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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FILHA DO CAPITÃO / José Rodrigues dos Santos
A FILHA DO CAPITÃO / José Rodrigues dos Santos

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A FILHA DO CAPITÃO

Primeira Parte

 

                   Afonso e Agnes

Foi logo em pequeno que Afonso da Silva Brandão percebeu que a vida era uma estrada incerta, repleta de cruzamentos, bifurcações, pontes, túneis e becos, e que cada caminho encerrava um sem-número de mistérios, de segredos por desvendar e de enigmas por decifrar. Animado por uma curiosidade persistente e estimulado por uma inteligência viva e intuitiva, cedo começou a suspeitar de que o mundo era um sítio estranho, um enorme palco de ilusões, traiçoeiro e dissimulado, um dúplice jogo de espelhos onde tudo parecia caótico mas se revelava afinal ordenado, onde as coisas tinham certamente um sentido, mas não necessariamente um significado. Pressentiu, aliás, que era precisamente na existência de um significado que principiava o enigma do significado da existência.

Chegaria o tempo em que se interrogaria repetidamente sobre esse grande segredo, talvez um dos maiores e mais velhos mistérios do universo. A questão do significado da existência. O destino. Iria então tentar decifrar o sinuoso percurso da vida, o inefável caminho que os dias percorrem, um após outro, arrastando-o numa direcção obscura, a rota talvez previamente definida, quem sabe se escolhida por si ou forçada pelas circunstâncias, certamente condu-zindo-o através de uma labiríntica rede até ao inescapável fim, como se as coisas fossem fruto de uma conspiração na sombra, preparada por agentes sem rosto numa fantástica conjuração secreta. Procuraria aí a resposta para o enigma que o apoquentava.

Quando esse tempo viesse, Afonso suspeitaria de que a vida era afinal uma tragédia, ou talvez apenas uma grandiosa peça imaginada por um dramaturgo sem nome e representada por actores sonambulescos, intérpretes involuntários de um enredo desconhecido, personagens a quem ninguém jamais teve a gentileza de explicar a trama da história, a intriga que estava afinal determinada mas permanecia indeterminável. Talvez essa visão fosse fruto das circunstâncias particulares da sua existência, da sucessão de percursos inacabados que se tornara a sua vida. Confrontar-se-ia então com os sonhos adiados e os caminhos que não percorrera, dos dias que vivera guardaria apenas a cruel nostalgia do que poderia ter sido se as coisas se têm tornado diferentes. Nada era justo, tudo se revelava arbitrário, cada um limitava-se a procurar retirar um significado do caos da existência, como se fosse importante criar uma narrativa, estabelecer um sentido, buscar uma razão, encontrar uma explicação para as coisas que simplesmente acontecem.

Na vida, concluiria um dia, todos têm direito a um grande amor. Uns achá-lo-iam num cruzamento perdido e com ele seguiriam até ao fim do caminho, teimosos e abnegados, até que a morte desfizesse o que a vida fizera. Outros estavam destinados a desconhecê-lo, a procurarem sem o descobrirem, a cruzarem-se numa esquina sem jamais se olharem, a ignorarem a sua perda até desaparecerem na neblina que pairava sobre o solitário trilho para onde a vida os conduzira. E havia ainda aqueles fadados para a tragédia, os amores que se encontravam e cedo percebiam que o encontro era afinal efémero, furtivo, um mero sopro na corrente do tempo, um cruel interlúdio antes da dolorosa separação, um beijo de despedida no caminho da solidão, a alma abalada pela sombria angústia de saberem que havia um outro percurso, uma outra existência, uma passagem alternativa que lhes fora para sempre vedada. Esses eram os infelizes, os dilacerados pela revolta até serem abatidos pela resignação, os que percorrem a estrada da vida vergados pela saudade do que poderia ter sido, do futuro que não existiu, do trilho que nunca percorreriam a dois. Eram esses os que estavam indelevelmente marcados pela amarga e profunda nostalgia de um amor por viver.

A vida é realmente um caldeirão de mistérios, a começar pelos mais simples, pelos mais ingénuos e inocentes, por aqueles que estão na génese da nossa existência. Afonso, por exemplo, nunca teve a certeza absoluta sobre a data exacta em que nasceu. Sabia que tinha sido em Março de 1890, embora alimentasse dúvidas quanto ao dia certo. A mãe dizia que o dera à luz à meia-noite e meia hora de 7 de Março, mas seria a meia-noite e meia hora da noite de 6 para 7 ou de 7 para 8? A questão nunca foi devidamente clarificada, apesar de, para todos os efeitos, a data de 7 de Março se ter tornado, nos documentos oficiais, o dia em que Afonso nascera.

O pequeno viu pela primeira vez a luz do dia numa casa humilde da Carrachana, um lugar ermo à entrada da vila ribatejana de Rio Maior. Era o sexto e último filho da senhora Mariana, uma mulher baixa e forte, as faces rechonchudas e rosadas, o cabelo meio-grisalho puxado para trás e preso por um carrapito, e cujo nome também ele estava envolto em absurdas incertezas. A mãe dizia que se chamava Mariana André Brandão, mas noutras alturas identificava-se como Mariana Silva André, ou Mariana da Conceição, ou Mariana das Dores. Afonso nunca entendeu este mistério, embora a tivesse questionado inúmeras vezes sobre o assunto, obtendo sempre respostas contraditórias ou evasivas. Os documentos oficiais de Afonso registavam que ele era filho de Mariana André Brandão, mas um dia verificou que os papéis de um irmão atribuíam a filiação a Mariana Silva André. No meio de tudo isto a única certeza era a de que o nome próprio da mãe era Mariana.

O pai chamava-se Rafael Brandão Laureano, o que suscitava novo mistério. Pois, se o último nome era Laureano, por que razão dera aos filhos o apelido do meio, Brandão? Igualmente aqui nunca houve respostas satisfatórias e o pai limitava-se a encolher os ombros quando interrogado sobre esta opção. Rafael Laureano era um homem alto, com um metro e setenta e cinco, estatura invulgar em Portugal, e profundamente religioso. Tinha um rosto largo, rasgado por longas rugas que lhe nasciam do canto dos olhos miúdos, o abundante e rebelde cabelo grisalho parecia uma mão-cheia de palha branca plantada na cabeça. O senhor Rafael exercia a profissão de jornaleiro, mas, desenganem-se os menos esclarecidos, nada tinha a ver com jornais. Um jornaleiro era um homem que trabalhava no campo e era pago à jornada. Sendo jornaleiro, o pai de Afonso era pobre, mas não miserável. Possuía dois pequenos terrenos onde cultivava vinhas para produzir tinto, que vendia aos armazenistas de Rio Maior. O problema é que a produção não chegava para o sustento da família e, como tinha fama de bom agricultor, Rafael era frequentemente convidado pelos grandes proprietários ribatejanos para trabalhar à jornada nas suas terras.

Rafael e Mariana casaram muito cedo e tiveram o primeiro filho quando ainda eram adolescentes. Ele tinha quinze anos e ela catorze. Mariana deu à luz um belo rapaz, ao qual chamaram Manuel. Depois vieram a Jesuína, o António, o João e o Joaquim. Em 1889, na altura em que estava a cumprir serviço na Marinha de Guerra, António morreu, vítima de tuberculose. Mariana ficou desfeita e a dor encheu o lar. Rafael mergulhou numa depressão, tornou-se amargo, obcecado pela desgraça que se abatera sobre a família. Era normal naquele tempo morrerem muitas crianças, a maior parte das vezes ainda bebés, mas o António já não era um menino, era um homenzinho, tinha sonhos e projectos, era amado e admirado.

O pai deu consigo a sonhar todas as noites com a morte do filho. Sonhava que ele afinal não morrera, ou que ressuscitara, ou que conhecera um outro rapaz igualzinho ao seu António, ou que o chamava mas ele não o ouvia, ou que isto, ou que aquilo. De todas as vezes era um sonho diferente, frequentemente trágico, por vezes desesperado, raramente feliz. Houve um, porém, que o deixou muito impressionado. Numa noite abafada de Verão sonhou Rafael que se ajoelhara junto à campa do seu rapaz quando Deus Lhe apareceu em visão e disse que lhe tinha destinado cinco filhos. Se um morrera, outro teria de vir para o substituir. Quando Rafael despertou, a decisão estava tomada e Mariana foi compensada com um novo filho, era uma forma de fazer regressar a alegria a casa e de cumprir os desígnios do Senhor. Foi assim que, no ano seguinte, Mariana, já com quarenta e cinco anos, deu à luz Afonso, o menino que veio para substituir António nas contas de Deus.

O benjamim da família cresceu habituado a um mundo em que todos os irmãos eram muito mais velhos do que ele. Manuel tinha trinta e um anos, já se casara e saíra de casa. Tornara-se ferrador e fizera-se pai de uma menina dois anos mais velha do que o seu irmão mais novo. Depois vinha Jesuína, que casou quando Afonso era ainda pequeno. A sua primeira memória da irmã remonta a um momento doloroso na cozinha, Jesuína lavada em lágrimas de desespero pela morte do primeiro filho, a mãe a consolá- la, a cabeça da filha encostada ao ombro materno. Do terceiro irmão, António, aquele a quem afinal devia a vida, só restava uma grande fotografia pendurada numa parede da sala, o rapaz com a farda de marinheiro orgulhosamente ostentada. Os mais próximos eram João e Joaquim, ambos adolescentes, a trabalharem numa serração. O pequeno Afonso dormia com estes dois irmãos na mesma cama de latão, num quarto sem porta, a entrada protegida por uma cortina muito gasta. À medida que o mais novo ia crescendo, tornou-se evidente que não cabiam os três na mesma cama se continuassem deitados uns ao lado dos outros, e Afonso, que ficava sempre no meio, passou a dormir com a cabeça junto aos pés dos mais velhos.

As memórias de Afonso só começaram a tornar-se nítidas a partir dos seis anos. Foi nessa altura que parou de mamar no pão, à falta de chupeta mais adequada, embora ainda comesse as sopas de cavalo cansado, que se tornaram a sua dieta. Aos dois anos tinha deixado de mamar nos seios da mãe, porque o leite secara, e passara desde então a depender dessa mistura de pão e vinho tinto doméstico. Ao entrar na escola adquiriu maior consciência do mundo que o rodeava. Começou a notar as madeiras escuras e toscas que lhe mobilavam a casa e o permanente cheiro a porcos, estrume e mosto que lhe invadia o quarto. Os suínos eram criados numa pequena pocilga ao lado da casa e o seu odor propagava-se facilmente pelo ar. Não é que se importasse, ele que andava descalço por toda a parte, vestindo uns velhos e fedorentos trapos herdados dos irmãos.

Cedo começou Afonso a ajudar o pai, semeando melão, limpando as vinhas e enxofrando as cepas. As epidemias ameaçavam as vinhas havia mais de dez anos, iniciava-se então o falatório sobre um novo método para combater aquele mal, a sulfatação, mas, enquanto a novidade não chegava ao Ribatejo, terra remota e de vida árdua, tinha o senhor Rafael de contar unicamente com a protecção da Virgem. Naquele tempo circulava-se de carroça, embora Rafael Laureano se remediasse com uma burra que o auxiliava na lavoura. Afonso aprendeu que a burra não era burra de todo, mostrava-se até esperta e desembaraçada. Era frequente ver o pai dar instruções ao animal.

“Vai para o Cidral!”, ordenava-lhe o senhor Rafael, abrindo o portão do quintal. “Anda, vai”

A burra cruzava o portão e desaparecia vagarosamente pela poeirenta estrada de terra batida, seguida pelo cão da casa, o Bobby. Nessas alturas, Afonso acompanhava o pai numa volta pela vila, seguia-o como um rafeiro fiel, achava-o forte e sábio, com ele sentia-se bem, seguro e tranquilo. Quando, horas depois, chegavam os dois ao terreno da família no Cidral, encontravam a burra e o cão à sua espera.

“Bovi! Bovi!”, chamava o pai, incapaz de pronunciar correctamente o nome de Bobby. Abria os braços e abraçava o cão, que o recebia com sempre renovado entusiasmo, a cauda a abanar como um leque, saudando o dono como se não o visse havia dez anos. “Ah, Bovi.”

A vida do senhor Rafael era dura. De segunda a sábado acordava às cinco da manhã, comia uma sopa ou um naco de pão com chouriço e ia trabalhar a terra. Almoçava às dez horas o farnel que a mulher lhe trazia num cesto e ao meio-dia vinha a merenda. A lavoura só terminava quando o Sol se punha ou quando dobravam os sinos do cemitério, pelas cinco da tarde.

“Olha as ave-marias!”, exclamava Rafael Laureano, limpando o suor da testa e erguendo-se para mirar o horizonte e escutar os sinos distantes. “Está na hora”

Deitavam-se todos cedo, eram oito da noite quando o senhor Rafael mandava Afonso vestir o seu “pijeta”, apagava as candeias ateadas com azeite e mergulhava a casa na escuridão, era hora de dormir. Só aos domingos podia esta rotina ser alterada. No dia do Senhor acordavam cedo, como sempre, e vestiam as melhores roupas, melhores porque não estavam esfarrapadas. O banho era quase desconhecido, excepto no Verão, altura em que, uma vez por mês, toda a família ia lavar-se em animadas manhãs dominicais. Afonso não apreciava esses momentos. Encolhia o corpo franzino dentro de uma tina e sentia a água gelada despejada sobre si pela mãe. Depois de se vestirem, o senhor Rafael conduzia a família à missa para uma manhã de virtude, mas à tarde vinha o vício e o pecado. O pai ia com os irmãos para a taberna do Silvestre ou para a taberna do Corneta embebedar-se com tinto. Era conside-rado um “mau vinho” porque, quando embriagado, ficava de mau humor e não raras foram as vezes em que se envolveu em zaragatas disparatadas. Para controlar o problema, a senhora Mariana mandava Afonso acompanhar o pai com a missão de o trazer de volta tão cedo quanto possível, tarefa que o pequeno temia, o pai tornava-se irascível quando tocado pelo álcool e aquele rochedo de segurança transformava-se nesses momentos numa montanha ameaçadora, as mãos eram pedregulhos instáveis e imprevisíveis, reagia mal às suas súplicas e esbofeteava-o com violência.

O vinho fazia parte das suas vidas, ou não fosse Rafael Laureano um pequeno e dedicado produtor. Afonso habituou-se a colaborar no trabalho de produção de tinto, atirando as uvas para os balseiros instalados num anexo. O pequeno passou a acompanhar os adultos no trabalho de pisar as uvas para fazer o mosto, uma tarefa que lhe produzia tonturas, percebeu mais tarde que era o álcool libertado do mosto que o embriagava. O vinho era depois colocado em tonéis, com gradações que variavam entre os doze e os quinze graus, para serem vendidos aos armazenistas de Rio Maior. Nos balseiros ficava entretanto o engaço, formado pelos pés das uvas. O pai atirava água para cima do engaço e nascia ali um vinho mais fraco, de sete ou oito graus, a que chamavam água-pé.

Quando os filhos atingiam os cinco anos, o senhor Rafael arrebanhava-os para o ajudarem no trabalho. Podiam ser ainda muito pequenos, mas o pai considerava-os aptos a desempenharem pequenas tarefas. Em 1876, porém, abriu a escola primária em Rio Maior. O ensino não vinha a tempo dos filhos mais velhos do casal Laureano, mas a questão colocou-se em relação a João, Joaquim e, mais tarde, Afonso. O pai mostrou-se inicialmente relutante em enviá-los para a primária, argumentando que precisava era de mãos que o ajudassem a trabalhar a terra ou a ganhar sustento para a família noutros trabalhos. Teve de ser o pároco de Rio Maior, o padre Gaspar Costa, a intervir e usar toda a sua divina influência para levar a melhor sobre o casmurro Rafael. O que é facto é que os rapazes lá acabaram por serem autorizados a frequentar a escola.

A vez de Afonso chegou num dia húmido e frio do Outono de 1896. Logo pela manhã, desafiando a nortada gelada que soprava com bravura lá do Alto do Seixal, a senhora Mariana levou o filho mais novo pela mão desde a Travessa do Rosmaninho, onde viviam, até à Rua das Dálias. Atravessaram apressadamente o largo, encolhidos nos seus miseráveis agasalhos, e meteram à direita pela Rua das Flores. A manhã despertara agreste, as gotas do orvalho matinal a brilharem como pérolas reluzentes nas folhas molhadas das azinhei-ras, as pétalas das flores abrindo-se à luz fria da alvorada e à primeira dança dos insectos, as folhas fendidas dos carvalhos-das-beiras a formarem lágrimas que deslizavam pelos esbranquiçados das suas páginas inferiores, o aromático odor da resina a flutuar no ar, era como um perfume exótico que se espalhava pelo caminho de terra rasgado por entre a verdura. Seguiram por ali fora, alheios ao espectáculo da natureza no dealbar do novo dia, até passarem pela Torre dos Bombeiros e chegarem à escola primária de Rio Maior.

“Que bom, Afonso, vais para a escola”, dizia-lhe a mãe pelo caminho. “Estás contente, não estás?

Afonso assentia com a cabeça. A senhora Mariana passara os últimos dias a pintar-lhe um quadro idílico da escola, que era uma coisa maravilhosa, que ia ter muitos amigos, que ia aprender a ser um grande homem, o tom era de tal modo entusiástico que o pequerrucho deu consigo ansioso por frequentar tal lugar. Ficou por isso ligeiramente surpreendido quando, ao aproximar-se do edifício, viu outras crianças a chorar, as mães arrastavam-nas nos passeios e elas desfaziam-se em lágrimas. Achou estranho, por que razão estariam os outros miúdos tão assustados por irem para a escola?

A verdade é que, ao cruzar o portão, Afonso entrou num mundo especial, onde as leis eram diferentes e as condutas reguladas, um mundo que lhe abriu as portas para horizontes que se estendiam para além da Carrachana. Um letreiro afixado à porta da escola explicava que os pais teriam de entregar uma “declaração do paroco ácerca da edade”, uma “declaração do regedor atestando a residência do aluno na freguezia” e uma “declaração do facultativo de não soffrerem as crianças molestias contagiosas e de terem sido vaccinadas”. A senhora Mariana não sabia ler, mas tinha-se informado previamente junto do padre Gaspar e levava consigo os três documentos requeridos, que entregou à ajudante da escola, a circunspecta dona Vadeia Figueiredo.

O primeiro mestre de Afonso foi o professor Manoel Ferreira, um dinâmico leiriense que havia mais de vinte anos tinha chegado a Rio Maior e aberto a escola, a única instituição de ensino primário para rapazes existente na vila. O professor Ferreira era adepto intransigente de uma disciplina rígida nas salas de aula e obrigou Afonso, a exemplo dos seus colegas, a usar bibe.

“Aqui não há ricos nem pobres”, explicou ele à senhora Mariana quando esta se admirou com a imposição. “Na escola são todos iguais e, por isso, vestem por igual.”

À disciplina férrea, Manoel Ferreira juntava métodos pedagógicos inovadores e activos, como a cartilha João de Deus. O professor era casado com dona Maria Vicência, de quem tinha onze filhos, mas, aos quarenta e quatro anos, encontrava ainda tempo para dirigir os jornais O Riomaiorense e, posteriormente, o Civilisação Popular, semanários que fundara, para além de uma tipografia. Foi Manoel Ferreira quem ensinou Afonso a ler, associando letras a desenhos e a sons, de acordo com as novas teorias de ensino.

A dureza das tarefas de que o pai incumbia Afonso na lavoura fez com que o pequeno gostasse de ir às aulas. Considerava a escola um local de descanso que lhe dava oportunidade para fugir ao exigente trabalho na terra. Afonso aplicou-se nos estudos, mas sobretudo nas brincadeiras, as correrias do “apanha” e o “aqui-vai-alho” tornaram-se as favoritas. A principal, porém, era o football, jogado em geral com uma bola feita de trapos e meias velhas. Ao meio-dia ia a casa comer alguma coisa e levava depois uma cesta com comida para João e Joaquim, que trabalhavam na serração. Os dois irmãos iam ter com ele a meio caminho para recolherem o farnel e Afonso voltava depois para a escola. Quando as aulas acabavam, perdia-se na bola com os amigos no Largo Conselheiro João Franco, a principal praça de Rio Maior, até ao dia em que partiu a vitrina da Pharmácia Barbosa com uma bola reforçada por um revestimento de couro. Como todos na vila se conheciam, o doutor Francisco Barbosa foi queixar-se à mãe e a partir desse dia acabaram-se as sessões de football pós-escolar.

A paixão do pequeno Afonso pelo football nasceu-lhe da única viagem que fez nos primeiros dez anos de vida. Quando tinha seis anos, meses antes de ir para a escola pela primeira vez, os pais receberam a notícia de que a prima Ermelinda, uma parente afastada da mãe, estava a morrer de tuberculose. A prima Ermelinda vivia em Lisboa e ficou decidido que iriam visitá-la no domingo seguinte. Nunca tinham ido à capital e a viagem suscitou a maior animação na família, em boa verdade as maleitas da prima Ermelinda apenas preocupavam a senhora Mariana, para o senhor Rafael e os filhos aquele não passava, afinal de contas, de um apropriado pretexto para irem visitar a grande cidade. Corria então o ano de 1896, as vendas de tonéis de vinho aos armazéns tinham sido excelentes e havia dinheiro disponível para o ansiado passeio.

Levantaram-se pelas quatro horas da madrugada do domingo de 9 de Agosto, vestiram as melhores roupas e rezaram à mesa de modo a compen-sarem a missa dominical a que teriam de faltar. Afonso era, nessa altura, um rapaz franzino, de cabelos castanhos lisos e olhos cor de chocolate a sobressaírem na sua tez pálida. Apesar do sono, transbordava de entusiasmo e excitação, mal podia esperar pela grande viagem.

Os Laureanos pegaram em dois sacos de farnel previamente preparados e num garrafão de tinto e apanharam a carreira. Pagaram quinhentos réis por pessoa, bilhetes de ida e volta, e seguiram pela Estrada Real n. o 65 até às Caldas da Rainha. Na estação das Caldas compraram bilhetes de 2. a classe para o primeiro rápido, a mil setecentos e vinte réis cada um, e, às sete e meia da manhã, o casal Laureano e os três filhos mais novos apanharam o comboio. Foram parando em sucessivas estações e apeadeiros, primeiro Óbidos, depois outros lugares de que Afonso nunca tinha ouvido falar, Bombarral, Outeiro, Ramalhal, Torres Vedras, perderam a conta, mas na Porcalhota sentiram-se já com um pé na capital, seguiram-se Bemfica, Campolide e Alcântara, acabaram por entrar no Rocio às dez e meia da manhã.

“Ai que confusão, valha-me Deus”, queixou-se Mariana, afogueada pelo calor estival e atarantada com o nervoso movimento na estação. “Vamos à Ermelinda?”

“Tem calma, mulher, tem calma”, devolveu o marido, excitado por conhecer a cidade e nada interessado em desperdiçar o passeio em casa de uma moribunda que mal conhecia. “Temos tempo para a tua prima, fica descansada. Mas, primeiro, vamos lá dar uma voltinha, anda. “ Olhou em redor, os edifícios pareciam estranhos, sofisticados, grandiosos, os homens eram uns janotas, mas, sobretudo, havia ali mulheres com ar distinto, sombrinhas na mão e aspecto bem tratado, umas verdadeiras flores, duquesas certamente. Esfregou as mãos, radiante. “Isto promete, olé se promete!”

Tudo aquilo era para eles novidade. O senhor Rafael, compenetrado na sua responsabilidade de chefe de família, mostrava-se particularmente nervoso. Para se sentir mais à vontade, ao interpelar qualquer pessoa procurava sempre colocar Rio Maior na conversa, era um modo de o transportar para um lugar familiar, coisa que começou por fazer logo ali na estação.

“Ó amigo, você já passou por Rio Maior? “, perguntou a um funcionário da Companhia Real dos Caminhos-de- Ferro Portuguezes.

O homem mirou-o embasbacado.

“Eu? Não”

“Fez mal”, retorquiu o senhor Rafael. “Diga-me lá para onde é que é o Terreiro do Paço.”

Afonso era ainda pequeno, mas o bulício agitado da vida citadina não escapou à sua atenção. Apanharam a boleia de uma carroça proveniente de Alverca, o boleeiro era um saloio que viera à cidade levar batatas para o Campo das Cebolas, e atravessaram uma praça de dimensões nunca vistas, um largo tão grande que certamente Rio Maior caberia lá inteirinho.

“Esta é a Praça de D. Pedro IV”, anunciou o saloio, fazendo um estalido com a língua para incitar as mulas. “Era a Praça da Inquisição, mas a malta conhece agora isto por Rocio. Chegaram a fazer-se aqui touradas e a queimar-se hereges, vejam lá vossemeceses. “

Uma rua rodeava a vasta praça do Rocio, árvores viçosas alinhadas nas extremidades, o chão num tabuleiro de calçada à portuguesa desenhada em ondas, bancos de jardim plantados perante as árvores, uma esguia coluna ao centro com a estátua de D. Pedro IV no topo, a rica fachada do Theatro de D. Maria II ao fundo, casas a cercarem a praça, muitas de comércio, aqui a Tabacaria Mónaco, ali as Confecções Martins, acolá a Pastelaria Cardoso, mais além o Café Gelo.

Depressa a carroça deixou o Rocio para trás e meteu pela Rua Augusta, percorreram-na admirando o rico e variado comércio que a enchia de vida, de um lado a Casa dos Bordados, do outro a Sapataria Lisbonense, mais à frente a Casa Americana, entraram finalmente na faustosa Praça do Commércio e o saloio parou a carroça para que saíssem. Agradeceram a boleia e o homem foi à sua vida, deixando-os a deambularem prazenteiramente pelo Terreiro do Paço. Admiraram o Caes das Columnas e os barcos aí atracados ou a deslizarem pelo rio com as velas ao vento, contornaram a praça de olhos primeiro postos na imponente estátua equestre de D. José, “olha o cavalo preto! “, apontou o senhor Rafael às crianças, depois miraram em silêncio respeitoso os majestosos edifícios amarelos que rodeavam geometricamente o largo com as suas profundas arcadas e galerias e os torreões nas alas perpendiculares, finalmente maravilharam-se com o Arco Triunfal e a estátua em pé no topo, as mãos estendidas sobre as cabeças de duas outras estátuas mais baixas, não podiam saber mas era a Glória a coroar o Génio e o valor, a misteriosa legenda VIRTUTIBUS MAIOR por baixo, não a decifraram, não a entendiam, não conheciam latim, não sabiam sequer ler. Satisfeitos, decidiram regressar ao ponto de partida por outro caminho. Cruzaram a Rua do Arsenal e meteram pela Rua Áurea, espantaram-se com os altos armários de vidro colocados à porta da joalharia Cunha & Irmão, abastecedora da Casa Real, a exibir as suas pedras preciosas, “isto é que é uma riqueza! “, passaram pela Luvaria Gatos e salivaram diante da vitrina da Maison Parisienne, a patisserie que se gabava dos seus sorvetes “de todos os typos. “

Desembocaram novamente no Rocio. Um sol quente de Estio, que banhava a praça com violência e empurrava as gentes para as sombras protectoras, fazia realçar as cores garridas das lojas, num agradável contraste com o azul-forte e profundo do céu. Afonso estranhou o facto de andar ali pouca gente descalça, havia muitas pessoas de sapatos a circular pela praça, situação que lhe indiciava serem os lisboetas gente rica e requintada. Em vez dos barretes ribatejanos que se habituara a ver em Rio Maior, constatou que, em Lisboa, muitos homens usavam refinados chapéus na cabeça, ora cartolas, ora chapéus de coco. Além disso, balouçavam bengalas na mão e aperaltavam-se com gravatas e laços a enfeitar roupas que pareciam limpas, lá na terra apenas o doutor Barbosa, o professor Ferreira e poucos mais tinham o hábito de se apresentarem assim tão janotas.

Aqui e ali, a destoar, um rapaz descalço sobre uma mula, era um saloio, outro a carregar um barril azul aos gritos num pregão de “água fresca! “, provavelmente um galego. Um monge magro, de sotaina negra e uma corda apertada à cintura a servir de cinto, passava por entre dois homens sentados no passeio, um com a cabeça no regaço do outro, que lhe inspeccionava o cabelo, estava ali aberta a época da caça aos piolhos. No outro lado passava um rapaz a puxar um carrinho de madeira cheio de pão, atrapalhando os perus de dois campinos ribatejanos, as aves em alvoroço em torno do carrinho e os campinos a tentarem controlá-las com os cajados. Pelo Rocio circulavam cavalos, mulas, burros, coches e carroças, viam-se rebanhos de cabras e vacas conduzidos aos cafés e botequins para fornecerem leite, mas o mais estranho era uma pequena carruagem de comboio que assentava sobre carris e era puxada por dois cavalos. As pessoas subiam para a carruagem junto à cooperativa “A Lusitana”, pagavam um bilhete e sentavam-se num longo banco central, esperando que o cocheiro iniciasse a marcha.

“É o Americano”, disse um saloio junto ao Bebedouro dos Quatro Anjinhos, sentindo-se quase gente fina ao pé daqueles provincianos. “Leva o pessoal pela cidade. Partem todos os quartos de hora, das sete da manhã às sete da tarde. Se quiserem aproveitar para darem uma voltinha... “

Não quiseram, acharam que seria demasiado caro para as suas posses. Mais valia andarem a pé.

“Vamos à Ermelinda? “, sugeriu a senhora Mariana. “Ó filha, tem calma, temos tempo”, exclamou Rafael. “Vamos dar mais uma volta, anda, ainda é cedo. “

Saíram do Rocio e meteram por uma rua sinuosa, que se inclinava e subia, íngreme, e o ar moderno da cidade foi-se perdendo, começou a aparecer o miserável, de certo modo Lisboa tornava-se quase tão indigente como Rio Maior. Viam-se pedintes, homens deitados no chão a exibirem feridas horrendas para comprarem a piedade dos transeuntes, mais cães, porcos, galinhas e patos a patinarem na lama. E o pior era toda a imundice, uma imundice mais imunda do que a da Carrachana, uma imundice de latrina e odores fétidos que tudo sujava e penetrava. O senhor Rafael e a família saltitavam descalços de pedra em pedra, evi tando os excrementos e os rios de urina que deslizavam rua a baixo. Havia canais para esgotos abertos ao lado dos passeios e que desciam para o rio, mas muitos lisboetas tinham demasiada preguiça para irem ali colocar os dejectos, preferindo atirá-los para o meio da rua, sempre dava menos trabalho. Aqui não se via gente aprumada, o chão era demasiado sujo para sapatos de alta sociedade.

“Esta cidade está cheia de merda”, resmungou o senhor Rafael tentando limpar na pedra um pedaço de excrementos humanos que se colara ao calcanhar do seu nu pé direito.

Os excursionistas de Rio Maior ainda porfiaram por aquelas ruelas estreitas e inclinadas, esquadrinhando-as para cima e para baixo, mas um grito de “água vai! “, seguido do despejar de porcaria de uma janela para a rua, convenceu-os a darem meia-volta.

“Ai Jesus, vamos embora, vamos embora, senão ainda levamos um banho de caca”, aconselhou Mariana, com um risinho nervoso e muito atenta às janelas em redor.

Regressaram ao Rocio, sempre era mais seguro e não corriam o risco de apanharem uma chuvada de excrementos. Não é que não estivessem habituados à porcaria. Estavam. Não estavam era habituados àquela intensidade de porcaria. Uma vez de volta à grande praça central, meteram em direcção dos Restauradores. A dada altura, encontravam-se no Largo de Camões, a meio caminho entre as duas praças e ao lado da grandiosa estação de comboios por onde tinham chegado, quando apareceu em frente um estranho e ruidoso coche a circular sem ajuda de animais e largando uma baforada suja e malcheirosa. Ficaram todos paralisados e embasbacados a olhar, menos Afonso, que se assustou e foi enroscar-se nas largas saias da mãe. Em boa verdade, esta não era uma reacção necessariamente provinciana, uma vez que, naquele instante, os próprios lisboetas pararam nos passeios e emergiram das portas e janelas da imponente estação do Rocio, do Café Suisso, do Café Martinho, da seguradora Equitativa de Portugal e Colónias e das residências em redor para admirarem aquela maravilha sem igual, aquela máquina fumarenta a rolar espalhafatosa-mente sobre o macadame.

“Uma carroça sem cavalos”, comentou o senhor Rafael, verdadeiramente surpre-endido. “Já tinha ouvido falar nisto no Silvestre, mas pensei que fosse reinação “

O comentário sobre a carroça não era disparatado. Tal como os Benz, nos quais se inspirava, aquele Panhard de dois cilindros e motor Phénix, novinho em folha e acabado de importar de França por um conde abastado, tinha efectivamente o desenho de uma carroça elegante, a roda de trás maior do que a da frente, o assento escarlate almofadado como o dos coches ricos e garbosos. O barulhento Panhard desapareceu numa curva do Rocio, deixando um efémero rasto de fumaça preta atrás de si, e a vida pareceu regressar ao normal. Afonso, tal como o resto da família, ainda ficou a matutar sobre aquele mistério da assustadora carroça sem cavalos, mas depressa a novidade que era Lisboa acabou por distraí-lo. Seguiram pela Rua do Príncipe até aos Restauradores, a enorme praça construída poucos anos antes no lugar onde antigamente era o jardim do Passeio Público, subiram a ampla e arborizada Avenida da Liberdade até à Rotunda, detendo-se amiúde a admirar os surpreendentes postes de iluminação colocados ao longo da avenida, diferentes dos bicos de gás a que estavam habituados.

Já cansados e com fome, abancaram junto ao lago de um terreno baldio e arborizado no topo da Rotunda, ao lado da Quinta da Torrinha. A mãe distribuiu a merenda pelo marido e filhos, era pão caseiro e chouriço, regados com o tinto do garrafão. O senhor Rafael, habituado à informalidade rural meteu conversa com uma outra família que ali se instalara também em pique-nique e, depois de fazer a tradicional pergunta relacionada com uma eventual passagem por Rio Maior, comentou aquele extraordinário fenómeno da carroça sem cavalos.

Aquilo é que é uma máquina”, observou para o estranho, batendo com a palma da mão na coxa.

“É verdade. E reparou que é limpinha?”

Então não é? Em vez de largar bostas, deita fumo” observou Rafael. Pigarreou, lembrando-se de que isso representava uma possível dificuldade para a agricultura. O problema é que a fumarada não serve para estrume. Fez uma careta. “Mas não faz mal, catano. Aquela máquina é mesmo uma maravilha! “

“Ó homem, e vossemecê ainda não viu nada!” - retorquiu o outro, sorri-dente.

O outro, sorridente. “Está a ver estes postes na Rotunda e por toda a Avenida?”

“Então não hei-de ver? São diferentes dos do Ribatejo, caramba. “

“Pois são”, assentiu o homem. “

“ São lâmpadas eléctricas. “ O que é isso

“Olhe, é uma iluminação nocturna. Só que, em vez de se usar o azeite, o gás ou o petróleo para alimentar a chama, usa-se electricidade. A lâmpada eléctrica dá muito mais luz, não emite calor, não liberta fumos nem mau cheiro e não provoca incêndios. Uma maravilha. “

“ Ena “

“Valha-me Deus, Rafael”, afligiu-se a senhora Mariana, que, tal como as crianças, estava atenta à conversa. “A Laurinda já me falou nessa elatrocidade e contou-me que ouviu dizer que isso faz muito mal à saúde, é antinatural “

“Disparate, minha senhora”, admoestou-a o homem. “A electricidade não tem efeitos adversos e, além do mais, possui até muitas aplicações. Dizem que, no futuro, os Americanos vão ser puxados pela electricidade, e não por cavalos, o mesmo acontecendo com todas as máquinas modernas. Com a energia eléctrica far-se-ão coisas extraordinárias, impensáveis. Por exemplo, no mês passado, ali no Intendente, houve uma grande animação. O Real Colyseu fez uma exibição de fotografias vivas, era uma coisa do arco-da-velha, tudo mexido pela electricidade. “

“Homessa! “, admirou-se o senhor Rafael. “Fotografias vivas? “ “É mesmo assim como lhe estou a dizer. Foram buscar um electricista estrangeiro a Madrid e ele mostrou fotografias a mexer, víamos gente a andar, a correr, a pular, um baile em Paris, comboios a circular, uma ponte na cidade, era uma coisa impressionante, impressionante. São fotografias animadas por electricidade e é por isso que lhes chamam animatógrafo. “ O homem sorriu, o olhar perdido no infinito. “Aaah, aquilo é que foram duas horas bem catitas! Cobraram um balúrdio por sessão, mas pensa que isso fez esmorecer a tusa do pessoal? Nem pó! Foi uma roda-viva, um ver que t'avias a vender bilhetes, era tudo à coca, a malta queria era ver os bonecos.

“E isso já acabou? “

“Infelizmente já”, confirmou o homem com um suspiro. “Mas estive a ler no jornal que o Theatro D. Amélia vai em breve começar com sessões diárias de fotografias animadas. O electricista foi para o Porto mas tenciona voltar aqui a Lisboa e dizem que ele agora não terá só coisas lá da França, vai mostrar fotografias vivas de uma tourada no Campo Pequeno, da praia de Algés, ali da Avenida da Liberdade, da Boca do Inferno, coisas com a nossa gente, sabe? De modo que anda tudo em pulgas para ver essas maravilhas.”

O senhor Rafael e a família reagiram com cepticismo a tão espantoso anúncio, pensaram mesmo que o lisboeta estava a fazer pouco de si. Como era lá possível ver fotografias a mexer? Mas o homem não se calava com as novidades e informou os ribatejanos de que, se estivessem interessados em sensações fortes, iria haver nessa tarde um interessante jogo de football.

“E o que é isso do fubôu?”, indagou Rafael Laureano, intrigado com as modernices dos citadinos.

“Football”, corrigiu o seu interlocutor, divertido por estar a explicar uma palavra inglesa a um paisano das berças. “É um jogo inglês em que se formam duas equipas de players e todos dão kiques numa bola até fazerem goal.

O senhor Rafael não percebeu muito bem, mas ficou cheio de curiosidade. Se calhar, valia a pena ir ver esse tal fubôu para depois contar as novidades lá na taberna do Silvestre, a carroça sem cavalos já iria dar pano para mangas, aquela conversa da electricidade e das fotografias a mexer também, o mesmo se podia dizer do fenómeno de muita gente usar sapatos e andar vestida como o doutor Barbosa, pode ser que esta outra coisa alimentasse mais uma tarde de cavaqueira, que preciosa mina de assuntos para paleio sem fim se estava a revelar este passeio pela capital, que brilharete ele iria fazer com os amigos dos copos.

“Ó amigo, e onde é isso?

“É ali no Campo Pequeno, daqui a duas horas”, disse o homem, apontando para a esquerda. “Está a ver aquela rua? É a Avenida Fontes Pereira de Mello. Meta por ali até ao Saldanha, uma grande praça que está por acolá, e depois siga por uma alameda muito larga, a Avenida Ressano Garcia, até dar com uma grande arena, à direita, uma coisa feita há pouco tempo para as touradas. Chega lá em meia hora. “

A senhora Mariana puxou o marido pelo braço.

“Rafael, então e a Ermelinda?”

“Ó filha, tem calma”, retorquiu Rafael, agastado. “A tua prima não vai a lado nenhum, não te aflijas. A gente dá o passeio e depois vamos lá ver a moça, não te apoquentes.”

Quando terminou a refeição, a família Laureano rumou tranquilamente na direcção indicada. O passeio durou quarenta minutos, até que os cinco deram com um enorme edifício circular cor de tijolo, cheio de arcadas e galerias, decorado a arabescos, cúpulas duplas em azul-celeste a dominar os vários torreões de estilo neomourisco, era a praça de touros erguida no centro de um terreno maltratado. Concentrava-se ali uma pequena multidão, incluindo algumas mulheres de alta sociedade com os seus vestidos cheios, os chapéus espampanantes e as sombrinhas parisienses, rodeadas por um séquito de amigas e criados. Indagando se era ali o Campo Pequeno, o senhor Rafael obteve a confirmação. Perante si erguia-se a praça de touros. Aproximou- se da bilheteira e verificou que a tabela de preços indicava que os bilhetes mais baratos eram os da galeria de 2. a ordem a duzentos réis cada um, e os mais caros eram os camarotes de 1. a ordem, a doze mil réis. Sentiu-se confuso e questionou um empregado.

“Ó amigo, tantos réis para ver fubôu?”

O funcionário riu-se.

“Aqui é só tourada, homem. A bola é ali “

O empregado apontou para os baldios ao lado da praça. Estendia-se ali um pedaço de terra com dois grandes rectângulos desenhados no chão, que o homem identificou como sendo os campos de jogo. Um dos rectângulos, mesmo colado à praça de touros, mostrava-se vagamente nivelado, mas o outro estava cheio de covas e buracos. Ao que parece, havia sempre ali muitos jogos e as equipas que chegassem primeiro ocupavam o rectângulo mais nivelado. Os atrasados tinham de se contentar com o que se apresentava esburacado.

A família de Rio Maior aproximou-se do rectângulo em melhor estado e não teve de esperar muito para que surgissem novidades. Dois grupos de homens apareceram pouco depois no local, cada grupo transportando pelo baldio umas enormes traves de madeira, duas mais pequenas pregadas em paralelo e unidas por uma grande trave colocada perpendicularmente numa das pontas. Cruzaram o descampado até chegarem ao rectângulo mais liso.

“São os players do Real Gymnasio Club”, explicou um mirone ao senhor Rafael. “Vêm do Rego e trazem as balizas.

“Rafael Laureano não percebeu a explicação, mas manteve-se calado, a observar. Os homens colocaram as traves em cada extremidade do rectângulo e, inesperadamente, começaram a tirar os casacos e as gravatas. Via-se que era gente de classe alta, pelo que o seu comportamento deixou a família de Rio Maior siderada. Depois de ficarem em tronco nu, tiraram os sapatos e, cúmulo dos cúmulos, começaram a baixar as calças. A senhora Mariana reprimiu um grito púdico, tapou os olhos e virou-se de costas enquanto os filhos e o marido se encontravam paralisados e de boca aberta, tinham dificuldade em acreditar no que viam, até que explodiram em gargalhadas. Aquela gente fina, tão cheia de pruridos e salamaleques, estava a despir-se em plena rua, e as damas que se encontravam na assistência limitavam-se a ocultar os olhos com os seus leques floridos. Os recém-chegados ficaram todos momentaneamente de cuecas até vestirem umas calças apertadas e curtas, como se fossem calças de cavaleiros com a bainha pelos joelhos. Colocaram sobre o tronco umas camisolas coloridas e calçaram umas meias altas e uns tamancos escuros. Um deles tirou uma bola castanha de um saco e foram todos a correr para dentro do rectângulo aos pontapés à bola. Instantes mais tarde apareceram de bicicleta outros homens que repetiram por detrás da segunda baliza o ritual de se despirem e vestirem, amontoando a roupa junto às traves antes de entrarem igualmente no terreno.

“É o Football Club Lisbonense”, anunciou o mirone, intimamente divertido com a reacção dos parolos que o escutavam.

Estes gajos são muito bons, até agora só perderam uma única vez, há três anos, contra uma equipa de ingleses, e, mesmo assim apenas por um goal.

Agarrado às calças do pai, o pequeno Afonso reteve na memória o que se passou a seguir. Os dois grupos tinham camisolas de cores diferentes e desataram todos a correr loucamente pelo campo a dar pontapés na bola, perante o clamor excitado dos espectadores e a vigilância de um homem vestido com um elegante fato e gravata de tweed que corria entre eles a dar ordens.

“É o referee”, esclareceu o mesmo mirone.

As regras eram simples. Tornou-se claro aos visitantes de Rio Maior que só os dois homens que se encontravam nas balizas podiam pegar na bola com as mãos, todos os outros apenas estavam autorizados a dar pontapés. Havia alguns que eram muito loiros ou ruivos, tratava-se de ingleses misturados nas duas equipas. Por vezes zangavam-se todos, gritavam, gesticulavam, empurravam-se, o jogo parava, entravam espectadores no rectângulo para participarem na discussão, o sururu crescia para depois acalmar, os jogadores e o homem engravatado de fato de tweed empurravam toda a gente para fora do campo e logo tudo recomeçava. Uma vez por outra, a bola entrava numa baliza, ouvia-se uma grande gritaria e aplausos entre os espectadores e alguns dos jogadores saltavam de alegria e abraçavam-se efusivamente.

“Aquele pequenino é o Barley, um inglês muito bom”, indicou o mirone com entusiasmo, apontando para um homem que corria rápido pelas alas e que acabara de meter uma bola na baliza, sendo nesse instante cumprimentado por vários amigos. “Mas o que eu gosto mais é daquele magrinho ali, o Paiva Raposo. Sim senhor, aquilo é que é um player, um portento nos dribblings e nos kiques! O Barley e o Raposo estiveram os dois no team do Club Lisbonense que ganhou a primeira taça de football em Portugal, há dois anos, quando foram ao Porto derrotar o Football Club do Porto por 2-0. Até el-rei foi lá ver o match”

Nessa tarde soalheira no Campo Pequeno, o Football Club Lisbonense venceu o Real Gymnasio Club Portuguez por 3-1, confirmando mais uma vez tratar-se da melhor equipa de football existente em Portugal.

“Bem, vamos lá então à Ermelinda”, suspirou o senhor Rafael voltando as costas ao Campo Pequeno.

“É uma pena que isto vá acabar em breve”, comentou o mirone, em jeito de despedida, quando já a multidão dispersava.

“Então? “, admirou-se o pai de Afonso, olhando para trás. “ Construíram aqui há quatro anos esta arena de touros e estão a dar ordens para se acabarem estes jogos. A rapaziada vai ficar sem campo. “

O homem deu meia-volta para se ir embora, mas o senhor Rafael lembrou-se de que tinha ainda uma pergunta para lhe fazer.

“ Ó amigo “

O mirone voltou-se.

“ Sirr: “

“Você já foi a Rio Maior?

 

Foi um parto duro, como se espera que sejam todos os partos, mas madame Michelle Chevallier tinha umas ancas estreitas e os rins não se cansaram de protestar quando sentiram que chegara a hora de dar à luz a criança. A parteira cortou o cordão umbilical, deu uma palmada no bebé e o choro fraco irrompeu pelo quarto, era quase um miar aflito. A avó limpou a criança em água previamente aquecida numa chaleira, cobriu-a com um xaile macio, saiu do quarto e, com um sorriso feliz mas os olhos cansados após a longa noite, exibiu-a ao pai e ao avô, que aguardavam à porta, excitados com os frágeis berros que tinham escutado havia momentos.

“É uma menina”, anunciou.

Foi na manhã de 2 de Outubro de 1891 que Paul Chevallier viu nascer a sua segunda filha. Horas mais tarde, enquanto a criança mamava no seio da mãe e sob os olhares embevecidos do pai, da pequena e excitada irmã Claudette e dos dois avós ainda vivos, ficou decidido que ela se chamaria Agnès, como a avó materna. Nos três anos seguintes nasceriam mais dois filhos, ambos rapazes, Gaston e François, perfazendo um total de quatro irmãos, número que os pais consideraram adequado e final, salvo imprevistos.

A família Chevallier vivia numa casa antiga situada na Rue du Palais Rihour, no meio de uma colorida fila de estreitos e pitorescos domicílios do século XVI e a um passo da imponente Grande Place de Lille. Cedo a pequena Agnès Chevallier começou a frequentar a loja do pai, uma casa de vinhos localizada na faustosa Vieille Bourse e chamada Château du Vin. Só por si, o facto de se ter uma loja na Vieille Bourse constituía indício forte de que se era alguém de posses, descrição que vagamente correspondia ao modo de vida de Paul. O pai de Agnès era um homem alto e magro, muito louro e com os malares salientes nas maçãs do rosto. Tinha terras perto de Reims, onde cultiva-va uvas para fazer champagne, cuja qualidade fez dele um enólogo prestigiado em Lille, embora o seu verdadeiro negócio fosse o comércio de vinhos. A sua loja, frequentemente transformada num escritório comercial, exportava para a Bélgica, a Holanda, a Grã-Bretanha e a Alemanha.

Tal como muitos habitantes da cidade, os Chevallier eram burgueses de origem flamenga e não esqueciam esse facto. O nome original de família, Van der Elst, tinha sido vitimado pela intolerância francesa para com as tradições flamengas, levando um antepassado que se notabilizara em acções de cavalaria durante as guerras napoleónicas a decidir alterar o apelido para Chevallier. Essa é, de resto, a história de Lille, uma cidade originalmente belga, Rijssel, alvo de onze cercos e arrasada várias vezes em mil anos, colocada sucessivamente sob controlo flamengo, francês, austríaco e espanhol até ser definitivamente anexada pelos franceses no século xvi, com o tratado de Aix-la-Chapelle. Luís XIV conquistou a povoação em 1667, conferiu-lhe o estatuto de capital da Flandres francesa e chamou-lhe Lille, uma evolução da palavra L'isle, a ilha, uma vez que a cidade cresceu em torno de um castelo construído numa das ilhas do rio Deúle. O próprio edifício da Vieille Bourse fazia questão de lembrar o passado flamengo de Lille, mantendo quatro leões da Flandres orgulhosa-mente esculpidos na fachada. A imponência do edifício da Vieille Bourse era algo que não deixava de impressionar a pequena Agnès sempre que a mãe a levava a visitar o pai à loja de vinhos. A Vieillr Bourse erguia-se, majestosa, de um dos lados da praça central da cidade, exibindo fausto e opulência na sua arquitectura grandiosa, com as cariátides a ornarem as pilastras, as janelas ricamente decoradas à maneira do Renascimento flamengo, um sino dentro da vistosa e altiva coluna vermelho-tijolo que se erguia no topo central do telhado escuro. Embora parecesse um único edifício, a Vieille Bourse era, na verdade, constituída por vinte e quatro pequenas casas de comércio, uma das quais albergava Château du Vin.

Durante a infância, os quatro irmãos foram educados em casa. Todos eles eram bilingues, falavam francês e flamengo. As conversas em família decorriam preduminantemente em francês, mas o flamengo intrometia-se amiúde, com frequentes “goedemorgen” a serem trocados pela manhã, pedindo-se “gebak”, “melk” e “suiker “ à mesa do pequeno-almoço e lançando-se “tot ziens “ de despedida. As refeições cozinhadas por Michelle tinham a marca da cozinha flamenga, feita de carne de aves e de pratos gordurosos, como boudin e morcela com puré de maçã. Mas os favoritos da criançada eram o waterzoi; as doces gaufres e a marmelada com maroille, o popular queijo da região.

Agnès tinha duas grandes amigas. Uma era a irmã Claudette, um ano mais velha. Claudette era arisca e mandona, Agnès revelava-se mais meiga e conciliadora, embora na hora do aperto se mostrasse inesperadamente tesa e inflexível. As brincadeiras entre as duas terminavam numa invariável guerra de insultos, beliscões e arranhões. As palavras mais duras eram “t'es méchante”, “tu és má”, insulto que em geral desencadeava um rápido e doloroso contacto físico. A mãe aparecia a separá-las e obrigava-as a pedirem desculpa uma à outra. Como era orgulhosa, Agnès desculpava-se em flamengo, vomitando um cru “het spijt me echt! “ com tal ferocidade que mais soava a novo insulto. Evitava sempre dar parte de fraca e raramente chorava, apesar de a irmã ser fisicamente mais forte e, consequentemente, fazer prevalecer a sua vontade nestes confrontos.

Quando as brincadeiras com Claudette acabavam mal, Agnès ia ter com a sua segunda amiga, uma boneca de cartão e madeira à qual chamava Mignonne e de quem se tornou inseparável. Mignonne era uma boneca jumeau, oca por dentro e fabricada num molde, com olhos de vidro castanhos e uma cabeleira loira encaracolada, a cabeça encaixada num corpo composto e articulado, os membros a dobrarem-se nas junções, o que era uma novidade. Foi com Mignonne ao colo que Agnès aprendeu a tri cotar, e era sempre na sua companhia que ouvia a mãe contar histórias, na maior parte contos flamengos, como as lendas da batalha entre Lydéric e Phinaert, os míticos gigantes fundadores de Rijssel, e de Yan den Houtkapper, o lenhador que, segundo a tradição, fabricou um par de botas de madeira para Carlos Magno. Mas foi uma história comprovadamente verdadeira, a de Florence Nightingale, que mais capturou a imaginação da pequena, ao ponto de passar a dizer a toda a gente que ela e Mignonne iriam ser enfermeiras quando fossem grandes.

“Florence Nightingale?”, admirou-se uma vez madame Chenu, uma amiga da mãe, quando a ouviu citar a sua heroína. “Ora ora, se gosta tanto de ajudar os outros, a menina devia era seguir os passos do grande herói de Lille.”

“Lydéric?”, interrogou-se Agnès, hesitante.

Madame Chenu riu-se.

“Lydéric? Não, ma petite, esse já lá vai. Estou a falar do nosso Pasteur, o grande Pasteur, que Deus o tenha. Esse, sim, é um exemplo, deve ser imitado.”

Foi a primeira vez que Agnès ouviu falar no recentemente falecido herói da cidade. Louis Pasteur era oriundo da região e foi em Lille que desenvolveu as investigações que o tornariam célebre. Descobriu o papel dos microorga-nismos na fermentação e desenvolveu a pasteurização para combater esse processo. Mais importante, inventou as vacinas e demonstrou a importância da higiene nos hospitais como modo de controlar a alta taxa de mortalidade entre os doentes internados. Todo esse trabalho, desenvolvido sobretudo na década anterior, atraiu uma enorme atenção sobre este cientista francês, tornando-o o mais famoso filho de Lille e o orgulho da cidade.

Com a medicina vagamente em mente, Agnès começou aos nove anos a frequentar o liceu católico para raparigas. Magra como um palito, um sorriso luminoso e os traços do rosto bem desenhados, a pequena depressa se fundiu na multidão homogénea de meninas com batas. No primeiro dia levou Mignonne para as aulas, mas a professora, uma freira austera e ríspida, depressa lhe tornou claro que não apreciava a ideia. A meio de uma lição, a irmã Pezard calou-se bruscamente e aproximou-se da carteira de Agnès com ar severo.

“O que é isto? “, perguntou a freira, pegando na boneca.

“É Mignonne, soeur”, informou-a Agnès com timidez. “É a minha amiga. “

A professora ignorou a resposta.

“Não se admitem aqui bonecas. A menina já tem idade para se deixar de criancices. “ Deu meia-volta e regressou para a sua secretária com Mignonne na mão. “Venha buscar a boneca quando as aulas terminarem, e, atenção, não a quero voltar a ver por cá”.

Agnès ganhou um medo terrível a soeur Pezard, mas o incidente serviu para lhe fazer perceber que a infância teria de ficar à porta do liceu. As brincadeiras e conversas com a boneca de cartão e madeira foram assim reservadas para a noite, em particular para os instantes antes de adormecer. Agnès deixou naturalmente de acreditar que Mignonne a ouvia, embora permanecesse afeiçoada à boneca e falasse com ela como quem escreve num diário, era uma maneira de fazer o balanço do dia e estruturar verbalmente o que aprendera e tudo o que vira. A segunda filha do casal Chevallier cresceu viçosa, mais parecida com a avó paterna, já falecida, do que com a mãe, os cabelos aloirados a acastanharem em caracóis vistosos, os olhos de um verde-vivo e intenso, talvez uma mistura do azul do pai com o castanho da mãe.

Foi nesta idade que Agnès guardou a sua mais extraordinária e mágica memória de infância. O pai adorava falar de Paris, e em particular de uma torre gigantesca que para lá tinha sido construída, tema frequente das conversas no Château du Vin. Os clientes da loja que tinham assistido à inauguração da torre, dois anos antes do nascimento de Agnès, dividiam-se quanto à importância daquela obra e expunham os seus argumentos em intensas e acaloradas discussões. Sentada num canto da loja, Agnès ouvia-os em silêncio, mas com atenção. Uns diziam que era um monstro, uma chaminé de ferro, um disparate sem igual, um insulto à arquitectura de Paris, até uma ameaça à segurança das pessoas, as leis da gravidade tornavam evidente que tal tumor metálico iria inevitavelmente tombar. O alfaiate Aubier afirmava mesmo, s arcástico, que o sítio onde mais gostava de estar quando visitava Paris era na torre, justamente porque era esse o único local da cidade onde não teria de a ver. Em boa verdade, este dito espirituoso não era da sua autoria, Aubier tinha lido uma coisa do género num jornal, atribuída a Guy de Maupassant, mas nas conversas com os amigos a frase produzia bom efeito e ele não se importava de a fazer passar por sua.

Outros clientes, porém, gabavam com entusiasmo a monumentalidade e engenhosidade da obra, que consideravam a prova de que a engenharia francesa era a melhor do mundo. A torre foi apresentada ao público na Exposição Universal de 1889, constituindo um tributo à industrialização da França e um marco para assinalar o centenário da Revolução Francesa, ao mesmo tempo que gerava um aceso debate público nos jornais e suscitava acérrima oposição de arquitectos e artistas. Em bom rigor, a obra era tão polémica que todos a queriam ver. Paul Chevallier, como qualquer francês que se prezasse, acompanhou o debate à distância mas não pôde na altura visitar a Exposição e ver a célebre torre para julgar por si mesmo. Só mais tarde teve oportunidade de o fazer, durante as várias viagens a Paris a que os compromissos profissionais o obrigavam para comercializar a produção vinícola. Ia sempre sozinho e, no regresso, não se coibia de louvar em casa a grandiosidade da obra.

Por decisão de Luís Napoleão, a França acolhia uma grande exposição universal todas as décadas, com intervalos que não podiam exceder os doze anos, de modo que o certame seguinte em Paris ficou marcado para 1900. Numa manhã da Primavera desse ano, ao pequeno- almoço, e por entre dois croissants, Paul Chevallier fez perante a família um anúncio solene.

“Está decidido”, disse. “Este ano vamos à Exposição Universal de Paris “

Foi uma excitação lá em casa. Muitas das colegas de Agnès no liceu iriam de propósito a Paris com os pais para visitarem a Exposição, e os que não tinham planos para tal mostravam-se desesperados ante a perspectiva de perderem o grande acontecimento do ano. Os filhos de Paul passaram semanas a falar do assunto, pedindo, implorando, ameaçando, até chorando, quando finalmente conseguiram naquela manhã arrancar do pai o compromisso de que iriam à Exposição. Não é que Paul e Michelle fizessem um grande sacrifício, na verdade sentiam-se ambos igualmente ansiosos por visitar Paris e participar no grande evento, todos os seus amigos lá iriam e era impensável que os Chevallier ficassem para trás.

A família chegou à Gare du Nord num final de manhã de Maio. Os seis apanharam um coche com destino ao hotel, no centro da cidade. Mal o coche começou a andar, atingiram uma lomba e viram a silhueta esguia da Torre Eiffel erguer-se no horizonte, um “oh” excitado e admirativo reverberou entre as crianças, já tinham visto a imagem da polémica torre nos jornais e em postais da Exposição de 1889, mas vê-la assim ao vivo era coisa única e de admirar, que construção tão extraordinária e maravilhosa, tudo ferro e engenho, o verdadeiro triunfo da indústria. Na planície parisiense apenas o vulto branco do Sacré Coeur parecia desafiar aquele gigante de ferro, mas a catedral de Deus perdia na comparação com a basílica de Eiffel, sem dúvida era esta torre um indício da arrogância do homem no seu crescimento para os domínios celestes, o sinal inequívoco da superioridade da ciência sobre a superstição, a prova final do domínio da luz sobre as trevas obscurantistas.

“Tem trezentos metros de altura”, comentou orgulhosamente o cocheiro. “É a mais alta construção do mundo, maior do que as pirâmides do Egipto.

Foram instalar-se no Hotel Scribe e, sem perderem tempo, apanharam em Châtelet o chemin de fer metropolitain em direcção à Place d'Italie, tudo numa grande excitação, não imaginavam ser possível andar num comboio por baixo da terra, que maravilha, que prodígio, na Place d'Italie apanharam outro metropolitain e foram dar à Place du Trocadéro, a estação da Exposição Universal, dirigiram-se ali a um dos guichets de acesso ao recinto e Paul puxou da carteira.

“Quanto são seis bilhetes? “

“Como já é meio-dia, é um franco por pessoa”, indicou o recepcionista.

“Ah é? E se tivéssemos chegado mais cedo?

“Até às dez da manhã são dois francos por pessoa, msieu. Depois das dez passa a um franco. “

Uma enorme multidão enchia o Trocadéro, tornando difícil a circulação. Os Chevallier entraram no recinto e deram imediatamente de caras com o exótico pavilhão de Madagáscar, um grupo de homens com chapéus de palha e capas às riscas a cantar alegres canções malgaches num palco sobre o passeio, uma multidão em redor a apreciar o espectáculo de som e festa, viam-se camelots a venderem postais, elegantes senhoras com vistosas sombrinhas, cavalheiros de bengala e cartola, crianças vestidas como adultos, um mar de gente aqui e ali, vagueando, fluindo tudo num imenso bulício, era a belle époque em todo o seu esplendor.

“Vamos ver, pai, vamos ver”, implorou Agnès aos pulos, apontando para os animados músicos malgaches.

Claudette fez coro.

“On va?“

Mas Paul, previamente aconselhado pelos amigos a não perder a cabeça com a primeira atracção que lhe aparecesse pela frente e preocupado em gerir o tempo, abanou a cabeça.

“Agora não, meninas. Vamos primeiro dar uma volta e só depois é que escolhemos o que iremos assistir”

“Mas eu quero ouvir aquela música”, insistiu Agnès. “É divertida. “

“Depois, filha, depois”

Os seis penetraram no parque do Trocadéro e deram com a exposição colonial e a sua miscelânea de estilos arquitectónicos, colunas do antigo Egipto, pagodes de Brama, telhados revirados do Japão, cúpulas árabes, casas de bambu, palhotas, tendas, medinas, tudo povoado de povos indígenas que enchiam a praça com um colorido exotismo, eram beduínos, chineses, bosquí-manos, índios, bantus, sikhs, mongóis, melanésios. Desceram o parque pelo corredor direito, à esquerda um lago a cair em degraus comn uma cascata geométrica, à direita as colónias francesas, Martinica, Guadalupe, Guiana, Reunião, Tonquim, do outro lado do lago as colónias estrangeiras, a Ásia russa, o Transval, as colónias portuguesas, as Índias holandesas, nada disto interessava, eram outros impérios, a não ser talvez aquele estranho edifício na esquina, “c'est quoi ça?”, é uma réplica do templo javanês de Tchandi-Sari entalado entre duas casas dos planaltos de Samatra. Mantiveram-se no corredor das colónias francesas e deram, à direita, com a porta de uma casa de Tunes, depois surgiram as construções do oásis de Tozeur, pórticos da mesquita de Sidi-Mahrès, o minarete da mesquita de Barbier, um café de Sidi-bu-Said, ruelas de souks, é a Tunísia, “c'est pas rigolo?“, à direita o palácio da Argélia, um edifício esbranquiçado e ornado com frisos e cantarias de azulejos, ao lado a velha Argel com a sua pitoresca casbah, terraços abertos, cúpulas e minaretes coroados com crescentes islâmicos, um restaurante de couscous lá dentro, raparigas de Ouled-Nails a atraírem uma embasbacada multidão com a sua atrevida dança do sabre, “uh la la! “, do outro lado encontravam-se as colónias inglesas, não interessava.

Agnès mostrava-se estupefacta com a variedade cultural que se espalhava em redor. Tudo lhe parecia estranho, exótico, quase mágico, exuberante de diversidade, tão diferente do que estava habituada a ver, e olhava para o pai como fonte de respostas para as múltiplas dúvidas que a assaltavam.

“Mas, papá, por que é que eles têm a pele escura?

“É por causa do sol, filha.

A menina olhou para a brancura marmórea do seu braço, a pele exibia um tom claro de leite, alvo e suave como marfim.

“Mas eu também apanho sol e sou clarinha.

“É que eles, lá na sua terra, apanham muito mais sol do que nós, são meses e meses de sol, sem quase verem nuvens.

Agnès fez um olhar céptico.

“Meses de sol? Então não têm Inverno? “

“Parece que não. O monsieur Dongot, aquele gorducho que às vezes vai lá à loja para comprar umas remessas para Hué, o do bigode, sabes? Pois ele anda pelas Indochinas e contou-me que nos trópicos nunca usam casaco e que a água da praia é tão quente que parece que foi aquecida numa chaleira. “

Agnès ficou alguns minutos a mirar as figuras exóticas que se moviam em torno de si, imaginando-as num mundo de sol e águas escaldantes, um mundo onde não eram precisos casacos e as pessoas se tornavam escuras com o calor. Era difícil acreditar em tal, mas se o pai o dizia...

A figura dominante da Torre Eiffel impôs-se finalmente sobre o parque do Trocadéro. Os Chevallier admiraram aquele monumento em ferro que os atraía do outro lado do rio como se fosse um íman, um magneto fascinante, impo-nente, poderoso, gigantesco. Cruzaram a Pont d'Iena, alargada especialmente para a Exposição, e, por entre dois trinck-hall, entraram no Champ-de-Mars, o colosso metálico rasgando o céu diante de si, o espaço em redor ocupado por vistosos edifícios de ferro e vidro, à direita o Cinéorama e o Palais de la Femme, atrás destes o Palais de l’Optique, à esquerda o Crédit Lyonnais, o quiosque dos tabacs étrangers, o exótico Panorama du Tour du Monde com a sua rica e complexa fachada dominada por um pagode japonês, um minarete turco e uma torre de Angkor, dançarinas cambojanas a a traírem mirones frente à porta principal, ao lado o pequeno chalet de madeira do Club Alpin e a seguir o Palais du Costume. Por baixo da Torre Eiffel estendia-se um jardim geométrico francês, com dois kiosques à la musique a executarem ruidosas marchas militares, e de ambos os lados desenhavam-se pequenos lagos sinuosos integrados num harmonioso jardim paisagístico inglês, muita relva entre rochas, lombas e rica vegetação tropical, fetos arborescentes, palmeiras de estipes esguias, arbustos viçosos, caminhos a serpentearem pela verdura, pontes sobre a água, nenúfares a deslizarem suavemente à superfície, serenos, delicados.

Os Chevallier foram almoçar uns crêpes au fromage et jambon ao restaurante entre o Palais du Costume e o edifício dos Postes et Télégraphes, com vista para o lago e para a Torre Eiffel.

“Papá, o que é que monsieur Dongot diz das pessoas que ele para lá viu?“, quis saber Agnès enquanto saboreava o queijo derretido dentro do crepe.

“ Que viu onde Na Indochina “

“ Sim. “

“Ele diz que são uns selvagens, uns primitivos, parecem uns chineses escuros e só comem arroz.

“São simpáticos? “

“O monsieur Dongot dá a impressão de não gostar deles”. Piscou o olho. “Mas isso não quer dizer nada, eles, provavelmente, também não gostam do monsieur Dongot.

Apanharam depois um pequeno e simpático comboio que circulava pelo perímetro da Exposição e, confortavelmente instalados nos bancos das alegres carruagens, admiraram a espantosa torre, de perto era sem dúvida maior e mais imponente do que parecia à distância ou nas ilustrações e postais. Seguiram pelo Quai d'Orsay para apreciarem os palácios e pavilhões ao longo do Sena, estavam ali as representações internacionais, o Reino Unido, a Espanha, os Estados Unidos, a Grécia, Portugal, a Áustria, e ainda as pequenas delícias, coisas mignonnes como a Maison du Rire, o Grand Guignol, a Roulotte, a Chanson Française, os Tableaux Vivants, o restaurante romeno, o bistrôt checo. Percorreram a Esplanade des Invalides, com os seus palácios consagrados ao mobiliário, à tapeçaria, à faiança, à vidraria, e deram meia-volta, novamente o Quai d'Orsay e depois a grande e buliçosa praça do Champ-de-Mars, deixando para trás o monstro de Eiffel e mergulhando na longa alameda de plátanos gigantes, um jardim geométrico feito de relva, arbustos e canteiros floridos, à volta os elegantes edifícios em art nouveau da Exposição Universal, uma maravilha babilónica ornada de palácios colossais, todos animados por uma multiplicidade de bandeiras tricolores, à esquerda o magnífico Palais des Mines et de la Métallurgie, depois o chic Palais des Fils, Tissus et Vêtements, seguiu- se o imponente Palais des Industries Mécaniques, em frente o imperial Palais de l'Electricité e o soberbo Château d'Eau “esperem pela noite mesdames et messieurs, esperem pela noite para verem como é imperial este palácio e esta cascata, esperem pela noite para verem a fada electricidade a iluminar estas maravilhas, à noite é que é, à noite faz-se dia e o homem triunfa sobre as trevas”, clamou o guia, e Agnès sonhou com estas palavras, sonhou com a noite iluminada por aquela fada encantada, enquanto sonhava o comboio negociou a curva e passou diante do quimérico Palais des Industries Chimiques, os kiosques à la musique sempre a entoarem barulhentas marchas militares, depois o movimentado Palais des Moyens du Transport, a seguir o maciço Palais du Génie Civil, finalmente o fino Palais de l'Enseignement, Sciences et Arts; o pitoresco comboio completou o passeio e voltou à Torre Eiffel ia agora novamente para o Quai d'Orsay com destino aos Invalides, mas os Chevallier já tinham visto tudo, já chegava, queriam agora ficar por aqui, era hora de verem as coisas mais perto.

Apearam-se e esticaram a cabeça para cima, observando a enorme torre de ferro que escalava o céu diante de si.

“On va?“, perguntou Paul, desafiando a família a subir ao alto da torre.

Sim, vamos! “, gritou o pequeno Gaston com entusiasmo dando pulinhos de excitação.

“Ouuuiiii! “ concordou François.

As raparigas e a mãe entreolharam-se, apreensivas.

“Não será perigoso?“, perguntou Agnès, lembrando-se das conversas na loja do pai, sobretudo dos argumentos de que a torre estava condenada a cair por desafiar as leis da gravidade.

“Que disparate, meninas”, protestou Paul. “Então viemos a Paris e não subimos à torre? Ainda por cima, podemos andar de ascensor, é uma coisa muito moderna, vocês vão ver. “

Agnès ainda hesitou, receando trepar àquelas alturas, mas, movida pela curiosidade, juntou-se ao grupo, afinal de contas era uma aventura para partilhar mais tarde com as colegas no liceu, se não subisse iria ser gozada o ano inteiro. Os Chevallier foram plantar-se na enorme fila para ascenderem ao topo. Quando chegou a sua vez, entraram para uma grande caixa envidraçada. As portas foram encerradas, a caixa deu um solavanco, estremeceu e, para grande sensação de todos, começou a subir lentamente. Michelle ficou nervosa e tapou os olhos, mas o marido e os filhos acharam graça, os pequenos Gaston e François mostravam-se excitadíssimos, o ascensor tinha sido inventado havia poucos anos e a sua instalação na torre provava que estava aqui concentrada toda a tecnologia de ponta. Subiram ao primeiro andar, visitaram a sala de espectáculos, passaram pelos dois res taurantes e pelo bar anglo-americano, foram apreciar a vista e depois juntaram-se novamente à fila do ascensor.

“Esta torre é uma cidade”, comentou Paul com admiração. “Uma verdadeira cidade. Já viram que também tem ali uma tabacaria e uma tenda de fotografias? “

Elevaram-se ao segundo andar, espantaram-se por igualmente encontrarem aí lojas, um bar e uma tipografia onde era impressa uma edição especial do Figaro, deram um novo passeio para admirarem Paris e colocaram-se mais uma vez na fila do ascensor para subirem ao terceiro e último andar.

“Eu acho que agora não vou”, disse Michelle, segurando Gaston e François pelas mãos.

“Então e porquê? “, surpreendeu-se Paul.

“É muito alto, tenho medo.

“Eu também tenho medo, papá”, adiantou Agnès.

“Mas têm medo de quê, mon Dieu?

“Eles dizem que isto pode cair. Mas que mania! Se cair, já cá estamos, tanto faz que estejamos no segundo como no terceiro andar, é o mesmo. Além do mais, vocês não querem ir visitar o sítio mais alto do mundo? “

Eu quero ir, eu quero ir!“, gritaram Gaston e François em coro, sempre aos pulinhos.

Era uma ideia poderosa, essa a de visitar o cume do maior edifício do mundo, e, a custo, Agnès deixou-se convencer. Apesar das hesitações, lá se encheu de coragem e foi para a fila com o pai e a irmã, a mãe ficou no segundo andar com os dois irmãos eles a chorarem por ficarem para trás, Michelle a dizer-lhes que eram demasiado pequenos para aqueles voos. Paul e as duas filhas entraram no ascensor, Agnès fechou os olhos enquanto a enorme caixa subia, só os abriu lá em cima para ver, receosa e maravilhada, a cidade a estender-se a seus pés para além dos vidros de protecção, o Sena a serpentear languidamente com os seus barcos a vapor ou à vela, o Arco do Triunfo transformado à distância num monumento minúsculo no centro convergente da Place de l'Étoile, o Sacré Coeur lá ao fundo, Notre- Dame e o Louvre do outro lado, o Panthéon mais afastado. Vista ali do alto, Paris assemelhava-se a uma cidade de brincar, um emaranhado de miniaturas que eram verdadeiras réplicas de originais famosos. tudo parecia perto, num único relance via-se o Bois de Boulogne e o jardim das Tulherias, as pessoas não passavam de pontinhos a deslizarem pelos passeios e a aglomerarem-se.

