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A FILHA DO POLACO - V.7 / Antonio Campos Junior
A FILHA DO POLACO - V.7 / Antonio Campos Junior

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

 

               Além da fronteira.

Massena acantonou os seus corpos de exército para além da linha do Águeda, nas cercanias de Ciudad Rodrigo, e estabeleceu o seu quartel-general na velha cidade de Salamanca.

E enquanto ele procurava reconstituir e fortalecer aquele escalavrado exército com a energia e tenacidade admiráveis que eram bem uma característica das suas qualidades militares,(1) do outro lado do Águeda lorde Wellington preparava os anglo-portugueses para o caso de uma segunda investida do velho leão de Rivoli.

No território português ainda havia erguida uma bandeira do Império.

 

*1. Escrevendo ao príncipe Eugênio a respeito da batalha perdida em Sacile (1809) e lamentando não lhe ter dado outro auxiliar melhor do que Macdonald, Napoleão dizia-lhe:

«Se eu tivesse mandado Massena, não teria sucedido o que sucedeu. Massena tem talentos militares, diante dos quais temos de nos curvar.»

Vem citado em trecho a pág. 186 das Guerras de Espanha no Tempo de Napoleão, por Guillon.

Anos depois, Napoleão ditava estas palavras a respeito do vencido do Buçaco:

«General de rara coragem e de notável tenacidade, o talento realçava-se-lhe nas conjunturas de maior perigo e, embora vencido, não desistia, recomeçava como se fosse ele o vencedor.»

 

Flutuava sobre as muralhas da praça de Almeida, que os franceses tinham restaurado e defendiam resolutamente. Estava ali um punhado deles, dois mil homens, mas valia por outros dois mil o coração heróico do general Brenier, seu comandante.

Os anglo-portugueses bloqueavam-lhe a praça, mas o bravo Brenier não parecia disposto a entregar-se.(1)

É curioso ver como Wellington contava com outra arremetida de Massena e este acariciava ainda o plano de conquistar Portugal.

Dois dias depois que a extrema retaguarda dos franceses transpusera o Águeda, quere dizer, a 10 de Abril de 1811, Wellington dirigia aos portugueses uma proclamação, da qual nos limitaremos a transcrever uns significativos períodos.

Depois de resumir os horrores da invasão e o êxito da defesa, Wellington adverte:

«Não obstante, o marechal-general considera como sendo do seu dever, ao passo que anuncia o resultado da última invasão, advertir o povo português de que, embora o perigo esteja afastado, não pode haver confiança de que passasse completamente. Os portugueses têem ainda que perder, e o tirano há-de tentar esbulhá-los do que possuem.

 

*1. Entre as forças bloqueadas havia 5:548 portugueses de caçadores 4 e infantaria 1, 3, 8, 12, 15 e 16.

 

Resistiram-lhe com êxito afortunado; há-de empregar novos esforços para os submeter ao seu jugo de ferro. A nação portuguesa tem, portanto, de ser infatigável nos seus preparatórios para uma resistência enérgica e determinada.»

Bem clara nestas palavras a desconfiança de uma quarta invasão. Mais sacrifícios, e ainda se não tinha apagado o rescaldo das aldeias incendiadas, ainda o chão não tinha absorvido a sangueira dos combates, ainda não tinham voltado das covas aos seus lares espedaçados.os cinquenta ou sessenta mil famintos que andavam a monte!

Era preciso continuar ainda naquela vida errante, enterrar ou destruir o que houvesse escapado a sete meses de saque; completar o deserto para outra invasão.

Diz-lho e prescreve-o secamente o generalíssimo vencedor nestes parágrafos arripiadores da sua proclamação:

«Todos aqueles que estejam em circunstâncias de pegar em armas devem aprender a servir-se delas, e aqueles a quem a idade ou o sexo torne impróprios para esse fim, devem escolher lugares seguros onde possam conservar-se escondidos, e fazer desde já todos os preparativos convenientes para se retirarem a esses lugares com facilidade, logo que o momento do perigo se aproxime. Os objectos de preço, susceptíveis de tentar a avareza do tirano e daqueles que o servem, e cujo saque é o fim principal da sua invasão, devem ser enterrados com antecedência. Cada indivíduo trate de ocultar o que pessoalmente lhe pertença, não se fiando na fraqueza dos outros para a guarda de segredo em que eles não são interessados.

«Cumpre que todos tomem providências para a ocultação ou para a destruição das provisões que não possam ser transportadas, bem como para a de tudo quanto possa ter por efeito facilitar os progressos do inimigo, pois deve contar-se que as suas tropas hão-de lançar mão de todas as cousas, não deixando nada aos proprietários delas. Por meio destas precauções, qualquer que seja a superioridade do número de homens que o tirano, no seu desejo de roubo e de vingança, tenha possibilidade de armar para invadir Portugal novamente, o resultado não oferece incertezas, e a independência de Portugal e a felicidade de seus habitantes serão estabelecidas por fim, dando-lhes uma honra eterna.»

E por essa independência, por essa felicidade, por essa honra, que remédio senão continuar naquela vida de sacrifícios, já medonhamente agravados pela perda das vidas, imensamente maior que a dos haveres, e pelo mar amargo das lágrimas, ainda mais vasto que o mar vermelho do sangue!

E para além do Águeda, Massena dizia noutra proclamação aos vencidos do Buçaco:

«Soldados do exército de Portugal!(1) Depois de seis meses de gloriosos trabalhos voltais ao primeiro campo donde tinheis saído triunfantes. Mas os inimigos do Grande Napoleão vieram bloquear uma praça que o ano passado não tiveram coragem de defender...

«Soldados! Precisamos de uma vitória para que vos seja dado o repouso exigido pelas privações e fadigas que há tanto tempo sofreis. Haveis de sabê-la ganhar e encontrareis então cómodos acantonamentos como prémio do vosso esforço.»

Era o pregão de uma nova campanha ou, pelo menos, de uma nova batalha. O Príncipe d'Essling não podia conformar-se com a ideia de deixar enterrada em Portugal a mais altiva tradição de glórias que ainda tiveram os marechais do Império.

Procuremos em Salamanca, na velha e formosa cidade dos estudantes, os nossos conhecidos de maior intimidade.

O mais seguro para sabermos onde eles estão será ir ao palácio onde Massena se instalou com a pequena marechala.

Nem é preciso entrar. Saem de lá, depois das apresentações daquela manhã, o Marquês de Alorna e o general Pamplona, os Marqueses de Loulé e de Valença, o Conde de Sabugal e mais duas dezenas de portugueses que seria longo referir.

Na frente os dois generais portugueses vêem conversando baixo com o general de divisão Thiébault, governador de Salamanca; um pouco afastados do grande grupo o major Cândido Xavier e Luís de Castro.

O general Thiébault, um bravo de Austerlitz e uma das maiores ilustrações do exército napoleónico, é já muito nosso conhecido de Lisboa. Era aquele chefe de estado-maior de Junot que entrou na cidade com as botas rotas e os dedos de fora.

- Eu tinha previsto tudo isto quando chegámos a Lisboa, em Dezembro de 1807 - ia êle dizendo para o Marquês de Alorna - Desgraçadamente para o meu coração de francês, fui um seguro profeta de infortúnios. Quantas vezes em Lisboa eu não preguntei a mim mesmo se o malogro daquela campanha não teria sido uma grande fortuna para a França? Aí está a prova. Se não tivéssemos chegado a Lisboa em 1807, as coisas teriam mudado e evitavam-se humilhações que hoje profundamente deploro. Os nossos generais mais célebres batidos por paisanos, vencidos por esse Wellington, que se está fazendo herói à custa dos nossos erros.(2)

 

*1. Era assim a designação oficial do exército francês ao qual fora dado o encargo de conquistar Portugal.

  1. Na Relation de l'expédition du Portugal, Thiébault escreveu coisas muito mais amargas. Atribui às campanhas dos franceses no nosso país os grandes infortúnios do Império e, falando dos efeitos que teria tido o malogro da expedição de Junot, diz: não mancharia os nossos triunfos com indignas perfídias.

Resumindo desastres, dispêndios, mortos (de que mais tarde havemos de ter notícia completa), conclui: salvar-nos-ia da infâmia e dos desastres de duas invasões, etc.

Tal devia de ser o preço porque havíamos de fazer a conquista de Portugal.

 

E não disse mais, não disse tudo o que sentia e previa, porque ia falando com estrangeiros.

Thiébault era estimado em Salamanca. Tinha ali amigos espanhóis como os tivera em Burgos. Homem consciencioso, espírito lúcido e culto, não seguia os processos brutais e sanguinários de Dorsenne, nem se maculava em rapinas infamantes como Junot, Massena, Soult e tantos outros.

Ao contrário: respeitava os escrúpulos patrióticos dos espanhóis e êle próprio lhes honrava as grandes e gloriosas tradições.

Em Burgos prestara honras excepcionais às cinzas do Cid e de Ximenes; em Salamanca restaurara a remota Universidade, cujo corpo catedrático o distinguiu nomeando-o seu membro honorário.

Agora estava traduzindo a obra-prima de Cervantes e da literatura espanhola - o D. Quixote.

E até por causa deste trabalho literário se afastara um pouco dos salões de Laura Junot, que eram os centros da galantaria e da moda, um trecho de Paris naquele pedaço da terra espanhola.(1)

Passavam defronte do velho palácio ocupado pela Duquesa de Abrantes. Estavam abertas as janelas do salão. Apareceram damas espanholas das famílias dos afrancesados e, com elas alguns oficiais do estado-maior de Massena, de Junot e do marechal Bessieres, que chegara na véspera de visita ao Príncipe d'Essling.

 

*1. Guillou refere-se àqueles factos a pâg. 210 do seu livro acerca das guerras de Espanha.

 

Cumprimentaram-se. Junot veio também a uma janela com a Duquesa e instou para que entrassem.

Thiébault desculpou-se e não subiu. Os oficiais portugueses seguiram-lhe o exemplo. Pois iam ali dois que eram muito das relações e da intimidade da Duquesa: o Marquês de Valença e o Conde de Sabugal. Tinham tido a boa fortuna de conseguir que os não fizessem entrar em Portugal.(1)

- Creio que é um homem perdido aquele pobre Junot - disse Thiébault para o Marquês de Alorna, já a uma dezena de passos do palacete.

- O ferimento que lhe fizeram em Rio-Maior desfeou-o muito. Parece outro! - observou o Alorna.

- Física e moralmente outro! Tem falhas extraordinárias de memória, horas de prolongada sonolência no meio das conversas de maior vivacidade, momentos súbitos de arrebatamento e logo outros de esmorecidas hesitações. São indícios inquietadores de uma grande perturbação cerebral! A Duquesa ficou inconsolável. E ninguém melhor do que ela lhe percebeu a mudança. Esperava-o com ansiedade para lhe pôr nos braços o filhito que deu aqui à luz, e ficou oprimida com a dolorosa surpresa daquela transfiguração moral, imensamente maior e mais contristadora que a outra do rosto.(2) A cutilada formidável que lhe deram na batalha de Lonato...

 

*1. Nas suas Memórias tomo VIII, Laura Junot fala com extremado louvor dos dois oficiais portugueses e, principalmente, do Conde de Sabugal, valente, espirituoso, um homem distintíssimo.

  1. «Oh! como eu me sinto feliz por tornar a ver Junot. pondo-lhe o nosso filho nos braços! Era um pai extremoso e sentia bem a felicidade de o ser. Mas como êle tinha sofrido! Grande Deus, como estava mudado!...

«Fiz-lhe várias preguntas e não me respondeu com a lucidez de outros tempos!» (Memórias da Duquesa de Abrantes, tomo VIII, pág. 298 e 299).

 

- Que lhe ia abrindo o crânio, segundo ouvi.

- Foi muito menos funesta do que essa bala que o feriu em Rio-Maior. Receio muito que já lhe não seja dado ganhar o bastão de marechal, a ambição e o sonho maior que êle trás consigo desde 1807!

- Ouvi que ia partir para a cidade de Toro.

- Vai acompanhar a Duquesa, ainda um tanto combalida do último parto. Faz-me pena aquele homem, um dos mais bravos e dos mais destemidos generais do Império! O seu país sofreu-lhe profundos agravos, e não faltará entre o povo crente de Portugal quem atribua a um castigo de Deus aquele ferimento, que apagou talvez o destino brilhante do chefe da primeira invasão; eu, porém, seu camarada dedicado, lamento-o com sincero pesar.

Thiébault despediu-se e afastou-se com os seus ajudantes. Os oficiais portugueses dividiram-se e foram para os seus aquartelamentos.

Castro, foi com o general Pamplona. Estavam os dois alojados no mesmo prédio.

No pátio, já no primeiro degrau da escada, o General resumiu-lhe a conversa a respeito do Duque de Abrantes.

- Agora vá ver sua esposa e depois bata ao ferrolho, que tenho uma notícia para lhe dar.

- Que me diz respeito?

- Não. É a notícia de uma batalha perdida.

- Pelos espanhóis?

- Ganha pelos ingleses e por eles. Mas, já agora não vale a pena reservar-lha para logo, O que eu ouvi por meias palavras, diz-se em alguns segundos. As tropas do marechal Víctor foram vencidas pelos ingleses e espanhóis ao pé de Cádis. Os franceses dizem que foi acção de pouca importância e chamam-lhe de Barrosa. Mas, pela insistência com que eles falam da grande superioridade numérica dos ingleses e espanhóis, estou convencido que foi batalha de importância. Até logo.

Maria Pulaski recobrara forças e julgava-se agora relativamente feliz. Incómodos de saúde, os que ainda sentia, e seriam naturalmente duradouros, não lhe abatiam o ânimo e antes lhe davam uma doce e consoladora resignação para outros, provavelmente maiores.

Das jornadas horrorosas de Miranda-do-Corvo para Foz-de-Arouce e para a Guarda é que ela se não podia esquecer. A toda a hora a recordava com pavor.

- Então meu amor, cada vez melhor, não é assim? - preguntou-lhe o marido, beijando-a.

- Sim, muito melhor e cada vez com mais ânimo para tudo.

- Vê lá o que dizes!

- Menos para voltar ao teu país por esses caminhos que deixámos! Para França é que eu desejava agora que fôssemos e nos deixassem lá tranquilamente à espera...

- Desse dia de santo júbilo com que eu ando a sonhar... Alma da nossa alma, flor encantada pelos nossos beijos, pelas nossas lágrimas... Maria, que fortuna imensa a nossa!

Beijou-a fervorosamente, tomando-lhe a cabeça entre as mãos.

- Linda, sempre linda! E nem sei se, ainda mais do que no tempo em que te conheci em Lisboa! De outro encanto diferente.

- Lisonjeador! Mas vamos lá a ouvir: não sabes ainda quando nos deixarão sair daqui? Estou com receio que voltem a Portugal e tu com eles.

- Ouvi que era esse o intento de Massena. Está reorganizando o exército para intentar a nova campanha.

- Deus tal não permita, Luís! Disso é que eu tenho medo, imenso medo!

- Ainda trago comigo a consoladora esperança de que o exército de Portugal os tornará a bater outra vez.

- Mas para isso há-de ser preciso que eles voltem a Portugal e terás de ir... e havemos de ir!

- Tu, não.

- Desculpa-me; eu vou contigo, seja para onde fôr.

- Salvo em certas condições... -objectou-lhe êle, sorrindo.

- Ainda distantes. Agora podia.

- Mas que terror o meu vendo-te entre os perigos e as ferocidades da guerra! Olha a mulher de Junot; ficou em Ciudad Rodrigo e veio depois para aqui por motivo igual.

- Pois sim... mais tarde veremos. Mas há-de ser para mim um grande sacrifício apartar-me de ti. Imenso! Quaisquer que sejam os trabalhos e os perigos, é ao pé de ti que eu me sinto bem.

- Minha vida! -murmurou puxando-a para si - Mas, se Massena voltar a Portugal, eu farei todas as deligências possíveis para não ir. Podem deixar-me ficar em Espanha como ficaram o Marquês de Valença e o Conde de Sabugal. Em último caso simulo doença. Horroriza-me a ideia de voltar lá para outra tortura moral como essa que durou tantos meses! E bem sabes com que imenso consolo de alma eu viveria naquela terra. Até por causa de alguém... Olha. queres saber uma pieguice minha, que ainda me não lembrou contar-te?

- Vamos láa saber essa pieguice do meu valente capitão.

- Mas não hás-de rir-te de mim. ,

- Prometo solenemente que não.

- Pois então fica sabendo que na manhã em que atravessámos para a fronteira espanhola, me recordei subitamente de certa piedosa homenagem patriótica dos homens do teu país.

- Não me lembro qual!

- Contaste-ma uma vez. Os perseguidos que tinham de fugir para a terra estrangeira, ou as famílias dos que iam desterrados para a Sibéria, levavam como riquezas de um tesouro alguns punhados da sua querida terra polaca.

- Para chorarem sobre ela, para abençoarem os filhos, ungindo-os com esses punhados da terra santa da pátria, embebida de lágrimas - disse-lhe comovida - Lembro-me perfeitamente. Nem todos terão feito isso. Minha mãe fê-lo. Levou alguns punhados de terra dentro de um lindo cofre de prata e cristal. Nas horas de maior desalento choravam ao pé dele. Nos dias de Natal que lá passámos era diante desse cofre aberto que orávamos pela Polónia morta.

- Santa homenagem!

- E agora já sei porque te lembro a nossa piedosa tradição. Já sei. Tinhas também vontade de trazer uns punhados da tua terra portuguesa. Acertei, não é assim?

- Acertaste.

- Mas porque não o fizeste?

- Por uma dessas fraquezas triviais naqueles que receiam o escárnio dos estranhos. Vínhamos então cercados de franceses. Tê-lo-ia podido fazer mais cedo, mas confesso que só me lembrou quando chegámos às extremas do território português. Deixá-lo. A pátria pode a gente levá-la no coração para toda a parte. Contei-te isto como curiosa pieguice, de que nem tu nem eu nos havemos de lembrar mais.

- Eu hei-de lembrá-la sempre, porque isso a que chamas pieguice mais me dá a impressão do que tu és, e quanto melhor te conheço mais te quero e admiro. Até por um certo egoísmo do meu coração. A esse teu culto pelo país que estremeces querias tu ligar uma das mais comovedoras tradições da minha Polónia. Compreendo-te, vês? E um dia, distante, hei-de contar a pieguice a alguém, queridíssimo para nós, quando a sua alma souber compreender a nossa.

O marido abraçou-a; tinha os olhos rasos de lágrimas. E ambos murmuraram docemente, como se fosse o segredo benfazejo do seu futuro:

- O nosso filho!

Na manhã seguinte o seu vizinho Pamplona mandou-lhe dizer que tinha em casa dois amigos, excelentes cavaqueadores, e que lá o esperava.

E quem lhe levou o recado foi a própria D. Isabel Pamplona, que ia visitar e fazer companhia a Maria Pulaski.

Luís de Castro foi. Os dois cavaqueadores que lá tinha o General eram o Marquês de Valença e o Conde de Sabugal.

O Conde contou graciosamente umas intrigazitas de sala e uns escandalozinhos galantes da alta roda de Salamanca e dos salões da duquesa de Abrantes. E a propósito de amores de escândalo vieram à conversa as recentes aventuras herói-cómicas de um certo ajudante-de-campo de Berthier, que foi desterrado de Paris sob o disfarce de trazer despachos urgentes para o marechal Massena.

Tratava-se do capitão Júlio de Canouville, o mais atrevido e aventuroso amoroso de que havia memória no Grande Exército.

- Conhece-o, Luís de Castro? - perguntou o Sabugal a sorrir.

- Não, não tenho ideia desse oficial.

- Admira que não o tivesse notado. Está há pouco tempo no estado-maior de Massena, mas é homem que logo dá nas vistas. Um belo rapaz, um perfeito hússar, capaz dos maiores arrojos. Muito penteado, frizado, muito escovadinho, muito bem posto, um peralta, como se diria em Portugal.

- Deixe ver se me lembro. Oficial de hússares... Efectivamente, na Guarda, notei uma cara desconhecida para mim no estado-maior de Massena. Com o uniforme de hússares... novo, flamante...

- Pois era esse o sr. Júlio de Canouville, capitão, ajudante-de-campo do marechal Berthier, Príncipe de Neufchâtel e de Wagram. Logo, quando fôr ao quartel-general, repare bem nele. Vale a pena. Não encontrou nunca homem mais presunçoso em negócios de amor! Se lhe falar de mulheres, tem ca-vaqueador para um dia inteiro. Dá-se então ao desfruto como qualquer colegial doidivanas. Canta, diz versos de Racine, declama a imitar Talma e morre pelas mazurcas e pelas mulheres. Mas se êle estiver com a sua polonesa rica de hússar, forrada de peles de marta-zibelina, de alamares de oiro com botões de brilhantes, mais opulenta que a de Junot e muito mais brilhante que a de Montbrun, não lhe fale nela para o não fazer encordoar.

- Essa agora é melhor!

- Palavra. Essa pelica principesca tem uma história escandalosa e foi a origem de todas as aventuras e desventuras do pobre Júlio Canouville.

- Tem seus ares romanescos essa sua história, meu caro Conde!

- Tem. É um verdadeiro romance da vida real. E até com uma personagem preponderante, que é muito sua conhecida, meu querido Castro.

- Minha conhecida?!

- Sim... mas não lhe digo quem é porque receio ser-lhe desagradável.

- Mas agora insto eu consigo para nos dizer quem é essa criatura misteriosa.

- Foi brincadeira. Eu sei que você nunca foi dos cativos de amor de tal personagem e não está, portanto, nas circunstâncias do pobre Canouville.

- Trata-se então de uma dama?

- Trata. E nas amorosas preferências dessa dama precedeu você o aventuroso hússar da pelica de marta-zibelina com botões de diamantes.

- Homem, desembuche! - disse-lhe o General, a rir.

- Eu já sei de quem se trata - acudiu o Castro, sorrindo.

- Da mais linda mulher da França, dessa a quem o general Thiébáult chamou uma obra-prima da natureza.

- Então também eu sei - disse Pamplona - A irmã mais nova do Imperador, Paulina Borghése.

- Tem um certo fraco pelos capitães - gracejou o Sabugal -, e assim como o irmão meteu uma legião portuguesa no Grande Exército, meteu ela no coração esbraseado um certo capitão lusitano, primor dos capitães da nossa terra, que não está aqui presente para nos ouvir.

- Que, por mal dos seus pecados - rectificou o Castro, a sorrir - aqui está por causa dela.

- Depois do desterro para Grenoble. Sei muito bem como as coisas se passaram. Mas olhe que você viria como nós viemos, ainda que não houvesse tido aquela aventura brevíssima de Viena.

- Percebemos então - disse o General - que o sr. Júlio de Canouville ousou apaixonar-se pela mais bela irmã do Imperador; falta agora que nos conte a história da pelica.

- Causa ocasional do seu disfarçado desterro e da sua fantástica odisseia depapa-léguas. Eu conto, desde os tempos mais remotos, ou como se disséssemos desde os tempos dessa que foi a linda generala Leclerc. Napoleão era então apenas o general Bonaparte, embora fosse já o mais glorioso general da França. Comandava o exército francês em Itália e tinha entrado em Milão como um triunfador. Foram ali visitá-lo várias senhoras da família Bonaparte, para o felicitar pelas suas vitórias. Ia também a radiosa Paulina... como anos depois foi a Viena visitar o Imperador e felicitá-lo pela batalha de Wagram.

- Peço-lhe que se não afaste dos tempos remotos - disse o Castro, de brincadeira.

- Pois seja. Morriam então as damas francesas pelos uniformes militares e algumas até usavam fardas de oficiais e fingiam de ajudantes-de-campo, como ainda hoje a companheira de Massena.

- Lá está outra vez na história moderna -observou-lhe Pamplona.

- Tem razão, General. Mas continuemos. Muitas, porém, as dogrande generalato, limitavam-se a tra zer ao ombro umas pelicas ricas, à hússar. Paulina Bonaparte não tinha. Era uma pena. Havia de ficar um apetite maior com uma pequena polonesa de hússar naqueles ombros esculturais. Bonaparte queria-lhe muito e andava ansioso por lhe dar um noivo que pudesse liquidar várias impetuosidades do sangue corso. Resolveu torná-la ainda mais gentil e mais tentadora noiva, oferecendo-lhe uma pelica opulenta.

«Os despojos da conquista eram grandes, Milão tinha magníficos diamantes e Paulina recebeu das mãos triunfantes do irmão a mais brilhante polonesa que ainda tinham visto hússares. Só a abotoadura de diamantes valia uma conta calada! Acabou o primeiro período da minha história.

- O dos tempos remotos?

- Exactamente. Paulina foi esposa e viúva do general Leclerc. Depois casou com o Príncipe Borghèse e, nesta condição de paisana, deixou de aparecer com a polonesa riquíssima. Peço agora licença para dar um salto até aos tempos mais recentes - disse a rir para o Castro.

- Concedida.

- Calculo eu que Sua Alteza teria tido tentações de oferecer a pelica a um certo gentil oficial do Grande Exército, mas talvez então se lhe não oferecesse ensejo de amar algum que fosse hússar.

O que lhes posso afiançar é que se a 13.a meia brigada do corpo de Oudinot tivesse hússares, um dos nossos camaradas, cuja modéstia não quero ofender, teria decerto, a pelica, como teve o coração da Princesa. Mas porque esse camarada nosso não era hússar nem quis conceder a Paulina mais do que umas horas da sua caprichosa mocidade, outro pôs aos ombros a gloriosa insígnia. Eu tenho razões particulares para dizer que foi esse nosso compatriota e camarada o homem por quem Paulina verdadeiramente se apaixonou, e não duvido atribuir a despeitos de mulher abandonada o destino herói-cómico do famoso Canouville.

- Oh! Conde - disse-lhe Pamplona, de gracejo - você mói-nos com rodeios!

- Sigo o exemplo de vários historiadores e novelistas do meu tempo. Mas volto já a segurar o fio do enredo. Estou nos tempos actuais.

- E já não é sem tempo - comentou o Marquês de Valença.

- Entremos neste ano da graça de 1811. Vai para três meses, Napoleão passou revista à Guarda Imperial na praça do Carroucel. Dizem que foi uma coisa magnificente. Com o Imperador ia o marechal Berthier e com os dois os respectivos oficiais do estado-maior. Por obra do diabo o sol estava esplêndido e o Imperador reparou nos fulgores deslumbrantes da pelica do gentil Canouville. Deu-lhe um baque no coração. Lembrou-se da opulenta pelica que dera à irmã, em Milão. Os malditos diamantes rutilavam prodigiosamente e não é qualquer capitão de hussares que os pode trazer daquele quilate, nem são os capitães que se permitem semelhante luxo. O conquistador de meia Europa embesourou na desconfiança de uma conquista clandestina feita pelo ajudante de Berthier. Aquela pelica era, provavelmente, um troféu arrancado à mana conquistada.

- Mas que demónio! - comentou o general - Esse sr. Júlio de Canouville é um pagão discreto! Devia contar com os olhares investigadores e com os olhares invejosos dos marechais, dos colegas, dos intrigantes. Ainda que o Imperador não reparasse na pelica, alguns enredadores teriam o cuidado de lha fazer notar por extraordinária. Podem confundir-se uns com os outros, vinte ou quarenta mil uniformes de hússares; nunca se confundiria com as polonesas simples do uniforme essa de botões de diamantes.

- A cintilar como um turbante de um rajá. Mas, o que quer, meu General? Aquele Canouville estoirava na pele, se não se pavoneasse com a dádiva singular de Paulina Borghèse. Mas o melhor da passagem não foi ainda isto. Estava em maré de infortúnios o gentil Canouville e foi escandalosamente comprometido pelo ódio inglês.

- Essa agora vem complicar o enredo da sua novela!- observou o Castro, sorrindo.

- Canouville teve o capricho de dar bem nas vistas e foi para a revista num soberbo cavalo inglês: cada pata era do tamanho de uma nau de linha, com arreios que fariam inveja aos cavalos do Xá da Pérsia. Foi a sua desgraça aquele bicho! Canouville meteu-o a caracolar a uma certa altura da revista, mas o demónio começa a recuar numa teimosia hostil, insidiosa, põe em confusão medonha o estado-maior imperial e, no seu ódio de sangue contra os esplendores napoleónicos vai esbarrar contra a anca do próprio cavalo branco do vencedor de Austerlitz e de Wagram! Imaginem a cólera olímpica do herói! «Que boneco é este, disfarçado em hússar? - preguntou o Imperador, num movimento de ira, para o marechal Berthier.

- Mas Napoleão devia conhecê-lo - observou Pamplona - Êle, então, que não perde de memória os próprios soldados!

- Conheceu, é fora de dúvida, mas para humilhar mais o desventurado hússar, comprometido pelo cavalo inglês, fingiu desconhecê-lo.

- Talvez já tivesse zuns-zuns a respeito dos amores de Canouville - lembrou Luís de Castro.

- Talvez. Mas encontrou ali a mais escandalosa confirmação.

- Reparou na polonesa de botões de diamantes?

- E em coisa ainda mais comprometedora, porque afinal diamantes não os tem qualquer, mas não são raros que não os possa ostentar um favorecido da fortuna. Em resumo, a explicação que me deu Laura Junot. A marta-ziblina caça-se na Sibéria e a sua pele preciosíssima é dada ao Czar de todas as Rússias como tributo. Ora o czar Alexandre fizera um presente dessas peles raras a Napoleão, não sei se em 1807, se há dois anos. O caso foi que o presenteado as dividiu pelas irmãs e deu a Paulina a mais bela, a mais preciosa, a que mais dava nas vistas.

- Como era de justiça - disse o Marquês de Valença.

- Mas a polonesa dos botões de diamante - objectou Luís de Castro, gracejando - fora oferecida a Paulina, em Milão, pelo general Bonaparte, largos anos antes. Parece-me que o ilustre novelista está em flagrante contradição.

- Parece, mas não estou. O meu engenho de novelista apenas cerziu as informações do general Thiébault aos pormenores que me contou a linguinha de prata de madame Junot. A Princesa teria mandado fazer uma nova polonesa, guarnecida e forrada com as peles que o Czar mandara ao mano, aplicando-lhe os alamares de oiro e os botões de diamantes da outra de Milão, que já devia estar velhita.

- Saiu-se admiravelmente! - disse Pamplona.

- Napoleão perdeu completamente a paciência quando reconheceu aquelas zibelinas, que eram como um penhor das boas palavras de paz e aliança trocadas em Tilsit.

O maroto de Canouville ostentava nos seus ombros de galã um duplo penhor de principescos amores e de grandes destinos políticos! Era um hússar encravado I Mal acabou a revista, recebeu ordem para sair de Paris com despachos urgentes para o marechal Massena. E saiu naquela mesma noite, perdendo um baile nas salas da rainha Hortência.(1)

- Era o desterro - disse Luís de Castro.

- Semelhante ao seu, de Grenoble. A Princesa recebeu uma carta fulminadora do irmão e Canouville atravessou a Espanha e a França amata-cavalos. Foi uma viagem fantástica!

- O que êle queria - observou o Marquês - era deixar os despachos para Massena, fosse onde fosse, e safar-se para Paris.

- Quando chegou aqui, nas mais romanescas circunstâncias, afogueado, faminto, escalavrado, sem se ter frisado, sem se ter brunido, a sua ideia dominante era regressar logo a Paris e aparecer lá no prazo máximo de quinze dias. A sua situação era homérica, dizia êle à Duquesa de Abrantes, pondo os olhos em alvo e dando ais na sua excelente voz de tenor.

- A entrada de Canouville em casa de Laura Junot foi uma coisa teatral! - comentou o Marquês - Estávamos na sala. O general Fournier cantava uma romanza, composta pelo general Thiébault, um músico distintíssimo, eu acompanhava ao piano.

- O nosso Marquês também muitas vezes cantava,

 

*1. Filha de Josefina Behauarnais e irmã do Príncipe Eugênio. Eram estes os filhos que a ex-imperatriz teve de seu primeiro marido, o general Behauarnais.

Do casamento com Napoleão já nós sabemos que não teve filhos. Hortência casou com um irmão do padrasto, Luís Bonaparte, que foi rei da Holanda. Desse consórcio nasceu esse que largos anos depois, subia ao trono da França com o título de Imperador e o nome dinástico de Napoleão III.

 

- acudiu o Sabugal - Ouvi-lhe eu deliciosos duetos com a Duquesa.(1)

- Você então jogava, quando não dizia cousas galantes e gracinhas suas às lindas mulheres de Salamanca e às próprias esposas dos generais invasores!

- Um e outro no empenho de entreter as salamanquinas e as francesas como sabíamos e podíamos.

- E nós então, - disse Luís de Castro - oficiais da mesma Legião, pelos horrores da mais bárbara campanha dos nossos tempos, enquanto os nossos queridos alfenins viviam no encanto daqueles salões de Madame Junot!

- E o Canouville? Que não esqueça o hússar da pelica zibelina - lembrou Pamplona a sorrir.

- Esse, General, assim que lhe mataram a fome, quis largar os despachos aqui mesmo ao general Thiébault, para que êle os mandasse a Massena.

- E o hússar deitou a unhas de cavalo para Paris?

- Exactamente. Mas Thiébault não quis participação na tolice e mandou-o seguir o seu destino.(2)

- Êle foi?

- Qual história! Foi até Ciudad Rodrigo e, como lá lhe disseram que estavam cortadas as comunicações para lá da fronteira portuguesa, apanhou o pretexto pelos cabelos, impingiu os despachos ao governador da praça, para que os mandasse quando os milicianos dessem licença, e apareceu-nos aqui a perguntar se queríamos alguma cousa para Paris.

 

*1. «O marquês de Valença, um dos mais belos talentos musicais que eu conheci em amadores e mesmo em muitos artistas, cantava e tocava piano e às vezes acompanhava o general Fournier, que tinha uma voz admirável, pujante, mas cantava sem nenhum método.» Memórias da duquesa de Abrantes, tomo VIII, pâg. 229.

  1. Thiébault refere largamente aquele episódio de Júlio de Canouville e, por sinal, com duro desassombro a respeito das loucuras amorosas de Paulina Borghèse.

A Duquesa de Abrantes consagra-lhe um capítulo das suas Memórias.

 

- Doido varrido!

- Doido de amor, Thiébault riu-se, a Duquesa riu também, rimos todos, e lá foi no seu fadário de papa-léguas.

- Estou a imaginar o que faria o Imperador - disse Pamplona - Num dos seus momentos de cóleras formidáveis não duvidaria corrê-lo aos pontapés.

- Fêz coisa menos violenta e mais digna de um hússar que trazia ao ombro as peles do Czar e os diamantes da Princesa Borghèse. Pô-lo outra vez a caminho da Espanha para desterro, sem limitação de prazo. Poucas semanas depois de ter partido daqui, Júlio Canouville apresentava-se em Valhado-lide ao marechal Bessières. E lá foi reunir-se ao estado-maior de Massena, já em retirada. Custam caros os amores com a Borghèse! - acrescentou a sorrir Luís de Castro - E, todavia, ainda não faltaram adoradores e mártires à Vénus imperial! Eu sei de dois que foram à sobreposse.

- Um sou eu: não vale a pena estar com rodeios. - Há outro mais recente e tem graça o caso, porque esse amante forçado veio para o desterro de Espanha de parceria com o outro da pelica.

- É uma das mil coisas originalmente curiosas da história íntima do Império - disse o Marquês de Valença.

- Chama-se Aquiles de Septeuil o desditoso requestado de Paulina Bonaparte.

- Na ausência de Canouville, provavelmente? - perguntou Pamplona.

- Ou antes, na inconstância daqueles amores. Mas Aquiles de Septeuil, também um ajudante de Berthier, foi muito mais José do Egipto do que o nosso Luís de Castro. O pobre rapaz ama outra senhora com quem está para casar, mas teve a má fortuna de cair em graça a Paulina Borghèse. Era perseguido por ela desesperadamente, e nuns doidos arrebatamentos; um intrigante das Tulherias soube-o, denunciou o escândalo ao Imperador, e o casto perseguido veio de trambulhão para este degredo de Espanha com o outro da pelica. Aqui têem os meus amigos o romancezinho mais interessante dos nossos dias de Salamanca.

- Há outros também curiosos, mas sem dúvida menos interessantes - disse o Marquês - Por exemplo, o trabalho que tivemos aqui para evitar que os guerrilheiros de D. Julian Sanches nos raptassem Laura Junot.

- Bravo! - exclamou o General Pamplona a rir - Esse é também apetitoso!

- Parece; mas reduz-se a muito pouco.

- Rapto por amor?

- Não, General. Rapto por simples represália de guerra. E as tentativas dos guerrilheiros acabaram porque lorde Wellington fez saber a D. Julian que as hostilidades não eram contra as senhoras, e tomaria como ofensa a sua pessoa qualquer violência contra a Duquesa de Abrantes.

- Cavalheiroso, o frio inglês!

- É homem de sala e dizem-me que tem também o fraco das damas.

- Peço licença para observar - disse Pamplona ' - que nem só para as damas o generalíssimo inglês

tem tido rasgos de generosidade cavalheiresca. Eu conheço um, realmente gentil, do vencedor do Buçaco para o vencido do Vimeiro. Junot há-de tê-lo contado à Duquesa. Nem tudo são cruezas naquela espantosa campanha.

- Não conhecemos essa gentileza a que Sua ex.a se refere.

- Eu lha resumo. Wellington tinha espiões que o informavam de muitas coisas que se passavam no exército francês. Quando Junot foi ferido em Rio-Maior, o generalíssimo inglês soube-o logo e, mais ainda, que era um ferimento grave e que nas ambulâncias havia escassez de recursos. Pois em fins de Janeiro, Wellington escreveu pelo seu próprio punho uma carta a Junot, oferecendo-lhe os auxílios de que êle carecesse para seu completo restabelecimento. E realçava esta amabilidade dando-lhe notícias da Duqueza, na suposição de que Junot estivesse sem ter cartas dela.(1)

- Muito bem! Pois os franceses dizem dêle o pior possível.

- Não admira. Wellington já os venceu em três batalhas e sete ou oito combates importantes.

- Junot respondeu-lhe?

- Disseram-me que tinha respondido agradecidamente, dizendo-lhe que de nada precisava.

O criado de Pamplona veio dizer que tinha chegado um oficial do quartel-general com uma ordem do marechal Massena.

- Mandou-o entrar? '

- Está na sala.

- Vou já... O que teremos de novo?! Foi falar-lhe e voltou dali a instantes.

- Falai no mau e aparelhai o pau. Mal imaginam quem foi o ajudante-de-campo que me trouxe a ordem de Massena!

 

*1. Eis a tradução da Carta como a encontrámos a pág. 528 do tomo I das Memórias de um ajudante-de-campo, livro interessantíssimo de um ilustre oficial de artilharia, escritor de merecido talento e de justo renome, o sr. tenente-coronel Fernandes Costa.

«Quartel-General, 27 de Janeiro de 1811.

Senhor General

«Soube, com muito pesar, do ferimento que v. recebeu, e peço-lhe que me faça saber se me é permitido enviar-lhe qualquer cousa que possa dar remédio à sua ferida ou acelerar o seu restabelecimento.

«Não sei se v. tem tido notícias da senhora duquesa. Em fins de Novembro deu ela à luz um filho em Ciudad Rodrigo e foi dali para Salamanca, a fim de passar a França nos primeiros dias do mês corrente.

«Tenho a honra de ser, senhor general, de v.

'«Servidor muito obediente Wellington»

 

- disse Pamplona, tentando sorrir para disfarce da má impressão que tivera.

- O hússar da pelica de zibelina - lembrou Luís de Castro.

- O sr. Júlio de Canouville, sem tirar nem pôr.

- E, provavelmente, com as orelhas a arder, pelo muito que nós aqui lhe tínhamos cortado na casaca - disse o Marquês de Valença.

- Na pelica é que foi - emendou o Sabugal.

- Haverá novidade de importância? - preguntou Castro ao Pamplona.

- Disse-me Canouville que todos os oficiais portugueses são chamados ao quartel-general. Massena vai para Ciudad Rodrigo e de lá outra vez sobre a fronteira para descercar Almeida, onde o general Brenier dificilmente se poderá manter com os escassos dois mil homens, já reduzidos a meia ração.

- Outra vez para lá! - comentou o Castro num repelão de cólera.

O General foi fardar-se e dali a pouco sairam todos.

 

           Carta infame.

- Mas, meu amor, tu assim não podes, não'deves ir. Irei eu sozinho.

- Mandas tu, Luís, mas eu peço-te que me não dês a mágoa de ficar. Correm-se perigos, sofrem-se amarguras? Paciência. Serão para nós ambos. Foi a promessa que fiz; é o meu dever, a devoção da minha alma.

- Por alguém, o dever seria ficar.

- Perigos também os posso correr aqui. Para mim havia de ser de maior angústia ficar aqui sem adivinhar o que te pode suceder. Não me negues esta mercê - disse-lhe acarinhando-o. - Sim? Eu irei cautelosamente. Vais tu, vai meu tio, vai o João Luís; vê tu que admiráveis defensores vão comigo.

- Maria! Impões-me um sacrifício enorme... de receios por ti!

- Ao menos até Ciudad Rodrigo; ficaria mais perto de ti.

- Então até aí; seja.

Beijou-a e saiu. Voltava uma hora depois.

Maria estava já com o seu vestido de montar a cavalo. Ao pé dela a Beauchamp. André Pulaski de clavina ao ombro e pistolas à cinta; à porta o João Luís, armado e equipado.

- Em armas, pronto a marchar, o corpo do exército de Madame Castro - gracejou o velho polaco.

Mas, quando foi à saída, disse baixo ao Castro:

- Vá lá mais esta imprudência!

- Que quer! Pediu-me com tanta instância, que me doeu contrariá-la.

À porta do prédio estavam já a cavalo Pamplona, D. isabel e os dois ajudantes do general.

- Intrepidez contagiosa - disse Pamplona para Maria Pulaski, sorrindo.

- Minha querida afilhada - acudiu D. Isabel - aqui me tem para lhe fazer companhia.

- Oh! mas ainda bem! Uma admirável fortuna para mim. Não imagina que satisfação me dá, minha excelente senhora!

A meio da tarde iam já a caminho de Ciudad Rodrigo.

A 2 de Maio Massena atravessava o Águeda.

Ia travar-se mais uma batalha. Wellington contava com ela. Soubera dos preparativos do Príncipe d'Essling e viera a toda a pressa do Alentejo, aonde fora por causa da situação crítica de Beresford com a sua divisão portuguesa ameaçada, ao mesmo tempo, pelas tropas de Soult e por uma parte das forças de Bessières.

O generalíssimo inglês estava no entento de cercar Badajoz mas tivera de largar de mão os preparativos que pessoalmente dirigia, para acudir à linha do Coa.

Indiquemos as forças dos dois exércitos que vão empenhar-se em batalha.

Massena continuava infeliz com os colegas seus, a quem Napoleão incumbira de lhe darem reforços e auxílio. Com vários pretextos, Soult deixou-o, como sabemos, em completo abandono, e Bessières, apesar de todas as solicitações e instâncias, apenas lhe mandou uma brigada de cavalaria ligeira, uns esquadrões da Guarda Imperial e uma bateria de seis canhões.

Qual era então o efectivo das forças do Príncipe de Essling quando atravessou o Águeda?

Divergem os historiadores quanto a este ponto. Thiers dá-lhe 35.000 homens de infantaria com 3.500 de incomparável cavalaria e 46 canhões. O inglês Napier calcula-lhe as forças em 44.000 homens, incluindo 7.000 de cavalaria. Guillon diz textualmente:... «o exército contava 35.000 homens sólidos, experimentados, bem decididos a tomar desforço do revés de Tôrres-Vedras.»(1)

Na sua História do Duque de Wellington o general belga Brialmonte afirma que Massena tinha realmente 44.000 homens.

Quanto ao exército aliado idênticas divergências.

Sherer avalia as forças anglo-portuguesas em 32.000 homens de infantaria e 1500 de cavalaria; Thiers dá-lhes vinte e sete a vinte e oito mil ingleses, doze mil portugueses e dois a três mil espanhóis; Guiilon atribue-lhes apenas trinta a trinta e cinco mil homens, e é este quem mais se aproxima do efectivo indicado por lorde Wellington na sua participação oficial ao conde de Liverpool. Dizia-lhe o generalíssimo inglês que tinha 32.000 homens de infantaria, sendo 11.000 portugueses, 1.200 de cavalaria mal montada e 42 canhões.

A superioridade dos franceses, se não era grande pelo número de homens e de canhões,

 

*1. As guerras de Espanha no tempo de Napoleão (pág. 212). Os mapas portugueses dão às nossas forças um total de 12.000 homens.

 

era-o manifestamente pela cavalaria, quási três vezes maior. Bem podia Wellington livrar-se dos terrenos em que ela operasse vantajosamente.

O exército aliado apoiava o seu flanco esquerdo no forte da Conceição, o centro nas altas colinas do ribeiro de Dos Cazas - à esquerda da aldeia de Fuentes d'Onoro - e à direita do bosque e terrenos alagadiços de Pozo Belo.

Para lá deste bosque estavam os guerrilheiros espanhóis de D. Julian Sanches e, a defender a montanha de Nave d'Avel, a divisão inglesa do general Houston.

A linha dos aliados tinha o demasiado desenvolvimento de duas léguas.

Na madrugada do dia 3, Massena mandou começar a batalha. Uma brigada da divisão Ferrey ataca Fuentes d'Onoro, e é repelida. Acode toda a divisão e mais uma brigada da divisão Marchand. É uma luta renhidíssima, à bravura formidável dos franceses opõe-se a firmeza intrépida dos anglo-portugueses.

Percebendo pela obstinação da investida que Massena intenta cortar-lhe a sua linha do Coa, Wellington reforça as suas posições de Fuentes d'Onoro, em cuja baixa se tinham firmado as tropas francesas.

A noite interrompe a batalha. A acção de outras colunas francesas tinha sido frouxa e desconnexa.

Massena desistira de um ataque de frente. Durante a noite mandou reconhecer o terreno para a direita dos aliados e supondo fácil um movimento envolvente por aquele lado, fêz convergir importantes forças para junto das ravinas de Dos Cazas e do bosque de Pozo Bello.

Logo que tivesse alcançado a planura entre este bosque, em que se apoiava a direita dos aliados, e a montanha de Nave d'Avel, a sua incomparável cavalaria faria o resto e a batalha estaria ganha.

Para este ataque envolvente concentrou Massena dezassete mil homens. Em frente de Pozo Bello duas divisões do 6.o corpo e uma do 8.o, na extrema esquerda a soberba cavalaria de Montbrun; na baixa de Fuentes estava a divisão Ferrey, tendo o 9.o corpo em reserva. Estas forças deviam simular um ataque, demonstrativo sobre Fuentes, enquanto duas divisões do 2.o corpo simulariam tornear Alameda e auxiliar o assalto às posições investidas na véspera pela divisão Ferrey. Era este o estratagema protector do movimento envolvente.

Mas todo aquele dia se passou em operações preparatórias e num frouxo tiroteio de avançadas.

Os oficiais portugueses tinham assistido aos combates do dia 3. Estiveram um pouco à retaguarda do estado-maior de Massena.

O dia 4, como sabemos, passara-se em preparativos para uma batalha decisiva. De tarde, Pamplona e Castro alcançaram licença para ir a Ciudad Rodrigo. Deviam estar de volta antes da meia-noite. Foi jornada feita a galope.

Maria Pulasky estava muito oprimida de receios.

A artilharia de Fuentes d'Onoro ouvia-se lá perfeitamente.

Castro reanimou-a, afirmando-lhe que nenhum perigo corriam os oficiais portugueses; mas dali a instantes Maria surpreendeu casualmente esta conversa entre o general Pamplona e o marido:

- Amanhã é que eu creio que vamos ter luta a decidir. Massena está no firme intento de cortar a retirada de Wellington, torneando-o pelo bosque, batendo-o contra as margens escarpadas do Coa, abrindo aos franceses o caminho de Almeida.

- Os aliados batem-se admiravelmente e regalei-me de ver os nossos portugueses; mas, francamente, estou com receio pelo dia de amanhã! Se Massena consegue realizar esse audacioso movimento envolvente, a derrota de Wellington será quási inevitável. Então, contra as escarpas do Coa, o desbarato virá a ser completo e a soberba cavalaria francesa acabará o desastre. E, segundo as informações que ouvi, a outra parte importante do exército anglo-português, vinte ou vinte e tantos mil homens, está no Alentejo vigiando o corpo de exército de Soult. Calcule v. ex.a o descalabro medonho, se Massena vencer amanhã!

- Apoderava-se de todas as provisões do exército de Wellington, meteria ao vale do Tejo com cerca de quarenta mil homens, e não eram os milicianos e as ordenanças que haviam de fazer-lhe frente nas linhas de Torres.

- Os ingleses que restassem logo bateriam em retirada para se embarcarem em Lisboa. É' coisa segura.

- E as tropas portuguesas do Alentejo, cortadas também da sua base de operações, seriam fatalmente esmagadas pelas tropas de Soult. Uma desgraça esmorecedora! Joga-se talvez amanhã, num lance de vida ou de morte, o destino político de Portugal!

- E provavelmente da Península, porque não tem a Espanha exército capaz de vencer batalhas, e talvez da Europa, visto que em nenhuma outra parte se luta agora contra Napoleão.

Maria ouviu perfeitamente estas oprimidoras considerações. Estava aberta a porta da sala onde os dois conversavam, e nem um nem outro reparou que a linda polaca passara no corredor para um quarto defronte, onde tudo o que eles diziam se ouvia claramente.

Muito mortificada, numa amargura difícil de disfarçar, Maria foi logo ter com D. Isabel, provavelmente para lhe contar o que ouvira.

Eram 8 horas da noite quando o General e Luís de Castro se despediram para se irem juntar ao estado-maior de Massena.

As duas senhoras simulavam tranquilidade de ânimo. André Pulaski olhava para a sobrinha tristemente, como se adivinhasse o que ela tinha no coração.

- Amanhã cá nos hão-de ter depois da batalha - disse o General, a fingir-se despreocupado de quaisquer cuidados.

Apareceu também a Beauchamp a despedir-se deles.

- Pede nas tuas orações a boa fortuna dos soldados que defendem portugal - disse Castro para Maria Pulaski.

- Receias coisa grave? - preguntou-lhe ela numa tremura de voz que lhe traía o disfarce.

- Sempre é grave uma batalha que se pode perder.

Rompia a manhã. Os ingleses tinham entrincheirado as suas posições de Fuentes, do bosque de Pozo Bello e da estrada de Castelo Bom.

Apartara-se do estado-maior de Massena um grupo de oficiais portugueses e fora postar-se numas alturas, a larga distância do forte da Conceição e muito defronte do caminho para Castelo Bom.

