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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CIDADE DOS BILIÕES / Júlio Verne
A CIDADE DOS BILIÕES / Júlio Verne

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

 

O QUARTETO CONCERTANTE

Uma viagem, em principiando mal, é raro acabar bem. Pelo menos, é esta uma opinião que teriam direito de sustentar quatro músicos, cujos instrumentos estão caídos no chão. Com efeito, o coach (1), onde haviam sido obrigados a meter-se na última estação do caminho de ferro, acaba de virar-se de repente de encontro ao talude da estrada.

— - Não há ninguém ferido? — - pergunta o primeiro, que se pôs agilmente em pé.

— - Eu cá apenas apanhei uma arranhadela! — -responde o segundo, enxugando uma das faces mosqueada por um estilhaço de vidro.

— - E eu uma escoriação! — - acrescenta o terceiro, que perde algum sangue pela barriga da perna esquerda.

Tudo, afinal, de pouca gravidade.

— - E o meu violoncelo? — - exclama o quarto. — - Deus queira que não sucedesse nada ao meu violoncelo.

Por fortuna, os estojos estão intactos. Nem o violoncelo, nem as duas rabecas, nem a violeta, sofreram com o choque, e quando muito bastará afiná-los de novo pelo diapasão. Instrumentos de bom fabrico, não é verdade?

— - Maldita via férrea, que nos deixou engasgados a meio caminho!- — -prossegue um deles.

— - Maldita carruagem, que nos atirou abaixo, mesmo no meio de uma campina deserta! — - ajunta o outro.

 

*1. Coche, carruagem.

 

— - Mesmo quando começa a anoitecer! — - acrescenta o terceiro.

— - O que vale é o nosso concerto estar só anunciado para depois de amanhã — - observa o quarto.

Segue-se a troca de várias observações jocosas entre os artistas, que levam o desastre a rir. E um deles, seguindo o hábito inveterado de arranjar piadas com as locuções musicais, exclama:

— - Entretanto, lá está o nosso coach caído sobre si, que até faz dó.

— - Pinchinat! — -grita um dos companheiros.

— - E a minha opinião — - continua Pinchinat — - é que há acidentes de mais na clavel

— - Tu calas-te?

— - E que não era mau que nós transportássemos os nosos trechos para outro coach! — - acrescenta audaciosamente Pinchinat.

Sim! Com efeito, os acidentes são de sobejo, como o leitor vai já saber.

Todo este diálogo é em francês. Mas podia ser em inglês, visto que o quarteto fala a língua de Walter Scott e de Cooper como a sua própria, graças a numerosas peregrinações pelos países de origem anglo-saxónica. Assim, é nessa língua que eles passam a interpelar o condutor do coach.

O pobre diabo foi quem mais sofreu, por ter sido arrojado da almofada no momento em que se quebrou o eixo do jogo dianteiro. Em todo o caso, o seu desastre reduz-se a diversas contusões menos graves do que dolorosas. Não pode andar por causa de uma torcedura. É, pois, indispensável encontrar para ele qualquer meio de transporte até ao mais próximo povoado.

Foi um verdadeiro milagre o acidente não ter provocado perda de vidas. A estrada serpenteia através de uma região montanhosa, passando rente a profundos despenhadeiros, orlada em muitos pontos de torrentes tumultuosas, cortada por vaus dificultosamente transponíveis. Se o jogo dianteiro se houvesse escangalhado alguns passos mais a jusante, não sofre dúvida que o veículo teria rebolado pelas escarpas daqueles abismos, e talvez que ninguém tivesse sobrevivido à catástrofe.

Seja como for, o que é certo é que o coach está inutilizado. Um dos dois cavalos, que bateu com a cabeça num pontiagudo pedregulho, agoniza, deitado no chão. O outro está gravemente ferido numa das ancas. Portanto, era uma vez carruagem e era uma vez parelha.

Em suma, a fortuna não tem sido muito favorável aos quatro artistas naqueles territórios da Baixa Califórnia. Dois acidentes em vinte e quatro horas... Safa! Só com muita filosofia...

Nessa época, São Francisco, capital do Estado, estava em comunicação directa, pela via férrea, com San Diego, situado quase na fronteira da velha província de Califórnia. Era para esta importante cidade, onde daí a dois dias deviam dar um concerto muito anunciado e esperado com impaciência, que se dirigiam os quatro viajantes. Tendo na véspera partido de São Francisco, o comboio estava apenas a umas cinquenta milhas de San Diego quando ocorreu o primeiro contratempo.

Sim, contratempo, como diz o mais jovial do grupo, e é justo que se tolere esta expressão da parte de um antigo laureado em solfejo.

E se houve uma paragem forçada na estação de Pas-chal, foi por a via férrea ter sido arrebentada por uma cheia repentina numa extensão de três a quatro milhas. Era impossível ir alcançar o rail-road (1) duas milhas adiante; não se organizara ainda o transbordo porque o acidente se dera havia ainda poucas horas.

Tiveram de escolher: ou esperar que a via fosse reparada ou alugar, num lugarejo próximo, uma carruagem qualquer que os levasse a San Diego.

Foi esta última solução a adoptada pelo quarteto.

Numa aldeia vizinha descobriu-se uma espécie de landau velho, com ferragens que traquinavam, comido de caruncho, absolutamente destituído de comodidade. Combinaram o preço com o alquile, engodaram o condutor com a promessa de uma boa gorjeta,

 

*1. Via férrea.

 

após o que se puseram a caminho com os instrumentos e sem bagagens. Eram cerca de duas horas da tarde. Até às sete da noite a viagem prosseguiu sem grandes dificuldades nem grande fadiga. Mas acaba de ocorrer segundo contratempo: virou-se o coach, e com tanta infelicidade que é impossível continuarem a servir-se dele para prosseguir a caminhada.

E o quarteto encontra-se a umas boas vinte milhas de San Diego!

Mas também porque é que se aventuraram através das inverosímeis regiões da Baixa Califórnia esses quatro músicos, franceses de nacionalidade, e, o que é mais, parisienses de gema?

Porquê? Vamos dizê-lo sumariamente e pintar com alguns traços os quatro virtuosi, que o acaso, esse caprichoso distribuidor de papéis, ia introduzir no meio das personagens desta extraordinária história.

No decurso desse ano — - não nos seria fácil determiná-lo, embora com trinta anos de erro — -os Estados Unidos da América duplicaram o número das estrelas do pavilhão federativo. Acham-se em plena expansão do seu poder industrial e comercial, depois de terem anexado o domínio do Canadá até aos limites extremos do mar polar, as províncias mexicanas, guatemaltecas, hondure-nhas, nicaraguanas e costa-riquenhas até ao canal do Panamá.

Ao mesmo tempo, o sentimento da arte desenvolveu-se entre esses ianques invasores, e se os seus produtos se limitam a uma parcela restrita nos domínios do belo, se o seu génio nacional se mostra ainda um tanto rebelde em assuntos de pintura, de escultura e de música, pelo menos espalhou-se universalmente entre eles o gosto pelas belas obras. À força de comprar, a peso de ouro, os quadros dos mestres antigos e modernos para construir galerias particulares ou públicas, à força de contratar por preços elevadíssimos os mais afamados artistas líricos ou dramáticos, os instrumentistas de mais reconhecido talento, eivaram-se do sentimento das coisas belas e nobres, o qual durante tanto tempo lhes faltara.

Pelo que respeita à música, foi com a audição dos Meyerbeer, dos Halévy, dos Gounod, dos Berlioz, dos Wagner, dos Verdi, dos Massé, dos Saint-Saêns, dos Rayer, dos Massenet, dos Délibes, os célebres compositores da segunda metade do século xix, que começaram por se apaixonar os diletantes do Novo Continente. Depois, pouco a pouco, chegaram à compreensão da obra mais penetrante dos Mozart, dos Haydn, dos Beethoven, remontando às origens dessa arte sublime, que se difundia a jorros no decurso do século XVIII. Depois das óperas, os dramas líricos; depois dos dramas líricos, as sinfonias, as sonatas, as suites d'orchestre. E precisamente no momento a que aludimos, a sonata faz furor nos diversos Estados da União. Eram capazes de a pagar a um tanto por nota, vinte dólares por mínima, dez dólares por semínima, cinco dólares por colcheia.

Foi então que, conhecendo esta extraordinária predilecção, quatro instrumentistas de grande mérito tiveram a ideia de ir em cata da glória e da fortuna aos Estados Unidos da América. Quatro bons companheiros, antigos discípulos do Conservatório, muito conhecidos em Paris, muito apreciados nas audições da chamada «música de câmara», até essa época pouco divulgada na América do Norte. Com que rara perfeição, com que maravilhoso conjunto, com que sentimento profundo eles interpretavam as obras de Mozart, de Beethoven, de Mendelssohn, de Haydn, de Chopin, escritas para quatro instrumentos de corda, um primeiro e um segundo-violino. uma violeta, um violoncelo! Sem grande ruído, não é assim? Sem coisa alguma que revelasse artifício de técnica, mas que execução irrepreensível, que incomparável virtuosidade! O êxito daquele quarteto é tanto mais explicável porquanto nessa época começavam a causar fadiga as formidáveis orquestras harmónicas e sinfónicas. Que a música não passe de uma agitação artisticamente combinada das ondas sonoras, de acordo. Mas cumpre em todo o caso não soltar essas ondas em tempestades atroadoras.

Afinal, os nossos quatro instrumentistas resolveram iniciar os Americanos nos suaves e inefáveis gozos da música de câmara. Partiram de companhia para o Novo mundo, e durante os últimos dois anos os diletantes ian-ques não foram para eles avaros de hurras nem de dólares. As suas matinées ou os seus saraus musicais foram extremamente concorridos. O Quarteto Concertante — -era esta a denominação que lhes davam — - era pouco para os convites dos particulares opulentos. Sem eles não havia festa, nem reunião, nem partida, nem five o'clock (1), nem até garden-parties (2) que merecessem ser apontados à atenção pública.

Com uma voga destas, o quarteto tinha embolsado quantias avultadas, as quais, acumuladas que fossem nos cofres do Banco de Nova Iorque, já constituiriam um bonito capital. Mas, força é confessá-lo, estes nossos parisienses americanizados gastam à larga! Nem lhes passa pela ideia entesourar, a esses príncipes da arcada, a esses reis das quatro cordas! Tomaram gosto a essa existência de aventuras, certos como estão de encontrarem, em toda a parte e sempre, um bom acolhimento e um bom lucro, correndo de Nova Iorque a São Francisco, de Quebeque a Nova Orleães, da Nova Escócia ao Texas, enfim um tudo-nada de boémios — - dessa Boémia da juventude, que é deveras a mais antiga, a mais encantadora, a mais invejável, a mais amada das províncias da velha França!

Ou muito nos enganamos ou chegou o ensejo de os apresentar individualmente e pelos seus nomes àqueles dos nossos leitores que nunca tiveram e nunca terão mesmo o prazer de os ouvir.

Yvernés — - o primeiro-violino — -, trinta e dois anos, estatura mais que meã, tendo tido a esperteza de se deixar ficar magro, cabelos louros com as pontas encaracoladas, cara lisa, olhos grandes e pretos, mãos compridas, feitas para se desenvolverem desmesuradamente na haste do Guarnerius, atitude elegante, gostando de se envolver numa capa de cor escura, preferindo pôr na cabeça o chapéu alto de pêlo de seda, um pouco impostor talvez, e com certeza o mais desmazelado do grupo, o menos preocupado com as questões de interesse,

 

*1. Five o'clock tea, chá das cinco.

  1. Festa dada num parque ou jardim; recepção.

 

prodigiosamente artista, admirador entusiasta do belo, virtuose de grande talento e de grande futuro.

Frascolin — - o segundo-violino — -, trinta anos, baixo e tendendo para a obesidade, o que o enfurece, de cabelos castanhos, barba da mesma cor, cabeça grande, olhos pretos, nariz comprido de ventas móveis, com um sinal vermelho no sítio em que prime a luneta de míope com aros de ouro, sem a qual não pode passar, excelente rapaz, obsequiador, serviçal, aceitando as maçadas para livrar os companheiros, servindo de guarda-livros do quarteto, pregando a economia e sem nunca ser atendido, sem inveja de espécie alguma pelos triunfos do seu colega Yvernés, não tendo a ambição de se elevar até à estante de violino solista, músico distinto em todo o caso — - e neste momento envolto num amplo guarda-pó por cima do seu vestuário de viagem.

Pinchinat — - violeta, ou alto, que por isso recebe em geral o tratamento de Sua Alteza — -, vinte e sete anos, o mais novo dos quatro, o mais folgazão também, um desses tipos incorrigíveis que toda a vida ficam garotos, cabeça fina, olhos cheios de espírito e de vivacidade, trunfa deitando para ruiva, bigodes de guias compridas, língua a estalar entre os dentes brancos e acerados, obstinado amador de petas e de calembures, pronto no ataque como na réplica, com o cérebro em constante ebulição, o que ele atribui à leitura das diferentes claves de dó que exige o seu instrumento — - «um verdadeiro enxoval de noiva», dizia ele — -, de um bom humor inalterável, divertindo-se com as partidas, sem se ralar com os dissabores que elas poderiam ocasionar aos colegas, e por isso vezes sem conto repreendido, admoestado, atazanado pelo chefe do Quarteto Concertante.

Porque há entre eles um chefe, o violoncelista Sebastião Zorn, chefe pelo talento e também pela idade — - cinquenta e cinco anos, baixo, gorducho, louro ainda, de cabeleira opulenta, afinando em belezas sobre os temporais, de bigodeira eriçada, perdendo-se na mata das suíças, que terminam em bico, a tez cor de tijolo cozido, os olhos luzindo através das lentes dos óculos, que ele duplica ainda com uma luneta quando decifra a música, de mãos rechonchudas, com a destra, habituada aos movimentos ondulatórios do arco, adornada de enormes anéis no anular e no mínimo.

Quer-nos parecer que este ligeiro debuxo basta para pintar o homem e o artista. Mas ninguém aperta impunemente quarenta anos uma caixa sonora entre os joelhos. Uma existência inteira ressente-se desse facto; dele se deixa influir o carácter. A maioria dos violoncelistas são tagarelas e rabugentos, amigos de falar muito alto e com extrema verbosidade, mas em todo o caso sem lhes faltar espírito. E assim é Sebastião Zorn, a quem Yvernés, Frascolin e Pinchinat de bom grado cederam a direcção das suas excursões musicais. Deixam-no falar e fazer o que quer, porque o acham entendido na matéria. Habituados às suas maneiras imperiosas, levam-nas à troça quando elas lhes parecem «descompassadas» — - o que é deplorável num executante, como observa o irreverente Pinchinat. A composição dos programas, a correspondência com os empresários, são encargos múltiplos que eles lhe deixaram e que permitem ao seu temperamento agressivo o manifestar-se em milhares de circunstâncias. Onde ele não intervinha era na questão das receitas, na administração dos fundos da sociedade, confiada aos cuidados do segundo-violino e primeiro guarda-livros, o minucioso e meticuloso Frascolin.

Está apresentado o quarteto, como se estivesse à beira de um tablado. Conhecem-se os tipos, se não muito originais, pelo menos muito distintos, que o compõem. Permita o leitor que se desenrolem os incidentes desta singular história; verá que figura nela reserva o destino a esses quatro parisienses, os quais, depois de haverem recolhido tantos bravos pelos Estados da Confederação americana, iam ser transportados... Mas não antecipemos, «nada de apressar o andamento», como dizia Sua Alteza, e nada de impaciências.

Pelas oito horas da noite, achavam-se pois os quatro parisienses numa estrada deserta da Baixa Califórnia, junto aos destroços da sua «carruagem virada» — - música de Boieldieu, disse Pinchinat. Se Frascolin, Yvernés e ele se resignaram filosoficamente ao contratempo, se ele lhes inspirou mesmo alguns gracejos do ofício, admita-se que é esta uma bela ocasião para o chefe do quarteto desatar num dos seus acessos de cólera. Que querem? O vio-loncelista tem o coração ao pé da boca, como se costuma dizer. Por isso Yvernés presume que ele descenda da linhagem do Ájax e dos Aquiles, os dois ilustres rabugentos da Antiguidade.

Antes que nos esqueça, mencionaremos que, se Sebastião Zorn é bilioso, Yvernés fleumático, Frascolin pacífico, Pinchinat de uma jovialidade exuberante — - todos eles, excelentes colegas, experimentam uns pelos outros um afecto de irmãos. Sentem-se unidos — - união que a mínima discussão de interesse ou de amor-próprio não seria capaz de quebrar — --por uma comunidade de gostos emanados da mesma origem. Os seus corações, como os instrumentos de bom fabrico, conservam sempre uma perfeita afinação.

Enquanto Sebastião Zorn pragueja, apalpando o estojo do seu violoncelo para se certificar de que ele está são e salvo, Frascolin aproxima-se do condutor.

— - Então, meu amigo — - pergunta ele — -, que há-de a gente fazer, diga lá?

— - O que se faz — - responde o homem — - quando se não tem nem cavalos nem carruagem... Esperar...

— - Esperar que caiam do céu! — -exclama Pinchinat. — - E se não caírem...

— - Vão-se procurar — - observa Frascolin, que nunca perde o espírito prático.

— - Aonde? — - ruge Sebastião Zorn, que barafustava febrilmente a passear pela estrada.

— - Onde os há! — -replica o condutor.

— - Essa não é má, seu condutor! — - prossegue o violoncelista com uma voz que sobe pouco a pouco aos registos agudos. — - Isso é lá resposta que se dê! Não querem ver! Este desastrado ferra connosco no chão, dá cabo da carruagem, estropia a parelha, e não tem mais nada que dizer senão: «Arranjem-se lá como puderem!»

Arrastado pela sua loquacidade natural, Sebastião Zorn começa a espraiar-se numa série interminável de objurgatórias pelo menos inúteis, quando Frascolin o interrompe com estas palavras:

— - Deixa o caso por minha conta, meu velho Zorn. Depois, dirige-se de novo ao condutor:

— - Onde estamos nós, meu amigo?

— - A cinco milhas de Freschal.

— - Estação do caminho de ferro?

— - Não... É uma aldeia perto da costa.

— - E lá encontraremos uma carruagem?

— - Uma carruagem... qual! Só se for uma carroça...

— - Um carro de bois, como no tempo dos reis merovíngios! — - exclama Pinchinat.

— - Deixá-lo! — -diz Frascolin.

— - Olha lá! — -acode Sebastião Zorn. — - É melhor que lhe perguntes se existe alguma estalagem nesse lugarejo de Freschal. Estou farto de andar a correr de noite...

— - Meu amigo — -interroga Frascolin — -, há alguma estalagem em Freschal?

— - Há... a estalagem onde devíamos fazer a muda.

— - E para irmos para essa aldeola basta seguir pela estrada fora?

— - Sempre a direito.

— - Partamos! — -clama o violoncelista.

— - Mas este pobre diabo, era uma crueldade deixá-lo aqui ao desamparo... e neste aperto — - observa Pinchinat. — - Diga-me uma coisa, meu amigo, não poderia... com uma ajudazinha...

— - É impossível! — - respondeu o condutor. — - Demais, eu cá prefiro aqui ficar... com o meu coach... Quando romper o dia, eu tratarei de me livrar desta...

— - Logo que chegássemos a Freschal — - prossegue Frascolin — -, poderíamos mandar-lhe socorro...

— - Sim... o hospedeiro bem me conhece, e não há-de deixar-me nestes assados.

— --Vamos ou não vamos — - exclama o violoncelista, que acaba de endireitar o estojo do seu instrumento.

— - Imediatamente — - replica Pinchinat. — - Mas, antes, uma ajuda ao condutor para o encostar ao talude da estrada...

Com efeito, é conveniente tirá-lo do meio da estrada, e como ele não pode servir-se das pernas, muito avariadas, Pinchinat e Frascolin pegam nele, transportam-no e encostam-no às raízes de uma grande árvore, cujas ramadas baixas formam, inclinando-se, um dossel de verdura.

— - Então vamos? — - urra Sebastião Zorn, pela terceira vez, depois de ter ligado o estojo às costas, por meio de uma dupla correia disposta ad hoc.

— - Pronto — - diz Frascolin. Depois, vira-se para o homem:

— - Fica então entendido... o hospedeiro de Freschal lhe mandará socorros. Entretanto, você não precisa de nada, não é assim, meu amigo?

— - Preciso — -respondeu o condutor — -, preciso de um bom trago de gin, se ainda há nas cabaças.

A cabaça de Pinchinat ainda está cheia e Sua Alteza de bom grado a oferece em sacrifício.

— - Com isto, amigo — - diz ele — -, não tem você esta noite frio... no interior!

Uma última objurgatória do violoncelista decide os colegas a porem-se a caminho. Por fortuna, deixaram as bagagens no furgão do comboio, em vez de as carregarem no coach. Se elas chegarem a San Diego com algum atraso, pelo menos os nossos músicos não terão o incómodo de as transportar até à aldeia de Freschal. Bem lhes bastam as caixas dos violinos, e sobretudo o estojo do violoncelo. É verdade que um instrumentista que se preza nunca se aparta do seu instrumento — - como um soldado não larga as suas armas, nem o caracol a sua concha.

 

O PODER DE UMA SONATA CACOFÓNICA

Não deixa de causar uma certa inquietação isto de andar de noite, a pé, por uma estrada desconhecida, por meio de uma região quase deserta, onde os malfeitores são geralmente menos raros do que os viajantes. Tal é a situação actual do quarteto. Os Franceses são corajosos, é sabido, e estes são-no tanto quanto possível. Mas entre a coragem e a temeridade existe um limite que a razão íntegra não deve ultrapassar. Afinal de contas, se o comboio não tivesse encontrado uma planície inundada, se o coach não se tivesse virado a cinco milhas de Freschal, os nossos instrumentistas não se veriam obrigados a aventurar-se de noite por esse caminho suspeito. Esperemos em todo o caso que nada lhes acontecerá de desagradável.

São oito horas, pouco mais ou menos, quando Sebastião Zorn e os seus companheiros tomam a direcção do litoral, segundo as indicações do condutor. Tendo de carregar apenas com os seus estojos de couro, muito leves e pouco incómodos, era de mau gosto que os violinistas se lamentassem. E a verdade é que se não lamentam, nem o avisado Frascolin, nem o jovial Pinchinat, nem o idealista Yvernés. Mas o violoncelista com a sua caixa do violoncelo — - uma espécie de armário atado às costas! Compreende-se, dado o seu carácter, que ache assunto de sobra para se enraivecer. Daí resultam grunhidos e gemidos, que se exalam sob a forma onomatopaica de «ah!», de «oh»!, de «safa!».

A escuridão é já profunda. Nuvens espessas andam à caça pelo espaço, esburacando-se de onde em onde por estreitos rasgões, por entre os quais surde uma Lua trocista, quase no quarto crescente. Sem que se saiba o motivo, a não ser pelo seu feitio rabugento e irritável, a loura Febe não tem a dita de agradar a Sebastião Zorn. Mostra-lhe o punho fechado, bradando:

— - Que diabo andas tu aí a fazer com esse perfil estúpido? Raios me partam se sei de nada mais imbecil do que aquela espécie de talhada de melão ainda verde, que anda a passear lá por cima!

— - Era melhor que a Lua nos olhasse de frente — - diz Frascolin.

— - E por que razão? — - pergunta Pinchinat.

— - Porque víamos melhor.

— - Ó casta Diana — - declama Yvernés — -, ó das noites pacífica cursora, ó pálido satélite da Terra, ó ídolo adorado do adorável Endimião...

— - Acabaste a balada? — - grita o violoncelista. — - Estes primeiros-violinos, quando lhes dá para dedilhar na prima...

- Estuguemos o passo — - recomenda Frascolin — -, quando não arriscamo-nos a dormir ao relento, à luz das estrelas...

— - Se as houvesse... e a faltar ao nosso concerto em San Diego! — - observa Pinchinat.

— - Uma ideia de arromba, sim senhor! — - exclama Sebastião Zorn, sacudindo a sua caixa, que produz um som gemebundo.

— - Mas essa ideia, meu velho — - diz Pinchinat — -, foste tu que a tiveste...

— - Eu?

— - Está claro que sim! Que pena não termos ficado em São Francisco, onde tínhamos de dar quebranto a uma data de ouvidos californenses!

— - Repito — - pergunta o violoncelista — -, porque é que nós partimos?

— - Porque tu quiseste.

— - Pois bem! Devo confessar que tive uma inspiração deplorável, e se...

— - Ah, meus amigos! — - diz então Yvernés, apontando para um certo ponto do céu, onde um ténue raio da Lua orla uma nuvem de um recamo esbranquiçado.

— - Que há de novo, Yvernés?

— - Ora vejam se aquela nuvem não se desenha em forma de dragão, com as asas abertas, e uma cauda de pavão semeada com os cem olhos de Árgus!

É provável que Sebastião Zorn não possua aquele poder de centuplicada visão, que distinguia o guardador da filha de ínaco, porque não repara numa profunda regueira, onde atola desastradamente o pé. Segue-se uma queda de bruços, de forma que, com a caixa às costas, parece um enorme coleóptero rojando-se pelo solo.

Fúria violenta do instrumentista — - e com razão às carradas — -, depois ralhos que caem sobre o primeiro-violino, pasmado para o seu monstro aéreo.

— - A culpa é de Yvernés! — - afirma Sebastião Zorn. — - Se eu não quisesse olhar para o seu excomungado dragão...

— - Agora já não é um dragão, agora é uma ânfora! Com uma fantasia mediocremente desenvolvida, pode a gente vê-la nas mãos de Hebe a deitar o néctar...

— -Vê lá não haja água de mais nesse néctar — - exclama Pinchinat — -, e não venha a tua encantadora deusa da juventude regar-nos com bátegas!

Era mais uma complicação, e o que é certo é que o tempo vai estando de chuva. Por isso, a prudência aconselha a estugar o passo, a fim de procurar abrigo em Freschal.

Levantam o violoncelista, furioso, põem-no em pé, a resmungar. O obsequioso Frascolin oferece-se para tomar conta da caixa. Sebastião Zorn recusa ao princípio. Separar-se do seu instrumento... um violoncelo de Gand & Bernardel, o mesmo é que dizer uma metade dele próprio... Mas não tem remédio senão aceder, e essa preciosa metade passa para as costas do serviçal Frascolin, o qual confia o seu leve estojo ao sobredito Zorn.

Põem de novo pernas a caminho. Durante duas milhas seguem a passo regular. Nem um incidente.

Caem alguns pingos, muito grossos, prova de que provêm de nuvens elevadas e tempestuosas. Mas a ânfora da linda Hebe de Yvernés não entorna mais nada, e os nossos quatro noctâmbulos estão com esperança de chegar a Freschal perfeitamente enxutos.

Em todo o caso têm ainda de tomar minuciosas precauções para evitar quedas por essa estrada escura, cheia de barrancos profundos, quebrando-se às vezes em torcicolos rápidos, orlada de largas anfractuosidades, passando rente de precipícios lôbregos, onde ressoa com estridor a trompa das torrentes. Com a sua disposição de espírito, Yvernés acha a situação poética, Frascolin acha-a inquietante.

Há igualmente motivo para recear certos encontros desagradáveis, que tornam bem problemática a existência dos viandantes pelos caminhos da Baixa Califórnia. O quarteto as únicas armas que possui são os arcos dos seus instrumentos, armas que poderão parecer insuficientes num país onde se inventaram os revólveres «Colt», extraordinariamente aperfeiçoados nessa época. Se Sebastião Zorn e os seus colegas fossem americanos, ter-se-iam munido de uma dessas portáteis engenhocas embainhadas num bolso especial das calças. A simples viagem em caminho de ferro de São Francisco a San Diego não a teria empreendido um verdadeiro ianque sem levar esse viático de seis tiros. Mas uns franceses não lhe sentiram a necessidade. Podemos até dizer que nem em tal pensaram, e talvez que ainda venham a arrepender-se.

Pinchinat vai na dianteira, espreitando os taludes da estrada. Nos sítios em que esta corre entre trincheiras altas à direita e à esquerda, é menos de recear a surpresa de uma arremetida súbita. Com os seus instintos de trocista, Sua Alteza sente veleidade de arranjar alguma partida de estalo aos companheiros, ânsias doidas de lhes pregar um bom susto, por exemplo, estacando de repente e murmurando com voz tremelicante de terror:

— - Esperem! Ali adiante... bem vejo... Preparam-se para fazer fogo!

Mas, quando o caminho imerge por uma floresta densa, por meio dessas mammoth-trees (1), dessas sequóias com cento e cinquenta pés de altura, esses vegetais gigantescos das regiões californianas, passam-lhe as cócegas de gracejar. Por detrás de cada um desses enormes troncos podem emboscar-se dez homens... Um clarão vivo seguido por uma detonação seca... o sibilar rápido de uma bala... de um momento para o outro lhes podem ferir a vista, o ouvido, e quem sabe se mais alguma parte do corpo? Em sítios destes, evidentemente azados para um ataque nocturno, nada mais natural do que uma espera. Se por fortuna não tiverem de travar conhecimento com os salteadores, é que esse estimável tipo desapareceu de todo em todo da América de Oeste, ou então é que está entretido em operações financeiras nos mercados do Velho e do Novo Continente! Que final este para os descendentes de Karl Moor e de João Sbogar! A quem poderão acudir estas reflexões, a não ser a Yvernés? «Decididamente», pensa ele, «a peça não é digna do cenário!»

De repente, Pinchinat estaca e queda-se imóvel.

Frascolin, que lhe segue na peugada, faz o mesmo.

Sebastião Zorn e Yvernés acercam-se logo deles.

— - Que é? — - perguntou o segundo-violino.

— - Pareceu-me ver... — -responde o violeta.

E desta vez não é por gracejo. Por entre as árvores moveu-se realmente um vulto.

— - Humano ou animal? — - interrogou Frascolin.

— - Sei lá!

Ninguém se atreve a dizer qual dos dois seria preferível. Aconchega-se o grupo, e todos arregalam os olhos, sem se mexerem, sem pronunciarem uma palavra.

Por uma clareira das nuvens jorram agora os raios lunares sobre os cabeços da obscura floresta e, através da ramaria das sequóias, escoam-se até ao solo. Num raio de uns cem passos, ficou visível toda a parte interior da floresta.

Pinchinat não foi vítima de uma alucinação. A massa que se enxerga, demasiado volumosa para um homem,

 

*1. Neste caso, árvores gigantescas.

 

só pode ser de um quadrúpede de grandes dimensões. Que quadrúpede será? Alguma fera! Fera deve ser, por certo... Mas de que espécie?

— - Um plantígrado! — - diz Yvernés.

— - Diabos levem a alimária! — - murmura Sebastião Zorn em voz baixa, mas impaciente. — - E por alimária é a ti que me refiro, Yvernés! Porque não hás-de tu falar como toda a gente? Que demónio vem a ser isso de plantígrado?

— - Um animal que assenta no chão as próprias plantas! — - explica Pinchinat.

— - Um urso! — -elucida Frascolin.

É, com efeito, um urso, exemplar dos grandes. Não se encontram nem leões, nem tigres, nem panteras naquelas florestas da Baixa Califórnia. Os seus hóspedes habituais são os ursos, com os quais é quase sempre desagradável travar relações.

Não é de espantar que aos nossos parisienses ocorra a ideia unânime de ceder o campo ao plantígrado. Demais a mais, o bicho está em sua casa... Por isso, o grupo aconchega-se mais, movendo-se às recuadas, fazendo sempre frente ao animal, lentamente, serenamente, sem parecer que foge.

O bicho segue a passo miúdo, agitando as patas dianteiras como uns braços de telégrafo, saracoteando-se sobre as ancas como manola em passeio. Ganha gradualmente terreno, e começa a apresentar demonstrações hostis — - gritos rouquenhos, um bater de queixadas que não é nada tranquilizador.

— - Se nós nos safássemos, cada um para seu lado? — - propõe Sua Alteza.

— - Não caiamos nessa! — -discorda Frascolin. — - Um de nós era logo apanhado e pagava por todos!

Não se cometeu semelhante imprudência, a qual evidentemente se arriscava a ter consequências desastrosas.

Assim chega o quarteto, em grupo cerrado, ao limite de uma clareira menos escura. O urso aproximou-se uns dez passos apenas. Parecer-lhe-á o local propício para uma agressão? É provável, porque os urros redobram e o bicho apressa o andamento.

Recuo precipitado do grupo, e recomendações mais instantes do segundo-violino:

— - Tenham sangue-frio... sangue-frio, meus amigos!

Atravessada a clareira, tornam a acolher-se à sombra do arvoredo. Mas aí não é menor o perigo. Cosendo-se com os troncos, pode o animal formar um pulo sem possibilidade de prevenir o ataque; e era isso exactamente o que ele ia fazer quando, de repente, cessam os terríveis grunhidos e ele afrouxa o passo...

A sombra espessa encheu-se de uma música penetrante, um largo expressivo, no qual a alma de um artista se revela toda inteira.

É Yvernés, que, tendo sacado o violino do estojo, o faz vibrar sob a carícia potente do seu arco. Uma ideia de génio! E porque é que uns músicos não pediriam à música a sua salvação? Acaso as pedras, movidas pelos acordes de Anfião, não vinham por seu moto próprio arrumar-se em roda de Tebas? Acaso as bestas-feras, amansadas pelas inspirações líricas de Orfeu, não corriam a curvar-se-lhe aos pés? É pois de crer que esse urso da Califórnia, sob o influxo de predisposições atávicas, seja tão artisticamente dotado como os seus congéneres da Fábula, pois que se lhe abranda a ferocidade, dominam-no os seus instintos de melomaníaco e, à medida que o quarteto recua em boa ordem, o bicho segue-o, deixando escapar uns gritinhos de diletante. Por um triz que não clama: — - Bravo!

Passado um quarto de hora, Sebastião Zorn e os seus companheiros acham-se na orla do bosque. Transpõem-na, sem que Yvernés cesse um instante de rabecar...

O animal estacou. Parece que não tem tenção de seguir avante. Bate com as enormes patas de encontro uma à outra.

E então Pinchinat agarra também no seu instrumento e exclama:

— -A dança dos ursos! Vivo!

Depois, enquanto o primeiro-violino zangarreia com toda a força esse motivo tão conhecido, em tom maior, o violeta acompanha-o em falsete na terceira menor.

O animal desata então a dançar, erguendo a pata direita, erguendo a pata esquerda, saracoteando-se, contorcendo-se, e deixa o grupo afastar-se pela estrada fora.

— - Ora adeus! — - observa Pinchinat. — - Não passava de um urso de circo.

— - Deixá-lo! — -responde Frascolin. — - Este diabo deste Yvernés teve uma ideia esplêndida!

— - Piremo-nos... em allegretto — - replica o violonce-lista. — - E nada de olhar para trás.

São cerca de nove horas quando os quatro discípulos de Apolo chegam sãos e salvos a Freschal. Percorreram a marche-marche o último lanço de estrada, se bem que o plantígrado já não lhes venha no encalço.

Umas quarenta casas, ou antes, uns casebres de madeira, em torno de uma praça plantada de faias, eis a que se reduz Freschal, aldeola isolada a duas milhas da costa.

Os nossos artistas escoam-se por entre algumas habitações sombreadas por grandes árvores, desembocam numa praça, lobrigam ao fundo o campanário modesto de uma modesta igreja, formam um círculo, como se fossem executar algum trecho importante, e imobilizam-se naquele sítio, a fim de conferenciar.

— - Isto! Uma aldeia? — - diz Pinchinat.

— -Dar-se-á o caso que esperasses encontrar uma cidade no género de Filadélfia ou de Nova Iorque? — - replica Frascolin.

— - Mas a tal aldeia está no melhor do seu sono! — - acode Sebastião Zorn, encolhendo os ombros.

— - Não despertemos uma aldeia que dorme! — -suspira melodiosamente Yvernés.

— - Pelo contrário! Despertemo-la! — - exclama Pinchinat.

Com efeito — - a não ser que queiram passar a noite ao relento -, urge tomar essa resolução.

Porque, enfim, a terriola está absolutamente deserta, o silêncio é completo. Nem um contravento aberto, nem uma luz nas janelas. Podia erguer-se ali, nas melhores condições de repouso e de tranquilidade, o palácio de A Bela Adormecida.

— - Então... e a estalagem? — - pergunta Frascolin.

Sim... e a estalagem de que o condutor lhes falara, onde os viajantes poderão livrar-se de apertos e encontrar bom acolhimento e boa pousada? E o hospedeiro que mandaria a toda a pressa acudir ao infortunado coachman (1)? Dar-se-á o caso que o pobre diabo tenha sonhado aquelas coisas? Ou — - outra hipótese — - ter-se-iam perdido os quatro instrumentistas? Não será aquela a aldeia de Freschal?

Estas diversas perguntas exigem resposta peremptória. Por conseguinte, é indispensável interrogar um dos habitantes da terra e, para isso, bater à porta de um dos casebres — - à da estalagem, sendo possível, se um acaso feliz lha deparar.

Ali estão, pois, os quatro músicos operando um reconhecimento em volta da tenebrosa praça, cosendo-se com as frontarias, procurando descortinar uma tabuleta pendurada em qualquer parede... A respeito de estalagem, nem sombra dela.

Pois bem! À falta de estalagem, é inadmissível que não haja por aí alguma choupana hospitaleira, e, como não estão na Escócia, resolvem proceder à americana. Qual é o indígena de Freschal que recuse um ou mesmo dois dólares por cabeça em troca de uma ceia ou de uma cama?

- Vamos bater às portas — - propõe Frascolin.

— - A compasso — - acrescenta Pinchinat — -, a seis por oito!

Batessem embora a três ou a quatro tempos, que o resultado seria idêntico. Não há porta nem janela que se abra, e todavia o Quarteto Concertante dirigiu vigorosas intimações a uma dúzia de casas.

— - Enganámo-nos — - declara Yvernés. — - Isto não é aldeia, é mas é um cemitério, onde se dorme, sem dúvida, mas o sono eterno... Vox clamantis in deserto.

— - Ámen! — -respondeu Sua Alteza, com voz grossa de um chantre de catedral.

O que se há-de fazer, visto que se obstinam nesse silêncio completo? Continuar a jornada para San Diego?

 

*1. Cocheiro.

 

Mas eles estão mortos de fome e de cansaço, positivamente. E, depois, que caminho hão-de seguir, sem guia, numa noite escura como aquela? Procurar outra aldeia? Mas qual? A dar fé ao coachman, não há mais nenhuma nessa faixa do litoral... Eram capazes de se transviar ainda mais. O melhor é esperar pelo dia! Mas, também, isto de passar meia dúzia de horas ao desabrigo, debaixo de um céu que se carregava de nuvens densas e baixas, ameaçando resolver em bátegas furiosas, não era proposta que se fizesse — - mesmo a artistas.

Pinchinat teve então uma ideia. As ideias dele nem sempre são excelentes, mas abundam-lhe no cérebro. E, em todo o caso, esta agora obtém a aprovação do avisado Frascolin.

— - Meus amigos — - diz ele — -, porque é que não nos dará bom resultado para uma aldeia da Califórnia o expediente que tão bons resultados nos deu diante de um urso? Amansámos com um bocado de música aquele plantígrado... Despertemos estes campónios com um vigoroso concerto, onde não faremos economia de fortes nem de allegros...

— - Vale a pena tentar — - respondeu Frascolin. Sebastião Zorn nem mesmo deixou Pinchinat concluir

a frase. Tira o violoncelo do estojo, ergue-o sobre a ponta de aço, e em pé, visto não ter assento ao seu dispor, empunhando o arco, apresenta-se a extrair daquela carcaça sonora todas as notas que lá estão armazenadas.

Quase no mesmo instante, os companheiros ficam prontos a segui-lo até aos extremos limites da arte.

— - Quarteto em si bemol de Onslow — - diz ele. — - Vamos lá! Um compasso de espera!

Esse quarteto de Onslow, sabiam-no eles de cor, e executantes de primeira ordem não têm necessidade de luz para girar com os dedos hábeis pelos braços de um violoncelo, de duas rabecas e de uma violeta.

Ei-los, pois, que se abandonam à sua inspiração. Talvez que nunca houvessem tocado com mais talento e mais alma nos casinos e nos teatros da Confederação americana. Pelo espaço alastra-se uma harmonia sublime: a não serem surdos, que entes humanos poderiam resistir-lhe?

Estivessem muito embora num cemitério, como pretendeu Yvernés, sob o encanto de uma música destas, entreabrir-se-iam os túmulos, erguer-se-iam os mortos, bateriam palmas os esqueletos...

E, contudo, as casas permanecem cerradas, os dorminhocos não despertam. Termina o quarteto no rompante poderoso do final sem que Freschal dê indícios de vida.

— -Ah! Ele é isso! — - exclama Sebastião Zorn, no auge da fúria. — - O que eles querem é uma inferneira, como a que serve aos seus ursos, para os seus ouvidos de selvagens? Pois vá lá! Recomecemos! Mas tu, Yvernés, toca em ré, tu Frascolin, em mi, tu, Pinchinat, em sol. Eu cá fico em si bemol, e agora arcadas à valentona!

Que cacofonia! Que dilacerar de tímpanos! Faz lembrar aquela orquestra improvisada, dirigida pelo príncipe de Joinville numa aldeia desconhecida de uma província do Brasil! Dá ideia de uma horrível sinfonia executada em sanfonas — - parece Wagner tocado às avessas!

Em suma, a ideia de Pinchinat é excelente. O que não pôde conseguir uma admirável execução consegue-o aquela inferneira. Freschal começa a dar acordo de si. Iluminam-se de onde em onde as vidraças. Jorra luz de duas ou três janelas. Não estão mortos os habitantes da aldeia, visto que dão sinal de vida. Não são surdos, visto que ouvem e escutam...

— - Vão atirar-nos com batatas! — - diz Pinchinat, durante uma pausa, porque, à falta de tonalidade do trecho, o compasso foi escrupulosamente respeitado.

— - Tanto melhor... Comemo-las! — - respondeu o prático Frascolin.

E, sob a direcção de Sebastião Zorn, o concerto prossegue cada vez com mais ânsia. Depois, terminado que é por um vigoroso acorde perfeito em quatro tons diferentes, os artistas calam-se.

Não! Não são batatas que lhes atiram de vinte ou trinta janelas escancaradas: são aplausos, hurras, berros de hip! hip! hip! Nunca de tais delícias musicais se haviam enchido os ouvidos freschalianos! E não sofre dúvida que todas as casas estarão prontas a receber hospitaleiramente tão incomparáveis virtuosi.

Mas, enquanto eles se entregavam a esta fúria instrumental, adiantou-se alguns passos um novo espectador, que eles não viram chegar. Essa personagem apeou-se de uma espécie de char-à-bancs (1) eléctrico e deixou-se ficar a um recanto da praça. É um homem de elevada estatura e bastante corpulento, tanto quanto é possível avaliar-se na escuridão da noite.

Ora, enquanto os nossos parisienses perguntaram aos seus botões se, após as janelas, se irão abrir as portas para os receber — - o que parece pelo menos muito duvidoso — -, o recém-chegado acerca-se deles e diz em tom amável e em francês muito puro:

— - Meus senhores, sou um diletante, e acaba de deparar-se-me a boa fortuna de os aplaudir...

— - Durante este último trecho? — - replica ironicamente Pinchinat.

— - Não, meus senhores... durante o primeiro, e raras vezes tenho ouvido executar com mais talento esse quarteto de Onslow.

O sujeito é conhecedor, não há dúvida.

— - Meu caro senhor — - responde Sebastião Zorn em nome dos colegas — -, somos extremamente sensíveis aos seus cumprimentos... Se acaso o segundo trecho lhe deu cabo dos ouvidos, é porque...

— - Bem sei! — - respondeu o desconhecido, atalhando uma frase que ameaçava prolongar-se. — - Nunca ouvi desafinar com tanta perfeição. Mas percebi por que motivo assim procediam. Era para acordar esses bons habitantes de Freschal, que já tornaram a pegar no sono... Pois, meus senhores, o que tentavam alcançar deles por esse meio desesperado, permitam que eu lho ofereça...

— - A hospitalidade? — - pergunta Frascolin.

— - Sim, a hospitalidade, uma hospitalidade ultra-escocesa. Se não me engano, tenho na minha presença esse Quarteto Concertante, afamado em toda a nossa orgulhosa América, que não lhe tem regateado o entusiasmo...

— - Meu caro senhor — -julga dever dizer Frascolin — -,

 

*1. Veículo com bancos transversais.

 

penhora-nos deveras... E... essa hospitalidade, onde poderíamos encontrá-la com o seu auxílio?

— - Daqui a duas milhas.

— - Em outra aldeia?

— - Não... numa cidade.

— - Cidade importante?

— - Certamente.

- Perdão — - observa Pinchinat — -, disseram-nos que não havia cidade nenhuma antes de San Diego.

- Foi engano... que me custa a explicar.

— - Engano? — - repete Frascolin.

— - Sim, senhores, e, se quiserem acompanhar-me, prometo-lhes o acolhimento a que têm jus artistas do vosso valor.

- Eu cá sou de parecer que se aceite - declara

Yvernés.

- E eu também — - afirma Pinchinat.

— - Esperem... esperem lá! — - exclama Sebastião Zorn. . - Não vamos nós adiantar-nos ao chefe da orquestra!

- O que significa? — - pergunta o americano.

— - Que somos esperados em San Diego — - informa Frascolin.

- Em San Diego — - acrescenta o violoncelista — -, onde a municipalidade nos contratou para uma série de matinées musicais, a primeira das quais deve realizar-se amanhã, domingo...

- Ah!... — - replica o sujeito, num tom que denota

viva contrariedade.

Depois continua:

— - Isso não seja a dúvida, meus senhores. Num dia têm os senhores tempo de visitar uma cidade que vale a pena ver-se, e eu comprometo-me a mandá-los transportar à próxima estação, de modo que possam estar em San Diego à hora marcada.

A falar verdade, o convite é de seduzir, e vem bem a propósito. Apanha-se o quarteto com a certeza de um bom quarto num hotel — - e demais a mais com as considerações que lhes anuncia o obsequiador americano.

— - Aceitam, meus senhores?

- Aceitamos — - responde Sebastião Zorn, a quem a fome e a fadiga dispõem a acolher com todo o favor um convite deste género.