“Que medo deve ser estar lá em cima, comentou Agnès com olhar de espanto, ela também cá em cima, mas em piso firme, não na desconcertante ondulação da roda gigante. Foram nessa noite jantar ao restaurante Kammerzell, onde estavam anunciados pelas paredes os surpreendentes espectáculos de Ballon Cinéorama. Havia já seis anos que se falava numa importante inovação, a das fotografias animadas, e era essa novidade que constituía um dos pratos fortes da Exposição Universal. Paul leu numa brochura distribuída no Kammerzell que as fotografias animadas tinham sido inventadas em 1894 por um “electricista” americano chamado Thomas Edison, que baptizou o seu sistema de kinetoscope. Dizia o folheto que a primeira demonstração em França foi feita por Étienne Marey, que nesse mesmo ano projectou um filme chronophotographique na Academia das Ciências. Agnès achou tudo isso estranho e observou que tal era impossível, as fotografias não se podiam mexer, no que todos concordaram, mas os cartazes no restaurante e a brochura garantiam o contrário. Apesar de já ter ido a Paris em anos anteriores, Paul permanecia na ignorância quanto àquela novidade e decidiu informar-se junto do empregado quando este se aproximou com o tabuleiro carregado de choucroute e cerveja.

“Sim, as fotografias mexem-se, tornam- se vivas”, assegurou o garçon, divertido com a admiração dos provençales. “O primeiro Kinetoscope Parlor abriu há seis anos no Boulevard Poissonnière e paguei vinte e cinco cêntimos para ver”

“E isso chama-se kinetoscope?

“Há muitos nomes e muitos sistemas diferentes”, indicou o empregado, visivelmente um entusiástico connaisseur. “Há o kinetoscope, que foi o primeiro, mas há também o stroboscopique, o praxinoscope, o pantoptikon, o eidoloscope, o photozootrope, o cinématographe, o phototachygraphe, o théatrographe, o animatographe, o chronophotographe, enfim, uma série de coisas novas que nos mostram as fotografias a mexer”

“Isso vê-se no Boulevard Poissonnière?

“Sim, mas há outros sítios e coisas muito melhores do que o Kinetoscope Parlor.

“ Melhores? “

“Claro. Por exemplo, o cinématographe é fantástico” “O cinématographe? Onde é isso? “

“Oh, em muitos locais. Podem ir ao Café Eldorado, situado no Boulevard de Strasbourg, ao Olympia ou às Galleries Dufayel, no Boulevard Barbès, ou aos vários cinématographes Lumière que há por toda a cidade. Mas, já que aqui estão, sempre têm a opção de verem os diversos espectáculos que estão previstos na Exposição. “

Depois do jantar, já noite cerrada, foram assistir à exibição de electricidade no Palais de l'Électricité, uma majestosa galeria dedicada à glória da luz e a dominar o Champ-de-Mars em contraponto à Torre Eiffel. Os Chevallier aproximaram-se, encantados, hipnotizados com o surpreendente espectáculo feérico à sua frente, presos no olhar, juntamente com milhares de outras pessoas, ao monumento de luz, o palácio literalmente acendera-se, o edifício brilhava de cor, viam-se cordões de lâmpadas ligadas, explosões de arcos de luz, a estátua do Génio da Electricidade, brandindo a sua torcha no topo, a resplandecer em auréola raios fulgurantes por toda a fachada, vidros coloridos por entre o ferro, luzes fantásticas a mudarem de cor, a brilharem, a insinuarem movimento, bandeiras francesas orgulhosamente içadas por toda a alameda e presas como bouquets de flores nos mastros e balaustradas. Diante do palácio, o Château d'Eau também se a cendera, a cascata tombava de trinta metros, a água iluminada por lâmpadas, parecendo flamejante, desenhando no ar esculturas de fogo líquido, lava ardente a mergulhar com furor na massa escura do lago, a fonte luminosa a encantar a fascinada multidão.

Os Chevallier foram dormir nessa noite no Hotel Scribe, mas Paul teve o cuidado de comprar um guia da Exposição, não queria ser surpreendido com mais novidades nem correr o risco de as perder por ignorar que elas existiam. O guia explicava que havia diversas experiências cinematográficas em exibição no Champde-Mars, com um total de dezassete locais de projecção e doze pavilhões. Havia o Panorama, o Phonorama, o Photorama, o Théatroscope, o Phono-Cinéma-Théatre, o Cinématographe Algérien, o Cinéorama e o Cinématographe Lumière.

Então o que querem ver? “, perguntou Paul, sentado num canapé junto à recepção do hotel, a família em torno de si.

“Queremos ver tudo”, exclamou Claudette, no que foi ruidosamente apoiada pelos irmãos.

“Isso não pode ser, não podemos ver tudo”, devolveu o pai, abanando a cabeça. “Só temos mais um dia e temos de escolher bem “

“Ooohhh! “

“Por que não perguntar ao concièrge?“, sugeriu Michelle.

Paul dirigiu-se ao balcão do hotel e inquiriu junto do rapaz sobre qual o melhor espectáculo de imagens animadas. O empregado nem hesitou.

“São diferentes uns dos outros”, disse. “Mas temos vários clientes que foram ver o Cinématographe Lumière e vieram de lá maravilhados.“

“O Cinématographe Lumière, é? Onde está isso? “ “Na Exposição, msieur. No Pavilhão Machines. “ Decidiram aceitar a sugestão e subiram aos quartos. Antes de se deitar, Agnès foi à janela do quarto e ficou a admirar a silhueta colorida da Torre Eiffel, a sua estrutura de ferro inteiramente coberta por um emaranhado de lâmpadas. A electricidade tinha chegado e cobria o Champ-de-Mars de luz, a torre brilhando em toda a altura e a emitir três poderosos focos do topo em direcção a vários pontos da cidade.

“Qualquer dia teremos electricidade dentro de casa, vais ver”, suspirou Claudette, sentada diante da janela ao lado da irmã.

Na manhã seguinte voltaram de metropolitain ao Trocadéro, pagaram os bilhetes de dois francos e entraram no recinto. Tinham decidido ir ao Palais de l'Optique, dizia-se que ali se conseguia ver la lune à un metre, que era uma coisa fantástica, única, que se viajava de telescópio. Agnès queria secretamente certificar-se de que se conseguiam observar fadas no céu, aquele era decididamente o pavilhão a não perder. Depois de atravessarem a Pont d'lena, viraram à direita, passaram pelo Cinéorama e estacaram frente ao Palais de L'Optique, um edifício orientado de norte a sul seguindo rigorosamente o meridiano, uma grande meia-cúpula no centro da fachada, os doze signos do zodíaco incrustados no topo, colunas persas a defenderem a entrada, as paredes exteriores decoradas com medidores de tempo, viam-se relógios solares, ampulhetas e clepsidras, duas outras meias-cúpulas nas pontas, mais pequenas, ornadas com baixos-relevos mostrando símbolos astronómicos. Os Chevallier galgaram a escadaria da entrada principal e acederam à grande galeria central do edifício banhada pela luz difusa dos vidros coloridos da meia-cúpula principal. Entraram na Galérie du Télescope e maravilharam-se com o longo tubo da luneta gigante, eram sessenta metros de telescópio suportados por sucessivas colunas assentes no chão.

“É o maior do mundo”, sussurrou Paul para as crianças após ler o placard com a informação.

Subiram ao balcão e olharam-no respeitosamente. O longo telescópio estava disposto na horizontal e apontado para um sideróstato de Foucault, um grande espelho, com dois metros de diâmetro, ligeiramente inclinado para cima, de modo a reflectir os astros para a lente do telescópio.

Saíram alegres do Palais de L'Optique a falarem em Júlio Verne, Paul a relatar a iniciativa do Gun-Club descrita em De la terre à la lune e Autour de la lune, os livros já tinham uns bons trinta anos mas, mon Dieu! como eles permaneciam actuais. “Mas, papá, é mesmo possível ir à Lua? “, perguntou Agnès.

“Monsieur Verne diz que sim, e a verdade é que a artilharia se está a desenvolver de tal modo que um dia talvez haja um canhão capaz de lançar uma bala até à Lua. Por que não? “

“Com gente lá dentro? “

“Sim, mas será complicado. O principal problema é o de amortecer o tiro, fazer com que o impacto inicial não seja muito sentido dentro da bala. Isso talvez seja possível através de um sistema de molas. Depois, é preciso fazer bem a pontaria, não se pode apontar directamente para a Lua, serão necessários muitos cálculos matemáticos para fazer com que a bala e a Lua se encon trem no mesmo sítio ao mesmo tempo.“

“E o que é que eles comem dentro da bala “, intrometeu-se

Michelle, curiosa por perceber qual a forma de impedir que a comida se estragasse durante a viagem.

“Oh, isso é simples. Seria necessário levar galinhas e perus que se matariam consoante as necessidades.

“Então, se isso pode ser feito, por que é que não vamos? “, quis saber Agnès.

“Porque não existe ainda um canhão com essa potência nem uma bala concebida para tal propósito”, explicou Paul, afagando-lhe o cabelo encaraco-lado. “Além do mais, minha querida, há outros problemas a considerar. Sabem, ir à Lua ainda vá que não vá, mas voltar é que é o diabo, não há por lá canhões capazes de atirarem a bala para cá.“

Embrenharam-se assim os seis a conversar, a divagar, sonhadores, circundaram distraidamente o Touring Club e o lago e, quase roçando um pilar da Torre Eiffel, entraram na grande alameda do Champ-de-Mars, evitaram os Quiosques à la musique, admiraram superficialmente as rosas, as tulipas, as magnólias, as violetas e as margaridas que coloriam os jardins e só se calaram quando desembocaram no Palais de l'Électricité, uma magnífica estrutura de aço contorcido e arqueado, a armadura coberta de vidros, expondo entranhas de ferro, espelhos, colunas, arcos, curvas, arabescos, tudo concentrado numa arquitectura que se transformara num festim de metal, numa orgia de ferros, de cúpulas envidraçadas, de fachadas vistosas, embrulhadas em garridas bandeiras tricolores. Subiram ao primeiro andar e espantaram-se com os tubos de Geissler a iluminarem-se, os radiadores a emitirem calor sem lenha, as campainhas a soarem sem corda, as lâmpadas incandescentes a jorrarem luz sem velas, os théâtrophones, os télégraphones, os telefones incripteurs a registarem mensagens, os comboios em miniatura a circularem em carris minúsculos, na verdade tudo aquilo se revelava um estranho e desconcertante concerto eléctrico caoticamente conduzido por um invisível e confuso maestro.

O espectáculo do Cinématographe Lumière estava prestes a começar e os seis dirigiram-se apressadamente para a Salle des Fêtes, uma enorme estrutura metálica construída circularmente no centro da monumental Galérie des Machines, um pavilhão de ferro erguido para a Exposição de 1889 com o intuito de celebrar o triunfo da indústria e da técnica e agora considerado demodé. Quando chegaram ao local, comprimido entre o Palais de l'Électricité e a Avenue de la Motte-Picquet, os Chevallier depararam-se com uma enorme multidão a convergir para o mesmo espectáculo, de modo que tiveram de fazer fila para entrarem na galeria. A Machines era uma gigantesca estrutura de ferro e vidro com mais de quatrocentos metros de comprimento, o portão e a abóbada em arco, um espaço colossal no interior. Um cartaz anunciava a estreia do primeiro Cinématographe Lumière gigante e milhares de pessoas dirigiam-se à galeria para assistirem ao evento.

Os Chevallier entraram na Salle des Fêtes da Machines pelos dois lanços descendentes da enorme escadaria e foram sentar-se nas cadeiras colocadas ao longo de todo o perímetro do edifício circular, havia ali vinte e cinco mil lugares disponíveis e claramente não seriam de mais perante o extraordinário interesse que o espectáculo estava a suscitar. Agnès acomodou-se entre Claudette e a mãe e ficou a mirar o imenso pano branco erguido verticalmente no centro da gigantesca galeria, mesmo por baixo da cúpula envidraçada, ela não o sabia mas aquilo era um ecrã de quatrocentos metros quadrados, de longe o maior do mundo. O enorme pano estava molhado, encontrava-se preso à cúpula de vidro por um gancho e pairava sobre um largo tanque de água, donde tinha sido içado. Agnès interrogou-se quanto ao seu propósito, nada daquilo tinha o ar tecnologicamente avançado das estruturas de ferro que o circundavam.

Quando já não cabiam mais pessoas na galeria, os portões ovais foram fechados e, após uma breve pausa expectante, um feixe de luz cortou a sombra e incidiu sobre o pano gigante. Soltou-se um entusiástico “ah” da multidão e Agnès observou, pasmada, pessoas a mexerem-se no pano molhado, a água embebida no tecido a absorver a luz, as formas a preto e branco a evoluírem com gestos bruscos na tela. Durante vinte e cinco minutos passaram quinze filmes, os suficientes para deixarem a multidão hipnotizada e Agnès fascinada com o mundo do cinema.

A visita à Exposição Universal de Paris produziu uma profunda impressão na rapariga, foram, na verdade, os dois dias mais felizes da sua infância. Uma vez regressada a Lille, todas aquelas maravilhas, formadas por torres de ferro, fotografias que se mexiam em panos molhados e telescópios que mostravam a Lua a um metro de distância, foram sucessivamente revistas na memória, objecto de conversas, de especulações, de fantasias sonhadoras, como seria magnífico o século XX que agora começava, como era belo o futuro que aquelas máquinas deixavam adivinhar, como é grande o engenho do homem, como é gloriosa a ciência francesa.

 

A senhora Mariana era uma mulher religiosa e de princípios. Todas as segundas-feiras ia ao baú onde o marido guardava o trigo e tirava uma mão-cheia de cereal, levando-o depois ao moinho do Silvestre, o mesmo que tinha a taberna. O trigo era aí moído e transformado em farinha. Quando regressava a casa, acendia o forno com lenha trazida do Cidral pela burra e cozia o pão, que durava até domingo sempre fresco.

Um dia, ao acompanhar a mãe ao moinho, Afonso ficou fascinado com um peso de ferro usado na balança decimal e meteu-o inocentemente ao bolso. Mariana descobriu o peso roubado já em casa e arrastou o filho por uma orelha durante todo o caminho até ao moinho, onde devolveu o objecto, e obrigou Afonso a pedir desculpas. O pequeno descobriu duas coisas de uma assentada. Percebeu o que era o roubo e compreendeu que a mãe ficava muito zangada se ele roubasse.

A senhora Mariana fazia também a panela de misturadas, uma sopa muito rica que juntava todos os alimentos, desde hortaliças, feijões e batatas até à carne e aos chouriços, numa versão ribatejana da sopa de pedra e que veio substituir as sopas de cavalo cansado da infância. Tal como o pão, as mistu-radas duravam toda a semana sem se estragarem. Muitas vezes adicionava-se farinha ou pão de milho esfarelado às misturadas, juntamente com azeite e alho cortado, para fazer suculentos magustos. Outras opções eram voltadas para o mar. Afonso acompanhava frequentemente a mãe até à praça e saltava de exci-tação quando ela trazia peixe. Em casa, cada sardinha ou cada chicharro, que o pequeno apreciava mais do que os outros, alimentava duas pessoas. Afonso dividia sempre o seu peixe com Joaquim, ficando com a cabeça e o irmão com o resto. No caso das sardinhas, devorava a cabeça toda, espinhas incluídas, mas com os chicharros era diferente. Dissecava-os como numa autópsia, limpando com a língua a cartilagem da cabeça e saboreando os olhos como se fossem uma iguaria sem igual. O problema é que uma única cabeça de peixe como refeição deixava-o esfomeado e não raras vezes subia sub-repticiamente às árvores de fruta em quintais alheios para surripiar peças que completavam a refeição.

A higiene era descontraída, para utilizar um eufemismo simpático. O banho dominical, que, de resto, só existia no Verão, constituía a única verdadeira limpeza pessoal da família, tomado à pressa e sem rigor, ou não fosse a água gelada um elemento fortemente dissuasor da higiene cuidada. As necessidades eram feitas de cócoras no quintal, junto à pocilga, ou entre as árvores do pinhal que se estendia por detrás da casa. À noite era diferente, Afonso e os dois irmãos tinham um pequeno bacio de louça guardado debaixo da cama e para onde se aliviavam caso houvesse necessidade a meio do sono, sendo o conteúdo despejado na pocilga logo pela manhã. Limpar o rabo foi um conceito desconhecido nos primeiros anos, até que João começou a comprar por dez réis O Século para prospeccionar as propostas de emprego e conhecer a evolução dos jogos do Football Club Lisbonense com os rivais do Real Casa Pia, do Club de Campo de Ourique e dos ingleses do Carcavellos Club. Quando a leitura estava completa, os três irmãos passaram a usar as folhas gigantes do jornal para se limparem depois de defecarem, mas os pais não foram em modernices. O senhor Rafael era analfabeto e considerava que não tinha nenhum uso para o jornal, nem sequer para a limpeza, e a senhora Mariana partilhava o mesmo ponto de vista. Afonso via por vezes a mãe ir para o quintal, abrir as pernas de pé e aliviar-se sem sequer levantar a saia. Não usava cuecas e as necessidades eram feitas assim, livres de complicações de maior.

Afonso completou dez anos em 1900 e deixou a escola. Achava-se já um homenzinho, pelo que decidiu ir trabalhar para a serração com os irmãos. Era um armazém grande e, como o rapaz mostrava uma compleição franzina devido à sua tenra idade, foi poupado inicialmente aos trabalhos mais pesados. O senhor Guerreiro, que chefiava o armazém, colocou-o inicialmente nas limpe-zas e como moço de recados. Ao contrário do que se passava com os irmãos, o trabalho de Afonso não era pago em dinheiro, mas em géneros. Davam-lhe almoço e lanche, aliviando as magras despesas lá em casa. Ao fim de um ano, contudo começou a envolver-se em trabalhos mais pesados, cortando troncos e operando serrotes de modo a preparar a madeira para confecção de mobiliário. Admirava-se com a habilidade dos carpinteiros em darem forma aos troncos toscamente cortados a machado, mas esse era o único atractivo que descobriu na serração. O trabalho revelou-se pesado e Afonso não tinha jeito de mãos, não lhe restando assim espaço de progressão naquele emprego.

Um anúncio na vitrina da Casa Pereira, em pleno centro de Rio Maior, despertou a atenção de Afonso quando um dia por ali passou a caminho da Feira dos Passos. A Casa Pereira era um estabelecimento comercial onde se vendiam tecidos, fazendas, botões, linhas e quejandos e procurava um rapaz para pequenos trabalhos. Afonso aprumou-se, mandou os irmãos dizer ao senhor Guerreiro que nesse dia não podia ir trabalhar porque tinha febre e apresentou-se na loja.

“Quero trabalhar” anunciou.

A dona da Casa Pereira levantou os olhos das facturas que contabilizava e mirou aquele rapaz magro e compenetrado que se perfilava diante da sua secretária.

“Sabes ler? “

“Sei, sim senhora. O professor Ferreira ensinou-me.

“E fazer contas? “

“Também, minha senhora. “

Ela estudou-o com o olhar e descobriu- lhe os joelhos arranhados, fios de crostas a rasgarem a pele. Seria um arruaceiro?

“Olha lá, rapaz”, disse, apontando-lhe para os joelhos esfolados. “Onde arranjaste isso? “

“A jogar à bola“

“Jogas à bola?“

“Às vezes. Gosto de dar uns kikes e fazer goal.“ A proprietária, dona Isilda Pereira, achou-lhe graça e contratou-o. Corria o ano de 1902 quando Afonso, com doze anos, entrou na Casa Pereira e foi acolhido debaixo da asa protectora de dona Isilda, que lhe passou a dar almoço, lanche e roupas novas, e ainda um punhado de réis para levar para casa. Foi aqui que o pequeno pela primeira vez saboreou coscorões, verdadeiras delícias fritas que a proprietária confeccionava segundo uma velha receita de família, entoando o tradicional “Deus t'alevede, Deus t'acrescente em honra de São Vicente” sempre que aca-bava de bater a massa, o que o divertia imenso. Foi também aí que experi-mentou usar sapatos, uma exigência da patroa, que considerava desaconse-lhável a loja funcionar com um empregado descalço.

Dona Isilda tinha enviuvado cedo e ficara sozinha a educar uma filha. Carolina, menina ruiva com a cara pintada de sardas, tinha onze anos e era atrevida e arisca. Não foi preciso esperar muito tempo para que a catraia começasse a brincar com Afonso, afinal apenas um ano os separava. O rapaz reagiu inicialmente com reserva, não estava habituado a relacionar-se com raparigas, elas não frequentavam a sua escola e nunca falara com uma da sua idade, limitava-se a mirá-las à distância na missa de domingo. Afonso começou, por isso, por se retrair, tímido e desconcertado, mas ela insistiu e ele, ardendo de curiosidade, foi-se deixando aproximar, devagar, como quem não quer a coisa. Carolina ajudava-o nas suas tarefas na loja e Afonso correspondia nos tempos livres, prestando-se a fazer o papel de marido ou de médico, consoante as brincadeiras. Os jogos aos papás e às mamãs substituíram temporariamente os jogos de football e conduziram-nos a um namorico ainda inocente, ambos trocando olhares e bilhetes cúmplices por detrás do balcão ou no armazém da Casa Pereira. Beijaram-se uma vez às escuras, num canto esconso da loja, por baixo das escadas, mas quando saíram cá para fora sentiram-se envergonhados, mal se conseguiram encarar, aquilo era pecado mortal. Daí para a frente preferiam jogar na ambiguidade das suas brincadeiras, eram casados a fingir, mas intimamente fantasiavam que era tudo a sério.

Dona Isilda era uma senhora educada, até falava francês e entendia algum do latim das missas, mas revelava-se igualmente atenta às coisas da vida; mulher experiente, apercebeu-se da aproximação entre a filha e o jovem empre-gado. Simpatizava com Afonso, não havia dúvida, mas achou pouca graça às brincadeiras entre os dois e decidiu tomar medidas, não fosse o diabo tecê-las e Carolina, criatura comprovadamente teimosa como o falecido pai, insistir naquele catraio. Não eram raros naquela época os casamentos na adolescência, a história dos pais de Afonso o comprovava, e dona Isilda não queria um genro pobretanas e muito menos ver-se tão cedo com um neto nos braços.

A opção mais simples seria a de despedir sumariamente o rapaz, mas dona Isilda conhecia a filha e o seu irritante gosto pelo fruto proibido e, mulher avisada e conhecedora destas coisas da natureza humana, suspeitou de que, numa terra pequena como Rio Maior, não seria difícil os dois continuarem a encontrar-se às escondidas, avia abundantes histórias de namoros interditos que acabavam no enlace indesejado. Eram, portanto, necessárias medidas mais drásticas, embora a subtileza fosse igualmente essencial.

Depois de muito pensar, a mãe de Carolina pôs os pés ao caminho e foi falar com os pais de Afonso. Apresentou-se na

Carrachana perante uma embaraçada senhora Mariana, nunca na vida entrara naquela humilde casa uma senhora tão distinta. A anfitriã desfez-se em gentilezas, correndo para aqui, fugindo para ali, indo buscar isto e aquilo, saltando até às traseiras para gritar pelo marido, naquelas quatro paredes foi um reboliço que só visto.

“Ai, minha senhora, estou tão nervosa”, gemeu Mariana, esfregando as mãos molhadas no avental imundo, os dedos gordos nervosamente irrequietos. “Valha-me Deus, podia ao menos ter avisado. “ Olhou em redor, assustada com o que dona Isilda poderia pensar sobre o aspecto da sala. “Uma senhora tão fina! Jesus, a vir aqui à nossa casinha... a gente até fica assim a modos que sem jeito, não é?“

“Oh, não se preocupe, não se preocupe, isto está muito bem.

Isilda esforçou-se por ignorar o cheiro a estrume que impestava aquele miserável pardieiro e procurou manter um semblante tranquilo, sereno, plácido. Mas, ao ver o buraco donde era Afonso oriundo, mais cimentou a sua determinação em afastar o rapaz da filha, estava totalmente fora de questão que o namorico prosseguisse, desejava para Carolina bem mais do que aquilo. Ao mesmo tempo, tinha a consciência de que teria de jogar bem as suas cartas, a diplomacia inteligente seria bem mais produtiva do que a força bruta.

A senhora Mariana indicou um cadeirão a dona Isilda, era o melhor lugar da casa, propriedade exclusiva do senhor Rafael.

“Sente-se, minha senhora, faça como se estivesse em casa. “ Isilda olhou de relance para o cadeirão e sentiu um vómito assomar-lhe à boca quando obser-vou as nódoas de gordura que o salpicavam, mas reprimiu o nojo e forçou-se a sentar-se.

“Ai que casa mais simpática que a senhora tem, senhora Mariana. É mesmo um encanto. “

A mãe de Afonso corou, ela que já habitualmente apresentava sempre as faces muito rosadinhas.

“Oh, minha senhora, não é nada de especial, é uma coisa muito humilde, muito modesta, uma casinha remediada. Sabe, nós somos gente pobre. “ Ergueu a sobrancelha e abriu-se num sorriso. “Pobre, mas honrada. “

“Certamente, senhora Mariana. Certamente. “

O senhor Rafael entrou na sala com lama malcheirosa nos braços, tinha estado na pocilga a pregar umas madeiras da cerca. Não gostou de ver a visi-tante sentada no seu cadeirão predilecto, mas ocultou a irritação. Cumpri-mentou secamente dona Isilda e sentou-se num banco.

“Então a que devemos a honra da sua visita, minha senhora “, perguntou, indo direito ao assunto.

Isilda respirou fundo. Teria de ser manhosa para vender a ideia que trazia na mente.

“Bem, como sabem, o Afonso trabalha lá na minha loja. “ Ele fez alguma coisa, o malandro?“, cortou Rafael, desconfiado e de semblante carregado.

“Não, não”, exclamou Isilda. “Pelo contrário, ele é uma jóia de moço, todos gostamos muito dele. Na verdade, aprecio-o tanto que acho uma pena ele perder-se como empregado na minha loja “

Rafael e Mariana miraram-na sem entenderem.

“Mas, minha senhora, temos muita honra em que ele esteja na sua loja”, assegurou o senhor Rafael.

“E eu tenho muita honra em que ele lá trabalhe”, devolveu isilda, ajeitando o cabelo. “Penso, porém, que ele devia continuar os seus estudos para alargar os horizontes, ir mais longe na vida.“

“Ah, minha senhora, isso também nós gostaríamos”, replicou Mariana. “Mas, sabe como é, não temos posses, somos gente pobre e precisamos de toda a ajuda que pudermos arranjar. E o Afonso na sua loja é uma bênção para esta casa, uma benção! “ “E é uma bênção para mim, creia-me”, insistiu Isilda. “Mas seria realmente bom para ele prosseguir os estudos. Compreendo a questão que está a levantar, a de não terem posses para tais projectos, e é por isso mesmo que vos trago uma proposta. “ “Uma proposta? “, admirou-se o senhor Rafael.

“Sim”, assentiu Isilda. “Sabem, um dos meus irmãos é padre no Minho e amigo do reitor de um seminário da arquidiocese de Braga. o Álvaro, não é para me gabar, mas ele é um encanto de homem, até dá gosto. Ora bem, se me derem autorização, eu poderia falar com ele para conseguir ao Afonso um lugar no seminário.

Os pais de Afonso entreolharam-se, surpreendidos com a sugestão.

“Mas, minha senhora, o problema não é esse”, atalhou Rafael, confuso. “O problema é que nós não temos como pagar o seminário, isso é...

“Eu pago”, cortou Isilda, a voz sobrepondo-se à do anfitrião. “É uma promessa que eu fiz a Nossa Senhora, a de ajudar um rapaz sem meios a ir para o seminário. Escolhi o Afonso, parece-me bom moço, atinado e respeitador. Além disso, com certeza que não se vai opor ao cumprimento de uma promessa a Nossa Senhora, pois não? “

“Não, não”, adiantou-se Mariana, aflita por ela e o marido poderem estar a ofender a mãe de Jesus, eram ambos tementes a Deus e não queriam conflitos com o Todo-Poderoso. “Valha-me Deus, minha senhora, isso não. Nunca. “

“Presumo também que não tenham qualquer objecção a que o vosso filho se torne padre?“, quis saber dona Isilda, de pernas cruzadas com pudor no cadeirão, um sorriso evangélico desenhado nos lábios no momento em que formulou a pergunta que ali a trouxe.

O senhor Rafael deixou-se ficar alguns instantes calado, meditativo, mergulhado nos seus pensamentos, reflectindo naquela inesperada proposta. Iria perder os rendimentos que o filho trazia para casa, é verdade, mas, por outro lado, ficava com menos uma boca para alimentar. Além disso, ter um padre na família não era coisa de menosprezar, traria prestígio social, atrairia o respeito dos vizinhos, seria um salto que jamais pensara estar ao alcance da família. Para mais, havia ainda a dimensão religiosa a considerar. Lembrou-se do sonho em que o anjo o aconselhou a ter mais um filho e achou que isso era uma premonição. No seu raciocínio de homem crente e religioso, concluiu que a sugestão de dona Isilda só podia ser um novo sinal de Deus.

“Muito bem, minha senhora”, concordou finalmente. “O Afonso vai ser padre.

O pequeno deixou a família numa manhã fresca do Outono de 1903. Agarrou-se teimosamente às saias da mãe, choroso, até o padre Álvaro, irmão de dona Isilda, o arrastar para o coche.

Gritou em desespero pela janela da carruagem, era a primeira vez que se separava da família, e só se calou depois de a casa da Carrachana desaparecer lá atrás numa curva, por entre a nuvem de poeira levantada pelo coche sobre o macadame da Estrada Real nº 65. Caiu então no assento, de cabeça tombada, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara e a soluçar abafadamente ao lado daquele estranho de sotaina. Sentia-se um pouco envergonhado pela figura que fizera, mas, ao mesmo tempo, tinha desejado manifestar de modo claro e inequívoco a sua revolta por o mandarem embora, a verdade é que tinha medo do desco-nhecido e sentia-se agarrado ao berço da Carrachana. Agora, que deixara a família, sentia-se só e aterrorizado, imaginava com horror que o tinham abandonado e interrogava-se repetidamente sobre o que seria de si, se alguma vez veria de novo os pais e os irmãos.

O padre Álvaro revelou-se, porém, uma pessoa gentil e bem disposta, acabando por conquistar gradualmente a confiança de Afonso durante a viagem. Era um homem baixo e compacto, de peito largo e com o maxilar inferior saliente, o cabelo meio-grisalho espetado para o ar e cortado curto. Poderia muito bem ser um agricultor ribatejano, mas era um homem de Deus. Apanharam o comboio na estação de Sant'Anna pelas nove e quarenta e o percurso até ao Porto durou quase dez horas. O que vale é que o padre Álvaro era homem de posses e confortos, não fosse ele tão de quem era, e não se importara de pagar mais de seis mil réis por cada bilhete para ir bem acomodado em 1. a classe. Era já noite escura quando chegou o momento de passarem na Dona Maria Pia, a temível ponte de ferro sobre o Douro. Afonso viu, horrorizado, a mancha sombria do rio a correr por baixo da frágil estrutura metálica e, fechando os olhos, encostou-se ao pároco em busca de protecção, pondo assim definitivamente termo à resistência.

Como não havia ligação ao Minho durante a noite, foram dormir ao Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catharina, um edifício construído especificamente para ser uma unidade hoteleira e que oferecia aos hóspedes um sofisticado anexo para banhos e duches. Cedo no dia seguinte, depois de um apressado pequeno-almoço, saíram do hotel e foram para a estação. O padre comprou mais dois bilhetes de 1. a classe, a mil réis cada um, e apanharam o comboio pelas oito da manhã. Foram precisas duas horas e meia para fazerem a ligação de Campanhã até Braga, tempo mais do que suficiente para finalmente entabularem uma conversa normal, apenas interrompida quando a carruagem deu entrada na estação da cidade minhota. O pequeno desceu em silêncio do comboio, agarrado à mão do padre, os olhos a encherem-se da novidade que era aquela urbe estranha e desconhecida.

O padre Álvaro Pereira era o responsável pela paróquia de São Vicente, que incluía o vasto cemitério do Monte de Arcos. Também ele oriundo de Rio Maior, como toda a família de dona Isilda, o pároco encarregou-se pessoal-mente dos primeiros passos da educação de Afonso. O menino tinha apenas frequência da escola primária, mas isso estava longe de ser o suficiente para poder ingressar no seminário. Braga não tinha seminários menores, onde crianças daquela idade eram preparadas em estudos de humanidades para o seminário maior, pelo que teria de ser o padre Álvaro a ministrar-lhe os ensinamentos necessários de modo a conseguir um lugar no seminário da arquidiocese. Durante um ano, Afonso passou os dias a aprender latim e gramática, conhecimentos considerados imprescindíveis para quem queria seguir para o seminário maior. Aos fins de semana ajudava o pároco a preparar sI missas, varrendo o soalho da igreja e acendendo as velas, para além de exercer as funções de acólito na liturgia.

Nas tardes de domingo, o padre Álvaro levava-o em passeio admirar a Torre de Menagem, a imponente construção medieval que assinalava um dos pontos-chave das antigas fortificações da cidade, ou então faziam uma volta pelos edifícios religiosos da cidade, subiam pela Rua de São Marcos e davam um salto à Capela dos Coimbras, ou metiam pela Rua Nova de Sousa até ao antigo Paço Episcopal e depois, à esquerda, inevitavelmente, iam dar à Sé. Apesar do seu austero aspecto medieval, Afonso gostava de estar dentro da grande catedral do século XII. Sentava-se cá atrás, mesmo por baixo do grandioso órgão, cuja riqueza da talha barroca contrastava com a rudeza simples do resto do santuário, e enchia a alma com as sublimes melodias que pareciam descer directamente do céu. Outras vezes iam ao mercado, frente à Câmara Municipal, na praça central da cidade, onde o pároco oferecia umas castanhas assadas ao seu protegido.

As visitas de terça-feira ao mercado eram especialmente apreciadas pelo rapaz, que se maravilhava com toda a vida que enchia as barracas e com a fauna humana a afadigar-se de um lado para o outro, as camponesas de casacos curtos com saiotes azuis, botas até ao joelho e lenços listados na cabeça, algumas eram ceifeiras que apareciam descalças, um enorme chapéu negro na cabeça e uma foice reluzente à cintura. Os homens deambulavam por ali com os seus chapéus de aba larga e casacos escuros, quase todos de bigode, alguns miseráveis de trapos rotos e esfarrapados.

A mesma fauna, a que se juntavam os janotas, encontravam ambos quando iam passear para o Jardim Público, em frente à Arcada. Era ali antigamente o Campo de Sancta Anna, mas o descampado dera lugar a um muro de pedra e grades de ferro para proteger o rico jardim por onde os bracarenses faziam os seus passeios ociosos. Nos dias de sol e calor, Afonso gostava de se sentar com o pároco à sombra do gigantesco pinheiro americano situado junto aos portões de entrada, mas nos dias mais cinzentos passeavam os dois pelo jardim e iam ali ao lado à Igreja dos Congregados, donde Afonso espreitava os vizinhos Lyceu e Bibliotheca Pública, instalados lado a lado no antigo Convento dos Congregados do Oratório.

A única interrupção desta rotina ocorreu no Natal, quando o padre Álvaro foi passar a consoada com a irmã, em Rio Maior, levando o seu jovem protegido consigo. Afonso ficou duas semanas com a família e, quando chegou a hora de regressar a Braga, a separação revelou-se menos difícil do que da primeira vez, o rapaz já não temia o desconhecido e aprendera a confiar no pároco que o acolhera.

O latim e a gramática eram matérias complexas, que provocavam os maiores bocejos e ofereciam momentos de profundo tédio a Afonso, mas não havia alternativa e ele concluiu que, se tinha mesmo de decorar aquilo tudo, decorar sem compreender, então que decorasse rápido, que aprendesse depressa o que tinha de aprender para mais cedo se ver livre daqueles densos e impenetráveis assuntos. Com estes estudos, os instantes mais interessantes do dia acabavam por ser aqueles que envolviam as refeições e a catequese, e o momento alto da semana eram sem dúvida as escapadelas aos sábados até à Cruz & Companhia, a papelaria da Rua Nova de Sousa, onde consultava com avidez a página desportiva do Commércio do Porto, com as suas raras notícias sobre os matches do Football Club do Porto, do Boavista Football Club e do Real Vela Club no terreno do Oporto Cricket and Lawn-Tennis Club, e alguns exemplares que por lá apareciam de edições muito atrasadas da revista Tiro Civil, que não falhava com as façanhas do seu querido Club Lisbonense, embora as informações actualizadas escasseassem.

O Inverno foi duro, com Afonso a descobrir que o frio minhoto era bem mais rigoroso do que o ribatejano. Depois de noites limpas e geladas, encon-trava de manhã o chão e as plantas a brilharem com gotas de água condensada, era o orvalho: que se formava ao nível do solo. Nas madrugadas em que os termómetros desciam abaixo de zero, ao nascer do dia via pedras, ervas e folhas pintadas de branco. Pensou inicialmente que era a famosa neve de que tanto lhe falara o padre Álvaro mas, quando interrogou o pároco sobre o assunto, este abanou a cabeça.

“Não é neve, meu filho”, disse. “É escarcha. “

A escarcha era visível por toda a parte, formavam-se cristais de gelo em rendilhados na parte exterior dos vidros das janelas, ou a sobressaírem, alvos e brilhantes, dos ramos e das pontas das folhas e ervas, em delicadas e formosas estruturas geométricas. A calçada coberta pelo manto de cristais brancos e reluzentes tornava-se perigosamente escorregadia e muitas plantas morriam quando eram tocadas por esta humidade congelada. Mais tarde Afonso soube que a escarcha era também conhecida por geada, muito comum em todo o Minho durante o Inverno.

O frio convidava Afonso a permanecer em casa, junto à lareira. Como não tinha nada para fazer, além das três horas diárias de aulas e catequese que lhe ministrava o padre Álvaro, dedicou-se à leitura. A maior parte dos livros que se encontravam em casa do pároco eram de natureza religiosa, e o jovem embre-nhou-se a ler um exemplar ricamente ilustrado da Bíblia. Afonso mostrou-se vivamente impressionado com o tema da ajuda de Jesus aos pobres, com os quais ele naturalmente se identificava, e pouco a pouco deixou de considerar os versos das orações uma mera sucessão de palavras ritmadas de sentido incompreensível e pôs- se a meditar sobre o que elas queriam realmente dizer. A sua aprendizagem da catequese deixou de ser meramente passiva, colocando ao padre dúvidas que o assaltavam, questões que reflectiam a sua crescente e genuína curiosidade sobre o assunto. Começou até a apresentar problemas que, para um garoto de treze anos, revelavam já alguma inesperada profundidade filosófica, resultantes da sua perplexidade em torno da questão da omnipotência de Deus. Pois se Deus era omnipotente, raciocinava Afonso, como poderia Ele deixar que existisse mal no mundo? E, se o homem tinha sido feito à imagem de Deus, isso não significaria que Deus continha maldade, uma vez que o homem era capaz dela? O padre Álvaro ia encontrando respostas para estas perguntas, sublinhando que Deus queria que o homem construísse o seu próprio caminho de rejeição da maldade e que só o podia fazer se o mal exis-tisse. Afinal de contas, qual é o mérito de se ser bondoso se não há alternativas? A bondade só tem valor se ela significar a rejeição da maldade, argumentou o pároco. Se Deus eliminar o mal, então o homem será bondoso por vontade alheia, não por vontade própria. Afonso meditava nestas respostas e colocava novos problemas. A leitura dos trechos do Novo Testamento em que Jesus é retratado a curar os enfermos levou-o a interrogar-se sobre se isso seria realmente um bem. Pois se Jesus curava uns enfermos, por que não havia Ele de curar todos? E, se Jesus ressuscitava Lázaro, por que não havia Ele de ressus-citar todos os mortos? Porquê discriminá-los? E, se ninguém tivesse doenças, ninguém morreria. Seria isso realmente bom? Não seria a morte de uns uma condição necessária para a vida de outros?

Ao chegar o Verão de 1904, o padre Álvaro percebeu que lhe começavam a faltar respostas e considerou que o seu pupilo, com catorze anos acabados de completar, já se encontrava apto para entrar no seminário maior. Numa amena manhã de Julho, depois de passar pela Rua Nova de Sousa para tomar um café na recém-inaugurada A Brazileira, o pároco levou-o ao seu amigo D. João Basílio Crisóstomo, vice-reitor do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo. Era o único seminário de Braga e estava situado num pacato largo junto à Porta de São Thiago, no sector sul das antigas muralhas da cidade. Ao chegar ao largo, Afonso deteve-se perante o seminário, um edifício branco e comprido, e olhou para o monumento à esquerda, quase encostado ao seminário, tratava-se de Nossa Senhora da Torre, a alta torre medieval que vigiava a Porta de São Thiago. O largo encontrava-se abundantemente arborizado e era ornamentado por um chafariz com uma cruz arcebispal no topo, símbolo que marcava todos os monumentos mandados erguer pelo arcebispo. Havia ainda um quiosque e uma outra pequena construção cilíndrica na esquina.

“É um urinol público”, esclareceu o padre, respondendo ao olhar inquisitivo do seu protegido. “Estás aflito? “

O rapaz abanou a cabeça e prosseguiram em direcção à porta.

Subiram os dois a curta escadaria empedrada da entrada, as paredes decoradas com azulejos azuis reproduzindo vasos com flores e desenhos geométricos azuis, brancos e amarelos, e cruzaram os claustros internos, o olhar atraido pelas austeras colunas de pedra que cercavam um pequeno jardim interior. Os passos ecoavam ruidosamente no soalho de pedra, quebrando a placidez que enchia os corredores, e o ar revelava-se impregnado de um aroma indefinido, límpido e suave. Ascenderam ao primeiro piso e foram até ao gabinete do vice-reitor D. Crisóstomo recebeu-os com um sorriso beatífico.

Então, meu filho, queres ser padre?“ perguntou o anfitrião a Afonso em tom paternal, depois das cortesias habituais.

“Sim, senhor vice-reitor”

Mas ainda és um bocado novo para isto.“

Afonso ficou mudo. Estava ali porque o tinham mandado. O padre Álvaro respondeu em seu lugar.

“D. Crisóstomo, o rapaz é dotado.

“Como assim “

Eu tinha planeado tê-lo como acólito mais um ano ou dois mas ele mostrou grande interesse e vocação e não vejo necessidade de o manter afastado do seminário só porque ainda é novo. “

O vice-reitor mirou Afonso, pensativo.

“Por que queres ser padre?

“Não sei, senhor vice-reitor” murmurou o rapaz, baixando a cabeça.

“Não sabes? “

Afonso hesitou. Sentia-se intimidado, estava habituado a discutir aquelas coisas só com o padre Álvaro e o vice-reitor deixava-o pouco à vontade. Olhou furtivamente para o pároco e reparou que ele, com um subtil gesto com a cabeça, o encorajava a falar. Afonso encheu-se de coragem, levantou a cabeça e fitou o vice-reitor com ar de desafio.

“Quero descobrir a verdade. “

“A verdade? A verdade de quê? “

“A verdade de tudo. Do mundo, das coisas dos homens, da vida.”

  1. Basílio Crisóstomo recostou-se na cadeira e sorriu, agradado.

“Muito bem, vieste ao sítio certo”, exclamou, balouçando afirmativamente a cabeça, em sinal de aprovação. Voltou-se para o padre Álvaro. “Vou ordenar que se iniciem quanto antes as inquirições de genere ao teu pupilo “

Os serviços do seminário começaram dias depois o inquérito a Afonso, averiguando a sua família, o passado, os hábitos de vida, o perfil e os interesses do candidato. Os estatutos do seminário, redigidos em 1620 e previamente consultados pelo padre Álvaro, previam como condição que se garantisse que os candidatos eram “christãos velhos inteiros, sem raça de judeus, mouros, nem outros infiéis”, único requisito que agora era negligenciado, por anacrónico. O padre Álvaro serviu de testemunha e o seu protegido, apesar de ser considerado um pouco novo de mais para frequentar o seminário maior, acabou por ser aceite. Havia precedentes de crianças que entravam no seminário maior com doze e treze anos, os próprios estatutos estabeleciam que os seminaristas “seram ao menos de doze annos”, pelo que a inscrição daquele rapaz de catorze anos, embora menos usual, nada tinha de extraordinário.

Afonso entrou no Seminário dos Apóstolos São Pedro e São Paulo no Outono de 1904. Tudo possuía aspecto antigo, austero e solene, uma impressão adequada à história do seminário. A instituição remontava a 1572, quando, na sequência do Concílio de Trento, foi aberto o Seminário de São Pedro, a funcionar no Campo da Vinha, em pleno centro de Braga. Parte das aulas, no entanto, era ministrada num vasto edifício junto à Porta de São Thiago, o Colégio de São Paulo, gerido pelos jesuítas. Os jesuítas foram, todavia, expulsos em 1759, e o edifício ficou nas mãos de freiras, até que, em 1881, o seminário foi para aí transferido, incorporando-se São Paulo no nome da instituição.

O novo seminarista foi instalado na sua cela, um pequeno quarto esparta-namente decorado e com um certo cheiro a bafio.

Tinha uma cama encostada à parede, uma mesa com gavetas para a roupa, uma vela, um candeeiro alimentado a petróleo, um banco, uma vassoura, um bacio, um sabão, uma toalha branca e um balde com água. A janelinha dava para um pátio ajardinado com os ramos e as folhas de um vigoroso carvalho adulto a ocuparem parte da vista, viam-se os galhos a serem remexidos pelo inquieto adejar de asas dos pardais, o melódico pipilar dos pássaros enchia então o pátio e inundava o quarto de deliciosas sonoridades musicais. Colocou a mala sobre a cama, abriu-a e arrumou a roupa nas poeirentas gavetas da mesa. Só eram autorizadas roupas escuras, de modo que Afonso levou dois fatos, um preto e outro cinzento, ambos oferecidos pelo padre Álvaro. Tinha também cuecas meias pretas e ceroulas, peças de vestuário que jamais conhe-cera em Rio Maior e de que agora não prescindia e que arrumou com o resto. Quanto a sapatos, só possuía o par que trazia calçado, adquirido na Sapataria Celestino Vidal, na Rua do Souto.

A rotina da vida no seminário ficou logo estabelecida na manhã seguinte. Afonso foi acordado pelo som estridente de uma campainha tocada a cordel e levada pelos corredores. Eram seis e meia da manhã. A tremer de frio, saltou da cama, urinou para o bacio e lavou furtivamente as mãos e a cara com a água gelada do balde. Vestiu o fato preto, fez a cama e varreu a cela. Perto das sete saiu para o corredor com o bacio, foi deitar a urina na zona das latrinas, regressou à cela para guardar o bacio e voltou a sair, acompanhando os restantes seminaristas em direcção à capela, para as orações da manhã. A missa foi celebrada pelo vice-reitor nos termos normais em qualquer igreja, isto é, em latim e de costas voltadas para os fiéis. O altar estava virado para oriente, como é habitual nas igrejas, e os celebrantes rezavam sempre em direcção a levante porque se acreditava que era daí que se devia esperar a salvação, afinal de contas foi lá que Jesus nasceu. A missa durou meia hora, finda a qual seguiram para o refeitório uns seminaristas conversando em sussurros pelos corredores, o que impressionou Afonso. O refeitório era um grande salão com muitas mesas de madeira, quatro cadeiras por mesa. Os seminaristas espalharam- se pelas mesas e o vice-reitor foi ocupar o seu lugar. O pão, a broa e as papas de milho foram colocados nas mesas, João Basílio Crisóstomo ergueu-se e todos o imitaram.

“Benedic Domine nos, et haec tua dona quae de tua largitate sumus sumpturi, per Christhum Dominum nostrum”, proclamou em latim, implorando a Deus a bênção para os alimentos que estavam na mesa.

“Jube Domine benedicere”, entoou um diácono, prosseguindo o ritual.

“In nomine Patri et Filius et Spiritui Sancto”, concluiu o vice- reitor, benzendo os presentes e os alimentos e fazendo sinal aos seminaristas para começarem a comer.

O pequeno-almoço foi tomado em absoluto silêncio, Afonso rapidamente iria perceber que era essa a regra em todas as refeições. Às oito recolheram aos aposentos, chegara a hora de reverem as lições. O padre Álvaro tinha avisado Afonso de que deveria aproveitar esta pausa para passar os olhos pelo latim, uma vez que era provável que fossem testar os seus conhecimentos na língua romana. Por esta altura já o jovem percebera que o latim podia ser uma língua morta em todo o mundo, mas naquele seminário estava talvez mais viva do que o português. Encheu-se de coragem e, fechado na sua cela, pôs-se a recitar declinações em voz baixa. Meia hora mais tarde, a campainha assinalou a chamada à portaria. Afonso seguiu para o local, onde o vice-reitor aguardava os seminaristas para os questionar sobre as matérias de estudo. O novo estudante não foi poupado, com o vice-reitor a testar minuciosamente os seus conheci-mentos de latim, queria saber o que valia a mais recente aquisição do seminário. Tomado pela ansiedade e com a voz trémula e submissa, Afonso foi gaguejando as respostas. As aulas do padre Álvaro eram uma boa base, mas o latim que aprendera na paróquia de São Vicente revelou-se claramente insuficiente para as necessidades curriculares e D. Basílio Crisóstomo tornou-lhe claro que esperava que ele aprendesse muito mais. Afonso concluiu a sessão da portaria exausto e acabrunhado, imaginando que todos se riam dele.

As aulas começaram às nove da manhã. A sua primeira disciplina foi Casuística, ministrada por um mestre gordo e bonacheirão, na verdade um padre da diocese de Braga que ia leccionar ao seminário. O primeiro ano do seminário maior era dominado pelos estudos filosóficos, com Filosofia, Casuística e Retórica à cabeça, complementados por Gramática e Latim. Havia ainda um bónus fornecido pelo padre Ettori Fachetti, um italiano que viera para Braga aprender português, que era um poliglota notável e pôs os seus talentos ao serviço dos seminaristas, ensinando italiano, inglês, francês e alemão a quem o interpelasse. Vários estudantes inscreveram-se nas suas disciplinas, e Afonso, talvez mais pelo desejo de se sentir aceite e integrado, seguiu-lhes o exemplo e decidiu aprender tudo.

O segundo e terceiro anos do seminário concentravam-se sobretudo em teologia, os estudos a dividirem-se entre a História Eclesiástica, a Teologia Dogmática, a Teologia Moral, a Teologia Sacramental, o Direito Canónico, a Liturgia, a Hermenêutica e o Canto, para além, claro, das disciplinas de línguas estrangeiras do padre Fachetti e dos inevitáveis Latim e Gramática.

O almoço foi servido ao meio-dia. Tal como ao pequeno-almoço, a comida foi colocada imediatamente na mesa, mas ninguém tocou nela antes de o vice-reitor proferir em latim o pedido de bênção para a refeição. Quando terminou a oração, todos se sentaram e começaram a servir- se. Havia pão de trigo, broa, sopa de legumes, carne de vaca cozida, ovos cozidos e castanhas. Para beber tinham água. Comiam em silêncio, fazendo passarem por uns gestos para os outros o pão, a carne ou a água. A meio da refeição surgiu uma novidade em relação ao pequeno-almoço. Um seminarista com uns dezasseis anos levantou-se da mesa e dirigiu-se ao púlpito do refeitório com um pequeno livro na mão. Abriu o livro numa página marcada e começou a ler uma assam da vida de São Francisco Xavier numa voz monocórdica.

Afonso sentiu que o rapaz não entendia o que lia, a entoação era ritmada e inexpressiva, o que dificultava a compreensão do texto. Nessas condições, a voz tornou-se mero ruído de fundo. O orador terminou a leitura quando chegaram as maçãs para a sobremesa e, pouco depois, o vice-reitor ergueu-se, obrigando todos a levantarem-se, conduziu uma oração final e deu o almoço por termi-nado.

Foram para o recreio. Afonso verificou que a maior parte dos seminaristas já se conhecia, formando grupos que se juntavam aqui e ali. O ambiente era amigável, mas o recém-chegado mostrava-se tímido e metido em si mesmo. Eram quase todos mais velhos, havia mesmo uns que já tinham uma barba macia a crescer, de modo que Afonso sentiu-se deslocado. Para não ficar sem nada para fazer, resolveu dar discretamente uns pontapés numa pequena pedra, fantasiando estar a jogar football no Campo Pequeno com a gloriosa camisola do Club Lisbonense. Imaginou que um dos carvalhos era uma baliza defendida por um player do Carcavellos Club, clube particularmente detestado por ser exclusivamente de estrangeiros e por ter sido o único que ganhou ao Club Lisbonense. Afonso mirou o carvalho e pontapeou suavemente a pedra, enganando o imaginário goal-keeper inglês. Noutros instantes cruzou o pátio a transportar a pedra com toques curtos, fingindo que efectuava dribblings que deixavam os adversários por terra. Fazia-o como se estivesse a passear, procu-rando não dar nas vistas, percebia que andar ostensivamente aos pontapés a uma pedra durante o recreio poderia ser mal interpretado.

O som da campainha avisou-os de que estava terminado o recreio. Eram duas da tarde quando recolheram às celas para regressarem às matérias das aulas da manhã. Afonso passou parte da tarde a estudar Casuística e a outra parte às voltas com o malfadado Latim, que tanto o envergonhara durante a sessão na portaria. Às cinco e meia, a campainha chamou-os para a capelã e às seis e meia voltaram ao refeitório para a ceia silenciosa. A refeição terminou às sete e meia, altura em que seguiram para o recreio, e uma hora depois a campainha mandou-os novamente para as celas. Às nove da noite, e depois de preparar as coisas para o dia seguinte, Afonso fez uma derradeira visita às latrinas, voltou para a cela, meteu-se na cama, apagou o candeeiro a petróleo e adormeceu.

Os dias seguiram-se uns atrás dos outros nesta rotina, com poucas varia-ções, monótonos e repetitivos. As principais novidades relacionavam-se com os almoços e as ceias, onde os pratos iam variando. Umas vezes aparecia carne de vaca, outras carne de porco, outras carne de carneiro. Jamais foi servido peixe, o que deixou Afonso com saudades de fazer com a língua uma limpeza às cabeças dos chicharros. Comiam-se galinhas, castanhas, batatas, açordas e sopas de legumes ou farinha de pão. Aos domingos era apresentada uma iguaria requintada, o arroz, e em dias de festa surgiam os doces, alguns de receitas conventuais. O vinho ficava igualmente reservado para ocasiões especiais, embora Afonso estranhasse o sabor do tinto. Em vez do macio vinho maduro a que estava habituado em Rio Maior, este revelava-se muito frutuoso. Explicaram-lhe que se tratava de tinto verde, um néctar que ele não conhecia e que era proveniente de várias zonas do Minho, como Ponte da Barca, Ponte de Lima e Melgaço, e ainda do vale do Sousa, na região do Douro.

Ás quintas-feiras e domingos, os estudantes abandonavam o seminário e eram levados em passeio. Seguiam sisudos e compenetrados, aos pares em fila indiana, para périplos com o vice-reitor, que os conduzia a Montariol e ao Fraião. Quando o sol despontava especialmente bonito, iam até ao pórtico entre a capela da Agonia de Cristo no Jardim e a Capela da Última Ceia. Subiam o espectacular escadório do Bom Jesus, primeiro pela via-Sacra, com as capelas a representarem as catorze estações da Jesuz, depois pelo íngreme escadório dos Cinco Sentidos e, finalmente, já com a língua de fora e as pernas a pesarem como chumbo, arrastavam-se pelo escadório das Três Virtudes. Uma vez lá em cima, ofegantes e a transpirar, encostavam-se às paredes, sentavam-se no duro chão de granito e refrescavam-se na Fonte do Pelicano. Já mais recompostos, iam finalmente visitar a imponente Igreja do Bom Jesus, Braga a estender-se aos pés do santuário. Outras vezes, em vez de subirem o monte, desciam até desembocarem no rio Cávado, onde ficavam a brincar na água gelada. Uma vez por outra iam até à Capela de São Frutuoso de Montélios, uma relíquia do século VII, ou apanhavam a estrada para Barcelos e davam um salto ao Mosteiro de Tibães, um belo complexo com claustros e jardins erguido no século XI. O objectivo declarado era o de os levar a apanharem ar puro e desentorpecerem as pernas, mas alguns mestres riam-se e sugeriam sub- repticiamente que aquela era antes uma artimanha para os estafar. O ponto alto da semana tornaram-se as visitas do padre Álvaro, sempre aos domingos de manhã. O pároco levava ao seu protegido uma mão-cheia de doces adquiridos na Pastelaria Suissa e ainda, atento aos interesses do rapaz, alguns exemplares do Tiro Civil, que arranjava na papelaria Cruz & Companhia, na Livraria Central ou que lhe eram especialmente remetidos de Lisboa. Foi desse modo que Afonso percebeu que o seu querido Football Club Lisbonense deixara de existir. Sentiu-se inexplicavelmente órfão e infeliz, as vitórias do clube alimentavam-lhe os sonhos e não podia conceber que aquelas cores que um dia vira brilhar alto no Campo Pequeno jamais voltariam a encher um campo.

Passou uma semana de luto pelo desaparecimento do Club Lisbonense e só revelou os seus sentimentos a Américo, um seminarista gorducho, de quinze anos, com quem fizera amizade. Afonso ainda tentou ensinar-lhe a jogar football, mas os pontapés nas pedras não convenceram o redondo amigo, mais vocacionado para o ócio e para a gula. Américo era oriundo de Vinhais, em Trás-os-Montes, filho de comerciantes abastados que achavam que ter um padre na família era um sinal de distinção. Afonso divertia-se a olhar para Américo durante as refeições. O pequeno de Rio Maior, habituado aos manjares frugais da sua casa em Carrachana, onde uma simples cabeça de peixe servia de refeição, achava que os almoços e ceias no refeitório eram lautos banquetes, mas Américo, mimado pelos melhores pratos transmontanos, servidos em abundância na sua abastada casa de Vinhais, sofria horrivelmente com aquela dieta, que considerava mais adequada para tuberculosos e raquíticos, e passava os dias a suspirar pela sua terra.

O ano escolar terminou depressa e Afonso, agora com quinze anos, foi premiado com um suficient a Gramática, três cum laude designadamente a Latim, Casuística e Retórica, e um suma cum laude a Filosofia, para além de ser corrido a aprovators nas disciplinas de línguas estrangeiras do padre Fachetti. Já Américo, que se sentia tremendamente infeliz no seminário, foi varrido a suficient e teve mesmo dois non aprovatus a Retórica e a Casuística. Afonso foi passar o Verão a Rio Maior e apresentou-se em casa impante de orgulho, nunca ninguém da família tinha ido tão longe nos estudos. Nos primeiros dias estranhou a casa da Carrachana, pareceu-lhe demasiado pobre e imunda. Ficou espantado por nunca antes se ter sentido incomodado com aquela miserável penúria, em boa verdade nem sequer alguma vez reparara nela, tinha nascido ali e a privação afigurava-se-lhe natural aceitou-a sempre como um facto da vida.

Cumpridor dos seus deveres de protegido, o jovem seminarista foi à Casa Pereira visitar dona Isilda, que lhe tinha dado esta oportunidade de estudar em Braga, mas, compenetrado no seu papel de futuro padre celibatário, não fez questão de ver Carolina, pormenor que encheu a viúva de satisfação. Dona Isilda concluiu que a estratégia de afastar o moço da filha estava a resultar e festejou essa vitória em privado com um cálice de vinho do Porto.

Afonso impressionou os pais pelo empenho que revelava nas orações e pelas maneiras recatadas com que se comportava. Além disso, por vezes brindava-os com surpreendentes tiradas em italiano, mas também em alemão, francês ou inglês, frases pomposas e verborreicas que serviam apenas para pavonear os conhecimentos que adquirira e estabelecer uma subtil superio-ridade sobre a família. Já o contrário, como seria de esperar, não se passava. O jovem sentia-se ligeiramente incomodado com a postura da família, eram talvez os hábitos de higiene e as conversas que considerava pouco elevadas, só se falava nas colheitas, nos preços do mercado, na diarreia da vizinha, na forretice do senhor Ferreira e num problema na perna da burra. Mas o pior eram as bebedeiras do pai aos domingos à tarde, o senhor Rafael vinha da taberna do Silvestre a cantar aos altos berros e a caminhar de forma incerta, o que encheu Afonso de vergonha.

Foi por isso com alívio que o jovem seminarista regressou a Braga para prosseguir os estudos. A sua cela cheirava a mofo, é certo, mas era asseada e a vida no seminário revelava o que, para os padrões da Carrachana, se poderia considerar um ambiente de abundância e requinte. Afonso reencontrou Américo, que veio das férias ainda mais gorducho, e ambos se tornaram agora inseparáveis. No segundo ano, as aulas deixaram a filosofia e concentraram-se em matérias teológicas. Afonso embrenhou-se no estudo do divino ao ponto de, cheio de piedosa compaixão, lamentar a sorte dos que, por circunstâncias da vida que não controlavam, não tinham nascido num ambiente católico. Pois se o catolicismo era a verdadeira fé, então os hereges dos países do Norte estavam condenados às eternas chamas do inferno. Tudo, meditou o jovem, porque tinham lamentavelmente nascido no sítio errado. Não pôde deixar de sentir uma certa perplexidade por os protestantes teimarem em não verem a verdade. Não era óbvio que, pela sua grandeza e história, só em Roma estava o caminho da salvação? Não se tornava evidente que, pela sua bondade e majestade, era o Santo Padre o verdadeiro vigário do Senhor? Como poderiam aqueles povos, na sua cegueira e arrogante ambição, fechar os olhos à evidência? Isto para já não falar nos judeus, que não reconheciam o Novo Testamento e a palavra de Jesus, ou nos maometanos, que acrescentaram falsos profetas aos verdadeiros. E o que dizer daqueles outros povos que nem o Antigo Testamento reconheciam, como os hindus e os budistas? Que muro de ignorância os mantinha cruelmente afastados da salvação? Afonso sentiu-se orgulhoso quando aprendeu o papel que a Igreja portuguesa desempenhou na propagação da fé no Brasil, em África, na Índia, na China, no Japão e nas ilhas Molucas e sentiu ganas de vir a ser um desses missionários que se tornaram confidentes do imperador em Pequim ou que acompanharam os bandeirantes na conversão dos selvagens no Brasil. A Índia portuguesa estava catolicizada e havia agora muito trabalho a fazer em África. O jovem seminarista começou a alimentar o secreto sonho de se tornar missionário e espalhar a verdadeira fé em locais remotos das Guinés, de Angola e de Moçambique, tendo confidenciado estes projectos apenas ao padre Fachetti e a Américo.

As aulas de Teologia Dogmática permitiram-lhe penetrar mais satisfato-riamente nos insondáveis mistérios de Deus e da vida. A disciplina era leccionada pelo padre Francisco Nunes, um inesperadamente liberal e pouco ortodoxo teólogo beirão que estudara Teologia em Roma e fizera uma pós-graduação em Filosofia na Universidade de Heidelberga, na Alemanha. Afonso ainda não o sabia, mas, como resultado da sua curiosidade natural e da forma aberta e desempoeirada como o mestre abordava os problemas filosóficos, essas aulas abrir-lhe-iam surpreendentes janelas sobre o mundo. O padre Nunes era um homem magro e curvado, de olhos pequenos, barba rala e falinhas mansas, com duas características dominantes. A primeira é que ciciava a falar, os esses saíam-lhe em assobios sibilantes, e a outra vinha-lhe da paixão pelo latim, o que o levava a usar profusamente expressões proverbiais latinas na conversa. Ao mestre, Afonso remeteu as mesmas perguntas que formulara antes ao padre Állvaro, incluindo o problema do bem e do mal que está na base da moralidade judaicocristã. Seria o bem a antítese do mal ou não passariam ambos das duas faces da mesma moeda?

É verdade que, a fortiori, o que é bem para uns pode ser mal para outros”, concordou o padre Francisco Nunes, os esses de “uns”, “ser” e “outros” a saírem assobiados. “Se eu te ganhar um jogo de xadrez, isso é bom para mim e mau para ti. Dura sed lex. Muitas coisas na vida são também assim. “

“Mas, se Deus é bom, por que razão existe mal? Se Deus é omnipotente, por que motivo não arranjou um sistema diferente, um sistema em que o resultado do jogo de xadrez fosse bom para os dois jogadores? “, insistiu Afonso, já habituado aos esses assobiados.

“A resposta a essa pergunta, meu caro Afonso, foi dada há duzentos anos por um filósofo alemão”, retorquiu o professor. Voltou-se para o quadro e escreveu a giz “Gottfried Leibniz”. “Leibniz observou ad litteram que o bem e o mal são inseparáveis porque cada um deles não tem sentido sem o outro”, disse ele, pronunciando “Laibnitsss”. “O bem só tem valor se o mal for uma opção, se nos dedicarmos a ele porque o desejamos, não porque não temos alternativa. E esta dualidade bem-mal só é possível porque estamos a lidar com conceitos relacionados entre si e cuja adopção resulta de um acto de livre vontade. De alguma forma poderemos definir o bem como sendo um conjunto de regras e comportamentos que produzem bons resultados para cada pessoa e para a comunidade em geral e o mal como sendo regras e comportamentos que apre-sentam resultados negativos para o mesmo universo. É claro que, a priori, cada sociedade, ou religião, pode estabelecer regras e comportamentos diferentes e até antagónicos. Id est, acontece por vezes que uma coisa que é considerada boa por umas culturas é encarada como maligna por outras, e é por isso que temos de nos guiar pela palavra de Deus tal como ela foi imortalizada nas Sagradas Escrituras. São elas a alma mater da nossa moralidade, são elas o nosso guia para definirmos o bem e o mal, para estabelecermos quais os comportamentos e regras que deveremos adoptar e quais os que deveremos rejeitar. No Genesis, a distinção do bem e do mal constitui o terceiro passo dado pelo homem, e é precisamente aí que começa a definição da nossa moralidade. “

“E qual é o principal comportamento ou regra que temos de adoptar para fazermos o bem? “, perguntou o aluno.

“O amor”, disse sem hesitar o padre Nunes. “Os judeus acreditavam no princípio de que o bem era praticado quando amámos o próximo, e isso está consagrado no Antigo Testamento. O problema é que os judeus achavam que eram o povo eleito, que Deus só os amava a eles. Cristo foi para além desta ideia, defendendo que Deus amava os judeus, sim, mas, magister dixit, também amava todos os outros povos, todos eram filhos de Deus, o amor divino era universal. De resto, já os gregos defendiam que os homens são todos irmãos, um conceito que Jesus incorporou no cristianismo. “

À noite, deitado na sua cela, Afonso matutava sobre estas ideias inquieto, lendo a Bíblia com redobrada atenção. Por vezes dava um salto à biblioteca do seminário e consultava textos de teologia, regressando às aulas do padre Nunes com novas dúvidas.

“O senhor padre mencionou na última aula que o bem e o mal só têm valor porque podemos optar entre eles”, observou o aluno quando voltou a Teologia Dogmática. “Mas estive a ler a Carta aos Romanos, de São Paulo, e ele escreveu aí que todos os homens são pecadores e que Deus escolhe quais são aqueles a quem vai conceder a Sua graça e salvar. Essa escolha foi previamente efectuada por Deus, antes de o tempo ter começado, antes de o mundo ter sido feito.“

“E o que concluis dessas palavras, meu filho? “

“Concluo que Deus concede a Sua graça independentemente dos méritos dos que a recebem. Todos somos pecadores, cabe a Deus escolher arbitraria-mente quem vai ser salvo. E, como essa escolha foi efectuada antes ainda de o mundo ter sido feito, o que nós fizermos é irrelevante, Deus já fez as suas opções antes mesmo de praticarmos o bem ou o mal. Ou seja, o que quer que façamos não conta para nada, as coisas estão decididas antes mesmo de acontecerem. “

“Esse é precisamente, um ponto de divergência entre o catolicismo e o protestantismo”, comentou o padre Nunes afagando a barba rala. “É possível que, ao avançar com essa ideia da graça de Deus, São Paulo tenha levado o cristianismo para áreas onde talvez Jesus não tivesse ido. Outros santos contestaram o conceito, insistindo no princípio fundamental de que uma fé que não é consolidada por actos não tem valor. Sabes, o que se passa é que a Bíblia resulta de um conjunto de textos diferentes, que nós consideramos como sendo produto da palavra de Deus, mas a verdade é que eles foram redigidos por homens. Isso significa que, até certo ponto, esses textos são interpretações humanas da vontade divina e, como tal, podem por vezes conter “ contradições, até mesmo um ou outro lapsus calami.“

“Mas qual é a resposta para este problema? “ “Não sei, teria de consultar Deus”, riu-se o professor. “Eu diria que talvez exista uma maneira de conciliar os dois pontos de vista. Uns têm certamente razão quando defendem que é preciso praticar o bem para merecer um lugar no céu. Mas São Paulo preconiza outra verdade, a de que a bondade de Deus é ilimitada, mirabile dictu, e isso significa que todos podem ser perdoados, mesmo os que só fizeram o mal. Admito que haja aqui uma contradição, mas, à falta de melhor resposta, eu diria que, hic et nunc, os caminhos do Senhor são insondáveis. “

Afonso não ficou satisfeito com a forma como o padre Nunes não respon-deu à sua dúvida, mas percebeu que isso acontecia porque o professor não tinha realmente resposta. Tal não o impediu de problematizar alguns aspectos do problema, como se tornara agora seu timbre.

“Mas como é possível que as coisas estejam decididas antes ainda de terem acontecido? “

“Tudo está predestinado. “

“Mas, se está predestinado, então é porque não há livre vontade. Ou seja, a opção pelo mal não é do homem, é de Deus. O padre Nunes suspirou. Que aluno difícil, pensou, a curva nas costas acentuando-se à medida que ganhava coragem para atacar mais aquele problema.

“Santo Agostinho responde a essa tua dúvida”, ciciou. “Imagina que o tempo é como o espaço. Quando viajamos, vamos um ponto ao outro. Eu estou em Braga e vou ali a Viana do Castelo. Evidentemente que eu aqui de Braga não vejo Viana, mas Viana está lá. Se subir para o céu num desses aeroplanos dirigíveis de que falam agora os jornais, lá de cima já poderei ver as duas cidades ao mesmo tempo, Braga de um lado e Viana do outro. Mutatis mutandis, com o tempo é a mesma coisa. Eu viajo do passado para o futuro. Do ponto onde me encontro não consigo ver o futuro, embora ele exista. Mas Deus está lá em cima e, ipso facto, vê os dois pontos ao mesmo tempo, o passado e o futturo. Entendeste?”

“Sim”, indicou Afonso hesitante. “Mas em que é que isso responde à minha pergunta?”

“Com este exemplo, adaptado de Santo Agostinho, eu expliquei-te a predestinação”, devolveu o professor com um sorriso triunfal. “Não foi Deus que fez as acções humanas que vão ocorrer no futuro, foi o homem. A vantagem de Deus é que Ele está lá em cima, a ver simultaneamente o passado e o futuro, e consegue perceber o que o homem irá fazer antes mesmo de ele o ter feito.

Ab initio, Deus viu no passado as escolhas que iremos livremente fazer um dia no futuro, pelo que não precisa de esperar pelo futuro para enunciar o seu veredictum, para decidir quem irá salvar. “Portanto”, concluiu o aluno, “o futuro já está determinado.“

Já.

“Mas, apesar disso, temos livre vontade.”

“Concordo que, grosso modo, parece uma contradição”, admitiu o padre Nunes, esforçando-se por ocultar a sua atrapalhação.

No entanto, assim é. O futuro está determinado desde que o mundo foi criado, mas o homem mantém o livre arbítrio. “

“Não percebo”, comentou Afonso. “Só posso ter livre arbítrio se puder mudar o futuro, se for dono das minhas acções. Ora, se o futuro já está determinado, isso significa que não o posso alterar. Se não o posso alterar, a minha vontade não é livre, apenas parece livre. “

Não é bem assim”, desesperou o professor. “Somos nós que construímos o futuro. Nihil obstat. Deus limita-se a tomar conhecimento antecipado das nossas acções. “

Afonso não ficou convencido e voltou aos livros. Consultou a biblioteca do seminário e conseguiu até autorização para dar um salto à Bibliotheca Pública, ao lado da Igreja dos Congregados, junto ao Jardim Público. Dias depois, no início da aula do padre Nunes, levantou a mão.

“O que é, Afonso? “

“Senhor padre, encontrei uma resposta para o problema do livre arbítrio. “

“O livre arbítrio? Do que é que estás a falar? “

“Lembra-se de na última aula termos falado sobre a predestinação e de o senhor padre ter dito que o facto de Deus tomar conhecimento antecipado das nossas acções não nos retira a liberdade de decidirmos por nós mesmos? “

“Sim, a conversa de Santo Agostinho “

“Pois eu descobri que Espinosa contraria Santo Agostinho.” O padre Nunes arregalou os olhos.

“ Espinosa?”

“Sim, senhor padre”, disse Afonso com entusiasmo, folheando o caderno onde tomara as suas notas. “O Espinosa disse que a nossa convicção de sermos agentes livres não passa de uma ilusão baseada no facto de que nunca estamos conscientes das verdadeiras causas dos nossos actos. “ Afonso levantou os olhos do caderno e mirou o professor com ar vitorioso. “Ou seja, não somos livres, pensamos é que somos livres. “

“É verdade que Espinosa escreveu isso”, admitiu o padre com um suspiro. “Mas, se leres bem Espinosa, verás que ele também disse que há uma liberdade que temos, que é a de tomarmos consciência das causas dos nossos actos. Tornamo-nos livres quando compreendemos as coisas”

“Isso não impede que se mantenha o problema inicial, o de que o livre arbítrio é uma ilusão. “

“É o que diz Espinosa”, assentiu o mestre. “Mas deixa-me avisar-te, Afonso, de que Espinosa não era católico. Ele era judeu e mesmo entre os judeus foi excomungado por causa das suas ideias heréticas. Portanto, tens de lê-lo guantum satis. Se eu tiver de escolher entre Espinosa e Santo Agostinho, não tenho dúvida em dar razão a Santo Agostinho.”

