atormentado por esse olhar. Que pensamentos teriam desfilado pela sua mente entre o momento em que lhe contaram a verdade e o momento em que a faca de Calcas encontrou a sua garganta? Que teria ela pensado de mim - daquele que fingira ser o seu amado e que, depois, impiedosamente, a abandonara? A sombra de Ifigénia perseguir-me-ia até ao fim dos meus dias. Que esse fim não tardasse!, era tudo o que eu pedia. Que a minha vida fosse curta e gloriosa!

- Quando partimos para lolcos? - perguntou Pátrocles.

- Lolcos? Nós vamos partir, Pátrocles, mas para Tróia.

- Depois disto?

- Tróia é uma parte da minha punição. E Tróia significa que não terei de enfrentar o meu pai, pois em Tróia morrerei. Que pensaria ele de mim se soubesse do meu miserável comportamento? Que os deuses o poupem a tão grande desgosto!

 

                                                 Narrado por Agamémnon

A noite ia já alta quando mandei que enterrassem a minha filha numa cova funda, sob um monte de rochas junto ao lúgubre mar. Nada identificava a sua derradeira morada. Nem na morte lhe dei eu um dote condigno, pois tudo o que Ifigénia tinha para levar consigo era um belo vestido e o seu pequeno tesouro de jóias de menina.

Aquiles prometera enviar uma mensagem à minha esposa, atribuindo-nos as culpas pela morte de Ifigénia; podia tentar impedir que isso acontecesse; bastar-me-ia que o meu mensageiro chegasse primeiro. No entanto, não conseguia encontrar as palavras necessárias, tão-pouco um mensageiro. Os mensageiros em quem podia confiar iam partir todos comigo. E não havia no mundo palavras capazes de atenuar o golpe que eu desferira em Clitemenestra. Haverá porventura palavras capazes de mitigarem o desgosto que é a perda de um filho? Se as há, não são por certo humanas. Por muito acesas que fossem as nossas divergências, a minha esposa sempre me considerara um grande homem - um homem digno de ser seu marido. Contudo, Clitemenestra era da Lacedemónia e, nessa nação, a influência de Mãe Kubaba era ainda muito forte. Logo que soubesse da morte de Ifigénia, a rainha suprema tentaria reinstaurar a Velha Religião e substituir-me no trono. O poder passaria para as suas mãos.

Nesse momento, lembrei-me de um membro da minha comitiva que poderia dispensar: o meu primo Egisto.A história da nossa Casa - a Casa de Pélops - é horrenda. O meu pai, Atreu, e o pai de Egisto, Tiestes, disputaram o trono de Micenas após a morte de Euristeu; Héracles deveria ter sido o herdeiro, mas foi assassinado. Muitos crimes foram cometidos por causa do Trono do Leão de Micenas. O meu pai cometeu o mais horrível desses crimes: matou os sobrinhos, cozinhou-os e serviu-os a Tiestes, dizendo-lhe que era um prato digno de um rei. Mesmo sabendo isso, o povo escolheu Atreu como rei supremo, e baniu Tiestes. Egisto nasceu da união de Tiestes com uma mulher pelópida. Uma mulher com quem Atreu se casaria depois. Tiestes procurou então fazer vingar a versão de que Egisto era filho de Atreu. Mas a triste história não terminou aí. Tiestes colaborou no assassínio de meu pai e voltou a sentar-se no trono supremo: até ao momento em que, já adulto, o derrubei e bani.

No entanto, eu sempre gostara do meu primo Egisto, que era muito mais novo do que eu. Um homem bem-parecido e encantador com quem me dava melhor do que com o meu próprio irmão, Menelau. Contudo, a minha esposa não gostava de Egisto, nem confiava nele, porque Egisto era filho de Tiestes e tinha legítimas pretensões a um trono que, aos olhos de Clitemenestra, só poderia ser herdado por Orestes.Mandei-o chamar logo que decidi o que havia de lhe dizer. A sua situação na corte dependia inteiramente de mim; daí que lhe conviesse tudo fazer para me agradar. E foi assim que enviei Egisto ao palácio de Clitemenestra, perfeitamente industriado e carregado de presentes. Ifigénia estava morta, mas não fora eu quem dera a ordem. Ulisses planeara tudo - e executara. Ela acreditaria nisso.

- Não estarei muito tempo longe da Grécia - disse eu a Egisto antes de ele partir -, mas é indispensável que Clitemenestra não peça o apoio do povo para reinstaurar a Velha Religião. Egisto, tu serás o meu cão de guarda.

- Ártemis sempre foi tua inimiga - disse ele, ajoelhando para me beijar a mão. - Não te preocupes, Agamémnon. Farei tudo o que for necessário para controlar Clitemenestra. - Pigarreou. - Claro que perderei os despojos de Tróia. Continuarei tão pobre como dantes.

- Terás o teu quinhão dos despojos, Egisto - assegurei-lhe. - Agora vai.

Na manhã a seguir ao sacrifício, acordei de um sono que só o muito vinho pudera induzir e deparou-se-me um dia tão claro como calmo. As nuvens e o vento tinham-se dissipado durante a noite; só as gotas de água que caíam das abas das tendas falavam das várias luas de tempestade que tivéramos de suportar. Obriguei-me a agradecer a cooperação de Ártemis, mas nunca mais pediria ajuda à archeira. A minha querida filha estava morta e, na sua cova, não havia sequer uma estela que a arrancasse ao anonimato. Não conseguia olhar para o altar.

Fénix estava na minha tenda, desejoso de partir sem demora; considerava eu que deveria esperar mais um dia, não fosse a tempestade voltar.

- O tempo vai continuar bom por muito tempo - disse-me o velho Fénix, cheio de confiança nos elementos. - Os mares entre Áulida e Tróia permanecerão tão calmos como leite numa tigela.

- Nesse caso - disse-lhe eu, lembrando-me de repente das críticas de Aquiles aos meus planos de abastecimento -, faremos uma oferenda a Poseidon e correremos o risco. Entretanto, Fénix, quero os navios cheios de comida! Abastece-te nos campos próximos. Todos os alimentos que houver, trá-los para os navios.

Fénix pareceu espantado, mas logo pôs um sorriso imenso.

- É para já, rei Agamémnon, é para já! Aquiles perseguia-me. As suas maldições ecoavam na minha memória, o seu desprezo era uma espada cravada no meu peito. Por que razão se culpava a si mesmo, era algo que eu não entendia; ele era tão pouco capaz de desafiar os deuses como eu. Contudo, e ainda que não o desejasse, sentia por ele admiração. Aquiles tivera a coragem de proclamar a sua culpa diante dos seus superiores. Daria tudo para que Ulisses e Diomedes não estivessem tão preocupados com a minha segurança. Daria tudo para que Aquiles me tivesse cortado a cabeça diante do cadáver da minha filha. Daria tudo para que a minha vida tivesse terminado ali, naquele exacto momento.

Na manhã seguinte, quando a primeira luz começou a tingir de rosa o pálido céu, a nau capitânia deslizou pela rampa rumo ao mar. Com as mãos cravadas na amurada, mantive-me na proa, sentindo-a mergulhar e tremer nas quietas águas. Finalmente a partida! Segui depois até à popa, onde os costados do navio pareciam erguer-se num capuz e a carranca de Anfitrião tudo vigiava. Virei as costas aos remadores, satisfeito com o facto de o meu navio possuir uma coberta - os remadores sentavam-se na coberta, deixando, desse modo, suficiente espaço livre para a minha bagagem, para os meus criados, para o tesouro de guerra e para todos os equipamentos de que um rei supremo precisava. Os meus cavalos estavam num cercado juntamente com mais uma dúzia de outros, perto do sítio onde me encontrava, e o mar corria suavemente não muito abaixo da coberta. Era muito pesada a nossa carga.

Atrás de mim, grandes navios vermelhos e negros deslizavam nas águas como centopeias que tivessem remos em vez de pernas, rastejando ao longo da superfície dos eternos e implacáveis abismos de Poseidon. Um total de mil e duzentos navios; oitenta mil guerreiros e vinte mil ajudantes de todo o tipo. Alguns dos navios levavam apenas cavalos e remadores; nós somos um povo que usa os cavalos para puxarem os carros, tal como os Troianos. Continuava convencido de que a campanha seria breve, mas também sabia que não veríamos os fabulosos cavalos troianos enquanto Tróia não caísse.

Fascinado, contemplei a extraordinária cena; custava-me a crer que fosse minha a mão que ia ao leme daquela portentosa força, que o rei supremo de Micenas viesse realmente a ser o supremo rei do Império Grego. Mas nem um décimo dos navios chegara ainda ao mar e já a nau capitânia atravessava o estreito de Eubeia e a praia, ao longe, parecia um ponto minúsculo. Senti um panico momentâneo, perguntando-me como é que uma tão vasta frota conseguiria manter-se unida e coesa ao longo das muitas léguas que nos separavam de Tróia.

Contornámos a ilha Eubeia sob um sol escaldante, passámos entre Eubeia e Andros, e, enquanto o monte Oca se esbatia à popa, apanhámos as brisas que sempre sopram no Egeu. Os remadores, aliviados e gratos, prenderam os remos aos suportes, uma multidão de marinheiros rodeou o mastro e logo a vela escarlate de cabedal da nau capitânia imperial ganhou vida, sob o impulso de um vento sudoeste, quente e suave.

Dei mais uma volta pela coberta, entre os bancos dos remadores, e subi os curtos degraus que conduziam à coberta de proa, onde fora construído o meu camarote especial. Na nossa esteira, muitos navios navegavam já a boa velocidade, vencendo as altas vagas que as suas proas bicudas transformavam em minúsculas ondinhas. Pelos vistos, não era assim tão difícil mantermo-nos juntos; Télefo encontrava-se no extremo da proa, virando de quando em quando a cabeça para gritar instruções aos dois homens que manobravam o leme e nos faziam seguir a rota previamente definida. A certa altura, Télefo olhou-me com um imenso sorriso de satisfação.

- Excelente, rei supremo! Se o tempo se aguentar assim, conseguiremos manter esta velocidade. Não precisaremos de aportar a Quios, nem a Lesbos. Não demoraremos muito a chegar a Ténedo.

Fiquei satisfeito com a informação. Télefo era o melhor navegador de toda a Grécia, o único homem que poderia levar-nos até Tróia sem corrermos o risco de ficarmos encalhados numa praia qualquer, longe do nosso destino. Télefo era o único homem a quem eu podia confiar os destinos daqueles mil e duzentos navios. Helena, disse para mim mesmo, será muito breve a tua liberdade! Antes que dês por isso, estarás de regresso a Amiclas - e acredita que será para mim um prazer imenso ordenar que te cortem a tua bela cabeça com o sagrado machado!

Os dias foram passando sem qualquer problema. Avistámos Quios, mas seguimos viagem. Não precisávamos de reabastecimentos e o tempo estava tão bom que nem Télefo, nem eu, queríamos abusar da nossa boa sorte demorando-nos em terra. A costa da Ásia Menor encontrava-se agora praticamente à vista e Télefo conhecia bem todos os pontos de referência indispensáveis, pois subira e descera aquela costa centenas de vezes durante a sua longa carreira. Jubilosamente, chamou-me a atenção para a vasta ilha de Lesbos, certo e seguro do seu rumo; virou então a oeste, de modo a que, de terra, ninguém nos visse. Os Troianos não saberiam que nós rumávamos a Tróia.

Aportámos à zona sudoeste de Ténedo, uma ilha muito próxima do continente e de Tróia, no décimo primeiro dia depois de termos deixado Áulida. Não havia espaço naquela praia para tantos navios; o melhor que podíamos fazer era deixárnos ficar fundeados o mais perto possível da praia e fazer votos para que a clemência do tempo se mantivesse por mais uns dias. Ténedo era uma ilha fértil, mas eram poucos os seus habitantes e a razão para este facto era só uma: Ténedo ficava muito perto da cidade que era considerada a maior do mundo. Quando nos viram, os Tenedenses concentraram-se na praia: os seus gestos de desamparo revelavam bem o terror que sentiam.

Abeirei-me de Télefo e dei-lhe umas amistosas palmadinhas no ombro.

- Muito bem, piloto! Mereces um quinhão principesco dos despojos! Inchado de triunfo, Télefo desatou a rir-se, mas logo desceu a correr os degraus que conduziam à meia-nau, onde, momentos depois, se viu rodeado pelos cento e trinta homens que haviam partido comigo.

Ao cair da noite, chegaram os últimos navios da frota; todos os grandes chefes da Grécia vieram ter comigo ao meu quartel-general temporário na cidade de Ténedo. Havia já feito o mais importante: reunira todas as humanas criaturas que viviam na ilha e comunicara-lhes a proibição de se deslocarem a Tróia. Pouco era o mar que separava Ténedo de Tróia e era preciso impedir que um tenedense mais afoito fosse informar o rei Príamo do que se passava na ilha. Quanto a mim, acreditava sinceramente que os deuses estavam todos com a Grécia.

Na manhã seguinte, fui até ao cimo das colinas que coroavam o centro da ilha; alguns dos reis foram comigo a fim de exercitarem as pernas, contentes por terem reencontrado a solidez da terra. Ali estivemos no alto das colinas por um longo período, os mantos esvoaçando ao sabor do vento, mirando as águas tranquilas e muito azuis que nos separavam do continente e de Tróia.

Daquela posição, até uns olhos velhos e cansados veriam Tróia; devo confessar que, mal os meus olhos se fixaram na lendária cidade, um choque percorreu-me o corpo, um choque de espanto e desolação. Claro que eu imaginara Tróia de acordo com parâmetros meus conhecidos: Micenas no cume do monte do Leão; o portentoso porto comercial de lolcos; Corinto, erguendo-se dos dois lados do istmo; a fabulosa Atenas. Mas todas essas cidades eram insignificantes quando comparadas com Tróia! Para além de se erguer imponente nas alturas, Tróia espalhava-se por muitas e muitas léguas, como uma espécie de gigantesco zigurate, tão vasto, tão amplo, que seria difícil descortinar os pormenores.

- Então? - perguntei a Ulisses. Parecia absorto nos seus pensamentos, os olhos cinzentos fixos num ponto algures. Porém, ao ouvir a minha pergunta, como que despertou. Virou-se para mim com um sorriso arreganhado e logo me respondeu:

- O meu conselho é este: façamos a travessia esta noite, a coberto da escuridão; ao alvorecer, coloquemos o exército em ordem de batalha e ataquemos Príamo sem que ele o espere - antes que ele possa fechar as portas da cidade. Amanhã à noite, rei supremo, Tróia será tua!.

Nestor desatou numa berraria indecifrável, Diomedes e Filoctetes fitaram horrorizados Ulisses. Eu limitei-me a sorrir. Palamedes também, ainda que no seu sorriso houvesse alguma ironia.

Nestor falou, poupando-me trabalho.

- Ulisses, Ulisses, será possível que não sejas capaz de distinguir entre o bem e o mal? - perguntou ele, indignado. - Tudo no mundo é governado por leis - incluindo a guerra! E eu não participarei numa aventura em que as devidas formalidades não sejam cumpridas! Honra, Ulisses, é uma questão de honra! Onde está a honra nesse teu plano? O fedor dos nossos nomes chegaria ao Olimpo! Nós não podemos infringir as leis! - Virou-se para mim. - Não lhe dês ouvidos, Agamémnon! As leis da guerra são inequívocas. Temos de lhes obedecer!

- Acalma-te, Nestor: eu conheço as leis tão bem como tu. - Segurei Ulisses pelos ombros e abanei-o ligeiramente. - Ulisses: não estavas à espera que eu desse ouvidos a tão ímpio conselho, pois não?

A resposta dele começou por ser uma boa gargalhada. E logo acrescentou:

- Não, Agamémnon, claro que não! Mas tu pediste-me uma opinião. E eu senti-me na obrigação de partilhar contigo um excelente fragmento da minha sabedoria. Se os ouvidos à minha volta são surdos, para quê queixar-me? Eu não sou o supremo rei de Micenas. Sou apenas um dos teus súbditos leais - Ulisses, da rochosa ítaca, onde um homem, se por acaso quiser sobreviver, terá, por vezes, de se esquecer de coisas como a honra. Eu disse-te como conquistar Tróia num só dia

- e garanto-te que não há outra maneira. Porque há uma coisa que deves ter presente - se Príamo tiver oportunidade de fechar as suas portas, passarás dez anos a uivar às muralhas de Tróia -, os dez anos que Calcas profetizou.

- Mas as muralhas podem ser escaladas e as portas derrubadas - contrapus.

- Podem? - Desatou de novo a rir-se e, de um momento para o outro, pareceu ficar muito longe de nós, imerso nos seus próprios pensamentos.

A sua mente era uma entidade prodigiosa; num ápice, era capaz de captar a mais intrincada das verdades. Intimamente, eu sabia que o seu conselho fazia todo o sentido; mas sabia também que, se o seguisse, ninguém me seguiria. Se atendesse ao seu conselho, estaria a transgredir as leis de Zeus e da Nova Religião. Eram ímpias as ideias de Ulisses, mas ele conseguia sempre escapar à punição que tais ideias implicavam. Era isso que eu achava fascinante. Como explicar a sua impunidade? Claro que se dizia que Palas Atena o amava a ele mais do que a qualquer outro homem e que intercedia sempre a favor de Aquiles junto do omnipotente Pai. Dizia-se que a deusa o amava precisamente pela excelência da sua mente.

-Alguém terá de ir a Tróia levar os símbolos da guerra a Príamo e exigir o regresso de Helena - disse eu.

Todos pareciam dispostos a fazer parte da delegação, mas eu já tinha feito a minha escolha.

- Menelau, tu és o marido de Helena. Terás de ir, evidentemente. Ulisses, tu e Palamedes irão também.

- E eu? - perguntou Nestor, francamente aborrecido.

- Tu não vais, Nestor, porque eu preciso de ter por perto um dos meus conselheiros - disse eu, esperando que tal explicação soasse convincente. Se Nestor imaginasse que eu pretendia protegê-lo de novas fadigas, desataria aos berros contra mim. É certo que me lançou um olhar desconfiado, mas creio que a longa viagem por mar devia tê-lo deixado realmente extenuado, pois não discutiu as minhas ordens.

Ulisses abandonou finalmente os seus estranhos devaneios.

- Rei Agamémnon, se eu vou participar nesta missão, terei de te pedir um favor. É preciso que não haja o menor indício de que as nossas tropas se encontram já aqui, ocultas pelos montes centrais de Ténedo. É preciso que o velho Príamo fique com a impressão de que estamos ainda na Grécia, a prepararmo-nos para a guerra. A lei obriga-nos apenas a notificá-lo formalmente do estado de guerra antes de atacarmos. Não temos de fazer rigorosamente mais nada. Além disso, Menelau deveria exigir uma indemnização adequada para os danos psicológicos que sofreu em consequência do rapto da mulher. Creio que Menelau deveria exigir a Príamo a reabertura do Helesponto aos nossos mercadores e a abolição dos embargos comerciais.

Aquiesci.

- Muito bem visto, Ulisses. Começámos a descer a encosta na direcção da cidade; os mais jovens e enérgicos iam à minha frente, Ulisses e Filoctetes à frente de todos, à conversa e à gargalhada como dois rapazes. Eram ambos homens excelentes, mas Filoctetes era melhor guerreiro do que Ulisses. O próprio Herácles, no seu leito de morte, dera a Filoctetes o seu arco e flechas, apesar de Filoctetes ser ainda um rapazito.

Saltavam sobre tufos de erva, tonificados por aquele ar tão lavado; Ulisses saltou bem alto sobre uma moita e bateu com os calcanhares um no outro para demonstrar a sua agilidade. Filoctetes tratou de imitá-lo, com pernas ligeiras e ágeis. Um momento depois, porém, deu um penetrante grito de alarme. O seu rosto contorcia-se de dor; ajoelhou com uma das pernas, mantendo a outra estendida. Imaginando que teria partido a perna, corremos para o local. Ofegante, curvado, Filoctetes segurava na perna estendida com ambas as mãos. Ulisses pegara já na sua faca.

- Que foi? - perguntou Nestor.

- Pisei uma serpente! - disse Filoctetes, com a voz entrecortada. Fiquei paralisado de medo. As serpentes mortíferas eram raras na Grécia: uma espécie muito diversa das cobras que nós tínhamos em casa e nos altares, cobras de que gostávamos e que honrávamos porque elas caçavam toda a sorte de ratos.

Ulisses fez cortes profundos nos dois sítios onde a serpente mordera; depois, baixou-se e colou os lábios aos cortes, sugando o que neles havia, ou seja, tanto o sangue como o veneno. Depois, acenou para Diomedes.

- Diomedes, pega nele ao colo e leva-o a Macáon. Leva-o o mais quieto possível, para evitar que o veneno chegue aos órgãos vitais. Meu amigo - disse ele para Filoctetes -, tens de estar muito quieto. E anima-te: não te esqueças que Macáon é filho de Asclépio. Ele saberá o que fazer.

Diomedes seguiu à nossa frente, levando a pesada carga como se Filoctetes mais não fosse do que uma criança pequena; corria suave e facilmente, o que não era para mim uma novidade, pois já o vira correr assim com a armadura completa vestida.

Claro que fomos imediatamente para a tenda dos cirurgiões. Dera uma boa tenda a Macáon e ao seu irmão, o tímido Podalírio; os homens adoecem mesmo antes de as guerras começarem. Filoctetes estava deitado num divã, os olhos fechados, a respiração convertida num estertor.

- Quem tratou a mordidela? - perguntou Macáon.

- Fui eu - respondeu Ulisses.

- Fizeste muito bem, Ulisses de ítaca. Se não tivesses agido de modo       tão expedito, Filoctetes teria tido morte imediata. Mesmo agora poderá morrer. O veneno deve ser extremamente letal. Filoctetes já teve quatro convulsões e pus-lhe a mão sobre o coração e senti uma arritmia nítida.

- Quando poderemos saber qualquer coisa? - perguntei. Tal como todos os físicos, também Macáon detestava os prognósticos fatais. Abanou a cabeça e respondeu-me:

- Não faço ideia, rei Agamémnon. Alguém apanhou a serpente - ou viu-a, pelo menos?

Abanámos as nossas cabeças.

- Nesse caso, é impossível prever um desfecho.

No dia seguinte, a delegação partiu para Tróia, num grande navio com a coberta na maior desordem, a fim de que os Troianos pensassem que a embarcação acabara de fazer a longa viagem desde a Grécia sem qualquer companhia. Ficámos calmamente a aguardar o seu regresso. Mantínhamo-nos tão silenciosos quanto possível, evitávamos que o fumo das nossas fogueiras se erguesse mais alto do que as colinas, enfim, fazíamos tudo o que críamos necessário para que a nossa presença não fosse detectada por eventuais vigilantes postados no continente. Os Tenedenses não nos causavam o menor problema: estavam ainda aturdidos com a magnificência da frota que, inopinadamente, aportara às suas praias.

Pouco falava com os chefes jovens. Haviam eleito Aquiles como seu chefe

- para eles, o exemplo a seguir era Aquiles, não Agamémnon. O filho de Peleu evitava-me desde o dia em que Ifigénia morrera. Vira-o mais de uma vez, mas ele fingira não dar por mim e seguira o seu caminho. Quanto aos métodos que seguia com os Mirmidões, só um cego não daria por eles: Aquiles não perdia tempo e não os deixava preguiçar, ao contrário do que sucedia com o resto do exército. Treinava-os e exercitava-os todos os dias; aqueles sete mil soldados eram os homens mais capazes e resistentes que jamais vira. Ficara um pouco surpreendido ao saber que Aquiles trouxera apenas sete mil mirmidões, mas percebia agora que Peleu e o filho haviam preferido a qualidade à quantidade. Nenhum daqueles soldados tinha mais de vinte anos e todos eles eram profissionais e não voluntários (e os voluntários, como era sabido, estavam mais habituados a lavrar a terra e a colher as uvas do que a manejar armas). Nenhum daqueles homens - diziam os rumores - era casado. Uma medida muito inteligente. Só os jovens sem mulher nem filhos correm para o fragor da batalha sem cuidarem do seu destino.

Sete dias depois de ter partido, a delegação regressou. O navio chegou à praia já era noite e os meus três embaixadores seguiram imediatamente para a minha tenda. Diziam-me os seus rostos que a missão fora mal sucedida. Esperei contudo por Nestor para ouvir o que me tinham a dizer. Quanto a Idomeneu, não havia necessidade de o convocar.

- Recusaram-se a entregar-nos Helena, Agamémnon! - disse o meu irmão, dando um murro na mesa.

- Acalma-te, Menelau! Não estava à espera de que isso acontecesse. Mas digam-me: o que é que se passou? Alguém viu Helena?

- Não. Mantêm-na escondida. Fomos escoltados até à cidadela - eles conheciam-me da minha anterior visita. Até em Sigeu me reconheceram. Príamo estava sentado no trono e perguntou-me o que queria eu desta vez. Respondi-lhe que queria Helena e ele desatou a rir-se na minha cara! Ah, se o biltre do filho dele lá estivesse, podem crer que o teria morto ali mesmo! - Sentou-se, as mãos cobrindo o rosto.

- Matavas o biltre do filho dele e depois matavam-te a ti. Prossegue.

- Príamo disse que Helena fora para Tróia de sua livre vontade, que não pretendia regressar à Grécia, que considerava Páris seu marido e que preferia manter o seu tesouro em Tróia, pois o tesouro impediria que ela se transformasse numa carga financeira para o seu novo país. Chegou mesmo a insinuar que eu usurpara o trono da Lacedemónia! Disse que, depois de os irmãos de Helena, Castor e Pólux, terem morrido, ela é que deveria ter subido ao trono! Ela é que era filha de Tíndaro! Ao passo que eu, disse ele, eu não passava de um títere nas mãos de Micenas!

- Sim senhor... - disse Nestor, com um risinho. - Pelos vistos, mesmo que tivesse preferido ficar contigo em Amiclas, Helena acabaria por conspirar contra ti.

O meu irmão virou-se para o velho com um ar feroz. Bati com o bastão no chão e ordenei:

- Prossegue, Menelau!

- Entreguei então a Príamo a tabuinha vermelha com o símbolo de Ares e ele pôs-se a olhar para aquilo como se nunca tivesse visto nada de parecido em toda a sua vida. A mão dele tremia tanto que a tabuinha caiu ao chão e partiu-se. Um sobressalto percorreu a sala. Depois, Heitor pegou nos pedacinhos da tábua e levou-os dali para fora.

Tudo isso se deve ter passado há já uns dias. Porque é que não voltaram logo? - perguntei.

Menelau baixou a cabeça e não me respondeu. Tanto eu como Nestor ficámos logo a saber a razão da demora: Menelau retardara a partida, na esperança de ver Helena.

- Não contaste como terminou essa primeira audiência - disse Palamedes.

- Conto já, se me deixarem! - atirou-lhe Menelau. - O filho mais velho de Príamo, Deífobo, rogou em público ao pai que nos matasse. Depois, Antenor avançou para o estrado e ofereceu-nos alojamento. Invocou Zeus Hospitaleiro e proibiu todos os Troianos de nos tocarem com um só dedo que fosse.

- Uma reacção interessante, tanto mais que Antenor é da Dardânia. Afaguei Menelau, procurando aliviar-lhe o sofrimento. - Anima-te, irmão! Em breve serás vingado. Vá, agora vai deitar-te.

Só quando Nestor e eu ficámos a sós com Ulisses e Palamedes é que descobri aquilo que realmente queria saber. Menelau fora o único que alguma vez estivera em Tróia; porém, durante o ano em que nos preparámos para a guerra, o meu irmão não conseguira fornecer-nos uma única informação minimamente útil. Qual era a altura das muralhas? Eram muito altas, dizia ele. De quantos homens poderia Príamo dispor? De muitos. Eram firmes os laços que uniam Tróia às outras nações da Ásia Menor? Muito firmes. Fora uma missão quase tão impossível como tentar obter informações junto de Calcas, ainda que o meu irmão não pudesse usar a desculpa do sacerdote - é que, segundo Calcas, Apolo tinha-lhe atado a língua.

- Temos de ser rápidos, Agamémnon - disse Palamedes.

- Porquê?

- Tróia é uma cidade curiosa, dominada por homens inteligentes e idiotas em igual número. Ambos podem ser perigosos. Príamo é uma mistura de inteligência e idiotia. Entre os seus conselheiros, Antenor e um jovem chamado Polidamas são aqueles que me merecem maior respeito. O filho que Menelau referiu, Deífobo, não passa de um fanfarrão. Contudo, não é ele o herdeiro. A sua posição é tão importante como a de qualquer outro dos filhos imperiais - os filhos de Príamo e de Hécuba.

- Mas devia ser ele o herdeiro, visto que é o mais velho.

- Príamo foi, na sua juventude, um bode insaciável. Gaba-se de ter cinquenta filhos, um número verdadeiramente incrível - filhos da rainha, das outras esposas, das muitas concubinas. Quanto a filhas, parece que tem mais de cem - disse-me ele que a sua semente faz mais raparigas do que rapazes. Perguntei-lhe por que não abandonara algumas das raparigas. Desatou a rir-se e disse-me que as mais belas davam boas esposas para os seus aliados, ao passo que as feias teciam tecido suficiente para manter o magnífico aspecto do palácio.

