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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FILHA DO GENERAL / Nelson Demille
A FILHA DO GENERAL / Nelson Demille

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Reduzido à expressão mais simples, este livro é um thríller que casualmente se passa numa base militar.

Contudo, a um outro nível, trata-se de uma história acerca da subcultura única do Exército, sobre a lei militar e as mulheres que ingressam nas Forças Armadas e a forma como todos estes elementos se reúnem numa efervescente base da Georgia.

O Código de Justiça Militar, a lei pela qual se regulam todos os ramos militares - Exército, Marinha, Força Aérea e Guarda Costeira -, baseia-se na Constituição americana, mas toma em consideração a ironia de que os homens e mulheres fardados que a juram defender não usufruem de todos os direitos e salvaguardas nela inscritas. A lei militar também engloba virtudes militares, como dever, honra e lealdade - conceitos que nunca ou raramente são referidos na lei civil.

Assim, como vemos neste romance, a lei militar é algo mais do que lei é a matriz legal, social, profissional e mesmo psicológica em que todos os membros das Forças Armadas se enquadram ou não, conforme os casos.

A Filha do General começa com um homicídio e uma aparente violação, e apercebemo-nos desde o início de que não se trata apenas de um crime contra um indivíduo ou a sociedade, é também um crime contra a instituição Exército dos EUA, contra a ordem e a disciplina, uma afronta aos conceitos de honra e lealdade e à máxima militar de que “Todos os irmãos são valentes e todas as irmãs virtuosas”. Na verdade, o assassínio de um oficial do sexo feminino é o atear do rastilho que causa uma explosão capaz de abalar os alicerces do Exército.

Escrevi este romance em parte como resultado da Guerra do Golfo, em Janeiro e Fevereiro de 1991, pois sentia-me essencialmente impressionado pelo Papel que as mulheres desempenharam no Exército e nessa guerra em geral. Contudo, e à semelhança da maioria dos veteranos do Vietname, fiquei um tanto surpreendido e irritado pelo tratamento que os media deram a este conflito por comparação à minha guerra. Desnecessário será dizer que os militares saíram com uma imagem um pouco melhor do golfo Pérsico do que do Vietname, mas os motivos para tal são demasiados para serem aqui referidos, sendo um deles a significativa presença de mulheres nas Forças Armadas.

Consciente ou inconscientemente, os militares colocaram um dilema aos media - os jornalistas procuram os podres, a ineficácia do governo, a incompetência -, mas viam-se perante uma situação em que esses militares se encontravam na frente de um movimento politicamente correcto - a igualdade entre homens e mulheres.

Os media personalizaram a Guerra do Golfo mediante inúmeras entrevistas a mulheres que exerciam funções de homens, e julgo que tal contribuiu para um relato positivo do conflito em geral.

Muitos soldados, marinheiros e pilotos sentiram-se obviamente um tanto postos de lado, e os veteranos da minha geração acharam-se, sem dúvida, totalmente privados dos seus direitos civis, criticados em retrospectiva e injustamente retratados.

Seja como for, o resultado final cifrou-se numa “boa guerra” por oposição a uma “má guerra”.

Relativamente à “má guerra”, servi no Exército dos EUA de Abril de 1966 a Abril de 1969 e durante esse período fiz a recruta de combate em Fort Gordon, na Georgia, o treino de infantaria e comando em Firt Dix, em Nova Jérsia, e frequentei a Academia de Cadetes de Infantaria em Fort Benning, na Georgia. Então, após treinar soldados nesta última base, fui para o Curso de Operações no Mato, em Fort Gulick, na zona do canal do Panamá, e embarcaram-me depois para o Vietname, onde servi, como comandante de pelotão de infantaria, na Primeira Divisão de Cavalaria.

Os meus três anos de tropa foram, como devem imaginar, uma experiência muito machista e não me relacionei com muitos soldados do sexo feminino. Na verdade, o número de mulheres que serviram no Exército durante o conflito do Sudeste asiático foi inferior ao da Segunda Guerra.

No Vietname, além das enfermeiras, quase não havia mulheres na zona de combate, com excepção das voluntárias da Cruz Vermelha, conhecidas, no calão sexista da época, por “Bonecas Donut”. De qualquer maneira, elas enquadravam-se no papel tradicional de assistentes sociais e não constituíam ameaça para os homens.

Em 1969, o meu último ano de serviço antes de regressar aos EUA, comecei a ver oficiais do sexo feminino a serem designados para postos tradicionalmente reservados apenas aos homens, experiência que não resultou totalmente. O movimento feminista americano encontrava-se numa fase inicial e era mínima a pressão exercida sobre os militares quanto a igualdade ou integração dos sexos.

Contudo, o Exército encontrava-se, de facto, à frente dos movimentos sociais e políticos da época, quanto à integração dos sexos, tal como estava com anos de avanço relativamente ao seu país a nível da integração racial quando, em 1949, as Forças Armadas acabaram com a segregação racial, ainda que por ordem do presidente.

As Forças Armadas possuem, na realidade, um recorde maioritariamente positivo em todas as áreas de igualdade, o que resulta sobretudo da natureza da organização. Quero dizer com as minhas palavras que, ao pedir-se a um negro que combata e talvez morra, não é possível tratá-lo como um cidadão de segunda e que, se se pede a uma mulher que sirva num grupo de apoio próximo da zona de combate (mas não na linha da frente), tem de se lhe dar todos os direitos, privilégios e oportunidades que se concedem ao homem que está ao lado dela.

Alguns homens decerto afirmariam: “Não precisamos de mulheres no Exército” e outros poderiam dizer: “Tudo bem em relação as mulheres no Exército, mas apenas em postos tradicionalmente femininos.”

Acho, no entanto, que ultrapassámos esse tipo de atitude e apenas restam duas perguntas: as mulheres devem participar directamente em combate? E devem fazer uma recruta como os homens?

Trata-se de questões difíceis, que não são directamente colocadas em A Filha do General, embora exista um subtexto no romance que coloque o problema da igualdade total.

Quando me dispus a escrever este romance, no pós-guerra do Golfo, a minha primeira decisão foi de que não seria um livro polémico, antes o mais justo possível para os homens e as mulheres que servem no Exército americano, e também relativamente ao conceito da mistura de sexos, mas que não seria um elogio politicamente correcto, em que todas as irmãs são fantásticas e todos os irmãos porcos chauvinistas.

Mais ou menos na época em que este romance foi publicado, no Outono de 1992, a nação estava abalada pelo escândalo Tailhook, o que era bom para o livro, mas não para um diálogo saudável e imparcial sobre a complexa questão de uma integração de sexos no Exército. A maior parte dos media que me entrevistaram sobre este livro queriam que eu estabelecesse uma ligação entre A Filha do General, um romance, e o escândalo Tailhook em curso, que estava a transformar-se numa histérica caça às bruxas.

O incidente em causa - uma festa que ultrapassou os limites - aparecia subitamente como prova de que toda a cultura militar era corrupta e sexista e, embora a conduta condenável de alguns homens nunca estivesse em dúvida, no meio da agitação perdeu-se, contudo, a realidade de que alguns deles agiram honrosamente e de que várias mulheres se portaram de forma indigna. Assim, o mesmo Exército que fora idolatrado pelos media na Guerra do Golfo estava agora a ser publicamente criticado.

O incidente Tailhook não era típico e as altas patentes militares deviam ter deixado isso bem claro, defendendo os seus elementos e impedindo que o bom nome e a reputação dos seus pilotos fossem arrastados pela lama só por causa de uma noite de farra que envolvia apenas alguns indivíduos.

No entanto, o ambiente político em Washington e o ambiente social nos EUA impossibilitavam qualquer ideia de justiça, verdade ou discurso racional, por isso rolaram cabeças, arruinaram-se carreiras e o fosso entre homens e mulheres alargou-se mais uns quilómetros.

Contudo, muito antes de Tailhook, eu dispusera-me a escrever um romance que englobasse as questões e problemas de homens e mulheres agora juntos no novo Exército, mas era minha esperança não me aproveitar nem explorar estas manchetes de imprensa, queria antes um livro que se ocupasse dos temas mais universais e intemporais de homens e mulheres: ciúme, sexo, honra, verdade e a capacidade humana de amar e odiar, muitas vezes em simultâneo, e se escolhi como cenário uma base militar, foi apenas para tornar tudo mais complexo e interessante.

Esta história podia acontecer em qualquer altura, em qualquer lugar na verdade, é possível encontrar nela algumas semelhanças com uma tragédia grega.

Todavia, o que acontece em A Filha do General só poderia desenrolar-se desta forma numa base militar americana da actualidade.

 

 

 

 

                                CAPÍTULO UM

 

- Este lugar está ocupado? - perguntei à bonita e jovem mulher, sentada sozinha a uma mesa do bar.

Ela levantou os olhos do jornal e não me respondeu. Sentei-me na frente dela e pousei a cerveja em cima da mesa. Retomou a leitura e sorveu um pequeno gole da sua bebida, um bourbon com Coca-Cola.

- Vens aqui muitas vezes? - indaguei.

- Vai-te embora - respondeu.

- Qual é o teu signo?

- Segredo de Estado.

- Não te conheço de qualquer lado?

- Não.

- Sim. Do quartel-general da NATO, em Bruxelas. Conhecemo-nos numa recepção.

- É possível - anuiu. - Embebedaste-te e vomitaste na taça do ponche.

- Como o mundo é pequeno!

Não se tratava, na verdade, de uma afirmação gratuita. Cynthia Sunhill, a mulher sentada na minha frente, era mais do que um conhecimento de ocasião. De facto, tivéramos uma ligação. Contudo, ela parecia decidida a não se recordar.

- Foste tu que vomitaste - rectifiquei. - Parece que o teu estômago não aceita a mistura do bourbon com Coca-Cola.

- É a ti que não aceita.

Ao ouvi-la, dir-se-ia que fora eu a abandoná-la e não o contrário. A cena passava-se no bar da messe dos oficiais de Fort Hadley, Georgia, à abençoada hora do aperitivo. Todos pareciam satisfeitos, excepto nós. Eu estava vestido à civil, com um fato azul, ela tinha um adorável vestidinho cor-de-rosa, de malha, que lhe ressaltava o bronzeado, o cabelo ruivo, os olhos cor de avelã e outras partes memoráveis da sua anatomia.

- Estás de serviço? - informei-me.

- Não é da tua conta.

- Onde estás hospedada?

- Silêncio.

- Quanto tempo ficarás?

Voltou a mergulhar na leitura do jornal.

- Casaste com o outro tipo que me fazia concorrência?

Ela pousou o jornal e fitou-me.

- Eras tu quem lhe fazia concorrência! - retorquiu. - Estava noiva dele.

- Certo. E ainda estás?

- Não é da tua conta.

- Quem sabe?

- Só se for noutra vida.

Escondeu-se de novo por detrás do jornal.

Não lhe via anel de noivado ou aliança de casada no dedo, mas, na nossa profissão, há que desconfiar das aparências, como aprendera em Bruxelas.

Cynthia Sunhill estava próximo dos trinta e eu tenho pouco mais de quarenta, portanto o nosso romance não era propriamente do tipo de Maio-Novembro, mas mais Maio-Setembro, Agosto, talvez.

Durara um ano, enquanto estávamos colocados na Europa, e o noivo, um major das Forças Especiais, encontrava-se aquartelado no Panamá. A vida militar não é pêra doce para as ligações pessoais e a defesa da civilização ocidental incita à infidelidade.

Tínhamo-nos separado pouco mais de um ano antes deste encontro fortuito, em circunstâncias que poderiam qualificar-se de bastante agitadas. Nenhum de nós se recompusera verdadeiramente: eu ainda estava magoado e Cynthia ferida no seu amor próprio. O noivo atraiçoado também parecia bastante aborrecido da última vez que o vi, em Bruxelas, com um revólver na mão.

A messe, em Hadley, tem uma arquitectura vagamente espanhola, talvez árabe, o que pode ter-me feito lembrar Casablanca, pois repliquei pelo canto da boca:

- Com tantos bares que existem no planeta, e ela tinha de entrar neste.

Ou não apanhou a deixa ou não estava para aí virada, pois continuou absorta no jornal, o Stars and Stripes, que ninguém lê, pelo menos em público. Contudo, Cynthia é um tanto militarista, dedicando ao Exército uma lealdade e um entusiasmo nunca apagados pelo cinismo e a lassidão que a maioria dos homens demonstra depois de alguns anos neste tipo de profissão.

- Corações transbordantes de paixão, ciúme e ódio - declamei.

- Vai-te embora, Paul - resmungou Cynthia.

- Desculpa ter-te estragado a vida - disse, com sinceridade.

- Nem sequer me estragaste o dia.

- Despedaçaste-me o coração - retorqui, com mais sinceridade ainda.

- Era o pescoço que gostaria de te ter despedaçado - redarguiu num tom acalorado.

Tomei consciência de que voltava a atear algo nela, mas não achava que fosse a chama da paixão.

Lembrei-me de um poema que costumava sussurrar-lhe nos nossos momentos mais íntimos, inclinei-me sobre ela e murmurei:

- “Ninguém me agradou mais ao olhar do que Chynthia, ninguém deliciou mais os meus ouvidos do que Cynthia, apenas Chynthia foi dona do meu coração. Renunciei à felicidade para seguir Cynthia, e por Chynthia morrerei, se ela quiser”.

- Vai morrer longe.

Levantou-se e foi-se embora.

Acabei de beber a cerveja e regressei ao balcão do bar, deslizando por entre homens que já haviam visto bastante da vida, que tinham o peito coberto de medalhas e condecorações com as cores das campanhas da Coreia, Vietname, Granada, Panamá e da Guerra do Golfo. O tipo à minha direita, um coronel de cabelo grisalho, dirigiu-se-me:

- A guerra é um inferno, meu rapaz, mas a fúria do reino das sombras não se compara a uma mulher enraivecida.

- Ámen.

- Assisti a tudo pelo espelho - explicou.

- Os espelhos de bares são interessantes - repliquei.

- São mesmo.

Ele continuava, aliás, a examinar a minha imagem no espelho do bar. Ao aperceber-se da minha roupa à civil, observou:

- Reformou-se?

- Sim.

Na verdade, estava a mentir-lhe.

Transmitiu-me o que achava das mulheres do Exército:

- Quando pensamos que elas têm de se agachar para mijar! Tente fazê-lo com trinta quilos de equipamento às costas. - Em seguida, anunciou: - Tenho de esvaziar o colosso.

E encaminhou-se na direcção da casa de banho dos homens.

Saí para a quente noite de Agosto, entrei no meu Chevy Blazer e atravessei a base, que se assemelha a uma povoação monolítica, com o centro administrativo e os depósitos de armas, os aquartelamentos desordenados e o posto de gasolina deserto.

Fort Hadley é uma base no Sul da Georgia, destinada de início a treinar as tropas de infantaria que eram depois enviadas para o matadouro da frente ocidental, e ocupa uma superfície de mais de cinquenta mil hectares de mato propícia aos jogos de guerra, simulações de guerrilha e exercícios de todo o género.

Os edifícios foram-se deteriorando à medida que a base ficou abandonada e hoje é uma escola de operações especiais, cuja finalidade permanece um tanto obscura ou, para ser delicado, está numa fase experimental. Tanto quanto percebi, a escola prepara para a guerra psicológica, ensina a manipular o moral das tropas e ministra cursos para suportar os efeitos combinados do isolamento e das privações e para controlar o stresse, além de outros exercícios cerebrais do mesmo tipo. Parece um tanto sinistro, mas, para quem conhece o Exército, qualquer que tivesse sido a ideia original não tardou em transformar-se na oportunidade de exibir botas reluzentes e galões.

A norte de Fort Hadley situa-se o aglomerado de Midland, uma típica cidadezinha povoada de militares na reforma, funcionários civis da base, comerciantes que vendem mercadoria aos soldados e alguns habitantes totalmente estranhos ao Exército e encantados por ser assim.

Midland, em 1710, era um entreposto comercial inglês, antes disso fora um posto fronteiriço da colónia espanhola de Santo Agostinho, na Florida, e outrora havia sido uma cidade índia, o centro da nação dos Upatoi. Os espanhóis incendiaram a cidade índia, os franceses largaram fogo ao posto fronteiriço, o exército inglês queimou e abandonou o forte antes da Revolução e, por fim, os ianques incendiaram-na, em 1864. Contemplando hoje em dia o lugar, ficava a interrogação de porquê tudo aquilo, mas, de qualquer maneira, agora tinham uma boa corporação de bombeiros voluntários.

Meti pela estrada nacional que contorna Fort Hadley e Midland, segui para norte e cheguei a um parque de campismo deserto onde residia temporariamente, pois o isolamento convinha-me do ponto de vista profissional.

Sou do Exército dos EUA, mas o meu posto não interessa e, na minha função, é um segredo. Pertenço à Divisão de Investigação Criminal, conhecida por CID’, uma espécie de polícia judiciária. Ora no Exército, muito consciente das hierarquias, o melhor é não ter nenhuma. Contudo, à semelhança da maioria do pessoal da CID, lá sou subtenente, uma espécie de posto intermédio entre oficial e suboficial, que tem a vantagem de proporcionar ao titular os privilégios dos primeiros sem as responsabilidades inerentes. Tratam-nos por “senhor” e os investigadores da CID vestem-se muitas vezes à civil, como era o meu caso nessa noite - por isso há alturas em que tenho a ilusão de ser esse o meu estado.

Contudo, visto por vezes uniforme e nessas ocasiões o Departamento da Defesa atribui-me um outro nome, um posto apropriado à missão e os galões a condizer. Apresento-me na unidade onde vou fazer a minha investigação e reúno provas para o procurador-geral da justiça militar.

Quando se está na clandestinidade, há que ser um homem de sete ofícios. Passei por tudo, desde cozinheiro a especialista em armas químicas, o que no Exército corresponde ao mesmo. Alguns disfarces são difíceis de manter, utilizo o charme, mas, de qualquer maneira, é tudo uma ilusão - e o meu charme também.

Pertenço, assim, à CID, uma espécie de unidade de elite, embora hesite em usar o termo. O que nos torna especiais é o facto de sermos veteranos de longa data com folhas de serviço exemplares e nenhuma condenação, e excepcional é também o nosso poder de subverter a hierarquia militar, o que corresponde a ganhar um cogumelo mágico num jogo de Nintendo. Podemos, assim, prender qualquer membro do Exército, em qualquer parte do mundo, independentemente do seu posto, e abstenho-me de levar longe de mais este direito tentando deter um dos meus superiores por excesso de velocidade. Contudo, sempre me questionei sobre até onde poderia chegar e estava prestes a sabê-lo.

O meu posto permanente é no quartel-general da CID*, em Falis Church, na Virgínia, mas as minhas missões levam-me por todo o mundo. Viagens, aventura, tempo livre, desafios físicos e mentais, chefes que me dão plenos poderes, que mais desejar? Ah, claro, a companhia de mulheres, obviamente não me privo delas. Bruxelas não marcou o único episódio feminino da minha existência, mas o único que foi importante.

 

* Nota: CID - Sigla de Criminal Investigation Division. (N. da T.)

 

Há infelizmente alguns homens que se entregam a passatempos menos anódinos - violência sexual, crime - e foi o que aconteceu nessa quente noite de Agosto, em Fort Hadley, na Georgia. A vítima chamava-se Ann Campbell, tinha o posto de capitão do exército dos EUA e era filha do general de divisão Joseph Campbell.

E, como se tal não bastasse, era jovem, bonita, talentosa, inteligente e diplomada por West Point. Representava o orgulho de Fort Hadley, a menina querida do Serviço de Relações Públicas, que posara para os cartazes de recrutamento, o emblema do novo Exército aberto às mulheres, uma veterana da Guerra do Golfo e por aí fora. Este o motivo por que não fiquei muito surpreendido ao saber que alguém a tinha violado e assassinado. Ela procurara a situação, certo? Errado.

Contudo, ainda não sabia nada disto à hora do aperitivo na messe. Na verdade, enquanto estivera a falar com Cynthia e a filosofar com o coronel no bar, Ann Campbell ainda estava viva e bem viva e encontrava-se, a uns quinze metros, na sala de jantar a comer uma salada de frango, acompanhada de vinho branco e seguida de café, segundo a conclusão do meu posterior inquérito.

Estacionei o carro no parque de campismo, entre os pinheiros, a alguma distância da minha caravana, e percorri a pé e no escuro um caminho de tábuas apodrecidas. Algumas caravanas abandonadas encontravam-se dispersas pela clareira, mas o cenário compunha-se, na maioria, de terrenos vazios, demarcados por cimento, outrora ocupados por centenas de casas móveis.

A electricidade e o telefone ainda funcionavam e um poço garantia água corrente, que eu tornava potável adicionando-lhe uma gota de uísque escocês.

Destranquei a porta da minha caravana, entrei e acendi a luz, que revelou um espaço ocupado por uma cozinha-sala de jantar-quarto.

Pensava na caravana como uma relíquia do tempo em que nada mudara desde 1970. O mobiliário era de plástico, de um verde-abacate, e os utensílios de cozinha amarelo-mostarda. As paredes eram de contraplacado escuro e a alcatifa exibia um vermelho e um negro capazes de levar à depressão e suicídio alguém de espírito mais fraco do que o meu.

Tirei o casaco e a gravata, liguei o rádio, fui buscar uma cerveja ao frigorífico e sentei-me no maple que estava aparafusado ao chão. Havia três gravuras na parede, uma tourada, uma paisagem marítima e uma reprodução de Aristóteles Contemplando o Busto de Homero, de Rembrandt. Bebi a cerveja em pequenos goles e apreciei Aristóteles a contemplar o busto de Homero.

Alguns dinâmicos sargentos reformados tinham criado este parque de caravanas, baptizado de Whispering Pines, na eventualidade de interessar a alguém, no final da década de 60, quando parecia que a guerra na Ásia iria durar eternamente. Fort Hadley, na altura ainda centro de treino da infantaria, abarrotava de soldados e das famílias, e lembro-me do parque quando estava cheio de soldados casados que eram autorizados - na verdade, encorajados a habitar fora das casernas. Havia uma piscina regurgitando de crianças e jovens mulheres de militares. Bebida a mais, tédio a mais, dinheiro a menos e o futuro ensombrado pela guerra - não era assim que se imaginara o sonho americano.

E, quando os homens partiam para a guerra, outros se infiltravam nos quartos das traseiras das compridas e estreitas caravanas. Também eu vivera aqui, partira para a guerra e um outro ocupara o meu lugar na cama e roubara a minha jovem mulher. Contudo, muitos anos haviam passado e aconteceu tanta coisa que apenas lamento o facto de o cabrão também me ter levado o cão.

Folheei algumas revistas, bebi mais umas cervejas e, sem querer, pensei em Cynthia.

As minhas noites são, por norma, mais animadas, mas tinha de apresentar-me no arsenal às cinco da manhã.

 

 

                                     CAPÍTULO DOIS

 

O arsenal, a caverna de Ali Babá, um tesouro de armas e engenhos altamente sofisticados, com que se podia espoletar um fogo-de-artifício durante a noite.

Encontrava-me em missão secreta ao alvorecer, quase no momento em que Ann Campbell foi assassinada, esse o motivo porque paguei as favas, como diriam os meus homólogos civis.

Umas semanas antes, assumira as funções e o aspecto exterior de um sargento um tanto enfezado, de nome Franklin White, e com um outro sargento, chamado Dalbert Elkins, este autêntico, mas não menos enfezado, estávamos prestes a fechar um negócio: a venda de algumas centenas de metralhadoras M-16, lança-foguetes e toda uma variedade de armas igualmente perigosas a um grupo de rebeldes cubanos, dispostos a derrubar Fidel Castro, o Anticristo.

Na verdade, estes falsos resistentes eram, afinal, traficantes de droga colombianos, mas queriam que nos sentíssemos mais à vontade quanto à transacção. Fosse como fosse, ali estava eu, às seis da manhã, em grande conversa com o meu cúmplice, o sargento Elkins. Discutíamos o que íamos fazer com os duzentos mil dólares, que dividiríamos. Contudo, ele seria, de facto, condenado a prisão perpétua, mas ainda o ignorava, e os homens precisam de sonho, cabendo-me a mim a desagradável missão de o transformar em pesadelo.

Quando o telefone tocou, precipitei-me a fim de pegar no auscultador, antes do meu cúmplice.

- Arsenal. Fala o sargento White - respondi.

- Ah, é você! - exclamou o coronel William Kent, o comandante da Polícia Militar, numa palavra o chefe da polícia de Fort Hadley. - Ainda bem que o encontro.

- Não sabia que estava perdido!

Com excepção de Cynthia, o coronel Kent era a única pessoa que conhecia a minha identidade, e o único motivo que me ocorria para que estivesse a telefonar-me só podia ser o de que corria perigo iminente de ser desmascarado. Assim, mantive um olho no sargento Elkins e o outro na porta.

Contudo, as coisas não eram assim tão simples. O coronel Kent informou-me:

- Verificou-se um homicídio, um oficial do sexo feminino, e talvez violada. Pode falar?

- Não.

- Pode encontrar-se comigo?

- É que...

Kent era um tipo decente, mas, à semelhança da maioria dos seus colegas da Polícia Militar, faltava-lhe alguma subtileza, além de que a CID lhe provocava um certo mal-estar.

- ... estou de serviço.

- Este assunto é prioritário, Brenner. É grave.

- Também este.

Olhei de relance para o sargento Elkins, que me observava atentamente.

Kent explicou:

- É a filha do general Campbell.

- Deus do céu!

Reflecti uns momentos, e todos os meus instintos me segredavam que evitasse casos que envolvessem a violação e assassínio da filha de um general, pois nada tinha a ganhar e tudo a perder. O meu sentido do dever, da honra e da justiça garantiam-me que haveria sempre qualquer outro idiota da CID que se ocupasse do caso, alguém com a carreira já gravemente comprometida. Pensei em vários candidatos, mas a curiosidade sobrepôs-se ao dever e à honra. Perguntei:

- Onde posso encontrá-lo?

- No parque de estacionamento da Polícia Militar. Levo-o ao local. Kent não tinha obviamente dois dedos de testa, pois dado encontrar-me em missão secreta, não podia aproximar-me dos limites da base.

- De preferência, noutro sítio.

- Oh!. E no sector de infantaria? O quartel-general do Terceiro Batalhão, fica em caminho.

Elkins começava a demonstrar sinais de nervosismo, mas encontrei uma saída:

- Claro, querida. Daqui a dez minutos. Desliguei e expliquei ao sargento:

- A minha namorada precisa de uns mimos. Ele consultou o relógio.

- A esta hora?

- Ela não tem horas. Elkins sorriu.

De acordo com as regras do arsenal, eu usava uma arma e, satisfeito por verificar que Elkins se acalmara, desapertei o cinturão e deixei-a antes de me afastar, ignorando que mais tarde precisaria dela.

- Até mais tarde.

- Sim, faz-lhe um mimo por mim, rapaz.

- Podes contar com isso.

Deixara o carro no parque de campismo e herdara, como complemento da minha personalidade actual, uma carrinha Ford com botas de pesca na bagageira e pêlos de cão nos assentos.

Pus-me a caminho através da base e, minutos depois, penetrei na zona da brigada de treino da infantaria, formada por aquartelamentos de madeira do tempo da Segunda Guerra. O lugar parecia abandonado e lúgubre.

Na minha juventude, formara-me aqui, em Fort Haley, antes de ingressar na escola de rangers e de tropas aerotransportadas de Fort Benning. Era, pois, um ranger aerotransportado, o exército de choque que semeia a morte do alto dos céus, etc., agora sou, no entanto, um pouco mais velho e a CID convém-me perfeitamente.

Nos últimos tempos, até as instituições governamentais têm de justificar a sua existência e o Exército estava a desempenhar um óptimo serviço ao colocar no bom caminho as nações que dele se afastavam.

Apercebi-me, todavia, de um certo desânimo e instabilidade nos oficiais e homens que sempre se haviam considerado o escudo indispensável contra as hordes russas, à semelhança do pugilista que se exercita anos a fio para vencer o campeão e um dia descobre que o detentor do título caiu de borco. Fica-se aliviado, mas verifica-se também um grande vazio donde brotava a adrenalina.

De qualquer maneira, era a hora do dia em que o céu da Georgia adquire uma coloração rosa e o ar carregado de humidade anunciava um dia quente. O cheiro da terra entrava-me pelas narinas, à mistura com o dos pinheiros e um aroma a café que se escapava de uma cantina próxima.

Saí da estrada e meti pelo campo relvado, estacionando em frente do velho quartel-general do batalhão. Desci da minha carrinha e fui ao encontro do coronel Kent, que estava a sair do seu veículo oficial verde-azeitona.

O coronel Kent tem mais ou menos cinquenta anos, é alto, bem constituído, com um rosto marcado pela varíola e olhos de um azul glacial. É, por vezes, brusco e pouco subtil, como afirmei, mas trabalhador e eficaz, e o equivalente militar de um chefe da polícia cumpridor dos regulamentos, mas que, sem suscitar antipatia, também não é popular.

Kent impava de arrogância no seu uniforme de coronel, com o boné branco, o cinturão branco e as botas reluzentes.

- Mandei colocar seis dos meus homens no local - informou-me. Nada foi mexido.

- Já é um começo.

Há uns dez anos que conheço Kent e mantemos boas relações de trabalho, embora só o veja uma vez ou duas por ano, quando uma missão me traz a Fort Hadley. Embora seja meu superior, posso dar-me ao luxo de o tratar com uma certa familiaridade e tornar-lhe a vida difícil, enquanto for o encarregado do inquérito.

Já o vi depor num tribunal marcial e, embora possua todas as qualidades que se podem esperar num polícia - credível, lógico, imperturbável, claro na exposição -, há algo nele que soa a falso, pelo que sempre tive a impressão de que os promotores públicos preferiam mantê-lo longe do banco das testemunhas.

É, talvez, demasiado frio e insensível. Na realidade, quando o Exército tem de levar um dos seus a tribunal marcial, sente-se, por regra, nas fileiras alguma simpatia ou, pelo menos, preocupação frente ao acusado, mas Kent é um despes polícias para quem só existe o bem e o mal, e qualquer um que infrinja as leis de Fort Hadley, ofende-o pessoalmente.

Só o vi sorrir uma vez, quando um jovem recruta que, numa noite de bebedeira, deitara fogo a um aquartelamento deserto, apanhou dez anos pelo feito. Na verdade, a lei é a lei, o que permite aos arrogantes coronéis Kent encontrarem o seu lugar neste mundo vil, motivo por que fiquei algo surpreendido ao verificar que ele estava um pouco abalado devido aos acontecimentos daquela manhã. Perguntei-lhe:

- Informou o general Campbell?

- Não.

- Talvez deva fazê-lo.

Esboçou um aceno de cabeça pouco convicto e, pelo seu ar contristado, deduzi que estivera no local do crime.

- O general vai dar-lhe um pontapé no traseiro por protelar informações.

- Preferi assegurar-me primeiro pessoalmente da identidade da vítima explicou. - Não podia dizer-lhe que a filha...

- Quem a identificou em primeiro lugar?

- Um tal sargento Saint John. Foi ele quem encontrou o corpo.

- Conhecia-a?

- Estavam ambos de serviço.

- O que elimina qualquer hipótese de erro. E você também a conhecia?

- Claro, embora só formalmente.

- Não foi preciso olhar para a chapa de identificação e o nome no uniforme.

- Esses... desapareceram.

- Como assim?

- Sim... quem o fez levou-lhe o uniforme e a chapa...

Alguns pormenores despertam um sexto sentido, ou talvez se trate da reminiscência de outros casos armazenados na memória. Ao escutar-se a descrição dos factos e ante a observação do local, surge o comentário: “Há algo que não bate bem.” Continuei:

- E a roupa interior?

- O quê?... Oh... está ali. Normalmente é a roupa interior que levam, não? - acrescentou. - É estranho.

- O sargento pode ser considerado suspeito?

O coronel Kent encolheu os ombros e retorquiu.

- Isso já é um trabalho da sua competência.

- Bom, com um nome desses, vamos conceder-lhe momentaneamente o benefício da dúvida.

- Passeei o olhar pelas barracas desertas, o quartel-general do batalhão, a messe, as áreas de reunião das companhias, agora cobertas de ervas daninhas, e imaginei os jovens soldados alinhados para o toque de alvorada. Ainda me recordo da fadiga, do frio, da fome, antes do pequeno-almoço, e também do medo, consciente de que noventa por cento dos presentes na formatura seriam enviados para o Vietname, onde a taxa de mortalidade era tão elevada que nenhum apostador de Midland concederia aos recrutas mais do que uma hipótese em três de regressarem inteiros. Indiquei a Kent um dos barracões:

- Aquela era a caserna da minha companhia, a Delta.

- Não sabia que esteve na Infantaria.

- Há muito tempo, antes de me tornar polícia. E você?

- Sempre fiz parte da polícia militar, mas vi algumas coisas no Vietname. Encontrava-me na Embaixada dos EUA quando ela foi atacada pelos vietcongues, em Janeiro de 1968, e abati um deles - acrescentou.

Esbocei um aceno de cabeça, comentando:

- Algumas vezes penso que a infantaria tinha as suas vantagens. Os maus eram sempre os outros, nunca faziam parte das nossas fileiras, como agora.

- O inimigo é o inimigo, o Exército é o Exército e as ordens são ordens.

- De facto é assim.

Mediante aquelas palavras, ele expressava a essência do espírito militar. Não se colocam questões, nem há desculpa para o fracasso e este princípio é eficaz no combate e na maioria das situações, mas não na CID. Nesta divisão, há que saber desobedecer a ordens, pensar por si próprio, enfrentar os superiores e, acima de tudo, descobrir a verdade, e tal nem sempre é aceite no Exército, que se considera uma grande família, em que as pessoas ainda gostam de acreditar que “todos os irmãos são valentes e todas as irmãs virtuosas”.

O coronel Kent comentou, como se lesse os meus pensamentos:

- Sei que pode tratar-se de um caso sujo, mas talvez não. É possível que o crime fosse cometido por um civil e não tarde a resolver-se.

- Oh, claro, nós os dois receberemos belas cartas de recomendação e o general Campbell convidar-nos-á para as suas recepções.

O coronel Kent parecia muito agitado.

- Estou enfiado até ao pescoço nesta história, quer queira quer não. É o meu posto, o meu sector, mas você pode desligar-se, se quiser, e enviar-nos-ão outro qualquer. Só que se encontra casualmente aqui, pertence à unidade especial, já trabalhámos juntos antes e gostaria de ver o seu nome junto ao meu no relatório de inquérito.

- E com isso tudo, nem sequer me trouxe café!

O coronel esboçou um sorriso desanimado.

- Café? Preciso é de uma bebida, raios! Pode conseguir mais um galão com este caso!

- Ou talvez perder! Quanto a uma promoção, já estou no topo.

- Desculpe, esqueci-me. Maldito sistema.

- E, no seu caso, pretende mais uma estrela? - inquiri.

- Possivelmente.

- Parecia um tanto preocupado, como se a reluzente estrela de general com que sonhara se tivesse apagado naquele instante.

- Preveniu a CID local? - perguntei.

- Ainda não.

- Porque não, Deus do céu?

- Bom... De qualquer maneira, não vão ser eles a tratar deste assunto... Trata-se, afinal, da filha do comandante da base. O chefe da CID, o major Oowles, conhecia-a, como toda a gente aqui, e precisamos de mostrar ao general que apelámos a um dos maiores talentos de Falis Church.

- E que encontraram um bode expiatório, é o que é. Muito bem, direi ao meu patrão que o caso necessita de um investigador especial, mas não estou assim tão certo de querer tomá-lo a meu cargo.

- Vejamos o corpo, depois decidirá.

Quando nos dirigíamos ao carro do coronel, ouvimos o canhão da base na verdade a detonação gravada de uma peça de artilharia há muito desactivada - parámos e virámo-nos. Os altifalantes montados nos aquartelamentos vazios emitiam o som roufenho da alvorada e fizemos a continência, dois homens sós à luz do alvorecer, condicionados por uma vida de hábitos e séculos de tradições militares.

A antiga trombeta, remontando à época das Cruzadas, ecoou pelas áleas e ruas do aquartelamento e algures içavam-se as bandeiras.

Há anos que não ouvia o toque da alvorada, todavia agrada-me casualmente um pouco de pompa e circunstância, a comunhão entre a vida e a morte, a ideia de que existe algo maior e mais importante do que eu e da qual faço parte.

Não existe equivalência civil a tudo isto, a menos que ouvir o noticiário da manhã se tenha tornado um hábito. Embora me encontre na periferia da vida militar, ignoro se já estarei preparado para ter uma vida civil, mas talvez a mudança se encontre em vias de realização. Tem-se, por vezes, a intuição de que o pano do último acto vai descer.

Os derradeiros toques da alvorada esmoreceram e dirigi-me ao carro, acompanhado por Kent.

Ele observou:

- Começa um novo dia em Fort Hadley, mas um dos seus soldados não o verá.

 

 

                                   CAPÍTULO TRÊS

 

Rolámos para sul no carro de Kent, rumo ao extremo oposto da área militar.

- O coronel explicou:

Ann Campbell e o sargento Saint-John estavam de serviço no quartel-general da base. Respectivamente oficial e sargento de plantão.

- Conheciam-se?

- Talvez de vista - respondeu Kent com um encolher de ombros. Não trabalham no mesmo sector. Ele está no Departamento de Material e ela é instrutora na Escola de Operações Especiais. Foi por acaso que se encontraram no mesmo turno.

- O que é que ela ensinava?

- Estratégia psicológica. Ela... ela tinha uma formatura em psicologia.

- Ainda tem.

Nunca se sabe que tempo de verbo utilizar quando se fala de alguém que acaba de morrer. Perguntei a Kent:

- Os instrutores costumam fazer esse tipo de serviço?

- Por regra, não. Contudo, Ann Campbell oferecia-se muitas vezes como voluntária. Tentava dar o exemplo - acrescentou. - A filha do general...

- Compreendo.

Os oficiais, sargentos e soldados encontram-se inscritos no quadro de serviço mediante uma ordem casual. Assim, toda a gente acaba por fazer todo o género de trabalho mais cedo ou mais tarde. Houve uma altura em que o pessoal feminino estava dispensado de algumas obrigações nocturnas, mas os tempos mudam. Todavia, as mulheres que andam sozinhas à noite correm sempre o mesmo risco e a perversidade dos homens não mudou. O desejo de dar uma queca escapa ao regulamento do Exército.

- Ela estava armada? - indaguei.

- Claro.

- Continue.

- Por volta da uma da manhã, Campbell anuncia a Saint John que vai levar o jipe para verificar os postos de guarda...

- Porquê? Essa missão não compete ao sargento ou ao oficial de ronda?

- É suposto que o oficial de serviço no quartel-general fique próximo dos telefones.

- Segundo Saint-John, o oficial de ronda era um jovem tenente acabado de sair de West Point - justificou Kent. - E Campbell, como mencionei, era uma foçona, gostava de verificar as coisas pessoalmente. Sabia as senhas e deitou-se ao trabalho.

Kent meteu pela Rifle Range Road e prosseguiu:

- Às três da manhã, Saint-John começou a ficar um tanto preocupado.

- Porquê?

- Não sei... Ela é uma mulher e... bom, talvez se sentisse aborrecido por pensar que ela se demorara algures. Talvez quisesse ir à latrina e não desejasse largar os telefones.

- Que idade tem esse sargento?

- Cinquenta e tais. Casado, folha de serviço impecável.

- Onde está ele agora?

- No edifício da Polícia Militar, a tentar pôr o sono em dia. Disse-lhe que se mantivesse disponível.

As carreiras de tiro, uma, duas, três, quatro, desfilavam à nossa direita, vastas extensões de terra delimitadas por uma berma contínua. Lembrava-me deste sítio, onde, todavia, não voltara há mais de vinte anos.

O coronel Kent prosseguiu a narrativa.

- Saint-John comunica então com a casa da guarda, mas Ann Campbell não está lá. Pede ao sargento de ronda que telefone para os vários postos a fim de saber se alguém a viu. Um momento depois, o sargento transmite a resposta. Negativo. Saint-John pede-lhe então que lhe mande um responsável para vigiar os telefones e, quando aparece alguém para o substituir, mete-se no carro numa missão de reconhecimento. Passa por todo o lado, a messe dos sargentos, dos oficiais, etc., mas ninguém viu Ann Campbell. Por volta das quatro da manhã, dirige-se por fim ao último posto, um depósito de munições, e avista o jipe dela, na estrada, na carreira de tiro seis e... e lá está.

Na nossa frente, na berma direita da estreita estrada, estava o veículo de todo-o-terreno a que nós, veteranos, ainda chamamos jipe, em que Ann fora ao encontro do destino. Um Mustang vermelho estacionara próximo.

- Onde fica o posto da guarda? - perguntei a Kent.

- O depósito de munições situa-se um pouco mais longe. Robbins, o soldado de primeira classe que estava de vigia, não ouviu nada, mas avistou luzes de faróis.

- Interrogou-o?

- É uma ela, Maty Robbins.

- Foi a primeira vez que Kent se permitiu um sorriso.

- O termo “soldado” aplica-se a homens e mulheres, Paul.

- Obrigado pela explicação.

- A esta hora, está a dormir no edifício da Polícia Militar.

- Montes de gente por ali. Mas fez bem.

Kent parou o carro próximo do jipe e do Mustang vermelho. Quase rompera o dia. Seis elementos da PM - quatro homens e duas mulheres - montavam guarda espalhados pelo terreno. Todas as carreiras de tiro dispõem de uma fila de bancadas ao ar livre, à esquerda da estrada, onde os soldados recebem instrução teórica antes de passarem à prática. Nas bancadas mais próximas, à minha esquerda, estava sentada uma jovem mulher de calças de ganga, que tomava notas. Ao sair do carro, Kent informou-me: - É Miss Sunhill, uma mulher. Isso sabia eu muito bem!

- O que faz aqui?

- Mandei-a chamar.

- Porquê?

- É conselheira em matéria de violação.

- A vítima já não precisa dos seus conselhos. Está morta.

- Certo - anuiu Kent. - Contudo, Miss Sunhill é também uma especialista de inquéritos neste domínio.

- A sério? Qual o motivo da sua presença em Fort Hadley?

- Aquela enfermeira, a tenente Neely. Ouviu falar?

- Apenas sei o que dizem os jornais. Poderá haver qualquer relação entre os dois casos?

- Não. O culpado foi detido ontem.

- A que horas?

- Cerca das dezasseis. Miss Sunhill encarregou-se da detenção e às dezassete estávamos de posse de uma confissão completa.

Esbocei um aceno de cabeça. E às dezoito horas Miss Sunhill estava a tomar uma bebida na messe, Ann Campbell jantava lá tranquilamente, como viria a saber, e, no bar, eu hesitava entre abordar Cynthia ou efectuar uma retirada estratégica.

Kent acrescentou:

- Miss Sunhill devia supostamente partir hoje, mas decidiu ficar para nos dar uma ajuda neste caso.

- Que sorte a nossa!

- Sim. É bom ter uma mulher neste tipo de casos. E ela é competente. Já a vi em acção.

- Sem dúvida.

Reparei que o Mustang vermelho, que provavelmente pertencia a Cynthia, tinha matrícula de Virgínia, como o meu. Tal indicava que também ela recebia ordens de Falis Church, mas o destino, que não quisera que os nossos destinos se cruzassem no quartel-general, optara por nos reunir neste contexto. Era, de qualquer maneira, inevitável.

Um nevoeiro matinal pairava sobre as carreiras de tiro. À distância erguia-se uma dúzia de alvos, representando homens armados de espingardas, que haviam substituído as antigas silhuetas negras, na medida em que, para se ser treinado a matar, mais vale atirar sobre alvos que nos fitem nos olhos. Todavia, a experiência ensinou-me que nunca se está preparado para isso. De qualquer forma, os pássaros pousados em muitos dos homens de madeira destruíam a intenção, pelo menos até que o primeiro pelotão do dia disparasse.

Quando fiz o meu estágio de treino nesta base, as carreiras de tiro apresentavam-se completamente nuas, vastas extensões de terra estéril, muito diferentes do que por hábito se encontra em tempo de guerra, exceptuando talvez o deserto.

Agora, em muitas carreiras de tiro como esta, tinha-se deixado crescer vários tipos de vegetação, em parte para ocultar a linha de mira. A cinquenta metros donde me encontrava, uma das silhuetas emergia de um aglomerado de ervas altas e arbustos. Dois soldados da Polícia Militar, um homem e uma mulher, conservavam-se de cada lado deste alvo semioculto, e aos pés da silhueta avistei algo que era estranho ao cenário.

- Este tipo era um doente mental - comentou o coronel Kent, acrescentando, como se eu não tivesse percebido: - Fazer-lhe isto numa carreira de tiro, como se esse boneco a olhasse!

Se ao menos a figura em questão pudesse falar. Fitei o que me rodeava. Por detrás das bancadas e das torres de controlo de fogo erguia-se uma fila de árvores, onde se dissimulavam latrinas.

- Fez uma busca à zona, na eventualidade de haver outras vítimas.

- Não... quer dizer... não quisemos destruir provas.

- Quem lhe garante que não há outros mortos ou feridos com necessidade de serem assistidos? A ajuda às vítimas é mais importante do que preservar as provas. Vem no manual.

- Exacto... - Olhou em volta e fez sinal a um sargento da Polícia Militar. - Mande vir a brigada do tenente Fullham com os cães - ordenou.

Do cimo das bancadas, soou uma voz que roubou a resposta ao sargento:

- Já o fiz.

- Obrigado - agradeci, erguendo os olhos na direcção de Cynthia Sunhill.

- De nada.

Gostaria de ignorar a sua existência, mas seria difícil. Virei as costas e entrei na carreira de tiro. Kent seguiu-me.

Não tardou a arrastar o passo e a ficar para trás. Os dois elementos da PM, que ladeavam o corpo, desviavam propositadamente o olhar do sítio onde se encontrava o capitão Ann Campbell.

Detive-me a alguns passos do corpo, que se encontrava deitado de costas. Ela estava nua, com excepção do relógio no pulso esquerdo, e por perto via-se o sutiã. Conforme Kent assinalara, o uniforme tinha desaparecido, bem como as botas, as peúgas, o boné, o cinturão, o coldre e a arma. Mais interessante talvez era a sua posição: estendida a todo o comprimento, de pernas e braços afastados, os punhos e os tornozelos atados com cordas a estacas de vinil verde, que, tal como as cordas de náilon, também verdes, provinham dos armazéns do Exército.

Ann Campbell tinha cerca de trinta anos e era bem constituída, com o tipo de corpo que se vê nas professoras de aeróbica, musculado e sem um grama de gordura a mais. Reconheci-lhe o rosto dos cartazes do Exército. Toda a sua sedução provinha de uma beleza clássica e usava o cabelo louro pelos ombros, talvez um pouco mais comprido do que permitiam as regras, o que era o menor dos seus problemas neste momento.

As cordas de náilon que lhe imobilizavam os punhos e os tornozelos estavam igualmente enroladas à volta do pescoço e, por baixo, viam-se as cuecas, a servirem de protecção para que as cordas não lhe magoassem a carne. Sabia o que isto significava, mas devia ser eu o único.

Cynthia veio ter comigo sem pronunciar palavra.

Ajoelhei-me junto ao corpo. A palidez translúcida da pele contrastava com o vermelho da maquilhagem das faces e as unhas das mãos e dos pés, com um leve verniz, haviam perdido o tom róseo. O rosto não apresentava hematomas, arranhões ou mordeduras, tal como, à primeira vista, o resto do corpo. Exceptuando a posição obscena, não havia sinais exteriores de violação: nada de resíduos de esperma nas partes genitais, coxas ou pêlos púbicos, de traços de luta nos arredores, de terra ou erva na pele ou de manchas de sangue e sujidade sob as unhas, e o cabelo estava mais ou menos em ordem. Inclinei-me e toquei-lhe na face e no pescoço, os primeiros a serem habitualmente atingidos pelo rigor mortis, mas apresentavam-se macios e as axilas ainda estavam tépidas. Por outro lado, a rigidez cadavérica atingira as nádegas e o interior das coxas. A cor violácea evocava a asfixia, tornada verosímil pela corda enrolada à volta do pescoço. Premi o dedo sobre a carne azulada da anca e a pele clareou à volta do ponto de pressão, retomando o tom violáceo, mal retirei a mão. Concluí, sem receio de me enganar, que a morte ocorrera nas últimas quatro horas.

Há muito que aprendi que nunca se deve aceitar um testemunho como a palavra do Evangelho, mas, até agora, a cronologia do sargento Saint-John parecia credível.

Debrucei-me ainda mais e observei os grandes olhos azuis de Ann Campbell, que fixavam o céu sem pestanejar. As córneas ainda não estavam toldadas, reforçando a minha teoria de uma morte recente. Ao erguer uma das pálpebras, detectei pontinhos vermelhos, pequenos vasos rebentados, indicativos de morte por asfixia. Até esta altura, as declarações de Kent e o cenário pareciam coincidir com as minhas descobertas.

Alarguei a corda à volta do pescoço de Ann Campbell e examinei as cuecas. Não estavam rasgadas nem manchadas por qualquer líquido corporal ou substância estranha. A corrente com a chapa de identificação também desaparecera e a corda apenas deixara uma marca ínfima, quase invisível a olho nu. Contudo, a morte fora provocada por estrangulamento e as cuecas tinham reduzido os danos que normalmente marcariam o pescoço.

Levantei-me e, ao dar a volta ao corpo, apercebi-me de que havia indícios de terra e relva na planta dos pés, o que significava que ela percorrera descalça Pelo menos alguns passos. Observei de mais perto e descobri no pé direito uma pequena mancha de alcatrão ou de qualquer outra matéria negra logo abaixo do dedo grande.

Tudo indicava que ela andara descalça na estrada, o que significava que se despira ou, pelo menos, tirara os sapatos e as cuecas próximo do jipe e percorrera os últimos cinquenta metros sem outra roupa à excepção das cuecas e do sutiã abandonados próximo do corpo. O exame revelou que este último estava intacto, sem indícios de deformação ou sujidade.

Durante todo o tempo da minha inspecção, ninguém proferiu um som, apenas se ouvia o canto dos pássaros nas árvores. O Sol erguera-se acima dos pinheiros, que projectavam sombras sobre a carreira de tiro.

Dirigi-me ao coronel Kent:

- Quem foi o primeiro dos seus homens a chegar ao local? Kent ordenou a uma jovem que se aproximasse:

- Faça o seu relatório.

O soldado de nome Casey, a julgar pela chapa de identificação, pôs-se na minha frente e declarou:

- Recebi uma chamada pela rádio às quatro e cinquenta da manhã, informando-me de que fora encontrado o corpo de uma mulher na carreira de tiro número seis, a uns cinquenta metros a oeste de um jipe estacionado na estrada. Dado estar próximo do local indicado, fui até lá avistei o todo-o-terreno. Estacionei o meu veículo, peguei na M-6 e dirigi-me à carreira de tiro, onde localizei o corpo. Tomei-lhe o pulso, verifiquei se o coração batia e se ela ainda respirava e fiz incidir a lanterna nos olhos da vítima, que não reagiu. Concluí que estava morta.

- O que fez então?

- Regressei até junto do meu carro para pedir ajuda.

- Seguiu o mesmo trajecto à ida e à volta?

- Segui, sir.

- Tocou em alguma coisa além do corpo? Nas cordas, nas estacas, na roupa interior?

- Não, sir.

- Mexeu no veículo da vítima?

- Não, não toquei em nada, com excepção do corpo, a fim de verificar se estava morta.

- Mais alguma coisa a assinalar?

- Não, sir.

- Obrigado.

O soldado Casey fez a continência, girou sobre os calcanhares e retomou o lugar.

Kent, Cynthia e eu entreolhámo-nos como que para adivinhar mútuos pensamentos e emoções. São momentos como estes que nos colocam à prova e deixam marcas indeléveis na mente. Nunca esqueci a imagem de um morto, nem tão pouco o tentei.

Contemplei longamente o rosto de Ann Campbell, sabendo que não voltaria a vê-lo, o que parece importante, pois assim estabelece-se uma comunhão entre a pessoa viva e a morta, entre o investigador e a vítima. Ajuda... não a ela, claro, mas a mim.