Os debates teológicos e filosóficos fascinavam e estimulavam Afonso, não admirando que o jovem fizesse de Teologia Dogmática a sua disciplina favorita. Nas aulas do padre Francisco Nunes compreendeu algo em que nunca tinha pensado, a ideia de que os textos divinos foram escritos por homens e não passavam de interpretações imperfeitas da vontade de Deus. A compreensão de que os textos sagrados poderiam ser falíveis e abertos a diferentes leituras deixou-o horrorizado, essa era uma ideia monstruosa, significava que os autores dos textos se podiam ter enganado e estar a difundir princípios que não emanavam de Deus. Passou a ler a Bíblia com redobrada atenção, tentando descortinar o que era realmente a palavra do Senhor e o que não passava de interpretação subjectiva do autor do texto, mas depressa percebeu que essa era uma tarefa impossível, a própria tradução revelava-se, ela mesma, uma interpretação. Consoante as traduções, o texto mudava subtilmente.

Apesar destas dúvidas, Afonso tornara-se um rapaz devoto e dedicado, imensamente interessado pelo mundo. À medida que evoluía das questões mais simples e ingénuas para os problemas teológicos e filosóficos mais complexos e aprofundados, crescia a sua admiração pelos conhecimentos do padre Nunes. Certa vez, no final de uma aula, encetou a única conversa que teve versando matérias não exclusivamente religiosas numa lição de Teologia Dogmática, ao interrogar o mestre sobre onde adquirira o seu saber. “Estive em Roma, meu filho”, riu-se o padre, divertido com a pergunta, enquanto arrumava os papéis para se ir embora. “Frequentei a biblioteca do Vaticano. Foi lá que tive o meu fiat lux. “

“Aprendeu tudo lá?”

“Nem tudo. Houve coisas que aprendi quando estudei na Alemanha. “

“Mas esse não é um país protestante? “

“De facto”, assentiu o padre Nunes, levantando os olhos dos papéis. “Mas é muito bom na filosofia. “

“E os filósofos alemães acreditam em Deus?

“Alguns sim, outros não. “

“Quem são os que não acreditam? “

“Sei lá, vários. “

“Mas quem? “

“Olha, o Schopenhauer, o Fichte... “

“Esses não acreditam em Deus? “

“Não. “

“Então, para eles, quem é que criou o mundo? “

O padre Francisco Nunes olhou fixamente para Afonso, suspirou e sentou-se pesadamente na cadeira.

“O Schopenhauer foi o primeiro filósofo explicitamente ateu”, explicou o mestre, já resignado à ideia de que não iria sair imediatamente da sala, ou não conhecesse ele o aluno que tinha pela frente. “Ele achava que não foi Deus quem criou o homem à Sua imagem, mas foi o homem quem criou Deus à sua imagem. Sic. Deus não passava assim de uma criação antropomórfica, de uma projecção do homem... “

“Assim à maneira dos gregos? “

“Quais gregos? “

Afonso consultou as suas notas.

“Protágoras”, exclamou. “Protágoras disse que o homem é a medida de todas as coisas. “

“Pois, isso”, assentiu o padre, com um gesto vago. “Mas há mais. Schopenhauer rejeitou a própria ideia de alma, dizendo que todo o conhecimento está no cérebro, não no espírito. Ele considerava que o mundo não tem significado, não tem propósito, existe por si mesmo, et caetera. Ou seja, o mundo não tem sentido, nós é que lhe atribuímos um sentido, nós é que lhe inventamos um sentido para nos reconfortarmos. “

“E o senhor acredita nisso? “

Credo, Afonso, claro que não. Se acreditasse não seria padre valha-me Deus. “

“Não há nada que ele tenha dito que considere verdadeiro?

“Bem, isso é outra coisa. Sabes, o Schopenhauer via o mundo como uma coisa cruel, um local de sofrimento em que para viver é preciso matar. Por exemplo, a todo o momento os animais estavam a matar outros animais, são milhares e milhares de mortes por ano em todo o mundo. Para que um único animal carnívoro viva durante um ano, uma centena de animais terá de morrrer de modo a alimentar esse único sobrevivente. E para que um único animal herbívoro viva durante esse mesmo ano, muita criação tem de morrer para lhe dar de comer. Por outro lado as próprias plantas vivem à custa do apodrecimento da carne dos animais e dos restos das outras plantas. Ou seja, a vida alimenta-se de muita morte. Dura lex sed lex. Schopenhauer achava que o mundo dos homens obedece à mesma lei, os seres humanos “ vivem uma vida de sofrimento em que os homens são escravos das suas necessidades e desejos. É uma vida feita de violência e de frustrações, de dor, de doenças, de medo, de escravidão, de luta, de vitórias efémeras e derrotas permanentes, é um processo de perdas constantes e sucessivas, e o pior é que tudo isso acaba sempre mal, a vida termina invariavelmente com a perda final forte, na nossa existência não há fins felizes. “ Isso parece assustador. “

“É deprimente. “

Considera isso verdadeiro? “

“De certo modo” disse o mestre. “

Viver é sofrer. E o que é mais curioso é que, apesar de ser um constante sofrimento, nós destinamo-nos à vida com todas as nossas forças, como se fosse o maior tesouro, a coisa mais preciosa. Mas a vida está sempre a ser articulo mortis. Ela foge-nos, escapa-se-nos como água entre os dedos. Em cada respiração, a cada palavra, a cada momento encurta- se a distância que nos separa do nosso fim, nascemos e já estamos condenados à morte. A vida não passa de um instante fugaz, de um brilho efémero das trevas da eternidade.”

“Acha?”

“Tu ainda não tens noção, Afonso, és muito novo”

Quando somos novos, tudo parece lento, vago, quase eterno. Mas olha que isso vai mudando com a idade. Ainda noutro dia eu tinha quinze anos e agora, quase já estou a chegar aos quarenta. Parece que a vida se vai acelerando, os anos ganhando velocidade, e isso assusta-me. Repara no D. Crisóstomo, que tem sessenta. Sessenta anos ainda é uma idade de trabalho, de actividade. Mas, se formos a ver bem, daqui a dez anos, provavelmente, ele já não estará vivo. Dez anos, meu filho, não é nada. Dez anos é um mero sopro na poeira do tempo. “

Afonso não se impressionou, para ele dez anos era muito tempo, eram dois terços da sua existência, era um dia longínquo que se perdia na eternidade do futuro. Acreditava que a vida era longa, tinha ainda uma grande marcha pela frente e achava aquela conversa inconsequente. A sua preocupação era compreender a vida para a conquistar, não para que ela o esmagasse.

“Se os filósofos ateus não encontram sentido na vida, então eles vivem para quê? “

“Boa pergunta”, riu-se o padre Nunes, sentindo-se confortável neste terreno. “O problema de Schopenhauer é justamente que, sem Deus, o mundo fica uma coisa vazia, absurda, sem razão de ser. Então, para substituir Deus, ele apareceu com o conceito de arte. Schopenhauer dizia que, com a arte, o homem liberta-se momentaneamente da escravidão do desejo e da tortura da existência, é arrancado dos grilhões do espaço e do tempo e transportado para uma realidade paralela, sublime, celestial. O que leva, meu caro Afonso, a concluir que Deus é um artista “

“Ou que a arte é divina. “ “Ou que a arte é divina”, concordou o padre com uma gargalhada.

Afonso fitou-o com intensidade e ainda hesitou, mas decidiu-se e, pesando as palavras, formulou a pergunta que naquela conversa mais o atormentava.

“Será possível, senhor padre, que tenhamos inventado Deus para darmos sentido ao mundo?

O largo sorriso do padre Nunes desfez- se e ele suspirou, interrogando-se sobre onde é que aquele miúdo ia buscar tais ideias tão próximas da heresia.

“Essa é a mais terrível pergunta de todas”, declarou pesadamente. “Talvez por isso, nem devia ser uma vexata quaestio. Em vez de falar ex cathedra sobre este assunto, temos de ter fé e acreditar que Deus existe independen-temente da nossa vontade, a crença na Sua existência não depende da lógica nem da prova científica, depende unicamente da nossa fé. Mas, se me pedirem raciocínio lógico, eu responderia com outra pergunta: seria possível estarmos aqui se não fosse pela vontade de alguém? “ “Mas pode provar-se que Deus existe? “

“Provar, provar, não direi, pelo menos não segundo os chamados critérios científicos de que tanto se fala agora”, retorquiu.

Houve um filósofo escocês, Hume, que defendeu que a existência de Deus é uma questão de facto, ou Ele existe ou não existe. Segundo Hume, as questões de facto só podem ser resolvidas pela observação. Repara que Hume era um empirista, acreditava na observação. Ora, como é evidente, nós não conseguimos observar Deus, a Sua existência não é demonstrável in vitro, mas isso não significa, digo eu, que Ele não exista. Na verdade, procurar provas não passa de lana caprina. Eu nunca vi Bragança, mas sei que Bragança existe. Hume constatou que as provas da existência de Deus não são directas, mas inferenciais. Verbi gratia, a ordem existente no universo indicia que o universo foi organizado por uma inteligência superior. Isso é um indício, mas não é, admito, a prova final. Se quiseres, talvez tenha sido Descartes quem apresentou o melhor indício da existência de Deus. Descartes apresentou esse indício de um modo lógico, chamando a atenção para o facto de o homem ser imperfeito mas ter em mente o conceito de um ser perfeito. Ora, como ninguém é capaz de imaginar algo melhor do que si mesmo só com base nos seus recursos, então é porque esse conceito emana da realidade. Se eu sou incapaz de imaginar por mim mesmo um ser perfeito, e todavia imagino, só pode ser porque esse ser perfeito efectivamente existe. “ Então, se Deus existe, onde está Ele?”

Está em tudo”, afirmou o mestre, abrindo os braços e mostrando o que o rodeava. “O teu amigo Espinosa até pode ter sido um judeu herege, mas deu uma boa resposta a essa tua pergunta.

Newton disse que Deus criou o universo e depois ficou de fora e deixou-o funcionar segundo as regras que Ele próprio tinha estabelecido. Mas Espinosa achou que esta ideia estava mal formulada. Pois se Deus é infinito, então é porque Ele está em tudo.

Se Ele estivesse separado do mundo e dos homens, como uma espécie de entidade exterior, então o mundo e os homens seriam o Seu limite. Não pode ser. Uma coisa infinita, por definição, não tem limites. Sendo infinito, não pode Deus ser uma coisa e o mundo e os homens serem coisas diferentes. Não pode haver nada que Deus não seja. Logo, se Deus é infinito, a fortiori Deus é tudo.”

“Isso contraria o que os filósofos alemães dizem”, considerou Afonso, um mar de dúvidas a encher-lhe a cabeça. “Segundo percebi, para eles é como se o homem estivesse em luta com o mundo. “

“De certo modo, sim. No seu quid pro quo, os filósofos ateus tiram Deus da equação e tendem a estabelecer uma divisão entre o mundo e o homem. Fichte era um deles, ele afirmava que o universo da matéria inerte está separado do universo da vida. Mas, atenção, é preciso dizer que outros filósofos alemães tinham uma opinião diferente, consideravam que é tudo a mesma coisa, um pouco como Espinosa. Schelling, por exemplo, defendia, inter alia, que a natureza é uma realidade total e que a vida faz parte dessa realidade como uma evolução natural das coisas. Para ele, a natureza é um processo e os homens integram esse processo.

A vida não é separada da matéria inerte, mas uma continuação dela. O que é realmente curioso nestas ideias de Schelling é que elas colocam o homem como fazendo parte integrante da natureza. Schelling observou que a natureza não é autoconsciente no seu processo criativo, mas o homem é. Ora, se o homem faz parte da natureza, então ele trouxe consciência à natureza, foi esse o seu grande contributo para o processo natural. Com o homem, a natureza tornou-se autoconsciente. “

“ O senhor também acredita nisso?”

“Claro que não. Foi Deus quem criou a natureza e o homem, foi Deus quem decidiu que a natureza não teria consciência e que o homem teria. A consciência é o instrumento que Deus deu ao homem para que ele reprima a sua natureza animal e procure a perfeição espiritual. Sem consciência, o homem não passaria de uma besta como as outras. A consciência é o toque divino na natureza humana. “

Mas, senhor padre, isso não contraria o princípio de que Deus é infinito? O senhor padre disse há pouco que não há separação entre Deus, o mundo e o homem, Deus está em tudo. Se Deus está em tudo, porque é infinito, então voltamos à velha questão de que Ele também está no pecado. Ora, como é que pode... “

“Eu não disse isso, Afonso”, cortou o mestre, franzindo o sobrolho e erguendo o dedo, o liberalismo de pensamento do padre tinha limites e ele queria evitar aquele terreno pantanoso.

“Foi Espinosa que disse. E Espinosa era um judeu herético, não te esqueças. Na dúvida, meu filho, guia-te por Santo Agostinho, é ele o vade-mécum. “

Os problemas da natureza humana começaram por essa altura a afligir profundamente Afonso. Essa preocupação não derivava apenas de meras considerações filosóficas induzidas pelas conversas com o padre Nunes, mas também do facto de o seu próprio corpo estar a evoluir de um modo que o espírito parecia incapaz de acompanhar. Os pelos apareceram-lhe nos cantos da boca e no queixo quadrado, e ele passou a cortá-los semanalmente com uma navalha. Começou também a sentir ardores por entre as pernas, desejos que tinha combatido com manipulações dos órgãos genitais ainda na sua pequena cela antes de dormir, pecados mortais que procurava depois absolver com intensas e fervorosas orações na capela.

Aos quinze anos passou a ejacular periodicamente durante a noite, o que o deixava terrivelmente envergonhado e lhe alimentava um insuportável senti-mento de culpa. Não sabia como controlar o problema e achava que o diabo lhe entrava no corpo para o obrigar a pecar nos momentos em que o apanhava desprevenido, nomeadamente quando estava mergulhado no sono. Pensava que isso não acontecia a mais ninguém e suplicava diariamente à Virgem Maria para que o livrasse da tentação e afastasse os demónios que se aproveitavam da sua inconsciência enquanto dormia. Atormentou-se a pensar que Deus já antevira isso no passado e antecipadamente o excluíra da salvação. Não fora Santo Agostinho que considerara que o desejo sexual é uma tentação do diabo? Afonso aprendera em Teologia Dogmática que o sexo é animal, algo impuro, e que é a resistência a esse instinto que faz de nós seres humanos. Segundo Santo Agostinho, a tentação sexual é uma violação da nossa livre vontade. Deus quer-nos livres, pelo que não pode ser Ele o responsável pelo desejo carnal. [Se assim é, a tentação sexual é algo que só pode vir do demónio. Consequente-mente, o celibato constitui o triunfo do homem sobre o animal, de Deus sobre Satanás, ou, se quisermos, o celibato representa a vitória da livre vontade humana sobre os grilhões das bestas. Se a minha vontade não consegue vencer esta tentação, pensou Afonso, então é porque o diabo está a tomar conta de mim. Para retomar a questão nos termos originalmente apresentados por Schelling, embora pervertendo o sentido do raciocínio do filósofo alemão, Satanás está na nossa natureza, na nossa animalidade, e só a nossa vontade consciente nos permite combatê-lo. O problema perturbou- o tanto que nem sequer nas confissões se atreveu a revelar o que se passava, tudo aquilo pertencia ao domínio do inconfessável, do vergonhoso. Além do mais, receava ser excomungado se alguém percebesse que o demónio por vezes tomava conta de si. Quem sabe, reflectiu, se aquele não era um sinal de que Deus considerava que aqueles pecados nocturnos o tornavam indigno de ser ordenado, afinal de contas talvez nunca pudesse ser um homem imaculado como D. João Basílio Crisóstomo, o padre Álvaro, o padre Nunes e o padre Fachetti, eles sim castos e verdadeiros celibatários que viviam livres da tentação.

Os males do corpo principiaram a contagiar-lhe a alma. Para agravar as coisas, e para grande tristeza sua, Américo não o conseguia acompanhar. Não é que o seu amigo transmontano não fosse suficientemente empenhado na fé. O problema é que ele não era amante dos estudos e não vivia com agrado na clausura do seminário, o que acabou por precipitar vários non aprovatus no final do ano, classificações que convenceram o pai a chamá-lo a Vinhais para não mais voltar.

Afonso iniciou por isso o terceiro ano do seminário com um grande sentimento de solidão. Tinha agora dezasseis anos, a mesma idade de outros estudantes que nesse ano tinham entrado na instituição, mas os seus colegas do terceiro ano eram todos mais velhos, andavam pelos dezanove. Mostravam-se afáveis e corteses, o que não impedia que a diferença de idades se notasse, apesar da irrequieta e estimulante curiosidade manifestada por

Afonso sobre os mistérios do universo. Alguns interessavam-se, oh pecadores! pelas “moçoilas”, o jovem de Rio Maior viu mesmo um deles, o Abílio, a lançar um piropo da sua cela a uma rapariga que passava pelo Largo de São Thiago e sentiu-se desconcertado com tão incauto comportamento. Quando o interpelou sobre o que fizera, mostrando-se soberbo de virtude moral, o seminarista marialva encolheu os ombros.

“O pecado consiste, não em desejar uma mulher, mas em consentir no desejo”, retorquiu Abílio com altivez.

“Quem é que disse isso? “

“Abelardo. “

“Quem?”

“Pedro Abelardo, um filósofo e teólogo do século XII“ “Isso é uma heresia”, sentenciou Afonso, muito convicto. “Santo Agostinho não disse nada disso “

“Eu quero qu'o Santo Agostinho vá prò raio qu'o parta! “, exclamou Abílio perante o olhar escandalizado do colega.

Mas isso não foi tudo. Numa aula de latim, o mestre apanhou outro dos seus colegas, o Rudolfo, com um exemplar do Decameron escondido por baixo de Tito Lívio, e o rapaz foi expulso do seminário pelo vice-reitor. Desiludido e solitário, Afonso começou a sentir-se desmotivado e fechou-se em si mesmo. Voltou aos jogos imaginários no pátio, passando os recreios a dar pontapés em pedras, fintando players invisíveis, batendo goal-keepers fingidos, marcando goals espectaculares, fantasiando o regresso em glória do Club Lisbonense sob o comando dos seus estonteantes dribblings.

Os jogos imaginários tornaram-se selvagens. Afonso corria furiosamente pelo pátio a dar toques em pedras e a pontapeá-las com inusitado vigor. Certo dia uma das pedras atingiu na cabeça um colega que estudava encostado ao tronco de um carvalho, e o profuso sangrar que lhe brotou do couro cabeludo levou o vice-reitor a convocar o jovem ao seu gabinete para lhe passar uma reprimenda. O eclesiasta disse-lhe que aquele comportamento era indigno de um seminarista, quem desejava servir Deus com devoção não se podia portar daquela maneira, parecia um lunático aos pontapés no pátio. Afonso ouviu-o cabisbaixo, os olhos fixados no soalho encerado. Durante algumas semanas inibiu-se de jogar football imaginário, mas a tentação acabou por ser mais forte do que a prudência e, passado algum tempo, lá estava ele a dar toques em pedrinhas, primeiro de forma discreta, de mansinho, como quem não quer a coisa, depois mais empolgadamente, esquecendo-se momentaneamente do decoro, força na bola para os ingleses do Carcavellos Club verem de que têmpera era feito um player do glorioso Club Lisbonense.

O frio, cruel e penetrante, abateu-se sobre Braga durante o mês de Dezembro. Cada um protegia-se do gelo à sua maneira. Uns não largavam as lareiras, outros envolviam-se em espessos casacos, Afonso preferia esfalfar-se a correr, a saltar, a rematar. Mas, com os músculos enregelados, o controlo dos movimentos era mais brusco, e o inevitável aconteceu. Um pontapé mais forte que o invisível goal-keeper do Carcavellos Club não conseguiu defender acabou com o vidro da casinha da jardinagem feito em bocados.

O vice-reitor achou que era de mais. Afonso foi classificado de “pagodeiro”, o termo utilizado para os brincalhões e indisciplinados que por vezes apareciam no seminário. No dia seguinte, D. Basílio Crisóstomo chamou logo pela manhã o padre Álvaro e entregou-lhe um sobrescrito lacrado.

“O que é isto? “, perguntou o padre, olhando para o envelope. “Lê”, disse-lhe o reitor.

Intrigado, o pároco obedeceu e quebrou o lacre. Desdobrou a carta e começou a ler. O documento era assinado por João Basílio Crisóstomo e nele o vice-reitor explicava ter o seminário concluído que Afonso da Silva Brandão, embora aluno aplicado e talentoso, não tinha na verdade vocação para a vida sacerdotal. Consequentemente, não seria ordenado. O padre Álvaro empali-deceu, jamais imaginara que aquela convocatória tivesse sido feita para lhe entregar a carta de prego. Afinal de contas, D. Basílio Crisóstomo sempre lhe tecera os mais rasgados elogios sobre o seu protegido, o que era confirmado pelas boas notas no final do ano, pelo que aquela decisão se revelava totalmente inesperada. O vice-reitor explicou ao amigo as circunstâncias que o tinham levado a tomar aquela decisão, mas ficou combinado que Afonso seria autorizado a concluir o terceiro ano no seminário de modo a completar a sua educação. A condição era a de que ele teria de terminar definitivamente o seu bizarro comportamento no pátio, era a única forma de pôr fim ao falatório sobre o seu equilíbrio mental, onde é que já se vira um seminarista andar assim aos pontapés às pedras?

Afonso sentiu-se profundamente triste e magoado quando o padre Álvaro lhe explicou que tinha recebido a carta de prego e que ele afinal não iria ser ordenado. O jovem transformara-se num católico moderadamente devoto e, apesar dos tormentos nocturnos da carne, já se habituara à ideia de que iria ser padre. Agora os sonhos de se tornar um missionário em África desvaneciam-se como uma nuvem. Pior do que isso, começou a sentir-se inseguro quanto ao futuro. Se já não iria ser ordenado, o que faria da sua vida? O regresso a Rio Maior parecia-lhe inevitável, mas não encarava a perspectiva com grande entusiasmo, as breves passagens pela Carrachana nos três verões anteriores deixaram-no com a convicção de que aquele já não era o seu mundo, não estava ali o futuro, apenas o passado. O problema atormentou-o durante algum tempo, antes de o sacudir da mente como se não passasse de uma incomodidade passageira. O que quer que venha a acontecer é porque estava já predestinado, concluiu por fim, com fatalismo. Entregou-se então placidamente ao destino.

Quando Maio de 1907 chegou, despediu- se do padre Fachetti, do padre Nunes, do vice-reitor, do padre Álvaro e da cidade de Braga e regressou à casa da família. Voltava, não com o sentimento de derrota, mas de resignação, se não vinha como padre era porque tal não lhe estava reservado, era outro o seu destino. Quatro anos antes abandonara a Carrachana com uns trapos andra-josos no corpo, a chorar baba e ranho e cheio de dúvidas sobre o que o esperava no Minho. Agora, aos dezassete anos, regressava taciturno, vestido com roupas escuras e limpas e com uma gravata ao pescoço, ainda carregado de dúvidas, algumas de origem metafísica, a maior parte bem mais prosaicas. Destas, a maior era a de determinar o seu verdadeiro papel nos desígnios do Senhor, ou seja, e no imediato, o que seria a sua vida em Rio Maior.

 

“Papá, por que gostas tanto de vinho?

Paul Chevallier desviou os olhos da garrafa de Chablis e observou, espantado, a filha. O dono do Château du Vin descera à adega da loja, uma vela na mão para iluminar o caminho, as paredes cobertas de garrafas e de densas teias de aranha. Agnès aguardava atrás de si, na sombra, remexendo os dedinhos, ardendo de curiosidade, tentando perceber aquela estranha paixão do pai. Como poderia Paul explicar-lhe os prazeres de Baco?

“Sabes o que é teres um doce aveludado a deslizar-te pela boca? “, perguntou Paul num tom misterioso. Agnès abanou a cabeça. O pai acocorou-se junto de si e abriu o rosto num sorriso. “Imagina esta coisa maravilhosa. A chuva penetra na terra, as raízes absorvem a água, as uvas amadurecem em sumo, nós transformamos o açúcar em álcool, o vinho inebria-nos os sentidos. “

Inspirou fundo. Sentimos-lhe o aroma, a fruta, a textura, o sabor, ele é açafrão e é poesia, é o néctar de uma flor, as lágrimas de Deus, o grinfar de uma andorinha, um perfume, uma melodia, a curva de uma mulher e uma brisa de Primavera. O vinho, ma petite, é a vida “ Apertou-lhe carinhosamente o nariz. “Percebeste? “

Agnés mirava-o com olhos arregalados, vidrados, nunca vira o pai falar assim. Fez que sim com a cabeça, em silêncio, dando a entender que percebera, mas a verdade é que tinha ficado agora mais intrigada do que nunca. Afinal, por que razão o pai gostava assim tanto de vinho? Aquela misteriosa resposta na adega do Château du Vin despertou em si uma curiosidade incontrolável, obsessiva, não percebeu as palavras mas estava determinada a entendê-las, não compreendeu o sentido mas sentira a sua força, o seu poder. O pai vivia fascinado pelo vinho e ela fazia questão de perceber porquê.

Crescentemente atenta a tudo o que a rodeava, Agnès abriu-se ao mundo e passou a ter novos interesses. A Exposição Universal de Paris constituíra uma inolvidável viagem ao futuro e um catalisador para a crescente curiosidade da rapariga pelas coisas da ciência. Mas a ciência mais à mão na sua vida em Lille era a do pai, exposta diariamente no Château du Vin. Graças à influência pa terna, motivada por aquela fascinante e enigmática resposta, mas também estimulada pelo espírito artístico e científico que orientava tudo o que vira em Paris, tornou-se no início da adolescência uma verdadeira perita na arte do vinho. Queria perceber tudo e deitou mãos à obra com desconcertante entusiasmo. Achava fascinante a delicadeza quase religiosa com que o pai tratava uma garrafa, girava o líquido no copo para libertar o aroma ou saboreava o néctar. Longas horas de observação e de insistentes perguntas permitiram-lhe aceder ao enigmático mundo da enologia, a ciência que iria dominar as suas atenções imediatas.

Aos onze anos, o vinho já não lhe ocultava mistérios. Sabia que a cortiça era a cobertura ideal para as garrafas de vinho devido à sua leveza, limpeza, impermeabilidade e elasticidade. A rapariga acompanhava o pai nos passeios para retirar a casca aos sobreiros e produzir rolhas de cortiça que deslizavam macias, mas firmes, até à sua posição no gargalo das garrafas. Via-o a cobrir a rolha com cápsulas feitas de folha de chumbo e gravadas em relevo, ou mergulhando o gargalo em lacre, à moda antiga. O mais espectacular era quando o pai, durante um jantar em casa com amigos, em que se bebia vinho velho guardado com rolhas já fragilizadas e quebradiças, vestia a sua farda de hussardo e, à maneira de Champagne, usava o sabre contra o gargalo, partindo-o de um só golpe e libertando o vinho sem tirar a rolha. Era sempre um momento muito aplaudido, de grande intensidade dramática, embora em situações rotineiras com vinhos novos preferisse usar o saca-rolhas hipodérmico, que rebentava a rolha das garrafas.

Agnès sabia que era importante guardar as garrafas sempre deitadas, de forma a manter a rolha húmida através do contacto permanente com o vinho, e em locais escuros, para o vinho não ser estragado pela luz. Aprendeu a decantar os vinhos velhos, observando o pai a usar decanters de três anéis, de modo a evitar a parte turva, mas era a apreciação dos vinhos em si que se revelava o lado mais fascinante de todo o ofício. Quando pequena, ficava muito admirada por ver o pai a observar a cor e a textura do vinho dançando no vidro e a cheirá-lo com o nariz literalmente dentro do copo, mas o mais desconcertante era o modo como ele saboreava o líquido, com a língua a soltar pequenos estalidos. Agnès descobriu que os tintos Cabernet eram de um vermelho mais denso e escuro do que os Pinot Noir, que os bons Bordeaux desenhavam uma elipse nos copos e que os Chardonnay só adquiriam aroma quando eram mantidos em barricas de carvalho.

Da observação e do cheiro passou, aos doze anos, para a degustação do vinho. Não compreendeu de imediato todo o valor que era dado àquela bebida quando o pai a autorizou pela primeira vez a saborear o néctar, tão azedo, ácido ou envinagrado lhe pareceu, nada ali era consonante com as palavras misteriosas que ele usara para a enfeitiçar na adega da loja, mas com o tempo foi aprendendo a distinguir e a apreciar os sabores. A primeira coisa que lhe foi explicada é que não havia dois vinhos iguais, o paladar de um vinho dependia do enólogo que o criava, da casta da uva, do clima e das características do solo. Depois, aprendeu a distinguir um Trebbiano branco seco, um Gewurztraminer branco leve, um Sauternes branco doce, um Marsannay rosé, um Chianti frutado, um Bordeaux tinto encorpado e um Châteauneuf du Pape tinto escuro, mais as respectivas combinações com carne, peixe, queijo e fruta. Por exemplo, o Chablis combinava bem com mariscos, o Sancerre com Roquefort, o Médoc com borrego, o Sauternes com foie gras e o Sauvignon Blanc com salmão. Os seus conhecimentos na adolescência eram tais que o pai começou a considerar seriamente a possibilidade de um dia passar o negócio, não a um dos dois rapazes, como à primeira vista seria mais natural, mas àquela sua filha dedicada e conhecedora.

Paul Chevallier lidava com clientes de toda a espécie. Entre eles estavam alguns que um dia iriam tornar-se notáveis na cidade, como é o caso de monsieur De Gaulle, que por vezes aparecia na loja com o seu filho Charles, um rapaz narigudo, alto e desengonçado, um ano mais velho do que Agnès e que viria mais tarde a tornar-se o mais célebre filho de Lille, a par, claro, do recentemente falecido Pasteur. Afinal de contas, a cidade era pequena e todos se conheciam. Outros clientes vinham da classe alta, incluindo donos de castelos e casarões que gostavam de ver as suas adegas ricamente apetrechadas, e Paul tornou-se por isso visita frequente dos seus palacetes e solares.

O enólogo ficou particularmente amigo do barão Jacques Redier, um cliente apreciador do método de abrir garrafas à hussardo e com quem ia a cavalo caçar coelhos para a floresta de Compiègne durante o Verão. A baronesa Solange Redier era uma mulher frágil e adoentada, a quem a mãe de Agnès por vezes ficava a fazer companhia, ajudando-a a enfrentar os ataques de tosse provocados por uma tuberculose lenta e aparentemente crónica e que produzia expectorações com traços de sangue. As duas filhas permaneciam nessa altura no Château Redier com a mãe, enquanto Gaston e François acompanhavam as caçadas em Compiègne. Nessas ocasiões, Agnès imaginava-se Florence Nightingale e não poupava esforços para ajudar a baronesa, foi afinal ela a sua primeira paciente.

“A sua filha é uma santa”, comentou a baronesa após um ataque de tosse particularmente violento que lhe valeu inúmeras carícias da sua pequena e esforçada enfermeira.

“Sim, é muito carinhosa”, concordou Michelle, ela própria secretamente surpreendida com as atenções com que a filha rodeava a anfitriã. “Sempre foi diferente dos irmãos. “

“A menina devia ir brincar, em vez de estar aqui a aborrecer-se connosco”, considerou a baronesa Redier, abanando o leque. “Nesta idade é um desperdício ela perder tempo com uma doente como eu, não acha? “

“Oh, não se preocupe, baronesa, a minha Agnès adora estar entre os adultos. Por vezes, veja lá, fica horas sentada num canto, calada, a ouvir as nossas conversas, nem se dá por ela. Faz-me um pouco de confusão, é um facto, mas é essa a sua natureza, o que quer? Dá-lhe imenso prazer estar entre os mais velhos. “

“Mas ela não tem amigas? “

“Tem a irmã e a Mignonne. “

“É uma vizinha?”

“Não”, sorriu Michelle. “É a boneca. “

Quando os homens vinham da caçada, a sua alegria incontida e entusiasmo contagiante suscitavam grande curiosidade às duas irmãs. Contavam façanhas de caça, relatavam perseguições mirabolantes, a lebre que custou apanhar, o faisão que se escapou, o javali que cercaram a cavalo, tudo aquilo parecia um excitante mundo de aventuras, um inesgotável manancial de histórias, um universo de emoções vibrantes que lhes estava injustamente vedado. Claudette aborrecia-se mortalmente no Château Redier e convenceu a irmã a juntar-se-lhe numa vigorosa campanha para persuadir o pai a deixá-las ir com eles. O recurso a Agnès não era inocente, Claudette sabia que Paul nutria um fraquinho especial pela irmã e mostrava-se determinada a usar isso em seu proveito.

“Nem pensar, Claudette, a caça não é coisa para meninas”, exclamou o pai quando a filha mais velha o interpelou com o pedido.

“Oh, papá, deixa-nos lá ir. “

“Não pode ser, filha. Temos de andar a cavalo, temos de galopar atrás das raposas, andamos aos tiros, é perigoso.“

“Mas o Gaston e o François vão.“

“É diferente, são rapazes. “

“Mas são muito mais pequenos do que nós, não é justo.“ “Oh, está bem, mas eles não andam nas cavalgadas connosco isso não. “Ah não? Então onde é que eles andam?“

“Ficam nos Étangs de Saint-Pierre com o Marcel. “ Marcel era o mordomo do Château Redier, um homem sisudo que as crianças não apreciavam.

“Ah é? E nós não podemos ficar com eles?“

“Não, filha, isto não é para meninas. “

Claudette sentiu que era chegado o momento de atacar com trunfo. Fez sinal a Agnès e a irmã encostou-se ao pai, mostrando beicinho, os olhos doces e pedinchões, o tom de voz irresistivelmente meloso.

“Oh, papá, sê mignon, deixa-nos lá... “

Paul fitou Agnès e engoliu em seco.

“Bem... eu... “, gaguejou. “Enfim... uh... por que não? “ Suspirou, vencido. “Está bem, está bem. Amanhã levo- vos. “

Abraçaram-no, efusivas.

“Merci, papá “

“Pronto, pronto”, disse Paul, derretendo-se no abraço. “Mas têm de se portar bem, ouviram? “

Foi a única vez que o pai consentiu em levar as duas raparigas consigo. Na manhã seguinte, um domingo cinzento e húmido, meteu os quatro filhos num coche, com Marcel a conduzir, e partiram todos estrada fora, coche, cavalos e cães a seguirem com grande alarido até à floresta. Cruzaram o rio Aisne e entraram no Bois de Compiègne, passando por entre os grandes carvalhos até aos Beaux Monts, donde viraram para os Étangs de Saint-Pierre. Agnès e Claudette ficaram aí sentadas junto a um lago rodeado de faias, enquanto os irmãos brincavam às guerras por entre os arbustos, sob o olhar enfastiado de Marcel, e o pai galopava com o barão Redier atrás dos cães e das lebres. As irmãs acharam a experiência enfadonha, não havia ali aventuras nem excitação, apenas um tédio sem fim. Decepcionadas, nunca mais quiseram ouvir falar de caçadas, mil vezes os bocejos no Château Redier.

Paul era um homem avançado para a época e, quando Claudette terminou o liceu, decidiu pagar-lhe os estudos universitários. A filha mais velha, apaixonada por arqueologia e estimulada pelas recentes descobertas no Egipto e na Mesopotâmia, foi tirar História para a Sorbonne.

No ano seguinte, em 1911, foi a vez de ser dada a mesma oportunidade a Agnès. Sem surpresas, a segunda filha do casal Chevallier decidiu aos vinte anos seguir os passos da sua heroína Florence Nightingale e matriculou-se em Medicina, também na Sorbonne. Não era enfermagem, mas estava no mesmo ramo. Foi para Paris dividir com Mignonne e a irmã um apartamentozinho simpático em St. Germain-des-Prés. O apartamento situava-se num primeiro andar da Rue de Montfaucon, junto ao mercado, e foi aí que viveu os melhores anos da sua vida.

Claudette e Agnès frequentavam faculdades diferentes, pelo que só se juntavam à noite e aos fins de semana. Uma vez por mês iam a Lille passar um fim de semana com os pais e receber a mesada. O dinheiro chegava-lhes para a comida, que iam buscar ao Marché St. -Germain, mesmo ali ao pé, e para pagarem o aluguer do pequeno apartamento, constituído por cozinha e uma sala grande, onde tinham duas camas, um sofá, um armário, uma escrivaninha e uma banheira. O quarto de banho localizava- se no rés-do-chão, era um pequeno cubículo ocupado por uma retrete branca decorada com motivos azuis, como se fossem tatuagens sobre a porcelana, e servia todos os inquilinos do edifício.

O curso de Medicina revelou-se absorvente, mas o que se tornou verdadeiramente inesquecível foi a estreia em Anatomia. Agnès era das poucas mulheres a frequentarem o curso e foi muito a medo que, pela primeira vez, entrou na sala de dissecações para a primeira aula dessa temida disciplina. A meio da sala estava uma mesa e sobre ela encontrava-se estendido o cadáver de um homem nu. Os alunos rodearam a mesa num silêncio respeitoso, fascinados com a visão do morto, apenas o professor parecia descontraído, talvez até um pouco divertido, sabia bem como os alunos fantasiavam as sinistras experiências daquela cadeira, sobretudo antes de a frequentarem. O professor Bridoux tinha fama na Sorbonne, entre os estudantes de Medicina, de ser extravagante com os cadáveres. Ao contrário da maior parte dos professores de Anatomia, que dispunham de cirurgiões para as aulas de dissecação, Bridoux gostava de ser ele próprio a retalhar os corpos e a revelar-lhes as entranhas. Agnès conhecia-lhe a lendária fama de homem mórbido, uma reputação entre os estudantes que, em boa verdade, lhe atraía uma clientela fiel, afinal de contas o responsável pela cadeira de Anatomia era geralmente considerado a bizarria mais fascinante da faculdade.

“Muito bem, meus senhores”, começou o professor Bridoux a dizer enquanto esfregava as mãos. “A palavra anatomia deriva do grego anatemnein, ou seja, cortar e abrir. Ergueu um dedo. “Vocês vão ser agora iniciados na mais velha disciplina da Medicina e, se me permitem, vale a pena recordar aqui a importância histórica deste trabalho “ Os estudantes bebiam cada palavra, presos à exposição desta lenda viva da Faculdade de Medicina. “As primeiras autópsias foram efectuadas por Herophilus de Chalcedon e por Erasistratus de Kos, trezentos anos antes de Cristo, mas esta prática foi proibida no século III por motivos religiosos “ Bridoux mirou os rostos em redor com ar de desafio. “A religião, meus caros, é a fonte do obscurantismo. Se ela vos tentar, resisti. Se ela já vos tentou, desisti. Ciência e superstição não combinam, acreditem. Olhem o exemplo desta nossa nobre disciplina, tão importante para o conhecimento do homem. Pois, apesar da sua importância, o obscurantismo religioso revelou-se tão forte e durou tanto tempo que foi preciso esperar pelo século XIV para voltar a ser feita uma autópsia na Europa” Bridoux pegou num bisturi. “Durante todo esse tempo, tudo o que a medicina sabia sobre a anatomia humana devia-o ao trabalho do grego Galen de Pergamon, o médico de Marcus Aurelius, que publicou uma centena de trabalhos destinados, dizia ele, a trazer luz às trevas. E só no século XVI, meus senhores, é que alguém retomou os estudos de anatomia e foi mais longe do que Galen.“ Mirou os estudantes. “Sabem quem foi esse génio? “

Um rapaz muito magrinho, que Agnès sabia ser oriundo de Bordéus, levantou timidamente o dedo e o professor fez-lhe sinal para falar.

“Morgagni? “

“Esse veio depois”, atalhou o professor Bridoux, brandindo o bisturi. “O médico que foi para além de Galen, chegando mesmo a questionar as suas conclusões, foi o belga Andreas Vesalius. Vesalius era conhecido por o louco, vejam lá, tinha essa triste fama só porque possuía a paixão pelo conhecimento. Começou por dissecar muitos animais e passou depois aos cadáveres das pessoas executadas em Bruxelas. Chegou até a fazer autópsias em público, uma coisa então nunca vista. As suas descobertas foram descritas em Tabulae anatomicae sex e, sobretudo, em De humani corporis fabrica libri septem, o mais fundamental trabalho de desenvolvimento da anatomia, disponível aqui na biblioteca da faculdade para os que gostam de exercitar o seu latim “ Ergueu a mão direita, num tom dramático. “Mas, hélas! ninguém é profeta na sua terra. Vesalius foi tão enxovalhado pelos seus colegas por ter questionado Galen, por ter desafiado alguns dos velhos ensinamentos, que se viu forçado a emigrar para Espanha, onde se tornou médico da corte “ Bridoux olhou para o aluno magricelas que falara havia instantes. “Do mero estudo da anatomia, as autópsias passaram no século XVII ao estudo da causa da morte das pessoas como forma de ajudar os vivos. Entrou aqui um novo cientista. Quem? “

“Morgagni”, sorriu o estudante, corando e sentindo-se lisonjeado pela cortesia do professor.

Bridoux abriu os braços.

“Voilà. Giovanni Battista Morgagni”, disse, pronunciando o nome com um afectado sotaque italiano. “Sabem, a palavra patologia também vem do grego. Associa pathos, ou sofrimento, a logos, ou ensinamento. Pathos logos. Patologia. O ensino do sofrimento. Depois dos trabalhos pioneiros de Galen de Pergamon, foi o médico italiano Giovanni Morgagni, de Pádua, quem estabeleceu os modernos fundamentos do estudo das patologias.

Morgagni efectuou quase setecentas autópsias e publicou as suas conclusões numa obra em cinco volumes, De sedibus et causis morborum. Foram aqui efectuadas as ligações entre sintomas clínicos e os resultados das autópsias. Morgagni tentou assim demonstrar que era possível descobrir no post mortem as causas da morte de uma pessoa, estabelecendo correlações entre as doenças e as alterações encontradas nos órgãos dissecados. “ Fez uma pausa. “Algumas dúvidas? “

Ninguém disse uma palavra.

“Muito bem”, exclamou Bridoux, satisfeito. “Vejo que já sabem tudo. “ Aproximou o bisturi do abdómen do cadáver. “Meus senhores, chegou a hora de vos revelar a vida pelo estudo dos mortos”, anunciou com pomposidade. Olhou para o corpo nu e alterou o tom de voz, duas notas abaixo, como se acrescentasse um aparte. “Sei que vocês estão um pouco nervosos, é sempre assim da primeira vez, mas imaginem que estamos no talho e que isto é apenas um pedaço de carne. Aliás, não é preciso imaginar. Isto é realmente apenas um pedaço de carne. “

O professor Bridoux cortou a pele do homem morto e Agnès manteve com grande esforço o olhar fixo no acto, estava horrorizada e fascinada, queria fechar os olhos e ver, fugir e ficar.

Surpreendeu-se por observar tão pouco sangue em toda a autópsia, mostrava-se perplexa com a falta de dignidade daquele corpo, uma marioneta quebrada e deitada na mesa, uma massa inerte e despojada, mas, paradoxal-mente, a rapariga foi-se acalmando à medida que o cadáver se transformava, cada vez se via menos o homem e mais um monte de carne, era uma visão assustadora e tranquilizadora, parecia realmente que estavam no talho, a carne

humana, retalhada e cortada, em nada diferia da carne de vaca.

Após essa primeira aula de Anatomia, Agnès foi desanuviar para a Place de l'Opéra. Sentou-se no Café de la Paix e pediu uma tisana. O garçon trouxe-lhe a chávena e o bule cheio, Agnès perguntou quanto era e pegou na bolsa para tirar o dinheiro. Abriu a malinha e viu uma coisa estranha junto ao porta-moedas. Tocou e sentiu-a macia. Pegou no insólito objecto, tirou-o da mala e, horrorizada, o garçon lívido a olhá-la, constatou que era uma orelha decepada. Ergueu-se sem dizer palavra e abandonou o café perante o olhar boquiaberto do empregado, ia furiosa com os colegas, gostaria de saber quem tinha sido o engraçadinho, havia brincadeiras que não se faziam.

Agnès suportava com dificuldade as pavorosas aulas de Anatomia, com as suas repugnantes dissecações de cadáveres esqueléticos e aquele permanente odor a formol, mas a parte científica compensava largamente estes macabros inconvenientes, deixando-a apaixonada pela Medicina. Os últimos trinta anos tinham sido ricos em importantes descobertas, com Pasteur a revelar o papel das bactérias na proliferação das doenças e a desenvolver vacinas para as prevenir, Ivanowsky e Beijerinck a descobrirem os vírus, Starling e Bayliss a detectarem a função das hormonas, Eijkman e Hopkins a determinarem a importância das vitaminas e Bateson a compreender o funcionamento da hereditariedade estabelecida pelas leis de Mendel.

Mas o que mais a intrigou foi o trabalho de Freud, que poucos anos antes tinha revelado o estranho mundo do subconsciente, da sexualidade, dos sonhos e da psicanálise. Agnès ouviu pela primeira vez falar de Freud durante uma palestra do professor Maillet num simpósio médico sobre doenças da mente. Maillet era um discípulo do célebre neurologista Jean Charcot. Na pausa para o café, a jovem estudante encheu-se de coragem e foi ter com o palestrante.

“Professor Maillet”, disse Agnès. “Desculpe incomodá-lo, mas estive a ouvi-lo e achei curiosa a sua referência àquele médico austríaco que usa a hipnose para curar os loucos. Isso funciona mesmo?”

Maillet olhou-a com ar sobranceiro. Notando, porém, que a mulher que o interpelava era jovem, e bonita por sinal, tornou-se imediatamente solícito.

“Claro, minha cara mademoiselle. “

“Mas como é que descobriram isso? “

“Oh, não foi fácil, asseguro-lhe. Sabe, as doenças da mente sempre foram um mistério para a medicina. Os doentes apareciam com comportamentos estranhos e nós não sabíamos o que lhes fazer. Como poderíamos diagnosticar-lhes um mal e curá-los se tinham o corpo perfeitamente saudável? Era um verdadeiro mistério. “

“Foi então que apareceu esse austríaco...

“Bem, já havia estudos sobre psicologia e a neuroanatomia constituiu um passo importante para percebermos o que se passa aqui nas nossas cabecinhas”, disse, batendo com o indicador na testa.

“Mas não há dúvida nenhuma de que o doutor Freud nos deu uma grande ajuda. Ele veio cá a Paris e encontrou-se com o doutor Charcot, que foi meu mestre e tutor. O doutor Freud sentia-se muito frustrado porque não conseguia tratar os medos, as neuroses e as obsessões dos seus pacientes usando os conhecimentos e os instrumentos habituais da medicina. Foi o doutor Charcot quem o ajudou a estudar os sintomas da histeria. O doutor Freud inscreveu-se no curso do doutor Charcot, aqui em Paris, e aprendeu a técnica da hipnose, que aprofundou em Nancy com o doutor Bernheim.“

“É isso que me deixa perplexa, professor Maillet”, atalhou Agnès. “A hipnose funciona mesmo? “

“Claro que funciona.“

“Mas isso parece coisa de bruxaria ou número de circo.

“Pelo contrário, minha cara mademoiselle, é um método perfeitamente legítimo para explorar os males da mente. Aliás, é muito usado aqui em França e a sua eficácia foi atestada pelo doutor Freud. Usando a sugestão e a hipnose, o nosso amigo austríaco procura trazer à superfície as experiências traumáticas que a mente reprime. Sabe, o doutor Freud acredita que esses traumas são uma espécie de pecado original, são a fonte de muitas doenças que não têm origem orgânica. O que ele fazia era usar a hipnose para revelar os traumas e trabalhar a mente no subconsciente dos doentes. “

“Fazia?”

“Sim, parece que ele já abandonou o método da hipnose. “ “E porquê, se é assim tão eficaz? “

“Oh, isso não sei, terá de lhe perguntar a ele. “

Quando abandonou a palestra, Agnès foi direita a uma das livrarias de St.-Germain-des-Prés e perguntou por Freud. O empregado estendeu-lhe um exemplar de Le rêve et son interprétation, que Agnès levou para casa. A jovem não descansou enquanto não devorou o livro, percebendo então por que motivo Sigmund Freud abandonara a hipnose. Tinha descoberto um método melhor.

No ano seguinte, e nas pausas das deambulações pelas mentes e corpos humanos, Agnès descobriu o seu próprio corpo. Ou melhor, descobriu que era vaidosa. Até aos vinte anos quem a vestia era a mãe, e sempre com tal primor que a jovem se habituou a estar bem arranjada sem nada fazer por isso. Mas Michelle não se encontrava em Paris, uma cidade onde, para agravar as coisas, se exigia que as mulheres acompanhassem as novidades da moda, ou não fosse aquela a capital mundial do estilo. Agnès percebeu que teria de fazer pela vida e guardou parte do dinheiro da mesada para comprar tecidos com os quais costurava vestidos copiados da Vogue. Quando chegou de Lille usava um espartilho para lhe apertar o corpo debaixo das suas melhores roupas. Estes coletes com lâminas metálicas, que os franceses designavam de corset, estreitavam-lhe violentamente a cintura e projectavam os seios, desenhando uma silhueta sensual, embora dolorosa.

Mas em Paris percebeu, com alívio, que os espartilhos tinham caído em desuso. Havia já dois anos que a Vogue apontava para o orientalismo, e a grande novidade de 1911 foi o aparecimento de calças para as senhoras. Os pantalons femininos constituíram um verdadeiro escândalo, que os estilistas atenuaram ao colocá-los por baixo de saias. Agnès não se atreveu a comprar calças logo ao chegar a Paris, mas em 1912, quando entrou no segundo ano da faculdade, encheu-se de coragem e copiou um arrojado modelo da vogue. Era um vestido oriental, branco e decorado com cornucópias douradas, a saia estreita com uma racha lateral a revelar subtilmente umas calças largas que apertavam no tornozelo, como as calças de um turco. Munida dos modelos tirados da Vogue, Agnès tornou-se uma sensação na faculdade e depressa começaram a chover convites masculinos para sair.

A flor tinha desabrochado, revelando uma mulher atraente, de traços finos e elegantes, olhar doce e sorriso delicado. Não era de uma beleza espam-panante, daquelas em que os homens viravam a cabeça quando viam a fêmea opulenta entrar no café e a contemplavam com gula, salivando grotescamente, o desejo em escaldante erupção. Os seus atractivos eram antes outros, mais discretos e graciosos, tornava-se necessário fixar-lhe o rosto para lhe descobrir os sedutores olhos hipnóticos, verdes e penetrantes, a que se juntavam as linhas perfeitas e os lábios carnudos. Tratava-se de uma daquelas mulheres que não despertavam uma imediata e animalesca volúpia sexual, mas uma terna e incurável paixão platónica.

A maior parte dos convites destinavam- se a ir comer uns croissants ao Stohrer, tomar um café no Tortini ou dar um passeio pelas Tulherias e pelas margens do Sena, o que lhe valeu alguns breves namoricos e várias decepções sem sequelas.

 

Não havia na Carrachana rapaz mais alto do que Afonso. Quando regressou de Braga, no Verão de 1906, o filho mais novo dos Laureanos tinha apenas dezasseis anos, mas era já um rapagão. A ementa do refeitório do seminário, rica para os padrões habituais naquele lugar de gente pobre e despojada, contribuiu crucialmente para o desenvolvimento do seu corpo, tornando-o tão alto como o pai. Ao pé do seu extraordinário metro e setenta e sete, raro naquele tempo, muitas das pessoas com quem se cruzava na rua pareciam uns anões mirrados, com as cabeças a darem-lhe pelo pescoço.

Em casa pouco tinha mudado, mas já havia mais espaço no quarto. O João tinha-se casado, saíra de casa dos pais e fora viver com a mulher para um anexo em Rio Maior. Abandonara a serração e ganhava agora a vida como empregado num armazém de vinho. Afonso passou a dividir a cama do quarto da Carrachana com Joaquim, que o recebeu com um agreste mau humor.

“Olha-me esta! Vens agora para aqui azucrinar-me o juízo! “, protestou Joaquim com acidez quando viu o irmão mais novo arrumar roupas numa gaveta que considerava sua.

“Ó Joaquim, peço imensa desculpa, mas onde é que queres que eu coloque as minhas coisas? “

“Peço imensa desculpa? “, riu-se o irmão com um esgar de desprezo. “Estás mesmo armado em finório, com essa conversa cheia de salamaleques! Daqui a um bocado até dizes credo e valha-me Deus... “

“Pois, mas onde é que eu ponho as minhas coisas?“ “Sei lá! Olha, põe debaixo da cama.“

“Debaixo da cama? Desculpa lá, mas eu tenho necessidade de uma gaveta“

“Tenho necessidade? Mas tu só me vens com palavras de cinco mil réis, caraças! Vê lá se falas como gente, hã? Não me apetece estar a dormir com um padre, ouviste? “ Apontou-lhe para os sapatos. “Olha-me só para esses ares de grande senhor, nem descalço és já capaz de andar. Até pareces rabicho! “

Joaquim era já um homem feito e foi com contrariedade que passou a partilhar a velha cama de latão com o irmão mais novo. Os modos polidos de Afonso contrastavam profundamente com os hábitos rudes da casa. Além do mais, Joaquim ressentia-se por não ter tido a mesma oportunidade de educação. Aprendera a ler, é um facto, mas não passara da primária e gastava agora a sua juventude na serração. Era, por isso, com ressentimento que via o irmão mais novo gozar de oportunidades que nunca lhe foram oferecidas e seria preciso passar muito tempo para que ele aceitasse este novo Afonso que inopinadamente lhe invadira o quarto.

Uma semana depois de se ter instalado na Carrachana, Afonso foi à Casa Pereira falar com dona Isilda. Queria agradecer-lhe a ajuda e explicar-lhe por que razão não fora bem sucedido no seminário, mas precisava também de trabalho e alimentava a secreta esperança de que a sua protectora o contratasse de novo para trabalhar na loja. Ao entrar no estabelecimento, deu de caras com Carolina e ficou atrapalhado.

“Olá, Afonso”, saudou-o ela, com ar surpreendido por o ver ali.

“Bom dia”, retorquiu ele desajeitadamente.

Carolina estava diferente. Crescera, tornara-se alta, os seios firmes, o cabelo ruivo acastanhara ligeiramente e as sardas tornaram-se menos protuberantes, mas não havia dúvidas de que, embora não fosse de arrasar, era uma rapariga atraente.

“Já és padre? “

“Não”, engasgou-se. “Desisti, não tenho vocação” Procurou detectar-lhe nos olhos uma reacção a esta notícia, mas Carolina dissimulou bem e Afonso não conseguiu perceber se a novidade lhe agradara ou se a tinha realmente deixado indiferente.

“Então o que te traz por cá? “

“Vim falar com a tua mãe. Ela está? “

Carolina levou-o à mãe, que conferia contas no seu gabinete. Dona Isilda já tinha sido informada pelo irmão de que Afonso recebera a carta de prego, mas não se sentia especialmente desapontada. Tinha patrocinado a ida do rapaz para Braga como mero subterfúgio para o afastar da filha. O objectivo foi alcançado e só lhe restava agora mantê-lo longe de Carolina. Quando Afonso indagou se haveria ainda lugar para ele na loja, dona Isilda fez um ar apropria-damente triste e disse que o negócio não ia lá muito bem e não podia meter mais nenhum empregado, pelo que lamentava não o poder ajudar desta vez.

“Um comerciante não tem coração”, explicou-lhe ela. “A prioridade é defender o negócio. As coisas andam mal e, se eu te puser aqui, apenas vou agravar o prejuízo. Lamento, rapaz, desta vez não te posso ajudar. “

Afonso ficou desapontado, mas ocultou a desilusão. Resignado, agradeceu novamente toda a ajuda que dona Isilda lhe prestara e saiu do gabinete.

“Já te vais embora? “, lançou-lhe Carolina quando o viu dirigir-se à porta.

Afonso fixou-lhe os olhos e apercebeu-se de que havia ali uma perturbação, sentiu que ele ainda não lhe era indiferente.

“Vou dar um passeio. Queres vir? “

“Para onde? “

“Vamos ali ao rio, há muito tempo que não vou lá. “ Carolina olhou em redor, indecisa. A empregada que estava ao balcão parecia desatenta, mais preocupada em limar as unhas, e a mãe permanecia no gabinete. Decidiu-se num impulso.

“Anda. “

Caminharam distraidamente pelas ruas até Rio da Ponte, ficaram a ouvir o agitado marulhar das águas frias e cristalinas do rio Maior e subiram, naquela manhã soalheira, até ao Moinho do Canto, o passeio revelou-se cansativo e o calor apertava, mas Afonso sentia-se feliz. Apesar de ter saído do seminário contrariado e das incertezas quanto ao futuro, no fundo não lhe desagradava estar livre dos monótonos rituais que durante três anos marcaram a sua vida. Por outro lado, a presença de uma rapariga ao seu lado deixava-o inebriado. As mulheres eram para ele um mistério, fontes de pecado e tentação, mas também de um bem-estar inexplicável, agradava-lhe a tagarelice sem rumo e os silêncios embaraçados, vivia a troca de olhares como um jogo, procurava adivinhar intenções nos menores gestos e nas palavras mais simples e descobria-se a dar e a dissimular sinais.

Nenhum dos dois era, porém, muito bom na arte da dissimulação, ou talvez nenhum verdadeiramente o desejasse ser. Caminhando pela estrada, Carolina encostou o ombro esquerdo a Afonso, como quem não quer a coisa, os braços roçando-se repetidamente. Se fosse um ou dois toques, seriam acidentais. Mas o roçar permanente conferia intencionalidade ao gesto. O rapaz perdeu o controlo de si mesmo a partir desse ponto, entrando num transe de excitação, primeiro devagar, depois mais rápido. Começou por sentir o sangue a ferver, o coração a bombar, uma erecção a formar-se nas calças. Ela caminhava encostada, sem dizer palavra, e ele não desencostava. Ofegante, atreveu-se a procurar-lhe a mão com os dedos, sem olhar. Tocou-lhe na mão e aguardou um instante, esperando para ver se ela a retiraria, mas a verdade é que não retirou. As mãos enlaçaram-se e assim caminharam, sempre em silêncio, um turbilhão de sentimentos a revolver-lhes a cabeça, o desejo a acumular-se como uma tempestade que cresce no céu, a conter-se num volume imenso antes de desabar em fúria sobre a terra. Fizeram todo o passeio de regresso de mãos dadas. Ao aproximarem-se da Casa Pereira, Carolina desprendeu-se finalmente.

“Amanhã espera-me aqui na esquina, às dez da manhã”, disse. Deu- lhe um beijo furtivo e correu para a loja. O namorico fora reatado, mas não no ponto onde ficara quatro anos antes. É certo que Afonso, apesar dos apelos da carne, tinha ainda de vencer as inibições herdadas dos anos do seminário. Passou essa noite a rezar, implorando à Virgem que o protegesse do desejo, da luxúria e do pecado. Quando adormeceu, porém, não foi na Virgem que pensou, mas na virgem que queria, tinha o corpo maduro e fantasiou mil pecados nos quentes braços de Carolina.

Despertou ansioso e logo pela manhã, muito antes da hora combinada, foi a correr para a Casa Pereira. Aguardou pelas dez horas com impaciência, nervoso, cheio de dúvidas e hesitações, a alma aconselhando prudência, a carne a tentá-lo, a acicatá-lo. Quando Carolina apareceu finalmente, foram os dois pela estrada fora, novamente de mão dada, desta feita no caminho das salinas. Ao pé do pinhal, Afonso puxou-a para lá da estrada, o coração em pulgas, a excitação a dominá-lo, as mãos a tremer. Atiraram-se os dois para trás de um arbusto. Afonso procurou por baixo das saias, puxou atabalhoadamente as calcinhas, foi tão desastrado que até as rasgou ligeiramente. Encaixou-se entre as pernas de Carolina, tirou apressadamente as suas próprias calças e penetrou-a com ardor, ambos ofegantes, tremendo de desejo, de volúpia, de gemidos e suspiros. O corpo tomou conta de si, como um animal incontrolável, desencadeando movimentos rápidos e ritmados, copulou-a até os olhos se encherem de estrelas e a carne explodir de prazer.

Foi dona Alzira, vizinha de dona Isilda, quem deu a notícia à mãe da rapariga.

“Então a sua Carolina já arranjou moço? “, perguntou Alzira da varanda de casa enquanto estendia roupa ao sol. “Para quando é o casório? “

Dona Isilda foi apanhada desprevenida e assustou-se. Ficou pálida e virou a cara para esconder a surpresa, mas não foi suficientemente lesta. Alzira percebeu que tinha dado uma novidade à vizinha e sorriu, maliciosa.

O que é facto é que, a partir daí, a proprietária da Casa Pereira manteve a filha debaixo de olho e bastaram apenas dois dias para perceber quem era o pretendente. Ficou surpreendida, não por descobrir que se tratava de Afonso, mas por verificar que tinha sido ingénua, por ter pensado que o caso estava arrumado, que os quatro anos de separação tinham sido mais do que suficientes para enterrar o assunto. Que parva fora! Não conhecia ela porventura a filha? Que disparate lhe teria passado pela cabeça para ignorar a natureza teimosa da moça, natureza que ela, feitas as contas, tão bem conhecia?

Mas dona Isilda era uma mulher prática e sabia que não valia a pena perder tempo a recriminar-se, não era isso que iria resolver o problema, o que ela precisava agora era de um bom plano. Pôs-se a matutar no assunto e concluiu, após longa ponderação, que de nada serviria estar a impedir o inevitável, ela própria tivera oposição dos pais quando começou a namorar o marido e não foi essa oposição que mais tarde inviabilizou o casamento. Pois se gostavam um do outro, como poderia ela resolver o assunto? Claro que tinha a opção de mandar a filha para casa dos primos em Lisboa, mas isso só serviria para ter aquela estouvada livre que nem um passarinho e sabe Deus o que ela faria, longe da sua vigilância, naquela terra de marialvas e doidivanas. Não, a solução teria de ser outra. Reflectiu um pouco mais. Afonso era sem dúvida bom rapaz, pensou, o problema era ser pobre. Mas a verdade, considerou ainda, é que recebera já alguma educação em Braga, até sabia latim e falava línguas estrangeiras, e isso fazia dele um candidato mais interessante. Para poder casar com Carolina, contudo, era necessário que completasse a sua educação, precisava de atingir um estatuto de cavalheiro e ter um ganha-pão seguro. Chegada a este ponto no seu raciocínio, dona Isilda começou a formular novo plano. O rosto do primo Augusto, major de artilharia no Exército, veio-lhe à mente. Decidiu escrever-lhe, perguntando-lhe como poderia um moço de dezassete anos tornar-se um oficial. A resposta veio na volta do correio:

 

         Lisboa, 2 de Junho de 1907.

         Cara Isilda,

Agradeço-te a carta com as novidades de Rio Maior. Nós por cá todos bem. A Odete anda com uma tosse aborrecida, mas o doutor diz que não há problemas e vai-me passando umas fórmulas que eu vou buscar à pharmácia. Parece que os allemães têm uns medicamentos novos muito bons para os pulmões. Os rapazes têm-lhe dado cabo da cabeça e o que vale é que o André já vai para o Lyceu do Reyno.

Tomo a liberdade de presumir que a dúvida que me colocas sobre o Exército significa que tens alguém em mente. Para se ser official é necessário frequentar a Escola do Exército aqui em Lisboa. Para serem admittidos, os candidatos têm de ter approvação em algumas disciplinas da Universidade ou da Escola Polytecnica, mas nada de muito complicado. Têm de ter um attestado de bom comportamento, uma certidão de registo criminal da comarca e menos de 24 annos. Se fôrem menores, é necessária uma licença do pae ou tutor. A propina de matricula anda entre os cinco mil e os seis mil réis. Existe também um número limitado de vagas e os candidatos têm de ter qualidades physicas adequadas para servirem como officiaes, mas eu consigo resolver-te isso com uma palavra junto do comandante da Escola, o general Sousa Telles, visita frequente em casa do senhor meu pai.

Cá aguardo noticias tuas e manda um beijo à Carolina.

                   Saudades do Augusto.

 

Dona Isilda tomou uma decisão logo que acabou de ler a carta. Foi ter com Carolina, contou-lhe que sabia de tudo e mandou a filha chamar o rapaz. Queria conversar com ele.

Afonso apareceu na Casa Pereira ao final da tarde e Carolina introduziu-o nervosamente no gabinete da mãe. Informado de que dona Isilda estava a par do namoro, teve dificuldade em olhá-la nos olhos e sentou-se acabrunhado na cadeira, torcendo os dedos no regaço. Não sabia o que dizer e ela manteve um silêncio pesado. Só o quebrou quando ficaram a sós.

“Que rico padre que me saíste”, comentou dona Isilda com secura.

Afonso nada disse. Olhava para o chão, embaraçado, com vontade de se sumir dali. Sentia-se um traidor, alguém que abusara da confiança de quem o ajudara.

“Se bem entendi, estás a namorar a minha filha?” Sentindo que era uma pergunta, o rapaz emitiu um grunhido de assentimento.

“E queres casar com ela?”

Afonso jamais pensara nisso, ficou até surpreendido por dona Isilda levar a coisa tão rápido e tão longe, mas presumiu naquele instante que seria de mau tom negar que tivesse propósitos honestos e voltou a assentir, desta vez com um silencioso movimento de cabeça.

“E pode saber-se como é que a tencionas sustentar? “ Afonso encolheu-se ainda mais na cadeira. Não tinha resposta para esta pergunta, nunca lhe ocorrera tal questão. Permaneceu calado e de olhos baixos, algumas gotas de aflito suor a brotarem-lhe da fronte. Fez-se uma nova pausa pesada.

“Portanto, se bem entendo, não tens meios de a sustentar e queres casar com ela”, concluiu dona Isilda com um suspiro, como quem diz que já calculava. Mais uma pausa. “Eu podia, é claro, colocar-te na loja como empregado, sempre ganhavas alguma coisa, mas isso não chega. Como quero o melhor para a minha filha, decidi ajudar-te a completar os estudos de modo a teres meios para a sustentares “

O rapaz ergueu a cabeça, de olhos arregalados.

“Obrigado, dona Isilda”, balbuciou.

“Não me agradeças ainda”, cortou a viúva de forma ríspida. “Falei com um primo meu e há a possibilidade de preencheres uma vaga na Escola do Exército. Para eu concordar com o namoro, quero em troca que te inscrevas nessa escola e te formes oficial. “

“Mas isso é caro, dona Isilda. “

“Não te preocupes com os custos, isso é um problema meu. O que eu quero é que se acabem os namoricos com a Carolina enquanto não fores oficial, não vá acontecer uma desgraça. Quando saíres de lá alferes, então já estarás em condições de namorar a minha filha. De acordo? “

Afonso olhou-a, indeciso.

“De acordo? “, insistiu a viúva, pressionando-o.

“ Quanto tempo dura o curso?”

“Ora deixa cá ver. “ Puxou de um folheto que o primo lhe tinha mandado e consultou a tabela. “São dois anos para infantaria e três anos para artilharia. “

“Dois para infantaria? “

“Sim. “

“É para aí que vou.“

O acordo ficou fechado e dona Isilda, apressada, mandou imediatamente Afonso para casa do primo Augusto, a pretexto de que o jovem precisava de se preparar para a admissão na Escola do Exército. Em bom rigor, o pretexto era verdadeiro. Afonso não tinha feito o liceu nem o politécnico e necessitava de obter aprovação em algumas disciplinas, como Trigonometria Esférica, Álgebra Superior, Desenho, Geometria Analytica e Geometria Descritiva, de modo a preencher os requisitos curriculares necessários para se matricular em infantaria ou cavalaria.

O major Augusto Casimiro, o primo de dona Isilda, vivia num aparta-mento de Belém com a mulher e dois filhos. Quando desembarcou no Rossio, Afonso seguiu as indicações manuscritas pela mãe de Carolina e pediu ao cocheiro para o levar até à Rua Direita de Belém. Foi acolhido com simpatia pela família Casimiro, que logo lhe arranjou explicadores para as disciplinas em questão. O rapaz tinha menos de dois meses para se preparar para os exames do politécnico, de maneira a conseguir os certificados que lhe permitiriam ingressar na Escola do Exército, e empenhou-se com afinco nos estudos. Sabia que não tinha mais opções e que esta era uma inesperada e preciosa segunda oportunidade. Se falhasse, regressaria à Carrachana e não lhe restaria alternati-va que não fosse seguir os passos do pai e ir trabalhar a terra lá para o Cidral ou então voltar para a serração onde permanecia o Joaquim a gastar a sua juven-tude.

A mulher do major, dona Odete, devia ser tuberculosa porque tossia horrivelmente. Afonso, imbuído de um espírito cristão que ganhara no semi-nário, desdobrava-se em esforços no sentido de a ajudar. Ia muitas vezes à farmácia situada numa esquina da rua, o letreiro por cima das elegantes canta-rias das portas e janelas da fachada a anunciar “Laboratório Franco – Especiali-dades farmacêuticas”, para recolher os remédios que o médico receitava. Numa das visitas à farmácia reparou numa fotografia de uma equipa de football colada à parede.

“Quem são?“, indagou junto do empregado enquanto esperava que lhe aviassem a receita.

O homem sorriu.

“É o Grupo Sport Lisboa”, disse com orgulho. “É o team onde eu jogo. “

“Você joga football? “

“Todos os domingos”, exclamou, apontando de seguida para o outro funcionário da farmácia. “Eu, aqui o Daniel e até o senhor conde “

O conde era Pedro Franco, conde do Restelo e o dono do Laboratório Franco.

“Como é que se chama mesmo a equipa? “

“Ó homem, é o Sport Lisboa, nunca ouviu falar?“

“Não. “

“Já vi que não gosta de football. “

“Pelo contrário, gosto muito. “

“ Gosta de football e nunca ouviu falar no Sport Lisboa?”

“Eu não. “

“Caramba, homem, vossemecê anda distraído. “

“Sabe, eu não sou de Lisboa, cheguei há pouco tempo.“ “Ah, bom”, excla-mou o empregado. “O Grupo Sport Lisboa nasceu nesta farmácia há uns três anos. É um club formado por rapaziada aqui da rua, os manos Catataus, os Carrilhos e os Monteiros, tudo pessoal que vive aqui e que se juntou à malta que era da Casa Pia “

“E jogam bem? “

“Se jogamos bem? “, riu-se o empregado. “Ó homem, vossemecê anda mesmo no mundo da Lua! Nós no ano passado ficámos em segundo lugar no primeiro Campeonato de Lisboa. Segundo lugar, ouviu? À nossa frente só o Carcavellos Club e atrás ficaram o Lisbon Cricket e o CIF dos irmãos Pinto Basto. “

“Ah é? Vocês jogam com o Carcavellos Club? “, perguntou Afonso, agora genuinamente impressionado.

Já no tempo do Club Lisbonense o Carcavellos Club era a equipa mais temível que havia, formada por ingleses do cabo submarino. Se o team do empregado da farmácia jogava com o Carcavellos Club, raciocinou Afonso, é porque devia ser realmente muito bom.

“Somos vice-campeões de Lisboa”, repetiu o homem com incontido orgulho.

“Posso ver os vossos jogos? “

“Este domingo, se quiser. Vamos defrontar o Cruz Negra em match amigável. O Campeonato só começa no Outono. “

“ E onde é isso?”

“Aqui ao lado, nas Salésias, aquele campo ao lado do quartel. Às três e meia da tarde. “

Afonso não faltou ao encontro. Eram três da tarde de domingo e já abancara nas Salésias, um descampado rodeado de casas e que pertencia a um quartel de cavalaria, de resto as cavalariças estavam alinhadas ao fundo, do outro lado via-se o Tejo a deslizar preguiçosamente para o mar. Havia já uma pequena multidão a aglomerar-se em torno do campo de terra batida, observan-do alguns jogadores que treinavam junto a balizas improvisadas. Uns vestiam camisas verdes com uma cruz negra bordada ao peito, outros apresentavam-se de camisolas vermelhas e calções brancos, entre eles os dois empregados do Laboratório Franco. Afonso não teve dificuldades em perceber que os primeiros pertenciam ao Cruz Negra e os segundos ao Grupo Sport Lisboa. Ao fim de meia hora, um homem de calças, gravata e colete chamou os captains das duas equipas e os três fizeram a escolha do campo e da bola. Era o referee.

O match começou instantes mais tarde, empolgante. A multidão animou-se, soltando “aaaaah” sempre que havia um remate à baliza. Pela diferença de intensidade dos clamores quando o perigo ocorria numa baliza ou noutra, Afonso percebeu que o Sport Lisboa colhia a maior parte da simpatia dos espectadores domingueiros. A certa altura, um jogador do Cruz Negra caiu perto da baliza do Sport Lisboa e o referee assinalou penalty. Alguns espectadores não se conformaram e entraram no campo a correr para pedirem satisfações ao juiz, tudo com tal exaltação que tiveram de ser os jogadores a protegerem o homem. Quando a calma foi restabelecida, um atleta do Cruz Negra apontou o penalty e marcou goal. Os espectadores reagiram com frieza, em vez do “aaaaah” excitado ouviu-se um “oooooh” desapontado. O jogo recomeçou e, a dada altura, a bola saiu do campo. Um dos espectadores agarrou na bola e fugiu por ali fora. Dois jogadores de vermelho foram a correr atrás dele e conseguiram recuperar o esférico. A partida foi reatada e, pouco depois, uma explosão de alegria assinalou a igualdade restabelecida pelo Sport Lisboa. Os vermelhos acabaram por ganhar o match por 3-1 e a multidão dispersou, satisfeita.

Afonso ficou ainda a ver os jogadores a despirem-se num canto do campo e a lavarem-se em alguidares. Um rapazinho ia com um balde buscar água a um poço e despejava-a sobre os atletas. O jovem espectador sorriu perante o espectáculo e abandonou calmamente as Salésias, voltando a casa e aos exercícios de álgebra superior.