Viam-se dali perfeitamente o bosque de Pozo Bello, as grandes ravinas de Dos Cazas, e, mais ao longe, a aldeia de Fuentes de Onoro.

Os oficiais portugueses seguiam com oprimido interesse todas as fases da luta, que logo de manhã se iniciou impetuosa.

Compunha aquele grupo o general Pamplona, os seus dois ajudantes e Luís de Castro.

Ouviam-se as descargas cerradas e tiros de artilharia das bandas de Fuentes e Alameda. As tropas de Reynier e Ferry faziam daquele lado o ataque demonstrativo ordenado por Massena.

- Aqueles para ali atacam frouxamente - observou Pamplona, assestando para lá o seu óculo de alcance.

- Ataque a fingir - disse o Castro, pondo o óculo naquela direcção.

Para os lados do bosque a cavalaria do general Fournier batia e punha em debandada os guerrilheiros e a cavalaria franca de D. Juan Sanches.

- Dispersaram com duas cargas!

- Os espanhóis não se querem convencer de que guerrilheiros não são para sustentar batalhas contra exércitos regulares! E então contra essa admirável cavalaria que têem os franceses!

- Lá vem a cavalaria dos aliados.

- É pouca e vêem já sobre ela os dragões franceses, é a divisão de Montbrun, do espectaculoso Montbrun. Vejo daqui as suas plumas flamantes.

- Traz mais do dobro da cavalaria dos aliados.

- Demónio! A fúria com que eles carregam! É' uma tempestade de homens! Formidável choque!

- Esmaga e dispersa os ingleses e os nossos!

- Uns esquadrões perseguem os fugitivos, mas, a divisão de Montbrum desfecha e galopa sobre aquelas colunas de ingleses e portugueses. Formam quadrado.

- Cargas espantosas!

- Mas os aliados resistem admiravelmente! Quadrados como redutos de homens! Bravo!

Foram porfiadas e duradouras aquelas investidas da cavalaria de Montbrum contra os quadrados da divisão Houston, defronte de Pozo Bello.

Montbrun compreende que não os pode desmantelar com o turbilhão vertiginoso dos seus hússares e dragões e manda pedir o auxílio de uma bateria da Guarda Imperial, que não está longe; mas aquela artilharia só recebe ordens do seu chefe superior e o pedido do general é levado a Massena, que só três quartos de hora depois lhe pôde mandar quatro peças.

A divisão francesa do general Marchand tem de retardar o ataque a Pozo Bello e a cavalaria inglesa da divisão Cotton empenha-se também na acção.

Mas a artilharia de reforço a Montbrun dizima aquela divisão e obriga-a a retirar para além de Turones.

- Vai isto mal! - disse o Pamplona.

- Por aquele lado estão vencidos os aliados, se lhes não mandarem socorro.

- E além, para aquelas ravinas de Dos Cazas, mais fuzilaria.

Eram as tropas de Loison que estavam atacando duas divisões dos aliados, concentradas nas ravinas à direita de Dos Cazas.

- Ah! Enfim! Aí vêem reforços para aqueles valentes quadrados. A marche-marche. Deve ser uma divisão. Ingleses e soldados nossos de fardas escuras, os nossos caçadores.

Era a divisão ligeira de Crawfurd, que vinha a marche-marche dos lados de Alameda.

- Montbrun carrega-os!

- Estão a formar quadrado.

- Três enormes quadrados com artilharia.

Os aliados tinham formado três quadrados dentro dos quais havia quinze canhões.

- Parecem cidadelas a vomitar metralha! Como os dragões vão abaixo! Fileiras derribadas, esquadrões que se desfazem!

- Agora nem a gente os vê. Envolve-os a todos a fumaceira da pólvora.

- O vento esfarrapa a fumarada.

- Demónio! Dois quadrados rotos!

- Mas a artilharia e a fuzilaria do outro derriba esquadrões.

Ficaram emudecidos, numa opressora expectativa. Assim por largos minutos.

Estava-se no lance decisivo da batalha. Para o lado dos desfiladeiros de Dos Cazas acudira Wellington com uma grande parte das suas reservas contra os corpos de exército de Loison, e Drouet-d'Erlon (o 6.o e o 9.o).

- Repare agora!

- Abençoado esforço! - exclamou Luís de Castro comovidamente - Montbrun retira!

De súbito aparecem do lado do forte da Conceição, subindo para as alturas onde estão Pamplona e Luís de Castro, duas senhoras a cavalo, acompanhadas por um velho e um soldado.

- A sr.a D. Isabel, meu General! - avisou um dos ajudantes.

- Que loucura! - exclamou o Pamplona.

- Maria! - disse o Castro, indo para a esposa - Que lástima de desvario este!

- Estávamos inquietas! Perdoa. Os perigos que a gente pressente e não vê, afligem muito mais que os outros.

- E eu tive de ceder - alegou André Pulaski no seu tom habitual de gracejo - Fuzilava-me com os seus olhos cheios de lágrimas, se lhe desobedecesse - disse, indicando a sobrinha.

- É para me ir habituando - explicou Maria, a sorrir e a tremer.

- E até eu tive de transigir - acudiu D. Isabel com um sorriso contrafeito.

- Foi uma deplorável imprudência, Maria! - disse-lhe o marido - Ninguém pode saber ainda o desfecho que há-de ter esta batalha.

- Uma temeridade! Maior, imensamente maior foi a do João Luís - volveu-lhe para mudar de assunto - Quando avistámos a fronteira portuguesa, falei da pena que tinha de não levar uns punhados daquela terra. Pois veio logo oferecer-se-me para os ir buscar. Eu não queria: insistiu, disse que era coisa fácil e lá deitou a correr por esses atalhos a perder de vista. Ficámos cheias de receio. Viemos andando devagar, depois parámos e estivemos à espera uma hora.

- Uma doidice!

- Afinal apareceu-nos esbaforido.

- Podiam fazer-te fogo os postos portugueses ou as sentinelas francesas - disse o Castro.

- Eu fui com todas as cautelas, meu Capitão, e não me aproximei de Almeida. Vi ao longe muitos soldados da nossa terra, mas eles não me viram a mim. E aqui vem o bornal cheio de terra de Portugal. É do chão de uma capelinha das almas que os soldados franceses esbarrondaram.

Luís de Castro envolveu o soldado num longo olhar de enternecida gratidão.

Já se não sentia o ruído da luta em frente de Pozo Bello, mas para Dos Cazas e Fuentes de Onoro recrudescera atroadora.

De súbito ouviram-se uns assobios do lado do bosque. Numa gritaria infernal, dezenas de espanhóis vinham correndo para as alturas onde estavam os oficiais portugueses.

- Os espanhóis para aqui! -avisou um dos ajudantes de Pamplona.

- Vêem para nos aprisionar! - acudiu o Pamplona.

- Pois vão saber quem somos! - disse o Castro, desembainhando a espada e tirando uma pistola do cinto - Agora, Maria, ânimo!

- Hei-de tê-lo! - respondeu numa tremura de voz.

  1. Isabel colocou-se ao lado dela, intrepidamente. André Pulaski engatilhou a clavina; o João Luís armou a baioneta e cruzou a arma.

- Não os deixemos tomar alento! -disse o Castro rapidamente - Viram aqui seis homens, atrevem-se. Carreguemos nós quatro-acrescentou, indicando o General, os dois ajudantes e êle - Ficam dois a guardá-las.

Quarenta ou cinquenta guerrilheiros tresmalhados do troço de Julião Sanches vinham já subindo de bacamartes e raiunas engatilhadas. Gritavam que se entregassem e não tivessem medo deles, que lhes não fariam mal. Mas alguns, provavelmente ébrios, regougavam obscenidades a respeito das senhoras.

- General, carreguemos sobre esses heróis, que há pouco fugiam como galgos - instou o Castro.

- Sim, carregar!

E aquela fileirazita de quatro, Pamplona, Castro e os dois ajudantes, de espadas no ar, deitou os cavalos a galope desfechado pela encosta abaixo.

Foi uma carga doida. Um terço dos guerrilheiros nem teve tempo de reparar em quantos eram os acutiladores e deitou a fugir. Os outros fizeram-lhe frente.

Estrondearam uns poucos de tiros, mas tão precipitados e com tão más pontarias, que só um zagalote feriu de raspão o cavalo de um dos ajudantes de Pamplona.

Os cavaleiros não lhes deram tempo de carregar as armas e foram sobre eles com o maior ímpeto, Já tinham acutilado cinco.

Os guerrilheiros recuavam. Então um deles, escondido detrás de uns pedregulhos, disparou a clavina com tão certeira pontaria que varou os peitos ao cavalo em que ia Luís de Castro.

O animal caiu quási como fulminado, mas o cavaleiro sentira-lhe a primeira convulsão e destribou-se a tempo de não ficar debaixo dele.

- Castro, está ferido?

- Não, General; mataram-me o cavalo, carregarei a pé.

Correu para a frente e logo, a uns cinquenta passos, desfechou uma pistola contra o peito de um guerrilheiro que parecia o caudilho.

Pamplona e os ajudantes carregaram com maior fúria pondo os outros em fuga.

- Retiremos, General! - gritou um dos ajudantes - Vem além cavalaria inglesa.

Vinha, a cousa de um quarto de légua, um esquadrão de hússares ingleses a todo o galope.

- Depressa - disse o General - ou somos aprisionados. Castro, salte aqui para o meu cavalo.

Ouviram-se uns poucos de tiros. O estampido vinha do alto, onde tinham ficado as senhoras.

- Correm perigo! - gritou o Castro volvendo um olhar angustiado para o cabeço, já nublado por uns farrapositos de fumo.

E deitou numa carreira doida para lá. Os que estavam a cavalo tomaram-lhe a frente a galope.

Dez ou doze guerrilheiros de mais audácia tinham subido ao cabeço por uma vereda lateral, penhascosa, provavelmente no intento de se apossarem das damas. Valeria depois um resgate tentador.

Desfecharam uns tiros de emboscada. Feriram o velho polaco num braço, furaram a barretina ao João Luís e mataram o cavalo a D. Isabel.

Mas o granadeiro estendeu um com um tiro e foi sobre os outros de baioneta calada. Apesar de ferido no braço direito, o polaco foi também para eles destemidamente e disparou a pistola que levara na mão esquerda.

Foi uma bala certeira que despedaçou a cabeça a um dos mais atrevidos.

A impulsos de uma intrepidez de que ninguém a julgaria capaz, Maria Pulaski desceu do cavalo, disse umas palavras animadoras a D. Isabel, e correu para o declive do cabeço em procura do marido.

- Minha querida amiga, veja o que faz! - clamou-lhe D. Isabel, seguindo-a.

Chegavam então a todo o galope o General e os ajudantes.

- Luís! Não vem? - exclamou Maria num grito de alma.

- Atrás de nós - respondeu-lhe o Pamplona -, é preciso fugir! Além, os ingleses. E aqui?

- Uns espanhóis, que nos atacaram - respondeu-lhe D. Isabel, apontando para o lado da vereda pedregosa.

Os ajudantes atiraram os cavalos para o cimo do cabeço. Maria correra de braços abertos para o marido.

- Temos de fugir! - disse-lhe, enlaçando-a e trazendo-a para cima.

- O perigo vem ali, a meio quarto de légua! - disse o General, apontando os hussares ingleses a galope.

- Faltam os cavalos para fugir! - respondeu D. Isabel, muito velada, indicando o seu cavalo morto e o de Maria Pulaski, ferido por uma bala perdida, pouco depois que ela se apeara.

- Maria, estamos perdidos - segredou-lhe Luís de Castro, cingindo-a mais a si - Aprisionados... prefiro morrer...

- Conta comigo.

- Mas eu para evitar a forca.

- E eu para me não apartar de ti.

Por uma crise violenta de nervos ou por um requinte de amorável abnegação, fosse pelo que fosse, o caso era que Maria estava manifestando naquele lance de imenso perigo uma coragem verdadeiramente excepcional.

Ia para as 5 da tarde. A batalha tomara uma intensidade espantosa para os lados da aldeia de Fuentes de Onoro, envolta em fumo.

Era vivíssima a fuzilaria, os canhões estrondeavam horrorosamente.

Os hussares, de um esquadrão provavelmente desgarrado, estavam quási a tocar no sopé do cabeço.

- Ali, para aqueles penhascos - disse o Castro. O General apeou-se e correram todos para lá. Os

guerrilheiros tinham fugido.

Estavam de volta os ajudantes e com eles o polaco todo ensanguentado e o João Luís com uma navalhada na cara. Os ajudantes apearam-se e abandonaram os cavalos para entrarem naquele reducto de vinte palmos de frente.

Colocaram-se os homens detrás dos penhascos, assim, como se fossem o parapeito de uma fortaleza. Atrás deles as duas senhoras, numa depressão do terreno.

- E aqui agora para morrer - segredou Luís de Castro ao General.

- Para que não nos enforquem em Lisboa.

Sentia-se já próximo o tropel dos possantes cavalos ingleses pela encosta pedregosa. Viam-se dali as barretinas felpudas e as espadas curvas dos hussares.

- João Luís, arma engatilhada para o primeiro. Senhor Pulaski, dê-me a sua clavina.

Mas subitamente ouve-se um toque de clarim, umas vozes de comando, uns gritos dos soldados, umas palavras de incitamento, e o esquadrão dos hussares faz meia volta e larga à rédea solta.

- Que quere dizer isto?! - pergunta o General num alvoroço de júbilo.

Júbilo mais pelas pobres senhoras do que por supor-se livre de um perigo pessoal. O bravo do assalto de Ismail, o valente que entrara em três campanhas na Moldávia e em três no Rossilhão não podia ter medo por si, e não tinha.

- Eu vou ver - disse o Castro, saltando para fora dos penhascos.

Pôs-se a observar. Os hússares iam à desfilada para as bandas de Fuentes.

- Provavelmente vão acudir àquele regimento inglês que retira em quadrado, perseguido pelos dragões franceses - ia dizendo alto o Castro.

Já estavam todos ao pé dele.

- Agora é preciso sair daqui. Não agravemos a primeira imprudência - aconselhou Pamplona.

- O meu remorso, Luís - soluçou Maria - por minha causa tudo isto! Bem me dizia a Beauchamp, a lamentar-se por me não poder acompanhar.

- E não se lembra do seu chefe de estado-maior! - gracejou o intrépido polaco.

- O meu querido tio, ferido!

- Um balázio e no mesmo ombro em que há trinta anos um cossaco me deu uma ferroada de lança.

- Não percamos tempo -avisou o General. Meteram-se a caminho na direcção dos terrenos altos da retaguarda.

- O medo que eu tive por ti, Maria! - disse-lhe baixo Luís de Castro - Aqueles infernais minutos! Perdidos para sempre os nossos amores... O nosso filho!

- E agora, Luís, agora é que eu me sinto fraquejar!

- Ampara-te a mim. Em subindo aquela ribanceira estaremos livres de perigo.

Iam todos a pé. Os três cavalos abandonados no cabeço tinham fugido, mal sentiram o tropel dos outros do esquadrão inglês.

- Felicito-a em nome da Polónia, minha querida sobrinha - veio dizer-lhe de brincadeira André Pulaski, apesar das intensas dores que sentia no ombro.

- O tio sofre e disfarça. Perdoe-me, por quem é.

- Qual história! Já estou acostumado. Até aquele patife de Platow me experimentou já, e isso então foi muito mais grave.

- Admirável de ânimo, a minha querida afilhada! - disse a Pamplona, muito recostada ao braço do marido.

- Pois agora - comentou o General - não se dirá que só os franceses têem damas afeitas às inclemências da guerra. Ouvi muitas vezes contar em França que a esposa do general Verdier ia com o marido para as campanhas e em alguns combates fizera fogo como qualquer simples soldado. Nós, em Portugal, também tivemos uma dama que entrou em Portugal nestas terras espanholas, mas essa desditosa caiu varada por uma bala nos fragores de uma batalha.

Não deu mais pormenores, mas o Castro segredou para a esposa:

- Refere-se a certa amante de um general português. Andou com êle pela Espanha durante as guerras chamadas da sucessão e entrou em Madrid com as nossas tropas vitoriosas. Foi nos princípios do século passado.

- O general Marquês de Minas, não era? - perguntava D. Isabel ao marido.

- Exactamente, esse.

Meia hora depois encontravam-se com um pelotão de hússares da escolta de Massena.

Vamos nós assistir ao desfecho da batalha.

Montbrun tivera de retirar, pois que, apesar dos instantes pedidos para que o apoiassem com a cavalaria da Guarda, do comando do general Lepic, nenhum auxílio recebeu. A Guarda era um corpo de privilégios excepcionais, alguns deles absurdos, e tolerava-se-lhe que não obedecesse senão aos seus chefes directos.

Bessières, o seu vaidoso comandante em chefe, ordenara a Lepic, terminantemente, que não se movesse sem sua determinação especial e afastou-se do campo de batalha.

Deste modo aquele reforço de cavalaria, e que o Duque de Ístria trouxera a Massena, para satisfazer reiteradas determinações do Imperador, era ali como um corpo estranho, inútil, simplesmente ornamental! Procuraram Bessières e não o acharam. Aquela soberba cavalaria da Guarda esperava como um corpo de tropas estrangeiras na fronteira de um país neutro, a ver tranqúilamente como os beligerantes se matavam!

Conta-se que à frente da sua brigada, Lepic chorava de raiva por aquela criminosa inacção. Dir-se-ia que Bessières tivera o propósito de comprometer o Príncipe d'Essling.

O caso foi que Montbrun teve de deixar perder todo o efeito das suas cargas formidáveis e retirar, enquanto Wellington acudia pelo seu flanco direito, gravemente comprometido, e opunha todas as suas reservas aos corpos de Loison e Junot no desfiladeiro de Dos Cazas e em Fuentes de Onoro.

Pelas 2 horas os franceses tiveram a batalha quási ganha. Pelas 4 horas tinham-na quási perdida.

- Aquele patife de Bessières! - rouquejou Massena para o general Fririon - E Reynier outro que tal! Que propositada frouxidão a sua! Como se tivessem todos o empenho de me verem vencido! Mas ainda não, Fririon. Vou mostrar-lhes que ainda sou o homem de Rivoli e Essling!

Deitou o cavalo para a frente.

- Marechal! - exclamou Fririon.

- Vou mandar atacar todas as posições do inimigo.

Quero eu dirigir a investida sobre a direita, e veremos.

Pamplona e Castro chegaram. Vinham nos cavalos que uma escolta lhes cedera. D. Isabel e Maria esperavam no caminho para Ciudad Rodrigo, acompanhadas pelos dois ajudantes de Pamplona e pelo João Luís. Numa ambulância próximo estavam fazendo o primeiro curativo ao ferimento de André Pulaski.

Eram já 5 horas. Os anglo-portugueses resistiam intrepidamente, repelindo os ataques dos franceses.

Numa bravura de desespero, o velho leão de Rivoli punha a vida em risco denodadamente.

Esforço inútil. As pontarias dos ingleses eram certeiras, as suas posições fortíssimas e as perdas dos franceses tomavam já proporções inquietadoras.

Torna-se vivíssimo o ataque a todas as posições inglesas. Massena procura os perigos, mas as balas afastam-se dele; as balas e a vitória!

Quere arrancar de Fuentes d'Onoro aquelas colunas inimigas, firmes como rochas opostas à bravura dos seus batalhões, a galgarem para lá como ondas de homens e a desfazerem-se como as ondas do mar.

- Soldados! Antes que chegue a noite é preciso vencer, arrancar dali contra o Coa a infantaria vermelha e essa infantaria negra, que já hoje vimos batida.

Isto disse o Marechal, calorosamente, à frente de uma coluna que levava contra as trincheiras de Fuentes.

- É tarde! - disse Marbot, quási em segredo a Ligniville. - Era ontem que se devia fazer o que se fez esta manhã, e era às 3 horas que devíamos atacar como estamos atacando agora.

Chega à desfilada o general Eblé. Acerca-se do Marechal e diz-lhe baixo:

- Já não podemos sustentar duas horas de fogo. A reserva de munições não dá para mais de 30 cartuchos por cada soldado.(1)

Massèna empalideceu e soltou uma das suas pragas favoritas; mas mandou logo ordem para que suspendessem o ataque e retirassem para as primitivas posições onde deviam bivacar.

- Querem enterrar-me dezassete anos de vitórias! - dizia consigo amargamente - mas eu não desisto ainda. Uns poucos de coveiros para mim, mas a cova que eles me fazem ficará tamanha, que talvez caiba nela o próprio Império.

Voltou-se para Eblé:

- É preciso requisitar ao marechal Bessières as atrelagens para ir buscar munições a Ciudad Rodrigo. Esta noite mesmo. Amanhã darei outra batalha.

A requisição foi entregue a Bessières, mas as munições não vieram, porque este marechal, como se tivesse apostado a perder Massena, alegou que tinha de tal modo estropeados os cavalos das viaturas que não podia empregá-los na condução das munições.

Massena teve um desvairo de desespero. Compreendia-se-lhe bem o propósito.

Entretanto, Wellington aproveitara bem a noite, reforçando as trincheiras e construindo mais obras de defesa nas suas posições.

 

*1. Brialmonte diz na sua História do Duque de Wellington, de que os franceses já não tinham senão 30 cartuchos para cada soldado de infantaria e di-lo apoiando-se nas próprias Memórias de Massena, Eduardo Gachot, anotador das Memórias do Coronel Delagrave, refere em nota da pág. 299, que às 5 horas da tarde não havia senão 4 cartuchos para cada homem.

 

Amanhecia. Massena está já a cavalo com todo o seu estado-maior. Atrás deles os oficiais portugueses.

Pamplona e Luís de Castro tinham conseguido que as senhoras se retirassem para uma aldeia a meio caminho de Ciudad Rodrigo, convencendo-as de que já não achavam provável a entrada de Massena em Portugal, nem mesmo um desenlace vitorioso para os franceses.

- Os inimigos estão admiravelmente fortificados! - veio dizer o ajudante Pelet ao Marechal -, No meu rápido reconhecimento verifiquei que tinham aproveitado bem a noite.

- Mas devem chegar as munições que as nossas viaturas foram buscar a Ciudad Rodrigo e poderemos tentar o desbloqueio de Almeida. Ao menos conseguir que Brenier saia de lá com o seu punhado de homens.

- Marechal, contra as formidáveis posições do inimigo, defendidas por atiradores admiravelmente adestrados, qualquer ataque de frente valeria para nós um desastre certo e enorme.

- É forçoso então retirar? - preguntou-lhe baixando a voz, num tom de profunda amargura.

- Infelizmente, é o nosso único recurso. Outra batalha seria uma grande e funesta temeridade., é impossível atravessar o Coa, impossível desbloquear Almeida.

- Impossível! - repetiu o Marechal - Levei quinze anos da minha vida sem compreender essa palavra! Mas seja assim; entretanto, é necessário ver o meio de salvar Brenier. Retiraremos depois.

Apareceram Junot e Loison.

- A ordem do Imperador que me autoriza a retirar para França - disse o Duque de Abrantes, apresentando-a ao Marechal.

Massena afogueou-se.

- Até já o Imperador me impõe humilhações! - pensou.

- E por notícias particulares de Paris - disse Loison no propósito de acabrunhar mais o Marechal - sei eu que vão dar-se grandes mudanças no exército de vossa alteza.

- Mudanças! Quais? - interrogou, perturbado.

- Peço licença para não lhas revelar. Pediram-me segredo.

- Escusava de as indicar.

- Reynier também teve notícias confidenciais importantes e vai ter outro comando.

- E foi talvez por causa dessas notícias que o sr. e êle atacaram ontem com uma prudência que não está nas tradições dos generais franceses!

- Não admira, sr. Marechal. Recebemos de cima o exemplo de uns vagares, que nos fizeram perder a batalha do Buçaco e há vinte e quatro horas esta batalha de Fuentes d'Onoro.

- Esta agora por aquele errado movimento que o sr. dirigiu sobre o desfiladeiro de Dos Cazas! - replicou-lhe Massena desabridamente.

E meteu o cavalo para diante, voltando-lhe as costas.

De tarde procuraram-se alguns homens destemidos que fossem jogar a vida para salvar a guarnição de Almeida. Ofereceram-se três.

Levaria cada um deles uma carta idêntica de Massena para o general Brenier, ordenando-lhe em nome do Imperador que inutilizasse toda a artilharia da praça e as respectivas munições e fizesse saltar as muralhas por meio de minas explosivas.

 

*1. Vide As Guerras de Espanha, de Guillon, pág. 215.

 

Que saísse com as suas tropas na direcção das forças francesas, que o estariam esperando em Barbas del Puerco.

Como sinal de ter recebido a carta mandaria Brenier dar quatro salvas de vinte e cinco tiros com os maiores canhões da praça, a intervalos de cinco minutos entre cada uma.

Os três homens sairam naquela aventura para Almeida.

Preparava-se a retirada para Ciudad Rodrigo. O corpo de Reynier marchou ao longo da fronteira espanhola para se aproximar de Barbas del Puerco.

Pelet, com uma escolta, abeirou-se da fronteira portuguesa, um pouco ao norte de Almeida, para aguardar o sinal convencionado e prevenir as tropas de Reynier.

Dos três intrépidos aventureiros dois desapareceram; teriam sido mortos ou aprisionados; um só conseguiu meter-se em Almeida, escapando-se aos postos avançados dos portugueses e ingleses que bloqueavam a praça. O que lá entrou era um soldado do 6.o ligeiro, chamado Tillet. Foi êle quem ganhou o prémio de seis mil francos, oferecido pelo Marechal.

Pelas dez horas da noite do dia 10 ouviram-se estrondear as salvas da praça. A artilharia de Reynier respondeu com quatro tiros espaçados.

Houve um vivo alvoroço em todo o exército.

Pouco depois sentiam-se umas poucas de explosões para além do Coa. Eram as muralhas de Almeida que se esbarrondavam, sacudidas de minas explosivas.

Brenier conseguia sair com os seus mil e duzentos bravos, numa investida leonina, batia na sua passagem os postos dos bloqueadores, surpreendidos no seu deplorável desleixo de vigilância, e ia dar à fronteira espanhola, perseguido pelas tropas anglo-portuguesas de Cotton e Campbell.

Teve alguns mortos e feridos, fizeram-lhe algumas dezenas de prisioneiros, mas conseguiu aproximar-se da divisão de Heudelet, que lhe apoiou a retirada.

Soldados franceses em Portugal já os não havia senão prisioneiros.

No dia 11 ainda se travava um pequeno combate em Barbas del Puerco, mas nesse mesmo dia já Massena estava de volta a Ciudad Rodrigo com a sua segunda batalha perdida.

As únicas da sua carreira militar.

Aquela de Fuentes d'Onoro fora muito menos sangrenta que a do Buçaco, mas ia ter notável influência militar e política nos destinos da Europa.(1)

O quinhão de glórias foi igual no Buçaco para os dois exércitos aliados; mas em Fuentes d'Onoro, é justiça confessá-lo, o maior quinhão coube às tropas inglesas.

Estava o marechal com o seu estado-maior na sala de recepção do quartel-general em Ciudad Rodrigo e acabava de receber a apresentação dos oficiais portugueses, quando chegou um ajudante-de-campo, que vinha de Paris. Era do estado-maior do marechal Berthier, Príncipe de Neufchâtel e de Wagram.

 

*1. Guingret, ferido também em Fuentes de Onoro, diz que os franceses tiveram dois mil mortos e feridos.

O anotador das Memórias do Coronel Delagrave calcula em 2630 os franceses mortos e feridos na batalha e dá aos anglo-portugueses uma perda de 1781 homens.

Nas suas participações oficiais, Wellington dá aos aliados 1786 mortos, feridos e prisioneiros e calcula aos franceses 2665 mortos e feridos.

Só Guillon, por puro facciosismo patriótico, diminui as perdas do exército de Massena, reduzindo-as a 1000 homens e elevando as dos aliados a 3000!

 

Entregou a Massena, com fria gravidade, um ofício que vinha assinado por Berthier.

Dizia assim nesta secura esmagadora:

«O Imperador, sr. Marechal, Príncipe de Essling, entendeu conveniente confiar o comando do seu exército de Portugal ao sr. marechal, Duque de Ragusa, sendo intenção de Sua Majestade que regresseis a Paris, logo depois da entrega do vosso comando. O Imperador dá ordem expressa para que daí vos não acompanhem senão o vosso filho e algum outro ajudante-de-campo. O coronel Pelet, todos os outros ajudantes-de-campo e todos os oficiais do vosso estado-maior devem aí ficar com o sr. Duque de Ragusa.»(1)

Muito enfiado, o Marechal dobrou o ofício, murmurando:

- Não merecia isto! Algumas vezes salvei eu os exércitos da França.

Voltou-se para Fririon:

- Mande avisar os generais, comandantes de corpos de exército, para amanhã terem as tropas prevenidas e prontas a entrar em formatura. Quero ir despedir-me desses companheiros de trabalhos e de infortúnios.

- Vossa Alteza?!

- Sim, eu. O Imperador exonerou-me do comando do exército. Vem substituir-me o Duque de Ragusa. Entregar-lhe-ei o comando logo que chegue.

Estas palavras tinham um travo de mágoa que impressionou dolorosamente todos os oficiais franceses.

Retirou-se logo para os seus aposentos.

A francesa foi dar com êle sentado à mesa da escrevaninha, de cabeça entre as mãos e diante dos olhos um volume magnífico,

 

*1. Vem transcrito em uma nota de Eduardo Gachot, a pág. 268 das Memórias do Coronel Delagrave.

 

de soberba encadernação, com dizeres doirados.

A pequena Marechala conhecia bem aquele livro. Tinha sido oferta sua ao Príncipe d'Essling em Dezembro de 1809. Naquela encadernação magnificente mandara ela juntar todas as ordens do dia do exército de Itália em que Massena era louvado pelo general Bonaparte e todos os boletins do Grande Exército em que o Imperador assinalava a bravura e os méritos singulares do mais glorioso dos seus marechais.

No rosto da capa, em letras de oiro, os nomes das batalhas do Marechal e por baixo deles aquele cognome de filho querido da vitória, que lhe dera Napoleão.

A francesa inclinou-se para êle, carinhosamente,, e tomou nas suas mãos pequenas aquela cabeça embranquecida nos campos de batalha e tantas vezes aureolada pelos fulgores da vitória, cabeça de soberbias leoninas no fragor dos combates, agora envolta numa sombra imensa de amarguras, abatida como se a tivessem ferido de morte.

O leão de Rivoli e d'Essling chorava.

- Chora, meu amigo?!

- Pela primeira vez, depois que sou soldado...

- Mas porquê, meu Deus?

- O Imperador tirou-me o comando do exército e substituíu-me, como se eu fosse qualquer, o último dos seus generais, sem nome e sem aptidões!

- Mas o Imperador ainda não podia saber do revés de há cinco dias!

- Soube dos outros e foi implacável. Severo só para mim, porque de todo me abandonou a fortuna das batalhas! Junot foi batido, capitulou, e deram-lhe um comando: Soult foi vencido, teve de retirar, abandonando toda a artilharia, todas as bagagens do seu exército e afinal tem agora um dos mais altos comandos na Península! O meu tiram-mo com uma secura brutal, como se antes de eu perder uma batalha não tivesse vencido ou ajudado a vencer dez!

- Pois então resignemo-nos, e há-de querer Deus que voltem outros dias melhores para o mais glorioso marechal que tem a França - disse-lhe ela com adorável meiguice, beijando-o.

- E afinal - disse Massena, levantando-se de repelão - não foram, principalmente, erros meus que nos deram estes desastres. Foram os dele! Faltou às suas promessas, ao compromisso que tomara para aceitar este comando de sacrifício! Êle mais transigente e mais enganado do que eu!

Passeava a sacudir o ombro, numa agitação que o desfigurava. A amante seguia-o nuns olhares de amorável compaixão.

- Faltou-me com trinta mil soldados e deu-me por auxiliares uns patifes, insubmissos e invejosos generais, educados por êle. Para me trair, Ney esqueceu o seu dever no Buçaco; para me perderem, Reynier e Loison colaboraram vilmente no desastre de Fuentes de Onoro. Na sua imensa vaidade, julgava conhecer no seu gabinete imperial das Tulherias o povo e o país que me pediu lhe viesse conquistar. Errou muito mais do que eu. Deixou-me ao desamparo na mais feroz das campanhas que tem tido o império. A campanha da fome, pior que a outra dos combates, a dos paisanos muito pior que a dos ingleses. E quando tardiamente me quis acudir, Soult, o traidor que sonhava no Porto uma coroa de rei, desobedecia-lhe, negava-me cooperação, e Bessières, outro patife da sua camarilha, iludia-o velhacamente e abandonava-me na hora em que me devia ajudar a vencer uma batalha decisiva, que podia ser dez vezes mais funesta para os ingleses do que a do Buçaco para nós! Pois hás-de ver que o marechal Soult continua no seu comando e Bessières, o traidor de Fuentes de Onoro, cada vez mais querido nas Tulherias! A mim então exonera-me assim!

Abandonou-me êle primeiro que a vitória, êle, o meu amigo, o meu camarada das campanhas de Itália! Só êle pode errar! Só êle pode perder batalhas!

Encostou-se à mesa, olhou para o livro num estremeção de mágoa.

- Acabou-se! Tudo isto passou e esqueceu! - disse, pegando no volume.

Voejou dos nomes das batalhas para a frase napoleónica o seu olhar turvo de pranto: L'enfant chér de la victoire, repetiu mentalmente.

- Escárnio! - bramiu, esgaçando as folhas numa convulsão de cólera.

Arrojou o livro para um recanto do quarto.

- E não havia decretos do imperador que pudessem rasgar aquele livro que eu lhe ofereci, meu amigo! - soluçou a francesa.

- Perdoa-me - disse-lhe comovidamente, puxando-a para si, beijando-a - Nunca a tua alma se afastou de mim; foste a minha luz consoladora nessa campanha de amarguras; só tu me não abandonaste, perdoa! Aquele livro, que foi o meu tesouro maior, a minha bíblia, repugna-me agora, agrava-me esta dor enorme, que nem tu podes avaliar! O meu coração separa daquelas folhas a generosidade gratíssima que as juntou e eu beijo as mãos carinhosas que mas trouxeram, quando o velho marechal do Império ainda não sabia o que era perder uma batalha. Mas André Massena já não era isso que dizem aquelas páginas. É isto que se diz aqui na meia dúzia de linhas deste ofício, firmado por outro marechal, que há menos de um ano se dobrava diante de mim. Lê. Lê. A ninguém mais o mostro. Teria vergonha por mim e por êle. Lê.

Deu-lhe a carta de ofício de Berthier. A francesa leu-a numa tremura de voz.

- Repara nessa concisão, áspera e brutal. Como se fosse a exoneração de um general inepto e covarde, sem nenhuns serviços, sem nenhuma história! O outro Massena daquelas ordens do dia, daqueles boletins triunfais, morreu no Buçaco e foi enterrado há cinco dias em Fuentes de Onoro! Esse ofício, rudemente lacónico, vale por um decreto de morte moral. Não pôde mais a generosidade do Príncipe de Wagram, príncipe por aquela batalha que Davout e Oudinot e Eugênio e eu vencemos; não êle! Oxalá que eu nunca veja como o Imperador erra campanhas e perde batalhas. Marmont deve estar aí em dois ou três dias. Hás-de ter tudo disposto para a jornada. Nós partimos assim que êle chegar.

Passaram três dias. O marechal Marmont chegara. Massena entregara-lhe o comando e devia partir no outro dia para França.

Luís de Castro foi para casa num alvoroço de júbilo.

Abraçou Maria, beijou-a doidamente.

- Já percebo que te deram licença para sairmos daqui.

- Deram, sim, meu amor. Ia custando! Devo esta grande fineza ao Pamplona. Pediu por mim ao general Fririon e a Montbrun e os dois expuseram a Marmont as minhas condições especiais...

- As minhas é que tu queres dizer - interrompeu, sorrindo.

- Sim, as tuas, e Marmont acedeu.

- Pamplona e os outros ficam?

- O general obteve também permissão para voltar a França com a esposa.

- Ainda bem: excelente companhia vamos ter. E Massena?

- Esse parte amanhã. Como êle está acabrunhado! O que êle tem envelhecido! Junot parte de Toro com a Duquesa, segundo me disse Marbot, que também alcançou licença para ir restabelecer-se em França do ferimento que recebeu em Miranda- do-Corvo. O que êle quer é ir ver a mãe, velhinha e doente.

- E os outros oficiais portugueses?

- Ficam quási todos adjuntos ao estado-maior de Marmont.

- Vamos dar essa boa notícia ao tio André e à nossa Beauchamp.

- Vamos, sim.

- Mas olha que há sempre um desgosto nas nossas horas de maior ventura. De tua Mãe e de meu Pai nem uma notícia!

- Mas bem vês que não era possível mandarem-nos cartas. Aquelas relativas facilidades do inverno do ano passado, defronte das Linhas, foram excepcionais e duraram pouco. Também em Lisboa hão-de estar em cuidados por nós e com muito mais razão. Dói-me profundamente a falta de notícias dos nossos, mas que remédio senão resignarmo-nos? Em chegando a França, hei-de procurar algum meio de sabermos deles.

- Pois sim, e há-de ser o mais cedo possível. Olha, vai tu dar a boa nova ao tio André, que eu vou levá-la à nossa querida Beauchamp.

Estava tudo pronto para a jornada. Já tinham carregado as bagagens.

Castro foi a casa de Pamplona para ir com ele fazer as suas despedidas ao Duque de Ragusa.

- Satisfeitíssimo, hein, meu caro Castro?

- Pudera, meu General. A nossa terra livre de invasores, Portugal vitorioso.

- E nós bem para longe desse país assolado por uma guerra ferocíssima. Sua esposa terá enfim a vida tranquila de que precisa. É verdade: Falei ontem com Marbot. Vai com a escolta de Junot. Disse-me que de dia para dia estranhava mais o Duque de Abrantes. Dá manifestos indícios de insensatez. Os Médicos do exército são de parecer que as perturbações mentais resultantes do ferimento podem levá-lo a um ataque formal de loucura ou de idiotismo sem remédio.

- E Massena? V. ex.a viu-o?

- Vi. Arrasado! Despediu-se dos soldados a chorar. Na sua insensatez, o Junot ria de tudo; Massena então estava numa enfurecida tristeza que o desfigurava.

- E calcule v. ex.a o que lhe dirá ou mandará dizer Napoleão, quando souber do desastre de Fuentes d'Onoro, com que talvez se mudaram os destinos da Península!(1)

- É homem deitado ao mar. O que estão sendo uns para os outros estes marechais do Império! Causou-me lástima ouvir ontem Marmont a fazer a crítica da batalha do Buçaco,

 

*1. Avaliando as coisas segundo a sua paixão de patriota. Thiers diz: Tal foi esta batalha de Fuentes d'Onoro,que tantas contrariedades imprevistas e tantos actos de má vontade tornaram indecisa, podendo ser uma brilhante vitória, decisiva para a Espanha e, provavelmente, para a EuroPa, se a bravura das tropas e as hábeis disposições de Massena tivessem sido bem secundadas. (História do Império, tomo X, pág, 561).

Assim seria, mas, vencendo os aliados como venceram, não deixou por isso de ser decisiva para os destinos da Espanha e da Europa, embora contra os interesses militares e políticos da França napoleónica.

 

numa rudeza implacável contra o colega!(1) Êle que não será a sombra do outro! E talvez ainda tenha ocasião de saber como as batalhas se perdem.

Chegaram ao quartel-general, fizeram as suas despedidas e foram em seguida visitar os oficiais portugueses com quem tinham mais íntimas relações.

Havia instantes que Luís de Castro tinha voltado para casa e estava Maria Pulaski a pôr o seu chapéu de jornada, quando João Luís entrou com uma carta para ela.

- Donde vem? - preguntou-lhe Maria, alvoroçada.

- De Portugal! minha senhora.

- De Portugal! - disse, remirando-a comovida. - Só esta carta para mim?

- Só essa. Entregou-ma um contrabandista da Aldeia del Obispo, dizendo que era de pessoa conhecida do meu Capitão.

- V. ex.a manda alguma cousa?

- Não, João Luís.

- Podes retirar-te e espera aí fora, que vão sendo horas de partir.

O granadeiro saiu.

- Trazida por um contrabandista, que não pede nem sequer espera retribuição! - disse Luís de Castro - Vem com certos ares de mistério!

- É estranho! Não conheço esta letra e parece-me que já vi outra igual! - disse Maria com inexplicável hesitação,

 

*1. Criticando a leviandade de Massena e dos seus generais na batalha do Buçaco, o marechal Marmont escreveu nas suas Memórias: «Não se é digno de comandar soldados de tal bravura quando tão mal se aproveitam e tão inconsideradamente se põem em acção (Tomo IV).

 

como se tivesse receio de a abrir - Não é de tua Mãe, não é do padre Diogo... Vê tu se conheces a letra. Talvez seja de teu irmão.

Deu-lhe a carta para as mãos. Castro reparou no sobrescrito.

- Não é - disse - Nem êle escrevia no sobrescrito estas designações em francês.

- Não tinha notado isso!

- A não ser por disfarce... Mas para que estamos nós nesta pieguice de querer adivinhar quem a escreveu? É perder tempo levianamente. Aqui a tens. Abre-a, lê.

- Não sei então de quem seja - disse Maria sem saber bem porque vagos receios se estava oprimindo - Mas cartas para mim podes tu abri-las, podes tu lê-las. Não tenho segredos.

- É para ti: Abre-a, que nos estamos a demorar.

Maria abriu-a,, procurou a assinatura e empalideceu.

- De quem é?

- De Miguel Platow. Só tu a podes ler.

E entregou-lha. De rosto a vincado, numa tremura de cólera, Castro pegou na carta e leu-a para si.

Dizia assim em péssimo francês:

«Vai ficar profundamente surpreendida com esta carta de Lisboa a linda Maria Pulaski de outros tempos, hoje madame Castro. Que quer, minha senhora? Iria ao fim do mundo atrás de um sonho que tive e de lá ao próprio inferno [Dará certo ajuste de contas com o homem que teve a boa fortuna de a desposar. Vim a Portugal, depois de ter ido a França procurá-la. Recebi em Lisboa a triste notícia do seu casamento. Soube-a em casa da mãe de seu marido. Outro qualquer esmorecia, mudava em ódio o amor imenso que lhe tinha, e ia-se embora. Eu sou doutro feitio. Não a esqueço nem me esqueço e até me apraz dar-lhe novas minhas e antegozar daqui a surpresa que vai ter.

Não há dificuldades a que a minha dura vontade se vergue, nem perigos e sacrifícios que me intimidem. Terei o gosto de seguir, madame Castro, como segui mademoiselle Maria Pulaski. Não se há-de ter apagado em pouco mais de um ano aquela extraordinária formosura que me enlouqueceu. Espero encontrá-la ainda tão linda que me tenham inveja os amantes de outras formosas mulheres.

- O infame! O infame! - regougou, desfigurado.

- Luís! Alguma vilania para mim?

- Uma torpeza que excede o muito que se podia esperar daquele selvagem!

- Bem o receava eu! Estava-me o coração a adivinhar essa infâmia! - soluçou.

Castro relanceara para o final da carta um olhar turbado de cólera. Concluía assim:

«Porque há-de ser minha, Maria Pulaski; afirmo-lho. Agora com dobrado empenho meu, por si e por êle. Conto ter o gosto de a ver muito brevemente. Queria prevenir seu marido. Não imagina a delícia que eu sinto neste aviso! Há-de ser uma encantadora viúva e uma deliciosa amante. Considere esta carta, minha senhora, como um tardio presente de núpcias do seu inabalável adorador.

Miguel Platow».

Amarfanhou o papel nas mãos crispadas de raiva.

- Pois que venha! - rouquejou como alucinado.

- Luís! - disse-lhe ela, cingindo-o para si, beijando-o a chorar - Rasga isso. Não posso, não devo, não quero lê-la. Seja o que fôr. Ele sabe já como eu me sei defender e tu bem sabes como eu te quero.

- Meu Capitão - chamou da porta o João Luís, - O sr. General e a senhora estão ali na rua à espera.

- Vamos, Luís, disfarcemos. Isto é mágoa só para

nós.

- Vamos.

Foram chamar André Pulaski e a Beauchamp. Minutos depois seguiam pela estrada de Ciudad Rodrigo para Salamanca e Valhadolide a caminho de França.

 

             Súbito apartamento.

Luís de Castro foi encontrar as unidades da Legião Portuguesa a constituirem-se conforme um Decreto do Imperador de 2 de Maio de 1811. A cavalaria fora reduzida a um regimento de quatro esquadrões, e a infantaria a três regimentos de dois batalhões, com seis companhias cada regimento. Formara-se também um batalhão de depósito.

O 1.o regimento de infantaria estava-se reorganizando em Toul e era constituído pelos gloriosos batalhões de granadeiros e fuzileiros da 13.a meia brigada.

O 2.o e o 3.o tinham quadros de oficiais e sargentos portugueses e um escasso núcleo de soldados da Legião, pois a quási totalidade dos seus efectivos em praças de fileira era composta de prisioneiros espanhóis.

O 1.o regimento, de gente escolhida (de elite) compunha-se exclusivamente de portugueses(1) e nele foi colocado Luís de Castro,

 

*1. Este regimento compreende dois batalhões, compostos cada um de seis companhias de elite, sendo três de granadeiros e três de fuzileiros; todos os oficiais, sargentos e soldados são portugueses.» (Do relatório oficial relativo a 15 de Novembro de 1811 transcrito dos Arquivos Nacionais de França pelo sr. Bopp, a pág. 203 do seu livro La Legion Portugaise.)

 

a seu pedido e graças às diligências do general Pamplona.

Em fins de Junho, o bravo capitão de Baumersdorf estava em Toul e habitava num palacete magnífico, arrendado por André Pulaski.

Nenhum acidente grave tinham tido durante a sua longa jornada e quási estavam esquecidos da carta infame de Miguel Platow.

Em meados de Agosto, Maria Pulaski dava à luz um filho com admirável felicidade.

Foi uma alegria doida naquela casa. A Beauchamp não largava o berço do pequenito, e ao quinto dia André Pulaski já sonhava planos a respeito do futuro da criancinha.

- Chego a enganar-me - dizia de gracejo - e a supor que sou eu o avô! E então que avô piegas eu não daria! Dos piores que estragam os netos a poder de mimos. Mas o legítimo avô aí há-de chegar lá para os fins do mês que vem.

Referia-se à vinda do irmão.

André Pulaski fretara em Bordéus um brigue americano para ir, em meados de Setembro, à costa de Portugal receber dois passageiros que devia trazer a França. Eram João Pulaski e o padre Diogo Martins, companheiro e guia do pobre cego.

E nos fins de Setembro chegavam os dois a Toul. Já Maria Pulaski estava quási restabelecida e podia dar uns pequenos passeios pelo jardim.

Foi uma alegria enternecedora naquela casa.

Maria abraçou-se ao pai a soluçar, naqueles soluços de regalada comoção em que tantas vezes a gente desafoga os mais intensos júbilos de alma.

Era esposa inexcedivelmente extremecida e era mãe.

Agora, com o pai ao pé de si, aquele desventurado cego, nenhuma consoladora fortuna de mais enlevo para a sua alma.

A emoção adorável com que ela pôs nos braços trémulos do velho o seu lindo pequenino e o enternecimento quási infantil com que o avô lho beijou, razos de lágrimas aqueles olhos onde toda a luz morrera I Quem diria agora nesse acabrunhado velho, carinhoso e trémulo, numa tristeza, de resignado, piedosamente amorável, o revolucionário de cóleras indomáveis, o expatriado de implacáveis intransigências, nosso conhecido de há quatro anos? Os infortúnios haviam-lhe quebrado as rudes energias de outro tempo, a cegueira inutilizara o lutador. Já não tinha senão os olhos de alma para ver o seu próprio passado e do mundo não lhe restava senão um culto em que pusera todo o seu coração de pai.

O exemplo do irmão, no seu amor de fanático pela sobrinha, mudara-lhe em remorso as duras intransigências de outro tempo, e as amarguras da filha, sempre carinhosa e solícita para ele, numa resignação meiga de santa, mais lhe acrisolaram aquele seu derradeiro amor.

A um tempo compreendeu e sentiu que alma de celeste luz tinha naquela filha e que torpíssimo aventureiro, feito de lodo, era aquele Platow, a quem rudemente a quisera sacrificar.

Mudou, transfigurou-se, e já não havia sacrifícios que heroicamente não sonhasse como penitência dos caprichos e severidades com que noutro tempo a mortificara.

Na imensa noite da sua alma não tinha outra benfazeja estrela. O pequenino que lhe puseram nos braços como flor palpitante, gerada sob aquela doce luz; adivinhava-lhe o cândido sorrir na recordação antiga do sorriso da mãe, a pequenina Maria tantas vezes acalentada nos seus braços, por noites serenas de infinda saudade, no seu palácio opulento de Varsóvia.

Mas se foi comovedor aquele lance do avô de longas barbas de neve a beijar o netito que não podia ver, outro houve talvez de mais profunda emoção.

Foi quando Luís de Castro, gravemente afrontado e ferido por ele em duelo, havia cerca de quatro anos, lhe foi beijar as mãos.

Castro foi para ele silenciosamente, tomou-lhe as mãos e beijou-lhas.

- Quem é? - preguntou-lhe o velho numa tremura de voz, como se estivesse adivinhando o que perguntava.

- O marido de Maria - respondeu-lhe comovido. Numa tremura convulsiva, o velho inclinou-se para

êle, puxou-o para si e abraçou-o freneticamente.

- Perdão! Perdão!

Chorava. E não houve ali quem não chorasse também.

Nos primeiros dias de Outubro baptizaram o pequenito na Basílica de Saint-Etienne. Foi madrinha a Beauchamp, André Pulaski o padrinho.

Puseram-lhe o nome do avô, e foi sobre os punhados de terra portuguesa, que o João Luís trouxera das imediações de Almeida, que o sacerdote o aspergiu com as águas lustrais do baptismo.

- Filho da nossa terra de Portugal - comentou o João Luís - como o pai e como todos os da 13.a meia brigada.

Céu de pleno azul e suave fulgor para aquela ditosa família e só de nuvens inquietadoras para a alma de Luís de Castro.

Sabia de largos preparativos para uma guerra próxima, provavelmente a mais formidável de todos os tempos, porque arrastaria para os campos de batalha soldados de quási todas as nacionalidades da Europa.

Castro ia frequentes vezes ao quartel-general e lá se informara de todos os preparativos já realizados.

A leitura das ordens do Ministério da Guerra não lhe deixava dúvidas quando à previsão de uma campanha colossal, que não tardaria muito.