- Como é o palácio?

- Enorme, Agamémnon. Tão grande, quer-me parecer, como a velha Casa de Minos em Cnossos. Cada um dos filhos casados de Príamo dispõe de aposentos privados e vivem todos no maior dos luxos. Há outros palácios no interior da cidadela. Antenor tem um, por exemplo. Tal como o herdeiro.

- Quem é o herdeiro afinal? Menelau mencionou Heitor, mas, muito naturalmente, pensei que ele fosse o mais velho.

- Heitor é um dos filhos mais novos da rainha Hécuba. Estava presente quando chegámos, mas pouco tempo ficou, pois tinha uma missão urgente na Frígia. Devo dizer que ele pediu ao pai que o substituísse nessa missão, mas Príamo não acedeu aos seus pedidos. Como é Heitor que chefia o exército de Tróia, os soldados troianos não dispõem, por ora, de um comandante-chefe. O que me leva a concluir que Heitor é mais inteligente do que o pai. É jovem - não terá mais de vinte e cinco anos. Um homem corpulento, enorme. Para dizer a verdade, fisicamente, não anda longe de Aquiles.

Virei-me para Ulisses, que afagava lentamente o rosto.

- E tu, Ulisses, que tens para me dizer?

- Quanto a Heitor, acrescentaria que os soldados e o povo adoram-no.

- Estou a ver: não limitaste as tuas actividades ao palácio, pois não?

- Não. Palamedes tratou do palácio, eu da cidade. Um exercício muito útil e instrutivo. Tróia é uma nação com muralhas, rei Agamémnon. Duas séries de muralhas. As que rodeiam a cidadela já são imponentes - mais altas do que as muralhas de Micenas ou Tirinte. Porém, as muralhas exteriores, aquelas que rodeiam toda a cidade, são verdadeiramente gigantescas. Tróia é uma cidade no verdadeiro sentido da palavra, Agamémnon. Toda a cidade se encontra dentro das muralhas exteriores e não dispersa pelos arredores, como acontece com as nossas. O povo não precisa de fugir para dentro das muralhas quando um inimigo ataca, porque toda a gente vive dentro das muralhas. Há muitas ruas estreitas e casas muito altas, a que eles chamam edifícios de apartamentos, cada um dos quais alberga várias dezenas de familias.

- Antenor disse-me - interrompeu Palamedes - que, segundo o último censo, havia na cidade cento e setenta mil cidadãos. Tendo em conta esse número, julgo que Príamo poderia mobilizar um exército de quarenta mil bons soldados, apenas dentro dos limites da cidade - ou cinquenta mil, se recorresse também aos homens mais velhos.

Pensando nos meus oitenta mil homens, sorri.

- Não chegam para nos deter - disse.

- Chegam e sobram - disse Ulisses. - A cidade é quase uma circunferência - de facto, é mais oblonga do que redonda - e tem um perímetro de várias léguas. As muralhas externas são verdadeiramente fantásticas. Medi uma pedra usando como referência a distância que vai dos ossos do meu punho até ao cotovelo e contei depois as várias carreiras de pedras. Concluí que as muralhas têm uma altura de trinta cúbitos e, na base, uma grossura de pelo menos vinte cúbitos. São tão velhas que ninguém se lembra quando foram construídas, nem porquê. Diz a lenda que estão amaldiçoadas e que terão de desaparecer da vista dos humanos para sempre, e tudo por causa do pai de Príamo, Laomedonte. Mas duvido que desapareçam da vista dos humanos devido ao nosso assalto. Apresentam uma ligeira inclinação e as pedras são regularmente polidas. Ou seja, não servem para escalar, seja com escadas de corda, seja com arpéus.

- Mas não há nas muralhas nenhum ponto fraco? - perguntei eu, dando-me conta do desânimo que se havia instalado. - Nenhuma muralha mais baixa? Ou as portas?

- Há de facto um ponto fraco, Agamémnon - mas creio que seria melhor não contarmos com ele. Uma secção das muralhas originais, no lado ocidental, ruiu devido, julgo eu, ao mesmo terramoto que arrasou Creta. Éaco reparou a brecha e, a essa parte da muralha, os Troianos chamam agora a Cortina Ocidental. Tem cerca de quinhentos passos de comprido e, em comparação com o resto da muralha, a sua construção é francamente grosseira. A pedra foi mal talhada, pelo que apresenta muitas frestas e saliências, óptimas para os nossos arpéus. Quanto às portas, existem apenas três: uma que fica perto da Cortina Ocidental e a que chamam a Porta Ceia; outra, no lado sul, chamada a Porta Dardaniana; e uma última, a nordeste, a que chamam a Porta Ida. Quanto a outras entradas, só escoadouros e condutas, que são muito fáceis de guardar, para além de permitirem apenas a passagem de um homem de cada vez. As portas, devo acrescentar, são maciças. Têm uma altura de vinte cúbitos e são encimadas pela passagem que corre ao longo do topo das muralhas exteriores e que permite uma rápida transferência de tropas de uma secção para outra. As portas foram construídas com toros reforçados com pregos e chapas de bronze. Um aríete, quando muito, fá-las-ia apenas tremer. Em suma: se as portas não estiverem abertas, precisarás de um milagre para entrar em Tróia.

Bom, Ulisses sempre fora pessimista e não era agora que se ia curar de tal doença.

- Não percebo como é que os Troianos poderão resistir a uma força tão portentosa como a nossa - disse-lhe eu.

Palamedes pôs-se a examinar o vinho que tinha no copo e nem uma palavra disse; a disposição de Nestor também não era muito diferente. Ulisses prosseguiu.

- Agamémnon - disse ele, com um ar extremamente sério -, se as portas de Tróia permanecerem fechadas, os soldados deles chegarão perfeitamente para deter os nossos. Quanto a escaladas, só vejo um sítio possível: a Cortina Ocidental. Mas a Cortina Ocidental tem apenas quinhentos passos de comprimento. Acredita no que digo: os Troianos poderão aguentar o cerco durante anos! Tudo depende de uma coisa - do facto de eles acreditarem ou não que nos encontramos ainda na Grécia. Mas bastará que um dos seus barcos de pesca venha para este lado de Ténedo para que todos os nossos planos vão por água abaixo. Julgo que terás de contar com uma campanha longa. - De súbito, havia uma expressão maliciosa nos seus olhos. - Claro que poderias obrigá-los a passar fome - a fome seria uma arma decisiva.

Nestor ficou boquiaberto de indignação.

- Ulisses, Ulisses! - atacou ele. - Recomendas de novo que transgridamos as leis? Sabes qual seria o castigo para tal transgressão? A loucura! De um momento para o outro, ficaríamos todos loucos!

Impenitente como sempre, Ulisses meneou comicamente as ruivas sobrancelhas.

- Eu sei, Nestor. Porém, tanto quanto a minha mente consegue divisar, todas as normas da guerra parecem favorecer o inimigo. É pena, mas é assim mesmo. Em tais circunstâncias, creio que a fome dos Troianos faria todo o sentido.

De súbito cansado, levantei-me.

- Não gostaria de ser um dos teus soldados, Ulisses, pois muitas seriam as Punições divinas que teria de sofrer por causa das tuas ímpias acções. Vai deitar-te. Amanhã de manhã, convocarei um conselho geral. Depois de amanhã, partiremos ao alvorecer.

Quando se preparava para sair, Ulisses virou-se para mim.

- Como está Filoctetes? - perguntou-me.

- Nenhuma esperança de recuperação.

- Lamento ouvir tal. Que vamos fazer com ele?

- Que podemos fazer, Ulisses? Terá de ficar aqui. Seria o cúmulo da loucura levá-lo para o campo de batalha.

- Concordo que ele não pode vir connosco, Agamémnon, mas penso que não deveríamos deixá-lo aqui. Mal viremos costas, os Tenedenses cortam-lhe a garganta. Manda-o para Lesbos. Os Lesbianos são um povo mais culto e educado, não farão mal a um homem doente.

- Filoctetes não sobreviveria à viagem - protestou Nestor.

- Mesmo assim, seria o menor dos males.

- Tens razão, Ulisses - disse eu. - Ele irá para Lesbos.

- Agradeço-te muito, Agamémnon. Vale a pena fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para salvar um homem como Filoctetes. - De súbito, Ulisses pareceu mais animado. -Vou já ter com ele. Vou dizer-lhe que irá para Lesbos.

Ele não entenderia as tuas palavras, Ulisses. Está em coma há três dias disse-lhe eu.

 

                                   Narrado por Aquiles

Calcas fez outra profecia. Por causa dessa profecia, Agamémnon mudou de ideias: já não seria ele o primeiro dos reis gregos a pisar solo troiano; com efeito, segundo o sacerdote, o primeiro rei que pisasse solo troiano morreria na primeira batalha. Olhei de relance para Pátrocles e encolhi os ombros. Se os deuses j'á me tinham condenado, porque haveria eu de preocupar-me? Cobrir-me-ia de glória, se fosse eu o eleito.

Foram finalmente dadas as ordens relativas à partida e ao desembarque. Sabíamos em que altura deveríamos manobrar na direcção da praia e desembarcar os nossos homens. Pátrocles e eu instalámo-nos na coberta de proa da minha nau capitânia, contemplando os navios que iam à nossa frente, muito menos do que aqueles que vinham atrás de nós, pois nós, os de lolcos, seríamos dos primeiros a chegar. A nau capitânia de Agamémnon seguia em frente, com o imponente comboio de navios de Micenas à sua esquerda e os navios de um dos reis vassalos do meu pai, Iolau de Fílace, à sua direita. Eu vinha logo a seguir; atrás de mim, vinham Ájax e todos os demais.

Antes de partirmos, Agamémnon indicou que não estava à espera de ser saudado por homens hostis empunhando armas; esperava poder atacar a cidade sem que houvesse ainda em Tróia uma oposição organizada.

Porém, naquele dia, os deuses não estavam connosco. Logo que o sétimo navio do comboio de Agamémnon contornou a ponta de Ténedo, grandes nuvens de fumo elevaram-se no promontório que flanqueava o porto de Sigeu. Os Troianos tinham sabido da nossa presença em Ténedo e estavam prontos para o ataque.

As nossas ordens diziam que devíamos conquistar Sigeu e seguir imediatamente na direcção da cidade. Mal o meu navio se fez ao estreito, pude ver as tropas troianas colocando-se em ordem de combate ao longo da praia.

Até mesmo os ventos estavam contra nós. Tivemos de colher as velas e de usar os remos, o que implicava que metade dos nossos soldados chegariam à praia demasiado cansados para combaterem em condições. Para cúmulo do infortúnio, as correntes vindas do Helesponto faziam-se sentir no mar alto. Também o mar estava contra nós. Demorámos uma manhã inteira a percorrer a curta distância que separava Ténedo do continente.

Com um sorriso amargo, reparei que a ordem de precedência havia sido alterada; Iolau de Fílace ia agora à frente de Agamémnon; os seus quarenta navios seguiam a uma escassa distância da nau capitânia de Iolau e a poderosa frota do rei supremo vinha à sua esquerda. Como encararia Iolau o seu destino?, perguntei-me. Amaldiçoá-lo-ia ou recebê-lo-ia de braços abertos? Para se saber quem pisaria primeiro solo troiano, procedera-se a uma eleição; e o eleito fora Iolau de Fílace; segundo a profecia de Calcas, Iolau morreria.

Mandava a honra que exigisse aos meus remadores um maior esforço; contudo, aconselhava a prudência que poupasse os Mirmidões, pois esperava-os uma batalha.

- Impossível apanhar Iolau - disse Pátrocles, lendo os meus pensamentos. Deixa tudo nas mãos dos deuses, Aquiles.

Aquela não era a minha primeira batalha, pois combatera várias vezes ao lado de meu pai desde que abandonara o Pélion e os ensinamentos de Quíron; porém, essas campanhas eram insignificantes, se comparadas com o que nos esperava na praia de Sigeu. Milhares e milhares de troianos - cada vez mais - encontravam-se já alinhados, preparados para o combate, e os poucos navios que, no dia anterior, estavam na praia, haviam sido recolhidos e encontravam-se agora em terrenos situados para lá da aldeia.

Quando toquei no braço de Pátrocles, senti que o meu amigo tremia; olhei para os meus braços: tão firmes como o metal da minha espada.

- Pátrocles, vai à popa e chama Automedonte, que vem no navio imediatamente atrás do nosso. Diz-lhe que ordene aos seus timoneiros que diminuam ao máximo a distância que nos separa e que passe esta mensagem não apenas aos nossos navios, mas também a todos os outros. Quando a praia já estiver perto, pouco mais poderemos fazer do que flutuar na água e, portanto, os esporões de uns não destruirão os cascos dos outros. Diz a Automedonte que os seus homens deverão passar pela minha coberta antes de chegarem à praia e que todos os outros deverão fazer o mesmo. Caso contrário, nunca conseguiremos ter em terra homens suficientes para impedir um massacre.

Pátrocles correu ao convés de ré e fazendo com as mãos uma taça à volta da boca, gritou as minhas instruções para o vigilante Automedonte, cuja armadura cintilava ao sol enquanto respondia. O seu navio depressa se abeirou do nosso, ficando o seu esporão a escassa distância do nosso costado. Os navios que conseguia ver estavam a fazer o mesmo: tínhamo-nos transformado numa ponte flutuante. Entretanto, os meus homens haviam deixado os remos e tinham-se começado a armar; o nosso ímpeto chegaria para nos levar para terra. Agora, havia apenas dez navios à minha frente, e o primeiro desses navios era o de Iolau.

O navio de Iolau mergulhou o esporão nos seixos da praia e, como que percorrido por uma convulsão, deteve-se; por um momento, Iolau hesitou; depois, deu o grito de guerra de Fílace e correu para a parte central do navio. Desceu o costado com os seus soldados atrás dele; ao fim de pouco tempo, formavam já uma pequena multidão entoando os seus cânticos guerreiros. O inimigo, contudo, dispunha de muito mais soldados que Iolau - e os danos não tardaram. A certa altura, um corpulento guerreiro com uma armadura de ouro desferiu em Iolau o golpe fatal; com uma violenta machadada, abriu-o ao meio.

Outros desembarcavam agora. Os navios à minha esquerda deslizavam rumo à praia e os seus homens saltavam das amuradas directamente para o fragor da batalha, incapazes de esperarem pelas escadas. Atei as correias do meu elmo, enfiei a minha couraça de bronze revestida a ouro e endireitei-a, peguei no meu machado com ambas as mãos. Era uma bela arma, aquele machado; pertencera aos despojos de guerra de Minos, que o trouxera de uma campanha em terras estrangeiras; era muito maior e muito mais pesado do que qualquer machado cretense. A espada roçava-me a perna, mas a Velha Pélion ficava no navio, pois de nada me serviria em combates corpo a corpo. Aquela era uma batalha para machados e os meus braços eram capazes de erguer e baixar aquela dupla lâmina o dia inteiro, sem se cansarem. Só Ájax e eu escolhemos o machado para o combate corpo a corpo; um machado suficientemente grande pode ser mais útil do que uma espada; contudo, para um homem vulgar, é certamente um empecilho. Não admira, pois, que estivesse ansioso por defrontar o gigante vestido de ouro que matara Iolau.

Demasiado concentrado na praia, demasiado interessado em captar tudo o que se estava a passar, nem sei o que pensei naqueles breves e derradeiros momentos. Um estremecimento em todo o navio disse-me que tínhamos atracado; seguiu-se um outro, mais forte ainda do que o primeiro, e quase perdi o equilíbrio. Olhei de relance para trás e verifiquei que Automedonte unira o seu navio ao meu e que os seus homens estavam já a saltar para a minha coberta. Como um macaco mimado, daqueles que as mulheres cretenses costumam ter em suas casas, cheguei à proa com meia dúzia de saltos e na proa fiquei por um instante, mirando uma tão desvairada confusão de cabeças que dificilmente distinguiria entre os nossos soldados e os do inimigo. Mas era necessário que eu fosse visto por todos os homens que vinham dos outros navios, tanto os do navio de Automedonte como os do navio de Alquimos, que atravessavam já a coberta de Automedonte, como os dos navios que vinham atrás; cada vez mais homens chegavam à minha coberta, enquanto o meu navio sofria os espasmos cada vez mais ténues provocados pelas colisões que ocorriam cada vez mais longe.

Então, brandi o meu machado muito acima da minha cabeça, gritei o grito de guerra dos Mirmidões com uma voz poderosa e saltei da proa directamente para aquela fervilhante massa de cabeças. A sorte estava comigo; uma cabeça troiana foi esmagada pelo impacte dos meus calcanhares. Caí em cima do soldado inimigo, agarrando com toda a força o machado, sem escudo, pois o escudo era um empecilho numa batalha daquele tipo. Num ápice, endireitei-me, berrando o grito de batalha com toda a força que tinha nos pulmões; escassos momentos depois, todos os Mirmidões repetiram o meu grito; no ar, ressoava já o medonho grito dos Mirmidões - tão medonho como a sua fúria de matar. Os Troianos usavam plumas cor de púrpura nos elmos, um pormenor que vinha mesmo a calhar naquela extrema confusão; com efeito, entre os Gregos, só os quatro reis supremos - e Calcas - poderiam usar essa cor na indumentária ou em quaisquer acessórios do vestuário.

Olhares faiscantes rodeavam-me, uma dúzia de espadas ameaçavam-me, mas empinei-me e desferi o machado com tal força que cortei um homem ao meio, desde o crânio até aos rins. O meu golpe fê-los recuar. Um bom conselho do meu pai, que o ensinara a todos os Mirmidões: nos combates corpo a corpo, a agressão deveria ser o mais feroz possível, pois isso levaria o inimigo a recuar instintivamente. Voltei a usar o machado, desta feita contra um círculo de soldados inimigos, como se fosse uma vareta numa roda; aqueles que haviam tido a louca ousadia de se abeirar de mim sentiram a lâmina do machado dilacerando-lhe as barrigas sob a frágil armadura, que era de bronze. Não, os Troianos não usavam armaduras de cabedal, o que não admirava, pois eram eles quem detinha o monopólio do bronze. Ah, quão rica deveria ser a cidade de Tróia!

Pátrocles estava atrás de mim com o seu escudo para me proteger as costas e, atrás de nós, um sem-número de Mirmidões saltavam dos navios para a praia. A velha equipa estava de novo em acção. Avancei, o machado varrendo os soldados que me apareciam à frente como se fosse uma vara sacerdotal, abatendo todos aqueles que usavam no elmo uma pluma cor de púrpura. Aquilo nada tinha a ver com um verdadeiro teste de força; não havia tempo nem espaço para escolher um príncipe ou um rei para comigo se confrontar; não havia sequer espaço algum a separar as forças inimigas. Aquilo mais não era do que uma multidão de guerreiros, convertidos em iguais pela batalha, peito anónimo contra peito anónimo. Muitos anos antes - ou assim me parecia -jurara contar todos os inimigos que viesse a abater; agora, contudo, estava demasiado excitado para contar fosse o que fosse, demasiado fascinado com a súbita fragilidade da carne macia sob a dureza do bronze, sempre que a lâmina do machado a dilacerava.

Para mim, nada mais existia a não ser sangue e rostos, terror e fúria, homens corajosos que tentavam aparar o machado com as suas espadas e que por isso mesmo morriam, cobardes que, ao sentirem o abraço da morte, desatavam a tagarelar de pavor, e aqueles que eram piores do que cobardes, aqueles que viravam costas e tentavam fugir. Sentia-me invencível, eu sabia que não havia nada naquele campo de batalha que pudesse vencer-me. E era com um prazer extremo que via aqueles rostos escancarados golfando sangue; o desejo ardente de matar fazia vibrar todo o meu ser. Sentia uma espécie de loucura enquanto ceifava um campo de peitos e barrigas e cabeças, o machado escorrendo sangue, sangue que escorria pelo cabo e empapava as grossas fibras de corda que envolviam o seu punho a fim de que as minhas mãos não escorregassem. De tudo me esquecera. Tudo o que queria era ver plumas cor de púrpura tingidas de vermelho. Se alguém tivesse posto um elmo troiano na minha cabeça e me tivesse empurrado contra os meus próprios homens, mesmo assim teria massacrado todos os que me aparecessem pela frente. O mal e o bem não existiam, apenas o desejo ardente de matar. Esse era o sentido de todos os meus anos sob o sol, esse era o meu destino de homem mortal: ser uma máquina de matar perfeita.

Reduzimos a pó o solo de Sigeu sob a violência das nossas botas; a poeira erguia-se muito acima das nossas cabeças e demandava a abóbada celeste. Embora em batalhas posteriores viesse a comportar-me com mais lógica (e a pensar nos meus soldados), naquela batalha de Sigeu, o bem-estar dos meus homens foi coisa que nunca me ocorreu. Tanto me fazia quem estava a vencer ou quem estava a perder: a única coisa que me interessava era que eu estivesse a vencer. Se o próprio Agamémnon estivesse a combater a meu lado, eu não teria dado por isso. Nem mesmo Pátrocles abalava o meu furor, ainda que fosse ele a razão por que sobrevivi à batalha, pois foi ele quem repeliu os Troianos que tentavam atacar-me pelas costas.

De súbito, um escudo surgiu no meu caminho. Desferi-lhe um golpe portentoso, pois queria ver o rosto que o escudo ocultava. Porém, tal uma seta, o guerreiro desviou-se e a ponta da sua espada roçou-me o braço direito. Como se tivesse mergulhado num tanque de água gelada, tratei de recobrar o alento; depois, tremi de exultação pois o meu inimigo baixou o seu escudo para me ver melhor.

Finalmente um príncipe! Todo vestido de ouro. O machado que ele usara para abater Iolau desaparecera e fora substituído por uma espada. Rosnando de intenso prazer, enfrentei-o sofregamente. Era um homem enorme e tudo nele revelava que estava acostumado a vitórias - além do que era o primeiro homem que ousara desafiar-me. Descrevemos cautelosamente um círculo, o meu machado açoitando o chão até ao momento em que ele me deu uma abertura. Quando saltei e girei sobre ele, o príncipe troiano desviou-se num ápice; mas eu também fui rápido: esquivei-me à sua espada tão facilmente como ele fugiu do meu machado. Compreendendo ambos que havíamos encontrado um inimigo valoroso, decidimos entregar-nos ao duelo com igual dose de paciência e firmeza. O bronze retinia contra o bronze revestido a ouro, parada atrás de parada; nenhum de nós conseguia ferir o outro e cada um de nós estava consciente de que os soldados, tanto troianos como gregos, se haviam afastado para que os dois gigantes tivessem o espaço de que precisavam.

Sempre que eu falhava o alvo, ele desatava a rir-se, ainda que, em quatro sítios, o seu escudo dourado revelasse já o bronze e o estanho que havia por debaixo do bronze. Tinha de combater a minha raiva tão duramente como combatia contra ele - como era possível que ousasse rir-se? Os duelos eram uma coisa sagrada, os homens não podiam ridicularizá-los! Ele não sentia esse carácter sagrado dos duelos e isso deixava-me furibundo. Duas investidas fiz e ambas falhei. Então, o príncipe troiano falou.

- Como é que te chamas? Príncipe Canhestro? - perguntou-me ele, rindo-se.

- Aquiles! - respondi, os dentes quase cerrados de fúria. Desatou a rir-se ainda com mais gozo.

- Nunca ouvi falar de ti, príncipe Canhestro! Eu sou Quicnos, filho de Poseidon das Profundezas.

- Filho de Poseidon: todos os homens mortos fedem ao mesmo, sejam os seus pais deuses ou homens! - gritei-lhe.

Uma resposta que o fez rir ainda mais. Senti erguer-se dentro de mim a mesma raiva que experimentara quando vira Ifigénia morta no altar e esqueci-me de todas as regras de combate que Quíron e o meu pai me haviam ensinado. Com um grito agudíssimo, lancei-me sobre ele, enfrentando a ponta da sua lâmina e erguendo o meu machado. Ele recuou de um salto e tropeçou; a espada caiu e eu desfi-la numa centena de fragmentos. Logo surgiu à minha frente o seu escudo, tão grande como um homem e com uma cintura fina; protegia assim as suas costas enquanto corria, abrindo caminho por entre os soldados troianos, movido por tresloucado desespero, gritando para que lhe dessem uma lança. Alguém lhe atirou a arma que pedira, mas eu estava demasiado perto das suas costas para que ele a pudesse usar. O meu inimigo não tinha outra alternativa senão manter a retirada.

Mergulhei por entre as hostes troianas sempre no seu encalço. Não houve um único soldado que ensaiasse sequer desferir-me um golpe, fosse porque estavam demasiado assustados, fosse porque respeitavam os tradicionais princípios do duelo (na verdade, nunca cheguei a saber por que me deixaram passar incólume). A multidão de guerreiros minguava; a certa altura, as hostes combatentes ficaram definitivamente para trás; por fim, um rochedo que se erguia na praia obrigou Quicnos, o filho de Poseidon, a parar. Com a lança descrevendo lentos círculos, virou-se para me enfrentar. Parei também, esperando que ele arremessasse a lança; contudo, Quicnos preferia não a usar como um dardo. Uma opção inteligente, visto que eu tinha ainda na minha posse tanto o machado como a espada. Desviei-me num ápice quando ele tentou pela primeira vez espetar-me a ponta da lança. Vezes sem conta investiu contra o meu peito, mas eu era jovem e as minhas pernas tão ágeis como as de um homem muito mais leve do que eu. Por fim, a oportunidade surgiu e não a deixei escapar: investi contra ele e quebrei-lhe a lança. Tudo o que ele tinha agora era o punhal. Não se dando ainda por derrotado, as suas mãos tacteavam a armadura à procura da derradeira arma.

Nunca desejara tanto ver uma criatura morta como aquele bufão - contudo, não queria abatê-lo com o machado ou a espada. Deixei cair o machado e desfiz-me do pesado boldrié que suportava a minha espada. Por fim, atirei para o chão o meu punhal. O sorriso de gozo apagou-se finalmente no seu rosto. Encarava-me finalmente com o respeito que eu jurara arrancar-lhe. Apesar disso, porém, ainda ousava dirigir-me a palavra!

- Como é que disseste que te chamavas, príncipe Canhestro? Aquiles? Consumia-me uma raiva dolorosa; não consegui responder-lhe. Ele não estava suficientemente perto do deus para entender que um duelo entre dois membros da realeza seria sempre algo de tão silencioso como sagrado.

Avancei para ele e deitei-o por terra antes que conseguisse pegar no punhal; ergueu-se trôpego e recuou até que os seus calcanhares chocaram contra o cume do rochedo. Tropeçou e todo o seu corpo se esparramou sobre o leito rochoso para lá do cume. Perfeito. Peguei-lhe no queixo com uma mão e usei a outra como se fosse um martelo, esmagando-lhe a cara até esta se transformar numa massa indistinta, quebrando-lhe todos os ossos que houvesse por debaixo da pele ou da carne, sem me preocupar minimamente com os danos que pudesse infligir a mim mesmo. O elmo dele saltara-lhe da cabeça, desfeito; peguei nas compridas correias que agora pendiam frouxas e arrastei-as com toda a força sob o queixo e fi-las descer até ao pescoço e com elas lhe cingi e apertei o mesmo enquanto punha o meu joelho sobre a barriga dele; e tanto lhe apertei o pescoço que o seu rosto ficou negro e os seus olhos ressaltaram das órbitas como se fossem enormes bolas raiadas do sangue do horror.

O príncipe troiano já devia estar morto há algum tempo quando as minhas mãos largaram as correias; tinha aos meus pés algo que se assemelhava mais a um objecto do que a um homem. Por um momento, senti-me enojado, pois dei-me conta de toda a imensidão do meu desejo de matar; venci porém essa fraqueza e ergui Quicnos sobre os meus ombros, dependurando depois o seu escudo sobre as minhas costas a fim de protegê-las, já que teria ainda de passar pelas hostes troianas. Queria que os meus Mirmidões e todos os outros Gregos vissem que eu não perdera o duelo com Quicnos, nem a batalha.

Um pequeno destacamento conduzido por Pátrocles esperava-me no limite extremo do campo de batalha; regressámos às nossas linhas sem sofrer sequer um arranhão. Mas parei para deitar por terra Quicnos, aos pés dos seus próprios soldados, a língua inchada espreitando por entre os lábios dilacerados, os olhos ainda esbugalhados.

- O meu nome - gritei - é Aquiles! Os Troianos romperam a fugir nesse preciso instante; o homem que consideravam um imortal era afinal tão mortal como eles.

Seguiu-se então o ritual que coroa um duelo de morte entre membros da realeza; retirei-lhe a armadura, que passaria a fazer parte dos meus despojos de guerra, e mandei a carcaça dele para a vala do lixo de Sigeu, onde seria comida pelos cães da cidade. Antes, porém, cortei-lhe a cabeça e enfiei-a numa lança: uma estranha visão, com aquele rosto medonhamente deformado e as belas tranças douradas absolutamente intactas. Dei-a a Pátrocles, que a cravou na haste da lança como se fosse uma bandeira.