Durante dois meses foi esta a vida de Afonso. Ao longo da semana estudava com os explicadores pagos por dona Isilda e ao domingo ia ver o Grupo Sport Lisboa brilhar nas Salésias, em Alcântara ou no Lisbon Cricket Club. Chegou até a participar em alguns treinos, quando faltavam jogadores para completarem duas equipas, mas escasseava-lhe o talento e a preparação física para acompanhar o ritmo dos titulares. Esta vida durou até princípios de Agosto, altura em que chegou a hora de ir à Academia Politécnica prestar provas.

Os exames correram bem e, em alguns dias, Afonso tinha na mão os cinco certificados de que precisava. O major Augusto Casimiro levou-o à Escola do Exército, situada no sítio da Bemposta, ou Paço da Rainha, onde entregou todos os documentos e certificados exigidos e pagou os mais de cinco mil réis de propina de matrícula para infantaria. Afonso teve ainda de fazer exercícios físicos de modo a determinar a sua aptidão para enfrentar os rigores dos treinos militares, um teste que superou com espantosa facilidade. O seu porte atlético impôs-se, mais ainda porque a sua frequente participação nos treinos do Sport Lisboa o colocou em apuro de forma. O major Casimiro ainda chegou a dar uma palavra ao general Sousa Telles para facilitar discretamente as coisas, uma vez que havia mais candidatos do que vagas, mas a cunha veio a revelar-se desnecessária. A 31 de Agosto, a lista dos candidatos seleccionados foi afixada no átrio da Escola e Afonso viu o seu nome incluído. Sentiu um peso libertar-se-lhe dos ombros e uma lufada de ar puro encher-lhe os pulmões. Sabia que um fracasso teria consequências penosas na sua vida, pelo que foi com grande alívio que se viu matriculado na Escola do Exército.

As aulas só começavam no Outono e Afonso foi gozar Setembro à Carrachana. Avisada da presença do rapaz, dona Isilda manteve Carolina fechada a sete chaves em casa. A viúva argumentava que os acordos eram para cumprir e não queria cá namoricos enquanto o pretendente não tirasse o curso de guerra que lhe abriria as portas do oficialato, não fosse o diabo tecê-las e a rapariga aparecer prenha. Mas dona Isilda não fugiu às suas responsabilidades de protectora e financiou a confecção, na alfaiataria do Ulpio Brazão, da farda de primeiro-sargento cadete para Afonso, um uniforme obrigatório para todos os jovens que frequentavam a Escola do Exército.

Afonso regressou a Lisboa na quinta- feira, 24 de Outubro. Apresentou-se na secretaria da Escola e fez, dias depois, o juramento de fidelidade, requisito imprescindível para poder prestar serviço nos corpos do Exército. A partir desse instante estava integrado na Escola do Exército e, pormenor estranho para quem tinha sido forçado a pagar uma propina de matrícula, passou a ganhar um soldo de trezentos réis por dia.

Um sargento conduziu-o, a ele e a mais uns quantos que se tinham igualmente apresentado nesse dia, até à parada do internato da Escola, um grande largo em terra batida rodeado de edifícios cor-de-rosa-claro de dois pisos, grandes olmos a erguerem-se ao fundo para lá do muro, a bandeira azul e branca de Portugal hasteada num mastro, no outro o estandarte da Escola do Exército, as armas portuguesas em cada canto cercadas por dois ramos de loureiro. Levaram- nos até ao edifício central do lado esquerdo e, quando Afonso entrou, percebeu que, mais do que um dormitório, aquele era um verdadeiro armazém de cadetes. Havia beliches à esquerda e à direita num espaço amplo e sem compartimentos, contados eram cinquenta beliches de cada lado, cem ao todo, lençóis brancos assentes em madeira ordinária, nada que ofendesse o rapaz da Carrachana, habituado a pior na cama de latão que durante anos partilhou com os irmãos. O sargento indicou-lhes as suas camas, deu-lhes as chaves dos cacifos e ordenou que tirassem as roupas civis e passassem, a partir daí, a usar apenas a farda regulamentar.

Afonso despiu-se junto ao cacifo, os pés assentes no soalho frio de azulejos, e colocou a farda que apenas experimentara no alfaiate de Rio Maior. Vestiu as calças cinzentas e a camisa interior, calçou os sapatos e meteu-se dentro da jóia do uniforme, o dólman. Era um vistoso casaco azul, abotoado verticalmente a meio do peito com seis botões de metal amarelo, as abas ligeiramente arredondadas na frente, a gola de vermelho-vivo com o emblema dourado da Escola, as divisas de primeiro- sargento bordadas a encarnado nas mangas e uma bandoleira branca a cruzar-lhe o peito e a segurar uma cartucheira à anca. Na cabeça, o barrete azul. Quando todos terminaram de se fardarem, o sargento conduziu-os para fora do dormitório até à parada e ensinou-lhes os movimentos que teriam diariamente de seguir durante a cerimónia de formatura do almoço. Depois, os cadetes entregaram ao sargento os seus pratos e talheres, devidamente numerados, para serem levados para o refeitório. O prato e os talheres de Afonso estavam marcados com o número 190, e os cadetes foram informados do lugar que teriam de ocupar no refeitório.

A cerimónia começou ao meio-dia e meia. O sargento apareceu pouco antes na parada e mandou os cadetes formarem em sentido. Afonso e os restantes novatos ficaram numa das pontas. Ao meio-dia em ponto, o comandante do corpo de alunos saiu do seu gabinete e entrou na parada. Era o coronel Leitão de Barros, um sexagenário barrigudo, o cabelo grisalho puxado para trás, um bigode espesso e pontiagudo e fortes arcadas supraciliares. O comandante colocou-se frente aos cadetes em sentido e fez sinal ao sargento.

“Direita, volver! “, gritou o sargento.

Os cadetes giraram para a direita e Afonso, atento ao movimento, acompanhou-os. Ficaram em sentido, voltados para as bandeiras e os olmos que se erguiam para lá do muro.

“Ordinário, marche! “, voltou a gritar o sargento, o vozeirão a encher a parada.

Um punhado de homens da fanfarra do Exército começou a tocar enquanto os cadetes marchavam em passo militar, circulando em redor da parada até voltarem ao ponto de partida. Tudo aquilo era novidade para Afonso, que se divertia por se ver naquela figura. O sargento deu ordem de que a cerimónia estava terminada e os cadetes destroçaram e correram rapidamente para o edifício atrás de si, exactamente no lado da parada oposto aos dormitó-rios. Afonso entrou no grande salão e viu duas enormes mesas em fila de cada lado, era o refeitório. Os cadetes dirigiram-se às mesas e aguardaram em pé atrás das cadeiras. O coronel Leitão de Barros entrou no refeitório e, nesse instante, o sargento voltou a gritar uma ordem.

“Atenção, sentido “

Ficaram todos muito hirtos.

“Meu coronel, dá licença que mande sentar? “, perguntou o sargento em voz baixa.

“Sim senhor, mande sentar. “

O sargento deu a ordem e os cadetes tomaram os seus lugares. Afonso reconheceu o número 190 marcado no prato e nos talheres à sua frente e não pôde deixar de admirar aquele pormenor da organização militar. O rancho foi servido de imediato. Os empregados trouxeram carneiro guisado com batatas, água e vinho tinto. Não estava mal confeccionado, o que Afonso achou surpreendente. Para sobremesa, café com leite e pão.

Durou poucos dias esta fase de adaptação. O ano lectivo começava a 30 de Outubro e adivinhava-se um grande acontecimento. Sua Majestade, El-Rei D. Carlos, vinha presidir à sessão pública da abertura solene e a Escola do Exército esmerou-se para a importante ocasião. Afonso nunca tinha visto Sua Alteza Real em carne e osso e ardia de curiosidade de observar pela primeira vez o monarca, o homem mais importante do país, aquele que tinha poder de vida ou de morte sobre todos e cada um.

Na manhã do grande dia, os cadetes formaram em quatro companhias perante o portão de entrada da Escola, no Paço da Rainha, dando a direita ao muro da parada. A banda de música de infantaria encontrava-se agregada ao batalhão, enquanto uma companhia de Infantaria 16 formava a guarda de honra, também com uma banda de música. Uma bateria de seis peças de Artilharia 1 tinha sido instalada no campu de exercícios da Escola, preparada para as salvas do estilo. A espera foi demorada, com o coronel Leitão de Barros e os sargentos a inspeccionarem inúmeras vezes os cadetes, o nervosismo patente em cada um.

Pelas dez da manhã, a cavalaria irrompeu com grande espalhafato pela Rua Gomes Freire e invadiu o Paço da Rainha, anunciando a chegada do rei, e um automóvel negro apareceu de seguida e foi imobilizar-se diante do Palácio da Bemposta. Estavam todos em sentido e Afonso nunca vira carro tão grande, dava certamente para cinco pessoas se instalarem nele. As duas bandas começaram a tocar com estrondo, um tapete vermelho foi imediatamente estendido pelo passeio, o general Sousa Telles emergiu da Escola e fez continência para o automóvel, o coronel Leitão de Barros ao lado, todos de uniforme de gala. As peças de artilharia dispararam as salvas do estilo. A porta do automóvel abriu-se e saiu de lá um vulto, os oficiais curvaram-se numa vénia, D. Carlos pisou o passeio, era um homem gordo por baixo do uniforme engalanado, um bigode loiro a ornar- lhe a face bolachuda. Ouviram-se palmas e o rei acenou para o passeio contrário com um sorriso forçado, saudando as mulheres dos oficiais que se aglomeravam na rua e nas varandas a exibirem os seus melhores vestidos domingueiros e de guarda-sóis de estilo parisiense nas mãos, meros adornos naquele dia cinzento. Abriram-se alas por entre a guarda de honra e D. Carlos entrou na Escola do Exército, o general Sousa Telles sempre ao seu lado a indicar-lhe o caminho e o resto do séquito no encalço.

“Será verdade o que dizem dele? “, perguntou Afonso, num sussurro, ao Mascarenhas, o cadete que aguardava ao seu lado e com quem já travara amizade.

“ Que ele é impotente?”

“Não, que ele é cornudo. “

“Sei lá”, devolveu Mascarenhas com uma careta. “Já ouvi tanta coisa. Impotente, cornudo, fornicador, louco. Não sei se é verdade, mas olha que não há fumo sem fogo. “

“Pelo menos comilão é ele”, concluiu o de Rio Maior. “Viste-lhe a pança?“

Afonso e os cadetes permaneceram duas horas na rua, aguardando impa-cientemente o fim da cerimónia solene que se desenrolava no salão nobre do primeiro andar. Por volta do meio-dia, o reboliço regressou ao Paço da Rainha, as bandas recomeçaram a tocar, el-rei reapareceu no passeio, despediu-se dos oficiais, acenou às damas e donzelas, meteu-se no carro, as peças de artilharia foram dispensadas das habituais salvas do estilo e o automóvel arrancou no meio de um pandemónio infernal de cascos de cavalo a ecoarem pelo largo, levando consigo o ruidoso séquito da cavalaria.

Com esta cerimónia começou o ano lectivo. Afonso habituou-se à rotina de acordar às seis da manhã, ir tomar um pequeno-almoço de café e bolachas e comparecer nas salas para as aulas. Começava às segundas-feiras, pelas sete da manhã, com Esgrima, seguindo- se às oito e meia a classe de Escrituração e depois, pelas onze, Topographia. Ao meio-dia e meia era o almoço e à uma da tarde vinha a aula de Fortificação Passageira, onde aprendia os trabalhos de bivaque e acampamento, mais as comunicações mi litares e as aplicações de fotografia na guerra. Não eram matérias tão estimulantes como as suas conversas com o padre Nunes em Teologia Dogmática, mas Afonso esforçou-se por encontrar interesse nos novos assuntos que tinha de estudar. Após as aulas, o resto da tarde ficava livre e, depois do jantar, os cadetes seguiam para o dormitório, onde às nove da noite, terminada uma rápida e frugal ceia, já estava tudo ferrado a dormir.

As aulas do primeiro ano de infantaria eram comuns às de cavalaria. Ao longo da semana, de segunda a sábado, os cadetes passavam o tempo em várias disciplinas, como Instrucção de Tiro, Gymnástica, Administração e Contabi-lidade, Táctica de Infantaria e Cavallaria, Equitação, Balística Elementar e Organização dos Exércitos. Na carreira de tiro adquirira particular destreza com a Mauser Vergueiro, a carabina que tinha uma culatra tipo Mauser que o coronel Vergueiro modificara três anos antes, adaptando-a aos braços curtos do soldado português. Os braços de Afonso eram, na verdade, longos, mas revelava-se capaz de fazer maravilhas com aquela arma. Outra disciplina considerada importante pelos oficiais era Hygiene Militar, ministrada por um médico que defendia a estranha tese de que se devia tomar banho uma vez por mês e até, quando chegava o calor, uma vez por semana. Os cadetes riram-se com o exagero, tanto banho fazia mal à pele e era pouco saudável, mas o riso transformou-se em irritação quando se viram obrigados a sujeitarem-se periodicamente a tão radical experiência.

As aulas e os exercícios abriam aos cadetes um apetite voraz. O problema é que os pratos dos almoços eram repetitivos. Variavam entre a fressura de porco com arroz, o bife com batatas fritas e o bacalhau guisado com batatas. Os jantares eram mais diversificados, com peixe cozido, vitela assada, cabeça de porco com feijão branco e hortaliça e peixe frito com batatas, enriquecidos pelas sopas variadas, como a sopa de arroz com grão, a sopa de feijão branco e a sopa de massa, mais as saladas de brócolos ou de feijão verde e o pão. Já a ceia limitava-se a chá e pão com manteiga para confortar o estômago durante a noite.

Os domingos eram dias livres. Afonso começava-os na capela da Escola, celebrando a missa dominical, e à tarde procurava outras distracções. Por vezes visitava o Animatógrafo do Rossio ou o Chiado Terrasse para ver uma película, brilhavam então nas telas lisboetas as fitas de Méliès e as produções Pathé, embora as principais atracções fossem as mirabolantes representações de Max Linder. Outras vezes ia à Rua da Palma assistir às comédias que passavam no Theatro do Príncipe Real ou procurava a Rua Nova da Trindade para se divertir com os festivais de gargalhada no Theatro do Gymnasio ou no Theatro da Trindade. Passava noites com os amigos nos cafés-concertos da Cervejaria Jansen, na Rua do Alecrim, ou então ia para a Avenida da Liberdade ver os nobres de charuto e cartola a entrarem no Grande Casino de Paris para esbanjarem vários contos de réis. Quando desejava outro tipo de emoções, apanhava um tramway até Sete Rios e seguia de eléctrico por Bemfica para ir cirandar pela Quinta das Laranjeiras, onde por cem réis se deleitava com as sensações produzidas pela visão das feras expostas no jardim zoológico.

Na maior parte dos casos, porém, preferia ir assistir aos jogos do Grupo Sport Lisboa. O Campeonato começou nesse Outono e as partidas eram muito disputadas, com a equipa de vermelho e branco a medir forças com o sempre poderoso Carcavellos Club, mais o Lisbon Cricket, o CIF, o Cruz Negra e o recém-inscrito Sporting Club de Portugal. Nas conversas com os empregados do Laboratório Franco, Afonso apercebeu-se de um grande ressentimento dos jogadores do Sport Lisboa em relação a este Sporting Club, uma antipatia que tinha origem numa operação de sedução efectuada recentemente pelo novo club aos melhores players vermelhos. Ao contrário do Grupo Sport Lisboa, um club de Belém em que os jogadores andavam com o balneário às costas e se lavavam na rua, o Sporting Club tinha o apoio de gente endinheirada, incluindo o abastado visconde de Alvalade, que ergueu um moderno campo com balneários e vestiários na antiga Quinta das Mouras, coisa de luxo só vista nos stadiums ingleses. Cansados das más condições em que jogavam e treinavam, os grandes players do Sport Lisboa, talvez os melhores do país, aceitaram um convite para irem para o Sporting Club. Eram, ao todo, oito players, incluindo dois dos irmãos Catataus, e esta sangria de talento quase deu cabo do Sport Lisboa. Foi, por isso, com imensa dificuldade que o club da águia se inscreveu no segundo Campeonato de Lisboa numa altura em que todos o davam como acabado.

O football começou gradualmente a entrar na vida dos cadetes, que adoravam tudo o que era jogo. O ambiente entre eles era divertido, animado por outros jogos que, por vezes, roçavam uma infantilidade boçal. À noite, Afonso ficava a ver os companheiros a disputarem o chamado “campeonato dos peidos”, competindo por entre gargalhadas no concurso da aerofagia mais ruidosa ou, em alternativa quando era servido feijão ao jantar, na mais malcheirosa. Antes de libertarem uma explosão de gás intestinal, alguns imitavam a voz dos instrutores de artilharia e gritavam “fogo à peça! “, seguindo-se a inevitável descarga aerofágica. Este foi um jogo no qual nunca Afonso participou, a sua educação no seminário permanecia presente nestes pormenores, ao ponto de o terem alcunhado de Aprumadinho.

“Ó Aprumadinho! “, chamavam-no por vezes. “Já viste que és o único gajo que aqui está que não dá peidos nem diz palavrões, caraças?”

Embora não participasse nestes jogos, seguia as competições com muita atenção e depressa percebeu que tudo servia aos cadetes para se disputarem. Comparavam o ruído dos arrotos e até o tamanho dos pénis, mas aqui os mais fracos depressa aprenderam a ter tento na língua porque não convinha compe-tirem com os cadetes mais encorpados, os matulões nem sempre eram os mais avantajados e mostravam-se hipersensíveis quando alguém menos avisado lhes chamava a atenção para esse pequeno pormenor, sobretudo quando comparados com alguns lingrinhas que se revelavam mais bem equipados.

Um tema permanente de conversa eram “as gajas”. O quartel tinha um ambiente integralmente masculino e, como era normal, as saídas de domingo destinavam-se sobretudo a irem mirar as raparigas. Alguns cadetes evitavam a missa na capela da Escola e preferiam antes visitar as igrejas civis. O seu único fito era, claro, o de irem ver as moças, a quem faziam sinais discretos durante a liturgia. Várias raparigas ficavam encantadas com as fardas e acediam a passear com os cadetes após obterem a devida autorização dos pais, alguns dos quais, pobres ingénuos, acreditavam sinceramente que aqueles vistosos uniformes eram, por si só, garantia suficiente de que quem os vestia só podia ser um verdadeiro cavalheiro.

Como é natural, Afonso arranjou o seu grupo de amigos, entre os quais se destacava Cesário Trindade, um lisboeta desajeitado, filho de um general reformado antecipadamente por causa das suas ideias republicanas. Trindade tornara-se famoso desde que despejara com um espirro uma virulenta carga verdejante de corrimento nasal sobre o professor de Balística Elementar. Os colegas gracejaram com o incidente, considerando aquele espirro uma verda-deira lição elementar de balística, e desde essa altura o Trindade passou a ser conhecido por Ranhoso.

O que aproximou os dois rapazes foi o prazer intelectual, uma vez que ambos eram os únicos cadetes apaixonados pela filusofia. Mas o Ranhoso era um radical, defendendo ideias que chocavam com os valores que Afonso adquirira no seminário.

“Hegel e Nietzsche são os meus filósofos favoritos”, anunciou Trindade certo dia, estavam ambos a saborear no pátio o sol do Outono.

“Ah é? Porquê? “

“Porque não confundem realidade com desejo e são os únicos cujos ensinamentos são úteis para a nossa carreira militar. “

“Ah sim? “, admirou-se Afonso. “Úteis em que sentido? “ “Homessa, então não os leste? “

“ Ler, li, mas não li tudo, não é? Não faltava mais nada... “Olha, o Hegel constatou que a guerra ajuda-nos a compreender que as coisas triviais, como os bens materiais e a vida das pessoas, valem pouco. Ele escreveu que é através da guerra que se preserva a saúde dos povos. Fascinante, não? “

“Estás parvo? A guerra vai contra os ensinamentos divinos contra um dos principais mandamentos, não matarás. O que é que isso tem de fascinante? “

“Ó Aprumadinho, estás a reinar comigo ou quê? Quais ensinamentos divinos? Então as cruzadas obedeceram a que ensinamentos “

“Deus disse: Não matarás! “

“Arre! Até pareces um padreco a falar na catequese. A guerra, para tua informação, é o principal catalisador da disciplina humana. Platão e Aristóteles, por exemplo, fartavam-se de elogiar Esparta, admiravam a sua austeridade, a rigorosa disciplina e aquela cultura de combate ao egoísmo. E donde é que pensas que esses valores do rigor vieram, hã? Da permanente prontidão dos espartanos para a guerra, claro. A guerra, quer queiras, quer não, tem efeitos benéficos para quem se envolve nela, os valores marciais podem ser positivos para a sociedade...“

“E podem destruí-la”, atalhou Afonso. “Deixa-te de parvoíces, ó Ranhoso. Embora Hegel tenha realmente enumerado algumas vantagens da guerra, ele nunca fez a sua apologia, nunca disse que é bom estar em guerra. “

“Desculpa, mas isso está implícito no que ele escreveu. Vai ler. Aliás, o próprio Moltke criticou a paz, denunciando as suas falsas virtudes. “

“Moltke? Olha, é boa, nunca ouvi falar desse. É um discípulo de Hegel, é?“

Trindade riu-se.

“Ó Aprumadinho, então não sabes quem é o Moltke? “ Abanou a cabeça. “Não admira que digas esses disparates todos. Podes ter muita cultura filosófica, isso não contesto, mas a tua bagagem de história militar, desculpa que te diga, deixa muito a desejar. O Moltke, meu caro, foi o general prussiano que invadiu a França em 1870. Um grande general, se queres a minha opinião. “

“Pois fica sabendo que é a primeira vez que ouço falar nesse gajo. “

“Já percebi. Pois o Moltke não era um tipo de meias-tintas, dizia o que muitos pensavam mas não se atreviam a enunciar. Vai daí, denunciou a paz, dizendo que a paz duradoura não passa de um sonho, ainda para mais um sonho desagradável. Foi ele quem notou uma evidência de que ninguém quer falar, a de que a guerra é uma parte necessária da ordem de Deus. “

“Ó Ranhoso, e tu acreditas nisso? “

“Então não hei-de acreditar? Olha para a história, Afonso, olha para o nosso passado. O que vês? Guerras, sempre guerras. Isso só pode significar uma coisa, que as guerras fazem parte da nossa humanidade, da nossa natureza, são um mal necessário e vão sempre existir. O Moltke e o Hegel é que têm razão, podes crer. “

“Podia citar-te outros autores que dizem exactamente o contrário. “

“ Por exemplo “

“Por exemplo, o general Fortunato José Barreiros. “ Era um antigo comandante da Escola do Exército, autor do Ensaio sobre os Principios Geraes da Strategia e de Grande Tactica. “Ele considera a guerra o maior flagelo que uma nação pode sofrer, sendo conveniente abreviá-la o mais possível. “

“O Barreiros está ultrapassado. “

“Há ainda o Voltaire e o Adam Smith, que dizem que a guerra é o resultado de leis erradas, falsas percepções e interesses ocultos. “

“Líricos. “

Afonso suspirou, resignado.

“Olha, Ranhoso, só espero que não haja nenhuma guerra que te faça engolir essas tuas ideias. “

“E eu, Aprumadinho, espero que haja uma guerra para tu veres se tenho ou não razão. “ Ergueu o indicador direito e adoptou um tom professoral, pomposo. “São as guerras que fazem os grandes homens. Olha para o duque de Wellington, olha para Napoleão, olha para Afonso Henriques. Todos eles grandes homens, todos eles homens de guerra. Mata um homem por dinheiro e és um criminoso. Mata mil homens por uma ideia e és um grande génio. São assim as coisas. O próprio Nietzsche admitiu que o colapso da nossa civilização é um pequeno preço a pagar para que tenhamos génios como Napoleão. Nietzsche, meu caro Aprumadinho, observou que a infelicidade das pessoas insignificantes de nada vale a não ser nos sentimentos dos poderosos, a crueldade espiritualizada e intensificada é a mais elevada forma de cultura. “

“O Nietzsche é parvo. “

“Não, Afonso. O Nietzsche é um génio “

Os choques intelectuais com Trindade criavam em Afonso um sentimento ambivalente. Por um lado, adorava o duelo de ideias, o prazer da discussão filosófica, a descoberta de novos caminhos, a exploração de conceitos diferentes, a revelação de novidades.

Mas, por outro, debatia-se com um contraditório sentimento de fascínio horrorizado, descobria-se seduzido por aquelas ideias tão radicais e agressivas e, ao mesmo tempo, atemorizado por alimentar essa atracção, experimentava uma repulsa moral em relação aos valores tão antagónicos daqueles que adquirira no seminário, intuía que o amigo despertava em si uma racionalidade animal que só a força da vontade moral podia reprimir. Por isso mesmo, apenas procurava Trindade quando desejava uma conversa estimulante, combativa.

Por estas razões, o seu amigo mais próximo não era o Ranhoso, mas Gustavo Mascarenhas, um irrequieto rapaz de Vila Real que conhecera logo nos primeiros dias. Afonso achou curiosa a coincidência de os seus melhores amigos serem transmontanos, já no seminário o seu grande companheiro tinha sido Américo, o gorducho de Vinhais. Mascarenhas não era gorducho, mas encorpado e musculoso, tinha até um certo aspecto de troglodita, embora fosse inteligente e divertido. Provinha também de uma família de militares, o pai era coronel de cavalaria e Mascarenhas pretendia seguir-lhe os passos. Para não o acusarem de seguidismo e falta de imaginação, optou antes por infantaria, até porque em Vila Real estava instalada Infantaria 13 e convinha-lhe ficar perto de casa, sempre era mais confortável.

Como se encontravam ambos longe da família, aos domingos Afonso levava Mascarenhas com frequência ao football, mas divergiram nas simpatias. O rapaz de Rio Maior era um supporter do Sport Lisboa, mas o de Vila Real preferia o Sporting Club e ambos discutiam frequentemente a importante questão de determinar quem eram os melhores players. Afonso atirava-lhe à cara a ideia de que, sem os oito atletas que fora buscar ao Sport Lisboa, o Sporting Club não seria nada nem ganharia a ninguém, mas Mascarenhas defendia-se com Francisco Stromp, o craque do emblema do leão que não viera do club da águia, e insistia em que o Sporting era um club a sério, tinha campo e instalações adequadas, enquanto o Sport Lisboa não passava de um bando de maltrapilhos.

O football e as suas rivalidades preenchiam assim as suas conversas, a par de “as gajas”, claro, mas Afonso tinha igualmente outros interesses. Passava tardes fechado na biblioteca da Escola. Apreciava o cheiro adocicado a papel velho que ali enchia o ar e deliciava-se com o aspecto distinto dos armários carregados de livros e encostados às paredes, a sua madeira de mogno trabalhado a contrastar com o soalho de cerejeira clara envernizada. Havia escadas em caracol em duas esquinas da biblioteca, permitindo aceder a um varandim de mogno que se estendia por todo o perímetro da sala, a uns três metros de altura e onde se encontravam mais livros, local por onde o cadete gostava de deambular a examinar as lombadas à procura de exemplares com títulos que achava pitorescos, como Instrucções para o campeonato do cavallo de guerra, Architectura sanitária, Nomenclatura de machinas de valor e O combate de infanteria contra cavallaria. A grande maioria das obras ali guardadas eram textos militares, mas Afonso descobriu exemplares das Les Voyages extraordinaires de Júlio Verne, editadas pela Collection Hetzel. Como lia bem francês, cortesia do padre Fachetti, devorou a voyage au centre de la Terre e Michel Strogoff e acompanhou com divertida atenção os absurdos problemas balísticos propostos em De la Terre à la Lune.

Verne fazia-o sonhar, mas a biblioteca dispunha de poucos livros de ficção e Afonso viu-se forçado a levar frequentemente romances para o local, obras que lia absorvido, as páginas iluminadas pela luz natural que penetrava difusamente pelas duas grandes clarabóias abertas no tecto. Foi ali que conheceu Machado de Assis e agonizou com a dúvida de saber se Capitu tinha ou não traído Bentinho em Dom Casmurro, foi ali que devorou Eça de Queiroz e se escandalizou com O Crime do Padre Amaro, ele que imaginava que os tormentos da carne só o atacavam a si e a mais uns poucos no seminário. Primeiro recusou-se a aceitar aquilo, bem que o tinham avisado de que esse era um livro de pecado, de luxúria, de volúpia, onde é que já se viu descreverem os padres daquela maneira? como se atreveu o escritor a colocá-los naquela figura? que falta de respeito, devia ser proibido.

Mas à noite, meditando sobre o que lia, ia pensando que talvez aquilo não fosse um disparate. Lembrou-se de que Santo Agostinho abordara o problema da sexualidade e foi consultar as suas Confissões. No meio do texto, por entre as assombrosas revelações da promiscuidade sexual do santo quando jovem, sobressaiu a súplica de Santo Agostinho a Deus, a quem implorava “Senhor, faz-me casto, mas não ainda“. Mas não ainda. Pouco a pouco Afonso acabou por ir concluindo que, feitas as contas, aquela era afinal uma tentação universal, “todos são do mesmo barro”, esta curta frase de Eça, simples mas poderosa, ficou-lhe cravada na mente, sim, é evidente, todos são do mesmo barro, bem vistas as coisas é mesmo isso, que afirmação tão reveladora e verdadeira, se até Santo Agostinho cedera à pecaminosa tentação, o que dizer dos outros, o que dizer do padre Álvaro? Pois, o padre Álvaro. Afinal de contas, até o padre Álvaro, o bom padre Álvaro que o acolhera e o ajudara em Braga, era feito daquele barro. Mesmo o austero vice-reitor, casto e castigador, justiceiro e vingador, tinha certamente as suas tentaçõezinhas, se calhar, quem sabe, se lhe vasculhassem os podres, também ele mereceria a sua cartita de prego, a cartita que por muito menos ele passou a Afonso mas que jamais endereçaria a si próprio por pecados quiçá bem piores.

Ah, os filisteus!

A entrada de 1908 foi agitada. No dia 28 de Janeiro começaram a correr no dormitório da Escola do Exército notícias de que estava em marcha uma revolta para derrubar a monarquia. O governo reprimiu a rebelião, deteve os chefes dos revoltosos e conseguiu do rei a assinatura de um decreto que permitia enviar qualquer suspeito para o degredo sem julgamento prévio. Trindade mostrava-se assustado, possivelmente o seu pai republicano não estaria em segurança, e Afonso confortou-o, abstendo-se temporariamente de o interpelar pela sua alcunha de Ranhoso. Mas os acontecimentos precipitaram-se dois dias depois, a 30. Os cadetes estavam na aula de Escrituração quando um oficial entrou bruscamente na sala, parou junto ao professor e voltou-se para a classe.

“O rei morreu”, exclamou. “Viva o rei! “

As aulas foram interrompidas, as bandeiras azuis e brancas de Portugal colocadas a meia haste, havia oficiais que pareciam desnorteados, corria-se de um lado para o outro, semblante carregado, medo, esperança, fúria, alegria, lágrimas, sorrisos, pesar. O que foi? morreu mesmo? não estará antes ferido? o gordo finou-se finalmente! quem governa? vão pagá-las! a monarquia caiu? cabrões dos republicanos! terá sido a Carbonária? As informações circulavam de boca em boca, contraditórias, a verdade misturava-se com os boatos, estava instalada a confusão, o diz-que-disse, a desorientação.

Incapaz de permanecer mais tempo naquela incerteza e excitado com a magnitude dos acontecimentos, Afonso saiu com Gustavo Mascarenhas e apanhou dois eléctricos até à Praça do Commércio, diziam que tinha sido ali o regicídio, assim era de facto, as lojas encontravam-se fechadas e a praça estava guardada pela polícia municipal, aproximaram-se da zona do Kioske, era ali que tinha sido efectuada a matança, ainda se viam vestígios de sangue no piso. Os guardas que vigiavam o local, inicialmente relutantes, depois com volunta-rismo, contaram tudo aos cadetes. El-rei D. Carlos fora abatido a tiro quando vinha de Vila Viçosa num coche aberto, o príncipe herdeiro, D. Luiz Filippe, também tinha sido morto ao desembainhar a espada, o outro príncipe, D. Manuel, ficara ferido num braço, a rainha D. Amélia estava em estado de choque, ela que fora uma heroína, uma verdadeira heroína, “vejam lá, coitadinha, tentou travar as balas com um ramo de flores”, pormenor muito comentado esse, “com um ramo de flores”. Os dois assassinos acabaram mortos a golpe de espada pelos polícias municipais, bravos homens que agora guardavam, com um zelo e aprumo que orgulhariam os defuntos, a desolada Praça do Commércio.

Foram tempos agitados os que se seguiram. Os lisboetas deixaram as ruas insultuosamente desertas à passagem do coche funerário com os restos mortais do rei e encheram o cemitério do Alto de São João durante o enterro dos regi-cidas. Ostentavam-se gravatas vermelhas para ofender o luto dos monárquicos, as revoltas populares eclodiram com as eleições de Abril, os teatros encheram-se de versos antimonárquicos, os militares conspiravam em surdina, contavam-se as espingardas, este é nosso, aquele é deles, Afonso ainda não era de ninguém, não passava afinal de um cadete interessado em football, um jovem que antes procurara dedicar-se ao domínio da palavra do Senhor e aos mistérios do universo e da vida e agora se preocupava sobretudo com o manejo da Mauser vergueiro e com o controlo dos segredos da balística e da morte.

Julho trouxe consigo a época de exames. Afonso passou a tudo, excepto a Topographia, forçando-o a voltar para a segunda época, em Outubro. A primeira época terminou a 31 de Julho e o rapaz só ficou mais uns dias para conhecer a Feira de Agosto, um acontecimento comentado pelos cadetes de Lisboa com tanto entusiasmo antecipado que suscitou a maior curiosidade aos que vinham de fora da cidade.

Afonso foi visitá-la logo no dia da abertura e não ficou decepcionado. Erguida em plena Rotunda, a feira logo se revelou um local de grande ani-mação, havia ali um circo de pulgas amestradas, demonstrações de audiofone e dos cilindros Edison com música a pedido, teatros de fantoches, jogos de pim-pam-pum para derrubar bonecas com bolas de trapo, casas de diversões como o Metropolitan Scenic Railway e outras empolgantes atracções. Os vendedores ambulantes apregoavam aos sete ventos os seus produtos, “bailarinas! bailarinas! “, anunciavam os que vendiam sardinhas, “pencudos! pencudos! “, respondiam os dos carapaus, “olh'ós refilões! olh'ós refilões! “, gritavam os vendedores de pimentos. Via-se ainda gente a vender burrié cozido, fava torrada, tremoços, pão e, inevitavelmente, as bebidas, como o capilé, a limonada e, sobretudo, a boa pinga, eram vários os que exibiam uma grande garrafa de tinto rodeada de copos pequenos e aos berros de “quem quer a viúva e os filhos? “, não deixava de ser surpreendente este espectáculo de folia e festa num país mergulhado em profunda agitação política.

Afonso regressou finalmente a Rio Maior para usufruir de dois ansiosamente aguardados meses de férias. Estava desejoso de se afastar do clima conspirativo da Escola do Exército, dos protestos que enchiam as ruas de Lisboa e sobretudo de Gustavo, que não parava de o gozar pelo facto de o estreante Sporting Club ter ficado em segundo lugar no Campeonato, à frente do Sport Lisboa e apenas atrás do inevitável Carcavellos Club. Por outro lado, levava saudades de Carolina e alimentava a esperança de que, com as boas notas que levava agora para casa, a mãe da rapariga talvez não se importasse de autorizar o reatamento do namorico, afinal de contas ele já era praticamente oficial, sabia esgrimir, usava as Mausers com destreza e os cavalos não tinham segredos para si.

Quando entrou na Casa Pereira para cumprimentar dona Isilda e tentar ver Carolina, aguardava-o uma rude decepção. Dona Isilda recebeu-o com simpatia e felicitou-o pelas notas obtidas, mas, no momento em que Afonso indagou sobre Carolina, a resposta deixou-o pregado ao chão.

“A Carolina está noiva.“

“Como?”

“A Carolina está noiva, Afonso. Vai casar no Outono. “ O rapaz ficou especado a olhar para a viúva, pálido, tentando digerir aquelas palavras.

“A senhora está a brincar, dona Isilda “

“Não estou, não. Vai casar com um engenheiro da Real Companhia de Caminhos de Ferro Portuguezes, um moço muito jeitoso, de boas famílias, gente distinta de Santarém “

Afonso achou a situação extraordinária e inusitada, humilhante até, e não soube o que dizer. Ficou lívido, desconcertado, indeciso quanto ao que deveria fazer. Agradeceu e saiu apressadamente da loja, procurando com ânsia o ar puro da rua para arrumar as ideias. Lá fora começou a duvidar das palavras de dona Isilda, estaria ela a tentar enganá-lo? Ficou a matutar no assunto, repetindo a conversa vezes sem conta, procurando inflexões reveladoras na voz da viúva, não havia dúvida de que ali havia gato. Nessa noite mal pregou olho, preocupado com o assunto, murmurando frases soltas, “e se fosse verdade?“, deu voltas na cama, “não pode ser”, mais algumas voltas, “disparate, a velha está-me a enfiar o barrete”, as horas prolongaram-se e adormeceu sem dar por isso. Pela manhã seguinte instalou-se bem cedo perto da Casa Pereira, vigiando a loja e o apartamento do primeiro andar onde vivia a proprietária e a filha. Quando viu Carolina sair de casa, interceptou-a e pediu-lhe explicações.

“Desculpa, Afonso, mas não posso falar contigo”, disse ela com ar comprometido, os olhos colados ao chão.

Mas diz-me ao menos o que se passa. “

“O que se passa? “, fitou-o com uma expressão de fúria ressentida. “O que se passa é que fiquei quase um ano à espera de uma carta tua e não veio nada. “

“É que não pude escrever-te. Sabes, os estudos... “ “Quais estudos qual carapuça! Não quiseste saber de mim para nada, é o que é. Andas lá por Lisboa armado em marialva, se calhar metido com as varinas e as fadistas, e eu aqui à tua espera, sem receber uma palavra tua, uma palavra que fosse, nem água vai, nem água vem. Grande parva que fui. Pois fica sabendo que não me mereces. Além do mais, o que uns desprezam, outros anseiam. Adeus. “

Havia verdade nestas queixas, bem no íntimo Afonso sabia-o. Gostava de Carolina, não havia dúvidas, mas nunca se sentira profundamente apaixonado, pelo menos nunca sentira por ela aquela paixão arrebatadora sobre a qual lera ao longo dos últimos meses nos belos romances de Eça de Queiroz e de Machado de Assis, as paixões trágicas de Amaro e Amelinha, de Bentinho e Capitu. Mesmo assim, o sentimento de rejeição fê-lo sofrer. Agora, mais do que nunca, desejava Carolina, ansiava pela sua presença, e surpreendeu-se com esse sentimento, com essa perda, com esse desejo. Quando ela era sua, isso agradava-lhe mas não lhe dava grande importância, encarava a situação como uma cir cunstância da vida, uma coisa natural. Agora, que não a podia ter, porém, ela revelava-se extraordinariamente importante. Afonso achou curiosa essa contradição e pôs-se a dissecar os seus sentimentos, comparando a situação ao pecado original que lera na Bíblia, a história de que Adão só se interessou pelo fruto porque ele era proibido. Havia muita verdade nesse raciocínio, considerou, mas a descoberta só vagamente lhe atenuou o sofrimento, pouco o consolava saber que mais amava o que menos podia ter.

Sentiu ciúmes, odiou Carolina, rogou pragas, fantasiou vinganças, arranjaria uma namorada e passear-se-ia com ela à frente daquela que agora o rejeitava, ela haveria de ver, iria sofrer, iria arrepender-se. Mas esta fúria de retribuição depressa lhe passou e quem se arrependeu foi ele. A culpa é minha, concluiu com amargura. À noite, deitado na cama de latão, decidiu ir no dia seguinte ajoelhar-se aos pés de Carolina e implorar-lhe perdão, prometer que lhe escreveria uma carta por dia, faria dela uma rainha, convencê-la-ia a dar-lhe mais uma oportunidade. Mas logo pela manhã, sentado à porta de casa, foi-se-lhe o ânimo, o que à noite era uma decisão firme não passava agora de uma fantasia tola, deixou-se estar, “para o diabo com ela! “.

Em termos práticos, contudo, a sua vida em nada se alterara. O noivado de Carolina significava que não podia contar com a protecção de dona Isilda, mas a verdade é que já não precisava desse apoio. A propina de matrícula era válida pelos dois anos do curso de guerra e a principal despesa dos cadetes, o uniforme, já estava feita. Continuaria a receber os trezentos réis diários de soldo, pelo que o seu modo de vida iria manter-se. Não havia o perigo de, por falta de meios financeiros, ter de abandonar tudo e voltar para a Carrachana, aquela era a sua origem mas não seria o seu destino.

O Verão passou com vagar, quente e modorrento, os dias na província arrastavam-se numa pasmaceira insuportável. Afonso distraiu-se a ajudar o pai na produção do vinho, mas foi com alívio que, em princípios de Outubro, regressou a Lisboa, o rapaz achava que já não tinha vida para aquilo. Fazer vinho é chão que já deu uvas, pensou, rindo-se do trocadilho durante a viagem de comboio.

Fez o exame de Topographia pouco depois de chegar a Lisboa e ficou à espera dos resultados. No domingo, dia 11, as classificações dos alunos aprovados foram afixadas no átrio. Afonso fazia parte da lista e dirigiu-se à secretaria para declarar qual a arma que pretendia seguir. O primeiro ano era comum a todas as armas, mas o segundo ano requeria a especialização e o cadete escolheu infantaria. O recomeço das aulas foi marcado para o final do mês, após uma cerimónia de início de ano lectivo aguardada com enorme expectativa. O caso não era para menos, o novo rei iria comparecer à cerimónia inaugural e ninguém queria perder o momento de ver a trágica figura.

No grande dia, Afonso formou com os restantes cadetes no Paço da Rainha e, quando a comitiva do monarca chegou, manteve-se à espreita. Como um outro cadete lhe tapava o ângulo de visão, no momento em que D. Manuel II se apeou do carro, por entre a estrondosa barulheira das salvas regulamen-tares e o fragor cacofónico das bandas militares, Afonso esticou o pescoço e mirou o monarca, o olhar vidrou-se-lhe ao descobrir, surpreendido, que o rei não passava de um rapazote da sua idade, as feições miúdas num rosto claro e quase infantil, tão imberbe que do bigode apenas se adivinhavam uns pelinhos loiros no canto da boca, as pernas ligeiramente arqueadas para fora. Chegava a ser chocante ver aquele adolescente metido num grandioso uniforme de gala, a fita das Ordens de Cristo, de Sant'Iago de Espada e de São Bento de Avis a cruzar o peito a partir do ombro direito, na cabeça um enorme e pomposo capacete emplumado e reluzente, um rapaz acabado de sair da Escola Naval e rodeado de velhos em continência, no meio da enorme algazarra libertada pelas bandas.

“Um copinho de leite”, comentou Mascarenhas com um sorriso velhaco.

O ar imberbe do monarca alimentou a conversa entre os cadetes durante alguns dias, mas depressa a azáfama das aulas lhes ocupou as atenções. O segundo ano envolvia novas disciplinas. Os cadetes de infantaria frequentaram as classes de Direito Internacional, História e Geographia Militar, Táctica e Serviços de Infantaria, Táctica Applicada, Campanhas Coloniaes, Princípios de Estratégia e Fortificação Permanente, para além dos exercícios habituais de Esgrima, Instrucção de Tiro de Revólver, Gymnástica e visitas a fábricas e depósitos de material de guerra.

Nos tempos livres voltaram as tardes de football, mas aqui tinha havido uma novidade que não foi do inteiro agrado de Afonso. O Grupo Sport Lisboa, club que no seu coração tinha substituído o extinto Club Lisbonense, fundira-se no Verão com um outro club, o Sport Club de Bemfica, e passara a chamar-se Sport Lisboa e Bemfica. Descontente, Afonso foi pedir explicações aos empregados do Laboratório Franco. Os rapazes alegaram que a fusão era a única maneira de impedir a extinção do Grupo Sport Lisboa. Segundo eles, o Sport Club de Bemfica tinha um campo próprio mas nenhuma vocação para o football, não passava na verdade de um club de ciclismo, enquanto o Grupo Sport Lisboa era um club de football mas não tinha campo, o que estava a minar o moral da rapaziada. A solução foi juntar os dois clubs. Afonso não gostou da ideia, antipatizava com a palavra Bemfica, era o nome de uma estrada que ia dar à Porcalhota, facto que, suspeitava, iria irreversivelmente sujar o nome do Sport Lisboa. Mas o Campeonato já tinha começado e a 25 de Outubro, justamente na véspera do primeiro dia de aulas, o novo club iria defrontar o Sporting. Mascarenhas queria ver o seu Sporting “dar uma cabazada àqueles tansos”, e Afonso, algo contrariado, acompanhou-o até ao campo do Sport Lisboa e Bemfica, situado na Quinta da Feiteira, junto à igreja de Bemfica.

A primeira grande surpresa de Afonso, ao chegar ao campo e ao ver as equipas no aquecimento, foi a de que nada parecia ter mudado. O Sport Lisboa e Benfica alinhava com o antigo equipamento do Grupo Sport Lisboa, camisolas vermelhas e calções brancos, e o próprio emblema da águia se mantinha ao peito, acrescentando-se-lhe agora uma roda de bicicleta, o símbolo do Bemfica. A segunda surpresa foi a de que os jogadores da equipa eram quase todos os mesmos do Sport Lisboa, era como se tudo tivesse ficado na mesma. E a terceira surpresa foi a inesperada vitória do Bemfica sobre o Sporting, que contava com os oito artistas roubados no ano anterior ao Sport Lisboa. Mascarenhas regressou desanimado com o resultado, mas Afonso veio eufórico, afinal o seu club continuava a existir.

O ano escolar decorreu com uma lentidão que o deixou impaciente. Afonso tinha dezoito anos e o tempo parecia parado, ansiava pela maioridade dos vinte e um e parecia-lhe que os três anos que lhe faltavam eram uma eternidade. As aulas consumiam a semana e, para se distrair, o football preen-chia os domingos. Para grande desânimo de Mascarenhas, o Sporting voltou a ser derrotado pelo Bemfica, desta vez no Lumiar, e, surpresa das surpresas, os vermelhos empataram com o temível Carccavellos Club, que voltou a ganhar o Campeonato mas sofreu um forte assédio do club da águia, o segundo classificado.

A época de football e o ano escolar terminaram quase em simultâneo e, quando deu por ela, Afonso viu-se no átrio a mirar a lista dos “alumnos com approvações”. O seu nome constava naturalmente da lista, a pauta assinalava “Affonso da Silva Brandão” com a classificação global de 13, 2 valores. Só a partir dos 15 é que se considerava que era classificação com distinção, um elemento importante para determinar o regimento para onde iria. Uma vez terminado o curso de guerra, cabia aos cadetes solicitarem o seu destino, mas só aqueles que obtinham melhores notas é que seguiam para os regimentos que pediam, os restantes teriam de se contentar com as sobras. Afonso viu-se perante um dilema. O seu desejo era o de permanecer em Lisboa, mas isso queriam todos. Era uma multidão atrás do mesmo e havia cadetes com melhores classificações. Se escolhesse Lisboa, Afonso não iria certamente conseguir lugar aí, seria inevitavelmente chutado para uma terriola de província, por exemplo, Bragança ou Abrantes. A alternativa era escolher directamente um regimento de uma cidade pouco procurada. A opção óbvia era Santarém, sempre ficava perto de Rio Maior, mas havia um inconveniente. Afonso não desejava, de maneira nenhuma, ser colocado próximo de Carolina, ela estava-lhe longe da vista e do pensamento, mas não tinha a certeza de qual seria a sua reacção quando a visse, essa era uma ferida que ele não tencionava reabrir, ainda para mais com um marido nas redondezas. Foi assim com naturalidade que Afonso se candidatou a um lugar num regimento de Braga, afinal a cidade onde passara quatro anos e que se tornara uma espécie de segunda terra natal.

 

A tarde fez-se invernosa e desagradável, o que não era de admirar. Outubro trouxe consigo os primeiros sinais do que viria a ser o Inverno desse final de 1913, com o vento a percorrer o Sena num sopro gelado, as árvores a agitarem-se com um farfalhar intranquilo, nervoso e barulhento, soltavam-se folhas secas dos ramos e esvoaçavam sem rumo nem destino, quebradas e perdidas, ao sabor da brisa. As nuvens deslizavam baixas e carregadas, pairando silenciosamente sobre os telhados escuros como vultos fantasmagó-ricos, espectros esfumados a vigiarem descon fiadamente a cidade, abafando-a e oprimindo-a sob um manto branco-sujo que tudo cobria, eram sombras taciturnas, uma vasta cobertura de vapor que ameaçava a grande urbe, sufocava-a até. A atmosfera tornara-se pesada, o ar húmido, pingos caíam aqui e ali, em breve iria chover.

Agnès tinha matéria para estudar mas não quis ficar fechada em casa, preferiu sair. Como o tempo se revelava inóspito e inclemente, foi procurar refúgio na Brasserie Lipp. A cervejaria encontrava-se apinhada de gente e ela foi sentar-se a uma mesa de esquina, encostada aos azulejos que decoravam as paredes do estabelecimento. Pediu uma cerveja alsaciana e uma choucroute e embrenhou-se na leitura do trabalho que tinha em mãos, um tratado sobre o problema da obstipação.

“Posso?“, perguntou alguém que colocou uma mão na cadeira vazia em frente.

Agnès levantou os olhos do texto, pensando que era o garçon com a cerveja e a choucroute. Mas, em vez do empregado, viu um homem jovem, de bigode aparado, olhos castanhos e ar bem-disposto.

“Oui”, assentiu ela, fazendo menção de regressar à leitura. “Peço desculpa, mas está tudo ocupado e não há outro lugar. “ “Esteja à vontade. “

Agnès tentou concentrar-se na leitura, o terceiro ano de Medicina tinha acabado de começar e ela tentava adiantar matéria, mas o homem era falador.

“Aqui a Lipp é fantástica, não acha? “

“Sim”, disse Agnès com um sorriso educado. “É uma brasserie muito simpática. “

O homem estendeu-lhe a mão.

“Chamo-me Serge”, apresentou-se. “Serge Marchand. “ “Muito prazer. Eu sou Agnès Chevallier.

Apertaram as mãos e ela ainda tentou voltar ao tratado, mas Serge não deixou.

“É parisiense? “

“Não, sou de Lille. “

“Ah, quem diria! “

“ O quê?”

“Que você não é de cá. Sabe, parece mesmo parisiense. “

“Eu? Parisiense? “ Ser confundida com uma parisiense tinha o seu quê de chic. Lisonjeada, pousou o tratado. “Ora diga-me lá o que faz de mim uma parisiense?”

“Oh, muita coisa, muita coisa. “

“O quê? “, riu-se ela.

“Para começar, o seu ar.

“O que tem o meu ar? “

“É um je ne sais pas quoi... não sei. Talvez o aspecto fino, o vestido elegante, muito façonnable, os seus traços delicados... “

O garçon apareceu com a cerveja e a choucroute, que colocou sobre a mesinha. Serge pediu também uma cerveja. Agnès bebericou a sua e olhou para o companheiro de mesa.

“Agradeço-lhe o elogio, mas olhe que na província há muitas pessoas assim como eu, o que pensa? Vê-se logo que você é que é parisiense, com essas ideias de que só em Paris é que há glamour e tudo o resto são rústicos provençales. “

“Mas, precisamente, eu não sou parisiense.“

Agnès hesitou, surpreendida.

“Ah não? “

“Está a ver como é parecida comigo? Está a ver? Tal como eu, também você avalia os outros pelo aspecto. “

“Grande novidade, todos o fazemos. Mas então diga lá donde é.”

“Sou da região mais atrasada da França, veja só. “ “Você é da Córsega? “

“Bem, sou atrasado mas não é preciso exagerar”, riu-se Serge. “Não, eu venho da Bretanha. “

“Ah sim? E o que está a fazer um bretão em Paris? “ “O mesmo que você, presumo. Estou a estudar. “ “Estuda o quê? “

Serge rolou os olhos e suspirou.

“Estou a terminar Direito no Collège de France. “ “Quem o vir a falar parece que não gosta do curso. “

“Bof, “

“Não gosta do seu curso? “

“Nada. “

“Mas então por que o está a tirar? “

“Oh, é muito complicado”, disse ele com um gesto enfastiado. “Em primeiro lugar, porque venho de uma família de advogados, o Direito é uma tradição que vem de longe. Causava um desgosto lá em casa se não seguisse a carreira. Depois, porque o que eu gostava de fazer não dá para alimentar ninguém. Além do mais, nem tenho talento para me dedicar àquilo que realmente me apaixona. “

“E o que é que o apaixona? “

“A arte. “

Agnès fez um ar de admiração, mostrando-se agradavelmente surpreen-dida.

“Ah, você é um artista? É músico? “

“Não”, sorriu Serge. “Não sou artista nem músico. Mas interesso-me muito pela pintura, adorava saber pintar”

“ Como Cézanne... “

Sim, Cézanne agrada-me, mas há agora outros artistas mais interessantes, artistas verdadeiramente revolucionários. “

“Quem? “

“Picasso, Braque, Derain... “

“Nunca ouvi falar. “

É natural, eles só são conhecidos no meio, e, mesmo aí, nem sempre pelos melhores motivos.“

“ Porquê?”

“Porque a sua pintura viola as regras clássicas. E, quando se violam as regras clássicas... oh la la... há quem não goste.

“E que regras foram essas que eles violaram? “

“Em primeiro lugar, a perspectiva. “ Pegou num lápis e fez um desenho sobre uma folha. “Está a ver? Quando desenhamos qualquer coisa, fazemo-lo sempre a partir de um ponto. É um pouco como as fotografias, são tiradas de um ponto para outro. Nós vemos o outro ponto pela perspectiva do ponto onde a fotografia é tirada ou a pintura é feita. É isso a perspectiva. Mas estes novos pintores decidiram fazer quadros simultaneamente de várias perspectivas. “

“Isso não é possível.”

“Não só é possível, como eles fizeram-no. Picasso começou a pintar objectos com a preocupação de exibir as suas três dimensões, colocando múltiplas perspectivas no mesmo quadro. Faz de conta que são fotografias sobrepostas do mesmo objecto, em que vemos o objecto simultaneamente de vários ângulos, de várias perspectivas. Foi isso o que ele fez, mas não se ficou por aí. Em vez de exibir os objectos como unidades, ele cortou-os aos pedacinhos e passou a pintá-los de forma fragmentada. “

“Mas consegue-se assim perceber a pintura? “

“Não se percebe nada”, exclamou Serge com uma gargalhada contagiante. Abriu os braços e fez um gesto largo com as mãos. “O título do quadro dá-nos uma indicação e nós, a partir daí, conseguimos descortinar o objecto, ele está lá insinuado. Mas, se não soubermos o título, aquilo é apenas um conjunto de indecifráveis figuras geométricas. É como se o pintor partisse de uma imagem concreta e depois removesse os traços da realidade, criando uma amálgama de formas e cores. “

“E fica bonito? “

“Não sei se fica bonito, é uma questão de gosto, mas olhe que é uma ideia fascinante”

O que Agnès achou realmente interessante em Serge é que a sua conversa era diferente da dos outros rapazes que conhecera. Em vez de tentar projectar uma imagem de homem forte, viril e protector, Serge parecia mais empenhado em falar sobre arte. Tinha alma de artista, olhar sonhador, falas melosas e muitos conhecimentos no meio, graças sobretudo às suas amizades com o pessoal da École des Beaux-Arts. Uma outra característica era a de que se mostrava frágil e Agnès espantou-se a si mesma por se sentir atraída por essa qualidade. Descobriu que gostava de homens frágeis, não sabia porquê, mas a vulnerabilidade tocava-a, mexia com ela, despertava-lhe talvez um meigo sentimento maternal.

Escolheram para segundo encontro o Le Procope, supostamente o mais antigo café do mundo, com fama de ter sido frequentado por Voltaire e Napoleão. Depois de beberem duas chávenas de chocolate quente e de combinarem passar a tratar-se por tu, Serge convidou Agnès a visitar a galeria Kahnweiler, onde, segundo ele, se revolucionava o mundo da pintura. Caminharam os dois debaixo de um guarda-chuva até à Rue Vignon e, ao cruzar a porta da galeria nessa tarde chuvosa, Agnès entrou no universo do cubismo.

Kahnweiler expunha nessa altura vários importantes trabalhos terminados recentemente, todos da autoria de pintores ainda pouco conhecidos, viam-se ali L'Oiseau bleu, de Metzinger, La femme et L'ombrelle, de Delaunay, e Compotier et verre, de Braque. Mas foram os tons laranja e amarelo-torrado de Femme dans un fauteil, de Picasso, que mais a surpreenderam. Ficou espantada a mirar o desconcertante quadro, interrogou-se até se aquilo seria realmente pintura e hesitou longamente antes de opinar, receava parecer uma parola.

“Esta mulher não tem rosto”, exclamou finalmente, mal contendo a decepção.

Era o mínimo que conseguia dizer da grotesca imagem exposta diante de si, sentia-se quase defraudada, como um gastrónomo de gosto requintado a quem alguém prometeu gratin de ueues d'écrevisses mas acabou por se ver forçado a comer caracóis fritos.

“Não, ela tem rosto”, argumentou Serge. “O que se passa é que o rosto é reconstruído, tal como todo o corpo “ Apontou para um pormenor do quadro. “Estás a ver isto? São os seios, vêem-se aqui os mamilos. No fundo, a ideia é apresentar um corpo fragmentado onde o todo se reconhece pelas partes. “

“Mas, para além do cadeirão, dos seios e do jornal, eu quase só vejo geometrias... “

Serge sorriu.

“É aí que está o truque. O pintor inseriu figuras sintéticas cubistas, as geometrias, num espaço clássico, tradicional. O efeito é surpreendente, não achas? “

Agnès fez uma careta resignada.

“Lá surpreendente é ele, isso não há dúvida. Mas será mesmo arte?

“A mais pura”, garantiu Serge entusiasticamente. “Eu sei que, para toda a gente que vê isto pela primeira vez, há sempre um choque, estes quadros violam todas as convenções, abalam as nossas mais profundas convicções sobre o que é a pintura. Eu próprio, quando comecei a ver as pinturas cubistas, confesso que não fiquei lá muito convencido. Mas, sabes, isto é como a cerveja. Odiamos de início, mas depois não podemos passar sem ela. “

Ao anoitecer, quando abandonaram a galeria, Agnès deixou Serge colocar-lhe a mão no ombro, enlaçando-se ambos debaixo do guarda-chuva. Começou o namoro nessa tarde e uma semana depois, rendida aos encantos daquela alma de artista, acabou-se-lhe a virgindade.

Os projectos a dois precipitaram-se a uma velocidade espantosa. Ainda o Inverno não tinha terminado e já Serge a convidava para jantar no Pharamond, o famoso restaurante de Les Halles, onde pediram boeuf en daube regado com sidra da Normandia. Depois da sobremesa, ele deu-lhe as mãos e, à luz das velas e ao som de um violino previamente contratado, propôs-lhe casamento.

“Casa comigo, doce princesa. “

O oui emocionado de Agnès foi brindado com um frutado Beaujolais Villages que ela cuidadosamente provou e sancionou.

Passearam depois pelo Sena de mão dada, até ele a deixar à porta do seu prédio, em St. -Germain-des-Prés. Quando entrou no apartamento, Agnès ouviu a voz do noivo lá fora. Surpreendida, foi à janela, olhou para a rua e viu-o no passeio, junto ao candeeiro, a fazer-lhe uma desafinada serenata, cantando a plenos pulmões Bébé d'amour, uma adaptação francesa da canção inglesa Some of these days, então na moda em Paris:

Je veux mourir Oú ma déesse! En ce beau soir Sous ta caresse.

Quando Serge terminou, Agnès bateu palmas e soprou-lhe um beijo da janela.

“Foi magnífico”, disse-lhe. “Mas agora vai-te embora, anda, vai-te antes que te prendam. “

As bodas realizaram-se a 3 de Junho de 1914 na Basilique St. -Sauveur, em Dinan, a terra natal do noivo, na costa norte da Bretanha. Era uma terra aprazível, o ar carregado da maresia atlântica, os aromas salgados do oceano a perfumarem a brisa suave.

A família Chevallier tinha acabado de chegar de Lille e vinha ainda atordoada com a rapidez dos acontecimentos.

“Minha pequena Agnès”, murmurou-lhe o pai à entrada da basílica, dando-lhe o braço e falando como se lhe estivesse a oferecer a derradeira oportunidade para se salvar. “Tens a certeza do que estás a fazer? “

“Absoluta. “

Paul Chevallier suspirou e enfrentou o corredor que se estendia diante de si, o altar lá ao fundo com o noivo à espera, aquele rapaz não passava de um estranho a quem ia entregar a sua filha predilecta.

“Muito bem”, exclamou finalmente, esforçando-se por ocultar o peso que lhe ia na alma. “Vamos a isto”

Como estava um dia de sol esplendoroso, o copo-d'água foi organizado nos Jardins Anglais, mesmo por detrás da basílica com uma vista privilegiada sobre o rio Rance e o vale verdejante por onde o vasto curso de água serpen-teava, as margens destacando-se como fiordes naquele plácido mar fluvial.

Serge terminou o curso de Direito nesse Verão e a mulher, agora Agnès Marchand, matriculou-se para o quarto ano de Medicina. As suas vidas permaneciam centradas em Paris, onde alugaram um apartamento na movimentada Rue de Tubirgo, em Les Halles.

Ele foi trabalhar no escritório de advogados do tio, localizado ali perto, na Rue St. Denis, ao lado da Maison du Sphinx, onde um letreiro na janela anunciava estar-se perante uma droguerie, pharmacie, herboristerie, e ela não se importou de ficar um pouco mais longe do Quartier Latin do que estava habituada no seu antigo apartamento de St. -Germain-des-Prés. Claudette já tinha concluído o curso de História e regressara a Lille, onde foi ocupar uma vaga de professora num colégio local, e o apartamento encontrava-se agora entregue aos outros dois irmãos, entretanto chegados a Paris para também prosseguirem os estudos.

A vida parecia assentar e o par recém-casado já planeava ter filhos quando, apenas vinte e cinco dias depois da cerimónia de Dinan, uma paran-gona no Le Petit Journal assinalou a novidade que iria produzir uma profunda transformação das suas vidas. O casal estava a tomar o pequeno- almoço e Agnès pôs-se a folhear o jornal. Os seus olhos fixaram-se inevitavelmente no fatídico título. A notícia referia a morte de um arquiduque austríaco, nas ruas de Sarajevo, assassinado por um sérvio.

“Que horror! “, comentou antes de virar a página à procura de cabeçalhos mais felizes. Trincou uma torrada e olhou pela janela. “Hoje em dia ninguém anda seguro nas ruas “

O que ela ainda não sabia é que aqueles tiros, disparados numa obscura ruela no outro lado da Europa, iriam colocar o mundo de pernas para o ar em menos de um mês.

A guerra entrou na vida de Agnès com a força de um furacão enraivecido. Na sequência de uma complexa sucessão de acontecimentos envolvendo primeiro a Áustria e a Sérvia, e depois os respectivos aliados, a França decretou a mobilização geral a 1 de Agosto. Agnès viu Paris transfigurar-se perante os seus olhos, com a multidão tomada pela febre da guerra a sair às ruas em grandes números, enchendo as principais artérias com inúmeras bandeiras francesas, mas também russas e britânicas, e cantando entusiasticamente La Marseillaise e marchas patrióticas. Cartazes com ordens de mobilização foram afixados por toda a parte, atraindo grupos alvoroçados de homens, enquanto se sucediam acalorados gritos de “vive la France! “ e os estabelecimentos com nomes alemães eram atacados e saqueados, em particular as brasseries com títulos germânicos.

Serge não ficou indiferente à onda de comoção que se apoderou dos franceses e nessa mesma tarde correu a um posto de recrutamento para se alistar no Exército. Chegou de noite a casa com o cabelo cortado à escovinha e os papéis para se apresentar na madrugada seguinte num quartel da Armée, enquanto lá fora era desligada a iluminação pública e os holofotes da Torre Eiffel e dos campos de aeronáutica patrulhavam diligentemente o céu.

“É o meu dever patriótico”, explicou Serge nessa noite a uma estupefacta Agnès. “Para além do mais, isto vai ser rápido e estou em casa antes de o Verão acabar”

Dois dias depois, a 3 de Agosto, a Alemanha declarou guerra à França. Por essa altura já os franceses tinham a sua máquina militar em movimento, e Agnès foi nesse mesmo dia à Gare du Nord despedir-se do marido. A estação de caminhos de ferro estava mergulhada na maior confusão, Paris inteira parecia ter-se dirigido à gare para saudar os seus poilus. Agnès teve enorme dificuldade em furar por entre a compacta massa humana para chegar perto do comboio destinado ao regimento de Serge.

Depois de uma espera atormentada no meio de uma algazarra incrível, viu as alas abrirem-se e os soldados marcharem disciplinadamente até às composições, as espingardas erguidas com a coronha ao peito, os canos estendidos por cima do ombro.

Pôs-se em bicos de pés e esticou desesperadamente a cabeça, procurando o marido naquele mar de bonés encarnados, mas só o viu minutos antes de a locomotiva apitar para partir, elegantemente vestido como um soldado dos exércitos napoleónicos, um majestoso casaco azul e calças de vermelho-vivo, képi garrido na cabeça, uma espingarda Lebel a tiracolo, como era estranho vê-lo assim, parecia um soldadinho de chumbo. Acenaram, ela lançou-lhe beijos pelo ar, ele devolveu sorrisos. Milhares de pessoas cantavam La Marseillaise em coro quando as composições começaram a mexer-se, os soldados despediram-se como se fossem para um piquenique, Serge a dizer adeus da janela do comboio que o levava para a frente, agitava alegremente o képi na mão esquerda, parecia quase feliz aquele poilu.

A Alemanha atacou a Bélgica no dia seguinte, 4 de Agosto, levando a Grã-Bretanha a entrar na guerra. Os irmãos Chevallier foram entretanto recrutados e também eles seguiram imediatamente para a frente. Agnès foi despedir-se de Gaston à Gare du Nord no dia 5, e de François à Gare de Lyon a 6, sempre no meio de grandes manifestações populares, plenas de fervor patriótico. As tropas francesas avançaram no dia 7 pela Alsácia até chegarem ao Reno e conquis-tarem Mulhouse. Foi uma explosão de alegria em Paris, as pessoas choravam de alegria e cumprimentavam-se nas ruas, havia sorrisos por toda a parte, “vive la France! “, a euforia era generalizada. Mas os acontecimentos precipitaram-se inesperadamente a meio do mês. Os alemães irromperam em França através da Bélgica e, após dois dias de combate, as tropas francesas começaram a retirar na noite de 23, no que foram acompanhadas pelo BEF, o British Expeditionary Force. Os alemães avançaram no seu encalço em direcção a Paris, cidade apenas defendida por uma única brigada de infantaria naval.

Nessa altura, Agnès lia na imprensa parisiense sensacionais notícias de grandes vitórias das forças francesas, numa operação de propaganda que ficaria conhecida por bourrage de crâne. Foi por isso com surpresa que, no princípio de Setembro, os até aí eufóricos parisienses receberam a informação de que as tropas alemãs tinham atingido o rio Marne, a uns meros cinquenta quilómetros a leste da capital. Instalou-se o pânico em Paris. O governo abandonou apressa-damente a cidade e transferiu-se para Bordéus na noite de 2 de Setembro, cimentando a convicção de que Paris estava prestes a cair.

Angustiada e só, Agnès decidiu seguir o exemplo do governo, mas estava fora de causa ir para Lille, uma vez que a sua cidade natal, localizada perto da fronteira belga, se encontrava no olho do furacão, o que a deixava mortalmente preocupada. Vivia em sobressalto, pensava permanentemente no marido, na mãe, nos irmãos e na irmã, no pai, o que estarão a fazer neste momento? tentava distrair-se, pensar noutras coisas, mas tudo lhe lembrava a família, estarão bem? todos os pensamentos a conduziam à frente de batalha e a Lille, era ali que se concentrava a sua vida, toda a sua vida, a solidão em Paris tornou-se-lhe opressiva, pesada, insuportável, sentiu-se deprimida, percebeu que não podia continuar assim, “ça ne va pas! “, tinha de fazer alguma coisa, tinha de sair dali. Optou, por isso, por procurar refúgio em casa dos pais de Serge, em Dinan. Preparou uma mala, arrumou lá dentro umas roupas e Mignonne e na manhã seguinte foi até à Gare Montparnasse para apanhar um comboio com destino à Bretanha.

O problema é que meio milhão de parisienses teve exactamente a mesma ideia. Agnès encontrou a estação de comboios apinhada de gente, eram famílias inteiras de trouxas às costas, inquietas com a aproximação dos alemães, multiplicavam-se os boatos sobre a situa ção no terreno, dizia-se que o inimigo entraria em Paris no prazo de quarenta e oito horas, a febre do medo sucedera à febre da guerra. Milhares de pessoas acotovelavam-se na Gare Montparnasse carregadas de sacos, maletas, caixotes, embrulhos com farnel, crianças a chorar, a ansiedade estampada nos olhos. Agnès foi para a fila do guichet e levou seis horas para comprar bilhete para Rennes.

A odisseia seguinte foi a de conseguir entrar no comboio. Um mar de gente enchia os terminais da estação e só ao fim da tarde, encharcada em suor e cheia de fome, é que logrou subir a uma carruagem. O comboio transbordava de gente, algumas portas nem sequer se conseguiram fechar e estava fora de causa obter um lugar sentado. Agnès passou doze horas de pé, no corredor, encostada a outros passageiros, exausta e cambaleando com sono, suportando os sucessivos pára-arranca da composição em todas as estações e apeadeiros, até finalmente chegar a Rennes, já o Sol nascera. Um coche alugado na estação levou-a, lentamente e aos solavancos, até Dinan, numa viagem que durou mais oito horas, e foi num estado de total esgotamento que se arrastou até à porta da casa dos sogros, um apartamento na Rue de la Lainerie, no coração de um velho bairro de charme medieval. A situação no teatro de operações sofreu um novo volte-face.

O VI Exército francês e uma divisão argelina juntaram-se à brigada de infantaria naval na defesa de Paris, sob o comando do general Galliéni. O comandante-chefe francês, general Joffre, deu a capital como perdida e prosseguiu a retirada do Exército, planeando uma contra-ofensiva para mais tarde. A vanguarda das tropas alemãs imobilizou-se no Marne e, hesitando, começou até a afastar-se para leste, esperando um realinhamento de forças. Galliéni viu a oportunidade e atacou a 4 de Setembro. Confrontado com o facto consumado da decisão unilateral do comandante da defesa de Paris, Joffre suspendeu a retirada e optou por também atacar. O VI Exército, proveniente da capital, atingiu de surpresa o Exército alemão na manhã de 6 de Setembro e derrotou-o após três dias de combate. Os alemães ordenaram uma retirada geral no dia 9 e realinharam as suas forças ao longo do rio Aisne, onde cavaram posições defensivas. Paris estava salva, mas começava a guerra das trincheiras.

A vitória na Batalha do Marne restituiu a confiança dos franceses no seu exército, e muitos parisienses que se tinham refugiado na província começaram a voltar para casa. Agnès empreendeu o longo caminho de regresso e entrou no seu apartamento de Les Halles em meados de Setembro. As ruas de Paris apresentavam-se ainda semidesertas, com muitas lojas fechadas e algumas vitrinas partidas, produto dos saques ocorridos no auge da confusão. Madame Jolinon, a governanta do edifício onde morava e que permanecera na capital nos dias de incerteza, contou- lhe que os táxis de Paris se tinham mobilizado nos momentos mais difíceis da Batalha do Marne, transportando seis mil soldados de reserva para a frente de combate. Segundo ela, foi isso que salvou o VI Exército e, em última instância, a própria cidade. Era um exagero, claro, mas a mulher limitava-se a repetir o que ouvira, o facto é que os propagandistas não resistiram a difundirem o mito de que os civis tinham desempenhado um papel preponderante naquela acção desesperada, podia não ser verdade mas era óptimo para o moral.

Agnès esforçava-se por atear o fósforo e acender o lume, mas não havia meio de a chama aparecer. Vezes sem conta riscou o fósforo na caixa e nada aconteceu, riscou com tanta força que o pauzinho acabou por se quebrar. Foi buscar outro e outro ainda, mas nada sucedia, por mais que raspasse os fósforos o lume teimava em não dar sinal de si.

“Malditos fósforos”, comentou para Mignonne, irritada. “Será que estão molhados? “

Apalpou a cabeça negra do último em que pegara e verificou que estava de facto húmido. Praguejou e foi procurar uma segunda caixa ao armário. Conseguiu finalmente acender o fogo e colocou a panela sobre a chama. Havia muito tempo que lhe apetecia um gras-double e nesse dia enchera-se de paciência para cozinhar o prato. Deixou momentaneamente a panela ao lume e foi à janela espreitar o céu. O sol desaparecera com o Verão, Setembro aproximava-se do fim e o Outono instalara-se bruscamente em Paris, cobrindo a cidade com um sombrio manto cinzento.

Toc. Toc. Toc.

Agnès sentiu baterem à porta. Ainda de avental foi ver quem era. Abriu a porta e deu de caras com um correio da Armée de Terre, de boné na mão e um saco a tiracolo.

