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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FILHA DE MISTRAL / Judith Krantz
A FILHA DE MISTRAL / Judith Krantz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Paris, 1925. Julien Mistral é um talentoso, mas ainda desconhecido pintor francês que tem sua chance quando encontra Maggy Lunel, jovem e bela modelo judia, de quem ele pinta uma série de nus maravilhosos. Os quadros levam à sua descoberta por uma americana rica, Kate Browning, que o lança numa exposição de grande sucesso. Um romance breve, o casamento, e os dois deixam Paris por uma casa de campo na Provença, La Tourrello, onde nasce uma filha do casal.

Maggy sofre um duro golpe ao perder o amante, mas refaz sua vida, tem um caso com um milionário americano casado, Perry Kilkullen, e desse amor também nasce uma filha, que recebe o nome de Teddy. Os dois fazem planos de casar-se, mas Perry morre do coração em Nova York, antes de

conseguir obter um divórcio, deixando Maggy sozinha e sem recursos na grande cidade que ainda lhe é estranha. Ela, porém, luta corajosamente e consegue fazer da agência de modelos que fundara um sucesso. E Teddy, já então uma jovem de beleza deslumbrante, criada no ambiente ultra sofisticado da moda, torna-se a Modelo N9 1 do país.

Nesse ponto a história toma novo e inesperado rumo. Indo à Europa para uma reportagem de modas, Teddy vem a conhecer Mistral, o primeiro amor de sua própria mãe. Os dois são dominados por uma paixão irresistível, e o arrebatado pintor passa a viver exclusivamente para Teddy, com quem tem uma filha, Fauve, a despeito da recusa de Kate em lhe conceder o divórcio.

Terry é vítima de um acidente de barco, deixando Fauve com dois meses de idade, que logo passa aos cuidados de Maggy. A história, conduzida com extrema habilidade pela autora, atinge um clímax empolgante, que levará ao desfecho totalmente inesperado, mesmo para o leitor mais atento.

Judith Krantz, que o público brasileiro conhece através de Luxúria e Princesa Margarida, livros inesquecíveis publicados pela Record, dá nova prova de seu talento com um romance de argumento extraordinário, ambientado no mundo artístico de Montparnasse, em Paris, na bucólica e linda Provença e na trepidante Nova York de famosas agências de modelos, de mulheres lindas e de luxuosíssimas casas de alta costura.

 

 

 

 

Fauve correu pelo saguão, sua capa de chuva de um amarelo berrante esvoaçando, e conseguiu passar pelas portas do elevador uma fração de segundo antes de se fecharem. Ofegante, ela procurou dobrar o grande guarda-chuva listrado, para que não pingasse nas outras pessoas ali apinhadas, mas, no meio de toda aquela gente, seus braços estavam presos ao lado do corpo.

Fauve teria tido bastante lugar no elevador se chegasse mais cedo, mas naquela manhã chuvosa de setembro de 1975 não havia um único táxi livre. Ela fora obrigada a esperar infinitamente por um ônibus na Madison Avenue e tinha corrido o resto do caminho, pela Rua 57. Encharcada e inconfortável, girou o pescoço, com cuidado, para ver as pessoas que se comprimiam junto a ela. Alguma delas saltaria antes do décimo andar? Não havia esperanças disso, pensou. O elevador antigo e barulhento, que se elevava tão lentamente pelo prédio comercial do Carnegie Hall, estava carregado de uma nuvem

palpável de tensão e de terror. A não ser o cabineiro, o pequeno espaço estava cheio de moças dominadas por uma concentração muda, feroz e assustada. Cada qual se criara sabendo que era, sem dúvida alguma, a garota mais bonita de seu ginásio, de sua cidade natal e de seu Estado.

Essa viagem de elevador era a última etapa de uma meta com que vinham sonhando febrilmente há anos. Aguardava-as uma entrevista na Agência Lunel, a mais famosa de todas as agências de modelos do mundo, a agência de maior prestígio e poder. Fauve sentiu o peso quase insuportável da ansiedade

e expectativa nervosa que palpitava em tomo de si e, fechando os olhos, rezou para que a viagem terminasse.

- Casey perguntou se eu tinha visto você - disse o cabineiro a Fauve, tão alto que todos ouviram. - Está esperando por você lá em cima.

- Obrigada, Harry.

Fauve se enterrou mais na gola da capa, procurando sumir, ao sentir 20 pares de olhos imediatamente se voltarem para ela, numa onda de percepção hostil. Seu perfil estava sendo examinado de cada lado numa concorrência declarada, suas vizinhas passando a vista da testa ao queixo, sem encontrar de feito. Atrás dela; estavam calculando sua altura e observando, com um sofrimento que vibrava claramente, que ela era tão ou mais alta do que a maioria Mesmo nos fundos do elevador não havia garota alguma cuja vista estivesse tão impedida que não pudesse ver a conflagração dos cabelos de Fauve, de um ruivo tão tumultuado, tão variado, que tinha de ser natural.

Fez-se um silêncio absoluto enquanto Fauve era examinada.

- Você é modelo, não é? - perguntou a garota à direita de Fauve, seu tom exprimindo claramente acusação e uma inveja desesperada.

- Não, eu apenas trabalho aqui.

Fauve sentiu o alívio no elevador, como se fosse uma substância sólida. Ela então se endireitou, agora invisível e abençoadamente sem importância. Assim que as portas do elevador se abriram no décimo andar, ela saiu depressa para o corredor e disparou pela entrada da Agência Lunel, sem olhar para trás.

Ela sabia exatamente o que as moças atrás dela fariam. Cada uma tomaria o seu lugar na fila que se começara a formar meia hora antes para as entrevistas públicas realizadas três vezes por semana, de manhã, na agência fundada mais de 40 anos antes por Maggy Lunel, avó de Fauve. Dos muitos milhares de entrevistadas anualmente, só 30 eram aproveitadas.

Enquanto Fauve se dirigia depressa para seu escritório, pensou que talvez uma das moças do elevador tivesse um pingo de possibilidade de vencer. Talvez uma delas tivesse a qualidade que todos na agência chamavam de "raio". Como poderiam saber, pensou ela, abrindo a porta de seu escritório, onde a placa dizia "Diretora, Departamento Feminino", que só a beleza nunca fora suficiente?

Casey d'Augustino, assistente de Fauve, levantou os olhos, espantada, da cadeira em que estava empoleirada, folheando um exemplar antecipado da revista Vogue. Pequenina e de cabelos crespos, Casey, com 25 anos, era dois anos mais velha do que Fauve.

- Você está com cara de quem está sendo procurada pela Polícia Montada - comentou ela, rindo diante da expressão de Fauve.

- Acabei de escapar das feras... fiquei presa no elevador com um monte de jovens esperançosas.

- Bem feito, para não chegar atrasada.

- Quantas vezes isso acontece? - perguntou Fauve, com uma leve truculência, tirando a capa e afundando na sua poltrona com um suspiro de alívio. Tirou as botas molhadas e pôs os pés calçados com collant verde em cima da mesa. Ela sempre se vestia de modo a desafiar o mau tempo e naquele dia estava com uma blusa de Ia laranja e calças de lã roxas.

- Raramente - concordou Casey - mas não precisa se desculpar. Você ainda chegou bem a tempo da emergência da semana.

- Emergência?

Fauve olhou pela porta de vidro do escritório, as sobrancelhas ruivas arqueadas numa expressão inquisitiva. Para onde quer que olhasse, via a atividade normal da agência, dúzias de contatos falando em seus telefones, marcando horas. Enquanto os telefones funcionassem, não poderia haver uma emergência de verdade na Lunel.

- Problema com Jane - disse Casey, parecendo irritadamente séria.

- De novo! - Fauve, que tinha começado a rabiscar no bloco sobre a mesa, largou o lápis com tanta força corno se fosse o martelo de um juiz dando uma sentença de morte. - Depois da advertência que lhe fiz na semana passada? Mais problemas?

- Ela estava marcada para a Bazaar ontem... Arthur Brown ia fotografar. Bunny, modista dele, telefonou hoje cedinho, completamente lívida...

- Você sabia que lívido significa plúmbeo? - interrompeu Fauve depressa, não querendo que o seu dia já atormentado fosse completamente estragado pela última de Jane, a melhor modelo da Lunel, a moça que só trabalhava com o seu nome de batismo puro e simples, não precisando das denominações inventivas e eufônicas das outras, pois era o máximo mundial em louras de olhos azuis, possuindo uma beleza cataclísmica sobre a qual não poderia haver esses, e mas. Estava tudo ali em Jane, encerrado nos ossos, irrefutável. Ela era a única modelo que Fauve já conhecera que estava inteiramente satisfeita com o seu aspecto. Jane, a insuportável, que sabia que era perfeita.

- Lívida quer dizer furiosa - continuou Casey. - Jane ontem apareceu com duas horas de atraso, o que Bunny já previra, pois ela está sempre atrasada. Assim, não foi esse o problema. Estava com os cabelos imundos. Também não foi esse o problema, porque a cabeleireira os lavou. Ela então insultou mortalmente o maquilador, mas ele não ligou, porque está habituado a ser insultado. Depois, sentiu-se fraca para trabalhar, porque não tinha almoçado; então lhe deram comida, mandando buscar três tipos diferentes de iogurte, até ela se satisfazer. Depois disso, ela teve de dar um telefonema de meia hora ao seu astrólogo pessoal. Tudo normal, até aí. O que deixou Bunny lívida foi que, depois de terem paparicado Jane o dia inteiro, a Bazaar ainda assim não conseguiu a foto. Ela não deixou que lhe cortassem o cabelo.

Fauve levantou-se de um salto, seu rosto lindo e vivo exprimindo a descrença, seus grandes olhos cinzentos arregalados de indignação.

- Jane sabia que era um artigo de fundo de beleza. Sabia que tiniam de cortar-lhe os cabelos cinco centímetros... isso era importante. Diabos! A diferença nos cabelos, na próxima estação, é de apenas cinco centímetros... falei tudo isso com ela no mês passado, quando aceitou o compromisso.

- Ah, mas a nossa Jane mudou de idéia, sabe. O astrólogo dela lhe disse para não fazer nenhuma modificação até o novo sol em Netuno.

- Acabou-se! Jane tem de ser demitida. Vou cancelar o contrato dela hoje mesmo.

- Ah, Fauve... - gemeu Casey, pensando nos três meses de compromissos de Jane, no programa.

- Não. Jane abusou de nós um pouco demais. Como posso esperar que as outras garotas se comportem e trabalhem direito, se deixar Jane se safar com esta?

- Se você cancelar o contrato, ela vai trabalhar para a Ford ou para a Agencia Wilhelmina. As pessoas vão suportar tudo para consegui-la .. só existe uma Jane - advertiu Casey, solene.

- Errado, Casey. Sempre haverá outra Jane, mais cedo ou mais tarde - disse Fauve, com calma. - Mas só há uma Lunel.

- Argumento válido. Argumento aceito. Mas não vai falar sobre isso com Maggy, primeiro? - perguntou Casey.

- Maggy? - disse Fauve, espantada. - Ela não deve vir hoje... é sexta-feira.

Quando a avó se ausentava, em seus habituais fins de semana prolongados , Fauve era plenamente responsável pela Agência Lunel.

- Ela me disse que estava chovendo demais para ir para o campo, que só ia amanhã. A Chefe está no gabinete dela - informou-lhe Casey.

- Claro que vou falar com ela sobre Jane - disse Fauve, pensativa. -

Mais alguma emergência?

- Só uma, sobre a qual você não pode fazer nada. Pete está trabalhando nela agora - disse Casey, referindo-se ao homem que consertava os telefones e que passava a metade de todas as semanas desenredando as suas 100 1inhas externas e dúzias de interfones. - O telefone de uma das contatos está enguiçado... ela está recebendo os telefonemas de um psicanalista e ele está recebendo os nossos. Ela está dizendo a todo mundo para chorar bastante, depois tomar uma chuveirada fria, duas aspirinas.. , e rezar.

- Mal não faz - disse Fauve, abrindo a porta do escritório e dirigindo-se para o grande gabinete de esquina, onde Maggy Lunel havia muito tempo reinava sobre o mundo dos modelos de modas.

Certas grandes beldades envelhecer com elegância; outras se agarram impiedosamente a um determinado período de seu passado e procuram manter-se ali, embora murchem um pouco a cada ano; outras ainda perdem sua beleza repentinamente, de modo que só pode ser reconstruída passageiramente na imaginação dos que as conhecem. Maggy Lunel envelhecera sem idade. A uma distância de cinco metros, ela ainda parecia aquela moça de 17 anos que um dia fora a mais linda modelo de pintores de Montparnasse A puna distância de três metros ela era, evidentemente, a mulher mais sofisticada de Nova York, uma mulher que possuía no corpo esguio um élan que gerações de mulheres tinham procurado imitar. Mais de perto, tornava-se impossível Vidas - que ela estava na casa dos 60, pois seu encanto era forte demais pata dar margem a esses cálculos mesquinhos.

- Magali! Que pena, o campo... Darcy ficou muito decepcionado?

Fauve correu para beijar a avó, chamando-a pelo verdadeiro nome de batismo, coisa que ninguém mais tinha o direito de fazer.

- Ele ficou meio emburrado, mas depois ligou para Herb Mayes e combinaram almoçar no "21 ", o que logo o animou - respondeu Maggy, abraçando-a. - Ontem o rádio deu que não havia energia elétrica, de modo que me recusei a ir... Parece que perco o meu famoso bom humor quando tenho de andar à luz de velas e tostar um cachorro-quente na lareira.

- Não acha que essa é uma atitude pouco romântica? Em todo caso, estou muito contente que esteja aqui. Resolvi despedir Jane...

Fauve olhou para Maggy com um misto de indagação e resolução.

- Eu estava-me perguntando quando é que isso iria acontecer. Loulou e eu apostamos nisso, há três meses.

. Fauve abriu a boca, espantada. Loulou, chefe das moças de contato e companheira especial de Maggy, nunca demonstrara nada a não ser resignação, diante do comportamento imprevisível de Jane.

- Quem ganhou? - balbuciou ela.

- Loulou, claro. Há 15 anos que tento e ainda não ganhei uma aposta de Loulou. Mas... um dia... - Maggy riu-se e deu de ombros.

Ela achou que Fauve estava especialmente encantadora naquela manhã sombria, com sua combinação louca de cores e os pés verdes. Qualquer dos Les Fauves, escola de pintura cujo nome ela herdara, teria ficado impressionado com sua neta. Aliás, na opinião de Maggy, qualquer homem ficaria impressionado com ela, se bem que não se pudesse dizer isso a Fauve. Não que ela fosse vaidosa, mas pareceria uma parcialidade normal de uma avó qualquer. Durante decênios, Maggy possuíra o olho mais experiente do mundo para descobrir a beleza e era profundamente grata pelo fato de que Fauve jamais quisera ser modelo. Ela poderia ter sido a melhor de todas - a seu modo, desbancando até Jane - mas Maggy nunca desejara esse tipo de carreira para ela.

- Que horas são? - perguntou Fauve, de repente. - Deixei meu relógio em casa.. é nisso que dá a gente se vestir às pressas. E não quero perder o novo comercial de ricota que Angel fez.

- São quase 10:30.

- Bom, está bem na hora. Posso ligar sua TV? - Fauve fez um gesto para o aparelho de televisão que Maggy tinha para fiscalizar os vários comerciais em que apareciam suas moças. - Ou está ocupada? Posso assistir no meu aparelho, se estiver.

- Não, fique aqui, meu bem. Gostaria de vê-lo e não tenho assim tanta coisa a fazer hoje. Ouvi dizer que Angel está entrevistando empresários... ela decolou, como você disse que aconteceria

Fauve ligou o aparelho e sentou-se na cadeira diante da mesa de Maggy. As duas mulheres olharam para o vídeo e assistiram, enquanto Angel tentava convencer até a elas, durante 30 segundos espantosos, de que ricota de leite desnatado podia ser um motivo de adoração de gourmets.

Terminado o comercial, elas se apertaram as mãos, felicitando-se, rindo juntas, cada qual com o mesmo tom alegre e vibrante, livre de qualquer convenção, uma risada que fazia com que todos que a ouviam parassem para escutar e desejar ardentemente tomar a ouvi-la.

- Você teve razão em passar Angel para nossa Central Máxima - disse Maggy. - Esse anúncio deve figurar para sempre.

- Parece que estou vendo Angel tentando resolver se compra um prédio de apartamentos ou um rebanho de gado, com o lucro. Ela provavelmente vai se decidir por um Jaguar.

Quando Fauve estendeu a mão para desligar o aparelho, as palavras "F7ash do Plantão de Notícias" apareceram no vídeo. Ela deixou ligado, para ver o que tinha acontecido. Apareceu o rosto de urna locutora, falando rapidamente.

 

"Julien Mistral, considerado o maior pintor vivo da França, morreu hoje de pneumonia, no sul da França. O pintor tinha 75 anos de idade. Sua filha Madame Nadine Dalmas, estava com ele por ocasião de sua morte. Detalhes ao meio-dia."

 

Nem Fauve nem Maggy se moveram. O choque as prendeu em suas cadeiras, enquanto outro comercial se desenrolava. De repente, Maggy se levantou de um salto e desligou o aparelho, mas Fauve continuava sentada, imobilizada, extinta a luz de seus olhos. Maggy foi para junto dela, debruçou-se, passou os braços em volta de seus ombros e puxou a imóvel cabeça ruiva para o seu peito.

- Meu Deus, meu Deus, saber disso assim - murmurou ela, ninando Fauve nos braços.

- Não estou sentindo nada. Absolutamente nada. Devia sentir alguma coisa, não? - disse Fauve, quase baixinho demais para Maggy ouvir.

- É que foi tão de repente... também não sinto nada, mas vou sentir.

Por um instante, as duas ficaram caladas, agarradas, escutando uma sirene no tráfego na Rua 57, sem ouvi-la. Julien Mistral estava morto e o tempo parara para as duas mulheres, pois ambas o tinham amado.

Na mesa de Maggy havia uma fotografia num porta retrato. Como se a foto estivesse juntando-se a elas, em seu choque, cada qual se viu olhando Para aquela imagem de Teddy, a maior modelo de todos os tempos; a moça que fora filha de Maggy, amante de Mistral e mãe de Fauve.

Por fim, Maggy se levantou e soltou Fauve, enquanto seu espírito prático francês dominou suas emoções paralisadas e lhe disse o que tinha de acontecer em seguida.

- Fauve, o enterro... você vai ter de ir. Vamos... volto ao aparta mento com você. Vou ajudá-la a fazer as malas. Casey pode lhe providenciar a passagem de avião.

Fauve moveu-se pela primeira vez desde o comunicado da televisão. Foi a uma das janelas e olhou para a chuva lá fora. Falou sem virar a cabeça para Maggy.

- Não.

- Como "não"? Não entendo. - Não, Magali, eu não posso ir.

- Fauve, você está em choque. O seu pai morreu. Sei que não falava

com ele há mais de seis anos, mas claro que tem. de ir ao enterro dele. - Não, Magali, não vou. Não posso.

 

 

                                 Capitulo 2

 

Paris estava en fête, apaixonada por si mesma. Era uma segunda-feira, em maio de 1925, e por toda parte os vizinhos concordavam que nunca, ao que se lembrassem, os castanheiros se haviam carregado de tantas pirâmides cremosas de flores. Mas só paravam para notar o desfile de dias de céu azul e noites estreladas quando não estavam, ocupados com os mexericos, pois nunca, mesmo na história dessa capital de todas as capitais, o fermento dos mundos das artes, moda e sociedade tinha produzido um vinho tão pungente e embriagador.

Naquela manhã de maio, em seu ateliê, Chanel estava criando o seu primeiro costuminho preto; naquela manha, Colette estava dando os toques finais no escandaloso manuscrito de La Fin de Chéri. O jovem Hemingway e James Joyce, meio cego, tinham saído naquela madrugada, bebendo juntos, enquanto Mistinguette estreara na véspera no Casino de Paris, provando novamente, tão certamente quanto um toureiro exige o aplauso do povo, que a arte de descer uma escadaria pertencia a ela. Os irmãos Cartier tinham comprado o colar mais maravilhoso do mundo, três fios de pérolas cor-de-rosa que haviam sido colecionadas durante dois séculos, e muita gente estava esperando para saber a quem o venderiam.

Maggy Lunel não se importava nada com colares de pérolas, de pé numa esquina de Montpamasse, chamada Carrefour Vavin. Ela estava devorando o seu segundo café da manhã, um punhado de batata frita quente que acabara de comprar de um vendedor de rua por quatro cêntimos. Chegara a Paris há menos de 24 horas e, aos 17 anos, estava achando que fugir de casa para procurar o seu destino era um negócio que dava uma fome infernal.

Os transeuntes da Rue de Ia Grande Chaumière se viravam para lhe lançar um segundo olhar e muitas vezes um terceiro, pois ela estava ali plantada como se fosse dona da calçada, alta, de pernas compridas, desinibida e aparentemente não se dando conta em absoluto do contraste entre seu rosto e suas roupas. Estava vestida segundo a silhueta atlética dos tempos, na última moda, com urna saia de lã azul-marinho pregueada que lhe cobria os joelhos e uma blusa de crepe branco, amarrada abaixo da cintura.

Mas numa época em que nenhuma dama, rica ou pobre, era vista na rua sem chapéu, ela estava de cabeça descoberta e seu rosto não se mostrava deformado e pintado na versão de uma boneca muito pintada, com ruge e boca em feitio de coração, usada pelas mulheres em toda parte, de forma a ficarem todas parecidas. Tinha a beleza forte e ousada de um dia futuro, de urna era que só surgiria dali a um quarto de século. As maçãs do rosto pareciam cimitarras gêmeas sob a extensão alva de sua pele e ela mantinha a cabeça sobre o pescoço comprido como uma flâmula de guerra.

Numa época em que todas as mulheres tinham cortado os cabelos, os dela caíam longos, lisos e lustrosos, no tom laranja escuro de geléia de damasco, e suas sobrancelhas grossas, não depiladas, desobedecendo a moda, eram apenas um tom mais escuro, sobre olhos afastados quase demais. Estes eram francos, brilhantes e bem abertos, o branco fresco e luminoso, as íris do verde amarelado de um cálice de Pemod antes de ter sido diluído na água. Os lábios de Maggy eram tão cheios e bem marcados que se constituíam no foco de seu rosto, um sinal tão enfático quanto um sinal luminoso.

Maggy Lunel, mastigando com pesar as últimas batatas, parecia um grande gato dourado andando ao vento. Nada, em sua pose confiante, revelaria sua idade ao transeunte, mas sua pele era macia e nova como as palmas de um bebê e onde se estendia sobre o nariz reto e bem-feito, era coberta por leves sardas.

Maggy limpou as mãos com o lenço e olhou em volta para o Carrefour Vavin. Ela estava a um passo do Boulevard Raspail. Do outro lado dessa larga avenida ficava o começo da Rue Delambre. Do ponto em que ela estava, na calçada, todas as outras ruas pareciam estar descendo. Ela teve a sensação de estar no topo de uma colina suave no meio de um grande lugar aberto, como se aquele cruzamento fosse a principal avenida de uma grande cidade, completa por si mesma. Em todas as direções, Maggy tinha extensos panoramas do céu fresco e ventoso da primavera, interrompido pelas copas dos, castanheiros. Mas não havia nada de pacato naquela vista. O próprio ar estava carregado de centelhas de energia e até os pombos pareciam ocupados. Parecia-lhe que os passantes estavam quase correndo para chegar ao seu destino.

Ah, pensou ela, como desejaria abocanhar Paris com os dentes; e mastigar e mastigar, até possuir esta cidade, esse cofre de tesouros trancado, cheio de objetos desejáveis. Ela passou o peso do corpo de um pé para outro, impaciente por comelwr, batendo com o sapato de salto Luís XV abotoado de um lado, virando a cabeça para tentar olhar para dentro de cada táxi que passava, tão dominada pela curiosidade e ansiedade, que nem notou que ela mesma se tomara objeto da atenção de um grupo crescente de pessoas, que se juntara em tomo dela. Era uma turma estranhamente variada: moças com roupas baratas, de cores vivas, velhas de avental e chinelos; velhos avós fumando e criancinhas puxando as mãos das mães, meninos e meninas que certamente deveriam estar no colégio, todos esperando com um ar de paciência resignada, o que fazia Maggy parecer uma potranca nervosa na largada de uma corrida.

Aos poucos, formaram um círculo fechado em torno dela e suas conversas pararam, enquanto olhavam para a estranha e se cutucavam.

- Está esperando alguém? - perguntou uma mulher gorducha de seus 35 anos.

Maggy levantou os olhos, espantada, olhou em volta do círculo e sorriu. - Espero que sim, madame. Estou no lugar certo, não? - Isso depende.

- A feira dos modelos? Não é aqui que devo esperar para arranjar trabalho como modelo de pintor?

- É o lugar certo - disse um garoto de 12, olhando para ela com muito interesse. - Eu sou do métier. Nem era nem nascido quando fui pintado pela primeira vez - gabou-se ele. - Mas minha mãe estava no último mês.

- Cale a boca, imbecil - disse a mãe e empurrando-o para trás dela. - Você não é modelo - disse ela a Maggy, acusando-a.

A foire aux modeles era uma instituição que começara em Montmartre uns 75 anos antes, quando os modelos profissionais de pintores se reuniam para serem contratados em volta do chafariz da Place Pigalle. Quando os pintores passaram para Montparnassee os modelos os acompanharam, continuando a esperar trabalho de pé, no meio a da rua, todas as manhãs de segunda-feira.

Famílias inteiras tinham-se sustentado com esse ofício durante gerações e o aparecimento de Maggy no meio deles foi recebido com o profundo ressentimento que qualquer grupo de profissionais demonstra para com um evidente iniciante.

- Se alguém pagar para me pintar - retrucou Maggy - isso não me torna modelo?

- Então, está pensando que é só isso, é? Pois saiba que é um trabalho danado de duro, mocinha.

- Bom - disse Maggy, decidida, enfiando as mãos nos bolsos da saia e assumindo uma pose bem reta e segura em seus sapatos novos e apertados.

Os modelos que tinham-se juntado em tomo dela, para ouvir essa conversa, bloqueando a calçada, de repente se afastaram, quando todos se viraram para olhar para uma garota bonita, com um chapeuzinho verde jade sobre os cabelos escuros cortados, "à Ia garçonne" que vinha-se requebrando pela rua com um admirador de cada lado, de braços com ela. Ao avistar Maggy, ela a examinou de alto a baixo, com um olhar penetrante. Ergueu as sobrancelhas, surpreendida, e depois deu de ombros, em sinal de desprezo. Falando bastante alto, para que todos ouvissem, ela comentou:

- Então é esse o tipo de selvagem que nos chega das províncias hoje em dia, é? Aquele pé de feijão obviamente nunca viu uma tesoura. Duvido que tenha sequer ouvido falar de água e sabonete... sinto um forte cheiro de curral por aí.

Ela deu uma risada de desprezo, fingindo não ouvir a onda de risinhos abafados provocada por suas palavras e desapareceu pela rua.

- Quem é aquela... sujeitinha? - perguntou Maggy, indignada.

- Aquela é Kiki de Montparnasse. Você nem a reconheceu? Ora, aquela é uma modelo... a rainha entre todos nós. - A mulher sentiu prazer em frisar a ignorância de Maggy. - Todo mundo conhece Kiki e Kiki conhece todo mundo. Você está mesmo nos cueiros, nem há dúvida.

Quando Maggy ia responder, sentiu certa mão pousar em seu braço e fazê-la virar, de repente.

- O que temos aqui?

Dois homens estavam olhando para ela. O que falara era mais baixo do que ela e estava com uma roupa de almofadinha, paletó listrado e calças muito bem passadas, um alfinete na gravata e chapéu de palha meio caído de lado. Tinha olhinhos pequenos e espertos e um sorriso que mostrava dentes pequeninos e amarelos.

O segundo homem era tão monumental quanto o sólido tronco de árvore no qual se encostara. Os olhos, azuis como o alto mar, eram desconcertantes em sua firmeza e fixidez. Ele tinha 1,90m de altura e uni ar selvagem mas nobre, que era duplamente espantoso naquela cena de cidade cheia de gente, por não parecer domado pelos costumes ou pela consideração urbana. Ele poderia ser um alpinista contemplando o mundo, do alto de um pico escalado, Tinha uma cabeça magnífica, arrogantemente sustentada por um pescoço grosso e forte, uma testa larga, nariz proeminente e confiante e urna boca larga. Os cabelos eram de um ruivo escuro, crespos e maltratados. Olhando para Maggy com uma expressão avaliadora, ele tinha o ar de um galante cavaleiro do passado a caminho da guerra, a despeito de suas calças marrons de veludo e camisa azul de gola aberta.

- Mistral - disse-lhe o mais baixinho - o que é que você acha? - Ele pós a mão debaixo do queixo de Maggy e girou a cabeça dela devagar, de ura lado para outro. - Muito interessante, hem? Os olhos... um colorido muito curioso. E, positivamente, há alguma coisa original... esquisita mesmo, nessa boca... um tanto canibal, você não diria? Van Dongen não faria grande coisa disso. - Ele pegou nos cabelos de Maggy, como se estivesse numa loja de fazendas, esfregando-o entre o polegar e o indicador. - Hum... pelo me nos está limpo e ela não o cortou.

Maggy estava rígida pelo choque. Homem nenhum a tocara daquela maneira, em toda a sua vida. Numa defesa maquinal, ela se focalizou num objeto neutro; três molhos de alho-poró que o homem mais alto estava carregando debaixo do braço, como se fossem um livro. Enquanto os dedos do homem mais baixo levantavam os cabelos dela de cima das orelhas, para que pudesse examinar seu perfil, ela deu um passo à frente, estendeu a mão e agarrou um alho-poró grande e branco, por suas raízes cabeludas e acinzentadas. Ela o levou à boca e seus dentes cortaram o vegetal em dois, de uma vez, as folhas grandes e verdes caindo na calçada. O homem de paletó listrado, Vadim Legrand, conhecido por todos como "Vaya", deixou cair a mão enquanto a via mastigar. Ela deu outra mordida.

- Você podia dizer "por favor" - disse Julien Mistral.

- Quando a gente olha para os animais no jardim zoológico, também tem de lhes dar comida - respondeu Maggy, as mandíbulas mexendo-se vigorosamente. Mistral não sorriu.

- Mistral - disse Vava, com um ar de decisão - vou levá-la para a academia, para ver como ela é. Venha.

Ele fez um gesto indicando a Maggy que devia acompanhá-lo à academia de pintura de Ia Grande Chaumière, a alguns passos dali.

- Por quê? Já me olhou. O que mais quer? - perguntou Maggy.

- Quer ver seus peitos - disse o garoto, coth um ar de importância. - Lá dentro? Agora? - perguntou ela, intrigada. A mãe do garoto riu-se, com malícia.

- Vá andando, menina. Vá se despir numa sala de aula vazia, como todas nós. Pensa que está escondendo alguma coisa especial, que eles nunca viram? Ah, essas principiantes! Pensa que é feita de madrepérola?

- Vem ou não vem? Resolva - insistiu Vadim. - Na verdade, hoje não estou precisando de modelo.

- Vou - Maggy ouviu sua voz dizer. - Claro.

Ela se virou e o acompanhou depressa, querendo sair das vistas do grupo de modelos antes que pudessem ver a onda de calor que sentia subir-lhe ao rosto, o rubor que lhe atormentava a vida.

- Espere aí, Vava. - Mistral passou por ela num passo e fez o pintor menor parar. - Vou ficar com essa garota.

- Eu a vi primeiro:

- Que diferença faie, diabos? Estará me confundindo com alguém que liga a mínima, Vava?

Vadim deu o seu sorriso amarelo.

- Com essa são uma dúzia de vezes que você já me fez isso.

- Quando eu quero alguma coisa, não é apenas pata te amolar.

- Ah, bravo! De sua parte, isso é quase uma dessas, Mistral. Pois 1eve-a. Leve-a! Tenho mesmo de trabalhar no retrato de Madamme Blanche, Ninguém compra as suas obras, de modo que você tem tempo para satisfazer a sua curiosidade; mas me diga: está em condições de pagar a um modelo?

- Quem é que está? Mas tampouco posso me dar – ao luxo de perder tempo pintando retratos lisonjeiros de mulheres ricas – disse Mistral, com indiferença, sem se importar se estava ou não insultando Vadim. - Venha - disse Mistral a Maggy, apertando a mão de Vadim depressa, se despedindo.

Ele pegou o canivete, cortou as raízes de outro alho-poró, deu-o a ela e foi andando pelo Boulevard Montpamasse sem ver se ela o estava seguindo. Maggy pegou o alho-poró, enfiou-o como um lenço no bolso do menino que tinha falado com ela e correu atrás de Mistral, assobiando um trecho da melodia do Java - uma música de dança, cativante e insistente, que ela ouvira na véspera, subindo até sua janela pela porta aberta do bal musette ao lado de seu hotel barato.

Julien Mistral estava de péssimo humor, ao cortar caminho em direção a seu estúdio, no Boulevard Arago. Fazia anos que vinha martelando sua pintura, como se fosse um presidiário acorrentado a quem tivessem dado urna rocha imensa e um martelinho, mandando que reduzisse a rocha a pó. Ele estava empenhado na luta que se tomara sua única meta desde o dia em que saíra de uma turma na acole des Beaux-Arts da Sorbonne e resolvera pintar ao seu jeito, pintar de acordo com seus sentimentos e não seu cérebro. Nos quatro anos decorridos desde esse dia, Mistral verificara que era quase impossível desligar a cabeça, escapar da prisão mesquinha de educação francesa, ir livremente além do classicismo que sempre dominara o centro da pintura francesa. Ele se consumia com a tentativa de pôr a tinta na tela sem o domínio de seu cérebro francês educado.

O homem alto andava depressa sob as árvores antigas do parque do Hospital Cochin, sem ligar para a moça, que tinha de correr para acompanhá-lo. Ele se esqueceu da existência dela, pensando com raiva na exposição que visitara com Vadim, mais cedo, naquele dia.

Mesmo aquele calhorda do Matisse, mesmo ele está metido no jogo de xadrez, e não na pintura. Usa o contraste de duas cores para criar uma terceira. , , uma que simplesmente não existe, danem-se os olhos dele... por que não se intitula matemático e pronto? Ou um decorador? E quanto àquele maldito acrobata Picasso e seu amigo Braque, esse Braque sombrio, maçante, imitador, cacete, os dois não são em nada melhores... perseguindo a besteira do Cézanne de reduzir toda a natureza a um cone, um quadrado e um círculo, reduzindo tudo ao chão até esgotarem toda a vida, todo o ar... que vão todos para os quintos do inferno!

Ele estava tão zangado que passou o número 65 e só se deu conta de que tinha ultrapassado seu destino depois de andar meio quarteirão. Virou-se de repente, praguejando, e com Maggy bem atrás dele, entrou pelas portas abertas que davam para uma passagem coberta.

A cité dos pintores do Boulevard Arago, construída em 1878, parecia uma aldeia da Normandia. Urna rua de seixos rolados levava a duas carreiras de casas de dois andares, com telhados altos, de duas águas e paredes de vidro.

Compridos caminhos de cascalho bordejavam um jardim maltratado cheio de macieiras, malvas-rosa e gerânios. Cada um dos pequenos estúdios também tinha seu jardinzinho particular, cercado de buxo e portões baixinhos.

Maggy acompanhou Mistral, quando ele subiu três degraus íngremes e abriu sua porta da frente. Ele foi à sua cozinha desarrumada e olhou em volta, irritado, procurando um lugar onde pôr o alho-poró, enquanto ela ficou junto da porta de entrada, intimidada pelo silêncio dele e o seu modo de se projetar através do ar como se fosse um inimigo. Ela estava corada devido à caminhada longa e apressada e tinha o queixo bem levantado, para disfarçar sua timidez repentina e desacostumada.

Por fim, Mistral jogou o alho-poró no chão e passou ao grande estúdio, fazendo um sinal com a cabeça para Maggy acompanhá-lo. Ela olhou em volta, pasma. Por toda parte havia telas e por toda parte havia cores, cores como ela jamais vira, cores que ela nem imaginava existirem dentro das paredes de um aposento, cores em que ela sentia que poderia nadar como num grande rio. Havia arco-íris, nuvens, estrelas e flores gigantescas; havia crianças, circos e cata-ventos; havia soldados, mulheres nuas, bandeiras, cavalos saltando, um jóquei caído e sempre um rio de cores arrancadas do próprio sol.

- Lá é o quarto de dormir - disse-lhe Mistral, apontando. - Vá se arrumar. O roupão está lá.

Maggy viu-se num quartinho contendo pouco mais do que uma cama. Num gancho atrás da porta estava pendurado um quimono de seda vermelha, empoeirado, que Mistral tinha para as modelos.

Maggy tirou a saia e a blusa, dobrou-as com capricho e colocou-as sobre a cama. Ela parou, a boca seca. "Os pintores pintam a pele", pensou ela, em pânico, voltando-se para suas aulas de escola de arte, para se tranqüilizar. "Rubens pintou montanhas de pele branca com manchas vermelhas. Rembrandt pintou pele verde amarelada. Boucher pintou pele rosa e branca. A pele é a substância mais pintada na história da pintura." Com dedos trêmulos, ela tirou as lindas meias novas de seda. "Os pintores são como médicos... um corpo não passa de um corpo... um objeto, não uma pessoa", pensou ela, num gemido íntimo crescente.

Muitas vezes na vida, Maggy se metera em situações das quais só a sua autoconfiança, bem arraigada, pudera salvá-la. Ela sabia,. quando resolveu fugis para Paris para ser modelo de pintores, que naturalmente teria de posar despida. Com sua bravata costumeira, achara que naturalmente poderia fazer isso e levara seus planos adiante.

Agora, numa ensolarada manhã de maio, viu que estava tremendo e suando ao mesmo tempo. Ela não levara em conta sua experiência de vida. Nenhum homem jamais a vira nua, nem mesmo um médico, pois ela nunca estivera doente na vida.

Ela tentou assobiar um trecho da melodia da Java da véspera, enquanto, com urna determinação frenética, baixava a alça da combinação; mas o medo deixara sua boca muito seca para assobiar, enquanto ia tirando aquela peça de roupa que só possuía há alguns dias, sua primeira peça íntima de adulto. Por baixo da combinação de algodão, ah, que vergonha, tinha apenas umas calcinhas brancas, novas, finas, de pernas largas, de acordo com a nova moda. Nada, nenhum poder no mundo, pensou ela, poderia fazer com que as tirasse.

- Por que diabo está demorando tanto? - gritou Mistral do estúdio, com rispidez.

- Já vou - respondeu ela, com voz fraca. O tom impaciente da voz dele a fez vestir o quimano sobre as calcinhas e apertá-lo em volta da cintura. O piso estava tão frio sob seus pés, que ela tornou a calçar os sapatos. Atrapalhada, mexeu nos botoezinhos, desistiu e saiu do quarto com as alças dos sapatos soltas e fazendo um barulhinho a cada passo. Parou a uns três metros de Mistral, que estava preparado diante de um cavalete, e aguardou instruções. Toda a luz do aposento foi absorvida pelo choque entre seus cabelos cor de laranja e a seda japonesa vermelha.

- Vá ficar junto da janela, com uma das mãos sobre as costas dessa cadeira.

Ela obedeceu e ficou muito quieta.

- Pelo amor de Deus, o quimono - disse Mistral, irritado.

Maggy mordeu o lábio e, com mãos trêmulas, desamarrou a faixa e deixou o roupão cair.

Maggy tinha ombros largos e a comprida curva vertical de seu pescoço, juntando-se à horizontal de suas clavículas, era forte e ardente. Os seios eram temos e vivos, tão jovens que quase pareciam cones, altos e bem separados, com bicos pequeninos, pontas firmes e salientes. A linha do corpo, das axilas à cintura, tinha uma tensão e uma nitidez perfeitas. A pele era tão polida, tão branca, que absorvia a luz envolvente e depois a refletia, de modo que ela luzia como que iluminada por dentro.

Instintivamente, Mistral reagiu contra a beleza dela. Ele estava acostumado com a nudez facilmente oferecida da modelo profissional, que usava sua pele com a mesma naturalidade que um vestido velho. A nudez para ele só tinha valor porque pintar o corpo nu era um negócio intensamente sério. Maggy, postada ali resoluta, como Joana d'Arc na fogueira; tornou-se imediata e furiosamente erótica. Quando ele percebeu que ela o excitara, ficou zangado, em autodefesa.

- Que diabo você acha que isso é... o Folies Bergère? Desde quando uma modelo posa de calcinhas e sapatos? Hem?

Ele fitou Maggy, furioso. Ela tirou os sapatos e começou a desabotoar os botões que prendiam as calcinhas, na cintura. Urna lágrima de humilhação e raiva escorreu de cada olho.

- E agora, o que é? Um striptease? Isso é algum bordel? Acha que é para isso que a contratei? - berrou Mistral. - Basta, não se incomode!

- Não faz mal - murmurou Maggy, a cabeça abaixada. O botão resistiu aos seus dedos e ela lutou com ele.

- Fora! - ordenou Mistral. - Já disse que basta. Não posso pintar uma modelo que fica encabulada. Você é absurda, ridícula! Nunca devia ter vindo. Desperdiçou o meu tempo, diabos. Fora!

Ele fez um gesto tão raivoso como poderia ter feito para expulsar um gato que tivesse passado por cima de uma tela recém pintada, mandando-a correndo de volta ao quarto de dormir, o quimono embrulhado em volta do corpo, como uma manta.

- Idiota, idiota, idiota! - Maggy se amaldiçoava enquanto fugia, toda vestida, do estúdio de Mistral. Ela não ousara olhar de novo para ele antes de sair, mas, se tivesse olhado, o teria visto de pé junto da cadeira da janela, a imagem do corpo nu de Maggy gravado em sua mente, contra sua vontade.

 

 

                                       Capitulo 3

 

Tremendo e furiosa consigo mesma, Maggy fugiu na direção dos Jardins do Luxemburgo e quase caiu no primeiro banco vazio que encontrou, sem dar atenção ao mundo barulhento das crianças brincando. No período da última meia hora, o sonho que a dominara durante quatro anos se transformara num tal sofrimento de fracasso que ela se abraçou protetoramente e baixou a cabeça, envergonhada.

Uma jovem mãe sentou-se ao lado de Maggy e se ocupou com seu bebê. .Seus sentimentos de importância e orgulho se transmitiram a Maggy, mesmo no meio de suas emoções. Ela levantou a cabeça e olhou em volta, para um mundo pintalgado, em que os velhos tomavam sol enquanto os novinhos corriam, atentos a suas brincadeiras. Seu coração começou a se reanimar quando um menininho correu em sua direção e pós uma bola de borracha grande no seu colo. Ela abriu os braços e rolou a bola pelo caminho, para ele. Ele a trouxe de volta, com a mesma esperança de um cachorro trazendo um pedaço de pau, e em breve ela se viu no centro de um grupo de crianças, atraídas pela novidade de um adulto condescendendo em brincar com eles, tão diferente de suas próprias mães, cujas palavras eram uma ladainha da infância francesa: "Não peque; cumprimente direitinho; não se suje; não corra demais; tire isso da boca."

Maggy brincou durante uma hora, fugindo para um mundo de brincadeiras simples que tinham o sabor de seus primeiros anos de colégio, quando ela fora um capeta, uma garota levada, com um leque de cabelos rebeldes que voavam ao vento como as asas de um grande pássaro, a única menina no colégio que sabia jogar pedras melhor do que qualquer dos meninos, pegar qualquer bola, trepar em qualquer muro.

Logo depois que a última criança foi levada para casa, para almoçar, Maggy também saiu do parque. A fome a levou de volta ao Carrefour Vavin, mas todos os restaurantes por onde passou estavam cheios. Passava pouco do meio-dia e nas calçadas do Dome e do Rotonde não havia uma cadeira vazia. Os garçons corriam de um lado para outro, colocando cadeiras e mesas extras, mas rifo havia lugar onde os não iniciados se pudessem sentar, já que ninguém era tolo de deixar um lugar da primeira fila do teatro mais empolgante do mundo.

Maggy parou junto de um vendedor ambulante e comprou um cravo vermelho, que pregou na blusa. Seu ânimo voltou de repente e ela se virou para o Select, de cabeça erguida, na esperança de que esse café menor tivesse lugar para ela, lá dentro. Junto da porta, fez um ziguezague para evitar o aglomerado de homens de pé diante do bar comprido e descobriu uma mesinha vazia no canto extremo da sala, junto da janela grande, com cortinas, um lugar abrigado e discreto.

Economicamente, pediu apenas um sanduíche de queijo e uma limonada e ficou olhando para o mundo de gente barulhenta, desordeira, displicente, vestida de modo bizarro e apinhando-se atrás das mesinhas de madeira do bar como se todos pretendessem passar o dia ali. O som de conversas rouquenhas e altas, inchando como um rio na primavera, se avolumava em tomo de Maggy. A medida que o local se enchia de fumaça, ela percebeu frases em francês, falado em uma dúzia de sotaques diversos, pois aquela era a época em que os artistas estrangeiros dominavam Montpamasse, os dias de Picasso, Chagall, Soutine, Zadldne e Kisling, os anos de Chirico, Brancusi e Mondrian, de Diego Rivera e Foujita. Os pintores franceses, como Léger e Matisse, eram a minoria, enquanto os norte-americanos, alemães, escandinavos e russos acorriam ao quartier.

Feliz em seu anonimato, sentindo-se invisível porque não conhecia ninguém, Maggy nem notou os olhares interessados que lhe eram dirigidos. Ali, enfim, estava a cena exótica que ela esperara encontrar. Era essa a vida de que falara Constantine Moreau, seu professor de arte no ginásio. Pintor fracassado, ele enchera as mentes dos alunos com histórias fantásticas da vida cultural de Montpamasse, enchendo as cabeças deles com histórias meio verdadeiras de festas a que ele nunca fora convidado e brigas em que nunca estivera metido. O que lhe faltava em capacidade letiva, ele compensava com sua paixão pela vida artística, no triste exílio que ele transmitia, ao pintar vivamente o drama tempestuoso e violentamente pigmentado de uma Paris da qual ele tanto ansiara, em vão, fazer parte. Foi Moreau quem deu à imaginação de Maggy o lar que ela procurava, quem fez de uma vida boêmia em Montparnasse sua fantasia onipresente, quem lhe garantiu que o próprio Renoir teria desejado pintá-la, mesmo ela sendo mais alta do que a maioria das outras mulheres do mundo. Quase boquiaberta de assombro, ela olhava para o desfile de excentricidade forçada dentro do Select. O paraíso deve ser assim, pensou ela. Se ela ao menos fizesse parte daquilo!

- Bem, pequena, então você é a novata, não? Deixe que eu lhe ofereça uma bebida.

Maggy virou-se, sobressaltada. Nem tinha notado uma mulher sentada à mesa ao lado, que a examinava atentamente, desde o laranja violento dos cabelos à audácia notável, e quase igualmente violenta, de suas feições.

- Bem, é ou não é? - perguntou a mulher.

- Ah, sou nova aqui, sim - disse Maggy, assustada, olhando para a estranha. Ela devia ter mais de 40 anos, pensou Maggy, mas ainda possuía uma beleza tão rosada, embora fosse mais do que gorducha, como uma das moças viçosas pintadas por Fragonard que tivesse chegado à meia-idade e engordado.

- Eu sou Paula Deslandes - declarou a mulher, com um ar importante. - E você?

- Maggy Lunel.

- Maggy Lunel - repetiu ela devagar, como se provasse o nome. Seus

olhos míopes, com o tom castanho de um charuto caro, olharam atentamente I para Maggy. - Não é mau. Tem um certo encanto, um certo arrojo, brio... talvez sirva. Em todo caso, tem as duas silabas essenciais e como não há outra Maggy trabalhando no quartier, que eu saiba, e eu sei de tudo que há para saber. Aprovo em essência, pelo menos no momento.

- Que sorte para mim. E se eu não merecesse a sua aprovação?

- ]Tens, bens! Ela senta e late. - O sorriso de Paula, que tinha o poder de dissipar qualquer desânimo, aumentou. - Você é atrevida, para uma provinciana.

- Uma provinciana! - explodiu Maggy. - É a segunda vez em um dia. Ah, mas é demais!

Embora ela nunca tivesse conhecido outro parisiense além de Moreau, sabia que o provinciano é assunto de troça constante e superior, para qualquer pessoa que tenha a sorte suprema de ter nascido em Paris.

- Mas isso salta aos olhos, minha pombinha - disse Paula, sem se desculpar. - Não importa. Cerca de 90% das pessoas do quartier são provincianas. Mas eu... eu sou a exceção.

Ela possuía um imenso orgulho de si, essa filha das ruas de Montparnasse, uma "for da calçada", como ela gostava de dizer com um suspiro romântico, filha de um fabricante de molduras que nascera e sé criara a poucas centenas de metros do Carrefour Vavin. Tudo o que Paula Deslandes conhecia, ou queria conhecer, sobre a natureza estava encerrado dentro dos muros dos Jardins do Luxemburgo e tudo o que sabia da humanidade - e ela era imbuída do assunto como uma cereja no fundo de uma garrafa de conhaque velho - ela aprendera durante os milhares de horas que passara posando nos estúdios de pintores ou sentada num café. Paula representava, com sua forma redonda, farta e roliça, a personificação da paixão da conversa fiada, conversa infinita, que estava tão profundamente fincada na vida artística de Montparnasse.

O encontro com Maggy colocou Paula na mais alta categoria dos três únicos estados de espírito a que ela se permitia. Ela tomava a sua temperatura emocional todas as manhãs e nunca reconhecia um estado de espírito que não fosse bom, melhor ou magnífico. Magnífico, havia muito, estava reservado para um acréscimo à sua lista de amantes - sempre houve e sempre haveria homens que apreciam uma mulher que encarna esse clássico trio de prazeres; bela, gorda e quarentona. Recentemente, ela descobrira que saber de uma notícia nova antes de qualquer outra pessoa do quartier tinha a propriedade de colocá-la num estado de espírito que merecia a designação de magnífico; e seu encontro com Maggy prometia um banquete de novidade.

Às segundas-feiras, dia em que estava fechado o restaurante dela, La Pomme d'Or, Paula se regalava com uma volta por sua aldeia de Montparnasse, tecendo as muitas meadas de conversas e mexericos que ela fora sabendo durante a semana de atividades. Todas as noites ela presidia aos jantares dos artistas e colecionadores de objetos de arte do mundo inteiro, que tinham tornado o seu restaurante tão lucrativo. Paula Deslandes era uma historiadora natural, sem instrução, que sabia facilmente juntar informações esparsas de modo a formarem uma trama social coerente.

- Bem, então, Maggy Lunel... então as coisas não deram muito certo hoje com Mistral, hem?

- Oh! - exclamou Maggy. - Como pode saber alguma coisa sobre isso? Nunca me viu na vida!

- As notícias se espalham rápido, nesse cantinho de Paris - respondeu Paula, satisfeita.

- Mas... quem lhe contou?

- Vava. Ele foi ver Mistral logo depois que aquele grande sacana pós você para fora, coitadinha. E, sendo como é, Vava naturalmente não perdeu

tempo em espalhar a história. Ele parece uma velha, é o que digo sempre. - Ah, não!

Maggy martelou sua saia nova com os dois punhos, castigando seus joelhos rosados e ousados. Ela se sentiu mergulhada no seu rubor, outra vez intoleravelmente envergonhada, novamente exibida como uma pudica infantil da roça.

- Isso não tem importância - apressou-se Paula em dizer. - Você não deve levar isso a sério... todo mundo tem de começar em algum lugar.

Mas Maggy não estava mais prestando atenção. Duas mulheres e três homens tinham acabado de se apossar complacentemente de uma mesa no centro da sala. Uma das mulheres era Kiki de Montpamasse, que a fitou descaradamente, cutucou os amigos e apontou para Maggy e Paula. Seus acompanhantes fitaram Maggy e levantaram os chapéus com uma cortesia satírica, enquanto as mulheres davam risadas.

- Aquela ali, de novo! Era só o que faltava! - murmurou Maggy, com raiva.

- O que é que a Kiki tem a ver com você? - indagou Paula.

- Ela me insultou hoje de manhã, quando passou por mim nas ruas.

- Ah, foi mesmo? - murmurou Paula.

- Não acho graça nenhuma - disse Maggy, não gostando do tom pensativo de Paula.

- Nem eu, eu lhe asseguro. Acho isso fascinante. . . aquela vaca é condescendente demais para se dar ao trabalho de insultar qualquer uma. Nesse caso, ela já reparou em você... bem, tenho de reconhecer que ela tem bom olho.

- Então você também a conhece?

- Conheço, sim. Vamos sair daqui. De repente esse café ficou fedorento. Vou-lhe convidar para um almoço de verdade. Venha... ontem à noite ganhei 300 francos no pôquer de Zborowski e Deus sabe que esse marchand pode perder isso. Pare de olhar para aquela vagabunda e seu rebotalho. Faça de conta que elas não existem. Vamos comer um chachlik no Dominique. Que tal?

- Chachlik? O que é isso? Uma coisa que se coma, espero... estou morrendo de fome... estou sempre com fome.

Maggy se levantou depressa, louca para ir embora, desdobrando-se em toda a sua altura de 1,75m. Paula apertou os olhos, ao olhar para cima.

- Meu Deus, quanto vai custar para encher você? Não faz mal, venha, lá deve estar cheio, mas eles nos arranjam um lugar.

Paula conduziu Maggy para fora do Select com a eficiência de um cão terrier, sem nem olhar para a mesa dos amigos de Kiki, que ficaram olhando as com malícia até chegarem à porta.

Dobrando a esquina, seguindo pela Rue Bréa, as duas entraram por uma porta que parecia levar a uma charcuterie. Mais além das vitrinas, cheias de horsd'oèuvres russos, havia uma salinha de teto baixo e paredes vermelhas, com balcões de mármore e bancos altos.

Depois de se empoleirarem diante de um balcão e jaula ter pedido para ambas, ela voltou a suas perguntas.

- Conte tudo sobre você. E direitinho. Vou saber se omitiu alguma coisa.

Maggy hesitou, sem saber por onde começar. Ninguém, em seus 17 anos, lhe fizera essa pergunta. Em Tours, onde ela morara a vida toda, todo mundo sabia de tudo o que havia a saber sobre ela. Deveria embelezar os fatos? Alguma coisa nos olhos de Paula a levou a contar a verdade. Eram olhos infinitamente sábios, no entanto infinitamente bondosos, e Maggy precisava mais de alguém com quem desabafar do que propriamente de comida. Ela respirou fundo para tomar coragem e mergulhou, para acabar de contar a pior parte o mais depressa possível.

- A coisa mais importante a meu respeito sempre foi o fato de meu pai ter morrido uma semana antes do dia em que devia casar com minha mãe... de varíola. Se ele vivesse, eu teria sido apenas mais uma filha prematura, mas, como foi... sou ilegítima.

- Evidentemente... mas essas coisas acontecem, mesmo nas melhores famílias.

- Mas não em respeitáveis famílias judias. Nunca acontecem. Sou a única bastarda em toda a comunidade judia de Tours e sempre fizeram questão de frisar isso.

-.Então, por que é que sua mãe não saiu de Tours e foi morar em outro lugar, fingindo ser viúva, como tantas mulheres?

- Ela morreu quando nasci. Tia Esther sempre disse que ela morreu só para fugir do escândalo que caiu sobre ela.

- Encantador! Tanta compreensão! Foi essa tia agradável quem criou você?

- Não, vivi com minha avó até quatro meses atrás, quando ela morreu.

Maggy pensou com tristeza na velhinha suave que a criara com tanto carinho, na sua casinha, que ficara feliz com os sorrisos de Maggy, e cujo amor incondicional tomara Maggy valente, que sempre resistira à convicção irracional da Tia Esther de que, de algum modo, Maggy devia pagar pela vergonha de seu nascimento.

- Foi minha avó Cécile, mãe de minha mãe, quem me deu o nome de Magali. Ela sempre me chamava assim, embora todos me chamassem de Maggy, pois era um dos nomes de família de que ela mais gostava. Os Lunels foram da Provença para Tours depois da Revolução, e em provençal Magali significa "Marguerite".

- Então, no final das contas, você é do sul?

- Sim. E pelo lado de meu pai, também. O nome dele era David Astruc. Astruc significa "nascido sob uma boa estrela", em provençal... mas não para ele! Minha avó me contava histórias de minha família para me animar, quando os outros guris me chamavam de bastarda. Dizia que, embora os meus pais tivessem errado, eles eram de uma das mais antigas famílias judias da França... de muitas centenas de anos antes das Cruzadas... e que eu sempre devia me lembrar disso com orgulho.

Maggy fez um gesto com os braços compridos, num arabesco ardente, animada com as recordações das histórias que a avó tinha contado da vida em cidades com nomes melodiosos: Nimes, Cavaillon, Avignon.

- Mas o que aconteceu, depois que ela morreu? - perguntou Paula, comovida com o senão quase infantil de Maggy pela grandeza desaparecida.

- Ah, é por isso que estou aqui, por isso que tive de partir de Tours para nunca mais voltar. Minha tia não podia esperar para se ver livre de mim. Mal acabou o enterro, começou a caça a um marido para mim. Não em Tours, claro... lá eu sempre seria a bastarda dos Lunels. . . mas em outras cidades. Por fim, ela encontrou uma família em Lille. Tinham um filho tão feio que não conseguiam encontrar uma garota nem para sair com ele, quanto mais casar... e combinaram o casamento!

Furiosa, Maggy afastou os cabelos de suas orelhas elegantemente posicionadas.

- Um casamento de conveniência. Nesses dias de hoje. . . sim, ainda fazem isso. Assim que eu soube, comecei a fazer meus planos.

Enquanto ela parava para comer o chachlik, lembrou-se do dia em que sua rebelião se transformara de um sonho inconseqüente em um ato necessário. O casamento proposto fez com que a idéia de fugir para Paris saísse do reino da fantasia. No decorrer dos anos, ela economizara 500 francos dos presentinhos da avó, gastando 300 nas lojas de departamentos da Rue Bordeaux, comprando uma mala barata e algumas roupas prontas. Sua única extravagância foram as meias de seda, três pares; mas como poderia enfrentar Paris com meias de algodão pretas?

- Então - Paula interrompeu seus pensamentos - em resumo, você é urna bela e virgem judia órfã.

Maggy riu-se diante dessa interpretação, num tom alto e alegre, mostrando o brilho de seus dentes perfeitos, os olhos amarelo esverdeados luzindo como o alvo de uma caça ao tesouro, na luz fraca do restaurante.

- Ninguém me qualificou exatamente assim antes e já me chamaram de muita coisa. Minha avó me mandava falar com o rabino de nossa cidade, o Rabino Taradash, para ele ralhar bem comigo, pois sabia que ela nunca poderia fazê-lo de modo convincente. E eu ia ter com ele para levar um sermão pelo me

nos uma vez por mês... assim ele variava, dizia ele, da preparação dos meninos para o bar mitzvah... e ele ficava tão envolvido na lógica de minhas explicações que, no final, apenas me fazia prometer que eu não ia mais fazer as coisas e ,eu não fazia mesmo. Fazia alguma coisa pior. Mas "bela"... não, só a minha pobre avó me chamava assim. Nem de "virgem", tampouco.

- Então, você é virgem?

- Claro que sou! - Maggy pareceu ficar sobressaltada. Ela passara a vida toda metida em encrencas por andar com urna porção de garotos levados, mas eram só companheiros, parceiros de travessuras.

- Melhor assim - disse Paula. - Pelo menos, por enquanto. Você ainda tem tudo pela frente e é o melhor meio de se começar, em Paris.

Paula já vira gerações de garotas de Montparnasse aparecerem e desaparecerem. Ela as vira partir em Bugattis, com milionários, para nunca mais voltar; e as vira morrer em uma semana de algum tipo violento de sífilis; vira as que se casavam com pintores e passavam a ser orgulhosas donas de casa e, mais freqüentemente, vira as que se casavam com pintores e se transformavam em megeras. Achava que nunca tinha visto uma garota que prometesse tanto quanto Maggy Lunel. Aquela moça, pensou ela refletindo, era uma pessoa inevitável.

- Bem, é isso aí, é só isso sobre mim. Só que comecei da pior maneira possível.

Nem mesmo a barriga cheia, nem mesmo a novidade de uma ouvinte interessada como Paula, fizeram Maggy se esquecer de sua experiência com o pintor que ela sabia se chamar Mistral.

- Escute aqui, pequenina. Você tem de tirar da cabeça Mistral e o seu comportamento execrável. Vadim me diz que ele é um gênio, mas se for verdade eu me pergunto, por que é que não vende seus quadros? Que tipo de gênio pode ser, se não tem dinheiro para poder comer no meu restaurante?

Evidentemente, era essa a medida de Paula para avaliar o sucesso do mundo.

- Aquela mulher, Kiki de Montparnasse, ela come no seu restaurante? - indagou Maggy, curiosa.

- Ela não ousaria pisar lá, aquela trouxa de ossos e pretensão com cara de bolacha. E ò nome dela é Alice Prin. "Kild de Montparnasse", francamente! - O rosto de Paula ficou tão severo quanto o permitiam seus traços redondos. - Intitular-se assim, quando nem sequer nasceu em Paris... é revoltante demais.

- Mas me disseram que ela é a rainha das modelos...

- Contaram mentira. Não sabem de nada. Um dia, e não faz tanto tempo assim, eu é que era a rainha das modelos, mas Alice Pain nunca chegou aos pés do que eu era. - Os lábios de Paula se cerraram, numa linha que não perdoa. Ela não podia propriamente explicar à inocente Mau que aquela que se chamava de Kiki tinha roubado não apenas um, mas vários amantes seus e depois, não se contentando com essas vitórias, ainda se gabara disso em todo Montparnasse.

- Por que será que ela me insultou? Nunca lhe fiz coisa alguma.

- Porque ela é tão prosa e cheia de si que tem de zombar de toda mulher que vê. Mas aquele grupinho de adeptos dela não quer dizer nada Escute aqui, Maggy, você não se parece com ninguém no mundo. Você nasceu para ser pintada.

- Nasci?

Maggy parou. As palavras de Paula, ditas com tanta autoridade, foram tão inesperadas que lhe roubaram a fala.

- Nasceu, sim, como um beija-flor nasce para procurar o néctar, como uma abelha nasce para picar, como a galinha nasce para ser assada. Mas esse negócio de se oferecer na rua, na foire aux modeles, isso, está de cogitação para você, entendeu? Vou-lhe apresentar aos pintores que podem pagar mais de 15 francos para uma pose de três horas... são, todos Meus amigos. Por falar nisso, Mistral lhe pagou alguma coisa? Não, claro que não... isso não me espanta. Mas, de agora em diante, você só trabalha ~ os maiores. Claro, primeiro vai ter de aprender algumas coisinhas, mas nada que eu não lhe possa ensinar. É tudo uma questão de se resolver a tirar as calcinhas... afinal, qual a grande dificuldade nisso? Sabe, é ofício do pintor saber como são feitas as mulheres. Pode pensar o que quiser, mas eles precisam de nós muito mais do que nós precisamos deles.

- É mesmo? - O tom de Maggy demonstrava o seu espanto.

- É mesmo. Imagine só, Maggy. Há 500 anos, desde o fim do Período das Trevas, que os pintores vêm correndo atrás dessa coisa comum, o corpo de uma mulher nua. Não há nada que exija mais a força do artista, nada que revele sua fraqueza tão depressa. Dê-me um homem que não sabe pintar uma mulher nua e eu lhe mostro um homem que não sabe pintar, de verdade.

- Constantine Moreau nunca nos disse isso. Só disse... que, bem, que Renoir teria desejado me pintar.

- Talvez esse Moreau apenas quisesse conservar o emprego dele. O que é que vocês colegiais teriam repetido em casa, eu me pergunto? Bem, que tal? Pretendo lançar você! E não é só pela bondade do meu coração, sabe? Quero que você vença aquela puta, aquela insuportável e intolerável Alice Prin, que tem a audácia de achar que, porque perdi a minha juventude, porque talvez eu tenha engordado um ou dois quilos, que ela tomou o meu lugar. Meu! Ela não sabe ver o futuro, mas eu sei, e um dia ela também vai perder a mocidade... como você também, minha pombinha de 17 anos... até você. Então, Maggy antes que a moça pudesse responder, Paula levantou a mão, em advertência.

- Tem certeza de que está disposta? Não quero perder o meu tempo, se não estiver. É um trabalho maçante, você há de estar sempre com muito frio ou muito calor e, acima de tudo, é bem mais difícil do que se pensa conseguir manter uma pose. Você pode querer chorar de dor, mas nunca deve deixar que o pintor o saiba. Quando terminar a meia hora, aí, e só então, é que você pode se mexer. E dez minutos depois, de volta ao trabalho. Assim. Vamos fazer Alice Prin lamentar o dia em que insultou você? Vamos atacar?

- Ah, sim... sim, por favor!

Maggy derrubou seu copo de chá, com seu gesto instantâneo de aceitação impaciente. De repente o velho sonho estava novamente ao seu alcance, mais precioso ainda diante do fiasco da manhã, de repente ela achou que bastava estender a mão para abraçar Paris. Que importava, afinal, que Renoir tivesse morrido?

 

 

                                     Capitulo 4

 

- Escute aqui, Maggy Lunel - disse Paula, severa. - Um avo usa saias?

- Não os que eu conheço - respondeu Maggy, revirando os olhos, sem respeito. Em menos de uma semana, ela aprendera a gostar de Paula - e ela implicava com as pessoas de quem gostava.

- Não cometa o engano de não me levar a sério, menina! Você tem de imaginar, com toda a força que tiver, que o seu corpo é uma cesta de ovos, ovos de várias cores e tamanhos, os seus seios os ovos de um avestruz, seus pêlos púbicos o ovo pintalgado de uma gaivota, os bicos dos seios os ovos de um pardal subnutrido. Um ovo nu é a coisa mais natural do mundo. É tão básico, tão completo que nem Brillat Savarin jamais sugeriu que se enfeitasse uma casca de ovo.

- E os ovos de Páscoa russos? - protestou Maggy, porém, mais cedo do que imaginara ser possível, ela aprendeu a ficar realmente despreocupada ao expor seu corpo aos olhos dos pintores que começaram a dar-lhe trabalho, como proteger de Paula, e logo se empenharam numa concorrência cerrada pelo tempo dela. Maggy aprendeu, ao sentir que um. rubor ia traí-la, a esconder o rosto com os cabelos, durante os poucos segundos que levava para recapturar a imagem do ovo, mas em algumas semanas ela estava passando com facilidade de pose em pose, seu corpo apenas um objeto.

Pascin pintou-a com rosas no colo, um ícone de autoridade sensual; Chagall a retratou como noiva, voando assombrada por um céu roxo; Picasso pintou-a vezes e mais vezes em seu estilo neoclássico monumental e ela se tomou a odalisca preferida de Matisse.

- Você, popotte - disse-lhe ela - é O meu favorito. Não pelos seus belos olhos, mas pelo seu tapete oriental. Aqui, afinal, posso me sentar... é como uma semana de férias.

No dia seguinte ao em que conheceu Paula, Mamar se mudou do hotel onde estava para um quarto cora uma lareira, uma pia e bidê, no alto do prédio vizinho ao Pomme d'Or, restaurante de Paula. Custava 85 francos por mês, e o único móvel era uma cama grande, enfeitada de dourado. Maggy comprou roupa de cama nova. Paula lhe deu uma poltrona, ela escolheu uma mesa usada e um anuário velho numa loja de segunda mão, e, depois. de ter instalado tudo isso, não sobrou mais espaço a não ser um para um espelho acima da pia. Quando Maggy olhou da janela para as mansardas e chaminés dos telhados cinza esbranquiçados de Montparnasse, destacando-se contra os céus sempre mutáveis de Paris, não desejou nenhuma outra vista no mundo.

O prédio em que ela morava possuía aquela mais rara das criaturas, uma concierge bem-humorada e feliz. Madame Poulard ficava em sua loge escura, trabalhando o dia todo em sua máquina de costura Singer, dedos para cima, calcanhar para baixo, dedos para cima, calcanhar para baixo, a petite coutunère da vizinhança. Não tendo filhos, ela adotava todas as garotas para quem costurava, estudando Le Journal des Modes com Maggy em busca de modelos para copiar, pois as duas saias e duas blusas prontas que Maggy trouxera de' Tours não eram nada apropriadas para sua nova vida.

Em outubro de 1925, Maggy se firmara como a única rival de Kiki e embora Kiki ainda fosse "de" Montparnasse, Paula se vangloriava com o fato de que Maggy não precisava desse qualificativo depois do nome.

Era simplesmente como Maggy, a única Maggy, sempre com um cravo fresco na lapela, que ela andava de táxi, ocupada demais para ir a pé de um compromisso a outro; era como Maggy que ela dançava a noite toda no Le Jockey e no Ia Jungle, ao som de um tango ou um shimmy; era como Maggy que ela se movia à melodia insinuante do beguine no La Bal Nègre, onde ela se sentia tão estrangeira naquele mundo de dançarinos nascidos na Martinica e em Guadalupe, quanto se sentiam Cocteau e Scott Fitzgerald, que também dançavam lá.

Maggy foi convidada às lutas de boxe no arque d Hiver, sendo acompanhada por um grupo de admiradores para protege-la do povo rude; e foi muitas vezes às corridas de obstáculos em Auteuil, dando vivas quando seu cavalo saltava todos os obstáculos e depois gastando todos os lucros em champanha para os amigos. Ela nunca ia às corridas sem um palpite para um cavalo e raramente perdia, porque os palpites eram excelentes, dados em troca de um sorriso e um abraço repentino de seus braços fortes e esguios.

Quando Maggy chegava ao La Rotonde ou ao La Coupole, havia sempre uma cadeira para ela, enquanto se sentava primeiro numa e depois noutra mesa de seus copias. Montparnasse agora já parecia com sua própria aldeia e naquele outono ela comemorou seus 18 anos com uma festa no quarto. Maggy decorou o bidê, enchendo-o com ramos de cravos vermelhos, encheu a única mesa com garrafas de vinho e convidou 100 pessoas. Todos foram levando amigos, que ficaram bebendo e cantando nas escadas, até que afinal chegou a polícia.

De vez em quando ela passava uma noite sozinha em casa, em cima da colcha, olhando o céu da janela e procurando organizar mentalmente todas as coisas novas que tinha visto, todas as pessoas novas que conhecera. O Rabino Taradash teria reprovado muito, sorriu Maggy, se soubesse como ela estava ganhando a vida, aliás, ele nem acreditaria que fosse possível, mas ela achava que ele ainda a chamaria, como antes, de `minha pequena mazik", palavra hebraica usada para descrever uma criança querida que também é travessa e esperta.

Ela não tinha saudades de casa, embora ainda chorasse a avó, especialmente nas noites de sexta-feira, quando, na véspera do Sabá, a paz e alegria enchiam a pequena casa, iluminada pelas duas velas sobre a mesa de jantar e a bênção da luz e do vinho. Nenhum dos Lunels tinham sido judeus especialmente praticantes ou piedosos, no entanto essa cerimônia semanal era reconfortante para Maggy e todo ano ela esperava ansiosa para poder acender mais urna vela no belo menorah (candelabro) de Chanukah da avó, dia a dia, até que todas as velas ardessem docemente em memória das chamas que um dia tinham ardido no Templo de Jerusalém durante oito dias, com apenas óleo para um dia. Agora tudo aquilo pertencia a uma vida que ela deixara para trás. Certamente, pensou ela, não sentia falta do seder da família, na véspera da Páscoa dos judeus, que sempre se realizava em casa de Tia Esther. De algum modo, os parentes reunidos de Maggy nunca deixavam de fazê-la lembrar-se de sua situação vergonhosa; todo ano ela tomava a sentir que sua própria existência era uma mancha no bom nome da família... não, pensou ela positivamente, não, eu não poderia ter suportado aquela vida nem mais um minuto e agora posso esquecê-la para sempre.

Maggy precisava dessas horas sossegadas de reflexão para equilibrar as muitas noites de dança, em que ela fugia da imobilidade de suas horas de posar, para a corrida integral para o prazer, cada vez mais prazer, nunca prazer bastante, que tomava Montparnasse o centro de tudo o que era louco, alegre e dissipado em Paris.

Como Paula nunca deixava de lhe mostrar, havia um aspecto tenebroso na vida em Montpamasse, um mundo em que a bebida e os tóxicos eram uma constante. Mas mesmo sem suas advertências, Maggy teria dançado imune no meio da festa interminável das noites de Montpamasse. Teria sido apoiada por aquele véu que ardia tão rubro, iluminado pelas dúzias de boates e bares que atraíam toda Paris a suas luzes. Ela ainda era protegida por uma inocência essencial e intocável, legado de 17 anos em casa da avó.

Maggy muitas vezes dançava descalça, não só por ser mais confortável, mas também porque - ela era mais alta do que muitos de seus pares. Ela continuava a se recusar a cortar os cabelos. Antes de' sair de noite, com um dos vestidos chemisier sem mangas e decotados, que Madame Poulard fazia de retalhos de fazenda que Maggy encontrava em liquidações no Le Bon Marché, ela repartia os cabelos ao meio e os enrolava sobre as orelhas, ou enrolava um lenço com lantejoulas na cabeça, amarrando-o de um lado e deixando cair sobre um ombro. Porém por mais que fizesse para imitar os penteados da época, depois de meia hora na pista de dança Maggy via que o lenço tinha caído, ou que as mechas apertadas do cabelo tinham-se soltado e sua cabeleira balançava de um lado para outro, como se estivesse galopando em campo aberto.

Não era apenas capricho que a levava a não adotar um penteado mais na moda; os pintores para quem posava preferiam os cabelos compridos, chegando a pagar mais alguns francos por causa dele. O prazer do artista numa mulher se baseia em sua carne em todas as suas manifestações, desde as unhas dos pés à coroa da cabeça, e, unanimemente, eles detestavam a moda que decretava que os cabelos das mulheres deviam ser cortados e lisos. No entanto, como a maior parte das outras mulheres do mundo ocidental, Maggy tinha adotado as linhas de roupas impostas pela moda, a cintura mal delineada nas cadeiras, os seios achatados. O espirituoso pintor Marie Laurencin protestou, dizendo que a mulher não era um pau, mas Chanel, Patou e Molyneux decretaram que ela devia procurar parecer com isso o mais possível e, dentro de seus recursos limitados, Maggy procurava acompanhar a moda.

- Não precisa se fazer de tão importante - disse ela animada a Picasso, ao ver como ele tinha distorcido o corpo dela em suas pinturas. - A idéia não é só sua, chouchou, pois nós mulheres também sabemos reinventar a anatomia. Notou o meu vestido novo, hem? E não se esqueça, eles pertencem exclusivamente a nós, esses seios, coxas e todas as outras partes com que vocês brincam. Não tocar!

Para o trabalho ela comprara um roupão de seda verde maça e, durante seus minutos de descanso, muitas vezes se embrulhava nele e andava pelo estúdio do pintor, examinando a tela inacabada como uma garça.

- Então, é assim que lhe pareço, é? Bom, posso não ter um espelho grande no meu quarto, mas basta olhar para baixo para ver que os dois bicos de meus seios são da mesma cor. Não vê que fez um parecer uma framboesa e o outro um morango fora da estação? E os meus olhos... têm mesmo tantas formas diferentes? Já ouvi dizer que os esquimós têm 25 palavras diferentes para a neve... você então é da escola dos esquimós? No entanto, pode ser que tenha algum talento. Quem sabe? Eu certamente não sou entendida.

Sobre os seus pintores, "fines popottes", Maggy despejava seu sarcasmo, sua generosidade e sua petulância incurável. A Paula ela dedicou um amor sólido, sem qualquer capricho, e que muito agradava à mulher mais velha. Ela considerava todos os triunfos de Maggy como se fossem seus e, vez por outra, quando as duas jantavam cedo na cozinha do La Pomme d'Or, Paula notava que a moça ainda não tinha encontrado um homem. Isso estava claro pelo seu apetite monstruoso, o apetite de quem nunca tivera um dia de sofrimento por amor. Havia tempo, pensou ela, aprovando.

Enquanto Maggy conquistava Montparnasse, Julien Mistral se viu frente a uma crise financeira. Durante anos, ele fizera durar com cuidado o modesto patrimônio que herdara por ocasião da morte da mãe, quase três anos antes, mas agora ele se deu conta, com um choque, de que estava quase acabado. No entanto, era impossível uma economia rigorosa no caso de um pintor que usava tinta e tela tão prodigamente quanto ele.

Ele sempre comprara em tal profusão que convencera Lucien Lefebvre, dono de Lefebvre Foinet, a loja de material de pintura na Rue Bréa, a lhe conceder um pequeno desconto. Havia tintas mais baratas, claro, mas só Lefebvre moía as suas tintas a mão e as misturava com óleo de semente de papoula, em vez de óleo de linhaça comum, de modo que tinham cheiro de mel e possuíam, Mistral estava convencido, uma riqueza de tom que as outras tintas não tinham. Mas mesmo com o desconto, ele estava com uma conta considerável a pagar. Mas limitar-se? Impossível!

Moderação, economia, controle de recursos, viver dentro de seus meios; todas essas virtudes Mistral praticava em sua vida diária, só bebendo um pouco de vinho tinto barato nos cafés e não pagando quase nada pelo aluguel e alimentação. As mulheres não eram despesa, pensou ele, ao se aprontar para sair na noite do baile a fantasia surrealista, ao qual fora convidado por uma moça americana, Kate Browning. Repletas em sua vida como carrapicho em cachorro, nenhuma jamais lhe custara um cêntimo.