De volta à estrada, era ainda necessário inspeccionar o jipe que Ann Campbell conduzira. Olhei para o interior através da janela aberta do lado do condutor. A maioria dos veículos militares não tem chave de ignição, mas um simples botão, que estava desligado. No assento do passageiro havia um saco de cabedal preto não regulamentar. Cynthia apontou-o e declarou:

- Gostaria de ter verificado o conteúdo, mas preferi esperar por vocês.

- Faz favor.

Ela deu a volta e abriu a porta do lado do passageiro, protegeu a mão com um lenço, pegou no saco, levou-o para o primeiro degrau da bancada e pôs-se a examinar o conteúdo.

Deitei-me na estrada e deslizei para baixo do jipe, mas nada notei de anormal debaixo da carroceria. Apalpei o tubo de escape e vi que ainda estava quente em alguns sítios.

Levantei-me e o coronel Kent indagou:

- Alguma ideia?

Ocorrem-me vários cenários possíveis, mas terei de esperar pelos resultados do laboratório. Presumo que os chamou.

- Claro. A equipa já vem a caminho, e de Gillem.

- Óptimo.

Fort Gillem situa-se perto de Atlanta, mais ou menos a trezentos quilómetros de Fort Hadley, e a CID dispõe aí de um laboratório modelo, que funciona para todo o Norte dos EUA. O pessoal compõe-se de especialistas que, à minha semelhança, se deslocam onde é necessário. Os crimes graves são relativamente raros no Exército, e o laboratório possui todo o material necessário para aquelas situações. Neste caso, a equipa viria decerto num camião.

- Quando chegarem - pedi a Kent -, peça-lhes que examinem atentamente a mancha negra que ela tem na planta do pé direito. Quero saber do que se trata.

Kent esboçou um aceno de concordância, pensando sem dúvida: “Típica treta da CID.” Mas nunca se sabe.

- Quero ainda que mande passar toda a zona a pente fino, digamos num perímetro de duzentos metros nas duas direcções, excluindo os cinquenta à volta do corpo.

Esta acção destruiria as pegadas, mas, de qualquer maneira, havia centenas na carreira de tiro e só me interessavam as que se encontravam num raio de cinquenta metros à volta do corpo.

- Quero também que os seus homens recolham tudo o que não faça parte da vegetação natural - prossegui. - Beatas, botões, papéis, garrafas, esse tipo de coisas, e anotem com precisão onde os encontraram. De acordo?

- Muito bem, mas é provável que o tipo se tenha limitado a ir e vir, sem deixar rasto. Provavelmente de carro, como a vítima.

- Penso que tem razão, mas precisamos de fazer o relatório.

- Proteger-nos, quer dizer.

- Claro. Actuamos como manda o manual.

Era mais seguro e, por vezes, até mais eficaz. Contudo, neste caso, tinha de dar provas de grande imaginação e ia sobretudo desagradar a pessoas importantes, o que era o lado divertido da questão.

Acrescentei para Kent:

- Preciso das fichas pessoais e clínicas de Ann Campbell antes do meio-dia.

- Muito bem.

- E também de uma mesa para trabalhar no seu gabinete, além de uma secretária.

- Uma ou duas? - Deitei um olhar de relance a Cynthia.

- Duas, suponho, mas nada é ainda definitivo no que me diz respeito.

- Não se ponha com rodeios, Paul. Aceita ou não esta investigação?

- Vou esperar pela decisão de Falis Church, mas não informe o serviço de Imprensa até novas ordens. Mande dois dos seus homens ao gabinete de Ann Campbell e retire de lá todo o mobiliário e objectos pessoais, que deverá fechar à chave nas suas instalações. Zele para que Saint-John e Robins permaneçam nas instalações da Polícia Militar até eu os interrogar. Não quero que se espalhe uma palavra de tudo isto sem que tenham falado comigo. E é a si que cabe a penosa missão, coronel, de ir avisar o general e Mrs. Campbell a casa. Faça-se acompanhar de um capelão e de um médico, na eventualidade de alguém precisar de um sedativo ou algo assim. Será preferível que não vejam o corpo da filha neste estado.

Kent soltou um prolongado suspiro e abanou a cabeça.

- Deus do céu...

- Ámen. Entretanto, dê instruções ao seu pessoal para que não divulgue o que descobrimos aqui e forneça ao laboratório uma amostra das impressões digitais do soldado Casey e de todos os daqui, inclusive as suas, claro.

- De acordo.

- Mande igualmente selar as latrinas e não permita que ninguém se sirva delas antes que eu as inspeccione.

- Entendido.

Dirigi-me a Cynthia, que estava a devolver os objectos ao saco, sempre munida do lenço.

- Algo interessante?

- Não. As coisas habituais. Carteira, dinheiro, chaves, tudo aparentemente intacto, e uma senha da messe. Jantou lá ontem à noite. Salada, frango, vinho branco e café. Encontrava-se, sem dúvida, na sala quando nós estávamos a tomar uma bebida.

Kent, que viera juntar-se-nos, perguntou, surpreendido:

- Tomaram uma bebida juntos? Já se conheciam?

- Tomámos uma bebida em separado - rectifiquei. - Já nos cruzámos em várias ocasiões, é tudo. A morada de Campbell? - acrescentei, virando-me para Cynthia.

- Infelizmente, fora da base. Victory Gardens, Victory Drive, Midland, quarenta e cinco. Creio que sei onde fica... um pequeno complexo habitacional.

- Vou chamar Yardley - anunciou Kent - para que consiga um mandado e venha buscar-nos. Ele é o chefe da polícia de Midland.

- Não. Isto é um assunto de família, Bill.

- É impossível ir revistar a casa dela na cidade sem um mandado da polícia civil.

Cynthia estendeu-me as chaves que encontrara no saco de Ann Campbell e disse:

- Eu conduzo. Kent protestou:

- Vocês não podem empreender qualquer acção fora da base sem o acordo das autoridades civis!

Retirei da argola as chaves do carro de Ann Campbell, que devolvi a Kent juntamente com o saco da vítima.

- Tente descobrir o seu automóvel pessoal e confisque-o.

A caminho do Mustang de Cynthia, tranquilizei Kent:

- Deve ficar aqui a chefiar as operações. Quando escrever o relatório, basta mencionar que eu lhe comuniquei que ia à polícia de Midland. Assumirei toda a responsabilidade pela minha mudança de opinião.

Yardley é um cabrão da pior espécie, Paul. Vai querer arrancar-lhe a pele.

- Não será o único!

Para o pôr à vontade, de forma a que não cometesse qualquer estupidez, acrescentei:

- Ouça, Bill, mais vale que seja eu o primeiro a ir lá. Preciso desfazer-me de tudo o que possa comprometê-la, à família, ao Exército, camaradas e amigos, certo? Só então deixaremos que o chefe Yardley meta o nariz na casa de Ann Campbell. De acordo?

Kent aprovou com um sinal de cabeça, aparentemente rendido aos meus argumentos.

Cynthia instalou-se ao volante do seu Mustang e sentei-me ao lado dela.

- Talvez lhe telefone de lá - dirigi-me a Kent. - Pense positivo.

Cynthia meteu a primeira, descreveu meia volta e passámos de zero a sessenta em cerca de seis segundos, seguindo pela estrada solitária de Riffle Range.

Escutávamos em silêncio o ruído do motor, até que Cynthia tomou a palavra:

- Sinto-me um tanto maldisposta.

- Que cena horrível!

- Aviltante, também. Estás habituado a este tipo de coisas?

- Não, céus! Não testemunho muitos homicídios e raramente crimes deste tipo.

Ela respirou fundo.

- Acho que posso ser-te útil, mas não quero que isso te traga problemas.

- Nenhuns. Só que não podemos apagar Bruxelas.

- Onde fica isso?

- Na Bélgica. É a capital. - “Cabra.” Depois de um silêncio, Cynthia perguntou:

- Porquê?

- Porque é Bruxelas a capital ou porque não podemos apagá-la?

- Não, Paul. Porque foi ela assassinada?

- Oh... os motivos possíveis em caso de homicídio são a cobiça, a vingança, o ciúme, a preocupação de ocultar outro crime, o desejo de evitar humilhações ou infortúnios ou a loucura de matar. É o que vem no manual.

- E tu, o que achas?

- Bom, sempre que o crime é acompanhado de violação, trata-se, por regra de um acto de vingança, de ciúme, ou então o violador elimina a vítima para não ser reconhecido. Talvez ela o conhecesse ou pudesse reconhecê-lo mais tarde, se não usasse máscara e não se tivesse disfarçado. Por outro lado, mais parece o crime de um maníaco, de um violador homicida, alguém que satisfaz os seus apetites sexuais matando, sem mesmo concretizar o acto. É o que pode pensar-se, mas de momento nada sabemos.

Cynthia esboçou um aceno de cabeça, sem se pronunciar.

- E tu, o que achas? - indaguei. Reflectiu uns segundos antes de responder:

- Obviamente premeditado. O criminoso estava munido de todo o material: a corda, as estacas, e, supostamente, um instrumento com que as cravar no chão. E devia ter uma arma para impedir que a vítima se servisse da dela.

- Continua.

- Bom. Ele saltou-lhe para cima, obrigou-a a desfazer-se da arma, a despir-se e a avançar para a carreira de tiro.

- De acordo, mas tento imaginar como conseguiu prendê-la às estacas sem que ela se debatesse. Sei que não era do tipo de mulher submissa.

- Sim. Não creio, de facto, que o fosse - anuiu Cynthia. - Mas talvez fossem dois e, independentemente do número, não afastaria a possibilidade de. “ele” ser uma “ela” até recebermos os resultados do laboratório.

- Exacto.

Naquela manhã, estava realmente a ter problemas com os pronomes pessoais.

- Então, porque não encontrámos indícios de luta ou de violência, neste caso por parte de quem cometeu o crime?

Ela abanou a cabeça.

- Não sei. Por regra, nestes casos há sempre violência... Contudo, o laço à volta do pescoço não é propriamente amistoso.

- Certo, mas o tipo não devia odiá-la.

- Também não devia amá-la.

- Quem sabe? Mas afinal este é o teu dia-a-dia, Cynthia. Responde-me: na tua carreira já se te depararam ou ouviste falar de violações deste género.

Ela concentrou-se um momento e depois respondeu:

- Há alguns elementos do que designamos por violação organizada O agressor preparou-a, só não sei se conhecia a vítima ou se a encontrou por acaso.

- Ele estava indubitavelmente fardado - recordei. - Esse o motivo por que não a assustou.

- É possível.

Olhei através da janela, absorvi o cheiro do orvalho da manhã e da resina dos pinheiros e senti o calor do sol no rosto. Baixei o vidro e recostei-me no banco, tentando rebobinar, como num filme, os acontecimentos anteriores à cena a que acabara de assistir: Ann Campbell amarrada ao chão, em seguida de pé, nua, o seu trajecto desde o jipe e por aí fora. Havia muita coisa que não jogava.

A voz de Cynthia interrompeu-me o raciocínio.

- Paul, o uniforme dela tinha o nome e a chapa de identificação e o boné e os sapatos provavelmente também. Qual é o ponto de união entre todos os objectos em falta? O nome dela. Correcto?

- Correcto.

“As mulheres têm sempre um elemento novo a acrescentar. É fantástico”, pensei.

- O que excitará então este tipo? Os troféus, as provas palpáveis, as recordações. Corresponde à personalidade e ao perfil do violador organizado.

- Contudo, ele abandonou a roupa interior e o saco - ripostei. O traço comum entre todos os objectos desaparecidos reside, de facto, em fazerem na totalidade parte do uniforme da vítima, inclusive o coldre e o cinturão, que não indicam o seu nome. Ele deixou para trás todas as coisas da vida civil, até mesmo o relógio e o saco, que tem todo o tipo de objectos com o nome dela. Estou enganado?

- Contrarias-me de propósito?

- Não, Cynthia. Temos uma investigação entre mãos e devemos comparar os nossos pontos de vista.

- De acordo, desculpa. É assim, de facto, que devem trabalhar os parceiros de uma investigação de homicídio.

- É mesmo.

Cynthia manteve-se silenciosa por uns momentos, antes de retomar a palavra:

- Conheces a tua profissão?

- Assim o julgo.

- Então, porque é que ele só lhe tirou os objectos militares?

- Os antigos guerreiros arrancavam as armas e a armadura aos inimigos mortos, mas deixavam-lhes as tangas.

- Julgas ser essa a explicação?

- Quem sabe? É apenas uma teoria. Pode tratar-se de qualquer outro distúrbio mental que eu desconheça.

Fitou-me pelo canto do olho enquanto conduzia.

- Talvez ele não a tenha violado - prossegui. - Talvez a tenha amarrado assim para encenar a agressão sexual ou para a humilhar, expondo-lhe o corpo aos olhos do mundo.

- Com que objectivo?

- Ainda não sei.

- Tens a certeza?

- Preciso analisar a questão. Começo a pensar que ele a conhecia. Na verdade, estava convencido disso. Prosseguimos em silêncio e depois confidenciei a Cynthia:

- Ainda não sei como tudo aconteceu, mas tenho uma teoria: Ann Campbell sai do quartel-general e vai directamente à carreira de tiro. Pára a uma distância razoável do posto de guarda do soldado Robbin e tem um encontro com um amante - é uma prática frequente. Ele faz de bandido armado, simula um ataque, obriga-a a despir-se e entregam-se a uma cena um tanto obscura de sadomasoquismo. Estás a seguir-me? - inquiri com um olhar de relance para Cynthia.

- Nada sei de perversões sexuais, esse é o teu departamento.

Dito e feito. O teu cenário assemelha-se bastante a uma fantasia masculina - comentou Cynthia. - Qual a mulher que acharia graça a deixar-se amarrar, despida, num solo gelado?

Pressentia que tínhamos um longo dia pela frente e ainda nem sequer tomara o pequeno-almoço.

- Sabes porque estavam as cuecas por baixo da corda que lhe envolvia o pescoço? - perguntei.

- Não. Porquê?

- Consulta o capítulo do manual sobre “asfixia sexual”.

- Entendido.

- E notaste que ela tinha uma mancha negra na planta do pé direito?

- Não.

- Se for alcatrão, porque teria ela caminhado descalça na estrada?

- Ele obrigou-a a despir-se no jipe ou por perto.

- Nesse caso porque foi a roupa interior parar à carreira de tiro?

- Ela pode ter sido obrigada a despir-se no jipe ou próximo e um dos dois levou-a até ao local do crime.

- A que pretexto?

- Faz parte do jogo, Paul. Os violadores têm fantasmas terrivelmente complicados e há coisas com um fortíssimo significado sexual, mas apenas para eles. Tal pode incluir ver uma mulher despir-se e levar as próprias roupas até ao sítio onde será violada.

- Estou a ver que conheces o terreno. Não detenho o monopólio em matéria de perversões.

- Percebo um pouco de distúrbios sexuais e patologia criminal, mas nada sobre perversões sexuais consentidas.

- O limite não é muito claro e nem sequer existe em alguns casos - redargui.

- Não acredito que Ann Campbell fosse uma parceira oferecida. Decerto não acolheu alegremente a morte por estrangulamento.

- Há muitas possibilidades e a sapiência recomenda que não se privilegie nenhuma - resmunguei.

- Temos de esperar pelos resultados do laboratório e da autópsia e precisamos de interrogar as pessoas.

“Precisamos?” Contemplei a paisagem em silêncio, enquanto prosseguíamos viagem. Tentei recordar-me do pouco que sabia sobre Cynthia. Provinha de Iowa, de uma família de agricultores, estudara na universidade local e obtivera um diploma em criminologia, ingressando depois no quadro de programas de formação tecnológica e do Exército, o qual proporciona às mulheres - a certas minorias perspectivas de carreira que jamais encontrariam no campo ou no seu gueto de origem. Cynthia só se referia ao Exército em termos positivos: viagens, motivação, segurança, reconhecimento social, etc. Nada mal para uma filha de camponeses!

- Pensei em ti muitas vezes - confessei. Silêncio.

- Como estão os teus pais? - perguntei, embora não os conhecesse.

- Óptimos. E os teus?

- Também. Estão à espera de que eu cresça, amadureça, me estabilize e lhes dê netos.

- Começa por cresceres.

- Ora aí está um bom conselho.

Por vezes, Cynthia consegue ser sarcástica, mas trata-se apenas de um mecanismo de defesa quando está nervosa. Quando se teve uma ligação e se é minimamente sensível e humano, sente-se respeito pela relação que existiu e talvez mesmo uma certa ternura pelo ex. Contudo, não é fácil estar lado a lado e nenhum de nós sabia, julgo eu, que palavras ou tom de voz utilizar. Repeti:

- Pensei em ti muitas vezes. Quero saber o que tens a responder. Ela redarguiu:

- Também eu pensei.

E o silêncio apoderou-se de nós obrigando-nos a pregar os olhos na estrada.

Uma palavra sobre mim, Paul Brenner, no lugar do passageiro. Natural de Boston (não distingo uma vaca a olho nu), irlandês católico, formado, proveniente de uma família de operários. Não ingressei no Exército para fugir da cidade e da minha família, foi ele que veio procurar-me, pois tinha-se envolvido numa grande guerra na Ásia e sabia que os filhos da classe operária davam bons soldados.

No meu caso, a definição deve estar certa, pois consegui sobreviver um ano a esse inferno. Graças ao Exército, segui depois cursos de formação, entre eles o de criminologia, e tudo isso me transformou de forma a que tenha deixado de me sentir bem em Boston, mas também não estou no meu ambiente em casa de um coronel, a vigiar a minha taxa de alcoolémia e a conversar com as mulheres dos oficiais, feias de mais para que alguém queira falar-lhes ou demasiado bonitas para que se deseje ficar por uma conversa banal.

Eis-nos, portanto, aqui, Cynthia Sunhill e Paul Brenner, naturais dos dois extremos do continente, de mundos diversos, ex-amantes, reunidos para uma observação conjunta do corpo nu da filha de um general. Será que o amor e a amizade podiam florescer neste contexto? Não poria as minhas mãos no fogo.

- Não esperava ver-te aqui na noite passada - retorquiu Cynthia. Desculpa se me mostrei um pouco rude.

- Não foi “se”.

- Então, desculpa mesmo, mas continuas a irritar-me.

- Mas, mesmo assim, queres ocupar-te deste caso.

- Sim, por isso tentarei mostrar-me simpática.

- Tentarás porque sou teu superior e porque, se pisares o risco, terás de fazer as malas.

- Deixa-te de tretas, Paul. Não me mandarás fazer as malas, nem irei a parte alguma. Temos um caso para resolver e uma relação pessoal a clarificar.

Por essa ordem?

- Por essa ordem.

 

 

                                     CAPÍTULO QUATRO

 

Quinze minutos depois de termos saído da base, chegámos a Victory Gardens e estacionámos o Mustang em frente do número quarenta e cinco.

O complexo habitacional era um lugar agradável, composto por cerca de cinquenta casas dispostas em redor de um espaço central, com relvado e um amplo parque de estacionamento.

Embora não houvesse tabuletas com “Reservado a oficiais”, os alugueres eram, sem dúvida, somente acessíveis a tenentes e capitães. Além destas considerações financeiras, as casas dos oficiais fora das casernas obedeciam a regras tácitas a que Ann Campbell, filha de um general e oficial modelo, se cingira, dado não ter optado pelo anonimato dos bairros novos da cidade, nem pelos estúdios ultramodernos para celibatários. Também não escolhera viver na enorme e bonita casa dos pais, na base, o que sugeria que tinha uma vida privada cuja natureza eu estava prestes a descobrir.

Embora o dia comece bem cedo no Exército, havia ainda alguns carros estacionados nos parques. A maioria pertencia a oficiais, a julgar pelos autocolantes azuis dos pára-choques, mas alguns exibiam o verde reservado aos funcionários civis da base. Contudo, reinava no lugar o mesmo silêncio do que na caserna antes do toque de alvorada.

Continuava vestido com o uniforme de sargento de arsenal e Cynthia tinha as calças de ganga que já citei.

Ao aproximarmo-nos da porta, perguntei-lhe:

- Estás armada?

Ela esboçou um aceno afirmativo.

- Perfeito, espera-me aqui. Vou entrar pelas traseiras. Se aparecer alguém pela frente, intercepta-lo.

- De acordo.

Dei a volta ao complexo de edifícios. As traseiras davam para um amplo relvado, cada um separado do do vizinho por uma divisória de madeira, que garantia a privacidade. No de Ann Campbell havia o tradicional churrasco e mobiliário de jardim, incluindo uma cadeira de repouso, onde se via óleo de bronzear e uma revista.

O acesso à casa fazia-se através de portas envidraçadas de correr e, através dos estores, avistei a sala de jantar e uma parte do salão. Aparentemente, não havia ninguém, pois era difícil imaginar a filha do general a viver com um amante ou uma amiga, arriscando-se a comprometer a sua privacidade. Por outro lado, nunca se sabe. Pode sempre haver uma pessoa dentro de uma casa quando se trata de um crime, tem de se agir com cautela.

Na parede da casa que limitava o jardim havia uma janela perto do chão, o que significava que estes complexos tinham caves, levando-me a supor que existia uma escada perigosa de descer. Talvez mandasse Cynthia em missão de reconhecimento. De qualquer maneira, a janela estava tapada com um vidro de segurança e ninguém poderia escapar-se por ali.

À direita das portas envidraçadas de correr havia uma outra que dava para a cozinha, com uma campainha. Toquei, aguardei e voltei a tocar, depois experimentei a maçaneta, o que é uma boa ideia antes de se forçar a entrada. Devia, sem dúvida, ter aceito o conselho do coronel Kent, ou seja, ir primeiro à polícia de Midland, que ficaria deliciada por passar um mandado de busca e ainda mais por participar nela. Não pretendia, contudo, alertá-los. Agarrei, portanto, na chave de Ann Campbell, entrei e fechei a porta atrás de mim.

Ao fundo da cozinha existia uma porta de aspecto sólido, que conduzia provavelmente à cave, a qual tinha um ferrolho que corri, impedindo assim a saída a alguém que pudesse estar lá em baixo.

Tendo protegido a retaguarda, ou talvez cortado qualquer possibilidade de recuo, avancei sem arma mas com cautela, atravessei o rés-do-chão e fui abrir a porta da frente, deixando entrar Cynthia.

Conservámo-nos um momento, de olho atento e ouvido à escuta, na entrada climatizada. Depois, fiz-lhe sinal para que sacasse da arma, uma Smith & Wesson de calibre trinta e oito, e gritei:

- Polícia! Fiquem onde estão e dêem sinal! Nada.

Dirigi-me então a Cynthia:

- Mantém-te aí, pronta a usar a arma.

- Para que achas que a trago?

- Bem visto.

Dirigi-me primeiro ao quarto de vestir e abri a porta com um gesto brusco, mas sem encontrar um indivíduo armado com estacas. Revistei depois, uma a uma, as divisões do rés-do-chão, noventa e nove por cento seguro de que a casa estava vazia, mas lembrando-me de um que não estava.

Uma escada levava ao primeiro andar e as escadas são perigosas, sobretudo quando rangem. Cynthia colocou-se ao fundo e eu subi os degraus a três e três; encostado à parede vi três portas, uma aberta, duas fechadas, e repeti a ordem para os eventuais ocupantes, obtendo o silêncio como resposta.

Cynthia chamou-me e virei o rosto na sua direcção. Estava a meio das escadas e estendia-me a arma, que agarrei, fazendo-lhe sinal para que não se mexesse. Escancarei uma das portas, coloquei-me em posição de atirar e gritei:

- Quietos!

Contudo, a minha agressividade não provocou qualquer reacção. Na penumbra, os meus olhos divisaram o que devia ser um quarto de hóspedes, escassamente mobilado. Fechei a porta e repeti a operação com a segunda porta fechada, que abriu para um roupeiro enorme.

Apesar de todas as minhas acrobacias, sabia que, se estivesse ali alguém decidido a utilizar a arma, já eu estaria morto nesta altura. Contudo, há que seguir o processo como vem no manual. Foi, pois, de costas para a parede que perscrutei o espaço para lá da porta aberta. Divisei um quarto de dormir e mais uma porta que dava para a casa de banho. Fiz sinal a Cynthia para que subisse as escadas e estendi-lhe a Smith & Wesson, murmurando:

- Protege-me.

Entrei no quarto, vigiando as portas corrediças do roupeiro e a casa de banho aberta. Agarrei num frasco de perfume, que estava em cima da cómoda, e atirei-o para o chão da casa de banho, onde se estilhaçou com um estrondo. Um tiro de provocação, como se diz na infantaria, mas também nada aconteceu desta vez.

Deitei um olhar rápido ao quarto e à casa de banho e depois juntei-me a Cynthia, que se mantinha agachada no corredor, de arma apontada, cobrindo todas as portas. Quase esperei, quase desejei que estivesse uma pessoa na casa para que pudesse prendê-la, fazer as malas e regressar a Virginia, mas não foi esse o caso.

Cynthia enfiou a cabeça no quarto e comentou:

- Ela fez a cama.

- Faz parte da educação de West Point.

- É triste. Ela era tão arrumada e organizada! Agora está morta e tudo ficará virado do avesso.

Olhei para Cynthia.

- Anda. Comecemos pela cozinha.

 

 

                                      CAPÍTULO CINCO

 

- Há, de facto, qualquer coisa de triste e irreal em invadir a casa de uma pessoa morta, percorrer os sítios onde ela viveu, abrir-lhe os armários, gavetas, mexer-lhe nas coisas, ler-lhe o correio e escutar até as mensagens do atendedor de chamadas.

Roupas, livros, cassetes, comida, bebida, cosméticos, contas, medicamentos... toda uma vida subitamente vazia, sem ninguém para partilhar o que restou, uma casa cheia das coisas que sustentam, definem e explicam uma existência - sala a sala sem um guia que assinale um quadro favorito na parede, folheie um álbum de fotografias, ofereça uma bebida ou explique por que razão as plantas estão secas e moribundas.

Na cozinha, Cynthia reparou na porta trancada.

- Leva à cave - indiquei. - Nada há a temer por esse lado. Vamos guardá-la para o fim.

Ela aquiesceu. A cozinha não nos forneceu muitos pormenores, com excepção de que Ann Campbell era realmente maníaca da ordem, adepta de comida biológica - iogurte, soja, pão de farelo e outros horrores, que me punham o estômago às voltas. Contudo, o frigorífico e a despensa continham também muitas garrafas de bom vinho e cervejas de boas marcas.

Um dos armários abarrotava de licores e bebidas fortes e os preços astronómicos indicados nas etiquetas ainda coladas em alguns gargalos não correspondiam aos da messe.

- Porque compraria ela as bebidas na cidade, a estes preços? Cynthia, que é uma mulher sensata, respondeu:

- Talvez não quisesse ser vista na fila para comprar “álcool” na messe da base. Era solteira e, além do mais, filha de um general. Os homens não têm esse género de preocupações.

- Mas consigo perceber. Uma vez fui apanhado com um pacote de leite e três embalagens de iogurte e durante semanas não consegui pôr os pés na messe.

Cynthia não fez qualquer comentário, mas revirou os olhos. Era óbvio que estava a pôr-lhe os nervos em franja.

Um parceiro jovem teria mostrado mais respeito por mim, ou uma colega conhecida até esse dia. Esta familiaridade devia-se, sem dúvida, a termos Dormido juntos, por isso havia que dar a volta ao assunto.

- Continuemos a inspecção - propus.

Meu dito, meu feito. A casa de banho do andar inferior estava impecável, embora com o tampo da sanita levantado. Lembrando-me do encontro muito elucidativo com o coronel no clube da messe, concluí que um homem passara por ali há pouco. Cynthia enriqueceu a constatação, ao observar:

- Pelo menos não pingou o tampo como a maioria de vocês, mais velhos, o fazem.

Não era agora que à rivalidade dos sexos vinha juntar-se o conflito de gerações? Tinha algumas boas respostas na ponta da língua, mas o relógio não perdoava e a polícia de Midland podia aparecer a qualquer minuto, o que criaria uma divergência de opiniões muito mais grave do que a gerada entre Cynthia e eu.

Explorámos juntos, por conseguinte, a sala de jantar e o living, reluzentes, como que esterilizados. A decoração era moderna, mas, à semelhança do que é hábito na casa de muitos militares de carreira, havia recordações do mundo inteiro: lacas japonesas, estanhos da Baviera, cristais de Veneza...

Os quadros que ornamentavam as paredes seriam mais apropriados para uma aula de geometria: cubos, círculos, linhas, ovais e cores básicas. Vazios de emoção, o que era, sem dúvida, o objectivo pretendido. Até agora, ainda não conseguira definir a personalidade de Ann Campbell.

Lembro-me de uma vez em que revistei a casa de um criminoso e, passados dez minutos, sabia com o que contar. Basta, por vezes, um pequeno nada, uma colecção de discos, fotografias de gatos nas paredes, roupa interior suja espalhada pelo chão. Outras vezes são os livros nas prateleiras ou a ausência deles, um álbum de fotografias ou, heureca!, um diário. Aqui, tinha a impressão de que entrara por engano no apartamento modelo do vendedor.

A última sala do rés-do-chão era um gabinete cheio de estantes além de uma secretária, um sofá e um maple. Havia também um móvel com um televisor e uma aparelhagem estéreo. Na secretária via-se um atendedor de chamadas a piscar, da qual nos ocuparíamos mais tarde.

Inspeccionámos o gabinete minuciosamente, não houve livro ou gaveta que escapasse à nossa atenção. A biblioteca compunha-se sobretudo de obras de carácter militar, livros de culinária, guias de saúde e de manutenção física, não havia ficção ou outra espécie de literatura.

A colecção completa das obras de Nietzsche ocupava, porém, um lugar de realce, juntamente com uma série de manuais de psicologia, o que não era surpreendente na casa de uma pessoa que, além de ser especialista neste domínio, trabalhava num dos seus ramos mais complicados: a guerra psicológica. O facto tanto poderia revestir-se de capital importância, como ser irrelevante.

Exceptuando os crimes do coração e hormonais, todos os outros e o comportamento criminal começam na mente; a acção é comandada por esta que depois fica totalmente ocupada pela preocupação de ocultar o crime. Precisávamos, pois, de sondar as mentes de uma série de pessoas para descobrir quem era a filha do general e porque a tinham assassinado. Num caso desta natureza, quando se conhece o motivo, também se sabe quem foi o autor. Cynthia, que estivera a examinar os CD, pronunciou-se:

- Música ambiente, alguns velhos êxitos, os Beattles e peças clássicas, essencialmente de compositores vienenses.

- Sigmund Freud tocando Strauss em oboé, por exemplo?

- Algo do género.

Liguei o televisor, esperando que estivesse sintonizado num canal de manutenção física ou de notícias, mas encontrava-se, em vez disso, no canal de vídeo. A videoteca, que passei em revista, compunha-se de filmes clássicos a preto e branco e algumas cassetes de manutenção; as outras tinham etiquetas manuscritas, indicando: “Operações psicológicas, conferências.”

Meti uma delas no videogravador e carreguei no botão.

- Vejamos.

Cynthia virou-se e acompanhou-me no visionamento. A imagem de Ann Campbell recortou-se no ecrã, de uniforme, de pé em cima de um estrado. Possuía, de facto, uma enorme sedução, mas sobretudo um olhar arguto e vivo, que se demorou um pouco na câmara antes de iniciar o discurso:

- Bom dia, meus senhores. Hoje vamos discutir o partido que a infantaria pode tirar das operações psicológicas, ou, se preferirem, da guerra psicológica, para abater o moral das tropas inimigas e reduzir-lhes a eficácia. O objectivo final destas operações reside em facilitar-vos a tarefa. A vossa missão, que consiste em entrar em contacto com o inimigo e destruí-lo, não é fácil. Beneficiam da ajuda de outros sectores do Exército, tais como a artilharia, a aviação, as armas leves e o serviço secreto, mas existe ainda uma outra arma pouco conhecida e muito mal explorada: a psicologia.

“A combatividade do inimigo”, prosseguiu “é talvez o elemento principal, para não dizer o único, que devem tomar em consideração ao prepararem os planos de combate. As armas, o arsenal, a artilharia de que ele dispõe, o grau de treino, o equipamento e até mesmo o número de efectivos são secundários comparativamente à vontade de lutar e vencer.”

Passeou o olhar pela sua audiência invisível e deixou passar uns segundos antes de retomar a palavra:

“Ninguém quer morrer, mas muitos homens estão dispostos a arriscar a vida em defesa do seu país, da família, até mesmo de uma ideia abstracta ou de uma filosofia. A democracia, a religião, o orgulho racial, a honra pessoal, a solidariedade e a lealdade para com o próximo, a promessa de saque e, sim... a violação são outros tantos motivos possíveis e consistentes.”

Enquanto ela falava, um projector de slides passava cenas de batalhas da Antiguidade, retiradas de velhas gravuras e quadros. Reconheci O Rapto das Sabinas, de Giovanni Da Bologna, uma das raras telas clássicas que consigo identificar... Interrogo-me, por vezes, acerca das minhas lacunas.

Ann Campbell prosseguiu:

“O objectivo da guerra psicológica reside em abalar estas motivações, mas sem as atacar de frente, pois elas são frequentemente muito fortes e encontram-se demasiado enraizadas para que possam ser mudadas através da propaganda. A nossa única esperança consiste em semear a dúvida, mas tal não basta para abater o moral e conduzir a deserções em massa e à rendição. Contudo, prepara o terreno para a segunda etapa da estratégia psicológica, que visa instaurar gradualmente o medo e o pânico nas fileiras do inimigo. Medo e pânico. Medo da morte, medo de ferimentos grotescos, medo do medo. Pânico - a menos conhecida das reacções humanas, uma angústia latente, que não tem lógica nem razão. Os nossos antepassados serviam-se do rufar de tambores, de hinos guerreiros, clamores, ofensas e mesmo gritos primitivos para espalhar o pânico nos campos inimigos.”

A imagem no ecrã por detrás dela mostrava um exército romano em pleno combate. E continuou:

“Na nossa procura de tecnologias cada vez mais sofisticadas, esquecemos o grito primitivo.”

Carregou num botão e um grito horrível e ensurdecedor encheu a sala.

“Eis uma forma de descontraírem os esfincteres”, observou com um sorriso.

Ouviram-se algumas risadas e o microfone apanhou a voz de um indivíduo:

“Parece a minha mulher a vir-se.”

Mais risos e a própria Ann Campbell soltou uma gargalhada inesperada. Depois, baixou os olhos, como a consultar os apontamentos, e quando ergueu novamente a cabeça voltara a assumir uma expressão grave, que restabeleceu o silêncio.

Tive a impressão de que manipulava o auditório, utilizando, para o conquistar, as mesmas histórias lascivas e incongruentes da maioria dos seus homólogos masculinos. Conseguira, visivelmente, os seus objectivos, partilhando com todos estes homens um momento de estreita cumplicidade, revelando-lhes que, sob o uniforme, se ocultava um corpo de mulher. Contudo, apenas por um instante. Desliguei o vídeo.

- Interessante, esta conferência! - comentei.

- Quem quereria matar uma mulher destas? - surpreendeu-se Cynthia. Tão cheia de vitalidade, energia e segurança...

Talvez estivesse aí o problema. Mantivemo-nos um instante silenciosos, como numa homenagem à presença e ao espírito de Ann Campbell, que pareciam manter-se na sala. Estava, de facto, seduzido. Ela era uma daquelas mulheres em que se repara e nunca se esquece. Não era apenas o seu olhar que fascinava, mas toda a atitude e comportamento. A sua voz. profunda e distinta impunha-se, sem nada perder de feminilidade e magnetismo. Faltava-lhe o sotaque característico dos militares que desempenharam múltiplas missões por todo o mundo, mas notava-se, por vezes, uma desconcertante inflexão sulista. Numa palavra, exercia sobre os homens um ascendente resultante da sua autoridade e atractivos físicos.

Quanto aos sentimentos das mulheres a seu respeito, Cynthia parecia impressionada, mas suspeitava de que algumas delas podiam encará-la como uma ameaça, sobretudo se os maridos ou namorados estivessem por perto. As suas relações com as outras mulheres mantinham-se envoltas em mistério. Observei finalmente, para romper o silêncio:

- Acabemos com isto.

A nossa exploração do escritório levou-nos a folhear um álbum de fotografias que encontrámos numa prateleira. Eram cenas da vida familiar: o general e a senhora Campbell, um jovem que era provavelmente irmão de Ann, esta e o pai vestidos à civil, West Point, piqueniques, Natal, Dia de Acção de Graças, nauseam, na minha opinião, um álbum feito pela mãe para a filha. A prova dos nove de que os Campbell eram a mais feliz, a mais unida e a mais equilibrada das famílias, protegida pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo, e com Nossa Senhora por detrás da máquina fotográfica.

- Tudo para a galeria - comentei. - Mas demonstra, pelo menos,

qualquer coisa.

- Ah, sim? O quê?

- Provavelmente que todos se odeiam.

- Estás a ser cínico e ciumento, porque não temos famílias assim comentou a Cynthia.

Fechei o álbum.

- Não tardaremos a saber o que se esconde por detrás destes sorrisos beatos. Cynthia pareceu tomar súbita consciência do que estávamos a fazer e observou:

- Paul... Devíamos interrogar o general e a senhora Campbell.

- O crime já é por si só desagradável. Quando, além disso, se faz acompanhar de violação e premeditação e o pai da vítima é um herói nacional, é bom que os idiotas que pretendem examinar a vida da vítima conheçam o terreno que pisam. Entendido?

Reflectiu um momento nestas palavras, antes de informar:

- Quero mesmo este caso. Sinto... como hei-de dizer... uma certa ternura por ela. Não a conhecia, mas sei que não devia ter uma vida fácil neste exército de machos.

- Poupa-me, Cynthia.

- Sinceramente, Paul. Que sabes tu disso?

- Tento ser um branco nos dias que correm.

- Ora.

- Agora, recordo-me das nossas discussões.

- Jogo empatado e cada um às suas posições.

À guisa de conclusão cada um foi colocar-se num canto oposto da sala e prosseguimos a busca. O meu olhar deteve-se nos quadros pendurados na parede: diploma de West Point de Ann Campbell, mobilização no Exército, certificados de formação, várias distinções, algumas emitidas directamente pelos Ministérios da Defesa e do Exército, incluindo a que lhe reconhecia os serviços prestados na Operação Tempestade do Deserto, sem especificar a natureza dos mesmos. Pigarreei e dirigi-me a Miss Sunhill:

- Ouviste falar de qualquer operação psicológica durante a guerra do Golfo?

- Não, que me lembre - respondeu.

- Bom, um espertinho das operações psicológicas teve a ideia luminosa de querer distribuir fotografias pornográficas pelas fileiras iraquianas. Os pobres filhos da mãe há meses, talvez anos, que não viam uma mulher, e o sádico em causa pretendia inundá-los com fotos de carne quente e rosada, capazes de os enlouquecer. A ideia chegou ao alto comando, que a aplaudiu com entusiasmo até os Sauditas, menos tolerantes do que nós em matéria de nádegas e seios nus, quase terem uma apoplexia ao saberem do caso. O projecto foi, assim, abandonado, mas manteve-se em todas as mentes como uma ideia genial que poderia ter reduzido as hostilidades de quatro dias para quinze minutos.

- Sorri.

- É aviltante! - exclamou Cynthia num tom glacial.

- Pessoalmente, aprovo em teoria. Se salvasse nem que fosse uma vida, a ideia poderia justificar-se.

- O fim não justifica os meios. Porque me falas de tudo isso?

- Muito bem. E se tivesse sido uma mulher e não um homem a surgir com essa ideia de um bombardeamento pornô?

- Referes-te a Ann Campbell?

- De qualquer maneira, o projecto nasceu, sem dúvida, na Escola de Operações Especiais de Fort Hadley. Devíamos verificar.

Cynthia entregou-se a um dos silêncios meditativos que por vezes a invadiam e, de súbito, fitou-me:

- Conhecia-la?

- Sabia algumas coisas a respeito dela.

- O quê?

- O mesmo que toda a gente, Cynthia. Que era impecável em todos os aspectos, um perfeito produto americano, pasteurizado e homogeneizado pelo Serviço de Informação e entregue ao domicílio embalado em celofane e para consumo imediato.

- E não acreditas nisso?

- Não, mas, se descobrirmos que estou enganado, acho que optei pela profissão errada e apresentarei a minha demissão.

- É o que, de qualquer maneira, acabarás por fazer.

- Muito provavelmente - redargui. - Pensa, contudo, na forma como ela morreu, nas circunstâncias bizarras deste homicídio. Há poucas hipóteses de que um desconhecido possa ter dominado a militar treinada e atenta que ela era, ainda por cima munida de uma arma que não hesitaria em usar.

Cynthia esboçou um aceno de cabeça e disse como se falasse para si própria.

- Pensei nisso. Não é caso raro as militares levarem uma vida dupla: uma pública, acima de qualquer suspeita, e uma privada... que só a elas diz respeito. Também assisti a casos de mulheres, casadas ou celibatárias, que foram violadas por acaso, apesar de levarem uma vida exemplar, e conheci outras que levavam uma existência promíscua, mas cuja violação nada teve a ver com as aventuras ou a fauna com quem se davam, antes a uma ironia do destino.

- Trata-se de uma hipótese que não excluo.

- Não faças juízos precipitados, Paul.

- Não faço, só que não sou um santo. E tu?

- Não estás na posição adequada para me fazeres a pergunta.

Ela aproximou-se e pousou-me a mão no ombro. O gesto apanhou-me desprevenido.

- Devemos continuar? Juntos, quero dizer. Não nos arriscamos a dar cabo de tudo?

- Não. Encontraremos a solução.

Cynthia encostou-me o indicador ao estômago, como se eu necessitasse de um ponto de exclamação para acabar a frase, depois girou sobre os calcanhares e regressou até junto da secretária de Ann Campbell.

Na parede, outros quadros emoldurados continham um diploma da Cruz Vermelha Americana pela sua participação numa recolha de sangue, um agradecimento pela ajuda prestada a crianças gravemente doentes e um certificado de ensino de uma instituição voluntária de alfabetização. Como arranjaria esta mulher tempo para fazer tudo isto, além do seu trabalho, das rondas para que se oferecia voluntariamente e das obrigações sociais inerentes à vida militar? Seria que não tinha, afinal, uma vida privada, apesar da sua extraordinária beleza?

Cynthia anunciou:

- Está aqui o seu livro de moradas.

- A propósito. Recebeste o meu cartão de Natal? Onde estás a viver?

- Escuta, Paul, tenho a certeza de que os teus compinchas do quartel-general meteram o nariz no meu dossiê e te puseram a par de todos os meus actos do último ano.

- Nunca o faria, Cynthia. Não é ético nem profissional.

- Perdão - desculpou-se, fitando-me.

Meteu o livro de moradas no saco e carregou no botão do atendedor de chamadas. Ouviu-se uma voz:

- Ann, fala o coronel Fowler. Como ficou de passar por casa do general esta manhã, depois de sair do serviço. - Expressava-se com brusquidão -, a sua mãe preparou-lhe o pequeno-almoço. Está provavelmente a dormir. Por favor, telefone ao general ou à senhora Campbell quando acordar.

E desligou.

- Talvez se tenha suicidado - comentei. - Era o que eu faria no lugar dela.

- Não devia ser fácil o papel de filha de um general. Quem é o coronel Fowler?

- Penso que é o ajudante do general. O que achas da mensagem?

- Oficial. O tom sugere uma certa familiaridade, mas sem calor. Como se apenas estivesse a cumprir um dever ao telefonar à filha do patrão, de quem é Superior, mas que não deixa de ser filha do patrão. E tu? Que te parece?

- Um tanto fingida.

- Oh... tipo álibi?

Voltei a carregar no botão, que repetiu a mensagem.

- Talvez esteja a usar demasiado a imaginação - concedi.

- Talvez não.

Peguei no auscultador e marquei o número do comandante da Polícia Militar. O coronel Kent não abandonara o gabinete e atendeu de imediato.

- Ainda estamos na casa da vítima - informei-o. - Já falou com o general?

- Não... Ainda não... Estou à espera do capelão...

- Daqui a umas horas, toda a base estará ao corrente, Bill. Previna a família e nada de formulário ou telegrama.

- Ouça, Paul. Estou farto deste caso. Já chamei o capelão do posto e ele vem a caminho...

- Óptimo. Mandou esvaziar-lhe o gabinete?

- Sim, pus tudo num hangar, em Jordan Filed.

- Muito bem. Agora, mande até aqui alguns camiões com um pelotão da PM que não se importe de trabalhar no duro e se mantenha de bico calado. Diga-lhes que esvaziem a casa, que levem tudo, a mobília, as alcatifas, até mesmo as lâmpadas, os tampos das sanitas, o frigorífico e o conteúdo. Tire fotos e arrume tudo no hangar, mais ou menos com esta disposição. De acordo?

- Endoideceu?

- Completamente. E certifique-se de que os homens usem luvas e de que o laboratório recolha todas as impressões digitais.

- Para quê tudo isso?

- Não temos poder de jurisdição aqui, Bill, e não confio na polícia civil. Assim, quando a de Midland chegar, só encontrará o papel de parede. Sei o que estou a fazer. O crime ocorreu em terreno militar, pelo que se trata de uma acção com toda a legalidade.

- Nada disso!

- Ou fazemos as coisas à minha maneira, ou retiro-me do caso, coronel. Verificou-se uma longa pausa, seguida de um grunhido que podia significar: “Entendido!”

- Mande também um oficial ao posto dos correios, na cidade, e transfira o número de telefone de Ann Campbell para uma linha da base. Ligue o atendedor de chamadas e ponha outra mensagem. Não deite fora a antiga. Tem um recado gravado, e conserve-a como prova.

- Quem acha que irá telefonar depois dos títulos que a imprensa publicar?

- Nunca se sabe. A equipa forense já chegou?

- Sim, estão no local do crime.

- E o sargento Saint-John e o soldado Robbins?

- Continuam a dormir. Meti-os em celas separadas, que não estão trancadas. Quer que lhes leia os direitos?

- Não, não são suspeitos, mas detenha-os como testemunhas até eu poder interrogá-los.

- Os soldados têm certos direitos - informou-me Kent. - Saint-John é casado e o comandante de Robbin vai pensar que ela desertou.

- Nesse caso, previna os interessados, mas, entretanto, mantenha-os incomunicáveis. Onde estão os relatórios individuais e clínicos de Ann Campbell?

- Comigo.

- O que esquecemos, Bill?

- A Constituição.

- Não nos percamos com detalhes.

- Francamente, Paul, tenho de colaborar com o chefe Yardley. Vocês estão de passagem e Yardley e eu mantemos boas relações, tendo em conta as circunstâncias...

- Já disse que me responsabilizava...

- Acho bem que sim. Encontrou alguma coisa por aí?

- Ainda não. E você?

- A busca não foi muito frutífera. Só encontrámos uns detritos.

- E os cães?

- Nada. Os treinadores puseram-nos a farejar o jipe e os animais regressaram directamente ao cadáver. Depois, percorreram o caminho de volta, atravessaram a estrada, para lá das bancadas, e foram até às latrinas. Perderam o rasto e voltaram para o jipe. Impossível saber se seguiam apenas o faro ou iam atrás do criminoso - prosseguiu. - Mas alguém, talvez a vítima e o criminoso, foram às latrinas. - Hesitou e concluiu: - Tenho a sensação de que o assassino tinha carro e, dado não haver vestígios de pneus, o tipo nunca abandonou a estrada. Portanto, estacionou aí antes ou depois dela. Por conseguinte, ambos desceram dos respectivos veículos e ele abordou-a, arrastou-a para a carreira de tiro e fez o que tinha a fazer. Depois, voltou à estrada...

- Com as roupas dela...

- Sim. Pôs as roupas no carro dele e...

- Foi às latrinas, lavou-se, penteou-se antes de voltar ao carro e afastou-se.

- Pode ter sido isso o que aconteceu - pronunciou-se Kent. - Contudo, não passa de uma teoria.

- A minha teoria é de que em breve necessitaremos de outro hangar para guardar todas as teorias. Uns seis camiões devem bastar. Mande também uma mulher com um pouco de subtileza para supervisionar a operação e um responsável pelos assuntos sociais que possa acalmar os vizinhos durante a mudança. Até logo.

- Desliguei.

Cynthia comentou:

- Tens um espírito analítico extraordinário, Paul.

- Obrigado.

- Se tivesses um pouco mais de coração e compaixão, serias uma pessoa melhor.

- Não é isso que procuro. E não fui, afinal, tão fixe em Bruxelas? Não te comprei chocolates belgas?

Ela não respondeu de imediato.

- Sim. É verdade - acabou por anuir. - E não achas melhor irmos dar uma vista de olhos lá acima, antes de levarem tudo para Jordan Field?

- Boa ideia.

 

 

                                                 CAPÍTULO SEIS

 

O quarto, como já disse, apresentava-se impecavelmente limpo, com excepção do frasco de perfume estilhaçado no chão da casa de banho e que agora empestava tudo. O mobiliário era moderno e funcional, de estilo nórdico, ou assim parecia, sem o mínimo toque pessoal, de um anonimato total.

Ocorreu-me que não teria o mínimo desejo de fazer amor neste quarto. O tapete berbere, de lã áspera e onde os pés não deixavam qualquer vestígio, também não contribuía para a intimidade do ambiente. Havia, contudo, um pormenor que chamava a atenção: vinte frascos de perfume, cada um mais caro do que o outro, na opinião de Cynthia, e a imensidade de roupa pendurada no roupeiro, igualmente luxuoso.

Um outro roupeiro mais pequeno - que seria o do companheiro ou do marido, se os tivesse - abarrotava de uniformes de Verão, fatos de combate e camuflados, botas e todos os acessórios necessários. Mais interessante ainda era a M-16 carregada e pronta a disparar, escondida no fundo.

- Material militar - observei. - Totalmente automática.

- E sem autorização para sair da base - retorquiu Cynthia.

- Deus do céu!

Rebuscámos um pouco mais e, ao ver-me remexer numa gaveta de roupa interior, Cynthia pronunciou-se:

- Já examinaste isso, Paul. Deixa-te de parvoeiras.

- Ando à procura do seu anel de West Point. Não o tinha no dedo, nem o encontro no guarda-jóias.

- Tiraram-lho. Tem uma marca mais clara no dedo. Voltei a fechar a gaveta.

- Mantém-me ao corrente dos factos - redargui.

- Tu também.

A casa de banho era tipicamente militar: limpeza regulamentar, lavatório imaculado, nem um cabelo nos mosaicos e, muito menos, um pêlo púbico deixado por qualquer macho de passagem.

O armário dos medicamentos continha o habitual sortido de produtos cosméticos e de beleza, tão do agrado das mulheres. Nem medicamentos, nem máquina de barbear, mas apenas uma escova de dentes e um inofensivo frasco de aspirinas.

- Conclusões? - dirigi-me à minha preciosa assistente.

- Bom, não era hipocondríaca, tinha uma pele normal, não secava o cabelo e arrumava o seu método de controlo de natalidade em qualquer outro sítio.

- Talvez exigisse que os parceiros usassem preservativos. Estás, sem dúvida, ao corrente de que estão na moda por causa de uma certa doença. Hoje em dia, tem de se esterilizar as pessoas antes de ir para a cama com elas.

- Ou talvez fosse virgem - sugeriu Cynthia, ignorando o meu comentário.

- Não tinha pensado nisso. É possível.

- Nunca se sabe, Paul. Porque não?

- Ou talvez fosse... homossexual? Lésbica? Qual é o termo oficial?

- Queres realmente saber?

- Para o meu relatório, não quero ter problemas com a facção feminista da polícia.

- Ora, Paul!

Saímos da casa de banho e Cynthia sugeriu:

- Vamos ver o outro quarto.

Naquela altura, já não esperava encontrar vivalma na casa. Todavia, quando me aproximei do segundo quarto, Cynthia empunhou o revólver para me proteger, enquanto eu espreitava por baixo da cama. Além desta, o mobiliário compunha-se apenas de uma cómoda e uma mesa-de-cabeceira. Uma porta dava para uma pequena casa de banho, que parecia nunca ter sido usada, como o quarto.

Cynthia puxou a colcha para trás, revelando um colchão sem roupa.