“Madame Marchand? “

“Oui? “

O homem estendeu-lhe um envelope. Intrigada, ela limpou ao avental as mãos ainda molhadas, pegou na carta e rasgou a faixa lateral do envelope. Era um postal do Ministère de la Guerre a lamentar ter de a informar de que o marido, o soldado Serge Marchand, morrera como um herói no cumprimento do dever e na defesa da pátria.

Agnès releu o texto, incrédula, boquiaberta, olhou para o homem do correio à procura de um sinal de que aquilo não passava de uma brincadeira, o homem baixou os olhos, embaraçado, ela voltou a mirar o postal e, apreendendo finalmente o pleno significado daquela tremenda notícia, sentiu o mundo girar e desmoronar-se debaixo dos pés, o chão a rodopiar como um pião descontrolado, a memória da voz de Serge cantarolando “je veux” mourir, o ma déesse, en ce beau soir, sous ta caresse a ecoar-lhe na mente como um presságio que ignorara, a melodia afastando-se devagar, como se fugisse, como se se afastasse num túnel longínquo, a voz a desaparecer, a esfumar-se até se perder num profundo e doloroso silêncio.

Aos vinte e três anos, e apenas três meses depois do casamento, Agnès estava viúva. O postal não dava pormenores sobre a morte de Serge nem dizia onde se encontrava o corpo, algo que tornou o luto ainda mais difícil. Os dias que se seguiram à recepção da notícia foram de grande desorientação. Agnès recusou-se a sair de casa e foi madame Jolinon quem lhe deu apoio, prepa-rando-lhe as refeições, fazendo-lhe alguma companhia, tentando consolá-la.

“Courage, ma petite, você ainda é nova, é duro mas tem de resistir, c'est la vie! Também eu já perdi o meu Honoré, sei o que custa, mas aqui estou pronta para outra. “

Os familiares de Serge visitaram-na com decrescente frequência. Sem o marido, nada a ligava àquela gente. Foram-se gradualmente afastando até deixarem de se ver. Mignonne foi guardada numa mala para não mais ser tocada, era uma forma de enterrar a infância, cujo fim a notícia da morte de Serge tinha terminalmente precipitado. Deixou de ser uma mulher feliz e despreocupada, o peso do mundo desabou-lhe sobre os ombros.

Para Agnès começou a tornar-se evidente que não podia continuar em Paris. Não tinha o marido para a sustentar, a ela e aos estudos no último ano de Medicina, e o apartamento de Les Halles tornara-se insuportavelmente vazio. O problema é que a ligação à sua família se mantinha cortada. Os alemães ocupavam parte da Flandres e Lille ficava agora por detrás das linhas inimigas. Isso significava que nem ela podia regressar a casa nem os pais lhe podiam enviar ajuda. De resto, não era possível sequer saber o que se passava em Lille, não tinha notícias dos pais e de Claudette e, após o que acontecera a Serge, alimentava os piores pressentimentos em relação a Gaston e François.

Deixou de estudar e começou a encarar seriamente a possibilidade de arranjar trabalho. Com a ida dos homens para a guerra, milhões de francesas estavam já a substituí-los nos empregos, até porque os salários eram melhores do que estavam habituadas. Havia cada vez mais mulheres a conduzirem eléctricos e ambulâncias, embora a maior parte estivesse a convergir para as fábricas de armamento. Agnès admitiu tornar-se uma munitionette, como eram conhecidas essas operárias, mas o destino reservava-lhe outros planos.

À entrada do Inverno, Agnès foi comer uma choucroute à Brasserie Bofinger, na Place de la Bastille. Sentou-se num banco de couro da cervejaria a observar distraidamente os ricos vitrais do estabelecimento, a mente a vaguear pela sua vida, pelas opções que lhe restavam, pelas difíceis decisões que teria de tomar. A cervejaria encontrava-se quase deserta, não havia muitos jovens para a frequentarem, estavam quase todos na guerra. Foi talvez por isso que os seus olhos pousaram num homem de meia-idade que acabara de entrar e fechava o guarda-chuva junto à porta. Reconheceu o barão Jacques Redier, o velho amigo do pai.

“Senhor barão! “, chamou.

O barão Redier virou a cara e os seus olhos encontraram-se, mas ele manteve uma expressão interrogativa, não a identificara. Agnès fez-lhe sinal para se aproximar. Ele hesitou, mas obedeceu.

“Minha senhora”, cumprimentou. “A que devo a honra? “ “Senhor barão, não se lembra de mim? Sou a Agnès, estive em sua casa.”

“Pardon “

“Sou Agnès Chevallier, a filha de Paul Chevallier, de Lille. Lembra-se de mim? “

O rosto do barão abriu-se num sorriso caloroso, efusivo até. “Agnès! Meu Deus, como estás mudada! Estás uma mulher, rapariga, nem te reconhecia!”

“Sente-se, sente-se “

O barão acomodou-se.

“Ah, mas que surpresa! “, exclamou. “Não esperava encontrar-te por aqui, palavra de honra. Estás bonita, hã? Uma verdadeira flor. “ Ficou a mirá- la um instante. “Então a tua família? “

O sorriso de Agnès desfez-se.

“Os meus pais e a minha irmã estão em Lille e não tenho notícias deles desde que a guerra começou. “

“Oh diabo! Isto é um aborrecimento, a guerra”. Suspirou. “Felizmente que vai acabar depressa.“

“ O senhor acha?”

“É o que dizem os jornais. Além do mais, já impedimos os boches de chegarem aqui a Paris. Agora é tudo uma questão de tempo até que os políticos se entendam. Portanto, não estejas preocupada que vai correr tudo bem, tenho a certeza disso. “

“Quanto tempo? “

“Não sei, talvez cinco ou seis meses... “

“É muito... “, desabafou Agnès com desânimo.

“Não te rales, rapariga. Seis meses passam depressa”, observou o barão. “O que estás a fazer em Paris? “

“Oh, estou a estudar Medicina. “

“E com os teus pais lá em Lille, como é que arranjas dinheiro para financiar o curso?”

Agnès baixou os olhos.

“É esse o problema”, disse. “Vou ter de suspender o curso e ir trabalhar. “

“Trabalhar? É o que mais faltava! “

“Porquê? “, admirou-se Agnès. “Tenho de viver, não é? “ “Sim, claro, mas nem pensar em trabalhar. “

“Como assim? Há muitas mulheres que estão a ir para as fábricas de armamento para. “

“Nem penses nisso! “, cortou o barão. “Eu não me chame Jacques Redier se não te ajudar. “

“Mas... “

“Olha, por que não vens para Armentières comigo? Desde que a minha mulher faleceu que me tenho sentido muito só naquele palacete imenso. “

“A senhora baronesa faleceu? Oh, lamento muito. “ “Obrigado. Ela morreu há dois anos, coitadinha, vítima daquela tuberculose crónica de que padecia há muito tempo. De modo que só tenho o Marcel para me fazer companhia. Ora, se há uma coisa que aprendi é que os mordomos são uns companheiros entediantes. Preciso por isso de alguém que encha o château de alegria. Por que não vens para Armentières? “

“Mas, senhor barão, eu não posso ir para Armentières... “ “Ah não? E ficas aqui a fazer o quê? A passar fome? Vais para as fábricas colocar pólvora nos cartuchos? O que é que te prende a Paris, valha-me Deus? Não és casada, pois não? “

“Sou viúva. “

O barão abriu a boca de espanto.

“ Como?”

“Casei-me há pouco tempo, mas depois veio a guerra e o meu marido alistou-se... “

O barão passou a mão pelo cabelo.

“Compreendo”, murmurou, constrangido. “Pobrezinha, deves estar a passar tempos difíceis”. Fez uma pausa. “Mais uma razão para vires para Armentières comigo, não estás aqui a fazer nada. Diz lá, há alguma coisa que te prenda a Paris? “

Agnès ficou parada a olhar para ele.

“Bem... eu. “, gaguejou. “Em bom rigor, nada. Mas não me parece de bom tom ir para o seu château. “

“Que disparate! “, exclamou o barão. “Conheço-te desde pequena. Precisas de ajuda, estás sozinha, a mim também me dá jeito arranjar companhia, o que mais queres? Tenho obrigação de te ajudar, sobre isso não resta a menor dúvida. Além do mais, esta é apenas uma solução temporária, até a guerra acabar. Quando a paz regressar, vais a Lille ter com a tua família e voltas aqui a Paris para concluir o curso “

“Mas, senhor barão, não posso aceitar isso. “

“Não digas palermices. Na situação inversa, tenho a certeza de que o teu pai ajudaria um filho meu. “ Fez um gesto enfático com a mão. “Está decidido, rapariga. Vens para Armentières comigo e não se fala mais nisso. “

Foi assim que Agnès se viu, no princípio de 1915, instalada no Château Redier, o enorme casarão onde passou tantos fins de semana na sua meninice. O palacete dava-lhe conforto e segurança, mas, por outro lado, tinha o enervante inconveniente de estar relativamente próximo das primeiras linhas. O permanente marulhar da artilharia, feito de um furioso mar de ondas que teimosamente fustigava rochedos invisíveis, deixava-a algo inquieta. Com o tempo, porém, foi-se habituando aos sons daquela longínqua mas incansável tempestade, o trovoar constante transformou-se numa rotina, num barulho de fundo que se vai aprendendo a ignorar.

O barão tratava-a como uma filha, o que, dada a diferença de idades e a proximidade de Redier ao seu pai, parecia natural. A relação entre os dois foi, todavia, evoluindo gradualmente, um sorriso aqui, um toque ali, uma palavra acolá, até se tornar inevitável a conversa que tiveram no salão, numa tarde cinzenta e ociosa, depois de terem tomado o chá das cinco e trincado umas madeleines de fabrico caseiro.

“Tenho uma proposta a fazer-te”, anunciou ele com ar solene, recostado no canapé.

Agnès balouçava suavemente na sua cadeira de balanço, olhando com melancolia para lá da janela, para as árvores do jardim que farfalhavam debaixo do vento fresco do anoitecer.

“Sim? “

O barão pigarreou e endireitou-se. Agnès sentiu-o subitamente perturbado e desviou para ele a atenção, observando-o com curiosidade. Redier enrubes-cera, tinha o rosto tenso e os olhos inquietos, parecia nervoso.

“Sabes, Agnès, desde a morte da minha Solange que me tenho sentido muito só. Este palacete é enorme, mas não tão grande como a solidão que me atormenta. A vida parece-me vazia, sem sentido, os dias passam uns atrás dos outros e eu tenho esta terrível sensação de vegetar, sem direcção nem rumo, à mercê do tempo e do que o destino me quiser oferecer.” Fixou-lhe os olhos. “A tua vinda mudou um pouco tudo isso, trouxe-me alegria e uma certa raison de vivre. Afeiçoei-me a ti e não sei se suportaria viver nesta casa sem a tua presença. Tenho, por isso, uma proposta a fazer-te. “

O barão calou-se e ficou a observá- la, como se estivesse mergulhado num debate interior, tentando decidir se avançava ou não com a ideia que lhe fervilhava na mente. Agnès agitou-se, inquieta, na sua cadeira de balanço, desconfortável com o enervante silêncio que se seguira àquelas intrigantes palavras.

“Sim? “

Redier suspirou pesadamente, ganhando coragem para avançar com a sua arrojada proposta, sabia que, depois de a formular, não haveria caminho de retorno, tudo seria diferente.

“Sou um homem de meia-idade e não tenho ilusões sobre o que sentes em relação a mim. “ Piscou os olhos com um tique nervoso. “Mas, mesmo assim, gostaria de pedir a tua mão em casamento. “

Agnès abriu a boca, surpreendida com a ideia. Encarava o barão como uma figura paternal, protectora e amiga, e não sentia a menor atracção por ele. A sua primeira reacção foi a de dizer que o casamento estava totalmente fora de questão. Ainda esboçou um gesto para rejeitar logo ali o pedido, mas hesitou, de certa forma afeiçoara-se a ele e não o queria magoar nem ofender, percebeu que teria de recorrer ao seu melhor tacto para lidar com a situação. Considerou a maneira mais apropriada de abordar o assunto e optou pela prudência.

“Bem, senhor barão, essa é... é uma proposta inesperada, estou surpreendida”, gaguejou, ganhando tempo para pensar. “A bem dizer, nem sei o que responder”

“Responde que sim”, implorou ele fervorosamente. Agora que formulara a proposta mostrava-se decidido a ir até ao fim. “Por favor, diz que sim”

“Mas temos uma grande diferença de idade, o senhor podia ser meu pai. “

“Escuta, Agnès. Como eu te disse, não tenho quaisquer ilusões. Sei que não me amas, isso é evidente e natural, és muito mais nova do que eu. Mas suplico-te que pelo menos consideres seriamente o meu pedido. Deixa-me que te diga que os melhores casamentos não são os que partem de uma paixão que depressa se extingue, mas aqueles cujo amor vai nascendo com o tempo e amadurecendo como o vinho. Não tenho dúvidas de que irás aprender a gostar de mim, esse sentimento irá crescer naturalmente e estou certo de que poderemos ser muito felizes.”

“E se não crescer? “

“Crescerá, tenho a certeza. “

“É possível, não digo que não. Mas, e se não crescer? “ O barão voltou a suspirar, considerando essa hipótese. “Bem, parece-me evidente que essa é uma possibilidade que temos de admitir.“ Coçou o queixo, pensativo. “Olha, podemos perfeitamente começar devagar, deixar que as coisas aconteçam naturalmente. Por exemplo, em vez de irmos logo viver para o mesmo quarto, cada um pode manter-se inicialmente nos seus aposentos, aguardando o curso normal dos acontecimentos, sem nada forçar. Eu acho é que temos de fazer o caminho caminhando.“

Agnès disse que tinha de pensar. Era um mero estratagema para ganhar tempo e procurar uma forma de rejeitar delicadamente a proposta. Ao longo da semana que se seguiu considerou a ideia de vários ângulos, até admitiu o casamento como hipótese académica, imaginou como seria a sua vida unida àquele homem. A verdade, surpreendeu-se, é que talvez nem fosse assim tão má como isso. Ali estava ela perdida num mundo hostil, desenraizada, separada da família, fragilizada e vulnerável, e quem a ajudara, quem lhe tinha estendido a mão sem hesitar na sua hora difícil, tinha sido o barão, aquele mesmo homem que ela se mostrava tão pronta a desdenhar. É verdade que Redier era mais velho do que ela e que não a atraía, mas, observando-o agora com outros olhos, não os olhos de uma rapariga sonhadora, mas os de uma mulher madura, verificava que o barão até se revelava um homem interessante, bem conservado para a idade, enérgico e seguro de si. Não se tratava, evidentemente, de um Matt Moore, longe disso, do ponto de vista físico não se podia comparar à famosa estrela de cinema, mas, quand même, o barão distinguia-se pelo ar charmant e mostrava ser uma pessoa sensível e culta. Além do mais, concluiu, era sensata a ideia de não forçar as coisas, de deixar que o casamento seguisse o seu rumo natural. Agnès deu consigo a imaginar-se realmente a viver com aquela figura distinta.

Casaram-se num sábado chuvoso de Outubro de 1916 na Conservatória de Armentières, numa cerimónia civil em que o único membro da família que a acompanhou foi Gaston, o irmão que desempenhava funções administrativas no sector de Champagne e que se encontrava de licença. No momento da verdade, Agnès fechou os olhos, despediu-se em segredo de Serge, sentiu-se invadida por uma plácida serenidade e, num sopro furtivo, disse “oui “.

 

O quartel do Pópulo dominava a grande praça com a sua larga fachada branca, à esquerda a igreja, a meio a porta de armas. O alferes Afonso Brandão saudou a sentinela e entrou no edifício onde estava aquartelado o Regimento de Infantaria 8. Atravessou o pátio de entrada e galgou a pedra das vastas escadarias interiores que cruzavam o centro das instalações. Afonso subiu os degraus sempre a admirar os vistosos azulejos azuis que embelezavam as paredes caiadas, eram reproduções de bucólicas cenas de monges em jardins, reminiscências da origem religiosa do vasto edifício. Na sua anterior passagem por Braga, nos tempos do seminário, soubera que aquele quartel era o antigo convento dos eremitas de Santo Agostinho, pelo que a decoração não lhe passou despercebida. Calcorreou o soalho de madeira no primeiro andar e foi apresentar-se aos seus superiores hierárquicos.

A vida de um oficial no quartel de Braga era tão aventurosa como o retiro de uma freira num convento. Sem nada para fazer, a não ser talvez entediar-se até à morte, Afonso passou os primeiros dias a reconhecer o edifício e a inteirar-se da sua história. Descobriu que o Estado havia tomado conta do convento em 1834, quando da guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel, passando as instala-ções a servir de boleto das várias forças militares que iam para Braga enfrentar a guerrilha miguelista e pacificar a região. Infantaria 8, originalmente um regimento de Castelo de Vide, foi uma dessas forças, tendo sido destacado para o Minho com a missão de combater os miguelistas e Maria da Fonte, e acabando por se fixar no quartel do Pópulo em 1848, a pedido do município bracarense.

Quadros rústicos no topo das paredes das escadarias centrais do quartel mencionavam “combates em que tomámos parte nas alturas de”, seguindo-se uma longa lista de locais e datas, Buçaco em 1810, Fuentes de Onoro em 1811, Salamanca em 1811, Pyreneos em 1813, Nive em 1813, Barcelona em 1814, Orthez em 1814, Toulouse em 1814, e outros registos do género. Afonso estranhou alguns dos nomes e foi ter com o alferes Pinto, um minhoto magro e ruivo, chamavam-lhe o Cenoura, rapaz arrebatado e nervoso, simpatizante da monarquia e com quem tinha travado amizade. O alferes Pinto estava havia dois anos no regimento e Afonso perguntou-lhe o que significavam aquelas referências.

“São as batalhas em que o nosso regimento participou”, esclareceu prontamente o Cenoura.

“Infantaria 8?”

“Sim, claro, quem querias que fosse? “

“Mas ali são mencionadas cidades francesas, como Orthez e Toulouse... “

“ E então?”

“Mas nós estivemos a combater em França? “

“ Sim. “

“Em França?”

“Sim, claro. Foi durante as invasões napoleónicas. Fomos atrás dos gajos pela Espanha e pela França, com o Wellington a comandar-nos, dizia ele que nós éramos os galos de guerra do seu exército. “

“Arre!”

Para matar o tempo, Afonso tornou-se visita regular do padre Álvaro e foi duas vezes ao Largo de São Thiago visitar o seminário e rever rostos conhe-cidos. Os seminaristas eram outros, mas D. Basílio Crisóstomo permanecia ainda como vice-reitor e os professores mantinham-se, à excepção do padre Fachetti, entretanto regressado a Nápoles, e do padre Nunes, que se transferira para o Porto. Vê-lo de uniforme deixou os padres surpreendidos, Afonso passara de soldado de Cristo a soldado de el-rei, ironia que suscitou comentários espirituosos.

“Ainda dás pontapés nas pedras? “, perguntou-lhe o padre Francisco, o bonacheirão mestre de Retórica.

Todos se riram e Afonso corou.

“Às vezes. “

“Mas que grande pagodeiro! “, troçavam os padres, divertidos a recordarem as bizarras cenas no pátio do seminário.

Até o vice-reitor, que na altura não achara piada nenhuma às brincadeiras, parecia agora encontrar nelas uma graça inesperada, como se aquele comportamento que suscitara a expulsão do seminarista se tivesse transformado numa mera excentricidade digna de figurar na mitologia da instituição.

“Então como é que deste em oficial, Afonso, tu que não fazes mal a uma mosca? “, quis saber D. Basílio Crisóstomo.

“Oh, é uma longa história”, suspirou Afonso. “Digamos que andei à procura de uma profissão em que não se faça nada. Como vocês não me deixaram ir para padre, lá fui eu para a tropa.

“Estás a ser injusto”, comentou o padre Francisco com ar trocista. “Nós dedicamo-nos a Deus, e nada existe de maior responsabilidade. Além do mais, temos de aturar os alunos do seminário, e isso dá uma trabalheira dos diabos, acredita. “

“Oh, se dá”, concordou D. Basílio em tom bonacheirão. “Mas olhem que nós na tropa também nos fartamos de trabalhar”, atalhou Afonso.

“A fazer o quê, pode saber-se? “

“Muita coisa. Para além das formaturas, jogamos às cartas, bebemos umas cervejolas, andamos a ver as catraias, fatigamo-nos a dormir, é uma canseira, um labor que só visto “

Apesar de cultivar um discreto sentido de humor, o alferes Afonso não era homem de fazer muitos amigos. Tratava-se de uma pessoa de trato fácil e tor-nara-se relativamente culto e interessado no mundo, mas nas relações pessoais preferia a qualidade à quantidade. À excepção do alferes Pinto Cenoura, o seu rol de amigos era formado sobretudo por aqueles que tinha conhecido ao longo da vida. Convivia com o padre Álvaro em Braga e ia visitar Gustavo Mascarenhas a Vila Real, o amigo sempre conseguira lugar em Infantaria 13, o que não era surpresa para ninguém, Vila Real não era um sítio muito procurado pelos cadetes que se formavam na Escola do Exército. Chegou até a ir a Vinhais para ver Américo. O antigo companheiro do seminário estava diferente, casara, tinha filhos e envolvera-se no negócio do pai. Recebeu Afonso com efusão, encheu-o de comida e rodeou-o de atenções, mas Vinhais era longe e aquela foi a única viagem que o oficial fez até à remota povoação transmontana. O alferes mantinha igualmente correspondência com Trindade Ranhoso, que seguira o curso de estado- maior e ainda permanecia na Escola do Exército. Era através destas cartas que Afonso ia recebendo notícias do Campeonato de Lisboa de football, sendo informado pelo Ranhoso de que o Bemfica pusera fim ao reinado do Carcavellos Club e sagrara-se finalmente campeão. O Sporting ficou em quinto lugar. O alferes celebrou a notícia com vinho do Porto e mandou uma carta ao sportinguista Mascarenhas a dar-lhe a notícia e a apresentar-lhe os pêsames.

Afonso nunca prestara especial atenção à política, esse era um assunto que não fazia parte do seu universo de interesses. Nisso tornou-se uma excepção. Quase todos os seus colegas discutiam com ar conspirativo o conturbado estado do país, e Afonso foi reparando que, apesar do ambiente predominantemente conservador de Braga, alguns oficiais eram republicanos. A cedência da Coroa ao ultimato britânico de 1890, que desfizera os sonhos imperiais do mapa cor-de-rosa, minara profundamente a credibilidade da monarquia no meio militar, e não só. O descontentamento grassava por toda a parte e o próprio Afonso tendia a concordar com a ideia de que a monarquia era coisa do passado. A imagem do rosto lácteo de D. Manuel II na abertura do ano escolar de 1908 ficara-lhe indelevelmente marcada na memória, era para ele um choque pensar que o rei não passava de um rapazote da sua idade, como era possível acreditar que um miúdo ainda imberbe seria capaz de governar um império?

Foi ao pequeno-almoço, no quartel de Infantaria 8, que Afonso ouviu pela primeira vez a notícia de que algo muito grave estava a acontecer em Lisboa. Corria a manhã de 4 de Outubro de 1910.

“Já sabes da novidade?“, perguntou-lhe o alferes Pinto com um tom sigiloso mal o viu.

“Sei, o Bemfica é campeão. “

“Não sejas parvo. Andam aos tiros em Lisboa. “ “ O quê?”

“Disse-me o telegrafista. “

“Andam aos tiros? “

“É como te digo. Parece que saiu à rua o movimento republicano e houve algumas unidades que aderiram. “

“Quem? “

“Não sei bem. O telegrafista falou-me na Marinha e na Artilharia 1, mas a situação permanece confusa. “

“E nós? “

“E nós? E nós nada, estamos longe das coisas. O coronel reuniu-se com o seu estado-maior, os majores e os oficiais da sua confiança. Dizem eles que foram conferenciar, mas eu acho que estão mas é cagados de medo e preferem ficar a ver o que é que isto dá para depois apoiarem o vencedor”

“Tu quem é que apoias? “

“Eu? Que pergunta, Afonso. Eu sou pelo rei, já sabes. “ O dia prolongou-se, tenso e enervante, e os oficiais do regimento de Braga passaram as horas em redor do telegrafista e a conspirar em voz baixa nos corredores, uns pela monarquia, outros pela república, a maioria na expectativa e sem se compro-meter. Pedaços soltos de informação eram despejados pelo telégrafo. Segundo as notícias que vinham a conta-gotas, elementos de Artilharia 1 e Infantaria 16 tinham ocupado a Rotunda, onde também se encontravam alguns cadetes da Escola do Exército e civis armados, falava-se na Carbonária. As forças leais ao rei ocupavam o Rossio e defendiam pontos estratégicos, como os bancos, o Arsenal do Exército e o Palácio das Necessidades, onde se refugiava o monarca. A certa altura veio a notícia de que um dos chefes dos revoltosos, o almirante Cândido dos Reis, se suicidara após ter tido a informação de que o golpe fracassara.

Pouco depois de se conhecer esta notícia, o comandante do regimento de Braga abandonou a sua reunião de estado-maior para se colocar ao lado do rei. Sentira que os monárquicos iam ganhar e apressara-se a posicionar-se no lado vencedor. Foi um erro. Os navios da Marinha desataram a bombardear o Rossio e o Palácio das Necessidades, e uma bandeira branca empunhada por um diplomata alemão para obter uma trégua destinada a retirar os cidadãos estrangeiros foi erradamente interpretada como sendo um sinal de que os monárquicos se rendiam. Os populares saíram em massa à rua para festejarem a vitória da República. O regime ficou desconcertado e, num acesso de pânico, o rei fugiu. Na manhã do dia 5, os líderes do movimento republicano subiram à varanda da Câmara Municipal de Lisboa e, perante uma vasta e eufórica multidão que se concentrara na Praça do Município, José Relvas proclamou a República em Portugal.

A vida mudou imenso em Braga. O novo poder em Lisboa contou as espingardas monárquicas nos regimentos e procedeu à limpeza. O coronel que comandava Infantaria 8 passou à reforma antecipada e o mesmo aconteceu aos majores e capitães da sua confiança que tinham cometido a imprudência de apoiarem a monarquia no momento em que esta se desmoronava. Pinto Cenoura, apesar de monárquico, escapou à varridela geral, lá devem ter pensado que não valia a pena preocuparem-se com a arraia-miúda, e o que era um alferes senão arraia- miúda? Seja como for, a limpeza provocou um movimento ascendente no quartel.

Como vagaram vários postos de oficiais, sucedeu-se uma catadupa de promoções e Afonso deu consigo em tenente apenas um ano depois de ter abandonado a Escola do Exército. Mas as vagas continuavam por preencher, pelo que, logo a seguir, foi a vez de o alferes Pinto ser igualmente promovido, talvez a sua costela monárquica fosse considerada uma mera bizarria da juventude.

A República trouxe consigo um acirrado clima anticlerical, o que se traduziu num rápido cerco à Igreja, fruto da promessa do novo governo em acabar com o catolicismo no país em duas gerações. Os jesuítas foram expulsos, o ensino do catolicismo proibido nas escolas públicas, vários bispos foram destituídos ou desterrados e foi aprovada a lei do divórcio. Em 1911 foi publicada a lei da separação das igrejas do Estado, que pôs fim aos subsídios à Igreja e lhe expropriou bens, incluindo propriedades. Um édito mandou encerrar todos os seminários do país e o Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo não foi excepção. Professores e alunos foram mandados para casa e o edifício do Largo de São Thiago entregue a Infantaria 29.

“Este país está um caos”, queixou-se amargamente o vice-reitor, D. João Basílio Crisóstomo, quando Afonso o visitou nas vésperas de o edifício ser abandonado. “Valha-me Deus, o poder caiu à rua! Onde é que já se viu perseguir assim a Igreja? Parece que voltámos à Roma antiga! “

“Tenha calma, D. Crisóstomo, que tudo se há-de compor. “ “Calma? Calma? Valha-me Deus, Afonso! “, agastou-se o vice-reitor, deambulando amargurado por entre os caixotes de tralha que arrumava antes que chegassem os homens do 29. “É uma vergonha para a civilização o que nos estão a fazer. Uma vergonha, ouviu bem? E uma vergonha para o uniforme que você enverga! Onde é que já se viu entregar um seminário à tropa? Onde é que já se viu mandar encerrar os seminários? Mas que país é este, Virgem Santíssima, que país é este que assim persegue a fé?”

As mudanças eram generalizadas e atingiram quase todas as instituições. Até a Escola do Exército teve de mudar de nome, passando em 1911 a Escola de Guerra. O governo republicano reorganizou o Exército, abandonando o modelo profissional e adoptando a forma miliciana, e a Escola viu suprimido o curso de Engenharia Civil, ficando exclusivamente dedicada ao estudo das ciências bélicas. Rolaram cabeças monárquicas por toda a parte e os postos cruciais foram entregues a republicanos, mas a maior parte dos oficiais que ocupavam os cargos intermédios permaneciam leais à coroa exilada e manifestavam má vontade para com o novo regime.

O aparecimento da República não pôs fim à conturbada instabilidade política em que o país estava mergulhado, até porque havia uma enorme expectativa popular em relação aos republicanos, expectativa de que as suas políticas conduziriam rapidamente à estabilidade e à prosperidade e que eles, naturalmente, não conseguiram satisfazer. Em boa verdade, só se podiam recriminar a si mesmos, tão alta tinha sido a fasquia que colocaram quando se encontravam na oposição à monarquia. Para conter os preços dos produtos alimentares básicos, o novo governo criou uma tabela de preços independente da lei da oferta e da procura. Como resultado, e apesar de a tabela nem sempre ser respeitada, a produção agrícola baixou em qualidade e quantidade. Nos mercados começaram a escassear os cereais, o feijão, a batata e a carne, e até o pão se tornou escuro e malcheiroso.

O descontentamento grassava, em particular no Norte, liderado pelo clero. Os próprios republicanos estavam divididos, com Afonso Costa a chefiar os radicais, António José Teixeira a liderar os moderados e Brito Camacho à frente dos conservadores. As medidas radicais, tanto no combate à Igreja como na política económica e social, eram invariavelmente levadas a cabo por Afonso Costa, com Teixeira e Camacho horrorizados com o que consideravam serem excessos reformistas. Como se toda esta confusão não bastasse, também os monárquicos se encontravam divididos, com os fiéis do rei no exílio a mostrarem-se mais moderados na sua oposição à República do que um outro grupo, chefiado por Paiva Couceiro, que se refugiara na Galiza e se preparava para pegar em armas. No meio deste clima efervescente multiplicavam-se os boatos e falava-se em golpes de Estado, em novas revoluções, em guerra civil.

Embora não estivesse alheado dos problemas que o rodeavam, Afonso viveu com indisfarçável prazer a sua condição de tenente. O soldo de tenente era melhor do que o de alferes, as refeições na messe dos oficiais não eram más apesar da crise, ia à missa na Sé, sentando-se sempre por baixo do magnífico órgão, como nos seus tempos de seminário, e usufruía da cumplicidade de novos amigos, sobretudo do tenente Pinto.

Na companhia do Cenoura, Afonso ganhou gosto às coisas doces da vida. Passavam o dia a jogar bridge no café A Brazileira, onde um cartaz na esquina da Rua Nova de Sousa, rebaptizada Rua D. Diogo de Sousa em 1912, anunciava que “o melhor café é o d'A Brazileira”, ou a ver as garotas a bambolearem-se no Jardim Público. Iam comprar maís e regueifas de pão podre à Padaria Central ou comer sameirinhos e fidalguinhos à Marinho & Filho, a velha pastelaria que todas as tardes lhes adoçava a boca e temperava a alma. Por vezes almoçavam na Pensão Aliança, que servia boas sarrabulhadas, ou no Hotel Central, mesmo junto ao quartel, onde a opção variava sobretudo entre o sarapatel e o empadão de peixe.

Às quintas e domingos à noite, Afonso e os restantes oficiais juntavam-se às famílias em torno do coreto do Jardim Público, pomposamente designado Pavilhão Musical, e escutavam os concertos da banda militar de Infantaria 8. Nas outras noites, os tenentes Afonso e Pinto iam encher-se de cerveja na Cervejaria Cruz & Sousa ou davam um salto ao Café Vianna, por baixo da Arcada, e ficavam a jogar à roleta, à batota e à banca francesa até às duas da manhã. O ambiente fumarento era animado pela melodia alegre dos concertos de piano e pelos bailados das roliças dançarinas contratadas para entreterem os fregueses. Uma vez por outra, enquanto mirava as carnudas bailarinas do Vianna, Pinto desafiava o amigo.

“Ó Afonso, vamos às meninas das Travessas. “

Primeiro envergonhadamente, depois mais à vontade, Afonso seguia o Cenoura e iam ambos ao Bairro das Travessas, por detrás da Sé, visitar as pros-titutas da Rua de Santo António das Travessas. Aquele era um bairro proibido, só frequentado por mulheres de má fama e por homens que as procuravam. Nenhuma mulher honrada se atrevia a pôr o pé naquelas paragens de ruelas estreitas e intenções suspeitas, quem fosse por ali encontrada perderia certa-mente a honra e dir-se-ia que tinha sido “vista nas Travessas”, referência humilhante e vergonhosa que marcaria para sempre qualquer mulher como rifeira, trapalho, buxote, e mesmo, se os comentários se tornavam verdadeira-mente cruéis, buscate. Atormentado pela velha consciência de seminarista, mil vezes jurou Afonso a si mesmo que não mais voltaria lá e mil vezes quebrou a promessa.

A rotina apenas foi alterada numa manhã de 1913, quando a cidade se encheu de um grande burburinho porque o enorme pinheiro americano veio abaixo, a versão oficial era a de que a grande árvore fora derrubada pelo temporal da noite anterior, mas um empregado do Café Vianna confidenciou a Afonso, com ar conspirativo e misterioso, que, na verdade, isso era desculpa, ela tinha era sido cortada. O que é facto é que o município aproveitou para derrubar os muros do Jardim Público do Campo de Sant'Anna e abrir uma grande avenida desde o ponto onde anteriormente se encontrava o pinheiro americano até lá ao fundo, em direcção ao Sameiro. Com a nova Avenida Central a rasgar o jardim ao meio, abriu-se um passeio público em ambas as alas da avenida, instalando-se ali uma curiosa segregação social que muito divertia o jovem tenente. Os soldados e o pessoal mais despojado subiam o passeio pelo lado direito da grande avenida, frequentando amiúde o Café Avenida, que as boas gentes de Braga apelidavam desdenhosamente de “café do reviralho”. Quanto às boas gentes, essas preferiam o lado esquerdo do passeio público, com os papás e as mamãs a concentrarem-se junto ao coreto, que sobrevivera à devastação do Jardim Público, enquanto os casais de namorados seguiam em par avenida a cima, avenida a baixo, separando-se perto do coreto para que os pais não os vissem juntos, um para um lado e outro para outro, e reencontrando-se mais à frente.

Quando saía de Braga, Afonso dividia as suas licenças com passeios pelo Minho e visitas ao Porto e a Lisboa. Evitava, no entanto, Rio Maior, onde, desde que Carolina casara com o seu engenheiro dos caminhos de ferro, se limitava a rápidas excursões à Carrachana para ver a família. Mas, sempre que lá ia, fazia questão de passar propositadamente perto da Casa Pereira a exibir o seu belo uniforme, certo de que a sua aparição seria comunicada à antiga namorada com pormenores apimentados. Há-de roer-se de remorsos, pensava Afonso enquanto acariciava o punho do sabre durante esses penosos passeios pelo centro da povoação, périplos que culminavam com uma volta pela recém-baptizada Praça da República, onde visitava o velho chafariz para matar a sede antes de ir comer uma cachola com arroz ou um delicioso magusto à casa de pasto da viúva Maria das Dores.

Mas eram as idas a Lisboa e ao Porto que verdadeiramente lhe davam prazer, sentia-se atraído pela civilização, pelas mulheres elegantes, pela modernidade. Nessas deslocações continuava a acompanhar o football e a visitar os animatógrafos. Em Braga lia o semanário local, o Pátria Nova, mas também o Commércio do Porto e, sempre que calhava, os jornais da capital e a Ilustração Portugueza. Não era uma pessoa politicamente madura mas, apesar de manter uma atenuada costela religiosa, mais por força do hábito do que por convicção arreigada, ia-se inclinando para os republicanos, considerava-se um democrata e intimamente apoiava o radical Partido Democrático, no governo, e o audacioso primeiro-ministro Afonso Costa, afinal de contas os Afonsos tinham de ser uns para os outros.

O regimento foi diversas vezes colocado em alerta devido às incursões monárquicas. Na de 1911, quando a força invasora liderada por Paiva Couceiro entrou em Trás-os-Montes com setecentos homens e ocupou Vinhais, Afonso ficou encarregado de controlar o acesso a Braga pelo Arco da Porta Nova. E na de 1912, quando a mesma força veio da Galiza e tentou assaltar Chaves, coube-lhe a missão de defender a estrada para Trás-os-Montes. O tenente Pinto acompanhou-o em ambas as ocasiões, mas a sua presença deixou-o intranquilo e desestabilizado. En quanto vigiavam as suas posições, o Cenoura passou o tempo a dizer que, se os homens do Paiva Couceiro lhe aparecessem pela frente, juntar-se-ia a eles, afinal era esse o seu dever de patriota. Afonso praguejava e, em silêncio, suplicava a Deus que não deixasse Paiva Couceiro chegar ali a Braga, seria a maior confusão naquela terra de conservadores e monárquicos. Por outro lado, tornou-se-lhe evidente que os padres colaboravam activamente com os monárquicos, mas fez-se distraído, afinal de contas a sua unidade não chegou a entrar em combate e não valia a pena meter-se em trabalhos. Já o seu amigo Mascarenhas, mais a sua Infantaria 13, viu acção de sobra, ossos de ofício para quem se encontrava aquartelado em Vila Real.

O jovem tenente sentou-se numa manhã de Agosto de 1914 à janela do Café Bracarense e abriu uma edição atrasada do Cinematógrafo, o semanário humorístico da cidade. Vilela, o apressado director do Echos do Minho, passou pelo balcão para pedir um rápido café e saudou-o à distância.

“Olá tenente”, disse Vilela. “Então já sabe das últimas? “

“ Hã “

“Começou a guerra. A Alemanha declarou guerra à França e dizem que vai haver chatice nas colónias. “

A novidade deixou-o pensativo e preocupado. Já sem vontade de se rir com as graçolas do Cinematógrafo, pagou o café e saiu. Como se fizera uma tarde quente de Verão, foi sentar-se num banco em frente ao coreto, à sombra de uma árvore, a meditar sobre aquela tremenda notícia. De olhos perdidos nas ameias da Torre de Menagem, perfeitamente visível do coreto, Afonso logo pressentiu que dificilmente o país sairia incólume, em particular por causa das colónias portuguesas em África, ambicionadas pela Alemanha.

Dois dias depois de se encetarem as hostilidades, Londres pediu a Lisboa que não se declarasse neutral nem beligerante e os jornais encheram-se de notícias de uma declaração aclamada no Parlamento a unir o destino de Portugal ao de Inglaterra, com juras de apoio militar. Dois meses depois, na sequência de um pedido de peças de artilharia para o exército francês, os aliados aceitaram a entrada de Portugal na guerra e começou a ser estudado o envio de uma divisão para França, designada Divisão Auxiliar. No entanto, a situação nas colónias portuguesas obrigou a repensar as prioridades. Os alemães atacaram Angola pelo Sul e entraram em confronto com as forças portuguesas no sector de Naulila, sucedendo-se outros incidentes em Moçambique com unidades alemãs vindas do Norte. As próprias populações locais aproveitaram o clima de instabilidade e algumas revoltaram-se contra os portugueses. Foram enviados reforços para África, Braga contribuiu com Cavalaria 11 para Angola, e todo o processo para se criar a Divisão Auxiliar, destinada a combater no teatro europeu, sofreu um atraso. O processo foi mesmo interrompido no ano seguinte, durante a efémera ditadura do general Pimenta de Castro, sendo reactivado logo que este foi derrubado, em Maio de 1915, após uma acção militar levada a cabo por elementos essencialmente afectos ao Partido Democrático e que restabeleceu a democracia.

A Divisão Auxiliar passou a ser designada Divisão de Instrução. Em Abril de 1916, o Ministério da Guerra publicou a lista de trinta e dois regimentos que deveriam ser mobilizados, e Infantaria 8, que pertencia à 8. a Divisão, era um deles. A primeira opção foi, porém, a de colocar apenas quatro divisões a prepararem-se para as hostilidades, com a 8. a de reserva. Apesar disso, um grupo de oficiais do 8, incluindo Afonso, foi destacado em finais de Maio para Tancos, onde se envolveu no colossal esforço de preparar a tropa para a guerra europeia.

Um mar de soldados encheu toda a área entre Mafra, Tancos e Vendas Novas, eram ao todo vinte mil homens instalados num gigantesco acampa-mento de barracas de madeira e de lona que tinha sido montado numa charneca acabada de desmatar.

Logo no primeiro dia, quando se apressava a cumprir uma ordem que lhe tinha sido dada pelo major Montalvão, viu o entusiasmo refreado por outros oficiais.

“Onde é que vais com tanta pressa, ó Afonsinho? “, perguntou-lhe o capitão Cabral, um republicano conservador, displicentemente encostado a um pinheiro manso.

“O major Montalvão mandou-me chamar os homens para a ginástica, meu capitão. “

“O major Montalvão?“, riu-se o capitão. “Esse gajo quer é subir na vida e julga que vai para a guerra.“

Afonso olhou-o, atrapalhado.

“Meu capitão, é para isso que nos estamos a preparar... “

“Estás parvo, ó Afonsinho? Alguma vez nós vamos para a guerra com esta tropa fandanga? Achas que os ingleses nos querem lá?”

“Isso não sei, meu capitão. Mas as ordens são para...

“Quais ordens qual carapuça! Então se te mandarem atirar a um poço, tu atiras-te? Esta malta quer usar-nos para os seus fins, as suas negociatas, as suas ambições. Tem mas é juízo e abre os olhos! “

“Peço licença, meu capitão”, disse Afonso, percebendo a inutilidade de alimentar a conversa e com pressa de ir chamar os homens.

“Vai lá, vai lá, mas não te deixes comer por esses vivaços.” Tornou-se imediatamente claro que o quadro de oficiais de Tancos estava dividido quanto aos preparativos para a guerra. Apenas os republicanos afectos ao Partido Democrático de Afonso Costa pareciam verdadeiramente empenhados no processo de instrução, transbordando de entusiasmo e de desejo de fazer coisas. Os outros, monárquicos ou republicanos opositores ao partido do governo, mostravam- se cépticos, a sua postura era negativa e a atitude transbordava de cinismo, para eles era tudo impossível, a falta de equipamento revelava-se um obstáculo intransponível, os soldados não passavam de uns bandalhos e maltrapilhos, as chefias eram formadas por incompetentes e oportunistas.

O clima tornou-se muito politizado e, por mais que se tentasse manter afastado daquele debate, Afonso viu-se irresistivelmente atraído para a polémica, era impossível manter-se distante, o assunto emergia em qualquer conversa, não havia modo de o evitar, até o seu melhor amigo dentro do regi-mento o puxava para a discussão. O tenente Pinto, o Cenoura, alinhava pelos anti-intervencionistas, e, embora sem surpresa, Afonso depressa o descobriu na primeira manhã em Tancos, quando saíram da tenda à procura das latrinas.

“Mas o que é que nós estamos aqui a fazer? “, interrogou-se o Cenoura, insatisfeito, de passo rápido no encalço do amigo, olhando para o descon-chavado acampamento de barracas e tendas que se prolongava em redor até perder de vista. “A cidade de Pau-Lona. Diz-me lá se isto tem algum jeito? “

Afonso passou a mão pelo cabelo revolto, tentando penteá-lo com os dedos.

“Estamos a fazer o que nos mandam. “

“Mas eu não sei se quero fazer o que nos mandam estes parvos.”

“Tens bom remédio, Pinto”, devolveu-lhe. “Sais do Exército. “ “Era o que mais faltava, sair do Exército por causa dos cabrões dos republicanos. “

“Então, se ficas, sujeitas-te, o que é que queres que eu te diga? “ “O que eu quero é estar a empregar bem o meu tempo, em vez de andar metido em cavalgadas idiotas, estes gajos estão a encher-se de dinheiro e a conduzir o país à ruína e nós estamos a colaborar nesta estupidez. “

“Ó Pinto, nós estamos aqui para fazermos o nosso trabalho”, impacientou-se Afonso. “O resto é conversa. “

“Não é bem assim, Afonso”, retorquiu o Cenoura, agastado. “Nós estamos a ser cúmplices nesta loucura. Tu achas mesmo que faz algum sentido Portugal envolver-se nesta guerra? Então vamos meter- nos naquele matadouro que não nos diz respeito só porque os senhores republicanos estão à rasca com a contestação que cresce no país?

“Não tem uma coisa a ver com a outra “

“Ah não, não tem! Então por que é que achas que aqueles parvos querem meter Portugal na guerra? “

“Bem. “, atrapalhou-se Afonso, parando para se concentrar na resposta, lá ao fundo já se viam as latrinas e a fila de homens à espera da sua vez para defecarem naquele descampado imundo, o fedor a fezes sentia-se à distância. “Em primeiro lugar, para defender as colónias e o império. E, além disso, é importante que o país se afirme no concerto das nações. “

“Concerto das nações? “

“... e marque a diferença em relação à Espanha. “ “Essa do concerto das nações é boa! Andas a ler muito a imprensa republicana “

“Porquê? Não é verdade? “

“Claro que não”, exaltou-se Pinto, gesticulando profusamente. “Não vês que tudo isto só tem a ver com as miúfas que esta malta tem de que o regime mude?”

“Não, não vejo “

“Ó Afonso, mete-me isto bem na cabeça”, disse, de dedo em riste e o bigode ruivo a tremer. “O governo está aflito com a contestação às suas polí-ticas ruinosas e espera fazer da guerra uma causa comum, quer criar uma união sagrada que cale as dissenções e consolide o regime. Tudo à custa do nosso sangue e tudo para que aquele bando de chupistas mantenha os seus tachos. “

“Estás parvo. “

“Não tenhas dúvidas de que é como te digo. Enquanto andamos todos a apoiar os soldadinhos que vão para a guerra, coitadinhos, ninguém contesta o governo. Os republicanos estão a tentar fazer da sua causa uma causa nacional, uma union sacrée como os franceses, e com isso tencionam manter-se no poleiro, o verdadeiro objectivo de todo este exercício. “

“Que exagero “

“Podes crer que é verdade. Isto não tem nada a ver com esse tal concerto das nações. “

“Claro que tem, ou não sabes que a Alemanha quer abocanhar o nosso império? Além disso, não te esqueças da Espanha. “

“A Espanha? “, riu-se Pinto. “Não me vais agora dizer que queremos entrar na guerra por causa dos espanhóis. “

“Ri-te, ri-te. Mas não te esqueças de que os ingleses andam chateados com o derrube da monarquia e começaram a fazer olhinhos aos espanhóis. Não leste no jornal que os gajos nos disseram que a aliança militar não envolve a defesa das nossas fronteiras terrestres, apenas a defesa da costa e das colónias? O que é que pensas que isso quer dizer, hã? Os bifes estão a tramar alguma. E não te esqueças também de que já andam em Espanha a falar na necessidade de anexar Portugal e de esmagar o bichinho da República antes que ele lá chegue. Além disso, lembra-te de que foi de lá que vieram as incursões militares do Paiva Couceiro nos últimos anos. Junta os ingleses aos espanhóis e estamos todos arrumados, o que é que pensas? “

“Tudo basófias, moinhos de vento, espantalhos para assustar a malta. Mas, não te preocupes, essa treta de irmos para a guerra não vai passar de conversa “

“Isso já não sei. “

“Mas sei eu. Só vamos para a guerra se a Inglaterra nos pedir. E a Inglaterra, que não é parva e nos conhece de ginjeira, nunca o vai pedir. Por isso, cá vamos ficar nós a brincar às guerras aqui em Tancos. “

“Olha que há dois anos, quando a guerra começou, eles pediram para a malta entrar. “

“Isso já lá vai. Não fomos e agora já não vamos. Os bifes já nos toparam, para que é que querem eles um bando de maltrapilhos a combater lá em França? Dávamos-lhes mais trabalho do que uma divisão de boches. “

Afonso fixou os olhos na fila de homens à sua frente, à espera de vez para entrar nas latrinas, e decidiu pôr termo à discussão.

“Olha lá, vamos ou não aliviar-nos? “

Os prós e os contras dos preparativos para a guerra eram calorosamente discutidos na messe de Tancos, transformada num verdadeiro caldeirão de intrigas e conspirações, os oficiais a degladiarem-se sobre os méritos e demé-ritos de um eventual envolvimento de Portugal na guerra, um envolvimento em que poucos, na verdade, acreditavam. Mas os acontecimentos precipitaram-se em 1916.

A Grã-Bretanha precisava de reforçar a sua frota de navios para compensar as perdas que a campanha levada a cabo pelos submarinos alemães estava a infligir no contingente da marinha mercante. No início do ano, os aliados descobriram que trinta e seis navios alemães se tinham refugiado em portos portugueses e, após uma troca de mensagens, Londres invocou a aliança militar e pediu a Lisboa que apreendesse os barcos. Os navios foram tomados de assalto a 23 de Fevereiro e a Alemanha declarou guerra a Portugal a 9 de Março.

O clima conspirativo atingiu por toda a parte o seu clímax. Apenas o Partido Democrático, no poder, e o Partido Evolucionista apoiavam a entrada de Portugal na guerra. Tudo o resto era oposição. Os unionistas, os monár-quicos, os católicos, os socialistas, os sindicalistas, os republicanos moderados, os republicanos conservadores, a maior parte do Exército, todos se mostravam anti- intervencionistas. Conspirava-se nos corredores do Parlamento e nos quartéis, nos cafés e nos botequins.

Ainda em Tancos, e em pleno ambiente de surda contestação, o capitão Cabral voltou a acercar-se de Afonso para exprimir o seu descontentamento com o estado de coisas. Repetiu os argumentos do costume sobre o despro-pósito da intervenção portuguesa e a irresponsabilidade criminosa do governo, e o tenente, sem querer entrar em discussões que lhe pareciam estéreis, a tudo foi dizendo que sim, pois claro, é uma vergonha, o que é que se pode fazer? isto não tem remédio. Encorajado com a aparente receptividade de Afonso, e sem a perspicácia de perceber que se tratava de mera cortesia destinada a evitar um confronto verbal com um superior hierárquico, o capitão deixou cair o verdadeiro propósito da conversa.

“Ó tenente, diga-me lá sinceramente”, atalhou, como quem não quer a coisa, ao mesmo tempo que o sondava intensamente com os olhos. “Você estava disposto a tomar uma atitude? “

“Uma atitude, meu capitão? Mas que atitude posso eu tomar?“ “Uma atitude, homem, uma coisa a sério. Sei lá, ajudar a impor a voz da razão.“

Afonso pensou no que aquelas palavras não diziam, mas sinuosamente insinuavam.

“Pegar em armas, quer o meu capitão dizer? “

“Eh lá, rapaz, essa é uma maneira forte de pôr as coisas”, atalhou Cabral com uma gargalhada nervosa e os olhos perscrutadores, à procura de sinais de cumplicidade. O rosto recuperou depois a seriedade e a voz manteve-se serena, embora um tudo-nada excitada. “Temos de pensar no que vamos fazer. Mas é verdade que somos militares e temos uma responsabilidade para com a pátria. Se essa responsabilidade nos obrigar a pegar em armas... “

O capitão Cabral deixou a frase a pairar sibilinamente no ar, aguardando com expectativa a reacção do tenente. Afonso olhou para as unhas como se estivesse preocupado com a porcaria lá entranhada e levou um bom momento a pegar na palavra.

“Às ordens de quem, meu capitão? “

Cabral sorriu.

“Digamos que há uma importante figura da República que quer pôr fim à bagunça, colocar as coisas em ordem e salvar o país de uma catástrofe... “

Afonso endureceu o rosto.

“Meu capitão, eu fiz um juramento de bandeira e tenciono respeitá-lo. Actuar... “

“Eu também, Afonso, eu também respeito a bandeira. “

“Deixe-me acabar. “

“Diga lá “

“Eu respeito o meu juramento de bandeira. Isso significa que cumpro as ordens que são legitimamente dadas pela minha hierarquia. Actuar de modo a violar a lei é algo que eu não farei “

“Mas asseguro-lhe, Afonso, que nós também. “

“Meu capitão”, cortou Afonso. “Não participarei em nenhum acto ilegal ou sedicioso e aconselho-o a que não me dê mais informações sobre o que tenciona fazer, o senhor e a importante figura da República que mencionou, porque senão ver-me-ei na obrigação de relatar esta conversa aos nossos superiores “

O capitão Cabral suspirou, agastado.

“Muito bem, Afonso, faça como entender. Se quer colaborar com esta política irresponsável e ruinosa para a pátria, colabore. Mas não se arme em moralista e em fiel defensor da legalidade, a história dirá quem são os verdadeiros traidores. “

Afonso passou a evitar os grupos, a conversa era sempre a mesma e enfastiava-o. Além disso, não queria ser permanentemente colocado no dilema de ter de escolher entre passar a vida a discordar dos seus camaradas ou, em alternativa, a ter de con cordar com eles para evitar discussões, mas correndo o risco de tal ser interpretado como um envolvimento tácito naquela epidemia de conspirações e má língua.

Mau-grado este clima, os preparativos militares prosseguiram e os elementos da Divisão de Instrução, uma vez completados os exercícios em Tancos, regressaram em Agosto aos quartéis. Foi com alívio que Afonso voltou a Braga e foi no quartel, em pleno exercício de esgrima, que ouviu pela primeira vez falar no Corpo Expedicionário Português. Inicialmente dizia-se que seria formado por uma única divisão, em Dezembro começaram a ser mencionadas duas divisões, e depois três. A partida das tropas foi marcada para o início de 1917, os primeiros regimentos a entrarem nos barcos seriam Infantaria 7, 15 e 28.

A apenas três semanas do embarque, as forças de Infantaria 34, aquarteladas em Tomar, iniciaram uma revolta. Corria o dia 13 de Dezembro e um dos heróis da República, o prestigiado general Machado Santos, o mesmo que no 5 de Outubro tinha liderado o audacioso avanço dos revoltosos republicanos da Rotunda até ao Rossio, fez publicar um Diário do Governo a demitir todos os ministros e a nomear substitutos. O jornal era falso, mas o envolvimento de Machado Santos verdadeiro, o herói da revolução republicana queria impedir o embarque das tropas para França. As unidades fiéis ao governo reagiram a tempo e a intentona falhou. Nos dias seguintes descobriu-se que a maior parte dos oficiais envolvidos na sublevação estavam escalados para seguirem para França. O executivo teve de os substituir à pressa, uma situação que atrasou em algumas semanas a partida do CEP. Pior do que isso, abalou profundamente o moral dos soldados. Se nem os seus oficiais os queriam conduzir na guerra, o que iam eles para lá fazer? Alguns capitães e majores de Infantaria 8, incluindo o capitão Cabral, foram detidos por causa do papel que desempenharam na revolta e tornou-se necessário preencher estas vagas. Afonso deu consigo promovido a capitão.

Os primeiros soldados portugueses embarcaram em Lisboa com destino a Brest nos finais de Janeiro de 1917, num ambiente de secretismo e alguma confusão.

O recém-promovido capitão soube da notícia quando estava sentado na messe com um copo de aguardente de cana na mão. O major Montalvão contou-lhe os pormenores durante uma partida de bridge, por entre duas baforadas de cachimbo e uma chávena de café. Quando a partida acabou e o major se foi embora, Afonso ficou a matutar no assunto, não sabia se deveria estar contente ou preocupado.

Viu-se perante um dilema. Por um lado, Portugal envolvia-se num conflito de dimensão europeia e respeitava os seus compromissos de aliança com a Inglaterra. Além disso, o Exército cumpria os seus deveres. Mas, por outro, tudo aquilo seria engraçado se não o envolvesse directamente, se não houvesse a possibilidade de também ele ser levado para aqueles palcos de morte.

Enquanto abstracção, a partida das tropas enchia-o de satisfação. Porém, enquanto acontecimento que poderia ter um impacto directo na sua vida, o embarque assustava-o. Embora, bem vistas as coisas, houvesse ali um lado de aventura que não lhe desagradava de todo, andar aos tiros de arma na mão, arriscar a vida, enfrentar o perigo, quem sabe se um acto de bravura não o tornaria um herói, um bravo, um Mouzinho, que nicada ficaria Carolina!

O aparecimento do tenente Pinto na messe levou-o a decidir-se a encarar a notícia pelo lado positivo, os medos eram para os cobardolas, em França espe-rava-o a acção, o heroísmo, a glória. Afonso, embrenhado nos seus pensa-mentos, reflectiu que possuía galões de oficial e tinha de se comportar como tal. Por outro lado, o apoio à partida das tropas sempre era uma forma de se meter com o tenente, um pretexto para o provocar, para remexer a sua visceral repulsa pelo envolvimento de Portugal na guerra.

“Lá vai a rapaziada naquela viagem que dizias que nunca se realizaria”, soltou Afonso maliciosamente quando o amigo se sentou com um copo de bagaço entre os dedos.

“Uma triste figura, é o que vão lá fazer”, resmungou o Cenoura entre dentes, pouco convencido.

“E apareceu toda a gente. Soldados, oficiais, não houve deserções.“

“Ah não? E então o que aconteceu em Santarém, hã?“ “Não me fales de Santarém.“

“Não te convém...“

“Não te convém é a ti.“

“A mim? “

“Sim, a ti. Foi uma vergonha o que lá se passou. Os soldados compare-ceram no quartel, não faltou um único, todos preparados para apanharem o comboio para Lisboa e seguirem para França. Todos. E os senhores oficiais ficaram todos em casa. “

“Estás a exagerar”, riu-se o tenente. “Olha que houve um alferes que apareceu. “

“Não gozes que é grave. Os oficiais desertaram, abandonaram os seus homens, e isso não é para brincadeiras. “

“Desertaram, não. Indignaram-se. “

“Desertaram. E já sabes o que lhes aconteceu?“

“Foram presos. “

“Não, depois disso. “

“Depois disso? Depois disso, nada. Estão presos. “ “Ó homem, não sabes o que lhes aconteceu? “

“Eu não. “

“Aaah, não sabes... Olha, foram enxovalhados pela populaça. O povo saiu à rua quando eles eram levados para a estação. As mães, as mulheres, as namoradas, as irmãs dos soldados, todas na rua a atirarem- lhes pedras e lama e a chamarem-lhes cobardes, a insultarem os oficiais que ficaram enquanto as praças partiram. Uma vergonha. “

“Mas quem é que te contou isso tudo? “

“O major Montalvão. “

“Esse também é uma boa peça”, murmurou baixinho, revirando os olhos. “Mas, olha, ao menos conseguiram não seguir para França. “

“Isso é o que tu pensas”, riu-se Afonso. “Foram condenados a trinta dias de prisão correccional e já estão a cumprir a pena num barco. “

“ O quê? Eles seguiram mesmo para França?”

“Seguiram, pois. “

“Não sei se será boa ideia. “

“Não vejo porquê. Parece-me até muito justo. “

“Ah sim? E como é que uns oficiais que estão contra a guerra vão chefiar os homens a combater? Já viste como vai ser? “

“Debaixo de fogo não têm outro remédio senão irem em frente, caraças. “

“Afonso, Afonso, as guerras não se ganham assim. Ganham-se com lide-rança e moral elevado, ganham-se com motivação e empenhamento. Diz-me lá que liderança, que moral, que motivação, que empenhamento, esses oficiais têm? “

Afonso fez um silêncio meditativo, ponderando naquela situação. “Sim, tens razão”, admitiu finalmente. “Pode ser um problema. Mas não vejo alternativas. Se eles tivessem ficado cá, isso seria um prémio e encorajaria outros a repetirem a mesma gracinha. “

Pinto tirou do bolso um maço de Mondegos e acendeu um cigarro.

“Outra coisa que não percebo é por que razão mandam a malta de barco”, disse pensativamente, expelindo uma baforada cinzenta. “Com os submarinos alemães à solta, parece-me um perigo desnecessário, é mais um disparate deste governo de merda. “

“Essa é boa! Então como é que querias que eles fossem?“ “De comboio, claro”

“De comboio? Estás parvo ou quê? “

“Mas qual é a dúvida? “

“Ó homem, a Espanha não deixa. “ “Não deixa? Não deixa porquê?”

“Política, o que é que havia de ser? “

“Mas o que é que a política tem a ver com isto?“ “O problema é que a Espanha é um país neutral e não autoriza o movimento de tropas beligerantes pelo seu território. Além do mais, não te esqueças de que os espanhóis simpatizam com os alemães.“

“Olha que isso não deve ser bem assim”, atalhou o tenente. “Disseram-me que o coronel Abreu vai seguir para França de comboio. “

“Vestido à civil, Cenoura, vestido à civil. Como turistas, sem a farda vestida, podemos ir por Espanha, não há qualquer problema. Mas não é possível enviar todo o CEP à paisana por comboio, como deves compreender. Portanto, como ir a nado não é opção, lá têm eles de apanhar os barcos “

O tenente Pinto ficou calado um momento.

“Se queres que te diga, os espanhóis é que tem razão”, desabafou finalmente.

“Em quê? Em serem neutrais? “

“Sim, nisso também. Mas refiro-me a apoiarem os alemães. “ “Não digas disparates!”

“Não é disparate nenhum. A que propósito é que vamos ajudar os ingleses e os franceses? “

“Ó Cenoura, temos de respeitar a nossa aliança com a Inglaterra. Se eles nos pedem ajuda... “

“Não me venhas com essa conversa. Os ingleses que têm uma aliança connosco são os mesmos que nos deram o ultimato em 1890 e são os mesmos que negociaram com os alemães a entrega das nossas colónias. E, quanto aos franceses, nem é bom lembrar as invasões napoleónicas nem o que eles escavacaram por aqui. Vamos ajudar essa malta? A que propósito? “

“É do nosso interesse. Se nada fizermos agora, não estaremos mais tarde em condições de defender o nosso império quando os mapas forem redese-nhados. E, além disso, reafirmando a nossa aliança com a Inglaterra, ficamos com a certeza de que os espanhóis não se atrevem a virem moer-nos o juízo. “

“Lá vens tu com a mesma conversa. “

“Tens razão”, sorriu Afonso. Baixou a cabeça, pensativo, à procura de um outro tema menos tenso e conflitual. Lembrou-se. “Olha lá, já foste esta semana ao restaurante do Hotel Francfort? Aquilo é que têm lá um bacalhauzinho de se lhe afiar o dente! “

A partida da 1.a Divisão foi acompanhada por um intensificar dos preparativos das unidades que pertenciam à 2. a Divisão. Os britânicos fizeram chegar fardas novas a Portugal, distribuídas pelos contingentes integrados no CEP. Dizia-se que fazia frio em França e foram entregues a cada soldado um capote de lã e duas mantas, para além de dois pares de cada peça de roupa. Em Braga, os homens de Infantaria 8 foram todos equipados, a maior parte com capacetes de copa canelada na cabeça, eram de má qualidade, o refugo do exército britânico. Afonso teve mais sorte e conseguiu um mais resistente capacete MK1 e um magnífico dólman aberto, privilégios de oficial.

As ordens de embarque vieram num dia nublado de Abril. Na manhã de sábado, dia 21, os dois mil homens de Infantaria 8 e Infantaria 29 marcharam pelas ruas de Braga e formaram junto à estação num ambiente de grande comoção, famílias inteiras compareceram à despedida, mulheres choravam amargamente a partida dos filhos, dos maridos, dos namorados, dus pais. Alguns civis irrompiam pelas filas desordenadas de soldados para abraçarem este ou aquele, para darem um último conselho, para entregarem uma maçã, uma regueifa, um fidalguinho, para partilharem mais uma lágrima ou largarem um derradeiro beijo.

A uma ordem dos oficiais, os homens subiram às carruagens e o comboio iniciou a marcha com um apito longo e triste, bonés a acenarem pelas janelas, beijos lançados pelo ar, a locomotiva a carvão ganhou velocidade e desapareceu lentamente na curva, du comboio apenas se via agora o fumo negro que se erguia acima do casario, deixando a multidão desalentada com a partida dos seus rapazes para a guerra.

Aquele era um comboio especial, pelo que não fazia paragens. Afonso não se despedira de ninguém, limitara-se a escrever uma carta para a Carrachana com a notícia da sua partida. O capitão passou a viagem a ver Portugal desfilar-lhe pela janela, rezando em silêncio, interrogando-se se voltaria e em que estado. Leu vezes sem conta a edição dessa manhã do Commércio do Minho, que, na primeira página, chamara “Jornada Solemne” àquele dia. “Quantas lágrimas vão hoje ser vertidas; quantas recordações saudosas a amargurarem as almas”, escreveu o jornal num longo artigo repleto de angústias e exortações e que terminava com uma fervorosa prece: “Deus vos acompanhe na lucta e guie os vossos passos ao triumpho, á victoria “ Afonso achou o texto piroso, mas no fundo gostou, sentiu-o sincero. Quando esgotou a leitura do jornal, passou para as “Instruções para o embarque”, um documento emitido na véspera pela 2. a Repartição do CEP, destinado a regular procedimentos que impedissem a repetição do caos dos primeiros embarques. O ambiente no comboio revelava-se moderadamente alegre, os soldados eram rapazes novos e muitos mostra-vam-se excitados com a viagem, viviam intensamente a grande aventura, “vamos despachar umas francesas” tudo era novidade, a maior parte abando-nava pela primeira vez o Minho e sentia que ia conquistar o mundo. À vista de Lisboa o comboio abrandou e entrou lentamente na gare. Os soldados apearam-se e foram alojados num quartel, onde pernoitaram.

Na manhã seguinte marcharam para o porto. No cais, Afonso assegurou que a sua companhia formava em linha no local que lhe fora designado e ficaram todos a aguardar as instruções dos delegados do quartel-general. Havia milhares de homens e centenas de cavalos no porto, e tornou-se claro que o embarque seria demorado. Aproveitando o compasso de espera, Afonso deu um salto a uma tabacaria, comprou O Século desse memorável dia 22 de Abril e regressou ao cais. Os homens encontravam-se sentados no chão à conversa ou a admirar os navios britânicos que os iriam levar para França.

O capitão abancou sobre uns caixotes, Pinto encostado ao lado a espreitar pelo ombro, e ambos ficaram assim a ler o jornal. A grande manchete do dia era a notícia de que “os inglezes derrotam os turcos”, mas passaram os olhos pelas primeiras linhas e perceberam que tudo aquilo acontecia na distante Mesopotâmia, não interessava. A sua atenção percorreu a segunda coluna até se fixar num pequeno título, “Os prisioneiros de guerra”, isso já era algo que lhes dizia respeito, ou podia dizer. A notícia contava a história de três soldados britânicos que tinham fugido de um campo alemão de prisioneiros e, uma vez nas linhas aliadas, “citam coisas extraordinárias dos sofrimentos e do tratamento brutal a que são sujeitos os prisioneiros”. Segundo a notícia, os três pareciam esqueletos vivos e revelaram que a vida nos campos era dominada pela fome, pelo frio e pelas doenças.

“Eh lá”, exclamou o Cenoura. “Já vi que, se me render, tenho de levar uns chouriços no bolso. “

Um outro título despertou-lhes igualmente a atenção, “Portuguezes na guerra”. Leram e verificaram que era o anúncio de que a Ilustração Portugueza do dia seguinte iria trazer “flagrantes aspectos das nossas tropas que foram combater contra os alemães. “

“Já viste? “, perguntou Afonso. “Qualquer dia a malta também aparece na Ilustração Portugueza. “

Ao fim de algumas horas de espera, gastas essencialmente a carregar os navios de abastecimentos e cavalos, os delegados do quartel-general deram a ordem de embarque. Como responsável de uma companhia, Afonso subiu ao barco destinado ao seu regimento, era o Bellerophon, e ficou junto à ponte a aguardar os homens. Infantaria 8 alinhou em fracções de doze praças, cada fracção comandada por um cabo, e os homens marcharam de costado a dois e desfilaram para o convés do navio, sendo distribuídos pelos alojamentos segundo as instruções dos comandantes de pelotão. O embarque foi feito em silêncio, de acordo com as ordens emitidas, o que conferiu uma solenidade pesada ao momento. Terminado o embarque de Infantaria 8, os oficiais entre-garam aos delegados a relação nominal de todos os homens que embarcaram no Bellerophon. Eram, ao todo, vinte e nove oficiais, quarenta e cinco sargentos e mil e setenta e cinco soldados do 8, mais cinquenta praças do 10, o regimento de Bragança. Alguns homens do 8 tinham sido colocados no Inventor Do convés, Afonso observou os restantes navios, o City of Benares e o Bohemian, onde se encontravam os efectivos do 29, o outro regimento de Braga, e pensou que teria de se habituar à ideia de que aquelas unidades deixariam de ser regimentos e passariam a batalhões, era um passo necessário para homoge-neizar as forças portuguesas e britânicas.

As pontes foram desmontadas e, pouco tempo depois, os rebocadores começaram a arrastar os navios para longe do cais, levaram-nos para águas profundas, para abismos longínquos, para trevas desconhecidas, e os homens ficaram em silêncio a observar a terra a afastar-se, devagar, devagar, só voltariam a ver a costa quando avistassem Brest.

 

                   Flandres

O enorme Daimler negro, as bandeiras com a águia imperial esvoaçando junto aos enlameados faróis dianteiros, cruzou a Rue de la Chausée, entrou na Grande Place por sul, deu vagarosamente a volta ao largo e imobilizou-se frente ao Hôtel de Ville, o edifício da Mairie, os batedores espraiando-se pela praça para vigiarem os acessos, afinal de contas havia oito ruas que para ali iam convergir. Um oficial com a cruz de ferro ao colarinho e farda feldgrau fez continência para a janela da limusina, deu um passo em frente e abriu com deferência a porta esquerda traseira. O general saiu do carro, a bota impecavelmente polida mergu lhou numa poça de água barrenta, “Scheisse!”, praguejou, procurou uma parte mais seca do piso, sentiu o vento cortante a atormentar-lhe o rosto e ajeitou o grosso sobretudo com um gesto rápido, protegendo o pescoço do frio.

“Was fiir ein schreckliches Wetter! “, vociferou entre dentes, a voz rouca e baixa, resmungando contra o tempo e o frio.

Ergueu os olhos para o céu cinzento, procurando inexistentes raios de sol, mas a sua atenção foi atraída para a soberba fachada que se erguia em frente. O general estacou defronte dos enormes portões abertos diante de si, admirando a arquitectura do edifício da Câmara Municipal e ignorando os soldados que se perfilavam em sentido e a estranha estátua de ferro que protegia a entrada.

“Xas ist das fr ein Kunststil?”, perguntou ao ajudante-de-campo, sem tirar os olhos da fachada. Queria saber qual era o estilo arquitectónico da Mairie.

“Gotilz, Herr Kommandant.”“

A Câmara de Mons estava instalada na praça principal da cidade, capital da ocupada província belga de Hainant. Era um antigo forte do século xv, construído em estilo gótico, imponente, a fachada pintada em cor-de-rosa e trabalhada em pormenor pelos arquitectos e pedreiros medievais. A estátua de ferro colocada junto à grande porta era a popular Grande Garde, o macaco da Guarda, uma escultura da Idade Média, de origem desconhecida, mostrando um macaco de cócoras, a mão esquerda a coçar a cara. Ao lado da original estátua encontrava-se uma tabuleta com Eintritt verboten escrito em gordas letras góticas, uma proibição de entrada obviamente destinada aos civis belgas. No alto do edifício, na zona central, erguia-se, como uma coroa imponente, uma torre quase cilíndrica, com um relógio na base, assina lando oito horas e nove minutos.

Era manhã em Mons e o calendário marcava 11 de Novembro de 1917. Depois de apreciar a fachada do Hôtel de Ville, o general recém-chegado cruzou os portões, atravessou o túnel e chegou ao jardim interior, designado Le jardin du Mayeur, cruzou o jardim, entrou por uma porta larga, subiu ao salão nobre da sede do município, o ajudante-de-campo na peugada, e saudou apressadamente o grupo que o aguardava.

“Guten Morgen”, cumprimentou o general Erich Ludendorff general quartel-mestre das forças armadas alemãs, o cérebro por detrás das operações militares da Alemanha, o terceiro homem na hierarquia militar do país, depois do comandante-chefe, o Kaiser, e do marechal Paul von Hindenburg, mas na verdade o verdadeiro comandante de todos os exércitos alemães, a grande eminência parda do país.

O salão agitava-se de homens fardados, atarefados num bulício de traba-lho, um mapa gigantesco do sector da frente ocidental a espraiar-se pela mesa, no centro. Quando o general entrou, impôs-se instantaneamente o silêncio, os homens puseram-se em sentido e fizeram continência.

“Guten Morgen, Herr General”, exclamaram todas as vozes, mais ou menos em uníssono, o som a reverberar pelo salão.

Os elementos supérfluos dos diversos estados-maiores abandonaram rapidamente o local, numa agitação de papéis a serem remexidos e botas a ecoarem pelo soalho impecavelmente encerado. Os sons foram-se afastando e a tranquilidade instalou-se pouco a pouco até o silêncio se abater totalmente sobre o ambiente da sala. Ludendorff pousou a pasta que levava na mão, tirou da cabeça o característico pickelhaube, o imponente capacete negro com uma seta gótica apontada para cima, sentou- se no cadeirão que lhe estava reservado, em posição dominante na mesa, limpou o monóculo com meticulosa atenção, colocou-o no olho e, calado e perscrutador, fitou os três altos oficiais diante de si. Estava reunido o Oberst Heeresleitung, o Comando Supremo Alemão, num conselho de guerra que iria revelar-se decisivo.