— - Fica entendido — - replica o americano. — - Vamos partir imediatamente... Daqui a vinte minutos teremos chegado, e estou convencido de que hão-de agradecer.

Escusado é dizer que, em seguida aos últimos hurras provocados pelo concerto infernal, as janelas das casas tornaram a cerrar-se. Apagadas as luzes, a aldeia de Fres-chal mergulhou de novo em profundo sono.

O americano e os quatro artistas acercam-se do char-à-bancs, metem-lhe dentro os instrumentos, sentam-se no interior, ao passo que o americano se instala na dianteira, ao pé do maquinista-condutor. Manobra-se uma alavanca, os acumuladores eléctricos funcionam, o veículo põe-se em movimento, e dentro em pouco toma grande velocidade, dirigindo-se para oeste.

Um quarto de hora depois aparece um vasto clarão esbranquiçado, uma difusão deslumbrante de raios lunares. Além há uma cidade, de cuja existência os nossos parisienses não suspeitavam.

O char-à-bancs pára e Frascolin exclama:

— - Até que enfim, estamos no litoral.

— - No litoral... não. É uma corrente de água que temos de atravessar...

— - Mas como? — - pergunta Pinchinat.

— - Por meio desta barcaça onde vai tomar lugar o char-à-bancs.

Com efeito, está ali um desses ferry-boats (1), tão numerosos nos Estados Unidos, no qual embarca o char-à-bancs com os seus passageiros. Indubitavelmente, esse ferry-boat é movido pela electricidade, por isso que não projecta vapor, e em dois minutos transpõe a corrente e vai atracar ao cais de uma doca ao fundo de um porto.

O chare-à-bancs segue o seu caminho por umas alamedas fora, penetra num parque, acima do qual uns aparelhos aéreos derramam uma claridade intensa.

No gradeamento do parque abre-se uma porta, que dá acesso para uma rua espaçosa e comprida,

 

*1. Barco que transporta passageiros e veículos.

 

calçada de lajedo sonoro. Cinco minutos depois, apeiam-se os artistas diante da escadaria de um hotel confortável, onde são recebidos com um alvoroço de bom agouro, mercê de uma palavra dita pelo americano. Conduzem-nos logo a uma mesa luxuosamente posta, onde ceiam com bom apetite, como é bem de supor.

Concluída a refeição, o mordomo leva-os a um quarto espaçoso, iluminado por lâmpadas de incandescência, que, pela disposição dos interruptores, se podem transformar em lamparinas discretas. Finalmente, deixando para o outro dia a explicação daquelas maravilhas, adormecem nas quatro camas dispostas nos quatro cantos do aposento, e ressonam com aquela extraordinária afinação que constitui a fama do Quarteto Concertante.

 

UM CICERONE TAGARELA

Logo às sete horas da manhã seguinte, ecoam pelo dormitório dentro estas palavras, ou antes, estes gritos, seguidos a uma clangorosa imitação do clarim — - coisa parecida com a alvorada num quartel:

— - Vá! Arriba! Pés no chão... e em dois tempos! — - vocifera Pinchinat.

Yvernés, o mais mandrião do quarteto, preferia levar três tempos — - até quatro — - a arrancar-se ao calor dos lençóis. Mas não tem remédio senão seguir o exemplo dos companheiros e deixar a posição horizontal pela posição vertical.

— - Não temos um minuto a perder... nem um minuto! — - observa Sua Alteza.

— - Exacto — - responde Sebastião Zorn — -, porque é amanhã que nos esperam em San Diego.

— - Ora adeus! — -replica Yvernés. — - Metade de um dia bastará para visitar a cidade deste amável americano.

— - O que me espanta — - acrescenta Frascolin — - é existir uma cidade importante nas imediações de Freschal! Como é que o nosso coachman se esqueceu de no-la indicar?

- O essencial é nós cá estarmos, minha velha clave de sol. — - diz Pinchinat — -, e o que é verdade é que cá estamos!

Por duas janelas rasgadas penetra a luz a jorros pelo quarto, e a vista espraia-se à distância de uma milha por uma rua soberba, ornada de arvoredo.

Os quatro amigos tratam de se arranjar num gabinete confortável — - tarefa rápida e fácil, porque ele possui todos os maquinismos mais modernos e aperfeiçoados: torneiras graduadas termomètricamente para água quente e água fria, bacias que se despejam por um balanceiro automático, esquentadores para banhos, aquecedores para os ferros, pulverizadores de essências perfumadas funcionando ao sabor dos hóspedes, ventiladores molinetes movidos por uma corrente voltaica, escovas mecânicas, a uma das quais basta apresentar a cabeça, a outras o fato ou as botas, para obter uma limpeza ou uma engraxadela completas.

Depois, espalhados por muitos pontos, além do relógio e das âmbulas eléctricas, que se patenteiam ao alcance da mão, botões de campainhas ou de telefones, pondo em comunicação instantânea com os diversos serviços do hotel.

E não só Sebastião Zorn e os seus companheiros podem corresponder-se com o hotel, mas também com os diferentes bairros da cidade, e talvez — - segundo a opinião de Pinchinat — - com qualquer das cidades dos Estados Unidos da América.

- Ou mesmo dos dois mundos — - acrescentou Yvernés.

Enquanto esperam ensejo de fazer essa experiência, eis que, às sete horas e quarenta e sete minutos, lhes é telefonada esta frase em língua inglesa:

— - Calistus Munbar apresenta os seus cumprimentos matinais a cada um dos dignos membros do Quarteto Concertante, e roga-lhes o obséquio de descerem, apenas estejam prontos, ao dining-room (1) do Excelsior Hotel, onde lhes servirão o primeiro almoço.

— - Excelsior Hotel! — - exclama Yvernés. — - O nome deste caravansará é soberbo!

— - Calistus Munbar é o nosso obsequioso americano — - observa Pinchinat. — - E o nome é esplêndido!

— - Meus amigos — - exclama o violoncelista, cujo estômago é tão imperioso como o seu dono — -, visto que o almoço está na mesa, tratemos de almoçar, e depois...

 

*1. Casa de jantar.

 

— - E depois... dêmos uma volta pela cidade. Mas que cidade será esta?

Como os nossos parisienses estivessem quase vestidos, Pinchinat responde telefonicamente que dentro de cinco minutos terão a honra de aceder ao convite do Sr. Calistus Munbar.

Com efeito, concluída a sua toilette, dirigem-se para um ascensor, que se põe em movimento e que os deposita no vestíbulo monumental do hotel. Ao fundo abre-se a porta do dining-room, sala espaçosa onde lampejam os dourados.

— - Meus senhores, aqui me têm completamente ao vosso dispor!

É o homem da véspera que pronuncia esta frase de nove palavras. O sujeito pertence a um certo tipo de indivíduos dos quais se pode dizer que se apresentam por si. Parece que a gente os conhece de há muito, ou, para empregar uma expressão mais exacta, que os conheceu toda a vida.

Calistus Munbar deve andar entre os cinquenta e os sessenta anos, mas não parece ter mais de quarenta e cinco. Estatura mais que mediana; um poucochinho pançudo; membros alentados e fortes; vigoroso e saudável, com grande firmeza nos movimentos. Arrebenta de saúde, se é lícito usar desta locução.

Sebastião Zorn e os seus amigos têm-se fartado de encontrar indivíduos deste tipo, que não é raro nos Estados Unidos. A cabeça de Calistus Munbar é enorme, esférica, com uma trunfa ainda loura e encaracolada, que se agita como a folhagem retorcida pela brisa; a tez é intensamente colorida; a barba, amarelada e muito comprida, bifurca-se no extremo; o bigode está rapado; a boca, arqueada para cima nas comissuras dos lábios, é sorridente, sobretudo zombeteira; os dentes são de marfim deslumbrante; o nariz, um pouco grosso na ponta, de narinas palpitantes, solidamente implantado na base da testa, com duas rugas verticais na parte superior, aguenta uma luneta, sustida por um fino fio de prata e flexível como um fio de seda. Por detrás das lentes lampejam uns olhos móveis, de íris esverdeada, de pupila cintilante.

A cabeça está ligada às espáduas por um pescoço de touro. O arcaboiço repousa solidamente sobre umas coxas carnudas, umas pernas aprumadas, uns pés um pouco deitados para fora.

Calistus Munbar traja uma jaleca muito larga, de fazenda em diagonal, cor de terra-japónica. Da algibeira lateral surde a ponta de um lenço com vinhetas. O colete é branco, muito aberto, com três botões de ouro.

De uma algibeira para a outra pende em festão uma cadeia maciça, tendo num dos extremos um cronometro, no outro um podómetro, sem falar nos berloques que tilintam no centro. Completa-se a ourivesaria com um rosário de anéis, que adornam as mãos grossas e rosadas. A camisa é de uma brancura imaculada, rígida e polida, constelada com três diamantes, sobrepujada por um colarinho largo e virado para baixo, sobre cujo cós se enrola uma gravata imperceptível, um simples galão avermelhado. As calças, de riscado, com pregas abundantes, caem afuniladas sobre umas botinas de laço, com fivelas de alumínio.

Quanto à fisionomia deste ianque, é ela expressiva ao mais alto ponto, aberta e franca — - a fisionomia dos homens que de nada duvidam e que têm visto muita coisa, como se costuma dizer. Este homem é com toda a certeza um fura-vidas e também um enérgico, como se reconhece pela tenacidade dos músculos, pela contracção aparente do sobrolho e do queixo. Finalmente, gosta de rir com estrondo, mas o seu riso é mais nasal que oral, uma espécie de casquinhada, o hennitus, apontado pelos fisiologistas.

Tal é Calistus Munbar. À entrada do quarteto, soergueu o enorme chapéu, onde não ficaria mal uma pluma à Luís XIII. Aperta a mão dos quatro artistas. Con-du-los para uma mesa onde ferve o bule, onde fumam as torradas tradicionais. Fala sem descanso, sem deixar intervalo para uma única pergunta — - talvez para evitar qualquer resposta — -, gabando os esplendores da sua cidade, a sua extraordinária nascença, monologando sem interrupção e, terminado o almoço, acabando o monólogo com estas palavras:

— - Venham, meus senhores, queiram seguir-me. Mas uma recomendação.

— - Que é? — - pergunta Frascolin.

— - É expressamente proibido escarrar nas nossas ruas...

— - Não temos esse costume — - protesta Yvernés.

— - Melhor! Poupam-se assim as multas!

— -Não escarrar... na América! — - murmura Pinchinat, num tom misto de surpresa e de incredulidade.

Difícil fora arranjar um guia e ao mesmo tempo um cicerone mais completo do que Calistus Munbar. Essa cidade, conhece-a ele a fundo. Não há palacete de cujo proprietário ele não saiba o nome, não há casa cujos moradores ele não conheça, não há transeunte que o não cumprimente com familiaridade simpática.

A cidade está regularmente construída. As avenidas e as ruas, ornamentadas com varandas por cima dos passeios, cortam-se em ângulos rectos, uma espécie de tabuleiro de xadrez. Acha-se a unidade no seu plano geométrico. Quanto à variedade, essa não escasseia, e tanto no estilo como nas acomodações anteriores, as habitações seguiram apenas como regra a fantasia dos arquitectos. Excepto em algumas ruas comerciais, as casas ostentam ares de palácios, com os seus pátios de honra flanqueados de pavilhões elegantes, a harmonia arquitectónica das suas fachadas, o luxo que se pressente no interior, os jardins, para não dizer os parques, dispostos nas traseiras. E, todavia, digno de reparo que as árvores, sem dúvida de plantação recente, não hajam ainda atingido o desenvolvimento completo. O mesmo acontece nos squares (1), dispostos na intersecção das principais artérias da cidade, atapetados de relvados de uma frescura perfeitamente inglesa, cujos maciços, em que se misturam as essências das zonas temperadas e tórridas, não aspiraram nas entranhas da terra bastante potência vegetativa. Esta particularidade natural apresenta, pois, um contraste frisante com a parte da América Oeste, onde abundam as florestas gigantes nas imediações das grandes cidades da Califórnia.

 

*1. Praças, rotundas.

 

O quarteto ia andando, a observar esse bairro da cidade, cada um segundo o seu feitio, Yvernés atraído pelo que não atrai Frascolin, Sebastião Zorn interessando-se no que não interessa Pinchinat — - todos, em suma, com a curiosidade excitada pelo mistério que envolve a cidade incógnita. Dessa diversidade de vistas deverá surdir um conjunto de reparos bastante justos. Além de que, ali têm Calistus Munbar, que tem resposta para tudo. Resposta, dizemos nós? Ele nem espera que o interroguem: fala, fala pelos cotovelos, o caso é dar-lhe corda. É um moinho de palavras, que gira com a mais leve aragem.

Um quarto de hora depois de terem saído do Excel-sior Hotel, diz Calistus Munbar:

— - Cá estamos nós na Terceira Avenida, e contam-se mais de trinta na cidade. Esta é a mais mercantil, é a nossa Broadway, a nossa Regent-Street, o nosso boulevard dos Italianos. Nestes armazéns, nestes bazares, encontra-se o supérfluo e o necessário, tudo o que podem exigir as existências que mais se inquietam com o bem-estar e as comodidades modernas!

— - Os armazéns vejo eu — - observa Pinchinat — -, mas de fregueses nem raça...

— - Talvez ainda seja muito cedo? — - lembra Yvernés.

— - A razão disso — - explica Calistus Munbar — - é que a maioria das encomendas se fazem telefonicamente ou mesmo telautogràficamente...

— - Isso quer dizer? — - pergunta Frascolin.

— - Quer dizer que nós empregamos frequentemente o telautógrafo, aparelho aperfeiçoado, que transporta a palavra escrita como o telefone transporta a palavra falada, sem nos esquecermos do cinetógrafo, que regista os movimentos, sendo para os olhos o que o fonógrafo é para os ouvidos, e o telefoto que reproduz as imagens. Esse telautógrafo oferece uma garantia mais séria do que o simples despacho, de que qualquer bicho-careta pode abusar. Podemos assinar elèctricamente cheques ou ordens de pagamento...

— - Até autos de casamento? — - inquire Pinchinat com ironia.

— - Com certeza, meu caro senhor. Porque é que uma pessoa não havia de casar pelo fio telegráfico?

— - E divorciar?

— - E divorciar! É até isso que dá mais gasto aos nossos aparelhos!

Estas palavras são acompanhadas por uma ruidosa gargalhada do cicerone, que faz tremelicar todas as bugigangas do colete.

— - O Sr. Munbar é alegre — - observa Pinchinat, partilhando da hilaridade do americano.

— - Sou... como uma revoada de tentilhões num dia de sol!

Neste sítio depara-se-lhes uma artéria transversal. É a Décima Nona Avenida, onde é banido todo o comércio. Assim como à primeira, sulcam-na numerosas linhas de tramway (1). Passam carruagens rápidas sem levantar um grão de poeira, porque a calçada, coberta com uma camada imputrescível de karry (2) e de jarrh (3) da Austrália — - e quem sabe se de pau-brasil — -, está tão polida como se tivesse sido esfregada com limalha. Além disso, Frascolin, grande observador de fenómenos físicos, verifica que ela ressoa debaixo dos pés como uma chapa de metal.

«Isto é que são trabalhadores de ferro!», diz ele consigo. «Agora até fabricam as calçadas de folha de ferro!»

E ia a pedir informações a Calistus Munbar, quando este exclamou:

— - Meus senhores, reparem neste palacete!

E aponta para uma vasta construção, de aspecto imponente, cujas alas salientes, limitando um pátio de honra, são reunidas por uma grade de alumínio.

— - Este palacete — - poderia dizer-se este palácio — - é habitado pela família de um dos principais indivíduos da cidade. Refiro-me a Jem Tankerdon, proprietário de minas inesgotáveis de petróleo no Ilinóis,

 

*1. Comboio de serviço exclusivo às linhas próximas das grandes cidades.

  1. Seringueira australiana (Eucalyptus diversicolor).
  2. Espécie de eucalipto (Eucalyptus marginata).

 

porventura o mais rico e, por conseguinte, o mais respeitável e o mais respeitado dos nossos concidadãos...

— - Muitos milhões? — - pergunta Sebastião Zorn com vivacidade.

— - Puf! — - sopra Calistus Munbar. — - O milhão é para nós o dólar corrente, e aqui contam-se às centenas! Nesta terra, não há senão nababos opulentíssimos. É isto que explica como em poucos anos os negociantes dos bairros mercantis fazem fortuna — - refiro-me aos negociantes por miúdo, porque os outros, os que negoceiam por grosso, desses não se encontra um para amostra neste microcosmo único no mundo...

— - E industriais? — - pergunta Pinchinat. — --Ausentes, os industriais!

— - E armadores de navios? — - pergunta Frascolin.

— - Também não há.

— - Então, capitalistas? — - insiste Sebastião Zorn.

— - Só capitalistas e negociantes em caminho de se tornarem capitalistas.

— - E então os operários? — - observa Yvernés.

— - Quando há necessidade de operários, vão-se buscar lá fora, meus senhores, e, quando o trabalho está acabado, vão-se embora, com as algibeiras quentes.

— - Ora, diga lá, Sr. Munbar — - diz Frascolin — -, sempre deve haver alguns pobres na sua cidade, quando mais não seja senão para não deixar acabar-se-lhes a raça?

— - Pobres, senhor segundo-violino? Não é capaz de encontrar nem meio!

— - Então a mendicidade é proibida?

— - Qual proibida! Nunca houve ensejo de a proibir, por isso que a cidade não é acessível aos mendigos. Isso é bom lá para as cidades da União, com os seus depósitos, os seus asilos, as suas work-houses (1) e as casas de correcção que lhes servem de complemento...

— - Querem ver que vai afiançar que não existem prisões?

— - Nem prisões, nem presos.

— - Mas os criminosos?

 

*1 Casas de trabalho.

 

— - Pede-se-lhes que se deixem ficar no Antigo e Novo Continente, onde a sua vocação acha condições mais vantajosas para se exercitarem.

— - Ora esta, Sr. Munbar! — - exclama Sebastião Zorn. — - A quem o ouve falar, parece que não estamos já na América?

— - Estava lá ontem, senhor violoncelista — - responde este pasmoso cicerone.

— - Ontem?! — -replica Frascolin, sem perceber o que pode exprimir aquela extraordinária frase.

— - Sem dúvida! Hoje, os senhores estão numa cidade independente, uma cidade livre, sobre a qual a União não tem direito nenhum, que se governa por si própria...

— - E que se chama? — - pergunta Sebastião Zorn, cuja irascibilidade natural começa a vir à superfície.

— - O nome? — - volve Calistus Munbar. — - Permitam-me que ainda lho não diga...

— - E quando o saberemos?

— - Quando tiverem acabado de a visitar, o que aliás ela considerará uma grande honra.

Esta reserva do americano é pelo menos singular. Em suma, isso pouco importa. Antes do meio-dia deve o quarteto ter terminado o seu curioso passeio, e, mesmo que eles só venham a saber o nome da cidade no momento em que a vão abandonar, é quanto basta, não é verdade? A única reflexão que ocorre é a seguinte: como é que uma cidade tão considerável ocupa um dos pontos da costa californiana sem pertencer à república federal dos Estados Unidos, e, por outro lado, como explicar que ao condutor do coach não passasse pela ideia o falar dela? O essencial, no fim de contas, é que dali a vinte e quatro horas os executantes tenham chegado a San Diego, onde lhes darão a palavra do enigma, se Calistus Munbar não se decidir a revelá-lo.

Esta personagem excêntrica recaiu na sua facúndia descritiva, sem deixar de mostrar que não deseja explicar-se mais categoricamente.

— - Meus senhores — -diz ele — -, estamos à entrada da Trigésima Sétima Avenida. Ora contemplem esta admirável perspectiva! Neste bairro também não há armazéns, nem bazares, nem esse movimento das ruas que denota a existência comercial. Apenas palacetes e habitações particulares, mas as fortunas aqui são inferiores às da Décima Nona Avenida. Capitalistas de dez a doze milhões...

— - Uns pelintras, está bem de ver! — - responde Pinchinat, cujos lábios desenham uma careta significativa.

— - Ora, senhor violeta — - replica Calistus Munbar — -, sempre é possível ser pelintra ao pé dos outros! Um milionário é rico em relação ao que não possui mais do que uns centos de mil francos! Mas não o é em relação àquele que possui cem milhões!

Já por diversas vezes os nossos artistas tiveram ocasião de notar que, de todas as palavras empregadas pelo cicerone, a palavra «milhão» é a que lhe acode mais frequentemente — - palavra prestigiosa como as que o são! Ele pronuncia-a intumescendo as faces com uma sonoridade metálica. Parece que lhe basta falar para cunhar moeda. Se não são diamantes que lhe jorram dos lábios, como da boca daquele afilhado das fadas que deixava cair pérolas e esmeraldas, são pelo menos moedas de ouro.

E Sebastião Zorn, Pinchinat, Frascolin e Yvernés continuam a percorrer a extraordinária cidade, cuja denominação geográfica ainda não conhecem. Tudo, ruas animadas pela concorrência de transeuntes, todos trajando com conforto, sem que os olhos sejam nunca desagradavelmente impressionados com os andrajos de um indigente. Por toda a parte tramways, carros, carretas, movidos pela electricidade. Algumas das principais artérias são providas de passeios movediços, actuados pela tracção de uma cadeia sem fim, por cima dos quais se anda como dentro de um comboio em movimento, participando da sua velocidade própria.

Também circulam carruagens eléctricas, rodando pelas calçadas com a suavidade de uma bola sobre o tabuleiro de um bilhar. Quanto a equipagens, no verdadeiro sentido da palavra, isto é, veículos puxados por cavalos, esses só se encontram nos bairros opulentos.

— - Olhem! Uma igreja! — - exclama Frascolin.

E mostra um edifício de contextura bastante pesada, sem estilo arquitectónico, uma espécie de pastelão erecto no meio de uma praça cheia de relvados verdejantes.

— - É o templo protestante — - elucida Calistus Munbar, parando defronte desse edifício.

— - Na sua cidade há igrejas católicas? — - perguntou Yvernés.

— - Há, sim, senhor. Em todo o caso, devo fazer-lhe observar que, conquanto no nosso globo se professem cerca de mil religiões diferentes, nós aqui resumimo-nos ao catolicismo e ao protestantismo. Não é como os Estados Unidos, desunidos pela religião, se acaso o não são pela política, onde há tantas seitas quantas as famílias — - metodistas, anglicanos, presbiterianos, anabaptistas, wesleyanos, etc. Aqui, temos apenas protestantes fiéis à doutrina calvinista, ou católicos romanos.

— - E que língua se fala?

— - Empregam-se correntemente o inglês e o francês.

— - É caso para lhe dar os parabéns — -diz Pinchinat.

— - A cidade — - prossegue Calistus Munbar — -está, pois, dividida em duas secções, pouco mais ou menos iguais. Estamos aqui na secção...

— - Ocidental, creio eu? — -- observa Frascolin, orientando-se pela posição do Sol.

— - Ocidental, se assim o quer...

— - O quê? Se assim o quero? — - replica o segundo-vio-lino, bastante surpreendido com esta resposta. — - Dar-se-á o caso que os pontos cardeais variem nesta cidade ao sabor de cada um?

— - Sim... e não... — - afirma Calistus Munbar -, Mais

tarde lhes explicarei isso. Volto a falar desta secção... ocidental, se assim lhe apraz, a qual é unicamente habitada pelos protestantes, que mesmo aqui permanecem homens práticos, ao passo que os católicos, mais intelectuais, mais requintados, ocupam a secção... oriental. O mesmo é que dizer-lhes que este templo é um templo protestante.

— - Tem toda a aparência disso — - assevera Yvernés. — - Com a sua arquitectura pesada, a oração não deve ali ser uma elevação para o céu, mas antes um despenhar sobre a terra...

— - Linda frase! — - exclama Pinchinat. — - Sr. Munbar, numa cidade tão cheia de maquinismos à moderna, sem dúvida que pode uma pessoa ouvir a prédica ou a missa pelo telefone?

— - Justamente.

— - E confessar-se também?

— - Exactamente, como pode casar-se pelo telautógrafo, e há-de convir que é bem prático...

— - É de pasmar, Sr. Munbar — - comenta Pinchinat. — - É de pasmar!

 

O QUARTETO CONCERTANTE DESCONCERTADO

As onze horas, depois de um passeio tão extenso, é lícito ter fome. E os nossos artistas abusam a valer da permissão. Os seus estômagos gritam em uníssono, e afinam na opinião de que é forçoso almoçar a todo o preço.

É também esse o parecer de Calistus Munbar, não menos submisso que os seus hóspedes às necessidades da refeição quotidiana. Deverão voltar ao Excelsior Hotel?

Decerto, porque não parece que os restaurantes sejam numerosos na cidade, onde cada um prefere sem dúvida encafuar-se em casa, no seu home (1), e que não tem grandes aparências de ser visitado por turistas dos dois mundos.

Em poucos minutos, o tram (2)transporta os esfomeados ao seu hotel, onde se sentam diante de uma mesa copiosamente servida. É esse um contraste notável com essas refeições à americana, onde a multiplicidade das iguarias não compensa a sua insuficiência. Excelente a carne de vaca e de carneiro; tenras e aromáticas as aves; o peixe de uma frescura que faz apetite. Depois, em vez dessa água nevada dos restaurantes da União, cervejas variadas e vinhos que o sol da França destilara dez anos antes pelas encostas do Médoc e da Borgonha.

 

*1. Residência, lar.

  1. Carro eléctrico; no Brasil, bonde.

 

Pinchinat e Frascolin fazem honra ao almoço, pelo menos tanto como Sebastião Zorn e Yvernés... É escusado acrescentar que Calistus Munbar reclamou o papel de anfitrião, e de mau gosto seria o rejeitar-lhe o oferecimento.

Demais a mais, o ianque, cuja facúndia nunca se esgota, ostenta um bom humor que é de encantar. Fala de tudo o que diz respeito à cidade, à excepção daquilo que os convivas prefeririam saber- — -isto é, que cidade é essa independente, cujo nome ele hesita em revelar. Nada de impaciências, ele há-de dizê-lo, quando chegar ao fim da digressão. Teria ele na mente embriagar o quarteto no propósito de lhe fazer perder o comboio de San Diego? Isso não, mas o caso é que eles estão a beber com gana, depois de terem comido com valentia; e estava a acabar a sobremesa na absorção do chá, do café e dos licores, quando uma detonação sacode as vidraças do hotel.

— - Que é isto? — - pergunta Yvernés, dando um pulo.

— - Não se assustem, meus senhores — - respondeu Calistus Munbar. — - É o canhão do Observatório.

— - Se é o sinal do meio-dia — - replica Frascolin, consultando o seu relógio -, afirmo que anda atrasado...

— - Nada, senhor violeta, isso não! O Sol aqui não anda mais atrasado do que em qualquer outra parte.

E um sorriso singular arqueia os lábios do americano, cintilam-lhe os olhos sob a luneta, e ele esfrega as mãos. Faz vontade de supor que se felicita por ter «pregado uma boa partida».

Frascolin, menos embotado pela comezaina do que os companheiros, olha para ele com ar suspeitoso, sem saber ao certo o que imaginar.

— - Vamos lá, meus amigos — - hão-de permitir-me que lhes dê esta simpática qualificação — - acrescenta ele amavelmente — -, trata-se agora de visitar a segunda secção da cidade, e eu era capaz de rebentar de desespero se lhes escapasse um pormenor que fosse! Não temos tempo a perder...

— - A que horas parte o comboio para San Diego? — - interroga Sebastião Zorn, sempre preocupado para não faltar aos seus compromissos por chegar tarde.

— - Sim... a que horas? — - repetiu Frascolin com insistência.

— - Ora! Isso é à noite — - respondeu Calistus Munbar, piscando o olho esquerdo. — - Venham, meus caros hóspedes, venham comigo... Não se arrependerão de me terem por guia.

Não há meio de desobedecer a um sujeito tão obse-quiador. Os quatro artistas saem da sala do Excelsior Hotel e põem-se a caminho pela rua fora. A falar verdade, só se o vinho os ensopou com demasiada generosidade, porque eles sentem correr-lhes pelas pernas acima uma espécie de estremeção. Parece que o solo tem uma ligeira tendência a fugir-lhes debaixo dos pés. E, no entanto, eles não os pousaram em nenhum desses passeios móveis que se deslocam lateralmente.

— - Eh! Eh!... Aguentem-se, valentes! — - exclama Sua Alteza, titubeando.

— - Parece-me que bebemos um poucochinho de mais! — - observa Yvernés, enxugando a testa.

— - Não façam caso, senhores parisienses — - recomendou o americano — -, é uma vez sem exemplo! Era justo que regassem bem a sua boa estrela.

— - E o caso é que despejámos o regador! — - replica Pinchinat, que dele tivera farto quinhão e nunca se sentira tão satisfeito.

Sob a direcção de Calistus Munbar, seguem por uma rua fora até chegar a um dos bairros da segunda secção. Por aqueles sítios, a animação é muito diferente, o carácter geral menos puritano. É como se houvessem de súbito transportado dos Estados do Norte para os Estados do Sul da União, de Chicago para Nova Orleães, do Ilinóis para a Luisiana, armazéns e lojas mais frequentados, habitações de uma fantasia mais elegante, home-steads, ou casas de hóspedes, mais confortáveis, hotéis tão sumptuosos como os da secção protestante, mas de aspecto mais alegre. A população difere igualmente de aparência, de maneiras, de feitio. Até parece que a cidade é dupla, à maneira de certas estrelas, com a diferença de que estas secções não giram uma em volta da outra — - duas cidades justapostas.

Chegado pouco mais ou menos ao centro da secção, o grupo parou aí pelo meio da Décima Quinta Avenida, e Yvernés exclamou:

— - Safa! Cá temos um palácio.

— - O palácio da família Coverley — - informa Calistus Munbar. — - Nat Coverley, o emulo de Jem Tankerdon...

— - Mais rico do que ele? — - pergunta Pinchinat.

— - Andam pela mesma — -diz o americano. — - Um ex-banqueiro de Nova Orleães, que tem mais centos de milhões do que dedos nas duas mãos!

— - Que bonito par de luvas, meu caro Sr. Munbar!

— - Tal qual.

— - E esses dois notáveis Jem Tankerdon e Nat Coverley, são inimigos... naturalmente?

— - Pelo menos são rivais, que se esforçam por estabelecer a sua preponderância na administração da cidade e que têm ciúmes um do outro.

— - E hão-de acabar por se devorar? — - perguntou Sebastião Zorn.

— - Talvez... e se um devorar o outro...

— - Que indigestão que apanha nesse dia! — -respondeu Sua Alteza.

E Calistus Munbar acha tanta graça à resposta, que a pança se lhe sacode nas convulsões do riso.

A igreja católica ergue-se numa praça espaçosa, que permite o admirar-lhe as felizes proporções. É de estilo gótico, desse estilo que não exige grande distância para se apreciar, porque as linhas verticais, que constituem a sua beleza, perdem algo do seu carácter em sendo examinadas de longe. Saint-Mary Church merece admiração pelo garbo dos seus pináculos, pela delicadeza das suas rosáceas, pela elegância das suas ogivas flamejantes, pela graça das suas janelas geminadas.

— - Belo exemplar do gótico anglo-saxónico — - comenta Yvernés, que é grande amador de arquitectura. — - O Sr. Munbar tinha razão: as duas secções da sua cidade parecem-se tanto como a catedral de uma e o templo de outra!

— - E, no entanto, Sr. Yvernés, essas duas secções nasceram da mesma mãe.

— - Mas... não do mesmo pai? — - observou Pinchinat.

— - Sim... do mesmo pai, meus excelentes amigos. Somente, a criação das duas é que foi diferente. Adaptaram cada uma delas às conveniências daqueles que deviam ir ali procurar uma existência tranquila, feliz, isenta de qualquer inquietação... uma existência que não pode proporcionar nenhuma das cidades, quer do Velho, quer do Novo Continente.

— - Por Apolo, Sr. Munbar — -exclamou Yvernés — -, tome cautela não sobreexcite de mais a nossa curiosidade! É como se estivesse a cantarolar uma daquelas frases musicais que deixam a gente muito tempo à espera da tónica.

- — - E que acabam por fatigar os ouvidos! — -acrescenta Sebastião Zorn. — - Ora vamos lá! Ainda não chegou o ensejo de se decidir a revelar-nos o nome desta cidade extraordinária?

— - Ainda não, meus prezados hóspedes — - volve o americano, ajeitando a luneta de ouro no seu apêndice nasal. — - Esperem pelo fim da nossa digressão, e continuemos...

— - Antes de continuar — - observou Frascolin, que sente umas vagas apreensões de mistura com a sua curiosidade — -, tenho de fazer uma proposta.

— - Qual é?

— - Porque é que não havemos de trepar à agulha de Saint-Mary Church? De lá poderíamos avistar...

— - Nada, nada! — - exclama Calistus Munbar, sacudindo a enorme cabeça desgrenhada. — - Agora não... depois.

— - Mas quando? — - pergunta o violoncelista, que começa a impacientar-se com tanta evasiva misteriosa.

— - No final da nossa excursão, Sr. Zorn.

— - Voltamos então a esta igreja?

— - Não, meus amigos, o nosso passeio há-de acabar por uma visita ao Observatório, cuja torre tem mais um terço de altura da agulha de Saint-Mary Church.

— - Mas afinal — - insiste Frascolin — -, porque não havemos de aproveitar esta ocasião?

— - Porque... faziam com que falhasse o meu efeito!

E não há meio de arrancar outra resposta a essa enigmática criatura.

O remédio é submeterem-se. Percorrem conscienciosa-mente as diversas avenidas da segunda secção. Depois visitam os bairros do comércio, os quarteirões dos alfaiates, dos sapateiros, dos chapeleiros, dos talhos, das mercearias, das padarias, das lojas de fruta, etc. Calistus Munbar, cumprimentado pela maioria das pessoas que encontra, corresponde aos cumprimentos com vaidosa satisfação. É inesgotável de informações encarecedoras, tal qual um expositor de fenómenos, e a língua não se cansa de bimbalhar como o badalo de um sino em dia de festa.

Pelas duas horas, chega o quarteto por aquele lado aos limites da cidade, cercada por um gradeamento magnífico, ornamentado de flores de trepadeiras. Para além alastra-se o campo, cuja linha circular se confunde com o horizonte celeste.

Neste sítio, Frascolin faz com os seus botões um reparo que ele julga prudente não comunicar aos companheiros. Tudo isso se há-de explicar sem dúvida no alto da torre do Observatório. O reparo consiste no seguinte: é que o Sol, em vez de se achar no sudoeste, como devia estar às duas horas, anda pelas bandas do sueste.

É caso para dar que pensar a um espírito tão reflectido como o de Frascolin. Começava ele a parafusar e a dar tratos ao miolo, quando Calistus Munbar muda o curso das suas ideias exclamando:

— - Meus senhores, daqui a poucos minutos vai partir o tramway. Ala para o porto!

— - Para o porto? — - estranha Sebastião Zorn.

— - Ora! Um trajecto de uma milha, quanto muito — - o que lhes dará azo de admirar o nosso parque.

Visto que existe um porto, é forçoso que ele esteja situado um pouco acima ou um pouco abaixo da cidade, na costa da Baixa Califórnia... Realmente, onde podia ele ficar, a não ser em qualquer ponto desse litoral?

Os artistas, levemente aturdidos, tomam lugar nas bancadas de um carro elegante, onde estão já sentados muitos passageiros. Estes apertam a mão a Calistus Munbar — - o demónio do homem! Toda a gente o conhece!

— - e os dínamos do tramway entregam-se à sua fúria locomotora.

Parque — - tem Calistus Munbar razão de assim qualificar o campo que se estende em torno da cidade. Alamedas a perder de vista, relvados verdejantes, barreiras pintadas, direitas ou sinuosas, chamadas fences; em volta dos tanques, moitas de árvores, carvalhos, bordos, faias, castanheiros, lódãos, ulmeiros, cedros, ainda pequenos, animados por miríades de aves de mil espécies. É um verdadeiro jardim inglês, possuindo fontes com repuxos, tabuleiros de flores, então em toda a pujança do desabrochar primaveril, maciços de arbustos em que se misturam as espécies mais diversas, gerânios gigantes como os de Monte Carlo, laranjeiras, limoeiros, oliveiras, loendros, aroeiras, aloés, camélias, dálias, roseiras da Alexandria com flores de neve, hortênsias, lótus brancos e cor-de-rosa, passiflores da América Meridional, ricas colecções de fúchsias, de sálvias, de begónias, de jacintos, de tulipas, de crocus, de narcisos, de anémonas, de rainúnculos da Pérsia, de ísis barbatus, de cíclames, de orquídeas, calceolárias, fetos arborescentes, e também essas essências peculiares às zonas tropicais, erva-das-malacatas, palmeiras, tamareiras, figueiras, eucaliptos, mimosas, bananeiras, goiabeiras, cabaceiras, coqueiros, numa palavra, tudo que um amador pode exigir ao mais opulento dos jardins botânicos.

Com a sua propensão para evocar as memórias da antiga poesia, Yvernés deve julgar-se transportado às paisagens bucólicas do romance de Astreia. É verdade que, se nesses frescos prados não faltam carneiros, se entre as barreiras se apascentam vacas arruivadas, se por entre os maciços saltam gamos, corças e outros graciosos quadrúpedes da fauna florestal, é de lamentar a ausência dos pastores de D'Urfé e das suas fascinantes pastoras. Quanto ao rio do romance, é ele representado por uma Serpentine-river, que passeia a sua linfa vivificante por meio das ondulações da campina.

Mas tudo parece tão artificial, que provoca esta exclamação do irónico Pinchinat:

Ora esta! Então a respeito de rios, é isto que os senhores avezam?

E Calistus Munbar acode logo:

— - Rios? Para que serve isso?

— - Para ter água, é boa essa!

— - Água... quer dizer uma substância geralmente insalubre, microbiana e tifóica?

— - De acordo, mas pode-se purificar...

— - E para que se há-de ter esse trabalho, quando é tão fácil fabricar uma água higiénica, isenta de impurezas, e até gasosa ou ferruginosa, conforme se quiser...

— - Os senhores fabricam a sua água? — - pergunta Fras-colin.

— - Está claro, e distribuímo-la quente ou fria pelas casas particulares, assim como distribuímos a luz, o som, a hora, o calor, o frio, a força motriz, os agentes anti-sépticos, a electrização por autocondução...

— - Devo supor, nesse caso — - replica Yvernés- — -, que os senhores também fabricam a chuva para regar os seus relvados e as suas flores?

— - Diz muito bem o meu amigo! — - confirma o americano, fazendo lampejar as jóias dos dedos através das grenhas espessas da sua barba.

— - Chuva de encomenda! — - exclama Sebastião Zorn.

— - Sim, meus caros amigos, chuva que se espalha por uma forma regular, regulamentar, oportuna e prática, mediante canalizações, abertas no nosso subsolo. Pois não vale isto mais do que ficar à espera dos caprichos da natureza e sujeitar-se às fantasias dos climas, do que desembestar em pragas contra as intempéries sem lhes poder achar remédio, umas vezes uma humidade persistente, outras uma estiagem demasiado prolongada?

— - Espere aí, Sr. Munbar — - replica Frascolin. — - Lá que os senhores possam produzir chuva a seu bel-prazer, ainda vá! Mas lá o impedir que ela caia do céu...

— - O céu? Que tem o céu que cheirar em tudo isto?

— - O céu, ou, se assim prefere, as nuvens que rebentam, as torrentes atmosféricas com o seu cortejo de ciclones, de tornados, de borrascas, de rajadas, de temporais... Assim, por exemplo, durante a estação ruim...

— - A estação ruim?. — - repete Calistus Munbar.

— - Sim... o Inverno.

— - O Inverno? Que vem a ser isso?

— - Estão-lhe a falar no Inverno, as geadas, as neves, os gelos! — - brada Sebastião Zorn, enraivecido com as respostas irónicas do ianque.

— - Não conhecemos isso! — - responde tranquilamente Calistus Munbar.

Os quatro parisienses olham uns para os outros. Acaso estão em presença de um doido ou de um mistificador? No primeiro caso, é prendê-lo num hospital; no segundo, é dar-lhe uma sova mestra.

Entretanto, os carros do tramway correm com pequena velocidade por meio desses jardins encantados. A Sebastião Zorn e aos seus companheiros afigura-se que, para além dos limites daquele parque imenso, há talhões de terra, metodicamente cultivados, alastrando coloridos diversos, semelhantes a essas amostras de fazenda expostas dantes à porta dos alfaiates. São indubitavelmente plantações de legumes, batatas, couves, cenouras, nabos, alhos, enfim tudo que exige a composição de uma panela de primeira ordem.

Todavia, estão ansiosos por chegar ao verdadeiro campo, onde poderão reconhecer o que produz esta singular região em trigo, aveia, milho, cevada, centeio, trigo mourisco e outros cereais.

Mas eis que aparece uma fábrica, com as suas chaminés de folha de ferro, dominando uns telhados baixos de vidro despolido. Essas chaminés, aguentadas por escoras de ferro, parecem-se com as de um vapor a navegar, de um Great-Eastern, cujas possantes hélices fossem movidas por cem mil cavalos, com a diferença de que, em vez de fumo negro, só delas saem uns fiozitos leves, que nem sujam com as escórias a atmosfera.

Essa fábrica cobre uma superfície de dez mil jardas quadradas, quer dizer, perto de um hectare. É o primeiro estabelecimento industrial que o quarteto vê desde que «excursiona», perdoem-nos a palavra, sob a direcção do americano.

— - Olá! Que estabelecimento é este? - pergunta Pinchinat.

— - É uma fábrica, com aparelhos evaporatórios de petróleo — - informa Calistus Munbar, cujo olhar penetrante ameaça perfurar os vidros da luneta.

— - E que fabrica esta sua fábrica?

— - Energia eléctrica, a qual é distribuída por toda a cidade, pelo parque, pelos campos, produzindo força motriz e luz. Ao mesmo tempo, esta oficina alimenta os nossos telégrafos, os nossos telautógrafos, os nossos telefones, os nossos telefotos, as nossas campainhas, os nossos fogões de cozinha, as nossas máquinas de trabalho, os nossos aparelhos de arco voltaico e de incandescência, as nossas luas de alumínio, os nossos cabos submarinos...

— - Os seus cabos submarinos? — - acode com vivacidade Frascolin.

— - Sim! Os que ligam a cidade a diversos pontos do litoral americano.

— - E foi preciso criar uma fábrica desta importância?

— - Pudera! com o que nós despendemos em energia eléctrica... e também em energia moral! — - replica Calistus Munbar. — - Acreditem os senhores que foi necessário uma dose incalculável dela para fundar esta incomparável cidade, sem rival no mundo.

Ouvem-se os roncos surdos da gigantesca oficina, as possantes eructações do vapor, os sacões das suas máquinas, as repercussões à superfície do solo, que revelam um esforço mecânico superior a tudo o que deu até hoje a indústria moderna. Quem poderia imaginar que se fizesse mister tanta potência para mover dínamos ou carregar acumuladores!

O tramway passa, e um quarto de milha mais além vai parar na gare do porto.

Os passageiros apeiam-se, e o seu guia, sempre exuberante de frases laudatórias, passeia com eles pelos cais que correm ao longo dos armazéns e das docas. O porto tem a forma oval e o tamanho suficiente para abrigar uns dez navios, quando muito. É verdadeiramente um porto artificial, terminando em molhes, dois piers, aguentados em armaduras de ferro, e iluminado por dois focos, que facilitam a entrada aos navios que vêm do mar largo.

Nesse dia, o porto não contém mais de meia dúzia de vapores, uns destinados ao transporte de petróleo, outros ao transporte das mercadorias necessárias ao consumo, e alguns barcos, munidos de aparelhos eléctricos, que são empregados na pesca do mar alto.

Frascolin repara que a entrada do porto está orientada para o norte, e daí conclui que ele deve ocupar a parte setentrional de um desses cabos que do litoral da Baixa Califórnia se alongam pelo Pacífico. Verifica também que a corrente marítima se propaga para leste com certa intensidade, visto que desliza de encontro ao cabeço do pier como os lençóis de água ao longo do costado de um navio em viagem — - efeito produzido por certo pela maré que enche, se bem que as marés sejam pouco importantes nas costas ocidentais da América.

— - Então para onde fica o rio que ontem à noite atravessávamos em ferry-boat? — - pergunta Frascolin.

- Estamos a virar-lhe as costas — -responde simplesmente o ianque.

Mas cumpre não se demorarem, se querem voltar à cidade a tempo de apanhar o comboio da noite para San Diego.

Sebastião Zorn recorda esta condição a Calistus Munbar, o qual responde:

— - Não estejam com cuidado, meus bons amigos... Temos muito tempo... Um tramway irá reconduzir-nos à cidade, depois de ter seguido o litoral... Os senhores desejam ter uma vista panorâmica desta região, e não tarda uma hora que a tenham do alto do Observatório.

— - Dá-nos a certeza? — - inquire o violoncelista, insistindo.

Não há remédio senão contentarem-se com esta resposta, mediocremente explícita. Demais a mais, a curiosidade de Frascolin, mais ainda do que a dos companheiros, acha-se excitada ao último ponto. Ele está impaciente por se ver no cocuruto daquela torre, donde o americano afirma que a vista se alarga por um horizonte de cem milhas de circunferência, pelo menos.

Depois disso, se não ficarem tendo noções precisas sobre a posição geográfica daquela inverosímil cidade, então é renunciar a adquiri-las alguma vez.

Do fundo do porto rompe uma segunda linha de tramways, que segue pela beira-mar. O tramiuay compõe-se de seis cars (1), onde já tomam lugar bastantes passageiros. Estes cars são rebocados por uma locomotiva eléctrica, com acumuladores de uma capacidade de seis amperes-ohms, e a sua velocidade atinge entre quinze e dezoito quilómetros.

Calistus Munbar sobe com o quarteto para o tramway, o qual parece que só por eles espera para partir.

A parte do campo que eles vêem pouca diferença faz do parque que se estende entre a cidade e o porto. O mesmo terreno chão e cuidadosamente tratado. Prados verdejantes e campinas em vez de relvões de recreio, eis a diferença, hortas e não searas. Neste momento, uma chuva artificial, projectada para fora dos aquedutos subterrâneos, cai em bátegas benéficas sobre esses longos rectângulos, traçados a cordel e esquadria.