Mistral espreguiçou-se e quase bateu com a cabeça no teto do quarto. Resolveu não se dar ao trabalho de fazer a barba nem pentear os cabelos ruivos emaranhados, pois sua única concessão à necessidade de uma fantasia: era um chapéu preto de abas largas, à moda antiga, que ele comprara numa loja de roupas de segunda mão. Não estava mais disposto a incomodar-se com os surrealistas, cuja definição da beleza, ` o encontro casual de uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecação", para ele era uma abominação.

Todos os "ismos" lhe eram igualmente odiosos e nesse grupo ele incluía os partidos políticos de todo tipo, todos os grupos religiosos, e qualquer pessoa que acreditasse em algum sistema de moral claramente formulado. A arte, não tinha nada a ver com palavras como moralidade ou imoralidade, estava acima da moral, acima de definições de beleza. Por que, ele se perguntava multas vezes, as pessoas se atrapalhavam, envolvendo-se em idéias, em vez de se meterem com tintas?

No entanto, estava disposto a perder tempo e ir ao baile. Kate Browning poderia comprar outro quadro, em breve, pensou ele, e Deus sabia que ele podia usar o dinheiro. Ela não era feia, a seu jeito arrumado e severo, quase asceticamente bonitinha, loura e obviamente norte-americana. Nos últimos meses ele lhe vendera duas telas pequenas, o que a tornava ainda mais atraente para ele do que ela merecia, talvez - ele preferia um tipo menos austero.

Em todo caso, ele não ia economizar, nem poderia faze-lo, com seu material. Mistral saiu depressa, fazendo uma bola da conta de Lefebvre-Foinet e jogando-a no jardim do vizinho. Não havia nenhum artista tão sério nem tão ocupado que não fosse a bailes a fantasia, nem mesmo Julien Mistral.

Houve mais bailes a fantasia em 1926 do que em 1925? Ou haveria mais em 1927? Ninguém podia ter certeza, durante aqueles belos anos festivos, pois ninguém podia manter a contagem. Cada semana havia outro baile, patrocinado por um grupo diferente. Naquela segunda semana de abril de 1926, os pintores russos já tinham realizado o seu "Bal Banal' e a internacional homossexual tinha realizado o seu "Baldes Lopes" na Cidade Mágica. Quando os surrealistas organizaram o "Bal Sans Raison d'Être", para comemorar coisa alguma e tudo ao mesmo tempo, todos concordaram que não se podia faltar a ele.

Um ano antes, os surrealistas tinham criado um grande escândalo num banquete oferecido na Closerie des lilas, que terminou numa tentativa de linchamento só impedida pela polícia. Livres-pensadores do tipo mais doutrinário, eles tomavam uma forte posição contra o governo, os militares, a igreja e, para completar, contra os negócios também, comprazendo-se com o seu apelido de "Terror do Boulevard Montparnasse Quando dois deles, Miró e Max Ernst, criaram os cenários do Ballet Russe de Diaghilev, dezenas de surrealistas interromperam o espetáculo soprando trompas, fazendo discursos e atacando os espectadores.

Diante de sua reputação empolgante, quem é que, tendo alguma pretensão a uma posição no mundo das artes, das letras ou da moda, poderia ficar em casa, naquela noite?

- Surrealista ou não - declarou Paula, uma semana antes - vou com a roupa que me ficar melhor, como sempre faço.

- Não a Pompadour? De novo! - perguntou Maggy. - Você é impossível... estou farta de suas fantasias e você também devia estar.

- Só há um motivo para se ir a um baile a fantasia - disse Paula, serena. - Você vai para exibir a parte de seu corpo que o acaso de viver nessa época banal a impediu de revelar, em suas roupas de todo dia. Não estou querendo ser espertinha... deixo isso para as que não têm nada de especial para mostrar, que não têm magníficos ombros brancos, meu delicioso par de seios, minha cintura que ainda é fina. Mas... só para variar vou como Du Barry, para mudar um pouco da Pompadour, não?

- Tão pouco, que nem importa. Mais uma vez, as suas saias largas de tafetá rosa, o corpete apertado de cetim azul, um fichu de rendas, mais rendas nos punhos, sua cabeleira empoada e seu sinal preto... você me envergonha!

- Ah, eu sou sempre subestimada - suspirou Paula. - Em vez do fichu de renda vou usar uma serpente estofada presa no meu ombro direito, passando por baixo de meus seios nus e bem presa no meu ombro esquerdo, de modo que a língua do bicho me lamba a orelha.

- Seios nus?

- Mas claro... pensei que tinha explicado.

- Félicitations! Estou orgulhosa de você.

- É pouca coisa. É só pedir emprestado a serpente e estou preparada. E você?

- Vou de fruteira.

- Que horror! Limões nos cabelos e um vestido como uma maçã? Maggy, isso não é digno de você.

- Espere e verá.

Maggy mexeu o café e abaixou as pálpebras sobre os olhos. As pestanas espessas e retas, escurecidas de rímel, pareciam duas lagartas compridas e espigadas em suas faces.

- Com quem você vai... Alain?

- Alain e três amigos dele... quatro homens, para ser exata.

- Como sempre, há segurança na multidão, não é?

Maggy inflou os lábios e soprou um cabelo imaginário, como fazia quando estava encabulada, hábito infantil, causa de muita implicância no passado. Paula, como sempre, tinha razão.

Montparnasse parecia um jardim zoológico sexual superlotado. Todo tipo, variedade e sortimento de parceria sexual podia ser encontrado lá, às dúzias. Desde o lar doméstico do casal heterossexual, aos casos mais extremados de fetichismo, nenhum aspecto erótico era estranho ou antipático ao 4um?ier. Tudo era possível e permitido.

Nesse ambiente de permissividade ilimitada, e portanto assustadora, Maggy se achara, desde o princípio, mais confortável como espectadora do que como participante. Ela ralhava consigo mesma, com o correr dos meses, maldizendo sua virgindade, de que ninguém, a não ser Paula, desconfiava; mas a despeito de todos os argumentos que ela encontrava a favor de ter um d que continuava virgem, embora seu 189 aniversário já tivesse de todos o seu estado de castidade obstinada e fora de a Iludia com seus ares de liberdade, a impertinência hoanens, suas respostas risonhas às importunações deles, sua nudez displicente. Como todos supunham que ela devia ter um amante, o fato de Maggy rejeitar as atenções de todos os homens quando se tomavam sérias, apenas lhe deu a reputação de ser a amante secreta e fiel de algum afortunado.

Alain e seus amigos levaram toda a tarde e parte da noite para criar a fantasia de Maggy, que era um trompe l'oeil. O seio direito foi pintado como um cacho de uvas verde pálido, o esquerdo como um pequeno melão de Carpentras, o tipo que é servido inteiro, com vinho doce na sua cavidade. Os braços e ombros tomaram-se pencas de bananas, algumas maduras, outras ainda mostrando um toque de verde, e um abacaxi crescia abaixo de seus seios e sobre o umbigo, as folhas pontudas se perdendo em seus pêlos púbicos. Os quadris eram fatias de abóbora e as coxas talos de ruibarbo. Dos joelhos aos pés ela estava emaranhada em videiras pintadas e suas axilas continham maçãs.

O rosto ficou sem pintura, a não ser duas abelhas na testa, os cabelos presos para trás por uma guirlanda de flores. Ela se recusara a ceder aos protestos dos pintores, que insistiam em dizer que a faixa de gaze verde que ela pretendia usar como biquíni improvisado era incompatível com o espírito da ocasião.

Os artistas tinham construído uma fruteira oval, de madeira, de 1,80m, coberta com tinta prateada, onde pretendiam carregar Maggy, à altura dos ombros. Cada um dos homens usou cartazes sobre collants e suéteres pretos. André representava um Brie, Pierre um Camembert inteiro. Henri uma fatia de Roquefort e Alain uma metade de Chèvre... cada pedaço de queijo pintado de modo tão realista que parecia comestível. Os quatro pintores faziam parte de uma escola de pintores realistas e seu conjunto de queijo e frutas pretendia ser um protesto contra os surrealistas e suas distorções.

- Esperem - protestou Maggy, quando fizeram uma tentativa para levantar a fruteira. - Preciso de alguma coisa para as minhas mãos. Posso levar uma flor, ou alguma coisa?

- Não, isso estraga tudo. Fique só com a cabeça pousada num dos cotovelos, deitada absolutamente imóvel. E, pelo amor de Deus, não transpire. Que diabo, Maggy, por que não nos deixou usar óleo, em vez de aquarela?

- Porque não pretendo passar o dia amanhã tomando banho de terebintina - respondeu Maggy. - Assim mesmo, Alain, a tinta prateada está um pouco gosmenta. Não sei se secou bem. Algum rei não pintou os escravos com tinta dourada, uma vez? Acho que morreram disso.

- Conversa, conversa. Em todo caso, só vai sair na sua bunda, se é que vai sair. Agora vamos... o baile já começou há uma hora. Maggy, desça daí e venha a pé conosco. Quando chegarmos à Bullier, montamos esse milagre.

- Deixe pôr meu casaco e sapatos.

- Para quê? Está quente, lá fora - protestou Alain.

- Mas fica a três ruas daqui.

- Não ouse manchar nada - disse Pierre, apreensivo.

- Pensando bem, vou pegar um táxi... de casaco. Encontro vocês lá. - Ah, a burguesinha - zombou André.

Maggy avançou para-o pintorzinho, ameaçadora.

- Quer morrer, mosquito? Estrangulado por duas bananas? Retire o que disse.

- Você não se zangaria, se não fosse verdade - disse ele, fugindo de junto dela.

- Ei, não há tempo para namoros - gritou Alain. - Se chegarmos muito tarde, todo mundo vai estar alto demais para nos notar... avante! Todos para as barricadas!

Havia 500 pessoas apinhadas no Bullier, quando Maggy chegou. No meio do povo estavam Darius Milhaud, Satie e Massine. A Condessa de Noailles estava lá, bem como Paul Poiret e Schiaparelli, junto com Picasso, fantasiado de picador. Gromaire tinha vestido o hábito de um jesuíta espanhol, ao qual acrescentara calcinhas de mulher em forma de balão, debruadas com fitinhas de um rosa forte, e Brancusi se fantasiara de príncipe oriental, com contas até os joelhos e um tapete persa nos ombros. Pascin, acompanhado como sempre por seu bando de ciganos submissos, músicos de jazi e garotas bonitas, estava de preto, como sempre.

"Bravos" espantados soaram logo que Maggy apareceu no alto da grande escadaria. Ela fez sua entrada carregada no alto e perfeitamente equilibrada, durante a descida perigosa. Um por um, os músicos avistaram Maggy, no meio da fumaça, e com trombetadas e clangores de todos os instrumentos da orquestra anunciaram sua passagem lenta pelo imenso salão de baile, deitada ali imóvel sobre a fruteira de prata. Por onde ela passava, parte da multidão parava de dançar para se reunir em volta do grupo de realistas, aplaudindo e gritando sua aprovação. Maggy tinha sido pintada com tanta arte que só aos pouquinhos as pessoas foram-se dando conta de que, a não ser um pedacinho de gaze, ela estava inteiramente despida, o que só fez aumentar o rumor da aprovação.

- O que é que é aquilo? - perguntou Kate Browning a Mistral, de seu ponto de observação privilegiado numa das mesas elevadas que contornavam a pista de dança.

- Um manifesto realista - disse ele, dando de ombros. Reconhecera Maggy assim que ela surgira. Ninguém em Montparnasse jamais ostentara uma cabeleira de um tom alaranjado tão berrante, um tom do qual ele nunca se esquecera. Mas ele não conseguia conciliar a garota desajeitada, encabulada, que não sabia nada sobre o ofício de posar com aquela criatura revelada desavergonhadamente, deitada nua diante de mil olhos e rindo. Rindo!

Ele já ouvira falar dela por dúzias de pessoas, à medida que ela se tomava conhecida, e muitas vezes a avistara de longe, andando apressada pelas ruas. Mas eles nunca tinham trocado nenhuma palavra,. nos 11 meses passados desde o seu primeiro dia dela como modelo. Se ele fosse honesto, poderia ter confessado que a evitara, poderia até ter reconhecido que sentia vergonha por tê4a enxotado daquela maneira, mas esses pensamentos eram estranhos à atitude de Mistral diante da vida. Pensar duas vezes numa garota tola?.. . Não, a vida era muito curta, havia muito trabalho a fazer.

- Julien! Você sabe dançar? - perguntou Kate Browning, com o jeito calmamente imperioso que ela nem sabia ser seu, embora só tivesse 23 anos.

- Dançar? Claro que danço. Mas não muito bem, estou-lhe avisando.

Bem, não quer dançar?

- No meio de toda essa gente?

- Vamos, estou com vontade - disse ela, não admitindo ser contrariada.

- O que é isso que estão tocando? - perguntou ele.

- Mountain Greenery. É bonito e saltitante e você não pode ficar aí parado.

Com relutância, ele se levantou, alguns centímetros mais alto do que qualquer outra pessoa na sala, e acompanhou a americana elegante para a pista infernal, onde os corpos se comprimiam de tal modo que a sua falta de habilidade na dança não importava. Por alguns minutos, eles se movimentaram sem jeito quase na orla do povo, enquanto a música mudava para um compasso vibrante de ragtime. De repente, Mistral e Kate foram comprimidos de ambos os lados por dezenas de dançarinos, que se amontoavam para apreciar Maggy melhor, pois ela se aproximava carregada pelos quatro.

Maggy, em seu poleiro, estava envolta num delírio crescente, provocado pela onda quente de admiração e ovação que girava em volta dela. Havia uma liberação imensa em estar despida e no entanto coberta por tinta, como se ela fosse visível e invisível ao mesmo tempo. Ela se sentia como se estivesse pairando sobre o salão de baile, flutuando livre. De todos os lados, as mãos se estendiam para tentar toca-la, mas ela não tinha consciência de ameaça alguma, enquanto os pintores levantavam o oval prateado cada vez mais alto, para mantê-la fora do alcance.

De repente, no meio da multidão, uma voz gritou:

- Abaixo os realistas!

- Abaixo os surrealistas! - gritaram várias outras vozes.

A multidão, que apenas um segundo antes estava de bom humor, a despeito da pressão sufocante da pista de dança, meteu-se na briga, com vontade - era isso que estavam esperando, a noite toda. Kate Browning, alertada do perigo, habilmente livrou-se dos braços de Mistral e conseguiu chegar à orla do povo, deixando que Mistral a seguisse.

Acotovelando-se, empurrando, berrando lemas, os dançarinos cercaram os quatro pintores de Maggy, quase derrubando Alain e André. Pierre e Henri,

O Roquefort e o Camembert, ainda lutaram com coragem. No entanto, sem o equilíbrio cuidadoso que os quatro pintores tinham conseguido, a grande plataforma de madeira se inclinou perigosamente e, com um sobressalto, Maggy percebeu que estava arriscada a cair e ser pisoteada. Ela de repente olhou em volta, atenta, sem perder a cabeça. Por toda parte havia uma massa de corpos, os homens se socando, as mulheres se abaixando e gritando. O lugar tinha virado um motim.

Agachando-se, Maggy se contraiu numa bola apertada e lançou-se da fruteira com um grande salto para o lado, dirigido para o único ponto no salão que parecia estável - o chapéu preto de Mistral.

Ele a apanhou com uma exclamação de surpresa, mas ficou firme, forte demais para perder o equilíbrio no meio do povo. Maggy ficou nos braços dele como uma criança num balanço, sem qualquer medo nem alarma nos olhos, ainda sob o encanto do momento, a despeito de seu salto instintivo para se salvar.

Ela enroscou os braços no pescoço de Mistral e deixou a cabeça cair no ombro dele. Automaticamente, ele apertou os braços e a comprimiu, enquanto ela formava um oval compacto, dobrando os joelhos de modo que as pernas e pés protegessem a parte de trás de suas coxas e sua bunda nua, manchada de prateado.

Por fim, Mistral se mexeu. Havia uma porta para a rua a cerca de uns 30 metros dali e ele se dirigiu para lá, forçando o caminho no meio do povo,

agarrando Maggy como se fosse alguém que ele tivesse salvo do mar. Quando ele chegou à rua, Maggy falou.

- Aonde vamos?

- Não é longe.

- Espero que seja um lugar simples.

- Ah, é sim.

Mistral atravessou a rua, dobrou a esquina e entrou num prédio grande, com uma fachada ornamentada num falso estilo marroquino.. Dentro havia um balcão, atrás do qual uma mulher esperava os fregueses.

- Boa-noite, monsieur. Para um ou dois?

Ela ao demonstrou espanto ao ver um homem carregando uma mulher multicolorida, despida.

- Um, por favor. Temos de esperar?

- Não, está com sorte hoje. Tenho alguma coisa livre... queiram acompanhar-me.

A mulher seguiu por um corredor cheio de portas em intervalos certos. Abriu uma das portas, mandou que entrassem e fechou a porta.

No meio do quarto despido havia uma banheira imensa cheia até em cima de água quente. Numa cadeira ao lado da banheira havia uma toalha, um sabonete e um esfregão. Ainda segurando Maggy, com um movimento rápido. Mistral abaixou-se e experimentou a água, com um dedo. Satisfeito, e sem deixar que os pés dela tocassem no chão, ele a mergulhou na água, molhando os braços até os cotovelos

- Assassino! - balbuciou Maggy.

- Não é que não admire a sua fantasia, mas estava desbotando toda na minha camisa - disse ele, ensaboando o esfregão com força. - Dê-me isso aqui.

- Por certo que não. Isso é trabalho para homem.

Ele tirou o paletó úmido, enrolou as mangas molhadas e ajoelhou-se no chão ao lado da banheira. Maggy tentou levantar-se, mas não conseguiu se equilibrar na banheira funda. Debateu-se, levantando-se pela metade, mas escorregou e caiu de novo. Mistral não fez caso da reação dela e rapidamente aplicou o esfregão a todas as partes do corpo de Maggy que se apresentaram. Dentro de segundos a água transformou-se num cinza espesso.

Maggy começou a rir, indefesa. Recostou-se dentro d'água e ficou olhando sem reclamar, enquanto ele lhe esfregava os ombros e as pernas. Só quando ele chegou perto dos seios é que ela reclamou, com um golpe com as duas mãos, os dedos cruzados com firmeza, bem no pescoço dele. O chapéu de Mistral caiu na água e ele largou o esfregão, apenas pelo tempo suficiente para ela apanhá-lo. Ela jogou o chapéu cheio de água ensaboada bem na cara dele e, enquanto ele praguejava, meio cego, a cara na toalha, enxugando os olhos como pôde, ela acabou de esfregar o resto da tinta de aquarela do corpo, rindo mais do que nunca ao vê-lo ajoelhado no chão, pingando água na camisa, os olhos vermelhos e ardendo.

Por fim, Maggy largou o esfregão no piso de madeira e ficou sentada dentro da água opaca que lhe chegava aos ombros, os braços dobrados na borda da banheira, o queixo pousado nas mãos. Os cabelos molhados colavam-se aos seus ombros, os olhos estavam molhados de lágrimas de riso, mas os lábios curvavam-se num sorriso travesso e ela colocara o chapéu encharcado de Mistral no alto da cabeça.

- Belo trabalho - felicitou ela. - Mas o que planejou para o resto da noite?

Mistral sentou-se nos calcanhares. O que, realmente?

- Estou ficando com frio e com fome - ameaçou Maggy. - E quando sinto frio e fome fico má. Quer arriscar-se? - Havia um desafio na voz dela, em seus olhos, na inclinação da cabeça; até suas sobrancelhas ruivas eram ameaçadoras. Ela podia estar nua e mergulhada, mas o modo como ela se apoderara do chapéu dele o desafiava.

- Não vá embora - disse Mistral, levantando-se de um salto e saindo do quarto, levando o paletó e a toalha molhada e fechando a porta.

- Ah, filho da puta! - exclamou Maggy, em voz alta. Ela olhou enojada para a borda da banheira, onde se formava uma risca cinzenta. Tentou fazer correr mais água, mas a torneira estava trancada. Ela deu de ombros e se levantou na banheira, jogando água sobre si com as palmas idas mãos. Ficou tranqüilizada ao ver que não tinha ficado cinzenta. Saiu da banheira com cuidado e se sacudiu com força, estremecendo como um cachorro grande, espremendo a água dos cabelos. Felizmente a noite estava quente e o quarto mais ainda, cheio do vapor do banho.

De repente, a porta se abriu e Mistral entrou de novo no quarto. Maggy endireitou-se, protegendo a parte inferior da barriga com o chapelão, um braço por cima dos seios.

- Você se esqueceu de bater à porta.

- Desculpe. - Ele lhe entregou duas toalhas limpas. - Enxugue-se... vamos... eu não olho. E aqui está o meu paletó... Vista-o, quando acabar. Tenho um táxi esperando.

- Espero que me leve para jantar num lugar agradável. - Tem tempo.

- Você sabe mesmo lidar com as garotas. - Maggy meteu-se no paletó dele. As mangas ficavam abaixo dos joelhos dela, escondendo as mãos. Desajeitada, ela se abraçou, para apertar o paletó. Estava toda coberta, só as pernas e pés aparecendo. - Bom, estou pronta, e bem imponente, mas você não está grande coisa. Sua camisa está toda molhada - reclamou ela.

- Acho que nós dois parecemos... limpos - disse Mistral, levando-a para a porta da frente da casa de banhos. - Contanto que estejamos limpos, o resto não interessa.

Andando descalça, Maggy o acompanhou à porta da ma. Eles deram uma corrida para o táxi que estava esperando do lado de fora. - Boulevard Arago 65 - disse Mistral ao espantado chofer.

Ainda descalça, mas com o quimono vermelho que ela vestira com um sorriso de surpresa, ao encontrá-lo exatamente onde estava um ano antes, espanto por ele poder continuar pendurado no mesmo gancho como uma recordação distante, Maggy entrou no estúdio, fracamente iluminado, de noite, quando as luzes de trabalho estavam apagadas, e procurou um lugar para se sentar.

O estúdio era tão cheio de coisas quanto o quarto de dormir era vazio. Mistral tinha o costume de visitar os brocantes das vizinhanças, os vendedores de objetos que não podiam ser considerados antigüidades, mas que no entanto não eram novos, e escolher quinquilharias que chamavam sua atenção: uma. imensa caçarola de cerâmica Quimper, com um buraco, uma carranca de navio, meio comida por bicho; o último remanescente de uma coleção de soldadinhos de chumbo coloridos, antigamente magnífica; uma cadeira vitoriana de cetim roxo, debruada de galão roído de traças.

No entanto, embora suas descobertas enchessem a sala, não chegavam a mobiliá-la. Maggy foi com cuidado para a cadeira vitoriana, que pelo menos parecia ter uma' função definida, e sentou-se nela com um suspiro de prazer. Ela estava cheia de um misto de curiosidade e espírito de aventura. Nunca esperara tomar a estar ali e a noite parecia cheia de assombro de experiências.

- Sopa? - disse ela, para a cozinha pequenina, onde podia ouvir Mistral movendo-se.

- Está pensando que isso aqui é restaurante? Quando quero tomar sopa, eu saio. Você vai comer pão, queijo, chouriço e vinho. E dê-se por muito satisfeita.

- Você não é grande coisa como anfitrião.

- Não costumo receber muito - disse Mistral, olhando irritado para o chouriço que estava cortando. Tinha um ar de antigüidade. Ele arrumou, apressadamente, uma bandeja com alguns pratos que não combinavam, urna garrafa de vinho e dois cálices, um deles lascado, e levou isso para o estúdio. Parou de repente, ao ver Maggy na cadeira roxa, os cabelos cor de laranja espalhados sobre a seda japonesa vermelha. Parecia que tinham acendido um fogo no canto de seu estúdio.

- Você não pode se sentar aí.

- Por que não?

- Essa cadeira está-se desmantelando.

- O que você sugere, então? O chão?

- Tenho uma mesinha lá fora no jardim... pensei em comermos lá.

- Mas você também tem cadeirinhas lá fora no jardim? - perguntou ela, com um toque de riso na voz.

- Tenho, por estranho que pareça.

- Ah, bom, então quem pode resistir a tanto esplendor?

Maggy acompanhou Mistral ao jardim, onde lilases super crescidos, as flores brancas bem abertas, se penduravam brilhando sobre uma mesa de madeira pintada de branco. Duas cadeiras de madeira recurvada estavam sobre a grama alta, os encostos em forma de coração e almofadas de algodão listra

do nos assentos de madeira. Mistral acendeu uma vela alta num castiçal peque no de cobre torcido, enquanto Maggy se debruçava sobre o prato e examinava o chouriço.

- Vá, coma um pedaço - insistiu ele.

- Falta-lhe... como direi?... certa juventude.

- É melhor não comer - disse ele, depressa, pondo o prato na grama.

- Acho que o queijo provavelmente não fará mal. Está com fome mesmo?

Posso ir buscar alguma coisa... tem uma charcuteria que fica aberta até tarde.. .

- Não, não. Estava implicando com você. Mas você jantou?

- Há...

- O que é?

- Estava tentando lembrar-me onde jantei.

- E?

- Foi com uma mulher... uma rica colecionadora Americana, que me convidou para aquela casa de doidos surrealistas.

- Nesse caso, ela tem graves motivos de queixa. - Maggy levantou o cálice de vinho, debruçando-se, séria, e fazendo um gesto para Mistral, para ele fazer o brinde. - À dama, vamos beber à dama que começou a noite com Monsieur Mistral. Quem sabe com quem a terminará? Eu lhe desejo boa sorte.

- Boa sorte - disse Mistral, tocando o cálice dela com o dele. Ao beber, todas as lembranças de Kate Browning desapareceram. Nada existia além daquele canto sossegado e apagado de um jardinzinho fragrante, esse espaço que parecia ter sido sonhado e passado a existir fora do mundo real, um espaço em que a música da voz de Maggy, petulante, grave e livre como a água corrente, o isolava de sua vida primitiva; um espaço em que seu jardinzinho parecia ter sido criado de novo, tão recente, secreto e escondido como se fosse o solo de uma floresta tropical.

Ele sentiu a sua vontade, sua vontade de confiança, intratável, fugir dele como uma peça de roupa pesada que ele tivesse usado por tempo demais. Sentia-se dez anos mais moço, sentia-se percebendo o ar quente de abril e o murmúrio rico da grama alta e o aroma doce do lilás e o gosto áspero do vinho. Maggy foi um choque delicioso. Ele não estava preparado para ela. Não a estava esperando. O que ela estava fazendo ali? Ele tornou a beber e a pergunta se dissolveu, não no vinho, pois ele não bebera muito vinho, mas à vista dela.

Sem qualquer luz, a não ser a da única vela, ela enfeitava a noite. Sua pele refletia a lua, quando ela se movia. A chama da vela provocava um reflexo cintilante no verde de seus olhos, uma centelha tão viva que fazia a lua de abril, enfiada no meio das árvores, parecer insignificante e distante. O som de sua voz parecia estar excitando-o a sentimentos de uma rebelião confusa... rebelião contra o que, ele não poderia dizer.

Quase com relutância, como que obedecendo a uma ordem, ele cedeu a um comando desconhecido, porém irresistível. Atirou-se na grama e pegou os pés descalços de Maggy nas mãos, esfregando-os de leve.

- Pobres pés. estão frios - murmurou ele.

Ela não respondeu. O contato com as mãos dele, grandes, flexíveis, poderosas, o calor e a ligeira aspereza da pele dele, a fizeram tremer com uma emoção que ela não compreendia. Ela lançou a cabeça para trás e lhe pareceu que a névoa de estrelas estava sussurrando.

Então, os lábios dele estavam nas solas de seus pés, experimentando, indagando, mal roçando na pele. Ela prendeu a respiração, com medo de se mover, fascinada com as sensações que irrompiam de seus pés até às próprias raízes dos cabelos, sensações penetrantemente urgentes que pareciam uma língua estrangeira, ouvida pela primeira vez e misteriosamente compreendida. Ela mordeu o lábio quando a língua dele tocou no arco de seu pé, delineando, explorando, mais ousado a cada segundo. Ela soltou um gemido quando sentiu os dentes dele raspando seu calcanhar; debilmente, procurou puxar os pés desnudos dele, mas ele os apertou mais. Ela sentiu seus joelhos se afastando sob a seda japonesa, enquanto a língua dele subia por uma das pernas e depois a outra, encontrando aquela curva macia e íntima atrás dos joelhos.

- Pare - exclamou ela. - Por favor.

Mistral levantou-se, um vulto enorme, no escuro, e a pegou nos braços. Ele olhou para ela com a testa franzida, concentrado.

- Parar? Tem certeza? - Ele beijou-lhe os lábios, de leve, e recuou para poder ver seu rosto. - Ah, não tanta certeza, não toda a certeza - suspirou ele, beijando-lhe a boca, aquela suculência ao mesmo tempo carnal e inocente, beijando aqueles lábios que se salientavam em seu rosto pálido como uma flor opulenta.

A confusão de Maggy e seu susto repentino desapareceram com os beijos dele. Ela riu, não só de prazer, mas com uma nota nova na voz, a bandida que sempre vivera dentro dela subindo à tona. Seus lábios se tornaram lábios de bandida, suas mãos as de uma bandida, enquanto acariciavam o pescoço dele e se estendiam para sua cabeça crespa, para puxá-la para si de novo. Ela se desenroscou dos braços dele, ficando de pé, e ousadamente comprimiu todo o seu corpo contra o dele. Eles ficaram juntos por um momento prolongado, crescendo juntos como duas árvores altas, oscilando um pouco, os lábios entreabertos, depois quase imóveis ao se estirarem juntos, procurando um conhecimento além do conhecimento. Com um grunhido de desejo, Mistral abriu a seda pesada do quimono, louco para tocar no corpo que só conhecia com os olhos, louco para sentir a pele de Maggy, para segurar-lhe os seios nas mãos, para explorar os biquinhos firmes com as pontas dos dedos. Ela falou, num transe:

- Aqui não... lá dentro.

Tropeçando, desabotoando a camisa ao andar, ele a acompanhou ao quarto, àquela cama larga debaixo da janela, pela qual o luar caía sobre os lençóis. Em segundos, ele estava despido, ereto, esplêndido.

- Deixe-me olhar - mandou ela, num tom de uma curiosidade tão urgente que ele ficou parado quando ela se aproximou, liberta de toda a sua inexperiência, enquanto passava os dedos delicadamente pelos ombros e peito dele, até a cintura, detendo-se nas formas e texturas, os músculos firmes dos braços, os bicos espantosamente duros dos mamilos que se es condiam no cabelo crespo do tórax. Só quando se satisfez, quando o corpo dele não era mais inteiramente estranho a ela, é que ela desfez a faixa do quimono e o deixou cair ao chão. Deitou-se na cama, esperando por ele.

Afinal, pensou Maggy, afinal. Ela não se submeteu às mãos dele, mas as encorajou. Arqueando-se e espreguiçando como uma gata, ela brincou com ele, segurando os seios nas mãos e oferecendo-os à boca dele, deixando que ele os devorasse até que, com um movimento rápido e ágil, ela recuou e se lançou ao peito dele, os lábios procurando os mamilos dele. Imitando-o, ela os chupou até que ele quase chegou a gritar, empurrando-a, não podendo suportar a excitação.

- Ah, então essa brincadeira não serve para os dois? - murmurou ela e logo teve sua resposta, pois, com mãos inseguras, ele abriu-lhe as pernas e se debruçou sobre ela, ajoelhado na cama, a boca quente e aberta procurando entre suas coxas, a língua palpitando. Um vasto silêncio parecia envolvê-los. Maggy estava imóvel, rígida, quase sem respirar, esperando, não mais brincalhona.

Ainda ajoelhado, sentado nos calcanhares, segurando a cintura de Maggy com ambas as mãos, Mistral se lançou àquele corpo. Ela estava tão molhada que ele pôde avançar vários centímetros antes de chegar a barreira. - Ele empurrou, sem compreender, e não foi adiante.

- O que...? - murmurou ele, consumido de ardor, olhando para baixo, para o escuro do triângulo em que estavam unidos. Ele tomou a empurrar, sem sucesso. Então, rompido o feitiço da inatividade, Maggy se muniu de toda sua coragem e empurrou para diante, querendo abrir-se para ele. Todos os músculos de suas pernas compridas e fortes estavam tensos, os dedos esticados, as mãos agarravam o colchão e as costas se arqueavam enquanto ela empurrava a pelve para cima, para a espora de carne dele, saliente e quente, o único foco do universo. Houve um lampejo de dor, mas ela não fez caso, levantando-se de novo, encontrando a meio do caminho a poderosa penetração dele. De repente ele estava dentro dela, de repente a lança, ponta, haste e cabo, agora uma plenitude de carne mortal, estava envolvida pelo corpo dela e eles ficaram deitados quietos, ofegantes como dois gladiadores de igual valor, que param para se saudar antes de reiniciar sua luta.

- Eu não sabia - sussurrou ele, seu espanto tão grande que só tinha palavras triviais.

- Eu não contei. Faria diferença?

- Não, não.

Eles agora estavam deitados de lado, olhando um nos olhos do outro. Um dos braços de Mistral apoiava os ombros dela e, com a mão livre, ele delicadamente tocou no emaranhado úmido dos pêlos, encontrando a carne tenra que procurava e afagando-a de leve, constantemente, sem parar, mesmo quando ela pediu, até ela se erguer para ele e gritar com um prazer perplexo. Só então é que ele gozou a sério, ainda com um cuidado incomum, acentuando a febre crescente que o chocou com sua força quando ele afinal a penetrou, potente como um grande touro.

 

 

                                       Capitulo 5

 

Na primeira vez em que Julien Mistral pintou Maggy, na primeira vez em que ele foi atrás da sombra entre os seios dela, na primeira vez em que mergulhou o pincel, sem pensar, no vermelhão e pintou aquela sombra, ouviu um "Ah-ah!" cósmico abalar seu cérebro. Aturdido, quase derrubado, ele viu, viu como nunca tinha visto antes, viu core suas entranhas enquanto castigava a tela, o pincel voando quase fora de seu controle, os dedos dormentes com a descoberta, a temperatura de seu corpo subindo tanto que ele teve de tirar a camisa, a impaciência de perseguir sua visão tão grande que, por fim, ele largou os pincéis e espremeu a tinta na tela, diretamente das bisnagas.

Ele afinal estava pintando como sempre soubera que podia pintar, sem inibição, sem cálculo, com uma liberdade tão grande que era como se as paredes e o teto do estúdio tivessem sido arrancadas e ele estivesse de pé sob o céu azul.

Fascinada, Maggy olhava para ele, deitada imóvel num monte de almofadas verdes, sem ousar mover-se até que, muito depois de passada uma hora, ele afinal parou o seu assalto à tela e caiu ao lado dela, radiante, banhado em suor.

Num gesto que nunca sonhara fazer, ele enxugou as mãos manchadas de tinta nos pêlos dela, marcando-a com manchas de verde e vermelho ticiano como se ela fosse outro tipo de tela. Abriu as calças, sem tirá-las e penetrou violentamente, amassando-a nas almofadas com seu corpo grau quente e molhado, até encontrar um imenso alívio que ele saudou com um ruído que era um rugido de triunfo.

Durante várias semanas, Mistral pintou Maggy. Ele sabia que alguma coisa no modo da luz agir sobre a pele dela fora a inspiração para a sua liberação. Não era apenas uma questão técnica, um fenômeno que se podia explicar pela brancura translúcida da pele de Maggy, ou como os cabelos irrompiam em feixes de fogo, ou o fato de sua imaginação estar disposta, ele não sabia e nem perguntava por que, a agarrar as qualidades físicas dela e utilizá-las para dar o salto à frente. Ele também tinha a convicção espiritual de que a luz se derramava de dentro do corpo dela, emanando dele, de modo que, quando ele a pintava, a própria tela se tomava uma fonte de luz. Maggy sabia que alguma coisa de muito importante acontecera com ele, mas quando lhe perguntou a respeito, as poucas palavras que ele encontrou não foram suficientes. Corno a experiência não era intelectual escapava às palavras e Mistral sentia um assombro supersticioso que o impedia de querer falar a respeito.

Desde aquela primeira noite em abril, aquela foi a primavera perfeita da vida de Maggy. Foi a primavera pela qual todas as outras primaveras seriam analisadas e levariam a pior; e ao vive-la Maggy também se observava vivendo. Ela sabia, na parte de seu cérebro que não sentia emoções, que apenas registrava e arquivava as recordações, que aquela era a sua idade de ouro. Sabia, com o conhecimento nato em todas as mulheres, que nada de tão maravilhoso dura para sempre. No entanto, à medida que os dias se sucediam, ela nunca pensava no futuro, nunca se perguntava o que ia acontecer no dia seguinte. Cada dia bastava, era redondo, pleno e completo como a esfera do sol.

Para Mistral também foi um período de alegria imensa, mas antes de ser homem ele era pintor e sua felicidade derivava mais do trabalho que estava fazendo do que da própria Maggy.

Nunca ocorreu a Julien Mistral, depois da noite do baile surrealista, que Maggy tivesse uma vida que a impedisse de posar só para ele, os sete - dias da semana. Ele tomava todo o tempo da moça, como um direito seu, esperando que ela conservasse a pose por períodos anormalmente demorados, pois era incansável e nunca parava, até que ela ficasse com tanta dor muscular a ponto de pedir um descanso. Ele supunha, com um egoísmo tão total que chegava a ser majestoso, que ela estivesse inteiramente disposta a largar sua própria vida, a abandonar seu quarto para partilhar o estúdio dele, a abandonar seu círculo de amigos, a passar sem divertimentos normais, a desistir de todo vestígio de liberdade pessoal. Quando ele largava os pincéis, era simplesmente natural que ela estivesse ali esperando para aliviar a tensão nervosa da criação, abrindo o corpo a seus atos de amor, famintos e violentos.

Maggy não discutiu nenhuma dessas convicções negligentes. Ofereceu se a ele em todos os aspectos, com uma generosidade simples, como se ela fosse um campo cheio de flores altas e viçosas que só cresciam ali para serem colhidas ao bel-prazer dele.

Hora após hora, ela suportou com prazer a concentração do olhar de Mistral, sabendo que ele não estava pensando nela, nem mesmo vendo-a corno Maggy. O amor dela não pedia nada para si, a não ser a satisfação de vê-lo trabalhar. Ele era um homem dominado, um homem cheio de uma tal paixão criativa, que ela considerava aquilo sagrado. Os dois meses em que Mistral pintou os sete retratos de Maggy, a série que mais tarde veio a ser chamada apenas La Rouquine, "A Ruiva", foram meses que em breve ficariam isolados de tudo quanto Maggy ou Mistral conheciam de vida normal. Eles se tornariam tão lendários, cada um deles, como se tivessem sido um dia unidos em alguma aventura heróica, nunca antes tentada por homem algum. A série tornou-se um marco na história da arte, mas nenhum dos dois jamais discutiu isso.

Em fins de maio de 1926, Mistral sentiu-se suficientemente seguro de seus novos poderes para poder abordar novos temas. Depois de terminar o sétimo retrato de Maggy, ele abandonou sua concentração sobre o nu tão repentinamente quanto começara. Voltou-se então para a natureza-morta.

Seu jardim abandonado, com as flores de junho; cada canto de seu estúdio cheio de quinquilharias, resplandecente de trapos como um mercado das pulgas; um jarro de flores roxas e brancas; um melão cortado ao meio - todos esses objetos se apresentavam à sua visão recém inspirada como se ele nunca os tivesse visto. Eles viviam, com tanta certeza quanto Maggy vivera. A luz caía sobre eles, que a aspiravam. O mundo era novo.

Mistral nada pintava senão a vida e, como sua mente dançava, ele mudou para sempre o modo de as pessoas focalizarem seus olhos. Com o ritmo de um bandido, a bravura de um pirata, ele libertou aquela sensação de divertimento, com que ele não tivera contato desde a infância. Saqueou as clareiras ocultas e seu espírito, abrindo-as ao sol, ar e vento, usando seus pincéis como se fossem uma trombeta em que ele poderia soprar e achar o caminho para os portais do céu.

O desaparecimento de Maggy com Mistral da vida do quartier provocara uma onda de fofocas e, quando Mistral a libertou de posar para ele, seu reaparecimento foi motivo de mais perguntas.

- Naturalmente - disse Paula - você fez tudo isso em nome do amor, não?

- Paula! - disse - Maggy, chocada. - Você não espera que eu peça dinheiro a ele!     

- Não, infelizmente, acho que não posso esperar isso. Deus, que são as mulheres.

- Mas você não entende - disse Maggy, com brandura. Ela estava feliz demais para se zangar.

- Pelo contrário. Compreendo perfeitamente e reprovo totalmente. É la folie furieuse... é de se esperar. Mas não pense que vou felicitá-la. Pensei que você tivesse aprendido a ser uma profissional.

- Quanto a isso... sua velha cínica... Julien me deu o meu retrato favorito... o maior e melhor de todos e o que amo mais que todos... o primeiro que ele pintou de mim, nas almofadas verdes.

- Maravilhoso! Meses de trabalho e você possui urna obra de um pintor por cujos trabalhos não há procura! Ah, Maggy, nunca pensei que você ia acabar sendo a empregadinha de todo serviço de um pintor. Isso é para outras garotas, não para você - ralhou Paula, zangada demais para escondei o que estava sentindo. - E agora que ele parou de pintá-la, por ora, agora que tem tempo para voltar a trabalhar onde lhe pagam, imagino que lhe vá pagar o dinheiro que ganha posando para os outros, não?

- Isso não é justo - protestou Maggy. - Julien está trabalhando como um possesso e não tem um sou... naturalmente, estou ajudando e pagando coisas... nada mais natural, mas só até ele começar a vender, Paula.

- Diga-me uma coisa, o que é que Julien Mistral faz por você, além de pintá-la e trepar com você.

- Oh!

Maggy mal podia acreditar que Paula pudesse ter interpretado tão mal a natureza dos laços que a prendiam a Mistral.

- "Oh", diz a boba - repetiu Paula, severa. - E quem é que cozinha e limpa o estúdio e leva a roupa suja para lavar... ou talvez, Deus nos livre, a lave ela mesma... e vê se há bastante vinho e sai de manhã para comprar os croissants e faz o café e aquela cama tão usada? Monsieur Mistral faz tudo isso em troca do dinheiro que você dá para a casa?

- Paula, como você pode ser ridícula. Claro que ele não tem tempo de fazer essas coisas. Ora, eu mal tenho tempo, tampouco... compro alguma coisa na charcuterie e fazemos um piquenique...

- Nem mais uma palavra! - disse Paula. Era pior do que ela pensava. As mulheres que ela conhecera, e havia muitas, que tinham vivido com os pintores, quase sem exceção acabaram mal. Os pintores, mesmo os maus pintores, tinham egos de bebês gigantes. Bebês monstruosos, cada qual era o centro de seu universo e as outras pessoas existiam em órbita em volta deles, só para lhes satisfazerem as vontades.

As vezes, quando Paula estava num estado de espírito caridoso, ela reconhecia que a luta para ser reconhecido como pintor num mundo em que, na sua opinião particular, o maior trabalho já fora feito, era tão tremenda que somente um homem com um ego imenso poderia se levar a sério a ponto de persistir. Talvez sem esses egos eles fossem levados a desistir e virar bancários. Talvez o seu ego fosse só o que houvesse entre eles e o pânico. Mas ela não ligava a mínima para o que os fazia pintar quando, no seu modo de pensar, que ela sabiamente mantinha oculto, uma visita ao Louvre faria com que cortassem os pulsos, em desespero. Ela não tinha um pingo de pena deles, quando se tratava do destino de uma mulher. As vezes, pois era preciso ser justo, às vezes um pintor se casava com a sua modelo e às vezes um pintor e a mulher até ficavam casados, como no caso do bom velho Monet, que pintava jardins e nenúfares porque a mulher ameaçara largá-lo se ele levasse uma modelo para dentro de casa. Mas isso fora há muito tempo.

Paula não tinha ilusões sobre Mistral. Não confiava numa beleza tão displicente e indiscutível num homem. Era perturbador e indecente. A beleza, dizia para si mesma, devia ser reservada para as mulheres que precisavam dela para lidar com o mundo. Ora, até mesmo ela, Paula Deslandes, que não gostava de Mistral, se pilhara olhando-o fixamente na rua quando ele passava, como um salteador, pensando como seria ficar deitada, quente e melada depois do amor, na proteção feroz daquele corpo imenso e musculoso; até mesmo a se pilhara pensando que, se ainda fosse jovem, havia de domá-lo, aquele emproado arrogante que, ela sabia com certeza, tivera breves períodos de paixão com urna dúzia de garotas nas vizinhanças de Montparnasse. Não, aquele não era um marido em potencial para ninguém. E como amante... ah, por que Maggy não podia ter encontrado um homem menos egoísta?

La Vie bohème, pensou Paula com o coração triste, nunca foi mais que uma fantasia de poeta. E lá estava a sua Maggy, a sua querida Maggy, ainda inocente, pensando que a estava vivendo.

- Não faz mal - disse Paula, arrancando-se de seu devaneio. - É que perdi 50 francos nos dados ontem e estou desconfiada da natureza humana, especialmente a minha. Não ligue, não. Com sinceridade.

- Não estava ligando - respondeu Maggy,

Se Paula soubesse mais a respeito de Julien Mistral, poderia tê-lo compreendido melhor, mas não ficaria menos preocupada com o amor de Maggy por ele.

O pintor nascera e se criara em Versalhes, filho único. Se o pai e a mãe permanecessem em casa enquanto ele crescia, ele poderia ter tido um ambiente familiar normal, mas sua infância fora curiosamente estéril, sem risos.

O pai, engenheiro, construtor de pontes a serviço do governo francês, passava muito tempo fora, se não o ano inteiro, trabalhando nas colônias, e a mãe parecia bem satisfeita com esse arranjo. Ela provavelmente de eito qualquer modo de vida que a deixasse em paz para os trabalhos de agulha que eram seu único interesse verdadeiro. Ela bordava magníficas eclesiásticas com uma paixão que não tinha nada a ver com a religião, se bem que talvez tivesse sido mais feliz como freira. Se não tivesse na mão uma peça de bordado, ela logo ficava irrequieta, queixosa e acabava se zangando.

Madame Mistral tratara do filho enquanto ele era bebê, mas assim que Julien pôde ser mandado para a École Maternelle, ela o d menino era sadio e

Praticamente à própria sorte, com a consciência tranqüila. bem-feito; ela possuía uma empregada que lhe dava comida, cuidava para que ele estivesse limpo e o levava à escola.

Desde um tempo no passado, desde quando ele podia lembrar-se, Julien sempre soubera que a maior parte do que ele podia aprender no colégio não valia o trabalho que dava. Ele vivia para era um artista natural, tendo ao seu mesmo se dava. Como todas as crianças, era um artista natural, tendo ao seu dispor uma série básica de símbolos para representar pessoas, casas, árvores, o sol.

Ao completar seis anos, antes da época em que as crianças se apaixonam pelo realismo em seus desenhos, Julien já começara a usar os olhos para dispor os elementos que traçava num todo coerente, uma composição. Ele em breve estava vivendo para as folhas de papel que levava na pasta do colégio, os lápis preciosos que mantinha tão afiados, os creions coloridos em que gastava toda sua mesada. A medida que o desenho se foi tornando o ponto focal de seu ser, ele passou a ser menos falador, menos consciente da passagem do tempo, ao se dedicar aos problemas máximos: a forma das coisas; a relação de uma forma com outra e a relação de todas as formas com o mundo. A gramática, ortografia, matemática e até a própria leitura não tinham nada a ver com os problemas decisivos de feitio e estrutura de que se ocupava sua mente.

Quando os professores protestaram junto à mãe dele, ela concordou que a desatenção de Julien era deplorável. Mas nem mesmo o tremendo sistema educacional francês pode obrigar uma criança a se sair bem nos estudos quando ele não liga para a opinião dos outros, quando o castigo não passa de um aborrecimento sem importância e quando a mãe se esquece de seus crimes assim que sai do gabinete do diretor.

Sem se importar, logo considerado um parvo pelos mestres, ele se manteve como último da turma até ter idade para sair do colégio. Há anos os colegas tinham desistido de tentar se comunicar com o menino ausente, cujo isolamento era tão total que já deixara de ser uma provocação. Se ele fosse tímido, poderia ter sido tiranizado, mas sua aparente falta de interesse pelos colegas o protegia deles, assim como sua altura e força descomunais.

Aos 17 anos, Mistral entrou para uma escola de pintura particular em Paris, onde trabalhou brilhantemente dentro da tradição acadêmica, até ser aprovado no exame para a École des Beaux-Arts. Depois de alguns anos na Sorbonne, ele começou a se sentir avesso a qualquer atitude tradicional quanto à arte. Primeiro só para si mesmo e depois abertamente, começou a dizer que a arte da pintura não pode ser ensinada.

- A técnica, sim; a cor, sim; a anatomia, sim... quanto ao resto, não. Ele abandonou a Beaux-Arts quando mal completara 21 anos e o  d pai, a Argélia, sem protestar, lhe deu os fundos necessários para viver, até que morreu, um ano depois. Quando Mistral tinha 23 anos a mãe também morreu e, além de um legado à sua melhor amiga, ela deixou o pouco que possuía ao filho único.

Julien Mistral estava então com quase 26 anos e ainda era desconhecido no mundo das artes, a não ser pela reputação que conquistara entre alguns de seus contemporâneos. Para ele, todos os donos de galerias pertenciam à categoria de inimigos. Quando Mistral soube que Marcel Duchamp tinha chamado todos os marchands de "piolhos nas costas dos pintores", trovejou que Duchamp não tinha dito nem a metade.

- E Cheron, que pagou a Zadidne dez francos por 60 desenhos? Ele é o mesmo merdinha que jogou para Foujita sete francos e 50 cêntimos por uma aquarela! Só um piolho? Ele devia ser enforcado, tirado da forca ainda respirando e estripado. E 20 francos a Modigliani por um retrato... é inacreditável.

No entanto, a herança dele estava quase gasta e Kate Browning, a americana elegante e rica que o convidara para o Baile Surrealista, ainda não voltara para comprar outro quadro. Mistral pensou se deveria ter escrito, desculpando-se pelo seu desaparecimento. Ele pensou naquilo rapidamente, depois

esqueceu-se e voltou ao seu cavalete.

Katherine Maxwell Browning, da cidade de Nova York, tinha certo talento. Um talento muito, muito pequenino; e, o que era infinitamente pior, ela quase sabia disso. Sua inteligência era viva, seu olho para o belo aguçado; nascera com a triste capacidade de apreciar o que é melhor, desejá-lo, mas não ter a habilidade de produzi-lo. Ela se dizia escultora e seus familiares, todos eles ricos corretores de valores, a consideravam com admiração e perplexidade, como verdadeira artista, pois nenhum tinha um conhecimento profundo da arte, nem queria ter. Até mesmo seus professores no Sarah Lawrence se haviam mostrado encorajadores. Ela sempre conseguira disfarçar a verdade sobre o seu próprio talento, antes que isso lhe chegasse ao consciente.

Kate Browning chegara em Paris em princípios de 1925, para estudar com Brancusi, mas ele não quis saber dela. No entanto, o professor encarregado do ateliê na Beaux-Arts, onde Kate se apresentou em seguida, foi tolerante e deixou que ela entrasse na escola, mesmo depois que Kate lhe mostrou as

fotos exigidas de seus melhores trabalhos na universidade. Ele esperava que, depois de ter pago a rodada obrigatória de bebidas para os outros estudantes, ela comparecesse a algumas aulas e depois largasse os estudos discretamente, como faziam tantos norte-americanos naqueles tempos.

A atitude dele foi ditada não por algum desejo nada francês nem tradicional de ser simpático para com os estrangeiros e sim por uma admiração muito francesa pela beleza imaculada da moça - uma aparência tão muda mente enfática quanto a força de vontade que levara aquela mulher essencialmente maldotada a se instalar no centro da vida artística do mundo.

Ela estava com 22 anos e tinha o tipo raro de crânio oval perfeito, que lhe permitia repartir ao meio os cabelos curtos, louros acinzentados, com impunidade. Sua testa alta se avultava sobre sobrancelhas depiladas e finas, e os ossos salientes das órbitas bem marcadas em volta dos olhos cinzentos davam ao seu rosto urna importância que talvez sem isso não tivesse, devido à rigorosa regularidade das feições. O nariz de Kate era fino, os lábios finos, o queixo pontudo; no entanto, eram essas arestas duras que, no conjunto de seu crânio maravilhosamente formado, faziam dela uma mulher interessante.

No princípio da primavera de 1926, Kate Browning, que falava francês. com uma fluência que compensava com o vocabulário o que lhe faltava em gestos, foi levada para visitar Mistral no estúdio dele, por um de seus colegas da Beaux-Arts.

Desde o primeiro golpe que as telas dele deram em seus olhos treinados, mas não rígidos, ela ficou consumida por um desejo ardente de possuir a obra daquele homem. Ela sabia. Olhou para a obra dele, deixou-se mergulhar no grande rio de cores e soube, de uma vez por todas. Nunca houve qualquer dúvida em sua cabeça, então ou depois, de que Julien Mistral era o maior pintor de sua época e que os outros acabariam concordando com ela.

No entanto, Kate era bastante inteligente e disciplinada para resistir ao impulso que sentia de comprar o máximo possível das obras de Mistral. No seu primeiro encontro, ela escutara calada, enquanto ele trovejava contra os colecionadores particulares.

- Já conheci uns que compram tudo o que algum pobre coitado de um pintor lhes dê, levam tudo, a preços de pechincha, e esperam até que o mercado se equipare aos gostos deles. Então, pimba! Lucros imensos! Chegam a ser piores do que os marchands... pelo menos, com um vendedor a gente sabe quando é roubado.

Julien Mistral teria dado gritos indignados se alguém sugerisse que, enquanto ele falava, Kate estava-se vendo como sua futura patrona, a guardiã de seu talento, protetora de sua carreira. No entanto, desde aquele primeiro dia, ela se via acordando no meio da noite, pensando nele, planejando como poderia toma-lo famoso como sabia que ele merecia ser.

Sua natureza ávida tinha apenas um leve verniz de regras civilizadas Ela era ladina, extremamente ladina, e tão tenaz quanto ladina. Havia forças primitivas sob a personalidade fria que ela apresentava ao mundo e ela dirigiu o fluxo desse poder para aguardar o momento oportuno. Cuidadosamente, escolheu uma das obras de Mistral e, um mês depois, comprou outra. Ela se controlou, pois compreendeu desde o início que a despeito das necessidades financeiras dele - de que fora logo informada pelas antenas receptivas os

ricos - Mistral tinha desconfianças profundas de alguém que parecesse desejar possuir um pedaço dele. E o que era a obra dele senão ele mesmo, lançado cru na tela?

Ela conseguira convidar Mistral ao Baile Surrealista do modo mais natural do mundo e quando ele fugiu com Maggy, ela se limitou a murmurar "paciência", para si mesma, recusando-se a considerar o ato dele como um insulto.

Tal decisão da parte de Kate Browning se deveria ao fato que seu apreço pela obra de Mistral lhe permitia deixar de lado suas próprias habilidades inferiores, sem precisar de uma desculpa, mesmo para si? Teria sua origem nessa oportunidade perfeita de abandonar honrosamente a sua própria luta infrutífera para criar? Ou seria antes o próprio Mistral, e não sua obra, o prêmio que ela procurava? Aquele homem rude, desorganizado, distante, seria a parte mais essencial de seu interesse? Esse homem ruivo, cujo corpo se movia com uma graça de homem criado ao ar livre, cujo rosto era tão inesquecível em sua intensidade, sua força?

Ela nunca se fazia essas perguntas no meio da noite e nem as respostas interessariam. Tudo se concatenara para ela num instante de percepção e, com o seu modo frugal, predatório e completamente resoluto, Kate Browning se dedicou por toda a vida.

Maggy estava na cozinha do estúdio de Mistral, cantarolando e descascando batatas, numa tarde de sábado, em princípios de junho, quando ouviu baterem à porta. Ela olhou para o estúdio onde Julien estava trabalhando. Quando tomaram a bater, ele não ouviu. Maggy abriu a porta, sentindo uma leve curiosidade. Lá estava uma moça bem-feita de corpo, evidentemente senhora de si, que parecia elegante demais para aquelas vizinhanças. Estava com um imaculado vestido branco de crepe da China, todo recortado e cheio de bainhas abertas, e com um chapéu cloche da palha mais fina. O homem que estava com ela, pensou Maggy, tinha o aspecto de um fazendeiro vestido para uma visita à cidade grande, como se tivesse acabado de tomar um bom banho e metido seu único terno decente.

- Monsieur Mistral está? - perguntou a mulher.

- Sim, mas está trabalhando.

Maggy não ousaria perturbá-lo pelo capricho de uma visita ocasional.

- Mas ele está esperando por mim, mademoiselle - disse Kate, com um sorriso educado.

- Ele não me disse...

Maggy calou-se, enquanto Kate passava depressa por ela. Boquiaberta, ela viu o casal entrar no estúdio. Mistral largou os pincéis de má vontade, mas adiantou-se e apertou a mão de Kate, de testa franzida.

- Então! Você se esqueceu mesmo, Julien. Não importa... eu disse a Adrien que não achava que você estivesse nos esperando. Adrien, este é Julien

Mistral... Julien, este é o amigo de quem lhe falei no meu bilhete, Adrien Avigdor.

Enquanto os dois se cumprimentavam, Kate deu uma risada social, uma risada de sala de visitas, uma risada que podia cobrir qualquer situação com

sua nota característica de confiança total e segurança perfeita de que tudo o que a dona dessa risada fizesse ou dissesse seria correto.

Maggy tirou o avental e enxugou as mãos nele. Estava descalça, como sempre, e com uma bata de algodão estampado, sem mangas, que só usava na cozinha. Ela pôs os ombros para trás e entrou no estúdio com o seu andar ágil. Graças a Deus que sou alta, pensou ela, ao apertar as mãos de Kate Browning e Avigdor, ambos mais baixos do que ela. Por que Julien não lhe avisara que estava esperando visitas? pensou ela. Devia ser isso que estava escrito no telegramazinho azul que ele recebera mais cedo e jogara de lado, com um grunhido de aborrecimento.

- Um cálice do tinto? - ela ouviu Mistral oferecer. - Sentem-se, em algum lugar - disse ele, fazendo um gesto vago. - Maggy, traga o vinho.

Procurando quatro cálices inteiros na cozinha, Maggy sentiu uma onda de calor subir de sua garganta à testa. Maldito, não lhe dissera nada. Aquela mulher tinha um ar de quem acabara de saltar de um iate... então era essa a americana que ele largara na noite do baile. Ele não tinha dito que ela era moça e bonita. E aquele vestido maravilhoso! Ah, que vestido! Por que eles estariam visitando aquele bairro pobre? Avigdor não podia ser namorado dela... parecia simples demais para sequer conhecê-la... no entanto, o nome dele lhe parecia conhecido. Ela encontrou uma garrafa de vinho tinto quase cheia, resolveu-se por quatro cálices, desiguais, dois lascados e dois não - para o diabo esse negócio de ser copeira - e voltou ao estúdio.

Enquanto Mistral servia o vinho, Kate ficou falando, sua voz com o tom nasal americano formando um contraste interessante com a correção de seu francês. Adrien Avigdor olhou em volta do estúdio, notou Maggy, com a expressão desatenta de quem está pensando em seus legumes e se ia chover antes do anoitecer. Ele parecia mal estar escutando Kate, mas, assim que ela fez uma pausa em seus comentários, ele falou diretamente com Mistral.

- Vi os dois quadros que Kate comprou do senhor. Gostei muito.

- Foi o que ela me escreveu - respondeu Mistral, desatento, como se o elogio fosse insincero.

E maldito de novo, pensou Maggy. Se esse fazendeiro for um cliente em potencial, Julien podia pelo menos ser amável. O que é que ele pensa que vamos usar como dinheiro, quando eu for ao mercado? Os merceeiros não me deixam comprar fiado, como ele compra as tintas dele. São os meus francos que estamos gastando.

- Posso dar uma olhada? - perguntou Avigdor, os olhos azuis francos e sem malícia brilhando com um bom humor sincero em seu rosto redondo. Ele tinha um ar de amabilidade confiante, um tipo de decência e bondade a que Maggy reagiu, a despeito de seu aborrecimento com aquela visita de surpresa.

- Olhe aqui, Avigdor, marchands como você não "dão olhadas" – disse Mistral, de repente furioso. - Você não vai visitar os pintores só para passar o tempo numa tarde de sábado, a não ser que seja para meter alguma coisa no bolso, não pense que sou idiota. Ora, são os vendedores como você que...

- Monsieur Mistral, o senhor está enganado - interrompeu Avigdor, delicadamente. - Não considere todos os marchands iguais, isso não é nada justo de sua parte, sabe? E Zborowski... ele afinal conseguiu elevar o preço de Modigliani para 450 francos o retrato, hem? E quem mais conseguiria interessar aquele americano, Barnes, em Soutine? E pense em alguns dos outros intermediários de pintura que são decentes. Que tal Basler, e Couquiot, e Francis Carco, o poeta... não me vá dizer que são todos desonestos, vai?

- Está bem, há alguns, um ou dois, talvez, que são exceções... mas, para mim, os marchands, como grupo, são ladrões, cafetões e merdas de primeira classe!

A risada calma e cristalina de Kate recebeu as palavras dele.

- Falou bem, Julien! Mas, como lhe escrevi, Adrien é outra das exceções. Eu não teria ousado trazê-lo, se não fosse. Então, ele pode dar uma olhada? Aliás, eu posso? Há meses que não vejo o seu trabalho.

- Podem olhar, podem olhar, já que estão aqui - resmungou Mistral, grosseiramente. - Mas não pensem que vou ficar aí olhando para vocês. Tenho horror em ouvir as pessoas dizerem as coisas que acham que devem dizer quando olham para quadros. Vou ficar no jardim até vocês acabarem. Venha, Maggy. E traga a garrafa.

Sozinho no estúdio, Adrien começou a andar pela sala, olhando atentamente para os quadros na parede.

- Não, Adrien - disse Kate, impaciente. - Vamos ver as coisas novas ... você pode ver o resto depois. - Ela começara a puxar uma tela grande que estava no chão, inclinada para a parede, a parte da frente escondida. - Ajude-me com isso.

Depressa, com perícia, Avigdor virou todas as telas que Mistral tinha encostado displicentemente à parede, para ficarem de frente para a sala. Não parou para olhar, enquanto as colocava lado a lado. Trabalhava com a rapidez de um ladrão de galinha, com medo de que Mistral mudasse de idéia e voltasse para o estúdio, a qualquer momento. Por fim, todas as telas estavam no lugar e ele e Kate ficaram ali rodeados por elas, cada qual calado, olhando, Avigdor ofegante do esforço, Kate tremendo de emoção, uma emoção que ela não conseguia identificar, uma emoção que a deixava zangada, furiosa.

Passando os olhos de um retrato de Maggy a outro, Adrien Avigdor achou que era como se ele próprio se comprimisse nu sobre uma carne viva, como se regalasse, se fartasse, chegasse a comer a juventude. Sentiu vontade de se rolar nas telas, percebeu, abismado; ele, que só confiava em seu julgamento calmo, ansiava por se jogar e rolar nelas e dar pontapés com uma excitação incontrolável. Os retratos da garota... ah, ele sentia vontade de trepar com ela! Empolgavam-no muito mais do que Maggy, em carne e osso.

Por fim, ele largou as sete telas grandes e se voltou para as naturezas mortas. Olhando para elas, sentiu como se estivesse ao ar livre, deitado no capim comprido e doce, pagão, feliz, inocente de tudo menos do manancial de seus sentidos. Como um cãozinho ávido atrás de um osso, ele corria de uma tela a outra, incapaz de contemplar uma delas por mais de alguns segundos, porque outra o chamava, pelo canto do olho.

Enquanto Kate o olhava, cristais de triunfo se solidificavam dentro dela. Embora tivesse tanta certeza do gênio de Mistral, ela aguardara, tensa, a reação de Avigdor. Na opinião de muitos, ele era o mais sagaz dos marchands avant-garde da época. Em apenas um ano, sua nova galeria na Rue de Seine patrocinara uma série de exposições de sucesso, mostrando as obras de um grupo de novos pintores praticamente inéditos e ele criara um mercado ativo para suas descobertas.

Ela deu as costas aos nus. Havia neles algo que a enojava inteiramente, pensou ela, algo de repugnante. Mas as outras obras! Ela ficou assombrada. Os trabalhos anteriores de Mistral, pendurados nas paredes, bem como seus dois quadros, tudo desaparecia comparado com a nova energia, a explosão de vitalidade que animava suas naturezas-mortas. Aqui uma única zínia imensa, com seu círculo duplo de pétalas duras e rosadas, pairava contra o céu, atraindo para si a essência de toda flor que jamais existiu. Ao lado da zínia, uma tela grande mostrava um canto do estúdio, em que cada objeto irradiava uma força vital tão poderosa que a tela aumentava o seu mistério enquanto ela a olhava, até que, afinal, apagava o que a rodeava e ela se sentiu tonta, aturdida, dominada. Por toda parte no estúdio ela sentia como se houvesse buracos furados em assombro.

- Então? - disse Kate finalmente a Avigdor, em inglês, que ele falava tão bem. Para ela, sempre seria essa a língua dos negócios e fora a negócios que ela o levara ali.

- Devo-lhe um obséquio, meu bem - disse ele vagamente, como que num sonho, voltando aos retratos de Maggy nas almofadas verdes.

- Adrien, preste atenção - disse Kate, aproximando-se dele e estalando os dedos abaixo do nariz dele. - Sei como se sente, mas não o trouxe aqui só para ficar olhando.

- Meu Deus, Kate, meus joelhos estão fracos, meus olhos espocando. Parece que fui atingido por um raio... deixe que eu me refaça. Estou quase sentindo o cheiro do trovão - disse Avigdor, com seu sorriso franco de homem da roça.

- Então - aproveitou Kate - você concorda comigo? - Sem reservas.

- Então, que tal uma exposição individual? Você disse que estava inteiramente comprometido para o ano que vem, que não tinha meios de encaixar mais outro pintor. . . o que me diz agora?

- De repente descobri um novo mês em 1926... vamos batizá-lo de outubro.

- O mês de inauguração da temporada? - As sobrancelhas finas de Kate se levantaram.

- Mas claro - disse ele, com a simplicidade de um lavrador próspero discutindo o preço de beterrabas.

- Naturalmente - repetiu Kate, pasma com a magnitude de sua vitória. Ela comprava de Avigdor desde que ele inaugurara a galeria e seu respeito pela sagacidade dele aumentara, ao vê 4o tomar-se cada vez mais forte, nas águas perigosas do mercado de arte. Então, quando ela o viu tomar uma decisão com a mesma rapidez e dedicação com que ela trabalhava, compreendeu o homem melhor do que nunca.

Como ela agira bem em levar o homem lá, sem dar a Julien sequer a oportunidade de dizer que não queria vê-lo. Avigdor, como muitos marchands, comprava logo os quadros que pretendia expor. A diferença entre o preço que ele pagava e o preço pelo qual os revendia representava não só o risco que assumia, mas o seu potencial de lucro.

Ela sabia que ele pagaria a Mistral o mínimo possível, com a devida justiça, mas isso lhe agradava perfeitamente. A independência financeira de Mistral era a última coisa que ela desejava. Um pintor que pode controlar seu marchand não precisa de patrono, pensou Kate, e quando chegasse o momento, o que se daria breve, em que seus preços subissem, ela pretendia ser a agente dessa determinada boa notícia.

Eles ficaram ali num silêncio repentino, como conspiradores, mas com uma certa cautela, cada qual esperando que o outro falasse. Por fim, Avigdor disse:

- É melhor eu ir falar com ele. - Ah, não, Adrien.

- Mas, minha cara Kate, é preciso que uma coisa fique clara. Esse seu Mistral pode ser alérgico a falar em dinheiro, conforme você me disse, e a não ser que eu o faça assinar um contrato de exclusividade, não temos nada a tratar.

- Adrien, confie em mim. Hoje não é a ocasião certa para falar do contrato com ele. Hoje não é a ocasião certa para lhe dizer coisa alguma, a não ser que daqui a três meses você vai lhe fazer uma exposição individual. Até agora eu não me enganei, não é?     - Kate, não posso dizer a esse homem que vou fazer tudo que puder para lançá-lo se não tiver a segurança absoluta de que ele não vai me largar para ir procurar outra galeria, um dia - disse Avigdor, com uma firmeza de um criador discutindo a taxa de cobertura de um touro premiado.

- Você tem a minha garantia.

- Você espera que eu me arrisque baseado só na sua promessa? O que a faz tão certa de que fala por ele?

- Pode acreditar na minha palavra - insistiu Kate, com calma.

Adrien a examinou um momento. Não tinha certeza de gostar de Kate Browning, mas a admirava. Ela possuía, em matéria de gosto, uma segurança notável para quem não era do ramo; e tinha classe. Será que Mistral, aquele gigante altivo, impaciente e grosseiro estava sob a influência dela? Não havia nada que o indicasse, no modo como ele a cumprimentara, porém... era impossível duvidar de Kate, quando ela falava com uma resolução tão clara. Era um risco que valia a pena correr. Aliás, ele não sabia como evitá-lo. O mesmo instinto que levara Avigdor a resolver inaugurar sua temporada com os quadros de um homem cuja obra recente ele só vira há pouco mais de uma hora lhe dizia que ele só poderia alcançar Mistral por meio de Kate. Ele fez um gesto de aceitação e virou-se para a porta do jardim.

- Quer que eu diga a ele, Kate, ou você diz?

- Adrien! Você, claro. É sua decisão, sua galeria.

A boca bem marcada de Kate se curvou num riso delicado.

Ah, sim, pensou Avigdor, ela era esperta mesmo. Um leve tremor passou-lhe pela espinha. Não admira que ela nunca o tivesse atraído fisicamente. Não gostava de mulheres tão espertas quanto ele. Ou mais espertas.

 

 

                                     Capitulo 6

 

Adrien Avigdor só tinha 32 anos quando conheceu Julien Mistral, mas na verdade poderia dizer que passara a vida se preparando para o dia em que poderia modificar o futuro de um pintor num único momento de decisão.

Ele fora criado no negócio de antigüidades. "Nós", dizia o pai, com um gesto grandioso para a loja próspera no Quai Voltaire, Já vendíamos antiguidades Avigdors dades a eles antes de construírem a Notre-Dame." "Nós" eram eu pomposo judeus, e "eles" todos os demais da França. ele não tinha dito que os Avigpai, tanto quanto se ria dele, pensou por que dors vendiam antigüidades aos faraós enquanto eles construíam agpirâmides.

Em criança, Adrien viajou pelo interior compras. Muito rápido, que mais parecia estar bebendo do que aprendendo, o pequeno Adrien percebera a diferença entre o modo de pensar dos negociantes em antigüidades e o dos compradores de antigüidades. Quando tinha apenas oito anos, sabia avaliar as mercadorias ele próprio se imaginando vitrina da loja do pai e precisando ter um par de taças. Melhor ainda, aos dez anos, sabia facilmente distinguir o bule de chá ou caixa entalhada que nunca seria comprada, que seria admirada, até pegada e comentada por um quarto de hora, mas que, por algum motivo, estava fadada a nunca trocar de dono. Diante de umas duas dúzias de xícaras de Umoges, sua mão, como que por vontade própria, pegava e virava a única que tivesse uma lasquinha na base.

Quando o pai morreu, em vez de trabalhar no negócio da família com os dois irmãos mais velhos, Adrien abriu sua loja própria, na Rue Jacob, a apenas alguns metros da igreja de Saint Germain-des-1?rès. Ele estava convencido de que as pessoas compram mais numa loja construída à sombra de uma igreja, de preferência uma catedral. Quando completou 25 anos tinha feito sua fortuna e, coisa nunca vista num Avigdor, o negócio de antigüidades deixara de fasciná-lo. Ele percebeu i ter chegado a um ponto perigoso em sua vida, quando vendeu um aparelho de chocolate que talvez não tivesse pertencido à Imperatriz Josefina, mas que poderia e deveria ter pertencido a ela. Ele ganhou cinco vezes o que pagou pelo aparelho e mal conseguiu ficar acordado, durante a transação.

       Nós, disse ele consigo, com cara de quem perdeu um dos porcos, lhos temos vendido os destroços dos séculos por tempo demais. Em uma questão de horas, resolveu mudar de métier. Passaria do mundo das antigüidades, em que tudo que se podia vender já existia, para o mundo das artes, que os lucros acenavam sobre obras ainda não criadas. Seus assistentes bem treinados podiam continuar a tratar do seu negócio, bastando uma visita ocasional de sua parte.

Toda a ameaça do tédio desapareceu quando Avigdor contemplou o desafio de abrir para si um lugar num ramo que já contava com gigantes como Paul Rosenberg, os imensos Bernheim, Réné Gimpel, Wildenstein. e, o mais rico de todos, Vollard, cuja fortuna se baseara sobre os 250 Cézannes que ele um dia conseguira comprar do pintor, por cerca de 50 francos cada. Não seria fácil, começando do zero, numa profissão dominada por negociantes de casas que lidavam com as obras dos mais importantes pintores modernos, como Matisse e Picasso, e que ao mesmo tempo sabiam atrair a clientela dos maiores fregueses, alguns milionários norte-americanos, devido à facilidade com que podiam produzir de seus quadros um Velasquez, um desenho de Goya, ou uma obra de um dos grandes Impressionistas.

A despeito da solenidade respeitável desses ' grandes negociantes, com suas paredes forradas de veludo cinza, Avigdor sabia que o mundo compacto deles era um Doce de serpentes de inveja e rivalidade despeitada e franca, que aumentava à medida que se espalhavam as notícias do sucesso das filiais dos grandes marchands franceses em Nova York. Quanto desespero houvera diante da notícia de que os Benheiras tinham conseguido 20 mil dólares por um Matisse e que Wildenstein tinha um Cézanne grande por 60 mil dólares, preços nunca vistos antes na França.

       Evidentemente, calculou Adrien Avigdor, se pode ganhar esse dinheiro com homens que há 25 anos eram desconhecidos absolutos, deve haver um mercado semelhante pelas obras que por enquanto ainda não interessam à maior parte dos marchands. Só alguns colecionadores nababos podem se dar ao luxo de comprar os velhos mestres, para garantir sua imortalidade. Tampouco há muitos colecionadores que arrisquem milhares em pintores com reputações recentes. No entanto, devem existir muitos pretensos colecionadores que arrisquem importâncias menos vultosas do que as exigidas para possuírem um Matisse.

       "Sim", disse ele consigo, caminhando pela Rue de Seine, onde a mais movimentada das galerias da Rive Gauche já estava localizada, "os compradores podem ser de três tipos: os do tipo Andrew Mellon, que só querem pintores que tenham passado pela prova do tempo, os do tipo Picasso, na etapa média, e os do tipo Avigdor, que querem comprar o que está para vir, no andar do para as pessoas passeando pela rua, ele se deu conta de que o mundo tinha sido organizado de modo que homens como ele pudessem prosperar. Afinal, ninguém precisava possuir obras de arte para sobreviver. No entanto, a natureza humana é feita de tal forma que, uma vez garantida a sobre vive uma vez estabelecido um nível de conforto, a posse de objetos não essenciais se toma um desejo imediato. O selvagem que acrescenta um segundo colar ao primeiro e John D. Rockefeller comprando as tarde do Unicórnio não eram assim tão diferentes, eram? E a mulher do lavrador que espera uma boa safra e logo compra um jarro enfeitado para adornar o topo de uma cômoda.... em que ela é diferente de Henry Clay Frick, aquele mecenas de olhos frios, que gastou um milhilo de dólares pelos 11 painéis de Fragonard que Madame du Barry, achando-os sugestivos demais, se recusara a aceitar de Luís XV? “Sim, num meio termo entre a mulher do lavrador e os Rockefellers, há uma porção de clientes em potencial por aqui", foi o que Adrien Avigdor se disse, feliz.

Ele passou dois anos dedicando-se a aprender seu novo ofício. Exteriormente, parecia do desocupado quanto aquele personagem do século XVIII, o cavalheiro de lazer. Visitava e tomava a visitar cada uma das melhores galerias, onde era bem recebido, como um colega rico e culto do mundo das antigüidades. Ele sorria o seu sorriso bem-intencionado, embora provinciano, e falava que estava cogitando de colecionar quadros... sobre o que, infelizmente, ele se confessava um neófito total.

Na Gimpel, ele disse, encabulado, que não estava pensando em nada tão raro quanto um desenho de Gretize ou mesmo um pequenino Mario laurencin - muito rico, para ele - mas quem sabe alguma coisa de uma pessoa mais nova? Na Rosenberg, refletiu tristemente sobre Picasso. Admirava Picasso mas achava que não podia pagar tanto - 100 mil francos o quadro. Se ele ao menos pudesse pagar 300 mil francos pelo Monet, o do barquinho vermelho... mas, claro, a época de se comprar Monet já passara, não? Talvez um mais jovem? Na ZborowsId, ele confessou que estava seriamente tentado pelos Soutines. Era verdade que um ano antes não conseguiam se livrar dele e agora valiam 15 mil francos cada? Fascinante! Era o que ele tinha ouvido. Que coisa imprevisível era o mercado de arte, por certo.

       Avigdor procurou os conselhos de uma porção de críticos de arte, cuidadosamente escolhidos, os que trabalhavam para publicações especializadas, com leitores que compravam quadros com regularidade. lisonjeando-os, ele pediu orientação para formar a sua coleção planejada. Alguns, conforme era costume, concordaram em aconselhá-lo mediante um honorário e outros ele pôde levar a negócios excepcionais em matéria de antigüidades. Qual o homem que não gosta de viver com um pouco de bela prata antiga, uma cadeira império, alguns pratos de Meissen? Eles se tomaram seus amigos e lhe desejavam sorte.