- Ninguém dorme aqui.

- Tudo o indica.

Cynthia esboçou um sinal de cabeça na direcção de uma porta dupla metida na parede oposta. Pus-me de lado e abri-a. Uma luz automática acendeu-se, sobressaltando-me e a Cynthia, que se atirou para o chão, de arma aperrada. Decorridos um ou dois segundos, levantou-se e entrou no que se revelou como um quarto de vestir.

Fui atrás dela. Cheirava bem, o odor recordava-me o de uma certa água-de-colónia barata que eu usara para manter as traças e as mulheres bem longe. Havia dois varões de cada lado, donde pendiam, protegidos por sacos de plástico, roupas civis para todos os climas, mais uniformes, desde os apropriados ao deserto até um equipamento polar, vestidos brancos, azuis, de noite, e outros reservados a festas de gala, e ainda o sabre de West Point. A prateleira superior era reservada a bonés a condizer e a de baixo ao calçado.

- Que oficial exemplar! - exclamei. - Tão preparada para um baile de gala, como para uma guerrilha.

- Não tens um roupeiro do género?

- O meu assemelha-se a um armazém de liquidação, no terceiro dia de saldos.

De facto, ainda parecia pior, só tenho a mente ordenada, nada mais do que a mente. Por seu lado, Ann Campbell era a personificação da ordem e da arrumação, mas talvez a sua mente fosse, pelo contrário, o caos absoluto, ou talvez não. Esta mulher era um enigma.

Quando saímos do quarto de vestir e do de hóspedes, dirigi-me a Cynthia, enquanto descíamos as escadas:

- Antes de entrar para a CID, seria incapaz de ver uma pista que estivesse mesmo debaixo do meu nariz.

- E agora?

- Agora, tudo me parece uma pista. A sua falta é em si uma pista.

- A sério? Ainda não cheguei a esse nível. Parece-me zen.

- Aos meus olhos é mais Sherlock Holmes. O cão que não ladrava de noite, sabes? - Desembocámos na cozinha. - Porque não ladrava o cão?

- Estava morto.

É difícil adaptarmo-nos a um novo parceiro. Não me agradam os jovens e obsequiosos, que bebem todas as minhas palavras, mas também não gosto dos crânios que julgam saber tudo. A minha idade e a patente conferem-me um respeito bem merecido, embora continue aberto a que me chamem à realidade.

Estávamos diante da porta que dava para a cave. Constatei, mais pensando na minha vida do que nesta porta trancada:

- A minha mulher deixava pistas por toda a casa. Cynthia não reagiu.

- E nunca as vi.

- Claro que viste.

- Sim... se fizer uma retrospectiva, claro que sim, mas quando se é novo é-se também obtuso. Olha-se de tal forma o umbigo, que se está fechado aos outros. Há que passar por uma boa dose de mentiras e embustes para adquirir o cinismo e a desconfiança que nos torna bons detectives.

- Um bom detective, Paul, tem de saber separar a profissão da sua vida pessoal. Não desejaria um homem que me espiasse.

- Não duvido, tendo em conta o teu passado.

- Vai-te lixar.

“Um ponto para mim”, e desaferrolhei a porta.

- Faz favor.

- Muito bem. É uma pena que não tenhas a tua arma - constatou, estendendo-me a sua Smith & Wesson e abrindo a porta para a cave.

- Posso ir lá acima buscar a M-16 - propus.

- Deve-se sempre desconfiar das armas que se encontram e não se testaram; citação do manual. Desce e avisa, se houver problema.

Gritei:

- Polícia! Mostrem-se de mãos acima da cabeça.

Esta é a versão militar de “Mãos ao alto!” e um pouco menos absurda, se se pensar bem. Dado ninguém ter aparecido ao fundo das escadas, Cynthia desceu.

- Não acendas as luzes - murmurou. - Vou virar à direita. Espera cinco segundos.

- E tu dá-me um segundo.

Olhei em volta à procura de algo para deitar pelas escadas e optei por uma torradeira, mas Cynthia já transpusera os degraus, mal tocando no chão. Deslizou para a direita e perdi-a de vista. Segui-a, virando para a esquerda e agachei-me, de olhos perscrutando as sombras. Aguardámos dez segundos num silêncio total e depois gritei:

- Ed, John! Cubram-nos!

Daria tudo para ter um Ed ou um John por perto, mas, na sua falta, apliquei os princípios ensinados por Ann Campbell: “Criar batalhões fantasmas nas mentes do inimigo.”

Neste momento, concluí que, se houvesse alguém lá em baixo, não estava emboscado, mas escondido.

Cynthia, visivelmente impaciente com as minhas precauções, regressou, subiu a correr as escadas e premiu os interruptores. As luzes de néon começaram a piscar de um lado ao outro da divisão e acabaram por se fixar naquela luz esbranquiçada que associo a lugares desagradáveis.

Cynthia desceu novamente as escadas e iniciou a busca à cave na minha companhia. A divisão servia de lavandaria, casa de secagem e armazém e nela estava instalada a caldeira, o aparelho de ar condicionado, uma bancada com ferramenta, etc. O chão e as paredes eram de cimento nu e o tecto constituído por vigas, tubos e cabos eléctricos.

A inspecção dos cantos mais escuros nada nos revelou, com excepção de que Ann Campbell possuía um completo equipamento desportivo. À direita da bancada, a parede exibia uma prancha perfurada com múltiplos buracos, donde saíam ganchos de todas as formas e feitios.

Destes ganchos pendiam esquis, raquetes de ténis e de squash, um taco de basebol, equipamento de mergulho e sei lá mais o quê. Aparafusado à prancha, havia igualmente um cartaz, com cerca de dois metros de altura, mostrando Ann Campbell, em fato de combate, com todo o equipamento, a M-16 ao ombro, um radiotelefone no ouvido, inclinada sobre um mapa de campanha e consultando o relógio.

Apesar das pinturas de guerra que lhe cobriam o rosto, só um eunuco permaneceria insensível à subtil sexualidade desta foto. No cimo do cartaz, havia uma legenda: “Sincronizem a vossa vida.” E em baixo lia-se: “Contactem hoje mesmo o Serviço de Recrutamento do Exército.” Só não dizia: “Venham conhecer pessoas do sexo oposto na maior promiscuidade, dormir com elas, mergulhar nas torrentes e entregar-se a outros jogos íntimos e colectivos ao ar livre.” Bom, talvez eu estivesse a projectar as minhas fantasias sexuais nesta fotografia, mas o meu dedo mindinho segredava-me que os publicitários que haviam concebido este cartaz, estavam conscientes de qual seria a minha reacção. Indiquei-o a Cynthia com um aceno de cabeça e perguntei:

- O que achas?

Ela encolheu os ombros.

- Um belo cartaz - acabou por responder.

- Apercebes-te da mensagem sexual implícita?

- Não, mostra-ma.

- Bom... Não posso, exactamente porque está implícita.

- Nesse caso, explica.

Sentia-me preso no anzol.

- Uma mulher com uma espingarda, que é um símbolo fálico. O mapa e o relógio sugerem o desejo inconsciente de fazer sexo, mas segundo as condições dela, no local e à hora que escolher. Está a falar com um homem pela rádio, dando-lhe as coordenadas e indicando-lhe que tem quinze minutos para a encontrar.

Cynthia consultou o relógio de relance e informou-me:

- Acho que é a altura de irmos embora, Paul.

- Tens razão.

Começámos a subir as escadas, mas depois olhei para trás na direcção da cave e disse.

- A cave devia ser maior. Falta-nos ver algo.

Como que pegando numa deixa, dirigimo-nos ao painel perfurado, a única divisória que não era de cimento. Bati com os punhos, empurrei, mas as tábuas pareciam sólidas, pregadas a uma estrutura que se divisava através dos minúsculos orifícios. Peguei num comprido furador que se encontrava em cima da bancada e enfiei-o num dos buracos, mas embateu num objecto duro. Fiz mais pressão e enterrou-se numa superfície mole, que não era de cimento. Virei-me para Cynthia:

- É uma falsa divisória. Não há parede por detrás.

Sem uma palavra, ela agarrou na estrutura de madeira e empurrou. O cartaz rangeu sobre gonzos invisíveis, mostrando um rectângulo escuro que se recortava no vazio. Coloquei-me rapidamente ao lado dela e ficámos ali, de costas viradas para as luzes fluorescentes da cave.

Decorreram uns segundos sem que fôssemos perfurados por balas. Os meus olhos adaptaram-se gradualmente ao espaço escuro e comecei a distinguir alguns objectos que se assemelhavam a móveis. O brilho de um relógio digital emitia uma ínfima claridade na divisão, que avaliei como tendo cinco metros de largura e entre doze a quinze de comprimento, a toda a profundidade da casa, desde as traseiras até à frente.

Devolvi a arma a Cynthia e apalpei a parede, em busca de um interruptor.

- É provavelmente aqui que os Campbell escondem o demente da família.

Os meus dedos encontraram um botão, que acendeu um candeeiro de mesa, revelando-nos um quarto inteiramente mobilado e equipado. Arrisquei um passo em frente e ao mesmo tempo, pelo canto do olho, olhei para Cynthia, que, deitada de bruços no chão, varria o quarto com a sua arma.

Depois de me ter ajoelhado e espreitado por baixo da cama, inspeccionei o roupeiro e a seguir uma pequena casa de banho à direita.

Cynthia levantou-se e virei-me na sua direcção.

- Muito bem. Aqui estamos.

- Havia uma cama de casal, uma mesa-de-cabeceira, uma cómoda, uma mesa com uma aparelhagem estéreo, um televisor, uma câmara de vídeo assente num tripé e, no chão, uma carpete felpuda, que não estava tão limpa como as restantes da casa. As paredes apresentavam-se revestidas de madeira clara e ao fundo, à esquerda, via-se uma espécie de maca de hospital com rodas, adequada, por exemplo, a massagens.

Reparei num espelho grande colocado no tecto, por cima da cama, e a porta aberta do roupeiro revelava uma colecção de artigos transparentes e rendados capazes de fazerem corar um legionário, além de uma bonita farda de enfermeira que Ann Campbell decerto não usava no hospital, uma saia e um colete de cabedal preto, um vestido de cetim vermelho género prostituta e, pormenor interessante, um uniforme de combate idêntico ao que devia ter vestido quando fora morta.

Cynthia, Miss Sensata, passeava um olhar um tanto sombrio pelo quarto, como que desiludida com Ann Campbell, a título póstumo.

- Deus do céu...

- A forma como morreu parece estar, de facto, ligada à maneira como viveu - comentei. - Mas não tiremos conclusões precipitadas.

A casa de banho não estava tão limpa como as outras da residência e o armário de medicamentos continha um diafragma, preservativos, espermicidas e contraceptivos de todo o género - os suficientes para provocar uma crise de natalidade no subcontinente indiano.

- Não é suposto usarem apenas um método? - inteirei-me.

- Depende da disposição.

- Percebo.

Além dos contraceptivos, havia elixir, escovas de dentes de várias cores, pasta e seis borrachas de clister. Não me parece que uma pessoa que comesse tanta soja, pudesse ter problemas de prisão de ventre.

- Céus! - suspirei, pegando num frasco de gel de banho com cheiro a morango, não propriamente o meu favorito.

Cynthia saiu da casa de banho e espreitei para dentro do duche, que não era a imagem da limpeza. A toalha ainda estava húmida, o que era interessante.

Fui ter com Cynthia ao quarto. Ela inspeccionava o conteúdo da mesa-de-cabeceira: gel contraceptivo, lubrificantes, manuais de sexo, um vibrador de pilhas e outro de borracha de enormes dimensões.

No cimo da falsa divisória que separava este quarto do resto da cave havia uma série de instrumentos de cabedal e, no chão, viam-se correias, um chicote e, bizarramente ou talvez não, uma comprida pena de avestruz. Algumas fantasias que me ocorreram involuntariamente fizeram com que o sangue me afluísse ao rosto.

- Interrogo-me sobre para que é que serve tudo isto - surpreendi-me, alheado.

Cynthia não fez comentários, mas parecia fascinada pelas algemas.

Puxei a roupa da cama para trás e vi que o lençol de baixo parecia um tanto usado. Viam-se pêlos púbicos, manchas e resíduos dermatológicos suficientes para manter o laboratório ocupado durante uma semana.

Notei que Cynthia também examinava o lençol e interroguei-me sobre o que lhe iria em mente. Resisti ao impulso de comentar “bem te tinha dito!”, porque, em certa medida, quase esperara que não encontrássemos nada. De facto, já criara uma certa e secreta ternura por Ann Campbell e, embora seja muito tolerante em relação ao comportamento sexual das pessoas, compreendo que os outros não o sejam.

- Sabes? Sinto-me um tanto aliviado por verificar que ela não era assexuada, a rapariga andrógina que o cartaz exibe.

Cynthia fitou-me e esboçou um leve aceno de cabeça.

- Um caso interessante para um psiquiatra, de desdobramento de personalidade - acrescentei.

“Por outro lado, quase todos levamos uma vida dupla, que acomode o nosso alter ego!” pensei.

- Ela própria era afinal psiquiatra, não? - concluí, ao mesmo tempo que escolhia uma cassete ao acaso e a metia no vídeo.

O ecrã iluminou-se e lá estava Ann Campbell com o seu vestido de cetim vermelho, adornada de jóias e com sapatos de salto alto. A cena desenrolava-se neste mesmo quarto. Uma gravação ou disco tocava The Stripper em surdina e ela começou a despir-se. Um homem, sem dúvida o que estava a filmá-la, gracejou:

- “Também fazes isso nos jantares do general?”

Ann Campbell sorriu e menou as ancas na direcção da câmara. Conservava apenas umas cuecas e um bonito sutiã francês, que se preparava para tirar, no momento em que, num acto de puritanismo, estendi a mão e desliguei o aparelho.

Examinei as outras cassetes e verifiquei que todas tinham etiquetas manuscritas e concisas como: “Fodendo com J.”, “Strip para B.”, “Exame ginecológico - R”, “Coito anal com J. S.”

- Acho que já vimos o suficiente por hoje - decidiu Cynthia.

- Ainda não.

Ao abrir a primeira gaveta da cómoda, descobri um monte de fotos que me apressei a examinar, convencido de que me saíra um jackpot. Pensei que encontraria alguns dos seus parceiros mas todas elas mostravam Ann Campbell em várias poses, eróticas e artísticas, na maioria dos casos obscenas.

- Onde estão os tipos?

- Atrás da máquina.

- Óbvio.

Encontrei, porém, num outro maço, a foto de um indivíduo robusto de cinto na mão, mas de cabeça tapada com um capuz de cabedal. Uma outra, tirada com um regulador de tempo ou por uma terceira pessoa, mostravam-na com um homem a montá-la. Numa terceira, um tipo nu estava algemado à parede, de costas para a câmara. Na verdade, todos eles - e havia pelo menos doze corpos diferentes - ou viravam as costas para a câmara ou usavam um capuz.

Não queriam obviamente mostrar a cara nas fotos que aqui deixavam e também não deviam possuir nenhuma com o rosto de Ann Campbell. As pessoas mostram-se, por regra, cuidadosas quando têm muito a perder. O amor z a confiança são uma coisa, mas aqui parecia-me tratar-se de pura lascívia. Se ela tivesse um companheiro que amasse e admirasse, decerto não o traria a este antro.

Cynthia também observou as fotos, só que lhes pegava como se fossem detentoras de uma doença sexualmente transmissível. Havia mais algumas de homens em atitudes muito shakesperianas, que iam desde “tanto barulho para nada” à “fera amansada”.

- Todos brancos, na sua maioria de cabelo castanho, alguns louros observei. - Achas que poderemos colocá-los numa fila para os identificar?

- Seria interessante - retorquiu Cynthia, ao mesmo tempo que voltava a arrumar as fotografias na gaveta. - Talvez não devêssemos permitir que a Polícia Militar revistasse este quarto.

- Tens razão. Espero que não o descubram.

- Vamos embora.

- Um minuto.

Abri as restantes gavetas da cómoda e descobri mais uma série de acessórios, coisas de obcecados, cuecas, cintos de ligas, um conjunto de cabedal e outros objectos que confesso desconhecer por completo. Sentia-me, de facto, um pouco embaraçado por estar a revistar tudo isto diante de Miss Sunhill, que devia começar a interrogar-se a meu respeito, pois ripostou:

- De que ainda andas à procura?

- De uma corda.

- Uma corda? Ah, sim...

E encontrei-a, enrolada na última gaveta. Peguei-lhe e examinei-a atentamente.

- É igual? - interessou-se Cynthia.

- Talvez. Assemelha-se muito à que encontrámos no cadáver. Uma corda de náilon verde do Exército, mas há milhões delas iguais por todo o país. Mesmo assim, não deixa de ser interessante.

A cama, de um modelo antigo com colunas, prestava-se a cenas de imobilização. Só conheço os desvios sexuais citados no manual da CID, mas sei que se trata de algo perigoso. Uma mulher robusta como Ann Campbell podia obviamente reagir se as coisas dessem para o torto, salvo se estivesse de braços e pernas afastados e amarrados, na cama ou por terra. Nesse caso, era bom que conhecesse bem o parceiro, ou algo podia acontecer, o que foi o caso.

Apaguei a luz e saímos do quarto. Cynthia voltou a colocar o cartaz no mesmo sítio e a fechar a divisória. Avistei um tubo de cola na bancada e apliquei-a ao longo da estrutura de madeira, para disfarçar o cenário. Desde que não se reparasse no espaço, o cartaz integrava-se inocentemente no cenário.

- Quase me deixei enganar - confessei. - Qual será o grau de perspicácia dos polícias militares?

- É mais uma questão de percepção de espaço do que de acuidade intelectual, e se não forem eles a descobrir, será a polícia civil. Alguém pode querer levar o cartaz - acrescentou. - Ou deixamos que a Polícia Militar esvazie o quarto ou colaboramos com a polícia local antes de porem cadeados por todo o lado.

- Nem uma coisa nem outra, corremos o risco. Este quarto será o nosso Segredo. De acordo?

- De acordo, Paul. Esperemos que o teu instinto não te tenha enganado.

Seguiu-me ao longo das escadas, apagou as luzes e fechou a porta. Ao chegar à sala da frente, disse-me:

- O teu instinto não te enganou quanto a Ann Campbell.

- Bom, achei que teríamos sorte se encontrássemos um diário e algumas cartas de amor, não esperava uma porta secreta que desse para um quarto decorado para Madame Bovary pelo marquês de Sade. Penso que todos precisamos do nosso espaço - acrescentei. - O mundo seria, na verdade, um sítio melhor se tivéssemos uma sala onde dar azo às nossas fantasias.

- Depende do guião, Paul.

- Exacto.

- Saímos pela porta principal, entrámos no Mustang de Cynthia e regressámos à base, passando por uma fila de camiões que saía no momento em que nos aproximámos.

Durante o caminho, mantive-me imerso nos meus pensamentos, olhando através da janela. “Coisas bizarras encontradas por detrás de um cartaz de apelo ao recrutamento no Exército”, pensei. E tal constituiria uma metáfora para este caso: belos uniformes, chapas reluzentes, a disciplina e a honra militares, homens e mulheres acima de qualquer suspeita, mas, se se forçasse um pouco, se se abrisse a porta exacta, encontrar-se-ia uma profunda corrupção, tão suja quanto a cama de Ann Campbell.

 

 

                                                CAPÍTULO SETE

 

Ao volante do automóvel, Cynthia dividia as atenções entre a estrada e o livro de endereços de Ann Campbell, sem se preocupar muito com a primeira.

- Dá-me isso - pedi.

Atirou-mo para o colo num gesto propositadamente agressivo.

Folheei o livro de lombada grossa e cabedal usado. Abarrotava de nomes e moradas, escritas com uma caligrafia nítida e grossa, por vezes riscados e anotados à frente com novas coordenadas, segundo as pessoas mudavam de postos de trabalho, casa, mulheres, cônjuges, unidades, países ou se, por acaso, haviam falecido. Na verdade, vi dois deles com a indicação de “morto em combate”.

Era a típica agenda do militar de carreira, contendo nas suas páginas o escoar do tempo e a geografia do mundo, sem dúvida o livro de endereços oficial e não a pequena agenda preta que nos faltava encontrar. Contudo, tinha quase a certeza de que uma das pessoas aqui indicadas sabia algo. Se dispusesse de dois anos, poderia interrogá-las a todas.

Cabia-me, obviamente, entregar o livro de endereços ao quartel-general de Falis Church, Virgínia, donde o meu superior imediato, o coronel Karl Gustav Hellmann, o enviaria para todo o mundo, gerando uma montanha de processos verbais de interrogatórios. E talvez, após a consulta, resolvesse não dar seguimento aos processos.

O meu “patrão” é de origem alemã e nasceu perto de uma guarnição militar a pouca distância de Frankfurt. À semelhança de muitas crianças esfaimadas pertencentes a famílias devastadas pela guerra, tornara-se uma espécie de mascote das tropas americanas e acabara por se alistar, a fim de sustentar os seus. Há uns anos, o Exército contava entre as fileiras um grande número destes alemães fervorosamente rendidos à causa americana. Muitos deles chegaram a oficiais e alguns ainda se encontram no activo. São, por regra, excelentes militares, que satisfazem em pleno, mas os que trabalham sob as suas ordens já não têm tanta sorte. Contudo, basta de lamúrias, Karl é eficiente, dedicado, leal, honesto e correcto em toda a acepção da palavra. Só o vi cometer um erro - e foi no dia em que achou que eu gostava dele -, mas respeito-o e seria capaz de lhe confiar a vida, o que, aliás, já fiz.

Este caso precisava de um atalho por onde pudéssemos chegar rapidamente ao fim, antes que tanto carreiras como reputações fossem pelo cano. Ensina-se aos soldados que matem num certo contexto, mas em serviço constitui, sem dúvida, uma bofetada em pleno rosto da ordem e da disciplina. Este tipo de comportamento suscita questões indesejáveis: onde se situa o limite entre o grito de guerra bárbaro do ataque à baioneta e a vigia inofensiva do tempo de paz? Um bom militar deve sempre respeitar a hierarquia, a idade e o sexo, também isto está escrito no manual do soldado perfeito.

O melhor que podia esperar relativamente a este caso era que o crime tivesse sido cometido por um civil sem eira nem beira e com um cadastro de dez anos. O pior que podia imaginar era... bom, os primeiros indícios já se posicionavam nessa direcção.

Cynthia comentou, a propósito do livro de endereços:

- Ela tinha montes de amigos e conhecimentos.

- E tu não?

- Não, no meu tipo de trabalho.

- Certo.

Na verdade, nós vivíamos um tanto à margem da vida militar, o que reduzia a quantidade de colegas e amigos. Os polícias tendem a manter-se reservados e, quando se exerce essa função no Exército, não se tem oportunidade de fazer amigos, além de que, no capítulo das relações com o sexo oposto, elas são tão breves e passageiras quanto a missão em causa.

A cidade de Midland situa-se, oficialmente, a seis quilómetros de Fort Hadley, mas expandiu-se de tal maneira ao longo de Victory Drive que os centros comerciais, vivendas e stands de carros de todo o género chegam até à entrada da base, tornando-a semelhante à Porta de Brandenburgo, separando a abundância caótica do comércio livre da austeridade espartana do campo militar. Para lá deste limite não é permitida a lata de cerveja.

O Mustang de Cynthia, que, segundo eu notara, tinha um autocolante de visitante, atravessou o portão sob o olhar benevolente de uma sentinela e, minutos depois, chegámos ao centro da base, onde o trânsito e o estacionamento denotam apenas uma ligeira melhoria por comparação à baixa de Midland.

Cynthia arrumou o carro em frente do quartel da Polícia Militar, um velho edifício de tijolo, um dos primeiros construídos em Fort Hadley, na altura designado como Campo Hadley, aquando da Primeira Guerra Mundial.

Julgámos que nos aguardavam, mas, dado estarmos vestidos, eu com a farda de sargento e Cynthia à paisana, tivemos de esperar um momento antes de obtermos ingresso no gabinete de Sua Majestade. Desde o início deste caso que as hesitações e subterfúgios do coronel Kent me desagradavam.

Perguntei-lhe à queima roupa:

- Possui o controlo da situação, coronel?

- Francamente, não.

Pelo menos, tinha o mérito da franqueza.

- E porque não?

- Porque você está a guiar-se apenas pela sua cabeça, com base nos meus recursos humanos e logísticos.

- Então, controle-me.

- Deixe de se armar em bom, Paul.

Lançámo-nos, assim, numa discussão um tanto acerba, mas clássica, sobre a comparação entre o honesto agente uniformizado que trabalha à luz do dia e o investigador em missão na clandestinidade.

Cynthia escutou-nos pacientemente durante um minuto e depois interferiu:

- Coronel Kent, senhor Brenner, há o cadáver de uma mulher no meio de uma carreira de tiro. Foi assassinada, sem dúvida violada, e o assassino anda à solta.

Esta declaração chamou-nos à realidade e, depois de baixarmos a cabeça, apertámos a mão. Kent dirigiu-se-me:

- Dentro de cinco minutos estarei no gabinete do general Campbell com um capelão e um médico. O número de telefone particular da vítima foi comunicado a Jordan Field e a equipa forense ainda se encontra no local. Tem aqui os relatórios pessoais e clínicos de Ann Campbell. O relatório dental está com o médico legista, que também deseja acesso à ficha clínica. Portanto, necessito que a devolva.

- Basta fazer uma fotocópia - sugeri. - Tem a minha autorização. Faltou pouco para que retomássemos a discussão, mas Cynthia voltou a interferir:

- Eu fotocopio esse maldito relatório.

Regressámos, por conseguinte, aos assuntos sérios depois desta interrupção. Kent conduziu-nos a uma sala de interrogatório ou sala de entrevistas, em linguagem jornalística, e perguntou:

- Com quem querem falar em primeiro lugar?

- Com o sargento Saint-John - respondi. - As patentes têm alguns privilégios.

- Quando o sargento foi introduzido na sala, indiquei-lhe uma cadeira em frente de uma mesinha, a que eu e Cynthia nos sentávamos, e procedi às apresentações:

- Esta é Miss Sunhill, eu sou Paul Brenner.

Fixou o olhar na minha chapa de identificação com o nome de White, no HHCU uniforme e nos galões de sargento, e, depois de um instante de perplexidade, compreendeu:

- Oh... a CID.

- Não interessa - prossegui. - Dado não ser suspeito neste caso, torna-se inútil ler-lhe os seus direitos ao abrigo do artigo trinta do Código de Justiça Militar. Encontra-se aqui como testemunha para responder às minhas perguntas com toda a verdade e sinceridade. Contamos, naturalmente, com a sua colaboração. Se durante esta entrevista fizer qualquer afirmação que o torne suspeito aos meus olhos ou aos de Miss Sunhill, lemos-lhe os seus direitos e, a Partir desse momento, poderá manter o silêncio. Compreende?

- Sim, sir.

- Óptimo.

Durante cinco minutos, orientei a conversa para questões irrelevantes, o tempo de o analisar. Saint-John era um homem de uns cinquenta e cinco anos, um pouco calvo e de tez rosada, obviamente devida à cafeína, nicotina e álcool. Uma carreira consagrada na totalidade à manutenção do material, levava-o a encarar a vida apenas como um problema de conserva cuja solução se encontrava algures no manual. Provavelmente não lhe ocorrera que algumas pessoas precisam, por vezes, de algo mais do que uma mudança de óleo e uma revisão para ficarem em melhores condições.

Durante a minha conversa com Saint-John, Cynthia tirara algumas notas e, de súbito, ele perdeu a paciência:

- Ouça, sir. Sei que fui a última pessoa a vê-la com vida e sei que isso é importante, mas, se a tivesse morto, não comunicaria que encontrara o corpo, certo?

Tratava-se de uma afirmação com lógica e redargui:

- O último a vê-la viva foi o assassino, que foi também a primeira pessoa a vê-la morta. Você foi a segunda, certo?

- Sim... claro, sir... Só queria dizer...

- Gostaria que não pusesse o carro à frente dos bois, sargento. Faço-me entender?

- Claro, sir.

“Miss Compaixão” fez a habitual interferência:

- Sei que viveu uma experiência muito difícil, sargento, e que a descoberta do cadáver lhe provocou um choque, mesmo na sua qualidade de militar experiente... assistiu à guerra de muito próximo?

- Sim, no Vietname. Vi muitos mortos, mas nada que se parecesse com isto.

- É por esse motivo que, quando encontrou o corpo, nem queria acreditar no que via, certo?

Abanou vigorosamente a cabeça.

- Não, não acreditava nos meus olhos. Não me passava pela cabeça que pudesse ser ela. Não a reconheci logo, porque... nunca a tinha visto... assim. Nunca vi ninguém assim, céus! Estava uma noite clara por causa da Lua... avistei o jipe, saí do carro e, um pouco mais à frente, deparou-se-me... sabe, essa coisa deitada na carreira de tiro. Aproximei-me para ver o que era, compreendi o que se passava e precipitei-me para ver se ela estava morta ou viva.

- Ajoelhou-se junto ao corpo?

- Não, minha senhora. Afastei-me a toda a pressa, meti-me no carro e carreguei a fundo no acelerador.

- Tem a certeza de que ela estava morta?

- Reconheço um morto quando o vejo.

- A que horas saiu do quartel-general?

- Por volta das quatro da manhã.

- A que horas encontrou o cadáver? - inteirou-se Cynthia.

- Vinte, trinta minutos mais tarde.

- E parou noutros postos de vigia?

- Em alguns. Ninguém a tinha visto e acabei por concluir que começara pelo último, pelo que foi para lá que me dirigi de imediato.

- Alguma vez lhe passou pela cabeça que ela pudesse ter dado uma escapadela?

- Não.

- Tem a certeza, sargento?

- Não... não era o género dela, mas talvez a ideia me tenha ocorrido, lembro-me de pensar que podia ter-se perdido. Não é difícil, à noite.

- Ocorreu-lhe que pudesse ter sofrido um acidente?

- Também pensei nisso, minha senhora.

- Quando a encontrou, não ficou, portanto, muito surpreendido?

- Não muito.

Tirou um maço de cigarros do bolso e perguntou:

- Posso fumar?

- Claro, desde que engula o fumo e não dê baforadas.

Sorriu, acendeu um cigarro e desculpou-se diante de Cynthia por poluir a atmosfera. Se há algo de que não tenho saudades do Exército é das nuvens de fumo azuladas que pairavam por todo o lado, com excepção das áreas de combustível.

Interroguei-o por meu turno:

- Alguma vez lhe ocorreu a hipótese de violação, enquanto andava a procurá-la?

Ele esboçou um aceno afirmativo. Retomei a palavra:

- Era uma mulher bonita?

Deitou um olhar de relance a Cynthia e depois fitou-me:

- Muito bonita.

- Do género de tentar um violador?

Não tinha intenção de se alargar sobre a questão, mas expressou-se:

- Não era uma mulher de meias palavras. Sempre que um tipo avançava, punha-o no seu lugar. Toda a gente falava bem dela, era a filha do general.

Ele viria a saber outras coisas nos dias seguintes, mas era interessante constatar que, nas bocas do mundo, Ann Campbell, surgia como uma grande dama.

Saint-John acrescentou, zeloso:

- Algumas dessas mulheres, como, por exemplo, as enfermeiras, deviam ser mais... decerto entende o que quero dizer.

Sentia que Cynthia estava a ficar agastada. Se tivesse tomates, ter-lhe-ia respondido que as mulheres da CID eram piores, mas, dado haver sobrevivido ao Vietname, não estava disposto a forçar a sorte. Regressei, portanto, à questão:

- Depois de ter descoberto o cadáver, porque não se dirigiu ao posto mais próximo para telefonar, aquele onde estava o soldado Mary Robbins?

- Não me ocorreu.

- E também não lhe ocorreu chamá-la ao local do crime?

- Não, sir. Estava em estado de choque.

- O que o levou a ir procurar Ann Campbell?

- Há muito tempo que se ausentara e não compreendia porque ainda não voltara.

- Tem por hábito controlar os actos e comportamentos dos oficiais superiores? - retomei.

- Não, sir, mas tinha o pressentimento de que algo estava errado.

- Porquê?

- Ela... ela... dera mostras de muito nervosismo durante toda a noite. Foi a vez de Cynthia:

- Pode descrever-me o seu comportamento?

- Bom... como disse, estava muito nervosa, desconcentrada, preocupada, talvez.

- Já a conhecia?

- Não muito bem, como toda a gente. Era a filha do general. Tinha feito publicidade de recrutamento na televisão.

- Já tivera ocasião de lhe falar antes dessa noite?

- Não, sir.

- Fora da base?

- Não, sir.

- Não pode, assim, comparar o seu comportamento normal com o daquela noite?

- Não, sir. Sei, contudo, quando alguém está preocupado. Ela era uma mulher fria - acrescentou, dando provas de uma intuição que não lhe era por regra peculiar. - Reparei na sua maneira de actuar, racional e eficiente, mas de vez em quando parecia alheada. Vi que algo a preocupava.

- Fez-lhe algum comentário a esse respeito?

- Claro que não, foda-se. Ela arrancava-me a cabeça - acrescentou, dirigindo a Cynthia um sorriso tímido, que demonstrava vinte anos de sevícias nas mãos de dentistas militares. - Desculpe, minha senhora.

- Esteja à vontade - incitou Cynthia com um sorriso que denotava a impecável higiene de estomatologistas civis.

E, na verdade, ela estava mesmo por dentro da realidade: estes velhos militares não conseguiam expressar-se sem palavrões. Cynthia prosseguiu o interrogatório:

- Ela fez ou recebeu qualquer telefonema durante a noite?

Boa pergunta, mas eu já sabia a resposta, antes de Saint-John a dar:

- Na minha frente, não telefonou. Contudo, pode tê-lo feito, enquanto me ausentei. Recebeu, porém, uma chamada e pediu-me que saísse.

- Por volta de que hora?

- Oh... uns dez minutos antes de ir verificar a guarda.

- Escutou a conversa? - perguntei.

Ele abanou vigorosamente a cabeça.

- Não, sir.

- Responda-me, sargento. A que distância parou quando se aproximou do corpo?

- Bom... uns metros.

- Não entendo como, a essa distância, pôde concluir que ela estava morta.

- Foi o que me pareceu... ela tinha os olhos muito abertos... chamei-a.

- Estava armado?

- Não, sir.

- Não é suposto usar uma arma quando está de serviço?

- Esqueci-me de a levar.

- Avistou, portanto, o corpo, teve a impressão que ela estava morta e afastou-se.

- Correcto, sir. Devia ter examinado mais de perto.

- Sargento, você encontra uma mulher nua, estendida no chão, um oficial superior, alguém que conhecia, e nem mesmo se debruça sobre o corpo para verificar se ela estava viva ou morta?

Cynthia deu-me uma leve cotovelada por baixo da mesa. Agora que eu havia encarnado a personagem do polícia mau, restava-me deixar a testemunha com o bom.

- Prossigam os dois - disse, levantando-me. - Já volto.

Dirigi-me às celas de detenção, onde o soldado Mary Robbins, descalça e deitada em cima do catre, lia o jornal da base, uma esforçada publicação semanal do Serviço de Informação, onde apenas constam notícias de um absoluto optimismo. Interrroguei-me sobre que terminologia asséptica usariam para anunciar o homicídio e a violação da filha do general. Talvez: “Jovem mulher não identificada vítima de catalepsia na carreira de tiro.”

Empurrei a porta da cela e entrei. O soldado Robbins ergueu os olhos e fitou-me uns momentos, antes de pousar o jornal e de se sentar com as costas encostadas à parede.

- Bom dia. Chamo-me Paul Brenner e pertenço à CID - apresentei-me. - Gostava de lhe fazer umas perguntas sobre a noite anterior. - Ela inspeccionou-me com um ar desconfiado.

- A sua chapa indica o nome de White.

- É uma farda de empréstimo.

Sentei-me na cadeira de plástico.

- Não é suspeita neste caso - comecei, pondo-me a debitar o meu discurso, que não pareceu impressioná-la.

Fiel à minha técnica habitual, lançei-me numa conversa mole que apenas recebeu monossílabos como resposta. Durante todo esse tempo, estudei a minha interlocutora. Teria uns vinte anos, cabelos louros e curtos, uma aparência cuidada e olhos vigilantes, tendo em conta a noite passada em claro. Nada mal fisicamente, no conjunto. Devido ao acentuado sotaque sulista, presumi que Seria natural de uma região próxima e de origem modesta. Encontrava-se, obviamente, acima dos novos recrutas e no começo de uma carreira. Fui, pois, directo ao assunto:

- Esteve com Ann Campbell ontem à noite?

- Apareceu na casa da guarda por volta das vinte e duas horas. Falou com o oficial de ronda.

- Reconheceu-a?

- Toda a gente a conhecia.

- Voltou a vê-la?

- Não.

-- Não se apresentou no seu posto?

- Não.

- A que horas entrou ao serviço no depósito de munições?

- A uma da manhã, para ser substituída às cinco e trinta.

- Entre o momento em que entrou ao serviço e a altura em que a Polícia Militar a foi buscar, alguém mais passou por lá?

- Não.

- Ouviu algo fora do normal?

- Sim.

- O quê?

- Pios de coruja. Não há muitas por estes lados.

- Percebo. Reparou em qualquer coisa de anormal?

- Sim.

- O quê?

- Luzes de faróis.

- Que faróis?

- Provavelmente os do jipe em que ela chegou.

- A que horas?

- As duas e dezassete.

- Descreva o que viu.

- Vi as luzes dos faróis. Pararam a alguma distância e apagaram-se.

- Logo a seguir à paragem do veículo ou um pouco mais tarde?

- Logo a seguir.

- O que pensou?

- Que era alguém que vinha ao depósito de munições.

- Mas pararam ainda longe.

- Sim, fiquei sem saber o que pensar.

- Passou-lhe pela cabeça assinalar o facto?

- Claro. Peguei no telefone e preveni.

- Quem?

- O sargento de serviço, chama-se Hayes.

- O que disse ele?

- Que não havia nada a roubar por estes lados, além do depósito de munições, e que me mantivesse no meu posto.

- O que lhe respondeu?

- Que não me parecia normal.

- E ele?

- Disse que havia uma latrina nas proximidades e que alguém podia ter ido usá-la. Acrescentou que podia tratar-se de um oficial que quisesse ter ido dar uma vista de olhos e... - Hesitou e depois acrescentou: - Disse ainda que há pessoas que vão até ali dar uma queca nas noites de Verão. Foram as suas palavras.

- Isso é sabido.

- Não gosto de palavreado mole.

- Nem eu.

Observei a jovem que tinha à minha frente. Era ingénua, espontânea, a testemunha ideal quando aliada a um certo poder de observação que indubitavelmente possuía, inato ou adquirido. Contudo, a sua posição de subalterna levava-a a sufocar o poder de iniciativa. Encorajei-a:

- Sabe o que aconteceu a Ann Campbell?

- Ela esboçou um aceno afirmativo.

- Fui indigitado para descobrir o assassino.

- Constou-me que também foi violada.

- É possível e é esse o motivo por que precisava que me contasse coisas sem que me perguntasse. Não deve contentar-se em responder às minhas perguntas. Fale-me dos... seus sentimentos, das suas impressões.

O rosto da rapariga revelou uma certa emoção. Mordeu o lábio inferior e uma lágrima correu-lhe pela face.

- Devia ter ido ver o que se passava. Teria podido interferir. Esse estúpido do sargento Hayes...

Chorou em silêncio durante um longo minuto em que me mantive sentado, sem erguer os olhos.

- Recebera ordens de ficar no seu posto até ser devidamente substituída, certo? Obedeceu às ordens recebidas.

Ela conseguiu recompor-se e prosseguiu:

- Sim, mas alguém com um pouco de bom senso e uma arma teria ido ver o que se passava. E quando os faróis não voltaram a acender-se, fiquei ali parada como uma idiota, sem me atrever a telefonar de novo ao sargento. Em seguida, ao ver os faróis de outro veículo que entretanto chegou e ao perceber que o carro voltou a partir no sentido contrário como se o condutor fosse perseguido pelo diabo, compreendi que algo se passava.

- Que horas eram?

- Quatro e vinte e cinco da manhã.

Era a hora a que Saint-John afirmava ter descoberto o corpo.

- Não avistou outras luzes entre as duas e dezassete e as quatro e vinte e cinco?

- Não, só um pouco mais tarde, cerca das cinco da manhã, quando um polícia militar encontrou o corpo. Quinze minutos depois, veio comunicar-me o que acontecera.

- Conseguia ouvir todos os veículos à distância a que estava?

- Não.

- E o bater de portas?

- Se o vento estivesse a meu favor, mas soprava no sentido contrário.

- Caça?

- Sim.

- O quê?

- Gambás, esquilos, coelhos.

- Aves?

- Não. Gosto demasiado delas.

- Obrigado, ajudou-me muito - agradeci, levantando-me.

- Duvido.

- Eu não.

Ao chegar junto à porta da cela, virei-me:

- Se permitir que volte ao quartel, dá-me a sua palavra de que não falará deste assunto a ninguém?

- A quem devo supostamente dar a minha palavra?

- A um oficial do Exército dos EUA.

- Tem galões de sargento e nem sequer sei se me disse o seu nome verdadeiro.

- Donde é a sua família?

- De Lee County, no Alabama.

- Tem uma semana de férias. Deixe um número de telefone ao seu comandante.

Regressei à sala de interrogatório, onde fui encontrar Cynthia sozinha, com a cabeça entre as mãos, absorta nas suas notas ou meros pensamentos.

Comparámos as nossas entrevistas e concluímos que a morte se verificara entre as duas e dezassete e as quatro e vinte e cinco da manhã. Era de supor que o ou os assassinos já se encontravam no local ou vinham no jipe com Ann Campbell. Se o criminoso tivesse chegado no seu carro, não acendera os faróis ou estacionara a alguma distância do posto onde Mary Robbins estava de vigia.

Nesta altura do raciocínio, ponderava a hipótese de que Ann Campbell o ou os recolhera no seu carro e o ou os levara até à carreira de tiro, sem afastar a hipótese de um rendez-vous combinado antecipadamente no local do crime. O encontro casual parecia menos plausível, tendo em consideração que Ann apagara os faróis assim que chegara. Se tivesse sido atacada de surpresa, decorreria um espaço de tempo entre a chegada do veículo e o apagar das luzes.

- Se se tratava de uma escapadela ou de um encontro secreto, porque não rolar pura e simplesmente às escuras? - inquiriu Cynthia.

- Sem dúvida para não chamar as atenções. Ela tinha um motivo legítimo para andar pelas redondezas. Se fosse apanhada sem luzes por uma patrulha, estes tê-la-iam mandado parar e interrogado.

- Certo. Contudo, Mary Robbins foi alertada pelas luzes. Porque não parou então Ann Campbell primeiro no depósito de munições para a tranquilizar, seguindo depois para o rendez-vous?

- Boa pergunta.

- E, aliás, porquê marcar um encontro a um quilómetro de um posto de guarda? Sítios apropriados não faltam nesta base.

- Certo, mas ali há aquela latrina com água corrente. Segundo Robbins, que recebeu a informação do sargento, é um sítio onde as pessoas vão frequentemente para dar uma queca. Supostamente, querem lavar-se depois.

- Bom. Não é de excluir a hipótese de ter sido atacada por um psicopata que não se desse conta da proximidade de um posto de guarda.

- Só que as pistas de que dispomos sugerem outra via.

- E porquê escolher uma noite em que Ann Campbell estava de serviço?

- Para dar um pouco mais de picante. Ela demonstrou gostar de sensações fortes.

- E também que desempenhava conscienciosamente as suas funções. O resto fazia parte da sua segunda vida.

Esbocei um aceno de concordância.

- Bem visto. Achas que Saint-John nos esconde alguma coisa?

- De qualquer maneira, não nos escondeu as suas opiniões. Disse-nos tudo o que sabia. E Robbins?

- Contou-me mais do que julgava saber. É uma rapariga bastante gira.

- Com idade bastante para ser tua neta, também.

- Provavelmente virgem.

- Bom, nesse caso é melhor que se ponha a milhas.

- Não achas que estamos, afinal, a massacrar-nos?

- Ela massajou as fontes.

- Desculpa, mas foste tu a provocar-me!

- Proponho que vás almoçar, enquanto eu telefono a Karl Gustav. Se ele souber desta história por outra pessoa, manda-me fuzilar.

- De acordo. - Levantou-se e acrescentou: - Mantém-me ao corrente, Paul.

- Isso depende de Herr Hellmann.

- E também de ti - retorquiu, dando-me uma cotovelada no estômago. Diz-lhe que precisas de mim.

- E se não quiser?

- Mas queres.

Acompanhei-a até ao carro. Quando ela já estava ao volante, disse-lhe:

- Apreciei estas seis horas e vinte minutos de trabalho em conjunto.

- Obrigada - agradeceu com um sorriso. - Pessoalmente, apenas usufruí de catorze minutos. Onde e quando voltamos a encontrar-nos?

- Aqui, às duas da tarde.

Cynthia arrancou e fiquei a ver o Mustang vermelho a afastar-se por entre o trânsito do meio-dia.

De volta ao edifício da Polícia Militar, descobri onde se encontrava o gabinete que requisitara. Kent tinha-me instalado numa divisão sem janelas, equipada com duas secretárias, duas cadeiras, um armário e o espaço suficiente, entre os móveis, para um cesto de papéis.

Sentei-me a uma das secretárias, folheei o livro de endereços e depois coloquei-o de lado para reflectir. Não no caso propriamente dito, mas nas suas implicações, nas relações interpessoais e na táctica a adoptar para melhor me proteger. Depois, concentrei-me na questão.

Antes de telefonar a Hellmann, tinha de fazer o ponto da situação e guardar as minhas teorias e opiniões para mim próprio. Karl cinge-se aos factos, mas tem em conta as apreciações pessoais, se puderem de alguma forma ser utilizadas contra um suspeito. Contudo, não é um animal político e os problemas Subjacentes ao caso não o impressionariam.

Na área de gestão do pessoal, parte do princípio de que todos irão colaborar, se ele der ordens nesse sentido. No ano anterior, em Bruxelas, pedira-lhe que não me atribuísse qualquer caso ou continente em que corresse o risco de Encontrar Cynthia Sunhill, e expliquei-lhe que havíamos tido uma ligação. Ele não entendera o significado da palavra, mas garantira-me que poderia eventualmente pensar no assunto.

Peguei, assim, no auscultador e telefonei para Falis Church, encantado com a ideia de poder estragar o dia a Karl Hellmann.

 

 

                                              CAPÍTULO OITO

 

O Oberfúhrer estava no seu gabinete e Diane, a estenodactilógrafa, passou-me a chamada.

- Olá, Karl.

- Olá, Paul - respondeu com um leve sotaque alemão.

Informei-o sem delongas:

- Houve um crime aqui.

- Ah, sim?

- A filha do general, Ann Campbell, que tinha a patente de capitão.

Dado o silêncio, continuei:

- Talvez violada e sem dúvida vítima de abusos sexuais.

- Na base?

- Sim. Numa das carreiras de tiro.

- Quando?

- Hoje, entre as duas e dezassete e as quatro e vinte e cinco da manhã. Após todas as outras perguntas, só lhe restava fazer a última: porquê.

- Motivo?

- Desconhecido.

- Suspeitos?

- Nenhum.

- Circunstâncias?

- Estava de serviço e foi fazer a ronda pelos postos de guarda. Forneci-lhe os detalhes, comuniquei-lhe o meu envolvimento através do coronel Kent, o meu encontro com Cynthia Sunhill, a nossa inspecção do local do crime e da casa da vítima, apenas lhe ocultando o palácio das delícias descoberto na cave. Sabia que a nossa conversa podia estar a ser gravada e não se tratava, afinal, de uma informação prioritária. Porquê, então, colocar Karl numa situação difícil?

Manteve-se um instante calado e depois declarou subitamente:

- Quero que volte ao local do crime, depois de terem levado o cadáver, e prenda Miss Sunhill ao chão com as mesmas estacas.

- Desculpe?

- Não vejo nenhuma razão para que uma jovem de boa saúde não se liberte das estacas.

Eu, sim. As estacas estavam enterradas a alguma distância do corpo, Karl. Ela não dispunha de alavanca, sobretudo com uma corda enrolada à volta do pescoço, e, além disso, creio... a minha teoria é a de que tudo começou por um jogo.

- Talvez sim ou talvez não. Todavia, ela, deve ter-se apercebido, a certa altura, que deixara de ser um jogo. Sabemos, por experiências passadas, que uma mulher pode dar provas de uma força extraordinária quando a sua vida está em perigo. Talvez estivesse drogada. Há que procurar vestígios de sedativos. Entretanto, juntamente com Miss Sunhill, tente encenar o crime do princípio ao fim.

- Refere-se a uma simulação, espero.

- Claro, não a viole, nem a estrangule.

- Transmitir-lhe-ei a sua sugestão, Karl.

- Não é uma sugestão, é uma ordem. Agora, conte-me com mais pormenor o que encontrou na casa de Ann Campbell.

Obedeci e ele não teceu quaisquer comentários sobre o facto de eu não ter notificado as autoridades civis. Ante o seu mutismo a este respeito, inquiri:

- Pela sua parte, vê qualquer inconveniente em que eu tenha entrado na casa dela e a esvaziasse?

- A nível de relatório, preveniu uma autoridade competente que aprovou ou foi mesmo ao ponto de sugerir esse tipo de acção. Aprenda a proteger-se, Paul. Nem sempre estarei por perto para o fazer. Agora, tem cinco segundos para dar livre curso aos seus fantasmas homicidas.

Aproveitei os cinco segundos para me deleitar a imaginar-me com as mãos à volta do pescoço de Karl, a língua dele protuberante, os olhos desorbitados...

- Acabou?

- Mais um segundo. - ... a pele adquirindo um tom violáceo, o último esticão e, finalmente... - Estou de volta.

- Bom. Deseja a intervenção do FBI?

- Não.

- Quer a ajuda de outro investigador do nosso gabinete ou do nosso destacamento em Hadley?

- É mesmo inútil avançar. Nem sequer quero este caso.

- Porque não?

- Ainda tenho um outro por resolver aqui mesmo.

- Resolva-o.

- Karl... decerto compreende que se trata de um assunto extremamente delicado... muito...

-Tinha qualquer envolvimento pessoal com a vítima?

- Não.

- Envie-me por faxe um relatório preliminar que deverá estar na minha secretária às dezassete horas de hoje. Diana dará um número ao dossiê. Mais alguma coisa?

- Sim. Há os media, o relatório oficial do Ministério da Defesa, o do Tribunal Militar, o do Ministério da Justiça, as declarações pessoais do general Campbell e as da mulher, as funções de comandante de base que o general deve continuar a exercer, o...

- Preocupe-se apenas com a investigação.

- Era o que eu queria ouvir.

- Já ouviu. Algo mais?

- Sim, quero que Miss Sunhill seja afastada do caso.

- Não fui eu a designá-la. Porque se ocupa dele?

- Pelo mesmo motivo do que eu, ou seja, estávamos no local. Não tínhamos qualquer ligação com a hierarquia ou o pessoal da base. Kent pediu-nos que o ajudássemos até que uma equipa fosse indigitada.

- Está oficialmente designado. Porque não a quer no caso?

- Não nos damos bem.

- Nunca trabalharam juntos. Qual é, pois, o motivo desse desencontro?

- Tivemos um relacionamento pessoal no passado. Ignoro quais são as suas capacidades profissionais.

- É uma mulher muito competente.

- Não tem experiência em homicídios.

- Nem você em matéria de violação. Estamos na presença de um crime com violação e vocês formarão uma óptima equipa.

- Julguei que já tínhamos discutido este assunto, Karl. Aliás, prometeu-me não nos designar para uma missão no mesmo local e ao mesmo tempo. Que faz ela em Fort Hadley?

- Nunca fiz uma promessa dessas. As necessidades do Exército sobrepõem-se a tudo.

- Perfeito. O Exército ficará mais bem servido se a mandar para qualquer outro lugar a partir de hoje. A missão dela aqui terminou.

- Eu sei. Recebi o relatório.

- E então?

- Aguarde um minuto.