O céu não seria capaz de a dosar e de a distribuir de uma maneira mais matemática e mais oportuna.

A via férrea segue o litoral, tendo o mar de um dos lados e o campo do outro. Os cars correm assim pelo espaço de quatro milhas — - cerca de cinco quilómetros. Depois, param defronte de uma bateria de doze peças de grande calibre, a entrada da qual é indicada por estas palavras: «Bateria do Esporão».

— - Peças que carregam, mas nunca se descarregam pela culatra... como tantos engenhos da velha Europa! — - observa Calistus Munbar.

Por estes sítios, a costa é recortada com grande nitidez. Dela se destaca uma espécie de cabo, muito agudo, semelhante à proa de um casco de nau, ou mesmo ao esporão de um couraçado, no qual as águas se dividem, salpicando-o de espuma branca. Efeito da corrente, por certo, porque a vaga do mar reduz-se a ondulações largas, que tendem a diminuir com o declinar do Sol.

 

*1. Carruagens.

 

Deste ponto parte outra linha de tramway, que desce para o centro, ao passo que a primeira linha continua a seguir as circunvoluções do litoral.

Calistus Munbar faz com que os seus hóspedes transbordem para a segunda linha, anunciando-lhes que vão regressar à cidade.

A digressão foi suficiente. Calistus Munbar saca do seu relógio, obra-prima de Sivan, de Genebra — - um relógio falante, um relógio fonográfico, cujo botão ele prime e do qual saem distintamente estas palavras: «quatro horas e treze».

— - O Sr. Munbar não se esquece da ascensão que temos de fazer ao Observatório? — - recorda Frascolin.

— - Esquecer-me, meus prezados e já velhos amigos! Era mais fácil eu esquecer-me do meu próprio nome, que todavia goza de uma tal ou qual celebridade!

Quatro milhas andadas e estamos a contas com o magnífico edifício, construído no extremo da Primeira Avenida, a que separa as duas secções da nossa cidade.

O tramway pôs-se em movimento. Para além dos campos, sobre os quais continua a cair uma chuva «pós-me-ridiana»- — -é assim que lhe chama o americano — -, depara-se-lhes novamente o parque cingido de barreiras com os seus relvões, os seus tabuleiros e as suas moitas.

Dão quatro horas e meia. Dois ponteiros indicam a hora sobre um mostrador gigantesco, semelhante, pouco mais ou menos, ao do edifício do Parlamento de Londres, embutido numa das faces de uma torre quadrangular.

Ao pé desta torre elevam-se as dependências do Observatório, destinadas aos diferentes serviços, algumas das quais, sobrepujadas de rotundas metálicas com aberturas envidraçadas, permitem aos astrónomos seguir o curso das estrelas. Ficam em volta de um pátio central, no meio do qual se ergue uma torre de cento e cinquenta pés de altura. Da segunda galeria superior pode a vista alargar-se num raio de vinte e cinco quilómetros, por isso que o horizonte não é limitado por intumescência alguma, colina ou montanha.

Calistus Munbar, precedendo os seus hóspedes, penetra por uma porta, que lhe abre um porteiro, trajando uma libré soberba. Ao fundo do hall espera a jaula do ascensor, que se move pela electricidade. O quarteto toma lugar nela, mais o seu guia. A jaula sobe com um movimento sereno e regular. Passados quarenta e cinco segundos, fica estacionária ao nível da plataforma superior da torre.

Nessa plataforma ergue-se a haste de uma bandeira gigantesca, cujo filete flutua à mercê de uma brisa do norte.

Que nacionalidade indica esse pavilhão? Nenhum dos nossos parisienses pode reconhecê-lo. É, com efeito, a bandeira americana, com as suas riscas transversais vermelhas e brancas; mas no canto, em vez das sessenta e sete estrelas, que nessa época brilhavam no firmamento da Confederação, não se vê mais do que uma só: uma estrela, ou, antes, um sol de ouro, esquartelado no azul do jack(1), e que parece rivalizar em irradiação com o astro do dia.

— - O nosso pavilhão, meus senhores — - diz Calistus Munbar, descobrindo-se com respeito.

Sebastião Zorn e os seus companheiros não podem deixar de o imitar. Depois, adiantam-se pela plataforma até ao parapeito, e, quando se debruçam... que grito — - primeiro de surpresa, depois de cólera — - lhes surde da boca!

Expande-se à sua vista toda a campina. Essa campina apenas apresenta um oval regular, circunscrita por um horizonte de mar, e o mais longe que a vista possa alcançar não se descortina sombra de terra.

E contudo, na véspera à noite, depois de saírem da aldeia de Freschal na carruagem do americano, os nossos artistas nunca deixaram de seguir o caminho terrestre num percurso de duas milhas... Em seguida, atravessaram no ferry-boat, sem saírem do char-à-bancs, o tal curso de água... Depois, acharam-se outra vez em terra firme... É claro que não podiam ter largado do litoral californiano para uma navegação qualquer, sem darem por isso...

 

*1. Aqui, bandeira de cruzeiro.

 

Frascolin volta-se para Calistus Munbar:

— - Então nós estamos numa ilha? — - pergunta ele.

— - Como vêem! — -responde o ianque, arqueando a boca no mais amável dos sorrisos.

— - E que ilha é esta?

— - Standard-Island.

— - E esta cidade?

— - Milliard-City.

 

STANDARD-ISLAND E MILLIARD-CITY

Esperava-se ainda nessa época que algum geógrafo audacioso, amante de estatística, houvesse dado o número exacto das ilhas espalhadas pela superfície do Globo. Esse número, não é temerário admitir que se eleva a muitos milhares. Entre essas ilhas, porventura não se encontraria uma única que respondesse ao desiderato dos fundadores de Standard-Island e às exigências dos futuros habitantes? Não! Nem uma só. Daí proveio essa ideia «americamecânicamente» prática de criar de fio a pavio uma ilha artificial, que fosse a última palavra da indústria metalúrgica moderna.

Standard-Island — - que se pode traduzir por «ilha-padrão» — - é uma ilha movida a hélice. A sua capital é Milliard-City. Qual a razão deste nome? Evidentemente por ser a cidade dos bilionários, uma terra para ser habitada por Goulds, Vanderbilts e Rothschilds. Mas, dir-se-á, a palavra «milliard» não existe na língua inglesa... Os anglo-saxões do Antigo e do Novo Continente disseram sempre: a thonsand millions, mil milhões ou um bilião... «Milliard» é palavra francesa... De acordo, e, no entanto, há alguns anos que passou para a linguagem corrente da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos — - e foi com justificada razão que se aplicou à capital de Standard-Island.

Uma ilha artificial é uma ideia que, por si só, nada tem de extraordinário. Com uma massa suficiente de materiais imergidos num rio, num lago, num mar, não é coisa que exceda o poder humano o fabricá-la. Ora isto não bastava. Em vista do seu destino, das exigências que tinha a satisfazer, era mister que essa ilha pudesse deslocar-se e, por consequência, que fosse flutuante. Nisso consistia a dificuldade, embora não fosse superior à produção das oficinas onde se trabalha o ferro, e pudesse ser vencida por máquinas de uma potência por assim dizer infinita.

Já em fins do século xix, com o seu instinto do big (1), a sua admiração pelo enorme, os Americanos haviam formulado o projecto de instalar a uns centos de léguas da costa uma jangada gigantesca, surta sobre âncoras. Deveria ser, não diremos uma cidade, mas pelo menos uma estação do Atlântico, com restaurantes, hotéis, clubes, teatros, etc, onde os turistas teriam encontrado todos os atractivos das terras de águas mais em moda. Pois fora esse o projecto agora realizado e completado. Porém, em vez da jangada fixa, criou-se a ilha movediça.

Seis anos antes da época em que principia esta história fundara-se uma companhia americana, sob a razão social de Standard-Island Company Limited, e com o capital de quinhentos milhões de dólares(1), dividido em quinhentas partes, para a fabricação de uma ilha artificial, que oferecesse aos nababos dos Estados Unidos as diversas vantagens de que são privadas as regiões sedentárias do globo terrestre. Esses quinhões foram rapidamente subscritos, tão numerosas eram então na América as imensas fortunas, quer proviessem da exploração dos caminhos de ferro, quer das operações bancárias, quer do comércio de carne de porco salgada.

Levou-se quatro anos a construir esta ilha, cujas principais dimensões convém indicar, assim como as acomodações interiores, os processos de locomoção que lhe permitiam utilizar a mais bela parte da superfície do oceano Pacífico. Daremos estas dimensões em quilómetros, e não em milhas — - visto que o sistema métrico tinha por esse tempo

 

*1. Grandioso, enorme.

  1. Dois mil e quinhentos milhões de francos, isto é, quatrocentos e cinquenta mil contos de réis, ao câmbio normal de outras eras.

 

levado de vencida a inexplicável repulsão que outrora inspirava à raça anglo-saxónica.

Existem destas aldeias flutuantes na China, no rio Yangtsé-Kiang; no Brasil, no Amazonas; na Europa, no Danúbio. Mas não passam de construções efémeras, uns casinhotos estabelecidos à superfície de uns tabuados sobre o comprido. Chegando ao seu destino, deslocam-se as tábuas, desmontam-se os casinhotos, e era uma vez uma aldeia.

Ora a ilha de que se trata é completamente diferente: devia ser lançada ao mar, devia durar... o que podem durar as obras saídas da mão do homem.

Demais a mais, quem sabe se a terra não será algum dia pequena de mais para os habitantes, cujo número deve atingir cerca de seis biliões em 2072 — - pelo que afirmam os sábios, seguindo Ravenstein, com uma precisão assombrosa! E não se tornará forçoso fazer edificações no mar, quando os continentes estiverem a deitar por fora?

Standard-Island é uma ilha de aço, e a resistência do seu casco foi calculada para o enormíssimo peso que é destinada a suportar. É composta de duzentos e setenta mil caixões, tendo cada um deles dezasseis metros e sessenta e seis centímetros de altura por dez de comprimento e dez de largura. A superfície horizontal representa, pois, um quadrado de dez metros de lado, ou cem metros de superfície.

Todos estes caixões, rebitados e encavilhados uns nos outros, determinam para a ilha cerca de vinte e sete milhões de metros quadrados, ou vinte e sete quilómetros quadrados de superfície. Na forma oval que lhe deram os construtores, mede ela sete quilómetros de comprimento por cinco quilómetros de largura, e o seu contorno tem dezoito quilómetros, em números redondos(1).

A parte submersa do casco é de trinta pés, a parte emergente de vinte pés. É o mesmo que dizer que Standard-Island tem um calado de dez pés na linha de água carregada.

 

*1. O recinto fortificado de Paris mede nove quilómetros, e conta vinte e três quilómetros no muro da circunvalação antiga.

 

Daí resulta que o seu volume ascende a quatrocentos e trinta e dois milhões de metros cúbicos, e o seu deslocamento, ou os três quintos do volume, é de duzentos e cinquenta e nove milhões de metros cúbicos.

Toda a parte submersa dos caixões foi coberta com uma preparação, que durante largo tempo se procurou debalde — - deu biliões ao seu inventor — -, a qual impede que os mariscos se agarrem às paredes em contacto com a água do mar.

O subsolo da nova ilha não está sujeito a deformações nem a rupturas, tão bem seguras estão as chapas de aço com travessões, tamanha foi a solidez com que se procedeu à rebitagem e ao encavilhamento.

Era necessário criar estaleiros especiais para a fabricação deste gigantesco engenho marítimo. Foi isso que fez a Standard-Island Company, depois de ter adquirido a baía Madalena e o seu litoral na extremidade da extensa península da Velha Califórnia, quase no limite do trópico Câncer. Foi nessa baía que se executou um tal trabalho, sob a direcção dos engenheiros da Standard-Island Company, tendo por chefe o célebre William Tersen, falecido alguns meses depois de terminada a obra, como Brunnel por ocasião do infrutífero lançamento do seu Great-Eastern. E essa Standard-Island é porventura outra coisa mais do que um Great-Eastern modernizado, feito sobre um modelo milhares de vezes mais considerável?

Compreende-se que não havia questão em lançar a ilha de uma vez à superfície do oceano. Por isso fabricaram-na aos pedaços, aos compartimentos justapostos nas águas da baía Madalena. Essa porção de costa americana tornou-se o porto de armamento e de reparação da ilha, que nela vem encaixar-se, quando precisa de algum concerto.

A carcaça da ilha, o seu casco, se assim lhe querem chamar, formada por esses duzentos e setenta mil compartimentos, foi coberta com uma espessura de terra vegetal, excepto na parte reservada à cidade central, onde o sobredito casco é extraordinariamente reforçado. Este húmus é suficiente para as necessidades de uma vegetação que se limita a relvões, a tabuleiros de flores e de arbustos, a moitas de árvores, a prados, a campos de legumes. Teria parecido pouco prático o exigir desse solo factício a produção de cereais e o abastecimento de alimentação para o gado destinado ao matadouro, o qual é aliás objecto de uma importação regular. Mas houve necessidade de criar as instalações indispensáveis para que o leite e a produção das capoeiras não dependessem dessas importações.

As três quartas partes do solo de Standard-Island são destinadas à vegetação, isto é, cerca de vinte e um quilómetros quadrados, onde a relva dos parques ostenta um viço permanente, onde os campos, entregues à cultura intensiva, abundam em legumes e em frutas, onde os prados artificiais servem de pascigo a alguns rebanhos. É bem de ver que também ali se emprega em larga escala a electrocultura, isto é, a influência de correntes contínuas, que se manifesta por uma aceleração extraordinária e pela produção de legumes de dimensões inverosímeis, tais como rábanos de quarenta e cinco centímetros e cenouras de três quilogramas. Jardins, hortas, pomares, podem rivalizar com os mais belos da Virgínia ou da Luisiana. Não há que espantar: não se olha a despesas nesta ilha, com tanta justiça denominada a «Jóia do Pacífico».

A sua capital, Milliard-City, ocupa cerca da quinta parte, que lhe foi reservada, dos vinte e sete quilómetros quadrados, seja pouco mais ou menos cinco quilómetros quadrados, ou quinhentos hectares, com uma circunferência de nove quilómetros. Os leitores que tiveram a pachorra de acompanhar Sebastião Zorn e os seus companheiros durante a sua excursão, conhecem-na de sobra para não se perderem nela. Demais, ninguém se perde nas cidades americanas, quando elas têm ao mesmo tempo a fortuna e a desgraça de ser modernas — - a fortuna pela simplicidade das comunicações urbanas, a desgraça pelo lado artístico e fantasista, que lhes falta de todo em todo. Sabe-se que Milliard-City, de forma oval, é dividida em duas secções, separadas por uma artéria central, a Primeira Avenida, com pouco mais de três quilómetros de extensão. O Observatório, que se eleva num dos seus extremos, tem por pendant o edifício da Câmara, cuja massa enorme se destaca no extremo oposto. Aí estão centralizados os serviços públicos do estado civil, das águas e da via pública, das plantações e dos passeios, da polícia municipal, da alfândega, das praças e dos mercados, das iluminações, dos hospícios, das diversas escolas, dos cultos e das artes.

E, agora, qual é a população nessa circunferência de dezoito quilómetros?

A Terra, segundo parece, conta actualmente doze cidades- — - quatro das quais na China — - que possuem mais de um milhão de habitantes. Pois bem! A ilha movediça tem apenas dez mil, pouco mais ou menos, todos naturais dos Estados Unidos. Quis-se que nunca surgissem discussões internacionais entre esses cidadãos que vinham a este aparelho de fabricação tão moderna procurar o repouso e a tranquilidade. Já basta, já é de mais até, o não estarem eles, no ponto de vista religioso, reunidos sob a mesma bandeira. Mas difícil fora o reservar aos ianques do Norte, que são os Bombordenses de Standard-Island, ou inversamente, aos americanos do Sul, que são os Estibordenses, o direito exclusivo de fixarem a sua residência na ilha. Acresce que os interesses da Standard-Island Company sofreriam deveras com esse alvitre.

Estabelecido o solo metálico, pronta para as construções a parte reservada à cidade, adoptando o plano das ruas e das avenidas, começam a levantar-se os edifícios, palacetes magníficos, habitações mais simples, casas destinadas ao comércio a retalho, edifícios públicos, igrejas e templos, mas nada dessas habitações de vinte e sete andares, esses sky-scrapers, quer dizer, esses «arranha-céus», que se vêem em Chicago. Os materiais são a um tempo leves e resistentes. O metal inoxidável, que domina nestas construções, é o alumínio, sete vezes mais leve que o ferro em volume igual- — -o metal do futuro, como lhe chamara Sainte-Claire Deville, o qual se presta a todas as necessidades de uma edificação sólida. Depois junta-se-lhe pedra artificial, esses cubos de cimento que tão facilmente se dispõem. Empregam-se mesmo esses ladrilhos de vidro, cavados, soprados, moldados como as garrafas e reunidos por um fio ténue de argamassa, ladrilhos transparentes que, no caso de o construtor ter semelhante desejo, podem realizar o ideal da casa de vidro. Mas, na realidade, o que se emprega mais é o cavername metálico, como é actualmente usado nos diversos exemplares da arquitectura naval. E Standard-Island, porventura, é coisa diferente de um navio imenso?

Essas diversas propriedades pertencem todas à Standard-Island Company. Os que as habitam são apenas seus inquilinos, qualquer que seja a importância da sua fortuna. Além disso, houve o maior desvelo em prever todas as exigências em questões de conforto e de apropriação, reclamadas por esses americanos inverosimil-mente ricos, ao pé dos quais fazem uma figura menos de medíocre os soberanos da Europa ou os nababos da índia.

Com efeito, se a estatística estabelece que o valor do stock do ouro, acumulado no mundo inteiro, é de dezoito mil milhões de francos, e o da prata de vinte mil milhões, pode dizer-se à boca cheia que os habitantes desta Jóia do Pacífico possuem um bom quinhão desses valores.

Demais, desde o princípio que o negócio se apresentou bem pelo lado financeiro. Alugaram-se por preços fabulosos todas as habitações, desde as mais sumptuosas até às mais modestas. Alguns dos arrendamentos excedem muitos milhões, e um grande número de famílias puderam despender quantias destas com a renda anual, sem que isso lhes causasse transtorno. Donde proveio logo, desta fonte, um rendimento considerável para a Companhia. Força é confessar que a capital de Standard-Island justifica o nome que lhe deram na nomenclatura geográfica.

Pondo de parte essas famílias opulentas, citam-se outras, um cento delas, que pagam de renda entre cem e duzentos mil francos, e que se contentam com a sua modesta situação. O resto da população compreende os professores, os fornecedores, os empregados públicos, os criados, os estrangeiros, cuja flutuação não é considerável e que não seriam autorizados a fixar-se em Milliard-City nem na ilha. Advogados, pouquíssimos há, o que faz com que os processos sejam raríssimos; médicos, ainda menos, o que faz decair a mortalidade a uma percentagem irrisória. Além do que, cada habitante conhece exactamente a sua constituição, a sua força muscular, medida pelo dinamómetro, a sua capacidade pulmonar, medida pelo espirómetro, o poder contractivo do seu coração, medido pelo esfigmómetro, finalmente o grau da sua força vital, medido pelo magnemómetro. E, depois, na cidade não há bares, nem cafés, nem tabernas, nada que provoque o alcoolismo. Nunca houve um caso de dipsomania, digamos antes de bebedice, para que nos percebam as pessoas que não sabem grego. Não se deve esquecer também que os serviços urbanos lhe distribuem a energia eléctrica, a luz, a força mecânica, o calor, o ar comprimido, o ar rarefeito, o ar frio, a água sob pressão, exactamente como os telegramas pneumáticos e as audições telefónicas. Se se morre, nesta ilha movida a hélice, metodicamente subtraída às intempéries climatéricas, ao abrigo de todas as influências microbianas, é que não há remédio senão morrer, mas só depois de se gastarem todas as molas da vida numa velhice de centenários.

Acaso há soldados em Standard-Island? Há! Um corpo de quinhentos homens, sob as ordens do coronel Stewart, porque foi mister prever que as paragens do Pacífico nem sempre são seguras. Ao aproximar-se de certos grupos de ilhas, é prudente aperceber-se contra a agressão dos piratas de toda a espécie. Que esta milícia seja generosamente paga, que cada uma das praças receba um soldo superior aos dos generais-chefes da velha Europa, não é coisa que surpreenda. O alistamento desses soldados, alojados, alimentados, vestidos à custa da administração, efectua-se em condições excelentes, sob a fiscalização de chefes que têm rendimentos dignos de um Creso. A dificuldade está apenas na escolha.

Acaso há polícia em Standard-Island? Há algumas esquadras, que bastam para manter a segurança numa cidade onde não existem motivos de alvoroço. É precisa uma autorização da administração municipal para nela se ter residência. As costas são guardadas por um corpo de guardas da alfândega, que velam dia e noite. Só nos portos se pode desembarcar. Como se haviam de introduzir os malfeitores? Quanto àqueles que, por excepção, dessem lá dentro em malandrins, esses seriam agarrados num abrir e fechar de olhos, condenados, e nessa qualidade deportados para o ocidente ou para o oriente do Pacífico, para qualquer recanto do Novo ou do Antigo Continente, sem possibilidade de voltar jamais a Standard-Island.

Falámos nos portos de Standard-Island. Existem então muitos? Há dois, situados nos extremos do diâmetro menor da oval que constitui a forma geral da ilha. Um chama-se Tribord-Harbour (porto de Estibordo), o outro Babord-Harbour (porto de Bombordo), em conformidade com as denominações usadas na marinha francesa.

Com efeito, em caso nenhum é de recear que as importações regulares ameacem interromper-se, mercê da criação destes dois portos de orientação oposta. Se, em consequência de mau tempo, um deles é inacessível, fica o outro aberto aos navios, cujo serviço está assim garantido com todos os ventos. É por Babord-Harbour e Tribord-Harbour que se efectua o aprovisionamento das diversas mercadorias, petróleo trazido por vapores especiais, farinhas e cereais, vinhos, cervejas e outras bebidas de alimentação moderna, chá, café, chocolate, especiarias, conservas, etc. Ali chegam também os bois, carneiros, os porcos dos melhores mercados da América, que asseguram o consumo da carne fresca, enfim tudo o que pode reclamar o mais exigente dos gastrónomos, no que respeita a comestíveis. Por aqueles portos se importam também as fazendas, a roupa branca, as modas, tudo o que pode exigir o mais requintado dos dândis ou a mais elegante das damas. Esses objectos compram-se aos fornecedores de Milliard-City, por que preço é que nos não atrevemos a dizer, receosos de excitar a incredulidade do leitor.

Em vista do que fica escrito, é lícito perguntar como é que o serviço dos vapores se estabelece regularmente entre o litoral americano e uma ilha de hélice, que por sua natureza é movediça — - um dia em tais paragens, outro a bastantes dezenas de milhas mais longe.

A resposta é simplicíssima. Standard-Island não se move ao acaso. A sua remoção conforma-se com um programa determinado pela administração superior, segundo consulta recebida dos meteorologistas do Observatório. É uma digressão, susceptível contudo de certas modificações, através daquela parte do Pacífico que contém os mais belos arquipélagos, e evitando, quanto possível, os choques repentinos de frio e de calor, causa de tantas afecções pulmonares. Foi isso que permitiu a Calistus Munbar a resposta por ele dada a propósito do Inverno: «Não conhecemos!» Standard-Island não navega senão entre o paralelo trinta e cinco norte e o paralelo trinta e cinco sul. Setenta graus a percorrer, por outra, mil e quatrocentas léguas marítimas, que magnífico campo de navegação! Os navios sabem pois sempre onde devem encontrar a Jóia do Pacífico, visto que o seu deslocamento está antecipadamente regulamentado entre os diversos grupos dessas ilhas deliciosas, que constituem como que outros tantos oásis no deserto do imenso oceano.

Pois mesmo em casos destes os navios não ficam reduzidos a andar ao acaso em cata da posição de Standard-Island. E, contudo, a Companhia não quis recorrer aos vinte e cinco cabos submarinos, com o comprimento de dezasseis mil milhas, que possui a Eastern Extension Australasia and China Company. Não! A ilha de hélice não quer depender de ninguém. Para isso bastou dispor à superfície desses mares uns centos de bóias, que suportam a extremidade de cabos eléctricos ligados com Madeleine-bay. Atraca-se a estas bóias, liga-se o fio aos aparelhos do Observatório, expedem-se os despachos, e os agentes da baía andam sempre informados da posição em longitude e latitude de Standard-Island. Daí resulta que o serviço dos navios de apercebimento faz-se com uma regularidade digna de um caminho de ferro.

Há, contudo, uma importante questão que merece a pena elucidar-se.

A água doce, como é que se desencanta para as necessidades múltiplas da ilha?

A água? Fabrica-se por destilação em duas oficinas especiais, próximas dos portos. Por meio de canalizações é levada às casas ou gira por debaixo das camadas do campo. Serve assim para todos os serviços domésticos ou da via pública, e cai depois em chuva benéfica sobre os campos e os relvados, que assim deixam de estar sujeitos aos caprichos celestes. E não só esta água é doce, mas é destilada, electrolisada, mais higiénica do que as fontes mais puras dos dois continentes, onde uma gota do tamanho de uma cabeça de alfinete pode encerrar quinze biliões de micróbios.

Falta dizer em que condições é que se efectua a deslocação deste maravilhoso aparelho. Não lhe é mister grande velocidade, visto que, em seis meses, não tem de sair das paragens compreendidas entre os trópicos por uma parte, e entre os meridianos cento e trinta e cento e oitenta por outra. Quinze a vinte milhas em cada vinte e quatro horas, Standard-Island não exige mais. Ora esta deslocação fácil fora obtê-la por meio de um reboque, estabelecendo um cabo feito dessa planta indiana que se chama bastin, a um tempo leve e resistente, que flutuasse entre duas águas, de modo que se não cortasse nos fundos submarinos. Enrolar-se-ia este cabo, nos dois extremos da ilha, em cilindros movidos a vapor, e Standard-Island seria rebocada à ida e à volta, à semelhança desses barcos que sobem e descem certos rios. Mas esse cabo teria de ser de uma grossura enorme para uma massa daquelas, e estaria sujeito a grande número de avarias. Era a liberdade acorrentada, era a obrigação de seguir a linha imperturbável da atoagem, e, em se tratando de liberdade, os cidadãos da livre América são duma intransigência soberba.

Nessa época, por fortuna, os electricistas tão longe levaram os seus progressos que tudo foi possível exigir à electricidade, esta alma do Universo. A ela, pois, se confiou a locomoção da ilha. Duas oficinas bastam para dar movimento a seus dínamos, de força por assim dizer infinita, fornecendo a energia eléctrica em corrente contínua, com voltagem moderada de dois mil volts. Esses dínamos movem um poderoso sistema de hélices colocadas na proximidade dos dois portos. Cada um deles desenvolve cinco milhões de cavalos-vapor, graças às suas centenas de caldeiras aquecidas com briquetes de petróleo, menos incómodas, menos enxovalhadas do que a hulha e mais ricas em calórico. Essas oficinas são dirigidas pelos dois engenheiros-chefes, os Srs. Watson e Somwah, auxiliados por um numeroso pessoal de maquinistas e de fogueiros, sob o comando superior do comodoro Ethel Simcoe. Da sua residência no Observatório está o comodoro em comunicação telefónica com as oficinas, estabelecidas uma perto de Tribord-Harbour, a outra perto de Babord-Harbour. É por ele que são remetidas as instruções de andamento e de retrocesso. Dele é que partiu, na noite de 25 para 26, a ordem de aprontar Standard-Island para viagem, achando-se ela nas proximidades da costa californiana, em começo da sua excursão anual.

Aqueles dos nossos leitores que se decidirem a, pelo pensamento, nela embarcarem confiadamente, assistirão às diversas peripécias dessa viagem pela superfície do Pacífico, e talvez que não tenham ensejo de se arrepender.

Digamos agora que a velocidade máxima de Standard-Island, quando as suas máquinas desenvolvem os seus dez milhões de cavalos, pode ascender a oito nós por hora. As vagas mais altaneiras, levantadas pela mais forte rajada, não a perturbam. Pela sua grandeza, escapa às ondulações do mar. Ali não há que ter medo do enjoo. Nos primeiros dias «a bordo», sente-se, quando muito, o leve estremecimento que a rotação das hélices imprime ao subsolo. Terminando em esporões de sessenta metros à proa e à popa, os quais dividem a água sem esforço, a ilha-navio percorre sem abalos o vasto campo líquido que se oferece às suas excursões.

É escusado acrescentar que a energia eléctrica, fabricada pelas duas oficinas, recebe outras aplicações além da locomoção de Standard-Island. Ela é que gera por detrás da lente dos faróis esse intenso foco luminoso, cujos feixes, projectados pelo mar largo, assinalam de longe a presença da ilha de hélice, e previnem todas as probabilidades de colisão. Ela é que fornece as diversas correntes utilizadas pelos serviços telegráficos, telefóticos, telautográficos e telefónicos para as necessidades das casas particulares e dos bairros mercantis. Ela, enfim, é que alimenta essas luas factícias, duma potência igual a cinco mil velas, que podem iluminar uma superfície de quinhentos metros quadrados.

Nessa época, este extraordinário engenho marítimo ia realizar segunda excursão através do Pacífico. Um mês antes largara ele de Madeleine-bay, navegando para o paralelo trinta e cinco, a fim de recomeçar o seu itinerário pelas alturas das ilhas Sanduíche. Achava-se então nas costas da Baixa Califórnia, quando Calistus Munbar, tendo sabido pelas comunicações telefónicas que o Quarteto Concertante, depois de ter saído de São Francisco, se dirigia para San Diego, teve ideia de aproveitar o concurso desses eminentes artistas. Sabe-se por que forma ele procedeu com respeito aos nossos parisienses, como embarcaram na ilha de hélice, a qual estacionava então a algumas amarras do litoral, e como, graças a essa partida traiçoeira, a música de câmara ia deliciar os diletantes de Milliard-City.

Tal é esta nova maravilha do mundo, esta obra-prima do engenho americano, digna do vigésimo século, a qual neste momento hospeda dois violinistas, um violetista e um violoncelista, arrastados sobre Standard-Island para as paragens ocidentais do oceano Pacífico.

 

CONVIDADOS... «INVITI»

Mesmo quando se suponha que Sebastião Zorn, Fras-colin, Yvernés e Pinchinat fossem homens insusceptíveis de pasmar fosse do que fosse, difícil lhes fora não cederem a um legítimo acesso de cólera, saltando às goelas de Calistus Munbar. Terem todas as razões para pensar que estão pisando o solo da América Setentrional e acharem-se transportados para o meio do oceano! Julgarem-se a umas vinte milhas de San Diego, onde no dia seguinte os esperam para um concerto, e receberem a nova fatal de que se vão afastando da terra firme a bordo de uma ilha artificial, flutuante e movediça! A falar verdade, seria bem desculpável o acesso de fúria! O que vale ao americano é ele ter-se posto ao abrigo da primeira investida. Aproveitando-se da surpresa, ou antes, da atarantação em que caiu o quarteto, safa-se da plataforma da torre, mete-se no ascensor, e fica por então fora do alcance das recriminações e das vivacidades dos quatro parisienses.

— - Que patife! — - exclama o violoncelo. — --Que besta! — - exclama o violeta.

— - Ora! Ora! Se graças a ele nós podemos contemplar maravilhas destas — -diz simplesmente o primeiro-violino.

— - Querem ver que o desculpas? — - replica o segundo-violino.

— - Não tem desculpa — - redarguiu Pinchinat — - e, se há justiça em Standard-Island, havemos de o meter em processo, a esse mistificador ianque!

— - E se há algoz — - ruge Sebastião Zorn — -, ferraremos com ele na forca!

Ora, para obter esses diversos resultados é necessário primeiro descer para o nível dos habitantes de Milliard-City, visto que a polícia não funciona a cento e cinquenta pés de altitude. E isso é coisa de pouco tempo, caso a descida seja possível. Mas a jaula do ascensor não tornou a subir, e não há nada que se pareça com escada. No alto desta torre acha-se pois o quarteto sem comunicação com o resto da humanidade.

Depois do primeiro desabafo de despeito e de cólera, Sebastião Zorn, Pinchinat e Frascolin, abandonando Yvernés às suas admirações, permaneceram silenciosos e acabaram por ficar imóveis. Acima deles, o filete da bandeira desdobra-se ao longo da haste. Sebastião Zorn sente ganas ferozes de lhe cortar a adriça, de o arriar como o pavilhão de um navio que se rende. Mas é melhor não se meterem em trabalhos, e os companheiros seguram-no no momento em que a sua mão agita uma navalha de ponta e mola muito afiada.

— - Nada de fazermos asneira — - observa o prudente Frascolin.

— - Nesse caso... aceitas a situação? — - pergunta Pinchinat.

— - Eu não... mas não a compliquemos nós.

— - E as nossas bagagens, que correm a caminho de San Diego?! — - lembra Sua Alteza, cruzando os braços.

— - E o nosso concerto de amanhã! — - exclama Sebastião Zorn.

— - Podem dá-lo pelo telefone! — - sugere o primeiro-violino, cujo gracejo não tem o dom de acalmar a irascibilidade do arrebatado violoncelista.

O Observatório, se bem se recordam os leitores, fica no meio de um vasto square, onde termina a Primeira Avenida. No outro extremo desta principal artéria, de três quilómetros de comprido, que separa as duas secções de Milliard-City, podem os artistas descortinar uma espécie de palácio monumental, sobrepujado por uma torre de construção muito ligeira e elegante. Presumem que deve ser ali a sede do governo, a residência da municipalidade, admitindo que Milliard-City tenha maire e adjuntos do maire. Não se iludem. E nesse momento preciso o relógio dessa torre começa a soltar umas badaladas alegres, uma música de carrilhão, que chega à torre do Observatório com as últimas ondulações da brisa.

— - Esperem! É em ré maior — -declara Yvernés.

— - E a dois por quatro — - acrescenta Pinchinat. O relógio dá cinco horas.

— - E a respeito de jantar — - exclama Sebastião Zorn — - e de cama? Querem ver que, por culpa daquele miserável Munbar, a gente tem de passar a noite nesta plataforma, a cento e cinquenta pés de altura?

Há motivo de o recear, se o ascensor não vier oferecer aos prisioneiros o meio de se safarem da prisão.

Com efeito, o crepúsculo é curto nestas baixas latitudes, e o astro radiante cai como um projéctil no horizonte. Os olhares que o quarteto espraia até aos limites extremos do céu não abraçam mais do que um mar deserto, sem uma vela, sem uma sombra de fumo. Pelos campos fora circulam os tramways, correndo para a periferia da ilha ou fazendo as comunicações com os dois portos. Àquela hora, está ainda o parque em toda a sua animação. Do alto da torre, assemelha-se a um imenso açafate de flores, onde se ostentam as azáleas, as clematites, os jasmins, as glicínias, as begónias, as sálvias, os jacintos, as dálias, as camélias, as rosas de cem espécies. Afluem os transeuntes — - homens feitos, rapazes novos, não destes peralvilhos que fazem a vergonha das grandes cidades europeias, mas adultos vigorosos e bem constituídos. Senhoras e meninas, quase todas com vestuário em que predomina o amarelo-palha, tom preferido nas zonas tórridas, passeiam lindos galgos de paletós de seda e de ligas agaloadas de ouro. Em vários pontos, esta gentry (1) segue pelas áleas de saibro fino, caprichosamente desenhadas por entre os relvados. Alguns repoltreiam-se nos coxins dos carros eléctricos,

 

*1. Pequena nobreza, gente de boa família.

 

outros estão sentados nos bancos abrigados pela folhagem. Mais além, uns gentlemen ainda novos entregam-se aos exercícios do ténis, do crocket, do golfe, do futebol e também do pólo, cavalgando póneis ardentes. Grupos de crianças — - dessas crianças americanas de uma exuberância espantosa, nas quais é tão precoce o individualismo, sobretudo nas pequenitas — - brincam sobre a relva. Alguns cavaleiros galopam em pistas tratadas com esmero, e outros lutam em garden-parties cheios de interesse.

Os bairros mercantis da cidade ainda são frequentados a estas horas.

Os passeios móveis rolam com a sua carga ao longo das principais artérias. Ao pé da torre, no square do Observatório, produz-se um vaivém de transeuntes, cuja atenção os prisioneiros desejariam bem atrair. Por isso, diversas vezes Pinchinat e Frascolin soltam clamores de atordoar. Lá que os ouvem, é certo, porque se vêem braços que para eles se estendem, até algumas palavras lhes chegam aos ouvidos. Mas nem um gesto de surpresa. Parece que ninguém se espanta do grupo simpático que se agita na plataforma. Quanto às palavras, consistem em «good-bye», «how do you do», boas-tardes e outras fórmulas impregnadas de amabilidades e cortesia. É de presumir que a população milliardense esteja informada da chegada dos quatro parisienses a Standard-Island, cujas honras lhes fez Calistus Munbar.

— - Ora esta! Estão a caçoar connosco! — - diz Pinchinat.

— - Pelo menos, parece! — - concorda Yvernés.

Decorre uma hora — - uma hora durante a qual os gritos foram inúteis. Os convites instantes de Frascolin não surtem mais efeito do que as multiplicadas invectivas de Sebastião Zorn. E, como se aproximam as horas de jantar, o parque começa a despejar-se de transeuntes, as ruas dos ociosos que as percorrem. Afinal, isto é já de perder a tramontana!

— - Sem dúvida — - diz Yvernés, evocando romanescas recordações — -, nós assemelhamo-nos a esses profanos que um génio mau atraiu a um recinto sagrado, e que são condenados a morrer por terem visto o que os seus olhos não deveriam ver...

— - E serão capazes de nos deixar sucumbir às torturas da fome!- — -protesta Pinchinat.

— - Ao menos não suceda esse desastre sem a gente esgotar todos os meios da existência! — - exclama Sebastião Zorn.

— - E se nos virmos reduzidos ao canibalismo... o primeiro sacrificado seja Yvernés! — - sugere Pinchinat.

— - Quando lhes aprouver! — - suspira o primeiro-rabeca em voz enternecida, curvando a cabeça para receber o golpe mortal.

Neste momento, ouve-se um ruído nas profundezas da torre. A jaula do ascensor sobe e pára ao nível da plataforma. Os prisioneiros, com a ideia de verem aparecer Calistus Munbar, preparam-se para o receber como ele merece...

A jaula está vazia!

Embora! Fica para outra vez. Os mistificados hão-de dar com o mistificador. O que urge é descer ao nível dele, e o meio indicado é tomar lugar no aparelho.

Dito e feito. Apenas o violoncelista e os companheiros se acham na jaula, ela põe-se em movimento, e, em menos de um minuto, chega ao pavimento térreo da torre.

— - A nossa fome — - exclama Pinchinat, lastimoso — - deve produzir dó maior!

Bem escolhido ensejo para destempera deste jaez! É claro que ninguém lhe responde. A porta está aberta. Saem todos quatro. O pátio interior está deserto. Os parisienses atravessam-no e seguem pelos passeios do square.

Há um burburinho de gente, que nem parece dar pela presença dos estrangeiros. A uma observação de Frascolin, que recomenda prudência, Sebastião Zorn tem de renunciar a recriminações intempestivas. Às autoridades é que cumpre pedir-se justiça. Nada de se afogarem cm pouca água. Voltar para o Excelsior Hotel, esperar pelo dia seguinte para fazer valer os seus direitos de homens livres, foi o que se decidiu, e o quarteto segue pedestremente pela Primeira Avenida fora.

Acaso estes parisienses têm, pelo menos, o condão de atrair a atenção pública? Sim e não. Observam-nos, mas sem grande insistência — - talvez como se eles fossem desses raros turistas que visitam uma que outra vez Milliard-City. Eles, impressionados por circunstâncias bastante extraordinárias, sentem-se pouco à vontade e imaginam que os encaram mais do que realmente o fazem. Por outro lado, não é de espantar que se lhes afigurem de um efeito esquisito esses ilhéus movediços, esses indivíduos voluntariamente sequestrados dos seus semelhantes, vagueando pela superfície do maior dos oceanos do nosso esferóide. Com um bocadinho de imaginação, fora lícito crer que eles pertençam a outro planeta do sistema solar. É esta a opinião de Yvernés, arrastado, pelo seu espírito sobreexcitado, para os mundos imaginários. Quanto a Pinchinat, esse diz apenas:

— - Toda esta gente tem um aspecto muito milionário, palavra! Fazem-me o efeito de ter uma hèlicezinha abaixo dos rins, tal qual como a sua ilha!

Entretanto, acentua-se a fome. Onde irá o almoço! O estômago reclama o seu tributo quotidiano. Trata-se, pois, de chegar o mais depressa possível ao Excelsior Hotel. Logo no dia seguinte se encetarão os passos combinados, tendentes a fazer com que os transportem a San Diego num dos vapores de Standard-Island, em seguida ao pagamento de uma indemnização, que deve recair sobre Calistus Munbar, como é de justiça.

Mas, ao seguirem pela Primeira Avenida, Frascolin pára de repente diante de um sumptuoso edifício, em cujo frontão se ostenta em letras de ouro esta inscrição: Casino. À direita da soberba arcada, que envolve a porta principal, descortina-se, através das vidraças ornamentadas de arabescos, uma enfiada de mesas de restaurante, algumas delas ocupadas por clientes que jantam, e em volta um numeroso pessoal de criados que circulam.

— - Come-se aqui! — - observa o segundo-violino, consultando com o olhar os companheiros famintos.

O que lhe vale esta resposta lacónica de Pinchinat:

— - Entremos!

E entram no restaurante todos os quatro, em fila indiana. Não parece que reparem muito na presença deles nesse estabelecimento gastronómico, normalmente frequentado pelos estrangeiros. Passados cinco minutos, os nossos esfomeados atiram-se vorazmente aos primeiros pratos de um excelente jantar, cujo menu foi organizado por Pinchinat, que entende da poda. Por fortuna a bolsa do quarteto está bem recheada, e, caso se esvazie em Standard-Island, algumas receitas em San Diego depressa a tornarão a encher.

Excelente cozinha, muito superior à dos hotéis de Nova Iorque ou São Francisco, preparada em fogões eléctricos, que se adaptam igualmente ao fogo brando e ao fogo vivo. Depois da sopa de ostras de conserva, dos fricassés de grãos de milho, da salada de aipo, dos pastéis de ruibarbo, que são iguarias tradicionais, aparecem peixes de uma frescura extrema, rumsteaks incomparavelmente tenras, caça proveniente decerto dos prados e das florestas da Califórnia, legumes devidos às culturas intensivas da ilha. Por bebida não lhes dão água nevada à moda americana, mas cervejas variadas e vinhos que os vinhedos da Borgonha, do Bordelês e do Reno despejaram para as adegas de Milliard-City, por altos preços, como é de presumir.

Este menu revigora os nossos parisienses. Ressente-se disso o curso das suas ideias. Talvez que lhes apareça em um ponto de vista menos sinistro a aventura em que estão metidos. É sabido que os músicos de orquestra bebem-lhe bem. O que é natural nos que gastam o fôlego a expelir ondas sonoras das entranhas dos instrumentos de vento, é menos desculpável naqueles que tocam instrumentos de corda. Deixá-lo! Yvernés, Pinchinat, mesmo Frascolin, começam a ver a vida cor de ouro nesta cidade de bilionários. Só Sebastião Zorn é que, embora deitando a barra adiante aos companheiros, não deixa a sua cólera afogar-se nos néctares originários da França.

Em suma, o quarteto está mais que razoavelmente atestado, quando chega o momento de pedir a conta.

É ao tesoureiro Frascolin que a entrega um mordomo de casaca preta.

O segundo-violino deita os olhos para a soma, levanta-se, torna a sentar-se, esfrega os olhos, olha para o tecto.

— - Que tens tu? — - pergunta Yvernés.

— - Um arrepio dos pés à cabeça! — - responde Frascolin.

— - É caro?

— - Mais que caro! Anda-nos a coisa por duzentos francos...

— - Os quatro?

— - Qual! Cada um...

Com efeito, cento e sessenta dólares, nem mais nem menos — - e, entrando em pormenores, os grooses estão metidos em conta a quinze dólares, o peixe a vinte dólares, as humsteaks a vinte e cinco dólares, o Médoc e o Borgonha a trinta dólares a garrafa — - o resto por este teor.

— - Safa! — - exclama Sua Alteza.

— - Que ladrões! — - exclama Sebastião Zorn.

Este diálogo em francês não é percebido pelo soberbo mordomo. No entanto, esta personagem tem alguma desconfiança do que se está a passar. Mas, se um leve sorriso se lhe desenha nos lábios, é o sorriso da surpresa, não o do desdém. Parece-lhe naturalíssimo que um jantar de quatro pessoas custe cento e sessenta dólares. São os preços de Standard-Island.

— - Nada de escândalo! — - recomenda Pinchinat. — - A França contempla-nos! Paguemos...

— - E seja lá como for — - replica Frascolin — -, ponhamo-nos a caminho de San Diego. Depois de amanhã, ficávamos sem ter com que comprar uma sanduíche!

Dito isto, saca da carteira, tira uma porção respeitável de dólares em papel, que, por fortuna, têm curso em Milliard-City, e ia a entregá-los ao mordomo quando se ouve uma voz bradar:

- Estes senhores não devem nada.

É a voz de Calistus Munbar.

O ianque acaba de entrar na sala, alegre, sorridente, trescalando a bom humor, como de costume.

— - Ele! — - exclama Sebastião Zorn, que sente ganas de o agarrar pelo gasganete e de o apertar como aperta o braço do violoncelo num forte.

— - Sossegue, meu caro Zorn — - diz o americano. — - Peço-lhe o obséquio de vir com os seus companheiros à sala onde o café está à vossa espera. Aí poderemos falar à vontade, e no fim da nossa conversação...

— - Estrafego-o! — - ameaça Sebastião Zorn.

— - Qual! Beija-me as mãos...

— - Não lhe beijo coisa nenhuma! — - exclama o violoncelista, a um tempo pálido e rubro de cólera.

Passado um instante, Calistus Munbar e os seus convidados estão estiraçados em divãs muito macios, enquanto o ianque se balouça numa rocking-chair(1).