“Meine Herren”, começou o general, em tom vigoroso. “Estive a confe-renciar com o marechal Hindenburg e decidimos antecipar a ofensiva da Primavera. “

À mesa não estavam os comandantes dos vários corpos de exércitos alemães, mas, como era costume na tradição marcial da Alemanha, os respectivos chefes de estado-maior. Eram eles que discutiam a estratégia, não os comandantes nominais. Sentado com Ludendorff encontrava-se o general Herman von Kuhl, chefe de estado-maior do corpo de exércitos do príncipe Rupprecht da Baviera e anfitrião daquela cimeira. Era em Mons que estava sediado o quartel-general do príncipe Rupprecht e eram as suas tropas bávaras que garantiam a segurança do edifício, os estandartes axadrezados em azul e branco da Baviera ao lado da bandeira da Alemanha na fachada do município. Presentes encontravam-se também o general von der Schulenberg, chefe de estado-maior do corpo de exércitos do príncipe herdeiro, Guilherme, e o conselheiro de estratégia do próprio Ludendorff, o coronel Georg Wetzell.

“Como sabem, a entrada da América na guerra, há sete meses, alterou todos os dados”, declarou Ludendorff com um suspiro. “Os soldados ameri-canos já estão a chegar em grandes quantidades, mas acreditamos que só no Verão é que a sua influência poderá ser decisiva no teatro de operações. “

“Estamos numa corrida contra o tempo”, observou von Kuhl. “Nem mais”, concordou Ludendorff. “A iminente saída da Rússia da guerra libertou-nos a frente leste e abriu-nos uma janela de oportunidade que temos de apro-veitar. As nossas forças do Leste já começaram a afluir à frente ocidental e pela primeira vez começámos a ter vantagem numérica sobre os franceses e os ingleses. Temos agora cento e cinquenta divisões na frente ocidental e pode-remos em breve aumentar o nosso contingente em mais trinta divisões proveni-entes da pacificada frente leste e do Caporeto, onde derrotámos os italianos. Esta vantagem vai durar pouco tempo, por causa dos americanos, e temos, por isso, de tirar o máximo partido possível da actual situação. A primeira questão é saber onde vamos atacar. “

“Estamos a falar de que tipo de ataque? “, quis saber von Kuhl.

“De um ataque decisivo”, esclareceu Ludendorff, com um gesto enfático. “A nossa ofensiva terá de fazer vergar os aliados e obrigá-los a assinarem a paz. Nem mais nem menos. Será a ofensiva que nos vai dar a vitória.

“Nesse caso, só vejo um sítio possível”, disse von Kuhl. “A Flandres. “

“A Flandres? “, sorriu Ludendorff.

O general quartel-mestre sabia que a Flandres era justamente o sector em frente ao VI Corpo de Exércitos do príncipe Rupprecht da Baviera, cujo chefe de estado-maior era o próprio von Kuhl.

“A Flandres”, confirmou von Kuhl. “Os ingleses estão esgotados com a Batalha de Passchendaele e este é o momento de lhes desferir o golpe decisivo.“

“A Flandres não me parece boa ideia”, interrompeu von der Schulenberg, abanando a cabeça. “Os ingleses são duros de roer e acho que é melhor entrarmos pelo sector francês, menos disciplinado. “

“E em que sector francês está a pensar? “, perguntou Ludendorff.

“Bem, Verdun parece-me o sítio ideal”, avançou von der Schulenberg. “Os franceses têm estado a ser duramente castigados em Verdun e penso que existem condições para os quebrarmos.“

“Verdun?“, sorriu novamente Ludendorff, nada surpreendido.

Verdun era o sector em frente do qual se encontravam as forças do príncipe herdeiro, de quem o general von der Schulenberg era chefe de estado-maior. Ou seja, qualquer dos corpos de exércitos queria uma fatia da acção e a melhor maneira de o conseguir era convencer Ludendorff a atacar no seu sector.

Ja, Verdun”, confirmou von der Schulenberg. “A Grã-Bretanha sobrevi-veria a um desastre na Flandres, mas a França jamais recuperaria de uma catástrofe em Verdun. Temos por isso de lançar um duplo ataque em Verdun, de modo a provocarmos o colapso de toda a linha francesa e obrigarmos Paris a negociar a paz. Se Paris negociar, Londres terá de ir atrás. “

O general quartel-mestre voltou-se para o seu assessor de estratégia.

“O que pensas, Wetzell? “

O coronel Wetzell olhou para von der Schulenberg.

“Concordo com o general von der Schulenberg”, disse.

“Verdun é melhor.“

“Porquê Verdun? “, quis saber Ludendorff.

Verdun é um ponto delicado, que é preciso controlar”, explicou Wetzell. “Os franceses são menos disciplinados, já houve várias revoltas entre eles este ano, e é importante começar pelo sector mais fraco. Derrotando os franceses, poderemos de seguida isolar os ingleses e forçar a paz. “

Ludendorff fez uma pausa, pensativo. O general era um homem alto e erecto, tinha a cabeça redonda e o cabelo cortado curto, os olhos protuberantes revelavam um carácter feito de ambição e impaciência. A impenetrável postura prussiana impunha respeito aos que o conheciam, ao ponto de haver mesmo quem confessasse que a sua presença provocava arrepios de medo, exageros por certo de espíritos frágeis, que se deixavam impressionar com facilidade. Mas a verdade é que a própria família se intimidava com o olhar frio do general e por vezes até circulava em casa o aviso sussurrado de que “o pai hoje parece um glaciar”. Por isso, quando fez a pausa pensativa naquele conselho de guerra em Mons, a mesa ficou em silêncio, os dois generais e o coronel quase suspenderam a respiração, à espera do veredicto.

“Não concordo”, sentenciou finalmente Ludendorff. “O terreno em Verdun é-nos desfavorável e quebrar aquele sector não nos daria nada de decisivo. Pior ainda, arriscamo-nos a sermos atacados pelos ingleses na Flandres, aproveitando a nossa vulnerabilidade quando estivermos a lidar com os franceses. Além disso, é preciso notar que os franceses estão a recuperar bem das feridas que lhes infligimos.”

“Então concorda com a minha proposta de atacar a Flandres? “, avançou von Kuhl, esperançado.

“Sim”, assentiu Ludendorff. “Para ganhar esta guerra é preciso derrotar os ingleses. Esse é o primeiro grande princípio que nos deve orientar no nosso pensamento estratégico. Derrotar os ingleses. Passchendaele abriu-lhes profundas feridas e deixou-os vulneráveis. Temos de aproveitar o momento “

“Então, se vamos atacar na Flandres, o melhor sítio é o sector entre Ypres e Lens”, propôs von Kuhl.

“Mas isso é o grosso das forças inglesas”, argumentou Ludendorff, consultando o mapa. “Auf keinen Fall! Nem pensar! Terá de ser num sector em que se juntam exércitos de nacionalidades diferentes. Esses é que são pontos de ruptura, onde a coordenação entre forças diferentes é menos bem conseguida. “

“Está a pensar em quê? “, perguntou von Kuhl.

Ludendorff pôs-se de pé e apontou a bengala para o mapa sobre a mesa.

“Estou a pensar em St. Quentin”, disse Ludendorff, indicando aquela região do Somme. “O ponto onde se encontram o sector inglês e o sector francês.“

“Mas, Herr Kommandant, essa é a zona do Somme”, interrompeu o coronel Wetzell. “Essa área está cheia de obstáculos, a progressão será difícil, e, além disso, os franceses poderão fazer chegar aí rapidamente os reforços. “

“É melhor do que a zona Ypres-Lens”, argumentou o general. “Não necessaria-mente”, disse von Kuhl, defendendo a sua ideia. “Notámos recentemente que existe uma vulnerabilidade importante nesse sector e penso que vale a pena explorá-la. “

“Uma vulnerabilidade? “, interrogou-se Ludendorff. “Uma pequena faixa da frente está a ser defendida por tropas portuguesas, encaixadas entre divisões inglesas”, explicou von Kuhl. “As nossas informações sugerem que os portugueses estão desmotivados, mal preparados e têm carência de oficiais e falta de descanso. “

“Wo ist es?“, questionou Ludendorff, querendu saber onde era isso.

“É no sector do rio Lys, a sul de Armentières, em Neuve Chapelle mais precisamente.”

“Ach!“, exclamou o comandante das forças alemãs, que ouvira falar do sector quando das primeiras grandes ofensivas aliadas em 1915. Olhou pensativamente para o mapa, fixando-se em Armentières. “Queres atacar os portugueses? “, perguntou Ludendorff.

“Eu diria que eles estão a pedir para serem atacados”, sorriu von Kuhl. “Repare, Herr General, que o Lys responde ao seu requisito de atacar uma zona de junção de forças de nacionalidades diferentes.”

“Continuo a pensar que St. Quentin é melhor”, comentou Ludendorff, céptico.

“Note, Herr General, que a zona do Lys tem outra vantagem”, indicou von Kuhl, apontando no mapa para Armentières.

“Entrando por aqui, poderemos chegar ao estratégico eixo ferroviário de Hazebrouck, dificultando o movimento de reforços inimigos e deixando os ingleses sem espaço de manobra, encostando-os ao mar. “

“Herr Kommandant, penso que devemos explorar a sugestão de von Kuhl”, defendeu Wetzell. “Por que não juntar todas as ideias?”

“Como assim? “, perguntou o general.

“Na minha opinião, não vamos conseguir a vitória com um só golpe, por mais bem planeado que ele seja”, explicou o coronel. “Só conseguiremos destruir a frente inimiga através de uma inteligente combinação de ataques sucessivos em diferentes pontos da frente, coordenando-os e relacionando-os em momentos cuidadosamente escolhidos.

“Ach so!“, exclamou Ludendorff. “Estás a propor atacar ao mesmo tempo no Somme e no Lys. “

“Não ao mesmo tempo”, corrigiu Wetzell. “Sucessivamente. Atacamos primeiro no Somme, depois no Lys, mais tarde em Arras, a seguir em Verdun, depois em Champagne, ataques aqui e ali, uns atrás dos outros, numa estratégia de marteladas consecutivas. “

“Como na frente leste”, comentou Ludendorff, afagando o bigode grisalho.

“Jawohl, Herr Kommandant. “

O general quartel-mestre e o seu conselheiro de estratégia referiam-se às novas tácticas desenvolvidas na frente leste e estreadas pelos russos com grande sucesso. Durante a Ofensiva Brasilov, no Verão de 1916, as forças russas utilizaram a surpresa e os efeitos desorientadores suscitados por ataques múltiplos ao longo de uma vasta frente para devastarem as posições austro-húngaras no sector da Galícia. Os alemães assimilaram rapidamente o conceito russo dos ataques sucessivos em toda a linha da frente, chegando mesmo a aperfeiçoá-lo, através das tácticas de infiltração desenvolvidas pelo general Oskar von Hutier e aplicadas com grande êxito apenas dois meses antes, na Batalha de Riga. Wetzell defendia agora a aplicação dessas mesmas tácticas na frente ocidental para conseguir uma vitória decisiva.

“Parece-me viável”, assentiu Ludendorff, olhando para os outros dois generais. “O que acham? “

Von Kuhl e von der Schulenberg concordaram, o bávaro mais entusias-mado.

“O sector do Lys tem o problema da chuva”, observou, no entanto, von Kuhl, que conhecia bem a região. “O terreno só estará transitável lá para Abril.“

A lama da Flandres era famosa entre as forças militares que viveram o inferno lamacento das Batalhas do Somme e de Ypres, pelo que a observação foi instantaneamente compreendida.

“Pois bem, se não chover em demasia, avançamos no Somme em Fevereiro ou Março”, decidiu Ludendorff. “Em Abril será então a vez dos restantes golpes, a começar pelos portugueses no Lys. “

“O VI Corpo de Exércitos do príncipe Rupprecht entra, portanto, em acção em Abril... “, observou von Kuhl.

“Em princípio”, retorquiu o general. Ludendorff apontou o dedo para toda a extensão da linha da frente, representada no mapa. “Comecem a prepa-rar-me estudos pormenorizados sobre cada sector, quero vigilância reforçada, desencadeiem operações regulares para obterem informação, não quero surpresas na hora da verdade. Comecem a exercitar as tropas para combate em terreno aberto segundo as tácticas do capitão Geyer e chamem- me o coronel Bruchmiiller para a frente ocidental, de modo a preparar a artilharia. Quero ver montada a maior feuerwalze da história da guerra. E, von Kuhl, transfira também o general von Hutier para a frente ocidental, vamos ver se ele aplica aqui as suas famosas tácticas de surpresa e bombardeamento em progressão. “

“Jawohl, Herr Kommandant”, assentiu von Kuhl. Tal como von Hutier, Bruchmizller destacara-se na frente leste, e em particular na Batalha de Riga, pelas suas inovações tácticas. Georg Bruchmiiller era conhecido por durchbruchmller, o Miiller decisivo, devido às arrasadoras feuerwalze, ou valsas-do-fogo, com que regava as linhas inimigas antes da progressão da infantaria. O coronel estava na reserva quando foi chamado para o activo na frente leste, onde desenvolveu uma técnica de bombardeamento orquestrado que se tornou famosa entre as forças alemãs. Utilizando uma mistura de granadas numa sequência precisa e coordenada, com lançamento sucessivo de bombas contendo diferentes gases, poderosos explosivos e schrapnel, conseguia espalhar a grande confusão nas linhas inimigas. Bruchmizller manipulava as granadas de modo a provocar determinadas reacções ou efeitos. Por exemplo, uma das suas especialidades eram os cocktails de gases, lançando primeiro o gás arsine, que não era letal mas que penetrava nas máscaras antigás. Os soldados começavam a vomitar e tiravam as máscaras. Era nesse momento que Bruchmiiller atirava o gás chlorine, que era mortal e que apanhava o inimigo sem máscaras. As granadas com os diferentes gases estavam marcadas por diversas cores, o que deu ao cocktail o nome de huntkreuz, multicolorido. Ludendorff, que conhecia bem a frente leste, onde ganhara fama de grande estratego e onde desenvolvera a sua visão de Drang nach Osten, a expansão para oriente, queria transportar todo esse talento para a frente ocidental e acreditava que conseguiria assim ganhar a guerra.

“Entschuldigen Sie bitte, Herr Kommandant”, interrompeu Wetzell, levantando a cabeça do seu bloco de notas e quebrando o breve silêncio meditativo que se instalara na sala. “Quais os nomes de código que vamos adoptar? “

“Alguma sugestão?“, perguntou Ludendorff para a mesa.

Todos se entreolharam. Cada um foi avançando com ideias, algumas suscitaram consenso, outras não. Depois de um debate rápido, o general quartel-mestre fechou a questão.

“Bitte schreiben Sie es auf”, ordenou Ludendorff a Wetzell, dando-lhe instruções para tomar nota das ideias que mereceram concordância. “O ataque no Somme será a Operação Michael, a ofensiva no Lys será a Operação St. George, a de Arras será a Operação Marte, a de Champagne será a Bliicher e as duas de Verdun serão a Castor e a Pólux. Estas operações estão destinadas a porem fim à guerra e a darem a vitória à Alemanha e encontram-se subordi-nadas ao nome de código geral de Kaiserschlacht. “ O conselho de guerra terminou e a Kaiserschlacht, a batalha do Kaiser, entrou em marcha.

 

A noite caíra fria e húmida sobre Armentières, mas a isso já todos se tinham habituado. O Inverno estava à porta e as árvores preparavam-se para enfrentarem os rigores do frio. Os grandes plátanos e os delicados choupos encontravam-se quase totalmente despidos, é certo que algumas árvores ainda exibiam folhas amareladas ou avermelhadas ornando os ramos ou estendendo-se em tapete à sombra das copas, espectros fantasmagóricos na paisagem verde, plana e bucólica da Flandres. Pendurados nos ramos ou esvoaçando de árvore em árvore, os melros assobiavam aqui e os pardais pipilavam ali, alegres e despreocupados, numa animada sinfonia de despedida do Outono.

O ronco distante de um motor a aproximar-se intrometeu-se naquela harmoniosa melodia da natureza. Um Hudson negro cruzou o grande portão de pedra e entrou nos domínios do Château Redier, a estrada calcetada cortando a meio o vasto jardim, com as suas sebes cuidadosamente aparadas e dispostas em labirinto por entre choupos de faia-branca, ciprestes delgados e tílias de grande porte, o palacete claro a erguer- se ao fundo, logo atrás de uma rotunda estreita com um jardim formado em círculo ao meio, enfeitado por coloridas tulipas, vigorosos jacintos e hibiscos teimosamente roxos. Um anjo de pedra ornava o centro daquele pequeno jardim oval, um repuxo de água a jorrar do pífaro ostentado na boca da estátua cinzenta.

“Encosta junto à escadaria”, indicou Afonso à sua ordenança. “Sim, meu capitão. “

O oficial tinha os olhos pregados no espectáculo de serenidade verde que ordeiramente se perfilava em redor, sentia-se quase chocado com o contraste relativamente ao mar de lama a que se habituara desde que tinha chegado à Flandres. O Hudson contornou a rotunda e imobilizou-se à beira dos degraus de mármore envelhecido do château. Afonso apeou-se e estudou a fachada do edifício, as trepadeiras cobrindo a pedra gasta, o verdete entranhando-se na base do palacete, as enormes janelas sobressaindo daquele emaranhado de plantas e de paredes cinzentas, um elegante alpendre sobre a porta de entrada, guarnecida por duas colunas de um mármore fino, o creme polido rasgado por múltiplos veios encarnados.

Joaquim tirava já a mala da bagageira quando a porta principal se abriu. Um homem pequeno, com um bigode grisalho e um monóculo no olho direito preso à algibeira por uma corrente dourada, desceu as escadarias de encontro aos recém-chegados.

“Bon soir”, saudou, apresentando-se. Je suis le baron Redier.” “Bon soir, monsieur le baron. Je suis le capitaine Afonso Brandão. Venho da parte do maire.”

“Eu sei, eu sei”, exclamou o barão, estendendo o braço. “Bienvenue. “

“Merci”, agradeceu Afonso, olhando de relance para trás. “Joaquim, traz a mala. “

“Ele precisa de ajuda? “, indagou o barão. “Vou chamar os criados. “

“Não é necessário”, apressou-se a dizer o capitão. “É só uma mala. “

Os dois cruzaram a porta de entrada, o anfitrião concedendo a vez ao convidado, o foyer abriu-se a toda a largura, uma escadaria ampla dando acesso ao piso superior, duas portas, uma à direita e outra à esquerda, revelando corredores e salas. O chão brilhava, reluzente de tão impecavelmente envernizado, parecia um lago cristalino a reflectir, como um espelho, as figuras que o pisavam e tudo o resto, incluindo os enormes retratos que ornavam as paredes, os candelabros que caíam do tecto, os largos cortinados que enfeitavam as janelas.

“Marcel! “, chamou o barão para o corredor à esquerda. Um homem calvo com um colete escuro assomou, solícito, ao foyer.

“Oui, msieur le baron?

“Conduz a ordenança ao quarto do nosso convidado para depositar a mala. “

Marcel ajudou Afonso a retirar o sobretudo, pendurou-o num comparti-mento do foyer e, de seguida, guiou Joaquim pela escadaria, a mala sempre na mão, até desaparecerem ambos no andar superior.

“Tem fome? “, indagou o barão, caminhando para o salão, à direita.

“Jantei num estaminet, obrigado”, esclareceu o convidado. “Mas não recusa um digestivo... “

“Allons!”

O salão estava quente, agradável, as madeiras escuras iluminadas pelas velas acesas nas paredes e nas mesas, projectando luzes amareladas e sombras tremidas sobre os sofás, os móveis e o soalho coberto de tapetes. Na parede junto aos sofás ardia lenha numa lareira intensa, cheia de fagulhas e estalidos, alguns pedaços de madeira amontoados num cesto de vime à espera de serem atirados para alimentarem aquele fogo acolhedor. O barão dirigiu-se ao bar e agarrou em dois copos.

“ Cognac? Porto?”

“Tem whisky? “ O barão riu-se.

“Whisky? Não imaginei ver um português a beber whisky... “ “A culpa é dos oficiais do regimento escocês”, sorriu Afonso. “Os jocks apresentaram-me o whisky e agora não quero outra coisa.”

“Mas olhe que os ingleses fazem sempre os brindes com porto”, fez notar o barão. “Só optam pelo whisky quando já não há mais porto. “

“Eu sei, eu sei, mas o que quer? O whisky aquece-me mais. “ O anfitrião curvou-se, agarrou uma garrafa e colocou-a sobre o balcão do bar. O líquido dourado dançava e brilhava dentro do recipiente delgado, o rótulo a indicar The Balvenie.

“Tenho aqui este blended scotch que vai apreciar”, anunciou. “Foi-me oferecido por um coronel do regimento de Yorkshire”. Levantou a cabeça e olhou em direcção à lareira. Agnès, qu'estce que tu prends?

Afonso olhou na mesma direcção, surpreendido. De uma cadeira de balanço à sombra, junto à lareira, saiu uma baforada suave de fumo cinzento-azulado que rapidamente se dissolveu no ar. O oficial português apercebeu-se pela primeira vez da presença feminina no salão.

“Du champagne”, murmurou uma voz doce, impregnada de uma melodia meiga de que só as mulheres francesas são capazes.

O capitão tentou perceber o rosto da mulher, mas a sombra era ali densa e apenas identificou o perfil da cadeira e da cabeça feminina, umas pernas longas a emergirem da penumbra, meio escondidas por entre um desconcertante e sensual vestido vermelho com folhos brancos.

“M'dame”, cumprimentou, baixando levemente a cabeça e olhando sem a ver.

Assiez-vous, s'il vous plait”, disse a mulher, indicando com a mão um sofá junto à lareira, um cigarro entre os dedos.

Afonso pegou no copo com scotch e no outro com champagne, entretanto preparado pelo barão, e aproximou-se da cadeira de balanço. A cadeira rodou e a mulher ergueu-se com delicadeza, dando um passo para receber o champagne. O capitão sentiu primeiro a fragrância perfumada de L'heure bleue a emanar daquele corpo escultural, a harmoniosa mistura de rosas, íris, bauni-lha e almíscar do sofisticado perfume de Guerlain a aguçar-lhe os sentidos. Depois, a bruxuleante luz amarelada da lareira iluminou o misterioso rosto, destapando-lhe os traços finos e distintos, os cabelos castanhos, longos, e os caracóis com madeixas aloiradas, o nariz pequeno e delicado, os olhos de um verde-forte e luminoso, o ar doce e vulnerável, um sorriso enigmático formado em lábios grossos e bem desenhados, transparecia um tom sereno, algo inacessível, naquele rosto belo, sublime mesmo, de francesa coquette. Afonso experimentou um baque, uma falta de ar súbita, oh que encanto! ficou perturbado com o brilho que dela irradiava, a mulher era de uma beleza ofuscante, inalcançável, tão radiosa que se tornava difícil mirá-la de frente e impossível deixar de a olhar. O capitão sentiu-se paralisado de surpresa, não esperava ver ali uma flor daquelas, uma mulher jovem, algures a meio da casa dos vinte, pouco mais nova do que ele próprio, uma jóia rara tão perto do sector da frente. Seria filha do barão?

“Ma femme”, apresentou o barão, aproximando-se com o seu cognac. Agnès. “

“Enchanté, madame la baronne, saudou o oficial, esforçando-se o mais que podia por ocultar a perturbação que a mulher lhe causava e a forte decepção pela notícia de que ela era casada com o seu anfitrião. Beijou-lhe a mão e apresentou-se. “Je suis le capitaine Afonso Brandão, um seu criado. “

“Alphonse? “, sorriu a francesa.

“Se o desejar... “

O sorriso desfez-se do rosto de Agnès no momento em que pela primeira vez o viu de perto. A francesa fitou-o intensamente, por instantes pareceu reconhecê-lo, hesitou, avaliou-o de alto a baixo, observou-lhe o ar sonhador, melífluo, os olhos largos e penetrantes, a tez pálida, o nariz direito, o bigode bem desenhado, o cabelo castanho escuro curto e bem penteado, o porte altivo e tranquilo. Suspirou.

“Você faz-me lembrar alguém que uma vez conheci”, disse com lentidão, algo séria, solene até, uma inesperada palidez a esvaziar-lhe a face, era notória uma enigmática perturbação a ensombrar-lhe o olhar. Mas depressa o rosto marmóreo se reabriu num sorriso, primeiro forçado e tenso, depois gradual-mente genuíno e fácil, de uma candura que se tornou desarmante. “Donde vem você, Alphonse? “

“ Merville. “

“Não”, riu-se Agnès, esforçando-se por ficar mais alegre, parecia que se tinha transformado em meros segundos. “Qual é o seu país? “

“Sou português, m'dame”

“On dit que les portugais sont toujours gais”, exclamou, citando um ditado francês segundo o qual os portugueses são sempre divertidos.

“Pas toujours, m'dame”, negou Afonso.

Agnès fez um trejeito mimado na boca, como se estivesse decepcionada.

“Você não é divertido? “

“Eu sou”, exclamou, corrigindo o tiro e desejando agradá-la. “Mas se visse os meus generais... “

A baronesa voltou a sentar-se na cadeira de balanço e os dois homens acomodaram-se no sofá, um requintado canapé de faia estofado em gros e petit point. Afonso não conseguiu impedir-se de pensar que havia uma sensível diferença de idades no casal anfitrião, ele aproximava-se dos sessenta, ela mais de trinta anos mais nova, andaria algures por volta dos vinte e cinco. Era bonita como uma princesa, mas vivia encerrada naquele palacete, uma prisioneira encarcerada numa terra de miséria e desolação, rodeada por ruínas e destroços, num mundo de homens e fel, com a guerra perto e o inimigo às portas. Estranhamente não definhava, essa vulnerabilidade tornava-a até mais atraente, mais desejável, mais frágil, era como uma flor teimosamente exposta a um temporal, delicada mas obstinada, e essa tocante teimosia despertava no oficial um inexplicável e irresistível sentimento de protecção.

“Quero agradecer por me terem acolhido”, disse Afonso, clareando a voz e fixando-a nos perturbadores olhos verdes, envolvendo-se assim, quase sem dar por isso, num subtil jogo de sedução.

“Oh, é um prazer”, retorquiu Agnès, devolvendo-lhe o olhar e aceitando o jogo. “Jacques e eu percebemos que temos de cooperar com o esforço de guerra.”

“Não tenho como dizer não a um pedido do presidente da Câmara”, atalhou o barão. “Mas, às vezes, dá-me a impressão de que monsieur le maire acha que o meu château é um hotel, e isso aborrece-me. “

“C'est la guerre, Jaques”, exclamou a francesa, com uma expressão reprovadora para o marido.

Afonso percebeu que, apesar de o esconder, o barão não se sentia inteira-mente agradado com a sua presença. O alojamento de militares no castelo era-lhe imposto pelo presidente da Câmara de Armentières, encarregado de instalar os oficiais dos exércitos expedicionários aliados que combatiam em França. Naquele sector concentravam-se a 1.a e a 2.a Divisões do Corpo Expedicionário Português, o CEP, ladeado, à esquerda, pela 38. a Divisão do XI Corpo e, à direita, pela 25. a Divisão do Corpo, ambas pertencentes ao Exército do British Expeditionary Force, o BEF, a força expedicionária britânica. Os soldados que não ocupavam a frente eram instalados em quintas, a vinte cêntimos por noite com cama e cinco cêntimos quando não havia cama. Por cada cavalo eram pagos cinco cêntimos por abrigo fechado, com os proprietários franceses a reterem o direito de ficarem com o esterco para estrume. As autoridades civis francesas mostravam-se, porém, empenhadas em evitarem, na medida do possível, que os oficiais ocupassem os currais e as cavalariças onde dormiam os soldados e os solípedes. Um oficial pagava um franco por noite e sentia-se naturalmente com direito a instalações mais condignas do que as praças e os animais. Mas, com as pensões lotadas, as casas particulares já todas requisitadas e os hotéis a cobrarem preços inacessíveis, por vezes apenas restavam como alternativa os palacetes da região.

“Como vai a guerra, capitão Alphonse? “, quis saber a baronesa. “É como os jornais dizem? “

“E o que dizem os jornais? “

“Que estamos a ganhar. “

“Não se pode acreditar sempre nos jornais... “

Agnès admirou-se.

“Estamos a perder? “

“Não, não ganhamos nem perdemos. Estamos imobilizados “ “Mas não é verdade que o inimigo recuou há alguns meses? “ Afonso sorriu.

“Lá recuar, recuou. Mas recuou por sua própria iniciativa, não fomos nós que o empurrámos.”

“Como assim?“, interrompeu o barão, a garganta aquecida pelo cognac. “Se eles recuam, é porque nós avançamos, ninguém recua porque lhe apetece.”

“O que se passou, sieur le baron, é que os boches construíram umas trincheiras melhores numa posição elevada e na retaguarda das suas trincheiras habituais e depois abandonaram as suas posições e foram instalar-se nessas trincheiras. Chamamos a essas novas posições a linha Siegfried, mas parece que os boches lhe chamam linha Hindenburg. Seja como for, este recuo para a Siegfried significa que eles perderam uns quilómetros mas ganharam posições quase impregnáveis. “

“Então não acha que vamos ganhar a guerra? “

“Para ganhar uma guerra é preciso que ela acabe”, comentou o capitão com secura.

“E esta não vai acabar? “, quis saber Agnès.

“Não dá sinais disso. Repare que já estamos a 20 de Novembro, perto do final de 1917 portanto, a guerra dura há mais de três anos e as posições permanecem estáticas. Nem nós rompemos, nem eles se mexem.”

“O senhor é um homem de pouca fé, pelo que vejo”, comentou a francesa.

“Pelo contrário, m'dame, sou um homem de fé.“ “Pois não parece”, obser-vou ela. “Não foi no seu país que apareceu, no mês passado, Nossa Senhora a anunciar o fim da guerra em breve?”

“Sim, já li sobre isso”, disse Afonso, inclinando-se para a sua pasta. “Até tenho aqui um jornal que me mandaram há dias com notícias sobre essa aparição, veja lá!”

O capitão retirou da pasta um exemplar de O Século, uma folha gigante dobrada em duas, de modo a dar quatro páginas, e amarfanhada pelo correio, mas perfeitamente legível. O jornal estava datado de segunda-feira, 15 de Outubro. Ou seja, trinta e cinco dias antes. As duas colunas do lado direito da primeira página encontravam-se preenchidas, do topo à base, com um texto dedicado ao assunto, o antetítulo anunciando em caixa alta “Coisas espanto-sas!“ e o título falando em “Como o Sol bailou ao meio-dia em Fátima”. O subtítulo era longo. “As aparições da Virgem - Em que consistiu o sinal do céu - Muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre - A guerra e a paz.”

Agnès inclinou-se para melhor ver o jornal.

“Quem são?“, perguntou, apontando para uma grande fotografia por cima do texto mostrando três crianças de olhos fixos na imagem, duas raparigas de saia larga e lenço na cabeça a ensanduicharem um rapaz com um barrete, por trás um muro de pedra.

“São as crianças que dizem ter falado com a Virgem”, explicou Afonso. Leu a legenda e identificou-os, o dedo movendo-se da esquerda para a direita. “Esta chama-se Lúcia, este Francisco e esta Jacinta. “

A francesa mirou a imagem, fascinada.

“E o que viram elas exactamente? “

O capitão pôs-se a ler o texto, momentaneamente silencioso. “Bem, o repórter começa por descrever como chegou à charneca de Fátima, que viu lá muita gente, estavam todos a rezar”, disse, explicando o texto que acabara de ler. Fez mais uma pausa enquanto lia os parágrafos seguintes. “Começou a chover e as três crianças chegaram ao local meia hora antes da anunciada aparição, os fiéis ajoelharam-se na lama à sua passagem e uma das crianças, a Lúcia, pediu-lhes para fecharem os guarda-chuvas”. Nova pausa para leitura. “O repórter diz que, à hora certa, o céu começou de repente a clarear, a chuva parou e apareceu o Sol “ Ainda mais uma pausa. “Aqui é muito interessante, ora oiçam”, exclamou Afonso, passando a traduzir o texto palavra a palavra, em voz alta. “O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se reali-zando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar Milagre, milagre! Maravilha, maravilha! Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o Sol tremeu, o Sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas - o Sol bailou, segundo a típica expressão dos camponeses. “

Afonso levantou a cabeça do jornal.

“Interessante, não? “

“Oui”, disse Agnès, fascinada, fixando a fotografia das três crianças na primeira página. “Não tem mais? “

O português retomou a leitura silenciosa do jornal e resumiu o seu conteúdo.

“Diz aqui que o repórter falou com as pessoas e nem toda a gente estava de acordo com aquilo a que todos tinham acabado de assistir. A maioria confirma ter visto um bailado do Sol, mas outros garantiram terem observado o rosto da própria Virgem e que o Sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo-de-artifício, descendo do ponto onde se encontrava. E uns poucos asseguram que até o viram mudar de cor.

“Ilusão de óptica”, comentou o barão Redier com um sorriso condescen-dente.

“É possível”, assentiu Afonso.

“Não digam disparates”, comentou Agnès. “E as crianças? “

O capitão leu mais um pouco.

“O essencial está nesta frase que vos vou traduzir”, indicou.

“Lúcia, a que fala com a Virgem, anuncia, com gestos teatrais ao colo de um homem que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminará e que os nossos soldados iam regressar. “

Quando Afonso levantou a cabeça, viu Agnès recostar-se na cadeira de balanço, serena.

“Então sempre é verdade”, disse ela. “A guerra vai acabar. “

“É o que diz aqui.”

“E não acredita?”

“Que a guerra vai acabar?“, admirou-se o barão Redier, juntando-se à conversa. “Então não há-de ele acreditar? Até eu! Nem que seja daqui a cem anos, mas que ela vai acabar, lá isso vai.“

“Não sejas parvo, Jacques, a profecia é a de que a guerra vai acabar em breve. “

“Não foi isso, em bom rigor, o que o nosso convidado leu no jornal”, disse o barão, apontando para O Século. “O que, pelos vistos, está ali escrito é que a guerra terminará. Ora, bem vistas as coisas, essa não me parece ser uma profecia muito difícil de fazer, é evidente que a guerra, mais tarde ou mais cedo, vai terminar. Até eu posso prever isso. A grande questão é saber quando, e isso esses intrujões fanatizados já não se atrevem a profetizar. “

“Presume-se, pelo contexto da frase, que será em breve. Não acredita nisso, Alphonse? “

“Bem, eu gostaria que fosse verdade... “

“Mas acredita ou não acredita?”

“Não sei em que pensar”, atrapalhou-se Afonso. “Era bom que fosse verdade. “

“Isso é tudo uma fantasia”, riu-se o barão. “Vivemos tempos difíceis e é nestas alturas que aparecem profetas, milagres, crendices a apontar o caminho da salvação. As mensagens messiânicas são normais nestes períodos de incerteza e aflição. “

“Acha? “, interrogou-se o capitão.

“Tenho a certeza”, asseverou o anfitrião. “Vai ver que a guerra não irá acabar imediatamente e que, daqui a algum tempo, já ninguém vai falar dessas crianças. “

Agnès olhou-o com irritação. Após um breve instante de olhar carregado, suspirou e voltou-se para Afonso.

“Jacques é ateu”, explicou. “É pior do que Robespierre. Veja lá que até faz pouco de Lourdes. “

“Ah”, exclamou Afonso, nada surpreendido.

“O senhor sabe o que aconteceu em Lourdes? “

“Naturalmente”, assentiu o capitão. “Tal como em Fátima no mês passado, a Virgem apareceu numa gruta de Lourdes a uma criança... “

“Bernardette Soubirous.”

“Isso. A primeira aparição foi em 1858, já lá vão quase sessenta anos.

“Oh la la!“, espantou-se a bela baronesa. “Até sabe o ano.“ “Eu disse-lhe que era um homem de fé”, sorriu Afonso. “Crendices! “, cortou o barão, sempre céptico, abanando a cabeça.

“Eu tive uma vez um professor na faculdade que era tão anti-religião como o meu marido”, disse Agnès com um sorriso. “Era o professor de Anatomia, chamava-se Bridoux. Dizia ele que a religião era a inimiga da ciência. “ Fitou Afonso. “Também acha isso, Alphonse? “

“Sim, até certo ponto poderá ser verdade”, assentiu Afonso. “Sabe, tanto a religião como a ciência oferecem explicações para o mundo, mas o problema é que essas explicações competem entre si. Para que uma seja verdadeira, a outra tem de ser falsa. É por isso que a religião sempre fez tudo o que podia para desacreditar a ciência e é por isso que a ciência faz agora o mesmo à religião. Há, todavia, uma hipótese que ainda ninguém colocou e que me parece merecer ser explorada.

“Qual é? “

“É a possibilidade de estarem as duas a falar verdade, embora complementando-se uma à outra, dizendo verdades diferentes. Já reparou que não é possível demonstrar cientificamente a existência de Deus, mas também não é possível demonstrar o contrário? “

“É um facto. “

“Os filósofos ateus afirmam que nós projectamos numa entidade divina as nossas próprias características, o que significa que Deus é uma mera criação humana. “

“Quem diz isso? “

“Oh, vários filósofos. Sei lá, Schopenhauer, Hegel, Feuerbach... “

“Todos alemães”, riu-se Agnès. “Só por isso os boches merecem perder a guerra. “

Afonso sorriu.

“Já vi que acha essas ideias uma heresia. “

“Não, nem por isso, estava só a brincar. Julgo até que essa é uma tese que merece atenção.”

“É o que eu penso. Mas a verdade é que, se, por um lado, o homem criou Deus à sua imagem, por outro, coloca-se a questão de saber quem criou o homem? Ou, mais importante ainda, quem criou tudo o que nos rodeia, quem criou o universo? Será que as coisas surgiram sem qualquer razão, o universo apareceu por aparecer, assim sem mais nem menos? “

“Concordo consigo”, disse Agnès, estimulada por este pensamento. “Talvez a verdade seja partilhada pela religião e pela ciência, essa é uma hipótese fascinante.”

“A minha ideia vai para além disso, m'dame, a minha ideia é a de que não há uma única verdade. Nietzsche dizia que não há factos, só interpretações, o que é verdade do ponto de vista do ser humano. É indesmentível que existe uma realidade, aquilo a que Kant chamava a coisa em si, o nómeno. Mas, como o próprio Kant notou, nós não vemos a coisa em si, apenas vemos as suas manifestações. Ou seja, nós interpretamos o real. “ Olhou em volta e viu uma fotografia emoldurada na parede, era o barão montado a cavalo, com uma espingarda a tiracolo e rodeado de cães, uma cena de caça em Compiègne. Afonso apontou para a imagem. “É um pouco como aquela fotografia ali, está a ver? Aquele não é o senhor barão, mas uma imagem dele. Percebe? A fotografia não é o real, é uma representação do real, construída a partir de um ângulo, com determinados filtros e segundo um determinado código arbitrário. Tal como a fotografia reconstrói o real, pondo-o a preto e branco, por exemplo, nós também o reconstruímos. Já Kierkegaard tinha observado que tudo o que existe é algo exclusivamente individual. Ou seja, nós pomos algo de nós próprios quando interpretamos a realidade e é por isso que a nossa verdade é diferente da verdade de outras pessoas.”

“Portanto, não há verdade. É isso? “

“Não, claro que há verdade, claro que há. Mas há muitas verdades. O real é uno, embora inatingível na sua plenitude. As verdades são múltiplas, uma vez que são interpretações individuais do real. Eu sei que parece complicado, mas...“

“Não, não, estou a entendê-lo perfeitamente, é realmente uma ideia inte-ressante. “

“Sabe, eu acho que esta é a única maneira de estabelecer que a religião e a ciência podem estar as duas a falar verdade”, concluiu o capitão. “O real é uno, mas cada um destes discursos, o religioso e o científico, apresenta uma interpre-tação individual desse real. As duas podem até ser contraditórias e, paradoxal-mente, permanecerem ambas verdadeiras.“

Fez-se silêncio, apenas quebrado pelo som dos estalidos da madeira a arder na lareira. As sombras do lume dançavam pela 5ala, as fagulhas saltitando e bailando pelo ar como pirilampos nervosos. Todos fitavam o fogo, Afonso com um sorriso de íntima satisfação. Desde os tempos do padre Nunes, no seminário, e do Trindade Ranhoso, na Escola do Exército, que não voltara a discutir filosofia com ninguém. Era um imenso prazer estar a fazê-lo agora, pela primeira vez em tanto tempo, naquele recanto perdido de França, ainda para mais com uma mulher lindíssima.

Interrogou-se se alguma vez conseguiria falar de coisas tão profundas e apaixonantes com uma portuguesa, mas tinha muitas dúvidas, não se imagi-nava a conversar sobre Hegel com Carolina.

Só essa constatação encheu-o de admiração por Agnès.

A francesa, por seu turno, tinha também a mente concentrada em Afonso, nas palavras que pronunciava, na maneira ágil como raciocinava. Era a primeira vez desde o namoro com Serge que mantinha uma conversa tão interessante com alguém, um diálogo que a libertava daquelas quatro castra-doras paredes e, atravessando uma maravilhosa janela imaginária, a lançava destemidamente numa viagem feita de encantamento e magia, um deslum-brante périplo pelo inspirador mundo das ideias, um universo rico, pleno de pensamentos audazes, de novidades palpitantes, de revelações surpreendentes. Lembrava-se de ter tido essa sensação quando visitou a Exposição Universal de Paris ou quando o pai lhe ensinou os segredos do vinho. Também viveu as mesmas emoções de descoberta ao frequentar as aulas de Medicina e na altura em que conheceu Serge e o seu sublime mundo das artes. Agora vinha este capitão português despertar-lhe esses sentimentos, esse gosto pelo conhecimen-to, pela exploração, e Agnès desejou arden temente ficar ali toda a noite a descobri-lo.

Talvez pressentindo que havia uma perturbadora química a nascer entre o oficial e a sua mulher, o barão decidiu pôr um fim abrupto ao serão. Engoliu de uma assentada todo o cognac e levantou-se com vigor.

“É tarde. O Marcel vai conduzi-lo ao seu quarto”, disse. Olhou para a porta e elevou a voz: “Marcel! “

O mordomo apareceu em alguns instantes.

“Leva o senhor capitão aos seus aposentos”, ordenou. “Senhor capitão”, disse, despedindo-se do seu convidado com um sinal de cabeça, e olhou para a mulher. “Viens, Agnès. “

A francesa demorou-se um instante na cadeira de balanço, como se hesi-tasse. Ergueu-se devagar, quase contrariada, e olhou para o capitão português.

“Bonne nuit, Alphonse”, sussurrou com a sua voz meiga e serena. “À demain.“

“Mdame!“, exclamou Afonso, pondo-se de pé num salto e fazendo uma vénia galante.

Marcel conduziu-o pelos corredores do palacete, indicando-lhe o cabinet de toilette e os seus aposentos. O quarto onde foi instalado era sumptuoso, tão luxuoso que, por momentos, o oficial se sentiu um palmípede, um daqueles homens do quartel-general que faziam a guerra comodamente instalados num palacete, fardados de pijama e armados com chinelas de quarto. Tudo ali era requintado. Molduras ovais decoravam as paredes com retratos pintados, ilustrando rostos e feitos das sucessivas gerações de Redier, a família que dera o nome ao château. No centro do quarto destacava-se, imponente, uma cama de armação Luís XV, toda feita em nogueira, um motivo de concha esculpido na madeira da cabeceira.

O quarto de banho era grande e frio. Encostada à parede estava uma pia em art nouueau, o suporte de ferro batido revirado em arabescos, curvas aqui e ali, contorcendo-se para um lado e para outro, um espelho redondo no centro ladeado por duas velas. Afonso acendeu-as, a bacia tinha uma torneira dourada de alavanca, o bico longo de níquel curvado para baixo, abriu-a, sentiu o líquido gelado queimar-lhe os dedos, passou a água fugitivamente pela face, como um gato, pegou no savon au miel que se encontrava no bojo circular da pia e esfregou as palmas das mãos, sentiu a fragrância do sabão e passou-a pelo rosto, esfregou a cara com água e secou-se à toalha. Olhou de relance para a banheira Chariot instalada junto à janela, toda ela em ferro fundido, o interior em branco, o exterior em rosa-forte, os pés dourados, sonhou tomar banho ali no dia seguinte, agora não, a bexiga apertava-se-lhe. Saiu do cabinet de toilette e foi ao quartinho adjacente onde se encontrava a retrete, o vaso de por celana com uma elegante gravura floral decalcada, um longo tubo de níquel pregado à parede a ligar o vaso à cisterna branca de ferro fundido fixada junto ao tecto e sustentada por dois suportes dourados de girassol, levantou o assento de mogno e urinou para o vaso, no final puxou a alavanca que caía da cisterna, a água foi despejada com fragor dentro do vaso.

O capitão regressou ao quarto sem lhe passar pela cabeça voltar a lavar as mãos, sentia-se satisfeito com estes luxos, isto sim, isto é que era vida, a malta à volta com as latrinas e ele ali a satisfazer-se naquele palacete, o pessoal deitado em palheiros ou a chafurdar na lama dos boletos campestres e ele com um quarto digno de reis só para si. Suspirou com alegria, “ah caraças! Ah camano!“, murmurou, tinha de aproveitar bem aquele momento.

Despiu-se, abriu a cama e deitou-se, puxou os cobertores até quase à cabeça, ainda encheu os pulmões com o aroma fresco dos lençóis lavados e imaculadamente alvos, sentiu o calor a anichar-se no seu corpo encolhido, respirou com tranquilidade, fechou os olhos e adormeceu num instante, o murmúrio longínquo dos canhões a ressoar como vagas a baterem lá longe, fustigando imaginários rochedos da costa, a furiosa tempestade transformada em distante e modorrenta maré que o embalava no seu agitado sono de soldado.

O oficial português foi acordado de manhã por uma criada que lhe trouxe leite, café, três tostas, um pouco de manteiga e uma compota, que devorou com avidez. Afiou a navalha e fez a barba com água fria, vestiu-se e saiu do quarto. A meio do corredor viu Marcel a transportar roupas de cama.

“Msieur, où est Joaquim?

“Pardon.”

“Joaquim, le portugais. Onde está ele? “

“Ah”, compreendeu Marcel. Attendez, s'il vous plait.

O mordomo pousou as roupas numa cadeira alta do corredor, deu meia-volta e apressou o passo, desaparecendo pela escadaria.

Afonso seguiu na mesma direcção, desceu as escadas e deu consigo no foyer. Agnès apareceu à porta do salão e encostou-se à aduela.

“Bonjour, Alphonse. “

“Bonjour, m dame.

“Dormiu bem? “

“Magnificamente, merci”, disse, observando-a com curiosidade. Era de facto uma criatura bela, os olhos verdes ainda mais brilhantes à luz do dia. De noite parecia uma gata, tentadora e misteriosa, mas agora surgia-lhe como um anjo, um ar imaculadamente divino e gracioso. “Et vous? “

Agnès encolheu os ombros.

“Ça va.

Afonso apreciou o seu jeito suave e doce, a beleza tranquila, o ar carinhoso e levemente triste. Admirou-a e sentiu-se interessado em conhecê-la melhor. Mas uma voz atrás de si, em português, desviou-lhe a atenção.

“Meu capitão! “

Era Joaquim, fazendo continência.

“Vai buscar o carro”, ordenou o oficial.

“Está lá fora, meu capitão. “

Marcel abriu a porta e Afonso voltou-se para Agnès.

“Mdame, muito obrigado pela sua hospitalidade”, agradeceu, pegando na carteira e no billeting certificate que trazia guardado no bolso. “Ora, um oficial é um franco e um soldado são vinte cêntimos. Portanto, julgo dever-lhe um franco e vinte cêntimos. “

A baronesa aproximou-se um passo, ignorando as moedas que ele lhe estendia mas pegando no billeting certificate. Estudou o documento com curiosidade, era o certificado de aboletamento e estava assinado pelo maire e pelo comandante do batalhão e autenticado com o carimbo do CEP. Levantou os olhos do papel e fitou o capitão.

“Voltará esta noite? “

“Não, m'dame. “

“E porquê? “

“Parto hoje para as trincheiras. “

Agnès cerrou os lábios.

“Vai lá estar muito tempo? “

“Uma semana, m'dame. “

“Então seja nosso hóspede daqui a uma semana”, disse-lhe, devolvendo o billeting certificate.

Afonso hesitou um instante, sem saber como responder ao inesperado convite.

“Com muito gosto, m'dame, teria muito prazer em cá voltar”, disse, “mas tudo vai depender dos boches e do maire. “

“Você tenha cuidado e trate dos boches que eu tratarei do maire. “

“E o billet? “, quis ele saber, referindo-se ao boleto.

“Paga-me o billet para a semana. “

Os dois apertaram as mãos, ela com um sorriso sempre levemente desenhado nos lábios, desta vez era um rubor suave, de rosa-avermelhado, a encher-lhe a face de calor, o aroma floral de L'heure bleue a perfumar o ar com as suas essências frutadas.

“Você é realmente parecido com uma pessoa que conheci. “

“Espero que seja uma parecença agradável.”

Ela sorriu com tristeza.

“Je vous attends”, murmurou intensamente, evitando responder. Deu meia-volta para se retirar e, afastando-se, olhou de relance para trás, com um movimento gracioso e uma expressão afável. “Bonne chance!

 

A terra estendia-se pelo campo quase plano, desértico e desolado, ao mesmo tempo molhado, enlameado, sujo. Até onde os olhos podiam ver o solo era revolto, árido, tudo se encontrava queimado, o chão apresentava-se esbura-cado pelas crateras de granadas de obuses e esventrado por minas, aqui e ali viam-se poças de água e lama donde emergiam ferros contorcidos, um ou outro cadáver humano em decomposição, ossos, botas com os pés decepados lá dentro, farrapos de uniformes, ratazanas mortas a boiar. As únicas coisas de pé naquele tenebroso mar de desolação eram as redes enrodilhadas de arame farpado, árvores calcinadas sem folhas e com os troncos carbonizados, paredes incompletas do que outrora foram casas e não passavam agora de tristes e irreconhecíveis ruínas.

Um silêncio profundo abatera-se na última hora sobre esta sinistra paisagem lunar. Encostado ao parapeito, Matias Silva, a quem chamavam Matias Grande, não sabia o que mais detestava. Este seu turno nas trincheiras começara havia apenas dois dias e ainda não se habituara totalmente ao cheiro a fezes que provinha das fossas por baixo do estrado de madeira, um cheiro a que se misturava o odor nauseabundo de carne putrefacta, de detritos de comida apodrecida e de urina. Para se proteger do frio tinha vestido sobre a farda o seu colete de pelica, feito de pele de carneiro e sem mangas, que se tornara uma imagem de marca dos soldados portugueses na Flandres durante os dias frios. Chamavam-lhes, por isso, os lãzudos. Matias levantou a cabeça pelo parapeito do posto, em Neuve Chapelle, e espreitou para as posições inimigas. Da primeira linha, no ponto onde se encontrava de vigia, até à primeira linha alemã distavam quinhentos metros.

“Méééééé! “, gemeu uma voz fingidamente trémula du outro lado da terra de ninguém. “Méééééé! “

“Filhos da puta dos boches que já me viram!“, resmungou por entre dentes a sentinela portuguesa, afastando-se cinco metros do local por onde espreitara, não fosse o diabo tecê-las.

O colete de pele de carneiro era um sucesso entre a tropa alemã.

Do outro lado das trincheiras estavam os homens da 50. Divisão do VI Exército alemão, comandado pelo general von Quast e pertencente ao grupo de exércitos do príncipe herdeiro Rupprecht, que não se cansavam de provocar os portugueses com imitações de sons de rebanho. Alguns lãzudos ficaram inicialmente fora de si com estas graçolas do inimigo, mas já todos se tinham habituado, a piada, de tanto repetida, deixara de fazer efeito, e, quando atiçados, os homens dos quatro batalhões de infantaria da Brigada do Minho, a 4.a Brigada da 2.a Divisão do CEP, limitavam-se agora a ruminar alguns insultos contra os alemães.

A primeira linha portuguesa prolongava-se por dez quilómetros, da trincheira de comunicação New Bond Street, no sector de Fauqussart, até Ferme du Bois, a sul, com Neuve Chapelle no meio. Este era, de resto, um troço cheio de história antes de os portugueses chegarem. Foi justamente em Neuve Cha-pelle que, em Outubro de 1914, os alemães utilizaram pela primeira vez gases químicos como arma de guerra. Na altura estas trincheiras eram ocupadas por tropas francesas que, no entanto, nem repararam nos gases não letais que as granadas de schrapnel transportavam, pelo que a estreia das armas químicas se saldou por um fracasso. Depois, em Março de 1915, já com as tropas inglesas a ocuparem o sector, foi aqui lançada a primeira grande ofensiva britânica contra as posições alemãs. Após sucessos iniciais, a ofensiva fracassou ao fim de três dias, mas revelou-se uma acção politicamente importante porque serviu para mostrar aos franceses o empenho dos seus aliados britânicos. Na Batalha de Neuve Chapelle foram pela primeira vez na guerra utilizados aviões para foto-grafar as posições inimigas, de modo a fornecerem informação para a operação, uma prática que se tornaria rotineira, embora perigosa, nas acções subse-quentes.

Agora, neste dia 22 de Novembro de 1917, Neuve Chapelle e as vizinhas Ferme du Bois e Fauquissart viviam tempos calmos nas mãos dos portugueses. Todo o sector da primeira linha era constituído por três linhas fundamentais de trincheiras, todas elas paralelas e ligadas entre si pelas trincheiras de comuni-cação, que as cruzavam perpendicularmente. A mais adiantada das três linhas era a linha da frente, com um desenho quebrado, quase aos ziguezagues, num esforço deliberado de fugir ao traçado rectilíneo para evitar enfiamentos e facilitar o cruzamento do fogo das metralhadoras defensivas. Diante da linha da frente, logo a seguir ao parapeito da trincheira, estendiam-se três faixas de rolos de arame farpado, erguidos para dificultarem a progressão do inimigo quando este atacava pela terra de ninguém. Atrás, cavada paralelamente à linha da frente, estava a linha B, que constituía a principal linha de defesa adiantada e se encontrava protegida por mais uma faixa de rolo farpado e por ninhos camuflados de metralhadoras pesadas, em geral Vicers. Mais atrás ainda, a linha C, também conhecida por linha de apoio, onde se situavam as sedes dos batalhões avançados. Depois destas três filas de trincheiras, conhecidas globalmente sob a designação de primeira linha, vinha a linha das aldeias, ligando Richebourg, Pont du Hem e Laventie, igualmente protegida por uma longa rede de arame farpado, e a linha de Corpo, que passava por Huit Maisons e Lacouture, constituída por vários pontos fortificados que defendiam as principais vias de comunicação para a retaguarda.

Finalmente, ao longo da ribeira de Lawe, a linha do Exército, atrás da qual se encontravam os quartéis-generais e uma legião de cachapins, a expressão pejorativa por que eram referidos todos os militares envolvidos em tarefas burocráticas e que das trincheiras apenas conheciam as fotografias que viam nas revistas.

Matias sentiu movimento à esquerda. Pelos regulamentos estava proibido de virar a cabeça para outro lado que não fosse a terra de ninguém, mas tinha de se certificar de que o inimigo não entrara furtivamente na primeira linha. Afinal de contas, as trincheiras eram locais habitualmente desertos, andava-se centenas de metros e só se via uma sentinela, pelo que qualquer movimento naquele sítio desolado tinha de ser identificado. Olhou para a esquerda e não viu ninguém. Poderia ser o sargento ou o oficial de serviço à ronda da linha da frente, mas tinha de ter a certeza. Virou a Lee-Enfield e apontou-a preventi-vamente.

“Quem vem lá “, perguntou.

“Tiro”, foi a resposta. “Contra- senha? “

“Fogo”, disse Matias, descontraindo-se e voltando a prestar atenção à terra de ninguém.

Um soldado também protegido por um colete de pele de carneiro apareceu da trincheira de comunicação La Fone Street, perpendicular à linha da frente e construída igualmente em sucessivos ziguezagues, e apresentou-se no posto da sentinela. Matias viu-o e reconheceu Vicente, um homem baixo e forte, o rosto largo, um bigode tímido no canto dos lábios e umas mãos de ouro, era carpinteiro em Barcelos e o jeito para criar objectos a partir da madeira atingira tal fama que todos o conheciam por Manápulas.

“Venho render-te”, anunciou Vicente. “Com'é qu'está esta merda?”

Vicente era um pouco trapalhão a falar, disparava as palavras com rapidez sôfrega e engolia algumas sílabas. Era por vezes difícil entendê-lo, mas, com o hábito, Matias tornou-se um bom descodificador das suas conversas.

“Tive uma hora tranquila”, foi a resposta. “A costureira dos boches abriu fogo há vinte minutos, mas acho que foi só para me manter acordado. “

“Brrrr, tá qui um gelo... “

“Aguenta-te, Manápulas, que eu agora vou serrar presunto e ver se como umas gajas no abrigo. “

“Vai mas é pentear macacos, meu cabrão! “

Matias riu-se e saiu dali em passo rápido, aliviado, permanecer na linha da frente punha qualquer pessoa nervosa. É certo que a tarde ia ainda no princípio e que o pior era a noite, mas ninguém ignorava que, em corrida e se não existissem obstáculos, bastariam aos alemães entre quinze segundos a dois minutos para cruzarem a terra de ninguém e aparecerem nas trincheiras portuguesas, dependendo do ponto da frente onde fizessem a travessia. Em alguns sectores, a distância era de uns meros oitenta metros, noutros atingia os oitocentos. Quando volta e meia os alemães efectuavam um golpe de mão, as sentinelas da linha da frente viviam uma experiência desagradável.

O soldado meteu por La Fone Street, apanhou a linha B, paralela à linha da frente mas cem metros mais atrás, atravessou os postos das metralhadoras pesadas, umas Vickers Mk rotativas, alimentadas por um cinto de munições e protegidas por sacos de areia com uma abertura para a terra de ninguém. Matias cruzou ainda o posto dos telefones e alcançou Ghurkha Road, seguiu-a até Sign Post Lane, voltou à direita e foi apanhar Cardiff Road. Passou pelo abrigo de comando e chegou a Euston Post, onde naquele dia estava montada a cozinha.

“Matos”, chamou. “Dá-me aí o borrego assado com batatas a murro e o molho de caviar. “

O cozinheiro pegou numa tigela.

“É para já, senhor marquês”, disse, enchendo a tigela de sopa aguada e entregando-a ao soldado.

Matias pegou num naco de pão, sentou-se sobre a tábua e viu a água gordurosa com legumes a boiar na tigela branca.

“Porra, Matos, puseste caviar a mais”, queixou-se, metendo uma colher à boca e engolindo devagar a sopa juliana.

Matias Grande era um minhoto bem-disposto. Vinha de Palmeira, uma freguesia a norte de Braga, e estava habituado à boa e pesada comida do Minho, mas aqui, nas trincheiras, não tinha ilusões quanto à qualidade da cozinha. A sua mãe fazia canjas de sonho, suculentas, ricas, temperadas, regadas a coentros da horta, um manjar dos deuses a que só agora dava o devido valor. Desde que chegara a França, integrando o Batalhão de Infantaria 8 da Brigada do Minho, Matias Grande raramente voltou a comer bem. Sonhava abundantemente com as sopas secas, as bolas de carnes, as orelheiras e as papas de sarrabulho, mais as deliciosas sobremesas de arrufadas, de brisas e de roscas, para já não falar das fabulosas molarinhas. Mas ali, nas primeiras linhas, tudo isso não passava de fantasias cruelmente alimentadas pela memória de dias que, sendo de miséria e feitos de carências, vistos daquela perspectiva pareciam fartos e opulentos. Tal como a generalidade dos seus companheiros, Matias emagrecia meio quilo por dia quando ocupava as trincheiras e só ao voltar às aldeias da retaguarda, uma semana depois, é que conseguia restabelecer o peso.

Mas, se houve algo que aprendeu naquele lugar, foi a dar valor aos pequenos nadas. As coisas mais simples proporcionavam-lhe agora momentos de inexprimível alegria. Fruía os instantes de silêncio, saboreava com gosto qualquer alimento, mesmo o repetitivo corned-beef lhe sabia quase tão bem como uns rojões à moda do Minho, gozava com o calor da aguardente distribuída às sentinelas a arder-lhe nas entranhas e a queimar-lhe o sangue, deleitava-se com os instantes em que não tinha tarefas atribuídas e se empenhava aplicadamente em recuperar o défice de sono ou em sonhar com o ar perfumado dos montes do Minho, com as águas frias do Este a congelar-lhe os pés ou com o calor ternurento da sua Francisca a aquecer-lhe a alma e a atear-lhe o fogo da paixão. Durante uma marcha, até uma paragem de meio minuto lhe dava prazer. Como qualquer outro soldado do CEP, Matias aprendera a viver para o presente, para o momento, vivia como se não existisse amanhã, como se não tivesse futuro, como se o tempo lhe fugisse, como se a morte o pudesse levar daí a uma semana ou já no minuto seguinte.

Depois de esvaziar a sua quota de corned-beef e de tomar o chá, que bebericou de olhos fechados, saiu da cozinha e voltou a La Fone Street até chegar à linha C, quinhentos metros atrás da e completando as três linhas de trincheiras que constituíam a primeira linha. Na linha cruzou-se com elementos da reserva do batalhão e foi para a zona das latrinas. O cheiro a excrementos, sempre presente nas trincheiras em geral, e nas portuguesas em particular, era aqui mais intenso. Matias agarrou num balde, fechou a porta da latrina, defecou para o balde enquanto ia abanando a mão para afastar as moscas da cara, eram enormes varejeiras azuis e deslocavam-se numa nuvem ruidosa, zumbindo e azoinando, sequiosas da podridão. Quando terminou, o soldado ergueu-se e verificou a cor das fezes, estavam um bocado líquidas, interrogou-se se não estaria com disenteria, procurou sinais da tão frequente diarreia das trincheiras, mas não lhe pareceu, afinal de contas não lhe doía o abdómen e não viu sangue nos excrementos. Mesmo assim tomou nota mental para vigiar a próxima evacuação, limpou-se a um jornal, na ocasião uma página desportiva do Le Petit Journal, saiu da latrina, pegou no balde e lançou os excrementos para a fossa, guardou o balde, viu que gotas de fezes lhe tinham salpicado as costas da mão direita, praguejou, limpou- se, esfregando fugazmente a mão ao pano áspero das calças, e desceu rapidamente pela linha até ao abrigo do seu pelotão.

O posto de comando da segunda companhia de Infantaria 8 da Brigada do Minho estava transformado num verdadeiro escritório. Encostado à parede de Grants Post encontrava-se o catre de arame para o oficial de serviço. Ao lado, alguns caixotes pregados como estantes para armazenar o que fosse necessário, aqui e ali eram visíveis velas de estearina e junto à entrada estava um caixote de munições a servir de mesa, com um banco encostado.

Sentado à mesa, os traços rudes do caixote disfarçados por uns trapos esfarrapados, o capitão Afonso Brandão preparava o relatório das três da tarde sobre a situação no sector sob o seu comando e sobre o vento, informação esta considerada relevante para avaliar a possibilidade de serem lançados gases tóxicos pelo inimigo. Por acaso, naquele dia 22 de Novembro, o vento vinha de leste, sendo por isso propício à utilização de armas químicas pelo inimigo. O documento que o capitão ultimava era o quinto do dia. Pelo menos, ninguém podia acusar o CEP de ignorar a burocracia. Ainda ontem Afonso chegara às trincheiras, depois da intrigante noite no Château Redier, e afadigava- se agora, em plena frente de guerra, com a papelada da companhia que chefiava.

Às seis da manhã já tinha enviado o “relatório das operações e das informações”, descrevendo a ocupação das trincheiras, o número de cartuchos consumidos pelas metralhadoras, as patrulhas, as obras de reparação das trincheiras bombardeadas, a visibilidade, a actividade visível do inimigo, a acção das suas metralhadoras e granadas, os sítios alvejados, o movimento dos aeroplanos e outras informações. Este primeiro documento era sem dúvida o mais importante, mas havia mais. As dez da manhã, Afonso tinha telegrafado as baixas das últimas vinte e quatro horas e ao meio-dia havia remetido o relatório dos trabalhos e requisições. O próximo relatório seria agora às quatro da manhã, com informações sobre o vento e a situação nas trincheiras. O problema é que a papelada não se ficava por aí, e o capitão suspirou com desalento ao lembrar-se de que teria ainda de ler com atenção a circular 22. 753, enviada pela brigada para clarificar a circular 12. 136 da 2.a Divisão, a qual, aliás, era uma ampliação da circular 9. 227 do CEP, com novas indicações para os soldados sobre o modo de colocarem e tirarem as máscaras de pé, deitados, em marcha, parados, a dormir ou acordados.

“Afonso”, chamou uma voz atrás de si.

O capitão voltou a cabeça e viu o major Gustavo Mascarenhas, o antigo colega da Escola do Exército que estava colocado como segundo comandante de Infantaria 13, de Vila Real, uma das duas unidades transmontanas presentes na Flandres, integradas também na 2.a Divisão.

“Entra”, convidou Afonso, voltando a sua atenção para o documento que ultimava. “Não devias estar a preparar o teu relatório? “

“Já acabei”, disse Mascarenhas, baixando a cabeça e sentando-se no catre. “Tenho uma surpresa para ti. “

“Conta”, pediu Afonso, sem levantar os olhos do seu relatório.

“Lisboa mandou-nos um oficial novinho em folha. “ Afonso parou e ergueu a cabeça.

“Não me digas”, sorriu, olhando para o amigo. “Quem é o anjinho “

“Um tal de capitão Resende. “

“Donde é que ele é? “

“Sei lá”, disse Mascarenhas, com um trejeito de boca. “Como vem para o 13, deve ser transmontano. “

“Ainda dizem que o 13 dá azar”, desabafou Afonso. “Andamos nós com uma enorme falta de oficiais e vocês conseguem um reforço. Quando é que ele vem aqui às trinchas? “

“É essa a questão”, excitou-se Mascarenhas. “Ele chega daqui a um bocadinho, a minha ordenança já o foi buscar. “

“Ó homem, então só agora é que me dizes isso? “, repreendeu-o Afonso. “Vamos fazer-lhe uma recepção e peras! “

“É isso, Afonso, foi por isso que te vim cá chamar. “ Afonso ergueu- se e espreitou pela porta do posto em busca da ordenança.

“Joaquim”, chamou.

“Meu capitão.”

“Daqui a um bocado chega aí um oficial novo”, anunciou-lhe. “Vamos fazer-lhe a recepção ao caloiro. Avisa a malta para se preparar para o número do costume.“

“Imediatamente, meu capitão”, disse Joaquim, fazendo continência antes de descer em corrida pela segunda linha.

Afonso e Mascarenhas abandonaram o posto de comando da segunda companhia de Infantaria 8, em Grants, meteram pela Winchester Road e apanharam a Rue Tilleloy até Baluchi Road, a trincheira de comunicação por onde seguiram até virarem em Cardiff Road e chegarem à linha de apoio, no sector de Euston Post. Aí encostaram-se ao muro de pedra e aguardaram pelo recém-chegado oficial.

O capitão Resende apareceu no local dez minutos depois, conduzido pela ordenança do major Mascarenhas. Afonso e Mascarenhas viram-no aproximar-se pela longa Rue de la Bassée e apreciaram-no com mal disfarçado prazer e antecipação. A farda vinha imaculadamente lavada, o capacete de ferro impeca-velmente colocado e apertado debaixo do queixo, a máscara antigás pendurada ao pescoço e muito direita como requerido pelo regulamento, o porte majestoso e altivo, as botas reluzindo de graxa, embora já com alguma lama na sola. Apenas a barriga proeminente estragava a majestosa postura marcial.

Quando se encontraram, os três fizeram continência e depois apertaram as mãos.

“Então, capitão, preparado para a vida nas trinchas? “, quis saber Afonso.

“Nem por isso”, disse Resende. “Ainda há quinze dias passeava eu no Rossio e, veja lá, estou agora aqui, de surpresa, sem preparação alguma, pus-me na guerra enquanto o diabo esfrega um olho. “

“Homessa! “, exclamou Mascarenhas. “No Rossio? O que fazia vossemecê no Rossio? “

“Bem”, atrapalhou-se Resende. “Passeava, suponho. Ia até lá acima à Casa Havaneza comprar tabaco. “

“À Havaneza? “, admirou-se Mascarenhas. “Mas donde é vossemecê? “

“Eu sou de Paço d'Arcos.”

“De Paço d'Arcos?“, surpreendeu-se ainda mais o major. “Mas o que é que vossemecê está a fazer no 13, que é uma unidade de Trás-os-Montes? Você devia era estar na 6.a Brigada, a de Lisboa, onde se encontram o 1, o 2, o 5 ou o 11.“

“Pode parecer-lhe um pouco estranho, meu major, mas não tenho nada a ver com Trás-os-Montes e fui colocado de emergência no 13”, justificou-se o capitão. “Vou para onde me mandam. “

O major Mascarenhas afagou o bigode, pontiagudo nas extremidades.

“É a porra da falta de oficiais”, comentou para Afonso. “Como já viemos desfalcados e vamos perdendo homens por causa dos boches e das doenças, até mandam lisboetas para os nossos batalhões transmontanos. “

“Ó meu major”, observou Resende. “Quem o ouvir falar até parece que me desconsidera... “

“De modo algum, de modo algum”, apressou-se a esclarecer Mascarenhas. “Seja muito bem-vindo ao Batalhão de Infantaria 13 e às trincheiras do CEP. Nós estamos estacionados em Ferme du Bois e aqui o capitão Brandão, que é do 8, de Braga, encontra-se a defender a linha de Neuve Chapelle. O 8 pertence à Barrigada do Minho. “

“Barrigada do Minho?“, admirou-se Resende.

“Engraçadinho...”, comentou Afonso, rolando os olhos. Mascarenhas riu-se.

“A malta chama Barrigada do Minho à Brigada do Minho. Mas, como vê, os minhotos ficam todos nicados.“

Os três oficiais e a ordenança desceram pela Rue de la Bassée até apanharem a Edgware Road, meteram por esta até, lá ao fundo, galgarem pela Baluchi Trench. Afonso adiantou-se ligeiramente, conduzindo-os para a linha do seu sector, onde, se Joaquim cumprira bem as instruções que lhe dera, estava preparada a recepção ao caloiro.

Quando desembocaram na linha B, Afonso avisou, induzindo o recém- chegado em erro:

“Estamos na linha da frente, o inimigo encontra-se a duzentos metros. “

Era mentira, claro, mas a informação tinha sido transmitida em tom grave e impunha respeito. Uma voz de sentinela troou nos ares.

“Quem vem lá?”

Afonso encheu os pulmões. “Mijo! “, gritou. “Contra-senha “

“Merda.”

Afonso voltou-se para trás e olhou para Resende, que o fixava de olhos esbugalhados.

“Vamos, podemos passar. “

Resende estava perplexo.

“Arre!“, exclamou. “Vocês têm o diabo de umas senhas...“ “Chiiiu!“, indicou Afonso, o dedo à frente da boca exigindo silêncio.

“Silêncio total! “, ordenou Mascarenhas, reforçando a mensagem.

O capitão Resende encolheu-se no sobretudo, intimidado com o ambiente opressivo. Uma rajada de metralhadora rasgou o ar. O facto de ser uma Lewis portuguesa, previamente instruída para abrir fogo na sequência de um sinal de Joaquim, não foi comunicado ao recém- chegado. Mascarenhas deu um brutal encontrão ao capitão Resende, este patinou desesperadamente no estrado até tombar de joelhos na lama. Os outros oficiais e respectivas ordenanças encos-taram-se também ao parapeito, agachados. Nova rajada de metralhadora.

“Capitão!“, chamou Mascarenhas, dirigindo-se a Resende. “Deite-se ali, depressa! “

Ali era uma poça de lama. Resende olhou, ainda hesitou, mas pensou que estava em terra estranha e que os seus companheiros sabiam o que faziam e por isso atirou-se em força para a lama. Mascarenhas e Afonso viram-no rebolar-se com entusiasmo pela poça viscosa, a impecável farda lavada transformada numa papa repugnante, e viraram a cara para rirem em silêncio, os ombros em convulsões de gargalhadas reprimidas. Quando recuperaram, Afonso fechou os olhos e, num titânico esforço para não se desmanchar, encheu os pulmões de ar e gritou baixinho:

“Boches! Aos abrigos! “

O grupo desapareceu num ápice pelo emaranhado de trincheiras e bura-cos, deixando Resende só, chapinhando na lama. O capitão virou-se para todos os lados e não viu ninguém. Com os olhos muito abertos, aterrorizados, olhou para cima à procura do temível inimigo, o boche maldito, ergueu-se e encostou-se ao parapeito, encurralado, sem saber o que fazer, a mão, trémula, sacando o revólver do coldre. Durou alguns longos segundos este momento de suprema desorientação e logo Afonso reapareceu.

“Falso alarme”, explicou sumariamente. “Venha por aqui. “ O capitão Resende suspirou de alívio e seguiu-o, transpirando apesar do frio, Mascare-nhas e as duas ordenanças a juntarem-se a eles, todos com cara de caso. Passa-ram por uma árvore carbonizada e Afonso apontou para o tronco.

“Bata aqui! “, disse a Resende.

“Como?”

“Bata aqui, homem! “, ordenou.

O capitão caloiro, obediente, embora sem perceber o propósito da agressão ao tronco queimado, levantou a bengala e bateu na árvore. O impacto produziu um surpreendente som metálico e o tronco deu um berro.

“Cuidado com isso, suas bestas!!”

Resende deu um salto, estupefacto. A árvore falava. Afonso e Mascare-nhas desataram a rir.

“Ó homem, isto é um posto de observação, camuflado em árvore”, expli-cou Mascarenhas. “Chama-se Betty e é uma das árvores de ferro que para aqui temos.”