Obedeci. Karl estava a dar provas de uma rara incompreensão e falta de sensibilidade. Mesmo sabendo que era a sua maneira de demonstrar a confiança que depositava em mim, teria gostado de algumas palavras amáveis, ouvi-lo admitir que o caso era particularmente difícil e não me tocara propriamente um brinde: “Sim, Paul, será delicado, perigoso, e indubitavelmente prejudicial para a sua carreira.” Talvez também uma palavra para a vítima e a família: “Um drama, sem dúvida, um drama. Uma mulher tão jovem, bonita e inteligente. Os pais devem estar desfeitos.” Enfim, um pouco de humanidade, Karl!

- Paul?

- Sim?

- Era Miss Sunhill noutra linha. Não fiquei surpreendido.

- Ela não tem de interferir nas minhas costas...

- Claro que a repreendi.

- Então compreende decerto porque eu não...

- Comuniquei-lhe que não quer tê-la como parceira. Ela afirma que está a discriminá-la por uma questão de sexo, idade e religião.

- O quê? Nem sequer sei a que religião pertence.

- Consta da chapa de identificação.

- Está a troçar de mim, Karl?

- Ela está a fazer-lhe uma acusação grave.

- Já lhe disse que é pessoal. Não nos damos bem.

- Deram-se muito bem em Bruxelas, ao que me consta.

- Vá-se lixar, Karl. Ouça. Quer que lhe conte a história?

- Não. Houve alguém de Bruxelas que se encarregou disso no ano passado, e Miss Sunhill há um minuto atrás. Espero dos meus oficiais que levem uma vida privada com dignidade. Não lhe peço que seja asceta, mas sim discreto e que não se comprometa nem ao Exército ou à sua missão.

- Nunca o fiz.

- Se o noivo de Miss Sunhill lhe tivesse metido uma bala na cabeça, eu é que ficaria com a castanha quente na mão.

- Seria sem dúvida o meu último pensamento, quando os meus miolos explodissem.

- Bom. Você é um profissional e vai estabelecer uma relação profissional com Miss Sunhill. Ponto final.

- Muito bem, coronel - redargui. - Ela é casada?

- Em que pode isso interessar-lhe?

- Trata-se de considerações pessoais.

- Nenhum dos dois tem vida privada até à resolução deste caso. Mais alguma coisa?

- Falou a Miss Sunhill da curiosa experiência a que quer que a submeta?

- Esse problema é seu.

Karl Gustav desligou e eu mantive-me uns minutos sentado a reflectir nas minhas opções, que se resumiam a demitir-me ou a continuar. Tinha vinte anos de carreira, podia reformar-me, partir com metade do salário e refazer a minha vida.

Há várias formas de terminar uma carreira militar: a maioria dos homens e mulheres dedicam o último ano a uma missão sem história e caem no esquecimento; alguns oficiais ficam tempo de mais, nunca ascendem ao posto superior e acabam por lhes pedir amavelmente que se afastem; existe também uma minoria privilegiada, que se vai embora aureolada de glória; por fim, há ainda os que procuram um último momento de celebridade. Há que saber escolher a altura certa.

Independentemente destas considerações ligadas à carreira, sabia que, se desistisse do caso, ele me perseguiria a vida inteira. Para ser franco, ignoro o que teria dito ou feito, se Karl tentasse afastar-me das investigações. Contudo, ele é um filho da mãe dotado de notável espírito de contradição. Bastou-me dizer que não queria o caso para me ver com ele entre mãos e o mesmo em relação a Cynthia. Karl é mais transparente do que julga.

Os dossiês de Ann Campbell esperavam-me em cima da secretária do novo gabinete e comecei pelo que dizia respeito à sua personalidade. Estes dossiês contêm toda a nossa carreira militar e podem ser elucidativos e interessantes. Cronologicamente ela ingressara em West Point há uns doze anos, formara-se entre os dez mais qualificados do curso, tivera direito à licença tradicional de trinta dias e ingressara, a seu pedido, no Instituto de Informações Secretas de Fort Huachuca, no Arizona.

Frequentara uma universidade em Georgetown, onde se diplomara em Psicologia, e pedira depois a integração no que chamamos um “sector operacional”, na verdade as operações psicológicas. Completara o curso exigido na John F. Kennedy Special Warfare School, em Fort Bragg, e juntara-se ao Quarto Grupo de Operações Psicológicas, também em Bragg. Daí partira para a Alemanha e regressara à base. Em seguida, o Golfo, o Pentágono, e, finalmente, Fort Hadley.

A avaliação sobre as suas prestações como oficial revelou-se, desde logo, excepcional, mas não fiquei surpreendido. Quanto ao coeficiente intelectual, os testes situaram-na na categoria dos génios, nos dois por cento da população acima do normal, mas durante a minha carreira profissional tinha visto muitos destes sobredotados acabarem como suspeitos nos meus dossiês, na maioria das vezes em casos de homicídio.

Os génios não são aparentemente muito tolerantes para os que os aborrecem ou incomodam e demonstram uma certa tendência para acreditar que não se encontram sujeitos às mesmas regras do que o comum dos humanos. Trata-se, frequentemente, de pessoas infelizes e irritáveis, por vezes marginais ou mesmo psicopatas, que se tomam por juizes ou autores de grandes obras. É nessa altura que vêm parar-me às mãos.

Neste caso, não se tratava de um suspeito, antes de uma vítima, membro deste restrito clube dos dois por cento. Talvez fosse um detalhe insignificante, mas o meu instinto segredava-me que Ann Campbell fora culpada de qualquer iniquidade antes de se tornar vítima.

Abri o dossiê clínico e fui direito à última página, que contém habitualmente informações de ordem psicológica. E encontrei o relatório de avaliação necessário para a admissão em West Point. O psiquiatra tinha escrito:

“Personalidade brilhante, equilibrada e fortemente motivada. Com base numa entrevista de duas horas e dados os resultados dos testes anexos, não constato qualquer tendência para o autoritarismo, nenhum distúrbio alucinatório, angústia patológica, distúrbio de personalidade ou sexual.”

O relatório declarava ainda que Ann Campbell não denotava aparentemente quaisquer problemas psicológicos que a impedissem de cumprir os seus deveres e obrigações na Academia Militar dos EUA. Era uma jovem americana normal de dezoito anos, o que quer que isso significasse na segunda metade do século XX.

A este relatório seguia-se um outro, mais curto, cuja data correspondia ao primeiro semestre do seu terceiro ano em West Point. Ann Campbell recebera ordens para consultar um psiquiatra da Academia, embora não estivesse indicado quem e porquê o exigira. O psiquiatra, um tal Dr. Wells, escrevera:

“O cadete Campbell foi-me enviado para avaliação e uma eventual terapia. Ela afirma que está perfeitamente e mostra-se pouco cooperativa, mas não a ponto de se justificar que eu escreva um relatório ao seu superior por insubordinação. Durante as nossas quatro entrevistas, cada uma com a duração aproximada de duas horas, declarou repetidamente que estava apenas fatigada pelo programa desportivo e educacional, ansiosa pelos resultados e notas e sobrecarregada de trabalho. Embora se trate de uma queixa muitas vezes formulada pelos cadetes do primeiro e do segundo anos, raramente se me deparou um tal estado de esgotamento físico nos estudantes do terceiro ano. Sugeri que o seu abatimento e angústia deviam ter uma outra causa, talvez um caso de amor ou problemas de natureza familiar. Garantiu-me que tudo corria bem em casa e que não tinha um caso amoroso, nem na Academia nem em qualquer outro lugar. Observei nesta jovem um peso nitidamente inferior ao normal, um óbvio nervosismo e sintomas incontestáveis de mal-estar e depressão. Chorou várias vezes durante as entrevistas, mas controlou-se de imediato e pediu desculpa pelas lágrimas. Em certos momentos, parecia prestes a revelar algo mais do que vulgares queixas de cadete, mas recuou sempre. Contudo, disse uma vez: “Pouco interessa que vá ou não às aulas. Não interessa o que faço aqui. De qualquer maneira, dão-me o diploma.” Perguntei-lhe se ela pensava que tal se devia a ser a filha do general Campbell e ela respondeu: “Não. Eles vão dar-me o diploma, porque lhes fiz um favor.” Quando lhe perguntei o que pretendia inferir e quem eram “eles”, respondeu: “Os da velha guarda.” Todas as minhas restantes perguntas ficaram sem resposta. Acredito que estávamos à beira da confissão, mas as entrevistas seguintes, inicialmente prescritas pelo seu comandante, foram canceladas sem qualquer explicação por uma autoridade superior cuja identidade desconheço. Na minha opinião, Ann Campbell precisa de submeter-se a uma terapia, voluntária ou involuntária. Na sua ausência, recomendo a constituição de uma junta de investigação psiquiátrica, que deverá decidir se é ou não conveniente afastá-la da Academia por questões de saúde. Recomendo, além disso, um exame médico e uma avaliação completos.”

Ao ler este relatório, interroguei-me, obviamente, como poderia uma jovem de dezoito anos, equilibrada e sentindo-se bem na sua pele, cair em depressão num espaço de vinte e quatro meses. A explicação podia facilmente residir na severidade de West Point, mas o Dr. Wells não acreditava que assim fosse, nem eu tão pouco.

Folheei o dossiê com a intenção de algum dia o ler de ponta a ponta. Quando estava prestes a fechá-lo, chamou-me a atenção um pedaço de papel entalado entre duas páginas. Decifrei as palavras manuscritas: “Aquele que combate os monstros devia estar atento para não se transformar num deles. Quando se contempla demasiado o abismo, é o abismo que nos contempla” (Nietzsche).

- Ignorava o que fazia aqui esta citação, mas enquadrava-se no dossiê de um oficial especializado em operações psicológicas e também no de um elemento da CID.

 

 

                                     CAPÍTULO NOVE

 

Não tinha qualquer desejo nem necessidade de ser o sargento Franklin White, obrigado a fazer a continência a todos os tenentes com quem me cruzava. Transpus, portanto, a pé, os oitocentos metros que me separavam da minha carrinha, dirigindo-me em seguida a Whispering Pines, a fim de trocar o uniforme por roupa de civil.

Ao passar diante do depósito de munições, não avistei o carro do sargento Elkins. Tive a desagradável impressão de que ele ia fechar o negócio nas minhas costas e rumar a paradeiro desconhecido, deixando-me o trabalho de explicar como permitira que algumas centenas de metralhadoras e lança-granadas tivessem ido parar às mãos de traficantes colombianos.

Contudo, cada coisa a seu tempo. Saí da base e meti pela auto-estrada. O trajecto até Whispering Pines demorou cerca de vinte minutos e aproveitei esse tempo para recapitular mentalmente os acontecimentos da manhã, desde o telefonema de Kent para o depósito de munições.

Dedico-me a este tipo de exercício, porque o meu patrão, o Exército dos EUA, atribui muita importância aos factos e à cronologia. Todavia, num caso de homicídio, o que se viu e quando não é suficiente, pois o mais importante aconteceu antes de chegarmos. Uma espécie de universo espírita coexiste com o da observação empírica, e o investigador tem de entrar em contacto com este universo paralelo, como se fosse um médium. Não temos bola de cristal, embora neste instante o lamente, por isso, o método reside em alertar o espírito para ouvir o que não foi dito e olhar para lá das coisas materiais.

Entretanto, Karl desejava um relatório escrito e, assim, redigi um de cabeça: “Subsequentemente à nossa conversa telefónica, a filha do general era uma puta, mas uma puta fora de série. Não consigo esquecê-la. Se me tivesse apaixonado loucamente por ela e descoberto que se andava a deitar com todos, eu mesmo a mataria com as minhas próprias mãos. De qualquer maneira, descobrirei o cabrão que o fez e colocá-lo-ei diante do pelotão de fuzilamento. Obrigado pelo caso. Brenner.”

Talvez fosse necessário elaborar um pouco o estilo, mas é importante, na minha opinião, admitir perante mim próprio tal sentimento, consciente de que todos os outros vão mentir, fingir e dissimular.

Estas reflexões conduziram-me a Cynthia. De facto, não conseguia tirá-la do pensamento. Relembrava sem cessar o seu rosto e a sua voz e de súbito tive saudades. Esta é a prova provada de uma forte ligação sentimental, talvez de uma obsessão sexual ou - Deus me proteja! - de um amor sincero. Tornava-se preocupante, primeiro porque não estava preparado e depois porque ignorava os sentimentos dela. Além disso, havia este crime. Quando se é incumbido de investigar um caso destes, é preciso entregar-se-lhe de corpo e alma e, se não se tiver muito a dar, é necessário recorrer às reservas de energia guardadas para outra coisa. Existem eventualmente casos em que não há nada que recorrer e é então que pessoas como Cynthia, jovens, entusiastas e transbordantes de sentido de dever, nos chamam frios e cínicos. Refuto categoricamente, pois sei, sem dúvida, que sou capaz de emoções e sentimentos, de amor e calor. Aliás, foi o que fiz no ano passado em Bruxelas e, afinal, o que ganhei?

Olhei através do pára-brisas ao aproximar-me de Whispering Pines. Em cima, à esquerda, avistei uma equipa a reparar a estrada e recuei duas décadas e meia no tempo, lembrando-me da primeira vez que vira uma leva de trabalhadores forçados, na Georgia. Penso que deixaram de os utilizar nas estradas, mas recordo-me vivamente da cena, os presos, sujos e dobrados, de tornozelos acorrentados, e os guardas de uniformes suados, com metralhadoras.

De início, nem acreditei no que via. Paul Brenner não conseguia simplesmente entender que pudesse haver homens acorrentados, trabalhando como escravos sob o sol ardente, aqui mesmo nos EUA. Senti um nó no estômago, como se alguém me tivesse dado um soco.

Contudo, esse Paul Brenner já não existia. O mundo tornara-se mais brando e eu endurecera. Algures na linha do tempo, o mundo e eu tínhamos mantido uma harmonia de um ano ou dois e depois voltado a seguir caminhos separados. Talvez o meu problema residisse em que os locais mudavam demasiado: Georgia hoje, Bruxelas no ano seguinte, Pago-Pago na próxima semana. Precisava de parar algum tempo num lugar, necessitava de conhecer uma mulher durante mais do que uma noite, uma semana ou um mês.

Passei por entre dois pinheiros onde dantes fora pregada uma tabuleta com os dizeres “Whispering Pines” escritos à mão. Estacionei a carrinha próximo da caravana do proprietário e dirigi-me a pé para o meu refúgio de alumínio.

Dei primeiro a volta à procura de uma janela aberta, pegadas, vestígios da presença de alguém, e verifiquei depois os fios invisíveis que esticara diante da porta. Não que tivesse visto muitos filmes policiais em que o detective leva uma pancada na cabeça ao regressar a casa, mas passei cinco anos na infantaria, um deles no Vietname, e cerca de dez anos na Europa e na Ásia, lidando com traficantes de droga e de armas ou com simples homicidas, e não é por mero acaso que estou vivo. Por outras palavras, não basta ter a cabeça em cima dos ombros, é preciso servirmo-nos dos cinco sentidos e mesmo do sexto, caso Se tenha um.

Entrei, finalmente, na minha caravana e deixei a porta aberta durante o tempo bastante para me certificar se tinha companhia. Tudo parecia em ordem.

A divisão das traseiras serve-me de escritório. É lá que arrumo as pistolas, os apontamentos, os manuais e outros instrumentos da minha profissão. Pusera um cadeado na porta, para que ninguém pudesse entrar, nem sequer o proprietário do parque de campismo, e colocara fita cola à volta da moldura da única janela. Abri o cadeado e entrei.

Acrescentara ao mobiliário de origem uma secretária e uma cadeira, fornecidos pela base. Vi que a luz do atendedor de chamadas piscava e carreguei no botão das mensagens. A voz propositadamente nasalada de um homem indicava: “Deixe a sua mensagem.” Depois, ouviu-se outra voz masculina: “Mister Brenner, fala o coronel Fowler, o ajudante do general Campbell. O general deseja falar-lhe. Apresente-se na sua casa o mais rapidamente possível. Bom dia.”

Bastante lacónico. Decidi que o coronel Kent resolvera finalmente prevenir o parente mais próximo da vítima, informando que um tal Paul Brenner, de Falis Church, havia sido encarregado da investigação. Levara o zelo ao ponto de fornecer o meu número de telefone ao coronel Fowler. Obrigado, Kent.

Por agora, não dispunha de tempo para dedicar ao general ou à senhora Campbell e apaguei a mensagem do atendedor e da mente.

Dirigi-me ao armário, donde tirei a minha Glock automática com cinturão e coldre, e saí da divisão, tendo o cuidado de fechar o cadeado.

Entrei no quarto principal, vesti um fato azul de algodão, ajustei o coldre, fui até à cozinha, abri uma cerveja gelada e saí da caravana.

Deixei a carrinha onde a estacionara e meti-me no Blazer. Assim transformado, sentia-me preparado para lidar com a violação e crime, só me faltava dormir um pouco.

Fui bebendo a cerveja em pequenos goles, enquanto conduzia. Cheguei, assim, a um subúrbio deprimente rodeado de quintarolas, com o nome de Indian Springs. Não se viam índios, mas havia inúmeros cobóis, a avaliar pelo estado dos veículos cobertos de lama que enchiam as ruas. Meti pelo acesso de uma casa modesta e buzinei com força, o que evita que se saia do carro para bater à campainha e é perfeitamente aceitável nestas paragens.

Uma mulher corpulenta apareceu à porta, viu-me, acenou e desapareceu no interior da casa. Momentos depois, o sargento Dalbert Elkins veio até cá fora. O turno da noite tem a vantagem de proporcionar uma folga no dia seguinte e Elkins, de calções, T-shirt, sandálias e de cerveja na mão, saboreava plenamente o seu dia de descanso.

- Sobe - disse-lhe. - Temos que ir falar com uma pessoa à base.

- Merda!

- Anda lá. Depois dou-te boleia.

- Ele gritou na direcção da casa:

- Tenho de ir!

Sentou-se no banco dos passageiros e estendeu-me outra cerveja.

Peguei-lhe, fiz marcha atrás e seguimos. O sargento Elkins tinha quatro perguntas para mim: onde arranjaste o Blazer? Onde foste desencantar esse fato? Que tal a “ratinha”? Com quem vamos falar?

Respondi-lhe que pedira o carro emprestado, que o fato viera de Hong Kong, a outra coisa era de primeira e tínhamos de ir ver um tipo que fora preso.

- Preso?

- Um colega meu. Está numa cela do posto e tenho de lhe falar antes que o enviem para o exterior.

- Porquê? O que fez ele?

Apanharam-no a conduzir embriagado. Preciso de levar o carro até sua casa. A mulher está quase no fim do tempo de gravidez e necessita do carro, moram ao teu lado. Segues-me no Blazer.

O sargento Elkins esboçou um aceno de cabeça, como se não fosse a primeira vez que fazia este tipo de coisas.

- E agora fala-me da rapariguinha.

Querendo que ficasse satisfeito, recorri ao discurso-tipo:

- Bom. Estava com uma tesão enorme, pula em cima de mim dei-lhe um par de estalos e ela pôs-se a andar à volta do meu pau como a torneira de um lavatório.

Elkins soltou uma gargalhada. De facto, não me saíra nada mal. Quem diria que eu era de Boston? Sou mesmo bom actor.

A conversa prosseguiu neste tom e fomos bebendo as cervejas. À entrada da base, escondemos as latas por causa da Polícia Militar. Estacionei diante do posto de polícia, descemos e entrámos.

O sargento de serviço levantou-se. Coloquei-lhe o cartão da CID debaixo do nariz, sem parar, e Elkins nem deu por nada ou não teve tempo. Percorremos um corredor até às celas, descobri uma desocupada a um canto e empurrei-o para o interior. Ele pareceu surpreendido e nervoso.

- Onde está o teu colega?

- O meu colega és tu.

Fechei a porta da cela à chave e tranquei-a.

- Estás preso - anunciei-lhe através das grades, mostrando-lhe o cartão. Acusado de tentativa de venda de bens militares sem a devida autorização e de fraudes contra os EUA. Além disso, não puseste o cinto de segurança - acrescentei.

- Oh, Jesus... Oh, Deus do céu...

A expressão do rosto de um homem quando se lhe diz que está preso é muito esclarecedora, e há que avaliar a sua próxima frase através da reacção. Elkins parecia alguém a quem São Pedro acabasse de bater com a porta do Paraíso na cara. Tranquilizei-o:

- Dou-te uma oportunidade, Dalbert. Vais escrever e assinar uma confissão completa. Depois, colaborarás com o governo a caçar os tipos com quem falaste. Se o fizeres, prometo que escaparás à prisão. Terás uma dispensa desonrosa, mas perderás todos os direitos ao salário e à reforma. Caso contrário, espera-te Leavenworth. Negócio fechado?

Ele pôs-se a chorar. Foi então que me apercebi de que começara a amolecer com a idade, pois há alguns anos nem sequer faria tal proposta e se um suspeito começasse a chorar, esbofeteá-lo-ia até que se calasse. Mas estou a tentar tornar-me mais sensível aos desejos e necessidades dos presos e procurei afastar do pensamento os danos que aquelas duzentas M-16 e lançadores de granadas poderiam causar aos polícias e à população civil, já sem falar da jura Sagrada que o sargento Elkins havia quebrado.

Repeti a pergunta:

- Então? Negócio fechado?

Ele acenou.

- Uma atitude sensata. Dalbert.

Enfiei a mão no bolso, donde tirei a ficha com os direitos do detido

- Toma. Lê isto e assina.

Estendi-lhe a ficha e uma caneta. Ele limpava as lágrimas, enquanto lia com o ar de um condenado.

- Assina isso, Dalbert.

Obedeceu e devolveu-me a ficha e a caneta. Karl teria um ataque quando lhe comunicasse que oferecera a Elkins o estatuto de testemunha governamental, pois para ele toda a gente deve ir para a prisão, sem acordo. Os tribunais marciais não gostavam de ouvir falar de acordos, certo, mas tinha de me desembaraçar deste caso para dar atenção ao mais importante, embora pudesse vir a ser prejudicado. - Karl mandou-me resolvê-lo e assim fiz.

Um tenente da PM apareceu e pediu-me que me explicasse e identificasse. Mostrei o cartão da CID e disse-lhe:

- Dê papel a este homem para que ele redija uma confissão, depois leve-o ao posto da CID e entregue-o para que o interroguem.

O sargento Elkins mantinha-se sentado no catre em calções, T-shirt e sandálias, com um ar profundamente infeliz. Vi muitos homens assim através das grades e interrogo-me sobre como lhes pareço do outro lado.

Regressei ao meu gabinete de empréstimo e voltei a folhear o livro de endereços de Ann Campbell, que continha uma boa centena de nomes, de que o meu não fazia parte. Não acrescentara corações ou estrelas para demonstrar o seu interesse por esta ou aquela pessoa, mas eu continuava convencido de que havia uma outra lista de nomes e números de telefone algures, talvez no seu palácio das delícias ou no computador pessoal.

Redigi um relatório muito formal e aborrecidamente sucinto para Karl, não o que havia elaborado em pensamento, mas um texto que não pudesse vir a ser criticado mais tarde pelo juiz ou pelo advogado de defesa. Não havia um único documento no país que estivesse seguro e a classificação de “pessoal” poderia igualmente intitular-se “difundir o máximo possível”.

Quando terminei, carreguei na tecla do intercomunicador e pedi:

- Enviem-me uma secretária.

As secretárias do Exército assemelham-se em tudo às civis, com excepção de que se trata por vezes de homens, embora estes últimos sejam cada vez mais raros na função. De qualquer maneira, têm em comum com as homólogas civis o facto de poderem ser a bênção ou a maldição do patrão ou do gabinete que as utiliza.

Apresentou-se-me uma mulher, vestida com a farda verde normal, constituída por uma saia e uma blusa apropriadas a gabinetes superaquecidos. A breve continência e um tom de voz franco agradaram-me.

- Especialista Baker, sir.

Embora não tivesse a mínima obrigação de o fazer, levantei-me e estendi-lhe a mão:

- Agente Brenner, da CID. Estou a trabalhar no caso Campbell. Encontra-se ao corrente?

- Sim, sir.

Dediquei uns momentos a observar a especialista Baker. Tinha uns vinte poucos anos, um ar enérgico e os olhos argutos e brilhantes compensavam a falta de beleza.

- Quer ser destacada para este caso? - propus-lhe.

- Trabalho nos Serviços de Transporte para o capitão Redding.

- Sim ou não?

- Sim, sir.

- Óptimo. Doravante só aceitará ordens minhas ou de Miss Sunhill, que também trabalha neste caso, e não falará com mais ninguém. Tudo o que vir e ouvir é altamente confidencial.

- Entendo.

- Muito bem. Dactilografe este relatório, fotocopie este livro de endereços, mande as cópias por este número de faxe para Falis Church e deixe os originais na minha secretária.

- Sim, sir.

- Pendure um cartão na porta que diga: “Privado. Reservado ao pessoal autorizado.” Você, eu e Miss Sunhill somos o único pessoal autorizado.

- Sim, sir.

No Exército, onde a honestidade, a honra e a obediência ainda são tidas em elevada conta, as portas não necessitam teoricamente de fechaduras mas há algum tempo que têm vindo a multiplicar-se. Contudo, dado pertencer à velha escola, achei inútil pedir que me instalassem uma. Mesmo assim, ordenei a Miss Baker:

- Quero que despeje os cestos de papéis todas as noites e ponha o conteúdo na trituradora.

- Sim, sir.

- Alguma pergunta?

- Quem informará o capitão Redding?

- Encarrego-me do assunto. Mais alguma pergunta?

- Não, sir.

- Está dispensada.

Ela pegou no livro de endereços e no meu relatório manuscrito, fez a continência, girou sobre os calcanhares e saiu.

Não é fácil assumir o papel de intrometido. Qualquer pessoa pode sê-lo no seu local habitual, mas não é para todos aparecer de repente num sítio onde o ramerrame, as nuances e as personalidades já obedecem a uma velocidade e a uma ordem. Se não nos impomos logo no primeiro dia, jamais conseguiremos fazê-lo e andamos de um lado para o outro, até ficarmos de braços amarrados. Aprendi que se a instituição não nos outorga o poder total, mas nos dá uma missão muito importante e lava daí as mãos, há que adquirir o poder de que se precisa para a realizar. Além disso, penso também que o Exército espera que se demonstre iniciativa, segundo constantemente nos afirmam, contudo, há que ser cuidadoso, pois tal só resulta quando se mostra eficácia. Se as coisas correm mal, é-se apanhado e, pior ainda, quando a missão é cumprida com êxito, dão-nos uma palmada na cabeça como a um cão de trenó exausto e depois comem-nos, motivo por que nunca vou a coktaik quando um caso termina. Karl diz que me escondo uma semana debaixo da sua secretária, o que não é verdade, mas já tenho passado uns dias na Suíça.

Eram duas da tarde e Cynthia Sunhill ainda não voltara a aparecer. Saí pois, do edifício para ir buscar o meu automóvel e descobri a minha parceira parada diante da porta principal, a dormir atrás do volante do Mustang, embalada por um CD dos Grateful Dead.

Entrei e bati com a porta para a despertar.

- Estavas a dormir?

- Apenas a descansar os olhos.

Era sempre o que dizia e dirigi-lhe um breve sorriso cúmplice, que me devolveu.

- Carreira de tiro seis, por favor.

 

 

                                       CAPÍTULO DEZ

 

Quando o centro da base ficou para trás, Cynthia carregou no acelerador e entrou na reserva florestada do terreno militar.

- Belo fato! - comentou.

- Obrigado.

Os Grateful Dead cantavam A Touch of Grey e desliguei o CD.

- Já almoçaste? - perguntou Cynthia.

- Não.

- Empregaste bem o tempo? - indagou.

- Duvido.

- Estás aborrecido com alguma coisa?

- Sim.

- Karl pode ser irritante.

- Se voltares a telefonar-lhe mais uma vez por causa deste caso, apresento queixa.

- Muito bem, sir. - Depois de um longo silêncio, Cynthia acrescentou: Preciso da tua morada e número de telefone. - Indiquei-lhos e ela explicou ainda: - Estou nas instalações dos oficiais de visita. Porque não te mudas? Seria mais prático.

- Gosto do parque de campismo de Whispering Pines.

- Um parque de campismo no meio dos bosques é sinistro.

- Não para os homens a sério.

- Ah! Tens então algum a viver contigo na caravana?

Riu divertida ante a própria piada, tapou a boca com um gesto teatral e pareceu arrepender-se do que dissera. Oops! Desculpa! Não será decerto assim que vou cair nas tuas boas graças.

- Não percas tempo.

Cynthia não é manipuladora por natureza, mas há alturas em que eventualmente tenta ser assim. A diferença é mínima, mas tem importância. É basicamente ingénua e franca. Se um homem lhe agrada pelo tipo de comportamento ou acção, diz-lho. Aconselhei-a a refrear a sinceridade, que alguns tomam por um convite, mas ela não entende. E é esta mulher que lida com casos de violação!

- Temos um tal especialista Baker a fazer de secretário - informei-a.

- Homem ou mulher?

- Não dou importância a esse tipo de detalhe. A propósito, qual é a tua religião?

Cynthia sorriu, despregou a chapa de identificação da camisa e pôs-se a lê-la em voz alta, sem largar o volante:

- Vejamos... B... Baptista! Não, é o meu grupo sanguíneo... cá está.., Presbiteriana.

- Não acho graça.

- Desculpa. O Karl compreendeu que era uma piada.

- O Karl só compreende uma graçola quando as pessoas à volta dele começam a rir.

- Vá lá, Paul. De qualquer maneira, nunca tomas a sério estes assuntos da susceptibilidade. Se queres uma sugestão, tem cuidado. Não precisas de adoptar a linguagem corrente nem confessar os teus preconceitos, mas também não troces do pessoal novo. Nada tens a ganhar do ponto de vista profissional.

- Até pareces um comissário do povo.

- Sou apenas a tua parceira - vincou, espetando-me um dedo no braço. Não te armes em velho conformista comigo.

- Combinado.

Cynthia estava, sem dúvida, mais conciliadora. Ou algo de bom lhe acontecera nas duas horas de ausência, ou relembrara coisas sobre Paul Brenner e reconhecera que o homem não era totalmente desprovido de qualidades. Regressando ao que interessava, perguntei:

- Informaste-te sobre a “asfixia sexual”?

- Claro, é francamente estranho.

- O sexo é um fenómeno estranho quando se reflecte nele.

- Para ti, talvez.

- Fala-me da asfixia sexual.

- Bom... consiste essencialmente em ter uma corda apertada à volta do pescoço no momento do prazer sexual. Os homens usam-na com frequência, enquanto se masturbam, uma forma de auto-erotismo, mas também se conhecem casos de mulheres que o fazem. Algumas vezes, os parceiros heterossexuais e homossexuais praticam-na entre si durante o acto sexual, por regra, de mútuo acordo, mas nem sempre, e há casos em que acaba mal, acidentalmente ou não. É nessa altura que a polícia entra em campo.

- Exacto. Já se te depararam casos desse género?

- Não. E a ti?

- Já experimentaste esta prática?

- Não, Paul. E tu?

- Não, mas assisti a um caso desses. Um tipo que tinha instalado um sistema para ficar pendurado, enquanto se masturbava a ver uma cassete pornô. Não tencionava matar-se, mas o banco onde estava de pé voltou-se e ele enforcou-se a sério. A PM pensou, obviamente, que se tratou de suicídio, mas, dado a vítima estar nua e rodeada de toda uma parafernália pornográfica, tudo leva a crer que foi um acidente. Tenta, contudo, explicar isso à família.

- Imagino - concordou Cynthia, esboçando um aceno de cabeça. Não percebo muito bem o interesse. Não vem no manual.

- Vem noutras obras. O interesse é este: quando o sangue e o oxigénio deixam de irrigar o cérebro, algumas sensações tornam-se mais intensas, em parte devido à diminuição das capacidades conscientes. A temporária falta de oXigénio provoca um aturdimento, uma espécie de vertigem semelhante à euforia. É “curtir” sem droga nem álcool e muitas pessoas têm um gozo muito mais intenso nestas circunstâncias. Constou-me que quando uma pessoa atinge o orgasmo, é o paraíso, mas, se se erra tal não acontece nunca mais. Passa-se à história.

- Continuo sem perceber o interesse.

- Posto isto, o aspecto fisiológico não é tudo. O ritual que geralmente envolve o acto também conta muito: a nudez, o uso de roupas bizarras, todos os acessórios sexuais e eróticos, a encenação, e, finalmente, o risco.

- Quem inventou isto?

- Trata-se, com toda a probabilidade, de uma descoberta casual. Quem sabe se não se encontram hieróglifos relativos à asfixia sexual nas pirâmides do Egipto? Os seres humanos dão prova de um engenho notável quando se trata das suas pequenas volúpias.

Cynthia calou-se e decorrido um momento deitou-me um olhar de lado:

- Acreditas que foi algo desse género que aconteceu a Ann Campbell?

- Bom... as cuecas que tinha enroladas à volta do pescoço serviam para impedir que a corda lhe deixasse marcas visíveis no pescoço. É uma precaução típica em caso de asfixia sexual, quando supostamente não tem a morte por objectivo. É uma forma de interpretarmos o que vimos no local do crime, mas esperemos pelos resultados do laboratório.

- Onde estão as roupas dela?

- Pode tê-las abandonado em qualquer parte.

- Porquê?

- Faz parte da encenação e do perigo. Como afirmaste antes, não podemos saber o que a excitava sexualmente ou que fantasmas complicados viviam na sua cabeça. Se quiseres, pensa no teu próprio jardim das delícias secreto e tenta imaginar como poderão os outros encarar os teus cenários libidinosos. - Acrescentei, para preencher o incómodo silêncio que se seguiu: - Uma personalidade deste tipo só se satisfaz plenamente mediante a concretização dos seus fantasmas, com ou sem parceiro. Começo a pensar que o que vimos na carreira de tiro seis foi escrito, produzido e realizado por Ann Campbell e não pelo seu parceiro ou agressor. - Ante o silêncio de Cynthia, prossegui:

- Tratou-se, provavelmente, de um acto consensual que incluiu asfixia e em que o parceiro a estrangulou até à morte por acidente ou de propósito, num acesso de cólera. Um assaltante, um estranho com tendência para a violação e o crime não teria colocado umas cuecas debaixo da corda, a fim de atenuar as marcas.

- Mas supõe que o parceiro não a matou num acesso de cólera. Imagina que ele tinha a intenção de a matar e ela julgava tratar-se de um jogo.

- Também é possível.

- Continuo a pensar naquela divisão da cave. Talvez houvesse homens, que desejassem vê-la morta por uma questão de ciúmes ou vingança ou talvez ela andasse a chantagear alguém.

- Na verdade, ela era candidata a ser vítima de homicídio. Contudo, faltam-nos outros elementos. Anota tudo isso no diário do caso. De acordo!

Ela esboçou um aceno de cabeça, mas não pronunciou palavra. Cynthia, que até então se ocupara de simples violações, parecia um tanto perturbada por estas novas facetas da depravação humana e com a infinda diversidade das práticas eróticas que descobria. Não me restavam, todavia, dúvidas de que vira mulheres brutalizadas por homens, só que havia etiquetado este tipo de violência de forma a poder lidar com ele. Aparentemente não odiava os homens, - na verdade, gostava deles -, mas apercebia-me de que algum dia podia vir a detestá-los. Perguntei-lhe:

- E o caso Neely? Quem era o tipo?

- Oh... um jovem cadete da Escola de Infantaria. Apaixonou-se por esta enfermeira e uma noite seguiu-a até ao carro, quando ela saiu do hospital. Fez uma confissão completa e agora vai apresentar-lhe desculpas, admitir-se culpado e apanhará de cinco a dez anos de prisão.

Esbocei um aceno de concordância. Não fazia parte da política do Exército, mas cada vez se tornava mais comum que o culpado fosse obrigado a pedir desculpa à vítima e à família e também ao seu oficial superior. Aos meus olhos parecia um uso mais japonês do que britânico, mas porque não? Fora ironicamente o general Campbell quem instituíra este hábito aqui, em Fort Hadley.

- Céus! Não queria estar na pele do tipo que fosse obrigado a apresentar desculpas ao general por ter violado e morto a filha.

- Seria difícil encontrar as palavras adequadas - concordou Cynthia. Voltamos à tese de violação e assassínio? - acrescentou.

- Talvez, a menos que se tenha tratado de assassínio, seguido de violação. Queres que te faça uma exposição sobre necrofilia?

- Não, obrigada. Já tive a minha dose.

- Assim seja.

Na nossa frente erguia-se uma tenda enorme, semelhante às que se vêem nos casamentos e grandes recepções. A equipa forense coloca-as nos locais de crime para proteger as provas, sempre que são cometidos no exterior.

Cynthia declarou subitamente:

- Agradeço-te a confiança demonstrada quando telefonaste a Karl.

- Não me lembrava da conversa com o meu chefe, portanto, deixei passar a afirmação em branco e optei por mudar de assunto:

- Karl quer uma reconstituição do crime. Com tudo, incluindo as estacas, cordas, etc. Tu desempenhas o papel de Ann Campbell.

Ela reflectiu um momento antes de responder:

- De acordo... Não será a primeira vez...

- Óptimo... Anseio por ver.

Tínhamos chegado. Cynthia parou o Mustang atrás de uma carrinha dos especialistas forenses.

- Vamos ter de ver o corpo outra vez? - quis saber.

- Não.

Por essa altura já o cadáver devia ter começado a decompor-se e a emanar um leve odor. Ora, embora possa parecer ilógico e pouco profissional, queria recordar-me de Ann Campbell como ela era.

 

 

                                       CAPÍTULO ONZE

 

O caminho estreito apresentava-se atravancado com uma boa dúzia de carros e veículos utilitários pertencentes ao pessoal do laboratório ou a elementos da Polícia Militar.

Atravessei com Cynthia um caminho coberto com um oleado verde e que conduzia à tenda.

Estava uma tarde de calor típica da Georgia e uma suave brisa ocasional impregnava momentaneamente o calor húmido de um leve cheiro a resina.

A morte nunca interrompe as actividades militares e os exercícios prosseguiam nas carreiras de tiro vizinhas. Ouvia ao longe as rajadas das M-16 e o som despertava-me, como sempre, lembranças penosas. Tinham, pelo menos, o mérito de me chamar à relatividade das coisas, ou seja, que este caso era desagradável, mas uma insignificância se comparado com os combates no coração da selva. Não tinha motivo para me queixar: estava vivo, ao passo que, a uns escassos cinquenta metros, uma bela jovem perdera a vida.

Muitos homens e mulheres afadigavam-se no interior e no exterior da tenda, todos ocupados com trabalhos de laboratório.

A ciência forense baseia-se largamente na teoria da transferência e troca e os respectivos técnicos estão plenamente convencidos de que o agressor leva consigo qualquer coisa da vítima e do local do crime e deixa algo dele no local ou com a vítima. Tal é sobretudo verdadeiro em caso de agressão sexual, que, por definição, estabelece um íntimo contacto entre o agressor e a vítima.

Ocorrem, todavia, casos em que o criminoso é extremamente esperto e sabido e não faz a mínima tenção de fornecer ao laboratório um único pêlo púbico, uma gota de esperma ou de saliva e nem mesmo o cheiro de uma água-de-colónia. A minha experiência passada segredava-me que estávamos a lidar com um desses. Se a minha intuição se confirmasse, tinha de recorrer somente aos bons velhos métodos: interrogatórios, faro e inspiração. Mas, mesmo que descobrisse o culpado, como acusá-lo sem provas?

Parei diante da tenda e um homem baixo e calvo afastou-se da pequena multidão e avançou ao nosso encontro. Reconheci-o de imediato, chamava-se Cal Seiver e provavelmente comandava toda a equipa. Seiver é um tipo bem formado, um profissional dotado de um talento excepcional para detectar o pedaço de fio ou o grão de poeira essencial, mas, à força de só ligar à minúcia, por vezes apenas vê a árvore que esconde a floresta, o que, por mim, está bem - encarregue-se das árvores e deixe-me a floresta, pois não gosto de especialistas forenses que se armam em detectives.

Cal estava um pouco pálido, como lhe acontece sempre que vê um cadáver. Apertámos a mão e apresentei-lhe Cynthia, mas já se conheciam.

O mundo inteiro caminhou à volta deste cadáver, Paul - lamentou-se.

“Sempre a mesma cantilena”, pensei!

- Ainda ninguém aprendeu a levitar - redargui.

- Sim, mas patinharam tudo!

- Só há pegadas de botas militares?

- De ténis, também.

Fitou os pés de Cynthia.

- Você...

- Sim - confessou ela. - Dou-lhe as minhas pegadas. E além disso?

- Recolhi parte de uma pegada de um pé descalço, talvez da morta, mas tudo o mais é de botas, botas, botas. Algumas solas produzem marcas diferentes, um lado gasto, cortes no cabedal, tacões de marca diferente...

- Acho que já ouvi esse refrão - recordei-lhe.

- Vamos ter de recolher pegadas de toda a gente, mas previno desde já que o terreno já devia conter dezenas de outras e a carreira de tiro está coberta de erva e arbustos.

- É o que vejo.

- Detesto os crimes ao ar livre.

Tirou um lenço do bolso e passou-o pelo crânio transpirado.

- Novas directivas do Pentágono, Cal - informei-o. - Não és calvo nem baixo, apenas um homem com problemas de cabelo e verticalidade.

Virou-se para Cynthia.

- É obrigada a trabalhar com este tipo?

- É comigo que ele se mete e não consigo. Acabo de fazer-lhe uma prelecção sobre susceptibilidade.

- Ah, sim? Não perca tempo.

- Tem toda a razão - anuiu Cynthia. - Recebeu a minha encomenda relativa ao caso Neely?

- Sim, procedemos a uma comparação entre os ADN do esperma que estava na vagina dela e o do violador que nos mandou, ontem. São idênticos, o que confirma a confissão obtida. Parabéns.

Felicitei-a igualmente antes de perguntar a Cal:

- Há alguns traços de esperma nesta vítima?

- Os raios ultravioletas nada revelaram. Retirámos amostras da boca, vagina e ânus. Teremos os resultados dentro de uma meia hora. O pessoal das impressões digitais já examinou o corpo, o carro, o saco de mão da vítima, as estacas e as cordas, e os fotógrafos estão a terminar o trabalho. O estudo serúrgico do sangue, da saliva e das diversas amostras está igualmente em curso nos camiões e os químicos estão a recolher amostras do corpo, mas desde já te Previno que não vi nem um grão de poeira e os restos de tecido são, com toda a probabilidade, da roupa dela. Trouxe também os especialistas em ferramentas e utensílios, que estão a examinar as cordas e as estacas, mas trata-se de material vulgar, velho e usado. Numa palavra e para responder a todas as tuas perguntas, ainda não temos qualquer prova física.

Cal começa pela negativa, mas depois declara que, afinal, após longas horas de um árduo e moroso trabalho laboratorial, encontrou qualquer coisa É esse o segredo da reputação: dar a impressão de que a incumbência é mais complicada do que o é na realidade. Também eu aplico o mesmo método de vez em quando. Perguntei a Cal:

- Já retiraram as estacas?

- Apenas a que prendia o tornozelo esquerdo para recolher as amostras anais e verificar se tem vestígios de terra diferente daquela onde está enterrada agora. Tudo indica, porém, que só conheceu a boa e velha argila da Georgia.

- Preciso que verifiques se a vítima poderia ter arrancado as estacas que lhe prendiam os pulsos, se o quisesse, e também se se trata de nós vulgares. Além disso, queria que me dissesses se achas que ela segurava, ou poderia segurar, uma das pontas da corda nas mãos.

- Agora já?

- Por favor.

Cal virou costas, afastou-se e Cynthia comentou:

- Se as respostas forem todas negativas, podemos esquecer a tese do acidente durante uma sessão de auto-erotismo, certo?

- Certo.

- E começarmos a procurar um assassino.

- Ou um cúmplice. Continuo a pensar que tudo se iniciou como um jogo. Nada disto deve ser tornado público - acrescentei.

- Óbvio. Não me importo de voltar a ver o corpo, pois sei o que procuramos.

Entrou na tenda, desapareceu por entre a multidão e calculei que se tivesse ido ajoelhar junto ao corpo. Virei costas, regressei até junto do jipe e ergui os olhos para o posto de guarda onde, na noite do crime, se encontrava Mary Robbins, mas, à distância de um quilómetro, não conseguia divisar o depósito de munições. Na direcção oposta daquela por onde tínhamos vindo, a estrada descrevia uma curva à direita, por isso, se um veículo tivesse parado a uns cem metros, por altura da carreira de tiro cinco, Robins não avistaria quaisquer faróis. Havia algo que me escapava naquele horário das luzes, mas tinha de considerar a hipótese de que os primeiros faróis avistados por Robbins podiam não ser necessariamente os do jipe de Ann Campbell. Se assim fosse, o que teria ela feito entre o momento em que saíra do quartel-general, à uma da manhã, e a altura em que Robbins vira as primeiras luzes, às duas e dezassete?

Cynthia e Cal vieram ao meu encontro e este último declarou:

- As estacas estão solidamente presas à terra, pois o tipo que tentou desenterrá-las, quase arranjou uma hérnia, e os nós são de soldado, quase impossíveis de desfazer sem um instrumento adequado. As pontas da corda estão ao alcance da mão, mas, na minha opinião, não me parece que pudesse tê-las puxado. Estás a pensar numa fatalidade auto-erótica?

- Algo do género, aqui entre nós.

- Mas parece que ela teve companhia na noite passada, embora ainda não tivéssemos encontrado vestígios.

- Onde estava a pegada do pé descalço?

Mais ou menos a meio caminho entre a estrada e o corpo. Ali em baixo. Indicou um grupo de pessoas ocupadas a fazer o molde do precioso vestígio.

- Como foi a corda cortada?

- Um corte de compressão - respondeu Cal -, com qualquer coisa como um machado ou cutelo, talvez sobre uma superfície de madeira. Não aqui, sem dúvida. A minha equipa procurou vestígios feitos com qualquer instrumento nas bancadas da carreira de tiro, mas é provável que tivesse sido cortada e trazida depois. Como o kit de um violador - acrescentou.

Resistiu, todavia, à tentação de pronunciar palavras como “premeditação” Ou “violação organizada” - agradam-me as pessoas que não ultrapassam os seus níveis de competência. Na verdade, o que se assemelhava ao kit de um violador provinha talvez do equipamento pessoal da vítima. Contudo, era preferível deixar que se espalhasse a ideia da violação.

Cal retomou a palavra:

- Querias saber que mancha negra era aquela que ela tinha no pé direito?

- Sim.

- Noventa e nove por cento de hipóteses de que seja alcatrão, mas saberemos dentro de uma hora. Procederei à comparação com o revestimento da estrada, só que nada provará.

- Muito bem.

- Como conseguiste este caso? - indagou.

- Supliquei que mo dessem.

Soltou uma gargalhada e comentou:

- Não gostaria de estar na tua pele.

- Nem eu, sobretudo se encontrares as minhas pegadas no jipe.

Cal sorriu e, dado parecer apreciar a minha companhia, aproveitei para clarificar:

- Se sabotares alguma coisa, começa já a pensar na tua reforma antecipada. Conheço muitos que acabaram os dias no México.

- Se isso acontecer, cá me protegerei. Mas tu, se meteres a pata na poça, o coronel Hellmann trata-te logo da saúde.

Era desagradável, mas também verdade.

- A secretária da vítima, o conteúdo da casa e objectos pessoais encontram-se num hangar em Jordan Field - informei-o. - Quando acabares o trabalho aqui, passa por lá e dá uma vista de olhos.

- Eu sei. Não terminaremos as coisas aqui antes do anoitecer. Depois vamos ao hangar.

- O coronel Kent esteve aqui?

- Apenas uns minutos.

- O que queria?

- O mesmo que tu, sem as piadinhas. Quer que vás falar com o general. - acrescentou. - Recebeste a mensagem?

- Eu? Não. Bom, Cal, estou no gabinete do comandante da Polícia Militar. Todos os relatórios e perguntas devem ser dirigidos a mim ou a Cynthia, selados e com a indicação de “Confidencial”. Também podes telefonar ou passar por lá. A secretária chama-se Baker. Não discutas este caso com quem quer que seja, nem mesmo com o comandante da base. Se ele te perguntar alguma coisa, manda-o ir falar comigo, ou com a Cynthia, e dá as mesmas instruções à tua equipa. Entendido? Cal acenou com a cabeça.

- Nem mesmo com o coronel Kent?

- Nem mesmo com o general.

- Muito bem - anuiu, encolhendo os ombros.

- Agora, vamos dar uma vista de olhos pelas latrinas e depois a tua equipa poderá ocupar-se delas.

- De acordo.

Pelo caminho, Cynthia perguntou a Cal:

- Quando pode enviar o corpo ao médico legista para que ele faça a autópsia?

- Bom... - hesitou o visado, coçando a cabeça. - Daqui a umas três horas, digamos.

- Porque não telefona para o hospital da base a pedir que o médico legista venha examinar o corpo aqui? Pode dizer-lhes que gostávamos de que a autópsia fosse feita o mais rapidamente possível e desejávamos saber os resultados provisórios ainda esta noite. Diga-lhes também que o general e a senhora Campbell gostariam de tomar disposições imediatas quanto ao enterro.

- De acordo - anuiu de novo Cal.

Cynthia começava aparentemente a tomar as rédeas da situação, prova de que o meu exemplo dera frutos.

O nosso trio passou junto às bancadas, atravessou uma vasta clareira coberta de erva, onde não havia pegadas, e dirigiu-se à fila de árvores junto à qual existiam duas latrinas. Kent mandara isolar a zona e transpusemos a fita amarela que assinalava o local do crime. A barraca mais antiga indicava “Pessoal masculino” e a mais nova “Pessoal feminino”. “Homens” e “Senhoras” teria bastado, mas os regulamentos do Exército nunca simplificam as coisas. Entrámos na latrina destinada aos homens e acendi a luz, tapando a boca com o lenço.

O chão era de cimento, as paredes de madeira e havia uma grade de ventilação na junção da parede com o tecto. Viam-se três lavatórios, três sanitas e três urinóis, tudo impecavelmente limpo. Concluí que, se tivesse havido exercício de tiro no dia anterior, não teria acabado depois das dezassete horas e que fora depois enviada uma equipa de limpeza. Na verdade, os cestos para os papéis estavam despejados, a água das sanitas desprovida de detritos e as tampas levantadas.

Cynthia chamou-me a atenção para um dos lavatórios, onde havia um pêlo no interior da bacia e pingos dos lados.

- Há aqui uma coisa para ti - dirigi-me a Cal.

Ele aproximou-se e, debruçando-se sobre o lavatório, declarou:

- Cabelo humano, caucasiano. - Examinou de mais perto. - Caído, talvez cortado, mas não arrancado - acrescentou - e sem raiz. Uma amostra pouco significativa, capaz de me fornecer um grupo de sangue, talvez o sexo do proprietário, só que, sem raiz, não poderei determinar o ADN.

- Nem o nome do proprietário?

Cal, que não apreciou o meu sentido de humor, observou então as latrinas com uma expressão grave e disse:

Darei prioridade à inspecção deste local, depois de termos acabado o trabalho lá em baixo.

- Começa a pensar em tirar os ralos, também.

- Achas que preciso que mo recordes?

- Claro que não.

As latrinas para as mulheres estavam tão impecáveis como as dos homens. Aqui havia seis sanitas, com as tampas igualmente levantadas, o que era uma regra do Exército, embora as mulheres costumem baixá-las. Dirigi-me a Cal:

- Quero que me digas se Ann Campbell se serviu desta latrina.

- Quando muito, encontraremos vestígios de suor ou creme para o corpo no assento das sanitas, e talvez algumas células dermatológicas na bacia do lavatório. Farei o meu melhor.

- E não te esqueças das impressões digitais no interruptor da luz.

- Tu esqueces-te de respirar?

- De vez em quando.

- Eu nunca deixo passar nada.

Por mais que olhássemos em volta, não detectámos qualquer prova visível que pudesse relacionar-se com a vítima, o local do crime ou um criminoso. Contudo, a acreditar na teoria de transferência e permuta, o local podia estar a abarrotar de provas.

Saímos para a luz do sol e percorremos o caminho de volta à estrada.