E eis como ele se expressa, apresentando aos seus hóspedes a sua própria pessoa:

— - Calistus Munbar, de Nova Iorque, cinquenta anos, segundo sobrinho do célebre Barnum, actualmente superintendente das Belas-Artes em Standard-Island, encarregado de tudo quanto diz respeito à pintura, à escultura, à música, e, em geral, a todas as diversões de Milliard-City. E agora que os senhores me conhecem...

— - Dar-se-á o caso — - pergunta Sebastião Zorn — - que o senhor não seja também agente de polícia, encarregado de fazer com que as pessoas caiam em ratoeiras e de as suster à força?

— - Não tenha pressa de fazer juízos a meu respeito, meu irritável violoncelo — -responde o superintendente — -, e espere pelo fim.

- Estamos à espera — - declara Frascolin, em tom grave. — - Somos todos ouvidos.

— - Meus senhores — - prossegue Calistus Munbar, assumindo uma atitude graciosa — -, não desejo, no decurso desta conferência, tratar com os meus amigos senão do assunto musical, tal como é compreendido na nossa ilha de hélice. Teatros não os possui ainda Milliard-City; mas,

 

*1. Cadeira de balouço.

 

quando quiser, eles surdirão do seu solo como por encanto. Até hoje, os nossos concidadãos têm satisfeito as suas tendências musicais pedindo a aparelhos aperfeiçoados que os tenham ao corrente das obras-primas líricas. Os compositores antigos e modernos, os grandes artistas de hoje em dia, os instrumentos mais em voga, ouvimo-los nós quando nos apraz, por meio do fonógrafo...

— - Uma sanfona o seu fonógrafo! — - exclama desdenhosamente Yvernés.

— - Não é tanto assim como o amigo imagina, Sr. solista de violino — - replica o superintendente. — - Nós possuímos aparelhos que por mais de uma vez tiveram a indiscrição de os ouvir, quando os senhores davam concertos em Boston ou em Filadélfia. E, quando os senhores quiserem, podem aplaudir-se a si próprios com as suas próprias mãos...

Nessa época, tinham chegado ao último grau de perfeição as invenções do ilustre Edison. O fonógrafo já não era aquela caixa de música com que a princípio tinha tão completas parecenças. Graças ao seu admirável inventor, o talento efémero dos executantes instrumentistas ou cantores conserva-se para admiração das raças futuras com tanta nitidez como a obra dos estatuários ou dos pintores. Eco, se assim quiserem, mas eco fiel como uma fotografia, reproduzindo as gradações, as delicadezas do canto ou da execução instrumental em toda a sua inalterável pureza.

Ao dizer isto, Calistus Munbar é tão caloroso que os seus ouvintes ficam impressionados. Fala de Saint-Saéns, de Reyer, de Ambroise Thomas, de Gounod, de Massenet, de Verdi, e das obras-primas e imorredouras de Berlioz, de Meyerbeer, de Halévy, de Rossini, de Beethoven, de Haydn, de Mozart, como homem que conhece a fundo todos estes compositores, que os aprecia, que consagra à sua divulgação uma existência já longa de empresário, e dá gosto ouvi-lo. Todavia, não parece que ele tivesse sido contagiado pela epidemia wagneriana, aliás em declinação por esta época.

Quando se cala, para tomar fôlego, Pinchinat, aproveitando a aberta, exclama:

— - Tudo isso é muito bonito, mas a sua Milliard-City nunca ouviu senão música encaixotada, umas conservas melódicas que lhe expedem à laia de sardinhas ou de saltbeef(1)...

— - Perdão, meu caro violetista.

— - A minha alteza perdoa-lhe, mas não pode deixar de insistir neste ponto: é que os seus fonógrafos só têm no bojo o passado, e nunca proporciona o prazer de ouvir em Milliard-City um artista no momento em que ele executa o seu trecho...

— - Mais uma vez lhe peço perdão.

— - O nosso amigo Pinchinat concede-lhe quantos perdões o Sr. Munbar quiser — - afirma Frascolin. — - Tem as algibeiras cheias deles. Mas a sua observação é exacta. Ainda se os senhores pudessem pôr-se em comunicação com os teatros da América e da Europa... , — -E julga isso impossível, meu caro Frascolin? — --pergunta o superintendente, parando com o balanço da cadeira.

— - Que diz?

— - Digo que isso não passava de uma questão de preço, e a nossa cidade é rica bastante para satisfazer todos os seus caprichos, todas as suas aspirações no que respeita à arte lírica. Foi isso o que ela fez.

— - E como?

— - Por meio dos teatrofones instalados na sala de concerto deste Casino. Pois a Companhia não possui um número avultado de cabos submarinos imersos nas águas do Pacífico, com um dos extremos ligados à baía Madalena, e o outro mantido em suspensão por meio de fortíssimas bóias? Pois bem! Quando os nossos concidadãos ] querem ouvir um dos cantores do Antigo ou do Novo Continente, fisga-se um desses cabos, manda-se uma ordem telefónica aos agentes de Madeleine-bay. Esses agentes estabelecem a comunicação quer com a América, quer com a Europa. Ligam-se os fios ou os cabos com este ou com aquele teatro, esta ou aquela sala de concertos,

 

*1• Carne salgada.

 

e os nossos diletantes, instalados neste Casino, assistem realmente a essas execuções longínquas, e aplaudem...

— - Mas os aplausos é que não podem ouvi-los lá... — - exclama Yvernés.

— - Peço perdão, meu caro Sr. Yvernés, ouvem-nos pelo fio de retorno.

E então Calistus Munbar atira-se arrojadamente a reflexões transcendentes sobre a música, considerada não só como uma das manifestações da arte, mas como agente terapêutico. Segundo o sistema de J. Harford, de Westminster-Abbey, os milliardenses puderam verificar os resultados extraordinários desta utilização da arte lírica. Este sistema conserva-os num estado de perfeita saúde. Como a música exerce uma acção reflexa sobre os centros nervosos, as vibrações harmoniosas têm por efeito dilatar os vasos arteriais, influir sobre a circulação, acrescê-la ou diminuí-la, conforme as necessidades. A música determina, pois, uma aceleração das palpitações do coração e dos movimentos respiratórios, em virtude da tonalidade ou da intensidade dos sons, não deixando de ser um adjuvante da nutrição dos tecidos. Por isso, em Milliard-City funcionam postos de energia musical, transmitindo as ondas sonoras para as habitações por via telefónica, etc.

O quarteto escuta boquiaberto. Os artistas nunca ouviram discutir a sua arte no ponto de vista médico, e provavelmente não lhes dá isso um extremo prazer. Contudo, o fantasista Yvernés é que se apresta logo a apaixonar-se por estas teorias, que aliás remontam aos tempos do rei Saul, conforme a receita e segundo a fórmula do célebre harpista David.

— - Sim! Sim! — - exclama ele depois das últimas frases do superintendente. — - Está indicado. Basta escolher na conformidade do diagnóstico! Wagner ou Berlioz para os temperamentos depauperados...

— - E Mendelssohn ou Mozart para os temperamentos sanguíneos, o que substitui com vantagem o brometo de estrôncio! — -responde Calistus Munbar.

Sebastião Zorn intervém neste momento, lançando a nota brutal no meio desta cavaqueira de alta envergadura.

— - Não se trata de coisa nenhuma dessas — - interrompe ele. — - Porque é que o senhor nos trouxe para aqui?

— - Porque os instrumentos de corda são os que exercem uma acção mais poderosa...

— - Essa não está má! Com que então foi para acalmar as suas neuroses e mais os seus neuróticos que o senhor interrompeu a nossa viagem, que nos impede de chegarmos a San Diego, onde tínhamos de dar amanhã um concerto...

— - Foi para isso mesmo, meus excelentes amigos...

— - Com que então não viu em nós senão uma espécie de curandeiros musicais, de boticários líricos? — - exclamou Pinchinat.

— - Não, meus senhores — - responde Calistus Munbar, levantando-se. — - Eu não vi nos senhores senão artistas de grande talento e de grande reputação. Os hurras que acolheram o Quarteto Concertante nas suas digressões pela América chegaram até à nossa ilha. Ora, a Standard-Island Company pensou que chegara o momento de substituir os fonógrafos e os teatrofones por virtuosi palpáveis, tangíveis, de carne e osso, e de dar aos milliardenses o inefável gozo de uma execução directa das obras-primas da arte. Quis começar pela música de câmara, antes de organizar orquestra de ópera. Lembrou-se dos senhores, que são os representantes legítimos dessa música. Encarregou-me da missão de os apanhar fosse por que preço fosse, de os raptar em caso extremo. São os meus amigos os primeiros artistas que põem o pé em Standard-Island; calculem, pois, o acolhimento que os espera!

Yvernés e Pinchinat sentem-se deveras abalados por estes entusiásticos períodos do superintendente. Nem de leve lhes acode ao espírito que tudo isto possa ser uma mistificação. Frascolin, esse, como homem reflectido, pergunta a si próprio se deve tomar a sério esta aventura. Afinal de contas, numa ilha tão extraordinária, será de admirar que as coisas apareçam sob um aspecto extraordinário?

Quanto a Sebastião Zorn, esse está resolvido a não se deixar convencer.

— - Nada, não, senhor — - exclama ele. — - Não é lançar assim mão das pessoas contra vontade delas! Vamos apresentar uma queixa contra o senhor!

— - Uma queixa... quando deviam cumular-me de agradecimentos... Que ingratidão a sua! — -replica o superintendente.

— - E havemos de obter uma indemnização...

— - Uma indemnização... quando eu tenho para lhes oferecer cem vezes mais do que lhes era lícito esperar...

— - De que se trata? — - pergunta o prático Frascolin. Calistus Munbar puxa da sua carteira, tira uma folha

de papel com as armas de Standard-Island. Em seguida acrescenta, depois de a ter apresentado aos artistas:

— - As suas quatro assinaturas por baixo deste contrato, e fica o negócio arrumado.

— - Assim sem ver? — - objecta o segundo-violino. — - Isso é coisa que se não faz em parte nenhuma!

— - Pois olhem que não teriam motivo de se arrependerem! — -prossegue Calistus Munbar, cedendo a um acesso de hilaridade, que lhe sacode todo o corpo. — - Mas procedamos por forma regular. É uma escritura que a Companhia lhes propõe, uma escritura por um ano, a contar de hoje, que tem por objectivo a execução da música de câmara, tal como a comportavam os vossos programas na América. Daqui a doze meses está Standard-Island de volta à baía Madalena, onde os senhores chegarão a tempo...

— - Do nosso concerto em San Diego, não é assim? — - exclama Sebastião Zorn. — - San Diego, onde hão-de receber-nos com assobios.

— - Não, meus senhores, com hurras e hipes! Quando se trata de artistas da vossa esfera, os diletantes honram-se muito e estimam imenso que eles se dignem deliciá-los... mesmo que seja com um ano de espera!

Ora vão lá ter zanga a um homem destes!

Frascolin pega no papel e lê atentamente.

— - Que garantia temos nós? — - pergunta ele.

— - A garantia da Standard-Island Company com a assinatura do Sr. Cyrus Bikerstaff, nosso governador.

— - E o ordenado será este que eu vejo indicado no contrato?

— - Exactamente, quero dizer, um milhão de francos...

— - Para quatro? — - exclama Pinchinat.

— - Para cada um — - esclarece Calistus Munbar, a sorrir — -, e mesmo essa quantia não está em proporção dos vossos méritos, que não há nada que possa pagar o vosso justo valor!

Não será fácil ser mais amável, devem convir. E, contudo, Sebastião Zorn protesta. Teima em não aceitar por preço nenhum. Quer partir para San Diego, e só a muito custo é que Frascolin consegue acalmar a sua indignação.

A dizer a verdade, à vista da proposta do superintendente, é lícito conservar uma certa desconfiança. Uma escritura por um ano, ao preço de um milhão de francos por cada um dos artistas, é coisa que possa tomar-se a sério? Pois pode, como Frascolin dá a entender por esta pergunta:

— - E este ordenado paga-se...?

— - Em quatro prestações — - responde o superintendente. — - Aqui está o primeiro trimestre.

Dos maços de notas que lhe gravidam a carteira, faz Calistus Munbar quatro macetes de cinquenta mil dólares, ou, por outra, duzentos e cinquenta mil francos, que entrega a Frascolin e aos seus companheiros.

Aí está uma maneira de tratar os negócios — - à americana.

Sebastião Zorn não deixa de ficar abalado até certo ponto. Mas, como o mau humor nunca perde nele os seus direitos, o chefe do quarteto não pode suster esta reflexão:

— - Afinal de contas, em vista dos preços por que se pagam as coisas aqui na cidade, se a gente paga um perdigoto por vinte e cinco francos, é capaz de dar cem francos por um par de luvas, e quinhentos francos por um par de botas.

— - Oh! Sr. Zorn, a Companhia não se prende com bugiarias dessas — - exclama Calistus Munbar.

— - O seu desejo é que os artistas do Quarteto Concertante sejam à sua custa fornecidos de tudo durante a sua estada nos seus domínios!

Que respostas há para estas generosas ofertas, a não ser pôr as assinaturas no contrato?

É o que fazem Frascolin, Pinchinat e Yvernés. Sebastião Zorn vai resmungando que tudo isto é absurdo... Embarcarem numa ilha de hélice é sinal de pouco juízo. Verão como tudo acaba...

Enfim, decide-se a assinar.

E, cumprida esta formalidade, se Frascolin, Pinchinat, Yvernés e Sebastião Zorn não beijaram a mão de Calistus Munbar, pelo menos apertaram-na afectuosamente. Quatro apertos de mão, por um milhão cada um!

E eis agora como o Quarteto Concertante está envolvido numa aventura inverosímil, e em que circunstâncias os seus membros vêm a ser convidados inviti de Standard-Island.

 

PROA A OESTE

Standard-Island singra muito devagar sobre as águas desse oceano Pacífico, que nessa quadra do ano justifica o seu nome. Habituados há vinte e quatro horas a essa translação serena, Sebastião Zorn e os seus companheiros já nem mesmo percebem que estão a navegar. Por mais poderosas que sejam as suas centenas de hélices, atreladas a dez milhões de cavalos, propaga-se apenas uma ligeira vibração pelo casco metálico da ilha. Milliard-City não estremece sobre a sua base. Nada, além disso, se sente das oscilações do mar, às quais obedecem, contudo, os mais fortes couraçados das marinhas de guerra. Não há, nas habitações, nem mesas nem candeeiros de balanço. Para quê? As casas de Paris, de Londres, de Nova Iorque não estão mais inabalàvelmente firmes sobre os alicerces.

Depois de algumas semanas de refresco em Made-leine-bay, o Conselho dos Notáveis de Standard-Island, convocado a rogos do presidente da Companhia, tinha determinado o programa da excursão anual. A ilha de hélice ia cruzar por entre os principais arquipélagos do Pacífico oriental, no meio dessa atmosfera higiénica, tão rica em ozone, em oxigénio condensado, electrizado, dotado de particularidades activas, que o oxigénio no estado normal não possui. Visto que este aparelho tem a liberdade dos seus movimentos, dela se aproveita, e é-lhe facultativo andar a seu bel-prazer, para oeste ou para leste, aproximar-se do litoral americano, se assim lhe apraz, chegar-se-á às costas orientais da Ásia, se tal é o seu capricho.

Standard-Island vai para onde quer no intento de gozar das distracções de uma navegação variada. E até se lhe apetecesse sair do oceano Pacífico para entrar no Índico ou no Atlântico, dobrar o cabo Horn ou o cabo da Boa Esperança, bastava-lhe tomar essa direcção, e convençam-se de que nem as correntes nem os temporais a impediriam de conseguir o seu fim.

Mas não há ideia de se aventurar por esses mares longínquos, onde a Jóia do Pacífico não encontraria o que este oceano lhe oferece no meio do rosário interminável desses grupos insulares. É um teatro vasto de sobra, uma grande multiplicidade de itinerários. A ilha de hélice pode percorrê-lo de um arquipélago para outro.

Se não é dotada desse instinto peculiar aos animais, esse sexto sentido de orientação, que os dirige para os sítios aonde os chamam as suas necessidades, é conduzida por mão firme, segundo um programa demoradamente discutido e unanimemente aprovado. Até então, nunca houve desacordo sobre esse ponto entre os Estibordenses e os Bombordenses. E neste momento é em virtude de uma resolução assente que a ilha navega para oeste, com proa feita ao grupo das Sanduíche. A distância de cerca de mil e duzentas léguas, que separa este grupo do sítio onde embarcou o quarteto, deve ela levar um mês a vencê-la, com velocidade moderada, e demorar-se-á nesse arquipélago até ao dia em que lhe convier achegar-se para outro do hemisfério austral.

No dia que segue àquele dia memorável, o quarteto sai do Excelsior Hotel e vem instalar-se nuns quartos do Casino, postos à sua disposição — - quartos confortáveis, decorados com a máxima riqueza. Em frente das janelas estende-se a Primeira Avenida. Sebastião Zorn, Frascolin, Pinchinat e Yvernés têm cada um deles um quarto, em volta de uma sala comum. O pátio central do edifício reserva-lhes a sombra das suas árvores opulentas de folhagem, a frescura dos seus lagos onde a água repuxa. A um dos lados desse pátio fica o museu de Milliard-City, do outro, a sala do concerto, onde os artistas parisienses tão vantajosamente vão substituir os ecos dos fonógrafos e as transmissões dos tea-trofones. Duas vezes, três vezes, as vezes que eles desejarem durante o dia, está posta para eles a mesa no restaurante, onde o mordomo não tornará a apresentar-lhes contas inverosímeis.

Nessa manhã, estão eles reunidos na sala comum, alguns momentos antes de descerem para almoçar.

— - Então, seus rabequistas — - pergunta Pinchinat — -, que dizem vocês a isto que nos acontece?

— - Parece um sonho — - responde Yvernés — -, um sonho em que estamos escriturados a um milhão por ano...

— - Qual sonho! — -responde Frascolin. — - É realidade deveras. Mete a mão na algibeira e já podes sacar de lá a primeira quarta parte do dito milhão.

— - O que resta saber é como isto tudo irá acabar! Pessimamente, calculo eu! — - exclama Sebastião Zorn, que quer por força achar o vinco de uma pétala de rosa no leito onde o estenderam contra sua vontade. — - E é verdade! As nossas bagagens?

Com efeito, as bagagens deviam ter seguido para San Diego, donde não podem voltar, e onde os seus donos não podem ir buscá-las. Bagagens muito rudimentares; apenas: umas malas, alguma roupa branca, utensílios de toilette, fato de sobresselente, e também o trajo oficial dos executantes, quando comparecem perante o público.

Sobre este ponto não vale a pena apoquentarem-se. Dentro de quarenta e oito horas, essa fatiota, já um pouco usada, seria substituída por outra, posta à disposição dos quatro artistas e sem terem de pagar mil e quinhentos francos por um par de botas.

Escusado é dizer que Calistus Munbar, encantado por ter conduzido tão habilmente este negócio delicado, desvela-se por que o quarteto não tenha sequer de formular o mínimo desejo. É impossível imaginar um superintendente de mais inesgotável obsequiosidade. Ocupa um dos quartos deste Casino, cujos diferentes serviços estão sob a sua alta direcção, e a Companhia remunera-o com um ordenado digno da sua magnificência e da sua munificência... Preferimos não indicar a quantia.

O Casino contém salas de leitura e salas de jogos; mas o bacará, o trinta-e-quarenta, a roleta, o poquer e outros jogos de azar são rigorosamente proibidos. Vê-se também ali um fumoir, onde funciona o transporte directo do fumo de tabaco para os domicílios, sendo a preparação feita por uma sociedade recentemente fundada. O fumo de tabaco, queimado nas caçoilas de uma edificação central, purificado e levado de nicotina, é distribuído por tubos com extremidades de âmbar, especiais para cada amador. Basta aplicar-lhes os lábios, e um contador regista o consumo quotidiano.

Neste Casino, onde os diletantes podem vir embriagar-se dessa música longínqua, à qual em breve vão juntar-se os concertos do quarteto de cordas, encontram-se também as colecções de Milliard-City. Aos amadores de pintura, o museu, rico de quadros antigos e modernos, proporciona o exame de numerosas obras-primas, pesadas a ouro, telas das escolas italiana, holandesa, alemã e francesa, capazes de fazer inveja às colecções de Paris, de Londres, de Munique, de Roma e de Florença, quadros de Rafael, de Vinci, de Giorgione, de Corregio, de Dominiquino, de Ribera, de Murillo, de Ruysdael, de Rembrandt, de Rubens, de Cuyp, de Franz Hals, de Hobbema, de Van Dyck, de Holbein, ete, e também, entre os modernos, obras de Fragonard, de Ingres, de Delacroix, de Scheffer, de Cabat, de Delaroche, de Regnaut, de Couture, de Meissonnier, de Millet, de Rousseaux, de Jules Dupré, de Brascassat, de Mackart, de Turner, de Corot, de Daubigny, de Baudry, de Bonnat, de Carolus Duran, de Jules Lefebvre, de Vollon, de Breton. de Binet, de Yon, de Cabanel, etc. A fim de lhes assegurar uma duração eterna, esses quadros estão colocados no interior de vitrinas, onde previamente se fez o vácuo. O que é conveniente observar é que os impressionistas, os angustiados, os futuristas, ainda não vieram atravancar este museu; mas é de crer que não tarde a invasão, e Standard-Island não há-de escapar à epidemia de peste decadente. O museu possui igualmente estátuas de valor real, mármores dos grandes escultores antigos e modernos, colocados nos pátios interiores do Casino. Mercê deste clima sem chuvas nem nevoeiros, grupos, estátuas e bustos podem resistir impunemente aos ultrajes do tempo.

Que estas maravilhas sejam muito visitadas, que os nababos de Milliard-City tenham um gosto muito pronunciado por estas produções da arte, que neles esteja eminentemente desenvolvido o sentimento artístico, arriscado seria o pretendê-lo. Deve-se notar, contudo, que na secção estibordense contam-se mais amadores do que na secção bombordense. Em todo o caso, todos estão de acordo quando se trata de adquirir alguma obra-prima, c então os seus lances inverosímeis levam de vencida todos os duques d'Aumale, todos os Chauchard do Velho e do Novo Continente.

As salas mais frequentadas do Casino são as de leitura, consagradas às revistas, aos jornais europeus ou americanos, trazidos pelos vapores de Standard-Island, em serviço regular com Madeleine-bay. Depois de folheadas, lidas e relidas, as revistas arrumam-se nas estantes da biblioteca, onde se enfileiram muitos milhares de obras, cuja catalogação necessita da assistência de um bibliotecário, que tem de vencimento vinte e cinco dólares, e é talvez o menos atarefado dos funcionários da ilha. Essa biblioteca contém também um certo número de livros fonográficos: escusa de haver o trabalho de ler, prime-se um botão, e ouve-se a voz de um excelente recitador, que faz a leitura — - o que seria a Fedra de Racine lida pelo Sr. Legouvé.

Quanto aos jornais da «localidade», esses são redigidos, compostos e impressos nas oficinas do Casino, sob a direcção de dois redactores-chefes. Um deles é o Starboard-Chronicle, para a secção dos Estibordenses; o outro, o New-Herald, para a secção dos Bombordenses. A crónica é alimentada pelas notícias do dia, chegadas de paquetes, notícias marítimas, encontros de embarcações, polémicas que interessam ao bairro mercantil, ponto diário com a latitude e a longitude, decisões do Conselho dos Notáveis, decretos do governador, autos do estado civil: nascimentos, casamentos, óbitos — - estes últimos raríssimos. Fora disso, nem roubos, nem assassínios, porque os tribunais apenas se ocupam de processos do cível, contestações entre particulares. Nem mesmo se escrevem artigos a respeito de pessoas centenárias, visto que a longevidade da vida humana não é na ilha privilégio de poucos.

Quanto à parte da política estrangeira, essa está sempre em dia por meio das comunicações telegráficas com Madeleine-bay, onde se concentram os cabos imersos nas profundezas do Pacífico. Os Milliardenses são assim informados de tudo o que se passa em todo o Mundo, quando os factos oferecem qualquer interesse. Acrescentemos que o Starboard-Chronicle e o New-Herald não se tratam mutuamente com grande desabrimento. Até então, têm vivido em regular camaradagem, mas seria arriscado jurar que dure para todo o sempre esta troca de discussões corteses. Muito tolerantes, muito conciliadores no terreno religioso, o protestantismo e o catolicismo vivem em harmonia em Standard-Island. O demónio é se de futuro se intromete a odiosa política, se a nostalgia dos negócios acomete alguns deles, se entram em acção as questões de interesse pessoal e de amor-próprio...

Além destas duas gazetas, há os periódicos hebdoma-dários ou mensais, reproduzindo os artigos das folhas estrangeiras, os dos sucessores de Sarcey, de Lemaitre, de Charmes, de Fournel, de Deschamps, de Fouquier, de France, e outros críticos de nomeada; depois as revistas ilustradas, sem contar uma dezena de folhas de desporto, de espectáculos, de boulevard, consagradas ao munda-nismo decorrente. Não têm por alvo senão distraírem um instante, dirigindo-se ao espírito... e até ao estômago. É verdade! Algumas delas são impressas em massa comestível com tinta de chocolate. Depois de lidas, comem-se ao primeiro almoço. Umas são adstringentes, outras levemente purgativas, e o organismo dá-se bem com elas. O quarteto acha esta invenção, além de agradável, muito prática.

— - Isto é que são leituras de fácil digestão! — - observa judiciosamente Yvernés.

— - E de uma literatura substancial! — - acrescenta Pinchinat.

— - Esta misturada da pastelaria com a literatura está perfeitamente de acordo com a música higiénica!

Ocorre perguntar de que recursos dispõe a ilha de hélice para manter a sua população em condições tais de bem-estar, que excedem em muito as de qualquer outra cidade dos dois mundos. É forçoso que as suas receitas se elevem a uma quantia inverosímil, dados os créditos destinados aos diversos serviços e os vencimentos concedidos aos mais modestos empregados.

Eis o que responde o superintendente, quando o interrogam a tal respeito:

— - Aqui ninguém trata de negócios. Nós aqui não temos nem Board of Trade, nem Bolsa, nem indústria. No que respeita ao comércio, há apenas o indispensável para as necessidades da ilha; não nos passa pela ideia oferecer aos estrangeiros o equivalente do WorlcTs Fair de Chicago em 1893 e da Exposição de Paris em 1900. Nada disso! A poderosa religião dos business não existe aqui, nem nós soltamos o grito de go ahead, a não ser para que a Jóia do Pacífico siga avante na sua navegação. Não é portanto aos negócios que nós pedimos os recursos necessários para a manutenção de Standard-Island, é mas é à alfândega. Sim! Os direitos aduaneiros permitem-nos acudir a todas as exigências do orçamento...

— - E esse orçamento? — -pergunta Frascolin.

— - Está calculado em vinte milhões de dólares, meus bons amigos!

— - Cem milhões de francos — - exclama o segundo-vio-lino. — - Isto para uma cidade de dez mil almas!

— - É como diz, meu caro Frascolin, e essa quantia provém unicamente dos impostos aduaneiros. Não temos fiscalização de barreiras, visto que as produções locais são quase insignificantes. Não! Temos apenas os direitos cobrados em Tribord-Harbour e Babord-Harbour. É isso que explica a carestia dos géneros? Garantia aliás relativa, é claro, porque esses preços, por mais elevados que lhes pareçam, estão em proporção dos meios de que cada um dispõe.

E aí temos nós Calistus Munbar a espraiar-se outra vez, a gabar a sua cidade, a jactar-se da sua ilha — - pedaço de planeta superior caído do céu em pleno Pacífico, Éden flutuante, onde se refugiaram os sábios, e, se nela não existe a verdadeira felicidade, é escusado procurá-la em parte nenhuma! Parece um pregão de charlatão de feira! Está a gente a ouvir:

«Entrem, minhas senhoras! Entrem, meus senhores! Comprem os seus bilhetes! Já há poucos lugares! Vai começar. Quem não tem cabeça não paga nada... É entrar, é entrar!»

É certo que os lugares são raros e os bilhetes caríssimos! Não quer dizer nada! O superintendente faz jogos malabares com esses milhões, que não passam de reles unidade nesta cidade de biliões!

É durante este aranzel, em que as frases jorram em catadupa, em que os gestos se multiplicam com frenesi semafórico, que o quarteto fica ao corrente dos diferentes ramos de administração. Em primeiro lugar, as escolas, onde se dá instrução gratuita e obrigatória, e que são dirigidas por professores remunerados como os ministros de Estado. Nelas se aprendem as línguas mortas e as línguas vivas, a história e a geografia, as ciências físicas e matemáticas, as artes de recreio, melhor do que em qualquer das Universidades ou Academias do Velho Mundo — - se se der crédito a Calistus Munbar. A verdade é que os alunos não se atropelam nos cursos públicos, e, se a geração actual ainda possui alguns laivos dos estudos feitos nos colégios dos Estados Unidos, a geração que lhe suceder terá menos instrução do que rendimento. É esse o ponto defeituoso, e talvez que os homens tenham tudo a perder em se isolarem assim da humanidade.

Ora essa! Pois os habitantes dessa ilha factícia nunca viajam pelo estrangeiro? Nunca vão visitar os países de além-mar, as grandes capitais da Europa? Pois não percorrem as regiões às quais o passado legou tantas obras-primas de toda a espécie? Sim! Alguns há, impelidos para regiões longínquas por um vago sentimento de curiosidade. Mas cedo se fatigam; aborrecem-se quase todos; não encontram nessas regiões nada da existência uniforme de Standard-Island; sofrem com o calor, sofrem com o frio; enfim, constipam-se, ao passo que em Milliard-City ninguém se constipa. Por isso, logo sentem saudades da sua ilha, impaciência de voltar a ela, os imprudentes que tiverem a desastrada ideia de a deixar. Que proveito tiraram eles das suas viagens? Nenhum. «Como alforges foram, como alforges tornaram», diz uma antiga fórmula dos Gregos, e nós acrescentaremos: como alforges hão-de ficar.

Quanto aos estrangeiros que deve atrair a celebridade de Standard-Island, essa nova maravilha do mundo, desde que a torre Eiffel — - há quem o diga, pelo menos — - ocupa o oitavo lugar, esses pensa Calistus Munbar que nunca serão muito numerosos. Também não há grande empenho em lhes receber a visita, se bem que o seu desembarque possa constituir uma nova fonte de receitas para a ilha. Dos que vieram no ano precedente, a maioria era de origem americana. Das outras nações, poucos ou nenhum. Todavia, apareceram alguns ingleses, que se conheciam por causa das calças invariavelmente arregaçadas, sob o pretexto de que chove em Londres. Demais a mais, a Grã-Bretanha fez má cara à criação de Standard-Island, que, no seu entender, embaraça a circulação marítima, e havia de se regozijar com a sua desaparição. Quanto aos alemães, esses são acolhidos com bem pouco alvoroço, como gente que em curto prazo seria capaz de transformar Milliard-City numa nova Chicago, se acaso os deixassem enraizar-se ali.

De todos os estrangeiros são os franceses aqueles que a Companhia recebe com mais simpatias e atenções, sabendo-se que eles não pertencem às raças invasoras da Europa. Mas até àquele momento, acaso tinham algum francês em Standard-Island?

— - É provável que não — - observa Pinchinat.

— - Nós não somos bastante ricos — - acrescentou Fras-colin.

— - Para capitalistas, é possível — - responde o superintendente — -, mas não para funcionários.

— - Então há algum compatriota nosso em Milliard-City? — - pergunta Yvernés.

— --Há um.

— - E quem é esse privilegiado?

— - O Sr. Atanásio Dorémus.

— - E que faz aqui esse tal Atanásio Dorémus? — - interroga Pinchinat.

— - É professor de dança e de boas maneiras, magnificamente remunerado pela administração e com pulso livre para lições particulares...

— - Que só um francês é capaz de dar! — -observa Sua Alteza.

Agora já o quarteto fica informado sobre a organização administrativa de Standard-Island. O que tem a fazer é deixar-se ir nos encantos desta navegação, que o leva para a parte oeste do Pacífico. A não ser por verem o Sol nascer ora sobre um, ora sobre outro ponto da ilha, segundo a orientação dada pelo comodoro Simcoe, Sebastião Zorn e os seus companheiros seriam capazes de crer que estão em terra firme. Por duas ocasiões, durante a quinzena seguinte, levantaram-se temporais com ventanias impetuosas e terríveis, pois que também alguns se formam no Pacífico, não obstante o seu nome. Os vagalhões do mar largo vieram rebentar de encontro ao casco metálico, cobriram-no de espuma como se fosse a escarpa de uma costa. Mas Standard-Island nem mesmo estremeceu sob os assaltos do mar desenfreado. Os furores do oceano são impotentes contra ela. O génio do homem venceu a Natureza.

Quinze dias depois, a 11 de Junho, primeiro concerto de música de câmara, cujo cartaz, em letras eléctricas, percorre processionalmente as grandes avenidas. Escusado é dizer que os instrumentistas foram previamente apresentados ao governador e à municipalidade. Cyrus Bikerstaff recebeu-os com as mais calorosas atenções. Os jornais recordaram os triunfos obtidos pelo Quarteto Concertante nas suas excursões pelos Estados Unidos da América, e felicitaram com fervor o superintendente por ter alcançado o concurso dos eminentes artistas — - por uma forma um tanto arbitrária, como é sabido. Que satisfação, a de ouvir e ao mesmo tempo ver esses virtuosi executando as obras dos mestres! Que mimo para os conhecedores!

Lá por os quatro parisienses estarem contratados para o Casino de Milliard-City com ordenados fabulosos, não se vá imaginar que os seus concertos tenham de ser oferecidos gratuitamente ao público. Longe disso. A administração tem na ideia tirar deles avultado benefício, como fazem esses empresários italianos aos quais as cantoras custam à razão de um dólar por cada compasso ou mesmo por cada nota. Habitualmente paga-se para os concertos teatrofónicos e fonográficos do Casino; pois nesse dia pagar-se-á infinitamente mais caro. Os lugares são todos do mesmo preço, duzentos dólares cada fauteuil, isto é, mil francos em moeda francesa, e Calistus Munbar está convencido de que há-de ter a sala cheia, à cunha.

E não se engana. Na locação desapareceram todos os lugares disponíveis. A sala elegante e confortável do Casino não contém mais de um cento deles, é certo, e, se os pusessem em leilão, não se sabe a que importância subiria a receita. Mas isso seria ir de encontro aos costumes de Standard-Island. Tudo o que tem valor comercial está antecipadamente cotado, tanto o supérfluo como o necessário. Sem esta precaução, dadas as fortunas fabulosas de alguns, podiam produzir-se açambarcamentos que cumpre evitar. É verdade que se os estibordenses ricos vão ao concerto por amor da arte, é possível que os ricos bombordenses apenas lá vão por decência.

Quando Sebastião Zorn, Pinchinat, Yvernés e Fras-colin apareciam perante os espectadores de Nova Iorque, de Chicago, de Filadélfia, não era exageração da sua parte o dizerem: aqui está um público que vale milhões. Pois nessa noite teriam ficado abaixo da verdade se não contassem por biliões. Calcule-se! Na primeira fila dos fauteuils brilham Jem Tankerdon, Nat Coverley e suas respectivas famílias. Nos outros lugares, passim, um grande número de amadores que, embora apenas sub-bilionários, nem por isso deixam de ter a «burra muito bem recheada», como observa justificadamente Pinchinat.

— - Vamos lá! — - diz o chefe do quarteto, quando chega a hora de se apresentarem no tablado.

E lá vão, sem mais comoção do que em qualquer outra parte, com menos até do que teriam diante de um público parisiense, o qual tem talvez menos dinheiro no bolso, mas mais sentimento artístico na alma.

Cumpre dizer que, se bem que eles ainda não tomassem lições do seu compatriota Dorémus, Sebastião Zorn, Yvernés, Frascolin e Pinchinat trajam correctissimamente gravata branca de vinte e cinco francos, luvas gris-perle de cinquenta francos, camisa de setenta francos, botas de cento e oitenta francos, casaca preta de mil e quinhentos francos — - tudo por conta da administração, bem entendido. São aclamados, aplaudidos calorosamente pelas mãos estibordenses, mais discretamente pelas mãos bombordenses- — - questão de temperamento.

O programa do concerto compreende quatro números que lhes forneceu a biblioteca do Casino, ricamente apro-visionada, graças ao desvelo do superintendente:

 

Primeiro quarteto em mi bemol, Op. 12, de Mendels-sohn;

Segundo quarteto em já maior, Op. 16, de Haydn;

Décimo quarteto em bi bemol, Op. 74, de Beethoven;

Quinto quarteto em lá maior, Op. 10, de Mozart

.

Os executantes fazem maravilhas nessa sala de bilionários, a bordo dessa ilha flutuante, à superfície de um abismo cuja profundidade excede cinco mil metros naquele trecho do Pacífico. Obtêm um triunfo considerável e justificado, sobretudo para os diletantes da secção de Estibordo. É de ver o superintendente nessa noite memorável: anda exultante. Parece que é ele que acaba de tocar ao mesmo tempo as duas rabecas, a violeta e o violoncelo. Que feliz estreia para campeões da música concertante — - e para o seu empresário!

Cabe aqui observar que, se a sala está cheia, as proximidades do Casino regurgitam de gente. Efectivamente, quantos há que não conseguiram apanhar um fauteuil, nem mesmo uma dobradiça, sem falar daqueles que a elevação dos preços afastou. Estes ouvintes da rua ficaram reduzidos a um módico quinhão. Ouvem apenas de longe, como se aquela música surdisse da caixa de um fonógrafo ou do pavilhão de um telefone. Mas nem por isso os seus aplausos são menos entusiásticos.

E rebentam furiosamente quando, terminado o concerto, Sebastião Zorn, Yvernés, Frascolin e Pinchinat aparecem no terraço do pavilhão da esquerda. A Primeira Avenida está inundada de raios luminosos. Das alturas do espaço as luas eléctricas derramam feixes de luz, dos quais deve ter ciúmes a pálida Selene.

Defronte do Casino, no passeio, um pouco afastado, atrai a atenção de Yvernés um grupo formado por um homem com uma senhora pelo braço. O homem, de estatura mais que mediana, de fisionomia distinta, severa, mesmo triste, deve andar pelos cinquenta anos. A mulher, um pouco mais nova, alta, de aspecto imponente, mostra por debaixo do chapéu uns cabelos encanecidos pela idade.

Yvernés, impressionado pela atitude reservada deste par, mostra-o a Calistus Munbar.

— - Quem são aquelas pessoas?- — -pergunta ele.

— - Aquelas pessoas? — - responde o superintendente, cujos lábios se franzem com ar bastante desdenhoso. — - Oh!... isso são melomaníacos furiosos!

— - E porque é que não alugaram lugares na sala do Casino?

— - Decerto por os acharem muito caros. - — -Então a fortuna deles...?

— - Não passa de uns duzentos mil francos de renda.

— - Puh! — - diz Pinchinat. — - E quem são afinal esses pelintras?

— - O rei e a rainha de Malecárlia.

 

 

NAVEGAÇÃO

Criado que foi este extraordinário engenho de navegação, a Standard-Island Company teve de prover às exigências de uma dupla organização, marítima por um lado, administrativa por outro.

A primeira, como é sabido, tem por director, ou antes, por comandante, o comodoro Ethel Simcoe, da marinha dos Estados Unidos. É um homem de cinquenta anos, navegador experiente, conhecendo a fundo as paragens do Pacífico, as suas tempestades, os seus escolhos, as suas substruções coralígenas. Daí se segue a sua perfeita aptidão para conduzir com mão firme a ilha de hélice, confiada aos seus cuidados, e as ricas existências de que é responsável perante Deus e os accionistas da Sociedade.

! A segunda organização, a que compreende os diversos serviços administrativos, está nas mãos do governador da ilha. O Sr. Cyrus Bikerstaff é um ianque do Maine, um dos Estados federais que menor parte tomaram nas lutas fratricidas da Confederação americana durante a guerra separatista. Cyrus Bikerstaff foi, pois, escolhido a primor

para manter a imparcialidade entre as duas secções da ilha.

O governador, que orça quase pelos sessenta anos, é celibatário. É um homem frio, sabendo dominar-se, muito enérgico sob a sua aparência fleumática, muito inglês pela sua atitude reservada, pelas suas maneiras de gentleman, pela discrição que preside tanto às suas palavras

como aos seus actos. Em qualquer outra terra, que não fosse Standard-Island, seria ele um homem deveras considerável, e, por consequência, muito considerado. Mas, aqui, não passa, afinal de contas, de agente superior da Companhia. Além disso, se bem que os seus honorários valham tanto como a lista civil de um monarca de segunda ordem na Europa, ele não é rico, e que figura pode fazer em presença dos nababos de Milliard-City?

Ao mesmo tempo que é governador da ilha, Cyrus Bikerstaff é maire da capital. Nesta qualidade, ocupa o palácio do Município, edificado no extremo da Primeira Avenida, oposto ao Observatório, onde reside o comodoro Simcoe. Aí estão instaladas as suas repartições, aí se recebem os autos do estado civil, nascimentos, com uma média de natalidade suficiente para assegurar o futuro, óbitos — - os mortos são transportados ao cemitério de Madeleine-bay — -, casamentos, que devem celebrar-se civilmente antes da cerimónia religiosa, segundo o código de Standard-Island. Aí funcionam os diversos serviços da administração, sem darem nunca razão de queixa aos administrados, facto que muito honra o maire e os seus agentes. Quando Sebastião Zorn, Pinchinat, Yvernés e Frascolin lhe foram apresentados pelo superintendente, a presença dele produziu-lhes uma impressão deveras favorável, a que inspira a individualidade de um homem bondoso e justo, de espírito prático, que se não deixa levar nem por preconceitos nem por quimeras.

— - Meus senhores — - disse-lhes ele — -, feliz acaso este que nos permite recebê-los. É possível que o processo empregado pelo nosso superintendente não fosse de absoluta correcção. Mas confio em que o hão-de desculpar. Demais, espero que não terão motivo de se queixar da nossa municipalidade. Ela pede-lhes apenas dois concertos mensais, dando-lhes a liberdade de aceitarem os convites particulares que possam ser-lhes dirigidos. A municipalidade de Milliard-City regozija-se em saudar músicos do vosso valor, e nunca se esquecerá de que foram os senhores os primeiros artistas que ela teve a honra de receber!

Os quatro ficaram radiantes com este acolhimento e não ocultaram a Calistus Munbar a sua satisfação.

— - Sim! É amável, o Sr. Cyrus Bikerstaff — -responde o superintendente, encolhendo ligeiramente os ombros. — - O que é pena é que ele não possua um ou dois biliões.

— - Defeitos, todos têm! — - acode Pinchinat.

O governador-matre de Milliard-City tem dois adjuntos, que o auxiliam na administração, muito simples, da ilha de hélice. Sob as ordens destes, estão distribuídos pelas diversas repartições um pequeno número de empregados retribuídos como cumpre. Conselho Municipal é coisa que não existe. Para quê? É substituído pelo Conselho dos Notáveis — - umas trinta pessoas das mais qualificadas pela inteligência e pela fortuna. Reúne-se este Conselho quando se trata de tomar alguma medida importante - entre outras, o traçado do itinerário que deve seguir-se no interesse da higiene geral. Como podiam ver os nossos parisienses, há algumas vezes nessas sessões discussão acalorada e dificuldades para pôr de acordo as opiniões. Mas até então, graças à sua hábil e prudente intervenção, Cyrus Bikerstaff conseguiu sempre conciliar os interesses opostos, sem melindrar o amor-próprio dos seus administrados.

É evidente que um dos adjuntos, Bartolomeu Ruge, é protestante, e outro, Hubley Harcourt, católico, ambos eles escolhidos pelos altos funcionários da Standard-Island Company, e zelosos auxiliares de Cyrus Bikerstaff.

Assim vive há já dezoito meses, na plenitude da sua independência, alheia mesmo a todas as relações diplomáticas, livre nesse vasto mar do Pacífico, ao abrigo das intempéries desatenciosas, sob o céu da sua escolha, a ilha em que o quarteto vai residir um ano inteiro. Que ali fiquem expostos a certas aventuras, que o futuro lhes reserve alguma desagradável surpresa, são coisas que os artistas estão longe de imaginar ou de temer, apesar das apreensões constantes do violoncelista, visto que vêem tudo ali regulamentado, tudo a fazer-se com ordem e com regularidade. E todavia, ao Criar este domínio artificial, lançado à superfície de um vasto oceano, porventura não teria o génio humano ultrapassado os limites em que o Criador circunscreveu o homem?

A navegação continua para oeste. Todos os dias, no momento em que o Sol passa pelo meridiano, é marcado o ponto pelos oficiais do Observatório, que estão sob as ordens do comodoro Ethel Simcoe. Um mostrador quádruplo, disposto nas fachadas laterais da torre do palácio do Município, dá a posição exacta em latitude e longitude, e essas indicações são reproduzidas telegràficamente às esquinas das ruas, nos hotéis, nos edifícios públicos, no interior das habitações particulares, ao mesmo tempo que a hora, variável, segundo a deslocação para leste ou para oeste. Os Milliardenses podem pois, a cada momento, saber em que ponto do itinerário se encontra Standard-Island.

A não ser esta deslocação inapreciável pela superfície do oceano, Milliard-City não oferece diferença nenhuma das grandes capitais do Velho e do Novo Continente. O viver é idêntico. A vida pública e privada funciona da mesma forma. Com pouco que fazer, em suma, os nossos instrumentistas empregam os primeiros ócios em visitar tudo o que de curioso encerra a Jóia do Pacífico. Os tramways transportam-nos a todos os pontos da ilha. As duas fábricas de energia eléctrica suscitam-lhes uma admiração sincera pela disposição simplicíssima dos seus maquinismos, pela força dos seus engenhos, que dão movimento a uma dupla enfiada de hélices, pela disciplina admirável do seu pessoal, uma delas dirigida pelo engenheiro Watson, outra pelo engenheiro Somwah. Em períodos regulares, Babord-Harbour e Tribord-Harbour recebem nas suas docas os vapores destinados ao serviço de Standard-Island, segundo a facilidade que a sua posição proporciona para o aportamento.