De súbito, todo o exército de Tróia debandou. Como os soldados troianos sabiam para onde fugir, seria praticamente impossível apanhá-los. A retirada processou-se, aliás, de uma forma perfeitamente disciplinada. Porém, o campo de batalha e Sigeu eram nossos.

Agamémnon ordenou o fim da perseguição, uma ordem a que eu não queria obedecer e por isso continuei a marcha; até que Ulisses me deteve e, com violência, me obrigou a virar-me para ele. Que forte que ele era! Muito mais forte do que parecia!

- Deixa as coisas como estão, Aquiles - disse ele. - As portas estarão fechadas - poupa as tuas energias e os teus homens para amanhã, caso os Troianos tentem atacar-nos de novo. Temos ainda de tratar de muitas coisas antes que escureça.

Constatando o bom senso das suas palavras, regressei com ele à praia, Pátrocles a meu lado como sempre, os Mirmidões atrás de nós, entoando o peã da vitória. Ignorámos as casas da aldeia: se havia mulheres lá dentro, não as queríamos. Logo que os nossos pés pisaram os seixos da praia, parámos estupefactos. Por toda a praia jaziam homens, mortos, moribundos, feridos. De todos os lados vinham gritos, berros, gemidos, súplicas aflitas. Alguns dos corpos mexiam-se ainda; outros jaziam inertes, esvaídos de vida: as suas sombras demandavam já as desoladas paragens do Reino da Escuridão, os domínios de Hades.

Ulisses e Agamémnon mantiveram-se à parte enquanto os homens se lançavam numa azáfama por causa dos navios, afastando todos aqueles cujos esporões haviam fendido os costados de outras embarcações; entretanto, a praia era limpa e os nossos homens transferidos para os navios. Quando ergui os olhos para o Sol, verifiquei que declinava já; restava-nos apenas um terço do dia. Os meus músculos pareciam exaustos, o meu braço demasiado pesado; o machado, arrastava-o pelo chão, a correia presa na minha mão. Não poderia fazer outra coisa senão juntar-me a Agamémnon, que me fitava boquiaberto. Era óbvio que o rei supremo não evitara a batalha, pois a sua couraça tinha as correias atadas e o seu rosto estava sujo de sangue e porcaria. E agora que podia vê-lo calmamente, verifiquei que Ulisses tinha a couraça fendida ao meio, de tal modo que se lhe via o peito; no entanto, a sua pele não apresentava um único ferimento. - Estiveste a tomar um banho de sangue, Aquiles? - perguntou o rei supremo. - Estás ferido?

Abanei a cabeça, como que aturdido; a reacção à tempestade de emoções que experimentara começava a fazer-se sentir e aquilo que eu aprendera acerca de mim mesmo ameaçava abrir as portas da minha mente às Filhas de Kore. Poderia eu viver com um tal fardo e não enlouquecer? Então, pensei em Ifigénia e compreendi que não perder a razão fazia parte do meu castigo.

- Com que então o homem do machado eras tu! - disse Agamémnon. - Pensei que fosse Ájax. Mas não há dúvida: tu mereces a nossa gratidão. Quando trouxeste o cadáver do homem que matou Iolau, os Troianos perderam todo o ânimo.

- Duvido que fosse eu o responsável, rei supremo - consegui responder-lhe. - Os Troianos tinham já sofrido muitas baixas - e continuavam a sofrê-las.

Quicnos foi apenas uma questão pessoal: ele escarneceu da minha honra.

Ulisses pegou-me de novo no braço, mas desta vez suavemente.

- O teu navio está acolá, Aquiles. Embarca antes que ele parta.

- Partir? Para onde? - perguntei, perplexo.

- Não sei. A única coisa que sei é que não podemos continuar aqui. Deixa que Tróia enterre os seus cadáveres. Télefo diz que há uma boa praia junto a uma lagoa, logo à entrada do Helesponto. Vamos dar uma vista de olhos ao local. Pode ser que sirva.

Afinal, a maior parte dos reis seguiu no navio de Agamémnon; a frota rumou a norte, ao longo da costa, até que atingimos a foz do Helesponto; os primeiros navios gregos a entrarem nessas águas numa geração enfrentaram serenamente as altas ondas. Só ao fim de uma ou duas léguas, as colinas de água que envolviam os seus costados deixaram ver uma praia muito mais extensa e ampla do que a de Sigeu, com mais de uma légua de comprimento. Em ambas as pontas da praia, rios corriam para o mar, os seus bancos de areia envolvendo uma lagoa quase completamente cercada de terra. A única entrada para a salgada lagoa era uma estreita passagem a meio; as águas da lagoa eram de uma serenidade absoluta. A margem mais longínqua de cada rio era coroada por um promontório e, no topo do promontório que coroava o maior e mais sujo dos rios, havia uma fortaleza, deserta agora, pois os seus homens deveriam por certo ter fugido para Tróia. Nenhuma cabeça espreitava para ver a nau capitânia de Agamémnon avançando rumo à praia. Por outro lado, todos os pequenos navios que eram usados na cobrança dos tributos permaneciam parados na praia.

Enquanto nos concentrávamos na amurada, Agamémnon virou-se para Nestor e perguntou-lhe:

- Nestor, crês que este local serve? -Aos meus olhos inexperientes nestas coisas, parece-me esplêndido. Mas julgo que será melhor ouvires a opinião de Fénix.

- É um bom sítio, rei supremo - disse eu, timidamente. - Não será fácil atacarem-nos aqui. Os rios impedi-los-ão de nos flanquearem, embora as forças mais próximas de cada um dos rios fiquem mais vulneráveis do que as outras.

- Nesse caso, preciso de voluntários para se instalarem junto aos rios - disse o rei supremo, após o que acrescentou, um nada envergonhado: - Os meus navios terão de ficar no centro da praia - por uma questão de facilidade de acesso.

- Eu ficarei com o rio maior - disse eu rapidamente - e fortificarei o meu campo com uma paliçada para o caso de sermos atacados. Uma defesa no interior de outra defesa.

O rei supremo fitou-me com cara de poucos amigos.

- Pelas tuas palavras, até parece que vamos ficar muito tempo por estas paragens, filho de Peleu.

Olhei-o bem nos olhos.

- E vamos, rei supremo. É um facto que tens de aceitar. Mas Agamémnon nunca aceitaria esse facto. Desatou imediatamente a dar ordens quanto aos locais a que aportariam os diversos navios, enfatizando sempre o carácter temporário de tais medidas.

A nau capitânia permaneceu no meio da lagoa, enquanto, um a um, todos os navios avançavam lentamente na direcção da praia; porém, antes de a noite cair, um terço dos navios não tinha ainda aportado. Os meus próprios navios continuavam nas águas do Helesponto, tal como os de Ájax, do Pequeno Ájax, de Ulisses e Diomedes. Seríamos os últimos de todos. Felizmente, o tempo continuava bom e o Helesponto não estava demasiado agitado.

Enquanto o Sol se despedia nas minhas costas, atentei friamente, pela primeira vez, no sítio escolhido, e devo dizer que fiquei satisfeito. Com uma boa muralha para lá das filas de navios descansando na praia, o nosso acampamento seria quase tão invulnerável como Tróia. A qual se erguia a leste como uma montanha, mais próxima de nós aqui do que em Sigeu. íamos precisar de uma boa muralha defensiva; Agamémnon estava errado. Tróia não cairia num dia, tal como não fora construída num só día.

Logo que todos os navios se distribuíram convenientemente pela praia, com os calços sob os cascos e os mastros baixados - havia quatro séries de mastros - enterrámos o rei Iolau de Fílace. O cadáver foi trazido da sua nau capitânia e colocado num esquife elevado no alto de um outeiro verdejante; um a um, os homens das nações da Grécia marcharam diante dele e os sacerdotes entoaram os seus cânticos e os reis derramaram as libações. Como fora eu quem matara o homem que roubara a vida a Iolau, era meu dever pronunciar a oração fúnebre; lembrei ao silencioso exército a serenidade com que Iolau aceitara o seu destino, a coragem com que combatera antes do golpe fatal, e a identidade daquele que o matara, um filho de Poseidon. Sugeri depois que a sua coragem fosse celebrada por algo mais perene do que um elogio fúnebre e perguntei a Agamémnon se poderíamos dar a Iolau um novo nome, o nome de Protesilau, que significava «o primeiro entre o povo».

Foi-me concedido o seu solene consentimento; a partir desse momento, o povo de Fílace chamar-lhe-ia Protesilau. Os sacerdotes cobriram o seu rosto adormecido com a máscara mortuária de ouro e despiram-lhe o sudário para revelarem a opulência de um traje tecido a ouro. Depois, colocámo-lo numa barca que atravessou o maior dos rios, aportando ao local onde os pedreiros haviam trabalhado dia e noite para escavarem o seu túmulo nas pedras do promontório. O carro mortuário foi conduzido para dentro do túmulo e este foi finalmente tapado e os pedreiros começaram a deitar terra pela pedregosa abertura; dentro de uma ou duas estações, olho nenhum - nem mesmo o mais penetrante - conseguiria localizar o túmulo do rei Protesilau.

Iolau, ou Protesilau, cumprira a profecia e enchera de orgulho o seu povo.

 

                                   Narrado por Ulisses

As operações de aportagem e distribuição pela praia de mais de mil e cem navios ocuparam todo o meu tempo e mobilizaram todas as minhas energias nos dias que se seguiram à primeira batalha em solo troiano. O total de embarcações diminuíra um pouco, pois alguns dos pretendentes mais pobres à mão de Helena não se podiam dar ao luxo de construir navios tão capazes como, por exemplo, os de Agamémnon. Várias dezenas de navios tinham-se afundado, devido a rombos provocados por choques, durante a frenética corrida para a praia de Sigeu. Contudo, não tínhamos perdido nenhum dos navios de abastecimento, nem aqueles que transportavam cavalos para os nossos carros.

Para minha grande surpresa, os Troianos não se aventuraram sequer a abeirar-se do nosso acampamento, um facto que Agamémnon interpretou como um sinal seguríssimo de que a resistência troiana sofrera um golpe decisivo. Assim, com toda a frota convenientemente instalada na praia, a fim de que os seus cascos não inchassem e abrissem fendas por absorverem demasiada água, o nosso rei supremo tratou de convocar um conselho. Agamémnon estava tão entusiasmado com o êxito alcançado em Sigeu que não faria sentido tentar levá-lo a ver as evidências; aquilo que ele interpretava como um feito grandioso revelar-se-ia em breve uma acção menor. Resolvi deixá-lo expender à vontade as suas opiniões, perguntando-me quem ousaria pôr em causa uma tão efervescente confiança. Como era de regra, Agamémnon pronunciou o seu discurso no meio do mais absoluto silêncio; porém, mal entregou o Bastão a Nestor (não sei porquê, Calcas não estava presente), já Aquiles estava de pé pedindo a Nestor que lhe passasse o Bastão.

Sim, claro: só Aquiles ousaria. Não procurei sequer esconder o meu sorriso.

O rei Leão fora já obrigado a digerir uma farta dose de contestação por parte do rapaz de lolcos; pelos sulcos que agora se vincavam na sua testa, imaginei que o leonino Agamémnon estivesse a sofrer de cruciantes dores de indigestão. Teria havido na história do mundo uma empresa tão valorosa e ousada como a nossa que tivesse começado tão mal? Tempestades, um sacrifício humano, ciúmes, ganância, uma extrema antipatia entre indivíduos que, muito provavelmente, acabariam por precisar uns dos outros. E o que é que passara pela cabeça de Agamémnon para mandar o seu primo Egisto para Micenas, a fim de controlar os movimentos de Clitemenestra? Uma acção que considerei tão temerária como a partida de Menelau para Creta, deixando Páris na sua casa. É que Egisto tinha legítimas pretensões ao trono de Micenas! Provavelmente, os filhos de Atreu já se tinham esquecido do que Atreu fizera aos filhos de Tiestes. Cozinhara-os e servira-os ao próprio pai durante um banquete! Egisto, então muito pequeno, escapara ao horrendo destino dos seus irmãos mais velhos. Bom, mas isso não era o meu problema. Em contrapartida, o abismo que continuava a cavar-se entre Agamémnon e Aquiles era, sem a menor dúvida, o maior dos meus problemas.

Se Aquiles fosse uma simples máquina de combate como o seu primo Ájax, nunca teria havido abismo nenhum. Mas Aquiles era tão bom a pensar como a combater. O sorriso esfumou-se no meu rosto quando dei comigo a pensar que, se tivesse nascido num berço tão magnífico como o daquele jovem e com a mesma força física que ele, mantendo embora todas as peculiaridades da minha mente, seria Muito possível e natural que tivesse acabado por conquistar o mundo. O fio que me ligava à vida era mais forte do que o dele; parecia-me plausível que viesse a estar presente quando os sacerdotes cobrissem o rosto sem lábios de Aquiles com uma máscara de ouro também sem lábios; contudo, haveria nos feitos do rapaz de lolcos uma glória que eu nunca alcançaria. Experimentei uma sensação semelhante à perda, ao compreender que Aquiles possuía uma qualquer chave para o sentido da vida que, não obstante todos os meus esforços, sempre me escapara. Seria realmente uma coisa boa um homem ser tão cerebral, tão frio? Ah, se ao menos eu pudesse arder uma única vez, tal e qual como Diomedes ansiava por uma só vez gelar! - Se os Troianos não saírem da cidade para lutar - disse o filho de Peleu, num tom perfeitamente sereno -, duvido que consigamos conquistar Tróia. Os meus olhos alcançam distâncias que a maior parte dos outros olhos não enxergam sequer e, nestes últimos dias, tenho estudado aquelas muralhas que, em tua opinião, nós sobrestimamos. Não posso concordar contigo, Agamémnon. Pelo contrário: eu creio que as subestimamos. Só haverá uma maneira de esmagarmos Tróia: atrair os Troianos para a planície defronte das muralhas e derrotá-los em campo aberto. E isso não será fácil. Teremos de flanqueá-los, teremos de impedir que retirem para a cidade e que voltem no dia seguinte para combater. Não pensas que seria sensato se, ao discutirmos a conquista de Tróia, tivéssemos sempre em mente uma tal possibilidade? Seremos nós incapazes de urdir uma qualquer artimanha que leve os Troianos a abandonarem as suas muralhas?

Desatei a rir-me.

- Aquiles, se tu estivesses dentro de muralhas tão altas e grossas como as de Tróia, abandoná-las-ias para te envolveres numa batalha? No que toca a batalhas, Sigeu foi para os Troianos a melhor das oportunidades, pois combateram contra um inimigo que acabava de desembarcar. No entanto, nem mesmo em Sigeu conseguiram vencer-nos. Se eu fosse Príamo, manteria os soldados no alto das muralhas, onde podem escarnecer de nós à vontade.

Aquiles não ficou nada impressionado com os meus argumentos. -Aquilo que exprimi, Ulisses, mais não era do que uma vaga esperança. contudo, não consigo ver como é que poderemos tomar de assalto aquelas muralhas ou abater aquelas portas. E tu, consegues?

- Oh, mas eu nem sequer queria falar! - retorqui. - Já falei de mais sobre este assunto. Quando houver ouvidos preparados para me escutarem, voltarei a falar. Por ora, calo-me.

- Os meus ouvidos estão preparados para te escutar - replicou ele rapidamente.

- Os teus ouvidos, Aquiles, não são suficientemente importantes. Os ouvidos de Agamémnon é que não gostaram nada do que ouviram.

- Tróia não conseguirá resistir-nos! - exclamou.

- Nesse caso, rei supremo - teimou Aquiles -, se não houver amanhã nenhum sinal das tropas troianas na planície diante das muralhas, estás de acordo que nos desloquemos a Tróia, a fim de inspeccionarmos mais de perto essas mesmas muralhas?

- Claro - retorquiu, altivo, o rei supremo.

Quando o conselho terminou (sem decidir nada de mais significativo do que um passeio até às muralhas de Tróia), acenei para Diomedes. Pouco depois, tinha-o na minha tenda. Servido o vinho e dispensados os criados, Diomedes permitiu que a sua curiosidade se exprimisse; começava a aprender a controlar o seu ardente fogo.

- O que é que se passa? - perguntou ele, sôfrego de novidades.

- Tem de se passar alguma coisa? Eu pedi-te que viesses porque gosto da tua companhia.

- Da nossa amizade, já eu sei, Ulisses... O que eu estranhei foi a expressão com que me acenaste... Alguma coisa está em marcha. O quê?

- Sim senhor... Cada vez conheces melhor as minhas peculiaridades...

- Os mecanismos da minha mente podem ter sido muito maltratados pela guerra, mas a verdade é que ainda sei distinguir o cheiro de um junquilho do fedor de um cadáver.

- Bom, nesse caso, proponho-te que consideremos esta nossa reunião como um conselho privado. De todos nós, és tu quem mais sabe de guerra. De todos nós, és tu quem melhor sabe tomar de assalto uma fortaleza. Tu conquistaste Tebas e construíste um templo com as caveiras dos teus inimigos - por todos os deuses, a paixão que não te terá consumido para fazeres uma coisa dessas!

- Tróia não é Tebas - retorquiu ele calmamente. - Tebas é uma cidade grega, uma parte das nossas nações unidas. Esta é uma guerra contra a Ásia Menor. Porque é que Agamémnon não quer ver isso? No Egeu, há apenas duas grandes potências - a Grécia e a Federação da Ásia Menor, a qual inclui Tróia. Babilónia e Ninive estão muito pouco preocupadas com o que acontece no Egeu, e o Egipto está tão longe que os Ramsés não se preocupam rigorosamente nada.

Parou, com um ar embaraçado. - Mas quem sou eu para te dar lições?

- Não te subestimes, Diomedes. Esse teu sumário é magnífico. Oxalá houvesse no conselho de hoje mais umas quantas cabeças que pensassem com metade da lógica com que tu pensas!

Diomedes bebeu um gole de vinho para disfarçar o intenso prazer que o meu comentário provocara.

- Eu conquistei Tebas, é verdade, mas só depois de uma batalha campal. Entrei em Tebas por cima dos cadáveres dos seus homens. É provável que Aquiles estivesse a pensar nisso quando falou da eventualidade de atrair os Troianos à planície. Mas Tróia? Em Tróia, uma dúzia de mulheres e crianças chegarão para nos manter eternamente a ladrar às portas da cidade...

- A solução é fácil: deixamo-los morrer à fome - disse eu. Diomedes desatou a rir-se.

- Ulisses, tu és incurável! Sabes perfeitamente que as leis de Zeus Hospitaleiro proíbem isso. Como enfrentarias as Fúrias se submetesses uma cidade pela fome?

-As filhas de Kore não me metem medo. Já as enfrentei, há uns anos atrás. Seria aquela mais uma prova da minha irreligiosidade?, foi a pergunta que li na expressão de Diomedes. Contudo, o meu amigo não chegou a verbalizar essa pergunta. Em vez disso, perguntou-me:

- Então? A que conclusões chegaste?

- Até agora, só uma. Esta campanha vai ser muito longa - vai durar anos. Por isso, tomarei as minhas disposições tendo isso em mente. O meu oráculo caseiro disse que eu estaria fora vinte anos.

- Como podes acreditar tão piamente num humilde oráculo caseiro, se, ao mesmo tempo, cometes a impiedade de advogar a fome para submeter um inimigo?

- O oráculo caseiro - expliquei-lhe, pacientemente - pertence à Mãe. À Terra. Ela está muito próxima de nós em todas as coisas. É ela que nos lança neste mundo e é ela quem nos recolhe no seu seio quando a nossa caminhada chega ao fim. Contudo, a guerra é um domínio dos homens. O modo como se faz a guerra deveria depender unicamente da humana decisão. Do meu ponto de vista, todas essas malditas leis que regulamentam a guerra acabam afinal por proteger o inimigo. Um dia, surgirá um homem que, desesperado por obter uma vitória, infringirá todas essas leis - e, depois dele, tudo será diferente! Esse homem submeterá uma cidade pela fome e, depois dele, todos quererão imitá-lo. Eu quero ser esse homem!

Não, Diomedes, eu não sou ímpio! Sou apenas um homem que perde a paciência com todas estas limitações! Não duvido que o mundo cantará os feitos de Aquiles até ao dia em que Cronos volte a casar-se com a Mãe - até ao fim dos tempos! Mas será, da minha parte, uma vaidade desmedida querer que o mundo cante também os meus feitos? Eu não possuo as vantagens de Aquiles - não possuo o seu físico magnífico, nem sou filho de um rei supremo. Tenho de me limitar àquilo que possuo - inteligência, astúcia, subtileza. Não são maus instrumentos.

Diomedes estirou-se.

- Não, de facto não são nada maus. Mas quais são os teus planos para esta longa campanha?

- Começarei amanhã, depois de voltarmos da inspecção às muralhas de Tróia. Tenciono seleccionar um pequeno exército só meu, a partir das gigantescas hostes gregas.

- Um exército só teu?

- Sim, só meu. Não será um exército igual aos outros, não serão soldados iguais aos outros. Vou recrutar apenas valentões, desordeiros e rebeldes. Ou, mais exactamente, vou recrutar os piores exemplares de cada um desses lotes.

Diomedes ficou embasbacado, estupefacto.

- Só podes estar a brincar, Ulisses! Desordeiros? Rebeldes? Valentões? Mas que raio de exército vai ser esse?

- Diomedes, ignoremos por ora a questão de saber qual dos oráculos tem razão: se o meu, que fala em vinte anos, se o de Calcas, que fala em dez. Bom, de qualquer modo, dez anos ou vinte anos é sempre muito tempo. -Arrumei a minha taça de vinho e soergui-me no divã. - Numa campanha curta, um bom oficial é capaz de manter os desordeiros ocupados, tal como é capaz de manter os valentões rigorosamente vigiados, de modo a que a sua fanfarronice não prejudique os outros homens. Do mesmo modo, não lhe é dificil impedir que os rebeldes influenciem outros soldados. Porém, numa campanha longa, a discórdia é mais do que certa. Não teremos batalhas todos os dias - nem mesmo todas as luas - ao longo dos próximos dez ou vinte anos. Haverá luas e luas de ociosidade, sobretudo durante o Inverno. E, durante esses períodos de ociosidade, as línguas começarão a trabalhar e farão tantos e tais danos que os murmúrios de descontentamento ganharão as proporções de um berro!

Diomedes parecia divertido com a minha exposição.

- Então e os cobardes?

- Oh, os cobardes não os quero! Os outros comandantes que fiquem com eles, sempre servem para escavar as fossas!

O meu amigo riu-se.

- Muito bem. Depois de teres recrutado o teu pequeno exército, o que é que vais fazer com ele?

- Mantê-lo-ei permanentemente ocupado. Atribuirei aos seus membros tarefas em que os seus talentos possam florescer. A categoria de homens em que estou a pensar não é a dos poltrões. É a dos perversos, dos maus, daqueles que têm a ruindade na alma. Os desordeiros não querem outra coisa senão causar desordens. Os fanfarrões só ficam contentes quando põem em perigo as vidas dos outros, para além das suas próprias vidas. E os rebeldes seriam capazes de se queixar a Zeus da qualidade do néctar e da ambrósia do Olimpo. Amanhã, falarei com todos os comandantes e pedir-lhes-ei os três piores exemplares dos seus exércitos, excluindo os cobardes. Claro que os comandantes ficarão contentíssimos por se verem livres de tais pestes. Mal conclua o recrutamento, pô-los-ei a trabalhar.

Embora soubesse que eu estava deliberadamente a espicaçá-lo, Diomedes não conseguiu resistir a morder o isco.

- A trabalhar em quê? - perguntou. Resolvi continuar a espicaçá-lo.

- Nos limites da praia, não muito longe do sítio onde se encontram os meus navios, há um vale natural. Ninguém o vê, embora se encontre perto do acampamento o suficiente para que Agamémnon o inclua dentro das muralhas que vai ter de erigir para proteger os nossos homens e navios de eventuais ataques troianos. É um vale bastante fundo, e suficientemente grande para conter as casas necessárias para alojar, com extremo conforto, cerca de trezentos homens. O meu exército viverá nessa cova. Aí, no mais absoluto isolamento, treiná-los-ei para o trabalho que irão efectuar. Uma vez recrutados, não voltarão a ter contactos com as suas antigas unidades, nem com o grosso do exército.

- Mas que trabalho é esse, Ulisses?

- Vou criar uma colónia de espiões, Diomedes. Uma resposta de que ele não estava à espera. Ficou a olhar para mim, confuso.

- Uma colónia de espiões? Mas que raio é isso? O que é que os espiões fazem? Para que é que servem?

- Servem para muito, Diomedes, servem para muito - disse eu, entusiasmado. - Pensa um pouco, Diomedes! Mesmo dez anos é muito tempo na vida de um homem - por vezes é um sétimo ou um oitavo dessa vida, mas outras vezes é um terço ou mesmo metade. Entre os meus trezentos homens, haverá alguns com todas as condições para se passearem pelos diversos pisos de um palácio e é isso que eles farão. Ao longo deste primeiro ano, distribuirei alguns desses homens pela própria cidadela de Tróia. A outros que também gostem de representar, distribuí-los-ei por todos os estratos baixos e médios da cidade - desde os escravos aos mercadores. Quero ficar a par de todos os movimentos de Príamo.

- Pelo Senhor do Trovão! - exclamou Diomedes. Depois, pôs um ar céptico. - Serão detectados imediatamente.

- Porquê? Não te esqueças de que, quando entrarem em Tróia, esses homens terão já treino de sobra... Creio que não te deste conta de um aspecto: os meus trezentos homens possuem todos uma inteligência superior - todos os bons desordeiros, valentões e rebeldes são indivíduos brilhantes. Um homem estúpido nunca é um perigo para as hostes. Eu já estive dentro de Tróia e, enquanto lá estive, memorizei a versão troiana do Grego - o sotaque, a gramática, o vocabulário. Não te esqueças de que sou muito bom em línguas.

- Eu sei, eu sei - disse Diomedes, com um sorriso imenso.

- Além disso, descobri muitas coisas que não comuniquei ao nosso caro amigo Agamémnon. Antes de entrarem em Tróia, os meus espiões saberão tudo o que é preciso saber. Alguns deles - aqueles que não têm queda para as línguas - dirão que são escravos e que fugiram do nosso acampamento. Como não precisam de esconder que são Gregos, serão particularmente valiosos. Outros que tenham alguma queda para as línguas disfarçar-se-ão de Lícios ou Cários. E isto disse eu, radiante, as mãos atrás da cabeça - é só o princípio!

Diomedes respirou fundo.

- Agradeço a todos os deuses o facto de estares do nosso lado, Ulisses. Detestaria ter-te como inimigo.

Toda a cidade de Tróia se encontrava no cimo das muralhas para ver desfilar o supremo rei de Micenas à frente de toda a realeza grega. Reparei na crescente vermelhidão que se formou nas faces de Agamémnon, à medida que os seus ouvidos iam captando os apupos e a chacota que o incessante vento troiano até nós trazia. Fiquei profundamente contente pelo facto de Agamémnon não ter levado consigo o exército.

Doía-me o pescoço de tanto olhar para as alturas; porém, quando chegámos à Cortina Ocidental, examinei-a com todo o cuidado, já que, durante a minha visita a Tróia, não tivera oportunidade de vê-la por fora. Só ali seria possível tentar o assalto. Ainda que o próprio Agamémnon já tivesse desistido de tal ideia logo que deixámos para trás a Cortina Ocidental. Era uma porção demasiado curta, no que tocava ao comprimento. Quarenta mil troianos estariam no alto das muralhas à nossa espera, lançando azeite a ferver para cima das nossas cabeças, pedras acabadas de retirar das fogueiras, carvão em brasa, até mesmo excrementos.

Quando ordenou o regresso ao acampamento, Agamémnon tinha o desânimo estampado no rosto.

Não convocou nenhum conselho; os dias foram passando sem acções nem decisões. E eu deixei-o sozinho com as suas angústias, pois tinha mais que fazer do que discutir com ele. Comecei a reunir os homens que iriam formar a minha colónia de espiões.

Os comandantes não se opuseram minimamente às minhas pretensões. Pelo contrário: era com imensa alegria que se viam livres dos seus mais intrincados problemas. Pedreiros e carpinteiros trabalhavam já duramente no vale, erigindo trinta sólidas casas de pedra e um edifício mais amplo que seria usado para as refeições, os divertimentos e a instrução. Os meus recrutas começavam também a trabalhar à medida que iam chegando; a partir do instante em que eram escolhidos, eram mantidos no mais absoluto isolamento por uma guarda constituída por soldados de ítaca, distribuídos à volta dos limites do vale. Quanto aos comandantes, pensavam que eu estava a construir uma prisão onde tencionava encarcerar todos os infractores.