- Não me leves a mal - dirigi-me a Cal -, mas é meu dever recordar-te que estabeleças a vigilância necessária para preservar as provas e rotules e classifiques tudo, como se viesses a ser interrogado por um aguerrido advogado de defesa que estivesse a ser pago para conseguir a absolvição. De acordo?

- Deixa isso comigo. Entretanto, arranja-me um suspeito a quem se possa arrancar a pele, tirar o sangue, puxar os cabelos e fazê-lo vir-se para um preservativo, à semelhança da forma como Cynthia agiu com aquele tipo do outro caso.

- Resta esperar que haja algo por aqui para comparar com um suspeito.

- Encontra-se sempre qualquer coisa. A propósito, onde estão as roupas da vítima?

- Desapareceram. Ela usava uma farda vulgar.

- Sim, como toda a gente. Por isso, se descobrir algumas fibras de tecido, não quererá dizer nada.

- De facto, não.

- A medicina legal não é fácil quando toda a gente usa o mesmo tipo de roupa e de calçado.

- Isso é verdade. Tiraste pegadas a todos os polícias militares que estiveram no local?

- Sim.

- Inclusive ao coronel Kent?

- Também.

Chegámos à estrada, parámos e Cynthia insistiu:

- Lembre-se, Cal, de que somos os únicos a poder pressioná-lo. Ninguém mais conta.

- Certo. - Virou a cabeça na direcção do corpo e comentou ainda: - Ela era muito bonita. Temos um daqueles seus cartazes de recrutamento no laboratório. - Fixou o olhar em mim e em Cynthia e desejou: - Boa sorte

- Para si também - respondeu Cynthia.

Cal Seiver afastou-se na direcção do corpo e nós metemo-nos no carro

- Onde vamos? - perguntou ela.

- Jordan Field.

 

 

                                      CAPÍTULO DOZE

 

Pusemo-nos a caminho a toda a velocidade, enquanto eu pensava que se este fosse um caso fácil não nos teria vindo parar à mão.

Transferência e permuta. Tal aplica-se oficialmente a provas laboratoriais, parcelas e átomos de matéria física, contudo, para um investigador criminal, trata-se de um dogma de natureza quase metafísica.

Mediante o estudo dos perfis de assassinos e a análise de crimes violentos acaba-se por conhecer o homicida sem nunca o ter visto. O exame psicofisiológico da vítima e a autópsia fornecem mais pormenores a seu respeito do que qualquer discurso, chegando-se mesmo a adivinhar os laços existentes entre ela e o assassino e a deduzir que se conheciam, como acontece na maioria dos casos. Partindo do princípio de que existiu uma transferência e permuta emocional e psicológica entre o criminoso e a vítima, consegue-se elaborar uma lista bastante precisa de suspeitos. Por outro lado, bem gostaria que Cal Seiver nos fornecesse um ADN e impressões digitais.

Seguimos para norte, na direcção da base, mas virámos antes à esquerda junto a uma tabuleta com a indicação de “Jordan Field”.

- Devido às conclusões de Cal sobre as estacas e a corda, não me parece que seja necessário atar-te - disse a Cynthia.

- Karl é o exemplo típico do detective de gabinete - comentou ela.

- Sem dúvida.

Entre outros defeitos irritantes que caracterizavam Karl, contava-se o seu hábito de ter ideias brilhantes. Sentado à secretária, aqui em Falis Church, lia os relatórios laboratoriais e os testemunhos, examinava fotografias e formulava teorias e pistas de investigação. Os que trabalham na base adoram esta sua faceta, pois ele considera-se uma espécie de sábio e o facto de falhar em quase tudo não parece incomodá-lo minimamente.

Contudo, é um bom comandante, dirige com rédea curta, não bajula ninguém e defende o seu pessoal. O coronel Karl Gustav Hellmann seria sem dúvida convocado pelo Pentágono para resolver este caso. Imaginei-o no gabinete do chefe do Estado-Maior, declarando ao secretário de Estado da Defesa, ao director do FBI, ao procurador-geral da Justiça Militar e a outros lacaios presidenciais de olhar cortante e galões reluzentes:

“- Encarreguei do caso o meu melhor homem, o tenente Paul Brenner. Ele informou-me de que não necessita de qualquer ajuda externa e garantiu estar à altura de resolver este caso em alguns dias. A prisão do culpado está iminente.”

“Boa, Karl, talvez a minha”, pensei também.

Cynthia olhou-me de lado e comentou:

- Estás um pouco pálido.

- É cansaço.

Aproximamo-nos de Jordan Field, um departamento especial no interior de Fort Hadley. Embora se possa circular mais ou menos livremente por toda a base, aquele é um sector reservado e fomos detidos à entrada por um polícia militar. Este examinou o cartão da CID de Cynthia e perguntou:

- Está a trabalhar no caso de homicídio?

- Sim. Este é o meu pai.

- Hangar três - indicou com um sorriso.

Cynthia meteu a primeira e arrancámos na direcção do hangar três. Jordan Field foi construído pela Força Aérea nos anos 30, e dir-se-ia um cenário do tempo da Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um lugar pequeno de mais para ser ocupado pela actual Força Aérea, mas supera em muito as necessidades locais. Para mero aquartelamento de tropas é redundante e supérfluo.

Na verdade, se todo este complexo militar, incluindo Hardley e Jordan, pertencesse à General Motors, metade seria transferido para o México e a outra metade encerrada. Contudo, o Exército ignora princípios de rentabilidade e, na realidade, o governo mantém estas bases a fim de preservar a economia local.

Na pista havia dois helicópteros e três aviões de caça. Em frente do hangar três, estavam estacionados o carro oficial de Kent e um Ford azul e branco, ostentando nas portas o emblema dourado do chefe da polícia de Midland.

- Deve ser o carro de Yardley - disse Cynthia. - Trabalhei com ele uma vez. E tu?

- Não, nem faço tenção de começar hoje.

Ao entrarmos no hangar sepulcral, avistei de imediato um BMW 325 branco, descapotável, que supus ser o de Ann Campbell. No outro extremo do hangar estavam os móveis e bibelôs dela, organizados por salas, com os tapetes e alcatifas dispostos em função da casa. Ao aproximar-me, reconheci também o mobiliário do seu gabinete e avistei ainda uma mesa comprida e coberta de fotografias da sua casa. Alguns soldados montavam guarda à volta dos objectos expostos e estavam presentes o coronel Kent e um homem com um chapéu à cobói que, pela postura, se tratava provavelmente do chefe da polícia Yardley.

Era um homem corpulento com um fato beje que parecia prestes a rebentar pelas costuras. O rosto corado levou-me a pensar se estava queimado do sol, tinha a tensão arterial elevada ou era vítima de um acesso de raiva não contido.

Yardley e Kent conversavam e olhavam de relance na nossa direcção, à medida que me aproximava com Cynthia. Por fim, Yardley virou-se, avançou ao meu encontro e acolheu-me com estas palavras:

- Deve-me um monte de explicações, amigo.

Não era essa a minha opinião e transmiti-lha de imediato:

Se tocou ou mexeu nalguma coisa, precisarei das suas impressões digitais e de fibras da sua roupa.

Yardley estacou a uns trinta centímetros, de olhos semicerrados, e soltou uma gargalhada.

- É preciso ter lata! - exclamou, virando-se depois para Kent. - Ouviu isto?

O coronel esboçou um sorriso forçado, mas via-se que estava pouco à vontade.

- Lembre-se, por favor - prossegui -, que se encontra numa base militar e sou eu o único responsável por este caso.

Kent votou-se às apresentações, um pouco tardiamente:

- Permita-me que lhe apresente Paul Brenner e Cynthia Sunhill - disse. - Permitir permito, o que não significa que me agrade - replicou Yardley.

O polícia tinha um sotaque rural georgiano que me bulia com os nervos e eu imaginava o que lhe provocaria o meu, de Boston.

Optou por dedicar as atenções a Cynthia e, servindo-se do seu charme sulista, levou a mão ao chapéu, dirigindo-lhe a palavra:

- Julgo que já nos conhecemos?

“Será que o tipo julga que está num plateau?” interroguei-me.

- Pode indicar-me o motivo oficial da sua presença aqui? - inquiri. Voltou a sorrir e concluí que decididamente o divertia.

- Bom, a minha missão oficial - redarguiu - consiste em perguntar-lhe como vieram todas estas coisas parar aqui.

Lembrando-me dos conselhos de Karl, e desejoso de me ver livre deste idiota, respondi:

- A família da morta pediu-me que me encarregasse dos seus objectos pessoais e os trouxesse para aqui.

- Bem jogado, amigo. Apanhou-me! - retorquiu, depois de ter reflectido um momento nas minhas palavras.

- Obrigado.

No fundo, o tipo agradava-me. Sempre tive um fraco pelos idiotas.

- Vou fazer-lhe uma proposta - prosseguiu. - Você dá-me acesso, e aos meus técnicos, a tudo isto e ficamos quites.

- Veremos, depois de o laboratório da CID ter passado tudo em revista. - Não se arme em engraçado comigo.

- Nem pensar.

- Bom. O que me diz a isto: deixa-me meter o nariz neste caso e permito-lhe que entre à vontade na casa da defunta, que se encontra neste momento Selada e sob vigilância.

- A casa não me interessa.

“À excepção da cave”, pensei. “O tipo tem um ás e não sabe.”

- Muito bem. Tenho relatórios oficiais sobre a vítima.

O negócio estava a melhorar, mas acrescentei:

- Salvaguardo a devolução dos dossiês, se precisar deles.

- Este tipo é um corretor - queixou-se Yardley a Kent, virando-se Depois na minha direcção: - Tenho coisas a fazer aqui e que não lhe dizem respeito - retorquiu batendo na cabeça, que emitiu um som oco.

- Conhecia a vítima?

- Conhecia sim, rapaz. E você?

- Não tive esse prazer.

“Talvez uma afirmação com um duplo sentido”, pensei.

- Também conheço o velho - acrescentou o chefe Yardley, servindo-se daquela irritante expressão: - Venha ao meu gabinete e falaremos de tudo isso

- Se falarmos, será no gabinete do comandante da Polícia Militar - contrapus, lembrando-me de como aferrolhara o pobre Dalbert Elkins.

Ao ouvir citar o seu nome, Kent pareceu sair do torpor em que se encontrava e interferiu:

- Devemos cooperar todos e trocar impressões mútuas sobre os dossiês, pistas e resultados do laboratório.

- Compreendo a sua posição, chefe Yardley - disse Cynthia, tomando pela primeira vez a palavra. - Está a pensar que agimos indevidamente, mas não considere isso um insulto à sua pessoa ou função. Se se tratasse de qualquer outra vítima, ter-lhe-íamos pedido que se nos juntasse na busca da casa e nos aconselhasse quanto à melhor forma de actuação.

Yardley premiu os lábios, como se reflectisse nesta declaração ou se preparasse para pronunciar a palavra “merda”. Cynthia prosseguiu:

- Também ficamos irritados quando um soldado é preso na cidade por uma infracção de que um jovem da localidade se teria escapado.

“Excepto se fosse negro, claro, mas não penses em voz alta, Brenner.”

- Sendo assim - continuou Cynthia -, vamos reunir-nos amanhã, num local e a uma hora que convenha a todos, para elaborarmos um plano de acção e formularmos uma boa relação de trabalho.

Yardley acenou com a cabeça, mas o seu espírito estava algures.

- Parece-me bem - anuiu e dirigiu-se depois a Kent: - Obrigado, coronel. Telefone-me esta noite para casa.

- Apanhou-me bem, rapaz - disse ainda, aplicando-me uma forte palmada no ombro. - Um ponto a seu favor - e afastou-se a passo largo, com a expressão de alguém que ainda não disse a sua última palavra.

Quando ele saiu pela porta de serviço, Kent observou:

- Eu bem avisei que ele ficaria irritado.

- E que me interessa?

- Não quero que vocês os dois entrem num braço-de-ferro. Este tipo pode ser-nos muito útil. Metade do pessoal militar vive fora da base, sob a sua circunscrição, e noventa por cento dos civis moram em Midland. Quando tivermos uma lista de suspeitos, precisaremos de Yardley.

- Talvez, mas acho que os suspeitos acabarão por se encontrar em qualquer momento no nosso território. Caso contrário, raptá-los-emos.

Kent abanou a cabeça, o que pareceu activar-lhe o fluxo sanguíneo do cérebro, e perguntou:

- Já falou com o general?

- Não. Porquê?

- Ele quer vê-lo, logo que possível. Está em casa.

- De acordo.

Os parentes da vítima têm muitas preocupações, mas uma conversa com um investigador criminal não é, por regra, uma delas. Todavia, um general é uma outra espécie de ser humano e talvez este precisasse de tomar iniciativas para mostrar que ainda se encontrava no comando.

- Acabei de falar com Cal Seiver, o agente encarregado das operações laboratoriais. Falou-lhe?

- Sim - confirmou Kent. - Parece ter o controlo da situação. Descobriu algo?

- Ainda não.

- E você?

- Tenho uma lista provisória de suspeitos.

- Já? Quem? - surpreendeu-se Kent.

- Você para começar.

- O quê? Que conversa é essa, Brenner?

- Os meus suspeitos incluem todos os que estiveram em qualquer momento no local do crime ou na casa da vítima. O laboratório vai recolher vestígios, pegadas e impressões digitais dessas pessoas e não tenho forma de saber se as mesmas foram deixadas antes, durante ou depois do crime. Os suspeitos provisórios - acrescentei - são, portanto, o sargento Saint-John, o soldado Casey, que atendeu o telefonema, você, todos os outros polícias militares que estiveram no local, Cynthia e eu. Não são suspeitos plausíveis, mas sou obrigado a ter em conta as provas do laboratório.

- Nesse caso, acho melhor que comece a recolher os álibis.

- Tem razão. Qual é o seu?

- Estava deitado, em casa, quando recebi um telefonema do sargento de serviço.

- Mora na base, não é verdade?

- Exacto.

- A que horas regressou a casa?

- Cerca da meia-noite. Jantei na cidade e depois passei pelo gabinete, onde trabalhei até tarde, antes de regressar a casa.

- A sua mulher pode confirmar estas declarações?

- Bom... não. Foi visitar os pais, em Ohio.

- Ah!

- Vá-se lixar, Paul.

- Ei! Calma, coronel.

- Pode achar-se engraçado, mas não o é. Não se brinca com mortos nem suspeitos de homicídio.

Observei-o e pareceu-me, de facto, muito agitado.

- Toda esta história já vai, só por si, dar que falar. Boatos, sussurros, dedos apontados e suspeitas. Não precisamos piorá-la.

- Peço desculpa - disse. - Contudo, julguei que, na nossa qualidade de representantes da ordem, podíamos expressar o que pensamos. Nenhuma das nossas palavras sairá deste hangar, Bill, e, ainda que especulemos e troquemos algumas idiotices, fica entre nós, certo?

Não pareceu, porém, convencido e ripostou:

- Onde é que estava você na noite anterior?

- Em casa, sozinho, na minha caravana, até cerca das quatro e meia da manhã. Dirigi-me ao depósito de munições por volta das cinco. Não tenho testemunhas.

- Uma história provável - observou Kent, que parecia extremamente satisfeito ante a minha falta de álibi. Virou-se para Cynthia: - E você?

- Fui para o meu quarto por volta das dezanove horas. Escrevi o relatório sobre o caso Neely até cerca da meia-noite e em seguida deitei-me. Fui acordada por um do seus homens a bater-me à porta às cinco e meia da manhã.

- Nunca na minha vida ouvi piores álibis - comentei -, mas, de momento, bastarão. Na verdade, esta base assemelha-se a uma pequena cidade e o círculo de amigos, familiares e conhecidos da vítima inclui membros das mais altas hierarquias desta comunidade. Queria alguém de fora que se encarregasse deste caso, não é verdade, Kent? - perguntei-lhe.

- Correcto. Mas não abuse, Paul.

- Porque mandou um dos seus homens a casa de Miss Sunhill?

- Pelo mesmo motivo que o chamei. Competência externa. Ocorreu-me que “competência externa” era uma outra forma de expressar:

“Queremos dois investigadores sem qualquer ideia da corrupção que todos sabem que existe aqui.”

- Conhecia bem Ann Campbell? - inquiri.

Ele hesitou o tempo bastante para pensar na resposta.

- O suficiente - optou por clarificar.

- Pode especificar?

A pergunta não agradou obviamente ao coronel, meu superior e polícia como eu. Contudo, era um profissional e compreendeu o que se esperava dele.

- Devemos ler mutuamente os nossos direitos? - retorquiu com um sorriso forçado.

Devolvi-lho, certo de que se tratava de uma situação incómoda, mas necessária.

Pigarreou antes de me responder:

- Ann Campbell foi colocada nesta base há cerca de dois anos. Eu já estava aqui nessa altura, bem como o general e a mulher. Os Campbell convidaram-me para casa deles, juntamente com outros oficiais, para conhecer a filha. Os nossos campos de actividade nada tinham em comum, mas, como psicóloga, ela interessava-se pelo comportamento criminal e eu pela psicologia do criminoso. Os polícias e psicólogos colaboram muitas vezes.

- Tornaram-se, então, amigos?

- Mais ou menos.

- Almoçaram juntos?

- De vez em quando.

- Jantares? Bebidas?

- Por vezes.

- Sós?

- Numa ou duas ocasiões.

- Mas sabia onde ela morava.

- Sabia que não era na base, mas nunca fui a sua casa.

- Ela foi à sua?

- Sim, algumas vezes. A recepções.

- A sua mulher gostava dela?

- Não.

- Porquê?

- O que acha, Brenner?

- Muito bem. Posso imaginar.

Cynthia teve o bom senso de não interferir no meu interrogatório a um oficial de patente superior e virei-me, por conseguinte, na sua direcção.

- Algumas perguntas ao coronel Kent? - indaguei.

- Uma única e óbvia - respondeu, fitando-o.

- Nunca mantivemos relações íntimas. Se tivesse sido o caso, ter-vos-ia informado logo.

- Esperemos que sim. Ela tinha algum amante? - vinquei.

- Não, que eu saiba.

- Conhecia-lhe inimigos?

- Reflectiu um momento, antes de prosseguir:

- Algumas mulheres antipatizavam com ela, julgo que a consideravam uma ameaça. Também havia homens que não gostavam dela. Tinham a impressão de...

- Não estar à altura? - finalizou Cynthia.

- Sim, algo desse género, além de que ela se mostrava um pouco fria para alguns jovens oficiais celibatários que lhe arrastavam a asa. Mas não lhe conhecia um inimigo figadal. - Hesitou antes de acrescentar: - Dada a forma como morreu, inclino-me para um crime passional. Há mulheres que inspiram desejos saudáveis ou fantasias românticas, e Ann Campbell enquadrava-se mais nas que desencadeiam ideias de violação. Creio que alguém passou à acção. Depois, o indivíduo apercebeu-se de que estava metido num grande sarilho. Talvez Ann o tenha provocado, mas nunca o saberemos, era bem capaz disso. O homem viu-se atrás das grades para o resto da vida e estrangulou-a.

Kent mediu-me e a Cynthia com um olhar avaliador.

- Muitos tipos deixam-se arrastar pelo demónio tentador, que os leva direitinhos ao inferno. Já assisti a bastantes casos na minha carreira. E você também.

“Sem dúvida”, pensei. “Só que neste caso a minha atenção centrava-se, sobretudo, no poder de atracção da vítima.”

- Sabe se ela saía com homens? - perguntei a Kent. - Tinha uma vida sexual activa?

- Ignoro. Apenas conheço um oficial celibatário que por vezes a acompanhava, o tenente Elby, um dos ajudantes do general. Contudo, ela nunca me falava da sua vida privada e, pelo meu lado, só a via pelo aspecto profissional.

- De qualquer modo, não podemos deixar de nos interrogar sobre como ocupava os tempos livres.

- E como, na sua opinião?

- Como eu o teria feito no seu lugar. Separando a minha vida profissional da social, enquanto civil.

- Que tipo de dossiês é que Yardley possui sobre ela?

- Bom... Penso que ele se referia a quando a prenderam em Midland, há aproximadamente um ano. Antes mesmo de a interrogarem, Yardley telefonou-me e fui buscá-la.

- Interessou-se, pois, por ela somente a nível profissional?

- Mais ou menos. Nada disto foi oficial. Yardley prometeu-me que não haveria registo, nada sobre esta prisão.

- Claro que estava a mentir. Porque a prenderam?

- Perturbação da ordem, segundo as palavras de Yardley.

- De que forma Ann Campbell perturbou a ordem de Midland?

- Discutiu com um indivíduo na rua.

- Conhece pormenores?

- Não, Yardley não me disse nada. Pediu-me apenas que a levasse para casa.

- E levou-a?

- Não. Já lhe disse que não sei onde ela mora, Brenner. Não tente golpes baixos, comigo. Na verdade, trouxe-a de volta à base por volta das onze da noite. A propósito, ela estava completamente sóbria. Levei-a a tomar um copo à messe, mas ela nunca me contou o que aconteceu, nem eu lhe perguntei. Chamei-lhe um táxi e foi-se embora por volta da meia-noite.

- Não conhece o homem em questão, nem o nome do agente que a prendeu?

- Não, mas tenho a certeza de que Yardley sabe. Pergunte-lhe - sugeriu Kent com um sorriso de um canto ao outro da boca - agora que lhe caiu nas boas graças. Mais alguma coisa?

- Como se sentiu ao ser informado de que ela estava morta? - quis saber Cynthia, tomando a palavra.

- Fiquei consternado.

- Triste?

- Claro, e triste também pelo general e a senhora Campbell, além de enraivecido e perturbado por tudo se ter passado num âmbito da minha responsabilidade. Gostava dela, mas não o suficiente para ficar profundamente afectado. Estou sobretudo preocupado do ponto de vista profissional.

- Aprecio a sua franqueza - comentei.

- Ainda a apreciará mais quando todos começarem a contar tretas e idiotices.

- Não duvido. Tem algumas perguntas? - inquiri.

- Quanto tempo disse que durava o trajecto entre a base e Whispering Pines? - retorquiu ao mesmo tempo que o rosto se lhe iluminava.

- Meia hora. Um pouco menos às primeiras horas da manhã. Acenou com a cabeça e passeou o olhar pelos móveis e bibelôs expostos no hangar. - Está tudo como queria? - perguntou.

- Na perfeição, um trabalho excelente. Mas arranje divisórias portáteis que permitam colocar os quadros e pendurar a roupa em cabides no lugar onde estavam nos roupeiros. Também esvaziaram a cave? - acrescentei, olhando de relance para Cynthia.

- Sim, está tudo ali em caixotes - redarguiu Kent. - Instalaremos mesas e prateleiras para recriar mais ou menos o cenário.

Reflectiu um momento e depois retomou a palavra:

- Estava à espera de... outra coisa. Reparou, por exemplo, que não há nenhum objecto pessoal?

- Refere-se a anticoncepcionais e coisas do género? Cartas de homens, fotografias de namorados, acessórios sexuais e eróticos?

- Bom, ignoro se uma jovem solteira possui esse tipo de coisas e não andei propriamente em busca de cartas... referia-me mais à pílula ou outros métodos anticoncepcionais.

- Mexeu em alguma coisa, Bill?

- Não - respondeu, ao mesmo tempo que tirava um par de luvas de cirurgião do bolso das calças. - Contudo, posso ter tocado inadvertidamente em alguma coisa sem as ter calçadas quando supervisionei o descarregamento. Yardley também tocou em duas ou três coisas por acidente.

- Ou de propósito.

Kent concordou com um aceno de cabeça e pronunciou-se:

- Sim, ou de propósito. Pode, então, acrescentar mais um suspeito à sua lista.

- Já o fiz.

Dirigi-me à reconstituição do gabinete de Ann Campbell. Tratava-se do tipo de mobiliário espartano que, por um lado, o Exército gosta de comprar, enquanto, por outro, negoceia com o governo a aquisição de armas que custam milhões de dólares.

O gabinete compunha-se de uma secretária de metal, uma cadeira giratória, duas cadeiras desdobráveis, uma estante, dois ficheiros altos e um computador. A biblioteca continha essencialmente livros sobre psicologia, obras militares acerca deste assunto, bem como ensaios relativos a operações psicológicas e outras questões afins.

Abri uma gaveta de um dos ficheiros e li as etiquetas, que aparentemente se referiam a notas de leitura. A segunda tinha a indicação de “confidencial” e, ao abri-la, verifiquei que os dossiês que lá estavam não tinham nomes, mas números.

Tirei um dos dossiês e examinei o conteúdo. Tratava-se da transcrição dactilografada de uma entrevista com uma pessoa apenas identificada com as iniciais L. J. O autor da entrevista era designado pela letra P de pergunta. O documento enquadrava-se no modelo clássico de sessões e entrevistas psicológicas, mas o entrevistado, segundo a primeira página, era acusado de agressão sexual. As Perguntas eram do género de: “Como escolheu a sua vítima?” ou “O que disse ela quando lhe exigiu que lhe fizesse sexo oral?”

Fechei o dossiê. Os interrogatórios deste tipo faziam parte da rotina dos comissariados de polícia e das prisões, mas não conseguia relacioná-los com a guerra psicológica. Tratava-se aparentemente de um dos interesses privados de Ann Campbell.

Empurrei a gaveta e dirigi-me ao computador. Nem sequer sei como se ligam estas coisas, mas disse a Kent:

- Há uma mulher em Falis Church, Grace Dixon, para quem os computadores não têm segredos. Vou chamá-la e não quero que mais ninguém mexa nesta coisa.

Cynthia, que deambulava pelo improvisado gabinete, parou diante do atendedor de chamadas.

- Tem uma mensagem - observou.

- Foi deixada mais ou menos ao meio-dia, minutos depois de a Companhia dos Telefones fazer a transferência da linha - concordou Kent.

Cynthia carregou na tecla de play e ouviu-se uma voz masculina: “Ann, fala Charles. Tentei telefonar antes, mas a linha estava avariada. Sei que não vai trabalhar esta manhã, mas queria preveni-la de que a Polícia Militar veio desmontar todo o seu gabinete. Não me deram qualquer explicação. Telefone-me, por favor, ou encontre-se comigo na messe para almoçarmos. É muito estranho. Devia telefonar à polícia, mas eles são a polícia.” Seguiu-se um pequeno riso forçado e a conclusão: “Espero que não seja nada de grave. Telefone-me.”

- Quem é? - perguntei a Kent.

- O coronel Charles Moore. O superior de Ann na escola.

- O que sabe dele?

- Também é, obviamente, um psiquiatra. Um tipo estranho, um tanto desaparafusado, como todos os daquela escola, aliás. Por vezes, penso que deviam rodeá-la de arame farpado e pôr torres de vigia.

- Eram amigos? - dirigiu-se Cynthia a Kent.

- Pareciam bastante íntimos - respondeu Kent com um aceno de concordância. - Era um pouco o mentor dela, o que não abona muito a favor da sua capacidade de apreciação.

- Numa investigação de homicídio não temos de falar apenas bem dos mortos - tranquilizei-o.

- Sim, mas foi um comentário despropositado - retorquiu Kent, esfregando os olhos. - Só que estou um tanto... fatigado.

- Teve um dia difícil - observou Cynthia, compreensiva. - Suponho que não lhe foi fácil comunicar a morte da filha aos Campbell.

- Não, de facto. Telefonei para casa deles e foi a senhora Campbell a atender. Pedi-lhe que prevenisse o general da minha visita. Ela compreendeu que se passara algo - acrescentou. - Apareci acompanhado pelo capelão-mor, o major Eames, e um médico, o capitão Swick. Quando nos viram-- Quantas vezes não somos obrigados a este tipo de incumbência? Mas quando se trata de uma morte em combate, encontramos as palavras. Em caso de homicídio... o que se pode dizer?

- Como reagiram? - interessou-se Cynthia.

- Corajosamente, como seria de esperar de um militar de carreira e da mulher. Fiquei apenas uns minutos e depois deixei-os com o capelão.

- Foi perfeitamente explícito? - indaguei.

- Não. Comuniquei-lhes apenas que Ann fora encontrada na carreira de tiro, morta, aparentemente assassinada.

- O que disse o general?

- Disse: “Ela morreu no cumprimento do dever.” - Kent fez uma pausa, acrescentando em seguida: - Suponho que se trata de uma espécie de consolo.

- Não entrou em pormenores sobre o estado dela, a possibilidade de violação?

- Não... Ele perguntou como é que a filha morrera e respondi que tudo indicava haver sido estrangulada.

- E ele?

- Não pronunciou palavra.

- Deu-lhe o meu nome e número de telefone?

- Dei. Ele inquiriu se a CID estava a tomar todas as providências. Respondi-lhe que aproveitara a sua presença e a de Miss Sunhill para lhe pedir que se encarregassem do caso.

- E ele?

- Respondeu que queria que o major Bowes, o comandante da CID aqui, assumisse o caso e você e Miss Sunhill fossem dispensados.

- O que lhe respondeu?

- Não quis contrariá-lo, mas ele sabe perfeitamente que é o único âmbito em que não dispõe de autoridade nesta base.

- Na verdade!

- E como reagiu a senhora Campbell? - interferiu Cynthia.

- Mostrou-se estóica, mas à beira de um ataque de nervos - redarguiu Kent. - As aparências são importantes para um general e a mulher, e eles pertencem à velha escola.

- Obrigado, Bill. Bom. A equipa do laboratório estará aqui depois de escurecer e trabalhará a noite inteira. Comunique ao seu pessoal que ninguém está autorizado a entrar aqui, excepto nós.

- Certo. Não se esqueça - acrescentou - de que o general gostaria de lhe falar com a maior brevidade possível em casa dele.

- Porquê?

- Sem dúvida para obter pormenores sobre a morte da filha, pedir-lhe que entregue a pasta ao major Bowes e se afaste do caso.

- Parece-me bem, mas posso tratar de tudo telefonicamente.

- Na verdade, recebi uma chamada do Pentágono. O procurador-geral da Justiça Militar concorda com o seu superior que você e Miss Sunhill, na qualidade de externos e mais experientes do que o pessoal local da CID de Fort Hadley, se encontram em melhores condições para se ocuparem do caso. É a última palavra. Pode informar o general Campbell quando lhe falar, e sugiro que o faça agora.

- Preferia trocar duas palavras com Charles Moore.

- Faça uma excepção, Paul. A diplomacia antes do mais.

Procedi a uma troca de olhares com Cynthia e ela acenou com a cabeça.

- Muito bem. O general e a mulher - acedi com um encolher de ombros.

Kent acompanhou-nos até à saída do hangar.

- Há coincidências irónicas, sabe? - comentou ainda. - ... Ann tinha uma expressão favorita, uma espécie de lema retirado de... um filósofo... Nietzsche: “O que não nos destrói torna-nos mais fortes.” Agora ela está destruída - concluiu.

 

 

                                              CAPÍTULO TREZE

 

Dirigimo-nos no carro para casa do general e Cynthia observou:

- Começo a divisar o retrato de uma mulher torturada, jovem e infeliz.

- Ajusta o retrovisor.

- Deixa-te de sarcasmos, Paul.

- Desculpa.

Devo ter passado pelo sono, pois só me recordo do cotovelo de Cynthia nas minhas costelas e das palavras:

- Ouviste o que te disse?

- Sim. “Deixa-te de sarcasmos, Paul.”

- Disse que acho que o coronel Kent sabe mais do que dá a entender.

- Também me parece - anuí, endireitando-me com um bocejo. - Podemos parar em algum lado para tomar um café?

- Não. Responde-me, Kent é realmente suspeito?

- Teoricamente, sim. Não me agrada que a mulher esteja fora da cidade e não possa confirmar o álibi. Normalmente, a maioria dos homens casados está na cama com a mulher às primeiras horas da manhã. Sempre que elas estão ausentes quando algo do género sucede, é inevitável interrogarmo-nos se não se tratou de uma lamentável coincidência.

- E o chefe Yardley?

- Não é tão estúpido como parece, pois não?

- Não - concordou Cynthia. - Trabalhei com ele há um ano, num caso de violação, quando regressei da Europa. O suspeito era um soldado e a vítima uma rapariga de Midland. Tive, portanto, o prazer de colaborar com ele.

- É um homem que conhece o ofício?

- Há bastante tempo que o exerce. Como me vincou na altura, os oficiais e soldados sucedem-se em Fort Hadley, ao passo que ele há trinta anos que se mantém em Midland. Conhece o território de olhos fechados. É um homem encantador, quando lhe apetece, e esperto como um anho.

- Também deixa as impressões digitais nos lugares onde suspeita que elas já lá estejam.

- Como Kent e como nós.

- Exacto, mas eu sei que não matei Ann Campbell. E tu?

- Estava a dormir - recordou Cynthia num tom glacial.

- Sozinha, o que é uma pena. Devias ter-me convidado a subir. Nesse caso, ambos teríamos um álibi.

- Prefiro ser suspeita de homicídio.

A estrada estendia-se comprida, direita e estreita, uma fita negra por entre pinheiros enormes. Vagas de calor desprendiam-se do alcatrão quente.

- Faz um calor assim em Iowa? - perguntei.

- Sim - anuiu -, mas é mais seco.

- Alguma vez pensaste em voltar para casa?

- Sim. E tu?

- Vou com frequência a Boston. Contudo, cada vez tem menos a ver comigo. A cidade está a mudar.

- O Iowa permanece na mesma. Fui eu quem mudei.

- Ainda tens idade para seguires uma carreira civil.

- Gosto do que faço - redarguiu.

- Podias fazer o mesmo no Iowa. Ingressa na polícia local, deviam adorar beneficiar da tua experiência.

- O último criminoso da região morreu de tédio há dez anos. A força policial compõe-se de dez homens. Usavam-me para fazer café e meter-me na cama com eles.

- Fazes um excelente café.

- Vai-te lixar, Paul.

Mais uma gafe a juntar ao meu currículo. Não é decididamente simples encontrar o tom e atitude exactos frente a uma pessoa que se viu nua, com quem se teve relações sexuais, se dormiu e conversou noites a fio. É impossível ser-se frio e distante, como se nada se tivesse passado, e também não se pode adoptar uma familiaridade demasiada, pois nada existe já. Há que estar atento à linguagem e às mãos. Não se belisca o outro na face, nem se dá uma palmadinha no traseiro, embora se possa desejá-lo. Contudo, também não se evita um aperto de mão e acho que se pode colocar a mão no ombro ou dar uma cotovelada no estômago, como Cynthia me fez. Devia haver um manual para este tipo de coisas ou, na sua falta, uma lei impedindo encontros a menos de cem metros. Salvo, obviamente, se estivessem a fazer mais uma tentativa.

- Fiquei sempre com a sensação de algo inacabado - disse-lhe.

- E eu com a ideia de que fugiste para evitar um confronto com o meu... o meu noivo e de que eu não valia o preço - acrescentou.

- Isso é ridículo, o homem ameaçou matar-me. A discrição é uma faceta desconhecida da coragem.

- Talvez. Contudo, por vezes há que lutar para se conseguir o que se quer, se se quer realmente. Não foste condecorado por bravura?

Desagradava-me que ela estivesse a pôr em causa as minhas qualidades viris e especifiquei num tom um pouco irritado:

- Na verdade, Miss Sunhill, recebi uma estrela de bronze por ter atacado a merda de uma colina que não precisava nem desejava particularmente, mas diabos me levem se farei de Zorro pelos teus belos olhos. E não me lembro de ter recebido qualquer encorajamento da tua parte - acrescentei.

- Não sabia bem qual de vocês desejava e, portanto, resolvi que escolheria o sobrevivente.

Observei-a e interceptei um sorriso.

- Não acho graça, Cynthia - redargui.

- Desculpa - disse, dando-me uma palmadinha no joelho. - Adoro quando te irritas.

Não respondi, prosseguimos em silêncio e aproximámo-nos do centro da base. Os velhos edifícios de cimento aglomeravam-se por detrás da tabuleta indicativa da Escola de Operações Psicológicas.

- Achas que podemos dar uma vista de olhos depois de termos falado com o general? - sugeriu Cynthia.

- Tentaremos - respondi, consultando o relógio.

Seguimos a toda a velocidade. Independentemente dos problemas da urgência do caso, tinha a sensação de que quanto mais tempo o pessoal de Washington e de Fort Hadley dispusesse para pensar, mais depressa começariam a lixar-me. Dentro de três dias, a base seria invadida por tipos do FBI e medalhados da CID, impacientes por se valorizarem, para já nem falar dos media, que deviam estar em Atlanta, tentando descobrir uma forma de chegar aqui.

- O que vamos fazer com aquela tralha que ela tem na cave? - perguntou-me Cynthia.

- Não sei, mas talvez não precisemos dela. Conto com isso. Deixemos que tudo assente durante uns dias.

- E se Yardley descobrir a divisão?

- Problema dele quanto ao que fazer com a informação. Já vimos o suficiente para ficar com uma ideia.

- A pista que leva ao criminoso pode estar naquela cave.

Desviei o rosto na direcção da base, que desfilava ante os meus olhos.

- O que está naquela divisão - comentei - são provas bastantes para arruinar carreiras e vidas, incluindo a dos pais de Ann Campbell, e destruir a posteriori a reputação da vítima. Acho que não precisamos de mais nada de lá.

- É Paul Brenner quem fala?

- Paul Brenner, o oficial de carreira, e não o investigador. -- De acordo. Compreendo muito bem.

- Sim. Faria o mesmo por ti - acrescentei.

- Obrigada, mas nada tenho a ocultar.

- Casaste?

- Não é da tua conta.

- Correcto.

Chegámos à residência oficial do general. A casa, uma enorme mansão de tijolo, com as inevitáveis colunas brancas, erguia-se no meio de um bosque de magnólias, imponentes carvalhos e rodeada de um deserto de austeridade militar.

- A família Beaumont, a quem havia pertencido antes da Guerra da Sucessão, legara-lhe o nome. Após haver escapado à marcha de Sherman para o mar, a casa foi requisitada pelas forças de ocupação da União, que aí estabeleceram o seu quartel-general e a devolveram, algum tempo depois, ao seu legítimo proprietário. Este vendeu-a em 1916, juntamente com a plantação adjacente, ao governo federal, que a passou a designar por Camp Hadley. Voltou assim, por ironia do destino, às mãos do Exército, que transformou os campos de algodão em base militar e os cinquenta mil hectares de bosques em terreno de manobras.

Torna-se difícil avaliar a influência do peso da história sobre a população local, mas presumo que nestas regiões ultrapassa os limites do imaginário de um rapaz de Boston e de uma rapariga de Iowa. Esforço-me por lidar com este assunto o melhor que me é possível, mas sei que, quando um tipo da minha laia encontra alguém como Yardley, existem poucas hipóteses de estarmos no mesmo comprimento de onda. Ao sairmos do carro, Cynthia confessou:

- Tenho as pernas a tremer.

- Dá uma volta pelo jardim. Cá me arranjarei.

- Não, não.

Subimos juntos os degraus até ao alpendre de colunas e toquei à campainha. Um elegante e jovem tenente, de nome Elby, segundo a chapa de identificação, veio abrir.

- Agentes Brenner e Sunhill para falarem com o general e a senhora Campbell, a pedido do general - anunciei.

- Ah, claro! - exclamou, observando a roupa informal de Cynthia e afastando-se, em seguida, para nos dar passagem. - Sou ajudante do general apresentou-se Elby. - O coronel Fowler, o assessor directo do general, vai recebê-los.

- Estamos aqui a pedido do general - insisti.

- Eu sei, mas peço-lhes que se avistem primeiro com o coronel Fowler.

O tenente Elby conduziu-nos até um amplo salão, decorado segundo o estilo e a época da casa, mas suspeitei de que não se tratava do mobiliário original, antes de móveis que o Exército fora buscar à pequena burguesia local, desde que tomara posse da propriedade. Elby introduziu-nos numa pequena divisão lateral, uma espécie de sala de espera para os visitantes, a julgar pela abundância de assentos. Suponho que o ponto de união entre a vida dos plantadores de outrora e a dos generais modernos se cifra na quantidade de visitas, numerosas nos dois casos. Os comerciantes entravam pela porta das traseiras, os nobres acediam directamente ao salão e as pessoas em missão oficial ficavam nesta antecâmara, até que se chegasse a uma conclusão quanto ao seu estatuto.

Elby saiu, deixando-nos de pé. Cynthia observou:

- É o jovem com quem Ann Campbell saía às vezes, segundo o coronel Kent. Bastante atraente.

- Parece um bebé acabado de sair das saias da mãe.

- Nunca desejaste vir a ser general? - indagou Cynthia, mudando de assunto.

- Contento-me com os meus modestos galões.

Ela tentou sorrir, mas estava visivelmente nervosa e também eu não me sentia muito à vontade. Então, para desanuviar o ambiente, recorri a uma velha expressão militar, dizendo:

- Lembra-te de que um general enfia uma perna e depois a outra nas calças, tal como tu.

- Por norma, sento-me na cama e enfio as duas ao mesmo tempo.

- Sabes perfeitamente ao que me refiro.

- Talvez possamos ir embora, depois de termos falado com o coronel Fowler.

- O general será extremamente delicado. São todos.

- Receio sobretudo o confronto com a mulher. Talvez devesse ter trocado de roupa.

“Por que há-de esta gente ser diferente de nós?”, interroguei-me.

- Esta história vai afectar a carreira do general, não? - prosseguiu Cynthia.

- Tudo depende do desenlace. Se não desmascararmos o assassino, se ninguém descobrir a existência daquela divisão na cave e se não vier muita lama ao de cima, ele conseguirá safar-se, pois dispõe do benefício da compaixão. Contudo, se houver demasiado escândalo, demitir-se-á.

- O que marcará o fim das suas ambições políticas.

- Não estou certo de que as tenha.

- É o que afirmam os jornais.

- Problema dele.

Contudo, não era bem assim. O general Joseph Ian Campbell fora mencionado como possível vice-presidente e ainda como potencial candidato a senador do seu estado de origem, o Michigan, ou candidato a governador do mesmo. Além disso, o seu nome já havia sido falado para sucessor do actual chefe do Estado Maior do Exército, o que pressupunha mais uma estrela, existindo ainda a hipótese de nomeação para principal conselheiro militar da Casa Branca.

Todas estas esperanças de honras resultavam directamente da sua participação na Guerra do Golfo, que o fizera sair do anonimato. Contudo, à medida que a memória da guerra se apagava, o seu nome ia desaparecendo da consciência pública. Na realidade, ou se tratava de um bem montado plano da parte de Joseph Campbell, ou ele recusava sinceramente aderir a toda esta insensatez.

Como e porquê fora o famoso general designado para este buraco era um desses mistérios que só os conspiradores do Pentágono seriam capazes de explicar- Mas tive a súbita intuição de que nos meandros do poder se sabia que o general tinha uma bomba de retardador nas mãos e essa bomba se chamava Ann Campbell. Seria possível?

Apareceu então um homem muito alto, de uniforme de caqui verde com as águias de coronel e uma chapa de identificação com o nome de Fowler. Apresentou-se como sendo o assessor do general Campbell, o que pode parecer fútil quando o uniforme fornece todas as indicações necessárias, mas é um ganho de tempo quanto a arrumar ideias sobre como se processarão as relações futuras.

Depois dos apertos de mão protocolares, o coronel Fowler declarou:

- O general deseja realmente falar-vos, mas gostaria de trocar algumas palavras prévias convosco. Façam favor de se sentar.

Obedecemos e fixei o coronel Fowler. Era negro e imaginei que as gerais de antigos proprietários de escravos deveriam estar às voltas nas sepulturas.

De qualquer maneira, tratava-se de um homem muito distinto, de porte discurso elegantes e um estilo militar irrepreensível. O seu papel de assessor assentava-lhe como uma luva. Em simultâneo primeiro conselheiro e transmissor das ordens do general, o primeiro oficial adjunto não tem a mesma função que o segundo, o qual, à semelhança do vice-presidente dos EUA, não dispõe de qualquer poder.

Fowler tinha umas pernas enormes, pormenor importante, se se pensar nas frequentes idas e vindas que um oficial da sua categoria tem de efectuar entre o general e os seus subordinados. Sem que tenha de correr, deve poder dar passos rápidos, sobretudo numa grande parada, onde causará melhor impressão do que alguém com pernas curtas e atarracadas. Fowler era um oficial e um cavalheiro, dos pés à cabeça. Contrariamente a alguns oficiais brancos, que podem dar-se ao luxo de se tornar um pouco desleixados, como eu, o oficial negro, tal como a mulher com a mesma função, tem algo a provar e ainda conserva o modelo do oficial branco como um ideal, que nunca passou de um mito. De qualquer maneira, o Exército baseia-se, em cinquenta por cento, na ilusão.

- Podem fumar, se quiserem - convidou o coronel Fowler. - Querem beber qualquer coisa?

- Não, sir - agradeci.

Fowler tamborilou um pouco com os dedos no braço do sofá, antes de se decidir a retomar a palavra nestes termos:

- É uma tragédia para o general e para a senhora Campbell, mas não queremos que o seja para o Exército.

- Sem dúvida, sir.

Quanto menos disséssemos, melhor, pois ele queria falar e assim o fez:

- A morte do oficial Campbell, ocorrida na própria base que o pai comanda e nas circunstâncias que conhecemos, vai indubitavelmente causar sensação.

- Certo, sir.

- Não acho que seja necessário pedir-vos que não falem à imprensa.

- Obviamente.

O coronel pousou os olhos em Cynthia e dirigiu-lhe a palavra:

- Soube que prendeu o culpado naquele outro caso de violação. Acha que existe qualquer relação com este? Poderiam ser dois violadores? Ou há hipótese de ter detido o homem errado nessa investigação?

- Nenhuma, coronel.

- Nunca se sabe. Pode tomar esse dado em consideração?

- Não, coronel. Os dois casos não estão de forma alguma relacionados. O Estado-Maior do general tinha-se indubitavelmente reunido e ponderara sobre esta brilhante análise dos factos à guisa de hipótese desejável ou tese oficial. A saber: havia na base um bando de jovens recrutas que andavam de olho em confiantes mulheres ou filhas de oficiais.

- Isso não pega - disse ao coronel Fowler.

Ele encolheu os ombros e centrou as atenções em mim, indagando:

- Tem suspeitos?

- Não.

- Pistas?

- Ainda não.

- Mas elaborou certamente uma ou duas teorias, senhor Brenner?

- Exacto, coronel. Só que não passam de teorias e nenhuma delas lhe agradará.

Inclinou-se para diante, visivelmente contrariado.

- O que não me agrada é que uma militar tenha sido violada e assassinada e o culpado ande à solta. Não há muito mais neste caso que possa desagradar-me.

“Quer apostar?”, pensei.

- Constou-me que o general quer afastar-me, e a Miss Sunhill, deste caso.

- Foi a sua primeira reacção. Contudo, depois avistou-se com algumas pessoas de Washington e mudou de opinião. É esse o motivo deste encontro.

- Percebo. Uma espécie de entrevista profissional.

- Se assim lhe quiser chamar, a menos que prefiram ser dispensados da investigação, o que não se reflectirá nas vossas folhas de serviço. Será, pelo contrário, acrescida aos vossos dossiês uma carta de recomendação pelos serviços prestados até este momento e terão, além disso, direito a trinta dias de férias com início a partir deste momento. - Desviou o olhar para Cynthia e voltou a pousá-lo em mim, concluindo: - Nesse caso, será inútil falarem com o general e poderão ir-se embora.

A oferta era tentadora, se amadurecida, portanto, o melhor seria nem pensar.

- O meu superior, o coronel Hellmann, confiou-nos este caso e aceitámos a incumbência. Portanto, a questão está encerrada, coronel.

Acenou com a cabeça. Não conseguia discernir bem este personagem. Por detrás da fachada rígida de oficial adjunto revelava-se um hábil interlocutor, o que não era de admirar para sobreviver nesta função, conhecida como desgastante no Exército. Além disso, só se chega a general depois de se ter sido assessor de um deles, e Fowler estava muito próximo de obter a sua primeira estrela de prata.

Parecia profundamente absorto nas suas reflexões e o silêncio reinou na sala. Depois de lhe ter dado a deixa, havia que esperar pela resposta. Os oficiais superiores tinham este hábito inquietante de deixar pairar intermináveis Pausas, que os subordinados inexperientes se apressavam a preencher com observações, as quais lhes valiam olhares fulminantes ou uma reprimenda. Era uma espécie de estratégia, como se se estivesse num desafio de futebol ou numa guerra. Embora não conhecesse bem o coronel Fowler, a sua táctica era demasiado óbvia: ele testava a minha resistência e força de vontade, talvez para Perceber se lidava com um idiota entusiasmado ou uma raposa tão matreira Quanto ele. Cynthia, honra lhe seja feita, também não caiu na armadilha.

- Sei porque está Miss Sunhill aqui - observou, após se ter resolvido finalmente a dirigir-me a palavra. - Mas o que traz um investigador da CID à nossa pequena base?

- Enviaram-me aqui em missão secreta. Um dos vossos responsáveis pelo depósito de munições preparava-se para vender armas por sua conta. Penso coronel, que deveria reforçar a segurança e ficar ciente de que lhe poupei alguns embaraços. Tenho a certeza de que o comandante da Polícia Militar o informou.

- Exacto. Há umas semanas, quando aqui chegou.

- Sabia, então, da minha presença?

- Sim, mas ignorava o motivo.

- Porque acha que o coronel Kent me confiou este caso, sem que ninguém deseje que o tome a meu cargo?

- Se quer que seja honesto - disse Fowler, após uns momentos de reflexão -, o coronel Kent não se dá muito bem com o chefe local da CID, o major Bowes. De qualquer maneira, os seus superiores de Falis Church tê-lo-iam colocado imediatamente à frente do caso, por isso Kent limitou-se a fazer o que achava melhor para toda a gente.

- Incluindo ele próprio. Qual é o problema entre o coronel e o major Bowes?

- Sem dúvida uma questão de jurisdição, uma rivalidade - elucidou, com um encolher de ombros.

- Nada de pessoal?

- Não sei. Pergunte-lhes.

- É o que farei. Conhecia pessoalmente Ann Campbell? - quis saber.

Observou-me uns momentos, antes de responder:

- Sim. O general pediu-me, aliás, que me encarregasse do elogio fúnebre.

- Percebo. Acompanhou-o antes de ele ser destacado para aqui?

- Sim. Estou com o general Campbell desde que ele foi comandante de divisão na Alemanha. Servimos juntos no Golfo e depois aqui.

- Foi ele quem pediu o destacamento para aqui?

- Não me parece que isso seja relevante para o caso.

- Deduzo que conheceu Ann Campbell antes de Fort Hadley?

- Sim.

- Pode indicar-me a natureza das vossas relações? “Que tal como atitude diplomática?”

Fowler inclinou-se para diante e fitou-me sem desviar o olhar.

- Diga-me, senhor Brenner. Isto é um interrogatório?

- Exacto.

- Diabos me levem...

- Espero bem que não, sir.

Riu-se e levantou-se.

- Apareçam os dois amanhã no meu gabinete e podem dar largas a essa satisfação - indicou. - Telefonem a marcar uma entrevista. Sigam-me, por favor.

Conduziu-nos ao salão e, de lá, para as profundezas da mansão, até uma porta fechada.

- Não precisam de fazer continência. Dêem apenas condolências rápidas recomendou - e sentem-se quando vos mandarem. A senhora Campbell não estará presente, encontra-se sob sedativos. Sejam rápidos, cinco minutos, não mais.

Bateu à porta, abriu-a e entrou, anunciando-nos como os agentes Brenner e Sunhill, da CID.

parecia uma série televisiva. Cynthia e eu vimo-nos numa espécie de escritório todo forrado de madeira, cabedal e aço. Os reposteiros estavam corridos e a única luz provinha de um candeeiro de secretária com um quebra-luz verde, por detrás da secretária encontrava-se o general de divisão Joseph Campbell, com farda de combate e o peito orlado de condecorações. Ressaltava pela estatura imponente, lembrando os chefes de clã escoceses, de quem provavelmente descendia. Pairava, aliás, no ar o inconfundível odor a uísque.

O general estendeu a mão a Cynthia, que a apertou, dizendo:

- As minhas sinceras condolências, sir.

- Obrigado.

Chegou depois a minha vez de lhe apertar a mão e expressar condolências.