Com o tempo, ele mergulhou nos sórdidos pardieiros dos estúdios dos pintores em Montpamasse, passando por La Ruéhe, a cité de Denfert Rochereau e o número 3 da Rue Josephara, nem rejeitando nem aceitando, mas olhando, sempre olhando.

       Em 1925, Avigdor, agora com 27 anos, estava pronto para inaugurar a galeria que alugara e reformara belamente na Rue de Seine. Ele escolheu sete pintores que o interessavam, homens que ainda tinham muita luta pela frente, e nisso teve sorte, foi brilhante, seus olhos funcionaram ^de modo sublime... e, novamente, teve sorte. Em um ano, passou a ser considerado um marchand apante de, discernimento excepcional. Em breve todo o mundo das artes vibrava com as notícias de todos os seus' atos. Seus bons amigos entre os críticos aplaudiram, pois não lhe haviam ensinado tudo o que ele sabia? Ele não era um bom sujeito? Os críticos que não eram seus amigos o atacaram ferozmente e isso provocou mais vendas ainda, pois em Paris se a arte nova não provoca escândalo, nem vale a pena ser vista.

       Com um alívio bem disfarçado, Mistral concordou com a exposição individual. Por algum motivo, uma vez resolvido isso, parecia relativamente pouco importante, conforme Kate lhe explicou, assinar o contrato de exclusividade. Era razoável que não se podia ter um sem o outro, disse ela, num tom natural que abreviou a conversa, especialmente porque ela lhe dissera que ele não tinha pedido preços bastante altos por suas obras.

       - Deixe que eu barganhe por você com Avigdor - disse ela. - Todo mundo sabe que ninguém cobra bastante pelo próprio trabalho... é preciso uma pessoa que não esteja envolvida emocionalmente. E gosto de fazer isso . . . é o tipo de coisa em que somos bons, na minha família. Realmente, Julien, você estaria me fazendo um favor.

       Mistral, que detestava a idéia de dinheiro e não via com prazer a perspectiva de discutir com Avigdor, pôs de bom grado seus assuntos financeiros nas mãos dela. Ele então poderia supervisionar com mais atenção aos preparativos de sua mostra.

       Durante anos ele fora descuidado com as telas acabadas, impacientemente deixando-as sem esticar nem envernizar, encostadas nas paredes ou penduradas de um prego onde encontrasse lugar, mas agora o orgulho pelo trabalho realizado nos últimos meses era tão grande que nenhum detalhe era pequeno demais que não merecesse sua atenção plena. Ele passou os três meses que precederam a exposição quase ocupado demais para pintar. Maggy continuava a sustentá-lo, modelando, pois ele se - deixava interromper a qualquer hora por Kate, que ia lá freqüentemente, levando-o com ela em seu Talbot azul conversível para examinar as provas do catálogo, escolher o modelo aos convites para o Vernissage, ou se dor, para beber alguma coisa.

       Kate estabeleceu excelentes relações profissionais com os fabricantes de molduras, que tinham de ser tratados com cuidado, pois sua sensibilidade de artesãos era conhecida. Mistral passou a depender cada vez mais dos serviços dela como intermediária entre ele e esses artesãos, que não admitiam reclarnaç5es de pintores impacientes, mas que pareciam gostar de colaborar com aquela encantadora moça americana que lhes falava com um respeito tão apropriado.

Maggy esperou e esperou, com um pressentimento não confessado de muito sofrimento crescendo cada vez mais em seu coração. Ela rifo tinha armas a não ser o seu corpo e seu amor, mas a atenção de Mistral estava focalizada na exposição e ele a procurava cada vez menos. Quando eles faziam amor, havia sombras entre eles, as sombras de um ciúme riso reconhecido, as sombras dos sentimentos dele quanto à exposição, que mal tinham subido à tona.

       Ele vivia num misto de exultação e preocupação, em que a ansiedade se misturava à esperança, a empolgação se ligava ao pânico. Por baixo de tudo havia um sentimento forte, crescente, aterrador, de vitória. Esse homem, que por tanto tempo tinha escarnecido de seus colegas pintores, que seguira o seu caminho, grosseiramente, que explodira com desprezo contra o mercantilismo do mundo das artes, agora se via desejando desesperadamente, com todo o poder de seu caráter bárbaro e esfaimado, assumir seu lugar nesse mundo e ser finalmente reconhecido.

à medida que se aproximava a data do vernissage, Mistral foi ficando cada vez mais agitado.

       Sem se saber como, Kate, com sua convicção total do gênio dele, conseguia encontrar as palavras certas que ele precisava ouvir para sentir um conforto momentâneo, um alívio que ele cada vez mais freqüentemente pedia a ela, embora fingisse quase não fazer caso dela, quando ela falava.

       Mesmo que Maggy soubesse o que dizer, ele não lhe teria dado atenção. Ela era muito jovem, muito ignorante para que sua opinião tivesse algum peso com Mistral. Naturalmente, Maggy achava o trabalho dele maravilhoso. Por que não? O que ela sabia de pintura, senão as migalhas que apanhava, como um pombo apanha migalhas na rua? Como é que a opinião de uma modelo de 18 anos lhe poderia dar o apoio que ele encontrava ao conversar com uma mulher de sociedade, culta, filha de gente rica que, aos anos, conseguira rapidamente conhecer todos os membros que contavam nos círculos artísticos de Paris? Os dedos delicados de Kate pareciam feitos para tomar o pulso desse mundo e avaliar o seu estado.

Naquele mês de junho passado, paul Rosenberg tinha exposto a obra de Picasso dos últimos 20 anos. No dia 5 de outubro de 1926, quando Avigdor expôs pela primeira vez as obras de Mistral, ficou evidente que acontecera o segundo grande acontecimento do afio. As pessoas convidadas para um vernissage são tão inclementes quanto desprovidas de falso orgulho. Se acham as obras desinteressantes, logo dão as costas às paredes e ficam conversando uns com os outros, bebem um cálice de vinho, se existir, e partem para ver coisa mais interessante, sem qualquer palavra de desculpas para o marchand.

Quando, porém, o trabalho lhes agrada, quando cheiram um talento novo, são capazes de se empurrarem para olhar melhor, com tão pouca educação quanto se estivessem pegando um último táxi numa noite de chuva. E quando resolvem comprar, uma onda de desejo começa a se criar na galera , saltando de um espectador a outro, tão contagiosa quanto o histerismo, como se esses colecionadores bem vestidos fossem crianças mal-educadas numa festa de aniversário, abertamente gananciosos, agarrando a última fatia de um bolo delicioso, mas de tamanho errado, e no entanto essencial.

Avigdor, assediado, colocou uma etiqueta de "vendido" na última das 50 telas, menos de duas horas depois que os colecionadores e os apenas curiosos começaram a entrar na galeria, muitos alertados pelos críticos que sabiam que Avigdor lhes daria ocasião para um debate empolgante. Ele precisou de toda a sua paciência e bom humor para lidar com as reclamações de antigos clientes, irritados diante da impossibilidade de adquirirem os quadros que queriam.

- Volte amanhã - repetia ele, com um apelo confiante nos olhos bondosos - e vou ver se há alguma coisa que lhe possa ceder... mas não posso prometer milagres... há de ser coisa pequena. Perdão, meu amigo. Não, eu lhe garanto, não reservei nada para mim... sabe que nunca faço isso. Amanhã... sim, vou tentar encontrar alguma coisa.

Desse modo, pensou ele, ia se livrar de todo o trabalho anterior de Mistral.

Mistral meditava, uma ilha calada no meio da sala comprida e apinhada. Intelectualmente, ele compreendia o seu sucesso, mas em vez da glória que esperava sentir, havia um vazio, confusão. E havia algo mais. ... havia o pânico. O sucesso, desdenhado por tanto tempo, e depois buscado por fim com uma urgência tão intempestiva, o sucesso era urna mudança grande demais para ele aceitar. O território era desconhecido demais, a posição exposta demais, o prêmio rico demais.

Cada vez que um estranho se aproximava dele para cumprimentá-lo, as palavras pareciam significar menos e menos. As pessoas envolvendo-o animadamente, tagarelando com ele e umas com as outras, não se ligavam, na cabeça dele, com os quadros nas paredes. Ele não podia forjar um elo entre o trabalho dele, o trabalho que ele fazia sozinho, o trabalho que surgia de suas entranhas, com qualquer dos elogios que lhe estavam sendo feitos. Ele murmurou seus agradecimentos, mantendo os olhos focalizados acima das cabeças das pessoas que lhe falavam, distraidamente afastando os cachos ruivos da testa, que estava úmida do calor da sala.

Somente com Kate - deslizando facilmente no meio da multidão, voltando ao lado dele de vez em quando - é que ele conseguia olhar para baixo e esboçar um sorriso. Eles trocaram algumas palavras, comentários sem importância sobre o número de pessoas e o sucesso das molduras, mas quanto menos diziam mais íntima era sua comunicação. Mistral se fortalecia com Kate, que não sentia nada do medo que o estava envenenando. Para ela, a vitória era de segunda mão, bastante distante para estar controlada, mas bastante próxima para enchê-la de doçura de ter sido o instrumento de tudo aquilo.

Maggy estava de pé num canto, mantendo-se especialmente empertigada e altiva. Um mal-estar feroz se apoderara dela, ao ver o povo se agrupar empolgado em volta das sete telas que a exibiam em toda a sua nudez. Uma coisa era posar para um pintor, mas outra bem diferente era ser exibida para leigos, pensou ela. Se ela soubesse como se sentiria, nem teria ido ao vernissage, afinal. Ela se muniu de toda a experiência daquele ano para poder aceitar com calma as felicitações que acompanhavam os apertos de mão convencionais, os olhares predatórios e avidamente inquisitivos e atentos.

Era quase, pensou ela, como se ela fosse um animal, um cavalo que acabava de ganhar uma corrida ou um cão que fora considerado o "melhor da exposição".

"Magnífico, mademoiselle" ou "Esplêndido, esplêndido mesmo", diziam-lhe e passavam logo adiante, como se ela não fosse um ser humano com quem se pudesse falar razoavelmente. Dali a pouco, algum daqueles homens com certeza ia querer meter um torrão de açúcar em sua boca - esse perderia um dedo.

Se ao menos Julien ficasse perto dela, se ele ao menos encontrasse seu olhar... Mas ele estava tão imóvel em sua posição no centro da sala e tivesse sido plantado ali. Por que ele não fazia caso dela hoje, logo hoje?, perguntou-se e um sofrimento surdo se instalou por trás de seus olhos.

Até mesmo Paula, que a princípio tinha ficado junto dela, já se afastara para olhar o mundo de colecionadores, pintores e críticos, as mesmas pessoas que iam ao seu restaurante todas as noites. Era como se a festa fosse em homenagem a Paula, pois, se não fosse ela, nada disso estaria acontecendo. Se Paula Deslandes não tivesse lançado Maggy Lunel, Mistral ainda poderia ser um desconhecido, pensou ela, nada segura de estar satisfeita com sua generosidade. Ela estava olhando em volta com aquele ar indefinido de quem é de casa, a pessoa que entende, num acontecimento público, quando um homem que ela nunca tinha visto falou com ela.

- É um acontecimento extraordinário, madame, não concorda?

- Concordo, sim - disse Paula, com uma inclinação sutil da cabeça que Marquesa de Pompadour não teria achado indigna. Ela viu logo, por aquela única frase, que o homem era do tipo especial de norte-americano que fala um francês razoável, mas que ainda tem bastantes dificuldades com o idioma para não ter a pretensão insuportável de se considerar fluente.

- Madame é colecionadora?

- Em pequena escala - respondeu Paula, olhando para o homem com interesse. - E monsieur?

Como sempre, ela reagiu primeiro à virilidade dele, sua beleza. Depois, ela notou que ele estava excepcionalmente bem vestido; no entanto, usava suas roupas caras com uma franqueza americana, uma espécie de brusquidão imaculada que proclamava suas origens.

- Em pequena escala também... pode-se morar em Paris sem se colecionar alguma coisa?

- Há quem more. . . mas esses não me interessam - disse Paula, torcendo desdenhosamente seu nariz petulante.

- Permite que me apresente? Perry Kilkullen. - Paula Deslandes.

Quando eles se apertaram as mãos, ela examinou seu novo conhecido. Provavelmente ele estava perto dos 40 anos e sua aura de prosperidade contrastava agradavelmente com os espessos cabelos louros que começavam a ficar grisalhos nas têmporas e os olhos cinzentos que conservavam um entusiasmo juvenil. Ele era, pensou Paula, o tipo de americano esplêndido que os ingleses, com pesar, são obrigados a reconhecer como um gentleman, a despeito do lugar de seu nascimento.

- Comprou alguma coisa nessa exposição? perguntou Paula.

- Infelizmente, não. Os únicos quadros que eu realmente desejava já estavam todos vendidos.

- Quais o senhor teria escolhido? - perguntou Paula, com o seu beicinho mais encantador.

- Qualquer dos nus... acho que são a melhor coisa aqui.

- Monsieur tem gosto para o sublime - implicou Paula.

- Notei que a senhora estava falando com a moça - disse Perry Kilkullen, mostrando Maggy, do outro lado da sala. - Ela é modelo, não é?

- O senhor não está pensando que existem duas dela no mundo, não? - Imagino que seja mulher do pintor?

- Deus nos livre!

- Amiga, então? - perguntou ele, delicadamente, dando à palavra "amiga" o ligeiro tom de pronúncia, um simples fragmento de tom que para os franceses indica um parceiro sexual.

- Certamente não - disse Paula, com ar protetor. - Maggy é modelo profissional de pintores... a melhor de Paris, como qualquer pessoa lhe poderá informar. Trabalha para muitos pintores.

- Maggy?

- Maggy Lunel... minha protégée - disse Paula, orgulhosa.

       - Ela é tão linda. Uma moça diferente - disse Perry Kilkullen, com uma voz que fez Paula olhar. para ele atentamente. Ele estava fitando Maggy abertamente com uma expressão de um anseio «o apaixonado, que Paula teria rido se seu amor-próprio não tivesse necessidade de uma fração de segundo para recuperar o equilíbrio. Ah, mas o que é que ela estava pensando de si? Seus 43 anos, embora viçosos, não pareceriam coisa alguma, comparados com os 18 deslumbrantes de Maggy, pensou Paula, dando-se uma sacudida mental.

       De que modo ela é sua protégée? - continuou o estranho, não procurando esconder sua curiosidade.

       - Ali, essa é uma história comprida - disse Paula, comum ar evasivo. Tinha de conceder a glória plena dos 18 anos, refletiu, mas não precisava se humilhar diante deles. Aquele bonito quem teria de se esforçar muito mais para descobrir alguma coisa que quisesse saber.

       Maggy, ainda encurralada no canto, olhava para Mistral, que estava a uns seis metros de distância. Ali, aquilo era intolerável. Ela não podia suportar más um minuto sem ter algum contato com ele. Talvez ele - passasse o braço em tomo dela, ou pelo menos pegasse na sua mão. Ela estava precisando de uma palavra de carinho, algum gesto. Por que em ao infantil? Até mesmo um sorriso a ajudaria a passar por aqueles momentos. Maggy começou a lutar para chegar junto de Mistral. Teve o caminho impedido por Avigdor, que fora agarrado por um homem gordo, de cabelos tingidos de preto.

       - Adrien, quem é o dono daquele nu, deitado nas almofadas verdes? Quero encontrar o sortudo do filho da puta e conseguir o quadro dele. É só questão de quanto ele quer. pago qualquer coisa... seja bonzinho e me diga.

- Não está à venda - disse Maggy, delicadamente.

       - Mademoiselle Lunel tem razão - concordou Avigdor. - Pertence à Srta. Browning.

- Que diabo! - disse o gordo. - Onde está ela? Quero falar com ela.

       - Monsieur Avigdor está enganado - disse Maggy, com firmeza. Aquele determinado quadro é meu desde o dia em que foi pintado. Julien o deu para mim e não tem preço, porque nunca o venderei.

       - O que é que você diz disso, Avigdor? - insistiu o homem, sem se impressionar.

       - Parece haver alguma confusão... ah, talvez a Srta. Browning possa... eu não...

       Avigdor parecia que estava vendo os céus se abrirem e o granizo estragar o seu feno.

- Olhe aqui, venha comigo - disse Maggy ao gordo.

       Avigdor obviamente não sabia o que estava fazendo ou dizendo. Com dificuldade, ele abriu caminho até Mistral e agarrou o braço dele.

- Julien, seu vendedor acabou de dizer a esse senhor que o meu quadro não me pertence... explique a ele, por favor.

Mistral virou a cabeça e olhou furioso para os dois, as sobrancelhas cerradas. Sua boca, sempre posta em linhas severas, estava apertada de aborrecimento.

- Que tolice é essa, Maggy? Você parece tão louca quanto todos os outros desse raio de jardim zoológico.

- Julien, escute. É sobre o meu quadro, o primeiro que você pintou de mim nas almofadas verdes. Avigdor disse a esse homem que Mademoiselle Browning é dona dele.

- Isso é a pura verdade.

Kate falou com calma. Ela aparecera ao lado de Mistral, no momento em que Maggy o alcançou.

Mistral sacudiu a cabeça, zangado.

- Que diabo está acontecendo?

- É muito simples, Julien - declarou Kate, com sua voz sem paixão. - Reservei todos os nus para mim, antes de abrir a exposição. Obviamente, são importantes demais para serem vendidos separadamente. Eu queria ter a certeza de que seriam conservados como uma série... era o único meio de garantir isso. Do contrário, estariam dispersos nas mãos de sete pessoas diferentes, a essa altura.

Maggy largou o braço de Mistral.

- Não podia ter comprado o quadro para si, Srta. Browning. Nunca esteve à venda. É meu. Pergunte ao Julien! Julien, diga a ela! Você se lembra, tem de se lembrar...

Mistral fechou os olhos, como que para apagar as palavras dela, e Maggy reviu, num lampejo, aquele momento em que ele tinha caído em cima dela naquela investida de posse absoluta, suas mãos grandes, ainda gosmentas de tinta, esfregando-se em seus pêlos numa vitória rude.

- Ele lhe pinta outro - disse Kate, sem levantar a voz. - Não é, Julien? Seja razoável, mademoiselle, acalme-se. Não pode esperar mesmo que ele cumpra uma promessa apressada que possa ter feito sobre aquela primeira tela... ela significa demais para o conjunto da obra dele. Tenho certeza de que todos estão de acordo.

- Julien! Por que não faz alguma coisa? Você sabe que me deu o quadro. - A voz de Maggy ergueu-se furiosamente, de repente descontrolada.

Mistral olhou de uma mulher para outra. O rosto de Maggy estava corado de angústia e descrença, ela estava imobilizada,_ incapacitada no meio do povo apinhado, e sua boca saliente se contorcia numa careta de emoção. Kate estava ali quieta, requintada e elegante, o oval puro de sua cabeça pousada no pescoço de um modo que indicava, como nenhuma palavra poderia fazer, que a justiça de sua posição era indiscutível.

- Pare de agir como criança, Maggy! - mandou Mistral, com brutalidade. - Kate tem toda a razão, os sete quadros têm de ficar juntos. Eu te compenso, que diabo! Você não vai morrer por desistir de um quadro, pelo amor de Deus!

Durante um momento prolongado, Maggy olhou bem para a cara dele. Ela ficara completamente imóvel e um controle rígido caiu como uma máscara sobre a sua indignação feroz, ao ouvir aquelas palavras. O barulho das vozes diminuiu em tomo dela, enquanto ela absorvia a posição de Kate e o significado do que Mistral dissera. Naquele caso ela sabia mais a respeito deles do que eles mesmos sabiam... talvez mais do que jamais saberiam.

Maggy sempre reconhecera que Kate era urna antagonista - ela agora via que a americana tinha olhos de texugo. Ela não comprara os quadros porque gostasse deles e sim porque os detestava, porque queria fazer com que desaparecessem. Mistral, em quem Maggy quisera confiar, porque não fazê-lo seria ir contra toda a sua natureza carinhosa, se voltara contra ela numa irritação simulada que chegava a ser uma mentira vergonhosa.

Ali, no que deveria ter sido seu momento de triunfo, pareceu a ela que ele tinha cheiro de algo furtivo e diminuído - um animal selvagem, preso numa armadilha, domado e engaiolado. Em Kate, Maggy sentiu uma implacabilidade cujas dimensões ela podia apenas começar a compreender. Ela estava ali impotente, sem amigos, numa arena em que não podia haver vitória, da qual não havia fuga a não ser uma retirada honrosa. Ela sentiu como se tivessem arrancado algum tampão vital de seu corpo. Se ela continuasse a encará-los ali, começaria a uivar numa dor abominável e indecente - e sem qualquer propósito.

Devagar, e agora com calma, ela falou com Kate.

- Já que deseja tanto o meu retrato, mademoiselle, que está disposta a roubá-lo, eu o dou de presente. Não há preço. Guarde-o onde o possa ver sempre, mas lembre-se... nunca será realmente seu. - Ela se virou para Mistral. - Você não me pode "compensar" coisa alguma, Julien. Você me deu um presente, mudou de idéia, agora o tomou de volta... é tão simples que até mesmo eu, embora seja criança, posso compreender esse ato.

- Merda! Maggy, pare de exagerar...

- Adeus, Julien.

Ela fez um cumprimento cerimonioso a Avigdor e Kate, virou-se e saiu da galeria, dura como se suas pernas tivessem virado gelo, mas com a cabeça erguida na haste comprida do pescoço. Quando Maggy se moveu, numa dignidade fria, as pessoas abriram caminho para deixá-la passar, olhando para ela. Certamente, pensou mais de uma dessas pessoas, esta não é, afinal de contas, a mesma moça que serviu de modelo para aqueles quadros. Aquela modelo era uma criatura risonha, erótica, e tão jovem, tão suculenta. Mas esta era uma mulher austeramente bela, intocável, majestosa e, acima de tudo, adulta.

 

 

                            Capitulo 7

 

Quando Perry Mackay Kilkullen afinal se arrancou do vernissage de Mistral, sabia que devia tomar um táxi, pois estava atrasado. A distância é a mesma, em linha reta ou a pé, da galeria de Avigdor ao Hotel Ritz, onde estava hospedado, ou na outra direção, ao Carrefour Vavin. O coração do mundo das artes e o centro da grandeza da margem direita do Sena, estão ambos a uma boa caminhada da Rue de Seine. Estão mais perto ainda se a viagem for de táxi, mas Perry Kilkullen não se achou capaz de dar o salto físico da noite de Paris para o interior fechado de um dos táxis Renault, quadrados e de cor vermelha escura. O crepúsculo de princípio de outubro tinha um ar de sonho, um calor ainda embalado pelos aromas do verão, prenhes de promessa, que seria um crime perder.

Voltando a pé ao Ritz, a fim de trocar de roupa para um jantar de negócios, ele parou um minuto na Pont du Carroussel e olhou para o grande barco da Ilha de Ia Cité, aquela nobre ilha do Sena que sustenta acima a silhueta agachada da fachada de Notre-Dame. Ele deu as costas àquela recordação eterna de sua fé e olhou para oeste, para a distância cor de limão, pelo rio sinuoso bordejado pelos prédios altos, estreitos e cinzentos à esquerda e as sombras atraentes do jardim azul das 7uiherias à direita, espetáculo que em geral o levava a concentrar-se com todos os sentidos para gravar de novo em sua memória a vista que ele considerava a realização máxima do homem civilizado.

Naquela noite, ele não viu nada a não ser a moça, uma moça alta como uma jovem rainha de cabeleira ruiva, com uma boca que parecia ter sido feita só para ele e um corpo que o levava a achar que morreria, se nunca o tocasse. Ele era só anseios e tormento, e mesmo na onda de sua emoção, lembrou-se da frase de Shelley, “o desejo da mariposa pela estrela", e riu, feliz, por sentir uma emoção que nunca conhecera, uma emoção que ele achara ser descrita pelos poetas com maldade propositada, a fim de fazer inveja aos que não eram poetas.

Perry Kilkullen, aos 42 anos, era um exemplo da flor da aristocracia católica americana irlandesa. Aparentado com a família Mackay, da vasta fortuna da Mina Comstock, ele se casara jovem com uma moça do imenso e importante clã dos McDonnell, moça graciosa e intensamente piedosa, que podia provar que o seu determinado ramo da família grande e importante descendia em linha direta do próprio Lorde das Ilhas, e falava dos McDonnells do século XIII como se fossem primos em primeiro grau.

Com o correr dos anos, Mary Jane Kilkullen teve de substituir o amor da prole pelo amor da genealogia, pois ela e Perry foram quase os únicos entre seus contemporâneos que não tiveram filhos. Como seus muitos amigos, eles velejavam em Southampton no vedo, esquiavam no Lake Placid Club é iam a Pinehurst para o golfe na primavera, mas a ausência de filhos, que os teria unido como pais católicos, sólidos e realizados, não os levou a se procurarem em busca de consolo, como acontece tantas vezes com os casais sem filhos.

A princípio, a esterilidade do casal foi uma ausência decepcionante e inexplicável e depois, prolongando-se numa aceitação azeda, eles se afastaram de seu relacionamento pessoal, que se baseara sobre uma simples atração juvenil passageira, e se dedicaram, cada qual de seu lado, a assuntos que lhes garantissem alguma realização.

Mary Jane Kilkullen tornou-se indispensável à Sociedade do Pequeno Salvador, às Irmãs Católicas, ao Centro Católico para Cegos, e ao Hospital dos Enjeitados. Perry Kilkullen dedicou-se à sua firma de banqueiros internacionais e, em 1926, estava passando mais tempo em Paris do que no grande apartamento em Park Avenue 1008.

Paris se tornara o seu verdadeiro amor, seu consolo para a aridez de sua vida pessoal e Paris o conservara jovem, como faz com todos os que a amam de verdade. Assim como o amor por Londres dá brandura ao homem, o amor por Roma dá uma página da história, assim o amor por Paris garante um coração sempre aberto.

Perry Kilkullen tinha uma suíte de quatro peças dando para os jardins internos do Ritz e, embora sua vida parisiense fosse cheia de telegramas, conferências, almoços de negócio e jantares de cerimônia com outros membros da comunidade bancária internacional, ele muitas vezes dispensava o chofer e saía a pé, a esmo, para caminhar pelas ruas sempre cativantes da sua cidade.

Agora as mulheres, muitas mulheres, olhavam para ele, caminhando apressado, já atrasado, para a Place Vendóme. Paula examinara sua voz, roupas e jeito, mas as mulheres que reparavam nele, embora não tendo essas indicações, assim mesmo sabiam que ele não era francês, ao verem o seu vulto alto, ao. terem uma rápida impressão de flexibilidade e vitalidade, alguma coisa no asso dele, rápido, marcial, confiante, que parecia estar caminhando ao compasso de tambores; o brilho de seus cabelos louros, à luz dos lampiões.

Perry Kilkullen não viu nenhuma delas ao se aproximar do Ritz e subir a escada correndo, para onde já havia muitos homens de casaca e mulheres de capas de brocado, suas muitas pulseiras chocalhando e se chocando juntas. Ele correu pelo saguão movimentado, perfumado, cinza e dourado, esqueceu-se de cumprimentar o concierge imponente, não se lembrou de sua palavra costumeira ao cabineiro de luvas brancas, passou sem uma palavra por seu criado de quarto, ignorou o punhado de cartas que o aguardavam e se enfiou em seu traje a rigor com apenas duas palavras martelando em sua cabeça. Maggy

Lunel. Maggy Lunel!

Bastou meia hora de indagações, na manhã seguinte, para ele descobrir que Madame Paula Deslandes era a proprietária do La Pomme d'Or. Ela dissera que Maggy Lunel era sua protégée, pensou Perry Kilkullen. O que, exatamente, significaria aquilo?

Ele mandou que sua secretária lhe reservasse uma mesa para aquela noite e jantou sozinho, nem reparando na excelência do gigot malpassado ou a madureza do Brie, aguardando o momento em que Madame Deslandes lhe daria a honra de passar por sua mesa. Ela o cumprimentara amavelmente quando ele chegara, mas, enquanto ela ia de mesa em mesa, em seu restaurante repleto, cada grupo parecia exigir uma atenção interminável. Pelo canto do olho ela o viu sentado ali impaciente, não comendo quase nada, enquanto ela conversava com os seus fregueses de todo dia, demorando-se mais do que de costume. Ele que espere, pensou ela, não sem um resquício pequenino mas inegável de orgulho ofendido. Quando ele estava tomando a segunda xícara de café, Paula se aproximou da mesa dele e o cumprimentou. Perry levantou-se de um salto.

- Aceita tomar um conhaque comigo, Madame?

- Com prazer.

Paula sentou-se defronte dele, apoiou os cotovelos gordos na mesa e, pensativa, pousou o queixo petulante sobre as mãos dobradas. De que modo, pensou ela, ele ia abordar o assunto que o levara lá, sem se tornar óbvio?

- Madame, preciso conhecer a moça.

Paula levantou as sobrancelhas, com admiração. O ataque direto. Nada mau, para um americano.

- Pode ajudar-me, Madame?

Ela levantou a outra sobrancelha, suas feições bem distribuídas dispostas num meio-termo de receptividade e hesitação.

- Madame, estou apaixonado.

Ela estalou os dedos, com pouco caso.

- Assim? Não é possível.

- Madame, sou um homem sério, não sou caprichoso, sabe, nem dado a fantasias. Coisas assim nunca me aconteceram... mas agora sim Sou banqueiro...

- Um banqueiro? Tiens... cada vez mais impossível.

- Eu lhe asseguro. . . por favor, não se ria... olhe, sou sócio do Kilkullen International Trust... eis o meu cartão... só peço uma oportunidade para conhecê-la.

Paula olhou para o cartão longa e seriamente, como se estivesse querendo ler o futuro nele. Maggy passara a noite no apartamento de Paula e haviam conversado até bem depois da meia-noite. Maggy tinha acabado com Mistral. Não interessava se ele fora para a cama com Kate ou não, dissera ela, e Paula reconhecera a verdade inelutável na voz dela. Era uma questão do orgulho de Maggy. Ela fora tratada como se não valesse nada. Fora rejeitada lentamente, durante semanas, e se recusara a ver o que estava acontecendo. Agora que ela sabia que Mistral a tinha em menos estima do que a americana, agora que ela afinal compreendia, nunca mais procuraria o menor gesto dele. Nada. Jamais, uma coisa era fazer papel de idiota por amor - isso podia acontecer com qualquer um - e não havia desonra nisso, mas era outra coisa bem diferente a gente fazer papel de idiota por si.

Paula a ouvira, tendo o .cuidado de não encorajá-la, a princípio, pois sabia que uma mulher sabida não toma partido em brigas de amantes. Se Maggy voltasse para Mistral, depois de todas essas belas palavras, a concordância de Paula no fim seria usada contra ela.

Mas, com o passar das horas, ela viu que Maggy realmente fora longe demais para voltar atrás, que os acontecimentos lhe haviam ensinado lenta e inconscientemente, nas últimas semanas, uma compreensão do caráter de Mistral, apesar dela; que ela não tinha reservas de ilusão a esgotar, nem anos de emoções partilhadas a consolar com falsas esperanças.

Paula não duvidava que Maggy ainda amasse Mistral. Uma paixão, uma primeira paixão, como a que ela vivera com ele, marca a mulher para toda a vida. Nenhuma mulher realmente se refaz de um amor assim. No entanto, a perda do quadro, como nenhum outro fato jamais poderia ter feito, lhe mostrara a verdadeira natureza do homem. Era uma prova conclusiva de que Julien Mistral nunca se dedicara a Maggy como ela a ele. Ela nunca mais poderia amá-lo cegamente. A generosidade que ela dera a Mistral, de modo tão puro, dependia dela acreditar - não importa que isso tivesse sido apressado ou tolo ou até mesmo inteiramente falso - que ele a amava como ela o amava. Destruída essa idéia, não lhe restava nada a que se agarrar.

Maggy agora estava além da fase da raiva. Para ser justa, Julien nunca dissera que sentia o mesmo que ela. Ela supusera aquilo, com uma credulidade que agora parecia pertencer a uma pueril inocente que ela mal conhecia.

Ela estava de olhos enxutos, firme e decidida. Era o único meio de lidar com a situação. Chorar seria prejudicar-se mais ainda e isso teria sido insuportável.

Ela mandara um garoto buscar as coisas que deixara no estúdio de Mistral e, no momento, estava-se instalando de novo em sua casinha.

- Madame.

Perry Kilkullen achou que se ela ficasse mais tempo olhando para o cartão dele, este ficaria amarelado nas bordas é murcho, de velhice.

Paula levantou os olhos. Ele era um homem bom. Ela não poderia se enganar com uma coisa tão básica. Era rico - isso se notava em cada fio do paletó dele. Era sincero. Se ele podia realmente estar apaixonado por Maggy, sem ter trocado uma palavra com ela, era uma questão discutível, mas ele certamente achava que estava. O desejo - claro - mas amor era outra coisa. Ele provavelmente era casado, mas o problema não era esse. As feridas recentes de Maggy não deviam ficar sem um bálsamo e quanto antes melhor. Deus era testemunha que esse Kilkullen era maravilhoso de se olhar. Que melhor tônico se poderia desejar para ajudar Maggy a se refazer de uma trágica aventura com Julien Mistral do que um americano "bom, rico e bonito? Mesmo que ele fosse um pouco louco? Toda francesa deveria ter pelo menos um... pelo menos uma vez.

- Amanhã à noite, Monsieur Kilkullen, o senhor pode nos convidar para jantar com o senhor - disse ela, séria, sentindo-se um pouco como a ama de Julieta.

- Ah... - ele deu um suspiro de alívio. Estava disposto a procurar Avigdor, se Madame Deslandes se recusasse, mas sentia-se menos ridículo falando com uma mulher.

- No Marius e Janette - continuou Paula. - Já que é tempo de ostras. - E, pensou ela, já que Maggy não tem roupa para ir ao Maxim's. As criações de Madame Poulard só poderiam levá-la até lá... certamente não ao Maxim's.

- Como poderei lhe agradecer? - implorou ele.

- Não notando se eu pedir uma segunda dúzia de ostras... pedindo que eu aceite uma terceira... mas não me permitindo sobremesa. Não sou uma mulher difícil. Prefiro os prazeres simples.

- Quem me dera ter um irmão - disse ele, com admiração.

- Ah! E eu também!

Durante aquele primeiro jantar constrangido, enquanto Paula se dedicava a suas ostras - pois a gente pode aproximar as pessoas, mas depois disso elas têm de se haver sozinhas - Perry Kilkullen viu claramente que, por baixo da aparência tensa de Maggy, havia um sofrimento profundo e terrível, uma pesada carga de tristeza que ela mal conseguia tentar esconder. Isso o encorajou mais do que se ela estivesse alegre, pois mostrava que ela devia estar sofrendo e, fosse o que fosse, ele pretendia curá-la. A opereta de som que enchia o restaurante iluminado e movimentado, junto da Place d'Alma, era um fundo para o encanto grave e sensual da voz dela, triste, em que havia um tom de luto de que ela nem tinha consciência Ele estava preparado para um encantamento, mas, com o correr do jantar, ficou abismado diante da turbulência de suas emoções, abismado e sem medo.

Nas semanas seguintes, ele lhe fez a corte como os cavalheiros cortejavam as damas quando ele ainda era solteiro, no princípio da década de 1900.

Apesar de jovem para os seus 42 anos, as maneiras de Perry Kilkullen eram marcadas por urna graça eduardiana, pela discrição de um período em que havia muito tempo para todas as coisas.

O apartamento de Maggy se encheu de cestas de flores que chegavam diariamente da Lachaume, mas ele não se permitiu lhe oferecer mais nada. Ele andava todo dia pela Rue de Ia Paix, quando saía do Ritz de manhã, e olhava, triste, para a entrada da Cartier. Gostaria de entrave lhe comprar... qualquer coisa, tudo!... mas sabia que era inteiramente impróprio. Sempre que ela aceitava, ele a levava para jantar. Numa época em que o traje a rigor era a regra nos grandes restaurantes, ele se curvava ao desejo dela de ir aos lugares mais simples, onde ela se sentia à vontade em seus vestidinhos e capa preta. Delicadamente, como se ela fosse uma ave rara e selvagem, ele a levou a contar sobre sua infância: a avó, o Rabino Taradash e o bando de peraltas de que ela fada parte até cerca de dois anos antes. Ele, por sua vez, lhe contou sobre seu parente lendário, "Honest Ned Kilkullen", que assumira o poder no Tammany Hall (Partido Democrático de Nova York) e vencera - por algum tempo - e lhe explicou a diferença entre os irlandeses e todos os outros imigrantes aos Estados Unidos.

- Adoram uma boa briga, Maggy, e adoram uma boa canção. São brigões, terrivelmente orgulhosos e fazem qualquer negócio para conquistar a liberdade e a justiça, de acordo com seus padrões. Acham sempre que estão certos, claro, mesmo quando estão errados, mas isso é só o fogo irlandês.

- Acho que gostaria dos irlandeses - disse ela, achando graça no ardor dele.

De repente, Perry viu sua mulher, em quem o fogo irlandês tinha sido apagado havia anos, se é que, aliás, a rigidez do litoral leste que lhe fora incutida pela governanta deixara algum fogo ardendo. Mary Jane Kilkullen se transformara numa mulher de comitês, seca, presa ao dever, cujo nome evocava imagens vagas de um apartamento grande, cheio de antigüidades, em que a prata valiosa estava sempre polida e os finos lençóis de linho bem passados; uma bola de golfe bem jogada; um coquetel feito com perfeição, mas não tinha nenhuma recordação de sentir os cabelos dela sob sua mão, do perfume de seus lábios. Tão depressa quando lhe veio à mente, a imagem desapareceu. A realidade era a curva do ombro de Maggy, o lampejo pintalgado e indomável dos olhos dela, tão afastados, em seu rosto, que tinham aquele dom especial sem o qual a simples beleza é vazia.

Passaram-se duas semanas dessa corte agradável e Perry Kilkullen, que conseguira ser tão direto com Paula, começou a se maldizer cada vez mais com o passar dos dias, ao perceber que ficava paralisado com os seus sentimentos por Maggy. Sentia que voltara a ser um tímido adolescente, que hesita até em estender a mão para a moça que ama, com medo de ser repelido. Como, ele se perguntava, enquanto abandonava sua correspondência e se esquecia de dar telefonemas, como é que ele permitira que se criasse entre eles uma situação em que ele estava-se comportando como um tipo de tio bondoso e dedicado?

Passou-se mais uma semana até que Maggy, que não podia deixar de notar que ele a tratava com carinho, e parecia gostar dela, começou a observá-lo procurando sinais daquilo que Paula, curiosa como uma concierge velha, chamava de "intenções" dele. Ela nunca imaginara que um homem pudesse ser tão gentil nem tão tímido. Uma noite, quando estavam terminando um jantar maciçamente gastronômico no Le Grand Velfour, Maggy repentinamente descobriu que estava com vontade de dançar. Era mais do que uma sensação, explicou ela séria a Perry; era uma necessidade física.

- Onde? - perguntou ele, encantado com uma interrupção do que parecia ser uma série interminável de refeições.

- Le Jockey - respondeu ela. Maggy não voltara a nenhum dos clubes, boates, bistros ou cafés de Montpamasse, desde o vernissage. Na margem direita do Sena era tão improvável encontrar Mistral ou algum de seus amigos mexeriqueiros quanto se tivesse feito uma viagem por mar, mas naquela noite, ao escolher o Jockey, aquilo foi uma prova de que não se importava com quem se encontrasse, pois era a boate preferida dos pintores, tão simples que eles muitas vezes iam lá com suas roupas de trabalho.

Perry e Maggy logo se viram comprimidos na sala estreita e escura, que talvez fosse o lugar mais barulhento de Paris. De propriedade de dois homens, um pintor, outro ex comissário de navio, as paredes e teto da primeira e mais famosa das boates de Montparnasse eram decorados como um bar do faroeste, cobertos por cartazes colados em todos os sentidos, salpicados aqui e ali por quadros negros em que estavam escritos versinhos imorais em gíria americana. Lee Copeland, ex vaqueiro, tocava piano, acompanhado por dois guitarristas havaianos, e quando eles se cansavam uma vitrola tocava os mais recentes discos de jazz e blues dos Estados Unidos.

Um entusiasmo tribal e primitivo vibrava no pequenino Jockey, durante os quatro anos de sua existência breve e lendária, e toda noite limusines corno a de Perry paravam diante das paredes pretas do clube, em que tinham sido pintados índios e cowboys em cores vivas, e casais fugidos de bailes a rigor logo desapareciam lá dentro, para beber intermináveis copos de uísque e dançar em delírio a noite toda. Um disco estava tocando bem alto o Black Bottom, do Scandals de George White, do ano anterior, quando Maggy e Perry se sentaram. Na pista pequena os casais estavam-se debatendo como loucos.

- Diabos... não sei dançar essa! - disse Perry, exasperado.

- Nem eu. Há meses que não venho aqui. - Maggy bebericou seu uísque. - A pessoa pode até quebrar um braço ali.

Então, Lee Copeland passou à primeira frase de Someone to Watch Over Me e Perry sorriu, aliviado.

- Esse eu consigo... vamos?

Maggy levantou-se e, num ato reflexo, tirou os sapatos. Era a primeira vez que ele a tinha nos braços e a eloqüência do corpo nunca foi tão imediata como naquele primeiro momento em que se tocaram. A compatibilidade física é urna questão de pele, antes e acima de tudo. Se o contato de uma pele com outra não é imediatamente agradável, então nada mais pode importar, mas se for, todas as coisas poderão seguir-se.

Urna das grandes simplificações da vida se deu quando se inventou o salão de danças. Não era por acaso que, durante anos, as matronas que viam longe se recusavam a deixar que as filhas dançassem valsa. Depois que se permite que um homem passe os braços em volta de uma mulher e se mova com ela ao som de música, uma infinidade de arranjos adicionais podem ser contemplados, coisa que não acontecia com as gavottes ou minuetos.

De todas as danças conhecidas do homem ocidental na década de 20, o fox trot, ou o slow, como é chamado na França, era o mais perigoso, muito mais fatal do que a precisão atlética do tango ou do shimmy exuberante. Um slow é apenas um abraço com um passo simples e o tamanho da pista de dança no Le Jockey tornava até esse passo simples quase impossível de ser dado.

Enquanto as guitarras havaianas gemiam a obra-prima de Gershwin, Maggy tornou-se magicamente acessível a Perry, e as restrições que o haviam aprisionado nas últimas três semanas simplesmente desapareceram com a melodia.

 

               Sou um carneirinho perdido no bosque...

               Ah, como queria tentar ser bonzinho.

 

O lirismo das palavras imortalmente banais seria para Perry motivo de uma felicidade irracional, enquanto viveu. Eles ficaram abraçados até a música acabar e quando o piano passou à canção seguinte, ficaram parados, abraçados e os olhos presos uns nos outros. Sem mover um músculo, Maggy dava a Perry a impressão de que estava em movimento, inclinada por um vento de primavera.

- Eu podia pedir para tocarem essa canção de novo - disse Perry, com anseios.

- Ou você podia me levar para casa - murmurou Maggy, com um tom pungente na voz.

Sem se largarem as mãos, eles pararam apenas o suficiente para deixarem dinheiro na mesa e para Maggy pegar os sapatos; saíram do Jockey e tomaram a limusine que os esperava, que os levou pelas poucas ruas até o prédio alto e estreito onde morava Maggy, ao lado do Pomme d'Or.

Maggy continuava a cantarolar a melodia enquanto eles, sem trocarem uma palavra, de mãos dadas, subiram as escadas velhas e mal iluminadas, até o quarto dela no quinto andar. Quando chegaram ao terceiro andar, tiveram de abrir caminho com cuidado entre as cestas de flores, ainda frescas, que tinham sido colocadas com cuidado em cada degrau da escada. O corredor para o quarto de Maggy estava cercado de mais cestas e quando ela abriu a porta, Perry soltou uma exclamação... a cama imensa, enfeitada de dourado no quarto dela, parecia suspensa, inteiramente desgarrada num mar de flores.

- Acho que exagerei - murmurou ele.

- Uma moça nunca pode ter flores demais.

- Não há lugar onde se sentar - disse ele, bestificado. - Nem lugar para eu lhe fazer um café.

- E não se pode chegar à lareira para tostar um marshmallow.

- E eu nem posso abrir a porta do armário para pendurar o seu sobretudo.

- Não estou de sobretudo.

- Ah, isso simplifica as coisas. Não ternos escolha, temos?

- Não. Temos de deitar na cama, ou ficar aqui de pé, a noite toda. - Meus pés estão doendo - dica - ela, queixosa. - Então a alternativa... a alternativa...

Na pausa antes de ele beijar os lábios que ela apresentou, naquele segundo vibrante em que tudo parecia possível, em que toda a felicidade se oferecia, ele pensou que se aproximava de um destino para o qual, sem saber, ele tinha viajado a vida toda. E quando ele abaixou a boca à dela, e sentiu seu hálito se misturar ao dele, viu que tinha chegado.

Eles ficaram ali de pé se beijando, num campo de flores, por muito tempo, até que seus corações passaram a bater tão tumultuosamente que os dois começaram a tremer.

- A alternativa? - murmurou ela e por fim eles se deitaram juntos, sobre a colcha e devagar, com dedos trêmulos e muitos beijos. Perry se despiu enquanto Maggy olhava, à luz pálida e dourada do lampião de rua que se filtrava até sua janela. Despido, ele parecia incrivelmente jovem, sem o belo temo, o colete, as roupas de linho engomado, era um rapaz de cabelos louros espessos e revoltos e os músculos compridos e lisos de um esquiador.

Ele baixou as alças do vestido dela e o puxou para baixo, até a cintura. Com um dos braços ele a levantou, de modo que ela ficou meio recostada na cama, enquanto ele a acariciava do pescoço à cintura, sua mão quente se apossando do corpo dela aos pouquinhos, abaixando-a até ela ficar inteiramente descontraída, a cabeça jogada para trás no travesseiro. Ele então tirou-lhe o vestido, jogando-o sobre uma cesta de violetas. Em breve, ela estava tão nua quanto ele, o corpo febril, e cheia de uma promessa tumultuosa enquanto esperava, propositada e deliciosamente passiva, pelo que ele faria depois. Ele olhou para a juventude perfeita e desembaraçada do corpo de Maggy. Depois, soldou-se junto dela, enquanto se deitavam lado a lado, de frente um para o outro, quase da mesma altura, lábios com lábios, peitos unidos, corações Juntos - Maggy, eu te amo tanto. Vai deixar que eu te ame?

- Se não amar... se não amar - ameaçou ela, com um tremor na risada. Ah, sim, ame-me... querido Perry... ame-me... não faça mais perguntas.

A princípio houve uma dissonância nos ritmos deles. Maggy, acostumada com a brutalidade e urgência de Mistral, estava vários passos adiante de Perry, que dava um êxtase sério e lento a suas carícias, dando um passo de cada vez e se demorando nisso, mas, quando ela se viu intumescendo, pronta, ardendo e ansiando, e depois inchando com maior desejo ainda, Maggy se deu conta de que não precisava se apressar para um gozo rápido. Ela se adaptou a ele, abandonou a sua pressa por uma espera lânguida, quase prendendo a respiração, oferecendo-se às pontas dos dedos dele; e à sua boca, com uma curiosidade feliz. Cada momento se bastava a si, um fundindo-se no outro como notas de música. Ele tinha cheiro de mel, pensou ela, de passagem, quando ele afinal a possuiu, seguro de si, forte. Enquanto eles se estreitavam, juntos, ela de repente sentiu como se uma onda adejante de borboletas coloridas se tivesse libertado de seu corpo, nascendo numa surpresa suave entre suas coxas, lançando-se no ar vibrante.

Duas vezes, naquela noite perfeita, eles acordaram e se viraram um para o outro, intensificando e confirmando seu desejo.

Quando Maggy finalmente acordou, já era dia claro lá fora e Perry estava dormindo como se nada o pudesse despertar. Ela levantou-se da cama, calçou os sapatos de noite de pelica prateada e, despida debaixo da capa preta, correu escada abaixo à padaria da esquina, onde comprou seis croissants ainda quentes. Ele estava dormindo quando ela voltou e passou pelo chão com cuidado, no meio das cestas de flores, até o fogareiro, para fazer café e aquecer o leite. Maggy encheu duas xícaras enormes pela metade com o café forte, colocou-as numa bandeja com a leiteira com o leite escaldando, um açucareiro, os croissants, e fez lugar para a bandeja no chão, ao lado da cama.

Perry estava deitado de bruços e, em alguma hora de noite, tinha puxa do o acolchoado tão para cima que estava todo escondido, menos o topo da cabeça e uma mão estendida. Ela devia puxar os cabelos dele, ou... Maggy abaixou a cabeça e lambeu os nós do dedo mindinho dele. Ele gemeu e voltou a dormir. Ela passou a língua entre a ponta do dedinho e o anular e continuou passando-a de um lado para outro, entre os dedos dele. Ele tirou a mão, mas ela a prendeu e chupou a ponta do indicador. A massa do acolchoado se levantou da cama como. Se tivesse tocado uma campainha em seu ouvido.

- Que diabo?... onde? Maggy, sua diabinha! - Ele a agarrou e jogou-a na cama. - Para que está de casaco? Tire! Beije-me! Beije-me!

Ele a prendeu e empurrou-a de volta no travesseiro, de modo que seus cabelos se espalharam como flâmulas rubras contra uma nuvem branca. Pareceu-lhe, sentindo os lábios dela se abrirem diante dos seus, que acordara criança de novo, e cada hora era cheia de possibilidades, cada momento se estendendo diante dele, livre e brilhante e pronto para se encher de seus sonhos, sem nenhum dia usado, nenhum estragado ou esquecido.

- O café! - ela conseguiu exclamar, afinal. - Vai esfriar.

- Por que você não disse café? - perguntou ele, largando-a. - Estou sentindo o cheiro, mas não estou vendo.

Maggy esgueirou-se até à beirada da cama e conseguiu levantar a bandeja com cuidado, de modo que nada se derramou.

- Meu Deus! De onde veio isso? - perguntou ele, servindo o leite quente nas xícaras. - Ontem à noite você disse que não havia lugar para fazer um cafezinho... hoje tem uma festa!

- De manhã certas coisas se tornam... mais importantes, de modo que pensei melhor. Coma outro croissant.

- Está tão bom. É a melhor coisa que já comi na vida. Onde os arranjou?

- Fui até à padaria, antes de você acordar - disse ela, com fome, comendo outro.

Depois que tudo na bandeja foi consumido, Perry deitou-se na cama e se espreguiçou. Ele olhou em volta e reparou de verdade no ambiente. A única beleza do quarto estava nas cestas de flores e as roupas dele, largadas tão às pressas, cobriam várias delas. As paredes eram forradas com um papel de parede desbotado e manchado, a cama dourada estava arranhada e manchada. O armário de Maggy, de décima mão, estava vergado no meio e o teto era baixo e acanhado, a despeito do sol entrar pelas duas janelas abertas.

- Posso usar o seu banheiro? - pediu ele.

- No corredor, segunda porta à esquerda.

- Você não tem um banheiro seu?

- Um para cada andar, meu senhor. Tenho uma pia e um bidê... só água fria... mas quando quero tomar um banho tenho de ir à casa de Paula. E quando quero ir ao banheiro, vou no do corredor.

- Você por acaso não se lembra do que aconteceu com as minhas calças? - perguntou ele, olhando em volta do quarto.

- Devem estar por aí.

- Se não estiverem, vou ter de mijar no bidê - ameaçou ele, surpreendendo-se a si mesmo. Nunca falara tão livremente com Mary Jane, em 20 anos de casamento.

- Estão lá naquela rosas... não, deixe, eu pego.

Maggy engatinhou como uma gata no meio das flores, à vontade em sua nudez milagrosa, com uma falta de pudor total que fez Perry vacilar um instante entre o assombro e o choque. Nunca, em toda a sua vida de casado, sua mulher criada no convento andara assim.

Quando ele voltou do banheiro, Maggy já escovara os dentes, lavara o rosto e tinha juntado as roupas dele na cama, onde agora se empoleirava, .coberta com seu robe de seda lilás.

- Maggy.

Ele se sentou na cama com o ar de alguém que vai fazer uma comunicação.

- O banheiro serviu?

- Muito bem. Escute, meu amor querido, você não pode ficar aqui.

- Mas por que não... tenho a melhor vista de Paris.

- Porque nós não podemos viver de café e croissants. Porque não posso suportar a idéia de que você não tem um banheiro. Porque há tantas coisas que quero lhe dar. Porque não posso dormir aqui toda noite e ir trabalhar de manhã sem ter de voltar ao Ritz para tomar banho e fazer a barba e trocar de roupa e não tenho tempo para isso. Porque não há bastante lugar para as suas flores.

- Dormir aqui todas as noites? - perguntou ela, agarrando-se à única frase usada por ele que realmente lhe chamou atenção.

- Você não me quer?

- Ah, sim, eu o quero!

- Toda noite? - Seus olhos cinzentos insistiam em pedir uma afirmação.

- Não tenho certeza se é toda noite. - Ela o segurou pela cintura e deitou-se no colo dele, olhando para os cabelos louros que lhe cobriam o peito. - Mas certamente esta noite, e amanhã, e depois de amanhã...

- Então, está vendo, minha linda, que você vai ter de se mudar. Aqui não há lugar para as minhas roupas.

- Nem o seu criado de quarto.

- Especialmente o meu criado de quarto. Você gostaria de morar no Ritz? Não, esqueça isso... dentro de cinco minutos todo o pessoal do hotel estaria falando a respeito e não sei por que alguém há de se meter em nossa vida. Maggy... quer deixar que eu arranje um apartamento para você? Quer deixar que eu tome as providências para que tenhamos um lugar direito?

- Mas você é tão direitinho - protestou ela. - Olhe só, você tem a oportunidade de ter uma aventura na verdadeira Paris, a parte de Paris que só os artistas e os franceses conhecem de verdade... o lugar que todos esses outros americanos de visita estão tentando tanto possuir... mas você logo quer transformá-lo em outra coisa; um bom lugar onde morar, onde dormir, com empregados, sem dúvida, e a melhor carne do melhor açougue e todas as contas pagas na hora... esse "lugar direito" seria para mim ou para nós?

- Que diferença faz?

- Não vou me mudar para o apartamento, casa ou suíte de homem nenhum. Prefiro manter o meu quartinho aqui. Isso me agrada. Mas se for um lugar meu, um lugar de que só eu tenha a chave, o meu lugar só meu, particular, como este, eu poderia começar, apenas começar, sabe, a pensar.. .

- Prometo! Só seu, completamente. Só uma chave. Vou marcar hora. Mademoiselle está livre hoje? Mademoiselle gostaria de receber Monsieur Kilkullen? Mademoiselle está disposta a receber uma visita de um cavalheiro? Mademoiselle deseja ser beijada na nuca, ou Mademoiselle tem desejos menos convencionais? Mademoiselle deseja ser tocada entre...

- Pare! - Maggy fugiu, esgueirando-se. - Mademoiselle não tem mais nenhum desejo, agora.

- Mas você promete, Maggy? Muda-se? Você ainda não disse que sim.

Ele olhou para ela, aflito. Ela era tão imprevisível, pensou, tão impossível de se possuir, que ele receava que ela pudesse preferir um modo de vida que lhe oferecesse liberdade total. Não havia um fio de cabelo domesticável na cabeça de Maggy. Mas ele não podia suportar a idéia de que ela morasse ali naquele quarto impossível, em que ele passara a noite mais linda de sua vida. A luz do dia não era favorável a esse quarto.

- Perry, o que você quer, dito claramente e sem rodeios - disse Maggy de repente séria - é me manter. Com minha chave ou sem, serei uma mulher sustentada, se concordar, não é?

- Que palavra mais sórdida! - disse ele, horrorizado. - Para que usar esses termos?

- Mas estou certa? Não é isso mesmo o que as outras pessoas diriam? O que mais seria, senão uma mulher sustentada, une femme entretenue? - continuou ela, impiedosamente.

- Ah, Maggy, você é impossível - disse ele, triste.

- E imagino que você há de querer que eu use roupas de alta costura... não há de achar que as minhas roupas sirvam... e há de querer me comprar jóias e peles.. .

- É, sim! Diabos, quero mesmo! O que há de tão horrível nisso? Droga!

Maggy pulou na cama e um vasto sorriso começou a aparecer em seus lábios, enquanto ela girava e girava, o roupão lilás rodopiando nas pernas nuas.

- Pulseiras de brilhantes até aos cotovelos? Chinchila até aos pés? Viagens a Deauville? Um carro só meu?

Perry olhou para a malícia no rosto dela.

- Pulseiras até aos ombros, se isso for possível... dez casacos de peles. .. uma carruagem com quatro cavalos. . . seis lacaios altos. . . um modelo de cada um da nova coleção de Chanel... e isso só para começar!

- Ah... ah! - Ela foi girando cada vez mais depressa, até cair em cima dele. - Eu sempre desejei ser uma mulher sustentada! Foi o sonho de minha infância depravada... ah, que emoção.. . sustentada. . . tal e qual na Belle Époque. - Ela estremeceu, deliciada. - O que diria a Tia Esther, se soubesse?

- Não vamos contar a ela - disse Perry, depressa.

- Eu nem sonharia em fazer isso. Escute, querido... quando é que você pretende começar a me manter? Para dizer a verdade, quero deixar Montparnasse e nunca mais voltar aqui. Acabei com a minha vida aqui. Está terminado, esse capítulo, e acabado... tudo menos Paula.

- Hoje, esta manhã mesmo. Vou-lhe arranjar uma suíte no Lotti.. . fica a alguns passos do Ritz e vamos começar a procurar um lugar.

- Ah, sim! Eu sabia que ia ser uma maravilha... mas mantida por um americano rico, alto, bonito, generoso e maluco! - Maggy cobriu o rosto dele com uma chuva de beijos. - ça, alors, ça c'est La vie, mon chérL.. Ia bonne vie!

- A boa vida - repetiu Perry. - Sim, minha amada, prometo.

 

 

                                                       Capitulo 8

 

- Ele não está trabalhando - disse Kate, sentada com Avigdor num café. - Não conseguiu sequer pegar num pincel, desde a vernissage.

O marchand ficou rígido. O pintor que não pinta com regularidade, como se fosse a um escritório, pode revelar-se um investimento tão mau quanto uma mina de ouro que se esgota.

- É aquela maldita garota. Ela não voltou, não é?

- Não foi nada disso - retrucou Kate, asperamente. - Naturalmente, ele ficou furioso depois que ela armou aquela confusão estúpida... aquela ceninha revoltante que ela fez foi uma vergonha, mas ele não é propriamente do tipo de homem que fica chorando por causa de mulher. Ele não precisa mais dela, como modelo, e parece que só estavam juntos havia alguns meses... não é o suficiente para fazer um homem corno ele parar de trabalhar. Na essência, ela não tem importância.

- Você é que sabe.

Avigdor, concordando, fazia certas reservas mentais. Uma moça sem importância poderia ter sido a inspiração para uma obra tão apaixonada? No entanto, alguma coisa na testa de Kate, um tom gélido na voz dela, lhe dizia para não fazer mais conjecturas, pelo menos em voz alta.

- Tenho uma teoria de que é um tipo de abatimento... tristeza pós parto. O vernissage foi um ponto tão alto que depois tinha de haver uma reação. Eu mesma tenho-me sentido um pouco... por baixo... de modo que posso imaginar como deve tê-lo afetado.

- Ele ao menos tentou pintar? - perguntou Avigdor.

- Tentou. É isso que mais me preocupa. Já se passaram duas semanas e ele fica ali diante da tela, olhando para ela, hora após hora, dia após dia, enquanto a tinta seca na paleta. Cada vez que vou visitá-lo, eu o vejo ali, sem nada na tela. Depois, de noite, ele cai de bêbado, com o vinho tinto... ele nunca fez isso. E não quer falar a respeito. Adrien, ele parece... assustado... é a única palavra em que posso pensar para descrever os olhos dele. É quase como se estivesse numa espécie de pânico particular... não posso compreender.

- Ele tem de sair um pouco daqui, ver alguma coisa além das paredes do estúdio. Não é o primeiro pintor que não consegue pegar num pincel, depois de um sucesso.

- Já sugeri que ele fizesse uma viagem, a algum lugar.

- E...?

- Ele diz que não está disposto. Diz que não é o tipo de homem que tira férias. Diz que há meses não trabalha decentemente, nem por um minuto, e que tem de insistir até conseguir começar de novo. - Quer que eu fale com ele?

- Gostaria, Adrien. Ele acha que você trabalhou bem na exposição.

Obrigado - disse Adrien, secamente. Ele tinha feito daquele homem a sensação da temporada. Mas se os marchands esperassem uma gratidão normal dos artistas, iriam dormir toda noite muito decepcionados. O negociante que estivesse nesse ramo por gratidão devia abandonar sua galeria e passar a ser criador de cães, dos grandes, simpáticos e babados.

Dois dias depois, cedinho numa manhã em meados de outubro, Mistral partiu para a Provença. Na noite da véspera, quando estavam bebendo alguma coisa e se despedindo, Kate, como que pensando nisso naquele momento, ofereceu-se para levá-lo de carro.

- Só conheço Paris e um pouco da Normandia. Também gostaria de ver Aix e Avignon, mas não gosto de viajar sozinha... e você não teria de ir de trem...

Mistral ficou ofendido.

- Você está-se fiando muito em mim, Kate. Está pensando que quero que você me leve para toda parte?

- Você pode dirigir... não me importo - disse Kate, irritada.

- Nem sei como isso é tão tipicamente americano, pensar que eu dirijo como se tivesse carro.

- Eu lhe ensino em meia hora, assim que estivermos no campo. Não é nada difícil.

Assim que passaram por Fontainebleau, Kate saiu da estrada principal e, depois das mais breves demonstrações e instruções, entregou o Talbot esporte de dois lugares a Mistral. Ela sabia que ele tinha reflexos instantâneos, que as reações dele eram rápidas como se ele estivesse em perigo, que sua concentração em qualquer coisa visual era prodigiosa, e estava curiosa para ver como ele se sairia desse desafio. Sem lhe oferecer uma palavra de orientação, ela ficou olhando as mãos dele, grandes e excepcionalmente alongadas, com os dedos bem articulados, lidando habilmente com a direção e a mudança.

Ele dominou o carro em dez minutos e voltaram para a estrada principal e se dirigiram para Saulieu, seguindo para sudoeste por uma estrada quase deserta, a 90 quilômetros por hora.

Kate estava sentada calada, descontraída, com suas roupas de lã marrom e cor de ferrugem lindamente talhadas, luvas de couro macias e um chapeuzinho de feltro. Eles passaram pelo departamento de Yonne, muito plano, entre carreiras intermináveis de plátanos cercando campos em que o trigo já fora quase todo colhido. Era o tipo de dia de outono que não encerra nem um pouco de melancolia, o tipo de dia em que alguma promessa tentadora está quase visível na profundeza do céu e no vigor do ar, especialmente quando o viajante se dirige para o sul.

Em Avalon eles almoçaram ligeiramente e continuaram em sua carreira muda e rápida até que o destino que ela planejara para aquela noite ficasse para trás. Mistral parecia ter caído num transe de movimento em que o pensamento e a memória não tinham participação.

De vez em quando Kate olhava para o perfil dele e notava que a boca, normalmente de linhas dominadoras e peremptórias, se descontraíra. Ela não via a expressão dele não porque seus olhos fossem tão tapados, mas porque não havia nada na pose imperiosa da cabeça dele que convidasse à conversa.

- Para onde vamos? - perguntou Kate, afinal, à medida que a tarde se acabava e ela começava a sentir o frio da noite no carro aberto, a despeito do costume pesado e do suéter.

- Até chegarmos a Lyon, onde o Saône se junta ao Ródano. Há muito tempo, era um lugar sagrado. Para mim, é o verdadeiro começo da Provença, se bem que qualquer provençal diga que é muito ao norte. Não vamos parar antes de Lyon.

- Mas são quase 200 quilômetros - protestou Kate.

- É, mas é tudo morro abaixo - garantiu Mistral. - O sul é sempre descendo.

Em Lyon encontraram uni pequeno hotel, comeram muito bem sem gastar demais e foram para seus quartos, crestados pelo vento e exaustos. No dia seguinte, acompanharam o Ródano majestoso, esse rio veloz e imprevisível, venerado há milênios, passando por aldeias cujos nomes se seguiam como uma grande carta de vinhos, uma prodigiosa trilha de vinhedos, cada qual mais precioso, de Lyon a Valença, a Orange e por fira a Avignon. Lá atravessaram o rio para Villeneuve-le-Avignon, onde pararam, por fim quase à meia-noite, numa pensão onde Mistral estivera uma vez, numa viagem de férias quando ele ainda estudava na Beaux-Arts.

Madame Blé tinha comprado sua pensão de um senhor que era fazendeiro. O prédio original fora o palácio de um cardeal e depois um convento, de 1333 até à Revolução, quando voltou ao uso secular. No entanto, ainda estava banhado numa atmosfera de paz total. Era construído em forma de U contornando um pátio, onde as colunas de mármore do antigo claustro, cheias de musgo, montavam guarda no jardim escuro. Esse antigo convento não tinha nada de monástico, nada de eclesiástico. Sua tranqüilidade calorosa era a de um refúgio do mundo, mas não dos frutos ou das alegrias da terra. O centro do pátio era marcado por uma escada que dava para uma adega tão velha quanto o palácio do Cardeal Amaud de Via e era esse o verdadeiro centro da construção.

- Tenho de arranjar uma espécie de livro guia para essa região – disse Kate no dia seguinte, ao café da manhã, que tomaram tarde.

- Por quê?

- Viajamos tão depressa que estou-me sentindo completamente desorientada. Não sei o que fica a leste nem a oeste deste lugar, mas sei que é

muito histórico e não gosto de parecer ignorante.

- Histórico? - Mistral levantou as sobrancelhas grossas, fingindo surpresa.

- Ah, pelo amor de Deus, Julien... cheio de ruínas, igrejas, museus, uma porção de coisas que devíamos visitar. Pare de parecer tão assombrado. O que é que há de errado em eu querer saber? Viemos de Paris quase ao Mediterrâneo em dois dias e quero saber por que você escolheu esse determinado lugar para parar, de todo o resto da França.

- E um livro lhe dirá isso?

- Bem... e por que não? Não podemos andar por aí sem saber.

- Não podemos?

- Obviamente, é possível, mas desse modo nós certamente não veremos coisas - disse ela, azeda.

- Você poderia ter dez guias e dez anos para segui-los e, ainda assim, perderia alguma coisa maravilhosa bem debaixo do seu nariz tão americano. Por que não descansa e olha em volta? Foi isso que vim fazer aqui... só olhar em volta.

Kate desistiu da discussão. Embora seu senão de ordem básico estivesse perturbado pela idéia de vagar por ali sem alguma autoridade a que recorrer, ela não queria discutir com ele sobre nada.

O resto do dia e no dia seguinte eles passearam por V lleneuve-les-Avignon a pé, explorando a cidade que surgira durante o século XIV, quando o papa se mudou de Roma para Avignon. Os dignitários da igreja tinham-se instalado em Villeneuve e criado uma cidade movimentada, com um grande mosteiro e um forte magnífico, urna cidade que agora se retraíra em alguns quarteirões fragrantes e sonolentos e várias ruas estreitas, de arcadas, onde ainda se distinguiam as últimas pedras dos palácios episcopais.

No terceiro dia, dirigiram-se para leste, passando por Avignon propriamente dito, e tomaram a estrada que levava à cidade mercado de Apt e dividia a bacia do Rio Apt, um vale rico e fértil que ficava encavado entre duas cadeias de montanhas separadas por uns dez quilômetros. Bem ao norte ficavam os Montes de Vaucluse e ao sul, quase bordejando a estrada, a Montanha de Lubéron. Era aquele lado da Lubéron, Le Versant Nord, que cativara Mistral em sua visita anterior. Ele nunca se esquecera daqueles penhascos de calcário com uma erosão fantástica, nos quais uma vegetação escassa se agarrava tão ferozmente quanto as aldeias aglomeradas, pousadas 300 metros acima da estrada principal, aparentemente inatingíveis até que Mistral encontrou a trilha de uma estrada de terra estreitinha que levava a cada uma delas: Maubec, Oppède-le-Vieux, Félice, Ménerbes, Lacoste e Bonnieux.

Na pré-história, o homem vivera no lugar onde agora estavam esses morros fortificados, cada um quase invisível da estrada pela qual os inimigos tantas vezes tinham chegado, marchando, no passado. Durante centenas de anos, tinham sustentado batalhas sangrentas contra a tirania do norte, aquelas aldeias pequeninas e adormecidas com ruas íngremes como escadas, cujas casas se aglomeravam, de um cinza suave e um ocre mais suave, envoltas em trepadeiras, salpicadas com o prateado esvoaçaste e mitológico de olivais e o coral fundo das flores da trepadeira chamada "dedos de fada". Dessas aldeias, de noite, elevava-se uma névoa, povoada, ao que se dizia, pelos espectros dos antigos habitantes, protestantes dissidentes implacavelmente massacrados por seus conterrâneos nas guerras religiosas. Estas aldeias, agora pacatas, era onde moravam os donos de lojas e artesãos, cujos negócios dependiam dos muitos sitiozinhos prósperos da bacia do Apt.

Mistral estava muito empolgado. Mal subiu às ruínas de mármore branco do castelo fortaleza de Oppède-le-Vieux e avistou daquele ponto alto um sítio especialmente interessante, bem abaixo, logo desceu correndo pelo caminho íngreme que ele e Kate tinham acabado de subir, arrastando-a atrás de si, sob muitos protestos. Entrou depressa no carro e voltou ao vale ondulante e bem cultivado, em busca da casa de fazenda que vira lá de cima. Cada grande casa de fazenda, ou mas, como era chamada no dialeto provençal, era uma coleção de prédios de pedra, construída mais ou menos em quadrado, em volta de um pátio central, com tantos anexos e torrezinhas ligados e tantas diferentes alturas de telhados e uma coleção tão dispa ratada e assimétrica de janelas com venezianas e arcadas de portas, que parecia uma aldeiazinha instalada no meio de uma profusão de campos e vinhedos, que cresciam até tocarem as paredes dos prédios de todos os lados. Mistral não fazia caso das placas que avisavam que a estrada para a mas era particular e dirigia por ela, saltava do carro e dava a volta à casa, perdido em sua admiração, sem ligar para os latidos dos cães da fazenda, até que uma camponesa saísse para investigar. Então, enquanto Kate olhava do carro, ele conversava com a mulher. Invariavelmente, ela convidava os dois para tomarem um cálice de vinho. Ele tinha um interesse apaixonado para entrar nessas fortificações rurais, das quais não havia duas semelhantes, como suas paredes de um metro de largura e lareiras tão grandes que se podia ficar de pé dentro delas.

A camponesa provençal, taciturna e desconfiada de qualquer foras Mo, normalmente nunca convidaria dois estranhos para entrarem em sua casa, mas a admiração e o interesse declarados de Mistral a encantavam tanto o seu aspecto, pois era um cavalheiro tão bonito, a despeito de suas roupas rudes de trabalhador. A desconfiança das camponesas era substituída por simpatia e curiosidade, pois sentiam, naquele homem alto do norte, com seus cabelos ruivos e olhos do azul do mar, uma relação emocional, uma imensa sensibilidade para com o modo de vida delas, que o fazia parecer não inteiramente estranho, embora, à moda dos clãs, chamassem de estrangeiros até os vizinhos da aldeia próxima.

- Não existe lugar mais belo no mundo - disse ele a Kate, depois que passaram três dias passeando pelas montanhas e planícies da vertente norte da Lubéron, percorrendo os 40 quilômetros de volta a Villeneuve à noite, antes do jantar. - Pelo menos, na minha opinião.

- Você já viu tantas partes do mundo que possa ser um juiz imparcial? - perguntou Kate, sem poder se impedir de fazer conjeturas.

- Não preciso. Algumas coisas são evidentes por si. O que mais você poderá pedir da natureza, Kate, e o que mais do homem, do que essas aldeias, esse céu, essas árvores, pedras e terra? Eu estava certo em querer voltar aqui. Em Paris eu me esqueci do horizonte... me esqueci do verde. Nada, Kate, nada no mundo é tão verde quanto as folhas de um vinhedo com o sol sobre elas.

Kate nunca o vira tão expansivo, com um prazer tão evidente. Ele parecia estar com todos os poros de seu ser inundados com a luz especialmente pura e forte do campo provençal, essa terra que o poeta Frédéric Mistral chamara de "O Império do Sol".

Ela mesma se sentia diferente. Aqueles dias passados ao ar livre, num ar que tinha cheiro de urzes, alecrim e tomilho, fizeram com que ela largasse a espessa capa de sofisticação dentro da qual em geral se movia. Os contornos duros de suas feições, que ela antes sempre encobrira com pó de marfim claro, todos se suavizaram com o bronzeado que arredondou e aqueceu seu rosto. Os lábios finos, não mais retocados com cuidado com batom vermelho, pareciam mais cheios e macios contra o corado quente de suas faces. Sua testa alta estava coberta pelos cabelos furos, tão despenteados pelo vento no carro aberto que ela desistira de qualquer tentativa para conservar o seu caprichoso repartido no meio, esquecendo-se de usar o chapéu e deixando os cabelos esvoaçarem à vontade. A perfeição da forma de seu rosto foi acentuada com essa nova liberdade. Quando Kate procurava conseguir uma superfície suave, inteiramente irrepreensível, como fazia em Paris, endurecia o seu aspecto.

Agora, passando a um estado de espírito campestre, ela parecia menos temível e jovem, como devia ser aos 23 anos.

- Você tinha razão, quanto ao livro guia - confessou ela, quando acabaram de jantar, no jardim da pensão de Madame Blé.

- Mas Kate, pense no que você perdeu! Há o palácio do papa em Avignon... nós nem entramos lá e fica bem do outro lado do rio... e o Circo Romano em Arles e as fontes de Aix... ah, não se esqueça da Maison Carré, em Nímes... cá está você no meio de 100 antigüidades famosas que os turistas vêm visitando há séculos e só viu algumas aldeias sonolentas e uma dúzia de sítios.

- Por que você fica implicando comigo, Julien? Já disse que você tinha razão; quer um pedido de desculpas oficial?

- Desculpas? De você, a altiva dama de Nova York, a americana rica e elegante que anda por aí organizando as pessoas tão habilmente que elas mal se dão conta do que estão fazendo? - Ele lhe deu um sorriso condescendente.

- Ora, isso não é justo. Estou ofendida.

Kate falava com calma, mas sentiu raiva. Por que ele se voltava contra ela no minuto em que ela fazia uma concessão? O que o tomava tão birrento?

- Justo? Claro que é justo... você é que não se quer enxergar como é. Você aqui está diferente, concordo, mas em Paris está no seu elemento. Nunca vi mulher que consegue ter as coisas mais ao seu jeito. Você é notável, Kate. O que é que há de errado em ser rica e se vestir muito bem e olhar de cima e fazer a vida ser o que você quer? Há muitas mulheres que gostariam de estar no seu lugar.

- Diabos, Julien! Quem é você, para me dizer que tipo de pessoa você acha que eu sou? Não há nada, nem ninguém, que lhe importe, não é? Fora o seu trabalho, existe alguma coisa de que você realmente goste? Se houver, nunca vi. Você é um monstro.

Kate mal podia acreditar rias palavras que se ouviu pronunciar. Seu controle, seu senão de proporção, os pontos caprichados de sua fala normal, tudo desaparecera numa tempestade de fúria.

Mistral sorriu como um garoto provocando um gatinho.

- E você, Kate querida, naturalmente permite que todos pisem em você porque tem muito bom coração e não pode impedi-los. Kate Browning, a maleável, de espírito mole, nada exigente, que só pede da vida a frutinha que cai da árvore aos seus pés.

Zangada demais para poder responder, ela ficou calada, mordendo os lábios, lutando contra uma raiva tremenda.

Ele falou com preguiça.

- Duas pessoas tão totalmente decentes, com um caráter tão magnífico como o nosso, poderiam dar uma combinação interessante. O que é que você diz, Kate? Vamos experimentar?

Kate se levantou da mesa e foi para o jardim escuro, fora do círculo de luz. Mistral a acompanhou e, com suas mãos fortes, virou-a para ele. Ela enrijeceu o corpo, resistindo, e virou a cabeça, o queixo tenso. Com uma das mãos ele a prendeu no lugar, com a outra forçou a cabeça dela para que o fitasse, mas ela não levantou os olhos. Se ainda estava ofendida ou não, ele não sabia e nem se importava. Ela começara a atraí-lo nesses últimos dias e certamente não insistira em acompanhá-lo nessa viagem só para ver as paisagens. As mulheres não fazem essas coisas, segundo a experiência dele. Nem mesmo americanas ricas, com roupas caras.

- Kate, vamos para o meu quarto. Quero ver você nua, deitada na minha cama.

- Julien!

- Não me venha dizer que está escandalizada. Fui franco demais para a Srta. Browning? Quer palavras bonitas, Kate? Eu quero te foder. Se isso não lhe agrada, basta dizer. Não torno a pedir. Então... sim ou não?

- Como é típico, como é romântico - murmurou ela.

- Eu disse "sim" ou "não".