“Vocês estão-me a gozar... “

“Então o que queria vossemecê?“, justificou-se Afonso. “Esta é a nossa tradicional recepção ao caloiro aqui nas trinchas, diga lá se não é uma maravilha!”

“Vão-se cardar! “

Os dois oficiais riram-se.

“Deixe lá que caem todos”, comentou Mascarenhas. “Quando entrámos pela primeira vez nas trinchas, os gajos da 1.a Divisão fizeram-nos a mesma coisa. Venha daí até ao posto de comando para bebermos um vinho do Porto e lamber as feridas. “

E lá foi o capitão Resende, o bigode desalinhado, a farda numa amálgama de lama escura e húmida, as botas cobertas de terra, arrastando-se penosamente pela trincheira suja e malcheirosa, na esperança de saborear um doce cálice com sabor a Portugal.

A entrada do abrigo do pelotão não passava de um buraco aberto junto à base do parapeito, várias tábuas pregadas e sacos de areia a reterem a lama cinzenta que teimava em se infiltrar pelas arestas. Matias Grande meteu pela toca, sentindo as tábuas da escada a rangerem a cada degrau. O abrigo estava iluminado por lamparinas e eram visíveis vários homens deitados ou sentados, pertenciam ao seu desfalcado pelotão. Alguns dormiam, um fumava, outro catava piolhos do seu colete de pelica, um último lia uma carta numa pose pouco habitual, afinal de contas era raro encontrar quem soubesse ler naquele universo de analfabetos, homens rudes da serra e do campo que cresceram a trabalhar a terra e a zelar pelos animais e que a única educação que receberam foi a que a vida lhes deu. Matias pôs a mão no ombro do soldado que lia a carta.

“Daniel“, chamou.

O homem, magro, franzino e com olheiras, levantou a cabeça. Tal como Matias, mais alto e forte, usava matacões, uma barba cortada rente e que distinguia os soldados minhotos do resto da tropa portuguesa.

“Então? “, saudou Daniel.

“Tudo bem, vou ver se serro presunto.“

“Alguma merda?”

“Não, os balázios do costume, nada mais.“

“Já manducaste? “, quis saber Daniel.

“Caviar”, disse Matias, os olhos desviando-se para a carta. “Notícias da patroa? “

“Sim”, retorquiu Daniel, a sua atenção voltando-se de novo para o papel escrevinhado que tinha nas mãos.

“Alguma novidade lá na terra?”

Daniel, tal como Matias, era de Palmeira. Tinham andado juntos na brinca-deira, lavraram campos para o mesmo patrão, fizeram vindimas lado a lado, eram unha com carne nas trincheiras. Daniel muito religioso, como convém a qualquer minhoto, chamavam-lhe até Beato. Aprendera a ler com o pároco, era a única forma de entender a Bíblia. Já Matias, menos dado a misticismos, nunca encontrou grande motivação para a aprendizagem. Além do mais, os pais cedo o obrigaram a ir lavrar a terra, não queriam o peso de uma boca para alimentar que permanecesse improdutiva. Como resultado, ficou analfabeto.

“Está tudo bem, mas ela queixa-se de que o miúdo é endiabrado.”

“Um boche “

“Um boche”, assentiu Daniel, sorrindo.

Uma ratazana gorda correu desajeitadamente pelo abrigo, passando a um palmo da tábua de Matias e deixando atrás de si um rasto enlameado. O soldado observou-a a anichar-se por um buraco aberto nas paredes de lama.

“Mais?“, perguntou, olhando novamente para o amigo e esperando notícias de Palmeira.

“O perdigueiro da Assunta teve uma ninhada e o Zelito fez uma birra, quer um cãozinho.“

“Olha, a mim é que me dava jeito um cão”, riu-se Matias. “Já viste o Fritz chegar ao meu posto e levar com um perdigueiro nas trombas? “

Daniel ficou pensativo.

“Eu, se tivesse um cão, fazia já aqui um churrasco”, exclamou. “Dizem que os chineses lhes chamam um figo”

“Estás maluco”, disse Matias, puxando por uma manta. “Os bifes, se soubessem, deixavam de nos falar. Os camones adoram os cães!”

“Deixavam de nos falar? “, retorquiu Daniel. “E eu ralado, não percebo nada do que eles dizem!”

“Ó Daniel, vai-te quilhar”, concluiu Matias, sacudindo a manta para a libertar dos parasitas e das pulgas e deitando-se depois na tábua molhada e enlameada.

“Vai-te quilhar tu. “

“Vou mas é dormir, dormir e sonhar com gajas”, soltou Matias, a cabeça já debaixo da manta. “No estado em que estou até a Assunta marchava. A Assunta e o perdigueiro. “

“És um porco. “

“Cala-te lá que eu agora vou adunar e sonhar que estou a tratar do assunto com a Assunta. “

Sentiu a humidade a enregelar-lhe as costas, a lama da tábua a misturar-se com a farda suja e empapada. Praguejou baixinho. Odiava aquele mar de lama, não havia meio de se habituar a ele, detestava dormir com a roupa molhada, o frio a colar-se-lhe à pele e a penetrá-lo até aos ossos. Pensou que era inevitável um dia apanhar uma pneumonia, mas esse pensamento tornou-se lento e transformou- se subitamente num sonho. Tinha adormecido.

O posto de comando de Grants estava húmido e Afonso puxou o catre para junto do caixote de munições, de modo a permitir que os seus convidados se sentassem. Baixou-se para procurar a caixa com as bebidas e, ainda curvado, virou a cabeça para Resende.

“Vossemecê quer experimentar um whisky? “ “ Um quê?”

“Um whisky “

“O que é isso? “

“É uma espécie de aguardente escocesa.”

Resende abanou a cabeça.

“Quero lá saber dessas mistelas dos bifes. Dê-me lá mas é um bom porto. “

Afonso pôs a garrafa na mesa, era escura, o vidro sujo e sem rótulo, distribuiu três copos e despejou um dedo de vinho em cada um. Os três oficiais ergueram os copos.

“À nossa “

Depois de engolirem o primeiro trago, Resende ajeitou-se no banco.

“Então como é a vida por aqui? “, quis saber. O major Mascarenhas puxou de uma caixa branca, Embassy escrito a vermelho, e tirou de lá um cigarro, era um maço que vinha nas rações inglesas.

“Aqui não se vive, homem”, disse, acendendo o cigarro. “Aqui sobrevive-se.“

“Imagino.“

“Não imagina nada”, cortou o major. “Mas vai perceber depressa. O que a malta tenta é passar despercebida, provocar os boches o menos possível e ir fazendo pela vida. “

“Tem havido muitos combates? “

“Nem por isso”, disse Mascarenhas com um trejeito de boca, libertando uma baforada cinzenta do Embassy. “Nada que se compare com o que se passa com os camones, aquilo é que é bordoada da grossa. “

Mascarenhas olhou para Afonso, que se sentiu na obrigação de retomar a explicação.

“Temos sobretudo duelos de artilharia, missões de patrulha na terra de ninguém, tiros de sniper, rajadas de metralhadora, essas coisas que dão encanto à vida nas trincheiras”, disse Afonso. “As patrulhas na terra de ninguém aca-bam por vezes aos tiros, já lá perdemos alguns homens. Mas combates mesmo a sério, daqueles de envergadura, tivemos apenas quatro. O primeiro foi logo em Julho, quando a malta do 24, de Aveiro, ainda fresquinha-da-silva, fez um raide às linhas alemãs com trinta homens, só que as coisas não correram lá muito bem. “

“ Porquê?”

“Éramos ainda inexperientes, andávamos armados ao pingarelho e apanhámos uns maduros pela frente”, disse. “Além do mais, um oficial do 24 contou-me que tinham ficado com a impressão de que os boches já sabiam antecipadamente que ia haver um raide.”

“Sabiam, como? “, admirou-se Resende.

“Sei lá. Por espionagem ou por um desertor, qualquer coisa assim. Mas também porque éramos uns ingénuos. Disseram-me que, dias antes do ataque, a própria população francesa já comentava a operação. “

“Não acredito. “

“Pode crer. Sabe como é o pessoal, era tudo novidade, uma aventura, e facilitaram, puseram-se a falar em toda a parte sobre o que iam fazer. Resul-tado, as coisas acabaram mal.“

“E os outros combates?“

“Depois do espalhanço do 24não fizemos mais nada, de modo que os restantes três foram todos de iniciativa alemã”, explicou Afonso. “O primeiro raide dos tipos ocorreu em Agosto, três semanas depois do nosso. Lançaram gases e atacaram com centenas de homens em Fauquissart, chegando a passear nas nossas linhas, e foi sobretudo o pessoal do 35, de Coimbra, que teve de se aguentar à bronca. Uma semana depois, os boches voltaram a atacar, agora ali em Ferme du Bois, mas a artilharia bateu forte e conseguiu impedir que eles chegassem às nossas linhas “

“E o terceiro raide? “

“Esse ocorreu há pouco tempo”, indicou Afonso, olhando de relance para Mascarenhas.

“Há uns dez dias, mais coisa, menos coisa”, referiu o major.

“Já envolveu o pessoal da 2.a Divisão. “

“Os outros não foram com a 2.a Divisão? “

“Ó homem, você anda no mundo da Lua ou quê?“, questionou-se Masca-renhas. “Nós só entrámos nas trincheiras há pouco tempo. Pouco tempo, é como quem diz, fez ontem dois meses e já achamos muito. Mas a verdade é que quem aqui tem andado no duro têm sido os gajos da 1.a Divisão, esses estão a combater desde Maio, enquanto nós só chegámos aqui às trinchas a 23 de Setembro. E foi apenas há dez dias que tivemos um combate a sério, justamente quando desse raide inimigo. Até aí só tínhamos visto bombar-deamentos e patrulhas.”

“O azar dos boches neste último raide foi o de terem encontrado pela frente aqui a malta de Braga”, exclamou, orgulhoso, Afonso.

“Ah, foi convosco? “, surpreendeu-se Resende, pousando o copo.

“Não”, disse Afonso. “Temos aqui dois batalhões de Braga, pertencentes à Brigada do Minho da 2.a Divisão. “

“A Barrigada do Minho? “

“A Brigada”, insistiu, com ar de quem não admitia brincadeiras com o nome da sua brigada. “Temos o 8, que é o meu, e o 29. Foi com o 29. “

“E o que aconteceu?”

“Eles avançaram ao fim da tarde em Ferme du Bois e entraram nas nossas linhas, mas a malta de Braga pô-los a correr num instante. “

“Ó Afonso, não estás a contar a história toda”, atalhou o major Mascare-nhas com um sorriso, apagando no chão o cigarro inglês.

“Qual história? “, pressionou Resende.

“Ah, umas coisinhas de nada”, disse Afonso.

“Umas coisinhas de nada, não”, corrigiu Mascarenhas. “Houve homens que abandonaram os postos e cavaram, outros foram feitos prisioneiros sem lutarem e, para cúmulo, houve até um comandante que ficou de tal modo acagaçado que nem no dia seguinte se atreveu a ir à linha da frente saber o que tinha acontecido e mandar reparar as trincheiras danificadas. “

“Está bem, mas a verdade é que, uma hora depois de ter começado o ataque, os boches cavaram”, argumentou Afonso, defendendo a honra do batalhão de Braga, mesmo não sendo o seu.

“Cavaram uma ova!“, exclamou o major transmontano. “Andaram a passear na nossa linha da frente, foi o que foi, e só se foram embora quando lhes apeteceu e com uma carrada de prisioneiros às costas, os tipos pareciam uns pastores a levarem a carneirada.“

“Desculpa, mas houve sete louvores e duas promoções por distinção em combate”, lembrou Afonso.

“É”, cortou Mascarenhas, carregado de ironia. “E um oficial e três solda-dos foram punidos com prisão correccional e um outro oficial foi repreendido. Deve ter sido por bravura “

Afonso calou-se e engoliu as últimas gotas do seu porto. Fez-se um silên-cio embaraçado e Resende olhou para o relógio. “Já são quase cinco da tarde”, observou o lisboeta. Mascarenhas pôs-se de pé e os dois capitães também se levantaram.

“Daqui a pouco é a formatura”, disse o major, olhando para Resende. “Tenho ainda de o colocar a par da nossa rotina aqui nas trincheiras e das suas funções. “

“Então o que tenho de fazer, meu major?“, perguntou Resende, apalpando inconscientemente a barriga, cujo volume tinha o futuro seriamente ameaçado pela vida nas trincheiras.

“Para já, vai ser o oficial de serviço à meia-noite”, indicou Mascarenhas. “Terá de fazer durante duas horas a ronda das sentinelas sem nunca se abrigar e irá contar com um sargento com a mesma missão, mas em sentido contrário. Há duas formaturas gerais, uma ao amanhecer e outra ao anoitecer. Cabe- lhe ainda preparar os relatórios sobre a actividade no seu sector e terá de garantir que as suas trincheiras estão transitáveis a qualquer momento. “

“Muito bem”, disse o capitão lisboeta, antevendo sete dias de pesadelo e dieta forçada.

“Vou agora levá-lo aos seus aposentos e apresentar-lhe o pessoal. “

“Aposentos? “

“É mais um buraco”, corrigiu o major. Cruzou a porta e abandonou o posto de Afonso, despedindo-se do amigo com um aceno. “Até logo. “

Os dois oficiais de Infantaria 13 desceram pela trincheira, a caminho de Ferme du Bois, e o capitão Afonso regressou ao seu relatório das três da tarde. A elaboração do documento tinha sido interrompida para a praxe ao caloiro e, por isso, o relatório teria agora de ser enviado com um grande atraso. Além do mais, era importante não esquecer a leitura da circular 22. 753. O oficial mirou o relógio da mesa e viu-o a assinalar as cinco da tarde em ponto.

 

A equipa de artilheiros tinha ordens para disparar três salvas às cinco da tarde. À hora exacta, os homens pegaram numa granada de duzentas e noventa libras, carregaram a Howitzer, o chefe da equipa regulou pelo óculo a elevação até aos quarenta e três graus e, quando ficou satisfeito, recuou.

“Atenção! “

Os homens taparam os ouvidos.

“ Fogo!”

A Howitzer deu uma violenta guinada para trás e vomitou uma língua- de-fogo pelo cano chamuscado, um trovão ensurdecedor encheu o ar e a grana-da saiu disparada em direcção às linhas inimigas. O projéctil afastou-se com um silvo sinistro, o assobio foi morrendo no céu até se calar, fez-se uma pausa de vários segundos, uma nuvem silenciosa ergueu-se do outro lado, a pausa pro-longou-se, finalmente escutou-se o longínquo estampido da detona-ção, eram notícias trazidas pelo vento a confirmarem que a granada tinha explodido como previsto. A operação foi repetida duas vezes, após o que os artilheiros recolhe-ram ao abrigo, não desejando estar junto ao canhão quando viesse a resposta.

Não foi preciso esperar muito. Em alguns minutos, uma chuva de grana-das começou a regar as linhas portuguesas. As sentinelas correram a abrigar-se do fogo largado pelas Morser alemãs e até os observadores camuflados se encolheram nos buracos.

As sucessivas detonações despertaram Matias Grande e os restantes homens de Infantaria 8 do torpor do sono. A terra tremia e alguns pedaços de lama caíram-lhe no corpo. O enorme minhoto ergueu-se na tábua, viu uma ratazana a roer-lhe a manta, sacudiu-a para afugentar o animal e sentou- se junto a Daniel Beato, que tremia. O abrigo estava frio e húmido, mas aquele era um tremor nervoso, de medo. Matias sentiu também as mãos a tremer e pôs a manta a cobrir-lhe as costas, mas de modo a esconder-lhe os membros. Uma granada explodiu perto e o fragor da detonação ressoou como um tambor. Ao tremor das mãos vieram juntar-se os suores frios. A dezena de homens que se apertava no abrigo sofria em silêncio, gotas de suor no rosto, todos sentados olhando uns para os outros ou fixando os olhos no infinito ou nas paredes enlameadas do abrigo. Daniel era o único com as pálpebras cerradas, os lábios murmurando uma oração rápida e sempre repetida quando chegava ao fim, fazendo assim pleno jus à alcunha de Beato.

“AveMariacheiadegraçabenditasoisVósentrasmulheresbenditófruto.“ Escutando a ladainha sussurrada da oração do amigo, por entre os baques e silvos da artilharia, Matias lembrou-se com um sorriso amargo da decepção que sentiu quando pela primeira vez chegou às trincheiras, dois meses antes, em Setembro de 1917. Imaginava antes que a guerra era uma grande aventura, repleta de acção e emoção, e ficou surpreendido com o volume de trabalho rotineiro e de bocejante tédio que preenchia a vida nas linhas. Grande parte do dia era ocupada com trabalhos da mais diversa ordem. Os homens carregavam munições e mantimentos, enchiam sacos de areia, consertavam vedações e redes de arame farpado, faziam buracos, procediam a drenagens, pregavam tábuas nos parapeitos, reforçavam paredes, efectuavam limpezas, tudo sempre com o estômago a apertar de fome e o corpo a tremer de frio.

A estafa era tanta que Matias começou a concluir que fazia trabalho de servo em condições de escravo e a viver como um homem das cavernas.

Quando vieram os primeiros bombardeamentos pesados foi uma alegria, os lãzudos pareciam uns garotos traquinas, estupidamente entusiasmados com o espectáculo feérico que iluminava a noite. Naquela altura, tudo cheirava a novidade, tudo prometia animação. Ninguém teve verdadeiro medo, havia até quem saísse dos abrigos para ver como eram as coisas, a acção parecia excitante, palpitante, tremenda, a adrenalina disparava, a guerra era um alucinante jogo de luzes, cores, sons e emoções fortes. Sentiam-se bizarramente invulneráveis, turistas num inofensivo passeio, actores numa emocionante aventura. Matias achava então que as granadas não lhe eram destinadas, que as balas passariam sempre ao lado, e admirava-se quando via os tommies a abanarem a cabeça, estupefactos com a alegria infantil dos lãzudos. Mas, quando começou a ver os seus camaradas morrer, pedaços de carne espalhados pelo chão e membros mutilados em redor, tudo mudou, a morte deixou de ser abstracta. O que inicialmente não parecia passar de uma fantasia irreal transformou-se agora em perigo letal, deixou de ser brincadeira e começou a ser pesadelo. Vieram os tremores, o suor, o horror, a impotência. Matias começou gradualmente a perceber que a guerra era feita de oitenta por cento de tédio e rotina, dezanove por cento de frio polar e um por cento de puro horror, o mesmo horror que naquele momento o paralisava, a si e aos seus companheiros. Fugir dali estava fora de questão, mesmo que os regulamentos militares o permitissem. Os abrigos encurralavam-no, é certo, mas sempre ofereciam alguma protecção. Lá fora, sob a tempestade de aço e de fogo, suspeitava que não seria possível sobreviver muito tempo.

“Os cabrões dos cachapins deviam era estar aqui”, resmungou Vicente Manápulas, que terminara havia uma hora o serviço de sentinela e tentava agora distrair as atenções do bombardeamento pesado que decorria no exterior.

Vicente era o mais rezingão soldado do grupo, não perdia oportunidade para flagelar os oficiais com palavras carregadas de revolta, mas a verdade é que se limitava a expressar de viva voz o que outros calavam em pensamento. O ressentimento das praças para com os oficiais e a multidão de militares com tarefas exclusivamente burocráticas era profundo e tema recorrente das suas conversas. Os soldados formavam uma comunidade fechada, unidos pela miséria extrema, tinham consciência de serem carne para canhão e sentiam-se esquecidos pelo país e espezinhados pelos chefes.

“Temos de aguentar”, comentou Matias laconicamente, cerrando os dentes para controlar o medo.

“Nós aqui na merda eles nos seus abrigos com camas, a viverem à grande nos quartéis-generais aquecidos com lareiras, a gozarem o prato nas brincadeiras c'as demoiselles, a alambuzarem-se nas messes c'as rações de carne de vaca, a emborcarem tintol servido em copos de cristal e a dormir'em lençóis lavados e perfumados”, enumerou Vicente com um esgar de desprezo.

Um outro lãzudo aproximou-se, quase gatinhando pelo soalho enlameado do abrigo. Era Baltazar, um serrano do Gerês que costumava ser gordo e agora, com a pele enrugada e o cabelo prematuramente grisalho nas têmporas, mostrava um aspecto envelhecido, chamavam-lhe até o Velho. Sentindo uma espécie de comunhão do medo, que o levava a procurar os homens que com ele sofriam, decidiu animar o diálogo, apimentando-o com pormenores sobre as demoiselles, era uma maneira eficaz de distrair a mente do bombardeamento.

Noutro dia, em St. Venant, vi mesmo uma gaja a sair do quartel-general”, disse Baltazar. “Que categoria! “

Calaram-se, imaginando-a. Qualquer notícia sobre o aparecimento de mulheres causava sempre sensação.

“Era boa? “, perguntou Matias, sabendo que o Velho não era económico no uso da palavra “categoria”, essa era mesmo a sua expressão favorita desde que a ouvira da boca de um oficial.

“Sabes que não sou esquisito”, disse Baltazar Velho, encolhendo os ombros. “Lá na minha aldeia, em Pitões das Júnias, já pinei sansardoninhas bem piores, de bigode e tudo, o que é que vocês pensam? “

“Mas como é que ela era? “

“Francesa ou flamenga, arruivada, grande e cheia de carnes”, descreveu, os olhos brilhantes.

“Um almazem? “, perguntou Matias.

“Um almazem”, confirmou o serrano. “Mas marchava cá com uma categoria. “

Uma sequência de violentas detonações ali perto fê-los calarem-se e olha-rem para a entrada do abrigo. A terra voltou a tremer e mais lama caiu do tecto.

“Porra! “, praguejou Vicente Manápulas. “Eles hoje não param!” Novo silêncio dentro do abrigo, abalado pelos estremeções e detonações que vinham do exterior. Até Daniel Beato calou a oração por instantes e virou-se, apreen-sivo, para a porta do abrigo.

“Espero que esta merda aguente”, disse Baltazar com fervor, verificando a solidez das paredes lamacentas.

“Vamos todos morrer na puta desta guerra!“, vociferou Vicente, claustro-fóbico naquele buraco. “Tenho cá um pressentimento... “

“Isto está a escacholar”, comentou Matias com ar tranquilo. O homen-zarrão de Palmeira tinha a qualidade de saber ocultar o medo por detrás de uma máscara de imperturbabilidade, apenas o tremor das mãos o traía. Matias dava importância ao bom ambiente no grupo e esforçava-se por acalmar os companheiros, em especial Vicente, que era particularmente supersticioso e a todos enervava com os seus maus agoiros. “Mas não há-de ser nada. “

As trepidações libertaram novos pedaços de lama do tecto. Os homens calaram-se, olhando para cima com alarme, analisando as tábuas que segura-vam as paredes do abrigo.

“Até me treme a passarinha!“, murmurou Baltazar, angustiado.“... ventre JesusSantaMariaMãedeDeusrogaipornóspecadoresagora.“, prosseguia Daniel, os olhos devotamente cerrados.

Mas as paredes aguentaram-se e, minutos mais tarde, os soldados reto-maram a conversa.

“Eu gostav'era de ver os oficiais aqui metidos”, resmungou Vicente. “Quando lhes chusm'a coisa xuega, pisgam-se todos.

“Os gajos são galrichos”, observou Baltazar. “Agafanham-se em abrigos de cimento e a malta é que fica aqui a bombar. “

Quando começaram a ter verdadeiro horror dos bombardeamentos, estes momentos deixavam-nos sem fala e sem reacção, permaneciam prostrados, encolhidos nos abrigos, quietos e inquietos. Mas agora já tinham aprendido a conversar, num esforço titânico para pensarem noutras coisas e distraírem as atenções da tempestade de fogo que lá fora se abatia sobre as trincheiras.

Chegaram até a tentar jogar às cartas, mas isso era pedir de mais, não se conseguiam concentrar e depressa desistiram, as suas mentes decididamente não se podiam abstrair da sombra de morte que sobre eles pairava naqueles penosos momentos de trovoada de ferro.

As conversas entrecortadas, as frases despejadas num fôlego e as palavras ditas como se queimassem eram o limite do seu esforço.

O velho prometeu há dois meses conceder-nos licenças p'ra irmos a Portugal, mas aqui a mim inda não me coube nada apesar de já ter direito”, queixou-se Vicente. “Marranos. “

“Como é que queres que a malta vá se não nos deixam ir de comboio? “, perguntou Baltazar.

“Ist'é p'ra rir”, exclamou Vicente. “Dão-nos as licenças mas não nos deixam apanhar o comboio.

O “velho” a que se referiam não era Baltazar, mas antes o general Tamagnini Abreu, o comandante do CEP que, dois meses antes, em Setembro de 1917, estabelecera um sistema de quinze dias de licença para quem estivesse cinco meses em campanha. O general aproveitou para autorizar os primeiros soldados a irem de licença a Portugal. Em Outubro, o ministro da Guerra aumentou o tempo de licença para vinte dias e consentiu que os soldados fizessem a viagem de comboio através de Espanha, à falta de navios para efectuarem a ligação, mas cortou essa regalia pouco depois. Não havendo outro meio de transporte, a proibição de usar os comboios traduziu-se, na prática, na interdição de gozar as licenças em Portugal. O general Tamagnini verificou também que, de todas as praças que em Setembro tinham sido autorizadas a irem a Portugal gozar duas semanas de férias, nem uma única regressara ao CEP Nesse mês de Novembro, as licenças foram aumentadas para um mês mas, como não havia barcos de transporte e o comandante do CEP desconfiava que qualquer soldado de licença em Portugal era um soldado perdido, as praças ficaram literalmente a ver navios. Estavam reunidos os ingredientes para lançar a grande confusão. Nas trincheiras começou nesta altura a grassar um clima de enorme descontentamento entre a tropa, uma revolta ainda surda de quem se via com a oportunidade burocrática de gozar a licença, mas que não tinha a possibilidade real de exercer esse direito.

Eclodiu mais uma sucessão de detonações próximo do abrigo. As grana-das passavam tão perto que até se distinguiam os silvos, alguns curtos, outros alongados. Todos se calaram e, por instantes, voltou o silêncio dentro do local.

Mas não por muito tempo.

“Os cabrões não param”, notou Vicente, aproveitando a primeira pausa daquela sequência de explosões. “Isto dur'há meia hora e os cabrões não param.“

Abel transpirava profusamente no posto de sentinela da linha da frente, perto de Punn House, ali em Neuve Chapelle, apesar da temperatura glaciar que durava havia semanas. O soldado entrara de serviço às cinco da tarde, justamente quando o bombardeamento começara, e não via a hora de terminar o turno e ir refugiar-se no abrigo, os ares cá fora não lhe pareciam saudáveis.

As ratazanas corriam desesperadas pelas trincheiras, fugindo dos sucessivos pontos onde ocorriam detonações. Os alemães varriam de bombas as posições portuguesas e Abel, o Lingrinhas entre os amigos, estava proibido pelo regulamento de procurar refúgio. Abel era um magro agricultor de Gondizalves cujas mãos calejadas de trabalharem a terra trocaram a rude enxada pela macia Lee-Enfield. Sabia que uma sentinela não podia abandonar o posto e não tinha como se abrigar. À falta de melhor, encostou-se à base da trincheira, junto à parede anterior, e ficou deitado na lama, evitando assim os estilhaços de metal e de pedra que, com a chuva de lama levantada por cada rebentamento, voavam por toda a parte, e por ali permaneceu quase toda a hora do turno.

Por definição, as trincheiras são locais desagradáveis. Mas ali, no sector do Lys, o desconforto atingia extremos devido às características do terreno. As posições ocupadas pelos portugueses eram constituídas por terras baixas e argilosas, bastando cavar cinquenta centímetros para encontrar água. Na época do degelo das chuvas, os drenos que cruzavam as linhas transbordavam, produzindo inundações gerais. Isto significava, na prática, que, ao contrário da generalidade das trincheiras, as linhas portuguesas não podiam ser cavadas em profundidade, sob pena de se transformarem em verdadeiras piscinas. Por isso, a parte escavada nunca excedia os sessenta centímetros, sendo as paredes dos parapeitos constituídas por sacos de areia ou de terra amontoados acima do nível do solo, uma solução menos segura mas a única que se revelava prática naquelas circunstâncias. Mesmo assim, a lama chegava aos joelhos em quase todas as trincheiras portuguesas durante o período das chuvas ou do degelo, e não era uma lama qualquer. Pegava-se ao corpo como cola e não era a primeira nem a segunda vez que os soldados ali deixavam as botas. Abel ficou uma vez com os pés presos naquela lama escura, tentou levantar as pernas mas não conseguiu, pôs as mãos no chão para melhor fazer força nas pernas e acabaram também elas por ficarem ali coladas. Permaneceu durante meia hora numa posição ridícula, os pés e as mãos pregados ao chão, e só conseguiu sair quando um companheiro escavou a lama com pás.

Já perto das seis da tarde, próximo da hora da rendição de sentinela, apareceu o sargento Rosa, de serviço de fiscalização à linha da frente, e agachou-se junto a Abel.

“Não se pode andar por aqui no meio das marmitas, faz mal à saúde”, ironizou o sargento entre duas golfadas de ar para recu perar o fôlego. “Ó Lingrinhas, tens espreitado pelo parapeito?“

“Sim, meu sargento”, mentiu Abel.

“Não topaste movimento na Avenida Afonso Costa? “ Era a alcunha da terra de ninguém.

“Não há nada. “

Uma das obrigações das sentinelas era a de espreitarem pelo parapeito para a terra de ninguém, de modo a verificarem se o inimigo estava em progressão. Como o bombardeamento se prolongava e mostrava uma intensi-dade anormalmente elevada, a vigilância tinha de ser maior, uma vez que estes fogos de artilharia serviam normalmente para amaciar o terreno e preparar uma surtida da infantaria. Mas Abel Lingrinhas sentia-se demasiado aterrorizado e não se atrevia a erguer o corpo para observar o território hostil.

“Quando o Beato daqui a bocado te vier substituir, não quero que te vás embora”, ordenou o sargento. “Como as coisas se estão a pôr, parece-me melhor haver duas sentinelas. “

Era uma má notícia, mas Abel procurou ocultar a decepção. Queria desesperadamente refugiar-se nos abrigos, onde estava o resto do pessoal, e o prolongamento do serviço de sentinela, embora natural naquelas circunstâncias, significava que continuaria a expor-se penosamente e sem defesas ao bombar-deamento. A única protecção era a atenção que dava aos diferentes sons dos vários projécteis. Com a experiência que adquirira, Abel, tal como a genera-lidade da tropa que prestava serviço nas trincheiras, já aprendera a reconhecer o barulho das bombas alemãs antes de explodirem, conseguindo até adivinhar a direcção e a distância a que iriam cair pelo tipo de assobio que produziam. Nessas circunstâncias, se distinguisse um zumbido indiciador de que o projéctil iria tombar em cima de si, Abel já tinha planeado atirar-se para o outro lado de uma das curvas em ziguezague da linha da frente. Era uma protecção frágil, mas a única de que dispunha ali, a céu aberto, no posto de sentinela.

Para alarme dos dois homens encolhidos junto a Punn House, um desses zumbidos chegou-lhes aos ouvidos. Ambos se encolheram no chão, protegendo a cabeça com as mãos, e uma brutal explosão sacudiu o ar, levantando lama e pedras e fazendo-lhes chegar um bafo quente e uma chuva de pequenos projécteis. Meio aturdido, Abel ergueu a cabeça e percebeu que a bomba tinha caído na trincheira de comunicação ali ao lado e que parte da parede se desmoronara. O sargento Rosa também levantou os olhos e viu a nuvem de fumo a subir da trincheira situada a cinco metros de distância. Virou-se para Abel e verificou que este tinha sangue no ombro direito.

“Estás ferido, ó Lingrinhas”, disse, examinando o ombro da sentinela.

Abel olhou e viu a pele esfacelada.

“Porra.!”

“Dói-te? “, perguntou o sargento, vasculhando já a caixa dos primeiros socorros à procura de um penso.

“Não”, murmurou o soldado, abanando a cabeça. “Se calhar é melhor ir ao posto médico.”

“Não digas disparates”, cortou o sargento Rosa. “Vais, mas só depois do bombardeamento. Isto são uns arranhões de estilhaços de pedra, não é nada de grave. Põe-se aí um penso e já está. “

Um cheiro a maçãs assadas paralisou-os a meio da conversa. Ergueram os olhos e viram uma nuvem amarelada a aproximar-se, era como se fosse um vapor suspenso no ar e empurrado suavemente pela leve brisa que soprava das linhas inimigas. “Gás! “, exclamou o sargento.

Os dois homens agarraram as máscaras que traziam suspensas ao peito e colocaram-nas apressadamente na cabeça. Os dentes apertaram o bocal do tubo, a pinça metálica fechou as narinas para impedir a respiração pelo nariz e as fitas elásticas ajustaram a máscara de tela ao rosto. Era muito desconfortável, mas não havia alternativa. Depois de voltar a pôr o capacete, o sargento deu um salto à sineta de alarme antigás e accionou-a, alertando a tropa para a necessi-dade de todos utilizarem as máscaras, conhecidas por “respiradores”. Sabendo que o gás era um prenúncio de um eventual avanço iminente da infantaria inimiga, Rosa fez um sinal à sentinela para espreitar para a terra de ninguém e estar atenta a qualquer movimentação dos soldados alemães e largou de imediato a correr pela linha, saltou por cima dos pedaços desmoronados da trincheira de comunicação, chegou à linha B, meteu a cabeça por um abrigo, tirou por instantes a máscara e gritou lá para dentro.

“O que é que estão aqui a fazer? “

Os homens olharam-no da penumbra do abrigo escuro, atrapalhados. Sabiam que, durante um bombardeamento, as ordens eram de saírem dos abri-gos que não fossem de betão, uma vez que havia uma elevada probabilidade de os buracos se desmoronarem, mas o pavor de enfrentarem as bombas e granadas a céu aberto sobrepusera-se.

O sargento impacientou-se.

“Todos à linha da frente, em postos de combate”, berrou. “Já, já!“

Sem esperar, correu para o abrigo seguinte e deu a mesma ordem aos homens que lá se encontravam. Entretanto, os do primeiro abrigo, que eram o pelotão de Matias Grande, já emergiam pela abertura, o sargento voltou para eles e apontou para a linha da frente.

“Espalhem-se pela linha junto à Punn House”, ordenou. “Imediatamente, meu sargento”, respondeu Matias, ajeitando a máscara antigás que tinha ido buscar logo que começou a ouvir o alarme.

Matias Grande seguiu em corrida pela trincheira de comunicação, intimamente satisfeito por se estar a mexer. Não havia nada que lhe fizesse mais medo do que permanecer encerrado num buraco a ouvir as bombas a caírem e a terra a tremer, tinha nessas alturas uma angustiante sensação de impotência, de claustrofobia, imaginava que a terra lhe cairia em cima e morreria soterrado. Mas agora, correndo pela trincheira com a espingarda na mão, ao ar livre, sentia-se dono do seu destino, era pura ilusão, decerto, mas a actividade ocupava-lhe a mente e expulsava- lhe o medo para um recanto da consciência. Daniel, Baltazar, Vicente e mais três homens seguiam na sua peugada, mas o sargento foi no sentido oposto, dirigindo-se ao segundo abrigo, donde saltavam agora os soldados do segundo pelotão.

“Ao posto da costureira”, ordenou Rosa, mandando-os ocupar a posição da Vickers na linha B.

De seguida, o sargento, já ofegante, meteu pela trincheira de comunicação, sentiu que o bombardeamento alemão abrandara visivelmente, pensou que este era o momento mais sensível, era agora que se teria de vigiar melhor a terra de ninguém, preocupou-se com o tempo que escasseava, chegou à linha da frente e deu com os homens encostados ao parapeito e com as armas em prontidão, as baionetas aguçadas na ponta.

“Novidades?“, quis saber, voltando a afastar momentaneamente a másca-ra para lançar a pergunta.

Os homens abanaram a cabeça, indicando que nada acontecera. Estavam todos com as máscaras colocadas, pelo que se tornava difícil perceber quem era quem. Vicente Manápulas distinguia-se pelo corpo baixo e forte, enquanto Matias Grande era o mais alto e encorpado e Daniel o mais franzino, os dedos do Beato a acariciarem o pequeno crucifixo que trazia ao pescoço. E o magricelas que tinha o ombro direito esfacelado só podia ser o Abel Lingrinhas. Encontrava-se sentado no chão, um companheiro de cócoras a colocar-lhe um penso, aquele que o sargento não tivera tempo de fazer por causa da intempestiva chegada do gás.

“Todos a vigiarem o inimigo”, ordenou o sargento. Um oficial apareceu nesse instante na linha. Era o tenente Cardoso, que estava de serviço de turno à linha da frente e levava a máscara na mão.

“Sargento”, chamou. “Está tudo bem? “

“Sim, meu tenente”, confirmou o sargento Rosa, tirando novamente a máscara.

“ Está tudo a postos.”

“Sim, meu tenente”, repetiu. “Chamei os homens do abrigo e coloquei uma secção na Vickers ali atrás. Mas talvez seja melhor mandar vir mais homens, agora que o bombardeamento abrandou, nunca se sabe o que é que o inimigo vai fazer. “

“Vá lá que eu fico aqui”, ordenou o tenente.

O sargento recolocou a máscara e voltou à semidestruída trincheira de comunicação, fazendo-se à segunda linha para convocar mais soldados que se encontravam nos abrigos.

Na linha da frente, o tenente Cardoso colocou a máscara e posicionou os homens ao longo da trincheira. Matias instalou-se na esquina mais próxima da trincheira de comunicação de Punn House, atento ao que se passava na terra de ninguém. Havia muito fumo à frente, resultado das múltiplas granadas que foram caindo no local, em particular junto ao arame farpado das linhas portu-guesas. Em alguns pontos, a linha de arame farpado estava mesmo interrom-pida, o solo aberto em crateras escavadas pelas bombas da última meia hora.

Matias sentiu os vidros da máscara embaciarem-se. Pegou nas dobras do respirador e limpou exteriormente os vidros sem retirar a máscara. Respirar pela boca cansava-o, mas não tinha remédio. De súbito, viu um vulto emergir do fumo à esquerda, um outro insinuou-se ao lado. Matias reconheceu os contornos inconfundíveis dos capacetes pickelhaube. Retirou a boca da válvula respiratória.

“Boches! “, anunciou, num sussurro gritado e abafado pelo respirador, apontando na direcção onde referenciara o inimigo.

Eram os primeiros alemães que via de corpo inteiro ao natural e em situação de combate, sem serem prisioneiros ou vultos fugidios que se esgueiravam de longe algures nas linhas inimigas. Estranhou o característico capacete gótico em couro cozido, o pickelhaube tinha sido no ano anterior substituído por mais modernos capacetes de aço, certamente que aquela força ainda não tinha sido equipada com essa novidade, não interessava, eram alemães e bastava. Os homens voltaram as Lee-Enfield para a terra de ninguém, os corações aos saltos. O tenente Cardoso chamou Daniel Beato com um gesto, apontou para um dos foguetes encostados na trincheira, fazendo sinal de que queria que ele os lançasse, sacou o revólver e indicou os vultos.

“Fogo!“, ordenou o tenente, a voz também distorcida pela máscara de lona.

Matias sentiu a espingarda saltar-lhe dos braços com o coice do tiro, as detonações da sua arma e das dos seus companheiros a ecoarem-lhe ruidosamente nos tímpanos e a testarem-lhe os nervos. Os vultos atiraram-se ao chão e uma metralhadora inimiga abriu fogo sobre a posição de Punn House, fazendo saltar a lama em redor. Os portugueses encolheram-se por detrás do parapeito, as respirações aceleradas pelo medo e pela tensão de terem de colocar depressa uma nova bala em posição. As suas espingardas tinham um sistema de repetição e, por isso, eram forçados a recarregá-las manualmente. Ao mesmo tempo que os seus camaradas, e numa anárquica sinfonia de cliques e claques metálicos, Matias abriu apressadamente a culatra da Lee-Enfield, puxou- a, deixou a mola do carregador empurrar a bala seguinte para o cano, fechou a culatra, esperaram todos pela passagem das balas de uma nova rajada disparada pela metralhadora inimiga, ergueram-se, deram mais um tiro vaga-mente para a posição onde estavam os alemães e voltaram a encolher-se para recarregarem as espingardas. Fazia frio, mas todos transpiravam abundante-mente.

Com uma pistola semiautomática na mão, o tenente Cardoso não tinha de se preocupar em recarregar a arma. Estava ocupado a vigiar a movimentação inimiga e ansioso por se ver livre da claustrofóbica máscara antigás. Olhou atentamente em redor e concluiu que a nuvem tóxica já se tinha afastado. Arrancou parcialmente o respirador, inalou uma pequena golfada, a medo, nada aconteceu, verificou que, de facto, o ar era respirável e, mais confiante, tirou toda a máscara. Os homens imitaram-no, aliviados por se verem livres do incómodo dispositivo de respiração, e sentiram a brisa fresca chocar com o suor e gelar-lhes a pele.

“Cuidado com a costureira à direita”, alertou o tenente, avisando desne-cessariamente para a actividade da metralhadora inimiga.

Daniel, entretanto, conseguiu acender o rastilho do foguete e este saltou para o ar com uma guinada brusca, como os foguetes em dia de feira em Palmeira, e foi detonar lá em cima, sobre a linha, com um pop luminoso e inofensivo.

Espreitando as linhas a partir do seu posto, o capitão Afonso Brandão já tinha percebido que, pela inusitada intensidade, aquele não era um bombar-deamento normal nem uma mera retaliação pelas três salvas das cinco da tarde. Mas quando viu o foguete a rebentar no céu em frente, lançando um flash vermelho sobre o sector de Punn House, percebeu que a infantaria inimiga estava a avançar. O foguete significava um SOS.

A artilharia alemã voltou a abrir fogo, varrendo a retaguarda portuguesa, e os canhões do CEP respondiam com disparos a regar as trincheiras inimigas. Novos clarões vermelhos iluminaram os céus à direita, alguns sobre Ferme du Bois, eram mais SOS. Afonso correu até ao posto dos sinais com a sua ordenança, Joaquim, logo atrás, os dois chegaram ao local, o capitão baixou-se para entrar pela pequena porta e deu com o oficial de ligação da artilharia sentado na gaiola dos pombos- correios, os telefones em cima de um caixote.

“Vocês são cegos ou quê? “, gritou o capitão. “Os canhões estão a disparar para o sítio errado. “

O oficial de ligação, um tenente, olhou-o sem entender. “Meu capitão... “, gaguejou, hesitante.

“Estou-lhe a dizer que é preciso corrigir o tiro da artilharia”, disse, impaciente e nervoso. “Dê-me um telefone.”

“Está aqui, meu capitão”, indicou o tenente, agarrando no auscultador de um dos aparelhos que faziam ligação aos canhões.

Afonso pegou no telefone e conseguiu que lhe respondessem do outro lado.

“Aqui capitão Afonso Brandão, de Infantaria 8”, identificou-se. “Façam o favor de largar as trincheiras inimigas e bombardear imediatamente a terra de ninguém à frente das linhas em Punn House, Church e Chapelle Hill, que acabaram de lançar um SOS.”

A artilharia tinha as coordenadas previamente registadas e Afonso desligou sem demoras, voltando-se para o telegrafista à procura de informações adicionais.

“Então?”

“As companhias da linha telegrafaram a confirmarem o avistamento de tropas inimigas e a anunciarem a presença de nuvens de gás nas trincheiras”, indicou o telegrafista. “E a brigada pede informações sobre o que se está a passar.“

“Telegrafe a todos os postos para colocarem as máscaras de gás e porem todos os homens nas trincheiras e avise a brigada de que os alemães estão a atacar com infantaria em Neuve Chapelle e Ferme du Bois”, ordenou o capitão. “Diga à brigada que eu solicito que os batalhões de apoio se preparem para nos ajudarem.”

Afonso saiu do posto de sinais e subiu ao parapeito para observar a frente de combate. As granadas de obus e canhão das minenwerfer sobrevoavam as linhas portuguesas, indo explodir na retaguarda e em vários pontos das trincheiras, ao mesmo tempo que as balas metralhadas pelas Maxim MG alemãs repicavam os locais donde os homens do CEP abriam fogo. Pairavam nuvens espessas na terra de ninguém e tornava-se evidente que os alemães tinham lançado granadas de fumo para ocultarem o movimento da infantaria. O capitão tentou desesperadamente interpretar a pouca informação que tinha ao seu dispor. Qual seria o objectivo do inimigo? Obter prisioneiros? Arrasar as linhas portuguesas? Criar uma diversão para atrair reservas e atacar depois noutro ponto? Quais os sectores da linha que precisavam de reforços? O que fazer?

O tenente Cardoso já não sabia o que fazer. Os soldados inimigos deslizavam colados ao chão, evitando avançar directamente para Punn House, posição que estava bem guarnecida por si e pelos seus homens, procurando antes um envolvimento em pinça. Os portugueses disparavam consecuti-vamente para a terra de ninguém, mas nenhuma bala parecia atingir qualquer inimigo.

“Tu aí”, disse o tenente, apontando para Daniel. “Vai ali derrubar a porta do paiol e traz o que encontrares.“ Daniel foi ao paiol de reserva, colocado perto da linha da frente para emergências como esta, deu cabo da fechadura a tiro e arrastou a primeira caixa que encontrou para junto dos companheiros.

O tenente Cardoso arrancou a parte superior da caixa e inspeccionou o conteúdo. Eram Mills bombs, as granadas arredondadas de fabrico britânico, o formato a lembrar uns ananazes anões.

“Boa!“, regozijou-se. “Vê lá agora se encontras uma Luisa e magazines de munições.“

A Lewis era uma metralhadora concebida pelos americanos e muito mais ligeira do que a tradicional Vickers, de fabrico britânico. Pesava doze quilos, mesmo assim demasiado pesada para uso portátil eficaz, mas perfeita para aquelas circunstâncias. Daniel encontrou uma Lewis no paiol e agarrou-a com o braço direito, enquanto o esquerdo pegava em dois magazines de munições, em forma de disco, cada um com noventa e sete balas, e voltou para o posto de combate.

“Qual de vocês se dá melhor aqui com a Luisa? “, quis saber Cardoso.

“Eu ajeito-me, meu tenente”, voluntarizou-se Matias Grande. “Então agarre lá na costureira e este seu camarada dá-lhe apoio com as munições”, disse o tenente, apontando para Daniel.

Matias pegou na metralhadora, encaixou um magazine de munições e apontou a arma pelo topo do parapeito. Verificou de imediato que a posição lhe dificultava o tiro e tomou uma decisão.

“Meu tenente”, chamou. “Preciso que lancem uma ronda de laranjinhas para eu poder saltar lá para cima” As laranjinhas eram as granadas Mills. “E vão buscar mais munições. “

Os homens agarraram nas Mills, mas, nesse mesmo instante, como que respondendo à solicitação de Matias, embora fosse de facto uma resposta ao pedido feito havia minutos pelo capitão Afonso, começaram a chover na terra de ninguém granadas disparadas pelas Howitzer portuguesas. Espalhou-se a confusão entre as forças atacantes e Matias aproveitou para pular pelo parapeito para a terra de ninguém e posicionar-se deitado atrás do arame farpado defensivo e de uma pilha de sacos de areia. Viu alemães a atirarem-se para as crateras em frente, de modo a encontrarem refúgio que os abrigasse dos estilhaços das explosões portuguesas, e de imediato carregou no gatilho.

A Lewis sacudiu com violência e vomitou duas rajadas rápidas. Um alemão caiu ferido, várias balas bateram o solo em sequência e um outro soldado germânico também tombou. Os restantes aperceberam-se do fogo da metralhadora, infinitamente mais perigosa do que as Lee-Enfield que os portugueses estavam até aí a disparar daquele ponto, e deitaram-se todos no chão. Já não havia alemães a correr, encontravam-se agora tombados, a maior parte a rastejar para depressões no terreno, em geral cra teras, todos em busca de refúgio. As granadas portuguesas caíam, porém, demasiado longe, o que tinha pelo menos a virtude de isolar a força atacante e impedir a passagem de reforços, mas o problema é que o seu efeito sobre a infantaria alemã que se aproximara das linhas portuguesas era assim meramente psicológico.

Ouviu-se um apito na terra de ninguém e, num ápice, como que respon-dendo a uma ordem, levantaram-se das crateras várias nuvens de soldados alemães, todos a carregarem sobre as linhas portuguesas. Matias Grande apertou longamente no gatilho e a Lewis começou a saltar-lhe nas mãos, num frenesim louco, os sucessivos coices da rajada prolongada da metralhadora a impedirem-no de fazer adequadamente pontaria. Atrás do parapeito, os compa-nheiros largaram momentaneamente as Lee-Enfield e começaram a atirar Mills para a terra de ninguém. Vários alemães caíram com o fogo da Lewis e mais dois quando as granadas explodiram, mas Matias apercebeu-se de que não os conseguiria conter a todos e sentiu-se tomado por um acesso de pânico. Para agravar as coisas, o magazine de munições esgotou-se inesperadamente e deu consigo a carregar num gatilho que já não disparava balas. Nesse instante, as Maxim alemãs descobriram-no e começaram a chover projécteis junto ao solda-do português. Era de mais. Sem recarregar a Lewis, Matias atirou-se para trás, caindo aparatosamente na lama e no entulho da linha da frente portuguesa.

A situação deteriorou-se quando o grupo que defendia a linha em Punn House viu soldados inimigos a avançarem rapidamente pela direita e a saltarem para a linha da frente do CEP, a uns meros quinhentos metros de distância, algures perto de Tilleloy Sul, que estava a ser defendida por Infantaria 29, também de Braga. E o pior é que a Lewis de Matias se calara e os alemães em frente já se tinham apercebido disso, aproximando-se agora perigosamente, apesar do fogo furioso do punhado de Lee-Enfield manejadas em Punn House.

“Os cabrões saltaram para a nossa linha”, gritou o tenente, anunciando o que todos já tinham visto com grande alarme. “A malta do 29 está tramada! “ Olhou com impaciência para a retaguarda. “O que estão a fazer a porra das nossas bacoreiras?“

As bacoreiras eram as metralhadoras pesadas Vickers. “Meu tenente, é melhor cavar daqui”, aconselhou o pequeno Vicente Manápulas, vermelho como um pimentão, enquanto recarregava a espingarda. “Isto tá a ficar xuega.“

O tenente apercebeu-se de que, sem a metralhadora de Matias na terra de ninguém a varrer as linhas inimigas e com as Vickers ocupadas com o flanco direito, não conseguiria travar a avalancha que lhe vinha em frente e que era agora uma questão de um ou dois minutos até os alemães lhes saltarem em cima. E, mesmo que conseguissem resistir ao ataque frontal, o que era improvável, estavam em perigo de serem apanhados de flanco pelos soldados inimigos que se encontravam na linha portuguesa em Tilleloy Sul.

“Vamos recuar”, decidiu. “Recuem, recuem! “

O pelotão disparou uma última salva para a terra de ninguém e abando-nou apressadamente o parapeito em direcção à trincheira de comunicação, o tenente a mostrar o caminho. Matias já tinha recarregado a Lewis e foi o último a sair, a metralhadora preventivamente apontada para cima dos parapeitos.

As minenwerfer começaram entretanto a disparar sobre Punn House, talvez alertadas pela infantaria alemã para aquele foco de resistência portuguesa. Uma sucessão de explosões abalou com violência as trincheiras naquele sector, e o grupo comandado pelo tenente Cardoso deslizou célere pela linha, os soldados correndo curvados e tentando proteger a cabeça.

Uma granada atingiu em cheio a trincheira de comunicação por onde seguiam os portugueses, produzindo um fragor medonho e levantando uma nuvem que envolveu o grupo. Caíram todos no chão e Matias, porque vinha mais atrás a fechar a fila, foi o único que olhou para o local da explosão, mesmo em frente. Ouviu os gemidos de um homem sem um braço, era o tenente Cardoso, estava estendido no chão e olhava, surpreendido e atordoado, para o coto ensanguentado que fora o seu ombro e que se agitava absurdamente no ar. Mas o que verdadeiramente ficou gravado para sempre na memória de Matias foram os dois segundos que se seguiram.

No primeiro segundo despenhou-se do céu um corpo decapitado, como se fosse um fardo pesado. Pof. Depois, outro segundo volvido, tombou a cabeça, como uma pedra. Poc. Matias aproximou- se, o coração aos saltos, angustiado, não querendo ver mas querendo ver, olhou para a cabeça decepada e reconheceu, os olhos rolados para cima e a língua de fora na face semi-rasgada, o rosto do seu amigo Daniel, o Beato, o companheiro de infância nas vindimas de Palmeira e pai do boche” Zelito, o homem franzino que ainda havia duas horas lhe dera notícias da terra e novidades sobre o perdigueiro da Assunta, o camarada de armas que rezava fervorosamente durante cada bombardeamento e cujas orações, feitas agora as contas, de nada lhe serviram, a não ser talvez poupá-lo a novas tribulações na miséria da guerra.

O posto de sinais animava-se ao ritmo de uma sinfonia de comunicações. Todos os telefones tocavam e os telégrafos despejavam informação em morse, num tut-tut-tutut-tut contínuo e incansável. O telegrafista leu a última mensa-gem, saltou da secretária e saiu apressadamente do posto, indo ter com o capitão Afonso Brandão, que fumava um nervoso cigarro junto à porta, a ordenança ao lado.

“Meu capitão”, chamou.

“O que é agora?“, perguntou Afonso, irritado, voltando-se para o telegrafista.

“Chegou há instantes a comunicação de que o inimigo já está a circular na linha da frente. “

“O quê?“, exclamou o capitão, vendo confirmarem-se os seus piores receios. “Onde?“

“Não é muito claro”, retorquiu o telegrafista. “Mas a mensagem menciona Tilleloy. “

“O quê? “, admirou-se Afonso, muito alarmado.

“Tilleloy, meu capitão.“

“A estrada?“

“Não, meu capitão. Uma trincheira.“

“Ah”, expirou Afonso, aliviado. “Norte ou Sul? “ “Essa informação não consta. Diz apenas Tilleloy.“ “Informe imediatamente a brigada”, indicou.

“Sim, meu capitão.“

Se os alemães estivessem na Rue Tilleloy, a importante estrada que se prolongava desde Neuve Chapelle a Fauquissart sempre paralelamente à primeira linha, isso significaria sarilhos dos grandes. Sendo uma trincheira, isso queria dizer que a acção se encontrava circunscrita, em Neuve Chapelle, ao sector entre Sunken Road e Min Street.

Afonso sentia-se mais tranquilizado, mas queria a ajuda dos canhões.

“O oficial de ligação que ligue à artilharia”, ordenou. “Ela que bombardeie as posições à frente do arame farpado em Tilleloy, diante de Mastiff Trench, para impedir que o inimigo consiga reforços, mas tenham cuidado para não atingirem as nossas linhas, uma vez que não sabemos qual das Tilleloy está ocupada, se a Norte ou se a Sul. “

“Sim, meu capitão.“

Afonso olhou-o para ter a certeza de que não havia equívocos. “Eles só entraram em Tilleloy, certo?“

“Em Neuve Chapelle foi só no sector de Tilleloy, meu capitão. Mas os boches estão a atacar forte em Ferme du Bois.“

“Isso é para o 13”, devolveu o oficial, fazendo um aceno de despedida. “Vai lá transmitir as instruções

O telegrafista voltou apressadamente para o posto e Afonso, impaciente, seguiu-o, ansioso por novas informações. Quando entrou no abrigo dos sinais havia uma outra notícia, esta boa, para variar. A acção da artilharia funcionara bem à direita e, em combinação com a infantaria, obrigara o inimigo a bater em retirada frente a Church e Chapelle Hill e o mesmo acontecia em Ferme du Bois. O problema era neste momento determinar o que se passava em Tilleloy e, já agora, em Punn House, o primeiro ponto donde fora lançado um foguete de SOS. Incapaz de conter mais a impaciência e a ansiedade que se apossara de si, Afonso fez sinal a Joaquim para o acompanhar e desceu em corrida as trinchei-ras, a pequena pistola Savage na mão, decidido a comandar a limpeza de Tilleloy.

O capitão encontrou as linhas mergulhadas na mais completa confusão. Havia fumo por todo o lado e os homens pareciam desorientados, correndo por aqui e por ali, desordenadamente e sem rumo e propósito visíveis, pareciam umas galinhas tontas. Ao percorrer a linha, Afonso deu com o posto de primeiros socorros e notou a enorme actividade à porta. Entrou no posto e deparou com poças de sangue no chão, homens feridos a gemerem nas macas e outros gaseados a tossirem convulsivamente, macas sujas por debaixo dos corpos, algumas com pedaços de carne solta, os médicos e os enfermeiros atarefados a fazerem garrotes e de tesoura em punho a cortarem peles e músculos, um deles a serrar uma mão esfacelada.

“Alguém esteve em Tilleloy ou em Punn House?”, perguntou Afonso para ninguém em particular.

Um médico lavado em suor, a bata branca manchada de sangue como se fosse um homem do talho, olhou-o de relance, reprovadoramente, e regressou ao trabalho. Um oficial deitado numa maca, junto à parede do posto, levantou timidamente o braço direito.

“Eu estive em Punn House”, disse, a voz fraca. Afonso aproximou-se e reconheceu o tenente Cardoso, com quem falara duas ou três vezes na messe e jogara umas partidas de bridge no quartel do Pópulo, em Braga. Cardoso jazia prostrado num canto do posto sem o braço esquerdo, a manga rasgada pelo ombro a exibir o coto esfarrapado e coberto de sangue escuro e fresco, aguardando que o tratassem e que lhe dessem morfina.

“Os alemães estão em Punn House? “, perguntou Afonso, sentando-se de cócoras junto à maca e indo direito ao que precisava de saber.

“É provável”, murmurou o ferido com um esgar de dor, a voz fraca e cansada. “Quando saímos de lá, eles já tinham tomado Tilleloy Sul e estavam a assaltar o nosso sector. “ Parou para recuperar o fôlego. “Fomos bombardeados e levámos com uma marmita em cima, mas o pessoal que escapou ficou lá, montando uma nova posição de defesa na linha B. “ Nova pausa em busca de golfadas de ar. “O resto já não sei porque entretanto apareceram os maqueiros e trouxeram-me para aqui neste estado.”

“Está bem”, suspirou o capitão, erguendo-se e afagando o cabelo do ferido. “Está descansado que vai correr tudo bem. É desta que vais para casa, Cardoso. As melhoras. “

Momentaneamente acabrunhado com o seu jeito desastrado de consolar o ferido, Afonso abandonou o posto de socorros e seguiu com Joaquim pela trincheira. Cruzou-se com um estafeta e mandou-o parar.

“Vais ao posto de sinais e entregas ao telegrafista um papel que te vou dar”, ordenou, enquanto remexia os bolsos à procura do bloco de notas.

Afonso encontrou o bloco no bolso do casaco e ajoelhou-se para rabiscar uns gatafunhos na primeira folha, suja com nódoas de gordura. Eram instruções para que se suspendesse o bombardeamento frente a Tilleloy Norte, que afinal poderia ainda estar ocupada pelo CEP, e que se prosseguisse o batimento perante Tilleloy Sul, onde confirmadamente entrara o inimigo. O capitão entregou a nota ao estafeta e, sem perder mais tempo, meteu por uma trincheira de comunicações em direcção à linha com a ideia de se aproximar de Punn House. No caminho deu com um grupo de quatro homens de olhar nervoso, pareciam desorientados.

“O vosso oficial? “, perguntou.

“Não sabemos dele, meu capitão”, respondeu um soldado.

“Perdemo-lo, a ele e ao resto do pelotão, no meio de toda esta barafunda. “

“Venham comigo”, ordenou.

Eram agora seis homens a dirigirem-se para o sector de Punn House, pensou Afonso que talvez conseguissem fazer a diferença, os combates também são feitos de momentos de inspiração e o que o inspirava agora era ajudar os soldados a defenderem a linha e a expulsarem o inimigo, não queria ver o seu batalhão gozado na messe dos oficiais da brigada nem diminuído aos olhos dos bifes. Quando chegaram perto de Punn House ouviram explosões de granadas de mão, o pop-pop-pop intermitente das metralhadoras e o silvo das balas a cruzar o ar, zzziiiim, algumas arrancando pedaços de madeira dos esqueletos das árvores carbonizadas.

“Estamos perto”, avisou o capitão, escondendo a apreensão que aqueles barulhos pavorosos lhe provocavam.

O grupo foi dar com o pelotão de Punn House, Matias Grande deitado no chão com a Lewis apontada para o caminho que conduzia à linha da frente, vários sacos de areia amontoados apressadamente quase até ao topo do parapeito de modo a fornecerem alguma protecção, Baltazar Velho a apoiá-lo com as munições e Vicente e Abel a atirarem para a esquerda. No chão esten dia-se um quinto soldado, agarrado à barriga e a agonizar, o sangue a jorrar pelo canto da boca.

“Quem é que está a comandar isto? “, perguntou Afonso, não vendo nenhum oficial ou sargento no grupo.

“Eu, meu capitão”, disse Matias, levantando os olhos da mira da Lewis.

Afonso procurou-lhe os galões e não encontrou nenhum. Era uma praça.

“A que propósito? “

“O tenente ficou ferido e o sargento desapareceu”, explicou o soldado. “Como sou o mais antigo, assumi o comando. “

Afonso achou por bem não questionar a situação, as lideranças naturais eram por vezes as melhores, e optou por se concentrar na tarefa em mãos.

“Os boches? “, interrogou.

“Estão para ali, em Tilleloy Sul”, indicou Matias. “Têm uma costureira apontada para aqui e decidimos montar neste ponto uma posição defensiva. “

“E o pessoal do 29? “

“Não sei, meu capitão. Devem ter recuado.”

“Eles abandonaram o posto? “

Matias hesitou, percebendo a pergunta do capitão. Tilleloy Sul, sendo um reduto que se encontrava em mau estado de conservação, tinha oito abrigos com capacidade para albergarem uma guarnição de cinquenta homens. Era ainda defendida por uma posição a descoberto para metralhadora e contava com um paiol e um depósito de água. Tomar um reduto deste calibre não era suposto ser fácil.

“Não sei, meu capitão”, disse finalmente o soldado. “O ataque foi forte, lá isso foi.“

Afonso suspirou.

“Arranje-me aí um periscópio”, disse a um dos soldados que havia pouco encontrara na trincheira. Olhou para o ferido que agonizava no chão, dobrado sobre o estômago. “Aproveite para chamar os maqueiros e tirarem-me este homem daqui”, ainda foi a tempo de acrescentar, virando- se para o elemento que se afastava.

O soldado desapareceu e Afonso distribuiu o grupo pelo local, pondo dois homens a vigiarem o sector imediatamente em frente, de modo a prevenir surpresas, e os restantes voltados para a esquerda. O soldado regressou entretanto com um periscópio, apesar do nome pomposo não passava de um pau com um espelho na ponta, e Afonso ergueu-o acima do parapeito para observar melhor Tilleloy Sul. A princípio não detectou movimento, mas os clarões brancos que acompanharam uma rajada inimiga revelaram-lhe uma metralhadora alemã camuflada junto à base de um tronco de árvore, o cano voltado para si.

“Joaquim”, chamou.

A ordenança aproximou-se.

“Meu capitão. “

“Estás a ver aquele tronco ali? “, perguntou, exibindo-lhe a imagem no espelho do periscópio.

Joaquim olhou e viu o tronco.

“Sim, meu capitão. “

“Vai ao posto de sinais e pede para a artilharia destruir o tronco”, instruiu. “Quando os canhões abrirem fogo, quero duas Vickers também a dispararem ininterruptamente sobre o tronco. Entendido? “

“Sim, meu capitão.”

“Então vai depressa antes que eles saiam dali. “

Joaquim largou em corrida pela trincheira e desapareceu na primeira curva. Afonso voltou ao periscópio para analisar Tilleloy Sul. Havia detonações sucessivas de granadas mesmo diante da linha da frente, era a artilharia do CEP a corresponder ao seu pedido de havia pouco e a tentar isolar os alemães que tinham entrado na trincheira portuguesa.

Mais uns minutos volvidos e Afonso viu grupos de alemães a procurarem saltar o parapeito para regressarem às linhas inimigas.

“Apanhem-me aqueles boches”, ordenou aos seus homens. Os soldados dispararam imediatamente as Lee-Enfield, Matias levantou-se, apontou a Lewis sobre o parapeito e, apesar do desconforto da posição e do peso da metralha-dora, sempre eram doze quilos, largou algumas rajadas. Os alemães que tentavam escapar desistiram momentaneamente, assustados com a atenção que tinham atraído, mas a acção teve um preço. A metralhadora alemã escondida junto ao tronco abriu fogo, as balas foram chover na posição portuguesa, muitas assobiando, algumas batendo nos sacos de areia, na lama e até no parapeito, uma atingindo Baltazar, que tombou no chão agarrado ao lado esquerdo da cara.

Os companheiros rodearam-no e constataram que tinha a pele rasgada junto à orelha, uma ferida que provocou um profuso jorrar de sangue numa abundância que, em boa verdade, era desproporcional à gravidade do ferimento.

Vicente Manápulas prestou os primeiros socorros a Baltazar, fazendo- lhe um penso na ferida, e Afonso aproveitou a pausa para explanar a táctica que iriam adoptar.

“Oiçam bem”, interpelou-os. “Ninguém se vai ficar a rir da malta de Braga. Quando as marmitas começarem a cair sobre a costureira dos boches, avançamos pela trincha a cima e varremos tudo o que nos aparecer à frente, entendido? “

Os homens fizeram que sim com a cabeça, mas apenas Matias Grande parecia realmente motivado e empenhado em levar a cabo o golpe de mão. Afonso pressentiu isso e encarou-o, avaliando-lhe o corpanzil enorme e a postura determinada.

“Você, quem é? “

“O nome, homem!”

“Matias Silva, meu capitão.”

“Pois bem, Matias”, disse-lhe. “Você parece ter caparro suficiente para levar a costureira pelas trinchas. Recarregue imediatamente a Luisa e, quando eu disser, vai à frente comigo a despejar rajadas sobre os boches, entendeu? “

“Muito bem, meu capitão!”

“O resto do pessoal arme as baionetas. “

“Eu também, meu capitão? “, perguntou Baltazar Velho, agarrado à orelha que estava envolvida num penso.

“Claro”, devolveu prontamente o capitão. “Não quero mariquices aqui no 8. Que eu saiba, um arranhão numa orelha não impede ninguém de combater. “

Matias colocou um novo disco de balas na Lewis, levantou a metralhadora e encostou-a verticalmente à parede da trincheira para depois lhe ser mais fácil pegar nela e ir por ali fora aos tiros. Os outros homens, incluindo Baltazar, encaixaram as baionetas debaixo do cano das Lee-Enfield.

Afonso voltou ao periscópio e ficou a observar Tilleloy Sul. De repente, no meio do fragor da artilharia, começaram a erguer-se nuvens de fumo e lama em torno do tronco onde estava a metralhadora alemã emboscada e, acto contínuo, as Vickers portuguesas abriram fogo sobre a posição inimiga. Joaquim tinha comu nicado bem as suas instruções.

“Já estão a neutralizar a costureira”, disse Afonso sem tirar os olhos do periscópio. Após um breve instante, pousou o instrumento no chão e voltou-se para os homens. “Vamos lá. “

Matias Grande agarrou na pesada Lewis, os músculos maciços a retesa-rem-se com o esforço, respirou fundo e lançou-se em corrida pela trincheira, os enormes braços segurando a metralhadora em riste, Afonso colado a si com a pistola numa mão e uma Mills noutra. Chegaram à linha da frente e inspeccio-naram os dois lados, a direita e a esquerda, e não viram ninguém.

“Limpa”, disse Matias.

“Você aí”, indicou Afonso, apontando para Baltazar. “Fique aqui a vigiar a direita para não sermos apanhados por trás. “

Baltazar Velho plantou-se de sentinela à direita e os oito homens restantes flectiram pela esquerda em direcção a Tilleloy Sul, Matias sempre com a Lewis apontada para a frente a ziguezaguear pela linha.

Um vulto emergiu do fumo na trincheira e o português nem hesitou, só podia ser um alemão, abriu fogo com a metralhadora e derrubou o vulto, os homens do CEP ultrapassaram o corpo do inimigo caído no chão e Matias voltou a disparar com a Lewis para o meio do fumo, apareceu um segundo alemão que ergueu os braços em sinal de rendição, gritando “Kamerad”, Matias cortou-o a meio com uma nova rajada, silvavam projécteis por toda a parte, em plena confusão os alemães pensaram que era um contra-ataque de grande envergadura, tinham perdido momentos antes a metralhadora e ouviam agora soldados portugueses a aproximarem-se rapidamente da posição onde se encontravam, saltaram todos pelo parapeito, desafiaram destemidamente as granadas do CEP que erguiam penachos de fumo e ferro na terra de ninguém e mergulharam nas nuvens de guerra que pairavam entre as linhas inimigas.

Os portugueses ficaram a ver os alemães a correrem de regresso às suas posições, saberiam depois que vários companheiros do 29 tinham sido feitos prisioneiros mas nunca chegariam a saber que era esse o verdadeiro objectivo daquele assalto alemão, apanhar prisioneiros portugueses para obter informa-ções que facilitassem o planeamento da ofensiva da Primavera, decidida onze dias antes, em Mons, pelo conselho de guerra inimigo. No parapeito, o único soldado português que ainda disparava sobre os alemães em fuga era Matias Grande. Afonso fez-lhe sinal para parar quando se tornou evidente que os alemães estavam já demasiado longe e seria difícil atingi-los em movimento, mas Matias ignorou-o, manteve o dedo furiosamente carregado no gatilho e assim permaneceu enquanto viu inimigos à frente e mesmo depois de eles terem desaparecido de vista. O capitão admirou-se com a fúria do soldado e atribuiu-a erradamente a qualidades inatas de guerreiro. O que Afonso não sabia, não podia saber, era que, naquele dia, Matias tinha um amigo de infância para vingar.

Até a luz amarelada das lamparinas sobre a mesa pareceu brilhar mais forte quando Marcel se colocou na porta. Afonso nem reparou nele, tão absorto estava a apreciar a bela mesa de mogno que enchia o centro do salão de jantar, a tábua assente em cinco pernas pesadas com cabochons salientes, os talheres de prata a enquadrarem as requintadas porcelanas de Sèvres, decoradas com gotas de esmalte e geometrias douradas sobre azul-forte, cuidadosamente alinhadas na toalha bordada à mão. A empregada entrou apressadamente no salão de jantar com a travessa nos braços, afogueada, as mãos protegidas da porcelana quente por um pano branco de cozinha. Vendo-a passar célere e corada, o mordomo encheu o peito de ar e, a voz firme e solene, anunciou o menu.

“Poulet rôti aux riz à la normande”, proclamou Marcel, o jeito cerimonioso e o tom altivo.

A rapariga rechonchuda, sorridente e aliviada, pousou a travessa fumegante na mesa e o barão Redier, agradado com o murmúrio de satisfação dos convidados como reacção ao anúncio da chegada da comida, abriu as mãos em direcção ao poulet.

“Voilà!”

“Jolly good!“, exclamou o tenente Cook, arqueando as sobrancelhas e elogiando a visão do que, por todas as aparências formais, seria certamente um lauto banquete. “Loolzs smashing. “

O capitão Afonso Brandão olhou para a travessa e não pôde deixar de apreciar a genial maneira francesa de transformar um prato banal num manjar de reis unicamente com recurso a um grandioso floreado semântico inserido num ambiente requintado. O pomposamente designado poulet rôti aux riz à la normande não passava de um vulgar frango grelhado servido com arroz branco em molho cremoso. Lá em casa, na Carrachana, fazia-se melhor com nomes mais simples, pensou Afonso, empenhado no entanto em perdoar Cook pelo entusiasmo excessivo que manifestava por um prato tão simplório. Não era ele afinal inglês, habituado a violentas dietas de corned-beef, mushed potatoes, baed beans com bacon, sausages e scrambled eggs? Como censurá-lo pelo extraordinário efeito que um mero frango produzia antecipadamente nas suas papilas gustativas se o pobre moço estava habituado a sofrer os rigores da austera cozinha britânica?

O oficial português encontrava-se de regresso ao palacete onde pernoitara dez dias antes, nos arredores de Armentières, e admirou-se por não se sentir admirado de ali estar de novo. Foi graças a uma conversa particular entre a bela baronesa e o maire da cidade que Afonso obtivera um novo boleto no Château Redier, embora desta feita não tivesse vindo sozinho. Também o tenente Timothy Cook, do Royal Flying Corps, recebeu o billeting certificate para pernoitar no palacete nessa noite fria de 1 de Dezembro.

“C'est bon?“, perguntou Agnès, fazendo sinal a Marcel para trazer o vinho.

“I say”, retorquiu Cook com a boca cheia pela primeira garfada, um pingo de gordura no bigode loiro. “Capital! Most excellent! “

Marcel aproximou-se com uma garrafa fechada e entregou-a à baronesa. Agnès pegou nela e exibiu-a aos convidados.

“É um Bordeaux Château Margaux de uma colheita de ano vintage, 1892. Alguma objecção? “

Os convidados entreolharam-se, sem saberem o que dizerem. Cook não era connaisseur e tanto lhe fazia. Já Afonso entendia de vinhos, mas apenas dos portugueses e não podia adivinhar que lhe estava a ser oferecido um néctar dos deuses produzido pelas melhores vinhas francesas.

“C'est bon”, disse finalmente o inglês, como diria a qualquer outro vinho que lhe pusessem à frente, mesmo o mais ordinário dos tintos, ele que estava mais habituado às frescas lagers e às tépidas ales, às mild, às bitter, às porter e às stout, aos halfa-pint de draft servidos num qualquer pub da Strand, de King's Road ou da estreita Neal Street.

