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A FILHA DO POLACO - V.4 / Antonio Campos Junior
A FILHA DO POLACO - V.4 / Antonio Campos Junior

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

 

             A 13 meia brigada.

Uma coisa espantosa, fulminadora foi aquela campanha de Napoleão na terra espanhola!

Admirável a série das suas rápidas vitórias e, a par desses prodígios do triunfador, o esforço espantoso do patriotismo da Espanha, de mês para mês a improvisar exércitos, que logo se desfaziam como fumo nos campos de batalha!

O exército francês concentrara-se em volta de Vitória. A sonharem um triunfo imensamente maior que o de Baylen, o Grande Exército cercado como a divisão de Dupont e Napoleão capitulando como êle, os generais espanhóis, intrépidos, mas inscientes e ingénuos patriotas, levaram os seus exércitos para um movimento envolvente na região do Ebro. Nada menos de três exércitos espanhóis para envolverem Napoleão num sonho.

Quarenta mil homens, o exército do centro, sob o comando do velho Castanos, soldados de Castela, da Andaluzia, de Valência.

Outro exército, o da direita, sob as ordens de Vives com tropas antigas da Catalunha e das Baleares, regimentos que tinham invadido Portugal como comparsas de Junot, divisões de Granada e de Aragão, comandadas pelo general Reding, um vencedor de Baylen, e por Palafox, o herói de Saragoça.

Na esquerda o exército de Blake com soldados da Galiza e das Astúrias, esperando o reforço do Marquês de La Romana, que fugira da Dinamarca, a bordo de uma esquadra inglesa, com dez mil soldados dos catorze mil com que partira de Espanha para ficar ao serviço de Napoleão.

E ainda um pequeno corpo do exército de reserva no caminho de Burgos a Madride, sob o comando do Marquês de Belveder.

Admirável improvisação de exércitos com o seu sangue ardente de espanhóis, mas colectivamente fracos pela mediocridade enfatuada do comando e pela inexperiência e indisciplina do maior número. Em grande parte guerrilheiros formidáveis em disfarce de soldados, necessariamente insignificantes. Já antes de Napoleão ter chegado a Vitória, as impaciências e as vaidades do comando tinham levado Ney a tomar Logronho e Lefebvre a investir as tropas de Blake, vencidas por êle em Zornosa.

A nove de Novembro começava a campanha sob o mando supremo de Napoleão. Soult vai contra o exército de reserva, o de Belveder, desbarata-o na batalha de Gamonal, e leva-o para Burgos diante das baionetas da divisão Mouton e dos sabres da cavalaria de Bessières. O general espanhol perde quási toda a sua artilharia, tem três mil mortos e feridos, e deixa cinco mil prisioneiros aos vencedores.

Napoleão está no caminho de Madride. Para a sua direita o marechal Victor derrota Blake em Espinosa e atira com êle para as montanhas astúrias. Para a sua esquerda Lannes desbarata os quarenta mil homens de Castanos e Palafox na sangrenta batalha de Tudela.

Em duas semanas três batalhas perdidas, Napoleão estava a poucas jornadas de Madride!

Uma cousa esmorecedora.

Concentram-se nas asperezas da serra de Guardarrama os destroços do exército de Belveder e alguns novos reforços. Somo-Sierra tem um desfiladeiro profundo onde dez ou doze mil homens com dezasseis canhões podem conter a marcha vitoriosa de Napoleão.

Outro sonho.

Vamos ver como êle se desfez. A neblina envolve a serra, os atiradores franceses sobem. Napoleão atira contra as baterias espanholas os seus formidáveis lanceiros polacos e os artilheiros espanhóis caem às lançadas sobre os reparos das peças, passou então pela garganta do desfiladeiro uma tempestade doida de homens. A infantaria espanhola dispersou. Era outro combate perdido. Estava aberto o caminho de Madride.

A 2 de Dezembro, Napoleão manda intimar a cidade a render-se. Estão lá dentro cinco a seis mil soldados. Não se rendem. A artilharia francesa bate as portas de Alcalá e de Atocha, derriba os muros do Bueno Retiro, a infantaria toma o parque à baioneta, assalta as barricadas do Prado, assenhoreia-se de algumas ruas.

Era já temeridade resistir. Madride capitulou. Estava concluída a primeira campanha de Napoleão na Espanha.

Uma vertiginosa marcha triunfal! Levou menos tempo a chegar a Madride, batendo quatro corpos de exército, do que Junot levava a Lisboa, fazendo apenas jornadas.

Napoleão decreta e humilha.

Suprime o grande conselho de Castela e o tribunal da Inquisição, reduz o número dos conventos, manda vender os bens dos que extinguiu, fecha alfândegas, anula privilégios e direitos senhoriais.

A 15 de Dezembro uma deputação espanhola de membros da nobreza, do clero e do povo leva ao triunfador a homenagem da sua submissão e assegura a sua fidelidade a José Bonaparte, rei das Espanhas e das índias.

Pobre Espanha!

 

A pedido do coronel do 1.o regimento da Legião, o comandante militar de Valence mandava para a secretaria do corpo os números do Moniteur, jornal oficial do Império, e os boletins do Grande Exército.

Os oficiais conheciam, portanto, todos os acontecimentos que deixamos bosquejados.

Em fins de Dezembro, o Moniteur trouxe uma notícia que vinha confirmar as previsões dos nossos oficiais.

- Confirma-se o meu triste vaticínio! - disse Cândido Xavier num grupo de oficiais - mostrando a Luís de Castro o número do Moniteur recebido naquela manhã - Leia.

Castro leu:

«- Napoleão saiu de Madride no dia 22. Vai contra os ingleses» - resumiu, dobrando o jornal.

- Quere dizer, contra Portugal! - acrescentou Cândido Xavier - O que hão-de fazer vinte ou trinta mil soldados ingleses e mais quarenta ou cinquenta mil soldados galuchos de Portugal, dado que a Inglaterra tenha fornecido armas à nossa gente como dizem que forneceu aos espanhóis?

- A esses com proveito dos franceses - acudiu o ajudante - Segundo o boletim, têem-lhe apanhado um grande número de armas, quási toda a artilharia e muitas bandeiras.

- Nem admira - comentou Luís de Castro - Exércitos improvisados como os da Espanha, ainda que os constituam homens de ânimo intrépido, não podiam aguentar-se diante desses admiráveis soldados de Napoleão, superiormente comandados, engrandecidos pelo seu passado de vitórias, ligados por esse poder supremo de coesão que foi sempre a disciplina militar. Temos a lição de casa. Das batalhas que Portugal tem perdido, as maiores devem atribuir-se à incompetência do comando e à indisciplina dos soldados. Napoleão encontrou diante de si, na Espanha, quatro exércitos de paisanos arregimentados. Há-de ser êle o primeiro a não se maravilhar com o êxito.

- Sim, diz bem - concordou Cândido Xavier.

- Ouvi ontem no quartel-general que já mandaram para Paris as bandeiras tomadas aos espanhóis.

- Era de esperar. Há dias me contava D. Lourenço de Lima, numa carta, que nas bagagens do exército de Junot tinham vindo como troféus duas bandeiras que Margaron tomara ao círio da Ameixoeira, todas cobertas de bentinhos. Essa dos espanhóis têem outra significação.

- Já ouvi que não foi só de bandeiras dos círios o despojo que a gente de Junot trouxe nas bagagens - observou o ajudante.

- Trouxeram tudo o que por lá puderam pilhar, disse-me D. Lourenço de Lima. Preciosidades insubstituíveis! Por exemplo, um famoso missal Manuelino, que havia em Lisboa, um de admiráveis iluminuras.

- Bem sei. Vi-o eu algumas vezes. O missal de Estêvão Gonçalves.

- Esse. Aquela convenção de Sintra é uma eterna vergonha para o general inglês que a firmou!

- Essas riquezas que os franceses trouxeram para cá, roubadas de Portugal, não eram dos ingleses, e aí está porque o general Dalrymple se não importou que as trouxessem.(1)

- E a pilhagem ainda não foi o pior! Deviam ter-se lembrado de nós na convenção! - acudiu um tenente - Impusessem a condição de não repatriar os soldados franceses sem que Napoleão nos repatriasse a nós. Ainda tive a ingenuidade de o esperar.(2)

- Isso sim! - objectou o ajudante - Ainda hão-de considerar-nos lá como estrangeiros ou como traidores!

- Não duvido.

Vieram chamar Luís de Castro. Era o nosso conhecido granadeiro João Luís quem vinha chamá-lo.

- Meu capitão, está ali à porta do quartel uma senhora que deseja falar-lhe.

- Não disse quem era? - preguntou alvoraçado.

- Ela arranha alguma coisa de português, mas eu mal a percebi. Que dissesse a v. s.a que era Ana... Ana Bô...

- Ana Beauchamp.

- Saberá v. s.a que foi isso que ela disse. E eu tenho ideia de já ter visto aquela cara.

- Vai dizer-lhe que vou já.

O granadeiro saiu, Castro despediu-se.

- A Beauchamp aqui! De tão longe, depois de tão demorado silêncio! Grande novidade certamente!

 

*1. Os generais portugueses protestaram contra a convenção de Sintra, que até na própria Inglaterra levantou indignados clamores, (História de Portugal de José Maria de Sousa Monteiro, tomo I, pág. 232).

  1. «Havia muito tempo que nós sabíamos que os franceses tinham sido expulsos de Portugal, mas foi somente no Monitor de 13 de Novembro que lemos finalmente a sempre memorável convenção de Sintra.

«Vários indivíduos da Legião conservaram por muito tenpo a esperança do resgate, etc. (História da Legião Portuguesa, por Castro Pereira).

 

Boa, má? É melhor ir disposto a ouvir alguma nova de amargura.

Ainda a uns passos de distância da Beauchamp e logo lhe pareceu ler no rosto da francesa uma indicação de boas notícias.

Sobressaltou-se-lhe o coração. A Beauchamp vinha para êle sorrindo, num alvoroço, os olhos muito cheios de luz, daquela intensa e radiosa luz que vem dos grandes júbilos de alma.

- Minha querida Beauchamp! Já lhe percebi no rosto que me traz uma boa notícia! - disse, estendendo-lhe a mão.

- Trago. Uma grande notícia que me ia endoidecendo de alegria!

- Maria escreveu-lhe?

- Não, não foi ela quem me escreveu.

- Não foi ela e ia enlouquecendo de alegria! Não compreendo então!

- Eu lhe conto, sr. Castro. Afastemo-nos para aquele lado - disse-lhe, indicando um recanto arborizado do quartel.

- Onde está ela? - preguntou impaciente.

- Na Áustria.

- O cossaco, Platow?

- Eu lhe conto tudo do princípio. Sentaram-se num banco de pedra.

- Quem me escreveu, a respeito da minha querida Menina...

- Ela não podia escrever?!

- Não podia, coitadinha! Teve uma grande doença e, quando começava a melhorar, estava o pai às portas da morte. É o tio, André Pulaski, êle próprio quem escreve por ela. No fim da carta é que vêem umas palavras escritas pela sua mão, a instar para que eu vá porque me quere ter ao pé de si. Aquele coração de santa!

- Palavra que não sei conciliar essas coisas todas! Esse tio soube certamente que o irmão a despediu a si cruelmente e é êle agora quem lhe escreve a pedir-lhe que vá, e pede-lho exactamente quando João Pulaski está à morte!

- A carta explica muita coisa. André Pulaski não sabia quem eu era e foi a minha querida Menina quem lhe disse o que eu tinha sido e sou para ela. Mas só lho pôde dizer agora, por fim, uns dias antes de êle me escrever.

- E só então porquê, depois de largos meses?!

- Porque ela, coitadinha, esteve entre a vida e a morte uns poucos de meses, sem tino e sem forças para coisa nenhuma. É o próprio tio quem o diz. Chegaram a supor que ficaria louca, mesmo que viesse a melhorar! Era o receio dos médicos. Mas Nossa Senhora ouviu-me e ela melhorou e não enlouqueceu.

- A minha desventurada Maria! - murmurou o Castro com os olhos rasos de água.

- Ainda muito fraquita, e logo o pai às portas da morte, mas assim mesmo quis ser ela a sua enfermeira e lá passava os dias à cabeceira dele, por mais que o tio a quisesse desviar daquele sacrifício com que não podia!

- E Platow?

- Não sei. Desse me não fala André Pulaski. Nem ela nas suas palavras, muito tremidas, a pedir-me que fosse, a dizer-me que tinha sofrido muito e que o tio lhe havia tomado amor de pai.

- Perdeu-se então o cossaco? - preguntou em amarga ironia, numa suspeição iníqua de ciúme.

- Provavelmente foi para a Rússia, e por lá se terá deixado ficar, louvores a Deus.

- Ou terá ido vê-la... ou estará lá com eles, se André Pulaski partilha as afeições do irmão por esse cossaco brutal e pérfido.

- O que eu sei, sr. Luís de Castro, porque mo diz a carta, é que a minha adorada Maria esteve durante meses em perigo de morrer ou ficar louca. O que eu sei também é que o tio me fala dela com amor de pai, chamando-lhe a sua linda santa, cujos sofrimentos só agora teve ocasião de saber.

- Está então na Áustria?

- A pouca distância da cidade de Viena, numa casa de campo. O tio é um homem riquíssimo.

- Várias vezes mo têem dito.

- Mas parece que ficou pesaroso, sr. Luís de Castro?

- Fiquei. Vive, mas percebo que estou esquecido por ela! É como se estivesse tão longe que eu nunca mais a pudesse ver, é como se tivesse morrido para mim!

- Não diga isso, por amor de Deus! Aquela não é das mulheres que mudam de amores. Vive, pode crer que não o esquece. Aquela não muda.

- Mas esqueceu-me, prova certa de que mudou. Quem a não esqueceu nem mudou fui eu! Ainda que estivesse à cabeceira de minha Mãe moribunda, eu não deixaria de escrever uma palavra de saudade para ela. E para mim agora nem uma palavra de Maria.

- Na carta do tio, sr. Luís de Castro! Veja que é injusto! E supõe talvez que Maria me quere ao pé de si só porque eu fui para ela segunda mãe? Não é, não. Eu bem percebo as coisas. É também para desabafar comigo, para me contar as suas mágoas, para me falar dos seus amores, para me falar do sr. Conheço-a, e nós, as mulheres, percebemos estas coisas melhor do que os senhores. Mas o sr. Castro há-de entender tudo, lendo, vendo com os olhos. Aqui está a carta. Teria feito melhor dando-lha logo a ler. Queira ver estas palavras que ela escreveu aqui no fim, as letras tremidas como se fossem de uma velhinha.

Castro leu para si, comovidamente. Diziam assim.

«Mãe da minha alma, não me faltes, vem. Tenho sofrido muito, ralam-me saudades, como se diz em Portugal! Vem. Meu Tio é muito meu amigo. Não faltes».

- Vê? Então não quere ainda entender que essas saudades que a ralam não são por mim? Repare que escreveu a palavra em português e faz uma referência a Portugal, onde os seus amores começaram. Como foi injusto! São, principalmente, pelo sr. aquelas saudades. Entende-o logo quem sabe dos antecedentes. Foi assim que eu as entendi.

- Talvez seja essa a verdade, minha querida Beauchamp.

- Não tenha dúvidas. E foi por saber dela, para ir ter com ela e por me parecer que tem agora quem a pode auxiliar nos seus amores, foi por tudo isto que eu aqui vim cheia de alegria. Agora que o tio sabe tudo e tanto se lhe afeiçoou como se fosse pai, é provável que seja êle quem desiluda o irmão a respeito de Platow. Mas se João Pulaski tiver falecido, e Deus bem sabe que lhe não desejo a morte, então André Pulaski ficará como pai da minha querida menina e não quererá negar-lhe o esposo que ela deseja.

- Sonha, Beauchamp, e quere levar-me atrás desse ilusório sonho!

- Pois há-de ver que não é um sonho. O tio quererá o que ela quiser. Aí está a prova nessa carta. Se a não quiser ler toda, veja ao menos aqui, o que êle diz da sobrinha.

Castro leu alto o trecho da carta que a Beauchamp lhe indicou. Era assim:

«Sei quem a sr.a tem sido para esta querida sobrinha, que é agora a linda santa da minha devoção. Maria contou-me tudo, sei o que ela tem padecido, admiro-a, sinto por ela um amor como de pai.

«Será o consolo da minha viuvez, será ela a minha filha adoptiva, já que Deus não permitiu que vivesse outra que há quinze anos vi morrer no berço. Quere Maria que eu a chame para aqui, e eu peço-lhe encarecidamente que venha, por ela e por mim. Não sei resistir-lhe. Farei o que ela quiser que eu faça».

- Aí está o meu sonho. O tio sabe tudo, sabe, porque ela lho contou, e chama-lhe a sua linda santa e quere-lhe com amor de pai, não lhe resiste, fará o que ela quiser que faça.

- Pois aí está a razão porque Maria me podia escrever.

- Naquela aflição, com o Pai à morte! Ela lhe escreverá, descanse. Lá vou eu dizer-lhe para onde lhe há-de escrever. Nesta carta do tio teria ela escrúpulo de pôr o seu nome, sr. Luís de Castro.

- Mas para si, minha querida Beauchamp, souberam para onde lhe haviam de escrever!

- Aí diz na carta como foi que o souberam. André Pulaski pediu esclarecimentos a meu respeito ao cônsul austríaco em Baiona. Vai para um mês, estava eu então doente e nem lhe tinha escrito a si, sr. Castro, como era meu dever, quando lá foram preguntar à mulher que me acompanhava, à minha enfermeira, umas coisas, que eu só soube dias depois, quando já me levantava. Foi por esta carta que eu percebi de que lado vinham as indagações.

- Vai então sozinha, não receia tão longa viagem?...

- Estou acostumada a trabalhos. E que não estivesse. Para ir ter com ela, ainda que fosse preciso atravessar outra vez aquelas tristes e medonhas terras da Sibéria!

- Há-de precisar de meios para a jornada. A minha bolsa está à sua disposição.

- Oh! sr. Castro, bem basta o muito que lhe devo! Eu tinha juntado algumas sobras das suas generosas mesadas. Mas nem essas eram precisas. O cônsul austríaco foi procurar-me, e entregou-me da parte de André Pulaski uma quantia que chegava para cinco ou seis jornadas como esta!

- E quando tenciona partir?

- Logo, de tarde, na mala-posta.

- Está em algum hotel, está decerto?

- No Hotel da Imperatriz.

- Sei onde é. Fica muito perto daqui. Lá irei visitá-la e despedir-me.

- Sem mais nada, sr. Castro?!

- Não percebo a que se refere!

- É que tem agora portadora segura para lhe levar uma carta a Maria Pulaski. A carta que ela merece e o sr. deve escrever-lhe.

- Receio que André Pulaski...

- Por amor de Deus, sr. Castro! Não sei que injustas suspeitas o levam a falar assim! Não me dê a amargura de eu aparecer lá sem umas palavras suas! Só se quere que eu vá mentir-lhe, dizendo que não o vi, que não sei aonde está. Lembre-se daquele amor sem igual que ela lhe tem, das tantas dores de alma que ela tem sofrido por si! Talvez não acredite que ela estivesse uns poucos de meses entre a vida e a morte, quási louca!

- Não tenho motivos para o negar, mas também não sei o que foi feito de Miguel Platow, e vejo entre a imagem de Maria e o leito do pai moribundo, a figura odiosa do cossaco, a sorrir de escárnio por mim.

- Nossa senhora! Eu não lhe sei dizer o que foi feito desse homem, não sei, mas juro-lhe pela minha alma, como se a jura fosse por mim, que Maria não mudou.

- Quási enlouquecida, podia ter-se esquecido de mim, como se eu nunca tivesse existido. Há exemplos.

- Escárnio, que ela não merece, é isso que diz, sr. Luís de Castro! Eu não posso esperar que acredite em mim, mas afirmo-lhe, pela memória de meu marido, e pela própria vida de Maria, que é quem eu hoje mais prezo no mundo, afirmo-lhe que, se tiver sido possível essa mudança, se a vir mudada, lealmente lho mandarei dizer. Agora, por sua Mãe lhe peço que escreva uma carta a Maria, para eu lha levar. Como quiser, como puder, mas escreva-lha. Eu lhe explicarei lá as suspeitas que estou a perceber. Mas antes uma carta de injustas desconfianças do que essa crueldade mortal de lhe não escrever, falando comigo, sabendo que vou ter com ela!

A Beauchamp dissera isto com tão sugestiva sinceridade e com tal enternecida instância, que Luís de Castro sentiu abalados aqueles seus despeitos e torvos ciúmes, nascidos de uma iníqua suspeição e exacerbados por momentos na irreflectida violência do seu próprio amor.

Assim injusto e desabrido, exactamente porque, na alegria imensa de a saber viva e amparada, sentia o desconsolo egoísta de não ter tido também uma carta dela ou sequer uma referência explícita para si nas linhas do seu punho para a Beauchamp. E bastou isto para que o seu lucidíssimo espírito se anuveasse.

Reflectiu, arrependeu-se, acalmaram-lhe o coração aquelas comovidas palavras da francesa.

- Escreve-lhe, sim? -insistiu a Beauchamp.

- Escrevo. Mas aceito a sua promessa. Previna-me de qualquer mudança, por insignificante que lhe pareça.

- Prometo. Pela vida de Maria Pulaski lho prometo. Não tenho outra invocação mais amorável.

- Sou diferente do cossaco. Não persigo mulheres.

- Mas eu tenho a certeza de que o aviso que lhe mandar há-de ser muito diverso. Verá. Ainda há-de sentir remorsos de ter duvidado daquela santa.

- Oxalá. E então benditos remorsos os meus.

- Pois vou agora para o hotel e lá o espero com

uma carta digna de si e dela.

- Até logo. A que hora sai a mala-posta?

- Às quatro.

- Lá estarei antes.

Foi para o seu quarto. Mais uns momentos de serena reflexão e pareceu-lhe doidamente absurdo quanto desconfiara e dissera.

Escreveu uma longa carta, fervorosa e enternecida. Talvez nunca lhe houvesse escrito outra assim.

Eram pouco mais de três horas quando a foi levar à Beauchamp.

Conversaram por largo tempo. A francesa percebera-lhe a mudança e ficara radiante.

- Verá as boas novas que eu hei-de mandar-lhe! Está-me a dizer o coração que ainda havemos de voltar à França, ela, eu e até o tio. A sua linda noiva! Há-de tê-la cá, para que se faça esse casamento que foi interrompido na capela de Nossa Senhora do Bom Jesus de Baiona.

- Minha querida Beauchamp, isso é sonhar, e eu já tenho medo desses sonhos que enlouquecem.

Vieram avisar que tinha chegado a mala-posta e ia partir sem demora.

- Sr. Luís de Castro! - disse a francesa apertando-lhe a mão comovidamente -, Deus lhe conceda em venturas o prémio do generoso amparo que me deu.

- Por quem é, não me fale de semelhante coisa.

- Não se pode esquecer e lá hei-de contar à minha extremecida Menina o muitíssimo que eu lhe devo.

- Conte-lhe antes, minha querida Beauchamp, o muitíssimo que eu lhe quero a ela, até quando sou injusto. Adeus. A minha alma vai pelo mesmo caminho, Beauchamp, voando para ela. Boa viagem! Boa viagem!

A francesa desceu a escada a chorar. À porta do hotel o Castro repetiu-lhe: «Boa viagem! A carruagem meteu pela rua fora aos solavancos.

Completavam-se os trabalhos orgânicos da Legião, começados em Pau.

Como já sabemos, Napoleão atendera às reclamações do Marquês de Alorna e mandara-o investir, desde Agosto, nas funções de inspector-geral das tropas portuguesas de todas as armas e no comando em chefe da Legião.

Em Outubro tinham chegado à França, vindos do cerco de Saragoça, o batalhão de caçadores e o 5.o de infantaria. Gomes Freire viera também.(1)

Fizeram-se ainda algumas modificações nas unidades constitutivas da Legião, cujo efectivo em fins de Novembro não chegava a 2.800 homens nas fileiras.

Quiseram completar-lhe os efectivos de guerra dos regimentos com prisioneiros e desertores espanhóis e com contratados alemães, chegaram a fazê-lo, mas encontraram neste recurso deploráveis inconvenientes, aliás previstos por alguns oficiais franceses.(2)

Em 24 de Fevereiro de 1809 o general Mathieu-Dumas enviava de Grenoble ao Imperador um relatório da inspecção,

 

*1. O cerco de Saragoça durou de 2 de Julho a 14 de Agosto de 1808.

  1. O major Jumilhac era de parecer que seria imensamente mais vantajoso e útil ao serviço militar constituir a Legião exclusivamente com portugueses. E justificava por esta forma a sua opinião: Em geral podem tornar-se excelentes soldados, disciplináveis, submissos, inteligentes e sóbrios, há talvez mais inconvenientes que vantagens em os encorporar com Prussianos. (De um documento oficial, publicado pelo sr. Boppe a pág. 89 do seu livro âcêrca da Legião).

 

que passara às tropas da Legião. Apreciando os homens, Mathieu-Dumas dizia ter encontrado nos regimentos uns moços oficiais cheios de brios, aplicados à instrucção, e quanto aos soldados formulava assim a sua opinião:

«A qualidade dos homens é boa, o fundo das companhias de elite é bom, os restantes são pequena e média estatura, mas nervosos, no vigor da idade, desejosos de marchar. Estes regimentos tèem menos doentes do que qualquer outro das tropas francesas».

Para se compreender aquele desejo de marchar é presiso saber que Napoleão estava preparando as coisas para uma próxima campanha. O general Mathieu-Dumas respondia no relatório a uns quesitos formulados pelo próprio Imperador.

Informado dos formidáveis preparativos militares do império austríaco, Napoleão retirara de Astorga, recebera em Valhadolide as deputações de Madride e de outras cidades que lhe iam prestar homenagem de fidelidade, e partira rapidamente para Paris, onde havia chegado a 23 de Janeiro daquele ano de 1809.

Ficaram na Espanha cerca de duzentos mil soldados franceses vitoriosos. O marechal de Soult, Duque de Dalmácia, batera o exército inglês de sir John Moore na sanguinolenta batalha de La Coruna. Os restos dos regimentos batidos embarcaram e as tropas francesas tomaram a praça e apoderaram-se do porto militar de Ferrol, onde se apossaram de trezentos canhões e de oito naus, três fragatas e vários navios de menor tonelagem.

Mas Portugal era um campo entrincheirado onde os ingleses podiam acumular as suas forças terrestres, era um flanco aberto da Espanha vencida e era preciso conquistá-lo para assegurar a soberania napoleónica no território espanhol.

Soult devia ir contra Portugal, pela Galiza, à frente de dezassete regimentos de infantaria e dez de cavalaria, com 58 canhões, para tomar o Porto e correr a conquistar Lisboa.

Apoiá-lo-iam na Galiza duas divisões do corpo de exército de Ney.

Ao mesmo tempo o marechal Vítor, com três divisões de infantaria e dez regimentos de cavalaria, entraria pelo vale do Tejo até à extremadura, para auxiliar as operações do Duque de Dalmácia.

Era a segunda invasão na desventurada terra portuguesa.

Ia grande alvoroço no quartel do primeiro regimento de infantaria da Legião.

Os jornais franceses falavam de uma guerra com a Áustria, como uma coisa certa e inevitável.

Que destino daria o Imperador àquele punhado de legionários portugueses?

Chegou naquele dia a resposta indirecta de Napoleão a esta pregunta. Por decreto assinado nas Tulherias em 10 de Março (1809), ia ser organizada uma 13.a brigada, composta de granadeiros e atiradores da Legião, para ser incluída em um dos corpos do Grande Exército, aquele a que deram a designação de corpo de granadeiros reunidos, porque era constituído pelas companhias de granadeiros antigos e modernos dos regimentos franceses.

A 13.a meia brigada teria três batalhões a quatro companhias cada um, duas de granadeiros e duas de atiradores.

Os três batalhões seriam organizados com gente escolhida dos regimentos da Legião, a elite, como os franceses dizem.

Do primeiro regimento se haviam de escolher os granadeiros e atiradores para o novo primeiro batalhão e toda a meia brigada se havia de concentrar rapidamente em Grenoble. A urgência era preceito do decreto.

Fêz-se a escolha.

Ficaram embesourados muitos dos que tinham sido postos de parte. Dos preferidos não faltaram então gracejos para os outros.

- Lá vamos nós, o pano de amostra - dizia um que fora apurado para as companhias de atiradores.

- Havemos de ver como volta coçado esse pano, se a traça das balas o não esburacar - replicava, azedo, um dos rejeitados.

- Cá para estes granadeiros - dizia emproado um dos preferidos - não vêem verdizelas nem hominhos de marca de Judas.

- Nem pelo burro ter grandes orelhas... -replicou um dos despeitados - Lá se diz na nossa terra: Homem grande, besta de pau.

E ia uma galhofa doida pelas companhias. Os apurados cantavam. O João Luís, aquele granadeiro nosso conhecido, até improvisou cantigas ao desafio com outro que ficava.

Dentre os oficiais era agora Luís de Castro o de mais jubiloso semblante. Ia, foi logo o primeiro escolhido, nem tinha lá outro que o igualasse.

Envaidecia-o aquela organização especial das tropas da Legião, portugueses de elite, abria-se enfim ensejo de mostrar que não eram de cobardes aqueles restos do exército, que ninguém levara à fronteira portuguesa contra Junot.

E depois, o coração enchia-se-lhe outra vez num enlevo de sonhos. Em princípios de Fevereiro, Maria Pulaski escrevera-lhe uma carta encantadora, de amorável singeleza, de inexcedido amor, e prometia-lhe pleno perdão de todas as suspeitas, numas palavras de adorável infantilidade.

A Beauchamp escrevera-lhe também, dando-lhe estonteadoras esperanças. João Pulaski ainda vivia mas pareciam perdidas todas as esperanças de o salvar.

No dia seguinte sairam de Valence para Grenoble as quatro companhias escolhidas. Foi comovedora a despedida dos que partiram. Já ninguém dizia gracejos.

Pelo caminho, em marcha à vontade, o João Luís cantava umas modas tristes de Portugal.

- Ah! meu capitão! - disse o granadeiro para Luís de Castro, num dos seus intervalos líricos - assim v. s.a recebesse agora notícias da sr.a sua Mãe e eu da minha velhita! Há que tempos a gente não sabe delas!

- Ninguém tem podido receber cartas de lá - respondeu Luís de Castro melancolicamente.

- Ao menos, já me consolava que fosse contra os russos a guerra em que vamos entrar.

- Porquê?

- Para ver se topava diante de mim aquele alma de inferno que o diabo ressuscitou. Ah! meu capitão, se déssemos de cara, então ou eu ou êle!

- Aquele é comigo que há-de ajustar contas. Mas não é contra os russos que nós vamos, é contra os austríacos.

- Pois tenho pena! - comentou o João Luís. Pelo caminho encontraram tropas francesas que iam juntar-se aos corpos do exército do Reno e da Alemanha central.

Desde de Janeiro que Napoleão organizava o grande exército com que havia de entrar em campanha contra a Áustria. A guerra não estava declarada, a diplomacia ia entretendo tempo, mas os preparativos militares, formidáveis nos dois impérios, e a concentração de forças no teatro provável das operações, eram o indício seguro de que uma nova e assustadora campanha ia ensanguentar a Europa.

Sentia-se em toda a França um alvoroço espantoso, uma actividade vertiginosa, guiada pela vontade inabalável e pelos talentos militares prodigiosos de Napoleão.

Tinha-se antecipado o chamamento dos conscritos de 1810, e a Guarda Imperial fora consideràvelmente aumentada.

Como chefe da confederação do Reno, o Imperador exigira quarenta mil homens à Baviera, ao Wurtemberg doze mil, ao grão-ducado de Baden dez mil, à Saxónia vinte mil, e avultados contingentes aos pequenos principados alemães. Contava reunir oitenta mil alemães e vinte e tantos mil polacos. Além destas forças estrangeiras, soldados da Itália, do Hesse e da Holanda.

Na sua história do Império, Thiers não se esquece de mencionar na constituição do Grande Exército uma brigada de 1500 a 2000 portugueses, escolhidos entre o que havia de melhor nas tropas daquela nação, acantonadas em França, etc.

A declaração de guerra não poderia tardar.

Napoleão esperava que as hostilidades começassem pelos meados de Abril.

Inundações de sangue naquela primavera de 1809!

Os portugueses que iam de Valence encontraram em Grenoble uma triste notícia.

Os últimos jornais chegados de Paris publicavam despachos do Duque de Dalmácia, datados dos princípios de Março. Não tendo podido atravessar o rio Minho, por se lhe haverem oposto as milícias e tropas regulares de Portugal, o Marechal ia invadir o país por Trás-os-Montes.

Era uma opressora informação para aquele punhado de expatriados.

No dia seguinte ao da sua chegada a Grenoble, recebeu Luís de Castro duas cartas de Viena de Áustria, que tinham ido para Valence e de lá lhas enviara um dos seus colegas do regimento.

Uma era de Maria Pulaski. O pai tivera uns pequenos alívios, mas cegara.

Contava-lho em palavras doloridas que pareciam repassadas de lágrimas.

A outra carta era da Beauchamp. Falava-lhe dos sustos que por lá iam por se dizer que estava para rebentar uma grande guerra. Referia-se à cegueira de João Pulaski em termos de enternecida piedade.

Traziam estas duas cartas a marca do correio de Viena, mas vinham datadas, como as duas anteriores, de uma povoaçãozita a curta distância da grande cidade, a umas três ou quatro léguas. A Beauchamp já na sua primeira carta lhe tinha explicado que viviam numa excelente casa de campo, um palacete, entre propriedades de lavoura magníficas, pertencente a André Pulaski.


- Quem sabe se a fortuna caprichosa dos combatentes me não levará para junto dela? - pensou Luís de Castro - Pode muito bem ser que a estrela de Napoleão, essa prodigiosa estrela em que êle crê, seja a minha guiadora para lá. Quem sabe? Mas outros podem lá chegar primeiro do que eu, oficiais e soldados empedernidos na carniçaria das batalhas e nas cruezas do saque, sem dó, sem escrúpulos, e ela é extraordinariamente formosa! Mais este perigo, e outra inquietadora previsão! Sei o que eles fizeram na Itália, não me pode esquecer o que ouvi de horrores praticados em Portugal e na Espanha! Mulheres arrancadas dos braços das mães, infamadas diante delas, violadas até sobre os degraus dos altares! Um receio plausível, uma coisa horrivelmente vulgar nessas guerras de tantos esplendores de glória e de tamanhas monstruosidades morais! É sina minha não haver em cada novo dia da minha alma alvorecer de esperança que não traga destes negrumes!

 

No dia 26 (estava-se ainda em Março) a 13.a meia brigada teve formatura geral em um vasto campo das imediações de Grenoble. Foi toda a gente vê-la.

 

Eram três admiráveis batalhões, que a gente da cidade se não fartava de elogiar. Tinham um belo aspecto com os seus novos uniformes, decretados em Junho do ano anterior.

Homens altos, robustos, os granadeiros principalmente, produziam excelente impressão com as grandes barretinas de cordões vermelhos e enormes penachos fixados de lado, as suas fardas castanho-escuro, de bandas quadradas no peito, vermelhas como as dragonas, os canhões e as golas, os botões brancos a luzirem como prata.

Nas companhias de atiradores o penacho era metade vermelho e metade amarelo, os cordões e as dragonas verdes.

Os oficiais tinham dragonas de franjas de prata e galões de prata, como se usa no exército italiano.

Chegou o general Feliz Dumuy, comandante da 7.a divisão militar, com todo o seu estado maior.

A revista correu admiravelmente. Os três batalhões eram directamente comandados pelo coronel Francisco António Freire Pego. Estava presente o general Carcome Lobo, que era o comandante superior honorário das forças da Legião, destinadas à campanha contra a Áustria.

No dia seguinte foi lida aos batalhões a seguinte ordem do dia, que depois distribuíram impressa em francês e português.

«Quartel General em Grenoble, 27 de Março de 1809.

«Satisfeito com o comportamento da Legião Portuguesa na sua passagem em Baiona e durante o tempo que tem residido em França, Sua Majestade o Imperador quere dar-lhe uma prova do seu apreço, chamando alguns dos seus batalhões para fazerem parte do corpo dos granadeiros.

«Sua Majestade confia na sua fidelidade e na sua bravura, mas é seu intento que fiquem, segundo a sua vontade, os soldados que quiserem ficar, pois que sob as suas bandeiras não quere senão homens que as sigam de boa vontade».(1)

Nenhum quis ficar.

Dando conta ao ministro da guerra da revista que passara na véspera, Dumuy diz lhe: «Fiquei perfeitamente satisfeito, são doze soberbas companhias, todas de homens robustos, já bem exercitados e prontos a entrar em campanha».

Depois aludia à multidão dos habitantes de Grenoble que foram assistir à revista.

A 13.a meia brigada partiu para a Alemanha. Em Gray o general La Vallete dirigira a organização de um regimento provisório, composto de dois esquadrões escolhidos da cavalaria portuguesa, para entrar também em campanha.

Em 3 de Abril Napoleão tinha mandado o seguinte despacho telegráfico ao general Barão Sahuc, comandante da 19.a divisão militar.

«Os 1400 Portugueses que aí passaram em Lião iam em bom estado, bem armados e equipados? Têem-se comportado bem? Mostram boa disposição de ânimo?

E aquele homem extraordinário, que dirigia superiormente a mobilização de duzentos mil homens de diversas nacionalidades que vinham dos confins da Polónia ou das fronteiras da Dalmácia, brigadas que regressavam do centro da Espanha, corpos de exército movidos do reno, da Saxónia, da Baviera, da Itália, esse generalíssimo que em tudo superintendia,

 

*1. Aquela ordem do dia vem transcrita a pág. 106 e 107 do livro do sr. Boppe. Segundo este escritor observa em nota, a ordem do general Dumuy é apenas a paráfrase de uma carta do Imperador, de 7 de Março, transcrita a pag. 95 a 96 do mesmo livro.

 

naquelas mil grandes coisas absorventes de um enorme exército que vai entrar em campanha e estava disperso a centenares de léguas da zona de concentração, não esquecia aquele punhado de legionários de um país pequeno, a caminho dessa formidável aglomeração de tropas, como um riacho oculto na sombra das montanhas a caminhar para o mar!

A Áustria, auxiliada pelos subsídios monetários da Inglaterra, fizera poderosos preparativos militares, enquanto Napoleão invadia a Espanha com a melhor parte do seu exército.

O Imperador voltara rapidamente da Península sem ter completado a sua rápida e prodigiosa campanha, que devia terminar em Lisboa, mandara proceder à mobilização e concentração do seu exército, já reforçado com tropas retiradas da Espanha, e a 15 de Abril de 1809 saía de Paris para ir tomar o comando das suas forças contra os austríacos.

O marechal Lannes fizera capitular Saragoça, depois de uma defesa èpicamente sustentada, deixara a cidade afogada em sangue, regressara da Espanha rapidamente e partira para a Áustria a tomar o comando de um corpo de exército.

A guerra estava começada. Em 19 de Abril o exército austríaco transpõe a linha do Isar, invadindo a Baviera, aliada da França, e trava-se o sangrento combate de Tengen.

Napoleão toma o comando supremo do Grande Exército.

A 20 de Abril dava-se o combate de Abensberg, os austríacos do arquiduque Carlos, irmão do Imperador da Áustria, são batidos e retiram para além do Isar. No dia seguinte os franceses tomam Landshút num assalto sangrento.

O exército francês atravessa o Isar, avança sobre Eckmuhl e peleja-se ali uma das mais notáveis batalhas do Império.

A noite cerra-se sobre o mais formidável choque de couraceiros que ainda se vira nas campanhas de Napoleão. Os austríacos deixam no campo de batalha cinco mil mortos e feridos, quinze mil prisioneiros, dezasseis canhões e onze bandeiras, e retiram para Ratisbona. Era a 23 de Abril. Napoleão fora ligeiramente ferido num pé.

A 25 o Imperador sai de Ratisbona: o seu exército marcha sobre Viena pela margem direita do Danúbio. Massena trava na ponte de Ebelsberg um combate sangrento e inútil, em Saint-Polten dá-se um recontro entre a cavalaria dos dois exércitos e em 10 de Maio, vinte e sete dias depois, estavam em frente da grande e magnificente cidade de Viena!

Procuremos agora as tropas de Portugal.

A 13.a meia brigada chegou a Ratisbona a 26 de Abril, quere dizer, três dias depois da tomada daquela praça.

Estava-lhe já destinado desde Março o corpo de tropas a que devia reunir-se e durante a marcha lhe foi determinado que faria parte da 13.a divisão dos granadeiros de Oudinot. Era a divisão do general Saint-Hilaire, um bravo de Austerlitz, um dos mais brilhantes generais divisionários que tinha o império.

Os granadeiros pertenciam ao 2.o corpo do exército comandado pelo marechal Lannes. Foi o último a constituir-se completamente. Formado a princípio por vinte e dois batalhões de granadeiros e pela brigada de cavalaria ligeira do general Colbert, só depois recebeu a divisão Dupas, que veio das margens do Báltico, e a 13.a meia brigada que vinha de Grenoble.

A cavalaria portuguesa tinha partido de Gray para a Áustria em 25 de Março.

A 13.a meia brigada seguia a marcha desde Ratisbona, encorporada na sua divisão (Saint-Hilaire).

Em 9 de Maio Lannes avançava contra Viena com a infantaria de Oudinot e a divisão Demont.

Massena apoiava estas forças e Napoleão seguia-as com a Guarda e uma parte dos couraceiros. O grosso da cavalaria observava a linha do Danúbio, as outras tropas do Grande Exército deviam evitar a junção das forças austríacas que tentassem acudir a Viena. Um belo dia de Maio. Era grandioso o panorama de Viena. A meia légua da cidade a divisão Saint-Hilaire fêz alto. À frente da sua companhia, Luís de Castro envolveu num olhar deslumbrado a magnificente capital de grandes templos e de soberbos palácios. Os bairros modernos e sobretudo os faubourgs que cercavam a antiga cidade e ficavam fora das velhas muralhas, levantadas contra os turcos nos fins do século XVII, eram realmente encantadores com a sua cintura de muros em ziguezague e de terraços ajardinados.

- E se ali se tivessem refugiado com receio da guerra? - preguntava de si para si Luís de Castro com o pensamento em Maria Pulaski - Julgar-se-iam ali mais seguros do que numa simples casa de campo dos arredores.

Tinha-se aproximado dele o ajudante do regimento.