Quando veio o Outono, já tudo estava pronto. Reuni os meus recrutas no maior salão do edifício principal. Trezentos pares de olhos seguiam-me atentamente enquanto me encaminhava para o estrado: circunspectos ou curiosos, desconfiados ou apreensivos. Já estavam confinados há bastante tempo para saberem que haviam sido privados de vítimas, pois todos eles eram feitos da mesma matéria.

Sentei-me num trono real, com garras esculpidas, Diomedes à minha direita. Quando o silêncio se abateu sobre a sala, pus as minhas mãos nos braços do trono e estendi uma perna, pois era essa a pose de um rei.

- Têm-se perguntado certamente por que razão eu os trouxe para aqui e o que é que lhes irá acontecer. Até agora, têm-se limitado a conjecturas. A partir de agora, conhecerão as respostas às vossas perguntas, porque eu vou satisfazer a vossa curiosidade. Em primeiro lugar, cada um de vós tem certos traços de carácter que vos tornam odiosos aos olhos de qualquer comandante. Nenhum de vós é um bom soldado, ou porque põem em perigo as vidas dos outros, ou porque causam dores de barriga a todos os homens com a vossa maldade ou rebeldia. Não quero que haja dúvidas nas vossas mentes quanto às razões por que foram escolhidos. Foram escolhidos porque são odiados por toda a gente.

Parei e esperei, ignorando os rostos estupefactos, a raiva, a indignação. Alguns daqueles rostos, porém, permaneciam impassíveis; procurei não me esquecer deles: aqueles eram os homens dotados de capacidades e de uma inteligência superiores.

Tudo havia sido convenientemente preparado. Os meus guardas encontravam-se postados à volta do edifício; o seu chefe, Háquios, era um homem em quem podia depositar toda a minha confiança. As ordens eram claras: matariam todos os homens que saíssem antes de mim. Aqueles que decidissem que as minhas condições eram inaceitáveis não poderiam voltar para o seio do exército.

Teriam de morrer.

- Deram-se conta da magnitude do insulto? - perguntei-lhes. - Pensem um pouco: as minhas palavras não poderiam ter sido mais insultuosas! Os defeitos que os homens decentes abominam, transformá-los-ei em qualidades. Haverá compensações para os homens que me servirem - viverão em aposentos dignos de príncipes, não farão trabalho manual, e as primeiras mulheres que o rei supremo distribuir pelos homens, depois de Tróia ter caído, serão para vocês. Entre as missões que efectuarem, terão períodos de descanso adequados. De facto, vocês formarão um corpo de elite sob o meu único comando. Deixarão de servir os vossos reis respectivos ou o rei supremo. Um rei apenas servirão: Ulisses de Ítaca.

Disse-lhes depois que o trabalho que lhes estava destinado era muito perigoso e invulgar e concluí esta parte do meu discurso acentuando:

- Um dia, os profissionais do vosso ofício serão pessoas famosas. A vitória ou a derrota numa guerra dependerão do vosso trabalho. Aos meus olhos, cada um de vós vale um milhar de soldados de infantaria. Deverão por isso entender que o facto de terem sido escolhidos é algo de grandioso. Agora, antes que prossiga, gostaria que discutissem o assunto entre vós.

O silêncio persistiu por um breve período; estavam tão surpreendidos que tinham dificuldade em trocar opiniões. Quando a conversa finalmente começou, tratei de examinar atentamente os seus rostos; havia uma dúzia deles que já tinham decidido rejeitar a minha proposta. Um desses homens levantou-se e saiu, mais uns quantos imitaram-no. Háquios espreitava para lá da porta aberta. À sala não chegou ruído nenhum, sinal nenhum de tumulto. Saíram mais oito. E Háquios continuou obedecendo às minhas instruções. Como aqueles homens nunca regressariam às suas companhias, os seus antigos comandantes pensariam que estavam comigo. Por outro lado, os seus colegas pensariam que eles haviam regressado às suas antigas companhias. Só Háquios e os seus homens sabiam a verdade e eles eram de ítaca e conheciam o seu rei.

Havia dois homens que me interessavam mais do que todos os outros. Um deles era primo de Diomedes e um tormento constante para qualquer comandante. Chamava-se Tersita. Para além das suas naturais capacidades, havia na sua história pessoal um dado que muito me atraía: com efeito, dizia-se que Tersita era filho da tia de Diomedes e de Sísifo. O mesmo se dizia de mim: que Sísifo é que era o meu pai, e não Laertes. Esta eventual mancha no meu nascimento nunca me causou a menor angústia; o sangue de um burlão emérito era provavelmente mais útil do que o sangue de um rei como Laertes.

Quanto ao outro homem, conhecia-o muito bem; aliás, entre os meus trezentos soldados, era ele o único que sabia por que razão ali estava. Era o meu primo Sinão, que viera na minha comitiva. Um homem maravilhosamente útil que estava ansioso por dar os primeiros passos na sua nova profissão.

Tersita e Sinão estavam quietos e impassíveis, os sombrios olhos fixos no meu rosto, embora, de quando em quando, interrompessem o exame da minha pessoa para virarem a cabeça e avaliarem o calibre dos homens com que haviam sido misturados.

De súbito, Tersita pigarreou.

Continua, rei Ulisses, diz-nos o resto - disse ele. Disse-lhes o resto.

- Agora, creio eu, já percebem por que motivo os considero os homens mais valiosos do exército - acentuei, já perto do final do meu discurso. - As vossas missões serão sempre de uma importância extrema, quer visem a transmissão de informações, quer tenham por objectivo lançar a perturbação entre aqueles que governam Tróia. Será criado um sistema seguro de comunicações. Por outro lado, serão claramente definidos os contactos e os locais de encontro entre aqueles que passarem a residir de um modo mais ou menos permanente no interior de Tróia e aqueles que se limitarem a fazer breves visitas à cidade. Ainda que as vossas missões sejam de facto muito perigosas, a verdade é que, quando começarem a trabalhar, disporão já de tudo o que é preciso para lidarem com esses perigos. - Levantei-me. - Pensem um pouco no que vos acabei de dizer. Voltarei dentro de breves momentos.

Retirei-me com Diomedes para uma antecâmara. Aí conversámos e bebemos enquanto, do outro lado da cortina, o som de vozes se erguia e esbatia para logo se erguer de novo.

- Presumo - disse Diomedes - que tu e eu também entraremos em Tróia de vez em quando...

- Claro que sim. Se queremos controlar homens deste calibre, temos de mostrar-lhes que estamos dispostos a correr riscos ainda maiores do que aqueles a que os sujeitamos. Nós somos reis, os nossos rostos podem ser reconhecidos...

- Helena - disse ele.

- Precisamente.

- Quando é que começamos as nossas visitas?

- Esta noite - disse eu, calmamente. - Há uma boa conduta na secção noroeste das muralhas. É grande o suficiente para deixar entrar um homem de cada vez. A saída no interior das muralhas não tem guardas e é relativamente recôndita. Iremos vestidos de pobres, exploraremos as ruas, conversaremos com as pessoas e escapar-nos-emos amanhã à noite pela mesma conduta. Não te preocupes, será uma missão bastante segura.

Diomedes riu-se.

Não duvido, Ulisses, não duvido. Bom, acho que é tempo de ouvirmos os nossos homens - disse eu.

Tersita fora eleito porta-voz; estava já de pé à nossa espera.

- Fala, primo do rei Diomedes - ordenei-lhe.

- Rei Ulisses, nós estamos contigo. Daqueles que ficaram quando deixaste a sala, só dois votaram contra a tua proposta.

- Dois votos que não contam - disse eu.

Havia no olhar de Tersita um brilho sarcástico: ele sabia o que acontecera aos que haviam rejeitado a minha proposta.

- A vida que nos propões - prosseguiu Tersita - é muito melhor do que aquela que levamos num acampamento montado para um cerco, pois nós não conhecemos a virtude da paciência. Enfim, rei Ulisses: nós somos os teus soldados!

- Antes de esta sessão terminar, é necessário, porém, que cada um de vós pronuncie um juramento adequado.

- Todos juraremos - disse ele, impassível, sabendo que o juramento seria tão terrível que nem mesmo ele teria coragem de o infringir.

Depois de o último homem ter jurado, informei-os de que viveriam em unidades de dez homens; em cada um desses grupos, haveria um oficial, a ser escolhido por mim depois de os conhecer melhor. Contudo, havia dois homens que eu já conhecia muito bem: por isso nomeei Tersita e Sinão chefes da colónia de espiões.

Nessa noite, entrámos em Tróia com relativa facilidade. Fui eu o primeiro a rastejar pela conduta; Diomedes veio logo atrás de mim. Para Diomedes, não era tão fácil: os seus ombros eram tão largos como a conduta. Uma vez dentro da cidade, encaminhámo-nos furtivamente para um agradável beco, onde dormimos até de manhã. Depois, misturámo-nos com a multidão. Na imensa praça do mercado perto da Porta Ceia, comprámos bolos de mel e pão de cevada e dois copos de leite de ovelha, e tratámos de escutar. O povo não estava nada preocupado com os Gregos que ocupavam a praia do Helesponto; de um modo geral, o estado de espírito dos populares era animado, jovial. Contemplavam com admiração os seus imponentes bastiões e riam-se da ideia de o beemote grego estar parado e impotente a escassas léguas dali. Todos pareciam achar que Agamémnon acabaria por desistir e regressar à Grécia. Comida e dinheiro não faltavam, as Portas Dardaniana e Ida continuavam abertas e o tráfego processava-se normalmente. Só o complicado sistema de guardas e sentinelas no cimo das muralhas revelava que a cidade estava preparada para fechar as Portas Dardaniana e Ida mal surgisse uma ameaça.

Ficámos a saber que a cidade possuía muitos poços de água boa para beber e um vasto número de celeiros e armazéns onde eram guardados os alimentos não deterioráveis.

Ninguém punha a hipótese de uma batalha campal à saída da cidade; os poucos soldados que vimos, ou preguiçavam ou andavam na companhia de prostitutas, além do que haviam deixado em casa armas e armaduras. Toda a gente se ria de Agamémnon e do seu grandioso exército.

Diomedes e eu começámos a trabalhar na colónia de espiões logo que regressãmos ao acampamento. E o que nós trabalhámos! Havia homens com grandes aptidões e entusiasmo; outros, porém, desanimaram ao fim de pouco tempo e nunca mais se interessaram pela nova profissão que eu lhes propunha. Discuti serenamente o assunto com Tersita e Sinão, que concordaram comigo: os inaptos deveriam desaparecer. Dos trezentos recrutas iniciais, acabei por ficar com duzentos e cinquenta e quatro e dei-me por feliz.

 

                                           Narrado por Diomedes

Ulisses era um homem verdadeiramente notável. Aprendia-se sempre com ele:

até mesmo o modo como lidava com um escravo era, por si só, uma fonte de ensinamentos. Ao fim de uma única lua, havia já moldado a seu bel-prazer aqueles duzentos e cinquenta e quatro homens, apesar de não os considerar ainda prontos para a acção. Passava quase tanto tempo com ele como com os meus homens de Argos; porém, aquilo que com ele aprendia permitia-me controlar e dirigir melhor as minhas tropas - e em metade do tempo de que normalmente precisava. Deixara de haver sinais de descontentamento no meu contingente sempre que eu me ausentava, deixara de haver discussões entre os oficiais; recorria aos métodos de Ulisses e os resultados estavam à vista. Claro que, de quando em quando, ouvia algumas piadas murmuradas; claro que me apercebia dos olhares maliciosos dos meus nobres sempre que me viam com Ulisses; mesmo os outros reis começavam a interrogar-se acerca da natureza da nossa amizade. O que não me preocupava rigorosamente nada. Não teria ficado nada afectado se fosse verdade aquilo que pensavam. Por outro lado - façamos-lhes justiça - não havia na sua malícia a menor sombra de reprovação. Todos os homens eram livres de satisfazer os seus apetites sexuais com o sexo que muito bem entendessem. Normalmente com o sexo feminino; porém, uma longa campanha num país estrangeiro significava que havia muito menos mulheres disponíveis. As mulheres estrangeiras nunca estariam em condições de substituir condignamente as esposas e as namoradas, as mulheres da nossa própria terra. Em tais circunstâncias, era preferível procurar o lado mais doce do amor com um amigo que combatia ao nosso lado na batalha e que, com a sua espada, repelia o inimigo, enquanto nós tentávamos recuperar a espada que o inimigo deitara por terra.

A meio do Outono, Ulisses disse-me que fosse prestar as minhas homenagens a Agamémnon. Assim fiz, curioso quanto ao que estaria em marcha; nos últimos tempos, houvera uma série de conferências secretas entre Nestor e Ulisses, mas Ulisses nada me dissera quanto aos temas dessas conferências.

Durante cinco luas, não víramos nem sinal de soldados troianos e o estado de espírito no nosso acampamento era francamente sombrio. Os alimentos, afinal, não se tinham revelado um problema difícil, pois a costa a norte da Tróada e o lado de lá do Helesponto abundavam em legumes, fruta e animais. As tribos que aí viviam, mal viam os nossos contingentes, corriam a esconder-se. Porém, nada disto poderia alterar o facto de que, estando tão longe da pátria, não poderíamos pôr sequer a hipótese de regressar para um breve período de licença. Do rei supremo, não vinha ordem nenhuma: nem para desmobilizar, nem para atacar, nem para nada.

Quando entrei na residência de Agamémnon, Ulisses já lá estava, com um ar perfeitamente descontraído.

- Quando Ulisses apareceu, devia ter concluído que terias forçosamente de estar por perto - comentou Agamémnon.

Sorri, mas nada disse.

- Que pretendes afinal, Ulisses?

- Um conselho, Agamémnon. Há muitas coisas que já deviam ter sido discutidas há muito tempo.

- Concordo inteiramente! Por exemplo: o que é que se passa num certo vale e porque é que eu nunca consigo encontrá-los, a ti e a Diomedes, durante a noite? A noite passada, pensei precisamente em convocar um conselho.

Ulisses livrou-se do desagrado imperial com a sua habitual elegância. Começou com um sorriso, o sorriso que era capaz de vencer inimigos implacáveis, o sorriso que era capaz de encantar criaturas muito mais frias do que Agamémnon.

- Rei Agamémnon, eu dir-te-ei tudo - mas apenas num conselho.

- Muito bem. Fiquem aqui até que os outros venham. Se os deixo sair, são capazes de não voltar.

Menelau foi o primeiro a chegar, tão abjecto como sempre. Saudou-nos timidamente e correu a enfiar-se no canto mais escuro da sala. Pobre Menelau, oprimido e humilhado Menelau. Talvez começasse agora a dar-se conta de que Helena mais não era do que um elemento muito secundário nos planos do seu poderoso irmão, ou talvez começasse a achar que Helena nunca mais voltaria a ser sua. Estes pensamentos agitaram memórias que tinham já quase nove anos; a criatura cuja mão havia sido disputada por tantos pretendentes revelara-se afinal tão dissoluta como uma mulher da rua. única e exclusivamente preocupada com a satisfação dos seus desejos, indiferente àquilo que um homem queria. Tão bela! E tão egoísta! Oh, a roda-viva em que Menelau não teria andado por causa dela! Nunca consegui odiá-lo; era um homem demasiado insignificante, suscitava mais a piedade do que o desprezo. E amava-a como eu nunca poderia ter amado uma mulher.

Aquiles chegou na companhia de Pátrocles; Fénix vinha atrás deles - fez-me lembrar o cão de Ulisses, Argos, que, em ítaca, nunca largava o dono. Tão fiel quanto vigilante, assim era Fénix. Saudaram o rei supremo, Aquiles com óbvia relutância. Uma estranha criatura. Reparara já que Ulisses não gostava dele. Quanto a Mim sentia por ele pouco mais do que indiferença; daí que já tivesse decidido adverti-lo de que deveria mostrar-se mais cortês com Agamémnon. O rapaz, é certo, comandava os Mirmidões; mas isso não era razão para manifestar, de uma forma tão óbvia, a sua aversão ao rei supremo. Ver-se abandonado numa ala, durante uma batalha, era coisa vulgar e fácil de acontecer - e, normalmente, as culpas recaíam no comandante que se via abandonado. Quando vi a expressão dos olhos de Pátrocles, tive de sorrir - aquela, sim, era uma amizade amorosa! Pelo menos de um dos lados. Aquiles não dava o devido valor à afeição de Pátrocles. Além de o que ansiava mais por uma boa batalha do que pelo prazer que os corpos encerram.

Macáon chegou sozinho e, sem dizer palavra, sentou-se. Ele e o irmão, Podalírio, eram os melhores médicos de toda a Grécia, mais importantes para o nosso exército do que uma ala de cavalaria. Podalírio era um verdadeiro recluso: preferia a sua cirurgia aos conselhos de guerra. Macáon, porém, era um homem extremamente activo que tinha o dom de comando e era capaz de lutar tão bem como dez mirmidões. Idomeneu avançou com o seu passo elegante, e o seu ar não menos elegante, logo seguido pelo seu escudeiro, Meríona. Graças à coroa cretense e à sua posição como co-comandante, Idomeneu limitou-se a fazer uma vénia, em vez de ajoelhar diante do rei supremo. Agamémnon ficou furioso com a desconsideração, mas a fúria não desceu dos olhos até às cordas vocais; perguntei-me se Agamémnon não acharia que Creta estava a ficar demasiado grande para as suas botas, mas o rosto do rei supremo nada me disse a esse respeito. Idomeneu preocupava-se excessivamente com a sua elegância, com os seus trajes, com os seus adereços; enfiin, um escravo da sua própria aparência. Contudo, possuía uma constituição física notável e era um belíssimo comandante. Meríona, seu primo e herdeiro, era possivelmente o melhor dos dois - adorava festejar ou combater a seu lado. Ambos tinham o mesmo ar, típico dos Cretenses: um ar generoso, aberto.

Nestor avançou rapidamente para o seu assento especial, acenando apenas para Agamémnon, o qual não ficou nada ofendido. Nestor embalara-nos a todos nos seus joelhos quando éramos bebés. Se tinha algum defeito, esse defeito era, sem dúvida, o de se refugiar nas recordações dos «bons velhos tempos» e de considerar a actual geração de reis não mais do que um bando de mariquinhas. Contudo, não havia ninguém que conseguisse resistir aos seus encantos. Ulisses, achava eu, adorava-o. Consigo, Nestor trouxera o seu filho mais velho.

Ájax chegou com os seus companheiros, o seu meio-irmão Teucro e o seu primo da Lócrida, o Pequeno Ájax, filho de Oileu. Sentaram-se ao fundo, muito calados, com um ar desconfortável. Ansiava pelo dia em que pudesse ver Ájax num campo de batalha (estivera longe de mim aquando da batalha de Sigeu), em que pudesse ver com os meus próprios olhos aqueles braços portentosamente musculados empunhando o seu famoso machado.

Menesteu surgiu pouco depois. Era um bom homem, o rei supremo da Ática, mas sensato o suficiente para não imaginar que poderia igualar Teseu. Menesteu não era sequer um décimo do homem que Teseu fora - mas, sejamos honestos, quem é que poderia rivalizar com Teseu? Palamedes foi o último. Sentou-se entre mim e Ulisses. Seria imprudente da minha parte atrever-me a gostar dele, visto que Ulisses o odiava. Porquê, não sabia, embora desconfiasse que Palamedes o ofendera quando ele e Agamémnon se haviam deslocado a ítaca. Ulisses tinha paciência bastante para esperar o tempo que fosse preciso, mas acabaria por vingar-se - disso estava eu certo. Não seria uma vingança violenta, sangrenta. Com Ulisses, a vingança era servida fria. O sacerdote Calcas não estava presente. Uma ausência intrigante.

Agamémnon, com um ar bastante tenso, deu início aos trabalhos.

- Este é o primeiro conselho digno desse nome que resolvi convocar desde que desembarcámos em Tróia. Como todos estão a par da situação, creio que não fará sentido descrevê-la. Ulisses falará, eu não. Embora eu seja vosso suserano, vocês deram-me as vossas tropas de livre vontade. Do mesmo modo, respeitarei o vosso direito a retirarem esse apoio, não obstante o Juramento do Cavalo Esquartejado. Pátrocles, toma o Bastão, mas dá-o a Ulisses.

Ulisses avançou para o meio da sala (Agamémnon cedera ao frio e mandara construir uma casa de pedra, ainda que a existência de uma tal casa sugerisse permanência), a cabeleira ruiva flutuando numa massa de ondas em torno do seu belo rosto, os seus grandes olhos cinzentos despindo-nos até ao mais íntimo de nós mesmos, até à nossa verdadeira estatura: reis, mas ainda assim homens. Nós, os Gregos, sempre respeitámos a presciência e, a Ulisses, não lhe faltava esse poder.

- Pátrocles, serve o vinho - foi assiin que o meu amigo começou o seu discurso. Esperou que o jovem servisse todos os presentes. - Há cinco luas que desembarcámos. Fora dos limites de um vale que fica perto dos meus navios, nada aconteceu.

A esta afirmação seguiu-se uma rápida explicação: segundo Ulisses, o vale em questão servia para encarcerar os piores soldados do exército, pois era absolutamente necessário que esses elementos não contaminassem o resto das tropas. Eu sabia por que razão Ulisses não queria divulgar o verdadeiro objectivo do vale: Ulisses não confiava em Calcas nem em algumas das línguas dos seus homens, ainda que presas a um juramento.

Embora não tenhamos realizado nenhum conselho oficial - prosseguiu ele com a sua voz suave e agradável -, não tem sido difícil adivinhar os sentimentos dominantes dos chefes aqui presentes. Por exemplo: ninguém deseja montar o cerco a Tróia. Respeito os vossos pontos de vista, pelas mesmas razões que Macáon poderá expender: um cerco poderá trazer a peste e outras doenças; uma eventual conquista de Tróia após esse cerco poderá significar pesadas baixas também para as tropas gregas. Por isso, não é minha intenção discutir a questão do cerco.

Fez uma pausa para nos sondar.

- Diomedes e eu fizemos já várias visitas nocturnas à cidade de Tróia e concluímos que, se continuarmos aqui na próxima Primavera, a situação sofrerá uma alteração radical. Príamo mandou enviados a todos os seus aliados ao longo da costa da Ásia Menor e todos eles lhe prometeram apoio militar. Logo que comece o degelo nas montanhas, Príamo terá duzentos mil soldados à sua disposição. E nós seremos corridos daqui para fora: tão simples como isso.

Aquiles interrompeu-o.

- Estás a pintar um quadro muito negro, Ulisses. Foi para isso que nós deixámos as nossas pátrias? Para caírmos, de uma forma absolutamente ignominiosa, às mãos de um inimigo com quem travámos uma única batalha? O que estás a dizer-nos, creio eu, é que nos lançámos numa cruzada perfeitamente infrutífera, extremamente onerosa e sem a menor perspectiva de uma recompensa - ou seja, de despojos. Onde está o saque que nos prometeste, Agamémnon? Que aconteceu à tua guerra que durava apenas dez dias? Que aconteceu à tua fácil vitória? Para onde quer que nos viremos, é a derrota que vemos à nossa frente! Foi para isto que alguns dos homens aqui presentes se mostraram coniventes com um sacrifício humano? Há derrotas piores do que ser batido numa batalha. Ser obrigado a evacuar esta praia e a regressar à Grécia é a pior das derrotas!

Ulisses não conteve um risinho.

- Digam-me: estão todos tão desanimados como Aquiles? Se estão, lamento muito. No entanto, não posso negar que o filho de Peleu diz a verdade. Além disso, se permanecermos aqui durante o Inverno, os problemas de abastecimento vão aumentar. Por ora, podemos ir buscar à Bitínia aquilo de que precisamos; contudo, segundo dizem, os Invernos aqui são frios e nevosos.

Aquiles levantou-se num salto, virando-se furioso para Agamémnon.

- Foi isto que eu te disse em Áulida, muito antes de termos partido! Não prestaste a devida atenção ao problema do abastecimento de um exército enorme! Será que temos escolha? Poderemos nós escolher entre ficar aqui e voltar para a Grécia? Não me parece. A nossa única alternativa é aproveitar os ventos do início do Inverno e voltar à Grécia para nunca mais regressarmos! És um imbecil, rei Agamémnon! Um imbecil que se imagina inteligente!

Agamémnon manteve-se muito quieto e calado, mas era visível que estava a fazer um grande esforço para se controlar.

- Aquiles tem razão - atacou Idomeneu. - Tudo isto foi muito mal planeado. - Respirou fundo, enquanto fitava ferozmente o seu co-comandante. - Diz-me, Ulisses: o nosso exército pode ou não pode tomar de assalto as muralhas troianas?

- As muralhas troianas são inexpugnáveis, Idomeneu. A fogueira da agitação crescia, ateada por Aquiles e alimentada pelo facto de Agamémnon optar pelo silêncio. Todos estavam desejosos de o atacarem e ele sabia disso. Mordia os lábios, o corpo tenso curvado pelo esforço tremendo que o domínio da sua própria raiva lhe exigia.

- Porque é que nunca admitiste que não eras capaz de planear uma expedição tão grandiosa como esta? - perguntou Aquiles. - Fosse o teu estatuto inferior - e não fosses tu aquilo que és pela graça dos deuses! - liquidar-te-ia neste exacto momento! Trouxeste-nos para Tróia com um único pensamento na cabeça: a tua glória! Usaste o Juramento para reunires um gigantesco exército e desprezaste os desejos e as necessidades do teu irmão - até que ponto pensaste realmente em Menelau? Serás capaz de dizer que lançaste esta empresa por causa do teu irmão? Nunca! Nem sequer te deste ao trabalho de fingir! Desde o princípio que só tens um objectivo: enriquecer com o saque de Tróia e erigir um império para ti mesmo na Ásia Menor! É certo que todos nós enriqueceremos com o saque de Tróia - mas o mais rico de todos serás tu!

Menelau desatou a chorar: as lágrimas que lhe caíam pelas faces falavam de uma terrível desilusão. Vendo-o soluçar como uma criança, Aquiles afagou-lhe o ombro, procurando animá-lo. A atmosfera não podia ser mais explosiva; uma palavra mais e todas aquelas mãos correriam a apertar a garganta de Agamémnon. Sentindo já um inequívoco formigueiro no meu braço direito, olhei para Ulisses, imóvel no meio da sala, com o Bastão na mão, enquanto Agamémnon entrelaçava as mãos sobre o colo e olhava para elas.

Acabou por ser Nestor a apagar o fogo que alastrara. Virou-se furibundo para Aquiles e logo lhe atirou:

- Rapaz, a tua falta de respeito merecia uns bons açoites! Que direito tens tu a criticar o nosso rei supremo quando homens como eu não o fazem? Ulisses não fez nenhuma acusação - como te atreves tu a fazê-las? Tem tento nessa língua,rapaz!

Aquiles aceitou a repreensão sem um murmúrio. Apresentou as suas desculpas a Agamémnon ajoelhando diante dele e sentou-se. Por natureza, Aquiles não era homem que fervesse em pouca água. Porém, desde a morte de Ifigénia que havia entre ele e Agamémnon uma tremenda animosidade. Compreensível. O seu nome fora usado para que Clitemenestra deixasse partir a rapariga, mas o rei supremo não pedira o seu consentimento. Aquiles, pelos vistos, nunca nos perdoaria - e muito menos perdoaria a Agamémnon.

- Ulisses - disse Nestor-, é evidente que não tens a idade e a experiência suficientes para dirigires convenientemente esta reunião de nobres autocratas: por isso, passa-me o Bastão e deixa-me falar! - Fitou-nos com um ar assanhado.

- Esta reunião, até agora, foi uma verdadeira miséria! No meu tempo, ninguém se atreveria a dizer as coisas que aqui foram ditas! Quando eu era jovem e Héracles vivia entre nós, as coisas eram completamente diferentes!

Recostámo-nos nas cadeiras e resignámo-nos perante a perspectiva de ouvirmos mais uma das famosas homilias de Nestor. Contudo, quando mais tarde reflecti sobre o que se passou, cheguei à conclusão de que o velho começara a divagar deliberadamente; com efeito, o facto de sermos obrigados a escutá-lo produziu uma acalmia geral na sala.

- Pensem no exemplo de Héracles - prosseguiu Nestor. - Injustamente submetido a um rei que não merecia usar a sagrada cor púrpura do seu cargo, obrigado a realizar uma série de trabalhos friamente escolhidos para o conduzirem à morte ou à humilhação. Pois Héracles nem sequer protestou! A sua palavra era, para ele, sagrada. Nele, a nobreza de alma rivalizava com o poder físico! Ainda que nas suas veias corresse sangue divino, Héracles era um homem? Tu, jovem Aquiles, nunca poderás sequer nutrir a esperança de igualar Héracles! Nem tu, jovem Ájax. O rei é o rei. Héracles nunca se esqueceu disso - nem mesmo quando se viu atolado até aos joelhos em esterco de cavalo, nem mesmo quando esteve a um passo do desespero e da loucura! Era isso precisamente o que todos os outros homens admiravam e veneravam nele. Ele sabia quais eram os seus deveres para com os deuses e quais eram os seus deveres para com o rei. Em todas as circunstâncias, cumpriu escrupulosamente esses deveres. Embora me sentisse bem tratando-o como a um irmão, Héracles nunca se aproveitou da minha amizade - e eu era o herdeiro de Neleu, ao passo que ele não passava de um escravo.