- Desculpe incomodá-lo numa altura destas - acrescentei, como se a ideia deste encontro tivesse partido de mim.

- Não tem de se desculpar. Sentou-se, convidando-nos a imitá-lo.

Ocupámos dois maples de cabedal em frente da secretária e observei-lhe o rosto na penumbra. Tinha uma farta cabeleira louro-cinza e no rosto brilhavam uns olhos muito azuis. As feições pareciam talhadas a cinzel e tinha um queixo determinado e fendido. Tratava-se de um homem elegante, mas, à excepção dos olhos, Ann Campbell devia ter herdado a beleza da mãe.

Diante de um general, nunca se fala em primeiro lugar. Contudo, ele mantinha-se silencioso, fixando qualquer ponto por detrás de nós. Acenou com a cabeça, suponho que na direcção de Fowler, e ouvi a porta a fechar-se atrás do coronel.

O general deteve o olhar em Cynthia, depois em mim e dirigiu-se-nos num tom de voz que eu sabia estar alterado, por já o ter ouvido falar várias vezes na rádio e na televisão.

- Julgo saber que pretendem prosseguir a vossa missão - declarou.

- Sim, meu general - respondemos em uníssono e com um aceno de concordância.

- Como posso convencê-lo - dirigiu-se-me - de que seria do interesse de todos que confiassem o caso ao major Bowes, aqui, em Fort Hadley?

- Lamento, general - respondi -, mas este caso transcende Fort Hadley e também o seu desgosto pessoal. Nenhum de nós o pode impedir.

- Então, podem contar com a minha total cooperação e a de todos aqui aquiesceu.

- Obrigado, sir.

- Faz alguma ideia de quem possa ter cometido um acto destes?

- Não, sir.

“E o senhor?”, interroguei em pensamento.

- Garantem-me que actuarão rapidamente, que nos ajudarão a atenuar o sensacionalismo deste incidente e farão mais bem do que mal por aqui?

- Garanto-lhe que o nosso único objectivo reside em proceder rapidamente à prisão do culpado.

- Desde o início que tomámos as medidas necessárias para evitar toda interferência externa - reiterou Cynthia. - Transportámos o conteúdo da casa da sua filha para a base, mas o chefe da polícia Yardley parece ter ficado contrariado e suspeito de que o contactará sobre o assunto. Se quiser ter a bondade de o informar que autorizou esta mudança, muito lhe agradecemos Quanto a atenuar o sensacionalismo e as consequências nefastas deste caso para a base e o Exército, uma palavra sua ao chefe Yardley seria muito eficaz nesse sentido.

O general Campbell observou demoradamente Cynthia. Era-lhe sem dúvida impossível olhar para uma jovem e atraente mulher sem pensar na filha. Só não sabia o que ele pensaria acerca dela.

- Pode contar com isso - prometeu.

- Obrigada, general.

- Se estou bem informado, sir - interferi - era suposto encontrar-se com a sua filha esta manhã, depois de ela sair de serviço.

- Sim - confirmou - devíamos tomar o pequeno-almoço juntos. Ao ver que Ann não aparecia, telefonei ao coronel Fowler para o quartel-general e ele respondeu que ela não estava lá. Julgo que lhe telefonou para casa.

- Que horas eram mais ou menos, sir?

- Não tenho a certeza. Devia ter chegado a casa às sete horas. Telefonei para o quartel-general provavelmente às sete e meia.

Não insisti neste ponto, mas acrescentei:

- A sua colaboração vai ser-nos preciosa, general, e muito lhe agradecemos. Quando tiver oportunidade, gostava de o interrogar mais pormenorizadamente e à senhora Campbell. Talvez amanhã?

- Amanhã teremos infelizmente de nos ocupar do funeral e de algumas formalidades pessoais. No dia seguinte ao do enterro, será preferível.

- Obrigado. A família possui, por vezes, informações que, sem o saberem, podem ser determinantes para a resolução de um caso.

- Compreendo.

Ficou uns momentos pensativo e depois acrescentou:

- Acha que... pode ser alguém que ela conhecia?

- É muito possível - respondi e os nossos olhares cruzaram-se.

- Também tenho essa sensação - acrescentou sem desviar o dele.

- Além do coronel Kent, alguém lhe descreveu as circunstâncias da morte da sua filha?

- Sim, o coronel Fowler pôs-me ao corrente da situação.

- Informou-o como a encontraram e que talvez tivesse havido violação?

- Exacto.

Seguiu-se um longo silêncio e, devido à minha anterior experiência com generais, sabia que tal significava o fim da entrevista.

- Há alguma coisa que possamos fazer por si neste momento? - perguntei.

- Sim... descubram-me esse safado. Levantou-se, premiu um botão e agradeceu:

- Obrigado por me terem dispensado estes minutos do vosso tempo.

Pus-me igualmente em pé, apertei-lhe a mão e disse:

- Obrigado eu, general, e apresento-lhe de novo as minhas condolênciase a toda a sua família.

Agarrou na mão de Cynthia e talvez fosse imaginação minha, mas pareceu-me que a prendeu demoradamente, de olhos fixos nos dela, acrescentando em seguida:

- Sei que dará o seu melhor e que teria agradado à minha filha. Ela gostava de mulheres decididas.

- Obrigada, general - agradeceu Cynthia. - Prometo-lhe que darei o meu melhor e, mais uma vez, as minhas profundas condolências.

A porta atrás de nós abriu-se e o coronel Fowler escoltou-nos até à porta principal.

- Julgo saber que tem poder para deter qualquer pessoa, mas vou pedir-lhe que me previna antes de isso acontecer - disse-me num tom meio autoritário.

- Porquê?

- Porque - respondeu num tom mais duro - não gostamos de que o nosso pessoal seja detido por gente de fora sem nosso conhecimento.

- Mas tal acontece com frequência - retorqui. - Na verdade, e como já deve saber, há umas horas que pus atrás das grades o sargento do depósito de armas. Contudo, e se quiser, informá-lo-ei oficialmente.

- Obrigado, senhor Brenner. Como sempre - acrescentou - há três maneiras de fazer as coisas: a maneira certa, a maneira errada e a maneira militar. Tenho a sensação de que optou pela certa, que é afinal a errada.

- Eu sei, coronel.

Virou-se para Cynthia e pronunciou-se:

- Se mudar de opinião quanto aos trinta dias de licença, informe-me. Caso contrário, mantenha-se em contacto comigo. O senhor Brenner parece-me o tipo de homem que se embrenha no trabalho a ponto de esquecer o protocolo.

- Certamente, sir - anuiu Cynthia -, e peço-lhe o favor de nos conseguir rapidamente uma entrevista com o general e a senhora Campbell. Precisaremos, no mínimo, de uma hora. Peço-lhe também que telefone para o gabinete do comandante da Polícia Militar, se se lembrar de qualquer informação que nos possa ser útil.

Ele abriu a porta e saímos. Antes de a fechar, virei-me e acrescentei:

- A propósito, ouvimos a mensagem que deixou no atendedor de chamadas de Ann Campbell.

- Oh, sim. Dadas as circunstâncias, parece idiota.

- A que horas fez esse telefonema, coronel?

- Mais ou menos às oito. O general e a senhora Campbell esperavam a filha por volta das sete da manhã.

- Donde telefonou, sir?

- Do meu gabinete, no quartel-general.

- Procurou saber se ela ainda estaria de serviço?

- Não... Parti do princípio de que se esquecera e fora para casa. Não seria a primeira vez - acrescentou.

- Compreendo. Verificou se o carro dela estava no parque de estacionamento do quartel-general?

- Não... mas, de facto, deveria tê-lo feito.

- Quem o informou sobre as circunstâncias da morte da filha do general.

- Falei com o comandante da Polícia Militar.

- E ele disse-lhe como a encontraram?

- Sim.

- Portanto, o general e o senhor sabiam que ela foi amarrada, estrangulada e sofreu sevícias sexuais?

- Sim. Há mais alguma coisa que devíamos saber?

- Não, sir. Onde posso encontrá-lo fora das horas de serviço?

- Moro nas instalações dos oficiais, na base. Bethany Hill. Sabe onde fica?

- Acho que sim. A sul daqui, a caminho da carreira de tiro.

- Correcto. O meu número de telefone vem na lista da base.

- Obrigado, coronel.

- Bom dia a ambos.

Fechou a porta e eu e Cynhtia dirigimo-nos ao carro dela.

- Qual é a tua opinião sobre o coronel Fowler? - perguntou-me.

- Inferior à que ele faz sobre si próprio.

- Há que reconhecer que tem uma presença imponente. Dando um desconto a uma certa arrogância de patente, suspeito de que é tão sério, consciente e eficiente quanto parece.

- É esse o problema, é dedicado de corpo e alma ao general e só a ele. O seu destino e o de Campbell encontram-se intimamente ligados e a sua estrela depende da carreira do general.

- Por outras palavras, está pronto a mentir para o proteger.

- Sem pestanejar. Na verdade, mentiu quanto ao telefonema para casa de Ann Campbell. Estávamos lá antes das oito da manhã e a mensagem já se encontrava no atendedor de chamadas.

- Eu sei - anuiu Cynthia com um aceno de concordância. - Há qualquer coisa de errado quanto a esse telefonema.

- É mais um suspeito! - exclamei.

 

 

                         CAPÍTULO CATORZE

 

- Escola de Operações Psicológicas? - perguntou Cynthia.

Eram cinco e meia da tarde no meu relógio civil, novamente a hora do aperitivo.

- Não, deixa-me na messe - pedi.

Seguimos rumo à messe dos oficiais, situada numa colina, longe das actividades da base, mas a uma distância conveniente.

- Até agora, o que achas da nossa associação? - quis saber Cynthia.

- Pessoal ou profissionalmente?

- As duas coisas.

- Profissionalmente, estou a progredir. E tu?

- Fui eu a perguntar.

- Até agora, perfeito. És uma profissional. Sinto-me impressionado.

- Obrigada. E pessoalmente?

- Gosto da tua companhia.

- E eu da tua.

Depois de alguns segundos de um silêncio embaraçoso, ela mudou de assunto e inquiriu:

- O que achaste do general Campbell?

Reflecti uns momentos. É importante poder avaliar o mais rapidamente possível qual a reacção dos amigos, família e colegas da vítima ante a notícia da sua morte. Resolvi mais do que um caso de homicídio graças a atitudes que me tinham parecido suspeitas e que procurei aprofundar.

- Não mostrara aquele ar abatido e inconsolável de um pai que acaba de ser informado da morte da filha. Por outro lado, ele é quem é - respondi.

- Mas quem é ele exactamente? - quis saber Cynthia.

- Um soldado, um herói, um líder. Quanto mais uma pessoa sobe na escada do poder, mais a sua personalidade se torna inacessível.

- Talvez - concordou, acrescentando depois de um instante de silêncio: Tendo em consideração a forma como Ann Campbell morreu... quero dizer, o estado em que a encontraram... não acho que o pai fosse o assassino.

- Não sabemos se foi morta naquele local, nem se morreu com ou sem roupa. As coisas nem sempre são o que parecem. Um assassino esperto leva-nos a ver o que ele quer que vejamos.

- De qualquer maneira, Paul, não posso acreditar que ele tenha estrangulado a própria filha.

- Não é vulgar, mas já aconteceu. Se ela fosse minha filha e eu estivesse a par das suas bizarrias sexuais, ficaria enraivecido.

- Mas não a ponto de a matares!

- Não, acho que não. Contudo, nunca se sabe. Tento somente analisar os motivos.

- Chegámos à messe, que, como atrás mencionei, é um edifício de estuque de estilo espanhol. Tratava-se, aparentemente, de um estilo popular nos anos 20, quando este clube e outros do género foram construídos depois de Camp Hadley se transformar em Fort Hadley. A guerra destinada a acabar com todas as guerras fora ganha, mas algures, no mais recôndito de uma série de mentes, deve ter-se instaurado a ideia de que havia necessidade de um grande exército para a próxima guerra destinada a acabar com todas as guerras, e ocorreu-me o pensamento pessimista de que a actual redução de força era apenas temporária.

- Abri a porta do carro e virei-me para Cynthia.

- Não estás vestida para entrar na messe dos oficiais, senão convidava-te para jantar - disse.

- Bom... Posso ir trocar de roupa, se quiseres. A menos que prefiras jantar só.

- Encontramo-nos no grill - decidi. Saí do carro e ela arrancou.

Entrei na messe no momento em que os altifalantes anunciavam o recolher. Mostrei a identificação, dirigi-me à secretaria e pedi um telefone e uma lista telefónica da base. Dado não encontrar mencionado o nome do coronel Charles Moore, contactei a Escola de Operações Psicológicas. Passava um pouco das seis da tarde, mas o que o Exército tem de bom é que há sempre alguém a trabalhar algures. Nunca dormimos. Um sargento de serviço respondeu-me e ligou-me ao gabinete do coronel Charles Moore.

- Operações Psicológicas, coronel Charles Moore.

- Coronel, fala o agente Brenner, do Army Times.

- Oh...

- Trata-se da morte de Ann Campbell.

- Sim... Deus do céu... uma coisa horrível... trágica.

- Pode conceder-me uns minutos, sir?

- Claro, ela trabalhava sob as minhas ordens.

- Eu sei, sir. Será que poderia vir ter comigo agora à messe, coronel? Não o deterei mais de dez minutos.

“Excepto se me interessar”, pensei.

- Bom...

- Tenho de entregar o relatório daqui a duas horas e gostaria de incluir algumas palavras do seu superior directo.

- Claro. Onde?

- No grill. Estou vestido com um fato azul de civil. Obrigado, coronel. Desliguei. Todos os americanos sabem que não são obrigados a falar à polícia, se não o desejarem, mas gostam de fazer revelações à imprensa. De qualquer forma, tinha passado a maior parte do dia como Paul Brenner, da CID. E desagradava-me a necessidade de ocultar a minha verdadeira identidade.

Peguei na lista telefónica de Midland e localizei um Charles Moore no mesmo complexo de apartamentos com jardim onde Ann Campbell vivera.

O facto nada tinha de especial, embora a escolha de Victory Gardens como morada não se enquadrasse na imagem de um coronel. Contudo, talvez ele estivesse endividado ou, na qualidade de psiquiatra, não atribuísse importância a cruzâr-se com tenentes e capitães no parque de estacionamento. Ou talvez quisesse estar próximo de Ann Campbell. Anotei o endereço e o número de telefone, depois falei para as instalações dos oficiais de passagem e apanhei Cynthia no momento em que ela entrava no quarto.

- O coronel Moore vem ter connosco - disse-lhe. - Somos do Army fintes. Tenta conseguir-me um quarto aí nas instalações. Não posso voltar a Whispering Pines com o chefe Yardley na minha peugada. Pára na loja e compra-me uma escova de dentes, uma gilette e essas coisas. Uma camisa também, colarinho quinze, e traz ténis para ti a fim de irmos mais tarde até à carreira de tiro. E uma lanterna. De acordo? Cynthia? Está? Está?

Um problema de ligação, segundo pensei. Desliguei e desci até ao grill, que não é tão formal como a sala de jantar principal e tem um serviço mais rápido. Encomendei uma cerveja no bar e pus-me a trincar batatas fritas e amendoins, enquanto ouvia as conversas à minha volta. Apenas se falava de Ann Campbell, em voz baixa, num tom cauteloso. Estávamos, afinal, no clube dos oficiais. O assunto devia ser o mesmo em todos os bares de Midland, só que as opiniões eram expressas mais livremente.

Um homem de meia-idade, fardado e com as divisas de coronel, entrou no grill e passeou o olhar pela sala. Observei-o durante um minuto, reparando que ninguém o saudou. Não era obviamente conhecido, ou não despertava simpatia. Levantei-me e avancei ao seu encontro. Avistou-me e dirigiu-me um sorriso hesitante.

- Paul Brenner?

- Sim.

Apertei a mão que me estendia. O uniforme do coronel Moore estava amachucado e era de mau corte, denotando que pertencia a um sector marginal do Exército.

- Obrigado por ter vindo - agradeci.

Na minha frente encontrava-se um homem com cerca de cinquenta anos, cabelo preto e encaracolado, talvez um pouco comprido de mais e o ar de um Psiquiatra civil convocado para o activo no dia anterior. Os médicos, advogados, psiquiatras e dentistas militares sempre me despertaram uma certa curiosidade. Interrogo-me sobre se os colocam entre nós por causa de qualquer falha Profissional ou se exercem a sua actividade no Exército com base num patriotismo sincero. Conduzi-o até uma mesa no canto oposto da sala e sentámo-nos.

- Aceita uma bebida?

- De bom grado.

Fiz sinal a uma empregada e o coronel pediu um cálice de xerez. Começados mal.

Moore fitou-me, como que a tentar diagnosticar os distúrbios mentais de que eu pudesse sofrer. Para não o desapontar, iniciei a conversa com um tema da sua preferência:

- Parece que ela caiu nas mãos de um psicopata. Talvez um serial killer

- O que o leva a fazer essa afirmação? - quis saber, fiel aos seus princípios profissionais.

- Uma mera suposição.

- Nunca houve violações ou crimes semelhantes na região - informou-me.

- Semelhantes a quê?

- Ao que aconteceu a Ann Campbell.

O que sucedera à vítima não devia ser do conhecimento geral nesta fase do inquérito, mas o Exército é próspero em boatos e rumores. Portanto, o que o coronel Moore sabia, o que sabiam o coronel Fowler e o general Campbell, quando o tinham sabido e como era um verdadeiro enigma nesta altura.

- O que lhe aconteceu exactamente? - sondei.

- Foi, sem dúvida, violada e morta - respondeu. - Na carreira de tiro.

Tirei o bloco de apontamentos do bolso, sem deixar de beber a cerveja em pequenos goles.

- Acabam de me telefonar de Washington - disse - e não possuo muitos pormenores. Constou-me que a encontraram nua e amarrada a estacas.

- Acho preferível que contacte a polícia militar sobre esse assunto acrescentou com uma expressão vaga.

- Tem toda a razão. Há quanto tempo estava ela sob as suas ordens?

- Desde que chegou a Fort Hadley, mais ou menos há dois anos.

- Conhecia-a, assim, bastante bem?

- Sim. A escola é pequena. Compõe-se apenas de uns vinte oficiais e trinta subalternos, entre homens e mulheres, não mais.

- Percebo. Como se sentiu ao receber a notícia?

- Ainda me encontro em estado de choque. Não consigo acreditar.

Contudo, não me pareceu demasiado perturbado para um homem em estado de choque. Trabalho ocasionalmente com psicólogos e psiquiatras e conheço a sua tendência para adoptarem comportamentos bizarros, enquanto pronunciam as palavras certas.

Acredito também que algumas profissões correspondem a determinados tipos de personalidades, o que é sobretudo verdade no Exército. Na infantaria, por exemplo, os oficiais mostram-se frequentemente frios, determinados e um tudo nada arrogantes, enquanto os membros da CID manipulam com facilidade o sarcasmo e a dissimulação e dão provas de uma inteligência brilhante’ Ao escolherem uma profissão que os obriga a lidar com espíritos perturbados, os psiquiatras militares acabam - o que é um lugar-comum - por mergulhar na demência. Charles Moore, especialista na guerra psicológica, esforçava-se por semear a loucura nos espíritos sãos dos nossos inimigos, como o médico que cultiva germes do tifo a fim de disseminar a epidemia no caso de uma guerra bacteriológica.

Achava-o, na verdade, uma pessoa bizarra. Por vezes, parecia completamente ausente e depois fixava-me, atento, como que para tentar ler-me a expressão ou adivinhar-me o pensamento. Conseguia pôr-me pouco à vontade, o que não está ao alcance de todos. Além do seu comportamento estranho, tinha olhos sinistros, muito pretos, cavados e penetrantes. Expressava-se num tom de voz grave e lento, pseudocalmo, como devem ensinar nas escolas de psiquiatria.

- Já conhecia Ann Campbell antes de ela vir para Fort Hadley? - inquiri.

- Sim. Conheci-a há seis anos quando estava na escola de Fort Bragg. Era o seu instrutor.

Ela acabara de obter o diploma de psicologia em Georgetown.

Fitou-me com um ar de surpresa por eu estar tão bem informado.

Sim, de facto.

- E estiveram juntos em Bragg, quando ela ingressou no grupo de operações psicológicas?

- Eu estava na escola e ela num grupo de operações psicológicas.

- E depois?

- Fomos para a Alemanha, estivemos lá quase em simultâneo e, em seguida, regressámos à escola JFK, em Bragg, onde ambos ensinámos durante algum tempo. Fomos destacados para a mesma missão no Golfo, depois para o Pentágono e há dois anos chegámos aqui a Fort Hadley. Necessita mesmo de todas estas informações?

- O que faz em Fort Hadley, coronel?

- É confidencial.

- Ah! - exclamei, sem deixar de tomar notas.

Não é vulgar duas pessoas partilharem tantas missões, até mesmo numa área especializada como no caso das operações psicológicas. Conheço militares casados que não tiveram essa oportunidade. Como o caso da pobre Cynthia, por exemplo, que, embora não fosse casada com aquele tipo das forças especiais, estava noiva dele e operava em Bruxelas, enquanto ele fora enviado para a zona do Canal.

- Tinham boas relações profissionais? - perguntei ao coronel Moore.

- Sim, Ann Campbell era uma pessoa extremamente motivada, inteligente, equilibrada e digna de confiança.

A frase assemelhava-se ao tipo de avaliação que ele devia escrever no relatório, de seis em seis meses. Constituíam, visivelmente, uma boa equipa.

- Ela era uma espécie de sua protegei

- Fitou-me como se a minha utilização de uma palavra francesa pudesse sugerir vulgaridade.

- Trabalhava sob as minhas ordens - limitou-se a dizer.

- Muito bem.

Inseri a resposta no capítulo de “Tretas”, verificando que me desagradava a ideia de que este excêntrico tivesse percorrido o mundo na companhia de Ann Campbell e partilhado tantos anos com ela. Estive quase a dizer-lhe: “Ouça, Moore. Você nem no mesmo planeta devia estar com esta deusa. Sou eu o único que a poderia ter tornado feliz. Não passa de um estúpido anormal.” Mas contentei-me em perguntar:

- Conhece o pai dela?

- Sim, mas não muito bem.

- Conheceu-o antes de Fort Hadley?

- Sim. Cruzámo-nos de vez em quando. Vimo-lo ocasionalmente no Golfo.

- Vimo-lo?

- Ann e eu.

- Ah! - exclamei, tomando nota.

Fiz-lhe mais algumas perguntas, mas tal não nos levou muito longe. O que eu pretendia com este encontro era recolher uma impressão pessoal, antes que ele descobrisse com quem estava a falar. Quando sabem que se trata de um polícia, as pessoas escondem-se. Por outro lado, os jornalistas do Army Times não podem permitir-se perguntas do género “teve relações sexuais com ela?”, mas os polícias podem.

- Teve relações sexuais com ela? - indaguei. Levantou-se de um salto e insurgiu-se.

- Que tipo de pergunta é essa? Vou apresentar queixa... Mostrei-lhe o meu distintivo.

- CID, coronel. Sente-se - pedi.

Hesitou durante um segundo e depois encarou-me com os olhos que pareciam emitir chispas vermelhas e mortíferas, como se estivéssemos num filme de terror.

- Sente-se, coronel - repeti.

Pôs-se a olhar furtivamente em volta, como se receasse estar cercado, ou algo do género. Depois, optou por se sentar.

Há coronéis e coronéis. Em teoria, a patente transcende o homem ou a mulher que a usam e é ela que deve ser respeitada, e não a pessoa, só que na prática não é assim. O coronel Fowler, por exemplo, apresentava-se investido de um certo poder, de uma certa autoridade, que incitavam à prudência, mas, tanto quanto sabia, o coronel Moore não estava ligado a qualquer estrutura de poder.

- Estou a investigar o assassínio da Ann Campbell - informei-o. Não é suspeito neste caso e não vou ler-lhe os seus direitos. Deve, portanto, responder às minhas perguntas com toda a verdade e sinceridade, certo?

- Não tem o direito de se fazer passar por...

- Assumo na íntegra o meu desdobramento de personalidade. Primeira pergunta...

- Só falarei na presença de um advogado.

- Acho que viu demasiados filmes. Só tem o direito a um advogado e a se manter calado, se for suspeito. Se recusar colaborar, ver-me-ei obrigado a culpá-lo, a ler-lhe os direitos e a levá-lo ao gabinete do comandante da Polícia Militar, anunciando que tenho um suspeito que precisa de um advogado. É o que diz a lei. Então?

Reflectiu uns momentos e pronunciou-se:

- Não tenho nada a ocultar e desagrada-me totalmente a sua maneira de agir.

- Muito bem. Primeira pergunta. Quando viu a vítima pela última vez?

Pigarreou, endireitou-se e depois respondeu:

- Ontem, por volta das dezasseis e trinta, no meu gabinete. Disse-me que ia comer qualquer coisa à messe, antes de entrar ao serviço.

- Porque se ofereceu ela como voluntária para oficial de ronda na noite passada?

- Não faço a mínima ideia.

- Telefonou-lhe do quartel-general à noite ou foi o senhor a telefonar-lhe?

- Bom... Deixe-me pensar...

- Todas as chamadas podem ser registadas e a central tem uma lista. Na verdade, as internas não o podiam e Ann Campbell não teria certamente anotado os telefonemas pessoais.

- Sim, telefonei-lhe... - confessou Moore.

- A que horas?

- Por volta das onze da noite.

- Porquê tão tarde?

- Tínhamos de falar acerca de um trabalho para o dia seguinte e eu sabia que aquela era uma hora calma.

- Donde lhe telefonou?

- Da minha casa.

- Onde fica?

- Na cidade. Victory Drive.

- Não é aí que ela morava?

- Sim.

- Alguma vez foi a casa dela?

- Claro. Muitas.

Tentei imaginar como seria este tipo despido, de costas para a câmara, com uma máscara de cabedal. Interroguei-me sobre se o laboratório teria um especialista, homem (ou mulher), capaz de identificar o pénis dele por meio de uma foto. De qualquer forma, perguntei-lhe:

- Teve alguma vez relações sexuais com ela?

- Não, mas essa falsa história vai chegar-lhe aos ouvidos. Os boatos seguiram-nos por todo o lado onde...

- É casado?

- Fui. Divorciei-me há sete anos.

- Encontros?

- Ocasionais.

- Achava que Ann Campbell era uma mulher atraente?

- Bom... Admirava-lhe a inteligência.

- E quanto ao corpo?

- Esse género de perguntas não me agrada.

- Nem a mim. Achava-a sexualmente atraente?

- Era superior dela, fazíamos uma diferença de quase vinte anos e ela era filha de um general. Nunca lhe disse uma palavra que pudesse ser considerada assédio sexual.

- Não estou a investigar um caso de assédio sexual, coronel, mas de violação e assassínio. Porquê esses rumores?

- Porque as pessoas têm mentes sujas. Até mesmo os oficiais - sorriu

- Como você.

Nessa altura, mandei vir mais duas bebidas: outro cálice de xerez, para descontrair, e uma cerveja para acalmar o meu impulso de o desancar.

Cynthia apareceu vestida com calças pretas e uma blusa branca. Apresentei-a ao coronel Moore, com este comentário:

- Já não somos jornalistas do Army Times, somos da CID. Perguntei ao coronel se teve relações sexuais com a vítima e ele garante-me que não. Estamos numa situação de confronto neste momento.

Cynthia esboçou o seu mais belo sorriso a Moore.

- O senhor Brenner está extremamente tenso e cansado - explicou, sentando-se.

Fiz um resumo da nossa conversa a Cynthia. Ela mandou vir um Bourbom com coca-cola, uma sanduíche e, para mim, um cheeseburger, sabe que gosto. O coronel Moore recusou jantar connosco a pretexto de que ainda se encontrava por demais perturbado para conseguir comer e foi Cynthia a retomar o interrogatório:

- Já que era amigo dela, faz alguma ideia de com quem pudesse estar envolvida?

- Sexualmente, quer dizer?

- Creio que é esse o assunto em discussão - retorquiu.

- Bom... Deixe-me pensar... Ela encontrava-se com um indivíduo jovem... um civil, raramente saía com militares.

- Quem era ele?

- Um tipo chamado Wes Yardley.

- Yardley? O chefe de polícia?

- Não, não, um dos seus filhos.

Cynthia lançou-me um olhar de relance e prosseguiu:

- Há quanto tempo se encontravam?

- Viam-se esporadicamente desde que ela chegou aqui. Tinham uma relação intempestiva. Na verdade, e sem querer fazer o papel de delator, aconselho-vos a falarem com ele.

- Porquê?

- Porquê? Parece-me óbvio. Tinham uma relação. Davam-se como o cão e o gato.

- Por que motivo?

- Bom... ela confessou-me que ele a maltratava. Fui apanhado de surpresa.

- Maltratava-a? - exclamei.

- Sim. Não lhe telefonava, saía com outras mulheres, via-a quando lhe apetecia. Havia algo que não soava bem. Se eu estava apaixonado por Ann Campbell, por que razão todos os outros homens não rastejavam aos seus pés?

- Porque é que ela o permitia? - perguntei a Moore. - O que a levava a aguentar uma situação dessas? Quero dizer, ela era... apetecível, atraente.

“De uma beleza, de um charme de cortar a respiração, dotada de um corpo porque se estaria disposto a morrer. Ou a matar por ele”, era o que me ocorria ao pensamento.

Moore esboçou um sorriso de entendedor. “Este tipo incomoda-me”.

- Trata-se de um certo tipo de personalidade - afirmou num tom doutoral. - Ou, para tratar as coisas pelo seu próprio nome; Ann Campbell gostava dos vilões, desdenhava de todos os que lhe dedicavam um mínimo de atenção, o que era o caso da maioria dos homens, e sentia-se atraída pelos que a maltratavam, que quase a violentavam. Wes Yardley era um desses. Trata-se de um polícia de Midland, como o pai, é um playboy local e destroça corações. Tem o encanto de um cavalheiro do Sul e a postura machista dos safados. Em resumo, um canalha, se preferem.

Sentia dificuldade em recompor-me e perguntei:

- Mesmo assim, há dois anos que Ann Campbell andava com ele?

- Num sistema de vaivém.

- Ela discutia tudo isto consigo? - interessou-se Cynthia.

- Sim.

- Profissionalmente?

- Eu era o terapeuta dela - anuiu com uma expressão aprovadora da sua perspicácia.

No que me dizia respeito, sentia-me perturbado, estava muito desapontado com Ann Campbell. O palácio das delícias e as fotografias não me tocavam, pois sabia que estes homens eram meros objectos e ela os usava como tal, mas a ideia de um namorado, um amante que a maltratava e era, além do mais, filho de Burt Yardley, decepcionava-me.

- Sabe quase tudo a respeito dela - comentou Cynthia.

- Acho que sim.

- Nesse caso, vamos pedir-lhe que nos ajude a traçar o seu perfil psicológico.

- Ajudar-vos? Não conseguiriam passar da superfície, Miss Sunhill.

Recompus-me e interferi:

- Precisarei de todos os seus apontamentos e transcrições das sessões que teve com ela.

- Nunca tirei apontamentos, eram conversas particulares.

- Mas vai ajudar-nos? - insistiu Cynthia.

- Porquê? Ela está morta.

- O perfil psicológico da vítima ajuda-nos, por vezes, a traçar o de quem a matou. Presumo que sabe isso.

- Ouvi dizer. Sou muito pouco entendido em psicologia criminal, que, na minha opinião, é uma treta. Todos somos assassinos potenciais, mas temos, Por regra, bons mecanismos de controlo, internos e externos. Se se remover o controlo, surge um criminoso. No Vietname, assisti ao massacre de crianças Por homens perfeitamente sãos de corpo e de espírito.

O silêncio reinou por uns momentos, deixando-nos entregues aos nossos pensamentos, e foi Cynthia quem retomou a palavra.

- Esperamos, todavia, que, na qualidade de confidente dela, nos ponha a par de tudo o que sabia a seu respeito, os amigos, os inimigos, a sua maneira de ser.

- Presumo que não me resta outra alternativa.

- Não - garantiu-lhe Cynthia -, mas gostaríamos de que colaborasse voluntariamente, mesmo sem grande entusiasmo. Deseja indubitavelmente que se faça justiça em relação a quem a matou, não?

- Sinto-me sobretudo curioso sobre quem ele possa ser. Quanto à justiça estou convencido de que o assassino achou que estava a fazê-la.

- O que pretende dizer? - interessou-se Cynthia.

- Quando uma mulher como Ann Campbell é violada e morta praticamente debaixo do nariz do pai, alguém tinha um bom motivo para lhe querer mal, ou ao pai, ou a ambos. Pelo menos, do seu ponto de vista. - Levantou-se e concluiu: - Sinto-me perturbado com tudo isto. Profundamente contristado. Vou sentir-lhe a falta. E agora, se me dão licença...

Cynthia também se levantou e imitei-a - afinal tratava-se de um coronel

- Gostaria de prosseguir esta conversa amanhã - disse. - Peço-lhe que se mantenha à disposição durante o dia. O senhor interessa-me.

Ele foi-se embora, sentámo-nos, trouxeram a comida e debiquei o meu cheeseburger.

- Sentes-te bem? - preocupou-se Cynthia.

- Sim.

- Fiquei com a impressão de que a história do amante de Ann Campbell te perturbou. Tiveste uma reacção estranha quando ele a mencionou.

- Consta que nunca devemos envolver-nos emocionalmente com testemunhas, suspeitos ou vítimas - redargui, fitando-a, só que, por vezes, é inevitável.

- Nunca deixo de me envolver emocionalmente com vítimas de violação. Contudo, estão vivas e suscitam piedade, ao passo que Ann Campbell morreu.

Não lhe respondi.

- Detesto dizê-lo, mas conheço este tipo de mulher - continuou Cynthia. - Sentia provavelmente um prazer sádico em torturar os homens que se enfeitiçavam com o seu corpo ou mente e, depois, entregava-se de forma masoquista ao que a tratava como um monte de esterco. É provável que, mais ou menos inconscientemente, Wes Yardley conhecesse o papel que lhe cabia e o desempenhasse bem. Ela sentia muito provavelmente ciúmes das suas outras conquistas e ele mostrava-se indiferente às suas ameaças de encontrar um substituto. Tinham um bom relacionamento, segundo os parâmetros da ligação doentia que criaram. Wes Yardley é provavelmente o menos credível dos suspeitos.

- Como sabes tudo isso?

- Bom... Nunca vivi uma situação do género, mas conheço muitas mulheres que passaram por isso. Não imaginas quantas!

- A sério?

- Sim, e também agrada aos homens.

- É muito possível.

- Denotas sintomas de fadiga e estás a ficar idiota. Vai dormir um bocado e acordo-te mais tarde.

- Sinto-me perfeitamente. Arranjaste-me quarto?

- Sim - respondeu, abrindo a mala. - Tens aqui a chave. Tudo o que pediste está no meu carro, que ficou aberto.

- Obrigado. Quanto te devo?

- Vou pôr tudo nas notas de despesas. Karl vai rir à gargalhada quando vir a roupa interior de homem na minha lista. Podes ir a pé até às instalações, excepto se quiseres que te empreste o meu carro.

- Nada disso. Vamos direitos ao gabinete do comandante da polícia, ripostei, levantando-me.

- Refrescar-te só te faria bem, Paul.

- Queres dizer que cheiro mal?

- Toda a gente transpira na Georgia em Agosto, até mesmo tu.

- Muito bem. Põe tudo isto na minha conta.

- Obrigada.

- Acorda-me às nove da noite.

- Combinado.

Afastei-me e depois voltei atrás para um último comentário:

- Se ela não se interessava pelos oficiais da base e estava doida por este polícia de Midland, quem eram os tipos das fotografias?

- Vai dormir, Paul - respondeu Cynthia, erguendo os olhos da sanduíche.

 

 

                               CAPÍTULO QUINZE

 

O telefone do meu quarto tocou às nove da noite em ponto, arrancando-me a um sono agitado. A voz anunciou:

- Espero-te lá em baixo.

- Dá-me dez minutos.

Desliguei e fui lavar a cara. As instalações dos oficiais de passagem por Fort Hadley situam-se num edifício de tijolo de dois andares, que se assemelha a um motel. É agradável e cuidado, mas, à boa maneira militar, os quartos não têm ar condicionado e há uma casa de banho comum para dois quartos, a fim de calar os que dizem que o Exército mima os seus oficiais. Assim, quando a utilizamos tem de se trancar a porta que dá para o outro quarto e depois lembrarmo-nos de a destrancar à saída, para que o vizinho do lado possa, por sua vez, servir-se dela, norma que raramente é comprida.

Estreei a minha escova de dentes e, de regresso ao quarto, desembrulhei a camisa nova, interrogando-me sobre como poderia trazer as minhas coisas de Whispering Pines sem me meter em complicações com a polícia local.

Não era a primeira vez que me tornaria persona non grata numa cidade nem seria a última. Por norma, conseguia solucionar tudo de forma a escapulir-me depois de resolvido um caso, mas uma vez, em Fort Bliss, no Texas tive de fugir num helicóptero e passar sem o meu carro durante umas semanas até alguém ter sido destacado para mo levar a Falis Church.

As cuecas eram demasiado pequenas. As mulheres são, por vezes, muito mesquinhas. Vesti-me, meti o meu Glock de nove milímetros no bolso e saí para o corredor no momento em que Cynthia abria a porta do quarto ao lado.

- É esse o teu quarto? - surpreendi-me.

- Não. Vim fazer a limpeza para um desconhecido.

- Não podias ter-me arranjado um no outro extremo do corredor?

- Na verdade, o lugar foi invadido por militares na reserva que vêm gozar as suas férias de Verão e tive de me servir da minha cantilena da CID para te conseguir este. Não me importo de partilhar a casa de banho contigo.

Nessa altura já estávamos no parque de estacionamento e ao chegar diante do Mustang perguntou-me:

- Carreira de tiro número seis?

- Exacto.

Não despira as calças pretas nem a camisa branca, mas calçara uns ténis e enfiara uma camisola branca. A lanterna que lhe pedira que trouxesse estava pousada entre os dois assentos.

- Estás armada? - quis saber.

- Sim. Porquê? Esperas sarilhos?

- O criminoso volta sempre ao local do crime.

- Que parvoíce!

O Sol pusera-se no horizonte, dando lugar à lua cheia, e esperava que as condições a esta hora fossem idênticas às da noite anterior na carreira de tiro, a fim de poder reconstituir a atmosfera dos acontecimentos da véspera e inspirar-me.

Passámos junto ao cinema da base, donde saía uma multidão. Mais à frente, erguia-se a messe dos sargentos, onde as bebidas são melhores do que na dos oficiais, a comida mais barata e as mulheres mais acessíveis.

- Fui visitar Kent ao seu gabinete - informou-me Cynthia.

- Boa iniciativa. Algo de novo?

- Duas ou três coisas. Primeiro, quer que sejas mais simpático com o coronel Moore, parece que ele se queixou da tua agressividade.

- Interrogo-me sobre as razões das suas queixas.

- Ainda não terminei as boas notícias. Tinhas uma mensagem de Karl e tomei a liberdade de lhe telefonar para casa. Mostrou-se muito descontente por causa de um tal Dalbert Elkins, que transformaste de criminoso em testemunha governamental com imunidade.

- Espero que alguém faça o mesmo por mim um dia. Mais novidades?

- Sim. Karl, segundo capítulo. Tem de apresentar o relatório amanhã ao procurador-geral da Justiça Militar, no Pentágono, e gostaria que lhe mandasses uma exposição menos sucinta do que a de hoje.

- Bem pode continuar à espera. Tenho mais que fazer.

- Dactilografei um relatório e enviei-o, por faxe, para casa dele.

- Obrigado. O que dizia?

- Deixei-te uma cópia em cima da secretária. Confias ou não em mim?

- Claro. Só que, se este caso der para o torto, será preferível que o teu nome não apareça.

- Exacto. Por isso assinei com o teu nome.

- O quê?

- Estou a brincar. Não te preocupes com a minha carreira. Problema meu.

- Certo. Novidades do laboratório?

- Sim. O hospital enviou um primeiro protocolo para a Polícia Militar, a morte ocorreu depois da meia-noite e antes das quatro horas da manhã.

- Eu sei.

O relatório da autópsia, designado como “protocolo” vá lá saber-se porquê, continua por regra onde o laboratório parou, o que é óptimo. Quanto mais abutres, melhor.

- A morte resultou, portanto, indubitavelmente de asfixia. Verificaram-se traumatismos internos ao nível do pescoço e da garganta e ela mordeu a língua, todos os sintomas compatíveis com o estrangulamento.

Assisti a autópsias e não é de forma alguma um espectáculo agradável. Ser assassinado e estar nu já é uma indignidade, mas ser cortado e examinado por um grupo de estranhos é o maior dos ultrajes.

- Algo mais? - indaguei.

- A lividez e a rigidez cadavéricas correspondem à posição em que se encontrou a vítima. Tudo indica que a morte ocorreu ali, sem que o corpo fosse removido de outro local. Também não se encontraram mais ferimentos além do da compressão no pescoço, nem qualquer lesão dos tecidos, ossos, cérebro, vagina, boca, etc.

Acenei com a cabeça sem emitir uma opinião.

- Que mais? - retomei.

Cynthia fez-me o inventário do conteúdo do estômago, da bexiga e dos intestinos, condições dos órgãos internos e observações anatómicas. Felizmente não acabara de comer o meu cheeseburger, pois começava a sentir-me enjoado

- Há ainda uma erosão no colo do útero que pode resultar de um aborto, uma antiga doença ou talvez a inserção de objectos volumosos.

- Bom... é tudo?

- De momento, sim. O médico legista ainda não procedeu aos exames de tecidos e líquidos orgânicos, nem aos exames toxológicos que quer fazer independentemente do laboratório. Ela já deixou de ter segredos para eles, certo? acrescentou, passado algum tempo.

- Um único.

- É verdade. Também Cal nos transmitiu as suas primeiras conclusões. Acabaram de fazer os testes serológicos e não encontraram drogas ou venenos no sangue, apenas vestígios de álcool. Descobriram saliva nos cantos da boca e que escorreu pelos lados, o que é compatível com a posição do corpo. Há ainda vestígios de transpiração e também lágrimas secas, cujo traço coincide igualmente com a posição do corpo. Os três fluidos foram identificados como pertencendo à vítima.

- Lágrimas?

- Exacto - confirmou Cynthia. - Muitas. Ela chorou.

- Tinha-me escapado.

- Não faz mal, o laboratório deu por isso.

- Sim... mas as lágrimas não foram provocadas por ferimentos, uma vez que não existem, e não se encontram forçosamente ligadas ao estrangulamento

- Não - concordou Cynthia -, mas explicam-se numa mulher amarrada por um louco que lhe anuncia que vai morrer. Por outro lado, contradiz a tua tese da participação voluntária. Talvez tenhas, portanto, de abandonar essa hipótese.

- Estou a aprimorar a minha teoria.

Permaneci por momentos imerso em reflexão e acrescentei:

- És uma mulher. Diz-me o que a fez chorar.

- Ignoro, Paul, não estava no lugar dela.

- Mas temos de tentar pôr-nos nele. Ela não era do tipo de mulheres que choram facilmente.

- Concordo. Foi, portanto, necessário um choque emocional.

- Exacto. Alguém que ela conhecia fê-la chorar sem sequer lhe tocar.

- Talvez, ou chorou sozinha. Não a conhecemos a esse ponto.

- É verdade. O laboratório fornece conclusões objectivas. Notámos a presença de lágrimas secas em grande quantidade, que pertenciam à vítima. Caíram dos olhos na direcÇão dos ouvidos, o que assinala uma posição horizontal do corpo. Fim de relatório. Sai Cal Seiver, entra Paul Brenner. As lágrimas demonstram que a vítima chorou. Por conseguinte, quem a fez chorar? O que a fez chorar? Quando chorou? É importante sabê-lo? Tinha a intuição que sim.

- Os resíduos de tecido - prosseguiu Cynthia - provêm da roupa interior dela e de um uniforme que podia pertencer-lhe ou não. São os únicos que se encontraram. Os pêlos encontrados no e à volta do corpo também eram dela.

- E o que foi recolhido na bacia do lavatório?

- Não lhe pertencia. É um cabelo preto, não pintado, de um caucasiano, sem dúvida caído espontaneamente, nem arrancado, nem cortado; e o exame permitiu identificar o tipo de sangue. Na ausência de raízes, e portanto de índices genéticos, é impossível determinar o sexo com segurança, mas na opinião de Cal, dado o comprimento, a cor natural e a falta de qualquer cosmético, trata-se de um cabelo de homem. Classifica-o de encaracolado, nem liso, nem frisado.

- Acabo de ver um homem com esse tipo de cabelo.

- Sim. Devíamos recolher alguns cabelos do coronel Moore e proceder a uma comparação.

- Exacto. Que mais?

- Não encontraram vestígios de esperma na pele ou em qualquer dos orifícios, e também não se descobriu lubrificante na vagina ou no ânus, sugerindo uma penetração por um corpo estranho ou um preservativo lubrificado, por exemplo.

- Não houve, portanto, relações sexuais - observei.

- A menos que um homem, vestido com uma farda igual à dela, a tivesse montado sem deixar pêlos, cabelos, saliva ou suor. E que a tenha penetrado com um preservativo sem lubrificante, ou mesmo sem preservativo, sem se vir. É uma hipótese a considerar.

- Mas não é o caso. Não houve relações sexuais. A lei da transferência e permuta tem de se aplicar, mesmo num grau ínfimo. Microscópico que seja.

- Sinto-me inclinada a acreditar. Mas não podemos excluir a simples excitação das partes genitais. Se a corda à volta do pescoço visava, na tua opinião, a asfixia sexual, tal implica uma forma de excitação.

- Seria lógico. Contudo, abdiquei da lógica no caso presente. Bom, e quanto a impressões digitais?

- Nenhumas no corpo dela. Apenas conseguiram recolher impressões sumidas ou parciais da corda de náilon, mas detectaram algumas nas estacas.

- Com qualidade bastante para serem enviadas ao FBI?

- Não, mas suficientemente distintas para comparação com impressões conhecidas. Na verdade, algumas pertenciam a Ann Campbell. Outras não e podem ser da outra pessoa.

- Assim espero.

- Ela pegou, portanto, nas estacas, o que significa que foi obrigada a participar ou que o ajudou voluntariamente, como num acto de fantasia sexual consentido, ou algo do género.

- Inclino-me para a segunda hipótese.

- Também eu o faria, se não houvesse esta pergunta: o que a fez chorar?

- A felicidade, o êxtase - vinquei. - As lágrimas são uma manifestação visível e a sua causa pode prestar-se a todo o tipo de interpretações. Algumas pessoas choram depois do orgasmo - acrescentei.

- Parece que sim. De qualquer maneira, sabemos bastante mais do que de manhã, e em alguns aspectos muito menos. Há algumas peças que não encaixam em todo este quebra-cabeças.

- Isso é um eufemismo. Encontraram impressões digitais no jipe?

- Imensas. Estão a examiná-las, bem como as das latrinas. Cal mandou transportar o jipe e o primeiro degrau da bancada para o hangar e instalou no seu laboratório.

- Óptimo.

Fiquei uns momentos em silêncio, a pensar, e acrescentei:

- Em toda a minha carreira só se me depararam dois casos de homicídio que resolvi sem conseguir condenar o assassino. Tratava-se, em ambos, de pessoas extremamente hábeis, que tiveram o cuidado de não deixar nenhum traço identificável pelo laboratório. Não quero que este seja o terceiro.

- Bom, Paul. Segundo dizem, muito antes de haver as provas científicas, havia as confissões. O assassino sente muitas vezes a necessidade de confessar o crime e só está à espera de que se lhe peça.

- É o que se dizia durante a Inquisição, nos julgamentos das bruxas de Salem e nos aparatosos processos de Moscovo. Gostaria de ver provas.

Afastámo-nos do centro da base sem trocarmos mais palavra. Baixei o vidro do meu lado para deixar entrar o ar fresco da noite.

- Gostas da Georgia? - perguntei finalmente.

- Só cá estive em missões passageiras, estadas breves, mas gosto. E tu?

- Traz-me muitas recordações.

Cynthia encontrou facilmente o caminho para as carreiras de tiro. A Lua mantinha-se oculta pelas árvores, só os nossos faróis rasgavam a escuridão. Ouviam-se grilos, rãs, gafanhotos e todo o género de outros animais nocturnos que emitem sons estranhos. O cheiro dos pinheiros, muito intenso, recordava-me Whispering Pines de outrora: as noites ao ar livre, nas cadeiras do jardim, passadas a beber cerveja com outros jovens soldados e as mulheres, escutando Jimi Hendrix, Janis Joplin e afins, à espera da guia de marcha que começava com a frase: “Pede-se que se apresente...”

- O que achas do coronel Moore? - indagou Cynthia.

- Provavelmente o mesmo que tu. É um tipo estranho.

- Sim. Contudo, acho que possui a chave do móbil do crime.

- Não está fora de questão. Considera-lo suspeito? - quis saber.

- De momento, não. É preciso continuar a fazê-lo falar. Contudo, e entre nós, aos meus olhos é um suspeito plausível.

- Sobretudo se o cabelo encontrado na bacia do lavatório lhe pertencer - assinalei.

- Que motivos poderia ter tido?

- Não se trata de um caso de ciúme clássico.

- Achas que ele nunca dormiu com ela, nem sequer tentou?

- Acho, o que prova até que ponto é um tipo perturbado.

- Aí está um comentário interessante. Quanto mais lido com os homens, mais vou aprendendo.

- Melhor para ti. E, na tua opinião, qual teria sido o móbil?

- Bom. Concordo contigo que o coronel Moore é uma espécie de assexuado. Contudo, ela pode ter ameaçado romper a sua relação platónica ou terapêutica e ele não aguentou.

- Nesse caso, porquê matá-la daquela forma? - inquiri.

- Sei lá eu. Temos dois psiquiatras entre mãos.

- Correcto, mas aposto que Moore conhece o porquê. Sabe como ela se viu naquela situação, mesmo que não a tenha morto. Deve ter-lhe dito que era boa terapia fazer sexo com estranhos ao ar livre. Já ouvi falar de coisas do género.

- Andas às voltas com qualquer ideia - observou Cynthia.

- Mais uma teoria a arrumar no hangar.

Depois de uns momentos de silêncio, retomei a palavra, sem outra preocupação que a minha vida pessoal:

- Casaste com esse tal major “não sei quantos” do revólver?

- Sim - respondeu ela com um ar que não me pareceu muito entusiasmado.

- Parabéns, então. Sinto-me muito feliz por ti, Cynthia, e desejo-te o que de melhor a vida tem para te oferecer.

- Já pedi o divórcio.

- Ah, bom!

Seguimos em silêncio durante algum tempo e depois ela disse:

- Sentia-me um pouco culpada depois do episódio de Bruxelas e por isso aceitei a proposta dele. Contudo... jamais deixou de me recordar que deixara de confiar em mim e o teu nome era frequentemente citado.

- Se a intenção é a de que me sinta culpado, falhou.

- Não tens de te censurar de nada. De qualquer maneira, ele revelou-se manipulador e possessivo.

- Não te tinhas apercebido?

- Não. A grande vantagem das relações à distância é precisamente a de se estar separado. Tudo é muito romântico, mas a vida em comum é muito diferente.

- Tenho a certeza de que te humilhaste para lhe agradar.

- Se pretendes ser irónico, nem sabes até que ponto estás certo. Na verdade, humilhei-me. Contudo, sempre que me era dada uma missão, ele tornava-se odioso e quando voltava submetia-me a um interrogatório rigoroso, odeio que me façam perguntas.

- Não és a única.

- Nunca o atraiçoei.

- Sim, uma vez.

- Sabes o que quero dizer. De qualquer maneira, cheguei à conclusão de que a vida militar e a de casada são incompatíveis. Ele queria que me demitisse. Recusei, tornou-se violento e vi-me obrigada a ameaçá-lo com a arma

- Céus! Sorte a tua que ele não tivesse o revólver que me apontou

- Na verdade tinha, mas há meses que eu tirara o carregador. Ouve, é tudo tão mesquinho, que me envergonho de falar no assunto. Contudo, acho que te devia uma explicação sobre a minha vida desde Bruxelas.