Na pouca luz que havia, Mistral viu toda a fisionomia de Kate assumir uma expressão tão complexa, trêmula, de um anseio involuntário e no entanto irreprimível, que ele passou o braço em tomo dela, sem dizer mais uma palavra. Enquanto subiam a escada em curva eles não se disseram nada, seu único contato uma leve pressão do braço dele nas costas da moça e a mão na cintura. Através de seus dedos ele sentia a rigidez de Kate, sua recusa em se encostar nele, sua insistência em andar tão controlada como se ele não a estivesse tocando. No entanto, Kate não vacilou nem resistiu a ele de modo algum. Era quase como se ela estivesse subindo os degraus para a cama dele sem pensar no que estava fazendo; no entanto, o silêncio dela estava carregado de algo tão tenso, tão secreto, tão mais forte do que a simples tensão sexual, que Mistral ficou intrigado.

Ele a largou para trancar a porta do quarto. Quando voltou para ela, viu que a moça se retirara para a janela e parecia estar contemplando alguma coisa no jardim, numa fascinação total. Ele atravessou o quarto e ficou atrás dela, roçando a nuca com um dedo. Ela não se sobressaltou nem se virou, mas suas mãos se agarraram ao caixilho da janela, com resolução.

- Kate, como podemos começar a experiência se você não quer nem se virar? - murmurou ele, provocando-a.

Ela não se mexeu, nem demonstrou que o tivesse ouvido. Mistral debruçou-se e roçou sua nuca com os lábios. Kate agarrou o caixilho da janela convulsivamente. Ele sorriu e, com a ponta da língua, tocou-lhe a nuca no ponto exato em que os cabelos cortados formavam uma ponta; depois, foi passando a língua devagar pelo pescoço, pela saliência delicada da coluna, até um lugar entre as clavículas. Lá ele colou a boca na pele de Kate e ficou respirando mansamente, com paciência, sem qualquer outro movimento, até ela deixar cair as mãos aos lados do corpo e se virar para ele, branca e trêmula.

- Você nem me beijou, Julien. Nunca me beijou.

- Um erro, Kate... um dos poucos que confesso - disse ele, abaixando e levantando o queixo da moça para ele. Os lábios de Kate estavam frios e tão apertados, sem ceder nada, que ele recuou, espantado. - Kate, você não é obrigada a ir adiante com isso... eu não insisto sobre mulheres que não estão dispostas.

- Não! Não, Julien, eu quero - insistiu ela, embora suas palavras fossem contrariadas pela timidez de sua voz. Ela se lançou sobre ele, jogando os braços em volta do pescoço dele e comprimindo os lábios nos dele em beijinhos rápidos e breves, que eram quase bicadas.

Por um momento, achando graça, Mistral deixou continuar aquele assalto sem jeito, mas logo a afastou.

- Não tão depressa e furiosamente, Kate.

- Jesus! Você não pára de fazer troça de mim?

Em resposta, ele a carregou e levou para a cama. Ainda com a moça no colo, ele se deitou ao lado dela.

- Vou confessar outro engano... eu me esqueci de como você é impaciente.. . vou-lhe ensinar a paciência, Kate, você está necessitando muito aprendê-la. - Enquanto ela ficava ali deitada, rígida, ele passou as mãos de leve por seu corpo. Ela fez uma careta mas não protestou. - Não pretendo despi-la, Kate, só daqui a um bom tempo - murmurou Julien, curvando-se sobre os lábios dela. Fique quieta - mandou ele e beijou-lhe a boca fechada, concentrando toda sua curiosidade, toda a sua necessidade - pois havia semanas que ele não fazia amor com uma mulher - sobre os lábios bem feitos, até eles ficarem quentes e inchados e, por fim, se abrirem espontaneamente para deixar que a língua dele penetrasse. Ele se controlou, tocando só de leve na parte de dentro dos lábios dela, passando languidamente de um canto da boca ao outro, resistindo quando ela começou a querer prender a língua dele e puxá-la mais para dentro, depois deixando-a por um segundo, antes de tirá-la completamente e cobrir toda a boca de Kate com a sua, aquela boca que sempre parecia tão severa até se tomar quente e terna no amor. Brincando com ela, a língua voando para dentro e para fora dos lábios de Kate, avançando só por uma fração de segundo, ele sentia todos os músculos do corpo da moça começarem a se descontrair, até que ela ficou ali deitada passiva, não mais contorcida numa expectativa aflita, todo o seu ser focalizado na boca dele e no que estava fazendo com ela Em breve, essa fase de entrega passou e ele sentiu o retesamento gradativo de seus músculos dos braços, da perna e da pelve, à medida que ela passava a querer mais do que simples beijos, mas ele ainda se limitava aos lábios dela, rindo intimamente com a lição que a estava obrigando a suportar. Ela gemeu e rangeu os dentes, enquanto ele negaceava. Você há de implorar, prometeu ele a si mesmo, vai ter de implorar, sua fria puta americana, enquanto ele mesmo se sentia quase insuportavelmente excitado.

- Julien. . . - sussurrou Kate. - Tire minha roupa.

- Não, Kate.

- Julien... Por favor.

- Se você me quiser... vai ter que me despir - exigiu ele, atirando-se no acolchoado, tirando os sapatos e ficando deitado, bem parado. Kate olhou para o homem magnífico que se oferecia a ela de modo tão alucinador e, com uma fúria de resolução repentina, os dedos trêmulos, esquecendo-se de seu constrangimento, ela se atirou aos botões da camisa dele, quase arrancando-os. Ele a ajudou a tirar os braços das mangas e ela mal parou para passar as mãos pelo peito dele, antes de atacar a fivela do cinto. Mas aí chegou aos botões da braguilha e viu a forma grande e dura do pênis, tenso sob a fazenda. Ela foi tomada por uma incapacidade repentina de continuar e suas mãos lhe caíram aos lados.

- Você... Julien... abra você - implorou ela.

- Perdeu a coragem, Kate? - provocou ele, observando-a com cuidado, embora todo impulso de seu corpo lhe dissesse para atirá-la na cama e possuí-la como ela estava, os cabelos molhados nas raízes com o suor do desejo, os lábios machucados, os punhos cerrados.

- Não! Dane-se! - respondeu ela violentamente e respirou fundo, antes de começar a abrir a braguilha dele, revelando-o erguido e nu, pois ele não tinha nada por baixo das calças de veludo. Mistral estava tão ofegante quanto ela, enquanto Kate se obrigava a desabotoar cada botão. Quando ela chegou ao último, ele tirou as calças com um movimento rápido e a jogou de volta na cama.

- Muito bem, Kate... você foi paciente...

Ele grunhiu e, com dedos experientes, começou a tirar as roupas dela, descobrindo, como esperava, que os seios e quadris eram pequenos, a cintura fina e os pêlos púbicos louros e finos como os de uma mocinha.

Logo os dois ficaram inteiramente despidos e Kate estava deitada na cama, numa pose de tal pudor, controlado por simples força de vontade, que Mistral achou difícil deixar de rir.

- Kate linda - murmurou ele, agarrando o corpo esguio a abraçando-o, cobrindo a carne dela com a dele, o mais que pôde. Ele a segurou, aquecendo-a, quieto, com sua nudez, até sentir que ela estava começando a se descontrair, junto dele. Se ela fosse outra mulher, ele já a teria penetrado, mas Kate, essa mulher inexperiente e pouco sensual, lhe apresentava um desafio a que ele não queria resistir. Ela o queria... ah, sim, mas queria acabar com aquilo o mais depressa possível, sem se perder, e isso era coisa que ele não pretendia permitir.

Depois, quando o corpo dela estava tão quente quanto o dele, ele começou a traçar a espinha dela com as pontas dos dedos, continuando a apertá-lo junto ao corpo. Ele afagou-lhe as nádegas, quase de menino, com movimentos rápidos. Quando ela ficou tensa, ele murmurou:

- Paciência, paciência, Kate - e passou os dedos para as costas dela. Cada vez que sua mão voltava às nádegas, ele se demorava lá mais um segundo, até que por fim sentiu que elas se comprimiam contra as mãos dele, oferecendo-se. - Paciência... paciência - repetiu ele, encontrando um prazer inteiramente novo nessa excitação lenta, ele que nunca se dera ao trabalho de avaliar com tanto cuidado o estado de preparação de mulher alguma, que nunca explorara a dor deliciosa de auto flagelação, de se restringir quando a libertação estava às ordens. Com um dos braços ele imobilizou Kate, enquanto sondava entre as nádegas, encontrando-a espantosamente preparada, se bem que, quando os dedos dele as separaram, ela se afastasse, num protesto meio a sério. Ele então tomou-se impiedoso, enquanto os dedos compridos avançavam mais entre as coxas finas e encontravam o ponto preciso que estava buscando. O dedo do meio tomou-se ágil, delicado como a ponta de uma língua, enquanto ele voltava vezes e mais vezes ao ataque, ora apertando e se movendo devagar, ora disparando depressa e com propósito, todo o seu desejo focalizado naquela ponta de dedo e a carne que estava despertando com tanta habilidade.

- Julien... meu Deus... pare! - exclamou Kate, mas ele só respondeu "paciência" e, dali a pouco, sentiu-a se concentrando numa tensão e endurecimento inconfundível dos músculos pélvicos. Mais depressa, cada vez mais depressa, seu dedo dardejava até que afinal, ele a sentiu estremecendo e saltando, descontrolada, seu grito de alívio abafado contra o pescoço dele. Os dedos dele não a soltaram até que o último espasmo lhe deixou o corpo. Ela se recostou, esgotada mas de olhos arregalados.

- Está vendo o que a paciência lhe faz ganhar, Kate? - murmurou Mistral, mas ela não mexeu a cabeça nem lhe sorriu. Ficou olhando para ele, séria.

- Isso nunca me aconteceu - murmurou ela.

- Então, a nossa experiência já é meio sucesso... agora, é a minha vez, Kate - respondeu Julien, entregando-se ao seu próprio domínio do corpo dela, pressuroso, aberto, maleável.

Mais tarde Kate, como alguém que sai de um transe, começou a cobrir a mão dele com beijos alvoroçados de gratidão. Só depois de muito tempo é que ela se deu conta de que Mistral estava dormindo profundamente.

 

 

                                   Capitulo 9

 

Kate Browning estava num tormento. Toda noite, durante a semana seguinte, quando Mistral se afastava dela e adormecia, ela ficava acordada, o corpo bem-feito tinindo com uma paixão que ela nunca imaginara existir, pois sempre fora cautelosa demais, antes disso. As idéias dos prazeres que Mistral lhe ensinara penetraram em suas entranhas tão depressa, como flechas de mel, que ela nunca desejaria arrancar do corpo. Ela pôs os dedos entre as pernas, naquele botão de carne que era tão desconhecido ao seu toque. Ainda estava vivo, pronto para vibrar de novo. O dia todo ela o sentira se dilatando, ardendo, ansiando pelas mãos e lábios dele. As refeições, via essas mãos partirem o pão e cortarem a carne e via, com um espanto humilhado, que estava esfregando as coxas juntas debaixo da mesa. Ela gemia em voz alta diante da boca dele, agora tão firme, e que em breve seria tão quente e macia em sua pele. Os bicos de seus seios estavam doloridos e, no entanto, ela os roçou furtivamente no braço de Mistral.

Os alicerces de sua vida estavam mudando e ela se sentia pesada e cheia de inevitabilidade. Sua mente não tinha descanso, sondando a sua inacessibilidade íntima. Como ela podia ousar nadar, apenas flutuar naquele êxtase sem pensamento, quando o homem em si não lhe pertencia? Os únicos momentos em que Kate tinha certeza de ter toda a atenção de Julien eram durante o ato do amor. Mas, mesmo nesses momentos, ele nunca se dera inteiramente a ela, nunca traíra uma necessidade dela, nunca dissera que a amava. Ele estaria se controlando, como ela estava, pensou ela, ou ela seria para ele apenas um corpo de mulher numa cama?

- Jet`aime bien, Kate - disse ele. Essa frase displicente, com aquele cuidadoso qualificativo, aquele "bien" que transformava a palavra "amar" em "gostar". Ela estava louca para ouvi-lo dizer as palavras simples e necessárias, "Jet`aime", mas enquanto não as dissesse ela não as diria a ele. No entanto, a cada dia ela percebia que estava-se apaixonando cada vez mais. Mistral se tomara o único prêmio que o mundo inteiro tinha para lhe oferecer. Havia em seus sentimentos uma totalidade insaciável e impiedosa que incluía tudo o que ela conhecia sobre ele; todas as dificuldades que ele apresentava; todos os defeitos que ela observava claramente nele; a mulher que ele tivera antes dela conhecê-lo. Isso não importava. Nada importava, a não ser uma obsessão ávida, viciada, que não aceitaria nada menos que a posse.

Kate era uma mulher de uma força imensa, orgulhosa, disfarçada e sutil, porém seus nervos estavam tão tensos pelo esforço de esconder suas emoções que ela chorou, deitada ao lado do corpo soberbo do homem que dormia sem nem pensar nela. Mas depois de chorar, ela ficou acordada e examinou a situação com a inteligência fria e de visão, que fogo nenhum poderia extinguir.

A frustração era uma coisa estranha à natureza de Kate. Ela não acreditava e nunca acreditara que pudesse existir alguma coisa que não pudesse possuir, se realmente a desejasse.

Durante a segunda semana na Provença, Mistral resolveu dirigir-se para oeste, para Nimes, essa cidade madura que vem decaindo com uma serenidade deliciosa desde o reinado de Adriano. Lá ele e Kate passearam no parque, subindo os muitos degraus de pedra que afinal levavam à base da Tour Magne, ruína de uma torre de vigia romana que dominava um vasto panorama. Eles se deitaram na grama, agradavelmente cansados, observando os poucos cidadãos de Nimes que tinham procurado aquele local alto, fresco, do qual, quase 2.000 anos antes, os soldados romanos podiam avistar a uma distância de 100 quilômetros. Depois de um silêncio prolongado, Mistral falou:

- Eu não poderia, nem poderia começar, nem sonhar em começar a pintar esta vista. É completa demais, vasta demais, responde a qualquer pergunta que eu lhe pudesse fazer, não precisa do homem.

- Você ainda não encontrou nada... nada que sinta vontade de pintar, na Provença? - perguntou Kate, com cuidado.

Era a primeira vez que ele falava em pintura, desde que tinham partido de Paris. Ela obedecera à regra não expressa do silêncio sobre o assunto.

- Não - disse ele. Não, pensou ele, eu não tenho desejado pintar... é isso que me apavora mais. Não querer, não precisar pintar... nunca conheci um vazio tal! Aquele jovem casal lá no banco, as mãos deles estão quase se tocando. . . não estão contemplando a vista, provavelmente se criaram aqui, provavelmente as mães deles os trouxeram aqui durante anos, para brincar... e hoje eles compreenderam que o outro é um outro, um mistério, essa coisa mais estranha de todas, outro ser humano. Um dia.. , um dia eu poderia ter pintado as mãos deles, quase se tocando, pintado estas mãos uma dúzia de vezes, dez dúzias de vezes, sem nunca acabar de exprimir o que me fazem sentir, essas quatro mãos que não chegam a se tocar, que ainda não ousam se tocar, que se tocarão... e talvez... quem sabe?. . . modificarão o mundo. Mas não quero pintar essas mãos... não tenho de pintá-las. E se não sou pintor, para que estou viva?

- Imagino - arriscou Kate - que essa região já tenha sido pintada demais. Tudo é tão... pitoresco... que não lhe interessa?

- Uma coisa como essa, sim - respondeu Mistral, brevemente. Da última vez que estive aqui, pensou ele, eu não andava uma ma sem o meu bloco de desenho, estava louco de entusiasmo, nada parecia ter sido visto por alguém... e muito menos pintado... toda Provença estava-me chamando, até eu achar que ia enlouquecer, como Van Gogh. "Pitoresco", urna ova. Você não pode compreender, Kate, nem eu posso explicar. "Pitoresco serve tão bem como qualquer outra explicação, mas o fato é que eu o perdi, perdi, e

nem mesmo a Provença pode trazer o meu dom de volta.

- Vamos, Kate - disse ele, abruptamente, levantando-se. - Essa grama ainda está molhada.

Cada vez mais, na semana seguinte, Mistral dirigia o carro para Félice, a aldeia que ficava no flanco norte de Lubéron, a leste de Ménerbes e oeste de Lacoste. Félice tinha uma atração com que ele estava ficando cada vez mais obcecado, enquanto a necessidade de pintar se recusava a voltar: o jogo de boules.

No único café da cidade, todos os homens que pudessem andar e pertencessem à aldeia se reuniam, toda noite, e todo meio-dia, para tomar um ou dois pastis. Agora, no outono, os grupos eram aumentados por muitos lavradores, que aproveitavam essa breve época de lazer do ano, depois das colheitas e antes de começar a temporada de caça. Depois de algumas rodadas, os homens todos iam para o terreno plano e sombreado atrás do café e jogavam partidas intermináveis de boules, o boliche que é o equivalente, em todo o sul da França, do futebol, corrida de bicicleta e bilhar juntos, um jogo tão complicado que seu regulamento abrange três páginas em letra miúda.

Um dos lavradores, um rapaz chamado Josephe Bernard, examinou Mistral de alto a baixo, da segunda vez que ele e Kate foram ao café.

- Joga boules? - perguntou ele, por fim.

- Sou turista - disse Mistral, desculpando-se.

- Não faz mal. Gostaria de experimentar?

A despeito das regras, o boules é basicamente tão simples que Mistral pôde se sair honrosamente com um mínimo de instruções. Sua coordenação e sua vista eram tão bem desenvolvidas que, embora ele nunca tivesse segurado uma das bolas de aço, dentro de uma hora estava tendo um desempenho respeitável e naquele primeiro dia conseguiu afastar a boule de outro homem de sua posição junto do alvo, encantando o seu patrocinador, que o convidou para tomar parte do jogo sempre que estivesse nas vizinhanças.

Mistral voltara muitas vezes, encantado com o drama do jogo, que envolvia discussões sem fim, cheias de espírito, insultos, risos e espertezas, bem como o prazer infalível de jogar bola, essa habilidade que todos os homens gostam de usar.

Kate ficava assistindo de fora, assombrada com a capacidade de Mistral de se envolver num jogo que ela achava infinitamente cacete. Mas enquanto ele jogava, ela podia olhar para ele, sem que ele se desse conta. Como ele se adaptara com facilidade aos modos dos jogadores de boules, pensou ela. Ele lançava o braço ao ar com o mesmo movimento largo que eles, discutia com a mesma intensidade, ria igualmente alto, jogava sem notar a passagem do tempo e a cada dia o seu domínio de boules se tomava maior.

- Tem certeza de que não é dessa região? - perguntou Josephe Bernard ao seu novo amigo. - A Provença deve estar no seu sangue... e no seu nome. Mistral... isso significa "vento mestre", em provençal. Tenho uns primos de nome Mistral, lá de perto de Mérindol, no lado sul da montanha... será que somos parentes?

- Talvez sim, mas não posso provar isso. Não sei de onde vieram os meus avós. Quem me dera saber, mas minha família já morreu toda e, quando eram vivos, eu nunca escutava. . . nunca me dei ao trabalho de perguntar.

- A maior parte dos forasteiros, quando tentam lançar uma boule, fazem papel de bobos. A coisa é fácil só na aparência. Se você praticasse mais algumas semanas, podia entrar para o meu time. Há um torneio, no último sábado de novembro.

Mistral passou o braço em tomo dos ombros do jovem fazendeiro e pediu uma rodada de bebidas para todos no café. Ele sabia o que significava uma proposta daquelas para um homem para quem cada torneio de boules era assunto a ser discutido com um interesse intenso durante anos no futuro.

- Gostaria de poder fazer isso, Josephe, mas tenho de ganhar a vida trabalhando.

"Mas como", pensou Mistral, "vou voltar a trabalhar?" O boules o fizera esquecer, por algumas horas, o boules o fizera parar de encontrar alguém que ele pudesse culpar pelo fogo que se extinguira: Avigdor, porque era negociante e só queria produtos para vender; Kate, porque tinha feito acontecer a exposição e antes da exposição ele pintava com a mesma facilidade com que respirava; Maggy, porque era uma tola e uma criança e a única mulher que algum dia o abandonara; a própria exposição, porque abrira seus olhos para a cupidez dos colecionadores que compram num minuto o que um homem leva meses para criar, colecionadores que não respeitam, não compreendem, mas apenas abrem suas carteiras e compram um pedaço dele. . . Ele se dera conta de que nenhum desses era culpado, mas ainda os repassava em sua cabeça, procurando encontrar o culpado.

- Nós também temos de trabalhar - respondeu Josephe - mas sempre há tempo para boules. . . se não, para que se dar ao trabalho de trabalhar?

Além do café e do jogo, Félice tinha outra atração. Abaixo da aldeia no vale, não muito longe da estrada principal, Mistral tinha descoberto uma mas deserta. Um dia, levado por um simples interesse, ele seguira uma trilha com sulcos fundos que dava voltas num morro baixo, coberto por um pomar de preciosos carvalhos do tipo que são as únicas árvores em cujas raízes crescem trufas. A sombra do pomar dava para uma alameda de ciprestes verdes, quase negros, pontudos e vivos, além dos quais havia um muro alto, rodeando uma mas.

Mistral parou o Talbot na faixa de campo que ficava entre os ciprestes e os muros da casa, um trecho ensolarado e seco de pequenos cardos amarelos e capim. Portas duplas, altas e trancadas, os impediam de ver o interior. Reinava o silêncio, pontilhado, como sempre, pelo som das cigarras, um estalido seco mas agradável, que era tão integrado no campo que já fazia parte do silêncio em si. Nenhum dos ruídos comuns de uma fazenda se fazia ouvir por trás dos muros que cercavam os prédios; nem cães latindo, nem barulho de cozinha, nem gritos de criança. A madressilva, crescida e enroscando-se pelas paredes, dava uma doçura intensa que era quase palpável, como se fosse visível; um enxame de borboletas vermelhas e cor de laranja pairava sobre a campina como uma pipa chinesa e um zumbido sonolento e cheio indicava que aquilo era um paraíso para as abelhas.

Juntos, Mistral e Kate deram a volta, tentando espiar para dentro. Mas os muros eram cercados, na base, por terríveis espinheiros e as gavinhas da madressilva cresciam no ar, bem acima da cabeça de Mistral.

Em certo ponto, o muro virava para o fundo de uma grande torre redonda com duas janelas sem venezianas, abertas bem acima deles, mas quem quer que tivesse abandonado a mas precavera-se contra intrusos, pois não havia uma brecha em lugar algum. Dando a volta, eles viram cinco telhados inclinados de alturas diversas e os topos de alguns caixilhos de janelas. A mas murada constituía o eixo de uma roda de campos em forma de fatias, cada campo separado do outro por altos quebra ventos de ciprestes ou bambu. Uma das seções da roda era um olival, a seguinte uma extensão não cultivada de terra vermelha; seguia-se um vinhedo carregado e uvas não colhidas; e ao lado deste, um pomar de abricós, carregado de frutas apodrecendo; depois outro vinhedo e mais seções de campos não plantados, a terra em torrões, como se nunca tivesse visto um arado.

- É incrível! - explodiu Mistral. - Aqui, numa terra em que cada milímetro de solo bom é utilizado... não posso acreditar nessa vergonha! Olhe só as uvas, olhe as azeitonas! E os abricós! Cresceram e amadureceram e ninguém os colheu. É uma vergonha!

- Deve estar à venda - disse Kate.

- Não há nenhum cartaz. Só vi o nome na caixa do correio. La Tourrello... palavra provençal. Deve significar torre... torre pequena, ou coisa assim - disse ele, zangado. - Provavelmente faz parte de um inventário e os herdeiros estão brigando por ele. . . é o que acontece muitas vezes. Se não concordarem em vender a terra em lotes, vão ter de vendê-la em leilão.

- Por que não vamos descobrir? Devem saber, em Félice - sugeriu Kate. - Se estiver à venda, podemos pelo menos pedir para visitá-la.

- Não, não creio. Não quero entrar.

Mistral parecia estar perturbado.

- Você? Esteve dentro de todas as mas, desde Maubec até Bonnieux. Por que não esta?

- Não posso explicar. É uma sensação.

Ele estava-se protegendo. Uma intuição lhe dizia que nunca se esqueceria do aspecto daquele domínio bem trancado, murado e valioso. Embora só tivesse visto o contorno da inclinação suave dos telhados do interior, sua geometria simples tinha tal correção que lhe tocara o coração. A mas no morro estava em perfeita união com a natureza e ele preferia não ver outra coisa que não o exterior, já que estava vazia e, portanto, disponível.

Mistral nunca tivera uma casa e, antes dessa ocasião, o desejo de uma casa, sentido pela maior parte da humanidade, nunca o tocara. Ele se contentara em olhar para as fazendas da Provença com a compreensão simples de que eram as únicas estruturas capazes de combinarem perfeitamente com esses campos maravilhosos. Era uma alegria estética, não estragada pelo desejo de posse; mas se desse um passo dentro daquela mas, estaria mudado para sempre.

- Muito bem - disse Kate, respeitando a vontade dele. Ela e Mistral eram muito parecidos na limitação das coisas que não queriam conhecer.

Na semana seguinte, eles voltaram quatro vezes à mas deserta e ela nunca repetiu sua sugestão, embora se irritasse quase insuportavelmente com a fascinação dele por aquele lugar. Ele está cortejando aquela velha casa de fazenda, pensou ela, com ciúmes, como se fosse uma mulher, rondando os muros como se fosse um adolescente enamorado. Entre o café, o boules e o namoro com essa fazenda ele consegue encher o dia, sem realizar coisa alguma. Quando é que vai recomeçar a pintar?

No café de Félice, dias depois, Josephe Bernard interrogou Mistral.

- Você diz que é pintor, hem, Julien? Já os vimos virem e irem, há anos... há sempre um pintor por aí. Mas nunca vi nenhum que fizesse alguma coisa além de pintar os campos. Eu digo que um pintor de verdade devia poder fazer um retrato de outro ser humano que se parecesse exatamente com ele. O que me diz disso?

- Nem todos os pintores fazem retratos, Josephe, e nem todos os retratos se parecem com o original, ou o modo que ele pensa ser, que nunca é a mesma coisa.

- Eu estava mesmo com medo que você me viesse com essas besteiras de alta classe - respondeu Josephe, a decepção evidente em sua fisionomia franca. - De modo que você não me poderia pintar, como eu pareço diante do espelho, é isso?

- Talvez, talvez não, mas posso fazer alguma coisa que o fará sorrir, meu amigo. - Mistral pegou um lápis do bar e desenhou rapidamente nas costas de um papel usado para o jogo de loto. - O que diz disso?

Ele mostrou o papel a Bernard. Em poucas linhas, em menos de um minuto, usando o jeito que tinha desde adolescente, um jeito em que nunca pensava duas vezes, tinha destilado a essência de Josephe Bernard numa caricatura.

- Diabos, sou eu! Narigão e tudo! - Bernard deu uma gargalhada. - Agora faça o Henri... ele tem outra cara feia!

Ele agarrou um velho fazendeiro e o empurrou para defronte de Mistral, passando-lhe outro pedaço de papel. Em breve, Mistral estava rodeado pelos homens, todos pedindo suas caricaturas, disputando a vez uns com os outros, como colegiais. Ele os foi fazendo com uma facilidade que espantou a turma.

Ora, isso era alguma coisa, eles se disseram, uma imagem que se parecia tanto com a gente que não poderia ser outra pessoa, e feito tão depressa que parecia mágica. Cada qual contemplava sua caricatura - como é que o pintor conseguira aquilo? Os que moravam perto do café correram para casa, para buscar as mulheres e filhos, todos esperando em fila por um daqueles assombrosos pedaços de papel. Era melhor do que uma partida de belotte. Logo Mistral teve de pegar outro lápis, e depois mais outro, quando as pontas foram-se gastando; mas nada parava os traços enérgicos de sua mão hábil. Por fim, não restava mais ninguém em Félice que não tivesse a sua caricatura feita e que não levasse consigo, cuidadosamente, um pedaço de papel de loto, para contemplar ao jantar e comparar, com muitos insultos amigáveis.

Era tarde, quase 19 horas, quando Mistral e Kate afinal partiram de Félice para voltar a Villeneuve. O coração dele estava tão cheio de graças que ele não queria falar. Caricaturas, um truque simples, de sociedade, que ele se esquecera que sabia fazer, caricaturas, pelo amor de Deus, lhe devolveram o demônio da criação. Seus dedos ansiavam por um pincel, seu nariz pelo cheiro de tinta a óleo e terebintina, suas entranhas vivas de novo como imagens que ele tinha de pôr na tela... e tudo porque ele pegara num lápis sem pensar e despejara tolices, para distrair aquela gente simples, de que ele tanto gostava. Eles tinham reagido com um apreço tão integral e as caricaturas tinham ido diretamente de suas mãos para as deles. Era a única recompensa que ele podia aceitar deles com facilidade, sem se sentir desligado do trabalho.

Pela primeira vez, Mistral teve aquela sensação de triunfo que não conseguira absorver na noite do vernissage. Cada músculo, cada nervo e tendão de seu corpo tinha renascido, tão cheio de poder como nunca estiveram. Mistral mal conseguia conter seu entusiasmo. Como podia esperar até de manhã?

Naquela noite, depois do jantar, Mistral saiu para caminhar sozinho. Estava sentindo uma energia louca, grande demais para ser contida sob um teto, e seu júbilo era a única companhia que ele queria, passeando pelas margens do Ródano, aceitando com prazer a sensação do frio do ar em sua pele, regozijando-se no farfalhar livre das árvores, o rumor das águas. Caminhando, ele compreendeu, com uma convicção - tão nítida que se assombrou que não lhe tivesse ocorrido antes, que nunca deveria sair da Provença.

"Nunca mais", pensou ele, nunca mais a solidão das cidades. Nunca mais o formigueiro de Montparnasse, onde gente demais falava línguas demais em cafés demais; e falava tolices demais sobre governo e religião e escolas de pintura. Nunca mais o frio inverno de Paris, com a chuva triste matando a luz. Nunca mais um dia sem uma vista do horizonte.

Mesmo enquanto enumerava os motivos para não regressar, sabia que não precisava deles; não eram mais que a expressão exterior de um sentimento íntimo que o mantinha bem preso. "Ele não devia partir da Provença, porque ali podia trabalhar." Era como se tivesse tido uma revelação, como se tivesse tido uma visão, era mais forte do que qualquer superstição e mais claro do que qualquer lógica.

Ao amanhecer, ele acordou Kate.

- Acabaram-se as férias, Kate. Vou voltar ao trabalho. Kate piscou os olhos, aliviada.

- Dê-me meia hora... vou me vestir e arrumar as malas o mais depressa possível.

- Não, não se apresse, não há necessidade. Fique um pouco, se quiser. - Mas você disse que ia voltar ao trabalho. De que está falando? - Vou ficar aqui, Kate.

- O quê?

- Bem aqui. Madame Blé fica aberta o ano todo, o que resolve um problema, e há muitas casas vazias em Villeneuve, para alugar como estúdio. Assim que a loja abrir, vou telefonar para o velho Lefebvre e pedir que me mande todo o material de que preciso no próximo trem e mande a conta para Avigdor... nada mais fácil. Já planejei tudo.

- Imagino que esteja fazendo tudo isso a fim de entrar para aquele maldito time de boules - disse Kate, com maldade.

- Não seria mau motivo, mas não, tenho um melhor. - Mistral ficou andando pelo quarto, irrequieto, sem notar a cara de Kate, branca de choque.

- E este lugar, Kate, este lugar. - Ele não sabia explicar a ela a sua convicção e, percebeu, nem precisava explicar nada. - L a luz daqui, você não entende?

- Entendo perfeitamente - disse ela, com calma. Não se conseguiria mais nada discutindo. Uma coisa em que Kate nunca se enganava era sobre a força da resolução de outra pessoa, e a de Mistral era uma força de um rochedo. - Vou ficar mais um ou dois dias, então.

- Você não precisa voltar correndo... fique quanto quiser, a não ser que se aborreça quando eu começar a trabalhar o dia inteiro. Eu gostaria de ter você aqui, Kate, muito.

- Vamos ver.

Será que ele estava pensando que ela ia se agarrar a ele que nem um gato?, pensou ela, furiosa. Kate se deu conta de que a comunicação dele a tinha arrancado de um estado de coma. O amor, escondido com tanta dificuldade, a tornara desatenta. Ela passara os dias sonhando, perigosamente desviada por seu corpo.

- Já que você vai ficar, não creio que eu deva fazer turismo hoje, Julien. Já vou ficar bastante tempo dentro daquele carro, na volta. Tenho de arrumar umas coisas... e preciso ir a Avignon para comprar uns suéteres pesados para a viagem, ou um casaco decente, se é que têm isso aqui. Vou pegar o táxi para me levar à cidade.

- Não, pode levar o carro. Vou andar por aí e ver o que há para alugar.

Ele nem procurou esconder seu entusiasmo.

Kate passou o dia todo fora, não voltando para o almoço. Quando afinal ela apareceu, de tardinha, Mistral estava impaciente. A distância até Félice era de uns 40 minutos de carro e ele estava louco para comunicar sua decisão aos amigos do café.

A um quilômetro na estradinha que levava a Félice, Kate pôs a mão sobre a de Mistral.

- Vire à esquerda - disse ela.

- Para quê? Vamos chegar atrasados para o jogo. Posso visitar La Tourrello a qualquer hora, agora.

- Quero lhe mostrar uma coisa. Não vai demorar. Por favor.

Ele virou o carro para a trilha e parou, como sempre, na campina.

- Olhar pela última vez? - perguntou ele. - Eu não sabia que você gostava tanto disso.

Kate saltou do carro, foi até às grandes portas de madeira duplas no muro e pegou uma chave do bolso. Enfiou-a na fechadura e a girou, sem dificuldade. Enquanto Mistral olhava, espantado, ela empurrou uma das portas pesadas e a abriu toda. Acenou para ele e disse:

- Entre!

- O que é que você está fazendo? Onde arranjou essa chave? - disse ele, sem sair do carro. Não tinha intenção de entrar ali.

Kate voltou ao carro e estendeu a chave a Mistral.

- Tome. É minha. Ou melhor, é sua. Para ser precisa, é o meu dote.

Ele soltou um grunhido, espantado. Ela, sem dúvida, tinha a capacidade de surpreender as pessoas. E em que escala grandiosa! Não fazia nada pela metade e, de algum modo, pensou ele, olhando para os olhos dela, sérios e esperançosos, nunca era absurda, mesmo então. Distinta, séria, com propósito, ela tomava possível a sua proposta extraordinária, só pela suposição de que poderia acontecer.

- Quer casar comigo, Julien? - perguntou Kate.

Ele ficou calado. Sabia que Kate tinha mais a dizer e estava achando aquilo muito interessante.

- Eu o amo e você precisa de uma mulher. Precisa de um lar. Procurei o tabelião em Félice hoje e comprei esta fazenda. O antigo proprietário morreu e só deixou uma neta, que estava louca para vender. Na semana que vem, um jovem lavrador e a mulher vão se mudar para a ala da esquerda e vão começar a contratar gente para arrumar a terra, as alamedas, os pomares, os vinhedos. - Ela parou, mas como ele continuasse calado, ela prosseguiu, estendendo diante dele uma vida deliciosa, tão clara e nitidamente como se tivesse estendido uma toalha colorida na grama e nela colocado generosas travessas de boa comida e garrafas de vinho, convidando-o para uma festa. - Estou procurando um arquiteto para projetar o seu estúdio. Já contratei um mestre pedreiro em Avignon. Vem se encontrar comigo aqui, amanhã. Um bombeiro e um eletricista virão com ele... há muita coisa a fazer antes que a casa fique...

- Você poderia morar aqui... no campo... em La Tourrello? - interrompeu ele, afinal.

- Parece que não posso me imaginar vivendo feliz em qualquer lugar em que você não esteja, valha-me Deus. Curiosamente, não consigo voltar para Paris, deixando-o passar o inverno aqui, e voltar em fevereiro, fazendo de conta que quero ver as amendoeiras em flor.

- Mas nunca pensei em me casar - disse Mistral.

- Então, pense - disse Kate, com um lampejo de humor. - Está na hora de nos instalarmos, em nossas vidas. *Está na hora de trabalhar de verdade. Você começou bem, de modo que essa parte está resolvida, mas agora vem a parte mais dura, continuar indo em frente, ampliar e reforçar, ganhar território novo e torná-lo inteiramente seu... anos e amos de trabalho, que vão lhe tomar toda a força. Flaubert não disse aos artistas para serem regulares e comuns em suas vidas, para que possam ser violentos e originais em seu trabalho?

- Nunca li Flaubert - disse Mistral. "O importante, a única coisa", pensou ele, "é que quero tornar a pintar e não posso sair deste lugar.- Julien, imagine ter o seu estúdio aqui, olhando para Félice.

Ela não fez qualquer gesto. O tesouro inestimável que se estendia diante dos olhos dele falava por ela. O amor dela não precisava de outro adorno para se tornar evidente. Ele olhou em volta, viu um futuro de ordem, paz e prosperidade e soube que era possível.

- Pense - acrescentou ela, numa voz que dançava de nervosa, enquanto ele ficava calado. - Pense nos torneios de boules, os muitos torneios de boules, ano após ano.

- Você está querendo me subornar, Kate.

- Claro.

Ela se manteve firme, a chave ainda na mão estendida, o vento soprando seus cabelos, os olhos sérios aquecidos pela emoção que ela não escondia mais. Na sua expressão, sua fé cega nele se misturava à vulnerabilidade.

- Estou tentando pensar num só motivo. . . para dizer que não - disse Mistral, devagar.

- E...?

Ele saltou do carro e pegou a chave da mão dela. Agarrou-a com força, sentindo o ferro pesado e liso apertado em sua palma. Uma aceitação o invadiu. Esse pedaço de terra, essa mulher... eram o seu futuro. Eles se riram juntos, um riso cúmplice, e não pela primeira vez. Tinha sido assim, desde o primeiro dia em que se conheceram.

- Mas como a vida é estranha! - exclamou ele, assombrado.

- "Ame-me pouco, para me amar muito tempo" - murmurou ela, em inglês.

- O que quer dizer isso, minha americanazinha esperta e mandona? - perguntou ele, tomando-a nos braços.

- Um poeta, há muito tempo... um dia eu conto... um dia você há de compreender.

 

 

                                                         Capitulo 10

 

- Não, positivamente não! Impossível, inteiramente impossível. Está fora de cogitação - declarou Paula, parecendo mais escandalizada do que Maggy imaginaria possível para uma mulher que, como ela reconhecia, já tinha visto de tudo.

- Dois motivos catastróficos. Sua roupa de baixo e seus sapatos. Não servem! Ah, Maggy, olhe só para isso. Dá vontade de chorar.

Paula fez um gesto desesperado para o montinho de roupas de baixo que tinha tirado do armário de Maggy e espalhado na cama e pegou três combinações, com um ar tão acusador com se fossem panos de pó.

- Esta está remendada, esta esfarrapada na bainha, a esta falta a metade das fitas, pelo que vejo. Você não tem nem um jogo de lingerie em condições de uso - continuou ela, esquentando o assunto - e onde, posso perguntar, estão os seus corselettes e soutien-gorges? Só vejo aqui ligas descasadas, meias consertadas, calcinhas que deve ter trazido quando veio de casa, e essas combinações horrorosas. Reconheço que estão limpas, mas é só! - Ela levantou as mãos.

Maggy soprou o cabelo de cima dos olhos.

- Ah, por que está bancando uma duquesa? Não está pensando mesmo

que eu ia me preocupar com tudo isso? Será que preciso disso em meu trabalho? Ou para dançar? Pelo contrário! E quanto às minhas combinações, estão

perfeitamente boas, se der um ponto aqui, outro ali... Madame Poulard pode arrumá-las num instante.

Paula sentou-se na cama, com um ar decidido.

- Maggy, você deve estar maluca. Como pode esperar que a tratem com

respeito, quando for a Patou ou Molyneux, se a virem com esses trapos? O que diria Mademoiselle Chanel, diante de uma mendiga dessas? Não importa quanto dinheiro você tenha para gastar, nenhuma vendeu-se, nem quem lhe

faz as provas, jamais vai levá-la a sério a não ser que você tenha uma lingerie decente, sapatos bons e um bom chapéu, também.

- Bem, lá se vai a minha gloriosa carreira de mulher mantida. Acabada antes mesmo de começar. Não tenho roupa decente nem sequer para poder ir comprar roupas decentes, portanto, como posso me mudar para uma suíte no Lotti? Será que posso dizer a Monsieur Patou que estive num naufrágio e perdi tudo? Ou convencer Mademoiselle Chanel de que fui roubada por ciganos, que ficaram com toda a minha roupa e me devolveram ilesa? Como é que as pessoas conseguem comprar roupas feitas sob medida, quando nunca as compraram antes? É pior do que um xadrez chinês.

Maggy sentou-se no chão do quarto, cruzou as pernas nuas e se inclinou para a frente, rebelde, o queixo apoiado nas mãos.

- Tudo parecia tão simples, hoje de manhã, e agora você fez tudo tão complicado que nem quero mais pensar nisso. Há um ano você estava me ensinando a tirar as calcinhas, e agora quer me pôr em coletes! Vou dizer a Perry que temos de ficar aqui mesmo e para o diabo com o criado de quarto e os negócios dele. Se não gostar de mim como sou, azar. Os coletes que vão para o diabo.

- Ora, vamos - disse Paula, depressa. - Não é tão insolúvel assim. Acalme-se, pequenina. Só exige pensamento e planejamento, como todos os fatos importantes da vida. Para a lingerie, começamos do princípio. Tudo tem de ser novo. Há uma loja, perto da Rue St. Honoré, dirigida por três imigrantes russas, todas damas da nobreza, de grande discrição e compreensão e... o que é muito importante - presteza. São especialistas em casos como o seu...

- O quê! Então sou um "caso", é? - disse Maggy, indignada.

- Nesse assunto determinado, é - continuou Paula, imperturbável. - Se elas receberem um pedido hoje à tarde, e eu explicar a natureza da emergência, você poderá ter uma lingerie maravilhosa dentro de uma semana. Quanto aos sapatos, há um excelente bottier italiano que conheço, que não fica longe da casa delas. Rue St. Florentin, segundo andar, um endereço de muita confiança. Para ele, não é preciso se incomodar com a lingerie, de modo que podemos ir lá hoje.

- Eu podia dar um pulo até o Raoul...

- Raoul? Aquele lugarzinho horroroso na arcada, com sapatos de 80 francos, que lhe estragaram os pés? - Paula estava horrorizada.

- É o que venho usando o tempo todo e você nunca reclamou.

- Esqueça-se do que já suportou antes. Não quer que o Perry se orgulhe de você?

- Ele já se orgulha.

Maggy ficou pensativa, puxando sua tenra plumagem cor de laranja em volta do rosto, quase o escondendo. Sua fantasia romântica da vida de uma mulher mantida estava-se desmoronando rapidamente, diante do espírito prático de Paula. Parecia trabalho e trabalho do tipo mais maçante: provas intermináveis; dias passados correndo de um ateliê especial a outro; coletes, tudo só para poder impressionar uma vendedora que provavelmente ia entender tudo sobre ela, de todo modo. Ela já odiava aquela vendedora, pensou, deprimida.

De repente, passou-lhe pela cabeça a imagem de Kate Browning, corpo estava da primeira vez que foi ao estúdio de Mistral, Kate Browning, tão segura de si, de seda branca fresca, um vestido do qual todos os pontos tinham de ser feitos a mão, Kate Browning, com suas luvas brancas imaculadas, que sempre parecia tão elegante, tão confiante e segura, que era impossível duvidar de que ela tivesse saído nas pontas dos pés do ventre da mãe diretamente para um par de sapatinhos perfeitos e um maravilhoso chapéu de Rose Descat.

Galvanizada, Maggy levantou-se de um salto, tão de repente que Paula teve um sobressalto.

- E as luvas? - indagou ela, pegando Paula pelos ombros e sacudindo-a. - Mulher boba, será que já está naquela sua cozinha há tanto tempo que não sabe que sem luvas nenhuma dama está vestida para a rua? Enquanto fica aí falando bobagens de coletes, esqueceu-se das luvas. Como posso começar a minha vida nova sem pelo menos seis dúzias de pares de luvas, já que não pretendo usar um par mais que uma vez, uma vez, está ouvindo?

Ela soltou Paula e dançou pelo quarto, pegando uma meia aqui, outra ali, examinando-as para ver cerzidos e afinal pegando duas que estavam intactas. Todas as outras, jogou na cesta de papéis.

- Duas dúzias de meias de seda, antes do almoço! Depois, para as aristocratas russas... estou louca por lingerie; tudo de crepe de seda e maravilhosas aplicações de renda; crepe de chine cor de pêssego; cintas ligas, combinações curtas com calças, soutien gorges para achatar meus peitos, calças largas em verde claro, lilás e café, camisolas de gaze vermelha... o que mais? Pijamas chineses! Mas nada de coletes!

Maggy parou de dançar pelo quartinho, defronte do espelho que pendurara acima da pia. Ela se examinou atentamente, sacudindo os cabelos. Puxou tudo para trás das orelhas, depois os levantou nas duas mãos e empilhou em cima da cabeça. Sacudiu a cabeça devagar, de um lado para outro, em reprovação.

- Preciso cortar os cabelos.

- Claro. Não pode usar chapéus direito com todo esse cabelo e sem os chapéus certos...

- Não me diga, já sei. Sem os chapéus certos, nenhuma vendeu-se que se preze vai me deixar sequer entrar no salão. Agora, me diga uma coisa, Paula. Tenho que ir cortar os cabelos antes de ir cortá-lo no Antoine, ou Antoine se dignará a cortar o meu cabelo no seu atual estado lamentavelmente fora de moda?

Paula arregalou os olhos. Antoine era o cabeleireiro mais famoso do mundo. Vinte anos antes, ele tinha inventado os cabelos curtos, quando a grande atriz, Eve Lavalliere, o deixou sacrificar seus cabelos à tesoura dele, experiência que o deixou tão nervoso que ele só tentou de novo depois de seis anos. Ele agora reinava supremo em seu salão à Rue Didier, que inaugurara com um baile para 1.400 convidados, todas as mulheres vestidas de branco. Todas as mulheres da França sonhavam em apresentar sua cabeça diante do mestre.

- Antoine - exclamou Paula, com respeito.

- Mas claro - disse Maggy. - Ele há de saber, só de olhar para mim, que mereço a tesoura dele, embora tenha sido pobre e esteja provisoriamente entre uma calcinha e outra.

- Como é que você vai conseguir uma hora?

- Vou lá falar com ele, só isso. Ele vai poder resistir à oportunidade de cortar esses cabelos?

- Não vejo como - disse Paula, com sinceridade. Antoine era tão impulsivo que, havia pouco, tinha oferecido 5.000 francos num leilão de caridade por uma luva doada por sua cliente, a poetisa Viscondessa Marie-Laure de Noailles.

- Então, vamos andando, queridinha. Está pensando que vou sem você? - Eu não a deixaria ir... e se mudasse de idéia no meio do caminho? - É exatamente o que eu penso.

Com mão carinhosa, Maggy tocou em seus cabelos. Tinham de ser cortados, isso era evidente, mas ela não estava tão corajosa quanto parecia, diante desta idéia. Aliás, seu coração estava batendo de um modo que lhe dava vontade de dar gritinhos de angústia. Mas ela pôs suas melhores roupas de sair e meteu Paula num táxi, antes de ter a oportunidade de mudar de idéia.

Nunca foi mais difícil a mulher ser bonita do que na década de 20. A moda não favorecia a ninguém, a feminilidade em todas as suas manifestações estava truncada, escondida, distorcida. Os chapéus escondiam a testa e os olhos; as sobrancelhas eram depiladas artificialmente, os corpos forçados impiedosamente em formas de menino; os cosméticos eram mal aplicados. Só existiam três tons de batom e os penteados eram tão feios que só mesmo a beleza mais autêntica podia vencê-los.

Naquela época, um corte de cabelo podia fazer ou destruir uma mulher. As mulheres que, apenas dez anos antes, eram consideradas lindas com seus drapeados eduardianos e as nuvens flutuantes de seus cabelos com penteados complicados, foram despidas e expostas à luz cruel do dia, sem lhes restar qualquer graça ou encanto... tudo em nome da moda. Mulheres que antes teriam sido beldades dominantes, foram reveladas como espantalhos, com cabeças escalpadas como botões no topo de ombros desgraciosamente gordos. Um crânio malfeito podia estragar o futuro de uma moça.

Maggy sentou-se na cadeira diante do' espelho de Antoine, enquanto o cabeleireiro pairava atrás dela, cercado por um grupinho de aprendizes e a4C1$tentes, Paula estava sentada, séria de um lado.

- Meu Deus... o contorno de seus cabelos - disse ele, empolgado, no seu francês com sotaque polonês.

- O que é que há de errado nele? - perguntou Maggy, pronta para explodir. Qualquer desculpa servia, se ao menos ela pudesse sair dali com dignidade. Sair agora, antes que ele começasse. Ela olhou em volta, em pânico, tonta. As paredes do salão eram feitas de grandes placas de vidro, as próprias escadas eram feitas de vidro, as cadeiras e mesas do salão e a decoração e as luzes; tudo feito de vidro, para agradar àquele polonês alto e pálido que morava numa residência de cristal acima do salão e dormia num caixão de vidro que, dizia ele, o protegia de perigosas radiações elétricas do ar noturno.

- Como é que pôde esconder isso por tanto tempo? - perguntou ele, com ar de recriminação. A elegância começa com o contorno do couro cabeludo, madame, e o seu é... um poema. Isto - disse ele, passando um dedo comprido e fino no alto de sua testa - é a forma essencial, sem a qual nenhuma outra elegância importa, sem a qual nenhuma verdadeira elegância pode começar. Tem de ser exposto.

- Como quiser - murmurou Maggy, fechando os olhos, ao vê-lo pegar a tesoura. Esta fez um barulho horrível, como um grito surdo, faiscando pelas asas dos cabelos dela, cada mecha dos quais era cuidadosamente segura antes de cair ao chão, por um assistente cuja tarefa era guardar os cabelos compridos para deles fazer tranças, coques e viradas que a cliente tosada poderia prender, de noite. Maggy abriu um olho e viu que estava com a cabeça encolhida dentro dos ombros, agarrada na sua cadeira.

Ela se sentou direito, com coragem, pois agora era muito tarde para bancar a covarde, e forçou-se a sorrir. Aquele seria o seu pescoço, aquela coisa branca, incrivelmente comprido? Aquelas suas orelhas, aquelas pobres salienciazinhas rosadas? Antoine então molhou a cabeça dela e pegou uma navalha, que brilhava impiedosamente, enquanto ele aos poucos ia moldando a cabeça dela numa touca reluzente, curta como a de um menino de escola pública da Inglaterra, o corte extremado chamado "Eton", que só as mulheres mais lindas podiam usar. Era penteado bem para trás, repartido bem do lado, e defronte de cada orelha a touca formava uma ponta insinuante na face. Na nuca, os cabelos eram cortados à le garçonne, de modo que se via claramente a bela forma de todo o seu crânio. Os olhos grandes de Maggy, de um verde amarelado e colocados tão separados, pareciam ter o dobro do tamanho e seus maxilares bem curvos tinham agora de concorrer com a coluna comprida e flexível do pescoço, totalmente revelado.

Ela tirou a toalha que a cobria e se levantou, olhando-se no espelho, virando-se de um lado para outro para poder se enxergar de cada lado e de costas.

Fez-se um silêncio no meio do grupo de espectadores. Nem mesmo Antoine falou, enquanto Maggy olhava ansiosamente para a nova personagem que a encarava nos espelhos.

Ela estava-se sentindo fraca. Sua cabeça parecia bem separada dos ombros, como se tivesse sido destacada e a deixassem voar para cima, como um balão. A mulher no espelho era ousada; a mulher no espelho era mais velha do que Maggy e inteiramente senhora de si, a mulher no espelho era supremamente chique, embora estivesse com o vestido de Maggy e os tristes sapatos de Maggy. A cabeça, aquela cabeça lisa e magnificamente tosada, tão brilhante onde parecia pintada, como um magnífico sinal de interrogação, dominava o salão.

Maggy ficou ali, sem expressão. Paula prendeu a respiração. Devagar, Maggy foi-se aproximando mais e mais do espelho, os olhos não o deixando. A imagem que ela viu se avolumou e ela a olhou, interrogando, até seus olhos se fundirem e seu nariz tocar no espelho. Ela ficou ali um segundo, embaçando o espelho com seu hálito, e depois, com um movimento decisivo, beijou o espelho, com sua boca grande e deliciosa.

- Ah! - Todos os espectadores respiraram, aliviados.

- Madame está satisfeita - declarou Antoine, com um ar de proprietário.

- Madame está encantada! - Maggy agarrou o polonês espantado, abraçou-o com força e beijou a orelha dele. - De hoje em diante, madame será tratada como Monsieur. - Ela pegou o cravo preso em seu paletó e o pôs atrás da orelha de Antoine. - De um monsieur a outro, eu te amo - disse ela.

Perry Kilkullen não sabia nada a respeito de manter uma mulher. Tudo parecia tão fácil a frase soava tão natural; afinal, os homens vinham mantendo mulheres havia milhares de anos, Perry se tranqüilizou. Os antigos gregos e romanos mantinham mulheres ou rapazinhos, dependendo de seus gostos. Talvez ambos? Quem sabe? A história de todo país é cheia de famosas mulheres mantidas e as fileiras da aristocracia aos poucos se enchiam com seus filhos. Como é que faziam os vários Luíses... XIV, XV e XVI? Como é que faziam os arranjos?

Sentindo-se mais americano do que se sentia havia anos, em Paris, um pouco abatido mas infinitamente resolvido, ele foi procurar um corretor de imóveis. Um lugar onde morar tinha de ser o primeiro passo para um Kilkullen, assim como para um Luís. Ou será que eles apenas colocavam a moça numa série de quartos vagos no palácio?

- Em que bairro monsieur deseja morar? De quantos salões de recepção monsieur necessita? Quantos quartos de dormir? E de quantos membros será a criadagem? Monsieur prefere uma casa ou apartamento?

- Olhe, eu não sei, até ver. Mostre o melhor que tem aí.

Ele viu uma dúzia de casas e apartamentos nas zonas elegantes da margem direita do Sena e recusou todos, por um motivo ou outro. Não levou Maggy nessas visitas porque queria fazer-lhe uma surpresa. Por fim, na Avenue Velasquez, ele entrou num vasto apartamento de segundo andar que dava diretamente para o retângulo belo, verdejante e irregular do Parc Monceau. Como se fosse uma pessoa de audição perfeita ouvindo o acorde certo, Perry sentiu-se à vontade nas salas vazias.

Ele a levou lá naquela tarde, ao crepúsculo, e a fez percorrer o apartamento. Ela ficou pasma, enquanto ele orgulhosamente lhe mostrava aposentos e mais aposentos.

- Ah, meu Deus! - exclamou Maggy, por fim.

- Não gostou? - perguntou Perry, aflito.

- Já contou os quartos? - perguntou ela, meio frenética.

- Não, não propriamente. Pareceu-me que serve.

- Há 11 peças e pelo menos duas dúzias de armários. Só Deus sabe quantos banheiros, e isso sem contar a cozinha e copas, lavanderia e quartos de empregados, que você disse serem lá no sótão - disse ela, trêmula.

- É grande demais? - Ele não pôde deixar de mostrar seu desaponta mento.

- Qualquer coisa com mais de dois quartos é grande demais, para mim. Sendo que um deles devia ter uma banheira nele.

- Mas... mas você disse que sonhava em ser mantida com classe.

- Ah, Perry - exclamou ela, aconchegando-se a ele - estou tão apavorada! Sei o que eu disse, mas isso foi uma fantasia e isso aqui é a realidade. Só quero voltar para a Rive Gauche e arranjar um quartinho num hotelzinho, me meter na cama, puxar as cobertas por cima da cabeça e nunca mais sair de lá! Nunca!

Perry a puxou para si e a acariciou com a firmeza e delicadeza que teria tido com um animal grande a apavorado. Ele se deu conta, ao abraçá-la, que se criara no meio de ricas mulheres de Nova York, que sempre esperaram que um dia viriam a dirigir casas grandes; mulheres que tinham passado a vida aprendendo a se mover sem esforço, com uma autoridade tranqüila, por aposentos muito maiores e mais numerosos do que aqueles no Parc Monceau. Mas o que é que Maggy, sua pequena maravilhosa, seu primeiro e único amor, sabia dessas coisas? O fato dela se apavorar com um apartamento de 11 peças só a tomava mais preciosa para ele, essa garota que tivera a coragem de fugir de casa aos 17 anos, que aceitava os perigos com naturalidade e que no íntimo ainda era quase uma garota traquinas.

- Olhe - murmurou ele, como se estivesse falando com uma criança - se você quiser, vamos continuar a morar em hotéis, não se preocupe. Mas por que não experimentar este lugar? Você não vai ter de se mudar para cá amanhã, meu bem. Vai levar tempo para ser mobiliado e depois de pronto, se você tiver a menor dúvida, se ainda achar que é grande demais, eu me livro dele. O que me diz disso?

Ao falar isso, ele viu que queria muito fazer uma casa de verdade para Maggy, não num hotel, mas ali, naquele lugar lindo, onde poderiam ficar sempre juntos, só os dois.

Maggy sentia a voz abafada, porque sua cabeça estava apertada contra o casaco dele.

- Quantos meses vai levar? - perguntou ela, desconfiada.

- Ah, muito tempo - garantiu Perry - muito tempo mesmo.

Ele se perguntou: como é que as pessoas mobiliavam mesmo os apartamentos? A mulher dele e a sogra e a mãe todas tinham estado num frenesi feminino, por algum tempo antes do casamento dele, havia tanto tempo, e ele imaginava que fossem as coisas do apartamento que as fizessem correr tanto, mas ele não prestara atenção àquilo. Os apartamentos, para os homens da geração dele, já vinham mobiliados e decorados, novos, claro, mas, não sabia como, de acordo com o gosto deles. Tudo isso era providenciado... será que isso era uma das coisas em que as mulheres passavam o tempo?

Durante os seis meses seguintes, pareceu a Maggy que ela aprendia um número extraordinário de coisas novas, todo dia. Primeiro, o inglês. Ela se resolvera a aprender inglês porque não era justo, ao seu ver, que Perry ficasse sempre em desvantagem quando eles conversavam, e, em todo caso, onde quer que fossem, ao Bal Tabarin para assistir ao cancã, ou jantar no Maxim's, ou comer pato assado em Frederick's, em volta dela ouvia falarem inglês e era irritante não compreender as piadas.

O poder aquisitivo do dólar americano era tão alto que Paris estava cheio de exilados vivendo bem com 15 dólares por semana. Eles interessavam Maggy, com sua displicência sua alegria desenfreada, seu jeito de se lançarem irreverentemente a Paris, como se a cidade fosse o maior pátio de recreio do mundo. Quem, senão americanos, haviam de jogar tênis dentro da boate de Josephine Baker, com raquetes e bolas de papel? Quem senão americanos podiam se juntar aos músicos de Bricktop's e tocar um jazz tão louco como ela nunca ouvira? Não falar inglês em Paris, em 1926, era perder a melhor festa jamais dada pela história.

Todo dia de manhã, logo depois; do café, Maggy tomava aula de inglês com uma mulher séria, de Boston, casada com um escritor americano que parecia incapaz de terminar o romance que estava escrevendo. Uma das primeiras expressões que Maggy aprendeu foi "bloqueio de escritor" e, pelo resto da vida, sempre que ouvia essas palavras, elas lhe lembravam a sala de estar com caros cortinados de cetim azul claro de sua suíte no Lotti.

Perry contratara Jean Michel Frank, o mais célebre dos decoradores da época, chefe dos profissionais de Les Arts Décoratives, para trabalhar no apartamento e enquanto ele tratava de seus assuntos, Maggy tratava dos dela.

- Você tem alguma idéia, Paula - perguntou ela, briguenta - de como uma mulher mantida tem de trabalhar? É um emprego e tanto. Puxa, você

não pode sair de casa de manhã sem estar vestida com um costume de O'Rosen ou Chanel, não ousa mostrar-se de tarde se não estiver usando um Patou, não pode simplesmente tomar um coquetel, tem de se vestir para isso, em alguma coisa de Molyneux com alcinhas e uma bainha de lenço...

- Espero que não esteja reclamando - disse Paula, com severidade. - Todo métier tem o seu preço.

- Ser mantida parece significar passar um por cento do tempo nua na cama e trocar de roupa os outros 99% - disse Maggy, pensativa. - Não existem métiers que lhe permitem usar a mesma coisa da manhã à noite? E os chapéus, Paula... um chapéu para cada conjunto e três provas para cada

chapéu, toda essa importância que dão ao virado da aba ou a largura da fita... quem poderia adivinhar isso?

- Eu podia ter-lhe avisado - disse Paula - mas tinha medo de que você desistisse de tudo, enquanto ainda estava em tempo.

- Agora é tarde - disse Maggy, recuperando seu ânimo.

- Entrevistar um mordomo? - disse ela, incrédula.

- O apartamento ficará pronto no mês que vem - respondeu Perry, com razão. - Temos de ter empregados e empregados significam um mordomo. Ele lhe pode ajudar com o resto das entrevistas.

- Como é que vou saber o que perguntar a ele? - retrucou Maggy, indignada. - O que é que eu sei dos cuidados e alimentação dos charutos, da vida amorosa das caixas de vinho, o protocolo de anunciar o jantar ou a maneira certa de arear as pratas? Ou a maneira errada, mesmo? Se quiser um mordomo, tem de arranjá-lo sozinho e isso se aplica ao resto dos empregados. Ainda não sei bem se um dia vou me mudar para lá.

- Você ainda nem foi ver o que estão fazendo... não tem curiosidade? - Não - mentiu Maggy.

Em momentos esparsos de cada dia, ela se pilhava pensando no que exatamente Monsieur Frank estaria fazendo, mas não queria ser envolvida no processo, pois assim que exprimisse um gosto ou uma preferência, isso seria a mesma coisa que concordar em morar naquele apartamento imenso, muito alarmante, opressivamente imponente que Perry comprara. A vida de hotel, mesmo de alta classe como o Lotti, tinha alguma coisa de deliciosamente irresponsável. Os elevadores viviam cheios de casais amorosos que não podiam ser casados, o saguão ressoava com música e risos, as camareiras estavam sempre prontas para conversar um instante, e quanto aos imponentes concierges, liam os programas das corridas com ela, todo dia.

- Bom, então eu faço - disse Perry, resignado.

- Já sei... deixe a Paula. É o tipo de coisa que ela faz muito bem. Aquela sabe ver o caráter das pessoas... não se pode enganá-la. Pelo menos, eu nunca pude. E não se esqueça do último shiddach que ela fez.

- Shiddach?

- Uma apresentação... como no nosso caso... bem, só que usado em sentido lato. Na verdade, é um casamento de conveniência, como o que a minha Tia Esther queria que eu fizesse. Vem de uma palavra hebraica, shiduk - disse Maggy, com ar de conhecedora.

- E esse bocadinho de história, suponho, vem do Rabino Taradash?

Perry ficava encantado com o uso raro que Maggy fazia das expressões judaicas. Pareciam-lhe provocantes e animadas como o cravo vermelho de sua lapela.

- Não me faça lembrar do meu pobre rabino, querido. Uma mulher mantida, vivendo em pecado com um católico? Ah, nem posso imaginar o que ele havia de dizer.

- Ele explodiria?

- Explodiria de raiva, se partiria de irritação, arrebentaria de sofrimento... pode escolher. Mas ele não iria compreender, assim como o seu padre não compreenderia, se você tivesse um padre. No entanto, eu me recuso a me sentir culpada! O Talinude diz: "Quando o homem se vir face a face com o seu Criador, terá de prestar contas dos prazeres da vida que deixou de experimentar." Essa é uma parte do Talinude que conheço e com que concordo plenamente. Provavelmente é negado em outra parte... basicamente, sou ignorante em matéria de religião e, quanto a nós, não acho que tenha importância.

- É só por isso que você não se sente culpada quanto a mim? - perguntou ele, de repente sério.

- Ah, não, meu querido. Não me sinto culpada porque te amo tanto.

Não havia jeito de lhe dizer de verdade, pensou ela, o que ela sentia por ele.

Era um amor sem mistérios, livre de surpresas, ou aspereza, um amor que nunca poderia feri-la. Os braços de Perry eram uma proteção contra ela jamais ser ferida de novo. Com ele ela estava inteiramente segura e ela agora conhecia o valor da segurança.

Havia momentos, ela reconhecia, em que era inundada por recordações de Julien Mistral, em que tomava a sentir como a linha severa da boca dele ficava terna sob seus lábios. Mas aí ela punha de lado essa lembrança indesejável e pensava em tudo o que tinha de bom. E se ela tivesse vivido vários anos com Mistral? Se ficasse saturada dele, o coração inteiramente maculado por aquele homem obcecado pela pintura, que não se importava com ninguém? Seus breves meses com Mistral a haviam deixado muito machucada, mas ela acreditava que tinha um centro em que ele nunca tocara. Ela curvou a cabeça para as costas das mãos de Perry e roçou a face sobre elas, tão delicadamente que sentiu os pelinhos louros fazerem cócegas em sua pele.

- Quanto àquele mordomo... - murmurou ela.

- Vou tratar disso.

- Eu sabia que trataria.

- Feche bem os olhos e prometa não espiar. Vou levá-la ao salgo... quero que veja isso primeiro - disse Perry a Maggy. Era o mês de abril de 1927 e eles estavam à porta da frente do apartamento do Parc Monceau. - Mas que bobagem. No entanto, por que não? Tudo isso é ridículo. Maggy fechou os olhos e pegou o braço de Perry. Pareceu-lhe que eles andaram muito, até que ele disse, a voz tomada de emoção: - Agora pode olhar.

Ela abriu os olhos sobre uma das primeiras salas realmente modernas do século XX Sentiu como se uma brisa fresca a tivesse soprado para um mundo novo, um mundo dourado, bege, marfim e branco, em que o maior luxo era expresso nas formas mais puras. Nada se parecia com nada que ela já tivesse visto. As paredes tristes que, ela se lembrava, tinham painéis de madeira escura, haviam sido despidas do chão ao teto e cobertas com centenas de quadrados de pergaminho, cada qual ligeiramente diferente de todos os outros. Não interrompidos por um único quadro, eles formavam, em seu conjunto, uma obra de arte propositada e magistral, que luzia, de um dourado pálido, à luz das lâmpadas de gesso de formas ousadas.

A sala, que lhe parecera incrivelmente grande da primeira vez em que a vira, agora a envolvia, em sua festividade inesperada. Enquanto ela andava por ali sobre os tapetes brancos, percebeu que estava-se movendo num tipo de espaço novo, um espaço em que nunca imaginara pessoas morarem, um espaço difuso com frescor e amplitude, que logo fez todos os outros interiores parecerem apinhados, complicados e antiquados. Maggy passou os dedos pelos encostos das poltronas simples, estofadas com a seda giarfim mais simples e pesada possível, acariciou os tampos das mesas baixas, de laca dourada, e depois, aturdida, jogou-se num dos grandes sofás. Fitou estirada no couro natural macio, bege; com os olhos semicerrados, contemplou as formas essenciais de tudo na sala.

- O que você acha? Não é formidável? - perguntou Perry, aflito, as palavras se precipitando. - Os abajures foram desenhados por Giacommetti, - há 40 camadas de laca nas mesas, os tapetes são feitos a mão, em Grasse...

- Não me amole com detalhes, meu amor - disse Maggy. - Venha se deitar aqui comigo, parece que estou flutuando.

Eles se mudaram três dias depois. Jean Michel Frank, encantado com o seu cliente americano, pois um homem só, rico, generoso – especialmente quando está apaixonado - é sempre o cliente mais desejável que qualquer artista pode ter, tinha dedicado seu grande talento a tornar o apartamento de Parc Monceau uma expressão total de sua visão revolucionária, uma visão que continuaria fresca e significativa meio século depois.

Na primeira noite no apartamento novo, Maggy não conseguiu dormir. Sem fazer barulho, ela se levantou da cama e se enrolou em seu negligée de plumas. Andando pelo apartamento, tinha a impressão de que faltava alguma coisa, alguma coisa não estava bem certa. Mas Monsieur Frank não se esquecera de detalhe algum.

Nunca, pensou Maggy, passando pelos armários de roupa de casa e de pratarias, ela sonhara que alguém pudesse possuir tantos objetos. Ela levaria semanas para se acostumar com o seu conteúdo. Não faltava nada que pudesse tomar a vida supremamente confortável e por toda parte reinava uma limpeza extrema, um asseio que fazia o luxo de cortinados de cetim de sua suíte no Lotti parecer mesquinho e até sujo, em comparação.

Maggy entrou no salão e ficou junto das portas envidraçadas que davam para o parque. Do segundo andar, ela via grande parte daquele mais divertido dos jardins de Paris, as colunas clássicas, o lago oval e a pirâmide que o Duque de Orléans mandara levar para lá em 1778. O parque, agora vazio, cercado por complicadas grades de ferro batido com pontas de flechas douradas, parecia um cenário de teatro, pensou ela, pronto para uma representação de máscaras ou alguma diversão de um tipo arcaico. Parecia estar à espera de uma procissão de deusas de vestes gregas ou um bando de fadas fantásticas, da imaginação de um poeta. Mas ela sabia que nada aconteceria no parque trancado até que as crianças, essas crianças bem comportadas daquele bairro elegante, chegassem de manhã com suas amas. Inquieta, ela andou de quarto em quarto, mas a despeito de sentir cada vez mais que faltava alguma coisa que devia estar ali, não conseguiu encontrar nenhuma necessidade humana que não tivesse sido prevista. Por fim, Maggy voltou para a cama e caiu num sono agitado, cheio de fragmentos de sonhos.

No dia seguinte, ao entardecer, Maggy entrou no apartamento, pela primeira vez usando sua chave nova. Rosada com o frio da tarde de abril, ela nem se deu ao trabalho de tirar o casaco, ao atravessar o hall de entrada e quase correr pelo corredor comprido, para a sala de jantar. Debaixo do braço levava um embrulho grande e volumoso, envolto em jornal.

Ela passara a tarde procurando em certas lojas da Rue des Rosiers e o embrulho continha o objeto que procurara, a única coisa, ela se deu conta, ao acordar de manhã, que faltava ao apartamento. Maggy postou-se diante do aparador, coberto de velino, no qual estavam dois candelabros pesados, de prata e lápis lazúli, desenhados pelo famoso prateiro Jean Puiforcat, especialmente para aquela sala. Combinavam com a grande terrina coberta de prata e lápis, que estava sobre a mesa de jantar. Maggy pegou os dois candelabros do aparador e os colocou sobre a mesa, um de cada lado da terrina. Depois, com cuidado, desembrulhou o jornal e revelou um candelabro de bronze grande, meio amassado, com sete braços.

- Pronto! Agora sim - disse ela, em voz alta, colocando o menorah no lugar de honra de sua casa.

 

 

                                             Capitulo 11

 

Perry Kilkullen não estava ligando a mínima. Nem a mínima atenção ele dava às cartas escandalizadas da mãe, das irmãs e irmãos. Nem a mínima ao que a igreja já tinha dito, continuaria a dizer, estava dizendo no momento. Nem a mínima à reprovação muda de seus sócios e os mexericos empolgados das mulheres deles. Nem a mínima para a onda de cochichos no Turf and Field, no Piping Rock ou no Iate Clube de Nova York. Nem a mínima para a opinião de qualquer pessoa que ele tivesse conhecido ou mesmo amado antes de conhecer Maggy. Ele era inteiramente indiferente àqueles vultos vagos, que um dia tinham parecido importantes, e ao que eles pensavam sobre o assunto que era tão essencialmente dele. Ele tinha 43 anos, já vivera mais da metade dos anos que qualquer homem pode esperar viver e só agora é que compreendia o que significava estar vivo. Maggy. Sem ela ele teria sido uma aproximação de homem, sem o saber.

Ele continuava a exercer suas funções bancárias com precisão; ninguém podia acusá-lo de abandonar a firma, mas quanto ao resto separou-se de sua vida passada propositada e eficientemente. Não aceitava mais convites para jantar de seu círculo de amigos dentro da comunidade bancária de Paris; quando. seus colegas de Yale iam a Paris com as mulheres, ele os evitava. Ele arrumou os negócios com cuidado, para não ter de passar tempos em Nova York, onde a mulher, cheia de sua dignidade e suas convicções religiosas, esperava com aparente serenidade que ele passasse por aquela fase da vida, pela qual, lhe garantia a mãe, muitos homens de bem já haviam passado. Mary Jane McDonnell Kilkullen era orgulhosa demais para dar aos amigos alguma indicação do que sentia sobre o escândalo de Perry ter uma amante francesa, abertamente. Ela continuou na sua roda-viva de obras de caridade, uma mulher esguia elegante, cheia de jóias, que se recusava, com a sua pose brusca, mas branda, a permitir que alguém se apiedasse dela. Nada jamais a faria baixar à vulgaridade de agir como uma mulher ultrajada e traída.

No outono de 1927, Maggy fez 20 anos. Ela parecia mais experiente do que sua idade justificava, como sempre parecera, com as pálpebras delicadas e boca ousada que a tomavam, em qualquer grupo de mulheres, a mais fascinante de se olhar, mesmo não correspondendo ao ideal de beleza da época. Ela não era, nem nunca fora, uma "coisinha jovem", bonitinha, nem se adaptava à moda de melindrosas infantis e frágeis. Nos últimos meses, em que pudera satisfazer o seu gosto pessoal, alcançara uma elegância eterna, enigmática, nunca fora de moda.

Para comemorar o aniversário dela, Perry a levou ao Marius e Janette, onde tinham jantado juntos pela primeira vez, e depois foram à sua boate de Montmartre favorita, Chez Josephine, onde o absurdo da cabra e do porco (os estranhos bichos de estimação de Josephine Baker, que andavam pela casa, sendo mimados pela realeza de uma dúzia de países europeus) nunca deixava de divertir Maggy.

Naquela noite, porém, ela se sentia estranhamente pensativa. Vinte anos era muito diferente de 19. Era uma idade de mulher, e não de garota. Sua meninice tinha acabado, refletiu Maggy, sem saber se devia ficar deprimida ou feliz. Ela suspirou e torceu o colar de pérolas de duas voltas que Perry lhe dera de aniversário.

- Há alguma coisa, meu amor? - perguntou ele.

- Nunca mais serei jovem... jovem de verdade. E não ouse me dizer que estou sendo tola.

- Ser jovem "de verdade" foi assim tão maravilhoso?

Ela sacudiu a cabeça, vendo que ele não tinha entendido o que ela queria dizer.

- Significava que eu tinha tudo pela frente. Que eu não tinha de pensar no futuro, porque estava tão distante. Não sei por que, as opções que eu fazia não tinham importância de verdade. Nada era definitivo, porque tudo ia mudar, mesmo. Mas agora, agora me sinto tão... tão - ela fez um gesto inútil e sacudiu a cabeça, porque as palavras desapareceriam quando ela procurava encontrá-las.

- Como se tivesse de tomar resoluções? - perguntou ele, com ternura.

- Uma coisa assim. Como se eu estivesse dentro do meu futuro... Como se a minha vida devesse se dirigir para algum ponto.

Ela sorriu, meio triste, e sacudiu os ombros com um ar de desalento nada típico.

- Você vai se dirigir para algum ponto. Vai se casar comigo. Maggy levantou as mãos, sem poder acreditar.

- Não diga isso! Você sabe que é impossível! Como pode dizer isso, mesmo de brincadeira? Nunca pensei nisso!

- Sei que não pensou, mas eu pensei. É só no que tenho pensado, quase desde o dia em que a conheci... o plano teoricamente inimaginável de conseguir um divórcio, casar com você e viver com você o resto da vida. Nada mais natural, certo ou verdadeiro. Nós nos pertencemos, temos de estar juntos.

- Você é católico e é casado! - refutou Maggy, numa consternação louca. Maggy concordara com todas as providências que ele tomara com relação a ela, compreendendo que nunca seria possível algo mais que isso. Entre eles havia todas as barreiras; era tão pouco provável que ele se casasse com ela quanto se fosse o Príncipe de Gales; e ela o amava bastante para aceitar a situação.

- Eu e minha mulher estamos praticamente separados há anos... você sabe disso. Não temos filhos que nos unam...

- Ah, para que é que você foi falar nesse assunto? - exclamou Maggy.

- Você sabe que não pode conseguir um divórcio.

- Foi isso que disseram a Henrique VIII - disse Perry, com um sorriso.

Era verdade que os católicos não se deviam divorciar. Mas isso não queria dizer que não se divorciassem de fato, em raras ocasiões, graças ao uso de uma infinita força de vontade, paciência, muito dinheiro e prestígio. Naturalmente, esses católicos não eram o que a família dele ou qualquer pessoa que ele conhecesse considerariam bons católicos. Ele mesmo não consideraria um católico divorciado um bom católico.

No entanto, para se casar com Maggy, Perry Kilkullen estava disposto a se tornar um mau católico. Tinha verificado que sua fé não era tão forte quanto o seu amor. Uma vez que a sua imaginação começou a funcionar, uma vez que ele viu como sua vida era árida, o casamento apenas a continuação estéril de algo que morrera havia muito, não mais do que uma conveniência social e teológica, ele ficara impaciente com as leis da igreja. Um regulamento que exigia que ele fosse falso para com suas necessidades mais profundas poderia estar certo? Ele seria obrigado a desistir de todos os anos bons que restavam de sua vida como homem em favor de uma trama de "deves" e "não deves" decretados por Roma? Cada vez que ele fazia amor com Maggy, segundo o dogma que aprendera, estava pecando. No entanto, quando ele estava deita do dentro dela, sentia-se consagrado. Os seios dela, a barriga, as coxas - tudo era uma bênção. Algo tão belo não podia deixar de ser abençoado. - Ah, como é que pode sorrir assim? Não sabe o que está dizendo? - exclamou Maggy, muito chocada. - Você ficou maluco.