Foi a consciência que tinha do seu estatuto de escravo, bem como a sua deferência e paciência, que o levaram a suscitar um amor eterno e a ganhar o estatuto de herói. Pobres de nós! Não voltará a haver no mundo um homem como Héracles!

óptimo! Nestor terminara, devolveria o Bastão a Ulisses e o conselho poderia prosseguir. Mas Nestor não tinha terminado; em vez disso, lançou-se numa nova homilia.

- Teseu! - exclamou. - Pensem também no exemplo de Teseu! Foi a loucura que acabou por vencê-lo e não a ausência de nobreza ou o esquecimento daquilo que a um rei é devido. Teseu era um rei supremo: pois o Teseu que eu conheci não passava de um homem! Ou pensem no exemplo do pai de Diomedes.

Tideu era o maior guerreiro do seu tempo - e morreu diante das muralhas que o filho arrasou uma geração mais tarde. E morreu sem uma única mancha na sua honra! Se eu tivesse sabido que género de homens se arroga o título de rei e herdeiro de rei aqui nesta praia de Tróia, nunca teria deixado as areias de Pilos, nunca teria navegado num mar tão escuro como vinho! Pátrocles, enche-me o copo! Pretendo continuar o meu discurso, mas tenho a garganta seca.

Pátrocles levantou-se lentamente. Era ele o mais descoroçoado de todos. Estava visivelmente magoado com a repreensão de que Aquiles fora alvo. O velho rei de Pilos bebeu de uma vez só quase todo o conteúdo do copo, lambeu os lábios e foi sentar-se numa cadeira vaga perto da de Agamémnon.

- Ulisses, é minha ideia prosseguir o que tu começaste. Não te ofendas com esta minha decisão, mas, pelos vistos, precisamos de um velho para pôr os jovens insolentes no seu lugar! - disse ele.

Ulisses sorriu com todos os seus dentes.

- À vontade, rei Nestor! Tu exporás o caso tão bem como eu, senão mesmo melhor.

Foi nesse instante que as minhas desconfianças ganharam alento. Há vários dias que Ulisses e Nestor mantinham conferências secretas - teriam eles congeminado tudo aquilo antecipadamente?

- Duvido - disse Nestor, com um brilho muito especial nos seus olhos azuis. - É invulgar um homem tão novo como tu possuir uma cabeça tão notável. Mas adiante. Vou esquecer personalidades e cingir-me apenas aos factos. Temos de abordar este problema desapaixonadamente, temos de compreendê-lo sem confusões nem enganos. Em primeiro lugar, o que está feito, está feito. Não desenterremos o passado. Não devemos permitir que o passado continue a alimentar ressentimentos.

Inclinou-se um pouco para a frente e prosseguiu:

- Reflictam. Nós temos um exército constituído por mais de cem mil homens, combatentes e não combatentes, acampado a cerca de três léguas das muralhas de Tróia. Entre os não combatentes, dispomos de cozinheiros, escravos, marinheiros, armeiros, cavalariços, carpinteiros, pedreiros e engenheiros. Se a expedição tivesse sido tão mal planeada como o príncipe Aquiles quer fazer crer, não disporíamos por certo de tantos e tão diversos profissionais experimentados. Muito bem. Este ponto não precisa sequer de ser discutido. Temos também de considerar o factor tempo. Calcas, o nosso sacerdote, falou de dez anos: sinto-me inclinado a acreditar na sua profecia. De facto, nós não estamos aqui para derrotar apenas uma cidade! Nós estamos aqui para derrotar muitas nações. Nações que se estendem desde Tróia até à Cilícia. Uma empresa desta magnitude não pode ser feita de um dia para o outro! Mesmo que conseguíssemos derrubar as muralhas de Tróia, a empresa não estaria terminada! Seremos nós piratas? Bandidos? Ladrões de estrada? Se somos, então assaltamos uma cidade e voltamos para casa com os despojos. Mas eu creio que nós não somos piratas. Eu creio que não devemos limitar-nos a Tróia! Temos de ir mais longe - temos de derrotar a Dardânia, a Mísia, a Lídia, a Cária, a Lícia e a Cilícia!

Aquiles estava rendido: observava Nestor com uma atenção que nunca lhe vira. Tal como Agamémnon.

- Que aconteceria - disse Nestor, com um ar pensativo - se dividíssemos o nosso exército em dois? Metade ficaria aqui diante de Tróia e a outra metade agiria, digamos, livremente. A força acampada diante de Tróia serviria para conter Tróia: teria de ser pelo menos tão ampla como qualquer exército que Príamo eventualmente enviasse para a combater. A segunda força percorria a costa da Ásia Menor, atacando, pilhando e incendiando todas as povoações entre Andramítios e a longínqua Cilícia. Essa segunda força dizimaria e devastaria, obteria escravos, saquearia cidades, assolaria os campos, apanharia o inimigo desprevenido. Deste modo, alcançaríamos dois objectivos - manteríamos as duas metades do nosso exército convenientemente abastecidas de alimentos e outros produtos necessários - talvez mesmo produtos luxuosos! - e levaríamos os aliados de Tróia a sentir um tão grande e constante medo que nunca se arriscariam a enviar a Príamo ajuda de nenhum tipo. Em nenhum ponto da costa há concentrações populacionais capazes de resistirem a um exército vasto e bem conduzido. Mas duvido muito que os reis da Ásia Menor se lembrem de abandonar as suas terras para se juntarem em Tróia. Não creio que esses reis possuam uma visão das coisas suficientemente profunda. Por isso, não creio que abandonem as suas terras.

Claro que Ulisses e Nestor tinham congeminado tudo aquilo antecipadamente! As palavras de Nestor deslizavam como mel sobre um bolo. Ulisses sorria de satisfação e aprovação e Nestor estava no seu elemento.

- A metade do exército que ficar diante de Tróia impedirá os Troianos de atacarem o nosso acampamento ou os nossos navios - prosseguiu Nestor. - Por outro lado, contribuirá de uma forma decisiva para que o moral dos soldados e cidadãos de Tróia sofra um rude golpe. Aquilo que temos de fazer é transformar uma protecção numa prisão: no espírito dos habitantes de Tróia, as protectoras muralhas passarão a ser um cárcere! Não entrarei agora em pormenores, mas sempre lhes digo que há muitas maneiras de influenciar o espírito dos Troianos, desde a cidadela à mais humilde choupana. Acreditem no que lhes digo: há muitas maneiras de conseguir isso! A astúcia é absolutamente essencial, mas, com Ulisses, nós possuímos essa arma em abundância.

Nestor suspirou e pediu mais vinho; desta feita, porém, Pátrocles serviu com extremo respeito e diligência o idoso rei de Pilos.

- Se decidirmos ir para a frente com esta guerra - continuou Nestor haverá uma multidão de recompensas prontas a colher. Tróia é muito mais rica do que nós alguma vez sonhámos. Os despojos enriquecerão todas as nossas nações - tal como nos enriquecerão a nós. Aquiles tinha razão neste ponto. Gostaria de lembrar que Agamémnon sempre advogou o esmagamento dos aliados da Ásia Menor. Se os esmagarmos, poderemos colonizar todas estas terras, poderemos trazer para aqui muitos dos nossos cidadãos e dar-lhes condições de vida muito superiores àquelas de que gozam na Grécia, onde vivem literalmente apinhados. E - prosseguiu ele, a voz baixando de tom, mas crescendo em poder -, mais importante do que tudo o resto, o Helesponto e o mar Euxino serão nossos. Poderemos colonizar também as margens do Euxino. Teremos todo o estanho e cobre de que precisamos para produzir o bronze. Teremos o ouro da Cítia. Esmeraldas. Safiras. Rubis. Prata. Lã. Trigo. Cevada. Electro. Outros metais. Outros alimentos. Outras mercadorias. Uma perspectiva verdadeiramente estimulante, não acham?

Mexemo-nos nos nossos lugares, começámos a sorrir uns para os outros, enquanto que Agamémnon parecia ganhar uma nova vida.

- As muralhas de Tróia, devemos deixá-las absolutamente em paz - prosseguiu o velho Nestor, tão firme como um jovem. - A metade do exército que ficar diante de Tróia terá uma função meramente irritante - fomentará a perturbação entre os Troianos e deverá limitar-se a escaramuças sem grande importância. O local onde agora estamos é excelente para acampamentos. Não vejo a menor necessidade de nos mudarmos para outro sítio. Ulisses, como é que se chamam os dois rios?

A resposta foi rápida.

- O rio maior, o que tem as águas amarelas, é o Escamandro. São os esgotos de Tróia que o poluem - foi por isso que proibimos os nossos homens de se banharem nessas águas ou de molharem sequer os lábios nelas. O rio mais pequeno, o das águas límpidas, é o Simoente.

- Obrigado. A nossa primeira tarefa consistirá em construir uma muralha defensiva que vá desde o Escamandro ao Simoente, distante cerca de meia légua da lagoa. Terá de ter uma altura de pelo menos quinze cúbitos. No exterior, colocaremos uma paliçada de estacas pontiagudas e cavaremos uma trincheira com uma profundidade de quinze cúbitos, com mais estacas pontiagudas no fundo. Estes trabalhos manterão ocupados os soldados que aqui ficarem durante o Inverno - e mantê-los-ão quentes, pois não há melhor remédio para o frio do que o trabalho.

De súbito, Nestor calou-se e acenou para Ulisses.

- Já estou cansado. Continua tu, Ulisses. Claro que tinham maquinado aquilo tudo! Ulisses prosseguiu como se tivesse estado a falar desde o princípio.

Não permitiremos que os exércitos permaneçam inactivos. Por isso, as duas metades do nosso exército revezar-se-ão - seis luas diante de Tróia, seis luas atacando ao longo da costa. Deste modo, não haverá nunca cansaço entre as nossas hostes. Nunca será demais acentuar - disse - que temos de criar e alimentar a impressão de que, se preciso for, tencionamos permanecer neste lado do Egeu por toda a eternidade! Quero que os povos da Ásia Menor, à medida que os anos forem passando, se sintam cada vez mais desesperados, debilitados, impotentes. A metade móvel do nosso exército sangrará até à morte Príamo e os seus aliados. O ouro deles acabará nos nossos cofres. Calculo que teremos de esperar dois anos para que a mensagem penetre nas suas consciências - mas penetrará, e para sempre! Tem de penetrar!

- Posso concluir, portanto - disse Aquiles, num tom e com uns modos muito educados -, que a metade móvel do nosso exército não viverá aqui.

- Não, essa metade terá o seu próprio quartel-general - disse Ulisses, agradado com a polidez de Aquiles. - Mais para sul, talvez na fronteira entre a Dardânia e a Mísia. Há nessa região um porto chamado Assos. Nunca lá estive, mas Télefo garante que é adequado para tais funções. Os despojos da costa serão trazidos para aqui, tal como todos os alimentos e outros artigos. Entre Assos e a nossa praia, operará constantemente uma frota de abastecimento, a qual navegará sempre junto à costa, sejam quais forem as condições meteorológicas, por uma questão de segurança. Fénix é, entre a nossa alta nobreza, o único marinheiro capaz e experiente. Sugiro, por isso, que fique encarregado dessa frota de abastecimento. Sei que ele jurou a Peleu que nunca abandonaria Aquiles, mas, cumprindo essas funções, creio que não estará a abandoná-lo.

Calou-se por um momento e deixou que os seus olhos cinzentos fitassem cada um dos pares de olhos que o observavam.

- Terminarei, lembrando a todos que Calcas disse que a guerra durará dez anos. Julgo, efectivamente, que não durará menos de dez anos. E é nisso que todos têm de pensar. Dez anos longe de casa. Dez anos durante os quais os nossos filhos crescerão longe de nós. Dez anos durante os quais as nossas esposas terão de governar. A pátria fica demasiado longe e a nossa missão aqui é demasiado exigente para que possamos dar-nos ao luxo de visitarmos a Grécia. Dez anos é muito, muito tempo. - Virou-se para Agamémnon e fez-lhe a vénia. - Rei supremo, o plano que eu e Nestor delineámos só será válido com a tua aprovação. Se o reprovares, Nestor e eu nada mais diremos. Somos, como sempre, teus servos.

Dez anos longe de casa. Dez anos de exílio. A conquista da Ásia Menor valeria um tal preço? Eu, pelo menos, não sabia se valia. Embora creia que, se não fosse Ulisses, ter-me-ia feito ao mar no dia seguinte. Porém, era óbvio que ele tomara já a decisão de ficar: por isso, nunca dei voz ao desejo que me roía o coração.

Agamémnon suspirou profundamente.

- Assim seja, então. Dez anos. Creio que a recompensa vale bem esses dez anos. Teremos muito a ganhar. Contudo, porei a decisão à votação. Os restantes reis deverão apoiar esta empresa tanto como eu.

Levantou-se e postou-se diante de nós.

- Gostaria de lembrar que a maior parte dos presentes são reis ou herdeiros de reis. Nós, os Gregos, fizemos depender o nosso conceito de realeza dos favores dos deuses do céu. Derrubámos o jugo do matriarcado quando substituímos a Velha Religião pela Nova. Porém, enquanto reinam, os homens têm de pedir o apoio dos deuses do céu, pois os homens não poderão nunca ser férteis, não poderão nunca conhecer os mistérios da concepção das crianças ou das coisas da Mãe Terra. Nós respondemos perante o nosso povo de uma maneira diferente do que fazíamos nos tempos da Velha Religião. Nós éramos as vítimas sacrificiais, as indefesas criaturas que a rainha oferecia para apaziguar a Mãe quando a colheita era escassa, ou quando se perdia a guerra, ou quando descia sobre nós uma praga terrível. A Nova Religião libertou os homens desse destino, elevou-os à condição de verdadeiros soberanos. Respondemos perante o nosso povo directamente. Portanto, eu sou favorável a esta portentosa empresa. Ela será a salvação do nosso povo, ela espalhará por todo o lado os nossos costumes e tradições. Se voltasse agora à minha pátria, sentir-me-ia humilhado diante do meu povo e teria de admitir a derrota. Como poderia eu resistir, se o povo, partilhando a minha humilhação, decidisse voltar à Velha Religião, decidisse sacrificar-me e devolver à minha esposa o soberano estatuto?

Sentou-se na sua cadeira e pôs as mãos brancas e elegantes sobre os joelhos vestidos de púrpura.

- Procedamos então à votação. Se algum homem deseja retirar e voltar para a Grécia, que erga a sua mão.

Ninguém ergueu mão nenhuma.

- Muito bem. Ficamos. Ulisses, Nestor, têm mais sugestões a apresentar?

- Não, rei Agamémnon - disse Ulisses.

- Não, rei Agamémnon - disse Nestor.

- Idomeneu?

- Estou satisfeito, Agamémnon.

- Nesse caso, seria melhor analisarmos desde já os pormenores. Pátrocles, já que foste nomeado nosso copeiro, diz aos criados que nos tragam comida.

- Como dividirás o exército, rei Agamémnon? - perguntou Meríona.

- Como sugeri, através de uma rotação de contingentes. Contudo, gostaria de acrescentar uma cláusula a tais disposições. Creio que o Segundo Exército deveria ter um núcleo duro de homens permanentes, homens que farão parte dele ao longo de toda a guerra. Alguns dos presentes são jovens extremamente prometedores. Ficariam aborrecidos de morte se tivessem de permanecer um tempo infindo diante de Tróia. Eu terei de ficar aqui todo o ano, tal como Idomeneu, Ulisses, Nestor, Diomedes, Menesteu e Palamedes. Aquiles, os dois Ájax, Teucro e Meríona, vocês são jovens. É a vocês que confio o Segundo Exército. O alto-comando irá para Aquiles. Aquiles: serás responsável tanto perante mim como perante Ulisses. Todas as decisões relativas às actividades do Segundo Exército ou à vida no interior de Assos serão tuas, ainda que possa haver nesse exército homens com um estatuto superior ao teu. Entendido? Aceitas o alto-comando?

Aquiles levantou-se de um salto, tremendo; custava-me a suportar o brilho que havia nos seus olhos, tão dourado e intenso como o de Hélio.

- Juro por todos os deuses que nunca acharás motivos para lamentares a confiança que depositas na minha chefia, rei Agamémnon.

- Sendo assim, nomeio-te comandante supremo do Segundo Exército, filho de Peleu. Escolhe os teus lugares-tenentes - disse Agamémnon.

Olhei para Ulisses e abanei a cabeça; respondeu-me erguendo uma ruiva sobrancelha e piscando o olho cinzento. Ele havia de ver quando o apanhasse sozinho! Francamente... Maquinações secretas!

 

                                            Narrado por Helena

À sombra de Tróia, Agamémnon erigiu, pedra a pedra, uma nova cidade; todos os dias, da minha varanda, mais alta do que as muralhas, espreitava os Gregos acampados nas areias do Helesponto. Ao longe, pareciam formigas, e como formigas trabalhavam, arrastando pedras e empilhando troncos de árvores descomunais a fim de construírem uma muralha que ia desde o cintilante Simoente ao imundo Escamandro. As casas proliferavam mesmo para lá da praia, casernas imponentes destinadas a acomodarem os soldados durante o Inverno, depósitos de cereais onde o trigo e a cevada eram convenientemente guardados, imunes às investidas dos ratos e do tempo.

Sofrera a minha vida um rude golpe desde que a frota grega chegara a Tróia, embora a minha vida nunca tivesse sido aquilo que eu imaginara antes de partir para Tróia. Porque será que, quando olhamos para o tear do tempo, nunca conseguimos ver claramente o futuro, mesmo quando o tear do tempo no-lo dá a ver, claro e definido? Eu tinha olhos para ver. Eu deveria tê-lo visto. Mas Páris era tudo para mim. Que viam os meus olhos? Páris, Páris, Páris.

Em Amiclas, eu fora a rainha. Era o meu sangue que legitimava Menelau no trono. O povo da Lacedemónia contava com a filha de Tíndaro para que velasse pelo seu bem-estar e para que, através dela, pudesse entrar em contacto com os deuses. Eu era importante. Quando, no meu régio carro, percorria as ruas de Amiclas, os populares baixavam a cabeça, ajoelhavam. Era venerada. Era adorada. Era a raínha Helena, o único dos gémeos da divina Leda que ao povo restava. E, sempre que o passado diante dos meus olhos desfilava, apercebia-me de quão intensa e preenchida fora a minha vida em Amiclas - as caçadas, os torneios desportivos, as festas, a corte, as diversões de toda a sorte. Nesses tempos em Amiclas, costumava dizer a mim mesma que o tempo era para mim um pesado fardo; agora, porém, eu sabia que, nesses tempos passados, não conhecera nunca o significado da palavra tédio.

No que toca ao tédio, aprendi tudo o que havia a aprender desde que cheguei a Tróia. Aqui, não sou rainha. Aqui, não passo de um elemento insignificante seja a que nível for. Sou a esposa de um filho imperial sem grande importância. Sou uma estrangeira detestada. Sou limitada por normas e regulamentos que não posso ignorar, pois não possuo nem o poder nem a autoridade para tal. E não há nada para fazer, sítio nenhum aonde ir! Não posso acenar para um qualquer criado e pedir um carro, não posso ir para os campos próximos e ver os homens disputando jogos ou preparando-se para a guerra. Sou uma prisioneira na cidadela. Quando tentei descer à cidade, toda a gente, desde Hécuba a Antenor, protestou: que eu era leviana, imoral, caprichosa o suficiente para confraternizar com o povo miúdo! Não compreenderia eu, disseram, que, se passasse por uma taberna mal frequentada e os homens vissem os meus seios expostos, acabaria por ser violada ali mesmo na rua, por todos eles? Disse-lhes que, se era esse o problema, não me custava nada cobrir os seios. Mesmo assim, a resposta de Príamo foi um não rotundo.

De súbito, os meus aposentos (Príamo fora generoso neste particular - eram belos e amplos os aposentos de Páris e Helena) e as câmaras onde se reuniam as nobres da cidadela passaram a ser os limites do meu mundo. Ao mesmo tempo, descobria que Páris, o meu maravilhoso Páris, era um homem igual aos outros. Ele consegue sempre o que pretende. O que não inclui fazer companhia à esposa. Eu não passo de um objecto para o amor - e o amor é coisa breve quando os amantes já não têm nada de novo a aprender um sobre o outro.

Depois de os Gregos terem chegado, a minha vida, que eu considerava já tão entediante, piorou ainda mais. As pessoas passaram a ver-me como a causa da catástrofe e a culpar-me do aparecimento de Agamémnon. Idiotas! De início, tentei convencer a nobreza troiana de que, se Agamémnon queria a guerra, não era por causa de mulher nenhuma, nem mesmo quando essa mulher era duas vezes sua cunhada: com efeito, acrescentei, Agamémnon falava de guerra desde a noite em que os sacerdotes haviam esquartejado o cavalo branco e em que a minha mão fora dada a Menelau. Ninguém me deu ouvidos. Ninguém quis dar-me ouvidos. Eu, diziam eles, eu era a razão pela qual os Gregos estavam ali, nas areias do Helesponto. Eu era a razão pela qual a cidade grega crescia para lá das poderosas muralhas que haviam erigido desde o cintilante Simoente ao imundo Escamandro. Tudo era culpa minha!

Príamo estava muito afectado. Pobre velho. Empoleirava-se na ponta da sua cadeira de ouro e marfim, em vez de se afundar nela, como costumava fazer, e punha-se a arrancar pêlos das longas barbas e mandava homens atrás de homens à torre de vigia ocidental, pois queria manter-se a par de todos os progressos dos Gregos. Desde o dia em que, pela primeira vez, entrara na sua Sala do Trono, o velho Príamo experimentara toda a gama de emoções, desde o júbilo (porque, graças a mim, escarnecera de Agamémnon) à mais absoluta perplexidade. Muito se riu ele, enquanto os Gregos não deram nenhuma indicação de que tencionavam permanecer; tinha a felicidade estampada no rosto quando os seus aliados lhe prometeram ajuda. Porém, quando a muralha defensiva grega começou a ser construída, a consternação tomou conta do seu rosto e um peso imenso fez vergar os seus ombros.

Gostava muito de Príamo, ainda que lhe faltasse a força e a dedicação comuns aos reis gregos. Na Grécia, um rei tinha de ser muito forte se queria manter o seu poder - ou tinha de ter um irmão cuja força chegasse para os dois. O caso de Tróia era muito diverso: os antepassados de Príamo reinavam em Tróia desde tempos imemoriais. O povo troiano tinha por ele um amor que os povos gregos nunca poderiam ter pelos seus reis; apesar disso, Príamo era menos firme no cumprimento dos seus deveres, pois estava seguro de que nunca perderia o seu trono.

A palavra dos deuses não era tão preciosa para ele como para os reis gregos.

O velho Antenor, o cunhado do rei, não perdia uma única oportunidade para me censurar; odiava-o mais do que ao próprio Príamo! Sempre que os olhos remelosos de Antenor se fixavam em mim, tudo o que encontrava neles era o fogo da inimizade. Depois, a boca dele abria-se e as censuras começavam, um longo rosário de censuras. Porque é que eu me recusava a cobrir os seios? Porque é que batera na minha criada? Porque é que eu não tinha jeito para as tarefas que às mulheres competiam, como tecer e bordar? Porque é que eu não me calava, bem pelo contrário, as minhas opiniões, quando era norma entre as mulheres não terem opinião nenhuma? Havia sempre em mim algo que merecia censura e Antenor lá estava para me censurar.

Quando os Gregos concluíram a muralha que rodeava a praia do Helesponto, Príamo perdeu finalmente a paciência com que sempre suportara os ataques de Antenor.

- Cala-te, velho pateta! - gritou-lhe. - Agamémnon não veio a Tróia por causa de Helena. Crês que ele e os reis seus vassalos gastaram tanto e tão precioso dinheiro unicamente para levarem uma mulher que deixou a Grécia de sua livre vontade? O que Agamémnon quer é Tróia e a Ásia Menor e não Helena! Ele quer colónias gregas nas nossas terras - ele quer encher os seus cofres com as nossas riquezas -, ele quer que os seus navios entrem livremente no Helesponto e livremente naveguem no Euxino! A esposa de meu filho é apenas um pretexto, não mais do que um pretexto! Se devolvêssemos Helena aos Gregos, estaríamos muito simplesmente a participar no jogo que Agamémnon montou! Por isso, proíbo-te de voltares a falar de Helena! Entendeste bem o que eu disse, Antenor?

Antenor baixou os olhos e, com uma vénia exagerada, acatou as palavras do rei.

Os estados da Ásia Menor começaram a enviar os seus embaixadores a Tróia; a assembleia seguinte a que assisti estava cheia de representantes dessas nações. Não consegui decorar todos aqueles estranhos nomes, nomes como Paflagónia, Cilícia, Frígia. Príamo atribuía mais importância a uns embaixadores do que a outros, mas a todos reservou um digno tratamento. No entanto, as suas mais fervorosas saudações foram, sem dúvida, para o embaixador da Lícia. Chamava-se Glauco e dividia com um primo o governo da Lícia. Chamava-se Sarpédon esse primo. Páris, a quem o pai ordenara que assistisse à reunião, segredou-me que Glauco e Sarpédon eram tão inseparáveis como gémeos, para além de amantes. Um disparate, entre reis. Como não tinham esposas, nunca teriam herdeiros.

- Asseguro-te, rei Glauco, que, quando tivermos expulso os Gregos da nossa costa, a Lícia receberá uma vasta parte dos despojos - disse Príamo, com lágrimas nos olhos.

Glauco, um homem relativamente jovem (e muito belo), sorriu. -A Lícia não está aqui por causa dos despojos, tio Príamo. O rei Sarpédon e eu queremos apenas uma coisa - esmagar os Gregos e mandá-los de volta para o outro lado do Egeu. O nosso comércio é vital para a Lícia, pois ocupamos a ponta sul desta costa. Todo o comércio desta região passa pela Lícia: tanto o que se dirige para os nossos vizinhos do Norte, como o que se dirige para Sul, para Rodes, para Chipre, para a Síria, para o Egipto. A Lícia é a porta giratória de todo o comércio da região. Cremos que devemos juntar as nossas forças, não por cobiça, mas sim por necessidade pura e simples. Asseguro-te que, na Primavera, contarás já com as nossas tropas e com ajudas de outro tipo. Vinte mil homens, todos eles convenientemente equipados e abastecidos.

As lágrimas deslizavam pelas faces de Príamo, pois um coração que é velho comove-se pela mais pequena coisa.

- Os meus muito sentidos agradecimentos, meu querido sobrinho - disse-lhe o rei de Tróia.

Avançaram depois os outros, alguns tão generosos como os da Lícia, outros regateando dinheiro ou privilégios. Príamo prometia a todos o que eles queriam que ele prometesse - não admira que o número de soldados não parasse de crescer e que a ajuda prevista ganhasse uma dimensão gigantesca. No final da assembleia, comecei a duvidar que Agamémnon conseguisse resistír a tão portentosa força. Príamo disporia de duzentos mil homens na planície logo que, na Primavera do ano seguinte, o açafrão espreitasse sob a neve que entretanto derretera. O meu ex-cunhado seria derrotado - a menos que pudesse contar com reforços ou que tivesse algum truque escondido na manga púrpura. Se assim era, porque estava eu tão inquieta? Porque conhecia o meu povo. Ai daquele que, perante os Gregos, abrandasse a sua vigilância: em pouco tempo, teria a sua sepultura cavada. Eu conhecia bem os conselheiros de Agamémnon e vivia em Tróia há tempo suficiente para saber que o rei Príamo não possuía conselheiros com o valor de Nestor, Palamedes ou Ulisses.

Ah, que entediantes que eram aquelas assembleias! Assistia a elas unicamente porque o resto da minha vida era ainda mais entediante. Tirando o rei, a ninguém era permitido sentar-se e muito menos uma mulher. Doíam-me os pés. Por isso, enquanto o embaixador da Paflagónia, envergando algo que parecia ser um conjunto de suaves peles bordadas, arengava num dialecto que eu não entendia, deixei que os meus olhos passeassem ociosamente pela multidão. Até que se detiveram num homem que estava ao fundo e que, pelos vistos, acabara de chegar. Ah, que belo homem! Belíssimo!

Avançou facilmente por entre a multidão. Era mais alto do que todos os presentes, excepto Heitor, que se encontrava, como de costume, ao lado do pai. O recém-chegado tinha toda a altivez de um rei - além do que devia imaginar-se um dos grandes deste mundo. Fez-me lembrar Diomedes; tinha o mesmo jeito gracioso de andar e o mesmo ar duro de guerreiro. Cabelos escuros, olhos escuros, vestia ricamente; o manto que lhe caía descuidadamente sobre os ombros possuía o forro mais belo que alguma vez vira, uma pele de aspecto muito suave e macio, com manchas fulvas. Aos pés do estrado do trono, curvou-se muito ligeiramente, como um rei faz perante outro rei cuja primazia tem dificuldade em reconhecer.