Se o teimoso Sebastião Zorn se recusa a admirar estas maravilhas, se Frascolin é mais moderado nos seus sentimentos, em que estado de arroubamento vive de contínuo o entusiasta Yvernés! Na sua opinião, o século vinte não há-de acabar sem os mares serem sulcados por cidades flutuantes. Deve ser a última palavra do progresso e do luxo no futuro. Que espectáculo soberbo o que oferece esta ilha movediça, indo visitar as suas irmãs da Oceânia! Quanto a Pinchinat, esse, neste meio opulento, sente-se particularmente embriagado de não ouvir falar senão em milhões, como noutros lugares se fala de vinte e cinco luíses. As notas de banco são de circulação corrente. Geralmente, ninguém tem na algibeira menos de dois ou três mil dólares. E mais de uma vez Sua Alteza diz para Frascolin:

— - Diz-me uma coisa, meu velho: não tens aí troco de cinquenta mil francos?

Entrementes, o Quarteto Concertante travou algumas relações, certo como está de ter por toda a parte excelente acolhimento. Demais a mais, com a recomendação do azougado Munbar, quem é que não teria empenho em os tratar bem?

Em primeiro lugar, foram fazer uma visita ao seu compatriota Atanásio Dorémus, professor de dança e de boas maneiras.

Esta excelente criatura mora na secção de Estibordo, numa modesta casa da Vigésima Quinta Avenida, de três mil dólares de renda. é servido por uma preta velha, que tem de ordenado cem dólares mensais. Fica radiante por entrar em relações com franceses... e franceses que dão honra à França.

É um velho de sessenta anos, magrizela, esgalgado, baixinho, de olhos ainda vivos, com os dentes todos naturais, assim como a trunfa abundante e algo encrespada, branca como a barba. Tem um andar pausado, com uma certa cadência rítmica, empertigado, de braços curvos, os pés um pouco para fora e irrepreensivelmente calçados. Os nossos artistas tiveram grande prazer em lhe puxar pela língua, coisa a que ele se presta de bom grado porque a sua loquacidade é tanta como o seu garbo.

— - Que felicidade a minha, meus queridos compatriotas, que felicidade, que alegria sinto em os ver! — -repete ele vinte vezes na primeira visita.. — --Que excelente ideia tiveram em vir estabelecer-se nesta cidade! Não se hão-de arrepender, porque a mim, desde que me costumei a viver aqui, custa-me a compreender como se viva por outra forma!

— - E há quanto tempo está aqui o Sr. Dorémus? — - pergunta Yvernés.

— - Há dezoito meses — - responde o professor, pondo os pés na segunda posição. — - Sou da fundação de Standard-Island. Graças às excelentes informações de que eu dispunha na Nova Orleães, onde estava estabelecido, consegui que os meus serviços fossem aceitos pelo Sr. Cyrus Bikerstaff, o nosso adorado governador. Desde esse dia abençoado, os honorários que me foram concedidos para dirigir um conservatório de dança e de boas maneiras permitiram que eu aqui vivesse...

— - Como um milionário!. — - exclama Pinchinat.

— - Ora! Aqui, os milionários...

— - Bem sei... bem sei... meu caro compatriota. Mas, pelo que nos deu a entender o superintendente, os cursos do seu conservatório parece que não têm uma freguesia por aí além...

— - Tenho só discípulos particulares, isso é verdade, e rapazes apenas. As meninas americanas julgam que apanharam logo de nascença todas as prendas indispensáveis. Por isso, também, os rapazes preferem dar lições em segredo, e em segredo é que eu lhes inculco as boas maneiras dos Franceses!

E sorri enquanto fala, requebra-se todo como uma velha garrida, farta-se de assumir atitudes graciosas.

Atanásio Dorémus, picardo de Santerre, saiu de França logo em começos da mocidade para ir instalar-se nos Estados Unidos, em Nova Orleães. Aí, entre a população de origem francesa da nossa saudosa Luisiana, não lhe faltaram ocasiões de exercitar os seus talentos. Admitido nas principais famílias, alcançou nomeada e conseguiu fazer algumas economias, que um belo dia se lhe sumiram, num crack dos mais americanos. Aconteceu isto no momento em que a Standard-Island Company fazia os seus reclamos, multiplicando os projectos, prodigalizando os anúncios, apelando para todos os ultra-ricos, a quem os caminhos de ferro, as minas de petróleo, o comércio dos porcos, salgados ou frescos, tinham proporcionado fortunas incalculáveis. Atanásio Dorémus teve então ideia de pedir emprego ao governador da nova cidade, onde os professores da sua especialidade não é provável que travassem grandes lutas de concorrência. Vantajosamente conhecido pela família Coverley, que era originária da Nova Orleães, e graças à recomendação do chefe dessa família, o qual ia tornar-se um dos notáveis mais conceituados dos estibordenses de Milliard-City, aceitou-se o seu préstimo, e aqui está como um francês, por sinal até picardo, veio a fazer parte do funcionalismo de Standard-Island. É verdade que ele só dá lições em casa, e a sala do seu curso no Casino nunca vê reflectir-se nos seus espelhos senão a figura idêntica do professor, mas isso vem a dar na mesma, visto que os seus vencimentos é que não sofrem diminuição nenhuma por via disso.

Em suma, um excelente homem, um tanto ou quanto ridículo e maníaco, bastante enfatuado com a sua pessoa, convencido de que possui, junto com a herança dos Vestris e dos Saint-Léon, as tradições dos Brummel e dos lorde Seymour. Demais, aos olhos do quarteto, é um compatriota — - qualidade que ganha sempre em apreciar-se a alguns milhares de léguas da França.

Os quatro parisienses tiveram de lhe contar as suas últimas aventuras, as condições em que Calistus Munbar os atraiu a seu bordo — - é a palavra — -e como o navio levantou ferro algumas horas depois de eles embarcarem.

— - É caso que me não espanta da parte do nosso superintendente — - volve o velho professor. — - É mesmo uma partida das dele... Tem-se fartado e há-de fartar-se de as pregar! É um verdadeiro filho de Barnum, que há-de acabar por comprometer a Companhia... Um sujeitinho pouco educado, a quem não faziam mal umas lições de boas maneiras... um desses ianques que se estiraçam numa poltrona, com os pés em cima do parapeito da janela! No fundo, não é má pessoa, mas julga que pode fazer tudo o que lhe der na cabeça! Em todo o caso, meus caros compatriotas, não pensem em ficar zangados com ele, e, a não ser o dissabor de terem faltado ao concerto de San Diego, só terão motivo de se felicitarem pela sua estada em Milliard-City.

Hão-de receber atenções... que vos encherão de reconhecimento...

— - Sobretudo no fim de cada trimestre! — -replica Frascolin, cujas funções de tesoureiro do grupo começam a tomar uma importância excepcional.

Sobre a pergunta que lhe é dirigida com respeito à rivalidade entre as duas secções da ilha, Atanásio Dorémus confirma as informações de Calistus Munbar. No seu entender, é esse um ponto negro no horizonte, e talvez mesmo ameaça de borrasca próxima. Entre Estibordenses e Bombordenses, há que recear algum conflito de interesses e de amor-próprio. As famílias Tankerdon e Coverley, as mais ricas da terra, manifestam ciúmes crescentes uma da outra, e é possível que a bomba rebente se se não conseguir alguma combinação que as concilie. Sim... se a bomba rebenta...

— - Contanto que a ilha não rebente também, nós não temos que nos ralar por causa disso — - observa Pinchinat.

— - Pelo menos, enquanto nós estivermos a bordo! — - acrescenta o violoncelista.

— - Ah! Lá valente, valente é ela, meus queridos compatriotas! — - assevera Atanásio Dorémus. — - Há dezoito meses que ela anda a passear pelo mar e nunca lhe sucedeu desastre de alguma importância. Apenas umas reparações insignificantes e que nem mesmo a obrigaram a arribar à baía Madalena! Calculem: ela é toda feita de chapas de aço!

Esta resposta cala todas as bocas. Se as chapas de aço não dão garantia absoluta neste mundo, em que metal se há-de a gente fiar? O aço é ferro, e o nosso Globo mesmo o que é, afinal, na sua quase totalidade, senão um enorme carboneto? Pois Standard-Island é a Terra em ponto pequeno.

Pinchinat lembra-se então de perguntar ao professor o que pensa ele do governador Cyrus Bikerstaff.

— - Esse também é de aço?

— - É sim, Sr. Pinchinat — - responde Atanásio Dorémus. — - Dotado de grande energia, é um administrador muito hábil. Por desgraça, em Milliard-City, não basta ser de aço...

— - É preciso ser de ouro — - acode Yvernés.

— -Exactamente; quando não, não se faz caso da gente!

É a verdade pura. Cyrus Bikerstaff, apesar da sua alta posição, não passa de um agente da Companhia. Preside aos diversos actos do estado civil, está encarregado de cobrar as receitas aduaneiras, de velar pela higiene pública, pela limpeza das ruas, pela conservação das plantações, de receber as reclamações dos contribuintes — - numa palavra, de se inimizar com a maioria dos seus administrados — -, mas mais nada. Em Standard-Island é preciso ter peso de ouro, e bem disse o professor: não se faz caso de Cyrus Bikerstaff.

Demais a mais, as suas funções obrigam-no a manter-se entre os dois partidos, a observar uma atitude conciliadora, a não arriscar acto nenhum que possa ser agradável a um, caso não seja agradável a outro. Política pouco fácil.

Com efeito, já começam a despontar ideias que poderiam vir a ocasionar um conflito entre as duas secções. Se os Estibordenses se estabeleceram em Standard-Island apenas no propósito de gozar pacificamente das suas riquezas, os Bombordenses começam a ter saudades dos negócios. Pensam porque não se havia de utilizar a ilha de hélice como uma imensa embarcação de comércio, porque não havia ela de transportar carregamentos para os diversos impérios da Oceânia, porque é que está banida toda a indústria de Standard-Island... Em suma, se bem que lá estejam há menos de dois anos apenas, esses ianques, com Tankerdon à frente, sentem-se atacados pela nostalgia do tráfico. Se até então se limitaram às palavras, o caso não deixa contudo de inquietar o governador Cyrus Bikerstaff. No entanto, ele espera que o futuro não se há-de ervar de peçonha, e que as dissenções intestinas não virão perturbar um aparelho fabricado expressamente para tranquilidade dos seus habitantes.

Ao despedir-se de Atanásio Dorémus, o quarteto promete voltar a visitá-lo. Geralmente, o professor vai à tarde para o Casino, onde ninguém se lhe apresenta.

E aí, não querendo que o possam acusar de falta de pontualidade, fica à espera, preparando a sua lição diante dos espelhos inúteis da sala.

Entretanto, a ilha de hélice avança quotidianamente para oeste, e um pouco para o sudoeste, a fim de se aproximar do arquipélago das Sanduíche. Nesses paralelos, que confinam com a zona tórrida, é já elevada a temperatura. Aos Milliardenses custaria a suportá-la se não fosse a viração do mar. Felizmente, as noites são frescas e, mesmo na força dos caniculares, as árvores e os relvões, regados por uma chuva artificial, conservam-se atraentes. Ao meio-dia, é telegrafado para os diversos bairros o ponto, indicado no mostrador do palácio do Município. A 17 de Junho, Standard-Island acha-se em 155° de longitude oeste por 27° de latitude norte, e aproxima-se do trópico.

— - Parece que vai a reboque o astro do dia — - declama Yvernés — -, ou, se assim quiserem, com mais elegância, que é tirada pelos corcéis do divino Apolo!

Observação tão justa como poética, mas que Sebastião Zorn recebe com um encolher de ombros. Não lhe convinha representar este papel de rebocado... contra vontade.

— - E, depois — - repete ele continuamente — -, veremos como acaba esta aventura.

É raro não ir o quarteto dar uma volta pelo parque, à hora em que abundam os transeuntes. A cavalo, a pé, de carruagem, toda a gente importante de Milliard-City se encontra em volta dos relvados. As damas da moda fazem ali exibição da sua terceira toilette quotidiana, de uma cor lisa, desde o chapéu até às botinas, quase sempre de seda das índias, que está em moda neste ano. Muitas vezes também usam dessa seda artificial feita de celulose, que é furta-cores, ou mesmo algodão factício de madeira de abeto ou de alerce, desfibrada e desagregada, o que inspira a Pinchinat a seguinte observação:

— - Verão que ainda qualquer dia se hão-de fabricar tecidos de madeira de hera para os amigos fiéis e de chorão para as viúvas inconsoláveis!

Em todo caso, as damas ricas de Milliard-City não aceitariam estas fazendas, se elas não viessem de Paris, nem estas toilettes, se não as assinasse o rei dos costureiros da capital — - aquele que proclamou desafogadamente este axioma: «A mulher não é mais do que uma questão de formas.»

Algumas vezes, o rei e a rainha de Malecárlia passam pelo meio desta gentry casquilha. O régio par, tombado da soberania, inspira verdadeira simpatia aos nossos artistas. Que reflexões lhes ocorrem, ao verem de braço dado estas augustas personagens! São relativamente pobres no meio dessa gente opulenta, mas percebe-se que são altivos e dignos, como filósofos desprendidos das preocupações deste mundo. É certo que, intimamente, os americanos de Standard-Island sentem orgulho em ter um rei por concidadão, e continuam a prestar-lhe as atenções devidas à sua antiga situação. Quanto ao quarteto, esse cumprimenta respeitosamente Suas Majestades, quando as encontra pelas avenidas da cidade ou nas alamedas do parque. O rei e a rainha mostram-se reconhecidos por estas provas de deferência tão francesas. Mas, em suma, Suas Majestades têm tanto valor como Cyrus Bikerstaff — - menos talvez.

A falar verdade, os viajantes que se assustam com a navegação deviam adoptar este género de travessia a bordo de uma ilha movediça. Nestas condições, é escusado preocuparem-se com as eventualidades do mar. Não há que recear das ventanias. Com dez milhões de cavalos-vapor nas entranhas, uma Standard-Island não pode ser retardada por causa das calmas, e tem força bastante para lutar com os ventos contrários. Se os abalroamentos constituem um perigo, esse perigo não é para ela. Tanto pior para os navios que se arrojassem a toda a força de vapor ou de vela para cima dos seus costados de ferro. E mesmo essas colisões são pouco de temer, graças aos faróis que lhe iluminam os portos, à proa e à popa, graças à claridade eléctrica das suas luas de alumínio, que de noite saturam a atmosfera. Quanto aos temporais, nem merece a pena falar em tal. Ela é capaz de refrear a fúria das vagas.

Mas, quando os acasos do passeio levam Pinchinat e Frascolin para vante ou para ré da ilha, quer à bateria do Esporão, quer à bateria da Popa, ambos eles opinam que há ali falta de cabos, de promontórios, de pontas, de enseadas, de praias. Este litoral não passa de uma espalda de aço, aguentada por milhões de rebites e de cavilhas. E que saudades não deveria ter um pintor desses velhos rochedos, rugosos como a pele de um elefante, cobertos de sargaço e de bodelha, que a ressaca da preia-mar enche de espumantes carícias! Decididamente, não há maravilhas de indústria que substituam as belezas da Natureza. Apesar da sua admiração permanente, Yvernés vê-se obrigado a concordar. O cunho do Criador, eis o que falta a essa ilha artificial.

Na noite de 25 de Julho, Standard-Island transpõe o trópico de Câncer, no limite da zona tórrida do Pacífico. A essa hora, pela segunda vez se ouve o quarteto na sala do Casino. Note-se que, em virtude do êxito do primeiro concerto, o preço dos fauteuils ainda aumenta mais um terço.

Sem embargo, a sala ainda está acanhada. Os diletantes disputam os lugares. Evidentemente, esta música de câmara deve ser excelente para a saúde, e não há ninguém que se abalance a pôr em dúvida as suas qualidades terapêuticas. Sempre solutos de Mozart, de Beethoven, de Haydn, segundo a fórmula.

Enorme triunfo para os executantes, a quem decerto teriam dado mais prazer uns bravos saídos de bocas parisienses. Mas, à falta deles, Yvernés, Frascolin e Pinchinat sabem contentar-se com os hurras milliardenses, pelos quais Sebastião Zorn continua a professar um absoluto desdém.

— - Que poderíamos nós exigir mais? — -diz-lhe Yvernés, ao passar o trópico.

— - O trópico de «concerto»! — -replica Pinchinat, desatando a fugir depois deste abominável trocadilho.

E, ao saírem do Casino, quem hão-de eles ver no meio dos pobres diabos que não puderam dar trezentos e sessenta dólares por um fauteuil? O rei e a rainha de Malecárlia, de pé, à porta, modestamente.

 

O ARQUIPÉLAGO DAS SANDUÍCHE

Existe nesta parte do Pacífico uma cordilheira submarina, cujo desenvolvimento se poderia ver na extensão de novecentas léguas, na linha oés-noroeste lés-sueste, se viessem a despejar-se os abismos de quatro mil metros que a separam das outras terras oceânicas. Desta cordilheira, aparecem apenas oito cumeadas: Nu-hau, Cauai, Oahu, Molocai, Lanai, Maui, Caluhani e Ha-vai. Estas oito ilhas, de tamanhos desiguais, constituem o arquipélago havaiano, ou por outra, o grupo das Sanduíche. Este grupo não passa além da zona tropical, a não ser pela enfiada de rochas e de recifes que se prolongam para oeste.

Deixando Sebastião Zorn a resmungar no seu canto, cerrar-se numa completa indiferença por todas as curiosidades naturais, como um violoncelo dentro da sua caixa, Pinchinat, Yvernés e Frascolin raciocinam assim, e não estão em erro:

— - Palavra — - diz um deles — -, que não se me dá de visitar estas ilhas havaianas! Visto que não temos remédio senão andar a correr o oceano Pacífico, o melhor é ficarmos ao menos com recordações da viagem!

— - Acrescento — - replica o outro — - que os indígenas de Sanduíche nos hão-de aliviar um pouco dos Pauis, dos Siús, ou outros índios civilizados de mais do Far West, e eu não desgostava de encontrar selvagens a valer... canibais...

— - Esses havaianos ainda são canibais? — - pergunta o terceiro.

— - Esperemos que sim — - responde Pinchinat, muito a sério. — - Os avós deles é que devoraram o capitão Cook, e, quando os avós saborearam este ilustre navegador, não se pode admitir que os netos tenham perdido o gosto pela carne humana!

Força é confessar que Sua Alteza falava com demasiada irreverência do célebre mareante inglês que descobriu aquele arquipélago em...

O que resulta desta conversação é esperarem os nossos artistas que os acasos da navegação os vão colocar em presença de indígenas mais autênticos do que os espécimes exibidos nos Jardins de Aclimação, e, em todo o caso, no seu país de origem, mesmo no local da sua produção. Por isso, sentem certa impaciência por lá chegar, esperando dia a dia que as vigias do Observatório dêem sinal das primeiras alturas do grupo havaiano.

Foi o que se realizou na manhã de 6 de Julho. A notícia espalha-se logo, e o cartaz do Casino apresenta esta menção, escrita telautogràficamente:

«Standard-Island à vista das ilhas Sanduíche.»

Verdade seja que se está ainda a cinquenta léguas delas; mas os cumes mais altos do grupo, os da ilha Havai, que excedem quatro mil e duzentos metros, são com bom tempo visíveis a essa distância.

Vindo do nordeste, o comodoro Ethel Simcoe dirigiu-se para Oahu, que tem por capital Honolulu, a qual é ao mesmo tempo capital do arquipélago. Esta ilha é a terceira do grupo em latitude. Nuhau, que é uma vasta tapada de gado, e Cauai ficam-lhe a noroeste. Oahu não é a maior das Sanduíche, visto que apenas mede mil seiscentos e oitenta quilómetros quadrados, ao passo que Havai se estende por perto de dezassete mil. Quanto às outras ilhas, essas, ao todo, não contam mais de três mil oitocentos e doze.

É evidente que os artistas parisienses, desde a partida, travaram relações agradáveis com os principais funcionários de Standard-Island. Todos eles, tanto o governador, o comodoro e o coronel Stewart, como os engenheiros-chefes Watson e Somwah, se esmeraram em acolhê-los com a máxima simpatia. Visitando repetidas vezes o Observatório, eles folgam em deixar-se estar horas e horas na plataforma da torre. Não é pois de espantar que nesse dia Yvernés e Pinchinat, os entusiastas do grupo musical, tivessem vindo para aquele lado; pelas dez horas da manhã, o ascensor içou-os até ao «galope do mastro», como diz Sua Alteza.

O comodoro Ethel já lá estava, e, emprestando aos dois amigos o seu óculo de ver ao longe, aconselha-os a que observem um ponto, no horizonte de sudoeste, entre as brumas baixas do céu.

— - É o Mauna Loa de Havai — - diz ele — -, ou é o Mauna Kea, dois soberbos vulcões, que em 1852 e em 1855 arrojaram sobre a ilha um rio de lava, que cobria setecentos metros quadrados, e cujas crateras em 1880 projectaram setecentos milhões de metros cúbicos de matérias eruptivas!

— - Famoso! — - responde Yvernés. — - E o comodoro julga que nós teremos a boa fortuna de presenciar um espectáculo desses?

— - Isso é que eu não sei, Sr. Yvernés. Os vulcões não funcionam por encomenda...

— - Ora! Era só por esta vez, e metendo empenhos? — - acrescenta Pinchinat. — - Se eu fosse rico como os Srs. Tankerdon e Coverley, pagava as erupções quando me desse na bolha.

— - Pois sim! Falaremos! — -replica o comodoro, a sorrir. — - Estou em crer que eles são capazes de fazer impossíveis para lhe serem agradáveis.

A propósito, Pinchinat pergunta qual é a população do arquipélago das Sanduíche. O comodoro informa-o de que devia andar por duzentos mil habitantes no princípio do século, mas que actualmente deve estar reduzida a metade.

— - Deixá-lo, Sr. Simcoe! Cem mil selvagens já não é má conta. E, se é que eles ainda são canibais que se prezem, e não perderam alguma coisa do seu apetite, são capazes de engolir de uma assentada todos os milliardenses de Standard-Island.

Não é a primeira vez que a ilha costeia o arquipélago havaiano. No ano anterior, já ela atravessou estas paragens, atraída pela salubridade do clima. E, com efeito, vão para lá doentes da América, enquanto os médicos da Europa não mandam para ali a sua clientela a haurir o ar do Pacífico. Porque não? Honolulu já está apenas a vinte e cinco dias de Paris, e em se tratando de impregnar os pulmões de um oxigénio como não se respira em parte nenhuma...

Standard-Island chega à vista do grupo na manhã de 9 de Julho. A ilha de Oahu desenha-se a cinco milhas ao sudoeste. Acima dela apontam, a leste, o Diamond-Head, antigo vulcão, que domina a enseada pela parte posterior, e um outro cone, denominado pelos ingleses a Tijela de Ponche. Conforme observa o comodoro, mesmo que essa enorme tijela estivesse a transbordar de brandy ou de gin, John Buli não se ralava muito por ter de a despejar toda.

Passa-se entre Oahu e Molocai. Standard-Island, à maneira de um barco sob a acção do leme, manobra combinando o movimento das hélices de estibordo e de bombordo. Depois de dobrar o cabo sueste de Oahu, o aparelho flutuante pára, em consequência do seu considerável calado de água, a dez amarras do litoral. Como era preciso, para deixar a ilha aproar ao vento ou à corrente, conservá-la a distância suficiente da terra, ela não «surgia», no sentido rigoroso da palavra, isto é, não se empregavam as âncoras, o que seria impossível em fundos de cem metros e mais. Por isso, por meio das máquinas que manobram para vante ou para ré durante o tempo da sua estadia, aguentam-na no mesmo sítio, tão imóvel como as oito ilhas principais do arquipélago havaiano.

O quarteto contempla as alturas que se lhe alongam diante da vista. Do mar largo, apenas se descortinam massas de arvoredo, pequenos pomares de laranjeiras e outros magníficos espécimes da flora temperada. A oeste, por uma brecha estreita do recife, aparece um lagozinho interior, o lago das Pérolas, espécie de planície lacustre, esburacada de crateras antigas.

O aspecto de Oahu é bastante risonho, e, na verdade, esses antropófagos, tão desejados por Pinchinat, não têm de se queixar do teatro das suas façanhas. Contanto que eles ainda se deixem levar pelos seus instintos de canibais, Sua Alteza não tem mais nada a desejar...

Mas, de repente, Pinchinat exclama:

— - Deus do Céu! Que vejo eu?

— - Que vês? — - pergunta Frascolin.

— - Além... além... uns campanários...

— - Sim... e torres... e fachadas de palácios! — -acode Yvernés.

— - É impossível que seja aqui que se devorou o capitão Cook!

- Nós não estamos nas ilhas Sanduíche! — - diz Sebastião Zorn, encolhendo os ombros. — - O comodoro enganou-se no rumo...

— - Com toda a certeza! — -reforça Pinchinat.

Não! O comodoro Simcoe não se extraviou. É aquela realmente a ilha de Oahu, e a cidade, que se alonga por muitos quilómetros quadrados, é Honolulu.

Acabou-se! É forçoso perder as ilusões. Que de mudanças desde a época em que o grande navegador inglês descobriu este grupo! Os missionários rivalizaram em zelo e dedicação. Metodistas, anglicanos, católicos, em luta pelo predomínio, têm levado a cabo uma obra civiliza-dora, triunfando sobre o paganismo dos antigos Canacas. Não só a língua originária tende a desaparecer diante da língua anglo-saxónica, mas o arquipélago encerra americanos, chineses — -na maioria contratados por conta dos proprietários da terra, e dos quais surdiu uma raça de semichineses, os Hapa-Paké — - e finalmente portugueses, mercê dos serviços marítimos estabelecidos entre as Sanduíche e a Europa. Indígenas, ainda os há, contudo, e de sobra para satisfazer os nossos quatro artistas, conquanto os naturais tenham sido dizimados pela lepra, doença de importação chinesa. Mas o que eles não aparentam, nem por sombras, é o tipo de devoradores de carne humana.

— - Ó cor local — - exclama o primeiro-violino — -, qual foi a mão que te raspou da paleta moderna!

Sim! O tempo, a civilização, o progresso, que é uma lei natural, quase que a apagaram de todo, a essa cor. E é força reconhecê-lo, embora com mágoa, quando uma das lanchas eléctricas de Standard-Island, transpondo a extensa linha dos recifes, desembarca Sebastião Zorn e os seus companheiros.

Entre duas estacadas, que se unem em ângulo agudo, abre-se um porto abrigado do mau tempo por um anfiteatro de montanhas. Desde 1794, os escolhos que o defendem contra o rolo do mar altearam-se mais um metro.

Todavia, ainda resta água bastante para que os navios que demandem entre dezoito e vinte pés possam vir atracar aos cais.

— - Que decepção! Que decepção! — - murmura Pinchinat. — - É realmente deplorável que a gente ande a perder tantas ilusões, numa viagem!

— - Era melhor cada um ficar na sua terra! — - disse o violoncelista, encolhendo os ombros.

— - Deixem-se disso! — - exclama Yvernés, sempre entusiasta. — - Qual é o espectáculo comparável ao desta ilha factícia vindo fazer uma visita aos arquipélagos da Oceânia?

Contudo, se o estado moral das ilhas Sanduíche se modificou deploràvelmente para desgosto pungente dos nossos artistas, o mesmo não acontece com o clima. Esse é um dos mais salubres destas paragens do oceano Pacífico, apesar de o grupo ocupar uma região designada sob o nome de mar dos Calores. Se o termómetro se conserva muito alto quando os ventos alisados do nordeste não dominam, se os contra-alisados do sul produzem tempestades violentas, chamadas kuás naqueles sítios, a temperatura média de Honolulu não excede vinte e um graus centígrados. Só com má vontade se poderia exigir mais no limite da zona tórrida. Os habitantes não se queixam pois, e, como já indicámos, os doentes americanos afluem ao arquipélago.

Seja como for, à medida que o quarteto penetra mais intimamente os segredos deste arquipélago, caem-lhe as ilusões... à maneira das folhas de Millevoye nos fins do Outono.

Os artistas pretendem que foram mistificados, quando só a si próprios deveriam acusar por terem ocasionado esta mistificação.

— - Foi aquele Calistus Munbar que nos intrujou mais uma vez! — - afirma Pinchinat, recordando que o superintendente lhes dissera serem as ilhas Sanduíche o derradeiro baluarte da selvajaria indígena no Pacífico.

Fazem-lhe por isso amargas censuras.

— - Que querem os meus caros amigos — - responde ele, piscando o olho direito. — - Isto está mudado de tal forma desde a minha última viagem, que eu ando deveras atarantado.

— - Trocista! — - volve Pinchinat, favorecendo com uma palmada rija a pança do superintendente.

O que pode afiançar-se é que, se houve mudanças, elas se fizeram em condições extraordinárias de rapidez.

Antigamente, as ilhas Sanduíche gozavam de uma monarquia constitucional, fundada em 1837, com duas câmaras, a dos nobres e a dos deputados. A primeira era eleita apenas pelos proprietários de terrenos, a segunda por todos os cidadãos que soubessem ler e escrever, os nobres por seis anos, os deputados por dois. Cada uma das câmaras compunha-se de vinte e quatro membros, que deliberavam em comum perante o ministério régio, formado por quatro conselheiros do rei.

— - Com que então — - diz Yvernés — -, havia um rei, um rei constitucional, em vez de um macaco emplumado, e a quem os estrangeiros vinham apresentar as suas humildes homenagens!

— - Estou certo — -afirma Pinchinat — - que essa majestade não tinha mesmo anéis no nariz... e que se fornecia de dentes postiços nos melhores dentistas do Novo Mundo!

- Ah! Civilização! Civilização! — -repete o primeiro-violino. — - Lá os Canacas é que não tinham precisão de dentadura postiça para morderem e mastigarem os seus prisioneiros de guerra!

Perdoe-se a estes fantasistas esta forma de encarar as coisas! Sim! Houve um rei em Honolulu, ou, pelo menos, havia uma rainha, Liliuokalani, hoje destronada, que lutou pelos direitos de seu filho, o príncipe Adey, contra as pretensões de uma tal princesa Kaiulani, ao trono de Havai. Em suma, durante muito tempo atravessou o arquipélago um período revolucionário, exactamente como esses bons estados da América e da Europa, com os quais se parece mesmo neste ponto. Acaso podia este facto ocasionar a intervenção do exército havaiano, e abrir a data funesta dos pronunciamentos? Não, por certo, pois que esse exército se compõe apenas de duzentos e cinquenta recrutados e duzentos e cinquenta voluntários. Não é com quinhentos homens que se derriba um regime — - pelo menos no meio destas paragens do oceano Pacífico.

Mas havia os Ingleses, que estavam à esquerda. A princesa Kaiulani parece que possuía as simpatias da Inglaterra. Por outro lado, o Governo japonês apresentava-se para assumir o protectorado da ilha, e contava partidários entre os colies(1) que estão empregados em grande número nas plantações.

Pois sim! Mas os Americanos, pergunta-se? E é essa exactamente a interrogação apresentada por Frascolin a Calistus Munbar, acerca de uma intervenção que está mesmo indicada.

- Os Americanos? — - responde o superintendente. — - Esses pouco se importam com esse protectorado. Contanto que tenham nas Sanduíche uma estação marítima, reservada aos seus paquetes do Pacífico, declaram-se logo satisfeitos.

E, no entanto, em 1875, o rei Kamehameha, que tinha ido visitar o presidente Grant a Washington, colocara o arquipélago sob a égide dos Estados Unidos. Mas dezassete anos depois, quando o presidente Cleveland tomou a resolução de restaurar a rainha Liliuokalani, estando o regime republicano estabelecido nas Sanduíche, sob a presidência do Sr. Sanford Dole, houve protestos violentos nos dois países.

Nada, afinal de contas, podia empecer o que está por certo escrito no livro do destino dos povos, quer sejam de origem antiga ou moderna,

*1. Trabalhadores índios ou chineses.

 

e o arquipélago havaiano está em república desde 4 de Julho de 1894, sob a presidência do Sr. Dole.

Standard-Island vem ali refrescar por uns dez dias. Por isso uma porção dos seus habitantes aproveitam esta demora para explorar Honolulu e os seus arredores. As famílias Coverley e Tankerdon, as principais de Milliard-City, transportam-se todos os dias até ao porto. Por outro lado, muito embora seja esta a segunda aparição da ilha de hélice nestas paragens de Havai, não tem limites a admiração dos Havaianos, os quais acodem em tropel a visitar esta maravilha. É claro que a polícia de Cyrus Bikerstaff, que sempre põe dificuldades na admissão dos estrangeiros, verifica, em chegando a noite, se os visitantes se vão embora às horas regulamentares. Graças a estas medidas de segurança, seria difícil a um intruso permanecer na Jóia do Pacífico sem uma autorização nada fácil de obter. Enfim, as relações entre as duas ilhas conservam-se sempre em bom pé, conquanto não haja de lado a lado recepções oficiais.

O quarteto faz algumas digressões muito interessantes. Os indígenas agradam aos nossos parisienses. Têm um tipo acentuado, a tez escura, a fisionomia a um tempo afável e altiva. E, apesar de estarem em república, talvez os Havaianos tenham saudades da sua selvática independência de outrora.

«O ar do nosso país é livre», diz um dos seus provérbios, e eles já o não são.

E, efectivamente, após a conquista do arquipélago por Kamehameha, depois da monarquia representativa, estabelecida em 1837, cada uma das ilhas foi administrada por um governo particular. Mesmo agora, com o regime republicano, estão ainda divididas em distritos e concelhos.

— - Bonito! — - diz Pinchinat. — - O que lhes falta são prefeitos, subprefeitos e conselheiros de prefeitura, com a constituição do ano viu.

— - Eu peço licença para me safar! — - declara Sebastião Zorn.

Andaria pouco avisado se o fizesse sem ter admirado os pontos mais pitorescos de Oahu.

dam os coqueiros e outras palmeiras, as árvores-de-pão, as aleurites trilobas, que dão o óleo, os rícinos, as daturas, as árvores do anil. Nos vales regados pelas águas do monte, atapetados por essa erva invasora que se chama menervia, um grande número de arbustos tornam-se arborescentes, os quenopódios, os balapepes, espécies de asparagíneas gigantescas. A zona florestal, prolongada até à altitude de dois mil metros, está coberta de essências lenhosas, mirtáceas altíssimas, rumex colossais, cipós que se entrelaçam como um meandro de serpentes de ramificações múltiplas. Quanto às colheitas do solo, que fornecem um elemento de comércio e de exportação, são o arroz, o coco, a cana-de-açúcar. Faz-se, pois, uma importante cabotagem entre as ilhas, no intuito de concentrar em Honolulu os produtos, que são depois expedidos para a América.

Pelo que respeita à fauna, pouca variedade. Se os Canacas tendem a absorver-se nas raças mais inteligentes, as espécies animais não tendem a modificar-se. Em animais domésticos, há apenas porcos, galinhas, cabras; de animais bravios, nada, a não ser alguns javalis; muitos mosquitos, de que não é fácil ver-se a gente livre; numerosos escorpiões, e vários exemplares de lagartos inofensivos; aves que nunca cantam, entre outras o oo, a drepa-nis pacifica, de plumagem negra, ornamentada dessas penas vermelhas de que era formado o famoso manto de Kamehameha, e no qual haviam trabalhado nove gerações de indígenas.

Neste arquipélago, a parte do homem — - e bem considerável que ela é — -consiste em o ter civilizado, à imitação dos Estados Unidos, com as suas sociedades científicas, as suas escolas de instrução obrigatória, que foram premiadas na Exposição de 1878, as suas ricas bibliotecas, os seus jornais, publicados em língua inglesa e canaca. Os nossos parisienses não poderiam surpreender-se com isso, pois que os notáveis do arquipélago são pela maior parte americanos, e visto que a sua língua é corrente, assim como a sua moeda. A diferença é que esses notáveis chamam espontaneamente para o seu serviço chinas do Celeste Império, ao contrário do que se faz na América Ocidental para combater esse flagelo, a que se dá o nome significativo de «peste amarela».

É bem de presumir que desde a chegada de Standard-Island à vista da capital de Oahu, as embarcações do porto, apinhadas de curiosos, dão muitas vezes a volta à roda dela. Com este tempo magnífico, este mar tão sereno, nada mais agradável do que uma excursão de uns vinte quilómetros a uma centena de braças desse litoral de aço, onde os guardas da alfândega exercem uma vigilância tão severa.

Entre esses excursionistas poderia ter-se reparado num barco veleiro, que todos os dias teima em navegar nas águas da ilha de hélice. É uma espécie de ketch malaio, de dois mastros, de popa quadrada, tripulado por uns dez homens, sob as ordens de um capitão de aspecto enérgico. Contudo, o governador nem por sombras desconfia deles. Com efeito, essa gente não se farta de observar a ilha em todo o seu perímetro, girando de um para outro porto, examinando a disposição do litoral. Afinal de contas, admitindo que eles tivessem intenções malfazejas, que poderia empreender essa equipagem contra uma população de dez mil habitantes? Por isso não causam inquietação as evoluções desse ketch, quer ande a cruzar de dia, quer passe as noites no mar. A administração marítima de Honolulu não é pois interpelada a tal respeito.

O quarteto fez os seus adeuses à ilha de Oahu na manhã de 10 de Julho. Standard-Island apresta-se logo ao alvorecer, obedecendo à impulsão dos seus poderosos propulsores. Depois de virar, toma a direcção de sudoeste, de modo que possa avistar as outras ilhas havaianas. Tem de apanhar pela alheta a corrente equatorial, que vem de leste para oeste, ao inverso daquela que segue para o norte pelas costas do arquipélago.

Para distracção dos seus habitantes, que se reuniram no litoral de bombordo, Standard-Island mete-se arrojadamente por entre as ilhas Molocai e Cauai. Por cima desta última, uma das mais pequenas do grupo, ergue-se um vulcão de mil e oitocentos metros, o Nirhau, que projecta alguns vapores fuliginosos. Ao sopé dele arredondam-se umas encostas de formação coralígena, dominadas por uma enfiada de dunas, cujos ecos se repercutem com sonoridade metálica, quando violentamente batidas pela ressaca. Ao cair da noite, o gigantesco engenho acha-se ainda nesse estreito canal, mas nada tem que recear nas mãos do comodoro Simcoe.

No momento em que o Sol desaparece por detrás das alturas de Lanai, as vigias não poderiam lobrigar o ketch, o qual, depois de sair do porto em seguimento de Standard-Island, procurava manter-se na sua esteira. Que afinal, repetimos, por que razão se preocupariam com a presença dessa embarcação malaia?

No dia seguinte ao alvorecer, o ketch não passava de um ponto esbranquiçado no horizonte do norte.

Durante esse dia, prossegue a navegação entre Caluhani e Maui. Graças à sua extensão, esta ilha, com Lahaina por capital, porto reservado aos baleeiros, ocupa o segundo lugar no arquipélago das Sanduíche. O Haleahala, a Casa do Sol, ergue nela a três mil metros o pico, a apontar para o astro radiante.

As duas singraduras seguintes empregam-se em costear o grande Havai, cujos montes, como dissemos, são os mais elevados do grupo. Foi na baía Kealakeacua que o capitão Cook, recebido primeiro como um deus pelos indígenas, foi assassinado em 1779, um ano depois de ter descoberto este arquipélago, ao qual dera o nome de Sanduíche, em honra do célebre ministro da Grã-Bretanha. Hilo, capital da ilha, que está na costa oriental, não se pode ver, mas descortina-se Cailu, situada na costa ocidental. Este grande Havai possui cinquenta e sete quilómetros de caminhos de ferro, que servem principalmente para transporte de mercadorias, e o quarteto pode entrever o penacho branco das suas locomotivas.

— - Só faltava mais esta! — - exclama Yvernés.

No dia seguinte, a Jóia do Pacífico deixou estas paragens, no momento em que o ketch dobrava a ponta do Havai, dominada pelo Mauna-Loa, a Grande Montanha, cujo cume se perde entre as nuvens a quatro mil metros de altitude.

— - Roubados — - diz então Pinchinat — -, estamos roubados!

— - Tens razão — - concorda Yvernés — -, devíamos ter aqui chegado cem anos mais cedo. Mas nesse caso não teríamos navegado nesta admirável ilha de hélice!

— - Deixá-lo! Encontrar indígenas de jaquetão e de colarinhos para baixo em vez dos selvagens enfeitados de penas, que nos tinha anunciado aquele pantomineiro do Calistus, que Deus confunda! Tenho saudades daqueles tempos do capitão Cook!

— - E se aqueles canibais tivessem devorado Sua Alteza? — - observa Frascolin.

— - Ora essa! Ao menos teria a consolação de reconhecer que... uma vez na vida... teriam gostado de mim por causa de mim próprio!

 

PASSAGEM DA LINHA

Desde o dia 23 de Junho, o Sol retrograda para o hemisfério austral. É, pois, indispensável abandonar as zonas onde não tarda que a invernia faça os seus estragos. Visto que o astro do dia, no seu curso aparente, se dirige para a linha equinocial, convém transpô-la em seu seguimento. Para além dela, proporcionam-se climas aprazíveis, em que, apesar das suas denominações de Outubro, Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro, estes meses nem por isso deixam de ser os da estação calmosa. A distância que separa o arquipélago havaiano das Marquesas anda por três mil quilómetros. Por isso Standard-Island, com pressa de a vencer, segue com a sua velocidade máxima.

A Polinésia propriamente dita fica compreendida nesse espaçoso trecho de mar limitado ao norte pelo equador, ao sul pelo trópico de Capricórnio. Em cinco milhões de quilómetros quadrados, contam-se ali onze grupos, constituídos por duzentas e vinte ilhas, ou uma superfície emersa de dez mil quilómetros, onde os ilhotes se contam aos milhares. São as cumeadas desses montes submarinos, pertencentes à cordilheira que se prolonga do noroeste ao sueste até às Marquesas e à ilha Pitcairn, projectando ramificações quase paralelas.

Se, por um esforço de fantasia, se imaginar essa ampla bacia subitamente esvaziada, se o Diabo coxo, libertado por Cleofas, arrebatasse todas essas massas líquidas, conforme fazia aos telhados de Madrid, que extraordinária região se ostentaria à nossa vista! Qual seria a Suíça, a Noruega, o Tibete, que lograriam igualá-la em tamanho? Desses montes submarinos, a maioria vulcânicos, alguns, de origem madrepórica, são formados de uma matéria calcária ou córnea, segregada em camadas concêntricas pelos pólipos, esses animálculos radiados, de tão singela organização, dotados de uma força de produção espantosa. Dessas ilhas, umas, as mais recentes, só na cumeada têm um manto vegetal; as outras, envoltas na sua vegetação da cabeça aos pés, são as mais antigas, mesmo quando a sua origem é coralóide. Existe, pois, uma enorme região montanhosa, oculta sob as águas do Pacífico. Standard-Island anda a passear ao de cima das suas cumeadas, como faria um aeróstato por entre os picos dos Alpes ou do Himalaia. A diferença é que não é o ar, é a água que a sustenta.

Mas, assim como existem largos deslocamentos de ondas atmosféricas, assim se produzem deslocamentos líquidos na superfície deste oceano. A grande corrente vai de leste a oeste, e, nas camadas inferiores, propagam-se duas contracorrentes de Junho a Outubro, quando o Sol se dirige para o trópico de Câncer. Além disso, nas proximidades de Taiti, observam-se quatro espécies de fluxos, cuja preia-mar se não realiza às mesmas horas, e que neutralizam a maré a ponto de a tornarem quase inapreciável. Quanto ao clima de que gozam estes diferentes arquipélagos, esse é essencialmente variável. As ilhas montanhosas detêm as nuvens, que vertem sobre elas as suas chuvas; as ilhas baixas são secas, por isso que os vapores fogem adiante das brisas reinantes.

Que a biblioteca do Casino não possuísse as cartas relativas ao Pacífico, caso fora esse bem singular, pelo menos. Possui delas uma colecção completa, que Fras-colin, o mais estudioso do quarteto, consulta repetidas vezes. Yvernés, esse prefere abandonar-se às surpresas da travessia, à admiração que lhe causa esta ilha artificial, e não tem empenho de sobrecarregar o cérebro com quaisquer noções geográficas. Pinchinat pensa unicamente em encarar as coisas pelo seu aspecto divertido ou fantasista. Quanto a Sebastião Zorn, bem lhe importa a ele o itinerário, visto que o levam para onde nunca fizera tenção de ir.

Frascolin é, pois, o único que se aplica ao estudo da Polinésia, analisando os grupos principais que a compõem, as Ilhas Baixas, as Marquesas, as Pomotu, as ilhas da Sociedade, as ilhas de Cook, as ilhas Tonga, as ilhas Samoa, as ilhas Austrais, as Wallis, as Fanning, sem mencionar as ilhas isoladas, Niue, Tokolau, Fénix, Manahiki, Páscoa, Sala y Gomez, etc. Não ignora que, na maioria desses arquipélagos, mesmo os que estão sujeitos a protectorados, o governo está sempre nas mãos de chefes poderosos, cuja influência nunca é discutida, e que as classes pobres são inteiramente oprimidas pelas classes ricas. Sabe, além disso, que esses indígenas professam as religiões bramânica, maometana, protestante e católica, mas que o catolicismo prepondera nas ilhas que dependem da França, o que é devido à pompa do culto. Até sabe que a língua indígena, cujo alfabeto é pouco complicado, visto que se compõem apenas de treze caracteres, é muito misturada de termos ingleses e há-de ser por fim absorvida pelo anglo-saxónico. Sabe, finalmente, que, no ponto de vista étnico, a população polinésica tende em geral a decrescer, o que é lamentável, porque o tipo canaca — -vocábulo que significa «homem» — -, mais branco debaixo do equador do que nos grupos afastados da linha equinocial, é magnífico, e quanto não perderá a Polinésia com a sua absorção pelas raças estrangeiras? Sim! Frascolin sabe isso, e muitas outras coisas, que aprende nas suas cavaqueiras com o comodoro Ethel Simcoe, e, quando os colegas o interrogam, nunca se atrapalha para responder.

Por isso, Pinchinat já lhe não chama senão o «Larousse das zonas tropicais».