- Você não gostaria de se casar comigo, se fosse possível?

Perry afinal sentiu a reação dela. Tinha esperado o espanto, confusão, mas não essa recusa a ficar feliz com os planos dele.

- Não quero ser motivo de uma porção de problemas para você – disse Maggy, obstinada.

- Eu estava ressequido, antes de te conhecer! - disse Perry, com violência. - Estava morrendo de sede e você me salvou. Podia ter continuado durante anos e acabado mirrado, seco, descorado, vazio de seiva como um pedaço de madeira lançada à praia.

- Mas não vai haver problemas? Problemas graves? - insistiu Maggy.

- Problemas grandes, graves, terríveis. Ele sorriu, aliviado. Era só isso que a perturbara. - Quase o maior problema que você possa imaginar. Mas há de valer a pena, cada minuto, se você estiver disposta a se casar comigo e se disser que me amará sempre, por mais que demore.

- Você sabe que sim - disse ela, devagar. Aquela necessidade premente dele dissolveu seus temores.

- Mesmo não sendo mais jovem de verdade? Tem certeza de que não está muito velha para tomar essa decisão? Afinal, pode levar até alguns anos e você não vai querer se arriscar a ficar solteirona.

- Posso estar alcançando a maturidade - disse Maggy - mas ainda não estou velha demais para me arriscar.

- Então, está resolvido? - disse ele, ansioso.

- Entre nós, sim, meu querido. Quanto ao resto...

- Vou partir para Nova York no próximo navio - prometeu Perry.

- Mas por enquanto... enquanto ainda sou bastante jovem, vamos dançar.

Menos de dez dias depois do 209 aniversário de Maggy, Perry e a mulher se defrontaram na biblioteca do apartamento da Park Avenue. Durante duas horas, Mary Jane nem uma vez levantou a voz, com raiva, ou deixou que uma palavra imprudente escapasse de seus lábios. Ela escutara calada e sem interromper tudo o que ele tinha a dizer, as pernas bem-feitas cruzadas nos tornozelos, o rosto bonito quase sem expressão, as mãos calmamente no colo. Nem sequer remexeu em seus muitos anéis. Não estava dificultando as coisas para ele, pensou Perry, enquanto expunha todos os seus argumentos, todos os motivos, todo o pesar diante do que tinha de fazer a eles dois. Ela parecia estar escutando, escutando mesmo, o que ele estava falando. Talvez também ela estivesse querendo fazer uma vida de verdade para si. Talvez, durante todo o tempo que ele passara fora, ela tivesse encontrado alguém que pudesse amala como toda mulher deve ser amada. Por fim: ele parou, rouco de tanto falar. Agora não havia nada que ela não soubesse, nada que ele não tivesse confessado e tentado explicar.

Fez-se um silêncio, que durou tanto que ele quase recomeçou a falar, a se repetir. Então ela disse, delicadamente e tão baixinho que ele mal podia ouvi-la.

- Um divórcio? Eu não lhe poderia fazer isso, Perry.

- Mas você não faria nada. Eu sou inteiramente culpado.

- Eu não poderia abandoná-lo, Perry. Como você podia esperar que eu fosse tão cruel? - disse ela, com um olhar de compaixão.

- Mary Jane, pare de torcer as coisas. Você não estaria me abandonando, eu é que a abandonei.

- Você não fez nada que não se possa endireitar, Perry - disse ela, com tanta bondade quanto usaria para tranqüilizar uma criança assustada. - Você... ah, imagino que as pessoas diriam que você se "desgarrou"... as pessoas adoram dizer essas coisas, eu acho... mas, a meu ver, você só errou. É grave, mas nada irreparável. Felizmente a igreja compreende, a igreja o receberá de volta, quando isso terminar.

- Pensei que você estivesse escutando, diabos!

- E estava. Ouvi todas as palavras. Mas Perry, pobre Perry, você parece se esquecer de que tem uma alma imortal.

- Mary Jane, sou um homem adulto. Tenho 43 anos... deixe que eu me preocupe com a minha alma.

- Você está pedindo uma coisa impossível, Perry. Cabe a mim decidir que lhe será negada a outra vida? Se eu concordasse, se você conseguisse um divórcio, se casasse com essa moça enquanto eu fosse viva, você seria excomungado. E isso seria por minha culpa, tanto quanto por sua culpa.

- Estou disposto a correr esse risco, Mary Jane.

- Mas eu não estou disposta a condená-lo. E você sabe que não tem o direito de pedir isso.

Ele olhou bem para ela. Haveria a mais leve sugestão de que ela estivesse brincando com ele, escondendo-se por trás da piedade? Mas na fisionomia de Mary Jane ele só viu a convicção e resolução e tranqüilidade, uma calma fatal que lhe dizia que não havia esperança. Ela existia num mundo paralelo ao dele e não havia uma ponte de palavras que pudesse ser tecida entre eles. A crença dela negava a existência da paixão dele. Maggy e o amor dele por ela não eram reais para Mary Jane. Eram apenas uma abstração, um "estado de pecado" do qual ele poderia ser redimido pela confissão, a penitência e a volta a ela. Ele sabia que tinha perdido, mesmo enquanto continuava a raciocinar, a argumentar e suplicar.

Por fim, Perry partiu, derrotado. Mary Jane olhou para o relógio e franziu a testa. Tinha perdido uma reunião da Associação do Pequeno Salvador, que deveria ter presidido. No entanto, nada podia ser mais importante do que levar Perry a compreender que não havia circunstância alguma que a levasse a fraquejar e condená-lo a uma eternidade sem salvação.

Pegando o telefone para ligar e se desculpar por sua ausência, ela disse consigo mesma que quase chorava por ele, por sua triste ilusão ao pensar que poderia ter um só dia de felicidade fora da igreja. Pobre Perry, iludido, corrompido, desonrado, tão perdido que chegava a ser capaz de imaginar que Mary Jane McDonnell algum dia se permitiria ser a primeira na longa história de seu clã a se divorciar. Isso, pensou ela, enquanto o telefone tocava, mostrava mais do que tudo, até que ponto ele estava afundado no erro.

Perry ainda ficou umas três semanas em Nova York, procurando convencer membros da família dele que tinham influência com a mulher para que advogasse a sua causa. Fracassou totalmente. As fileiras dos Kilkullens e dos McKays estavam cerradas, no que dizia respeito à questão do divórcio. Quando ele tentou falar sobre Maggy, só uma de suas irmãs se mostrou disposta sequer a escutar e esta sempre fora a maior mexeriqueira de todos, que não conseguiu refrear sua curiosidade. Ele se afastou dela, podendo facilmente imaginar o que ela repetiria, num sussurro horrorizado e encantado, a um e outro dos parentes.

- Uma modelo de pintores de 20 anos, meu bem... sabe o que isso significa.

Como ele poderia transmitir-lhes a essência pura de Maggy? Como poderia esperar que eles algum dia compreendessem? Alguns de seus parentes do sexo masculino não se mostraram antipáticos quanto ao problema dele, enquanto isso se limitou a ser apenas que ele estivesse louco por alguma garota que não fosse sua mulher. Isso também já lhes acontecera. Com a maior parte deles, aliás. Mas nunca levara ao divórcio, nem mesmo a qualquer idéia de divórcio. Por que, perguntaram vários deles, ele não estava disposto a deixar as coisas continuarem como estavam antes? Muitos católicos tinham uma garota clandestina, então, por que diabo ele estava fazendo tanta onda?

Passaram-se quase oito semanas, até que Perry conseguiu se livrar das exigências de negócios feitas por seus sócios, já que ele se encontrava em Nova York. Ele estava ganhando tempo, escreveu a Maggy. Levaria pelo menos um ano sem precisar de voltar aos Estados Unidos, talvez mais.

Ele providenciou para que seu advogado em Paris, Maitre Jacques Hulot, se encarregasse das despesas da casa, para ela não ter de se preocupar com isso. Hulot pagava aos empregados, verificava e pagava todas as contas da casa e ainda se encarregava das contas pessoais de Maggy. Um dos funcionários do escritório do advogado entregava uma provisão de dinheiro a Maggy toda semana, pois nenhuma mulher francesa podia ter conta bancária em seu nome. Ele não sabia em que ela poderia querer gastar dinheiro, escreveu Perry, mas queria que a bolsa dela estivesse sempre cheia, para poder satisfazer qualquer loucura e capricho. O único assunto que ele não contou nas cartas diárias ao seu amor foi o resultado de seu encontro com a mulher e Maggy, em suas cartas, não o importunou pedindo detalhes.

Ela estava animada, garantiu-lhe Maggy. Via Paula freqüentemente, tinha encomendado um casaco de zibelina, conforme ele insistira antes de viajar, recomeçara as aulas de inglês e estava começando a falar correntemente; sim, ela sentia muitas saudades dele, mas como ele era a única pessoa com quem ela realmente queria estar, não era a mesma sensação que se sentir só, não era como se ele não fosse voltar assim que pudesse.

Relendo as cartas de Maggy em seus aposentos no Yale Club, Perry Kilkullen deu graças a Deus por ser rico. Tão, tão rico que não precisava se incomodar com a aprovação do resto do mundo. A família lhes abria as portas, socialmente, mas não podiam impedir que ele criasse seu próprio mundo com Maggy, um mundo doce, alucinado e todo desejo poderia ser satisfeito, a não ser o de um casam arranjo permanente, do tipo que os franceses têm o jeito de entender. Maggy nunca acharia que ele era menos que um verdadeiro marido para ela, com divórcio ou sem divórcio. Naturalmente, ela ficaria terrivelmente decepcionada com o que ele afinal lhe contaria, mas era francesa, de modo que aceitaria a realidade.

E quanto à outra vida e sua alma imortal, com a qual Mary Jane estava tão preocupada, ao pensar em Maggy, Perry Kilkullen sabia que era indestrutível. Sua alma imortal podia se arrumar sozinha.

Maggy foi esperá-lo em Cherburgo. Enquanto Perry esperava que berrassem a bagagem, ele a viu do outro lado da cancela, o rosto tenso, abatido de empolgação. Aquele era o momento com que ele sonhara, vei, mais vezes, durante os dias compridos da tumultuosa travessia do oceal Agora, de repente, a segundos dali, estava o fim das dolorosas semanas separação, mas embora ele ansiasse, impaciente, por torná-la nos braços, vi que preferia que ela não tivesse ido a Cherburgo, deixando que ele tomasse o trem para Paris. Essa viagem de trem, aquelas quatro horas monótonas de um progresso suave, certamente o teriam inspirado para encontrar as palavras precisas com que apresentar o futuro a Maggy, à sua melhor luz. A recusa de Mary Jane ainda não se concretizara numa explicação certa, otimista, mas final, por mais que ele se esforçasse por encontrá-la.

De repente, Maggy passou por baixo da cancela e correu para ele, lançando-se nos braços dele, cobrindo o rosto dele com beijos. Ao inspetor da alfândega Maggy disse alguma coisa numa gíria tão rápida que Perry não entendeu, mas que deixou o homem dando risada, ruborizado e inesperadamente indulgente.

- Ah, meu querido, tenho uma notícia! Não pode esperar, não pode mesmo! Levantei às quatro da madrugada para ter certeza de chegar aqui a tempo... ah, Perry!

Ela parou de repente e calou-se.

Ele mal percebeu as palavras dela, sentindo-se entrar no círculo de encantamento que ela criara para ele, desde o primeiro momento em que a vira. Maquinalmente, ele voltou ao estilo provocante deles, como se estivessem continuando uma conversa que acabasse de ser interrompida, enquanto ele apertava a cabeça de Maggy entre as mãos, afagando as faces com carinho.

- Se não pode esperar, por que não me conta?

- Sou muito encabulada - disse ela, o rosto aparecendo de dentro da gola alta das peles fofas, sedosas e escuras, como um ramo de violetas brancas.

Desde quando você é encabulada? perguntou ele. Ele se tinha do de como a pele dela parecia jovem, sob as pontas de seus dedos, ele, distraído.

- Eu sempre fui muito encabulada. 18 só que não, parece. As pessoas não entendem isso de mim porque não tenho ar de encabulada, sou alta demais - Maggy, depressa, nervosa.

- Foi pata isso que você se levantou tão cedinho, para me dizer isso? m assunto fascinante, a sua altura, mas perder meia noite de sono por causa disso...

- Adivinhe - disse ela, recuando um pouco e pondo um dedo nos lábios dele.

Você despediu a cozinheira?

- Fale sério - pediu ela.

- Querida, não a vejo há quase dois meses e suas cartas não insinuaram o menor mistério. Espere. . . já sei! Encontrou uma pérola na sua ostra, ontem no Prunier, e mandou fazer um alfinete de gravata para mim?

- Está quente, bem quente - murmurou ela.

- Você descobriu uma brilhante costureirinha que ninguém ainda conhece em Paris; ofereceram-lhe um papel num filme com Valentino e você vai me deixar para ir para Hollywood; você encontrou um pequeno château no campo que podemos comprar para os fins de semana; você aprendeu a patinar no gelo, ganhou um torneio de tango... tenho de continuar, ou posso beijá-la de novo?

Maggy respirou fundo e passou do francês para o inglês. - Vou ter um bebê. Não, nós vamos ter um bebê. - Impossível!

- Já estou enjoando de manhã - disse ela, com um orgulho tímido. - Maggy, você não pode estar grávida... eu nunca consegui ter um filho...

- Quando você troca de mulher, troca de possibilidade.

Ela estava sorrindo com a boca, mas os olhos estavam muito aflitos.

- Não posso acreditar - disse ele, aturdido.

- Então, não está contente? Ah, eu estava com tanto medo que você não ficasse contente, ah, Perry, sinto muito...

- Não! Meu Deus, não! Não sinta, nunca diga isso... é a coisa mais incrível, mais. . . ah, querida, Maggy, você não pode imaginar como sempre quis ter um filho. Perdi as esperanças há tanto tempo... é a notícia mais maravilhosa... Jesus, nem posso começar a lhe dizer.. .

Lágrimas de alegria lhe subiram aos olhos e caíram pelas faces e quando ela as viu, seu rosto branco tomou um pouco de cor.

Maggy passara semanas presa de terror e exultação, uma empolgação louca e um milhão de receios. No entanto, ela não ia ser mulher dele? Só quando Perry partiu para os Estados Unidos é que ela começou a pensar que estava grávida. Por algum motivo, não teve coragem de escrever a respeito. E se estivesse? E se não estivesse? Tinha esperado até algumas semanas antes para consultar um médico, corno se, não sabendo ao certo, toda a situação pudesse desaparecer. No entanto, agora Maggy já estava quase com três meses de gravidez, ao que ela e o médico tinham podido verificar.

- Dê graças a Deus que isso não tenha acontecido antes - dissera Paula, ao saber da notícia. - Se Mistral, que Deus a livre, lhe tivesse feito um filho, minha pequena, eu lhe aconselharia a se livrar dele. E não pense que não conheço uma dúzia de médicos bons que fariam o serviço. Mas Perry é um homem em quem você pode confiar, um homem honesto, um bom homem, garanto. Certo, esse problema do divórcio é inconveniente, mas tudo há de se arrumar, mais cedo ou mais tarde, não duvido... os americanos se divorciam a três por dois, dia e noite, ao que eu saiba. E depois pense, Maggy, um bom marido e um bebê também. Ah... um bebê é a única coisa boa que não tive na vida, o único pesar que tenho. Mas você, minha pequenina, vai ter tudo... e com tanta classe! Tenho de confessar, eu a invejo.

Maggy agarrou-se às palavras de Paula, desejando que fossem verdade. Ela agora pôs a cabeça no ombro de Perry.

- Abrace-me, abrace-me, você nem sabe como precisei de você. - Só quando o chofer estava dirigindo o grande Voisin para Paris é que ela conseguiu perguntar, com uma displicência forçada! - Então? O que aconteceu, com sua mulher?

- Vai dar tudo certo, querida - respondeu ele, imediatamente. - É só uma questão de tempo, é o único problema.

- Não se pode talvez convencer o Vaticano a correr? Só um empurrãozinho?

- Está querendo saber se estarei divorciado quando nascer o bebê?

- Acho... eu estava esperando isso - admitiu ela.

Ele hesitou antes de falar.

- Acho que isso será impossível. Mas Maggy, não há nada, absolutamente nada com que se preocupar... juro, prometo. Quando o nosso bebê tiver idade para saber as coisas, isso já será história antiga... seremos apenas mais um casal de velhos. O importante é cuidar de você para que não aconteça nada de mau.

- Mau?

- Quero tanto esse bebê, Maggy.

Em maio de 1928, nasceu Théodora Lunel. O nome significa "Dádiva de Deus", em grego, e tanto Maggy como Perry o acharam perfeito. Foi um bebê ajuizado desde seu primeiro dia no mundo, um bebê que quase não chorava, mamava bem, dormia de modo muito satisfatório e acordava sem um momento de irritação. E era extraordinariamente bonito. As pessoas que acham que todos os bebês são bonitos devem passar por um berçário de casa de saúde para ver que, embora todos os bebês possam ser enternecedores, por sua pequenez e desamparo, quase nenhum é bonito. Teddy, cujas feições já estavam dispostas num padrão clássico de excelência, cujos cabelos ruivos claros eram encantadoramente cacheados, cujos membros eram retos e perfeitos em todos os sentidos, era o assombro do berçário.

Perry Kilkullen sentia-se maravilhosamente justificado. Aquela necessidade integrável, atávica, de uma continuação de sua própria existência, que ele reprimira por tanto tempo, irrompeu com maior poder do que qualquer emoção que ele jamais experimentara, até ele conhecer Maggy. A magia humana e profunda de um bebê, o seu bebê, o absorveu tão completamente que Maggy, presa ao leito por duas semanas, prazo considerado necessário para uma mãe de primeiro parto, quase chegou a ter ciúmes; depois se envergonhou, reconhecendo a origem de sua irritação.

Os momentos de que ela mais gostava eram no meio da noite, quando a deixavam sozinha para amamentar durante 20 minutos de cada vez.

- Bastardinha - dizia ela à criança, num cochicho baixo e terno - Bastardinha adorável, como é que você pode ser tão contemplativa? Tanta dignidade, uma expressão de tal meditação em seu rosto, mesmo enquanto esvazia o meu seio, qualquer um há de pensar que você nasceu herdeira de um trono. Ah, mas você se leva a sério, hem? Nem pensa na sua velha mãe. Bastarda, é o que você é; e filha de bastarda... bastardinha dupla. Devia prestar mais atenção. Veja só todo o trabalho que você deu, para vir ao mundo. Exijo certo respeito. Mas o que lhe importa isso? Eu não tive mãe para me amamentar, mas sobrevivi. Você é um bebê de mais sorte, em todos os sentidos, mas... não obstante... bastarda.

Quando Maggy e Perry estavam juntos, nunca falavam sobre o fato de que o bebê tinha o nome de Maggy. Tudo isso, conforme Perry lhe assegurava repetidamente, se modificaria assim que eles se casassem. No entanto, aquilo incomodava o espírito de Maggy, de um modo que chegou a espantá-la. Ela não pensara muito mais em sua ilegitimidade, depois que tirata da cabeça Tours e todos os que conheciam seu passado, mas o ato de dar à luz trouxera tudo de volta, como se ela ainda estivesse no cruel pátio da escola, brigando com alguém que a provocasse com uma tal ferocidade que até os mais fortes aprenderam a deixá-la em paz. Parecia-lhe que, se ela chamasse Teddy de bastarda, ninguém mais o faria. Ela estava sugando o veneno antes que ele tivesse oportunidade de circular nas veias do bebê.

A única pessoa a quem ela revelou seus receios e ansiedades foi Paula. Pouco depois de levarem o bebê para casa, Paula, que muitas vezes a visitara na casa de saúde, foi tomar chá com ela e criticou-a bastante.

- Para uma francesa, você é urna bobona, menina, preocupando-se com uma coisa que você sabe que será regularizada. Regularizada, estou dizendo!

Temos um talento nacional para a regularização, nós, franceses. Ora, olhe em volta... o que podia ser mais solidamente luxuoso, mais perfeitamente organizado, mais comme il faut em todos os sentidos, do que esse seu magnífico estabelecimento? Eu, pessoalmente, não consigo encontrar o menor defeito, desde a babá inglesa de Theodora até essas pérolas lindas que você usa no pescoço com tanta naturalidade. Olhe em volta, Maggy. Você está cercada por tudo quanto uma mulher pode querer para se sentir segura, por todas as provas de que Perry pretende fazer de você mulher dele. Você devia até ter vergonha de pensar na palavra "bastarda" como referência a essa menina maravilha. Todos esses detalhes legais se endireitam num piscar de olhos, quando chegar a ocasião. É a sua infância infeliz que a deixa tão nervosa, só isso. - Ela se serviu de mais um ecler de chocolate em miniatura. - Ora, você tem até um chef de pastelaria sem rival, bem na sua cozinha, sua ingrata.

- Como você é materialista, Paula - protestou Maggy, rindo.

- Claro que sou. E o que há de errado nisso? Agora, onde está escondendo aquele tico de gente delicioso? Quero dar só uma mordida nela. Você me deve pelo menos isso.

Teddy tinha nascido num ano privilegiado, um ano em que foi assinado em Paris, por 15 nações, o Pacto Antiguerra Kello.4:-Briand, o pacto que proscrevia a guerra para sempre. A sensação do salão de 1928 foi um nu de corpo inteiro de Josephine Baker. O público francês acorria ao cinema para assistir a filmes de Mary Pickford, Charlie Chaplin e Gloria Swanãon, a casa Hermes fez a primeira bolsa útil que as mulheres jamais haviam usado, e Coco Chanel tomou-se amante do Duque de Westminster, o homem mais rico da Inglaterra. Jean Patou, que tivera a idéia de importar jovens americanas bonitas para exibir suas roupas, estava tendo grande sucesso com a criação de um corte bem enviesado e um novo tom neutro, chamado greige tomou-se a cor das mulheres elegantes.

Foi um ano tão suave e próspero que Maggy se esqueceu de suas apreensões e se entregou à vida absorvente e divertida de uma jovem mãe mimada. O mundo em geral parecia não ter nada a ver com ela. Perry lhe lia as notícias dos jornais em voz alta, enquanto ela ficava deitada vendo Teddy realizar a façanha incrível de se sentar, e ela respondia com um ruído distraído ao fato de que dois americanos tinham dado a volta ao mundo no tempo recorde de 23 dias, 15 horas e três segundos, de navio e avião. Ela parecia ter deixado de se interessar pela presteza do divórcio dele, foi o que Perry concluiu, escutando-a cantando enquanto dava comida ao bebê, no dia de folga da babá. Maggy podia esperar com placidez que o divórcio saísse, certa de que as rodas se moviam misteriosamente, mas com segurança, no Vaticano. Mas ele não se iludia a ponto de partilhar o otimismo pelo qual era o responsável.

O divórcio era a primeira coisa em que ele pensava ao acordar de manhã e diariamente resolvia tomar alguma providência. Mas depois, quando o dia progredia, ele se lembrava da rejeição total com que Mary Jane respondera à proposta e permitia-se ser seduzido à imobilidade, porque estava levando a vida mais feliz que qualquer homem pode esperar levar.

Passou-se o primeiro aniversário de Teddy e ele ainda não fizera nada, num transe de paz. No verão de 1929, Perry e Maggy pegaram o bebê, a babá e a criada pessoal de Maggy para passarem seis semanas num grande hotel balneário em Concarneau, onde o ar fresco da Bretanha era reconhecidamente bom para as crianças em crescimento. Teddy já sabia andar, não com passinhos vacilantes, mas como uma criaturinha que corria depressa e milagrosamente se mantinha de pé até alcançar o objetivo de sua corrida encantadora.

Um dia, na praia, Perry estava jogando uma bola para ela, quando notou um grupo de quatro pessoas sentadas numa manta, ali perto, sob um guarda sol grande. Ele olhou para eles e, no instante em que o fez, elas desviaram os olhares. Quando Teddy correu para ele, com a bola, e caiu em seu colo com um grito, rindo e dizendo "Papa, papa!" ele sentiu o coração gelar. Sobre a manta estavam dois de seus companheiros de negócios e suas mulheres. Ele tornou a olhar para eles e viu que se tinham colocado de tal modo que nenhum estava de frente para ele. A despeito de lhe darem as costas, Perry sabia que eles só podiam estar pensando nele com a criança, que quando saíssem da praia só iam falar de Perry Kilkullen com sua filha natural.

Ele pegou Teddy no colo e saiu da praia, agarrando-a, protegendo-a de tal modo, que ela se debateu. Amargamente, selvagemente, ele se amaldiçoou, xingando-se de covarde. Ah, ele comprara a felicidade, sim, ele a comprara por quase dois anos, à custa de mentir para Maggy cada minuto de cada dia, embora ela não o soubesse. Sim, ela estava disposta a viver com ele antes de se falar sequer em casamento. Mas lembrar isso não o ajudava a se sentir menos ignóbil. Maggy exercera seu direito de escolha. Mas que direitos Teddy tinha? Que futuro havia para ela? Que tipo de pai ele era para sua filha, sua única filha, a filha do seu coração?

Perry foi consultar o advogado, Jacques Hulot, antes de voltar e retomar a luta com Mary Jane, em Nova York. Se houvesse a menor possibilidade de alguma trama legal de que ele se pudesse aproveitar, tomando-se cidadão francês, ele estava disposto a trocar de nacionalidade. Hulot, pomposo, comunicou que não poderia ajudá-lo, ele não poderia usar a lei francesa para sua conveniência. Quando Perry se levantou para sair, o advogado se inclinou sobre sua imensa escrivaninha.

- Um momento, Monsieur Kilkullen - disse ele, levantando a mão, com um gesto de comando.

Durante mais de dois anos ele' supervisionara o pagamento de somas vultosas que aquele americano rico e voluntarioso gastava tão facilmente para manter o que devia ser uma amante suculenta e experiente. Ele se ressentira por ter sido usado para facilitar a vida particular do sujeito, para que ninguém de seu mundo americano soubesse como e com quem ele vivia. Que audácia do Kilkullen, que podia se dar ao luxo de dissipar quantias tão vastas sem pensar duas vezes, ter a presunção de discutir a cidadania francesa! Por que não usava a sua própria cidade de Reno, Nevada?

- Somos os dois homens experientes, não somos? - disse Hulot, com satisfação. - Isso, afinal, não precisa ser considerado uma tragédia. Hoje o senhor deve estar achando que tudo conspira contra o senhor, para que lhe seja negado o seu desejo de se casar com Mademoiselle Lunel. No entanto, dentro de dez anos, ou cinco até, talvez, o senhor não será grato à igreja e ao estado, que possuem mais sabedoria do que o senhor pensa e que o impediram de fugir para essa ligação impetuosa? Quando chegar o dia em que encontrar uma... amiga... nova, diferente... não ficará satisfeito com as restrições...

Ele parou, vendo que Perry dava a volta à mesa e o agarrava pelas lapelas até ele ser levantado da poltrona.

- Nunca, nunca mais tome a falar de Mademoiselle Lunel!

Ele soltou o advogado. Até poder contratar outro, ainda precisava dos serviços do maldito homem. Hulot tinha nas mãos todo o controle financeiro da casa. Perry Kilkullen saiu correndo do escritório de advocacia e caminhou, enraivecido, pelas ruas de Paris. Rajadas perfumadas de um ar insinuante esvoaçavam, tentadoras, em cada esquina. Quando, perguntou-se, num desespero raivoso, quando os franceses cínicos, mesquinhos, de coração duro, cumpriam todas as, promessas que tornavam implícitas pela beleza total de seus céus e a embriaguez perdida de sua cidade? Quando um homem e uma mulher que não se deviam apaixonar, se apaixonavam, como tudo que era francês os convidava a fazerem, então, que Deus os ajudasse.

Assim que foi possível, depois de sua conversa com Hulot, Perry tomou a partir para Nova York, resolvido a arrancar de Mary Jane um consentimento para o divórcio. Ela só concordou em recebê-lo em meados de outubro. Ele a encontrou mais magra do que nunca e parecendo muito mais velha do que seria justificado pela passagem dos anos. Era uma mulher de meia-idade, grisalha, agora apenas vagamente bonitinha, pensou ele, com surpresa, enquanto ela o olhava com seus olhos azuis claros, notando, com um lampejo de amargura, que ele estava parecendo positivamente jovem. Ela via demais nele o homem com quem se casara. O tempo o tratara bem. Injusto, ah, injusto.

- Mary Jane, tenho uma filha.

- Você está pensando que isso é novidade para mim, Perry? Acho que não tenho uma amiga no mundo que não tenha conseguido me dar essa informação. Espera que eu o felicite?

- Será que a existência dela não muda a situação, pelo amor de Deus? Não se trata mais apenas de suas convicções religiosas ou a minha excomunhão, é uma questão do futuro de minha única filha. Se estou disposto a arriscar o fogo do inferno e a danação eterna e todo e qualquer castigo que a igreja me prometa, por que você não concorda?

- Não sinto responsabilidade alguma pelo futuro dela. Foi concebida no pecado e nascida no pecado e não é nada para mim. Mas a lei de Deus é clara e eu, pelo menos, pretendo obedecê-la.

- Mary Jane, não posso acreditar que você esteja falando sério. Você não é uma mulher dura...

- Como - é que você sabe? Como pode saber que tipo de mulher me tornei? Há quantos anos já você me largou? Vá embora, Perry. Você e a bastarda me enojam!

Ela deixou Perry sozinho na biblioteca, olhando para as pedras cinzentas e antipáticas de Park Avenue, tocando no bolso as fotos de Teddy que levara consigo para amaciar o coração daquela mulher e que, ele agora percebia, só serviriam para inflamá-la ainda mais. Ele estava satisfeito ao ver que Mary Jane afinal se enraivecera. Agora que ela manifestara parte de seus verdadeiros sentimentos, que tinha desistido de sua pose de santa que só pensava na salvação dele, certamente eles podiam arranjar um meio de resolver a questão. Ele voltaria, dentro de uma semana, duas semanas, toda semana durante um ano, se fosse preciso. O essencial era não desistir. Com o tempo, ela haveria de ceder. Ele voltou ao Yale Club e procurou exorcizar sua frustração na quadra de squash. Era isso ou uivar.

Duas semanas depois, no dia 29 de outubro de 1929, a bolsa de valores quebrou. A "prosperidade Coolidge" desapareceu, enquanto 17 milhões de ações eram vendidas por preços cada vez mais reduzidos. Durante as frenéticas semanas seguintes, Perry não teve mãos a medir para ajudar a controlar o pânico dos investidores, cujo dinheiro ele e seus sócios manuseavam. Ele não via possibilidade de deixar Nova York num futuro próximo, de modo que escreveu a Maggy para partir de Paris e ir para os Estados Unidos com Teddy.

- Graças a Deus que aprendi a falar inglês - disse Maggy a Paula, dirigindo a arrumação de uma de suas seis malas de navio.

- Esse problema financeiro americano afetou a fortuna de Perry? - perguntou Paula, preocupada. Em poucas semanas, o número de seus fregueses americanos esbanjadores, no restaurante, tinha-se reduzido a quase nada.

- Não sei, mas acho que não, ele afinal é tão esperto. Nunca falei de dinheiro com ele. Tem sido como um tapete mágico... muitas vezes até esqueço de perguntar o preço, quando compro alguma coisa.

- Não!

Paula estava horrorizada. Uma coisa era ser mantida no estilo de urna duquesa, mas não perguntar o preço não era nada francês.

- Sim. - Maggy riu-se. - Como uma dessas turistas americanas. Estou tão contente que afinal te escandalizei. Eu sabia que devia haver alguma coisa que conseguisse esse efeito.

Paula fungou, fazendo pouco caso. Na verdade, não estava acreditando em Maggy... era exagerado demais para ser verdade, pensou ela, olhando para Maggy, que estava segurando uma torrente, um rio de luxo vaporoso, como mercúrio, as sedas e veludos e brilho metálico de seus vestidos farfalhando e reluzindo, macios, pendurados de seus braços.

Maggy largou as roupas na cama, foi para junto de Paula e abraçou-a.

- Por que não vem comigo? Eu a convido. . . você nunca saiu de Paris, querido rato de esgoto.

- Não, obrigada. Estou muito velha para me deslocar. Para que hei de viajar para ver arranha-céus, quando consegui resistir à tentação de ver o Monte St. Michel? Paris sempre será suficiente para mim. Mas quando é que você volta?

- Não posso saber ao certo... assim que tudo isso se acalmar.

- Espero que seja logo - resmungou Paula. - É ruim para os negócios, essa besteira de bolsa de valores.

Nove dias depois, Maggy desembarcou em Nova York. Ela desceu a rampa de desembarque segurando com firmeza a mão de Teddy, procurando controlar o seu entusiasmo e expectativa vibrantes. Atrás dela vinha a babá Butterfield, a simpática inglesa que ainda cuidava de Teddy. A viagem tinha sido calma e sem percalços, o navio cheio de passageiros preocupados e calados, muitos deles americanos que voltavam para ver o que acontecera com os investimentos que lhes permitiam morar na Europa. Perry combinara esperá-las no cais e levá-las diretamente para o apartamento mobiliado que alugara.

Maggy ficou ali debaixo de uma enorme letra "L" no galpão comprido e escuro da alfândega, olhando em volta com seus olhos grandes e sorridentes. Ela se vestira com o maior cuidado para aquele reencontro. O véu de seu chapeuzinho de cetim verde chegava até à ponta do nariz. O casaco estreito de lã verde, com gola de zibelina, tinha uma capa curta, pregada, debruada com mais uma tira larga de zibelina escura... nada podia ser mais romântico, pensou ela, e no entanto ela não pôde deixar de tremer no vento de Nova York, um vento frio, sujo, que tinha um cheiro tão desconhecido. O sorriso dela afinal desapareceu, quando um funcionário da alfândega eficiente insistiu para que ela abrisse todas as malas e valises. Teddy estava choramingando e a babá Butterfield estava querendo dar-lhe o almoço. Onde estaria Perry? Por que não estava ali, para tomar conta das coisas? Em torno dela as pessoas estavam mandando os carregadores colocarem as bagagens nos carrinhos. O galpão escuro já estava quase vazio quando Maggy teve licença de partir. Três carregadores empilharam sua bagagem e um deles perguntou:

- Para onde, senhora? Tem um carro à sua espera, ou precisa de um táxi? Tudo isso não vai caber em menos de dois táxis.

- Tenho de telefonar - disse Maggy, aflita, procurando por toda parte o vulto alto de Perry.

- Bem aqui.

Ela já estava na cabine telefônica quando se deu conta de que não tinha dinheiro americano na bolsa. Como é que Perry podia ter-se atrasado tanto? Era indesculpável. Maggy voltou ao carregador.

- Podia fazer o favor de me emprestar a moeda para o telefone? E, por favor, pode também me mostrar como funciona?

- Claro, moça. Sua primeira visita, é? Venha comigo.

Ele colocou o níquel na fenda para ela e deu à telefonista o número que ela lhe deu, o do escritório de Perry em Wall Street. Depois, fechou a porta da cabine e ficou esperando do lado de fora, pensando se ela pretendia dar-lhe a gorjeta em francos.

- Posso falar com o Sr. Perry Kilkullen, por favor?

- Há, a senhora pode falar com a secretária dele. Quem devo dizer que está ligando?

- A Srta. Lunel.

- Um momento.

Quando atendeu outra voz de mulher, Maggy disse, impaciente:

- Por favor, aqui fala a Srta. Lunel. Pode me dizer onde está o Sr. Kilkullen? Ele devia ter-se encontrado comigo há horas.

- É alguma cliente do Sr. Kilkullen? - perguntou a mulher, a voz insegura e cautelosa.

- Por certo que não - disse Maggy, cada vez mais irritada. - É amiga dele, Srta. Lunel?

- Sou, claro - retrucou Maggy. - Agora posso falar com ele? Isso é absurdo!

- A senhora não sabe - disse a voz, sem expressão. Não era uma pergunta, mas também não era uma declaração.

- Sei... sei o quê?

- Sinto ser eu que... é muito... todos aqui estão tão perturbados.. . O Sr. Kilkullen teve um ataque do coração jogando squash, há quatro dias. Receio que ele... não sobreviveu.

- O Sr. Perry Kilkullen? - disse Maggy, maquinalmente. - Deve ser um dos parentes dele, um dos outros Kilkullens. - O bocal do telefone parecia escancarar-se para ela, como um órgão vital cortado em dois. O sangue deveria jorrar dele.

- Sim. Sinto muito. O enterro foi ontem, os jornais noticiaram. Há mais alguém aqui com quem deseje falar? Posso fazer alguma coisa para ajudá-la? - Não, não, não.

 

 

                                           Capitulo 12

 

Se não fosse a babá Butterfield, perguntou Maggy a si mesma, quando conseguiu tomar a pensar de modo coerente, como ela poderia ter vivido os minutos seguintes, as horas e dias seguintes? A sensata inglesa tinha tomado conta de tudo, tratando de todas as necessidades práticas, enquanto Maggy ficava muda e desvairada de choque e quase paralisada com uma dor incrédula, uma angústia dilacerante que lhe cortava a carne e os ossos como as lâminas de metal de uma armadilha armada para algum animal incauto.

A babá Butterfield procurou o comissário de bordo e trocou os francos de Maggy em dólares, pediu o nome de um hotel e fez com que elas se instalassem em dois quartos contíguos no Dorset, pondo Maggy na cama com o auxílio do médico do hotel. Durante os dias seguintes, ela tratou a mulher arrasada como se tivesse a idade de Teddy, convencendo-a a comer alguma coisa e ficando com Maggy até ela cair num sono dopado.

Quando Maggy acordou de manhã, foi com uma dor brutal, tão forte que ela não conseguiu ficar debaixo das cobertas, por causa dos pensamentos

que a assaltavam ali. Tremendo de frio, por mais quente que fosse seu roupão, ela se postou diante do espelho do banheiro, com medo de enfrentar sua imagem, as lágrimas correndo de seus olhos para a pia durante vários momentos, até ela conseguir fazer os movimentos necessários de escovar os dentes e lavar o rosto. Cada detalhe da higiene parecia um pingo de gelo por sobre o qual ela tinha de arrastar o fardo de seu corpo machucado e dolorido.

Vestir-se era impossível. Maggy passou a semana de camisola e roupão, andando pelo quarto superaquecido, olhando para as paredes, obcecada, como se suas superfícies creme e neutras pudessem apagar o que era insuportável. Durante horas a fio, com as cortinas bem cerradas e as lâmpadas acesas o

dia todo, Maggy caminhava, tremendo, os ombros encolhidos, para a frente e para trás, como se fosse morrer de tormento se ousasse parar o seu movimento incessante. Tinha medo de ir para a cama, até cair nela, exausta.

Só quando estava esgotada é que a babá levava Teddy, para que ela afagasse a menina um pouco, Maggy segurava a criança, cansada e apagada, até que Teddy, animada e se aborrecendo com facilidade, se soltava dos braços dela e ia brincar. Sua filhinha era a única coisa quente no mundo, pensou Maggy, seu cérebro trabalhando lentamente. Suas mãos estavam geladas mesmo quando as punha debaixo dos braços, para aquecê-las. Os pés viviam gelados, embora aquecidos em seus chinelos forrados de pele. Ela parecia alguém que estivesse patinando, sem medo e ágil, num lago prateado e ensolarado, até que, num instante, tivesse caído pelo gelo no frio mortal da água ártica. Afogada... afogada. Mas Teddy estava quente. Não podia se afogar, não devia se afogar, porque Teddy ainda estava quente.

- Vamos voltar para Paris, madame? - perguntou a babá Butterfield, ao ver que Maggy estava pronta para enfrentar o futuro. - Quanto dinheiro ainda tenho?

- Uns 300 dólares, madame.

- Tenho de telegrafar ao Maitre Hulot pedindo mais... isso não basta para as passagens - disse Maggy, sem animação.

O telegrama dele em reposta chegou no dia seguinte.

 

SINCEROS PÉSAMES SUA PERDA; SR. PERRY KILKULLEN NAO DEIXOU INSTRUÇÕES DESEMBOLSAR DINHEIRO ALÉM DE PAGAR CONTAS CASA E PESSOAIS BASE MENSAL. TUDO ISSO ACERTADO. NAO PODEMOS ADIANTAR MAIS IMPORTANCIAS. ENTREGUEI TODOS ASSUNTOS INVENTARIO AO ADVOGADO DELE NOVA YORK SR. LOUIS FAIRCHILD 45 BROADWAY. ACONSELHO PROCURA-LO PARA AUXILIO FUTURO.

                         MAITRE JACQUES HULOT

 

- Olhe para isso - disse Maggy, entregando o telegrama à babá Butterfield, chocada demais para se indignar.

- Ele está lavando as mãos de nós - disse a inglesa, de modo franco.

- É bom eu ir procurar o Sr. Fairchild - disse Maggy, desanimada.

- Isso mesmo. E breve. . . - Ela olhou para Maggy, pálida como um lençol, os olhos feridos e vermelhos, o rosto inchado das lágrimas infindáveis e inúteis. - Por que não lhe escreve e marca uma hora? E a senhora hoje devia mesmo se vestir e dar um bom passeio comigo e Teddy. Está muito agradável no parque e vai ser uma mudança para a senhora. O tempo está ótimo, bem fresquinho.

-,Ah, não, não posso.

- Mas precisa mesmo - disse a outra, com a autoridade branda que nenhuma criança e poucos adultos jamais tinham discutido.

Três dias depois, Maggy estava diante de Louis Fairchild, no escritório dele. Ela passara horas todo dia no parque, com Teddy, e naquela manhã fora ao salão de Richard Block, onde conseguiram penteá-la quase tão bem quanto Antoine a penteara, em uma outra vida. Maggy pusera o seu batom vermelho

mais audacioso, para aquela entrevista.

- Obrigada por me conceder uma hora - disse ela ao homem grisalho, de ar preocupado.

- Em absoluto. Devo dizer que fiquei espantado quando recebi sua carta...

- Mas sabe quem eu sou? - perguntou ela, ansiosa.

- Claro, mas o coitado do Perry não me disse que viria para Nova York. Permita-me dizer que sinto muito, muito mesmo. Foi um bom amigo, um amigo muito querido. Ainda não posso acreditar... um rapaz tão moço e sem qualquer antecedente de...

- Sr. Fairchild - pediu Maggy - por favor, pare. Não posso falar a respeito. Vim aqui lhe pedir conselhos. Queira ler esse telegrama e me dizer, o que devo fazer.

Ele olhou para o papel por alguns minutos, pensando, e depois sacudiu a cabeça.

- Eu disse a Perry para fazer um testamento! Disse uma dúzia de vezes, mas ele nunca chegou a fazer. Como a maioria dos homens da idade dele, achava que tinha todo o tempo do mundo.

- Não compreendo... diga-me, por favor, qual a minha situação?

- Situação? Receio que a senhora não tenha situação... alguma.

- Mas ele estava-se divorciando! Íamos nos casar! - exclamou ela.

- Ele morreu casado, Srta. Lunel. Legalmente, a senhora não tem direito a nada. Infelizmente, não há nada no papel.

- Mas Teddy, a nossa filha! E ela? Ela não tem direitos? - A voz de Maggy soava incrédula.

- Sinto muito, mas não tem.

Louis Fairchild pensou que se Mary Jane Kilkullen não estivesse tão amarga, ele poderia conseguir convencê-la a dar alguma coisa à criança, por pouco que fosse. Mas era por causa da bastarda, insistia ela, que o marido morrera num estado de pecado mortal, aquela francesa e sua bastarda.

- Mas ele prometeu. . . - Maggy parou. A única emoção que ela sentira desde que chegara a Nova York era perda, uma perda infindável. Agora a raiva lhe deu um nó na garganta. Ela se viu como devia estar naquele momento, sentada ali, gemendo e dizendo "ele prometeu", como milhões de outras mulheres, desde o início dos tempos. Mulheres tolas, mulheres infantis, mulheres vítimas, mulheres estúpidas, imperdoavelmente, criminalmente estúpidas, que acreditavam em seus homens, esses homens displicentes que pegavam o que queriam, esses homens amorosos que não tomavam as providências mais banais pelas mulheres que deviam ter protegido. Homens que mentiam e mentiam. Julien Mistral e Perry Kilkullen. Ela se empertigou na cadeira e olhou para o pesaroso advogado.

- Por favor, Sr. Fairchild, o que exatamente eu possuo no mundo?

- Sua propriedade pessoal, como jóias, peles e outros presentes específicos que o Sr. Kilkullen lhe tenha dado, um carro, talvez? - O nosso apartamento em Paris?

- Será vendido, com todos os pertences, antes de se resolver o inventário.

- Vendido - disse Maggy, a fúria tomando sua voz calma e prática. - Espero que alguém tenha-se lembrado de pagar aos empregados.

- Maitre Hulot se corresponde comigo quanto a isso.

- Espero que eles recebam alguma compensação por serem despedidos sem aviso prévio. Isso é o correto, não é? E, felizmente para eles, só perderam seus empregos. lyens, eu devia ter tomado aulas para fazer alguma coisa útil.

- O que pretende fazer? - perguntou Louis Fairchild. Ele não queria saber, na verdade não queria ficar ali contemplando o futu4o daquela mulher deslumbrante, mas completamente esbulhada. No entanto, jim simples espírito de decência exigia que ele procurasse ser útil.

- Ah, isso é uma coisa que terei de considerar com cuidado.

Maggy se abrigou em suas peles de raposa prateada e começou a calçar as compridas luvas cinzentas.

- Se eu puder lhe aconselhar em alguma coisa...

- Talvez me possa dar o nome de um joalheiro honesto. Acho que seria sensato dispor de algumas peças que não tenho jeito de usar - disse Maggy, com toda a displicência que pôde. No fim da semana, teria de pagar de novo a conta do hotel.

Fairchild rabiscou um nome em seu cartão.

- É a esse sujeito que procuro sempre, no aniversário de minha mulher. Diga que é minha amiga. Olhe... - ele hesitou, constrangido, sem saber propor um empréstimo à mulher mais desejável que já vira na vida - se precisar de algum dinheiro, terei prazer em servi-la...

- Obrigada, é muita gentileza, mas não será necessário - disse Maggy, com um reflexo de orgulho. Havia certas coisas que ela não podia fazer. Pelo menos por enquanto.

Louis Fairchild a acompanhou ao elevador e depois voltou à sua mesa, infeliz. Que mixórdia desgraçada. Ele supunha que ela ia voltar para Paris e encontraria um marido. Garotas como ela sempre encontravam maridos. E, para ser sincero consigo mesmo, ele não culpava Kilkullen. Se ele tivesse a oportunidade de ter uma garota como aquela, também a teria aproveitado. Só que teria o bom senão de fazer um testamento. Pelo menos, esperava que sim. Uma garota assim podia fazer a gente se esquecer de uma porção de coisas que devia fazer.

Naquela noite, Maggy abriu seu estojo de jóias pela primeira vez, desde que pisara nos Estados Unidos. As peças bonitas, reluzentes, pareciam brinquedos de infância, há muito esquecidos. Pensativa, ela fez um monte das jóias verdadeiras. Em outro monte, muito maior do que o primeiro, pôs as jóias fantasia, que ela preferia, por serem mais interessantes; os clipes de lapela e colares que ela comprara de Chanel, que ditava: "Usem o que quiserem, contanto que pareça fantasia. "

Não obstante, ali devia haver o suficiente para mantê-las por muito, muito tempo, pensou. Perry adorava levá-la ao joalheiro, sem motivo algum, quando estavam passeando pelas redondezas da Place Vendô-me, e pedia que ela escolhesse alguma coisa para comemorar a simples alegria do momento.

- Para comemorar o quarto dente de Teddy - explicava ele, como motivo. Ou então: - Porque você tem os bicos de seio mais rosados de Paris.

Resolvida, ela tirou do estojo de veludo todas as jóias verdadeiras, com exceção das pérolas - uma mulher tinha de ter pérolas - e sua pulseira favorita e as meteu na bolsa. Não podia ser sentimental e, além disso, estava farta, farta mesmo, do sentimento, farta de uma emoção que levava, mais cedo ou mais tarde, a uma fraqueza mortal.

Maggy achava impossível perdoar-se. Tinha sido uma `pote' , aquela clássica e ridícula figura francesa, a crente idiota verdadeira, o alvo das brincadeiras de mau gosto, a pessoa que só falta pedir para que se aproveitem dela. Desde a sua entrevista com Louis Fairchild, Maggy se sentia como se tivesse envelhecido e endurecido séculos. Nunca mais acreditaria num homem, era o que Maggy sabia, em seu íntimo; e quando essa certeza a invadiu, ela se sentiu aquecida, fortalecida e estranhamente alerta. Não era uma coisa feliz de se descobrir, aos 22 anos, que não se podia confiar em homem algum, quer ele a amasse de verdade ou não. Não era uma coisa feliz perceber afinal que só podia confiar em si mesma. Mas era uma compreensão clara, sem a possibilidade de interrogações ou exceções. A água de inverno, gelada e suja, em que ela se debatia, recuou, deixando-a em terra firme, terra estéril e adversa, talvez, mas tão menos assustadora agora que ela entendia que só tinha os seus dois pés para sustentá-la. Já passara antes por essa situação e sobrevivera - era um território conhecido.

Maggy se empertigou toda e se olhou no espelho, com severidade. Você só pode ir em frente, disse ela a si mesma, e com firmeza começou a planejar a roupa perfeita para vender as jóias. Primeiro o vestido preto de Vionnet, de corte severo. Depois, o casaco preto de Schiaparelli, uma transformação completa da temporada anterior, com seus ombros largos, acolchoados, e silhueta de jaquetão, como soldado de madeira. Parecia marcial como cia queria sentir-se, severo, ousado e, acima de tudo, inteiramente novo. Com isso ela ia usar um sóbrio chapéu preto de feltro de Caroline Reboux, sua linha angular bem definida. Parecia viúva? Por certo, era esse o efeito de todo aquele preto - mas não uma viúva patética, que pudesse ser levada a um erro de julgamento.

No dia seguinte, vestida com sua armadura arrogante, Maggy entrou calmamente no Tiffany's, em busca do vendedor cujo nome Louis Fairchild lhe dera. Ele se animou, quando ela se apresentou.

- Estou com umas jóias que riso me servem mais - disse Maggy, com displicência. - O Sr. Louis Fairchild me disse que o senhor poderia me ajudar a dispor delas.

O vendedor mostrou o seu desapontamento.

- Quer dizer, comprá-las de volta da senhora?

- Não foram compradas aqui. Foram feitas em Paris.

- Mas madame, não compramos de volta nem mesmo nossas jóias, é norma da companhia.

- Os outros joalheiros americanos adotam as mesmas normas? - perguntou Maggy, com displicência, permitindo-se parecer levemente espantada.

- Ao que eu saiba. Especialmente nesses dias de hoje, madame. Há tantas senhoras que estão descobrindo que têm mais jóias do que precisam...

- Realmente? Ah, bem... que... maçada.

Ele vacilou, suspirou e depois lançou-lhe um olhar rápido, de esguelha, francamente conspirador e malicioso. Tossiu discretamente.

- Olhe, pode ser que tenha mais sorte numa loja menor. Esses pequenos joalheiros são mais maleáveis. Trabalham por conta própria, de modo que estão sempre à procura de um bom negócio.

- Há algum que o senhor recomende? - perguntou Maggy, num tom de voz malicioso e suplicante, que o fez desejar matar dragões por ela.

- Recomende? Não, gostaria de poder chegar a tanto. Mas há um sujeito na esquina, na Madison, a uns dois quarteirões daqui, que tem uma lojinha ... Harry C. Klein. Mas é apenas uma sugestão, não uma recomendação, sabe.

- Claro. E eu lhe fico muito agradecida. O senhor ajudou muito,

- Olhe, foi um prazer. A senhora foi a primeira pessoa com quem falei, o dia todo. Mas esse pânico na Wall Street não pode durar. Assim, quando estiver no mercado outra vez, volte para me procurar. Tiffany's ainda estará aqui.

Ele ficou olhando para Maggy, com um desejo melancólico. Daria quase qualquer coisa para vê 4a usando aquele novo colar de rubis e brilhantes, com brincos combinando. E mais nada, não, nem mesmo um par de sapatos de salto alto.

Harry C. Klein tivera uma manhã ruim. Uma antiga freguesa o procurara para mandar fazer uma nova montagem para um anel de safira que ele lhe vendera vários anos antes e tinha insistido em ficar "esperando" enquanto faziam o trabalho, para não trocarem a pedra por uma de menos valor. Paranóica! Todo mundo estava ficando louco. Ele quase lhe dissera para ir embora e procurar um joalheiro em quem ela pudesse confiar, mas, com os negócios como estavam, concordara. O pessoal da oficina ia ficar furioso. E agora aquela mocinha acabava de despejar um monte de peças no balcão. Ela pensava que ele era Papai Noel? Ninguém em seu juízo perfeito, estava interessado em aumentar o estoque. Ele olhou para os clipes, brincos e pulseiras com um olho prático.

- Estou vendo que a senhora, positivamente, não é uma cavadora de ouro - suspirou ele para Maggy. - Uma pena. Melée... é o que tem aí.

- Melée... mas em francês isso significa uma briga, uma luta na multidão - disse ela, intrigada.

- Para os joalheiros, significa uma porção de pedrinhas. - Melancólico, ele virou um par de clipes grandes, cheios de brilhantes pequeninos. - Vê, não tem pedras grandes.

- Mas as pedras grandes não têm interesse! - exclamou Maggy. - Eu só queria usar peças divertidas, as graciosas. As pedras grandes são para as velhas princesas na ópera ou para as Dolly Sisters... são sérias demais para mim.

- As pedras grandes são para a revenda - disse ele, agitando um dedo de advertência na cara dela.

- Nunca pensei em jóias como investimento - disse Maggy, em voz baixa.

Ela tirou da cabeça os alegres almoços no Ritz, seguidos pela busca despreocupada de uma loucura reluzente na vitrine de um joalheiro. Então, mesmo aí, ela fora uma poire - Perry lhe teria dado qualquer coisa que desejasse, alqueires daquelas grossas pulseiras de brilhantes que ela desprezara como sendo "galões de posto".

- Minha senhora, não sabe que as jóias só são um investimento se pretende guardá-las por 50 anos? E, mesmo assim, é uma loteria. Claro, a gente pode costurar no forro da saia e fugir do país. Mas para onde havia de ir? Estou falando de revenda, moça, não de investimento. Estou falando de conseguir uma coisa aproximada ao que pagou por isso. Revenda significa pedras grandes e mesmo assim se forem de boa qualidade, boa água. Melhor um rubi de dois quilates com o bom brilho de morango do que um rubi de cinco quilates que é um pouco fora disso.

- Mas veja esses desenhos, esse trabalho! - exclamou Maggy, zangada. Será que todos os seus tesouros seriam sem valor? Esse homem devia estar querendo roubá-la.

- Isso não quer dizer nada. Só o que vale é o peso das pedras e o valor das montagens e metal, quando se vende uma Melée. Olhe, tenho um cofre cheio de pedras soltas, lá em cima, pedrinhas como estas, talvez não tão boas, mas bastante razoáveis. Comprei por atacado. Não lhe poderia oferecer nada a não ser bem menos do que por atacado, pois com as suas peças trabalhadas, graciosas, é preciso muito trabalho só para desfazê-las e tirar as pedras. Em todo caso, não posso comprar porque o meu negócio é estritamente uma questão de oferta e procura e, desde a crise, a procura desapareceu. - Ele olhou para as pérolas dela e meneou a cabeça, com pesar. - Essas pérolas custaram uma fortuna, não é? Birmanesas, não é? E depois os japoneses aprenderam a cultivá-las e agora...

Ele suspirou com pena, olhando aqueles objetos reluzentes, antes cobiçados, que mesmo Maggy sabia serem impossíveis de vender.

- Então - suspirou Maggy, repetindo o estado de espírito dele, tocando em suas fantasias lindas e desvalorizadas. - Bupkis... nada.

- Bupkis? - disse ele, espantado. - Você é judia?

- Mas claro. Isso faz de minha Melée, um grande rubi valioso?

- Nada disso. Mas o que é que uma garota judia linda com você está fazendo sem o seu solitário de brilhante, essencial? - perguntou Harry C. Klein, com severidade. - Como é que não conseguiu, pelo menos, a sua safira boa, ou seu rubi importante? Esperta você não foi.

- Esperta eu não fui - concordou Maggy, enfaticamente, sorrindo apesar de tudo, diante da indignação dele. Ela desfez a fileira de grandes pregadores de cortinas de metal que Schiaparelli usava em lugar de botões no casaco e puxou as mangas estreitas. A loja do Sr. Klein estava superaquecida e ela já percebera que só com o vestido preto ela parecia até mais positivamente viúva do que de casaco. Talvez aquele homem simpático tivesse um ponto fraco por viúvas judias. Valia a pena tentar vender a sua Melée, mesmo por quase nada.

- Espere um minuto... o que é isso?

Ele pegou o braço dela e olhou para a pulseira que ela resolvera guardar para si.

- Mais melée, imagino, mais algumas esmeraldas.

- Essas esmeraldas parecem interessantes. Tire a pulseira, para eu ver melhor... com a sua sorte, pode haver algo de errado nelas. - Ele examinou a pulseira, com sua lente de joalheiro, olhando cada esmeralda separadamente. Por fim, com um grunhido satisfeito, ele a devolveu a Maggy. - Boa, muito boa. Por essas esmeraldas, não me importo de abrir uma exceção. E daí, mesmo que eu não possa vendê-las por muito tempo?

- Quer dizer que quer comprar a pulseira?

- Positivo. E eu lhe darei o melhor preço possível. Mande avaliar primeiro, se ficar mais satisfeita, não faça cerimônia.

- Mas, Sr. Klein - disse Maggy, esperta - não quero vender só a pulseira, quero vender tudo. A pessoa que comprar a pulseira terá de ficar com as outras peças também.

Inteiramente burra ela não era, pensou Harry C. Klein, com um misto de prazer e tristeza. As probabilidades de um pequeno joalheiro como ele algum dia poder comprar quatro esmeraldas perfeitamente iguais de dois quilates cada eram remotas. Mesmo um joalheiro importante podia ter de esperar algum tempo, para poder conseguir uma coleção dessas. Podia-se fazer dois pares de brincos maravilhosos delas, ou até mesmo um colar... não, dois colares, com duas esmeraldas em cada um, cercadas de brilhantes. Se pedras assim algum dia perdessem o seu valor, então nada que se tivesse cavado, desde os dias do Rei Salomão, valeria alguma coisa. Mesmo que ele tivesse de passar anos sentado, esperando para vender as esmeraldas, não poderia deixar passar essa oportunidade.

Maggy tornou a pôr a pulseira e pegou o casaco.

- Aonde vai?

- Arranjar alguém que compre o lote.

- Está bem, está bem. Não comece a andar por aí, só vai lhe confundir a cabeça. Vamos fazer negócio... não tenha tanta pressa.

Ela olhou para ele, desconfiada, e depois sossegou. Não era preciso que ele lhe dissesse que as esmeraldas eram boas... mas primeiro ela ia mandar avaliá-las.

Quando Maggy concluiu a venda de suas jóias a Harry C. Klein, eles tinham-se tomado bons amigos. Ele passou a conhecer a sua triste história: o marido francês, o bonitão David Lunel, que tinha investido com tão pouca prudência nos Estados Unidos e, enquanto investigava o vulto de suas perdas em Nova York, morrera num desastre de automóvel, deixando-a desamparada com a filhinha. Conhecia o Rabino Taradash e a avó e até a receita secreta da avó para o pot-au feu, mas não sabia de nada sobre as febris noites de Montpamasse, ou um pintor chamado Mistral ou uma garota engraçada e displicente que tirava o roupão de seda verde de cima do corpo, sem preocupações, diante de qualquer pessoa que lhe pagasse para pintá-la. Quando chegou a ocasião do pagamento dos 12.000 dólares que as jóias de Maggy afinal lhe renderam, sendo a parte do leão paga pelas esmeraldas, Harry C. Klein mostrou um particular interesse no futuro dela.

- Vai pegar a menina e voltar para casa? Talvez fundar um pequeno negócio? Hoje em dia pode-se fazer muita coisa com todo esse dinheiro.

- Ainda não me resolvi.

Maggy foi andando devagar pela Madison Avenue, absorta em seus pensamentos, seu cheque metido em segurança dentro do sutiã. Tinha seu pé de meia, o suficiente para se sustentar e a Teddy por uns quatro ou cinco anos, em conforto relativo, se encontrasse um apartamento pequeno num bairro que não fosse elegante, em Paris. Mas quando acabasse o dinheiro, o que faria? Que tipo de negócio modesto ela poderia fundar, sem preparo nenhum? E se o negócio fracassasse e ela perdesse todo o dinheiro? Arranjaria um emprego de vendeu-se, talvez, numa dessas lojas em que costumava esbanjar o dinheiro de Perry, sem perguntar o preço?

Ela olhou em volta e cheirou o ar. Faltavam algumas semanas para o Natal: o dia azul e brilhante adejava em tomo dela como uma bandeira. Nova York estava vibrantemente viva com um estalido de promessa, um movimento irresistível de vitalidade que fazia Paris parecer antiquada, cheia de tradições, nada atraente. Por que não romper com tudo? Por que não ficar ali, onde era a Sra. Lunel, viúva, em vez de voltar para uma terra em que gente demais sabia a seu respeito? Empolgada, ela se virou e só faltou correr no percurso de dois quarteirões até a joalheira.

- É tarde para mudar de idéia. Concordamos num valor justo, do mercado - disse o Sr. Klein, levantando os olhos quando ela entrou de repente, o rosto afogueado.

- Tenho de arranjar um trabalho! Aqui em Nova York! Acabei de resolver que não vou voltar para a França...

- Fazendo o quê?

- Não sei. Tem alguma idéia para mim?

- Uma pequena que nunca trabalhou na vida... está brincando? - Bem, já fui modelo, um pouco.

- Que tipo de modelo?

- Para... figurinistas.

- Ah.

Ele a olhou com atenção. Não entendia nada sobre manequins, mas sabia ver quando uma garota era sensacional.

- Tenho um amigo que está no negócio de modas, jogamos pôquer duas vezes por mês, é um italiano. Ele se deu muito bem... era um garoto do bairro antigo, mas hoje ninguém diria. Alberto Bianchi... jogávamos beisebol com bola de borracha e hoje é muito importante. Vou ligar para ele, para ver se arranjo alguma coisa.

Ele foi para o escritório dos fundos, para telefonar, e voltou sorridente.

- Pode ser que tenham uma vaga para uma garota... pode ser. Uma das modelos dele fugiu com o marido da melhor freguesa. O sujeito resolveu se dar um presente de Natal, para variar. Vá depressa... esses serviços não ficam vagos muito tempo. Aqui está o endereço e aqui - disse ele, dando um beijo rápido no rosto de Maggy - um beijo para lhe desejar boa sorte.

Maggy estava nervosa como um peixe de aquário, ao chegar à entrada do escritório de Bianchi. As portas de vidro da Rua 55 Leste eram foscas e não havia vitrines dos lados, apenas os tijolos discretos de uma casa modernizada.

Ela entrou pelas portas e, pela primeira vez desde que chegara a Nova York, sentiu-se logo à vontade. Chocada, ficou parada e respirou fundo. Em volta dela, o pulso do estabelecimento batia com um ritmo tão conhecido que ela o reconheceu em seu sangue, o ritmo de um maison de couture. Os ruídos eram seus conhecidos: as vozes por trás das portas de salas de provas, as das vendedoras respeitosas e imperturbáveis, as vozes agudas das freguesas indecisas e mimadas. Os cheiros eram os mesmos; os perfumes misturados de uma centena de mulheres ricas pairavam no ar, misturados ao fumo de seus cigarros, com um fundo dos aromas pungentes de tecidos novos e peles.

Seu coração deu um salto enquanto ela absorvia o ambiente, aquela destilação especial, aquela intensidade que sobe à cabeça das mulheres como um raio, composto dos milhões de fantasias que tinham sido levados àquele lugar; fantasias de como a mulher poderia aparecer, se encontrasse aquele vestido certo e perfeito; de como aquele vestido perfeito a transformaria; fantasias que davam mais crédito ao poder das roupas do que estas jamais poderiam realizar.

Era a Lourdes da vaidade, pensou Maggy. Elas iam lá não para se curarem, mas para se transformarem nos sonhos que tinham de si; mais jovens, mais belas, mais magras, mais desejáveis. A força concentrada dessas fantasias parecia bastante forte para poder fazer explodir as paredes do costureiro e, no entanto, reinava uma calma controlada na sala de recepção de veludo cinzento, cheia de espelhos.

Patricia Falkland, mulher de meia-idade, de cabelos escuros e muito bem vestida, estava sentada atrás de uma mesa reluzente, em que havia apenas um vaso contendo uma rosa branca. Ela trabalhava para Alberto Bianchi há anos, dirigindo todo o pessoal de vendas e fazendo o papel por demais necessário de mediadora entre as vendedoras e as freguesas. Nunca agia como vendedora, pessoalmente, mas era responsável por aconselhar freguesas vacilantes e tinha de lidar com todo o pessoal da casa. Avaliar as freguesas novas era sua especialidade.

A Srta. Falkland sabia distinguir uma mulher mal vestida de meia-idade, a mulher de um grande dono de frigorífico de Chicago, que poderia gastar milhares de dólares, com a mesma facilidade com que distinguia a jovem de sociedade, vestida na última moda, com todos os sinais de luxo, e que nunca pagaria as contas. Conhecia todas as mulheres ricas de Nova York que preferiam procurar Bianchi para comprar suas cópias brilhantemente adaptadas de Chanel, Vionnet e Lanvin, em vez de ir comprar roupas em Paris. Durante a década de 20, embora a moda fosse positivamente ditada por Paris, havia muitas americanas que se recusavam a dedicar vários meses de cada ano cheio em viagens à França e a se submeterem à movimentação exaustiva de desfiles e provas.

Quando Maggy entrou, Patricia Falkland apertou os lábios num assobio imperceptível, aquele assobio de aprovação irrestrita que poucas mulheres provocavam nela. Maggy personificava um ideal que nem as mulheres mais ricas podiam adquirir. Patricia Falkland, examinando depressa, como era seu hábito, de baixo para cima, absorvendo todos os detalhes do conjunto de Maggy, desde os sapatos maravilhosos, perfeitamente engraxados, até ao chapéu feito com arte, viu que estava olhando para uma pessoa vestida com os originais das roupas que Alberto Bianchi reproduziria para suas clientes, alguém trajando o verdadeiro, aquela essência inconquistável de Paris, que nunca poderia ser duplicada, por mais que copiassem tecido por tecido, costura por costura, botão por botão. "Como é que esses sacanas conseguem isso?" Ela sempre se fazia essa pergunta quando via a costura parisiense no seu auge e continuava a ser a única pergunta para a qual não tinha resposta.

Por um segundo, nenhuma das mulheres falou. Maggy ficou ali, olhando em volta da sala de recepção, com aquele ar inimitável de uma cliente em perspectiva que a atmosfera da sala provocara nela, aquela pose; avaliando, julgando, porém inteiramente segura de ser bem-vinda, coisa que ela aprendera durante os dois últimos anos de luxo. Era uma pose que nunca poderia ser adquirida pela prática, nunca poderia ser assumida por alguém que não estivesse acostumada a gastar muito dinheiro. Provinha de uma atitude interior, inconsciente, para com as roupas. Dizia, corno se ela tivesse falado em voz alta: "Não há nada que tenham para me vender que eu não possa comprar, se quiser. Mas comprarei? Cabe a vocês me tentarem. E, mesmo então, posso estar tão saturada que me recuse a ser tentada. Mostrem-me o que têm de melhor. Se eu quiser, eu o comprarei. Ou talvez não... cabe a mim decidir.

O momento de silêncio passou e Patricia Falldand se levantou, com respeito, e se dirigiu para Maggy.

- Posso servi-la, madame? - disse ela, na voz que reservava para as melhores clientes.

- Espero que sim - respondeu Maggy.

- Se quiser se sentar, já vou chamar uma vendedora.

A Srta. Falkland sorriu, como que para se desculpar porque uma vendedora não tinha surgido do chão, à chegada de Maggy.

- Não, por favor, não se incomode. Eu gostaria de falar com alguém sobre um trabalho de manequim.

- Um trabalho? - repetiu a outra, o sorriso desaparecendo.

- Soube que estão precisando de uma manequim. Gostaria de me candidatar.

- Isso é inteiramente impossível - disse a Srta. Falkland, com rispidez, uma nota de irritação evidente em sua voz. Que audácia daquela mulher, entrar no salgo com ares e pose de uma cliente, quando estava procurando emprego! Era uma afronta. Era imperdoável. Nunca se ouviu falar nisso. Seu coração se endureceu para com Maggy, que a levara a cometer um erro de julgamento, coisa de que ela tanto se orgulhava. Era irritante ser pilhada com as suas maneiras mais obsequiosas para uma simples candidata a emprego.

- Meu amigo, Sr. Harry Klein, me informou que a Casa Bianchi está precisando de manequim. O Sr. Klein falou no telefone com o Sr. Bianchi pessoalmente, há mais ou menos um quarto de hora, de modo que vim imediatamente.

- O Sr. Bianchi está procurando uma modelo profissional, uma moça que trabalha, não uma diletante. Pagamos 35 dólares por semana, o que não daria para comprar nem um pé dos seus sapatos. E as nossas moças trabalham como animais por esse dinheiro, do contrário não durariam nem uma semana. Nem sequer pensaríamos em alguém sem experiência.

- Por favor, dê-me uma oportunidade - insistiu Maggy. Essa mulher não vai se livrar de mim, pensou ela. Não sou mais uma garota chorona, que é pudica demais para tirar as calças. - O Sr. Bianchi disse ao Sr. Klein que estava precisando...

Patrícia Falkland ouviu e notou a resolução e obstinação na voz de Maggy. Havia anos que ela lamentava a aberração masculina que levava o patrão a continuar a sua ligação com os amigos da roda de pôquer do seu passado, mas ela sabia muito bem como ele era sentimental nisso. Ela se curvou diante do fato de que não podia livrar-se de Maggy sem criar problemas com Bianchi.

- Pode me acompanhar - disse ela, com brusquidão. - Mas é uma perda de tempo.

Ela subiu uma escada e entrou numa sala, vazia no momento, onde os novos modelos franceses estavam pendurados em cabides junto das mesas que as manequins usavam para sua maquilagem. Escolheu um vestido de baile de cetim branco, com um complicado corte enviesado, tão decotado na frente e nas costas que era difícil distinguir qual era qual. Tendo um babado franzido, projetando-se entre o quadril e o joelho, talvez fosse o vestido mais difícil de se usar que Madame Jeanne Lanvin tivesse criado. Ela o entregou a Maggy, sem dizer uma palavra, e voltou à sua mesa.

Diabo de criatura, pensou Patricia Falkland, furiosa. Ela sabia que podia usar o nome de Klein, como uma espada, mas não tinha o bom senão de ver que não estava nada apta a exibir roupas. A última coisa que uma manequim deve fazer é parecer que está concorrendo com a cliente. Por mais bela que seja, não pode provocar qualquer sentimento de inveja na cliente, nunca deve parecer que está no mesmo plano social ou econômico da freguesa. Esta deve ser encorajada a sentir-se superior. Isso era uma coisa, profunda, entendida por todos os que vendiam roupas.

Ela ainda estava absorta nos seus pensamentos irritados quando Maggy apareceu no alto da escadaria, envolta mima capa de arminho que pegara de outro cabide na sala das manequins. Sua cabeça descoberta revelava cabelos parecendo uma fogueira cuidadosamente tratada, ainda repartida do lado, conforme o primeiro penteado que Antoine fizera, mas agora com os cabelos mais compridos e bem ondulados sobre as orelhas. Como uma estátua viva, ela se adiantou com um passo sutil, deslizante, nem lento nem rápido, um passo calculado para deixar que a espectadora absorvesse os detalhes daquilo que ela usava com facilidade, e no entanto seus olhos, olhando serenos para uma distância média, não permitiam qualquer contato pessoal. Aquele ar de desafio inconsciente, privilegiado, com que Maggy entrara na sala de recepção tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido. Em seu lugar estava um porte que indicava claramente que ela estava lá unicamente para dar prazer e para servir aos outros.

Olhem, olhem para mim, ela parecia dizer, mas olhem para o que estou usando, pois, se agradar, poderá ser de vocês. Sou apenas o meio que lhes indica como poderão realizar seus sonhos. Sou neutra, as roupas é que são tudo. E não são lindas? Tenho orgulho de usá-las, por alguns minutos. Mas não me pertencem. Pense como você podia ficar maravilhosa dentro disso.

Maggy chegou ao último degrau e atravessou o salão de recepção. A Srta. Falkland, contemplando-a com olhos antipáticos e impassíveis, notou que ela arranjara um par de sapatos de noite de cetim branco, das coisas de alguma manequim. Mas qualquer pessoa, até mesmo uma desmazelada nata, podia se embrulhar em arminho e criar algum efeito. Não havia uma só manequim trabalhando para Bianchi que não lutasse para exibir aquela pele; e todas ficavam bem com ela. O teste tinha sido deturpado e ela não estava impressionada.

Maggy se virou diante da mesa e voltou ao pé da escada. Lá, devagar, com um. gesto em que empregou tudo quanto aprendera sobre a fascinação, num gesto que mostrava tudo o que se poderia jamais aprender sobre o trato das peles, ela jogou a capa para trás, desdobrando-a com uma facilidade tal que poderia ser feita de organdi, e a deixou pendurada de uma das mãos, enquanto ela se revelava no vestido de cetim branco que, depois que ela o vestira, se tornara extremamente desejável.

Um dos dois clipes de imitação de brilhantes que Maggy tinha comprado em Chanel marcava o ponto mais baixo do decote, na frente; e quando ela se virou de novo, outro estava pregado no V do vestido atrás, de um modo que ninguém em Nova York jamais vira. Ela deu a volta à sala, o arminho sussurrando no tapete, e então um leve sorriso sonhador lhe aquecia o rosto, o suficiente, justo o suficiente, para provocar na espectadora o prazer sensual de usar um vestido daqueles, um sorriso que garantia a tentação. Ela não olhou para Patricia Falkland, procurando aprovação ou reprovação, ao andar; mas se tivesse olhado, teria visto os lábios da mulher se apertarem, severos.

- Quem é esta? - perguntou uma voz de homem.

A Srta. Falkland deu um salto, mas Maggy ficou parada, imperturbável, esperando, oferecendo-se inteiramente, mas sem perder a distância que guardava.

- Alguém que quer um emprego de manequim, Sr. Bianchi - disse ela. - Não creio que sirva.

- Talvez deva mandar examinar sua vista, Patsy. Como se chama, senhorita?

O ar neutro e inexpressivo de Maggy desapareceu, enquanto ela exibia o seu encanto não autorizado.

- Magali Lunel, mas no ramo me chamam apenas de Maggy.

- É você a moça de quem Harry falou no telefone? Eu não esperava. quando pode começar?

- Quando quiser. Amanhã, se lhe convier.

- Que tal agora? Patsy, a Sra. Townsend acabou de ligar. Mudou de idéia sobre a viagem para Palmi Beach e está louca por roupas novas para as festas de Natal em Tuxedo Park. E estamos com falta de pessoal.

- Agora é melhor ainda do que amanhã - disse Maggy.

Ela gostou do aspecto do Sr. Bianchi, que antes fora um moleque to velho bairro de Harry Klein. Ele tinha uma aparência muito bem cuidada, camisa linda, um cabelo lustroso e arrumado que era mais continental do que americano. Era gorducho, os olhos vivos como os de um menino, e evidentemente era mestre em seu ofício. Ela entendia um homem como aquele. Seria um demônio se ela o decepcionasse, irias seria bondoso, generoso mesmo, se lhe desse a perfeição que ele esperava.

Várias horas depois, depois de ter modelado dúzias de vestidos, costumes e casacos para a Sra. Towrnsend, Maggy saiu da casa de Alberto Bianchi com um emprego que lhe daria 40 dólares por semana. Seu coração deu um salto quando ela pensou, alegre, que, afinal, fora treinada para alguma coisa útil. Anos de tirar as roupas o mais depressa possível para os seus pintores, seguidos de anos de observar os desfiles de modas - e a capacidade de imitar as melhores manequins de Paris - se combinaram para formar urna mercadoria vendável. Ela agora estaria ganhando o suficiente para pagar a babá Butterfield e ainda lhe sobrariam 15 dólares.

Maggy chegou à esquina da Quinta Avenida com a Rua 57 e parou para olhar em volta, para absorver a promessa quase tangível feita pela avenida comprida, brilhantemente iluminada no crepúsculo do inverno: Uma outra Maggy, a garota de 17 anos que um dia ficara no centro de Montparnasse na primavera, esperando impaciente que sua vida começasse, pareceu juntar-se a ela, postando-se ao seu lado e dizendo "Coragem". Como você sabia pouco, na época, sussurrou Maggy a si mesma. Como ainda sei pouco. Quanto, quanto vou aprender. Pensou onde podia encontrar um florista. Tinha de comprar um cravo vermelho para sua lapela.

 

 

                                          Capitulo 13

 

Qual a explicação para o domínio de Lavinia Longbridge sobre os membros mais jovens da sociedade de Nova York? Até mesmo as matronas que jogavam bridge no Southampton Beach Club se animavam a fazer essa pergunta. A Sra. Condé-Nast fez a pergunta à Sra. William de Rahm, e Cecil Beaton, em suas visitas freqüentes a Nova York, tomara conhecimento do poder dela, a ponto de perguntar à Sra. Herbert Weston se ela compreendia o motivo daquilo.