O seu regimento tinha exercícios frequentes, estava sendo fornecido de uniformes e munições de reserva, recebera novo material para o serviço de campanha e até lhe estavam completando o efectivo de guerra com os soldados prisioneiros em Almeida, por efeito da capitulação de Agosto de 1810.(1)

Chamavam-se conscriptos às armas, retiravam-se tropas de Espanha, reforçavam-se todos os corpos do exército de observação na linha de Elba, no Reno, na Itália, aumentava-se a guarnição de Dantzig e até se indicavam já os batalhões portugueses que haviam de ser incluídos nos corpos de exército de Davout, Príncipe d'Eckmuhl, e de Oudinot, Duque de Reggio. Falava-se muito na frieza de relações entre o Imperador e o embaixador da Rússia em Paris; considerava-se quási inevitável a quebra da famosa paz de Tilsit.

Luís de Castro sabia de tudo isto, mas abstivera-se de o contar em casa para não perturbar brutalmente a serena felicidade de Maria.

Bem bastaria quando já fosse impossível ocultar-lhe a esmorecedora realidade.

Tinha de fingir e fingia despreocupação de ânimo. E quantas vezes a dizer-lhe gracejos, a beijá-la, e estas perguntas a confrangerem-lhe o coração:

- Onde hei-de eu deixá-la segura? Levá-la com o pequenito? Não pode ser. E se a campanha é na Rússia,

 

*1. Tinha 1.395 homens e faltavam-lhe ainda 395 para completar o efectivo.

 

como se crê, então menos. Seria loucura levá-la.

Era uma opressão de alma e tinha de sorrir, de gracejar, como se não houvesse uma sombra sequer naquele seu viver de esposo e pai amantíssimo!

E logo o receio por alguma cilada de Miguel Platow e a lembrança odiosa daquela carta infame que ele mandara a Maria e ela recebera no dia em que sairam de Ciudad Rodrigo.

É verdade que o padre Diogo lhe trouxera de Lisboa uma informação, até certo ponto tranquilizadora, a respeito de Platow.

Os oficiais ingleses tinham aprisionado em Fuentes d'Onoro um estrangeiro suspeito, que se apresentara no exército como negociante alemão que ia em viagem para Salamanca.

Encontraram-lhe, porém, umas cartas de S.Petersburgo, assignadas pelo general Platow, e suspeitaram que fosse capitão. Lorde Wellington mandou-o preso para Lisboa. Na legação da Rússia reconheceram-no, mas as falsas declarações que ele fizera mantinham no espírito do generalíssimo inglês a suspeita de que fosse realmente um alto espião por conta da França e mandou-o como prisioneiro para Inglaterra.

O padre Diogo soubera tudo isto por um jornal inglês que lhe mostraram em Lisboa. Dava conta minuciosa de todo este caso.

- Mas pode escapar-se de Inglaterra - pensava Luís de Castro. - E se rebentar a guerra entre a França e a Rússia, os próprios ingleses lhe darão liberdade, pondo-o a caminho do seu país, se ele lhes disser que é um oficial do Czar e mostrar desejos de ir combater os soldados de Napoleão. E quem me pode assegurar a mim que, em vez de ir para a Rússia, o infame não terá artes de se escapar para aqui, no propósito de realizar a sua ameaça ignóbil? Um inferno, isto!

- Oh! meu caro amigo - veio dizer-lhe o padre Diogo entrando no gabinete onde Luís de Castro estava sozinho - aqui tem um achado que lhe há-de ser agradável.

- Agradável porquê?

- Publica este jornal uma carta a respeito daquela batalha de que eu lhe falei, sem lhe saber dar pormenores. Aquela em que a nossa gente fez proezas de que os ingleses falavam entusiasticamente.

- Ah! a batalha de Albuera?

- Essa; vencida ao Soult pelo general Beresford.

- Isso não dizem os jornais franceses, nem à mão de Deus Padre. Para eles foi apenas uma batalha indecisa, que lhes custou mais sangue do que as do Buçaco e Fuentes d'Onoro reunidas.

- Eu, dessas coisas de guerra nada entendo; mas o que se afiançava em Lisboa era que o Soult ia para descercar Badajoz e teve de retirar de Albuera para Sevilha, sem ter conseguido o seu intento. Mas veja o meu amigo a carta de Portugal que esse jornal publica. Estava a mexer nuns papéis que trouxe de Lisboa e lá o encontrei casualmente. Veja, aqui o tinha marcado para lho trazer, mas já o supunha sumido. Parece-me interessante. Eu traduzo muito mal o inglês, palavra aqui, palavra ali, mas percebi que isto é resposta às basófias do Moniteur e de certos jornais de Paris.

Castro passou o jornal pelos olhos.

- É uma réplica. E de pessoa autorizada, segundo aqui diz a redacção. Assina-a John Jones e o jornal informa neste preâmbulo de apresentação que é um dos mais ilustres engenheiros militares da Grã-Bretanha. Pois vamos ver o que diz o ilustre engenheiro.

- Desejava dever-lhe a fineza de traduzir alto.

- Da melhor vontade. O meu amigo manda.

Traduziu assim:

«Para rectificar erradas informações de origem francesa, permita-me, sr. redactor, que lhe exponha brevemente como as coisas se passaram na batalha do dia 16 de Maio, aquela famosa batalha de Albuera, sem nenhuma dúvida uma das mais sanguinolentas desta guerra. Esta carta valerá uma réplica desapaixonada e leal às vangloriosas inexactidões do Moniteur. Sabemos já que o Marechal Beresford levantou o cerco de Badajoz para ir ao encontro do marechal Soult, que as últimas informações davam já em Llerena à frente de um corpo de exército, para socorrer a guarnição francesa daquela praça. As tropas anglo-portuguesas marchavam para Valverde e ali se reuniram aos corpos espanhóis dos generais Castanos, Blake e Ballesteros. Ao velho Castanos, vencedor em Baylen, pertencia, pela antiguidade do posto, o comando em chefe dos aliados; mas com admirável modéstia e abnegação, desistiu deste direito, instando porque fosse Beresford o comandante superior de todas as forças. A estrada de Sevilha para Badajoz passa pela ponte do riacho de Albuera, afluente do Guadiana. Fica-lhe na margem esquerda a aldeia que deu o nome à batalha. Do outro lado do oeste o terreno forma umas colinas de suave declive, cuja linha de cumiadas é quási paralela ao riacho. Foi nestas alturas que os aliados tomaram as suas posições, ficando o centro em face da aldeia. Do lado oposto há uma linha de colinas com uns pequenos bosques de azinheiros e sobreiros. Durante a noite de 15 o marechal Soult ocupou estas colinas com os seus vinte mil homens de infantaria e três mil de cavalaria com quarenta canhões.

Beresford tinha para lhe opor duas divisões de ingleses e portugueses, uma outra divisão só de portugueses, e catorze mil espanhóis, ou um total de vinte e sete mil homens de infantaria e dois mil de cavalaria com trinta e dois canhões.

Os espanhóis estavam na direita da linha dos aliados; no centro a divisão de Stewart, na esquerda a divisão portuguesa do general Hamilton. Em segunda linha, à rectaguarda do centro, a divisão Cole e uma brigada portuguesa. A divisão ligeira do general Alten ocupava a povoação de Albuera e toda a cavalaria do general Lumby cobria o flanco direito dos espanhóis. Em 16, pelas 8 horas da manhã, desembocava dos terrenos arborizados uma coluna francesa que tomou a direcção da aldeia como se tivesse o propósito de investir o flanco esquerdo dos aliados. Era um simples movimento demonstrativo a encobrir o ataque sobre a direita contra os espanhóis. Para ali tinham avançado forças muito mais numerosas, marchando a ocultas por entre o arvoredo, e facilmente se apoderaram das alturas à direita. Beresford viu a surpresa em que os espanhóis tinham caído, deixando-se envolver, mandou que modificassem a sua linha de batalha e apoiou-os com as tropas de reserva. Mas das alturas que tinham ocupado os franceses investem impetuosamente contra a linha espanhola, que afinal teve de retroceder batida. Então as colunas francesas ocupam a mais importante colina daquele lado das posições e a sua cavalaria ameaça a rectaguarda dos nossos num movimento envolvente pela direita, ao passo que a outra coluna inimiga, iniciadora da batalha, parecia mudar em ataque formal o que a princípio fora apenas um movimento demonstrativo.

«Nesta conjuntura o bom êxito da batalha para os aliados dependia essencialmente da reocupação das posições que os espanhóis tinham perdido. Beresford ordena que a divisão do general Stewart marche a tomar aquelas posições. Começa então a chover e forma-se um denso nevoeiro. Quando a brigada avançada daquela divisão marchava para carregar o inimigo, que a névoa lhe não deixa descobrir bem, uns poucos de esquadrões de lanceiros polacos lhe investiram impetuosamente o flanco direito. Fica a brigada quási toda prisioneira e perde a artilharia que a protegia. Quási toda porque só um batalhão consegue sustentar em quadrado com admirável intrepidez. A batalha parecia perdida para os aliados. Então o general Stewart com o resto da sua divisão e Cole com uma parte das suas brigadas avançam denodadamente, carregam o inimigo e conseguem repeli-lo da colina que tinham tomado aos espanhóis. Foi uma luta horrorosa e nunca talvez se excederam as provas de bravura individual e colectiva que se deram ali!

«Fileiras de cadáveres a marcarem as fileiras dos combatentes de regimentos quási inteiramente aniquilados!

«De parte a parte um horror de perdas! Para trás das linhas dos aliados houve uma larga mortandade de lanceiros polenenses, que para todas as direcções se tinham arrojado no galope vertiginoso das suas cargas. Um deles chegou mesmo a investir contra o marechal Beresford! Lutou com ele o bravo general e afinal o matou uma ordenança de dragões.(1)

«Debalde os generais e oficiais franceses procuram reformar as suas tropas e arrastá-las consigo a um novo ataque. Apenas conseguem levá-las para a retaguarda sob a protecção da soberba cavalaria de Latour-Maubourg. Na noite de 17 Soult retirava para Sevilha, sem poder levar socorro a Badajoz e no dia seguinte Beresford voltava a cercar aquela praça.

«E acham então os periodistas franceses que a batalha ficou indecisa! Foi uma vitória bem nossa.

«Até pela diferença das perdas. Pelos mapas franceses, que depois se puderam apanhar, soubemos que as tropas de Soult tiveram oito mil mortos e feridos.

 

*1. Era um ordenança dos dragões portugueses.

 

É justo confessar que os ingleses e portugueses também tiveram grandes perdas: quatro mil mortos e feridos, não contando os dois mil que tiveram os espanhóis. i Aqui tem, sr. redactor, uma descrição resumidíssima daquela sanguinolenta batalha...»

- Não diz o que os nossos fizeram! - lamentou o padre Diogo - Talvez fossem poucos ou não tivessem tido ocasião de se distinguir.

- Talvez - respondeu Luís de Castro, fixando as colunas do jornal vagamente - Espere. Temos aqui a resposta, meu amigo! Um comunicado com este apetitoso título: Os portugueses em Albuera.

- Isso é que eu não tinha visto!

- De Lisboa. Vamos a ver se diz de quem. Padre Diogo! De meu irmão! Aqui está. Henrique de Castro e Albuquerque, tenente-coronel do 23 de infantaria do exército de Portugal. Além do nome, esta concordância do posto e do regimento com as informações que o meu amigo me trouxe.

- Que tinha sido promovido a tenente-coronel. para o 23, depois de Fuentes de Onoro, foi o que me disseram em sua casa.

- Pois aqui o temos a dizer-nos em inglês o que os nossos fizeram naquela batalha. O Henrique fala e escreve o inglês muito melhor do que eu.

- Pois isso agora é que eu vou ouvir regaladamente. Seu irmão não mandava esse comunicado para um jornal inglês se não tivesse coisas importantes a dizer.

- Vamos sabê-lo.

 

*1. Vidé História da guerra de Espanha e Portugal, pelo coronel John Jones, traduzida do inglês e anotada por Alphonse de Beauchamp. (Tomo I, pág. 240 a 246).

Guillon diz no seu livro As guerras de Espanha e Portugal: «Foi a mais mortífera das nossas batalhas de Espanha, embora seja a menos conhecida. Custou-nos cerca de 6000 mortos e feridos e aos aliados 4000» (Pág. 173).

 

Traduziu:

«Venho pedir-lhe, sr. redactor, um recanto do seu grande periódico para reparar uma lamentável omissão que se me deparou no seu artigo de 2 de Junho findo, acerca da batalha de 16 de Maio. Percebi que era um artigo feito de informações de Portugal, na lufa-lufa de não perder um navio a partir. Compreende-se bem que faltassem alguns pormenores e alguma coisa esquecesse. E, pela nossa condição de soldados de uma nação pequena, fomos nós os esquecidos. Mas não podia haver, não houve decerto, quero -crê-lo, nenhum propósito de ocultar por tal forma os serviços valiosos dos meus camaradas e compatriotas naquela batalha, a que tive a honra de assistir. A nação inglesa não precisa do quinhão de glórias que pertence aos seus aliados; as que tem lhe sobejam e aos soldados de lorde Wellington, cuja heróica intrepidez me foi dado admirar no Buçaco, em Pombal, na Redinha e em Fuentes d'Onoro, repugnará certamente que um esquecimento lamentável deixe na sombra os seus valentes companheiros portugueses de Albuera.(1)

- De mãos enluvadas a preparar-lhe a estocada - observou o padre Diogo num consolo de alma.

- Parece-me preâmbulo para importantes afirmações.

Continuou a traduzir:

«Falava-se muito naquele artigo dos nossos valorosos camaradas espanhóis, que iam tendo a desdita de nos perder a batalha, e nem uma palavra de justiça lembrou ao articulista para os seus camaradas portugueses, que tiveram a boa fortuna de ajudar a ganhá-la! Por quem é, sr. redactor,

 

*1. Aquela batalha de 16 de Maio de 1811 mereceu que a celebrasse Byron, um dos maiores poetas de Inglaterra, um dos mais extraordinários dos tempos modernos.

 

não tome estes dizeres à conta de vaidade pessoal ou de fanfarronada patriótica. Não tenho de falar de mim que nenhum feito pratiquei, e a respeito dos soldados esquecidos limitar-me-ei a resumir-lhe factos e citar-lhe insuspeitas afirmações de um general inglês. «No lance em que a batalha esteve perdida para os aliados - o flanco direito desamparado pelos espanhóis, uma brigada da divisão Stewart quási toda prisioneira, a infantaria francesa já de posse das nossas melhores posições e os esquadrões de lanceiros polacos em cargas de louca bravura sobre a nossa retaguarda - os seis mil portugueses da divisão Hamilton sustentavam a esquadra dos espanhóis, batendo-se admiravelmente, e uma brigada portuguesa da divisão Cole, três mil homens dos regimentos 11 e 23 e caçadores 7, avançava pela planura com rara firmeza, varejada pela artilharia, batida de frente pelos esquadrões polacos, oprimida de flanco pelos dragões franceses. Avançava em linha com um quadrado de batalhão no flanco direito, a servir-lhe de reduto em que se apoiava contra os dragões. E quando os lanceiros polacos vinham em turbilhão, aos gritos, formidáveis, de lanças em riste, duma galopada fantástica a linha e o quadrado faziam alto, desfechavam as espingardas quási à queima-roupa e a onda bravia dos esquadrões recuava desfeita.

«Mas como as vagas do mar, vinham logo outros esquadrões e a segunda e a terceira carga foram repelidas como a primeira. Eu vi, sr. redactor. O meu regimento era daquela brigada, cuja serenidade de ânimo me assombrou, e mais tinha presenciado as famosas cargas de baioneta do Buçaco! Pois a minha brigada avançou, apesar dos polacos e dos dragões, e foi atacar os granadeiros franceses numa posição cuja posse final daria ao marechal Soult uma grande e completa vitória.

«Eu não creio que se possa exceder a intrepidez heróica das divisões de Stwart e de Cole, ouvi que da parte dos espanhóis houve arrojos de bravura individual verdadeiramente notáveis; mas isso que fizeram os dez mil portugueses, que também ali batalharam, creio bem que merecia, ao menos, umas linhas de referência na língua dos nossos poderosos aliados.

«Aqui ouvi eu dizer a um oficial francês prisioneiro que nunca assim vira avançar em linha, resistindo a cargas sucessivas de cavalaria, com o único apoio de um pequeno quadrado de batalhão em um dos flancos.

«Era um velho que tinha entrado em quási todas as campanhas de Napoleão. E aqueles formidáveis lanceiros polacos, disse-me êle, são de tal modo temidos em Espanha, que bastaram eles para lançar a desordem e o terror entre os dez mil homens que defendiam os desfiladeiros de Somo Sierra, em 1808. Dar-lhe-ei, sr. redactor, como testemunho de abonação a respeito dos portugueses da divisão Hamilton e da brigada a que tenho a honra de pertencer, essas palavras que o Marechal Visconde de Beresford mandou publicar na ordem do dia ao exército do meu país:

«O sr. Marechal se vê quási na necessidade de dar geralmente agradecimentos aos oficiais e soldados, visto que é difícil fazer distinções, quando todas e cada um em particular se portou bem e nobremente; s. ex.a não pode senão aplaudir e dar agradecimentos a todos os corpos de cavalaria, artilharia e infantaria, que estiverem debaixo das suas ordens naquela batalha, em que a honra das suas respectivas pátrias, e a de cada indivíduo, foi tão bem sustentada, o valor foi secundado pela disciplina, e a vitória foi o resultado.»(1)

 

*1. Colecção das Ordens do dia do Marechal G. C. Beresford - (1811)

 

«Mas, no mesmo dia da batalha, os próprios oficiais e soldados ingleses disseram ainda cousa de maior significação a respeito da brigada que derrotou os polacos. Vitoriavam os nossos soldados por este modo honrosíssimo. Viva quem nos deu fortuna na batalha de Albuera.(1)

«Era isto o que o Marechal não podia dizer numa ordem do dia, para não melindrar susceptibilidades.

«Despeço-me de v., sr. redactor, afirmando-lhe que em Albuera os soldados meus compatriotas confirmaram brilhantemente este vaticínio escrito em 30 de Setembro do ano passado, pelo general de maiores glórias que tem a Grã-Bertanha: As tropas portuguesas serão doravante a mais sólida esperança da libertação da Península.(2)

- É um consolo ouvir isso! - disse o padre Diogo numa grande vibração de entusiasmo.

- Não sabia destas palavras de Wellington!

- E, louvores a Deus, os nossos rapazes não lhe desmentem a profecia.

- Se houvesse melhores cabeças e consciências para governar, para dirigir, aproveitando as aptidões e o sangue da nossa gente para tantas outras cousas que tornam as nações prósperas e ilustres, porque não é só a batalhar que podemos viver no mundo, então, padre Diogo, outro seria o destino de Portugal!

- Isso, isso!

- Mas, nós raras vezes temos tido quem administre e governe bem, e a obra do Marquês sumia-se na derrocada da sua fortuna política.

 

*1. Rectificações históricas por António de Oliva e Sousa Sequeira, marechal-de-campo reformado. (1860).

Oliva era alferes de granadeiros de infantaria II na batalha de Albuera.

  1. Aquelas palavras de lorde Wellington foram traduzidas no livro italiano La guerra de la Penisola, pág. 188 e 189 (edição de 1810).

 

Já não era segredo para ninguém que Napoleão tinha tudo disposto para uma campanha na Rússia, remate provável da sua obra gigantesca de conquistador.

Para aquela, como para quási todas as guerras, a causa determinante - egoísmo brutal dos interesses e vaidades nacionais, ou propósitos iníquos de absorpção política - ficava no segredo das chancelarias e era com os pretextos hipócritas da diplomacia que se engredava o casos belli.

Napoleão inventara um pretexto grande, generoso, para aquela guerra da Rússia. Este: reconstituir a Polónia e fazer do manequim político do Ducado de Varsóvia a figura antiga, heróica, da gloriosa nacionalidade morta, E nesse empenho de justiceira cruzada, o castigo do Czar, suspeito de se ter ligado clandestinamente à política e aos interesses da Inglaterra, quebrando as promessas de Tilsit.

Mas a causa verdadeira não seria talvez senão abater o poderio russo, como abatera o poderio austríaco, e talhar nas fronteiras do Império moscovita um grande estado adistrito à preponderância napoleónica, um reino afrancesado, como Napoleão quis que fosse a Espanha e como era Nápoles.

A conquista da Península e o golpe de morte na Inglaterra ficariam para depois.

Pela sua parte, a Rússia alegava razões de queixa contra o Imperador dos franceses. Encorporara a Holanda no organismo político do Império e ferira as susceptibilidades do Czar na questão de Oldemburgo e nos armamentos formidáveis da praça de Dantzig, praça prussiana que valia uma constante e humilhadora ameaça para o Império moscovita.

Outra diversa razão teriam, porém, os formidáveis preparativos militares da Rússia. Sentia a ânsia de vingar-se de Austerlitz e de Friedland, como exemplo inquietador o abatimento da Áustria, sabia insaciável a sede de conquista de Napoleão, e parecia-lhe oportunidade excelente repelir as supremacias do colosso naquela conjuntura em que a Inglaterra lhe dava estímulos e as campanhas vitoriosas dos anglo-portugueses retinham na Espanha uma grande parte dos exércitos da França.

E a diplomacia inglesa sabia empurrar habilmente para aquela guerra os interesses e susceptibilidades da Rússia.

De parte a parte boas palavras diplomáticas em fingidos propósitos de paz e formidáveis disposições de guerra, que nenhumas argúcias políticas alcançavam justificar como inofensivas precauções de dois estados cuja aliança não fora ainda formalmente anulada.

Agravavam-se de dia para dia os receios de Luís de Castro por causa da situação de Maria.

O seu regimento já tinha sido inspeccionado para entrar em campanha(1) e nos princípios de Janeiro de 1812, adiantara-se muito a reorganização do Grande Exército, cujas unidades maiores se iam aproximando, sob vários pretextos, das linhas indicadas para a invasão da Rússia.

Entrou Março e veio para Toul a ordem de prevenção para o regimento estar pronto a marchar ao primeiro aviso. Até já estava designado o corpo de exército e a divisão em que devia encorporar-se.

 

*1. Em relatório de quatro de Dezembro, o Ministro da Guerra dizia ao Imperador: «O 1.o regimento está instruído, bem armado numa excelente disposição de ânimo, tantos os oficiais como os soldados, e uns e outros ardem em desejos de se assinalar onde quer que a Sua Majestade apraza pô-los em acção.» (La Légion Portugaise, do sr. Boppe, pág. 201).

 

Iria para o 3.o corpo, que era o do marechal Ney e ficaria pertencendo à 1.a divisão, comandada pelo general Ledru des Essarts.

Já não era fácil evitar esta oprimidora surpresa a Maria Pulaski. Mas antes de lhe falar a ela nesta inevitável separação, Luís de Castro foi chamar André Pulaski e levou-o consigo para o seu gabinete de trabalho.

- Chega a hora que eu receava e é preciso falar francamente a sua sobrinha, meu caro amigo.

- É então coisa decidida a marcha do regimento para a Rússia?

- É. Está tudo pronto à primeira voz. Iremos também contra o Czar nesse exército enorme em que, segundo ouvi, vão representadas dezasseis nacionalidades.

- Demónio! Maria já andava apreensiva: os boatos da guerra corriam por aí de boca em boca, mas nós tínhamo-la enganado na esperança de que o seu regimento não fosse! Dói-me desenganá-la! É capaz de o querer acompanhar.

- Para a Rússia, levando o pequenito! Impossível! Absolutamente impossível!

- Se souber que vão outras senhoras, quererá ir também.

- São diversas as suas condições. Tem o pequenito.

- E desse é que ela por coisa nenhuma deste mundo se há-de querer apartar. Sabe se a Pamplona vai também?

- Creio que não. O General está em Paris; recebi ontem uma carta dele. Vai também.

- Estou a prever e a sentir a mágoa que lhe vamos dar.

- Que remédio, meu querido amigo! Mas antes de lhe falarmos nisto, precisamos de ver onde ela pode ficar melhor e com mais segurança.

Não sabemos onde pára o patife de Platow e seria imprevidência esquecer a sua infame promessa. Se está em território inglês, não será difícil que de lá se escape ou o deixem sair à sua vontade, e a Inglaterra fica muito vizinha da França. Que lhe parece?

- Que a levo comigo para Sachsengang. Lá a trataremos como se fosse uma rainha e lá tenho eu uma legião de criados para estoirarem o pulha de Platow, se ousasse aparecer. Agora lhe afianço que já me não deixaria cair em cilada que êle me quisesse armar. Foi tempo. À menor tentativa, metia-lhe uma bala no corpo. Mas ficou apreensivo! Desagrada-lhe o meu alvitre?

- Ao contrário. Nenhum igual para ela, nenhum melhor para mim. Irei perfeitamente tranquilo. Ficará num amparo carinhoso e seguro... Até para o caso de alguma bala se lembrar de mim. As minhas apreensões, meu caro amigo, vêem de há meses e são maiores agora porque já não pode tardar muito esse lance da separação, que me faz medo, confesso! Dobrada amargura, o dobro da saudade... por ela e pelo pequenito! Mas isto são pieguices para mim só. Vamos lá falar-lhe. O meu amigo prepara-lhe o ânimo gracejando.

- Não me dá um papel de grande êxito, francamente! Nem me sinto em veia para gracejar, nem ela talvez me leve a bem o gracejo. Enfim, vamos lá a experimentar.

Foram ter com ela à salazita de costura. Estava sozinha ao pé do berço do filho adormecido.

A Beauchamp tinha saído a fazer umas compras.

- Uma notícia de gravidade europeia, minha querida sobrinha - disse-lhe num disfarce de brincadeira.

- Mais baixinho, sim? O seu afilhado adormeceu agora mesmo. Olhe: a sonhar e a sorrir. Para este é que não há notícias inquietadoras. Mas vamos lá ouvir a nova gravíssima que me traz o meu querido Tio.

André Pulaski hesitava, sentia um nó na garganta.

Aquelas simples palavras da sobrinha, despreocupadas, cheias de solicitude maternal, tão alheias à triste realidade, de todo lhe haviam amortecido o empenho de gracejar.

- Vê tu se adivinhas - disse-lhe no propósito de ir ganhando tempo e coragem para o exórdio faceto que trazia ideado. Notícia de gravidade europeia... vê lá.

- A guerra, essa guerra de que toda a gente fala! Adivinhei?

- Adivinhaste. Guerra contra a Rússia para ressurgir a nossa Polónia, é o que por aí se diz.

- E depois? O teu regimento vai, Luís? - perguntou sobressaltada, fitando muito o marido.

- Faça favor de não precipitar as informações. Agora estou eu com a palavra. Sabe-se já que há duas pessoas guerreiras em França que não vão no Grande Exército. O mais glorioso dos marechais, esse pobre velho Massena, posto de parte por ter apanhado as sovas do Buçaco e Fuentes d'Onoro e...

- E a outra?

- Essa ainda de maior surpresa para as chancelarias europeias!

- Rodeios de brincadeira. Sabe, Tio? Gosto de o ver assim.

- A outra... certa capitana, como dizem os espanhóis, que esteve um pouco desmaiadita em Fuentes d'Onoro.

- Ah! sim, eu percebo. Não vou porque não vai o regimento do Luís.

- Vai, sim, Maria - disse-lhe o marido, inclinando-se para ela.

- Vai! - exclamou, levantando-se, pálida, num repelão nervoso - E não me tinhas dito nada! É que então ficas tu.

- Não posso e, ainda que pudesse, não devia ficar. Sou novo, tenho saúde, vai todo o meu regimento; para eu ficar não haveria pretexto que não parecesse uma cobardia de marido efeminado.

- Tens razão! Mas podias ficar. Vai pelo teu dever de soldado e eu vou também pelo meu dever de esposa.

- Tu não, minha querida. Tu tens de ficar.

- Luís, por amor de Deus! - volveu-lhe numa angústia de alma.

- Tens, sim, minha vida. A guerra é agora num país inóspito...

- Pior guerra do que no teu país?...

- O céu lá é mais carinhoso, tem mais doce clima. E que não fosse, Maria?

- Mas por tudo o que eu te mereça - suplicou a soluçar - não me deixes ficar, leva-me contigo; hão-de ir também outras mulheres.

- Tu em condições diversas. Não insistas. Repara na loucura que seria, levando-te para um país onde há gente semi-selvagem e neves que amortalham cidades. E o nosso pequenito? Deixá-lo cá a qualquer?

- Isso não, não!

- Havias de levá-lo então contigo, para que te morresse de frio pelos caminhos, se a campanha se prolongasse até ao inverno?

Maria chorava.

- Agora, minha querida - disse-lhe, acarinhando-a -, o dever para ti é ficar. Dever de mãe que a todos se antepõe. Bem basta que eu tenha de separar-me dele, separando-me também de ti. Compreendes bem a sinceridade com que te estou falando. Também eu preferia que fosses, era este o egoísmo do meu coração e tenho de o sacrificar aos teus santos encargos de mãe. Lês em mim; hás-de saber porque piedade amorável te ocultava esta opressora notícia, e avalias bem com que amargura imensa eu hei-de apartar-me de ti e dele.

Nem quero sonhá-la, minha vida!

- Tão longe! Meses sem saber de ti - soluçou encostando-lhe a cabeça ao ombro -, dos perigos que tu corres! Desses ainda maior receio!

- Pois está enganada a minha querida sobrinha. Agora não é gracejo. Ficarás muito mais perto do teatro da guerra, porque irás com teu Pai, com o teu pequenino, a Beauchamp e eu para a nossa casa de Sachsengang. E como eu sou suficientemente rico para que me possam fazer falta alguns centos de milhares de francos e tão teu amigo que não duvidaria gastar metade do que tenho para te ser agradável, hei-de conseguir que as notícias de teu marido cheguem directamente a nossa casa muito mais cedo do que as informações oficiais para a corte de Viena.

- Tio! - disse, indo para êle -, Se há pai extremoso, pai que possa igualá-lo nestes desvelos por mim!

- Excedes-me tu nos desvelos pelo teu pequenino, e tanto que ficas por causa dele. E agora, que estamos com o assunto arrumado, perdoa-me tu aqueles gracejos, de mau gosto, tenho a certeza, mas de boa intenção por ti.

- Então eu não sei!

- Mas o que tu não sabes, nem podes calcular, é o sacrifício com que eu os dizia. Enfim, as cousas estão combinadas, o coração da mãe soube dar um bom conselho ao coração da esposa, e tu e teu marido cumprirão intrepidamente o seu dever.

- Quando é a partida, Luís? - preguntou numa tremura de voz.

- Estamos prontos a marchar à primeira ordem.

- Eu estou convencido de que vai ser uma campanha breve - disse André Pulaski para realentar a sobrinha - Já se diz por aí. Napoleão levará consigo um exército composto de soldados de quási toda a Europa, tamanho como nunca se viu. Esmaga as tropas do Czar, é quási certo, e quando o inverno vier, estará o Grande Exército muito regalado naquela grande cidade de Moscovo que tu já viste.

- Quem sabe, Tio?!

- Não é coisa que se possa afiançar, mas olha que é muito provável. E se tiverem chegado a Moscovo antes de ter começado o inverno, iremos então com segurança visitar o nosso Luís, tu, eu, e o pequenito. É a promessa que fica feita.

- Deus o ouça! Mas para chegarmos a Moscou, hão-de dar batalhas, uma que seja... e há-de então haver mortos...

Interrompeu-se confrangida.

Compreenderam-lhe o pensamento; Luís beijou-a e André Pulaski acudiu logo:

- Ora! Há sujeitinho no Grande Exército que tem entrado em quinze e vinte campanhas sem apanhar sequer uma arranhadura.

- Mas também me tèem contado que são às dezenas de milhares os que nunca mais voltaram!

- Olha o pequenito acordado, com os olhos em ti, a estender-te os bracitos, a sorrir - disse o velho, escapando-se à réplica.

Maria acercou-se do berço, inclinou-se muito para a criancita, beijou-a sofregamente, cravado no sorriso dele o seu olhar turvo de lágrimas.

- Vou dar a notícia a teu pai. Será o genro um dos ressurgidores da Polónia, e nós lá iremos um dia vê-lo a Moscovo à cidade augusta dos Czares.

Saiu.

- E nem ela sonha - ia dizendo consigo o velho polaco - os lúgubres pressentimentos que eu trago comigo! A Rússia fará um desesperado esforço e os seus soldados hão-de bater-se como leões, quando fôr preciso morrer pela pátria em perigo.

Entretanto, Luís de Castro dobrara-se tambem para o berço. Sacudida por um pressentimento horroroso, Maria cingiu o marido para si e beijou-o febrilmente num desvairo de lágrimas, num soluçar violento que lhe estrangulava as palavras.

Se êle morresse nalguma batalha, longe dela e do pequenino, sem lhe poder dar um derradeiro beijo! Era este o pavor daquele súbito pressentimento.

Chegara ordem para o regimento se pôr em marcha, a caminho da Rússia.

Fora resolvido que Maria, o pai, o tio e a Beauchamp acompanhassem Luís de Castro até à Alemanha; dali tomariam então para Viena.

Saíram em carruagens atrás do regimento. Maria ao lado da Beauchamp, sempre com o seu pequenino nos braços.

A gente de Toul vitoriava aquele punhado de soldados estrangeiros, já assinalados na última campanha da Áustria.

- Viva Napoleão! Viva o Grande Exército, que vai libertar a gloriosa Polónia! - gritavam os populares.

- Se é para isso que êle vai! - comentava incrédulo, de si para si, André Pulaski, numa segunda carruagem ao lado do irmão.

Muito para a frente, a música do regimento ia tocando uma marcha da guerra, soberba, triunfal, que fazia vibrar entusiasticamente a alma dos patriotas de Toul.(1)

 

*1. Pela reorganização de 2 de Maio de 1811 tinha o regimento uma pequena banda de dezoito músicos, La Legion Portugaise. pag. 192.

 

Mas para o coração de Maria Pulaski tinha aquela música um significado de marcha lúgubre, que lhe fazia vontade de chorar.

Estava-se em fins de Março.

Tinham chegado a Eisenah, pequena cidade do grão-ducado de Saxe Weimar, na confluência de dois rios.

O regimento fizera alto próximo dos arrabaldes. Teria vinte minutos de descanso. O coronel Pego mandou ensarilhar armas e sair de forma.

Por informações de uns habitantes da cidade, ali souberam que o 3.o corpo do exército, o do marechal Ney, tinha avançado para as margens do Vístula, havia já bastantes dias.

As carruagens estavam paradas no cruzamento de uma estrada para a fronteira da Áustria, por detrás da orla de um bosque.

Castro veio à retaguarda para se despedir.

- Luís, sempre que tu puderes, escreve-me. Tem dó de mim! - pediu-lhe Maria Pulaski.

- Sim, minha vida. Sempre. Tem ânimo, para que esta mágoa me seja menos pungente. Adeus!

- Adeus!

Abraçaram-se. A Beauchamp veio com o pequenino. Castro beijou-o num enternecimento que fazia dó.

Com os olhos afogados de pranto, Maria mal podia ver o sorriso angélico da criancita.

- Minha querida Beauchamp, seja a mãe extremosíssima que foi para ela - pediu-lhe o Castro numa comoção opressora.

Foi para os dois velhos, abraçou-os, beijou a mão a João Pulaski.

- Até à volta... e Deus queira que desta guerra possa ressurgir... a gloriosa Polónia dos grandes tempos antigos.

- Obrigado, Luís de Castro - respondeu-lhe André, abraçando-o num enternecimento de lágrimas.

- Bem haja, meu filho - rouquejou o cego, puxando-o para si a tremer - Deus o ouça e proteja, pela santa pátria polaca.

Castro foi como estonteado para a mulher e para o filho. Beijou-os outra vez.

Os tambores do regimento tocavam a reunir. Deitou a correr, enxugando os olhos.

Num arquejar violento de soluços, Maria pediu ao tio que mandasse as carruagens para uma volta da estrada, donde se podia ver o regimento.

Foram. Viam-se bem de lá os mil e quatrocentos portugueses do belo regimento do coronel Pego.

Descobria-se dali perfeitamente, com as suas enegrecidas muralhas o cavaleiro da cidade, o velho castelo de Wartburgo, onde Lutero estivera encerrado.

O regimento ia já a sair da cidade.

Outra vez a música triunfal da banda, num estridor belicoso de metais e de tambores, veio oprimir dolorosamente o coração de Maria Pulaski.

- Meu Deus! Como isto custa!

E de si para si, numa tortura de alma indefinível -.

- Se a morte mo levasse!...

Puxou o filhito para si, arrebatadamente, beijou-lhe a boca sorridente, humedeceu-lha nas suas lágrimas.

Já vinham sumidas as vibrações da banda marcial.

As carruagens rodavam pela estrada fora a caminho da fronteira austríaca.

E numa curva alta da estrada o regimento lá ia desfilando, contingente minúsculo desse Grande Exército de seiscentos e oitenta mil homens, franceses, saxónios, dinamarqueses, suíços, bávaros, prussianos, wurtemburgueses, polacos, hanoverianos, badenses, italianos, ilírios, austríacos, vvestefalianos, portugueses e espanhóis.(1)

Nunca na Europa se reunira até então um exército regular de tamanho poder; mas também, além do Vístula, os exércitos do Czar ascendiam ao efectivo enorme de meio milhão de soldados.(2)

Como não havia de ser espantosa aquela campanha de um milhão de homens.!(3)

 

*1. Nem todos para entrarem em campanha. Adicionando as forças que deviam entrar em operações, as que constituíam a reserva, as guarnições das grandes praças de Dantzig, Magde-burgo, Koenigsberg e Hamburgo, e as tropas dos serviços auxiliares, o Grande Exército chegava a um efectivo de 680.000 homens com 176.850 cavalos segundo o quadro de Eugênio Labaume, em serviço na secção histórica do Depósito geral da guerra, (Relation complete de la campagne de Russie en 1812).

  1. Segundo o barão Fain, secretário arquivista de Napoleão, a Rússia tinha na fronteira do Grão-Ducado de Varsóvia, em 1 de Janeiro de 1812, um exército de 215.000 homens. Com as grandes guarnições e os exércitos do Danúbio, da Criméia, do Cáucaso e da Geórgia, o total das suas forças armadas excedia 500.000 homens.

Fain baseia este cálculo nos dados apresentados pelo coronel Butturlin, ajudante-de-campo do Imperador da Rússia, no seu livro àcêrca daquela campanha.

Thiers considera Butturlin o mais sincero e imparcial dos historiadores russos que trataram da guerra de 1812.

  1. E, todavia, aqueles dois exércitos reunidos não excederiam hoje a quarta parte do exército da França ou da Alemanha, no meio desta Europa, tão oprimida de milhões de soldados e tão acalentada de generosas utopias!

 

             A invasão da Rússia.

De Wilcowiski em 22 de Junho, Napoleão proclamava ao exército a guerra contra a Rússia.

Dizia assim num grande tom de altivez e na forma profética, muito do seu uso nas proclamações destinadas a reacender até na sua prodigiosa estrela:

«Soldados! Está começada a segunda guerra da Polónia; a primeira terminou em Friedland e Tilsit! Em Tilsit jurou a Rússia uma perpétua aliança com o império francês e a guerra contra a Grã-Bretanha. A Rússia violou o seu juramento! Não quis dar explicações do seu estranho proceder e as águias da França não podem atravessar o Reno deixando os seus aliados ao desamparo. A Rússia obedece à sua própria fatalidade e o seu destino há-de cumprir-se. Supor-nos-á degenerados e não seremos nós ainda os soldados de Austerlitz? Colocou-nos entre a desonra e a guerra. Não podemos ter dúvidas na escolha. Avancemos, pois, passemos o Niemen, levemos a guerra ao território moscovita. A segunda guerra da Polónia será de tanta glória para as armas francesas como foi a primeira; mas a paz que nós fizermos terá em si mesma a segurança do futuro, pondo têrmo a essa funesta influência que há mais de cinquenta anos a Rússia tem exercido nos negócios políticos da Europa.»

iremos saber como a fortuna respondeu ao conquistador e ao profeta.

Da Rússia é que êle pressentia agora o perigo maior para o seu fenomenal poder.

E tanto assim era que para poder formar aquela espécie de cruzada europeia contra o Czar, celebrara tratados de aliança com a Prússia e a Áustria para que lhe dessem soldados ou ficassem neutrais, e até com a própria Turquia, para que fosse uma constante ameaça nas fronteiras da Rússia meridional.

Já o Grande Exército se concentrava para as bandas de Oder quando estes tratados se firmaram.

Mas não era tudo para aquele receio do império enorme ou para aquele empenho de o esmagar.

Em Abril iniciara Napoleão negociações de paz com a própria Inglaterra, provavelmente convencido de que não tinha meio de a vencer no isolamento das suas ilhas, nem na plenitude soberana do seu predomínio marítimo.

Para isolar a Rússia esquecera vinte anos de lutas formidáveis!

Quem fêz a proposta dessas negociações, quási desconhecidas, foi o Duque de Bassano, em nome do Imperador.(1)

É interessante conhecer as bases das negociações propostas pelo Duque a Lorde Castlereag:

A independência e a integridade da Espanha.

 

*1. O Barão Fain resume aquelas negociações de oito dias no capítulo VIII do tomo I da sua obra àcêrca da guerra da Rússia em 1812.

 

A França retiraria os seus exércitos para além dos Pirenéus e a Espanha ficaria com a sua constituição e a dinastia actual.

A independência e a integridade de Portugal. A Inglaterra e a França deixariam este reino à soberania da casa de Bragança.

Em Nápoles o stat quo com a dinastia deMurat; na Sicília a antiga dinastia do rei Fernando de Bourbon.

Se a Inglaterra aceitasse as negociações sobre estas bases capitais, a Rússia ficava isolada e submetia-se.

A Inglaterra era naquela conjuntura o poder árbitro da paz ou da guerra, dizia Napoleão.

Mas seria sincera esta proposta? Aceite pelos ingleses, asseguraria a paz da Europa?

Com os duzentos e cinquenta mil homens que retirassem da Península e mais seiscentos e oitenta mil que tinha a caminho da Rússia, até que ponto se limitariam as irrequietas ambições de Napoleão? A diplomacia inglesa acreditou ou fingiu acreditar na boa fé da proposta e pediu este simples esclarecimento: O que se entendia por dinastia actual da Espanha? A de José Bonaparte, representando a conquista, ou a de Fernando VII, representando a legítima soberania da nação espanhola?

De boa fé não se podia admitir a integridade da Espanha com um rei de conquista e de outro modo o governo inglês não tomaria em consideração as propostas da França.

O imperador sonhava ainda com o reino espanhol comandado por um dos seus marechais, como o de Nápoles e como o de Westfália; o trono mudado em posto militar, o país em acantonamento, sujeito às suas ordens, e as negociações malograram-se.

Podia aplicar-se a Napoleão aquela frase da sua proclamação a respeito da Rússia: Arrastava-o a própria fatalidade; tinha de cumprir-se o seu destino.

Durante a noite de 23 o general Eblé, aquele nosso conhecido da terceira invasão de Portugal, dirigira o lançamento de uma ponte sobre o Niemen.

No dia seguinte, ao romper da manhã, o espectáculo era imponente.

Nas alturas de Alexioten, cercado do seu grande estado-maior, Napoleão assiste à passagem de duzentos mil homens dos corpos de exército de Davout, Príncipe de Eckmhul, de Oudinot, Duque de Reggio, de Ney, Duque d'Elchingen, do exército de Murat, rei de Nápoles e da Guarda Imperial com os seus marechais Bessières, Duque de Istria, Lefèvre, Duque de Dantzig, e Mortier, Duque de Treviso.

Temos ali muitos conhecidos nossos da última campanha de Massena, esquecido em França, num comando militar obscuro.

Além, com os couraceiros, os hússares e dragões de Murat, aquele espectaculoso Montbrun, de flamante penacho, pelica espaventosa e botas vermelhas como nos dias do Buçaco e de Fuentes d'Onoro.

Mas procuremos os nossos portugueses. Ali temos o regimento do Coronel Pego na primeira divisão do corpo de Ney, a do general Ledru.

Na divisão de Hazout, do mesmo corpo, o 2.o regimento com os quadros de portugueses e a maior parte do efectivo composto de soldados espanhóis, aprisionados nas batalhas perdidas em Espanha.

Comanda-o interinamente o valente major Cândido José Xavier.

O 8.o regimento da Legião, um núcleo de portugueses com mais de um milhar de prisioneiros espanhóis, está no corpo do exército de Oudinot.

Com a Nova Guarda do Marechal Mortier vem o regimento de caçadores a cavalo da Legião, comandado pelo Marquês de Loulé.

Mas, enquanto aqueles duzentos mil homens atravessam o Niemen defronte das alturas de Alexioten, vinte e cinco mil prussianos do comando do marechal francês Macdonald, Duque de Tarento, o estão atravessando em Tilsit.

Seis dias depois (30) os setenta mil italianos e franceses do Príncipe Eugênio passavam o rio em Piloni e os vinte e cinco mil polacos de Poniatowski, os quarenta mil franceses e westfalianos de Reynier, de Latou Mauburgo e de Jerónino Napoleão, rei da Westfália, passavam-no em Grodno.

Já então se tinham extraviado ou haviam ficado nos hospitais, dwrante aquelas marchas longuíssimas de três meses, algumas dezenas de milhares de soldados. Era um péssimo prenúncio.

O contingente da Áustria, trinta mil homens, ainda se não tinha aproximado da fronteira polaca.

O grande Exército atravessara a Polónia, depois as estepes, os pântanos e os bosques da Lituânia.

Os russos retiravam e Napoleão reacendia na alma dos patriotas polacos o sonho heróico da Polónia rediviva.

Mas os homens preponderantes de Varsóvia instavam pela imediata e completa integridade da velha Polónia e a isso se oporia Napoleão por causa da Áustria, sua aliada, dominadora de um largo quinhão do território polaco.

O que ao Imperador convinha era ter na Polónia, arrancada à Rússia, uma forte e sólida base de operações, um dique de peitos valorosos a conter as mnltidões moscovitas, mãos possantes de heróis que estrangulassem, em qualquer futura arremetida, a águia branca dos czares.

Na febre e na santa ingenuidade das suas crenças patrióticas, os polacos oferecem-lhe todo o sacrifício do seu sangue e dos seus recursos, e no parlamento de Varsóvia um velho de cem anos, o Príncipe Adam Czartorinski, abre as sessões pondo a sua alma num grito de ressurreição pela Polónia antiga.

- Sim, nós somos sempre a Polónia! - exclama: - Oh! dia mil vezes ditoso, dia de júbilo e triunfo!

«Esta fecunda terra de heróis, esta terra dos Jagelões e dos Sobieskis, vai retomar os seus gloriosos destinos. Reivindicaremos esses direitos que nos deu a natureza e os esforços dos nossos antepassados.(1)

Pobre sonhador de cem anos! Quem sabe ainda qual águia afortunada, dessas duas que vão de garras encurvadas a voar para os campos de batalha, virá parar sobre as torres de Varsóvia, como um símbolo de ressurreição ou como um agoiro tremendo de morte?

Qual? Essa de plumagem de oiro que levantou vôo das margens do Sena, ou a outra de plumagem de neve, a esvoaçar alto para aquém do Moscova?

Vão dizê-lo dois mil canhões, vai escrevê-lo um milhão de baionetas.

A boa fortuna da campanha estava do lado dos franceses, e tanto as coisas pareciam dispostas em seu favor que, durante a demora do imperador em Wilna, se fizeram umas tentativas de conciliação, propostas pelo Czar a Napoleão.

Em retirada, isolado, perseguido por uma grande parte das forças francesas, o exército russo de Bagration estava numa situação quási desesperada. Em menos críticas circunstâncias, mas retirando também, perseguidos, cortados um dos outros, o exército de Marcial de Tolly, o corpo de Dorokff e os cossacos do general Platow.

 

*1. São palavras traduzidas da obra do Barão Faint - Manuscrit de mil huit cent douzes - tom 1, pág. 183 e 184.

 

Não se travara ainda nenhuma grande batalha nem mesmo houvera combates importantes, mas a campanha parecia já um desastre para os russos.

Foi nestas condições que o Czar mandou a Wilna, como seu parlamentário, o general Balachof, seu ajudante-de-campo, e o ministro da polícia do Império. Alexandre propunha que se negociasse a paz sob promessa da Rússia entrar no sistema de bloqueio continental contra a Inglaterra; mas que as negociações se começassem depois do exército francês ter retirado para além do Niemen.

Napoleão rejeitou a proposta. Aceitaria as negociações de paz, mas ali mesmo, directamente, entre êle e o Czar, sem que o exército francês tivesse de retirar. Era isto exactamente o que não convinha ao imperador Alexandre.

Com os franceses para além do Niemen, as negociações dar-lhe-iam tempo de reforçar os seus exércitos, depois de ter salvo de um desastre as tropas de Bragation.

Napoleão percebeu o estratagema; estava por êle a razão, repelindo-o. O luto enorme daquela guerra era uma fatalidade inevitável.

Ney ordenara ao coronel Pego que lhe escolhesse um oficial dos mais intrépidos, dos mais inteligentes e ilustrados, para ficar agregado ao seu estado-maior. Queria ter consigo quem lhe desse esclarecimentos especiais acerca dos corpos portugueses e fosse seguro intérprete das ordens directas que houvesse de mandar-lhes.

Apesar das escusas de Luís de Castro, foi êle o escolhido pelo Coronel.

Custava ao Pego que se lhe afastasse do regimento aquele excelente oficial, mas naquela escolha cumpriria lealmente as ordens de Ney, que desde o começo de campanha timbrara em dar ao regimento os mais honrosos testemunhos de apreço.

Vamos encontrá-lo já no estado-maiordo Marechal, defronte do campo entrincheirado de Drissa, aonde o exército de Barclai de Tolly se fora acolher.

Ali todas as tropas francesas estavam sob o comando superior de Murat. O corpo de exército de Ney apoiava o flanco esquerdo das forças do rei de Nápoles.

Estava-se em meados de Julho. Nos últimos dias de Junho recebera Luís de Castro uma carta da esposa e outra de André Pulaski, trazidas por um estafeta particular, que o polaco havia tomado para o seu serviço especial.

Respondera-lhes e estava agora à espera de novas notícias.

Vamos procurá-lo a uma casa de Drisviaty, onde se instalara o estado-maior do marechal Ney.

Castro está no seu quarto com um dos ajudantes do Marechal, seu conhecido da campanha de 1810 e agora um dos seus íntimos.

- Sabe, meu caro Castro, que esta campanha me está lembrando muito aquela última de Portugal?

- Porquê?

- Porque os russos abandonam as povoações, como faziam os do seu país, e os exércitos retiram diante de nós, sem nos dar batalha, como fêz lorde Wellington, até chegar aos cerros do Buçaco.