Tais são os principais grupos entre os quais Standard-Island deve passear a sua opulenta população. Essa é que merece com justiça o nome de ilha afortunada, pois que tudo o que pode assegurar a felicidade material, e, até certo ponto, a felicidade moral, ali se acha regulamentado. Porque há-de esta situação estar em risco de ser perturbada por emulações, ciúmes, desacordos, por questões de influência ou de precedência, que dividem Milliard-City em dois campos, assim como já está dividida em duas secções, o campo Tankerdon e o campo Coverley? Em todo o caso, para artistas, deveras desinteressados no assunto, a luta promete ser interessante.

Jem Tankerdon é ianque dos pés à cabeça, pessoal e absorvente, cara larga, com meia barba arruivada, cabelos cortados rente, olhos vivos, apesar dos sessenta anos, a íris quase amarela como a dos olhos de cão, a pupila chamejante. É de alta estatura, de torso alentado, de membros vigorosos. Há nele o que quer que seja de trappeur(1) dos Prados, se bem que, a respeito de ratoeiras, não tenha armado senão aquelas onde precipitava milhões de porcos nos seus matadouros de Chicago. É um homem violento, a quem a sua situação deveria ter dado umas noções de delicadeza, mas a quem faltou a educação primária. Gosta de fazer gala da sua fortuna, ou, como se costuma dizer, de atirar com o dinheiro à cara das pessoas. Mas parece que ainda o acha pouco, visto que ele e alguns outros do seu bordo estão com ideia de voltar aos negócios...

Mrs. Tankerdon é uma americana qualquer, boa criatura, muito obediente ao marido, excelente mãe, terna para os filhos, predestinada para dar criação a uma numerosa progénie, e não se tendo esquivado a desempenhar as suas funções.

Quando se tem dois biliões para repartir entre os herdeiros, não há razão para que não se tenha uma dúzia de filhos: quantos ela tem, e todos admiravelmente constituídos.

De toda esta tribo, a atenção do quarteto não tinha de ser reclamada senão pelo primogénito, destinado a representar um tal ou qual papel nesta história. Walter Tankerdon, de figura bastante elegante, de inteligência mediana, de maneiras e cara simpáticas, sai mais a Mrs. Tankerdon do que ao chefe da família. Suficientemente instruído, tendo percorrido a América e a Europa,

 

*1. Caçador de profissão, que emprega a trápola na América do Norte.

 

viajando por vezes, mas sempre reclamado pelos seus hábitos e pelos seus gostos para a existência atraente de Standard-Island, está familiarizado com os exercícios do desporto, à frente de toda a mocidade milliardense, nos concursos do ténis, do pólo, do golfe e do cricket. Não tem fumos de orgulho pela fortuna que há-de possuir um dia, e tem o coração bondoso. É certo que, à falta de indigentes na ilha, não tem ensejo de exercer a caridade. Em suma, não seria mau que os irmãos e as irmãs se parecessem com ele. Se eles e elas não estão em idade casadoura, ele, que anda por perto dos trinta, deve pensar no casamento. E pensa, com efeito? É o que veremos.

Existe um frisante contraste entre a família Tankerdon, a mais importante da secção bombordense, e a família Coverley, a mais considerável da secção estibordense. Nat Coverley é de um temperamento mais fino do que o seu rival. Ressente-se da origem francesa dos seus antepassados. A sua fortuna não saiu das entranhas da terra sob a forma de jorros de petróleo, nem das entranhas fumegantes da raça suína. Não! O que o fez tal como é foram os negócios industriais, os caminhos de ferro, as transacções bancárias. Esse é que não pensa senão em gozar tranquilamente das suas riquezas, e — - não faz mistério nisso — - opor-se-ia a qualquer tentativa para transformar a Jóia do Pacífico numa enorme fábrica ou numa imensa casa de comércio. Alto, correcto, com uma bela cabeça coroada de cabelos grisalhos, usa a barba toda, de cor castanha, mesclada de fios argênteos. De carácter assaz frio, de modos distintos, ocupa o primeiro lugar entre os notáveis que conservam, em Milliard-City, as tradições da alta sociedade dos Estados Unidos do Sul. Gosta das artes, é conhecedor de pintura e de música, compraz-se em falar a língua francesa, muito usada na secção de Estibordo, anda ao corrente da literatura americana e europeia e, em se oferecendo o ensejo, mistura nos seus aplausos uns bravos, ao passo que os rudes tipos do Far West e da Nova Inglaterra se fartam de despejar hurras e hipes.

Mrs. Coverley, que tem menos dez anos que o marido, acaba de dobrar, sem se afligir muito, o cabo dos quarenta.

É uma mulher elegante, distinta, pertencendo a essas famílias meio crioulas da Luisiana de outrora, sabendo bem música, boa pianista, e não se deve supor que algum Reyer do século xx tenha proscrito o piano de Milliard-City. No seu palacete da Décima Quinta Avenida não faltam ao quarteto ocasiões de tocar música com ela, nem ensejos de a felicitar pelo seu talento artístico.

O Céu não abençoou o casal Coverley tanto quanto abençoara o casal Tankerdon. Três filhas são as únicas herdeiras de uma imensa fortuna, de que o Sr. Coverley não faz gala, como o seu rival. Essas meninas são bonitas deveras, e não lhes faltarão pretendentes, na nobreza ou na finança dos dois mundos, quando chegar a hora de as casar. Na América, esses dotes fabulosos não são aliás raros. Não se citava porventura há anos a pequena Miss Terry, que desde a idade de dois anos era requestada por causa dos seus setecentos e cinquenta milhões? Esperemos que essa criança case a seu gosto e que, à vantagem de ser uma das mulheres mais ricas dos Estados Unidos, junte a de ser uma das mais felizes do seu país.

A filha mais velha dos Coverley, Diana, ou antes, Dy, como familiarmente lhe chamam, tem apenas vinte anos. É uma linda rapariga, em que se misturam as qualidades físicas e morais do pai e da mãe. Belos olhos azuis, cabelos magníficos, entre castanhos e louros, uma carnação fresca como as pétalas da rosa recém-aberta, figura elegante e graciosa, tudo isso explica que Miss Coverley atraia as vistas dos rapazes de Milliard-City, os quais por certo não deixarão a estranhos o cuidado de conquistar esse «inestimável tesouro», para empregar os termos de uma precisão matemática. Há mesmo razão de supor que o Sr. Coverley não veria, na diferença de religiões, obstáculo para uma união que lhe parecesse assegurar a felicidade da filha.

A falar verdade, é lamentável que umas questiúnculas de rivalidades sociais apartem as duas famílias mais qualificadas de Standard-Island. Walter Tankerdon parece especialmente criado para esposo de Dy Coverley.

Mas é essa uma combinação em que não há que pensar... Era mais fácil cortar em duas metades Standard-Island, e irem os Bombordenses para um lado e os Estibordenses para outro, do que assinar-se alguma vez semelhante escritura de casamento!

— - A não ser que o amor se meta de permeio!- — - sugere às vezes o superintendente, piscando o olho sob a luneta de ouro.

Mas não parece que Walter Tankerdon tenha a mínima inclinação para Dy Coverley, e vice-versa, ou, pelo menos, se ela existe, ambos eles mantêm uma reserva que frustra as curiosidades da alta sociedade de Milliard-City.

A ilha de hélice continua a descer para o equador, seguindo pouco mais ou menos o meridiano de 160°. Diante dela alarga-se a paragem do Pacífico que oferece mais amplos espaços despovoados de ilhas e de ilhéus e cuja profundidade chega a atingir duas léguas. Durante o dia 25 de Julho, passa-se pelo fundão de Belknap, abismo de seis mil metros, de onde a sonda conseguiu trazer essas conchas ou zoófitos curiosos, constituídos por forma que possam aguentar impunemente a pressão de tais massas de água, avaliada em seiscentas atmosferas.

Cinco dias depois, embrenha-se Standard-Island pelo meio de um grupo pertencente à Inglaterra, muito embora seja às vezes designado pelo nome de ilhas Americanas. Depois de ter deixado por estibordo Palmira e Suncarung, aproxima-se a cinco milhas de Fanning, um dos numerosos jazigos de guano destas paragens, o mais importante do arquipélago. Em todo o caso, são cumeadas emersas, mais áridas que verdejantes, de que até agora o Reino Unido não tem tirado grandes lucros. Mas pôs o pé naquele ponto, e é sabido que o pé enorme da Inglaterra deixa em geral pegadas indeléveis.

Todos os dias, enquanto os seus colegas percorrem o parque ou os campos das cercanias, Frascolin, muito interessado pelos pormenores desta curiosa navegação, dirige-se para a bateria do Esporão, onde encontra amiúde o comodoro. Ethel Simcoe dá-lhe de bom grado informações sobre os fenómenos especiais destes mares, e, quando eles oferecem algum interesse, o segundo-vio-lino não esquece de os comunicar aos colegas.

Por exemplo, deram largas à sua admiração em presença de um espectáculo que a Natureza lhes proporcionou gratuitamente na noite de 30 para 31 de Julho.

À tarde tinha-se avistado um imenso banco de acalefos, que cobria muitas milhas quadradas. À população ainda não fora dado o encontrar tais massas de medusas, a que certos naturalistas concederam a denominação de oceâneas. Estes animais, de uma vida muito rudimentar, confinam pela sua forma hemisférica com os produtos do reino vegetal. Os peixes, por muito vorazes que sejam, consideram-nos mais como flores, porque nenhuns deles, segundo parece, os apetece para alimento. Destas oceâneas, as que são peculiares à zona tórrida do Pacífico ostentam somente a forma de umbelas multicolores, transparentes e guarnecidas de tentáculos. Não medem mais de dois a três centímetros. Calcule-se quantos biliões são precisos para formar bancos de tal extensão!

Quando se enunciam números assim em presença de Pinchinat, este responde:

— - Isso não é motivo de espanto para estes fabulosos ricaços de Standard-Island, para quem a moeda corrente é o bilião!

Noite fechada, parte da população dirige-se para «o castelo de proa», isto é, para o terraço que domina a bateria do Esporão. Os tramways são invadidos. Os carros eléctricos vão apinhados de curiosos. Carruagens elegantes transportam os nababos da cidade. Os Coverley e os Tankerdon ali concorrem, embora afastados... Jem não cumprimenta Nat, o qual não cumprimenta Jem. As famílias lá estão completas. Yvernés e Pinchinat têm o prazer de conversar com Mrs. Coverley e sua filha, que os recebem sempre com a maior amabilidade. Talvez que Walter Tankerdon sinta um tal ou qual despeito por não poder intrometer-se no colóquio, e talvez que Miss Coverley tivesse aceitado sem repugnância a conversação do mancebo. Jesus! Que escândalo e que alusões indiscretas do Starboard-Chronicle ou do New-Herald nas suas secções mundanas!

Quando a escuridão é cerrada, tanto quanto pode sê-lo nessas noites tropicais, o Pacífico parece iluminar-se até às suas extremas profundezas. O imenso lençol está impregnado de clarões fosforescentes, brilhante de reflexos azuis ou róseos, não desenhados como um traço luminoso na crista das vagas, mas semelhantes às emanações que proviessem de inúmeras legiões de pirilampos. Essa fosforescência chega a adquirir uma tal intensidade que é possível ler-se como à radiação longínqua de uma aurora boreal. Dir-se-ia que o Pacífico, depois de ter dissolvido os raios que o Sol derrama sobre ele durante o dia, os restitui à noite em luminosos eflúvios...

Não tarda que a proa de Standard-Island corte a massa dos acalefos, a qual se reparte em dois ramos ao longo do litoral metálico. Dentro de poucas horas, é cercada a ilha de hélice por uma cinta desses noctilucos, cuja fonte fotogénica não se alterou. É como se fosse uma auréola, desses resplendores no meio dos quais se destacam os santos e as santas, um desses nimbos de tons lunares, que irradiam em volta da cabeça dos Cristos. O fenómeno dura até ao pespontar da aurora, cujos primeiros clarões acabam por extingui-lo.

Seis dias depois, a Jóia do Pacífico toca no círculo máximo imaginário do nosso esferóide, o qual, materialmente desenhado, cortaria o horizonte em duas partes iguais. Desse ponto, podem-se ver ao mesmo tempo os pólos da esfera celeste, um ao norte, assinalado pelas cintilações da Estrela Polar, o outro ao sul, condecorado, como o peito de um militar, com o Cruzeiro do Sul. Convém acrescentar que, dos diversos pontos dessa linha equinocial, os astros parecem descrever cada dia círculos perpendiculares ao plano do horizonte. Quem quiser gozar de noites e de dias perfeitamente iguais, é nestas paragens, nas regiões das ilhas ou dos continentes atravessados pelo equador, que tem de fixar os seus penates.

Desde a sua partida do arquipélago havaiano, tem Standard-Island vencido uma distância de cerca de seiscentos quilómetros. É a segunda vez, desde a sua criação, que ela passa de um para o outro hemisfério, transpondo a linha equinocial, primeiro descendo para o sul, tornando depois a subir para o norte. Esta passagem determina uma festa para a população milliardense. Haverá jogos públicos no parque, cerimónias religiosas no templo e na catedral, corridas de carruagens eléctricas à roda da ilha. Na plataforma do Observatório deve queimar-se um magnífico fogo de artifício, cujos foguetes, cujas serpentes luminosas, cujas bombas de cores cambiantes, rivalizarão com os esplendores estelares do firmamento.

Adivinha-se que esta festa é como uma imitação das cenas fantasistas habituais aos navios, quando atingem o equador, uma correspondência do baptismo da Linha. E, de facto, esse dia é sempre o escolhido para baptizar as crianças nascidas desde a partida de Madeleine-bay. À mesma cerimónia baptismal se sujeitam os estrangeiros que ainda não entraram no hemisfério austral.

— - Vai ser agora a nossa vez — - anuncia Frascolin aos colegas — -, e nós vamos receber o baptismo.

— - Essa agora! — -replica Sebastião Zorn, protestando com gestos de indignação.

- É como te digo, meu velho arranhador de rabecão! — - insiste Pinchinat. — - Vão despejar-nos baldes de água benta em cima da cabeça, assentar-nos em tábuas que balouçam, ferrar connosco dentro de tinas com surpresas, e não tarda aí a aparecer o velho Trópico, seguido pelo seu cortejo de bobos, para nos enlambuzar a cara de graxa!

— - Se eles imaginam — - protesta Sebastião Zorn — - que eu me sujeite às troças dessa mascarada...

— - Que remédio temos nós! — - diz Yvernés. — - Cada terra com o seu uso, e os hóspedes têm de obedecer...

— - Excepto quando os agarram à força! — -exclama o intratável regente do Quarteto Concertante.

Mas podem tranquilizar-se com respeito ao carnaval que serve de divertimento aos navios, ao passarem a Linha! Escusam de estar com receio de que chegue o Velho Trópico! Aos seus colegas e mais a ele, não é com água do mar que hão-de borrifá-lo, mas com champanhe das melhores marcas. Não os mistificarão também mostrando-lhes o equador, previamente traçado na objectiva de um óculo. Isso assenta bem numa pândega de marujada, mas não convém às pessoas graves de Standard-Island.

A festa realiza-se na tarde de 5 de Agosto. A não ser os guardas aduaneiros, que nunca podem abandonar o seu posto, os empregados tiveram feriado. Suspendeu-se todo o trabalho na cidade e nos portos. As hélices não funcionam. Quanto aos acumuladores, esses possuem uma voltagem que deve bastar ao serviço da iluminação e das comunicações eléctricas. Em todo o caso, Standard-Island não está parada. Condu-la uma corrente para a linha divisória dos dois hemisférios do Globo. Erguem-se nas igrejas cantos e preces, tanto no Templo como em Saint-Mary Church, e os órgãos saturam de sons o recinto. Alegria geral no parque, onde as provas desportivas se disputam com animação notável. Associam-se neles as diversas classes. Os gentlemen mais ricos, tendo à frente Walter Tankerdon, fazem prodígios nas partidas do golfe e do ténis. Em o Sol descaindo perpendicularmente até se esconder no horizonte, deixando apenas um rasto crepuscular de quarenta e cinco minutos, os foguetes erguerão o voo pelo espaço, e uma noite sem Lua prestar-se-á à exibição dessas magnificências.

Na sala grande do Casino é baptizado o quarteto, como fica dito, e por mão de Cyrus Bikerstaff em pessoa. O governador é quem lhe oferece a taça espumejante, e o champanhe jorra em torrentes. Os artistas têm largo quinhão do Cliquot e do Roederer. Sebastião Zorn mostraria bem má vontade se se queixasse de um baptismo que lhe não recorda absolutamente nada a água salgada em que lhe embeberam os lábios nos primeiros dias depois de nascido.

Por isso, os parisienses correspondem a estes testemunhos de simpatia pela execução das mais belas obras do seu repertório: o sétimo quarteto em fá maior, Op. 59, de Beethoven, o quarto quarteto em mi bemol, Op. 10, de Mozart, o quarto quarteto em ré menor, Op. 17, de Haydn, o sétimo quarteto, andante, sherzo, caprichoso e fuga, Op. 81, de Mendelssohn. Sim, senhores!

Todas estas maravilhas da música concertante, e a audição é gratuita. Há grande apertão às portas, abafa-se na sala. Obrigam-nos a bisar, a trisar os trechos, e o governador entrega aos executantes uma medalha de ouro cercada de diamantes, respeitáveis pelo número de quilates, tendo numa das faces as armas de Milliard-City, e na outra estas palavras em francês:

Oferecida ao Quarteto Concertante pela Companhia, pela Municipalidade e pela população de Standard-Island

E se todas estas honras não penetram até ao mais profundo recesso da alma do irreconciliável violoncelista é porque, decididamente, ele tem um carácter deplorável, conforme lhe repetem os colegas.

— - Esperem-lhe pela pancada! — - contenta-se ele em responder, retorcendo a barba com mão febril.

Às dez horas e trinta e cinco minutos da noite — - cálculo feito pelos astrónomos de Standard-Island — - é que a ilha de hélice deve cortar a linha equinocial. Neste momento preciso, disparar-se-á um tiro de artilharia na bateria do Esporão. Esta bateria está ligada por um fio ao aparelho eléctrico aprestado ao centro do square do Observatório. Extraordinária satisfação de amor-próprio para aquele dos notáveis a quem couber a honra de expedir a corrente que provoca essa formidável detonação.

Ora, nesse dia, há duas personagens importantes que aspiram a essa honra. São elas, como logo se adivinha, Jem Tankerdon e Nat Coverley. Daí provém um embaraço extremo para Cyrus Bikerstaff. Árduas conferências prévias se realizaram entre o palácio do Município e as duas secções da cidade. A convite do governador, até Calistus Munbar interveio. Sem embargo da sua tão reconhecida habilidade, dos recursos do seu espírito diplomático, o superintendente fez um fiasco completo. Jem Tankerdon não quer ceder a precedência a Nat Coverley, o qual recusa dar a vantagem a Jem Tankerdon. Espera-se um rompimento.

Não tardou ele a produzir-se com toda a violência, quando os dois chefes se encontraram cara a cara no square.

O aparelho está a cinco passos de qualquer deles... Basta tocar-lhe com a ponta do dedo.

Conhecedora da dificuldade, a turba, muito agitada por estas questões de precedência, invadiu o jardim.

Em seguida ao concerto, Sebastião Zorn, Yvernés, Frascolin e Pinchinat dirigiram-se para o square, com curiosidade de observar as fases da pendência. Dadas as disposições dos Bombordenses e dos Estibordenses, não deixa ela de apresentar uma gravidade excepcional para o futuro.

Os dois notáveis adiantam-se, sem sequer trocarem uma leve inclinação de cabeça.

— - Suponho — - diz Jem Tankerdon — - que o senhor não me disputará a honra...

— - É precisamente o que espero da sua parte — - replica Nat Coverley.

— - O que eu não suporto é que em público se desrespeite a minha pessoa...

— - Nem eu a minha...

— - Pois veremos! — - exclama Jem Tankerdon, dando um passo para o aparelho.

Nat Coverley também dá um passo. Os partidários dos dois notáveis começam a intervir. De parte a parte, surdem provocações malsoantes. Por certo que Walter Tankerdon está prestes a sustentar os direitos de seu pai, e, no entanto, ao descortinar Miss Coverley, que está um pouco afastada, fica visivelmente embaraçado.

Quanto ao governador, embora o superintendente esteja a seu lado, pronto a lançar água na fervura, sente uma grande mágoa por não poder reunir num ramo só a rosa branca de York e a rosa vermelha de Lancaster. E quem sabe se esta lamentável emulação não terá consequências tão desastrosas como foram, no século xv, as daquelas simbólicas flores para a aristocracia inglesa?

Entretanto, aproxima-se o minuto em que o bico de proa de Standard-Island cortará a linha equinocial. Estabelecido com a precisão de um quarto de segundo de tempo, o cálculo não chega a comportar um erro de oito metros.

O sinal não pode tardar a ser feito pelo Observatório.

— - Tenho uma ideia! — - murmura Pinchinat.

— - Que ideia é? — - inquire Yvernés.

— - Ferro um murro no botão do aparelho, e ficam logo os dois de acordo.

— - Não faças tal! — - recomenda Frascolin, aguentando vigorosamente Sua Alteza.

Ninguém sabe, em suma, como acabaria o incidente se não se houvesse produzido uma detonação...

Essa detonação não provém da bateria do Esporão. É um tiro de peça, disparado no mar largo, que se ouviu distintamente...

A multidão fica perplexa.

Qual poderá ser a significação exacta desta descarga de uma boca de fogo que não pertence à artilharia de Standard-Island?

Um telegrama, expedido de Tribord-Harbour, fornece quase imediatamente a explicação.

A duas ou três milhas, acaba de dar sinal da sua presença um navio em perigo, que pede socorro.

Afortunada e inesperada diversão! Já ninguém pensa em questionar diante do botão eléctrico, nem em festejar a passagem do equador. Demais a mais, já não é tempo. Transpôs-se a linha, e o tiro regulamentar ficou dentro da alma da peça. Antes assim, afinal de contas, para honra das famílias Tankerdon e Coverley.

O público evacua o square, e, como os tramways já não funcionam, dirige-se pedestre e rapidamente para os cais de Tribord-Harbour.

Mas logo em seguida ao sinal feito ao largo, o oficial do porto tomou as medidas necessárias para a salvação. Lançou-se dos piers uma das lanchas eléctricas, amarrada no porto interior. E, no momento em que chega a multidão, a embarcação traz os náufragos recolhidos no seu navio, o qual se submergiu imediatamente nos abismos do Pacífico.

Esse navio é o ketch malaio, que seguiu Standard-Island desde a sua partida do arquipélago das Sanduíche.

 

ILHAS MARQUESAS

Na manhã de 29 de Agosto, singra a Jóia do Pacífico pelo meio do arquipélago das Marquesas, entre 7° 55' e 10° 30' de latitude sul e 141° e 143° 6' de longitude oeste do meridiano de Paris. Venceu uma distância de três mil e quinhentos quilómetros desde o grupo das Sanduíche.

Se este grupo se denomina Mendana, é porque o espanhol desse nome descobriu, em 1595, a parte meridional dele. Se se denomina ilhas da Revolução, é por ter sido visitado, em 1791, pelo capitão Marchand, na parte noroeste. Se se chama arquipélago de Nouka-Hiva, é por ser esse o nome da mais importante das ilhas que o compõem. E, contudo, quando por mais não fosse senão por justiça, deveriam também tomar o nome de Cook, visto que este célebre navegador operou em 1774 o seu reconhecimento.

É isto que o comodoro Simcoe explica a Frascolin, que acha a observação das mais lógicas, acrescentando:

— - Podiam igualmente chamar-lhe arquipélago Francês, porque nós nas Marquesas estamos, por assim dizer, em nossa casa.

Efectivamente, um francês tem direito de considerar este grupo de onze ilhas ou ilhotes como uma esquadra da sua terra, surta nas águas do Pacífico. As maiores são os navios de primeira ordem Nouka-Hiva e Hiva-Oa; as de grandeza mediana são os cruzadores de diversas classes, Hiaú, Uapú e Uauka; as mais pequenas são canhoneiras Motane, Fatu-Hiva, Taú-Ata, ao passo que os ilhéus ou atóis seriam simples avisos de esquadra. Verdade é que estas ilhas não podem deslocar-se como Standard-Island.

Foi no dia 1 de Maio de 1842 que o comandante da estação naval do Pacífico, o contra-almirante Dupetit-Touars, tomou posse deste arquipélago, em nome da França. Mil a duas mil léguas o separam quer da costa americana, quer da Nova Zelândia, quer da Austrália, quer da China, das Molucas ou das Filipinas. Nestas condições, era digno de louvor ou de censura o acto do contra-almirante? Censuraram-no na oposição, louvaram-no nas classes governamentais. Em todo o caso, o que é certo é que a França dispõe ali de um domínio insular, onde encontram abrigo e refresco os seus navios de pesca e ao qual dará uma inegável importância o canal de Panamá, caso algum dia se abra. Este domínio devia ser completado pela posse ou pelo protectorado das ilhas Pomotu, das ilhas da Sociedade, que constituem o seu natural prolongamento. Visto que a influência britânica se estende pelas paragens do noroeste desse imenso oceano, convém que a influência francesa venha contrabalançá-la nas paragens do sueste.

— - Mas — - pergunta Frascolin ao seu obsequioso cicerone — -dar-se-á o caso que nós tenhamos aqui forças militares de algum valor?

— - Até 1859 — - responde o comodoro Simcoe — - havia em Nouka-Hiva um destacamento de soldados de marinha. Desde que se retirou este destacamento, ficou confiada aos missionários a guarda da bandeira, que eles não deixariam arriar sem defesa.

— - E actualmente?

— - Presentemente, não encontrará em Taio-Haé senão um residente, alguns gendarmes e soldados indígenas, sob as ordens de um oficial, que também desempenha as funções de juiz de paz...

— - Para os processos dos indígenas?

— - Dos indígenas e dos colonos.

— - Com que então há colonos em Nouka-Hiva?

— - Há... duas dúzias.

— - Não chegam para formar uma sinfonia, nem mesmo uma filarmónica; chegam quanto muito para uma charanga!

É certo isto. Se o arquipélago das Marquesas, que se alonga por cento e noventa e cinco milhas de comprimento por quarenta e oito milhas de largura, abrange uma área de treze mil quilómetros quadrados, a população não chega a contar vinte e quatro mil indígenas. Há, pois, um colono por milhar de habitantes.

Esta população marquesina deve porventura aumentar, quando se romper uma nova via de comunicação entre as duas Américas? O futuro o dirá. Mas, pelo que respeita à população de Standard-Island, essa é que aumentou há dias com o salvamento dos malaios do ketch, efectuado na noite de 5 de Agosto.

São dez, além do capitão, homem de rosto enérgico, como ficou dito. Anda pelos quarenta anos e chama-se Sarol. Os seus mareantes são latagões robustos, dessa raça originária das ilhas extremas da Malásia Ocidental. Três meses antes, levara-os a Honolulu esse Sarol com um carregamento de copra. Quando Standard-Island foi ali demorar-se dez dias, a aparição desta ilha artificial não deixou de excitar-lhes a surpresa, como aliás acontecia em todos os arquipélagos. Se não a visitaram, porque essa autorização só se obtinha com grande dificuldade, não esqueça que o seu ketch se fez muitas vezes ao mar, a fim de a observar mais de perto, contornando-se à distância de meia amarra do seu perímetro. A presença obstinada deste navio não pudera excitar nenhuma suspeita, e a sua partida de Honolulu, algumas horas depois do comodoro Simcoe, também passou despercebida. Demais, deveriam inquietar-se com esse barco de umas cem toneladas, guarnecido por uma dezena de homens? Por certo que não; mas talvez que andassem pouco avisados...

Quando o tiro atraiu a atenção do oficial de Tribord-Harbour, achava-se o ketch a duas ou três milhas apenas. A lancha salva-vidas, acudindo em socorro dele, chegou a tempo de recolher o capitão e a tripulação.

Estes malaios falam correntemente a língua inglesa, o que não é para admirar da parte de indígenas do Pacífico oeste, onde, conforme indicámos, se aceita sem contestação a preponderância britânica. Sabe-se, pois, a que espécie de acidente marítimo eles deveram o perigo em que se viram.

E até mesmo, se a lancha se houvesse demorado mais uns minutos, esses onze malaios ter-se-iam sumido nas profundezas do oceano.

Pelo que dizem esses homens, vinte e quatro horas antes na noite de 4 para 5 de Agosto, fora o ketch abalroado por um vapor a toda a velocidade. Embora tivesse os faróis de posição, o navio do capitão Sarol não fora visto. A colisão foi necessariamente insignificante para o vapor, que nem por ela deu, ao que parece, porque seguiu a sua derrota, a não ser contudo, facto que, desgraçadamente, não é raro, que ele tivesse preferido, fazendo força de vapor, esquivar-se a reclamações dispendiosas e desagradáveis.

Mas este choque, insignificante para um barco de grande tonelagem, cujo casco de ferro vai animado de considerável velocidade, foi terrível para o navio malaio. Cortado por anteavante do mastro do traquete, é difícil de explicar como não foi imediatamente a pique. Manteve-se, todavia, à tona de água, e os homens ficaram agarrados à borda falsa. Se o mar estivesse bravo, nem um só poderia resistir às vagas que varressem esse destroço. Por fortuna, a corrente dirigiu-o para leste e aproximou-o de Standard-Island.

Todavia, quando o comodoro interroga o capitão Sarol, manifesta o espanto de que o ketch, meio submerso, fosse abatendo até chegar à vista de Tribord-Harbour.

— - Também eu não percebo — -responde o malaio. — - Só se a sua ilha andou pouco nestas últimas vinte e quatro horas?

- Éa única explicação possível — - replica o comodoro Simcoe. — - Seja como for! Estão salvos, é o essencial.

Era tempo, com efeito. Antes que a lancha se afastasse um quarto de milha, soçobrava o ketch.

Tal é a narrativa que o capitão Sarol fizera primeiro ao oficial que executara o salvamento, em seguida ao comodoro Simcoe, e por fim ao governador Cyrus Bikerstaff, depois de haverem prestado todos os socorros de que ele e a sua tripulação tinham necessidade urgente.

Surge então a questão de repatriar os náufragos. Faziam-se eles de vela para as Novas Hébridas quando se deu o abalroamento. Standard-Island, que desce para sueste, não pode modificar o seu itinerário e obliquar para oeste. Cyrus Bikerstaff oferece, pois, aos náufragos o desembarcá-los em Nouka-Hiva, onde guardarão a passagem de qualquer navio mercante, que vá buscar carga para as Novas Hébridas.

O capitão e a sua gente olham uns para os outros. Parecem muito contrariados. Esta proposta aflige os pobres diabos, sem recursos, despojados de quanto possuíam com o ketch e a carga deste. Esperar nas Marquesas é exporem-se a uma demora porventura interminável, e como hão-de viver entretanto?

— - Senhor governador — -diz o capitão em voz suplicante — -, salvou-nos, e nós não sabemos como provar-lhes o nosso reconhecimento... E, apesar disso, imploramos-rlhe ainda que assegure o nosso regresso em melhores condições...

— - E por que forma? — - indaga Cyrus Bikerstaff.

— - Dizia-se em Honolulu que Standard-Island, depois de se ter dirigido para as paragens do Sul, devia visitar as Marquesas, as Pomotu, as ilhas da Sociedade, e depois seguir rumo para o oeste do Pacífico...

— - É certo — - confirma o governador — -, e é muito provável que ela se adiante até às ilhas Fiji antes de voltar a Madeleine-bay.

— - As Fiji — - prossegue o capitão — - é um arquipélago inglês, onde nos seria fácil encontrar meio de voltarmos às Novas Hébridas, que não ficam longe... e se o senhor governador quisesse dar-nos guarida até lá...

— - Não posso prometer-lhes coisa nenhuma a tal respeito — - respondeu o governador. — - É-nos proibido conceder passagem a estrangeiros. Consultarei a administração de Madeleine-bay pelo cabo, e, se ela consentir, transportá-los-emos até às Fiji, donde com efeito será mais fácil o repatriarem-se.

Tal é o motivo por que os malaios estão instalados a bordo de Standard-Island, quando ela aparece à vista das Marquesas, em data de 29 de Agosto.

Este arquipélago está situado no percurso dos alisados. O mesmo sucede aos arquipélagos de Pomotu e da Sociedade, aos quais estes ventos abonam uma temperatura moderada num clima salubre.

Diante do grupo do noroeste é que o comodoro Sim-coê se apresenta nas primeiras horas da manhã. Mas primeiro reconhece um banco arenoso, designado nas cartas pelo nome de ilhéu de Coral, e de encontro ao qual o mar, impelido pelas correntes, rebenta com extrema violência.

Tendo deixado este banco por bombordo, as vigias não tardam a dar sinal de uma primeira ilha, Fetuu, muito escarpada, cingida por penhascos verticais de quatrocentos metros. Para além, fica Hiaú, com seiscentos metros de altura, de um aspecto árido por esse lado, ao passo que, pelo outro, fresca e verdejante, oferece duas enseadas praticáveis a navios pequenos.

Frascolin, Yvernés e Pinchinat, deixando Sebastião Zorn entregue ao seu permanente mau humor, tomaram lugar na torre, em companhia de Ethel Simcoe e de muitos dos seus oficiais. Não é de espantar que este nome de Hiaú houvesse excitado Sua Alteza a emitir algumas onomatopeias extravagantes.

— - Com certeza — - diz ele — -, é uma colónia de gatos que habita esta ilha, tendo por chefe um gatarrão...

Hiaú fica por bombordo. Não têm de tocar nessa ilha, e soltam o rumo para a principal do grupo, cujo nome lhe foi dado e à qual se vai juntar temporariamente esta extraordinária Standard-Island.

No dia seguinte, 30 de Agosto, logo de madrugada, voltaram os parisienses para o seu posto. No começo da noite haviam-se avistado as alturas de Nouka-Hiva. Com bom tempo, podem ver-se as cordilheiras deste arquipélago à distância de dezoito a vinte léguas, porque a altitude de certas cumeadas excede mil e duzentos metros, debuxando-se como um dorso gigantesco que seguisse o comprimento da ilha.

— - Hão-de reparar — - diz o comodoro Simcoe às suas visitas — - numa disposição geral a todo este arquipélago. As cumeadas são de nudez pelo menos singular nesta zona, ao passo que a vegetação, despontando a uns dois terços de altura das montanhas, penetra até ao fundo das ravinas e das gargantas, e desenvolve-se com magnificência até às praias esbranquiçadas do litoral.

— - E, no entanto — - observa Frascolin — -, parece que Nouka-Hiva se exceptua dessa regra geral, pelo menos no que se refere à verdura das zonas médias. Parece estéril...

— - Porque a vamos costeando por noroeste- — -responde o comodoro Simcoe. — - Mas quando a contornarmos pelo sul, hão-de ficar surpreendidos com o contraste. Por toda a parte, planícies verdejantes, florestas, cascatas de trezentos metros...

— - Safa! — -exclama Pinchinat. — - Uma massa de água que caísse do alto da torre Eiffel não é coisa de pouco mais ou menos! O Niágara era capaz de ficar com ciúmes...

— - Isso sim! — - replica Frascolin. — - O Niágara desforra-se na largura; a queda de água alonga-se por novecentos metros desde a margem americana até à margem canadiana. Tu bem sabes, Pinchinat, visto que já lá estivemos...

— - É exacto! Apresento as minhas desculpas ao Niágara! — - responde Sua Alteza.

Nesse dia, Standard-Island percorre as costas da ilha a uma milha de distância. Não se vêem senão taludes áridos, subindo até à planura central de Tovii, escarpas pedregosas, que não apresentam à vista nem uma incisão. Todavia, pelo que afirma o navegador Brown, havia ali bons surgidouros, que efectivamente foram descobertos mais tarde.

Em suma, o aspecto de Nouka-Hiva, cujo nome evoca tão graciosas paisagens, é bastante tristonho. Mas, como relataram com justiça os senhores V. Dumoulin e Desgraz, companheiros de Dumont d'Urville durante a sua viagem ao pólo sul e pela Oceânia, «todas as belezas naturais se acham limitadas ao interior das baías, nos sulcos formados pelas ramificações da cordilheira que se eleva no centro da ilha».

Depois de ter seguido este litoral deserto, até além do ângulo agudo que ele projecta para oeste, Standard-Island modifica levemente o seu rumo, diminuindo a velocidade das hélices de estibordo, e vem dobrar o cabo Tchitchagoff, assim denominado pelo navegador russo Krusenstern. A costa cava-se então, descrevendo um arco alongado, no meio do qual um canalete apertado dá acesso ao porto de Tróia ou de Akani, uma das enseadas do qual oferece abrigo contra as mais temerosas tormentas do Pacífico.

O comodoro Simcoe não se detém nesse ponto. Ao sul existem duas outras baías, a de Ana Maria ou Taio-Haé no centro, e a de Comptroller ou dos Taipis no reverso do cabo Martin, ponta extrema do sueste da ilha. É em frente de Taio-Haé que deve haver demora de uns dez dias.

A pouca distância da costa de Nouka-Hiva, a sonda acusa grandes profundidades. Na vizinhança das baías, ainda se pode surgir em quarenta ou cinquenta braças. Portanto é fácil chegar-se muito à terra da baía de Taio-Haé, e é o que se faz na tarde de 31 de Agosto.

Apenas se chega à vista do porto, ribombam à direita umas detonações, e ergue-se um torvelinho de fumarada por cima das penedias de leste.

— - Cáspite! — - diz Pinchinat. — - Tiros de artilharia para festejar a nossa chegada.

— - Qual! — - responde o comodoro Simcoè. — - Nem os Tais nem os Happas, as duas principais tribos da ilha, possuem artilharia capaz de dar as mais simples salvas. O que os amigos ouvem é o estridor do mar a engolfar-se nas profundezas de uma caverna a meio caminho do cabo Martin, e essa fumarada a escumalha das vagas arrojadas para fora.

- — -Pois tenho pena — - volve Sua Alteza — -, porque um tiro de peça é o mesmo que tirar o chapéu.

A ilha de Nouka-Hiva possui nomes em barda — -pode-se dizer muitos nomes de baptismo — - devidos aos diferentes padrinhos que a baptizaram sucessivamente: ilha Federal por Ingraham, ilha Beaux por Marchand, ilha Sir Henry Martin por Hergert, ilha Adam por Roberts, ilha Madison por Porter. Mede dezassete milhas de leste a oeste e dez milhas de norte a sul, o que lhe dá uma circunferência de cerca de cinquenta e quatro milhas. O clima é saudável. A temperatura é igual à das zonas intertropicais, temperada pelos ventos alisados.

Nesse surgidouro não terá nunca Standard-Island a temer nem rajadas formidáveis nem cataratas pluviais, porque só ali vai refrescar-se entre Abril e Outubro, quando dominam os ventos secos de leste a sueste, aos quais os indígenas chamam tuatuka. Em Outubro é que se sofre mais calor, em Novembro e Dezembro a maior estiagem. Depois disso, de Abril a Outubro, reinam as correntes aéreas entre leste e nordeste.

Quanto à população das ilhas Marquesas, houve que dar desconto aos exageros dos primeiros descobridores, que a avaliaram em cem mil habitantes.

Eliseu Reclus, apoiando-se em documentos sérios, não chega a dar-lhe seis mil almas para todo o grupo, e é Nouka-Hiva que contém a maior parte delas. Se, no tempo de Dumont d'Urville, pôde elevar-se a oito mil o número de habitantes de Nouka-Hiva, divididos em Tais, Happas, Taionas e Taipis, este número nunca deixou de decrescer. Donde resulta este despovoamento? Do extermínio dos indígenas pelas guerras, do rapto de indivíduos do sexo masculino para as plantações peruvianas, do abuso dos licores fortes, e, finalmente — - porque se não há-de confessar? — -, de todos os males provenientes da conquista, mesmo quando os conquistadores pertençam às raças civilizadas.

No decurso desta semana de estada em Nouka-Hiva, fizeram-lhe os Milliardenses numerosas visitas. Os principais europeus retribuem-lhas, graças à autorização do governador, que lhes concedeu livre acesso em Standard-Island.

Pela sua parte, Sebastião Zorn e os seus colegas empreendem longas excursões, cujo aprazimento os compensa à larga das fadigas.

A baía de Taio-Haé descreve um círculo, cortado pelo seu estreito canalete, no qual não caberia Standard-Island, sendo demais a mais a baía sulcada por duas praias de areia. Estas praias ficam separadas por uma espécie de morro alcantilado, onde se erguem ainda os destroços de um forte construído por Porter em 1812. Era na época em que este mareante tratava de conquistar a ilha, ao passo que o acampamento americano ocupava a praia de leste, posse que não foi ratificada pelo Governo federal.

A respeito de cidade, na praia oposta, apenas se depara aos nossos parisienses uma modesta aldeia, estando as habitações marquesinas, na sua maioria, dispersas sob as árvores. Mas que admiráveis vales vêm ali rematar, entre outros o de Taio-Haé, que a gente de Nouka-Hiva escolheu sobretudo para fazer os seus lares! É delicioso o embrenhar-se por esses maciços de coqueiros, de bananeiras, de casuarinas, de goiabeiras, de árvores-de-pão, de hibiscos e de tantas outras essências, prenhes de seiva transbordante. Os viajantes são hospitaleiramente acolhidos nessas cabanas. No sítio onde há um século se arriscariam a ser devorados, puderam eles apreciar esses bolos feitos de bananas e mel, a árvore-de-pão, essa fécula amarelada do taro, doce quando está fresca, acidula quando está assente, as raízes comestíveis da taça. Quanto ao haua, espécie de arraia grande, que se come crua, e aos filetes de tubarão, mais apreciados à proporção que vão apodrecendo, os artistas recusaram a pés juntos pôr-lhes o dente em cima.

Atanásio Dorémus acompanha-os às vezes nestes passeios. No ano anterior, o velhote visitou este arquipélago e serve-lhes, portanto, de guia. É possível que ele não seja muito forte nem na história natural nem na botânica, talvez confunda o soberbo spondias cytherea, cujos frutos se assemelham à maçã, com o pandanus odo-ratissimus, que justifica este epíteto superlativo, com a casuarina, cuja madeira tem a dureza do ferro, com a árvore da papaia, com a gardénia florida. Verdade seja que o quarteto não tem necessidade de recorrer à sua ciência, um pouco suspeita, quando a flora marquesina lhes apresenta fetos magníficos, polipódios soberbos, as roseiras da China, de flores vermelhas e brancas, as suas gramíneas, as suas solâneas, entre outras o tabaco, as suas labiadas de cachos roxos, que constituem o adorno preferido das raparigas de Houka-Hiva, os seus rícinos de dez pés de altura, as suas dracenas, as suas canas- de-açúcar, as suas laranjeiras, os seus limoeiros, cuja importação, bastante recente, dá resultados maravilhosos nestas terras impregnadas dos calores estivais e regadas por uma multiplicidade de riachos que escorrem das montanhas.

E uma bela manhã, quando o quarteto subiu para além da aldeia dos Tais, costeando uma torrente, até ao cume da serrania, quando, debaixo dos pés, diante dos olhos, se lhes desenrolam os vales dos Tais, dos Taipis e dos Happas, sai-lhes da boca um grito de admiração! Se ali tivessem os seus instrumentos, não resistiriam ao desejo de responder com a execução de um primor lírico ao espectáculo destes primores da Natureza! É certo que os executantes apenas seriam ouvidos por alguns casais de aves! Mas é tão linda a pomba curucuru, que voa por essas alturas, tão sedutora a pequena alcíone, e é tão caprichoso o varrer do espaço pelas asas do fáeton, hóspede habitual destas gargantas de Nouka-Hiva!

Demais a mais, não há que recear nenhum réptil peçonhento na mais profunda destas florestas. Ninguém faz caso nem das jibóias, apenas com dois pés de comprido, inofensivas como uma cobra, nem das sínculas, cuja cauda cerúlea se confunde com as flores.

Os indígenas oferecem um tipo notável. Encontra-se neles o carácter asiático, o que lhes determina uma origem muito diferente dos outros povos oceânicos. São de estatura mediana, acadèmicamente proporcionados, muito musculosos, de amplo arcabouço. Têm as extremidades finas, o rosto oval, a testa elevada, os olhos negros com pestanas fartas, o nariz aquilino, os dentes brancos e regulares, a tez nem vermelha nem negra, tostada como a dos árabes, uma fisionomia expressiva, a um tempo de alegria e de afabilidade.

A tatuagem desapareceu quase de todo, essa tatuagem que se obtinha não por meio de incisões na pele, mas por picadas, salpicadas com o carvão da aleurite triloba. Hoje é substituída pelos panos de algodão fornecidos pelos missionários.

— - São deveras belos, estes homens - — -afirma Yvernés, talvez menos do que na época em que andavam vestidos simplesmente de tangas, em cabelo, brandindo o arco e as frechas!

Esta observação é apresentada durante uma excursão à baía Comptroller, em companhia do governador. Cyrus Bikerstaff teve desejo de conduzir os seus hóspedes a esta baía, dividida em muitos portos, como La Valette, e decerto que, nas mãos dos Ingleses, Nouka-Hiva se teria tornado uma Malta do oceano Pacífico. Concentrou-se nesta região a tribo dos Happas, entre as gargantas de uma campina fértil, com um riacho alimentado por uma retumbante catadupa. Foi este o principal teatro da luta do americano Porter contra os indígenas.

A observação de Yvernés reclamava resposta; dá-a o governador nos seguintes termos:

— - Talvez que o Sr. Yvernés tenha razão. Os Marquesinos tinham aspecto mais imponente com a tanga, o maro e o paréu de cores brilhantes, o ahu bun, espécie de faixa volante, e a tiputa, espécie de poncho mexicano. É certo que o traje moderno lhes não assenta muito bem! Que quer? A decência é a consequência da civilização! Ao mesmo tempo que os nossos missionários se aplicam à instrução dos indígenas, incitam-nos a vestirem-se de uma forma menos rudimentar.

— - E não têm razão, comodoro?

- — -No ponto de vista das conveniências, têm! No ponto de vista higiénico, não têm tal! Desde que andam vestidas com mais decência, as gentes de Nouka-Hiva e de outras ilhas, pode o amigo ficar certo de que têm perdido grande parte do vigor nativo e também da alegria natural. Aborrecem-se, e a saúde sofre com isso. Antigamente não conheciam nem bronquites, nem pneumonias, nem tísica...