Um cínico disse que em toda a natureza só havia 14 padrões diferentes em que os objetos, dos cristais aos abacaxis, se poderiam empilhar, mas que em cima de cada pilha era certo encontrar-se Lally Longbridge. No entanto, essa resposta era simples demais, se bem que tivesse sido observado esse fato pela primeira vez quando, como Lavinia Pendennis, ela se tornou a debutante mais festejada do ano, sua entrada para a sociedade sobrepujando de tal modo a concorrente seguinte que todas as outras moças pareceram passar a um grupo não diferenciado.

Quando ela se casou com Comwallis Longbridge, poderia ter passado a assumir o papel tradicional de mulher jovem e rica, mas ela se recusou a isso, conservando, numa era de casais, uma identidade separada, de modo que Corme Longbridge se tornou outro, embora o mais favorecido, de seus súditos.

Lally era tão linda quanto era pequenina, com olhos e cabelos negros que envolviam seu rosto branco e delicado como uma coroa sobre os braços, ombros e costas mais brancos de Nova York, e os lábios mais vermelhos, o único toque de cor que ela se permitia; mas havia muitas moças bonitas na sociedade: Mary Taylor, Isabel Henry, Helen Kellogg, Justine Allen e Alice Doubleday, todas tinham seus admiradores, como rainhas da beleza.

Não, não eram apenas a estima geral e a beleza que explicavam sua enorme influência - era a maneira generosa com que dedicara a vida a se divertir. Pois o único meio de Lally se divertir era se dedicar aos outros.

Em Lally Longbridge, a alegria irresponsável da grande festa dos anos 20 tinha dançado bem para dentro do primeiro ano assustador dos anos 30. A fortuna de Comic Longbridge era segura e a vida dela era seriamente dedicada a receber de modo pouco sério; a casa dela era uma fogueira tranquilizadora,- que garantia aquecer todos os que se aproximassem. Lally era considerada a melhor entendida em bar da cidade e ela certamente conhecia os melhores contrabandistas de bebidas. Ela inventou o jantar tipo bufe; as refeições em sua casa tinham sempre o encanto de piqueniques; e seu gosto variado pelas pessoas era o tempero que fazia suas festas terem um sucesso incrível. Lally convidava a suas festas músicos de jazz e jornalistas, pugilistas profissionais e sapateadores dos espetáculos da Broadway, compositores de rua e, cochichavam as anfitriãs invejosas, até mesmo gangsters, o que tornava as festas ainda mais empolgantes. Ela os fundia a todos numa só unidade, com seu riso e simpatia.

Muitas vezes, depois que uma festa se animava, Lally passava à penumbra de uma alcova e ficava olhando, por uns minutos, os grupos novos e inesperados que ela formara, sentindo-se como a mais bem sucedida diretora de cena. Suas recepções eram tão freqüentes quanto espontâneas, nunca sendo planejadas com mais de um ou dois dias de antecedência. Sabendo que sua casa estava organizada em função da hospitalidade, ela escolhia empregados capazes de lidar com grupos grandes, com o mesmo cuidado que teriam se ela fosse uma embaixatriz.

Lally Longbridge fazia roupas com Bianchi desde o seu début. Ela era uma dessas mulheres baixas, extremamente raras, que possuem o dom de se vestirem de um modo que as faça parecerem altas. O segredo era que Lally nunca se via como sendo pequena - ela achava que todos os outros é que eram grandes demais. Até Maggy ir trabalhar em Bianchi, ela nunca encontrara uma modelo que entendesse isto e lhe mostrasse de bom grado vestidos que, teoricamente, só mulheres altas podiam usar.

No último período de um ano e meio, ela passara a se interessar cada vez mais por Maggy. A Sra. Lunel, evidentemente, estava longe de ser a manequim comum, mas qual seria o mistério daquela viúva francesa, que não podia ser levada a falar de si? Todas as pessoas por quem Lally se interessava tinham de contar a Lally tudo sobre si... era mesmo muito curioso, quase aborrecido.

Um dia, na primavera de 1931, ela espantou Maggy, convidando-a para uma festa na noite seguinte.

- Diga que vai, Maggy, diga! Depois do jantar vamos ter uma gincana e vai haver um prêmio fabuloso, para a equipe vencedora... vai ser muito divertido.

Maggy hesitou. As manequins da casa nunca se misturavam com as clientes. Havia um abismo social que as separava, reconhecido por todos.

- Ora, não seja complicada! Sei o que você está pensando e é muita tolice. Há muitas mulheres que trabalham, hoje em dia... está virando moda. Isso não quer dizer que você esteja proibida de se divertir.

- Eu gostaria muito de ir - disse Maggy, resolvida. Ela merecia uma diversão qualquer. Durante o último ano e meio, levara uma vida de disciplina e muito trabalho, à disposição de Bianchi e suas clientes durante até dez horas por dia, raramente deixando de ficar de pé por mais de alguns minutos de cada vez.

Mas era um trabalho de recuperação, que a impedia de pensar no passado, um trabalho exaustivo que a fazia dormir profundamente, só acordando de vez em quando, sonhando com Perry Kilkullen, o que a fazia chorar, e acordando muitas vezes sonhando com Julien Mistral, o que a deixava furiosa. Como ainda podia sonhar com um homem que ela detestava? Ela se fazia essa pergunta com raiva, procurando negar o orgasmo profundo que a despertara. Em dias assim, ela ficava especialmente contente por correr para um trabalho que não lhe dava tempo para uma introspecção incômoda.

Maggy agora era a principal manequim de Alberto Bianchi e todas as outras a olhavam com consideração. Até mesmo Patricia Falldand fora obrigada a reconhecer, embora só para si, que ninguém podia exibir e vender um vestido como Maggy. Nos poucos momentos que as manequins tinham para se juntar na sala de vestir, as outras garotas pediam conselhos a Maggy e não havia nada sobre o que ela não exprimisse sua aprovação ou reprovação firme e imediata, desde a linha de um novo penteado até o tom de um par de meias. Sem saber como, Maggy se viu acalmando as moças quando ficavam nervosas ou tinham queixas ou brigavam entre si. Ela escutava as histórias de seus muitos romances e dava doses duras mas compadecidas de conselhos ajuizados, em que sua própria experiência, conquistada a duras provas, se misturava com bocados das bem lembradas advertências de Paula. Ela se pilhou até ralhando com as moças que engordavam meio quilo ou um quilo e aconselhando a maneira de pôr ruge e sombra de olhos.

Os desfiles de caridade se haviam tornado a mania em Nova York e a Casa Bianchi era sempre convidada a participar. Em breve, Maggy passou a ser solicitada pelos organizadores desses desfiles, que eram todos amadores. Ela era capaz de dirigir bem as manequins, a maior parte mulheres da sociedade agitadas, nervosas e desajeitadas, que nunca tinham andado numa passarela.

Devido a esse trabalho extra, o ordenado de Maggy passou a 50 dólares por semana. Ela tivera de mexer em seu precioso pé-de-meia para mobiliar o apartamento pequenino, perto do Central Park West, na Rua 63, que alugara para sua pequena família.

Não obstante, o ordenado de Maggy era apenas o suficiente para sustentar Teddy e a babá Butterfield. Suas despesas pessoais eram mínimas; suas roupas de Paris ainda estavam na moda, pois tinham sido escolhidas de figurinos avançados, que encorpavam idéias ainda novas aos olhos americanos - não que isso tivesse importância, pensou Maggy, pois não tinha ocasião de se vestir bem, de verdade.

Nos primeiros tempos que passou trabalhando em Bianchi, as outras manequins a convidaram para sair com elas, aos bares clandestinos e boates - sempre havia rapazes que queriam conhece-la. Mas ela se recusara, todas as vezes, e acabaram deixando de convidá-la. Ela nunca falava disso em suas cartas a Paula, que, ela sabia, teria reprovado muito. Assim que acabava de trabalhar, Maggy ia logo para casa, para jantar cedo, com Teddy, e banhar os pés.

Agora, reagindo à surpresa agradável do convite de Lally Longbridge, ela sentiu que tinha suportado ao máximo um período sem uma noite de folga, só uma noite de divertimento puro. A Idade do Jazz tinha acabado, liquidada pela Depressão, mas uma audácia não subjugada em Maggy lhe mostrou como ela ainda ansiava pelo som de um saxofone, o dedilhar de uma guitarra. Ela sentiu voltar aos seus lábios a melodia da Sweet Georgia Brown, esquecida havia seis anos. Vestindo-se para a festa, ela se deu conta de que, numa tarde de maio, até mesmo Nova York, aquela cidade solitária e tensa, de metal e concreto, podia tornar-se elétrica e rosada de expectativa.

Terminado o negócio impulsivo de fazer os convites, Lally dedicou uma hora de concentração à composição das equipes de sua gincana. Não interessava juntar o mesmo tipo de pessoas, pessoas que já se conhecessem - uma gincana só tinha graça se os membros da equipe se divertissem.

Maggy Lunel, pensou ela, era tão inteligente que devia ficar na mesma equipe de Gay Barnes, que só pensava tolices na sua cabecinha loura e esfuziante. Gay tinha sido amais famosa das coristas da "Vanities" de Earl Carroll, antes de se casar com Henry Oliver Barnes, que devia ter uns 35 anos mais do que ela. Lally, que se interessava em ver como os outros acondicionavam suas personalidades, percebeu que Gay conseguira dominar a emproada sociedade de Nova York por dois meios simples: era extremamente decorativa e tinha uma maneira incrivelmente engraçada de nunca parecer saber quando um homem fazia um comentário picante - comentários que ela mesma tinha provocado.

Quais homens com aquelas duas mulheres? Ela mordeu o polegar, pensando. Por que não Jerry Holt? A coluna sobre diversões que ele escrevia para World era lida por todos na cidade e ele era tão espirituoso quanto era dúbia a sua reputação. E... sim... bem feito, por ele ser tão difícil de se agarrar, o outro seria Darcy, Jason Darcy, que todos chamavam pelo sobrenome.

Como seria divertido ver a indignação daquele wunderkind de 29 anos do negócio editorial quando se visse na mesma equipe que uma ex corista, uma manequim de alta costura e um colunista que provavelmente era bicha.

Era o tipo de equipe que faria com que Lally se divertisse muito. Em cada festa ela arrumava pelo menos um grupo assim tão eclético, um jogo secreto dela, para seu próprio deleite.

Horas depois, após o jantar, as dez equipes se reuniram na sala de Lally, decorada, segundo a moda, em cromo e vidro, cheio de tulipas. Houve gemidos e protestos contra as listas, quando ela as distribuiu.

 

Uma debutante desta temporada, sé valem as bonitas Um dos sapatos da Srta. Ethel Barrymore

Um cão, tem de ser branco puro

Um programa de Smiles assinado por Adele e Fred Astaire

Uma toalha de mesa do Colony Restaurant

Um mordomo inglês - nada de falsificações

Um exemplar novinho em folha de Adeus ds Armas

Uma única luva amarela

Um capacete de policial da cidade de Nova York

Um paletó de garçom de Jack e Charlie's

 

- Isto é diabólico - gemeu Gay Barnes. - Nunca podemos vencer, nunca.

- Quanto tempo temos? - perguntou Maggy.

- Duas horas - explicou Jerry Holt. - Ganha a equipe que trouxer o máximo no prazo dado.

- Tive uma inspiração! - declarou Gay Barnes. - Não diz aqui que a gente não se possa separar, diz? De que adianta nós quatro irmos atrás das mesmas coisas? Acho que Jerry e eu devemos ficar corri os cinco primeiros itens e vocês dois podem pegar os outros. Que tal?

- Só sei é que, em algum lugar, devo ter uma luva amarela, sou uma mulher de muitas luvas - disse Maggy, pensando, por que motivo, se ela estava planejando ficar sozinha com um homem, a loura tinha escolhido um pede.

- Como quiserem - concordou Darcy. - Mas vamos andando... já perdemos cinco minutos.

Embaixo, na Park Avenue, Darcy fez Maggy entrar numa limusine.

- Rua 52 Leste n° 21 - disse ele ao chofer, sentado na frente, aberta. - Eu já estava desconfiado de que Lally ia arranjar outra gincana, de modo que mandei o cano ficar esperando - disse ele a Maggy.

O imenso Packard azul-marinho, que teria parecido adequado ao próprio J. P. Morgan, era apenas uma das maneiras pelas quais Jason Darcy se distinguia dos outros rapazes de sua idade. Filho único do rico proprietário da companhia de seguros Hartford, ele fora considerado um dos alunos mais brilhantes de sua turma em Harvard, diplomando-se aos 18 anos. Nos dez anos decorridos desde então, ele tomara dinheiro emprestado da família para lançar três revistas, cada qual tendo um sucesso imediato, naqueles anos de prosperidade.

Tendo rapidamente pago suas dívidas, Darcy usava suas vultosas rendas para viver como um paxá com direito a exibir três caudas de cavalo em sua insígnia. Tinha casos amorosos com uma percentagem espantosa de todas as mulheres mais bonitas de Nova York, as quais ele se limitava a dividir em duas categorias, tratando as damas da sociedade como coristas e as coristas como damas da sociedade, coisa que, por algum motivo, garantia o prazer de todos. Nenhuma mulher tinha conseguido agarrá-lo e o bando cada vez maior de suas paixões desiludidas e temporárias chegou a conclusão, para poupar seus egos, de que ele estava casado com o trabalho.

Jason Darcy era um homem realmente influente, que se arriscava a se tomar cheio de si. Infelizmente para o caráter dele, nunca desejara nada que não conseguisse obter;' nem a admiração de seus companheiros, nem seu amor-próprio. No momento, Maggy era o brinquedinho que ele resolvera adquirir. Por duas vezes, durante o jantar, ele encontrara os olhos dela, embora estivessem sentados em mesas diferentes. Gay Barnes, débil como era, demonstrara um tato muito conveniente, ao separar a equipe, se bem que, se não houvesse o pretexto da gincana, ele teria tomado providências mais diretas.

Maggy ficou chocada ao se lembrar do Voisin cinzento de Perry, quando se recostou no estofamento macio do Packard. Já se esquecera de como um carro daqueles a fazia sentir-se mimada, um objeto raro, feito de metais preciosos, encaixados num ninho de veludo. Nada, nenhum perfume que ela conhecesse, tinha o aroma sensual do interior de uma limusine.

Ela olhou para Darcy com uri leve interesse. Tinha um rosto comprido e magro, de grande distinção, um rosto de cientista ou de filósofo, pensou ela, a despeito de sua juventude. Era um rosto que tinha um ar penetrante, com uma curiosidade fria, porém parecia que nunca poderia se espantar. Movia-se com uma economia de elegância; tinha um olhar direto, experiente, em que, ela achava, devia pairar algum humor, uma boca reta e dura que parecia capaz de grande desprezo. Os cabelos escuros eram grudados à cabeça e ele era seguramente alguns centímetros mais alto do que ela. Um homem como uma navalha, pensou ela, tirando-o da cabeça. A limusine era uma empolgação muito mais poderosa do que um simples homem poderia ser.

Ela ficou decepcionada quando a viagem terminou depressa demais e eles entraram no carnaval permanente de Jack e Charlie's, a boate clandestina mais cara e parecida com um clube de Nova York, uma caverna com painéis de madeira, cheio de gritos alegres e um desafio aberto do Ato Volstead, que abria para o almoço e só fechava ao amanhecer. Aquele era o ponto preferido diário de uma alegre mistura de estudantes das universidades mais esnobes, cronistas esportivos e corretores de valores, e ressoava com os ruídos complexos, entusiasmados, que só podem ser feitos por uma porção de gente feliz bebendo, comendo, rindo e namorando numa sala superlotada.

Eles foram logo levados a uma mesa e Darcy pediu champanha, confabulando um instante com o garçom. Maggy, ainda querendo voltar para a limusine, ficou sentada, irrequieta, até que o garçom serviu o champanha.

- Isso não é um desperdício? - perguntou. - Não podemos beber toda a garrafa. Olhe só essa lista: o mordomo inglês, o capacete de policial... que horas são?

Seu espírito de luta começava a se manifestar. Aquele não era bem o momento para ficar por ali, preguiçosamente, bebericando bebida contrabandeada, por mais autenticamente francesa que fosse.

Darcy lançou-lhe um olhar complacente, um pouco superior demais.

- Acabei de alugar o nosso paletó de garçom. Vou ligar para casa e dizer ao meu mordomo para nos esperar na calçada de Lally com o meu exemplar de Hemingway... Charkson trabalhava para o Duque de Sutherland... e na volta podemos pegar aquela luva amarela que você disse que tem.

- É isso que você chama de esportividade? - disse Maggy, de cara fechada: Aquele homem estava tirando toda a graça da coisa, com sua complacência e exibicionismo.

- Chamo a isso uma sabedoria básica. Não fizemos um juramento de sangue de vencer... só de participar da brincadeira. Em todo caso, você não acha essas gincanas mortalmente aborrecidas?

- Por certo que não! Nunca participei de nenhuma O que lhe dá o direito de transformar essa noite em um encontro para beber champanha a dois? - retrucou ela, com rispidez. Como os odiava, esses homens que acham que podem dominar as mulheres.

Ele nã9 respondeu e ficou bebendo o champanha, olhando atentamente para o mundo de seus olhos verdes, zangados e desafiadores. Sentia-se reagindo à natureza dela, que lhe parecia ser indomada, no sentido mais profundo, mas no entanto bem controlada. Não sabia de nada a respeito dela, mas ela nunca poderia ser anônima.

- Onde é que Lally a descobriu? - perguntou. - E por que não nos conhecemos antes?

- Trabalho na casa de Alberto Bianchi - disse ela, lacônica. - O que é que faz lá?

Então, ela era outra dessas mulheres que jamais tinham trabalhado na vida, que aceitaram um "empreguinho engraçado" para mostrar que não estavam acabrunhadas com a Depressão.

- Sou manequim de vestidos.., as outras mulheres os compram. - Tenho minhas dúvidas quanto a isso.

- É verdade, mesmo.

- Você quer dizer que é mesmo vítima da Depressão, trabalha para viver?

- Por 50 dólares por semana. Estou indo muito bem, por falar nisso.

- Conte tudo - convidou ele, certo de que não havia nada de que ela gostasse mais. Qual a mulher que não gostaria?

- Tudo? Você é um bocado grosso, sabia disso? Por que eu havia de lhe contar alguma coisa? Acho que nem ouvi direito o seu nome, seja qual for. Você estragou a minha gincana e agora está ficando completamente presunçoso. O que é mais, nem sequer me perguntou se eu gostava de champanha, antes de pedir.

- Você tem toda a razão - disse ele, agastado. - Peço mil perdões. Gostaria de beber outra coisa?

Isso já basta, obrigada - disse Maggy. Ela olhou em volta, não lhe dando mais atenção.

- Sra. Lunel, sou Jason Darcy, tenho 29 anos e nasci em Hartford, Connecticut, de uma família respeitável. Nunca estive preso, não roubo no pôquer, adoro animais, minha mãe fala bem de mim e em geral sou mais educado do que posso tê-la feito imaginar.

- Isso é "tudo" mesmo? - perguntou Maggy, permitindo-se dar-lhe um leve sorriso.

- Sou editor, Mode, Women's Journal e Country Living.

- Tiens, bens, três revistas para um homem só - disse ela. - O que, exatamente, é que faz um editor? Além de ser desagradavelmente curioso diante de senhoras desconhecidas?

- Exatamente? Sou o patrão.

- Que explicação tão pouco elucidativa. De quem é patrão? E por que é patrão? Seja mais preciso, por favor.

Ele olhou para ela, percebendo a zombaria mal disfarçada. - Não podia ficar um pouco mais impressionada? - Deveria ficar? Não tenho idéia do que faz um editor.

- Eu inventei as revistas, resolvi como deviam ser, fiz mira no meu público, estabeleci os padrões e formas. Os redatores me prestam contas, bem

como os departamentos comerciais e todos os que produzem as revistas, fisicamente.

- Isso é um império editorial? - perguntou Maggy. Como o império editorial do Sr. Hearst, por exemplo?

- O meu é mais um reino do que um império - reconheceu Darcy.

- Quanta modéstia, Sr. Darcy.

- Não sente um prazer especial em tomar champanha com um editor bastante importante?

- Já estou muito velha e sabida para um prazer surpreendente, Sr. Darcy.

- Darcy.

- Darcy. O pouco que já vi do mundo me deixou blasée, esfalfada, estragada e, pior que tudo, com fome.

- Logo depois do jantar?

- O jantar é uma refeição que sempre me deixa com fome. - Que tal picadinho de galinha? É a especialidade da casa. - Sobras, que barbaridade infantil.

Maggy não se sentia tão impulsiva, tão para-o-diabo-com-tudo, tão inebriantemente esplendida desde que chegara aos Estados Unidos. Ah, mas era divertido tomar a fazer um homem de bobo, pensou ela. Os homens foram inventados para fazerem papel de bobos... era só para isso que prestavam, mais nada. Paula já tinha dito isso e Paula tinha razão.

Jason Darcy não podia parar de olhar para Maggy. Ela lançava mais chamas do que uma opala negra, com aqueles olhos dourados esverdeados e os cabelos cor de laranja, reluzindo sobre a forma linda de seu crânio, abrindo-se em ondas logo abaixo do queixo - tinha o brilho corado de uma criança correndo às soltas na primeira neve do inverno. Quem era Maggy Lunel, que diabo? Não era uma corista nem mulher de sociedade. No entanto, ele achava que sabia tudo de todas as mulheres mais bonitas da cidade.

- Já sei! Você é a nova garota Powers.

- E o que é que será isto? - perguntou Maggy, curiosa. Recentemente, ela ouvira essa expressão ser muito usada, mas nunca tivera o tempo nem o interesse de perguntar por esse estranho americanismo.

- Um modelo fotográfico, da Agencia John Robert Powers. Vamos, pare de fingir que não sabia.

- É verdade, não estou metida nesse mundo. Apenas modelo cópias dos originais de Paris e ajudo a organizar os desfiles de modas da sociedade. A casa de Bianchi nunca usou uma garota de Powers.

- Bem, é uma questão de tempo, pois Powers está crescendo cada vez mais. Ele montou o negócio há uns dois anos e desde então todas as agencias de publicidade e revistas começaram a usar fotografas, em vez de desenhos. - E quanto ganham essas garotas Powers, quando trabalham?

- Ao que eu me lembre, começaram por cinco dólares a hora, nos primeiros tempos, mas agora as melhores estão ganhando 15.

- Quinze dólares por hora! Isso é uma fortuna! - Maggy estava assombrada.

- Isso mesmo, especialmente se a garota trabalha muito. E elas estão cada vez mais ocupadas, a despeito da Depressão. Hoje um negócio tem de anunciar ou afunda. E não há nada melhor para vender um produto do que uma garota bonita.

- E o Sr. John Robert Powers, quanto é que ele ganha? - Ganha dez do que os modelos ganham.

- E quantos modelos tem trabalhando para ele? - persistiu ela.

- Não tenho certeza... acho que uns 100, inclusive os homens e crianças. Se você for mesmo apenas uma manequim de modas que ganha 50 dólares por semana, devia estar trabalhando para ele.

- Obrigada - disse Maggy, distraída.

Jason Darcy ainda não estava nada convencido de que Maggy fosse o que dizia ser, não porque alguma coisa que ela lhe tivesse dito fosse impossível, mas porque havia nela alguma coisa tão rara, na experiência dele, que ele ficava desconfiado.

Maggy Lunel não estava procedendo normalmente. Não havia nada no jeito dela, seus olhos, ou suas palavras que indicassem que ela estivesse procurando atraí-lo, e isso, para Darcy, era uma coisa incrível. Ele sabia, tão bem - ou melhor - quanto qualquer um que era um dos melhores partidos nos Estados Unidos. Tinha tudo: em primeiro lugar, aos 29 anos apenas, já tinha adquirido tanto prestígio que seria bom partido mesmo que fosse um gnomo. Além disso, ele era livre e rico, o que faria dele bom partido mesmo que fosse um lobisomem. Mas ele não era nem gnomo nem lobisomem, era um homem que reconhecia, cada vez que olhava no espelho, que era bonito, um acidente de genética que certamente não era de se desprezar.

Então por que, e como, essa mulher podia ficar ali bebendo o champanha dele, fazendo perguntas sobre a Agencia Powers, como se ele não passasse de uma fonte de informações?

Talvez ela estivesse amando? Era a única explicação razoável. No entanto, fora à festa sozinha. Ele sentiu em si um furor para saber mais a respeito de Maggy, enquanto ela parecia fazer um desenho no ar, com o gesto de suas mãos eloqüentes.

- E onde está esse tal de picadinho de galinha? - perguntou ela, de repente. - E por que a minha taça está vazia? Vamos dançar?

Ela falava com naturalidade e não com provocação, notou ele, novamente assombrado. Mas a vivacidade dela era um triunfo.

- Mas e a gincana de Lally?

- Mas esse é um costume americano ridículo e aborrecido... não é o que você acha?

- Aonde gostaria de ir? O St. Regis Roof, o Embassy, o Cotton Club?

- Au Jockey - murmurou Maggy.

- O Jockey? - disse ele, intrigado.

- Eu disse isso? Não importa, já está fechado há anos. Vamos para o Harlem.

Adrien Avigdor estava pisando em terreno firme. Desde que Julien Mistral tinha ido morar em Félice, cinco anos antes, desde aquele casamento disparatado com Kate Browning, ele tivera três exposições individuais em Paris, todas totalmente vendidas, cada qual um triunfo maior do que a anterior.

Agora, na primavera de 1931, chegara o momento de ele expor em Nova York. Sua produção de quadros era pequena, ou melhor, ele pintava muito e expunha pouco. Mistral exercia ao máximo o direito legal de todo artista francês de obter, escrevendo uma simples frase nas costas de um quadro - Ne pas à vendre - o direito de impedir a venda de qualquer tela ou mesmo proibir a exposição da tela, embora tivesse um contrato com Avigdor para todos os quadros que ele efetivamente concordasse em vender.

Todos os anos, quatro meses antes da exposição planejada, Avigdor ia à Provença e passava uma semana exaustiva e difícil, hospedado em La Tourrello, discutindo com Mistral sobre o seu novo trabalho. Uma vez, em 1928, Mistral não estava satisfeito com nenhum de seus quadros e no outono daquele ano não houvera exposição, lembrou-se Avigdor, com tristeza. Mistral destruía as obras de que não gostava numa fogueira anual, saltando em volta dela e jogando telas e mais telas dentro das chamas, como um demônio tirado de Hieronymus Bosch, um homem que, impiedosamente, alegremente, convidava Avigdor a assistir enquanto centenas de milhares de francos de pintura maravilhosa se transformavam em fumaça oleosa.

- Isso é para o caso de eu morrer de repente, Adrien, e você pôr as mãos em coisas que eu nunca quis que alguém visse. Quem havia de garantir que você não as venderia, hem?

Ele era desconfiado como os camponeses entre os quais morava e não confiava em ninguém, só em Kate. E só confiava nela até certo ponto. Obviamente não ao ponto de acreditar que ela obedecesse is proibições que ele rabiscava em letras grandes nas costas de centenas de pinturas.

Era uma agonia para Avigdor assistir is fogueiras monumentais de Mistral, mas havia certa satisfação ao perceber o fato de que, embora ele nunca tivesse algum Mistral a mais para vender, terminada uma exposição, nenhum outro negociante em Paris jamais tivera um único quadro do pintor. Ao que Avigdor soubesse, nenhum colecionador que comprasse um Mistral o revendia. O próprio Mistral sempre conservava os seus favoritos.

Os preços do homem tinham subido além de tudo o que Adrien planejara, por causa da escassez de suas obras disponíveis. Mas, afinal, pensou Adrien, só havia 36 Vermeers no mundo; será que Mistral sabia talvez o que estava fazendo?

Em todo caso, não devia ser permitido que os artistas se casassem com mulheres ricas, pois isso lhes dava liberdade demais. Não importa; Mistral afinal concordara em fazer uma exposição em Nova York, de obras novas e seleções de sua produção desde 1926. Vários colecionadores americanos iam emprestar seus quadros, de modo que a exposição seria grande. Muitos críticos de arte de jornais e revistas americanos já estavam em contato com Avigdor. Vanity Fair encomendara um artigo extenso sobre ele e Man Ray fora a Félice, fotografar Mistral em seu estúdio. Mark Nathen, cuja galeria era a melhor de Nova York, estava planejando um vernissage que atrairia todo o mundo social e artístico de Nova York. A exposição seria um dos principais acontecimentos da primavera de 1931, pois todos, no pequeno mundo restrito das artes, estavam incrivelmente curiosos para ver o trabalho daquele homem, que vivia como um ermitão, metido no Lubéron, indiferente à sua fama crescente, cada vez mais lendária.

- Antes de jantar, acho que podíamos passar pela estréia da nova exposição de Nathen - propôs Darcy a Maggy, ao telefone.

- Que exposição? - perguntou ela, sem interesse. Ela não tinha tempo para se manter a par da variada vida cultural da cidade.

- Mistral, o pintor francês. Deve ter ouvido falar dele.

Ela ficou segurando o telefone numa das mãos, enquanto com a outra se firmava contra o consolo da lareira, sentindo o seu coração martelar cruelmente contra os seios. O choque do nome de Mistral, pronunciado tão inesperadamente, transformara sua mente numa pedra de gelo. Seu estômago se contraiu, de medo. Por que medo, pensou ela? Maquinalmente, ela disse:

- Sim, sei quem ele é, mas não me sinto bem para sair hoje a noite.

- Maggy, o que é que há?

- Estou tão cansada que não consigo me mexer, cansada demais para me vestir... acho que estou ficando gripada.

- Estou muito, muito decepcionado - disse ele, sério.

- Eu também.

Nas três semanas desde que conhecera Maggy, Darcy a convidara para sair muito mais freqüentemente do que ela estava disposta a ir. Cada vez que ele a via, ficava mais perplexo diante da sua reserva profunda, sua recusa delicada, mas obstinada, a falar de si. Parecia que ela lhe contara tudo quanto jamais lhe contaria, naquela noite da gincana. Sempre insistia em se encontrar com ele num bar clandestino ou num restaurante. Nunca lhe ofereceu hospitalidade alguma e quando ele a deixava no elevador de seu prédio, pois não o convidava para subir, Maggy lhe apertava a mão rapidamente, sem ao menos se aproximar o suficiente para ele arriscar um beijo rápido.

Na limusine, ela se sentava longe dele, as mãos dobradas no colo; ela dançava com uma tensão no corpo que impunha uma cerimônia delicada mas insistente, que transformava uma canção como A Noite Foi Feita para o Amor uma sátira. Ela seria frígida, estaria com medo, estaria sofrendo de um raio de neurose francesa de que ele nem ouvira falar? Teria alguma coisa a ver com ela ser viúva?

Darcy pensava sobre ela com uma curiosidade obcecada, pois sua viuvez e a existência de Teddy eram dois dos poucos detalhes de sua vida que ela deixara escapar. Ele examinou o pouco que sabia sobre ela com tanta fascinação como se fosse um pedaço de um mapa que levaria a um tesouro escondido, mas ela continuava mordaz, distante, serena e misteriosamente impossível de conhecer. O pior, diabos, é que ela era tão intocável como uma princesa numa torre de marfim. De vez em quando, quando ele falava com ela, tinha a desconfiança mais insuportável de que alguma coisa que ele tivesse dito a estava fazendo passar por uma agonia educada de riso reprimido, mas ele nunca a pilhara nisso. Que audácia colossal tinha aquela mulher!

- Olhe, eu ligo amanhã, mas cuide-se bem, não vá ficar doente. Vai se deitar cedo? - perguntou ele, aflito.

- Vou - concordou ela, sem expressão. - Vou sim, prometo.

Jason Darcy, vagando desconsolado pela Galeria Nathen, pilhou-se pensando que, pelo menos, Maggy Lunel devia gostar dele. Darcy, requestado, figurinha difícil, poderoso, orgulhoso, começou a rever suas virtudes para compensar o fato de que nunca conseguira sequer chegar perto dos lábios dela. Então, depressa, como um homem que mexe na gravata para ter certeza de que está na posição certa, ele disse para si mesmo que estava sendo muito absurdo, empilhando um bem terreno sobre o outro, relacionando suas revistas, sua casa bem organizada, seu diploma Summa Cum Laude de Harvard, sua juventude, sua saúde, sua mesa cheia de convites e solicitações de todas as partes dos mundos tocados por suas publicações, como que para provar que ele tinha valor bastante para ser admitido aos jardins ocultos do mundo particular e bem guardado de Maggy Lunel.

Ele olhou para a multidão na Galeria Nathen, surpreendido ao ver a variedade de pessoas de Nova York que estava vendo ali. Conhecia muitas delas e, escutando o rumor endinheirado das conversas, pensou que parecia mais o Metropolitan Opera no intervalo do que um acontecimento artístico. Ele supunha que o número despropositado de mulheres da sociedade que ele reconheceu estivesse ali porque a exposição fora organizada em benefício do Hospital das Crianças; era raro encontrar os Whitneys, os Ochs, os Kilkullens, os Gimbels, os Jays, os Rutherfords e os Vanderbilts todos misturados com as caras mais famosas de Greenwich Village e de Southampton.

Então, enquanto Darcy começava a olhar para os quadros, seu leve interesse pela composição do grupo ali presente desapareceu. Teve a sensação repentina de ter sido carregado por duas mãos grandes e fortes e depositado num novo horizonte. Cada um dos quadros parecia um passo por um caminho para um outro mundo, um mundo alternativo, um mundo melhor. O raciocínio, a deliberação, a lógica, o tempo e o próprio espaço em si, tudo se dissolveu numa radiância sem qualificativos, um esplendor de pintura que tinha a estrutura de uma substancia viva, que respirava.

No entanto, perguntou-se Darcy, o que é que esse homem escolheu para pintar? Uma mesa de um café e suas cadeiras, sob um toldo cor de laranja, um bosque de choupos vibrando no calor, uma cesta de feira cheia de pão, rabanetes e um ramo de dálias, uma mulher abaixada num jardim de manhã... os temas mais simples, nada que não tivesse sido pintado por mil pintores, antes de Mistral.

No entanto, a emoção do artista, olhando para seus temas, de tal modo se misturara com as imagens que ele pusera na tela que fora criada uma

transparência, através da qual era lançada uma ponte do mundo em que Mistral sentia para o mundo em que o espectador vivia, de modo que, por um momento, Darcy passou a existir com os olhos de Mistral, Darcy entrou na visão de Mistral.

Assombrado, pensando, animado com o desabrochar de seus sentidos, sentindo-se como se tivesse saído de Nova York e entrado numa terra aberta,

ensolarada, cheia de nuvens, Darcy percorreu a grande galeria, sem reparar, ao entrar na última sala, que esta se encontrava anormalmente cheia e zunindo com as conversas.

Maggy! Ele teve um tremor violento, seus cabelos se eriçaram na nuca, ao se defrontar com as grandes telas de Maggy em todas as paredes, nua e tão largada, oferecendo a glória de sua pele, exposta, sem pudor, mais feliz do que ele jamais sonhara que ela pudesse ser, à disposição de todos os olhares, Maggy, mais erótica, mais violentamente e generosamente sensual do que ele jamais vira, pintada ou em carne e osso.

O desejo, o desejo palpável como a fumaça, um desejo pungente, faminto e cru tremia nas telas de Maggy, com as pernas esparramadas, deitada numa cama desfeita, um dos braços pendurado para o chão; Maggy com os cabelos molhados, lavando entre as pernas com um pano ensaboado; Maggy atirada num monte de almofadas verdes, rindo, os bicos dos seios ternos e inchados, os pêlos captando um raio de luz, de modo que cada filamento' ruivo parecia vivo e destacado.

De pé ali, imóvel, congelado, incapaz de desviar o olhar dos quadros, ele percebeu as palavras no meio das conversas da sala. Havia uma excitação deliciosa, aguda, mal reprimida na algazarra que recebe qualquer escândalo declarado.

- Manequim de Bianchi, meu bem, aquela francesa... amante... Per- Kilkullen, claro.., que pele... eu os vi juntos no Maxim's... você disse Bianchi?... viúva uma ova... seios incríveis... não tiveram um filho?.. . eu a conheci em casa de Lally, sim, tenho certeza... um filho, por certo... como é que o comitê do hospital deixou passar isso, nunca hei de saber.. . os Kilkullens vão... um escândalo... não seja tão provinciana... escândalo... pintados quando, você diz?... Manequim de Bianchi... coitada da Mary Jane... o que, de Perry?

Por que diabo não os pintara com esperma?, pensou Darcy, por que simplesmente não foder a tela? Ele se sentiu sacudido por um riso incontrolável. A vida nunca o atacara tão inesperadamente. Aquela donzela pura, aquela princesa controlada e arredia... ah, como o tapeara lindamente! Que mulher formidável ela era! Sua admiração por Maggy cresceu dentro dele, como uma grande risada, enquanto olhava as caras de todos os homens na sala, os olhos avidamente percorrendo as telas - apostava que a metade estava tentando controlar os paus endurecidos, pelo menos ele estava. Ah, Maggy, Maggy querida,. então `você ouviu falar de Mistral', não é? E quantas vezes ele parou de pintar para trepar com você? Como, aliás, ele conseguia dar atenção à tinta e pincéis? O homem devia ter a concentração de um cortador de diamantes, para conseguir fazer algum trabalho, nessas circunstâncias. Ah, Maggy, nenhuma mulher jamais me surpreendeu assim... sinto-me de novo virgem, como se tivesse 15 anos. Bravo!

Ao meio-dia no dia seguinte, Maggy estava desempregada. Ela não culpava Bianchi; evidentemente, ela não teria mais utilidade para ele. Ele recebera uma dúzia de telefonemas indignados, antes de pedir que ela fosse falar com ele e, se nenhum deles chegara a usar a expressão "mulher perdida", foi só porque sabiam que era antiquado. Evidentemente, Maggy nunca mais poderia organizar um desfile de sociedade e, quanto ao serviço normal de manequim da casa, a fama dela atrapalharia os vestidos. As pessoas iriam ver a causa do escândalo, mas nem sonhariam em encomendar os vestidos que ela usasse. O simples fato dela vestir um vestido o tornaria inútil.

Despedindo-se de Maggy, dando-lhe um cheque para duas semanas de ordenado, Alberto Bianchi sentiu duas emoções: pesar por perder essa manequim valiosa e uma impaciência ardente para correr até a Galeria Nathen, para ver pessoalmente como Maggy era inteiramente nua... Deus sabe, ele tinha perdido bastante tempo imaginando.

Darcy tentou falar com Maggy na Casa Bianchi assim que saiu da Galeria Nathen, mas não conseguiu. Telefonou várias vezes para a casa dela, mas Maggy se recusou a atender ao telefone, mesmo para Lally, que também ligou várias vezes. Pediu à babá Butterfield que atendesse ao telefone e dissesse que ela estava fora e não voltaria tão cedo.

Quando não conseguiu falar com Maggy por telefone, Darcy foi ao apartamento dela, mas o porteiro tinha ordens severas para não deixar subir ninguém, a não ser as suas encomendas. Ele mandou flores duas vezes por dia, com bilhetes pedindo que ela lhe ligasse, para o escritório ou para casa, noas ela não fez nada disso. Ele se postou, impaciente, na esquina do prédio dela, durante horas, mas ela nunca apareceu. Ele fez tudo, só faltando se disfarçar de mensageiro. Mal podia acreditar que estivesse procedendo daquela maneira, mas não conseguia sossegar.

Quatro dias depois da inauguração da exposição de Mistral, Darcy telefonou mais uma vez, de tardinha, na esperança de que ela agora pudesse estar disposta a sair de seu isolamento. Maggy estava no banheiro quando o telefone tocou, a babá Butterfield estava preparando o jantar de Teddy e foi Teddy mesma quem ousou atender ao telefone, coisa que lhe era proibida.

Ela estava com três anos, idade áurea para as meninas, uni de seus anos de glória. Teddy já estava acostumada com as exclamações dos estranhos no jardim, - que viam a stia beleza pela primeira vez, e já sabia que havia certas regras que ela podia desobedecer sem ser repreendida, só por causa de seu físico. No entanto, essas regras ainda se aplicavam em casa; a babá e Maggy procuravam ser severas com ela, porque tinham a convicção mútua de que seria fatalmente fácil mimá-la. Um telefone tocando já era objeto de uma veneração ávida para Teddy. Ela pegou o fone com um prazer culpado e disse um alo abafado.

- Quem é que está falando? - perguntou Darcy, pensando que tinha li

gado o número errado.

- Teddy Lunel. Quem é você?

- Um amigo de sua mãe. Olá, Teddy.

- Olá, olá, olá. - Ela deu uma risada e esticou o pescoço. - Tenho uns sapatos vermelhos novos.

- Teddy, sua mãe está aí?

- Está, mas não quer falar comigo? Como se chama?

- Darcy.

- Olá, Darcy, olá, Darcy. Quantos anos você tem?

- Olá, Teddy... tenho... ah, não tem importância... sua mie está aí?

- No banheiro... não, está aqui... maniac, telefone para você.

Teddy deu depressa o fone para Maggy, que olhou em volta aflita, procurando a babá Butterfield, quase recolocou o fone no gancho, mas afinal estalou os dedos, irritada, e disse, com rispidez:

- Pronto.

- Maggy, graças a Deus, pensei que você nunca mais ia sair de seu esconderijo.

- Não estou-me escondendo! - disse ela, furiosa.

- Hibernando, então. Sua filha parece um amor, muito mais simpática do que você. Que tal jantarmos hoje à noite? - Positivamente não. Não vou sair.

- Mas você é a sensação de Nova York.

- Darcy, você nunca foi maldoso.

- Estou dizendo a verdade. A galeria está cheia de gente que ouviu dizer como você é deliciosa. Você é considerada a beldade da década.

- Um succès de scandale... você acha que estou atrás disso?

- Isto é Nova York, Maggy, e qualquer sucesso é sucesso, ninguém se importa qual a base, contanto que se fale da gente - disse ele, procurando fazer com que ela se sentisse melhor, do único jeito que sabia.

- Se fosse assim, eu ainda teria o meu emprego - respondeu Maggy, magoada com o materialismo dele. Não compreendia como ela estava constrangida, humilhada?

- Isso é outro assunto. Bianchi tem de apaziguar suas freguesas, mas elas não são tudo, nessa cidade... ah, pensam que sino, mas não contam mesmo, a não ser no mundo delas.

- Não obstante, Darcy, eu ganhava a vida era nesse mundo, fosse o que fosse.

- Maggy, lembra-se do que eu disse de você ser uma garota Powers.. . por que não vai procurá-lo?

- Não! - exclamou Maggy, com aspereza. - Nunca mais vou ser modelo, por motivo algum. Já fui modelo de pintor e modelo de modas... tinha 17 anos quando comecei e agora estou com 23 e desempregada... ,e jamais consegui ganhar mais de 50 dólares por semana. Não, obrigada, isso não é para mim, não me tem adiantado muito, tem? Por outro lado... bem... acho que deve ser tolice minha... - ela parou, sem querer continuar.

- Diga, Maggy, vamos.

- É uma idéia tola. Não, não... talvez não inteiramente tola... você se lembra de ter dito que Powers tinha 100 modelos trabalhando para ele e que ele recebia dez por cento do que elas ganhavam?

- Claro que me lembro. E daí?

- Estou acostumada a dizer aos modelos o que fazer e como fazer. No Bianchi, todas as garotas me procuravam, para pedir conselhos... é uma coisa que pareço saber com as pontas de meus nervos. Não tenho idéia de que os fotógrafos exigem de uma pequena, mas não pode ser assim tão diferente do que os pintores esperam, de modo que, bera... pensei que eu podia experimentar.. . abrir uma agência para mim! - concluiu ela, num tom de desafio.

- Concorrer com John Robert Powers? - perguntou ele, duvidando.

- E por que não? O que é que um homem faz que eu não poderia fazer? E talvez até melhor? Ele é apenas outro tipo de negociante, e já conheci dúzias.. pode crer, não há nenhuma magia neles. - Ela continuou, incentivada pela reação de dúvida dele. - Acontece, Darcy, que tenho um pouco de capital para arriscar.

- Maggy, você é mesmo maravilhosa! Você quer parte do negócio de Mode, Women's Journal e Country Living?

- Claro que sim! Ah, Darcy, poderia acontecer, poderia acontecer mesmo, não?

- Já aconteceu! - Como ele sentira falta daquela risada de Maggy! Fazia o mundo dançar. - Maggy, venha comigo esta noite para comemorar... champanha para batizar a nova agência?

- Com uma condição... você tem de deixar que eu pague.

- Por que, pelo amor de Deus?

- A Agência Lume! deseja oferecer champanha ao seu primeiro cliente.

Ah, merda, pensou ele, merda! Ele se deu conta, muito tarde, muito tarde mesmo, que adorava essa mulher impossível, que ele praticamente tinha iniciado num negócio próprio.

- Você tem razão, Maggy - disse Darcy, com tristeza. - Você não tem mesmo muita coisa a aprender.

 

 

                                                         Capitulo 14

 

As Garotas de Maggy, como todos chamavam as modelos da Agência Lunel, a princípio eram apenas um punhado escolhido, mas em breve suas fileiras passaram a contar com várias dezenas; moças requintadas, moças que eram tão mais glamourosas, tão evidentemente mais sofisticadas do que suas únicas rivais, as "Beldades Americanas de Hastes Longas" de Powers, muitas vezes sadias mas provincianas.

As Garotas de Maggy atravessaram a década de 30 como se não existisse a Grande Depressão. Usando grandes orquídeas roxas pregadas a seus vestidos de baile sem alças, de saias largas, elas afastavam a realidade, dançando no Stork Club e no El Morocco, acompanhadas de pelo menos dois homens em cada braço. Personificavam o escapismo para milhões de americanos que enchiam os cinemas para ver filmes sobre gente rica, em cujas vidas todos os telefones eram brancos. Conforme dizia a séria reportagem da Vogue, de que os novos chapéus tinham "abafado as discussões sobre a Bolsa de Valores e a ascensão do Sr. Hitler", as Garotas de Maggy enchiam a necessidade ávida do público de se divertir, ainda que indiretamente. Uma enquéte do New York

Daily News perguntou às mulheres se elas preferiam ser estrelas de cinema, uma debutante ou uma das modelos da Lunel e 42% disseram que prefeririam trabalhar para Maggy.

Enquanto Maggy prosperava em Nova York, Julien Mistral pintava, numa febre de energia, em Félice. Ele entrara em seu "Período Intermediário", que deveria durar mais 20 anos. Não pintava mais, como fizera na década anterior, cenas ou objetos que lhe chamavam a atenção ao acaso. Ele agora

se dedicava, por dois ou três anos de cada vez, a um assunto só e dessa concentração dos milhares de estudos e esboços que fazia, e depois destruía, surgia uma série de quadros, por vezes só uns 12, de outras vezes até 35.

Défense d'Afficher, sua série de quadros de muros cobertos por cama das e camadas de cartazes descascados, foi o primeiro dessa série histórica.

Depois veio Vendredi Mana, imagens da fartura da feira semanal que se realizava em Apt. Stella Artois, série que teve o nome da cerveja favorita de Mistral, iluminou como nunca a intensa vida interior dos homens da aldeia, que passavam as tardes no café de Félice, bebendo, jogando, conversando. Jours de Fête, a mais importante das séries do Período Intermediário, foi inspirada pelas comemorações em cada aldeia do Lubéron no dia de seu santo padroeiro, um dia de montanhas de algodão-doce e crianças tontas montadas nos cavalinhos de pau, procissões e fogos de artifício, superexcitamento e nascentes paixões campestres.

Mistral passava todos os dias no seu estúdio, desde a hora do café da manhã' ao jantar. Levavam-lhe carnes frias e uma garrafa de vinho, numa bandeja, e ele devorava tudo de pé diante de uma tela; sem saber o que estava comendo. Kate aproveitava a oportunidade dada pela renúncia do marido a tudo que não fosse seu trabalho, para controlar cada vez mais os negócios dele. Ela é que tratava de todos os contratos com Avigdor, fazia a correspondência com as galerias em muitos países que queriam expor as obras de Mistral, era ela quem tinha nas mãos as rédeas da administração da fazenda.

Uma vez por ano, por ocasião da colheita, Mistral largava o seu estúdio e trabalhava nos campos com os homens, mas quanto ao resto, vivia num mundo só dele. Não tinha tempo para ler jornal. As mudanças políticas na Europa não lhe interessavam mais do que a cauda de penas de galo no último modelo de vestido de baile de Paris. Quanto ao torneio de boules em Félice, isso sim, ainda lhe significava alguma coisa, mas o incêndio do Reichstag foi um acontecimento inteiramente desprovido de interesse. Se ele visse que estava na décima bisnaga de umbra crua, ele se enraivecia, mas quando soube, por seus amigos do café, da catástrofe de Dust Bowl, aquilo não o afetou, nem o levou a dar uma palavra de comiseração. Ele se interessou tão pouco pela agressão italiana à Etiópia quanto por um herói de história de quadrinhos.

Julien Mistral estava no auge de suas faculdades, em paz consigo mesmo, afinal, e seu egoísmo natural só era reforçado pela certeza de que nunca pintara tão bem. Como é que alguma coisa que estivesse acontecendo no mundo podia ter importância, se ele acordava de manhã com uma necessidade imperiosa de se postar diante de seu cavalete ardendo em todas as células de seu corpo? Nenhum destino humano, nenhuma corrente da história, tinha o poder de afetá-lo, enquanto ele soubesse que nada podia impedi-lo de passar o dia em seu estúdio.

Kate Mistral, ao contrário, nunca perdia o contato com a vida além de Félice. Ia a Paris várias vezes por ano, para ficar em contato com o mundo das artes e comprar roupas, pois, embora morasse no campo, continuava bem vestida em todas as ocasiões. Trabalhava intimamente com Avigdor, para as exposições de Mistral, como fizera com a primeira, e representava o marido nas vernissages a que ele sempre se recusava a comparecer. De vez em quando, ela o deixava só por um mês e ia a Nova York, visitar a família. Ele quase nem notava essas ausências.

Em conseqüência da Depressão, Kate não era mais rica. Com uma percepção tardia, ela tivera sorte por utilizar tanto do seu capital para comprar a propriedade de La Tourrello. Embora tivesse cumprido a promessa, para conquistar Mistral, e lhe tivesse dado posse da terra como seu dote, fora um excelente investimento. O marido não tinha a menor idéia de como estavam ficando ricos. Os muitos hectares férteis que cercavam a mas estavam cheios, organizados e agradáveis, repletos de frutos e legumes destinados aos atacadistas de Apt. Tinham belos porcos, bandos de galinhas e patos, alguns cavalos, a última palavra em maquinaria agrícola e muitos braços para cultivarem as safras. Sempre que apareciam à venda mais terras novas, adjacentes, Kate as abocanhava. A fazenda em si podia sustentá-los confortávelmente, pensou ela, com satisfação, enquanto contava e recontava as importâncias cada vez maiores da venda de quadros, que ela depositava no banco em Avignon.

Embora a conta do banco, naturalmente, estivesse em nome de Mistral, ele tinha tanta aversão a se aborrecer com assuntos de dinheiro que deixava todas as suas finanças nas mãos dela. Isso compensava, em muitos sentidos, a falta de comunhão íntima da qual Kate tinha uma vaga percepção no centro de sua vida com Mistral. Ele raramente lhe falava de seu trabalho, nunca pediu para pintá-la, por causa do que ele explicou ser um acabamento fosco na pele dela, que impedia que a luz entrasse nela, e quase nunca a convidava para visitar o estúdio. No entanto, Kate se tornara unia dona de casa famosa. A mas era extremamente confortável e todos os que ela ou Mistral conheciam em Paris foram convidados para passar fins de semana prolongados. Kate tinha orgulho da casa e adorava exibir La Tou rello.

Durante os períodos do ano em que os jogadores de boules se juntavam ao ar livre, atrás do café, Mistral quase sempre ia ter com eles, depois de acabar de pintar, só voltando para jantar quando terminava a última partida. No inverno, quando fazia muito frio para jogar boules, ele trabalhava o dia todo e ia se deitar cedo, como u n lavrador exausto. No entanto, ela possuía o corpo dele, aquele corpo maciçamente apaixonado e sempre faminto, e a avidez rude e franca com que ele freqüentemente se voltava para ela e se satisfazia sempre era o suficiente para lhe dar um orgasmo, pois Kate existia num estado de excitação imediata, provocado por viver dentro de um campo de sensualidade sempre que ela pensava no marido. Bastava ele murmurar "paciência, Kate, paciência", e ela estava preparada para ele.

Ela continuava tão viciada em Julien Mistral como sempre estivera, percebeu Kate, sentada no andar de baixo, sozinha junto à grande lareira, depois que ele foi para a cama. Ela não lamentava ter perdido a vida mundana que levara antes de conhece-lo. O pouco de Julien Mistral que não pertencia ao seu trabalho era inteiramente dela, tinha certeza. Ela sorriu para as brasas, segura dentro dos muros grossos de La Tourrello, enquanto as folhas de outono voavam lá fora e uma lua baixa e vermelha se erguia sobre os campos gelados e vazios, as vinhas despidas.

Kate se envolveu o mínimo que pôde com a Guerra Civil Espanhola, em 1936 - "espanhóis contra espanhóis", disse ela, preservando sua paz de espírito, pois ela, ao contrário de Julien, lia os jornais. No dia 30 de setembro de 1938 foi assinado o acordo de Munique, e milh5es de franceses, bem pomo ingleses e alemães, se disseram, com alivio, que não haveria guerra.

No verão de 1939, Kate, que há dois anos não via a família, foi fazer uma visita a Nova York. Sua cidade natal estava especialmente alegre devido à Feira Mundial, com seu tema "O Mundo de Amanhã".

Dois meses antes, Hitler ocupara a Tchecoslováquia, mas diariamente 28,000 pessoas, para quem esse acontecimento distante não tinha nenhum significado especial, faziam fila para visitar o "futurama", onde assistiam à versão maravilhosamente convincente da General Motors do ano de 1960. Seria, uma era em que os automóveis a diesel, custando 200 dólares cada e em forma de gota de chuva, correriam em estradas livres de acidentes; haveria uma cura para o câncer; leis federais protegeriam todas as florestas, lagos e vales; todos teriam dois meses de férias todo ano e as mulheres teriam uma pele perfeita aos 75 anos.

- Kate, você tem de voltar para casa - disse Maxwell Woodson Browning, o tio preferido de Kate, que fora diplomata de carreira antes de se aposentar. - Vai ser perigoso ficar na Europa.

- Tio Max, por que é tão pessimista? E o Pacto de Munique? Hitler com certeza já tem o que quer. E ele não há de fazer a tolice de tentar alguma coisa contra a França... temos a Linha Maginot, e os soldados de Hitler não passam de uma pobre ralé mal equipada... todo mundo sabe disso. Os alemães não têm armas, nem mesmo as fardas deles são feitas de lã verdadeira.

- Propaganda! Não acredite no que ouve.

- Que bobagem! Por que os jornais e o rádio da França hão de estar cheios de propaganda? Não são livres para publicar o que acreditam?

- Kate, a situação é mortalmente séria. Estou em contato com uma porção de homens que acreditam, como eu, que é apenas uma questão de tempo até que Hitler tente invadir o resto da Europa. Você poderia facilmente ficar presa lá, durante uma guerra.

-- Mas, Tio Max, ninguém quer uma guerra, ninguém quer lutar de novo, você não está sendo alarmista?

- Kate, você ficou uma boba!

Diante dessas palavras de parte de um homem que ela sempre tinha admirado e respeitado, Kate Mistral começou a prestar atenção ao que ele estava tentando lhe dizer. No fim da noite, ela estava tão convencida que imediatamente escreveu para Julien, a fim de que ele fosse para os Estados Unidos.

Quando Mistral recebeu a primeira carta, largou-a de lado, sem relêla. Uma tal aberração nem valia o selo posto na carta. Ele estava ocupado, criando um conceito para uma nova série de quadros de olivais. Nessas ocasiões, ele se tornava extremamente protetor quanto aos seus processos mentais. Nada devia se intrometer nessa fermentação lenta e firme. As cartas seguintes de Kate, cada vez mais frenéticas, por fim o obrigaram a responder. E ele escreveu, zangado e sucintamente, que ninguém na aldeia achava que haveria uma guerra. Hitler não tinha coragem de enfrentar o exército francês. Os parentes de Kate não sabiam que os ingleses tinham arrumado as coisas com um bom senão surpreendente, pelo menos uma vez na vida?

Kate então resolveu tomar conta da situação e começou a procurar, ao norte de Danbury, o tipo de fazenda em que Mistral pudesse ser feliz. Tinha certeza de que, quando os fatos fossem se tornando mais sinistros, ele veria que ela estava com a razão, como sempre estivera, em toda a sua vida em comum. Conhecendo Julien, ela sabia que era da máxima importância arranjar-lhe um estúdio confortável, antes de poder esperar que ele se mudasse. Mas então ele a acompanharia, como sempre, relutando até o final. Ela voltaria a Félice para levá-lo de volta, assim que tivesse instalado um estúdio.

No dia 1° de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polona e, dois dias depois, a Inglaterra e a França, comprometidas por um tratado a defender a Polônia, relutantemente declararam guerra à Alemanha.

Ainda havia tempo para Julien Mistral sair da França, se ele realmente o quisesse, e foi o que milhares de franceses fizeram, mas ele agora tinha começado a pintar de verdade a série que seria chamada Les Oliviers. A luz passara a ter aquele colorido dourado profundo que significava que o verão tinha acabado e o vento, aquele mistral rude, gelado e estimulante que ele amava, tinha soprado todo o fulgor para longe dos bosques de oliveiras, e ele estava mergulhado numa concentração cega e inclemente. Mistral estava tão incapacitado de pegar suas coisas e se mudar de Félice quanto estaria uma mulher nos últimos estágios de um parto.

Durante todo o inverno, em seu estúdio, Mistral pintou as oliveiras de verão, aquelas árvores estranhas e mitológicas, hermafroditas, com seus troncos antigos e masculinos, retorcidos, brutais, quase feios, acima dos quais surgiam ramos e folhas femininos, prateados e esguios, juntando-se num diálogo constante com o sol.

Quando Mistral ia a Félice, achava os ânimos calmos no café. Depois da denota da Polona, não houvera mais agressões, de lado a lado e todos concordavam em achar que certamente deveria haver um meio que não fosse a luta real para se sair dessa drole de guerre, que os próprios alemães tinham. chamado de Sitzkrieg. Mas, enquanto Mistral não pensava em nada senão suas oliveiras, os alemães, refeitos e descansados, dominaram a Europa. No dia 17 de junho, 1940, Pétain, o velho marechal do exército, agora primeiro-ministro da França, pediu um armistício ou trégua, ou rendição ou um cessar-fogo, dependendo das convicções políticas de cada um. A armadilha estava fechada.

"Por que agora", praguejou Mistral, com violência, maldizendo sua má sorte. "Por que agora, quando tenho tanto a fazer! Por que agora, quando não posso perder um segundo, por que agora, quando estou pintando como nunca, por que agora, essa interrupção nojenta? Continua a não haver uma loja de tintas decente em Avignon. E o que é que vou fazer para obter telas novas?"

Ele andou pelo estúdio, esbravejando, empilhando as telas novas e contando, com ar sombrio, quantas restavam. Havia meses que não recebia encomendas de Paris. Ele, como todos os pintores, fazia estoque de tintas, mas quem sabia quando ia precisar de mais? E, como se isso não bastasse, se isso já não fosse bem rialdito, um diabo de problema para preocupá-lo, ainda havia a questão da mas. Desde que Kate partira em sua viagem aos Estados Unidos, a fazenda começara a deteriorar constantemente.

Jean Pollison, o jovem lavrador que Kate contratara antes do casamento deles para cultivar a terra, sempre contratara muitos homens a mais para ajudá-lo, durante a época do trabalho pesado, na primavera e outono; mas desde a primavera anterior não havia mais homens a contratar; ou tinham sido convocados e estavam agora nos campos de prisioneiros alemães, ou eram necessários em seus próprios sítios, para substituir outros homens que tinham ido servir o exército. Pollison fizera o possível, sozinho, ajudado pela maquinaria agrícola que Kate comprara e que os outros fazendeiros da região tanto invejavam. Mas agora ele fora procurar Mistral - chegara a interromper o trabalho dele, pensou Mistral, sem poder acreditar - dizendo que estava com medo de haver falta de gasolina para fazer funcionar as capinadeiras. O novo governo de Vichy estava começando a racionar tudo.

- Que merda, Pollison! Isso é lá comigo? - trovejou ele.

- Desculpe, Monsieur Mistral, mas achei que devia preveni-lo, já que Madame não está aqui.

- Pollison, faça o que puder, mas nunca mais me perturbe no meu ,estúdio, está entendendo?

- Mas Monsieur Mistral...

- Pollison - berrou ele -. Basta! Arranje-se sozinho, é para isso que está aqui.

Retirando-se rapidamente do estúdio, Jean Pollison pensou que, por mais que Monsieur Mistral fingisse fazer parte da vida da aldeia, por mais que

fosse campeão de boules da região, por mais que pagasse rodadas de bebida para todos do café, ainda assim era um estrangeiro de Paris e nada jamais modificaria isso.

Cinco dias depois do cessar-fogo do dia 5 de junho, de tardinha, Marte Pollison bateu timidamente á porta do estúdio de Mistral. Ela em geral deixava a bandeja do almoço dele do lado de fora do estúdio, mas naquele dia, sua missão era tão importante que dominou o pavor que tinha que enfurecê-lo.

- O que é? - gritou ele.

- Monsieur Mistral, preciso lhe falar.

- Entre, diabos! Que diabo é que você quer?

- Chegaram pessoas num carro cheio de bagagem, pedindo para passar a noite. Monsieur e Madame Behrman, com os três filhos. Eu disse para esperarem lá fora, até poder falar como senhor. Estão-se dirigindo para a fronteira, a fim de passar para a Espanha. Ele disse que não é mais seguro os judeus ficarem na França.

Mistral bateu com o punho grande na palma da mão, com raiva. Charles Behrman e a mulher, Toupette, eram velhos amigos. Ele conhecia Behrman, que era escultor, desde os tempos de Montpamasse. Eles alugavam o estúdio ao lado do dele, no Boulevard d'Arago, e muitas vezes davam comida a Mistral, quando ele estava duro. Mas eles agora tinham três filhinhos, e quando Kate os convidara para passar um fim de semana, vários anos antes, Mistral achara as crianças irritantemente levadas. Mistral pensou depressa. Era intolerável Behrman achar que podia aparecer assim de repente, com toda sua família irritante, esperando ter casa e comida. E quem sabe lá quanto tempo podiam querer ficar, depois que se instalassem? Se ele queria fugir para a Espanha porque era judeu, isso era problema dele. Afinal, a guerra tinha acabado e o cessar-fogo estava estabelecido em toda a França.

- Você disse que eu estava aqui? - perguntou ele a Marte Pollison.

- Não disse bem isso, só disse que teria de lhe perguntar antes de deixar eles entrarem.

- Volte e diga que não me encontrou, que eu saí e não sabe quando vou voltar. Diga que vote não tem licença para deixar que passem a noite aqui, sem minha permissão. "Livre-se deles, de qualquer jeito." Não os deixou entrarem pelo portão?

- Não, estava fechado.

- Bom. Faça com que eles vão embora, fique de olho neles até passarem da floresta de carvalhos.

- Sim, Monsieur Mistral.

No dia seguinte àquele em que os Behrmans tinham sido recusados em La Tourrello, Mistral foi ao café em Félice e ofereceu uma rodada de passos aos amigos. Escutou com uma atenção desusada as palavras dos horneas no bar. Uma antipatia e amargura reais tinham começado a dividi-los pela primeira vez, desde que ele os conhecia. Homens que gostavam de discussões políticas bem-humoradas, compridas, havia anos, agora tinham-se colocado em duas facções zangadas: os que achavam que o cessar-fogo de Pétain tinha salvo a França e os que achavam que ele era um traidor.

Só havia um assunto em que todos pareciam concordar, que era a invasão irritante do interior pelos nortistas desgraçados, gente que tinha fugido da zona ocupada para o sul, antes de se fechar a linha de demarcação, e os outros, em números de pasmar, que ainda conseguiam se infiltrar pela linha, clandestinamente. Os forasteiros estavam por toda parte, despreparados, muitas vezes em pânico, desesperados para conseguirem alimentos e gasolina, dominando as autoridades locais com sua presença, uma peste e uma praga para as aldeias e fazendas. O ressentimento era grande contra essas turbas, que não podiam ficar em paz no seu lugar.

Mistral voltou para casa, pensativo. Conhecia gente demais em Paris. Conhecia judeus demais. Devido a Kate e sua hospitalidade constante, os anos que ela passara exibindo a sua satisfação na mas, eram numerosos demais os amigos que tinham aprendido o caminho de La Tourrello. Eles sabiam quantos quartos de hóspedes tinham, como seus campos eram ricos, como a propriedade se tomara auto-suficiente. Deveria haver muitos outros visitantes inesperados como os Behrmans e não havia meios de saber quando chegariam, nem em que condiç8es de necessidade.

Ele convocou Marte e Jean Pollison, na cozinha.

- Pollison - disse ele ao homem - quero que você faça uma cerca alta, onde a estrada para a mas se bifurca da estrada para Félice. Não quero que ninguém venha aqui perturbar o meu trabalho. O país inteiro está cheio de gente que vai procurar se aproveitar e não posso ser atrapalhado por eles.

- Sim, Monsieur Mistral.

- E, Madame Pollison, não quero mais ser interrompido em meu trabalho. Se alguém não fizer caso do portão e se aproximar pelos bosques, não me venha avisar. Diga que há tempos não estou aqui e que a senhora não pode recebé-los. Não abra o portão para ninguém, em nenhuma circunstancia, só use a portinhola do correio. Para ninguém. Está entendendo?

- Sim, monsieur.

Nos dois anos seguintes, vários amigos e conhecidos de. Mistral havia anos, fariam a viagem perigosa, difícil, chegando a La Tourrello apavorados, às vezes ajudados por franceses que arriscavam a vida para ajudá-los. Todos esperavam apenas um abrigo de uma noite, contra aqueles que os caçavam com tanta eficiência e inclemência. Muitos desses refugiados desesperados e perseguidos desrespeitavam a cerca e conseguiam chegar à mas, porém os grandes portões de madeira eram sempre mantidos bem trancados e Marte Pollison respondia séria e negativamente aos toques frenéticos da campainha da cozinha.

A maior parte dos que iam lá eram judeus e apenas alguns sobreviveram à guerra.

Em junho de 1942, acompanhando o pequeno cortejo fúnebre da mãe, Adrien Avigdor se deu conta de que agora estava livre para partir de Paris... se livre fosse uma palavra que se pudesse usar, afinal, numa época daquelas. Ele se certificou de que a estrela de Davi, amarela, grande como a palma de sua mão, com bordas pretas e a palavra Juif escrita em letras pretas, estivesse claramente visível em seu paletó. Em toda Paris mulheres estavam sendo presas por carregarem as bolsas de modo a tapar a estrela, um homem ainda na véspera fora preso por usar uma estrela que não estava bem presa, na semana anterior uma senhora que morava perto dele fora presa e levada embora ao sair de casa para pegar a correspondência de roupão, esquecendo-se de que não tinha estrela. Três estrelas para cada judeu, decretava a ordem de 29 de maio de 1942, e ele fora obrigado a ceder talões de seu cartão de racionamento de têxteis para cada uma.

Ele não tinha previsto isso, ninguém o tinha previsto, quando Avigdor resolvera ficar em Paris. A mãe estava por demais afetada pela artrose para poder se mudar e, juntos, naquelas semanas quentes de junho, dois anos antes, eles tinham assistido ao êxodo por trás das venezianas cerradas do apartamento de Avigdor, no Boulevard Saint-Germain.

Noite e dia, eles olhavam o rebanho mudo, apavorado, lutando para ir para o sul. A maior parte de Paris, aldeias inteiras, a norte e a leste, centenas de quilômetros de campos, foram abandonados ao inimigo que avançava. A população foi para as estradas nos veículos que podiam arranjar, para abandoná-los quando acabava a gasolina, e continuavam a pé, carregando as crianças infelizes, guarda-chuvas e chapéus domingueiros, empurrando carrinhos de bebês cheios de tesouros de casa, patéticos, inúteis; os fazendeiros levavam galinhas em gaiolas e tocavam vacas que mugiam de sede.

- Vá, Adrien, vá! - implorara Madame Avigdor. - Sou uma velha. Você não deve ficar comigo... Madame Blanchet, a vizinha, se ofereceu para me buscar o que eu quisesse. Parta agora, Adrien, enquanto ainda pode!

- Maman, não seja tola. Olhe só para essa gente - esfarrapada, hipnotizada, uma turba... Eu lhe garanto que não tenho intenção de me juntar a eles. Como posso abandonar os meus pintores, como posso largar a minha galena?

Ele não disse que desconfiava das promessas da vizinha e não podia mesmo deixá-la sozinha, para enfrentar a chegada dos alemães. E era bem verdade que ele estava muito ocupado, empenhado em salvar as centenas de quadros a ele confiados por muitos que tinham resolvido fugir. Esses quadros eram as melhores obras dos pintores que ele representava e cabia-lhe verificar que fossem bem escondidos. Quem sabia lá o que fariam os alemães, quando chegas Hitler detestava a nova arte. Até mesmo o velho Picasso era um "degenerado" aos olhos nazistas. Alguém tinha de ficar...

Agora, dois anos depois, ele só podia sorrir com tristeza diante da sua valentia e, no entanto, hoje tomaria a mesma decisão. Tinha conseguido tornar suportáveis os últimos anos da vida da mãe e estava contente por ela não ter vivido muito tempo, depois do decreto que tornava obrigatório o uso da estrela de Davi para todo judeu francês com mais de seis anos de idade.

No entanto, ela vivera o suficiente para precisar ser ajudada a ficar em fila, com suas pernas aleijadas, para se registrar como judia na Prefecture de Police; o suficiente para ver a palavra Juif escrita em letras grandes em sua carteira de identidade, o suficiente para saber que todos os judeus que não eram franceses tinham sido arrebanhados e mandados embora.

Graças a Deus ela não vivera o suficiente para saber, como ele sabia, que agora todos os judeus franceses, mesmo os que moravam na França havia séculos, estavam proibidos de exercerem qualquer profissão, de trabalhar em qualquer negócio, de usar o telefone, de comprar um selo, de ir a restaurantes, cafés, bibliotecas e cinema. Mesmo de se sentarem nas praças públicas. Não. obstante, conservamos um direitp, disse Avigdor para si mesmo, com um humor negro, podemos comprar comida durante uma hora em cada dia, das 15 às 16 horas, quando a maior parte das lojas já fechou.

Os trens ainda funcionavam de vez em quando e os civis viajavam, mas não sem o ausweis, a autorização alemã. Avigdor, pensando nas possibilidades que se lhe apresentavam, percebeu que, em toda a França, milhões de pessoas estavam viajando para casamentos, enterros e batizados, visitando parentes doentes ou se mudando para outra parte do país, por motivos de saúde ou de negócios. A vida sob os alemães continuava, para a maior parte dos franceses, nas condições mais mesquinhas e miseráveis, em termos do ponto de vista de alimentação, aquecimento, racionamento e restrições de todo tipo; mas, apesar de tudo, permitia-se que tentassem sobreviver.

Soutine, ele sabia, tinha-se refugiado em Touraine, Max Jacob em SaintBenôit-Sur-Loire, Bracque estava em l'Isle-sur-la-Sorgue, seu amigo, o marchand Kahnweiller, morava em Limousin, sob o nome de Kersaint, Picasso ainda estava trabalhando ativamente em Paris, bem como os colaboracionistas Vlaminck e Cocteau.

A galeria, de Avigdor tinha sido confiscada e entregue, por ordem dos alemães, a um negociante nao judeu, que agora fazia negócios ativos com o inimigo, vendendo borrões de pintores de décima categoria. Durante os últimos meses, Avigdor procurara informar-se sobre o melhor meio de fugir de Paris, se bem que a grande fonte de todas as informações valiosas, Paula Deslandes, tivesse morrido, vários meses antes, de um enfarte e o La Pomme d'Or estivesse fechado definitivamente.

Desde os primeiros dias da Resistência, Paula trabalhara ativamente, ajudando as pessoas em perigo.

- Passei a vida treinando para isso - dissera ela a Avigdor, alegre. - Eu sabia que havia muitos motivos para não sair de Paris e agora encontrei o melhor de todos: fico quieta e arranjo meios de fazer os outros saírem.

A maior parte dos parisienses tinha voltado para sua cidade, depois do primeiro susto; as mulheres bonitas usavam chapéus novos e as que tinham dinheiro podiam comer abertamente nos restaurantes do mercado negro, sem se sentirem culpadas, já que dez por cento da conta iam para a caridade nacional. Nos cafés os intelectuais ainda conversavam, as pessoas continuavam a se apaixonar e iam à igreja e as mulheres davam à luz. Apesar disso, não havia ninguém cuja vida não tivesse sido profundamente modificada.

Cada francês reagia de modo diferente a presença dos alemães e Avigdor, que antes usara a sua compreensão da natureza humana para vender antigüidades e quadros, agora passou a usar seus instintos aguçados para resolver a quem poderia procurar, com segurança, para obter uma carteira de identidade falsa e um ausweis. Tudo podia ser obtido, todo tipo de cartão falso, inclusive o cartão falso "verdadeiro", que vinha da polícia, até às falsificações mais lamentáveis e óbvias.

Enquanto cuidava da mãe doente, Adrien Avigdor observava as idas e vindas em sua vizinhança. Como quase todos os outros franceses, Avigdor conseguira não morrer de fome recorrendo ao Marché Parallèle, instituição que poderia ter sido chamada de `mercado negro', só que quase todos os que pudessem pagar para usá-lo o usavam. As rações permitidas pelos alemães eram simplesmente insuficientes para manter a vida e, em todo caso, não podiam ser encontradas.

Ah, ele tinha seus recursos, tinha seus amigos, e os estava reservando havia muito tempo, para essa eventualidade. Graças a Deus, tinha o dinheiro para poder pagar a fim de fugir a prisão que era Paris.

Mais de duas semanas depois, armado de um cartão de identidade que não continha a palavra Juif, os indispensáveis cartões de racionamento para alimentação e roupas e um ausweis válido, Adrien Avigdor, com os trajes azuis de um lavrador e agarrando uma bicicleta preciosa, foi metido num vagão de trem apinhado, rumo ao sul. Ele estava viajando havia dias, a maior parte do tempo esperando um trem em várias estações miseráveis e superlotadas, cheias de gente cujos trens, sem horário, ainda não tinham aparecido e que espera yam pacientemente, exaustos, sentados em suas trouxas e pacotes, a noite toda. Quando soavam as 21 horas, o toque de recolher prendia a todos nas estações, até a manhã seguinte.

Por várias vezes, os alemães tinham percorrido os trens, examinando seus documentos, metodicamente, verificando seu rosto, comparando-o com a foto. Aberta, amável, franca, não muito esperta, sua cara comum de lavrador nunca despertara a menor suspeita e seus novos cartões, habilmente "envethe eidos", que the haviam custado tanto quanto uma casa de campo, estavam impecáveis. Avigdor estava a caminho de se comunicar com o grande núcleo da Resistência que estava funcionando nas montanhas perto de Aix-en-Provence, mas resolvera primeiro parar para ver Mistral.

Quem sabia se ele algum dia tornaria a ver o pintor? Ele tinha de verificar se o homem estava a salvo. E se tivesse sido mandado para a Alemanha, para trabalhos forçados, como tantos outros? Eles não se comunicavam desde a queda da França. E se Kate, que sempre conservava sua cidadania americana, tivesse sido arrebanhada e deportada? Avigdor se mantivera em contato o mais possível com o que acontecera com a maior parte dos artistas sob a Ocupação - de algum modo, as notícias se infiltravam - mas ficara muito preocupado com a falta de qualquer tipo de informação sobre Mistral.

O percurso da estação de Avignon a Félice, de bicicleta, era comprido e fatigante, mas Adrien Avigdor o apreciou. Estar no campo aberto depois de anos de uma vida confinada na cidade era uma alegria pura. Ele viu que teria sorte se chegasse a La Tourrello antes do toque de recolher, enquanto subia a estrada da aldeia de Beaumettes. Por toda parte via os campos por lavrar, os vinhedos abandonados. Em cada canto da França, o regime de Vichy, que, desde o armistício, fizera o trabalho dos alemães para eles, na zona não ocupada, tinha levado embora os homens válidos para trabalharem nas fábricas alemãs, substituindo os soldados alemães. No entanto, a produção de alimentos era sempre uma necessidade e Avigdor ainda via muita gente nos campos, mulheres e crianças, bem como homens de sua idade, velhos e meninos.

Exausto, ele empurrou sua bicicleta pelo morro que levava a mas, pela floresta de carvalhos, atravessou a campina e bateu nos portes altos, que conhecia tão bem. Depois de longa espera, Madame Pollison abriu a portinhola de madeira e olhou para fora, com um ar proibitivo.

Avigdor sorriu para o rosto conhecido, que passara a conhecer tão bem em suas visitas dos últimos anos.

- Então, está pensando que está vendo um fantasma, é? É ótimo pousar os olhos na senhora, Madame Pollison, é maravilhoso! Espero que ainda lhe reste uma garrafa de vinho na adega, para mim. Bom, pode abrir. Onde está Monsieur Mistral?