- Eneias! - exclamou Príamo, num tom muito peculiar. - Há tanto tempo que esperava por ti...

- Sabes a razão da minha demora, rei Príamo - disse o homem chamado Eneias.

- Já viste por acaso os Gregos?

- Ainda não, rei Príamo. Entrei pela Porta Dardaniana. A ênfase com que pronunciara o nome da porta era significativa. Lembrei-me entretanto que já tinha ouvido aquele nome: Eneias era o herdeiro da Dardânia. O pai, o rei Anquises, governava a metade sul daquelas terras; vivia numa cidade chamada Lirnesso. Príamo falava sempre com desprezo da Dardânia, de Anquises ou Eneias; imaginara eu que, em Tróia, consideravam Anquises e Eneias homens inferiores em estatuto e riqueza, mas Páris dissera-me que o rei Anquises era primo direito de Príamo e que Dárdano fundara tanto a casa real de Tróia como a casa real de Lirnesso.

- Sugiro então que vás até à varanda e que olhes na direcção do Helesponto - disse Príamo, transbordando de sarcasmo.

- Como queiras. Eneias não demorou muito.

Parece que tencionam ficar. É isso?

- Uma conclusão perspicaz. Eneias ignorou a ironia.

- Por que razão me chamaste? - perguntou.

- Não será óbvia essa razão? Agamémnon, depois de ter abocanhado Tróia, engolirá a Dardânia e Lirnesso. Quero que as tuas tropas me ajudem a esmagar os Gregos na próxima Primavera.

- A Grécia não tem qualquer conflito com a Dardânia.

- A Grécia, actualmente, não precisa de pretextos para lançar guerras. A Grécia quer terras, bronze e ouro.

- Pois bem, rei Príamo, a julgar pela formidável assembleia hoje aqui reunida, creio poder concluir que não precisarás dos homens da Dardânia para te ajudarem a esmagar os Gregos. Quando realmente precisares de nós, acredita que trarei um exército. Mas não na Primavera.

- Mas eu preciso dos vossos soldados na Primavera do próximo ano!

- Duvido que precises. Príamo bateu no chão com o seu ceptro de marfim; a esmeralda do punho emitia centelhas de azul.

Eu quero os teus soldados! Não posso comprometer-me com nada sem a permissão explícita do meu pai - uma permissão que, por ora, não tenho.

Príamo, sem saber o que mais dizer, virou-lhe a cara. Mal ficámos sozinhos, cheia de curiosidade, interroguei Páris acerca daquela estranha discussão.

- Que se passa entre o teu pai e o príncipe Eneias? Páris afagou-me preguiçosamente o cabelo.

- Rivalidade.

- Rivalidade? Mas um governa a Dardânia e o outro Tróia!

- Sim, mas há um oráculo que diz que Eneias reinará um dia em Tróia. O meu pai teme que a palavra do deus se cumpra. Eneias conhece também esse oráculo. Espera por isso que seja tratado como o herdeiro. Porém, se pensarmos que o meu pai tem cinquenta filhos, a atitude de Eneias é perfeitamente ridícula. Quanto a mim, quer-me parecer que o oráculo se refere a um outro Eneias - um Eneias que ainda não nasceu.

- Parece-me um homem - disse eu, pensativa - muito atraente. Páris fitou-me. Havia nos seus olhos um estranho brilho.

- Espero que nunca te esqueças de quem és esposa, Helena. Afasta-te de Eneias.

Definhava o amor que nos unira. Como era possível que isso tivesse acontecido, quando eu me apaixonara por ele logo que o vira? Contudo, o fogo era agora cinzas. Talvez porque descobrira, ao fim de pouco tempo, que, apesar da paixão que nutria por mim, Páris não conseguia resistir ao desejo de conhecer outras mulheres. Nem ao desejo de, chegado o Verão, se ir divertir para as florestas do monte Ida, No Verão, entre a minha chegada a Tróia e o desembarque dos Gregos, Páris desaparecera durante seis luas. Quando por fim regressou, nem sequer me pediu desculpa! Não se dava conta tão-pouco do que eu sofrera durante a sua ausência.

Algumas das mulheres da corte não se poupavam a esforços para transformar a minha existência num tormento constante. A rainha Hécuba abominava-me; considerava-me a ruína do seu querido Páris. A mulher de Heitor, Andrómaca, abominava-me porque eu usurpara o seu título, o título da mais bela mulher de Tróia - e também porque temia que Heitor sucumbisse aos meus encantos. Como se isso alguma vez me tivesse passado pela cabeça! Heitor não passava de um moralista e de um pedante, tão formal e rígido que, ao fim de pouco tempo, já o considerava o homem mais enfadonho de uma corte cheia de homens enfadonhos!

No entanto, era Cassandra, a jovem princesa, quem mais me aterrava. Deambulava por salas e corredores com a cabeleira negra flutuando livre e imensa, os olhos prenhes de loucura, o rosto muito branco devastado pelo que lhe ia na alma.

Sempre que me via, rompia numa estridente diatribe - dizia-me coisas que me ofendiam mas que não faziam sentido, pois as palavras e as ideias surgiam tão emaranhadas que ninguém conseguia desvendar-lhes a lógica. Eu era um demónio, dizia ela. Eu era um cavalo. Eu era aquela que trazia a desordem. Eu estava conluiada com a Dardânia. Eu estava conluiada com Agamémnon. Eu era a ruína de Tróia. E por aí adiante. Cassandra perturbava-me: uma perturbação de que Hécuba e Andrómaca depressa se aperceberam. Daí que tivessem encorajado Cassandra a procurar-me; esperavam, evidentemente, que eu nunca mais saísse do meu quarto. Mas Helena era mais forte do que elas pensavam. Em vez de me retirar para o meu quarto, juntava-me a Hécuba, Andrómaca e às outras nobres que se reuniam na câmara de recreio e deixava-as profundamente irritadas, pois punha-me a afagar os seios

(verdadeiramente magníficos) diante dos seus escandalizados olhos (nenhuma delas se teria atrevido a mostrar os seus seios flácidos e mirrados). Quando me fartava dessa brincadeira, arranjava outras: esbofeteava uma criada, derramava leite para cima daqueles horrorosos tecidos e tapeçarias de que elas tanto gostavam, rompia em monólogos sobre violações, fogo e saque. Numa memorável manhã, deixei Andrómaca tão furiosa que a mulher de Heitor acabou por me declarar guerra - para logo descobrir que, em rapariga, Helena praticara luta e tinha a maior facilidade em bater uma dama mimada. Deitei-a por terra e dei-lhe um tal murro no olho que, durante quase uma lua, a pobre Andrómaca andou de olho inchado, fechado e negro. Depois, tratei de espalhar que fora Heitor o autor de tão triste obra.

Perseguiam Páris, advertindo-o de que devia disciplinar-me; a mãe, em particular, não o largava. Porém, sempre que ele se propunha ralhar-me ou pedir-me que fosse mais simpática, eu desatava a rir-me dele e oferecia-lhe uma litania de todos os insultos de que fora alvo por parte das outras mulheres da corte. O que, tudo junto, significava que Páris era, para mim, uma presença cada vez mais fugaz.

O Inverno chegou e a corte de Tróia sentiu-se pela primeira vez inquieta. Dizia-se que os Gregos tinham deixado a praia e percorriam agora a costa da Ásia Menor, atacando uma série de cidades muito afastadas entre si. Príamo enviou à praia um destacamento fortemente armado, a fim de investigar o que realmente se passava. Afinal, os Gregos continuavam lá - e até abandonaram o acampamento para travar breves escaramuças com o destacamento troiano. Mesmo assim, com o avançar do Inverno, continuaram a chegar a Tróia notícias de ataques a outras cidades; um a um, os aliados de Príamo trataram de anunciar que já não podiam honrar as suas promessas. Agora, eram as suas próprias terras que se encontravam ameaçadas. Tarso, na Cilícia, foi incendiada e a sua população morta ou submetida à escravatura; os campos e os pastos situados cinquenta léguas à volta da cidade foram queimados, depois de os cereais terem sido levados por navios gregos; o gado foi massacrado e as carnes fumadas em defumadouros cilicianos para depois encherem as barrigas dos Gregos; os templos foram despojados dos seus tesouros, o palácio do rei Eecião foi saqueado. Mísia foi a vítima seguinte. Lesbos resolveu auxiliar a Mísia, mas depressa se arrependeu, pois os Gregos atacaram-na. Termos foi arrasada; os Lesbianos lamberam as suas feridas e concluíram que talvez fosse mais oportuno juntarem-se a Agamémnon, tanto mais que uma parte dos seus antepassados eram Gregos. Pouco tempo depois, na Cária, as cidades de Priena e Mileto sucumbiram às tropas gregas. Foi então que se instalou na corte troiana um verdadeiro pânico. Até mesmo Sarpédon e Glauco, os reis que em conjunto governavam a Lícia, se viram obrigados a ficar nos seus domínios.

As notícias de cada novo ataque eram-nos comunicadas de um modo absolutamente inusitado. A mensagem era trazida por um arauto grego que se postava diante da Porta Ceia e gritava as suas notícias para o comandante da torre de vigia ocidental. Dizia-nos qual fora a cidade saqueada, quantos cidadãos haviam sido mortos, o número de mulheres e crianças vendidas como escravas, o valor dos despojos, o total de canecas de cereais. E concluía a sua mensagem sempre com as mesmas palavras: - Diz a Príamo, rei de Tróia, que foi Aquiles, o filho de Peleu, que me mandou! Os Troianos começavam a ficar apavorados com aquele nome. Na Primavera, Príamo teve de suportar em silêncio a presença do acampamento grego, já que as forças aliadas não apareceram para o ajudar e também porque ele não tinha dinheiro para comprar mercenários aos Hititas, aos Assírios ou aos Babilónios. O dinheiro troiano tinha de ser cuidadosamente conservado; agora, com efeito, eram os Gregos quem cobrava os tributos do Helesponto.

Uma iniludível desolação começou a penetrar tanto os corações como os palácios troianos. E, como eu era a única criatura grega a viver na cidadela, toda a gente, desde Príamo a Hécuba, me perguntava quem era aquele homem chamado Aquiles. Contei-lhes o que sabia, mas quando lhes expliquei que o filho de Peleu pouco mais era do que um rapaz - embora possuindo uma excelente linhagem toda a gente duvidou de mim.

O tempo foi passando e o medo de Aquiles aumentando; a simples menção do seu nome chegava para que Príamo ficasse lívido. Apenas Heitor mostrava não estar com medo. Aparentemente, daria tudo para poder combater contra Aquiles. Os seus olhos iluminavam-se e a sua mão afagava o punhal sempre que o arauto grego se postava diante da Porta Ceia com notícias frescas. De facto, na mente de Heitor, um eventual combate contra Aquiles transformou-se numa verdadeira obsessão. Chegou ao ponto de fazer oferendas em todos os altares da cidade, rogando aos deuses que lhe dessem a oportunidade por que o seu coração ansiava. Tudo o que queria era travar um duelo com Aquiles e matá-lo. Também ele me interrogou acerca de Aquiles: recusou-se a acreditar nas minhas respostas.

Chegado o Outono do segundo ano, Heitor perdeu a paciência e pediu ao pai que o deixasse sair das muralhas com todo o exército troiano.

Príamo ficou paralisado a olhar para ele. Deve ter pensado nesse momento que o seu herdeiro tinha enlouquecido.

- Não, Heitor - respondeu-lhe.

- Pai, as nossas investigações revelaram que os homens que se encontram no acampamento são menos de metade do total dos soldados gregos! Seria fácil derrotá-los! Derrotado o exército que está acampado na praia, o exército de Aquiles teria de voltar para Tróia! Então... então derrotá-lo-íamos!

- Ou seríamos derrotados.

- Pai, nós somos mais do que eles! - exclamou Heitor.

- Não acredito nisso. Desesperado, Heitor continuou a apresentar motivos susceptíveis de convencerem o aterrorizado pai de que era ele quem tinha razão.

- Nesse caso, deixa-me ir ter com Eneias a Lirnesso - com o apoio dos Dardanianos, ficaríamos com mais soldados do que Agamémnon!

- Eneias não quer envolver-se nos nossos dilemas.

- Eneias dar-me-ia ouvidos, pai. Príamo ergueu-se, ofendido.

-Autorizar o meu filho - autorizar o meu herdeiro - a suplicar ajuda aos Dardanianos? Mas tu enlouqueceste, Heitor? Preferia morrer a curvar-me perante Eneias!

Nesse preciso instante, por mero acaso, vi Eneias. Acabava de entrar na Sala do Trono, mas ouvira já o suficiente. A sua boca cerrada exprimia um claro desagrado; os seus olhos ora atentavam em Príamo, ora examinavam Heitor, mas seria impossivel saber que pensamentos lhe percorriam a mente. Antes que alguém importante reparasse nele - eu não era importante - deu meia volta e abandonou a sala.

- Pai - disse Heitor, cada vez mais desesperado -, nós não vamos ficar eternamente no interior destas muralhas! Os Gregos estão decididos a reduzir a cinzas os nossos aliados! A nossa riqueza começa a minguar porque os nossos rendimentos se eclipsaram e porque o abastecimento da cidade está a tornar-se cada vez mais oneroso! Se não me deixas sair da cidade à frente do exército troiano, então deixa-me ao menos chefiar destacamentos que possam apanhar os Gregos desprevenidos, que possam assolar os destacamentos deles e obrigá-los a acabar com estas insolentes expedições às nossas muralhas, com as quais pretendem apenas uma coisa - insultar-nos!

Príamo sentiu-se vacilar. Pousou o queixo na mão e reflectiu por um longo período. Após o qual suspirou e disse: - Muito bem. Começa a preparar os homens. Se conseguires convencer-me de que não se trata de uma empresa temerária, poderás fazer aquilo que pretendes.

O rosto de Heitor todo se iluminou.

- Não te desapontarei, meu pai!

- Espero bem que não - retorquiu Príamo, manifestamente cansado. Alguém na Sala do Trono desatou a rir-se. Olhei à minha volta, surpreendida; pensava que Páris se havia ausentado uma vez mais. Mas não, ali estava ele, rindo-se a bom rir. Sombras turvaram de súbito a expressão feliz de Heitor; desceu do estrado e avançou por entre a multidão.

- Qual a razão das tuas gargalhadas, Páris?

O meu marido aquietou-se um pouco, pôs um braço por cima dos ombros do irmão.

- Tu, Heitor, tu! Tanta coisa por causa de umas simples escaramuças, quando tens uma mulher tão atraente em casa! Como é possível que prefiras a guerra às mulheres?

- Porque - atirou-lhe Heitor - eu sou um homem e não um rapazinho bonito! Fiquei como que paralisada. O meu marido não era apenas um idiota - era também um cobarde! Ah, que terrível humilhação! Dando-me conta do desprezo com que toda a gente me olhava, abandonei a sala.

Idiotas e belos, assim éramos nós. Eu desistira do meu trono, da minha liberdade e dos meus filhos para viver numa prisão com um homem que era belo, idiota e também cobarde. Porque sentia eu tão poucas saudades dos meus filhos? A resposta era fácil. Os meus filhos pertenciam a Menelau; e agora, algures numa qualquer região da minha mente, via-me obrigada a juntar Menelau, os meus filhos e Páris num mesmo e odioso lote. Haveria destino mais terrível para uma mulher do que saber que em toda a sua vida, não havia um único ser que fosse digno dela?

Precisava de ar fresco. Fui para o pátio que dava acesso aos meus aposentos e aí desatei a andar de um lado para o outro até conseguir aplacar a dor tremenda que sentia. A certa altura, ao virar-me, quase colidia com um homem que vinha em sentido contrário. Instintivamente, erguemos as nossas mãos para nos protegermos; por um momento, manteve-se a uma escassa distância de mim, contemplando curioso o meu rosto enquanto, nos seus olhos escuros, se esbatiam os últimos vestígios da sua própria ira.

- Deves ser Helena - disse ele.

- E tu és Eneias.

- Sou.

- Não vens muitas vezes a Tróia - disse eu, entregando-me ao prazer de o apreciar.

- Serás capaz de me apontar uma razão para que eu venha?

Não valia a pena dissimular. Sorri.

- Não - disse.

- Gosto do teu sorriso, mas vê-se que estás furiosa - disse ele. - Porquê?

- Isso é um assunto só meu.

- Discutiste com Páris?

- De modo nenhum- retorqui, abanando a cabeça. - Discutir com Páris é tão difícil como agarrar em mercúrio.

- Sem dúvida - disse ele. Nesse instante, inopinadamente, acariciou-me o seio esquerdo.

- Uma moda muito agradável, deixá-los assim... a descoberto... Mas há um problema, Helena: excitam muito um homem...

As minhas pálpebras fecharam-se, a minha boca abriu-se expectante de desejo.

- É agradável saber que os meus seios te excitam... - disse eu, num murmúrio quase inaudível. Esperando os seus lábios, o meu rosto procurou o seu rosto, os olhos ainda cerrados. Porém, quando os abri - porque não sentia já diante de mim rosto nenhum, tão-pouco os lábios, tão-pouco o beijo - Eneias já lá não estava.

Agora que o tédio era uma coisa do passado, compareci na assembleia seguinte decidida a seduzir Eneias. Mas Eneias não se dignou aparecer. Quando perguntei a Heitor, o mais descontraidamente possível, o que acontecera ao seu primo da Dardânia, o meu cunhado respondeu-me que Eneias aparelhara os cavalos a meio da noite e regressara a casa.

 

                                     Narrado por Pátrocles

Os estados da Ásia Menor tratavam agora de sarar as suas feridas, depois de os sobreviventes se terem refugiado nas vastas montanhas que pertenciam aos Hititas. Temiam avançar para Tróia e temiam agrupar-se fosse onde fosse, porque não faziam a mínima ideia quanto ao local onde os Gregos atacariam a seguir. Na realidade, nós já os tínhamos derrotado antes de nos termos feito ao mar para a nossa primeira campanha; todas as vantagens estavam do nosso lado; percorríamos a costa demasiado longe para que pudessem espiar-nos de terra; a nossa mobilidade era muito maior do que a deles, pois as vias de comunicação entre os vários focos populacionais daquela região de vales profundos e serras escarpadas não eram de molde a facilitar os movimentos. As nações da Ásia Menor, de facto, comunicavam através do mar, e, agora, éramos nós quem dominava o mar.

Ao longo do primeiro ano, interceptámos muitos navios que traziam armas e comida para Tróia, mas tais comboios cessaram logo que os reis da Ásia Menor se aperceberam de que éramos nós, e não os Troianos, quem ficava a ganhar. Éramos demasiados para eles; nenhuma das cidades que se espalhavam por aquela longa costa poderia nutrir a esperança de que, um dia, conseguiria reunir um exército forte o suficiente para nos derrotar. Por outro lado, as muralhas das suas cidades eram demasiado fracas para as nossas investidas. E foi assim que saqueámos dez cidades em dois anos, algumas tão distantes como Tarso, na Cilícia, outras tão próximas de Tróia como Mísia e Lesbos.

Sempre que navegávamos, Fénix deixava os navios de abastecimento entre Assos e Tróia sob o comando do seu lugar-tenente, e seguia connosco, chefiando os duzentos navios vazios onde seriam guardados os despojos. Sempre que deixávamos para trás mais uma cidade incendiada, esses mesmos navios ficavam tão carregados de despojos que havia quem temesse o seu afundamento; até mesmo os navios que transportavam os soldados rangiam sob o peso dos despojos que não tinham cabido nos duzentos navios de Fénix. Aquiles era implacável. Poucos eram os sobreviventes - seria praticamente impossível voltar a organizar a resistência antigrega. Aqueles que não podíamos reduzir à escravatura ou vender ao Egipto e à Babilónia eram mortos - mulheres idosas, homens mirrados pela idade, todos aqueles que os negociantes de escravos achavam que já não teriam qualquer préstimo. Ao longo daquela costa, o nome de Aquiles era um nome odiado e, no meu íntimo, eu não poderia condenar aquela gente por odiar Aquiles.

No início do nosso terceiro ano, Assos regressou lentamente à vida; a neve começava a derreter, as árvores prometiam flores. Não havia entre nós disputas nem divergências, pois há muito que havíamos esquecido todas as lealdades, excepto aquela que devíamos a Aquiles e ao Segundo Exército.

Sessenta e cinco mil homens estavam aquartelados em Assos: um núcleo duro de vinte mil veteranos que fazia sempre parte do nosso exército, mais trinta mil que ficavam connosco o tempo que durasse a campanha, mais quinze mil profissionais e artífices de todo o tipo, alguns dos quais permaneciam em Assos todo o ano. Um dos chefes permanentes ficava sempre em Assos, para o caso de a Dardânia resolver atacar a cidade, enquanto a frota se fazia ao mar; até mesmo Ájax chegou a ficar em Assos, embora Aquiles navegasse sempre; tal como eu, pois nunca me separava de Aquiles. O meu amigo era um chefe feroz - eram impiedosos os seus ataques e um inimigo que se rendesse pouco ou nada ganhava com isso. Mal vestia a sua armadura, Aquiles tornava-se tão frio como o vento norte, implacável. A razão da nossa existência - dizia-nos ele - era assegurar a supremacia grega e não deixar naquelas terras qualquer oposição, tendo em vista o dia em que as nações gregas começassem a enviar os seus excedentes populacionais para as novas colónias da Ásia Menor.

Após uma campanha na Lícia, já no fim do Inverno (Aquiles parecia ter um pacto com os deuses do mar, pois nunca tínhamos problemas de navegação, fosse no Verão, fosse no Inverno), abeirávamo-nos finalmente do porto de Assos. Ájax estava na praia para nos saudar, informando-nos, com eufóricos sinais, do seu tremendo desejo de voltar para a guerra, e de que, durante a nossa ausência, não se registara qualquer ameaça à cidade. A Primavera inundara já as terras de Assos: a erva chegava já aos tornozelos, flores temporãs salpicavam os prados, os cavalos do acampamento saltavam e brincavam nos seus pastos, o ar era suave e tão estonteante como o vinho a que não misturamos água. Enchendo os nossos peitos das fragrâncias daquele que era então o nosso lar, corremos às amuradas dos navios, desejosos de saltar para os seixos que rolavam ao sabor das marés.

Separámo-nos depois, com a intenção de nos encontrarmos mais tarde. Ájax acompanhou o Pequeno Ájax e Teucro, os seus braços portentosos cingindo os ombros de ambos, ao passo que Meríona seguia à frente de toda a gente, inchado de superioridade cretense. Quanto a mim, acompanhei Aquiles, deliciado por estar de novo em Assos. As mulheres tinham trabalhado duramente durante a nossa ausência; nos quintais e jardins, rebentos de um verde-pálido prometiam ervas e legumes para as panelas, ou grinaldas de flores para as nossas cabeças. Uma bela região, a de Assos, completamente diferente daquela onde Agamémnon montara o seu desolado acampamento. As nossas habitações espalhavam-se a esmo por entre o abundante arvoredo e as ruas serpeavam tal e qual as ruas de qualquer cidade. Claro que, apesar disso, a segurança era total. Rodeavam-nos uma muralha com vinte cúbitos de altura, uma paliçada e uma trincheira; e nem mesmo durante as mais frias luas de Inverno faltava um único guarda nas nossas fortificações. Não que o inimigo mais próximo, a Dardânia, parecesse interessado em atacar-nos; constava que o seu rei, Anquises, continuava de candeias às avessas com Príamo.

Havia mulheres por todo o lado no acampamento, algumas já com gravidezes adiantadas; aliás, durante o Inverno, haviam nascido imensos bebés. Agradou-me vê-los, mais às suas mães, pois tinham o condão de mitigar a angústia que a guerra sempre traz, o vazio que em nós sempre provoca o acto de matar. Nenhum daqueles bebés era meu, tão-pouco de Aquiles. Considero as mulheres criaturas interessantes, ainda que não sinta por elas nenhuma atracção física. Todas aquelas mulheres eram cativas das nossas espadas; contudo, depois do choque e da desorientação iniciais, pareciam ter conseguido esquecer o passado e os homens que haviam amado; como que se tinham convencido de que poderiam amar um outro homem, ter novas famílias e adoptar os costumes gregos. Bom, elas não eram guerreiros - eram a presa dos guerreiros. Quer-me parecer que as realidades femininas lhes são ensinadas na infância pelas suas mães. As mulheres são construtoras de ninhos; por isso, para elas, o ninho é algo de extrema importância. Claro que houve algumas que nunca conseguiram esquecer o passado, que choravam, que lamentavam a sua sorte; não ficaram muito tempo em Assos; vendidas como escravas, foram trabalhar para as terras lamacentas onde o Eufrates quase se junta ao Tigre; imagino que aí terão morrido, chorando ainda a sua triste sorte.

O salão era a maior divisão da nossa casa, servindo tanto de sala de estar como de sala de reuniões. Aquiles e eu entrámos ao mesmo tempo, os nossos ombros juntos roçando a estrutura da porta. Sentia sempre um prazer tremendo quando entrávamos os doisjuntos por aquela porta, como se, de algum modo, esse simples acto fosse um claro símbolo daquilo em que nos havíamos transformado: senhores do mundo.

Despi a minha armadura sozinho, ao passo que Aquiles deixou que as mulheres lhe tirassem a sua, erguendo-se como uma torre, enquanto meia dúzia de escravas se atarefavam a desapertar correias e a desatar nós, desatando num cacarejar nervoso logo que viram o longo vergão negro de uma ferida meio sarada nas suas coxas. Nunca consegui aceitar que as escravas me desarmassem; eu bem vira os seus rostos quando as havíamos escolhido como parte do nosso quinhão dos despojos. Mas Aquiles não se preocupava nada com isso. Deixou que elas lhe tirassem a espada e o punhal, aparentemente sem se dar conta de que uma delas poderia aproveitar uma tal oportunidade para o matar. Desconfiado, sondei os seus movimentos, mas tive de concluir que era diminuto o perigo de uma tal ocorrencia. Desde a mais nova à mais velha, todas estavam apaixonadas por ele. As nossas banheiras estavam já cheias de água quente. Saiotes e blusas lavados de fresco esperavam-nos mal acabássemos de tomar banho.

Depois de comermos e bebermos, Aquiles mandou embora as mulheres e, com um suspiro, recostou-se no divã. Estávamos ambos cansados, mas não valeria a pena tentarmos dormir; a luz do dia escoava-se já pelas janelas e era muito provável que, em breve, os nossos amigos invadissem a nossa habitação.

Aquiles tinha estado muito calado o dia todo - nada de invulgar, excepto que o silêncio daquele dia sugeria que a sua mente pairava muito longe dali. Não gostava de o ver assim. Era como se ele se afastasse para um qualquer lugar onde eu não tinha entrada, para um mundo que era só seu, deixando-me a gritar às suas portas sem que ninguém me ouvisse. Abeirei-me dele e toquei-lhe no braço, ainda que com mais força do que desejava.

- Aquiles, mal tocaste no vinho.

- Não me apetece.

- Sentes-te mal? A minha pergunta surpreendeu-o.

- Não. É sinal de doença eu recusar o vinho?

- Não. Será antes sinal de que a tua disposição não é a melhor.

Suspirou profundamente, olhou lentamente à sua volta. -Adoro esta sala mais do que qualquer outra. Porque esta sala pertence-me. Porque não há nela uma única coisa que não tenha sido ganha com a minha espada. Esta sala diz-me que eu sou Aquiles, não o filho de Peleu.

- Sim, é uma bela sala - disse eu. Aquiles franziu o sobrolho. -A beleza é uma indulgência dos sentidos, é algo que eu ponho ao mesmo nível que a enfermidade. Não, eu adoro esta sala porque ela é o meu troféu.

- Um esplêndido troféu - disse eu, meio atrapalhado. Ele ignorou as minhas banais palavras e de novo se refugiou no seu mundo privado; tentei uma vez mais trazê-lo de volta ao nosso mundo.

- Apesar de vivermos juntos há já tanto tempo, continuas a dizer coisas que não entendo. Estou convicto de que gostas de certas manifestações do belo. Viver considerando que o belo é uma enfermidade não é viver, Aquiles.

- Pouco me interessa como é que vivo ou quanto tempo vou viver - retorquiu. - A única coisa que me interessa é que a minha vida assegure a minha fama eterna. É preciso que os homens não me esqueçam depois de o meu corpo ter descido à sepultura. - A sua disposição alterou-se de repente. - Crês que, no meu desejo de alcançar a fama, tenho seguido pelo caminho errado?

- Isso é algo que só depende de ti e dos deuses - respondi. - Não pecaste contra os deuses - não mataste nenhuma mulher fértil nem crianças demasiado pequenas para poderem empunhar armas. Não é pecado condená-las à servidão. Não mataste à fome nenhuma cidade. Se a tua mão tem sido pesada, também é verdade que não tem sido uma mão criminosa. Só que eu sou uma criatura mais branda do que tu - é só essa a diferença.

Um sorriso esboçou-se nos seus lábios.

- Subestimas-te, Pátrocles. Com uma espada na mão, és tão duro e valente como qualquer um de nós.