- Tem mais de duas vezes a nossa Lisboa! - disse-lhe apontando Viena - Percebe-se que é uma cidade rica.

- Lisboa é mais pitoresca, e tem aquela amplidão enorme no Tejo.

- Que o Danúbio também é muito grande - objectou, indicando o canal na parte em que recebe as águas do Wich.

- A cidade é que me não parece preparada para uma defesa duradoura. Aqueles murozitos vão abaixo com algumas horas de bombardeamento.

- Foi um erro dos austríacos não a terem fortificado. Provavelmente não contavam com esta vertiginosa campanha dos franceses. Em trinta dias às portas da cidade!

- Na guerra é sempre um erro não ter prevenidas todas as hipóteses, ainda as menos prováveis. Mas talvez levantem barricadas e resistam por algum tempo, à espera que lhes acuda o exército do arquiduque Carlos.

- Pode ser, mas para cá chegar ser-lhe-á preciso bater primeiro as do marechal Davout e as outras que lhe podem tomar o passo. Repare você na infinidade de povoaçõezitas por essas planuras e colinas.

- Risonhas, lindas, como se fossem bandos de aves que houvessem pousado por aí fora.

- E para além, veja aquelas ilhotas do Danúbio, aquelas colinas cobertas de aldeias. A três ou quatro léguas daqui certamente.

Castro olhou melancolicamente. Na noite anterior, no bivaque de Sièghardskirchen, estivera vendo no mapa onde era a aldeia grande em cujas proximidades ficava a casa de campo de André Pulaski.

- Ouvi há pouco a um ajudante de Oudinot, que esteve falando com Cândido Xavier, que há em volta daquelas aldeias uns palacetes e castelos da nobreza. Chama-se Wagram a aldeia grande.

- Wagram, é isso - confirmou Luís de Castro. Quem sabe se os horrores da guerra não terão de chegar até lá, derruindo, pondo em chamas, afogando em sangue aquelas aldeias, tranquilas, risonhas, aninhadas entre os trigais.

- Talvez não cheguem. Viena entrega-se, é questão de algumas horas ou de alguns dias.

- Entretanto o arquiduque Carlos terá tempo de concentrar contra nós todas as suas forças e as outras de que o império ainda pode dispor.

- Repare! Começa a festa. Olhe aquela cavalaria a galope, aqueles regimentos a passo de carga. São do general Oudinot.

Era a cavalaria do general Colbert e a brigada de infantaria do general Conroux (divisão Tharreau do corpo de Oudinot) que iam contra o bairro exterior, chamado Weiden Mariahilf.

Dali a pouco ribombava a artilharia francesa contra os muros da cidade.

Luís de Castro estremeceu. O ajudante meteu o cavalo a trote para ir ter com o coronel Pego, que estava muito para a frente, falando com o general Carcome Lobo, adjunto ao estado-maior de Oudinot.

- Se Maria estará ali, naquele bairro que estão bombardeando e vão assaltar! - pensou Luís de Castro confrangido - Uma bala, o estilhaço de uma granada, a baioneta impiedosa de um soldado, e assim podia acabar mutilada, sangrenta, aquela obra-prima de beleza que eu amo loucamente: Um horror!

As tropas francesas forçaram a entrada do bairro Mariahilf, defendido por umas grades de ferro, a pequena distância do muro de cintura erguiam-se já chamas enormes, vermelhas, a galgarem por entre golfadas de fumo negro. Estava a arder um prédio vastíssimo, que fora atingido por uma bomba.

- Podia estar ali, naquela casa ou nas outras que vão arder - disse consigo Castro amarguradamente.

Não vale a pena dar pormenores da efémera defesa de Viena, que não tem para nós nenhum interesse especial. A nossa gente não entrou nas breves operações contra a cidade.

No dia 11, de manhã, os franceses estavam dentro de Viena, mas a luta continuou. Cortada a ponte do Thabor, assaltado o pavilhão Lusthaus, bombardeado o faubourg Laudstrass, destruídas as barricadas, mil e oitocentos projécteis lançados sobre a velha cidade fortificada, o arquiduque Maximiliano, comandante militar, abandonou a povoação de noite, com a maior parte da sua insignificante guarnição, retirando pela ponte de Siptz, que destruiu. Viena entregava-se.

Napoleão entrou triunfalmente, levando consigo a Guarda, os couraceiros, os corpos de exército do marechal Lannes, Duque de Montebello, e do marechal Massena, Duque de Rivoli. Com as tropas de Lannes, entraram todos os regimentos de granadeiros do general Oudinot.

O Imperador foi instalar se com o seu estado-maior no palácio imperial de Schoenbrunn, a meio quarto de légua de Viena.

O corpo de exército de Lannes, com os granadeiros de Oudinot, ficou acantonado na cidade e arrabaldes.

O quartel general do marechal ocupou o sumptuoso palácio do príncipe Alberto de SaxeTeschen, ao pé da porta de Coríntia, mas Lannes, acedendo ao convite de Napoleão, foi também para Shoenbrunn.

Estava findo o primeiro período da espantosa campanha. Os corpos de exército do príncipe Carlos avizinhavam-se de Viena pela outra margem do Danúbio, mas não tinham podido concentrar-se a tempo de defender a capital.

A Áustria tivera o seu poderoso exército dividido, no empenho de travar campanha em três teatros de operações, largamente afastados - na Baviera e no vale do Danúbio, na Polónia e na Itália.

Afinal Napoleão batia-os até à capital, Poniatowski vencia-os no vale de Vístula, e o príncipe Eugênio de Beauharnais (filho do primeiro matrimónio de Josefina) conseguia trazer diante do seu exército franco-italiano os austríacos do arquiduque João, forçado a retirar na linha do Adige às primeiras notícias da marcha vitoriosa de Napoleão no centro da Áustria.

Na tarde daquele dia e no dia seguinte, Luís de Castro andou pelos bairros exteriores, percorreu as ruas estreitas da cidade antiga, mas nada pôde ver do que buscava e nenhumas informações logrou colher a respeito da família Pulaski.

Fora limitadíssimo o número de pessoas a quem pudera solicitar informações. Poucas as que encontrara acessíveis e destas só quatro ou cinco o tinham percebido por conhecerem a língua francesa.

A cidade tinha quási todos os estabelecimentos fechados, estava num retraimento e numa tristeza de luto. O próprio Prater, o grande, o famoso passeio de Viena, tinha uns ares de uma avenida erma de cemitério.

Ia Luís de Castro para o seu aquartelamento com uma grande impressão de desesperança, quando encontrou um grupo de oficiais franceses a falarem com um negociante, à porta de um vasto armazém de mobílias opulentas.

Percebeu que falavam da Polónia. Esperou que os franceses retirassem e foi pedir informações a respeito do tio de Maria.

Acertou. O homem era um polaco estabelecido em Viena havia largos anos.

- Conhece então André Pulaski.

- Conheço-o muito bem - respondeu-lhe o polaco -, é uma família ilustre, essa dos Pulaski. André veio para aqui há muitos anos e casou riquíssimo. A mulher morreu-lhe há dois anos, legando-lhe a sua imensa fortuna. Teve uma filhita que lhe faleceu ainda muito pequenina.

- Sim, isso já eu sabia, mas agora todo o meu empenho está em que me diga se André Pulaski reside em Viena.

- Não sr., Não reside aqui. Vive num belo palácio acastelado entre grandes propriedades que são dele, a pequena distância da aldeia de Wagram, que pode ver, querendo, de qualquer das torres das igrejas ou do alto das muralhas da cidade velha.

- Já a vi, sei onde fica, e sei mesmo como se chama a casa de campo onde êle morava há cerca de três meses.

- A casa de campo chamada dos «faisões dourados».

Mas não é lá que êle estará habitando agora. Há cousa de um mês mudou de residência.

- Para longe talvez, por causa da guerra?

- Não, sr. Comprou o tal palacete acastelado, de que lhe falei, e foi para lá que se mudou. Fica próximo do castelo de Sachsengang, não muito longe da sua antiga casa de campo. Fêz a compra há mais de dois meses, em nome de uma sobrinha que tem consigo uma beleza fascinadora, segundo me disseram. André Pulaski esteve aqui haverá uns quinze dias. Aqui mesmo onde nós estamos. E aqui mesmo o veio procurar um homem agigantado, um russo com o uniforme de cossaco.

- Chamado Miguel Platow? - rouquejou o Castro.

- Foi esse o nome pelo qual André Pulaski o tratou. Conhece-o?

- Conheço - respondeu, perturbado.

- O russo falou-lhe muito de João Pulaski, um desventurado! Referiu-se à linda filha de João, mas notei que André o recebeu de má sombra. O russo disse-lhe que tinha obtido pleno perdão do Czar, perdão não sei de quê, e que entrara no exército como oficial de uma companhia de cossacos. Ouvi que obtivera licença para acompanhar o estado-maior do arquiduque Carlos. Depois foram ali para a porta, estiveram a falar baixo, e saíram. Pareceu-me que André Pulaski ia turbado. Ainda os vi ali ao fundo da rua. André gesticulava muito, violentamente.

O polaco não reparou na agitação e na palidez daquele oficial que lhe solicitara informações a respeito de um seu compatriota. Bastou a referência a Platow para que o Castro se desfigurasse.

- Não tornou a ver André Pulaski?

- Não tornei.

- Nem sabe se êle ainda está no palacete de que me falou?

- É provável que esteja, mas não lho posso afiançar. Ouvi que téem fugido muitas famílias opulentas que residiam aí pelos arredores da cidade, de algumas sei que vieram aqui para Viena, mas também me contaram que outras se haviam retirado para a alta Hungria.

- Não sabe então mais nada a respeito de Pulaski?

- Mais nada.

Castro agradeceu-lhe afectuosamente a benevolência daquelas informações e foi para o seu aquartelamento com o coração oprimido.

Não lhe saía da ideia o nome odiado de Miguel Platow.

A fortuna protegia-o.

- Vai a felicidade para estes aventureiros torpíssimos! - pensava o Castro, sozinho no seu quarto -, Bem-aventurado da fortuna aquele infame Platow! Parece que as mãos da sua boa sorte iníqua lhe vão aplanando o caminho! Degredam-no, assassina uma sentinela, foge de combinação com outro degredado, e um belo dia o Czar perdoa-lhe a pena infamante e perpétua, e troca-lha por uma expiação relativamente suave! Será readmitido no exército como soldado raso, num regimento de cossacos, muito afastado da corte. Oficial outra vez, só depois de algum feito ilustre. Pois isso mesmo lhe perdoou o Czar, se o patife não mentiu! Fêz mais: deu-lhe licença para acompanhar o estado-maior austríaco! Se tudo isto é verdade! Mas com que fim pediu Platow semelhante licença? Para acompanhar as operações, para as estudar, para ter ao corrente delas o estado-maior do Czar? Não é crível. Platow é um homem inculto e não me parece que o mandassem à Áustria com qualquer alta comissão oficial, ainda que o tio, o general dos cossacos, se houvesse empenhado por êle. Veio com licença. Para acompanhar as operações dos austríacos foi o pretexto com que êle justificou a licença. Sem encargos oficiais, seguirá ou não o estado-maior do arquidu-que Carlos, conforme lhe convier. Foi para vir para aqui, para se aproximar de Maria que êle conseguiu licença. O resto será embuste daquele coração traiçoeiro, vilíssimo.

Cruzou o quarto a passear numa excitação de raiva.

- Para mim então não há contrariedades que se me não atravessem no caminho, infortúnios que dia a dia me não amargurem! Eu não afrontei ninguém, não fui desleal, não fugi: Sou um homem de bem. É assim a justiça equitativa da fortuna!

Encostou-se à janela a reflectir.

- De que audácias e torpezas não será capaz aquele selvagem?! Agora nesta conjuntura de receios, de perturbações, fácil presa poderá ser para êle a minha pobre Maria. Um horror! Um inferno!

Veio para o meio do quarto num repelão de desespero.

- Pois oxalá que êle vá para o estado-maior austríaco e Deus me dê então a boa fortuna de o ver.

Saiu. Foi ao quartel-general de Oudinot pedir licença para se ausentar da cidade, a pequena distância, em visita a uma família polaca. Negaram-lha, foi o chefe do estado-maior quem lha negou..- Sairei de madrugada, mesmo sem licença. E saiu. Mas um esquadrão de caçadores a cavalo, que andava de serviço de esclarecimentos para os lados do Danúbio, prendeu-o por não levar salvo-conduto. O seu uniforme de oficial da meia brigada portuguesa mais ainda o comprometeu. O comandante do esquadrão tomou-o por desertor e levou-o para Viena.

Era uma situação melindrosa. Teve de contar confidencialmente a Oudinot o intento com que havia saído. Mas a falta, a desobediência, tornara-se pública e o general, dando à saída uma causa que não era desonrosa para o distinto oficial, limitou-se a aplicar-lhe um castigo disciplinar benévolo. Ficaria preso por oito dias.

Era o segundo castigo que sofria por causa daqueles mal-aventurados amores! E, todavia, era êle, sem nenhuma dúvida, um dos mais brilhantes oficiais da Legião.

Napoleão escalonara as tropas de modo a evitar que o exército inimigo se concentrasse para a sua retaguarda.

Sabia que as tropas do arquiduque Carlos estavam quási à vista de Viena e ansiava por uma grande batalha que fosse o desenlace daquela extraordinária campanha.

Mas com as pontes do Danúbio destruídas, o rio, enorme como é, a engrossar formidavelmente com o desgêlo promovido pelas primeiras chuvas da Primavera, Napoleão tinha diante de si uma situação embaraçosa.

Vencera, mas não podia sair dali, e entretanto o poderoso exército do arquiduque Carlos ia-se fortificando tranquilamente na margem esquerda do Danúbio e realentando a força moral dos seus soldados, sempre batidos numa campanha prodigiosa de vinte e sete dias.

Foi nesta conjuntura que o imperador resolveu construir pontes sobre os esteiros do grande rio, apoiando-as nas ilhotas que o recortam, e fazer da ilha de Lobau uma espécie de campo entrincheirado, que lhe servisse de base de operações para uma campanha na margem esquerda.

Houve então uma série de pequenos combates durante os trabalhos admiráveis para a construção das pontes.

A 20 de Maio o corpo de exército de Massena, que já estava de posse da ilha de Lobau, atravessava para a terra firme e tomava posições nas aldeias de Aspern e Essling, que uma grande e sangrenta batalha ia tornar para sempre famosas nas mais soberbas páginas da epopeia napoleónica.

Ao corpo de Massena seguiu-se o de Lanes e a formidável cavalaria do marechal Bessiêres. O comando superior da batalha estava confiado ao Duque de Montebello.

Com as tropas de Lanes iam as divisões de Oudinot, e com a divisão Saint-Hilaire a 13.a meia brigada portuguesa.

Travou-se uma batalha horrorosa de dois dias. Lanes caiu mortalmente ferido, Massena substituíu-o no comando superior das tropas em acção e cobriu-se de glória no segundo dia da batalha, em Essling.

Estavam os austríacos vencidos, mas uma súbita cheia do Danúbio arrasta enormes árvores contra as pontes e despedaça-as.

O exército ficava assim cortado ao meio, pois que as tropas do marechal Davout e outras ainda não tinham podido passar, e as munições escasseavam já para continuar a batalha.

Os austríacos percebem o destroço das pontes, sabem que os franceses as estão reconstruindo e lançam na corrente impetuosa do rio abatizes, barcos cheios de matérias inflamáveis e um enorme moinho flutuante.

A grande ponte despedaça-se.

Os franceses têem de recuar na hora em que a vitória é por eles, e a batalha reduz-se da sua parte a uma enérgica defensiva.

Por fim é-lhes forçoso retirar para a ilha de Lobau, A maior das ilhas do Danúbio. Tem aproximadamente uma légua no sentido do comprimento do rio e légua e meia no sentido da largura para aquele forte campo entrincheirado onde, todavia, corriam o perigo de ficar bloqueados, sem terem lá víveres e munições suficientes para uma demorada resistência.

Foi naquele movimento de concentração, durante a segunda fase da batalha, que a divisão Saint-Hilaire foi carregada por quási toda a cavalaria austríaca. Os batalhões formam quadrado, resistem heroicamente, a cavalaria é repelida, mas as baterias do inimigo rasgam brechas enormes, sangrentas, naqueles redutos de homens.

O bravo e ilustre Saint-Hilaire caiu ferido. Era um ferimento de morte.

A 13.a meia brigada portuguesa não teve naquele lance da batalha um papel preponderante, mas o seu quadrado resistiu admiravelmente. Sofreu perdas importantes, foi ali o seu baptismo de sangue. Teve cento e tantos mortos e feridos.

Um acidente completamente imprevisto forçara a uma retirada aquele exército que tinha vencido uma das mais terríveis batalhas do século, conforme a frase calorosa de Thiers. Simples retirada de uma posição para outra, porque a ilha de Lobau valia um campo entrincheirado, mas afinal uma retirada.

A vitória de Eckmuhl produzira na Europa uma impressão de espanto e de receio, aquela de Essling, carniçaria ainda maior, com o desfecho de uma marcha para a retaguarda, revoou pela Europa numa expressão realentadora de vinganças e de júbilos.

O exército austríaco receberia consideráveis reforços e Napoleão, reduzido aos seus acantonamentos de Viena ou ao pedaço de terra da ilha de Lobau, a centenas de léguas de França, ou seria batido contra os muros da grande cidade ou render-se-ia enfim dentro da ilha como a bordo duma enorme nau imobilizada.

Foi um desafogo na Europa, uma grande e aliviadora esperança naquele pesadelo de doze anos! A Inglaterra activou os preparativos de uma poderosa expedição em auxílio da Áustria, a Prússia acarinhou avidamente o seu sonho de desforra, a Rússia hesitou receosa ante as promessas de Tilsit, e na Península dispuseram-se as cousas para uma operação decisiva contra Madride, capital e corte do rei José Bonaparte.

Mas Napoleão tinha o seu plano e empenhou todo o seu génio assombroso e todos os prodígios da sua actividade, que foi então fenomenal, em preparar a maior das surpresas que ainda tinha dado à Europa.

Era preciso fazer de Lobau um campo formidável, uma poderosa base de operações, acumular ali as subsistências para todo o Grande Exército, concentrá-lo ali, preparar os materiais para umas poucas de pontes e construí-las de modo que por elas pudessem passar rapidamente cento e cinquenta mil homens com todo o seu enorme material de campanha.

Depois cair sobre o poderoso exército do príncipe Carlos e dar uma batalha de vida ou morte, que seria fatalmente uma das maiores de todos os tempos.

Fizeram-se então trabalhos admiráveis para a mais extraordinária de todas as campanhas de Napoleão!

Entretanto, Marmont vinha a marchas forçadas da Dalmácia e o príncipe Eugênio e Macdonal trazia diante de si, da Itália, os austríacos do arquiduque João.

A 14 de Junho o príncipe bate-os em batalha campal, diante dos muros de Raab, e toma-lhes a praça.

Pela sua parte os austríacos fortificam as excelentes posições que têem na margem esquerda do Danúbio, construindo redutos, trincheiras, artilhando e abrindo seteiras nos muros das grandes aldeias.i

A princípio, Napoleão não sai do palácio de Schoenbrunn, e tudo ali planeia e a todos ali realenta para não deixar perceber o seu projecto aos austríacos.

Depois de 18 de Junho, seguro jáda concentração de todo o exército e dos seus meios eficazes para passar à margem esquerda, começa então a sair frequentes vezes para examinar os trabalhos, corrigir os que lhe parecessem defeituosos e observaras posições do inimigo, cada vez mais enganado a respeito dos seus desígnios.

A fortuna seguia-o e a estrela, em que êle acreditava, subia ainda em pleno brilho.

A 13.a meia brigada bivacava na ilha e não eram os seus soldados dos que menos trabalhavam.

Estava-se numa bela manhã de Junho, eram 22 do mês. Tocara à alvorada havia instantes.

O coronel Pego, Cândido Xavier, o chefe do batalhão Baltasar Ferreira e Luís de Castro conversavam a pequena distância do estaleiro onde os marinheiros da Guarda Imperial concertavam barcas para uma ponte flutuante.

Poucos momentos depois aparecia um dos ajudantes-de-campo do marechal Massena.

Era Marbot, o mais recente dos ajudantes-de-campo do Duque de Rivoli, já então agraciado pelo Imperador com o título de Príncipe d'Essling.

Marbot, assinalado no campo da batalha pela sua admirável intrepidez, o primeiro bravo no assalto de Ratisbona, umas poucas de vezes ferido em combate, era também um homem de alto espírito e larga ilustração.

Passou para o estado-maior de Massena depois da morte de Lannes,

 

*1. Memoires sur la guerre de 1809 en Allemagne, pelo general Pelet.

 

de quem fora um dos seus mais brilhantes ajudantes-de-campo.

- Sr. Coronel - disse Marbot para o comandante efectivo da 13.a meia brigada - ouvi ontem elogiar os seus soldados. Aguentaram-se bem naquela carniçaria em que morreu o bravo Saint-Hilaire.

- Soldados bisonhos, não deram má conta de si - respondeu o Pego singelamente - mas quero que eles façam mais alguma coisa, quando vier ocasião melhor de ajudarem os seus camaradas franceses. O seu baptismo de sangue foi quási no fim da batalha. Precisam doutro mais solene.

- Não tardará, sr. Coronel.

Pego despediu-se e foi ter com o general Carcome, Marbot ficou a conversar com Cândido Xavier e Luís de Castro.

- Não sabia que tínhamos senhoras na ilha de Lobau! - disse o Castro, olhando para uma dama loira e gentil, que passava a uma dezena de passos seguida de um lacaio -, E madrugadora!

- Ah! bem vejo - acudiu Marbot - Aquela é a companheira do meu marechal.

- Sim! Já o vi a êle duas vezes e não me pareceu que estivesse em idade de ter amores como qualquer rapaz.

- Parece mais velho do que é, tem cinquenta e três anos.

- Dir-se-á que tem mais de sessenta!

- Gastou-o muito a vida dos combates. Nenhum dos nossos marechais tem tantas e tão assinaladas vitórias como êle.

- Eu sei. Ouvi que o Imperador lhe chamara o filho querido da vitória.

- Nunca foi vencido. Venceu, comandando êle, em Saorgio, em Lonato, em Zurique, em Caldiero. Fêz prodígios em Rivoli e em Génova. Nesta campanha foi assombroso em Landshut e Eckmuhl, venceu êle comandando em Ebelsberg e Essling.

- Eu só tive ocasião de o admirar durante a retirada de Aspern.

- É espantoso num campo de batalha! Transfigura-se aquele corpo encolhido, anti-marcial, dobrado sobre o cavalo como um árabe sobre a corcova de um dromedário, apruma-se, cresce, faz-se gigante na atmosfera dos combates! Torna-se-lhe relance de águia o seu olhar cansado, tem arrogâncias leoninas a sua cabeça de homem feio, e da boca do antigo embarcadiço(1) flamejam palavras de singela e comovida eloquência que arrebata a alma dos soldados! Olha-o com desdém quem lhe não conhece a história, porque é só nos grandes lances que êle se torna o mais assombroso dos marechais do Império. Mas era da sua amante que nós falávamos. Doente, misantropo, sombrio, Massena precisava daquela meiga e bondosa companheira, que o tem seguido pelos acampamentos com admirável solicitude.

- Talvez alguma rapariga pobre, humilde?

- Está enganado. Tem meios de fortuna. Um excelente coração o dela. Carinhosa, amável, é ao mesmo tempo uma conversadora interessante e uma mulher modesta e sensata, que sabe perceber bem os melindres da sua situação. E, como viu, é ainda nova e bela.

- Capricho de mulher!

- Deslumbramento pelas glórias épicas daquele homem, a quem já consideram velho neste exército que teve generais de vinte e três anos e tem marechais de quarenta. Olhe, ali vai o filho legítimo, o filho da esposa do Marechal, o sr. Próspero Massena. Além, com aqueles meus dois colegas, ajudantes-de-campo do pai. Aquele que êle leva à direita é o meu amigo Conde de Ligniville,

 

*1. Durante alguns anos, rapazito ainda, André Massena, natural de Nice, viveu no mar como embarcadiço, aos dezassete anos (1775) deixou o navio e alistou-se no Real Regimento italiano ao serviço da França.

 

da mais alta nobreza de Lorena, primo do Imperador Francisco II da Áustria. Um bravo que entrou no exército, voluntariamente, aos quinze anos, foi ferido em Marengo, bateu-se brilhantemente em Austerlitz, Iena, em Friedland.

«O outro é o ajudante Pelet, um dos mais dilectos de Massena. Acompanhou-o em Nápoles em 1806 e esteve com êle na campanha da Polónia em 1807. Foi ferido no combate da ponte de Ebelsberg. Um homem de ânimo e um distinto matemático. Mas não sabem por que vemos aqui tão de manhã cedo a companheira de Massena?

- Não, decerto.

- Massena deu uma queda do cavalo abaixo, ficou muito contundido e tem sido ela a sua solícita enfermeira. Nem o Marechal pode já viver sem aquela amante. Leva-a consigo para toda a parte, tem por aquela mulher cativante uns ciúmes doidos! Éa fraqueza daquele envelhecido leão de Rivoli.

- Admira que o Imperador se não aborreça com esse caso pouco edificante para a disciplina militar e para o próprio prestígio do Marechal!

- Outros têem feito o mesmo com as suas legítimas ou ilegítimas mulheres. O próprio Napoleão fêz coisa de maior ruído na campanha do Egito com uma certa aventureira, chamada Faurés, e, ao menos, esta de Massena é recatada e não alardeia vaidades de cortesã.

- Olhe, ali vai o Imperador.

- Vem do palácio de Schoenbrunn. Dêem-me licença. Vou falar-lhe.

Foi e voltou poucos minutos depois.

- Quem é aquele coronel, franzino e gentil como uma dama, a quem o Imperador se apoia, falando-lhe com tão evidente familiaridade?

- Aquela figurinha de pagem tem ímpetos leoninos num campo de batalha! A sua mão branca e pequena, quási feminil, brande uma espada com a firmeza do mais possante couraceiro de Bessières. Tem talentos militares extraordinários! Está ali um íntimo, um conselheiro de Napoleão, uma das mais altas esperanças do exército. É o coronel Carlos de Sainte-Croix, primeiro ajudante-de-campo de Massena.

- Como as aparências enganam!

- E não suponham que exagero. Napoleão já disse muito mais a respeito de Sainte-Croix. Ouvi-lhe eu dizer que há-de fazer daquele coronel um marechal de França, a não ser que algum raio lho fulmine. Tem a sua opinião na mais alta conta e confessa que, depois de Lannes e Desaix, ainda não encontrou quem melhor do que Sainte-Croix soubesse compreender e pôr em prática as suas ideias.

- Nenhum louvor de maior honra e de mais elevada autoridade!

- É, além disso, um grande carácter, homem fino de sala, um primoroso diplomata, e foi até na diplomacia que êle fez a sua primeira aprendizagem oficial.

- Compreende-se então perfeitamente aquela intimidade com o Imperador.

- É a pessoa a quem Napoleão primeiro recebe, logo de manhã cedo, no palácio de Schoenbrunn. Verá como êle há-de ir longe. Provavelmente, na primeira batalha que tivermos, conquista as dragonas de general. Depois, mais uma ou duas campanhas em que tenha ensejo de assinalar-se, e terá um bastão de marechal.(1) Assim a morte, que êle desafia denodadamente, se lhe não atravesse um dia no caminho!

 

*1. Napoleão disse uma vez a Czernitcheff, enviado do Czar «Desde que eu comando exércitos ainda não encontrei capacidade maior do que a sua, (Sainte-Croix) nem quem melhor saiba compreender os meus pensamentos e executá-los, faz-me lembrar o marechal Lannes e o general Desaix, por isso, a não ser que algum raio o fulmine, a França e Europa terão de admirar do que eu hei-de fazer dele.»

Mais tarde, numa recepção das Tulherias, Napoleão, pondo-lhe a mão no ombro, familiarmente, disse alto, para que todos o pudessem ouvir: «Meus senhores, é desta massa que eu faço os meus marechais.

 

Para mim seria uma dor enorme, porque é o maior dos meus amigos.

Marbot despediu-se dali a pouco.

- Conhecia-o já? - preguntou Cândido Xavier, indicando Marbot.

- Há um mês, temos conversado por diversas vezes, é um cavaqueador interessante.

- Passa por ser um dos mais ilustres ajudantes-de-campo do Grande Exército. Ouvi que tem entrado distintamente em quási todas as grandes batalhas. Foi ajudante de Bernardolte, de Augereau, de Murat e Lannes.

- De Lannes sabia eu, foi depois da sua morte que passou ao estado-maior de Massena.

- É de uma família fidalga.(1) Vive também nas boas graças do Imperador.

Estamos a 4 de Julho. Passava do meio-dia quando chegou uma ordem de Napoleão para todos os corpos de exército. Dispunha que, depois das oito horas da noite, se começaria a passagem para a margem esquerda do rio.

No bivaque da 13.a meia brigada o coronel Pego mandou chamar todos os oficiais.

- Vamos ter uma grande batalha. Amanhã talvez. Pelos efectivos dos dois exércitos, será a maior dos tempos antigos e modernos. Nós somos poucos, mas não estamos sumidos no Grande Exército. Formamos uma unidade especial,

 

*1. Nascera em 1782 no castelo de Lariviére, na Dordogne.

 

e, se não temos o estímulo de uma bandeira, temos o distintivo de uma farda e os encargos de honra do nosso nome de portugueses. Digam isto aos seus soldados. Por muito iniquamente que nos considerem em Portugal, os nossos brios ou as nossas vergonhas irão reflectir-se lá! Há no Grande Exército, como sabem, tropas de outras nações, saxónios, polacos, badenses, bávaros, italianos, hão-de combater a nosso lado e seria doloroso que os soldados de Portugal, embora inexperientes, se batessem pior do que eles. Espero que não. Falem ao coração dos seus soldados com a mesma confiança com que eu estou falando à alma e à consciência dos meus oficiais. Não nos foi dado defender Portugal, pois o dever agora é não o afrontar-mos com a vergonha de qualquer fraqueza. Iremos para os maiores perigos a par dos soldados do Grande Exército, se ao nosso sangue não fôr possível excedê-los. É o que eu desejo e espero. Conto com todos. Como se no centro de cada batalhão fosse erguida a bandeira de Portugal. Não é isto o que todos desejam e sentem?

- Como se ela fosse connosco - disse comovidamente Luís de Castro sem se poder conter.

E todos repetiram entusiasticamente.

- Pois bem, digam isso aos soldados. Ao escurecer estaremos debaixo de forma - acrescentou, despedindo-os.

Abateram as espadas e dispersaram.

- Capitão Castro! - chamou o comandante - O seu vaticínio?

- Coronel, se nós soubermos dizer aos soldados o que essa provável batalha pode significar para nós, para a nossa raça, o sangue fará o seu dever, e a 13.a meia brigada honrará na maior batalha o maior nome de nação pequena que tem a Europa.

O coronel apertou-lhe a mão calorosamente. Estava com os olhos rasos de água.

 

             Bordada de lágrimas.

Anoitecia, estava um calor sufocante. Nuvens colossais de um azulado escuro, profundo, em recortes de serrania, caminhavam lentamente umas contra as outras, a lembrarem cordilheiras enormes que algum cataclismo houvesse desarraigado e impelisse por cima de um mar fosforescente de lenda. Na orla do horizonte listrões rubros, de tom metálico, a semelharem barras de cobre candente. Oprimia aquela atmosfera densa, cálida, impregnada de emanações da terra, que o sol esbraseara durante o dia. De quando em quando, na extrema do horizonte, o serpentear deslumbrador de um relâmpago.

Estavam já debaixo de forma, em massas de colunas, os corpos de exército que primeiro deviam passar as pontes para a margem esquerda do Danúbio.

Procuremos os granadeiros de Oudinot, para acompanharmos a meia brigada dos portugueses.

Eram 8 horas. O céu enegrecera tanto que era difícil ver o caminho.

O corpo de Oudinot marchava silenciosamente para a extremidade oriental da ilha. Na frente, as colunas da divisão Tharreau, a seguir as da divisão Frére, na retaguarda as de Grandjean com os portugueses à esquerda.

Fizeram então alto em frente da ilhazita de Hausl-Grund, ocupada por forças inimigas com artilharia.

A gente da marinha está preparando as barcas do transporte para a força que deve ir atacar a pequena ilha. Alguns barcos artilhados protegerão o desembarque, bombardeando certos pontos da margem oposta do rio, para iludir os austríacos. Duas chalupas canhoneiras afastam-se até Stadlau e Aspern, para vigiarem os movimentos do inimigo.

Os granadeiros aguardam que esteja preparada a passagem. Uma grande força da brigada Conroux está já entrando nos barcos para ir atacar Hausl-Grund.

A 13.a meia brigada recebera a voz de à vontade com a recomendação de não fazer ruído.

- Agora é que me palpita que vamos ter festa rija - disse baixo o granadeiro João Luís para um cabo.

- Vamos a ela, rapaz.

- Estou com desejos de ver se a gente é capaz de fazer coisa de jeito entre esses pimpões franceses, que são de três estalos! - acudiu o João Luís.

- Em o sangue aquecendo - volveu-lhe o cabo - também os senhores austríacos hão-de saber como as nossas baionetas mordem.

- A mim o que me regalava - disse o João Luís - era ver cá a gente da nossa meia brigada a deitar a barra adiante a esses granadeiros de França que têem ganas de leões e se atiram aos austríacos como gato a bofe!

- Há-de-se-lhe fazer a diligência. E cá o nosso batalhão na dianteira e a nossa companhia pim, pim, pim, e baioneta calada, e p'r'á frente é que é o caminho.

- Com o nosso capitão Castro - lembrou enternecidamente o João Luís - que é a flor da meia brigada e não é homem para ficar atrás de ninguém.

- E se uma bala me não empanzinar - acudiu um soldado novo - há-de vossemecê escrever-me duas cartas lá p'r'á minha terra, a contar as avarias que a gente fizer.

- Cartas p'ra quem? - preguntou o cabo, a rir.

- Ora, p'rá minha velha e mais p'r'á rapariga que há-de ser a minha noiva, se eu lá voltar.

- Ai! rapaz, quem sabe lá os que hão-de voltar!? Vai arranjando noiva por cá. Faz como eu. Tive uma noiva em Pau, outra em Valence e já tenho outra aqui. Estas austríacas têem uns bonitos palminhos de cara. E vamos lá a saber, de que terra és tu?

- De Mata-Cães.

- Pois eu sou da Mata-Mourisca - volveu-lhe o cabo, a rir.

- Faz-me pena que a gente não tenha aqui a nossa bandeira - segredou o João Luís para o cabo.

Eram 9 horas. Estrondeou a artilharia de Oudinot contra Hausl-Grund. Chamejavam ao longe as peças das canhoneiras.

A noite estava cada vez mais torva: os relâmpagos eram mais frequentes.

A gente da brigada Conroux desembarcara na ilhazita. Ouvia-se já o tiroteio dos atiradores.

- Trovões, rapazes! - disse o João Luís para o cabo.

- Estás enganado. São as peças grandes da ilha que já estão a berrar. Começa a trovoada cá por baixo.

Começara efectivamente. Os cento e nove canhões de Lobau, vomitam um fogo medonho contra as obras defensivas e os acampamentos dos austríacos, que respondem fazendo convergir os seus fogos sobre a ponte de Aspern, por onde supõem que os franceses vão intentar a passagem. E é dali precisamente que Napoleão manda atear mais a canhonada para confirmar o arquiduque Carlos naquela errada suposição, assegurando assim a passagem fácil do Grande Exército pelas outras pontes.

E nas grandes aldeias fortificadas de Aspern e Wagram e nos seus acampamentos, resguardados por defesas acessórias, os austríacos aguardavam confiadamente os soldados de Napoleão, esperando vê-los aparecer exactamente por onde nenhum deles tentaria passar!

Os granadeiros de Conroux estavam já senhores de Hausl-Grund. Era preciso agora lançar uma ponte para a passagem do corpo de exército.

Ainda demora para duas horas. O estrondear da artilharia tornara-se pavoroso. As baterias austríacas bombardeavam doidamente os pontos da ilha onde não havia já senão artilheiros nas plataformas e soldados abrigados para observarem qualquer inesperado movimento do exército inimigo.

Começou a levantar-se um vendaval temeroso, o céu enchera-se de maiores negrumes. A trovoada parodiava o bombardeamento. Passam alto, rasgando aquele fundo negro, como aerólitos esbraseados, as bombas e as granadas, a chama dos canhões parece ainda mais sinistra do que o azulado clarão dos relâmpagos, a esfarrapar os crepes do céu.

Entretanto, pelos bosques vizinhos o vento esbraveja em lufadas vertiginosas, fazendo ramalhar as árvores violentamente, torcendo-as como vimes, deixando-as a gemer como agonizantes.

Podiam as balas despedaçar milhares de homens, que se lhes não ouviria os gritos naquele pavoroso inferno, em que a tempestade desencadeada no céu parecia aliar-se à tempestade feita pelas ambições dos homens.(1)

Debruçando-se do cavalo, Cândido Xavier disse baixo ao capitão da 1.a companhia de granadeiros.

- Que lhe parece, Luís de Castro?

- Horrorosamente grande tudo isto!

- Mas de excepcionais condições para a grande estreia da nossa gente! Um combate, ou uma batalha começada numa noite de temporal desfeito!

- Se os austríacos percebessem o engano, se lá tivessem um general que fosse sequer a miniatura de Napoleão, não perdiam o tempo a despejar as peças para aquele lado e os seus quinhentos ou seiscentos canhões de campanha destruiriam essas pontes, antes que os seus cento e cinquenta mil homens afogassem no Danúbio os cento e quarenta e tantos mil que o Imperador tem aqui apinhados.

- Mas, felizmente para nós, os austríacos continuam naquele engano que os seus canhões confirmam, excedendo o ruído da trovoada. Por aqui é que eles estão supondo que nos limitaremos a uns combates demonstrativos.

- Demora-se o lançamento da ponte!

- Há-de estar a concluir. E que tal acha os seus soldados, Castro?

- Bem dispostos. Alguns, mais crendeiros, estão vendo mau agouro na tempestade e parecem-me bem mais receosos da trovoada que das divisões austríacas. Percebi que murmuravam rezas.

- A Santa Bárbara. A Magnificat, provavelmente como nas aldeias de Portugal.

 

*1. Descrevendo os horrores daquela noite, no céu negro o sulco dos relâmpagos e dos projécteis inflamados, o general Pelet (era o chefe do esquadrão e ajudante-de-campo de Massena naquele tempo) dizia: «As tempestades do céu juntavam-se àquelas da terra». Mémoires sur la guerra de 1809 en Allemagne, tomo IV, pág. 171).

 

- Esta espera a pé firme é que me parece desalentadora para soldados noviços, que só entraram ainda no final de uma batalha.

. - Mas olhe que foi bom ensaio. O nosso quadrado apanhou quatro furiosas cargas daquela formidável cavalaria húngara, e vamos lá que os rapazes não se portaram mal.

- Precisamos de coisa maior. Penso como o Coronel. Não chegou a ser o solene baptismo de sangue de que nós carecemos. Para o resgate das fraquezas de 1801 a 1807 importa que tenhamos uma acção em que a meia brigada se assinale de tal modo que não a ofusquem os esforços dos outros auxiliares estrangeiros nem fique muito abaixo dos melhores granadeiros de Oudinot.

- Vamos a ver.

- Igualá-los, excedê-los, seria então ressurgir agora as tradições mais brilhantes do esforço português. Mas isto não passa de uma ambição de visionário. Tomáramos nós que eles se aguentem dignamente contra o melhor e mais aguerrido exército que tem a Europa, depois deste de Napoleão.

- Diz bem. Os austríacos são intrépidos soldados. É difícil igualar em arrojo a cavalaria húngara e ouvi aos oficiais franceses que os croatas combatem com doida tenacidade.

- Firmes! - bradou o coronel Pego, voltando-se para trás.

Cândido Xavier tomou o seu lugar. Um ajudante-de-campo de Oudinot tinha trazido um aviso ao Coronel.

Napoleão, que andava observando todos os trabalhos para o lançamento das pontes, passava agora por entre as colunas do corpo de exército de granadeiros.

- Uma terrível noite, Oudinot - disse ao bravo comandante do 2.o corpo.

- Sire, nem sempre se pode batalhar à luz clara do sol como Austerlitz.

- Esta agora há-de ser muito maior. O inimigo é que é já muito nosso conhecido. Uma bela campanha aquela nossa de 1805! Não me esquecem, meu caro Oudinot, os teus prodígios na batalha de Halabrunn. Quero ver as colunas dos teus granadeiros.

Uns poucos de soldados da infantaria de marinha, agregada à Guarda Imperial, ladeavam o Imperador com archotes acesos.

Napoleão passou lentamente pela frente das colunas do 2.o corpo.

- Viva o Imperador! - clamaram os soldados fervorosamente, sem se poderem conter.

E a fixá-los muito, com um leve sorriso, Napoleão respondia-lhes:

- Vamos para uma grande batalha, meus bravos, maior do que as maiores que tendes visto. Conto convosco pela honra das nossas águias e pela Glória de França!

Revoaram mais calorosas aclamações, que os ruídos da tempestade e da artilharia não deixavam ouvir a mil passos dali.

- O cabito(1) está bem disposto e a gente será capaz de meter os punhos na boca dos canhões austríacos, se êle mandar! - disse para outro velho um granadeiro de Marengo, assim que o Imperador passou para diante.

 

*1. Vinha das campanhas da Itália aquele costume dos soldados velhos designarem Napoleão pelo cognome de pequeno cabo (petit caporal) em razão da sua baixa estatura.

Era uma brincadeira que o gigante sabia e não lhes levava a mal, porque provinha de um sentimento de afectuosa admiração. Por aquele cognome lhe parecia a eles que o aproximavam mais de si e achavam delicioso chamar-lhe pelas costas, nas suas conversas, o pequeno cabo, a êle que era o maior general da Europa.

 

Na frente da divisão Grandjean, Napoleão preguntou:

- Os portugueses?

- Sire, estão ali na esquerda.

Napoleão meteu o cavalo para a frente da 13.a brigada. Dali não havia aclamações. Os soldados olhavam com assombro para aquele homem pequeno, cuja fama voava por toda a parte e cujo olhar de águia ninguém ousava suportar.

- Coronel, quero ver agora se estes rapazes dão boa conta das tradições da sua raça.

- Sire, espero que eles correspondam dignamente ao seu dever de portugueses e de soldados do Grande Exército.

Viu Luís de Castro e foi para êle.