- O senhor não pode entrar, Monsieur Avigdor - disse a mulher.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ele, imediatamente alarmado com a expressão dela.

- Ninguém pode entrar, monsieur.

- De que é que você está falando? Vim de bicicleta desde Avignon. Está com medo de alguma coisa, Madame Pollison?

- Nada, monsieur, mas tenho minhas ordens a cumprir. Não podemos receber ninguém.

- Mas tenho de falar com Monsieur Mistral!

- Ele não está.

- Madame Pollison, a senhora me conhece! Quantas vezes já não me hospedei aqui, pelo amor de Deus? Sou um amigo... mais do que um amigo. Vamos, deixe-me entrar... o que é que há com a senhora?

- Isso foi antes. Monsieur Mistral não está e não posso deixá-lo entrar.

- Onde é que ele esta? Foi levado para os campos de trabalho? Onde está, madame?

- Já lhe disse, ele saiu. Madame ficou na terra dela. Au revoir, Monsieur Avigdor.

A caseira se afastou da porta e fechou a portinhola de madeira na cara dele.

Avigdor ficou ali, sem poder acreditar. A mas estava tão trancada quanto uma aldeia fortificada da Idade Média. Aquela mulher ignóbil! Ele não gostava dela, mas era incrível que ela não o recebesse bem. Sabia perfeitamente como ele era íntimo da família. Aonde Mistral poderia ter ido? O que faria com ela, quando descobrisse que o tinha despachado? Ele começou a bater na porta outra vez, mas primeiro olhou para o céu. Ainda estava claro, mas o escuro e o toque de recolher estavam próximos. Havia apenas o tempo suficiente para voltar a Beaumettes, com sua única hospedaria de interior.

Furiosamente, praguejando, Avigdor dirigiu depressa a bicicleta morro abaixo, mas antes de entrar na floresta de carvalhos, parou, virou-se e olhou para a mas pela última vez, sem poder acreditar.

Lá, na janela alta do pigeonnier, estava uma cabeça maciça, inconfundível. Julien Mistral estava ali, olhando sua partida. Com sua vista aguçada, Avigdor podia até ver a expressão feroz, resoluta e firme no rosto do pintor. Ele parou, tão de repente quanto se tivesse levado um tiro e soltou um grande grito de alívio. Seus olhos se encontraram por um minuto que se prolongou, através da distância. Mistral saiu da janela e Avigdor, com o coração disparado, correu de volta ao portão, onde ficou esperando que ele fosse abri-lo. Era tudo culpa daquela burra da caseira. Ela agira por sua conta, sem nem consultar Mistral.

Passaram-se minutos no silencio do crepúsculo, minutos demorados, em que o silêncio da mas se tornava mais sólido, minutos compridos, até que Adrien Avigdor afinal compreendeu e tornou a montar em sua bicicleta. Ele não chorara quando os alemães marcharam pelos Champs Elysées, não chorara ao costurar sua estrela amarela, nem chorara quando a mãe morrera, mas agora ele chorou.

Cinco meses depois que Avigdor começou a trabalhar com a Resistência, os Aliados desembarcaram no norte da África e os alemães se apossaram de toda a França. A zona nao ocupada não existia mais, uma grande guarnição alemã, com seu ramo inevitável da GESTAPO, foi instalada em Avignon e oram postadas tropas a cinco quilômetros de Félice, em Notre Dame-des-Lumieres.

Durante quase dois anos, Julien Mistral trabalhou nos campos. Até mesmo ele fora forçado a admitir o fato de que, a não ser que trabalhasse oficialmente para a produção de alimentos, como todos faziam na Provença, estava arriscado a trabalhos forçados. Em todo caso, se quisesse comer, tinha de cultivar a terra. Os merceeiros de Félice não tinham quase comida alguma a vender, por preço nenhum. O lavrador agora era quem comia, se não o que quisesse, pelo menos melhor do que os moradores das grandes cidades, que a cada dia morriam de fome enquanto as safras, a manteiga, o leite e a carne da França iam para os alemães.

Mistral dava o seu trabalho do dia pela promessa de pintar de noite, as venezianas do estúdio bem fechadas, para não revelar a fraca iluminação que ele conseguia com as velas armazenadas por Kate antes da guerra, Kate, que acreditava tão firmemente quanto qualquer chatelaine numa despensa bem provida, Kate, dona de casa esmerada, que tinha empilhado barras de sabão como se fossem barras de ouro; que, para grande escárnio de Mistral, tinha enchido os armários de cobertores e dúzias de lençóis pesados, de linho tecido a mão, que nunca tinham sido usados.

Agora esses lençóis, tratados com uma espécie de goma, feita da fervura de ossos de coelho, lhe serviam de telas. Eram preciosos, seus bens mais valiosos. Ele lamentou amargamente as fogueiras dos anos anteriores. O que não daria para ter de volta aqueles quadros, para poder pintar por cima deles? Com um desespero crescente, ele via o seu estoque de tintas diminuir, embora se racionasse o mais severamente possível. No entanto, quando estava trabalhando, às vezes se esquecia e, perdido no transe da criação, usava a tinta como sempre usara. Então, quando as velas se apagavam, Mistral era dominado pela tristeza mais profunda, ao contemplar as bisnagas meio vazias, que estavam cheias poucas horas antes.

Algumas semanas depois que os alemães chegaram a Avignon, um Citroën preto parou defronte dos portões da mas de Mistral. Um oficial alemão, com sua farda verde, saltou, acompanhado por dois soldados com metralhadoras engatilhadas. Rígida e pálida. Marte Pollison apressou-se a abrir os portões, para eles poderem entrar com o carro.

- Esta casa é de Julien Mistral? - perguntou o oficial, num francês passável.

- Sim senhor.

- Vá chamá-lo.

Nenhum francês atendia ao chamado de um oficial alemão sem temor, nem mesmo Mistral, que não tinha nenhum rádio escondido, sintonizado com a BBC, que não participara de qualquer esforço da Resistência, que estava perfeitamente en regle com as autoridades de Vichy.

O capitão se apresentou, com um floreio.

- Capitão Schmitt.

Ele estendeu a mão e Mistral a apertou. O alemão fez um gesto para os soldados e eles abaixaram as armas.

- É uma grande honra conhecê-lo, Monsieur Mistral - disse Schmitt. - Há anos que admiro seu trabalho. Aliás, também sou um pouco pintor... só amador, claro, mas, não obstante, tenho grande amor por todas as artes.

- Obrigado - respondeu Mistral.

O homem parecia uma das dezenas de borradores que ele tivera o cuidado de evitar, no passado. A farda dele parecia estar inteiramente em desacordo com suas palavras amáveis.

- Servi em Paris, até bem pouco, e tive o prazer de visitar Picasso, o estúdio dele. Estava com esperanças de que, se não fosse incômodo, o senhor me permitisse ver seu estúdio... já li tanto a respeito.

- Por certo - respondeu Mistral.

Ele mostrou o caminho à ala do estúdio da mas. Schmitt olhou com atenção para as telas que Mistral tinha empilhado contra as paredes. Suas exclamações de prazer eram preceptivas e inteligentes e mostravam um bom conhecimento do principal da obra de Mistral. Antes da guerra, explicou ele, tomando-se mais falador, tinha ido a Paris anualmente, no outono, para ver as exposições e fazer a ronda dos museus. Em sua casa, perto de Frankfurt, tinha seu próprio estúdio, e até mesmo agora, em Avignon, sempre que tinha tempo, trabalhava em seu cavalete portátil.

- Não posso resistir à pintura, é o meu fraco. Pintei em Paris todos os fins de semana, durante dois anos, o senhor sabe como é. - Perfeitamente.

O capitão deu uma ordem aos soldados e um deles correu para o cano preto e voltou um minuto depois, com uma garrafa de conhaque.

- Pensei... - disse o oficial, com uma certa timidez, oferecendo a garrafa a Mistral. - Queira permitir... eu ficaria honrado.

Mistral olhou bem para aquele homem educado, entusiasta, culto, que era a única pessoa que vira suas pinturas, em dois anos e meio. Pinturas que eram o seu corpo, o pulsar de seu coração, o seu hálito, todas as suas funções vitais. Os soldados tinham desaparecido.

- Sente-se - disse Mistral. - Vou pegar uns copos. Vamos beber.

O Capitão Schmitt passou a ser um visitante regular, aparecendo de duas em duas ou de trás em trás semanas. Na sua primeira visita, ofereceu-se para levar bisnagas de tinta a Mistral, o que este aceitou prontamente.

Mais tarde, naquele ano, quando a Organização Todt, que estava rapidamente passando a ser o maior empregador da França, passou pelo Lubéron, convocando milhares de lavradores para construir bases para submarinos, casamatas e campos de pouso, Schmitt pegou o dossiê de Mistral e o marcou de tal modo que ele ficou isento do trabalho que finalmente o teria obrigado a largar o estúdio.

Se seus vizinhos se preocupavam com sua amizade - pois era isso que se tornara - com um oficial alemão, Mistral nunca soube disso, pois não freqüentava mais o café de Félice. O ambiente lá estava fechado, desconfiado e triste, não havia nada para beber e só alguns velhos e meninos se aventuravam a jogar boules.

Um dia, quando estava voltando tarde de suas couves, Mistral encontrou Madame Pollison berrando de raiva.

- Eles vieram e levaram tudo! Tudo. A última galinha, os nabos, a geleia, os talões de racionamento... revistaram a casa, os jovens bandidos, até me revistaram a mim! Ah, Monsieur Mistral, se o senhor estivesse aqui...

- Quem é que veio? - perguntou Mistral, com rudeza.

- Não sei, nunca os vi, não é ninguém daqui... jovens selvagens, bandidos criminosos... foram para Lacoste, pelos bosques...

- Entraram no estúdio?

- Entraram em toda parte, não houve uma porta que não abrissem... Mistral correu ao estúdio e o examinou depressa. Saiu berrando: - Onde estão meus lençóis?

- Levaram. E os da casa também e todos os cobertores... - Todos os lençóis?

- O que eu podia fazer, monsieur? Eu lhe pergunto - exclamou ela, a indignação misturando-se à raiva. - Já lhe disse que eram bandidos.

Quando o capitão apareceu, no dia seguinte, numa de suas visitas regulares, levando, como sempre, uma pintura que completara para Mistral ver e criticar, encontrou o pintor abatidíssimo.

- O que é que há? Aconteceu alguma coisa? - Fui roubado - respondeu Mistral, sério.

- Foram alemães? Se foram, vou investigar, pode ficar descansado.

- Não, não sei quem foi... jovens bandidos, diz a minha caseira. Um bando de vagabundos.

- Os maquis?

- Só sei é que eram forasteiros, ela nunca os vira antes.

- O que é que levaram? - perguntou Schmitt, preocupado com o desespero na fisionomia de Mistral.

- Muitas coisas, sem importância, malditos que se danem nos quintos do inferno. Mas por que haviam de levar os meus lençóis? Como posso trabalhar? Não me resta uma única tela. Dá vontade de matá-los! Miseráveis! Ralé! - Para onde foram?

- Não sei .. Madame Pollison disse que foram na direção de L acoste, na estrada da floresta. Mas a essa altura podem estar em qualquer lugar.

- Vou ver o que posso fazer para lhe arranjar umas telas... não é fácil, quase não existem, em lugar algum, mas vou tentar.

Dois dias depois, Schmitt voltou com o carro cheio com os lençóis de linho.

- Nada de telas... mas consegui reaver seus lençóis - disse ele, sorridente.

- Como...?

- Encontramos os ladrões nos bosques, perto de onde você disse que eles tinham ido... um ninho cheio deles... estavam cheios de coisas... tinham andado "requisitando" por toda parte, ou era o que parecia. Maquis.

- Não eram maquis!

- Ah, eram, sim, Julien. Vinte. Não se preocupe, os porcos nunca mais hão de aborrecer alguém.

 

 

                                                       Capitulo 15

 

É a altura, pensou Teddy bine!, com um anseio triste, esperançoso, olhando em volta de sua turma. Deve ser a minha altura.

Tinha havido tantas ocasiões assim, nos últimos sete anos passados em Elm School, uma pequena escola particular junto de Central Park West, que ela afinal concluíra que sua falta de aceitação pelas outras devia ser provoca da por um ou outro fator que a tomava diferente das outras.

Ao contrário de todas as outras meninas, ela não tinha pai nem família. A mãe dela, ao contrário das mães das outras, trabalhava o dia todo. Tinha pulado a terceira série e era um ano mais moça do que as colegas. Aos poucos, Teddy chegara à conclusão de que devia ser por causa de sua estatura que era relegada às fileiras das estranhas, o punhado de garotas classificadas como intocáveis pelas garotas aceitáveis, que resolviam, com tanta seriedade como se estivessem elegendo o papa, quais eram as mais solicitadas, quais as seguintes, até àquela linha fatal que excluía Teddy para sempre.

Ela nunca fora convidada paia uma festa de aniversário, a não ser quando alguma mãe excepcionalmente democrática insistisse em convidar toda a turma. Durante a hora do almoço, nenhum grupo jamais lhe guardava um lugar na lanchonete; quando se formavam os grupinhos no recreio, para se rirem dos segredos, Teddy nunca era incluída, nem a chamavam para participar de sua intimidade preciosa.

Essa exclusão parecia remontar ao primeiro dia da primeira série, não havia apelo a ser feito para modificar isso, ninguém a quem ela pudesse recorrer para procurar uma explicação - apenas existia, com uma finalidade misteriosa.

Não havia ninguém com experiência dos modos de menininhas que pudesse dizer a Teddy que a sua beleza extraordinária era, na idade dela, uma calamidade que a colocava num lugar à parte; não havia quem the dissesse que suas colegas não eram capazes de tratar com uma beleza tão decidida, tão inelutável, que fazia com que ela parecesse pertencer a uma espécie diferente. Quando os adultos a elogiavam, e poucos resistiam a isso, ela dava um desconto total ao que diziam, pois eles não sabiam que, fosse qual fosse o seu aspecto, ninguém gostava dela.

Assim como Teddy não se podia olhar no espelho e saber que ela já era uma beleza clássica, tampouco podia fugir à situação e compreender os costumes da escola. Como é que uma menina de 13 anos poderia filosofar quanto à necessidade existente nas crianças, como existe em todos os outros grupos sociais, de se formarem em camadas de espírito de clube e que para qualquer dessas camadas pareçam finalmente desejáveis, deve sempre haver um grupo a que nenhuma delas pertença?

Esse mesmo fenômeno funciona nas colônias de leprosos, entre as prostitutas, nas cadeias e nas calçadas de Calcutá. Saber disso tudo em nada consolaria Teddy Lunel que, aos 13 anos, já alcançara toda a sua altura de 1,79m sendo 7cm mais alta do que o Sr. Simon, seu professor da oitava série.

Maggy ignorava a situação de Teddy como uma das párias da sua turma. Teddy nunca fora capaz de confessar isso à mãe, que a amava com tanto orgulho, um amor que fazia uma exigência implícita de que Teddy fosse feliz, fosse excepcional, fosse tudo com que Maggy nunca sonhara em criança. Teddy ficava apavorada com a possibilidade de arriscar sua posição como alegria da vida da mãe, se diluísse esse amor com a realidade de sua triste, solitária confusão. Ela escondia suas mágoas de Maggy como se tivesse feito realmente algo tão horrível que as merecesse. Ela aprendeu bem cedo na vida a enganar, descobriu logo que podia criar uma fantasia de um dia despreocupado, em que Maggy pudesse acreditar e achar tranqüilizador.

Maggy muitas vezes achava que Teddy carecia de uma vaidade natural. Mas talvez fosse melhor assim, considerando-se como a filhinha era nova, concluiu ela, sentindo-se sabida e cuidadosa, pois para Maggy, cujo negócio se baseava sobre a beleza das mulheres, parecia que Teddy fora criada por feitiçaria. Era uma criatura dos contrastes mais românticos, os cabelos de um ruivo escuro, os fios crespos contendo uma confusão de tons do quase castanho ao quase dourado, a pele tão clara que, quando se ruborizava, parecia passar a um momento de uma febre apaixonada, sua boca delicada era tão móvel, com um contorno tão fume, de um rosado natural tão turbulento, que parecia que ela estava de batom. Sob sobrancelhas maravilhosamente bem-feitas, tinha os olhos do pai, azuis, verdes e cinzentos, variando, mas eram tão afastados quanto os de Maggy. O nariz era maravilhoso, um nariz de verdade, pensou Maggy com orgulho, um nariz bonito, bem-feito e firme, que dava a Teddy um ar meio altivo. Talvez, de fato, fosse um nariz importante demais para um rosto sem pintura, um rosto de criança, mas isso o tempo corrigiria. Maggy nunca realmente via Teddy como uma criança no meio de outras crianças, pois o seu olhar experiente, alerta para descobrir a beleza, via a mulher em que ela se tornaria, e não a menina alta demais, altiva demais, diferente demais que era.

Embora Maggy não tivesse idéia de que Teddy de bom grado trocaria a sua beleza por um ser pequeno e engraçadinho, sempre se preocupara com o fato da filha não ter nenhuns parente no mundo, nenhuma família a não sereia.

Nos primeiros dias da Agência Lunel, quando Maggy ainda trabalhava em casa, ela via com gratidão os seus modelos tratarem Teddy como se fosse irmãzinha delas. Em breve, quando Maggy passou para uma série de salas no prédio. do Carnegie Hall, cada ano adquirindo mais linhas telefônicas, mais assistentes e mais espaço no escritório, ela pedira à babá Butterfield, e depois Mademoiselle Gallirand, que a substituíra, para levar Teddy ao escritório para brincar depois do colégio, várias vezes na semana.

Mais, tarde, quando Teddy tinha de fazei deveres de casa, arrumaram uma mesinha especial para ela, num cantinho sossegado, e as garotas l unes, que agora já eram 120, entravam no "escritório" de Teddy para abraçá-la às pressas, mostrar uma foto delas, reclamar dos pés doendo ou pedir uma maçã de uma pilha que Maggy sempre tinha numa cesta em cima da mesa de Teddy. Era uma turma maravilhosa de parentes honorárias, pensava Maggy, desafiadora, enquanto fazia compras, aos sábados, quando a agência fechava, no Saks e no De. Pinha, escolhendo mais suéteres de cashmere em tons pastéis e mais lãs caras, importadas, ou saias de flanela para Teddy usar na escola.

A Elm School ficava perto do apartamento grande e alto que Maggy alugava no belo San Remo, na Rua 74 e Central Park Oeste, com vista para o parque. As torres da Quinta Avenida se erguiam diante delas, separadas delas por toda a largura do parque, e era exatamente essa separação que levara Maggy a se resolver pelo apartamento, se bem que ela pudesse facilmente pagar uma moradia na parte mais elegante das ruas 60 ou 70 leste e mandar a filha para uma das escolas mais conhecidas e elegantes. No lado leste, porém, Teddy estaria correndo o perigo constante de esbarrar num Kilkullen, num McDonnell, num Murray ou num Buckley: o lado leste era o quartier dos católicos da sociedade e depois que Maggy perdeu seu emprego em Bianchi, depois do escândalo da exposição de Mistral, ela procurou manter a filha a distancia. É ridiculamente fácil, em qualquer cidade, sair do pequeno círculo de bairros e escolas da moda. Especialmente, pensou Maggy, quando nunca se fez parte delas.

Teddy passeava pelo San Remo como se fosse um feudo seu. Não havia nenhum dos cabineiros negros cuja história ela não conhecesse; ela era a queridinha dos porteiros, sempre prontos a lhe emprestarem um giz para brincar de amarelinha na calçada, na qual, com suas pernas compridas, ela era uma campeã natural. Quando não estava no colégio, era uma garota animada, tagarela, sempre em movimento, patinando, de bicicleta, ou descendo os morros do parque em seu trenó, de barriga, no inverno. Como o Flautista Mágico, ela muitas vezes conduzia uma fila alvoroçada de crianças muito menores do que ela e quando elas se cansavam de brincar, Teddy lhes contava histórias complicadas de florestas tropicais e viagens em jangadas pelo Rio Amazonas.

Havia outros dias, geralmente na primavera, quando caía uma chuvinha fina e as primeiras fortíssimas espalhavam sua promessa amarela sobre o parque cinzento, em que Teddy se refugiava sozinha no jardim de Anne Hathaway, ao pé de uma velha tone de pedra. Lá, sua imaginação se inflamando, suas esperanças bailando, ela sonhava os sonhos de amor, vagos e maravilhosos, pensando quando, ah, quando isso aconteceria com ela?

Quando Teddy, aos 13 anos, se formou na oitava série, foi ela a primeira da fila a entrar no auditório, decisão adotada depois de meia hora de discussão entre os professores, sobre se sua altura seria menos notada se ela fosse a primeira ou a última da fila, pois, obviamente, não se podia nem pensar em colocá-la no meio.

Quando ela atravessou o palco, com seu vestido branco, para receber o diploma, houve palmas da platéia. Maggy convidara Darcy, os Longworths, Gay e Oliver Barnes e uma dezena de modelos favoritas para irem ver a filha concluir o curso primário. As 12 maiores garotas capas de revista de 1941, com seus melhores chapéus, deram vivas e assobios ao verem Teddy, olhando para baixo, para não tropeçar, andar com uma graça que algumas delas nunca conseguiriam aprender.

- Meu Deus, Doe - disse uma delas, que acabava de completar 24 anos - não seria ótimo voltar a ser jovem?

- Eu ainda sou, querida - respondeu Doe, mas de repente uma pontinha de dúvida invadiu seu coração. Ela também tinha 24 anos.

No ginásio, Teddy, decidida, forjou uma aliança com algumas das outras garotas menos populares. Sally era a estudiosa, de óculos grossos e que suava demais; Harriet era gaga e usava sapatos ortopédicos, Mary-Anne era a queridinha da professora, sempre sentada na primeira fria de todas as aulas, pronta para acenar com a mão, triunfante, quando as outras não sabiam as respostas; mas as três se tornaram suas melhores amigas.

Teddy parou de ir ao parque ou a Agência Lunel, depois das aulas, para fazer os deveres de casa com as novas aliadas. As quatro se reuniam nas respectivas casas e acabavam os deveres o mais depressa possível, para poderem tratar do negócio sério dessas tardes, a discussão, com detalhes sempre fascinantes, de seus sonhos românticos. Não tinham em mente nenhum rapazinho determinado, mas apenas uma vaga noção de alguém masculino, em algum ponto do futuro distante. A questão mais palpitante de que falavam era a da noite de núpcias. Como se podia usar uma camisola, como as que as mães delas tinham? Afinal, podia-se ver através dessas camisolas - todas já tinham remexido nas gavetas das mães, tendo levantado essas coisinhas bonitas e elegantes, certificando-se desse fato incompreensível, assustadoramente estranho. Como se podia ir do banheiro à cama usando uma roupa que era quase transparente? Como poderiam, supondo que usassem um roupão sobre a camisola, obter o roupão? Será que chegariam a se deitar na cama por baixo das cobertas? Ou só se deitariam por cima? E então, o quê? Nesse ponto, todas paravam de falar, numa agitação de risadas, e iam à cozinha, comer bolo e beber Coca Cola.

Um dia, Teddy tentou contar a elas o que acontecia em seguida.

- O pai pega o pênis e o coloca na vagina da mãe e saem sementes que nadam...

Ela foi interrompida por um coro de gritos e guinchos indignados. As amigas não queriam saber de detalhes tão repugnantes e não podiam acreditar que a mãe de Teddy - mesmo trabalhando - algum dia se tivesse sentado com ela e contado essas coisas horríveis. Mal tendo completado 14 anos, elas

ainda não se tinham refeito bem do choque de sua primeira menstruação e aquilo que Maggy chamava de "fatos da vida" era pouco romântico e inteiramente clínico demais para elas suportarem.

Então, pensava Teddy, o que elas diriam se soubessem de toda a verdade sobre ela? Se nem podiam ouvir como era feito um bebê, o que diriam se soubessem que ela era bastarda? Ah, a mãe usara um outro termo, claro, mas

isso não alterava a verdade.

Ela não se lembrava de que idade tinha quando Maggy, achando mais fácil se explicar no francos que elas falavam juntas do que no inglês que falavam

com as outras pessoas, lhe contara que ela era un enfant naturel - mas isso já fazia tanto tempo que ela tivera de crescer para assimilar a idéia, aos poucos compreendendo exatamente o que significava, muito depois de ter ouvido as palavras pela primeira vez. Como é que Maggy a fizera saber que suas origens eram uma coisa que ela não devia pesquisar? Como ela aprendera a dizer, de um modo que evitasse todas as perguntas, que o pai movera? Ela não sabia

explicá-lo nem mesmo a si, mas já fazia muito tempo e ela o aceitava inteira mente.

Como um nativo da Melanésia diante de um prato de alimentos sagra dos, consagrados ao uso dos sacerdotes, Teddy se afastava imediatamente, protegendo-se, do assunto proibido. Era uma proibição tão forte, tão total, que ela não ousava perguntar nada a Maggy sobre o assunto. Esse tabu, colocado bem no centro de sua vida, mantinha Teddy afastada de suas amigas. Nenhuma delas tinha segredos de verdade. Aliás, o principal objetivo de sua amizade era de partilhar os segredos, confiar, tranqüilizar umas às outras, serem companheiras e camaradas no difícil ofício da puberdade.

Maggy dera a Teddy poucos detalhes sobre o pai dela. Quando ela achou que Teddy já tinha idade de compreender, disse-lhe que ele era um irlandês católico que, antes de morrer de um ataque cardíaco, fora impedido de se casar com ela, pelas leis da igreja dele. O modo de Maggy dizer essas poucas palavras vacilantes foi forçado, tenso e tão proibitivamente triste que teria evitado qualquer pedido de maiores informações, mesmo que Teddy ousasse pedi-las.

Teddy adorava a mãe, mas a temia uri pouco. A maior parte das pessoas a temia.

O hábito de mandar, de ser inteiramente responsável por um negócio próspero e crescente, tinha dado ao caráter de Maggy uma proporção formidável, que faltava a quase todas as outras mulheres de década de 40. Era uma dimensão que, se não facilitava a pessoa pensar nela como maternal, tomava fácil pensar nela como "A Chefe", como a chamavam todas as moças, a não ser quando ela estava zangada. Então, elas cochichavam umas às outras que "Maria Antonieta" estava à solta. Nesses dias, qualquer garota que tivesse engordado até mesmo meio quilo inventava desculpas para não ir à agencia, cada modelo que tinha ficado até tarde no Stork Club ou no El Morocco tomava cuidados especiais com sua maquilagem e ninguém, positivamente ninguém, se atrasava nem um minuto para qualquer compromisso.

Aos 34 anos, Maggy tinha o ar de bravura autenticamente livre da beldade famosa que era. Aos 17 anos, ela parecia ter vários anos mais do que sua idade; ela agora parecia mais jovem do que suas companheiras. O tempo só acentuara mais a linha ousada dos ossos sob sua pele esticada e ainda luminosa. Ela adquirira uma confiança em si, em seus movimentos, e as centelhas de seus olhos cor de Pemod foram avivados pelo espírito e experiência.

No escritório, Maggy se vestia com costumes pretos ou cinzentos e, no verão, costumes brancos, com um corte de uma perfeição quase desumana de Hattie Carnegie. As pérolas birmanesas que ganhara ao fazer 20 anos estavam sempre em tomo do seu pescoço, bem como um cravo vermelho fresco preso à lapela. Titania, do Saks da Quinta Avenida, desenhava os chapéus encantadores que ela usava, mesmo sentada à sua mesa, como faziam a maioria das redatoras de moda mais importantes da época. Maggy era amiga de todas; muitas vezes almoçava com uma ou outra, no Pavilion, onde Henri Soulé reservava uma de suas melhores mesas para ela, todo dia. Se por acaso ela não pretendesse ir lá, mandava a secretária telefonar, liberando a mesa.

E de noite, havia sempre Jason Darcy, seu melhor amigo, seu amante de muitos anos, seu companheiro de conspirações, o homem com quem nunca se casaria. Isso era uma coisa que nem mesmo Lally Longworth, sua melhor amiga, pudera compreender. Ela tentara explicar, Deus sabia, quando Lally a interpelara, anos antes.

- Você está inteiramente louca, Maggy Lunel? - perguntara ela. - Darcy está louco para se casar com você. O que é que a impede de aceitar?

- Ah, Lally, Lally, eu nunca posso depender de um homem. Se nos casássemos, sei muito bem o que ia acontecer. Aos poucos, inevitavelmente, eu teria de passar cada vez menos tempo no trabalho, até que um dia acabava largando o negócio e passaria a ser dona de casa para Darcy, viajando com ele e cuidando de nossas casas e empregados e nossos jantares... talvez até nossos filhos. Eu estaria em poder dele, Lally, e não quero que isso aconteça, jamais. Não posso depender de um homem para me sustentar.

Maggy tinha largado o copo e quase sacudido Lally para faze-la compreender.

- E se descobríssemos que não podíamos ser felizes juntos e nos divorciássemos? Então, diga, onde é que eu estaria? Não se pode construir um negócio como o meu e depois larga-lo e esperar que esteja às suas ordens, quando você voltar... não é possível. É muito melhor continuar como estamos... Darcy sabe que ele me tem, não há outro homem de quem eu goste. Se isso não basta para ele, sinto muito, mas não há outro jeito.

- E eu que ia dar-lhe o casamento de presente - disse Lally, num tom de decepção exagerado. Mas no íntimo ela estava horrorizada com a triste idéia que Maggy fazia do casamento. Deus do céu, se todas as mulheres pensassem com tanta nitidez sobre o divórcio antes de se casarem, a raça humana desapareceria em uma geração.

Maggy sabia que Teddy devia fazer conjecturas sobre o seu relacionamento com Darcy, mas se ela não conseguia explicá-lo bem a uma mulher de sociedade e experiente como Lally Longworth, não ia tentar torna-lo compreensível a uma adolescente. Ah, havia tanta coisa que ela não podia explicar direito a Teddy, pensou ela, com um sentimento conhecido de culpa e temor. Maggy nunca contara a Teddy que ela também era ilegítima. Inventara uma história de ter ficado órfã pequenina. Teddy, que estava absorta no Morro dos Ventos impantes, cuja bíblia passara a ser E O Vento Levou e que vira The Philadelphia Story uma dúzia de vezes, estava por demais aturdida pelo alto romance para interrogar a mãe com muitos detalhes.

Depois, havia o problema da falta de uma religião definida para Teddy. A identidade judia de Maggy nunca dependera da prática religiosa, embora ela tivesse vivido numa comunidade judaica bem rigorosa, em seus primeiros anos, e o Rabino Taradash tivesse sido seu exemplo da dignidade e sabedoria do judaísmo. Desde sua fuga de casa, não sentira qualquer necessidade pessoal de continuar as tradições específicas que, para ela, pareciam um tanto desnecessárias.

Ela sentia que era judia.., mas não sentia obrigação de ser praticante. Ela nunca mandara buscar o menorah que tinha deixado em Paris e não tinha coragem de substituí-lo.

Com anos de atraso, depois de passar a época em que teria valido a pena, ela mandou Teddy para a escola dominical da Sinagoga Espanhola e Portuguesa, no Central Park Oeste. Teddy passou uma manhã confusa, descobrindo que todos os outros pareciam pertencer àquilo e se interessando pelo que estavam aprendendo. Ela resolveu que nada a obrigaria a voltar a um lugar que fazia até as implicâncias da Elm School parecerem agradáveis, em comparação. Assim que teve idade para andar de ônibus sozinha, aventurou-se a entrar na Catedral de São Patrício, sentou-se num banco discreto e

olhou em volta, com uma curiosidade assustada.

Essa imensidão de pedra, essa caverna com leves murmúrios, de luzes azuis, vermelhas e douradas, aquelas fileiras de velas, as muitas pessoas sérias, controladas, tratando de seus afazeres com tanta confiança... o que teriam a ver com ela? Nada mais do que a sinagoga, concluiu ela não era mais católica do que judia - nem mais nem menos. A Maggy ela declarou que achava que era panteísta, ou talvez pagã, aquele que sentisse mais fortemente ao ver macieiras em flor, as irmãs Brontë, os chorões, gatos siameses, os cachorros quentes em Jones Beach e a barca de Staten Island.

- Patsy Berg tocou na coisa de um garoto! - disse Sally, com um ar de incredulidade.

- Não acredito! - disse Mary-Anne, pasma.

- Se tocou, ele deve ter forçado ela a fazer isso - disse Harriet, com o ar de alguém com uma superioridade de conhecimentos.

Teddy não disse nada. Ela daria quase qualquer coisa só para ver a coisa de um garoto. Tocar era sonhar demais. Ela percorreu os corredores do Metropolitan Museum, procurando em vão uma estátua que tivesse um pênis que fosse mais do que um arabesco de mármore, insignificante como uma decoração num bolo de aniversário. A maior parte estava quebrada, como os narizes das estátuas gregas. Ela sabia que devia ter mais, nesse mistério todo, do que revelava o museu.

Mas ela já estava com quase 16 anos e até então só um garoto a convidara para sair, Melvin Allenberg, primo em segundo grau de Harriet. Melvin era baixinho, quase pequenino, e usava óculos grossos, mas estava no último ano do colegial e, quando ele sonha, ela se dizia que havia algo no sorriso dele que lhe lembrava, por uma fração de segundo, Van Johnson, só que ele não era louro, nem alto nem bonito. Mas, por outro lado, não tinha espinhas. Quando o pequenino Melvin Allenberg tornou a convidar Teddy para ir ao cinema ela aceitou.

Desde o momento em que Melvin vira Teddy, sua imaginação viva a agarrara de um modo em que se misturavam a veneração e o anseio. A altura de Teddy só lhe parecia mais uma coisa maravilhosa nela. Sua fantasia era morar numa ilha só povoada por mulheres altas e belas, que fariam tudo o que ele pedisse.

Antes do encontro, Teddy raspou os pêlos finos e dourados das pernas, a primeira entre as amigas a fazer isso. As outras ficaram olhando, numa depressão tristonha.

- Os pêlos vão tomar a crescer, como a barba dos homens... grossos e espetantes - avisou Mary-Anne.

- Agora, você vai ter de fazer isso todas as semanas - disse Sally, com maldade - durante o resto de sua vida.

- Não posso acreditar que você está fazendo isso pelo chato do meu primo em segundo grau, Melvin, mesmo que ele tenha 18 anos... você está maluca, Teddy Lunel - disse Harriet, que era a que mais reprovava. - Sabe o que é que a mãe dele contou a minha mãe, sobre ele? Ele é esquisito, é isso. Dizem que ele tem esse Q.I. formidável, mas ele diz que não quer ir para a universidade, não se interessa por esportes, não liga para nada a não ser aquela câmara burra e aquele quarto escuro que arrumou no closet... Tia Ethel não consegue ter uma empregada decente porque Melvin está sempre importunando as garotas para posarem para ele... a empregada, pelo amor de Deus... isso é esquisito, Teddy. Um dia a minha tia encontrou uma dúzia de revistas indecentes no quarto dele. É bom tomar cuidado com ele. Pode ser que ele só chegue aos seus ombros, mas quem sabe lá o que se passa na cabeça dele?

Teddy sorriu para Harriet e começou a raspar a pema esquerda. Elas estão todas é com inveja, pensou. Nenhuma delas jamais saiu com alguém.

Ela passou o filme todo - See Here, Private Hargrove - sem ter coragem de enfrentar os olhos de Melvin, mas de vez em quando sentia que ele estava olhando para o seu perfil com algo de pensativo e sério, na atitude de sua cabeça redonda e cacheada.

Quando estavam comendo Waffles, depois do cinema, Melvin disse, com ar solene:

- Você é mesmo a garota mais linda do mundo, Teddy Lunel. - Eu sou? - exclamou ela.

- Sem dúvida alguma. - Os óculos dele brilhavam. - Sou conhecedor reconhecido de beleza feminina, pode perguntar a qualquer um no colegial. - Não acredito!

- Não interessa o que você acredita. Não tem nada a ver com o caso. Teddy corou, seus ouvidos zuniram e ela teve medo de ficar com lágrimas nos olhos. Nenhum dos elogios que ela já recebera dos adultos tinham significado alguma coisa, mas aquilo! Era impossível não saber que Melvin estava falando sério. Ele falava como se estivesse fazendo uma declaração acadêmica documentada, havia na voz dele um tom de avaliação e ela viu que, por trás dos óculos, ele tinha olhos azuis, muito grandes, muito vivos e límpidos. Todo o seu rostinho engraçado estava firme numa expressão de uma convicção total. Ele parecia um tipo de ave concentrando-se numa minhoca especialmente gorda.

- Resolvi chamar você de "Ruiva" - continuou ele. - Toda mulher bonita precisa de um apelido que a impeça de ser muito intimidante e Teddy me faz pensar em Theodore Roosevelt. Quando um cara olha para você, Ruiva, ele vê uma coisa que não acreditava que existisse, a não ser talvez numa tela de cinema, de modo que ele fica apavorado, pensando que não vai ter nada de interessante para lhe dizer. Esse vai ser um dos seus problemas, fazer com que as pessoas a tratem normalmente... fazer um contato humano comum... aliás, vai ser meio impossível. Todas as mulheres mais belas sofrem da mesma coisa. É preciso um tipo de homem especial para compreendê-las.

- Você está maluco, Melvin Allenberg.

Teddy estava dominada pelas coisas íntimas e lisonjeiras que ele lhe estava dizendo com tanta naturalidade, com tanta autoridade.

- Pense nisso, Ruiva, pense nisso - disse ele, com calma. - Um dia, quando nós dois formos ricos e famosos, você há de me dizer que eu tinha razão.

Teddy não conseguiu responder. As palavras dele, aquele displicente "um dia", tinham agido sobre ela como se fossem um raio de luz que iluminava o futuro, paisagens nem sonhadas, em que Teddy Lunel era outra pessoa que se movimentava levemente num mundo em que o impossível se tornava possível. Teddy olhou para baixo e, devagar, traçou linhas no mel, com o garfo. Com a primeira provocação calculada de sua vida, ela perguntou:

- O que é uma revista indecente, Melvin?

- Ah, então a Harriet lhe contou. Nem posso fazer uma coleção de fotografias artísticas, que a minha família logo acha que sou um velho indecente. Ruiva, eu lhe pareço um velho indecente?

- Harriet não disse que você era um velho indecente - disse Teddy depressa, defendendo a amiga. - Nem nunca falou de você, até você me convidar para o cinema.

- Bom, ela também nunca falou em você, de modo que isso está certo. Em todo caso, eu nunca a vejo.., as nossas mães têm um pacto pelo qual se evitam mutuamente.

- Harriet nunca lhe falou sobre a minha família.., o meu pai? - Não... devia ter falado?

- Bem.., ele foi membro da Brigada Abraham Lincoln.., morreu lutando contra os fascistas, na Espanha., foi um grande herói.

Melvin piscou de emoção.

- Deus, mas você deve se orgulhar muito dele!

- E me orgulho, sim. Minha mãe... ela nunca se refez disso. Ela se afunda no trabalho... suportando. É francesa, sabe. A família dela era nobre

houve um marquês que foi degolado na Revolução Francesa... depois todas as terras e dinheiro deles foram confiscados... mas o orgulho permanece. Mamãe é a última descendente... ou melhor, eu - disse Teddy, com uma voz sonhadora.

Melvin engoliu três vezes, assombrado. Não admira que Ruiva fosse diferente de qualquer garota que ele conhecesse.

- Você costuma sair muito? - arriscou ele, depois de um silêncio que pareceu um tributo conveniente ao infeliz marquês.

- Mamãe é muito severa. Só me deixa sair duas vezes por semana, às sextas e sábados. No domingo, tenho de ir dormir cedo, por causa do colégio.

Lembrando-se da hora, Melvin olhou o relógio.

- Vamos, Ruiva. Ela disse para estar em casa às 23:30. Não quero que se meta em encrencas.

A porta do apartamento de Teddy, Melvin Allenberg olhou para Teddy, que ficara estranhamente calada enquanto iam a pé para casa.

- Você já viu Jane Eyre? - perguntou ele. Podia ser baixinho e esquisitinho, mas acreditava em sempre pedir o que queria, por difícil que parecesse.

- Não - disse Teddy, que já vira o filme três vezes.

- Gostaria de ir, no sábado que vem? Se já não tiver compromisso?

- Hum... não podia ser na sexta-feira? Acho que no sábado já estou comprometida.

- Combinado - disse ele, sorrindo. Mais uma vez o seu método direto, desconhecido da maioria dos rapazes de 18 anos, lhe permitira conquistar seu objetivo.

- Obrigada por uma noite muito agradável - disse Teddy que, de má vontade, aprendera essa frase ritualística com as três amigas.

Melvin esboçou o seu sorriso tipo Van Johnson, tranqüilizado pelo convencionalismo.

- Espero que tenha-se divertido tanto quanto eu. Olhe, estou vendo que você não é do tipo de garota que deixa um camarada beijá-la antes do terceiro encontro, mas não acha que faria bem a sua alma abrir uma exceção?

Teddy não vacilou. Tirou os óculos dele e passou os braços compridos em volta dele, apertando o rosto dele em sua clavícula, com uma gratidão apaixonada. Ele se livrou dela.

- Assim, não, Ruiva! Ande, abaixe-se e fique quieta. - Ele pôs um beijo casto nos lábios dela. - Pronto! Agora, não deixe que ninguém lhe faça isso. Promete?

- Prometo - sussurrou Teddy. Os lábios masculinos eram diferentes dos femininos, espetavam nas pontas. Quem diria? Com o seu primeiro sorriso consciente de namoradeira, ela oscilou para a frente e o beijou de leve, antes de devolver os óculos. - Não conte a ninguém - murmurou ela - isso estragaria a minha reputação.

 

 

                                                           Capitulo 16

 

Você disse o que?

Bunny Altbott, companheira de quarto de Teddy em Wellesley, estava espantada. No momento em que ela achava que já estava acostumada com as extravagâncias incríveis que fizeram de Teddy um mito instantâneo entre as 400 calouras que tinham entrado para a universidade com ela, no outono de 1945, aparecia outro capricho.

- Eu só menti por três centímetros e disse que media 1,82m - repetiu Teddy, com calma, voltando do telefone no corredor. - Quando eles escutam isso, de repente perdem o interesse, a não ser que tenham 1,88m ou 1,90m. Isso elimina os nanicos.

- Por que é que você ainda aceita encontros com desconhecidos? - perguntou Bunny. - Você nem tem mais lugar na sua agenda.

- Ah, é que eles me divertem... é como abrir um presente de Natal.

Teddy falou com displicência, porque sabia que nunca poderia explicar os sentimentos de uma paixão constrangedoramente violenta que sentia por tudo na sua nova vida, cada detalhe da universidade, desde os encontros com desconhecidos até cada garota do seu dormitório. Desde o primeiro dia de aia chegada a Wellesley, ela, renascera numa embriaguez tão inesperada que de noite ficava acordada na cama, procurando explicar e explorar plenamente as dimensões da alegria sem limites que a possuía.

A vida de Teddy se tornara um intenso espetáculo de popularidade. Todas as tardes o telefone do dormitório tocava pelo menos uma dúzia de vezes para ela e a garota que atendia chegava ao fim do corredor e gritava "Lanei", com uma resignação irônica, mas sem qualquer traço de ressentimento. Em Wellesley, Teddy afinal encontrara a arena milagrosa, em que era aceitável ser diferente.

A turma dela tinha seu quinhão de garotas brilhantes, que passavam metade da noite estudando; outras garotas se dedicavam a conquistar um lugar na guarnição que remava contra Radcliffe; havia as pequenas que chegavam na universidade claramente já concorrendo à presidência da turma; moças que só ligavam para pintura, música ou filosofia e outras ainda que jogavam bridge seriamente a tarde toda, enquanto tricotavam meias de xadrez. Se Teddy Lunel se interessava quase exclusivamente pelos rapazes, quem ia se importar, contanto que ela não fosse reprovada? Ela se mostrara capaz de ser admitida em Wellesley, de modo que automaticamente era uma delas, e sua identidade era, acima de tudo, a de ser membro da turma de 1949.

O campus de Wellesley era o proscênio nobre para a epidemia de encontros marcados que se alastrou depois da distribuição do Manual da Caloura, livrinho vermelho que continha fotos de todas as alunas da turma acima de seus nomes e cidades de origem. O manual foi impresso para ajudar as calouras e a se conhecerem, mas antes de decorridas 24 horas de sua publicação, os exemplares chegaram às mãos de todos os rapazes dos campi da Nova Inglaterra, agora avolumados com a volta dos veteranos da Segunda Guerra Mundial, além dos calouros de costume.

Na segunda semana do primeiro ano, Teddy foi convidada para todos os principais fins de semana de futebol das grandes universidades, até às fé

rias de Natal; tinha uma escolha de nove rapazes para o Dartmouth Winter Carnival e, se seus estudos o permitissem, poderia ter ido jantar fora com um estudante diferente de Harvard, ali perto, todas as noites da semana.

Quando ela foi passar as férias de Natal em casa naquele ano, Maggy se deu conta de que a filha alta se tomara uma moça que atraía e tentava, mesmo quando estava parada. Na geladeira havia um monte de orquídeas de ramalhetes, cartas de amor chegavam pelo correio todas as manhãs, Teddy saía todas as noites e dormia até ao meio-dia. No entanto pensou Maggy, era melhor ser a rainha do baile dos estudantes e, ao que ela observara, uma namoradeira inteiramente sem coração e inclemente, do que ser uma moça de quem um homem poderia se aproveitar porque ela imaginava amá-lo.

Teddy passou os primeiros anos da universidade valsando, amorosa, fantasista, vaidosa, memorável como um primeiro beijo e igualmente impossível de recapturar. Ela passava de romance em romance, mudando como as marés, criando uma autêntica afetação de personalidade, enquanto sentia o

seu poder crescer. Ela começou a adquirir um sábio tipo de autoconfiança que se traduzia num ar de felicidade encantador, como se nada no mundo jamais a tivesse perturbado ou alterado. Ela passou a entrar em todas as salas com uma certeza animada de ser bem-vinda, aceitava todas as modificações como se tivessem sido planejadas para diverti-la, em seu mundo parecia não haver qualquer desapontamento, nenhum potencial para expectativas reduzidas.

Não acredito que isso esteja me acontecendo, murmurava ela para si, vezes e mais vezes, mas nunca o dizia em voz alta, pois sob todos os seus triunfos havia sempre o medo de poder de repente tornar a ser a intrusa, assim como ela de repente conseguira realizar suas fantasias de popularidade.

A realidade nunca bastava para Teddy. De algum modo, a realidade nunca conseguia penetrar em seu inconsciente de um modo que lhe permitisse tornar-se um rochedo de experiência sobre o qual pudesse basear suas emoções. Ela não passava de uma criança de apenas seis anos, quando aprendeu a transformar a realidade numa coisa mais bela, contando sua vida na escola a Maggy. Agora a realidade era tão colorida quanto ela poderia ter imaginado, mas ainda não a satisfazia. O sucesso exterior não se poderia traduzir plenamente numa imagem interior que lhe desse paz. Aos poucos, a fantasia que vivia dentro de Teddy, que lhe inspirara inventar um pai que morrera na Espanha e uma família francesa nobre para Melvin Allenberg, pôde crescer e desabrochar.

Numa partida entre Harvard e Yale, Teddy disse ao seu par:

- Meu pai foi de Harvard, sabe. Antes de morrer, ele me levava a todas as partidas de Harvard que fossem jogadas perto de Nova York. Ele estava fazendo montanhismo no Tibete quando morreu... mas conseguiu salvar todos os outros.

Em Princeton, num grupo que estava falando sobre os projetos para o verão, ela ficou nostálgica.

- Quando eu era criança, passava todos os verões no château de minha família, na Dordogne... os Lunels moram na Dordogne desde tempos imemoriais... o château tem 100 aposentos, a metade em ruínas... não vou lá desde que meu avô morreu.

No Dartmouth Carnival, ela confiou ao par:

- Você se importa se eu não for aos saltos de esqui? Sabe, meu pai morreu bem na frente da minha mãe... saltando de esqui nos Alpes, treinando para as Olimpíadas... ela nunca mais foi a mesma.

Quando a conversa passou às férias de Natal, Teddy se lembrou das suas.

Nós íamos á casa de minha avó, em Quebec. Ela sempre tinha a árvore mais alta que já vi... um pinheiro vivo, pelo menos com 10 metros de altura... e eu dançava em volta dela com todos os meus priminhos... devia ter duas dúzias deles.., não, não os vejo mais... minha mãe brigou com a família de meu pai, depois que ele morreu. Eles a culparam por deixar que ele se juntasse aos Franceses Livres, quando a França foi invadida. Ele foi morto quando derrubaram o avião dele... estava numa missão secreta especial para o General de Gaulle... ninguém nunca soube o que era, até hoje.

As histórias que ela contava nunca eram postas em dúvida; uma garota com um aspecto tão extraordinário certamente devia ter tragédia e romance em sua vida e ela só dizia essas coisas aos rapazes que não pretendia ver em Nova York, quando poderiam conhecer Maggy, quando fossem buscá-la para sair.

Maggy fazia questão de verificar os acompanhantes de Teddy, sempre que podia. Ficava tranqüilizada com o desfile sempre diferente de rapazes de sobretudos caros, que parecem ter caras tão limpas, ser tão respeitosos e essencialmente inocentes. Não passavam de crianças, pensou ela, e inofensivos.

- Não há dúvida de que há segurança nos números - disse ela a Lally Longworth. - Fico mais feliz por ver Teddy sair com dezenas de rapazes, em vez de um ou dois. E ela os trata a todos tão mal... Não a compreendo mais... se é que algum dia compreendi. Sei que agora é tarde, ela já saiu de casa para ir para a universidade, mas não me sinto tranqüila, é como se eu tivesse perdido contato com ela... como se faltasse uma batida de coração... Fico pensando que devia haver alguma coisa que eu devesse ter feito para ser mais íntima de Teddy, conhece-la melhor. Ela me intriga, Lally, e no entanto dei-lhe tudo o que podia... teve o meu amor, tem uma casa confortável, sempre foi muito bem tratada, eu lhe comprei as melhores roupas... ah, não sei mesmo...

- Metade das mães que conheço diz o mesmo das filhas - disse Lally, complacente, falando de dentro da fortaleza imperturbada de sua vida sem filhos, coisa que pouco lamentava, e que lhe dava o direito de aconselhar as amigas sobre o modo de educar os filhos. - Depois que vão para a universidade, passam a ser estranhas. Você tem certeza mesmo de que não há ninguém de sério na vida de Teddy? Ela vai fazer 20 anos breve. O que é que você estava fazendo com essa idade, eu me pergunto?

- Passava os dias provando roupas... e vivendo como mulher - disse Maggy, pensativa. - Na França, a gente ficava adulta tão mais depressa. Ou talvez fosse a década dos 20... não sei, mas todos os rapazes que saem com ela me parecem que mal deixaram os cueiros. Ainda estão tateando na vida. Teddy me garante que esses rapazes nem sequer esperam... quanto mais tentam... fazer amor com ela. Você acha que isso é verdade mesmo?

- Claro que é! De que é que você está falando, Maggy Lunel? Rapazes direitos nunca esperam fazer amor com garotas direitas.

Tudo depende de sua definição de direito, pensou Maggy, lembrando-se de como o frenesi das guitarras havaianas mexiam com o seu sangue, lembrando-se da loucura do céu vermelho de Montparnasse, lembrando-se da melodia de uma Java que tinha o dom de fazer com que uma garota de 18 anos ficasse encabulada com sua virgindade, lembrando-se de uma noite de primavera em que 500 pessoas tinham uivado de prazer ao ver o seu corpo nu.

Mas Lally Longworth tinha razão, pelo menos quanto á segunda metade da década de 40, aquele período profundamente conservador. Uma grande maioria das moças da turma de 1949 de Wellesley ficaram virgens até o casamento e, nessa época da provocação, Teddy Lunel foi responsável por mais dores na virilha do que qualquer outra garota dos arredores de Boston. Ela fora mais influenciada do que pensava pela profunda desconfiança que Maggy tinha dos homens.

Alguns de seus namorados preferidos tinham o direito de passar horas beijando-a, esfregando-se nela freneticamente nos bancos de trás dos conversíveis ou nos sofás de salas escuras em clubes ou grêmios, procurando atingir o orgasmo através das roupas que separavam os dois corpos, pois Teddy nunca permitia que qualquer deles abrisse a braguilha, ou enfiasse a mão por baixo de suas saias. Ela triunfava sobre o desejo deles recusando-lhes qualquer alívio, a não ser o que podiam conseguir sem ela parecer notar. Nenhum deles tinha a calma necessária para perceber que Teddy também tinha um orgasmo, com facilidade, sem um som ou movimento que pudesse perceber, produzido magicamente apenas pela pressão de um pênis rígido preso dentro de um par de calças, um orgasmo secreto que podia acontecer até numa pista de dança. Ela nunca lhes concedia a intimidade que o conhecimento disso provocaria e, por sua crueldade com eles, recebeu o tributo de seus pedidos de casamento.

Teddy não era indiferente aos homens que a amavam, mas em algum lugar dentro dela havia uma profunda falta de interesse pelo sofrimento deles. Ela estava tão apaixonada pela idéia de sua popularidade que nunca se apaixonou por nenhum homem individualmente. Essa sensualidade inacessível, despreocupada, distante, era como algumas gotas d'água para homens que queriam saciar a sede; aquilo os deixava alucinados, muito mais alucinados do que se ela lhes tivesse recusado os beijos que dispensava com tanta generosidade. Sentir os bicos de seus seios através do vestido, abraçar tanto a sua fragrância desarrumada, fazer seus lábios incharem com beijos demais, mas parar aí como que diante de um muro de ferro...

- Eu só espero, Teddy Lunel - dissera um deles, com raiva - que um dia alguém a faça sofrer como você me faz sofrer.

Ela assumiu um ar digno e de pesar, mas sabia que isso nunca poderia acontecer.

Embora o sexo antes do casamento fosse raro, nas grandes universidades nos fins da década de 40 beber era normal. Na primeira partida de futebol americano a que Teddy compareceu no estádio de Harvard, ela fora iniciada, com um copinho de papel do forte ponche de rum que era contrabandeado para as arquibancadas num dos baldes vermelhos de incêndio, que em geral ficavam nos corredores de Eliott House. Os baldes deveriam ser enchidos de areia para jogar em cestas de papéis em chamas, mas a maior parte das vezes serviam como coqueteleiras ou poncheiras.

Depois do jogo, todos foram de festa em festa, provando as várias misturas fatais e suculentas, baseadas no gim mais barato existente, servidas em cada suíte. A bebedeira era uma maneira normal de se acabar uma noite de sábado, nas universidades principais, mas Wellesley era um campus inteira

mente da lei seca. Uma vez houve boatos de uma única festa com cerveja, em Munger, oferecida por uri grupo conhecido como As Onze Nojentas, mas ninguém acreditou, pois o risco era grande demais; expulsão imediata para quem bebesse no recinto da universidade.

Teddy adorava beber. Adorava mesmo. Havia poucas sensações melhores do que a mudança de perspectiva que só o álcool podia produzir, aquela sensação repentina de que o mundo afinai era compreensível e que estava ao alcance de suas mãos. Teddy estudou, porque isso era essencial, passeou e bebeu durante os três anos na universidade, cada qual mais memorável do que o anterior.

Numa tarde de domingo, no outono de seu último ano, cinco membros de um conjunto vocal de Harvard, os Dunster Funsters, foram para Wellesley de carro, a fim de visitarem Teddy. Foram passear pelo campus famoso por sua beleza e, depois que resolveram não dar a volta ao lago a pé, Teddy lhes mostrou o Arboretum, uma coleção de árvores raras, escondida, pouco explorada, atrás do prédio de ciências. Parte do Arboretum é um bosque de pinheiros, maravilhosamente aromáticos, o solo coberto por centímetros de folhas caídas, escorregadio e macio. Instintivamente, eles abaixaram as vozes e diminuíram o passo. Pareciam ter chegado a um lugar que não era mais Wellesley, que não era ligado às tones góticas, nem ao forte sentido de propósito que sempre pairava sobre aquele belo campus, por mais preguiçoso que fosse o dia.

- Quer beber, Theodora? - perguntou um dos rapazes, puxando um frasco do bolso e sentando-se debaixo de uma árvore.

- Harry! Você está maluco?

- Nada como uma boa genebra no ar puro.., ande, aqui não tem ninguém, só nós, e você sabe que somos inofensivos, que pena.

- Não ouse! - gritou ela, mas os rapazes já estavam passando o frasco. Da primeira vez que lhe ofereceram, Teddy recusou, mas logo, sob a influência calmante do aroma das folhas de pinheiro e a suavidade temporã do ar de princípios de outubro, ela ousou aceitar um golezinho. Depois outro e depois um terceiro. Harry tinha toda a razão quanto a beber ao ar livre, aquilo estimulava os sentidos que não eram exercidos direito, se a pessoa não fizesse parte da natureza. E, ah, que felicidade, que felicidade mesmo é fazer parte da natureza, pensou ela, tomando um bom gole de uísque de um segundo frasco.

- O gin tem um cheiro ruim, o bourbon é forte demais, o rye é horrível, mas quem inventou o uísque escotes foi um homem bom e verdadeiro - declarou ela. Sentia que tinha feito uma descoberta importante.

- Robert Garves sobreviveu às trincheiras da Primeira Guerra Mundial bebendo uma garrafa inteira de uísque escocês, todo dia - disse-lhe Luther, companheiro de- quarto de Harry. - Eu me arranjo com menos de metade disso.

- E você nem sabe escrever - disse Harry.

- Mas sei cantar, não sei, Harry?

- Luther, você sabe cantar, nós todos sabemos cantar, diabos, nós todos devemos cantar, diabos!

E cantaram mesmo, a princípio baixinho, harmonizando suavemente. com baladas antigas, as vozes tão baixas que ainda se ouviam os pássaros. Teddy deitou-se e ficou escutando, numa nuvem de prazer. Como era bom! Uma por uma, cantaram todas as especialidades dos Funsters. Realmente, pensou ela, não seria mais que justo que Harvard me desse um diploma, quando esses rapazes se formarem... sou tanto parte da turma deles quanto eles. Quando começaram a cantar canções de futebol americano, nenhum notou que suas vozes agora estavam soando fortemente no bosque de pinheiros. Teddy cantou com eles, mas sua voz era abafada pelas vozes dos rapazes, de modo que ela se levantou e fez uma daninha maluca. Os cinco Funsters aplaudiram, com entusiasmo.

- Mais, Teddy, mais!

- Cantem a canção de Yale... aí eu danço mais.

- Nunca.

- Traidora... você é uma traidora do Rubro, Theodora.

- Cantem a canção da Notre-Dame - insistiu Teddy, saltitando maldosamente.

- Que diabo... não jogamos com os irlandeses... dêem a Notre-Dame à moça... sem essa, Teddy, sem essa!

As vozes deles se ergueram na canção de guerra de Notre-Dame e Teddy pulava como uma estrela cadente, um demônio cativante de bermudas, arrepiantemente graciosa e muito, muito bêbada.

Foi durante o seu bis de Baco, executado num estrondoso final da Marinha, Beat the Army, Beat the Army Grey!, que o professor de Filosofia de Teddy e a mulher, passeando por ali, entraram no bosque de pinheiros.

Dois dias depois, Teddy partiu de Wellesley, de vez. O caso dela fora investigado e resolvido com as devidas formalidades, mas nunca houve dúvida alguma quanto ao desfecho. O pecado era grave demais.

Na estação de Back Bay, Teddy acenou pela última vez a todos os Funsters, tristes e culpados, que tinham ido se despedir dela na estação. Mas quando o trem aumentou de velocidade, nos arredores de Boston, ela enfiou a cabeça quente e dolorida nas mãos e pensou: sua vaca burra, vaca burra, VACA BURRA! "Minha culpa, inteiramente e positivamente minha culpa, eu sabia! Estava pensando que podia me safar com qualquer negócio? Pensei que era invulnerável? Idiota, idiota, idiota maldita, idiota! Perdi tudo, tudo perdido, tudo, chutada do paraíso para todo o sempre... nunca mais serei feliz." Ela teria gemido alto, mas estava no carro salão repleto de passageiros. Ela nunca sentira um desamparo tão paralisante. Todos os temores que a haviam assediado, todos os pressentimentos de que a vida era boa demais para ser verdade, que nada de tão maravilhoso podia durar, se juntaram num bolo que se avolumou em seu peito e lhe subiu à garganta.

Teddy ficou sentada quieta durante três horas, atormentada pelo sofrimento, mergulhada em recriminações enquanto o trem viajava pela estrada que ela percorrera em tanto triunfo para ir a Brown, Yale e Princeton. Durante todo o percurso para Hartford, ela ficou olhando pela janela, sem ver. Por fim, animou-se o suficiente para pedir um sanduíche e café. Enquanto comia, olhou em volta do carro salão pela primeira vez, desde que entrara ali.

A princípio seu olhar foi indiferente, sem pensar, sua mente não processando o que seus olhos viam; mas, depois de alguns minutos, ela focalizou a vista, reduziu sua concentração. O carro salão estava cheio de homens de negócio e para onde quer que olhasse encontrava aprovação. Mais do que aprovação, havia um interesse intenso, havia um convite franco, havia fascinação. Teddy sentiu o primeiro ligeiro alívio da dor que estava sentindo desde aquele momento no bosque de pinheiros, em que o Professor Tompkins tinha parado de repente e dito, sem poder acreditar:

- Srta. Lunel!

Algum instinto fez com que Teddy se levantasse e caminhasse pelo vagão

até ao banheiro. Ela empurrou a porta, impaciente, e olhou para seus olhos no espelho rachado sobre a pia. Fosse o que fosse que estivesse sentindo por dentro, não se achava nada diferente do que como se sentia dois dias antes. Ela se firmou contra as paredes, balançando com o trem, enquanto cada quilometro a levava mais para perto de Nova York e a confrontação com Maggy, que ela receava com um medo tão grande que nem podia começar a encarar.

Você tem de fazer alguma coisa, disse ela para si, séria, olhando-se no espelho. Não pode apenas aparecer e dizer que três anos entraram pelo cano. Tem de ter algum plano para o futuro, alguma idéia de como pretende levar a vida. Três anos para um diploma de História não adianta, no mercado de trabalho... mas não posso chegar em casa sem um plano. Não me resta nada senão o meu rosto, é só isso. Mas estarei certa?

Mentalmente, Teddy repassou todos os comentários que jamais ouvira Maggy fazer, enquanto olhava as fotos dos modelos, de noite, em casa. Havia já sete anos que Teddy deixara de passar muito tempo na agência da mãe, sete anos em que estivera absorta em si mesma, sete anos em que toda uma geração de modelos se retirara, sendo seu lugar tomado por caras novas, sete anos em que ela mal olhara as revistas de moda, a não ser para ver os exemplares anuais dedicados à moda "volta a escola". Mas nunca se esquecera dos requisitos indispensáveis para um rosto de modelo. Quantas vezes ela ouvira Maggy repeti-los, enquanto abandonava fotos e mais fotos?

Olhando-se no espelho, desesperadamente, ela correu a lista, o coração batendo cada vez mais depressa. Maçãs do rosto definidas; olhos afastados; um nariz com uma forma definida, mas nem grande nem pequeno demais; cabelos com que se pudesse fazer qualquer coisa; pele boa; dentes perfeitos; um pescoço bem comprido; queixo pequeno, bem definido; maxilares largos; testa sita; boa linha de cabelo; um rosto não apinhado... sim, ah, sim, tinha tudo isso. Sabia que era mais do que suficientemente alta, sempre tinha sido bem magra... mas seria fotogênica?

Teddy sabia que só a câmara podia decidir aquilo. A pergunta importante, se a soma de todas as partes, por melhor que fosse, daria um rosto interessante, em duas dimensões, sem a terceira dimensão da profundidade e sem o auxílio do colorido, nunca poderia ser resolvida só pelo olho. Maggy nunca se permitia ser otimista demais com o potencial de uma modelo nova, até ver as fotos de teste, pois muitas garotas não saíam tão bem nas fotografias quanto eram pessoalmente, assim como algumas das melhores modelos eram estranhamente pouco interessantes em carne e osso.

"Não, não posso ter certeza mesmo", pensou Teddy, voltando ao seu lugar, "mas pelo menos é alguma coisa a tentar, alguma coisa que mamãe pode aprovar... ah, sua burra idiota, a quem é que você está enganando?

Se ela quisesse que eu fosse modelo, por que não havia de mencioná-lo? Para que havia de me mandar para Wellesley?" Mas era melhor se agarrar a uma

paina do que a nada.

Depois de sua decepção, depois de sua raiva, Maggy de repente se fez uma pergunta. Por que afilha fora tão castigada? Fora uma tal vergonha beber no campus, quando, com a idade de Teddy, ela estava vivendo em pecado com um homem casado e tendo uma filha natural? Um pouco de perspectiva histórica, por favor, disse ela consigo mesma, séria. Disso, como dizia o Rabino Taradash, as criancinhas não morrem. E seria uma boa disciplina para Teddy experimentar o trabalho de modelo.

As garotas Lunel eram um regimento de infantaria, trabalhadoras, motivadas e não estragadas. Ninguém, olhando para as fotos de modas e anúncios para que elas posavam, poderia adivinhar a imensa fibra, energia e disposição para suportar o desconforto que representava essas imagens frívolas.

Com algumas exceções caprichosas, toda modelo de sucesso ia dormir cedo, para descansar oito horas e se preparar para o dia difícil que teria pela frente. Sem tolices, profissional, e com o bom humor possível, ela se levantava cedo, para estar pronta pontualmente para o primeiro compromisso; a pontualidade era de importância vital para os redatores, clientes e fotógrafos, que esperavam que todas as modelos chegassem, maquiladas e prontas para trabalhar, na hora certa. O senão de responsabilidade era a virtude irmã da pontualidade; uma modelo não cancelava um compromisso por nada menos do que uma internação em hospital, e mesmo que se sacudisse de fadiga entre as tomadas, nunca deixava isso transparecer quando a câmara estava apontada para ela. O tédio era coisa que ela aceitava corno parte do dinheiro que ganhava: agora até 40 dólares por hora para algumas das melhores.

Quarenta dólares por hora. A quantia ainda espantava Maggy, embora ela lutasse para aumenta-la ainda mais. Em Montparnasse, quando ela chegara lá, a modelo de pintor comum trabalhava pelo equivalente de 60 cents, por três horas de pose. Claro, depois que Paula cuidara dela, tinha ganhado o dobro, 40 cents por hora por ficar nua num estúdio sem calefação, no meio de um inverno parisiense. Ela conseguira viver com isso, até pagar o aluguel, comprar roupas, usar um cravo fresco todo dia... até mesmo sustentar Julien Mistral durante uma primavera perfeita e inesquecível. Maggy parou e procurou se imaginar de volta na pele daquela moça. Em que ela pensava, como é que ela se sentia? Os lampejos da recordação eram vívidos, o resto estava perdido.

Ela deu de ombros. Ainda devia haver modelos de pintores, coitadas, mas as suas garotas que posavam para fotos de lingerie ganhavam o dobro do que as que só trabalhavam em moda, embora pagassem caro por isso, em perda de status. Suas melhores garotas se recusavam até a posar de camisola e roupão. Pelo menos nenhum Julien Mistral da fotografia podia mandar que Teddy tirasse as calcinhas. Nisso havia algum consolo.

Maggy pensou na questão do fotógrafo a quem Teddy devia ser mandada para suas fotos de teste. Normalmente, ela não se preocupava mais com esse tipo de decisão. Tinha 22 funcionários e entre eles havia seis que podiam ter resolvido o assunto com um telefonema. Maggy sabia, claro, que estava sendo superprotetora, mas essas fotos eram vitais. Se fossem decepcionantes, o futuro de Teddy como modelo desapareceria. Se fossem boas, seriam usadas para o primeiro "composto" de Teddy, uma colagem de fotos de 20 x 25cm, que seria seu cartão de visitas, passaporte e documento de identidade provisório até ela conseguir com esforço, durante meses, construir uma pasta de uma série de fotos, o seu "livro" que levaria para toda parte, para poder ser mostrado a redatores de revista, agencias de publicidade e fotógrafos.

De repente, Maggy, que estava acostumada a endurecer seu coração para as ambições, esperanças e sonhos de mil garotas por ano, Maggy, que nunca adotava o ponto de vista da modelo até ter as fotos para ver, que falariam mais alto do que qualquer voz humana, viu que estava tão ansiosa para tem as fotos como se ela mesma estivesse tentando entrar no negócio. Ela se imaginou folheando as fotos de teste de Teddy, imaginou-se pesando e considerando os méritos de Teddy com os de... ah, digamos, aquela grande modelo, Sunny Harnett, que tinha o queixo e nariz muito salientes para beleza, que, vinha a boca larga demais, mas que possuía um sorriso que levava a pessoa liem para a página com ela, um sorriso de uma alegria tão pura que se transferia ao leitor; Sunny Hamett projetara uma rajada loura de elegância de Souampton, que parecia estar ao ar livre e correndo atrás de uma bola mesmo quando estava sentada. Teddy teria essa energia? Maggy, com toda a sua perícia, viu que a única coisa prática que podia fazer para ajudar Teddy era trabalhar em sua maquilagem precária, que servia para a universidade, mas nem de longe para a fotografia.

Com, Toni Friseli, Horst, Rawlings, Bill Helbum, Milton Greene, Jimmy Abbee, Roger Pringet - ela poderia pedir um favor a qualquer desses grandes fotógrafos, mas enquanto revia os nomes deles, mentalmente, ela sabia que não ia poder resistir a pedir a um dos três fotógrafos que considerava mais talentosos no mundo: Avedon, Falk ou Penn. Mas era a temporada das coleções em Paris e nessa estação, especialmente Avedon, cuja estrela subira tão depressa nos últimos anos, estava lá, representando Bazaar, e Penn estava em Paris, pela Vogue. Assim, teria de ser Falk, pois Maggy não podia suportar esse suspense, mesmo que Teddy pudesse.

Aquilo era como estar numa carreta a caminho da guilhotina, pensou Teddy, ou de pé na borda do trampolim mais alto, olhando para o círculo de fogo na água embaixo. Ela ficou parada, gelada de constrangimento, do lado de fora de uma cocheira reformada onde ficava o estúdio de Falk, entre a Lexington e a Terceira Avenida. Já passava das 17:00, numa tarde de Sexta feira, e a rua estava cheia de gente saindo apressada de seus empregos, com o fim de semana acenando.

Estava fazendo um tempo de futebol, percebeu Teddy, tremendo ah na brisa, e ela devia estar a centenas de quilômetros de distância dali, vestindo-se para um encontro - ah, Dunster, Leverett, Winthrop e Eliott! Ela murmurou uma fórmula cabalística dos nomes das famosas residências de Harvard no Rio Charles - era ali que ela deveria estar! Em vez disso, estava toda emproada e polida, escovada, pintada e vestindo roupas novas, desde os sapatos até o penteado, tão perfeita como a mãe conseguira torná-la. Nunca estivera mais bonita e sabia disso, mas saber não a ajudava.

Suas pestanas estavam cobertas de rímel, que lhe era estranho, a pele coberta de pó, base e ruge, aplicados com perícia, e os cabelos tinham acaba

do de ser penteados por Elizabeth Arden. Maggy tinha preparado Teddy na elegância adulta e impecável do New Look de Dior, escolhendo um costume de flanela cinza, apertado, de jaquetão, com lapelas de veludo preto. O casaco era bem apertado na cintura, os quadris exageradamente arredondados por um forro de entretela sobre uma saia reta que chegava a poucos centímetros acima dos tornozelos. Teddy estava com sapatos pretos de antílope, de saltos altos, um chapeuzinho de veludo preto com um véu que chegava até debaixo do nariz, e luvas de pelica cinza claro. Debaixo da blusa nova e cara, a despeito do antiperspirante que aplicara afita três vezes, desde de manhã, ela estava começando a suar, nervosa. Ela tocou a campainha. Talvez o movimento a fizesse ficar enxuta.

Falk concordara em tirar as fotos de teste da nova garota de Lunel, contanto que ela fosse depois que ele tivesse acabado com as tomadas da semana. Se Dora Mazlin, a principal contato, da agência de Maggy, não tivesse telefonado pedindo esse favor pessoal à secretária de Falk, ele nem se teria dado ao trabalho de arranjar uma hora, mas essa secretária devia um favor a Dora, por sua ajuda em emergências anteriores. Todos só fotógrafos, mesmo os solicitados como Falk, de vez em quando precisam de uma excelente modelo em cinco minutos e Dora era o canal competente.

A porta foi aberta, quando Teddy tocou, por uma mulher pequena e alegre.

- Você é a nova garota de Lunel, certo? Pode entrar.

Teddy olhou em volta da sala de espera. Havia um ambiente de um conforto displicente, mas não existia nada de excepcional na sala, a não ser as fotos nas paredes.

- Posso olhar? - perguntou ela á secretária, pois estava nervosa demais para ficar parada.

- Claro, á vontade.

Teddy foi de uma foto a outra, ficando mais tensa a cada minuto. Ela sempre dava um pouco mais de atenção a fotografias de moda do que as outras moças da sua idade, mas aquelas fotos eram como sonhos que revelam um outro mundo que se parece com o real, porém místicamente acentuado, mais significativo, cheio de um poder mágico. Ela reconheceu vários rostos, a maior parte das modelos era da Lunel, mas certamente nenhuma das moças que ela conhecia jamais fora tão interessante. O olho da câmara apanhara um milésimo de segundo de uma revelação de personalidade. Por trás das belas feições, Teddy podia captar o ser intimo de cada modelo. Aquelas não eram simples fotos de modas, eram retratos plenamente realizados de mulheres pensando seus pensamentos mais pessoais.

- Escute - disse a secretária, de repente - se eu demorar mais, vou-me atrasar para o meu encontro. O telefone hoje não vai mais tocar, de modo que vou embora. Pode dizer a ele que eu o vejo segunda de manhã, bem cedinho?

Ela pegou o casaco e saiu, batendo a porta atrás de si, acenando rapidamente.

Teddy sentou-se na beira de uma cadeira na sala de espera vazia. Além da porta aberta, ela via uma parte do estúdio bem iluminado. Durante 20 minutos, quase insuportáveis, não aconteceu nada. A cocheira estava sossegada, com aquele silêncio especial do fim de tarde da sexta-feira, que diz tão claramente que o trabalho está terminado por aquela semana. Poderia haver algum engano? Será que ela estava ali sozinha?, pensou Teddy, afinal.

Por fim, vacilando a cada passo, Teddy se levantou, rígida, e se arriscou a entrar no estúdio, parando pouco depois de passar pela porta. Procurou tirar as luvas apertadas, que pareciam estar grudadas em suas mãos. Não havia onde sentar, nada na sala a não ser um clarão intenso de luzes, à espera, uma câmara sobre um tripé e uma folha de papel virginalmente branco, estendido por uma das paredes e espalhados no chão. Transpiração, sim, positivamente mais transpiração, pensou ela, com horror, escorria pelos lados de seu corpo, por baixo de sua nova cintinha de cintura. Ela se deu conta de que não estava respirando e respirou fundo duas vezes.

- Há alguém aí? - perguntou ela, numa vozinha trêmula. Não teve resposta. De repente a porta do quarto escuro se abriu toda e um homem saiu, com uma folha de papel na mão e olhando para ela. Ele a olhou de relance. - Já vou atende-la - disse ele, olhando para o papel de testa franzida.

Depois, tornou a levantar os olhos e largou a foto molhada, olhando bem para ela do outro lado do mar de papel branco.

- Ruiva?

Teddy deu um salto e apertou os olhos, mas não podia vê-lo claramente.

- Ruiva!

A expressão do rosto de Teddy mudou e se tomou tão complicada como o momento que precede uma tempestade de primavera. Ela pisou com firmeza no papel imaculado e deu um grande passo à frente, protegendo os olhos.

- Só uma pessoa na vida me chamou de Ruiva e foi um pulha de um filho da puta que me levou a sete cinemas, me ensinou a beijar enfiando a língua e depois me largou sem uma palavra de explicação.

- Ruiva... posso explicar.

- Ah-ah! - Galvanizada, esquecendo-se de sua aflição e nervosismo, Teddy deu cinco passos rápidos para a frente e agarrou a camisa dele. – Morri de chorar por sua causa, seu chato! Pensei que era um fracasso total, durante meses fingi para minha mãe que estava farta de você, disse a sua prima que você tinha-se metido a engraçadinho... por que nunca mais me ligou, Melvin Allenbert?

- Você sentiu mesmo? - perguntou ele.

- Ah, mas que merdinha você ficou! Agora quer se deleitar com o meu sofrimento. Isso é nojento! Em todo caso, o que você está fazendo aqui?

- Serão.

- Então, conseguiu arranjar trabalho num estúdio de fotografia, afinal... a ovelha negra dos Allenbergs... aposto que a sua mãe ainda está furiosa.

- Ela se adaptou.

- Onde está esse Falk? Já estou aqui há meia hora - disse Teddy, autoritária.

- Eu sou Falk.

- É merda nenhuma.

- Está vendo mais alguém aqui?

- Prove.

Melvin Allenberg começou a rir.

- Ah, Deus, Ruiva, você não muda.

Teddy não tinha largado a camisa dele e então tentou sacudi-lo, mas por mais que tentasse, não conseguiu fazê-lo mexer. Sólido como um toucinho, ele deu gargalhadas diante dos esforços dela, enraivecendo-a tanto que ela ficou com lágrimas nos olhos. Ele levantou os braços, puxou os dela para baixo e os prendeu ao lado do corpo.