-A batalha é algo de diferente. Sou capaz de matar sem piedade num campo de batalha. Por vezes, porém, os meus sonhos são sombrios e tormentosos.

- Tal como os meus. Ifigénia amaldiçoou-me antes de morrer.

Incapaz de prosseguir a conversa, Aquiles refugiou-se de novo nos seus pensamentos; calei-me também e contemplei-o, pois contemplá-lo era precisamente aquilo que eu mais gostava de fazer. Muitas das suas qualidades escapavam à minha compreensão; contudo, se havia no mundo algum homem que conhecesse Aquiles, esse homem era eu. Aquiles possuía a invulgar capacidade de atrair o amor de toda a gente: tanto o dos Mirmidões como o das suas cativas - ou o meu amor. Porém, a razão dessa atracção não estava nos seus atributos físicos, mas sim numa faceta muito peculiar do seu espírito, num qualquer território espiritual que parecia faltar a todos os outros homens.

Desde que havíamos largado de Áulida, havia três anos, que Aquiles se tornara um indivíduo extremamente reservado; perguntava-me, por vezes, se a sua esposa o reconheceria quando voltassem a ver-se. Claro que a raiz dos seus problemas era a morte de Ifigénia - algo que eu compreendia e partilhava. O que eu não compreendia era o distante mundo onde os seus pensamentos o levavam, os lugares mais recônditos da sua mente.

Uma súbita e fria rajada de vento fez esvoaçar as cortinas de cada lado da janela. Estremeci, sobressaltado. Aquiles continuava deitado de lado, a cabeça pousada sobre uma mão, mas a sua expressão havia mudado. Chamei por ele: não me respondeu.

De súbito, assustado, saltei do meu divã para a beira do divã dele. Pus a minha mão sobre o seu ombro nu, mas ele pareceu não se dar conta disso. Com o coração num alvoroço, fitei a pele sob a minha mão e baixei a cabeça até que os meus lábios a afagaram; lágrimas corriam-me sob as pálpebras, tão rapidamente que uma delas deslizou pelo seu braço. Amedrontado, afastei os lábios do seu ombro mal ele se virou para me fitar; havia nos seus olhos uma expressão não inteiramente clara - como se, naquele exacto momento, houvesse visto o verdadeiro Pátrocles pela primeira vez.

Abriu aquela pobre fenda sem lábios para falar, mas não chegou a dizer aquilo que quereria dizer-me. Os olhos procuraram a porta aberta e a boca murmurou apenas:

- A minha mãe. Horrorizado, reparei que estava a babar-se, que a sua mão esquerda se agitava numa convulsão, que o lado esquerdo do rosto se arrepanhava. Então, inopinadamente, caiu redondo no chão; todo o seu corpo se retesou, a espinha arqueou-se, os olhos ficaram tão cegos e tão brancos que pensei que ele ia morrer. Sentei-me a seu lado no chão, encostei-o a mim, estreitei-o nos meus braços, esperando até que o negrume do rosto se esbatesse e se transformasse num cinzento eivado de manchas, que as convulsões parassem, que ele revivesse. Quando tudo acabou, limpei-lhe a saliva que tinha nos cantos da boca, embalei-o nos meus braços, afaguei-lhe o cabelo encharcado de suor.

- Que se passou contigo, Aquiles? Os seus olhos nublados fixaram-se nos meus; lentamente, voltava a este mundo. Então, suspirou como uma criança exausta.

-A minha mãe voltou e trouxe com ela o sortilégio. Creio que, durante todo o dia, a senti por perto.

O sortilégio! Então aquilo é que era o sortilégio? A mim, parecia-me muito simplesmente um acesso de epilepsia, embora os epilépticos que conhecera acabassem sempre por perder faculdades mentais até caírem por completo na demência; por outro lado, a demência, ao fim de pouco tempo, conduzia-os inevitavelmente à morte. Aquilo de que Aquiles padecia - fosse lá o que fosse - não afectava a sua mente. Havia ainda que ter em conta a reduzida frequência dos acessos. De facto, fora em Ciros, bastantes anos antes, que o sortilégio se manifestara pela última vez.

- Porque veio ela, Aquiles?

- Para eu não me esquecer de que vou morrer.

- Não podes dizer uma coisa dessas! Como é que sabes? - Ajudei-o a erguer-se, a deitar-se no divã. Sentei-me a seu lado. - Desta vez, Aquiles, eu pude ver os efeitos desse tal sortilégio. A mim, pareceu-me um ataque epiléptico.

- Talvez tenhas razão, talvez eu padeça de epilepsia. Mas é a minha mãe que provoca os acessos - para que eu não me esqueça da minha mortalidade. E tem razão. Eu morrerei antes que Tróia caia nas nossas mãos. O sortilégio é um prenúncio de morte, da minha futura vida no mundo das sombras, sem sentir nada, longe de tudo... - A sua boca cerrou-se por um momento. - Longa e ignominiosa ou curta e gloriosa. Não há escolha - e é isso que ela não entende. As aparições da minha mãe, sob a forma deste sortilégio, não poderão alterar rigorosamente nada. A minha escolha está feita desde Ciros.

Virei-lhe as costas, ocultei os olhos com o braço.

- Não chores por mim, Pátrocles. Eu escolhi o destino que queria. Afastei as lágrimas.

- Não choro por ti, Aquiles, choro por mim mesmo. Embora não estivesse a olhar para ele, senti que algo nele mudara.

- Nós partilhamos o mesmo sangue, Pátrocles - disse ele. - Um momento antes de o sortilégio me ter vencido, vi em ti algo que nunca antes vira.

- O meu amor por ti - disse eu, com um nó na garganta.

- Sim. Desculpa. Devo ter-te magoado muitas vezes, por não compreender o teu amor. Mas diz-me: porque choras?

- Os homens choram quando o seu amor não é retribuído. Aquiles levantou-se do divã e estendeu-me as suas mãos.

- Eu retribuo o teu amor, Pátrocles - disse ele. - Sempre retribuí.

- Mas tu não és um homem capaz de amar outro homem, e é esse o amor que eu quero.

- Talvez isso fosse verdade se eu tivesse escolhido uma vida longa e ignominiosa. Mas não foi essa a minha   escolha. E, embora não te possa dar todo o amor que queres, a verdade é que não me repugna a ideia de fazer amor contigo. Estamos juntos neste exílio - e creio que seria maravilhoso se partilhássemos o exílio tanto em espírito como na carne - disse Aquiles.

Foi nesse dia que nos tornámos amantes, ainda que não encontrasse no homem que amava o êxtase com que havia sonhado. Mas alguma vez encontraremos esse êxtase? Aquiles ardia por muitas coisas - o saciar do desejo físico nunca foi uma delas. Mas que importância é que isso tinha? Muito pouca... Ele pertencia-me mais do que a qualquer mulher, e nisso, pelo menos, achava eu alguma satisfação. O amor não é verdadeiramente o corpo. O amor é a liberdade de percorrer sem peias o coração e a mente do amado.

Só ao fim de cinco anos regressãmos a Tróia e a Agamémnon. Como não poderia deixar de ser, acompanhei Aquiles, que decidira levar também consigo Ájax e Meríona. Estava consciente de que esta visita já deveria ter sido feita há muito tempo, mas creio que, mesmo assim, Aquiles nunca teria ido se não tivesse realmente necessidade de se encontrar com Ulisses. Com o tempo, a ingenuidade dos estados da Ásia Menor dera lugar à astúcia; com efeito, graças a elaborados estratagemas, eram já capazes de antecipar os nossos ataques.

A longa e desolada praia entre os rios Simoente e Escamandro nem parecia a mesma que havíamos deixado quatro anos antes. O ar improvisado, atamancado, do acampamento inicial, desaparecera por completo; tudo naquela praia falava de permanência e determinação. As fortificações eram eficientes e bem concebidas. Havia duas entradas para o acampamento, uma no Escamandro, outra no Simoente, onde pontes de pedra haviam sido erguidas por sobre a trincheira e portas enormes abertas na muralha.

Ájax e Meríona desembarcaram na extremidade da praia junto ao Simoente, ao passo que eu e Aquiles aportámos junto ao Escamandro, logo descobrindo que haviam sido construídas habitações para albergar os Mirmidões mal estes regressassem. Avançámos pela estrada principal do acampamento, procurando a nova casa de Agamémnon, a qual, ao que nos tinham dito, era verdadeiramente grandiosa.

Homens curavam feridas descansando ao sol, outros assobiavam alegres enquanto aplicavam sebo nas armaduras de cabedal ou poliam as de bronze, outros ainda retiravam plumas cor de púrpura de elmos troianos, certamente com a intenção de virem a usá-las numa próxima batalha. Um local onde a azáfama e a alegria eram evidentes. Não havia dúvida: as tropas que tinham ficado em Tróia não conheciam a doença da preguiça.

Ulisses vinha a sair da casa de Agamémnon no preciso momento em que chegámos. Quando nos viu, encostou a lança ao pórtico e, com um sorriso imenso, abriu para nós os seus braços. Havia duas ou três cicatrizes novas no seu robusto corpo - seriam vestígios de alguma batalha ou das suas excursões nocturnas? Entre todos os homens desonestos que pude conhecer, Ulisses foi o único que nunca receou arriscar a sua vida num campo de batalha. Talvez porque nele tudo era da cor do fogo, ou talvez porque estava convencido de que, graças a Palas Atena, um encantamento protegia a sua vida.

Já não era sem tempo! - exclamou, abraçando-nos. E, virando-se para Aquiles: - Finalmente! O herói conquistador!

- Já não conquisto tanto como conquistava. As cidades costeiras aprenderam a lição: já conseguem prever os meus ataques.

- Podemos falar disso mais tarde - disse Ulisses, entrando connosco. Tenho de te agradecer a consideração que demonstraste por nós, Aquiles. Mandaste-nos generosos despojos e algumas mulheres muito interessantes.

- Nós, em Assos, não padecemos de cobiça. Mas, pelo que vejo, tu também tens tido muito trabalho por estas bandas. Muitos combates?

- O bastante para manter toda a gente em forma. Heitor tem lançado uns ataques particularrnente irritantes.

Aquiles, de súbito, pôs um ar alerta.

Heitor? - o herdeiro de Príamo e comandante dos Troianos. Agamémnon deu-nos as boas-vindas com um ar satisfeito mas formal. Contudo, não nos propôs sequer que passássemos a manhã com ele. Aquiles também não teria gostado de uma tal proposta; desde que ouvira o nome de Heitor que estava desejoso de saber mais e mais acerca do príncipe troiano e tinha perfeita consciência de que Agamémnon não era a pessoa mais indicada para o informar.

Nenhum deles tinha de facto mudado ou envelhecido, tirando uma ou duas cicatrizes novas. Se alguém tinha mudado, era Nestor, que parecia mais novo.

Nestor estava no seu elemento, ocupado e constantemente estimulado. Idomeneu tornara-se menos indolente, o que era bom para a sua figura. Apenas Menelau parecia não ter beneficiado com a vida num acampamento de campanha; o pobre coitado continuava roído de saudades de Helena.

Ficámos como convidados de Ulisses e Diomedes, que também se tinham tornado amantes. Em parte por necessidade, em parte porque gostavam francamente um do outro. As mulheres eram uma complicação para homens que levavam a vida que nós levávamos, e Ulisses, creio eu, nunca havia reparado noutra mulher para além de Penélope, ainda que constasse que não se recusava a seduzir algumas mulheres troianas a fim de obter informações. Pela primeira vez, Ulisses falou-nos da existência da sua colónia de espiões - uma história verdadeiramente extraordinária. Ninguém sabia de nada.

- É espantoso que ninguém saiba de nada! - disse Aquiles. - Por todos os deuses, se eles soubessem! Eu não sabia - tal como nenhum dos meus companheiros.

- Nem mesmo Agamémnon sabe - disse Ulisses.

- Por causa de Calcas? - perguntei.

- Um palpite perspicaz, Pátrocles... Com efeito, eu não confio em Calcas.

- Bom, não será através de nós que Agamémnon e Calcas ficarão a saber disse Aquiles.

Ficámos em Tróia uma lua. Durante todo esse tempo, Aquiles só pensou numa coisa - defrontar Heitor.

- Aconselho-te a esqueceres Heitor, rapaz - disse Nestor no final de um jantar que Agamémnon deu em nossa honra. - Podes ficar aqui todo o Verão e não ver Heitor uma única vez. As surtidas de Heitor parecem não obedecer a qualquer plano. Não podemos prevê-las, apesar de todas as informações que Ulisses nos traz de Tróia. E, neste momento, nós também não temos projectada nenhuma incursão.

- Incursões? - perguntou Aquiles, alarmado. - Vão tomar a cidade na minha ausência?

- Não, não! - exclamou Nestor. - Não temos condições para tomar de assalto Tróia: nem mesmo que a Cortina Ocidental ruísse amanhã. Vocês têm a melhor parte do exército em Assos - e sabem muito bem que têm. Volta para Assos, Aquiles! Não vale a pena ficares aqui à espera de Heitor.

- Nada indica que Tróia venha a cair na tua ausência, príncipe Aquiles disse uma voz suave atrás de nós: o sacerdote Calcas.

- Que queres dizer com isso? - perguntou Aquiles, obviamente perturbado por aqueles olhos róseos e vesgos.

- Tróia não poderá cair na tua ausência. É o que dizem os oráculos. - E logo se afastou, o manto púrpura tremeluzindo de ouro e pedras preciosas. Ulisses fazia bem em manter secretas algumas das suas actividades. O nosso rei supremo nutria grande estima pelo velho; a sua residência (vizinha da de Agamémnon) era sumptuosa e Calcas podia escolher à vontade entre as mulheres que nós enviávamos de Assos. Diomedes contou-me que, certa vez, Idomeneu ficou tão furioso por Calcas lhe ter roubado uma mulher de quem gostava, que levou o caso ao conselho e obrigou Agamémnon a tirar a mulher ao sacerdote e a dá-la ao seu co-comandante.

E foi assim que Aquiles deixou Tróia profundamente decepcionado. Tal como Ájax, como se veio a ver. Ambos tinham deambulado vezes sem conta pela ventosa planície troiana, na esperança de convencerem Heitor a abandonar as muralhas. Contudo, nem sequer a sombra de Heitor - ou de quaisquer tropas troianas - conseguiram ver.

Os anos foram avançando inexoravelmente, sem que nada de fundamental mudasse. As nações da Ásia Menor foram tombando lentamente, enquanto os mercados de escravos do mundo transbordavam de Lícios, Cários, Cilicianos e de mais uma dúzia de nacionalidades. Nabucodonosor recebia de bom grado tudo o que lhe mandávamos para Babilónia, ao passo que Tiglate-Pileser da Assíria esquecia os laços que uniam os Hititas aos Troianos e comprava milhares de escravos. Descobri que não havia uma única nação que se desse por satisfeita com os escravos que tinha e que há muito que não havia uma guerra - nem um Aquiles que fornecesse tantos escravos a essas nações.

Nos intervalos entre os nossos ataques, a vida nem sempre foi pacífica. Alturas houve em que a mãe de Aquiles o perseguiu, dia após dia, com o seu maldito sortilégio; depois, partia para um qualquer outro lugar e deixava-o tranquilo durante luas a fio. Porém, eu aprendera a tornar esses períodos mais fáceis para ele; Aquiles dependia agora de mim para todas as suas necessidades. E haverá algo de mais reconfortante do que saber que o nosso amado depende de nós para tudo?

Um navio chegou certa vez de lolcos, trazendo mensagens de Peleu, Licomedes e Deidamia. Graças ao constante fluxo de bronze e de mercadorias que agora se verificava no Egeu, a prosperidade voltara à Grécia. Enquanto a Ásia Menor ficava sem pinga de sangue, a Grécia engordava. Segundo Peleu, os primeiros colonizadores gregos da Ásia Menor tinham começado já a reunir-se em Atenas e Corinto.

Para Aquiles, a notícia mais importante era a que dizia respeito ao seu filho, Neoptolemo. Pouco tempo faltava para que chegasse à idade adulta! Quanto tempo passara já! Segundo Deidamia, o rapaz estava quase tão alto como o pai e mostrava possuir a mesma aptidão para o combate e as armas. Embora fosse mais turbulento do que o pai e tivesse já feito mil conquistas femininas. Isto já para não falar do seu mau génio e de uma tendência para beber demasiado vinho sem água. Daí a dias, faria dezasseis anos.

- Vou ordenar a Deidamia e a Licomedes que mandem o rapaz para a corte do meu pai - disse Aquiles depois de ter mandado embora o mensageiro. - O meu filho precisa da mão de um homem a controlá-lo. - O seu rosto franziu-se de tristeza. - Ah, Pátrocles, os filhos que eu e Ifigénia não teríamos tido!

Sim, a morte de Ifigénia continuava a atormentá-lo - ainda mais, cria eu, do que Tétis e o seu sortilégio.

Precisámos de nove anos para reduzir a cinzas a Ásia Menor. No final do nono Verão, já não havia mais nada para fazer. Os colonizadores gregos começavam a chegar a locais como Colofão e Apasas, todos eles desejosos de iniciarem uma nova vida numa nova terra. Alguns dedicar-se-iam à agricultura, outros ao comércio, outros ainda, provavelmente, seguiriam para leste ou para norte. Nada disso tinha a mínima importância para nós, que formávamos o núcleo duro do Segundo Exército. A nossa missão estava concluída. Ou melhor: faltava ainda o ataque, nesse Outono, a Lirnesso, a capital do reino da Dardânia.

 

                                 Narrado por Aquiles

A Dardânia ficava mais perto de Assos do que qualquer outra nação da Ásia Menor. Contudo, deixara-a deliberadamente em paz durante os nove anos da nossa campanha, enquanto reduzíamos a ruínas as cidades costeiras da Ásia Menor. Uma das razões para esta decisão residia no facto de a Dardânia ser um território interior que partilhava uma fronteira com Tróia. A outra razão era mais subtil: eu queria dar aos Dardanianos um falso sentimento de segurança, queria que eles acreditassem que o facto de estarem longe do mar os tornava invioláveis. Além disso, a Dardânia não confiava em Tróia. Enquanto os deixasse em paz, o velho rei Anquises e o seu filho Eneias não se associariam a Tróia.

Agora, tudo isso estava prestes a mudar. A invasão da Dardânia não demoraria. Em vez da longa viagem habitual, preparei as minhas tropas para uma árdua jornada; se Eneias, por acaso, estivesse à espera de algum ataque, pensaria por certo que iríamos por mar, contornaríamos o canto da península e aportaríamos à costa defronte de Lesbos. Daí até Lirnesso, seria uma marcha de apenas quinze léguas. Mas eu tencionava marchar a partir de Assos: quase cem léguas de terras desoladas, desde as encostas do monte Ida até ao fértil vale que albergava Lirnesso.

Ulisses dera-me batedores experientes. Antecipadamente, mandei-os investigar as terras por onde passaríamos; informaram-me de que havia densas florestas, de que, no nosso caminho, poucas quintas havia, e de que os pastores já não se aventuravam a sair com o gado, pois o Outono era severo. Mandei que trouxessem dos depósitos todas as peles e botas resistentes que houvesse, pois o Ida estava já coberto de neve até meio dos seus flancos, e era muito provável que apanhássemos tempestades de neve. Calculava que marcharíamos cerca de quatro léguas por dia; ao fim de vinte dias, avistaríamos já o nosso objectivo final. Ao décimo quinto dia, Fénix, o meu almirante, conduziria a sua frota até à praia deserta de Andramítio, o porto mais próximo. Não era crível que a Fénix se lhe deparasse oposição. Eu incendiara Andramítio no início do ano - pela segunda vez.

Avançámos silenciosa e calmamente e os dias de marcha foram-se sucedendo sem incidentes. Não havia pastores nas colinas nevadas - não havia ninguém que pudesse correr para Lirnesso a fim de denunciar a nossa presença. A tranquila paisagem só a nós pertencia e a nossa marcha, afinal, revelou-se mais fácil do que se pensara. Não admira, pois, que tenhamos avistado a cidade de Lirnesso ao décimo sexto dia. Ordenei aos meus homens que parassem e proibi as fogueiras até poder determinar se teríamos ou não sido detectados.

Era meu hábito proceder sozinho à investigação final; parti por isso a pé e sem qualquer companhia, ignorando os protestos de Pátrocles, o qual, por vezes, me fazia lembrar uma galinha velha. Porque será que o amor sempre alimenta o sentimento de posse e reduz drasticamente a liberdade?

Ao fim de não mais de três léguas, subi uma colina e vi Lirnesso a meus pés, espraiando-se por uma vasta área e dispondo de boas muralhas e de uma cidadela elevada. Estudei por algum tempo a cidade, combinando aquilo que via com o que os batedores de Ulisses me haviam dito. Não, o assalto não seria fácil; por outro lado, também era verdade que seria muito menos difícil do que o assalto às muralhas de Esmirna ou de Tebas Hipoplaquiana.

Cedendo à tentação, desci um pouco a encosta, tanto mais que o sítio era verdadeiramente aprazível; com efeito, aquele era o lado do monte protegido do vento, para além de não haver neve, nem frio. Um erro grave, Aquiles!, disse para mim mesmo, e, nesse exacto momento, quase tropeçava nele: uma criatura humana que estava deitada no chão. O desconhecido afastou-se, rolando agilmente sobre si mesmo, e, com extrema maleabilidade, pôs-se de pé; depois, correu até ficar fora do alcance da minha lança; por fim, parou para me examinar. O desconhecido fazia-me lembrar, e de que maneira, Diomedes; tinha mesmo o ar feroz e felino de Diomedes e, tendo em conta o vestuário e o porte, só poderia ser um membro da mais alta nobreza. Tendo memorizado o catálogo de todos os dirigentes troianos e aliados que Ulisses fizera para nós, decidi que aquele só poderia ser Eneias.

- Eu sou Eneias e não estou armado! - gritou ele.

- Tanto pior, dardaniano! Eu sou Aquiles e estou armado! Aparentemente muito pouco impressionado, Eneias ergueu as sobrancelhas e atirou-me:

- Não há dúvida: há alturas na vida de um homem precavido em que a prudência deve sobrepor-se à coragem! Encontramo-nos em Lirnesso!

Sabendo que era um bom corredor, mais veloz do que muitos outros, tratei de persegui-lo a um ritmo ligeiro, não excessivamente rápido. Queria ver se conseguia cansá-lo. Mas Eneias era muito veloz, além de que conhecia a disposição do terreno. Obrigou-me por isso a meter por caminhos cheios de moitas (e onde há moitas, sempre há espinhos), a avançar por terrenos crivados de crateras (as tocas de raposas e coelhos), e, por fim, a atravessar um curso de água tão largo quanto baixo; ele atravessou o rio com facilidade, pois conhecia bem as pedras que a água ocultava, ao passo que eu tinha de parar em cada rocha e procurar a seguinte. E foi assim que o perdi de vista e desatei a amaldiçoar a minha estupidez. Lirnesso saberia, com um dia de antecedência, que os Gregos iam atacá-la.

Mal o Sol espreitou no céu, dei início à marcha; confesso que a minha disposição deixava muito a desejar. Trinta mil homens espalharam-se pelo vale de Lirnesso, cingindo facilmente as muralhas da cidade. Os Dardanianos acolheram-nos com uma rápida saraivada de dardos e lanças, mas os meus homens ergueram os escudos para se protegerem e não sofremos nenhuma baixa. Com uma coisa fiquei espantado: parecia não haver muitos homens para lá das muralhas! Perguntei-me se os Dardanianos não seriam por acaso uma raça de cobardes. No entanto, Eneias parecia tudo menos o chefe de um povo degenerado.

Lançámos as escadas de corda. Conduzindo os Mirmidões, alcancei a pequena passagem que encimava as muralhas sem se me ter deparado uma única pedra ou com as temíveis ânforas de azeite a ferver. Quando um pequeno grupo de defensores apareceu, ceifei-os num ápice com o meu machado, sem precisar sequer de pedir reforços. Ao longo de toda a muralha, as minhas tropas dizimavam o inimigo com uma facilidade francamente ridícula... Depressa entendi porquê: os nossos oponentes eram todos velhos e rapazinhos.

Ao fim de pouco tempo, descobri que Eneias, no dia anterior, regressara à cidade e ordenara imediatamente aos seus soldados que pegassem em armas. Mas não com a intenção de me enfrentar. Com efeito, o filho de Anquises partira sem demora para Tróia com o seu exército.

- Parece que os Dardanianos também têm um Ulisses - disse eu para Pátrocles e Ájax. - Uma verdadeira raposa ... ! Príamo ficará com mais vinte mil homens chefiados pelo Ulisses da Dardânia. Esperemos que os preconceitos do velho não o deixem ver o portento que Eneias é.

 

                                   Narrado por Briseida

Lirnesso morreu fechando as asas e espalhando a sua plumagem por sobre a desolação, com um grito que era todos os gritos de todas as mulheres postos numa só boca. Deixáramos Eneias entregue aos cuidados da sua mãe imortal, Afrodite, felizes porque lhe fora concedida a oportunidade de salvar o nosso exército. Todos os cidadãos tinham concordado que não havia outra coisa a fazer: só assim a Dardânia, ou uma parte dela, poderia continuar viva para enfrentar e abater os Gregos.

Velhas armaduras haviam sido retiradas de baús por mãos deformadas que mal aguentavam o esforço; rapazes lívidos de medo haviam envergado as suas armaduras de brinquedo, fáceis presas para as lâminas de bronze. Claro que morreram. Todos morreram. Veneráveis barbas encharcadas de sangue dardaniano, os gritos de guerra de pequenos soldados convertidos em soluços aterrados de meninos. O meu pai levara até o meu punhal; com lágrimas nos olhos, explicou-me que não poderia deixar nas minhas mãos a arma que me libertaria da servidão; o meu punhal, tal como os punhais de todas as outras mulheres, estaria melhor nas mãos dos soldados, ainda que estes mais não fossem do que velhos ou meninos.

Impotente, assisti da minha janela à morte de Lirnesso, suplicando a Ártemis, a misericordiosa filha de Latona, que trespassasse o meu coração com um dos seus dardos, que aplacasse para sempre o clamor que me varria o sangue antes que algum grego me capturasse e enviasse para os mercados de escravos de Hatusas ou Nínive. As nossas débeis defesas depressa foram arrasadas; ao fim de um instante, só as muralhas da cidadela me separavam de uma massa fervilhante de guerreiros, todos eles com armaduras de bronze, mais altos e mais brancos do que os Dardanianos; nesse momento, fiquei a saber que as filhas de Kore só poderiam ser altas e brancas. A minha única consolação era saber que Eneias e o exército estavam em segurança. Tal como o nosso querido rei, o velho Anquises, o qual, por ser, na sua juventude, o mais belo dos homens, atraíra o amor de Afrodite, que lhe dera Eneias. E Eneias era o melhor dos filhos; por isso se recusara a deixar o velho pai na cidade condenada. Tal como não deixara Creusa, sua esposa, nem Ascânio, o seu filho ainda pequeno.

Embora não conseguisse arredar-me da janela, como que paralisada por um sortilégio, podia ouvir os ruídos dos preparativos para a batalha nos aposentos próximos dos meus - velhos passos trôpegos, vozes esganiçadas murmurando aflitas. O meu pai era um desses homens. Só os sacerdotes não combateriam, pois tinham ficado a suplicar a ajuda dos deuses nos altares; porém, o meu tio Criseu, o sumo-sacerdote de Apolo, despira o sagrado manto e envergara uma armadura. Combateria, dizia ele, para proteger o Apolo asiático, que não era o mesmo deus que o Apolo grego.

Os Gregos trouxeram os aríetes para abater as portas da cidadela. As entranhas do palácio estremeceram e, apesar da tumultuosa pulsação que devorava os meus ouvidos, julguei ouvir o berro tremendo do Senhor dos Terramotos, esse ruído que sempre vestia de luto os homens. É que o coração de Poseidon estava com os Gregos e não connosco. Nós seríamos oferecidos como vítimas, por causa do orgulho e da rebeldia de Tróia. Poseidon poderia sentir por nós compaixão, mas a verdade é que fora aos aríetes gregos que emprestara a sua força. A madeira desfez-se em bocados, as dobradiças cederam e as portas ruíram com um rugido horrendo. Com lanças e espadas prontas a matar, os Gregos inundaram o pátio, sem qualquer sentimento de piedade diante daquela patética oposição, pois tudo o que sentiam era raiva por Eneias os ter superado em astúcia.

O homem que os chefiava era um gigante. Envergava uma armadura de bronze adornada a ouro. Empunhando um machado portentoso, abatia os velhos como se fossem mosquitos, fendendo-lhes a carne cheio de desprezo. Depois, correu para a Sala do Trono, com os seus homens atrás; fechei os olhos para não ver o resto do massacre, enquanto rogava à casta Ártemis que instilasse no coração dos nossos inimigos o desejo de me matarem. A morte seria uma bênção, se comparada com a violação e a escravatura. Névoas vermelhas flutuavam diante das minhas pálpebras, a luz do dia, implacável, penetrava-as, os meus ouvidos não conseguiam deixar de ouvir os gritos sufocados e as súplicas de misericórdia. A vida é preciosa para os velhos, pois eles sabem quanto lhes custa a ganhar cada dia que passa. Mas eu não ouvira a voz do meu pai e pressentia que ele morrera tão orgulhosamente como sempre vivera.