- Capitão, não se esqueça de repetir aos seus granadeiros o que eu lhe disse uma vez em Marrac, para que eles se tornem dignos dessa História de Portugal que eu considero uma escola de heroísmo.

- Sire, já tive a honra de lho dizer de forma que os seus corações me entendessem.

- Repita-lho: quero ver a impressão.

- Granadeiros! - disse Luís de Castro na sua voz mais vibrante, à frente da companhia.

«Sua Majestade o Imperador, o general de maiores vitórias que tem tido o Mundo, entende que a História da nossa terra portuguesa é uma escola de heróis e manda que eu vo-lo repita, para que a vossa alma o não esqueça nunca e pratiqueis façanhas iguais às dos vossos antigos, honrando o nome de Portugal.

Os soldados agitaram-se, sacudidos em frémitos de entusiasmo, olhos rasos de lágrimas, a transparecer-lhes no rosto uma profunda comoção de alma que era de saudade e de orgulho pela pátria distante.

- Mandem-nos batalhar! - disseram alto os menos acanhados.

- Mandem-nos, e sua Majestade verá que não havemos de envergonhar os seus soldados!

- Que dizem eles?

- Sire, pedem que os mandeis batalhar e provarão que são dignos das palavras de Vossa Majestade em honra de Portugal.

- Creio, e conto com eles.

Mas, naturalmente, Napoleão estranhou e sentiu que lhe faltassem ali as aclamações entusiásticas dos seus soldados franceses.

Chegou um ajudante-de-campo.

- Sire, está lançada a ponte.

- Oudinot - disse o Imperador - manda já marchar.

Começou a desfilar a divisão Tharreau. O Imperador foi para o corpo de exército de Massena.

Eram onze horas e a noite cada vez mais tenebrosa! O trovejar da artilharia recrudescera.

Lançam-se outras pontes. Está passando o corpo de exército de Massena, depois, por outra ponte, seguirá o corpo do marechal Davout.

Começa a chover torrencialmente e a temperatura baixa tanto que os soldados tremem de frio!

Ouve-se a fuzilaria já na outra margem. Sobre a madrugada estão lançadas seis pontes, a artilharia mais pesada passa nos barcos de transporte e todo aquele enorme exército se vai desenvolvendo na margem esquerda.

Os granadeiros de Oudinot ocupavam o bosque de Múnlleuten, lançavam novas pontes sobre o braço do rio em frente de Enzersdorf e de Zanet e levantam obras de defesa passageira para opor a qualquer tentativa de ataque.

Mas os austríacos persistiam no seu engano e era contra Aspern e Essling que eles esperavam a investida dos franceses, iludidos pelas obras que se tinham construído no lado fronteiro da ilha de Lobau.

Napoleão aparecia em toda a parte, dirigia e dava impulso a tudo, era bem, na frase de Pelet, alma de todo aquele grande movimento.

Amanhecia. A tempestade passara, o céu desanuviara-se, vinha rompendo o sol numas rutilações de oiro triunfais e tudo mudara como numa cena mágica de teatro.(1)

Era um soberbo espectáculo aquele! Colunas enormes a desenvolverem-se pelas planícies da margem esquerda, nas pontes o lucilar das baionetas e das espadas, na ilha a ondearem ainda massas compactas de soldados, em fulgurações deslumbrantes os capacetes dos dragões e os peitorais dos couraceiros. Nas águas amplas do Danúbio, lhama de prata com o esmalte verde das suas ilhas, fileiras de barcos transportando artilharia e cavalos.

As aldeias ocupadas pelos austríacos, semi-envoltas na fumaceira das baterias, pelo declive das colinas lourejam trigais maduros e aninham-se povoações, a lembrarem bandos de pássaros multicores. De onde em onde palácios altaneiros acastelados, antigos, solares principescos da velha nobreza austríaca.

Ao longe, a três léguas, na paisagem esfumada, a cidade magnificente. Viena fora despertada a meio da noite pelo ribombar da artilharia, numa surpresa de pavor. Das suas torres, dos seus terraços, das janelas altas dos seus palácios, via-se bem a chama rubra dos canhões a rasgar brechas na escuridão tenebrosa da noite.

Agora até podiam ver de lá como aquela batalha começava.

 

*1. «À mais horrorosa das noites sucedera o mais formoso dia». (Pelet).

 

O corpo de exército de Massena está em face da aldeia fortificada de Enzersdorf, já em chamas. O de Davout desenvolveu-se na direcção de Vittau, a brilhante cavalaria de Lassalle alonga-se para a direita, na sua missão de esclarecedores. Os dragões de Grouchy cobrem o intervalo entre Massena e Davout.

Oudinot sairá do bosque de Múhlleuten, depois de ter construído uma testa de ponte em que empregou parte de um batalhão português, as duas companhias de atiradores do batalhão de Luís de Castro. A dele e a outra de granadeiros seguiram com os outros dois batalhões da meia brigada.

Depois de tomar a aldeia de Múhlleuten, Oudinot marchou contra o palácio acastelado de Hunter-Schloss em Sachsengang.

Atacou-o e tomou-o a divisão Tharreau, apoiada pelas outras de Frére e Grandjean.

Massena batia Enzersdosrf, que Sainte-Croix e Pelet tomaram à frente de um regimento.

O comandante austríaco de Sachsengang rendera-se à descrição.

Para a direita ficava um pequeno palácio acastelado com admiráveis jardins e um amplíssimo parque.

Passam quási em debandada, na frente dos granadeiros do primeiro batalhão português, os restos de um regimento austríaco que a cavalaria tinha batido na planície.

Invadem os jardins e o parque do pequeno palácio acastelado, que fica para a direita de Sachsengang, e ali se apoiam, fazendo fogo sobre uns grupos de cavaleiros que os perseguem.

Castro vê que o palacete se vai transmudar em reduto. Em poucos minutos se volverá talvez num montão de ruínas. Se fosse aquela realmente a morada de André Pulaski? E quem lhe podia assegurar que ali não teria ficado alguém?

- Mas é uma suposição absurda. Tinham tido tempo de fugir - emendou logo.

Precisamente naquele instante o coronel Pego deu ordem para que duas companhias avançassem contra aqueles duzentos ou trezentos temerários que tentavam resistir.

Luís de Castro avança com a sua companhia, que é apoiada pela imediata.

- Aquilo toma-se numa carga de baioneta! - gritou à frente dos soldados, a espada no ar a mostrar-lhes o muro do parque por onde devia efectuar-se o assalto.

- Para onde o nosso capitão mandar! - clamou o João Luís.

E todos os soldados repetiram esta frase de entusiástica obediência.

Os austríacos deram umas descargas. Caíram dos nossos uns cinco ou seis. .

- P'rá frente, granadeiros! - bradou Castro, expondo-se temeràriamente - Não se lhes dá tempo para outra descarga.

Os tambores da companhia bateram a marcha de carga com maior vigor. Castro levava atrás de si os granadeiros numa corrida vertiginosa.

E foi êle o primeiro a subir ao terraço do parque, seguido logo de uma dúzia de soldados. Metade da companhia escalava o muro ao longo de uma alameda. Alguns trepavam com agilidade espantosa.

Ainda os austríacos dispararam alguns tiros, mas já não havia ensejo senão para uma luta à baioneta, corpo a corpo. Defendiam-se furiosamente.

Por duas vezes o João Luís salvou a vida ao seu capitão, crivando de baionetadas dois granadeiros austríacos que iam feri-lo pelas costas.

Vinham já os nossos ao cimo do parque, trazendo os inimigos diante de si, quando de uma janela uma mulher espavorida começou a gritar umas palavras que os franceses deviam entender perfeitamente.

- Socorro! Piedade! Sou francesa!

- A Beauchamp!-exclamou Castro num arrepio de medo, pondo os olhos no rosto desfigurado da francesa.

Tinha uma expressão horrível de dor, pareciam de uma louca os seus gritos espavoridos. Dir-se-ia que tinha envelhecido vinte anos.

- Ali, ela só! - pensou Castro - Não puderam fugir - Ana Beauchamp! Tenha ânimo! Vá, rapazes, com eles! - bradou aos soldados.

Foi uma investida soberba. Os austríacos retrocediam em todas as direcções. Mas um grupo dos mais destemidos defendia a porta que dava para o jardim. Barricavam-na com mesas e baús. Os outros tinham subido a uma varanda e, como lhe houvessem faltado os cartuchos, atiravam para baixo móveis pesados, preciosos, baús cheios que se faziam em pedaços sobre as pedras da escada exterior.

Dois dos nossos granadeiros tinham caído quási esmagados.

- Rendam-se! - bradou o Castro em frente da porta, a espada a golpear homens vertiginosamente.

De um salto como de animal felino, João Luís foi de baioneta calada contra o oficial que animava a resistência daquele punhado de temerários. O austríaco, um capitão, caiu soltando um grito rouco de comando.

Os nossos entraram de roldão. Vinte soldados inimigos ali depuseram as armas.

- São nossos prisioneiros - disse o Castro para o tenente - Mande um sargento levar aviso ao sr. Coronel. Reúna os outros. Eu subo com alguns homens, volto já.

E subiu vertiginosamente com o João Luís e mais oito granadeiros.

Cerca de duzentos austríacos se tinham já escapado pelo parque para os campos de trigo.

- Aprisionem os outros que para aí encontrarem escondidos - disse o Castro no alto da grande escadaria de mármore.

E seguiu por um corredor, chamando pela Beauchamp.

Ouviu uns gritos lancinantes ao fundo do corredor. Correu para lá. Vinham de um quarto à esquerda.

Abriu a porta com um encontrão.

A Beauchamp estava caída no sobrado, lívida de pavor.

- Minha querida Beauchamp! Aqui sozinha! Maria! O que é feito de Maria?!

Ajoelhara ao pé dela, levantava-a nos braços, carinhosamente.

- Ai, meu Deus! - gemeu a francesa.

- Por piedade! O que é feito de Maria?!

- Há duas semanas que a levaram! - disse a custo, soluçando.

- Que a levaram! Quem a levou?

- O Tio. Foi com o Pai, quási cego de todo.

- E deixaram-na a si!

- Eu devia ir também, logo atrás deles... Tinha-me oferecido para arrumar os baús... e para ver como os criados carregavam as bagagens... Estávamos descansados... Dizia-se que os franceses já não saíam da ilha... que se vê daqui. De repente apareceu aí o russo...

- Platow?!

- Esse! Que era preciso fugir sem demora, disse. Meteu medo a todos. Foram. Maria cedeu às súplicas do Tio. Platow ofereceu-se... para me guiar, quando as bagagens estivessem prontas. O malvado! Ficou êle, e mandou aos carregadores que me amarrassem. Cobriu-me de insultos... Disse-me que eu era instigadora dos amores doidos de Maria.

- E não encontro eu esse bandido! - bramiu Luís de Castro.

- Também me tem ódio a mim! Aqui me deixou amarrada, amordaçada. Quási um dia inteiro, sem ninguém... que me acudisse! Os criados tinham fugido. Entraram uns oficiais austríacos, vinham ficar aqui. Foram eles que me mandaram desamordaçar. Tiveram dó de mim. Estava como morta. Mandaram buscar o cirurgião para me tratar. As cordas chagaram-me as pernas e os braços. Estive uns poucos de dias a arder em febre. Esta noite ouviram-se aqui os trovões e os tiros! Os oficiais sairam. A mulher que tratava de mim vestiu-me, para ver se eu podia fugir. Ai, não podia! Fugiu ela. Ouvi aqui a algazarra dos soldados, mais tiros, arrastei-me até à janela... amparei-me a ela, gritei. Haviam de ser franceses os que vinham sobre os soldados que estavam aqui. Foi o que eu pensei.

Chorava.

- A minha desventurada Beauchamp! Mas André Pulaski é também afinal um protector de Platow como o irmão?!

- Não é. Eu sei que fará tudo o que Maria quiser, mas naquela hora de pavor... nem podia reflectir! Aceitou os serviços que o outro malvado lhe oferecia, e guiou-se por êle.

- Mas para onde fugiram?!

- Não sei, não mo disseram.

- É inquietador!

- Meu capitão! Meu capitão! -- gritava o João Luís aparecendo à porta, numa tremura de comoção - Esta bandeira. A nossa de Portugal, como a outra velhinha que não nos deixaram trazer!

E desdobrou uma bandeira de seda com as Quinas bordadas a oiro. Castro foi para êle num deslumbramento de sonho, os olhos rasos de lágrimas.

- É a bandeira que Maria tinha bordado - soluçou a Beauchamp.

- Bordada também de lágrimas, das suas lágrimas como ela me disse!

- Vi-lhas eu chorar. Mas essa bandeira estava num dos seus baús!

- Onde a encontraste, João Luís?

- Num baú de vestidos de senhora que os austríacos tinham arrombado. Quando lhe pus os olhos em riba até me pareceu que tinha endoidecido!

- Capitão - chamou à porta um alferes - O nosso Coronel manda reunir a companhia. A nossa meia brigada vai avançar.

- Vou já. Beauchamp, tenho de a deixar.

- Jesus meu! que fico aqui sozinha!

- Não fica. João Luís, conserva-te aqui. Vou mandar-lhe para cá uma boa mulher, vivandeira de um regimento francês.

- Foi Deus que o trouxe aqui, sr. Luís de Castro! - disse a francesa, tentando levantar-se.

- Tranquilize-se, Beauchamp. Adeus. Hei-de tornar a vê-la.

Dobrou a bandeira rapidamente e meteu-a sob o peito da farda.

Correu para a escada.

- Para o nosso culto clandestino ou para um lance excepcional - ia pensando - já tem bandeira a 13 meia brigada.

Enzersdorf está tomada, o corpo de Massena avançou em massa de colunas, constituindo a esquerda do Grande Exército.

O corpo de Davout faz uma pequena marcha de conversação e segue para a frente de Rutzendorf, na qual vai apoiar-se, formando a direita. Os saxões do marechal Bernadotte, Príncipe de Ponte Corvo, vêem para a esquerda das tropas de Davout, os granadeiros de Oudinot para a direita de Massena.

Eram dez horas. O sol queimava.

Ainda golfavam soldados as pontes de Lobau, ainda na ilha cintilavam pinhas enormes de baionetas.

A cavalaria de Montbrun corre para a direita a cobrir aquele flanco e a observar que não irrompam dos lados de Schonfeld as tropas do arquiduque João batidas em Raab e ainda distantes do campo de batalha. A cavalaria do bravo e espectaculoso Lassalle fora cobrir o flanco esquerdo.

Era preciso esperar que se constituíssem a segunda e a terceira linha de batalha com as colunas que ainda estavam saindo de Lobau. A primeira linha esperaria em massas de batalhões com intervalos de desenvolvimento.

Entretanto, para as bandas de Aspern e Essling, o grosso do exército austríaco lá estava nas suas posições fortificadas, muito surpreendido de que o exército francês o não houvesse atacado naquela direcção.

Napoleão passava a galope pela frente da sua enorme linha de batalha com o seu estado-maior brilhantíssimo e a sua escolta de mamelucos, de couraceiros e hússares da guarda.

Vibraram os clarins, as músicas, os tambores, o sol a subir punha esplendores épicos de sonho naquela extensa floresta de baionetas e de sabres.

Águias em continência e num estremeção de entusiasmo, num arranque de orgulho, os soldados põem as barretinas nas pontas das baionetas e, agitando-as freneticamente, gritavam numa vibração gigantesca de oitenta mil vozes:

- Vive l'Empereur!

Como um pregão de guerra triunfal este grito ecoou formidável por aquela planura fora e subiu ardente, palpitante, até aos parapeitos das posições austríacas.

A Guarda Imperial, que vem desfilando pelas pontes, repete-o: estão lá velhos soldados que o repetiram com igual fervor nos dias de Austerlitz, de Iena, d'Eylau, de Friedland. Soldados que vieram da Itália e da Dalmácia, ainda a saírem da ilha, dão-lhe outra repercussão maior e aquela aclamação de três palavras estrondeia numa amplidão de léguas como se fosse uma legenda a resumir doze anos de vitórias! E os tiros das batarias austríacas como que parecem uma salva de saudação ao conquistador! A 13.a meia brigada limitava-se a agitar as barretinas. Napoleão passou, afastou-se. Os batalhões receberam a voz de descansar e à vontade.

- Meu Capitão - disse baixo o João Luís - os meus camaradas não sabem que vivas hão-de dar! Ele tem mandado fazer tratos de polé à nossa terra!

- Vocês põem no sentido o nome de Portugal e clamam um viva que, nos seus corações, será todo pela nossa terra.

- Ah! nesse caso, meu Capitão, v. s.a verá que há-de ser dado com toda a alma!

Cerca do meio dia as colunas cerradas do exército do Príncipe Eugênio, da Guarda Imperial e da divisão Marmont formavam já a segunda linha de batalha. A cavalaria pesada e a artilharia constituíram a terceira linha.

O Imperador tornou a passar. Novas aclamações.

- Viva! - gritaram os granadeiros de Luís de Castro - Viva! - repetiram os outros soldados da meia brigada, pois que uns aos outros soldados tinham passado palavra a respeito do alvitre do Capitão.

E com tal fervor, com tamanha veemência aquele viva, que Napoleão reparou muito bem na meia brigada, estranhando aquele entusiasmo.

- Os teus Portugueses, bem? - preguntou a Oudinot.

- Sire, parecem dispostos a não envergonhar os meus granadeiros.

Napoleão seguiu a galope, direito ao corpo de Massena.

Passava do meio-dia. O Imperador manda avançar, desenvolvendo na direcção de Raschdorf e Wagram, Massena marcha contra Essling e Neuvirtshaus, Bernardotte com os saxões e a divisão Dupas contra Baschdford, Oudinot na direcção de Baumersdorf, Davout contra Glinzendorf e a velha torre quadrangular de Neusiedel. A chave das posições austríacas é a grande aldeia fortificada de Wagram, na posição menos acessível da linha de alturas, que tem por fosso natural o riachozito de Russbach, estreito, profundo, de margens acidentadas.

À maneira que se vão desenvolvendo, o exército do Príncipe Eugênio avança de modo a colocar-se entre os saxões de Bernardotte e os granadeiros de Oudinot.

Na frente, a artilharia divisionária vai batendo as posições inimigas. Os austríacos retiram para a linha do Russbach. O seu flanco esquerdo está ameaçado de um movimento envolvente. Pode travar-se naquele mesmo dia a formidável batalha decisiva por que Napoleão ansiava.

Davout toma Groshofen e avança para Neusiedel, Massena bate-se na esquerda contra o corpo de exército austríaco de Klénau em Aspern, Hirchstadten e Kagaran. Bernardotte irá atacar Wagram com os saxões e a divisão Dupas e será apoiado pelas tropas do Príncipe Eugênio, de Macdonald e Lamarque.

Estrondeia a artilharia em todas as direcções, a cavalaria carrega de um e outro lado, ardem talhões de trigais maduros, incendiados pelas buchas das espingardas.

Entardece. A Guarda Imperial está em reserva, à retaguarda dos granadeiros de Oudinot, cuja artilharia bombardeia a povoação distante da Baumersdorf.

A pequena distância do 2.o corpo, Napoleão observa aquela série de combates contra o centro e a esquerda do inimigo.

Massena dificilmente se mantinha na esquerda da linha francesa, só com o seu corpo de exército contra as massas formidáveis dos austríacos.

A artilharia incendiara algumas casas da aldeia de Baumersdorf, povoação de uma dezena de grandes prédios, ocupada pelos austríacos e separada da planície pelo riacho, que só era possível transpor por uma ponte de madeira, estreita e mal segura. A montante da aldeia fica o acampamento do corpo do exército do Príncipe Hohenzollern, defendido por duas formidáveis baterias, que enfiam os caminhos do lado de Wagram e cruzam os seus fogos com os desta aldeia, já transformado em reduto.

Enquanto a infantaria de Oudinot esperava a pé firme, o Coronel Pego passava frequentes vezes por entre as colunas de batalhões da meia brigada, para observar a disposição de ânimo da sua gente. Tinha receio de que eles não dessem boa conta de si. De uma vez lhe pareceu que alguns soldados estavam cabisbaixos, apreensivos.

- Castro! - chamou - Que lhe parecem os seus granadeiros?

- Conto com eles, meu Coronel.

E voltou para o flanco da companhia.

- Homem - disse baixo para o João Luís - pareces triste!

- É de estar à espera, meu Capitão. Põe-se a gente a pensar em coisas que dão saudade! O que mais custa é isto de estar a pé firme a ver como os outros morrem. Mas em nos metendo na dança, o sangue aquece, e v. s.a verá que ninguém se há-de lembrar da morte.

Passava das seis horas. O sol não tardaria a sumir-se.

Chegou a toda a brida o general Savary, ajudante-de-campo de Napoleão.

- General - disse para Oudinot - O Imperador manda que forceis a linha do Russbach, para atacar aquela aldeia e o campo austríaco a montante.

Savary apontava Baumersdorf.

- Imediatamente - respondeu Oudinot. Voltou-se para os ajudantes:

- Ordem para a divisão Frére atacar os atiradores inimigos, emboscados nas margens do ribeiro - disse a um.

«Ao general Grandjean que avance, apoiando Frére - disse a outro.

«Ao general Tharreau que siga sustentando Grandjean.

Partiram à desfilada. Dali a instantes a divisão Frére avançava, inclinando para a direita, e a meio caminho de Russbach lançou para a frente uma linha de atiradores.

Ouviu-se a voz vibrante do coronel Pego.

- 13.a meia brigada, firme! Avançar em coluna cerrada de meios batalhões.

A um quarto de légua do ribeiro, Grandjean mandou que a meia brigada portuguesa dispersasse duas companhias em atiradores para a esquerda da divisão Frére, e depois as reforçasse para tomar a ponte de Baumersdorf.

Uma brigada apoiaria à direita os portugueses, outra à esquerda. Grandjean não contava muito com eles e amparava-os entre os seus granadeiros franceses.

Os soldados de Luís de Castro e da outra companhia que se lhe reuniu batiam-se contra os atiradores austríacos, abrigados no arvoredo da outra margem do ribeiro.

Tinham tomado uma espantosa intensidade aquela série de combates. Ouviam-se da direita, lá para cima, os quarenta canhões do Davout, depois para a esquerda, das bandas de Wagram, a fuzilaria, o tropel das cargas, a vozearia de assalto dos saxões de Bernardotte, da divisão Dupas, dos batalhões de Macdonald e Lamarque.

Pego mandou colocar o fourgon da ambulância da sua meia brigada a coisa de meia légua da margem do Russbach, a coberto de uma pequena ondulação arborizada. Depois aproximou-se mais dos atiradores com as suas forças de reserva.

- É preciso tomar a ponte à baioneta - disse alto.

- Coronel - disse o Castro, voltando-se - vou eu atacá-la com a minha companhia, se mo permite.

- Tem tido muitas perdas!

- Uns vinte e tantos homens.

- Que força tem aí em apoio dos atiradores?

- Setenta granadeiros.

- Avance com eles contra a ponte. O 2.o batalhão vai sustentar-lhe a investida.

Mandou ordem aos atiradores para se deitarem, abrigando-se, e fêz desenvolver em linha o 3.o batalhão para bater com descargas sucessivas as forças da outra margem, enquanto se efectuava a investida à ponte. Não podiam ter grande eficácia aquelas descargas contra atiradores emboscados, mas o fim era produzir efeito moral a desviar para aquele lado as atenções e os reforços do inimigo, protegendo assim o ataque da ponte.

- Calar baioneta! A passo de carga! - gritava o Luís de Castro, à frente dos seus setenta granadeiros.

Deitaram para a frente numa carreira doida. Estrondearam então das ondulações do terreno, acima da ponte, duas descargas cerradas de um meio batalhão austríaco.

Caíram mortos ou feridos vinte e três granadeiros. Os outros afrouxaram a carreira, hesitavam.

- Rapazes! É como se fosse aqui, por cima de nós, a bandeira de Portugal. P'rá frente, antes que eles tenham tempo de carregar as armas.

E arrojou-se com os quarenta e sete granadeiros que lhe restavam sobre as baionetas de uma companhia, postada a meio da ponte.

Vinham já aos gritos na sua retaguarda outras duas companhias, para o apoiar.

Ouviam-se os brados de incitamento do chefe de batalhão Baltasar Ferreira.

Os austríacos recuavam ante aquela investida leonina e foram bater contra o meio batalhão postado nas ondulações do caminho para Baumersdorf.

Nem tempo tiveram para disparar novas descargas e recuaram de roldão diante das três companhias que estavam já para além da ponte, ao lado dos trinta granadeiros a que Luís de Castro estava reduzido.

O meio batalhão inimigo acoita-se na aldeia ocupada pelas tropas do general Hardegg.

E das janelas, dos jardins, da embocadura de uma rua barricada, cai sobre os portugueses um dilúvio de balas. Já com perdas avultadas, as companhias retrocedem, apesar dos esforços heróicos dos oficiais.

Mas toda a meia-brigada estava já da margem de cá e reforça e impele para o inimigo esses que retiravam num movimento de desalento.

- A artilharia ligeira da meia brigada não pode passar a ponte - veio dizer ao coronel Pego um oficial francês da bateria agregada aos portugueses.(1)

- Pois avançaremos sem artilharia. Os seus artilheiros que venham buscar os nossos feridos, já que não podem combater.

 

*1. Refere Castro Pereira, na sua História da Legião, que a cada um dos batalhões fora agregada uma força de artilharia com duas bocas de fogo.

 

A aldeia tornara-se um reduto inacessível, donde os austríacos, ao abrigo dos muros e das janelas, e por detrás dos carros amontoados à entrada da povoação, fuzilavam a seu sabor os atacantes. Dois canhões pequenos, assestados no terraço de um jardim, metralhavam horrorosamente os portugueses.

A meia brigada, já com mais de cem homens fora do combate, viu-se forçada a procurar o resguardo das árvores e umas pregas de terreno, junto a um caminho de ravina que ia para Wagram.

Grandjean mandou que as suas brigadas francesas, flaqueando a aldeia pela esquerda, fossem atacar as alturas onde se viam as barracas do acampamento austríaco, a divisão Frére subira já pela direita e a meia altura da colina havia travado combate com uma forte coluna austríaca.

As baterias inimigas faziam um fogo horroroso, de frente e de flanco, sobre as brigadas de Grandjean, a avançarem com admirável bravura.

Os chefes de batalhão da meia brigada, Ferreira e Stuart, realentavam os soldados aos gritos de avançar.

- Granadeiros! - gritou Castro à sua companhia - Os franceses subiram. Nós esbarramos aqui! Há-de dizer-se que os soldados de Portugal tiveram medo de morrer. Vamos! Diga cada um no seu coração o nome de Portugal e arranquemos para a frente. Ou vou eu sozinho, para morrer pela honra da 13.a meia brigada!

- Vamos todos! Vamos todos! - gritaram oitenta vozes das duas primeiras companhias.

Castro correu para o comandante:

- Coronel! - disse-lhe - Peço licença para atacar a barricada com os granadeiros que me quiserem seguir.

- Não lhe escapa um.

- Mas não se dirá que estacámos para aqui como poltrões.

- Vá! A meia brigada o seguirá para tomar a

aldeia.

Castro foi para a frente das duas companhias e mandou calar baioneta.

Avançou uma centena de passos, um pouco abrigado com uma ondulação do terreno. Mesmo assim uns quinze homens caíram logo, feridos ou mortos.

Fêz alto.

- Ainda mais alma, soldados! - disse, tirando do peito, convulsivamente, a bandeira que Maria Pulaski bordara. Cravou-a na ponta da espada e agitou-a no ar.

- A santa e gloriosa bandeira de Portugal! Branca, reparai, como as toalhas dos altares e como os cabelos de nossas mães.

«Granadeiros! Pela sua glória! Pela nossa honra!

E atirou-se para a frente, sob uma tempestade de balas. As duas companhias foram atrás dele num ímpeto leonino e tomaram de assalto a barricada.

Pela esquerda o 2.o batalhão investia também a aldeia denodadamente.

Mas em cima e para as bandas de Wagram alguma cousa anormal se estava passando.

Batida pela artilharia austríaca, uma brigada da divisão Grandjean retirava contra a outra, impelindo-a diante de si. Estava-se fazendo noite.

De súbito, ouvem-se gritos espavoridos dos lados de Wagram e um tropel enorme de cavalos.

Pego vem a correr segurar o 2.o batalhão e leva-o a marche-marche para a frente de Baumersdorf, que os austríacos principiavam a evacuar, acolhendo-se às suas posições do alto da colina. Algumas companhias apenas sustentam a retirada na rua larga da aldeia, contendo os granadeiros da companhia de Luís de Castro e mais duas que lhe tinham servido de suporte. Era admirável a intrepidez daqueles

adversários.

A gritaria aumenta. De repente, como se fosse uma levada a despenhar-se de serranias, duas brigadas francesas se esbandalham por ali abaixo numa carreira doida de terror, gritando:

- A cavalaria austríaca! - Os saxões trairam-nos!

- Soldados da 13.a meia brigada, firmes! - gritou o coronel Pego, de pé nos estribos.

- Retirem! - gritavam os fugitivos - A cavalaria!

- Formar quadrado! - bradou o Pego.

Oprimidos, mas sem hesitações, os soldados formaram quadrado. Na aldeia ainda estrondeava o tiroteio das companhias avançadas da meia brigada contra as últimas forças austríacas em retirada.

A seguir, dois batalhões saxónios, de escantilhão por ali abaixo, nuns gritos roucos de pavor. Bandos dispersos das tropas de Macdonald, de Lamarque, de Dupas vêem diante deles.(1)

Naquela penumbra opressora, na sugestão daqueles brados de espavorido alarme, com a corrente dos fugitivos a redemoinhar-lhe em volta do quadrado, Pego chegou a ter medo que os seus soldados noviços lhe fossem levados por ali abaixo e o quadrado se desfizesse como essas frágeis construções dos pendores das montanhas, que as levadas do inverno às vezes arrastam e desfazem.

- Firmes! Portugueses, firmes! - gritava incessantemente.

Êle bem sabia que às súbitas sugestões de pavor, num campo de batalha, nem os exércitos mais aguerridos conseguem manter-se indiferentes.

 

*1. Narrando aquela dispersão, que a noite bem depressa converteu em terror pânico, Thiers diz: «Elas (as tropas de Macdonald e Grenier) precipitaram-se acto contínuo para o sopé do plató, seguidas pelos saxões espavoridos, e deitaram a fugir numa desordem inacreditável.» (Histoire de l'Empire, Wagram, pág. 230 do tomo II.)

 

De mais a mais ali ninguém sabia a origem daquele espantoso terror.

Esvoaçavam em volta dos Portugueses uns vagos pavores de mistério, que se prestavam às mais desvairadas suposições. Alguns disseram baixo:

- Fogem todos! É porque derrotaram o Imperador!

Mas o quadro dos granadeiros noviços de Portugal ficou inabalável como um rochedo.

Subia a galope um ajudante-de-campo. Vinha do quartel-general de Berthier para se inteirar da situação, pois que já andavam dispersos pela planície muitos saxões e franceses.

Pego disse lhe o pouquíssimo que havia percebido. Em baixo os chefes das tropas em debandada também pouco lhe tinham podido informar.

- Creio que há coisas graves do lado de Wagram - disse o ajudante-de-campo - Dois batalhões saxões fizeram fogo por engano sobre as tropas do general Macdonald. Seria prudente retirar.

- Tenho três companhias ali dentro da aldeia. Não devo abandoná-las. Ouvi falar em cavalaria,

espero-a.

- Vou ver se essas companhias podem retirar. Coronel, felicito-o pela admirável firmeza e intrepidez dos seus soldados em tão excepcionais circunstâncias!

Deitou a trote para dentro da aldeia.

Foi dar com as companhias que Luís de Castro levara atrás de si a baterem-se com duas companhias heróicas de austríacos, que se defendiam entre as últimas casas da povoação.(1)

Mas viu agitar na frente dos portugueses uma coisa branca,

 

*1. Nas Memórias do Príncipe Eugênio, pág. 5 do tomo VI, D. Casse diz que as tropas de Oudinot se apoderaram da aldeia de Baumersdorf. Não diz quais.

Está neste ponto em desacordo com o general Pelet.

 

que a noite, embora clara, não deixava perceber bem o que era.

Não pôde avaliar de momento a situação daquelas tropas. Eram estrangeiras, podiam passar-se para o inimigo ou render-se. Havia precedentes nas próprias batalhas de Napoleão.

Na guerra hasteiam bandeira branca as fortalezas que vão capitular e as tropas que pedem tréguas ou se querem render. Naquele tempo era toda branca a bandeira de Portugal. Em dois saltos do cavalo o ajudante atravessou-se diante de Luís de Castro. Os granadeiros fizeram alto.

- Isso é bandeira para se entregar?

- Isto é bandeira para não fugir. É a bandeira do meu país, a santa padroeira de Portugal - disse-lhe com uma grande e comovida altivez.

Os soldados não entenderam por que a pregunta e a resposta tinham sido em francês.

- No Grande Exército só há uma bandeira: a da França com a águia de Napoleão.

- Nesta conjuntura excepcional era preciso que houvesse esta, para que a 13.a meia brigada não recuasse. É uma bandeira clandestina.

O oficial francês comoveu-se e disse-lhe brandamente:

- Sou ajudante-de-campo do marechal Berthier. Em seu nome vos ordeno que retireis. É preciso que a 13.a meia brigada retire também.

- Obedeço, mas deixai-me primeiro pôr fora daqui aqueles valentes. Dizei a sua alteza o Príncipe de Neufchâtel que os granadeiros portugueses não debandaram.

- Eu vi. Sois um bravo. Foram uns bravos.(1)

 

*1. Referindo-se à intrepidez admirável da meia brigada portuguesa no ataque de Baumersdorf, diz Castro Pereira na sua monografia já citada:

... e o ajudante de Berthier foi dar parte do que viu ao major-general, e escrevendo à sua família, que tinha relações com muitos dos portugueses que então se achavam em Paris, se exprimia assim: Enquanto uma divisão francesa fugia em debandada para evitar o fogo continuado do inimigo, um punhado de portugueses susteve-se firme e conservou uma posição cuja posse, etc.»

 

Castro mandou carregar à baioneta os soldados austríacos, já abalados. Retiraram então precipitadamente.

Tinham-se ouvido clarins, depois vozes de comando e uma estropeada enorme de cavalos, perto da aldeia. A seguir, descargas, os tambores num bater rápido, ligado, vibrante, como se fazia dentro dos quadrados quando estavam sendo carregados pela cavalaria.

- Capitão! - disse o ajudante de Berthier - O quadrado de meia brigada está sendo carregado!

- Pois vamos auxiliá-lo. Marche-marche!

Foi êle à frente. À embocadura da rua viu que, em baixo, no declive, a pequena distância, uns poucos de esquadrões carregavam o quadrado. Alguns deles eram da famosa cavalaria ligeira de Vincent.

Castro mandou meter em linha a três fileiras, muito encostadas ao muro da aldeia, a primeira fileira de joelho em terra e armas apoiadas no solo. Eram noventa granadeiros dos que êle trouxera para a frente. Os comandantes das forças restantes formaram pequenos quadros à direita e esquerda da linha, como se fossem redutos flanqueadores.

- Pontarias firmes! Aos cavaleiros, altas, por causa do quadrado! - gritou Luís de Castro.

Deu a voz de fogo. Estrondeou uma descarga, a seguir, o tiroteio dos dois pequenos quadrados. Caíram dos cavalos umas dezenas de homens.

Julgando-se cortados por alguma coluna francesa que houvesse tomado Baumersdorf os dragões deitaram à desfilada para as bandas de Wagram.

A larga distância dali, nas proximidades da grande aldeia, a divisão Dupas sofria um enorme revés.

Depois de terem feito prodígios, os mesmos soldados de leonina bravura foram também tomados de terror pânico e esbandalharam-se diante das cargas da cavalaria austríaca, que os perseguiu até ao Russbach.(1)

A divisão Lamarque, por momentos vitoriosa, com dois mil prisioneiros austríacos entre as suas colunas e cinco bandeiras tomadas, não pôde afinal resistir aos ataques desesperados da cavalaria de Vincent e dos couraceiros e dragões que o próprio Arquiduque arrojou contra ela, envolvendo-a. A heróica divisão cede, retira-se, desordena-se e vai de escantilhão até ao Russbach, perseguida sempre pela cavalaria do arquiduque Carlos, que fica ligeiramente ferido no meio daquele turbilhão confuso de homens e cavalos.

A 13.a meia brigada não podia manter-se isolada defronte da aldeia que tomara e que as baterias do alto da colina arrasavam, supondo-a ocupada por alguma divisão francesa.

- Agora, Coronel, é preciso retirar - disse-lhe o ajudante-de-campo, que assistira às cargas de dentro do quadrado - Seria temeridade inútil ficar aqui.

- Mas talvez passasse o terror e as brigadas dispersas se tenham reconstituído e voltem cá acima. Queira descer a encosta e veja se encontra forças que venham apoiar-me.

- Pois sim, vou, e eu mesmo procurarei reunir os dispersos, para o virem apoiar.

Saiu do quadrado acompanhado pelo Coronel.

 

*1. «As divisões de Macdonald e Oudinot foram vivamente perseguidas até além do ribeiro. A desordem da retirada comunicou-se às outras divisões que as apoiavam. Bem depressa (do que às vezes depende a sorte das batalhas e dos impérios!) esses soldados de tanta bravura viam-se numa retirada confusa pela planície fora». (General Pelet. Memórias da guerra de 1809, na Alemanha, pág. 192 do tomo IV).

 

- Entretanto, esperarei. Se ao fim de uma hora não aparecer ninguém retirarei então.

- Sim, Coronel. Eu participarei ao sr. Marechal esta espantosa heroicidade!

- Tenho ali muitos feridos dentro do quadrado. Bem viu. É um horror vê-los, é uma dor de alma ouvi-los! Peço-lhe que me mande para cima os artilheiros para os levarem ao fourgon da ambulância.

- Se os puder encontrar, mando-lhos imediatamente para cima. Coronel, saúdo em si esse espantoso punhado de valentes!

Fèz-lhe a continência e desceu a galope.

Passou meia hora. Ninguém. Ouvia-se bem ali a artilharia e o tropel da cavalaria, de vez em quando reboavam gritos de fugitivos que desciam doidamente pela ravina à esquerda, a meio quarto de légua do quadrado.

Não tinha cessado o fogo dos canhões austríacos, a montante da aldeia deserta. Ardiam algumas casas, outras desmoronavam-se.

- E aqueles demónios lá em cima a suporem que nos fazem mal! - dizia o coronel Pego para Luís

de Castro.

- Felizmente para eles, as últimas companhias que evacuaram a aldeia levaram os seus feridos.

- Eram muitos?

- Mais de cem, com certeza. Os mortos que eu vi não seriam menos de quarenta.

- Nós também aqui temos um horroroso número deles! - disse o Coronel tristemente, apontando mais de oitenta homens estendidos no espaço livre do quadrado, que se tinha alargado para os abrigar.

Suplicavam socorro os que ainda podiam gemer.

Alguns pareciam moribundos, outros mal soluçavam palavras sumidas de despedida, de saudade, nomes truncados de mães, de pessoas queridas, de aldeias de Portugal!

Tinha passado quási uma hora.

- Não chega ninguém! - disse baixo o Coronel - Cem homens de cada batalhão para irem levar os feridos até além da ponte do ribeiro - ordenou aos chefes do batalhão. Em braços, em cima das espingardas, como fôr possível.

Foi uma coisa dolorosa! O quadrado esvaziava-se, fazia-se pequeníssimo. Duzentos homens foram descendo lentamente, levando em braços, ou sobre as espingardas como varais de macas, ou amparando-se os menos desalentados, oitenta e três feridos.

- Os comandantes das companhias - ordenou Pego ao ajudante - que lhe digam o número dos que perderam.

O ajudante foi saber.

Fêz-se a conta dos que faltavam, incluindo os que se tinham perdido lá em baixo ao pé da ponte e os feridos que de lá tinham ido para as ambulâncias. Uma coisa lúgubre!

- Duzentos e trinta e sete ao todo - veio dizer ao Coronel minutos depois - Mortos e feridos, desde que atacámos a ponte até agora, e é conta ainda para rectificar.

- Quási a quinta parte dos mil e duzentos com que para cá viemos! Pudera! Combatemos a peito descoberto.

Aprumou se no cavalo e bradou:

- Soldados! Cumprimos o nosso dever gloriosamente. O quadrado nada pode fazer aqui. O quadrado retira.

Deu as vozes de comando para marchar e o quadrado desceu vagarosamente até ao Russbach. Ali mandou meter à ponte, desfilando por companhias. Na outra margem recebeu os soldados que tinham transportado os feridos até ao fourgon da ambulância. Ordenou que entrassem nas fileiras, mandou formar colunas de batalhões, e avançou serenamente

pela planície fora, em procura do seu corpo de exército.

- Passo curto! Passo curto! - gritava - Não vá alguém supor que a 13.a meia brigada vem fugida.

Ainda se combatia nas margens do ribeiro, muito para a esquerda da ponte de Baumersdorf.

Sentia-se, principalmente, a tropeada da cavalaria francesa a carregar a infantaria inimiga, que nalguns pontos passara àquem do Russbach pelas pequenas pontes.

Por entre as sombras ténues daquela noite de Julho, sob um céu calmo, crivado de estrelas, viam-se ao longe as massas dos couraceiros como turbilhões de cavaleiros fantásticos numa visão de lenda. Ressoavam por aqueles campos vastíssimos gritos roucos de comando, os ajudantes-de-campo cruzavam-se em todas as direcções à desfilada, levando ordens, procurando arrebanhar fugitivos, para reconstituir batalhões, regimentos, brigadas.

Algumas divisões só pararam ao pé da Guarda Imperial e só ali puderam ser contidas e reorganizadas.

Napoleão percorria agora o campo com o marechal Bertier e o general Oudinot, para realentar os espavoridos e apressar a reconstituição das divisões, que tencionava mandar bivacar em frente da linha do Russbach.

Mas a confusão era espantosa. Havia núcleos reconstituídos, que tinham companhias das divisões de Grandjean e Frère, de Dupas e Lamarque, de Macdonald e dos saxónios do corpo de exército de Bernardotte! Na sua admirável serenidade de chefe, Napoleão encobria naquela hora os receios e os desesperos maiores da sua vida nos campos de batalha.

- Que bestialidades e que vergonha! - ia dizendo baixo a Oudinot - Se os austríacos percebem bem esta debandada, este estúpido terror!... Se eu estivesse no lugar do arquiduque Carlos, a França sofreria hoje, fatalmente, o maior dos seus desastres militares!