— - E desde que deixaram de andar nus em pêlo, constipam-se ... — - exclama Pinchinat.

— - É como diz! É essa uma causa séria de definhamento para esta raça.

— - Donde concluo — --prossegue Sua Alteza — - que Adão e Eva nunca espirraram senão no dia em que envergaram vestidos e calças, depois de expulsos do Paraíso terrestre, o que nos valeu, a nós, seus filhos degenerados e responsáveis, defluxos e catarreiras!

— - Sr. governador — - interroga Yvernés — -, tem-nos parecido que as mulheres não são tão belas como os homens neste arquipélago...

— - E nos outros também — - explica Cyrus Bikerstaff — -, e, no entanto, aqui vêem os senhores o tipo mais perfeito das oceânicas. Não é essa, aliás, uma regra comum às raças que se aproximam do estado selvagem? Não acontece o mesmo no reino animal, em que a fauna, no ponto de vista da beleza física, nos mostra quase invariavelmente os machos superiores às fêmeas?

— - É boa! — - exclamou Pinchinat. — -É preciso a gente vir aos antípodas para fazer observações desse jaez, que nem por mais uma entrariam na cabeça das nossas lindas parisienses!

Existem apenas duas classes na população de Nouka-Hiva, ambas sujeitas à lei do tabu. Essa lei foi inventada pelos fortes contra os fracos, pelos ricos contra os pobres, a fim de lhes salvaguardar os privilégios e as fazendas. A cor do tabu é o branco, e nos objectos tabuados, local sagrado, monumento fúnebre, casas de chefes, não tem direito de tocar a gente somenos. Daí provém uma classe tabuada, a que pertencem os sacerdotes, os feiticeiros ou tuas, os akarkis ou chefes civis, e uma classe não tabuada, da qual fazem parte a maioria das mulheres, assim como a arraia-miúda. Além disso, não só não é permitido pôr a mão num objecto protegido pelo tabu, mas até é proibido pôr-lhe a vista em cima.

— - E esta regra — - acrescenta Cyrus Bikerstaff — - é tão severa tanto nas Marquesas como nas Pomotu, como nas ilhas da Sociedade, que eu não aconselharia aos senhores que uma só vez a infringissem.

— - Ouves, meu caro Zorn! — - adverte Frascolin. — - Cautela com as tuas mãos! Cautela com os teus olhos!

O violoncelista contenta-se com encolher os ombros, como homem que se não interessa nada por essas coisas.

A 5 de Setembro saiu Standard-Island do surgidouro de Taio-Haé. Deixa a leste a ilha de Hua-Huna (Kahuga), a mais oriental do primeiro grupo, da qual apenas se descortinam as longínquas alturas verdejantes, e à qual faltam praias, por ter o perímetro constituído só por penedias cortadas a pique. Escusado será dizer que, ao passar por essas ilhas, Standard-Island tem o cuidado de moderar o andamento, porque uma massa destas, lançada a toda a velocidade, era capaz de produzir uma espécie de revessa de água que atirasse com as embarcações à costa e inundasse o litoral. A Jóia do Pacífico aguenta-se a algumas amarras apenas de Uapú, de aspecto notável, por ser eriçada de agulhas basálticas. Duas enseadas, denominadas, uma, baía Possession, e outra, baía de Bon-Accueil, indicam que tiveram por padrinho um francês. Foi aí, com efeito, que o capitão Marchand arvorou a bandeira da França.

Seguindo a sua derrota, Ethel Simcoe embrenha-se pelas paragens do segundo grupo e dirige-se para Hiva-Oa, a ilha Dominica, segundo a nomenclatura espanhola. É ela a mais vasta do arquipélago, de origem vulcânica, pois que mede uma periferia de cinquenta e seis milhas. Podem-se observar distintamente as penedias numa rocha anegrada, e as cascatas que se precipitam das colinas centrais, revestidas de uma vegetação pujante.

Separa esta ilha da de Taú-Ata um estreito de três milhas. Como Standard-Island não caberia por ele, tem de contornar por oeste Taú-Ata, onde a baía Madre de Dios — - baía Resolution, de Cook — - recebeu os primeiros navios europeus. Esta ilha ganhava se ficasse menos próxima da sua rival Hiva-Oa. Talvez que então, por ser mais difícil a guerra de uma contra outra, as tribos que as povoam não pudessem estar em contacto e dizimar-se mutuamente com a fúria que ainda hoje as encarniça.

Marcada que foi por leste a posição de Motane, estéril, desabrigada, deserta, o comodoro Simcoe toma a direcção de Fatu-Hiva, antiga ilha de Cook. Não passa, a bem dizer, de um enorme rochedo, onde pululam as árvores da zona tropical, uma espécie de pão-de-açúcar, medindo três milhas de circunferência.

Tal é o derradeiro ilhéu do sueste, que os Milliardenses perdem de vista na tarde de 9 de Setembro. A fim de se conformar ao seu itinerário, Standard-Island faz proa ao sueste para se aproximar do arquipélago das Pomotu, cuja parte média deve atravessar.

O tempo continuava favorável, pois que o mês de Setembro corresponde ao de Março do hemisfério boreal.

Na manhã de 11 de Setembro, a lancha de Babord-Harbour recolheu uma das bóias flutuantes, à qual está ligado um dos aparelhos da baía Madalena. O extremo desse fio de cobre, completamente isolado por uma camada de guta-percha, é ligado aos aparelhos do Observatório, e estabelece-se a comunicação telefónica com a costa americana.

Consulta-se a administração da Standard-Island Com-pany acerca da questão dos náufragos do ketch malaio. Porventura autorizava o governador a conceder-lhes passagem até às alturas das Fiji, onde poderiam ser repatriados em condições mais rápidas e menos dispendiosas?

A resposta é favorável. Concede-se mesmo a Standard-Island a permissão de se inclinar para oeste até às Novas Hébridas, a fim de lá desembarcar os náufragos, se os notáveis de Milliard-City não virem nisso inconveniente.

Cyrus Bikerstaff informa desta decisão o capitão Sarol, o qual roga ao governador se digne transmitir os seus agradecimentos aos administradores de Madeleine-bay.

 

TRÊS SEMANAS NAS POMOTU

A falar verdade, o quarteto daria provas de ingratidão revoltante para com Calistus Munbar se lhe não ficasse reconhecido por o ter, embora um pouco à traição, atraído para Standard-Island. Que importa o meio de que o superintendente se serviu para fazer dos artistas parisienses os hóspedes festejados, adulados e largamente remunerados de Milliard-City! Sebastião Zorn permanece constantemente amuado, porque ninguém consegue transformar um ouriço de puas aceradas numa gata de pêlo sedoso. Mas Yvernés, Pinchinat, o próprio Frascolin, não seriam capazes de sonhar mais deliciosa existência. Uma excursão, sem riscos nem fadigas, por esses admiráveis mares do Pacífico! Um clima que se conserva sempre salubre, quase sempre o mesmo, graças às mudanças de paragens! E depois, não tendo de tomar partido na rivalidade dos dois campos, acolhidos como a alma musical da ilha de hélice, recebidos em casa da família Tankerdon e nas mais distintas casas da secção bombordense, assim como em casa dos Coverley e dos mais notáveis da secção estibordense, tratados honrosamente pelo governador e seus adjuntos no palácio do Município, pelo comodoro e pelos seus oficiais no Observatório, pelo coronel Stewart e pela sua milícia, prestando o seu concurso às festas do Templo protestante assim como às cerimónias de Saint-Mary Church, encontrando gente simpática nos dois portos, nas fábricas, entre os funcionários e os empregados, perguntamos a qualquer pessoa de bom senso se acaso há razão para os nossos franceses terem saudades do tempo em que andavam a percorrer as cidades da República Federal, e qual o homem assaz inimigo de si próprio para não ter inveja deles?

«Hão-de beijar-me as mãos!», dissera o superintendente logo na sua primeira entrevista.

E se não tinham chegado a esse extremo é que não é lícito beijar mão masculina.

Um dia, Atanásio Dorémus, o mais feliz dos mortais que podia existir, disse-lhes:

— - Há perto de dois anos que estou em Standard-Island, e não se me dava de estar ainda sessenta, se me assegurassem que ainda era vivo daqui a sessenta anos.

— - O amigo não tem muito mau gosto — -responde Pinchinat — - com as suas pretensões de chegar a centenário!

— - Ora essa, Sr. Pinchinat! Esteja certo de que hei-de lá chegar! Como quer o senhor que se morra em Standard-Island?

— -Em toda a parte se morre.

— - Aqui é que não, senhor; morre-se tanto como no Paraíso celeste!

Que resposta tem isto? No entanto, sempre havia uma vez por outra pessoas tão tolas que passavam desta vida para melhor, mesmo nesta ilha encantada! E então os vapores transportavam os cadáveres até aos cemitérios longínquos de Madeleine-bay. Decididamente, está escrito que não há meio de se ser completamente feliz neste vale de lágrimas.

Contudo, sempre existem alguns pontos negros no horizonte. Deve-se mesmo reconhecer que esses pontos negros tomam pouco a pouco a forma de nuvens fortemente electrizadas, que dentro em pouco poderão provocar tormentas, vendavais e borrascas. Inquietante, aquela deplorável rivalidade dos Tankerdon e dos Coverley, rivalidade que se aproxima do estado agudo. Ambos têm os seus partidários, que fazem causa comum com eles. Dar-se-á o caso que as duas secções ainda venham a jogar as cristas? É possível que Milliard-City esteja ameaçada de tumultos, de motins, de revoluções?

Terá porventura a administração o pulso enérgico bastante, e o governador Cyrus Bikerstaff a firmeza suficiente para manter a paz entre estes Capuletos e Montechios da ilha de hélice? Vá lá saber-se! Tudo é possível da parte de rivais cujo amor-próprio parece ilimitado.

Ora, desde a cena que se deu por ocasião da passagem da Linha, os dois milliardenses ficaram inimigos declarados. De uma e de outra parte há amigos que os apoiam. Entre as duas secções da cidade cortaram-se as relações. Fogem uns dos outros em se vendo de longe, e, quando acaso se encontram, que troca de gestos ameaçadores, de olhares ferozes! Espalhou-se até o boato de que o antigo comerciante de Chicago ia com alguns outros bombordenses fundar uma casa de comércio, que pediam à Companhia a autorização de criar uma enorme fábrica, que tencionavam importar cem mil porcos, abatê-los, salgá-los e vendê-los nos vastos arquipélagos do Pacífico...

Depois disso, não custa a acreditar que os palacetes Tankerdon e Coverley sejam duas minas de pólvora. Uma faísca bastava para que eles fossem pelos ares e mais Standard-Island. Ora, é mister recordar que se trata de um aparelho que flutua sobre abismos profundíssimos. Verdade seja que essa explosão apenas poderia ser propriamente «moral», se é lícito exprimirmo-nos assim; mas arriscar-se-ia a ter por consequência o inspirar às pessoas gradas a resolução de se expatriarem. E uma tal determinação iria por certo comprometer o futuro e, segundo todas as probabilidades, a situação financeira da Standard-Island Company!

Tudo isto é prenhe de minazes complicações, senão de catástrofes materiais. E quem sabe mesmo se não se devem recear estas últimas?

Com efeito, talvez que as autoridades, menos adormecidas numa segurança ilusória, devessem vigiar mais estreitamente o capitão Sarol e os seus malaios, tão hospitaleiramente acolhidos em seguida ao naufrágio! Não que essa gente tenha a imprudência de pronunciar frases suspeitas; pelo contrário, são pouco faladores, metidos consigo, afastando-se de todas as relações, gozando de um bem-estar de que hão-de ter saudades nas suas selváticas Novas Hébridas! Haverá, pois, motivo para suspeitar deles? Sim e não. Um observador mais atento verificaria que eles se não cansam de percorrer Standard-Island, que estudam constantemente Milliard-City, a disposição das suas avenidas, a situação dos seus palácios e das casas principais, como se andassem na faina de levantar uma planta exacta da cidade. Encontravam-se pelo parque e pelo campo. Vão frequentes vezes ora a Babord-Harbour, ora a Tribord-Harbour, observando as chegadas e as saídas dos navios. Há quem os veja em longas excursões a explorar o litoral, onde os guardas aduaneiros estão de sentinela noite e dia, e a visitar as baterias dispostas a vante e a ré da ilha. Afinal, não há nada mais natural. Em que melhor podem empregar o tempo do que em tais digressões, esses malaios ociosos? Haverá motivo para ver nisso algo de suspeitoso?

Entretanto, o comodoro Simcoe vai singrando pouco a pouco para sudoeste, a pequena velocidade. Yvernés, como se todo ele se houvesse transformado desde que é um insular ambulante, deixa-se arrastar pelos encantos desta navegação. Pinchinat e Frascolin sentem-se também dominados. Que horas deliciosas passadas no Casino, à espera dos concertos quinzenais, dessas noites em que os disputam à força de ouro! Todas as manhãs, graças aos jornais de Milliard-City, fornecidos de notícias frescas pelos cabos, e de informações com poucos dias de atraso pelos paquetes em serviço regular, eles ficam ao corrente de tudo o que interessa aos dois continentes, sob o quádruplo aspecto mundano, científico, artístico, político. E, neste último ponto de vista, urge reconhecer que a imprensa inglesa de todos os matizes não cessa de protestar contra a existência desta ilha ambulante, que escolheu o Pacífico para teatro das suas excursões. Mas, esses protestos, fazem tão pouco caso deles em Standard-Island como em Madeleine-bay.

Não nos esqueçamos de mencionar que, há já algumas semanas, Sebastião Zorn e os colegas puderam ler, na secção de informações do estrangeiro, que a sua desaparição foi notada pelas folhas americanas.

O célebre Quarteto Concertante, tão festejado nos Estados da União, tão impacientemente esperado por aqueles que não tiveram ainda a fortuna de o receber, não podia desaparecer sem que esta desaparição desse que falar. San Diego não os viu no dia aprazado, e San Diego soltou o grito de alarme. Os informadores puseram-se em campo, e das investigações resultou verificar-se que os artistas franceses andavam a navegar a bordo da ilha de hélice, depois de um rapto realizado no litoral da Baixa Califórnia. Em suma, como eles não reclamaram contra o rapto, não houve troca de notas diplomáticas entre a Companhia e a República Federal. Quando aprouver ao quarteto reaparecer no teatro dos seus triunfos, terá uma recepção entusiástica.

É de prever que os dois violinos e o violeta impuseram silêncio ao violoncelo, o qual se não ralaria muito se fosse causa de uma declaração de guerra que ocasionasse a luta entre o Novo Continente e a Jóia do Pacífico.

Além disso, desde o seu embarque forçado que os nossos instrumentistas têm escrito muitas vezes para França. As famílias, tranquilizadas, dirigem-lhes cartas frequentes, e a correspondência efectua-se com tanta regularidade como pelos serviços postais entre Paris e Nova Iorque.

Uma manhã — - a 17 de Setembro — -, Frascolin, instalado na biblioteca do Casino, experimenta o desejo bem natural de consultar o mapa desse arquipélago das Pomotu, para o qual se dirige. Apenas abre o atlas, apenas dá com os olhos nessas paragens do oceano Pacífico, exclama em monólogo:

«Com mil bordões! Como é que Ethel Simcoe se há-de arranjar para se desenvencilhar deste caos! Ele pode lá encontrar passagem pelo meio deste fartote de ilhas e de ilhotas! São aos centos! É um verdadeiro montão de seixos espalhados por um charco! É capaz de tocar, de encalhar, de enganchar esta engenhoca numa ponta ou de a escangalhar noutra! Havemos de acabar por ficar no estado sedentário no meio deste grupo mais complicado do que o nosso Morbihan da Bretanha!»

Tem razão, o razoável Frascolin. O Morbihan conta apenas trezentas e sessenta e cinco ilhas — - tantas como os dias do ano — - e neste arquipélago das Pomotu não anda longe da verdade quem as avaliar no dobro. É certo, o mar que as banha é circunscrito por uma cinta de recifes coralígenos, cuja circunferência não é inferior a seiscentas e cinquenta léguas, no dizer de Eliseu Reclus.

Todavia, ao observar o mapa deste grupo, é lícito espantar-se a gente de que um navio, e a fortiori um aparelho marítimo como Standard-Island, se arroje a aventurar-se pelo meio deste arquipélago. Compreendido entre os paralelos dezassete e vinte e oito sul, entre os meridianos cento e trinta e quatro e cento e quarenta e sete oeste, compõe-se ele de um milhar de ilhas e de ilhotes — - pelo alto contam-se uns setecentos — - desde Mata-Hiva até Pitcairn.

Não é, pois, de admirar que este grupo haja recebido diversas qualificações: entre outras, as de arquipélago Perigoso ou de mar Mau. Graças à prodigalidade geográfica de que o oceano Pacífico tem o privilégio, chama-se também ilhas Baixas, ilhas Tuamotu, o que significa «ilhas afastadas», ilhas Meridionais, ilhas da Noite, Terras Misteriosas. Quanto ao nome de Pomotu ou Pa-mautu, que significa ilhas Submetidas, uma deputação do arquipélago, reunida em 1850 em Papee, capital do Taiti, protestou contra esta denominação. Mas, conquanto o Governo francês, deferindo em 1852 este protesto, tenha escolhido, entre todos esses nomes, o de Tuamotu, é melhor conservarmos, nesta narrativa, a denominação mais conhecida de Pomotu.

Entretanto, por arriscada que possa ser esta navegação, o comodoro Simcoe não hesita. Tem tanta prática destes mares que todos podem fiar-se nele. Manobra a sua ilha como se fora um escaler. Faz com que ela vire de bordo como um pião. Parece que a governa à ginga. Frascolin pode ficar descansado com respeito à Standard-Island: as pontas de Pomotu nem sequer lhe roçarão pelo casco de aço.

Na tarde de 19, as vigias do Observatório deram sinal das primeiras emergências do grupo a coisa de uma dúzia de milhas. Efectivamente, estas ilhas são em extremo baixas. Se algumas delas transcendem uns quarenta metros o nível do mar, há setenta e quatro que não saem mais de meia toesa, e ficariam afogadas duas vezes em cada vinte e quatro horas, se as marés não fossem pouco mais de nulas. As outras não passam de atóis, cercados de cachopos, bancos coralígenos de absoluta aridez, simples recifes, regularmente orientados no mesmo sentido que o arquipélago.

É por leste que Standard-Island ataca o grupo, a fim de se chegar à ilha Anaa, que Fakarava substituiu como capital, desde que Anaa foi em parte destruída pelo terrível ciclone de 1878, o qual deu a morte a grande número de habitantes e estendeu a sua acção devastadora até à ilha de Kaukura.

Primeiro surge Vahitahi, que se marca a três milhas de distância. Tomam-se as precauções mais minuciosas nestas paragens, as mais perigosas do arquipélago, em consequência das correntes e do prolongamento dos recifes para leste. Vahitahi não passa de uma pilha de corais, flanqueada por três ilhotes arborizados, dos quais o do norte é ocupado pela aldeia principal.

No dia seguinte avista-se a ilha de Akiti, com os seus recifes atapetados de priónias, de múrices, de uma erva rasteira de cor amarelada, de borracha felpuda. Difere das outras em não possuir lagoa interior. Se é visível a grande distância, é por ser superior à média a sua altura acima do nível oceânico.

No outro dia, outra ilha, um pouco mais importante, Amanu, cuja lagoa está em comunicação com o mar por dois canaletes da costa noroeste.

Enquanto a população milliardense se satisfaz em passear indolentemente por meio deste arquipélago, que já visitou no ano precedente, e se contenta com admirar de passagem as suas maravilhas, Pinchinat, Frascolin e Yvernés não desgostariam de se deter, uma que outra vez, a explorar estas ilhas, devidas ao trabalho dos polipeiros, quer dizer, artificiais... como Standard-Island...

— - Com a diferença — - faz notar o comodoro Simcoe — - que a nossa tem a faculdade de se de slocar...

— - De mais até — - replica Pinchinat — -, visto que não pára em parte nenhuma.

— - Há-de parar nas ilhas Hao, Anaa e Fakarava, e os senhores terão tempo de sobra para as percorrer.

Interrogado sobre o modo de formação destas ilhas, Ethel Simcoè adere à teoria mais geralmente admitida: é que, nesta parte do Pacífico, o fundo submarino se abaixou decerto uns trinta metros. Os zoófitos, os pólipos, acharam nestes cimos emergidos uma base sólida bastante para estabelecer as suas construções de coral. A pouco e pouco, foram-se elevando tais construções, mercê dos trabalhos desses infusórios, que não poderiam funcionar a uma profundidade mais considerável. Subiram até à superfície, formaram este arquipélago, cujas ilhas podem classificar-se em barreiras, franjas e atlons ou, antes, atóis, nome índio das que possuem lagoas interiores. Depois formou-se o húmus com os destroços arrojados pelas vagas. Os ventos trouxeram sementes; apareceu a vegetação sobre esses anéis coralígenos. A margem calcária revestiu-se de ervas e de plantas, eriçou-se de arbustos e de árvores, sob a influência de um clima tropical.

— - E quem sabe? — - diz Yvernés, num arranque de entusiasmo profético — - quem sabe se o continente, que foi engolido nas águas do Pacífico, não reaparecerá qualquer dia à superfície, reconstruído por essas miríades de animais microscópicos? E então, nestas paragens actualmente sulcadas pelos barcos de vela e de vapor, correrão a toda a velocidade comboios expressos, que hão-de ligar o Velho e o Novo Mundo...

— - Cansa-te, cansa-te, meu velho Isaías! — - replica o irrespeitoso Pinchinat.

Como dissera o comodoro Simcoe, Standard-Island vem a parar a 23 de Setembro defronte da ilha Hao, de que conseguiu aproximar-se bastante por essas grandes profundidades. As embarcações pequenas transportam a terra alguns visitantes pelo canalete, que à direita é abrigado por uma cortina de coqueiros. É preciso andar cinco milhas para chegar à aldeia principal, situada sobre uma colina. Esta aldeia não conta mais de duzentos ou trezentos habitantes, na maioria pescadores de madrepérola, empregados nesse mester por casas do Taiti. Abundam aí esses pandanos e essas murtas mikimikis, que foram as primeiras árvores de um solo onde crescem agora a cana- de-açúcar, o ananás, o taro, a priónia, o tabaco, e sobretudo o coqueiro, de que existem para cima de quarenta mil pés nos imensos palmares do arquipélago.

Pode-se dizer que esta árvore «providencial» se desenvolve quase sem cultura. A sua noz serve para alimentação habitual dos indígenas, sendo muito superior em substâncias nutritivas aos frutos do pandano. Com elas engordam os porcos, as aves domésticas e também os cães, dos quais apreciam particularmente as costeletas e os filetes. E, depois, a noz do coco dá ainda um óleo precioso, quando, ralada, reduzida a polpa, seca ao sol, se submete à pressão de um mecanismo bastante rudimentar. Os navios transportam carregamentos destas copras para o continente, onde as fábricas as tratam por forma mais produtiva.

Não é em Hao que se deve ajuizar da população das Pomotu. Não abundam aí os indígenas. Mas, onde o quarteto pôde observá-la com mais vantagem, foi na ilha de Anaa, em frente da qual chega Standard-Island na manhã de 27 de Setembro.

Só a pequena distância é que Anaa mostra os seus maciços de arvoredos, de aspecto soberbo. É uma das ilhas maiores do arquipélago: mede dezoito milhas de comprimento por nove de largura na sua base madre-pórica.

Afirmou-se que em 1878 um ciclone devastara esta ilha, o que ocasionou o transporte da capital do arquipélago para Fakarava. É verdade isso, embora, nestes climas pujantes da zona tropical, fosse de presumir que a devastação seria reparada em poucos anos. Com efeito, voltando à mesma vida de outrora, Anaa possui actualmente mil e quinhentos habitantes.

Todavia, é inferior a Fakarava, sua rival, por uma razão que tem certa importância, e é que a comunicação entre o mar e a lagoa interior só se pode fazer por canal estreito, sulcado de redemoinhos do interior para o exterior, devidos a uma sobrelevação das águas. Em Fakarava, pelo contrário, a lagoa é acessível, por duas passagens amplas, ao norte e ao sul. Contudo, apesar de ter sido transportado para esta última ilha o principal mercado do óleo de coco, Anaa, mais pitoresca, atrai sempre a preferência dos forasteiros.

Apenas Standard-Island tomou pouso em excelentes condições, um grande número de milliardenses fazem-se transportar a terra. Sebastião Zorn e os seus colegas são dos primeiros, por isso que o violoncelista acedeu a tomar parte na excursão.

Em primeiro lugar dirigem-se à aldeia de Tuahora, depois de terem estudado em que condições se formou esta ilha — - formação comum a todas as do arquipélago. Aqui, a margem calcária, a largura do anel, se assim é lícito chamar-lhe, é de quatro a cinco metros, muito íngreme da banda do mar, em declive pouco acentuado do lado da lagoa, cuja circunferência compreende cerca de cem milhas, como em Rairoa e Fakarava. Neste anel estão acumulados milhares de coqueiros, principal, para não dizer única riqueza da ilha, e cujas copas abrigam as choupanas indígenas.

A aldeia de Tuahora é atravessada por uma estrada arenosa, ofuscante de alvura. O residente francês já não mora nela desde que Anaa decaiu do seu papel de capital. Mas a residência lá se conserva, protegida por um modesto cercado. No aquartelamento da pequena guarnição, confiada à guarda de um sargento de marinha, flutua a bandeira tricolor.

É justo concederem-se alguns elogios às casas de Tuahora. São mais alguma coisa do que choupanas: são casinhas confortáveis e salubres, regularmente mobiladas, edificadas na maioria em alicerces de coral. As folhas do pandano forneceram-lhes o telhado, para as portas e as janelas serviu a madeira dessa árvore preciosa. Donde em onde são cercadas de hortas, que a mão do indígena encheu de terra vegetal, e cujo aspecto é deveras encantador.

Estes indígenas, embora sejam de um tipo menos notável e de tez mais negra, embora tenham a fisionomia menos expressiva e o carácter menos amável do que os das ilhas Marquesas, oferecem ainda assim belos espécimes desta população da Oceânia Equatorial. Além disso, trabalhadores inteligentes e laboriosos, é possível que resistam mais à degenerescência física que ameaça o indigenato do Pacífico.

A sua principal indústria, como pôde verificar Fras-colin, é a fabricação do óleo de coco. É o que motiva a quantidade considerável de coqueiros plantados nos palmares do arquipélago. Estas árvores reproduzem-se com tanta facilidade como as excrescências coralígenas na superfície dos atóis. Mas têm um inimigo, e bem o reconheceram os excursionistas parisienses, um dia em que estavam estiraçados na praia do lago interior, cujas águas contrastam com o azul do mar circundante.

Num dado momento, provoca-lhes a começo a atenção e em seguida o horror um rastejar rumoroso entre as ervas.

E que hão-de eles ver? Um crustáceo de tamanho monstruoso.

O primeiro movimento deles é levantarem-se, o segundo olharem para o animal.

— - Medonho bicho! — - exclama Yvernés.

— - É um caranguejo — - declara Frascolin.

Um caranguejo, efectivamente — - daquela espécie a que os indígenas dão o nome de birgo e de que há grande quantidade nestas ilhas. As patas dianteiras formam duas sólidas tenazes ou pinças, com as quais consegue abrir os cocos, que constituem o seu alimento predilecto. Estes birgos vivem no fundo de uma espécie de tocas, profundamente cavadas entre as raízes, onde amontoam fibras de coco à laia de cama. De noite, principalmente, vão eles à cata de cocos caídos, e até trepam pelo tronco e aos ramos do coqueiro a fim de abater os frutos. Por força que o caranguejo de que se trata está atacado de fome canina, como diz Pinchinat, para sair em pleno meio-dia do seu asilo sombrio.

Deixa-se à vontade o animal, porque a operação promete ser curiosa em extremo. Depara-se-lhe um enorme coco no meio do tojo, despedaça-lhe, pouco a pouco, as fibras com as pinças; depois, quando o coco está desfibrado, ataca-lhe a casca duríssima, batendo, martelando no mesmo ponto. Aberta a brecha, o birgo tira a substância interior, empregando as pinças traseiras, cuja extremidade é muito adelgaçada.

— - É positivo — - observa Yvernés — - que a Natureza criou este birgo para abrir cocos...

— -E que criou o coco para alimentar o birgo — -acrescenta Frascolin.

— -Olhem lá!- — -propõe Pinchinat. — - Se nós contrariássemos as intenções da Natureza, impedindo este caranguejo de comer aquele coco, e o coco de ser comido pelo caranguejo?

— - Requeiro que o não incomodem — - intervém Yvernés. — - Não vamos nós dar, mesmo que seja a um birgo, má ideia dos parisienses em viagem!

Aprova-se o requerimento, e o caranguejo, que por certo deitou um olhar irritado a Sua Alteza, dirige um olhar de reconhecimento ao primeiro-violino.

Depois de sessenta horas de demora em frente de Anaa, Standard-Island segue a direcção do norte. Penetra através do meandro das ilhotas e das ilhas, e o comodoro Simcoe segue pelo canal fora com uma segurança perfeita. É evidente que, em tais condições, Milliard-City é um pouco desamparada pelos habitantes em proveito do litoral, e mais particularmente da parte que está próxima da bateria do Esporão. Continuam à vista as ilhas, ou antes, açafates verdejantes, que parecem flutuar à superfície das águas. Faz lembrar um mercado de flores num dos canais da Holanda. Nas circunvizinhanças dos dois portos bordejam numerosas pirogas, mas não lhes é permitida a entrada, pois que os agentes receberam ordens formais a tal respeito. Um grande número de mulheres indígenas vêm a nado, quando a ilha movediça costeia a pequena distância as penedias madrepóricas. Se não acompanham os homens nas suas canoas, é que estas embarcações são tabuadas para o belo sexo pomotuano, sendo-lhes proibido tomarem passagem nelas.

A 4 de Outubro, detém-se Standard-Island em frente de Fakarava, na direcção da boca do canal do sul. Antes de largarem as embarcações para transportarem os visitantes, o residente francês apresentou-se em Tribord-Harbour, donde o governador deu ordem de o conduzirem ao palácio da municipalidade.

A entrevista é sumariamente cordial. Cirus Bikerstaff tem a sua fisionomia oficial, a que lhe serve em cerimónias do género desta. O residente, velho oficial de infantaria de marinha, também lhe não fica atrás. É impossível imaginar nada mais grave, mais digno, mais conveniente, mais «inteiriço» de uma e outra parte.

Terminada a recepção, é autorizado o residente a percorrer Milliard-City, de que Calistus Munbar está encarregado de lhe fazer as honras. Na sua qualidade de franceses, os parisienses e mais Atanásio Dorémus quiseram acompanhar o superintendente. E que intenso júbilo para o bom do residente o ver-se na companhia de compatriotas!

No dia seguinte, o governador vai a Fakarava pagar a visita ao velho oficial, e ambos eles tornam a assumir as fisionomias da véspera. O quarteto, que desembarcou em terra, dirige-se para a residência. É uma habitação muito simples, ocupada por uma guarnição de doze antigos marinheiros, no mastro da qual se desfralda o pavilhão da França.

Conquanto Fakarava se tornasse capital do arquipélago, como disse, ela não chega a valer a sua rival Anaa. A aldeia principal não é tão pitoresca sob a folhagem verde do arvoredo, e, em todo o caso, as habitações são aqui menos sedentárias. Além da fabricação do óleo de coco, cujo centro é em Fakarava, dedicam-se à pesca das ostras perlíferas. O comércio da madrepérola, que tiram desta exploração, obriga-os a frequentar a ilha vizinha de Toau, especialmente apropriada para esta indústria. Mergulhadores arrojados, estes indígenas não hesitam em descer a profundidades de vinte e trinta metros, habituados como estão a suportar tais pressões sem se incomodarem, e a suster a respiração por mais de um minuto.

Alguns destes pescadores foram autorizados a oferecer os produtos da sua pesca, nácar ou pérolas, às pessoas gradas de Milliard-City. É claro que jóias não faltam às opulentas damas da cidade. Mas estas produções naturais no estado bruto não são coisa que se depare com facilidade, e, como se oferece o ensejo, os pescadores ficam com as mãos a abanar e as algibeiras bem recheadas. Desde o momento em que Mrs.. Tankerdon compra uma pérola de grande valor, é sabido que Mrs. Coverley tem de lhe seguir o exemplo. Por fortuna, não houve ocasião de arrematar um objecto único, aliás sabe Deus a que altura chegariam os lanços. Outras famílias tomam a peito imitar as pessoas da sua amizade, e nesse dia, como se diz em linguagem marítima, os pescadores de Fakarava apanharam «preia-mar de águas vivas».

Decorridos uns dez dias, a 13 de Outubro, a Jóia do Pacífico apronta-se para a partida logo de madrugada. Ao sair da capital das Pomotu, ela atinge o limite ocidental do arquipélago. Com o incrível pejamento das ilhas e ilhotas, de recifes e de atlons, não tem já que se preocupar o comodoro Simcoè. Saía, sem beliscadura, destas paragens do mar Mau. Ao largo estende-se esse trecho do Pacífico que, num espaço de quatro graus, separa o grupo das Pomotu do grupo da Sociedade. Standard-Island solta pois o rumo para sudoeste, movida pelos dez milhões de cavalos das suas máquinas, e dirige-se para a ilha tão poeticamente celebrada por Bougainville, a feiticeira Taiti.

 

ESCALA EM TAITI

O arquipélago da Sociedade ou de Taiti fica compreendido entre quinze graus e cinquenta e dois minutos e dezassete graus e quarenta e nove minutos de latitude meridional, e entre os cento e cinquenta graus e oito minutos e cento e cinquenta e seis graus e trinta minutos de longitude oeste do meridiano de Paris. Abrange a superfície de dois mil e duzentos quilómetros quadrados.

Constituem-no dois grupos: 1.o, as ilhas de Barlavento, Taiti ou Taiti-Tahaa, Tapamanoa, Eimeo ou Moorea, Tetiaroa e Meetia, que estão sob o protectorado da França; 2.o, as ilhas de Sotavento, Tubuai, Manu, Huahine, Raiatea-Thao, Bora-Bora, Moffy-Iti, Maupiti, Mapetia, Bellingshausen e Scilly, governadas pelos soberanos indígenas. Chamam-lhes os Ingleses ilhas Jorgianas, embora Cook, seu descobridor, as baptizasse com o nome de arquipélago da Sociedade Real de Londres. Situado a duzentas e cinquenta léguas marítimas das Marquesas, este grupo, segundo os diversos recenseamentos feitos nestes últimos tempos, apenas conta quarenta mil habitantes, estrangeiros ou indígenas.

Vindo do nordeste, é Taiti a primeira das ilhas de Barlavento que surge à vista dos navegadores. E é dela que as vigias do Observatório dão sinal a grande distância, graças ao monte Maiao ou Diadema, cujo pico se ergue a mil duzentos e trinta e nove metros acima do nível do mar.

A travessia levou-se a cabo sem incidentes. Ajudada pelos ventos alísios, Standard-Island percorreu estas águas admiráveis por sobre as quais o Sol vai declinando para o trópico de Capricórnio. Daí a dois meses e poucos dias, tê-lo-á atingido o astro radiante, e, ascendendo de novo para a linha equatorial, a ilha de hélice tê-lo-á no zénite durante muitas semanas de calor ardente; depois segui-lo-á, como um cão segue o dono, mantendo-se à distância regulamentar.

É a primeira vez que os Milliardenses vão fazer escala em Taiti. No ano anterior, o seu cruzeiro começara tarde de mais. Não se tinham adiantado mais para oeste, e, depois de largarem das Pomotu, haviam tornado a subir para o equador. Ora este arquipélago da Sociedade é o mais famoso do Pacífico. Ao percorrê-lo, redobrariam para os nossos parisienses os motivos de apreciar devidamente esta viagem de um engenho com plena liberdade de escolher os seus pontos de escala e o seu clima.

— - Pois sim! Nós veremos qual há-de ser o fim desta disparatada aventura!- — -conclui invariavelmente Sebastião Zorn.

— - Ora essa! Tomara eu que isto nunca acabasse! — - exclama Yvernés!

Standard-Island chega à vista de Taiti na madrugada de 17 de Outubro. A ilha apresenta-lhe a sua costa setentrional. Durante a noite, marcou-se o farol da ponta Vénus. Bastará o dia para se aproximarem da capital, Papeeté, situada ao noroeste, além da ponta. Mas o conselho dos trinta notáveis reuniu-se sob a presidência do governador. Como todo o conselho bem equilibrado, dividiu-se em dois campos. Uns, com Jem Tankerdon, pronunciaram-se a favor do oeste; os outros, seguindo Nat Coverley, determinaram-se por leste. Cyrus Bikerstaff, tendo voto preponderante em caso de empate, decidiu que se alcance Papeeté contornando a ilha pela banda do sul. Esta decisão é de molde a satisfazer o quarteto, porque lhe permite admirar em toda a sua beleza esta pérola do Pacífico, a Nova Citera de Bougainville.

Taiti apresenta uma superfície de cento e quatro mil duzentos e quinze hectares, cerca de nove vezes a área de Paris.

A sua população, que em 1875 compreendia sete mil e seiscentos indígenas, trezentos franceses, mil e cem estrangeiros, não passa hoje de sete mil habitantes. Em planta geométrica, oferece exactamente a forma de uma cabaça de boca para baixo, sendo o corpo da cabaça a ilha principal, reunida ao gargalo, que desenha a península de Tatarapu pelo estrangulamento do istmo de Taravao.

Foi Frascolin quem fez esta comparação, estudando o mapa em ponto grande do arquipélago, e os colegas acham-na tão justa que baptizaram Taiti com este nome novo: a Cabaça dos Trópicos.

Administrativamente, está Taiti repartida em seis divisões, retalhadas em vinte e um distritos, desde o estabelecimento do protectorado em 9 de Setembro de 1842. Há quem se não esquecesse das dificuldades que sobrevieram entre o almirante Dupetit-Thouars, a rainha Po-maré e a Inglaterra, por instigação daquele abominável traficante de bíblias e de panos de algodão chamado Pritchard, tão espirituosamente caricaturado nas Vespas de Alphonse Karr.

Mas isto é da história antiga, caiu no olvido, tanto como os feitos e gestos do famoso boticário anglo-saxão.

Standard-Island pode sem perigo aventurar-se até uma milha dos contornos da Cabeça dos Trópicos. Esta cabaça assenta com efeito numa base coralígena, cujos alicerces descem a pique nas profundezas do oceano. Mas, antes de se aproximar tanto, a população milliardense teve ensejo de contemplar a sua massa imponente, as suas montanhas, mais generosamente favorecidas pela Natureza do que as das Sanduíche, as cumeadas verdejantes, as gargantas arborizadas, os picos que se alçam como os pináculos agudos de uma catedral gigantesca, a cinta de coqueiros salpicada pela espuma branca da ressaca nos fraguedos da costa.

Durante esse dia, ao costear a ilha pelo ocidente, os curiosos, colocados nas cercanias de Tribord-Harbour, de óculos assestados, e cada um dos parisienses tem o seu, podem interessar-se com os mil pormenores do litoral; o distrito do Papenoo, cujo rio se descortina através do amplo vale, desde a falda dos montes, e que vem desaguar no oceano, no sítio onde se interrompe o recife, num espaço de muitas milhas; Hitiaa, porto seguríssimo, donde se exportam para São Francisco milhões e milhões de laranjas; Mahena, donde se levou a cabo, em 1845, a conquista da ilha, à custa de um tremendo combate com os indígenas.

À tarde, chegaram pelo través do estreito istmo de Taravao. Contornando a península, o comodoro Simcoe chega-se a ele o suficiente para que se admirem em todo o seu esplendor as férteis campinas do distrito de Tau-tira, as numerosas correntes de água que fazem dele um dos mais ricos do arquipélago. Tatarapu, repousando na sua base de coral, ergue majestosamente os taludes escarpados das suas crateras extintas.

Depois, quando o Sol declina para o horizonte, enrubescem pela derradeira vez os píncaros, adoçam-se os tons, fundem-se as cores numa bruma quente e transparente. Daí a pouco apenas se percebe uma massa confusa, cujos eflúvios, carregados do aroma das laranjeiras e dos limoeiros, se propagam como a aragem nocturna. Em seguida a um crepúsculo curto, desce profunda noite.

Standard-Island dobra então a ponta extrema do sueste da península, e no dia seguinte faz a sua estação em frente da costa ocidental do istmo, à hora em que rompe o dia.

O distrito de Taravao, muito cultivado, muito populoso, ostenta as suas belas estradas entre os laranjais que o ligam ao distrito de Papeari. No ponto culminante desenha-se um forte, que domina as duas margens do istmo, defendido por alguns canhões, cujo colo se debruça para fora das canhoneiras, como gárgulas de bronze. No fundo esconde-se o porto Fáeton.

«Por que demónio é que radia sobre este istmo o nome desse presunçoso cocheiro do carro solar?», cisma Yvernés, de si para consigo.

O dia emprega-se a seguir, com andamento moderado, os contornos mais acentuados da substrução coralígena que distingue a parte oeste de Taiti. Numerosos distritos ostentam os seus panoramas variados

— - Papeiri com plainos pantanosos, dispersos aqui e além, Mataiea, porto excelente de Papeuriri, depois um amplo vale percorrido pelo rio Vaihiria, e, ao fundo, essa montanha de quinhentos metros, espécie de peanha de lavatório, que suporta uma bacia de meio quilómetro de circunferência. Esta antiga cratera, certamente cheia de água doce, não parece ter comunicação nenhuma com o mar.

Depois do distrito de Ahauraono, dedicado às vastas culturas de algodão em grande escala, depois do distrito de Papara, que é sobretudo destinado a explorações agrícolas, Standard-Island, para além da ponta Mara, prolonga-se com o grande vale de Paruvia, desprendido do Diadema e banhado pelo Punarun. Depois de passar Taapuna, a ponta Tatao e a foz do Faá, o comodoro Sim-coê inclina levemente para nordeste, evita habilmente a ilhota de Motu-Uta, e às seis horas da tarde vem deter-se em frente da incisão que dá acesso à baía de Papeeté.

À entrada desenha-se, em sinuosidades caprichosas, através do recife do coral, o canal balizado até à ponta de Farente por peças de artilharia inutilizadas. Está bem de ver que Ethel Simcoè, graças às suas cartas, não precisa de recorrer aos pilotos cujas baleeiras cruzam diante da embocadura do canal. Adianta-se contudo uma embarcação, que traz à popa uma bandeira amarela. É «a saúde», que vem à fala ao pé de Tribord-Harbour. Em Taiti há muito rigor, e ninguém pode desembarcar antes que o médico da saúde, acompanhado pelo oficial do porto, tenha dado livre prática.

Apenas chega a Tribord-Harbour, este médico põe-se em comunicação com as autoridades. Não passa isto de mera formalidade. Doentes é coisa que quase não existe em Milliard-City nem nos arredores. Em todo o caso, desconhecem-se absolutamente as doenças epidémicas, cólera, influenza, febre-amarela. Por conseguinte, dá-se carta limpa, conforme o costume. Mas, como a noite, precedida por alguns esboços de crepúsculo, cai rapidamente, o desembarque fica para o dia seguinte, e Standard-Island adormece à espera do romper do dia.

Logo de madrugada, ouvem-se umas detonações.

É a bateria do Esporão que saúda com vinte e um tiros o grupo das ilhas de Sotavento, e Taiti, capital do protectorado francês. Ao mesmo tempo, na torre do Observatório sobe e desce por três vezes o pavilhão vermelho com sol de ouro.

A salva é retribuída com o mesmo número de tiros pela bateria da Emboscada, na ponta da barra grande de Taiti.

Tribord-Harbour está cheio de gente logo de manhãzinha. Os tramways transportam para lá uma afluência considerável de turistas, que se destinam à capital do arquipélago. Não há que duvidar que Sebastião Zorn e os seus amigos são dos mais impacientes. Como as embarcações não seriam suficientes para transportar aquela turbamulta de curiosos, os indígenas apressam-se a oferecer os seus serviços, para vencer a distância de seis amarras que separa Tribord-Harbour do porto.

Contudo, é conveniente deixar o governador desembarcar primeiro. Trata-se da entrevista habitual com as autoridades civis e militares de Taiti, e da visita, não menos oficial, que tem de fazer à rainha.

Portanto, por volta das nove horas, Cyrus Bikerstaff, os seus adjuntos Bartolomeu Ruge e Hubley Harcourt, todos três de grande uniforme, os principais notáveis das duas secções, entre outros Nat Coverley e Jem Tankerdon, o comodoro Simcoe, o coronel e os seus oficiais, de fardalhões resplendentes, o coronel Stewart e a sua escolta, tomam lugar nas lanchas de gala e dirigem-se para o porto de Papeeté.

Sebastião Zorn, Frascolin, Yvernés, Pinchinat, Ata-násio Dorémus e Calistus Munbar ocupam outra embarcação com certo número de funcionários.

Canoas e pirogas indígenas fazem cortejo à representação oficial de Milliard-City, dignamente constituída pelo governador, pelas autoridades, pelos notáveis, dos quais os dois mais importantes têm riqueza bastante para comprarem Taiti inteira, e até o arquipélago da Sociedade, sem excluir a sua soberana.

É excelente este porto de Papeeté, e com tanto fundo que podem lá encontrar surgidouro os barcos de grande tonelagem.

Dão-lhe acesso três barras: a barra grande do norte, com setenta metros de largo e oitenta de comprido, estreitada por um baixio pequeno balizado, a barra de Tanoa a leste, a barra de Tapuna a oeste.

As lanchas eléctricas correm majestosamente ao longo da praia, toda ornamentada de vilas e de residências de regalo, os cais em cuja proximidade estão amarrados os navios. Opera-se o desembarque ao pé de uma fonte elegante, onde se faz aguada, e que é abastecida pelos diferentes riachos de águas vivas das montanhas vizinhas, numa das quais está colocado o aparelho semafórico.

Cyrus Bikerstaff e o seu séquito desembarcam no meio de grande concorrência de povo, franceses, indígenas, estrangeiros, aclamando essa Jóia do Pacífico, como a mais extraordinária das maravilhas criadas pelo génio do homem.