Quando ouvi passos fortes, determinados, aproximando-se do meu quarto, abri os olhos e virei-me para ver quem vinha. Era um homem enorme, muito maior do que a porta, o machado suspenso de uma mão, o rosto imundo sob o elmo de bronze com plumas douradas. Era cruel, muito cruel a sua boca: os deuses que o tinham feito haviam-se esquecido de lhe dar lábios; um homem sem lábios não conheceria nunca, no seu coração, piedade ou bondade. Por um momento, fitou-me como se eu tivesse saído das entranhas da terra; depois, fez menção de avançar para mim com a cabeça empinada, como um cão farejando o ar.

Preparei-me para o enfrentar: podia violar-me, ferir-me, matar-me, que não ouviria nunca um grito ou um lamento. Não seria eu quem o levaria a concluir que aos Dardanianos faltava coragem.

Tive a sensação de que, com um único passo, se abeirara de mim; com a mão que tinha livre, prendeu-me um pulso, depois o outro, e ergueu-me depois até que fiquei suspensa no ar, os pés muito longe do chão.

- Assassino! Assassino de velhos e crianças! Animal! - exclamei ofegante, pontapeando-o.

De súbito, esmagou-me com tanta força os pulsos que senti os ossos rangerem. Queria gritar, pois a dor era insuportável, mas não gritaria - não gritaria! Os seus olhos amarelos, como os de um leão, eram o espelho de uma fúria animalesca; eu ferira-o no ponto certo, no único ponto, provavelmente, onde a sua auto-estima era ainda sensível. Ele não gostava que lhe chamassem assassino de crianças e velhos.

- Dobra-me essa língua, rapariga! Nos mercados de escravos, têm um chicote para as meninas rebeldes como tu!

- Seria uma bênção dos deuses se me desfigurassem com o chicote!

- Não, rapariga. No teu caso, seria uma pena - disse ele, baixando-me e libertando-me os pulsos. Mas logo a sua mão me agarrou pelos cabelos e assim me arrastou até à porta enquanto eu esmurrava e pontapeava a sua armadura metálica, e tantos foram os murros e pontapés que, a certa altura, pensei que tinha partido os ossos dos punhos e dos pés.

- Deixa-me caminhar! - gritei. - Permite-me a dignidade de caminhar! Se me vão condenar à violação e à servidão, então deixa-me caminhar! Não quero ir para essa morte debatendo-me e choramingando como uma vulgar criada!

Ele parou de súbito e fitou-me com um ar perplexo.

- Tu tens a coragem dela - disse ele lentamente. - Não és como ela, mas tens qualquer coisa dela... Crês que vai ser esse o teu destino: a violação e a escravatura?

- Que outro destino poderá ter uma cativa? Sorrindo - o que o tornava mais parecido com os outros homens, pois o sorriso faz com que os lábios fiquem mais finos -, largou-me os cabelos. Levei a mão à cabeça, perguntando-me se ele não me teria rasgado o couro cabeludo.

Depois, caminhei à sua frente. Os dedos dele logo se apoderaram do meu pulso magoado. Era demasiada a sua força: impossível libertar-me. -   Respeito a tua dignidade, minha querida menina, mas não sou idiota.

Acredita que não será devido ao meu descuido que conseguirás escapar.

- Como o teu chefe deixou escapar Eneias? - atirei-lhe. A expressão dele não se alterou.

- Precisamente - disse ele, impassível. Conduziu-me através de quartos que nem conseguia reconhecer, pois as paredes estavam salpicadas de sangue e os móveis estavam já a ser empilhados a fim de seguirem nas carroças do saque. Mal entrámos na Sala do Trono, afastou a pontapé uma pilha de cadáveres, atirados uns para cima dos outros sem o menor respeito pela idade ou pela posição. Parei, procurando, naquele anónimo amontoado de corpos, algo que me permitisse identificar o meu pai. O meu captor tentou puxar-me, mas eu resisti.

- O meu pai pode estar aqui! Deixa-me ver! - roguei.

- Qual deles é o teu pai? - perguntou-me, com um ar indiferente.

- Se eu soubesse, não teria pedido para me deixares ver! Embora sem me ajudar, deu-me rédea suficiente para que eu sondasse os trajes ou os sapatos dos mortos. Por fim, vi os pés do meu pai, inconfundíveis pois era o único que usava sandálias ornamentadas com granadas - tal como a maior parte dos velhos, vestira a armadura, mas não as botas de combate. Porém, não conseguia arrancar o seu corpo àquela pilha imensa de cadáveres.

- Ájax! - chamou o meu captor. - Ajuda aqui a rapariga! Debilitada pelo terror, esperei que o outro homem se acercasse de nós. Era também um gigante, maior ainda do que o meu captor.

- Não és capaz de ajudá-la sozinho? - perguntou o tal Ájax.

- E deixá-la fugir? Ájax, Ájax! Esta rapariga é esperta, não posso confiar nela!

- Já percebi, priminho! Gostas da rapariga, não é? Também já não era sem tempo! Há uma eternidade que só tens olhos para Pátrocles...

Ájax afastou-me como se eu fosse uma pena. Depois, sem largar o machado, empurrou os cadáveres que cobriam o meu pai. Finalmente, pude ver aqueles olhos mortos fixos nos meus, a barba enterrada num golpe que lhe dilacerara o peito. Um golpe de machado. - Este é o velho que se atirou a mim! - disse Ájax, com admiração. - Sim senhor, um velho valente!

- Tal pai, tal filha - disse o outro, puxando-me pelo braço. - Vá, rapariga, temos de ir. Não há tempo para chorar os mortos.

Levantei-me trôpega, curvando a cabeça para saudar o meu pai. Preferia partir sabendo que ele estava morto. Era melhor não ter dúvidas. Assim, não alimentaria uma esperança infundada. Ájax afastou-se, dizendo que ia reunir todos os sobreviventes, embora duvidasse que os houvesse.

Parámos à porta que dava para o pátio. O meu captor retirou um cinto de um cadáver que jazia nos degraus. Com uma das pontas, prendeu-me o pulso; depois, prendeu a outra ponta ao seu próprio braço, obrigando-me assim a caminhar quase que encostada a ele. Dois degraus mais alta do que ele, fitei a sua cabeça curvada enquanto concluía a sua pequena tarefa com uma eficiência que me pareceu ser típica dele.

- Não foste tu quem matou o meu pai - disse eu.

- Fui eu, sim - respondeu. - Eu sou o chefe que foi vencido pela astúcia de Eneias. O que significa que sou responsável por todas as mortes.

- Como te chamas? - perguntei.

- Aquiles - disse ele, puxando-me para o pátio. Tinha de correr para não cair. Aquiles. Claro. Só poderia ser ele. Eneias falara dele um dia antes, mas há muitos anos que eu ouvia falar daquele homem.

Deixámos Lirnesso pela porta principal, enquanto os Gregos saqueavam e violavam mulheres, alguns com archotes nas mãos, outros com odres de vinho. Aquiles nem sequer os repreendia. Ignorava-os.

No alto do caminho, virei-me para contemplar pela última vez o vale de Lirnesso.

- Incendiaram a minha casa. Foi ali que vivi durante vinte anos, era ali que esperava viver até que me arranjassem casamento. Mas nunca esperei que fosse esta a minha sorte.

Ele encolheu os ombros.

- São os acasos da guerra, rapariga. Apontei para as minúsculas figuras dos soldados que reuniam os despojos. Não podes impedir que eles se comportem como animais? Será mesmo necessária tamanha brutalidade? Eu ouvi as mulheres gritarem - eu vi!

As pálpebras dele descaíram cinicamente.

- Que sabes tu destes gregos exilados ou dos seus sentimentos? O que tu sentes por nós é ódio, o que é perfeitamente compreensível. Mas o teu ódio não supera o ódio que estes homens dedicam a Tróia e aos aliados de Tróia! Príamo custou-lhes já dez anos de exílio. É por isso que eles sentem tanto prazer em vingar-se de Príamo! Bom, de qualquer modo, mesmo que eu tentasse detê-los, não conseguiria. E sinceramente, rapariga, não me apetece nada detê-los.

- Há muitos anos que ouvia histórias sobre a guerra, mas não sabia que a guerra era assim - murmurei.

- Pois agora já sabes - disse ele.

O acampamento dele ficava a três léguas de distância; mal chegámos, Aquiles chamou um oficial encarregado das bagagens.

- Polides, esta rapariga é minha cativa. Pega no cinto e prende-a a uma bigorna até forjares melhores correntes. Não a deixes livre um momento que seja. Nem mesmo quando ela quiser fazer as suas necessidades fisiológicas. Logo que esteja devidamente acorrentada, leva-a para um local onde ela tenha tudo o que precisa, incluindo uma boa cama, boa comida e um bacio. Amanhã, partirás para Andramítio. Entrega-la-ás aos cuidados de Fénix. - Pegou-me no queixo e beliscOu-o suavemente. -Adeus, rapariga.

Polides Prendeu-me Os tOrnozelos com umas correntes que eram bastante       leves, Pôs uns chumaços à volta dos pulsos, sob as algemas, para que eu não me magoasse mais, e conduziu-me até à costa montada num burro. Aí, entregou-me a Fénix, um velho nobre com os olhos azuis e enrugados e o andar gingado de um marinheiro. Quando viu as minhas correntes, PÔs um ar pesaroso, mas nada fez para me aliviar daquela prisão. Subi com ele a bordo da nau capitânia. Com gentil cortesia, fez-me sinal para que me sentasse, mas eu estava decidida a ficar de pé.

- Lamento muito as correntes - disse ele e os seus olhos exprimiam um evidente pesar. Mas logo percebi que não era de mim que ele estava com pena. Pobre Aquiles! - exclamou.

Irritava-me que aquele velho me tivesse em tão pouca conta. -Aquiles tem mais consideração pelo meu brio do que tu! Dá-me um punhal e vais ver se eu não me livro desta morte em vida - nem que tenha de morrer!

A consternação do velho desapareceu num ápice. Com um risinho, respondeu-me.

- Oh, mas que valente guerreira! Mas olha, rapariga, escusas de nutrir falsas esperanças... Aqueles que Aquiles prende, não é Fénix quem os vai libertar.

-A palavra dele é uma lei Sagrada?

- De facto, é. Aquiles é o príncipe dos Mirmidões.

- Príncipe das formigas? Um título muito adequado... Respondeu-me cOM outro risinho. Depois, foi buscar-me uma cadeira. Olhei para a cadeira com todo o meu ódio, mas a verdade é que me doíam horrivelmente as costas por causa da viagem de burro, e tinha as pernas a tremer pois recusara-me a comer e a beber desde o instante em que me haviam feito cativa. Sem qualquer delicadeza, Fénix pegou em mim e obrigou-me a sentar-me, após o que desarrolhou uma garrafa de vinho.

- Bebe, rapariga. Se queres manter essa rebeldia, precisas de sustento. Não sejas tonta.

Um conselho sensato. Segui-o e bebi e logo concluí que o meu sangue era fraco, pois o vinho subiu-me num instante à cabeça. Já não conseguia lutar. Pousei a cabeça na mão e logo adormeci. Acordei algum tempo depois. Tinham-me levado para a cama. As correntes presas a uma viga.

No dia seguinte, levaram-me para a coberta, sem se esquecerem de prender as correntes à amurada, a fim de que eu pudesse manter-me de pé, sob aquele débil sol invernoso, e observar o vaivém que ia na praia. A certa altura, porém, quatro navios surgiram no horizonte e, com tal aparição, desataram os homens - em particular os seus chefes - numa correria e num alvoroço indescritíveis. De súbito, Fénix correu para mim e libertou-me da amurada e conduziu-me não à minha anterior prisão, mas sim a um abrigo que havia no convés de ré e que tresandava a cavalos. Aí me deixou presa a um barrote.

- Que se passa? - Perguntei, curiosa.- Vem aí Agamémnon, o rei dos reis - retorquiu Fénix.

- Porque é que me trouxeste para aqui? Será que eu não sou nobre o suficiente para ser apresentada ao rei dos reis?

O velho marinheiro suspirou.

- ó rapariga - disse -, será possível que nunca te tenhas visto ao espelho? Se Agamémnon te visse, podes crer que não lhe escapavas! Apesar de pertenceres a Aquiles, acredita que Agamémnon não te deixaria virgem!

- Pode ser que eu desate aos gritos e que ele me oiça - disse eu. Fénix fitou-me como se eu tivesse enlouquecido.

- Arrepender-te-ias dos teus gritos, rapariga. Pensa um pouco: que vantagem terias tu em mudar de amo? Acredita no que te digo: acabarias por preferir Aquiles.

Houve qualquer coisa no tom com que me disse aquilo que me convenceu. Por isso, quando ouvi vozes à porta do estábulo, enfiei-me debaixo de uma manjedoura e escutei as belas e fluidas cadências do mais puro Grego - e apercebi-me do poder e da autoridade que uma das vozes possuía.

- Aquiles ainda não voltou? - perguntou essa voz, num tom imperioso.

- Não, rei Agamémnon, mas deve estar de volta antes da noite. Aquiles teve de organizar o saque. São abundantes os despojos de Lirnesso. As carroças têm chegado carregadas dos mais preciosos objectos.

- Excelente! Vou esperar por ele na sua cabina.

- Será melhor esperares na tenda da praia, rei Agamémnon. Tu conheces Aquiles: para ele, o conforto não é importante.

- És capaz de ter razão, Fénix. As vozes esbateram-se; rastejando, libertei-me do meu esconderijo. O som daquela voz fria e orgulhosa assustara-me. Aquiles também era um monstro, mas melhor é o monstro que se conhece do que aquele que se ignora, como dizia a minha ama quando eu era pequena.

Durante a tarde, ninguém veio ter comigo. De início, sentei-me na cama que julgava pertencer a Aquiles e atentei, com olhos curiosos, no escasso conteúdo daquela vulgaríssima cabina. Havia umas quantas lanças encostadas a um pilar, ninguém se lembrara de pintar as paredes de madeira, as dimensões da cabina eram minúsculas. Na realidade, naquela divisão, havia apenas dois objectos dignos de alguma atenção: uma bela pele branca na cama e uma taça de ouro com quatro pegas. Os lados da taça tinham sido pintados com uma representação do Pai Céu sentado no seu trono e cada pega era encimada por um cavalo galopando.

Nesse preciso instante, o abismo horrendo do meu sofrimento abriu-se e engoliu-me, talvez porque, desde o momento da minha captura, aquela era a primeira vez em que o perigo e a fúria não me obrigavam a calar a dor. Enquanto ali estava sentada naquela cama, o meu pai jazia na vala de Lirnesso para onde era deitado todo o lixo, o seu corpo devorado pelos cães perpetuamente esfomeados da cidade; esse era o tradicional destino para os nobres que morriam no campo de batalha. As lágrimas inundavam-me o rosto; atirei-me para cima daquela pele branca e chorei. Não conseguia parar de chorar. A pele branca ficou limpa e brilhante sob a minha face, sob o rio da minha dor.

Não ouvi a porta a abrir-se. Por isso, quando uma mão pousou sobre o meu ombro, o meu coração desatou a correr dentro do meu peito como um animal que acaba de cair numa cilada. Toda a minha rebeldia se esfumou num ápice; naquele instante, só uma coisa pensei: o rei supremo Agamémnon tinha-me descoberto,encolhi-me sobre a cama, apavorada.

- Eu pertenço a Aquiles, eu pertenço a Aquiles! - gemi.

- Eu sei. Quem julgaste tu que era? Antes de erguer a cara para o ver, disfarcei cuidadosamente o alívio que sentira e limpei rapidamente as lágrimas com a palma da mão.

- O rei supremo da Grécia.

- Agamémnon. Aquiesci.

- Onde está ele?

- Na tenda da praia. Aquiles abeirou-se de um baú, abriu-o, remexeu-o de alto a baixo e, por fim, atirou-me um lenço de um belo tecido.

- Toma, assoa-me esse nariz e limpa-me essa cara. Se continuas assim ainda adoeces.

Fiz o que ele me mandou. Aquiles voltou para ao pé de mim e pôs-se a olhar para a pele com um ar preocupado.

- Espero que não fique com marcas quando secar. Foi uma prenda da minha mãe. Mirou-me com olhos críticos. - Será possível que Fénix não te tenha mandado tomar banho e vestir roupa lavada?

- Mandar, mandou, mas eu recusei.

- Pois comigo não haverá recusas. As criadas vão trazer-te roupa lavada e uma banheira para tomares banho. Terás de vestir o que elas te trouxerem. Caso contrário, serás lavada e vestida à força - e não por mulheres. Entendido?

- Sim.

- Óptimo. -Tinha já a mão na tranca da porta quando parou e se voltou para mim.

- Como é que te chamas, rapariga?

- Briseida. Sorriu para mim; detectei na sua expressão alguma admiração pela minha pessoa.

- Briseida: «Aquela que triunfa.» Tens a certeza de que não o inventaste?

- O meu pai chamava-se Briseu. Era primo direito do rei Anquises e chanceler da Dardânia. O irmão do meu pai, Criseu, era sumo-sacerdote de Apolo. Nós pertencemos à família real.

Ao entardecer, um oficial mirmidão veio ter comigo, desprendeu da viga as correntes e conduziu-me até à amurada. Uma escada de corda estava suspensa da amurada; silenciosamente, indicou-me que deveria descer; contudo, fez-me a cortesia de descer primeiro e de esperar por mim na praia: desse modo, não teria qualquer oportunidade de olhar para aquilo que as minhas saias tapavam. O navio estava assente sobre os seixos da praia; sobre os seixos caminhei, mas tão redondos eram que me fugiam debaixo dos pés e me magoavam o que magoado já estava.

Uma enorme tenda de cabedal erguia-se na praia. Não me lembrava de a ter visto quando chegara de burro. O oficial mirmidão fez-me entrar na tenda através de uma aba que havia nas traseiras e logo me conduziu a uma divisão apinhada de mulheres: cerca de uma centena de mulheres de Lirnesso, nenhuma das quais reconheci. Só eu fora distinguida com correntes. Muitos foram os olhos que, com uma curiosidade canina, se fixaram em mim, enquanto eu procurava um rosto conhecido no meio daquela multidão. Ah, ali, a um canto! Uma gloriosa cabeleira dourada: inconfundível! O meu guarda continuava a segurar-me nas correntes; porém, quando fiz tenção de avançar para o canto da sala, deixou-me partir sem qualquer protesto.

A minha prima Criseida ocultava o rosto com as mãos; quando lhe toquei, a pobre rapariga deu um salto, tomada de pânico. Fitou-me espantada e logo se refugiou nos meus braços, lavada em lágrimas.

- Que fazes tu aqui? - perguntei, confusa. - Tu és a filha do sumo-sacerdote de Apolo. Como tal, és uma criatura inviolável.

A resposta dela foi um gemido de puro horror. Abanei-a.

- Por favor, Criseida, deixa-te de choros! - ordenei-lhe. Desde menina que Criseida tinha medo de mim; não admira que me tenha obedecido nesse mesmo instante.

- Apesar disso, fizeram-me cativa, Briseida.

- Mas isso é um sacrilégio!

- Eles dizem que não é. O meu pai combateu. Os sacerdotes não combatem. Por isso, consideraram-no um guerreiro e fizeram de mim o que quiseram.

- O que quiseram? Estás a dizer-me que te violaram? - perguntei, horrorizada.

- Não, não! As mulheres que me vestiram disseram-me que só as mulheres do povo ficam à mercê da violência dos soldados. Aquelas que se encontram nesta sala foram poupadas a essa violência porque vão ter um destino especial. Qual, não sei. - Olhou para baixo e viu as grilhetas. - Oh, Briseida! Acorrentaram-te!- Pelo menos trago uma prova evidente do meu estatuto real. Graças às grilhetas, ninguém poderá confundir-me com uma prostituta.

- Briseida! - disse ela, com uma expressão escandalizada; eu conseguia sempre chocar a minha pobre e recatada prima. Depois, perguntou-me:

- O tio Briseu?

- Morreu, como todos os demais.

- Morreu? E tu não choras a sua morte?

- Claro que choro a sua morte! - protestei. - A verdade, porém, é que já estive nas mãos dos Gregos o tempo suficiente para perceber que uma cativa tem de secar as lágrimas e aguçar o seu engenho.

Criseida parecia perplexa com a minha resposta.

- Porque é que nos trouxeram para aqui, prima? Virei-me para o oficial mirmidão.

- Eh, soldado! Porque é que nos trouxeram para aqui?

O homem riu-se do meu tom, mas respondeu afavelmente.

- O Segundo Exército ofereceu um banquete em honra do rei supremo de Micenas. Estão a dividir os despojos. As mulheres aqui presentes vão ser distribuídas pelos reis.

Esperámos aquilo que nos pareceu uma eternidade. Demasiado cansadas para falar, Criseida e eu sentámo-nos no chão. De quando em quando, um guarda entrava e levava um pequeno grupo de mulheres, consoante umas fitas coloridas que traziam nos pulsos; eram, todas elas, raparigas muito bonitas. Não havia entre nós nenhuma velha, tão-pouco rameiras ou caras feias ou raparigas que, de tão magrinhas, mais parecessem esqueletos. Contudo, nem eu nem Criseida tínhamos fitas nos pulsos. Cada vez havia menos mulheres na sala e nós continuávamos a ser ignoradas. Por fim, só nós duas restávamos.

Um guarda entrou e tapou com véus os nossos rostos antes de nos conduzir à sala contígua. Através de uma malha muito fina, consegui ver um imenso clarão, produzido, aparentemente, por um milhar de lamparinas e archotes, um dossel de tecido por cima das nossas cabeças e, por todo o lado, um mar de homens. Estavam sentados em bancos à volta de mesas, bebiam vinho; os criados andavam numa azáfama, correndo de um lado para o outro. Fizeram-nos avançar até um comprido estrado onde se encontrava a mesa de honra.

Haveria talvez vinte homens sentados àquela mesa, de um lado apenas, de frente para todos os outros comensais. A meio, numa cadeira de costas altas, estava sentado um homem que muito se assemelhava ao Pai Zeus das minhas fantasias de menina. Tinha uma cabeça nobre, altiva, carrancuda; a cabeleira negra com vestígios de cinza, requintadamente encaracolada, derramava-se como uma cascata sobre a cintilante indumentária; uma imponente barba, entrelaçada com fios de ouro, caía-lhe sobre o peito e pedras preciosas cintilavam em alfinetes ocultos. Um par de olhos escuros examinava-nos com um ar pensativo, enquanto uma aristocrática mão branca mexia absorta no bigode. Era o imperial Agamémnon, rei supremo de Micenas e da Grécia, rei dos reis. Anquises, ao pé dele, pareceria um servo e não um rei.

Afastei dele os olhos a fim de perscrutar os outros homens, preguiçosamente recostados nas suas cadeiras. Aquiles estava sentado à esquerda de Agamémnon, embora não fosse fácil reconhecê-lo. Eu vira-o de armadura vestida, imundo e violento. Agora, estava na companhia de reis. O peito nu, glabro, brilhava sob um maciço colar de ouro e pedras preciosas que lhe caía dos ombros; os braços reluziam de braceletes, os dedos de anéis. Fizera a barba, e o seu cabelo, brilhante como ouro, fora penteado para trás sem grandes requintes; requintados eram os brincos de ouro que lhe pendiam das orelhas. Os seus olhos amarelos revelavam agora uma limpidez e uma tranquilidade novas; aquela cor de olhos, absolutamente invulgar, ressaltava poderosamente sob as sobrancelhas e as pestanas fortemente marcadas e também porque ele pintara os olhos ao estilo cretense. Pestanejei, desviei dele o meu olhar, confusa. Inquieta.

Ao lado dele, estava um homem com um aspecto verdadeiramente nobre, muito direito na sua cadeira, os caracóis cor de fogo coroando uma testa muito alta e larga; era branca e delicada a sua pele. Sob umas sobrancelhas surpreendentemente escuras, os seus belos olhos cinzentos irradiavam um brilho penetrante. Nunca antes vira olhos tão fascinantes como aqueles! Quando o meu olhar percorreu o seu peito nu, apiedei-me dele: quantas cicatrizes! O rosto parecia ser a única parte do seu corpo que escapara aos golpes inimigos.

À direita de Agamémnon, estava outro homem ruivo, um indivíduo com um ar desleixado e consternado que não tirava os olhos da mesa. Quando ergueu a taça para beber, reparei que a sua mão tremia. O seu vizinho era um velho com a mais régia das aparências, alto e erecto, com uma barba tão branca como a prata e uns olhos azuis muito grandes. Embora estivesse vestido de uma forma muito simples (não mais do que uma túnica de linho branco), tinha os dedos cravejados de anéis. O gigante Ájax vinha logo a seguir; uma vez mais tive de pestanejar, pois o príncipe que agora estava a ver não se parecia nada com o homem que libertara o corpo do meu pai da pilha de cadáveres.

Mas os meus olhos depressa se cansaram dos seus rostos, todos eles tão enganosamente nobres. O guarda fez com que Criseida avançasse e logo lhe tirou o véu. Senti o meu estômago revolver-se. A minha prima ficava tão bonita com aquela indumentária estrangeira, roupas gregas tiradas de um qualquer baú grego, roupas que em nada se assemelhavam aos vestidos compridos e direitos que cobriam as mulheres de Lirnesso do pescoço aos tornozelos. Em Lirnesso, nós escondíamo-nos de todos os homens, excepto dos maridos; as mulheres gregas - isso era mais do que evidente - vestiam-se como prostitutas. Escarlate de vergonha, Criseida tapou os seios nus com as mãos, mas por pouco tempo; o guarda encarregou-se de os destapar. Agora, todos aqueles homens poderiam ver quão fina era a sua cintura e quão perfeitos eram os seus seios. Agamémnon já não parecia o Pai Zeus; agora, todo ele era Pã. Virou-se para Aquiles.

- Pela Mãe, que preciosidade... Aquiles sorriu.

- Ainda bem que gostas dela, Agamémnon. A rapariga é tua - uma prova evidente da estima que o Segundo Exército tem por ti. Chama-se Criseida.

- Vem cá, Criseida. - A elegante mão branca fez um gesto imperativo; a minha prima não se atreveu a desobedecer.

- Vem, olha para mim! Não tenhas medo, rapariga, que eu não te faço mal. Com os dentes brancos cintilando, sorriu para ela e afagou-lhe depois o braço, aparentemente sem reparar que Criseida toda se encolhia. - Levem-na imediatamente para o meu navio.

Os guardas levaram Criseida. Agora era a minha vez. O guarda retirou-me o véu para que eu me exibisse naquele figurino indecente. Pus um ar tão altivo quanto possível, as mãos bem juntas ao corpo, o rosto inexpressivo. A vergonha era deles, não minha. Apercebendo-me da luxúria que inundava os olhos do rei supremo, obriguei-o a desviar o olhar. Aquiles nada disse. Movi um pouco as pernas para que as correntes retinissem. Agamémnon ergueu as sobrancelhas.

- Correntes? Quem ordenou tal?

- Fui eu - retorquiu Aquiles. - Não confio nela.

- Oh? - Uma única palavra e, no entanto, prenhe de sentido. - E de quem é ela?

É minha. Fui eu próprio que a capturei - disse Aquiles. Devias ter-me dado a escolher entre as duas - replicou Agamémnon, agastado. Fui eu quem a capturou, rei Agamémnon. Portanto, a rapariga é minha. Além disso, não confio nela. O nosso mundo grego sobreviverá sem mim, mas não sem ti. Tenho provas que chegam de que esta rapariga é perigosa.

Hum... perigosa ... disse o rei supremo, nada convencido. Depois, suspirou. - Nunca vi um cabelo assim! Uma mistura de fogo e ouro! Nem uns olhos assim, tão azuis! - E suspirou de novo. - Mais bela do que Helena!

O indivíduo nervoso que estava à direita do rei supremo deu um murro na mesa com tal violência que as taças de vinho até saltaram.

- Helena não tem igual! - exclamou.

- Sim, meu irmão, nós sabemos - disse Agamémnon, paciente. - Acalma-te. Aquiles acenou para o oficial mirmidão.

- Leva-a.

Esperei sentada numa cadeira da sua cabina, as pálpebras pesadas, embora não me atrevesse a permitir-me um momento que fosse de sono. Haverá mulher mais indefesa do que aquela que tranquilamente se entrega ao doce chamamento do sono?

Muito tempo depois, Aquiles apareceu na cabina. Quando ergueu a tranca, eu estava a dormitar, apesar de toda a minha determinação; assustada, dei um salto e entrelacei as minhas mãos com toda a força. Chegara o momento do ajuste de contas. Mas Aquiles não parecia consumido de desejo; ignorou-me, encaminhou-se para o baú e abriu-o. Depois, tirou o colar, os anéis, as braceletes, o cint