Mas a sua estrela fulgia ainda prodigiosa.

- E aqueles teus portugueses, Oudinot? Sumiram-se? Ou passaram-se?

- Mandei um dos meus ajudantes a Baumersdorf e ainda não veio! - informou Bertier - Devia tê-los visto!

nunca vi semelhante coisa em exércitos que eu comandasse! Mas que gente é aquela que vem ali?! Umas pequenas colunas. Inimigos não marchavam com aquela lentidão, como se fosse num campo de exercício! Se é o núcleo de alguma brigada francesa, então houve aqui uma grande e consoladora excepção e eu mando-lhe pôr nas águias a mais alta insígnia da Legião de Honra.

- Sire, sabe se já - disse Oudinot, atirando o cavalo para a frente.

Napoleão deitou também o cavalo para diante.

- Que brigada ou que regimento vem aí? - gritou Oudinot a cinquenta ou sessenta passos da coluna.

Pego ouviu, o tom da pregunta era de quem podia mandar, viu a pequena distância os vultos de muitos cavaleiros, eram, provavelmente, do estado-maior de algum dos generais em chefe, talvez do próprio Imperador, e esporeou o cavalo para a frente.

- É a 13.a meia brigada do 2.o corpo - respondeu alto.

- Donde retira? - preguntou Napoleão avançando para ele.

A figura do Imperador era inconfundível. Pego conheceu-o logo.

- Sire, da aldeia de Baumersdorf, que tomámos, e da encosta onde repelimos a cavalaria austríaca.

- Quem viu?

- Sire, um ajudante-de-campo do sr. Marechal Berthier, que ficou à retaguarda a arrebanhar fugitivos - respondeu o Pego firmemente, melindrado por aquela dúvida - De cá não havia mais ninguém que nos visse.

- Fugitivos dos seus? - preguntou o Imperador secamente.

- Dos meus, Sire, só faltam duzentos e trinta e sete. Mas esses morreram ou ficaram feridos.

- Porque retirou?

- Porque à frente de mil homens não podia manter-me isolado para além do Russbach. E esperei ainda uma hora, depois de já não haver austríacos na aldeia e de ter repelido do meu quadrado a cavalaria inimiga. Ninguém voltava para me apoiar, retirei.

- Foi mais afortunado que outros.

- Diz Vossa Majestade uma grande verdade. Tive a rara fortuna de comandar aqueles soldados.

- Terão o prémio que merecem - volveu-lhe Napoleão de mau humor -, Volte para a margem de cá do Russbach, tome posições, bivaque em frente da ponte.

- Para onde Vossa Majestade quiser. Mandou dar meia volta, a marche-marche, e foi

tomar posição para cá da ponte, ao longo do ribeiro, e ali bivacou.

Tempos depois Oudinot passava, chamou-o e fêz-lhe um caloroso elogio.

Carcome Lobo e o conde de Sabugal destacaram-se do estado-maior do general e foram abraçar o Coronel.

Eram quási onze horas quando os granadeiros, enfim reconstituídos, estabeleceram o seu bivaque para cá do ribeiro, defronte de Baumersdorf e de Nensidel.(1)

Velavam,os postos avançados e as sentinelas dos bivaques. À retaguarda, o Grande Exército adormecera. Homens de várias procedências, de raças diversíssimas, quantos não sonhariam ali uns sonhos de saudade pelo seu lar distante, de glória pelo dia da grande batalha inevitável? E quantos, num palpite de morte, num pesadelo trágico, a verem que se lhes apagava no sonho a visão da pátria, onde nunca mais poderiam voltar?

Alta noite e na tenda do Imperador ainda havia luz. Napoleão dormia pouco e naquela noite precisava de esclarecer os seus marechais àcèrca da batalha, da maior batalha de toda a sua vida de triunfador. Frente a frente, estavam ali trezentos mil homens que haviam de transformar num campo imenso de morte aquelas colinas e planuras ridentes, atapetadas de trigais e de flores.

No bivaque dos portugueses alguns oficiais conversavam, deitados no chão.

- Está remido da sua caluniosa fama de cobardia o exército português de 1807! - dizia o Castro - Eu nem me atrevia a sonhar com tão extraordinária intrepidez de ânimo! Naquelas excepcionais condições, nem os mais antigos soldados da Guarda Imperial, os de trinta batalhas triunfais, seriam capazes de exceder a firmeza heróica dos nossos!

 

*1. «Pelas 10 horas o fogo cessou.»

«As tropas do exército francês estabeleceram o bivaque nas posições em que o combate as havia deixado.»

«O 3.o corpo estava para cá de Glinzendorf, o de Oudinot em frente de Neusiedel e Baumersdorf, etc.»

(General Pelet, Memórias citadas, tomo IV.)

 

Podem ter orgulho disto os que em Portugal, nossos compatriotas, nos supõem talvez traidores.

- Pois sim, mas há-de ver que nem a ordem do dia de Oudinot nem o Boletim do exército hão-de dizer palavra a nosso respeito.

- Será uma injustiça - volveu Luís de Castro - mas creiam que estou contando com ela e na minha própria consciência a vou explicando e quási absolvendo.

- Porquê?!

- Porque somos estrangeiros de um país pequeno que está em guerra com a França e tem por aliados os maiores inimigos de Napoleão, os seus vencedores no mar. A citação especial dos nossos batalhões na ordem do dia ou no Boletim, em lance de tão grande vexame para uma parte do Grande Exército, havia de parecer uma glorificação da nossa raça a desdourar esses que tãem sido o assombro da Europa. Louvar-nos a nós seria deprimir aqueles que não puderam imitar-nos, embora o mundo saiba que, a muitos deles, não é fácil igualá-los em bravura, quanto mais excedê-los.

- Não, Oudinot já nos louvou, êle próprio, falando com o Coronel - objectou um colega de Castro.

- Bem sei. Louvor de palavras honrosíssimas, mas faz diferença, uma enorme diferença do outro que podia aparecer na ordem do dia ou no Boletim. Esse de palavras calorosas, que o vento leva, sabemo-lo nós, os elogiados, mas talvez o mundo duvide dele, se nós lho repetirmos. Ao outro teriam de lê-lo e ouvi-lo também as outras tropas, a quem iria ferir pelo contraste entre o seu e o nosso procedimento, mas saberia dele a Europa. Não vale a pena sonhar coisas acima dos interesses e das paixões egoístas dos homens. Um dia se contará a verdade, serenamente. Por agora basta que se saiba que não era de poltrões esta meia brigada que Napoleão encorporou nos seus exércitos.

- Foi pena que a divisão nos não desse apoio! íamos para cima dos austríacos, tomava-se-lhes o acampamento e agúentávamo-nos lá.

- Graças àquela bandeira, Capitão, a santa Padroeira de Portugal, como disse ao ajudante de Berthier. Os soldados já sabiam do achado da bandeira.

- Já sabiam!

- Já. Dois ou três a viram tirar de entre a rouparia de um baú arrombado. O que ninguém sabe é como ela ali foi dar!

- Era destinada ao meu antigo regimento. Começou a ser bordada em Lisboa por mãos de uma senhora estrangeira, natural da Polónia.

- Já imagino qual - disse um que fora padrinho do Castro no duelo com João Pulaski.

- Deves imaginar.

- Sei quem era. Tinha-a visto duas ou três vezes em Santos. Uma rara formosura!

- E essa dama saiu de Portugal e veio para aqui?! - preguntou o outro.

- Veio. Aquele palacete acastelado que tomámos aos austríacos, próximo de Sachsengang, é de um tio seu.

- E foste lá dar com a bandeira! Parece uma invenção de novelas.

- Na chacina de amanhã talvez nos faça falta, se não consentirem que a levantes diante dos teus granadeiros.

- Se fôr preciso, levanto-a, sejam quais forem as consequências para mim. Levo-a comigo, e vai aqui dobrada - disse, metendo a mão debaixo do capote.

- Eu ainda a não vi.

- Nem eu.

- Castro, dá-nos o consolo de a ver.

- Da melhor vontade.

Levantou-se, levantaram-se. Desabotoou o capote, tirou-a do peito, desdobrou-a comovidamente.

- Trago-a comigo num fervor de crente que houvesse guardado a mais santa relíquia do seu altar mais querido...

Tomaram-na todos nas mãos com religiosa veneração, os olhos rasos de lágrimas.

Sob a ténue claridade daquele céu de Julho, recamado de estrelas, as bordaduras refulgiam.

- Bordada a ouro -disse um.

- Bordada de lágrimas, que só eu vejo e sinto - acudiu o Castro enternecidamente.

 

               A maior batalha.

Os primeiros alvores da madrugada esbatiam-se no horizonte. Passavam alto grandes bandos de pássaros, uma brisa fresca fazia ondear os trigais cor de oiro.

Napoleão já estava a cavalo. Horas antes havia ordenado aos seus marechais que pusessem em armas as suas tropas, logo que rompesse o dia, mas que deixassem aos austríacos a iniciativa da batalha. Entretanto, o objectivo de cada corpo de exército ficara indicado. O marechal Davout e Oudinot com os seus granadeiros deviam aposSar-se das alturas de Neusiedel e Baumersdorf, convergindo depois para Wagram, o exército do Príncipe Eugênio, os saxónios de Bernadotte e as tropas de Marmont investiram o centro do exército inimigo contra Wagram, na esquerda Massena conteria os austríacos desde Aderklaa até ao Danúbio, enquanto não fosse possível tomar a ofensiva. Os bávaros, a Guarda imperial e a cavalaria pesada, ficariam em reserva.

Desde a alta madrugada que se percebiam grandes movimentos de tropas do lado dos austríacos.

Amanhecia. Estavam já debaixo de forma todas as tropas francesas e os seus auxiliares. Napoleão percorreu a cavalo a linha de batalha. Cria na vitória, na sua estrela, como êle dizia, mas percebia-se-lhe uma certa comoção excepcional. Ia travar-se a sua maior batalha.

Conforme o costume, passava observando com o seu olhar de águia, dizia frases entusiásticas, lacónicas, aos soldados que o vitoriavam, parava por vezes, para falar aos marechais ou para notar melhor uma brigada ou regimento que mais se houvessem enobrecido em combate.

Ia em frente do corpo de Oudinot.

- Coronel! - disse, chamando o comandante dos portugueses.

O Pego avançou para êle, aprumado no cavalo, e abateu a espada.

- Estou satisfeito com o procedimento da sua meia-brigada. Deram ontem um glorioso exemplo. Espero que sigam.

E meteu para diante a trote. Pego voltou para a frente das suas tropas e reproduziu alto o louvor de Napoleão.

- Valem muito por serem dele aquelas palavras - observou Castro a Cândido Xavier -, mas ficam ainda abaixo do que a nossa gente mereceu.

! Já sabemos que o general Carcome estava com o estado-maior de Oudinot. Nem o Marquês de Alorna nem Gomes Freire entraram naquela campanha, por motivos independentes da sua vontade. As divisões do Grande Exército lá tinham os seus respectivos comandantes e não era àqueles tenentes-generais que se havia de dar o comando de uma pequena meia brigada como era a dos portugueses.

Alorna fora mandado, havia largos meses, para o estado- maior do Marechal Soult e teve de o acompanhar na sua entrada em Portugal.

Eram 4 horas. Os austríacos tomavam a ofensiva contra a direita francesa. O príncipe Rosemberg descia com as suas tropas nas alturas de Neusiedel, atravessava o Russbach e atacava impetuosamente o corpo de Davout, em Grosshofen e Glinzendorf.

- A festa é por ora com o corpo de Davout - disse Cândido Xavier para Luís de Castro.

A impetuosidade dos austríacos quebrou-se contra a inexcedível bravura dos franceses. O fogo era violentíssimo, a artilharia trovejava, as baionetas francesas faziam prodígios. As duas grandes colunas austríacas, repelidas de Glinzendorf e Grosshofen, eram levadas de vencida contra o Russbach.

Caía sobre elas em turbilhões a cavalaria ligeira do general Montbrun, os dragões de Grouchy, os couraceiros de Arrighi e de Nansouty.

Novo e mais impetuoso ataque do Príncipe de Rosemberg, mais vigoroso contra-ataque dos franceses, e os austríacos tiveram de ir tomar posições para lá do Russbach, nos declives de Neusiedel.

Napoleão manda tomar a ofensiva. As divisões de Davout avançam contra Neusiedel. A cavalaria abre clareiras sangrentas nas colunas da infantaria inimiga.

Os franceses estão quási senhores daquelas alturas. Um ajudante-de-campo de Napoleão vem a toda a brida trazer ordem a Oudinot para atacar as alturas de Baumersdorf. O exército do Príncipe Eugênio recebera ordem para investir Wagram.

- Agora é connosco - observou Cândido Xavier.

- Se eu morrer - disse Luís de Castro em voz baixa ao tenente da companhia - tirem-me a bandeira que levo comigo. Lego-a aos valentes da nossa meia brigada. Vá-o dizendo aos outros oficiais.

Num brado vibrante o Coronel Pego deu a voz de avançar.

- Os granadeiros! - disse Luís de Castro marchando à frente da sua companhia - Vamos lá tomar outra vez Baumersdorf. Combatei como ontem, e cobrireis de glória o vosso nome de portugueses. Era já medonha a canhonada e a fuzilaria em toda aquela imensa linha de batalha, e de mais de três léguas, de um e outro lado trezentos mil homens e mil e cem canhões.

Avançava o corpo de Oudinot, quando ajudantes-de-campo em vertiginosa desfilada, uns após outros, vêem trazer a Napoleão informações graves de Bernadotte e de Massena. O Príncipe de Ponte-Corvo não pudera sustentar com os saxónios as suas posições de Aderklaa. Com dezoito mil homens apenas a repelir os ataques de sessenta mil austríacos, o Príncipe d'Essling tivera necessidade de se concentrar à retaguarda da sua primitiva linha.

Muito contundido ainda daquela queda que dera do cavalo abaixo em Lobau, envolvido em compressas, Massena dirigia o combate dentro de uma caleça descoberta. As suas tropas tinham praticado assombros, o ânimo intrépido daquele marechal invencível dera-lhes estímulos para espantosas bravuras, mas as suas quatro pequenas divisões não podiam já agúentar-se naquele combate desigualíssimo de um contra quatro.

Napoleão meteu a galope. Ia combinar com Massena o modo de sustentar a esquerda da sua linha e abrir brecha no centro da linha austríaca, enquanto Davout e Oudinot se apossavam de Neusiedel e Baumersdorf.

Tomava proporções horrorosas o combate entre as tropas de Davout e as do Príncipe de Rosemberg. Vence o marechal francês.

Os granadeiros de Oudinot vão contra as divisões de Hohenzolern, investem a povoação de Baumersdorf, ocupada pelos austríacos durante a noite, investem-na debaixo de um fogo vivíssimo, tomam à baioneta a ruazita da aldeia e sobem ao cabeço que os austríacos defendem com desesperada intrepidez.

- Um dilúvio de balas! - disse Cândido Xavier para Luís de Castro, quando subiram por uma vereda para o plató.

- E estes nossos soldados admiravelmente! - volveu-lhe o Castro - Os antigos teriam inveja deles. Portugal pode orgulhar-se por estes filhos seus.

Desceu contra eles uma brigada austríaca. Cândido Xavier mandou carregar à baioneta.

- Como ontem, granadeiros! - gritou o Castro, atirando-se com a sua companhia contra a testa de coluna de um regimento.

Foi uma carniçaria espantosa, mas os granadeiros de Oudinot tomaram enfim as posições austríacas. A divisão Tharreau, da vanguarda do 2.o corpo, marcha contra a aldeia de Wagram, que nem o exército da Itália nem os saxónios de Bernadotte haviam podido tomar. A divisão Frère apoia este novo ataque, a de Grandjean com a 13.a meia brigada avança acompanhando as duas.

Dão-se cargas de baioneta espantosas, aprisionam-se dois batalhões austríacos, outros retiram esbandalhados. Em frente de uma bateria austríaca, carregada de flanco por um troço de hússares, a vanguarda dos granadeiros hesita.

Castro manda formar quadrado à sua companhia com a imediata, cujo capitão já tinha caído morto.

As perdas são enormes para tão pequena força. Cerca de sessenta mortos e feridos.

Vendo a sua cavalaria a envolver o pequeno quadrado, em que as outras companhias da meia brigada se apoiam, fazendo frente aos ataques de baioneta de um regimento, o general austríaco manda calar a bateria, para que não metralhasse as suas próprias forças.

- Lembrai-vos de Portugal! - bradava o Castro no meio do seu minúsculo quadrado -, Suponde aqui, por cima de nós, a bandeira que ontem glorificastes.

E a repelir as investidas formidáveis dos hússares, o pequeno quadrado avançava, seguido pelas companhias, servindo como de reduto para um dos flancos.

Livre enfim da cavalaria que repelira, o quadrado dos portugueses desenvolve-se em linha e toda a meia brigada, já em coluna, ataca à baioneta um grande quadrado austríaco, já abalado pelas cargas dos dragões franceses, naquele momento travados em combate com os hússares do Príncipe de Hohenzollern.(1)

Oudinot estava ligeiramente ferido.

Entretanto, os couraceiros de Bessières faziam derruir na planície as massas formidáveis da infantaria austríaca.

Sentiu-se um ribombar espantoso, via-se pelos ares uma nuvem densa, enorme de fumo.

Era uma formidável bateria de cem canhões, a artilharia de Druot e Daboville, a artilharia da Guarda, que estava abrindo brecha no centro da linha austríaca. A meia brigada assaltara o grande quadrado como se assaltasse um reduto.

Os austríacos cederam. Vieram depois sobre eles outras forças da divisão Grandjean, e retiraram precipitadamente. A divisão Tharreau estava também vitoriosa.

Tomara-se, enfim, Wagram. Era meio-dia.

Na esquerda, a vitória coroava também os esforços dos franceses. Havia ainda uma série de acções, mas pelas três horas a retirada dos austríacos era geral em toda a linha.

 

*1. No seu relatório da batalha, Oudinot diz que foi admirável o ataque da divisão Grandjean pela estrada de Nicolsburg e que alguns quadrados austríacos foram rotos à baioneta.

 

Perseguidos pelas tropas de Davout e Oudinot, os corpos de exércitos de Rosemberg e Hohenzollern retiravam sobre Blockfluss.

Estava ganha a batalha, então a maior que exércitos regulares tinham pelejado.

Mas até às quatro horas da tarde ainda se bateram em pequenos combates, perseguidos e perseguidores.

Em cargas formidáveis, os dragões e os couraceiros da Guarda escancaravam a golpes de espada brechas enormes nos quadrados inimigos em retirada.

Com os seus trezentos e tantos homens, a cavalaria portuguesa também teve uma parte distinta naquelas cargas, arrojada contra uma coluna austríaca pelo ânimo valoroso do Marquês de Loulé.(1)

Nos ares, ainda enevoados pela fumarada da artilharia, vibram hinos triunfais, revoam clamores de vitória a repercutirem-se por aquelas colinas e planuras, embebidas de sangue, semeadas de destroços, atravancadas de cadáveres dos regimentos que a metralha derribou, dos quadrados que as espadas chacinaram.

 

*1. Referindo-se à cavalaria portuguesa, Teotónio Banha diz na sua monografia: «A cavalaria esteve em linha durante a batalha, perdendo nesta posição dez homens, mortos e feridos por artilharia. Perto das 4 horas da tarde carregou por escalões uma brigada que, marchando de costado, pretendia socorrer uma outra, quási envolvida pelos franceses, empregada então a cavalaria portuguesa, a ligeireza dos seus cavalos obrigou aquela força, depois da primeira descarga, a reunir-se em alguma confusão ao corpo de que era destacada, resultando que a brigada que pretendia socorrer depôs as armas, ficando toda prisioneira, nesta carga a nossa perda foi de quatro oficiais inferiores e vinte e dois soldados, etc.»

 

Flamejam ainda os trigais que as buchas das espingardas incendiaram. Vinte aldeias ardiam, semi-arrasadas pela artilharia.

Mas cem mil vozes aclamam o Imperador que passa.

- Vive l'Empereur!

E este grito, a revoar de divisão para divisão, até à extrema esquerda daquela linha de três léguas, devia ter chegado como um eco doloroso até aos palácios e às torres altas de Viena, donde desde manhã duquesas e mulheres da plebe, príncipes e burgueses obscuros, tinham visto, ora em olhares radiantes de esperança, ora num olhar amargurado de desalento, aquele espectáculo tremendo de uma batalha colossal. A duas ou três léguas, a divisarem apenas por entre a neblina da pólvora, colunas de homens que se chocavam, brigadas que a metralha esfarrapava, regimentos mutilados, divisões esmagadas por avalanches de couraceiros em que o sol de Julho punha umas cintilações deslumbradoras!

Vêem recolhendo carros cheios de feridos, macas das ambulâncias e macas improvisadas com espingardas e ramos de árvores. É faina para não acabar senão de noite aquele transporte dos feridos! E ainda não passaram da primitiva linha da batalha. Para além das posições tomadas aos austríacos ainda há o campo dos combates episódicos, epílogo sangrento da luta.

Ali ainda ninguém fora ver os mortos, dali havia feridos que não podiam voltar e aos quais ainda ninguém fora levar socorro.

Em volta da 13.a meia brigada adensara-se uma grande e trágica sombra de tristeza. Faltavam muitos, era avultadíssimo o número dos feridos.

O Grande Exército, com os seus cento e trinta mil homens, tivera dezoito mil mortos e feridos. Os austríacos haviam tido uma perda de vinte e quatro mil, fora os prisioneiros(1), mas da meia brigada portuguesa estavam mortos ou feridos quatrocentos e cinco(2). Duzentos e trinta e sete no primeiro combate de Baumersdorf, duzentos e dezoito naquela batalha de Wagram, e o efectivo total com que entrara nas duas acções não passava de mil e quatrocentos homens!

Perdera nos dois dias quási um terço da sua força!(3) E admira-se Thiers de que um regimento francês de 2500 homens houvesse tido naquela batalha 500 mortos e feridos, a quinta parte da sua força total!

Não soube deles ou esqueceu aqueles três pequenos batalhões estrangeiros que se tinham arrojado com intrepidez contra as baterias e os regimentos austríacos.

Proporcionadamente foi daquele sangue estrangeiro o sacrifício maior na mais colossal das batalhas que Napoleão comandara.(4)

Anoitecera. Tinham-se estabelecido os bivaques. Estava de luto o primeiro batalhão português. Sofrera graves perdas, mas eram duas as de maior mágoa, que todos sinceramente lamentavam.

 

*1. São as perdas totais designadas por Thiers.

  1. São as perdas dos portugueses mencionadas na monografia de Castro Pereira.
  2. Pelos mapas oficiais, resumidos na obra do sr. Boppe, a meia brigada portuguesa tinha no 1.o de Junho de 1809 uma força efectiva de 1401 homens, em 20 de Julho, catorze dias depois da batalha de Wagram, estava reduzida a 1053 homens em serviço. E muito provavelmente já tinha então nas fileiras algumas dezenas dos que haviam sido mais ligeiramente feridos e cujo curativo não levaria mais de uma semana.
  3. Refere Marbot que naquela mesma tarde Napoleão mandou o bastão de marechal aos generais Oudinot, Macdonald e Marmont.

Sainte-Croix, ferido na batalha, foi promovido a general de brigada. Tinha dois meses de coronel.

 

Cândido Xavier desaparecera. Havia uns soldados que o tinham visto cair do cavalo abaixo, mas, num revoltear da luta, o haviam perdido de vista.

Da primeira companhia de granadeiros faltava também o capitão Luís de Castro. Contava um sargento da companhia que o vira combater sozinho com um oficial a cavalo, muito alto, que não tinha uniforme como os outros couraceiros austríacos que deram uma carga sobre a companhia.

E explicava que na pressa e na confusão com que se formou o quadrado, completamente o esquecera e nunca mais o tornou a ver.

Dizia isto a chorar. De olhos rasos de lágrimas todos os soldados da companhia pediram que os deixassem ir procurar o seu capitão, para saberem se êle tinha morrido.

O chefe interino do batalhão não quis aceder a este pedido.

- Provavelmente morreu -disse ao sargento que lhe foi falar em nome dos soldados -, e, para ir procurar essa triste confirmação, bastará que amanhã vão lá dois ou três. De dia muito mais facilmente o podem encontrar. Vá-se embora, e aconselhe-os que não pensem mais nessa tolice de irem em procissão à procura de um morto. Será severamente castigado quem quer que se ausentar do bivaque.

O sargento foi repetir esta resposta aos soldados.

- E se estiver ferido sem poder voltar? Se ninguém der por êle, morrerá ao desamparo! - soluçou o João Luís, a chorar como uma criança.

- Não sei, rapaz! Não sei que te faça! - volve-lhe o sargento -, Também eu lá ia de boa vontade: mas já te disse a resposta que tive, e o nosso Coronel não perdoa a ninguém. Eram capazes de nos considerar desertores em frente do inimigo e cá nos esperava um conselho de guerra para nos mandar fuzilar.

Os soldados foram tristemente para a linha do bivaque.

Envolveram-se nos capotes, deitaram-se no chão, com uma tamanha mágoa como se a cada um deles houvesse morrido um irmão.

- Mal empregado! - murmurou um tambor - Tão novo ainda, de tão boa alma, valente como as armas, aquele nosso Capitão!

- Não tornamos a ter outro assim! - acudiu dali um cabo que se deitara ao pé do tambor.

- Mas, se o mataram, foi depois da batalha vencida. Eu ainda o vi para lá de Wagram.

- Havia de ser quando perseguíamos os austríacos e os couraceiros nos embrulharam em tanto aperto, que nem sei como fomos capazes de formar quadrado!

- Aquilo é que era um rapaz!

O João Luís não se deitou. Ficou sentado no chão, com os cotovelos sobre os joelhos e a cabeça entre as mãos.

Soluçava.

- João, não te deitas?! - preguntou-lhe comovidamente um dos seus camaradas mais íntimos.

- Não. Estou a esperar que amanheça... para ir à descoberta. Quero saber se a morte levou aquele que foi o benfeitor da minha velhita e da minha irmã entrevada.

Dali a instantes reinava profundo silêncio no bivaque.

E o João Luís lá estava de olhos vagamente postos, ora nos farrapos de fumo que ainda esvoaçava nos ares, ora nas chamazitas dos trigais que se consumiam ao longe.

De quando em quando voavam lentamente, aos bandos, num vôo alto, as aves de rapina e davam uns gritos roucos que o faziam estremecer.

- Vão à carne morta! - disse consigo o João Luís num confrangimento do coração.

Alta noite, cálida e serena. Numa planura muito para além de Wagram outro bivaque, lugubremente silencioso, horrorosamente singular! Homens e cavalos amontoados ao pé uns dos outros, soldados de nacionalidades rivais, aqui um grupo sobre uma carreta esmigalhada, ali um húngaro abraçado à bolada de uma peça caída, acolá um hússar debruçado sobre um granadeiro em pedaços, fileiras caprichosas de homens em posições violentas, contorcidos, rostos lívidos, num esgar final de dor e de ódio.

Centenas assim! Um regimento, uma brigada? De muitos regimentos, de muitas brigadas, de raças diversas é que eles eram.

Adormecidos no sono de que nunca mais se acorda, naquele bivaque da morte, sobre uma laguna de sangue!

Nem todos mortos. Alguns feridos tinham podido arrastar-se dali para fora, mas um ficara como sentinela perdida daquele sinistro bivaque.

Uma bala ferira-o num pé, um estilhaço de granada contundira-lhe fortemente a espádua direita, outro matara-lhe o cavalo e o pobre cavaleiro caíra, ficando ao abandono.

Tentara sair dali. Não podia. Apenas conseguiu avançar de rastos até uma pequena distância e logo perdeu as forças. Ficara horas depois sem dar acordo de si. Tinha o uniforme da 13.a meia brigada. Era Cândido José Xavier, chefe do primeiro batalhão.

Ia para a madrugada. Era mais de uma hora. A lua nascera. Crescente minúsculo de escassa luz punha uma penumbra de dó em tudo aquilo. Volvido algum tempo, coisa de uma hora, recobrou alento e fêz nova tentativa para sair daquele pavor.

Só arrastando-se, e, mesmo assim, com doloroso esforço, o pobre ferido poderia talvez ganhar a distância de algumas dezenas de passos.

De mãos firmadas no solo, ergueu o tronco. Era desanimador! Aquela várzea de mortos tinha uma largura de milhares de passos. Não lhe chegaria às extremas, por maior esforço que fizesse! E depois para que lado, sem cair em poder do inimigo?

Desorientara-se. Não sabia em que direcção lhe ficava o Grande Exército.

O céu estava constelado de estrelas, mas tudo aquilo tinha uma grandeza lúgubre, esmagadora. Subiu mais a prumo um clarãozito do luar, ainda mais sinistro aspecto em tudo aquilo!

A dois palmos dele reluzia o peito de aço de um couraceiro austríaco, esfrangalhado por uma bala de artilharia, a poucos passos, do outro lado, um granadeiro da sua meia brigada num esgar medonho de estertor que se imobilizara, como se o tivessem modelado numa máscara de cera.

Se pudesse arrastar-se ainda, ao menos, para alguma clareira naquela ceifa de homens?

- Um horror, isto! Esqueceram-me! Se avançaram, aqui fico, Deus sabe até quando!

Um bando de corvos, a crocitarem numa avidez faminta, desceu subitamente, de asas palpitantes sobre as carnes espedaçadas do couraceiro.

Sentiu um arrepio de repulsão. Gritou-lhe. Levantaram vôo, surpreendidos, mas logo baixaram com mais impetuosa avidez e outro bando foi cair sobre a cabeça do granadeiro.

Num repelão de horror, Cândido Xavier afastou-se dali. Nem era já a dor dos ferimentos o que êle mais sentia.

Quinze ou vinte passos de distância vencida de rastos e outra vez lhe faltaram as forças. Relanceou casualmente o olhar para um soldado francês, estendido ali ao pé. Notou-lhe a cabaça que trazia a tiracolo.

Talvez tivesse aguardente - pensou. Deitou-lhe a mão, desafivelou-a da correia com uma certa repugnância supersticiosa. Era pesada, estava quási cheia, provavelmente. Destapou-a. Tinha aguardente. Bebeu uns golos: reanimou-se.

Voltou-se, deitou a mão a uma carreta partida, a ver, ao menos, se encontrava onde pudesse encostar-se, para descobrir mais longe, e chamar por alguém que passasse, mas reparou num oficial estendido ao pé da carreta. Gotejava-lhe sangue de uma ferida na cabeça, tinha os olhos cerrados. Vestia o uniforme da meia brigada portuguesa.

Examinou-o mais de perto e reconheceu-o.

- Castro! Luís de Castro! - exclamou -, Morto? E arrastou-se mais para êle. Palpou-lhe o rosto.

Sentiu-lhe ainda o calor da vida. Tateou-lhe o pulso.

- Vive ainda!

Notou-lhe a farda desabotoada. Ao pé um pedaço de estofo branco, manchado de sangue, a mão direita sobre êle. Reparou, compreendeu o que era.

- A bandeira portuguesa de Baumersdorf! - disse enternecidamente.

Puxou-a. Da mão do ferido caiu um medalhão. Cândido Xavier não reparou nele. Mas nós sabemos

que esse medalhão encerra a miniatura de Maria Pulaski. Acompanhava-o sempre, trazia-o sobre o coração como os devotos de mais fervorosa fé trazem ao peito a santa relíquia de maior devoção. Tateou-lhe a cabeça, toda empastada de sangue.

- Uma cutilada, provavelmente. Perdeu muito sangue. Este que se lhe empastou impediu decerto um escoamento mortal. Sem sentidos, quem sabe quanto tempo? Mas aqui, privado de recursos, o que hei-de fazer-lhe? Creio que ainda tarda a manhã. Não virá ninguém até que rompa o dia. Morre aqui ao abandono.

Lembrou-se então da aguardente. Procurou a cabaçazita, destapou-a, deitou um gole na boca semi-aberta do ferido, depois umedeceu os dedos e friccionou-lhe as fontes. Castro teve um ligeiro estremecimento, gemeu dèbilmente.

- Luís de Castro! Luís de Castro! - chamou Cândido Xavier, numa voz dolorida, inclinado para êle.

O ferido descerrou um pouco os olhos, lentamente.

- A bandeira... - murmurou.

- Temo-la aqui.

E, como se estivesse num delírio de febre ou num pesadelo de sonho, acrescentou dèbilmente:

- Maria!... O cossaco... Platow! Descerrou mais os olhos e fitou-os muito no rosto

de Cândido Xavier. Parecia fazer um esforço para compreender aquela situação.

- Sou eu, Cândido Xavier, ferido também.

- A meia brigada...

- Sim, a 13.a meia brigada coberta de glória.

- Água... sede.

- Não tenho para lha dar e não posso sair daqui. Castro, veja se pode suportar a sede. Temos que esperar que amanheça.

- Sede... mortal!

- E ninguém que nos acuda! - pensou Cândido Xavier amarguradamente.

- Água! - instou num murmúrio de súplica.

- É desesperador isto! - disse Cândido Xavier.

- Morro... de sede!

Cândido Xavier levantou a cabeça e escutou num alvoroço de júbilo inexcedível.

Parecia-lhe que tinha sentido passos. Escutou. Não ouvia rumor nenhum!

- Engano da minha vontade, desgraçadamente!

- Por piedade!... água!... para morrer. Mas Xavier tornou a sentir passos.

- Não, agora, não é engano! - disse, alteando o tronco. E gritou:

- Acudam! Um ferido ao abandono. Sentiu correr.

- Aqui vem quem acuda - responderam em português. E depois como a chamar:

- Sr. capitão Luís de Castro!

- Está aqui - disse Cândido Xavier.

- Água... piedade!

Um granadeiro da meia brigada galgou em pulos enormes por cima de uns grupos de cadáveres.

- O meu Capitão! O meu Capitão! - gritava comovido. Era o granadeiro João Luís.

- Meu chefe! - disse, reconhecendo Cândido Xavier - Procurava o sr. capitão Luís de Castro.

- Aqui - respondeu Cândido Xavier. João Luís foi para êle a tremer, ajoelhou.

- O benfeitor da minha velhinha! - soluçava.

- Está devorado de sede. Depressa, água! Vai

buscar-lha.

- Louvado seja Deus! Água trago eu aqui - E puxou para diante o cantil do equipamento, que trazia a tiracolo, porque vinha completamente equipado, tal como todos os outros se tinham deitado no bivaque. Pôs-lhe o cantil à boca. Luís de Castro bebeu com febril avidez.

Parou de beber e soltou um suspiro de alívio.

- Deus pague... esta esmola.

- Já estava paga em Lisboa, meu Capitão, por quem matou a fome a duas pobres mulheres.

Castro abriu muito os olhos para êle.

- Sou o João Luís.

- Dá-me... a tua mão... Obrigado.

- Morria aqui, sem eu lhe poder acudir, morria se não viesses! - disse Cândido Xavier - Mas sabias?

- Dizia-me o coração que não podia ser verdade a desgraça que lá se contava. A companhia queria vir toda procurar o nosso capitão.

Não nos deram licença. Estaria morto, diziam, bastaria vir de manhã buscá-lo, que seria castigado por desertor quem saísse do bivaque. Bem me importa a mim que me fuzilem, vim eu, escapulindo-me das sentinelas.

- João... Luís!-murmurou o Castro, pondo nele um olhar de enternecido reconhecimento.

- Eu te defenderei - disse-lhe Cândido Xavier - O bivaque fica muito distante daqui?

- Obra de três quartos de légua.

- Vai lá a correr. Que venham buscar-nos, que venha o cirurgião por causa do sr. Luís de Castro. Ordem minha. Vai.

- Já, meu Chefe, ainda que chegue lá a deitar os bofes da boca fora.

- Deixa-nos a água - pediu Cândido Xavier.

- Pronto, meu Chefe.

Deu-lhe o cantil e deitou aos saltos por ali fora como um doido, aos saltos para não pisar os mortos.

Hora e meia depois estava de volta com um subalterno de companhia, um cirurgião, um sargento e um troço de granadeiros com duas macas.

Vinham radiantes.

- Parece milagre! - diziam os soldados - Mas se não fosse o João Luís, aqui morria desamparado.

O cirurgião fez ali mesmo um curativo rudimentar ao largo e profundo ferimento de Luís de Castro.

Era uma formidável cutilada.

- Contaram-me que este ferimento lhe não foi feito pelos austríacos - disse o facultativo.

- Foi feito... por um russo.. que me odeia... - respondeu sumidamente.

- Adivinho quem é - acudiu Cândido Xavier. -E eu, meu Chefe - disse o João Luís, muito

perfilado -Ele o pagará - acrescentou de si para si.

O cirurgião ajudou a meter Luís de Castro na maca.

- Granadeiro! - disse Cândido Xavier para o João Luís - Põe essa bandeira ao pé do teu Capitão e dá-lhe aquela medalha ali caída.

O João Luís levantou a bandeira comovidamente, aquela bandeira que para Luís de Castro fora bordada com as lágrimas de Maria Pulaski e para o granadeiro era a gloriosa insígnia de Baumersdorf.

E a erguê-la pela orla manchada de sangue, mostrou-a aos camaradas.

- A santa que nos não deixou fugir quando todos fugiam! - disse com ternura quási infantil.

Os outros soldados estremeceram. Tinham os olhos rasos de lágrimas. O João beijou-a e foi pô-la na maca, ao lado de Luís de Castro.

Estavam já deitando Cândido Xavier na outra maca.

Depois o granadeiro pôs na mão de Luís de Castro o medalhão com a miniatura de Maria Pulaski.

O ferido levou-o lentamente aos lábios e beijou-o.

Amanhecia.

 

 

                         A SANTA PÁTRIA

 

         Comovedoras notícias.

Cândido Xavier e Luís de Castro tinham sido levados para um hospital de Viena.

No dia seguinte ao da batalha de Wagram, quer dizer no mesmo dia em que os dois feridos foram levados para Viena, assim como milhares deles do Grande Exército, Napoleão restabeleceu o seu quartel-general no palácio imperial de Wolkersdorf, donde vinte e quatro horas antes o imperador da Áustria havia assistido à carniçaria.

Houve ainda, dias depois, um combate sanguinolento em Znaim. A cavalaria portuguesa, sob o comando do Marquês de Loulé, deu ali duas cargas brilhantes, que foram oficialmente elogiadas.

No dia 11, à meia-noite, assinava-se um armistício em Znaim.

Os oficiais da 13.a meia brigada não estavam satisfeitos com o novo marechal. Dera lhes muitos louvores, sem publicidade para os estranhos, à meia brigada, mas no seu breve relatório dos acontecimentos de 5 a 6 de Julho não tivera uma palavra especial de justiça para os que não tinham fugido em Baumersdorf.(1)

Era para não reavivar a mácula dos outros, como Luís de Castro previra.

Dizia que todas as tropas em geral se tinham batido com valentia, resgatando amplamente a confusão da véspera. Mais nada! Alguns oficiais portugueses souberam dos termos deste relatório.

Confusão era o eufemismo com que se encobria a debandada e nele se envolvia a meia brigada, que não fugira!

Napoleão foi mais justo confessando que os legionários portugueses tinham contribuído para a vitória de Wagram. Mas logo em um documento de restrita publicidade apoucou os serviços dos seus auxiliares estrangeiros. É verdade que o ditou num arrebatamento de cólera contra o marechal Bernadotte, Príncipe de Ponte-Corvo.

Vale a pena indicar a causa daquele desespero de Napoleão contra o insubmisso marechal que êle fizera príncipe.

No dia seguinte ao da batalha, Bernadotte mandou publicar do seu bivaque de Leopolda uma ordem do dia que tinha estas insignes e escandalosas falsidades: Que no dia cinco, seis a sete mil saxónios tinham cortado o centro do exército inimigo apoderando-se do Deutsch-Wagram, apesar dos esforços de 50.000 austríacos, defendidos por cinquenta bocas de fogo. Que tinham combatido até à meia-noite e bivacado no meio das linhas austríacas. Que no dia 6 haviam pelejado com igual perseverança e que as colunas dos seus sobreviventes ficaram inabaláveis como se fossem de bronze.

Esta audaciosa bravata, absolutamente falsa, obedecia certamente a um sentimento de desforço e de vaidade do Marechal e traduzia bem o seu espírito de insubmissão e as suas rivalidades e ciúmes de glória.

Nunca talvez nenhum general ousara mentir com tão desmarcada impudência!

Bem lhe importava a êle com os saxónios, o seu fim era desmentir Napoleão, a quem intimamente detestava, desprestigiar os outros generais, seus colegas e seus émulos, usurpando com tal inverosímil desfaçatez o quinhão de glórias que pertencia às tropas por eles comandadas.

Demais a mais, bem sabia já que o imperador dera o bastão de marechal a Macdonald, a Oudinot, que foi quem realmente tomou Wagram, e até ao próprio Marmont, no mesmo dia em que o destituíra a êle do comando do seu corpo de exército.(2)

Aquela era a vingança arrojada às faces de todos eles! Desforço insensato, feito de grosseiras mentiras, que cento e vinte mil homens podiam desfazer numa unanimidade esmagadora.

A desbragada falsidade havia de levantar e levantou um enorme escândalo em volta do quartel-general imperial. Demais a mais, alguns periódicos alemães logo avidamente reproduziram a mentira lisonjeadora que dava a um punhado de homens da sua raça a glória culminante da maior batalha de todos os tempos.

 

*1. Rapport du Duc de Reggio, general en chef du 2.o corps sur les journées des 15 et 6 Juillet 1809. É datado do campo de Wolkersdorf em 8 de Julho.

  1. Descrevendo a batalha de Wagram, refere Marbot que Napoleão increpou violentamente Bernadotte e mesmo no campo de batalha o exonerou do comando do corpo de exército saxónio.

 

Foi então que o imperador, num assomo de cólera, ditou de Schoenbrunn, em 5 de Agosto, uma ordem do dia, que era ao mesmo tempo uma áspera censura a Bernadotte e um desmentido humilhador para os saxónios.

«Sua majestade - dizia a ordem do dia - deve o bom êxito das suas armas às tropas francesas, e não a nenhum estranjeiro. A ordem do dia do Príncipe de Ponte-Corvo, pretendendo envaidecer com falsas pretensões tropas, pelo menos, medíocres, é contrária à verdade, aos interesses políticos e à honra nacional. S. M. deve o bom êxito das suas armas aos marechais Duque de Rivoli e Oudinot, que romperam o centro do inimigo ao mesmo tempo que o Duque d'Auerstaedt o torneava pela esquerda.