- Mas talvez este campo entrincheirado de Drissa não valha para Barclai de Tolly o que valeu para Wellington a serra do Buçaco.

- Oxalá. Conto muito com os soldados que temos, mas os russos são intrépidos, têem o fanatismo da pátria e eu receio desta mescla de nacionalidades que trazemos aí.

- Os portugueses hão-de cumprir aqui o seu dever de soldados, como há três anos cumpriram na Áustria.

- Eu sei, mas não é por esses que eu falo. Referia-me aos vinte e cinco mil prussianos e aos trinta mil austríacos, nossos auxiliares. São de nacionalidades que nós humilhámos, de nacionalidades que nos odeiam, muito vizinhos da Rússia, seus aliados de há seis anos. Mas, aqui para nós, muito francamente como amigos lealíssimos que somos, o meu maior receio não provém desses elementos hecterogéneos do Grande Exército, mas de uns certos sintomas inquietadores! Os soldados estão vivendo da pilhagem, temos quadrilhas de maraudeurs, como no exército de Massena; esbandalham-se regimentos e brigadas em busca de subsistências e a disciplina vai afrouxando espantosamente. Tem havido violências revoltantes, praticadas por alguns regimentos em massa, e o número dos extraviados e dos desertores excede muito o dos doentes e estropiados, que deve ir além de quarenta mil!

- É incrível!

- E é a verdade. Vi uma cópia da ordem do dia em que o Imperador mandou constituir uma comissão para o julgamento dos crimes de pilhagem e três colunas móveis para perseguição dos rapinantes.(1) O nosso corpo de exército tem já perdido em extraviados mais soldados do que perderia em mortos e feridos numa grande batalha! As cenas de Portugal, e ainda estamos no princípio da campanha e ainda não sofremos um desastre! Calcule o que será, se perdermos uma batalha!

 

*1. Ordem do quartel-general imperial em Wilna no dia 3 de Julho.

 

- Os soldados do meu regimento têem sofrido privações, têem passado dias sem receber rações de pão, mas não se atrevem a ir à pilhagem, porque o coronel Pego não é para transigências.(1) E a propósito, deixe-me indicar-lhe uma coisa curiosa. Creio que em toda a história militar do meu país raras campanhas houve em que os nossos soldados não tivessem passado fome!

- É singular!

- Olhe, aí temos as duas mais recentes. Em 1808 foram para o Vimeiro sem terem recebido pão durante dias. O ano passado ouvi eu contar a um prisioneiro português da batalha de Fuentes de Onoro que, durante a retirada de Massena, os soldados meus compatriotas iam famintos dentro do seu próprio país e algumas vezes os da Inglaterra tiveram de lhes dar uns pedaços de pão de esmola! Houve os que morreram de fome pelas estradas! Muitos!

- É espantoso, e contrasta com o que eu sei dos soldados polacos de Poniatowski, aliás bravos como leões nos campos de batalha!

 

*1. Já antes da ordem imperial que organizava os meios repressivos contra a rapina e a destruição por grandes forças dispersas no exército, Napoleão havia expedido outras ordens contra aquela pirataria em terra firme, de Gubineu em 20 de Julho, de Wilkowiswki em 22.

Depois novas recomendações e novas ordens, e sempre com triste inutilidade!

No seu livro de réplica ao Conde de Ségur - Napolêon et la Grand Armée en Russie - indica o general Gaurgaud, ajudante-de-campo do Imperador, outras ordens posteriores e especialmente uma carta de Napoleão para o marechal Ney, por causa dos desmandos de wurtemburgueses do seu corpo de exército (4 de Junho), outra ao Príncipe Jerónimo por causa dos seus westfalianos e uma ordem de 20 de Julho a respeito das pilhagens feitas pelos soldados espanhóis. (Pág. 93, nota). No Grande Exército havia, além dos soldados espanhóis incluídos nos quadros portugueses do 2.o e 3.o regimento da Legião, um corpo de soldados só da Espanha, que se denominava regimento do rei José.

 

- Não sei a que se refere.

- Nem podia saber. Eu lho digo. Recebi de Wilna uma carta de um colega nosso, oficial às ordens de Berthier e, portanto, muito na convivência do estado-maior imperial. Conta-me várias cousas, os seus pressentimentos, os receios e, a propósito das privações do exército, me refere que o Príncipe Poniatowski escrevera a Berthier falando-lhe nas queixas e reclamações dos seus polacos, por estarem atrasados nos pagamentos e haverem passado dias a meia ração de pão.

- Ora, isso mesmo sucedeu no meu regimento, e veja lá se o Pego já fêz alguma reclamação.

- Pois as reclamações de Poniatowski surpreenderam tanto Berthier, que mostrou a carta do Príncipe ao Imperador.

- Napoleão?

- Mandou que Berthier escrevesse a Poniatowski respondendo-lhe com uma certa aspereza e, pouco mais ou menos, neste sentido, segundo o resumo da carta que recebi: Que Sua Majestade tinha ficado pessimamente impressionado por saber que êle falava de soldo e de pão, quando se trata de perseguir o inimigo. Que a própria Guarda Imperial tem sofrido privações maiores, a ponto de não ter recebido pão em alguns dias durante a marcha forçada de Paris a Wilna, e nenhumas queixas fizera. Que o Imperador soubera com sentimento daquela má vontade dos polacos contra os sacrifícios inevitáveis da guerra, aos quais só Os maus soldados se não sujeitavam, e esperava não tornar a ouvir falar de semelhantes reclamações.(1)

 

*1.A carta de Napoleão, indicando a Berthier a resposta a dar ao Príncipe Poniatowski, vem entre os documentos históricos publicados pelo general Faint no tomo I da sua obra. já citada, pág. 237 e 238.

 

- Dura resposta, mas nesse caso o Imperador tinha razão. Ouviram-se as guilheiras de um estafeta.

O francês foi à janela.

- Olé! um estafeta parado aqui defronte. Um velho a fazer perguntas àquela ordenança. O soldado apontou para aqui. Castro aproximou-se da janela.

- André Pulaski! - exclamou - Desculpe-me - disse para o francês - Vou receber aquele velho, parente de minha mulher. - Eu vou ter com o Marechal. Até logo. Castro desceu rapidamente. Ia num alvoroço de comoção e de receios.

- Que sucederia para êle vir cá?! - pensava oprimido. - Ei-lo! Aqui me tem! - disse o polaco, indo para êle de braços abertos. - Maria?! - perguntou-lhe antes de o abraçar.

- Descanse, meu caro Luís. Deixei-a de perfeita saúde e o pequenito cada vez mais robusto, e agora um abraço por ela e por mim. - Mas eu podia lá sonhar que se metia a caminho para aqui!

- Caprichos meus de tio piegas e aqui me tem. - Mas vamos para cima.

- Vamos, sim. Deixe-me dar umas ordens aos meus homens, e subo já. Efectivamente dali a instantes subiam ambos.

- Então queira sentar-se.

- Sento, sim. Quinze dias de estafeta moem deveras.

- Quinze dias do centro da Áustria aqui é maravilhoso!

- Os cavalos são excelentes e o condutor é um homem excepcional. Caprichos fáceis para quem tem dinheiro e não receia gastá-lo.

Em Wilna disseram-me que só as estafetas de Napoleão excediam a minha em rapidez. - Ouvi já que lhe têem trazido despachos de Paris, gastando somente doze dias no caminho. - Isso me disseram lá. Na véspera chegara a estafeta imperial. - Maria, resignada?

- Mal resignada. Excelente de saúde, mas sempre apreensiva, ralada pelos maus pressentimentos. O que lhe vale é o pequenito, o seu enlevo, o seu desafogo.

- Pois olhe que tive medo desta surpresa! Lembrei-me de alguma coisa grave. - Não, absolutamente nada. Como lhe disse já, caprichos meus de tio piegas. Tinham corrido por lá boatos de grandes batalhas... - Petas! Nem sequer combates importantes.

- Pois lá falava-se de uma horrorosa batalha e de nnmerosas vitórias dos russos! - Coitados! Por'ora não têem feito senão retirar. E Maria mortificada por essas mentiras? Imagino. - Bastante, bastante! Demais a mais, ouvi dizer a um polaco muito das minhas relações, que os cossacos já tinham chacinado regimentos inteiros do exército de Napoleão e que os mais temíveis eram os do general Platow.(1) - O tio daquele patife que nós sabemos.

- Imagine como a nossa pobre Maria ficou! A sonhar que Miguel Platow seria a alma danada do tio e a recear que fossem dos portugueses os regimentos chacinados. Calcule a sua amargura.

 

*1. Conta o general Uapp nas suas Memórias que, entre vários papéis apreendidos aos russos, logo no princípio da campanha. se encontraram proclamações e notícias fantásticas de vitórias em que alguns punhados de cossacos nos tinham batido a todos. E largas referências a Platow, o famoso Hetrnan dos cossacos. (Pag. 199).

 

Tinha a carta pronta para lhe mandar pela estafeta, como veio a outra, mas ninguém lhe podia tirar da cabeça o projecto de se meter a caminho! - Isso de modo nenhum! Aqui já se passa fome! - Mas eu via-a lavada em lágrimas, numa doidice de pressentimentos e de sonhos! Mandas a carta e daqui a um mês cá tens a resposta - dizia-lhe. Quem sabe o que lhe terá sucedido? - replicava-me numa dolorida tristeza, que fazia dó. Se os russos têem vencido onde poderá a estafeta encontrá-lo? Se estiver ferido, gravemente ferido, como há-de êle escrever-me? Enfim, eu já não tinha palavras que pudessem tranquilizá-la; aqueles seus receios oprimiam-me, e entendi que o melhor era meter-me eu a caminho, a Deus e à ventura. Pois irei eu levar-Lhe a tua carta, disse-lhe, e lá hei-de dar com êle, rijo e são, cheio de saudades por ti. - Meu devotadíssimo amigo!

- Devo confessar-lhe que eu próprio vinha pouco seguro do que lhe tinha dito a ela. Os boatos impressionaram-me e receava também que se houvesse dado algum grande desastre. Os jornais austríacos diziam que Napoleão estava já em Wilna, falavam dos primeiros movimentos dos dois exércitos, mas não se referiam a nenhum combate e a mim parecia-me inverosímil que houvesse passado tanto tempo sem nenhuma batalha. E depois, os boatos maus sempre se acreditam mais facilmente que as boas notícias. Eu sabia o prolóquio popular, que é, provavelmente, de todos os países: Tempo de guerra, tempo de mentiras. Mas olhe que vim oprimido até chegar a Wilna! Lá é que encontrei quem me desse notícias seguras, tranquilizadoras, e me dissesse onde poderia encontrá-lo. - As suas violentas jornadas!

- Isso é o que menos importa. Sou rijo: posso bem com estas jornadas assim.

- Sabe? Receio que Maria corra perigo, sem o ter lá a si.

- Ficou excelentemente guardada. O padre Diogo, a Beauchamp, um emigrado meu compatriota, que é um Hércules, e quatorze criados e guardas do parque. Gente para resistir a um assalto, ainda que lá pudessem chegar os cossacos. E eu mesmo lá estarei em doze ou quinze dias. Tenho boas mudas de cavalos por esses caminhos fora. - Mas descansa aqui alguns dias, está claro?

- Descanso.esta tarde e esta noite. Amanhã de madrugada regresso. Estou impaciente por aparecer lá a dizer-lhe, parodiando César - Cheguei, vi e voltei. Castro sorriu do gracejo.

- Saiba que em Wilna encontrei uma deputação de compatriotas meus de Varsóvia, que tinham ido para falar ao Imperador. - Adivinho já em que eles queriam falar.

- Na reconstituição da Polónia. Comoveu-me ouvi-los!

- Já tinham sido recebidos pelo Imperador?

- Já.

- Deu-lhes boas esperanças?

- As que levaram para lá eram imensamente melhores! Napoleão fêz-lhes muitas afirmações de simpatia pela Polónia e, com as boas palavras, umas vagas promessas; mas foi-lhes dizendo que o fim principal desta guerra era compelir a Rússia a reentrar na aliança contra a Inglaterra. A reconstituição da Polónia seria uma questão para depois. ' - Compreendo. A Áustria tem um quinhão da Polónia e a Áustria, pátria da esposa de Napoleão, é agora uma aliada dos franceses. - Isso respondeu êle à deputação da dieta de Varsóvia,

 

*1. Fain, Manuscrito de 1812, tomo I, pág. 216.

 

dizendo-lhe abertamente que havia feito à Áustria a promessa de respeitar a integridade dos seus domínios. - Quere dizer: a parte do território polaco usurpada pelos austríacos. - Exactamente. Pois sei que os meus compatriotas disseram a Napoleão palavras comovedoras de súplica e de justiça.(1) «Pobre Polónia! Há dezasseis anos que os soldados se batem pela França; não há campo de batalha onde Napoleão vencesse sem que o sangue polaco se não derramasse, e estou a suspeitar que o Imperador não fará a reconstituição completa da antiga pátria polaca, ainda que as suas águias se ergam triunfantes em Moscou e S. Petersburgo. - Então talvez êle ressurja a Polónia muito acima dessa miniatura artificiosa do Grão-Ducado de Varsóvia. Sem as suas largas fronteiras de há dois séculos certamente, retraída diante do quinhão austríaco, mas, todavia, uma forte individualidade política. Mas será preciso vencer os russos... - Tem dúvidas a esse respeito?

- Tenho receios. O povo está imitando o de Portugal em 1810: abandona os seus lares e destrói os recursos do país. Os exércitos do Czar retiram sem dar batalhas, ganhando tempo, deixando entrar as tropas de Napoleão, a seguirem na indisciplina, na devastação e na pilhagem o funesto exemplo do exército de Massena.

 

*1. Nas suas Memórias, o general Rapp dá uns largos trechos ào discurso pronunciado em Wilna pelo presidente da deputação polaca. Este, por exemplo: Sois aqui um enviado da Providência, tendes o poder em vossas mãos. Majestade, e é ao triunfo e ao valor dos vossos exércitos que nós devemos a existência do Grão-Ducado. Sire, dizei ao mundo que a Polónia existe e as vossas palavras hão-de valer por um decreto; há-de impor-se como uma grande e incontestável realidade.

 

Aquilo em Portugal foi horroroso, mas o sol é brilhante, o céu é lindo, a paisagem um encanto, sob aquele doce clima e isto aqui é uma coisa esmorecedora e triste e se o inverno chega com a sua mortalha enorme de gelos, sem estarem vencedores, no domínio seguro das grandes cidades. Mas, seja como fôr, esta guerra pode vingar a sua heróica Polónia, pode reerguê-la no mundo, e tanto basta para que eu me empenhe fervorosamente em dar-lhe também um quinhão do meu esforço. Como se fosse por uma segunda pátria - a sua, a de Maria, a minha de adopção, se à outra, tão fundamente estremecida me não deixarem voltar. André Pulaski abraçou-o.

- Deus seja por essas duas pátrias, meu querido amigo, filho adoptivo da minha alma. Na madrugada do outro dia despediram-se.

- Agora, meu caro amigo, aqui tem a minha resposta - disse, dando-lhe uma carta para a esposa - Aí lhe peço que não dê ouvidos a boatos e não consinta em sacrifícios como este seu. - Oxalá que sejam sempre assim os maiores que eu tenha de fazer. Adeus! E lá beijarei o pequenito por sua intenção. - Boa viagem, meu grande amigo! - disse, abraçando-o.

- E muitas vitórias por essas terras dentro, sem que as balas e as baionetas dos russos vão ao seu encontro, meu querido Luís. E a promessa feita há-de cumprir-se. Lá há-de ter-me de visita em Moscou ou em S. Petersburgo. - Se lá pudermos chegar.

- Não será coisa de milagre.

- Mas, por quem é, não traga Maria consigo, nem ela nem o pequenito, enquanto não souber de alguma vitória decisiva, que nos assegure o domínio de qualquer grande cidade. Que o mais prudente será não a trazer, sobretudo se o Inverno tiver chegado. - Pois sim. Adeus!

O polaco subiu para a caleça, tirada por uma parelha de cavalos robustíssimos. Iam nas almofadas dois croatas como dois gigantes. O carro deitou por ali fora à desfilada.

Aproximou-se então de Luís de Castro o ajudante-de-campo, seu íntimo. - Um belo e desempenado velho aquele polaco, tio de sua esposa! - De fibras de aço e com o mais adorável coração que se pode sonhar. Mas hoje madrugou muito, meu caro amigo! - Saí ainda de noite com uma ordem para o general Razout.

- Vai deitar-se?

- Não tenho sono. Sabe? Chegou ontem à noite um ajudante do Imperador. - Não sabia.

- Com uma carta e vários despachos para o Duque d'Elchingen. O Imperador vai sair de Wilna. - Ainda bem, para ver se isto acaba depressa.

- Não imagina o regalo que eu tive de ouvir aquele nosso colega a contar-me as recepções no palácio real de Dresde, em meados de Maio! - História antiga - disse o Castro, sorrindo.

- Uma coisa soberba que me envaideceu.

- Pois então passeemos e conte-me esse caso que o encheu de vaidade. - Sabe que Napoleão esteve uns dias em Dresde?

- Sei.

- Esteve lá de 16 a 20 de Maio. Tinha saído de Saint-Cloud com a imperatriz. - Também ela veio?!

- Não passou de Dresde. Foi uma viagem triunfal.

Imagine que em Maiença lhe foram prestar homenagem o príncipe Anhalt-Coenthen, salvo erro, e os grão-duques da Hessen-Darmstadt. Depois, em Wurtzburgo, o rei do Wurtemberg, o grão-duque de Baden e outro cujo nome não me lembra agora, mas sei que é um tio da Imperatriz; em Freyberg o rei e a rainha de Saxe. Em Dresde a rainha de Westfá-lia, os príncipes reinantes de Saxe-Weimar, de Saxe-Coburgo e de Dessan e não sei que outro. Dois dias depois o imperador e a imperatriz da Áustria; um pouco mais tarde o rei da Prússia e o príncipe real. Veja se não parece um sonho! Em volta do triunfador uma corte de reis e de príncipes naquela homenagem excepcional! Todos os reinantes da soberba Alemanha, como satélites daquele homem assombrosamente extraordinário que enche o mundo! Em Dresde o Imperador costumava sair dos seus aposentos às 9 horas da manhã! Pois a essa hora já na sala de recepção todos esses monarcas e príncipes o esperavam como simples cortesãos!(1) - Tem razão para se envaidecer com isso, meu caro amigo. Parece que não pode ter queda um poder assim formidável! - Uma ironia?

- Não. Parece, disse eu. Sei pela história como têem caído os maiores poderes. Os imperadores de Roma chegaram a dominar quási todo o mundo antigo. - E caíram. Envaideceram-me as homenagens de Dresde, mas ainda ontem lhe falei dos meus receios a respeito desta campanha.

 

*1. «Quando em 1812 Napoleão estava em Dresde, rodeado de todos os soberanos da Alemanha, comandante em chefe de um exército de quinhentos mil homens de quási todas as nacionalidades da Europa, nenhum cálculo humano julgaria possível que a sua empresa da Rússia não tivesse o desfecho de um êxito, (Madame de Stael - Considérations sur la revolution française, Tomo II, pág. 401).

 

Os destinos do Império estão agora entre a Península, onde se vencem e perdem batalhas, e este imenso país onde ainda se não deu nenhuma. - Sabe-se alguma coisa da Península?

- Sabe. Chegaram notícias atrasadas de uns combates na fronteira Portuguesa com má fortuna para nós.(1) Veio informação a respeito do 3.o cerco de Badajoz. O general Fíllipon defendeu-se heroicamente com o seu punhado de franceses, mas os anglo-portugueses conseguiram afinal tomar a praça. Parece que houve assaltos sanguinolentos, em que os aliados tiveram perdas enormes, segundo as nossas informações.(2) Esquecia-me o cerco de Ciudad Rodrigo pelos ingleses e portugueses(3), mas esse tiveram eles de levantar, ameaçados pelo exército de Marmont. - E com as tropas espanholas?

- A fortuna por nós. Depois do cerco de Tarragona, um dos mais sangrentos que as nossas armas têem tido na Espanha, Suchet foi sobre Valência. O general Blake teve a má ideia de sair da praça com os vinte mil soldados que lá tinha e foi derrotado por Suchet ao pé da laguna de Albufera, no dia 26 de Dezembro do ano passado. - Que má sorte a dos exércitos da Espanha!

- A 9 de Janeiro a cidade de Valência entregava-se com um material de guerra importantíssimo e dezoito mil homens, que ficavam nossos prisioneiros.(4) Mas julguei que já soubesse disto!

 

*1. O de Alfaiates (27 de Setembro de 1811) foi o mais importante. Entraram nele 10.173 portugueses.

  1. O 3.o cerco de Badajoz durou de 17 de Março a 6 de Abril de 1812. Com as tropas inglesas sitiaram e deram assalto à praça 14.810 portugueses.
  2. De 17 a 19 de Janeiro de 1812.
  3. Segundo os historiadores franceses, pela entrega de Valência, resultado da vitória de Albufera, os franceses fizeram prisioneiros 18.000 espanhóis, entre os quais 23 generais, e tomaram-lhes 21 bandeiras e 393 peças de artilharia de praça e de campanha. Blake, o general vencido, foi mandado para o forte de Vincennes, onde estava preso Palafox, o heróico defensor de Saragoça.

 

As notícias oficiais chegaram a Paris em fins de Janeiro. Os periódicos reproduziam-nas em princípios de Fevereiro. Ainda estava em França, não é assim?

- Estava, mas, por qualquer circunstância de que me não lembro, deixei então de ver o Moniteur que trazia a notícia dessa batalha.

- Pois Suchet, marechal do Império e também Duque de Albufera, tem dentro da esfera do seu comando militar o Aragão, Valência e a Catalunha. - Wellington disse bem; - pensava Luís de Castro- hão-de ser os ingleses com o exército de Portugal quem há-de libertar a Espanha.

- Está já um calor insuportável! - notou o oficial francês - Será maior que o de ontem, que era de frigir os miolos.(1) Se o Inverno lhe corresponder nos excessos e a campanha durar até lá, estamos servidos! Eu vou para cima. Fica?

- Fico. Vou ver se me dão licença para visitar o meu regimento.

- Pois então até à tarde - disse o francês, apertando-lhe a mão.

Não podemos seguir as operações do Grande Exército.

Iremos procurá-lo defronte de Smolensko, já em meados de Agosto. Ali procuraremos o corpo de exército de Ney,

 

*1. «O calor era excessivo e até as noites estavam ardentes, marcando o termómetro 26 e 27 graus.» (Fain, Manuscrito de 1812, tomo I, cap III). Trovoadas houve muitas e algumas tempestades, mesmo excluindo a que foi inventada pelo Conde de Ségur, para dar uns tons trágicos à soberba passagem do Grande Exército pelas pontes militares do Niemen.

 

para acompanharmos o 1.o e o 2.o regimento da Legião Portuguesa.

Como já sabemos, o 3.o está no corpo de exército de Oudinot, comandado por Castro Pereira; mas interessa-nos menos, não por desapreço, mas porque é quásitodo constituído por soldados espanhóis. Valentes, sofredores, é incontestável, mas estrangeiros para nós.

Nenhuma batalha importante se travara até então.

Barclai de Tolly abandonara o campo entrincheirado de Drissa para se ir juntar ao exército de Bagration e cobriria a estrada de S. Petersburgo. Deram-se uns de importância, sendo os de Ostrowno os mais sanguinolentos.

Em Moukawitz uma brigada saxónia do corpo de exército de Reynier foi envolvido pelos russos e rendeu-se; em Jacoubovo a vanguarda de Oudinot teve de retirar; em Oboiazina Oudinot bateu os russos; em Inkowo as tropas de Sebastiani sofreram um revés importante.

Mas os dois combates de Ostrowno tinham sido duas vitórias para as tropas napoleónicas e os exércitos russos continuavam a retirar.

Em Witepsk esperava Napoleão que os exércitos do Czar lhe dessem batalha.

Não deram; retiraram, e a 10 de Agosto o Imperador resolveu marchar contra Smolensko, a velha cidade lendária da grande Rússia.

A 12 os corpos de Murat e Ney partiam dos arredores de Liosna, e na estrada para Kiew juntou-se-lhes a Guarda Imperial. Marcham torneando o flanco esquerdo do exército russo. Na noite de 13 estavam nas margens do Dnieper, o Borysthenes famoso dos tempos remotíssimos. As tropas de Ney bivacam em Khomino, juntamente com as de Murat. Não muito longe dali está armada a tenda de campanha do imperador.

Em 14, de manhã, aqueles dois corpos atravessam o Dnieper numa ponte de cavaletes. Constituem agora a vanguarda do Grande Exército.

Entraram numa grande estrada orlada daquelas árvores brancas que nascem e vivem largamente nos países da neve.

Em outros pontos do Dnieper se estava efectuando a passagem do Grande Exército pelas pontes que Eblé mandara construir. E em dois dias todas aquelas massas enormes de tropas marchavam pela grande estrada que de Varsóvia ia dar a Moscou. Foi este um dos melhores movimentos de Napoleão no conceito do historiador russo Butturlin.

A vanguarda de Ney está muito próxima de Smolensko. Já se avista a velha cidade sobre as suas duas colinas, cortadas pelo Dnieper. Bairros modernos a circundam como que aconchegados às antigas muralhas de grandes torres seculares.

Luís de Castro fora comunicar uma ordem do marechal Ney ao general Ledru. Havia probabilidades de travar combate. Castro devia acompanhar a divisão e levar ao Marechal qualquer informação extraordinária.

Com permissão do general, Castro foi para as avançadas da divisão, das quais fazia parte o regimento do coronel Pego.

- Um calor sufocante, meu Coronel!

- Excepcional! Os nossos homens vão aí esbraseados. Ontem de tarde vi uns poucos a escavarem o chão com as baionetas em busca de uns bochechos de água.(1)

Ouviram-se tiros para a frente.

 

*1. Vide Relação completa da campanha da Rússia em 1812, por Eugênio Labaume, pág. 97.

 

Da cavalaria daextrema vanguarda veio a toda a brida um oficial avisar que se tinha encontrado o inimigo.

- Cossacos, infantaria e artilharia - informou. Era a divisão do general Neverowski, vinda havia

pouco de Moscou. Estava para os lados de Krasnoi.

- Castro - disse-lhe o Pego - vá avisar o Marechal.

- Imediatamente - respondeu, metendo o cavalo para a retaguarda a toda a brida.

Para a frente a artilharia trovejava. Foram avançando lentamente. Em Liadi avistaram um turbilhão de cavalaria.

Eram cossacos. Conheciam-se bem pelas jaquetas vermelhas, pelos gorros ponteagudos de peles, pelas barbas hirsutas, pelas compridas lanças.

Os seus pequenos cavalos, lanzudos, feios, rijos, velozes, avançavam em carreira desordenada, vertiginosa, para o regimento do Pego.

O coronel mandou formar quadrado. Os cossacos caíram então sobre êle com doida fúria, soltando gritos selvagens, sinistros como uivos de feras.

Cargas sobre cargas. Os nossos soldados, negros da pólvora, sem as barretinas que tinham atirado ao chão por causa do calor, afogueados, firmes, resistiam admiravelmente.

De súbito, à frente dos esquadrões, um oficial de estatura hercúlea arroja-se contra uma face do quadrado, êle e quarenta dos mais resolutos; esmagam as primeiras filas de uma companhia e entram aos gritos de vitória. O esquadrão está roto.

- Enterram-se cá dentro! - grita o coronel Pêgo, fazendo avançar para eles uma fileira de reserva da face oposta - Apertar com eles, rapazes!

Era um inferno medonho lá dentro! Gritos, pragas, gemidos, tiros quási peito a peito, as baionetas cruzando-se alto com as lanças.

E do lado de fora, sobre as outras três faces intactas do quadrado, cargas sucessivas, que se quebravam contra aquelas muralhas de homens.

Nisto da retaguarda vem um oficial a toda a brida com o cavalo branco de espuma.

- Malditos! - exclamou, atirando o cavalo para a brecha do quadrado.

Acutila dois cossacos que se lhe opõem. Os outros do esquadrão que investia aquela face julgam-no comandante de alguma força de cavalaria francesa que chega, e recuam.

- Soldados de Portugal, como em Baumesdorf! - grita Castro, acutilando furiosamente os cossacos, já dentro do quadrado.

Voltou-se para êle o gigante, chefe do esquadrão.

- Platow! Canalha! - bramiu Luís de Castro.

E despede-lhe uma cutilada, que lhe escalavra o

braço esquerdo.

- Cão vilíssimo!-rugiu o russo num grito de dor. Ao mesmo tempo um granadeiro matava-lhe o

cavalo com uma baionetada. Era João Luís.

Mas logo três cossacos vieram em auxílio do chefe. Um atravessa com uma lançada o braço direito do granadeiro, o outro atira com o cavalo para cima de Luís de Castro, já apeado, porque o seu cavalo caíra extenuado e deitara-o por terra, e o terceiro consegue levantar para si o corpo ensanguentado de Miguel Platow e, cravando as esporas nos ilhais do seu konake(1) semi-selvagem, atira-se em dois saltos enormes para fora do quadrado.

 

*1. Cavalos cossacos irregulares. São apanhados nas florestas e nas estepes em estado selvagem; ágeis, rijos, sustentam-se de mato como as cabras e galgam sem nenhuma fadiga nove e dez léguas por dia.

 

Castro ergueu-se contundido e correu para o João Luís.

- Não se aflija, meu Capitão. Tenho boa carnadura. Isto é coisa para duas semanas. O pior foi o patife escapar-se. Mas ficará para a outra vez.

Entretanto chegava a toda a brida a cavalaria da divisão e os cossacos deitaram à desfilada para além de Liadi.

O coronel Pego manda formar coluna, aperta a mão a Luís de Castro e avança a marche-marche pela estrada de Krasnoi.

Vem já atrás dele toda a divisão Ledru, mas são os soldados portugueses que fazem a primeira investida à baioneta contra um regimento russo que se opõe à entrada daquela cidade.

Repelidos os cossacos para o interior da povoação e depois expulsos dela, já então atacados por uma brigada, a divisão Ledru avança e vai atacar uma forte coluna, comandada pelo general Newerowski.(1)

Foi um combate renhido. Mas as tropas russas são atacadas de flanco por toda a cavalaria da divisão e por novos reforços que vêem chegando. O general russo compreende que lhe é preciso retirar para Smolensko, então quási desguarnecida de tropas, e concentra a sua divisão em duas colunas. Depois forma um grande quadrado e vai retirando e combatendo constantemente com admirável intrepidez.

Chegam mais esquadrões e despenham-se contra aquele formidável reduto de homens que se não rendem.

 

*1. «São batidos os cossacos e expulsos de Liadi; em seguida um regimento russo é repelido à baioneta para além de Krasnoi pela divisão Ledru, que vai afinal atacar para a retaguarda daquela cidade um corpo de oito a dez mil homens, disposto a manter-se ali resolutamente.» (Fain, pág. 358 do tomo 1 da sua citada obra).

 

Cargas sobre cargas com aquele ímpeto de furiosa bravura que caracteriza a cavalaria de Murat, mas a cidadela ambulante move-se, de quando em quando faz-se mais pequena para fechar as brechas abertas nas suas muralhas de peitos intrépidos, e o quadrado lá vai inexpugnável, envolvido na fumaceira das suas próprias descargas, como se tivesse uma só alma dentro do seu corpo de oito milhares de homens, perdendo bandeiras, que a cavalaria francesa lhe arrebata, abandonando canhões que já não pode arrastar consigo, deixando pelo caminho um lameiro de sangue, grup'os de feridos que se estorcem, pilhas de cadáveres que os esquadrões espezinham. Nem capitula, nem se entrega. Vai para a cidade lendária da Rússia naquela marcha trágica, heróica, sublime!(1)

Se a artilharia francesa chegasse! Derribava-se em alguns quartos de hora aquele reduto de homens. Mas a noite chegou primeiro. A perseguição termina nas alturas de Krasnoi, depois de quarenta cargas formidáveis. Aquele quadrado épico salvara-se.

Era a 14 de Agosto, véspera da festa natalícia do Imperador.(2) A sua tenda de campanha fora levantada naquele dia em Boyarin-Kowa.

Ao outro dia de manhã foram felicitá-lo Murat, rei de Nápoles, Eugênio de Beauharnais, vice-rei da Itália, Mavou, príncipe de Eckmuhl e Miguel Ney, duque d'Elchingen. Eram estes os marechais cujos bivaques estavam menos afastados daquele do Imperador.

 

*1. Fain, tomo I pág. 358-359. Ney no seu relatório de 2 de Novembro.

  1. Nascera a 15 de Agosto de 1769.

 

E com os marechais os seus brilhantes estados--maiores. Um deslumbramento, uma recepção de gala numa barraca de campanha.

Castro ia com o estado-maior de Ney.

Depois das felicitações, Murat e Ney pediram ao Imperador que viesse ver os troféus do combate de Krasnoi. i

Napoleão saiu da barraca. Apresentou-lhe as armas um regimento de granadeiros da Guarda, dois esquadrões de cavalaria avançaram em continência, escoltando mil e quinhentos prisioneiros russos, oito canhões e as atrelagens tomadas no combate da véspera.

- O nosso presente de anos para Vossa Majestade - disse-lhe Murat, apontando aqueles despojos. Ney estava junto dele.

E logo se ouviram as músicas nos bivaques e o estrondear das salvas em toda a linha. Uma cousa atroadora. Salvas de cem tiros de todas as baterias da Guarda e de três corpos de exército.

- Iremos amanhã tomar Smolensko - disse o Imperador para os marechais.

E logo a sorrir:

- Mas que desperdício de pólvora em tantos tiros! Pode fazer falta.

- Não faz, Majestade - acudiu Ney -, é a pólvora tomada aos russos.

- É então à custa deles que festejam o meu aniversário? - volveu-lhe Napoleão, sorrindo.

A distância, Luís de Castro envolvia o Imperador num olhar de admiração.

- Aos 43 anos - pensava - excedendo pelas vitórias os maiores conquistadores de todos os tempos! Quási tantas batalhas vencidas como anos de idade!(1)

 

*1. Até àquela data trinta e sete batalhas comandadas e vencidas por êle.

 

E quem sabe afinal o que fará dele o desespero da Europa humilhada? Chegaram até aqui os ecos do Buçaco, de Fuentes de Onoro e de Albuera. A Rússia imita a Península e, se os russos vencem, a Europa imitará a Rússia.

Naquele mesmo dia 15, o Grande Exército avançou para Smolensko; à noite a vanguarda estava a poucas léguas da cidade.

Pelas 8 horas da manhã do dia seguinte, a cavalaria ligeira de Murat e o corpo de exército de Ney avistavam as muralhas e as grandes torres antigas da praça.

- Enfim, uma grande cidade! - exclamavam os

soldados franceses.

No regimento do Pego um cabo de granadeiros manifestou de outro modo pitoresco a sua jubilosa impressão.

- Ora graças às cabaças que topámos uma cidade de jeito. Tem vinte vezes a nossa praça de Elvas! Assim ela tenha raparigas como as de lá.

E como o regimento estava em descanso e tinha tido a voz à vontade, o cabo elvense cantarolou a meia voz:

 

     Se fores a Elvas,

     Vai devagarinho,

     Olha lá não caias

     No tal barranquinho,

     No tal barranquinho Não hei-de eu cair,

     Que as meninas d'Elvas Hão-de me acudir.

 

E a mil e seiscentas léguas de Portugal consolava-o esta modinha alegre dos seus tempos de rapaz.

Nisto a voz do general a pôr o regimento em sentido.

- Agora é que nós vamos para o tal barranquinho - segredou um soldado ao cabo elvense.

- Se as meninas russas nos quiserem acudir... O Pego deu a voz de avançar. A cavalaria de Murat tinha batido os cossacos para dentro da cidade, e Ney mandara que as forças da sua vanguarda atacassem os atiradores russos que defendiam o bairro exterior, denominado de Krasnoi por estar contíguo à estrada que vinha daquela cidade.

O regimento do Pego, na vanguarda da divisão Ledru, que era a primeira de Ney,(1) estendeu em atiradores e avançou para uma ravina que os russos defendiam.

Aguentam-se admiravelmente os nossos atiradores e avançam com singular firmeza.

Mas o fogo de quatro mil atiradores inimigos era vivíssimo e novas forças de infantaria saíam da praça. Ney mandou então reforçar a sua vanguarda com um batalhão do 46 francês.

Partiu o batalhão a passo de carga, num ímpeto de bravura prodigiosa, investiu a infantaria inimiga que estava no caminho coberto da praça e rebateu-a para dentro da cidade.

Era intensíssimo o fogo dos russos. Uma bala quási fria, bala morta, como dizem os franceses, veio bater no pescoço de Ney.

- Eu vos mando já o troco - disse o Marechal com espantoso sangue-frio.

 

*1. O 1.o regimento, que fazia a testa da coluna da 1.a divisão, e por consequência a do 3.o corpo de exército... (Castro Pereira, História da Legião Portuguesa.)

 

E mandou avançar outro batalhão para apoiar o do 46, já em retirada.

O 46 volta ao ataque e de parte a parte se empenham numa luta encarniçada. O ímpeto dos atacantes é formidável.

Sessenta canhões da praça protegeram então com os seus fogos a retirada dos russos, que vão retrocedendo com intrépida serenidade.

Ney meteu a trote para o arrabalde de Krasnoi e diante do heróico batalhão do 46 disse alto para o general Ledru:

- Este ataque, de um batalhão contra uma fortaleza é o feito de armas de maior valor que eu tenho visto em todas as minhas campanhas.

Castro ouviu e comentou amargamente para o seu colega de maior intimidade:

- Não foi tal um só batalhão contra uma praça; mas dos outros se não lembrou o Marechal! Esse foi o mais brilhante pela arremetida, e sem nenhuma dúvida um batalhão de assombrosa bravura; mas aqueles estrangeiros lutaram por mais tempo e com uma intrepidez que também merecia louvor.

- Aqueles, os seus portugueses?

- Sim, esses.

- Homem de ímpetos leoninos, o Marechal mais reparou agora no batalhão francês e mais se entusiasmou com êle, por aquela soberba investida a passo de carga.

- E esqueceu os outros, a avançarem, com serena intrepidez, sob o fogo infernal de milhares de atiradores inimigos! Veja o número avultado de feridos que teve o regimento do coronel Pego. Mas são soldados de um país estrangeiro, pequeno, que em vez de ser aliado do Império, como os alemães e os polacos, é um inimigo dele.

 

*1. Fain, pág. 363 do tomo I da sua obra Manuscrito de 1812.

 

- Não tem razão para falar assim, meu caro Castro. Bem sabe que o Marechal tem os seus portugueses no mais alto apreço.(1)

- Foi injustiça esquecê-los agora.

- Êle reparará o esquecimento.

Segundo declarações dos prisioneiros russos daquele combate, dentro de Smolensko não havia apenas a divisão do general Neverowski, como se julgava, mas o corpo de exército de Rajewski, à espera de reforços do exército de Bragation, que estava próximo.(2)

O Exército de Barclai de Tolly também não estava longe, e assim em pouco tempo se poderiam concentrar na linha do Dnieper as mais poderosas forças do Czar.

Estava iminente uma grande batalha e talvez fosse ali o desfecho da campanha. Napoleão espera-a com alvoroço, planeia-a, dispõe para ela os corpos de exército que tem mais perto de si.

O corpo de Ney formava o flanco esquerdo do Grande Exército, o de Davout o centro, os polacos do Príncipe Poniatowski a direita, tendo a cavalaria de Murat a apoiar-lhe o flanco da direita. Em reserva o quarto corpo e a Guarda Imperial.

Contava-se que Junot entrasse em linha na extrema direita com o seu corpo de westfalianos, mas não havia nenhuma notícia dele. Não faltava já quem o supusesse perdido,

 

*1. O marechal Ney, comandante do 3.o corpo, fèz sempre grande apreço dos dois regimentos que tinha no seu corpo, e os empregou em todas as ocasiões em que havia riscos a correr e glória, a ganhar. (Castro Pereira, História da Legião Portuguesa).

  1. Era de 21.800 homens a guarnição de Smolensko e elevou-se a 30.200 com o reforço da divisão de granadeiros de Mecklemburgo.

 

no caminho por uma errada orientação da marcha.

junot não era já uma sombra do que fora. Nem sequer Lhe tinham ficado aquelas qualidades de rara energia e inexcedível arrojo que haviam sido a causa de toda a sua fortuna militar. O obscurecimento da razão amortecera-lhe o vigor e quebrara-lhe as bravezas leoninas de outro tempo. Abalado hússar em Rio Maior matara-o moralmente.

Pelo meio-dia começou a batalha. Do outro lado, pela estrada de S. Petersburgo, aparecem formidáveis colunas do inimigo. São do exército de Barclai de Tolly, que vem socorrer Smolensko.

Começou já o ataque aos arrabaldes de Roslaw e de Mitislaw. A cavalaria de Bruyères bate os cossacos e repele-os até ao Dnieper.

- Capitão Castro - mandou Ney - vá dizer ao general Ledru que ataque já aqueles entrincheiramentos.

E apontou o arrabalde de Krasnoi.

- Espere o resultado e venha comunicar-mo. Luís de Castro deitou à desfilada e foi transmitir aquela ordem ao general da 1.a divisão.

- Vá dizer ao coronel Pego que avance. A 1.a brigada vai já apoiá-lo - disse-lhe Ledru. Castro meteu a galope.

- Coronel, o General ordena que avance com o regimento contra aquelas trincheiras.

O Pego mandou formar as colunas de batalhão.

- Soldados! - bradou -, à baioneta como em Baumersdorf e em Wagram.

O regimento avançou a passo de carga, admiravelmente.

Era pavoroso o fogo de artilharia de parte a parte. Para a direita os polacos de Poniatowski investiam os russos com uma bravura em que referviam ódios patrióticos de dois séculos.

Depois de luta renhidíssima, a divisão Ledru tomou as trincheiras de Krasnoi e os defensores foram batidos para dentro da cidade.

O regimento de Pego perdeu muita gente. O 2.o do comando de Cândido Xavier também teve perdas enormes. -

São 5 horas. Estão tomados todos os arrabaldes da margem direita; os russos encerraram-se nos basteões da praça e só então chega Junot, entristecido, extenuado, morto de sede.

Perdera-se no caminho. Vai à tenda imperial procurar Napoleão; mas o Imperador fora ver as últimas fases da batalha.

Junot senta-se ofegante, de olhar amortecido, a apalpar a cabeça que o sol lhe esbraseara, a dizer umas coisas de mágoa por aquele seu erro na marcha.

Tem uma sede devoradora; não há água que lhe chegue.

Naquele dia perdera para sempre o seu ambicionado bastão de marechal.

Os russos não consideram a batalha concluída. Os de Smolensko pedem mais reforços; manda-lhos Barclai de Tolly e a luta recomeça.

Vai uma divisão de granadeiros para a porta Mala-koskia, da qual estavam quási senhores os soldados de Davout, e dois batalhões da guarda do Czar correm a reforçar os defensores da porta Nikolskoi, já quási esmagados pelos polacos.

Chegam reforços da divisão Alsufieff para opor às divisões de Ney, prestes a entrarem pela brecha rasgada no basteão do lado de Krasnoi.

A peleja prossegue com horroroso encarniçamento.

Anoitece. A praça não está tomada, mas os seus defensores foram repelidos, mas também o exército de Barclai de Tolly não entrara ainda em batalha com todas as suas forças.

Era preciso esperar pelo dia seguinte para assaltar Smolensko e dar a batalha decisiva.

O Grande Exército acantonou e estabeleceu bivaque nos arrabaldes que tomara.

Estava uma linda noite. Pela frente dos bivaques grupos de oficiais conversavam. Dos soldados só velavam os dos postos avançados.

Encaminhemo-nos para a casa onde está instalado o quartel-general de Ney, a um quarto de légua à retaguarda do bairro de Krasnoi, que a artilharia arrasara e pusera em cinzas.

Num jardim, à beira da estrada, passeavam os ajudantes-de-campo do Marechal e Luís de Castro com eles.

Em um banco, a pequena distância, o chefe do estado-maior conversava com os generais Ledru e Razout.

- É de justiça que o Marechal dê um testemunho de apreço ao regimento português da minha divisão - disse Ledru ' -Bateu-se admiravelmente!

Ney entrou. Vinha do quartel-general do Imperador.

- Amanhã tomaremos Smolensko e se o exército de Barclai de Tolly esperar por nós, teremos uma grande e decisiva batalha. Será, talvez, o desfecho da campanha, segundo ouvi ao Imperador.

- Foi pena que o Duque de Abrantes - disse o chefe do estado-maior - houvesse errado o caminho e não chegasse a tempo de nos ajudar a bater os russos.

- O Imperador está furioso contra êle. Ouvi-lhe eu dizer que Junot teve a culpa de não podermos obrigar os russos a depor as armas, e que o seu erro pode talvez impedir-nos de ir a Moscou. Exagero da cólera imperial, percebe-se, mas estava resolvido a tirar-lhe o comando do corpo do exército e dá-lo ao general Rapp. Felizmente, Rapp não ambicionava semelhante honra e condoeu-se de Junot. Com a intervenção de Berthier e de Caulaincourt lá se conseguiu que o Imperador poupasse ao Duque de Abrantes aquele desgosto, muito para o enlouquecer ou para o matar. ' Faz pena o estado a que chegou um dos homens de mais arrojo que tem tido o exército! Perdeu esta tarde o bastão de marechal, que há oito anos andava à espera de obter!

- Prestou serviços de valor. Foi seis vezes ferido em combate - disse Ledru.

- O último em Portugal e deste resultou a sua maior desgraça. Tem horas de espantosa irresolução como de mentecapto!

Ouviu-se de súbito um rumor prolongado para as bandas dos bivaques.

Chegava a galope o ajudante de um dos generais de brigada da divisão Ledru.

- Smolensko está a arder!

Foi uma trágica surpresa. Olharam para o lado

da praça. Levantavam-se ondas enormes de fumo negro por detrás das muralhas e, a espaços, clarões de fogo, em línguas imensas, punham uns tons sinistros em toda a amplidão da velha cidade lendária.

- É preciso prevenir o Imperador! – exclamou Ney.

Saiu logo um dos ajudantes-de-campo.

- Tem bairros inteiros de edificações de madeira; se o fogo continua assim, estará em cinzas dentro de poucas horas.(1)

- Fogo casual ou lançado pelos próprios russos?

- Talvez por eles. Têem pregado a guerra santa, e ouvi que estão dispostos a exceder a resistência bárbara que nos opuseram em Portugal - disse um dos ajudantes, que entrara na campanha de 1810 com o estado-maior de Massena.

Ia pelos bivaques um rumor enorme. E a fumaceira cada vez maior, as chamas cada vez mais altas!

Por detrás daquelas enegrecidas muralhas ardiam bairros inteiros.

Era uma hora da madrugada. O Grande Exército estava debaixo de forma.

Não se percebia ninguém nas muralhas. Era estranho.

A meia légua da cidade sufocava-se com os rolões de fumo que a aragem atirava para cima dos bivaques.

Numa impaciência e numa irritação inexcedíveis, o Imperador ordenou o assalto imediato.

Eram duas horas. Os regimentos da vanguarda marcham a passo de carga para o assalto, mas ninguém aparece nas muralhas, ninguém lhes resiste!

Arrombaram-se as portas a machado.

 

*1. Labaume diz a pág. 109 da sua Relação completa da campanha da Rússia em 1812.-. «e naquela formosa noite de estio viam os nossos olhos um espectáculo semelhante no que se vê de Nápoles por ocasião das erupções do Vesúvio».

 

Ninguém para defender a cidade, mas ouve-se um clamor imenso de súplicas e de desesperos.

Os regimentos passam, as bandas tocam marchas triunfais, vibram os clarins e os tambores batem o passo. Pelas ruas gente miserável que foge para as igrejas com as portas abertas de par em par, para as igrejas onde o incêndio não chegou; nas praças multidões de soldados feridos que se arrastaram para fora dos hospitais em chamas.(1) Pelas imediações dos terraplenos pilhas de cadáveres e, a poucos passos, grupos de feridos na extrema agonia.

Ruas inteiras ladeadas pelos esqueletos das casas, negros, ardendo ainda, numa moinha de fogo, a golfarem fumo como fornalhas.

Onde se lobrigava uma casa ainda intacta ou apenas tocada pelo fogo, para lá corria a soldadesca na ânsia do saque.

Entraram nas igrejas. Uma dor de alma! Estavam atulhadas de gente, em gemidos, em gritos, em súplicas, os olhos fitos nas imagens dos altares, crianças, velhos, mulheres, rudes jornaleiros e grandes senhores na mesma aflição de pavor!

O exército russo retirara pela uma hora da madrugada, desamparava-os.

- Ardeu o vespeiro todo! - comentava o cabo elvense, já nosso conhecido - Mas aí pelas igrejas já vi umas carinhas bonitas. Que eu prefiro lá as nossas de Elvas, de olhos pretos, que nem amoras maduras.

- E estas agora causam dó - respondeu-lhe um

soldado.

Era manhã clara. Luís de Castro vira todos aqueles horrores num confrangimento de alma.

 

*1. O exército russo tivera na batalha doze mil mortos e feridos; o de Napoleão 7200.

 

- Estes não tiveram coragem para abandonar a sua bela cidade morta - disse-lhe o seu colega e amigo do estado-maior de Ney.

- Como fizeram os das cidades e aldeias do meu país há dois anos.

- Abafa-se aqui dentro!

- É' um braseiro enorme!

Chegou outro ajudante.

- Espantosa audácia dos tais cossacos!

- Fizeram alguma nova proeza esses selvagens?

- Fizeram. Aparecem de todos os lados aqueles malditos! Atacaram para a retaguarda uma das nossas colunas de bagagens e aprisionaram uma estafeta que chegara da Áustria e vinha acompanhando a nossa escolta desde Wilna.

- Uma estafeta da Áustria?! - perguntou Luís de Castro como se um mau pressentimento o dominasse.

- Sim. Uma ordenança que veio trazer participação do sucedido, informou que a estafeta saíra das cercanias de Viena.

- Não sabe mais pormenores?

- Não; mas, se é coisa que o interessa muito, pode-se mandar chamar a ordenança.

- É coisa do máximo interesse para mim. Suponho que esta estafeta aprisionada traria cartas para mim.

- Pois vamos lá procurar a ordenança.

Foram. Castro ia receoso de alguma dolorosa surpresa. Encontraram a ordenança. Interrogou-a.

- O homem da estafeta - respondeu - vinha num carrito puxado por uma excelente parelha. Antes do ataque dos cossacos tinha êle contado que saíra de um castelo das imediações de Viena... o castelo de...

- Sachsengang?

- Exactamente, e disse-nos que trazia cartas para um oficial português.

- E vinha só?

- Vinha outro, que se escapou aos cossacos.

- Homem idoso?

- Não, senhor; homem novo.

- E as cartas?

- Dessas é que não sei. Creio que as trazia o que foi aprisionado.

- E os cossacos foram repelidos?

- Foram; mas, depois de nos terem ferido uns poucos, levaram consigo o homem da estafeta.

-Julgariam talvez que era portador de papéis importantes, papéis políticos.

- Isso é que eu não sei.

- Bem; obrigado. Pobre Maria! - pensava - Agora por quanto tempo sem notícias minhas?

Ouviam-se bandas de música. Eram da Guarda Imperial.

Napoleão entrava na cidade. Ribombaram salvas nas muralhas. Estremeceram e caíram os esqueletos negros de uns palácios próximos.

- Viva o Imperador! - gritaram dezenas de milhares de vozes.

Nos basteões içaram a bandeira da França. Cinquenta mil desventurados choravam apinhados nas igrejas e outros tantos talvez ao longo das ruas, de joelhos defronte dos seus lares em cinzas.

A soldadesca violava mulheres espavoridas, e contra a bandeira vencedora, a tremular no alto dos antigos basteões, ia como protesto a fumarada negra do braseiro colossal de Smolensko.

E o sol erguia-se magnificente, mundo imenso de oiro, a espargir, magnânimo, a sua luz criadora por cima da velha cidade morta.

 

               O campo sagrado.

A luta contra os exércitos de Napoleão era para os soldados russos mais do que uma guerra bendita pela pátria, porque era também uma guerra santa que eles supunham sob o patrocínio de Deus.

O esforço do patriota igualava a abnegação do fanático. Invocavam-se os heróis da velha Rússia e levavam-se dos altares para os acampamentos as imagens e as relíquias dos santos patronos.

Entre uns papéis apreendidos aos russos, alguns deles pertencentes ao famoso hetrnan dos cossacos, o general Platow, havia uma mensagem de carácter religioso, oferecendo ao Czar certa relíquia de S. Sérgio, o antigo patrono e defensor da felicidade da pátria.

No final da mensagem liam-se estas palavras solenes: A cidade de Moscou, a primeira capital do império, a nova Jerusalém...

Pois era pelo caminho dessa nova Jerusalém que Napoleão, o opressor, segundo a forma bíblica dos fanáticos russos, levaria agora os seus exércitos, deixando atrás de si o rescaldo enorme de Smolensko.

Repelida a divisão do general Korff do arrabalde chamado de Petersburgo, restauradas as pontes que os russos tinham queimado, a cavalaria e a artilharia ligeira de Murat meteram logo pela estrada de Moscou em perseguição da retaguarda do exército de Bagration.

O de Barclai de Tolly retirava pela estrada de S. Petersburgo, mas era plausível supor-se que seguia aquela direcção para desorientar os invasores. Depois se efectuaria a junção dos dois exércitos.

Às 4 horas da manhã de 19 as tropas de Ney foram as primeiras a ocupar as alturas onde tinham estado as reservas de Barclai de Tolly.

Davout avança também. Junot deve passar o Dnieper em Prouditchevo para ir meter-se à estrada de Moscou, para além dos desfiladeiros de Valontina. Os polacos seguem pela margem esquerda do Rio. A Guarda fica em Smolensko, onde deve estar a chegar o exército do Príncipe Eugênio.

Napoleão sabe pelos seus esclarecedores que se está efectuando a junção do exército de Barclai de Tolly com o de Bragration e manda que o marechal Ney tome sem delongas pela estrada de Moscou.

Marcham as tropas do 3.o corpo e batem-se com a extrema retaguarda dos russos, levam-na diante de si em dois recontros sanguinolentos, mas vão esbarrar com o famoso planalto de Valontina, defendido por forças importantes do inimigo.

Nas primeiras investidas os batalhões de Ney encontram diante de si quinze mil homens, que de momento para momento vão sendo reforçados.

A fuzilaria é vivíssima, os ataques à baioneta uma loucura de enfurecidos. A divisão Razout, com o regimento português do Cândido Xavier, e a divisão Ledru, com o regimento do coronel Pego batem-se com encarniçado esforço e têem já sofrido enormes perdas.

Os russos defendem-se com assombrosa intrepidez. Ali é o chão sagrado das suas velhas tradições, dali os seus antepassados rebateram sempre os ímpetos leoninos dos polacos nas grandes guerras antigas, ali estacavam os batalhadores indomáveis. Era um pedaço glorioso da terra moscovita, o Sinal épico da grande pátria, ao qual ainda nenhum estrangeiro conseguira violar.

Morrer ali, sobre aquela terra santa, era ascender para a glória de Deus e para as supremas glorificações da Rússia. E as almas ingénuas e crentes dos soldados do Czar ouviram falar aquele chão lendário, viam sobre a nesga de céu que os cobria ali um responder de miraculosos triunfos.

Pego dava pela terceira vez a voz de carregar à baioneta. O regimento deitou a passo de carga com os seus pobres batalhões já horrorosamente dizimados. Luís de Castro colocara-se ao lado do Coronel.

Mas uma brigada de granadeiros russos desfechava contra o regimento sucessivas descargas ao mesmo tempo que uma das baterias do planalto o metralhava de revés. A divisão de Razout teria sofrido uma enorme derrota, se não fossem aquelas soberbas cargas de baioneta.

O regimento de Pego teve de recuar, reduzido a metade de efectivo com que saíra de Smolensko.

- Castro - disse-lhe o Coronel sumidamente - para morrer isto ainda tem sido pior que Beaumersdorf! Não há o direito de exigir mais deste pobre regimento.

Eram 4 horas da tarde. No campo sagrado havia mais artilharia, tinham lá chegado mais divisões,, deviam estar lá cerca de quarenta mil russos.

Ainda mais intenso fogo; as perdas cada vez maiores!

Castro tinha deitado a galope desfechado para o

estado-maior de Ney.

- O regimento do coronel Pego está reduzido à fòrça de um batalhão. Falei com o major Cândido Xavier, comandante do 2.o regimento, e disse-me que tinha perdido também muita gente.

- Como todos os das divisões Ledru e Razout - acudiu o chefe do estado-maior.

- Peço perdão, sr. general. Acompanhei o 1.o regimento português nas suas três cargas e vi os outros. Afirmo a v. ex.a que nenhum outro da divisão Ledru perdeu mais gente. E ia atacar outra vez.

- E Junot não chega! - disse Ney num repelão de impaciência - Podia cortar a retirada àqueles doidos furiosos.

- Descem do planalto mais colunas! Tomam a ofensiva.

Ney vòltou-se para um dos seus ajudantes:

- À desfilada a ir dizer ao Imperador que eu hei-de sustentar-me aqui até ao último soldado, mas que o Duque de Abrantes não dá sinal de si, e se não vierem reforços, as minhas três divisões serão fatalmente esmagadas.

Ia partir o ajudante quando chegava a toda a brida um dos oficiais. Era Gourgaud.

- Sr. Marechal, o Imperador encarrega-me de lhe comunicar que vem já reforçá-lo a divisão Gudin e que a divisão Morand avançará pela esquerda, para dividir os esforços do inimigo. O Imperador ordenou-me que acompanhasse o estado-maior de v. ex.a e só voltasse à noite com a informação completa do combate.

- Se acabar à noite. Do general Junot não sabem

nada?

- Ouvi que tinha errado a marcha.

Disse-mo um ajudante de sua majestade o rei de Nápoles, que o foi encontrar numas hesitações inexplicáveis.

- Como se fosse um cobarde! - pensou Ney -, Irremediavelmente perdido!

Chegaram dois ajudantes à desfilada. Eram dos generais Ledru e Razout. As duas divisões dificilmente se podiam já aguentar. Os ataques dos russos eram cada vez mais violentos.

- Vamos lá - disse Ney singelamente, atirando o cavalo para a frente a galope desfechado.

Pôs-se à frente das divisões, falou-lhes, levou-as a um milagre de arrojo. Foi uma luta feroz até cerca das 6 horas.

Ney chamou de parte um ajudante.

- Vá dizer ao Imperador que é impossível exceder a coragem e a abnegação destes soldados; mas que Junot não atacou o inimigo e os reforços ainda não chegaram.

Partiu o ajudante. Dali a pouco apareciam as massas de colunas da divisão Gudin, avançando para a posição onde a divisão Ledru se mantinha, apoiada pela divisão Marchand.

- Enfim! - disse Ney.

Anoitecia. Os regimentos de Gudin e da divisão Ledru investiram o planalto num ímpeto formidável.

A divisão Gudin esbandalha à baioneta as colunas dos russos, a de Ledru auxilia-a admiravelmente, tendo ainda na vanguarda o regimento do coronel Pego.

Os russos supõem ter diante de si a famosa Guarda Imperial, hesitam, esmorecem, retiram.

Gudin cai mortalmente ferido; uma bala de artilharia esmigalhara-lhe as pernas.

- Viva o Imperador! - gritaram os soldados franceses no deslumbramento da vitória.

Os russos abandonavam o chão sagrado de Valontina e retiravam batidos pela estrada de Moscou.

O planalto, o desfiladeiro, as ravinas estavam atravancados de cadáveres.

Era há muito noite cerrada. Pela meia-noite Gourgaud deitava a toda a brida para levar a Napoleão a boa nova daquela sanguinolenta vitória.

Eram 3 horas da manhã. A cavalaria de Murat perseguia o exército em retirada.

Napoleão chegara ao alto de Valontina. Oprimia-o aquele espectáculo funerário. Dava-lhe dó e orgulho. O boletim do combate resumia-se nos oito mil homens de um e outro exército, mortos ou feridos sobre aquele chão embebido de sangue.

Clareara a manhã. As divisões formam para a revista que o Imperador lhes vai passar.

Vem rompendo o sol. Linhas sucessivas de brigadas tomam a planície de lado a lado, águias e bandeiras erguidas.

Estrondeiam aclamações entusiásticas, as músicas, os clarins e as bandas de tambores enchem de vibrações triunfais os ecos daquele retalho de terra lendária. Napoleão passa lentamente, a pé, por entre as fileiras daqueles bravos. Fala aos oficiais, faz preguntas aos soldados, tem para cada brigada ou para cada regimento uma comovida frase de louvor, promove e condecora os que foram mais distintos, concede a honra insigne de uma águia ao 127 de linha.

Diante do regimento de Pego o marechal Ney informa:

- Combateram admiravelmente! Foram dos mais

valentes.

- Coronel - disse o Imperador - tem aqui só um dos seus batalhões!

- Sire, o que resta dos dois com que saí de França.

- Constituídos por mil e quatrocentos homens. Muitos extraviados, muitos doentes, muitos desertores?

- Sire, extraviados e doentes cerca de duzentos até Smolensko. Mortos e feridos na batalha de 17 trezentos e vinte e oito. Ontem, Majestade, 412 fora do combate. Restam aqui quatrocentos e sessenta e dois.

- Perdas notáveis, mas tanto maior honra para os seus bravos soldados.

Percorreu as fileiras do regimento. Indicou para serem promovidos, segundo as informações do coronel, alguns oficiais e sargentos e deu a Legião de Honra a umas dezenas de soldados.(1)

Passou para a divisão Razout. Quando terminou a revista a esta divisão, deu uma ordem ao marechal Ney, que a mandou transmitir por Luís de Castro ao general Ledru.

- Vá agora comunicá-la ao Coronel Pego - disse-lhe o General.

Castro deitou a galope.

- Coronel, por ordem do Imperador e em razão das extraordinárias perdas do regimento, o 2.o virá juntar-se-lhe e os dois ficarão formando um só regimento.(2)

 

*1. Teotónio Banha fala daquela revista nos seus «Apontamentos». «Os dois regimentos portugueses receberam oitenta Legiões de Honra; os oficiais superiores foram condecorados com a insígnia de oficiais da mesma Legião».

  1. Castro Pereira diz na sua história:... «e desde então o 2o regimento passou para a 1.a divisão a reunir-se ao 1.o, formando cada um destes um só batalhão e ficando o total comandado pelo coronel Pego».

 

- Fico ciente - respondeu o Pego com manifesto

pesar.

Depois, mais à vontade, conversou com o antigo

capitão dos seus granadeiros.

- Então o regimento de Cândido Xavier também

ficou muito reduzido?

- Também. Pouco mais terá de quinhentos homens.

- Este nem isso! Ficam então os dois corpos a figurar um regimento dos mais pequenos do Grande Exército.

- Decerto. Uns escassos mil homens e quási todos os regimentos franceses têem mil e quinhentos a dois mil.

- Os mais escalavrados, pois que muitos saíram de França com três batalhões e dois mil e quinhentos homens. Se temos outra batalha como a de ontem, a Legião some-se. E fique sabendo que eu antes queria ter apenas o comando destes restos do meu glorioso regimento. Antes. Aqui só tenho portugueses, e o de Cândido Xavier traz muitos prisioneiros espanhóis. Valentes, sem dúvida nenhuma, mas de muito pior disciplina que os nossos.

- Provavelmente não querem que v. s.a com a sua patente vá comandando estes restos do nosso heróico regimento, que mal chegam para representar um batalhão.

- Pois iria muito mais satisfeito e com mais legítimo orgulho comandando-os só a eles. Quando me preguntassem pelos setecentos que faltam aqui eu diria onde eles tinham ficado. Soube alguma coisa do 3.o regimento?

- Lá anda para a nossa esquerda em operações com o corpo de exército de Oudinot.

- Bem sei. A minha pregunta era a respeito de combates em que êle tivesse entrado.

- Ouvi que tem havido alguns, sanguinolentos, mas não sei pormenores.

Disseram-me que o marechal Oudinot não confia na dedicação do comandante do 3.o português.

- A respeito de dedicação nada posso dizer; quanto a valor pessoal, sei que Manuel de Castro Pereira de Mesquita é homem esclarecido e animoso.

- Mas Oudinot suspeita que o Castro Pereira não é nada afeiçoado à causa de Napoleão e será capaz de se passar com o regimento para o lado dos russos.(1)

- E os nossos generais onde param? Nem o Marquês de Alorna, nem Gomes Freire, nem Pamplona têem dado sinal de si!

- O general Pamplona comanda uma brigada no corpo de Exército de Oudinot. Gomes Freire foi nomeado o mês passado governador de um distrito da Lituânia. E Carcome Lobo...(2)

- Bem sei. Esse ficou em França a pavonear a sua velhice com a nova farda de general de divisão.

- Do Marquês de Alorna é que eu não...

Os clarins davam o sinal de continência ao Imperador.

Tinha acabado a revista. Castro deitou a galope, direito ao estado-maior de Ney.

Napoleão passava outra vez, lentamente, por diante das cinco divisões da batalha de Valontina.

Reparando muito no admirável aspecto marcial daqueles bravos, disse num soberbo movimento de triunfador:

 

*1. Na sua História da Legião Portuguesa o próprio Castro Pereira abertamente justifica as suspeitas de Oudinot.

  1. O distrito de Dsjisma. (Boppe, La Légion Portugaise, pág. 385).

 

- É preciso prosseguir. Com soldados assim po demos ir até ao fim do mundo.(1)

Revoavam gritos de aclamação e assim acabou essa estranha parada por entre filas de cadáveres, que ainda não houvera tempo de enterrar naquele campo sagrado da remota e imensa Rússia.

Em marcha para Moscou. Tinham bivacado. O regimento português ensarilhara armas na clareira de um bosque, a pequena distância da estrada.

Com autorização do marechal Ney, o capitão Castro viera para o bivaque do seu antigo regimento.

A larga distância dos sarilhos passeavam conversando, êle e o seu dilecto amigo Cândido Xavier.

- Então o nosso Junot, aquele soberbo Junot que nós vimos empavesado nas ruas de Lisboa, já estragou duas batalhas a Napoleão!

- E em ambas por não chegar a tempo! O Imperador está furioso com êle e pela segunda vez lhe quis tirar o comando, segundo ouvi ao marechal Ney. Junot podia transformar em capitulação a retirada dos russos em Smolensko e haveria evitado a carniçaria de Valontina.

- E a ter caído nesse primeiro erro bem poderia resgatá-lo, investindo de flanco os inimigos, e ajudando-nos assim a desbaratá-los completamente no campo sagrado.

- Veja a que infortúnio chegaram os chefes da primeira e terceira invasão de Portugal! Junot insensato e quási apodado de cobarde; Massena posto de parte como um general obscuro e inútil!

 

*1. É a frase atribuída a Napoleão pelo general Conde de Ségur, na sua História de Napoleão e do Grande Exército, durante o ano de 1812. (Tomo 1).

 

- E Soult vencido e quem sabe em que situação a esta hora?

- Não há notícias recentes de Portugal?

- Nenhumas, creio eu.

- E de sua esposa?

- Estou sem cartas há cerca de dois meses! Não imagina, meu caro amigo, os maus pressentimentos que eu trago comigo!

- A falta de notícias não admira. É de supor que os cossacos assaltem as estafetas e os correios, mesmo para a retaguarda do exército. Os malditos aparecem em toda a parte! Têem sobre os milicianos de Portugal a grande vantagem dos seus cavalos rijos e infatigáveis.

- É' verdade, mas Napoleão recebe regularmente correios de Paris em Smolensko.

Chegou o coronel Pego; vinha do quartel-general de Ney.

- Notícias frescas - disse-lhes - Chegou há instantes de Smolensko um ajudante do Imperador com uma carta para o marechal. Napoleão esteve disposto a concentrar o Grande Exército em Smolensko e a deixar-se ficar, reconstituindo a Polónia. As primeiras notícias que recebeu de Oudinot e dos corpos de exército de Reynier e de Schwartzemberg eram desanimadoras. Afinal chegaram esta manhã excelentes informações. Dois combates vitoriosos, um em Ghorodezcna, salvo erro, e outro em Polotsk. Oudinot foi gravemente ferido e teve de entregar o comando a Gouvion de Saint-Cyr. O nosso Pamplona está nomeado comandante de Polotsk. Foi isto o que eu ouvi agora dizer no quartel-general ao chefe de estado-maior de Ney. Napoleão resolveu agora avançar mais rapidamente contra os russos e conta com uma grande batalha antes de entrar em Moscou.(1) Provavelmente, estamos aqui estamos outra vez em marcha.

De facto, instantes depois chegava um oficial do quartel-general com ordem para levantar os bivaques imediatamente e seguir para a frente a marchas forçadas.

 

*1. São factos comprovados por Fain, Rapp, Gourgaud e Labaume. Boppe dá notícia da nomeação de Pamplona para o comando militar superior de Polotsk.

 

             Batalha de gigantes.

Estavam já nas proximidades do rio Moscowa. Era a 5 de Setembro. Houvera na véspera um recontro sanguinolento entre a cavalaria de Murat e a do exército inimigo.

Logo de manhã cedo um fogo vivíssimo de atiradores. Pelas 7 horas trava-se encarniçado combate. O exército russo ocupa uma extensa linha de colinas, cujas cumiadas vão desde as alturas da aldeia de Borodino, posição admirável do seu flanco direito, até a um bosque ao sul, em que a sua esquerda se apoia. Quási ao centro, num relevo maior, avultam um reduto que os russos tinham construído, o grande reduto, como os franceses lhe chamavam.

O exército de Murat bate os russos e apodera-se das aldeias Fonkine e Doromino. O combate durou o dia inteiro.

Os polacos chegam ao campo de batalha; a divisão Compans, apoiada pela divisão Morand, toma o reduto de Schwardino.

Dão-se cargas de cavalaria formidáveis, a artilharia troveja, as baionetas tomam e retomam posições que ficam alagadas de sangue. Às 10 da noite acaba aquele prólogo de uma grande batalha.

Completa-se durante a noite a concentração das forças do Grande Exército, que Napoleão tinha disponíveis para meter em linha de batalha.

Ao amanhecer do dia 6 o Imperador monta a cavalo, vai ver as tropas e faz um ligeiro reconhecimento às posições do inimigo. Acompanham-no Gaulaincourt, seu escudeiro-mor, e o general Rapp, que era o seu ajudante de serviço naquele dia. Atrás deles apenas uma escolta de caçadores da Guarda.

Napoleão vai observando atentamente a linha de posições fortificadas dos russos e os seus postos avançados.

Os bivaques franceses o reconheceram logo a larga distância por aquele seu pequeno chapéu inconfundível. Ninguém pôde ter mão nos soldados e estrondearam por ali fora aclamações frementes num uníssono colossal.

Nos bivaques das tropas estrangeiras é que os vivas eram secos e frios, como era natural. Havia uma excepção. Era os bivaques dos Polacos.

Esses também fervorosamente o aclamaram, porque ainda esperavam que da estrela triunfal de Napoleão viria a luz ressurgidora da sua grande pátria morta.

E tanto o Imperador se desvaneceu e encheu de júbilo com aquelas aclamações, que atravessou alguns bivaques entoando uma ária patriótica popular.

Conversava com os oficiais, falava aos soldados.

No bivaque dos portugueses disse para o coronel Pego:

- Coronel, vamos ter uma grande batalha.

Conto que o seu regimento corresponda às suas gloriosas tradições de Wagram e repita os esforços brilhantes de Smolensko e de Valontina.

- Sire, também eu conto com êle para que os seus créditos se não apaguem enquanto lhe restarem alguns centos de soldados para batalhar.

- A vitória vem connosco. Hão-de ter uma partilha nos troféus do Grande Exército. Um dia volverão ao seu país cobertos de glória.

- Se a próxima batalha mos não sumir - disse consigo o coronel Pego.

- No dia em que as minhas águias lhes abrirem o caminho para Lisboa. Não tardará.

Ney acompanhava agora o Imperador e Luís de Castro pôde ouvir bem aquelas palavras de Napoleão.

Como era dos últimos no estado-maior do Marechal, Castro encostou o seu cavalo ao do coronel Pego e disse-lhe baixo:

- Deus tal nunca permita.

Veio do bivaque imperial um oficial às ordens a toda a brida.

- Sire, chegou agora à tenda imperial o Barão de Baussel, que vem do palácio de Saint-Cloud com cartas para Vossa Majestade.(1)

- Bem, estimo. Há-de trazer-me carta da Imperatriz - disse alegremente para o marechal Ney - Vamos lá, Duque d'Elchingen. Venha também. Quero que partilhe os meus júbilos. Conto com boas notícias da Imperatriz e do rei de Roma.

Aquele rei de Roma era o filho, uma criancita de colo, nascida em Março do ano anterior. Logo que os estados romanos foram anexados ao Império, se deliberou que o primeiro filho de Napoleão teria desde a nascença o título de rei de Roma.

 

*1. O barão era o prefeito do palácio de Saint-Cloud, um dos palácios imperiais nas imediações de Paris.

 

Napoleão era doido por aquele filho, o único legítimo que tinha. Os íntimos do palácio contavam mil casos interessantes da pieguice paternal daquele homem formidável, que ia afogando a Europa nas ondas de sangue das suas batalhas.

Não era raro ir dar com esse espantoso dominador de nações a fazer gatimanhos com que o Rei de Roma se risse, a balouçá-lo nos braços como qualquer pai burguês, a brincar com êle nos joelhos durante as refeições.

E a ocasião melhor para obter do Imperador alguma difícil mercê era exactamente aquela em que se entregava aos seus amoráveis desvanecimentos de pai. Sabia-se isto em Paris e até se contava que certo velhaco se lembrara um dia de entregar nas Tulherias uma petição dirigida ao Rei de Roma, que apenas sabia galrear, sorrir e meter os dedos na boca.

Napoleão achou graça ao industrioso, divertiu-se com êle mas deferiu-lhe a petição.

Compreende-se bem o alvoroço do Imperador ao receber a notícia de terem chegado cartas de Saint--Cloud, trazidas demais a mais por quem podia dar-lhe pormenores íntimos, que não cabiam numa carta e nem sempre ocorrem a quem escreve.

Napoleão meteu a galope, direito ao bivaque imperial.

Tinha mais alguma coisa do que uma carta da Imperatriz. O perfeito do palácio era portador de uma caixa magnífica com o retrato do pequenito, feito por um dos melhores pintores de França.

Foi um enternecimento. Mostrou o a Ney, mostrou-o a Murat, que chegara instantes antes; chamou todos os oficiais do seu estado-maior para verem aquela tela que o deslumbrava e por fim saiu da barraca e mandou que dois granadeiros da Guarda levantassem o quadro para êle o ver melhor e para que eles o vissem também.

E ficou-se a olhar para ele num êxtase. O pintor fora felicíssimo. Era bem aquele o alegre olhar e o sorriso adorável da criancita.

Homem um dia, que espantoso nome de herança e que soberbo sólio de troféus! De todos os tempos nenhum dinasta como êle. Para fronteiras do seu Império, escassas ainda para as ambições do pai, as próprias fronteiras da Europa!

Como êle sonhou então diante daquele retrato de criança e que doidos sonhos têem às vezes os cérebros de mais fenomenal poder!

De súbito, como se algum sombrio pensamento o oprimisse, disse aos granadeiros:

- Levem-no para dentro. E logo para o secretário.

- Guarda-o; é cedo ainda para lhe deixar ver um campo de batalha.(1)

Lembrara-lhe como os impérios se destroem e como os cetros facilmente se quebram. Em qualquer batalha perdida os tronos se afundam e quantos não tinha êle já afundado na Europa!

Iam os dois granadeiros com a tela para dentro da tenda imperial quando um oficial chegou a toda a brida, o cavalo branco de suor, o cavaleiro branco de pó.

Estacou a cem passos, apeou-se, entregou as rédeas a um soldado e veio para o Imperador, a olhá-lo já numa estranheza interrogadora.

- Mas é o coronel Fabvier, do exército do Duque de Ragusa! - disse Ney.

- Dos confins da Espanha! Deve trazer notícias importantes - observou o Imperador.

 

*1. Todos os historiadores franceses da campanha de 1812 dão notícia daquele episódio do retrato do rei de Roma, Fain a pág. 8 do II tomo da sua obra já citada; o general Gourgaud a pág. 212 do seu livro Napoleão e o Grande Exército, que é uma larga refutação das inexactidões numerosas em que caiu o Conde de Ségur, muito mais feliz estilista do que historiador.

 

- Sire! - disse o Coronel, inclinando-se.

- Vem do exército de Marmont, já sei.

- Sire, trago despachos do sr. Duque de Ragusa.

- Venceu afinal alguma batalha? Sem rodeios, depressa.

- Sire - volveu-lhe Fabvier tristemente - perdeu-se uma batalha.

- Ainda outra! - exclamou o Imperador num repelão de cólera - Em Portugal?

- Majestade, além da fronteira de Portugal, nas proximidades de Salamanca.

- Quem a venceu então? Os quadrilheiros espanhóis? Daquela guerra de Espanha já não há surpresas que me devam espantar!

- Sire, fomos vencidos pelo exército de Lorde Wellington.

- Ainda esse general de cipaios! Aprendeu a vencer batalhas contra esses meus generais, tão esquecidos já das que eu lhes ensinei a ganhar! Batalha importante, decisiva?(1)

- Sire, tão importante que nos obrigou a evacuar Valhadolide e a retirar para Burgos.

- Deixando a descoberto o caminho para Madride!

- Irremediavelmente perdido.

- Queima o rosto essa vergonha! E a praça de Ciudad Rodrigo?

- Já tinha sido tomada pelos aliados. O marechal Soult tinha as comunicações cortadas com o exército do Duque de Ragusa. Quem ia para nos auxiliar era sua majestade o rei José com quinze mil homens, o general Dorsene e a cavalaria de Chauvel; mas não chegaram a tempo.

 

*1. «Incontestavelmente a mais decisiva que os aliados tinham até então pelejado na Península.» (Brialmont).

«A batalha dos Arapiles marcou o fim da ocupação francesa na Espanha.» (Thibaudeau).

 

- Estou a perceber! Sempre os mesmos estúpidos ciúmes de glória! Marmont queria só para si as honras da batalha, e perdeu-a.

- Sire, o general foi gravemente ferido logo no princípio.

- Quem o substituiu?

- O general Bonnet, poucos minutos depois ferido também. ,

- E a esse quem se seguiu no comando superior?

- O general Clausel. Já a batalha estava quási perdida. Mas aqui estão os despachos do Marechal para Vossa Majestade.

- Repugna-me lê-los. Depois da batalha de amanhã verei se tenho ânimo para ler essa página aviltadora da nossa história. Começo a envergonhar-me de certos generais e soldados que tenho na Espanha!

- Sire, batemo-nos até ao último esforço possível - acudiu Fabvier, afogueado.

- Que força tinha o exército de Wellington?

- Talvez quarenta e seis a cinquenta mil homens.(1)

- E o de Marmont?

- Quarenta e dois mil homens.

- E um exército francês com esse efectivo deixa-se bater por outro, pouco maior, de ingleses contratados nas tabernas de Londres, de bandidos espanhóis arvorados em guerrilhas, de montanheses broncos de Portugal em disfarce de soldados!

- O que eu posso afirmar a Vossa Majestade é que os ingleses e portugueses se bateram com inexcedível intrepidez.

- Não esqueça os guerrilheiros espanhóis.

 

*1. Segundo Brialmont, 46.400 ingleses, portugueses e espanhóis. Desses apenas 3.500, comandados pelo general D. Carlos de Espanha.

 

- Se os havia lá, não apareceram na linha de batalha.(1)

- Que perdas tivemos?

- Uns seis mil mortos e feridos. Entre os mortos os generais Forey, Thomières e Desgravières.(2)

- Prisioneiros tivemos alguns?

- Cerca de três mil... um general e cento e trinta

oficiais.(3)

- Essa vergonha! O que mais se perdeu? Sem

rodeios.

De olhos baixos, afogueado, Fabvier respondeu

rouquejando:

- Onze canhões, seis bandeiras, duas águias.(4)

- Espantoso! - exclamou Napoleão num grito convulsivo.

Em todas aquelas fisionomias transparecia uma impressão de magoada surpresa. Apenas uma excepção: na última fila dos ajudantes, o capitão Luís de Castro. No seu coração um tamanho júbilo que, para o ocultar, se foi sumindo um pouco por detrás de uma barraca.

- E vem um coronel francês dos confins da Espanha para me trazer aqui, ao meio deste exército vitorioso, a notícia de tal vergonhoso desastre! O Grande Exército resgatará amanhã com maior esfôrço, numa enorme batalha, essa vergonha dos seus camaradas batidos em Salamanca.(5) Coronel, pode retirar-se.

 

*1. Wellington tinha-os colocado nas reservas. (Brialmont;

  1. Marmont, no seu relatório da batalha, fala de seis mil mortos e feridos. Belmas, incluindo os prisioneiros, fixa as perdas dos franceses em nove mil homens.
  2. Segundo o relatório de Wellington.
  3. Os autores das Victoires et conquétes confessam a perda de onze canhões. Brialmont designa a perda de duas águias e seis

bandeiras.

  1. Aquela batalha do dia 22 de Julho de 1812 denomina-se também dos Arapiles, porque a luta foi mais encarniçada e se tornou decisiva nos montes conhecidos por aquele nome, próximo de uma aldeia também assim denominada.

A posse do maior, o grande Arapil, custou muito sangue.

Na sua participação oficial da batalha, Wellington regista as seguintes perdas do exército aliado: 3.678 ingleses, 2.195 portugueses e 6 espanhóis.

Os portugueses entraram na batalha com um efectivo de 19.205 homens.

 

Depois de amanhã voltará para Espanha. Quero que vá contar lá a esses oficiais e a esses soldados, que deixam perder as suas águias, como os seus camaradas do Grande Exército honram e glorificam a França neste outro extremo da Europa.

Fabvier curvou-se oprimido e retirou-se. Levava os olhos rasos de lágrimas.

Uma hora depois Luís de Castro pôde aproximar-se do bivaque dos portugueses. Foi procurar o major Cândido Xavier. Encontrou-o com o coronel Pego.

- Venho felicitá-los.

- Felicitar-nos porquê? - preguntou o coronel com estranheza.

- Porque a nossa gente venceu outra batalha aos franceses.

- Outra! Onde?

- Próximo de Salamanca. Foi batido o exército de Marmont. Derrota maior e mais sangrenta que todas as outras!

E resumiu-lhes o que ouvira ao coronel Fabvier.

- Um consolo de notícia a mil e oitocentos léguas de Portugal.(1)

 

*1. A vitória dos Arapiles produziu tal entusiasmo na Península que a regência e as cortes de Cádis deram a Wellington a insígnia do Tosão de Ouro.

O generalíssimo inglês era já Marquês de Talavera, em Espanha, e Marquês de Tôrres-Vedras, em Portugal.

O parlamento inglês votou-lhe uma mensagem de reconhecimento e o príncipe regente da Grã-Bretanha concedeu-lhe o título de Visconde de Wellington.

Nos seus cantares, o povo espanhol celebrava-o por esta forma pitoresca:

Welinton en Arapiles, A Marmon y á sus parciales Para almozar los disposo Um gran pisto de tomates.

Y tanto les dió Que les fastidió

Y a contarlo fueron

A Napoleon.

Y viva la nacion!

Y viva Welinton!

 

Levaram uma parte da noite a estabelecer baterias e a completar a formação definitiva da linha de batalha.

À esquerda, defronte de Borodino, o exército do Príncipe Eugênio; ao centro, na planície, em face do grande reduto e entre a estrada de Moscou e os bosques, os corpos de exército de Davout e Ney; à direita os polacos.

Era para as tropas do centro a tarefa mais difícil e por isso tinham como apoio os westfalianos, comandados por Junot, e toda a soberba cavalaria de Murat, comandada por Montbrun, Latour-Maubourg e Nansouty, as mais brilhantes espadas para o arranque de uma carga a fundo.

Napoleão ficaria a pequena distância com a velha e a nova guarda imperial em reserva.

O Imperador dormiu apenas umas escassas horas e essas mesmas interrompidas, para ouvir informações que chegavam e expedir ordens que reputava urgentes.

Já cerca da madrugada, Luís de Castro teve de ir à tenda imperial com uma comunicação de Ney.

Deu às duas sentinelas da guarda a senha de reconhecimento, e foi recebido pelo ajudante de serviço, que era o general Augusto Caulaincourt.

- Queira entrar e esperaremos que Sua Majestade acorde, visto não se tratar de coisa urgentíssima - disse-lhe Caulaincourt.

Levou-o para o compartimento da tenda que ficava contíguo à câmara do Imperador.

Castro volveu um olhar para o grande reposteiro de águias bordadas a ouro.

Por detrás dele dormia o espantoso homem que domina a Europa.

- Adormeceu há pouco, depois de umas poucas de interrupções. Espreitei-o há instantes. Dormia serenamente no seu famoso leito de campanha, o de Austerlitz.

- Imensamente melhor que o de v. ex.a- disse-lhe o Castro, apontando um estreito colchãozito de campanha, estendido no chão.

- É excelente para quem como eu não pode dormir - volveu-lhe Caulaincourt com uma grande expressão de tristeza.

- Por causa dos muitos serviços?

- Por uns tristes pressentimentos.

- Tenho ouvido uns casos espantosos de pressentimentos na guerra.

- Pressentimentos de morte que se tornaram verdadeiros. Sei de muitos. Na véspera de Austerlitz um coronel teve o pressentimento de que seria morto na batalha. Escreveu as suas últimas disposições e deixou uma petição para o Imperador, solicitando-lhe o amparo da esposa e dos filhos. O coração não lhe mentiu. Morreu como um valente.

- Outros falham. Quantos? Mas o de v. ex.a não será talvez assim lúgubre.

- E. De morte inevitável amanhã.

- Isso não passa, decerto, de um pesadelo de saudades por alguém muito querido - disse-lhe o Castro afectuosamente, fixando muito um pequeno retrato de mulher, moça e linda, que estava caído sobre o colchão.

Caulaincourt notou-lhe casualmente o olhar e estremeceu. Inclinou-se e levantou o retrato.

- Tinha-me caído e esqueceu-me quando o fui receber.

- Aí tem então v. ex.a a origem do seu pressentimento, reflexo enganador de mágoas e saudades.

- Pela minha noiva, pela minha esposa. Chamo-lhe ainda noiva porque a ordem de marcha me foi surpreender no próprio dia em que a desposei!(1)

- Compreendo essa dor, sr. General. Eu tenho longe minha esposa e meu filho pequenito e estou há muito sem notícias deles. Não trago pressentimentos de morte para mim, mas andam comigo outros, esmorecedores, de perigo para ela. Também me não foi possível dormir. Mas afastemos de nós estes pensamentos de infortúnios e de morte.

- Eu não posso! Hei-de cumprir o meu dever, mas verá que fico entre os que nunca mais poderão voltar a França. A minha última batalha, o meu último dia, amanhã. Hoje, porque está já a amanhecer.

O Imperador descerrou o reposteiro e apareceu.

- Que espera? - perguntou, cravando em Luís de Castro um olhar perscrutador.

- Que Vossa Majestade possa receber esta carta de ofício do sr. Duque d'Elchingen.

- Dê cá.

 

*1. Indicando a situação atormentadora de Caulaincourt naquela véspera de uma batalha, o Barão Fain diz que êle tinha os olhos fitos tristemente num retrato: era o da sua juvenil esposa que tivera de deixar logo depois dos primeiros momentos do casamento. Como se estivesse a dizer-lhe o seu derradeiro adeus. (Manuscrito de 1812, tomo II, pág; 19).

Augusto de Caulaincourt tinha 35 anos, entrara em muitas campanhas e fora ferido na batalha de Marengo. Em 1806 era general de brigada.

 

Abriu e leu:

- Fico ciente. Eu falarei com êle daqui a pouco. Pode retirar-se.

Fora da tenda imperial estavam já reunidos todos os oficiais do estado-maior de Napoleão.

Tinha caído uma chuva miúda; o céu estava nublado.

As duas sentinelas de granadeiros da Guarda apresentaram armas. O Imperador saiu da tenda e recebeu as homenagens dos seus oficiais.

- Um pouco fria a manhã. Então os russos de Kutusoff continuaram de noite as suas procissões de penitência à santa miraculosa que trouxeram de Smolensko? - preguntou ao general Rapp.

- Sire, até alta noite. Viam-se bem de cá os popes com as suas vestes sacerdotais e os soldados de tochas nas mãos, ladeando a santa, que julgam salva por milagre de entre as ruínas da cidade.

- Veremos se a Senhora de Smolensko lhes não foge, também miraculosamente, para a cidade santa de Moscou.

- E creio que também traziam em procissão uma espada de S. Miguel.

- Do S. Miguel deles, se não é a do próprio Kutusoff, disfarçada em espada celestial.

O céu desanuviou-se um pouco e o sol rompeu triunfal, pondo em tudo uns esplendores de oiro.

- O sol de Austerlitz! - exclamou Napoleão num gesto de teatro, que faria inveja ao seu amigo Talma, o actor de maior renome na Europa.

E naquela trágica madrugada estas quatro palavras do batalhador fenomenal, instantes depois divulgadas por todo o exército, tiveram o poder de uma profecia miraculosa.

Não houve ali coração francês que não sentisse um estremeção de orgulho, nem cérebro que não entrevisse uma nova era de vitórias.

Um dos granadeiros da velha guarda, que estavam de sentinela à tenda imperial, aprumou-se mais, com maior firmeza, mas as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

O Imperador abraçara-o no dia de Austerlitz. Napoleão era ainda o ídolo supremo para aqueles assombrosos colaboradores da sua epopeia.

- A ordem do dia - disse para Caulaincourt.

- Sire, aqui está - respondeu o general, apresentando-lhe o autógrafo e os exemplares impressos.

- Mande-a já para todos os corpos de exército. Eram 5 horas. As divisões da velha e nova Guarda estavam já debaixo de forma.

Uma banda enorme de tambores dera o sinal de formar, que foi repetido por todos os outros dos diferentes corpos.

Napoleão montou a cavalo e partiu com o seu estado-maior para outra vez observar o campo de batalha.

Em coluna, o coronel à frente, cada regimento ouvia ler a proclamação a que o Imperador chamara a sua ordem do dia. Lia-a em cada companhia o respectivo capitão.

No regimento do Pego, o mais pequeno de todos, era o próprio coronel quem ia ler a tradução feita por Cândido Xavier. Em coluna cerrada podiam ouvi-lo bem os novecentos e tantos homens que restavam dos dois antigos regimentos.

O Pego leu alto:

«Soldados! Eis a batalha tão fervorosamente desejada. A vitória agora só de vós depende. É necessária e por ela alcançareis a abundância, bons quartéis, o rápido regresso à pátria. Combatei como em Austerlitz, em Friedland, em Witepsk, em Smolensko e a posteridade mais distante citará com orgulho o vosso proceder neste dia. Que de cada um de vós se diga: esteve naquela grande batalha dos campos de Moscovo.

- Isto diz o imperador aos seus soldados de França - observou o Pego, dobrando o papel - mas para os do meu regimento e do meu país é preciso que eu diga outras palavras que o vosso coração entenda melhor.

«Soldados! Não vos posso prometer o regresso à pátria. Voltar à França não é para nós voltar à pátria. Mas, seja como fôr, temos aqui o nosso nome de portugueses a honrar e as tradições da Legião a manter. Aos seus soldados de França o Imperador relembra-lhes Austerlitz e Friedland, glórias alheias aos meus de Portugal. Para vós o dever é recordar-vos Baumersdorf, Wagram, Smolensko e Valontina. Ali, sim, ali tivestes vós um alto quinhão de glórias. Soldados! Combatei hoje como então; bastará que a posteridade diga de cada um de vós: expatriado, preso a um dever militar, realçou nos confins da Europa as tradições de valor da sua terra portuguesa.

O coronel concluiu profundamente comovido.

Sujeitos à severa disciplina de Francisco Pego, e menos expansivos do que os franceses, os soldados não se atreveram a romper em gritos de entusiasmo, mas agitaram-se num estremecimento de vaidade patriótica.

Não havia ali nenhum que não tivesse notícia das vitórias dos seus camaradas de Portugal. Até da mais recente, aquela dos Arapiles. Os oficiais souberam dela pelo Coronel e contaram-na aos sargentos e estes aos soldados.

- Firmes! - bradou o Pego.

Napoleão aproximava-se. Precedia-o a vibração de milhares de vozes aclamando-o.

Estão frente a frente cento e vinte mil homens às ordens de Napoleão e cento e trinta mil russos sob o comando superior do príncipe Ivutusoff, o velho feld-marechal, assinalado por famosas vitórias contra os turcos.

Napoleão fora colocar-se nas alturas do pequeno reduto, tomado na ante-véspera pela divisão Compans. Apeou-se e subiu. Abraçava dali, num olhar, a parte mais importante da sua linha de batalha. Ficava-lhe quási em frente o grande reduto, cuja posse lhe daria a vitória.

A pequena distância, a cavalo, os seus ajudantes; em volta as massas compactas da velha Guarda. Ficava-lhe muito próximo o corpo de Ney.

A um sinal do Imperador, as baterias do general Sorbier trovejaram, iniciando a batalha, e logo em toda a linha a artilharia prepara e protege a marcha ofensiva da infantaria.

Na esquerda o exército do Príncipe Eugênio dá começo a um ataque demonstrativo em frente de Borodino; do centro avançam para o reduto mais próximo as divisões de Compans e Desaix, do corpo de exército de Davout; na direita, para além do bosque, os polacos de Poniatowski vão atacar os russos pela velha estrada de Smolensko.

O corpo de Ney aguarda a sua vez, tendo à retaguarda a bateria de sessenta canhões do general íoucher.

Muito para trás, a proteger-lhe um dos flancos, os doze mil cavaleiros de Murat, couraceiros, hússares, dragões, caçadores a cavalo, uma selva rutilante de espadas.

O ataque ao reduto dá em medonha carniçaria. Os russos defendem-se como leões. Cai ferido o general Compans, é substituído por Dupelain, que também cai ferido; toma o comando Desaix, e este mesmo fica instantes depois impossibilitado de comandar.

Vêem dizê-lo a Napoleão.

- Rapp - diz o Imperador para o seu valente ajudante-de-campo - vai tomar o comando daqueles bravos.

E O general parte à desfilada. Dali a pouco estava também ferido.

Um ajudante chega a toda a brida. Traz informações inquietadoras. Rapp cai, o marechal Davout foi também ferido e supõe-se que tenha sido morto.

Napoleão chama o rei de Nápoles (Murat) para ir substituir Davout. Não era preciso. O Príncipe d'Eckmuhl aparece. Tinham-lhe morto o cavalo, caíra com êle, mas ficara apenas contuso.

Tudo isto em pouco mais de um quarto de hora, que chegou para amortecer o ímpeto do ataque.

É preciso recomeçá-lo. Davout torna para a frente das suas tropas, já horrivelmente dizimadas.

Nas suas impaciências de batalhador, manda pedir ao Imperador que deixe começar.

Era o momento oportuno. Napoleão diz ao ajudante de campo Conde de Lobau que chame o Duque d'Elchingen. Ney está perto. O Conde chama-o em voz alta, sem precisar de descer até ao fundo do outeiro.

Napoleão dá-lhe instruções. Instantes depois os sessenta canhões do general Foucher batem os redutos inimigos.

A infantaria do 5.o corpo avançava. Aproximou-se de Ney um oficial superior que não pertencia ali a nenhum regimento e a nenhum estado-maior.

Era aquele coronel Fabvier que viera da Espanha trazer a Napoleão a notícia da derrota dos Arapiles.

- Sr. Marechal, desejo acompanhar os soldados.

- Para quê?

- Para que o Grande Exército veja e o Imperador saiba que não é um cobarde este vencido dos Arapiles.

- Venha com o meu estado-maior. Mando-lhe dar um cavalo.

- Agradecido, sr. Marechal; irei a pé, ao lado dos soldados, como um subalterno.(1)

- Vá dizer ao general Ledru que avance a passo de carga - ordena o Marechal a Luís de Castro.

- Peço licença para acompanhar o meu antigo regimento.

- Pode acompanhá-lo.

Partiu a toda a brida, comunicou a ordem ao general Ledru, a ordem e a concessão do Marechal e foi apresentar-se.

- Coronel, irei com o nosso regimento.

Os tambores batem o passo de carga. O regimento de Pego vai na vanguarda da divisão.(2) As divisões Marchand e Razout carregam também.

Foi uma tremenda luta à baioneta, debaixo de um dilúvio de metralha das baterias de Semenouskie!

Mas não há pavores que logrem conter aqueles assaltantes do corpo de Ney. Atiram-se doidamente para o intervalo,

 

*1. Estimulado por nobres e elevados sentimentos, o coronel Fabvier supôs-se atingido pelas censuras do Imperador, e no dia seguinte o viram combater a pé como voluntário, onde o perigo era maior, como para mostrar que os soldados do exército de Espanha em nada cediam em bravura aos do exército da Rússia. (Napoleão e o Grande Exército da Rússia, pelo general Gourgaud, pág. 218).

  1. Resumindo os feitos do regimento naquela batalha, Castro Pereira diz na sua história... «indo à testa do corpo de Ney atacar à baioneta um dos redutos russos, que fazia o centro da sua linha, e se achava flanqueado por dois outros, etc.

 

entre as obras dos três redutos e vão tomá-los pela gola.

Os soldados de Ledru e de Compans entram nos redutos de roldão uns com os outros e nem dão tempo a que os russos retirem a sua artilharia.

Eram 9 horas. Daquele lado formidável da linha inimiga a vitória parecia segura. A cavalaria de Murat levava diante de si, em cargas espantosas, as colunas e os quadrados da infantaria de Bragation.

Na direita, os polacos batiam-se numa ânsia formidável do seu ódio patriótico.

As divisões vitoriosas de Ney e Davout vão avançando.

Chega um ajudante do imperador.

- Depois de tomar um reduto - disse ao Marechal- depois de levar diante de si os russos, o exército do Príncipe Eugênio sofreu um pequeno revés. Convergem para aqui enormes colunas inimigas. O Imperador vai empenhar na acção as suas reservas para romper o centro da linha inimiga.

Efectivamente, descobriam-se já as massas formidáveis de tropas que o generalíssimo Kutusoft, um pouco desafogado pela defesa tenacíssima de Borodino, trazia em socorro de Bragation, para reconstituir o centro da sua linha.

Abria-se uma nova fase da batalha e esta agora decisiva.

Entra na primeira linha francesa uma parte das tropas de reserva e toda a nova Guarda.

Uma bateria de oitenta canhões, sob o comando do general Lauriston, rasga profundas brechas nas colunas de Kutusoff.

Os couraceiros russos carregam; vai contra eles uma avalanche formidável de cavalaria, os couraceiros de Saint-Germain, os carabineiros de Lepaultre e Chouars, os caçadores a cavalo de Pajol e de Bruyères, e o choque impetuoso dos franceses repele e quási esmaga as massas de cavalaria inimiga.

Nova luta sanguinolenta, sustentada pelos corpos de exército de Ney e Davout.

Nisto, gritos espantosos da esquerda. Vêem de fugida, numa carreira de pavor, caleceiros, condutores de carros e cantineiras, que estavam para as bandas de Borodino.

- Os russos! Os cossacos! - gritavam. Napoleão monta a cavalo, manda suspender a marcha da nova Guarda e ordena que a divisão Claparéde vá apoiar o exército do Príncipe Eugênio.

Era um lance grave. Oito regimentos de cavalaria do general Ouvaroff e três mil cossacos do general Platow se tinham arrojado das alturas do Gorki como um turbilhão medonho sobre o exército italiano. A cavalaria de Ornano não pode resistir-lhes e retira sobre a aldeia de Borodino; uma divisão forma quadrado, outras desordenam-se e o próprio Príncipe Eugênio tem de escapar-se daquele redemoinho de extraviados, metendo-se dentro do quadrado de um regimento.

Afinal os quadrados resistem intrepidamente e o mar revolto dos cossacos alastra-se e desaparece.

No centro da linha a peleja recomeçara sangrenta havia já duas horas.

- Castro, o regimento some-se! - disse-lhe o Pego, apontando as fileiras rareadas dos dois batalhões, os soldados com a boca enegrecida de morder os cartuchos, as fardas sujas de lama e de sangue.

Ribomba toda a artilharia que Napoleão tinha ainda disponível. Três divisões do exército do Príncipe Eugênio avançam para o grande reduto.

Mas os russos entram com todas as suas reservas de linha. Do lado deles as perdas são já horrorosas.

O próprio general Príncipe Bragation está mortalmente ferido.

Doido batalhar aquele!

Os tambores do corpo de Ney batem outra vez à carga.

- Vamos lá ao resto - disse o Pego.

O regimento avança de baioneta calada. Cai uma granada das baterias russas sôbre a frente do 2.o batalhão e mata uma fila de homens. Um estilhaço bate no peito de Cândido Xavier e derruba-o. Ninguém dá por êle. O regimento vai na cegueira da carga.

A poucos passos uma bala de espingarda atira ao chão, morto, o chefe do 1.o batalhão, António Freire Pego.

- Filho! - exclamou o coronel - honradamente como um bravo! Seguir para a frente! - gritou aos soldados que tinham parado em volta do morto - Castro, leve esse batalhão consigo. Eu vou já.

Apeou-se, e, sob aquele dilúvio de balas, ajoelhou ao pé do malogrado chefe. Tateou-lhe o coração.

- Morto! Meu pobre António! Filho! Adeus! Beijou-o, chorava. Atirou-se para cima do cavalo

e deitou à desfilada para a frente.

Os corpos de Ney e Davout recebem ordem para abrir espaços, por onde a cavalaria de Murat possa passar.

Moderou-se a impetuosidade da marcha. Os russos retiram; a batalha parece ganha pelos franceses.

Ouve-se o pesado tropear de milhares de cavalos. Vem diante deles uma nuvem de pó e o sol acende vivos lampejos no aço brunido das couraças. Passam os couraceiros aos gritos, dobrados sobre o pescoço dos cavalos, numa carreira vertiginosa de alucinados. Na frente, com as suas plumas, as suas polonesas magníficas, as suas botas encarnadas, num capricho de uniforme espaventoso, Murat e Montbrun.

Aquele ciclone de homens derriba os quadrados, até ali firmes como baluarte, e vai bater com os cavalos ofegantes, sangrentos, contra o grande reduto, afinal rendido, quando já estava atulhado de mortos.

Instantes depois passava um ajudante de Murat, que ia levar informações ao Imperador.

Ney reteve-o um instante e preguntou-lhe:

- O que há?

- Os russos batidos, o grande reduto abandonado. O general Montbrun foi espedaçado por uma bala

de artilharia. Pouco depois o general Augusto de Caulaincourt caía morto à frente de um dos nossos regimentos de couraceiros.

E partiu à desfilada.

Castro ouvira a informação a respeito de Caulaincourt.

- O pobre general de trinta e cinco anos! - disse consigo tristemente - Saiu-lhe certo o seu pressentimento de morte. Triste viúva juvenil!

Os polacos de Poniatowski tinham vencido também.

São quási 4 horas. Os russos tiveram de retirar, mas não abandonaram de todo o campo de batalha.

Resistem ainda; parecem pegados àquele chão. Sentem, compreendem que essa batalha perdida abre a Napoleão as portas de Moscou, a sua cidade santa.

Alguém pede a Napoleão que mande a velha guarda sobre o inimigo em derrota. Repele o pedido..Aquela é a sua heróica reserva para algum lance funesto.

Mas os outros corpos do exército estão extenuados.

A artilharia acabará a batalha. Assestam-se todas as peças e despejam-se todos os cofres de munições. contra as últimas colunas dos russos.

Um ribombar horrendo! A batalha ia acabar.

Acabou sobre um mar de sangue, como nenhuma outra batalha dos tempos modernos. Napoleão tinha do seu lado vinte e três mil mortos e feridos;(1) dos russos havia quarenta e cinco mil.(2) O sangue de sessenta e oito mil homens!

Foi este o preço daquela carniçaria a que chamaram batalha de gigantes.(3)

Tinha havido uma procissão de feridos, que chegou a supor-se interminável.

A duas léguas para a retaguarda do campo de batalha havia uma abadia, a de Kolotskoi. Foi mudada em hospital de sangue. Estava atulhada de feridos.

No dia seguinte, logo de manhã cedo, começaram a abrir valas para os cadáveres, mas só puderam enterrar um número deles relativamente pequeno. Os lobos e os abutres se encarregariam do resto.

Castro veio apresentar ao Pego os pêsames do marechal. O Coronel foi agradecer-lhos.

- O seu regimento perfeitamente! - disse-lhe o Duque d'Elchingen - Não faltou ao que eu dele tinha dito ao Imperador na marcha de Smolensko para Valontina, quando pus os portugueses na vanguarda das minhas tropas. Perdeu muita gente, já sei.

 

*1. Relatório do Dr. Larrey, chefe dos serviços de saúde do exército de Napoleão.

  1. Número dado por Butturlin, um dos historiadores russos, daquela campanha.
  2. Thiers. História do Império.

 

- Mortos e feridos trinta e nove oficiais e quinhentos e quarenta sargentos e soldados.(1)

- Cerca de seiscentos homens! Enorme. Quantos tinha quando entrou em batalha?

- Menos de novecentos.

- Morreram como uns bravos. Hei-de dizê-lo ao

Imperador.

- Outra grande batalha e será um regimento extinto. Depois de Valontina os dois regimentos reduziram-se a pequenos batalhões; agora, sr. Marechal, os batalhões estão reduzidos a companhias.

Os vencedores seguem pela grande estrada de Moscou. Breves recontros, pequenas escaramuças com os cossacos e a retaguarda de Kutusoff, mas avançam constantemente para a cidade santa dos czares.

Já fazia frio, o céu aparecia nublado, um vento norte, cortante, fustigava as colunas desabridamente.(2)

Esperava-se outra batalha nas vizinhanças de Moscou. Kutusoff prometera aos seus milicianos defender a cidade num derradeiro esforço e só com esta promessa pôde contê-los, evitando que abandonassem as fileiras. Chegou mesmo a tomar posições nas aldeias de Troitzkoi e Welinskoe, tendo o flanco direito apoiado em Fili, sobre o Moscowa e o flanco esquerdo nas alturas de Worobiewo.

Mas durante a noite de 13, Kutusoff mudou de plano e bateu em retirada.

 

*1. Na sua referência à batalha, Castro Pereira diz a respeito dos dois batalhões:perderam nesse dia, entre mortos e feridos, mais de quinhentos soldados e trinta e nove oficiais, etc.

  1. Por causa da aproximação do equinócio, explica o Dr. Larry no tomo IV da sua Cirurgie militaire.

 

A chorarem de raiva e desespero(1) os intrépidos soldados, a quem a Virgem miraculosa de Smolensko parecia ter desamparado, atravessaram a marche-marche as ruas da grande cidade.

O dia 14 amanheceu claro. Tinham-se esfarrapado contra as orlas do horizonte as enormes nuvens pardacentas dos dias anteriores.

Muito para a frente, a soberba cavalaria de Murat, a galope desfechado pela estrada fora, levantava em volta de si nuvens enormes de poeira.

Rompera o sol, doirado, vivo, brilhante. Já deviam estar perto da grande cidade.

Iam os corações num pulsar agitado de impaciências. Subitamente, num relevo maior do terreno, as avançadas descobrem nas margens risonhas do Moscowa uma vastíssima aglomeração de edificações e o vulto enorme de uma cidadela de torres esguias, a lembrarem minaretes.

O sol, quási a prumo, dardeja sobre cúpulas de cobre dourado, inunda de luz centenares de torres, põe em foco palácios magnificentes, em cujos cristais chamejam rutilações diamantinas, bairros de estranha arquitectura, casas de tetos ponteagudos, doirados, de vernizes resplandecentes, a lembrarem as edificações chinesas, outras grosseiras, baixas, toscas como nas aldeias dos tártaros, longas filas de prédios de vivo e extravagante colorido, verdes, amarelos, -côr-de-rosa.

E na tôrre maior, sobre uma esfera de oiro, uma cruz alta de feitio singular.

- Moscou! Moscou! - exclamaram num grito de alma os soldados das avançadas.

 

*1. São as palavras do próprio ajudante do Czar, Butturlin.

 

- A cidade santa dos russos!

- A nova Jerusalém dos fanáticos - diz um general.

Ouvem-se canções guerreiras, as bandas dos regimentos atiram aos ecos da planura as vibrações de um hino triunfal, os tambores batem a marcha com frenético vigor.

Os soldados olham com mais enternecido orgulho para as águias dos seus regimentos.

Esquecem-se as fadigas e as privações de dois meses de marchas penosíssimas e raros se lembram dos cinquenta mil que ficaram mortos nos campos de batalha ou na dolorida tristeza dos hospitais de sangue.

Revoam aclamações ao Imperador e, na sua ânsia de conquista, a alma do Grande Exército, águia ideal de insaciada ambição, como que está já pairando sobre a grande cidade, cada vez mais próxima.

Mas no punhado de homens a que a Legião ficara reduzida outra era a impressão, outro era o sonho de alma.

A grandeza teatral daquela cidade de mil e seiscentas igrejas e mil e duzentos palácios não os deslumbra; reaviva-lhes saudades dos tantos que tinham morrido para eles poderem ver aquele quadro de mágica numa conquista a que eram estranhos.

Para eles seria apenas um lugar de repouso aquela altiva capital dos czares e em cada alma ficara um sonho do bendito dia em que lhes seria dado voltar a Portugal.

E na frente do minúsculo regimento, conversando a espaços, dois homens profundamente entristecidos, olhos quási velados para tudo aquilo, soberbamente triunfal.

Francisco Pego na sua imensa dor de pai; Luís de Castro numa tortura de saudades pela esposa queridíssima e por aquele filho pequenito, que trazia retratado na alma com o mesmo sorriso adorável que lhe colhera num beijo, o último do apartamento.

Mãe e filho em quais condições de vida, se viviam? Nenhumas notícias desde longo tempo!

Que podiam importar ao seu coração os esplendores daquela soberba capital?

Pelo meio-dia o espaventoso Murat entrava em Moscou. Encontra uma turba de cossacos e trava com eles uma escaramuça, que durou apenas o tempo suficiente para que as últimas colunas de Kutusoff evacuassem a cidade.

O corpo de Ney faz alto em um dos arrabaldes. Napoleão recebe informações e expede ordens para os corpos de exército da direita e esquerda. O Príncipe Eugênio ocupará as barreiras chamadas de S.. Petersburgo, estabelecendo ali o seu quartel-general; Poniatowski irá estabelecer-se com os seus polacos para o oriente da cidade, dominando a estrada de Kolomna; Davout ocupará os arrabaldes à retaguarda destes dois corpos; Murat seguirá os russos em retirada.

Vibram mais intensos os clamores de vitória da soldadesca.

- Moscou! Moscou!

- É nossa!

- Rica, imensa, tantos palácios, tantas igrejas!

- Dizem que tem aqui grandes riquezas do Oriente!

- Um belo e regalado conchego para o inverno de gelos deste danado país.

- E estes arrabaldes também hão-de ter muita coisa que nos faça conta. Para além uns poucos de palácios.

- Pão e carne à farta!

- Três ou quatro dias de saque e iremos daqui ricos. Cada um como um nababo!

- E em vindo a primavera, dá-se a sova final nos russos e ala para o Dnieper, a caminho de

França.

- Há-de levar tempo a passar o rio com os milhares de carros e carretas que nós teremos de levar ajoujados de coisas ricas!

Castro ouviu estes dizeres aos soldados da brigada a que pertencia o regimento português e foi avisar o Coronel.

- Esta algazarra que se está ouvindo corresponde bem ao grito das aves de rapina que descobriram

presa segura.

- Deixe que eu já previno os nossos. Mandou volver de costado para a direita as quatro companhias a que o regimento se reduzia e disse-lhes alto:

- Mando rebentar à pranchada a pele do primeiro ladrão que me desonrar o regimento. Vamos entrar numa cidade grande e rica. Para o saque ninguém daqui irá sem ordem minha e eu não a dou, porque não quero comandar uma quadrilha de bandidos. Fica feita a prevenção.

Ouviu-se do quartel-general o sinal de avançar.

A Guarda Imperial já tinha entrado sob o comando do Duque de Danlizg.

Napoleão entrara também, mas alojara-se provisoriamente numa hospedaria, a poucos passos das barreiras.

Ficava para o dia seguinte a entrada solene, triunfal, até ao Kremlim, o paço magnificente dos czares, a cidadela invencível da grande Rússia.

A desmaiar para as bandas do Ocidente, o sol punha uns tons sanguíneos nos vitrais da soberba catedral e fazia ainda refulgir a enorme cruz doirada da torre de Yvan, o grande.

 

           Nos subterrâneos do Kremlim.

O saque já tinha começado na tarde de 14 e durou toda a noite. Saque da soldadesca e de uma canalha sinistra que ficara em Moscou, acoutada nas igrejas, metida nos esconderijos dos bairros pobres, sumida nos subterrâneos dos palácios.

O Conde Rostopchin, governador da cidade, levou consigo quási toda a polícia e até os próprios bombeiros. Antes de a surpreender a pilhagem dos soldados, a cidade fora assaltada na sombra, sorrateiramente, pelos seus próprios bandidos e malfeitores.

A noite havia sido um horror! Ora a turba da soldadesca invadindo as igrejas e os palácios, ora umas quadrilhas de homens sinistros e uns grupos de cossacos ferozes que surgiam, ninguém sabia donde, e se sumiam sem se perceber por onde, desfeitos na sombra como fantasmas desaparecidos por algum alçapão de teatro.

E como se isto não fosse de sobra para espavorir a pobre gente de Moscou, logo ao entardecer da véspera um incêndio devorara o bazar, no bairro opulento dos mercadores.(1)

Supôs-se a princípio que houvesse resultado de alguma imprudência dos saqueadores, dos marauders. Acudiram alguns batalhões da Guarda, mas não havia material apropriado para a extinção de incêndios. Rostopchin mandara inutilizar todo o que havia, e só foi possível evitara propagação do fogo a outros bairros, em que abundavam as casas de madeira e os depósitos de óleos, de resinas, de açúcares e de bebidas alcoólicas.

Durou toda a noite a fogueira enorme do bazar e, na impossibilidade de a extinguir, os soldados foram acarretando de lá os veludos, as sedas, as peles raras de alto preço, os estofos ricos do Oriente e organizaram por sua conta um novo bazar.

Às 6 horas da manhã do dia 15 o Imperador atravessava as grandes ruas de Moscou à frente dos marechais e de todo o seu estado-maior brilhantíssimo. Seguia-o a escolta de mamelucos e a soberba cavalaria da Guarda, couraceiros, hússares, lanceiros, caçadores, com os seus uniformes de gala.

Nas janelas e às portas dos templos umas figuras de mulheres espavoridas; ladeando as ruas, curvando-se, pondo os joelhos em terra, numa submissão de escravos, os oprimidos burgueses e os judeus da cidade.

Nas vizinhanças do Kremlim, das janelas e do átrio de um grande teatro, muitas damas agitavam lenços

 

*1. «Uma hora depois de termos chegado rebentava o incêndio...» (Mémoirs du sargent Bourgogne, pág. 17).

Bourgogne era sargento da Guarda Imperial e foi testemunha ocular. Nas suas memórias, cheias de observação, dá-nos Bourgogne a fisionomia, o viver íntimo, o quadro pitoresco, sincero e flagrante, do Grande Exército, naquela campanha.

O seu livro tem tido já umas poucas de edições e figura com aplauso unânime entre os muitos que constituem a literatura histórico militar do período napoleónico.

 

e dezenas de homens erguiam os chapéus entusiasticamente.

- Viva Napoleão, o Grande! - bradavam. Eram actrizes e actores de uma companhia francesa, aos quais se haviam associado modistas, professoras, damas de companhia, floristas, artífices e homens de comércio de França, da Itália, da Suíça, da própria Alemanha, que há muito residiam em Moscou.

O Imperador agradecia comovido. A poucos passos para a frente um regimento de granadeiros da nova guarda apresentava armas. A banda tocava a música de uma canção militar intitulada: A vitória é por nós.

Entraram no grande arco da primeira muralha do Kremlim. Por cima, dentro de um alto nicho, a figura colossal de S. Nicolau, patrono da Rússia.

Estavam na cidadela (Krepots) e tinham diante de si o velho palácio imperial do século XIV, uma soberba construção, com os seus torreões semelhando minaretes e as vastas igrejas de cinco torres e zimbórios doirados.

Ali se encerram também o maior arsenal da Rússia, o palácio do Senado, e ao lado dele a famosa catedral de Santo Ivan.

No segundo recinto do Kremlim ficavam as ruas de mercadores de Kitaye-Gorod, cidade chinesa, fundação dos tártaros, e a Beloye-Gorod, a cidade branca.

Napoleão subia a grande escadaria do palácio com um alvoroço de homem juvenil, como se tivesse pressa de chegar lá acima e receio de que lhe fugisse aquela soberba hora em que ia atravessar, como triunfador, os salões seculares dos czares.

Por ali acima estátuas de guerreiros antigos, mármores magníficos, troféus preciosos, quadros de pintores imortais da Itália, da Alemanha, da Holanda, panóplias admiráveis.

Na maior sala, de deslumbradora opulência, o trono de Ivan, o grande, sobre alcatifas preciosas da Pérsia.

Olhou-o num soberbo olhar de desdém e encaminhou-se para uma das grandes janelas. Em baixo, as águias doiradas dos czares, mais além a grande ponte do Moscowa, ao longe uma planura imensa e risonha, onde se aninhavam palácios e aldeias; para o norte da cidade o antigo castelo de Peterskoé, de muros brancos e vermelhos, a residência tradicional dos imperadores nas vésperas solenes da coroação.

Que assombrosa grandeza a daquele triunfador! E como que dali os seus olhos de águia viam essa Europa, que a sua espada vencera e o seu poder humilhava.

Um dia, próximo talvez, assinada ali mesmo a paz imposta ao Czar, presa ao seu carro triunfal a coroa de Alexandre da Rússia, enfeixados atrás de si os troféus do Império mais vasto que tinha então o mundo, correria ao outro extremo da Europa e abafaria na Península os ecos das batalhas perdidas.

Naquele deslumbramento só uma coisa inquietadora lhe esquecera de ver.

Mas veio lembrar-lha um ajudante de Mortier.

- Sire, está a arder o palácio do governador, ardem os maiores prédios da cidade, o bairro dos judeus está em cinzas!

Napoleão turvou-se e reparou então para os feixes enormes de chamas que subiam dos vários bairros da cidade, por entre novelões de fumo.

- Mas de toda a parte! - disse.

- Dois terços das edificações da cidade são de madeira!

- Todas as tropas para debelar esses incêndios.

- Estão lá milhares de soldados. Inutilmente! Não se encontra uma bomba de incêndio e do rio é difícil acarretar água para os bairros interiores.

- Mas aquilo não é fogo casual!

- Sire, têem sido presos bandidos russos e

cossacos que saíam de subterrâneos e foram surpreendidos de archotes na mão a lançar fogo aos armazéns do comércio e aos palácios dos nobres.

Entrou açodado um coronel dos caçadores da Guarda.

- Majestade, está a arder aqui próximo o bairro a que chamam a cidade chinesa.

Não era possível duvidar. O clarão do fogo batia já nas vidraças como se fosse o lampejo de um sol poente de Agosto.

- Se o fogo me reduz a cidade a cinzas!... - pensava o Imperador, de rosto avincado, olhos fitos na fumaceira negra que parecia cobrir Moscovo como um grande crepe -, Onde buscar então quartéis de inverno?... O inverno deste país de neves!

Retirou-se da janela para ir êle próprio, como nos campos de batalha, estimular o esforço dos soldados contra aquele inimigo, mais formidável agora do que todos os exércitos do Czar.

Reparou numa grande tela com o retrato do imperador Alexandre.

- Pior e mais humilhadora paz, se é tua esta vingança! - disse de si para si, pondo um olhar de ameaça no retrato.

E enquanto Napoleão, o Grande, nem pode sonhar sequer o que se passa debaixo do Kremlim, nas galerias subterrâneas que vão comunicar com o arsenal, com o pantéon dos czares e com diferentes caminhos soterrados por onde formiga gente suspeita, desçamos nós a uma das mais vastas daquelas galerias.

Ao fundo uma casa quadrangular, de abóbada abatida, esverdinhada da umidade, tristemente iluminada por um lampeão de bronze, grande, antigo, pendente de um braço de ferro, chumbado na parede.

Por baixo dele uma ampla mesa de pedra, em volta uns bancos largos de madeira; a um recanto, sobre tabuões, peles grosseiras, como para servirem de cama.

Está encostado à mesa um homem ainda novo, de extraordinária corpulência e dura fisionomia. Veste o uniforme dos cossacos regulares e tem o braço esquerdo ao peito.

Reluzem-lhe à cinta os canos de duas pistolas grandes, de coldres.

A um dos ângulos negreja o arco de entrada para uma estreita escada. Guardam-no como sentinela dois cossacos de aspecto selvagem, barba hirsuta, gorro alto de peles, espada recurva afivelada ao cinturão encarnado, e lança aprumada, de coulo firmado nas lajes.

À porta de comunicação para a galeria, longa e estreita, outras sentinelas também de cossacos.

De quando em quando chegavam homens de sinistro aspecto, que entravam depois de reconhecidos pelas sentinelas da galeria. Eram emissários que vinham da cidade.

- E daí? - perguntou o homem de braço ao peito para um chefe cossaco recém-chegado.

- Já se deitou fogo a uma quarta parte da cidade.

- Nós deitaremos fogo ao resto.

- Têem aprisionado algum dos teus homens?

- Fuzilaram-me cinco ontem à noite. Mas a conta dos que os meus homens mataram é dez vezes maior.

- Todos franceses?

- Todos do exército desse maldito que veio profanar a santa cidade dos czares. Andavam a roubar os palácios, a violar as mulheres, a cair de bêbados! - disse numa expressão de ódio formidável.

- Há de ser aqui, ganha por nós, a maior batalha. Moscovo morrerá desfeita em cinzas, mas o invasor pagará os seus triunfos de Smolensko e de Borodino.

- O fogo já perto daqui. Havemos de queimar o tirano.

- Ou assassiná-lo na hora em que êle quiser fugir. É mais seguro.

- Anda muito vigiado, muito rodeado da sua gente.

- Embora. Temos lá em cima, escondidos, vinte dos nossos mais destemidos cossacos. Eles aproveitarão o ensejo de o matar, quando o fogo lá tiver chegado também. É preciso que a tua gente me prenda algum francês e o traga aqui para o obrigarmos a dar-nos informações. Mas prefiro algum de certos estrangeiros-que aí vêem com Napoleão.

- Quais?

- Uns de cabelos escuros, em geral menos corpolentos que os franceses e os alemães, fardas da côr da terra, portugueses.

- Não os sei conhecer.

- Hás-de saber. De entre os forçados, teus auxiliares, há um que é francês.

- Há. Um operário francês que há um ano assassinou uma mulher e nós tirámos da cadeia.

- Manda-o ter com os soldados, seus compatriotas; que lhes vá chorar as suas misérias e lhes conte que tudo perdeu nos incêndios de ontem; depois, em conversa, disfarçadamente, que lhes pergunte quais são os portugueses e em o sabendo que se lhes escape e venha procurar-te. Oferece-lhe vinte rublos(1) por esta indagação. E se êle fôr audaz e tiver amor ao dinheiro, que pergunte por um oficial dos portugueses, cujo nome te vou ensinar a dizer.

E pacientemente lho ensinou a pronunciar.

- Se puderem dar-lhe caça e mo trouxerem aqui, terá esse grilheta mais duzentos rublos e tu terás seiscentos.

 

*1. O rublo correspondia, aproximadamente, a 700 réis da moeda portuguesa.

 

Os olhos do cossaco incendiaram-se em cúpidos fulgores. Tinham o luzir sinistro de um olhar de lobo.

- Ainda que êle estivesse nos aposentos do próprio Imperador, lá iria dar com êle.

- Procura-o, inventa o meio de lhe dar caça, e terás certos os seiscentos rublos. Vai: não percas tempo.

O cossaco saiu. Vieram ainda outros emissários com informações a respeito dos incêndios.

Depois trouxeram um mercador judeu. O homem de braço ao peito conheceu-o logo e apertou-lhe a mão familiarmente.

- Meu tio?

- Deixei-o excelentemente. O conde Rostopchin muito vos recomenda que acelereis o incêndio da cidade.

- Ide dizer-lhe que está já adiantado e que hei-de levar até ao fim o encargo que tomei.

- Lembra-vos que pelo caminho secreto tenteis tirar do arsenal os troféus militares, penhores das maiores glórias da Rússia, e até me indicou de preferência as bandeiras tomadas aos suecos, aos turcos, aos persas, aos polacos.

- Bem sei. Já tinha pensado nisso. Tenho escondidos no Arsenal os meus homens mais resolutos.

«Esta noite hão-de tirar de lá as bandeiras e eles próprios as levarão pelo caminho subterrâneo para além dos arrabaldes. Parti, levai esta informação. Eu próprio lhe irei lá apresentar esses despojos gloriosíssimos das nossas remotas campanhas. Adeus, capitão Siniavim.

O fingido judeu era afinal um oficial do exército, muito da intimidade do governo de Moscovo.

Saiu. O homem de braço ao peito passeava num frenesi de impaciências.

- Assim êle me caia nas mãos! - pensava - Um ajuste de contas, soberbo e trágico!

Cuspo-lhe a farda e hei-de esmagá-lo aos pés como se esmagasse um asqueroso réptil! Contas de cinco anos, que sanguinosas contas!

«Ela viria depois, ela virá, como escrava e como amante, para eu me embriagar com os seus encantos, depois que as labaredas de Moscovo queimarem as águias de Austerlitz e as neves do nosso inverno sepultarem o Grande Exército do Corso.

Ouviu dizer o santo e senha no lôbrego corredor; parou e pôs-se a escutar.

Uma das sentinelas de cossacos introduziu um homem em trajes de postilhão polaco.

- Ainda bem que chegaste - disse o chefe jubilosamente, indo para êle. - Tardavas-me!

- Tive de fazer grandes rodeios. Esperei muito, até que os cossacos escondidos à boca do subterrâneo me pudessem guiar para aqui.

- Conseguiste encontrá-la?

- E com tanta fortuna que não estava lá o polaco velho de quem era preciso acautelar-me.

- Não está?

- Tinha ido à capital.

- Leu a carta?

- A soluçar, com os olhos cheios de lágrimas...

- Por êle! - rouquejou num estremeção de ódio - Depois?

- Abraçou-se muito num pequenito que trazia ao colo, a beijá-lo tanto que parecia doida I Percebi que era um filho.

- Dele! - disse consigo. - Ainda melhor para a minha vingança! Acreditou então, não teve suspeitas?

- Nenhumas. Julguei que me caía ali morta!

- Mas afinal? Depressa!

- De súbito, encheu-se de ânimo, enxugouos olhos e disse-me: Irei vê-lo.

- Ah! que então está seguro o meu plano! Vem. Mas não te perguntou onde poderia encontrá-lo?

- Perguntou, sim, senhor. Respondi-lhe que tinha sido gravemente ferido em Smolensko e de lá viera prisioneiro, provavelmente, para Moscou.

- Demónio! Em Smolensko encontrará informações completamente diversas!

Reflectia. Continuou a passear.

- Ela pode lá raciocinar!-dizia consigo.- Em Smolensko saberá que foram os franceses os vencedores, que já vieram sobre Moscou e ela, para o ver, para lhe ser enfermeira, virá também, sem que lhe importem divergências de pormenores. Vem porque o ama cegamente. Vem e nem sonha sequer que é para mim que ela vem! E quanto maior empenho o seu em querer-lhe, maior ânsia a minha de vingar-me, matando-o a êle no maior desprezo, ligando-a a mim na mais escandalosa mancebia. Minha, depois de ter sido dele!... Irremediável dor, mas eu me embriagarei nos seus encantos, tanto, tanto, que até esse passado desesperador quási de todo venha a esquecer-me. E no coração do venturoso possuidor, o primeiro, hei-de eu esmagar aos pés esse amor que o tornou preferido a essa imagem que o fèz ditoso. Para nunca mais recordar, para nunca mais sentir!

Chegou um agente da antiga polícia da cidade, em disfarce de mercador tártaro. Trazia notícias de mais fuzilamentos e incêndios. Tinham deitado fogo ao templo da colónia grega. As labaredas chegavam já ao grande hospício das crianças abandonadas.

- Para aí foi barbaridade desnecessária!

- O fogo vai seguindo o seu caminho sem fazer excepções. Mas acudiram-lhe. Conseguiram apagá-lo.

- Quem? Os franceses?

- Esses depois. Os primeiros soldados que lá chegaram falavam uma língua diferente da que eles falam e têem uniformes mais escuros. Mandava-os um oficial ainda novo.

- Mas de que nação?

- Isso é que eu não sei. Eu estava lá escondido, via o que êles faziam, mas não lhes entendia o falar.

- Em geral menos claros do que os franceses, cabelos escuros, de mais baixa estatura? - perguntou-lhe como se estivesse seguindo uma posição que não queria expor abertamente.

- Exactamente.

- São portugueses. Sinais do oficial?

- Alto, robusto, de belo aspecto.

- É preciso deitar-lhe a mão - rouquejou.

- A êle lhe não deitei eu a mão, mas deitei-a a um objecto que lhe pertencia e lhe caiu na labutação para apagar o fogo.

- O que? Depressa!

- Este retratozinho com a sua moldurazita de oiro - disse, metendo a mão num bolso interior. - Tinha ficado a luzir entre uns punhados de cinzas e, assim que eles sairam, apanhei-o.

Deu-lho para a mão. O outro tomou-lho sofregamente e fêz-se muito pálido. Era a linda miniatura de Maria Pulaski.

- Aqui tens por êle - disse, dando-lhe um punhado de moedas.

- Oh! meu senhor!

- Dez vezes isso, se me puderes apanhar esse oficial.

- Vou segui-lo e talvez esta noite o possa trazer aqui.

- Está feita a promessa. Dez vezes esse dinheiro. Vai.

O polícia saiu, fazendo-lhe umas grandes mesuras.

- Como ela era! - disse de si para si o homem de braço ao peito, fixando muito o retrato. -Como ela foi! A noiva juvenil que eu sonhei, a minha prometida esposa de há seis anos! Assim, antes de a terem maculado os beijos do outro! Ficas para mim, para eu sonhar revendo-te. Para ter-te à cabeceira da minha cama, quando ela, a viúva do outro, fôr a minha pública amante!

E guardou-o sob o peito da sua farda de cossaco.

Um pope, de longas barbas de neve, de paramentos brancos, cruz de oiro ao peito, descia lentamentt a escada estreita que dava para a cripta dos czares, na igreja de S. Miguel.

- Os libertinos já estiveram no templo a roubar os altares, a revolver tudo! - disse o pope numa grande expressão de ódio e de mágoa.

- Mas não deram com a vossa família, meu venerável sacerdote?

- Ainda não. Arrombaram dois túmulos imperiais à procura de oiro e jóias, mas não deram ainda com a capela onde estávamos escondidos. Saíram. Vieram chamá-los. O incêndio já está muito próximo do Kremlim. O pavor que eu tive! O dó que me faz aquela minha amargurada sobrinha!

- Correrá grande perigo, se essa canalha der com ela. Assim juvenil, a mais radiante beldade que tem Moscou!

- Horrível! E não há-de o céu castigar a impiedade desses bárbaros do Ocidente?

- Começamos nós a castigá-los, o fogo expulsará esses poderosos bandidos.

E daqui a pouco o céu mandará neve que chegue para os amortalhar a todos. Mas seria prudente levar a vossa sobrinha para fora da cidade, pelo subterrâneo.

- Já tentei convencê-la a sair. Não quis. Tem um horror invencível ao subterrâneo. Disse-me que preferia morrer a voltar lá.

- Certamente por causa do desastre que sucedeu ontem à pobre mãe.

- Sim, naquela desgraçada tentativa de ontem.

- Pois sim, mas bem percebe que foi um caso excepcional. "

Entrou um homem de sinistro aspecto. Era um forçado, um grilheta a quem Rostopchin mandara pôr em liberdade para capitanear uma horda dos outros, também libertos, com o encargo de deitar fogo a Moscou.

- Que há?

- Está a arder mais de metade da cidade.

- Os franceses tentam extinguir os incêndios?

- Tentam, mas não podem. Os celeiros e os casebres de madeira ardem como isca. Amanhã já não haverá provisões nenhumas na cidade. Só se os invasores devorarem os carvões e as cinzas - regougou com profunda expressão de ódio.

- Bem! Bem!

- Mas os invasores deram em ladrões e roubam tudo o que nós não conseguimos queimar!

- É espólio que lhes não há-de ficar nas mãos.

- Mas fazem pior que roubar. Violentam as mulheres e fazem em cavacos os altares.

- Maior vingança há-de ser a nossa. Vai; mais fogo, mais pressa em pôr tudo isso a arder.

- Já faltam os archotes e os homens!

- Os homens! Novecentos forçados e os meus cossacos, e faltam homens para acabar de pôr a cidade em cinzas!(1)

- Os franceses têem fuzilado muitos, alguns morreram nas casas a arder, os outros começaram a ter medo.(2)

- Poltrões! Vai falar-lhes em nome do Conde Rostopchin, que eu aqui represento. Mais punhados de rublos, maior prémio, perdão absoluto dos seus crimes, terras do estado repartidas por êles; mas que se aviem, tudo a arder até de manhã!

- Lá vou empurrá-los. A promessa é de apetite. Saiu.

- Meu venerando amigo-disse o homem que parecia mandar ali - é preciso vencer os terrores de sua sobrinha e levá-la daqui para fora.

- Duvido que me seja possível convencê-la!

- Ao menos trazê-la aqui para baixo. Isto é seguro. Por aquela escada de pedra não pode descer a artilharia, e, corrida a porta de bronze daquele arco por onde apenas cabem dois homens, não haverá forças humanas que possam aqui entrar. E lá por cima pode arder o Kremlim todo que não chegará cá uma pitada sequer das suas cinzas.

Entrou um cossaco.

- Senhor, os franceses estão dentro do arsenal!

 

*1. O Barão Fain diz que eram 900 os incendiários que o governador Rostopchin deixara escondidos na cidade para a reduzirem a cinzas. (Manuscrito de 1812, tomo II, pág. 89).

  1. Eram executados militarmente, diz Fain, e os cadáveres atirados aos brasidos dos incêndios.

Bourgogne conta que numa praça, não distante do palácio do governador, tinham os franceses dependurado das árvores os cadáveres dos fuzilados e tantos eram já que os soldados lhe puseram o nome de praça dos dependurados (Memórias pág. 60)

 

- Começaram a tirar as bandeiras e os alfanges tomados aos turcos! Querem levá-las.

- E os teus companheiros?!

- Lá estão escondidos.

- Corre lá. Que fechem as portas de surpresa.

- Foram arrombadas a machado.

- Que fujam para aqui com as bandeiras... as dos suecos, as dos turcos, as dos persas de preferência.

- Não podem. Os franceses não deixariam trazê-las.

- Que os matem.

- Somos vinte e estão lá dentro duzentos franceses!

- Então que lhe deitem fogo. Depressa, vai.

O cossaco deitou a correr para a galeria que ia dar ao arsenal.

- Os mais gloriosos troféus que tem a Rússia!

Da escada que subia para a cripta imperial desceu, lívido, um velho soldado da guarda do Czar.

- Gritos lá em cima! Os franceses voltaram! Desceram à capela encoberta, podem chegar aqui!

- Pai supremo! - exclamou o pope, cruzando as mãos.

O homem de braço ao peito fez-se muito pálido e

correu para as sentinelas do arco.

-.Já para baixo a porta de bronze! Já!

Os cossacos atiraram as lanças ao chão e, num esforço possante, desprenderam as cadeias que sustentavam a porta por cima da ogiva do arco.

- Por piedade, não! - suplicou o pope, correndo para o homem de braço ao peito - Acudi lá cima!,.. À minha desditosa sobrinha!

- Primeiro o serviço da pátria! - respondeu-lhe rudemente.

- Miguel Platow, por aquela casta mulher, uma criança ainda, piedade!

- Depressa! - gritou o capitão dos cossacos para as sentinelas.

- A mim só, mas deixa-me passar. Para ir defender! - clamou o velho, a estender os braços para a porta, como se as suas mãos trémulas pudessem segurá-la no ar.

Platow afastou-o violentamente.

- Desgraçado, que pode ficar esmagado!

As correntes rangiam já nas grandes roldanas de ferro e a porta de bronze descia do lado interior da ogiva, lentamente, por entre duas caneluras de ferro. Pousou na soleira, produzindo um ruído cavo, sinistro.

- Levam-na! Para a infamar! - rouquejou o pope, arrepelando as barbas de neve, numa dor de desespero - Entre a torpe soldadesca, linda e pura como os anjos!(1) - soluçou.! - Como se fora a porta de um sepulcro!

 

*1. Descrevendo os desvairos e as brutalidades da soldadesca Labaume refere eloquentemente os vandalismos praticados na igreja de S. Miguel, que encerrava os túmulos dos antigos imperadores da Rússia. Uma errada tradição atribuía espantosas riquezas àqueles túmulos. Acreditando que havia nèles tesouros fascinadores, os soldados entraram na igreja de archotes nas mãos e dexceram aos vastos subterrâneos para perturbarem a paz e o silêncio dos sepulcros.

Não encontraram os cobiçados tesouros e então, numa selvajaria de desespero, arrombaram os túmulos, profanaram as cinzas e levaram umas piedosas oferendas cujo valor material era insignificante (Relação completa da campanha da Rússia, em 1812, pág: 226).

Bourgogne conta que, entre aqueles sarcófagos, encontraram os franceses algumas pessoas escondidas e entre elas uma jovem linda e distinta, que diziam pertencer a uma das primeiras famílias de Moscou... (Memórias, pág. 47).

Segundo Bourgogne, um oficial superior do exército francês tornou sua amante aquela formosa menina.

 

- disse com um gesto de alucinado, a mão trémula a apontar aquele taipal de bronze.

Depois voltou-se para o homem de braço ao peito, e como se fosse um padre dos tempos medievos na atitude trágica de excomungar, gritou-lhe a tremer, as lágrimas a correrem-lhe em fio:

- Maldito sejas, que me não deixaste ir morrer por ela, a defendê-la! Talvez me ouvissem os ímpios, talvez tivessem dó de mim e dela, mais humanos do que tu! Nem Deus te pode perdoar. Nem êle!

Deu uns passos hesitantes, torcidos, e caiu desamparado no chão.

 

         Na cidade em cinzas.

Cândido Xavier e Luís de Castro auxiliavam as tropas da Guarda Imperial com um forte piquete dos seus portugueses. Tornava-se impossível extinguir completamente os incêndios, mas para que o fogo não devorasse a totalidade dos edifícios da cidade e as próprias casas de pedra, o recurso eficaz, o único, era dar caça aos incendiários, os malfeitores, aos cossacos escondidos nos escombros e nos recantos dos armazéns subterrâneos.

Era já difícil atravessar as ruas. As chamas golfavam de todos os lados e os novelões de fumo toldavam as ruínas. Asfixiava-se naquele braseiro enorme de quatro léguas de circunferência, por onde vagueavam espavoridas cerca de trezentas mil pessoas.(1)

 

*1. No verão, Moscou chegava a ter mais de trezentos mil habitantes.

Referindo-se aos incendiários e a uma leva de prisioneiros que ia escoltando com soldados do seu regimento, Bourgogne diz nas suas Memórias: «Entre estes desgraçados, dois terços, pelo menos, eram forçados de figuras sinistras, os restantes burgueses da classe média e homens da polícia moscovita, fáceis de reconhecer pelo seu uniforme.

 

- Sufoca-se! - disse Cândido Xavier.

- E a cidade está irremediavelmente perdida. Desfaz-se em fumo este acantonamento com que Napoleão contava para defender o Grande Exército das inclemências do inverno!

Do lado de um largo próximo veio o estrondear de umas poucas de descargas.

- Que é isso? - perguntou Cândido Xavier ao oficial que ia na vanguarda do piquete.

- Estão a fuzilar incendiários - respondeu um subalterno.

- Esses demónios surgem de toda a parte! - disse o Major.

Entraram numa rua longa e ampla. De um e outro lado apenas prumos de madeira carbonizados, ombreiras de pedra enegrecidas a marcarem as linhas dos prédios que o incêndio devorara.

Foi preciso marchar a um de fundo por causa dos destroços de móveis que atravancavam o caminho, muitos deles a fumegarem, nuns estalidos secos, ardendo também.

- Um inferno isto!

Iam atormentados pelo calor, enfarruscados como carvoeiros.

E de toda a parte um coro horrendo de gemidos, súplicas, de pragas, que se chocavam nos ares sobre a grande cidade a extinguir-se.

- Aqui nada temos que fazer. Desembocaram numa praça. De um lado uma igreja ainda de pé, intacta, cheia de espavoridos até à porta, a soluçarem rezas. De lés a lés da praça, grupos trágicos de mulheres assediadas pela soldadesca sensual, montões de mobílias ricas a servirem-lhes de parapeito, ébrios que vomitavam obscenidades, rameiras dos acampamentos que grunhiam cantigas imundas.

De repente vêem da igreja uns gritos lancinantes e toda aquela multidão, enovelada lá dentro num encolhimento de pavor, jorrou para o largo, atropelando-se, esmagando crianças que as mães tinham perdido na fuga, afogando nas suas ondas velhos trôpegos que para aí se tinham ido asilar desde manhã.

Uma coisa doida e tremenda!

- Fogo! Fogo!

- Deitaram fogo à igreja!

Isto gritavam as mulheres. Os portugueses não lhes entendiam as palavras, mas aquele terror compreendia-se bem.

Estalavam os vitrais das janelas onde as línguas vermelhas do incêndio já tinham assomado.

- Lá para dentro! - ordenou Cândido Xavier - Para ver se há alguém a salvar, para ver se apanhamos os incendiários.

Entraram. Lá dentro ficara uma velhita, uma entrevada, a quem o filho levara para ali em braços. Mas o filho morrera em luta com um dos incendiários. Estava golpeado no chão. Levantou-a nos braços oJoão Luís e levou-a para fora.

- É por intenção da minha velhinha que lá me ficou em Lisboa - ia dizendo piedosamente.

Ardiam os altares e as imagens, as chamas estalavam já altas, o tecto esbarrondava-se.

- Para fora - ordenou Cândido Xavier - Os malfeitores sumiram-se. A igreja vem abaixo!

Os soldados correm para a porta e saíram.

Detrás de um grande pilar alguém gemeu doloridamente. Luís de Castro afastou-se de Cândido Xavier e foi direito ao pilar num impulso de comiseração.

Não deu aviso e o Major saiu também, sem reparar que êle tinha ficado atrás.

Castro não encontrou ninguém. Teria sido engano seu. De súbito, por uma estreita porta que dava para uma das torres, saíram de salto dois homens de sinistro aspecto. Pôs-se à frente deles um outro em traje de mercador tártaro.

Num pulo, ágil, como de animal felino, um deles pegou Luís de Castro, deitando-lhe ao pescoço as mãos grandes, cabeludas, grosseiras, que se fecharam como as vergas de aço de uma golilha. O outro abraçou-o pelas costas.

Parecia irremediavelmente perdido.

Quási afogado por aqueles dedos como garras e abraçado por uns braços de Hércules, Luís de Castro estrebuxava esmorecidamente, sem poder soltar grito, o rosto congestionado, os olhos numa dilatação pavorosa de enforcamento.

- Já, depressa, ali para dentro com êle! Mãos cheias de oiro, se o levarmos vivo - rouquejou o fingido tártaro.

- Dê sinal para os outros - disse o que cingia o pescoço do oficial.

Então o tártaro disse alto uma palavra que tinha a vibração de um uivo.

Surgiram do altar-mor quatro homens de gorros de peles, cossacos certamente, mas o teto da capela-mor abateu repentinamente sobre eles e ouviram-se ao mesmo tempo dois gritos medonhos:

- Bojo! Bojo!(1)

- Inferno! - regougou o que tinha aspecto de mercador tártaro - Vá, nós três com êle. Este cinturão na boca, já, para o amordaçar.

- Meu Capitão! Meu Capitão! - chamou alguém da porta.

 

*1. Meu Deus! Meu Deus!

 

Castro fêz um movimento de supremo esforço e soltou um grito enrouquecido.

Os três homens arrastavam-no consigo.

Muito pálido, o soldado que chamara galgou os oitenta passos que o separavam daquele grupo, e com a espingarda a tremer-lhe nas mãos, desfechou um tiro contra o tártaro, visando-lhe um ombro, e de um salto vibrou uma baionetada pelas costas ao que arrastava Luís de Castro, segurando-o pelo pescoço.

O tártaro fraquejou e caiu a praguejar.

O que levou a baionetada foi logo ao chão, soltando um grito roufenho; o outro fugiu, sumindo-se pela estreita porta da torre.

- Cães! - bramiu o soldado.

- João!... - disse Luís de Castro com voz dolorida, ainda mal segura.

E levantou-se do chão num supremo esforço, a errar os passos como estonteado.

- João, ajuda-me a sair daqui. Sufoco!

O granadeiro amparou-o amoràvelmente, e assim o foi conduzindo para junto da porta.

Ouviu-se uma derrocada enorme. Viera abaixo todo o teto da parte superior da nave. As nuvens do fumo caldearam-se com a nuvem densa da caliça. Era de asfixiar.

Mas, por fortuna sua, pelo boqueirão da derrocada entrou uma baforada intensa da ventania que lá fora estava auxiliando a tarefa dos incendiários.

Voltando para a porta, Castro resfolegou avidamente.

Ouviam-se uns gemidos muito semelhantes àquele com que o Capitão momentos antes se enganara.

Castro olhou para trás e reparou no tártaro, que se arrastava para o lado da porta estreita de onde tinham surdido os outros.

- É preciso trazê-lo - disse para o João Luís.

O granadeiro correu para o ferido, debruçou-se

para êle e tirou-lhe do cinto um punhal e duas pistolas.

- Matava-se aqui como um lobo, meu Capitão - lembrou o João Luís.

- Não! Preciso saber para onde me queriam levar.

O granadeiro arrojou para longe o punhal e as pistolas e ergueu o ferido de repelão.

- De pé ou de rastos, hás-de ir! - gritou-lhe.

O tártaro não compreendia as palavras, mas adivinhava-lhe o intento. Soltou uns gemidos longos, doloridos, e fêz um arremesso como se tentasse fugir.

O João Luís voltou-lhe a baioneta contra o peito.

- Morres, alma danada!

- Para fora com ele! - disse o Castro já ao pé dos dois - A igreja vai desabar.

O granadeiro deitou as mãos às barbas do suposto tártaro e arrastou-o consigo.

- Vens pela focinheira como um urso de saltimbanco.

Velado, espavorido, a escorrer em sangue, o homem saiu a gemer, ruins gemidos de animal bravo.

Era tempo. Sentiu-se um ruído cavo como de trovão subterrâneo. Tinha caído o resto do teto.

Tonificado por aquele vento, que esfarrapava a fumaceira por cima da praça e ia atiçar o fogo pelos quarteirões adjacentes, Luís de Castro sentia-se já no pleno uso das suas forças.

Foi procurar Cândido Xavier e o piquete de portugueses.

Mas sempre com eles o tártaro. Castro segurando-o pelo braço esquerdo, o João Luís levando-o pelas barbas.

A cada instante o ruído lúgubre das derrocadas, pelos ares uma chuva brilhante de faúlhas; cada vez mais repugnante e mais crasso o cheiro dos óleos queimados, das madeiras, dos armazéns de aguardente e açúcar, das mil opulências e das mil trapagens de uma grande cidade.

E uns contrastes brutalmente trágicos, em tudo aquilo! Rameiras de torpe egoísmo a levarem nos braços, lívidas, soluçantes, loucas de dor, umas pobres meninas de fidalga gentileza, que a soldadesca violara. E a beijarem-nas, nuns beijos sórdidos em que lhes bebiam as lágrimas, como se elas fossem companheiras suas, da mesma origem imunda.

Soldados ébrios a chasquearem de uns pobres velhos que tremiam de medo; rapinantes ajoujados de estofos riquíssimos, de sacos de açúcar, de cestas e caixotes de garrafas, de pelicas caríssimas, de quadros preciosos das grandes escolas antigas da Alemanha e da Itália(1).

Pelos recantos, chorando e tremendo, com um lume de terror nos olhos desvairados, crianças perdidas, orfanadas pelo fogo, num confrangimento de avezitas sem mãe e sem ninho, à beira daquele mar de fogo!

Deram muitas voltas à procura dos portugueses., e o tártaro, oprimido de dores, quási exausto de forças, o ombro direito a gotejar sangue, já não podia mais.

Castro viu uma pequena carreta de mão, tombada no portal de um casarão a esbrasear-se.

Chamou um soldado francês que passava e ofereceu-lhe dinheiro para ajudar a levar a carreta. Aceitou.

Estenderam-lhe em cima o tártaro quási desmaiado.

- Mas se é incendiário, fuzila-se já - lembrou o francês - E é mais um para a conta.

 

*1. Bourgogne refere nas suas Memórias que em certo palácio magnífico encontrou uma colecção de quadros das escolas flamenga e italiana (Pag. 20).

 

- Este, não. Há-de ir comigo. Quero ouvi-lo.

Seguiram. Encontraram enfim o piquete português. Cândido Xavier tivera de acudir a uma pobre gente francesa, a quem os forçados tinham incendiado a casa e intentavam assassinar.

Era uma companhia de teatro. Na rua as damas e os actores, num esmorecimento de ânimo, em grupos; olhos afogados de lágrimas. A casa, um hotel vastíssimo, ardia toda.

Num estonteamento de idiotas, o empresário e o gracioso da companhia nenhum auxílio tinham prestado aos colegas e apenas se lembraram de salvar o mais precioso do guarda-roupa, que tinham consigo no hotel. Mantos reais, coroas, gibões bordados, chapéus de plumas, armaduras de latas, as frandulagens preciosas de um teatro(1).

Cândido Xavier disse ao Castro que andara à procura dele na praça, já em cuidado, quando o vieram chamar para socorrer aquela desditosa gente. Castro resumiu-lhe o lance da igreja.

- Estou convencido de que os patifes me queriam levar vivo. Podiam assassinar-me de surpresa, se era apenas o ódio aos invasores que os impelia contra mim. Mas arrastavam-me para me levarem consigo.

- Porquê?

- Há-de dizê-lo aquele patife que ali vem - disse, apontando a carreta -Vou guardá-lo com sentinela à vista. Há-de falar.

 

*1. Conta Bourgogne um caso parecido nas suas Memórias. Êle e alguns dos seus camaradas tiveram de acudir a umas senhoras, a quem os polícias moscovitas, colaboradores dos forçados, tentavam incendiar a casa, e se opunham a que salvassem, ao menos, o seu guarda-roupa de teatro. Eram actrizes francesas. De gracejo, Bourgogne menciona entre os salvados a toga de César, o capacete de Brutus e a couraça de Joana d'Arc. (Pág. 22).

 

- Infelizmente nenhum de nós o poderá entender.

- Temos aí franceses, suíços e italianos que residiam aqui e algum hei-de encontrar que entenda a língua do país.

- Mas não posso perceber por que interesse ou com que fim o queriam levar! Absolutamente desconhecido para eles, encontrado na igreja por acaso...

- Já me lembrei de Miguel Platow.

- Inverosímil. Platow terá retirado com o exército.

- Bem sabe que se têem encontrado por aí escondidos oficiais e soldados russos, feridos muitos deles, outros, provavelmente, auxiliares dos incendiários.

- Mas podiam lá adivinhar que haviam de encontrá-lo naquela igreja!

- É verdade isso... Salvo se me espionavam e seguiam, sem eu ter dado por tal. Hei-de sabê-lo.

- Tudo comigo! - gritava na frente um coronel de caçadores, ajudante de Mortier.

Viu Cândido Xavier e veio para êle.

- Sr. Major, queira seguir-me com toda a sua gente. O fogo chegou já ao Kremlim! O Imperador pode correr perigo.

- Imediatamente.

E mandou seguir a marche-marche.

- João, tu vais para o quartel com esse ferido. Escolhe outro dos nossos para te ajudar. Encerra-o no meu alojamento, e tu de sentinela a êle.

- Pode v. ex.a ir descansado. Nem o próprio diabo mo arrancará das mãos.

O João Luís chamou um granadeiro que ia na retaguarda do piquete; agarraram-se os dois à carreta e foram seguindo.

Logo depois do meio-dia o incêndio rebentara nas cavalariças imperiais. A guarda tentou extingui-lo e estava naquela tarefa quando o fogo flamejou numa torre contígua ao grande edifício do arsenal.

As faúlhas caíam sobre montões de estopa que os russos tinham deixado a esmo no pátio.

Não faltou mesmo quem dissesse que da torre fôra lançado para baixo um foguete incendiário.

Fosse como fosse, a estopa ardia como isca e no pátio estavam os carros de munições da artilharia da Guarda.

Um perigo enorme! Os artilheiros correram logo com baldes de couro e celhas a afogar em água a estopa incendiada, enquanto os granadeiros e os caçadores arrastavam para fora os pesados veículos, carregados de pólvora.

A explosão era quási certa e seria horrível. Foram prevenir o Imperador.

Desceu; quis ver o perigo, alentar os que trabalhavam em tão extraordinárias condições. Tentaram dissuadi-lo, insistiu, foi.

A água escasseava, e a despeito de todos os esforços, o fogo lavrava e ainda havia lá dentro algumas dezenas de carros de pólvora.

- O Imperador! - exclamaram os soldados, movidos de terror por êle.

- Com êle aqui é que nós temos medo!

Ouviu isto o general Lariboissière e disse-o a Napoleão, solicitando-lhe que se afastasse. Em requintes de abnegação, alguns artilheiros levantavam de braçado a estopa inflamada, afastando-a dos carros de pólvora mais próximos do Imperador.

Napoleão comoveu-se, acedeu e saiu. E felizmente os soldados conseguiram extinguir o fogo.

- Agora - mandou o Imperador - tirem cá para fora essas bandeiras dos persas, dos suecos, dos turcos. Hão-de ir para o lado das outras, das centenas delas que temos tomado na Europa.

Num estremecimento de orgulho os soldados vitoriaram-no freneticamente e correram a buscar as bandeiras, que já de manhã tinham enfeixadas em uma das salas do arsenal.

Decorreram duas horas. Napoleão estava apreensivo. Torturava-o a ideia de abandonar o Kremlim e perder Moscou.

Estes selvagens! - repetiu a espaços com uns grandes lampejos de cólera no olhar.

Apareceu o príncipe Eugênio. Vinha solicitar-lhe que saísse dali e fosse para a barreira chamada de S. Petersburgo, onde estava acantonado o corpo de exército. Bessières e Lefevbre instaram também.

Avincando o rosto, aquele extraordinário rosto de medalhão romano, incendidos em lampejos que pareciam de cólera os olhos azuis que turbavam quem os fitavam, Napoleão rejeitou o alvitre secamente.

- Para o chefe do Grande Exército, Imperador dos franceses, não há na Rússia outro palácio que valha este. O mais altivo e magnificente que tinham os czares, a cidade invicta da lenda secular que eu aniquilei. Fico. Aqui se há-de assinar a paz que eu ditar.

Mas, como a replicar-lhe; estoiravam de súbito os vitrais das janelas altas de um ângulo do Kremlim.

- O fogo no palácio! - gritaram centenas de vozes.

As labaredas saíam das janelas escancaradas, a retorcerem-se como se fossem ninhadas de serpentes espavoridas.

Napoleão afogueou-se.

- Mas donde surgem e onde se vão sumir esses incendiários?

- De todos os lados! Em toda a parte - respondeu Gourgaud, seu oficial às ordens, que saíra do palácio, apreensivo, tristemente alvoroçado -, Sire, as chamas estão cercando o Kremlim! Ondas de fogo vêem para ele, subindo! Na pessoa de Vossa Majestade correm aqui um perigo enorme o exército e a França. Sire, ouvi dizer que o Kremlim estava minado!

- Não sairei senão quando fôr absolutamente necessário abandonar isto, posto num montão de ruínas por esses incendiários fantasmas!

- Sire - observou-lhe Bertier -, se o fogo blo queia o Kremlim, será temeridade funesta arriscar aqui, na vida preciosa de Vossa Majestade, o futuro do exército e de França.

- Mas não será exagero de imaginações esse mar de fogo que nos vem sitiar?

- Majestade vi-o eu de um terraço - acudiu Gourgaud.

- Berthier, sobe lá, para avaliares esse perigo. Gourgaud, acompanhe o sr. Marechal.

Foram e poucos minutos depois estavam de volta.

- Sire, de momento para momento maior perigo! Dois terços da cidade arderam. No segundo recinto do Kremlim o fogo devora tudo!

Napoleão reflectia; custava-lhe a despegar-se dali.

- Um torreão que se aguente de pé e ficarei lá.

- Sire, bloqueados pelo fogo, Vossa Majestade aqui, se Kutusoff atacar os corpos de exército que estão nos arrabaldes, como há-de o chefe supremo dirigi-los, dar-lhes alento, assegurar-lhes a vitória?

O imperador empalideceu e como que uma sombra enorme toldou o seu soberbo olhar de águia.

- Seja - rouquejou - Mortemart - disse para um dos oficiais às ordens - vá ver por onde é possível passar através da cidade para o arrabalde de S. Petersburgo.

Ordenou que lhe trouxessem o cavalo.

Montou e todo o estado-maior se pôs a cavalo.

A uma centena de passos estava debaixo de forma o piquete português.

Castro falara com Cândido Xavier e seguiu Mortemart.

Cêrca de uma hora depois o oficial às ordens voltava com esta esmorecedora informação:

- Sire, não é possível passar; as chamas e as ruínas tomaram-nos o caminho!

- Em luta contra o fogo esses soldados das nossas maiores batalhas! Seja.

Berthier deu logo ordem para meter em forma todas as forças da nova e da velha Guarda. Os tambores bateram o toque de unir.

Chegavam até ali os ruídos, cada vez maiores, das derrocadas, o estridor dos gritos, os novelões de fumo. A atmosfera sufocava.

- Sire! - disse um oficial que chegava ofegante, a farda esfarrapada, o rosto enegrecido pelo fumo. - Há um caminho para o arrabalde, um carreiro por onde pode passar um homem a cavalo por entre os esqueletos das casas esbraseadas.

Napoleão fitou-o atentamente. Conhecia-o bem. Era Luís de Castro.

- Porque o afirma?

- Sire, porque o fui procurar e chego de lá agora.

- Foi ganhar a sua patente de major.

- Sire, nada mereço e nada quis ganhar.

- Então por interesse de quem esse serviço espontâneo?

- Pelo interesse desse exército a que pertence um punhado de compatriotas meus. E esse exército só Vossa Majestade o pode salvar e com êle lhe será dado empreender uma grande e gloriosa obra de justiça.

- Qual? - perguntou o Imperador, entre surpreendido e desconfiado da lucidez de espírito daquele oficial.

- A ressurreição da Polónia, a minha pátria de adopção, se nunca mais puder voltar à outra, que nem aqui mesmo me esquece, Majestade.

- Será o nosso guia.

- Com um piquete dos meus portugueses, para irmos afastando as vigas esbraseadas que de instante a instante estão caindo para o carreiro por onde é possível passar.

- Leve os seus portugueses.

Castro recolheu trinta homens. E lá foram de armas em bandoleira, ao ombro machados e alavancas, fornecidos pelo trem da Guarda Imperial.

- É extraordinário esse homem! - disse o Imperador para Berthier -, Amanhã será major, mesmo contra sua vontade. Major dos seus portugueses, como êle diz. Aqui ficará um batalhão da nova guarda com essa gente portuguesa que lhe foi agregada. Hei-de voltar.

Partiram. Um percurso pequeno e, todavia, uma atormentadora marcha, os cavaleiros a um e um, os caçadores e a infantaria da Guarda a dois de fundo, o brasido a crestar-lhe as faces, as golfadas de fumo a sufocá-los de instante a instante.

Escurecia quando Napoleão chegou ao quartel-general do Príncipe Eugênio. Os últimos batalhões da Guarda só lá chegaram já noite cerrada.

A remover destroços, a afastar madeiras em brasa, os portugueses do piquete estavam com os uniformes queimados, em farrapos as mãos, e o rosto enfarruscado como carvoeiros.

O Imperador seguiria no outro dia de manhã para o castelo imperial de Petrowskoe.

Berthier chamou Luís de Castro.

- Agradeça aos seus soldados em nome do Imperador. Pode reunir com eles ao regimento. Amanhã será major e ficará adido a um dos dois batalhões de portugueses.

- Não o desejava e não o merecia - respondeu, fazendo-lhe a continência e retirando-se.

Voltou para o Kremlim.

Depois de se ter apresentado ao Coronel Pego e ao major Cândido Xavier, a quem deu conta do que fizera, Luís de Castro foi logo para o compartimento em que se alojara, nas proximidades do quartel do Kremlim, como os da Guarda Imperial.

O João Luís lá estava com o prisioneiro estendido numa cama.

- Há alguma coisa de novo? - perguntou ao granadeiro.

- Mandei pedir ao cirurgião que viesse ver aquele excomungado.

- E depois?

- Esteve a fazer-lhe o tratamento. Disse que o mostrengo pode ficar aleijado, mas não corre perigo de vida.

- Tanto melhor.

O João Luís olhou para ele surpreendido.

- Tem falado?

- Lá na sua língua tem alanzoado umas coisas que raspam nos ouvidos à gente. Tinha perdido muito sangue, mas já tomou alento. O cirurgião

mandou-lhe trazer uns caldos da enfermaria da Guarda, assim que eu lhe disse que v. s.a tinha vontade de ouvir aquele animal bravio e muito me recomendara que lho guardasse com vida. Ali, no quartel da Guarda, há champanhe e vinho do Porto a rodo, que têem pilhado nas adegas e nas garrafeiras dos palácios. Pois também se lhe arranjou um copito do bom vinho lá do nosso Douro, bem mal empregado em tal patife.

- Já lhe revistaste as algibeiras?

Saberá v. s.a que não. Mas o fato está todo tal qual se lhe tirou, ainda ele estava desmaiado. O ferido gemeu alto e agitou-se na cama.

- Vai ver-lhe os bolsos.

E, enquanto o João Luís passava revista ao fato do prisioneiro, o Castro abeirou-se-lhe da cama.

- Podia muito bem ser engano meu - pensou - Quereriam levar-me para que eu fizesse revelações ou para me torturarem, e este diabo não passará talvez de um facínora como os outros.

O ferido descerrou os olhos, fitou o Capitão num olhar de pavor, estremeceu e regougou umas palavras doloridamente.

- Meu Capitão! Cá tem uns poucos de papéis neste bolso de dentro e uma coisa que parece um livrito.

Castro foi ver. Tomou das mãos do granadeiro aquilo a que ele chamava um livrito e era afinal uma carteira de couro.

Abriu-a. Tinha dentro uns poucos de papéis. Um deles, muito maior, com um sêlo-branco. Estava escrito em russo e tinha uma assinatura. Essa podia ele entender. Era um documento assinado pelo governador de Moscou - Rotospchin.

Achou também uns papéis de apontamentos, provavelmente, com verbas de dinheiro. Estremeceu, Nos dizeres daquele papel duas vezes estava escrito este nome odioso: Platow.

- Tenho então em meu poder um agente dele ou do tio, o famoso general dos cossacos.

Desdobrou o mais escondido e o mais pequeno dos papéis.

- Este francês e com o meu nome! O meu nome! Três linhas apenas que valem uma soberba revelação!

Leu para si isto que traduzimos:

 

Uma família polaca, residente em Moscou, deseja saber do capitão das tropas portuguesas Luís de Castro.

 

- Letra irregular, tremida, letra de disfarce e uma detestável ortografia! - comentava - Este papel na carteira de um bandido que me queria levar prisioneiro! Estou a ver a cilada! Esta indicação em francês era provavelmente para mostrar, para saber onde eu estava. Família polaca empenhada em saber de mim! Era, certamente, o ardil de quem me sabia ligado a uma família de polacos. Está aqui a mão de Miguel Platow! Ia jurá-lo. Provam-no, talvez, estes apontamentos em que eu vejo o seu nome.

Guardou a carteira com os papéis. Viu o relógio. Eram dez horas.

- João Luís, vou sair, mas não conto demorar-me. Guarda-me aquele bandido e agora ainda com maiores cuidados.

- Pode v. ex.a ir descansado.

- Castro foi ao quartel da Guarda indicar onde estavam os franceses que residiam em Moscou e se tinham acolhido à protecção do exército.

Foi feliz na indagação. Ali mesmo estavam refugiadas umas poucas de famílias francesas de negociantes e industriais.

Indicaram-lhe o proprietário de uns armazéns de modas, que havia onze anos se estabelecera em Moscou.

Era um achado. Conhecia bem a língua do país. Foi pedir que lhe servisse de intérprete. O francês acedeu gentilmente.

Castro entrou no quarto com Cartillac.

- João, traze aquela mesa pequena para junto desta cama. Põe aqui em cima este castiçal. Assim.

Êle pela sua parte pôs sobre a mesa um punhado de moedas de oiro e duas pistolas. Puxou uma cadeira para o francês.

- Espero da sua amabilidade, sr. Cartillac, a fineza de dizer a este homem que tenho em meu poder os seus papéis e que, se não disser a verdade a respeito de quanto lhe perguntarem, será imediatamente fuzilado. Mas, se responder lealmente, o mandarei pôr em liberdade, logo que o exército haja deixado Moscou, e receberá em prémio o ouro que está aqui sobre esta mesa.

O ferido punha num e noutro uns olhares turbados de pavor. Cartillac inclinou-se para o ferido, mas logo se afastou e disse para Luís de Castro:

- Este homem é um famigerado agente da polícia de Moscou, ou um demónio por êle!

- Conhece-o então?

- Perfeitamente. Astuto, violento, implacável, era um dos agentes dilectos do governador Rotospchin g um dos mais graduados da sua polícia,

- Excelente! Mas queira ter a bondade de o interrogar.

Cartillac disse-lhe em russo a ameaça e a promessa de Luís de Castro. O ferido contorceu-se e soltou um longo gemido.

Fêz-lhe ainda umas perguntas, a que êle respondeu hesitante, sumidamente, numa tremura de medo, de olhos esbugalhados para o intérprete.

- Reconheceu-me também - disse Cartillac para Luís de Castro - Confessa que é agente da polícia de Moscou e que ficou por ordem escrita do Conde Rotospchin.

- Há-de ser esta que eu lhe encontrei na carteira.. Deu-lhe o papel com o sêlo-branco. Cartillac leu-o para si.

- Uma ordem em forma, dando-lhe a direcção de todos os polícias que ficaram na cidade, para o fim que foi deliberado pelos patriotas e pelo senado de Moscou. É realmente um documento valioso.

- Agora queira ter a bondade de ver este papel de apontamentos, segundo creio.

Cartillac leu e traduziu assim em francês: Recebi do capitão Miguel Platow 100 rublos para gratificações à minha gente. Entreguei ao mesmo Platow uma medalha grande com um retrato de mulher e por ela me deu trinta rublos.

Castro empalideceu e levou a mão à algibeira interior da farda.

- Era a minha! Ou a perdi ou ma roubaram, sem eu dar por isso!

- Tem aqui outros apontamentos que se não relacionam com o seu caso. Nomes russos e verbas de gratificações distribuídas.

- E aqui tem, meu caro sr. Cartillac, uma prova que tudo se esclarece agora perfeitamente! - disse, mostrando-lhe o papel com três linhas em francês.

- Mas este homem não ousaria fazer indagações entre os meus patriotas.

- Disfarçado, provavelmente, mostrando esse papel, ditado ou escrito pelo próprio Miguel Platow. Mas temo-lo aqui para nos dar a explicação de tudo.

- Quere que lho pergunte?

- Peço-lho com encarecimento. Primeiro como pôde obter a medalha; depois quem o incumbiu de me aprisionar.

O ferido não desfitava os olhos de Luís de Castro e do francês, como se quisesse ler-lhes no rosto o destino que o esperava. Cartillac interrogou-o, e êle rouquejou umas palavras por entre gemidos.

- Procura iludir-me e respondeu umas coisas inverosímeis.

Alega que lhe custa muito falar - informou o francês.

- Queira ter então a bondade de lhe dizer que se não responde a verdade nem me demoro a mandá-lo fuzilar, meto-lhe uma bala já nos miolos.

Levantou-se e engatilhou uma das pistolas que tinha sobre a mesa.

O ferido tornou-se lívido e agitou-se num estremeção violento.

Cartillac reproduziu-lhe a ameaça de Luís de Castro. O russo respondeu doloridamente. Falou a custo durante alguns minutos.

- Respondeu-me que a medalha com o retrato lhe caiu ao senhor, quando trabalhava por extinguir um dos incêndios, e que êle, escondido, a viu cair e, supondo-a de muito valor, a guardou assim que se encontrou sozinho. Mostrou-a ao capitão Platow, que se apossou dela e lhe deu dinheiro em recompensa.

- E a respeito da tentativa de me aprisionarem?

- Também respondeu. Por incumbência de Platow o seguia desde o princípio da tarde. Ficara-o conhecendo como dono da medalha e por isso lhe não foi preciso usar do papel com as indicações em francês. Se duvidasse, se não o conhecesse, então se disfarçaria de outro modo e iria mostrar o papel a algum francês que o soubesse guiar. Platow mandara que lhe levasse a pessoa indicada no papel, logo que a pudesse apanhar de emboscada. Oferecera-lhe uma grande quantidade de rublos, que repartiria com os seus auxiliares. Pede perdão.

Castro reparou nele atentamente. O ferido tinha os olhos cheios de lágrimas.

- Para que não o mate, falta ainda que esse miserável nos declare onde está Miguel Platow.

- Vou perguntar-lho. Falou-lhe; o russo respondeu.

- Afirma que não o pode dizer.

- Morre então - rouquejou o Castro, acercando-se dêle e pondo-lhe a boca da pistola a um palmo de distância da cabeça.

Numa tremura que fazia oscilar o leito, o ferido respondeu em palavras como gritos de súplica.

- Pede misericórdia e promete responder.

- Já agora, sr. Cartillac, complete a sua gentilíssima benevolência, ouvindo-o.

O francês falou-lhe; o ferido respondeu soluçante.

- Disse-me que Platow foi encarregado pelo governador Rotospchin de superintender na direcção dos forçados e polícias, a quem encarregara de incendiar a cidade.

- Encargo digno dele! Mas onde está!?

- Respondeu-me que o deixara nos subterrâneos do Kremlim.

- Será meu!

- Este homem pede que não o deixem ficar em Moscou. Receia ser assassinado pelos outros da quadrilha.

- Não ficará. Levá-lo-emos para França.

- É um documento vivo desta monstruosa vingança de Rotospchin - disse o francês - De mais a mais os agentes espalharam que o fogo tinha sido lançado pelos soldados meus compatriotas. Estas revelações têem a mais alta importância para o Imperador. Parece-me conveniente dar conhecimento disto. Podem apanhar nos subterrâneos do Kremlim esse infame dirigente dos incendiários.

- Podem, mas tomo para mim esse encargo. E se ainda me fosse dado apelar para a sua obsequiadora benevolência, sr. Cartillac, far-lhe-ia um pedido com o máximo empenho.

- O que quiser; completamente às suas ordens.

- Compreende já as razões que eu tenho para me querer apoderar de Miguel Platow. Razões de ódio. antigas, enormes. Não divulgue estas revelações.

Deixe que seja eu quem vá capturar esse infamíssimo homem. E será este ferido o meu guia.

- Mas quere esperar que êle recobre forças?

- Não; irá em braços. Pode dar-nos indicações; é quanto basta.

- Mas o Capitão, sozinho? Platow há-de lá ter

gente consigo.

- Conto que tenha. Levarei vinte ou trinta dos meus portugueses.

- É uma empresa arriscada. Mas, seja como for, queira contar comigo para intérprete.

- Com o maior prazer, sr. Cartillac. Isso desejava eu, mas não me atrevia a pedir-lho. É um auxiliar valiosíssimo.

- De algum préstimo talvez. Tenho mesmo umas indicações a respeito da Moscou subterrânea. Não é só o Kremlim que tem caminhos enterrados e grandes construções subterrâneas. Havia aí dezenas de armazéns e adegas que eram verdadeiras catacumbas.(1)

- Tanto melhor - disse, apertando-lhe a mão.

- Quando?

- Esta madrugada.

- Sim, o mais depressa possível, antes que o desalmado se lhe escape.

- É possível que êle se ponha a salvo, se, como já ouvi, têem minas explosivas para destruir o Kremlim. Dê-me licença que faça umas perguntas a este homem.

- Pois não. As que quiser. Falou-lhe e o ferido respondeu-lhe.

- Afirmou-me - disse Cartillac para Luís de Castro - que não há minas explosivas nos subterrâneos do Kremlim. O plano era cercar de fogo a famosa cidadela,

 

*1. Assim as denomina um dos cronistas franceses daquela campanha.

 

queimar-lhe os bairros interiores, incendiar uma ou outra dependência menos importante do palácio, para afastar de lá o Imperador; mas evitar a destruição total daquela obra magnificente, à qual estão ligadas as mais altivas tradições dos czares e umas velhas lendas de invencibilidade, sob o alto patrocínio de S. Nicolau e de Yvan, o grande. Revelou-me que Platow tem dois caminhos por onde se escapar e está lá em baixo com uns cinquenta a sessenta cossacos.

- Bem. O homem resolveu-se a falar claro. Será perdoado e terá o prémio prometido. Não passava, afinal, de um agente de Rotospchin, posto às ordens desse infame Platow.

- Será preciso então guardar os dois caminhos e para isto me parecem insuficientes os trinta soldados de que me falou.

- Levarei mais uma dezena deles e dividi-los-ei em dois destacamentos. Vou falar com o meu Coronel. Daqui a três ou quatro horas iremos dar caça ao tigre branco.

- Onde quere então que o procure?

- Irei eu chamá-lo.

- Então até logo. Despediram-se.

- João Luís, vou sair. Temos uma grave expedição para esta madrugada. Guarda-me bem aquele homem e daqui a algumas horas terei em meu poder o bandido de Platow. Haja o que houver, não saias daqui.

- A não ser que peguem fogo nisto tudo, mas então sairei com êle - respondeu, apontando o ferido.

- Isso. Não conto demorar-me.

Saiu. Levantara-se outra vez uma ventania violenta.

Moscou continuava a arder. Corriam as nuvens de fumo vertiginosamente, umas após outras, como turbilhões de uma tempestade fantástica.

A cidade, a extinguir-se, a si própria se iluminava tragicamente.

Esvoaçava nos ares o ruído espantoso de milhares de gritos, num desespero de angústia, e de milhares de imprecações, numa alucinação de embriaguez dos invasores que se tinham embebedado naquela saturnal monstruosa, que assinalava os mais extraordinários dias do império napoleónico.

Como numa pirotecnia de conto fantasioso, milhões de faúlhas reluzentes, que o vento avivava nos ares, davam o aspecto de uma chuva de oiro fulvo sobre um lago de chamas.

- A minha querida Maria, o meu pobre filho, se eu os tornarei a ver? - ia pensando o Castro num confrangimento de alma.

A casa onde o coronel Pego se instalara ficava a uma centena de passos do edifício em que o seu regimento de trezentos homens se havia aquartelado.(1) Estavam todos a pé; ninguém podia dormir.

Castro pouco se demorou em casa do Pego. Vinha satisfeito.

O coronel autorizava-o a levar consigo quarenta ou cinquenta homens que voluntariamente o quisessem acompanhar. Iria falar aos soldados que restavam da sua companhia de granadeiros de Wagram.

Subitamente ouviu bradar às armas!

Passavam soldados correndo. Castro interrogou um deles.

 

*1. Tinham sido aproveitados para quartéis diversos edifícios das proximidades do Kremliin. Alguns oficiais instalaram-se em palacetes magníficos.

A companhia do sargento Bourgogne aquartelou-se num grande café; alguns soldados transformaram em capotes os panos verdes dos bilhares. Em um palacete contíguo ficaram instalados os sargentos e lá encontraram nas adegas subterrâneas excelente champanhe, bons vinhos de Espanha e tonéis de cerveja metidos em golo. (Memórias do sargento Bourcoçue, Pág. 37.)

 

- Tornaram a deitar fogo aos hospitais! Estão lá muitos milhares de feridos e doentes russos. Fogem como doidos; alguns têem morrido de rastos pelas escadas abaixo!(1)

Tocavam a reunir (a assembleia) os corneteiros e os tambores.

- Uma demora! Uma contrariedade! É preciso acudir àqueles desgraçados - disse consigo Luís de Castro.

Foi com o regimento para aquele espantoso e trágico incêndio, em que morreu tanta gente como numa grande, sanguinolenta batalha!(2)

 

*1. Mais de 25.000 feridos do exército russo, segundo o general Gourgaud.

  1. Para cima de doze mil feridos das tropas russas morreram queimados ou asfixiados, conforme o testemunho escrito do abade Surruges, cura da igreja francesa de S. Luís em Moscou.

 

       Amargurada esposa.

Eram três horas da madrugada. Um piquete de vinte soldados portugueses saíra silenciosamente do quartel e tomara a direcção da igreja de S. Miguel.

Pouco depois, um outro de trinta e oito soldados do mesmo regimento marchava por entre os escombros esbraseados das ruas que vão dar à grande ponte de pedra do rio Moscowa.

Na frente, Luís de Castro e Cartillac, atrás dêles o ferido russo, deitado numa padiola sobre uma cama de peles raras que andavam a esmo pelos quartéis e fariam inveja às rainhas e às duquesas para adorno das suas capas de inverno. Dois soldados levavam a padiola. Um deles era o João Luís.

Cartillac vestia o traje tártaro do ferido; encobria-lhe parte do rosto uma alta gola de peles.

O João Luís e outro soldado iam disfarçados com uns gorros e amplos casacos de peles, apertados na cintura por um cinto de couro, despojo de dois forçados russos que tinham sido fuzilados.

O ferido havia indicado ao intérprete que a entrada principal do subterrâneo era por um casebre de pedra, que ficava do lado de lá da ponte, escondido num maciço de árvores. Recomendara cautela com os vigias. No casebre deviam estar escondidos alguns cossacos de ânimo resoluto.

- Corremos riscos de cairmos numa ratoeira - dizia Cartillac para Luís de Castro - O grande subterrâneo tem ramificações para outros da cidade; dois, segundo me declarou o ferido.

- Se são só duas ramificações, não haverá por que ter receio. Seis soldados à entrada de cada uma e ainda nos ficará gente para atacar o covil de Platow. A surpresa há-de quebrar muito o ânimo dos cossacos, que os meus soldados já conhecem perfeitamente. Só são temíveis nas investidas em que têem a fuga livre pelas imensas planuras e o asilo seguro dos bosques para onde os seus rijos cavalos os podem levar numa carreira vertiginosa de galgos. Ali encurralados, o caso é absolutamente diverso.

- É possível que Platow tenha sabido já do aprisionamento do seu agente e se haja escapado dos subterrâneos.

- É possível, e então ainda desta vez terá tido o diabo por êle.

- Temos ali a ponte. Mais cuidado agora. Castro escolheu seis soldados para ladearem a

maca encobrindo o ferido.

Tinham passado a ponte e, seguindo novas indicações dadas pelo ferido, tomaram para o maciço de árvores.

- Agora aqui é melhor fazer alto. Vou eu adiante com os dois soldados da maca. Sei o santo e a senha - disse o francês - E enquanto eu falo com os que vierem para me reconhecer, aproximam-se seis ou oito soldados dos que tiver por mais destemidos, nós abrimos-lhes passagem e eles derribam à baioneta os cossacos do casebre, e outros entrarão em seguida.

Seria bom recomendar-lhes que não disparem as espingardas. Dariam alarme aos outros.

O Major concordou e dispôs a sua gente. Cartillac adiantou-se com os dois soldados que iam à padiola em disfarce de forçados. O ferido estava coberto com um capote à militar. Castro escolheu seis soldados e pôs-se à frente deles, avançando cautelosamente, a encobrir-se com as árvores, a mais de cem passos do francês.

Muito à retaguarda ficava a força principal do piquete sob o comando de um tenente da companhia a que o Castro pertencera.

Iam os da frente a uns quarenta passos do casebre quando por detrás de um poço ouviram três gritos seguidos.

Era evidentemente um sinal, porque logo apareceram à porta dois cossacos de clavinas engatilhadas.

- Quem sois? - perguntou na sua língua.

- Um devoto de S. Nicolau - respondeu-lhe Cartillac, rouquejando estas palavras em russo.

- A quem servis?

- A Rostopchin e Platow.

- Por que intenção?

- Pela santa cidade da grande Rússia.

- Aproximai-vos. Cartillac avançou.

- Mellowitch foi ferido e não pôde vir. Sou eu, seu imediato, quem vem trazer ao chefe este oficial estrangeiro ferido, que êle espera - disse-lhes apontando para a padiola.

Os dois cossacos abriram-lhe passagem. Veio de dentro o chefe do posto com uma lanterna grande, provavelmente para um definitivo reconhecimento.

No casebre estavam nove cossacos. Uma curiosidade como de odientos selvagens os agrupara em volta da padiola.

- Passos lá fora! - avisou um deles, de ouvido à escuta, perturbado como lobo que houvesse pressentido caçadores em redor do covil.

E logo correu para a porta.

O chefe do posto, baixando a lanterna sobre a padiola, que os dois supostos forçados tinham posto no chão, ia para descobrir o ferido, mas soltou um grito enrouquecido e caiu para trás desamparado,.

Tirando a baioneta debaixo do seu grosseiro casaco de peles, o João Luís cravara-lha no peito com a rapidez de um volver de olhos e ao mesmo tempo lhe arrancara da mão a grande lanterna.

E logo de um pulo se colocara à boca do subterrâneo, bradando:

- Morre quem der um passo!

Num movimento, quási simultâneo, Cartillac tirara as pistolas do cinto, já engatilhadas, e bradara-lhes em russo:

- Mato o primeiro que der um grito.

O outro soldado em disfarce de forçado arrancara também da baioneta.

Nem tiveram tempo de reflectir os sete cossacos agrupados em volta da padiola. Tornava-os horrorosos a sua expressão de feras espavoridas.

O que fora para a porta caía abatido por uma cutilada formidável.

Luís de Castro chegara à frente de seis soldados de baionetas caladas.

O ferido agitava-se num terror doido, a regougar umas palavras, que só Cartillac podia compreender.

Castro foi à porta e disse alto para fora:

- Avançar!

Veio a marche-marche o grosso do piquete.

- Sargento, fica de guarda aqui com oito soldados. Aprisione quem quer que se aproximar desta casa. Quem lhe aparecer à boca daquele subterrâneo, a não ser dos nossos, será aprisionado ou morto, como fôr necessário. Nós para diante.

Cartillac estivera reanimando o ferido.

- Cautela com as indicações que nos dás.

- Vou eu agora adiante - veio dizer Luís de Castro.

-. Vê lá agora. Temos de ir a direito?

- Durante uns mil passos a direito - respondeu o ferido - Depois volta-se à esquerda; para a direita vai um ramo do subterrâneo que dá para a igreja onde eu fui ferido.

-- Com essas peles e esses casacos, já desnecessários, façam-lhe uma cabeceira alta para êle ver melhor o caminho que seguimos.

O João Luís executou a ordem perfeitamente. Castro pôs-se à frente, levantando alto a grande lanterna; Cartillac insistiu em ir ao lado dele.

Atrás a padiola, a seguir, a dois de fundo, o piquete. Entre as paredes húmidas, esverdinhadas, não cabiam senão dois homens a par.

- Abafem bem os passos - recomendou Luís de Castro - Nenhum ruído. Diz-se baixo o que fôr preciso dizer-se.

Caminharam silenciosamente.

- Olha lá - perguntou Cartillac em segredo para o ferido - Há sentinelas no ramal do subterrâneo que fica à direita?

- Não há. Só as têem na boca para as catacumbas da igreja.

- Bom. Não devem faltar duzentos passos. Foram avançando.

- Acolá - disse o Castro muito baixo. Pararam. Nomeou sete homens para ficarem de guarda ali. Do topo do arco pendia um lampeão de Luz mortiça.

- Prende-se ou mata-se quem vier daquele lado. À baioneta de preferência; tiros só na última extremidade.

- Agora a que distância fica o outro ramo do subterrâneo? - perguntou Cartillac ao agente da polícia moscovita.

- A uns dois mil passos. É o mais estreito. Tem uma grade de ferro, fechada. A chave está em poder do capitão Platow. É o caminho para êle.

- Onde vai dar?

- À estrada de S. Petersburgo. Esquecia-me...

- O quê?

- A essa grade estão dois cossacos de sentinela e de lá até à sala de pedra, onde se encerrou Platow, andam sempre doze cossacos de patrulha.

- E lá com êle, quantos?

- Com os que devem ter retirado do arsenal e das catacumbas de S. Miguel, não terá menos de vinte e seis a trinta.

Cartillac transmitiu a Luís de Castro as indicações do ferido.

- Levamos pouca gente! - comentou.

- Há-de chegar.

- Este demónio parece que está a querer desmaiar - avisou o João Luís, apontando o agente de polícia.

- Obriga-o a beber uns goles daquele vinho que trazes.

O João Luís puxou para a frente o cantil e pô-lo à boca do ferido.

- Vá, seu alma do diabo - disse-lhe ao ouvido como se o russo o pudesse entender - beba uns golázios e fique sabendo que bebe vinho do Porto.

- Agora - segredou Luís de Castro para Cartillac -, precisamos de surpreender as sentinelas da grade, e mal que divisemos as patrulhas, é carregar sobre elas, levando-as diante das baionetas até dar com Miguel Platow.

- E não poderá êle fugir para as catacumbas da igreja de S. Miguel?

- Tenho lá vinte dos meus soldados.

- Bem. Segundo me disse o prisioneiro, é pelo subterrâneo da igreja que comunicavam com o arsenal.

- Que está guardado por uma companhia francesa. Para lá não cairá êle em fugir, ainda que os meus vinte homens o deixassem passar.

- Então tratemos de surpreender os da grade. Com este meu disfarce só eu o posso fazer.

- Eu vou também consigo. Embuço-me bem e o sr. Cartillac simula que me leva preso. Repugna-me, mas é indispensável matá-los, para que não dêem aviso aos outros.

- Então? Na guerra como na guerra.

- Devemos estar perto. Façam alto - disse baixo ao João Luís e com a mão fez sinal aos outros para não avançarem.

Adiantou se ao lado de Cartillac na simulação de ir preso.

A quatrocentos passos, num cotovelo do subterrâneo, viram bruxulear um lampeão alto e descobriram dois homens. A luz fazia-lhes brilhar o aço das lanças.

- Ei-los - segredou o Castro.

Avançaram. Os cossacos encostaram as lanças à grade e engatilharam as clavinas curtas que tinham suspensas de bandoleira, ao ombro esquerdo.

- Quem vem lá?

Cartillac disse-lhe o santo. Eles disseram-lhe a senha, o francês respondeu-lhes a contra-senha e os dois avançaram para o reconhecer.

Baixando-se repentinamente, Cartillac vibrou uma punhalada ao ventre de um deles, que caiu para trás, soltando um rugido de dor. O outro também não teve tempo de desfechar a clavina. A espada de Luís de Castro varara-lhe o peito.

Este, porém, ainda deu um grito enrouquecido de alarme.

Ouviu-se da frente um tropel de muitos passos.

- Avançar! - gritou o Castro para a retaguarda. No cotovelo do subterrâneo aquele brado de comando teve uma soturna repercussão.

Chega de frente uma patrulha de cossacos, mas também da retaguarda chegaram a correr quatro soldados das primeiras filas do piquete.

- À baioneta! Para a frente com eles! - bradou Luís de Castro.

Os cossacos brandiam as lanças furiosamente, dando gritos de alarme. Entretanto chegava o resto do piquete.

A luta não podia ser senão a dois de frente.

Já tinham caído quatro cossacos, mas também já estavam varados pelas lanças três soldados e Castro tinha um ferimento ligeiro no ombro esquerdo.

Cartillac disparou as duas pistolas que levava e ambas as balas encontraram alvo seguro. Mas logo um dos cossacos desfechou uma clavina contra êle.

- Estou ferido - disse o francês, encostando-se à parede do subterrâneo.

- Tu, ampara-o - ordenou Castro a um dos soldados que tinha mais perto de si - Vá, carregar sobre esta canalha! - gritou.

Num arranque vigoroso, os dois primeiros caíram sobre a patrulha. Castro ia na frente deles.

Já esmorecidos por aquela surpresa, que nem sequer teriam nunca sonhado, os cossacos deitaram a correr, soltando gritos de aviso.

- Para a frente! Para a frente! - bradava Luís de Castro.

E assim, a marche-marche, durante cerca de um quarto de hora, mal podendo ver por onde caminhavam, pois que a grande lanterna ia erguida na baioneta de um soldado da quarta fila.

- Armas engatilhadas. Fogo só à minha voz. Ouviram tiros para a frente e caiu ferido um soldado.

Deparou-se-lhes então, a uma centena de passos, um arco elevado e um vasto espaço cheio de luz, luz vermelha de archotes. Sentiu-se um rumor alto de vozes.

De súbito, a luz extinguiu-se e ouviu-se o estampido abafado de mais tiros, como se fossem disparados a maior distância para a frente. A seguir um ruído maior de vozes.

Os soldados já podiam entrar a quatro de frente.

Estavam à embocadura do arco.

- Primeira e segunda fileira, fogo! Ajoelhar. Estrondearam oito tiros com medonha vibração.

- Terceira e quarta, fogo!

Reboaram gritos de pavor, gemidos lancinantes, palavras de imprecação que os portugueses não podiam entender.

Mas, sobrepujando todas, uma voz rouca de comando, tremente de cólera. Castro julgou reconhecê-la.

- Miguel Platow! - disse numa ânsia de vingança - Para diante com essa lanterna! - gritou alto para a retaguarda.

Veio um soldado a correr com ela erguida na espingarda, mas logo uma bala dos cossacos a esmigalhou.

- Pois seja às escuras, Miguel Platow! - exclamou Luís de Castro em francês.

Rouquejou uma voz de comando, a mesma que o oficial português já ouvira, e a intervalos estrondearam uns poucos de tiros como se fossem disparados a medo. Apenas caiu um português ferido.

Estavam já dezasseis soldados para dentro do arco.

- Fogo! - ordenou Castro.

E ao estridor dos tiros sucedeu uma gritaria pavorosa como de súplicas.

- Vamos iluminar isto. O soldado que traz os archotes?

- Pronto.

- Deita aí fogo a uns cartuchos e acende um desses archotes.

O soldado tateou o chão, pôs o archote sobre dois cartuchos, a que tirara as balas, carregou a espingarda com outros que desembalara e disparou-a contra o archote. A bucha ardeu, incendiou os outros cartuchos e do archote ergueu-se uma labareda, vermelha.

Depois levantou-o e acendeu outro. A cena horrorosa, já denunciada pelo gemer dos feridos, alguns deles agonizantes, tinha agora uma trágica evidência sob aquele clarão rubro dos archotes.

Estorciam-se no lajedo treze cossacos. Ao pé da porta de bronze, cerrada como ficara no capítulo anterior, uns vinte, amontoados numa lividez medonha de terror.

Encostado à grande mesa de pedra, com a cara ensanguentada, Miguel Platow tinha uma expressão repelente de ferocidade e de dor.

Castro circunvagou um olhar por tudo aquilo.

- Acendam aquelas tochas - disse para o soldado dos archotes, indicando-lhe quatro enormes tocheiros que ladeavam a grande mesa.

Platow tinha-os mandado trazer de cima, da igreja para a cena de torturas a que projectava submeter Luís de Castro, se o apanhasse em seu poder, como esperava.

O soldado foi acender os tocheiros.

- Havemos de ter aqui exéquias para muito tempo. É preciso agora amarrar aquela bêsta-fera.

- Aqui estão as cordas - disse o João Luís - E se v. s.a dá licença, vou eu amarrá-lo.

- Vai. Quem ficou a guardar o polícia ferido?

- O outro meu camarada.

- Vai amarrar aquele mostrengo. Meu caro amigo - disse o Castro para o tenente, rapidamente - peço-lhe que leve consigo sete ou oito soldados para levantarem os nossos feridos. Bastam-me aqui cinco ou seis. Levem-nos para a entrada do subterrâneo. O francês que não esqueça. O meu amigo vai ao quartel pedir, em meu nome, ao cirurgião do regimento, para os vir ver. Tratar-se-ão aqui como fôr possível. Recomendo-lhe as maiores reservas. Fala-se de um encontro com forçados e cossacos. Mais nada. Eu espero aqui.

O tenente saiu. Castro ficou apenas com seis dos seus, não contando com o João Luís, que lá estava na sua tarefa de amarrar Platow.

- Vocês - disse para a sua meia dúzia de soldados- ali para defronte daqueles homens. Espingardas engatilhadas. Façam-lhes sinal para deporem as armas. Serão fuzilados, se desobedecerem.

Mas foi ele próprio fazer-lhes sinal para lançarem as armas ao chão. Obedeceram logo, numa humildade de pavor, levantando as mãos em atitude de súplica. O grupo de soldados portugueses colocou-se diante deles de armas engatilhadas.

Castro foi para o João Luís.

- Pronto?

- Aqui o tem v. s.a e só o diabo seria capaz de o desamarrar.

- Reparaste-lhe no ferimento?

- Apanhou duas ameixas. Uma furou-lhe a cara e a outra escarniçou-lhe um ombro. Mas isto é alma do diabo em pele de urso, e precisa de outra ajuda para ir bailar ao inferno.

- Volta-o de rosto para mim. Isso.

O russo cravou nele um olhar torvo de ódio e fêz uma visagem hedionda.

- Enfim, frente a frente, Miguel Platow! - disse-lhe em francês.

- Canalha! - regougou o cossaco - Há-de a terra da Rússia devorar-te os ossos, lacaio de Napoleão, que atraiçoas o teu país!

- Arranca-se-lhe a língua, se v. s.a dá licença - disse o João Luís a tremer de raiva.

- Eu mandarei o que me aprouver - volveu-lhe severamente.

Cruzou os braços e disse lentamente para o russo:

- Sou o teu juiz, Miguel Platow. Houve tempo em que eu tive a ingenuidade de te supor, ao menos, um homem de ânimo. Cossaco miserável, nem isso és! Há dois anos bater-me-ia contigo. Agora teria nojo de que a minha espada se cruzasse com a tua. Desde aquela tarde de Wagram, agressor traiçoeiro, considero-te o mais ignóbil dos cobardes que têem os exércitos do Czar, como eras já o mais infame dos homens que eu tenho conhecido.

«Queres-me ao pé de ti. Aqui me tens. Expias os teus crimes até chegar a morte excepcional que mereces. Mandar-te fuzilar seria pouco e era infamar um castigo com que às vezes se punem os bandidos, melhores do que tu, e, quási sempre, soldados, menos cobardes e menos vis do que tu sempre fôste. Pelas ofensas de morte que te devo e pelas ofensas de ultraje que te deve Maria Pulaski, ouve bem, eu inventarei pena que valha os teus feitos.

Estorceu-se o corpo gigante de Platow, que regougou:

- A tua viúva... seria a minha pública amante... se o diabo não fosse por ti, ralé dos maridos piegas.

- Mando-te amordaçar para não ofender os cães, mando-te a pontapés. João Luís, arranca-lhe aquela banda e amordaça-o com ela.

O granadeiro tirou-lhe de repelão uma larga faixa de troçal, muito semelhante às bandas dos outros oficiais dos exércitos europeus, e apertou-lha por cima da boca numas poucas de voltas.

- Já estás amortalhado como hás-de ficar aqui, o teu sinistro panteão.

E como se de súbito lhe houvesse lembrado alguma coisa, disse para o João Luís:

- Revista-lhe as algibeiras.

O granadeiro encontrou-lhe dois papéis, que entregou a Luís de Castro.

- Têem a assinatura de Rostopchin - disse consigo - Alguém mos traduzirá.

Guardou-os.

- Não encontras mais nada?

- Este cinto cheio de dinheiro em oiro.

- Deixa-lho ficar. Vê se encontras mais alguma coisa.

O olhar do russo não se descravava do seu odiado rival, mas agora numa expressão que parecia de sarcasmo.

- Não acho mais nada.

- Procura melhor. Em algum bolso interior. O João Luís fêz novas tentativas.

- Ah! aqui, nesta algibeira de dentro. Cá está uma coisa rija.

O russo agitou-se.

- O retrato da senhora! - exclamou o João Luís de olhos fitos no medalhão de Maria Pulaski, o que fora feito em Lisboa em meados de 1807, aquele que o agente da polícia havia trazido a Miguel Platow.

- Sim - disse, tomando-lho das mãos. E de si para si, amargamente:

- Profanado sobre o peito daquela besta imunda! Miniatura de uma santa, perdida sobre um monturo.

Apareceu ao arco maior do subterrâneo o sargento que ficara de guarda ao casebre da entrada.

- Meu capitão! - disse, aproximando-se a poucos passos dele.

- Que há?

- O nosso tenente voltou para trás e mandou-me

cá...

- Para quê?!

- Para prevenir v. s.a de que andam uns poucos de homens à sua procura desde que amanheceu.

- À minha procura?! Porquê?!

- Porque uma patrulha da nossa cavalaria encontrou para lá da ponte grande da cidade umas senhoras e um homem velho, que chegaram de Smolensko e vêem não sei de que terra da Áustria.

Castro fêz-se muito pálido.

- A perguntarem por v. s.a, muito chorosas, segundo disse ao nosso tenente o ajudante do regimento do sr. Marquês de Loulé. Uma das senhoras é a esposa de v. s.a.

O olhar de Platow tinha agora uns lampejos de odioso júbilo. Percebera uma parte das palavras do sargento.

Já sabemos que, pela sua permanência em Lisboa,, o russo entendia alguma coisa do português, embora o não soubesse falar. Apenas algumas dezenas de palavras; essas, porém, bastaram para perceber do que se tratava. Demais a mais, o que era inquietadora surpresa para Luís de Castro não passava de uma cousa esperada por Miguel Platow, em consequência de certa carta de falsidade enviada a Maria Pulaski.

- Sargento, fica tomando conta deste posto. Para aqui hão-de vir mais alguns soldados com víveres. Quando fôr noite remover-se-ão os cadáveres e esses prisioneiros serão entregues à nossa cavalaria, para além das barreiras. João Luís! Para ti um só encargo: guardar esse homem. Guardá-lo vivo: repara bem.

- É a vontade de v. s.a e há-de cumprir-se.

Castro meteu para o arco do subterrâneo.

«Mas esta imprudente viagem porquê?! - ia

dizendo consigo - Em semelhante situação! Que loucura e que enormes perigos para ela! E o pequenito? Se ela o trouxe?!

A pouca distância da grande ponte do Moscowa junto das ruínas de uma hospedaria, estavam paradas duas caleças cobertas de pó.

A um lado, coisa de vinte passos distantes dos veículos, dois oficiais da cavalaria portuguesa falavam com um velho, que nós conhecemos perfeitamente. É André Pulaski.

Quási defronte deles, sentadas num banco de pedra, duas senhoras. Uma ainda muito nova, de rara formosura, tinha nos braços um pequenino que beijava a soluçar; a outra estava lavada em lágrimas. Eram Maria Pulaski e Ana Beauchamp.

Por detrás das caleças, uma patrulha portuguesa de cavalos à mão.

- Ana, minha querida Ana! E não se sabe dele! - soluçou Maria Pulaski, levantando para aquela cidade coroada de chamas, para aquela cidade negra de fumo, os seus belos olhos mortificados cheios de lágrimas -, Vê tu que desgraça a minha! Em Smolensko ninguém nos soube dizer nada, ninguém o conhecia!...

- Então, minha filha?! Mas aqui já lhe disseram aqueles oficiais portugueses que essa maldita carta era mentirosa. Não está prisioneiro, não foi ferido, estiveram com êle na grande batalha que houve e ainda há três dias o viram quando ia entrar na cidade.

- Pois sim; já foi consolo sabê-lo. Mas vê lá, a cidade está a desfazer-se em cinzas, êle ficou lá dentro, e ninguém o encontra! Um oficial e não sei quantos soldados em procura dele e não voltam e não me trazem notícias!(1) Não voltam! Antes os maiores perigos nas piores batalhas do que esta tortura de incertezas! Antes.

 

*1. Segundo Teotónio Banha nos seus Apontamentos, a cavalaria do Marquês de Loulé estava aquartelada em um dos arrabaldes, numa grande fábrica, a uma légua do Kremlim.

Era o regimento de cavalaria núcleo maior que restava da Legião ali em Moscou. Enquanto o 1.o e o 2.o de infantaria reunidos tinham um efectivo total de pouco mais de 300 homens válidos, o de cavalaria contava 600, excelentemente montados.

Também por isso o empregavam em constantes serviços de exploração e segurança, dividido em piquetes.

 

Chegou a trote um soldado de cavalaria.

- E daí? - perguntou-lhe um dos oficiais.

- Custa a passar a cidade, mas eu fui até onde o regimento está aquartelado.

- E lá o que disseram?

- Disse-me um sargento que o tinha visto ontem à noite, mas que não o havia encontrado no quarto.

Maria levantara-se com o pequenino nos braços e fôra-se aproximando do grupo numa tremura de medo por alguma informação esmorecedora; numa avidez sôfrega de ouvir e ao mesmo tempo no receio mortificador de saber alguma funesta verdade. Com uma opressão de cansaço, como se cada passo que deu valesse uma légua de aspérrimo caminho! Ouviu tudo o que disse o soldado.

- Valha-me Deus! - soluçou num confrangimento enorme.

- Então, Maria? - disse André Pulaski, amparando-a carinhosamente - Tantas promessas de intrepidez de ânimo e afinal...

- Isto, esta incerteza custa mais do que os maiores perigos não o encontram ali, naquela cidade que morre devorada pelo fogo.

- Minha senhora - disse-lhe um dos oficiais de cavalaria - nenhuma razão há ainda para esmorecer. É enorme a confusão e a anarquia dentro da cidade; não admira que seja difícil e de larga demora encontrar informações seguras a respeito do sr. Luís de Castro.

Veio outro soldado a galope desfechado.

- Vamos a ver o que nos diz aquele. E então?

- Um soldado do regimento contou-me que o sr. capitão Castro saiu de noite com um piquete, mas não voltou ainda e não se sabe para onde teria ido!

- Tio, veja que desespero de informações! Nossa Senhora me dê ânimo para isto!

E punha olhares espavoridos nos esqueletos negros das casas de Moscou e nas golfadas de lume que o vento sacudia nos ares, como ramos de uma árvore de fogo, enorme, a cobrir a cidade e a desfazer-se nos turbilhões negros do fumo.

- Minha senhora - disse de súbito, jubilosamente, um dos oficiais - Daquele lado vem um oficial a cavalo. É o meu colega que foi saber do sr. Luís de Castro. A falar com outro, que vem a pé. E se não me enganam os olhos...

- É o meu marido - exclamou Maria num alvoroço de alegria que a transfigurou -, Tio, o Luís! - disse numa tremura de voz, os olhos agora ainda mais cheios de lágrimas, mas de outras consoladoras lágrimas.

A Beauchamp acercara-se dela carinhosamente.

- Ana... é êle!

- Bem me dizia o coração que Nossa Senhora nos não havia de desamparar.

Maria não pôde conter-se. Passou o pequenito para os braços da Beauchamp, e foi ao encontro do marido pelo braço do tio.

- Uma encantadora mulher! - observou para o colega um dos oficiais portugueses.

- Maior imprudência ainda por isso mesmo!

Foi enternecedor aquele encontro. Abraçaram-se num júbilo doido e os beijos que êle deu no filhito valiam pelo muito que lhe queria e pelos outros beijos que não podia dar-lhe a ela naquele lugar público por onde estavam passando multidões de soldados.

Agradeceram comovidamente aos oficiais de cavalaria o serviço valiosíssimo que lhes tinham prestado e despediram-se.

- Maria, que imenso prazer e que horroroso medo por te ver aqui! Em que circunstâncias e que tremenda imprudência! E porquê?

- Vais perdoar-me a desobediência em avaliando a minha desesperadora inquietação quando recebi esta carta.

Procurou-a numa carteira.

- Desobediência ao marido e ao tio - disse André Pulaskí - Eu tinha ido a Viena e ela meteu-se a caminho, sem que eu a acompanhasse! Vim alcançá-la já a umas quinze léguas de Sachsengang, acompanhada apenas pela nossa querida Beauchamp e por dois criados!

- Lê, lê isto e calcula se eu não teria razão para quantas imprudências pudesse imaginar.

Castro passou a carta pelos olhos. Turvou-se.

- Compreendo. Esta mentira inquietadora não podia ser senão de Miguel Platow. Uma cilada para te arrastar até aqui. Adivinho-lhe o intento. Há-de pagá-la! Mas não podemos ficar aqui na rua. Preciso de ir procurar-te uma casa segura ali nos arrabaldes.

- Mas tu não tens casa onde por algumas horas ou por alguns dias nos possamos abrigar?

- Tenho. O meu regimento ocupa um edifício vastíssimo, a pequena distância do palácio Imperial; eu tenho um bom alojamento e posso arranjar facilmente mais dois ou três quartos.

- Pois então vamos para lá. Ficaremos todos muito melhor ao pé de ti e com maior segurança junto dos teus colegas e dos teus soldados.

- Dizes bem; mas a cidade está a arder e os incêndios continuam. É preciso ir para lá por entre o brasido das ruas, afogados em fumo. Tenho receio.

- Eu, nenhum. Irei para onde tu fores. Só se tu mandasses que não fosse; mas então te pediria de joelhos que me não desses essa mágoa.

- E o pequenino? Causam-me horror os perigos a que nos teremos de aventurar com êle!

- Velaremos todos em sua guarda - disse o velho polaco - Não é assim, minha querida Beauchamp?

- Pois decerto. E aqui estou eu para o guardar também.

- Com desvelos de avòzinha, bem sei - acudiu o velho em tom de gracejo.

- Pois então vamos - disse Luís de Castro.

- Bem; mais uns instantes de espera. Quero dar dinheiro aos criados para alugarem naquele arrabalde algum abrigo para os cavalos das caleças e para tratarem de si.

- Então, olhe: Está ali em baixo um piquete de cavalaria portuguesa. Vou lá recomendá-los ao oficial.

- Pois vamos. Assim é melhor.

Foi demora de uns minutos apenas. Dali a pouco entravam na cidade.

Castro na frente como guia; André Pulaski atrás de Maria e da Beauchamp. E foi êle quem se ofereceu para levar o pequenino, e lá ia a resguardá-lo da fumaceira e das reverberações ardentes do brasido.

- Que horror de guerra, Luís!

- E quem sabe ainda onde nos será dado passar o inverno, o nevoso inverno destas regiões! E aquela pobre criança!

Começava a chover. Já pela alta madrugada tinham caído umas bátegas de água.

- Ora aqui está uma chuva consoladora - disse André Pulaski - Nunca me soube tão bem uma molhadela!

- Tio, e o pequenino? - perguntou Maria.

- Vai aqui resguardado como um príncipe. De olhos pasmados para mim, a sorrir, e tão senhor de si como se não fosse a atravessar este enorme braseiro em que se tornou a cidade grande e santa dos czares.

- Teu tio disse aquilo com uma pontinha de rancor polaco - observou Luís de Castro a sorrir, voltando-se para ela.

Chegaram à grande rua até então inatingida pelo fogo.

- Apre! - exclamou o polaco, resfolegando - Já podemos respirar.

- É verdade, e teu pai? - perguntou Luís de Castro.

- Ficou muito oprimido de receios. Deixei-o a chorar como se fosse uma criança.

- Ora, meu senhor, viva! - gracejou André Pulaski, a levantar o pequenito nos braços - Já pode ver o Kremlim, a invicta cidadela dos tiranos que oprimiram a pátria da sua mamã. E êle a rir-se como se tudo isto lhe parecesse brincadeira! Sai daqui um guerreiro. Dá um conquistador. E de sangue luso-polaco, façam ideia!

- Tio, agora pertence-me levá-lo.

- Mas o melhor será que eu o leve - acudiu a Beauchamp.

- Tem razão a avòzinha. E aqui lhe entrego este valente, que só tossiu duas vezes com a fumaceira e não deu sinal de medo, que eu percebesse no fato.

- O quartel do meu regimento -indicou Luís de Castro.

- Mas é um palácio vastíssimo!

- Maria, o Kremlim. Vê se te lembras.

- Tio, uma atormentadora lembrança! Há que anos ali fui com a minha pobre mãe! Lá estivemos de joelhos, debulhadas de lágrimas.

- Aos pés da Czarina, a pedir-lhe o perdão para teu pai. Pois lá havemos de ir, nós os da terra polaca, sem ter de ajoelhar diante de ninguém.

- Mas então nós passamos para diante do quartel? - perguntou Maria.

- Passamos, sim. Olha, ali mais acima, naquela casa côr de rosa é que eu estou alojado com outros oficiais.

- É apenas uns centos de passos.

Entraram. Castro fêz as apresentações a três dos seus colegas, companheiros de casa.

- Temos aposentos de mais - disse um dêles -, Podemos ir todos três para o rés-do-chão e fica-lhe todo o primeiro andar, meu caro Castro. Não hesite. Ficamos perfeitamente e dá-nos você o prazer de lhe prestarmos êste pequeníssimo serviço.

Castro aceitou. A instalação estava feita.

Sozinhos, os dois acariciavam o filho numa febre de beijos, que não raras vezes se encontravam sem terem pousado na boquita vermelha da criança. Um roubo feito ao filho por aqueles esposos como noivos.

Depois as confidências. Maria a contar as suas saudades, os seus tormentos; êle a resumir-lhe as sangrentas batalhas, a dizer-lhe as suas temerosas previsões pelo desfecho daquela campanha.

E foi com isto que eles se entristeceram.

Vieram procurar Luís de Castro por causa de umas resoluções a tomar com respeito aos prisioneiros do subterrâneo.

- Vou já - respondeu a um cabo que viera pedir-lhe instruções.

Voltou para o quarto.

- Tenho de deixar-te por uns minutos - disse-lhe, beijando-a - E agora uma notícia: Miguel Platow está em Moscou.

Maria estremeceu-lhe nos braços violentamente.

- Não tenhas medo, meu amor. Está preso, está em meu poder, para nunca mais te afrontar.

- Para me oprimir basta ouvir-lhe o nome! Não sei de outras palavras que mais me afrontem e causem medo do que essas duas do seu nome!

Parece que as ouço ou me lembram só quando tu ou eu estamos para correr algum perigo!

- Agora não tenhas receio. Eu te contarei como ele caiu em meu poder. Tranquiliza-te. Há-de ter a morte que merece. E se tiveres ânimo, irás comigo daqui a uns dias, para que êle te veja ao pé de mim, antes de morrer, esposa estremecida e cada vez mais linda, que êle queria tornar viúva e amante sua, o canalha! Até logo.

 

           As minas do Kremlim.

A cidade ardia ainda, mas as chuvas providenciais de 17 a 20 de Setembro tinham abrandado muito a intensidade dos incêndios.

O Kremlim ficara de pé e apenas tinham ardido as madeiras das cavalariças e alguns revestimentos e adornos dos torreões. Um décimo das casas da cidade fora salvo do fogo e as igrejas de pedra podiam dar abrigo a muita gente.

No dia 18 de manhã Napoleão deixa o castelo de Petrowskoi e volta para o Kremlim. Era no famoso palácio dos czares, dentro da invicta cidadela das tradições russas, que êle, o triunfador, o César ovante, devia residir.

Saiu-lhe ao caminho, implorando amparo, uma turba de estrangeiros que residiam na cidade e es tavam reduzidos à miséria, franceses, suíços, italianos e um grande número de alemães.

Mandou-lhes dar abrigo, rações, e um subsídio de cinquenta mil rublos.

Estava de novo no Kremlim. Ali reuniria a sua côrte de marechais, ali planearia o desenlace da campanha ou negociaria a paz com os vencidos. Entretanto, ia tomando precauções de segurança e organizava os serviços de polícia e de subsistências. O inverno estava à porta; as neves começavam em Outubro e seria impossível manter o exército no desabrigo mortal dos acampamentos e dos bivaques.

Não se passava um dia sem que Napoleão recebesse os correios que de Paris lhe eram expedidos com admirável regularidade, e cada estafeta fazia a longuíssima viagem em dezoito dias, normalmente.

Logo no dia 19 houve uma recepção na grande sala do trono dos czares. Foi uma coisa brilhante. Em volta do Imperador, como sua corte guerreira, o Príncipe Eugênio, vice-rei da Itália, o Príncipe de Neufchâtel e Wagram (Berthier), Davout, Príncipe de Eckmuhl, Lefebvre, Duque de Dantzig, Mortier, Duque de Treviso, Bessieres, Duque de ístria, Ney, Duque de Elchingen, Duroc, Duque de Friul, Caulaincourt, Duque Vicence, Lebrun, Duque de Placência, os Condes de Rapp, de Lauriston, de Lobau, de Turenne, de Ségur, os Barões de Canouville, de Saluces, de Lambertye, e os generais polacos Príncipe Sangowsko e Conde Kossakowski.

Um deslumbramento de uniformes, que Maria Pulaski e a Beauchamp viram, maravilhadas, por detrás das vidraças da sua casa, naquela grande rua que ia dar ao Kremlim.

E depois nem lhes faltava o espectáculo das revistas militares em que Napoleão entretinha as suas horas de ócio.

Miguel Platow estava seguro no grande subterrâneo, guardado por um piquete de soldados portugueses.

Negara-se a tomar alimentos, mas o João Luís encontrou meio de lhos fazer engolir violentamente, cumprindo assim as ordens de Luís de Castro, que o reservava para uma expiação excepcional, ainda não revelada.

No dia 20 de tarde a chuva estacou, o céu pôs-se lindo, o sol apareceu brilhante. Castro propôs um passeio aos arrabaldes, para os lados do castelo de Petrowski, onde ainda estava acantonada e em bivaque a maior parte da Guarda Imperial.

Maria aceitou a proposta com alvoroço. Iriam todos, e a Beauchamp logo se ofereceu para levar o pequenito. Cândido Xavier foi também.

Era uma coisa pitoresca e quási fantástica, talvez de raros precedentes,, aquele acantonamento da Guarda.

Em volta dos castelos e palácios de campo da antiga nobreza moscovita os estados-maiores e as escoltas dos generais, sob toldos, em jardins à inglesa, ou no abrigo de caramanchões, de grutas, de quiosques, de pavilhões chineses, ponteagudos, com figuras estravagantes, dragões de vivo colorido, tetos de rútilo verniz e fantasiosas douraduras.

Os cavalos presos aos troncos das acácias e das tílias, separados pelos muros das alamedas e, por entre carretas e viaturas diversíssimas, grupos de soldados e de mulheres que vendiam e compravam coisas; mescladas com as vivandeiras francesas, umas pobres raparigas mercadejadas como espólio do saque e rameiras de Moscou, indiferentes às desgraças da pátria.

Bebiam, riam, cantavam, faziam negócio numa algazarra impudente, que dava bem a medida do triste e vilipendioso rebaixamento a que tinha chegado a disciplina do exército.

E por entre as impudicas aventureiras, arrastando mantos de duquesas, ostentando plumagens dos toucadores imperiais, vestidos, jóias, pelicas opulentas das grandes damas de Moscou, umas tímidas e amarguradas meninas que a soldadesca violara no saque ou salvara do fogo e vendera ali, naquele mercado de roubos e sensualidades!

Mas em tal mascarada ignóbil nem eram as rameiras as figuras de maior escândalo. Os soldados excediam-nas pelo descaro e pela extravagância grotesca! Granadeiros de Austerlitz e de Wagram de cabaias chinesas e gorros tártaros; disfarçados em persas ou em kalmukos soldados de hússares, com uma samarra de judeu um sargento de cabelos grisalhos, com o traje de baile de uma duquesa, diadema na cabeça, um velho tambor-mor, muito bêbedo, trangalhadança com o rosto cruzado de cicatrizes. Gastara-se-lhe a mocidade a rufar o passo de carga em quinze batalhas formidáveis!

Bebiam champanhe e Porto por copos de cristal de Boémia, faziam punchs de rum de Jamaica em taças de prata cinzelada, ensaiavam jogos malabares com chávenas de porcelana que se lhes escaqueiravam no chão.

- A feira da ladra do Grande Exército! - comentou amargamente Cândido Xavier.

- Com uns tons repugnantes de mercado babilónico - disse Castro - Afastemo-nos daqui.

Tinha razão. Estavam a duzentos passos daquele pandemónio grotesco, mas as obscenidades vibravam alto.

- Está a lembrar-me alguma coisa parecida que nós vimos em Portugal há dois anos. Lembra-se, Luís de Castro?

- Esta é mascarada em maior escala, mas igualmente hedionda e reles.

- Má fortuna da minha Polónia! - disse André Pulaski tristemente.

Olharam para êle com estranheza. Não lhe tinham compreendido a intenção da frase.

- Má fortuna, porque era este exército que havia de restaurá-la, e creio bem que é um exército perdido. Nunca vi semelhante afrontoso espectáculo de indisciplina e nem mesmo o supunha possível! Daqui a um mês começarão a cair as neves e este carnaval torpíssimo terá desfechado em trágicos desastres, se Napoleão não puser cobro a esta ignóbil anarquia da soldadesca.(1)

- Tem razão, sr. Pulaski - apoiou Cândido Xavier.

Castro olhou tristemente para a esposa, e um e outro volveram os olhos humedecidos para o rosto do pequenino, a galrear doidamente nos braços da Beauchamp.

Seguiram silenciosamente, num acabrunhamento de sombrias previsões.

A poucos passos viram uma mulher idosa, de aspecto miserável, com duas raparigas bonitas, numa roda de soldados.

- Oitenta rublos pelas duas - propunha a torpe negociadora.(2)

Servia de intérprete um criado francês de um dos bilhares públicos de Moscou. Os soldados achavam muito.

- Por menos é que não, e por estarmos reduzidas à miséria é que eu me aparto delas. Deus sabe com que dor do meu coração!

- Não são feiazitas - dizia um dos apreçadores - Mas oitenta rublos é pesado.

 

*1. Descrevendo a mascarada e o mercado da soldadesca saqueadora, o chefe de esquadrão Eugênio Labaume diz a pág. 230 da sua Relação completa da campanha da Rússia em 1812: «Enfim, o nosso exército naquela época dava a imagem de um carnaval, etc.

Algumas páginas antes, Labaume resumira nesta frase a terrível saturnal de Moscou: «A todos os excessos da avareza, se juntaram todas as depravações da devassidão...»

  1. Aquela infâmia de algumas mães que vendiam as filhas vem indicada por Labaume, na pág. 244 do seu livro.

 

As raparigas choravam. A negociadora era a própria mãe!

- Asqueroso, aquilo! - comentou Luís de Castro, seguindo apressadamente para diante com Maria pelo braço.

Tinham dado um largo passeio quando encontraram uns piquetes da Guarda Imperial a marche-

- marche.

Castro perguntou a um dos oficiais se havia alguma coisa grave.

- Deitaram fogo ao palácio de verão da Czarina

- respondeu-lhe um cirurgião militar que seguia os piquetes -, Olhe. Vêem-se daqui as labaredas. Ainda ontem lá estive. É uma vivenda esplêndida, com todas as opulências de fausto que tanto podiam dar a Europa e a Ásia Grande como as Tulherias. Será pena que se percam uns quadros admiráveis que eu lá vi.

- Conhece bem o palácio, estou a perceber.

- Andei ontem a vê-lo detidamente. Faça ideia: depois de examinar tudo, desci aos subterrâneos, que são vastos.(1)

- Decididamente, Moscou é a cidade dos subterrâneos! - comentou Luís de Castro.

- É, e por isso esses bandidos que a têem queimado

 

*1. Bourgogne dá notícia do palácio a pág. 37 das suas Memórias. Compara-o às Tulherias pela grandeza. Era de madeira e ardeu em menos de uma hora com quási todas as suas preciosidades, que eram muitas. Estava guardado por duzentos soldados franceses e, todavia, os forçados puderam deitar-lhe fogo!

Conta Bourgogne que foram surpreendidos a sair de um subterrâneo, por debaixo da grande escadaria, afastando-se tranquilamente, uns vinte e tantos homens em fila, quási todos forçados. Alguns deles levavam ainda os archotes acesos. Deram-lhe caça e conseguiram aprisioná-los.

Apenas foi possível salvar do incêndio alguns quadros, muito de veludo com arminho e uns raros objectos preciosos.

 

nos surgem de surpreza por toda a parte e se nos somem da vista a cada passo.

O cirurgião despediu-se e foi seguindo atrás dos piquetes.

- Luís, que desespero de guerra! - disse Maria Pulaski tristemente.

Naquele dia tinham revista passada pelo Imperador as tropas que estavam de guarnição ao Kremlim.

Os restos do regimento do coronel Pego deviam formar com a nova Guarda Imperial.

O tempo melhorara; estavam uns dias calmos, claros, de amena temperatura, apesar de se ter chegado já aos fins de Setembro, e era em Outubro que devia começar a aparecer a neve, como sucedia em quási todos os anos. Mas aquele Setembro parecia de excepcional amenidade.

Estavam muito espalhadas as forças da guarnição da cidade. Uma grande parte da Guarda no Kremlim e imediações, mas havia companhias aquarteladas em diferentes ruas, muito separadas umas das outras, nas igrejas como casernas e nas casas maiores que tinham ficado de pé, entre os nove décimos de quantas havia na cidade e o fogo destruíra.

Eram 9 horas quando as tropas começaram a entrar na praça maior do Kremlim.

Contrastavam com o aspecto horroroso da cidade, onde o rescaldo ainda não tinha acabado, aquelas marchas triunfais tocadas pelas bandas dos regimentos e pelos clarins dos esquadrões.

Por entre os esqueletos negros das ruas causavam impressão de confrangimento os uniformes espaventosos dos granadeiros, dos hússares, e dos couraceiros.

Mas o sol estava brilhante e na cidadela magnificente, que as labaredas de Moscou apenas tinham tocado, o espectáculo era realmente soberbo.

Maria Pulaski viu passar o regimento do marido, na frente o coronel Pego com o seu belo aspecto marcial, mas como que envolto numas sombras de tristeza, que nunca mais o tinham deixado desde que o filho caíra morto na monstruosa carniçaria da batalha de Moscóvia.

O pobre regimento! Trezentos homens debaixo de forma, a sua bandazita de música reduzida a meia dúzia de figuras.

Como de costume, Napoleão passou a revista a pé.

ia distribuindo cruzes da Legião de Honra, indicando promoções por distinção, fazendo perguntas aos oficiais e aos soldados.

- É isto o que resta dos dois regimentos?

- Só isto, Majestade. Os dois regimentos abaixo de um meio batalhão, os antigos batalhões do tamanho de pequenas companhias. Doentes e extraviados, desde a saída de França, pouco mais de trezentos dos dois regimentos; mas feridos e mortos dois mil cento e cinquenta e quatro!

- Os dois regimentos saíram de França com uma força total de três mil.

- Sire, não chegava bem a esse número o efectivo de ambos.

- Perderam então mais de dois terços da sua gente em combate! Sei que se têem batido admiravelmente. O marechal Ney tem-me dito da sua gente as coisas mais honrosas. Escolha mais cinquenta oficiais, sargentos e soldados para serem agraciados com a Legião de Honra.(1) Berthier, - acrescentou voltando-se para o Príncipe de Neufchâtel e Wagram,

 

*1. «A grande quantidade de recompensas dadas por Napoleão a estes regimentos devem-se à intervenção do marechal Ney, que tinha por eles a mais decidida estima». (Castro Pereira, História da Legião Portuguesa).

 

- o coronel Pego promovido desde hoje a general de brigada.(1)

- Sire, é uma insigne mercê, mas se a generosidade de Vossa Majestade mo permitisse, ousaria fazer um pedido.

- Qual?!

- Que Vossa Majestade me deixasse continuar a comandar estes restos do meu regimento.

- Um general de brigada à frente de trezentos soldados!

- Sire, por mim, com os desvanecimentos da minha nova patente, se não contraria Vossa Majestade de me conceder essa grata mercê. Para mim faço de conta que tenho ainda nas fileiras os que morreram da 13.a meia brigada de Wagram e os que me ficaram nos campos de batalha, desde as margens do Poristenes até às margens do Moscova. Sire, comando interino, de escassa duração. Em outra batalha o regimento some-se e, se eu não tiver acabado com êle, Vossa Majestade me dará então o encargo de serviço que lhe aprouver.

- Seja. Está concedido.

- Dá-me Vossa Majestade um grande e piedoso prémio.

Pouco depois as tropas desfilavam para os quartéis.

Os oficiais foram à secretaria felicitar o general Francisco António Freire de Andrade Pego.

- Meu general -disse-lhe Luís de Castro, depois dos cumprimentos oficiais - é pena que os boletins do Grande Exército tanto se tenham esquecido do glorioso regimento que v. ex.a comandava! Explica-se, General. Mas nem era preciso dar-lhe mercê de palavras que pudessem causar ciúme aos favorecidos.

 

*1. «Bonaparte passou em Moscou revista aos restos desta tropa e por essa ocasião nomeou o coronel Pego general de brigada e o chefe de batalhão Baltasar Ferreira, major de infantaria».

(Ibidem).

 

Bastaria que no boletim de cada batalha em que esses bravos entraram viesse uma simples nota do número daqueles que tinham combatido e do número dos outros que tinham ficado. Os algarismos das perdas dariam ideia da grandeza do esforço. Sem uma avultada partilha de glórias, só há perdas assim quando se foge batido ou quando se cai numa emboscada. E no corpo do exército de Oudinot, em 1809, como agora no corpo de exército de Ney, a infantaria da Legião só foi dizimada avançando e vencendo.

- Então, Castro! Um dia se dirá abertamente o que praticámos e, pelo que os nossos camaradas têem feito na Península, avaliará a Europa o que nós fizemos aqui perdendo tantas vidas.

Estava-se quási em meados de Outubro e os dias e as noites numa carinhosa amenidade que lembrava o outono calmo dos países do sol. Os russos viam nisso uma excepção quási fenomenal e não faltavam já supersticiosos que tomassem estes dias extraordinários como indício da clemência divina em favor dos invasores.(1)

Tinham queimado Moscou na esperança de que as primeiras neves de Outubro surpreendessem os franceses sem quartéis de inverno, e o inverno tardava e aquele sol ardente e brilhante como se comprazia em dar aos batalhões de Bonaparte a impressão de um doce outono nalguma das mais belas regiões da França.(2)

 

*1. Labaume, pág. 254 do seu livro àcêrca da campanha.

  1. Os próprios boletins do Grande Exército registaram aquele caso anormal. O tempo está tão bom como em França em Outubro e talvez um pouco mais quente- dizia um dos boletins.

 

Falava-se muito de negociações de paz e de umas conferências entre Napoleão e um general russo (Toutelmine). Depois toda a gente soube que o Imperador mandara ao quartel-general do Príncipe de Kutusoff, na qualidade de parlamentado, o seu ajudante-de-campo general Lauriston.

Ainda assim, tudo se preparava para o retardatário inverno, que já não podia estar longe e contrastaria, provavelmente, pelos seus rigores excepcionais, com aquela trégua de dias esplêndidos.

Armazenavam-se víveres, concertavam-se os edifícios que tinham ficado em pé, distribuíam-se aos soldados resguardos de peles, das muitas que tinham escapado do incêndio.

Napoleão passava revistas, lia as notícias que todos os dias lhe vinham de França e acalentava a sua soberba pretensão de ditar na grande sala do Kremlim a paz que Alexandre I parecia desejar.

Até os cómicos franceses deram espectáculo em uma das amplas salas do palácio imperial. Coitados! Assim ganhariam algumas centenas de francos.

Castro foi vê-los com Maria Pulaski, a Beauchamp e o tio André. Encontraram lá Cândido Xavier.

- Isto vale muito mais do que os fantoches do tenente Perro em Tôrres-Novas, no inverno de 1810 - disse-lhes Cândido Xavier.

- Falta uma tortura moral na espiação de Miguel Platow, a maior certamente.

- Qual?

- Que te veja a meu lado, esposos como noivos no seu primeiro dia, tu cada vez mais linda, eu contigo cada vez mais ditoso. Seria o castigo moral, enorme daquela carta infame que êle te escreveu, ameaçando-te com a viuvez e com o seu amor ignóbil de amante. Tens ânimo de ir comigo?

- Tenho. Com sacrifício da minha alma, com um nojo imenso por esse homem detestável; mas vou porque tu queres que vá.

- Desejo. Dás-me assim a hora mais altiva da minha vida, o júbilo maior que pode sentir o meu ódio inexcedível àquele bandido. Iremos todos, Maria; a nossa família, para que nada falte ao quadro amorável que há-de oprimi-lo a êle.

- Mas... também o pequenito?!

- Também êle contigo. Compreendes decerto a raiva infernal com que o mostrengo há-de vêr aquele filho dos nossos amores, angélica miniatura do teu rosto.

- Mas... por aqueles subterrâneos!... Eu por mim nada receio ao pé de ti...

- E eu nada receio por êle. O subterrâneo está bem guardado pelos nossos portugueses; tem luz suficiente desde que está em nosso poder, ar livre que lhe entra por uns respiradouros que os meus soldados abriram.

- Pois sim, Luís. Como tu quiseres. O tio André também vai?

- Decerto. Êle e a nossa Beauchamp.

- Quando?

- Logo. E sabe que vais dar uma grande alegria ao carcereiro de Platow. Está morto por te ver, a ti e ao pequenito.

- O carcereiro?!

- Sim. Conhece-te perfeitamente e olha que já por duas vezes me pediu licença para cumprimentar-te. É o João Luís.

- Ele! E eu que andava para te perguntar o que era feito desse nosso dedicado amigo, mas, por tantas impressões, por tantas surpresas, de dia para dia me foi esquecendo! Também eu desejo vê-lo, porque é talvez o mais devotado amigo que tu tens.

- Sem nenhuma dúvida. Por umas poucas de vezes me tem salvado a vida, pondo a sua em risco, intrepidamente. Pois tem sido êle o guarda permanente, o carcereiro de Platow.

Ao entardecer, duas senhoras e dois homens entravam no casebre de pedra que dava acesso ao grande subterrâneo do Kremlim.

Tinha agora aspecto diverso aquele longo caminho enterrado", o ar livre entrava pelos respiradouros e com êle uma claridade ténue do dia. Ainda assim, de espaço a espaço, uns grandes lampeões iluminavam os cotovelos e as voltas onde não podia chegar a claridade exterior. Em todo o percurso algumas patrulhas e sentinelas de soldados portugueses.

Seis tocheiros da igreja de S. Miguel enchiam de luz, de pálida e funerária luz, a grande sala de pedra.

Miguel Platow, cingido de cordas, estava estendido sobre a vasta mesa de mármore, em cima de umas peles que serviam de leito.

De um lado o João Luís, do outro um sacerdote moscovita de longas barbas brancas, o pope que já conhecemos daquela hora de angústias em que os soldados franceses entraram nas catacumbas dos czares.

Luís de Castro vinha na frente.

- João Luís, amordaça-o - ordenou. E logo explicou a André Pulaski:

- Para evitar que ele vomite a alma asquerosa em alguma afronta que as senhoras não devam ouvir.

Voltou-se para as sentinelas.

- Retirem-se.

Maria Pulaski encostou-se muito ao marido, num movimento de repugnância pelo cossaco e apertou mais para si o filhito que levava nos braços.

Castro puxou-a brandamente consigo para defronte de Platow.

- Maria Pulaski, ali tens naquele teu hediondo perseguidor, a mais torpe abjecção dos homens e a última ralé dos cossacos.

Com uma lividez de cadáver, olhos ferinos cravados nela, o russo estorceu-se violentamente, estiraçando as cordas que o cingiam e rugiu o quer que fosse que a mordaça abafou.

- A fera esbraveja. Miguel Platow, antes que chegue a morte excepcional, inevitável, que mereces, quero que leves nessa alma de lobo a visão desesperadora da minha imensa ventura de marido e pai. Vê bem. Nenhum amor maior. A filha de João Pulaski, o velho ludibriado por ti, a sobrinha de André Pulaski, o homem intrépido que feriste à traição, a esposa queridíssima, que tu querias tornar viúva, assassinando-me, e tua amante, infamando-a, vem aqui a pedido meu, para que tu a vejas e repares que tão pouco mudou, que logo lembra aquela Maria Pulaski de 1807, no pleno esplendor da juventude. Como em Lisboa a admiravam, como certo cossaco ignóbil ousou amá-la brutalmente. Mas foi um sacrifício de nojo que eu lhe pedi e não quero prolongar.

Maria aconchegou a si o filhito comovidamente, como se quisesse ocultá-lo do olhar pavoroso de Miguel Platow.

- Mandaste-lhe uma carta de traiçoeira falsidade. Querias arrastá-la para os perigos de uma campanha. O mais seria fácil. Os forçados, teus sequazes, prender-me-iam à traição, para tu teres o prazer de me assassinar torturado e para que ela caísse nas tuas mãos, roubada por eles. Pois aqui está para me seguir, alma heróica de esposa e de mãe. E tu és meu, és a minha odiada presa, cossaco!

Aproximou-se mais de Platow.

- Cobarde infamíssimo! - rouquejou -, Deus me livre de emporcalhar uma espada no teu sangue. Hás-de morrer como um chefe de forçados, mais repugnante e vil que nenhum deles! João Luís, despe-lhe logo essa farda e veste-lhe um lato dos forçados que o serviam. Será a sua condigna mortalha. A espada?

- Tenho-a ali no chão, meu major.

- Traze-ma.

O João Luís foi buscá-la.

- Talvez seja a mesma com que me acutilou em Wagram e o feriu a si, sr. André Pulaski. Merece uma exautoração, também excepcional. Como se fosse a faca de um bandido!

E sem a tomar das mãos do granadeiro, cuspiu-lhe na lâmina.

- Soldado de rara intrepidez e inexcedida lealdade, quebra-a tu.

Num repelão de cólera o João Luís quebrou a espada no joelho e calcou-a aos pés.

André Pulaski foi para o Castro profundamente comovido.

- Bem haja. O castigo é digno de si e dele. Maria envolvia o marido num olhar de amorável

orgulho, toldado de lágrimas.

--Fazes-me soberba por ti - murmurou-lhe. Saíram.

- Meu caro Luís, - disse-lhe André Pulaski - maiores cautelas agora com aquele lobo danado.

- Está bem seguro.

- Melhor seria que o mandasse fuzilar imediatamente.

- Penso noutra morte mais digna dele.

- Cuidado! Olhe se nos surpreende algum revez e o infame consegue escapar-se! Teríamos de contar com êle para as maiores atrocidades contra si, contra Maria, contra...

Maria apertou mais o pequenino nos braços, como se a oprimisse um terror imenso por êle.

- Filho da minha alma, meu lindo filho! - murmurou - O olhar com que êle te fitava! Nossa Senhora seja por ti, meu amor!

 

A 15 de Outubro caíam as primeiras neves.

O Boletim do dia seguinte registava o caso dizendo: «Apressemo-nos; dentro de vinte dias é preciso ter preparados os quartéis de inverno».

Apareciam partidas audazes de cossacos nos arredores de Moscou e pareciam completamente malogradas todas as tentativas em favor da paz.

Nos dias 15, 16 e 17 saíram para Smolensko os feridos e doentes do Grande Exército, que estavam nos hospitais de Moscou. Ali seria imprudente deixá-los.

Os troféus, bandeiras tomadas pelos russos nas suas antigas campanhas, alfanges preciosos, águias de bronze do Kremlim e uns fragmentos da enorme cruz de Yvan, o Grande, a cruz de madeira e prata doirada que se despedaçara quando os soldados franceses a desciam da torre maior da catedral, tudo já tinha saído em 15, escoltado pelas tropas do general Claparède.

Preparava-se a retirada. Em 17 entrou em Moscou o corpo de exército de Ney e no dia seguinte estava em parada para a revista do Imperador.

De manhã cedo tinham chegado cartas para Luís de Castro. Uma da Áustria, do padre Diogo Martins dando notícias de João Pulaski; outra de Portugal, por via de Inglaterra e da Áustria, de Henrique de Castro. Vinha muito atrasada.

Henrique ia bem e tivera boas notícias de Lisboa.

Escrevia-lhe de Madride, que tinha sido tomada aos franceses pelas tropas aliadas. O rei José Bonaparte retirara para a linha do Ebro com a sua corte espanhola, os seus Grandes de Espanha e o exército francês que estava sob o seu comando directo.(1) Wellington preparava-se para ir sitiar Burgos.

Castro resumiu esta carta a André Pulaski.

- É a segunda vez que entram tropas portuguesas em Madride - disse-lhe - A primeira foi há mais de um século, na Guerra da Sucessão. Entrou lá o general Marquês das Minas, com o seu exército de portugueses e ingleses.

Chegou Cândido Xavier.

- Não quere vir ver a revista do nosso antigo corpo de exército?

- Vou, sim. E antes de mais nada uma notícia consoladora. O nosso exército ajudou a libertar a capital da Espanha.

- Não sabia.

- Foi em meados de Agosto. Recebi carta de meu irmão. Deu longas voltas: chegou atrasadíssima.

- Já sabe que somos nós os últimos a retirar?

- Deram-mo a entender ontem.

- O Grande Exército retira na direcção de Kalouga mas é um falso movimento para desorientar Kutusoff. Napoleão quere tornear o exército do generalíssimo russo e, se o não conseguir, retirar-se-ão para Smolensko, base de operações e núcleos de concentração durante o inverno.

- Se nos deixarem lá chegar. Vejo o exército numa indisciplina inquietadora!

 

*1. O rei José deixara Madride em 21 de Junho, retirando com 14.000 homens e trinta canhões. Em 14 de Agosto as avançadas anglo-portuguesas e as mais famosas guerrilhas da Espanha apossavam-se da cidade.

Entrou ali com os ingleses a divisão portuguesa do general Silveira.

 

- Pois iremos a Deus e à ventura. Outra novidade, mas esta de absoluto segredo.

- Pode dizê-la desassombradamente.

- Vão minar o Kremlim.

- Miná-lo, para quê?

- Para o fazer ir pelos ares assim que a Guarda nova de Mortier e nós, os portugueses, tivermos abandonado a cidade. Parece que o impressionou esta novidade!

- impressão singular, meu caro amigo. Já tenho sepultura para aquele infamíssimo patife de quem várias vezes lhe tenho falado.

- Ah! o tal Miguel Platow, que tem prisioneiro?

- Esse. Pensava em levá-lo engaiolado como fera de exposição, até ao primeiro acampamento em que me apetecesse mandá-lo enforcar. Mas agora prefiro que Platow fique sepultado sob os entulhos do Kremlim, exactamente onde êle instalou o quartel-general dos forçados. É mais rápido, mais seguro, e mais trágico. Hei-de ir entender-me com quem ficar encarregado das minas. Nós seremos, com certeza, os últimos a retirar?

-- Assim mo afiançaram. Ficamos com as tropas de Mortier, para a retirada do Grande Exército, defendendo o Kremlim contra alguma investida dos cossacos ou das tropas regulares mais próximas da cidade.

- Excelente, já que me não é dado evitar essa lamentável destruição. Vamos lá então ver a revista.

Tinha começado a revista das tropas de Ney quando chegaram a tôda a brida uns poucos de ajudantes-de-campo. Traziam notícias inquietadoras.

Murat fora atacado de surpresa pelos russos. A artilharia trovejava das bandas de Vinkowo. O inimigo fora repelido, depois de dez cargas formidáveis, mas Murat ficara ferido. Os cossacos tinham investido, também de surpresa, a divisão do general Sebastiani e conseguiram apoderar-se de parte das bagagens e da artilharia.

O Imperador perturbou-se e teve um formidável acesso de cólera. Os russos haviam violado traiçoeiramente o armistício que tacitamente se estabelecera nas avançadas.

A revista foi interrompida. Era preciso acelerar a retirada.

Napoleão expediu este despacho cifrado para o Duque de Bassano: «O exército vai em marcha. Amanhã farei saltar o Kremlim, tomarei para Kalouga ou para Wiasma.»

Castro foi ter com Ottone, chefe do batalhão da artilharia de marinha. Fora êle o encarregado de preparar as minas para a explosão que havia de derruir a cidadela invicta dos russos.

Ofereceu-se para o auxiliar, mas Ottone só aceitou a oferta depois de encarecidas instâncias.

No dia 19 de manhã iam já em marcha todos os corpos de exército aquartelados na cidade e nas imediações, e Napoleão abandonava o Kremlim à frente da velha Guarda.

Estavam debaixo de forma oito mil homens de Mortier(1) com os restos dos dois regimentos da infantaria portuguesa,

 

*1. Oito mil homens diz o general Gourgaud a pág. 364 do seu livro de réplica à obra do Conde de Ségur.

Teotóneo Banha escreveu nos seus Apontamentos; «O marechal Mortier ficou em Moscou com a força de 18.000 homens, com que guarneceu o Kremlim; compondo-se esta força da guarda nova imperial, 4 esquadrões de lanceiros, toda a cavalaria não montada servindo como infantaria, os corpos de infantaria que mais tinham padecido nas precedentes batalhas, incluindo as relíquias do regimento do coronel Pego, e o meu regimento, ainda na força de 600 cavalos.»

Bourgogne diz nas suas Memórias que o marechal Mortier ficou com 10.000 homens no Kremlim.

 

e a cavalaria do Marquês de Loulé.

- Duque de Treviso, - disse Napoleão comovidamente a Mortier - não esqueças os feridos, e os doentes franceses que aí ficam. Leva-os, aproveitando todas as viaturas e todos os cavalos. No dia 23 o Kremlim deve estar em ruínas. Até lá defende-os obstinadamente. Mortier, tens aqui um posto de honra de maior sacrifício que os mais gloriosos nos campos de batalha. Di-lo aos teus soldados.

- Sire, cumpriremos o nosso dever, eles e eu.

Os generais do estado-maior imperial despediram-se de Mortier com os olhos rasos de lágrimas. Consideravam-no um sacrificado.

O Imperador afastou-se. Começou então a desfilar a velha Guarda.

Os soldados vestiam as estranhas roupagens tomadas no saque. Arminhos e peles caríssimas aos ombros, cachimbos preciosos ao canto da boca. O sargento Bourgogne levava uma bela capa de senhora para se agasalhar nos bivaques, como êle próprio confessa nas suas Memórias.

E atrás de cada companhia filas de caleças, de carretas, de variadíssimos veículos, ajoujados de sedas, de veludos, de peles, de pesados artefactos de prata, de quadros, de candelabros, de garrafas, de mil cousas colhidas na pilhagem.

E muitos soldados a deixarem-se ficar atrás, a encostarem-se aos carros para não perderem de vista as suas riquezas.

Depois, grupos de senhoras com crianças, francesas, alemãs, italianas, suíças, que residiam em Moscou e fugiam às crueldades prováveis dos cossacos.

A seguir, a mascarada das rameiras, algumas delas da própria cidade de Moscou. Aventureiras que abandonavam o seu país. Mantos imperiais aos ombros, colares de duquesas, vestidos decotados de baile com bordaduras a oiro e pérolas, pelicas de marta-zibelina, chapéus de plumas raras, cabaias chinesas, gorros de cossacos, albornozes grosseiros de tártaros, uma variedade estonteadora de trajes, que elas vestiam comicamente.

- A trágica-mascarada! - disse tristemente Luís de Castro para Cândido_Xavier.

- Se todo o exército vai assim e a neve aperta connosco, duvido que possamos chegar a Smolensko!

- Cada fila de soldados a guardar a carreta dos seus salvados de rapina!

- Nem eles pensam já noutra coisa. Uma lástima, Luís de Castro!

- E veja a interminável fila de veículos! Bastam os cossacos para esbandalhar tudo isso por esses caminhos!

Passaram dois dias. Chegara nova ordem do Imperador para destruir o Kremlim.

As minas estam prontas, as mechas já dispostas em pranchas sobre barricas e tonéis cheios de pólvora - centenas de milhares de quilogramas de pólvora - debaixo do Arsenal, dos muros e torreões do Kremlim, da enorme torre de Yvan, o Grande.

Durante o dia 22 centenas de soldados tinham andado a barricar tôdas as grandes portas do palácio.

- Parece-lhe então que tudo isto irá pelos ares? - perguntou Castro ao chefe Ottone, da artilharia de marinha.(1)

 

*1. O general Gourgaud trata da arriscada missão de Ottone, e da sua admirável intrepidez, a pág. 346 de seu livro - Napoleão e o Grande Exército na Rússia.

 

- Tudo. As mechas estão dispostas de modo que a explosão se dê uma hora depois de termos saído.

- Estou a desconfiar que a grande sala subterrânea de que lhe falei não será destruída pelas minas.

- É provável que fique em ruínas.

- Eu desejava a certeza.

- Pois veja se no arsenal há ainda algumas barricas de pólvora e mande-as conduzir para lá. Eu ordenarei depois que lhes ponham a mecha de ligação.

- Obrigado. Vou lá tratar disso.

E foi. Encontrou ainda no arsenal quatro barricas de pólvora, que mandou colocar na sala de pedra e êle próprio indicou onde deviam colocá-las.

- Ali. Uma a cada canto - mandou, apontando a grande mesa de mármore, o leito onde Platow estava amarrado. Para o teu funeral, bandido - disse, acercando-se dele. Daqui a horas o Kremlim estará em ruínas e dentro destas barricas estão vinte arrobas de pólvora. Cossaco, terás a morte infernal que mereces!

Lívido, uns relâmpagos de imenso ódio naqueles olhos que o pavor esbugalhara, Miguel Platow regougou:

- Alguém ficará para me vingar. Em ti, na mulher, no filho, raça de cães!

- Ponho-lhe outra vez a mordaça, meu major? - disse o João Luís.

- Não. Deixa uivar o lobo. A morte não tardará. Todos para fora daqui - ordenou.

- Eu também? - perguntou o João.

- Também. Está bem amarrado?

- Tão bem, meu major, que só poderá saltar dali para fora, se os diabos ou os cossacos o vierem desamarrar.

- Bem; sai.

Saíram todos. Castro fòi ter com Ottone.

- Lá tenho as barricas de pólvora. Queira mandar-lhe pôr a mecha de ligação.

- Daqui a pouco tratarei disso. Mortier mandou-me chamar agora. Creio que temos os cossacos já nas imediações da cidade. Dê-me licença. Daqui a uma hora mande-me cá alguém para guiar o artilheiro que há-de ir colocar a mecha.

- Cá se lhe virá apresentar um soldado em quem deposito plena confiança. Conhece o subterrâneo perfeitamente.

Sairam; Ottone para os aposentos de Mortier; Castro para o seu aquartelamento.

- Já estava inquieta por ti! - disse-lhe Maria carinhosamente.

- Demorei-me por exigências de serviço. Tudo pronto para a marcha?

- Tudo.

- Vais tu, o tio e a Beauchamp em uma das caleças. Na outra, os criados e o João Luís com as bagagens.

- Se me dás licença, irei a cavalo, ao pé de ti e do tio: irá junto de nós a caleça com a Beauchamp e o pequenino.

- Fatigas-te sem necessidade! - irei melhor.

- Mas daqui não poderei acompanhar-te.

- Ficas?!

- Vou depois; apenas uma hora depois.

- Luís, dizes-me isso de tal maneira!...

- Fico para auxiliar um chefe de batalhão e alguns artilheiros...

- Por tua livre vontade?

- Por ordem de serviço.

- Ficas I Estou adivinhando coisa de perigo!

- Nenhum perigo. Retirarei com os artilheiros que vão deitar fogo às minas do Kremlim.

- Mas vai o tio com a Beauchamp e o pequenino e eu fico também contigo.

- Não; isso é impossível.

- Então não há perigo e não queres que eu fique?. Luís, tu não me dizes a verdade!

- Não deves apartar-te do pequenino.

- Por uma hora apenas, como disseste. Luís, por quem és, deixa-me ficar contigo! Se houvesse alguma desgraça, era para ambos. O pequenino lá ia com quem o protegesse... a Beauchamp como se fosse uma extremosa mãe, o tio André para o defender e amparar. Deixas, sim? Deixas que eu fique?

- Pela primeira vez te imponho a minha vontade. Com mágoa o faço, minha adorada Maria. É preciso que obedeças.

- Obedeço - disse num soluço - Percebo que te vais expor, estou a adivinhar que se trata de Platow.

- Trata; mas eu não correrei maior perigo do que esse punhado de franceses que fica para arruinar a cidadela dos czares.

Vieram avisar que tinha chegado uma ordenança do regimento. Foi saber o que havia.

- Saberá v. s.a meu major, que veio ordem para o regimento marchar às duas horas da madrugada.

- Bem! fico ciente. Eu vou já ao quartel.

Foi falar ao general Pego. Depois chamou o João Luís.

- Vai apresentar-te já ao chefe de batalhão dos artilheiros de marinha. Servirás de guia ao artilheiro que fôr encarregado de pôr a mecha nos barris de pólvora do subterrâneo, aqueles que hão-de queimar Miguel Platow.

- Vou já, meu major.

Eram quási 10 horas quando Castro voltou a casa. Maria estava no quarto com o pequenino nos braços. Chorava.

As tropas de Mortier tinham formado silenciosamente. Dali a instantes retirariam também. Eram duas

horas da madrugada; caía neve. Vinham da cidade gritos confusos de pavor, ouviam-se relinchos de cavalos das bandas do arrabalde denominado de S. Petersburgo. Eram das avançadas dos cossacos. Defronte da grande porta do Kremlim, o intrépido Ottone, com o seu punhado de artilheiros de marinha, ficara esperando o momento de lançar fogo às minas.

- Maria, até já - disse-lhe Luís de Castro singelamente.

- Até já! - respondeu-lhe afogando a voz numa onda de soluços.

Deu-lhe o filhito a beijar. Beijou-o enternecidamente e apertou a mão a André Pulaski e disse: Até logo.

Entraram para a caleça. Era tempo. Vinham já a desfilar os lanceiros, constituindo a ultima força da retaguarda.

Castro correu para junto de Ottone.

- Ainda não voltou o artilheiro que foi pôr a mecha no subterrâneo? - perguntou-lhe.

- Ainda não e estou a estranhar a demora!

- É singular!

- Só se o seu soldado se desorientou no subterrâneo.

- Conhece-o a palmos.

- Talvez algum desastre. Mas ainda não é caso para desesperar. Não era preciso aquilo. Estou convencido de que tudo isto fica num montão de ruínas.

Passaram uns minutos. Ottone viu o relógio.

- Atenção!

- O meu pobre João Luís! - pensou o Castro num confrangimento de alma.

- Vou mandar deitar fogo à mecha - disse-lhe Ottone.

- E os dois soldados? Dê-me uns minutos para eu ir ver se os encontro.

- Impossível! Seria uma loucura. Não ouve aquela gritaria além, naquele arrabalde? São, sem dúvida nenhuma, os gritos selvagens dos cossacos.

- Mas sacrificar assim dois homens!

- Para salvar essas dezenas deles que tenho aqui, cumprindo as ordens terminantes do Imperador.

- Pois correrei eu o risco...

- Disse-me que tinha esposa e filho, lembro-lhos e oponho-me a essa loucura, sr. major.

Castro fez-se horrivelmente pálido.

Ottone tomou um archote das mãos de um soldado e correu para o grande arco do recinto exterior do Kremlim. Ia deitar fogo à mecha. Castro seguiu-o num estonteamento de mágoa.

- Sacrifiquei o meu maior amigo! - dizia consigo, lembrando-se do João Luís.

- Vamos - disse Ottone, atirando o archote ao chão e puxando consigo o oficial português - A marche-marche! - gritou aos artilheiros.

Meteram pela estrada de Kalouga. Ouviam-se já na cidade os gritos ferozes dos cossacos das costas do Mar Negro e do país bárbaro de Orembourg.

Havia uma hora que tinham saído do Kremlim quando sentiram um estrondo enorme, como de trovão subterrâneo, que fêz estremecer o solo violentamente. Voltaram-se. Via-se por cima da cidade um clarão enorme.

- Uma hora certa - disse Ottonne serenamente; vendo o relógio - A mecha foi bem calculada.

Estava em ruínas a invicta cidadela dos czares.

 

 

Continua no VOLUME 8

 

 

                                                                  Antonio Campos Junior

 

 

                      

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