Após os primeiros entusiasmos do desembarque, o cortejo dirige-se para o palácio do governador de Taiti.

Calistus Munbar, soberbo no trajo de gala, que só enverga nos dias de cerimónia, convida o quarteto a segui-lo, e o quarteto acede pressuroso ao convite do superintendente.

O protectorado francês abrange não só a ilha de Taiti e a ilha Moorea, mas também os grupos circunvizinhos. O chefe é um comandante-comissário, tendo às ordens um ordenador, que dirige as diversas partes do serviço das tropas, da marinha, das finanças coloniais e locais, e a administração judicial. O secretário-geral do comissário tem nas suas atribuições os negócios civis. Estão estabelecidos diversos residentes nas ilhas, em Moorea, em Fakarava das Pomotu, em Taio-Haé de Nouka-Hiva, e um juiz de paz que pertence à alçada das Marquesas. Desde 1861 que funciona uma comissão consultiva da agricultura e do comércio, a qual tem uma vez por ano sessões em Papeeté. Aí também residem a direcção de artilharia e a chefatura de engenharia. Quanto à guarnição, compreende destacamentos de gendarmaria colonial, e de artilharia e de infantaria de marinha.

Um cura e um vigário, remunerados pelo Governo, e nove missionários, repartidos pelos diferentes grupos, mantêm o exercício do culto católico. Na verdade, podem parisienses julgar-se em França, num porto francês, e isso não é coisa que lhes possa ser desagradável.

Quanto às aldeias das diversas ilhas, são administradas por uma espécie de conselho municipal indígena, presidido por um tavana, acolitado por um juiz, um chefe mutoi e dois conselheiros eleitos pelos habitantes.

À sombra de belas árvores, encaminha-se o cortejo para o palácio do Governo. Por toda a parte coqueiros de um desenvolvimento soberbo, miros de folhagem rosada, aleurites, maciços de laranjeiras, de goiabeiras, de árvores de borracha, etc. Ergue-se o palácio no meio desta verdura, que mal lhe sobrepuja o largo telhado, adornado por encantadoras trapeiras. Apresenta um aspecto elegante bastante, com a sua fachada dividida em um rés-do-chão e um primeiro andar. Ali estão reunidos os principais funcionários franceses, e faz a guarda de honra a gendarmaria colonial.

O comandante-comissário recebe Cyrus Bikerstaff com amabilidade infinita, que certamente se lhe não teria deparado nos arquipélagos ingleses destas paragens.

Agradece-lhe o ter trazido Standard-Island às águas deste arquipélago. Espera que todos os anos se renove esta visita, lamentando muito que Taiti não possa retribuir-lha. Dura meia hora a entrevista, e fica combinado que Cyrus Bikerstaff espere no dia seguinte as autoridades no palácio da municipalidade.

— - Tencionam demorar-se algum tempo em Papeeté? — - pergunta o comandante-comissário.

— - Uns quinze dias — - responde o governador.

— - Então terá o prazer de ver a divisão naval francesa, que chega lá para o fim da semana.

— - Folgaremos, senhor comissário, em lhe fazer as honras da nossa ilha.

Cyrus Bikerstaff apresenta as pessoas do seu séquito, os seus adjuntos, o comodoro Ethel Simcoe, o comandante da milícia, os diversos funcionários, e os artistas do Quarteto Concertante, que foram acolhidos como era justo que o fossem por um compatriota.

Depois, houve alguma atrapalhação por causa dos delegados das secções de Milliard-City. Como fugir aos melindres de amor-próprio de Jem Tankerdon e de Nat Coverley, estas duas irritantes personagens, que tinham direito...

— - De andar ambos ao mesmo tempo — - observa Pinchinat, parodiando o famoso verso de Scribe.

A dificuldade é cortada pelo próprio comandante-comissário. Conhecendo a rivalidade dos dois célebres milliardenses, é tão perfeito de tacto, tão cheio de correcção oficial, procede com tamanha habilidade diplomática, que se passa tudo como se fora regulamentado pelo decreto de Messidor. Não sofre dúvida de que, em caso análogo, o chefe de um protectorado inglês teria deitado fogo ao rastilho no propósito de servir a política do Reino Unido. Nada disso acontece no palácio do comandante-comissário, e Cyrus Bikerstaff, encantado com o acolhimento que ele próprio recebeu, retira-se, seguido pelo seu cortejo.

É escusado dizer que Sebastião Zorn, Yvernés, Pinchinat e Frascolin tinham ideia de deixar Atanásio Dorémus, já esbaforido, ir meter-se na sua casa da Vigésima Quinta Avenida. Eles tencionam, com efeito, passar em Papeeté o máximo espaço de tempo disponível, visitar os arrabaldes, fazer excursões aos principais distritos, percorrer as regiões da península de Tatarapu, esgotar, finalmente, até à derradeira gota esta Cabaça do Pacífico.

Este projecto está pois decididamente deliberado, e quando eles o comunicam a Calistus Munbar, o superintendente só pode dar-lhes plena aprovação.

— - Mas — - diz ele — -não fariam mal se esperassem quarenta e oito horas antes de se porem a caminho.

— - Porque não há-de ser hoje? — - pergunta Yvernés, impaciente por lançar mão do bordão de turista.

— - Porque as autoridades de Standard-Island vão prestar as suas homenagens à rainha, e convém que os senhores sejam apresentados a Sua Majestade, assim como à sua corte.

— - E amanhã? — - diz Frascolin.

— - Amanhã, vem o comandante-comissário do arquipélago pagar às autoridades de Standard-Island a visita que recebeu, e convém...

— - Que nós estejamos presentes — - acrescentou Pinchinat. — - Pois está dito, senhor superintendente, lá estaremos.

Saindo do palácio do Governo, Cyrus Bikerstaff e o seu cortejo encaminharam-se para o palácio de Sua Majestade.

Um simples passeio à sombra do arvoredo, coisa de um quarto de hora de caminho, quando muito.

A mansão real fica muito agradavelmente situada no meio dos maciços verdejantes. É um quadrilátero de dois andares, cujo telhado, à imitação dos chalés, sobressai por cima de duas enfiadas de varandas sobrepostas.

Das janelas superiores pode a vista abranger as amplas plantações, que se alongam até à cidade, e além das quais se alarga um vasto sector de mar. Em suma, habitação encantadora, se não luxuosa, pelo menos confortável.

A rainha nada perdeu do seu prestígio, ao passar ao regime do protectorado francês. Se a bandeira francesa se desfralda na mastreação dos navios amarrados no porto de Papeeté ou surtos na enseada, nos edifícios civis e militares da cidade, pelo menos o pavilhão da soberana baloiça acima dos seus paços as antigas cores do arquipélago — - um paralelogramo de faixas vermelhas e brancas transversais, tendo no canto da tralha o jack tricolor.

Foi em 1606 que Queirós(1) tomou conhecimento da ilha de Taiti, à qual deu o nome de Sagitária.

 

*1. O original, provavelmente por erro tipográfico, tem a data de 1706. O navegador Pedro Fernandes de Queirós, a que Verne chama Quirós, era português, natural de Évora, ao serviço de Espanha, e cobriu-se de glória por um grande numero de descobrimentos e de explorações na Oceânia. É bom que nós não concorramos, por demasiada fidelidade de tradução, para escurecer estas glórias, que também nos pertencem, como compatriotas do grande navegador. (N. do T.)

 

Depois dele, Wallis em 1767, Bougainville em 1768, completaram a exploração do grupo. Por esta ocasião, reinava a rainha Oberea, e foi depois da morte desta soberana que apareceu, na história da Oceânia, a célebre dinastia dos Pomares.

Pomaré I (1762-1780), tendo reinado sob o nome de Otoo, o Airão Negro, deixou-o para tomar o de Pomaré.

Seu filho Pomaré II (1780-1819) acolheu favoravelmente em 1797 os primeiros missionários ingleses, e converteu-se à religião cristã dez anos mais tarde. Foi essa uma época de lutas à mão armada, e a população do arquipélago decaiu gradualmente de cem mil a dezasseis mil habitantes.

Pomaré III, filho do precedente, reinou de 1819 a 1827, e sua irmã Aimata, a célebre Pomaré, a protegida do abominável Pritchard, nascida em 1812, fez-se rainha de Taiti e das ilhas vizinhas. Como não tivesse tido filhos de Tapoa, seu primeiro marido, repudiou-o para desposar Ariifaaite. Deste consórcio nasceu, em 1840, Arione, herdeiro presuntivo, falecido na idade de trinta e cinco anos. A partir do ano seguinte, a rainha deu quatro descendentes a seu marido, que era o homem mais belo do grupo, uma filha, Teriimaevarna, princesa da ilha Bora-Bora desde 1860, o príncipe Tamatoa, nascido em 1842, rei da ilha Raiatea, que foi derribado pelos súbditos revoltados contra a sua brutalidade, o príncipe Terii-tapunui, nascido em 1846, afectado de uma claudicação desgraciosa, e finalmente o príncipe Tuavira, nascido em 1848, que foi fazer a sua educação a França.

O reinado da rainha Pomaré não foi absolutamente tranquilo. Em 1835, os missionários católicos entraram em luta com os missionários protestantes. Expulsos a começo, foram reconduzidos por uma expedição francesa em 1838. Quatro anos depois, era aceito o protectorado da França por cinco chefes da ilha. Pomaré protestou, protestaram os Ingleses. O almirante Dupetit-Thouars proclamou a deposição da rainha em 1843, e expulsou Pritchard, sucessos que provocaram os recontros mortíferos de Mahaena e de Rapepai Mas como o almirante fosse pouco mais ou menos desaprovado, como é sabido.

Pritchard recebeu uma indemnização de vinte e cinco mil francos, e o almirante Bruat recebeu a missão de levar os negócios a bom termo.

Taiti submeteu-se em 1846, e Pomaré aceitou o tratado de protectorado de 19 de Junho de 1847, conservando a soberania sobre as ilhas Raiatea, Huahine e Bora-Bora. Não deixou de haver um ou outro conflito. Em 1852, uma revolta destronou a rainha e chegou-se até a proclamar a república. Por fim, o Governo francês restabeleceu a soberana, a qual abandonou três das suas coroas: em favor do filho primogénito as de Raiatea e de Tahaa; em favor do segundo filho a de Huahine; em favor da filha a de Bora-Bora.

Actualmente é uma das suas descendentes, Pomaré VI, quem ocupa o trono do arquipélago.

Frascolin justifica constantemente, pela sua condescendência, a qualificação de Larousse do Pacífico, com que o presenteou Pinchinat. Estes pormenores histórico-biográficos fornece-os ele aos colegas, afirmando sempre que vale muito conhecer a gente que se visita e com quem se fala. Yvernés e Pinchinat respondem que lhe acham razão em os documentar sobre a genealogia dos Pomaré, deixando Sebastião Zorn replicar que «bem se importa ele com isso».

Quanto ao vibrante Yvernés, esse impregna-se de todo em todo do encanto desta poética natureza taitiana. Voltam-lhe à memória as deliciosas narrativas das viagens de Bougainville e de Dumont d'Urville. Não disfarça a sua comoção ao pensar que vai encontrar-se em presença dessa soberana da Nova Citera, de uma rainha Pomaré autêntica, de quem só o nome...

— - Significa «noite de tosse» — - responde-lhe Frascolin.

— - Bonito! — - exclama Pinchinat. — - É como quem diz a deusa da constipeira, a imperatriz do defluxo! Apanha, Yvernés, e não te esqueças do lenço!

Yvernés fica fulo com a réplica intempestiva daquele trocista; mas os outros riem com tanto gosto que o primeiro-violino acaba por quinhoar da hilaridade geral.

A recepção do governador de Standard-Island, das autoridades e da delegação dos notáveis faz-se com aparato. São prestadas as honras pelo mutoi, chefe da gendarmaria, ao qual se reuniram os auxiliares indígenas.

A rainha Pomaré anda pelos quarenta anos. Traja, assim como a família que a cerca, um vestuário de cerimónia rosa-pálido, cor predilecta da população tai-tiana. Recebe os cumprimentos de Cyrus Bikerstaff com uma dignidade afável, se assim nos podemos exprimir, a qual não ficaria mal a uma majestade europeia. Responde graciosamente num francês muito correcto, porque esta língua é correntia no arquipélago da Sociedade. Declara estar de há muito extremamente desejosa de conhecer essa Standard-Island, de que tanto se fala nas regiões do Pacífico, e espera que esta visita não será a última. Jem Tankerdon é objecto de um acolhimento particular da sua parte, o que não deixa de melindrar o amor-próprio de Nat Coverley. Explica-se, contudo, o facto por a família real pertencer ao protestantismo, e Jem Tankerdon ser a personagem mais notória da secção protestante de Standard-Island.

O Quarteto Concertante não é esquecido nas apresentações. A rainha digna-se afirmar aos seus membros que teria um grande júbilo em os ouvir e aplaudir. Eles inclinam-se respeitosamente, afirmando que estão às ordens de Sua Majestade, e o superintendente dará os passos necessários para que os desejos régios sejam realizados.

Em seguida à audiência, que se prolonga cerca de meia hora, prestam-se de novo à saída as honras dedicadas ao cortejo à sua entrada nos paços reais.

Tornam a Papeeté. Há uma paragem no clube militar, onde os oficiais preparam um lanche em honra do governador e da fina flor da população milliardense. Corre em jorros o champanhe, sucedem-se os brindes, e são seis horas quando as embarcações desatracam dos cais de Papeeté para voltarem a Tribord-Harbour.

E à noite, quando os artistas parisienses se encontram de novo na sala do Casino, exclama Frascolin:

— - Temos um concerto em perspectiva.

Que havemos nós de tocar a Sua Majestade? Ela perceberá o Mozart ou o Beethoven?

- Toca-se Offenbach, Varney, Lecoq ou Audran! — -

responde Sebastião Zorn.

- Qual história! O que está indicado é um batuque!

- opina Pinchinat, abandonando-se ao desnalgar característico desta dança de pretos.

 

FESTAS E MAIS FESTAS

A ilha de Taiti está destinada a tornar-se ponto de escala obrigado para Standard-Island. Todos os anos, antes de prosseguir na sua derrota, em direcção ao trópico de Capricórnio, os seus habitantes demorar-se-ão nas paragens de Papeeté. Recebidos com simpatia pelas autoridades francesas, assim como pelas indígenas, mostram o seu reconhecimento abrindo de par em par as suas portas ou, antes, os seus portos. Afluem, portanto, militares e paisanos de Papeeté, percorrendo os campos, o parque, as avenidas, e nunca se dará por certo nenhum incidente que altere estas excelentes relações. Verdade seja que, à saída, a polícia do governador deve certificar-se de que a população não aumentou fraudulentamente pela intrusão de alguns taitianos, não autorizados a escolher domicílio no seu domínio flutuante.

Daí se segue que, por justa reciprocidade, se concede aos Milliardenses toda a latitude de visitar as ilhas do grupo, quando o comodoro Simcoè tocar numa ou noutra. Na previsão desta escala, algumas famílias ricas tiveram a ideia de alugar casas de campo nos subúrbios de Papeeté, e tomaram-nas com antecedência pelo telégrafo. Tencionam instalar-se nelas como os Parisienses se instalam nos arredores de Paris, com seus criados e as suas equipagens, a fim de ali viverem a vida dos proprietários, como turistas, como excursionistas e até como caçadores, se acaso tiverem um tal ou qual gosto pela caça.

Em suma, farão vilegiatura, sem terem nada a recear deste clima salubre, cuja temperatura varia de catorze a trinta graus, entre Abril e Dezembro, constituindo os outros meses do ano o Inverno do hemisfério austral.

Entre os notáveis que abandonam os seus palacetes pelas confortáveis habitações do campo taitiano, cumpre citar os Tankerdon e os Coverley. O Sr. Tankerdon e sua esposa, com seus filhos e suas filhas, mudam-se no dia seguinte para um chalé pitoresco, situado nas cumeeiras da ponta de Tatao. Os esposos Coverley, Miss Diana e suas irmãs substituem igualmente o seu palácio da Décima Quinta Avenida por uma deliciosa vila, perdida sob o arvoredo copado da ponta Vénus. Entre as habitações existe uma distância de muitas milhas, que a Walter Tankerdon se afigura acaso um pouco longa. Mas não está nas suas posses o aproximar estas duas pontas do litoral taitiano. Em todo o caso, há estradas para carruagens, em bom estado de conservação, que os põem em comunicação directa com Papeeté.

Frascolin faz notar a Calistus Munbar que, em vista de saírem da cidade, as duas famílias não poderão assistir à visita do comandante-comissário ao governador.

— - Pois tanto melhor! — -responde o superintendente, com o olhar aceso de finura diplomática. — --Evitam-se assim os conflitos de amor-próprio. Se o representante da França fosse primeiro a casa dos Coverley, o que diriam os Tankerdon, e se fosse visitar os Tankerdon, o que diriam os Coverley? Cyrus Bikerstaff é que deve estar contente com essa dupla partida.

— - Então não há nenhuma esperança de que a rivalidade dessas famílias acabe de vez? — - pergunta Frascolin.

— - Quem sabe? — - responde Calistus Munbar. — - Isso talvez que dependa apenas do amável Walter e da galante Diana...

— - Mas não parece que até hoje esse herdeiro e mais essa herdeira... — - observa Yvernés.

— - Deixe-se disso! — - replica o superintendente. — - Basta uma ocasião, e, se o acaso a não fizer nascer, nós nos encarregaremos de substituir o acaso... em proveito da nossa ilha estremecida.

E Calistus Munbar executa sobre os calcanhares uma pirueta digna dos aplausos de Atanásio Dorémus, e que não seria repudiada por um marquês do grande século.

Na tarde de 20 de Outubro, o comandante-comissário, o ordenador, o secretário-geral e os principais funcionários do protectorado desembarcaram no cais de Tribord-Harbour. São recebidos pelo governador com as honras devidas à sua categoria. Rompem detonações nas baterias do Esporão e da Popa. Carros, embandeirados com as cores francesas e milliardenses, conduzem o cortejo à capital, onde as salas de recepção do palácio da municipalidade estão preparadas para a entrevista. No trânsito, lisonjeiro acolhimento da população, e, à entrada do palácio municipal, troca de alguns discursos oficiais que se mantêm numa duração aceitável.

Depois, visita ao templo protestante, à catedral católica, ao Observatório, às duas fábricas de energia eléctrica, aos dois portos, e por fim passeio circular nos tramways que percorrem o litoral. À volta, serve-se um lanche na sala grande do Casino. São seis horas quando o comandante-comissário e a sua comitiva tornam a embarcar para Papeeté, ao trovejar das baterias de Standard-Island, levando uma excelente recordação deste acolhimento.

No dia seguinte, 21 de Outubro, pela manhã, desembarcam os quatro parisienses em Papeeté. Não convidaram ninguém a acompanhá-los, nem mesmo o professor de prendas de sociedade, cujas pernas não aguentariam tão dilatadas peregrinações. Estão livres como o ar, colegiais em férias, felizes por calcarem aos pés um verdadeiro solo de rochas e de terra vegetal.

Em primeiro lugar, trata-se de visitar Papeeté. A capital do arquipélago é incontestavelmente uma linda cidade.

O quarteto folga a valer em vadiar, em madracear debaixo das belas árvores que ensombram as casas da praia, os armazéns da marinha, a manutenção e os principais estabelecimentos de comércio estabelecidos ao fundo do porto. Depois, subindo por uma das ruas que desembocam no cais, onde funciona um caminho de ferro americano, os nossos artistas aventuram-se pelo interior da cidade.

Aí, são largas as ruas, tão regularmente traçadas a cordel e esquadria como as avenidas de Milliard-City, entre jardins em pleno viço e em plena frescura. Mesmo a esta hora matinal, uma concorrência incessante de europeus e de indígenas, e esta animação, que será maior pelas oito horas da tarde, prolongar-se-á por toda a noite. Os leitores bem compreendem que as noites dos trópicos, e especialmente as noites de Taiti, não são feitas para se passarem numa cama, conquanto as camas de Papeeté se componham de uma rede de cordas feitas de filamentos de coco, de uma enxerga de folhas de bananeira, de um colchão de penachos de bômbax, sem falar dos mosquiteiros, que defendem quem dorme contra o ataque enervante dos mosquitos.

Quanto às casas, fácil é distinguir as europeias das taitianas. As primeiras, construídas quase todas de madeira, elevadas alguns pés sobre blocos de alvenaria, não deixam nada a desejar em comodidade. As segundas, raras bastante na cidade, disseminadas a capricho à sombra do arvoredo, são formadas de bambus travados e forradas de esteiras, o que as torna asseadas, arejadas e agradáveis.

Mas os indígenas?

— - Os indígenas? — - diz Frascolin aos colegas. — - Não somos mais felizes aqui do que nas Sanduíche; nada de pôr a vista em cima desses dignos selvagens, que antes da conquista se regalavam ao jantar com uma costeleta humana e reservavam para o seu monarca os olhos de um guerreiro vencido, conforme a receita da cozinha taitiana!

— - Esta só pela breca! Com que então já não há canibais na Oceânia! — - exclama Pinchinat. — - Não querem lá ver! E andámos nós milhares de milhas sem encontrarmos um que fosse, para amostra!

— - Paciência! — - aconselha o violoncelista, agitando no ar a dextra, como o Rodin dos Mistérios de Paris- — -, paciência!

Talvez que a gente ainda venha a encontrar mais que os precisos para satisfazer a tua parva curiosidade!

Mal sabia ele como acertava!

Os Taitianos são de origem malaia, segundo todas as probabilidades, e dessa raça que eles designam pelo nome de Maore. Raiatea, a ilha Santa, supõe-se ter sido o berço dos seus reis, berço encantador, banhado pelas águas límpidas do Pacífico no grupo de Sotavento.

Antes da chegada dos missionários, compreendia três classes a sociedade de Taiti: a dos príncipes, personagens privilegiadas, às quais se reconhecia o condão de fazer milagres; os chefes ou proprietários da terra, que não gozavam de grande consideração e estavam subjugados pelos príncipes; depois, a arraia-miúda, que não possuía bens de raiz, ou, se algo possuía, não gozava nunca mais que o usufruto das suas fazendas.

Tudo isto se modificou desde a conquista, e mesmo antes dela, sob a influência dos missionários anglicanos e católicos. Mas o que não mudou foi a inteligência destes indígenas, o seu falar desembaraçado, o seu espírito galhofeiro, a sua coragem a toda a prova, a beleza do seu tipo. Os parisienses não se furtaram a admirá-la, tanto na cidade como no campo.

— - Safa! Que belos mocetões! — - dizia um.

— - E que lindas moçoilas! — -acrescentava outro.

Sim, homens de estatura acima da mediana, de tez acobreada, como impregnada pelo ardor do sangue, de formas admiráveis, tais como no-la conservou a estatuária antiga, uma fisionomia afável e atraente. São soberbos deveras os Maores, com os grandes olhos espertos, os lábios um tudo-nada grossos, finamente debuxados.

Hoje em dia a tatuagem de guerra tende a desaparecer com as ocasiões que dantes a tornavam necessária.

É certo que os mais ricos da ilha trajam à europeia, e apresentam-se ainda garbosamente com a camisa decotada, o jaquetão de pano rosa-pálido, as calças caindo sobre os botins. Mas não são estes que atraem as atenções do quarteto. Nada disso! Às calças do corte moderno preferem os nossos turistas o páreo de chita variegada, que cai em pregas desde a cinta até ao tornozelo, e, em vez do chapéu alto e mesmo do panamá, aquele toucado comum aos dois sexos, o hei, que se compõe de folhagem e de flores.

Quanto às mulheres, são ainda as poéticas e graciosas otaitianas de Bougainville, quer as pétalas brancas do tiare, espécie de gardénia, se misturem às madeixas negras soltas nos ombros, quer tapem a cabeça com esse chapéu leve, feito com a epiderme de um pimpolho de coqueiro, e «cujo nome suave de evareva parece provir de rêve (sonho)», declama Yvernés. Acrescente-se ao encanto deste vestuário, cujas cores, como as de um caleidoscópio, se modificam ao mínimo movimento, a graça do andar, a negligência das atitudes, a meiguice do sorriso, a penetração do olhar, a sonoridade harmoniosa da voz, e perceber-se-á o motivo por que apenas um repete:

— - Safa! Que belos mocetões!

Os outros respondem em coro:

— --E que ricas moçoilas!

Quando o Criador formou tipos tão maravilhosos, será possível que não pensasse em dar-lhes moldura digna deles? E que poderia ele imaginar de mais delicioso do que estas paisagens taitianas, cuja vegetação é tão pujante sob a influência das águas correntes e do orvalho copioso das noites?

Durante as suas excursões através da ilha e pelos distritos limítrofes de Papeeté, os parisienses não se cansam de admirar este mundo de maravilhas vegetais. Afastando-se da beira-mar, mais favorável à cultura, onde as florestas são substituídas por plantações de limoeiros, de laranjeiras, de araruta, de canas-de-açúcar, de cafè-zeiros, de algodoeiros, por campos de inhames, de mandioca, de anil, de milococo, aventuram-se pelos maciços densos do interior, na falta dos montes, cujos cumes apontam ao de cima da copa do arvoredo. Por toda a parte coqueiros elegantes, de uma esbeltez magnífica, miros ou pau-rosa, casuarinas ou pau-ferro, tiaris ou aleurites, puraus, tamanas, ahis ou sândalos, goiabeiras, mangueiras, taças, cujas raízes são comestíveis, e também o soberbo taro, essa preciosa árvore-de-pão, de tronco alto, liso e branco, com as suas folhas largas, de um verde-escuro, entre as quais se agrupam grossos frutos de casca como cinzelada, e cuja polpa branca forma a alimentação principal dos indígenas.

A árvore mais comum, além do coqueiro, é a goiabeira, que se desenvolve até ao cume das montanhas ou pouco menos, e cujo nome é tuava em língua taitiana. Agrupa-se em florestas densas, ao passo que os puraus formam umas moitas sombrias, donde custa deveras a sair, quando se tem a imprudência de se internar pelos seus meandros inextrincáveis.

Demais a mais, não há animais perigosos. O único quadrúpede indígena é um suíno, de espécie média entre o porco e o javali. Quanto aos cavalos e aos bois, esses foram importados para a ilha, onde prosperam também as ovelhas e as cabras. A fauna é, pois, muito menos rica do que a flora, mesmo com relação às aves. Pombas e alciones como nas Sanduíche. Répteis é coisa que não há, a não ser a centopeia e o escorpião(1). Pelo que respeita a insectos, há vespas e mosquitos.

Os produtos de Taiti reduzem-se ao algodão, à cana-de-açúcar, cuja cultura se desenvolveu largamente com prejuízo do tabaco e do café, depois ao óleo de coco, à araruta, às laranjas, ao nácar e às pérolas.

No entanto, basta isto para alimentar um comércio importante com a América, a Austrália, a Nova Zelândia, com a China na Ásia, com a França e a Inglaterra na Europa, orçando por um valor de três milhões e duzentos mil francos de importação, contrabalançando por quatro milhões e meio de exportação.

As excursões do quarteto alongaram-se até à península de Tabaratu. Uma visita feita ao forte Fáeton põe-no em relação com um destacamento de soldados de marinha, que sentem grande júbilo em receber compatriotas.

Numa estalagem do porto, pertencente a um colono, Frascolin faz as coisas à grande. Aos indígenas dos arredores, ao mutoi do distrito, servem-se vinhos franceses, de que o digno estalajadeiro consente em desfazer-se por bom preço.

 

*1. A classificação zoológica é da responsabilidade de J. Verne. Transcrevo o período original: «Pas de reptiles, sauf le cent-pieds et le scorpion». (N. do T.)

 

Em compensação, a gente do sítio oferece aos seus hóspedes os produtos da terra, cachos daquela espécie de bananeira chamada fei, de bela cor amarela, inhames preparados de uma forma suculenta, maiore, que é o fruto da árvore-do-pão estufado num buraco cheio de seixos ardentes, e, finalmente, uma certa guloseima, de sabor acidulo, provindo do coco raspado, e que, sob o nome de taeiro, se conserva em talos de bambu.

Este lanche é muito alegre. Os convivas fumaram muitos centos dessas cigarrilhas feitas de uma folha de tabaco enxuta ao fogo e enrolada numa folha de pandano. A diferença é que, em vez de imitar os taitianos e as taitianas, que as passavam de boca em boca, depois de ter puxado algumas fumaças, os franceses contentavam-se em fumar à francesa. E quando o mutoi lhe ofereceu a sua, Pinchinat agradeceu-lhe com um «muito bem», cuja entoação patusca despertou a hilaridade dos assistentes.

No decurso destas excursões está bem de ver que os excursionistas não podiam pensar em voltar todas as noites para Papeeté ou para Standard-Island. Demais, em toda a parte, nas aldeias, nas habitações isoladas, entre os colonos, entre os indígenas, são eles recebidos com tanto afecto como bizarria.

Para ocupar o dia 7 de Novembro, formaram o projecto de visitar a ponta Vénus, excursão à qual não poderia furtar-se um turista digno deste nome.

Partem de madrugada, com todo o arreganho. Atravessam por uma ponte o lindo rio de Fantahua. Sobem o vale até chegarem a essa retumbante cascata, dupla em altura da do Niágara, mas infinitamente menos larga, que cai de setenta e cinco metros com um tumulto admirável. Chegam assi m, seguindo a estrada que corre pela encosta da colina Taharahi, à beira-mar, a esse cabeço a que Cook deu o nome de cabo da Árvore, nome justificado nessa época pela presença de uma árvore isolada, actualmente morta de velhice. Uma avenida, plantada de essências magníficas, conduz, a partir da aldeia de Taharahi, ao farol, que se ergue na ponta extrema da ilha.

É neste sítio, a meia encosta de uma colina verdejante, que a família Coverley fixou a sua residência.

Não há nenhum motivo sério para que Walter Tankerdon, cuja vila se eleva longe, muito longe, para além de Papeeté, alongue os seus passeios para a banda da ponta Vénus. Contudo, os parisienses dão com ele por ali. O mancebo transportou-se a cavalo, até aos arredores do cottage Coverley. Troca uma saudação com os turistas franceses e pergunta-lhes se tencionam voltar para Papeeté naquela mesma tarde.

— - Não, Sr. Tankerdon — - responde Frascolin. — - Recebemos um convite de Mistress Coverley, e é provável que passemos a noite na vila.

— - Então, meus senhores, até à vista! — --replica Walter Tankerdon.

E parece que a fisionomia dele se toldou, embora nenhuma nuvem velasse nesse momento o Sol.

Em seguida esporeia o cavalo, e afasta-se a meio trote, depois de deitar um derradeiro olhar para a vila, que alveja por entre o arvoredo. Mas, também, porque é que reaparece o antigo negociante sob o opulentíssimo Tankerdon, e porque há-de ele aventurar-se a semear a discórdia nesta Standard-Island, que não foi criada para as inquietações do tráfico!

— - Olhem lá! — -diz Pinchinat. — - Talvez que não se lhe desse de nos acompanhar, esse galhardo cavaleiro?

— - Sim — - acrescenta Frascolin — -, e é evidente que o nosso amigo Munbar arrisca-se a ter razão! O rapaz vai-se safando com muita pena de não poder encontrar Miss Dy Coverley...

— - O que prova que os biliões não dão a felicidade! — - replica esse grande filósofo que dá pelo nome de Yvernés.

Durante a tarde e a noite, passam-se horas deliciosas no cottage com os Coverley. O quarteto encontra na vila o mesmo acolhimento que no palacete da Décima Quinta Avenida. Simpática reunião, à qual a arte se mistura muito agradavelmente. Faz-se música excelente, no piano, bem entendido. Mrs. Coverley decifra algumas partituras novas. Miss Dy canta como uma verdadeira artista, e Yvernés, que é dotado de uma bonita voz, casa o seu tenor com o soprano da formosa herdeira.

Não se sabe bem porquê, talvez que de caso pensado, Pinchinat insinua na conversação que os seus colegas e ele descobriram Walter Tankerdon a passear pelas vizinhanças da vila. Seria hábil da sua parte, e não valia mais ter-se calado? Não, e, se ali estivesse o superintendente, só poderia dar a sua aprovação a Sua Alteza. Um ligeiro sorriso, quase imperceptível, viu-se fulgir nos lábios de miss Dy, brilharam-lhe os olhos num lampejo, e, quando torna a cantar, parece que a sua voz se tornou mais penetrante.

Mrs. Coverley encara-a por um momento, contentando-se em dizer, enquanto o Sr. Coverley franze a testa:

— - Não estás fatigada, filha?

— - Não, minha mãe.

— - E o Sr. Yvernés?

— - Nem por sombras, minha senhora. Antes de nascer, por força fui menino do coro numa das capelas do Paraíso!

Acaba o sarau, e é quase meia-noite quando o Sr. Coverley julga que são horas de repousar um pouco.

No dia seguinte, encantado com esta recepção tão singela e cordial, o quarteto está de volta para Papeeté.

A permanência em Taiti não deve durar mais de uma semana ainda. Segundo o itinerário, antecipadamente determinado, Standard-Island deve prosseguir na sua derrota para sudoeste. E por certo que nada teria assinalado esta última semana durante a qual os quatro turistas completaram as suas excursões, se não fosse um afortunado incidente ocorrido em 11 de Novembro.

Nessa manhã, dá-se sinal da esquadra francesa do Pacífico pelo posto semafórico da colina, que se eleva pela parte de trás de Papeeté.

Às 11 horas, um cruzador de primeira classe, o Paris, escoltado por dois cruzadores de segunda classe e por um aviso, surge na enseada.

Trocam-se de parte a parte as salvas regulamentares, e o contra-almirante, cujo guião flutua no Paris, desembarca com a sua oficialidade.

Depois dos tiros oficiais, a que as baterias do Esporão e da Popa juntam o seu trovejar simpático, o contra-almirante e o comandante-comissário das ilhas da Sociedade tratam logo de trocar sucessivamente as visitas da etiqueta.

É uma boa fortuna para os navios da divisão, para os oficiais e tripulações o chegarem à enseada de Taiti durante a estadia de Standard-Island. Novos ensejos de recepções e de festas. A Jóia do Pacífico abre-se aos mareantes franceses, que se apressam a ir admirar-lhe as maravilhas. Durante quarenta e oito horas, os uniformes da marinha misturaram-se aos trajes milliardenses.

Cyrus Bikerstaff faz as honras do Observatório, o superintendente faz as honras do Casino e de outros estabelecimentos sob a sua dependência.

É nestas circunstâncias que ocorre a esse admirável Calistus Munbar uma ideia genial, cuja realização deve deixar recordações inolvidáveis. E esta ideia comunica-a ele ao governador, e o governador adopta-a, seguindo o parecer do Conselho dos Notáveis.

Sim! Decide-se uma grande festa para 15 de Novembro. O programa compreenderá um banquete de gala e um baile dados nas salas do palácio da municipalidade. Nessa altura já devem ter regressado à cidade os milliardenses em vilegiatura, visto que a partida deve efectuar-se dois dias depois.

As altas personagens das duas secções não faltarão, pois, a este festival em honra da rainha Pomaré, dos taitianos europeus ou indígenas e da esquadra francesa.

Calistus Munbar está encarregado de organizar esta festa, e há toda a razão de confiar tanto na sua imaginação como no seu zelo. O quarteto põe-se à sua disposição, e fica combinado que figure um concerto entre os números mais atraentes do programa.

Quanto aos convites, é ao governador que incumbe a missão de os distribuir.

Em primeiro lugar, Cyrus Bikerstaff vai pessoalmente rogar à rainha Pomaré, aos príncipes e às princesas da sua corte a honra de assistirem a esta festa, e a rainha digna-se responder por uma aceitação. Idênticos agradecimentos da parte do comandante-comissário e dos altos funcionários franceses, do contra-almirante e dos seus oficiais, que se mostram muito penhorados com esta amabilidade.

Em suma, expedem-se mil convites. Bem entendido que os mil convidados não devem sentar-se à mesa municipal. Não! Uma centena apenas: as pessoas reais, os oficiais da divisão, as autoridades do protectorado, os funcionários superiores, o Conselho dos Notáveis e o alto clero de Standard-Island. Mas haverá no parque banquetes, jogos, fogos de artifício, o bastante para satisfazer a população.

O rei e a rainha de Malecárlia não foram esquecidos, está claro. Mas Suas Majestades, inimigas de todo o aparato, vivendo isolados na sua modesta residência da Trigésima Segunda Avenida, agradeceram ao governador um convite que sentiam não poder aceitar.

— - Pobres soberanos! — -diz Yvernés.

Chegado que foi o grande dia, enbandeira-se a ilha com as cores francesas e taitianas, misturadas às cores milliardenses.

A rainha Pomaré e a sua corte, em traje de gala, são recebidas em Tribord-Harbour com detonações das duas baterias da ilha. A estas detonações respondem os canhões de Papeeté e os canhões da divisão naval.

Pelas seis horas da tarde, em seguida a um passeio pelo parque, toda esta luzida sociedade chega ao palácio municipal, soberbamente ornamentado.

Que bela perspectiva oferece a escadaria monumental, cada um de cujos degraus não custou menos de dez mil francos, como os do palácio Vanderbilt em Nova Iorque! E na esplêndida sala de jantar vão os convivas sentar-se às mesas do festim.

O código das precedências foi observado pelo governador com um tacto perfeito. Não haverá pretexto para o mais leve conflito entre as grandes famílias rivais das duas secções. Cada um fica contente com o lugar que lhe é distribuído, entre outros Miss Dy Coverley, que se encontra na frente de Walter Tankerdon. Basta isto ao juvenil herdeiro e à encantadora rapariga, e mais valia não os aproximar ainda mais.

É inútil dizer que os artistas franceses não têm também razão de queixa.

Colocando-os na mesa de honra, deram-lhes mais uma prova de estima e de simpatia pelos seus talentos e pelas suas pessoas.

Quanto ao cardápio deste memorável banquete, estudado, meditado, composto pelo superintendente, é ele a prova de que, mesmo no ponto de vista dos recursos culinários, Milliard-City nada tem que invejar à velha Europa.

Façam ideia, à vista desse menu, impresso em letras de ouro sobre papel velino por engenho de Calistus Munbar:

 

MENU

Le potage à la l'Orléans

La creme comtesse

Le turbot à la Mornay

Le filet de bceuf à la Napolitaine

Les quenelles de volaille à la Viennoise

Les mousses de foie gras à la Trévise

Soibcts Les cailles róties sur canapé

La salade provençale Les petits pois à l'anglaise Bombe, macédoine, fruits

Gâteaux varies Grissins au parmesan

 

Vins

Châtcau d'Yquem — - Château Margaux Chambcrtin — - Champagne

Liqueurs variées

 

À mesa da rainha de Inglaterra, do imperador da Rússia, do imperador da Alemanha ou do presidente da República Francesa, porventura se acharam alguma vez combinações superiores para um menu oficial, e avantajar-se-iam a isto os chefes de cozinha mais em voga dos dois continentes?

Às nove horas, dirigem-se os convidados à sala do Casino para o concerto. O programa comporta quatro trechos escolhidos — - quatro, nem mais um:

 

Quinto quarteto em lá maior: Op. 18, de Beethoven;

Segundo quarteto em ré menor: Op. 10, de Mozart;

Segundo quarteto em ré maior: Op. 64 (segunda parte), de Haydn;

Duodécimo concerto em mi bemol, de Onslow.

 

Este concerto é um novo triunfo para os executantes parisienses, com tanta fortuna embarcados, pense lá o que quiser o renitente violoncelista. a bordo de Standard-Island!

Entrementes, europeus e estrangeiros tomam parte nos diversos jogos instalados no parque. Organizam-se bailes campestres nos relvados, e, força é confessá-lo, dança-se ao som dos harmónios, que são instrumentos muito em voga entre os naturais das ilhas da Sociedade. Ora os marinheiros franceses têm um fraco por este aparelho pneumático, e, como se deram muitas licenças de desembarque tanto no Paris como nos outros navios da divisão, as orquestras estão completas e os harmónios tocam que é mesmo um desespero. As vozes também se intrometem, e as canções de bordo respondem aos himerre, que são as cantigas populares e predilectas das populações oceânicas.

É sabido que os indígenas de Taiti, tanto homens como mulheres, têm um gosto pronunciado pelo canto e pela dança, em que se distinguem. Nessa noite, executam eles por várias vezes umas figuras de repauipa, que pode ser considerada como dança nacional, e cujo compasso é marcado a rufo de tambor. Depois os coreógrafos de todas as origens, indígenas ou estrangeiros, divertem-se que é um louvar a Deus, graças à excitação dos refrescos de toda a espécie, oferecidos pela municipalidade.

Ao mesmo tempo, bailes mais selectos e cerimoniosos, sob a direcção de Atanásio Dorémus, reúnem as famílias nas salas do palácio municipal. As damas milliardenses e taitianas fazem prodígios de toilette. Não é de admirar que as primeiras, freguesas fiéis das costureiras parisienses, eclipsem sem custo até as mais elegantes europeias da colónia. Jorram diamantes nas cabeças, nos ombros, no peito, e só entre elas é que a luta pode apresentar algum interesse. Mas quem ousaria pronunciar-se a favor de Mrs. Coverley ou de Mrs. Tankerdon, ambas deslumbrantes de adornos e pedrarias? Com certeza que não será Cyrus Bikerstaff, sempre tão meticuloso em manter perfeito equilíbrio entre as duas secções da ilha.

Na quadrilha de honra figuravam a soberana de Taiti e seu augusto esposo, Cyrus Bikerstaff e Mrs. Coverley, o contra-almirante e Mrs. Tankerdon, o comodoro Sim-coê e a primeira dama de honor da rainha. Ao mesmo tempo, formam-se outras quadrilhas, em que se misturam os pares, consultando apenas os seus gostos e as suas simpatias. Todo esse conjunto é encantador. E, contudo, Sebastião Zorn conserva-se de parte, numa atitude se não de protesto, pelo menos de desdém, como os dois romanos rabugentos do famoso quadro da Decadência. Mas Yvernés, Pinchinat e Frascolin valsam, polcam, mazurcam, com as mais lindas taitianas e as mais deliciosas raparigas de Standard-Island. E quem sabe se, nessa noite, não ficaram decididos muitos casamentos no fim do baile, o que por certo ocasionaria um suplemento de trabalho aos empregados da administração civil?

E, por fim, qual foi a surpresa geral quando o acaso deu Walter Tankerdon por cavalheiro a Miss Coverley numa quadrilha? Seria o acaso, e não o teria auxiliado esse fino diplomata do superintendente por alguma engenhosa combinação? Em todo o caso, é esse o acontecimento do dia, talvez prenhe de consequências, se é que marca o primeiro passo para a reconciliação das duas poderosas famílias.

Depois do fogo de artifício, que é queimado no grande relvado, continuam as danças no parque, no palácio da municipalidade, e prolongam-se até romper o dia.

Tal é esta memorável festa, cuja recordação se perpetuará através da longa e ditosa série de séculos que o futuro — - assim é de esperar — - reserva a Standard-Island.

Daí a dois dias, terminada a duração da escala, o comodoro Simcoe, logo de madrugada, transmite as ordens de aprontar para seguir viagem. A partida da ilha de hélice é saudada com detonações de artilharia, como o foi a chegada, e a ilha retribui as salvas, tiro por tiro, a Taiti e à divisão naval.

Costeiam-se assim os contornos pitorescos de Moorea, eriçada de picos soberbos, cujo cabeço central é furado de lado a lado, Raiatea. a ilha Santa, que foi o berço da realeza indígena, Bora-Bora, dominada por uma montanha de mil metros, depois as ilhotas Motu-Iti, Mapeta, Tubuai, Manu, anéis da cadeia taitiana, que se estende por estas paragens fora.

A 19 de Novembro, à hora em que o Sol declina no horizonte, somem-se as derradeiras cumeadas do arquipélago. Standard-Island faz então proa para o sudoeste — orientação que os aparelhos telegráficos indicam nas cartas dispostas nas vitrinas do Casino.

E quem observasse neste momento o capitão Sarol ficaria impressionado com o fogo sinistro dos seus olhares, com a expressão feroz da sua fisionomia, quando, com a mão ameaçadora, aponta aos seus malaios o caminho para as Novas Hébridas, situadas a mil e duzentas léguas para oeste!

 

 

                                                             Leia o Volume II

 

 

AS ILHAS DE COOK

HÁ seis meses que Standard-Island, tendo partido de Madeleine-bay, anda de arquipélago para arquipélago por meio do Pacífico. Nem um único acidente ocorreu no decurso da sua maravilhosa navegação. Nesta quadra do ano, as paragens da zona equatorial são serenas, sopram regularmente os alisados, ou ventos gerais, entre os trópicos. Além disso, quando se desencadeia alguma borrasca ou algum temporal, a base sólida que sustenta Milliard-City, os dois portos, o parque, o campo, não sofre o mínimo abalo. Passa a borrasca, abranda o temporal. Mal se deu por eles na superfície da Jóia do Pacífico.

 

 

 

 

O que haveria motivo de recear nestas condições era a monotonia de uma existência uniforme em demasia. Mas os nossos parisienses são os primeiros a concordar que tal não se dá. Neste imenso deserto do oceano sucedem-se os oásis — tais são os grupos que já se visitaram: as Sanduíche, as Marquesas, as Pomotu, as ilhas da Sociedade, tais os que se hão-de explorar antes de seguir derrota para o norte, as ilhas de Cook, as Samoa, as Tonga, as Fiji, as Novas Hébridas e porventura outras ainda. Outras tantas escalas variadas, outros tantos ensejos esperados, que permitirão percorrer esses países, tão interessantes no ponto de vista etnográfico.

Pelo que respeita ao Quarteto Concertante, como lhe ocorreria a ideia de se queixar, mesmo que lhe dessem tempo para isso?

Acaso pode considerar-se como isolado do resto do mundo? Não se fazem com toda a regularidade os serviços postais com os dois continentes? Não só os navios de petróleo trazem os seus carregamentos para as necessidades das fábricas quase em dias de antemão marcados, mas não decorre uma quinzena sem que os vapores descarreguem, em Tribord-Harbour ou em Babord-Harbour, provisões de todas as espécies, e também o contingente de informações e de notícias que entretém os ócios da população...

 

 

 

                      

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