«A aldeia de Deutsch-Wagram não foi tomada no dia 5. Só no dia 6 ao meio-dia a tomou o corpo do marechal Oudinot.

«O corpo do Príncipe de Ponte-Corvo não foi inabalável como o bronze. Foi até o primeiro a bater em retirada. S. M. teve de lhe mandar cobrir o revés pelo corpo do vice-rei, pelas divisões Brossier e Lamarque, comandadas pelo marechal Macdonald, pela divisão de cavalaria pesada do general Nansonty e por uma parte da cavalaria da Guarda. Pertence a este marechal e às suas tropas o louvor que o Príncipe de Ponte-Corvo tomou para si.

«S. M. deseja que este testemunho do seu descontentamento sirva de exemplo, para que nenhum marechal se atribua glórias que pertencem a outros. Todavia, como estas rectificações podem desgostar o exército saxónio, embora os seus soldados compreendam bem que não merecem as honras que lhes deram, quer S. M. que esta ordem do dia fique secreta e seja enviada somente aos marechais comandantes de corpos de exército e ao respectivo ministro e secretário de estado».

Publicado o armistício de Znaim, uma parte do Grande Exército aquartelou-se em Viena, os outros corpos de exército foram acantonados pelas aldeias das imediações e estabeleceram acampamentos numa extensa linha de algumas léguas.

Com as suas barracas de palha de trigo e centeio, em alinhamentos regulares, o acampamento oferecia o aspecto pitoresco de uma série de grandes aldeias.

A 13.a meia brigada fora transferida para a divisão Tharreau, primeira do corpo de Oudinot.(1)

Vários oficiais da meia brigada tinham ido ao hospital de Viena visitar os seus camaradas.

Cândido Xavier estava já curado e apenas coxeava um pouco. Demorava-se ainda uns dias no hospital por causa da extrema fraqueza em que ficara. Luís de Castro melhorara muito, já se podia levantar e já lhe era permitido dar uns pequenos passeios, mas amparado a alguém, porque uma profunda debilidade o impedia de andar sem apoio. Perdera muito sangue no dia de Wagram e depois no hospital ainda perdera mais por desleixo do enfermeiro.

Algumas vezes andava apoiado a um servente, conversando com Cândido Xavier, outras vezes encostado ao João Luís, que ia vê-lo sempre que tinha algumas horas de folga de serviço.

Uma vez de manhã, foi em fins de Agosto, passeava êle no jardim, encostado ao João Luís, sòzinho com êle.

 

*1. Firmado em documentos oficiais, diz o sr. Boppe que a 13.a meia brigada estava em Agosto no campo de Wagran. Em 5 tinha nas fileiras 44 oficiais e 1199 praças. No primeiro de Setembro, ainda no mesmo campo, tivera aumento de 9 oficiais e 97 praças.

Provavelmente este acrescimento de efectivo representa o número dos que sairam dos hospitais, já curados.

 

Cândido Xavier tinha sido chamado para ir receber a visita do Conde de Sabugal, que pertencia ainda ao estado-maior de Oudinot.

- João - disse, parando de olhar fito na extensa paisagem que dali se descobria até à ilha de Lobau e às colinas de Wagram - hás-de ver se me sabes o que foi feito da francesa que socorremos naquele palacete de Sachsengang. Sabes?

- Sei perfeitamente, meu capitão.

- Vê se podes saber dela.

- Em menos de três horas dou eu lá uma saltada.

- Mas vê lá não te comprometas. Sei que a campanha acabou, que se fêz um armistício, mas receio que vás cair nas mãos dos postos avançados dos austríacos, ou que os de cá te considerem desertor.

- Fique v. s.a descansado. Eu irei lá de maneira que não me pilhem.

- Ouve. Indaga o que foi feito da princesa. E, como a guerra parece terminada, é possível que tenham voltado os donos do palacete. Se tivesses a fortuna de os encontrar lá, procuravas saber de uma senhora, ainda muito nova... Chama-se Maria Pulaski. Vê se te lembras.

- Maria Pu...laski - repetiu - Já me não esquece.

- Olha - disse, tirando do peito o medalhão, que nunca deixava de trazer consigo - É este o seu retrato. Fixa-o bem para que te não armem alguma cilada. É assim pequeno, mas dá bem a sua imagem.

O João fixou a miniatura com uma expressão de enternecido assombro.

- É então esta linda senhora a noiva do meu Capitão, de quem ouvi falar em Baiona?

- É, sim. Daquelas noivas que às vezes não passam dos sonhos que a gente traz consigo.

- Bem entendo e estou a querer adivinhar, com perdão de v. s.a, que foi por esta lindeza tamanha que o maldito russo o queria matar.

- Foi, sim-respondeu tristemente-Faz-me este favor, João. Vai saber.

- Basta v. s.a dizê-lo, para eu ir, ainda que seja ao fim do mundo.

- Obrigado, meu amigo - volveu-lhe enternecido.

Desciam para o jardim o Conde de Sabugal e Cândido Xavier.

- Aqui tem uma visita, meu caro Luís de Castro - disse-lhe Cândido Xavier.

Cumprimentaram-se familiarmente.

- Vem com uma interessante provisão de notícias o nosso Conde.

- Algumas desconsoladoras, algumas que me trazem indignado, porque valem iniquidades - acudiu o Sabugal com veemência.

- Pois sejam como forem - disse o Castro brandamente - sinto curiosidade de as saber. Só há coisa de uma semana é que eu tenho começado a saber algumas notícias insignificantes do que se passou depois do meu ferimento.

- Mas para lhe contar outras de importância é que eu estou aqui. Umas dizem respeito à nossa gente, outras especialmente à sua pessoa, meu caro Luís.

- Pois vamos ouvir umas e outras. Mas hão-de deixar que me sente. Isto leva tempo a voltar ao que foi.

- Pois decerto. Eu mesmo lhe peço que esteja à sua vontade.

- Olhem - lembrou Cândido Xavier - Vamos ali para aquele pavilhãozito. Temos lá cadeiras, e poderemos conversar à nossa vontade.

Foram. Era um pequenino pavilhão, singelamente mobilado. Ficava a um ângulo do jardim e tinha uma ampla janela, emoldurada de flores, que dava para um canal do Danúbio.

- Vamos agora a saber por quais notícias quere que eu comece?

Pelas mais antigas, pelas que se referem em geral às nossas tropas...

- Por essas - interrompeu.

O conde resumiu-lhe a ordem do dia de Bernadotte, que já conhecemos, e com a cláusula de segredo lhe reproduziu a outra de Napoleão, que tinha visto no quartel-general de Oudinot.

- E aqui tem como, por uma descarada mentira do Príncipe de Porto-Corvo, um invejoso insubmisso, Napoleão faz esta injustiça aos estranjeiros que o auxiliaram! E para o nosso punhado de portugueses uma iniquidade flagrante! Ainda ontem eu levei o chefe do estado-maior de Oudinot a confessar que não haveria talvez senão alguns raros precedentes para aquela situação excepcional, em que a nossa meia brigada esteve em Beaumersdorf. Num combate de noite, diante das avançadas de um corpo de exército, mas de soldados austríacos, dos mais valentes e disciplinados da Europa, mil e duzentos soldados noviços tomam uma posição bem defendida, aguentam-se intrepidamente e repelem cargas de cavalaria com leonina bravura, apesar de lhes fugir espavorida a divisão a que pertenciam, de se lhes enovelarem sobre um dos flancos, numa fuga doida, dois batalhões saxónios, e de se lhe esbandalhar pelas costas outra divisão francesa, e tudo em desordem para a retaguarda! Nem os velhos soldados da Guarda Imperial seriam capazes de mais.

- E olhe - acudiu Cândido Xavier - aqui tem o homem heróico dessa noite. Foi ele que evitou uma debandada a que não resistiriam os melhores soldados do mundo.

- Não fui eu. Quem os não deixou fugir foi a bandeira da nossa terra, erguida na minha espada. O sangue da nossa gente foi então o que fora noutros tempos antigos.

- Eu já sabia - disse o Conde -, Depois lhe contarei a que revoltante injustiça deu pretexto esse belo episódio épico da bandeira.

- Se foi injustiça para mim, bem pouco me importa. O caso grande e glorioso foi que, num lance de ânimo excepcional, os nossos soldados resgataram brilhantemente a mácula atirada para cima do exército de 1807.(1) Excedeu o próprio sonho que eu trazia na alma, foi muito além da ambição com que saí de Lisboa.

- Pois sim - objectou-lhe o Conde - mas a mentirosa bravata de Bernadotte corre mundo nos periódicos e o desmentido de Napoleão fica no arquivo dos marechais.

- A história dirá um dia a verdade-acudiu Cândido Xavier.

- Duvido - objectou o conde -, Somos muito poucos de uma nação muito pequena. Há-de triunfar a história que nos deixar esquecidos a nós.

 

1 Em geral os historiadores franceses e as memórias militares escassamente se referem àquela debandada espantosa da noite de 5 de Julho de 1809, e quanto ao primeiro combate de Beaumersdorf quási todos se limitam a umas vagas indicações ou a uns eufemismos encobridores da verdade.

Oudinot diz no seu relatório que no dia 6 as tropas do seu corpo resgataram bem a confusão da véspera. E mais nada.

No seu livro a respeito daquele bravo general dos granadeiros, Gaston Stuggler apenas diz com ingénuo laconismo:

«Uma parte das tropas de Macdonald fêz fogo por engano contra os saxões, estes, tomados de terror pânico, debandaram, e este incidente nos fèz abandonar o ataque. (Le Marechal Oudinot, pág. 103 e 104).

Nem uma palavra para a 13.a meia brigada, que se manteve heroicamente, mas também nem uma única palavra a respeito da divisão Grandjean, que se esbandalhou.

Mas temos um comentário precioso para este silêncio favorecedor dos que fugiram e iníquo para os que ficaram. E absolutamente insuspeito.

O general Pelet diz assim: Este ataque não foi mencionado nos boletins franceses porque não teve bom êxito, e tem sido mal apreciado por alguns. É preciso pois desenvolvê-lo com mais pormenores. (Memórias da campanha de 1809 na Alemanha, tomo IV, pág. 186).

Descreve-o, mas ainda obscuramente e com tal generosidade para os seus compatriotas, que totalmente se esqueceu de falar naquele punhado dos nossos!

Mas o general Foy, que não era um espírito superficial, Foy, brilhante e erudito investigador das glórias militares de França, diz em uma nota do tomo III da sua História, numa grande nota exclusivamente consagrada à Legião Portuguesa, estas palavras que já citámos, e agora reproduziremos na própria língua em que foram escritas:

Deux bataillons se couvrirent de gloire la veille et le jour de la bataille de Wagram, dans le corps d'armés commandé par le general Oudinot.

Foy não assistiu à batalha, mas ouviu certamente aos seus camaradas e contemporâneos muitas informações pormenorizadas daquelas que não vão nunca para os relatórios oficiais e raras vezes mesmo aparecem nos livros de história.

Na véspera da batalha aqueles dois batalhões só se podiam cobrir de glória no único combate grave em que entraram, que

foi o de Baumersdorf, mas para ali se cobrirem de glória incorporados na divisão que fugiu, em contacto com aquele terror pânico descrito por Pelet e registado por Thiers, só praticando um feito excepcional no meio daquela debandada também excepcional.

Foi aquele de ficarem intrepidamente nas posições que tinham tomado, abandonados de toda a sua divisão, foi aquele que se amortalhou no silêncio favorecedor dos outros que não puderam fazer o que eles fizeram.

Foi aquele revelado em carta por um ajudante de Berthier, à qual, com absoluta concordância, se referem Castro Pereira, Teotónio Banha e José Garcez, os três cronistas da Legião.

 

- Espero que um dia se consiga esclarecer a verdade, quando as paixões e as vaidades houverem morrido com os batalhadores.

- Pois é pena que não tenhamos um audacioso como Bernadotte, não para mentir como êle, mas para dizer a verdade, altivamente, numa ordem à meia brigada. Havia de eu estar no caso de Carcome ou do Pego. Eu diria então quem tinha sido inabalável como se fosse uma coluna de bronze, eu afirmaria que uma parte do Grande Exército haveria só sofrido talvez uma lutuosa derrota, se os nossos mil e duzentos portugueses tivessem fugido de escantilhão com os outros. E mandava cópia da ordem para os periódicos.

- Seria um homem perdido - disse o Castro, sorrindo - Mais facilmente se perdoaria ao Príncipe de Ponte-Corvo essa mentira para roubar a glória de outros, do que ao comandante da 13.a meia brigada a verdade a tomar o feitio de vergonha humilhadora para quarenta ou cinquenta mil franceses.

- Não esquecendo aqueles dois batalhões dos saxónios de bronze, que pareciam de sebo, a desfazerem-se pela colina abaixo - gracejou o Conde - Mas vamos agora ao que lhe diz respeito, meu caro Luís. Napoleão foi passar revista ao acampamento da nossa brigada. Acompanhei-o. Teve palavras envaidecedoras para a nossa infantaria e chegou a dizer ao Pego que não conhecia outra melhor.(1)

- Para o nosso orgulho de soldados nenhum louvor maior, nem de mais assinalada autoridade - observou o Castro - Mas afinal louvores em família, para que se não deslinde bem o caso da noite de 5 de Julho.

- Mandou apontar oficiais e soldados para serem agraciados

 

1 Tempo depois, na sua primeira audiência diplomática após a guerra de 1809, Napoleão dizia ao conde da Ega, nesse mesmo palácio de Fontainebleau, onde dois anos antes Portugal fora teoricamente retalhado: «Sr. Conde, estou muito satisfeito com os vossos portugueses: bateram-se com muita galhardia nesta guerra e decerto na Europa não há melhores soldados».

É Castro Pereira quem o refere na sua monografia, publicada cinco anos depois da campanha de 1809.

 

com a Legião de Honra, que não concede facilmente a estrangeiros!(1)

- Eu, se a tivesse merecido e ma dessem, não a punha ao peito - disse o bravo de Beaumersdorf - A minha farda é de modelo francês, mas não posso usar outra. Insígnias estrangeiras é que eu tenho o direito de as rejeitar ou de não as pôr ao peito.

- Tinha direito a uma das mais altas insígnias da Legião de Honra, meu caro Luís, foi incluído na relação dos que mereciam ser agraciados, foi proposto para ser promovido por distinção, mas fizeram-lhe uma revoltante injustiça! Riscaram-no da lista dos agraciados e não o quiseram promover!

- Fizeram bem - disse tranquilamente - Adivinharam-me a intenção.

O Conde relanceou um olhar de estranheza para Cândido Xavier.

- Só me pesará saber que nessa exclusão interveio alguma intriga de compatriotas nossos, ou alguma calúnia ofensiva do meu carácter.

- Nem uma nem outra coisa, Luís de Castro. Napoleão tem uma memória prodigiosa, lembra-se de si e sabe-lhe o nome. Informaram-me que foi êle próprio quem fèz a exclusão, sem a interferência de ninguém. Disse-mo o próprio chefe do estado-maior de Oudinot.

- Isso é que eu acho realmente extraordinário! Compreendia perfeitamente que se não tivessem lembrado de mim para qualquer prémio que não mereci,

 

*1. Segundo os apontamentos de José Garcez, o Imperador deu às tropas portuguesas, que entraram na campanha de 1809 contra a Áustria, 62 cruzes da Legião de Honra: 50 couberam à infantaria e 12 à cavalaria.

Castro Pereira diz na sua monografia: «Bonaparte deu a vários oficiais, oficiais inferiores e soldados a insígnia da Legião de Honra, com a sua competente pensão, em prémio do seu valor e serviço, etc.

 

nem quero, mas a exclusão feita pelo Imperador, embora me não magoe, assombra-me! Que razões tem êle contra mim?

- Uma só razão particular.

- Razão particular só me lembro duma, mas devia ser, pelo menos, de benevolência para mim.

- Sei ao que se refere. Ouvi falar muito da paixão que teve por si Paulina Borghèse, mas alguém da intimidade do Imperador me afiançou que Napoleão soube afinal do procedimento que você teve, respeitoso, leal, honesto.

- Tem-se falado nisso?!

- Falou-se. Napoleão já não estranha esses arrebatamentos amorosos da mais linda das irmãs. Carolina e as outras não são menos arrebatadas. É do sangue. Só lhe não perdoariam se você desse escândalo público, de ruído, que afrontasse o prestígio imperial. Então, sim, certamente seria implacável! A razão foi outra.

- Homem, estou morto por conhecer essa causa misteriosa, que levou a mão triunfadora de Napoleão a riscar o meu nome da lista dos propostos para a mercê de uma insígnia... que eu talvez rejeitasse, mas com certeza não usaria nunca.

- Uma coisa gloriosíssima para si, Luís de Castro. Contaram a Napoleão o episódio épico da bandeira de Beaumersdorf, aquela bandeira clandestina, de Portugal, que fèz da 13.a meia brigada, vá lá a expressão de Bernadotte a respeito dos seus saxónios, uma coluna de bronze, indestrutível para a metralha dos austríacos, inabalável naquele mar revolto de soldados que fugiam.

- Por isso então!... Parece incrível!

- Que quere? Os homens excepcionais têm horas de mesquinhas fraquezas. Napoleão, igual aos maiores, excede-os a muitos nesses lamentáveis desequilíbrios. Demais a mais, fique você sabendo que o ajudante-de-campo de Berthier que foi ter consigo e viu a bandeira, esteve calado com o caso mais de um mês e só o contou a Berthier quando lhe pareceu que já não haveria perigo para si. Berthier foi dizê-lo ao Imperador, como quem conta uma anedota curiosa, e Napoleão mandou chamar o ajudante do Marechal, para ouvir contar o lance pelo próprio que o tinha presenceado. Entretanto, chegava um oficial do Ministério da Guerra com despachos a respeito de Portugal. Foi o demónio! Napoleão ficou irritadíssimo. A segunda invasão dera num desastre como a primeira. O Marechal Soult, batido pelas tropas inglesas e portuguesas, teve de retirar do Porto, abandonando toda a artilharia e todas as bagagens.

- Não sabia!-exclamou o Castro, levantando-se numa tremura de comoção - Ainda bem!

Mas logo teve de sentar-se com um cansaço mortificado.

- Ainda bem, decerto, mas foi precisamente quando o Imperador acabava de saber do desastre do Duque de Dalmácia, um dos mais ilustres dos seus marechais, como você sabe, foi então que o ajudante de Berthier lhe apareceu e lhe contou calorosamente o caso da bandeira, a firmeza heróica da meia brigada, na hora em que os saxónios debandavam e duas divisões de Oudinot fugiram. Se tem ouvido falar das cóleras formidáveis de Napoleão, dos seus ímpetos brutais quando perde a cabeça, calcule o que ele diria ao pobre narrador fulminado! Ia-o pondo fora a pontapés, o que aliás não seria coisa sem precedentes.(1)

 

*1. O general Rapp, um dos mais brilhantes ajudantes-de-campo de Napoleão e um dos seus íntimos, narra nas suas Memórias certa cena de cólera do Imperador contra ele e, reproduzindo as palavras violentas que ouviu, não se atreveu a escrever a mais ofensiva senão com duas letras limitando reticências.

 

«Foi naquele momento de desespero que fêz a exclusão. E se não fosse Berthier, creio que teria ido até a iniquidade maior para você! Compreende agora, meu caro Luís!

- Tão claramente que até justifico esse mau humor do grande homem. Depois de tantas batalhas vencidas em Espanha, perde-se-lhe a segunda invasão de Portugal. E é exactamente esse marechal glorioso, de raros talentos, esse que foi a mais brilhante espada de Austerlitz, o vencedor dos espanhóis na batalha de Gamonal e o vencedor dos ingleses na batalha de Corunha, é ele quem lha deixa perder!

Interrompeu-se como a cobrar alento. Mas logo prosseguiu, excitado, na sua voz de convalescente, dolorida e fraca:

- Agora aproxime os factos no seu contraste espantoso. Na Península, prostrada em tantas batalhas perdidas, só Portugal pode dar apoio aos ingleses e é só lá que os soldados da Inglaterra vencem, aliados aos nossos. E para a maior batalha de Napoleão, essa de Wagram, ainda maior que a de Austerlitz, um punhado de homens daquele país insubmisso dá um largo contingente do seu esforço e do seu sangue, e é numa hora de pavor das tropas imperiais que alguém levanta a bandeira daquele país que vence a um canto da Europa, derrotada, essa bandeira que se glorifica num pedaço do chão austríaco onde caíram águias ao abandono!

Ficou sufocado. Cansara-o muito esta calorosa tirada, dita febrilmente, num esforço para que a voz se lhe não sumisse.

- Bravo, Luís de Castro! - exclamou o Conde - Mas eu não posso consentir que fale assim.

- Fazem-lhe mal esses arrebatamentos -, interveio Cândido Xavier.

- Isto passa... Tem razão o Imperador... Naquela hora o meu caso havia de parecer-lhe abominável.

Eu não merecia a sua Legião de Honra. O que eu merecia era um castigo ruidoso... e no Boletim do Grande Exército a clara exposição do meu crime. Para saber-se em Portugal. Para que lá o soubessem as mães e as noivas dos que morreram na noite de Beaumersdorf e no dia de Wagram. Isso então valeria para mim... imensamente mais do que ele me quisesse dar a insígnia da Grande Águia da Legião de Honra, a suprema insígnia que tem dado aos seus marechais.

- É você incorrigível! - observou-lhe o Conde -, nesse excitamento que o esfalfa! Mudemos de assunto. Sinto-me já arrependido de lhe ter vindo trazer semelhantes notícias.

- Fêz bem. O cansaço é passageiro, e a notícia deixa-me no coração o maior orgulho e um dos maiores consolos que eu tenho tido na minha vida.

- Mas olhe que a parte relativa ao Imperador é absolutamente confidencial.

- Tenho pena que seja, não porque tivesse necessidade de desafogar pesares, mas porque me regalava contar tudo isso, que será sempre o mais honroso título da minha vida. Mas fique descansado, meu caro Conde. Não falarei nisso, senão alguma vez em Portugal, se lá voltar.

- Agora outro caso. Ouvi que você foi ferido por um oficial russo que acompanhava o estado-maior austríaco.

- É verdade.

- Por motivo de ódio pessoal, segundo me disseram.

- Por um ódio de morte, igual em mim e nele.

- Pode dizer-me o nome desse oficial.

- Não tenho dúvida em lho dizer. Chama-se Miguel Platow. Porque me faz essa pregunta?

- Porque esse oficial cometeu uma violação ignóbil das leis da neutralidade, visto representar junto do estado-maior austríaco o exército de um país neutro.

- E que nos importa a nós isso?

- Importa ao Imperador sabê-lo.

- Não vejo para quê! E em lhe dizendo que foi contra mim a violação, talvez propositadamente a

esqueça.

- Está enganado. Foi uma ofensa brutal a um direito consagrado, uma afronta ao Grande Exército. a pessoa a quem o russo acutilou representa apenas um pormenor do facto criminoso. O marechal Oudinot falou-me deste caso e deseja que o Imperador mande formular reclamação diplomática perante o governo do Czar, para que esse oficial seja punido e expulso do exército.

- Não vale a pena. Faça-me o favor de dissuadir disso o marechal Oudinot. Diga-lhe que não tenho a certeza de que fosse o russo quem me feriu... No torvelinho do combate avistei um oficial do exército do Czar, perdido talvez do estado-maior a que andava adido, mas não posso afiançar que fosse ele quem me acutilou.

- Mas isso não é a verdade!

- A queixa havia de parecer inspirada numa súplica de que eu sou incapaz. Tenho com ele um ajuste de contas, que se há-de fazer um dia... Mas sem intervenção diplomática - acudiu, sorrindo.

Ainda conversaram durante alguns instantes. O conde de Sabugal despediu-se, insistindo no pedido da confidência.

No dia seguinte, de manhã cedo, o João Luís apareceu no hospital e logo obteve licença para ir falar a Luís de Castro, que não estava nas enfermarias gerais, mas num quarto que obtivera a suas expensas, desde o princípio da convalescença.

E de companhia com o granadeiro entrara um padre de cabelos brancos, tipo de meridional. Entrou para a casa de espera e lá ficou.

- E daí? Soubeste já alguma coisa?

- Fui lá ontem à noite.

- Estava lá a senhora que eu te disse?

- Não estava, e bem me pesa de não trazer a boa notícia que v. s.a desejava!

- Então não encontraste lá ninguém?!

- Encontrei um homem idoso, assim a modo de mordomo, como se diz lá na nossa terra.

- E depois?

- Nem ele me entendia a mim nem eu o entendia a ele. Vinha já de volta, muito desconsolado, quando topei um padre, já velhote, que me preguntou em francês de que tropas eu era. Pouco percebo do francês mas sempre entendo e arranho alguma coisa e lá compreendi o que ele me preguntou. Disse-lhe que era português, e imagine v. s.a como eu fiquei quando o padre me começou a falarna nossa língua, todo risonho, com as lágrimas a bailarem-lhe nos olhos!

- Quem era?

- Um padre de Portugal, que, vai em muitos anos, tinha vindo para estas terras, acompanhando uma fidalga, de quem era capelão. A fidalga era portuguesa, mas tinha casado com um figurão de cá, o qual já faleceu. O que o padre queria era dar à língua e preguntar-me coisas da nossa terra! Mas eu, assim que tomei confiança com ele, pedi-lhe que fosse comigo ao palacete para ver se entendia o mordomo, ou o que ele é.

- E foi?

- Logo. E pôs-me tudo em pratos limpos. O tal mordomo era um conhecido do padre. Contou que tinha voltado ao castelo, havia coisa de quinze dias, assim que lá para o cabo da Hungria chegou a notícia de já ter acabado a guerra.

Veio para tomar conta da casa e mandar informação aos amos a respeito de quando poderiam voltar.

- E onde estão eles? Dize.

- Pedi ao padre que lhe fizesse mais umas poucas de preguntas. E vim então a saber que a Menina estava bem, que o pai dela tinha perdido a vista e o Tio, o dono do castelo, tivera uma briga e levara uma cutilada que o ia matando.

- Uma cutilada?

- Foi o que disse, à força de o apertarem com preguntas.

- Briga com soldados?

- Não, senhor. Briga com um oficial que se lhe quis fazer tolo com a sobrinha e ia na companhia deles. Um alma do diabo, do tamanho de um cedro, - disse o mordomo.

- Já sei - exclamou, erguendo-se de repelão - Miguel Platow.

- Foi quem eu pus no sentido.

- Em toda a parte esse infame!

- E o mordomo contou ao padre que a Menina teve ânimo que nem um homem destemido e só então foi que o maldito russo a deixou.

- A minha pobre Maria! - pensou enternecidamente - E esse, a quem chamas mordomo, espera que os amos voltem?

- Assim que estiver tudo sossegado. Pelos modos já estão a fazer o tratado da paz.

- E a francesa?

- Por essa também preguntei. O mordomo veio encontrá-la em casa de uma gente pobre, vizinha do castelo. E como ela lhe pedisse muito para ir ter com a Menina, para lá a mandou acompanhada, há coisa de uns doze dias.

- Mas então esse mordomo onde estava quando lá fomos encontrar a francesa?

- Lá o disse ele ao padre. Tinha ido com licença à Hungria, para ver uma irmã que estava à morte.

O dono do castelo também lá tem umas terras que herdou da mulher.

- E o padre português para onde foi? Tenho pena de não poder falar com êle.

- Ah! mas disso me lembrei eu, e calo trouxe comigo, para ver se v. s.a queria conversar com ele.

- Quero, sim, onde está?

- Deixei-o na casa das visitas, mas vou chamá-lo, se v. s.a o quere receber aqui.

- Recebo, sim. Vai lá, anda.

 

Duas inesperadas visitas.

O João Luís saiu e foi dar com o padre já a palrar com um sargento português, que tinha ficado ferido em Wagram.

Volvidos minutos entrava com ele no quarto do

Castro.

- Meu capitão. Aqui está o senhor padre de Portugal, a quem v. s.a deseja falar.(1)

Castro foi para ele afectuosamente.

- Sei já que vossa reverência é um compatriota saudoso da nossa terra portuguesa e devo-lhe um serviço gratissimo no auxílio que prestou a este soldado, um amigo meu dedicadíssimo.

- Ah! mas nenhum agradecimento mereço - disse o padre com um grande júbilo no olhar, apertando entre as suas,

 

*1. Na interessante compilação dos apontamentos de José Garcez acerca da Legião Portuguesa, feita pelo sr. Capitão Bento

da França, lê-se a págs. 70 e 71 esta passagem comovedora: «Em

Ratisbonna encontraram os nossos um eclesiástico português que vivia na corte do Primaz de Francfort.» José Garcez não nos dá o nome deste nosso compatriota, mas diz-nos que era natural de Braga.

«Este padre viera ao encontro das tropas da Legião e mostrou-se muito comovido com a vista dos compatriotas. A tal respeito expressa-se José Garcez nos seguintes termos:...o prazer que ele experimentou em nos ver só o conhece quem em remotos climas abraça um indivíduo da sua nação, a alegria que o dominava bem se conhecia pelas suas espressões e aspecto. Dizia-nos no princípio: deixai-me falar só a mim, há tantos anos que não falo português senão com a minha pessoa, que o gosto de o falar me é de grande consolação, sendo ouvido e entendido. Este eclesiástico ocupava o cargo de bibliotecário em chefe dentro de todos os Estados do Primaz...»

 

comovidamente, a mão que Luís de Castro lhe estendera num movimento afectuoso - O bem foi para mim. Encontrei quem me falasse e entendesse numa língua que eu já não ouvia há muito. A lê-la é que eu matava saudades de tanto tempo. Trago sempre comigo dois livros de orações: este em latim, o meu breviário, e este em português, os nossos Lusíadas. E agora, ainda para maior regalo, esta honra de vir falar a quem tanto enobreceu o nome da nossa gente portuguesa!

- Por quem é... - objectou o Castro modestamente.

- Eu sei, sr. Capitão. Ali fora ouvi um sargento, que foi ferido em Wagram, É da companhia que v. s.a comandava. Regalei-me de o ouvir! Num quarto de hora, um dos abençoados quartos de hora da minha vida, fiquei sabendo as proezes que os nossos fizeram e v. s.a como nenhum outro!

- São muito para se agradecer as palavras de vossa referência, mas eu apenas tive a fortuna de comandar soldados que nem tinham medo de morrer, nem sabiam fugir.

- Mas aquela bandeira! A santa bandeira! O sargento contou-me tudo. Valha-nos isto ao menos, louvado seja Deus!

O João Luís passou as costas da mão pelos olhos, disfarçadamente. É que não ficavam bem a um granadeiro da carniçaria de Wagram aqueles enternecimentos feminis, e ele sentia os olhos rasos de água.

- Mas, por quem é, queira sentar-se e conversemos.

- Com todo o gosto. Grande alma e bom sangue o da nossa gente! As cabeças para governar é que têm sido uma lástima! Eu lia cá nos periódicos austríacos as misérias que iam pela nossa pátria! Faziam-me chorar e faziam-me dó! Quando lia a notícia do Tratado de Fontaineblau... Portugal retalhado, o Junot em Lisboa, os espanhóis com ele!... bem julguei que Portugal tinha morrido! Mas Deus não quis que morresse nação de tão ilustre passado e eu sentia dentro em mim uma grande fé no ânimo da nossa gente.

«E aqui está que me não enganei! Os outros daqui honram o seu nome de portugueses no meio desse exército que tantas batalhas tem vencido, os de lá batem essas águias que voam vitoriosas por cima dos maiores impérios da Europa!

- Então vejo que já sabe o que se tem passado em Portugal!

- Tenho lido nos periódicos austríacos as informações traduzidas das folhas inglesas. Largas informações, que os austríacos lêem consoladamente.

- Compreende-se bem esse amargo consolo de vencidos. Na Europa só há agora um país em que os exércitos napoleónicos têm sido batidos. É o nosso, embora se deva confessar que tem sido com o valioso auxílio dos ingleses.

- Que em outros países foram derrotados pelos franceses. Veja v. s.a na Espanha. Uma resistência heróica, verdadeiramente sublime, mas os exércitos que tinha desapareceram-lhe como o fumo, destroçados pelos franceses! Há pouco tempo mais duas batalhas perdidas.(1)

E Já não tem exércitos! Os jornais austríacos vêm cheios de todas essas coisas. Os que eu vi, dos fins do mês passado, lá referiam a derrota do marechal Soult no Porto e a sua retirada para Espanha. Vai para dois anos, meu caro senhor, não negava a terra onde nasci, disso não era eu capaz, por maiores que fossem as suas desgraças, mas creia que até andava amargurado com o receio de que ma escarnecessem, quando eu dissesse aquele velho nome de Portugal, que tinha sido de tamanha glória! Agora, não! Agora até me dá vontade de o dizer a toda a gente, aos gritos!

E os lábios do velho tremiam convulsivamente.

Castro inclinou-se para ele num movimento comovido e apertou-lhe as mãos.

- Mas v. s.a perdoe-me este desafogo. Estou aqui a falar, a tomar-lhe o tempo!

- Ah! mas com o maior prazer, sinto-lhe o coração

 

*1. A Batalha de Ciudad-Real, em que a divisão francesa do general Sebastiani desbaratou as tropas do Duque do Infantado (27 de Março) e a de Medellin (28 de Março), em que as forças do marechal Victor bateram completamente o exército de quarenta mil espanhóis do general Cuesta, fazendo-lhe uma horrorosa matança.

Na de Ciudad-Real os dragões de Sebastiani acutilaram furiosamente três mil fugitivos, na de Medellin, segundo os historiadores franceses, os espanhóis tiveram doze mil mortos, sete a oito mil prisioneiros, perderam dezanove canhões e muitas bandeiras.

O historiador inglês John Jones reduz a nove mil o número de mortos que teve o exército de La Cuesta.

Foi realmente uma carniçaria selvagem! No princípio da batalha os espanhóis fuzilaram os prisioneiros que não traziam uniforme militar!

E o exército de La Cuesta levava milhares de galuchos que ainda não tinham fardamento!

Batalhões inteiros depuzeram as armas de joelhos e esses mesmos foram derribados à baionetada! Um horror que envergonharia Marrocos!

 

nessas palavras calorosas, estou a ouvi-lo enternecidamente.

- Pois é fortuna minha. Mas agora bem sei que há-de desejar que eu lhe fale do tal palacete... Aquele homem que eu tive a boa fortuna de encontrar - disse, indicando o João Luís, de pé, à porta do quarto como de sentinela - aquele soldado a quem já chamou amigo, deu-me a entender, quando me foi chamar, que v. s.a tinha particular interesse em saber da família que ali morava.

- Conhece-a?

- Perfeitamente. Uma família polaca. Chama-se André Pulaski o dono daquele palacete acastelado. A ele conhecia-o aqui desta cidade. Em Maio fui umas poucas de vezes ao castelo, a convite do próprio Pulaski. O capelão tinha saído e ia eu lá substituí-lo.

- Morava próximo?

- A umas três léguas. Estou eu administrando os bens de uma senhora portuguesa, que foi casada com um fidalgo austríaco, já falecido. Era e sou o capelão da casa.

- Soube então da fuga de Pulaski?

- Não, não soube. Quando foi da aproximação dos franceses, tinha eu ido com a minha benfeitora para umas propriedades que ela tem a umas vinte léguas daqui.

- Mas tinha ido muitas vezes a casa de André

Pulaski?

- Duas e três vezes por semana, durante o mês de Maio. André Pulaski havia comprado o castelo apenas um mês antes, salvo erro.

- O irmão estava com ele, segundo me disseram.

- Estava. Um desditoso! Quási completamente cego. Esteve em Lisboa com a filha. A família, que eu saiba, compõe-se de uma senhora muito moça, filha do cego, e de uma francesa que era a dama de companhia de Maria Pulaski, a sua mãe adoptiva, como ela lhe chamava.

- Ouvi que vivia ditosa, essa Menina.

- Ditosa porque todos lhe queriam bem, porque era para o Tio o seu ai Jesus, como usa dizer o povo da nossa terra, mas olhe que raras vezes a vi sorrir! Havia algum segredo que a trazia mortificada! Nunca me há-de esquecer a primeira vez que fui ao castelo e tive o gosto de lhe falar. Quando eu disse que era português, vi-lhe os olhos arrasados de lágrimas! Causou-me estranheza. Só depois soube que Maria Pulaski tinha estado em Lisboa com o pai. Disse-mo ela própria no encanto da sua voz.

«E agora me estou lembrando de uma inexactidão em que há instantes caí sem reparar. Disse que havia muito tempo não tinha tido o gosto de ouvir falar a nossa língua.

- Devo confessar-lhe que me admirei. Capelão em casa de uma senhora portuguesa, era natural que algumas vezes falasse com ela na língua natal.

- Não era essa a inexactidão. A desventurada senhora é uma grande doente e há muito que mal pode falar, por causa de uma operação que lhe fizeram na garganta. A inexactidão está em eu me ter esquecido de que em Maio Maria Pulaski me falou uma vez na nossa língua, para me dizer ter estado em Lisboa e que passara lá os mais risonhos dias da sua vida. O encanto que eu achei naquelas palavras portuguesas que ela me disse! Na sua boca pareciam-me acordes de uma suave música, enternecedora!

Luís de Castro escutava-o com regalada e amarga expressão de saudade.

- Foi em Lisboa que eu a conheci - disse lentamente.

- Estava a querer adivinhá-lo e agora compreendo a tristeza daquela Menina, linda como os anjos, adorada como as santas, entre opulências de riqueza como as princesas.

- Compreende então agora... a causa daquela tristeza?

- Tristeza de saudades por alguém ausente, a quem muito quere. Alguém que eu suponho ter agora a honra de conhecer. Queira perdoar-me se estou abusando da benevolência com que me recebeu aqui...

- De nenhum modo. Consola-me ouvi-lo. Nem eu tenho motivos para ocultar de alguém a história dos meus amores com Maria Pulaski. Há dois anos que não tenho no coração outro amor maior. Honesto, profundo, inexcedido. Chamo-lhe a noiva da minha alma.

- Pois que Deus abençoe esses amores assim. Ficaria bem a uma filha peregrina da heróica Polónia um esposo, que é dos mais valentes desse punhado de legionários que se cobriram de glória neste país.

- Vossa reverência confunde-me com tal extremada generosidade!

- Justiça é que é. E a glória maior não foi ainda a de Wagram, foi a de... O sargento disse-me o nome do famoso combate, mas estou com receio de o adulterar.

- Baumersdorf.

- Já nunca mais o perco da memória. E aqui tem v. s.a em mim um fervoroso e um dedicado servo. Mande-me afoitamente e creia que me será imensamente agradável servi-lo, embora me pese não valer mais para o servir melhor. Com devoção de amigo, me atreveria eu a dizer, se não parecesse ousadia chamar-lhe amigo.

- Mas com o maior prazer - disse-lhe o Castro apertando-lhe a mão - Tenciona demorar-se aqui,

em Viena?

- Uns dias apenas, três ou quatro, por causa de um negócio importante do meu cargo de administrador da casa. Mais me demoraria de bom grado, se não tivesse lá aquela infortunada senhora. Mas voltarei para lhe falar. Talvez me seja dado trazer-lhe alguma boa notícia, que eu saiba pelo mordomo de André Pulaski.

- Era cativante mercê de amigo.

- Pois da melhor vontade.

- Desejava que me dissessem para onde poderia escrever a Maria Pulaski.

- Está numas propriedades lá para os confins da Hungria. Perto de... Debreczin, salvo erro. Mas eu lho saberei com certeza. Fique descansado. E, apesar das minhas escassas relações com Maria Pulaski, até eu lhe vou escrever, falando-lhe deste encontro e da consoladora impressão que tive. Há-de ela ficar sabendo por mim o que a sua modéstia, meu glorioso amigo, lhe não quereria dizer.

Levantou-se.

- Aqui está então uma extraordinária amizade, que nasceu de uma hora de conversa e já parece antiga pela generosidade de favores que eu recebo e fico devendo enternecidamente.

- Não vale a pena falar nisso. Vou daqui satisfeitíssimo. Cá me tem amanhã de tarde. De manhã cedo vou de caleça a Sachsengang saber notícias e cá virei trazer-lhas.

- Mil agradecimentos. Creia que fico esperando com inexcedível ansiedade. Mas veja que me não disse ainda o seu nome.

- É verdade. Desculpe-me, por quem é. Diogo Martins, um filho de gente humilde do povo, sr. Luís de Castro e Albuquerque. O seu nome já eu sabia quando aqui entrei. O sargento disse-mo umas poucas de vezes e ficou-me de cor. Ah! um pedido...

- O que quiser.

- Sei que tem consigo a bandeira que levantou na espada durante o combate. Desejava muito vê-la.

Foi buscá-la.

- Manchou-se de sangue - disse desdobrando-a.

- Do seu sangue, já sabia - disse o padre, tomando-a nas mãos com religiosa veneração.

- Do meu, sim.

- A nossa bandeira! - exclamou Diogo Martins enternecidamente, de olhos cheios de água - Aqui, dois buracos... de bala, não é assim?

- Duas de uma torrente que vinha sobre nós. E a sorrir acrescentou:

- Já agora quero mostrar-lhe o retrato da pessoa

que a bordou.

Tirou do peito o medalhão e mostrou-lho.

- Mas é Maria Pulaski! - exclamou o padre Diogo, fixando muito a miniatura. Depois observou as bordaduras com especial interesse.

- Primoroso trabalho!

Castro resumiu-lhe a história da bandeira.

- Esta seda embebeu-se nas suas lágrimas.

- E no seu sangue - acudiu o padre Diogo comovidamente.

- Por causa de uma cutilada traiçoeira de certo oficial russo que a requestava e queria possuí-la.

- Espere! O mordomo de André Pulaski falou-me num oficial russo que tivera um conflito com o amo, há coisa de mês e meio, na Hungria.

- Há-de ser o mesmo.

E contou-lhe brevemente os antecedentes de Miguel Platow e a sua traiçoeira investida contra ele na tarde do dia (5 de Julho.

- Ah! pois também este caso da bandeira lhe hei-de eu contar na minha carta. Estou já a imaginar o alvoroço, o enternecimento com que ela a há-de ler.

Dobrou a bandeira com a veneração submissa com que dobraria um sanguinho sobre a toalha dum altar.

Dali a instantes despedia-se de Luís de Castro, abraçando-o como se fosse um amigo de largos anos.

O João Luís saiu com o padre Diogo e beijou-lhe a mão num acesso de ternura, escandalosamente imprópria de um granadeiro, que tinha recebido seu baptismo de fogo com rara intrepidez.

Agradecia-lhe daquele modo as boas e animadoras palavras que trouxera ao seu Capitão.