- Obrigado. Devolveste-lhe o carregador?

- Agora, já aceitou a situação - riu Cynthia. - Cansou-se de se deixar roer pelo ciúme. A carreira vai bem e arranjou uma namorada.

- Onde está agora esse feliz psicopata?

- Na Ranger School, em Fort Benning.

- Não é longe daqui.

- Ele nem sequer sabe onde me encontro agora. Estás preocupado?

- Não. Apenas preciso de saber com o que lidar. Informo-me, nada mais,

- E com o que lidas?

- O passado, o presente e o futuro. Nada de novo.

- Não podemos ser amigos sem sermos amantes?

- Claro. Perguntarei ao coronel Moore onde se fez castrar.

- És tão básico! - exclamou, ficando pensativa e só depois retomando a palavra: - Não quero ter novamente um homem ciumento.

- Voltaremos a falar do assunto amanhã, ou na próxima semana.

- Óptimo.

- Andas com alguém? - indaguei, depois de uma certa hesitação.

- Já estamos na próxima semana?

- É que não quero que me dêem um tiro, entendes?

- Não, não ando com ninguém.

- Óptimo.

- Cala a boca, Paul, ou serei eu a fazê-lo. Como consegues ser chato, Deus do céu!

- Não dispares.

- Pára! - exclamou com uma gargalhada.

Percorremos o último quilómetro em silêncio e depois indiquei-lhe:

- Estaciona, apaga os faróis e desliga o motor.

O luar conferia um tom azul-claro ao céu e a temperatura descera, mas estava agradável apesar da humidade. A noite tinha aquela beleza propícia às escapadelas românticas até ao campo. Ouvia-se o canto das aves nocturnas e a brisa soprando através dos pinheiros.

- Não só pensei em ti como senti a tua falta - confessei.

- Eu sei, também eu.

- O que se passou, então? Porque seguimos cada um para seu lado?

- Creio que perdemos o comboio - respondeu com um encolher de ombros. - Queria que tu... bom, mas isso é passado.

- O que terias querido que fizesse?

- Que não aceitasses a minha decisão de romper, que me tivesses levado para longe dele!

- Não é o meu género, Cynthia, tomaste uma decisão e respeitei-a.

- Por amor de Deus, Paul! És um detective fora de série, consegues ler a mente de um criminoso à distância e detectar um mentiroso através de um mero pestanejar, mas não sabes ouvir o que o coração te diz, nem conheces nada das mulheres.

E ali fiquei, feito idiota, consciente de que ela tinha razão e sem palavras para expressar os meus sentimentos, ou, na verdade, reticente em dar-lhes forma verbal. Apetecia-me dizer: “Amo-te, Cynthia, sempre te amei e continuarei a amar-te. Foge comigo.” Mas não conseguia e contentei-me, pois, em dizer-lhe, devagar e deliberadamente:

- Entendo, concordo contigo. Estou a esforçar-me por melhorar e acabaremos por encontrar uma solução.

Pegou-me na mão, que conservou entre as dela.

- Pobre Paul! - retorquiu. - Ponho-te nervoso?

- Sim.

- Uma sensação que não te agrada, certo?

- Certo.

- Mas constato que houve algumas melhorias desde o ano passado, em Bruxelas.

- Estou a tentar.

- Dás-me cabo da paciência.

- Tudo correrá bem, verás.

- Óptimo.

Inclinou-se, deu-me um beijo ao de leve e soltou-me a mão.

- E agora?

- Agora, vamos ao trabalho. Abri a porta do meu lado.

- Não estamos na carreira de tiro número seis - observou.

- Não. Estamos na número cinco.

- Porque paramos aqui?

- Traz a lanterna de bolso. Saí do carro e ela seguiu-me.

 

 

                              CAPÍTULO DEZASSEIS

 

Conservámo-nos imóveis, a alguma distância um do outro, adaptando-nos à obscuridade, como nos tinham ensinado na escola.

- Tenho a sensação de que os faróis que Mary Robbins avistou às duas e dezassete não eram os do jipe de Ann Campbell - declarei, por fim - e que, de facto, como sugeriste, ela chegou à carreira de tiro seis com as luzes apagadas. Sabia, obviamente, onde se encontrava o posto da guarda e não queria chamar as atenções. Apagou-as próximo e percorreu o resto do caminho sem dificuldade ajudada pelo luar. Tinha vindo encontrar-se directamente aqui com alguém, depois de deixar o sargento Saint-John, à uma hora. Esse o motivo por que nenhum guarda do posto a detectou. Lógico?

- Se partes do princípio de que havia um encontro combinado, sim, claro que é lógico.

- Suponhamos que assim foi. Pode ter chegado aqui à uma e um quarto.

- A pessoa com quem devia encontrar-se apareceu provavelmente primeiro - ripostei, tentando organizar ideias.

- Porquê?

- Porque Ann Campbell lhe pedira. Sabia que podia ficar retida por qualquer razão no quartel-general. Ela telefonou a essa pessoa do posto e disse-lhe: “Está lá à meia-noite e meia e espera por mim.”

- De acordo.

- O homem com quem ela marcou um encontro não tem, indubitavelmente, qualquer motivo oficial para vir até aqui e conduz a sua viatura pessoal. Para não chamar a atenção do posto da guarda, de que conhece a existência, pára junto à carreira de tiro número cinco e vira à esquerda.

Saímos da estrada e arrastei Cynthia para uma área de estacionamento cujo solo estava coberto de cascalho.

- Este parque serve igualmente para as carreiras quatro e seis. Os camiões de transporte de tropas param aqui, largam os homens, dão meia volta e afastam-se, enquanto eles percorrem a pé a distância que os separa das três carreiras de tiro. Já era assim no meu tempo.

- Só que usam armas mais modernas.

- Certo. O tipo que se deve ter encontrado com ela procurou não deixar marcas de pneus. Segue-me.

Atravessámos o parque de estacionamento, onde se viam marcas de dúzias de pneus, nenhuma delas suficientemente nítida para que valesse a pena ser fotografada ou recolhida. Contudo, depois de passarmos as bancadas da carreira de tiro cinco, a camada de cascalho tornava-se mais fina e o feixe de luz da lanterna revelou-nos rastos de pneus numa zona onde os veículos não deveriam passar, as quais continuavam até junto de um bosque de pinheiros.

- Qualquer veículo que estacionasse aqui não seria visto da estrada, mas deixou marcas - sublinhei.

- Incrível, Paul! Podem ser as do carro do criminoso.

- Talvez da pessoa que se encontrou aqui com ela, que não queria que o seu carro fosse visto por uma patrulha da Polícia Militar ou pelo camião que devia trazer o substituto da sentinela do depósito de munições. A esta hora o desconhecido já lá se encontrava estacionado. Chegou à carreira de tiro seis pela orla do bosque e esperou nas latrinas. Entretanto, pode ter lavado o rosto e as mãos e daí as gotas de água e o cabelo encontrados na bacia do lavatório. Até aqui tudo lógico?

- Até aqui.

- Continuemos.

Não tardámos a descobrir o caminho pela orla do bosque uma estrada estreita onde não ficam marcas. Seguimo-lo ao longo de uma centena de metros até desembocar nas latrinas da carreira de tiro número seis.

- Muito bem. O tipo espera aqui nas latrinas ou ao lado. Apercebe-se primeiro do camião de turno, que avança para o depósito de munições a fim de deixar Robbins no seu posto e, em seguida, o mesmo veículo agora no sentido contrário. O camião não percorre todo o caminho até ao quartel-general, pois ter-se-ia cruzado com Ann Campbell, vira antes na direcção de Jordan Field para substituir os guardas nos hangares, o que leva o seu tempo. Lembro-me de tudo isso da época em que estava aqui. Portanto, Ann Campbell não percorreu o itinerário do camião, foi directamente à carreira de tiro seis, apagou os faróis e estacionou o jipe onde o encontrámos, na estrada. Certo?

- De acordo. Só que não passa tudo de especulações.

- Correcto, mas é esse o princípio de qualquer reconstituição. Estás aqui para detectar falhas e não para me dizeres que estou a imaginar.

- Muito bem. Continua.

- O homem que esperava próximo das latrinas vê o jipe parar junto à estrada e atravessa - comecei a andar na direcção da estrada, seguido de Cynthia - e aproxima-se de Ann Campbell, que se encontra dentro ou próximo do jipe. Diz-lhe que o camião da guarda apareceu e se foi embora e nada mais há a temer, com excepção, talvez, de uma eventual patrulha da Polícia Militar, que, contudo, é pouco provável vir até estas paragens. Este caminho acaba na carreira de tiro dez e não há trânsito. As únicas pessoas que podem aparecer são o oficial ou o sargento da guarda, mas não logo a seguir à mudança de guarda e muito provavelmente nem se dão a esse trabalho. Na verdade, só mais uma pessoa poderia passar, o oficial de serviço no quartel-general, que nessa noite era exactamente Ann Campbell. Estás a seguir-me?

- Só há um pormenor. Porquê estacionar aqui? Porque não esconder o jipe, se se tratava de um encontro sexual? De facto, porque raio foi para a carreira de tiro, tão perto da estrada?

- Não sei, apenas julgo que ela agiu como muito bem entendeu. Nada disto aconteceu por acaso, tudo foi planeado, incluindo o facto de ela estar, de serviço numa noite de lua cheia. Tinha, por conseguinte, uma razão para deixar o carro aqui e escolher este preciso local, a cinquenta metros da estrada.

- Bom... Deixemos isso de lado por agora.

- Continuando, não faço ideia do que possa ter-se passado entre ela e a pessoa com quem se encontrou, mas algures nesta estrada ela se desembaraçou do revólver e de toda a roupa, ficando apenas em cuecas e sutiã. Também se descalçou, pois tinha uma mancha de alcatrão no pé, e depois entraram na carreira de tiro. As roupas dela e o revólver ficaram provavelmente no jipe. Ela, ou o companheiro, levavam 4 estacas, uma corda e um martelo e escolheram este sítio junto ao alvo.

Percorremos a carreira de tiro com o olhar. A tenda ainda estava erguida e não haviam retirado os oleados que marcavam o caminho até ao sítio onde fora encontrado o corpo.

- O que achas desta versão dos factos? - perguntei a Cynthia.

- Obedece a uma certa lógica, mas há algo que me escapa.

- Também a mim, embora deva ser mais ou menos o que se passou.

Caminhámos sobre os oleados e parei sob a tenda, com Cynthia na minha peugada. Ela fez incidir a lanterna no local onde Ann Campbell estivera, revelando uma figura marcada a giz, um corpo com os braços abertos. Bandeirinhas amarelas assinalavam os buracos, onde as estacas haviam sido enterradas.

- A zona não deveria estar guardada pela Polícia Militar? - surpreendeu-se Cynthia.

- Sim. Uma falha de Kent.

Perscrutei a carreira de tiro banhada pelo luar e onde se erguiam cerca de cinquenta alvos em tamanho natural, qual pelotão de infantaria avançando pelos arbustos.

- Tudo isto tinha obviamente qualquer simbolismo para Ann Campbell disse a Cynthia. - Homens armados que avançavam para a violar em grupo ou observá-la, amarrada e presa ao solo. Quem sabe o que procurava evocar ou expressar?

- Muito bem. Eles estão no local. Ann Campbell de cuecas e sutiã, o homem equipado com o kit de violador ou toda a parafernália erótica, dependendo de ela ser ou não uma cúmplice. Não está armado e ela adere à cena.

- Sim. Os dois amarram cada ponta da corda à volta dos seus pulsos e tornozelos e é sem dúvida nesta altura que ela tira o sutiã e as cuecas e coloca estas últimas à volta do próprio pescoço, pois a roupa interior não denota qualquer vestígio de terra.

- Porque manteve o sutiã?

- Não posso ter uma certeza, mas talvez pela força do hábito. Em seguida, atirou-o para o sítio onde o encontrámos. Executaram um plano preparado de antemão, mas sob um natural nervosismo, o que se compreende.

- Sinto-me nervosa só de falar nisso.

- Escolhem, portanto, um sítio junto ao alvo, ela deita-se no chão, estica os braços e as pernas e o homem prega as quatro estacas.

- Não faz barulho?

- As estacas são de polivinil e ele pode ter-se servido de um lenço para abafar o som. O vento sopra do lado do posto da guarda na direcção da carreira de tiro, e, à distância de um quilómetro daqui, Mary Robbins nem o bater de uma porta ouviria.

- Muito bem. As estacas estão enterradas - prosseguiu Cynthia - e ele amarra-lhe os tornozelos e os pulsos.

- Exacto. E depois enrola-lhe a corda no pescoço, por cima das cuecas.

- Está, pois, no estado em que a encontrámos.

- Sim - anuí -, só que nessa altura ainda estava viva.

Cynthia, com uma das mãos metida no bolso das calças, conservava-se imersa nos seus pensamentos, de olhos fixos no pedaço de solo iluminado pelo feixe da lanterna.

- Ele ajoelha-se perto dela - retomou por fim - e aperta a corda, a fim de provocar a asfixia sexual. Acaricia-a, servindo-se da mão ou talvez de um objecto. Ela tem um orgasmo... Ele também se deve ter masturbado, embora não tenhamos encontrado vestígios de esperma. Talvez tenha tirado fotos, o que é frequente depois de todo um trabalho deste género. Assisti a casos em que foram feitas gravações e, num deles, mesmo uma videocassete... - Fez uma pausa e continuou: - Bom... Ann fica satisfeita, ele também e ela quer ser desamarrada. Nesta altura, e por qualquer motivo, o homem perde a cabeça e estrangula-a, a não ser que já tenha planeado fazê-lo desde o início. Estou certa, não? - acrescentou, fitando-me.

- Sim, acho que sim.

- Mas não é tudo - lembrou-me Cynthia. - As roupas dela, as chapas de identificação, o anel de West Point e o revólver desapareceram.

- Eu sei - redargui. - Estamos de volta às recordações.

- Sim. Estes tipos costumam levar recordações. Mas, sabes, se eu tivesse morto a filha de um general na carreira de tiro, de propósito ou acidentalmente, não creio que metesse as suas roupas no meu carro e andasse a passear-me por aí com provas capazes de me colocarem diante de um pelotão de fuzilamento.

- É realmente pouco provável. E, se bem te lembras, ela tinha o relógio. Porquê?

- Ignoro. Pode ser irrelevante.

- Talvez. Continuemos.

Regressámos por onde tínhamos vindo e chegámos à estrada onde o jipe de Ann Campbell estivera estacionado.

- Muito bem. Ele volta até junto do veículo - retomei o raciocínio -, leva o uniforme dela, o boné, as chapas de identificação, as peúgas, as botas, etc. mas deixa o saco de mão no assento do banco de passageiros.

- Pode ter-se esquecido dele. Os homens não pensam nesse tipo de coisas. Não seria a primeira vez.

Virei-me na direcção das latrinas.

- Avança pela relva carregado com todas essas coisas, passa junto as bancadas e às latrinas e continua pela orla do bosque. Não se atreve a seguir pela estrada.

- Claro que não.

- Bom. Supondo que começaram cerca da uma e um quarto, são nessa altura cerca de duas e um quarto, não pode ser mais tarde, porque o soldado Robbins avistou os faróis às duas e dezassete.

- E tens a certeza de que não eram os faróis do jipe de Ann Campbell?

- Estou intimamente convicto de que ela chegou aqui mais cedo, de luzes apagadas. Portanto, um veículo passa, o condutor avista o jipe estacionado a beira da estrada, desliga os faróis e sai do carro. Foi o que Robbins viu às duas e dezassete.

- Ele ou ela vê Ann Campbell da estrada, correcto?

- Como no caso do sargento Saint-John. A Lua estava praticamente cheia e qualquer pessoa daria uma vista de olhos pelos arredores, ao avistar o jipe parado. A cinquenta metros, o nosso homem distingue algo na carreira de tiro. É quase instintivo reconhecer uma forma humana, em especial nua. Ambos já ouvimos histórias semelhantes: gente que passeia pelos bosques, avista um corpo prostrado por terra, etc.

- De acordo. O que faz essa pessoa?

- Aproxima-se do corpo, verifica que Ann Campbell está morta, regressa ao seu carro, dá meia volta e afasta-se a toda a pressa.

- Sem ligar novamente os faróis.

- Ao que parece. Mary Robbins estava intrigada com os faróis e continuou atenta, mas não voltou a avistá-los. Só às quatro e vinte cinco distinguiu outras luzes, as do carro do sargento Saint-John.

- E o que levou a pessoa a não ligar novamente os faróis quando se afastou? Porque os teria apagado, além do mais? É tudo um bocado sinistro por estas bandas, Paul. Eu tê-los-ia mantido acesos, se saísse do meu carro. E, antes do mais, quem é este novo personagem que acabaste de introduzir na história e porque não deu o alerta?

- Só me ocorre uma resposta: Ann Campbell não se teria dado a todo este trabalho apenas para um encontro. A sua fantasia incluía, sem dúvida, múltiplas violações. Esperava provavelmente outros parceiros.

- É bizarro, mas possível - acrescentou Cynthia.

- Tentemos seguir o mesmo percurso do cúmplice ou agressor - sugeri. Recuámos e tomámos pelo caminho no bosque por detrás das carreiras de tiro que permitia o acesso à carreira de tiro número cinco.

- Algures, no meio destes arbustos, deve estar um saco de plástico com as roupas dela.

- Também és psicopata? - redarguiu Cynthia, fitando-me.

- As pesquisas provaram-se nulas e os cães não farejaram nada, porque a roupa deve estar fechada num plástico inodoro, sem dúvida um saco de lixo, foi atirada para fora da área de busca. Quando nos aproximarmos da carreira de tiro número cinco, faz incidir a luz da lanterna sobre os arbustos. Talvez ainda tenhamos de voltar amanhã...

- Espera! - interrompeu Cynthia, estacando.

- O que é?

- As latrinas.

- Céus! Tens razão.

Regressámos, assim, às latrinas. Uma divisória de baldes do lixo semiderrubados separava as duas. Virei um e pus-me em cima dele, donde sairei para o telhado da dos homens. Nada havia na superfície lisa e inclinada, mas, ao pôr-me de pé, avistei no telhado vizinho um saco do lixo de plástico castanho, brilhando sob o luar. Atirei-me para o outro telhado e dei um pontapé no saco, saltando depois para o chão. Quando ia no ar, ocorreram-me os exercícios de treino de pára-quedista, flecti os joelhos e rolei, pondo-me depois em pé.

- Estás bem? - inquietou-se Cynthia.

- Óptimo. Pega num lenço.

Ela tirou um do bolso, desenrolou o fio de arame, abriu cuidadosamente a boca do saco e iluminou-o com a lanterna. No interior, avistámos o que parecia um monte de roupa, um par de botas e umas peúgas brancas.

Com a mão enrolada no lenço, Cynthia remexeu nas coisas e encontrou um revólver ainda metido no coldre e uma chapa de identificação, que leu à luz da lanterna: Campbell, Ann Louise. Voltou a deixar cair tudo no saco e endireitou-se. Indicou as latrinas com um movimento do queixo.

- Um dos mais velhos truques que se aprende no manual - comentou.

- Mas que necessidade tinha o tipo de esconder as roupas dela?

- Destinavam-se a ser recuperadas mais tarde - retorqui depois de pensar um momento.

- Por quem? Pelo criminoso? Por outra pessoa?

- Ignoro. Mas agrada-me bastante a ideia de uma terceira pessoa.

De súbito, os faróis de um carro iluminaram a estrada, acompanhados do ruído de um motor. A carroceria verde-azeitona de um veículo do Exército imobilizou-se, mas os faróis permaneceram acesos e o motor ligado. Levei a mão à arma, logo imitado por Cynthia.

A porta do lado do passageiro abriu-se e as luzes do interior revelaram a figura de Bill Kent, que saiu, armado com um revólver e de olhos fixos na luz da nossa lanterna. Bateu com a porta e emitiu o aviso da ordem:

- Identifiquem-se.

- Brenner e Sunhill, coronel - respondi.

Um pouco protocolar, mas não há que brincar quando se fica na mira de um homem armado.

- Vou avançar - informou, ao ver que não nos mexíamos.

- Entendido.

Mantivemo-nos imóveis e, quando se aproximou, vimos que guardava a arma e ouvimo-lo dizer:

- Reconhecidos.

Toda a cena era um pouco ridícula, só que de vez em quando um tipo mete-se em sarilhos por não levar a sério este tipo de ritual.

- O que estão a fazer aqui? - inteirou-se Kent.

- Sabe muito bem, Bill, que os detectives e os criminosos voltam sempre ao local do crime - respondi. - E, pelo seu lado, o que procura aqui?

- Não acho muita graça a esse tipo de subentendido. Estou aqui pelo mesmo motivo que vocês: tentar apreender a atmosfera do local, à noite.

- Permita-me que lhe fale como detective, coronel. Esperava encontrar Polícia Militar por aqui.

- Suponho que deveria ter posto alguns de vigia, mas enviei patrulhas

- Não vimos nenhuma. Pode colocar um ou dois homens aqui?

- Muito bem.

- Porque estacionou o carro tão longe? - perguntou, dirigindo-se a Cynthia.

- Quisemos passear ao luar - respondeu ela.

Deu a sensação de que ia perguntar porquê, mas depois reparou no saco

- O que é isso? - perguntou.

- Os elementos em falta - redarguiu Cynthia.

- Que elementos?

- A roupa dela.

Observei a reacção de Kent, mas achei-o quase indiferente.

- Onde os encontraram? - quis saber.

- No cimo do telhado da latrina das mulheres. Os seus homens não deram por ele.

- Estou a ver. Porque acha que a roupa foi deixada lá?

- Como quer que saiba?

- Acabou por aqui?

- De momento.

- E depois?

- Encontramo-nos em Jordan Field dentro de uma hora? - propus.

- De acordo - anuiu. - O coronel Moore está muito descontente.

- Nesse caso, que apresente queixa, em vez de ir chorar no seu ombro. Conhece-o bem?

- Só através de Ann. Daqui a uma hora - acrescentou, consultando o relógio.

- Uma hora, então.

Afastámo-nos, ele de regresso ao carro estacionado na estrada, nós ao longo da orla do bosque, sendo eu quem levava o saco de plástico.

- Não confias nele, pois não? - perguntou Cynthia.

- Há... há mais de dez anos que conheço Bill Kent, mas agora... já não sei. Não o considero suspeito, mas tenho a certeza de que, como todos os outros, está a esconder algo.

- Também sinto essa impressão. É como se chegássemos a uma pequena cidade onde todos conhecem os segredos uns dos outros, soubéssemos que há esqueletos escondidos nos armários, mas não fôssemos capazes de os encontrar.

- Bem visto.

Chegados ao carro, pus o saco no porta-bagagens. Entrei para o lado de Cynthia, ela ligou o motor e passou-me a mão pelo ombro, como que a enxotar algo.

- Tudo inteiro, soldado? Quer que o leve ao hospital?

- Não. É a minha cabeça que precisa de ser examinada. Para a Escola de Operações Psicológicas.

 

 

                                  CAPÍTULO DEZASSETE

 

Às vinte e três horas, Cynthia estacionou o carro junto do edifício central da Escola de Operações Psicológicas, a qual se compunha de cerca de trinta construções de cimento de um cinzento extremamente deprimente, a cor do suicídio.

Não havia espaços verdes, apenas umas árvores e uma iluminação exterior inaceitável a nível civil, mas que não levantaria processos militares.

A maioria das construções estava imersa na obscuridade, com excepção de duas, que pareciam habitadas. Quanto ao edifício central, só havia uma janela iluminada no rés-do-chão.

Ao aproximarmo-nos, Cynthia perguntou-me:

- O que se passa exactamente aqui?

- É uma filial da JFK Special Warfare School, de Fort Bragg. Trata-se de um disfarce.

- Um disfarce de quê?

- É um centro de pesquisa. Não se ensina, mas estuda-se.

- O quê?

- Acho que se estuda o que mexe com as pessoas e depois a forma de as chamar à razão sem lhes enfiar uma bala - respondi.

- Parece-me um pouco sinistro.

- Concordo. Pelo menos as balas e os explosivos funcionam sempre, mas o mesmo não pode dizer-se quanto ao pânico e à angústia latente.

Um jipe surgiu da sombra e aproximou-se. Parou e um polícia militar saiu, enquanto o motorista se mantinha no interior do veículo, apontando os faróis na nossa direcção. Era um cabo de nome Stroud, que fez a continência habitual e depois inquiriu:

- Têm algum motivo para estarem aqui a esta hora?

- Sim, CID - respondi.

Estendi-lhe a minha identificação, que ele examinou à luz da lanterna, fazendo o mesmo com a de Cynthia, depois do que a apagou.

- Com quem vem falar, sir?

- Com o sargento de serviço. Quer acompanhar-nos, cabo?

- Sim, sir. O caso Campbell? - inquiriu, acertando o passo com o nosso.

- Receio bem que sim.

- Uma história vergonhosa.

- Conhecia-a? - interessou-se Cynthia.

- Sim, não muito bem, mas costumava vê-la por aqui de noite. Uma pessoa simpática - acrescentou. - Têm alguma pista?

- Ainda não - tomei a palavra.

- Fico contente por saber que trabalham, até mesmo de noite.

À nossa entrada, o sargento de guarda, de nome Corman, sentado atrás do postigo à direita do pequeno átrio, levantou-se e ficou de pé. Depois dos habituais preliminares dirigi-lhe a palavra:

- Gostaria de examinar o gabinete do coronel Moore, sargento.

Corman coçou a cabeça, procedeu a uma troca de olhares com o cabo Stroud e depois respondeu:

- Não posso, sir.

- Claro que pode. Vamos lá.

- É impossível sem uma autorização - recusou num tom firme. - Trata-se de uma área protegida.

No Exército, é desnecessário um mandado de busca. Não seria, aliás, passado pelo juiz militar, dado que este não tem qualquer poder fora dos tribunais marciais. Precisava, pois, de um apoio, a nível de comando.

- O coronel Moore tem algum armário pessoal no gabinete? - perguntei ao sargento Corman.

- Tem, sir - respondeu-me, após uma ligeira hesitação.

- Bom. Vá buscar-me a escova de cabelo ou o pente dele.

- Desculpe?

- Ele penteia-se como toda a gente. Ficaremos aqui, próximo do telefone.

- É uma área reservada, sir. Sou obrigado a pedir que se vão embora.

- Posso usar o seu telefone?

- Claro, sir.

- Em particular.

- Não posso afastar-me...

- O cabo Stroud ficará aqui. Obrigado. Ele hesitou e depois saiu do gabinete.

- O que quer que ouça, é confidencial - disse a Stroud.

- Muito bem, sir.

Procurei na lista o número do coronel Fowler, em Bethany Hill, e ele atendeu ao terceiro toque.

- Fala Brenner, coronel. Lamento incomodá-lo a esta hora - de facto, não lamentava -, mas preciso que me autorize a levar uma coisa do gabinete do coronel Moore.

- Onde está, Brenner, com mil raios? - inquiriu e fiquei com a sensação de que o acordara.

- Na Escola de Operações Psicológicas, coronel.

- A esta hora?

- Devo ter perdido a noção do tempo.

- O que quer tirar do gabinete do coronel Moore?

- Na verdade, gostaria de transportar todo o conteúdo para Jordan Field

- Não posso dar-lhe essa autorização - ripostou. - Essa Escola depende de Fort Bragg e é uma área reservada. O gabinete do coronel Moore contém uma série de documentos secretos. Contudo, telefonarei para Bragg amanhã de manhã e verei o que posso fazer.

Omiti que o gabinete de Ann Campbell já fora mudado para Jordan Field. Eis o que acontece quando se pede permissão ao Exército. A resposta é sempre negativa e depois negoceia-se.

- Nesse caso, coronel, permita-me que sele o gabinete.

- Selar o gabinete? Mas que raio se passa?

- Estou a investigar um homicídio.

- Deixe-se de insolências, Brenner.

- Correcto, sir.

- Telefonarei para Fort Bragg, amanhã de manhã. É tudo o que posso fazer.

- Não chega, coronel.

- Sabe, Brenner, que aprecio o seu zelo e espírito de iniciativa, mas não pode investir de cabeça baixa como um touro, pisando tudo o que o rodeia. Só existe um criminoso nesta base e há que mostrar um pouco de consideração pelas restantes pessoas. E enquanto aí está tente lembrar-se de que o Exército tem os seus regulamentos, hábitos e protocolos, para já nem falar da cortesia elementar. Entende-me, Mr. Brenner?

- Sim, coronel. O que preciso neste momento é de uma amostra de cabelo para o comparar com um outro que encontrámos no local do crime. Podia telefonar para casa do coronel Moore, sir, e pedir-lhe que se apresente em Jordan Field, a fim de procedermos a uma extracção, mas também podemos retirar uma amostra do seu pente ou escova aqui, o que eu preferiria dado não dispor de muito tempo. E também gostaria que, de momento, o coronel Moore ignorasse que é um suspeito - concluí, reparando nos olhos arregalados do cabo Stroud.

Seguiu-se um prolongado silêncio e, por fim, o coronel Fowler pronunciou-se:

- Muito bem. Vou deixá-lo levar a escova ou o pente dele, mas se faltar mais alguma coisa no seu gabinete, movo-lhe um processo.

- Certo, coronel. Quer dar instruções ao sargento de serviço?

- Ponha-o em linha.

- Muito bem, sir.

Fiz um sinal a Stroud, que foi lá fora chamar o sargento Corman e indignei a este último:

- O coronel Fowler, o adjunto do general, quer falar-lhe.

Ele pegou no auscultador sem grande entusiasmo e as réplicas limitaram-se a algo como “sim, sir, sim, sir, sim, sir.” Desligou e dirigiu-me a palavra.

- Se ficar próximo do telefone, vou procurar a escova ou o pente do coronel.

- Óptimo. Embrulhe-as num lenço.

Pegou num molho de chaves e desapareceu. Ouvi-lhe os passos a afastarem-se no corredor.

- Estamos lá fora - indiquei ao cabo Stroud. - Espere aqui e receba a prova.

- Muito bem, sir - anuiu o cabo, que parecia encantado por poder dar o seu contributo para o caso.

Cynthia seguiu-me e esperámos sob a luz dos faróis do veículo da Polícia Militar.

- São extremamente desconfiados por estas bandas - comentou ela

- Se conduzisses experiências de lavagem ao cérebro, técnicas de interrogatório, desmoralização e mecanismos indutivos de terror e pânico, talvez não te agradasse que estranhos andassem a meter o nariz aqui.

- Era nisso que ela trabalhava?

- Acho que sim. Dispõem de celas - acrescentei - onde mantêm voluntários para as suas experiências e têm algures um campo de concentração reconstituído.

- Como sabes todas essas coisas?

- Há um ano, trabalhei num caso com um psicólogo que tinha estado aqui e pediu transferência.

- É o tipo de lugar que pode dar cabo de uma pessoa.

- Claro. Encontrei um pedaço de papel no dossiê de Ann Campbell, uma citação de Nietzsche: “O que combate os monstros devia zelar para ele próprio não se transformar num deles. De contemplar demasiado o abismo, é o abismo que acaba por nos contemplar.”

- Como se chegou a esse ponto?

- Ignoro, mas acho que sou capaz de entender o que significa.

- Sim... também eu. Há alturas em que me apetece ganhar a vida de outra maneira. Começo a cansar-me de exames vaginais e DNA, exames de esperma e interrogatórios a violadores e vítimas de violação.

- Concordo. Dez anos é o máximo. Há vinte anos que exerço. Este é o meu último caso.

- É o que dizes todas as vezes?

- Sim.

O cabo Stroud saiu do edifício com algo na mão e um sorriso nos lábios.

- Ele descobriu! - informou.

Veio ao nosso encontro e estendeu-me uma escova de cabelo embrulhada num lenço cor de azeitona.

- Conhece o processo - disse-lhe. - Preciso de um relatório seu, explicando como e onde descobrimos este objecto, quando, quem e por aí fora.

- Muito bem, sir.

- Assinado, selado e em cima da secretária do comandante da Polícia Militar antes das seis da manhã.

- Exacto, sir.

- Sabe que tipo de carro conduz o coronel Moore? - perguntou-lhe Cynthia.

- Vejamos... - respondeu, concentrando-se por momentos. - Um carro antigo... bastante usado... cinzento-escuro... que marca? É isso mesmo, um grande Ford Fairlane.

- Obrigada pela sua ajuda - agradeceu. - Tudo isto é estritamente confidencial - acrescentou.

- Pergunte-me o que quiser sobre o coronel Moore - ofereceu-se o cabo Stroud. - Se não souber a resposta, descobri-la-ei.

- Obrigado - agradeci também.

Havia indubitavelmente quem desejava ver o coronel Moore na cela dos condenados à morte de Leavenworth.

Depois de uma troca de continências, voltámos aos respectivos veículos.

- Jordan Field? - perguntou Cynthia, ligando o motor.

- Sim.

Saímos novamente da base e enterrámo-nos nas profundezas da reserva militar. Dos cinquenta mil hectares que ela ocupa, perto de quarenta mil são constituídos por zonas desabitadas. Não faltam, obviamente, vagabundos e caçadores furtivos que as invadem frequentemente e restam também cidades-fantasmas, antigos cemitérios, velhas igrejas de épocas passadas, bem como granjas e casas que remontavam à plantação Beaumont. Era um sítio único, como que parado no tempo, quando o governo decidira exercer o seu direito de preempção como paliativo à premência da guerra que devia pôr fim a todas as guerras.

Dos meus períodos de treino nesta base conservei, como já disse, uma recordação bastante precisa da configuração do local: uma paisagem inóspita de vertentes cobertas de bosques, pântanos e terras inundadas, onde reina uma espécie particular de lianas, cuja fosforescência durante a noite desorienta o mais prevenido.

O treino em si obedecia a um programa rígido, que tinha por objectivo transformar rapazes de constituição normal em máquinas de matar entusiastas, eficazes e dedicadas. A transformação efectuava-se em quatro meses intermináveis e dolorosos. Depois de umas curtas férias, podíamos ingressar no Exército em Junho, no final do curso, como foi o meu caso, e vermo-nos com uma M-6 ao ombro, no meio da selva, antes do Natal, irreconhecíveis física e mentalmente.

- Estás a tentar encontrar uma solução para o caso? - inquiriu Cynthia ante o meu silêncio.

- Não, evocava velhas recordações. Fiz aqui o meu treino de infantaria.

- Durante a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra da Coreia?

- Tens uma certa tendência para me envelheceres. Aprende a fazer contas.

- Muito bem, sir.

- Conheces o interior deste vasto domínio?

- Não, só fui até à carreira de tiro número seis.

- O mesmo será dizer que não viste nada. Se seguires por essa estrada à esquerda, a General Pershing Road, irás ter aos campos de manobras. Zonas Para o treino de tiro com morteiros e artilharia, zonas de exercícios particulares, com os nomes de “O Ataque dos Fuzileiros”, “Operação Conjunta da Infantaria e Carros de Assalto”, “A Emboscada”, “A Patrulha da Noite” e por aí fora.

- Nada de áreas de piquenique?

- Que me lembre, não. Há também um antigo campo de rangers, uma pseudocidade europeia para o treino da guerrilha urbana e a reconstituição de uma aldeia vietnamita, onde fui morto seis vezes.

- A lição deve ter dado os seus frutos.

- Ao que parece. Há também uma simulação de campo de prisioneiros de guerra de que a Escola de Operações se apoderou. Continua em actividade e é uma zona protegida.

- Entendo. - Depois de uns momentos de reflexão, retomou a palavra:

- Explica-me porque, no meio de todo este espaço, destes milhares de hectares, Ann Campbell escolheu uma carreira de tiro regularmente frequentada, a cinquenta metros da estrada e a um quilómetro de um posto de guarda.

- Também pensei nisso e ocorreram-me três coisas. A primeira e mais evidente é a de que foi agredida quando efectuava a ronda. Não foi ela, mas o agressor, quem escolheu o local. É o que todos aqui pensam, mas nós temos outra opinião.

- Claro que sim. Portanto, se foi ela a escolher, optou por um local que o parceiro pudesse encontrar facilmente, pois, a menos que se seja um bom ranger, é bem possível faltar a um rendez-vous no meio dos bosques.

- Exacto, foi esse o meu segundo pensamento. O tipo não se movimentava à vontade, nem conhecia muito bem os bosques à noite. É aí que tens de virar para Jordan Field.

- Eu vi - disse, metendo pela estrada do campo de aviação.

- E a terceira ideia? - interessou-se.

- Bom. Ann Campbell escolheu voluntariamente um local quase público, devido ao risco que o mesmo representava. Fazia parte do jogo e talvez fosse, digo talvez, uma provocação para chamar a atenção do pai.

Virei-me para Cynthia, que acenou com a cabeça, denotando uma expressão aprovadora.

- Talvez tenhas razão, Paul. Uma tomada de posição frente ao pai.

- Sim, mas tal supõe que Ann e o pai se davam realmente mal - vinquei.

- Sugeriste essa possibilidade quando passámos revista à casa dela.

- Correcto, mas não sei donde me veio essa ideia. Pensei, sem dúvida, na dificuldade de ser filha de um homem poderoso, de viver à sombra dele. É um problema clássico.

- Sim... Não tenho elemento algum que me permita pensar isso e, no entanto, é a minha opinião.

- O que se silencia é tão revelador como o que se expressa claramente. E alguém nos disse que o general e a filha eram inseparáveis, que se adoravam, que eram muito próximos ou mesmo bons amigos?

- Bom, o general afirmou que a filha teria gostado de mim.

- Não me interessa o que ele disse. Se bem te recordas, ninguém, nem Kent, Fowler, Moore, ou Yardley, fez esse tipo de afirmação, nem mesmo o próprio general revelou que adorava a filha. Agora, vamos procurar saber o que o general e o capitão Campbell pensavam um do outro.

- Tenho a impressão - disse Cynthia com um aceno de cabeça - de que não há muito mais a esperar das pistas e que o melhor será unir as peças do quebra-cabeças antes de sermos afastados pelo FBI.

- Acho que tens razão. Dão-nos mais dois ou três dias para este caso e não mais. Depois, teremos de enfrentar defesas bem entrincheiradas. Como consta do manual do comandante de um tanque, a nossa força reside no efeito surpresa, mobilidade e potência de fogo. Temos de atacar o ponto fraco do inimigo e actuar onde ele é mais lento.

- E de preferência chegar em primeiro lugar.

- Exacto.

Cynthia abrandou diante do abrigo de madeira do polícia militar em Jordan Field, mostrámos as respectivas identificações e mandaram-na avançar. Estacionou o carro no meio de carrinhas e camiões da equipa forense e eu retirei o saco de plástico com a roupa do porta-bagagens, servindo-me de um lenço, enquanto ela levava a escova de cabelo do coronel.

- Se foi ela a despir-se - comentou Cynthia - e ele a agarrar o saco, não terá deixado impressões digitais no cinturão, nas botas, onde quer que seja. Excepto talvez no saco.

- Depressa o saberemos.

- És muito perspicaz, Brenner - elogiou-me, enquanto nos dirigíamos ao hangar. - Começo a admirar-te.

- Mas gostas de mim?

- Não.

- Amas-me?

- Não sei.

- Disseste que sim, em Bruxelas.

- Isso foi em Bruxelas. Voltaremos a falar no assunto daqui a uma semana ou talvez ainda esta noite.

 

 

                                   CAPÍTULO DEZOITO

 

Reinava grande animação no hangar três, que estava todo iluminado e onde o laboratório, transplantado de Fort Gillem, fervilhava de actividade. O coronel Kent ainda não chegara, o que de momento era óptimo.

Entreguei o saco de plástico e a escova de cabelo a Cal Seiver, que não precisou de explicações. Passou-os de imediato a um especialista de impressões digitais e instruiu-o para que os desse aos químicos depois da recolha das impressões.

Com este último elemento, o hangar três continha agora todos os elementos conhecidos da vida de Ann Campbell, casa, gabinete, automóvel, apenas com exclusão dos seus restos mortais. Avistei igualmente no hangar o jipe que ela conduzira nessa noite e, ao fundo, as fotografias do cenário do crime, que haviam sido reveladas e colocadas em painéis giratórios, bem como mapas e diagramas do cenário do crime, uma pilha de relatórios de especialistas, o protocolo da autópsia, juntamente com fotos do cadáver, que evitei olhar, moldes de impressões digitais, provas metidas em sacos de papel vegetal, equipamento do laboratório e cerca de trinta pessoas dos dois sexos.

A um canto do hangar, havia umas duas dúzias de catres e num outro uma máquina de café. O Exército possui, obviamente, material e pessoal suficiente e não tem de se preocupar com o custo de horas extraordinárias, mas não ocorrera provavelmente nenhum outro crime grave que exigisse tantos recursos. Fico muitas vezes surpreendido com a amplitude dos meios postos em funcionamento com uma única palavra, tal como quando Roosevelt disse a Eisenhower: “Reúna tropas para a invasão da Europa.” É simples, directo e eficaz. O pior é quando os políticos se põem a brincar aos soldados e os soldados aos políticos, o que acontece tanto em casos como este, como em tempo de guerra, e é esse o motivo por que sabia que tinha de agir depressa, antes que pusessem freio à minha liberdade.

Cal Seiver mostrou-me um exemplar do Midland Dispatch, o quotidiano local, que anunciava em grandes parangonas: “Filha de um general encontrada morta na base.”

Cynthia e eu lemos o artigo, que explicava que Ann Campbell, que tinha o posto de capitão, fora encontrada nua, amarrada, estrangulada e possivelmente violada numa carreira de tiro. O relato era mais ou menos exacto e continha uma única declaração de um elemento da base, a de um tal capitão

Hillary Barnes, do serviço de imprensa, que dizia não ter qualquer comentário a fazer, com excepção de que o presumível homicídio estava a ser investigado pela Divisão de Investigação Criminal do Exército.

Havia, contudo, uma frase de Burt Yardley, o chefe da polícia de Midland: “Ofereci os meus préstimos ao coronel Kent, o comandante da Polícia Militar de Fort Hardley, com quem me mantenho em contacto.”

Não mencionou o transporte clandestino do recheio da casa, nem tão-pouco confessava que desejava que a minha pele lhe fosse entregue numa bandeja de prata, mas depois da nossa próxima entrevista decerto começaria a queixar-se de mim à Imprensa.

- São esses os ténis com que se dirigiu ao local do crime? - perguntou Cal a Cynthia.

- Sim. Quer só os ténis ou devo mantê-los calçados?

- Só os ténis, por favor.

Cynthia sentou-se numa cadeira desdobrável, tirou os ténis e estendeu-os a Cal. Ele dirigiu-se-me:

- Onde estão os que levavas?

- Em minha casa. Esqueci-me de os trazer.

- Podes fazer isso um destes dias?

- Claro. Um destes dias. Agora, estou um pouco retido na base.

- Ainda? Céus, Brenner. Sempre que trabalhamos juntos num caso que envolve a polícia civil, tens problemas com ela.

- Nem sempre, Cal. Agora, gostaria que mandasses uma equipa à carreira de tiro número cinco para fazer moldes de alguns traços de pneus.

Indiquei-lhe o local e quando ele já se preparava para rodar sobre os calcanhares, acrescentei:

- Mais uma coisa. Quando acabarem o trabalho aqui, manda-os a Victory Gardens, em Victory Drive, recolher as marcas dos pneus de um Ford Fairlane, antigo, provavelmente cinzento, com uma matrícula militar. Não tenho o número, mas deve estar estacionado próximo da unidade trinta e cinco.

Fitou-me longamente, antes de responder:

- Se o carro pertence a um oficial, podemos esperar que volte à base.

- Quero o trabalho para esta noite.

- Ora, Brenner. Não posso ir à caça de provas fora da base sem autorização da polícia local e já deste à língua.

- De acordo, não utilizes um carro militar. O número quarenta e cinco, onde morava a vítima, deve estar vigiado pela polícia de Midland, mas o agente de serviço estará provavelmente no interior. Diz aos teus homens que sejam prudentes e actuem depressa.

- Esperemos que o carro esteja na base.

- De acordo - anuí, pousando-lhe a mão no ombro. - Compreendo, e espero que o dono não mude os pneus até amanhã de manhã, e espero mesmo que o carro não desapareça esta noite. No entanto, tudo bem. Aguardemos.

- Ganhaste. Victory Gardens. Estás a forçar a sorte, meu velho.

Dirigiu-se até junto de um grupo de técnicos ocupados a rotular impressões de pegadas e a tomar apontamentos num mapa do local do crime e entregou-lhes as dos ténis de Cynthia, referindo-lhes provavelmente a sua missão nocturna, pois apontou o polegar sem cessar na minha direcção e os outros fixavam-me.

Fui buscar café e trouxe um para Cynthia, que estava a folhear os relatórios da peritagem. Aceitou-o e disse:

- Obrigada. Vê só isto.

Mostrou-me um relatório da equipa de recolha de impressões digitais.

- Descobriram uma impressão de um sapato de sola lisa, número trinta e oito, sem dúvida de uma mulher. Não muito vulgar numa carreira de tiro, certo?

- Na verdade.

- O que pode deduzir-se?

Examinei o relatório, que afirmava tratar-se de uma pegada recente.

- Interessante - comentei -, mas pode datar de há uns dias. Como saber? Há uma semana que não chove.

- É verdade. Contudo, dá matéria para reflectir.

Dedicámos uns quinze minutos a examinar relatórios dos vários sectores forenses e depois Cal chamou-nos de uma das suas oficinas improvisadas e indicou-nos uma mulher nova inclinada sobre um microscópio.

- Talvez tenham encontrado uma mina de ouro com aquela escova de cabelo. Donde veio?

- Da tua casa não foi - retorqui, passando-lhe a mão pela careca.

A técnica soltou uma risada e concentrou-se no microscópio, mas Cal não ficou muito satisfeito e dirigiu-se a Cynthia:

- Uma vez que me parece a única com cabeça neste grupo, porque não dá uma vista de olhos nesse microscópio?

A técnica, que se chamava Lubbick, afastou-se e observou a Cynthia, quando ela se sentou:

- O cabelo da direita é o que foi encontrado na bacia do lavatório da latrina dos homens, na carreira de tiro número seis. O da esquerda provém da escova.

Cynthia continuava colada ao microscópio, sem deixar de escutar a técnica Lubbick, que prosseguiu:

- Examinei vinte cabelos tirados da escova para me certificar de que pertenciam todos à mesma pessoa. Na minha opinião, é esse o caso e, tanto estatística como logicamente, esta escova só deve ter cabelos deste indivíduo. Todavia, vou examinar todos e mencioná-los no meu relatório.

Apetecia-me dizer-lhe que fosse directa ao assunto, mas nunca se deve interromper um técnico, ou ele sente-se humilhado. A técnica Lubbick prosseguiu, por isso, o seu discurso:

- Os cabelos têm o que designamos por características tipológicas, o que significa que os resultados da comparação com uma determinada amostra nunca são definitivos. Podem servir para inocentar um suspeito, mas nunca para o identificar ante um tribunal marcial, excepto quando as amostras em questão possuam raízes que nos permitam determinar o sexo e o código genético do indivíduo em causa.

- Acho que eles sabem tudo isso - interferiu Cal.

- Claro, sir. De qualquer maneira, a amostra encontrada nas latrinas não tem raízes, mas o bolbo permitiu-me identificar que o indivíduo pertence ao grupo de sangue O, como o proprietário da escova. As duas amostras são caucasianas, visualmente idênticas em textura, cor, ausência de tratamento cosmético nos dois casos e um estado geral de saúde semelhante.

Cynthia ergueu os olhos do microscópio e exclamou:

- Sim, parecem mesmo idênticos!

A técnica Lubbick concluiu:

- Na minha opinião, pertencem ambos à mesma pessoa, mas infelizmente a amostra recolhida na bacia do lavatório é demasiado pequena para permitir testes complementares, como uma espectrografia, que confirmariam estas semelhanças. Exames mais aprofundados poderiam deteriorar este único elemento de que dispomos. Alguns cabelos provenientes desta escova - acrescentou têm raízes e dentro de uma hora estarei em condições de indicar o sexo deste indivíduo e o seu ADN:

- Compreendo - aquiesci.

- Peço-lhe que ponha tudo isso num saco etiquetado e faça um relatório pediu Cynthia à técnica, levantando-se.

- Muito bem.

- Obrigada.

- Basta para prender o culpado? - perguntou Seiver, fervilhando de impaciência.

- Não, mas chega para que comecemos a investigar um indivíduo que eu conheço.

- Quem?

Puxei-o para o lado, a coberto de olhares indiscretos, e respondi:

- Um tal coronel Charles Moore, de quem quero que examines as marcas dos pneus do carro. Também trabalha na Escola de Operações Psicológicas e era o superior da vítima. Estou a tentar que lhe selem o gabinete até conseguirmos a autorização para trazermos tudo para aqui.

Cynthia tinha vindo ao nosso encontro e acrescentou a sua pitada:

- Entretanto, Cal, compare as impressões digitais encontradas na escova do coronel Moore com as retiradas do jipe e as recolhidas no saco de plástico, e. obviamente, no conteúdo.

- Muito bem - concordou, depois do que pareceu mergulhar nos seus próprios pensamentos. - Mas mesmo que correspondam - acrescentou tal não provará a presença do coronel Moore no local do crime, uma vez que se conheciam. Tem uma razão credível para as suas impressões digitais aparecerem, digamos, no coldre e no jipe.

- Eu sei - anuí -, mas terá dificuldade em explicar as do saco do lixo ou as marcas de pneus na carreira de tiro número cinco.

- Mesmo assim, há que o situar em qualquer lugar na altura do crime redarguiu Cal com um aceno de cabeça.

- Certo, e é esse o motivo por que quero que compares as impressões digitais da escova com as que encontraste nas estacas. Se tivermos resultados positivos, este tarado vai sentir a corda a apertar-se à volta do pescoço.

- És tu o detective - redarguiu Cal. - Eu votaria culpado, mas nos dias que correm é sempre uma interrogação. - Virou-se e foi ao encontro da sua unidade especializada.

- Se interrogarmos Moore e o confrontarmos com as provas, há muitas hipóteses de que ele confesse o crime - observou Cynthia.

- Ou que negue, e arrastar-nos-á para um tribunal marcial, que decidirá se a filha do general Campbell foi estrangulada por um coronel do Exército dos EUA ou se os agentes Brenner e Sunhill desonraram o Exército e a si próprios.

- Se todas as pistas indicarem Moore, restam-te algumas dúvidas credíveis? - perguntou-me Cynthia após uns instantes de reflexão.

- E a ti?

- Algumas. Não consigo imaginar Ann Campbell montando tal cenário com aquele tipo, nem tão-pouco o vejo a estrangulá-la. Parece-me mais do género de lhe deitar veneno no café do que de matá-la com as suas mãos.

- É o que me tem dado volta à cabeça. Contudo, nunca se sabe... Ela pode ter-lhe pedido que o fizesse, suplicado que a matasse. Não seria novidade para mim. E, tanto quanto sabemos, Moore podia ter consumido drogas capazes de alterar a personalidade, produtos das suas pesquisas.

- É possível.

- Entretanto aí vem a lei - comentei, olhando por cima do ombro de Cynthia.

O coronel Kent avançava ao nosso encontro e encontrámo-lo a meio caminho.

- Alguma novidade? - informou-se.

- Parece que há qualquer coisa, Bill. Estou à espera de impressões digitais e marcas de pneus.

- A sério? De quem? - quis saber, semicerrando os olhos.

- Do coronel Moore.

Deu a sensação de meditar uns segundos e depois comentou com um aceno de cabeça:

- Enquadra-se.

- Como assim, Bill?

- Bom... Eles tinham uma relação íntima, oportunidades não lhe faltariam e não lhe daria a absolvição. É um tipo estranho. Só não vejo qual possa ter sido o móbil.

- Nem eu. Fale-me de Ann e do general Campbell - pedi.

- O que pretende saber?

- Davam-se bem?

- Não - respondeu, fitando-me, sem desviar o olhar.

- Continue.

- Bom, talvez pudéssemos deixar o assunto para qualquer outra altura.

- Para Falis Church, por exemplo.

- Ei! Não me ameace.