Agnès envolveu a garrafa num guardanapo imaculadamente branco, retirou a cápsula de chumbo do topo do gargalo, limpou o bordo e a rolha com a ponta do guardanapo, inseriu o saca- rolhas metálico, tendo especial cuidado para não perfurar totalmente a rolha, e puxou devagar, como se fosse uma alavanca. A rolha soltou-se com um poc seco, Agnès limpou o interior do bordo com o pano do guardanapo, deitou um pedacinho de vinho no copo, cheirou-o para captar a fragrância, girou o líquido em contraluz para avaliar a cor, era tinto escuro, provou-o de olhos fechados, deixando o vinho percorrer as gengivas e estender-se pela língua para melhor experimentar a sua fruta, textura e intensidade, engoliu e esperou, sentindo o hálito a perfumar a boca. Após um breve momento, entregou a garrafa a Marcel.

“Pode servir”, disse.

Os convidados olhavam-na, espantados com o inesperado espectáculo. Todo o ritual tinha durado uns bons três minutos.

“Onde é que aprendeu a fazer isso? “, quis saber Cook. “Esse, mon chère, é o meu segredo.”

A baronesa sorriu e desviou os olhos para Afonso. Tinha um vestido creme enfeitado com folhos trabalhados nas mangas. O capitão reparou no medalhão azul que trazia ao pescoço, mesmo por cima do discreto decote, e teve dificuldades em ocultar a sensação de encantamento que aquela francesa lhe produzia, a forma como abrira a garrafa era um inesperado extra que mais a aproximava dele.

Depois de todos gabarem o poulet e o tinto tão finamente desenrolhado, a conversa deambulou pelas recentes aventuras de Afonso, que relatou em pormenor os acontecimentos que vivera dias antes nas trincheiras, mais as outras histórias que os seus camaradas de armas lhe contaram sobre o raide alemão a Neuve Chapelle e Ferme du Bois. Os pormenores sangrentos e chocantes foram eliminados, por pudor e respeito pela senhora presente, ficando apenas os actos insinuados como de grande bravura. Causou particular sensação junto do casal anfitrião a narrativa do audacioso golpe de mão que expulsou os alemães de Tilleloy Sul, com Afonso a ter, todavia, o cuidado de omitir o pormenor do abate do alemão que se rendera.

Agnès mostrava-se discretamente encantada com o que lhe pareceu ser a coragem de Alphonse e dos seus homens e por duas vezes fez um brinde em homenagem ao capitão e ao Corpo Expedicionário Português. Preocupada em não marginalizar o outro convidado e em ocultar do marido o interesse que lhe despertava Afonso, a baronesa questionou igualmente o tenente inglês sobre o que vira e o que fazia na guerra.

“I say”, disse Cook, afinando a voz. “Neste momento sou oficial de ligação com o exército português “

“Ah bon “, surpreendeu-se Agnès.

“Indeed! “, retorquiu o tenente. “Tudo por causa do meu português. “

“Fala português? “, admirou-se, por seu turno, o barão Redier. “Right ho“, assentiu Cook. “Vivi três anos no Brasil. “ “Ah”, exclamou o barão. “No Rio de Janeiro? “

“Manaus.“

O barão ergueu as sobrancelhas, em sinal de que não reconhecera o nome. “Pardon “

“Manaus. É uma cidade no meio da Amazónia “

“E o que estava o senhor a fazer na Amazónia?“, atalhou Agnès, retoman-do o fio da conversa.

“Its a long story”, riu-se Cook. “Tive um desaguisado familiar em Hendon, onde vivo, e embarquei para o Brasil. No Rio conheci um carpinteiro inglês que trabalhava numa fazenda perto de Manaus e ele convenceu-me a ir conhecer a floresta. Fiquei por Manaus. Como tinha um pé-de-meia e jeito para a mecânica, adquiri um pequeno barco a vapor, no qual transportava seringueiros ou comerciantes pelo Amazonas ou pelo rio Negro até às fazendas. Ninguém falava inglês e lá tive de aprender português. “

“Alphonse”, chamou a baronesa. “Ele fala bem? “ “Não é mau”, retorquiu o capitão, olhando para o tenente inglês com ar de quem lhe está a prestar um favor.

“Depois voltei para Hendon e começou a guerra”, continuou Cook, ignorando a amigável provocação. “O meu jeito para a mecânica atirou-me para o Royal Flying Corps. “

“Não tem medo de voar? “, questionou Agnès, curiosa. “

Heavens, no”, devolveu o tenente, abanando enfaticamente a cabeça. “I love it! Excepto quando aparecem os jerries, claro.”

“ Os jerries?”

“Os boches”, corrigiu Cook. “Chamamos- lhes jerries. “ “Não lhes chamam boches?“

“A Huns, who cares? “ Boc es, jerries, ritz

“Huns? O que é isso? Um nome? “

“Hunos”, explicou Afonso, interrompendo a conversa. “Os ingleses chamam-lhes hunos”

“Ah”, compreendeu Agnès. “Hunos, os bárbaros.“ “Yes”, confirmou Cook. “Mas eles também se chamam a si próprios hunos.“

“Ah sim?“, surpreendeu-se Afonso, suspendendo uma garfada no ar. “Nunca ouvi falar nisso!”

“Oh yes, they do! “, retorquiu o inglês, quase cantarolando. “Eles usam nos cinturões a frase Gott Mit Uns. Eu já vi “

“Isso é outra coisa”, exclamou Afonso com uma gargalhada. “Gott Mit Uns significa Deus está connosco.“

“Deus está com os hunos”, corrigiu Cook.

“Connosco”, insistiu o capitão.

Alphonse”, chamou Agnès. “Você fala alemão? “ Afonso olhou para a francesa e não pôde deixar de admirar a sua atenção aos pormenores.

“Un petit peu.

“Ah bon“, exclamou a baronesa, em tom de admiração apreciativa. “E onde aprendeu? “

Afonso hesitou, considerando as consequências da resposta. Decidiu- se pela evasiva.

“Na escola. “

“Ensinam alemão nas escolas portuguesas? “

Era uma boa pergunta. O capitão sentiu uma gota de transpiração a nascer-lhe na fronte e um calor súbito a encher-lhe as axilas. Todos na mesa se calaram e pararam de mastigar, fitando o português e aguardando a resposta com moderada expectativa. Instintivamente, Afonso não quis contar a verdade, não quis dizer que frequentara o seminário em Braga nem quis falar do padre Fachetti que lhe ensinara alemão, mas não percebia exactamente por que razão se recusava a revelar esse facto. Ou, para ser verdadeiramente sincero, até percebia, embora nem a si mesmo o quisesse admitir. Falar do seminário seria dar indícios de que estudara para padre, o que o capitão pretendia a todo o custo evitar, nem pensar em deixar pairar na mente da francesa qualquer hipótese de considerar que ele lhe era inacessível, que as mulheres lhe eram indiferentes. Ainda admitiu a possibilidade de alegar que as escolas portuguesas tinham capacidades pedagógicas excepcionais, mas imediatamente compreendeu que essa seria uma afirmação absurda e susceptível de levantar suspeitas. Mais valia ir pelas meias-verdades.

“Digamos que os meus pais me colocaram numa escola especial, onde se aprendiam várias línguas. “

“Ah bon! “, concluiu Agnès, dando mostras de acreditar na resposta. “E que outras línguas aprendeu? “

“Para além do francês, do inglês e do alemão? “, perguntou Afonso. “Também aprendi italiano e latim. “

“Mas isso é uma maravilha”, encantou- se a baronesa. “Você é um poliglota formidável! “

“Molte grazie, signorina, le dispiace si non parlo francesi? “ disparou o português, exibindo o seu italiano cantado.

“Oh la la “, riu-se Agnès, batendo palmas e mostrando os dentes brancos e bem alinhados.

Seguiu-se uma nova ronda de brindes, com Afonso a largar mais umas tiradas em italiano, palavras que ninguém compreendia mas que produziram o seu efeito naquele subliminar jogo de sedução que se estabelecera entre os dois. Quando os italianismos se esgotaram, o barão voltou-se para o tenente inglês.

“Tudo isto vinha a propósito, não me perguntem como, da sua experiência na Força Aérea. “

“Right ho! “, exclamou Cook, como quem regressa à terra. “Onde ia eu? “

“Na Força Aérea. Veio do Brasil e alistou-se na Força Aérea para vir à guerra.”

“Oh yes!“, disse, “Alistei-me no Royal Flying Corps e lá vim eu para França. Naquela altura, há três anos, os aviões pareciam feitos de cartão e só serviam para voos de reconhecimento. O meu primeiro aparelho foi um Farman HF-20, de fabrico francês, que tinha sido comprado à Aéronautique Militaire, a força aérea francesa. Depois, começaram a aparecer novos aviões e passei para um Nieuport 11, também francês, um grande avião, que estava armado com uma Vickers e já servia para combate. “

“E matou muitos alemães? “, quis saber Agnès.

“Estive mais envolvido em operações de reconhecimento. As minhas missões consistiam em fotografar as trincheiras, verificar o que se passava por detrás das linhas inimigas e, já agora, sobreviver às antiaéreas dos jerries. Mas houve uma vez em que abati um Fokker “

“Um quê? “, interrompeu o barão.

“Um Fokker, um avião boche. “

“Mas os aviões dos boches não são os Tauber? “ “Também”, riu-se Cook. “Os Tauber são apenas um dos modelos boches, porventura aquele que os civis conhecem, mas eles têm outros aparelhos, como os Fokker, os Gotha, os Halberstadt, os Albatros e outros. “

“E tinha medo? “, perguntou Agnès, insistindo na questão de havia pouco.

Always”, assentiu o tenente inglês, fazendo de seguida uma expressão pensativa. “Mas houve uma vez em que tive mais medo de ser apanhado vivo do que de morrer. “

“Ah sim?”

“As operações de reconhecimento são muito ingratas no Somme por causa do tempo. Está sempre nublado, as nuvens são baixas e ocultam as linhas inimigas, impossibilitando as fotografias aéreas. No ano passado, por causa da ofensiva no Somme, recebemos ordens para fotografarmos as posições inimigas. Cansámo-nos de sobrevoar as linhas, sem sorte nenhuma com as nuvens, que permaneciam cerradas. Um dia estávamos a jogar football perto do aeródromo quando começaram a soar as sirenes. Tinha havido uma aberta nas nuvens e tínhamos de aproveitar. Fomos a correr até ao aeródromo e eu, sem tempo para mudar de roupa, saltei para o cockpit com o meu equipamento de football. Lá em cima fazia um frio desgraçado e, a bater os dentes, os joelhos nus e vendo as explosões das granadas de antiaérea à minha volta, comecei a sentir um medo terrível de ser atingido e de ter de aterrar atrás das linhas inimigas. Já viram o que era os boches irem-me buscar ao avião e verem-me sair de calções e equipado à footballer? “

Todos se riram, divertidos. O tenente inglês manteve um ar impenetrável, como se tivesse contado uma coisa grave. Sorveu um golo de tinto e retomou a palavra.

“Este ano fui abatido durante o grande dogfight de 26 de Abril, aqui perto. Foi uma batalha aérea que envolveu noventa e quatro aviões, o maior dogfight da história da guerra. O Royal Flying Corps foi dizimado, eu fiquei sem avião e, como falava português e o Corpo Expedicionário Português tinha acabado de chegar à Flandres, fui destacado como oficial de ligação. Et Ollà. “

À mesa, todos se calaram. A história do voo com equipamento de football tinha sido engraçada, mas o final não. Fez-se um silêncio embaraçado e foi Afonso quem, interessado no pormenor desportivo da narrativa, relançou a conversa.

“Gosta de jogar football? “ “Só association football”

“Há mais tipos de football? “

“Sim”, assentiu Cook. “Há também o rugby football. “ “Bem, refiro-me àquele que se joga com os pés. “ “Jogam- se ambos com os pés, é por isso que se chamam football”, riu-se o inglês.

Afonso ficou atrapalhado.

“Mas qual é a diferença entre eles? “

“O association football só autoriza o goal-keeper a segurar a bola com as mãos, enquanto o rugby football permite que todos os jogadores peguem na bola com a mão, embora os goals sejam marcados com o pé.”

“Ah!“, entendeu Afonso. “Então em Portugal só conhecemos o association football.”

“É precisamente desse que eu gosto”, exclamou o inglês. “É menos violento, os empurrões são proibidos e as obstruções também, não é como o rugby football, mais próprio para energúmenos rústicos do que para verdadeiros gentlemen. “

O capitão percebeu que os anfitriões não estavam a entender a conversa e, diplomaticamente, refreou o entusiasmo. Queria contar as aventuras de infância atrás de uma bola de trapos, os desvarios da juventude aos pontapés a uma pedra rolante e ainda os grandes matches a que assistiu no Campo Pequeno, nas Salésias e na Quinta da Feiteira, mas conteve-se.

Agnès aproveitou a oportunidade para fugir do tema desportivo, que decididamente não lhe interessava.

“Então o senhor está agora com os portugueses”, disse, dirigindo-se ao tenente inglês.

“Yes. “

“E gosta deles?”

“Right ho!“, assentiu, olhando para Afonso. “São simpáticos, uns verda-deiros jolly good fellows, e, além disso, é preciso não esquecer que são os nossos mais velhos aliados. “

“São bons soldados...“, disse a anfitriã, meio perguntando, meio afir-mando.

A resposta foi inesperada. “Well, não exageremos. “

“Não são bons soldados? “

“Sabe, para haver bons soldados é, sobretudo, preciso haver boa organização. Mostre-me um exército bem organizado e eu mostro-lhe bons soldados. A organização produz disciplina, motivação e esprit de corps. Os portugueses são uns merry men, uns homens descontraídos, tímidos e pacíficos, mas a sua organização, lamento dizê-lo, deixa muito a desejar. “

Afonso manteve-se calado. Já uma vez conversara com Cook na messe dos oficiais da brigada sobre este tema e conhecia as suas pouco diplomáticas opiniões, pelo que estas palavras não constituíam novidade. O tenente inglês era de uma candura desarmante, quase cruel, mas o capitão achava, no íntimo, que o que ele dizia era verdadeiro. Na fase de instrução, Afonso passara uma temporada nas trincheiras inglesas e sabia quão diferentes eram elas das portuguesas em termos de organização, disciplina, higiene e trabalho.

“Os portugueses são desorganizados... “, avançou Agnès, sorrindo, como quem diz que isso não é um pecado muito grande.

“Right ho! “, confirmou Cook. “São os campeões do improviso, e isso pode pagar-se caro quando se está numa guerra. “

“Talvez amem demasiado a vida e percebam que há coisas mais interessantes do que andarem a matar-se uns aos outros”, adiantou a francesa, olhando para Afonso como que a encorajá-lo.

O português aproveitou a deixa.

“Tirem-nos o amor, o vinho, o nosso pão, o chouriço e o sol, e tiram-nos a alegria”, observou com um sorriso.

Era uma oportunidade para mudar de tema, o que Agnès e Afonso ardentemente desejavam, mas o barão Redier não deixou.

“Dê-me um exemplo da desorganização portuguesa”, pediu o barão ao tenente inglês.

“A questão da limpeza das trincheiras”, retorquiu Cook quase imediata-mente.

“A limpeza?“

“A limpeza. Esta é uma área que parece irrelevante para definir um bom exército e, no entanto, é de enorme importância. Pelos padrões de higiene é possível descortinar os níveis de organização, disciplina e motivação de um exército. “

“As trincheiras portuguesas são sujas? “, perguntou o barão com um esgar malicioso.

“As portuguesas e as francesas”, adiantou Cook, não deixando que o barão se ficasse a rir do capitão.

O esgar de Redier desfez-se e o seu rosto exibiu um súbito rubor irritado, que o tenente inglês ignorou. Se lhe faziam perguntas, respondia, e que culpa tinha ele de as respostas não serem do agrado de quem perguntava?

“As francesas?”

“Right ho! “, confirmou Cook. “Após visitar várias trincheiras, aliadas e inimigas, eu e os meus amigos do Royal Flying Corps até já estabelecemos a lista das mais limpas, por ordem decrescente. Quer saber quais são? “

“Bien súr “

“Very well”, disse o tenente, adoptando o trejeito de quem está a fazer um esforço de memória. “Os campeões da limpeza são os ingleses e os protestantes alemães, designadamente os prussianos. Depois vêm os galeses, os canadianos e os irlandeses protestantes. Seguem-se os católicos irlandeses e os católicos alemães, como os bávaros. De seguida, os escoceses, os franceses e os belgas. No patamar mais abaixo estão os indianos. Depois, os argelinos. Por último, os portugueses, os campeões da porcaria “

Fez-se silêncio.

“Isso não é simpático”, cortou Agnès, agastada com o rumo da conversa e com os comentários do tenente, que considerou desagradáveis e desnecessários.

“Pediram-me a verdade e eu dei-vos a verdade”, devolveu Cook, fazendo um gesto de impotência. “Aqui o capitão Afonso já conhece as minhas opiniões e, tanto quanto me pude aperceber, até concorda. “

Afonso sentiu que tinha de dizer alguma coisa. Fez um uh uh com a garganta, afinando as cordas vocais antes de falar.

“É um facto que as trincheiras portuguesas estão longe de serem um modelo”, admitiu. “Temos um problema com o nosso quadro de oficiais que, em geral, não acredita na participação de Portugal nesta guerra. Os homens estão a ficar cansados, não foi ainda feito roulement das tropas e há uma gra-dual deterioração da disciplina. Como consequência, por exemplo, as latrinas não são convenientemente limpas e há lixo a acumular-se nas trincheiras. Para além disso, não há hábito em Portugal de se tomar regularmente banho. A campanha dos higienistas, que se propagou pela Europa no século passado, não chegou ao nosso país, onde se considera que o banho é um prazer narcisista de mulheres ociosas e fúteis, quase um pecado. Impusemos aos nossos soldados a obrigatoriedade de um banho semanal, mas a maior parte acha isso um exagero e muitos evitam a água, consideram até que a sujidade é a melhor defesa contra as doenças, e, ainda para mais com o frio que está e a que não estamos habituados, os soldados fogem do banho como o diabo da cruz. É um problema que temos de resolver. “

“Mas olha, Afonso, que o pior são mesmo os vossos oficiais”, insistiu o inglês. “Os soldados ainda vá que não vá, vão mostrando boa vontade, mas os oficiais portugueses... “

“Admito”, concordou o capitão. “Temos muitos oficiais contrariados com o esforço de guerra, são pouco pontuais, não executam imediatamente as ordens que recebem, passam a vida a falar mal de tudo e estão-se nas tintas para o bem-estar dos seus homens. Com oficiais assim, é realmente difícil motivar os soldados. “

“Para ser inteiramente justo, há um outro problema que não mencionaste e que contribui muito para o problema”, atalhou o tenente Cook.

“Qual? “

“A natureza das próprias trincheiras ocupadas pelas vossas tropas”, disse o oficial britânico. “A entrega do sector de Neuve Chapelle aos portugueses foi um presente envenenado. Neuve Chapelle está situada num lamaçal baixo, dominado pela cumeada de Aubers-Fromelles, uma posição elevada ocupada pelos jerries. Quando chove, os homens que defendem Neuve Chapelle têm de levar não só com a água que lhes cai em cima como com a que vem do sector boche pelo fosso que desce pelo caminho Estaires-La Bassée. A consequência é que as trincheiras estão sempre inundadas de água e lama e tornam vãos todos os esforços de limpeza. É por isso que quem se encontra em Neuve Chapelle está destinado a viver como um rato. “

Mas o barão Redier já nada ouvia, sentia-se agora mais preocupado com a observação sobre o que se passava nas trincheiras francesas e insistiu com Cook.

“Você colocou as trincheiras francesas só um grau acima das indianas.

“Yes.“

“C'est pas possible!“, exclamou, abanando a cabeça e recusando-se a aceitar tal comparação.

“E, no entanto, é verdade. “

Afonso decidiu ir em socorro do seu anfitrião.

“Sabe, monsieur le baron, é um facto que as trincheiras portuguesas e francesas são mais sujas do que as inglesas e que os nossos hábitos de asseio são menores do que os dos nossos aliados”, disse. “Mas é um exagero reduzir a qualidade de um exército à limpeza das trincheiras e aos hábitos de higiene dos homens. Os ingleses podem ser muito limpos e organizados, mas, do ponto de vista militar, os franceses apresentam melhores tácticas de combate. “

“Ah bon?“, soltou o barão, a auto- estima a regressar. “Os ingleses acreditam no sistema de encher a linha da frente de soldados quando o inimigo ataca, mas os franceses já perceberam que isso é disparatado e, tal como os alemães, concentram as suas forças na retaguarda”, exemplificou o capitão.

“Qual é a diferença? “

“A diferença é que os ingleses perdem inutilmente muitos homens nos bombardeamentos preliminares do inimigo, enquanto os franceses e os alemães os protegem na retaguarda e só os mandam para as primeiras linhas quando é mesmo preciso. É mais inteligente. “

O barão olhou para o tenente Cook com ar triunfal. “A lors “

“I agree”, retorquiu o inglês, concordando com a observação de Afonso. “Eu e o capitão já falámos muito sobre isto, as nossas tácticas são excessiva-mente inflexíveis e conservadoras. Infelizmente, os nossos altos oficiais são todos da velha escola e resistem a modelos inovadores e mais dinâmicos. Como diria aqui o nosso amigo Afonso, é um problema que temos de resolver. “

“E o pior é que o nosso exército está a beber da doutrina inglesa”, disse o capitão português, rindo-se. “Ou seja, imitamos os ingleses no que eles têm de pior e não os imitamos no que eles têm de melhor. “

O esguio relógio de caixa alta encostado à parede, um antigo regulador vienense Biedermeier, deu um estalido e, acto contínuo, assinalou ruidosamente as nove da noite, o mostrador prateado e o mecanismo de grande sonnerie a funcionar na perfeição. Agnès achou que já chegava de comparações entre exércitos. Percebeu que, quando os interlocutores eram de nacionalidades diferentes e decidiam ser sinceros, estas conversas resultavam por vezes humilhantes para alguns. Era preciso tacto, algo que manifestamente se encontrava ausente naquela mesa. A refeição estava concluída e havia, pois, que aproveitar os oportunos gongos do Biedermeier e o tom descontraído desta última intervenção de Afonso para fechar o assunto e não o voltar a aflorar. Findos os gongos, a francesa levantou-se da mesa, determinada a agarrar a oportunidade.

“Msieurs”, anunciou. “Façam o favor de seguir para a sala de estar, onde nos esperam os digestivos e onde eu vos vou mostrar um objecto de arte que decerto vos irá surpreender.”

O som do piano era abafado pela imensa algazarra que enchia o salão. O fumo do tabaco, espesso e denso, flutuava como uma nuvem dentro do estaminet “A Cambrinus”, em Merville, mas ninguém parecia incomodado, a piores e mais perigosos fumos estavam todos já habituados nas trincheiras. Junto à janela, um tommy magrinho deslizava os dedos pelo piano barato, desafiando vigorosamente a cacofonia das conversas com um fox-trot animado, os versos incompreensíveis para os lãzudos mas vagamente acompanhados por alguns ingleses meio entorpecidos pelo álcool.

“If were the only girl in the world... “

Uma rapariga magra, um avental sujo sobre o ventre, ziguezagueou, esguia, por entre as mesas cheias de homens barulhentos, um tabuleiro com copos de cerveja blanche na ponta dos dedos da mão direita. Baltazar Velho viu-a e esticou a cabeça.

“T'es bonne!“, rugiu o veterano, insinuando um convite sexual. “Mademoiselle coucher avec moi?

A rapariga sorriu e prosseguiu sem responder. Estava habituada aos avanços dos soldados, aos grosseiros piropos de caserna e ao desajeitado patois de francês das trincheiras, feito de um conjunto limitado de palavras, como compris, pas compris, bonne, pas bonne, jinish, coucher avec, manger, promenade e pouco mais.

“Que categoria de gaja! “, disse Baltazar, voltando-se para a mesa. Sorveu um golo de cerveja, pousou a caneca pesadamente na mesa e arrotou. “Hoje temos de ir às buscates.”

“Ó Baltazar, já não tens idade p'ra isso”, devolveu Vicente Manápulas. “E, além disso, tás ferido, tens de descansar. “

Baltazar passou a mão pelo penso que lhe enfeitava a orelha. “Eu estou ferido na orelha, não no saçarugo”, retorquiu, apontando para entre as pernas.

“Camano, eu tou arrasado”, queixou-se Vicente. “Passámos a manhã na porra dos trabalhos de fortificação e a tarde c'as marchas e a instrução de baionetas, lá c'aquela merda das estocadas contra sacos suspensos e sacos no chão, mais aqueles exercícios todos de coronhadas, joelhadas, rasteiras e cabeçadas, de modo que tou que nem posso. “

“Mau, não te armes em rabeta”, advertiu Baltazar. “A melhor maneira de recuperar dessa estafa é dar uma grande pirocada. “

“O qu'é qu'achas? “, perguntou Vicente a Matias Grande.

De olhos fixos e melancolicamente perdidos no amarelo-turvo da blanche que segurava entre as mãos, o enorme homem de Palmeira mostrava- se distante e sorumbático. Não conseguia conformar-se com a morte de Daniel, o amigo de infância, e a imagem do corpo e da cabeça a tombarem do céu assombrava os seus pesadelos desde o combate da semana anterior. Saíra já das trincheiras mas era como se ainda lá estivesse, martelando o episódio vezes e vezes sem conta, angustiado e invadido de incontroláveis sentimentos de culpa, pensando que deviam ter abandonado mais cedo a linha da frente, ou então alguns segundos mais tarde, imaginando a carta que iria pedir ao sargento para escrever à mulher do Beato, repisando as palavras, as ideias, os sentimentos, a revolta, a resignação, a tristeza. Matias olhou para Vicente, parecendo despertar de um sonho longínquo.

“Hã? “

“O qu'é qu'achas? “

“ O que é que eu acho de quê?”

“D'irmos às buscates, homem”, disse Vicente, impaciente. “Estás a dormir ou quê? “

“Irmos às buscates? “, interrogou-se Matias, como se se tratasse de uma ideia extraordinária. Parecia apalermado e levou um segundo a reflectir. “Vamos lá. “

“Então está decidido! “, exclamou Baltazar, batendo com a palma da mão na mesa de madeira. “Vamos às buscates! “

“Alguém tem til que me empreste? “, perguntou Abel, meio ensonado com o efeito das cervejas. “Sem til não posso chafurdar naquelas breixas. “

“Eu tenho til, Lingrinhas, está descansado”, disse Baltazar, exibindo umas notas de francos. “Carradas de moni” Voltou-se para Matias. “Desde a porrada do outro dia que andas abatido, homem. Levaste um louvor de categoria, foste promovido a primeiro-cabo, o que é que queres mais? “

“Estou-me a cagar para o louvor e para a promoção”, exclamou Matias, erguendo-se e deixando algumas moedas na mesa para pagar as suas duas cervejas. “Vamos embora.

O grupo levantou-se e saiu do estaminet, metendo pela rua suja e lamacenta em direcção ao bordel de Merville.

“Mas, ó Matias, a promoção não é má, sempre ganhas mais uns carcanhóis. “

“Ganho uma merda!”

“Não são vinte francos? “

“São. “

“Então sempre é melhor do que nós, caraças. A malta continua nos quinze e a verdade é que também arriscámos o pêlo.“

Matias encolheu os ombros e, arrastando Abel consigo, foi urinar junto a uma árvore, na berma. Os outros dois companheiros adiantaram-se um pouco. Baltazar pôs-se a cantar “Ó amen doeira! Que é da tua rama? “, mas Vicente interrompeu os berros estridentes e desafinados.

“Cala-te”, vociferou. “Estás a dar espectáculo.“

“O que é que tu queres, ó Manápulas? “, devolveu Baltazar.

“Estás nervoso por causa das mademoiselles que vamos comer? “

“Cala-te. “

“Já sei, Manápulas, o teu problema é que vais ter uma mulher de categoria e tu preferes dar à mão! “, disse Baltazar, com uma gargalhada grosseira. O Manápolas prefere a manápola.

“Cala-te, tás bêbado!

Baltazar calou-se. Matias e Abel juntaram-se-lhes e o grupo seguiu em silêncio pela rua, os quatro a fintarem as poças de lama espalhadas pela via, as fardas a arrastarem as pontas pelo chão, enormes. Eram uniformes confeccio-nados para soldados ingleses, mais altos, e que nos portugueses se mostravam ridiculamente grandes, as mangas quase a taparem as mãos, as bainhas das calças a nadarem na lama, verdadeiros anões em trajos de gigantes. Apenas Matias Silva, o homenzarrão cuja estatura elevada lhe valia merecidamente a alcunha de Grande, parecia feito à medida daquele uniforme.

O bordel ficava numa esquina da avenida principal de Merville, para onde se dirigiram com vagar. A um quarteirão da avenida viram um rapazinho sentado num muro frente a uma casa com um buraco na parede lateral.

“Msieurs!“, chamou o rapaz. “Voulez-vous ma soeur? Very good jig- a-jig. Demoiselle very cheap. Very good.“

O francesinho tinha uns dez anos de idade e, claramente, com a sua mistura de inglês e francês, confundia os soldados portugueses com tommies ingleses.

“O qu'é que quer o miúdo? “, perguntou Vicente a Baltazar. “Está a oferecer a irmã”, explicou o veterano, estacando e olhando para o rapaz francês. “Coucher avec mademoiselle? “

“Oui sieur, très jolie, très bon marché. “

“Combien? “

“Cinc francs.

“É barato”, comentou Baltazar para os amigos. “Cobra-nos cinco francos pela irmã. “

“E é mesmo irmã dele? “, admirou-se Abel Lingrinhas. “Sei lá!”, exclamou Baltazar, encolhendo os ombros. “Devem ser refugiados belgas. “

“Vamos embora”, disse Matias.

“Tem calma, espera lá um pouco”, retorquiu Baltazar, voltando-se para o rapaz e querendo saber onde se encontrava a irmã. “Où est mademoiselle?

O francês, que se calhar era belga, saltou do muro e cruzou a rua.

“Venez! “, disse, entrando no quintal de uma casa baixa do outro lado da rua e fazendo-lhes sinal para o seguirem.

Os portugueses entreolharam-se e, com um passo lento e hesitante, foram atrás dele. Chegaram à casa, na verdade umas ruínas já sem telhado, e encontraram o rapaz à sua espera no fundo de umas escadas, à porta do que parecia ser uma cave com acesso exterior. Desceram as escadas e o adolescente convidou-os a entrarem. Estava escuro na cave, mas depressa se aperceberam de uma vela acesa no canto. Entraram e viram uma rapariga sentada sobre um pano largo, uma almofada ao lado, utensílios de cozinha num outro canto da cave.

“Cinc francs pour ma soeur”, repetiu o rapaz, exibindo os cinco dedos da mão.

Os quatro portugueses olharam para a rapariga, escanzelada e magra, que os fitava com algum nervosismo, os olhos cansados saltando de um soldado para o outro.

“Promenade avec moi?

“Esta miúda não tem mais de catorze anos”, comentou Matias em voz baixa, abanando a cabeça.

“É quase a idade da minha filha”, observou Baltazar, sem tirar os olhos da rapariga. O pequeno tamanho dos seios juvenis não lhe passou despercebido. “Vocês já viram as catrinas dela? Parecem umas bolotas!”

Matias Grande aproximou-se, pôs a mão no bolso, tirou umas moedas e deu-as à rapariga, que guardou o dinheiro e começou a despir-se.

“Vais dar-lh'uma pinadela? “, perguntou Vicente. “Estás maluco? “, devolveu Matias, dando meia-volta e saindo da cave. “Vamos embora. “

O grupo abandonou a cave e voltou à rua, deixando os adolescentes para trás.

“Uma miúda desta idade! “, exclamou Baltazar. “É pecado. “ “E ir às buscates não é pecado? “, quis saber Abel.

“Ir às buscates é necessidade”, explicou Baltazar. “Mas crianças é pecado.“

“Sei d'um tipo que pinou uma destas refugiadas”, comentou Vicente Manápulas.

“Uma miúda como esta?”

“Sim, novinha. “

“E o que é que ele achou? “

“Uma maravilha”, respondeu Vicente. “Disse-me que tava aflit'e qu'a refugiada lh'aditou bem a mingalha. “

Riram-se todos nervosamente.

O barão Redier já se tinha escusado perante os hóspedes e recolhido aos seus aposentos. Era um homem de hábitos, gostava de rotinas, de passear pelos mesmos sítios, de comer os mesmos pratos, de dormir à hora certa. Agnès ficou a fazer sala com os dois oficiais junto à lareira, ela com um champagne na sua cadeira de balanço, Afonso instalado no canapé com o habitual whisky, Cook com um porto num cadeirão de mogno estofado e braços de serpentinas. O inglês puxou de uma caixa de charutos de madeira, o topo assinalando Tabak-en-Sigaren, registado pela P. G. C. Hajenius, a célebre casa de tabaco da avenida Damrak, em Amesterdão, abriu-a e ofereceu Coronitas aos dois companheiros, que declinaram, acabou por acender ele próprio um dos curtos havanos, que aspirou com gosto, o aroma quente e agradável do charuto a encher a sala com o seu perfume tropical. Conversaram sobre tudo e sobretudo sobre a guerra, o tema que dominava as suas vidas. O capitão mostrava-se particularmente interessado em perceber como é que os ingleses viam a guerra, se a viam de forma diferente dos portugueses, e o cálice de porto pareceu ter soltado a língua ao tenente Cook. Agnès tentava igualmente entender se o que lhe diziam sobre as hostilidades era verdadeiro ou falso, se os alemães eram mesmo cruéis e cobardes como os descrevia a imprensa, se a guerra ia ou não acabar. O tenente Timothy Cook, com três anos de experiência no conflito, revelou-se uma verdadeira mina de informação.

All lies”, exclamou o tenente após uma baforada, não hesitando em considerar mentirosas muitas das notícias publicadas nos jornais. Percebeu a confusão da sua interlocutora e traduziu para francês: “Mensonges.

“Mensonges?”

“Yes”, assentiu. “Os poilus chamam a isso bourrage de crâne. É como se os jornais fossem uma fábrica de produzir mentiras.”

“Par exemple? “

“Oh, sei lá, tanta coisa! Olhe, uma vez estive em Champagne durante uma semana, a testar um Farman num aeródromo francês, e as coisas apresentavam-se tranquilas. Pois li nos jornais que tinha havido ali uma poderosa ofensiva alemã que fora travada sem que o exército francês tivesse recuado um único metro. All lies. Outra vez foi o contrário. Quando da ofensiva do Somme, em que parecia que o inferno tinha descido à terra, os jornais noticiaram que estava tudo calmo na zona da frente. “

Agnès ficou a fitá-lo, confusa.

“Seja”, concedeu. “Mas não é verdade que os boches são cruéis? “

“I say”, retorquiu Cook. “Não mais do que nós. Se nos virem à frente, tentam matar-nos, mas não é isso afinal o que nós também Lhes fazemos? Para ser inteiramente honesto, eu diria que alguns até são uns very decent chaps. Um amigo meu que está nos Royal Jelch contou-me que, durante uma ofensiva desastrosa ali no sector de Béthune, milhares de homens nossos ficaram caídos na terra de ninguém, feridos e a agonizarem. Pois os boches, parado o ataque, não dispararam um único tiro durante a noite, deixando os nossos maqueiros irem buscar todos os feridos e até muitos mortos.”

“Não me diga que vocês gostam dos boches. “

“Don't get me wrong”, disse Cook, abanando a cabeça. “Se vir um à minha frente, mais facilmente o abato do que o faço prisioneiro.”

“A sério? Fazer prisioneiros dá muito trabalho, explicou, fazendo uma curta pausa para aspirar a sua Coronita. “Alguns oficiais não hesitam em darem ordens implícitas para não fazer prisioneiros. “

“E isso quer dizer.”

“Matá-los on the spot, não dar tréguas a ninguém”, esclareceu o tenente, largando o fumo retido nos pulmões.

“Vocês fazem isso? “

“Right ho!“, confirmou. “Se estamos com pressa ou particularmente aborrecidos porque um amigo nosso foi morto, vai tudo de enfiada. Mas devo dizer que, a este respeito, os piores são, de longe, os canadianos e os australianos, que têm a fama de matarem todos os boches que se rendem. Não se brinca com eles.”

“Mon Dieu.”

“C'est la guerre”, concluiu Cook, utilizando a expressão então muito em voga sempre que se mencionavam as desgraças provocadas pelo conflito.

Como acontecia quando se falava da guerra, a conversa enveredara por caminhos desagradáveis e Afonso sentiu que era necessário inflectir o rumo. Por isso, aproveitou a pausa para tentar conhecer Agnès.

“Deve ser difícil a uma mulher bonita e encantadora como a senhora estar a viver neste recanto violento de França. “

Agnès sorriu, agradada com o piropo.

“C'est pas facile”, disse ela. Encarou Afonso, sorriu sedutoramente e acrescentou: “Mas, às vezes, tenho a felicidade de conhecer uns oficiais très charmants que me deixam encantada.”

O português ia-se engasgando com o whisky, não estava à espera desta resposta, as senhoras em Portugal costumavam ser mais passivas no jogo da sedução. O capitão ficou sem saber o que dizer. Engoliu em seco, muito corado, e prosseguiu sem acusar o toque.

“Imagino que... uh... com os soldados todos na rua, uh... não possa andar por aí a passear à vontade. Como consegue preencher o seu tempo? “

“Leio. Leio muito. “

“Ah sim? E o que lê?”

Oh, um pouco de tudo. Stendhal, Balzac, Flaubert, Dumas, Daudet, Maupassant.

“ E de qual gosta mais?”

“Não sei. Talvez Dumas, diverte-me. “

Afonso pousou o copo de whisky.

“Eu também gosto de ler. “ “E o que lê em Portugal? “

“Bem, não temos tanta variedade como vocês aqui em França, mas aprecio Eça de Queiroz e Júlio Dinis. “

“Eu já li um romance português”, comentou Cook. “Ah é? “, surpreendeu-se Afonso. “E qual? “

“Chamava-se O Guarani.”

“O Guarani? “, interrogou-se o capitão, fazendo uma careta. “Nunca ouvi falar. De certeza que era esse o título? “

“Sure. O autor era José de Alencar. “

“Tem piada, não conheço. Onde encontrou o livro? “ “No Brasil.”

“Ah, não deve ser português, é certamente um escritor brasileiro. Gostou?”

“gostei, não percebi algumas palavras”, riu-se o inglês. “Mas acho que sim. “

“Era melhor ou pior do que os romances ingleses? “ “Era diferente. “

“E o que se lê em Inglaterra?”, quis saber Agnès, com pouca vontade de voltar ao jogo das comparações. “Charles Dickens? “

“Sim, esse é o nosso maior nome, depois de Shakespeare. Mas há outros. “

“Por exemplo? “

“Oh, tantos. Thackeray, as irmãs Bront, Eliot, Trollope, Stevenson, Hardy, Kipling, Conrad... “

“Pois eu dos autores ingleses só li aquele romance de Dickens passado durante a Revolução Francesa.”

“A Tale of Two Cities. Gostou? “

“Oui”, riu-se a francesa. “Chorei muito no fim. “ “Thats Diclnens, all right”, concordou Cook com um sorriso conhecedor.

“E qual é o escritor de que gosta mais? “

“Acho que é Stevenson, aprecio o seu sentido de aventura, o gosto pelo exótico. Mas olhe que ando agora a ler um romance que saiu há pouco tempo e que é muito bom, muito original, muito profundo. “

“Do que trata?”

“O livro chama-se Of Human Bondage e é a história de um homem que se apaixona obcecadamente por uma mulher, mas ela não quer saber dele para nada. O que é extraordinário neste romance é que o leitor entra na cabeça da personagem e começa a pensar como ela, a perceber os seus sentimentos, a compreender as suas reacções, a antecipar os seus movimentos. O leitor transforma-se na personagem. “

“Parece interessante”, concordou Agnès. “Quem é o autor? “ “Somerset Maugham. É um escritor novo, eu próprio nunca tinha ouvido falar dele. “

“Pois olhe que o romance que comecei agora a ler é o contrário, está até a dar-me dores de cabeça. “

“Então e porquê? “

“Porque a história não avança. Mon Dieu, até dá a impressão de que não tem história. “

“E que obra-prima é essa?

“À la recherche du temps perdu. É um título que me parece adequado porque já ando à procura do tempo que estou a perder com ele. Veja lá que as primeiras cinquenta páginas são gastas com uma cena em que a personagem está deitada na cama à espera de que a mãe lhe venha dar o beijo de boa-noite. São cinquenta páginas nisto! “

Riram-se todos.

“E quem é o génio que escreveu essa obra de arte? “ “Marcel Proust. “

“Não vai longe”, sentenciou Cook.

“Não diga isso, o livro até está extraordinariamente bem escrito. “

“Mas qual é a história? “

“É esse o problema, ainda não percebi a história”, observou Agnès, pensa-tiva. “É certo que vou ainda no princípio, mas parece-me que a personagem está à procura de coisas da sua memória, de coisas perdidas no tempo, daí possivelmente o título. É algo estranho mas dá-me a impressão de que, talvez mais do que de histórias, este é um livro feito de sensações, de impressões, de odores, de paladares, de sons, de cores, de emoções, de afectos. Eu diria que é um grande fresco pintado de nostalgia, de momentos mágicos de infância, de pequenos nadas.”

“Olhe, eu tenho um amigo que uma vez me fez a definição perfeita do que é um bom livro”, disse Cook, efectuando uma pausa teatral para expelir uma baforada perfumada da sua Coronita. “Um bom livro é aquele que está bem escrito e tem uma boa história. Se o livro está bem escrito mas a história é má, o livro não é bom. Se o livro tem uma boa história mas está mal escrito, também não é bom. O livro só é bom se tiver uma boa história e estiver bem escrito. “

A lenha na lareira crepitava suavemente e os três encostaram-se nos respectivos assentos, tranquilos e serenos, a saborear o momento e a digerir aquela ideia. Todos recordaram os romances que leram ao longo da vida, pensaram nos que tinham boas histórias mas estavam mal escritos e nos que estavam bem escritos mas tinham más histórias. E pensaram sobretudo naquelas obras, raras e preciosas, que, com palavras simples e elegantes, frases graciosas e bem estruturadas, poderosas até, contavam histórias inesquecíveis e arrebatadoras. Sim, concordaram, esses é que eram os livros realmente bons. Quantas excelentes histórias não se desperdiçaram em maus textos, quantos bons redactores não se perderam em más histórias? É como a pintura, considerou Afonso. De que serve ter boa técnica se não se tiver imaginação criativa? De que serve ter imaginação criativa se não se dominar a técnica de pintura? Não está uma sempre ao serviço da outra, dando e recebendo, mudando e evoluindo, transformando-se e influenciando-se?

O som metálico e distante do Biedermeier a dar horas na sala de jantar encheu o silêncio. Por associação de ideias, quase sem querer, Afonso lembrou-se então da promessa feita pela baronesa ao jantar.

“M'dame, há pouco referiu-se a um objecto de arte surpreendente... “

“Oui”, exclamou Agnès, o rosto abrindo-se e apontando para um ponto da parede acima de uma estante. “É aquele quadro ali. “

Os dois oficiais viraram-se naquela direcção e repararam, pela primeira vez, num pequeno quadro realmente estranho, era uma paisagem pintada de maneira pouco ortodoxa, o céu cortado em formas geométricas de diferentes tons de azul, as casas transformadas em rectângulos tépidos, as árvores pareciam triângulos verdes.

“Good heavens! “, soltou Cook, os olhos arregalados. “O que é aquilo?”

“Cubismo”, explicou a baronesa, divertida com o ar perplexo dos dois militares.

“ Cubismo?”

“É uma nova corrente artística, muito chic, muito avant garde”, indicou Agnès. “Aquele quadro ali é de Robert Delaunay e comprei-o há uns quatro anos na galeria Kahnweiler, em Paris. “

“Mas é horrível”, disse Cook com um esgar de repulsa. “Eu diria que é diferente, original talvez.“

“Mas a natureza não é assim, o céu não é assim, está tudo mal pintado. “

“Não está mal pintado”, assegurou a francesa. “A ideia do cubismo não é a de representar o objecto tal como o vemos, mas tal como o conhecemos. O céu tem vários tons de azul porque sabemos que o céu é assim, a intensidade do seu azul varia com a luz do dia. “

“Its ghastly! “, repetiu o oficial britânico, ainda horrorizado com o que observava e insistindo na ideia de que não via qualquer virtude artística no quadro. Para não dar tempo para que se exibissem mais objectos do género, susceptíveis de ofenderem a sua sensibilidade estética, Cook esmagou no cinzeiro o pouco que restava da Coronita, ergueu-se do cadeirão e bocejou. “Meus amigos, foi agradável mas já são onze da noite e estou com sono. As minhas homenagens, madame, e os meus agradecimentos. Afonso, old chap. Cheerio and behave yourselfl.”

“Bonne nuit! “

“Até amanhã, Tim.

O inglês saiu e Agnès e Afonso ficaram sós.

Os lãzudos caminhavam agora pelos movimentados passeios da principal avenida de Merville, evitando o pavimento enlameado da rua, ocupado por cavalos e algumas carroças, e a animação do centro da vila deixou-os mais alegres. Seguiram pela avenida até chegarem a um edifício cor de tijolo perante o qual se aglomerava um considerável número de soldados, era a porta do bordel, Le Drapeau Blanc escrito numa tabuleta vermelha acima da entrada.

“Ena”, comentou Baltazar. “Tanta mingalha aflita! “ Os soldados faziam fila, eram, à vontade, mais de uma centena. Misturavam-se ingleses, escoceses e portugueses numa grande algazarra, cada um esperando a sua vez, quase todos em grupo, eram raros os homens que aguardavam sozinhos, multiplicavam-se as piadas e as gargalhadas. O bordel tinha sido montado pelas próprias autoridades francesas para servir as tropas daquele sector, e o Le Drapeau Blanc era apenas um dos muitos existentes na retaguarda das linhas aliadas. Havia bordéis para oficiais, mais discretos e caros, onde até se conversava com as prostitutas, enquanto os soldados se contentavam com versões industrializadas e despachadas, sem tempo para grandes conversas porque o tempo urgia e a clientela estava à espera, verdadeiras fábricas de sexo massificado e em série.

Matias e os seus amigos juntaram-se à fila. Diante de si encontravam-se uns ruidosos escoceses, facilmente reconhecíveis pelos kilts de lã Black Vatch do regimento highlander e boinas Tom O'Shanter. Os escoceses riam-se alarve-mente e davam sinais de estarem embriagados. Mas, logo a seguir, Matias reconheceu dois camaradas do 8 e foi ter com eles.

“Então? “, saudou-os. “Vieram às buscates? “

“Viemos pois”, confirmou um dos portugueses, um rapaz chamado Victor. “Mas isto ainda vai levar um bom bocado. “

“Sim, há muita gente”, confirmou Matias. “Quantas buscates estão lá dentro? “

“Disseram-me que são três. “

“Três...“, repetiu Matias, fazendo mentalmente as contas. “Não te canses, já fizemos o cálculo”, disse Victor. “Somos cento e vinte e elas são três, dá quarenta homens para cada buscate. A cinco minutos cada pinadela, dá duzentos minutos, mais coisa menos coisa. “

“Duzentos minutos, mais o tempo que se perde a vestir e despir”, obser-vou Matias.

“Não, não”, indicou Victor, abanando a cabeça. “Esta conta já inclui isso tudo”

“Ah bom”, admirou-se Matias. “Portanto, só temos de esperar três horas. “

“ E é se queres! “, riu-se Victor.

Matias regressou ao seu lugar na fila, contando as novidades aos companheiros. Apenas Baltazar pareceu desanimar.

“Se calhar, devíamos era voltar para trás e ir ter com a refugiada”, gracejou. “Sempre era mais rápido e barato. “

Ficaram à espera, vendo a fila avançar lentamente e os clientes já aviados a saírem do Le Drapeau Blanc, a felicidade estampada no rosto, a auto-estima subindo-lhes pelas calças. Não havia dúvidas de que aquelas prostitutas forneciam um serviço eficiente. Numa anterior visita ao bordel de Merville, Matias fora informado de que cada uma delas servia o equivalente a quase um batalhão por semana. Trabalhavam enquanto tinham forças e ânimo. O limite normal eram três semanas, após as quais elas em geral içavam a bandeira bran-ca e, cansadas, retiravam- se com o dever patriótico cumprido, mas sobre-tudo com um belo pé-de-meia, governadas, provavelmente, até ao fim da guerra. Enquanto aguardavam, os quatro começaram a falar sobre as quali-dades das mulheres francesas na cama, as que gostavam de jogos, as desaver-gonhadas e as púdicas, ou falsas púdicas. Este era um assunto onde os homens se gostavam de gabar, ou de sonhar. Em geral, eles preferiam evitar as estatísticas, não se fosse dar o caso de um dos colegas apresentar performances sexuais superiores, mesmo que fictícias, mas ir às francesas, incluindo as prostitutas, era um tema de especial orgulho entre eles, e os mais experimentados não se negavam aos comentários. Neste ponto, Baltazar Velho decidiu fazer uma comparação com as portuguesas e descobriu que as suas avaliações críticas, embora seguidas com atenção, não eram rebatidas ou corroboradas pelos amigos. Achou o facto intrigante e pressionou-os até arrancar de Vicente uma confissão que muito o surpreendeu.

“A minha primeira mulher foi aqui em França”, murmurou Vicente Manápulas, olhando para baixo, quase envergonhado. “Nunc'experimentei uma portuguesa.“

Baltazar ficou a mirá-lo, embasbacado.

“Tu vieste virgem para aqui?“

Vicente fez que sim com a cabeça.

“Que idade tens?“

“Vinte. “

“Valha-me Deus, homem, quem te visse nunca diria”, comentou o veterano. “Todos os quinze dias vens aqui às buscates, até parece que fizeste isto toda a vida, a dar pirocadas desde o berço. “

“Sabes, Baltazar”, explicou Vicente, “quando se tá nas trinchas pensa-se muito, a malta pensa na morte, pens'em tudo.”

“Então eu não sei, homem? “

Todos sabiam o que era isso de pensar nas trincheiras, durante as longas horas de espera, feitas de puro tédio, e ao longo dos intermináveis minutos de bombardeamento, consumidos em puro horror. Ninguém ignorava que havia uma elevada hipótese de não saírem vivos de França, ou de saírem mutilados e estropiados, e o tempo fugia, escasseava-lhes. Como passar por cima do facto de que talvez nunca viessem a experimentar as coisas boas da vida, de que a juventude lhes seria possivelmente roubada daí a alguns dias, de que o futuro lhes ficaria eventualmente vedado por uma bala traiçoeira ou por um estilhaço perdido? Nas trincheiras, o sexo era uma obsessão universal, sempre presente na linguagem dos homens, nunca esquecida na mente, nos gestos, na memória e no desejo. Havia que aproveitar enquanto era possível, enquanto estavam vivos e de corpo inteiro, enquanto tinham forças para agarrarem a vida como quem abraça a mãe, todos tinham visto demasiados amigos ceifados, ninguém queria morrer virgem. Mas o facto é que só os oficiais dispunham de oportunidades genuínas de arranjarem verdadeiras namoradas francesas. Aos soldados, entorpecidos de frio e de fome, embrutecidos pela guerra e sempre ocupados a esconderem-se nas trincheiras ou empenhados em trabalhos de fortificação na retaguarda, restava geralmente o amor comprado numa cama gasta de um qualquer bordel. Os que vinham virgens de Portugal depressa tratavam do assunto no prostíbulo ou num curral com uma camponesa mais arisca ou com falta de dinheiro, não fossem os alemães anteciparem-se e privá-los de fruírem aquele fruto até ali proibido. E até os muitos que já anteriormente praticavam sexo, por serem casados ou por terem encontrado moças que não receavam pecar antes do matrimónio, não se privavam de gozar a carne sempre que a oportunidade se oferecia, mesmo que a troco de uns francos oferecidos num canto esconso de umas ruínas miseráveis, temendo também que lhes restasse pouco tempo para usufruírem daquele prazer efémero.

Passaram-se três horas na fila do Le Drapeau Blanc e a vez dos quatro portugueses chegou finalmente. O primeiro a avançar foi, como era natural, Baltazar Velho, veterania oblige. Era um homem casado e pai de uma rapariga e dois meninos, a pele com rugas prematuras para quem tinha apenas trinta e seis anos, rugas nascidas do emagrecimento forçado nas trincheiras, do ar seco da serra onde vivia e da dura vida de quem estava habituado a acompanhar os rebanhos em longas correrias pelos montes, mas tudo isso não o impediu de mergulhar com entusiasmo e antecipada excitação no quarto escuro que se lhe oferecia.

Depois foi a vez de Matias Grande. A porta de um dos quartos abriu-se, saiu de lá um escocês ainda a apertar o cinto do kilt verde, o escocês piscou o olho e soltou um enrolado “your turn, lad!“ quando passou pelo português, Matias saiu da fila e avançou, abriu a porta, ouviu um “entrez” feminino, cruzou a entrada e estacou, viu uma mulher morena e magra a lavar-se numa bacia ao lado da cama desfeita, o quarto iluminado por uma lamparina sobre a mesa de cabeceira e a luz amarelada a projectar sombras fantasmagóricas sobre as paredes, fechou a porta, aproximou-se de uma cadeira, começou a tirar o casaco de pelica mas foi interrompido pela mulher, “seulement les pantalons”, disse ela apontando para as calças, percebeu que era só suposto tirar as calças e as ceroulas, não valia a pena retirar o acessório, tirou o que tinha a tirar, entretanto a mulher voltou para a cama e abriu as pernas, “viens ici! “, ele foi ici sem preliminares, ela recebeu-o molhada, ele entrou, “vite! vite! “, insistiu ela sem sequer simular respiração ofegante, ele foi vite mas ainda teve tempo de lhe apalpar as nádegas e os seios, o corpo entrou em cadência, o ritmo a crescer, tornou-se incontrolável, sentiu a explosão, estremeceu de prazer, o momento prolongou-se, depois os músculos começaram a distender-se, o enorme corpo foi-se descontraindo e acalmando, devagar, devagar, o coração a diminuir as batidas, ela aguardou um instante mas não tardou a fazer um gesto de impaciência, ele despertou do seu torpor, quase chocado com aquela pressa, saiu dela com lentidão contrariada, ela levantou-se, dirigiu-se à bacia e, enquanto a mão esquerda buscava água, a mão direita apontava para a mesa, “dix francs”, ele vestiu as ceroulas e as calças, tirou dinheiro do bolso e contou dez francos, colocou-os na mesa ao lado de outras moedas e notas que já lá estavam amontoadas, “merci, mademoiselle, très bonne”, e saiu ainda a apertar o cinto. Piscou o olho ao tommy inglês que aguardava a sua oportunidade e disse “vai-te a ela, bife! “

Tinham passado cinco minutos.

Olharam-se de forma cúmplice, divertidos com a reacção de Tim perante o estranho quadro e a sua precipitada retirada para o quarto, mas o olhar prolon-gou-se e, embaraçados, Afonso e Agnès passearam os olhos pela sala, procu-rando novos motivos de interesse. Estava fora de causa continuarem a prestar atenção à original pintura de Delaunay e ambos tiveram de se contentar em ficar a observar as chamas a crepitar na lareira, o lume mostrando-se já muito brando, lambendo com suavidade a lenha carbonizada que se amontoava numa amálgama negra e quente, as pequenas labaredas incandescentes isoladas naquela massa inerte como gotas de lava a brilharem sobre o carvão, como lágrimas de ouro choradas pela madeira no seu derradeiro sopro de vida.

“Adoro conversar”, disse ela finalmente, recomeçando a balouçar na cadeira. “O meu marido é um homem de poucas palavras, o que me deixa frustrada, e a vossa presença aqui constitui um raio de luz que ilumina a minha solidão”

“Quem a ouvisse diria que é infeliz”, comentou Afonso. O capitão levantou-se do canapé e aproximou-se da lareira, voltando-se de costas para a sua anfitriã, não a queria enfrentar, sentia-se acanhado e inibido. Pegou na vara de ferro e empurrou a lenha para junto do cascalho, espevitando a chama moribunda. Algumas fagulhas voaram pelo ar, soltando estalidos secos, e as labaredas cresceram com fulgor, atrevidas e orgulhosas.

“Ça vous amuse, le feu...“, observou a baronesa. “Oui, vraiment. “

“Nos tempos de Luís XVI havia um estilo delicioso de cultivar o convívio”, suspirou Agnès. “As pessoas tinham nessa altura o elegante hábito de enviarem convites onde se escrevia simplesmente on causera', iremos conversar. “

Afonso remexeu de novo a lenha, reactivando definitivamente a lareira. O fogo voltou com fulgor moderado. O capitão recuou a cabeça, admirando a sua obra. Dando-se finalmente por satisfeito, limpou as mãos com umas palmadas rápidas e poeirentas, ergueu-se e sentou-se outra vez no canapé de faia.

“Não respondeu à minha pergunta... “

“ Qual?”

“Sente-se infeliz? “

“Não é bem infeliz”, explicou a baronesa, pensativa. “Sinto-me só, vazia, desacompanhada. Tenho saudades de Paris. “ “Viveu em Paris? “

“Oui. “

“E então o que está aqui a fazer? “

“É uma longa história. “

“Gosto de histórias longas. “

“Quer mesmo ouvir? “

“Não estou aqui para outra coisa. “

A baronesa sorriu.

“Saiba, mon chère Alphonse, que eu nasci em Lille”, disse. Em dez minutos contou-lhe a história da sua infância e todos os pormenores sobre a família, a loja de vinhos do pai, Serge e o barão Redier. Neste ponto, Afonso constatou que Agnès o observava, hesitante, como se estivesse a considerar se valia ou não a pena acrescentar mais uma coisa. Decidiu-se.

“Sabe que ele era parecido consigo? “

“Quem? “ “ Serge. “

“Ah sim? “, surpreendeu-se Afonso.

“É o olhar, é o sorriso, mas não só, há mais qualquer coisa em si que me lembra Serge, não sei, talvez um certo espírito, uma certa maneira de estar, esse ar sonhador”, disse. Ficou fixada no português, de ar contemplativo, os olhos verdes com um brilho intenso. “E você, alguma vez casou? “

“Non”, disse, abanando a cabeça.

“Nem tem ninguém à sua espera?“, inquiriu. “ Une petite amie peut-être?“

“Non. “

Agnès voltou a baixar os olhos.

“Sabe, eu, na verdade, casei com Jacques porque me sentia só, desam-parada, e ele tinha aparecido quando eu mais precisava, estendendo-me a mão naquele momento de maior fragilidade, quando o mundo desabara e deixara de fazer sentido. Ele foi o farol que me guiou na tormenta, a luz que me trouxe até porto seguro. Feitas as contas, casei, se quiser, por gratidão. “ Fez uma pausa. “Foi um erro.“

“Hoje teria feito de maneira diferente? “

“Sim, sem dúvida. Se fosse hoje, ficava em Paris e acabava o curso, custasse o que custasse “ Suspirou. “Mas a vida é como é e as decisões, bem ou mal, foram já tomadas. “

“Pelo que me diz, devo presumir que não tem nenhum amor na sua vida.“

“Engana-se. Tenho um grande amor. “

“Tem?”

“Sim. A medicina.“

“Ah, está bem”, exclamou Afonso, aliviado.

“Sabe o que me fascina na medicina? “

“Não.“

Agnès ergueu dois dedos.

“São essencialmente duas coisas”, indicou. “Em primeiro lugar, e como lhe disse, desde criança que tenho um fascínio por Florence Nightingale, acho uma coisa extraordinária ajudar os outros na doença, atenuar-lhes o sofrimento. Isso direccionou-me para o campo da saúde. Em segundo lugar, acho que pesou muito o gosto pela ciência que adquiri quando visitei a Exposição Universal de Paris em 1900. “

“Já vi que gosta do aspecto científico da medicina... “ A baronesa fez um ar pensativo.

“Sim, é isso. Apesar de ser uma pessoa moderadamente religiosa, sei que, na vida, não podemos estar sempre à espera do auxílio divino, Deus ajuda quem se ajuda a si próprio. Aqueles que percebem isso não entendem nada da vida. O que é facto é que, durante muito tempo, os nossos antepassados não compreendiam essa simples verdade e foram muito penalizados pelo excesso de confiança na intervenção divina. Sabe, Alphonse, antigamente a medicina esteve associada à superstição, os antigos acreditavam que os males eram causados por espíritos malignos. No Neolítico, por exemplo, chegavam a fazer buracos no crânio dos pacientes para expulsarem esses espíritos, veja lá “

“E curavam-nos? “

Agnès riu-se.

“Claro que não. Com esses métodos, mon chère Alphonse, é evidente que os doentes morriam da cura, não do mal. Mas depois, passado este período rudimentar, a ciência começou gradual mente a entrar em campo. A par dos feitiços surgiram procedimentos pragmáticos e racionais para tratar de doenças facilmente diagnosticáveis ou para prevenir o aparecimento de outros males. A Bíblia, por exemplo, está repleta de instruções quanto à higiene, quanto à neces-sidade de manter doentes de quarentena e quanto à obrigação de desinfectar os objectos tocados pelos doentes. Mas o grande passo, a ruptura da medicina com a religião e a superstição, foi dado na Grécia. Presumo que, com os seus estudos clássicos, saiba o que aconteceu neste período... “

“Em relação à medicina, infelizmente conheço pouca coisa. Lembro-me de que os filósofos gregos consideravam que os doentes eram vítimas de desequi-líbrios do corpo. “

“Pois, os gregos trouxeram realmente uma postura nova. As mais famosas escolas de medicina da Grécia localizavam- se em Knidos e em Kos. Foi em Kos que nasceu Hipócrates, considerado o primeiro médico moderno. “

“O do juramento?”

“Sim, o autor do famoso texto de ética médica conhecido por juramento de Hipócrates. É claro que os gregos diziam muitos disparates. Por exemplo, achavam que a saúde resultava fundamentalmente de um equilíbrio entre quatro humores presentes no corpo humano, designadamente o sangue, a fleuma, a bílis negra e a bílis amarela. Como resultado, os tratamentos que prescreviam limitavam-se a dietas, a vómitos forçados e a sangramentos, procedimentos efectuados supostamente para reequilibrar os humores do corpo. Doen-tio, não acha? “

“Mas olhe que ainda há pouco tempo se faziam esses tratamentos. O meu pai contou-me que, quando era pequeno, o sangravam sempre que estava doente. Diziam que era para reequilibrar os humores e eliminar os venenos. “

“Sim, os tratamentos prescritos pelos gregos mantiveram-se válidos até ao século passado, veja bem, embora no século xvIII estas ideias começassem a ser revistas. “

“Portanto, nem com os gregos a medicina evoluiu... “ “Não”, disse Agnès, abanando a cabeça. “A medicina evoluiu com os gregos, uma vez que foi aí que, pela primeira vez, se estabeleceu que as doenças não resultavam de aconteci-mentos sobrenaturais, mas tinham uma explicação física. Até esse tempo, os doentes eram encarados como pecadores punidos pelos deuses ou como gente possuída por demónios, ideia que os gregos combateram. O problema é que a medicina entrou em retrocesso na Idade Média, vitimada pelo obscurantismo de que o meu antigo professor de Anatomia não se cansava de falar. Os textos gregos foram levados para o mundo árabe e só regressaram ao Ocidente pela mão dos monges beneditinos, que traduziram para latim os documentos árabes e assim tomaram conhecimento do que Hipócrates e os outros médicos gregos escreveram. O atraso foi tanto que só no século xII nasceram as escolas de medicina e foi preciso esperar pelo Renascimento para finalmente se começar a estudar o corpo humano. E aí, sim, houve de facto uma grande evolução. Descobriu-se que as doenças eram causadas por microorganismos, percebeu-se que o sangue circulava, enfim, o corpo humano e os seus funcionamentos e patologias tornaram-se mais compreensíveis”

“Descartes escreveu que o corpo funcionava como uma máquina...”

“Justamente, Alphonse, o corpo começou a ser visto como um sistema. Os médicos descobriram o sistema digestivo, o sistema metabólico, o sistema sanguíneo, o sistema respiratório, o sistema nervoso. Além disso, apareceu a química, os médicos começaram a usar químicos para reequilibrarem os sistemas. Surgiram também as especialidades, como a neurologia, a patologia e outras. Depois, com o meu conterrâneo de Lille, Louis Pasteur, vieram as vacinas e a ciência tomou totalmente conta da medicina, acabando de vez com as feitiçarias do passado. “

“Estou impressionado”, exclamou Afonso com sincera admiração. “Já vi que conhece bem a história da medicina “

“Tenho obrigação”, sorriu Agnès. “Sempre foram três anos na Sorbonne, não é? Alguma coisa tinha de aprender. “

“E qual é a sua especialidade? “

“Bem, eu quando andava na faculdade não tinha ainda entrado nas especialidades, estava na área geral. Mas confesso que me sentia tentada a ir para a psicanálise “

“Psicanálise? “

“É uma área nova, desenvolvida por Freud. Já ouviu falar? “

“Vagamente. É um hipnotizador, não é? “

Agnès riu-se.

“Sim, ele utilizou a hipnose na terapia, mas já se deixou dessas coisas. “

“Desculpe, mas isso não lembra ao diabo! Como é que um médico espera curar uma febre com hipnose? “

A francesa voltou a rir-se.

“Não, Alphonse, Freud não trata doenças do corpo. Ele trata as doenças da mente. “

“Dos loucos? “

“Sim, também dos loucos, mas não só, há igualmente pessoas com perturbações ou traumas, casos a que a medicina não tem conseguido dar resposta. Pois Freud descobriu que muitos males da mente nascem de traumas ocorridos no passado e que, se a pessoa conseguir resolver esses traumas, curar-se-á. O problema é que muita gente não tem consciência dos traumas que sofreu, uma vez que eles são reprimidos e atirados para o inconsciente, pelo que o trabalho do médico é o de localizar esses traumas para os resolver. Freud começou por usar a hipnose, mas agora voltou-se para outros métodos, como a associação de ideias e a interpretação dos sonhos.“

“Ele também acredita que os sonhos são profecias?“ “Não, é exactamente o contrário. Ele acha que os sonhos não revelam o que vai acontecer no futuro, mas o que as pessoas gostariam que acontecesse no futuro. Percebe a ideia? Os sonhos revelam- nos o que as nossas instâncias censoras nos ocultam. Por exemplo, vamos imaginar que você gosta muito de uma mulher e sonha que está a fazer amor com ela.” Afonso corou. “O seu sonho não é uma profecia, ele não revela que você vai fazer amor com essa mulher. O que ele revela é que você gostaria de fazer amor com ela. Quando está acordado, e tratando-se de uma pessoa com decoro, evita imaginar essa situação. Isso significa que a sua consciência reprime tal desejo. Mas, no momento em que você está a dormir, a consciência também dorme e é o subconsciente que toma conta da sua mente. O subconsciente sabe que você gostaria de fazer amor com essa mulher. Ora, como a consciência já não está activa para censurar esse desejo, o subconsciente manifesta-o através do sonho. Entendeu?”

“Bem... uh... sim”, titubeou Afonso, embaraçado com o exemplo.

Agnès sorriu.

“Vejo que o meu exemplo o deixou um pouco... como direi? um pouco constrangido”, comentou ela com malícia.

“Uh... enfim, não estou habituado a ouvir... a ouvir uma senhora... enfim...“

“Está a ver? A sua instância censora encontra-se muito activa” observou Agnès alegremente. “Não se preocupe, isso só mostra que você é um homem decente, muito civilizado.“

“Enfim... “, soltou Afonso com alívio, o elogio soube-lhe bem. “Mas deixe-me que lhe diga”, apressou-se Agnès a acrescentar, divertida por saber que o ia chocar de novo. “O sexo é um elemento crucial no comportamento dos homens e das mulheres, sabia? “ Afonso abanou a cabeça, pasmado, incapaz já de emitir nem que fosse um grunhido. “Freud descobriu que a sexualidade constitui um factor dominante e ocupa um lugar central em toda a experiência humana. Ele verificou que as pessoas têm comportamentos sexuais desde que são bebés, o que... “

“Isso não pode ser”, atalhou Afonso, recuperando a fala. “Os bebés?”

“Compreendo a sua incredulidade, muita gente reage assim, mas a verdade é que já os bebés manifestam sexualidade. Nunca ouviu falar no complexo de Édipo? “

“Não. “

“Existe um mito grego que conta a história de um homem Édipo, que, sem querer, cumpriu uma profecia antiga, matando o pai e casando com a mãe. Ora Freud acha que todos os homens gostariam de fazer o mesmo, matar o pai e casar... “

“Ah, desculpe, m'dame, mas isso é ir longe de mais. Faz algum sentido essa ideia? No que me diz respeito, é um perfeito disparate dizer que eu quero matar o meu pai e casar com a minha mãe, isso é realmente... não sei, mas não é aceitável. “

“O complexo de Édipo é uma metáfora, Alphonse, e assim deve ser entendido. O que Freud quer dizer com isto é que os homens têm desejos sexuais inconscientes que remontam à infância, desejos de casarem com a mãe, não porque ela é a mãe, naturalmente, mas porque ela é a fêmea que conhecem. Para casarem com ela, porém, os homens têm de eliminar o seu rival. E quem é ele? É o homem que está com a fêmea que eles desejam. É o pai.“

“Mas está a dizer que eu tenho esse desejo? “

“Calma, não o estou a acusar de nada”, sorriu Agnès. “Sei que você é um homem muito íntegro, um homem até muito interessante. Mas o que eu estou a dizer é que Freud identificou esse desejo inconsciente, repito, inconsciente, no comportamento masculino. Pode ter a certeza, no entanto, de que tenho a convicção de que o seu pai nada tem a temer de si, as instâncias censoras desses desejos inconscientes funcionam, em si, muito bem. “

Afonso fitou-a e o rosto abriu-se-lhe num sorriso. “Já vi que se está a meter comigo!”

“Não, asseguro-lhe que Freud pensa tudo o que eu lhe disse e sim, estou a meter-me consigo”. Riu-se. “O que é curioso é que os homens ficam sempre furiosos com isto, você é o primeiro a perceber que eu não passo de uma provocadora “

“Ah sim, você é uma grande provocadora. “

Ela lançou-lhe um olhar malicioso. “E posso provocá-lo ainda mais? “

Afonso corou novamente. O que será que vem aí? pensou. “Faça o favor. Provoque-me, vá. Estou por tudo “ “Quer dançar comigo?”

“Como?”

“Eu sei que não vem a propósito de nada, mas apetece-me. Quer dançar comigo? Sabe dançar, presumo...“

“Uh... bem... eu... ajeito-me, acho.“

A baronesa levantou-se e abriu um móvel encostado à parede. Das entranhas retirou um imenso gramofone e pousou-o sobre a mesa junto à lareira. O gramofone era constituído por uma caixa de madeira com uma manivela a sair de um dos lados, tratava-se do manípulo que permitia dar corda ao motor. A caixa tinha um prato por cima e uma enorme corneta no topo, erguendo-se como uma orelha gigante e desenhada em flor segundo o estilo art nouveau.

“Este é um gramofone Pathé”, explicou Agnès. “O que gosta de dançar? “

Afonso ergueu-se.

“Não sei, o que tem aí? “

Agnès aproximou-se dos discos e consultou-os.

“Fox-trot, sinfonias, valsas... “

“Talvez um fox-trot, não? “

“Sim, gosto muito, mas talvez seja demasiado barulhento a esta hora, não acha?“ Deteve-se noutro disco. “Este é fascinante. La mer, de Debussy.“ Abanou a cabeça. “É brilhante, simula os sons da água, mas não serve para dançar” Olhou para Afonso. “ Por que não uma valsa?”

“Pode ser. “

A francesa seleccionou um disco e colocou-o sobre o prato do gramofone. Pôs a agulha da corneta sobre a borda do disco e deu à manivela. A melodia emergiu da corneta aberta em flor, ondulante, bela e harmoniosa.

“Strauss”, disse ela, dirigindo-se ao capitão.

Os sons da orquestra de Viena encheram a sala. Afonso tomou-a nos braços e começaram a bailar, os olhos pregados um no outro, os corpos emba-lados ao ritmo da valsa, as mãos apertadas entre si, as livres procurando os corpos, a direita dele na cinta dela, a esquerda dela nos ombros dele. Dançaram sem nada dizerem, os olhos fixos nos olhos, insinuantes, maliciosos, provo-cadores, na vegando na onda da música. A valsa acelerou e Afonso puxou-a mais para si, os ventres a chocarem-se, as roupas a roçarem-se. Perderam a noção do espaço e do tempo, rodopiando na sala ao som da valsa tocada pelo gramofone, desejando que aquele momento se prolongasse, se eternizasse, sublime, arrebatador, perene, inesquecível. A melodia encheu-lhes a alma e atirou-os para um universo à parte, um mundo só seu, encantado, feito de beleza e sonho, êxtase e magia. Afonso mergulhou nos olhos verdes e observou-lhe a boca entreaberta, os lábios aveludados brilhando como pétalas húmidas, convidativos, acolhedores. Aproximou-se ligeiramente com a cabeça, hesitou, ela permaneceu de olhos muito abertos, fixos nele, ele sentiu-a irresistível, sentiu que chegara o momento, era altura de o desejo tomar conta do corpo.

“Madame deseja mais alguma coisa? “

A voz masculina rompeu como um trovão o momento mágico. Afonso e Agnès sobressaltaram-se e olharam para a porta. Era Marcel, o mordomo. A baronesa desprendeu-se bruscamente do capitão.

“Não, Marcel, obrigada. Boa noite. “

“Boa noite, madame”, disse Marcel com os olhos perscrutadores. “Boa noite, monsieur”