Ao outro dia de tarde o padre Diogo voltou como prometera. Trazia sabida a direcção das cartas para Maria Pulaski.

Castro escreveria à noite. O padre Diogo ficou de escrever também uma carta para Maria e outra para o Tio.

No dia imediato, Cândido Xavier teve alta e foi apresentar-se no quartel general da divisão Tharreau.

Luís de Castro despediu-se dele com pesar.

Xavier prometeu ir visitá-lo, sempre que lho permitissem as exigências do serviço.

Estava o padre Diogo com o Castro no jardim, quando um sargento francês, dos que dirigiam o pessoal de enfermeiros do Grande Exército, então em serviço provisório no hospital, lhe veio trazer este aviso de surpresa:

- Procura pelo sr. Capitão e deseja falar-lhe, um estrangeiro, que está ali na casa de espera. Traz um braço ao peito e fala o francês com pronúncia arrevezada.

Castro levantou-se afogueado. Lembrou-lhe alguma audácia de Platow.

- Homem alto, espadaúdo? - preguntou ao sargento.

- Delgado, cabelo ruivo, estatura média. Disse-me que era siciliano. Se mo não dissesse, havia de jurar que era dos ingleses secos e de marca pequena.

- Bem. Vou recebê-lo. Queira ajudar-me a subir

a escada.

- Estou eu aqui, meu caro Capitão - disse o padre Diogo.

- Aceito.

Foram ter com o siciliano.

- Não posso adivinhar quem seja! - pensava o Castro - Da Sicília só me lembro do patife de Farinelli, mas esse não tinha o cabelo ruivo. Só se vem disfarçado. Já não era a primeira vez.

Entraram na sala de espera. O sargento francês tinha ido adiante para prevenir o tal siciliano.

- Ali tem o sr. capitão Luís de Castro - disse ao desconhecido visitante.

- Não é Farinelli - pensava o Castro, indo para êle.

- Sei já que tenho a honra de falar ao sr. Luís de Castro e Albuquerque - disse o italiano em mau francês asperamente pronunciado.

- À sua disposição, embora não saiba a quem estou falando.

- Desejo tratar convosco um assunto de família, confidencial. Trago uma carta de apresentação, que terei a honra de vos entregar quando estivermos a sós.

- Diabos me levem se não parece um inglês a pronunciar a língua dos inimigos da Inglaterra! - pensava o Castro - Pois bem - disse-lhe alto - terei de o receber no meu quarto. Para uma confidência não tenho outro logar adequado.

- Esse é o melhor - respondeu o outro secamente.

- Queira então acompanhar-me - disse-lhe o Capitão, cada vez mais intrigado.

- Meu Padre, perdoe-me esta ausência forçada - disse o Castro em português para Diogo Martins.

- Eu também tenho de sair. Cá me há-de ter amanhã.

Entraram no quarto. Luís de Castro fechou a porta.

Sem lhe dizer palavra, o siciliano apresentou-lhe uma carta com os dizeres do sobrescrito em francês.

Castro reparou na letra e comoveu-se.

- É de meu irmão Henrique!

- Exactamente - respondeu o siciliano.

- Queira sentar-se - disse, indicando-lhe uma grande cadeira estofada, o móvel melhor do quarto.

Sentou-se defronte dele. Pediu licença para abrir a carta, abriu-a e leu-a com alvoroço e estranheza. Dizia assim:

 

             «Meu caro Luís,

«O apresentante desta carta é o sr. William Cole, capitão do exército inglês, que veio para nossa terra com as tropas de sir Arthur Wellesley e depois passou a servir no exército de Portugal, escolhido pelo marechal Beresfort, actual comandante em chefe das nossas tropas.

«É um oficial distintíssimo. Mereceu honrosas referências pela sua extraordinária intrepidez no combate da Roliça e na batalha do Vimeiro. Na tomada do Porto, contra as tropas do marechal Soult, fêz prodígios de valor. Ferido ali de modo que ficou inutilizado para o serviço militar, com perda sensível para o exército e profunda mágoa dos seus camaradas, vai agora com licença ilimitada para o seu país.

«Disse-me que iria primeiro à Áustria, onde tem sua esposa, uma dama ilustre de Viena, e como eu soube pelos jornais ingleses que a Legião entrara em campanha com o exército de Napoleão, e estou há mais de um ano sem ter notícias tuas, pedi-lhe com encarecimento a mercê de indagar o que será feito de ti, empenhando-se em que te chegasse às mãos umas cartas que tinha para te mandar.

«Acedeu com gentileza de amigo, e creio bem que empregará todas as diligências possíveis para as entregar ele próprio.

«Recebe-o como amigo meu muito devotado e terás ocasião de lhe apreciar as altas qualidades que o tornam digno da estima de todos os homens de bem.

«Para poder atravessar com maior segurança a parte da Áustria ocupada pelos franceses, o sr. William Cole terá de ocultar a sua nacionalidade e vai no intento de alcançar documentos que lhe defendam o disfarce de cidadão siciliano.

   «Meu estremecido Luís, recebe, etc.

 

- Sr. William Cole - disse, dobrando a carta - meu irmão Henrique presta-lhe aqui umas calorosas homenagens a que eu gratamente me associo. Sei que estou falando a um oficial brilhantemente assinalado nas campanhas de Portugal.

Levantou-se a custo.

- Foi um defensor do meu país e é um amigo de Henrique de Castro, nenhuns títulos maiores para a minha admiração e para a minha estima.

- Obrigado, senhor - disse Cole no seu péssimo francês. E levantou-se também.

- Julgar-me-ei honrado, sr. William Cole, se algum dia puder merecer-lhe relações de amizade que logrem igualar-se às que meu irmão Henrique me refere nesta carta.

- A honra será também para mim. Soube ontem que estava aqui por causa de um ferimento que recebeu na batalha de Wagram e disseram-me também que foi dos mais valentes naquela batalha.

Castro estendeu-lhe a mão, que o inglês apertou sacudidamente na sua mão esquerda, pois que a direita a trazia ao peito.

Tirou de uma algibeira interior três cartas e deu-lhas.

- Mil agradecimentos. Pode bem calcular a hora de ventura que me concede, trazendo-me estas cartas. Há mais de um ano que não sabia notícias dos meus!

Fêz-lhe um gesto de convite para voltar a sentar-se.

- Está então aqui em Viena?

- Não. Minha esposa vive com os pais numa propriedade, a seis léguas daqui.

- Veio então de propósito a Viena...

- Para ter o gosto de lhe falar e desobrigar-me do encargo que tomei.

Mas dizia isto num francês arrastado, torcido, abasfardado pelas asperezas de uma pronúncia inglesada. Percebia-se que falava constrangido.

- Henrique de Castro disse-me que v. s.a falava inglês.

- Um pouco.

- Se lhe apraz, falemos inglês.

- Da melhor vontade.

Cole fêz um gesto de alívio. Podia conversar mais à sua vontade.

- Mas há-de querer ler as suas cartas, - disse-lhe em inglês - é natural a ansiedade de as ler, e então voltarei cá amanhã para ter o gosto de lhe falar da sua família e do seu país.

- Se o não contraria, se lhe não estou tomando o tempo que tenha destinado para outra cousa, conversemos primeiro.

- Completamente às suas ordens.

- De minha família não sabe cousa nenhuma que deva dar-me cuidado, não é assim?

- Saí de Portugal em 30 do mês passado. Na véspera estivera em sua casa a despedir-me.

- Conhece minha Mãe?

- Conheço. Falei-lhe duas ou trêz vezes. Uma excelente senhora. Muito cheia de pesar pela sua ausência. Falou-me de si com enternecimento.

Castro comoveu-se. Arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas.

- Dei-lhe esse pesar da ausência. Mas do mal o menos. Meu irmão teria de vir, se eu não viesse, e esse fazia mais falta.

- Eu sei. Sua Mãe contou-mo.

- Andava comigo o receio de que ela... me tivesse faltado!

- E ela, pela sua parte, na mágoa de que o filho mais novo lhe houvesse morrido nessas sanguinolentas batalhas de que lá tiveram notícias pelos periódicos de Londres. Ainda no dia em que eu lá fui despedir-me falou do medo em que estava de que eu já o não pudesse encontrar.

- Com tanto infortúnio, por lá, há-de ter envelhecido muito.

- Disse-me seu irmão que estava muito avelhentada. Contou-me que logo depois da sua saída de Lisboa a pobre senhora estivera gravemente enferma, quási à morte.

- Por minha causa! - pensou, amargurado - E eu sem saber nada! - disse para o inglês - Tive duas cartas de meu irmão, que recebi em Salamanca e em Burgos. Apenas me dizia que minha Mãe andava ralada de saudades, mas não me falou da sua doença!

- Seu irmão escreveu-lhe também para França, mas já com o receio de que não chegassem cá algumas cartas das diversas que ele lhe mandou.

- Não chegou senão uma. Era de esperar.

Quando saímos para Baiona, já a Espanha toda estava revoltada contra os franceses. Ainda escrevi uma carta a Henrique e mandei-lha por uns oficiais da Legião que tinham sido despedidos do serviço, por velhice e incapacidade física. Provavelmente ficou em Espanha ou se esqueceu de ir entregar.

- Dos que desertaram da Legião, e mesmo desses que voltaram, soube que muitos se tinham alistado no exército espanhol e alguns morreram combatendo ao lado dos espanhóis.

- Deixei em Lisboa dois tios que muito prezo, um velho oficial de marinha, mutilado, o outro, antigo oficial do exército.

- Seu irmão falou-me deles, mas não os vi. O de marinha contou-me seu irmão que tinha ido muito doente para uma casa de campo que tinha na província da Beira, para os lados de...

- De Mortágua. A uma légua de Mortágua tinha ele uma quinta grande, cujo nome se liga a uma velha tradição de família. A quinta das Águias.

- Parece que foi esse o nome que ele me disse. Seu irmão há-de falar-lhe dele em uma dessas cartas.

- É provável.

- Respeito do outro seu tio, Albuquerque, se não me engano.

- Manuel de Albuquerque.

- Isso. Tem sido um bravo à frente de uma companhia de caçadores a cavalo, que ele organizou à sua custa. Uma guerrilha regular lhe ouvi eu chamar. Contaram-me que fez proezas no combate de Évora e ali fora ferido gravemente.

- Esse foi então o seu terceiro ferimento e todos os três em combate com os franceses!

- No dia em que me fui despedir estava seu irmão à espera que seu tio Albuquerque voltasse do Porto. Falou-me dele com entusiasmo. Tinha feito prodígios com a sua guerrilha contra as tropas do general Loison e juntara-se à divisão do general Francisco da Silveira na sangrenta defesa da Ponte de Amarante.(1)

- Não me causa estranheza. Aquele velho é um soberbo exemplar dessa antiga raça, que tanta gente supôs irremediavelmente perdida. O Henrique diz-me que o sr. William Cole é um bravo da batalha do Vimeiro e da tomada do Porto. Se não receasse abusar da sua benevolência, pedir-lhe-ia a mercê de me dizer a sua opinião, as suas impressões a respeito da possibilidade de Portugal resistir a uma terceira invasão, que eu considero certa, logo que Napoleão possa dispor do exército que tem aqui na Áustria.

- Dir-lhe-ei desassombradamente o juízo que faço dos recursos de defesa do seu país. Vou falar-lhe abertamente, sem preocupações e sem vaidosos egoísmos de nacionalidade.

- Pois ouvi-lo-ei agradecidamente. Sei que vou ouvir a opinião de uma pessoa autorizada.

- Favores seus, sr. Luís de Castro. Mas a verdade é que posso eu dar-lhe esclarecimentos que nem todos poderiam dar. Estive às ordens de sir Arthur Wellesley e trabalhei por alguns meses no quartel-general do marechal Beresford, que está sendo o organizador do exército português.

- Meu irmão fala-me dele nesta carta.

- Vi e passaram-me pelas mãos documentos oficiais,

 

*1. Na defesa da ponte de Amarante, de 18 de Abril a 2 de Maio de 1809, o general Silveira opôs-se à divisão do Loison, reforçada por Delaborde e La Hussaye, tendo consigo 5650 homens de 1.a linha e alguns regimentos de milicianos.

Só a coberto de um nevoeiro os franceses puderam surpreendê-lo, obrigando-o a retirar. As tropas de 1.a linha, cavalaria 6, 9 e 12, infantaria, 6, 12, 18, 21 e 14, a Leal Legião Lusitana e parte de artilharia 1 e 4, tiveram 321 mortos e feridos.

Pela sua bravura e assinalados serviços, Silveira foi depois agraciado com o título de Conde de Amarante.

 

que me habilitam a avaliar as condições em que se encontram Portugal e a Espanha. Estive perto de um ano no seu país, tive de o estudar por dever de ofício. Em princípios de Maio saí do quartel-general de Beresford, por incompatibilidade com um oficial superior do estado-maior do Marechal e fui encorporado em um dos regimentos portugueses. Entrei então no combate de Grijó e na tomada do Porto, onde uma bala me esfarrapou esta mão. Disse isto tristemente.

- Mas eu quero resumir-lhe os factos em breves palavras, os factos e a minha opinião. Houve em 1808 em Portugal um movimento de revolta e patriotismo que foi honrado e útil. Mas sem a revolta da Espanha esse movimento não seria provável, nem talvez possível. Sabe decerto que o seu país estava sem recursos e há-de ter algumas notícias do que lá se passou.

- Sei, tenho.

- Para a Roliça e Vimeiro foram com os ingleses pouco mais de dois mil portugueses, restos de regimentos e da cavalaria da Guarda Real da Polícia. Havia umas divisões de milicianos pelo país, mas era gente sem disciplina, sem instrução militar e até sem armas. Eram assim as forças do general Bacelar, do general Sepúlveda e do tenente-coronel Francisco da Silveira, actualmente o general glorioso, de que já lhe falei. A melhor dessas divisões era a do general Bernardim Freire, uns sete mil homens, mas esses mesmos bisonhos e mal armados. Vi centenas deles de chuços ao ombro.

- Uma lástima!

- Com estes recursos Portugal não poderia resistir a quinze ou vinte mil homens das boas tropas de Napoleão, se a Inglatera o não auxiliasse, como era seu dever e seu interesse. Mas também os ingleses não poderiam fazer de Portugal o seu campo entrincheirado se não fosse a dedicação e o esforço do povo português.

Faltava tudo para uma guerra. Dinheiro, espingardas, artilharia, munições, oficiais experimentados. Mas daquele povo podiam sair excelentes soldados. A Inglaterra deu-lhe armas, forneceu-lhe recursos, mandou-lhe oficiais disciplinadores, e lá está já um exército novo, que tem dado boa conta de si.

- Numeroso?

- Uns quarenta mil homens de primeira linha.

-Pequeno ainda!

- Estudavam-se os meios de o elevar a cinquenta ou sessenta mil. A Inglaterra tomou para si o dispêndio com vinte mil, desde já, e é possível que chegue a tomar o encargo de trinta mil. Com as ordenanças pouco se pode contar, são uma espécie de guerrilhas locais. Todavia formam uma terceira linha de útil cooperação nas pequenas operações do exército.

- E as milícias?

- Vão armá-las regularmente. Beresford quere fazer delas uma segunda linha, capaz de entrar em campanha com o exército.

- Que forças tem a Inglaterra actualmente em

Portugal?

- Uns vinte e tantos mil homens.

- Parece-lhe então que essas tropas portuguesas darão boa conta de si?

- Parece. São mais disciplináveis que os espanhóis e que os próprios ingleses, suportam admiravelmente as marchas violentas, batem-se bem, ainda que estejam famintos, e é esta a superioridade que eles têem ao lado das tropas do meu país, insuportáveis e insubmissas quando os víveres escasseiam.(1)

 

*1. Não deve admirar que o inglês falasse assim desassombradamente. Lorde Wellington disse muito pior nas suas cartas e relatórios para o governo inglês.

 

- Em que acções lhe pareceram mais distintos os novos soldados de Portugal?

- Na defesa da ponte de Amarante. Não assisti, mas por comunicações oficiais que tive de ler, sei como as coisas se passaram. Foi digna de louvor! Os cinco mil e seiscentos homens do general Silveira bateram-se durante quinze dias com oito mil soldados de Loison, Delaborde e La Houssay. Houve ali um combate que durou quatorze horas! O próprio marechal Soult queria dirigir o ataque da ponte, e, apesar de tudo, só a tomaram por surpresa e estratagema, protegidos por um denso nevoeiro e fazendo incendiar umas barricas de pólvora, que tinham podido colocar próximo das trincheiras exteriores da ponte. Silveira teve de retirar, mas honrou as tradições do seu país. No combate de Grijó, esse vi eu, houve um batalhão português que enobreceu a sua bandeira.(1) Estavam já bem longe dos soldados sem disciplina e dos milicianos anárquicos e mal armados que tentavam forçar o Silveira a defender Chaves, uma praça indefensável,, ou dos que foram em tumulto para o combate de Carvalho de Este na loucura de fazer frente aos vinte e tantos mil homens de Soult, que tinham vencido em Austerlitz, e dos quais logo fugiram, preparando o enorme desastre do Porto.

- A respeito desse desastre vi nos periódicos franceses que tinha sido uma batalha de três dias e que dentro do Porto estava um exército de sessenta mil homens com duzentos e cinquenta canhões!

O inglês pôs-se a rir.

- Mentiras, petas como lá dizem no seu país. Havia lá mais de cinquenta mil doidos que berravam e promoveram a anarquia patriótica da cidade. Mas de tropa regular,

 

*1. Era do 16 de Infantaria.

 

e essa mesma indisciplinada, pouco mais de quatro mil soldados. Os parapeitos das baterias não tinham altura para abrigar os artilheiros e parte das peças, velhas, comidas de ferrugem, rebentaram logo aos primeiros tiros! Imagine! o governador militar era o Bispo! A multidão guerreira que lá havia era de milicianos e ordenanças semi-selvagens, do feitio das outras que tinham assassinado o general Bernardim Freire, em Braga.

- Bernardim Freire assassinado! Não sabia!

- Barbaramente assassinado. Como não tinha consigo senão uns centos de soldados regulares, a turba anárquica dos milicianos e das ordenanças não podia opor-se ao Soult, e então Freire queria retirar sobre o Porto, para ali se defender eficazmente, juntando ao seu punhado de soldados os reforços que esperava encontrar ali. A canalha não percebeu, e assassinou-o, pondo sobre o cadáver, que arrastava por cima da lama das ruas, o labéu de cobarde e traidor.

- Uma trágica vilania!

- Os espanhóis têem feito o mesmo. Dá nestes horrorosos desvarios a anarquia do patriotismo. Mas tudo mudou por lá. Daqui a um ano terá Portugal um exército capaz de se bater com quarenta ou cinquenta mil soldados franceses.

- Mas feita a paz com a Áustria, Napoleão poderá mandar para a Península mais de cem ou duzentos mil homens.

- Será isso um perigo enorme para o seu país, quaisquer que sejam os esforços do povo português!

- Pode a Espanha contar com alguns dos seus

exércitos?

- Não me parece. Os seus melhores exércitos desfizeram-se em não sei quantas batalhas perdidas. E tem lá duzentos e cinquenta mil franceses, que a não submetem, que lhe não dominam as aldeias e as montanhas, mas que estão lá dentro como triunfadores.

- Tem os seus intrépidos guerrilheiros, os seus épicos patriotas como os de Valência, de Saragoça e Gerona, mas não é com eles que pode vencer batalhas campais. Está provado.

- Se Napoleão mandar mais cem mil homens para a Península, só um assombro de esforço e de boa fortuna poderá salvar o seu país e a Espanha, e mesmo assim, será preciso que a Inglaterra lhes dê um auxílio de quarenta ou cinquenta mil soldados e os armamentos que lá lhes faltam.

- Ouvi que o governo inglês tinha fornecido muitos aos espanhóis.

- Muitos. A maior parte deles foi parar às mãos dos franceses, depostos ou abandonados nos campos de batalha! Tantos, que em Inglaterra havia quem se pronunciasse contra o projecto de fornecer espingardas e artilharia aos seus compatriotas.

- Por temerem que as largassem também nas mãos dos franceses!

- Sim, por isso.

Bateram à porta. Castro foi ver quem era. Apareceu-lhe o sargento francês do pessoal de enfermeiros militares.

- Que é?

- Recebeu-se aviso de que uma irmã do Imperador vem agora aos hospitais visitar os feridos do Grande Exército. Venho preveni-lo, meu Capitão.

- Uma irmã do Imperador, aqui!

- Dizem que o veio visitar ao campo imperial e felicitá-lo pelas suas vitórias. Ouvi que tinha chegado ontem à noite, vinda da Itália.

- Da Itália! Mas qual das irmãs?

- Isso é que eu não sei.

- Bem. Fico prevenido.

Foi contar o caso ao inglês.

- Ouvi que Napoleão tem duas irmãs na Itália.

- Uma é esposa de Murat, rei de Nápoles - disse o mutilado da tomada do Porto.

- Bem sei. Carolina Bonaparte.

- A outra é a mulher do Príncipe Borghèse. Ouvi falar dela em Trieste, quando lá desembarquei de bordo da fragata inglesa que me trouxe de Lisboa.

- Disseram-me que Paulina Borghèse estava no Piemonte com o marido. É verdade que foi em Maio que mo disseram.

- Pois há vinte dias ouvi que tinha passado por Trieste, em viagem de recreio. A Vénus Borghèse como lá lhe chamavam.

- Como lhe chamam em Roma e em Paris. Mas o sargento disse-me que vinha da Itália.

- Era até capaz de vir da Lua - acudiu o inglês, sorrindo maliciosamente -, De vir da Lua, se naquela cabecinha doida se lhe tivesse metido a ideia de ir viajar até lá em busca de alguns apetecidos amores.

- Conhece-a?

- Pelos retratos, pelas gravuras, muito espalhadas por Inglaterra. Agora dê licença que me retire. Não desejo pôr em risco o meu disfarce de siciliano, tomado ontem, a cinco léguas de Viena.

- Demora-se na cidade?

- Está cumprido o meu encargo. Amanhã de tarde voltarei para casa de meu sogro.

- Sinto que me não seja possível ir visitá-lo, para nos despedirmos.

- Voltarei cá amanhã.

- Mais um insigne favor, meu caro sr. Cole! Creia que tem em mim um amigo, profundamente reconhecido.

Despediram-se.

Uma hora depois Paulina Bonaparte visitava solenemente os hospitais de Viena, onde havia feridos do Grande Exército.

Trazia consigo uma comitiva de princesa. Vinha acompanhada por um dos generais do estado-maior imperial.

Visitou as enfermarias gerais e entrou nos quartos particulares. O número de feridos em tratamento diminuíra muito, mais de dois terços tinham tido alta ou haviam falecido.

Pedia informações a respeito de cada um e já lhe custara um certo alvoroço saber que os portugueses, seus conhecidos de Baiona, haviam entrado na batalha de Wagram e tinham tido grandes perdas.

Defronte do quarto de Luís de Castro o clínico francês de serviço disse-lhe:

- Está ali um capitão da meia brigada portuguesa. É ainda muito novo.

- Mal?

- Curado, mas ainda enfraquecido. Se Vossa Alteza quiser vê-lo...

- Quero. Também vi os outros. Não há motivo para excluir este.

- Ao contrário, Senhora. Ouvi dizer que se batera brilhantemente na véspera e no dia de Wagram.

- Sim? Pois ainda maior razão para o ver. Deve ser-lhe agradável saber que não é aqui um desconhecido. Veja o enternecimento com que os outros feridos me agradeciam as singelas palavras de louvor que eu lhes disse, tratando os pelos seus nomes.

- É que na boca de Vossa Alteza valiam por uma insigne distinção.

- O nome deste?

- Luís de Castro - respondeu o clínico. Paulina estremeceu, perturbou-se.

- Queira então preveni-lo - disse numa tentativa de disfarce.

- Já recebeu aviso - respondeu o cirurgião - Bastará agora que eu o previna da honra que Vossa Alteza lhe vai conceder.

Foi à porta do quarto, bateu e entreabriu-a.

- Sua Alteza a Princesa Borghèse dá-lhe a honra de o visitar - disse para dentro.

Profundamente comovido, Luís de Castro foi lentamente para a porta e curvou-se como se fosse um cortesão a receber uma rainha no peristilo de um palácio.

- Alteza! Uma inexcedível honra para mim! Paulina mais ainda se perturbou e estendeu-lhe a

mão a tremer. Castro tocou-lha com os lábios ao de leve, como se fosse a mão de uma rainha.

Paulina Borguèse entrou.

- É um dos mais belos quartos do hospital, este seu, Capitão! - disse-lhe relanceando em volta de si uns olhares de fingida curiosidade - Estava longe de supor que viria encontrá-lo aqui! Este oficial foi-me apresentado o ano passado em Marrac - explicou ao ajudante-de-campo do Imperador.

Um pouco de costas para a comitiva, Paulina envolveu Luís de Castro num olhar ardente, estonteador, feito de saudade e de volúpia.

- Sei que é um bravo do Grande Exército.

- Mercê de Vossa Alteza. Já me bastaria, Senhora, que a vossa magnificência me contasse entre os soldados da meia brigada portuguesa que não desdoraram o nome do seu país.

- Que o honraram é que é - objectou-lhe calorosamente, acarinhando-o num olhar voluptuoso que o endoidecia - Que honraram o nome do seu país ao lado dos melhores soldados do mundo. O Capitão entre os mais intrépidos. Já o sabia.

E disse num encanto de voz, com tal calor e enternecimento, que não houve na sua comitiva pessoa que não fizesse um comentário de malícia àquelas palavras.

- Além de valente, um belo homem - disse com os seus botões o cirurgião director dos serviços -, Para esta mulher prodigiosamente linda e prodigiosamente louca, sobretudo um perfeito rapaz.

- Quando sai? - preguntou Paulina.

- Segundo o meu assistente, daqui a quinze ou vinte dias - respondeu Luís de Castro, um pouco embaraçado.

- Mas daqui a quatro ou cinco dias terá licença para passear na cidade - informou o cirurgião.

Ouviu-se um ruído de passos no corredor. Um dos cirurgiões militares veio dizer açodado:

- Sua Majestade o Imperador! Entrou agora.

Paulina afogueou-se.

- Se Vossa Alteza mo permitir - disse o chefe dos serviços clínicos - irei receber ordens de Sua Majestade.

- Sim, vá - respondeu-lhe.

E logo segredou umas palavras ao ajudante-de-campo do Imperador.

- Capitão, faço votos para que em breve esteja restabelecido. O Grande Exército receberá com júbilo, estou certa disso, um dos seus mais brilhantes oficiais.

- Alteza, nenhum galardão igual à generosidade das vossas palavras!

Curvou-se e beijou-lhe a mão.

- Ah! Mas não quero sair sem ver o delicioso panorama que estou a perceber daqui - disse Paulina gentilmente, apontando a janela.

E encaminhou-se para lá sozinha.

- Um encanto de paisagem! Aquelas aldeias além! Foi para ali a grande batalha, não foi, sr. Luís de Castro.

O moço oficial aproximou-se. Paulina apontou-lhe uma das aldeias.

- Para lá daquelas está Wagram - indicou o Castro, abeirando-se da janela.

- Preciso falar-lhe - disse-lhe Paulina num murmúrio de voz, que só êle podia ouvir – Receberá aviso.

E logo se retirou da janela. Fêz-lhe um gesto breve de despedida e saiu.

- Esta mulher é capaz de me comprometer! - disse o Castro de si para consigo - Só falta que alguém intrigante conte ao irmão as palavras que ela me disse há pouco.

- É possível que o Imperador venha aqui. E talvez não. O caso da bandeira de Beaumersdorf irritou-o contra mim.

Era uma desconfiança que tinha bons fundamentos. Napoleão visitou as enfermarias gerais onde havia franceses, foi aos quartos onde estavam feridos do Grande Exército, até a um quarto onde agonizava um subalterno da 13.a meia brigada, não foi ao quarto de Luís de Castro!

Antes de entrar fazia perguntas ao cirurgião director acerca do doente que ia ver. Em frente do quarto de Luís de Castro passou adiante, assim que lhe disseram quem lá estava, e dissimulou fazendo perguntas a respeito do estado inquietador de certo general ferido em Wagram. Esta excepção causou estranheza, como era natural. Contrastava com as palavras entusiásticas da irmã.

Houve logo quem o fosse contar ao Castro.

- Tenho de me acautelar - pensou.

E logo que o alviçareiro o deixou só, fêz esta ameaça mental:

- Pois então talvez eu não seja agora o casto requestado que fui em Baiona. Esta excepção ofensiva vale bem um escândalo imperial. E ser-me-á tão fácil tornar minha amante essa irmã do maior conquistador dos tempos modernos, a mais linda mulher da França! Não deserto: não poderá punir-me nem por cobarde, nem por ladrão, nem por traidor. Só se me castigar por lhe ter aceitado os amores da irmã.

Passeou agitado.

- Demónio! Pode punir-me de algum modo insidioso, de maior lástima para mim! E o pior não será que me castigue. Imensamente pior para mim seria que um escândalo de fáceis amores fosse ofender a alma puríssima de Maria Pulaski. Antes a minha rude e iníqua punição! Antes.

 

             Um escândalo.

Esteve a ler regaladamente as cartas que o inglês lhe trouxera de Lisboa. A da Mãe fê-lo chorar. Duas páginas adoràvelmente carinhosas, numas enternecidas lástimas de saudade, que faziam dó. Que já tinha perdido a esperança de o tornar a ver e havia de querer Deus que a morte a levasse breve sem lhe poder dar o seu derradeiro beijo! Inexcedíveis palavras de mágoa e de amor, singelamente escritas. Mas a carta de Henrique, essa era imensa, e não passava afinal de um resumo das coisas extraordinárias que tinham sucedido em Portugal, contadas com um grande calor patriótico.

Na suposição de que lhe não houvessem chegado às mãos duas cartas que lhe enviara para França, sumariando-lhe os acontecimentos da revolução contra os franceses, os actos de valentia e abnegação do povo, as lutas na Roliça e no Vimeiro e a capitulação de Junot com todo o seu exército, dava-lhe agora uma resenha de tudo naquela carta, pois que no Moniteur e nos outros periódicos franceses teria encontrado certamente informações inexactas, ditadas ao sabor dos interesses e das vaidades do partido napoleónico.

Mas era a respeito da segunda invasão, da campanha contra o marechal Soult, que Henrique lhe dava mais largos pormenores.

Ao outro dia de manhã apareceu-lhe lá de visita o seu amigo Cândido Xavier.

Narrou-lhe o que se passara na véspera e contou-lhe, como coisas de segredo, a visita de William Colle e os amores comprometedores de Paulina.

- E de lá da nossa gente ninguém recebeu cartas de Portugal.

- Que eu saiba, ninguém.

- Pois então aqui tem o meu amigo uma carta do Henrique, cheia de informações interessantes. É enorme. Se quere lê-la, está às suas ordens, mas se prefere, como é provável, ouvir somente o que há aqui de mais interesse para o nosso coração de portugueses, leio-lhe eu então umas indicações e uns trechos que me parecem mais dignos de apreço.

- Sim, leia. Ouvi-lo-ei com o maior prazer. Sentaram-se. Luís de Castro procurava os trechos mais importantes.

- Este aqui, por exemplo: «Logo depois da capitulação de Junot, tratou-se da reorganização militar do país e a nossa Lisboa levantou-se em assomos guerreiros, mas com a pecha antiga de imitar coisas estrangeiras. Desta vez imitou Paris com suas legiões do tempo da Revolução, e cá se formaram em todas as freguesias da cidade dezasseis legiões de lisboetas com sessenta e tantos mil homens de toda a cidade. Mas, coitadas das legiões! As espingardas que a Inglaterra forneceu mal chegam ainda para todos os regimentos de primeira linha e alguns de milicianos, e os legionários andam de chuços, alabardas e piques, com ferrugem talvez dos tempos do Mestre de Aviz!

Mas no exército é que se tem feito alguma coisa de jeito e já temos pronta a organização de quatro regimentos de artilharia, doze de cavalaria, vinte e quatro de infantaria e seis batalhões de caçadores. Quási tudo isto com armamentos fornecidos pelos ingleses, pois que em Portugal não se apurariam dez mil armas de munição em termos de servir! Era espantosa a situação a que este desventurado país tinha chegado! E, por nossa vergonha, tivemos de receber também oficiais ingleses, pois que os de cá não davam para todo o exército! E até dinheiro inglês, porque todo o país está na mais esmorecedora penúria!(1)

- Faço ideia - observou o Cândido Xavier.

- Vá lá, que ainda temos duas riquezas com que contribuir para a guerra: a alma e o sangue.

- E olhe que nem com essas se contava na Europa!

- Mas aqui tem notícia de uns belos rasgos de abnegação cívica.

Leu: «Todos os que podem tèem dado dinheiro à nação ou estão contribuindo voluntariamente para as despesas do estado. Noventa particulares e corporações fizeram valiosos donativos e cada qual com quantia superior a um conto de reis, conforme as suas posses. O conselheiro Pessoa de Amorim deu 20 contos, o Quintela 6 contos, o Costa Bandeira 9.600.000, o priorado da Ordem de Malta deu 12 contos, os mercadores de lã e seda deram 13 contos e mais uns centos de mil réis, o Colégio Patriarcal 12 contos, etc. Até as terras pequenas. Guimarães deu 27 contos, Barcelos mais de 14 contos. Da ilha de São Miguel vieram quási 16 contos, da Madeira 7 contos,

 

*1. Um ano depois (1810) as receitas do país somavam um total de 1.500 contos e as despesas iam além de 10.000 contos. A Inglaterra dava-nos um subsídio de 2.400 contos, mas o deficit ainda ficava em mais de 3000 contos.

 

mas do Rio de Janeiro, com toda a corte lá, apenas a miséria de 68 contos! Também há donativos anuais em dinheiro e outros valores. O Conde da Ribeira prometeu 2400$000 réis por ano, o Rego e Castro 2 contos, o Conde de Alva 1200$000 réis em cada ano que durar a guerra. As senhoras da nobreza abriram uma subscrição e fardaram três regimentos de cavalaria da corte. Em cavalos e muares houve dádivas importantes. Nada menos de 472 cavalos e 59 parelhas de machos. Só o Marquês de Niza deu 13 cavalos, a Duquesa de Lafões 9, Pereira Caldas 10, completamente arreados, D. Joaquina Fuschini 5. Encheria duas páginas a mencionar-te nomes e donativos. E tudo isto é pouco.

- Será - disse Cândido Xavier - mas tem uma grande valia como sintoma de ressurgimento.

- Agora deixe-me ler-lhe este sumário da campanha, que me parece interessante. Meu irmão chama-lhe sumário cronológico.

- Mas veja não se canse.

- Não canso. Estou muito melhor e esta leitura não me fatiga.

Leu: Vou dar-te uma indicação brevíssima da campanha. Em Fevereiro o marechal Soult avançava sobre o Minho para atravessar o rio e invadir Portugal. Ouvi que o Marechal Ney o apoiara na Galiza com 16.000 homens, segundo as ordenns de Napoleão, que a divisão Lapisse, com 8000 homens, devia marchar de Salamanca para Abrantes e que o marechal Vítor entraria pelo Alentejo com vinte e tantos mil homens. Ouvi isso a um oficial francês que aprisionámos no Porto. Faz ideia. Soult trazia uns vinte e seis mil homens com 58 bocas de fogo e aqui tens três invasões conjugadas, um total de 54.000 homens.! E nós com uma divisão auxiliar inglesa pouco numerosa e vinte e tantos mil homens de primeira linha, ainda mal armados e de pouca disciplina. As milícias e ordenanças uma turba muito anárquica.

Uma situação esmorecedora! Felizmente nem Vítor, nem Lapisse se mexeram a tempo e só tivemos de nos bater com Soult, que ainda assim, era demasiado para o que nós podíamos. Demais a mais, para observar as fronteiras da Beira e do Alentejo e cobrir Lisboa tivemos de dispersar as escassas forças de que dispúnhamos. O general Bernardim Freire apenas pôde reunir na fronteira do Minho dois mil homens de primeira linha e alguns milhares de milicianos e ordenanças. Pois sustentou-se ali uma defesa honrosa, que o marechal Beresford louvou. Os franceses tentaram passar o rio em barcas, mas foram repelidos em dois combates (16 de Fevereiro) em Caminha e Vila Nova de Cerveira. Soult desistiu da passagem do Minho e tomou para a fronteira de Trás-os-Montes. Entrou então por Chaves. Dezasseis mil espanhóis do Marquês de La Romana desapareceram de Monterey como por encanto, e os franceses puderam investir Chaves muito a seu salvo. A praça não valia nada e o general Silveira com os seus milicianos, dois regimentos de primeira linha e um destacamento de cavalaria, cinco mil e tantos homens, não podia opor-se àquele exército de que o melhor general espanhol se havia escapado, à frente de dezasseis mil soldados. Silveira retirou para a serra de Santa Bárbara e Chaves, com um punhado de soldados sem disciplina e uns milicianos tumultuados, capitulou a 12 de Março. Reconhecendo pouco fácil bater Silveira nas suas posições da Serra, o Duque de Dalmácia deixou em Chaves uns mil e quatrocentos homens, doentes e feridos, e avançou para Braga por Salamonde. Ali e no Salto de Ruivães se lhe opuseram uns destacamentos e populares, muito mais audazes que temíveis. Braga, cidade aberta, não podia resistir com dois ou três mil soldados, a turba dos milicianos e o povoléu de chuços e foices. Bernardim Freire preparava a retirada sobre o Porto.

Soube-se, acusaram-no logo de traidor vendido aos franceses e as ordenanças de Tobosa assassinaram com horrorosa selvajaria o melhor general que tinha Portugal! O barão d'Ebem, oficial prussiano ao serviço da Inglaterra, viu-se compelido a defender Braga na posição de Carvalho de Este. Foi uma acção desastrosa, em que houve rasgos admiráveis de coragem individual e tristíssimas lições de disciplina e de cobardia colectiva. Braga estava deserta quando os franceses ali entraram (20 de Março). A defesa da linha do rio Ave (23 e 26) foi digna de louvor. Os paisanos bateram-se intrepidamente. A 26 o marechal Soult estava diante do Porto. Depois te resumirei o que foi aquela trágica desgraça. Vou continuando o meu sumário. A 20 de Março o Silveira desceu das suas posições de Vila Pouca de Aguiar e assaltou Chaves, da qual facilmente se apoderou, encontrando ali mil e trezentas armas francesas para os seus milicianos de chuços. Senhor do Porto, o marechal Soult tratou de ampliar o seu campo de operações. Em 3 de Abril começou a defesa dos nossos na linha do Vouga. Foi notável. Lá tivemos o intrépido batalhão académico de Coimbra, duzentos bravos que nos enchem de orgulho. Em 8 e 9 de Abril uma admirável defesa em Ponte do Lima, que os franceses tomaram afinal, praticando horrorosas barbaridades! Tinha já então começado a brilhante campanha do Silveira contra Loison, depois reforçado com as divisões Delaborde e La Houssaye. De 1 a 15 a defesa da ponte de Canaveses, de 15 a 17 um combate em Vila Meã, em 18 outro em Mahufe, de 18 a 2 de Maio a defesa da ponte de Amarante, da qual te hei-de dar alguns pormenores. Já então havia mais tropas inglesas em Portugal e era seu comandante em chefe o general Arthur Wellesley, vencedor da Roliça e do Vimeiro, na campanha de 1808. As tropas anglo-portuguesas avançam para o Porto, Beresford, com uma divisão portuguesa, marcha sobre Lamego, para cortar a retirada aos franceses pelo vale do Douro. Em 10 de Maio dão-se três combates em Ovelha, Moledo e Albergaria e nesse batem-se admiravelmente os intrépidos rapazes do batalhão académico. Ali um combate em Grijó, no qual o primeiro batalhão do meu regimento pelejou brilhantemente. Em 12 atacávamos o Porto quási de surpresa e batíamos os franceses, que tiveram quinhentos a seiscentos mortos e feridos. Soult retira, mete-se ao caminho das montanhas, encrava a sua artilharia de campanha, destrói as bagagens, mas consegue escapar-se para a Espanha numa assombrosa marcha de retirada que há-de ficar memorável. Em 12 de Maio houvera um combate em Gatiães, em 16 outro combate em Salamonde. Na Ponte Nova e no caminho de Ruivães a mortandade dos franceses foi grande. Estava acabada esta campanha de quatro meses. Soult perdeu cinquenta e oito canhões e mais de seis mil homens, mortos em combate, mortos de fadigas, mortos às mãos vingadoras do povo. Os ingleses não chegaram a ter trezentos mortos e feridos. Mas nós, os portugueses?! Nem se nos podem calcular as percas! Só no Porto uma carniçaria medonha! E quantas vilas e aldeias incendiadas ou empobrecidas pelo saque naquelas veigas no Tâmega, nas montanhas e nos lindos vales do Minho e Douro? Não lhes sei a conta! Foi uma guerra sem tréguas. Combatiam todos, velhos, mulheres, os próprios frades! Os do convento do Pombeiro fizeram do mosteiro um reduto, que os franceses tiveram de tomar à baioneta, depois de terem sido umas poucas de vezes rechaçados! A campanha dos paisanos, meu querido Luís, não custaria menos de dezasseis ou dezoito mil mortos e feridos!»

- Como o grande exército em Wagram! - comentou Cândido Xavier.

- O pobre povo! Mas já agora desejo ler-lhe também uns pormenores comovedores.

- Essa carta é quási um diário histórico!

- Dez folhas de papel de lés a lés. Os actos de valor pessoal aqui citados por meu irmão são espantosos e bastariam para nos envaidecer por aquela pequena Pátria! Este, por exemplo, que eu escolho por se tratar de uma senhora, que lembra as mães heróicas de Esparta e Roma.

Leu: «Naquela admirável defesa da Ponte de Amarante - quinze dias de combate, os galuchos e milicianos do general Silveira contra sete ou oito mil franceses - houve um oficial artilheiro que fêz prodígios de valor. Caiu mortalmente ferido, morreu como alguns dos nossos heróis antigos. O Silveira abraçou-lhe o cadáver, e os dois irmãos do glorioso morto, também oficiais de artilharia, foram levar à Mãe aquela notícia alanceadora. Pois queres saber o que lhes disse aquela mãe espartana? Disse-lhes isto, que se repete aqui de boca em boca: «Enganais-me, vosso irmão não morreu. Vive para a glória da nossa terra, fazei por merecerdes essa vida que êle tem e será esse o maior prémio das vossas futuras patentes.» E conta-se que dizia isto serenamente, com os olhos afogados de lágrimas! Tamanha impressão causou este facto, que um tio do heróico oficial, juiz de fora da Vila Real, se vestiu de gala, e como êle outros parentes.(1) Vê tu por isto como Portugal se levanta!