- Ouça, coronel, trata-se de um caso de homicídio. Talvez se sinta condicionado por quaisquer reservas sociais e profissionais, mas o seu dever é responder às minhas perguntas e não se importar com o resto.

Kent mostrou uma expressão contrariada, mas, em simultâneo, pareceu aliviado por lhe dizerem que não estava condicionado. Dirigiu-se ao centro do anngar e seguimo-lo.

- Muito bem - começou. - O general Campbell desaprovava a especialidade militar escolhida pela filha, as suas conquistas, a decisão de viver fora da base, as relações que mantinha com pessoas como Charles Moore e, sem dúvida, muito mais coisas que ignoro.

- Não tinha orgulho nela? - quis saber Cynthia.

- Acho que não.

- Mas o Exército, sim - vincou Cynthia.

- Não tinha mais alternativas do que o general Campbell. Ann Campbell segurava com uma mão os tomates do pai e com a outra os do Exército, se me permite a expressão.

- Significando que...?

-... Que enquanto mulher, filha de um general, diplomada por West Point e quase uma figura pública podia dar-se a muitos luxos. Meteu-se nessa história da publicidade para o Exército antes mesmo que o pai desse conta do que se passava e, de um dia para o outro, tornou-se famosa, dando entrevistas para a rádio e a televisão, fazendo conferências nas universidades e associações de mulheres e tudo o mais. Todos a adoravam, mas ela estava-se nas tintas para o Exército, apenas queria tornar-se intocável.

- Porquê? - perguntou Cynthia.

- Bom. Quanto mais o general mostrava o seu desagrado, mais ela o odiava. Não olhava a meios para o colocar em situações embaraçosas e ele dificilmente poderia detê-la sem pôr em risco a sua própria carreira.

- Céus! - exclamei com um suspiro. - Ora aí está uma informação interessante. Devia estar tão nervoso por ser obrigado a dar a notícia ao general que se esqueceu de nos contar tudo isso.

Kent olhou em volta e retomou a palavra num tom baixo:

- Isto fica entre nós, oficialmente, davam-se muito bem. - Hesitou e depois acrescentou. - Para lhe dizer a verdade, Campbell podia desaprovar algumas coisas, mas não a odiava. Tudo isto são meros boatos que lhe transmito em confidência para que saiba o que, na verdade, se passa por aqui. Não lhe disse nada, mas pode servir-se da pista.

- Obrigado, Bill - agradeci e acenei com a cabeça. - Algo mais?

- Não.

Contudo, muito ficara obviamente por dizer.

- Quem eram esses homens que o general não via com bons olhos, além do coronel Moore? - perguntei.

- Não sei.

- Yardley era um deles?

- Acho que sim - confidenciou-me depois de me fitar longamente.

- Wes Yardley foi o homem com quem ela se desentendeu em Midland?

- É possível.

- O que a levava a querer embaraçar o pai? Não sei.

- Por que motivo o odiava?

- Se descobrir, informe-me, mas, fosse qual fosse, devia ser significativo

- Qual era a relação com a mãe?

- Tensa - elucidou Kent. - A senhora Campbell vivia dividida entre o seu papel de mulher do general e mãe de uma jovem muito independente

- Por outras palavras - comentei -, ela é um tapete e Ann Campbell tentava acordá-la para a realidade.

- Algo do género, só que um pouco mais complexo.

- Como assim?

- Devia interrogar a senhora Campbell.

- Tenciono fazê-lo. Repita-me que nunca foi a casa de Ann Campbell para que eu possa explicar no meu relatório porque se encontraram as suas impressões numa garrafa de bebida.

- Já lhe disse que toquei em algumas coisas, Brenner.

- A garrafa tinha sido selada num caixote pelos seus homens e só foi aberto há uma hora.

- Esse tipo de treta não pega comigo, Paul. Também sou polícia. Se tem provas, vamos ter com Seiver para que mas mostre.

- Ouça, Bill. Esclareçamos tudo de uma vez por todas, para que possamos passar a coisas mais urgentes, como o coronel Moore. Eis a minha pergunta e lembre-se de que é seu dever responder com a verdade. E se isto não o impressiona, acredite que posso descobrir a verdade por mim próprio. Vamos então à pergunta: foi com ela para a cama?

- Sim.

Ninguém falou durante uns segundos e reparei que Kent parecia aliviado com a confissão. Abstive-me de lhe lembrar a sua afirmação de que, se assim fosse, me teria informado no primeiro minuto, mas mais valia agir como se fosse este o primeiro minuto e as declarações anteriores verdadeiras.

- É um dos meios que Ann Campbell encontrou para desagradar ao pai? inquiriu, por fim, Cynthia.

- Sim... - anuiu Kent, acenando com a cabeça. - Sempre encarei a situação dessa forma. O general está ao corrente. Ela encarregou-se disso. Contudo, é óbvio que a minha mulher desconhece, por isso não o confessei.

“Deus do céu”, pensei. “É incrível as coisas que as pessoas são capazes de revelar à meia-noite, quando estão sob stresse e procuram colocar um pouco de ordem na vida, porque uma outra vida acaba de se extinguir e tentam salvar o que podem da carreira e do casamento.”

O coronel William Kent necessitava indubitavelmente da nossa ajuda’ Tranquilizei-o:

- Tentaremos não mencionar o facto no nosso relatório.

- Agradeço, mas com a morte de Ann o general tem campo livre Para acertar contas. Vai pedir que me demita a bem da instituição. Talvez consiga ainda salvar o meu casamento.

- Faremos o que estiver ao nosso alcance - prometeu Cynthia.

- Ficar-vos-ei muito grato.

- Que outras contas gostaria o general de acertar? - interessei-me.

- Ela foi para a cama com todo o Estado-Maior do general - respondeu Kent com um sorriso amargo.

- O quê?

- Todos passaram por lá. Enfim, quase todos, desde o jovem tenente Elby aos colaboradores mais próximos, sem esquecer o procurador-geral e pessoas Com cargos de comando, como eu.

- Meu Deus..! - exclamou Cynthia. -- Está a falar a sério?

- Receio bem que sim.

- Mas porquê?

- Já lhe disse, ela odiava o pai.

- Mas também não tinha muita auto-estima - concluiu Cynthia.

- Na verdade, não. E, se é que a minha experiência vale algo, posso dizer-vos que os homens que dormiram com ela também não se sentiram muito orgulhosos depois. Consegue entender, Brenner? - dirigiu-se-me com um sorriso.

Senti-me um tanto incomodado com a pergunta, mas mesmo assim não deixei de responder:

- Sim, compreendo, mas não sou casado, nem trabalho para o general Campbell.

- Esse o motivo por que nunca seria um dos candidatos, nem teria oportunidade de o verificar - retorquiu com um sorriso mais alargado.

- Bem...

- Sem poder, não havia cama - acrescentou.

- E ela contava-lhe, e a todos os outros, com quem dormia? - interferiu Cynthia.

- Presumo que sim. Penso que fazia parte do programa, tendo por objectivo semear a corrupção, desconfiança, medo, ansiedade, por aí fora. Contudo, acho que por vezes mentia em relação àqueles a quem prestara esses “serviços”.

- Não pode, assim, afirmar com certeza que ela tenha dormido com o capelão, o major Eames ou o assessor do general, o coronel Fowler?

- Com certeza, não. Ela afirmava tê-los seduzido, mas penso que não é verdade, pelo menos relativamente ao coronel Fowler. Uma vez, este contou-me que estava ao corrente do que se passava e que eu tinha uma quota-parte de responsabilidade no assunto. Penso que a intenção era a de dizer que não era o caso dele, o único em quem o general depositava total confiança, e talvez fosse esse o motivo.

Aprovei com um movimento de cabeça. Imaginava Fowler a dizer algo do género a Ann Campbell: “Não tente esse jogo comigo, jovem. Não preciso de si.”

- Tudo isto é bizarro... - observou Cynthia a Kent. - ... doentio, quero dizer.

- Ann declarou-me um dia, a esse respeito, que estava a efectuar uma experiência de guerra psicológica e o inimigo era o pai - confirmou Kent com um riso desencantado. - Ela odiava-o do fundo do coração e com todas as forças. Já que não podia destruí-lo, fazia tudo para o irritar.

O silêncio voltou a reinar durante algum tempo e depois Cynthia retomou a palavra, como se falasse para si própria:

- Mas porquê?

- Nunca mo disse. Acho que nunca o contou a ninguém. Ela sabia, eu sabia e talvez a senhora Campbell o soubesse também. Não formavam uma família feliz.

- E talvez Charles Moore também estivesse ao corrente - sugeri.

- Sem dúvida, mas nós, provavelmente nunca o saberemos. Moore era o motor por detrás de tudo isto. Sussurrara-lhe a forma de punir o pai pelo que ele lhe havia feito.

“Era, sem dúvida, verdade”, pensei. “Só que não constituía um motivo suficiente para matar, bem pelo contrário. Ela era a sua protegida, o seu escudo contra a raiva do general, a sua experiência mais conseguida. O safado merecia a morte, mas morreria com justa causa.”

- E onde se encontrava com ela? - perguntei a Kent.

- Aqui e ali. Na maior parte das vezes em motéis da estrada, mas também não se importava muito de o fazer aqui na base, no gabinete dela ou no meu.

- E na casa dela?

- De vez em quando. Acho que vos enganei a esse respeito, mas ela preferia deixar a casa por fora de tudo isto.

Kent ou ignorava a existência da divisão na cave, ou não sabia que eu sabia. De qualquer maneira, se tivesse posado para uma daquelas fotos, não se iria vangloriar.

- Se for Moore o assassino, você conseguirá resolver tudo sem muito prejuízo para o Exército e as pessoas de Fort Hadley. Contudo, caso não seja esse o caso e for obrigado a procurar outros suspeitos, terá de começar a interrogar muitos homens aqui nesta base, Paul - declarou. - Como viu, confessei e terá de levá-los a fazer o mesmo. Que se lixem as carreiras, reputações, a boa ordem e a disciplina. Imagina o que dirão os jornais? - acrescentou, depois de retomar fôlego. Estou a ver o quadro. Todo o Estado-Maior de um general e quase todos os oficiais superiores de uma base militar corrompidos e comprometidos. Será assunto para dez anos. Espero que seja Moore o culpado e as coisas não avancem mais - concluiu.

- Se está a tentar insinuar que o coronel Moore é o homem a abater, mesmo que esteja inocente, vejo-me forçado a lembrar-lhe o seu juramento.

- Tento apenas explicar-lhe que não deve mexer em roupa suja. Se Moore for o culpado, não permita que arraste os outros com ele. Se cometeu um crime. os adultérios e fraquezas dos outros são irrelevantes e não podem constituir circunstâncias atenuantes. E a lei, um processo de cada vez.

Kent revelava-se mais esperto do que a recordação que tinha dele. É incrível como um homem pode encontrar recursos intelectuais a que se agarrar quando se vê confrontado com a desonra, infortúnio, desgraça e ameaçado com um inquérito ao seu comportamento. O Exército continua a julgar os seus membros por má conduta e o coronel Kent enquadrava-se obviamente neste molde. Surpreendo-me por vezes com o facto de o instinto sexual levar os homens a arriscarem a carreira, a fortuna e mesmo a vida por uma hora entre duas coxas. Por outro lado, pertencendo as coxas a Ann Campbell... mas o problema não é esse.

- Agradeço-lhe realmente a sua franqueza, coronel - dirigi-me a Kent. Basta que um homem proclame a verdade para que os outros lhe sigam o exemplo.

- Talvez - concordou ele -, mas ficar-lhe-ia muito reconhecido se deixasse o meu nome de fora.

- É o que farei, embora não tenha muita importância a longo prazo.

- Sim, tem razão, estou acabado - concordou, encolhendo os ombros. Já o sabia há dois anos quando me envolvi com Ann. Ela devia manter uma espécie de inventário das suas conquistas - acrescentou -, porque, sempre que começava a convencer-me de que nem sequer dormira com ela, passava pelo meu gabinete e convidava-me a tomar um copo.

- Nunca lhe ocorreu recusar? - surpreendeu-se Cynthia.

- Alguma vez pediu a um homem que fizesse sexo consigo e ele recusou? retorquiu Kent com um sorriso.

- Não faço esse tipo de pedido - ripostou Cynthia.

- Bom, nesse caso tente. Escolha um homem casado ao acaso e proponha-lhe que vá para a cama consigo.

- Não sou eu que estou em causa, coronel - ripostou Cynthia num tom frio.

- Muito bem, peço desculpa, mas, e agora para responder à sua pergunta, Ann Campbell não aceitava um “não” como resposta. Não quero dizer que exercesse chantagem, nunca o fez, mas havia por vezes uma certa coerção. Exigia, além disso, presentes caros: perfumes, roupas, bilhetes de avião, etc. E a maior loucura reside em que não lhes ligava, queria apenas que lhe cedêssemos um pouco do nosso tempo, era uma forma de comprovar o seu domínio. Recordo-me de uma vez em que me pediu que lhe oferecesse um perfume extremamente caro - acrescentou. - Já não me recordo qual era, mas custou-me mais de quatrocentos dólares. Tive de me servir do cartão de crédito e de almoçar na maldita cantina durante mais de um mês.

Riu-se ante aquela recordação e comentou: - Ainda bem que tudo acabou!

- Não terminou ainda! - lembrei-lhe.

- Para mim, já.

- Assim espero, Bill. Alguma vez lhe pediu que infringisse os seus deveres?

- Em pequenas coisas - confessou, depois de uma breve hesitação. facilidades para os amigos, uma palavrinha para acelerar a sua promoção. Nada de grave.

- Permita-me que não pense da mesma forma, coronel.

- Não tenho desculpa para a minha conduta - reconheceu.

Era exactamente o que diria confrontado com um tribunal marcial, aliás, seria a sua melhor e única defesa. Interroguei-me acerca da forma como ela comprometeria os outros, além das relações sexuais. Um favor aqui, um gesto especial ali e Deus sabe que outras exigências teria feito e obtido. Em vinte anos de serviço, dos quais quinze na CID, nunca se me deparara um tal exemplo de corrupção geral numa base militar.

- E o general nada conseguia fazer para que ela parasse? - insurgiu Cynthia.

- Não, sem correr o risco de se expor como um comandante ineficaz e negligente. Quando se apercebeu de que a filha semeava a corrupção e a depravação à sua volta, era tarde de mais para qualquer atitude oficial. A única maneira seria informar os seus superiores do Pentágono, exigir a demissão de todos os oficiais da base e apresentar a dele. Depois era melhor meter uma bala na cabeça - concluiu Kent.

- Ou matá-la - sugeriu Cynthia.

- Talvez, mas não da maneira que aconteceu - observou Kent, encolhendo os ombros.

- Se não tivéssemos um suspeito, o senhor ocuparia a cabeça da lista, coronel - observei.

- Sem dúvida. Contudo, não estava tão queimado como alguns deles, que se encontravam verdadeiramente apaixonados, obcecados e talvez possuí dos de um ciúme assassino. Como esse jovem, o Elby, que se comportava como uma alma penada quando ela o ignorava. Interrogue Moore e, se achar que não foi ele o assassino, peça-lhe a sua lista de suspeitos. Esse safado sabia tudo a respeito dela e, se ele lhe disser que se encontra sob segredo profissional, informe-me que eu enfio-lhe o cano da pistola na boca e ameaço-o, dizendo-lhe que pode levar todas as informações para o túmulo.

- Talvez eu seja um pouco mais subtil - informei-o. - De momento, tento selar o gabinete de Moore, antes de conseguir autorização de o transferir para aqui.

- Devia tê-lo algemado - ripostou Kent, olhando-me. - Compreende agora porque eu não queria que a CID local se ocupasse deste assunto?

- Acho que sim, foi porque alguns dos seus elementos tinham-se envolvido com ela, não é verdade?

Reflectiu uns momentos e depois respondeu:

- O comandante, o major Bowes.

- Tem a certeza?

- Pergunte-lhe, é seu colega.

- Dá-se bem com Bowes?

- Tentamos.

- Qual é o problema?

- Questões de jurisdição. Porque pergunta?

- Jurisdição no âmbito das suas actividades policiais ou outras?

- O major Bowles denotou sempre tendências para se tornar possessivo respondeu, sem desviar o olhar.

- Não gostava de partilhar?

- Alguns dos amiguinhos de Ann reagiam dessa maneira - aquiesceu Kent - e era o momento que ela escolhia para os abandonar. Os homens casados são uns porcos - sublinhou, acrescentando, após uns momentos de reflexão: - Não confie em ninguém nesta base, Paul.

- Nem em você?

- Nem em mim. - Acabou? - perguntou, consultando o relógio. - Veio falar-me por causa de qualquer assunto em particular?

- Bom, o que quer que fosse deixou de ser importante.

- Nesse caso, vou para casa. Pode contactar-me lá até às sete da manhã e depois estarei no meu gabinete. Onde posso encontrá-lo esta noite, se tiver necessidade?

- Estamos nas instalações dos oficiais de passagem - respondeu Cynthia.

- De acordo. A minha mulher está provavelmente a tentar contactar-me de Ohio e começará a pensar que tenho qualquer relação. Boa noite.

Girou sobre os calcanhares e afastou-se com um passo que me pareceu menos ágil do que à chegada.

- Não acredito! - exclamou Cynthia. - Será que ele acaba de nos dizer que Ann Campbell ia para a cama com a maioria dos oficiais da base?

- Sim, foi isso mesmo. Agora sabemos quem são os homens das fotografias.

- E também porque razão o local parecia tão estranho - ripostou ela.

- Certo. A lista de suspeitos é bastante longa.

“O coronel Kent, o grande defensor da ordem e da lei, infringira, portanto, quase todos os artigos do código. Este homem rígido e altivo possuía, assim, uma libido que o levara a passar para o outro lado”, pensei.

- Achas que Bill Kent cometeria um crime para salvaguardar a sua reputação? - consultei Cynthia.

- É uma possibilidade - respondeu ela -, mas acho que ele pretendeu antes dar a entender que o seu segredo era do conhecimento público e que o general só esperava a primeira oportunidade para lhe destruir a carreira.

- Bom, nesse caso, se, não para evitar a desgraça e a humilhação, como diz no manual, porque, não por ciúmes?

Cynthia reflectiu por momentos e ripostou:

- Kent também nos disse que as suas relações com Ann Campbell não eram uma coisa séria. Um prazer dos sentidos, sem envolvimento emocional, e parece-me plausível.

Ao ver que eu não me dava por satisfeito e pretendia que desenvolvesse o raciocínio, concentrou-se um pouco mais e retomou a palavra:

- Por outro lado, os sentimentos que atribui ao major Bowes, a posse e implicitamente o ciúme, podem ser os que ele próprio tem. Lembra-te de que este tipo é polícia, estudou pelo mesmo manual do que nós e conhece a nossa linha de raciocínio.

- Exacto. Mesmo assim, tenho dificuldade em imaginá-lo apaixonado, Ciumento ou emocionalmente envolvido com qualquer mulher.

- Eu sei, mas são os de aparência mais fria os que mais ardem no íntimo. Já conheci este tipo de homem, Paul. Maníacos da ordem, autoritários, conservadores, obcecados por regras e leis. É um mecanismo de que se servem para se defender das suas próprias paixões, mas sabem o que se oculta sob o fato ou o uniforme impecáveis. Na verdade, falta-lhes o equilíbrio e as barreiras comportamentais necessárias e, quando perdem o controlo, são capazes de tudo.

- Exacto. No entanto, talvez estejamos a divagar demasiado.

- Talvez - anuiu, encolhendo os ombros. - Mas devíamos manter-nos de olho no coronel Kent, pode ser que nos reserve surpresas.

 

 

                                         CAPÍTULO DEZANOVE

 

Cal Seiver declarou que acabara de examinar os móveis do gabinete de Ann Campbell e instalei-me, assim, no sofá, a fim de visionar outra cassete das suas conferências sobre operações psicológicas. À minha volta, os especialistas da equipa forense prosseguiam a análise minuciosa das ínfimas partículas da existência de uma pessoa, aquilo a que os leigos chamam resíduos: cabelos, fibras, poeira, impressões digitais, nódoas e manchas.

Por si só, estes vestígios são anódinos, mas caso, por exemplo, se recolhessem impressões digitais de uma garrafa do bar de Ann Campbell e se as mesmas pertencessem, digamos, a Fowler, havia duas possibilidades: ou ele lhe oferecera a garrafa e ela a levara para casa ou o coronel estivera em casa de Ann. Contudo, se as impressões digitais de Fowler fossem encontradas, por exemplo, no espelho da casa de banho, tal seria a prova de que ele estivera realmente na casa de banho.

Na verdade, a equipa ainda não detectara nenhuma impressão digital correspondente às incluídas nos dossiês, exceptuando as minhas, as de Cynthia, as de Ann Campbell e as do coronel Kent e, quanto a este último, podia haver duas explicações. Talvez viessem a identificar-se, mais cedo ou mais tarde, as do chefe de polícia Yardley, que, na qualidade de um dos profanadores das provas guardadas, poderia desembaraçar-se com este argumento.

Também haviam encontrado as impressões digitais de Moore, mas, dado ele ser seu superior e vizinho, tratava-se de um facto irrelevante. E visto não termos mais acesso ao duche ou ao espelho da casa de banho de Ann Campbell, aquelas, extremamente importantes, que aí se poderiam descobrir estavam fora do nosso alcance. Yardley decerto se encarregara de limpar toda a casa para fazer desaparecer as impressões digitais que não lhe agradavam, inclusive as do filho.

A lista das pessoas que Ann Campbell recebera na sua residência poderia eventualmente levar ao assassino depois de um laborioso e convencional inquérito e, se conhecesse o nome dos que haviam frequentado o antro secreto da cave, ficaria com uma lista de homens que agora estavam demasiado ameaçados para se recusarem a colaborar. Contudo, essa divisão achava-se agora selada e talvez representasse uma falsa pista, ainda que bombástica.

Seria mais útil saber quem estivera no local do crime e estávamos próximos de provar que o coronel Charles Moore fora uma dessas pessoas, embora ignorássemos quando e a fazer o quê.

O coronel William Kent. Aqui estava um homem que de súbito passara a temer pela carreira, mesmo sem mencionar a conversa que eventualmente se veria obrigado a ter com a mulher. Ainda bem que não me toca esse tipo de problemas.

Kent acabara de se confessar culpado de má conduta sexual, negligência profissional, acções incompatíveis com os seus deveres de oficial, para citar apenas três das acusações que um tribunal militar lhe apontaria. Estas confissões são frequentes nos inquéritos de homicídio, como um pequeno sacrifício oferecido à deusa da justiça, na esperança de que ela o aceite e satisfaça algures a sua sede de sangue humano.

O retrato que Cynthia esboçara de Kent era interessante, pois ninguém se lembraria de o pintar com os traços de um homem apaixonado, possessivo e ciumento. Contudo, ela vira ou sentira instintivamente algo que nunca me teria ocorrido. Agora sabíamos que Kent tivera relações sexuais com Ann Campbell e, o coronel não me parece do género de homem que o faz por desporto. Estava, portanto, apaixonado por ela e matara-a por ciúme. No entanto, ainda havia muitos “se” e “talvez” antes de podermos tirar conclusões definitivas!

Uma das vantagens ligadas à invasão do local pelos técnicos da equipa forense reside em que se podem dizer mentiras inofensivas aos suspeitos, embora no manual nada conste a este respeito, mas precisava obviamente de conhecer ou relacionar qualquer gesto ou atitude da minha vítima para a levar a contradizer-se. E, por vezes, fica-se com a castanha quente na mão, como me acontecera no caso de Kent. Acho, porém, que foi a minha acusação a provocar-lhe o acesso de franqueza.

Concentrei-me no ecrã de televisão. Ann Campbell dirigia-me a palavra, de olhos nos olhos. Estava vestida com a farda de Verão, constituída por saia e camisa de manga curta. De vez em quando afastava-se da secretária e vinha até à frente do estrado, revelando grande facilidade de expressão e movimentos.

Mau grado a sua reputação de frieza, mostrava-se bastante cordial com o auditório. Sorria, fitava francamente os interlocutores e ria dos próprios gracejos e dos comentários divertidos que, por vezes, faziam os cerca de cem homens que se encontravam na sala, além de esboçar o gesto muito sensual de atirar a cabeça para trás e afastar os cabelos louros que lhe caíam sobre o rosto. A espaços, mordia o lábio, perdida em reflexões, ou escutava, de olhos muito abertos, a anedota que lhe contava um veterano, fazendo depois perguntas pertinentes.

Não se tratava de um curso debitado por uma voz monocórdica atrás de uma secretária, num estrado, como acontecia em tantas universidades e com tantos conferencistas, dos quais o coronel Moore fazia, sem dúvida, parte. Encontrava-me na presença de uma mulher vibrante de curiosidade, que sabia escolher o momento indicado para pegar na palavra, apaixonada pela questão abordada. De vez em quando, a câmara focava uma assistência de homens atentos e entusiastas, visivelmente tão interessados no que aprendiam como no que viam.

Ann Campbell falava das operações psicológicas centradas em determinados indivíduos e fiquei atento.

“Falámos de operações psicológicas dirigidas contra os exércitos inimigos dos apoios logísticos e da população civil no seu conjunto. Agora, gostaria de referir operações psicológicas cujo alvo são indivíduos, em particular os dirigentes militares e políticos.”

Cynthia veio sentar-se ao meu lado com cafés e um prato de donuts

- Um bom filme? - perguntou-me.

- Sim.

- Podemos desligar?

- Não.

- Devias ir dormir um pouco, não achas, Paul?

- Chiu!

Cynthia levantou-se e foi-se embora, enquanto Ann Campbell prosseguia o seu discurso:

“A última vez que usámos eficazmente esta arma foi durante a Segunda Guerra Mundial, contra os líderes políticos e militares nazis. Tínhamos a vantagem de dispor de algumas informações sobre eles, histórias pessoais, superstições, preferências sexuais, crenças nos presságios e ciências ocultas, etc. O que desconhecíamos foi-nos fornecido pelos vários serviços secretos. Possuíamos, assim, o retrato psicológico e a biografia da maioria destes homens e era-nos possível atingi-los pessoalmente, explorar-lhes as fraquezas, minar-lhes os pontos fortes e introduzir elementos erróneos e falsos nos seus processos de tomada de decisão. Tratava-se, em resumo, de lhes destruir a auto-estima e desmoralizá-los “lixando-lhes os cornos”, se é que me desculpam a expressão.”

Esperou até que acabassem os risos e aplausos e depois retomou a palavra:

“Vamos chamar-lhe “manipulação mental” porque estamos a ser gravados. Como se procede então para manipular a mente de alguém que se encontra a milhares de quilómetros, em pleno território inimigo? Bom, tal como fariam com a vossa mulher, namorada, superior ou um vizinho chato. É necessário, antes do mais, tomar consciência da necessidade de agir e depois há que conhecer a mentalidade da outra pessoa, as suas dúvidas, inquietações, receios, pois apenas se pode manobrar quando se conhecem todos os botões e manivelas. O passo seguinte reside em entrar em contacto com a pessoa, contacto esse que pode estabelecer-se a vários níveis: pessoal, por interposta pessoa, escrito sob forma de documentos, jornais, cartas, panfletos largados de avião - desaconselho-vos este método, se se trata da vossa mulher ou superior -, por rádio, sob forma de emissões de propaganda ou notícias inventadas, etc.”

Desenvolveu este aspecto e especificou:

“Voltando ao contacto pessoal, trata-se da táctica mais antiga e mais eficaz. É interactiva e, embora difícil de atingir, dá resultados fantásticos. Entre estes contactos pessoais com o inimigo há um que o Exército dos EUA não preconiza nem pratica oficialmente: trata-se do contacto sexual... Mata Hari, Dalila e outras famosas sedutoras e feiticeiras. Se alguma vez as mulheres acederem aos postos de comando mais elevados, precisaremos de homens como vocês para se esgueirarem para dentro das suas tendas à noite”, concluiu.

Ouviram-se risos e depois uma voz sugeriu que se pusesse uma bandeira a tapar a cara de uma certa “generala”, já sem viço, e se lhe saltasse para cima a fim de salvar a pátria.

“Se for possível uma aproximação dessas a um líder inimigo, porque não matá-lo?” - perguntou alguém.

“Porque não, de facto? Pondo de lado as considerações morais e jurídicas, verdade é que um líder comprometido, assustado ou completamente louco, como Hitler ou Saddam Hussein, corresponde a termos mais dez divisões de infantaria na frente. é incalculável o mal que um líder desestabilizado pode fazer às suas operações militares. Nós, soldados, devemos reaprender uma verdade esquecida, mas que os exércitos de todo o mundo conhecem desde sempre, e que é a seguinte: as tropas já são por si vítimas da dúvida, saudades do país, medo e superstições irracionais existentes no campo de batalha. Cabe-nos comunicar esse mal-estar aos generais.”

O ecrã escureceu e levantei-me para ir desligar o televisor. Tudo o que ela enunciava nesta sala de conferências parecia muito lógico, muito inteligente e eficaz, e além disso, acreditando nas palavras de Kent, também Ann tivera uma experiência no terreno.

Se ele estivesse a falar verdade, a jovem liderava uma campanha absolutamente cruel, cuidadosamente preparada e premeditada contra o inimigo, o pai. E se ele a merecesse? O que dissera Moore a propósito do criminoso? Que quem quer que tivesse sido, agira com espírito de justiça. E talvez Ann Campbell também pensasse que a sua atitude perante o pai se justificava. Portanto, ele fizera-lhe qualquer coisa e o que quer que tivesse sido despertara-lhe o desejo de vingança e de autodestruição. Ocorreu-me de imediato uma explicação que levasse uma filha a encarniçar-se assim contra o pai e ela própria: abuso sexual e incesto.

Era o que me responderiam os psiquiatras se lhes pusesse a questão e ajustava-se a todos os casos psicológicos de que ouvira falar. Todavia, a ser verdade, a única pessoa que podia confirmá-lo, estava morta... a menos que o general o admitisse... mas não era eu que faria tal pergunta. Contudo, talvez pudesse proceder a indagações discretas, como interrogar a senhora Campbell sobre o tipo de relações que o pai, o general, mantinha com a filha.

Por outro lado, e como dizia Kent, para quê lavar roupa suja que em nada se relacionava com o homicídio em causa? E como destrinçar afinal a erva boa da ruim?

O general teria, portanto, assassinado a filha para acabar com a raiva dela ou impedi-la de falar? Ou seria que a mãe se encarregara do caso pelos mesmos motivos? E que papel desempenhara o coronel Moore em tudo isto? Na verdade, quanto mais remexia na lama, mais salpicava as damas e os cavalheiros de Fort Hadley.

Cynthia aproximou-se e meteu-me um pedaço de donut na boca. Caminhávamos obviamente para uma intimidade maior do que a de partilhar o mesmo carro, a mesma casa de banho e um donut, mas, para vos falar francamente, às duas da manhã, e considerando a minha idade, a minha virilidade não estaria à altura.

- Talvez os juizes militares te dêem essas cassetes quando o caso estiver encerrado - sussurrou Cynthia.

- Acho que preferia as que estão na cave.

- Não sejas nojento, Paul. Não é saudável, sabes? - acrescentou naquele tom moralista que as mulheres tão bem conhecem.

Optei pelo silêncio.

- Nos meus tempos de adolescente, apaixonei-me por James Dean. O Gigante e Fúria de Viver na televisão e chorava até adormecer.

- Não te sabia necrófila. Mas que confissão! Onde queres chegar?

- Deixa lá. Escuta as boas notícias: as marcas de pneus da carreira de tiro número cinco são as do carro do coronel Moore. As impressões digitais recolhidas na escova de cabelo que supomos pertencer a Moore correspondem a duas das deixadas nas estacas e uma da latrina dos homens e a pelo menos seis das que se recolheram no jipe. E na bacia do lavatório das mesmas latrinas havia um cabelo idêntico aos de Moore. Além disso, as impressões do saco do lixo são dele e de Ann Campbell, bem como as das botas, do cinturão e do boné, implicando que os dois pegaram nas mesmas coisas. A análise destes parece, por conseguinte, confirmar a tua versão do crime, os movimentos de Moore e de Ann Campbell. Parabéns.

- Obrigado.

- O coronel pode então vir a ser enforcado?

- Acho que os oficiais são fuzilados. Verificarei antes de ir falar com o coronel Moore.

- Caso encerrado?

- Verei isso com Moore.

- Se ele não confessar, tencionas apresentar as nossas conclusões ao procurador-geral da justiça militar?

- Não sei, ainda não é um caso irrefutável.

- É verdade - concordou Cynthia. - Temos ainda as tuas reservas sobre as horas relativas às luzes dos faróis. Podemos afirmar com certeza que Moore esteve no local do crime, mas não que ele tinha a corda na mão quando aquele ocorreu. Além disso, falta-nos um móbil.

- Exacto. E sem móbil teremos dificuldade em convencer o júri - acrescentei. - Existe ainda a hipótese de ter sido um acidente.

- Sim, é isso que ele vai dizer, se é que dirá alguma coisa.

- Sem dúvida. Conseguirá que uma dúzia dos seus amigos psiquiatras expliquem diante do tribunal marcial o que é a asfixia sexual, afirmem que se tratou de um acto consentido de parte a parte e que ele apenas calculou mal a resistência física da vítima no momento do orgasmo. Os juizes do tribunal irão escutá-los de boca aberta, completamente fascinados. Admitirão que subsiste uma dúvida e que as provas materiais negam a existência de sevícias e violação, e pensarão que foi um bom momento com um mau desfecho, nem sequer se decidindo pelo homicídio involuntário. Trata-se de dois adultos que se entregam de comum acordo a uma sessão de sexo durante a qual um causa inadvertidamente a morte do outro. Quanto muito, acusá-lo-iam de imprudência.

- Os crimes sexuais não são fáceis de julgar -- comentou Cynthia. -Há demasiadas coisas em jogo.

Acenei com a cabeça, lembrando-me de um caso da CID, que não me coubera, mas envolvia um adepto de clisteres. A mulher que lhos ministrava exagerou na quantidade e os intestinos do homem rebentaram, provocando-lhe a morte por hemorragia e infecção. Os tipos de Falis Church e os rapazes do gabinete do promotor haviam-se divertido com a história, mas optaram por não seguir com o processo. A mulher, uma jovem tenente, fora obrigada a demitir-se e o homem, um primeiro-sargento de infantaria, mais velho e com o peito cheio de medalhas, tivera direito a um funeral militar com honras tudo a bem do Exército.

Noventa por cento das pulsões sexuais são comandadas pelo cérebro e, quando este não é normal, também o sexo não o é. Porém, em caso de consentimento não existe violação e, se foi ou pode ter sido um acidente, não ocorre crime, há apenas uma pessoa que deveria submeter-se a tratamento clínico.

- Então? Fazemos uma prisão? - perguntou Cynthia.

Abanei a cabeça.

- Concordo que de momento é a atitude mais indicada - observou ela. Levantei o auscultador e marquei o número do coronel Fowler. Atendeu uma mulher com voz ensonada. Identifiquei-me e a voz de Fowler apareceu em linha.

- Sim, Brenner? - disse, parecendo um tanto aborrecido.

- Coronel, decidi que de momento não quero que o gabinete do coronel Moore seja selado, nem o seu conteúdo confiscado. Queria que o soubesse.

- Agora já sei.

- Pediu-me que o mantivesse ao corrente das detenções e prefiro aguardar antes de o prender.

- Ignorava que fazia tenção de o prender, mas, se mudar de opinião, não hesite em acordar-me mais tarde e manter-me ao corrente.

- Sem dúvida - concordei, pensando em como me agradavam as pessoas com sentido de humor. - Telefonei para lhe pedir que não mencionasse nada disto a ninguém - acrescentei. - Poderia prejudicar-me o inquérito.

- Compreendo, mas informarei o general.

- Suponho que não lhe resta outra alternativa.

- Nenhuma - anuiu, pigarreando. - Tem outros suspeitos?

- Não, de momento. Contudo, possuo boas pistas.

- É encorajador. Mais alguma coisa?

- Começo a ter provas de que Ann Campbell... como hei-de dizer, tinha uma vida sexual activa.

Um silêncio de morte.

- Era inevitável que acabássemos por descobrir - prossegui. - Ignoro se isso está relacionado com o assassínio, mas darei o meu melhor para tomar este facto em consideração e minimizar os danos que afectariam a base e o Exército, se fosse divulgado.

- Pode vir tomar café a minha casa, digamos, às sete horas?

- Não quero incomodá-lo a uma hora tão matutina.

- Está no limite da insubordinação, Brenner, e decididamente começa a irritar-me. Esteja aqui às sete em ponto.

- Muito bem, sir.

A linha emudeceu e dirigi-me a Cynthia:

- Terei de falar com o Departamento de Transmissões acerca do serviço telefónico em Fort Hadley.

- O que disse ele?

- Convidou-nos para tomarmos café em casa dele às sete da manhã

- Bom. Podemos dormir um pouco - decidiu, consultando o relógio.

Pronto?

Olhei em volta. A maior parte do hangar estava agora mergulhada na escuridão e quase todas as camas de campanha ocupadas por homens e mulheres a dormir. Só alguns teimosos ainda se afadigavam, inclinados sobre máquinas de escrever, tubos de ensaio, microscópios.

- Muito bem. Acabámos por hoje - respondi.

Enquanto atravessávamos o hangar, indaguei a Cynthia:

- Encontraram o anel de West Point no saco com a roupa de Aun?

- Não.

- Nem entre os seus objectos pessoais?

- Não, perguntei a Cal.

- É estranho.

- Pode tê-lo perdido ou mandado arranjar.

- Talvez.

- Se a tivéssemos encontrado ainda com vida naquela carreira de tiro e se ela estivesse neste momento connosco, o que lhe dirias, Paul?

- E tu? És tu a conselheira em matéria de violação.

- Fui eu a fazer-te a pergunta.

- Tens razão. Dir-lhe-ia que, independentemente do que lhe tenha acontecido no passado, devia reagir de forma positiva, em vez de destrutiva, e escutar os bons conselhos e não os maus, que devia tentar encontrar um alívio espiritual para o seu sofrimento, tentar perdoar à pessoa ou pessoas que... a maltrataram e se aproveitaram dela. Far-lhe-ia notar que ela era alguém importante e humana, que tinha uma vida pela frente e que os outros a amariam se soubesse gostar dela própria. Era tudo isto o que lhe diria.

- Sim, era o que alguém lhe deveria ter dito - concordou Cynthia. Contudo, passou por algo de terrível e o seu modo de vida resultou disso. Este tipo de comportamento numa mulher inteligente, culta, bonita e profissionalmente realizada interliga-se frequentemente com qualquer... - trauma do passado.

- Como, por exemplo?

Saímos do hangar e vimo-nos envoltos na brisa nocturna. A lua surgira, escoltada por biliões de estrelas que cintilavam no límpido céu da Georgia. A pista de aterragem, mergulhada na sombra, transportava-me à época em que se mantivera iluminada toda a noite e sobretudo a um avião especial que nela pousava, às duas ou três da manhã, duas ou três vezes por semana.

- Foi aqui que descarreguei os corpos dos mortos que eram repatriados do Vietname - disse a Cynthia e, ante o seu silêncio, retomei a palavra:

- Se não a enterrarem aqui em Midland, este será o sítio onde todos se reunirão para um último adeus. Amanhã ou depois de amanhã, presumo.

- Também estaremos presentes?

- Faço tenção disso.

- Em resposta à tua pergunta - disse Cynthia, quando chegámos ao carro - penso que o pai se encontra na origem do seu comportamento. Sabes, a figura dominadora que a levou a abraçar a carreira militar e tentou controlar-lhe a vida, além de uma mãe fraca, ausências prolongadas, viagens incessantes à volta do mundo, o respeito e a dependência ante a carreira paterna. Então revoltou-se da única forma que sabe; trata-se de um caso extremamente clássico.

- Muito bem - concordei, enquanto ocupávamos os respectivos lugares. Contudo, há uma série de raparigas equilibradas com os mesmos antecedentes.

- Eu sei, mas tudo depende da maneira como se reage.

- Estou a pensar numa relação... mais anormal com o pai, o que explicaria um tal ódio.

Dirigimo-nos aos portões do campo de aviação.

- Percebo o que queres dizer e também pensei nisso - observou. Contudo, se a violação e o crime já são difíceis de provar, o incesto ultrapassa-os em grande! No teu lugar, não tocaria no assunto, Paul. Poderias sair magoado.

- Certo. O meu primeiro caso na CID envolvia um roubo numa caserna e vê só onde estou agora. O próximo passo é o salto no abismo.

 

 

                                                   CAPÍTULO VINTE

 

Cynthia estacionou diante das instalações e subimos pela escada exterior até ao segundo andar, onde se situavam os nossos quartos.

- Boa noite - despediu-se.

- Sinto-me cheio de energia, demasiado cansado para conseguir pegar no sono, com uma grande carga de adrenalina e toda essa treta. Que tal uma bebida diante da televisão?

- Não sei muito bem.

- No ponto a que chegámos, mais vale não dormir. Acordaremos ainda muito mais cansados. Descontraímo-nos, tomamos um duche, mudamos de roupa e vamos até à casa do coronel Fowler.

- Talvez... mas...

- Anda lá - insisti.

Abri a porta do quarto e ela seguiu-me. Levantou o auscultador e pediu ao recepcionista que nos acordasse às cinco e meia.

- Para a eventualidade de adormecermos - disse-me.

- Boa ideia - concordei. - A propósito, não tenho nenhuma bebida, nem estou a ver um televisor. Se jogássemos às charadas?

- Paul...

- Sim?

- Não posso fazer isto.

- E que tal uma jogatana com papel, tesoura e uma pedra. Conheces, não? É fácil...

- Não posso ficar, foi um dia cansativo. Não seria sensato, nem levaria a qualquer lado.

E por aí fora.

- Compreendo, vai dormir. Telefono-te quando forem horas de te levantares.

- De acordo, desculpa. Deixo a porta da casa de banho aberta.

- Perfeito. Até daqui a umas horas.

- Boa noite.

Cynthia entrou na casa de banho, virou-se, voltou atrás, deu-me um beijo nos lábios, começou a chorar e depois desapareceu. Ouvi a água a correr, em seguida a outra porta a abrir-se e mais nada.

Despi-me, pendurei a roupa e meti-me na cama. Devo ter adormecido em segundos. O telefone tocou e atendi, esperando ouvir a chamada do despertar Ou Cynthia, pedindo-me que fosse até ao quarto dela. Contudo, era a voz grave e profunda do coronel Fowler:

- Brenner?

- Sim, sir.

- Estava a dormir?

- Não, sir.

- Óptimo. Gosta de leite?

- Desculpe, sir?

- Não tenho leite nem natas, Brenner.

- Tudo bem, sir.

- Só queria que estivesse ao corrente.

- Obrigado, coronel.

Pareceu-me ouvir uma risada antes de a linha emudecer. O meu relógio indicava cinco da manhã. Por conseguinte, levantei-me, avancei aos tropeções até à casa de banho e meti-me debaixo do duche. Que vida! Quase duvidava da realidade das coisas. Tinha o motor a trabalhar apenas com dois cilindros e o depósito de gasolina vazio. Contudo, precisava de aguentar mais vinte e quatro horas a este ritmo antes de me retirar com uma auréola de glória ou coberto de vergonha.

Independentemente de considerações de ordem pessoal e profissional, Fort Hadley era vítima de um abcesso purulento que se tornava necessário rebentar e sabia que podia fazê-lo.

Uma silhueta desenhou-se subitamente por detrás do vapor e do vidro duplo do duche.

- Posso?

- Claro.

Cynthia vestia uma peça de roupa branca, provavelmente uma camisa de noite. Desapareceu por momentos no canto da sanita e, minutos depois, reapareceu e inclinou-se sobre a bacia do lavatório. Lavou a cara e gritou acima do barulho do duche:

- Como te sentes?

- Muito bem. E tu?

- Mais ou menos. O teu telefone não tocou?

- Sim, era o coronel Fowler. Só para me irritar.

- Mereces - riu e pôs-se a escovar os dentes.

Nesse momento o meu telefone voltou a tocar e pedi-lhe:

- Importas-te de atender? É o serviço de despertar.

- Claro - acedeu, bochechando. - Dirigiu-se ao meu quarto e regressou uns segundos depois. - São cinco e meia - anunciou. - Tencionas ficar ainda muito tempo no duche?

- Sim. Queres fazer tempo? Silêncio. Será que me entendera mal?

- Cynthia?

- Ora, que se lixe! - ouvi-a murmurar por entre dentes. Despiu a camisa de noite, abriu a porta do duche e entrou.

- Lava-me as costas.

Assim o disse, assim o fiz, e depois na frente. Abraçámo-nos e beijámo-nos, com a água a correr-nos por cima. O corpo não esquece antigos amores. Fui invadido por uma vaga de recordações e era como se estivéssemos em Bruxelas. Também “o meu companheiro” se recordou dos bons tempos e levantou-se, feliz, como um velho cão que vê o dono entrar em casa depois de um ano de ausência.

- Paul... Tudo bem... Avança.

- Aqui ou na cama?

- Aqui, agora.

O telefone voltou a tocar e ela murmurou:

- É melhor ires atender!

- Merda!

Separámo-nos e Cynthia desatou a rir.

- Não aproveites para desaparecer - avisei, saindo do duche, agarrando numa toalha pelo caminho e pegando no auscultador.

- Brenner - atendi.

- Não há ninguém que o apanhe.

- Quem fala?

- A tua mãe não é, filho.

- Oh!

- Bill Kent acabou de dizer que você decidiu ficar na base - informou-me o chefe Yardley. Porque não vem até à sua caravana?

- O quê?

- Passei todo o santo dia a tentar imaginar onde estaria, cheguei aqui e o pássaro não estava no ninho. Venha dar um giro até estas bandas.

- Raios... Está na minha caravana?

- Claro, Paul, mas você, não.

- Ouça, chefe, esse sotaque é mesmo seu, ou cultiva-o?

- O que acha, rapaz? - riu-se. - E sabe que mais? Fiz uma limpeza por aqui. Não vale a pena pagar o aluguer de um sítio que não vai voltar a ver.

- Não tem o direito...

- Não se canse, rapaz. Falaremos disso novamente. Entretanto, venha ao meu gabinete recuperar os seus pertences.

- Há aí coisas que são propriedade do Governo...

- Sim, eu vi. Tive de arrombar uma fechadura. Encontrei um revólver, documentos oficiais, cadernos cheios de códigos ou lá o que é... e que mais temos aqui? Algemas, uniformes e uma chapa em nome de White... anda a dormir com um homem ou quê?

Cynthia entrou no quarto com uma toalha enrolada à cintura.

- Muito bem. Apanhou-me - disse a Yardley.

- Vejamos... uma caixa de preservativos, cuecas giríssimas... são suas ou do seu namorado?

- Chefe...

- Sabe que mais, rapaz? Venha ao posto recuperar tudo isto. Estarei à sua espera.

- Entregue o que pertence ao Estado ao comandante da Polícia Militar, estarei à sua espera no meu gabinete.

- Vou pensar.

- Faça o que lhe digo, e leve Wes consigo. Gostaria de lhe falar. Seguiu-se um silêncio e depois o comentário:

- Pode vê-lo no meu escritório.

- Vou esperar pelas exéquias. Suponho que ele estará presente.

- Provavelmente, mas, por estes lados, não trabalhamos durante os funerais.

- Mas deviam, é aí que todos aparecem depois de um crime.

- Sabe que mais? Vou deixar que fale com ele, porque quero que prendam o criminoso o mais depressa possível. Mas previno-o de que o meu rapaz estava de serviço quando tudo isto aconteceu. O colega pode confirmá-lo e temos gravações de todas as comunicações por rádio que ele fez nessa noite.

- Não duvido. A propósito, o hangar está à sua disposição a partir de agora. Quero mandar a minha equipa laboratorial a casa de Ann Campbell.

- Ah, sim? E porquê se levou tudo o que lá estava. Os meus rapazes nem papel higiénico encontraram.

- Vê-lo-ei ao meio-dia, com Wes. Traga as minhas coisas e as que são propriedade do Estado.

- Conte com isso, rapaz.

Desligou e levantei-me, apertando a toalha à volta da cintura.

- Burt Yardley? - inquiriu Cynthia.

- O que achas, miúda?

- O que queria?

- Essencialmente a minha pele. O cabrão esvaziou-me a caravana - expliquei com uma gargalhada. - Gosto deste tipo. Vivemos rodeados de fingidos e este, pelo menos, não esconde o que é.

- Nem tu, no próximo ano.

- Espero bem que sim. Passam dez minutos das seis - retorqui com um movimento do queixo na direcção do relógio, que estava em cima da mesa-de-cabeceira. - Achas que temos tempo?

- Tenho de secar o cabelo, vestir-me, maquilhar-me... - respondeu, levantando-se.

- Entendido. Tratamento completo?

- Sem dúvida.

Ao chegar à porta da casa de banho, virou-se e perguntou-me:

- Encontras-te com alguém neste momento?

- Sim, vou ver o coronel Fowler às sete, depois Moore as oito...

- Esqueci-me de que não gostas da expressão. Estás romanticamente envolvido com alguém?

- Não, estou entre dois casos e, na verdade, és o mais recente.

- Óptimo, isso simplifica as coisas.

- Excepto que há esse tal major “não sei quantos”, o teu marido.

- Por esse lado, estou tranquila.

- Boas notícias. Não gostaríamos de uma repetição de Bruxelas, não é verdade?

- Lamento - desculpou-se, abafando uma risada. - Interrogo-me por que me dá vontade de rir.

- Porque nunca te viste com um revólver debaixo do nariz.

- De facto, não, mas também não tiveste de o ouvir durante o ano seguinte. Contudo, Paul, estou realmente em dívida para contigo. Pagar-te-ei esta noite e veremos onde vamos parar.

- Estou ansioso.

- Também eu - retorquiu, após o que acrescentou com uma hesitação.

- Estás demasiado obcecado com... este caso. Precisas de descanso.

- És uma parceira delicada e atenta.

Cynthia desapareceu na casa de banho. Calcei as peúgas e vesti as cuecas do dia anterior, dizendo com os meus botões que a vida se resume a uma série de complicações, umas insignificantes como a falta de roupa interior lavada, e outras mais graves, como a que acabava de sair do quarto. Viver não custa, o que custa é saber viver.

De qualquer maneira, ao observar “o meu companheiro”, reflecti que chegara a altura de estabilizar um pouco e despedir-me das aventuras sem amanhã.

Muito bem. Esperava que o que quer que acontecesse esta noite com Cynthia fosse importante. Algo de bom tinha de resultar de toda esta confusão.

 

 

                                                            CONTINUA

 

 

CAPÍTULO VINTE E UM

 

Bethany Hill é o bairro chique de Fort Hadley, embora consideravelmente mais pequeno. Compõe-se de uma trintena de casas de estilo colonial distribuídas por quarenta hectares de castanheiros, faias e outras árvores de grandes dimensões. Aqui os pinheiros marcavam uma ausência específica. Todas as casas datam dos anos vinte e trinta, de uma época em que os oficiais eram cavalheiros e pensavam morar na base e não em qualquer outro sítio.

 

 

 

 

Os tempos mudam e os oficiais multiplicaram-se a ponto de o Exército já não saber que lhes fazer, tanto mais que não está em condições de dar uma casa, um cavalo e um criado a cada um deles. Contudo, os mais graduados ainda beneficiam destas casas, se o quiserem, e o coronel Fowler considerara, sem dúvida, uma boa política instalar-se na colina, até porque a mulher dele também devia ter preferido esta solução. Não que Midland seja um bastião de preconceitos sulistas em relação aos negros - a proximidade da base contribuiu para os apagar ao longo dos anos -, mas Bethany Hill, a que, por vezes, chamam o “gueto dos coronéis” oferece, sem dúvida, uma vida social mais confortável do que as residências semelhantes na cidade.

A única desvantagem residia na sua proximidade das carreiras de tiro, que se situavam a uns meros quilómetros, pois nas noites de manobras o vento Sul decerto arrastaria o barulho dos disparos até lá. Contudo, para alguns dos da velha guarda da infantaria, corresponderia a uma canção de embalar.

Cynthia vestira um camiseiro de seda verde, uma saia bege e, supostamente...

 

 

                                                                  Nelson Demille

 

 

                      

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