- Vamos subir.., moro por cima da loja. Vou-lhe dar todas as provas que quiser.

Ele soltou Teddy e saiu depressa do estúdio para a ante-sala. Ela o acompanhou, começando a acreditar nele por causa do jeito como se movia. Na segurança displicente de seu andar, havia o gesto inconfundível que revela a propriedade e quando ela subiu a escada atrás dele e viu a sala grande, que parecia ter sido feita de todo o segundo andar da cocheira, viu logo que ele estava em casa. A sala assentava a Melvin Allenberg. Era desarrumada e completamente tomada pelas enormes ampliações de fotos de mulheres lindas, algumas nas paredes, algumas pelo chão, outras empilhadas nos cantos. Havia dúzias de livros abertos, uma mesa continha um monte de revistas de um metro de altura e os sofás e poltronas baixos eram todos estofados em couro verde-escuro.

- Quer beber alguma coisa? - perguntou ele, indo para junto de uma bandeja repleta de garrafas e copos, sobre uma velha arca.

- Uísque com gelo, mas isso não vai melhorar a sua situação, Melvin Allenberg.

- Melvin Falk Allenberg.

Teddy apertou os olhos, sem comentários, de um modo que o deixava saber que estava sob suspeita. Ele serviu as bebidas para os dois e sentou-se numa poltrona ao lado do sofá, debruçado para a frente, os cotovelos nos joelhos e as mãos dobradas sob o queixo. Olhou para Teddy, calado, durante um tempo.

- Tire o chapéu - disse ele, por fim.

- O que?

Ela estava indignada.

- Tire o chapéu... não gosto desse véu, não posso vê-la direito.

- Eu ainda nem sei se vou ficar - disse ela, com o que esperava ser um sorriso inteiramente sem vida, um sorriso como nunca esboçara na vida, nem conseguiria fazer no futuro. Ela recuperara a valentia que três anos de brincadeiras, sem oposição, com os maleáveis corações masculinos lhe tinham dado. - Ainda nem sei se vou permitir que cite minhas fotos de teste. Tudo depende do motivo pelo qual você nunca mais me procurou. Não me importa a mínima que seja rico e famoso, seu sacana, tal e qual você disse que seria. - Eu disse que nós seríamos - respondeu ele.

- Lembra-se? Depois de cinco anos?

- Lembro-me de tudo. Quando nos conhecemos, você estava entrando em sua fase destruidora. Embora eu só tivesse 18 anos, vi isso acontecendo,

certo como o nascer do sol, e não quis ser a sua primeira vítima... já era bem ruim ser o seu primeiro triunfo. Portanto, dei o fora quando vi que mais um encontro, mais uma daquelas sessões de beijos alucinados, de pé junto à sua

porta, me liquidariam e provavelmente para toda a vida. - Ele se calou, depois acrescentou: - Não é preciso dizer que eu estava errado. Já era tarde demais para minha própria preservação.

- Humm.

Teddy já tinha ouvido antes esse tipo de declaração, em todas as suas variações, mas havia nas palavras dele uma paciência sofrida e um tipo de aceitação calma mais convincentes do que as frases mais apaixonadas. Ele continuou a examiná-la, enquanto ela tirava o chapéu com cuidado e passava os dedos com arte pelos cabelos, redistribuindo as ondas bem-feitas, até a luz dançar no meio daquela confusão de vermelhos.

Teddy bebericou seu uísque, que teria sempre o gosto do perigo, e retribuiu o olhar fixo dele. Melvin Allenberg tinha amadurecido bem. Ainda conservava a cara de pássaro, com seu nariz bicudo e óculos enormes, mas seus olhos grandes e vivos dominavam o rosto com uma inteligência impregnada com o tipo de energia que é a essência do próprio encanto. O rosto dele era um rosto completo: os anos apenas confirmariam sua forma, o queixo firme, a testa larga, o halo crespo de cabelos escuros. Ela nunca se esquecera da boca dele, a primeira que ela beijara. A inteligência e a fantasia estavam estampadas em seus lábios bem formados, como se ele fosse um feiticeiro.

- Imagino... - começou ela, com um tremor nos cantos da boca que mostrava que estava disposta a perdoá-lo. Então ela parou, afetada por uma recordação repentina. - E eu que estava pretendendo convidar você para a festa de formatura, da próxima vez que estivesse com você. Ah! Quando você nunca mais apareceu, fui orgulhosa e não lhe liguei.

- E todos aqueles outros caras com quem você saía?

- Resolvi não convidar nenhum deles... e não fui. Perdi a festa - respondeu ela, triste.

Ele de repente se levantou, cobriu o espaço entre eles, sentou-se no sofá, pegou-a com firmeza e a beijou na boca.

- Ah, minha Ruivinha, meu amorzinho, desculpe... devia ter telefonado, mas o que é que eu podia dizer? Naquela época, não havia como explicar... eu era burro demais para saber as palavras certas.

Com ternura, ele tirou o batom dela com o lenço e tomou a beijá-la. Nos braços dele, ela sentia que ele era sólido como uma árvore, os lábios dele eram conhecidos. Os lábios de Teddy tinham sido beijados mil vezes nos últimos anos, mas a memória senhorial recapturou o seu contato, gosto e calor especiais; no entanto, ele estava tão mudado, diferente, de um modo que ela repentinamente entendeu, com alegria. Ele era um homem e a beijava como homem, não como garoto. Teddy chutou fora os sapatos e se deitou no sofá, de olhos abertos, olhando para a luz rosada de um crepúsculo de Tiepolo refletida no teto. Ela suspirou, deliciada, e deixou que ele levantasse seus cabelos da nuca e a beijasse atrás das orelhas. Eles nunca tinha-se beijado sentados, pensou ela e, como criança caprichosa, fugiu dele e esfregou o nariz no dele, com força.

- Amigos? - perguntou ele, ansioso.

- Eu te perdôo. Só por causa dos velhos tempos - resmungou Teddy, satisfeita.

Ele passou as mãos pelo paletó elegante que ela usava, uma peça tão forrada e com barbatanas que ficava em pé sozinha.

- Tantos botes - reclamou ele, começando a desabotoá-los com cuidado - entre mim e a minha pequena.

Para Teddy, a tentativa de desabotoar um único botão era como um sinal de alarme imediato, mas ela o permitiu porque a blusa debaixo do paletó a protegia com mais uma fileira dupla de botoezinhos de tafetá. Dali a pouco ela estava deitada no sofá, com sua blusa complicada e saia nova, flutuando, se elevando e se fundindo sob o tumulto dos beijos dele. Ela ficou sem respiração. Essa coisa tão repentina, essa falta de preparação, de namoro, essa brevidade; a percepção de estar sozinha na casa com ele, não num grêmio, rodeada por uma dúzia de casais se beijando, de repente lhe pareceu perigosa, até ela olhar para o rosto de Melvin. Então, se descontraiu de novo. Ele tinha tirado os óculos e lhe parecia tão querido e tranqüilizador, que ela voltou a mergulhar no rio de suas carícias, gostando da inebriante sensação de poder que sempre sentia quando o homem que a estivesse beijando ia-se excitando cada vez mais, quando o ritmo de sua paixão se acelerava e suas pulsações também. Mas Melvin então fez uma coisa que nunca lhe acontecera em seus trás anos de bolinação dedicada. Ele a levantou do sofá, sem qualquer aviso prévio, e a carregou com facilidade por uma porta que ela não notara antes e que dava para seu quartinho de dormir.

- Melvin! - protestou ela, esperneando como louca. - Pare com isso! O que pensa que está fazendo? Eu nunca me deito nas camas dos rapazes!

- Há sempre uma primeira vez e eu não sou rapaz - disse ele, a voz abafada de amor mas decidida.

Teddy lutou para se levantar de cima da colcha, mas ele era tão for te que era como lutar contra uma corrente enquanto dos, ele ficou beijas, doa onde podia, as pontas dos dedos, o queixo, a raiz dos cabelos, os olhos, um hábil incendiário acendendo mil fogueiras. Muitos minutos depois, quando ela estava ardendo da cabeça aos pés, ele começou a desabotoar os boiões da sua blusa. Ela fez um protesto débil. Suas muralhas de feno de confiança, além das quais nenhum homem podia penetrar, pareciam ter desmoronado e Teddy viu-se sem barreiras.

Isto não está acontecendo, pensou ela, enquanto ele lhe tirava a blusa e abria o cós da saia, puxando-a pelos pés. Quando as mãos quentes dele desabotoaram a cintinha de cintura e libertaram seus seios, quando {       a quente se colou aos bicos, esses bicos virgens, imaculados, q sido tocados em sua nudez, ela pensou, de novo: não, não está acontecendo. Mas logo, quando ele os reduziu a pontinhos brilhantes de sensação com sua boca, ela pensou: talvez afinal esteja acontecendo, sim. Quando viu Melvin Ailenberg, despido, comprimindo todos os centímetros rijos de seu corpo nu, quando sentiu o pênis dele, saltando como um peixe, na sua barriga, ela viu que afinal, e positivamente, devia estar acontecendo, e que, mesmo sem acreditar, ela estava preparada. Deitados, eles se encaixavam como se fossem da mesma altura. Melvin foi supremamente lento, tremendo para se controlar, incrivelmente paciente, mas impiedoso. Ele a possuiu centímetro por centímetro, possuiu Teddy Lunel tão completamente que a deixou sem segredos. E, afinal, aliviada de sua bagagem de castidade rígida, ela ficou deitada ao

lado dele, contente e agradecida.

 

 

                                                 Capitulo 17

 

Eram 150 vestidos de primavera de Molyneux, cada qual com suas luvas pintadas para combinar. Estranho, os detalhes que lhe vinham à mente sempre que ela estava nervosa, pensou Marietta Norton, enquanto o Constellation Lockheed atravessava as nuvens e o sol aparecia - isso devia ter sido em 1933.

A sócia principal da revista Mode respirou aliviada, quando o avião se equilibrou. Ela nunca confessava a ninguém, mas tinha pavor de andar de avião e a decolagem de Idlewild tinha sido difícil, naquela ventosa manhã de setembro de 1952. Ela pensou com saudades nos tempos em que publicar uma revista de modas ainda era um processo razoavelmente civilizado, aqueles anos em que todo mundo embarcava no Normandie para ir à França, ver as coleções: de primeira classe, cinco dias de patê, caviar, champanha e uma oportunidade de refazer o espírito. Mas agora ela precisava andar aos trancos e barrancos pelos céus horríveis, como se não fosse nada de especial.

Aquela viagem à França, por exemplo, para ver as roupas de férias do ano seguinte, que apareceriam em 12 páginas do exemplar de janeiro - poderia ter sido feito perfeitamente nos Hamptons, em sua opinião; afinal, todas

as roupas eram de desenho americano. Mas não, Darcy insistira numa produção em grande escala.

- Marietta - dissera ele, com aquele seu ar de grand seigneur que nunca deixara de aborrecê-la - estamos sempre adiante da Vogue e Bazaar porque não temos medo de fazer as coisas com toda a força. Parece que Vogue está cobrindo as férias em Portugal e você vai à França por Mode. Não vamos mais falar a respeito.

Marietta Norton tinha dado de ombros. Era uma velha discussão entre eles e ela não ganhava nunca.

No entanto, ela sabia que era a redatora de modas mais experiente do ramo e Darcy a admirava do único jeito que ela queria ser reconhecida, que era pagando-lhe generosamente num setor em que os ordenados em geral eram reduzidos. Deus sabia que, depois de 30 anos nó mundo na moda, ela só trabalhava pelo dinheiro que lhe permitia mandar as quatro filhas para os melhores colégios e não pelo prazer do trabalho. No que lhe dizia respeito, a graça desaparecera havia muito, tão completamente quanto o abrigo de rigor de Lanvin, com ombros cheios de raposa prateada, e os almoços para duas pessoas por dez dólares no Colony, e a festa de circo de Cobina Wright, e vestidos compridos para as corridas de tarde, e a Sra. Harrison Williams fantasiada de crinolina como a Duquesa de Wellington para o Baile da Ópera de Chicago.

Tinha havido coleções de Paris demais e páginas de roupões de Natal fotografadas em julho, e viagens de táxi aos solavancos para a Sétima Avenida, e almoços que a faziam engordar com os fabricantes que anunciavam em Mode, e dias em que tinha de procurar as palavras certas para comunicar que a moda virara outra página e agora as mulheres tinham de jogar fora o velho e adotar o novo, em que a própria Marietta Norton não ligava a mínima para o que usava e, o que era pior, isso era aparente e ela bem o sabia.

Como muitas das melhores redatoras de modas, Marietta Norton era desmazelada e não se envergonhava disso. Passara a maior parte da vida examinando todas as roupas do mundo ocidental e decretando quais eram as melhores; tinha um instinto para a escolha que, se fosse de uma mulher jovem, esguia e muito rica, teria garantido para essa mulher um lugar na lista das Dez Mais Elegantes, mas Marietta Norton nunca tinha tempo, interesse nem energia para gastar escolhendo coisas para si. O pior, refletiu ela, é que era baixa e gorducha, o tipo de mulher que os ingleses sempre diziam que "parecia uma cozinheira", embora nem os ingleses, aparentemente, tivessem mais cozinheiras.

No entanto, ela contava com essa viagem para produzir páginas de férias que fariam com que o material da Vogue em Portugal parecesse sem graça, se é que não aparecesse alguma das pragas que costumam atormentar as viagens ao exterior.

Bill Hatfield, o fotógrafo esguio e irreverente, era, na sua opinião, um dos rapazes de mais bom gosto no ramo. Berry Banning, sua assistente, parecia de uma eficiência fora do comum até então, embora ela não pudesse ainda pôr a mão no fogo por ela, até voltarem para Nova York sem incidentes. Muitas vezes as garotas de seu ambiente endinheirado, de Locust Valley, Bar Harbor, Spence-Chapin, não tinham os predicados necessários para vencer no mundo das revistas.

O único detalhe que não estava inteiramente satisfatório, para Marietta, era o corte de cabelos da modelo. Ela lançou um olhar raivoso para as costas da cabeça de Teddy. A incomparável Srta. Lunel, com seus malditos olhos maravilhosos, se recusara firmemente a deixar que lhe cortassem os cabelos no novo estilo de pétalas de crisântemo. Era o penteado da década, Marietta estava convencida disso, mas quando é que Teddy Lunel fazia alguma coisa contra sua vontade?

Ela nunca tivera de ceder, desde o primeiro dia em que começara a trabalhar, quatro anos antes. Assim como Norman Norell e Mainbocher, os dois astros dos figurinistas que tinham tanto poder que só deixavam suas roupas serem fotografadas se lhes fossem dadas quatro páginas - inteiras, com exclusividade, a cada um. Teddy Lunel era a fanica modelo viva que nunca era fotografada com outra modelo. No entanto, provavelmente era melhor assim, pensou Marietta, perdoando a Teddy sua teimosia quanto aos cabelos, já que mesmo a melhor das outras modelos parecia... bem, talvez "diminuída" fosse o melhor meio de exprimi-lo, ao lado de Teddy.

Aquela era a sexta vez que Marietta tinha usado Teddy para a Europa.

Ainda na primavera anterior, elas tinham ido juntas a Paris para as Coleções de Outono, e se algum dia alguém tivesse parecido tão supremamente linda, de quebrar os corações, como estava Teddy no chapéu de filó preto e rosas de Balenciaga, o filó esvoaçando no preto como açúcar cande, ela queria muito saber, pois teria sido um milagre. E onde é que estava a comissária de bordo com o seu martíni, perguntou-se ela. A viagem de Nova York a Paris, um vôo de 18 horas, com paradas para reabastecimento em Gander, na Islândia, só Deus sabia onde, e de novo em Shannon, era pelo menos uma viagem de oito martinis... se ao menos alguém não lhe tivesse dito que os momentos mais perigosos são a decolagem e o pouso, ela poderia ter-se contentado com uns dois ou três.

Bill Hatfeld não precisava beber. Fora piloto da marinha na guerra e podia embarcar em qualquer aviso comercial, adormecer antes da decolagem e acordar a tempo do pouso.. , contanto que estivesse com seus três amuletos, aqueles que mantinham o aviso no ar. Ele estava contente porque Marietta, mulher sabida, como ele nunca vira, o tinha contratado para aquela viagem. As coisas estavam engrossando, lá no estúdio. Sue afinal se mudara e, se cumpria a promessa, estava providenciando para que o advogado dela se encontrasse com o dele para resolverem o divórcio. Tudo muito bem. Mas Monique estava pretendendo mudar-se para lá e Elsa também. Será que ele teria mesmo sugerido isso a ambas? Elas pareciam achar que sim. O único problema em ser fotógrafo de modas eram as garotas. Garotas formidáveis, ele nunca conhecera uma de quem não gostasse - era essa a dificuldade. Mas pelo menos durante essa viagem, ele não estaria correndo perigo - já tivera sua oportunidade com Teddy Lunel.

De soslaio, ele a observou, debruçada num livro. Tinham sido os seis meses mais maravilhosos de sua vida, quando ela deixou de ser namorada de Falk, três anos antes, mas com Teddy, quando acabou, acabou mesmo, estava terminado, morto, sem brasas nem lembranças. Ela não olhava para trás, aquela. Ele se perguntou quantos casos ela tivera, depois dele. A mística da promiscuidade sexual era como uma capa de veludo em que ela se envolvia com um sorriso que podia mandar o sujeito para o inferno. No entanto, ele sobrevivera... ou quase.

Ele pensou nas outras modelos que poderiam estar fazendo essa viagem com a turma da Mode. Havia Jean Patchett, cujas sobrancelhas eram desenhadas por um mestre em caligrafia, cujo sinalzinho de beleza redondo e preto, logo acima do olho direito, era o sinal de beleza mais famoso na história da fotografa. O aspecto de Patchett era a sofisticação levada aos limites extremos... errada, para o tipo de fotos que ele pretendia bater. Dovima, com seu rosto ardente, cabelos pretos e olhos azuis, teria sido uma boa escolha para vestidos de baile, mas ele não podia imaginá-la usando roupas de férias. Lisa Fonsegrieves, com sua beleza lunar, seu rosto de princesa de porcelana, aquele narizinho arrebitado espirituoso e cabelos louros e cacheados... sim, ela teria sido maravilhosa... mas ainda assim, um pouco menos perfeita do que Teddy. A fanica outra possibilidade fora Suzy Parker. A pessoa pensava que não era possível nascer uma garota mais linda do que Suzy... até olhar para Teddy.

Estranho como a beleza se divide em dois planos. Havia os 150 modelos em Nova York, que eram a nata das moças mais bonitas em todo o país, e havia a meia dúzia entre essas 150 que se haviam separado da turma e estavam isoladas, cada qual uma campeã maravilhosa, com sua própria beleza especial, e depois havia Teddy Lunel. Ele nunca ouvira melhor descrição dela do que uma de que se lembrava ter lido na universidade: "Ah, tu és mais bela do que o ar da noite, trajando a beleza de mil estrelas", uma frase de Marlowe que, por algum motivo, ficara em sua cabeça, observador profissional da beleza que sempre fora, mesmo antes de ser fotógrafo. Podia-se somar todas as peças, mas ainda não se podia exprimir a harmonia misteriosa de sua beleza sem recorrer à poesia.

Bill Hatfeld estava satisfeito por trabalhar com ela, embora não houvesse nada da camuflada corrente de potencial sexual entre eles, que certamente haveria se ele estivesse trabalhando com uma modelo com quem ele ainda não tivesse dormido.

Teddy tinha um jeito de nunca parecer a mesma, que tornava o trabalho dele uma aventura em criatividade mútua, em vez de um processo técnico. Cada vez que trocava de roupa, Teddy assumia a vida de outra mulher, uma mulher que um dia compraria aquele determinado vestido e com ele encontraria um homem que se tomaria o grande amor de sua vida, uma mulher que se lembraria, até morrer, o que estava usando naquele determinado momento.

Como é que ela conseguia fazer aquilo ele nunca entendera. Uma sensação de existência autêntica, nada menos, é o que Teddy produzia para a câmara. No entanto, afinal era para isso que ela ganhava 70 dólares por hora, mais do que qualquer modelo no mundo. E valia todos os cents.

Onde, pensou ele, estava a comissária com o seu martíni? O bom de se voar em avises comerciais era que a gente podia beber sem se preocupar com sua coordenação. Pousar num porta-aviões com álcool na corrente sangüínea nunca fora coisa recomendável... embora já tivesse sido feito, e por ele mesmo, pensando bem.

Berry Banning estava empolgada demais para notar a instabilidade do ar, quando eles decolaram. Para ela, aquela era a missão mais importante, desde que entrava para Mode, três anos antes. Nunca estivera numa viagem de trabalho no exterior, na Europa, e suas responsabilidades eram apavorantes. Marietta resolvera as roupas, claro, e todas tinham sido experimentadas em Teddy, antes de partirem, mas Berry era a encarregada de todos os detalhes, dali em diante.

Ela fizera toda a arrumação complicada, de referencia, de 12 malas grandes, de modo que cada conjunto estava com a grande variedade de sapatos, bolsas, jóias, lenços, chapéus, meias de náilon e óculos escuros que Marietta Norton exigia para uma pose de modas.

Como Diana Vreeland, da Bazaar, e Babs Rawlings da Vogue, Marietta Norton encarava cada fotografia como se fosse uma forma de arte. Mesmo quando pretendia fotografar apenas um chapéu, fazia questão de que a modelo estivesse usando um perfume que completasse o estado de espírito do chapéu, estivesse com sapatos que lhe servissem perfeitamente, luvas brancas impecáveis e meias novas. Sabia amarrar uma echarpe para insinuar cem variações de moda, com um gesto transformando qualquer modelo de uma apache a uma Gainsborough. Brincava com os acessórios como um decorador de teatro, mas Deus que ajudasse sua assistente se Marietta não tivesse escolha suficiente. Se perdesse uma única mala... Um deslize desses, mesmo que fosse culpa do carregador, e nunca mais ela confiaria em Berry. Marietta Norton, a quem ela idolatrava, sem dúvida poderia improvisar alguma coisa, pois nunca houvera uma viagem de Marietta Norton ao exterior que não fosse um sucesso, mas a sua carreira morreria antes de chegar a nascer direito e não havia na vida nada que ela desejasse a não ser um futuro no mundo da moda.

Desde menina, Berry Banning tinha guardado todos os exemplares da Vogue, Mode e Bazaar e, recentemente, da Charro, Glamour e Mademoiselle, estudando suas páginas como se fosse seu único livro de orações e ela fosse uma freira num convento.

Nunca lhe ocorrera que o modo de vestir de uma mulher pudesse ser uma expressão legítima da própria personalidade da mulher, que dependia de seu ponto de vista sobre a vida. A moda, para Berry, era a lei e os seres mais felizes eram aqueles, como ela, que tinham dinheiro suficiente para viver sob essa lei, que se podiam dedicar a realizar todas as variações sutis de seus ditames maravilhosamente inconstantes. Ela nunca parava de tentar ser digna da alta moda. Ela passava horas olhando-se no espelho de corpo todo, infeliz, sem conseguir atingir a expressão gelada e eternamente irônica de um distante amor-próprio que aparecia nas páginas das revistas, como se as modelos estivessem perguntando: "Eu sirvo?" e dando a resposta secreta: "Claro que sim" Todo vestido dela era exatamente o que ditava Mode; um triunfo de arquitetura, construído com o mesmo cuidado que uma ponte, insistentemente feminino, criando uma linha de cintura fina, decotada, de saia larga, que parecia natural desde que a pessoa não estivesse presa dentro dela.

Mas, infelizmente, Berry Banning tinha cabelos de menina rica, castanhos e sem direção, o tipo de cabelo que só fica bem puxado para trás e preso por um diadema. Pior, tinha membros de menina rica, formada por genes de gerações de Bannings atléticos, e era forte demais para as elegâncias de boneca de papel quase vitorianas do New Look. E, pior, que tudo, tinha obstinadas feições de menina rica, boas mas simples, bastante agradáveis, mas francas demais para se prestarem a modificações pelo uso de cosméticos.

Ela sempre tinha a mesma cara, pensou Berry, com um desespero conhecido, fizesse o que fizesse. Ela evitava olhar para Teddy, que estava sentada apenas uma fila adiante. Já ia ser bem ruim ter de olhar para ela durante dez dias inteiros de trabalho. Ela já trabalhara várias vezes com Teddy, embora só um dia de cada vez, em vários estúdios de Nova York, e já conhecia a terrível enxaqueca que sempre tinha depois de um dia desses, quando voltava para casa e via o próprio rosto no espelho.

Não era que tivesse inveja de Teddy nem ciúmes, disse para si mesma, escrupulosamente - aliás, gostava realmente dela - mas apenas não parecia justo que duas garotas da mesma idade tivessem as mesmas coisas no rosto, como olhos, narizes e lábios, mas com resultados tão completamente diferentes. Era como se Teddy pertencesse a uma forma de vida totalmente diferente. Como podia ser, quando ela acordava de manhã, e se olhasse no espelho para aquele rosto - e saber que era dela? Oh, onde estava a comissária como seu martíni?

Sam Newman, assistente de Bill Hatfield, estava observando Berry Banning, disfarçadamente. Cristo, mas ele adorava aquele tipo de mulher! Peitos bonitos e cheios, pemas lindas, compridas e bronzeadas do verão, o tipo de risada que continha a segurança em si que nascia nos ossos, uma risada rica como ela mesma. Na sua vasta experiência, não havia trepada tão satisfatória como a com uma garota rica parecia que elas gostavam mais, decerto porque não importava muito quando trepavam com o assistente e não com o próprio fotógrafo, de modo que elas se soltavam e se divertiam. Ele tivera casos com garotas ricas das equipes de todas as publicações do ramo e também dos departamentos de modas de todas as revistas femininas e as preferia às modelos; já tivera muitas modelos também, embora, claro, nada como Teddy Lunel.

As moças ricas eram muito menos neuróticas do que as modelos, por exemplo: preocupavam-se menos em ter de dormir cedo; apreciavam mais a comida; bebiam melhor; muitas vezes insistiam em pagar a nota, porque sabiam perfeitamente que ele ganhava pouco, e todas se sentiam culpadas porque nenhuma tinha, de viver do ordenado que ganhava. Ah, mas ele gostava das roupas de baixo delas, imaculadas, e dos sapatos bem-feitos e os cabelos limpos e sem complicações, e de seus corpos fortes e ardentes, desenvolvidos com anos de aulas de natação, esqui e equitação. Um dia ele teria o seu estúdio e se casaria com uma garota boazinha, feia, grata e rica e tema um monte de filhos ricos. Enquanto isso, que diabo, onde é que estava a comissária com o seu martíni?

Teddy largou o livro, recostou-se e fechou os olhos. Deixou sua mente encher-se com o ruído forte do avião, aquelas vibrações barulhentas e conhecidas que ainda lhe davam uma grande sensação de liberdade, embora ela já tivesse ido à Europa de avião uma dúzia de vezes, desde que começara a trabalhar de modelo. Num certo plano, ela se sentia como se ainda estivesse trabalhando em Nova York, sua cabeça cheia dos pensamentos vagos dos detalhes que constituíam a trama de sua vida

Havia os táxis, até 12 ou mais num dia. Metade dos choferes de praça de Manhattan a conheciam, por ser generosa nas gorjetas e porque seu vulto, sempre correndo de um prédio para o meio-fio, numa pressa terrível, carregando sua imensa sacola Lederer, já era notório; e paravam imediatamente quando ela dava seu assobio que penetrava pelo tráfego.

Dentro do táxi, com o espelho de aumento agarrado com firmeza entre os joelhos, ela punha uma maquilagem diferente, ou um par de pestanas postiças, entre um compromisso e outro. Se tivesse um minuto sobrando, tentava arrumar a bolai da qual ela vivia Esta certamente fazia tudo menos dar leite, pois estava ehela de seu estojo de cosméticos, suas perucas, seus três tipos de sutiã, sua coleção de combinações para usar sob qualquer tipo de vestido, seu próprio sortimento de echarpes, luvas, e jóias para as poses de publicidade em que não houvesse redator de acessórios, seus três pares de sapatos de feitios e altura de salto diferentes, para a ocasião em que ninguém se lembrasse de arranjar sapatos do tamanho de seu pé.

Claro que para um trabalho como o dessa viagem ela só tinha de levar um batom e suas próprias roupas, pois Marietta e Berry tenham fornecido tudo o mais, mas o dia normal de trabalho sempre tinha pelo menos uma emergência. Co n o sol batendo em seu rosto, pela janela do avião, Teddy lembrou-se de uma viagem a Nassau, com Michelene Swift, a maravilhosa modelo suíça, e John Rawlings, o fotógrafo. Ele apostara com as duas que, se pudessem relacionar ó conteúdo de suas bolsas sem olhar, ele darla 100 dólares a cada uma e, como vantagem, permitia que se esquecessem de 30 artigos. As duas tinham

perdido longe.

Ela suspirou e tentou se esquecer da rotina de sua vida, mas o sol em suas pálpebras só a fazia pensar nas luzes de um estúdio. Sempre que ela olhava no espelho era para fazer um exame de rotina da textura de um tecido usável. Seu rosto não era mais do que uma máquina que ela possuía, uma máquina que só tinha um espaço de vida certo e limitado.

Ela teria dançado até tarde demais no St. Regis Roof, na véspera? Se tivesse, naquele dia teria de ir para cama às 21 horas, sem considerar o que tivesse programado. Ninguém continuaria a pagar 70 dólares por hora a Teddy binei se houvesse a mais leve sugestão de fadiga sob seus olhos.

Alguém que tivesse inveja será que algum dia pensava no custo de conservar a fachada? As horas de tratos, o despertador tocando todo dia às 630, os hambúrgueres frios que tinham de ser comidos às pressas, por causa do poder que lhe davam de se manter sobre suas pernas cansadas até dez horas por dia? Era a exaustão que afinal acabava com essa vida, a exaustão que levava a pessoa a esperar sem muito medo aquela primeira ruga. Mesmo que uma modelo tivesse perdido o pai, se estivesse se divorciando, ou se acabasse de descobrir que estava grávida, quando não deveria estar, ainda assim ela tinha de estar plenamente presente para a câmara. Só a câmara interessava. Será que alguém compreendia, além de uma outra modelo, que não pode haver narcisismo num negócio que exige uma concentração total sobre o que modo que fotógrafo quer de você, além de uma falta total de constrangem você se esquece de si durante horas, dando o seu ser a ele, movendo-se constantemente enquanto despeja energia pura? Era quase como uma dança, quando ia bem, mas, Deus do céu, era tão infinitamente cacete!

No entanto, comprava a liberdade. Seu ordenado semanal era de quase 3.000 dólares, havia vários anos; ela se mudara de seu primeiro apartamento

zinho, onde pela primeira vez escapulira do controle de Maggy, para uma elegante série de aposentos na Rua 63 Leste e se ela se conservasse em forma,

não havia motivo por que não continuasse a trabalhar nesse ritmo por mais uns três ou quatro anos, ou talvez mais, dependendo de como o seu rosto agüentasse.

"Mas seria isso que ela queria?" Quando ë que ela se comprometera com aquilo? Teddy fizera 24 anos na primavera anterior e, ao que soubesse, não havia uma colega do tempo de universidade que não estivesse casada a essa altura, sem pelo menos um filho. Ela não queria isso, pensou Teddy, ou pelo menos não exatamente isso, não um monte de filhos nos subúrbios. Mas também sito queria acabar como a mãe, ainda consumida, começando a sentir-se um pouco ameaçada por algumas das novas agencias

abertas no fim da década de 40, como Ford, Francês Gill e Plaza 5.

Quando o ruído dos motores mudou e se estabeleceu, Teddy desejou estar fazendo essa longa viagem sozinha. Ultimamente nunca parecia haver tempo para ficar sentada, olhando para o céu, sonhando. Os dias se sucediam tumultuados, inteiramente cheios de obrigações e compromissos. Toda noite, quando ela voltava do último compromisso, telefonava para a agência para saber o que faria em cada hora do dia seguinte.

Então, se não estivesse tão cansada que precisasse ir dormir cedo, ela se apressava para tomar banho, vestir-se e sair para o Stork Club ou "21" ou I'Aiglon ou Voisin, para jantar com algum dos 20 homens que podia chamar à última hora. Não havia ninguém com quem ela tivesse vontade de fazer amor, havia, ah, uns dois meses ou mais, pensou ela, desanimada. Por que os homens eram todos tão iguais?

Naquele verão, ela passara vários fins de semana em Connecticut ou Long Island, onde todos os grupos pareciam ser os mesmos, no fim das contas. Teddy não achava mau perder esses fins de semana quentes na cidade, se bem que pudessem ter seu encanto especial... ah, mas só se você estivesse amando e a cidade parecesse se esvaziar só para você. Ou melhor, só se você pensasse estar amando, refletiu Teddy, com tristeza. Ela quase acreditara estar amando algumas vezes em sua vida, mas isso nunca se realizara, nem mesmo com Melvin, seu querido Melvin, de quem ela ainda gostava, mas por quem nunca se apaixonara, por mais que tentasse.

Aquilo tinha durado um ano inteiro e não havia amigo mais querido, nem amante mais terno, mas Melvin nunca se encaixara em seu sonho, embora se aproximasse aflitivamente, tanto que, quando ele se deu conta de que o tipo de amor dele e o tipo de amor dela nunca iam combinar, ficara tão terrivelmente infeliz que tiveram de se separar.

Cada vez que ela se envolvera a sério com um homem, pensou Teddy, houvera um momento em que ela se dera conta de que parecia uma estranha num país estrangeiro, que quer pagar com uma moeda que não é aceita. As moedas de suas emoções, de que pretendia viver, se revelavam sem valor. Ela podia procurar nos bolsos, esvaziar a carteira, como-se estivesse num pesadelo, más nunca parecia encontrar a quantidade certa de..: ah, de fosse o que fosse que era preciso para estar amando, de verdade. O seu maior medo, tão profundo que ela nem o articulava, era que alguma coisa dentro dela, algum vazio incurável, já a tivesse condenado a inspirar o amor, mas nunca senti-lo.

As fantasias mais exageradas de Teddy já tinham sido realizadas, várias vezes. Ela tivera tudo o que o alto mundo da moda poderia oferecer, mais adulação e atenção numa média de oito horas de trabalho do que qualquer noiva no dia do casamento. Mas, cada vez mais, ela sentia vir à tona uma criança há muito abandonada mas não satisfeita, uma menina tímida que queria que tomassem conta dela, que ansiava por um homem vagamente percebido mas todo poderoso, de quem pudesse depender. Teddy escarnecia do seu próprio absurdo. Ela ganhava mais dinheiro do que quase todos os homens que conhecia... mas, recentemente, vários de seus dias pareciam urna longa e aborrecida tarde de domingo.

Ela se levantou de repente, alisando o casaco branco de pele de cabra, cortado exatamente como uma camisa de homem, usada por cima de calças de flanela cinza. Ela olhou para as outras fileiras de cabine da primeira classe do Constellation, e sacudiu a cabeça para os companheiros de viagem, com ar severo.

- Imagino que vocês todos nem se importam - disse ela - mas eu gostaria de saber o que aconteceu com o meu martíni. Vou procurar em comissária. Alguém deseja alguma coisa, já que estou de pé?

Julien Mistral estava pousado na borda do trampolim. Seu corpo vigoroso e bronzeado só era dividido pela faixa fina. de biquíni elástico que os homens vinham usando, na Europa, nos últimos, quatro anos. Ele estava com 52 anos e suas proporções heróicas eram as de um homem de 30. Tinha os músculos de pintor, as pernas firmes e sólidas de um homem que passa a vida de pé diante de uma tela ou andando pelo estádio, e os braços o costas bem desenvolvidos de qualquer homem que maneje um instrumento, seja um pincel ou uma enxada.

       O ar de um cavalheiro treinado no andar de cavaleiro, que ele adotara com tanta altivez em sua juventude, não mudara com os anos de uma fama sempre crescente e uma competência maior. Porém a arrogância que demonstrara com a pose da cabeça, aquele ar de conquistador, não era mais vista como arrogância, e sim o sinal evidente de um gênio reconhecido. O pescoço se tomara um tanto mais grosso, havia rugas fundas em volta dos olhos e outras que iam do nariz adunco à boca; no entanto, o extraordinário clarão azul que fora aprisionado em seus olhos não mudara de fixidez nem intensidade. Seus cabelos espessos, de um ruivo escuro, eram cortados curtos, nas têmporas estando quase grisalhos, e a boca continuava dura, dominadora, intransigente. Mistral tinha uma cara de chefe de bando.

       Ele parou antes de mergulhar na piscina, construída dois anos antes, e olhou em volta, as mios nos quadris. Franziu a testa e pareceu se esquecer do convite da água, naquele dia quente de setembro de 1952, enquanto escutava os ruídos em volta. O silêncio cheio de zunidos, aquele paraíso de abelhas que antes rodeava La Tourrello, tinha desaparecido há muito, quase desde o primeiro dia em que Kate comprara a fazenda e organizara um batalhão de construtores, bombeiros e eletricistas.

       Agora, novos ruídos invadiam o ar da Provença; a um quilometro de distância, os carros passavam com freqüência na estrada para Apt, onde antes eram raros; um trator roncava e moía num campo distante, onde há pouco tempo os homens trabalhavam com as mãos; de vez em quando o avião de Paris a Nice passava bem em cima; na cozinha da mas as vozes dos três empregados se elevavam numa disputa repentina, preparando-se para o jantar que Kate planejara para aquela noite. A porta do Citro6 de Kate se fez ouvir, do outro lado da casa, quando ela a bateu com força e deu uma partida rápida, indicando que, como de costume, descobrira antes da festa que algum detalhe fora esquecido, tomando necessária uma viagem de última hora para acertá-lo. Enquanto Mistral estava ali, concentrando-se sobre todos os barulhos que estavam corroendo a paz de seu campo, não ouviu os passos leves que se aproximavam cautelosamente pelo trampolim.

- Papai! - gritou uma voz de criança, bem atrás dele.

- Merde! - Sobressaltado, Mistral deu um pulo, escorregou, desequilibrou-se e caiu na piscina.

Três meses depois de voltar para a França, Kate Mistral descobriu que estava grávida de novo. Ela tivera vários insucessos durante o casamento, mas Mistral não ficara especialmente decepcionado. Jamais quisera um filho, como outros homens querem. Os filhos, ele teria dito, se tivesse pensado a respeito, perturbam, tomam tempo, provavelmente nos decepcionam e são certamente motivo de interrupções imperdoáveis.

Ele tinha ficado ressentido diante da necessidade de se preocupar com a nova gravidez de Kate, com a idade ridiculamente velha de 43 anos. Ele queria toda a atenção dela, para restabelecer a ordem na mas. Nunca mais pretendia lidar com coisas práticas e quando Kate chegou, na primavera de 1945, suas duas valises cheias de sabonete Ivory, Kleenex, papel higiênico, café solúvel, agulhas, linha, lanternas elétricas e açúcar branco, luxo inimaginável na França havia cinco anos, ele respirou aliviado. Ele só queria desaparecer em seu estúdio ao raiar do dia e se esquecer dos aborrecidos problemas da existência diária. Um filho complicaria sua vida... mas ela, com certeza, ia abortar de novo. Os homens comuns precisam de filhos para provarem a si mesmos que existiram e deixaram alguma coisa sobre a face da Terra. Mistral sabia que ele era imortal e que um filho não acrescentaria nada ao seu lugar na história da arte.

No entanto, quando Kate deu à luz, em fevereiro de 1946, uma menina magrinha, solene e de cara meio azeda, ela ficou tão orgulhosa de si que até mesmo Mistral sentiu certa sensação de participar da felicidade dela. Kate chamou a menina de Nadine e tranqüilizou Mistral, desmamando-a logo e se restabelecendo em poucas semanas.

Nos anos seguintes, a capacidade de organização de Kate foi posta a duras provas. Jean Pollison voltou da Alemanha sem vários dentes, esquelético de desnutrição, mas recuperou-se depressa e La Tourrello foi a primeira fazenda do Lubéron a tornar a florescer, graças ao dinheiro de Mistral, que Kate gastou tão prodigamente, assim que houve alguma coisa à venda depois da guerra. Foi importada uma ama suíça para tomar conta de Nadine, enquanto Kate tratava da nova explosão de interesse por Mistral.

Já em 1946, a França estava novamente cheia de negociantes americanos loucos para ver o que tinha sido feito durante a guerra e o estúdio de Mistral continha mais telas que ele considerava dignas de serem vendidas do que jamais contivera: todas as pinturas que ele fizera durante os cinco anos depois

de completada a série Les Oliviers.

       - Já teve notícias de Avigdor? - perguntou Kate a Mistral, logo depois de sua volta.

       - Não, resolvi trocar de agente - respondera Mistral. - Aquele homem sempre se interessou mais em descobrir novos talentos do que em conseguir os melhores preços para os artistas a quem deve seu sucesso. Por que é que ele nunca abriu uma filial americana, eu lhe pergunto? Só imo já me custou muita coisa. Meu contrato com ele expirou durante a guerra... aproveite-se disso.

       Conforme Mistral sabia que aconteceria, Kate obedeceu sem mais perguntas. Desde o princípio de seu casamento, Mistral percebera que, desde que ele permitisse que ela tivesse poder em certos setores, Kate ficaria satisfeita. Qualquer negociante teria de ligar com Kate antes de chegar sequer perto de Mistral. Ele não estava abdicando de sua autoridade, permitindo que Kate escolhesse uma nova galeria, pois era o tipo de negócio necessário que ele detestava, no mesmo plano de ter de lidar com os fazendeiros vizinhos, que estavam começando a formar uma cooperativa à qual todos venderiam suas uvas. Um pintor escolhendo um marchand, disse ele a Kate, era como um elefante tirando um piolho de estimação. O negociante por quem Kate afinal se resolveu, Étienne Delage, de Nova York, Paris e Londres, logo descobriu que Julien Mistral era a exceção da regra de que a maioria dos pintores só ficam ri. cos na cova.

       Quando o Museu de Arte Moderna de São Paulo fez sua grande exposição de Mistral, em 1948, ele não se deu ao trabalho de fazer a viagem, se bem que Kate fosse para lá com semanas de antecedência, para supervisionar a instalação das telas. Um ano depois, ela foi a Nova York, para a inauguração da grande retrospectiva de Mistral, no Museu de Arte Moderna, porém, mais urna vez, Mistral preferiu ficar em casa. Em 1950 e 1951, ele afinal deixou-se convencer a comparecer às importantes exposições do Stedelijk Muscum, de Amsterdã, do Kunsthaus de Zurique, o Palazzo Reale de Milão, e as comemorações de dois meses do 259 aniversário de sua primeira exposição comemorado com unia mostra que ocupou toda a Maison de Ia Pensée Française, em Paris.

       Uma vez terminado isso, Mistral declarou que nunca mais iria a outra exposição em museu, por mais importante que fosse. Detestava o tipo de confraternização e etiqueta nessas ocasiões, detestava os montes de estranhos que achavam que, como gostavam da obra dele, tinham o direito de lhe falar sobro suas reações a determinadas obras.

       - Picasso, aquele charlatão, aquela praça pública de todo tipo de arte, sem excluir panelas, ele que anime os bajuladores. Eu tenho mais a fazer do que agir como mestre de cerimônias num circo.

       Ele manteve-se firme em sua resolução, mas cada exposição - e cada grande leilão de arte - marcou um aumento impressionante em seus preços.

Étienne Delage descobriu, como Adrien Avigdor descobrira antes dele, que a própria raridade dos quadros de Mistral tomava-os excepcionalmente valiosos. Depois de vendidas as suas pinturas do tempo da guerra, ele passou a ficar com a maior parte de suas obras novas que sobreviviam à sua fogueira anual, mas, apenas em 1951, ele ganhou o equivalente a um quarto de milhão de dólares, em moeda americana, sem precisar se desfazer de mais de meia dúzia de telas.

Em fins da década de 40 e princípios da de 50, cada vez mais jornalistas iam a Félice e entre as muitas dezenas a quem era negada a entrada a La Tourrello, houve um tão importante que Kate afinal conseguiu convencer Mistral a conceder uma entrevista, relutante. Os historiadores de arte que estavam escrevendo livros sobre ele, turistas que queriam seu autógrafo, estudiosos que estavam fazendo monografias sobre a obra dele, colecionadores que achavam que poderiam convence-lo a lhes vender um quadro quando Delage não tinha nada a oferecer - todos esses visitantes não convidados à mas teriam sido igualmente aborrecidos a Mistral, e ela o protegia deles. Mas não havia nada tão perturbador, que desviasse tanto a sua atenção, quanto o interesse crescente de Kate em receber.

Talvez fosse a piscina, construída por uma companhia especial de Cannes, pensou Mistral, que a lançara, mas o fato é que nos últimos dois anos ela se tornara a rainha social da região. Aristocratas da Inglaterra tinham comprado um château perto de Uzès, um grande especialista americano em Cézanne se instalara em Ménerbes, os Gimpels, negociantes de arte há muitas gerações, tinham comprado outro château não longe de Félice, e agora todos eles e outros como eles estavam recebendo uns aos outros e sendo recebidos por Kate.

Julien perdera todo o interesse pelo corpo de Kate, logo depois do nascimento de Nadine. Do contrário, ele a teria impedido - o que lhe interessava conhecer estranhos, por famosos que fossem, que interesse ele podia ter em escutar suas conversas absurdas e empolgadas sobre os novos expresionistas, chamados abstratos, um esgoto cheio de rebotalho de idiotas desgraçados e babados, todos eles, sem qualquer talento, vomitando suas últimas refeições e chamando a isso de arte, como se uma maçã pudesse ser abstrata, ou uma lua cheia, ou uma mulher nua - para que perder tempo falando sobre isso, ou contando histórias maldosas sobre aquele pobre farsante Picasso e o seu ridículo envolvimento com os comunistas, que o utilizavam para pintar retratas de Stalin, para propaganda, mas nunca compreendiam o que o trabalho dele estava tentando fazer... não que ele jamais tivesse conseguido isso. - Não, a única coisa em que concordava com Picasso era sobre Dubuffet. Picasso o detestava tanto quanto Mistral o odiava. E o único ponto em que concordava com Dubuffet era quanto a Monet - ambos gostavam dele. Regas tivera a idéia certa, pensava Mistral. Quando viu que estava morrendo, disse a um pintor amigo, Forain, que não queria oração fúnebre, mas "Se tiver de haver uma, você, Forain, se levante e diga: `Ele gostava muito de desenhar. Eu também. ' E depois vá para casa." Isso é que era homem!

Degas, porém, não tinha uma mulher americana, com quem ele fazia amor cada vez menos. Havia nisso uma certa culpa, ele reconhecia, a ponto de ele achar que Kate tinha o direito de ter o prazer de jantar com Charlie Chaplin e a Duquesa de Windsor.

Sim, a ambição chega à mulher quando a vida do corpo lhe passa a ser negada, pensou ele. Ele tinha suas mulheres, claro, agora em Avignon, por decência, moças jovens e dispostas, urna depois da outra, não mais importantes do que um par de cordões de sapatos, no entanto tão indispensáveis como cordões de sapatos, quando não se os tem.

Mas Kate parecia estar satisfeita com sua lista de convidados cada vez mais extensa e com Nadine, que estava cada dia mais tagarela. Uma ou duas vezes ele tentara deixar que Nadine se sentasse quieta num canto do a uca st porque ela lhe pedira que a deixasse vê-lo trabalhando, mas a criança a ficar calada.

- Para que está usando todo esse vermelho, papai? Aquela coisa amarela grande é uma pêra, papai? Você sabe pintar um passarinho, papai? Pinta um cachorro para mim! - E até mesmo, Deus o ajudasse: - Por que você está tão parado, papai... é porque está pensando?

Não! Era demais, insuportável. Ele a proibiu de entrar no estúdio, se bem que o queixinho tremesse e ela fizesse beicinho, do jeito que os empregados achavam adorável, e puxasse os cachinhos louros, muito triste.

Nadine, aos seis anos, já sabia de uma porção de truques para conseguir o que queria. Muitas vezes Mistral a pilhava mentindo, especialmente contra os empregados. Quando ele insistia para que ela fosse castigada, Kate se zangava - Ela só tem imaginação, ou sensibilidade demais. Na idade dela não se pode esperar que saiba o que é certo. Não seja tão moralista, Julien.

Mistral não pensava assim. Como todos os adultos, ele sabia como é fácil mentir e desconfiava muito de uma criança que, tão cedo, aprendera a mentir tão bem. Mas Marte Pollison, que não tinha filhos, conspirava com Kate para mimar Nadine, a despeito da disciplina que a ama tentava incutir, em vão. Quando Mistral falava sobre isso com Kate ela ria e dizia que era tipicamente francês esperar que as crianças fossem como pequenos adultos. Ele não entendia que a filha não era uma criança comum? Ela era especial e tinha uma mente maravilhosamente indagadora.

Nadando debaixo d'água, depois de cair na piscina, Mistral pensou, sério, que, indagadora ou não, ele lhe ensinaria a não chegar sorrateira por trás

dele no trampolim, mas quando ele subiu à tona, ela prudentemente tinha desaparecido. Ladina. Ela já nascera ladina e manobrando, disse para si mesmo

e tirou aquilo da cabeça.

Julien Mistral, flutuando em sua piscina, pensou sobre o seu trabalho. Já fazia seis meses que ele estava tateando para iniciar uma série de pinturas inspiradas nas formas das videiras no inverno. O chão de seu estúdio estava cheio de esboços e estudos, mas ele só sabia que, ao acordar de manhã, não sentia mais aquela ânsia terrível de levantar da cama e pintar até que a luz sumisse, Só ele sabia que ficava debaixo do acolchoado da cama com o gosto do medo na boca, o estômago apertado, com um desejo fraco e desprezível de tornar a adormecer, para não ter de encarar o fato de que o seu fogo estava ardendo cada vez mais baixo. Não obstante, Mistral desenhava o dia todo, todos os dias, perambulando por seus vinhedos e os dos vizinhos, cada traço do carvão baseado no medo da morte. Ele trabalhava para manter a morte a distância, cada movimento de seus dedos um protesto inútil contra o simples pensamento da morte.

Desde que completara 50 anos, ele estava obcecado com essa idéia. O que vinha primeiro?, ele se perguntava. A idéia da morte ou a perda daquele ímpeto de pintar, que era o mesmo que a própria morte? Mistral nunca se importara a mínima com as vidas ou as opiniões dos outros pintores, mas ele se pilhou pensando se algum deles alguma vez passara pelo árido trecho de areia e pedras que ele estava percorrendo. Não que ele não pudesse pintar.. , tecnicamente, ele tinha tal maestria que poderia continuar a pintar enquanto vivesse, mas desaparecera alguma coisa do seu trabalho e ele não podia negar isso a si mesmo, mesmo que o público fosse enganado - quem não conseguiria enganar aqueles cretinos crédulos?

Ele procurou o motivo. Os nervos de seus olhos estavam alerta como sempre; ele via com a visão que sempre o possuíra... mas não era impelido a registrar o que via, a não ser pelo medo de morrer, se parasse. Onde estava o fracasso, pensou ele, onde a falta de relação, não, não... não falta de relação, mas falta de apetite. Era isso, era isso mesmo.

Julien Mistral estremeceu, embora a água em que flutuava estivesse morna, pois ele sabia que havia muitas coisas na vida que se podia aprender e muitas que se podia conseguir por um trabalho duro, mas que o apetite tem de brotar de dentro do homem e jorrar sem o seu esforço consciente. Assim como nenhum médico sábio jamais conseguiu explicar por que, ao cabo de nove meses, o ventre começa o trabalho de expelir a criança, ninguém conhece a causa do apetite divino dos artistas, ninguém pode dizer que tentação lhe deve ser apresentada para levá-lo a satisfazer o seu apetite, dia após dia. Se esse apetite faltar, se esse apetite se .esgotar... Se acreditasse em

Deus, Julien Mistral teria rezado.

 

 

                                               Capitulo 18

 

- É a coisa mais estranha - disse Marietta Norton a Bill Hatfield - mas acho que estou ficando um pouco apreensiva. Não fico apreensiva desde que ouvi a noticia de Pearl Harbor.

- Apreensiva, diabos, eu estou apavorado... os últimos três caras que tentaram conseguir uma foto de Mistral voltaram de mãos vazias... a única coisa que tinham no filme era as costas da cabeça dele. Mas eles não tinham a nossa arma secreta: La Bella Theodora.

A redatora de modas e o fotógrafo se recostaram nas almofadas do velho táxi Renault, cheio de malas, que tinham tomado para ir a La Tourrello, do Hotel Le Prieuré - antes a pensão de Madame Blé - em Villeneuve les Avignon, onde tinham passado a noite anterior. Atrás deles, em outro táxi, estavam Berry, Sam e Teddy. Já estavam na França há quase dez dias e depois do trabalho daquela tarde, estariam prontos para voltarem para Paris, regressando um dia depois para Nova York, tendo cumprido seus objetivos.

A intenção de Marietta Norton fora fotografar as suas modas de férias nos estúdios dos três grandes pintores que viviam na França, Picasso, Matisse e Mistral, e por intermédio das relações de Darcy no mundo das artes, tivera permissão dos três.

Em um dia, em Vallauris, Bill Hatfield tinha feito 15 filmes de Picasso e Teddy. Lá, no Chemin du Fournas, Picasso alugava dois grandes estúdios

num prédio que ele dividira pelo meio, uma parte dedicada à escultura e a outra à pintura e gravura.

No estúdio de escultura, Berry tinha metido Teddy num vestido de organdi de seda preto, sem alças, estampado com imensos laçarotes brancos.

Equilibrando-se de leve em suas sandálias pretas, furas e de saltos altos, ela posou no meio da montanha de peças de metal sobressalentes que Picasso colecionava para sua escultura: correntes e guidons de bicicleta, rodas e roldanas de todo tipo, qualquer pedaço de ferro velho que ele encontrasse jogado num monte de lixo, alguns dos quais seriam transformados em suas cabeças de animais, formas femininas e a grande Cabra, enquanto Picasso, um Pa envelhecido numa sala de máquinas, namorava, encantado, enquanto ela tentava não rasgar as meias nos pregos e arame farpado. Teddy trocou de roupa depressa, pondo um vestido de seda estampado com centáureas, e toda a comitiva passou para o estúdio de pintura, onde Picasso, espiando por trás de um fogão bojudo, apontou, com orgulho, as grossas teias de aranha que ele encorajava a penderem por toda parte, na sala de 12 metros. Bill Hatfield ficou louco de entusiasmo, procurando captar as expressões do rosto de Picasso, enquanto ele falava com Teddy. Sempre que ousava, tirava fotos e mais fotos do próprio estúdio anarquizado, cheio de potes de tinta, instrumentos, latas velhas e equipamento de todo tipo, dos quais ele destilava a feitiçaria.

De Vallauris, tinham ido de carro a Nice, para encontrar Matisse, de cama, em seu alegre quarto de hotel no Regina, vivendo numa misturada magnífica de plantas, pássaros cantando, pombos arrulhando e a brilhante fantasia dos recortes de papel brilhante que ele fazia, agora que não podia mais pintar.

Matisse os recebera com a sua famosa amabilidade, encantado com Teddy, no seu vestido de harém vivo, de um xantungue rosa-shocking com estampados cor de laranja, os lindos braços nus fazendo um arabesco que, segundo ele, nenhuma de suas odaliscas poderia igualar. As roupas de Teddy foram trocadas tantas vezes que dariam para encher oitos páginas da Mode com os novos estampados da primavera. Agora, nos domínios de Mistral, Marietta Norton pretendia concluir o trabalho com fotos das roupas práticas de viagem que poderiam ir a qualquer lugar, no inverno seguinte, mais quatro páginas de fotos, ao todo.

No segundo táxi, Teddy estava sentada no banco da frente, junto do motorista. Ficou contente por deixar o banco de trás para Berry e Sam, que pareciam estar conseguindo um relacionamento interessante, a julgar pelo estado aturdido e esgotado em que Berry voltara, na noite da véspera, para o quarto em que dormia com Teddy. Você é que é feliz, Beny, pensou Teddy, eu a invejo. Isso é uma terra para amantes.

Quando o táxi passou pela L'Isie sur la Sorgue, com suas antigas rodas d'água ainda girando nos canais que cercavam a cidade, Teddy consultou o mapa. Pelo menos mais meia hora para chegar a Félice, pensou, e seu esto mago se apertou numa bola de nervos. Será que os - outros sabiam que a mãe dela tinha posado para Mistral?, perguntou-se ela, outra vez. Os sete quadros que constituíam a série de La Rouquine nunca mais tinham sido expostos em público, desde a exposição de 1931, mas qualquer pessoa com algum conhecimento da história da arte moderna devia tê-los visto em inúmeras reproduções. No entanto, quantas pessoas, em 1952, os relacionariam com Maggy? Teddy estava na universidade, num auditório escuro, no prédio de artes, quando passaram na tela um slide colorido de um quadro da série. Ela nunca prestara muita atenção ao quadro, mas então, enquanto o professor falava sobre Mistral, ela examinara o rosto da modelo e percebera, com um lampejo de certeza retrospectiva, que a moça descontraída, ruiva, que se exibia com uma sensualidade tão madura, tinha as mesmas feições que sua mãe reservada, prática, bem penteada, impecavelmente vestida.

Nas férias seguintes, Teddy tomou coragem e se arriscou a perguntar a Maggy a respeito do quadro, mas só conseguira algumas palavras displicentes.

- Posei um pouco para pintores, quando era muito mocinha... foi há tanto tempo que me esqueci dos detalhes. Naturalmente, todas posávamos despidas... pensei que você soubesse disso - dissera ? Maggy, de um modo que mostrava claramente que não tinha intenção de falar a respeito de sua vida em Paris com maiores detalhes. Teddy estava intimidada demais para tentar descobrir mais alguma coisa. Por algum motivo, a vida da mãe, antes de ir para os Estados Unidos, era quase tão tabu quanto o mistério de seu próprio nascimento, as perguntas que nunca, podiam ser feitas a respeito do pai dela.

Maggy teria alguma noção da frustração magoada, intrigada, muda, que Teddy sentira pôr tanto tempo? Ou, para ser justa, disse Teddy para si mesma, ela própria não era uma covarde? Por que não pudera enfrentar Maggy com suas perguntas, insistindo em obter respostas, por mais que tivessem envergonhado a mãe? Ah, o velho dilema, os dois lados da discussão que tinha consigo mesma, durante todos os anos em que estava ficando adulta.

Nos últimos quatro anos, vivendo à própria custa, financeiramente livre de Maggy, ela quase se esquecera das perplexidades atormentadas e tortuosas de sua infância. Elas tinham passado a parecer cada vez menos importantes, à medida que sua vida se tomava mais cheia e egocêntrica. Era só porque em breve ela estaria em presença de Mistral que aquilo estava novamente enchendo sua cabeça. Sim, toda essa viagem não fora uma espécie de busca?

Maggy tentara impedi-la de aceitar o encargo da Mode, assim que imaginara o que significaria, mas Teddy tinha insistido. Ela esperou para ver se Maggy afinal chegaria a dizer por que não queria que Teddy fosse a Provença, mas Maggy dera uma porção de motivos que não tinham nada a ver com Mistral e, por vingança, Teddy resistira a todos os seus argumentos.

De que é que Maggy poderia ter medo?, pensou Teddy, o coração batendo mais depressa, quando o táxi saiu da estrada para Apt. Que segredo ela poderia ter, que ainda chocasse alguém, depois de todos aqueles anos? Ela poderia ser tão ingênua a ponto de imaginar que, porque ela um dia tinha posado nua para um pintor, que já devia estar bem na meia-idade, que isso deixaria horrorizada sua filha experiente da vida?

- Berry - disse ela, baixinho - estamos quase chegando. É bom pôr um batom, antes de Marietta olhar para você.

- Desculpe faze-la esperar - explicou Kate Mistral a Marietta - mas Julien ainda está trabalhando e não tenho coragem de ir dizer a ele que vocês estão aqui.

- Espero que a luz não vá embora - disse Bill Hatfield, aflito.

- Não se preocupe. Eu o fiz prometer pararás 17 horas e no café da

manhã tornei a lembrar. Ele raramente concorda em fazer esse tipo de coisa, sabe, mas quando consigo que ele diga sim, em geral cumpre a palavra

- Nós lhe somos muito gratos - disse Marietta, esperando que mais uma expressão de gratidão pudesse apressar o aparecimento de Julien Mistral. Picasso lhes concedera um dia inteiro, mas Mistral só concordara em ceder as últimas horas da tarde.

- De jeito algum... fui leitora da Mode a vida toda... eu recebo a revista aqui, pelo correio - disse Kate, sorrindo, amável, muito em seu papel de mulher do grande pintor. Ela lhes mostrara toda a mas, com sua profusão de aposentos de teto alto, de estuque branco e traves escuras, elegantemente simples e com seu piso reluzente de azulejos hexagonais de terracota. Aqui e ali havia cestas de alfazema seca, entre as belas antigüidades campestres. Nos fundos da casa, duas grandes alas - construídas de pedra antiga e ligadas por um alto muro de pedra que as protegia dos ventos - se defrontavam tendo no meio uma piscina central, cercada de grama. Uma das alas era o estúdio de Mistral, com as portas fechadas, e a outra o novo pavilhão da piscina, onde havia um quarto preparado para Teddy trocar de roupa. Eles esperaram durante quase uma hora, bebendo copos de limonada temperada com cássias, à sombra de uma treliça de videiras.

Kate Mistral não se interessou por nenhum deles, além de Marietta Norton. Tinha a capacidade infalível de perceber a pessoa mais importante de qualquer grupo e, quanto a ela, a única pessoa daquela turma com quem valia a pena conversar era a redatora de modas. Não só ela poderia se pôr em dia com as atividades das pessoas - cuja amizade ela cultivava com cuidado - como também poderia lançar as bases de urna ligação com Marietta que um dia lhe poderiam ser valiosas.

Kate vira com repugnância a atenção do mundo das artes voltar-se para os pintores novos, especialmente os da Escola de Nova York, e embora não receasse a queda de posição de Mistral no estrelato que crescera depois de 1926, era lúcida demais para não notar que Picasso, tão bem entronizado quanto Mistral, não era mais considerado relevante quanto ao que os novos pintores estavam fazendo e que era atacado de todos os lados pela jovem geração de críticos de arte.

Para Kate, não bastava que os principais museus do mundo se disputassem para patrocinar exposições de Mistral, que os historiadores de arte mostrassem grande interesse por ele, que ele vendesse todos os quadros que permitia exibirem. Ela queria uma publicidade continuada, em especial a das publicações mais em moda, que impedisse qualquer diminuição do interesse do público por Mistral.

Ela sabia que Mistral nunca se importara a mínima com a questão de saber se sua arte estava na moda - ela nem ousaria pronunciar essa palavra diante dele, falando de outra coisa que não fosse um vestido - mas ela, Madame Julien Mistral, não pretendia jamais ser mulher de um pintor por quem o mundo elegante tivesse perdido o interesse. Os impressionistas tinham ignorado o grande Delacroix e o público os acompanhara. Os novos abstracionistas nunca poderiam ousar desprezar Mistral. Essas páginas da Mode ajudariam - toda publicidade de primeira categoria ajudava, embora "publicidade" fosse uma palavra que ela temesse usar, mais ainda do que "na moda", ao falar com Julien.

Enquanto Kate conversava efusivamente num sofá de vime com Marietta, o resto do grupo da Mode estava sentado a certa distância. Só Teddy é que ficou de pé o tempo todo, em seu vestido sem mangas, de jérsei branco, de Anne Fogarty. O corpo do vestido era bem modelado e com pregas finas, cruzando-se sobre seu busto num decote profundo e abrindo-se numa saia larga de bailarina que descia a menos de 25 centímetros do chão.

Para frisar a ilusão de que Teddy fazia parte de um corpo de baile invisível, Marietta acrescentara um cinto como um anel dourado apertado, sapatilhas de balé douradas de Capezio e um aro dourado que prendia sua cabeleira ruiva para trás da testa. Teddy parecia tão diáfana quanto uma bolha de sabão indecente, com o vestido que, em teoria, não se amassava. No entanto, Berry não queria arriscar-se a deixar que ela se sentasse com ele, pois debaixo havia oito crinolines bem engomadas, para armar a fazenda leve. Teddy se inclinou com cuidado e tomou um gole de líquido de um copo que Berry lhe deu. Era o que o faltava, derramar limonada sobre o vestido, pensou ela. Era ridículo o modo como suas mãos estavam trêmulas. Porque é que ele não aparecia, diabos?

- Espera nos bastidores - murmurou Berry, com pena era estranho ver Teddy visivelmente nervosa. Ela tratara Picasso e Matisse como se fossem velhos namorados, de seus tempos de escola de dança.       Teddy.

- Como estão as minhas sobrancelhas. – Perguntou Teddy.

A moda de 1952 exigia sobrancelhas pesadas, arqueadas, colocadas a meio caminho entre o lugar normal das sobrancelhas e da testa de qualquer pessoa. Nenhuma modelo, nem mesmo Teddy, podia se desviar dessa convenção de maquilagem, mas, ao contrário de outras modelos, Teddy se recusara a raspar ou depilar suas sobrancelhas ruivas. Ela as cobrira com maquilagem e riscara com o lápis outras falsas acima delas, um processo delicado e difícil que levava pelo menos meia hora para se fazer com perfeição.

- Ainda estão bem - garantiu Berry.

- Tenho uma impressão terrível de que estão caindo. Não se preocupe, eu digo se estiverem.

As portas altas do estúdio se abriram e Julien Mistral se dirigiu para eles devagar, pelo lado da piscina, limpando as mãos num trapo manchado que ele enfiou no bolso das calças de veludo. Kate o apresentou a Marietta Norton e depois pediu à redatora de modas para apresentar os colegas. Marietta, atrapalhada pela pose marcial de Mistral, o seu ar inconfundível de um homem que preferia estar em outro lugar, apresentou-os o mais depressa possível, só usando os nomes de batismo. Quando Mistral pegou a mão de Teddy, ele olhou para ela com um pouco mais de atenção do que para os outros.

- Venham para o estúdio - disse ele, em francês. - Vamos acabar com isso.

Eles compreenderam. Berry aprendera francês na escola de aperfeiçoamento; Marietta com as Coleções de Paris, Teddy com a mãe e Bill Hatfield falava francês de fotógrafo.

Dentro do grande espaço do estúdio, todos se calaram. Ali reinava uma espécie de desordem sublime que tornava a mixórdia do estúdio de Picasso parecer quase banal.

Só Bill, maldizendo baixinho a necessidade de escolher entre olhar para os quadros e bater suas fotos antes que o sol baixasse, é que conseguiu se mover. Os outros ficaram ali, mudos e tímidos como colegiais sem coragem de arriscar uma palavra, porque qualquer coisa que dissessem pareceria inútil, enquanto olhavam de uma tela grande para outra. Cada tela era uma meditação num mundo em que o comum se tornava maravilhoso, cada tela uma meditação sobre uma visão humana que podia articular o comum de modo que ele fosse percebido pela primeira vez.

Por fim, Bill escolheu o lugar.

- Venha, Teddy - disse ele, pegando o braço dela. - Vá ficar ali perto dele e faça de conta que está se divertindo.

Mistral esperava, impaciente, diante do cavalete, onde estava uma tela vazia. Recorrendo a todo o seu profissionalismo, Teddy se dirigiu para ele, as saias de seu vestido estilo Rainha dos Cisnes balançando enquanto ela se movia levemente em suas sapatilhas. Ele era tão alto que ela teve de esticar o pescoço em toda a extensão de seu flexível arco de marfim para olhar para ele. Ela nunca se sentira tão pequena junto de homem algum, pensou Teddy, ao levantar o queixo bem-feito, a cabeça puxada para trás pela massa pesada dos cabelos. Seus olhos mutáveis estavam de uma cor sem nome, que continha em si o encantamento de mil crepúsculos. Seu sorriso era uma aventura Mistral pegou o queixo dela na mão e o virou para um lado e outro, com expressão. Seus olhos azuis, ardentes conflagrações gêmeas, examinaram o rosto dela Ele pegou do bolso o trapo em que limpara as mãos. Tinha cheiro de terebintina, foi só o que Teddy pôde pensar, antes de perceber que ele estava segurando a cabeça dela com firmeza numa das mãos e com a outra estava limpando suas sobrancelhas. Em conjunto, Marietta guinchou, Berry gritou, Bill praguejou e Sam deu uma vaia.

- Assim está melhor. Você usa pintura demais - disse Mistral tão baixinho que só Teddy o ouviu. - Tal e qual sua mãe. - Ele sorriu, pela primeira vez. - Mas você é mil vezes mais bonita.

Depois que o rebuliço se acalmou, todos da equipe da Mode voltaram para o quarto em que Teddy trocara de roupa e Marietta  Norton examinou os danos. Ela mandou que todos ficassem esperando, enquanto coisas. Encontrou Kate com a cozinheira.   - disse ela, séria.

- Madame Mistral, estamos com um problema.

- Ah, não... há alguma coisa que eu possa fazer?

- Monsieur Mistral, infelizmente, tirou as sobrancelhas de minha modelo.

O que!

- Elas estavam traçadas a lápis e ele as limpou. Também parece que estragou a base da maquilagem na testa dela. Ela vai levar pelo menos uma ora para fazer a parte de cima do as fotos coloridas. cora a de baixo... e a essa altura a luz já será insuficiente para fotos coloridas.

- Mas por que é que... ?

Kate estava furiosa com ele. Como é que ele podia ser tão bárbaro... e depois de todas as suas combinações cuidadosas?

- Não tenho a menor idéia... com certeza uma decisão artística. Mas o caso é que nos põe numa situação crítica... temos de encher quatro páginas e não sabemos como.

- Nem lhe posso dizer como sinto isso... não posso imaginar o que ele achava que estava fazendo. Olhe eu nem pensaria em decepciona-la, depois de terem vindo de tão longe... vou falar com ele. Se ele lhes puder dispensar tempo amanhã de manhã, isso daria certo, ou terão de estar em algum outro lugar?

- Não vamos a lugar algum - disse Marietta, inflexível.

- Deixe-me oferecer-lhe um giro tônica e vamos resolver isso tudo.

- Não se incomode com a tônica - disse Marietta com um suspiro alívio. Ela entendia o tipo de mulher que era Kate Mistral. Ambas e que igualmente profissionais. Ela conseguiria suas quatro Páginas e era só o que interessava.

No dia seguinte, depois do café da manhã, quando voltaram de carro para La Tourrello, Teddy estava mais confusa do que jamais estivera em toda sua vida. Aquele momento, aquele breve instante em que Julien Mistral lhe segurara o queixo, estava incrustado em sua mente como se ela tivesse levado um tiro entre os olhos e a bala ficasse alojada ali. Ele não lhe dissera mais uma palavra - houvera um pandemônio - mas ela não pensara em outra coisa, desde que acontecera. Era como se sua vida fosse um filme e quando Julien Mistral a tocara, o diretor tivesse gritado: "Corta." Até que o visse de novo, a tela tinha de ficar fazia, esperando.

Assim que Teddy viu Mistral fechar a cara, impaciente, diante da invasão de seu estúdio por eles, notou que ele estava esperando por ela com a mesma ansiedade com que ela esperara por ele. Não podia haver dúvida alguma, quanto a uma certeza tão apaixonada. Ela foi para o cavalete, prendendo a respiração. Ele estendeu a mão e ela a pegou; suas mãos se apertaram por um segundo prolongado, até que ambos se lembraram de que deviam estar-se cumprimentando com o aperto de mãos tradicional da França.

- Bonjour, Mademoiselle bine!. Dormiu bem?

- Bonjour, Monsieur Mistral. Não dormi.

- Nem eu.

- Teddy - disse Bill Hatfield - vire um pouco... não podemos ver o vestido.

"Tenho de tocar no rosto dele", pensou Teddy, virando-se alguns centímetros para a direita. "Tenho de pôr as mãos de cada lado da cabeça dele e sentir o lugar nas suas têmporas onde o cabelo começa a nascer e a pele parece tão lisa."

- O queixo um pouco para baixo - disse Bill - como se estivesse olhando para a tela.

"Quero beijar os olhos dele. Quero sentir suas pálpebras com meus lábios", pensou Teddy, olhando para a tela com olhar vazio.

- Teddy, podemos ter um pouco mais de animação? - pediu Bill.

"Quero pôr meus lábios no peito dele, onde a camisa está desabotoada, e no pescoço. Quero desabotoar a camisa e deitar a cabeça no peito dele e depois tomar a abotoar a camisa para ficar dentro dela. Quero respirar com a respiração dele, quero que o meu coração bata com o dele."

- Teddy, de novo para mim, por favor... estou olhando o vestido de costas, outra vez.

"Quero fazer a boca dele ficar doce. Quero senti-lo rir sob a minha boca, quero implorar seus beijos. Quero que ele me implore meus beijos." - Que diabo, Teddy.

Bill estava mais surpreendido do que impaciente. Teddy nunca precisava desse tipo de direção.

- Ele não está feliz, o seu fotógrafo - disse Mistral, com calma. - A felicidade dele não me interessa.

- Mas ele não vai parar até ter as fotos que deseja. - Não, você tem razão.

- E quanto antes ele parar, mais cedo podemos conversar.

- Sobre o que vamos conversar?

- Teddy! Você sabe que não posso fazer nada se você mover os lábios, pelo amor de Deus!

- Sobre o que vamos conversar - repetiu ela?

- O resto de nossas vidas.

- parto amanhã para Nova York.

- Você vai ficar aqui comigo. - Isso pode ser verdade?

- Você sabe que é.

Monsieur Mistral, isso não vai dar certo.

- Olhe, pessoal, quero dizer, E se vocês forem para a mesa no meio da sala e o senhor mostrar a sua paleta a Teddy? - disse Bill, com uma calma exagerada.

- Onde podemos conversar? - perguntou ela.

- No restaurante Hiely, em Avignon. Hoje às 20:30. Entendeu?

- Entendido   que ele passou o resto da vida lamentando não ter posto num filme e começou as suas poses tão te quanto um animal bem treinado, a cabeça inclinada de modo a poder olhar para Mistral sem encontrar os olhos dele, pois se os encontrasse, não conseguiria ficar de pé.

Todos estes anos, pensou ela, todos esses longos anos sonhando e sonhando e caindo e caindo no sonho para este lugar, este minuto. Ninguém jamais foi real, antes. Ninguém jamais será real de novo.

Assim que Teddy se dedicou a trabalhar a sério, Bill Hatifield conseguiu as suas as suas fotos depressa. Kate Mistral, que voltou de Félice quando eles estavam acabando, convidou a todos para ficarem para almoçar, mas Marietta recusou, pois tinha medo de perder o trem da tarde para Paris e ainda tinham de apanhar toda a bagagem em La Prieuré.

- Você já arrumou as malas? - perguntou Berry, por cima do ombro.

Teddy estava deitada no quarto confortável que as duas ocupavam, as paredes forradas de um tecido amarelo-claro, com um estampadinho de flores provençal.

- Eu vou ficar.

- Por favor, Teddy, vos sabe que eu não tenho nenhum senão de humor com alguma coisa a ver com as providências.

- Não vou voltar com vocês.

- Você viu a minha lista por aí? Estou com todas as valises, mas, ah, meu Deus, não consigo encontrar a lista. Por que você está aí deitada?

- Você não estava escutando... vou ficar na Provença... por enquanto. Nunca vi um lugar de que gostasse tanto quanto este.

- Mas você não pode fazer isso assim, sem mais nem menos! - Por que não?

A voz de Teddy mantinha-se calma, mas cheia de uma espécie de necessidade febril e ela estava com uma mancha rosada sob as maças do rosto. Berry olhou para ela, aflita.

- Você está doente? Não se sente bem, para fazer a viagem?

- Claro que não. É um capricho... você nunca tem caprichos, Berry?

- Claro que não. Não poderei me dar a esse luxo antes de uns 12 anos, mais ou menos. Bem, está certo... entro, fique... Já encontrei a lista... Deus deve ter ouvido. Sua passagem de volta está aqui... vou deixá-la na cômoda. Você podia ter dito antes, só isso.

- Eu não sabia antes - disse Teddy, numa voz de sonho. - Vou mandar um telegrama para a agência, para saberem antes de você chegar. - E sua mãe? Não vai gostar disso, vai?

- Ah, ela há de compreender - disse Teddy, devagar. - Tenho a impressão de que ela vai compreender melhor do que todos.

Numa cidade francesa de tamanho médio, o melhor restaurante da cidade muitas vezes é caracterizado por uma falta de decoração franca que anuncia claramente que lá tudo está focalizado na boa comida.

O restaurante Hiely, em Avignon, estava localizado em uma sala retangular grande mas despretensiosa, com painéis de madeira simples, as mesas confortávelmente grandes forradas de toalhas amarelas lisas, o piso de parquete bem encerado. Numa mesa de centro havia um presunto defumado inteiro, rodeado de fruteiras com frutas frescas e travessas de lagostas cozidas e garrafas de vinho deitadas em cestinhas individuais. No entanto, não havia outras mostras, as janelas não tinham cortinas, não havia flores nas mesas e as cadeiras de madeira não estofadas estavam colocadas em volta da mesa de um modo digno e razoável, que indicava que aquele lugar ela dedicado à gastronomia, com uma filosofia de uma concentração total.

Quando Julien Mistral e Teddy Lunel se sentaram, cara a cara, numa mesa sossegada numa alcova da janela, Teddy se perguntou por que ninguém jamais lhe avisara que o amor à primeira vista ia deixá-la muda. Veterana de mil primeiros jantares, ela nunca se vira tão sem assunto. Eles já se tinham dito tanta coisa, diante de outras pessoas e protegidos de suas conseqüências pelo fato de estarem em público, embora ni