«Lembra-te da coragem épica de D. Francisco de Almeida, quando lhe foram levar a notícia da morte do filho queridíssimo,

 

*1. O facto vem narrado pelo sr. general Cláudio de Chaby nos seus Excertos Históricos. Parece que o deu a público um periódico daquele tempo, intitulado Telégrafo Português.

O que se diz no texto deste romance é essencialmente o que vem na tradição escrita, embora as palavras não sejam precisamente as mesmas.

 

espedaçado pelos turcos em Chaul, lembra-te da abnegação espartana de D. João de Castro, quando lhe foram dizer que o filho D. Fernando morrera heroicamente na fortaleza de Diu, « vê lá se essas lições antigas não valem afinal menos do que esta.

- Menos decerto - disse Cândido Xavier comovidamente.

- Muito menos - afirmou Luís de Castro - Eram homens, desde a infância experimentados na guerra. Mas aquela heróica mulher era mãe. Não tinha o ânimo endurecido na carniçaria das batalhas e não podia ter o desafogo de vingar o filho, por entre os deslumbramentos da vitória, como os dois viso-reis imortais. Mais doloroso sacrifício o dela, coragem imensamente maior do que o das mães.

Enternecido, vibrante de entusiasmo, Luís de Castro voltou a relancear os olhos pela enorme carta.

- Há aqui um trecho comovedor e honroso a respeito da tomada do Porto. Tem para mim uma nota de família consoladora, mas receio fatigá-lo.

- Veja que é injustiça para mim supor semelhante coisa! Leia, peço-lho.

- Então leio. Reconheço-te o direito de saberes como eu tenho podido corresponder às tradições da nossa família. Sinto na consciência a tranquilidade de quem cumpriu o seu dever, sem desdouro dessas tradições. Estive no Vimeiro com dois mil e tantos portugueses que para lá foram quási famintos, dentro do seu próprio país! Tudo o que nessa campanha se pôde obter em recursos de víveres era açambarcado para o exército inglês. Pois combatemos mesmo sem pão. Mas o meu verdadeiro baptismo de fogo foi no combate de Grijó, à frente de uma companhia do 16. Os meus galuchos bateram-se admiravelmente.

«Na tomada do Porto não tivemos ensejo de ombrear com os ingleses, todavia desmentimos o conceito em que nos tem o general Wellesley. O que eu soube ali de horroroso! Estava ainda bem viva a recordação dos três dias (26 a 29 de Março) em que as tropas do marechal Soult investiram a cidade í Quási toda a gente de luto! Creio que não havia ali família que não tivesse perdido alguém naquela desgraçada batalha de três dias, como os franceses lhe chamaram! Imagina tu o que devia ser aquilo com peças velhas que rebentavam aos primeiros tiros, em batarias sem parapeitos que abrigassem os defensores! Menos de cinco mil homens de tropas de linha, indisciplinadas, e uma turba de dezanove mil milicianos e ordenanças em completa anarquia, de chuços e foices o maior número, a tumultuarem, a bramirem cóleras pelas ruas! E por governador militar o Bispo, que foi o primeiro a fugir! O Bispo com aquela gente contra doze ou catorze mil dos melhores soldados da Europa,, comandados pelo mais ilustre dos marechais de Austerlitz! Abrigados pelo arvoredo, que ninguém se lembrou de mandar cortar defronte dos redutos e baterias, os atiradores franceses fuzilavam a seu sabor os artilheiros portugueses, completamente a descoberto! E apesar de tudo isto, lances de assombrosa intrepidez naquela desgraça! Nas ruas, combates de enfurecida bravura, grupos de desesperados que morriam doidamente, a peito descoberto, contra os batalhões vencedores! Com a cidade já tomada e ainda houve duzentos temerários, duzentos loucos sublimes, que fizeram do paço do Bispo um baluarte de morte! Não se entregaram, foram todos mortos à baioneta.(1)

- Faz pena - comentou Cândido Xavier -,

 

*1. É um facto assinalado por todos os historiadores daquela campanha.

 

tantos desleixos e tantos erros desta raça de tão altivo sangue!

- Que só tardiamente se resgatam ao preço do melhor esforço e do melhor sangue daqueles que nenhuma culpa tiveram desses erros e desses desleixos!

- Eu vi há dias num periódico francês um cálculo da perda de vidas que os nossos tiveram nesses combates do Porto. É um horror!

- Meu irmão diz-me que na avaliação das perdas divergem muito os cálculos. Uns avaliam em seis

mil o número dos mortos, outros em oito mil e alguns em dez mil. Aqui está o que êle me diz:

«Na ponte de barcos, entre o Porto e Vila Nova, as mortes foram incalculáveis! A turba dos desarmados, com o Bispo à frente, fugira para Vila Nova. Envolvido com a gente espavorida, um troço das nossas tropas foi tomar posição na Serra do Pilar, A levada dos fugitivos engrossava de instante para instante e ia escachoar contra a ponte. Vinha das ruas da cidade um ruído estonteante de gritos aflitivos. A cavalaria francesa varria diante de si, em cargas furiosas, a populaça espavorida. Mais fugitivos, maior desvario de terror! Partem-se as guardas da ponte, vão abaixo alguns alçapões, outros são levantados pelos que estão quási a salvo e querem cortar o caminho aos franceses. Ninguém dá por semelhante coisa. As ondas de povo vão umas contra as outras num turbilhão de pavor. Os mais impacientes deitam-se ao rio. Os alçapões escancarados são como sorvedoiros medonhos, onde se morre aos gritos, lancinantes gritos que ninguém percebe! Ali não se pode parar. Uns empurram os outros no egoísmo cruel das grandes catástrofes. Os velhos caiem na voragem de rastos, mulheres alucinadas enfiam por aqueles covais com os filhitos erguidos nos braços! Afinal já se pode passar por cima dos alçapões. Estão atulhados de gente!

Fêz-se um alicerce de cadáveres que as águas do rio vão desfazendo. Então a artilharia da Serra troveja contra os dragões de Soult, à desfilada contra a ponte, mas as balas daquelas peças, ineptamente apontadas por milicianos, vão despedaçar a última onda dos fugitivos! Tamanho horror que a própria cavalaria inimiga estacou de chofre, num confrangimento de piedade! Boiava pelo rio abaixo uma multidão de mortos! Dizem que foram quatro mil os que perderam a vida!

- Espantoso! - comentou Cândido Xavier, levantando-se num movimento de horror - Não fazia ideia desse tremendo desastre!

- Quatro mil na ponte, mas nos combates dentro da cidade diz-me aqui meu irmão que não ficariam mortos e feridos menos de três mil, contando os assassinados. Os franceses não teriam tido mais de quatrocentos mortos e feridos.

- Pavorosas perdas as nossas!

- Mas agora ouça também este comentário. Leu:

«E ainda têem sido maiores as desgraças sucedidas aos espanhóis! Na ante-véspera da tomada do Porto, o general Sebastiani derrotou em Ciudad-Real as tropas espanholas do Duque do Infantado, apavoradas e em fuga logo à primeira carga dos dragões franceses, que lhes acutilaram três mil fugitivos. E no dia seguinte ao deste desastre outro ainda maior! Na batalha de Medellin o marechal Vítor destroçou quarenta mil espanhóis do exército do general Cuesto, que teve nove mil mortos e feridos e perdeu toda a artilharia, as bagagens e algumas bandeiras.»

- Desventurada Espanha!

- Isto já eu sabia pelas informações de William Cole. Esse ainda me disse mais. A Inglaterra está arrependida de ter dado aos espanhóis avultados recursos militares, que eles deixam cair nas mãos dos franceses.(1)

- Pobre Península! - deplorou Cândido Xavier. Viu o relógio.

- Como o tempo tem passado! Não posso demorar-me. Quere alguma coisa para os nossos camaradas?

- O favor de lhes dizer que em breve irei lá abraçá-los.

- Pois creia que lá o havemos de esperar de braços abertos.

- O meu amigo pode reproduzir estas notícias como entender, dizer mesmo a sua proveniência, mas lembro-lhe a precaução de não falar por ora no inglês que me trouxe as cartas.

- Bem sei. Fique descansado.

- Sustentaremos ambos o disfarce de William Cole.

- Decerto. Direi que lhas trouxe um siciliano.

- Viajante que há cerca de mês e meio veio de Portugal a bordo de um navio inglês, aportado a Trieste.

- Pois sim.

No dia seguinte vieram dizer a Luís de Castro que o procurava um sujeito bem vestido. - Não disse quem era?

 

*1. Diz o engenheiro militar John Jones, na sua História da Guerra de Espanha e de Portugal, que em doze meses, depois do começo daquela guerra, a Grã-Bretanha dera aos espanhóis, além de dois milhões de libras esterlinas, 160 peças de campanha com as respectivas munições, 200.000 espingardas, 60.000 sabres, 79.000 piques, 23 milhões e meio de cartuchos, 6 milhões de balas de chumbo, 15.000 barris de pólvora para artilharia, 72.000 uniformes completos, 106.000 equipamentos, 310.000 pares de sapatos, 37.000 pares de botas, 40.000 tendas de campanha, etc.

 

- Disse que trazia recado urgente, que só pessoalmente lhe poderia dar - respondeu o enfermeiro que lhe trazia este aviso.

- Pois bem, mande-o entrar para aqui. Talvez seja recado do inglês ou do padre Diogo Martins - pensou.

Apareceu-lhe um homem de meia idade, bem vestido, fazendo-lhe uns grandes cumprimentos.

- Disseram-me que tinha um recado urgente para mim.

- Urgente e de absoluto segredo - respondeu em mau francês, relanceando olhares pelo quarto.

- Pode falar sem receio. Ninguém aqui nos pode ouvir.

- Se me desse licença, fechava aquela porta, que o enfermeiro deixou entreaberta.

- Sim, pode fechá-la.

O homem fechou-a e veio para Luís de Castro. Disse-lhe baixo:

- Sou criado particular da senhora Princesa Paulina Borghèse.

- Ah! sim... - tartamudeou Luís de Castro, um pouco perturbado. O desconhecido apresentou-lhe em guisa de credencial um largo cartão de tarja doirada, com o brasão dos Borghèse, o nome da Princesa e a designação do palácio em que estava instalada.

- Sua Alteza não escreve, por melindres que facilmente se compreendem, mas encarregou-me de vir pedir-lhe me dissesse o dia e hora em que poderá ir falar-lhe no assunto que sabe.

- Amanhã, por exemplo - respondeu com um certo alvoroço - Queira dizer à senhora Princesa que me dão licença para sair amanhã de passeio. Terei a honra de ir receber as ordens de Sua Alteza. Será para ela a minha primeira visita.

- A senhora Princesa deseja saber se é preciso mandar-lhe carruagem.

- Não é. Só poderei sair de carruagem, mas já mandei alugar uma.

- Amanhã a que horas, aproximadamente? - às 2 horas.

- A essa hora alguém esperará a carruagem para indicar ao cocheiro o portão do parque por onde é conveniente que entre. Recebo as suas ordens, sr. Capitão - disse, despedindo-se, muito dobrado, com uns grandes feitios de cortesão.

Era um italiano aquele criado particular da Princesa.

Castro ficou a cismar naquilo. Falava consigo, passeando ao longo do quarto.

- Tenta-me esta vingançazinha contra o irmão, Mas como nós somos incoerentes! É aventura que, ao mesmo tempo, me lisonjeia e repugna! A minha cândida Maria! Se ela o soubesse, se ela o souber! Mas não é provável que saiba. Está nos confins da Hungria e, quando voltar, irá com o tio para o palacete de Sachsengang, e ninguém terá interesse em lhe ir lá contar este capricho de homem novo, E nem a gente de Viena saberá sequer dizer o meu nome, nem o mundo se há-de importar muito com mais esta nova escorregadela da linda irmã do Conquistador. Êle, sim. Há-de torcer-se, principalmente por ser comigo esta aventura, comigo o homem da bandeira intrusa de Baumersdorf. Não lhe merecia a ofensa de me julgar indigno de figurar entre os agraciados que fizeram menos do que eu. Muito menos. A mim próprio o posso dizer, sem inveja de ninguém. Talvez lhe não aceitasse a sua Legião de Honra, nunca decerto a poria ao peito, mas a ofensa ficou. Êle, imensamente grande, eu, imensamente obscuro, embora. Lembrar-se-á de mim, sem ser pelo caso nefando de Baumersdorf. Não ousará punir-me pelos amores da irmã, embora me imponha a mágoa de me afastar dos meus soldados. Também tenho direito de sustentar caprichos como êle. E este agora envaidece-me. Aquele escrupuloso oficial, que em Baiona fêz o estranho papel de José do Egipto, mudou. Por alguns dias somente, por um capricho apenas, mas tanto me basta para que êle o saiba e o meu amor-próprio se julgue vingado.

«Apesar das suas loucuras amorosas, aquela é a mais linda mulher da França, uma princesa, a irmã da mais altiva figura de monarca e da mais assombrosa estatura de conquistador que a Europa ainda viu nos tempos modernos. E, para o incomodar a êle, entre os fulgores dessa estonteadora glória que enche o mundo, eu sou simplesmente o capitão Luís de Castro, filho de um país onde as suas águias caem vencidas, companheiro de um punhado de soldados que foram compelidos a servi-lo e, pelo estímulo exclusivo do seu nome de portugueses, se cobriram de glória na batalha maior que êle tem vencido. Não há que reflectir e agora seria cobardia ridícula desta minha mocidade hesitar. Sua Alteza pede-me que vá vê-la, espera-me. Irei.

E foi. No dia seguinte, ao entardecer, Paulina Bonaparte, a Vénus Borghèse que o cinzel de Canova modelara em mármore, menos branco talvez do que as suas carnes palpitantes, recebia com doido alvoroço aquele homem desejado, amante de um longo sonho perturbador, que enfim se realizava.

E dizia-lhe em requintes de paixão as mil cousas estonteantes que só uma francesa sabe dizer e só aquela sabia sentir, escultura admirável de mulher em que refervia o sangue ardente da pálida Phryné.

Tinham passado três dias. Castro tivera segunda entrevista com a Princesa nos aposentos magnificentes de certo palácio de um grão-duque austríaco, então ausente da cidade.

No dia seguinte ao da primeira entrevista, William Cole fora despedir-se de Luís de Castro e oferecer-lhe os seus serviços. Ia retirar-se, como dissera, para o palácio do sogro, que ficava a quatro léguas para a retaguarda das posições ocupadas pelos franceses.

Aceitando o oferecimento que êle lhe fêz, Castro deu-lhe umas cartas, que mandaria expedir para Lisboa por via de algum navio inglês que houvesse de sair de Trieste para as águas de Portugal. Cole afirmou-lhe que era coisa possível e até talvez muito fácil por via de algum navio das esquadras britânicas em cruzeiro entre o Adriático e o Mediterrâneo. Era frequente a saída de navios cruzeiros para Gibraltar e lá não faltavam embarcações inglesas que navegassem para Lisboa ou, no caminho para Inglaterra, tocassem em portos portugueses.

Dias depois da despedida de Cole apareceram no hospital uns poucos de oficiais da meia-brigada portuguesa. Cândido Xavier ia com eles.

Foram para o quarto de Luís de Castro. Era para

êle a visita.

Falaram das coisas de Portugal, das quais havia já umas largas notícias publicadas pelos periódicos ingleses propositadamente espalhados por agentes secretos da Inglaterra entre as tropas estrangeiras ao serviço de Napoleão.

Luís de castro deu-lhes a ler a carta do irmão.

- Mas aqui dentro vem um papel. Versos! - disse o que estava lendo.

- Um engraçado soneto que meu irmão ouviu e copiou. Celebra a tosa que o Loison levou na Régua.

- Aqui diz que é de um académico de Coimbra, rapaz muito novo, de clara inteligência.

- Lê lá - pediu um alferes de vinte anos. O outro não se fêz rogado e leu:

 

       Quis o fero Loison, esse insolente,

       Reduzir Portugal a negro estado,

       E apesar do seu braço decepado

       Tentou, tentou a empresa, infelizmente,

       Eis quatro ou seis paisanos, tão somente,

       Lançam fora à pedrada o vil malvado,

       E vendo então o fato mal parado,

       Marchez, marchez, dizia o tal valente.

       Raivoso range os dentes, ruge e brama,

       Mas debalde, franzindo o rosto feio,

       Que diables portugais!

       furioso exclama.

       Ora vejam o tonto aonde veio!

       Para guerreiros tais, só basta a fama,

       Do luso império, perenal esteio.

 

- Tem graça.

- E diz aí o nome do estudante que fêz o soneto?

- Cá está. Chama-se Rodrigo da Fonseca Magalhães.(1)

- Não conheço.

- Nem eu.

- Agora vamos a saber novidades da nossa gente de cá - disse-lhes o Castro sorrindo.

- Coisa pouca.

- Sairam do depósito de Grenoble e vêem a caminho da Alemanha,

 

*1. Foi ministro de Estado e o primeiro chefe do partido denominado regenerador, organizado em 1851.

Era um espírito vivacíssimo e um parlamentar eminente. Contam-se dele numerosos ditos, cheios de ironia e de boa graça portuguesa.

Muito conhecido pelas suas engenhosas manobras políticas, pelas suas manhas e ardis partidários, foi tratado entre os seus adversários pela alcunha de «raposa política.»

 

dois batalhões de marcha da nossa Legião.

- Mesclados de espanhóis, provavelmente - disse o Castro.

- Com umas centenas de espanhóis, prisioneiros das primeiras batalhas que a Espanha perdeu - informou Cândido Xavier - É o que o Marquês de Valença me diz numa carta. Comanda êle um dos batalhões.

- Chegam tarde. Está-se a tratar da paz.

- Já não vêem a tempo de combater, e é esta a mágoa maior do marquês - disse Cândido Xavier

- Conta-me na sua carta as reiteradas instâncias que fêz para sair de Grenoble a tempo de acompanhar a nossa meia brigada em campanha.(1)

- E que mais? - instou o Castro.

- Napoleão disse há dias ao general Carcome

que, assim que regressássemos a França, os oficiais da nossa meia brigada, agraciados com a Legião de Honra, seriam solenemente condecorados por êle na sala dos Marechais, nas Tulherias.(2)

- É uma insigne distinção, profundamente justa

- disse o Castro.

- Faltará lá quem tinha maior direito a recebê-la. Tu - retorquiu-lhe um colega.

- Qual história - objectou Luís de Castro -, Os que o forem representarão nas Tulherias, dignamente, a nossa meia brigada, desde o general que nos acompanhou até ao último tambor. Não houve cobardes. E que mais de novo?

- Ah! quando vínhamos para cá soubemos que tinha chegado ao campo imperial um oficial dos nossos,

 

*1. Encontra-se na obra do sr. Boppe a respeito da Legião o fundamento histórico daquelas referências ao Marquês de Valença.

  1. O facto deu-se e vem indicado na obra anteriormente citada.

 

que estavam agregados ao estado-maior de Soult.

- Para quê?

- Disseram-nos que trazia novos despachos do Marechal a respeito do seu desastre em Portugal.

- Deve ser interessante ouvi-lo.

- Deve e havemos de ouvi-lo. Peçam-lhe que venha até aqui.

- Pois sim, pedimos. E vem com certeza. Despediram-se.

- Eu fico ainda - disse Cândido Xavier - Tenho umas coisas particulares que tratar com o nosso Luís de Castro.

- Estava morto que eles saíssem.

- Porquê?

- Para o avisar de uma coisa que lhe pode trazer grandes dissabores.

- O quê?

- Aquele ajudante-de-campo de Bertier, seu conhecido de Beaumersdorf, disse confidencialmente ao Sabugal que o viesse prevenir de um facto, provavelmente grave para si. O Sabugal teve hoje de acompanhar o marechal Oudinot e foi pedir-me que viesse eu procurá-lo com as maiores recomendações de segredo.

- Estou a adivinhar de que se trata - disse o Castro, sorrindo.

- Foram dizer ao Imperador que o meu amigo tem aqui relações com a Princesa Borghèse. Algum familiar traiçoeiro foi denunciar tudo, segundo se presume. Que já fora duas vezes ao palácio onde ela está residindo e lá estivera por largas horas a sós com a Princesa.

- Pois contaram a verdade a Sua Majestade Imperial.

- Mas, por quem é, negue semelhante coisa.

- Não vale a pena. Até me envaidece esta aventura estróina com a mais linda irmã do vencedor fenomenal de Marengo, de Austerlitz, de Fridland, de Wagram.

- Homem, isso é bravata muito natural na sua idade, mas eu ainda o tenho na conta de um homem admiravelmente modesto e reflectido! Não brinque com uma coisa que pode cortar-lhe a carreira já realmente brilhante. O Imperador ficou furioso contra si. Demais a mais, soube o escândalo exactamente horas depois de ter recebido o relatório de uma batalha perdida em Espanha.

- Dessa é que eu não sabia! Mas olhe que já não é a primeira vez que me sucede desagradar ao Imperador precisamente quando êle está mal disposto por algum revés das suas tropas.

- O ajudante de Berthier contou ao Sabugal que o Imperador teve um daqueles seus formidáveis acessos de cólera.

- Calculo. Atirou sobre mim os mais feios e obscenos adjectivos da língua francesa e da italiana, porque êle fala as duas de mistura, quando perde a cabeça.

- Não graceje, Luís de Castro! Olhe que Napoleão chegou a falar em o meter num conselho de guerra!

- Por eu ser agora o preferido da irmã? Cândido Xavier fêz um gesto de impaciência.

- Chefe, perdoe-me. Há coisas que são de si mesmas ridículas, e mais uma vez se prova que não há grande homem que não tenha as suas risíveis fraquezas.

- Está a desorientar-se propositadamente como se tivesse empenho em desacreditar o seu lucidíssimo espírito! Percebe perfeitamente que o Imperador o não mandava meter em conselho de guerra por causa das suas relações com a princesa Borghése.

- Diz bem. Foi puro gracejo. Mas um conselho de guerra porquê?

- Por ter levantado em Baumersdorf a bandeira de uma nação inimiga, dando assim um testemunho de rebeldia e desacato às águias do Grande Exército, - Bem se percebe que tinha perdido a cabeça! E nem sequer teria originalidade essa ideia abstrusa! Era já uma ideia em segunda edição, como sabe.

- Como da primeira vez, foi Berthier quem o conteve e lhe mostrou o escândalo humilhador que resultaria da publicidade de semelhante vingança.

- Para mim, para o meu orgulho de patriota, valeria imensamente mais do que três postos por distinção. Mas o que eu devo a esse ilustre Berthier, Príncipe de Neufchàtel e de Wagram!

- Repare que Napoleão pode vingar-se, puni-lo de algum modo terrível, clandestino.

- Eu sei. Sabia-o já quando Paulina aqui veio encontrar-me e me disse no olhar o que nenhuma mulher saberia dizer melhor em longas horas de estonteadora volúpia. Paulina mandou-me pedir que a fosse visitar. Com vinte e quatro anos, seria eu a vergonha dos capitães de todos os exércitos do mundo, se me esquivasse dela com um pudor cómico de menino de coro. Haviam de menosprezar-me as outras mulheres, se o soubessem. Rir-se-iam de mim os próprios tambores da minha companhia. Em Baiona, sabe, fui casto como o próprio Nun'Álvares, o «santo Condestabre». Aqui, não. Diferença de circunstâncias.

- Vejo que está muito dado ao feitio jocoso e causa-me pena! Enfim, o aviso está feito. Cumpri o meu encargo de amigo e saio daqui de consciência tranquila.

- Mas, por amor de Deus! É o maior dos meus amigos, devo-lhe distinções e favores cativantes! A minha veneração pela sua categoria de chefe, por tantos méritos prestigioso, somente se iguala esta homenagem de admiração que eu presto, no foro libérrimo da minha consciência, ao seu espírito, ao seu carácter, ao seu valor. Assim, compreende bem com que profundo desgosto o veria sair daqui, ficando comigo a suspeita de o ter melindrado! Não, nas minhas palavras de gracejo não houve, não podia haver uma sombra sequer de menos apreço pela sua devoção de amigo. Mas se o pôde supor, mas se nesses gracejos, que em nada lhe podiam dizer respeito, tive a má fortuna de o escandalizar, perdoe-mos e esqueça-os, meu grande amigo, meu glorioso chefe.

Disse-lho comovidamente, e foi para êle de braços abertos.

Cândido Xavier abraçou-o.

- Não há porque pedir-me perdão, Luís de Castro. E não se fala mais em coisas que nada valem. Agora permita-me um pedido.

- O que quiser, mande.

- Peço, e até nem é em meu nome que eu faço o pedido. Invoco a santa dos seus castos amores, como lhe ouvi dizer em Baiona...

- Maria Pulaski...

- Sim, essa. É em nome dela que eu lhe vou fazer o pedido.

- Mas sem rodeios, diga-mo.

- Que não volte a casa de Paulina Borghèse, que não vá lá atear, irreflectidamente, um escândalo que o pode perder...

Castro hesitava na resposta.

- Olhe que os periódicos austríacos podem avolumar o escândalo, os de Inglaterra dar- lhe-ão curso na Europa, e o vexame fará tamanho ruído que não vacilem diante de qualquer bárbara iniquidade! Há mil meios de anular ou fazer desaparecer um homem. Sei de um alvitre que me custa revelar-lhe, mas que é preciso dizer-lhe, se continua hesitante.

- Diga então.

- Parece que alguém de baixos expedientes dissera na ante-câmara do Imperador que havia um meio de amortecer esse escândalo amoroso.

- Qual? Agora lhe peço eu que não hesite.

- Dá-lo a si por desvairado com a mania amorosa, e metê-lo num hospital de doidos.

- Era uma vingança infamíssima! - disse empalidecendo.

- Foi apenas um alvitre ignóbil, que o Imperador não ouviu, mas podem lembrar-lho!

- Desejava saber de quem foi essa ideia.

- Não mo disseram e, ainda que o soubesse, lho não diria. Repare. Esse escândalo, a divulgar-se, daria a Maria Pulaski uma dor enorme de surpresa e de vergonha. Por ela e por sua Mãe, Luís de Castro, afaste-se dessa mulher, que o pode perder.

- Prometo-lho. Não volto lá! Trata-se de um capricho que eu faço acabar, sem nenhum sacrifício. Vou pedir alta para amanhã e recolherei à nossa meia brigada.

Cândido Xavier abraçou-o.

- Bem, por esse lado estamos tranquilos - disse-lhe o Castro, sorrindo - Mas eu agora é que não o deixo sair sem me dizer alguma coisa daquela batalha perdida que encolerizou Napoleão.

- Não sei pormenores. O Sabugal falou-me dela muito de fugida. Disse-me que foi em Espanha, ao pé de Talavera de Reyna, se a memória me não atraiçoa.

- Venceram então os espanhóis?

- Não foram eles sós. Foi o exército aliado, sob o comando do general inglês Wellesley. Ingleses, espanhóis e alguns portugueses.(1)

 

*1. Foi uma das batalhas mais importantes na Guerra Peninsular aquela de Talavera. Durou dois dias, 27 e 28 de Junho de 1809. O general inglês Wellington (Arthur Wellesley) tinha sob o seu comando 30.000 ingleses, quási 30.000 espanhóis e umas centenas de portugueses da Leal Legião Lusitana.

As forças reunidas dos franceses não chegavam a 50.000 homens, mas esperavam o apoio do corpo de exército do marechal Soult, que não chegou a tempo de tomar parte na batalha. Os franceses entraram em acção sob o comando nominal de José Bonaparte, rei de espanha, mas foram na realidade comandados pelos marechais Victor e Jourdan.

Houve grandes perdas de parte a parte.

Napoleão recebeu as primeiras notícias da batalha em meados de Agosto, no palácio austríaco de Schoenbrunn. E da perturbação que lhe causou esta má nova dá ideia este trecho de uma carta sua para o ministro da guerra:

«Que excelente ocasião perderam! Trinta mil ingleses, a cento e cinquenta léguas da costa, diante de 100.000 homens das melhores tropas do mundo! Meu Deus, a que pode chegar um exército sem chefe!»

No seu injusto desespero, o Imperador esqueceu o exército espanhol, para amesquinhar as forças inimigas, e exagerou até ao dobro o efectivo das tropas francesas que entraram em batalha, para agravar as responsabilidades dos marechais vencidos.

 

- Ainda bem.

- Irão resgatando assim as outras em que têem sido desbaratados.

- A sua guerra de guerrilhas é que vai continuando realmente heróica. E aquele segundo cerco de Saragoça, espantoso, sangrento é a maior e mais sublime loucura épica dos nossos tempos!(1) De tamanha glória para a Espanha que há-de ficar na história como soberbo resgate de tantas batalhas perdidas. Só encontro a excedê-lo, embora em menores proporções materiais,

 

*1. O segundo cerco de Saragoça começou a 20 de Dezembro de 1808 com os corpos de exército dos marechais Moncey e Mortier, na força de 30.000 homens.

Os escritores franceses avaliam exageradamente em 30.000 homens de tropas regulares e em 15.000 paisanos armados as forças espanholas que defendiam na cidade.

Os sitiantes receberam reforços e a direcção do assédio foi confiada por fim ao marechal Lannes. Depois de assombrosos combates, rua a rua, casa a casa, a cidade rendeu-se ao fim de sessenta e quatro dias de trincheira aberta.

 

o primeiro cerco de Diu naqueles nossos grandes tempos da índia.(1) - Esse, decerto - confirmou Cândido Xavier, estendendo-lhe a mão para se despedir.

De tarde foi ao hospital o oficial português que tinha trazido despachos do marechal Soult para o Imperador.

Ia visitar Luís de Castro. Era um tenente de cavalaria, seu conhecido de Lisboa.

Falaram por largo tempo. O tenente referiu-se à campanha a que tinha assistido.

- E teve ânimo para ver tudo isso?!

- Apenas vi uns lances da campanha. Punha-me atrás de todo o estado-maior de Soult, ainda atrás da sua escolta, e cerrava os olhos para não presencear aqueles combates contra irmãos nossos. Não imagina que horror de sacrifícios! Nas povoações em que ficávamos, escondia-me com vergonha de que me visse e conhecesse algum dos nossos pobres compatriotas. Nunca desembainhei a espada,

 

*1. No primeiro cerco de Diu (1538) havia na fortaleza 800 portugueses. Os sitiantes, turcos (rumes) e mouros guzarates,. chegaram a ter um efectivo de 14.000 homens, afora as guarnições da esquadra de bloqueio, composta de 70 navios, vindos do Mar vermelho.

O cerco durou quatro meses. Os sitiantes retiraram-se e, só à sua parte, os janízaros tinham perdido em furiosos assaltos, entre mortos e feridos, mais de metade do seu efectivo!

Nos baluartes, arregoados de brechas, abertas pela poderosa artilharia turca, alguns deles reduzidos a um montão de ruínas, ficou vencedora a guarnição portuguesa, reduzida a quarenta homens válidos, e esses mesmos famintos!

Sobre um lanço de muralha, a esbarrondar-se, flutuava altiva a bandeira daqueles heróis. Tinha como guarda de honra esses quarenta que restavam de pé dos setecentos que tinham sido os seus primeiros defensores!

 

nunca dei o menor esclarecimento aos franceses. Chorei algumas vezes nos recantos dos caminhos, enquanto a soldadesca, ébria pela vitória, aclamava o Imperador e saudava as águias dos seus regimentos. Quando foi do ataque do Porto declarei-me doente e não entrei senão com os estropeados, um dia depois daquele medonho desastre. Não pode imaginar o que tinha de dolorosa e horrível aquela minha

situação!

- Foi obrigado a acompanhar o estado-maior de

Soult?

- Fui. Ameaçaram-me que seria fuzilado se me surpreendessem em alguma tentativa de deserção.

- Residiu no Porto com o Marechal?

- Residi. Por vergonha nossa, lá teve Soult alguns cortesãos portugueses!

- Cortesãos?(1)

- Sim. Também o desvairou o sonho de ser rei de Portugal.

- Como o Junot!

- Como esse, mas caindo em maior ridículo, apesar de ser um dos mais sensatos e um dos mais ilustrados entre os marechais do Império, segundo a opinião unânime dos outros generais. Havia uns sevandijas da nossa terra que iam às recepções do Marechal e aos seus jantares para o lisonjearem, dando-lhe o tratamento de sir e majestade, que êle recebia muito a sério. Ouvia-os eu enojado!

- Não sabia dessa cómica fraqueza do Duque de

Dalmácia!

- Os garotos e os farroupilhas já lhe sabiam do fraco e iam para debaixo das janelas aclamá-lo,

 

*1. No tomo I das suas Memórias, o Barão de Marbot refere-se àquele facto, que lhe foi contado por testemunhas presenciais como De Laborde, Mermet, Thomiéres, Merle, Loison e Foy, generais que estiveram com o Marechal no Porto.

 

aos gritos de Viva el rei Nicolau.(1) E êle então atirava-lhes dinheiro às rebatinhas!

- E logo maior berreiro de vivas?

- Um berreiro de farsa.

- Sempre um traço grotesco nas maiores epopeias ou nas maiores tragédias! E quando as tropas anglo-portuguesas tomaram o Porto e puseram em retirada o exército francês, quais foram as suas impressões?

- De consolação íntima, tamanha que nem eu sei explicar-lha! Eles a encravarem a artilharia, a despenharem pelas ribanceiras as preciosas bagagens que não podiam levar para aquela dificílima retirada, esmorecidos, famintos, escalavrados, a praguejarem pelas veredas ásperas das montanhas e eu com a alma numa alegria doida!

- Compreendo bem.

- Matavam-me enfurecidamente, se pudessem adivinhar o que eu sentia em mim!

- Uma situação terrivelmente excepcional essa em que o colocaram! Deus me livre de semelhante sacrifício!

- Não o desejo ao meu maior inimigo! Disse-o há pouco ainda ao próprio Imperador.

- Êle falou-lhe?

- Esteve a fazer-me muitas preguntas a respeito da campanha. Subitamente preguntou-me se a minha comissão de serviço me fora penosa. Respondi-lhe francamente que não conhecia outra de maior sacrifício. Disse-lhe que valia o mais rude castigo que se pode impor a um oficial.

- Nunca teve tentações de desertar?

 

*1. O Marechal chamava-se Nicolau João de Deus Soult.

No seu livro a respeito das guerras de Espanha no tempo de Napoleão (pág. 119) o sr. Guillon regista aquele caso cómico dos vivas a el-rei Nicolau.

 

- Tive. Mas se fugisse para Espanha seria fuzilado pelos franceses.

- Podia ir-se apresentar ao exército anglo-português.

- Matavam-me com o labéu de traidor, pois que lá nos consideram traidores.

- Traidores! - exclamou, levantando-se -, Mas lá bem sabem que fomos obrigados a sair de Portugal e que nos ajuramentaram para servir Napoleão! Os governadores do reino, representantes legítimos do Príncipe regente, conformaram-se com essa violência sem um protesto sequer. Fizeram mais: sancionaram-na servilmente. Os traidores maiores foram então eles, a igualarem os outros que embarcaram para o Brasil. Fugiram sem lutar, capitularam sem terem sido vencidos, traíram a nação mandando receber como amigos os soldados invasores, dobraram-se diante deles como lacaios, quebraram contra a sua própria cobardia todas as energias do povo que enganaram. Os traidores, sem nenhuma atenuante, foram eles!

- Assim o compreendo também, mas, para eles, os traidores, sem perdão, somos nós!

- Nós, um punhado de soldados sumidos num exército de novecentos mil homens! Queriam que nos revoltássemos! Uma loucura. Há aí soldados dessa Alemanha vencida e humilhada por Napoleão, dezenas de milhares de soldados, e ainda se não puderam revoltar. Não temos ajudado a nossa terra, não temos batalhado por ela, é certo, mas ao menos, honrámos-lhe aqui as suas tradições de valor, ao menos temos resgatado, a poder de esforço e de sangue, a mácula de cobardia lançada sobre o exército e sobre a nação por eles, os que governavam e fugiram, os que ficaram governando e se submeteram de rastos. Quando os portugueses do futuro lembrarem o triste exército de 1807, esse exército que deixou passar Junot, sem dar um tiro, porque os desertores políticos lho mandaram receber por amigo e porque os governadores sevandijas o aceitaram por senhor, hão-de sentir decerto um afogueamento de vergonha a queimar-lhes as faces, mas também um lenitivo de orgulho a encher-lhes as almas. Vergonha por esses que governaram, orgulho por estes expatriados que provaram ao mundo que não vieram de um exército de poltrões. Os soldados da Legião averbaram na epopeia napoleónica de Wagram a sentença de reabilitação do caluniado exército de 1807, de que provêem. Traidores e cobardes foram eles, os que aconselharam o Regente a fugir, os que puseram o Oceano entre o seu coração egoísta e as baionetas do primeiro exército da Gironda. Eles e outros que, no palácio do Quintela, erguiam taças de champanhe em honra de Junot, enquanto nas ruas os invasores batiam à espada e espingardeavam a populaça, numa revolta de sangue pela sua bandeira ultrajada.

- Bravo! Assim é, mas não é assim que lá nos julgam! Disseram no Porto. Somos considerados infames e traidores à pátria. Assim o tinham declarado os regentes. Qualquer compatriota nosso, que nos dê caça, nos pode matar, sem crime, como se fôssemos facínoras a monte! Não nos darão quartel e, se nos aprisionarem em combate, seremos imediatamente fuzilados. Qualquer do exército de Portugal ou do povo nos poderá fuzilar! Nem podemos ser incluídos em nenhuma capitulação!

- É espantoso isso!

- E ouvi que iam pôr a preço a cabeça do Marquês de Alorna. A dele e doutros oficiais da Legião.(1)

 

*1. Sabendo que alguns oficiais da Legião Portuguesa tinham entrado em operação em Espanha e constando-lhe que vinham alguns com o exército de Soult, a Regência publicou em Lisboa um decreto declarando-os traidores à Pátria. A parte cominatória deste decreto pode resumir-se nestes termos: Pena de morte cruel e natural, confisco de bens e privação de todas as honras, foros e privilégios, ficando infames, eles, seus filhos e netos, e para sempre danada a sua memória.

Aprisionados em combate não se lhes daria quartel, fora de combate poderiam ser mortos por quem quer que os encontrasse e em nenhum caso poderia salvaguardá-los qualquer capitulação militar, ainda que nela fossem expressamente compreendidos!

. Os bens do Marquês de Alorna foram confiscados, e em portaria de 6 de Setembro de 1809 o declararam traidor à Pátria e réu de lesa-majestade de primeira cabeça.

Qualquer do povo o podia matar sem crime. Oferecia-se um prémio de 12.000 cruzados a quem o apresentasse vivo ou morto!

 

- Agora, ferozes como tigres esses mandantes, quantos deles uns tímidos cachorros de há dois anos, a lamberem de rastos as botas de Junot! Pois a história falará de nós, os legionários, na mesma passagem em que os enterrar a eles.

- A ordem de Berthier designou treze para se apresentarem em Lugo ao general Loison. Treze da Legião Desleal.

- Desleal porquê?

- Por ter obedecido aos governadores do reino, que a entregaram a Junot, aos mesmos que hoje a consideram traidora! Desleal disse eu pelo contraste com outra que lá há em Portugal e se bateu valentemente com as tropas de Soult. Para a diferençarem da nossa, deram-lhe o nome de Leal Legião Lusitana.

- Como se a nossa fosse desleal, a não ser por culpa de quem governava o país! Mas que gente especial é essa da outra Legião?

- Começaram a organizá-la em Inglaterra com os emigrados que tinham fugido ao domínio de Junot. Compõe-se de tropas ligeiras.

- Percebe-se então que os homens do governo estão agora implacáveis contra nós todos!

- E contra aqueles a quem os ódios ou as vinganças pessoais põem a suspeita de afrancesados, de maçons, de jacobinos. Não imagina! Têem desterrado muitos pela simples denúncia de afeiçoados aos franceses! E para o norte o caso é imensamente mais grave! Famílias inteiras cruelmente assassinadas, só porque o inimigo desalmado se vingou, denunciando alguém dessa família como jacobino! O saque e o incêndio no lar onde a suspeita caiu, embora caluniadora e por ignóbil vindicta! Foi o que eu ouvi contar no Minho e no Porto.

- Como se não bastassem o saque, os incêndios, os homicídios praticados pela soldadesca invasora!

- Alguns que eu fui obrigado a presencear! Um horror por todo aquele Minho, um desvario de selvagens no Porto, durante os dois dias seguintes àquele em que Soult entrou na cidade!

- Que espantosa desgraça de país! Despediram-se.

Horas depois apareceu-lhe no hospital o padre Diogo Martins. Foram conversar para o quarto.

- Parece-me triste, meu querido padre Diogo!

- Estou.

- Recebeu más novas de alguma parte?

- Boas novas que vinha trazer-lhe.

- E causaram-lhe tristeza!

- Porque ouvi aí na cidade umas coisas que podem causar profundo desgosto a Maria Pulaski, se lhe chegarem aos ouvidos!

O Castro empalideceu.

- Coisas que hão-de causar desgosto a Maria! Queira dizer-mas, peço-lho.

- Fala-se muito em Viena de uns amores de escândalo de certo oficial português com uma das irmãs do imperador, Paulina Borghèse. Os patriotas austríacos dão vulto ao caso e exploram-no com desalmado propósito de afrontar o vencedor.

- Amores de capricho, que duraram uns dias. Foram comigo esses amores, não o nego.

- Já o sabia. Dão alguns sinais certos a seu respeito.

- Mas com tantos recatos esse desvario, como pôde saber-se, para andar assim assoalhado pela cidade?!

- A Princesa tem fama de volúvel, causou estranheza a sua vinda a Viena e logo os enredadores, inimigos do irmão, suspeitaram de algum intento que pudesse dar escândalo. Era espionado o palácio em que ela se hospedou, estaVa lá dentro alguém que tudo observava e ouvia e tudo vinha contar cá para fora.

- Como soube tudo isso?

- Ouvi-o na loja de um negociante das minhas relações. Contou-mo êle e agora desconfio que me preparou uma cilada em que eu caí de boa fé! Deus me perdoe se falsamente lhe atribuo um propósito insidioso.

- Uma cilada!

- Sim. Falou-me com muito louvor da valentia dos meus compatriotas da Legião, lisonjeou calorosamente o meu amor-próprio de português e logo me preguntou se eu conhecia o moço oficial do meu país, legionário intrépido, que fora ferido em Wagram e estava ainda em tratamento neste hospital. Respondia-lhe lealmente: consolava-me dizer quem era um dos maiores valentes da Legião. Dei-lhe pormenores da sua nobreza, expus-lhe o que sabia a respeito da sua façanha, disse-lhe o seu nome! E foi depois de eu cair no laço, se foi maliciosamente que êle me falou em tal assunto, foi depois que se referiu a esses amores, que os patriotas austríacos procuraram explorar para fazer escândalo que ofenda o Imperador! Valha-me Deus!

- Não vale a pena afligir-se, padre Diogo. Repito-lhe lealmente: Esses amores de dois dias foram apenas um capricho que já acabou e de que sinceramente me arrependo.

Levou-me para essa aventura uma vaidade doida de homem novo, posta ao serviço de ressentimentos pessoais, aliás justificados.

- Pois sim. Mas comprometi-o eu sem querer, porque os enredadores não lhe sabiam o nome, e se eu o não dissesse, talvez não chegasse nunca aos ouvidos de Maria Pulaski!

- Parece-me receio exagerado. Quem lho há-de ir dizer, quando ela voltar?

- Pode sabê-lo o tio. Não se fala de outra coisa em Viena! E para maior remorso meu, estavam umas poucas de pessoas na loja do negociante com quem falei, um compatriota e amigo de André Pulaski!

- Isso há-de ser bisbilhotice de alguns dias somente.

- Disseram-me que se havia de divulgar o caso nos periódicos da Alemanha e da Inglaterra! Estão no rancoroso empenho de afrontar o Imperador!

- Demónio! Foi uma doida imprudência! - pensou Luís de Castro.

- Perdoe-me a parte comprometedora que eu tomei ingenuamente nesta deplorável intriga.

- Não se oprima por semelhante coisa, meu caro amigo. Não me parece provável que Maria Pulaski saiba lá nos confins da Hungria o que venha a dizer de mim, para vexar Napoleão, um ou outro jornal de Alemanha ou da Inglaterra.

- André Pulaski escreveu ao mordomo mandando-lhe dizer que, dentro de um mês, regressaria a Sachsengang.

- Dentro de um mês! E ela não lhe escreveu?!

- Não. Só me escreverá, provavelmente, em resposta à carta que lhe mandei há dias. Responder-me-á... e responder-lhe-á a si, meu caro Capitão.

Bateram à porta. Era uma ordenança do cirurgião francês, director das enfermarias dos feridos.

Vinha avisar Luís de Castro para ir apresentar-se na secretaria do hospital.

- Vou já.

E disse para o padre Diogo:

- Há-de ser por causa da alta que eu pedi. Peço-lhe a mercê de me esperar aqui. Não conto demorar-me. Desejava combinar consigo o modo de tranquilizar Maria, no caso de vir a saber da minha deplorável aventura. Até já.

Na secretaria estava com o cirurgião militar, director, um major de couraceiros. Castro entrou.

- O sr. Capitão tem alta imediatamente - disse-lhe o cirurgião-director.

- Reitero o meu pedido de ontem. Preciso de uns dias de convalescença para recobrar completamente as forças de que preciso para fazer serviço.

- Dar-lhos-ia, como prometi, se não tivesse aqui uma ordem do quartel-general do Príncipe de Wagram, mandando-o marchar imediatamente para França.

- Para França! - repetiu, singularmente perturbado - Afastam-me do meu batalhão, como se tivesse merecido um castigo!

- Vai exercer uma comissão urgente de serviço. Foi nomeado segundo comandante do depósito de prisioneiros espanhóis em Grenoble.

- É uma comissão que me repugna!

- O primeiro comandante desse depósito sou eu. Fui nomeado esta manhã. Partiremos ambos - disse o major de couraceiros.

- Peço licença para ir falar ao sr. marechal Berthier.

- É impossível - respondeu o Major -, Tenho ordem expressa para o acompanhar daqui no prazo máximo de duas horas.

- Não posso ainda suportar essa longa jornada.

- Vamos os dois numa caleça de posta.

- Então compreendo bem. É um castigo clandestino, sob o disfarce de comissão urgente de serviço! Vou preso, também se percebe perfeitamente! Parece que não há em França outro oficial para o cargo de segundo comandante do depósito de prisioneiros espanhóis em Grenoble?

- Não sei discutir as ordens que recebo - volveu-lhe o couraceiro secamente.

- Estou às suas ordens, Major. Preciso apenas de meia hora para arranjar as minhas coisas.

- Eu esperarei aqui. Deram-lhe ordem para lhe dizer que pode deixar nota de algum soldado que deseje para o seu serviço.

- Desejo levar um que vem aqui amiudadas vezes.

- Queira fazer a nota da requisição. Irá depois apresentar-se-lhe em Grenoble.

Castro foi para uma das mesas da secretaria e fêz uma nota requisitando o João Luís para o acompanhar.

- Aqui está.

O couraceiro entregou-a ao cirurgião director, para a mandar ao quartel-general de Berthier, por uma das ordenanças de serviço ao hospital.

Castro saiu para ir preparar as suas coisas.

- Foi uma doidice - pensou - Cá está o castigo, inàbilmente disfarçado. E talvez não fique por aqui.

- Meu querido padre Diogo, mandam-me sair para França!

- O quê! pode lá ser?!

- Mandam, tenho que partir já para uma comissão repugnante, que vale um castigo.

- Mas pode lá fazer tão longa jornada!

- Vou em caleça de posta e com guarda à vista.

- Mas, santo Deus! Castigo, porquê?!

- Pela minha aventura com Paulina Borghèse.

- E eu ajudei a comprometê-lo!

- Não ajudou tal. O Imperador já o sabia. Mas dê-me licença que eu vá arranjando o meu baú. Tenho o tempo contado.

- Pois não. Deus da minha alma! E Maria aqui, dentro de um mês!

- É isso o que mais me dói, é essa a punição desesperadora para mim!

Pôs-se a guardar no baú, apressadamente, umas coisas espalhadas pelo quarto.

O padre passeava acabrunhado, a olhar para aquilo tristemente.

«Rapazes! - dizia consigo - Doida aventura de homem novo. E quem sabe lá o que mais lhe poderão fazer, se o escândalo fôr revelado nos periódicos! Hão-de dizer que a Princesa veio cá de propósito, não para visitar o irmão e felicitá-lo pela vitória de Wagram, senão para se encontrar com o amante, oficial estrangeiro! Uma rapaziada que pode ser a sua desgraça! E Maria, coitadita, se o vem a saber? E quer Deus que eu me veja metido nisto!»

- Pronto! - disse o Castro fechando o baú. Dobrou mais a bandeira clandestina e escondeu-a entre o capote, que pôs no braço.

O padre Diogo envolvera aquele pedaço de seda num olhar enternecido, turvo de lágrimas.

- Deus o leve um dia com ela às nossas terras de Portugal.

- Talvez nunca. Não sei se poderei lá voltar, mas seja como fôr, desta bandeira é que eu me não hei-de apartar nunca. Só se ma roubarem. Padre Diogo, devo-lhe umas horas de consoladora amizade que não quero nem posso esquecer. Levo saudades desta nossa brevíssima convivência. Escreva-me, por quem é, defenda-me, se Maria Pulaski vier a saber da minha lamentável loucura. Disse-lhe a verdade, meu amigo. Confio ao seu grande coração a minha defesa. Não encontraria outra, nem mais dedicada nem mais austera. Não tenho, não tive nunca amor mais puro, amor igual a este por Maria Pulaski. Digo-lho com tanto escrúpulo como se estivesse de joelhos a seus pés confessando-me.

- Creio, meu querido amigo - volveu-lhe o padre Diogo, profundamente comovido.

- Esse desvario de homem novo, vaidoso desvario que já estou expiando, não podia, não pôde sequer pôr uma sombra de mácula nesta paixão honesta, inexcedida, por essa casta mulher.

- Vá tranquilo, sr. Luís de Castro. Tive a fortuna de o conhecer e não creio que nenhum dos seus amigos me exceda nesta admiração que sinto pelo seu carácter. Eu falarei de si a Maria Pulaski, eu lhe direi quem é, se alguma vez perceber que ela duvida da lealdade do seu coração.

- Padre Diogo! - disse, abraçando-o enternecidamente -, O que eu lhe devo! Adeus e oxalá que me seja dado tornar a encontrá-lo.

- Há-de querer Deus que sim - volveu-lhe numa tremura de voz - Ainda não perdi a esperança de voltar à nossa terra de Portugal.

- Lá em Grenoble ficarei esperando o consolo das suas cartas.

- Conte com elas, meu caro amigo.

- Hei-de escrever-lhe assim que lá chegar.

- Eu vou também para baixo.

Estava à porta do hospital uma caleça de posta. Atrás uma escolta de oito dragões.

Dois serventes desciam com o baú de Luís de Castro. Abraçaram-se outra vez, êle e o padre Diogo.

Chegou uma carruagem fechada e quási a seguir o granadeiro João Luís.

Da carruagem apeou-se o criado particular da Princesa Borghèse, aquele italiano que já conhecemos.

Percebeu-se-lhe a impressão de surpresa quando viu Luís de Castro ao pé do estribo da caleça e a poucos passos a escolta dos dragões. Foi para êle e solicitou-lhe uns instantes de atenção para um recado particular.

Castro pediu ao major de couraceiros a demora de mais uns minutos e afastou-se uns passos com o particular de Paulina Bonaparte.

- O Imperador soube tudo! - disse baixo o italiano -, Mandou chamar Sua Alteza ao castelo de Schoenbrunn. Houve uma cena violenta! Sua Alteza tem de partir amanhã de madrugada para o Piemonte, com uma escolta de honra.

- Pois eu parto já para França. Sou mandado para Grenoble e levo também escolta, que não é positivamente uma escolta de honra.

- Sua Alteza desejava falar-lhe antes de partir.

- É impossível. É por causa dela que me mandam para França. Diga-lho.

Foi para a caleça. O João Luís estava numa surpresa de amarguras. O padre Diogo contara-lhe que o seu capitão ia partir para França.

- V. s.a deixa a sua Companhia!

- Mandam-me.

- Mas eu deserto e vou lá ter - disse, baixando

a voz.

- Não quero tornar a ouvir-te essa palavra infame de deserção! Vê se tomas sentido. Requisitei um soldado para me acompanhar. És tu. Dar-te-ão guia para ires lá ter.

- Ai, então, estou como quero!

A carruagem da Borghèse já tinha retirado.

- Pronto, Major - disse o Castro, perfilando-se diante do oficial de couraceiros.

Entraram. A caleça rodou pela estrada fora. Dois dragões foram tomar-lhe a frente.

Meteram atrás dela a trote os outros seis da escolta.

O padre Diogo ficou a olhar para o veículo, que desaparecia no caminho, envolvido em nuvens de poeira.

- Da boa raça da nossa terra, aquele rapaz! - disse consigo o padre.

- A pena que vão ter os soldados da minha Companhia quando eu agora lá fôr dizer que o nosso capitão se foi embora! - disse alto o João Luís - E eles todos orgulhosos com o seu comandante! Eles e eu.

O padre Diogo não lhe respondeu. Pensava nesta simples coisa que o entristecia e lhe fazia saudades:

- E daqui a pouco, feita a paz, vão-se embora os outros. Não torno a ver por aqui gente da minha terra! E para falar português, só se fôr com Maria Pulaski, ou se voltar a Portugal. Que hei-de voltar. Um dia será!

 

       Imposição violenta.

Tinham decorrido alguns meses. Estava-se já em meados de 1810.

Em 14 de Outubro do ano findo fora assinada em Schoenbrunn a paz entre a França e a Áustria. O império dos Absburgos perdera mais uns retalhos dos seus vastos domínios.

A 13.a meia brigada e os dois batalhões de marcha da Legião tinham ficado no exército denominado da Alemanha, que era comandado pelo Marechal Davout, Príncipe d'Eckmuhl. Estiveram em várias guarnições as nossas tropas. Em fins de Outubro de 1809 o Imperador escrevia ao ministro da guerra, mandando reunir todas as forças portuguesas, em 8 de Janeiro mandava-as concentrar em Ratisbona e passava-as do 2.o para o 3.o corpo de exército, em 18 daquele mês novas instruções para que os Portugueses, encorporados então na divisão Friant, ficassem no Innviertcl e na província da Salzburgo.

Em 17 de Maio, Napoleão escrevia de Gand ao ministro da guerra, dando-lhe instruções em que dizia: dai ordem para que os portugueses marchem para Maiença.

Marcharam para esta praça sob o comando de Gomes Freire, que por tanto tempo estivera afastado da Legião contra sua vontade.

O Marquês de Alorna ainda se conservava em Espanha.

No 1 de Abril celebrara-se em Paris o consórcio de Napoleão com a arquiduquesa de Áustria, Maria Luísa, filha do Imperador vencido.

Josefina de Beauharnais, aquela imperatriz crioula que em 1808 vimos em Baiona, no palácio de Marrac, a ouvir melancolicamente os cantares de saudade e amor dos soldados de Portugal, submetera-se a uma imposição, que se firmava em frias razões de Estado, atenta a esterilidade do seu segundo matrimónio.

Josefina foi enxugar as suas lágrimas de despeito para o desterro paradisíaco da Malmaison, e Bonaparte, o general que em catorze anos infligira aos austríacos as mais duras derrotas da sua soberba história militar, levava para o seu trono de conquistador - por estrado os canhões tomados em doze campanhas e por docel as bandeiras vencidas em quarenta batalhas - aquela filha gentil do maior vencido nas páginas mais espantosas da sua epopeia.

O sangue do Corso fenomenal, representante de uns fidalgotes de Ajácio, cruzar-se-ia com o da mais altiva raça de dinastas que tinha então a Europa.

Napoleão parecia confiar nas promessas de Tilsitt e na paz de Viena. Guerras não as tinha agora senão na Península. Já não havia nação grande que êle não tivesse vencido. Menos a Inglaterra, no isolamento das suas ilhas e no domínio supremo dos mares que tornara seus.

E no continente Europeu só o mundo sabia de um retalho de terra onde os soldados ingleses se tinham firmado vencedores. Era Portugal.

Das nações pequenas só esta resistia ao Triunfador. A Suíça dava-lhe o tributo dos seus soldados, como as outras nacionalidades pequenas da confederação alemã, das quais se denominava protector, eram estados sujeitos à suserania napoleónica o Grão-Ducado de Varsóvia e a Dinamarca.

Roma era a sua segunda capital, Nápoles o reino comandado por um dos seus marechais, feito rei, a Holanda estava já encorporada nos territórios do seu império.

Na Espanha os guerrilheiros batiam-se, os destacamentos franceses desapareciam assassinados, mas já não havia exércitos que pudessem manter sozinhos a bandeira espanhola num campo de batalha. Foram desaparecendo em sucessivas derrotas. José Bonaparte reinava em Madride.

Tinha Napoleão cem milhões de europeus sob o domínio da sua soberania ou sob o protectorado do seu poder, estrangeiros avassalados pelo terror das suas próprias derrotas.

Disse bem um dos seus biógrafos: Aquele ano de 1810 foi o período de maior glória e de maior prestígio no reinado de Napoleão.

E assim para a sombra colossal daquele triunfador pareciam já de escassa amplidão as fronteiras da Europa!

Havia somente uma excepção naquela grandeza. Diante das suas águias apenas um exército vitorioso, exército de duas nacionalidades num recanto da Península onde não dominavam franceses. O que venceu Junot e bateu Soult, o que repeliu o rei José, Vítor e Jourdan nos dois dias sangrentos de Talavera.

Três anos antes Napoleão dissera ao Czar na entrevista de Tilsitt: «Unamo-nos e realizaremos os maiores cometimentos dos tempos modernos.»

Com mais razão o podia dizer naquele ano de 1810, falando dos novecentos mil soldados da França e dos países seus vassalos. )

Voltemos a Luís de Castro. Vive inconsolável naquele seu disfarçado degredo de Grenoble. Em dez meses só tivera notícias esmorecedoras.

Por intermédio de William Cole recebera cartas de Portugal. A Mãe adoecera e mudara de ares para a quinta que tinham no termo de Mortágua. O tio Jerónimo fora também para lá, mas em Abril da quele ano de 1810 ficara gravemente enfermo.

Do padre Diogo Martins tivera três cartas somente, a largos intervalos. Uma de Viena, dizendo-lhe que André Pulaski não tinha podido regressar ao seu palacete de Schsengang por causa de um desastre na caça. Nas outras falava-lhe de Maria Pulaski, de quem recebera uma carta de algumas linhas apenas, dizendo-lhe que estava mortificada por causa do desastre sucedido ao tio, mas não lhe dava pormenores.

- Para mim então - comentara o Castro - nem uma palavra de resposta à longa carta que lhe escrevi de Viena! Porquê?

Havia oito meses que fizera a si próprio esta amargurada interrogação e ainda não encontrara resposta!

O padre Diogo nunca mais lhe escreveu e ninguém tinha agora em Viena a quem pudesse pedir informações. Já sabemos que as tropas portuguesas tinham saído das imediações da grande capital havia uns poucos de meses.

Uma situação esmorecedora!

Em fins de Julho chegaram de Maiença, para ficarem no depósito de Grenoble, dois oficiais e algumas dezenas de soldados da Legião, que tinham sido julgadas incapazes do serviço activo por efeito dos ferimentos recebidos em combate.(1)

Os oficiais trouxeram a Luís de Castro uma notícia que o impressionou.

Tinham sabido em Ratisbona, por um ajudante de Berthier, que o governo austríaco mandara prender e entregar na fronteira da Rússia um oficial daquele país, que acompanhara o estado-maior de um corpo de exército austríaco e violara a sua qualidade de neutro, empenhando-se em combate no dia de Wagram.

- Foi aquele oficial russo que vos feriu - disse um dos informadores.

- Miguel Platow. Mas como o soube o governo austríaco?!

- O ajudante-de-campo de Berthier contou que fora o Marechal quem fizera a reclamação em nome do Imperador, durante as negociações da paz.

- Eu tinha dito ao conde que me não queixava desse homem!

- Pois foi assim que as coisas se passaram. Nos fins de Setembro procederam a averiguações. Um coronel francês presenciara a agressão do oficial russo e fêz perante o Marechal declaração em forma do que vira.

- Parece que foi o Conde de Sabugal quem contou o caso ao Marechal e lhe pediu a reclamação.

- Disseram-nos que foi na Hungria que o pren deram.

 

*1. Em 26 de Junho de 1810 o general Schaal, comandante da divisão militar, dizia de Maiença num relatório àcêrca das tropas portuguesas:

«A Legião tem muitos homens que foram feridos e outros que estão nas condições de ser reformados. Rogo a v. ex.a me dê as suas ordens a este respeito. Trata-se de estrangeiros e não sei como hei-de proceder, se estão nos casos de receber recompensas militares, especialmente os que foram feridos na batalha de Wagram, e devo tomar aqui qualquer resolução, ou se quereis que os mande para os depósitos de Grenoble e Gray.»

 

- Na Hungria! - repetiu Luís de Castro numa extremação de surpresa.

- Assim o ouvimos ao major Cândido Xavier, que teve uma larga conversa com o ajudante de Berthier.

Numa preocupação de previsões inquietadoras, Castro relacionava com o desastre de André Pulaski e a falta de cartas de Maria aquela circunstância de Platow ter sido preso na Hungria.

- O perseguidor não desiste! - pensava - E quem sabe já que façanha sua terá provocado aquele desastre de André Pulaski? Desastre na caça, como lhe chamou o padre Diogo. É capaz das piores infâmias o vilíssimo cossaco!

A respeito das coisas de Portugal e Espanha as notícias eram também inquietadoras.

Castro lia todos os dias o Moniteur, na secretaria do depósito.

Em Maio vira a notícia da organização de um exército para uma outra invasão em Portugal. Devia compor-se dos corpos de exército do general Reynier, o marechal Ney (2.o e 6.o), do corpo de exército de Junot (8.o), e de outro em formação com divisões do antigo corpo de Oudinot. O general Montbrun, famoso pelas suas cargas de Wagram, comandaria uma divisão de cavalaria. Seria um exército com o efectivo imediato de oitenta mil homens, que depois se elevaria a cem mil, segundo os próprios cálculos do Imperador.

E para o seu comando superior fora nomeado um dos mais brilhantes, o mais glorioso dos marechais que tinha a França: aquele intrépido e heróico general que se chamava André Massena, o segundo depois de Napoleão.

Um jornal de Paris ampliava consideràvelmente as informações do Moniteur. Castro leu-o também. Esboçava entusiasticamente a biografia de Massena, de Ney, de Reynier, referia-se com orgulho aos bravos generais divisionários daquele exército e acentuava que o corpo de exército de Ney era quási todo composto de soldados admiráveis que se tinham batido em Elchingen, em Iena, em Eylau e em Friedland.

A respeito do corpo de exército de Reynier (antigo corpo do marechal Soult) recordava que fora um dos mais brilhantes no dia de Austerlitz, o que vencera os espanhóis na batalha da Corunha.

Resumindo a história militar de Massena, relembrava os seus feitos de maior renome: a batalha de Saorgio, em que tomou noventa bocas de fogo aos austríacos, a de Loano, em que os austríacos e os sardos perderam quatro mil homens, a de Rivoli, em que Napoleão lhe chamou o filho querido da vitória, a de Zurique, em que o general russo Suwaroff lhe deixou nas mãos cinco mil prisioneiros e duzentos canhões. Depois a defesa espantosa de Génova, a batalha formidável de Caldiero, as suas façanhas admiráveis em Landshut, em Eckmuhl, em Esslinge, em Wagram.

Era o marechal invencível do Império. De Miguel Ney, Duque de Elchingen, também o jornal parisiense recordava os feitos de mais alto esplendor. A sua bravura inexcedível nas batalhas de Altenkirchen e Forcheim, em Hohenlinden e Elchingen, em Iena e Eylau e naquela enorme batalha de Friedland em que êle foi a figura primacial e mereceu de Napoleão o Cognome de Bravo dos Bravos.

Quando Luís de Castro leu isto, havia quási três meses, sentiu um confrangimento de amargura.

- Aquele pobre Portugal! - pensara -, Com os trinta mil ingleses de Wellesley e os quarenta ou cinquenta mil galuchos do seu exército regular, como há-de êle resistir a estes formidáveis inimigos?! E da Espanha nenhuma grande esperança! Quantas batalhas perdidas! As duas últimas então um desastre horroroso!

Aludia às batalhas de Ocana e de Alba de Tormes.(1)

- Napoleão não perdoa aos ingleses e cumpre a sua promessa.

Referia-se a esta ameaça publicada no Moniteur de 27 de Setembro de 1809, ainda o Imperador estava no campo imperial de Schoenbrunn:

«Antes de ter passado um ano, quaisquer que sejam os seus esforços, os ingleses serão expulsos da Península e a águia imperial tremulará sobre as fortalezas de Lisboa.

Dias depois recebiam-se jornais de Paris com novos pormenores da guerra de Espanha e algumas informações pessoais a respeito de Massena.

 

*1. A de Ocana foi a 18 de Novembro de 1809. Travou-se a pequena distância de Aranjuez, entre as tropas do rei José, dos marechais Soult e Mortier e general Sebastiani, uns trinta e tantos mil franceses, e cerca de sessenta mil soldados bisonhos e indisciplinados dos generais espanhóis Venegas e Arizaga.

Segundo os historiadores franceses os espanhóis tiveram 12.000 mortos e feridos, deixaram 20.000 prisioneiros e perderam 50 canhões e 30 bandeiras.

A de Tormes foi a 28 de Novembro. O exército do Duque del Parque foi completamente desbaratado pela cavalaria de Kellermann. Logo à primeira carga a infantaria espanhola se esbandalhou, largando as armas, a cavalaria fugiu sem tentar sequer opor-se ao inimigo e a artilharia caiu em poder dos dragões de Lorcet. A dar crédito aos historiadores franceses, as forças do Duque del Parque tiveram 3000 mortos e feridos, abandonaram 15 canhões e 15.000 espingardas, as bandeiras e deixaram 2000 prisioneiros. Guillon diz que esta batalha foi afinal vencida por regimentos de cavalaria, que tiveram apenas 18 mortos e 57 feridos!

 

Davam conta do cerco e da capitulação de Ciudad Rodrigo em 9 de Julho. Os franceses continuavam a sua série de vitórias na Espanha.

Um dos jornais, folha popular que não era bem vista pela polícia imperial, publicava uma carta àcêrca do Príncipe d'Essling e das circunstâncias em que se encontrava o seu exército.

Vinha firmada apenas por umas iniciais, mas percebia-se bem que devia ser de algum oficial muito na intimidade do estado-maior de Massena, talvez algum dos seus ajudantes-de-campo.

Castro leu estes períodos da carta com maior atenção:

«Massena confessa que veio daí muito contra sua vontade e apenas para não desgostar o Imperador, cujas instâncias não podia deixar de atender. Tem dado provas admiráveis de energia na organização do exército que vai invadir Portugal, mas percebe-se que anda apreensivo, e os seus próprios camaradas de outro tempo o supõem diferente do que era.

«Duvida que o seu exército chegue aos oitenta mil homens e ainda menos, aos cem mil que o Imperador lhe prometeu, e não parece ter grande confiança na cooperação de Ney e de Junot. Ney julgava-se com direito ao comando em chefe, e Junot, sempre à espera do bastão de marechal, estranhou que lhe não dessem a êle o comando das forças que vão invadir Portugal. Estou a ter receio destes ciúmes e rivalidades de comando. Já tivemos aqui umas cenas desagradáveis por causa daquela Madame X, a bondosa loura que aí conhecem bem, a companheira do glorioso marechal na última campanha de Áustria. Eu via-a chegar a Valhadolide, em caleça descoberta, ao lado do vencedor de Essling. Vinha vestida de alferes de dragões! Um gentil e apetitoso oficial! O casque cfor sobre aqueles cabelos de arcanjo e ao peito a Legião de Honra, como se a tivesse ganho em alguma batalha! Foi uma surpresa com um tòquezinho de escândalo. Imaginem aquele pequenino dragão, afogueado como um colegial, diante do velho palácio real de Valhadolide, em presença dos generais e oficiais superiores do 8.o corpo e da divisão de cavalaria de Kellermann, que aguardavam a chegada do marechal!(1) Madame X é boa, amável e modesta, tem excelente coração, mas estou a ver que nos pode causar algum estorvo. O velho Massena, como por aqui lhe chamam, não vê outra cousa, que êle só vê de um olho, e não a larga de ao pé de si. Tem por ela uns ciúmes doidos! Este nosso costume de trazer senhoras para o rude viver de campanha tem grandes inconvenientes, que oxalá se não manifestem agora com deploráveis consequências! Se Madame X fôr também para a invasão de Portugal, teremos alguma intrigazinha de sala, a agravar as deploráveis rivalidades dos generais. Dizem aqui que o Marechal não queria aceitar este comando e não aceitou, senão quando o Imperador acedeu a que êle trouxesse consigo Madame X.(2) Enfim, perdoa-se esta fraqueza ao vencedor de Zurique e d'Essling, e que a estrela de Napoleão nos guie até Lisboa.»

- Pois ainda bem, se as rivalidades dos generais e esses amores outoniços de Massena puderem favorecer de algum modo a causa de Portugal - comentou de si para si Luís de Castro.

- Sr. Capitão - veio dizer-lhe um sargento francês da secretaria do Depósito,

 

*1. Marbot e a Duquesa de Abrantes (Laura Junot) contam aquele episódio nas suas Memórias, mas divergem muito nos pormenores.

  1. Massena habituara-se a trazê-la consigo, mesmo em campanha, e estava de tal modo ligado a M.me X que não quis aceitar do Imperador o comando do exército de Portugal senão com a condição de lhe permitir que ela o acompanhasse.»

(Mémoires du general Baron de Marbot, tomo II, pág. 332)

 

- O nosso comandante deseja falar-lhe em assunto urgente do serviço.

Castro foi logo.

- Acabo de receber um ofício urgente do quartel-general a seu respeito. Tenho ordem para o mandar marchar amanhã.

- A unir-me às tropas portuguesas?

- A Legião está já em Metz e o senhor oficial marcha para Baiona.

- Para Baiona!

- Sim. Apresentar-se-á lá no quartel-general,

para receber ordens.

- Mudança de desterro! - pensou Luís de Castro.

- Vai daqui com o major Maurin, que chegou

esta manhã de Paris.

- Sempre com sentinela à vista! -disse consigo.

- Queira ir preparar as suas coisas.

- Estão preparadas, Comandante. Marcharei

quando mandar.

- Amanhã ao nascer do dia.

 

Sairam ao dia de madrugada, numa caleça de posta, Luís de Castro e o Major Maurin, que estivera em Lisboa com o exército de Junot. Era aquele capitão Maurin que nós conhecemos do trágico episódio da igreja do Sacramento, na noite de 13 de Dezembro de 1807.

Conversaram pelo caminho. Maurin falou-lhe de

Portugal.

- Provavelmente, teremos de ser companheiros

até lá.

- Até lá, onde?!...

- Até Portugal.

- Mandam-me para Portugal?! - perguntou, fazendo-se muito pálido.

- Mandam.

- Em que circunstâncias? Para que fim?

- Pois nem sequer desconfia para quê?

- Não sei de nada!

- Para ficar adjunto ao Estado-Maior de Massena.

- Querem então que eu faça uma loucura! - disse asperamente numa grande agitação.

- Não fará.

- Faço, há-de ver que faço. Percebo a crueldade da escolha.

- Não é o único escolhido entre os oficiais da sua Legião, e nem é já o primeiro a partir. Escolheram e mandam alguns dos mais conhecidos e dos mais ilustres entre os oficiais da Legião. O general Pamplona e os seus ajudantes, por exemplo. Esses já partiram há muitos dias para o Estado-Maior de Massena, apesar das repugnâncias do General por tal comissão e de ter ido a Paris instar com o Ministro da Guerra para o dispensar de tão penoso serviço. Disseram-me que o Ministro lhe opôs a todas as instâncias a ordem terminante e impreterível do Imperador.(1)

- Mas oficiais portugueses, para quê?

- Provavelmente, para esclarecerem o Estado-Maior de Massena.

 

*1. Na Memória Justificativa que publicou em 1821, por si e por sua mulher D. Isabel de Roxas e Lemos, o general Pamplona resume as súplicas e instâncias que fèz junto do Duque de Freine, ministro da guerra, para que não o mandassem reunir ao estado-maior de Massena.

O General expõe assim textualmente a resposta do ministro:

«Estais há perto de dois anos em França, deveis saber que se não resiste às ordens do Imperador».

«Depois mais benigno: As intenções do imperador não são empregar-vos como militares contra Portugal. Ides como medianeiros e protectores acreditados junto dos vossos compatriotas, para os livrardes, por vossa intervenção, das opressões da guerra, e a prova de que não ides para proceder como militares é que também foi escolhido para ir convosco o bispo de Coimbra». (Pág. 29)

 

- Não creio que haja camarada meu, seja qual fôr, que se atreva a dar qualquer esclarecimento em prejuízo dos seus compatriotas. Não creio. E para combater contra os soldados de Portugal, nenhum. Nenhum!

- Creio que ninguém pensa em colocar os oficiais portugueses em tão desesperadora situação.

- Eu quebrava a espada no joelho, se alguém ousasse mandar-me combater os soldados que defendem o meu país.

- Não mandam. Estou convencido disso. Suponho que se limitarão a pedir-lhe informações acerca da topografia e das condições especiais das províncias que tivermos de atravessar.

- Nem isso, sr. Major.

- Sei que o Imperador mandou tirar da Legião uns centos de prisioneiros espanhóis que lá havia e pensou em mandá-la encorporar no exército de Massena.

- Pior! Um erro enorme. A Legião revolta-se ou atira aos pés dos soldados de Portugal as armas que lhe mandassem desfechar contra eles.

- Mas ouvi que Napoleão hesitava e que Berthier ficara na intenção de o dissuadir desse propósito.(1)

- Simplesmente monstruoso! Tenha paciência, Major. Aqui não vão agora dois oficiais de diversa patente, mas apenas dois homens de diferente nacionalidade. Eu digo o que sinto e penso.

- Esqueci a minha patente quando comecei a conversar neste assunto.

- Que me oprime e dá uma das maiores amarguras da minha vida!

- Creio. Ponho o caso em mim e sinto-o.

- Mas eu hei-de falar nisso em chegando ao quartel general.

 

*1. Na obra do sr. Boppe encontram-se passagens de documentos oficiais em que se confirma aquele propósito de Napoleão, de que afinal desistiu.

 

Suceda o que suceder, hei-de protestar.

- A ordem é terminante e não admite alegações de recusa. Pelo menos a que lhe diz respeito.

- A minha escolha sei eu de que provém. Tem o nome de castigo clandestino. Serei generoso até ao ponto de lhe não divulgar a causa. Mas sabe quem são os meus companheiros de infortúnio e quem os indicou para este horroroso sacrifício?(1)

- Sei só três ou quatro nomes, mas disseram-me em Paris que eram uns trinta.(2) Parece que foi o Marquês de Alorna quem indicou alguns, para dar cumprimento a uma ordem do Imperador.

- Eu com certeza não fui indicado pelo Marquês. Sabia-se o que eu tinha dito em tempo a respeito de uma hipótese, que parecia a previsão desta crueldade, e como se trata dum sacrifício opressor, repugnante, escolheram-me! Vinha já indicado de Viena de Áustria! Pois veremos.

Maurin e Castro entraram na secretaria do quartel-general de Baiona. Estava com o governador da Praça um coronel de dragões, ajudante-de-campo de Berthier, devia levar despachos para Massena.

Maurin ia apresentar a sua guia de marcha quando entrou na secretaria um general de Brigada da Casa do Imperador. Tinha vindo de Paris naquela manhã.

- O capitão vai ficar como adjunto do estado-maior do sr. marechal Príncipe de Essling,

 

*1. Triste situação, sem dúvida a pior e a mais cruel do mundo - disse a respeito deles o marechal Marmont no tomo IV nas suas Memórias.

  1. Tínhamos no grande estado-maior uns trinta oficiais portugueses - escreveu Marbot, nas suas Memórias.

Na História da Legião diz Castro Pereira, um dos escolhidos: «O bispo de Coimbra, membro da deputação portuguesa, e vários indivíduos da Legião, receberam no principio do mês de Agosto do mesmo ano ordem de partir igualmente para o quartel-general de Massena, para onde partiram, a saber: De Larena os marqueses de Valença e de Loulé e o dr. Caractery, de Paris, o conde de Sabugal, e de Grenoble o brigadeiro D. Manuel de Sousa, os coronéis marquês de Ponte de Lima, conde de São Miguel e José de Vasconcelos, os majores Manuel de Castro e Cândido José Xavier e o tenente António Soverio de Gusmão, os quais todos passaram à fronteira de Espanha, etc.

Castro Pereira não menciona todos os que partiram de diversos pontos e em diversos dias.

 

- disse-lhe o governador.

- -Sei que o sr. marechal Massena é o comandante em chefe do exército que vai invadir Portugal. Eu não posso pertencer ao seu estado-maior.

- Está aqui uma ordem de Sua Majestade o Imperador, há-de cumprir-se - replicou-lhe o Governador energicamente.

- Contra o meu coração de português não há ordens que valham. Recuso-me a marchar.

- Podia mandá-lo pôr a ferros num calabouço da Praça.

- Nesta conjuntura seria misericordiosa bondade sua, sr. General.

- Mas a ordem de Sua Majestade tem de cumprir-se. Irá.

- Insisto. Recuso-me!

- Vai sob prisão, mas vai.

- Foram considerados traidores em Portugal - interveio o general da Casa Imperial -, se desertar, lá terá quem o fuzile, se nos trair, sempre há-de haver um pelotão de soldados franceses para o fuzilar.

- Estimo que v. ex.a me desse ocasião de falar. Irei obrigado, violentamente obrigado, mas pode v. ex.a afiançar ao Imperador que o capitão Luís de Castro não deserta, não atraiçoa: mas será no estado-maior do Príncipe d'Essling um desmemoriado, um emudecido para tudo o que disser respeito a Portugal. Queira v. ex.a dizer-lhe que hei-de cruzar os braços na hora em que os franceses combaterem contra os soldados do meu país, e procurarei um lugar atrás de todos para ver menos as iniquidades desta guerra.

- Hão-de suspeitar da sua coragem, e talvez suponham que procura o lugar onde menos se exponha às balas - disse-lhe o general de brigada.

- V. ex.a esteve na última campanha da Áustria? - preguntou-lhe muito enfiado, numa tremura de voz, que valia por um grito de cólera.

- Estive noutras. Nessa não.

- Bem se vê. Na véspera da batalha de Wagram, sr. General, houve uma série de combates, um deles violentíssimo, em Baumesdorf. V. ex.a há-de ter ouvido falar da debandada de duas Divisões do marechal Oudinot, de outras dos marechais Bernadotte e Macdonal e do terror de uns batalhões saxónios?

- Ouvi - respondeu-lhe altivamente. - Mas a que vem essa história que nos está tomando tempo?

- É a minha resposta à suspeita que v. ex.a formulou. Entre as Divisões que se esbandalharam espavoridas estava uma meia-brigada que não fugiu e ficou fazendo frente aos austríacos. Era de portugueses. E à frente de duas companhias dessa meia brigada estava um homem que se não escondeu atrás de ninguém. Era eu, sr. General. No dia seguinte, também desses homens nenhum hesitou e nenhum tremeu. Eu fui ferido estando ao alcance de uma espada inimiga.

- Concluiu?

- Concluo agora, sr. General. Peço a v. S.a a mercê de dizer nas Tulherias a quem se lembrou de mim para este sacrifício.

- Observo-lhe que não posso nem quero aceitar-lhe incumbências, e demais o tenho escutado.

- O Imperador, e é ele, ouve até os mais obscuros dos seus soldados, mesmo na formatura de uma parada. Mandam-me, obrigam-me, vou. Como um prisioneiro cuja espada se rendeu, e só assim é que eu parto daqui. Lá, sr. General, a minha espada nunca sairá da bainha senão para a quebrar no joelho no dia em que estivermos às portas de Lisboa. Para lá da fronteira de Portugal esquecerei tudo o que possa convir aos invasores, nada lhes saberei dizer que venha a ser-lhes útil. Como se tivesse perdido a memória, como se tivesse perdido a voz. E se os soldados de Portugal vencerem, então, sr. General aos gritos de desespero dos vencidos, responderá o meu coração em aclamação entusiástica de júbilo. Mas, se os vencedores forem esses que eu violentamente devo acompanhar numa campanha contra o meu país, então a minha mágoa será de morte. A primeira batalha decisiva que Portugal perder...

- Estou com curiosidade de saber o que faria - interrompeu o General com um sorriso.

- Meto uma bala na cabeça para não ver como as águias venceram e para não ouvir os brados triunfais dos meus companheiros.

- Então pode ter como coisa certa esse suicídio de promessa - disse-lhe o General num propósito

de sarcasmo.

- É fácil e cómodo gracejar comigo de dentro dessa farda de bordaduras de oiro, por detrás desse parapeito formidável que se chama disciplina militar. Tem o Imperador dois generais que talvez não fossem capazes desse escárnio. O general Junot e o marechal Soult.

O ajudante do Imperador afogueou-se, compreendia bem a referência. Nos outros, o governador, o ajudante-de-campo de Berthier e Maurin a impressão era de compadecimento por aquele oficial estrangeiro, a quem iam impor o sacrifício, ao mesmo tempo doloroso e repugnante. Intimamente lhe perdoavam o propósito agressivo daquela réplica.

Mas o Governador, um general de Divisão, tinha o direito e o dever de intervir.

- As suas palavras, Capitão, vão tomando um tom que eu não posso nem devo tolerar-lhe. Major Maurin, tome-lhe da espada. Vai daqui apresentá-lo na prisão dos oficiais. Marchará amanhã de madrugada. Este oficial irá preso e sob a sua imediata vigilância, responderá por ele, mas vão um e outro sob as ordens do sr. Coronel.

Indicou o ajudante-de-campo de Berthier.

Estava-se nos primeiros dias de Agosto, fazia um calor insuportável, só a espaços amenizado pela brisa fresca do mar, a rumorejar ao longe.

Vinha rompendo a madrugada e ainda fulgiam estrelas. Ao pé da ponte levadiça da cidadela esperava uma grande caleça de posta como aquelas em que por algumas vezes a Guarda Imperial viajara para se concentrar rapidamente num determinado teatro de operações.

Na esplanada, uma escolta de quarenta dragões aguardava ordens, de espadas embainhadas.

Saíram da cidadela três oficiais, um coronel de dragões, um major de infantaria e um capitão que não trazia espada. Entraram para a caleça. O granadeiro João Luís subiu para o lado do cocheiro.

- Levamos uma escolta quási do tamanho de um esquadrão! - observou Luís de Castro para o major Maurin.

- É por causa das guerrilhas espanholas - explicou-lhe -, Vão aqui despachos importantes para o marechal Massena. Creia que não chegaremos à fronteira de Portugal sem alguma rude escaramuça com os guerrilheiros.

 

A caleça foi rodando pela esplanada abaixo. Atrás dela os dragões. Entraram na estrada de São João da Luz. Vinha rompendo a manhã.

Castro relanceou um olhar para a casa onde Maria Pulaski morara. Viam-se-lhe bem da estrada as trepadeiras ressequidas das janelas do quarto que fora dela. No jardim já não havia flores de opulento viço e brilhante colorido como naquele Maio de 1808, que já lhe parecia remoto, como se a ventura efémera desse tempo não fosse mais do que um sonho de lenda.

Ouvia-se o mar numa triste melopeia, via-se ao longe a franja branca das suas espumas, em frente na extrema orla do horizonte, como no fundo de cenografia, aprumavam-se as escarpas dos Pirenéus, em cujas aspérrimas cumiadas as neblinas da madrugada lembravam farrapos de alguma nuvem que se houvesse rasgado no céu.

Era para ali o caminho de Portugal. Mas em que horrorosas condições ia agora voltar para lá!

E Maria Pulaski? Talvez ele nunca mais voltasse, talvez nunca mais a tornasse a ver.

Sonhou-a naquele instante, e a encantadora visão iluminou-se-lhe dentro da alma sob uns esplendores de saudade, numa tristeza suave e doce como o pôr do sol de um formoso dia para quem já esmoreceu na vida.

A caleça deitou à desfilada pela estrada fora, os dragões foram atrás dela a trote largo. Levantou-se nos ares uma nuvem densa de pó.

Na praça, os clarins e os tambores faziam o toque da alvorada.

 

 

Continua no VOLUME 5

 

 

                                                                  Antonio Campos Junior

 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades