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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A HERANÇA DE HASTUR / Marion Zimmer Bradley
A HERANÇA DE HASTUR / Marion Zimmer Bradley

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A HERANÇA DE HASTUR

Primeira Parte

 

Ao passarem pelo desfiladeiro que descia para Thendara, os cavaleiros puderam avistar, além da antiga cidade, o espaço-porto terráqueo. Vasto e esparramado, feio e estranho a seus olhos, estendia-se como uma excrescência insólita lá embaixo. E ao redor, cercando-o como uma crosta de ferida, surgiam os prédios muito agrupados da Cidade Comercial, que crescera entre Thendara e o espaço-porto.

Regis Hastur, cavalgando devagar no meio de sua escolta, refletiu que não era tão feio como lhe haviam dito em Nevarsin. Possuía uma beleza exclusiva, uma beleza austera, de torres de aço e prédios brancos, cada um para algum propósito alienígena e desconhecido. Não era um câncer na superfície de Darkover, mas um ornamento destoante, embora não desprovido de beleza.

A torre central do novo quartel-general ficava de frente para o Castelo Comyn, situado no outro lado do vale, com lamentável aparência. A impressão de Regis foi a de que a torre e o antigo castelo de pedra se confrontavam, como dois gigantes armados para o combate.

Mas ele sabia que isso era um absurdo. Reinara a paz entre o Império Terráqueo e os Domínios ao longo de toda a sua vida. Os Hasturs garantiam essa paz.

O pensamento, entretanto, não lhe proporcionou qualquer conforto. Não era um grande Hastur, refletiu ele, mas era o último. Tentariam tirar o melhor proveito de sua pessoa, embora fosse um medíocre substituto do pai, e todos sabiam disso. Nunca o deixavam esquecer, por um instante sequer.

O pai morrera havia quinze anos, apenas um mês antes de Regis nascer. Rafael Hastur, aos trinta e cinco anos, já exibia todos os sinais de um líder vigoroso e estadista sábio, profundamente amado por seu povo, respeitado até pelos terráqueos. E fora explodido em pedaços nas Colinas Kilghard, morto por armas contrabandeadas do Império Terráqueo. Eliminado na plena força de sua juventude e promessa, deixara apenas uma filha de onze anos e uma esposa grávida e frágil. Alanna Elhalyn-Hastur quase morrera com o choque da morte do marido. Apegara-se à vida angustiada, apenas porque sabia que tinha no ventre o último dos Hasturs, o filho tão desejado de Rafael. Sobrevivera, abalada pela dor, apenas o tempo suficiente para que Regis nascesse vivo; e depois, quase com alívio, abandonara a vida.

E depois da perda de seu pai, depois de todo o sofrimento por que a mãe passara, pensou Regis, tudo o que tinham era ele, não o filho que escolheriam. Era muito forte no físico, até bonito, mas curiosamente deficiente para um filho da casta telepática dos Domínios, o Comyn. Um não-telepata. Aos quinze anos, se tivesse herdado o poder do laran, já o teria manifestado.

Por trás, ele podia ouvir os comentários dos guardas da escolta.

- Vejo que eles já concluíram a construção de seu quartel-general. Não podia estar em lugar pior, tão perto do Castelo Comyn.

- Começaram a construí-lo nas Hellers, em Caer Donn. Foi o velho Istvan Hastur, no tempo do meu avô, quem os obrigou a transferir o espaço-porto para Thendara. Ele devia ter seus motivos.

- Pois deveria tê-lo deixado lá, longe das pessoas de bem!

- Ora, os terráqueos não são tão maus assim. Meu irmão tem uma loja na Cidade Comercial. De qualquer forma, você gostaria que os Terranan voltassem às colinas, onde os bandidos das montanhas e os malditos Aldarans poderiam fazer acordos com eles sem o nosso conhecimento?

- Selvagens miseráveis! - exclamou o segundo homem. - Nem sequer respeitam a Aliança por lá. Os homens das Hellers andam com suas sórdidas armas de covardes.

- O que se poderia esperar dos Aldarans?

Eles baixaram as vozes, e Regis suspirou. Já se acostumara a isso. Deixava a todos constrangidos, só por ser quem era: Comyn e Hastur. Era bem provável que os guardas pensassem que podia ler suas mentes. A maioria do Comyn era capaz.

- Lorde Regis - disse um dos guardas -, há um grupo de cavaleiros vindo pela estrada do norte, carregando estandartes. Deve ser a comitiva de Armida, com Lorde Alton. Vamos esperá-los e continuar juntos?

Regis não sentia o menor desejo de se juntar a outra comitiva de lordes do Comyn, mas dizer isso seria uma inadmissível violação dos costumes. Na temporada do Conselho, os líderes de todos os Domínios reuniam-se em Thendara; Regis era obrigado pela tradição de gerações a tratá-los como parentes e irmãos. E os Altons eram seus parentes de fato.

Eles diminuíram o ritmo, esperando que a outra expedição os alcançasse.

Ainda se encontravam no alto das encostas, e Regis podia avistar o espaço-porto, além de Thendara. Um rumor intenso, como uma cachoeira distante, fez o solo vibrar como uma trovoada, mesmo ali em cima. Uma forma mínima, quase como um brinquedo, começou a subir no espaço-porto, devagar a princípio, depois cada vez mais depressa. O som aumentou para um grito tênue; o objeto era como uma listra distante, virou um ponto, desapareceu por completo.

Regis deixou escapar a respiração, que prendera por um momento. Uma nave estelar do Império, a caminho de mundos distantes, sóis distantes... Regis percebeu que cerrara os punhos nas rédeas com tanta força que o cavalo sacudia a cabeça, protestando. Relaxou, afagou o pescoço do cavalo, num gesto distraído, como se pedisse desculpas. Seus olhos ainda fixavam o ponto no céu em que a nave estelar sumira.

Seguindo pelo espaço exterior, livre para percorrer as incomensuráveis vastidões do espaço, a nave viajava para mundos cujas maravilhas ele nunca poderia sequer adivinhar, pois se encontrava acorrentado aqui embaixo. Regis sentiu um aperto na garganta. Gostaria de não ser velho demais para chorar, mas o herdeiro de Hastur não podia demonstrar qualquer emoção pouco viril em público. Perguntou-se por que se sentia tão angustiado, mas sabia a resposta: a nave ia para lugares que ele nunca poderia conhecer.

Os cavaleiros se aproximaram, e Regis pôde identificar alguns. Ao lado de seu porta-bandeira vinha Kennard, Lorde Alton, corpulento e encurvado, os cabelos vermelhos se tornando grisalhos. Depois de Danvan Hastur, o Regente do Comyn, Kennard era provavelmente o homem mais poderoso dos Sete Domínios. Regis o conhecera durante toda a sua vida; quando criança, chamava-o de tio. Por trás dele, em meio a todo um séquito de parentes, servos, guardas e membros mais pobres da família, ele avistou o estandarte do Domínio de Ardais, o que significava que Lorde Dyan devia acompanhá-los. Um dos guardas de Regis comentou, em voz baixa:

- O velho abutre trouxe seus dois bastardos. Como ele se atreve?

- O velho Kennard pode atrever-se a qualquer coisa, e fazer com que Hastur a aceite - respondeu o outro homem, num murmúrio de pátio de prisão. - De qualquer maneira, o jovem Lew não é um bastardo; Kennard legitimou-o, para que ele pudesse trabalhar na Torre de Arilinn. O mais novo...

O guarda viu Regis olhar em sua direção e ficou rígido; a expressão desvaneceu-se de seu rosto, como se fosse apagada por uma esponja.

Mas que droga! pensou Regis, irritado. Não posso ler sua mente, homem, tenho apenas ouvidos normais, por mais aguçados que sejam. Mas, mesmo assim, ele compreendeu, ouvira um comentário insolente sobre um lorde do Comyn, e o guarda se sentiria embaraçado por isso. Havia um provérbio antigo: O rato no alto das muralhas pode olhar para um gato, mas não é sensato alardear isso.

Regis, é claro, conhecia toda a história. Kennard fizera uma coisa chocante, até vergonhosa: tomara em casamento honrado uma mulher que era meio-terráquea, parenta do renegado Domínio de Aldaran. O Conselho do Comyn nunca aceitara o casamento, nem os filhos. Nem mesmo para agradar a Kennard. Nesse instante Kennard aproximou-se de Regis.

- Saudações, Lorde Regis. Está indo para o Conselho?

Regis sentiu-se exasperado com a pergunta óbvia - para onde mais ele iria, naquela estrada, naquela época do ano? - até compreender que as palavras formais implicavam seu reconhecimento como um adulto. Respondeu com a mesma cortesia formal:

- Isso mesmo, parente. Meu avô solicitou a minha presença no Conselho este ano.

- Passou todos esses anos no mosteiro em Nevarsin, parente? Kennard sabia muito bem onde ele estivera, refletiu Regis; como não conseguisse imaginar qualquer outro meio de afastar Regis de sua presença, o avô despachara-o para São-Valentim-das-Neves. Mas seria uma terrível violação das boas maneiras mencionar isso na presença de outras pessoas, e assim ele se limitou a dizer:

- Passei, sim. Meu avô confiou minha educação aos cristoforos; estive lá durante três anos.

- Pois foi uma maneira infernal de tratar o herdeiro de Hastur - disse uma voz áspera mas musical.

Regis virou a cabeça para deparar com Lorde Dyan Ardais, pálido e alto, um rosto de falcão, que ele vira fazendo breves visitas ao mosteiro. Fez uma reverência e saudou-o:

- Lorde Dyan.

Os olhos de Dyan, aguçados e quase incolores - dizia-se que havia sangue chieri nos Ardais -, fixaram-se em Regis.

- Eu disse a Hastur que só um tolo mandaria um menino para ser criado naquele lugar. Mas calculei que ele se encontrava ocupado demais com os assuntos de estado, como resolver todos os problemas que os Terranan trouxeram para o nosso mundo. Eu bem que ofereci para tê-lo como adotado em Ardais; minha irmã Elorie não gerou nenhuma criança viva e teria acolhido com o maior prazer um parente para criar. Mas seu avô, eu acho, não me considerou um guardião apropriado para um menino de sua idade. - Dyan soltou uma risada breve, sarcástica. - Bom, parece que você sobreviveu a três anos nas mãos dos cristoforos. Como era a situação em Nevarsin, Regis?

- Muito fria.

Regis torceu para que o homem mais velho se contentasse cora essa resposta.

- Lembro-me muito bem disso - comentou Dyan, rindo. -Também fui criado pelos irmãos, como sabe. Meu pai ainda tinha juízo... ou pelo menos o suficiente para me manter longe da vista de seus vários excessos. Passei cinco anos tremendo de frio.

Kennard alteou uma sobrancelha grisalha.

- Não me lembro de ser tão frio.

- Porque ficou aquecido na casa de hóspedes - explicou Dyan, com um sorriso. - Eles mantêm o fogo aceso ali durante o ano inteiro, e você podia contar com alguém para aquecer sua cama, se assim desejasse. O dormitório dos estudantes em Nevarsin... eu lhe dou minha palavra solene... é o lugar mais frio de Darkover. Nunca observou aqueles pobres pirralhos tremendo de frio durante os ofícios? Eles o converteram num cristoforo, Regis?

A resposta de Regis foi sucinta:

- Não. Sirvo ao Lorde da Luz, como é próprio para um filho de Hastur.

Kennard gesticulou para dois rapazes com as cores de Alton, que se adiantaram.

- Lorde Regis - disse ele formalmente -, peço permissão para apresentá-lo a meus filhos: Lewis-Kennard Montray-Alton e Marius Montray-Lanart.

Regis sentiu-se desorientado por um instante. Os filhos de Kennard não eram aceitos pelo Conselho, mas, se Regis os saudasse como parentes e iguais, concederia a eles o reconhecimento Hastur. Se não fizesse isso, seria uma afronta ao parente. Ficou furioso com Kennard por tornar essa opção necessária, ainda porque o velho conhecia tudo sobre etiqueta e diplomacia do Comyn.

Lew Alton era um jovem alto e forte, cinco ou seis anos mais velho do que Regis, e disse com um sorriso irônico:

- Não se preocupe, Lorde Regis. Fui legitimado e designado formalmente como o herdeiro há dois anos. Pode ser polido comigo.

O rosto de Regis ficou vermelho de embaraço.

- O avô me escreveu, dando a notícia; eu tinha esquecido. Saudações, primo. Estão há muito tempo na estrada?

- Uns poucos dias - respondeu Lew. - A viagem foi pacífica, embora eu ache que meu irmão a tenha considerado longa demais. Ele é muito jovem para uma jornada assim. Lembra-se de Marius, não é?

Regis compreendeu, aliviado, que Marius, chamado Montray-Lanart, em vez de Alton, porque ainda não fora aceito como filho legítimo, tinha apenas doze anos, era jovem demais para uma saudação formal. O problema podia ser contornado, bastava tratá-lo como uma criança.

- Você cresceu desde a última vez que o vi, Marius. Imagino que nem se lembre de mim. Ainda tem aquele pequeno pônei cinzento que costumava montar em Armida?

Marius respondeu com toda a polidez:

- Tenho, sim, mas ele ficou no pasto; está velho e manco, não teria condições de fazer a viagem.

Kennard parecia irritado. E ainda se falava em diplomacia! O avô se orgulharia dele, concluiu Regis, embora ele não se orgulhasse de si mesmo pela arte da dupla linguagem. Por sorte, Marius não tinha idade suficiente para compreender que fora esnobado. Ocorreu a Regis que, no final das contas, era ridículo que rapazes da mesma idade se tratassem de uma maneira tão formal. Lew e ele tinham sido grandes amigos. Nos anos que passara em Armida, antes de sua ida para o mosteiro, eram tão chegados quanto irmãos. E agora Lew o chamava de Lorde Regis! Era uma estupidez! Kennard olhou para o céu.

- Vamos continuar a viagem? O pôr-do-sol se aproxima, e é certo que vai chover. Seria um estorvo ter de parar e guardar os estandartes. Além do mais, seu avô deve estar ansioso para vê-lo, Regis.

- Meu avô foi poupado da minha presença por três anos - disse Regis secamente. - Tenho certeza de que poderá agüentar por mais uma hora. Mas seria melhor não cavalgar no escuro.

O protocolo determinava que Regis seguisse ao lado de Kennard e Lorde Dyan; em vez disso, porém, ele ficou um pouco para trás, a fim de viajar junto com Lew Alton. Marius tinha a companhia de um rapaz mais ou menos da idade de Regis. Parecia tão familiar que Regis franziu o rosto, tentando recordar onde se haviam encontrado.

Embora a comitiva seguisse em fila, Regis mandou seu porta-bandeira adiantar-se para a vanguarda da coluna, juntando-se aos de Ardais e de Alton. Observou o homem avançar com o emblema do pinheiro de Hastur, prateado e azul, e o lema em casta, que dizia Permanedál. Eu permanecerei, traduziu Regis, cansado; isso mesmo, ficarei aqui, serei um Hastur, quer goste ou não.

Depois, a revolta tornou a dominá-lo. Kennard não ficara. Fora educado na própria Terra, e por decisão do Conselho. Talvez houvesse também alguma esperança para Regis, sendo ou não Hastur.

Ele se sentia estranhamente solitário. A manobra de Kennard para obter o respeito apropriado aos filhos deixara-o irritado, mas também o comovera. Se seu pai estivesse vivo, ele especulou, teria sido tão solícito? Também recorreria a qualquer coisa para evitar que seu filho se sentisse inferior?

A expressão de Lew era sombria, indicava extrema solidão. Regis não podia saber se ele se sentia menosprezado, insultado ou apenas solitário, por saber que era diferente.

- Vai ocupar um lugar no Conselho, Lorde Regis? - perguntou Lew.

O formalismo deixou Regis outra vez contrariado. Seria uma esnobação pela maneira como tratara Marius? Subitamente, ele se cansou de tudo aquilo.

- Você costumava me tratar de primo, Lew. Somos velhos demais para sermos amigos?

Um sorriso rápido aflorou no rosto de Lew. Era bonito sem a expressão soturna e retraída.

- Claro que não, primo. Mas me foi impingido, entre os cadetes e em outros lugares, que você é Regis-Rafael, Lorde Hastur, e eu sou... ora, sou o herdeiro nedestro de Alton. Só me aceitaram porque meu pai não tem filhos darkovanos apropriados. Achei que cabia a você decidir se queria ou não me tratar como parente.

A boca de Regis se contraiu numa careta. Ele deu de ombros.

- Talvez tenham de me aceitar, mas eu bem que poderia ser um bastardo. Não herdei o laran.

Lew parecia chocado.

- Mas com certeza, você... pensei... - Ele parou de falar. -Mesmo assim, primo, terá um lugar no Conselho. Não há outro herdeiro Hastur.

- Sei muito bem disso. Não tenho ouvido outra coisa desde o dia em que nasci. Mas é verdade que Javanne, desde que casou cora Gabriel Lanart, vem tendo filhos como gatinhos. Um deles pode tomar o meu lugar algum dia.

- Mas você está na linha direta de descendência masculina. O dom do laran salta uma geração de vez em quando. Todos os seus filhos podem herdá-lo.

Regis comentou, com uma impulsiva amargura:

- Acha que ajuda... saber que não tenho valor por mim mesmo, mas apenas pelos filhos que venha a ter?

Uma chuva fina começou a cair. Lew puxou o capuz sobre a cabeça, e a insígnia da Guarda da Cidade apareceu no manto. Portanto, ele está cumprindo os deveres regulares de um herdeiro do Comyn, pensou Regis. Pode ser um bastardo, mas é mais útil do que eu. Lew disse em voz alta, como se captasse seus pensamentos:

- Vai entrar este ano no corpo de cadetes da Guarda, não é mesmo? Ou os Hasturs são isentos?

- Está tudo planejado para nós, não é mesmo, Lew? Dez anos de idade, serviço de vigia de incêndio. Treze ou quatorze anos, o corpo de cadetes. Depois, meu turno como oficial. Sentar no Conselho, no momento oportuno. Casar com a mulher certa, se puderem encontrar uma que pertença a uma família bastante antiga e importante, e acima de tudo com laran. Pai de uma porção de filhos, e também de muitas filhas, para casar com outros filhos do Comyn.

Planejaram as nossas vidas, e temos de seguir tudo o que foi determinado, quer desejemos ou não.

Lew parecia inquieto, mas não respondeu. Obediente, como um príncipe respeitável, Regis se adiantou, a fim de atravessar os portões da cidade em seu devido lugar, ao lado de Kennard e de Lorde Dyan. Estava com a cabeça cada vez mais molhada, pensou ele, amargurado, mas era seu dever apresentar-se descoberto. Uma coisa insignificante como ficar encharcado não deveria incomodar um Hastur.

Regis se forçou a sorrir e acenou para a multidão nas ruas. Mas a distância, através do próprio solo, podia ouvir de novo a vibração, como uma cachoeira. As naves estelares ainda estavam ali, pensou ele, e as estrelas, mais além. Não importa quão profundo seja o caminho que me fixaram, ainda encontrarei um meio de me libertar. Algum dia.

Capítulo Dois

(Narrativa de Lewis-Kennard Montray-Alton)

Eu não queria comparecer à reunião do Conselho naquele ano. Para ser mais preciso, jamais desejei ir ao Conselho em momento algum. Falando em termos brandos. A verdade é que não sou popular com os pares de meu pai nos Sete Domínios.

Em Armida, nada me incomoda. As pessoas sabem quem eu sou, e os cavalos não se importam. E em Arilinn ninguém pergunta pela família de ninguém, pela linhagem ou legitimidade. A única coisa que interessa numa Torre é a sua capacidade de manipular uma matriz e sintonizar com os círculos de energônio e com as telas de transmissão. Se você é competente, ninguém quer saber se nasceu entre lençóis de seda numa casa-grande ou numa vala à beira da estrada; e, se não é competente, nem vai para lá.

Você pode perguntar por que, se eu era bom em administrar a propriedade, e mais do que eficiente nas transmissões por matriz em Arilinn, o pai teve essa idéia de me impingir ao Conselho. Pode perguntar, mas terá de procurar outro para saber a resposta, porque eu nem imagino.

Quaisquer que tenham sido os seus motivos, ele conseguira me impor ao Conselho como seu herdeiro. Eles não gostaram, mas tiveram de me conceder os privilégios legítimos de um herdeiro do Comyn e os deveres que os acompanhavam. Assim, aos quatorze anos, ingressei no corpo de cadetes e, depois de servir como um oficial inferior, era agora capitão na Guarda da Cidade. Era um privilégio que eu podia muito bem dispensar. Os lordes do Conselho podiam ser obrigados a me aceitar. Mas fazer com que os filhos mais jovens, os nobres de segunda classe e todos os demais que serviam no corpo de cadetes me aceitassem... isso era outra história.

É claro que ser bastardo não constitui uma desgraça especial.

Muitos lordes do Comyn têm meia dúzia de bastardos. Se um deles por acaso tem laran - e é essa a esperança de cada mulher que gera uma criança de um lorde do Comyn -, nada é mais fácil do que fazer com seja reconhecido e receba os privilégios e os deveres em qualquer lugar dos Domínios. Mas fazer com que um deles se torne o herdeiro designado do Domínio, mo era uma iniciativa sem precedentes, e todos os filhos não reconhecidos de uma linhagem menor faziam com que eu sentisse quão pouco merecia esse tratamento especial.

Não podia deixar de saber por que reagiam dessa maneira - eu tinha o que todos os outros desejavam e achavam que mereciam também. Mas a compreensão só agravava a situação. Deve ser mais confortável nunca saber por que você é detestado. Talvez assim possa acreditar que não merece mesmo.

Seja como for, eu cuidava para que nenhum deles pudesse queixar-se de mim. Fizera um pouco de tudo, como se espera dos herdeiros do Comyn no corpo de cadetes: supervisionara as patrulhas de rua, organizando tudo, de rações para os animais de carga a escoltas para as damas do Comyn; ajudara o mestre-de-armas em seu trabalho e providenciara para que o homem que limpava os alojamentos cumprisse as suas funções da melhor forma possível. Detestara servir no corpo de cadetes e não me agradava o comando na Guarda. Mas o que podia fazer? Era uma montanha que eu não podia transpor nem contornar. O pai precisava de mim e me queria ao seu lado, e eu não podia deixá-lo sozinho.

Enquanto cavalgava junto com Regis Hastur, não pude deixar de especular se a sua escolha dessa posição era um sinal de amizade ou uma hábil tentativa de conquistar as boas graças de meu pai. Três anos atrás eu diria que era amizade, sem a menor dúvida. Mas os jovens mudam em três anos, e Regis mudara mais do que a maioria.

Ele passara alguns invernos em Armida, antes de ir para o mosteiro, e também antes de minha ida para Arilinn. Nunca pensara em Regis como o herdeiro de Hastur. Diziam que sua saúde era frágil; o velho Hastur achava que a vida no campo e companhia lhe fariam bem. Cabia a mim, principalmente, acompanhá-lo. Eu o levava a cavalgar e caçar falcões, subíamos para os platôs em que as grandes manadas de cavalos selvagens eram capturadas e levadas para serem domadas. Lembrava-me dele mais como um garoto pequeno, seguindo-me por toda parte, usando os calções e as camisas que haviam ficado pequenos demais para mim, porque ele também crescera além de suas próprias roupas. Brincávamos com os cachorrinhos e com os potros recém-nascidos; eu o observava dar pontos desajeitados em capuzes de falcão que estava aprendendo a arrumar. O pai lhe ensinava esgrima, e ele praticava comigo. Durante a terrível primavera de seus doze anos, quando as Colinas Kilghard foram dominadas por incêndios nas florestas e todos os homens aptos entre dez e oitenta anos foram requisitados para as linhas de combate ao fogo, partíramos juntos, trabalhando lado a lado durante o dia, comendo da mesma tigela e partilhando as mantas à noite. Receáramos que até Armida fosse consumida no holocausto; e alguns dos prédios externos acabaram destruídos pelas chamas. Fôramos mais íntimos do que irmãos. Quando ele fora para Nevarsin, eu sentira muita saudade. Era difícil conciliar as lembranças daquele quase-irmão com aquele jovem príncipe solene e controlado. Talvez ele tivesse aprendido, no intervalo, que a amizade com o herdeiro nedestro de Kennard não era apropriada para um Hastur.

Eu poderia descobrir, é verdade, e ele nunca saberia. Mas isso nem chega a ser tentação para um telepata, depois dos primeiros meses de treinamento. Aprende-se a não bisbilhotar.

Mas não o senti, e dali a pouco ele me perguntou por que não o tratara pelo nome; apanhado de surpresa por essa indagação abrupta, dei uma resposta franca, em vez de diplomática, e depois o clima de companheirismo se restabeleceu entre nós, como não poderia deixar de acontecer.

Depois que passamos pelos portões, a viagem até o castelo não foi longa, durou apenas o tempo suficiente para ficarmos completamente encharcados. Percebi que o pai sofria com a umidade e com o frio - ele era coxo desde que eu podia me lembrar, mas seu estado piorara nos últimos invernos - e que Marius, todo molhado, se sentia desolado. Já estava quase escuro quando alcançamos o abrigo do castelo, e, embora a chuva noturna nessa época quase nunca se transforme em neve, caíam algumas pedras de granizo. Saltei do cavalo e me apressei a ajudar o pai a desmontar, mas Lorde Dyan já cuidara disso e lhe oferecera o braço para se apoiar.

Tratei de me afastar. Desde o primeiro ano no corpo de cadetes, adquiri o hábito de não me aproximar de Lorde Dyan mais do que o indispensável. De preferência, fora do seu alcance.

Há um costume na Guarda para os cadetes do primeiro ano.

Somos treinados em combate desarmado e devemos cultivar o hábito de nos manter sempre vigilantes, em todos os momentos; assim, durante o primeiro tempo, na sala da Guarda e na armaria, qualquer superior na Guarda tem permissão para nos atacar de surpresa, se puder, e nos derrubar. É um bom treinamento. Depois de umas poucas semanas sendo agarrado pelas costas e jogado cora toda a força num chão de pedra, você desenvolve um sentido, como se fossem olhos atrás da cabeça. De modo geral, é tudo feito com a maior jovialidade; e, embora seja um jogo duro e a vítima acabe cheia de equimoses, ninguém realmente se incomoda.

Dyan, todos concordávamos, gostava demais de atacar os jovens cadetes de surpresa. É exímio no combate desarmado e poderia fazer tudo sem machucar muito, mas se mostrava extremamente violento e nunca perdia a oportunidade de machucar alguém. A mim em particular. Conseguiu até deslocar meu cotovelo, que mantive numa tipóia pelo resto daquela temporada. Dissera que fora um acidente, mas sou telepata, e ele não se dera o trabalho de disfarçar quanto gostara da experiência. Não fui o único cadete que passou por isso. Durante o treinamento, há momentos em que você odeia todos os seus oficiais. Mas Dyan era o único que realmente temíamos. Deixei o pai com ele e me aproximei de Regis.

- Alguém está à sua procura - informei-o.

Apontei um homem com a libré de Hastur, abrigado num portal, todo molhado e desolado, como se esperasse na chuva havia algum tempo. Regis virou-se para ouvir a mensagem, ansioso.

- As saudações do Regente, Lorde Regis. Ele foi chamado com urgência à cidade. Pede que fique à vontade e que o procure pela manhã.

Regis deu uma resposta formal e tornou a virar-se para mim, com um sorriso em que não havia qualquer humor.

- É assim a calorosa recepção do meu amado avô.

Era de fato uma terrível recepção, pensei. Ninguém podia esperar que o Regente do Comyn ficasse aguardando na chuva, mas ele poderia ter enviado algo mais do que uma mensagem por um criado! Apressei-me em dizer:

- Venha conosco. Mande um recado pelo mensageiro de seu avô e nos acompanhe para trocar de roupa e jantar.

Regis acenou com a cabeça, sem falar. Tinha os lábios roxos de frio, os cabelos encharcados caíam sobre a testa. Enquanto ele dava as ordens necessárias, fui cumprir minha tarefa: providenciar para que toda a comitiva do pai - servos, guardas, porta-bandeira e parentes pobres - fosse alojada nos lugares designados.

Pouco a pouco, tudo foi resolvido. Os guardas foram para seus alojamentos. A maioria dos servos sabia o que fazer. Alguém dera o aviso com antecedência para que as lareiras fossem acesas, e os quartos já se achavam preparados para ocupação imediata. O resto de nós encontrou o caminho pelo labirinto de salões e corredores até os aposentos reservados, pelas últimas doze gerações, aos lordes de Alton. Não demorou muito para só ficarem no salão principal de nossos aposentos o pai, Marius e eu, Regis, Lorde Dyan, nossos servos pessoais e meia dúzia de outros. Regis parou diante do fogo, aquecendo as mãos. Recordei a noite em que meu pai lhe dera a notícia de que deveria deixar-nos e passar os três anos seguintes em Nevarsin. Ele e eu sentávamos diante do fogo, no grande salão em Armida, quebrando nozes e jogando as cascas nas chamas; depois que meu pai acabara de falar, ele se aproximara da lareira e permanecera imóvel por um longo tempo, abatido e trêmulo, de costas para nós.

Maldito velho! Será que não havia nenhum amigo ou nenhuma parenta para cuja casa pudesse enviar Regis?

O pai se aproximou do fogo. Claudicava bastante. Fitou o companheiro de Marius durante a viagem e disse:

- Danilo, já mandei suas coisas para os alojamentos dos cadetes. Quer que eu peça a alguém que lhe mostre o caminho ou acha que pode descobri-lo?

- Não há necessidade de pedir a ninguém que me acompanhe, Lorde Alton.

Danilo Syrtis afastou-se do fogo e fez uma mesura cortês. Era um garoto esguio, de olhos brilhantes, em torno dos quatorze anos, usando trajes tão surrados que só vagamente os reconheci como tendo outrora pertencido a meu irmão ou a mim. Era típico do pai; cuidava para que qualquer protegido seu começasse com as vestimentas apropriadas para um cadete. O pai pôs a mão no ombro de Danilo.

- Tem certeza? Pois então cerra para lá, meu rapaz, e boa sorte.

Danilo retirou-se, depois de murmurar uma fórmula polida endereçada vagamente a todos. Dyan Ardais, esquentando as mãos ao fogo, fitou-o afastar-se e alteou as sobrancelhas.

- Um jovem de boa aparência. Outro filho nedestro seu, Kennard?

- Dani? Pelos infernos de Zandru, não! Eu sentiria o maior orgulho de reivindicá-lo como meu filho, mas ele não o é. A família tem sangue Comyn há algumas gerações, mas é pobre como o camundongo de um avarento. O velho Dom Felix não tinha condições de proporcionar-lhe um bom começo na vida, por isso arrumei-lhe uma vaga no corpo de cadetes.

Regis virou-se do fogo e disse:

- Danilo! Eu sabia que o reconhecia de algum lugar; ele passou um ano no mosteiro. Mas não consegui lembrar-me de seu nome, Tio. Deveria tê-lo cumprimentado.

A palavra que ele usara para tio era o termo casta, um pouco mais íntimo do que parente: eu sabia que ele se dirigira a meu pai, mas Dyan preferiu considerar-se a pessoa endereçada.

- Vai encontrá-lo no corpo de cadetes, com toda a certeza. E eu também não cumprimentei você da maneira apropriada.

Ele se adiantou e deu um abraço de parente em Regis, comprimindo seu rosto contra o dele. Regis submeteu-se, um pouco contra-feito. Depois, mantendo-o à distância do braço, Dyan fitou-o atentamente.

- Sua irmã se ressente por você ter a maior beleza da família, Regis?

Surpreso e embaraçado, Regis soltou uma risada nervosa.

- Ela nunca me disse isso. Desconfio de que Javanne acha que eu ainda deveria andar com um avental de criança.

- O que confirma o que eu sempre disse: as mulheres não têm capacidade de julgar a beleza.

Meu pai lançou-lhe um olhar irritado e protestou:

- Pare cora isso, Dyan. Não zombe do rapaz.

Dyan teria continuado - era um homem terrível, queria recomeçar tudo, depois de todos os problemas do ano anterior - se um servo com a libre de Hastur não entrasse apressado nesse momento, para anunciar:

- Lorde Alton, uma mensagem do Regente.

O pai abriu a carta e pôs-se a praguejar em três línguas. Disse ao mensageiro que esperasse enquanto trocava de roupa e desapareceu em seu quarto, onde o ouvi gritar com Andres. Não demorou a voltar, enfiando uma camisa seca por dentro de um calção seco, a cara amarrada.

- Pai, o que aconteceu?

- A mesma coisa de sempre, problemas na cidade. Hastur convocou todos os anciãos do Conselho disponíveis e despachou duas patrulhas extras. É evidente que se trata de alguma crise.

Mas que droga! pensei. Depois da longa viagem desde Armida, concluída sob chuva, ser chamado à noite...

- Vai precisar de mim, Pai? Ele sacudiu a cabeça.

- Não, filho, não necessariamente. Não me espere acordado. É possível que eu fique ocupado durante a noite inteira.

Assim que ele saiu, Dyan disse:

- Creio que uma convocação similar me aguarda em meus aposentos; é melhor eu ir verificar. Boa-noite, rapazes. Eu os invejo por poderem dormir sossegados. - Com um aceno de cabeça para Regis, ele acrescentou: - Os outros nunca serão capazes de apreciar direito uma boa cama. Só nós, que já dormimos sobre pedra, temos condições para isso.

Com uma reverência formal para Regis, ao mesmo tempo que me ignorava por completo - não foi fácil, pois estávamos lado a lado -, Dyan se retirou. Olhei ao redor, a fim de saber o que faltava ser acertado. Mandei Marius mudar suas roupas encharcadas - muito velho para uma babá, muito jovem para um valete, ele ficava aos meus cuidados durante a maior parte do tempo. Depois, ordenei que arrumassem um quarto para Regis.

- Tem um valete para ajudá-lo, Regis? Ou devo pedir ao servo de meu pai que o atenda esta noite?

- Aprendi a cuidar de mim sozinho em Nevarsin. - Regis parecia mais afetuoso agora, menos tenso. - Se o Regente está chamando todo o Conselho, desconfio de que se trate de algo muito sério, e não apenas que meu avô me esqueceu outra vez. Isso faz com que eu me sinta melhor.

Agora que eu já cuidara de tudo, podia trocar as roupas molhadas.

- Depois que você mudar de roupa, Regis, jantaremos aqui, na frente do fogo. Só estarei de serviço oficialmente amanhã de manhã.

Fui para o meu quarto, mudei de roupa num instante e enfiei os pés em botas de cano curto, forradas de pele. Resolvi verificar como estava Marius; encontrei-o sentado na cama, tomando uma sopa quente e já meio adormecido. Fora um longo percurso para um garoto da sua idade. E mais uma vez me perguntei por que o pai o submetera a uma viagem tão cansativa.

Os servos haviam arrumado uma refeição quente diante do fogo, entre velhos bancos de pedra que havia ali. As luzes em nossa parte do castelo são as antigas, rochas luminosas das cavernas mais profundas, que absorvem a claridade ao longo do dia e irradiam um brilho suave à noite. Não era o suficiente para a leitura ou para um trabalho de agulha mais meticuloso, mas dava para uma refeição tranqüila e para uma conversa descontraída ao lado da lareira. Regis voltou, em roupas secas e botas de usar em casa. Gesticulei para que o idoso camareiro se retirasse.

- Pode ir jantar. Lorde Regis e eu nos serviremos pessoalmente. Tirei as tampas das travessas. Havia uma galinha assada e um guisado de legumes. Servi Regis, dizendo:

- Não é muito festivo, mas deve ter sido o melhor que puderam providenciar em tão pouco tempo.

- É melhor do que as coisas que costumávamos comer na linha de fogo - comentou Regis.

Não pude deixar de sorrir.

- Também se lembra disso?

- Como eu poderia esquecer? Armida foi como um lar para mim. Kennard ainda doma seus próprios cavalos, Lew?

- Não. Ele está coxo demais para isso.

Especulei de novo como o pai seria capaz de se agüentar na retomada de suas funções. Por egoísmo, torcia para que ele pudesse continuar no comando da Guarda. Era um cargo hereditário dos Altons, e eu seria o próximo. Os homens haviam aprendido a me tolerar como seu subcomandante, com o posto de capitão. Mas, se tivesse de assumir o comando, seria obrigado a travar outra vez as mesmas batalhas.

Conversamos por algum tempo sobre Armida, cavalos e falcões, enquanto Regis terminava a comida em sua tigela. Ele pegou uma maçã e foi até a lareira, onde havia um par de espadas antigas, usadas agora apenas na dança das espadas, pendurado sobre o consolo. Quando tocou o cabo de uma, resolvi perguntar:

- Esqueceu tudo o que aprendeu sobre esgrima no mosteiro,

Regis?

- Não. Havia alguns discípulos que não se tornariam monges, por isso o Padre Mestre nos deixava praticar uma hora por dia. Além disso, um mestre-de-armas vinha nos dar aulas.

Tomando vinho, conversamos sobre a situação das estradas desde Nevarsin.

- Veio do mosteiro até aqui em um único dia?

- Claro que não. Interrompi a viagem em Edelweiss.

Era na terra dos Altons. Quando Javanne Hastur casara com Gabriel Lanart, dez anos antes, meu pai lhes arrendara a propriedade.

- Sua irmã está bem?

- Muito bem, mas grávida de novo. Javanne fez uma coisa absurda. Fazia sentido chamar o primeiro filho de Rafael, em homenagem a nosso pai. E o segundo, é claro, não podia deixar de ser Gabriel, o Moço. Mas, quando ela deu ao terceiro o nome de Mikhail, fez com que todos parecessem ridículos. Creio que ela reza freneticamente para ter uma filha dessa vez.

Soltei uma risada. Afinal, os "anjos Lanart" deveriam ter os nomes de parentes, não de arcanjos; e por que uma Hastur tiraria nomes da mitologia cristoforo?

- Ela e Gabriel já têm bastantes filhos.

- É verdade; e tenho certeza de que meu avô se sente contrariado por Javanne ter tantos filhos e por não lhes poder dar o direito de Domínio em Hastur. Há uma outra coisa, que eu deveria ter contado a Kennard: o marido de Javanne chegará a Thendara dentro de poucos dias, a fim de assumir seu lugar na Guarda. Era para vir comigo, mas, com Javanne tão próxima do parto, ele pediu licença para permanecer ao seu lado até a criança nascer.

Balancei a cabeça; não podia ser de outra forma. Gabriel Lanart era um nobre menor do Domínio de Alton, um parente nosso e telepata. Tinha de seguir o costume dos Domínios, de um homem partilhar com a mãe de sua criança o sofrimento do parto, permanecendo em contato telepático com ela até que tudo acabasse. Mas podíamos dispensá-lo por alguns dias. Um bom homem, Gabriel Lanart.

- Dyan parece considerar fato consumado você ingressar este ano no corpo de cadetes, Regis.

- Não sei se terei opção. Você teve?

Eu não tivera, é claro. Mas que o herdeiro de Hastur, entre todas as pessoas, questionasse isso... era algo que me deixava apreensivo.

Regis tornou a sentar no banco de pedra, arrastando as botas de feltro no chão, irrequieto.

- Lew, você tem uma parte terráquea e ainda assim é do Comyn. Sente como se pertencesse a nós? Ou aos terráqueos?

Uma pergunta desconcertante, até afrontosa, que eu nunca ousara formular a mim mesmo. Fiquei furioso com ele por levantar o assunto, como se escarnecesse do que eu era. Aqui, eu era um alienígena; entre os terráqueos, uma aberração, um mutante, um tele-pata. Só respondi depois de um longo momento, e amargurado:

- Nunca pertenci a qualquer lugar... exceto, talvez, a Arilinn. Regis ergueu o rosto, e fiquei surpreso com a súbita angústia estampada ali.

- Lew, qual é a sensação de ter laran?

Fitei-o, desconcertado. A pergunta despertou outra recordação. Naquele verão em Armida, quando ele tinha doze anos. Por causa de sua idade, e como não havia mais ninguém disponível, coubera a mim responder a determinadas perguntas - coisas que era geral eram explicadas por pais ou irmãos mais velhos -, instruindo-o sobre fatos que os adolescentes deviam conhecer. Regis balbuciara essas perguntas com o mesmo tipo de premência, meio embaraçado, e eu experimentara a mesma dificuldade para respondê-las. Há algumas coisas que são quase impossíveis de discutir com alguém que não partilhou a experiência. Acabei dizendo, bem devagar:

- Não sei direito como responder. Eu o tenho há bastante tempo, e seria ainda mais difícil imaginar qual a sensação de não ter laran.

- Quer dizer que já nasceu assim?

- Não, claro que não. Mas quando tinha dez ou onze anos, comecei a ter noção do que as pessoas sentiam. Ou pensavam. Mais tarde, meu pai descobriu... provou para eles... que eu tinha o dom de Alton, e isso é raro até mesmo... - Cerrei os dentes, mas acrescentei: - ...até mesmo em filhos legítimos. Assim, não me puderam mais negar os direitos do Comyn.

- Sempre surge tão cedo, aos dez ou onze anos?

- Você nunca foi testado? Eu tinha quase certeza...

Senti-me um pouco confuso. Pelo menos em uma ocasião, durante os medos partilhados daquela última temporada que passáramos juntos, nas linhas de fogo, eu entrara em contato com sua mente, sentira que ele possuía o dom de nossa casta. Mas Regis era muito jovem naquele tempo, e o dom de Alton é o contato forçado, mesmo com não-telepatas.

- Uma vez, há cerca de três anos - respondeu Regis. - A leronis disse que eu tinha o potencial, até onde podia determinar, mas ela não era capaz de alcançá-lo.

Especulei se fora por isso que o Regente o mandara para Nevarsin: na esperança de que a disciplina, o silêncio e o isolamento desenvolvessem seu laran, o que às vezes acontecia, ou numa tentativa de esconder seu desapontamento com o herdeiro.

- Você é um mecânico licenciado de matriz, não é mesmo, Lew? Como é isso?

Era algo que eu podia responder.

- Sabe o que é uma matriz: uma pedra que amplifica as ressonâncias do cérebro e converte o poder psíquico em energia. Para manipular as forças maiores, é necessário um grupo de mentes ligadas, em geral num círculo de torre.

- Sei o que é uma matriz. Deram-me uma quando fui testado.

Regis mostrou-a para mim, pendurada em seu pescoço, num pequeno saco de couro revestido de seda, como a maioria a levava, e depois acrescentou:

- Nunca a usei. Nem mesmo tornei a olhar a pedra. Nos velhos tempos, pelo que sei, essas ligações entre mentes eram efetuadas por intermédio das Guardiãs. Não existem mais Guardiãs, não é mesmo?

- Não no sentido antigo, embora a mulher que opera no centro do círculo de matriz ainda seja chamada de Guardiã. No tempo de meu pai, descobriram que uma Guardiã podia funcionar, exceto nos níveis mais altos, sem qualquer dos velhos tabus, sem o treinamento terrível, o sacrifício, o isolamento, a clausura especial. A irmã-de-adoção de meu pai, Cleindori, foi a primeira a romper a tradição, e não mais treinam Guardiãs do jeito tradicional. É muito difícil e perigoso, e não é justo pedir a alguém que renuncie por completo à sua vida. Agora, todo mundo passa três anos ou até menos em Arilinn, e depois fica por um prazo similar no exterior, aprendendo a levar uma vida normal.

Fiquei em silêncio por um momento, pensando no meu círculo em Arilinn, agora disperso por seus lares e propriedades. Eu fora feliz ali, sentira-me útil, aceito. Competente. Algum dia voltaria a esse trabalho, participaria das transmissões.

- Como é... a sensação é de total intimidade, Regis. Você se abre por completo aos integrantes de seu círculo. Seus pensamentos, sentimentos, tudo os afeta, e você se torna plenamente vulnerável aos deles. É mais do que a proximidade do parentesco de sangue. Não chega a ser amor. Também não é desejo sexual. É como... como viver sem sua pele. Duas vezes mais sensível a tudo. É diferente de qualquer outra coisa.

Sua expressão era extasiada, e tratei de acrescentar, em tom um pouco ríspido:

- Não romantize. Pode ser maravilhoso, é verdade, mas também pode ser um autêntico inferno. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Você aprende a manter distância, a fim de sobreviver.

Através do nevoeiro de seus sentimentos, pude captar apenas uma fração de seus pensamentos. Tentava manter minha percepção de Regis reduzida ao mínimo possível. Afinal, ele era vulnerável demais. Sentia-se esquecido, rejeitado, sozinho. Não pude deixar de captar isso. Mas um garoto da sua idade acharia que era uma intromissão.

- Lew, o dom de Alton é a capacidade de forçar o contato. Se eu tiver laran, você pode ativá-lo, fazer com que funcione?

Fitei-o em profunda consternação.

- Oh, não, Regis! Não sabe que assim eu poderia matá-lo?

- Sem laran, minha vida não significa muita coisa.

Ele era como um arco esticado. Por mais que eu tentasse, não poderia reprimir sua terrível ânsia de se integrar no único mundo que conhecia, de não ser privado de uma forma tão desesperadora de sua herança.

Era também a minha ânsia. Tinha a impressão de que a sentira desde o nascimento. Contudo, nove meses antes do nascimento, meu pai tornara impossível que eu pertencesse de um modo pleno ao seu mundo e meu também.

Enfrentava a tortura de saber que podia amar profundamente meu pai, mas também o odiava; e odiava-o por me tornar um bastardo, mestiço, alienígena, alguém que não pertencia a lugar nenhum. Cerrei os punhos, desviando os olhos de Regis. Ele tinha o que eu nunca poderia conseguir. Pertencia por completo ao Comyn, pelo sangue e pela lei, legítimo...

E, contudo, Regis sofria tanto quanto eu. Não pude deixar de especular: eu seria capaz de renunciar ao laran para ser legítimo, aceito, para pertencer?

- Pode pelo menos tentar, Lew?

- Se eu o matasse, Regis, seria culpado de assassinato. - Seu rosto empalideceu. - Ficou assustado? Ainda bem. A idéia é insana. Desista, Regis. Só um telepata catalisador pode fazer isso com segurança, e não sou um deles. Pelo que sei, não existe mais nenhum telepata catalisador vivo. Deixe as coisas como estão.

Regis sacudiu a cabeça e disse, forçando as palavras pela boca ressequida:

- Quando eu tinha doze anos, Lew, você me chamava de bredu. Não há mais ninguém a quem eu possa pedir isso. Não me importo se me matar. Sempre ouvi dizer... - Ele engoliu em seco. - ...que os bredin têm obrigações um para com o outro. Era apenas uma palavra sem valor?

- Não, bredu, não era uma palavra sem valor - murmurei, abalado por sua angústia. - Mas éramos crianças naquele tempo. E isso não é uma brincadeira de criança, Regis, é a sua própria vida que está em jogo.

- Pensa que não sei disso? - Ele gaguejava agora. - E a vida é minha. Pelo menos poderá fazer uma diferença no que será o resto da minha vida. Bredu...

Ele se calou, e compreendi que não poderia continuar a falar sem chorar. O apelo me deixara indefeso. Por mais que eu tentasse me manter indiferente, aquele "Bredu...", desolado, sufocado, rompera minha última defesa. Sabia que faria o que Regis desejava.

- Não posso fazer o que foi feito comigo, Regis. É um teste específico para o dom de Alton... o contato forçado... e apenas um Alton pode sobreviver. Meu pai experimentou, só uma vez, com o meu pleno conhecimento de que poderia me matar, e apenas por uns trinta segundos. Se o dom não existisse, eu teria morrido. O fato de não ter morrido foi a única maneira que ele pôde pensar de provar ao Conselho que não podia continuar recusando aceitar-me. - Minha voz tremia agora. Mesmo depois de dez anos, ainda não gostava de pensar a respeito. - Nem seu sangue, nem sua paternidade são questionados. Não precisa correr esse risco.

- Você se dispôs a corrê-lo.

Era verdade. O tempo perdeu o foco, e mais uma vez me postei diante de meu pai, suas mãos tocando minhas têmporas, e revivi aquela memória de terror, aquela agonia lancinante. Submetera-me porque partilhava a angústia de meu pai, sua profunda necessidade de saber que eu era seu filho verdadeiro... o conhecimento de que, se não pudesse obrigar o Conselho a me aceitar como seu filho, a vida não valeria mais nada. Eu preferiria ter morrido naquele momento a viver para encarar a consciência do fracasso.

A lembrança se desvaneceu. Fitei Regis nos olhos.

- Farei o que puder. Posso testá-lo, como me testaram em Arilinn. Mas não espere demais. Não sou uma leronis, apenas um técnico.

Respirei fundo, antes de acrescentar:

- Mostre-me sua matriz.

Ele abriu a bolsa pendurada no pescoço, fez a pedra rolar para a palma, estendeu-a para mim. Isso me disse tudo o que eu precisava saber. As luzes na pedra estavam amortecidas, inativas. Se Regis a tinha havia três anos e seu laran fosse ativo, com certeza a teria sintonizado, mesmo sem saber. O primeiro teste falhara.

Como um teste final, com o maior cuidado, encostei a ponta do dedo na pedra; ele não se encolheu em dor. Sinalizei para que Regis a guardasse e soltei a bolsa que tinha em meu pescoço. Pus a matriz, ainda envolta pela seda isolante, na palma da minha mão e a abri com extrema cautela.

- Olhe para isto. Não, não a toque - adverti, prendendo a respiração. - Nunca toque numa matriz sintonizada; poderia deixar-me em estado de choque. Apenas olhe.

Regis inclinou-se, focalizou com intensidade imóvel os pequenos veios de luz em movimento dentro da pedra. Depois de um momento, desviou os olhos. Outro mau sinal. Mesmo um telepata latente deveria ter a interrupção de padrões de energônio suficientes dentro do cérebro para demonstrar alguma reação: vertigem, náusea, euforia sem motivo. Perguntei, cauteloso, sem querer sugerir-lhe coisa alguma:

- Como se sente?

- Não tenho certeza - murmurou Regis, apreensivo. - Deixou meus olhos doloridos.

Portanto, ele tinha pelo menos um laran latente. Despertá-lo, porém, podia ser uma tarefa difícil e dolorosa. Talvez um telepata catalisador pudesse fazê-lo. Eram criados para esse trabalho, na época em que o Comyn realizava um trabalho complexo e vital nas matrizes de nível superior. Eu jamais conhecera algum. Talvez o gene estivesse extinto.

Mesmo assim, como um latente, ele merecia um teste adicional. Eu sabia que Regis possuía o potencial. Adquirira essa certeza quando ele ainda tinha doze anos.

- A leronis testou você com kirian?

- Ela me deu um pouco. Algumas gotas.

- E o que aconteceu?

- Deixou-me enjoado, tonto. Cores faiscantes surgiram diante de meus olhos. Ela disse que era provável que eu fosse jovem demais para muita reação, que em algumas pessoas o laran só se desenvolvia mais tarde.

Pensei a respeito. O kirian é usado para diminuir a resistência ao contato telepático; é usado no tratamento de empáticos e outros técnicos psíquicos que não possuem muito dom telepático natural, mas que precisam trabalhar diretamente com outros telepatas. Pode às vezes atenuar o medo ou a resistência deliberada ao contato telepático. Pode também ser usado, com extremo cuidado, no tratamento da doença do limiar - o estranho distúrbio psíquico que muitas vezes domina os telepatas na adolescência.

Regis parecia jovem para sua idade. Era possível que estivesse apenas desenvolvendo o dom mais tarde do que o normal. Mas raramente acontecia tão tarde assim. Só que eu tinha certeza de que Regis era um latente. Será que algum evento em Nevarsin, algum choque emocional, o levara a bloquear a percepção?

- Eu poderia tentar isso de novo - murmurei, hesitante.

O kirian podia ativar a telepatia latente; ou talvez, sob sua influência, eu pudesse alcançar sua mente, sem afetá-lo em demasia, e descobrir se bloqueava deliberadamente a percepção do laran. Isso às vezes ocorria.

Não me agradava o uso do kirian. Mas uma dose pequena não poderia fazer pior do que o deixar nauseado ou com uma terrível ressaca depois. E eu tinha o nítido pressentimento, não muito agradável, de que, se cortasse suas esperanças agora, ele poderia fazer algo desesperado. Não gostava da maneira como Regis me fitava, tenso como um arco, tremendo, não muito, mas da cabeça aos pés. Sua voz também era trêmula quando disse:

- Muito bem, vamos tentar.

Pude ouvir, com absoluta clareza, o que ele pensava de fato: Tentarei qualquer coisa.

Fui para o meu quarto, já me censurando por concordar com aquela experiência lunática. Significava demais para Regis. Avaliei a possibilidade de lhe dar uma dose sedativa, o suficiente para deixá-lo inconsciente, e mantê-lo drogado e sonolento, são e salvo, até de manhã. Mas o kirian é imprevisível. A dose que põe uma pessoa para dormir como uma criança de peito pode deixar outra completamente frenética, fora de si, com acessos de raiva e alucinações. De qualquer forma, eu prometera; não o enganaria agora. Mas tomaria todas as precauções, daria a ele a mesma dose mínima cautelosa que usávamos com técnicos psíquicos estranhos em Arilinn. Essa quantidade ínfima de kirian não lhe poderia fazer mal.

Pinguei umas poucas gotas num copo de vinho. Regis engoliu, fez uma careta ao sentir o gosto e sentou num dos bancos de pedra. Depois de um minuto, cobriu os olhos. Eu o observava atentamente. Uma das primeiras reações era a dilatação das pupilas. Mais alguns minutos, e ele começou a tremer, recostou-se no banco, como se temesse a possibilidade de cair. Suas mãos estavam geladas. Peguei seu pulso de leve entre os dedos. Normalmente, detesto tocar as pessoas; isso acontece com os telepatas, exceto na maior intimidade. Ao contato, Regis levantou os olhos e sussurrou:

- Por que está zangado, Lew?

Zangado? Será que Regis interpretara meu receio por ele como raiva?

- Não estou zangado, apenas preocupado com você. Não se pode brincar com kirian. Tentarei entrar em contato com você agora. Não resista, se puder evitá-lo.

Gentilmente, procurei o contato com sua mente. Não usaria a matriz para isso; sob o efeito do kirian, poderia sondar fundo demais e causar danos irreparáveis. Senti primeiro a vertigem e confusão - o que era apenas uma conseqüência da droga, nada mais - e depois um cansaço profundo e uma tensão física, que deviam ser o resultado da longa viagem, em seguida um senso de desolação e solidão, que me deixou com vontade de escapar de seu desespero. Hesitante, arrisquei um contato um pouco mais profundo.

E deparei com uma defesa firme, perfeita, uma muralha vazia. Depois de um momento, sondei com mais ímpeto. O dom de Alton era o contato forçado, mesmo com não-telepatas. Regis queria isso, e, se eu lhe pudesse proporcionar, era provável que ele conseguisse suportar a dor. Regis gemeu e balançou a cabeça, como se eu o estivesse machucando. E devia estar mesmo. As emoções ainda turvavam tudo. Não restava a menor dúvida de que ele possuía o potencial do laran. Mas bloqueara-o. Por completo.

Esperei mais um pouco, considerando as possibilidades. Não é incomum; alguns telepatas vivem por toda a vida assim. Não há motivo para que mudem. A telepatia, como eu dissera a ele, está longe de ser uma bênção incontestável. Mas de vez em quando o bloqueio cedia a um trabalho lento e paciente. Recuei para a camada externa de sua percepção e indaguei, não em palavras: O que tem medo de saber, Regis? Não bloqueie. Tente lembrar o que não suporta saber. Houve um tempo em que você podia fazer isso conscientemente. Tente lembrar...

Foi a coisa errada. Ele recebera meu pensamento; e senti sua reação - como um molusco fechando a concha, uma planta sensível dobrando suas folhas. Regis retirou as mãos das minhas, num movimento brusco, tornou a cobrir os olhos e murmurou:

- Minha cabeça dói. Estou me sentindo mal, muito mal...

Tive de me retirar. Ele me excluíra de uma maneira eficaz. Talvez uma Guardiã hábil e com um longo treinamento pudesse forçar a passagem pela resistência sem o matar. Mas eu não o podia fazer. Seria capaz de derrubar a barreira, obrigá-lo a enfrentar o que sepultara, o que quer que fosse, mas podia também fazê-lo desmoronar por completo, e era duvidoso que conseguisse recuperar-se depois.

Especulei se Regis sabia que fizera isso a si mesmo. Encarar esse tipo de conhecimento era um processo bastante doloroso. Ao mesmo tempo, erguer aquela barreira devia ter sido a única maneira de salvar sua sanidade, mesmo que implicasse pagar o preço angustiante de cortar também todo o seu potencial psíquico. Minha Guardiã explicara-me isso uma ocasião, com o exemplo da criatura que se descobre presa numa armadilha, impotente, e começa a roer a pata imobilizada, preferindo a mutilação à morte. Às vezes havia camadas e mais camadas de barricadas desse tipo.

A barreira - ou inibição - poderia algum dia se dissolver por si mesma, liberando seu potencial. O tempo e a maturidade seriam de grande ajuda. Talvez algum dia, na intimidade profunda do amor, Regis se descobrisse livre. Ou - e também aventei essa possibilidade - a barreira era genuinamente necessária para sua vida e sanidade, e nesse caso resistiria para sempre; ou, se fosse de alguma forma rompida, não restaria o suficiente de Regis para continuar a viver.

Um telepata catalisador poderia alcançá-lo. Mas hoje, por causa da endogamia, dos casamentos indiscriminados com não-telepatas e do desaparecimento dos meios antigos de estimular esses dons, os vários poderes psíquicos do Comyn não mais surgiam isolados e plenos. Eu era a prova viva de que o dom de Alton às vezes aparecia em sua forma pura. Mas, de um modo geral, ninguém podia separar o emaranhado de dons. O dom de Hastur, qualquer que fosse -nem mesmo em Arilinn me disseram qual era -, podia muito bem manifestar-se nos Domínios de Aillard ou Elhalyn. A telepatia catalisadora fora outrora um dom de Ardais. Dyan, com toda a certeza, não era um deles. E até onde eu sabia, não restava nenhum vivo.

Parecia que só muito tempo depois é que Regis voltou a se movimentar, esfregando a testa; depois, abriu os olhos, ainda com uma profunda ansiedade. A droga continuava em seu organismo - não desapareceria por completo durante várias horas -, mas ele já começava a ter breves intervalos em que não sentia os efeitos. Sua indagação silenciosa era óbvia. Tive de balançar a cabeça, pesaroso.

- Lamento muito, Regis.

Espero nunca mais ter de testemunhar tamanho desespero num rosto jovem. Se ele tivesse doze anos, eu o abraçaria e tentaria confortá-lo. Mas Regis não era mais uma criança, nem eu. Seu rosto tenso e angustiado me manteve a distância.

- Quero que me escute, Regis. Pelo que isso vale, posso garantir que o laran existe. Você tem o potencial, o que significa no mínimo que possui o gene, e seus filhos o herdarão.

Hesitei, não querendo magoá-lo ainda mais com a informação de que ele próprio erguera a barreira. Por que o ferir assim?

- Fiz o melhor que podia, bredu - acrescentei. - Mas não consegui fazer o contato, porque as barreiras são muito fortes. Bredu, não me olhe assim. Não posso suportar que me olhe desse jeito.

Sua voz soou quase inaudível:

- Sei disso. Você fez o melhor que podia.

Seria mesmo verdade? A dúvida me invadiu. Senti-me atordoado com a força de seu sofrimento. Tentei pegar suas mãos outra vez, forçando-me a enfrentar sua dor, em vez de me esquivar. Mas Regis desvencilhou-se, e não insisti.

- Pense bem, Regis. Talvez, no tempo das Guardiãs, fosse uma terrível tragédia para um Hastur ser desprovido de laran. Mas o mundo está mudando. O Comyn está mudando. Você encontrará outras forças.

Senti a inutilidade dessas palavras no instante mesmo em que as pronunciava. Como devia ser a vida sem laran? Como não ter a visão, a audição... mas, como ele jamais o conhecera, não se devia permitir que sofresse a perda.

- Regis, você tem muitas outras coisas para dar. À sua família, aos Domínios, ao nosso mundo. E seus filhos terão...

Tornei a pegar suas mãos entre as minhas, tentando confortá-lo, mas ele explodiu:

- Pelos infernos de Zandru, pare com isso!

Ele tornou a retirar as mãos, bruscamente. Pegou seu manto, largado no banco de pedra, e saiu da sala quase correndo.

Fiquei paralisado pelo choque de sua violência, mas um momento depois, horrorizado, parti em seu encalço. Oh, Deuses! Drogado, atordoado, desesperado, não se podia permitir que escapasse assim. Era preciso vigiá-lo, cuidar dele, confortá-lo... mas não fui bastante rápido. Quando alcancei a escada, Regis já desaparecera no labirinto de corredores daquela ala, e o perdi por completo.

Chamei-o e procurei-o por horas, até cambalear de exaustão, porque também passara vários dias viajando. Acabei desistindo e retornei a meus aposentos. Não podia passar a noite inteira vagueando pelo Castelo Comyn, gritando seu nome. Não podia forçar a entrada nos aposentos do Regente para indagar se Regis se encontrava ali. Havia limites ao que o filho bastardo de Kennard Alton podia fazer. Desconfiei de que já os ultrapassara. Só me restava torcer, desesperado, para que o kirian o deixasse sonolento ou se dissipasse com a fadiga e ele voltasse para descansar ou seguisse para os aposentos dos Hasturs e dormisse ali.

Esperei por horas a fio e vi o sol nascer, vermelho como sangue, na neblina que pairava sobre o espaço-porto terráqueo, e depois, com cãibras e muito frio, adormeci no banco de pedra, junto da lareira.

Mas Regis não voltou.

Capítulo Três

Regis saiu em disparada pelo corredor, atordoado e confuso, os pequenos pontos de cores ainda faiscando por trás de seus olhos, tremendo com a náusea interior. Um pensamento o dilacerava:

Fracassei. Fracassei outra vez. Até mesmo Lew, treinado na Torre, e com toda a sua habilidade, não pôde me ajudar. Não existe nada. Quando ele falou em potencial, estava querendo me acalmar, confortar uma criança.

Ele cambaleou, sentindo-se outra vez nauseado, apoiou-se na parede e continuou a correr.

O Castelo Comyn era um labirinto, e Regis não estivera ali por anos. Não demorou, na ânsia frenética em escapar do cenário de sua humilhação, para se descobrir totalmente perdido. Os sentidos, embotados pelo kirian, conservavam vagas recordações de becos de pedra sem saída, corredores sem janelas, arcadas, escadas intermináveis, pelas quais ele desceu correndo, às vezes caindo, atravessando pátios dominados pelo vento uivante e pela chuva ofuscante, hora após hora. Até o final de sua vida, guardaria a mesma impressão do Castelo Comyn, que podia convocar à vontade, sobrepondo-se às lembranças reais: um vasto labirinto de pedra, uma armadilha ao longo da qual vagueara sozinho por séculos, sem deparar com qualquer forma humana. Em determinado momento, ao virar um canto do corredor, ouviu Lew gritando seu nome. Comprimiu-se contra uma reentrância e ali ficou escondido por alguns milhares de anos, por muito tempo depois que o som já desaparecera.

Depois de um período indeterminado, vagueando, tropeçando, sofrendo alucinações, ele compreendeu que fazia bastante tempo que não via um lance de escada; que os corredores eram longos, mas não com quilômetros e quilômetros de comprimento; e que não mais eram povoados pelas cores fantásticas e pelos ruídos silenciosos. Ao sair finalmente para uma varanda alta, no nível mais elevado, Regis descobriu onde se encontrava.

O dia raiava sobre a cidade lá embaixo. Certa vez, durante a noite, postara-se junto de um parapeito alto como aquele, pensando que sua vida não era útil a ninguém, nem aos Hasturs, nem a si mesmo, e deveria jogar-se lá de cima, acabando com tudo de uma vez. Agora, porém, o pensamento era remoto, um pesadelo noturno, como um daqueles sonhos terríveis que faz a pessoa despertar tremendo e chorando, mas se dissolve em fragmentos poucos segundos depois.

Regis deixou escapar um suspiro longo e cansado. E agora?

Deveria ir para seus aposentos, a fim de se preparar para o encontro com o avô, que com certeza o chamaria em breve. Deveria comer alguma coisa, dormir um pouco; o kirian, haviam-no avisado, consumia tanta energia física e nervosa que era essencial compensar com alimentação e repouso extras. Deveria voltar, pedir desculpas a Lew Alton, que só fizera - e com muita relutância - o que o próprio Regis lhe suplicara... Mas já não agüentava mais ouvir o que deveria fazer!

Correu os olhos pela cidade que se estendia lá embaixo. Thendara, a cidade antiga, depois a Cidade Comercial, o quartel-general terráqueo e o espaço-porto. E as enormes naves, esperando, prontas para decolar, a caminho de algum destino inimaginável. Tudo o que ele queria realmente fazer agora era ir ao espaço-porto e contemplar de perto uma daquelas naves estelares.

E tratou de consolidar sua resolução. Não se achava vestido para sair, ainda usava as botas de sola de feltro, mas em seu ânimo atual isso não tinha a menor importância. Estava desarmado. E daí? Os terráqueos também não andavam armados. Ele desceu por longos lances de escada, perdeu-se de novo, mas sabia, agora que recuperara o controle mental, que bastava continuar descendo, até encontrar o nível do solo. O Castelo Comyn não era uma fortaleza. Construído para o cerimonial, não para a defesa, o prédio tinha muitos portões, e foi fácil escapulir por algum sem ser observado.

Regis descobriu-se numa rua escura, iluminada apenas pela tênue claridade do amanhecer, que descia a colina entre casas coladas umas nas outras. Estava exausto, pois não dormira depois da árdua viagem do dia anterior, mas o efeito energizante do kirian ainda não se dissipara, e não sentia o menor soro. A fome se manifestava, mas tinha moedas nos bolsos, e sabia que muito em breve encontraria alguma casa de pasto, onde os trabalhadores comiam antes de iniciar suas atividades diárias.

O pensamento excitou-o, pelo prazer do proibido. Não podia lembrar-se de jamais ter ficado completamente sozinho, em toda a sua vida. Sempre houvera outros nas proximidades, para cuidar dele, protegê-lo, satisfazer todos os seus desejos: enfermeiras e babás quando era pequeno, servos e companheiros escolhidos com o maior cuidado quando se tornara mais velho. Depois, tivera os irmãos do mosteiro, embora fosse mais provável que frustrassem seus desejos em vez de atendê-los. Aquela excursão seria uma aventura e tanto.

Encontrou uma casa de pasto, ao lado de uma oficina de ferreiro, e entrou. Era mal iluminada, com velas de resina, mas havia um aroma agradável de comida. Por um instante, Regis teve receio de ser reconhecido; mas, afinal, o que lhe poderiam fazer? Já tinha idade suficiente para sair sozinho. E, se alguém notasse o manto azul e prateado, com o emblema de Hastur, pensaria apenas que se tratava de um servo.

Os homens sentados à mesa eram ferreiros e cavalariços, tomando cerveja quente ou leite fervido, comendo alimentos que Regis nunca vira nem cheirara. Uma mulher se aproximou para anotar seu pedido. Não o fitou. Ele pediu mingau de nozes fritas e leite quente com condimentos. O avô, ele pensou, com extrema satisfação, teria um ataque se soubesse.

Regis pagou e comeu devagar, a princípio ainda sentindo a náusea residual da droga, que foi passando à medida que engolia. Quando saiu, sentindo-se melhor, a claridade já se espalhava, embora o sol ainda não tivesse surgido. Ao descer a ladeira, reparou que as casas eram estranhas, construídas em estranhos formatos, com estranhos materiais. Era óbvio que atravessara os limites para a Cidade Comercial. Podia ouvir, a distância, aquele ruído insólito de cachoeira, que o deixara tão emocionado. Devia estar próximo do espaço-porto.

Sabia alguma coisa sobre o espaço-porto em Darkover. O planeta, que quase não tinha comércio com o Império, situava-se numa locação excepcional, entre os braços superior e inferior da espiral da galáxia, uma encruzilhada de escala para grande parte do tráfego interestelar. Apesar de Darkover ter optado pelo isolamento, muitas naves pousavam ali para reabastecimento, trazendo passageiros, pessoal e cargas a caminho de outros lugares. Também paravam para reparos e licenças de descanso dos tripulantes na Cidade Comercial. A maioria dos terráqueos respeitava escrupulosamente o acordo de limitação às suas áreas. Houvera alguns inter-casamentos, um pouco de comércio, a importação - reduzida ao mínimo - de máquinas e tecnologia terráqueas. As restrições darkovanas a tais produtos eram rigorosas, e cada um tinha de ser estudado pelo Conselho antes que a permissão fosse concedida. Uns poucos técnicos de matriz licenciados foram instalados nas cidades; alguns até foram para o Império. Os terráqueos, ele ouvira dizer, eram fascinados pela tecnologia de matriz darkovana e, no passado, armaram tramas intrincadas para descobrir seus segredos. Regis não conhecia os detalhes, mas Kennard lhe contara algumas histórias.

Ele estremeceu, ao perceber que a rua à sua frente era bloqueada por dois homens enormes, num uniforme de couro preto que desconhecia. Tinham no cinto armas de um estranho formato, e Regis compreendeu, com um arrepio de horror, que deviam ser pistolas de raios ou de gás dos nervos. Tais armas eram proibidas em Darkover desde a Era do Caos, e Regis nunca vira nenhuma em uso, só as conhecia como antiguidades num museu. Só que aquelas não eram peças de museu; e pareciam mortíferas. Um dos homens disse:

- Está violando o toque de recolher, filho. Até que o problema acabe, todas as mulheres e crianças devem se manter fora das ruas de uma hora antes do pôr-do-sol até uma hora depois do nascer do sol.

Mulheres e crianças! Regis estendeu a mão para o cabo da faca.

- Não sou criança. Devo fazer um desafio para prová-lo?

- Está na Zona Terráquea, filho. Evite as encrencas.

- Exijo...

- Ah, um daqueles! - exclamou o segundo homem, irritado. -Escute aqui, garoto, não temos permissão para entrar em duelos, pelo menos quando estamos de serviço. Venha conosco para falar com o oficial.

Regis já ia fazer um protesto irado - como ousavam pedir explicações a um herdeiro do Comyn? - quando lhe ocorreu que o prédio do quartel-general era no espaço-porto, para onde ele pretendia mesmo ir. Com um sorriso secreto, resolveu acompanhar os guardas.

Depois de passarem pelos portões do espaço-porto, ele compreendeu que tivera uma vista muito melhor no dia anterior, do desfiladeiro. Aqui as naves rnantinham-se invisíveis, por trás de cercas e barricadas. Os patrulheiros da força espacial levaram-no para um prédio em que um jovem oficial, não em um uniforme de couro preto, mas em trajes terráqueos comuns, cuidava de diversos violadores do toque de recolher. No momento em que Regis entrou, ele estava dizendo:

- Esse homem tem razão; procurava uma parteira e seguiu pelo caminho errado. Mandem alguém lhe mostrar o percurso de volta à cidade.

O jovem oficial olhou para Regis, parado entre os guardas.

- Outro? Eu esperava já termos acabado por esta noite. Muito bem, garoto, qual é sua história?

Regis inclinou a cabeça para trás, arrogante.

- Quem é você? Com que direito me trouxeram para cá?

- Meu nome é Dan Lawton. - Ele respondeu na mesma língua em que Regis lhe dirigira a palavra, e que falava muito bem. Isso não era comum. - Sou assistente do Legado e neste momento dirijo o plantão do toque de recolher. Que você violou, meu jovem.

Um dos guardas interveio:

- Nós o trouxemos direto para você, Dan. Ele queria travar um duelo com a gente. Pode cuidar do caso?

- Não permitimos duelos na Zona Terráquea - disse Lawton. - Você é novo em Thendara? Os regulamentos do toque de recolher foram postados em toda parte. Se não sabe ler, sugiro que peça a alguém que os leia para você.

- Não reconheço outras leis que não as dos Filhos de Hastur! -respondeu Regis.

Uma estranha expressão surgiu no rosto de Lawton. Regis pensou por um momento que o jovem terráqueo ria dele, mas logo a expressão desapareceu, e a voz soou neutra:

- Um digno objetivo, senhor, mas não muito apropriado aqui. Os próprios Hasturs determinaram e reconheceram esses limites, e concordaram era nos ajudar a impor as nossas leis dentro deles. Recusa-se a aceitar a autoridade do Conselho do Comyn? Quem é você para se recusar?

Regis empertigou-se à sua altura máxima. Sabia que entre os gigantes da força espacial ainda parecia infantilmente pequeno.

- Sou Regis-Rafael Felix Alar Hastur y Elhalyn - declarou ele, orgulhoso.

Os olhos de Lawton refletiam seu espantoso.

- Então, em nome de todos os deuses, o que faz vagueando sozinho a esta hora? Onde está sua escolta? É verdade, você parece mesmo com um Hastur.

Ele pegou um aparelho de comunicação interna e falou em tom de urgência, no Padrão Terráqueo. Regis aprendera a língua em Nevarsin.

- Os Anciãos do Comyn já foram embora?

Ele escutou por um momento, desligou e virou-se para Regis.

- Uma dúzia de seus parentes saiu daqui há cerca de meia hora. Foi enviado com uma mensagem para eles? Se é esse o caso, chegou tarde demais.

- Não - confessou Regis. - Vim por conta própria. Queria ver a decolagem das naves estelares.

Ali, naquela sala, parecia um capricho infantil. Lawton ficou aturdido.

- Isso pode ser providenciado com a maior facilidade. Se tivesse enviado um pedido formal, com alguns dias de antecedência, prepararíamos uma excursão especial. Num prazo tão curto, não há nada de espetacular acontecendo. Temos apenas uma nave cargueira que partirá para Vega dentro de poucos minutos. Eu o levarei a uma das plataformas de observação. Enquanto isso, posso lhe oferecer um café? - Ele hesitou, mas acabou acrescentando: - Não pode ser Lorde Hastur; esse é o seu pai?

- Avô. O tratamento correto para mim é Lorde Regis.

Ele aceitou a beberagem terráquea oferecida, achou-a um pouco amarga, mas com um sabor até agradável. Dan Lawton conduziu-o a um elevador, que subiu com uma velocidade alarmante, abrindo-se para um terraço de observação, todo envolto por vidro. Lá embaixo, uma enorme nave cargueira se encontrava nos estágios finais de preparativos para a decolagem, com os guindastes de reabastecimento sendo retirados, andaimes e plataformas de carga afastados para alguma distância como se fossem brinquedos. O processo foi rápido e eficiente. Regis tornou a ouvir o som de cachoeira, elevando-se para um rugido, um grito. A grande nave subiu devagar, foi acelerando e logo desapareceu... a caminho das estrelas.

Regis permaneceu imóvel, olhando fixamente o ponto no céu era que a nave estelar sumira de vista. Sabia que outra vez havia lágrimas em seus olhos, mas não se importava. Depois de algum tempo, Lawton levou-o de volta ao elevador, e Regis seguiu como se fosse um sonâmbulo. A determinação se cristalizara subitamente em seu íntimo.

Em algum lugar do Império, em algum lugar longe dos Domínios, nos quais não havia qualquer posição que pudesse ocupar, havia um mundo à sua espera. Um mundo em que poderia viver livre do tremendo fardo imposto ao Comyn, um mundo em que seria ele próprio, mais do que apenas o herdeiro de seu Domínio, com a vida estendendo-se em deveres predeterminados, do nascimento à sepultura. O Domínio? Que os filhos de Javanne o herdassem! Regis sentia-se quase inebriado pelo cheiro da liberdade. Liberdade de um fardo com que nascera... e nascera incapacitado para suportá-lo! Lawton não percebera sua ansiedade e declarou:

- Providenciarei uma escolta para acompanhá-lo de volta ao Castelo Comyn, Lorde Regis. Não pode ir sozinho, nem pense nisso. Seria impossível.

- Vim para cá sozinho e não sou uma criança.

- Claro que não - disse Lawton, imperturbável. - Mas com a situação atual na cidade, qualquer coisa pode acontecer. E, se ocorresse um acidente, eu seria pessoalmente responsável.

Ele usara a frase casta, que indicava honra pessoal. Regis alteou as sobrancelhas e cumprimentou-o por seu domínio da língua.

- Para ser franco, Lorde Regis, é a minha língua natal. Minha mãe nunca me falou de qualquer outra forma. Foi o terráqueo que aprendi como uma língua estrangeira.

- É darkovano?

- Minha mãe era, e parenta do Comyn. Lorde Ardais é primo de minha mãe, embora eu duvide de que ele reconheça o parentesco.

Regis pensou a respeito, enquanto Lawton convocava a escolta. Parentes muito mais distantes participavam com freqüência do Conselho do Comyn. Aquele oficial terráqueo - meio-terráqueo - poderia ter optado por ser darkovano. Tinha tanto direito a um lugar no Comyn quanto Lew Alton, por exemplo. Lew, por sua vez, poderia ter optado por ser terráqueo, como Regis se preparava para escolher seu próprio futuro. Ele passou sem incidentes a viagem ao longo da cidade, refletindo sobre a melhor maneira de dar a notícia ao avô.

Nos aposentos dos Hasturs, um criado informou-o de que Danvan Hastur o aguardava. Enquanto trocava de roupa - não se podia sequer cogitar de ir à presença do Regente do Comyn em roupas de usar em casa e botinas leves de feltro -, Regis se perguntou, sombriamente, se Lew teria contado alguma coisa a seu avô. Ocorreu-lhe, com algumas horas de atraso, que, se tivesse sofrido algum acidente, Hastur podia muito bem atribuir toda a responsabilidade a Lew. Era assim que retribuía a amizade de Lew!

Depois que se fez apresentável, numa túnica de couro tingida de azul-celeste e botas de cano alto, ele subiu para a sala de audiências do avô.

Encontrou Danvan Hastur de Hastur, Regente dos Sete Domínios, conversando com Kennard Alton. No instante em que ele abriu a porta, Hastur ergueu as sobrancelhas e gesticulou-lhe para que sentasse.

- Um momento, meu rapaz. Falarei com você mais tarde.

Ele tornou a se virar para Kennard e acrescentou, num tom de infinita paciência:

- Kennard, meu amigo, meu caro parente, o que pede é simplesmente impossível. Deixei que nos impingisse Lew...

- Por acaso se arrependeu? - indagou Kennard, irritado. -Disseram-me em Arilinn que ele é um forte telepata, um dos melhores ali. Na Guarda, é um oficial competente. Que direito tem de presumir que Marius seria uma desgraça para o Comyn?

- Quem falou em desgraça, parente? - Hastur se encontrava de pé diante de sua mesa de escrever, um velho forte, mas não tão alto quanto Kennard, com cabelos que outrora haviam sido prateado-dourados e agora estavam cinzentos quase por completo. Falava com suavidade lenta e cortês. - Deixei que nos impusesse Lew e não tenho motivo nenhum para lamentá-lo. Mas há mais do que isso. Lew não parece do Comyn, tanto quanto você, mas não há qualquer dúvida na mente de ninguém de que ele é darkovano e seu filho. Mas Marius? Impossível!

A boca de Kennard se contraiu.

- Questiona a paternidade de um filho reconhecido de Alton? Parado em silêncio num canto, Regis sentiu-se contente porque a raiva de Kennard não fora dirigida contra ele.

- Claro que não. Mas ele tem o sangue da mãe, o rosto da mãe, os olhos da mãe. Sabe muito bem, meu amigo, o que os cadetes do primeiro ano precisam suportar na Guarda...

- Ele é meu filho, não tem nada de covarde. Por que acha que Marius seria incompetente para ocupar seu lugar, o lugar a que tem direito legalmente...

- Legalmente, não. Não discutirei com você, Ken, mas nunca reconhecemos seu casamento com Elaine. Legalmente, em termos de herança do Domínio, Marius não tem direito a nada. Concedemos esse direito a Lew. Mas não se trata de um direito de nascimento, e sim de uma decisão do Conselho, porque ele era um Alton, telepata, com laran pleno. Marius não recebeu tais direitos do Conselho.

Ele fez uma pausa e suspirou.

- Como posso fazê-lo compreender? Tenho certeza de que o menino é bravo, digno de confiança, honesto... que possui todas as virtudes que o Comyn exige de seus filhos. Qualquer jovem criado por você teria essas qualidades. Quem sabe disso melhor do que eu? Mas Marius parece terráqueo. Os outros rapazes fariam picadinho dele. Sei o que Lew sofreu. Tive pena de suas provações, ao mesmo tempo que admirava sua coragem. Acabaram por aceitá-lo, até certo ponto. Mas nunca aceitariam Marius. Nunca mesmo. Por que submetê-lo a tanto sofrimento em troca de nada?

Kennard cerrou os punhos e pôs-se a andar furioso de um lado para outro. Sua voz tremia de raiva quando disse:

- O que está me dizendo é que posso arrumar uma vaga no corpo de cadetes para algum parente pobre, para um bastardo meu de uma meretriz ou para um idiota com mais facilidade do que para o meu filho legítimo mais novo!

- Se dependesse de mim, Kennard, eu daria a oportunidade ao rapaz. Mas tenho as mãos amarradas. Já houve problemas demais no Conselho por causa da cidadania daqueles que têm sangue misto. Dyan...

- Sei perfeitamente o que Dyan pensa. Ele já deixou bem claro.

- Dyan conta com um grande apoio no Conselho. E a mãe de Marius não apenas era terráquea, mas também meio-Aldaran. Se tivesse procurado por todo Darkover durante uma geração inteira, não conseguiria encontrar uma mulher menos provável de ser aceita como a mãe de seus filhos legítimos.

Kennard disse, em voz baixa:

- Foi seu próprio pai quem me enviou à Terra, pela vontade do Conselho, quando eu tinha quatorze anos. Elaine foi criada na Terra, mas pensava em si mesma como darkovana. Nem sequer percebi seu sangue terráqueo a princípio. Mas não faria qualquer diferença. Mesmo que ela fosse toda terráquea...

Ele parou de falar por um momento e logo continuou:

- Já chega disso. É o passado distante, e Elaine está morta. Quanto a mim, creio que meus serviços e reputação, os anos no comando da Guarda, os dez anos em Arilinn, tudo prova de forma incontestável o que eu sou.

Kennard ainda andava de um lado para outro, os passos irregulares e a expressão transtornada, deixando transparecer a emoção que tentava evitar na voz.

- Você não é um telepata, Hastur. Foi fácil para você fazer o que sua casta lhe exigiu. Os Deuses sabem que tentei amar Caitlin. Não foi culpa dela. Mas era Elaine que eu amava, e ela foi a mãe de meus filhos.

- Sinto muito, Kennard. Não posso lutar contra todo o Conselho por Marius, a menos... Ele tem laran?

- Não faço a menor idéia. Isso é tão importante assim?

- Se ele tivesse o dom de Alton, seria possível, não fácil, mas possível, admitir alguns direitos. Há precedentes. Com laran, até mesmo um parente distante pode ser adotado nos Domínios. Sem isso... não é possível, Kennard. Não me peça. Lew é aceito agora, até mesmo respeitado. Não me peça mais.

Kennard baixou a cabeça.

- Eu não queria testar Lew para verificar se ele tinha o dom de Alton. Mesmo com todo o meu cuidado, o teste quase o matou. Não posso correr esse risco de novo, Hastur. Faria isso por seu filho mais novo?

- Meu único filho morreu. - Hastur suspirou. - Se eu puder fazer qualquer outra coisa pelo rapaz...

- A única coisa que eu quero para ele é o seu direito, e essa é a única coisa que você não me dará. Eu deveria ter levado os dois para a Terra. Mas você me fez sentir que eu era necessário aqui.

- E é mesmo necessário, Ken, sabe disso tão bem quanto eu. -O sorriso de Hastur era terno e perturbado. - Algum dia talvez você possa entender por que não tenho condições de fazer o que me pede.

Seus olhos se desviaram para Regis, irrequieto no banco, e depois acrescentou:

- Pode me dar licença, Kennard?

Era uma dispensa cortês, mas inequívoca. Kennard retirou-se, mas com expressão sombria, e omitiu qualquer despedida formal. Hastur parecia cansado. Suspirou mais uma vez e disse:

- Venha até aqui, Regis. Por onde andou? Já não tenho problemas suficientes para me preocupar ainda com a sua fuga, que nem um pirralho tolo, a fim de olhar espaçonaves ou qualquer outra coisa igualmente insensata?

- Na última vez em que lhe causei tantos problemas, Avô, mandou-me para um mosteiro. Não é uma pena que não possa fazer a mesma coisa de novo, senhor?

- Não seja insolente, menino! - rugiu Hastur. - Quer que eu peça desculpas por não tê-lo recebido ontem à noite? Pois muito bem, peço desculpas. Não tive escolha.

Ele se adiantou, abraçou Regis, comprimindo as faces murchas, uma depois da outra, contra as do neto.

- Passei a noite inteira acordado, caso contrário pensaria numa maneira melhor de recepcioná-lo agora. - Ele manteve Regis à distância do braço, piscando os olhos de cansaço. - Você cresceu, rapaz. Está muito parecido com seu pai. Ele se teria orgulhado, eu creio, ao vê-lo voltar para casa como um homem.

Contra a sua vontade, Regis ficou comovido. O velho parecia exausto.

- Que crise o manteve desperto durante toda a noite, Avô? Hastur arriou no banco.

- A mesma coisa de sempre. Imagino que ocorre em cada planeta em que o Império constrói um grande espaço-porto, mas não estamos acostumados a isso aqui. Pessoas vindo e indo, de e para todos os cantos do Império. Viajantes, passageiros em trânsito, espaçonautas de licença, o setor que atende a suas necessidades. Bares, locais de diversão, cassinos, casas de... ahn...

- Já sou bastante velho para saber o que é um bordel, senhor.

- Na sua idade? Seja como for, os bêbados são desordeiros, e os terráqueos de licença andam armados. Pelo acordo, nenhuma arma pode ser levada para a cidade velha, mas as pessoas se extraviam e ultrapassam os limites... não há como evitar, a não ser construindo um muro ao longo da cidade. Têm havido brigas, duelos, brigas com faca e até algumas mortes, e nem sempre é claro se é a Guarda da Cidade ou a força espacial terráquea quem deve cuidar dos culpados. Nossos códigos são tão diferentes que é difícil determinar como se chegar a um consenso. Houve uma briga ontem à noite, e um terráqueo esfaqueou um dos nossos guardas. O terráqueo apresentou como sua defesa o fato de que o guarda lhe fizera o que chamou de uma proposta indecente. Devo explicar?

- Claro que não. Mas está tentando me dizer que isso foi apresentado, a sério, como uma defesa legal contra assassinato?

- Exatamente. É evidente que os terráqueos acham tal coisa mais grave até do que os cristoforos. Ele insistiu em que sua agressão ao guarda era justificada. Agora, o irmão do guarda apresentou uma intenção-de-morte contra o terráqueo. Os terráqueos não estão sujeitos às nossas leis, por isso ele se recusou a aceitá-la. Em vez disso, entrou com uma acusação contra o irmão do guarda por tentativa de assassinato. Quanta confusão! Nunca pensei que veria o dia em que o Conselho seria obrigado a discutir uma briga com faca! Amaldiçoados sejam os terráqueos!

- Mas conseguiu resolver a questão? Hastur deu de ombros.

- Fizemos um acordo, como sempre. O terráqueo foi deportado, e o irmão do guarda ficou detido até que ele deixasse Darkover. Ou seja, ninguém ficou em paz, exceto o morto. Uma solução insatisfatória para todos. Mas chega de conversar sobre eles. Fale-me de você, Regis.

- Terei de falar de novo sobre os terráqueos. - Aquele não era o momento mais apropriado, mas talvez o avô não tivesse mais tempo de tornar a conversar com ele por muitos dias. - Avô, não sou necessário aqui. Já deve saber que não tenho laran, e descobri em Nevarsin que não tenho o menor interesse por política. Por tudo isso, decidi o que quero fazer da minha vida: pretendo ingressar no Serviço Espacial do Império Terráqueo.

Hastur ficou espantado. Amarrou a cara e perguntou:

- Isso é uma piada? Ou outra de suas tolas brincadeiras?

- Nenhuma das duas coisas, Avô. Falo sério, e já tenho idade.

- Mas não pode fazer isso! Eles nunca o aceitariam sem meu consentimento.

- Espero obtê-lo, senhor. Mas pela lei darkovana, que acabou de citar para Kennard, tenho idade legal para fazer o que quiser da minha vida. Posso casar, travar um duelo, reconhecer um filho, ser responsabilizado por um assassinato...

- Os terráqueos não pensariam assim. Kennard foi declarado maior de idade antes de viajar. Mas na Terra foi enviado a uma escola e obrigado, legalmente, a um guardião indicado, até completar vinte anos. Você detestaria isso.

- Claro que detestaria. Mas aprendi uma coisa em Nevarsin, senhor... podemos conviver com coisas que detestamos.

- Essa é a sua vingança porque o enviei para Nevarsin, Regis? Foi tão infeliz assim? O que posso dizer? Queria que tivesse a melhor educação possível e achei que estaria melhor sendo bem cuidado ali do que negligenciado em casa.

- Não, senhor, não é uma vingança - declarou Regis, sem ter muita certeza. - Acontece apenas que eu quero ir embora e não sou necessário aqui.

- Você não fala as línguas terráqueas.

- Entendo o Padrão Terráqueo. Aprendi a ler e a escrever em Nevarsin. Como ressaltou, recebi uma excelente educação. Aprender uma nova língua não é muito difícil.

- Diz que já tem idade, pois então me deixe citar mais um pouco da lei. Como é herdeiro de um Domínio, a lei determina que antes de partir numa iniciativa tão arriscada, como viajar para um mundo exterior, você deve providenciar seu herdeiro. Tem um filho, Regis?

O rapaz baixou os olhos, soturno. Claro que Hastur sabia que ele não tinha.

- Que importância isso tem? Há gerações que o dom de Hastur não aparece com plena força na linhagem. Quanto ao laran comum, pode surgir ao acaso em qualquer lugar dos Domínios, não apenas na linha direta de descendência masculina. Escolha qualquer herdeiro, ao acaso; ele não poderia ser menos capacitado ao Domínio do que eu. Desconfio de que o gene é recessivo, já se extinguiu, como o do telepata catalisador. E Javanne tem filhos; um deles deve tê-lo, como poderia acontecer com qualquer filho meu, se eu tiver algum. O que não tenho, e é provável que não venha a ter. Nem agora, nem nunca.

- De onde tirou essas idéias? - indagou Hastur, chocado e aturdido. - Não é um ombredin, não é mesmo?

- Num mosteiro cristoforo? Não há a menor possibilidade. Nem mesmo como passatempo, senhor. E muito menos como um meio de vida.

- Então por que diz tais coisas?

- Porque pertenço a mim mesmo, não ao Comyn! - explodiu Regis, furioso. - É melhor deixar a linhagem morrer comigo do que continuar por gerações, intitulando-nos de Hastur, sem o nosso dom, sem laran, meras fachadas políticas sendo usadas pela Terra para manter o povo quieto!

- É assim que me considera, Regis? Assumi a Regência quando Stefan Elhalyn morreu, porque Derik tinha apenas cinco anos, pequeno demais para ser coroado, até mesmo como um rei-títere. Tem sido meu infortúnio reinar durante um período de mudança, mas creio que tenho sido mais do que um testa-de-ferro da Terra.

- Conheço um pouco da história do Império, senhor. O Império acabará assumindo o controle aqui também. É o que sempre acontece.

- Pensa que não sei disso? Há três reinados agora que tenho vivido com o inevitável. Mas se viver por mais tempo suficiente, será uma mudança lenta, que nosso povo poderá aceitar. Quanto ao laran, costuma despertar tarde nos homens de Hastur. Dê tempo a si mesmo.

- Tempo! - exclamou Regis, concentrando toda a sua insatisfação nessa única palavra.

- Também não tenho laran, Regis. Apesar disso, creio que servi bem ao meu povo. Você não poderia se resignar a isso?

Ele fitou o rosto obstinado de Regis, suspirou e acrescentou:

- Muito bem, posso negociar com você. Não quero que parta como uma criança, sujeito a um guardião designado por tribunal, nos termos da lei terráquea. Isso seria uma desgraça para todos nós. Um herdeiro do Comyn adquire a idade depois que serve no corpo de cadetes. Cumpra o seu dever regular na Guarda, três temporadas como cadete. Depois, se ainda quiser partir, encontraremos um meio de enviá-lo para fora do nosso mundo sem passar por todos os requisitos da burocracia terráquea. Você detestaria... já a suporto há cinqüenta anos e ainda a detesto. Mas não deixe o Comyn antes de fazer uma tentativa justa. Três anos não é tanto tempo assim. Concorda?

Três anos! Parecera uma eternidade em Nevarsin. Mas ele tinha opção? Nenhuma, a não ser o desafio direto. Poderia fugir, procurar ajuda dos terráqueos. Mas, se era legalmente uma criança pelas leis deles, tratariam de devolvê-lo a seus guardiões. E isso é que seria uma desgraça.

- Três temporadas como cadete - murmurou Regis, depois de um longo momento. - Mas apenas se me der sua palavra de honra de que, se eu decidir partir, depois disso, não se vai opor.

- Se ao final dos três anos você ainda quiser ir embora, prometo que encontrarei um meio honrado para nos deixar.

Regis estava atento, avaliando as palavras à procura de evasivas diplomáticas e meias-verdades. Mas os olhos do velho eram sinceros, e a palavra de Hastur era proverbial. Até os terráqueos sabiam disso.

- Concordo. Três anos no corpo de cadetes, em troca de sua palavra. - Uma pausa, e ele acrescentou, amargurado: - Não tenho opção, não é mesmo?

- Se quisesse uma opção - declarou Hastur, os olhos azuis fais-cando como fogo, embora a voz continuasse velha e cansada, como sempre -, deveria ter providenciado para nascer em outro lugar, de outros pais. Não escolhi ser o conselheiro-chefe de Stefan Elhalyn nem Regente para o Príncipe Derik. Rafael... que seu sono seja profundo!... também não optou por sua vida nem mesmo por sua morte. Nenhum de nós jamais teve a liberdade de escolher, não durante a minha vida.

A voz tremia, e Regis compreendeu que o velho se encontrava à beira da exaustão total ou de um colapso. Contra a sua vontade, ele ficou comovido de novo. Mordeu o lábio, sabendo que desmoronaria se falasse, suplicaria perdão ao avô, prometeria obediência incondicional. Talvez fosse apenas a conseqüência dos últimos resquícios de kirian, mas ele teve certeza, de uma maneira súbita e angustiante, de que o avô não o fitava nos olhos porque o Regente dos Sete Domínios não podia chorar nem mesmo na presença de seu neto, nem mesmo pela lembrança da morte prematura e terrível de seu único filho.

Quando Hastur tornou a falar, a voz era dura e incisiva, como um homem acostumado a enfrentar uma crise depois de outra:

- A primeira chamada dos cadetes será no final desta manhã. Avisei o mestre-dos-cadetes para esperá-lo.

Ele se levantou, tornou a abraçar Regis, num gesto de dispensa.

- Tornarei a vê-lo em breve, Regis. Pelo menos não estamos agora separados por uma viagem de três dias e uma cordilheira.

Portanto, ele já comunicara ao mestre-dos-cadetes. O que indicava como era grande a sua certeza, refletiu Regis. Fora manipulado, acuado a fazer exatamente o que se esperava de um Hastur. E ele próprio prometera que suportaria três anos assim!

Capítulo Quatro

(Narrativa de Lew Alton)

A sala estava clara com a luz do dia. Eu dormira por horas no banco de pedra ao lado da lareira, com cãibra e frio. Marius, descalço e de camisolão, me sacudia.

- Ouvi alguma coisa na escada. Escute!

Ele correu para a porta, e o segui, mais devagar. A porta foi aberta, e dois guardas entraram, carregando meu pai. Um deles me viu e indagou:

- Para onde devemos levá-lo, Capitão?

- Levem-no para o quarto.

Ajudei Andres a acomodá-lo na cama e depois perguntei, fitando com temor seu rosto pálido e inconsciente:

- O que aconteceu?

- Ele caiu na escada de pedra perto da casa da Guarda - informou um dos homens. - Passei todo o inverno tentando providenciar o conserto daquela escada. Seu pai poderia ter fraturado o pescoço... o que, aliás, poderia ter acontecido a qualquer outra pessoa.

Marius foi postar-se ao lado da cama, branco e apavorado.

- Ele morreu?

- Não, filho - respondeu o guarda. - Acho que o comandante quebrou uma ou duas costelas, feriu o braço e o ombro; mas, a menos que comece a vomitar sangue mais tarde, creio que ele ficará bom. Eu queria que Mestre Raimon fosse cuidar de seu pai lá embaixo, mas ele insistiu para que o trouxéssemos para cá.

Entre a raiva e o alívio, inclinei-me para examinar meu pai. Mas que momento mais inoportuno para se ferir, logo no primeiro dia da sessão do Conselho! Como se meus pensamentos descontrolados pudessem alcançá-lo - e talvez isso ocorresse -, ele gemeu e abriu os olhos. A boca se contraiu num espasmo de dor.

- Lew?

- Estou aqui, Pai.

- Você deve comparecer no meu lugar...

- Não, Pai. Há uma dúzia de outros com mais direito. Percebi que seu rosto assumira uma expressão determinada, senti que ele lutava contra a dor intensa.

- Você tem de ir! Lutei... contra todo o Conselho... por anos. Não vai pôr a perder todo o meu trabalho... só porque eu sofri uma queda ridícula. Tem o direito de ser meu representante e vai comparecer de qualquer maneira!

Sua dor me angustiava; eu me encontrava totalmente aberto. Em meio à dor lancinante, dava para sentir suas emoções, a fúria e uma determinação inabalável, lançando sua vontade em cima de mim.

- Vai, sim!

Não é sem motivo que sou Alton. Revidei no mesmo instante, lutando contra sua tentativa de forçar a aceitação.

- Não há necessidade disso, Pai. Não sou seu fantoche!

- Mas é meu filho! - insistiu ele, veemente, e foi como uma tempestade, sua vontade me pressionando. - Meu filho e meu sub-comandante, e ninguém, mas ninguém mesmo, vai questionar isso!

Sua agitação aumentava tanto que compreendi que não poderia continuar a discutir sem lhe causar um grave dano. Precisava acalmá-lo de alguma forma. Fitei-os nos olhos enfurecidos e disse:

- Não há razão para gritar comigo. Farei o que quer, pelo menos por enquanto. Voltaremos a discutir o assunto mais tarde.

Ele fechou os olhos, não dava para saber se por exaustão ou dor. Mestre Raimon, o oficial-do-hospital da Guarda, entrou no quarto e foi direto para perto da cama. A ira, a fadiga e a falta de sono faziam minha cabeça latejar. Era demais! O pai sabia muito bem como eu me sentia! E não se importava!

Marius continuava de pé, paralisado, observando horrorizado, enquanto Mestre Raimon cortava a camisa de meu pai. Vi enormes equimoses, púrpuras, de sangue escurecido, antes de afastar Marius com firmeza.

- O estado dele não é grave - garanti a Marius. - Não poderia gritar tão alto se estivesse morrendo. Vá se vestir e procure não atrapalhar.

Marius foi para seu quarto, obediente, e fiquei na câmara exterior, esfregando o rosto com os punhos, em consternação e confusão. Que horas seriam? Quanto tempo eu dormira? E onde estava Regis? Para onde teria ido? No estado em que se encontrava ao me deixar, ele poderia ter cometido algum ato desesperado! Lealdades e obrigações conflitantes mantinham-me paralisado. Andres saiu do quarto de meu pai e avisou:

- Se vai atender à chamada, Lew, é melhor se preparar logo. Compreendi que permanecera parado no mesmo lugar por um longo tempo, como se os pés se tivessem enraizado no chão. Meu pai me impusera uma missão. Mas, se Regis fugira num ânimo de desespero suicida, eu não deveria também sair à sua procura? Além do mais, tinha de entrar de serviço na Guarda naquela manhã. Ago-ra, parecia que teria de cuidar de tudo sozinho. Com toda a certeza, alguns haveriam de questionar minha presença. Era um direito de meu pai escolher seu subcomandante, mas eu é que teria de enfrentar a hostilidade. Virei-me para Andres.

- Mande alguém me trazer alguma coisa para comer e veja se consegue descobrir onde o pai guardou a lista do pessoal de serviço e a relação de chamada dos cadetes, mas não o perturbe. Preciso tomar um banho e trocar de roupa. Tenho tempo?

Andres fitou-me com a maior tranqüilidade.

- Não se afobe. Dispõe de todo o tempo que precisar. Se está no comando, eles não poderão começar enquanto você não chegar. Trate de se fazer apresentável. Deve parecer pronto a assumir o comando, mesmo que não se sinta assim.

Ele tinha toda a razão, é claro; percebi isso, embora me ressentisse de seu tom. Andres tem o hábito de dizer as coisas certas. Era o coridom de Armida, o intendente-chefe, desde que eu podia lembrar. Era um terráqueo, e já servira na Força Espacial. Nunca soube onde conheceu meu pai ou por que deixou o serviço do Império. Os servos de meu pai contaram-me a história de que um dia ele aparecera em Armida, declarando-se cansado do espaço e da Força Espacial. Meu pai lhe dissera:

- Jogue fora sua pistola de raios, faça o juramento de respeitar a Aliança, e lhe garantirei um emprego em Armida por tanto tempo quanto desejar.

A princípio, Andres fora o secretário particular do pai, depois seu assistente pessoal e acabara por assumir o controle de toda a propriedade, dos cavalos e cachorros aos filhos e filha-de-adoção de meu pai. Houvera ocasiões em que sentira que Andres era a única pessoa viva que me aceitava por completo pelo que eu era. Bastardo, de meia-casta, não fazia a menor diferença para Andres. Ele acrescentou em seguida:

- É melhor para a disciplina aparecer tarde do que se apresentar todo desarrumado e sem saber o que está fazendo. Trate de se arrumar Lew, e não me refiro apenas ao uniforme. Nada vai ganhar se correr em várias direções ao mesmo tempo.

Fui tomar banho, comi um desjejum apressado e vesti-me de maneira apropriada para ser observado por uma centena ou mais de oficiais e guardas, cada um deles ansioso em encontrar alguma falha. Pois que o fizessem!

Andres encontrou as listas entre os pertences de meu pai; peguei-as e desci para a sala da Guarda.

Fica num dos níveis inferiores do Castelo Comyn, tendo por trás os alojamentos, o estábulo, o arsenal e o pátio de manobras, e na frente um portão barricado, de onde se desce para Thendara. O resto do Castelo Comyn me deixa indiferente, mas jamais contemplei as enormes janelas iluminadas sem experimentar um estranho aperto na garganta.

Tinha quatorze anos e já sabia que minha vida era fragmentada e insegura. Por causa do que eu era, quando meu pai me trouxera para cá pela primeira vez. Antes de me enviar para meus pares ou o que esperava que fossem meus pares - eles tinham outras idéias -, o pai falara-me sobre alguns dos Altons que haviam passado por aquele lugar antes de nós. Pela primeira e quase última vez, eu experimentara um senso de pertencer àqueles antigos Altons, cujos nomes eram uma crônica da história darkovana: meu avô Valdir, que organizara o primeiro sistema de faróis de incêndio nas Colinas Kilghard. Dom Esteban Lanart, que cem anos antes expulsara os homens-gatos das cavernas de Corresanti. Rafael Lanart-Alton, que governara como Regente quando Stefan Hastur, o Nono, fora coroado no berço, antes de os Elhalyns se tornarem reis em Thendara.

A sala da Guarda era enorme, com arcadas de pedra, o chão também de pedra, desgastado pelos passos de séculos de guardas. A claridade entrava de forma insólita, multicolorida e fragmentada, através de janelas feitas antes de se conhecer a arte do vidro corrediço.

Tirei do bolso as listas que Andres me entregara, estudei-as por um momento. Na de cima constavam os nomes dos cadetes do primeiro ano. O nome de Regis Hastur se encontrava no final, obviamente acrescentado depois dos outros. Mas onde estava Regis? Conferi a lista dos cadetes do segundo ano. O nome de Octavien Vallonde fora suprimido. Não esperava encontrar seu nome, mas isso me teria aliviado a mente.

Na lista do pessoal de serviço, o pai riscara seu próprio nome como comandante e escrevera o meu no lugar, evidentemente com a mão direita, e com a maior dificuldade. Desejei que ele se tivesse poupado do esforço. Gabriel Lanart-Hastur, marido de Javanne e meu primo, substituía-me como subcomandante. Ele é que deveria assumir o posto de comandante. Eu não era um soldado, apenas um técnico de matriz, e tencionava voltar a Arilinn ao final do intervalo de três anos exigido agora por lei. Gabriel, por outro lado, era um guarda de carreira, gostava daquilo e era competente. Também era um Alton e integrava o Conselho. A maioria do Comyn achava que ele deveria ter sido designado o herdeiro de Kennard. Contudo, de certa forma, éramos amigos, e eu bem que gostaria de que ele estivesse hoje aqui, em vez de continuar em Edelweiss, aguardando o nascimento da criança de Javanne.

Era óbvio que o pai não via qualquer discrepância. Fora técnico psíquico em Arilinn por mais de dez anos, nos tempos de isolamento da Torre, mas depois se mostrara capaz de assumir o comando da Guarda sem qualquer dificuldade mais profunda. Com toda a certeza, meus conflitos interiores não eram importantes para ele nem mesmo compreensíveis.

O mestre-de-armas era outra vez o velho Domenic di Asturien, que fora capitão quando meu pai era um cadete de quatorze anos. Domenic fora meu mestre-dos-cadetes no primeiro ano e praticamente o único oficial da Guarda que me tratara de uma forma justa.

Mestre-dos-cadetes... Esfreguei os olhos, aturdido; devia ter lido errado. Mas as palavras, obstinadamente, permaneceram as mesmas: Mestre-dos-cadetes: Dyan-Gabriel, Lorde Ardais.

Soltei um gemido alto. Só podia ser uma das piadas de mau gosto de meu pai. Ele não é um tolo, e só um tolo poria um homem como Dyan no comando de rapazes ainda não de todo crescidos. Não depois do escândalo do ano anterior. Conseguíramos abafá-lo, impedir que chegasse ao conhecimento de Lorde Hastur, e eu pensava que até mesmo Dyan sabia que fora longe demais.

Mas devo ser bem claro sobre uma coisa: não gosto de Dyan e sei que ele não me aprova, mas não se pode negar que é corajoso, um bom soldado, talvez o melhor e mais competente oficial da Guarda. Quanto à sua vida pessoal, ninguém ousa comentar as diversões particulares de um lorde do Comyn.

Aprendi, há muito tempo, a não dar ouvidos a rumores. Meu próprio nascimento fora um escândalo de grandes proporções por anos. Mas aquilo era mais do que um rumor. Pessoalmente, acho que o pai fora insensato ao tirar o garoto Vallonde de casa sem qualquer indagação ou investigação. Parte do que ele disse era verdade. Octavien era mesmo perturbado, instável, nunca se integrara na Guarda, e fora um erro nosso, em primeiro lugar, aceitá-lo como cadete. Mas o pai dissera que, quanto mais cedo tudo fosse abafado, mais depressa a história desagradável morreria. Só que isso não acontecera, era bem provável que se continuasse a falar a respeito por muito tempo.

A sala começou a se encher com homens uniformizados. Dyan subiu ao palanque em que os oficiais se agrupavam e fitou-me de cara amarrada, com expressão hostil. Não parecia haver a menor dúvida de que ele imaginara que seria designado como o subcomandante de meu pai. Até isso seria melhor do que fazê-lo mestre-dos-cadetes.

Mas eu não podia permitir que a mesma coisa tornasse a ocorrer. Cora ou sem a escolha do pai.

A vida particular de Dyan só interessava a ele próprio, e eu não me importava que amasse homens, mulheres ou cabras. Podia ter tantas concubinas quanto um habitante das Cidades Secas, e a maioria das pessoas não daria muita importância. Mas um novo escândalo na Guarda? De jeito nenhum! Isso afetava a honra da corporação, e a dos Altons, que a comandavam.

O pai pusera-me no comando. Pois muito bem, aquela seria a minha primeira decisão de comando.

Fiz um sinal para a assembléia. Uns poucos atrasados seguiam apressados para seus lugares. Os veteranos entraram em formação. Os cadetes, como lhes fora determinado, permaneceram num canto.

Regis não se encontrava entre os cadetes. Amargurado, ressenti-me por estar retido ali, mas não havia como evitar.

Corri os olhos por todos e senti que me retribuíam o favor. Fechei a sensibilidade telepática tanto quanto podia - não era fácil naquela multidão -, mas ainda captei surpresa, curiosidade, repulsa, irritação. Tudo se resumia, mais ou menos, à mesma coisa: Onde está o comandante? Ou, pior ainda: O que o bastardo do velho Kennard está fazendo lá em cima no lugar do comandante?

Consegui finalmente atrair a atenção de todos e falei sobre o infortúnio de Kennard. Houve alguma agitação de murmúrios e comentários, e eu sabia que seria uma insensatez ouvir a maioria. Esperei que passassem, depois pedi ordem de novo e iniciei a tradicional cerimônia de chamada do primeiro dia.

Um a um, li os nomes de todos os guardas. Cada um se adiantou, repetiu uma breve fórmula de lealdade ao Comyn e me informou - obrigação da maior importância trezentos anos antes, mas agora mera formalidade - quantos homens, treinados, armados e equipados de acordo com o costume, podia lançar em combate, no caso de guerra. Era uma longa chamada. Na metade, houve uma comoção, quando Regis, escoltado por meia dúzia de servos com a libré de Hastur, entrou na sala. Um dos servos entregou-me uma mensagem do próprio Hastur, com uma desculpa e explicação pelo atraso de Regis.

Senti intensa raiva. Imaginara Regis desesperado, suicida, doente, prostrado, sofrendo algum efeito posterior imprevisível do kirian, até mesmo morto... e ele entrava agora na maior calma, tumultuando a cerimônia da chamada e a disciplina. Dispensei os servos e disse a ele, em tom brusco:

- Vá para seu lugar, cadete.

Ele não podia parecer menos com o menino que sentara junto comigo ao lado do fogo na noite anterior, comendo ensopado, extravasando sua amargura. Usava agora o traje completo do Comyn, com emblemas, botas de cano alto e túnica azul-celeste de corte requintado. Encaminhou-se para seu lugar entre os cadetes, de cabeça erguida. Pude sentir seu medo e timidez, mas sabia que os outros cadetes encarariam a pose como arrogância do Comyn, e ele sofreria por isso. Regis parecia cansado, quase doente, sob a fachada de controle arrogante. O que lhe teria acontecido na noite anterior? Ele que se dane, pensei, estremecendo; por que me preocupava tanto com o herdeiro de Hastur? Regis não se preocupara comigo, nem passara por sua cabeça que eu seria responsabilizado se algum mal lhe acontecesse!

Encerrei a sucessão de juramentos de lealdade. Dyan inclinou-se para mim e disse:

- Estive ontem à noite na cidade com o Conselho. Hastur pediu-me que explicasse a situação aos guardas; tenho sua permissão para falar, Capitão Montray-Lanart?

Dyan nunca me tratara por meu título, dentro ou fora da sala da Guarda. Disse a mim mesmo que a última coisa que queria era sua aprovação. Acenei com a cabeça, e ele foi para o centro do palanque. Dyan não se parece mais do que eu com um típico lorde do Comyn; seus cabelos são escuros, não o vermelho tradicional do Comyn, e ele é alto e esguio, com as mãos de seis dedos que às vezes aparecem nos clãs de Ardais e Aillard. Dizem que há sangue não-humano na linhagem de Ardais. Dyan dá essa impressão.

- Guardas da Cidade de Thendara - disse ele -, seu comandante, Lorde Alton, pediu-me que explicasse a situação.

Seu olhar desdenhoso dizia com mais vigor do que palavras que eu podia brincar de ter o comando, mas era ele quem tinha condições de explicar o que estava acontecendo.

Pelo que pude deduzir das palavras de Dyan, havia uma grande tensão entre a Força Espacial terráquea e a Guarda da Cidade. Ele pediu a todos os guardas que evitassem incidentes, respeitassem o toque de recolher e lembrassem que a área da Cidade Comercial fora cedida ao Império por um tratado diplomático. Recordou-nos de que tínhamos o dever de lidar com os criminosos darkovanos e de entregar os terráqueos às autoridades do Império. O que era bastante justo. Duas forças policiais na mesma cidade precisam chegar a acordos e concessões que possibilitem a convivência.

Não pude deixar de admitir que Dyan era um bom orador. Mas ele conseguiu transmitir a impressão de que os terráqueos eram inferiores naturais, não respeitavam nem a Aliança, nem os códigos de honra pessoal, que devíamos assumir a responsabilidade por eles, como fazem todos os superiores; que, embora preferíssemos tratá-los com justificado desprezo, estaríamos prestando um favor pessoal a Lorde Hastur se mantivéssemos a paz, mesmo contra nosso melhor julgamento. Duvidei de que o seu pequeno discurso pudesse atenuar os atritos entre os terráqueos e os guardas.

Perguntei-me se os nossos equivalentes na Cidade Comercial, o Legado e seus prepostos, estariam fazendo determinações similares à Força Espacial. Achava que não.

Dyan voltou ao seu lugar, e mandei que os cadetes se adiantassem. Fiz a chamada da dúzia de cadetes do terceiro ano e dos onze do segundo, especulando se o Conselho tencionava preencher o lugar vago de Octavien Vallonde. Depois, dirigi-me aos cadetes do primeiro ano, chamando-os ao centro da sala. Decidi omitir o discurso habitual sobre a organização orgulhosa e antiga, em que era um prazer recebê-los. Não sou tão bom orador quanto Dyan e não ia competir. O pai poderia fazer-lhes esse discurso quando se recuperasse, ou o mestre-dos-cadetes, quem quer fosse. Não Dyan. Só por cima de meu cadáver.

Limitei-me a enunciar os fatos básicos. Depois de hoje, haveria formação e revista todas as manhãs, depois do desjejum. Os cadetes seriam mantidos à parte, em seus próprios alojamentos, e receberiam instruções, até que os intensos exercícios em ordem unida lhes permitissem participar das formações e de outros deveres. A Guarda do Castelo era mantida dia e noite, e eles se revezariam nos plantões, dos mais velhos aos mais novos. Recordei que a Guarda do Castelo não era um serviço de sentinela subalterno, mas um privilégio reivindicado por nobres desde tempos imemoriais, para proteger os Filhos de Hastur. E assim por diante.

A formalidade final - fiquei contente ao alcançá-la, pois fazia bastante calor na sala apinhada a essa altura, e os cadetes mais jovens já começavam a se mostrar irrequietos - foi uma chamada dos cadetes do primeiro ano. Só conhecia pessoalmente Regis e Danilo, o jovem protegido de meu pai, mas alguns dos outros eram irmãos mais moços ou filhos de homens com os quais tivera contato na Guarda. O último nome que chamei foi o de Regis-Rafael, cadete Hastur.

Houve um silêncio confuso, que se prolongou por tempo demais. Depois, na fila dos cadetes, houve um arrastar de pés e um sussurro audível.

- É você, seu idiota! - disse Danilo, cutucando Regis nas costelas.

A voz de Regis balbuciou, atordoada:

- Ahn... - Uma pausa. - Aqui.

Dane-se, Regis! Eu já começara a esperar que naquele ano poderíamos concluir a chamada sem passar por aquela experiência humilhante. Algum cadete, nem sempre um homem do primeiro ano, invariavelmente se esquecia de responder direito a seu nome na chamada. Havia um procedimento para tais ocasiões, que devia existir há três dúzias de gerações. Pela expectativa dos outros guardas, dos veteranos e dos cadetes mais velhos, algumas risadinhas abafadas surgindo aqui e ali, não restava a menor dúvida de que todos esperavam esse trote ritual e até torciam para que acontecesse.

Se dependesse de mim, poderia dizer em tom ríspido "Da próxima vez, cadete, responda a seu nome" e depois trocar uma palavra com Regis em particular. Mas, se tentasse privar os outros de sua diversão, era provável que descontassem em Regis de qualquer maneira. Ele já chamara atenção ao chegar atrasado e vestido como um príncipe. Era melhor eu seguir adiante. Regis teria de se acostumar a coisas piores nas semanas subseqüentes.

- Cadete Hastur - falei, com um suspiro -, adiante-se para que o possamos olhar direito. Assim, se tornar a esquecer seu nome mais tarde, todos poderemos lembrá-lo.

Regis adiantou-se, com uma expressão impassível.

- Conhece meu nome.

Houve um coro de risadinhas. Pelos infernos de Zandru, será que ele se encontrava bastante confuso para piorar ainda mais a situação? Mantive a voz fria e controlada:

- É da minha conta sabê-lo, cadete, e é da sua responder a qualquer pergunta feita por um oficial. Qual é o seu nome, cadete?

Ele respondeu, rápido e furioso:

- Regis-Rafael Felix Alar Hastur-Elhalyn!

- Muito bem, Regis-Rafael isso e mais aquilo! Seu nome na Guarda é cadete Hastur, e sugiro que o memorize e responda de imediato, a menos que prefira ser chamado de É você, seu idiota.

Danilo riu; lancei-lhe um olhar irado, e ele se calou no mesmo instante.

- Cadete Hastur, ninguém vai chamá-lo de Lorde Regis aqui. Qual é a sua idade, cadete Hastur?

- Quinze - respondeu Regis.

Mentalmente, praguejei outra vez. Se ele tivesse dado a resposta apropriada dessa vez - mas como poderia, se ninguém o avisara? -, eu o poderia dispensar. Agora, tinha de levar aquela farsa até o fim. A expressão de expectativa hilariante nos rostos ao redor me enfureceu. Mas havia ali uma tradição de duzentos anos da Guarda.

- Quinze o que, cadete?

- Quinze anos - disse Regis, mordendo a velha isca para os incautos.

Suspirei. Bom, os outros cadetes tinham direito à sua diversão. Gerações haviam-nos condicionado a exigi-la, e eu não podia deixar de proporcioná-la. Indaguei, cansado:

- Vocês não querem dizer ao cadete Hastur quantos anos ele tem?

- Quinze, senhor! - explodiram todos, em coro.

As gargalhadas foram estrondosas. Sinalizei para que Regis voltasse ao seu lugar. A expressão de raiva com que ele me fitou poderia matar. Não o podia culpar. Por vários dias, até que outro cometesse alguma estupidez de grandes proporções, ele seria o alvo das zombarias no alojamento. Eu sabia disso. Podia recordar um dia, vários anos atrás, em que o nome do desafortunado cadete fora Lewis-Kennard, cadete Montray. Talvez a minha desculpa fosse melhor - nunca antes ouvira meu nome pronunciado daquela forma. Também não tornara a ouvi-lo desde então, porque meu pai exigira que me fosse permitido usar seu nome, Montray-AIton. Fora na ocasião em que ainda discutiam a minha legitimidade. Mas o pai usara o argumento de que era impróprio para um cadete ostentar um nome terráqueo na Guarda, embora um bastardo legalmente use o nome da mãe.

A cerimônia terminou. Eu deveria entregar os cadetes ao mestre-dos-cadetes e deixá-lo assumir o comando. Mas não podia fazer isso. De jeito nenhum, enquanto não exortasse meu pai a reconsiderar. Não quisera o comando da guarda, mas ele insistira, e agora, para o melhor ou para o pior, todos os Guardas, do mais jovem cadete ao veterano mais velho, encontravam-se sob os meus cuidados. Teria de fazer o melhor por eles... e meu melhor não incluía Dyan Ardais como mestre-dos-cadetes!

Chamei o velho Domenic di Asturien. Era um oficial experiente, merecia uma confiança absoluta, o tipo de homem que deveria ficar encarregado dos jovens. Retirara-se do serviço ativo anos antes -já devia estar na casa dos oitenta anos -, mas ninguém se podia queixar dele. Sua família era tão antiga que os próprios homens do Comyn eram arrivistas em comparação. Havia até uma piada, contada aos sussurros, de que ele comentara uma ocasião que os Hasturs eram "a nova nobreza".

- Mestre, o comandante sofreu um acidente esta manhã e ainda não me informou de sua escolha para mestre-dos-cadetes. -Comprimi as listas em minha mão, como se o velho pudesse ver o nome de Dyan escrito ali, o que revelaria minha mentira. - Solicito respeitosamente que assuma o comando dos cadetes, até que ele possa transmitir seu desejo.

Quanto voltei para meu lugar, Dyan começou a se levantar.

- Ora, seu garoto insolente, Kennard não lhe disse... - Ele percebeu que olhos curiosos nos observavam e baixou a voz: - Por que não falou comigo em particular sobre isso?

Ele sabia. Recordei que se dizia que Dyan era um poderoso tele-pata, embora se recusasse a entrar em qualquer Torre, por razões desconhecidas. Portanto, ele sabia que eu sabia. Tratei de barricar minha mente contra ele. São bem poucos os que podem ler um Alton quando ele se mantém alerta. O fato de Dyan ter penetrado minha mente sem ser convidado era uma grave violação da cortesia e da ética do Comyn. Ou será que ele queria expressar com isso que eu não merecia a imunidade do Comyn? Falei com frieza, mas tentando ser cortês:

- Depois que eu consultar o comandante, Capitão Ardais, transmitirei o que ele deseja.

- O comandante já manifestou o seu desejo, e você sabe disso!

A boca de Dyan contraiu-se numa linha fina. Ainda havia tempo. Eu podia fingir que descobria seu nome nas listas. Mas me submeter àquele sórdido prostituto das Hellers? Virei-me e disse a Domenic di Asturien:

- Quando quiser, Mestre, pode dispensar seus pupilos.

- Seu bastardo insolente! Vou arrancar sua pele por isso!

- Posso ser um bastardo - respondi, mantendo a voz baixa -, mas considero que não é nada edificante dois capitães discutirem na presença de cadetes.

Ele se conteve. Era bastante soldado para saber que eu tinha razão. Enquanto dispensava os homens, refleti que adquirira um poderoso inimigo. Antes daquele momento, Dyan não gostava de mim, mas era amigo de meu pai e tolerava qualquer coisa que pertencesse a um amigo, desde que permanecesse em seu devido lugar. Agora, eu fora muito além de seu conceito restrito sobre esse lugar, e ele nunca me perdoaria.

Ora, eu podia muito bem viver sem sua aprovação. Mas era melhor não perder tempo e conversar logo com o pai. Dyan não perderia.

Encontrei-o desperto e irrequieto, envolto por ataduras, a perna defeituosa levantada. Parecia abatido e febril, e lamentei a necessidade de incomodá-lo naquele momento.

- A chamada transcorreu sem dificuldades?

- Claro, e Danilo teve uma boa presença - respondi, sabendo que ele queria saber.

- Regis foi acrescentado na última hora. Ele compareceu? Acenei com a cabeça, e o pai acrescentou:

- Dyan se apresentou para assumir o comando? Ele também passou a noite acordado, mas garantiu que estaria presente.

Fitei-o, indignado, e não pude conter a explosão:

- Não pode estar falando sério, Pai! Pensei que era uma piada! Dyan como mestre-dos-cadetes?

- Não brinco com a Guarda - declarou meu pai, o rosto duro. - E por que não Dyan?

Hesitei por um instante.

- Devo explicar tudo? Já esqueceu o ano passado e o jovem Vallonde?

- Histeria - disse meu pai, dando de ombros. - Você levou o caso mais a sério do que deveria. Quando chegou o momento, o jovem Octavien não quis se submeter ao interrogatório sob laran.

- Isso só prova que ele tinha medo de você, mais nada! Já vi homens adultos, veteranos calejados, cederem e aceitarem qualquer punição, em vez de enfrentarem essa provação! Quantos adultos maduros podem se submeter ao exame telepático de um Alton? Octavien tinha apenas quinze anos!

- Está esquecendo o ponto principal, Lew. Como ele não comprovou a acusação, não sou obrigado oficialmente a aceitá-la.

- Por acaso notou que Dyan também nunca a negou? Ele não teve a coragem de enfrentar um Alton e mentir, não é mesmo?

Kennard suspirou e tentou levantar-se na cama.

- Deixe-me ajudá-lo, Pai.

Mas ele me dispensou com um aceno de mão.

- Sente-se, Lew, não fique aí de pé como a estátua de um deus vingador! O que o faz pensar que ele se rebaixaria a mentir ou que tenho algum direito de lhe pedir detalhes de sua vida particular? Por acaso sua vida é tão pura e perfeita...

- Pai, é irrelevante o que eu possa ter feito como diversão antes de me tornar adulto. Nunca abusei da autoridade...

Ele protestou, friamente:

- Parece-me que você abusou quando ignorou minhas ordens por escrito. Eu disse para sentar! Lew, não lhe devo qualquer explicação, mas como parece transtornado, deixarei tudo bem claro. O mundo é como é, não como você ou eu gostaríamos. Dyan pode não ser o mestre-dos-cadetes ideal, mas pediu-me o posto, e eu não vou recusar.

- Por que não? - Eu me sentia mais indignado do que nunca. - Só porque ele é Lorde Ardais, deve ter liberdade para qualquer tipo de depravação e corrupção que lhe aprouver? Não me interessa o que ele faz, mas deve ter permissão para agir à vontade na Guarda? Por quê?

- Preste atenção, Lew. É fácil usar palavras duras com alguém que é menos do que perfeito. Eles também falam a seu respeito... ou já esqueceu? Escutei durante quinze anos, porque precisava de você. Precisamos de Lorde Ardais no Conselho, porque é um homem forte, um firme partidário de Hastur. Ficou tão absorvido em seu mundo particular em Arilinn que não lembra a verdadeira situação política?

Fiz uma careta, mas ele continuou, muito paciente agora:

- Uma facção no Conselho gostaria de nos lançar em guerra contra os terráqueos. Isso é tão inconcebível que não preciso levar a sério, a menos que essa facção ganhe novos adeptos. Outra facção quer uma aliança total com os terráqueos, renunciando aos nossos antigos costumes e tradições, renunciando à Aliança, para nos tornarmos uma colônia do Império. Essa facção é maior e muito mais perigosa para o Comyn. Creio que a solução de Hastur - a mudança lenta e gradativa, concessões, acima de tudo tempo - é a única razoável. Dyan é um dos poucos homens dispostos a empenhar todo o seu poder em apoio a Hastur. Por que lhe deveríamos recusar um posto que ele deseja em troca?

- Então somos sórdidos e corruptos! - gritei. - Só para ter o apoio dele em suas ambições políticas, estão dispostos a subornar um homem como Dyan com o comando de rapazes ainda inexperientes?

A ira fácil de meu pai aflorou. Nunca antes se concentrara em mim com todo o seu peso.

- Acredita sinceramente que é minha ambição pessoal que tento promover? Pois eu lhe pergunto o que é mais importante: a ética pessoal do mestre-dos-cadetes ou o futuro de Darkover e a própria sobrevivência do Comyn? Não, fique sentado aí, e continue a me escutar! Quando precisamos desesperadamente do apoio de Dyan no Conselho, acha que eu brigaria com ele por causa de seu comportamento particular?

Revidei com igual veemência:

- Eu não me importaria se fosse apenas seu comportamento particular! Mas se houver outro escândalo na Guarda, não acha que o Comyn vai sofrer? Não pedi para comandar a Guarda. Disse até que preferia não fazê-lo. Mas não quis aceitar minha recusa, e agora se recusa a escutar meu melhor julgamento! Pois saiba que não admitirei Dyan como mestre-dos-cadetes! Não enquanto exercer o comando!

- Vai aceitar, sim - disse meu pai, em voz baixa e incisiva. -Acha que vou deixá-lo me desafiar?

- Então, Pai, arrume outro para comandar a Guarda! Ofereça o comando a Dyan... isso não satisfaria sua ambição?

- Mas não satisfaria a mim. Trabalhei por muitos anos para levá-lo a essa posição. Se pensa que vou deixá-lo destruir o Domínio de Alton por causa de escrúpulos infantis, está completamente enganado. Ainda sou o lorde do Domínio, e você é obrigado por juramento a aceitar minhas ordens sem questionar! O posto de mestre-dos-cadetes é bastante poderoso para satisfazer Dyan, mas não pretendo arriscar os direitos dos Altons ao comando. Estou fazendo isso por você, Lew.

- Gostaria que se poupasse desse trabalho! Não o quero!

- Você não se encontra em posição de saber o que quer. Agora, faça o que estou mandando: entregue a Dyan o posto de mestre-dos-cadetes ou... - Ele fez um tremendo esforço para continuar, ignorando a dor. - ...sairei da cama e cuidarei de tudo pessoalmente.

Sua ira eu podia enfrentar; seu sofrimento era outra coisa. Fiquei dividido entre a raiva e uma terrível apreensão.

- Pai, nunca lhe desobedeci. Mas eu lhe peço, suplico-lhe que reconsidere. Sabe que nada de bom vai resultar disso.

Ele voltou a ser gentil:

- Você ainda é muito jovem, Lew. Algum dia aprenderá que todos nós temos de fazer concessões, e com o melhor ânimo possível. É preciso fazer o melhor que se pode dentro de uma determinada situação. Não é possível comer as nozes sem quebrar as cascas. - Ele me estendeu a mão. - Você é o meu principal esteio, Lew. Não me obrigue a lutar contra você também. Preciso de você ao meu lado.

Segurei a mão estendida entre meus dedos; parecia inchada e febril. Como podia aumentar seus problemas? Ele confiava em mim. Que direito eu tinha de lançar meu julgamento contra o seu? Era meu pai, meu comandante, o lorde do meu Domínio. Meu único dever era obedecer.

Fora de sua vista, minha raiva tornou a aflorar. Quem poderia acreditar que o pai seria capaz de comprometer a honra da Guarda? E cora que rapidez ele manobrara contra mim, como um titeriteiro puxando os cordões do amor, da lealdade, da ambição, minha própria necessidade de reconhecimento?

Provavelmente jamais esquecerei a entrevista com Dyan Ardais. Claro que ele foi bastante cortês. Até elogiou minha cautela. Mantive a mente barricada, fui polido, mas tenho certeza de que ele sabia que eu me sentia como um camponês que acabara de chamar um lobo para guardar as aves domésticas.

Havia apenas um conforto mínimo na situação: eu não era mais um cadete!

Capítulo Cinco

Enquanto os cadetes se encaminhavam para seus alojamentos, Regis pouco ouvia as conversas e brincadeiras. Seu rosto ardia. Seria capaz de matar Lew Alton com o maior entusiasmo.

Depois, no entanto, surgiu-lhe uma reflexão tardia de justiça. Todos ali sabiam obviamente o que ia acontecer; portanto, era evidente que se tratava de algo que ocorria de vez em quando. Apenas fora ele quem cometera o equívoco. Poderia ter sido qualquer outro.

Subitamente, Regis sentiu-se melhor. Pela primeira vez na vida, era tratado como os outros. Sem deferências. Sem atenções especiais. Ele se animou e passou a escutar o que os outros diziam.

- Onde foi criado, cadete, para não responder a seu nome?

- Fui educado em Nevarsin - respondeu Regis, o que provocou mais zombarias e risos.

- Ei, temos um monge entre nós! Vivia ocupado demais com as orações para ouvir seu nome?

- Não, era a hora do Grande Silêncio, e o sino ainda não tocara para permitir que alguém falasse!

Regis ouvia com um sorriso cordial, mas um tanto apático, o que era a melhor coisa que podia fazer. Um cadete do terceiro ano, impecável em seu uniforme verde e preto, conduziu-os a um alojamento no outro lado do pátio.

- Os cadetes do primeiro ano ficarão aqui. Alguém perguntou:

- O que aconteceu com o comandante?

O cadete do terceiro ano, no comando do grupo, disse:

- Lave direito seus ouvidos na próxima vez. Ele quebrou alguns ossos numa queda. Todos ouvimos.

Outro jovem, tomando o cuidado de não falar muito alto para que o superior não ouvisse, perguntou:

- Vamos ter de agüentar o bastardo durante toda a temporada?

- Cale essa boca! - reagiu Julian MacAran. - Lanart-Alton não é um mau sujeito. Tem um temperamento explosivo, quando alguém o provoca, mas nada parecido com o velho num acesso de raiva. De qualquer forma, podia ser pior.

Ele fez uma pausa, lançando um olhar cauteloso para o cadete do terceiro ano, que se encontrava no momento um pouco longe para ouvi-lo, antes de acrescentar:

- Lew é justo e não mete as mãos onde não é da sua conta, o que é mais do que se pode dizer sobre algumas pessoas.

- Quem vai ser o mestre-dos-cadetes? - perguntou Danilo. -Di Asturien está aposentado há anos. Ele serviu com meu avô.

Foi Damon MacAnndra quem respondeu, depois de lançar também um olhar cauteloso para o cadete superior:

- Ouvi dizer que será vocês sabem quem... o Capitão Ardais.

- Espero que você esteja enganado - disse Julian. - Fui ao arsenal ontem à noite e...

Sua voz baixou para um sussurro. Regis se encontrava muito longe para ouvir, mas os rapazes em torno de Julian reagiram com risadinhas nervosas e estridentes. Damon disse:

- Isso não é nada. Já ouviram falar de meu primo Octavien Vallonde? No ano passado...

- Calem-se! - interveio um cadete estranho, em voz bastante alta para que Regis ouvisse. - Sabem o que aconteceu com ele por falar mal de um herdeiro do Comyn. Já esqueceu que temos um no alojamento agora?

Houve um silêncio abrupto. Os cadetes se dispersaram, passaram a vaguear pelo alojamento. Para Regis, foi como um tapa na cara. Num momento eles riam e gracejavam, incluindo-o na conversa; e de repente ele se tornava um forasteiro, uma ameaça. Era ainda pior porque não entendera direito o que os outros comentavam. Ele se aproximou de Danilo, que pelo menos era um rosto familiar.

- O que acontece agora?

- Acho que esperamos que alguém nos diga. Não tive a intenção de atrair atenção para metê-lo numa encrenca, Lorde Regis.

- Você também, Dani?

Aquele Lorde Regis formal parecia um símbolo da distância que todos mantinham. Mas ele conseguiu rir e acrescentou:

- Não ouviu Lew Alton me lembrar com bastante veemência que ninguém me chamaria de Lorde Regis aqui?

Dani ofereceu-lhe um sorriso rápido e espontâneo.

- Certo.

Ele correu os olhos pelo alojamento. Era desolado, frio, desconfortável. Uma dúzia de camas de campanha, duras e estreitas, estavam dispostas em duas fileiras, ao longo das paredes. Todas já tinham sido arrumadas. Danilo apontou para a única que ainda não fora escolhida e disse:

- Descemos até aqui ontem à noite e escolhemos as camas. Acho que aquela terá de ser a sua. Pelo menos fica ao lado da minha.

Regis deu de ombros.

- Não me deixaram muita opção.

Claro que era o local menos desejável, num canto, sob uma janela alta, pela qual o vento devia entrar. Ora, não podia ser pior do que o dormitório dos estudantes em Nevarsin. Nem mais frio. O cadete do terceiro ano anunciou:

- Homens, vocês podem aproveitar o resto da manhã para arrumar suas camas e guardar as roupas. Não se permite comida no alojamento em qualquer ocasião; qualquer coisa deixada no chão será confiscada. - Ele correu os olhos pelos rapazes, esperando em silêncio suas instruções. - Os uniformes serão distribuídos amanhã. MacAnndra...

- Pois não, senhor?

- Vá ao barbeiro para cortar os cabelos; não está num curso de dança. Cabelos abaixo dos ombros são proibidos. Sua mãe podia adorar esses cachos, mas os oficiais não vão gostar.

Damon baixou a cabeça, vermelho como uma maçã.

Regis examinou a cama, que era feita de tábuas, com um colchão de palha, coberto por um pano áspero, mas limpo. Havia duas mantas grossas, de um cinza-escuro, dobradas no pé da cama. Pareciam do tipo que arranhava o corpo. Os outros rapazes arrumavam suas camas com seus próprios lençóis. Regis iniciou uma lista mental das coisas que deveria buscar nos aposentos do avô. Começava por lençóis e um travesseiro. Na cabeceira de cada cama havia uma estreita prateleira de madeira, na qual cada cadete já arrumara seus objetos de uso pessoal. Ao pé da cama havia uma tosca caixa de madeira, a tampa com marcas de faca, iniciais entrelaçadas, emblemas, os sinais de gerações de jovens irrequietos. Ocorreu a Regis que anos antes seu pai devia ter sido um cadete naquele mesmo alojamento, numa cama dura como a sua, seus pertences reduzidos, independentemente da posição ou riqueza, ao que podia guardar numa prateleira estreita. Danilo arrumou em sua prateleira um pente de madeira, uma escova para o cabelo, um copo e um prato amassados, uma caixa pequena com ornamentos de prata, da qual tirou, com reverência, a pequena estátua cristoforo do Portador dos Fardos, carregando seu peso dos pesares do mundo.

Por baixo da prateleira, havia ganchos para a espada e para a adaga. As de Danilo pareciam muito antigas. Herança de família?

Todos se encontravam ali porque seus antepassados também haviam estado, pensou Regis, com o antigo ressentimento. Jurara que nunca seguiria o caminho determinado para um herdeiro Hastur, mas agora estava ali.

O cadete-oficial circulou pelo alojamento, fazendo uma verificação final. No outro lado havia um espaço aberto, com dois pesados bancos e uma mesa de madeira bastante escalavrada. Havia ainda uma lareira aberta, mas sem fogo ardendo no momento. As janelas eram altas e estreitas, sem vidro, com venezianas de madeira, que no mau tempo eram fechadas em detrimento da claridade. O cadete-oficial avisou:

- Cada um de vocês será chamado ainda hoje para fazer um teste com um mestre-de-armas.

Ele avistou Regis, sentado na beira da cama, e foi até lá.

- Você chegou atrasado. Alguém lhe deu uma cópia do manual de armas?

- Não, senhor.

O cadete-oficial entregou-lhe um livrete velho.

- Soube que foi educado em Nevarsin; suponho que sabe ler. Alguma pergunta?

- Eu não... meu avô não... ninguém trouxe minhas coisas para cá. Posso mandar alguém buscá-las?

O rapaz mais velho respondeu, com alguma cordialidade:

- Não há ninguém aqui para ir buscar suas coisas, cadete. Amanhã, depois do jantar, terá um tempo de folga e poderá pegar o que precisar. Enquanto isso, terá de se contentar com as roupas que está usando.

Ele contemplou Regis de alto a baixo. Havia um desdém velado, imaginou Regis, pelas roupas requintadas que tivera de pôr para se apresentar ao avô naquela manhã.

- Você é a maravilha sem nome, não é mesmo? Já se lembrou do seu nome?

- Cadete Hastur, senhor - respondeu Regis, o rosto ardendo outra vez.

O cadete-oficial balançou a cabeça e murmurou, antes de se afastar:

- Muito bom, cadete.

E com toda a certeza era por isso que agiam daquela maneira, pensou Regis. Provavelmente ninguém esquecia duas vezes. Danilo, que escutara o diálogo, perguntou:

- Ninguém o avisou para trazer tudo o que precisaria na noite anterior? Foi por isso que Lorde Alton me mandou para cá mais cedo.

- Ninguém me disse nada.

Regis desejou ter perguntado a Lew, enquanto ainda podiam conversar como amigos, e não como cadete e comandante, o que precisaria no alojamento. Danilo disse, hesitante:

- Essas são as suas melhores roupas, não é? Posso lhe emprestar uma camisa comum; somos mais ou menos do mesmo tamanho.

- Obrigado, Dani. Ficarei agradecido. Este traje não é nada apropriado, não acha?

Danilo ajoelhara-se diante de seu baú de madeira. Pegou uma camisa de linho, limpa mas velha, com remendos nos cotovelos. Regis tirou a túnica de couro tingida e a camisa de rufos por baixo e vestiu a camisa remendada. Ficou um pouco grande. Danilo desculpou-se.

- E um pouco grande também para mim. Pertencia a Lew... isto é, Capitão Alton. Lorde Kennard me deu algumas roupas que não cabiam mais nele, a fim de que eu tivesse trajes decentes para o corpo de cadetes. Também me deu um bom cavalo. Tem sido muito generoso comigo.

Regis riu.

- Eu costumava usar as roupas pequenas para Lew nos anos que passei em Armida. Estava crescendo, não cabia nas roupas que trouxera, e com as vigias de incêndio, a intervalos de poucos dias, ninguém tinha tempo de me fazer novas ou de buscá-las na cidade.

Ele deu o laço no cordão no pescoço, enquanto Danilo comentava:

- E difícil imaginar você usando roupas de outro.

- Nunca me importei em usar as roupas de Lew, mas detestava usar as camisolas que não cabiam mais em minha irmã. Sua governanta ensinou-a a costurar mandando que diminuísse as camisolas para o meu tamanho. Sempre que se irritava por isso, ela me espetava com os alfinetes ao experimentar a roupa. Ela jamais gostou de costura.

Regis pensou na irmã como a vira pela última vez, os pés inchados da gravidez. Pobre Javanne. Também se encontrava acuada, sem outra perspectiva pela frente que não a de gerar crianças para a casa de Hastur.

- Algum problema, Regis?

Ele ficou surpreso com a expressão preocupada de Danilo.

- Não. Pensava em minha irmã. Não sei se sua criança já nasceu.

- Tenho certeza de que já teriam avisado se ocorresse algum problema - disse Danilo gentilmente. - O ditado antigo é de que as boas notícias rastejam, enquanto as más têm asas.

Damon MacAnndra aproximou-se.

- Já foram testados pelo mestre-de-armas?

- Não fui chamado ontem - respondeu Dani. - Como é o teste?

Damon deu de ombros.

- O mestre-de-armas entrega uma espada padronizada da Guarda e pede a você que demonstre as posições básicas de defesa. Se você não sabe em que extremidade da espada deve segurar, ele o inclui nas aulas para principiantes, e tem de praticar três horas por dia. Durante o tempo de folga, é claro. Se você conhece os elementos básicos, ele ou um de seus assistentes passa a treiná-lo. Quando subi, ontem à noite, Lorde Dyan estava assistindo. Juro que suei sangue! Banquei o idiota, escorreguei, e agora tenho de praticar todos os dias. Mas quem pode fazer alguma coisa direito com aquele homem olhando?

- Tem toda a razão - disse Julian, de sua cama, onde tentava tirar um ponto de ferrugem de sua faca. - Meu irmão me contou que ele gosta de assistir ao treinamento dos cadetes. Parece divertir-se ao vê-los nervosos, cometendo erros. É um homem mesquinho.

- Estudei esgrima em Nevarsin - informou Danilo. - Não estou preocupado com o teste do mestre-de-armas.

- Mas é bom se preocupar com Lorde Dyan. É bastante jovem, bonito...

- Cale-se! - explodiu Danilo. - Não deve falar assim sobre um lorde do Comyn.

Damon soltou uma risada.

- Eu tinha esquecido. Você não é protegido de Lorde Alton? Estranho... nunca ouvi falar que ele tinha qualquer interesse por garotos bonitos.

Danilo ficou vermelho.

- Feche essa boca nojenta! Você não é digno de sequer limpar as botas de Lorde Kennard! E se disser algo assim de novo...

- Parece que temos todo um claustro de monges por aqui. -Julian aderiu ao riso. - Recita o Credo de Castidade quando vai para a batalha, Dani?

- Não faria mal algum às suas bocas sujas se dissessem alguma coisa decente!

Danilo virou as costas aos dois e concentrou-se no manual de armas. Regis também ficara chocado com a acusação e a linguagem usada. Mas compreendeu que não se podia esperar que jovens comuns se comportassem e falassem como monges noviços, e concluiu que eles logo tornariam sua vida insuportável se deixasse transparecer qualquer sinal de aversão. Preferia manter a paz. Aquele tipo de coisa deveria ser bastante comum ali para ser uma piada.

Contudo, provocara um assassinato e quase um motim na Zona Terráquea. Seria possível que homens crescidos levassem aquelas coisas tão a sério a ponto de matar? Os terráqueos, talvez. Deviam ter costumes muito estranhos, se eram ainda mais rigorosos do que os cristoforos.

Ele recordou de repente, como uma coisa que podia ter ocorrido anos antes, que naquela manhã mesmo postara-se ao lado do jovem Lawton, na Zona Terráquea, observando a nave estelar livrar-se da gravidade do planeta, a caminho das estrelas. Perguntou-se se Dan Lawton saberia que lado da espada segurar e se por acaso se importava com isso. E Regis experimentou uma insólita sensação de que caía, de forma rápida e dolorosa, entre dois mundos.

Três anos... três anos para estudar esgrima, enquanto as naves terráqueas chegavam e partiam, bem perto, a menos de uma flecha de distância.

Seria esse tipo de percepção que o avô carregava dia e noite, a constante lembrança de dois mundos convivendo, mas com histórias, hábitos, costumes e morais violentamente opostos? Como Hastur vivia com o contraste?

O dia foi-se arrastando. Regis foi chamado, e um ordenança mediu-o, para a confecção do uniforme. Quando o sol estava alto, um oficial inferior apareceu para lhes mostrar o caminho até o refeitório, onde os cadetes comiam em mesas separadas. A comida era simples e ordinária, mas Regis já fizera refeições piores em Nevarsin, e tratou de se alimentar. Alguns cadetes, no entanto, protestaram em voz alta.

- Não é tão ruim assim - comentou Regis para Danilo, em voz baixa.

Os olhos de Danilo faiscaram de malícia.

- Talvez eles queiram que saibamos que estão acostumados a uma comida melhor... mesmo que não estejam!

Regis, consciente da camisa remendada de Danilo que vestia, refletiu que a família do rapaz devia ser muito pobre. Apesar disso, haviam-no enviado para estudar em Nevarsin.

- Pensei que você se tornaria um monge, Dani.

- Não seria possível. Sou o único filho de meu pai agora, e isso seria ilegal. Meu meio-irmão foi morto há quinze anos, antes do meu nascimento.

Ao deixarem o refeitório, ele acrescentou:

- Meu pai me ensinara a ler, a escrever e a fazer contas, para que eu pudesse um dia administrar sua propriedade. Ele está ficando velho demais para cuidar de Syrtis sozinho. Não queria que eu viesse para a Guarda, mas não podia recusar quando Lorde Alton fez uma oferta tão generosa. É por isso que detesto quando falam mal dele. Lorde Alton não é nada assim, mas um homem bom, generoso e decente!

- Tenho certeza de que ele não dá ouvidos, Dani. Lembre-se de que também vivi em sua casa. E um de seus ditados prediletos era o seguinte: se você escuta os cães latindo, vai acabar surdo sem aprender muito. O pessoal de Syrtis está sob o Domínio de Alton, Danilo?

- Não. Sempre estivemos sob a tutela de Hastur. Meu pai foi mestre-dos-falcões do seu, e meu meio-irmão foi seu guarda.

E uma coisa que Regis sempre soubera, uma história antiga que fora parte de sua infância, mas que nunca associara a pessoas vivas, aflorou de repente em sua mente; e ele indagou, muito excitado:

- Dani, seu irmão... o nome dele era Rafael-Felix Syrtis de Syrtis?

- Isso mesmo. Ele foi morto antes do meu nascimento, no mesmo ano em que Stefan IV morreu...

- E meu pai também! - exclamou Regis, experimentando uma emoção desconhecida. - Conheci a história durante toda a minha vida, sempre soube o nome de seu irmão. Dani, seu irmão era o guarda pessoal de meu pai. Foram mortos na mesma ocasião... ele morreu tentando proteger meu pai com seu corpo. Sabia que foram enterrados lado a lado, na mesma sepultura, no campo de Kilghairlie?

Regis também recordou, mas não disse, o que um velho criado lhe contara: que os dois haviam sido explodidos em fragmentos e foram sepultados juntos onde tombaram, porque nenhum homem vivo podia determinar que fragmento era de seu pai ou do irmão de Dani.

- Eu não sabia - murmurou Danilo, os olhos arregalados. Dominado por uma estranha emoção, Regis acrescentou:

- Deve ser horrível morrer assim, mas não tão horrível se seu último pensamento é proteger outra pessoa...

A voz de Danilo não era muito firme:

- Ambos se chamavam Rafael e haviam jurado lealdade um ao outro, lutaram juntos, morreram, foram sepultados na mesma cova... - Como se mal soubesse o que fazia, ele se inclinou para Regis e pegou suas mãos. - Eu gostaria de morrer assim... você também?

Regis acenou com a cabeça, incapaz de falar. Por um instante, teve a sensação de que algo o alcançara lá no íntimo, uma percepção quase dolorosa, uma emoção intensa. Era quase um contato físico, embora os dedos de Danilo pousassem apenas de leve sobre os seus. Subitamente, assustado com a força de seus sentimentos, ele largou a mão de Danilo, e o ímpeto de emoção se desvaneceu. Uma dos cadetes-oficiais se aproximou para comunicar:

- Dani, o mestre-de-armas mandou chamá-lo.

Danilo pegou sua surrada túnica de couro, vestiu-a por cima da camisa e deixou o alojamento.

Regis, lembrando que passara a noite inteira acordado, estendeu-se no colchão de palha sem lençol. Sentia-se inquieto demais para dormir, mas acabou mergulhando num cochilo instável, em que se misturavam os sons estranhos da sala da Guarda, o retinido metálico de alguém consertando um escudo na armaria, vozes de homens, muito diferentes das vozes abafadas que se ouviam no mosteiro. Meio adormecido, ele começou a ver uma seqüência de rostos, como se fosse um pesadelo: Lew Alton parecendo triste e zangado ao dizer que Regis não tinha laran, Kennard suplicando por Marius, seu avô se esforçando para não revelar exaustão ou dor. Enquanto resvalava mais fundo para o território neutro no limite do sono, Regis recordou Danilo, nos exercícios com espadas de madeira em Nevarsin. Alguém cujo rosto Regis não podia ver encontrava-se parado por trás dele, bem perto; Danilo desviou-se abruptamente, e ele ouviu, pelo sonho, uma risada áspera e estridente, parecendo o grito de um falcão. E depois teve uma súbita imagem mental de Danilo, o rosto virado para o outro lado, encolhido contra a parede, soluçando desolado. E pelos soluços do sonho, Regis percebeu uma indicação chocante de medo, repulsa e uma vergonha angustiante...

 

Alguém pôs a mão em seu ombro e o sacudiu de leve. O crepúsculo se instalara no alojamento. Danilo disse:

- Lamento acordá-lo, Regis, mas o mestre-dos-cadetes quer falar com você. Conhece o caminho?

Regis sentou, ainda um pouco atordoado do pesadelo. Por um momento, pensou que o rosto de Danilo, inclinado em sua direção na semi-escuridão, estivesse vermelho de um choro prolongado, como acontecera no sonho. Não, isso era um absurdo. Dani parecia afogueado e suado, como se tivesse corrido muito ou se exercitado de outra forma. Provavelmente haviam testado sua habilidade com a espada. Regis tentou descartar os resquícios do sonho. Foi para o banheiro de chão de pedra e molhou o rosto com a água gelada da bomba. De volta ao alojamento, vestiu sua túnica de couro por cima da camisa remendada de Dani. Viu o companheiro sentado em sua cama, com a cabeça nas mãos. Ele deve ter-se saído mal no teste e ficou transtornado por isso, concluiu Regis, e saiu sem incomodar o amigo.

Dentro da armaria, ele encontrou um cadete do segundo ano com longas listas nas mãos, outro oficial escrevendo a uma mesa e Dyan Ardais, sentado por trás de uma velha mesa roída por cupins. Como esquentara bastante durante a tarde, ele abrira a gola, e os cabelos escuros grudavam úmidos na testa larga. Levantou os olhos, e Regis sentiu que Dyan, naquele rápido instante, descobrira tudo o que queria saber a seu respeito.

- Cadete Hastur, tudo está correndo bem para você até agora?

- Está, sim, Lorde Dyan.

- Sou apenas o Capitão Ardais aqui na Guarda, Regis.

Dyan tornou a fitá-lo, de alto a baixo, numa avaliação lenta e prolongada que deixou Regis contrafeito.

- Pelo menos lhe ensinaram a se manter empertigado em Nevarsin. Devia ver a postura de alguns dos rapazes. - Dyan consultou uma lista na mesa. - Regis-Rafael Felix Alar Hastur-Elhalyn. Prefere Regis-Rafael?

- Apenas Regis, senhor.

- Como quiser. Embora me pareça lamentável deixar que o nome de Rafael Hastur se perca. É um nome honrado.

Mas que droga, pensou Regis, sei que não sou meu pai! Ele sabia que parecia brusco, quase impolido, ao dizer:

- O filho de minha irmã recebeu o nome de Rafael, Capitão. Prefiro não partilhar o nome honrado de meu pai antes de merecê-lo.

- Um objetivo admirável. Acho que todo homem quer fazer o seu próprio nome, em vez de ficar no passado. Posso compreender, Regis. - Depois de um momento, com um estranho e impulsivo sorriso, Dyan acrescentou: - Deve ser muito agradável ter a honra de um pai para acalentar, um pai que não sobreviveu a seu momento de glória. Sabia, Regis, que meu pai esteve louco durante os últimos vinte anos, incapaz até de reconhecer o rosto do filho?

Regis ouvira alguns rumores sobre o velho Kyril Ardais, que não era visto por ninguém fora do Castelo Ardais havia tanto tempo que a maioria das pessoas nos Domínios já esquecera até sua existência ou que Dyan não era Lorde Ardais, mas apenas Lorde Dyan. Abruptamente, Dyan perguntou, num tom diferente:

- Qual é sua altura?

- Um metro e setenta e oito.

As sobrancelhas se altearam numa indagação divertida.

- Já? É verdade, deve ser isso mesmo. Você bebe?

- Só ao jantar, senhor.

- Pois não comece. Há muitos jovens ébrios por aí. Apareça embriagado no serviço e será expulso, não se aceitando desculpas ou explicações. Também está proibido de jogar. Não me refiro, é claro, a apostar umas poucas moedas num jogo de cartas ou de dados, mas jogar quantias substanciais é contra os regulamentos. Já lhe deram um manual de armas? Muito bem, leia-o esta noite. Depois de amanhã será responsável por tudo o que há ali. Mais algumas coisas. Os duelos são absolutamente proibidos, e sacar uma espada ou uma faca contra outro guarda implicará a sua dispensa. Portanto, trate de se controlar, não importa o que aconteça. Não é casado, eu suponho. Já tem um casamento acertado?

- Não que eu saiba, senhor.

Dyan soltou um estranho grunhido desdenhoso.

- Pois trate de aproveitar; seu avô provavelmente vai querer casá-lo antes de o ano terminar. Deixe-me ver... O que faz em suas folgas é só da sua conta, mas não se torne falado. Há um regulamento sobre causar comentários escandalosos em decorrência de um comportamento escandaloso. Não preciso lhe dizer que todos esperam que o herdeiro de um Domínio dê o exemplo, não é mesmo?

- Não, Capitão, não precisa me dizer isso.

Regis ouvira tais exortações durante toda a sua vida e imaginava que o mesmo acontecera com Dyan. Os olhos de Dyan tornaram a se encontrar com os seus, divertidos, simpáticos.

- Não acha injusto, parente? Não ter permissão para reivindicar nenhum dos privilégios do Comyn, mas ainda assim ter de dar o exemplo, por causa do que somos. - Com outra rápida mudança de ânimo, ele voltou a ser o oficial distante. - De um modo geral, fique fora da Zona Terráquea em suas... diversões.

Regis pensou no jovem oficial terráqueo que se oferecera, antes de se despedirem, para lhe mostrar mais do espaço-porto, no momento que quisesse.

- É proibido entrar na Zona Terráquea?

- Claro que não. A proibição não se aplica ao turismo, às compras ou a comer ali, se você gosta de alimentos exóticos. Mas os costumes terráqueos diferem tanto dos nossos que se envolver com as prostitutas terráqueas, fazer qualquer avanço para elas, constitui um risco. Portanto, evite as encrencas. Para ser mais claro... supõe-se que você já é um adulto agora... se gosta de tais aventuras, procure-as no lado darkovano. Pelos infernos de Zandru, meu rapaz, não acha que já está velho demais para corar? Ou ainda não se livrou dos resquícios do mosteiro? - Dyan soltou uma risada. - Educado em Nevarsin, também não sabe nada sobre armas?

Regis ficou satisfeito pela nova mudança de assunto. Disse que recebera algumas lições, e as narinas de Dyan tremeram em desdém.

- Algum velho soldado alquebrado, ganhando umas poucas moedas para ensinar as posições básicas?

- Kennard Alton me ensinou quando eu era criança, senhor.

- Bom, vamos verificar o que você sabe. - Ele gesticulou para um dos oficiais. - Hjalmar, dê-lhe uma espada de exercício.

Hjalmar entregou a Regis uma das espadas de madeira e couro usadas no treinamento. Regis equilibrou-a na mão.

- Senhor, estou um pouco sem prática.

- Não importa - disse Hjalmar, entediado. - Veremos que tipo de treinamento você teve.

Regis ergueu sua espada em saudação. Viu Hjalmar altear uma sobrancelha, enquanto ele assumia a posição defensiva que Kennard lhe ensinara, anos antes. No momento em que Hjalmar baixou a espada, Regis percebeu o ponto fraco em sua defesa; fez uma finta, deu um passo para o lado e quase no mesmo instante tocou a coxa de Hjalmar. Reiniciaram o combate. Por um instante, não houve qualquer som além do ruído dos passos, enquanto circulavam um ao outro. Depois, Hjalmar desferiu um golpe rápido, que Regis aparou. Virou sua espada e tocou o ombro do adversário.

- Já chega. - Dyan tirou o colete e levantou-se apenas de camisa. - Dê-me sua espada, Hjalmar.

Regis compreendeu, assim que Dyan levantou a espada de madeira, que o adversário à sua frente não era um amador. Hjalmar, com toda a certeza, era usado para testar cadetes tímidos ou completamente inexperientes, talvez empunhando uma arma pela primeira vez. Dyan era muito diferente. Regis sentiu um aperto na garganta, recordando os comentários dos cadetes: Dyan gostava de ver as pessoas perturbadas, cometendo alguma estupidez.

Ele conseguiu aparar o primeiro golpe e também o segundo, mas no terceiro sua espada deslizou pela lâmina de madeira virada de Dyan, e a ponta atingiu-o nas costelas, com força. Dyan acenou com a cabeça para que ele continuasse, aparou todos os seus golpes e tornou a atingi-lo, três vezes, em rápida sucessão. Regis ficou vermelho e baixou sua espada. Sentiu a mão do homem mais velho apertar seu ombro.

- Quer dizer que está sem prática?

- E muito, Capitão.

- Pare de se gabar, chiyu. Fez-me suar, e nem mesmo o mestre-de-armas consegue me deixar assim muitas vezes. Kennard ensinou-o muito bem. Eu meio que esperava que você, com essa carinha bonita, só tivesse aprendido danças de salão. Muito bem, rapaz, pode ser dispensado das aulas regulares, mas é melhor se apresentar para exercícios todos os dias. Isto é, se pudermos encontrar alguém para treinar com você. Se não, terá de praticar comigo.

- Seria uma honra, Capitão.

Mas Regis torcia para que Dyan não cumprisse essa promessa. Alguma coisa no olhar intenso e nos elogios zombeteiros do homem mais velho fazia-o sentir-se constrangido, jovem demais. A mão de Dyan apertava seu ombro com força, de uma maneira quase dolorosa. Ele virou Regis lentamente para fitá-lo e declarou:

- Como já tem alguma habilidade com a espada, parente, talvez, se gostar da idéia, eu possa pedir que seja designado para meu assistente. Entre outras coisas, significaria que não precisaria dormir no alojamento.

Regis apressou-se em responder:

- Preferia que não, senhor. - Ele procurou uma desculpa aceitável. - Senhor, é um posto para... um cadete experiente. Se eu for designado de imediato para essa honrosa posição, vai parecer que estou me aproveitando dos meus privilégios, a fim de ser dispensado do que os outros cadetes são obrigados a fazer. Agradeço a honra, Capitão, mas acho que... não devo aceitar.

Dyan inclinou a cabeça para trás e riu. Regis teve a impressão de que a risada áspera soava um pouco como o grito de um falcão, que havia algo de pesadelo no som. Foi dominado por uma estranha sensação de déjà vu, de que aquilo já acontecera antes.

Acabou tão depressa quanto começara. Dyan soltou o ombro de Regis.

- Respeito a sua decisão, parente, e ouso dizer que tem razão. E vejo que já começa a treinar para ser um estadista. Não posso encontrar qualquer falha em sua resposta.

Outra vez a risada de falcão.

- Pode se retirar, cadete. E avise ao jovem MacAran que quero vê-lo.

Capítulo Seis

(Narrativa de Lew Alton)

O pai ficou acamado durante os primeiros dias da sessão do Conselho, e andei muito ocupado e assediado para dispor de tempo suficiente para os cadetes. Tive de comparecer às reuniões do Conselho, que naquele momento em particular trataram principalmente de alguns aspectos lamentáveis dos acordos comerciais com as Cidades Secas. Mas encontrei tempo para mandar consertar a escada, antes que alguém mais quebrasse a perna ou o pescoço. O que também constituiu um problema: precisei lidar com arquitetos e construtores, os pedreiros nos atrapalharam por vários dias, os cadetes tossiam de manhã à noite com a poeira sufocante, e os veteranos não paravam de resmungar porque tinham de dar uma volta comprida para usar a outra escada.

Muito antes que eu achasse que ele já se recuperara, o pai insistiu em retomar seu lugar no Conselho, de onde saí com a maior satisfação. Pouco depois, ele também voltou ao comando da Guarda, o braço ainda na tipóia, muito pálido e cansado. Desconfiei de que o pai partilhava um pouco da minha apreensão pelo desempenho dos cadetes naquela temporada, mas ele nada me disse. Era uma coisa que me angustiava a todo instante; ressentia-me tanto por causa de meu pai quanto por mim. Se o pai tivesse optado por confiar em Dyan Ardais, talvez eu não me sentisse tão perturbado. Mas tinha a impressão de que ele também fora compelido, e que Dyan desfrutava ter esse poder.

Alguns dias mais tarde, Gabriel Lanart-Hastur chegou de Edelweiss com a notícia de que Javanne tivera gêmeas, às quais dera os nomes de Ariel e Liriel. Com Gabriel ao seu lado, meu pai enviou-me às colinas, com a missão de instituir um novo sistema de faróis de vigia de incêndio, inspecionar os postos estabelecidos desde o tempo do meu avô e instruir o pessoal nas novas técnicas de combate ao fogo. Era o tipo de missão que exigia tato e alguma autoridade do Comyn, a fim de persuadir homens separados por rivalidades de família, às vezes perdurando há gerações, a trabalharem juntos e em paz. A trégua do fogo é a mais antiga tradição de Darkover, mas, em distritos que foram bastante afortunados para escapar aos incêndios na floresta por séculos, é difícil convencer alguém de que a trégua do fogo deve ser estendida à manutenção das estações e dos faróis.

Eu contava com a plena autoridade de meu pai, o que ajudou muito. A lei do Comyn transcende - ou se espera que transcenda -as brigas pessoais e as rivalidades de família. Levei uma dúzia de guardas, para o trabalho físico, mas era eu quem tinha de conversar, persuadir e acalmar os ânimos quando as antigas divergências escapavam ao controle. Era preciso muito tato e ponderação; também exigia conhecimento das várias famílias, de suas lealdades hereditárias, inter-casamentos e interações, durante as últimas sete ou oito gerações. Já era verão alto quando voltei a Thendara, mas sentia que realizara muita coisa. Cada providência contra a constante ameaça de incêndio na floresta em Darkover me impressiona mais do que todas as ações políticas dos últimos cem anos. É algo que ganhamos com a presença do Império Terráqueo: um grande incremento no conhecimento do combate ao fogo e um intercâmbio de informações com outros planetas de densas florestas sobre os novos métodos de vigilância e proteção.

E nas colinas o nome Comyn significava alguma coisa. Nas proximidades da Cidade Comercial, a influência da Terra erodira o hábito antigo de recorrer ao Comyn em busca de liderança. Mas nas colinas o prestígio do Comyn ainda era imenso. As pessoas não sabiam nem se importavam que eu fosse um bastardo meio-terráqueo. Era o filho de Kennard Alton, e isso era tudo o que lhes interessava. Pela primeira vez, exerci a plena autoridade de um herdeiro do Comyn.

Até acertei uma rivalidade de sangue que se prolongava por três gerações, sugerindo que o filho mais velho de uma família casasse com a filha única da outra, e a terra disputada fosse concedida a seus filhos. Só um lorde do Comyn poderia fazer essa sugestão sem se envolver na briga, mas todos aceitaram. Ao pensar nas vidas que o acordo pouparia, eu me sentia contente pela oportunidade.

Entrei em Thendara numa manhã do verão alto. Ouvira forasteiros dizerem que nosso planeta não tem verão, mas fazia três dias que não nevava, nem mesmo nas horas que antecediam o amanhecer, e isso era verão suficiente para mim. O sol se encontrava oculto pelas nuvens, mas ao descermos do desfiladeiro rompeu entre as camadas, projetando seus raios vermelhos sobre a cidade lá embaixo. Velhos e crianças reuniram-se junto aos portões para nos observar, e me descobri sorrindo. Em parte, sem dúvida, pela perspectiva de poder dormir duas noites seguidas na mesma cama. Mas em parte, também, pelo puro prazer de saber que realizara um bom trabalho. Parecia-me, pela primeira vez na vida, que aquela era a minha cidade, que estava voltando para casa. Não escolhera aquele dever - nascera com ele -, mas não acalentava tanto ressentimento.

Entrando no pátio do estábulo, avistei dois cadetes no serviço de guarda e outros saindo do refeitório. Pareciam muito mais militares, não o amontoado de meninos desajeitados do primeiro dia. Era evidente que Dyan fizera um bom trabalho. É verdade que jamais questionei sua competência, mas de qualquer forma me senti melhor. Entreguei o animal aos cavalariços e fui apresentar o relatório a meu pai.

Ele já não mais exibia as ataduras e dispensara a tipóia, mas ainda estava pálido, claudicava mais do que nunca. Usava o traje do Conselho, não o uniforme. Acenou com a mão quando comecei a apresentar o relatório.

- Não há tempo para isso agora. E tenho certeza de que você se saiu tão bem quanto eu próprio seria capaz. Temos problemas aqui. Sente-se muito cansado?

- Não muito. Qual o problema, Pai? Mais distúrbios?

- Não desta vez. Uma reunião do Conselho com o Legado Terráqueo esta manhã. Na cidade, no quartel-general terráqueo.

- Por que ele não comparece à Câmara do Conselho?

Os lordes do Comyn não podiam ir e vir pela vontade dos Terranan! Meu pai balançou a cabeça.

- Foi o próprio Hastur quem pediu a reunião. É mais importante do que você pode imaginar. É por isso que quero que faça uma coisa por mim. Precisamos de uma guarda de honra. Escolha os integrantes com todo o cuidado. Seria desastroso se a reunião se tornasse um tema de boatos na Guarda... ou em qualquer outro lugar...

- Ora, Pai, qualquer guarda seria obrigado pela honra...

- Na teoria, sim - interrompeu-me ele secamente. - Na prática, porém, alguns merecem mais confiança do que outros, e você conhece os mais jovens melhor do que eu.

Era a primeira vez que ele admitia isso. Sentira a minha falta, precisava de mim. Fiquei feliz, embora ele se limitasse a dizer:

- Escolha guardas ou cadetes ligados pelo sangue ao Comyn, se puder, ou os mais dignos de confiança. Sabe melhor quais deles têm a língua solta.

Gabriel Lanart, pensei, enquanto descia para a sala da Guarda, um parente dos Altons, casado com uma Hastur. Lerrys Ridenow, o irmão mais moço do lorde do Domínio. O velho Di Asturien, cuja lealdade era tão firme quanto as próprias fundações do Castelo Comyn. Encarreguei-o de escolher os veteranos que nos escoltariam pelas ruas - eles não entrariam na sala de reunião, e assim essa escolha não era tão crítica - e fui para os alojamentos dos cadetes.

Era o momento de folga entre o desjejum e o exercício da manhã. Os cadetes do primeiro ano arrumavam suas camas, dois deles varriam o chão e limpavam a lareira. Regis estava sentado na cama do canto, consertando uma bota. Teria sido por fraqueza ou cordialidade que deixara os outros imporem aquele lugar, por baixo da janela, onde mais ventava? Ele se levantou de um pulso, assumindo posição de sentido, quando parei ao pé da cama. Gesticulei para que ficasse à vontade.

- O comandante encarregou-me de escolher uma guarda de honra - anunciei. - É um assunto do Comyn, e creio que nem preciso dizer que nenhuma palavra do que pode ouvir deve transpirar fora da sala do Conselho. Está me entendendo, Regis?

- Estou, sim, Capitão.

Ele era formal, mas percebi curiosidade e excitamento em seu rosto. Parecia mais velho, já não tão infantil, não tão tímido. Como eu sabia da minha primeira e atormentada temporada no corpo de cadetes, uma de duas coisas acontece naqueles dias iniciais. Você cresce depressa... ou volta rastejando para casa, derrotado. Tenho pensado com freqüência que é por isso que se exige que os cadetes sirvam na Guarda por algumas temporadas. Ninguém pode prever quais deles vão sobreviver.

- Como está indo, Regis? Ele sorriu.

- Muito bem.

Regis já ia acrescentar alguma coisa quando Danilo Syrtis, coberto de poeira, saiu de sob sua cama.

- Achei! - exclamou ele. - É evidente que caiu esta manhã, quando eu...

Ele me viu, parou de falar e assumiu posição de sentido.

- Capitão!

- À vontade, cadete, mas é melhor tirar essa sujeira dos joelhos antes de sair para a inspeção. - Ele era protegido de meu pai, e sua família era leal aos Hasturs por gerações. - Você também vai integrar a guarda de honra, cadete. Ouviu o que eu disse a Regis, Dani?

Ele acenou com a cabeça, o rosto ficou vermelho, os olhos faiscaram, e disse com uma formalidade exagerada:

- Sinto-me extremamente honrado, Capitão.

Mas, nas palavras formais, captei excitamento, apreensão, curiosidade, uma satisfação inconfundível pela honra.

Inconfundível. Não era a transmissão casual de emoções que posso captar em qualquer grupo, mas um contato firme.

Laran. O rapaz tinha laran, era com certeza um telepata, provavelmente tinha um dos outros dons. Não chegava a ser uma grande surpresa. O pai me dissera que a família tinha sangue Comyn. Regis ajoelhara-se diante de seu baú, procurando o tabardo de couro do uniforme de gala. Quando Danilo já ia seguir seu exemplo, chamei-o a um lado e disse:

- Uma palavra, parente. Não agora... não há urgência... mas em outro momento, quando estiver de folga, procure meu pai, ou Lorde Dyan, se preferir, e peça para ser testado por uma leronis. Eles entenderão. Diga que fui eu quem recomendou. - Virei-me e acrescentei para os dois: - Assim que estiverem prontos, juntem-se ao pessoal da guarda de honra no portão.

Os lordes do Comyn esperavam no pátio enquanto a guarda de honra se formava. Lorde Hastur num manto azul-celeste, com o emblema do pinheiro prateado. Meu pai, dando ordens em voz baixa ao velho Di Asturien. O Príncipe Derik não estava presente. De qualquer forma, Hastur falaria por ele, como o Regente, mas Derik, aos dezesseis anos, já tinha idade suficiente e o devido interesse para comparecer a uma reunião tão importante.

Edric Ridenow se encontrava ali, o corpulento lorde de Serrais, com sua barba vermelha. Havia também uma mulher, pálida e esguia, envolta por um manto cinza um tanto fino, o capuz protegendo-a de olhos curiosos. Não a reconheci, mas não podia haver a menor dúvida de que se tratava de uma comynara; devia ser uma Aillard ou uma Elhalyn, já que apenas esses dois Domínios concedem direitos às suas mulheres, independentemente do Conselho. Dyan Ardais, no escarlate e cinza de seu Domínio, adiantou-se para seu lugar; lançou um rápido olhar para a guarda de honra, parou por um instante ao lado de Danilo e falou em voz baixa. O rapaz corou e ficou olhando fixamente para a frente. Eu já notara que Danilo se tornava vermelho como uma criança quando alguém lhe dirigia a palavra. Perguntei-me que pequeno defeito o mestre-dos-cadetes encontrara em sua aparência ou postura. Eu não percebera nenhum, mas é função do mestre-dos-cadetes notar as trivialidades.

Atraímos olhares surpresos ao atravessar as ruas de Thendara. Malditos terráqueos! Era uma afronta à dignidade do Comyn ser-mos chamados e sairmos correndo!

O Regente não parecia consciente de qualquer perda da dignidade. Avançava no meio da escolta com a energia de um homem da metade de seus anos, o rosto solene e controlado. Mesmo assim, fiquei contente quando alcançamos os portões do espaço-porto. Deixando a escolta do lado de fora, fomos conduzidos, os lordes do Comyn e a guarda de honra, para uma enorme sala no primeiro andar do quartel-general.

Como o costume determinava, entrei primeiro, a espada na mão. Em comparação com a câmara do Conselho, a sala era pequena, mas continha uma grande mesa redonda e muitas cadeiras. Havia alguns terráqueos sentados no outro lado, a maioria em alguma espécie de uniforme. Alguns usavam medalhas, e presumi que tencionavam prestar as honras devidas ao Comyn.

Uns poucos demonstraram considerável apreensão quando entrei com a espada desembainhada, mas o homem de cabelos cinzentos no meio - o que tinha mais medalhas - apressou-se em explicar:

- É o costume deles, o chefe da guarda de honra entrar com a espada na mão. Veio em nome do Regente do Comyn, oficial?

Ele falou em cahuenga, o dialeto das montanhas que se tornara uma língua comum em todo Darkover, das Hellers às Cidades Secas. Levantei a espada em saudação e respondi:

- Capitão Montray-Alton a seu serviço, senhor.

Não avistei armas visíveis em qualquer parte, concluí que não havia necessidade de uma busca adicional e tornei a guardar a espada na bainha. Chamei o resto da guarda de honra, gesticulei para que Regis tomasse uma posição por trás do lugar que seria ocupado pelo Regente, mandei Gabriel ficar na porta e depois introduzi os membros do Conselho, anunciando seus nomes, um a um.

- Danvan-Valentine, Lorde Hastur, Guardião de Elhalyn, Regente da Coroa dos Sete Domínios.

O homem de cabelos cinzentos - presumi que era o Legado Terráqueo - levantou-se e fez uma reverência. Não bastante profunda, mas mais do que eu podia esperar de um terráqueo.

- É uma honra, Lorde Regente.

- Kennard-Gwynn Alton, Lorde Alton, Comandante da Guarda da Cidade.

Ele avançou para seu lugar, claudicando.

- Lorde Dyan-Gabriel, Regente de Ardais. Independentemente dos meus sentimentos pessoais em relação

a ele, não pude deixar de admitir que Dyan era uma figura que impressionava.

- Edric, Lorde Serrais. E...

Hesitei por um instante quando a mulher de manto cinza entrou na sala, e lembrei que não sabia seu nome. Ela sorriu de forma quase imperceptível e murmurou baixinho:

- Mas que vergonha, parente! Não me reconhece? Sou Callina Aillard.

Senti-me um tolo rematado. Claro que eu a conhecia!

- Callina, Dama Aillard... - Hesitei de novo, pois não podia recordar em qual das Torres ela servia como Guardiã. Ela transmitiu a informação por telepatia, com um sorriso divertido por trás do capuz, e arrematei: - ...leronis de Neskaya.

Callina encaminhou-se com tranqüila compostura para o lugar restante. Manteve o capuz encobrindo o rosto, como era o costume para as mulheres solteiras no meio de estranhos. Constatei, com algum alívio, que o Legado fora informado do costume polido entre os darkovanos e instruíra seus homens a não fitá-la diretamente. Também mantive os olhos desviados; ela era minha parenta, mas nos encontrávamos no meio de estranhos. Só vira que ela era franzina, com um rosto solene e pálido.

Depois que todos ocuparam os lugares designados, tornei a desembainhar a espada, fiz uma saudação a Hastur, outra ao Legado, e fui postar-me atrás de meu pai. Um dos terráqueos indagou:

- Agora que tudo isso acabou, podemos tratar de negócios?

- Espere um momento, Meredith - interveio o Legado, contendo a impaciência indevida do homem. - Nobre lordes, minha dama, é uma grande honra que nos concedem. Permitam que me apresente. Meu nome é Donnell Ramsay, e tenho o privilégio de ser o Legado do Império aqui. É meu prazer dar-lhes as boas-vindas. Estes... - Ele indicou os homens ao seu lado. - ...são meus assistentes pessoais, Laurens Meredith e Reade Andrusson. Se algum de vocês não fala cahuenga, nosso homem de ligação, Daniel Lawton, terá o maior prazer em traduzir para o casta. Se pudermos servi-los por qualquer outra forma, basta pedirem. E, se assim desejar, Lorde Hastur - acrescentou ele, com uma reverência -, a reunião pode ser conduzida de acordo com o protocolo formal, na língua casta. Estamos prontos para aceitar.

Senti-me satisfeito por verificar que ele conhecia os rudimentos da cortesia. Hastur disse:

- Com sua concordância, senhor, dispensaremos o tradutor, a menos que surja algum mal-entendido que ele possa esclarecer. Mas é claro que ele pode permanecer.

O jovem Lawton fez uma reverência. Tinha cabelos vermelhos flamejantes e a aparência do Comyn. Lembrei a informação de que sua mãe fora uma mulher do clã de Ardais. Perguntei-me se Dyan conhecia aquele seu parente e o que pensava a respeito. Era estranho imaginar que o jovem Lawton podia muito bem ser um integrante da guarda de honra. Meus pensamentos divagavam, e tratei de controlá-los enquanto Hastur começava a falar:

- Vim até aqui, Legado, a fim de pedir sua atenção para uma grave violação da Aliança em Darkover. Chegou ao meu conhecimento que, nas montanhas perto de Aldaran, está sendo vendida abertamente uma ampla variedade de armas contrabandeadas. Não apenas dentro dos limites da Cidade Comercial, onde o acordo entre nós permite que seus cidadãos portem as armas que quiserem, mas também na cidade velha de Caer Donn há terráqueos circulando pelas ruas com pistolas de raios e neurais. Também fui informado de que é possível adquirir essas armas naquela cidade e de que já foram vendidas, em diversas ocasiões, a cidadãos darkovanos. Meu informante adquiriu uma dessas armas sem qualquer dificuldade. Creio que não preciso lembrá-lo de que isso constitui uma grave violação da Aliança.

Tive de recorrer a todo o meu autocontrole para manter o rosto impassível apropriado a uma guarda de honra, cujo modelo perfeito é um soldado de brinquedo esculpido, que não ouve nem vê. Será que os terráqueos ousariam até mesmo violar a Aliança?

Compreendi agora por que meu pai queria ter certeza de que nada transpiraria do teor da reunião. Desde a Era do Caos, a Aliança Darkovana banira qualquer arma que tivesse alcance superior ao da mão do homem que a empunhava. Era uma lei fundamental: o homem que matasse devia também se expor à morte. A notícia de que a Aliança vinha sendo violada representaria um tremendo abalo em Darkover, criaria distúrbios e desconfiança pública, afetaria a confiança da população em seus governantes.

O rosto do Legado nada deixou transparecer, mas alguma coisa, uma contração ínfima dos olhos e da boca, me indicou que aquilo não era novidade para ele.

- Não é da nossa conta impor o cumprimento da Aliança em Darkover, Lorde Hastur. A política do Império é manter uma posição de absoluta neutralidade em relação às disputas locais. Nossas operações em Caer Donn e na Cidade Comercial que ali existe são com Lorde Kermiac de Aldaran. Foi-nos deixado bem claro que o Comyn não tem jurisdição sobre as montanhas próximas de Aldaran. Fui mal informado? O território de Aldaran está sujeito às leis do Comyn, Lorde Hastur?

Hastur respondeu num tom incisivo:

- Aldaran não é um Domínio do Comyn há muitos anos, sr. Ramsay. Mesmo assim, a Aliança não pode ser considerada uma decisão local. Embora Aldaran não esteja sob a nossa lei...

- Foi o que imaginei, senhor - disse o Legado. - Portanto...

- Desculpe-me, sr. Ramsay, mas ainda não acabei.

Hastur estava irritado. Eu tentava manter a mente defendida, como faz qualquer telepata na presença de tantas pessoas, mas não podia excluir tudo. O rosto calmo de Hastur não se alterou em nada, mas sua raiva era como o brilho distante de um incêndio na floresta, contra o horizonte. Ainda não constituía um perigo, mas já era uma ameaça distante. Ele continuou a falar:

- Corrija-me se eu estiver errado, sr. Ramsay, mas não é verdade que quando o Império negociou que Darkover seria incluído na Classe D, Mundo Fechado... - A linguagem técnica soava estranha em sua língua, e ele dava a impressão de que a falava com aversão. -

...que uma das condições para o uso e arrendamento do espaçoporto e para a conversão de Porto Chicago, Caer Donn e Thendara em Cidades Comerciais foi o absoluto respeito à Aliança fora dos seus limites e um controle total sobre o contrabando de armas? Com base nesse acordo, pode declarar com toda a sinceridade que não é da sua conta impor o cumprimento da Aliança em Darkover, senhor?

- Nós assim agimos nos Domínios do Comyn e sob a Lei do Comyn, Lorde Hastur, com um considerável esforço e despesa de nossa parte. Preciso lembrá-lo de que um dos nossos homens foi ameaçado de assassinato, há pouco tempo, porque estava sem armas e indefeso numa sociedade que espera que todo homem lute e se defenda?

Dyan Ardais interveio, em tom ríspido:

- O episódio que menciona foi desnecessário. Cabe ressaltar que o homem ameaçado de assassinato já assassinara um dos nossos Guardas, numa discussão tão trivial que um menino darkovano de doze anos se envergonharia de achar que era mais do que uma piada. Depois, esse assassino terráqueo escondeu-se por trás de seu notório estado de desarmado... - Nem mesmo um terráqueo podia deixar de perceber o escárnio. - ...para recusar um desafio legal pelo irmão do guarda assassinado. Se os seus homens escolhem sair desarmados, senhor, tornam-se os únicos responsáveis por seus atos.

Reade Andrusson protestou:

- Eles não escolhem sair desarmados, Lorde Ardais. Somos obrigados pela Aliança a privá-los das armas a que estão acostumados.

- Pelas nossas leis, eles podem carregar quaisquer armas éticas que escolherem - insistiu Dyan. - Não podem se queixar de que estão desarmados quando são eles próprios que preferem assim.

Fitando Dyan com um ar pensativo, o Legado disse:

- Nossos homens andam desarmados, Lorde Ardais, em obediência às nossas leis. Temos uma posição firme, refletida nas leis, contra retalhar pessoas com espadas e facas.

- Está alegando, senhor, que de alguma forma um homem fica menos morto se é alvejado de uma distância segura, sem derramamento de sangue visível? - indagou Hastur, veemente. - A morte é mais pura quando parte de um assassino que se mantém fora do alcance de sua própria morte?

Mesmo em meio a minhas barreiras, sua angústia era tão violenta, tão palpável, que parecia um longo gemido de desespero; eu sabia que ele pensava no próprio filho, explodido em fragmentos por armas contrabandeadas, morto por um homem cujo rosto nunca vira! Era tão intenso o grito de agonia que vi Danilo, impassível por trás de Lorde Edric, estremecer e contrair os punhos nos lados do corpo, deixando as articulações esbranquiçadas; meu pai ficou pálido e abalado; a boca de Regis se contraiu, e ele piscou várias vezes. Não dava para imaginar como os terráqueos ignoravam tamanho sofrimento. Mas a voz de Hastur continuou firme, sem trair coisa alguma para os alienígenas:

- Proibimos essas armas de covarde para garantir que qualquer homem que matasse alguém visse o sangue de sua vítima correr e assumisse o risco de perder a própria vida, se não nas mãos de sua vítima, então pelas mãos da família ou de amigos da vítima.

O Legado respondeu:

- Esse assunto já foi definido há bastante tempo, Lorde Regente, mas devo lembrá-los de que nos dispusemos a processar nosso homem por matar um dos seus guardas. Não podíamos, porém, expô-lo aos desafios dos parentes do morto, um depois de outro, ainda mais quando era mais do que evidente que fora o guarda quem provocara o conflito original.

- Qualquer homem que encontrasse provocação numa ocorrência tão trivial devia ser mesmo desafiado - declarou Dyan -, mas os terráqueos escondem-se por trás de suas leis e renunciam à sua responsabilidade pessoal! Assassinato é uma questão particular, e nada tem a ver com as leis!

O Legado contemplou-o com o que poderia ser uma aversão franca, se fosse um pouco menos controlado.

- Nossas leis são feitas por acordo e consenso, e, quer as aprove ou não, Lorde Ardais, não serão alteradas para fazer com que um assassinato seja uma questão de vendeta particular e duelos individuais. Mas não é isso o que está em discussão aqui.

Tive de admirar seu controle, a maneira firme pela qual interrompeu Dyan. Minhas barreiras, já enfraquecidas pela intensidade da angústia de Hastur, estavam agora reduzidas a quase nada; pude sentir o desdém de Dyan como uma risada escarninha audível.

Consegui recompor um pouco as barreiras, enquanto Hastur tornava a silenciar Dyan, lembrando-lhe que o incidente já fora resolvido.

- Não foi resolvido, mas abafado - protestou Dyan, desdenhoso.

Mas Hastur conteve-o com firmeza, insistindo em que havia uma questão mais importante a ser resolvida. Quando tornei a prestar atenção à conversa, o Legado estava dizendo:

- Lorde Hastur, a questão é ética, não legal. Cumprimos as leis do Comyn dentro de sua jurisdição. Em Caer Donn e nas Hellers, onde as leis são feitas por Lorde Aldaran, cumprimos as leis que ele determina. Se Lorde Aldaran não se dá o trabalho de respeitar a Aliança que vocês tanto prezam, não é da nossa contar policiar o cumprimento por ele... nem por vocês.

Callina Aillard interveio, em voz calma e incisiva:

- Sr. Ramsay, a Aliança não é absolutamente uma lei, em seu sentido. Creio que nenhum de nós compreende direito o que outro quer dizer ao falar em lei. A Aliança tem sido a base ética da história e da cultura de Darkover há centenas de anos; nem Kermiac de Aldaran nem qualquer outro homem em nosso planeta tem o direito de ignorá-la ou desobedecer a ela.

- Deve discutir esse problema direito cora Aldaran, minha dama - disse Ramsay. - Ele não é um súdito do Império, não tenho qualquer autoridade sobre sua pessoa. Se querem que ele mantenha a Aliança, terão de obrigá-lo diretamente.

Edric Ridenow falou pela primeira vez:

- É sua responsabilidade, Ramsay, cumprir o acordo com o nosso mundo. Tenciona se esquivar a esse dever com evasivas?

- Não me esquivo a qualquer responsabilidade dentro do âmbito de meus deveres, Lorde Serrais, mas não tenho a menor obrigação de resolver suas divergências com Aldaran. Parece-me que seria usurpar a responsabilidade do Comyn.

Dyan tornou a abrir a boca, mas Hastur gesticulou para que ele se mantivesse calado.

- Não precisa me ensinar quais são minhas responsabilidades, sr. Ramsay. O acordo do Império com Darkover, com a conseqüente abertura do espaço-porto, foi celebrado com o Comyn, não com Kermiac de Aldaran. Uma das condições foi o cumprimento da Aliança; e tencionamos impô-lo, não apenas nos Domínios, mas em todo Darkover. Detesto recorrer a ameaças, senhor, mas, se insiste em seu direito de violar nosso acordo, tenho autoridade para fechar o espaço-porto até o momento em que tudo venha a ser resolvido.

- Isso não é razoável, senhor - disse o Legado. - Declarou que a Aliança não é uma lei, mas sim uma preferência ética. Também detesto recorrer a ameaças, mas, se assumir esse curso, tenho certeza de que minhas próximas ordens do Centro Administrativo seriam para negociar um novo acordo com Kermiac de Aldaran e transferir o quartel-general do Império para a Cidade Comercial de Caer Donn, onde não precisaremos nos preocupar com os escrúpulos do Comyn.

- Afirmou que está proibido de tomar partido nas decisões políticas locais - comentou Hastur, amargurado. - Compreende que essa atitude lançaria toda a força do Império contra a própria existência da Aliança?

- Não me deixa alternativa, senhor.

- Não sabe que isso acarretaria a guerra? Não uma guerra promovida pelo Comyn, mas seria inevitável com o abandono da Aliança. Há muito tempo que não temos guerras aqui. Pequenas escaramuças apenas. O respeito à Aliança tem mantido os combates dentro de limites admissíveis. Quer a responsabilidade por desencadear um tipo de guerra diferente?

- Claro que não. - Ramsay não era telepata, por isso suas emoções eram meio indefinidas, mas deu para perceber que se sentia angustiado. Essa reação me fez simpatizar com ele, pelo menos um pouco. - Quem poderia querer?

- Contudo, esconde-se por trás de suas leis, ordens e superiores, e deixa nosso mundo mergulhar na guerra outra vez? Tivemos a nossa Era do Caos, Ramsay, que foi encerrada pela Aliança. Isso nada significa para você?

O terráqueo fitou Hastur nos olhos. Captei uma insólita imagem mental, projetada por alguém na sala, de que eram como duas torres enormes se enfrentando, o Castelo Comyn e o quartel-general terráqueo, fitando-se através do vale, gigantescas figuras blindadas, prontas para o combate singular. A imagem perdeu o foco, desapareceu, eram apenas dois velhos, ambos poderosos, ambos dominados por uma integridade obstinada, cada um fazendo o melhor por seu lado. Ramsay respondeu:

- Significa muito para mim, Lorde Hastur. Devo ser franco. Se houvesse aqui uma guerra de grandes proporções, as Cidades Comerciais teriam de ser fechadas, no cumprimento de nossa lei contra a interferência. Não quero transferir o espaço-porto para Caer Donn. A primeira instalação foi ali, há muitos anos. Quando o Comyn nos ofereceu este lugar, mais conveniente, na planície de Thendara, ficamos satisfeitos por abandonar as operações em Caer Donn, exceto pelo comércio e por um movimento restrito de transporte. A localização em Thendara tem sido de benefício mútuo. Se formos obrigados a voltar a Caer Donn, teríamos de reformular todo o tráfego, reconstruir nosso quartel-general nas montanhas, onde o clima é mais desfavorável para os terráqueos, e, acima de tudo, depender de estradas inadequadas e de uma região inóspita. Não quero isso, e faremos qualquer coisa razoável para evitá-lo.

- Sr. Ramsay, não exerce o comando sobre todos os terráqueos em Darkover? - perguntou Dyan.

- A informação não é precisa, Lorde Dyan. Sou um legado, não um ditador. Minha autoridade é principalmente sobre o pessoal do espaço-porto, e apenas em questões que, por um motivo ou outro, transcendam a competência de seus departamentos de pessoal específicos. Minha principal função é manter a ordem na Cidade Comercial. Além disso, tenho a autorização da Administração Central para tratar com os cidadãos darkovanos, por intermédio de seus governantes constituídos. Não tenho autoridade sobre qualquer cidadão darkovano, exceto por uns poucos empregados civis que aceitaram trabalhar para nós, nem sobre qualquer cidadão do Império que venha aqui para fazer negócios, a não ser para determinar se sua atividade é legítima num mundo da Classe D. Posso também interferir se a operação perturbar a paz entre Darkover e o Império. Mas, a menos que alguém me solicite, não tenho autoridade fora da Cidade Comercial.

Parecia complicado demais. Como o Império conseguia efetuar suas operações? Meu pai ainda não dissera nada; então levantou a cabeça e disse bruscamente:

- Pois não estamos solicitando sua interferência. Esses cidadãos do Império que vendem pistolas de raios no mercado de Caer Donn não estão fazendo um negócio legítimo para um Mundo Fechado da Classe D. Sabe disso tão bem quanto eu. Cabe a você tomar uma providência, e tem de agir agora. Isso se inclui em suas responsabilidades.

- Se a violação fosse cometida aqui em Thendara, Lorde Alton, eu agiria com o maior prazer. Mas não posso fazer nada em Caer Donn se Lorde Kermiac de Aldaran não apresentar uma solicitação.

Meu pai ficou furioso, uma raiva intensa que poderia deixar o Legado inconsciente, se ele não fizesse um grande esforço para controlá-la.

- Sempre a mesma história antiga da Terra... a transferência de responsabilidade. Vocês são como crianças naquele jogo das castanhas quentes, jogando-as de um para outro e tentando não se queimar. Passei oito anos na Terra e nunca encontrei nenhum homem que me fitasse nos olhos e dissesse: "Isto é responsabilidade minha, e a aceitarei, quaisquer que sejam as conseqüências".

Ramsay parecia consternado.

- Está querendo dizer que é responsabilidade do Império... ou minha... policiar seus sistemas éticos?

- Sempre achei que o comportamento ético era uma responsabilidade de todos os homens honestos - comentou Callina, a voz serena e incisiva.

Hastur acrescentou:

- Uma de nossas leis fundamentais, senhor, qualquer que seja a definição de lei, é a de que o poder de agir confere a responsabilidade de agir. Ocorre o contrário com os terráqueos?

O Legado apoiou o queixo nas mãos cruzadas.

- Posso admirar essa filosofia, Lorde Regente, mas devo respeitosamente me recusar a debatê-la. Estou preocupado neste momento em evitar grandes inconveniências para as nossas sociedades. Investigarei um pouco mais o assunto para determinar o que pode ser feito, dentro da lei, sem interferir nas suas decisões políticas. E, se me permite uma sugestão respeitosa, acho que deve conversar a respeito com Kermiac de Aldaran. Talvez possa persuadi-lo a aceitar sua posição, e ele assuma o encargo de acabar com o tráfico de armas nas áreas em que é a suprema autoridade legal.

A sugestão me deixou chocado. Negociar com aquele Domínio renegado, exilado do Comyn há gerações? Mas ninguém parecia tão chocado quanto eu com a sugestão.

- Claro que vamos discutir o problema com Lorde Aldaran, senhor - declarou Hastur. - E, como se recusa a assumir a responsabilidade social pelo cumprimento do acordo por todo Darkover, talvez eu leve o assunto ao Supremo Tribunal do Império. Se for decidido ali que o acordo com Darkover inclui o cumprimento da Aliança em todo o planeta, sr. Ramsay, tenho a sua garantia de que vai fazer a sua parte?

Especulei se o Legado percebia o desdém absoluto na voz de Hastur pelo fato de um homem precisar receber ordens de uma autoridade suprema para impor o comportamento ético. Quase me envergonhei do meu sangue terráqueo. Mas, se Ramsay notou o desprezo, nada revelou.

- Se eu receber ordens nesse sentido, Lorde Hastur, pode ter certeza de que as cumprirei com rigor. E permita-me dizer que não ficaria insatisfeito se recebesse tais ordens.

Mais algumas palavras foram trocadas, quase todas cortesias formais. Mas a reunião fora encerrada, e tive de controlar meus pensamentos, reunir a guarda de honra, conduzir os membros do Conselho para fora do quartel-general e do espaço-porto, ao longo das ruas de Thendara. Podia sentir os pensamentos de meu pai, como sempre acontecia quando estávamos próximos.

Ele pensava que, sem dúvida, lhe caberia a missão de ir a Aldaran. Kermiac o receberia, pelo menos como parente de minha mãe. E senti um cansaço extremo, como dor, no pensamento. Aquela viagem as Hellers era terrível, mesmo no alto verão; e o verão já se aproximava do fim. O pai refletia que não poderia esquivar-se ao seu dever. Hastur era velho demais. Dyan não era um diplomata, tentaria resolver o problema desafiando Kermiac para um duelo. Mas quem mais havia? Os rapazes Ridenow ainda eram muito inexperientes...

Pareceu-me, enquanto seguia meu pai pelas ruas de Thendara, que quase todos no Comyn eram velhos demais ou jovens demais. O que aconteceria com os Domínios?

Seria mais fácil se eu estivesse absolutamente convencido de que os terráqueos eram os culpados por todo o mal, que deveríamos enfrentá-los. Contra a minha vontade, porém, descobria que havia alguma sensatez no que Ramsay dissera. Leis rigorosas, sem poder demais concentrado em um único par de mãos, pareciam-me uma forte barreira contra o tipo de corrupção com que nos defrontávamos agora. E uma determinada lei básica a que se pudesse recorrer quando os homens não merecessem confiança. Os homens, como eu comprovara quando o comando dos cadetes fora entregue a Dyan, eram falíveis com muita freqüência, agindo por conveniência e não pela honra de que tanto falavam. Ramsay podia hesitar em agir sem ordens, mas pelo menos agia com base na responsabilidade de homens e de leis que julgava mais sábios do que ele. E havia também um controle do poder, pois ele sabia que, se agisse por sua própria iniciativa e responsabilidade, contra a vontade de cabeças mais sensatas, seria afastado antes de poder causar muitos danos. Mas quem poderia controlar o poder de Dyan? Ou o de meu pai? Eles tinham o poder de agir, e assim contavam com o direito de fazê-lo.

E quem podia questionar seus motivos ou dar um basta a seus atos?

Capítulo Sete

O dia permaneceu claro e sem nuvens. Ao pôr-do-sol, Regis saiu para a varanda alta, de onde se descortinava toda a cidade e o espaço-porto. O sol poente transformava a cidade lá embaixo num padrão reluzente de paredes vermelhas e janelas facetadas. Danilo comentou:

- Parece a cidade mágica dos contos de fadas.

- Não há nada de mágico aqui - disse Regis. - Foi o que aprendemos esta manhã, na guarda de honra. Lá está a nave que decola todos os dias a esta hora. É muito pequena para ser uma nave estelar. Para onde será que vai?

- Talvez Porto Chicago ou Caer Donn. Deve ser estranho ter de enviar mensagens a outras pessoas por escrito, em vez de usar as mentes ligadas, como fazemos, por meio das Torres. E deve ser ainda mais estranho nunca saber o que as outras pessoas estão pensando.

É isso mesmo, pensou Regis. Dani era um telepata. Subitamente, ele compreendeu que estivera em contato com Dani várias vezes, e parecera tão normal que nenhum dos dois reconhecera como telepatia. Hoje, diante do Conselho, fora diferente, muito diferente. Ele devia ter laran, no final das contas... mas como e quando, depois da tentativa fracassada de Lew?

E foi então que as indagações e dúvidas ressurgiram. Havia muitos telepatas presentes, irradiando laran em todas as direções, até mesmo um não-telepata poderia ter captado. Não significava coisa alguma. Regis sentiu-se angustiado, em parte esperando desesperado que não mais ficasse isolado, em parte temendo que isso continuasse a acontecer.

Ele tornou a contemplar a cidade. Era a hora de folga, em que um cadete podia ir aonde quisesse, desde que não estivesse de serviço ou sob alguma punição. A manhã e a primeira parte da tarde eram consumidas em treinamentos, de esgrima e combate desarmado, nos diversos conhecimentos militares de que mais tarde precisariam, como guardas, na cidade e nos campos. Ao final da tarde, cada cadete tinha de cumprir deveres especiais. Danilo, que tinha a melhor letra entre todos os cadetes, fora designado para ajudante do oficial de suprimentos. Regis tinha a missão relativamente subalterna de sair em patrulha pela cidade, com um ou dois veteranos experientes, a fim de manter a ordem nas ruas, prevenir brigas, desencorajar os ladrões. Descobrira que gostava desse serviço, apreciava a própria idéia de manter a ordem na cidade do Comyn.

A vida no corpo de cadetes não era insuportável, como ele receara. Não se importava com a cama dura, com a comida ordinária, com as contínuas exigências a seu tempo. A disciplina em Nevarsin era ainda mais rigorosa, e a vida no alojamento era fácil, em comparação. O que mais o perturbava era sempre se encontrar cercado por outros e ainda assim permanecer solitário, isolado por um abismo que não era capaz de transpor.

Desde o primeiro dia, ele e Danilo se haviam unido, a princípio por acaso, já que suas camas eram lado a lado, e nenhum dos dois tinha outro amigo no alojamento. Os oficiais logo passaram a juntar os dois nos serviços que precisavam de duplas, como a faxina do alojamento, na qual os cadetes se revezavam; e como Danilo e Regis eram mais ou menos da mesma altura e peso, também eram unidos nos treinamentos de combate desarmado. No grupo do primeiro ano, eram chamados com jovialidade, embora num tom um pouco desdenhoso, de "irmãos de clausura", porque falavam casta por opção, em vez de cahuenga, como os monges de Nevarsin.

A princípio, passavam muito do tempo de folga também juntos. Não demorou muito, porém, para Regis notar que Danilo procurava cada vez menos a sua companhia e se perguntar se fizera alguma coisa que ofendera o amigo. Depois, por acaso, ouvira um cadete do segundo ano dar os parabéns a Danilo, em tom de escárnio, por sua esperteza em escolher um amigo. Alguma coisa na expressão de Danilo lhe revelara que não era a primeira vez que se fazia essa zombaria. Regis sentira vontade de fazer algo, defender Danilo, agredir o outro cadete, qualquer coisa. Pensando melhor, compreendera que tal atitude seria ainda mais embaraçosa para Danilo e daria uma impressão completamente falsa. Nenhuma zombaria, ele concluíra, poderia deixar Danilo mais magoado. O rapaz era pobre, sem dúvida, mas a família Syrtis era antiga e honrada, nunca precisara adular para obter favores e vantagens. Desde esse dia, Regis passara a tomar iniciativa das aberturas... o que não era fácil, pois era tímido e tinha um medo angustiante de rejeição. Tentara deixar bem claro, pelo menos para o amigo, que era ele quem procurava a companhia de Danilo, sentia a maior satisfação em sua amizade. Hoje, fora ele quem sugerira que subissem à varanda no alto do Castelo Comyn, de onde poderiam avistar a cidade e o espaço-porto.

O sol começava a mergulhar no horizonte agora, e o crepúsculo espalhou-se pelo céu. Danilo disse:

- É melhor voltarmos para o alojamento.

Regis relutava em deixar o silêncio ali, a sensação de paz, mas sabia que Danilo tinha razão. Num súbito impulso, ele confidenciou:

- Dani, quero lhe contar uma coisa. Depois de passar os três anos na Guarda... tenho de fazê-lo, foi uma promessa... pretendo partir para outro mundo. Ir para o espaço. Ingressar no Império.

Dani ficou espantado.

- Porquê?

Regis abriu a boca para apresentar seus motivos, mas se descobriu de repente sem saber o que dizer. Por quê? Não sabia direito. Exceto que era um mundo estranho e diferente, com o excitamento do desconhecido. Um mundo que não o lembraria, a cada momento, de que nascera privado de sua herança, sem laran. Mas depois de hoje...

O pensamento era perturbador. Se, na verdade, ele tinha laran, então não havia mais motivos. Ainda assim, não queria renunciar ao sonho. Não podia expressar em palavras, mas era evidente que Danilo não esperava nenhuma.

- Você é um Hastur, Regis. Acha que vão deixá-lo partir?

- Tenho a promessa de meu avô de que não vai se opor, se eu ainda quiser partir depois de três anos.

Ele se descobriu pensando, com uma pontada de angústia, que nunca permitiriam sua partida se tivesse mesmo laran. A antiga atração pelo desconhecido tornou a dominá-lo; estremeceu ao decidir que não deixaria os outros saberem. Danilo sorriu, hesitante, e disse:

- Quase o invejo. Se meu pai não fosse tão velho ou se tivesse outro filho para cuidar dele, eu iria com você. Seria maravilhoso se pudéssemos partir juntos.

Regis sorriu também. Não podia encontrar palavras para exprimir o prazer que aquelas palavras lhe proporcionaram. Mas Danilo acrescentou, pesaroso:

- Ele precisa de mim, porém. Não posso deixá-lo enquanto estiver vivo. E de qualquer maneira... - Danilo soltou uma risada curta. - ...por tudo o que ouvi falar, nosso mundo é melhor do que o deles.

- Ainda assim, deve haver coisas que podemos aprender. Kennard Alton foi para a Terra e passou anos ali.

- É verdade, mas apesar disso ele voltou. - Danilo olhou o sol. - Vamos nos atrasar. Não quero ter nenhum demérito; é melhor nos apressarmos.

Estava escuro no poço da escada que descia entre as torres do castelo, e nenhum dos dois avistou um homem alto descendo pela escada no outro lado, até que todos colidiram, de forma um tanto brusca, lá embaixo. O outro homem se recuperou primeiro, pegou Regis pelo cotovelo e torceu seu braço de leve. Estava muito escuro para ver, mas Regis sentiu, pelo contato, a presença de Lew Alton. A experiência era tão nova, um autêntico choque, que ele piscou aturdido, não foi capaz de se mover por um momento.

- E agora, se estivéssemos na sala da Guarda, eu o jogaria no chão, só para ensinar o que deve fazer quando é surpreendido no escuro - disse Lew, em tom jovial. - Não sabe que se deve manter sempre alerta, Regis, até mesmo nas folgas?

Regis ainda se encontrava muito abalado e surpreso para falar. Lew largou seu braço e indagou, com súbita consternação:

- Eu o machuquei, Regis?

- Não... mas...

Ele se descobriu outra vez incapaz de falar, por causa de sua agitação. Não vira Lew. Não ouvira sua voz. Ele apenas o tocara, no escuro, e fora mais claro do que ver e ouvir. Por alguma razão, isso lhe incutia uma ansiedade quase insuportável, que não podia compreender.

Lew sentiu a aflição que ele experimentava. Virou-se para Danilo e perguntou, muito cordial:

- E você, Dani, já aprendeu a andar atento para evitar que alguém o surpreenda por trás e o derrube?

- Já, sim - respondeu Danilo, rindo. - Gabriel... o Capitão Lanart-Hastur... tentou me surpreender ontem. Mas consegui bloqueá-Io, e ele não foi capaz de me derrubar. Apenas me ensinou o golpe que usara.

Lew também riu.

- Gabriel é o melhor lutador da Guarda. Tive de aprender da maneira mais dura. Fiquei com equimoses por todo o corpo. Cada oficial achava que eu era o mais fácil de derrubar. Depois que tive o braço deslocado... por um acidente... - A impressão de Regis foi a de que ele ia dizer outra coisa. - ...Gabriel sentiu pena de mim e me ensinou alguns dos seus segredos. De modo geral, no entanto, eu preferia me manter fora do alcance dos oficiais. Aos quatorze anos, era menor do que você, Dani.

A angústia de Regis já se desvanecera um pouco, e ele comentou:

- Só que não é tão fácil assim manter-se a distância.

- Sei disso - concordou Lew. - Creio que eles devem ter bons motivos. É um treinamento eficiente, mantém o cadete alerta durante todo o tempo. Senti-me grato por isso mais tarde, quando comecei a sair em patrulhas e precisava enfrentar bêbados corpulentos e brigões com o dobro do meu tamanho. Mas podem estar certos de que não gostei do aprendizado. Lembro que o pai me disse uma ocasião que era melhor ser machucado um pouco por um amigo do que ser gravemente ferido, algum dia, por um inimigo.

- Não me importo de ficar machucado - declarou Danilo, e Regis compreendeu, com sua nova e insuportável percepção, que sua voz tremia, como se ele estivesse prestes a chorar. - Fiquei com o corpo todo machucado quando aprendia a montar. Dá para suportar. Mas não gosto quando... quando alguém acha que é engraçado me ver sofrer uma queda. Não me importei quando Lerrys Ridenow me agarrou ontem e me jogou pela metade da escada, porque ele disse que aquele era o lugar mais perigoso para ser atacado e que eu deveria sempre me manter prevenido num local assim. Não me importo quando tentam me ensinar alguma coisa. É para isso que estou aqui. Mas, de vez em quando, alguém parece gostar... de me machucar ou de me assustar.

Haviam deixado a escada agora, caminhavam ao longo de uma colunata aberta; Regis podia ver o rosto de Lew, que exibia uma expressão sombria.

- Sei que isso acontece - disse ele. - E também não compreendo. Nunca fui capaz de entender por que algumas pessoas pensam que transformar um rapaz num homem significa convertê-lo num bruto. Se estivéssemos na sala da Guarda, eu me sentiria compelido a jogar Regis a três metros de distância e acho que não seria mais gentil do que qualquer outro oficial. Mas também não gosto de machucar pessoas quando não há necessidade. Creio que o mestre-dos-cadetes me julgaria vergonhosamente relapso em meus deveres. Não contem nada a ele, está bem?

Lew sorriu de repente, pôs a mão no ombro de Danilo por um momento e apertou de leve.

- E agora vocês dois devem se apressar, pois já estão atrasados. Ele entrou num corredor à direita e se afastou. Os dois cadetes

seguiram em frente, apressados. Regis refletiu que nunca imaginara que Lew se sentia assim. Deviam ter sido duros com ele, Dyan em particular. Mas como ele sabia disso?

- Gostaria de que todos os oficiais fossem como Lew - comentou Danilo. - Você não preferia também que ele fosse o mestre-dos-cadetes?

Regis acenou com a cabeça.

- Mas não creio que Lew quisesse ser o mestre-dos-cadetes. E pelo que ouvi dizer, Dyan dá muita importância à honra e à responsabilidade. Ouviu-o falar no Conselho.

Danilo fez uma careta.

- De qualquer forma, você não precisa se preocupar. Lorde Dyan gosta de você. Todo mundo sabe disso.

- Está com inveja? - indagou Regis, jovial.

- Você é do Comyn, merece um tratamento especial.

As palavras constituíam um súbito e doloroso lembrete da distância entre os dois, uma distância que Regis quase deixara de sentir. E o magoaram.

- Não seja tolo, Dani. Refere-se ao fato de ele me usar como parceiro no treinamento com a espada? É uma honra que eu trocaria com você com o maior prazer! Se pensa que recebo dele afagos de afeto, dê uma olhada em meu corpo nu um dia desses... terei o maior prazer em lhe mostrar as marcas dos afagos de afeto de Dyan!

Ele estava completamente despreparado para o rubor intenso que se espalhou pelo rosto de Danilo, a raiva repentina e intensa que o fez virar para confrontar Regis.

- O que está querendo insinuar com esse comentário?

Regis ficou aturdido.

- Apenas que o treinamento de espada com Lorde Dyan é uma honra que eu dispensaria com a maior satisfação. Ele é muito mais rigoroso do que o mestre-de-armas e bate com muito mais força! Olhe para as minhas costelas e vai verificar que estou todo roxo, dos ombros aos joelhos! O que pensou que eu quis insinuar?

Danilo virou-se, sem responder. Limitou-se a dizer:

- Estamos atrasados. É melhor corrermos.

Regis passou as primeiras horas da noite era patrulha nas ruas da cidade, junto com Hjalmar, o jovem e gigantesco guarda que fora o primeiro a testar seus conhecimentos de esgrima. Apartaram dois homens brigando, levaram um bêbado desordeiro para a cadeia, orientaram meia dúzia de camponeses perdidos para a estalagem em que haviam deixado seus cavalos e gentilmente lembraram a umas poucas mulheres vagueando que as meretrizes eram obrigadas por lei a permanecer apenas em determinados distritos. Uma noite tranqüila em Thendara. Ao voltar à sala da Guarda para entrar de folga, encontraram Gabriel Lanart e meia dúzia de oficiais, que planejavam visitar uma pequena taverna, perto dos portões. Regis já ia retirar-se para o alojamento quando Gabriel o deteve.

- Venha conosco, irmão. Deve ver mais da cidade do que é possível pela janela do alojamento.

Assim convidado, Regis saiu com os homens mais velhos. A taverna era pequena e enfumaçada, repleta de guardas de folga. Regis sentou ao lado de Gabriel, que se deu o trabalho de lhe ensinar o jogo de cartas que realizavam. Era a primeira vez que Regis se encontrava na companhia dos oficiais mais velhos. Permaneceu em silêncio durante a maior parte do tempo, escutando muito mais do que falava, mas era agradável ser aceito naquela companhia.

Lembrou-se, apenas um pouco, dos verões que passara em Armida. Nunca ocorrera a Kennard, a Lew ou ao velho Andres tratar o garoto solene e precoce como uma criança. Essa aceitação prematura entre homens mais velhos o deixara em descompasso, provavelmente para sempre, ele refletiu agora, com remota tristeza, com os rapazes de sua idade. Agora, porém - e o conhecimento era como se um peso fosse removido de seus ombros -, sabia que se sentia à vontade entre homens. Era como se respirasse livre pela primeira vez desde que o avô o pressionara, com apenas uns poucos minutos de preparativo, a ingressar no corpo de cadetes.

- Está muito quieto, parente - comentou Gabriel, enquanto voltavam, juntos. - Bebeu demais? É melhor dormir um pouco. Amanhã já estará recuperado.

Ele desejou boa-noite em tom cordial e foi para seu alojamento. O oficial de serviço no turno da noite declarou:

- Chegou com alguns minutos de atraso, cadete. Como é a sua primeira violação, não vou incluí-lo no relatório desta vez. Mas não faça isso de novo. As luzes já foram apagadas no alojamento do primeiro ano; terá de se despir no escuro.

Regis seguiu para o alojamento, os passos um tanto trôpegos. Gabriel tinha razão, pensou ele, surpreso e não de todo insatisfeito, bebera demais. Não estava acostumado a beber qualquer coisa e naquela noite tomara vários copos de vinho. Ao tirar as roupas, ao luar, compreendeu que se sentia confuso e desfocado. Refletiu, com uma estranha vaguidão, que fora um dia significativo, mas ainda não sabia o que tudo representava. O Conselho. A descoberta um tanto chocante de que fizera contato com a mente do avô e de que reconhecera Lew pelo contato, sem o ver nem ouvir. A inesperada meia-discussão com Danilo. Aumentava a confusão que sentia e que era mais do que mera embriaguez. Especulou se haviam posto kirian em seu vinho, ouviu-se rir alto ao pensamento e depois mergulhou num sono irrequieto, dominado por pesadelos.

...Voltara a Nevarsin, ao frio dormitório dos estudantes, onde no inverno a neve entrava pelas persianas de madeira e se acumulava nas camas dos noviços. No sonho, como acontecera de fato uma ou outra vez, dois ou três estudantes deitavam na mesma cama, partilhando mantas e o calor do corpo contra o frio intenso, para serem descobertos pela manhã e severamente censurados por violarem a regra inflexível. Era um sonho recorrente; cada vez, ele deparava com algum estranho corpo nu em seus braços e despertava na mais profunda perturbação, com uma mistura de medo e culpa. E sempre que acordava desse sonho repetido, ficava ainda mais transtornado, até que acabou escapando para um reino do sono mais profundo e escuro. Parecia agora que se encontrava em companhia do pai, agachado numa encosta vazia, no escuro, com fogos alaranjados explodindo ao seu redor. Tremia de medo, enquanto homens caíam mortos em torno, cada vez mais perto, sabendo que dentro de poucos momentos também seria explodido em fragmentos por um daqueles fogos em erupção. Foi então que sentiu alguém se aproximar, no escuro, envolvendo-o, protegendo seu corpo com o dele. Regis tornou a despertar, sobressaltado, tremendo todo. Esfregou os olhos, contemplou o alojamento silencioso, iluminado apenas pelo luar, divisou as formas vagas dos outros cadetes, roncando ou murmurando no sono. Nada daquilo era real, pensou ele, e arriou de novo no colchão duro.

Logo recomeçou a sonhar. Desta vez vagueava por uma paisagem cinzenta indefinida, em que nada havia para ver. Alguém chorava em algum lugar dos espaços cinzentos, um choro desesperado, soluços longos e angustiados. Regis se virava a todo instante, sem ter certeza a princípio se procurava a fonte do choro ou se tentava escapar do som aflitivo. Palavras trêmulas soaram entre os soluços: Não vou, não quero, não posso. E sempre que o choro se atenuava por um momento, havia uma voz cruel, uma voz quase familiar, dizendo: Vai, sim, sabe que não pode lutar contra mim, e outras vezes: Pode me odiar tanto quanto quiser, gosto mais assim. Regis se contorcia de medo. E de repente ficou sozinho com o choro, os pequenos soluços inarticulados, de protesto e súplica. Continuou a procurar, pela paisagem cinzenta solitária, até que uma mão o tocou no escuro, procurando, rude e indecente, meio dolorosa, meio excitante. Ele gritou "Não!" e tornou a fugir para o sono mais profundo.

E sonhou que se encontrava no pátio dos estudantes em Nevarsin, praticando com espadas de madeira. Podia ouvir o som de sua própria respiração, ofegante, dobrada e multiplicada na vasta câmara ressonante, enquanto um adversário sem rosto se deslocava à sua frente, em movimentos rápidos e insistentes. Regis percebeu de repente que ambos estavam nus, e os golpes acertavam em seu corpo exposto. Enquanto o oponente sem rosto se movia cada vez mais depressa, Regis foi ficando quase paralisado, incapaz de levantar sua espada. E foi nesse instante que uma voz retumbante proibiu-os de continuar. Regis largou sua espada e olhou o capuz escuro do monge aterrador. Mas não era o mestre-dos-noviços do mosteiro de Nevarsin, mas Dyan Ardais. Enquanto Regis se mantinha paralisado pelo medo, Dyan pegou a espada no chão, que deixara de ser de madeira, era agora um florete afiado. Estendendo-a, enquanto Regis olhava com pavor e horror, Dyan cravou-a em seu peito. Curiosamente, ela penetrou sem que Regis sentisse qualquer dor. Ele olhou para baixo, num medo trêmulo, viu a espada atravessar todo o seu corpo. "Isso aconteceu porque não atingiu o coração", explicou Dyan. Regis despertou com um grito ofegante e sentou na cama.

- Por Zandru, que pesadelo! - murmurou ele, removendo o suor da testa.

Constatou que seu coração ainda batia forte e depois que as coxas e as cobertas estavam úmidas e pegajosas. Agora que se achava desperto e sabia o que acontecera, podia quase rir do absurdo do sonho, mas ainda o angustiava de tal forma que não podia deitar e voltar a dormir.

Reinava o silêncio no alojamento, faltando mais de uma hora para o dia amanhecer. Ele não se sentia mais bêbado ou atordoado, mas tinha uma dor latejante por trás dos olhos.

Pouco a pouco, percebeu que Danilo chorava na cama ao lado, um choro desolado, desesperado, de irremediável angústia. Regis recordou o choro no sonho. Ouvira o som, incluíra-o em seu pesadelo?

E de repente, com espanto, compreendeu que Danilo não estava chorando.

Podia ver, ao luar difuso, que Danilo se mantinha imóvel, num sono profundo. Ouviu sua respiração suave e regular, verificou que os ombros se mexiam gentilmente com a respiração. O choro não era de fato um som, mas uma espécie de padrão intangível de vibrações de angústia e desespero, como o menino perdido chorando em seu sonho, mas sem qualquer som.

Regis cobriu os olhos com as mãos, no escuro, e pensou, com crescente perplexidade, que não ouvira o choro, mas sabia que ocorrera.

Era verdade, portanto. Laran. Não captado ao acaso de outro telepata, mas seu.

O choque de tal pensamento expulsou todo o resto de sua mente. Como surgira? Quando? E a formulação da pergunta trouxe também a resposta: naquele primeiro dia no alojamento, quando Dani o tocara. Sonhara sobre a conversa à noite, sonhara por um instante que ele era seu pai. E outra vez sentiu aquele ímpeto de intimidade, de emoção tão intensa que o deixou com um aperto na garganta. Danilo dormia serenamente agora, até mesmo a impressão telepática de choro silencioso se desvanecera. Regis ficou preocupado e perturbado com a repercussão do sofrimento do amigo, imaginando qual seria o problema.

Apressou-se em bloquear a curiosidade. Lew dissera que tinha de se aprender a manter alguma distância, a fim de sobreviver. Era um pensamento triste e estranho. Não podia espionar a privacidade do amigo, mas ainda se encontrava à beira das lágrimas pela percepção do sofrimento de Dani. Já o sentira, naquele dia mesmo, ao conversarem com Lew. Alguém o machucara, o maltratara?

Ou apenas Danilo se sentia solitário, com saudade de casa, querendo voltar para a família? Regis sabia muito pouco a seu respeito.

Recordou seus primeiros dias em Nevarsin. Com frio e solitário, angustiado, sem amigos, odiando sua família por enviá-lo para aquele kigar, apenas um resquício forte do orgulho Hastur o impedira de chorar até dormir, todas as noites, por um longo tempo.

Por algum motivo, esse pensamento tornou a incutir-lhe um quase insuportável senso de ansiedade, de medo, de inquietação. Olhou para Danilo, desejou que pudessem conversar a respeito. Dani já passara por isso; saberia de tudo. Regis concluiu que teria de contar a alguém muito em breve. Mas a quem? Seu avô? A súbita descoberta de seu laran o deixara estranhamente vulnerável, abalado por sucessivas ondas de emoção; mais uma vez, chegou à beira das lágrimas, agora pelo avô, revivendo o instante lancinante de angústia pela morte terrível do filho.

E, ainda vulnerável, ele passou do desespero à rebelião. Tinha certeza de que o avô o obrigaria a seguir a trilha determinada para um herdeiro Hastur com laran. Nunca seria livre! Viu outra vez a enorme nave decolando para as estrelas, e todo o seu coração, o corpo, a mente empenhavam-se em segui-la para o desconhecido. Se acalentava esse sonho, nunca poderia contar ao avô.

Mas podia partilhar com Dani. Ansiou com toda a intensidade em transpor o curto espaço entre suas camas, partilhar com ele aquela incrível experiência dupla de pesar e tremenda alegria. Mas se conteve, recordando com estranha lucidez imperativa o que Lew dissera; era como viver sem sua pele. Como podia impor o fardo de suas próprias emoções a Dani, que já se achava onerado por um pesar desconhecido, tão perturbado e angustiado que as lágrimas não derramadas se infiltravam até nos sonhos de Regis, como um som de choro? Se devia ter o dom telepático, refletiu Regis, com tristeza, então precisava aprender a viver pelas regras de um telepata. Percebeu que sentia frio e cãibras, e tornou a meter-se sob as cobertas. Aconchegou-se, solitário e triste. Sentiu-se outra vez desfocado, vagueando numa busca ansiosa, mas em resposta à sua mente inquisitiva divisou apenas cenas frágeis na imaginação, homens e estranhos não-humanos lutando ao longo de uma estreita platibanda rochosa; os rostos de duas crianças pequenas alvas e delicadas, arruinando no sono, e depois frias na morte, com uma angústia quase horrível demais para se suportar; vultos dançando, girando, como folhas sopradas pelo vento, num êxtase inebriado; uma forma enorme, cada vez mais alta, ardendo em chamas...

Exausto de tantas emoções, ele voltou a mergulhar no sono.

Capítulo Oito

(Narrativa de Lew Alton)

Há duas teorias sobre a Noite do Festival, o grande feriado do solstício do verão nos Domínios. Alguns dizem que é o aniversário da Abençoada Cassilda, a mãe do Comyn. Outros dizem que comemora a época do ano em que ela encontrou Hastur, Filho de Aldones, Senhor da Luz, dormindo na praia de Hali, depois de sua jornada desde os reinos da Luz. Como não acredito que qualquer dos dois jamais existiu, não tenho preferência emocional sobre nenhuma teoria.

Meu pai, que na juventude viajou pelo Império, contou-me que cada planeta que visitou, e a maioria dos que não visitou, possui um festival no solstício do verão e outro no solstício do inverno. Não somos exceção. Nos Domínios, há duas celebrações tradicionais no Festival do verão; uma é a celebração particular da família, em que as mulheres ganham presentes, em geral frutas ou flores, em nome de Cassilda.

No início da manhã, levei algumas flores para minha irmã-de-adoção, Linnell Aillard, em homenagem ao dia, e ela me lembrou da outra celebração, o grande baile do Festival, realizado todos os anos no Castelo Comyn.

Jamais gostei dessas comemorações de massa, nem mesmo quando era jovem demais para o baile e participava apenas da festa das crianças à tarde; detestei desde a primeira vez, aos sete anos de idade, quando Lerrys Ridenow me bateu na cabeça com um cavalo de pau.

Só que a minha ausência seria inconcebível. Meu pai deixara bem claro que o comparecimento era um dos deveres inevitáveis de um herdeiro do Comyn. Quando comentei para Linnell que pensava em desenvolver uma doença bastante grave para não ir ou trocar de serviço com um dos oficiais da Guarda, ela ficou contrariada.

- Se você não for, quem vai dançar comigo?

Linnell é muito jovem para dançar nessas festas, a não ser com parentes. Desde que começou a ter permissão para comparecer, sempre sou lembrado de que só a minha presença evitará que ela seja obrigada a passar todo o baile assistindo do balcão. Meu pai, é claro, conta com a excelente desculpa do problema na perna.

Resolvi comparecer, dançar algumas vezes com Linnell, ser cortês com algumas damas idosas e depois promover uma saída discreta, tão depressa quanto a polidez permitisse.

Cheguei tarde, pois estivera de serviço na Guarda, onde ouvira os cadetes conversarem o tempo todo sobre o baile. Não os podia culpar por isso. Todos os guardas, independentemente do posto, e todos os cadetes que não estão de serviço têm o privilégio de participar. Para os jovens criados em comunidades distantes, imagino que seja um espetáculo emocionante. Senti-me mais relutante do que nunca em comparecer depois que Marius entrou em meu quarto enquanto me vestia. Ele fora levado à festa das crianças, passara mal de tanto comer doces, tinha um olho roxo e os nós dos dedos esfolados, de uma briga com algum menino arrogante, parente distante dos Elhalyns, que o chamara de bastardo terráqueo. Já fui chamado de coisas piores no passado, e foi o que expliquei, mas não tinha como confortá-lo. Já me sentia disposto a chutar a canela de todo mundo quando desci. Era um terrível começo para a noite.

Como era costumeiro, as primeiras danças foram exibições de profissionais ou amadores talentosos. Quando cheguei, um grupo de dançarinos, com os trajes típicos das montanhas distantes, apresentava uma dança tradicional, com muita saia girando e botas batendo no chão. Já vira danças melhores, pouco tempo antes, durante minha viagem pelos contrafortes. Talvez nenhum profissional fosse capaz de proporcionar às danças das montanhas a alegria autêntica e o excitamento das pessoas que as dançam por puro prazer.

Fui andando devagar pela beira do salão. Meu pai estava sendo polido com algumas damas idosas, à beira do salão. O velho Hastur fazia a mesma coisa com um grupo de terráqueos, provavelmente convidados por razões políticas ou cerimoniais. Os guardas, em particular os jovens cadetes, já haviam descoberto o elegante bufê, estendendo-se ao longo de uma parede, e sempre reabastecido por uma tropa de servos. A noite ainda começando, eles eram quase os únicos ali. Não pude deixar de sorrir, recordando meus tempos. Não sou mais obrigado a partilhar o refeitório dos homens, mas lembrava com bastante nitidez meus tempos de cadete para saber como parecia maravilhosa a abundância de iguarias depois do que passa por jantar nos alojamentos.

Danilo se encontrava ali, no uniforme de gala. Um pouco constrangido, ele me desejou um alegre Festival. Retribuí a saudação e indaguei:

- Onde está Regis? Não o vejo em parte alguma.

- Ele foi escalado para o serviço esta noite, senhor. Ofereci-me para trocar... todos os parentes dele estão aqui... mas Regis disse que teria muitos anos para aproveitar e que seria melhor eu me divertir agora.

Perguntei-me que oficial, por maldade ou para enfatizar que nem mesmo um Hastur podia esperar favores no corpo de cadetes, providenciara para que Regis Hastur ficasse de serviço na Noite do Festival; e desejei ter uma desculpa tão boa para não vir.

- Pois então trate de se divertir, Dani.

Os músicos ocultos começaram a tocar uma dança da espada, e Danilo virou-se ansioso para observar dois guardas se adiantarem com tochas, para pôr as espadas nos lugares devidos. As luzes do salão foram abaixadas para realçar a qualidade antiga e bárbara dessa que é a mais antiga das danças tradicionais das montanhas. É em geral apresentada por um dos maiores dançarinos de Thendara; para minha surpresa, foi Dyan Ardais quem se apresentou, usando o traje bárbaro de cores brilhantes, cuja história se perdeu antes da Era do Caos.

Não há muitos amadores, nem mesmo nas Hellers, que ainda conheçam todos os passos tradicionais. Eu já vira Dyan se exibir na dança da espada, quando era pequeno, em Armida, no salão de meu pai. Achei que fora melhor ali, ao som de uma única gaita de foles, ao clarão do fogo na lareira, e apenas uma ou outra tocha, do que naquele salão de baile requintado, cercado por damas em trajes luxuosos, nobres entediados e habitantes da cidade.

Mas até mesmo as damas e os nobres ficaram em silêncio, impressionados com a estranha solenidade da dança antiga. E com a performance de Dyan, pois não posso negar o crédito que ele merece. Por uma vez, ele parecia grave, austero, sem o cinismo irreverente que eu tanto detestava, absorvido por completo nos passos tensos, delicados e complexos. A dança mostra intensa virilidade, quase selvagem, e Dyan acrescentou uma espécie de violência contida. Ao segurar as espadas no movimento final, erguendo-as acima da cabeça, não havia qualquer som em todo o salão. Porque ficara impressionado contra a minha vontade, tentei deliberadamente quebrar o encantamento e disse em voz alta a Danilo:

- Quem será que ele vai fascinar desta vez? É uma pena que Dyan seja indiferente às mulheres; depois dessa dança, ele poderia conquistar qualquer uma.

Descobri-me com pena de qualquer mulher - ou qualquer homem, diga-se de passagem - que se permitisse ficar encantada com Dyan. Torcia para que Danilo, para o seu próprio bem, não fosse um deles. É muito natural que os rapazes dessa idade experimentem intensa atração por qualquer caráter forte, e um mestre-dos-cadetes é um alvo natural dessa identificação romântica. Se o homem mais velho é honrado e gentil, não resulta dano algum, e tudo se desgasta em pouco tempo. Há muito que já deixei para trás essas fixações infantis; e, embora me tenha tornado o alvo uma ou outra vez, cuidei para que não fosse além de umas poucas trocas de sorrisos.

Bom, eu não era o guardião de Danilo, e já me fora determinado que Dyan se encontrava além do meu alcance. Ainda por cima, já tinha minhas próprias preocupações.

Dyan se aproximava do bufê; vi-o parar para tomar um copo de vinho, conversando com os guardas ali, dando uma demonstração de afabilidade. Ficamos frente a frente por um instante. Tendo decidido que, se houvesse alguma descortesia entre o Comyn, não seria uma iniciativa minha, fiz um comentário breve e polido sobre a dança. Ele respondeu com uma cortesia igualmente insossa, os olhos se desviando além do meu ombro. Especulei para quem ele olhava e recebi em troca - devia ter baixado as barreiras por um instante -um ímpeto de raiva intensa e violenta. Talvez, depois desta noite, esse bastardo intrometido se ocupe com seus próprios problemas e tenha menos tempo para interferir nos meus!

Fiz uma rápida reverência e me afastei para a dança prometida a Linnell. A pista se enchia depressa de dançarinos. Peguei Linnell pelas pontas dos dedos e levei-a para lá.

Linnell é uma linda criança, com cabelos ruivo-castanhos lisos, os olhos azuis emoldurados por pestanas tão compridas e escuras que parecem irreais. Era muito mais bonita, pensei, do que sua parenta Callina, tão austera e severa na reunião do Conselho no dia anterior.

O Domínio de Aillard é o único em que o laran e o lugar no Conselho não são transmitidos pela linha masculina, mas sim pela feminina; os homens não têm permissão para exercer os plenos direitos do Domínio no Conselho. A última comynara na linha direta fora Cleindori, também a última das Guardiãs treinada na tradição antiga, enclausurada e virginal. Ainda muito jovem, ela deixara a Torre, rebelara-se contra as superstições que envolviam os círculos de matriz e as Guardiãs em particular, tomara um consorte, em desafio à tradição e à crença, e gerara uma criança, enquanto continuava a usar os poderes que aprendera. Fora assassinada de forma horrível por fanáticos, que achavam que a virgindade de uma Guardiã era mais importante do que sua competência ou seus poderes. Mas ela rompera o molde antigo, contestara as superstições e criara uma nova visão científica para o que é agora chamado de mecânica da matriz. Durante anos, seu nome fora abominado, como o de uma renegada. Agora, sua memória era reverenciada por todos os técnicos psíquicos em Darkover.

Mas ela não deixara filhas. A antiga linhagem Aillard finalmente desaparecera, e Callina Lindir-Aillard, uma parenta distante de meu pai e do chefe masculino do Domínio de Aillard, fora escolhida para comynara, como a sucessora feminina mais próxima. Linnell fora a Armida para se tornar filha-de-adoção de meu pai, sendo criada como minha irmã.

Era hábil dançarina, e gostei de dançar com ela. Tenho pouco interesse pelos atavios femininos, mas Linnell me ensinara as cortesias de tais coisas, por isso fiz elogios polidos a seu vestido e ornamentos. Quando a dança terminou, levei-a para o lado e perguntei-lhe se achava que eu deveria convidar Callina para dançar; Callina também, pelo costume do Comyn para as mulheres solteiras, estava restrita a dançar com parentes, exceto nos bailes de máscaras.

- Não sei se Callina vai querer dançar - respondeu Linnell. -Ela é muito tímida. Mas você deve convidá-la. Tenho certeza de que ela lhe dirá, se não quiser. Ei, lá está Javanne Hastur! Todas as ocasiões em que a vi, nos últimos nove anos, ao que parece, ela estava grávida. Mas é muito bonita, não acha?

Javanne dançava com Gabriel. Tinha as faces rosadas e dava a impressão de que se divertia muito. Creio que qualquer jovem matrona ficaria feliz, depois de gerar quatro crianças a intervalos mínimos, por se entrosar de novo na sociedade. Javanne era muito alta e magra, uma jovem morena num requintado vestido verde e dourado. Não a julgava tão bonita assim, mas não se podia negar que era atraente.

Aproximei-me de Callina, junto com Linnell, mas meu pai me abordou antes que pudesse falar com ela.

- Venha comigo, Lew - disse ele, num tom que eu aprendera a considerar, por mais polida que fosse a frase, como uma ordem. -Deve cumprimentar Javanne.

Isso me surpreendeu. Javanne? Ela jamais gostara de mim nem mesmo quando freqüentávamos as mesmas festas infantis. Uma ocasião fôramos ambos punidos, imparcialmente, por nos engalfinhar numa briga de chutes e arranhões, por volta dos sete anos de idade. Mais tarde, por volta dos onze anos, ela se recusara a dançar comigo, dizendo de uma forma rude que eu sempre pisava em seus pés. É bem provável que isso acontecesse de fato, mas eu já era bastante telepata para saber que não era esse o seu verdadeiro motivo.

- Pai - protestei, com a maior paciência -, tenho certeza de que Dama Javanne pode dispensar quaisquer cumprimentos da minha parte.

Será que ele perdera o juízo?

- E Lew prometeu dançar comigo outra vez - acrescentou Linnell, insinuante.

Meu pai fez um afago no rosto de Linnell e assegurou que haveria tempo suficiente para outras danças, lançando-me um olhar que não admitia nenhuma protelação, a menos que eu o quisesse desafiar abertamente e fazer uma cena.

Javanne estava no meio de um grupo de mulheres mais jovens, tomando um copo de vinho. A voz de meu pai parecia mais incisiva do que o habitual ao me apresentar.

- Eu lhe desejo um alegre Festival, parente - disse ela, com uma reverência cortês.

Parente! É verdade que Gabriel e eu éramos muito amigos; talvez Javanne tivesse sabido pelo marido e pelo irmão que, no final das contas, eu não era um escândalo tão grande. Pelo menos, para variar, ela me tratou como se eu fosse um ser humano. Chamou uma das moças que a cercavam e disse:

- Desejo apresentar-lhe uma jovem parenta sua, Lew, Linnea Storn-Lanart.

Ela era muito jovem, não devia ser mais velha do que Linnell, os cabelos avermelhados caindo em cachos em torno do rosto no formato de coração. Os Storns eram da antiga nobreza das montanhas, de uma região próxima de Aldaran, e ao longo dos anos haviam se casado com Lanarts e Leyniers. O que uma donzela tão jovem fazia sozinha em Thendara?

Linnea, embora parecesse bastante recatada, ergueu os olhos para meu rosto com franca curiosidade. As moças das montanhas - eu soubera disso por intermédio de meu pai - não seguiam os costumes exagerados das terras baixas, onde um olhar direto para um estranho é impudente; por isso, as moças das montanhas muitas vezes são consideradas ousadas demais nos Domínios. Ela me fitou direito por um momento, sorrindo, depois percebeu que Javanne a observava, ficou vermelha e apressou-se em baixar os olhos para os pés. Deduzi que Javanne lhe dera aulas sobre as maneiras apropriadas nos Domínios, e ela não queria ser julgada uma camponesa.

Senti-me desorientado, sem saber o que dizer a ela. Era minha parenta ou pelo menos fora apresentada como tal, embora o relacionamento não pudesse ser muito próximo. Talvez fosse esse o problema - Javanne desejava passar seu tempo dançando, sem ter de cuidar de uma parenta jovem demais para dançar com estranhos.

- Quer me dar a honra de uma dança, damisela?

Ela lançou um olhar rápido para Javanne, solicitando permissão, depois acenou com a cabeça. Levei-a para a pista. Era uma boa dançarina e parecia gostar, mas tive de me perguntar por que meu pai se dera o trabalho de facilitar a vida de Javanne. E por que me fitara de uma maneira tão insistente quando nos encaminháramos para a pista de dança? E por que a apresentara como uma parenta, quando o relacionamento devia ser distante demais para ser registrado oficialmente? Ao terminar a música, ainda me sentia perplexo, e resolvi perguntar, de forma um tanto brusca:

- Por que tudo isso?

Esquecendo as instruções meticulosas em boas maneiras, ela respondeu de imediato:

- Não lhe contaram? Pois a mim explicaram tudo!

Um súbito rubor tornou a se espalhar por seu rosto. Deixava-a muito bonita, mas eu não me encontrava no ânimo para apreciar.

- Explicaram o quê?

Suas faces pareciam estandartes escarlates. Ela balbuciou:

- Disseram que... que deveríamos olhar um ao outro... e nos conhecer... e se... gostássemos um do outro, então um... casamento seria...

Meu rosto devia denunciar o que eu pensava, pois ela parou de falar, deixando a frase inacabada.

Que se danassem todos! Tentavam controlar minha vida mais uma vez!

Os olhos cinza da moça estavam arregalados, a boca infantil tremia. Apressei-me em controlar minha raiva, erguer as barreiras. Era óbvio que se tratava de uma pessoa muito sensível, possuía pelo menos empatia, talvez fosse uma telepata. Torci, desolado, para que ela não chorasse. Não era culpa sua. Podia imaginar como seus pais haviam-na persuadido ou pressionado, como ela própria se deixara seduzir pela atração de um bom casamento com o herdeiro do Domínio.

- E o que lhe disseram a meu respeito, Linnea? Ela parecia confusa.

- Apenas que é filho de Lorde Alton, que serviu na Torre de Arilinn, que sua mãe era terráquea...

- E acha que pode suportar essa desgraça?

- Desgraça? - Sua perplexidade aumentou. - Muitas pessoas nas Hellers têm sangue terráqueo; há terráqueos em minha família. Acha que é uma desgraça?

O que alguém de sua idade podia saber sobre esse tipo de intriga da corte? Senti-me revoltado, recordando o olhar exultante de Dyan. Ocupado com seus próprios problemas... Era evidente que ele soubera do que estava para acontecer.

- Damisela, não tenho intenção de casar, e, se o fizer, não permitirei que o Conselho me escolha uma esposa. - Tentei sorrir, mas desconfio de que foi mais uma careta sinistra. - Não fique tão desolada, chiya. Uma donzela tão bonita quanto você logo encontrará um marido que saberá apreciá-la melhor.

- Também não tenho nenhum desejo específico de casar - declarou ela, recuperando o controle. - Tencionava solicitar admissão em uma das Torres; minha bisavó foi treinada como Guardiã e achou que eu era capacitada. Mas sempre obedeci à minha família e não ficaria descontente se me escolhessem um marido. Só lamento não ter sido capaz de agradá-lo.

Ela se mostrava tão calma que me senti acuado, quase frenético.

- Não vou dizer que me desagrada, Linnea. Acontece apenas que não tenciono casar por decisão deles.

Minha ira tornou a aflorar; e a senti estremecer ao contato. Sua mão ainda pousava de leve em meu braço, ocorrera durante a dança; ela a retirou, como se se tivesse queimado. Minha vontade era afastar-me, furioso, e cheguei a fazer menção, mas compreendi, bem a tempo, que seria uma atitude infame. Abandonar uma moça no meio de uma pista de dança era uma grosseria que nenhum homem de boa criação jamais cometeria contra uma moça de boas maneiras e reputação incontestável. Não a podia expor a comentários, pois seria inevitável que todos especulassem que coisa horrível ela teria feito para merecer tal tratamento. Olhei ao redor. Javanne dançava no outro lado do salão, por isso conduzi Linnea na direção do bufê. Ofereci-lhe um copo de vinho, que ela recusou, balançando a cabeça. Em vez disso, servi-lhe um copo de shallan e permaneci ao seu lado, irritado, tomando goles de vinho, uma bebida de que não gostava. Assim que me acalmei um pouco, propus uma solução:

- Nada é irremediável até agora. Pode dizer a quem a envolveu nisso... meu pai, o velho Hastur, qualquer outro... pode dizer que não gostou de mim, e será o fim de tudo.

Ela sorriu, com um brilho divertido nos olhos.

- Mas gosto de você, Dom Lewis. Não mentiria a respeito, mesmo que achasse que seria capaz. Lorde Kennard saberia no mesmo instante se eu tentasse mentir. Sente-se zangado e infeliz, mas creio que seria muito simpático se não estivesse tão furioso. Até que ficaria contente com tal casamento. Se deseja recusar, Lew, deve assumir a iniciativa pela recusa.

Se ela fosse menos jovem, menos ingênua, eu poderia dizer-lhe que era de esperar que protestasse antes de renunciar a um casamento no Comyn. Mas tenho certeza de que ela captou o pensamento, pois exibiu uma expressão angustiada. Tratei de excluir seus pensamentos e declarei, incisivo:

- Uma mulher deve ter o privilégio da recusa. Pensei em poupá-la da ofensa de me ouvir dizer a meu pai que não...

Descobri nesse instante que não podia dizer expressamente que não gostava dela. Tratei de me corrigir, acrescentando:

- Que não tenciono casar por ordem sua. A compostura de Linnea era inquietante.

- Ninguém casa por sua livre e espontânea vontade. Acha mesmo que um casamento entre nós seria insuportável, Lew? É evidente que mais cedo ou mais tarde arranjarão um casamento para você.

Hesitei por um instante. Ela era sem dúvida sensitiva e inteligente; fora cogitada para o treinamento na Torre, o que significava que tinha laran. Meu pai, com toda a certeza, empenhara-se ao máximo para encontrar uma mulher que me fosse aceitável, uma mulher com sangue terráqueo, capaz da fusão emocional e mental que um telepata deve ter era qualquer mulher que conheça na intimidade. Ela era bonita. Não tinha a mente vazia de uma boneca, demonstrava espírito e equilíbrio. Refleti sobre tudo isso. Teria de casar mais cedo ou mais tarde, sempre soubera disso. Um herdeiro do Comyn deve gerar filhos. E, os Deuses sabiam, sentia-me solitário, muito solitário...

E meu pai contara justamente com essa reação! A raiva tornou a prevalecer.

- Damisela, já lhe expliquei por que não serei parte de nenhum casamento arranjado assim. Se prefere acreditar que a rejeitei pessoalmente, o problema é seu.

Tomei o último gole de vinho em meu copo e larguei-o na mesa do bufê.

- Agora, permita-me que a leve até minhas parentas, já que Ja-vanne se encontra muito ocupada.

Javanne dançava outra vez. Pois que ela se divertisse. Casara aos quinze anos de idade e passara os últimos nove anos cumprindo o seu dever para a família. Não me pegariam nessa armadilha!

Gabriel reclamara uma dança de Linnell - o que me deixou contente -, mas Callina continuava parada à beira da pista. Seu vestido vermelho só servia para enfatizar a ausência de cor nas feições suaves. Apresentei-lhe Linnea, e pedi a Callina que cuidasse dela, enquanto ia conversar com meu pai. Ela me fitou curiosa, evidentemente sentindo a minha raiva. Devia estar irradiando-a para todo mundo.

E a raiva aumentou enquanto circulava pelo salão, à procura de meu pai. Dyan sabia, Hastur também sabia... e quantos outros estariam a par? Teria havido uma reunião do Conselho para discutir o destino do herdeiro bastardo de Lorde Alton? Quanto tempo levaram para descobrir uma mulher que me aceitasse? Foram para bem longe, e encontraram uma mulher bastante jovem para obedecer ao pai e à mãe sem questionar! Talvez eu devesse sentir-me lisonjeado por terem escolhido uma moça tão bonita!

E, de repente, deparei com o Regente. Ofereci-lhe uma reverência brusca e comecei a seguir adiante; ele segurou meu braço, detendo-me, e desejou os cumprimentos da estação.

- Obrigado, Lorde Hastur. Por acaso viu meu pai? O velho me disse, muito afável:

- Se pretende se queixar, Lew, por que não me fala diretamente? Fui eu quem pediu à minha neta que lhe apresentasse a moça. -Ele se virou para o bufê. -Já comeu? As frutas estão excepcionais este ano. Temos melões-do-gelo de Nevarsin; é difícil encontrá-los no mercado.

- Agradeço, mas não tenho fome. É permitido perguntar por que demonstra tanto interesse por meu casamento? Ou devo me sentir lisonjeado por seu interesse pessoal, sem indagar por quê?

- Ou seja, devo presumir que a moça não o agradou.

- O que eu poderia ter contra ela? Peço que me perdoe, senhor, mas tenho certa aversão a falar de meus problemas pessoais diante da metade da cidade de Thendara.

Gesticulei para indicar as pessoas dançando. Ele sorriu.

- Pensa realmente que alguém está interessado em outra coisa que não a sua própria vida?

Ele enchia um prato, na maior calma, com iguarias diversas. Contrariado, segui seu exemplo. Hastur encaminhou-se para duas cadeiras mais ou menos isoladas e disse:

- Podemos sentar aqui e conversar, se você quiser. Qual é o problema, Lew? Está na idade apropriada para casar.

- Assim desse jeito, sem me consultarem?

- Pensei que o estávamos consultando - disse Hastur, levando à boca um bocado de frutos-do-mar em tiras com folhas. - Afinal, não o convocamos à capela com apenas umas poucas horas de aviso, para casar de imediato, como acontecia há poucos anos. Não tive sequer a oportunidade de ver o rosto de minha querida esposa até poucos minutos antes de fecharem as pulseiras em nossos pulsos, e apesar disso vivemos juntos em harmonia durante quarenta anos.

Meu pai, falando sobre seus primeiros anos na Terra, como fora lançado abruptamente no meio de seus estranhos costumes, usara uma expressão para o que eu sentia agora: choque cultural.

- Com toda a deferência, Lorde Hastur, os tempos mudaram demais para que essa continue a ser a maneira conveniente de promover casamentos. E por que tanta pressa?

O rosto de Hastur endureceu subitamente.

- Lew, será que compreende que, se seu pai tivesse quebrado o pescoço naquela escada, em vez de umas poucas costelas e a clavícula, você seria agora o Lorde Alton de Armida, com tudo o que isso acarreta? Meu próprio filho não viveu para conhecer seu filho. Com o nosso mundo na situação em que se encontra, nenhum de nós pode correr riscos com a herança de um Domínio. Qual é a sua objeção específica ao casamento? É por acaso um amante de homens?

Ele usou a frase casta mais polida, e eu, acostumado à linguagem mais vulgar que se usava na Guarda, não entendi por um momento o significado. Depois, sorri sem qualquer humor.

- Essa flecha passou longe do alvo, Lorde Hastur. Mesmo quando menino, nunca apreciei tais diversões. Posso ser jovem, mas não tão jovem assim.

- Então o que pode ser? - Ele parecia sinceramente aturdido. - É com Linnell que deseja casar? Tínhamos outros planos de casamento para ela, mas se os dois desejam...

Protestei, com uma indignação genuína:

- Que Evanda nos proteja! Lorde Hastur, Linnell é minha irmã!

- Não é uma parenta de sangue ou pelo menos não tão próxima que constitua um risco grande para os filhos. E pode ser uma união apropriada, no final das contas.

Levei à boca um pouco da comida em meu prato. O gosto era repugnante, engoli às pressas, larguei o prato.

- Senhor, sinto um profundo amor por Linnell. Fomos crianças juntos. Se fosse apenas para partilhar minha vida, não poderia pensar numa pessoa mais feliz como companhia. Mas... - Procurei uma explicação, um pouco embaraçado. - ...depois que se bate numa menina por quebrar seus brinquedos, de levá-la para sua cama quando tinha um pesadelo ou chorava de dor de dente, de suspender sua saia para que pudesse atravessar um regato, de vesti-la e escovar seus cabelos... é quase impossível pensar nela como... como uma companheira de cama, Lorde Hastur. Perdoe-me por falar com tanta franqueza.

Ele gesticulou para indicar que isso não importava.

- Nada de formalidades. Pedi que fosse franco comigo. Posso compreender. Casamos seu pai muito jovem com uma mulher que o Conselho julgou apropriada, e fui informado de que eles viveram juntos em total harmonia e completa indiferença por muitos anos. Mas também não quero esperar que você fixe seu desejo em alguma mulher inadequada. Seu pai acabou casando para agradar a si mesmo e... perdoe-me por falar, Lew... e você e Marius têm sofrido por causa disso. Tenho certeza de que preferiria poupar seus filhos de tantos dissabores.

- Não pode esperar até que eu tenha filhos? Nunca se cansa de comandar as vidas de outras pessoas?

Seus olhos ardiam quando respondeu:

- Cansei de tudo isso há trinta anos, mas alguém tem de fazê-lo! Já sou bastante velho para sentar e recordar o passado, em vez de carregar o fardo do futuro, mas parece que me coube essa missão. O que você está fazendo para arrumar sua vida de maneira condigna, poupando-me desse trabalho?

Ele pôs na boca mais um pouco de salada e mastigou furioso.

- Quanto sabe da história do Comyn, Lew? No passado distante, recebemos o poder e o privilégio porque servíamos a nosso povo, não porque o governássemos. Depois, passamos a acreditar que tínhamos esses poderes e privilégios por causa de alguma superioridade inata, como se ter laran nos tornasse tão melhores do que as outras pessoas que podíamos, fazer o que bem quiséssemos. Nos-sos privilégios são usados agora não para nos compensar por todas as coisas a que tivemos de renunciar a fim de servir ao povo, mas para perpetuar nossos poderes. Queixa-se de que sua vida não lhe pertence, Lew. Pois não pertence, e não deve mesmo pertencer. Tem certos privilégios...

- Privilégios! - exclamou, amargurado. - São principalmente deveres que não quero e responsabilidades que não posso assumir.

- Privilégios que deve merecer servindo a seu povo - insistiu Hastur.

Ele se inclinou e tocou de leve a marca do Comyn, gravada fundo em minha carne, logo acima do pulso. Seu próprio braço tinha uma marca igual, esbranquiçada pela idade.

- Uma das obrigações que acompanham isto, Lew, uma obrigação sagrada, é cuidar para que seu dom não desapareça, gerando filhos e filhas que o herdem de você e, por sua vez, sirvam também ao povo de Darkover.

Contra a minha vontade, fiquei comovido com as palavras. Sentira-me assim durante a viagem pelas terras exteriores, adquirira a noção de que minha posição como herdeiro do Comyn era uma coisa séria, sagrada, que eu representava um elo importante numa corrente interminável de Altons, estendendo-se da pré-história ao futuro. Por um momento, senti que o velho acompanhava meus pensamentos, enquanto encostava outra vez a ponta do dedo na marca do Comyn em meu pulso.

- Sei quanto isso lhe custa, Lew. Ganhou esse dom ao risco da própria vida. Começou bem, servindo em Arilinn. O pouco que resta de nossa ciência antiga está preservado nas Torres, à espera do dia em que tudo possa ser recuperado ou redescoberto. Pensa que não sei que os jovens ali sacrificam suas vidas pessoais, renunciando a muitas coisas que os rapazes e as moças tanto prezam? Nunca tive essa opção, Lew, nasci com apenas um mínimo de laran. Assim, faço o que posso com os poderes seculares para atenuar o fardo dos que arcam com as responsabilidades mais pesadas. Até agora, pelo que sei, você nunca usou mal os seus poderes. Nem é um daqueles jovens frívolos que querem desfrutar os privilégios da posição e passar o resto de suas vidas na diversão e na loucura. Por que então você se deve abster de cumprir esse dever para com seu clã?

Desejei de repente poder descarregar meus medos e apreensões para ele. Não podia duvidar da integridade pessoal do velho. Mas Hastur se encontrava tão envolvido em seu plano por objetivos políticos em Darkover que desconfiava dele também. Não o deixaria manipular-me para atender a esses objetivos. Sentia-me confuso, meio convencido, mas também mais desafiador do que nunca. Ele esperava minha resposta; abstive-me de oferecê-la. Os telepatas acostumam-se a enfrentar os problemas - não há outro jeito, se quiserem manter um mínimo de sanidade -, mas não aprendem a traduzir as coisas em palavra com facilidade. Num lugar como Arilinn, a gente se acostuma a saber que todos em seu círculo podem partilhar seus sentimentos, emoções e desejos. Não há reticências ali, nenhuma das pequenas evasivas e cortesias que as outras pessoas usam ao falar sobre coisas íntimas. Mas Hastur não podia ler meus

pensamentos, e fiquei contrafeito, sem saber como traduzi-lo em palavras que não constituíssem um embaraço grande demais para qualquer dos dois.

- Acima de tudo, jamais conheci uma mulher com quem desejasse passar o resto da minha vida... e, sendo um telepata, não estou disposto a... a apostar na escolha de outros.

Não. Eu não estava sendo completamente honesto. Teria apostado em Linnea de bom grado, se não sentisse que era manipulado, usado como um peão impotente. Minha raiva tornou a aflorar.

- Hastur, se quisesse me casar apenas para perpetuar meu dom, a fim de gerar um filho para o Domínio, deveria tê-lo feito antes que eu crescesse, antes que tivesse sentimentos sobre qualquer mulher, quando poderia querer somente que fosse uma mulher e estivesse disponível. Agora é diferente.

Voltei a ficar em silêncio. Como podia dizer a Hastur, que era bastante velho para ser meu avô e nem mesmo era um telepata, que, quando tomasse uma mulher, todos os pensamentos e sentimentos dela se abririam para mim, e vice-versa, que, se o contato não fosse completo e a empatia quase total, isso poderia num instante me degradar? Poucas mulheres eram capazes de suportar isso. E como podia explicar os fracassos paralisantes que uma falta de empatia acarretaria? Ele pensava mesmo que eu seria capaz de viver com uma mulher cujo único interesse por mim fosse a capacidade de lhe dar um filho com laran? Sei que alguns homens no Comyn conseguem isso. Suponho que praticamente qualquer casal saudável pode dar um ao outro alguma coisa na cama. Mas os telepatas treinados numa Torre, acostumados a uma partilha plena... Acrescentei, sabendo que minha voz tremia, incontrolável:

- Nem mesmo um deus pode ser compelido a amar por ordem. Hastur fitou-me com simpatia. O que também doeu. Já seria

muito difícil me expor assim diante de um homem da minha idade. Ao final, ele disse, gentilmente:

- Nunca se cogitou de compulsão, Lew. Mas prometa-me que pensará a respeito. A jovem Storn-Lanart candidatou-se à Torre de Neskaya. Precisamos de Guardiãs e técnicos psíquicos. Mas também precisamos de mulheres sensitivas, telepatas, para casar em nossas famílias. Se você viesse a gostar de outra, nós a acolheríamos com a maior satisfação.

Respirei fundo.

- Pensarei a respeito.

Linnea era telepata. Poderia ser suficiente. Mas, em termos claros, eu tinha medo. Hastur gesticulou para que um servo levasse seu prato vazio e o meu intacto.

- Mais vinho?

- Obrigado, senhor, mas já bebi mais do que costumo beber em uma semana inteira. E prometi outra dança à minha irmã-de-adoção.

Por mais gentil que ele tivesse sido, senti-me contente por escapar. A conversa me perturbara, despertando pensamentos que eu aprendera a manter com firmeza abaixo da superfície da mente.

O amor - para ser mais preciso, o sexo - nunca é fácil para um telepata. Nem mesmo quando se é muito jovem, ainda participando de brincadeiras infantis, descobrindo as próprias necessidades e desejos, aprendendo a conhecer o próprio corpo e seus anseios.

A julgar pelas conversas dos outros rapazes - e se fala muito sobre isso entre os cadetes e na Guarda -, imagino que, para a maioria das pessoas, pelo menos por algum tempo, serve qualquer pessoa do sexo certo que seja acessível e não de todo repulsiva. Mas mesmo durante essas experiências iniciais, eu sempre estivera consciente dos motivos e das reações da outra parte, e quase nunca resistiam a um exame mais meticuloso. E depois que fui para Arilinn e submergi por completo na intensa partilha e intimidade que prevalece ali, a questão passou de apenas difícil para impossível.

Mas eu prometera uma dança a Linnell. E era verdade o que dissera a Hastur. Linnell não era uma mulher para mim e não me causaria qualquer distúrbio emocional.

Mas Callina se encontrava sozinha, assistindo a uma exibição de um grupo de dançarinos clássicos, que imitavam as folhas numa tempestade de primavera. Seus trajes, cinza-verde, amarelo-verde, azul-verde, faiscavam e fluíam sob as luzes como os raios do sol. Empurrara o capuz para trás e, parada ali, absorvida nos dançarinos, parecia um tanto desamparada, muito pequena, frágil e solene. Fui postar-me ao seu lado. Depois de um momento, ela se virou e disse:

- Não prometeu outra dança a Linnell? Pois nem precisa se incomodar, primo. Ela e a criança Storn-Lanart saíram para a varanda, conversando sobre vestidos e penteados.

Ela sorriu, um sorriso sugestivo, que desanuviou por um instante seu rosto austero, antes de acrescentar:

- É uma tolice trazer moças dessa idade para um baile formal. Elas ficariam igualmente felizes numa aula de dança.

Deixei escapar minha raiva acumulada ao comentar:

- Ora, elas têm idade suficiente para serem leiloadas a quem der mais. É assim que fazemos os grandes casamentos no Comyn. Também está à venda, damisela?

Ela tornou a sorrir.

- Não devo imaginar que está me fazendo uma oferta, não é mesmo? Não, não estou à venda, pelo menos este ano. Sou Guardiã na Torre de Neskaya, e você sabe o que isso significa.

Claro que eu sabia. As Guardiãs não são mais obrigadas a serem virgens enclausuradas para as quais nenhum homem ousa sequer lançar um olhar descuidado. Mas enquanto trabalham no centro das redes de energônio, devem manter-se, pela pura necessidade, absolutamente castas. Aprendem a não atrair desejos que não podem satisfazer. É bem provável que aprendam também a não os sentir, o que deve ser ótimo, quando se consegue. Eu bem que gostaria de ser capaz.

Relaxei um pouco. Contra Callina, treinada em uma Torre e uma Guardiã em operação, não precisava ficar de guarda. Partilhávamos uma afinidade mais profunda que a do sangue, o vínculo forte dos telepatas treinados nas Torres.

Fui técnico de matriz por tempo suficiente para saber que o trabalho consome tanta energia física e nervosa que não resta muito para o sexo. A vontade pode existir, mas não a energia. As Guardiãs são obrigadas, para sua segurança física e emocional, a permanecer celibatárias. As outras pessoas no círculo - técnicos, mecânicos, monitores psíquicos - são em geral generosas e sensíveis para satisfazer o pouco que resta. Chega-se bem perto dos jogos elaborados de flerte e recuo a que os homens e as mulheres em outras partes se entregam por prazer. E Callina compreendia tudo isso sem que fosse preciso explicar, já que era parte do sistema.

Ela era também bastante sensitiva para captar meu ânimo; e disse, com um tênue tom de malícia gentil:

- Soube que Linnea será enviada a Arilinn no ano que vem, se vocês dois decidirem não casar. Terão tempo suficiente para pensar. Devo pedir para que não a treinem como Guardiã, caso você venha a mudar de idéia?

Eu me senti um tanto contrafeito. Era uma coisa afrontosa para se dizer! Mas o que me deixaria enfurecido se viesse de alguém de fora, não me perturbou por partir dela. Dentro de um círculo de Torre, tal declaração não me teria embaraçado, embora também não me sentisse obrigado a responder. Callina simplesmente me tratava como um dos seus. Nos contatos dos círculos de Torre, todos têm conhecimento das necessidades e ânsias dos outros, e se preocupam em impedir que alcancem um ponto de frustração ou angústia. Mas agora meu círculo se dispersara, outros serviam no meu lugar, e de alguma forma precisava lidar com um mundo repleto de jogos elaborados e relacionamentos complexos.

- Estão me pressionando para casar, Callina - comentei, como se conversasse com uma irmã. - O que devo fazer? É muito cedo. Ainda sou...

Gesticulei, incapaz de traduzir em palavras. Ela acenou com a cabeça, solene.

- Talvez devesse aceitar linnea, no final das contas. E assim não poderiam lhe impingir alguém menos aceitável. - Ela falava sério, avaliando meu problema, concedendo a ele toda a sua atenção. - Creio que eles querem, acima de tudo, que você gere um filho para Armida. Se pudesse fazer isso, não se importariam se casasse ou não com a moça, não acha?

Não teria sido difícil gerar uma criança em uma das mulheres do meu círculo em Arilinn, apesar da gravidez tornar muito perigosa a permanência da mulher na Torre. Mas o pensamento era como sal numa ferida em carne viva. Podia ouvir minha voz tremendo ao responder:

- Sou um bastardo. Acha mesmo que eu infligiria isso a um filho meu? E Linnea é muito jovem e foi... honesta comigo. - Toda aquela conversa me perturbava, por razões obscuras. - E como pode saber tanta coisa a respeito? Minha vida amorosa se tornou um tema nos debates do Conselho, comynara Callina?

Ela balançou a cabeça, compadecida.

- Não, claro que não. Mas Javanne e eu brincamos com bonecas juntas, e ela ainda me conta as coisas. Não é debate no Conselho, Lew, apenas conversa entre mulheres.

Mal ouvi o que ela disse. Como todos os Altons, às vezes tenho uma tendência desconcertante a ver o tempo fora de foco, e a imagem de Callina oscilava e tremia, como se a visse através de água correndo ou da passagem do tempo. Por um momento, perdi-a de vista como era agora, pálida, sem qualquer atrativo, vestida de escarlate. Ela tremeluziu numa neblina reluzente, azul de gelo. Depois, pareceu flutuar, fria, arredia e bela, refulgindo com uma escuridão como o céu da meia-noite. Senti-me atormentado, lutando com uma mistura de raiva e frustração, o corpo todo ansiando por...

Pisquei, aturdido, tentando restabelecer o foco do mundo.

- Está se sentindo mal, parente?

E compreendi nesse instante, com um horror total, que estivera prestes a tomá-la em meus braços. Como ela era agora Guardiã dentro de um círculo, isso seria apenas uma grosseria, não uma atrocidade inconcebível. De qualquer forma, eu devia ter enlouquecido! Tremia da cabeça aos pés. Era uma insanidade! Ainda fitava Callina, reagindo a ela como se fosse uma mulher desejável, não proibida pelo duplo tabu e pelo juramento de um técnico de Torre.

Callina fitou-me nos olhos, profundamente perturbada. Havia simpatia e ternura em sua expressão, mas nenhuma reação ao meu ímpeto de emoção incontrolável. Claro que não!

- Damisela, peço sinceras desculpas - balbuciei, sentindo a respiração doer na garganta. - É essa multidão. Faz coisas terríveis... com as minhas barreiras.

Ela acenou com a cabeça, aceitando a desculpa.

- Detesto essas reuniões. Evito comparecer, exceto quando não há outro jeito. Vamos respirar um pouco de ar fresco, Lew.

Ela seguiu na frente para uma das pequenas varandas. Aspirei a umidade fria cora alívio. Ela usava um véu preto comprido e tremeluzente, estendido em sua esteira como asas, brilhando na escuridão. Não podia resistir ao impulso de tomá-la em meus braços, comprimi-la contra meu peito, os lábios se encontrando... Tornei a piscar, atordoado, olhando para a noite fria e sem chuva, as estrelas aparecendo, Callina muito serena em seus trajes coloridos. E de repente me senti nauseado e fraco, tive de me apoiar na grade da varanda. Experimentava a sensação de que caía por distâncias infinitas, um nada turbilhonante de espaço vazio...

- Não é apenas a multidão - murmurou Callina. - Tomou um pouco de kirian, Lew?

Sacudi a cabeça, outra vez me esforçando para pôr o mundo em sua devida perspectiva. Era muito velho para isso. A maioria dos telepatas supera esses distúrbios psíquicos na puberdade. Eu não sofria a doença do limiar desde que fora para Arilinn. Não entendia por que haveria de me dominar agora. Callina acrescentou, gentilmente:

- Eu gostaria de poder ajudá-lo, Lew. Sabe qual é o seu problema, não é mesmo?

Ela passou por mim, roçando-me de leve, e me deixou sozinho na varanda, Continuei ali, sentindo o ar frio e úmido, sentindo a mordacidade das palavras. Era verdade, eu sabia qual era o meu problema, e me ressentia, amargurado, por Callina tê-lo lembrado, de trás da barricada de sua própria invulnerabilidade. Ela não partilhava minhas necessidades e desejos; era um tormento de que estava livre, como Guardiã. Por um instante, em minha raiva intensa, esqueci a cruel disciplina por trás de sua imunidade, adquirida com muito esforço.

Mas eu sabia qual era de fato o meu problema. Em Arilinn, acostumara-me a mulheres que eram sensíveis às minhas necessidades, que as partilhavam. Agora, já fazia muito tempo que saíra de lá, já fazia muito tempo que estava sozinho. Era-me até vedado, sendo o que sou, o tipo de alívio simples que o mais insignificante dos meus companheiros na Guarda podia encontrar. Nas poucas vezes - bem poucas vezes - em que o desespero me levara a procurá-lo, servira apenas para me deixar nauseado. Mulheres sensitivas não se dedicam a essa profissão específica. Ou, se o fazem, eu jamais encontrara alguma. Encostando a cabeça na grade, cedi à inveja... uma inveja amarga de um homem que podia descobrir conforto, mesmo que apenas temporário, em qualquer mulher com um corpo acessível.

Por um instante, sabendo que ao final seria pior, deixei-me pensar na jovem Linnea. Sangue terráqueo. Uma sensitiva, uma telepata. Talvez eu estivesse sendo precipitado.

A ira tornou a me dominar. Então Hastur e meu pai concluíram que não me podiam manipular de nenhum outro jeito e por isso tentavam agora me subornar com sexo! Haviam subornado Dyan com o comando de um alojamento cheio de rapazes ainda inexperientes, que no mínimo alimentariam seu ego, admirando-o e adulando-o. E mesmo com toda a discrição, ele vicejava com isso.

E me subornariam também. De uma maneira diferente, é claro, pois minhas necessidades eram diferentes, mas ainda assim, na essência, seria um suborno. Tratariam de me manter sob controle, dócil, oferecendo-me uma mulher jovem e bela, sexualmente excitante, num acordo meio tácito.

E minhas necessidades, que meu pai telepata conhecia muito bem, cuidariam do resto. Uma onda de náusea envolveu-me ao pensar como estivera próximo de cair na armadilha.

As festividades dentro do salão de baile se aproximavam do fim. Os cadetes já se haviam retirado há muito para os alojamentos. Uns poucos retardatários ainda bebiam no bufê, mas os servos circulavam por toda parte, iniciando a limpeza. Fui para os aposentos reservados aos Altons, ainda tremendo de raiva.

O corredor central se achava deserto, mas havia uma luz acesa no quarto de meu pai, e entrei sem bater. Ele estava seminu, parecia exausto, desprevenido.

- Quero falar com você!

- Não precisava entrar aqui como um cralmac no cio para isso - protestou ele, suavemente.

Meu pai se projetou por um instante, fez contato com a minha mente. Não agia assim desde que eu me tornara adulto, e isso me deixou furioso, ser tratado como uma criança depois de tantos anos. Ele se retirou no instante seguinte e indagou:

- Não pode esperar até de manhã, Lew? Você não está bem. Até sua solicitude aumentava minha irritação.

- Se não estou, sabe de quem é a culpa. O que quer afinal, tentando me casar sem nenhum aviso prévio?

Ele enfrentou minha ira sem hesitação.

- Você é muito orgulhoso e teimoso demais para admitir que precisa de alguma coisa, Lew. Já está pronto para o casamento, mais do que pronto. Não seja como o homem da velha história, que, quando o demônio lhe indicou a estrada para o paraíso, preferiu partir pelo caminho para o inferno! - Ele parecia tão furioso quanto eu me sentia. - Pensa que eu não sei como se sente?

Refleti a respeito por um instante. Eu me tenho perguntado, de vez em quando, se meu pai viveu mesmo sozinho durante todos esses anos, desde que minha mãe morreu. É verdade que ele não tinha amantes reconhecidas. Nunca tentara espioná-lo, nem inquirir sequer em pensamento sobre sua vida íntima; por isso sentia-me duplamente enfurecido por ele não me deixar qualquer resquício de privacidade para cobrir minha nudez, obrigando-me a ficar exposto diante de Hastur e desgraçando-me com minha prima Callina.

- Não vai adiantar! - assegurei, em fúria total. - Eu não me casaria com aquela moça agora nem que ela fosse tão bela quanto a Abençoada Cassilda e trouxesse como dote todas as jóias de Carthon!

Meu pai deu de ombros, com um suspiro profundo.

- Claro que não - murmurou ele, exausto. - Quando foi que você fez uma coisa tão sensata? Mas faça como achar melhor. Casei para agradar a mim mesmo; e disse a Hastur que nunca obrigaria você.

- Pensa que seria capaz?

- Como não estou tentando, que diferença isso faz? - Meu pai parecia tão cansado quanto eu me sentia. - Acho que é um tolo, mas se isso o ajuda a se sentir independente e virtuoso, continue a andar por aí sentindo dor no... - Para minha surpresa e choque, ele usou uma palavra vulgar da Guarda, que eu nem desconfiava de que conhecia. - ...e seja tão cabeçudo quanto quiser. É mesmo meu filho, não resta a menor dúvida; não tem mais juízo do que eu tinha na sua idade!

Ele deu de ombros, de maneira a indicar que o assunto estava encerrado.

- Doença do limiar? Tenho um pouco de kirian em algum lugar, se você precisa.

Balancei a cabeça, compreendendo que alguma coisa, talvez apenas o fato de descarregar a raiva violenta de meu organismo, já dissipara o pior.

- Eu tinha uma coisa para lhe dizer, mas pode esperar até amanhã, se você não está em condições de ouvir. Agora, quero apenas outro drinque.

Ele começou a se levantar, com um visível esforço, mas tratei de detê-lo, dizendo:

- Pode deixar que eu o sirvo, Pai.

Despejei vinho num copo para ele e noutro para mim, e sentei ao seu lado para beber. Meu pai foi bebendo em goles pequenos, devagar. Depois de algum tempo, inclinou-se e pôs a mão em meu ombro, um gesto raro de intimidade da infância. Não me incomodou agora.

- Você esteve no Conselho, Lew. Sabe o que está acontecendo.

- Refere-se a Aldaran?

Fiquei contente por ele ter mudado de assunto.

- O pior de tudo, Lew, é que não posso me afastar de Thendara agora... e ainda por cima creio que não tenho condições de realizar a viagem.

Ele arriara as barreiras, e pude sentir sua exaustão. Oferecendo-me seu sorriso raro e rápido, continuou:

- Nunca admiti antes que houvesse alguma coisa que eu não pudesse fazer, mas agora... tenho um filho em quem posso confiar para tomar meu lugar. E como ambos desafiamos Hastur, Thendara pode não ser muito agradável para você durante as próximas semanas. Vou enviá-lo a Aldaran como meu representante, Lew.

- Eu, Pai?

- Quem mais poderia ser? Não confio tanto em qualquer outra pessoa. Você se saiu tão bem quanto eu seria capaz na viagem de inspeção aos faróis de incêndio. E pode alegar parentesco de sangue ali; o velho Kermiac de Aldaran é seu tio-avô.

Eu sabia que tinha um parentesco com Aldaran, mas não imaginara que fosse tão alto no clã, nem tão próximo.

- Além disso, Lew, você tem sangue terráqueo. Pode descobrir, além de todos os rumores, o que está acontecendo de fato nas montanhas.

Senti-me ao mesmo tempo exultante e inseguro sobre aquela missão tão delicada, sabendo que o pai depositava tanta confiança em mim. Hastur falara de nosso dever para com o Comyn, para com o nosso mundo. Agora, eu me encontrava prestes a ocupar meu lugar entre aqueles do nosso Domínio que haviam agido assim, por mais gerações do que qualquer um de nós podia contar.

- Quando devo começar?

- Assim que eu providenciar uma escolta e o salvo-conduto para você. Não há tempo a perder. Eles sabem que você é herdeiro do Comyn. Mas também é parente em Aldaran; vão acolhê-lo como nunca me receberiam.

Eu estava grato por meu pai me incumbir daquela missão, e depois compreendi que a gratidão não precisava ser toda minha, o que era um sentimento novo e agradável. Ele precisava realmente de mim. Tinha a oportunidade de servi-lo também, de fazer uma coisa melhor do que ele próprio seria capaz. E me senti ansioso em começar.

Capítulo Nove

Nessa época do ano, o sol já surgira quando soou o sino para despertar o pessoal nos alojamentos. A neve se derretia em pequenos filetes no pátio quando os cadetes o atravessaram, a caminho do refeitório. Regis ainda se sentia sonolento, apesar de ter molhado o rosto com água gelada. Quase achava que preferia perder o desjejum a se levantar tão cedo. Mas, por outro lado, orgulhava-se de seu bom registro; era o único cadete que nunca incorrera num serviço de punição por dormir além do toque de despertar e chegar atrasado no refeitório, cambaleando e meio adormecido. Nevarsin, no final das contas, servira para alguma coisa.

Ele sentou no lugar designado, entre Danilo e Gareth Lindir. Um ordenança jogou as bandejas amassadas na frente deles: tigelas grossas de cerâmica de mingau misturado com nozes e canecas com a cerveja amarga do campo, que Regis detestava e nunca tomava. Ele enfiou a colher no mingau, com evidente aversão.

- A comida fica pior cada manhã ou será apenas imaginação minha? - indagou Damon MacAnndra.

- Fica pior - confirmou Danilo. - Quem é capaz de imaginar alguma coisa nesta hora esquecida de Deus? Mas o que foi isso?

Houve uma pequena comoção na entrada. Regis virou a cabeça abruptamente. Depois de uma breve luta, um cadete foi jogado ao longo do refeitório, bateu com a cabeça numa mesa, caiu e ficou imóvel. Dyan Ardais ficou parado na porta, esperando que o infeliz cadete levantasse. Como ele não se mexesse, Dyan gesticulou para que o ordenança fosse ajudá-lo.

- Pelos infernos de Zandru, é Julian! - exclamou Damon.

Ele se levantou e correu para o lado do amigo. Dyan se adiantou, com expressão sombria.

- Volte para seu lugar, cadete. Termine sua refeição.

- Ele é meu amigo, e quero verificar se está ferido.

Ignorando o olhar furioso de Dyan, Damon ajoelhou-se ao lado do cadete caído; os outros cadetes, esticando o pescoço, puderam ver a mancha brilhante de sangue no lugar em que a cabeça de Julian batera na mesa.

- Ele está sangrando! - gritou Damon, a voz estridente e trêmula. - Você o matou!

- Não diga bobagem! - respondeu Dyan, em tom ríspido. - Os mortos não sangram assim.

Ele se ajoelhou, passou as pontas dos dedos pela cabeça do rapaz e gesticulou para dois cadetes do terceiro ano.

- Levem-no para a sala da Guarda e peçam a Mestre Raimon que o examine.

Enquanto Julian era carregado para fora do refeitório, Gabriel Vyandal murmurou:

- Não é justo nos surpreender a esta hora da manhã, quando estamos todos meio adormecidos.

O silêncio no refeitório era tão grande que todos puderam ouvir. Dyan aproximou-se dele e disse, fitando-o com expressão desdenhosa:

- É em momentos como este que deveria estar mais alerta, cadete. Acha que os assaltantes na cidade ou os homens-gatos e os bandidos na fronteira, vão escolher uma hora de sua conveniência para atacar? Essa parte do treinamento é para ensinar-lhes que se devem manter em guarda em todos os momentos, literalmente.

Ele virou as costas e deixou o refeitório. Gareth comentou:

- Ele ainda vai matar um de nós algum dia desses. O que dirá quando isso acontecer?

Damon voltou ao seu lugar, muito pálido.

- Ele nem me deixou ir junto, segurando a cabeça de Julian. Gabriel pôs a mão em seu braço, num gesto confortador.

- Não se preocupe. Mestre Raimon cuidará bem dele.

Regis ficara chocado à visão do sangue, mas um senso de justiça escrupulosa o levou a dizer:

- Lorde Dyan tem razão, vocês sabem disso. Quando estivermos em campanha, um momento de desatenção pode nos matar, não apenas ferir.

Damon lançou um olhar furioso para Regis.

- É muito bom para você dizer isso, Hastur. Já notei que ele nunca o escolhe.

Regis, que tinha as costelas sempre pretas e roxas dos golpes de Dyan no treinamento com espada, respondeu:

- Imagino que ele acha que já me machuca o suficiente nos treinamentos de combate armado.

Ocorreu-lhe que havia nisso também um elemento de crueldade. Kennard Alton ensinara-o a manejar uma espada na época em que era considerado o melhor espadachim dos Domínios. Nos exercícios diários, porém, com Kennard ou Lew, durante dois anos, sofrera menos equimoses do que recebera de Dyan em umas poucas semanas.

- O que se podia esperar do Comyn? Todos eles são unidos - comentou um cadete do segundo ano.

Regis baixou a cabeça para o mingau frio. De que adiantava protestar? pensou ele. Não podia mostrar a todos suas equimoses... nem deveria ter aberto a boca. Danilo tentava comer, com as mãos trêmulas. A visão deixou Regis aflito, mas ele sabia o que podia dizer que não fosse uma intromissão.

No alojamento, Regis arrumou sua cama num instante e foi ajudar Damon a arrumar a cama e as coisas de Julian; ao voltar, Julian pelo menos não teria de arcar com deméritos por deixar a cama e a prateleira desarrumadas. Depois que os outros cadetes saíram para os exercícios com armas, ele e Danilo permaneceram. Era a vez de os dois varrerem o alojamento e limparem a lareira. Nunca se sabia que oficial faria a inspeção, e alguns eram mais rigorosos do que outros. Ele trabalhou com mais afinco porque detestava aquele serviço, mas seus pensamentos estavam longe. Julian ficara muito ferido? Não podia haver a menor dúvida de que Dyan fora brutal.

Regis sentiu que Danilo, manejando a pesada vassoura no outro lado do alojamento, com uma sombria determinação, se deixara dominar por uma profunda angústia, que prevalecia sobre todo o resto. Especulou se haveria algum meio de bloquear o acesso das emoções dos outros, pois era sensível demais aos ânimos de Danilo. Se soubesse o que Dani pensava ou por que se mantinha tão furioso e aflito durante todo o tempo, talvez não fosse tão ruim assim, mas Regis só era capaz de captar as emoções.

Ele sentiu a presença de Lew Alton e levantou os olhos para vê-lo avançando pelo alojamento.

- Ainda não acabou? Não precisa se apressar, cadete. Cheguei um pouco cedo.

Regis relaxou. Lew podia ser bastante rigoroso, mas não se empenhava em procurar fragmentos ocultos de poeira. Ele continuou em seu trabalho de limpeza da lareira, mas depois de alguns minutos Lew se inclinou e tocou seu braço.

- Quero falar com você.

Regis levantou-se e seguiu-o até a porta do alojamento, onde se virou para dizer:

- Voltarei num instante, Dani. Não tente mudar a posição daquela mesa antes que eu esteja aqui para ajudá-lo.

Assim que saíram, consciente do contato dos pensamentos de Lew, Regis virou o rosto para fitar seus olhos risonhos.

- Eu soube outro dia, no Conselho, mas não tive a oportunidade de conversar com você na ocasião - disse Lew. - Quando isso aconteceu, Regis? E como?

- Não sei direito, mas de alguma forma entrei... em contato... com Danilo ou ele comigo, não posso afirmar qual dos dois. Foi como se alguma espécie de... de barreira desaparecesse. Não sei explicar.

Lew acenou com a cabeça.

- Eu compreendo. Não há palavras para a maioria dessas experiências, e as que existem não são muito esclarecedoras. Mas Danilo? Senti que ele tinha laran no outro dia, mas se conseguiu fazer isso com você, então...

Lew parou de falar, a testa franzida, e Regis acompanhou o resto do pensamento: Isso significa que ele é um telepata catalisador! São raros, e pensei que não restava mais nenhum.

- Conversarei com meu pai antes de partir para Aldaran.

- Vai até lá no lugar de Tio Kennard? Quando?

- Poucos dias antes de a sessão do Conselho terminar. Não falta muito agora. A viagem para as montanhas é difícil em qualquer estação, e impossível depois que as neves passam a cair com toda a força.

Danilo se encontrava parado na porta do alojamento, e Regis lembrou-se abruptamente do trabalho.

- É melhor eu voltar, antes que Dani pense que estou querendo me esquivar.

Lew lançou um olhar superficial pelo interior do alojamento.

- Pode ir. Parece que está tudo bem. Assinarei o relatório de inspeção. Podem terminar sem pressa.

Ele se aproximou de Danilo e disse:

- Partirei para Aldaran dentro de um ou dois dias, Dani. Deverei passar por Syrtis. Tem alguma mensagem para Dom Felix?

- Apenas que eu me empenho em cumprir meus deveres entre os melhores, Capitão - respondeu Danilo, com voz soturna.

- Direi a ele que você é um crédito para todos nós.

O rapaz não respondeu. Afastou-se e seguiu na direção da lareira, arrastando a vassoura. Lew observou-o, curioso.

- O que acha que o está perturbando?

Regis andava preocupado com o comportamento de Danilo. Seu choro silencioso despertara Regis mais duas vezes, e ele ficara dividido entre a vontade de consolar o amigo e o respeito à sua privacidade. Gostaria de perguntar a Lew o que fazer, mas os dois se encontravam de serviço, e não havia tempo para problemas pessoais. Além do mais, talvez Lew fosse obrigado pelos regulamentos da Guarda - Regis não os conhecia muito bem - a dizer que deveria procurar o mestre-dos-cadetes para tratar de qualquer assunto pessoal.

- Não sei - respondeu Regis, depois de um longo momento. -Talvez saudade de casa. E como está Julian? Não morreu, não é?

Lew se mostrou um pouco surpreso.

- Claro que não. Ele ficará bom. Foi apenas uma pequena pancada na cabeça.

Tornando a sorrir, Lew deixou o alojamento. Danilo encostou a vassoura na parede e começou a empurrar a pesada mesa de madeira, a fim de alcançar a sujeira que havia por baixo. Regis se apressou em ir para o outro lado.

- Eu disse que o ajudaria; pode se machucar todo por dentro ao tentar levantar uma mesa tão pesada. - Danilo fitou-o com expressão irada, e Regis acrescentou: - Eu não me esquivava do trabalho, apenas queria me despedir do meu parente. Você foi muito grosseiro com ele, Dani.

- Vamos trabalhar ou conversar?

- Trabalhar, é claro - respondeu Regis, dando um empurrão no seu lado da mesa. - Não tenho nada a lhe dizer quando você fica com esse mau humor.

Ele foi buscar a vassoura. Danilo murmurou alguma coisa baixinho, e Regis se virou, indagando:

- O que você disse?

- Nada.

Danilo virou as costas. Soara como "Não vá sujar as mãos", e Regis ficou espantado.

- Qual é o problema? Acha que devo cuidar do resto? É o que farei, se você quiser, mas acho que não me ausentei para conversar por tanto tempo assim.

- Ora, nunca me passaria pela cabeça lhe impor qualquer coisa, Lorde Regis! Permita que eu lhe sirva!

O desdém era evidente na voz de Danilo, e Regis ficou desconcertado.

- Danilo, você está tentando brigar comigo? O amigo fitou-o de alto a baixo.

- Não, obrigado, meu lorde. Brigar com um herdeiro do Co-myn? Posso ser um tolo, mas não chego a esse ponto. - Ele empi-nou os ombros e esticou os lábios, beligerante. - Vá correndo para sua aula de esgrima com Lorde Ardais e deixe o trabalho sujo para mim.

O espanto de Regis foi substituído pela raiva.

- Quando deixei algum trabalho sujo para você ou para qualquer outro?

Danilo baixou os olhos para o chão e não respondeu. Regis avançou para ele, ameaçador.

- Foi você quem começou, agora tem de responder! Diz que não tenho feito a minha quota justa? - Nenhuma outra acusação poderia deixá-lo tão furioso. - E tire essa expressão da cara ou eu mesmo vou arrancá-la!

- Tenho de tomar cuidado até mesmo com minha expressão, Lorde Hastur?

O título, pela maneira como foi pronunciado, era um insulto ostensivo, e Regis agrediu-o. Danilo cambaleou para trás, recuperou o equilíbrio e fez menção de revidar o ataque, mas se conteve a tempo.

- Oh, não! Pode ter certeza de que não vai me meter numa encrenca assim. Já disse que não vou brigar, Lorde Hastur.

- Vai, sim! Foi você quem começou! E agora erga os punhos, ou vou usá-lo como esfregão no chão!

- Não seria divertido - murmurou Danilo - forçar-me a brigar e depois me meter numa encrenca por brigar? Mas isso não vai acontecer, Lorde Regis. Não permitirei.

Regis recuou. Sentia-se agora mais perturbado do que zangado, perguntando-se o que poderia ter deixado Dani tão transtornado. Projetou-se para tentar um contato com a mente do amigo, mas nada encontrou além de uma raiva intensa, que se sobrepunha a tudo mais. Aproximou-se de Danilo, que se empertigou no mesmo instante, alerta, na defensiva.

- Pelos infernos de Zandru, o que vocês dois estão fazendo? -Hjalmar passou pela porta, avaliou a situação à primeira vista e agarrou Regis pela gola, não muito gentilmente. - Ouvi vocês gritando do outro lado do pátio. Cadete Syrtis, seu lábio está sangrando.

Ele largou Regis, adiantou-se, ergueu o queixo de Danilo e virou seu rosto para examinar o ferimento. Danilo explodiu em violência, empurrando a mão para o lado, depois segurou o cabo da faca. Hjalmar pegou seu pulso.

- Pelos infernos de Zandru, rapaz, não faça isso! Sacar uma faca no alojamento acabaria com você, e eu seria obrigado a denunciá-lo. Qual é o problema? Eu só queria verificar se ficou muito machucado.

A preocupação de Hjalmar parecia sincera. Danilo baixou a cabeça, o corpo todo tremendo.

- O que houve com vocês? Eram ligados como irmãos!

- A culpa foi minha - murmurou Regis. - Eu o agredi primeiro.

Hjalmar deu um empurrão em Danilo. Parecia um tanto rude, mas foi na verdade bastante gentil.

- Vá molhar o lábio com água fria, cadete. Hastur pode terminar de limpar o alojamento sozinho. Vai ensiná-lo a manter a boca grande fechada.

Depois que Danilo se retirou, ele se virou para Regis, irritado, de cara amarrada.

- Mas que exemplo a oferecer aos rapazes em posição inferior!

Regis não argumentou nem se desculpou. Ficou imóvel, aceitando a repreensão de Hjalmar, e os três dias de punição. Sentia-se quase grato ao jovem oficial por interromper uma situação que escapara ao controle. Mas por que Danilo explodira daquela maneira?

Ele acabou de varrer o alojamento, refletindo que não era típico de Dani provocar uma briga.

E Dani a provocara, sem a menor dúvida, concluiu Regis, muito sóbrio, jogando o lixo na lareira, sem perceber que já estava limpa.

Mas por quê? Será que o haviam atormentado demais, com a acusação de se insinuar nas boas graças de um Hastur?

Durante todo o dia ele cumpriu os seus deveres preocupado e angustiado, tentando imaginar o que levara o amigo a tal ponto de desespero. Já estava meio decidido a procurar Danilo assim que entrassem de folga, expor-se à sua ira e indagar qual era o problema. Mas foi lembrado de que tinha de fazer o serviço da punição, que era a tarefa desagradável de limpar os estábulos, junto com os ordenanças. Depois, levou muito tempo para se limpar, para se livrar do fedor do estábulo, e teve de seguir apressado para sua nova missão, tediosa ao extremo. Na maior parte, consistia em montar guarda nos portões da cidade, conferindo permissões e salvo-condutos, interrogando os viajantes que não tinham nenhum dos dois, lembrando aos mercadores que chegavam as regras de seu ofício. Depois, junto com um oficial júnior, foi encarregado da supervisão da guarda noturna nos portões da cidade, seu primeiro exercício de autoridade sobre qualquer dos guardas. Já sabia, em teoria, que os cadetes faziam o treinamento para oficiais, mas até aquele momento sempre se sentira com um mero subalterno, um lacaio, inferior a todos. Agora, depois de meia temporada apenas, já tinha uma responsabilidade pessoal; e por algum tempo esqueceu a preocupação com os problemas do amigo.

Já era quase meia-noite quando ele voltou ao alojamento, perguntando-se qual teria sido o serviço para o qual Danilo fora designado, naquela rotação na metade do ano. Foi estranho, ao chegar, ver o oficial de plantão apenas registrar o seu nome como alguém que ficara de serviço até tarde, em vez de censurá-lo por se atrasar. Regis aproveitou para perguntar ao homem:

- Sabe alguma coisa sobre Julian... o cadete MacAran, senhor?

- MacAran? Ah, sim... Ele sofreu uma concussão. Levaram-no para a enfermaria, mas estará recuperado em poucos dias. Mandaram chamar seu amigo para lhe fazer companhia. Ele estava delirando, e ficaram com receio de que pudesse sair da cama e se machucar. Mas reconheceu a voz de Damon. Parecia não ouvir mais ninguém, mas quando MacAnndra lhe disse que ficasse quieto, caiu no sono no mesmo instante, como um bebê. É o que ocorre às vezes com uma concussão.

Regis disse que se sentia satisfeito por saber que o estado de Julian não era grave e foi para a cama. Sua extremidade do alojamento se encontrava quase vazia, com Damon e Julian na enfermaria. A cama de Danilo também estava vazia. O amigo devia ter sido destacado para um serviço noturno. Regis ficou um pouco desolado, pois esperava conversar com ele, talvez uma oportunidade de descobrir o que o perturbava, restabelecer a amizade.

Foi despertado uma ou duas horas depois pelo som da chuva forte no telhado e vozes alteadas na porta. O oficial de plantão estava dizendo:

- Terei de incluir seu nome no relatório por isso. Ao que Danilo respondeu, um tanto brusco:

- Não me importo. Que diferença pode fazer para mim agora?

Um momento depois ele entrou no alojamento, os passos meio trôpegos. O que havia com ele? perguntou-se Regis. Estaria embriagado? Concluiu que era melhor não lhe falar. Se Danilo bebera tanto assim ou se achava muito nervoso, a ponto de ser grosseiro com o oficial de plantão, poderia fazer outra cena, e sua situação se tornaria ainda pior.

Danilo esbarrou na cama de Regis, que pôde perceber que tinha as roupas encharcadas, como se estivesse vagueando sob a chuva. A luz fraca que ficava acesa no banheiro durante a noite, Regis viu-o cambalear de um lado para outro, tirando as roupas e jogando-as para todos os lados, e ouviu o barulho quando o amigo largou a espada no baú de roupas, em vez de pendurá-la na parede. Danilo parou sob a janela por um instante, nu, hesitante, e Regis quase falou. Poderia fazê-lo em voz baixa, sem atrair a atenção de mais ninguém; com Damon e Julian fora do alojamento, eles se mantinham a uma distância considerável dos outros cadetes. Mas foi dominado pelo medo antigo e angustiante de uma repulsa. Não podia suportar a perspectiva de outra briga. Por isso, permaneceu em silêncio, e logo Danilo se virou e deitou em sua cama.

Regis caiu num sono leve e irrequieto, e depois de um longo tempo acordou com um sobressalto, ouvindo mais uma vez o som de choro. E dessa vez, embora a vibração do sofrimento atingisse seus nervos de forma direta, constatou que Danilo estava desperto e de fato chorava baixinho, desolado, desesperado. Regis ficou escutando, dividido, não querendo intrometer-se, mas também incapaz de agüentar tanta angústia. Ao final, o senso de amizade levou-o a sair da cama. Foi ajoelhar-se ao lado da cama de Danilo e sussurrou:

- O que aconteceu, Dani? Você está doente? Recebeu uma má notícia de casa? Há alguma coisa que eu possa fazer?

A cabeça virada para o outro lado, Danilo respondeu, em tom sombrio:

- Não... não há nada que alguém possa fazer, já é tarde demais para isso. E pelo que aconteceu... Ó Santo Portador dos Fardos, o que meu pai vai dizer?

Regis disse, num sussurro que não podia ser ouvido a mais de um metro de distância:

- Não fale assim. Nada é tão ruim que não se possa corrigir de alguma forma. Vai se sentir melhor se me contar? Por favor, Dani.

Danilo virou-se, o rosto apenas uma mancha branca na semi-escuridão.

- Não sei o que fazer. Acho que estou enlouquecendo... - Subitamente, ele soltou um soluço longo e ofegante. - Não consigo ver... quem... é você, Damon?

- Não - sussurrou Regis. - Damon está na enfermaria com Julian. E todos os outros dormem. Creio que ninguém mais o ouviu entrar. Eu não ia dizer nada, mas você parecia tão infeliz...

Esquecendo a briga, esquecendo tudo, exceto que o amigo se metera em algum problema desesperador, Regis inclinou-se para a frente e pôs a mão no ombro nu de Danilo, um contato tímido, hesitante.

- Não há alguma coisa que eu possa...

Ele sentiu a explosão de raiva e de algo mais - medo? vergonha? - subir por seu braço, através das pontas dos dedos, como um choque elétrico. Retirou a mão bruscamente, como se tivesse queimado. Com um movimento irado, violento, Danilo empurrou Regis, com as duas mãos, e disse num sussurro tenso:

- Amaldiçoado... repulsivo... Comyn, saia de perto de mim, não me ponha suas mãos nojentas, seu...

Ele usou uma palavra que fez Regis, embora acostumado à linguagem rude da Guarda, soltar uma exclamação de espanto e recuar, trêmulo e nauseado.

- Dani, você está enganado - protestou ele, consternado. - Só achei que você estava doente ou com algum outro problema. Não importa o que esteja errado, não fiz nada contra você, entende? E vai acabar muito doente se continuar assim, Dani. Não pode me contar o que aconteceu?

- Contar a você? Pelas correntes de Sharra, prefiro sussurrar para um lobo com as presas em minha garganta! - Ele deu outro empurrão em Regis e acrescentou, em voz meio alta: - Se chegar perto de mim outra vez, seu ombredin asqueroso, vou torcer o seu pescoço!

Regis se levantou e voltou para sua cama, sem dizer mais nada. Seu coração ainda batia forte com o choque físico da explosão de ira violenta que sentira ao tocar Danilo, e tremia todo com a investida contra sua mente. Deitou-se e ficou escutando a respiração tensa de Danilo, transtornado pelo impacto do ódio e por seu fracasso em conseguir comunicar-se. Pensara que, de alguma forma, entre duas pessoas com laran, aquele tipo de mal-entendido não podia ocorrer. Continuou ouvindo por um longo tempo a respiração ofegante de Danilo, que depois se transformou em soluços abafados, até que o amigo mergulhou num sono inquieto e agitado. Mas Regis quase não conseguiu fechar os olhos naquela noite.

Capítulo Dez

(Narrativa de Lew Alton)

Uma chuva forte depois da meia-noite se transformara em neve; o dia em que eu deveria partir para Aldaran amanheceu cinzento e sombrio, o sol oculto por trás de nuvens ainda impregnadas de neve por cair. Acordei cedo, continuei deitado, meio sonolento, ouvindo vozes iradas no quarto de meu pai. A princípio, pensei que Marius recebia alguma repreensão por uma falta de importância menor... mas tão cedo? Depois, o sono se dissipou mais pouco, e percebi um tom na voz do pai que nunca era empregado contra qualquer de nós. Sempre o conheci, durante toda a minha vida, como um homem ríspido, impetuoso e impaciente, mas que de um modo geral mantinha sua raiva sob controle; a ira incontida de um Alton pode matar, mas ele tinha a disciplina da Torre, e o domínio de si mesmo era perceptível em cada sílaba que pronunciava. Vesti-me apressado e saí para a sala central dos nossos aposentos.

- Dyan, isso não é digno de você! É uma questão de orgulho pessoal?

Senhor da Luz, acontecera de novo! Mas pelo menos dessa vez, se eu bem conhecia aquele tom na voz de meu pai, ele não ficaria sem punição! A voz de Dyan era um baixo profundo, abafada a um rumor pelas paredes grossas; mas nenhuma parede seria capaz de abafar a resposta aos gritos de meu pai:

- Não, Dyan, de jeito nenhum! Não serei cúmplice de uma coisa tão monstruosa!

Na sala central, pude ouvir com nitidez a resposta firme de Dyan:

- Não se trata de orgulho pessoal, mas sim da honra do Comyn e da Guarda.

- Honra? Você não conhece o significado...

- Tome cuidado, Kennard. Há algumas coisas que nem mesmo você pode dizer. Quanto ao fato... em nome de Zandru, Ken, não posso ignorá-lo. Mesmo que fosse seu próprio filho. Ou o meu, pobre rapaz, se tivesse vivido por tanto tempo. Está disposto a permitir que um cadete saque uma arma contra um oficial sem sofrer qualquer punição? Se não pode aceitar que estou pensando na honra da Guarda, então o que me diz da disciplina? Justificaria esse comportamento mesmo que fosse de seu bastardo?

- Precisa incluir Lew em cada...

- Tento não fazê-lo, e foi por isso que o procurei diretamente com o problema. Não espero que ele seja sensível a uma questão de honra.

Meu pai tornou a interrompê-lo, mas os dois passaram a falar mais baixo. Ao final, Dyan declarou, num tom decidido e inflexível:

- Não me fale das circunstâncias. Se permitir que o respeito devido ao Comyn seja corroído em tempos como este, à plena vista de todo bastardo e cadete insolente em Thendara, como você pode falar em honra?

A ira violenta já desaparecera da voz de meu pai, substituída por uma profunda amargura.

- Dyan, você usa a verdade como outros homens usam uma mentira, para servir às suas próprias finalidades. Conheço-o desde que éramos meninos, e esta é a primeira vez em que cheguei perto de odiá-lo. Muito bem, Dyan. Não me deixa opção. Como me apresenta a queixa oficialmente, de mestre-dos-cadetes para comandante, as providências serão tomadas. Mas acho difícil acreditar que você não fosse capaz de evitar que a situação alcançasse esse ponto.

Dyan abriu a porta e saiu em passos largos. Lançou-me um olhar breve e desdenhoso e murmurou, antes de se afastar:

- Ainda espionando seus superiores?

Passei pela porta que ele deixara aberta. Meu pai fitou-me com um olhar vazio, como se não conseguisse lembrar meu nome, depois suspirou e disse:

- Mande os homens se reunirem no salão principal da Guarda depois do desjejum. Todos os serviços estão suspensos pela manhã.

- Mas o que...

- Assembléia disciplinar. - Ele ergueu as mãos grossas, encarquilhadas e rígidas da doença das articulações que o atormenta desde que posso me lembrar. - Você terá de ficar de prontidão. Não tenho mais forças para quebrar a espada e não deixarei que Dyan cuide disso.

- Pai, o que aconteceu?

- Você terá mesmo de saber. Um dos cadetes sacou a espada contra Dyan.

Senti meu rosto empalidecer em consternação. Era realmente uma coisa que não podia ser ignorada. Claro que especulei - quem não o faria? - qual teria sido a provocação de Dyan. Em meu primeiro ano como cadete, ele me deslocara o braço, mas ainda assim eu sabia que tinha de me controlar. Mesmo que dois cadetes, numa briga infantil, sacassem seus canivetes um contra o outro, já haveria motivo suficiente para que ambos fossem expulsos em desgraça.

Espantava-me que meu pai tivesse tentado interferir. Parecia-me que, por uma vez, eu fizera um julgamento errado de Dyan.

Imaginei logo o que acontecera. Se o jovem MacAran morrera da concussão, e Damon atribuíra a responsabilidade a Dyan - três oficiais me haviam relatado em separado o incidente, e todos concordaram que Dyan fora indesculpavelmente rude -, então Damon se sentiria obrigado pela honra a vingar o amigo. Os dois rapazes eram filhos das montanhas, e a amizade era sempre profunda nas colinas Kilghard. Não culpava o rapaz, mas sentia-me irritado com Dyan. Um homem mais generoso teria compreendido; Dyan, sendo o que era, poderia muito bem demonstrar compreensão pelo amor entre eles.

O pai me lembrou de que eu precisaria usar o uniforme completo. Apressei-me em vesti-lo, pois queria chegar ao refeitório enquanto os homens ainda estivessem comendo.

O sol rompera a camada de nuvens, e a neve derretendo acumulava-se em poças por todo o pátio calçado com pedras, mas o céu continuava cinzento e ameaçador ao norte. Pensara em deixar a cidade logo depois do amanhecer. Se recomeçasse a nevar mais tarde, o início da jornada seria bastante desagradável.

Havia salsicha no desjejum, e o cheiro forte dos temperos me fez lembrar, assim que entrei no refeitório, de que ainda não comera. Senti-me tentado a pedir ao ordenança que me trouxesse um prato, mas depois recordei que vestia o uniforme completo. Fui para o meio das mesas apinhadas e pedi a atenção de todos.

Ao anunciar a assembléia, olhei para a mesa a que os cadetes sentavam. Para minha surpresa, Julian MacAran se encontrava ali, a cabeça toda enfaixada, mas presente e parecendo apenas um pouco pálido. Lá se ia minha teoria sobre o que acontecera! Regis também estava ali, o rosto tão branco e angustiado que por um momento, em consternação, cheguei a pensar que fosse ele o cadete em desgraça. Mas não era possível, pois nesse caso ele ficaria detido em outro lugar.

Deixando o refeitório, passei pelo alojamento do primeiro ano e ouvi vozes lá dentro. Parei no mesmo instante, a fim de verificar se deveria repetir a mensagem para mais alguém. Ao me aproximar, ouvi a voz do velho Domenic. Ele é que deveria ser o mestre-dos-cadetes, pensei, amargurado.

- Não, filho, não há necessidade disso. Sua espada é uma herança de família. Poupe isso a seu pai, pelo menos. Leve esta espada simples.

Durante meus anos como cadete, eu pensara muitas vezes que o velho Domenic era o homem mais bondoso que já conhecera. Qualquer espada serviria para ser quebrada. A resposta foi em voz baixa, não deu para ouvir, mas impregnada por uma angústia que, mesmo àquela distância, sufocou-me como uma cinta de ferro apertando minha testa. A voz profunda de Hjalmar soou numa gentil repreensão:

- Não faça isso agora, meu rapaz. Não admitirei nenhuma palavra contra o Comyn. Eu o adverti uma vez de que seu temperamento explosivo ainda o meteria em dificuldades.

Dei uma olhada nesse momento, e desejei não tê-lo feito. Danilo estava sentado em sua cama, acabrunhado, e o mestre-de-armas e Hjalmar o ajudavam a recolher seus pertences. Danilo! Pelos nove infernos de Zandru, como aquilo pudera acontecer? Não era de admirar que o pai se mostrasse disposto a argumentar com Dyan! Algum homem são seria capaz de levantar uma questão de honra contra um menino como ele? É verdade que, se ele tinha idade suficiente para ser um cadete, também tinha idade para arcar com as conseqüências de um ato precipitado.

Endureci minha consciência e segui em frente sem dizer nada. Também sofrera provocações - por algum tempo, enquanto o braço continuava na tipóia, eu dormia pensando em meios de matar Dyan -, mas mantivera a mão longe da espada. Se Danilo não era capaz de se controlar, o corpo de cadetes não era o lugar em que deveria estar.

Os homens já começavam a se reunir quando cheguei ao salão da Guarda. As assembléias disciplinares não eram comuns, já que as pequenas violações e punições eram resolvidas pelos oficiais ou pelo mestre-dos-cadetes em particular; por isso, havia muita curiosidade e perguntas sussurradas. Eu nunca vira um cadete ser formalmente expulso. Às vezes um cadete se afastava por doença ou problemas na família, ou era persuadido a renunciar, por incapacidade física ou emocional para assumir os deveres e a disciplina. O caso de Octavien Vallonde fora abafado assim. E a culpa também fora de Dyan.

Ele já se encontrava ali, em seu lugar, com uma expressão austera e virtuosa. Meu pai entrou, claudicando mais do que nunca. Di Asturien trouxe Danilo. Ele estava tão branco quanto o reboco da parede, o rosto tenso e controlado, mas as mãos tremiam. Houve murmúrios audíveis de surpresa e consternação. Tentei erguer uma barreira contra isso. Para qualquer lado que se olhasse, a reação era de tragédia ou ainda pior.

Meu pai se adiantou. Parecia tão mal quanto Danilo. Pegou um documento longo e formal - especulei se Dyan já o aprontara antes - e desdobrou-o.

- Danilo-Felix Kennard Lindir-Syrtis, adiante-se - disse ele, em voz exausta.

Danilo parecia tão pálido que pensei que ele fosse desmaiar, e senti-me contente por Di Asturien manter-se ao seu lado. Quer dizer que ele era também homônimo de meu pai?

Kennard começou a ler o documento, escrito em casta. Como a maioria dos homens das colinas, eu fora criado falando cahuenga, e foi com dificuldade que acompanhei a linguagem legal, tendo de me concentrar em cada palavra. Já conhecia a essência. Danilo Syrtis, cadete, em desafio a toda ordem e disciplina, contra todos os regulamentos do corpo de cadetes, desembainhara deliberadamente o aço contra um oficial superior, seu mestre-dos-cadetes, Dyan-Gabriel, Regente de Ardais. Portanto, era agora dispensado, em desgraça, despojado de todas as honras e privilégios, e assim por diante, tudo repetido duas ou três vezes, em termos diferentes, até que desconfiei de que a leitura da acusação era muito mais prolongada do que a violação.

Eu tremia com o vazamento acumulado de emoções, que não podia bloquear por completo naquela multidão. A angústia de Danilo era quase uma dor física. Acabem logo com isso! pensei, desesperado, escutando as intermináveis frases legais, ouvindo as palavras agora apenas através das reverberações agoniadas na mente de Danilo. Acabem logo com isso antes que o pobre coitado se descontrole e tenha um acesso histérico ou querem ver essa humilhação também?

- ...e assim será privado de sua honrada posição e voltará para sua casa em desgraça... e como símbolo disso... sua espada será quebrada diante dos seus olhos e na presença de todos os guardas aqui reunidos...

Essa era a minha parte do trabalho sujo. Odiando-a, adiantei-me e tirei a espada de Danilo. Era uma espada simples da Guarda, e abençoei o velho generoso por essa misericórdia. E além do mais, pensei transtornado, aquelas espadas de herança eram de tempera tão boa que seriam necessários uma forja e os fogos de Sharra para causar alguma impressão em qualquer uma!

Tive de tocar o braço de Danilo. Tentei transmitir-lhe um pensamento de conforto, de que aquilo não era o fim do mundo, mas sabia que não conseguiria alcançá-lo. Ele se encolheu ao contato de minha mão enluvada, como se fosse um ferro de marcar em brasa. Teria sido uma terrível provação para qualquer jovem que não fosse um idiota rematado; para alguém com laran, talvez um telepata catalisador, eu sabia que era uma tortura. Danilo seria capaz de suportar sem um colapso total? Ele se mantinha imóvel, olhando fixamente para a frente, os olhos meio fechados, mas piscava como se tentasse reprimir lágrimas ardentes. As mãos se contraíam em punhos nos lados do corpo.

Com a espada de Danilo, voltei à plataforma. Segurei-a pelas extremidades e entortei-a sobre o joelho. Era pesada e mais dura de entortar do que eu imaginara, e tive tempo para me perguntar o que faria se a espada não partisse ou se escapulisse de minhas mãos e voasse ao longo do salão. Houve algumas tosses nervosas, e fiz mais força ainda, pensando: Quebre logo, sua desgraçada, quebre de uma vez, vamos acabar com esse espetáculo sórdido antes que todo mundo comece a gritar!

A espada finalmente se partiu, com um som chocante, que parecia de vidro quebrando. Eu devia antes esperar uma ressonância metálica. Uma das metades deslizou para o chão, e a deixei ali.

Empertigando-me, vi os olhos de Regis cheios de lágrimas. Olhei para Dyan.

Dyan...

Por um instante, ele arriara suas barreiras. Não olhava para mim nem para a espada. Fixava-se em Danilo, com expressão odiosa, intensa, zombeteira, saciada. Uma expressão de luxúria horrenda e satisfeita. Não havia qualquer outra palavra para descrever.

E no mesmo instante compreendi - deveria ter adivinhado desde o início - exatamente como e por que Danilo fora perseguido, até que num momento de desespero impotente fora espicaçado a sacar uma arma contra seu algoz... ou talvez contra si mesmo.

De qualquer forma, no momento em que a lâmina saíra da bainha, Dyan o tivera na posição em que desejava. Ou na melhor posição seguinte.

Creio que jamais saberei como consegui suportar o resto da cerimônia. Minha mente conserva apenas vinhetas isoladas. O rosto de Danilo tão branco quanto sua camisa depois que o tabardo do uniforme foi cortado. Como ele parecia desesperado... e jovem! Dyan tirando a espada quebrada de minha mão, com um sorriso. Quando meu cérebro tornou a desanuviar por completo, eu já deixara o salão da Guarda e subia a escada para os aposentos dos Altons.

Meu pai, cansado, tirava o uniforme. Estava mesmo muito doente, pensei, e não era de admirar. Aquilo deixaria qualquer um assim. Ele me fitou quando entrei e disse, a voz exausta:

- Já providenciei todos os salvo-condutos. Há uma escolta pronta à sua espera, com animais de carga. Pode partir antes do meio-dia, a menos que ache que haverá muita neve antes do anoitecer.

Ele me entregou um pacote de documentos dobrados. Parecia muito oficial, com lacres e essas coisas. Por um instante, mal pude recordar-me do que ele estava falando. A viagem a Aldaran recuara para muito longe. Guardei os documentos no bolso, sem os examinar.

- Pai, você não pode fazer isso. Não pode arruinar a vida de um rapaz por causa do rancor de Dyan. Não outra vez.

- Tentei dissuadi-lo, Lew. Ele poderia resolver tudo em particular. Mas como tornou o problema oficial, eu não podia ignorar. Mesmo que fosse você ou o garoto Hastur.

- E o que me diz de Dyan? É digno de um soldado provocar um menino?

- Deixe Dyan fora disso, filho. Um cadete deve aprender a se controlar, em quaisquer circunstâncias. Terá algum dia em suas mãos a vida ou a morte de dezenas ou centenas de homens. Se não consegue controlar seus sentimentos pessoais...

Meu pai inclinou-se e pôs a mão em meu pulso, numa rara carícia.

- Meu filho, pensa que eu não sei quanto ele tentou provocá-lo a fazer a mesma coisa? Mas confiei em você e estava certo. Fiquei desapontado com Dani.

Mas havia uma diferença. Embora talvez fosse mais rigoroso do que a maioria das pessoas achava que um oficial deveria ser, Dyan nunca fizera nada comigo que não fosse permitido pelos regulamentos do corpo de cadetes. Foi o que eu disse a meu pai, acrescentando:

- Os regulamentos exigem que um cadete deva suportar isso também de um oficial? A crueldade e a disciplina sádica já são bastante terríveis. Mas a perseguição desse tipo, a ameaça de ataque sexual...

- Que provas você tem?

Foi como um dilúvio de água gelada. Provas. Eu não tinha nenhuma. Apenas a expressão satisfeita e triunfante de Dyan, a vertigem da vergonha em Danilo, uma percepção telepática que eu não tivera o direito de captar. Certeza moral, sim, mas nenhuma prova. Eu simplesmente sabia.

- Lew, você é sensível demais. Lamento também por Dani. Mas se ele tinha algum motivo para se queixar do tratamento que Dyan lhe dispensava, há um processo formal de apelação...

- Contra o Comyn? Ele sabia o que aconteceu com o último cadete que tentou isso.

Mais uma vez, contra toda a razão, o pai ficava do lado do Comyn, apoiava Dyan. Fitei-o quase com incredulidade. Mesmo agora, ainda não podia acreditar que ele não quisesse reparar o erro.

Sempre. Sempre confiara nele, totalmente, certo de que encontraria um meio de fazer justiça. Podia ser rigoroso, exigente, mas era sempre justo. Agora, Dyan fizera - de novo! - o que eu sempre soubera que tornaria a fazer, e meu pai se mostrava disposto a relevar, a permitir que aquela monstruosa injustiça persistisse, a deixar que a vingança corrupta e iníqua de Dyan prevalecesse contra toda a honra e razão.

E eu confiara nele! Confiara-lhe literalmente minha vida. Soubera que, se ele falhasse ao me testar para o dom de Alton, eu teria uma morte rápida e dolorosa. Senti que estava prestes a me desmanchar num fluxo de lágrimas que só serviria para me envergonhar. Mais uma vez, o tempo perdeu o foco, e voltei a ter onze anos, apavorado, mas confiante, tremendo diante dele, aguardando o contato que me proporcionaria os plenos direitos hereditários do Comyn... ou me mataria! Sentia a solenidade daquele momento, com um medo horrível, mas também me encontrava ansioso em justificar sua fé em mim, a fé de que eu era seu legítimo filho, que herdara seu dom e seu poder...

Poder! Alguma coisa dentro de mim explodiu em angústia, uma angústia que devia ter sentido ao longo dos anos, desde aquele dia, mas que nunca ousara permitir que aflorasse.

Ele assumira o risco de me matar! Por que eu nunca pensara nisso antes? A sangue frio, mostrara-se disposto a me expor à morte, contra a esperança de adquirir um instrumento para o poder. Poder! Como Dyan, ele não se importava com a tortura que podia infligir para obtê-lo! Ainda podia recordar a agonia explosiva daquele primeiro contato. Passara muito tempo doente depois, e sob seu amor e preocupação acabara esquecendo - para ser mais preciso, sepultara-o conhecimento de que meu pai se arriscara a provocar minha morte.

Por quê? Porque, se ficasse comprovado que eu não tinha o dom, então... ora, nesse caso minha vida não teria maior interesse para ele, minha morte não seria pior do que a de um cachorro de estimação! Descobri que ele me fitava, consternado, e sussurrou:

- Não, meu filho, não, meu querido, não foi assim!

Mas tratei de fechar a mente, surdo pela primeira vez a palavras de afeto... palavras que visavam apenas a impor sua vontade sobre mim, mais uma vez! E sua angústia agora era por ver seus planos frustrados, quando seu fantoche, seu instrumento cego, sua criatura se rebelava!

Ele não era melhor do que Dyan. Honra, justiça, razão... todas essas coisas podiam ser varridas para o lado na ânsia implacável por poder! Será que ele sequer sabia que Danilo era um telepata catalisador, o mais sensível e poderoso dos dons, um talento que se julgava quase extinto?

Por urn momento, parecia que seria o último argumento para comovê-lo. Danilo não era um cadete comum, dispensável, para salvar o orgulho avariado de Dyan. Danilo deveria ser resguardado para o Comyn a qualquer custo!

Mas me contive no instante mesmo em que as palavras alcançaram os lábios. Não. Se dissesse isso ao pai, ele encontraria um meio de usar Danilo também, como um instrumento em sua busca incessante por mais poder. Era melhor para Danilo ficar livre do Comyn, afortunado por estar além do nosso alcance!

Meu pai retirou as mãos estendidas e disse friamente:

- Muito bem, é uma longa jornada até Aldaran; talvez você se acalme e recupere o bom senso antes de chegar lá.

Tive vontade de dizer Aldaran que se dane! Faça você mesmo o seu trabalho sujo desta vez, ainda estou nauseado da última missão! Não dou um peido no vento alto por toda a sua política de poder! Vá para Aldaran você mesmo, e que se dane!

Mas não falei isso. Recordei que também era um Aldaran, além de terráqueo. Já me fora jogado na cara muitas vezes. Todos presumiam que eu sentiria bastante vergonha da desgraça de minhas origens para fazer qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, para ser aceito como Comyn e herdeiro de meu pai. Fora assim que ele me mantivera subserviente e dócil, durante toda a minha vida.

Mas o sangue terráqueo, como Linnea dissera, não era uma desgraça nas montanhas. Ela se espantara por saber que eu pensava assim. E os Aldarans também eram meus parentes.

Meu pai deixara-me pensar que os terráqueos e os Aldarans eram malignos. Servira a seus propósitos me deixar pensar assim.

E talvez isso fosse outra mentira, mais um passo em sua estrada para o poder. Fiz uma reverência, numa irônica submissão.

- Estou inteiramente a seu serviço, Lorde Alton.

Virei as costas e deixei-o, sem um abraço ou uma palavra de despedida.

E assim selei o meu destino.

Capítulo Onze

Desde a partida de Danilo que o alojamento dos cadetes do primeiro ano se mantinha silencioso, hostil, agitado às vezes por turbilhões de murmúrios em pequenos grupos, dos quais Regis era sempre excluído. O que não o surpreendia. Danilo sempre fora apreciado pelos outros cadetes, que identificavam Regis como o Comyn que provocara sua expulsão.

Seu próprio sofrimento, sua solidão - ainda pior porque fora rompida por um breve período - não eram nada, ele sabia, em comparação com o que seu amigo devia estar sentindo. Dani se virara contra ele naquela noite, tinha certeza, porque não era mais apenas Regis, tornara-se outro algoz. Outro Comyn. Mas o que poderia levá-lo a tamanho desespero?

Regis repassou tudo em sua mente, várias vezes, mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Gostaria de poder conversar a respeito com Lew, que também ficara chocado e horrorizado. Regis sentira sua reação. Mas Lew viajara para Aldaran, e Regis não tinha idéia de quando ele voltaria.

Um dia antes da dispensa dos cadetes, quando todos seguiriam para suas casas e só voltariam no verão seguinte, na próxima sessão do Conselho, Regis tinha um treinamento de esgrima marcado com Dyan Ardais. Foi para o exercício cora a mistura habitual de excita-mento e apreensão. Gostava de sua reputação entre os cadetes, como um espadachim hábil demais para os ensinamentos comuns, e o treino com Dyan o desafiava ao máximo. Ao mesmo tempo, porém, sabia que aquelas sessões o afastavam ainda mais dos outros cadetes. Além disso, saía delas com várias equimoses pelo corpo, completamente exausto.

Os cadetes aprontavam-se para o exercício no pequeno vestiário da armaria, pondo os coletes reforçados que eram usados para amortecer os piores golpes. As pesadas espadas de exercício, de madeira e couro, não podiam matar, mas eram capazes de infligir lesões consideráveis, muita dor e até fratura de ossos. Regis tirou o manto e a túnica e enfiou o colete pela cabeça, estremecendo ao virar o corpo para amarrar as tiras. Tinha sempre as costelas doloridas.

Enquanto ele terminava de se arrumar, Dyan entrou, jogou seu gibão num banco e vestiu apressado o traje de exercício. Por trás da máscara de esgrima, ele parecia um gigantesco inseto. Impaciente, gesticulou para que Regis o seguisse até a sala de exercício. Em sua pressa de obedecer, Regis esqueceu-se de pegar as luvas, e o homem mais velho disse, em tom ríspido:

- Depois de todos esses meses? Olhe aqui...

Dyan estendeu um punho cerrado, apontou o caroço sobre os tendões do dorso da mão e acrescentou:

- Isso me aconteceu quando tinha a sua idade. Devia obrigá-lo a experimentar um dia sem as luvas... esqueça outra vez, e é o que farei. Garanto que nunca mais vai esquecer.

Sentindo-se como um menino repreendido, Regis voltou apressado ao vestiário e pegou as pesadas luvas. No outro lado da sala de treinamento, um dos ajudantes do mestre-de-armas dava uma lição ao jovem Gareth Lindir, pacientemente ajeitando e reajeitando seus braços e pernas, ombros e mãos, depois de cada golpe separado. Regis não podia ver seus rostos por trás das máscaras, mas ambos se movimentavam como se estivessem entediados com o exercício. As equimoses eram melhor do que isso, pensou Regis, enquanto se aproximava de Dyan.

O combate foi breve. Dyan se movia mais devagar do que o habitual, quase desajeitado. Regis descobriu-se recordando, com um pouco de embaraço, um sonho que tivera tempos atrás, sobre uma luta com espadas que travara com Dyan. Não podia lembrar os detalhes, mas por qualquer motivo, ignorado, isso lhe provocou uma intensa angústia. Acabou tocando Dyan e esperou que o homem mais velho retomasse a posição. Em vez disso, Dyan largou a espada de madeira.

- Você terá de me desculpar por hoje. Estou um pouco... -Dyan fez uma pausa. - ...um pouco... Não me sinto propenso a continuar.

Regis teve a impressão de que ele tencionara alegar doença.

- Se quiser continuar - acrescentou Dyan -, posso arrumar outro para treinar com você.

- Como achar melhor, Capitão.

- Pois então já chega.

Ele tirou a máscara e voltou para o vestiário. Regis seguiu-o devagar. A respiração de Dyan era ofegante, o suor escorria pelo rosto. Ele pegou uma toalha e comprimiu-a contra o rosto. Regis, tirando o colete protetor, tratou de se virar. Como a maioria dos jovens, sentia-se constrangido por testemunhar a fraqueza de alguém mais velho. Sua camisa estava encharcada de suor; tirou-a e foi até seu armário, a fim de pegar a outra que aprendera a deixar sempre ali. Dyan largou a toalha e aproximou-se dele por trás. Parou, olhando para o tronco nu de Regis, escurecido pelas equimoses, e só depois de um longo momento é que comentou:

- Você deveria ter falado. Não pensei que estava batendo com tanta força.

Mas ele sorria enquanto falava. Passou as mãos pelas costelas de Regis, em movimentos firmes e meticulosos. O rapaz se encolheu ao contato e soltou uma risada nervosa. Dyan deu de ombros, rindo também.

- Não há fraturas - murmurou ele, correndo os dedos pelas costelas inferiores -, e assim não há problemas maiores.

Regis apressou-se em vestir a camisa limpa e a túnica, pensando que Dyan sabia com precisão cada vez que acertava em uma equimose antiga... ou fazia uma nova! Dyan sentou num banco para calçar as botas e jogou as sandálias de treinamento em seu armário.

- Quero conversar com você - disse ele -, e sei que só entrará de serviço dentro de uma hora. Vamos até a taverna. Deve estar com sede também.

- Obrigado.

Regis pegou seu manto, e os dois desceram a ladeira até a taverna perto dos estábulos militares, não a grande, em que os soldados comuns costumavam beber, mas a pequena, onde oficiais e cadetes passavam as horas de lazer. Não havia muitos fregueses naquele momento. Dyan foi sentar num reservado vazio.

- Podemos ir para a sala dos fundos, se você preferir.

- Não precisa. Aqui está ótimo, senhor.

- Vejo que é bastante sensato - comentou Dyan, em tom impessoal. - Os outros cadetes se ressentiriam se fossem afastados de suas diversões habituais. O que vai beber?

- Sidra, senhor.

- Não quer algo mais forte? Fique à vontade.

Dyan chamou o garçom e pediu vinho para si e sidra para Regis. Depois que o homem se afastou, ele disse:

- Creio que sei por que tantos cadetes bebem demais: a cerveja que servem no refeitório é tão insuportável que eles preferem vinho. Talvez devêssemos melhorar a qualidade da cerveja como uma maneira de mantê-los sóbrios.

Ele falou num tom tão engraçado que Regis não pôde deixar de rir. Foi nesse instante que meia dúzia de cadetes entraram na taverna. Já iam sentar à mesa ao lado, mas viram os dois Comyn ali, rindo juntos, e foram agrupar-se a uma mesa menor, junto da porta. Dyan estava de costas para eles. Alguns eram companheiros de alojamento de Regis, que lhes acenou com a cabeça, polidamente, mas todos fingiram não ver.

- Amanhã terminará sua primeira temporada como cadete - disse Dyan. -Já decidiu voltar para a segunda?

- É o que espero fazer, Capitão. Dyan balançou a cabeça.

- Se você sobrevive ao primeiro ano, todo o resto se torna mais fácil. É o primeiro ano que separa os soldados dos meninos mimados. Conversei com o mestre-de-armas e sugeri que ele o experimentasse como um dos seus ajudantes no próximo ano. Acha que pode ensinar aos garotos algumas das coisas que venho tentando meter em sua cabeça?

- Posso tentar, senhor.

- Só não deve ser muito gentil com eles. Umas poucas equimoses no momento certo podem salvar suas vidas mais tarde. - Dyan sorriu subitamente. - E parece que me saí melhor com você do que imaginava, parente, a julgar pela aparência de suas costelas.

O sorriso foi contagiante. Regis riu também.

- É verdade que não me poupou as equimoses. Sem dúvida, algum dia ainda serei grato por isso.

Dyan deu de ombros.

- Pelo menos você não se queixou. É uma coisa que admiro em alguém da sua idade.

Ele fitou o jovem cadete nos olhos por uma fração de segundo a mais do que Regis gostaria, depois pegou sua caneca e tomou um longo trago.

- Eu me orgulharia de tal comportamento em meu próprio filho.

- Não sabia que tinha um filho, senhor.

Dyan serviu-se de mais vinho e disse, sem levantar os olhos:

- Tive um filho. - Seu tom não se alterou, mas Regis pôde sentir uma angústia genuína por trás da voz firme de Dyan. - Ele morreu numa avalanche em Nevarsin, há alguns anos.

- Sinto muito, parente. Nunca me contaram.

- Ele só esteve em Thendara uma vez, quando o legitimei. Estava aos cuidados da mãe, e eu quase nunca o via. Nunca chegamos a nos conhecer direito.

O silêncio prolongou-se. Regis não podia resguardar-se contra o sentimento de pesar e perda irradiado por Dyan. Precisava dizer alguma coisa.

- Ainda não é tão velho assim, Lorde Dyan. Poderia ter muitos outros filhos.

O sorriso de Dyan foi um mero movimento mecânico da boca.

- É mais provável que eu adote um dos bastardos de meu pai. Ele os espalhou por toda parte, das Hellers às Planícies de Valeron. Deve ser bastante fácil encontrar um com laran, o que é tudo o que interessa ao Conselho. Nunca fui um homem para as mulheres, e também não fiz segredo disso. Forcei-me a cumprir meu dever para com o clã. Uma vez. E foi o suficiente.

Para a sensibilidade desperta de Regis, ele pareceu extremamente amargurado.

- Recuso-me a pensar em mim mesmo como uma espécie muito especial de animal reprodutor, cujos produtos pertencem ao Comyn. Tenho certeza de que você... - Dyan levantou o rosto e tornou a fitar Regis nos olhos, num gesto prolongado e intenso. - ...pode compreender o que estou querendo dizer.

As palavras de Dyan eram explícitas, mas o sentimento que ele aparentemente tentava criar, de que havia uma relação especial entre os dois, deixou Regis embaraçado. Ele baixou os olhos e murmurou:

- Não tenho certeza se entendi, parente.

Dyan deu de ombros, e a intensidade de seu olhar desapareceu, de forma tão abrupta quanto surgira.

- Ora, só estou querendo dizer que por você ser o herdeiro de Hastur já começaram a pressioná-lo para casar, como fizeram comigo, quando tinha sua idade. Seu avô tem uma reputação no Conselho como o mais persistente e tenaz promotor de casamentos. Por acaso ele deixou a Noite do Festival passar sem lhe mostrar uma dúzia das donzelas mais apropriadas, na esperança de despertar em você uma atração intolerável por uma delas?

- Ele não fez nada disso, senhor. Eu estava de serviço na Noite do Festival.

- É mesmo? - Dyan alteou as sobrancelhas, expressivo. - Havia ali uma dúzia de donzelas bem-nascidas, todas bonitas, e pensei que todas se destinavam à sua aprovação. Fico surpreso que ele tenha permitido a sua ausência.

- Nunca pedi para ser dispensado do serviço, senhor, e tenho certeza de que meu avô nunca pediria por mim.

- Uma atitude das mais louváveis, como se poderia esperar do filho de seu pai. Mas como o velho deve ter ficado desapontado! E eu o acusei de ser alcoviteiro! - Dyan estava sorrindo de novo. -Mas ele me garantiu que sempre toma o cuidado de promover o casamento antes que o casal vá para a cama.

Regis não pôde deixar de rir, embora soubesse que deveria sentir vergonha de se divertir à custa do avô.

- Não, Lorde Dyan, ele não me falou de casamento. Ainda não. Só disse que eu deveria ter um herdeiro tão jovem quanto possível.

- Estou me sentindo envergonhado por ele! - Dyan riu de novo. - Seu avô casou Rafael quando ele ainda era da sua idade!

Regis ressentira-se da memória do pai, cuja morte o privara de tanta coisa; nesse instante, experimentou um anseio profundo de saber que tipo de homem ele fora.

- Sou tão parecido com meu pai quanto dizem, parente? Conheceu-o bem?

- Não tão bem quanto eu gostaria. Ele casou jovem, quando eu ainda me encontrava em Nevarsin, onde... a devassidão de meu pai não me poderia contaminar. Mas é isso mesmo, você é bem parecido com seu pai. - Ele fitou Regis atentamente. - Embora seja mais bonito do que Rafael... muito mais bonito.

Dyan se calou e ficou olhando para seu copo de vinho. Regis pegou a caneca com sidra e tomou um gole, sem levantar os olhos. Tornara-se sensível aos comentários um tanto freqüentes demais sobre sua beleza em Nevarsin e no alojamento. Partindo de Dyan, pareciam mais deliberados. Deu de ombros, mentalmente, recordando o que mais diziam no alojamento, que Lorde Dyan apreciava rapazes atraentes. Dyan tornou a fitá-lo.

- Onde tenciona passar o inverno, parente? Vai voltar ao Castelo Hastur?

- Acho que não. O avô é necessário aqui, e creio que ele prefere me ter por perto. A propriedade está entregue em boas mãos, e assim não preciso ir até lá.

- É verdade. Ele perdeu tanta coisa da vida de Rafael que desconfio de que é um erro que não deseja repetir. Devo permanecer aqui também, por causa das sucessivas crises na cidade, e com Kennard doente durante a maior parte do tempo. Mas Thendara é um lugar interessante para se passar o inverno. Há concertos em quantidade suficiente para satisfazer qualquer amante da música. E há também restaurantes elegantes, bailes, as mais variadas diversões. E para um jovem da sua idade, as casas do prazer não podem ser esquecidas. Conhece a Casa das Lanternas, primo?

Em contraste com os outros momentos de intensidade, aquele foi quase casual. A Casa das Lanternas era um bordel discreto, um dos poucos que não eram expressamente proibidos aos cadetes e aos oficiais. Regis sabia que alguns dos cadetes mais velhos visitavam o lugar de vez em quando, mas embora partilhasse a curiosidade dos outros cadetes do primeiro ano, ainda não fora suficiente para superar sua aversão à idéia. Ele sacudiu a cabeça.

- Só de reputação.

- Acho o lugar meio insípido. O Gaiola Dourada é muito mais ao meu gosto. Fica junto da Zona Terráquea, e podem-se encontrar ali várias diversões exóticas, até mesmo alienígenas e não-humanos, além de mulheres de todos os tipos. - Uma breve pausa, e Dyan acrescentou, no mesmo tom casual: - Ou todos os tipos de homens e rapazes.

Regis corou e tentou esconder seu constrangimento tossindo, como se tivesse engasgado com a sidra. Mas Dyan percebera o rubor e sorriu.

- Eu tinha esquecido como os jovens podem ser convencionais. Talvez um gosto por... diversões exóticas... precise ser cultivado, como o gosto por bons vinhos em vez de sidra. E três anos num mosteiro em nada contribuem para desenvolver o gosto por qualquer das melhores diversões e luxos que ajudam um jovem a aproveitar a maior parte de sua vida.

Regis corou ainda mais. Dyan inclinou-se para a frente e pôs a mão em seu braço.

- Primo, o mosteiro ficou para trás; já compreendeu de fato que não está mais sujeito a todas as suas regras?

Dyan observava-o com a maior atenção. Como Regis não dissesse nada, ele continuou:

- Podem-se desperdiçar os anos, parente, os anos preciosos da juventude, tentando-se cultivar gostos que mais tarde se descobre serem equivocados. Pode perder muita coisa assim. Aprenda o que quer e o que é enquanto ainda é jovem para desfrutar. Eu gostaria de que alguém tivesse me dado esse conselho na sua idade. Meu próprio filho não viveu para precisar dele. Seu pai não está aqui para dá-lo a você... e seu avô, não tenho a menor dúvida, está mais preocupado em ensinar seu dever para com a família e o Comyn do que em ajudá-lo a aproveitar sua juventude!

A intensidade de Dyan não o perturbava agora. Regis compreendeu que fazia muito tempo que se sentia ansioso pela oportunidade de conversar sobre essas coisas com um homem de sua casta, alguém que entendesse o mundo em que ele deveria viver. Largando a caneca na mesa, ele disse:

- Parente, eu me pergunto se não foi por isso que o avô insistiu em que eu deveria servir no corpo de cadetes.

Dyan balançou a cabeça.

- É bem provável. Fui eu quem o aconselhou a mandar você para o corpo de cadetes, em vez de deixá-lo consumir seu tempo na ociosidade e diversão. Há um tempo para isso, é claro. Mas achei que o tempo passado entre os cadetes lhe ensinaria mais depressa as coisas que deixou de aprender antes.

A expressão de Regis era da maior seriedade.

- Eu não queria entrar no corpo de cadetes e o detestei a princípio.

Dyan tornou a pôr a mão em seu ombro, de leve, e disse afetuosamente:

- Todo mundo detesta. Se isso não acontecesse com você, eu ficaria preocupado; significaria que se tornou um homem duro cedo demais.

- Mas agora creio que sei por que os herdeiros do Comyn devem servir no corpo de cadetes. Não é apenas a disciplina. Tive muita em Nevarsin. Mas aprender como ser um do nosso povo, fazer o mesmo trabalho que os outros, partilhar suas vidas e seus problemas, para que... - Regis mordeu o lábio, procurando as palavras certas com todo o cuidado. - ...para que saibamos o que é o nosso povo.

- Foi muito eloqüente, meu rapaz. Como seu mestre-dos-cadetes, sinto-me contente. E como seu parente também. Gostaria de que mais jovens de sua idade tivessem essa compreensão. Tenho sido acusado de ser implacável. Mas tudo o que eu fiz, sempre foi por lealdade ao Comyn. Pode compreender isso, Regis?

- Acho que sim.

Regis sentia-se satisfeito, um pouco menos solitário, por ter alguém que se importava com seus sentimentos e pensamentos.

- Compreende também o que eu disse sobre a reação desfavorável dos outros cadetes se você recusasse suas diversões comuns?

Regis mordeu o lábio outra vez.

- Entendo o que está querendo dizer. Mesmo assim, eu me sinto estranho sobre... - Ele voltou a se sentir embaraçado. - Sobre lugares como a Casa das Lanternas. Talvez passe à medida que eu me torne mais velho. Mas sou um... um telepata...

Como era estranha a sensação de dizer isso! E como era estranho que Dyan fosse o primeiro a ser informado! Regis acrescentou, experimentando alguma dificuldade com as palavras:

- E me parece... errado.

Dyan levantou o copo e bebeu o resto do vinho, antes de responder:

- Talvez você tenha razão. A vida já pode ser bastante complicada para um telepata sem isso. Algum dia saberá o que quer, e virá o momento de confiar em seus instintos e necessidades.

Ele ficou em silêncio, pensativo, e Regis se descobriu especulando que recordações amargas haveria por trás daquele olhar perdido no espaço. Só depois de um longo momento é que Dyan voltou a falar:

- Nesse caso, é provável que seja melhor que você se mantenha afastado de tais lugares e espere, se os Deuses forem generosos, que alguém que possa amar o ajude a descobrir essa parte de sua vida. -Ele soltou um suspiro profundo. - Se conseguir. Talvez descubra necessidades ainda mais imperativas do que os instintos. É sempre um equilíbrio difícil para um telepata. Há necessidades físicas. E há necessidades que podem ser ainda mais fortes. Necessidades emocionais. E o equilíbrio entre essas coisas pode destruir qualquer um.

Regis teve a estranha impressão de que Dyan não falava a respeito dele, mas sim de si próprio. Abruptamente, Dyan largou o copo de vinho vazio e levantou-se, acrescentando:

- Mas um prazer que não acarreta qualquer perigo é observar os jovens crescerem era sabedoria, primo. Espero testemunhar muito desse crescimento em você durante o inverno, e o observarei com interesse. Enquanto isso, não se esqueça de uma coisa: conheço a cidade muito bem, e seria um prazer mostrar qualquer coisa que deseje ver. - Ele soltou uma risada. - E pode estar certo, primo, de que essa instrução não vai lhe deixar nenhuma equimose.

Ele se afastou apressado. Regis, pegando seu manto no banco, sentia-se mais perplexo do que nunca, com a impressão de que Dyan queria dizer mais alguma coisa.

Tinha de passar pela mesa ocupada pelos cadetes, tomando cerveja ou sidra; notou que o fitavam de um jeito que nada tinha de amistoso. Nenhum deles lhe ofereceu sequer a cortesia mínima de uma saudação formal. Empinou o queixo e virou-lhes as costas. Ouviu um dos cadetes dizer, em voz baixa:

- Catamita!

Regis foi dominado por intensa raiva. Sua vontade era de partir para cima do rapaz e espancá-lo até que sangrasse. Mas rangeu os dentes e obrigou-se a sair dali, fingindo que não ouvira. Se você prestar atenção aos cães ladrando, vai ficar surdo e não aprenderá muito.

Lembrou os vários insultos que fingira não ter ouvido, a maioria sobre a união do Comyn, de que ele desfrutava favores especiais porque era um herdeiro do Comyn. Mas aquele era novo. Recordou o escárnio que Danilo lhe lançara na noite anterior à sua expulsão. Dani era um cristoforo, e para ele fora mais que um insulto.

Sabia que Dyan só tinha desprezo por tais comentários. Nunca fizera segredo de suas preferências. Regis, no entanto, sentia-se estranhamente protetor em relação ao parente, depois de perceber sua amargura. E tinha um insólito desejo de defendê-lo.

Ocorreu-lhe mais uma vez, com uma frustração nova demais para que compreendesse que se tratava de uma situação comum entre os telepatas, que havia ocasiões em que o laran não servia de qualquer ajuda nas relações pessoais.

A temporada terminou. Os cadetes foram dispensados para voltar às suas casas, e Regis foi para os aposentos dos Hasturs no Castelo Comyn. Apreciou a paz e o sossego e encontrou certo prazer em poder dormir pela manhã até a hora que quisesse. E as cozinheiras dos Hasturs eram sem dúvida muito melhores do que os homens que preparavam a comida no refeitório da Guarda. Mas a austeridade prolongada, primeiro em Nevarsin, depois no alojamento, fez com que se sentisse quase culpado por esse tipo de luxo. Não podia desfrutá-lo como gostaria.

Uma manhã, quando comia o desjejum em companhia do avô, Lorde Hastur perguntou abruptamente:

- Você tem andado diferente. Algum problema?

Regis refletiu que o avô o vira tão pouco que não podia ter a menor idéia de como ele era normalmente. Mas era polido demais para dizer isso e limitou-se a comentar:

- Talvez me sinta entediado. Não tenho feito exercício suficiente.

Perturbou-o não poder deixar de captar os pensamentos do avô: É um erro manter o rapaz sem ter nada para fazer aqui, quando disponho de tão pouco tempo para passar em sua companhia. Em voz alta, Hastur disse:

- Receio estar muito ocupado para lhe dar maior atenção, meu rapaz. Sinto muito. Gostaria de voltar ao Castelo Hastur ou ir para algum outro lugar?

- Não estava me queixando, senhor. Mas sinto que não tenho qualquer utilidade aqui. Quando me pediu que passasse o inverno, pensei que poderia ajudá-lo em alguma coisa.

- Eu bem que gostaria que pudesse. Infelizmente, você ainda não tem a experiência necessária para me prestar uma grande ajuda. - Hastur não pôde ocultar um momento de satisfação. Ele está começando a se interessar. - Em algum momento deste inverno, você pode assistir a sessões das Cortes e verificar quais são os problemas com que nos defrontamos. Vou lhe providenciar um passe. Ou pode ir a Edelweiss e passar alguns dias com Javanne.

Regis deu de ombros. Achava Edelweiss um lugar insípido. Não havia caça ali, exceto coelhos e esquilos, a chuva os obrigava a permanecer dentro de casa durante a maior parte do tempo, e ele e Javanne eram muito separados pela idade e pela diferença de personalidades para encontrar grande prazer na companhia um do outro.

- Sei que não é um lugar dos mais emocionantes - acrescentou Hastur, quase como se pedisse desculpas -, mas ela é sua irmã, e não temos tantos parentes assim que possamos negligenciar uns aos outros. Se prefere caçar, pode ir para Armida em qualquer tempo. Lew está ausente, e Kennard muito doente para viajar, mas você pode levar um amigo.

Mas o único amigo que ele fizera entre os cadetes, pensou Regis, fora expulso em desgraça.

- Kennard está doente, senhor? Qual é o problema? Danvan suspirou.

- Este clima não lhe faz bem. Ele se torna mais entrevado cada ano que passa. Ficará melhor quando as chuvas...

Ele parou de falar quando um servo entrou com uma mensagem.

- Já? Tenho de ir conversar com uma delegação comercial das Cidades Secas. - Lorde Hastur falou com cansada resignação, largando o guardanapo na mesa. - Avise-me de seus planos, rapaz, e providenciarei uma escolta.

Ficando sozinho, Regis serviu-se de outra xícara do café terráqueo, um dos poucos luxos que o austero velho se permitia, e pensou na situação. Claro que não poderia evitar a visita a Javanne. Uma visita a Armida poderia aguardar o retorno de Lew; era improvável que ele tencionasse passar todo o inverno em Aldaran.

Se Kennard estava doente, a cortesia exigia que Regis fosse visitá-lo em seus aposentos; por algum motivo desconhecido, no entanto, ele relutava em encarar Lorde Alton. Não sabia por quê. Kennard sempre o tratara muito bem. Depois de algum tempo, ele focalizou a causa do ressentimento: o velho assistira à desgraça de Danilo sem dizer nada. Lew bem que quisera interferir, mas não podia; Kennard não se importara.

E Kennard era um dos mais poderosos telepatas no Comyn. Regis, com tanto ressentimento, não queria vê-lo. Kennard saberia no mesmo instante como ele se sentia.

Racionalmente, Regis compreendia que deveria procurar Kennard sem demora, quanto menos não fosse para lhe contar sobre o recente desenvolvimento de seu laran. Havia técnicas de treinamento para ajudá-lo a dominar e controlar seu novo poder. Mas no corpo de cadetes isso parecia não ter muita importância, e nunca surgira um momento oportuno para conversar a respeito com Lew, até que ele viajara. Dyan parecia considerar que ele já tinha todo o treinamento necessário. Kennard era a pessoa óbvia para orientá-lo. Regis advertiu a si mesmo, com firmeza, que deveria procurá-lo de imediato, hoje mesmo, agora.

Mas ainda relutava em confrontá-lo. Decidiu primeiro passar alguns dias com Javanne. Ao final da visita, talvez Lew já tivesse voltado.

Poucos dias mais tarde, ele seguiu para o norte, o peso da omissão ainda em sua consciência. Syrtis ficava a menos de um quilômetro da estrada para o norte, e Regis, num súbito impulso, mandou que a escolta esperasse numa aldeia próxima. Foi sozinho para Syrtis.

Situava-se na extremidade de um vale comprido, de onde se descia para a região de lagos em torno de Mariposa. Era um dia claro de outono, as frutas amadurecendo nos galhos das árvores, e pequenos animais faziam barulho ao correr pelo mato seco à beira da estrada. Os sons e os cheiros fizeram Regis se sentir contente, enquanto cavalgava sozinho. Ao se aproximar da fazenda, no entanto, sentiu um aperto no coração. Pensara que Danilo estava bem por voltar para casa, naquela aprazível região, mas não imaginara como o lugar era pobre. A casa principal era pequena, uma ala tão dilapidada que não podia ser apropriada à habitação humana. Os poucos prédios anexos indicavam que não havia muitas pessoas vivendo ali. O velho fosso fora drenado, convertido em horta, com fileiras de legumes e ervas em vasos. Um velho e encurvado servo informou-o, depois de tocar o peito, na cortesia rústica, de que o amo acabara de voltar da caça. Regis desconfiou de que num lugar como aquele o coelho seria mais abundante na mesa do que a carne do açougueiro.

Um homem alto e idoso, num manto outrora elegante, agora bastante puído, aproximou-se lentamente em seu cavalo. Tinha bigode e barba, e sentava no cavalo com a competência ereta de um velho soldado. Havia um falcão encapuçado na sela.

- Saudações - disse ele, com uma voz profunda. - Recebemos poucos viajantes em Syrtis. Como posso servi-lo?

Regis desmontou e fez uma reverência cortês.

- Dom Felix Syrtis? Regis-Rafael Hastur, para servir-te.

- Minha casa e eu estamos a seu dispor, Lorde Regis. Deixe-me cuidar de sua égua. O velho Mauris é meio cego; eu não lhe confiaria um animal tão esplêndido. Não quer me acompanhar?

Puxando sua montaria, Regis seguiu o velho para um estábulo de pedra, em melhores condições do que a maioria dos outros prédios, todo calafetado, com um telhado novo. Havia uma área fechada no outro lado; mais perto, havia baias abertas, e Regis conduziu sua égua para uma delas, enquanto Dom Felix tirava uma porção de pequenas aves do gancho em sua sela, para depois desmontar. Regis viu o lindo castrado preto de Danilo em outra baia, o velho caçador que Dom Felix montava e mais duas éguas, de boa qualidade, mas já velhas. As outras baias estavam vazias, exceto por dois pesados cavalos de arado e um ou outro animal leiteiro. Era de fato uma pobreza extrema para uma família de sangue nobre, e Regis sentiu-se envergonhado por testemunhá-la. Recordou que Danilo mal tinha uma camisa inteira quando ingressara no corpo de cadetes.

Dora Felix admirava a égua preta de Regis com o tipo de amor que os homens de sua classe só demonstravam abertamente por seus cavalos e falcões.

- Uma bela montaria, vai dom. Criada em Armida, não é mesmo? Conheço esse pedigree.

- É verdade. Um presente de aniversário de Lorde Kennard, antes de minha partida para Nevarsin.

- Posso lhe perguntar como ela se chama, Lorde Regis?

- Melisande.

O velho afagou o focinho aveludado com a maior ternura. Regis acenou para o cavalo preto de Danilo.

- E ali está outro animal da mesma espécie; talvez até tenham sido crias da mesma égua.

- É possível. Lorde Alton não retira um presente, mesmo que tenha sido imerecido.

Dom Felix falou em tom brusco, e Regis sentiu um frio no coração; era um mau presságio para sua missão. O velho virou-se para cuidar do falcão, e Regis perguntou, com toda a polidez:

- Teve uma boa caçada, senhor?

- Indiferente. - Dom Felix tirou o falcão da sela e levou-o na direção da área fechada. Quando Regis fez menção de segui-lo, ele acrescentou: - Não, meu lorde, vai assustar um falcão ainda não domado que tenho aqui. Agradeceria se continuasse onde está.

Repreendido, Regis manteve-se a distância. Quando o velho voltou, elogiou-o por um pássaro bem treinado.

- É o trabalho da minha vida, Lorde Regis. Fui mestre falcoeiro do seu avô, quando seu pai ainda era um rapaz.

Regis estranhou, mas naqueles dias conturbados não era difícil encontrar um antigo cortesão que caíra em desgraça.

- Por que honra a minha casa com sua visita, Lorde Regis?

- Vim falar com seu filho Danilo.

Os lábios comprimidos do velho quase desapareceram entre o bigode e o queixo. Só depois de um longo tempo é que ele falou:

- Meu lorde, por seu uniforme, sei que conhece a desgraça de meu filho. Qualquer que tenha sido seu crime, ele já pagou mais do que pode imaginar.

Regis protestou, chocado:

- Mas sou amigo dele!

A hostilidade acumulada explodiu nesse instante.

- A amizade de um lorde do Comyn é como o mel de uma colméia: traz uma picada mortal! Já perdi um filho pelo amor a um lorde de Hastur; devo perder também o último filho de minha velhice?

Regis falou gentilmente:

- Durante toda a minha vida, Dom Felix, só ouvi falar coisas boas sobre o homem que sacrificou a própria vida numa vã tentativa de defender meu pai. Acha que eu seria bastante iníquo para desejar qualquer mal à família de um homem assim? Independentemente dos ressentimentos que possa ter contra meus antepassados, senhor, não tem nada contra mim. Se Danilo tiver, ele mesmo deve me dizer. Não sabia que seu filho era tão jovem que precisa da permissão do pai para receber um visitante.

Uma tênue rubor espalhou-se pelo rosto barbudo. Regis compreendeu, tarde demais, que fora impertinente. Não era surpresa que Danilo incorresse no desprazer do pai, mas Regis falara a verdade: pelas leis dos Domínios, Danilo era um adulto responsável.

- Meu filho está no pomar, Dom Regis. Tenho de mandar chamá-lo? Não dispomos de servos suficientes para levar mensagens.

- Irei até lá, se me permitir.

- Perdoe-me por não acompanhá-lo, já que diz que veio até aqui para falar com meu filho. Preciso levar estas aves para o meu pessoal da cozinha. Aquele caminho o levará ao pomar.

Regis seguiu pelo caminho que o velho apontara. Ao final, a trilha estreita abria-se para um pomar de macieiras e pereiras. As frutas, maduras, pendiam brilhantes entre as folhas escuras. Danilo se encontrava no outro lado do pomar, de costas para Regis, agachado, retirando a palha que cobria as raízes das árvores. Estava sem camisa, os pés metidos em sapatos de madeira. Havia uma faixa úmida de suor contornando a testa, os cabelos escuros em desordem por cima.

O cheiro das maçãs era adocicado. Danilo empertigou-se lentamente, segurando uma fruta que o vento derrubara, e mordeu-a, pensativo. Regis permaneceu imóvel a observá-lo, sem ser visto, por um momento. Ele parecia cansado, concentrado e, se não contente, pelo menos embalado pelo árduo trabalho físico e pelo sol quente numa paz momentânea.

- Dani?

Surpreso, o rapaz largou a maçã e tropeçou no ancinho, ao se virar. Regis não sabia o que dizer. Danilo deu um passo em sua direção.

- O que você quer?

- Eu seguia pela estrada para a casa de minha irmã e resolvi dar um pulo até aqui, para apresentar meus respeitos a seu pai e ver como você está.

Ele percebeu a luta visível de Danilo entre o impulso de repelir o gesto polido - o que mais tinha a perder? - e o hábito vitalício da hospitalidade. Ao final, Danilo disse:

- Minha casa e eu estamos à sua disposição, Lorde Regis. - A polidez era exagerada quase a ponto da caricatura. - Qual é o desejo do meu lorde?

- Quero conversar com você.

- Como pode ver, meu lorde, estou muito ocupado. Mas farei o que deseja.

Regis ignorou a ironia e aceitou apenas a palavra.

- Venha sentar comigo.

Ele se acomodou num tronco caído, derrubado havia tanto tempo que se achava coberto por um líquen cinza. Em silêncio, Danilo obedeceu, mantendo-se tão distante quanto as dimensões do tronco permitiam. Depois de um momento, Regis declarou:

- Quero que saiba que não tenho a menor idéia do motivo de sua expulsão da Guarda. Ou melhor, sei apenas o que ouvi naquele dia. Mas pela maneira como todos se comportaram, era de pensar que deixei você assumir a culpa por algum ato meu. Por quê? O que foi que eu fiz?

- Você sabe... - Danilo parou de falar e chutou com o sapato de madeira uma maçã caída, que se partiu no mesmo instante. -Acabou. O que quer que eu tenha feito para ofendê-lo, já paguei.

E de repente, por um momento, o contato, a percepção que Danilo despertara nele, tornou a ocorrer. Regis pôde sentir o desespero e o sofrimento de Danilo como se fossem seus, e disse, com a voz enrouquecida pela angústia:

- Danilo Syrtis, anuncie o motivo de seu ressentimento contra mim e deixe-me confessá-lo ou negá-lo! Tentei não pensar mal de você, mesmo quando caiu em desgraça! Mas me chamou de nomes terríveis num momento em que eu só queria ser gentil, e se espalhou mentiras a meu respeito ou de meus parentes, então merece tudo o que lhe fizeram, e ainda terá de acertar contas comigo!

Sem perceber, ele se levantara, estendendo a mão para o cabo da espada. Danilo também se levantou, numa atitude desafiadora. Os olhos cinza, brilhando como metal derretido sob as sobrancelhas escuras, irradiavam ira e pesar.

- Dom Regis, eu lhe suplico, deixe-me em paz! Não é suficiente que eu esteja aqui, minhas esperanças perdidas, meu pai envergonhado para sempre... poderia muito bem estar morto!

O tom era desesperado, as palavras saíam aos borbotões.

- Ressentimento, Regis? Não, não tenho nenhum contra você, sempre me tratou com toda a gentileza. Mas era um deles, um daqueles... daqueles...

Danilo fez outra pausa, a voz trêmula com o esforço para não chorar. Só depois de um momento é que ele gritou, com a maior veemência:

- Regis Hastur, como todos os Deuses vivem, minha consciência está limpa, e o seu Senhor da Luz e o Deus dos cristoforos podem julgar entre os Filhos de Hastur e mim!

Quase sem pensar, Regis desembainhou a espada. Danilo, aturdido, deu um passo para trás, em medo; depois se empertigou e ergueu a cabeça.

- Pune a blasfêmia tão depressa, meu lorde? Estou desarmado, mas se minha ofensa merece a morte, então pode me matar agora! Minha vida não presta para mim!

Chocado, Regis baixou a ponta da espada.

- Matar você, Dani? - murmurou ele, horrorizado. - Deus me livre! Isso nunca me passou pela cabeça! Eu só queria... Dani, ponha sua mão no cabo da minha espada.

Confuso, Danilo obedeceu, estendendo a mão, hesitante. Regis segurou a mão e o cabo da espada juntos, entre seus dedos.

- Filho de Hastur, que é o Filho de Aldones, que é o Senhor da Luz! Que esta mão e esta espada penetrem meu coração e destruam minha honra, Danilo, se tiver qualquer participação ou conhecimento de sua desgraça, ou se alguma coisa que disser agora for usada para lhe causar mal no futuro!

Mais uma vez, pelo contato das mãos, ele sentiu aquele estranho choque subindo por seu braço, turvando seus pensamentos, sentiu os soluços de Danilo comprimidos em sua própria garganta. Danilo balbuciou:

- Nenhum Hastur repudiaria esse juramento!

- Nenhum Hastur repudiaria sua palavra de honra - proclamou Regis, orgulhoso -, mas se era um preciso um juramento para convencê-lo, então você o tem agora.

Ele guardou a espada, depois acrescentou:

- E agora me conte o que aconteceu, Dani. Quer dizer que a acusação era uma mentira?

Danilo ainda se encontrava visivelmente atordoado.

- Na noite em que cheguei tarde no alojamento... estivera chovendo. Você acordou e soube de tudo...

- Soube apenas que você sofria muito, Dani. Não mais do que isso. Perguntei se podia ajudar, mas você me repeliu.

A dor e o choque que ele experimentara naquela noite voltaram agora, em plena força, e Regis sentiu o coração outra vez disparado na agonia, como ocorrera quando Danilo o empurrara.

- Você é um telepata. Pensei...

- Um telepata muito rudimentar, Danilo - disse Regis, tentando manter a voz firme. - Senti apenas que você estava infeliz, sofria muito. Não sabia por que, e você não me disse.

- Por que você iria se importar?

Regis estendeu a mão devagar e segurou o pulso de Danilo.

- Sou um Hastur e Comyn. Afeta a honra do meu clã e de minha casta que alguém tenha motivo para falar mal de nós. Podemos enfrentar as falsas calúnias, mas cora a verdade só podemos tentar corrigir o que está errado. Nós do Comyn podemos errar.

Vagamente, no fundo de sua mente, ele compreendeu que dissera "Nós do Comyn" pela primeira vez. Sorriu e acrescentou:

- Não é só isso. Gosto do seu pai, Dani. Ele estava disposto a desafiar a ira de um Comyn para que você fosse deixado em paz.

Muito nervoso, Danilo cerrava e abria as mãos.

- A acusação é verdadeira. Saquei minha adaga contra Lorde Dyan. Só gostaria de ter aproveitado para cortar sua garganta; independentemente do que fizessem comigo depois, o mundo seria um lugar mais limpo sem ele. Regis ficou incrédulo.

- Por Zandru! Dani...

- Sei que no passado os homens que tocavam um lorde do Comyn em irreverência seriam dilacerados em ganchos. Talvez naquele tempo o Comyn merecesse todo o respeito...

- Pare por aí, Dani. Sou herdeiro de Hastur, mas nem mesmo eu poderia empunhar o aço contra um oficial sem cair em desgraça. Mesmo que o oficial atacado não fosse um lorde do Comyn, mas o jovem Hjalmar, por exemplo, cuja mãe é uma meretriz das ruas.

Danilo teve de fazer um esforço para manter o controle.

- Se eu atacasse o jovem Hjalmar, Regis, então mereceria a punição, pois ele é um homem honrado. Não saquei uma arma contra Lorde Dyan como meu oficial. Ele perdera o direito a qualquer obediência e respeito.

- Cabe a você julgar isso?

- Nas circunstâncias... - Danilo engoliu em seco. - Poderia respeitar e obedecer a um homem que esqueceu quem era a ponto de tentar me fazer seu...?

Ele usou uma palavra cahuenga que Regis não conhecia, sabia apenas que era extremamente obscena. Mas como ainda mantinha contato com Danilo, não houve a menor sombra de dúvida sobre o significado. Regis empalideceu. Não podia falar, tamanho era o seu choque.

- A princípio, pensei que ele estivesse brincando - continuou Danilo, quase gaguejando. - Não gosto desses gracejos... sou um cristoforo... mas disse alguma piada similar como resposta. Se ele falava sério, minha resposta não continha qualquer ofensa. Mas depois Lorde Dyan foi mais claro, e se enfureceu quando eu disse não. Ele jurou que me obrigaria a concordar. Não sei o que ele fez comigo, Regis, mas foi alguma coisa com sua mente. Onde quer que eu estivesse, sozinho ou com outrem, podia senti-lo me tocando, ouvia... seus sussurros sórdidos, aquela risada zombeteira. Ele me perseguia, parecia estar dentro de minha mente durante todo o tempo. Todo o tempo. Pensei que pretendia me levar à loucura! Sempre achei... um telepata não podia infligir dor... não posso suportar sequer a proximidade de alguém que se sente muito infeliz, mas ele experimentava uma espécie de prazer horrível e odioso nisso.

Danilo fez uma pausa e desatou a chorar.

- Fui procurá-lo, supliquei que me deixasse em paz! Regis, não sou alguém criado na sarjeta, minha família serviu aos Hasturs com honra por anos; mas, mesmo que eu fosse o filho de uma rameira, e ele o rei em seu trono, Lorde Dyan não teria o direito de me usar de uma maneira tão vergonhosa!

Danilo teve outro acesso de choro, antes de prosseguir:

- E depois... depois ele disse que eu sabia muito bem como poderia me livrar de sua pressão. Riu de mim, aquela sua risada repulsiva. Foi nesse instante que saquei minha adaga, até agora não sei direito como, nem o que pretendia fazer, talvez me matar... - Danilo cobriu o rosto com as mãos. - Você já sabe o resto.

Regis mal conseguia respirar.

- Que Zandru lhe envie garras de escorpião! Dani, por que não apresentou uma acusação e reivindicou imunidade? Ele também está sujeito às leis do Comyn, e um telepata que usa errado seu laran dessa maneira...

Danilo deu de ombros, cansado. O gesto dizia mais do que palavras.

Regis sentia-se atordoado com a revelação. Como poderia encarar Dyan outra vez, sabendo o que acontecera?

Eu sabia que não era verdade o que diziam a seu respeito, Regis. Mas você também era Comyn, e Dyan cumulou-o com muitos favores, e naquela última noite, quando você me tocou, tive medo...

Regis levantou os olhos, indignado, depois compreendeu que Danilo não falara. Mantinham um contato profundo; ele sentia os pensamentos do amigo. Recostou-se no tronco, sentindo que as pernas não o poderiam sustentar.

- Só toquei você... para confortá-lo - murmurou ele.

- Sei disso agora. De que adiantaria dizer que lamento muito, Regis? Foi lamentável o que eu falei.

- Não é de admirar que você não possa acreditar em honra ou decência em pessoas da nossa espécie. Mas cabe a nós provar que está errado. Ainda mais porque é um de nós. Danilo, há quanto tempo você tem laran?

- Eu, laran? Eu, Lorde Regis?

- Não sabia? Há quanto tempo é capaz de ler pensamentos?

- Isso? Ora, por toda a minha vida, é a impressão que tenho. Desde os doze anos, mais ou menos. Mas é isso...

- Não sabe o que significa, se você possui um dos dons do Comyn? E pode ter certeza de que possui. Os telepatas não são tão in-comuns, mas você conseguiu fazer meu dom aflorar, mesmo depois que Lew Alton fracassou. - Com um fluxo de emoção, Regis pensou: Devolveu minha herança. - Creio que você é o que chamam de telepata catalisador, um dom muito raro e precioso.

Ele se absteve de dizer que era um dom de Ardais. Duvidava de que Danilo apreciasse essa informação naquele momento. - Já contou a mais alguém?

- Como poderia, se eu mesmo não sabia? Sempre pensei que todos podiam ler pensamentos.

- Não. É bem mais raro. Significa que você também é Comyn, Dani.

- Está querendo dizer que minha paternidade...

- Pelos infernos de Zandru, claro que não! Mas sua família é nobre, é bem possível que sua mãe tivesse parentes do Comyn, sangue do Comyn, talvez mesmo por algumas gerações. Com um laran pleno, você tem direito a participar do Conselho do Comyn e deve ser treinado para usar seu dom, consagrar-se ao Comyn.

Ele percebeu a repulsa no rosto de Danilo e se apressou em acrescentar:

- Pense um pouco. Significa que você é igual a Lorde Dyan. Ele pode ser responsabilizado por tentar se aproveitar de você.

Regis abençoou o impulso que o levara até ali. Sozinho, a mente sobrecarregada pela natureza soturna e hipersensível do telepata destreinado, sob o desprazer sombrio do pai... Danilo podia mesmo acabar se matando.

- Mas não vou - declarou Danilo, em voz alta.

Regis compreendeu que haviam feito contato outra vez. Inclinou-se para tocar Danilo, recordou o problema e absteve-se de fazê-lo. Para disfarçar o movimento, abaixou-se e pegou uma maçã caída no chão. Danilo levantou-se e vestiu a camisa. Regis terminou de comer a maçã e largou o caroço na palha.

- Dani, devo dormir esta noite na casa de minha irmã. Mas lhe dou minha palavra: você será reabilitado. Enquanto isso, há alguma coisa que eu possa fazer por você?

- Há, sim, Regis. Diga a meu pai que a desgraça e desonra não foram por culpa minha. Ele não fez perguntas, não disse qualquer palavra de censura, mas nenhum homem em nossa família jamais foi desonrado. Posso suportar qualquer coisa, menos a sua convicção de que lhe menti.

- Prometo-lhe que ele saberá tudo... Não! - Regis fez uma pausa abrupta. - Não foi por isso que você não ousou lhe contar? Ele mataria...

Regis compreendeu que, na verdade, alcançara a essência do medo de Danilo.

- Ele desafiaria Dyan - disse Danilo, hesitante -, e, embora pareça forte, já é um velho, e seu coração não é dos mais sólidos. Se ele soubesse a verdade... tive vontade de lhe contar tudo, mas preferi... que me desprezasse... a arriscar sua vida.

- Tentarei limpar seu nome com Dom Felix sem o expor a qualquer risco. Mas e você, Dani? Devemos-lhe alguma coisa pela ofensa.

- Você não me deve nada, Regis. Se meu nome for limpo diante de meus parentes, já me sentirei contente.

- Ainda assim, a honra do Comyn exige a reparação dessa injustiça. Se há uma podridão em nosso meio, devemos extirpá-la.

Naquele momento, transbordando de ira virtuosa, ele se sentia disposto a enfrentar um regimento inteiro de homens injustos que abusavam de seu poder. Se os homens mais velhos no Comyn eram corruptos ou enlouquecidos pelo poder, e os mais jovens indolentes, então os rapazes teriam de acertar tudo! Danilo se abaixou, apoiado num joelho, estendeu as mãos e disse, com a voz trêmula:

- Há uma vida entre nós. Meu irmão morreu para proteger seu pai. Quanto a mim, peço apenas a oportunidade de dar minha vida a serviço de Hastur. Aceite minha espada e meu juramento, Lorde Regis. Pela mão que ponho em sua espada, dedico a minha vida.

Surpreso, profundamente comovido, Regis tornou a desembainhar a espada e estendeu o cabo para Danilo. Suas mãos tornaram a se encontrar no cabo, e Regis, tropeçando nas palavras rituais, tentando recordar uma a uma, disse:

- Danilo-Felix Syrtis, deste dia em diante seja meu escudeiro... e que esta espada me golpeie se eu não for um lorde justo, se não o defender...

Ele mordeu o lábio, fazendo um esforço para recordar o que vinha em seguida, depois continuou:

- Os Deuses são testemunhas, e as relíquias sagradas em Hali.

Parecia que havia mais alguma coisa, mas pelo menos a intenção já ficara devidamente expressa, pensou ele. Enfiou a espada na bainha, levantou Danilo e beijou-o nas faces, com a maior inibição. Viu lágrimas nos olhos de Danilo e compreendeu que os seus também não se encontravam secos; e comentou, tentando desanuviar a solenidade do momento:

- Agora formalizamos o que ambos já sabíamos desde o início, bredu.

Regis se ouviu pronunciar a palavra com um pequeno choque de espanto, mas sabia que falava sério, mais do que em qualquer outra ocasião anterior. Fazendo um esforço para firmar a voz, Danilo disse:

- Eu deveria... lhe oferecer minha espada. Não a estou usando, mas aqui...

Fora isso o que faltara no ritual. Regis já ia dizer que não tinha importância, mas sem isso não seria completo. Ele olhou para a adaga que Danilo estendia, o cabo virado para a frente. Regis tirou sua adaga, estendeu-a também com o cabo virado, e murmurou:

- Empunhe isto a meu serviço. Danilo encostou a lâmina em seus lábios.

- Só a empunharei a seu serviço.

Ele guardou a adaga de Regis em sua bainha. Regis, por sua vez, também enfiou a adaga de Danilo na bainha em sua cintura. Não cabia direito, mas isso não importava.

- Você deve continuar aqui até eu chamá-lo, Dani. Não será por muito tempo, eu prometo, mas tenho de pensar no que fazer.

Ele não se despediu. Não era necessário. Virou-se e voltou pelo mesmo caminho. Ao se encaminhar para o estábulo, a fim de pegar sua égua, Dom Felix aproximou-se, andando devagar.

- Lorde Regis, posso lhe oferecer alguma coisa para beber? Regis respondeu com toda a amabilidade:

- Agradeço, mas a hospitalidade relutante tem um gosto amargo. Mas é cora prazer que lhe asseguro, sob a palavra de um Hastur... - Ele tocou com a mão por um instante no cabo da espada. -...que deve se orgulhar de seu filho, Dom Felix. A desonra dele deveria ser seu orgulho.

O velho franziu o rosto.

- Fala por enigmas, vai dom.

- Senhor, foi mestre-falcoeiro de meu avô, mas não o vi na corte durante toda a minha vida. Uma opção ainda mais amarga foi oferecida a Danilo: ganhar o favor por meios desonrosos ou manter sua honra ao preço da aparente desgraça. Em suma, senhor, seu filho ofendeu o orgulho de um homem poderoso, mas que não possui a honra que confere dignidade ao poder. E esse homem se vingou.

O vinco na testa de Dom Felix se aprofundou, enquanto absorvia o que acabara de ouvir.

- Se a acusação foi injusta, um ato de vingança particular, por que meu filho não me contou?

- Porque, Dom Felix, Dani temia que pudesse se arruinar ao tentar vingá-lo. - Regis apressou-se em acrescentar, vendo mil e uma perguntas aflorarem nos olhos do velho: - Prometi a Danilo que não lhe diria mais do que isso. Mas pode aceitar a palavra de um Hastur de que ele é inocente?

O rosto transtornado se desanuviou.

- Eu o abençôo por ter vindo e suplico que me perdoe pelas palavras rudes, Dom Regis. Não sou um cortesão, mas estou grato.

- E também é leal a seu filho. Não tenho a menor dúvida, Dom Felix, de que ele merece.

- Vai honrar minha casa com sua presença, Lorde Regis? Dessa vez o convite era sincero, e Regis sorriu.

- Lamento não ser possível, senhor, pois sou esperado em outro lugar. Danilo já me demonstrou sua hospitalidade; cultivam aqui as melhores maçãs que já comi em muito tempo. E dou minha palavra de que um dia será meu prazer homenagear o pai de meu amigo. Enquanto isso, peço que se reconcilie com seu filho.

- Pode ter certeza de que farei isso, Lorde Regis.

Ele ficou olhando enquanto Regis montava e se afastava. Regis podia sentir sua confusão e gratidão. Descendo a colina, lentamente, para se encontrar com a escolta, ele refletiu sobre o compromisso que acabara de assumir: restaurar o bom nome de Danilo e providenciar para que Dyan nunca mais fizesse o mesmo mau uso de seu poder. O que significava que ele, que outrora jurara, renunciar ao Comyn, agora teria de reformá-lo por dentro, sozinho, antes de poder desfrutar sua liberdade pessoal.

Capítulo Doze

(Narrativa de Lew Alton)

As colinas se elevam além do Kadarin, prolongando-se pelas montanhas, no território desconhecido em que a lei do Comyn não prevalece. No meu atual estado, assim que atravessei o Kadarin, senti que um peso enorme fora removido de meus ombros.

Nesta parte do mundo, a cinco dias de viagem para o norte de Thendara, meus salvo-condutos nada significavam. Dormíamos à noite em barracas, com turnos de vigia. Era uma região árida, há muito despovoada. Apenas três ou quatro vezes, num dia de viagem, avistávamos uma pequena aldeia, meia dúzia de choupanas agrupadas numa clareira ou uma pequena propriedade em que um fazendeiro obstinado lutava para arrancar o sustento mínimo no meio da floresta pedregosa e perpendicular. Passavam tão poucos viajantes por ali que as crianças corriam para nos observar.

As estradas se tornavam cada vez piores à medida que nos embrenhávamos pelas colinas, degenerando às vezes para meras trilhas. Não há muitas estradas boas em Darkover. Meu pai, que viveu na Terra por vários anos, contou-me sobre as boas estradas que existem ali, mas acrescentou que não há a menor possibilidade de implantar o mesmo sistema aqui. Para abrir estradas, era preciso o trabalho escravo ou imensas quantidades de homens dispostos a trabalhar num nível de subsistência ou então máquinas pesadas. E nunca houve escravos em Darkover nem mesmo escravos das máquinas.

Não era de admirar, pensei, que os terráqueos relutassem em transferir seu espaço-porto de volta para aquelas colinas.

Por isso, fiquei surpreso quando, no nono dia de viagem, deparamos com uma estrada larga, a superfície bem-cuidada, capaz de suportar o tráfego de veículos com rodas, e vários homens cavalgando na mesma linha. Meu pai também me dissera que em sua última visita às colinas próximas de Aldaran, Caer Donn era pouco mais do que uma aldeia de bom tamanho. Recebera informações de que era agora uma cidade em crescimento. Mas isso não diminuiu meu espanto no momento em que chegamos ao topo de uma das colinas mais altas e a avistamos estendida lá embaixo, no vale, ao longo das encostas inferiores da montanha seguinte.

Era um dia claro, e podíamos ver por uma longa distância. No fundo do vale, onde o terreno era mais plano, havia uma enorme área cercada, e mesmo lá de cima pude divisar as pistas e as zonas de pouso delimitadas. Pensei que era o antigo espaço-porto terráqueo, agora convertido em campo de pouso para seus aeroplanos e pequenos foguetes, que traziam cargas e mensagens de Thendara e Port Chicago. Havia um pequeno campo de pouso similar perto de Arilinn. Além do campo, espalhava-se a cidade, e quando a escolta parou por trás de mim, pude ouvir os comentários dos homens.

- Não havia nenhuma cidade aqui quando eu era um menino! Como pôde crescer tão depressa?

- É como a cidade que cresceu do dia para a noite no antigo conto de fadas!

Repeti algumas coisas que o pai me dissera, sobre os prédios pré-fabricados. Tais cidades não eram construídas para resistir por séculos, mas podiam ser feitas rapidamente. Os homens se mostraram céticos, e um deles chegou a comentar:

- Não quero faltar com o respeito ao Comandante, senhor, mas ele não deveria ter lhe contado essas histórias absurdas. Nem mesmo na Terra as mãos humanas podem construir tão depressa.

Não pude deixar de rir.

- Ele também me contou sobre um planeta quente, cujos habitantes não acreditavam que pudesse existir uma coisa como neve, e acusaram-no de inventar histórias quando falou de montanhas cobertas de gelo durante o ano inteiro.

Outro homem apontou.

- É o Castelo Aldaran?

Não podia ser outra coisa, a menos que nos tivéssemos desviado do curso de uma maneira inconcebível: uma fortaleza antiga, de pedras desgastadas pelo tempo. Era o baluarte do Domínio renegado, exilado há séculos do Comyn - nenhum homem vivo sabia agora por que motivo. Constituía o Sétimo Domínio, de uma linhagem antiga de descendentes de Hastur e Cassilda.

Experimentei uma curiosa mistura de ansiedade e relutância, como se estivesse prestes a dar um passo irrevogável. Mais uma vez, o senso de tempo desfocado dos Altons me envolveu. O que me aguardava na antiga fortaleza de pedra, situada na outra extremidade do vale de Caer Donn?

Franzindo o rosto, tratei de retornar ao presente. Não era preciso ter precognição para sentir que, numa parte do mundo completamente estranha, eu poderia encontrar algumas pessoas que causariam um efeito permanente em minha vida. Disse a mim mesmo que a travessia do vale e a passagem pelos portões do Castelo Aldaran não representariam uma grande e irrevogável divisão em minha vida, a ponto de me isolar do meu passado e de todos os meus parentes. Aqui estava por determinação de meu pai, um filho obediente, desleal apenas no pensamento e na vontade. Fiz um esforço para recuperar o foco.

- Muito bem, vamos tentar chegar enquanto ainda resta um pouco da claridade do dia.

Comecei a descer pela excelente estrada. A passagem por Caer Donn, de uma estranha maneira, foi como um sonho. Eu optara por viajar com simplicidade, sem a ampla escolta de um embaixador, encarando a missão mais como a visita de família que supostamente era. Por isso, não atraí muita atenção. De certa forma, pensei, a cidade era como eu, toda darkovana no exterior, mas com uma diferença subliminar em algum lugar, algo que não se encaixava direito. Durante todos aqueles anos, eu me sentira contente por me aceitar como um darkovano; agora, contemplando o antigo espaço-porto terráqueo, como jamais olhara para o familiar em Thendara, refleti que aquela era também minha herança... se tivesse coragem de assumi-la.

Meu ânimo era de curiosidade, e me sentia bastante excitado, como se pudesse farejar um vento que trazia meu destino, sem imaginar que forma tomaria.

Havia guardas nos portões de Aldaran, homens das montanhas, e pela primeira vez enunciei meu nome completo, não o que usava como herdeiro nedestro de meu pai, mas o que me fora dado antes de que pai ou mãe pudessem desconfiar de que alguém duvidaria de minha legitimidade.

- Sou Lewis-Kennard Lanart-Montray Alton y Aldaran, filho de Kennard, Lorde Alton, e de Elaine Montray-Aldaran. Venho como enviado de meu pai, e peço uma recepção de parente a Kermiac, Lorde Aldaran.

Os guardas fizeram uma reverência, e um deles, o mordomo ou intendente, declarou:

- Entre, dom. É bem-vindo e honra a casa de Aldaran. Em seu nome, eu lhe ofereço as boas-vindas, até que as ouça diretamente de seus lábios.

A escolta foi conduzida para ser alojada em outra parte, enquanto eu era levado a um quarto espaçoso, em uma das alas do castelo; meus alforjes foram trazidos, e providenciaram servos para me atender, quando descobriram que eu viajava sem um valete. De modo geral, instalaram-me no luxo. Depois de algum tempo, o intendente apareceu.

- Meu lorde, Kermiac de Aldaran vai jantar e o convida para encontrá-lo no salão, se não estiver muito cansado da viagem. Se a exaustão for demais, ele o exorta a comer aqui, mas me pediu para acrescentar que está ansioso em conhecer o neto de sua irmã.

Respondi que me juntaria a ele com o maior prazer. Naquele momento, não seria capaz de sentir qualquer fadiga; o estranho ânimo de excitamento ainda me dominava. Lavei-me para tirar a poeira da viagem, vesti meu melhor traje, com uma túnica de couro, pintada de escarlate, calção combinando, botas de veludo, um manto forrado com pêlo - não era por vaidade, mas para demonstrar a honra que merecia meu parente desconhecido.

O crepúsculo se adensava quando o servo voltou para me levar ao grande salão de jantar. Esperando a luz de tochas, fiquei aturdido ao deparar com uma claridade que parecia a luz do dia. Luz de arco voltaico, pensei, piscando, igual à que os terráqueos usam em sua Cidade Comercial. Parecia estranho entrar à noite num salão com o brilho do meio-dia, estranho e desorientador, mas me senti contente, porque me permitia ver com nitidez os rostos que encontrei ali. Apesar da iluminação moderna, logo se tornou evidente que Kermiac mantinha os costumes antigos, pois a parte inferior do salão era ocupada por um aglomerado dos rostos mais variados, guardas, servos, pessoas das montanhas, ricas e pobres, até mesmo alguns terráqueos e um ou outro monge cristoforo, em suas túnicas pardas.

O servo me conduziu à mesa alta no outro lado do salão, onde sentavam os nobres. A princípio, os rostos pareciam um pouco indefinidos: um homem alto, esguio e com aparência lupina, de cabelos louros; uma jovem bonita, de cabelos vermelhos, num vestido azul; um menino mais ou menos da idade de Marius; e no centro um homem idoso, com barba avermelhada, velho a ponto da decrepitude, mas ainda empertigado, de olhos aguçados. Ele me fitou e estudou meu rosto com toda a atenção. Só podia ser Kermiac, Lorde Aldaran, meu parente. Usava uma roupa simples, de corte confortável, parecida com um traje terráqueo, e por um instante me senti envergonhado da indumentária de bárbaro que escolhera.

Ele se levantou e desceu da plataforma para me cumprimentar. A voz, embora enfraquecida pela idade, ainda era firme.

- Seja bem-vindo, parente.

Ele estendeu os braços e deu-me um abraço de parente, os lábios finos e ressequidos se comprimindo contra as minhas faces. Manteve as mãos em meus ombros por um momento.

- Aquece meu coração contemplar seu rosto finalmente, filho de Elaine. Recebemos notícias aqui, nas Hellers, até mesmo do Hali'imyn. - Ele usou a palavra antiga, mas sem intenção de ofensa. - Venha comigo. Deve estar exausto e faminto depois de uma viagem tão longa. Sinto-me contente que tenha preferido jantar conosco. Sentará ao meu lado, sobrinho.

Ele me conduziu ao lugar de honra ao seu lado. Os servos nos trouxeram a comida. Nos Domínios, a comida mais seleta é servida a um convidado sem se indagar sua preferência; ali, fizeram questão de me perguntar se preferia carne de gado, ave ou peixe, se queria beber o vinho branco das montanhas ou o vinho tinto dos vales. Tudo estava muito bem preparado e foi servido com perfeição, e fiz plena justiça ao banquete, depois de dias comendo as rações de viagem.

- Soube que é treinado na Torre, um telepata, sobrinho - disse Kermiac finalmente, depois que apaziguei a fome e tomava um gole de vinho branco, saboreando alguns doces desconhecidos e deliciosos. - Aqui, nas montanhas, pensa-se que os homens treinados nas Torres são meio eunucos, mas posso ver que você é um homem de verdade; tem a aparência de um soldado. É um dos guardas?

- Sou capitão da Guarda há três anos. Ele balançou a cabeça.

- Há paz nas montanhas agora, embora os habitantes das Cidades Secas tenham idéias diferentes de vez em quando. Mas posso respeitar um soldado; na juventude, tive de defender Caer Donn pela força das armas.

- Ninguém imagina nos Domínios que Caer Donn é uma cidade tão grande - comentei.

Ele deu de ombros.

- A maior parte é de prédios terráqueos. Eles são bons vizinhos ou pelo menos os consideramos assim. É diferente em Thendara?

Eu ainda não me encontrava preparado para discutir o que achava dos terráqueos, mas para meu alívio ele não insistiu nesse tema. Estudava meu perfil.

- Não é muito parecido com seu pai, sobrinho. Por outro lado, também não vejo nada de Elaine em você.

- Dizem que meu irmão Marius é que tem o rosto e os olhos de minha mãe.

- Nunca o vi. Estive com seu pai pela última vez há doze anos, quando ele trouxe para cá o corpo de Elaine, a fim de que fosse sepultado junto de sua família. Pedi-lhe então o privilégio de adotar os filhos de Elaine, mas Kennard preferiu criá-los em sua própria casa.

Eu nunca soubera disso. Nada me haviam dito sobre a família de minha mãe. Nem mesmo conhecia o meu grau de parentesco com o velho. Fiz um comentário a respeito, o velho acenou com a cabeça e disse:

- Kennard não teve uma vida fácil. Não posso culpá-lo por jamais ter querido olhar para trás. Mas se ele optou por nada lhe contar sobre a família de sua mãe, não pode se ofender se eu lhe disser tudo agora, à minha maneira. Há muitos anos, quando os terráqueos, em sua maior parte, estavam estacionados em Caer Donn e ainda começavam a preparar o terreno para o seu quartel-general em Thendara... ouvi dizer que ficou pronto no inverno passado... num tempo em que eu não era muito mais do que um menino, minha irmã Mariel decidiu casar com um terráqueo, Wade Montray. Viveu com ele na Terra por muitos anos. Soube que o casamento não era feliz, e eles acabaram se separando, depois que ela teve duas crianças. Mariel preferiu permanecer com sua filha Elaine na Terra; Wade Montray voltou a Darkover cora seu filho Larry, a quem chamávamos de Lerrys. E agora você pode ver como a mão do destino trabalha, pois Larry Montray e seu pai, Kennard, conheceram-se quando eram meninos e juraram amizade. Não sou um grande crente na predestinação, no destino inevitável, mas aconteceu que Larry Montray permaneceu em Darkover, para ser criado em Armida, enquanto seu pai era enviado à Terra, para ser criado como filho de Wade Montray, na esperança de que esses dois rapazes reconstruíssem a ponte antiga entre a Terra e Darkover. E lá, como não podia deixar de acontecer, seu pai conheceu a filha de Montray, que era também a filha de minha irmã Mariel. Para encurtar uma longa história, Kennard retornou a Darkover, foi dado em casamento a uma mulher dos Domínios, que não lhe trouxe nenhum filho, serviu na Torre de Arilinn... você já deve ter sido informado de alguma coisa a respeito. Mas ele guardava a lembrança de Elaine, ao que parece, no fundo de seu coração, e acabou procurando-a para propor casamento. Como o parente mais próximo de Elaine, fui eu quem consentiu. Sempre achei que tais casamentos são afortunados e que as crianças de sangue misturado constituem o melhor caminho para a amizade entre pessoas de mundos diferentes. Não tinha idéia, na ocasião, que seus parentes do Comyn não abençoariam o casamento, como eu fizera, e até me regozijara.

O que era mais um erro do Comyn, pensei, já que fora por iniciativa deles, em primeiro lugar, que meu pai viajara para a Terra. E outro ressentimento que eu tinha contra eles.

Meu pai, no entanto, permanecera com o Comyn!

- Quando ficou patente que eles não o aceitariam - continuou Kermiac -, propus a Kennard que você fosse criado aqui, honrado como o filho de Elaine, se não como o dele também. Mas Kennard tinha certeza de que poderia obrigá-los a aceitar seu filho. Ele deve ter tido êxito, não é mesmo?

- De certa forma. Sou o seu herdeiro.

Eu não queria discutir quanto isso lhe custara. Ainda não.

O intendente vinha tentando atrair a atenção de Lorde Kermiac havia algum tempo; ele finalmente o fitou e fez um sinal para que as mesas fossem esvaziadas. Enquanto a enorme multidão que comia ali começava a se retirar, Kermiac me levou a uma pequena sala de estar, com uma suave iluminação, aconchegante, aquecida por uma lareira aberta.

- Sou um velho, sobrinho, e os velhos se cansam depressa. Mas antes de ir para meus aposentos, quero que conheça seus parentes. Sobrinho, este é seu primo, meu filho Beltran.

Até hoje, mesmo depois de tudo o que aconteceu mais tarde, ainda me lembro do que senti quando fitei meu primo pela primeira vez. Compreendi finalmente que sangue me moldara em alguém tão diferente entre o Comyn. No rosto e no jeito, poderíamos ter sido irmãos; já conheci gêmeos que eram menos parecidos. Beltran estendeu a mão, mas retirou-a abruptamente, comentando:

- Desculpe. Ouvi dizer que os telepatas não gostam de tocar estranhos.

- Jamais recusaria a mão a um parente - declarei.

Trocamos um ligeiro aperto de mão. No estranho ânimo em que eu me encontrava, o contato proporcionou-me uma rápida sucessão de impressões: curiosidade, entusiasmo, uma cordialidade desconcertante. Kermiac sorriu para nós e disse:

- Deixo seu primo com você, Beltran. Lew, pode ter certeza de que você está em sua casa.

Ele se despediu e foi embora. Beltran me levou aos outros.

- Os filhos-de-adoção e pupilos de meu pai, primo, e meus amigos. Quero que os conheça. Quer dizer que foi treinado numa Torre? É também um telepata natural?

Acenei com a cabeça, e ele informou:

- Marjorie é nossa telepata.

Ele me apresentou à moça bonita de cabelos vermelhos, usando um vestido azul, que eu já notara à mesa. Ela sorriu, fitando-me nos olhos, como as moças das montanhas costumam fazer.

- Sou uma telepata, é verdade, mas destreinada. Muitas das coisas antigas foram esquecidas aqui nas montanhas. Talvez possa nos contar o que aprendeu em Arilinn, parente.

Seus olhos eram de uma cor estranha, uma tonalidade que eu nunca vira antes, âmbar com pintas douradas, como o de algum animal desconhecido. Seus cabelos eram quase tão vermelhos quanto os do Comyn das planícies. Estendi a mão, como fizera com Beltran. Lembrava um pouco a maneira como as mulheres em Arilinn me haviam aceitado, apenas como um ser humano, sem qualquer rebuliço, sem intenção de flerte. Senti uma curiosa relutância em largar seus dedos e perguntei:

- É i ma parenta? Beltran explicou:

- Marjorie Scott, sua irmã e seu irmão são também pupilos de meu pai. É uma história comprida, ele lhe poderá contar algum dia, se assim desejar. A mãe deles era irmã-de-adoção de minha própria mãe, por isso eu os chamo de minhas irmãs e meu irmão.

Ele chamou os outros e apresentou-os. Rafe Scott era um menino de onze ou doze anos, não muito diferente de meu irmão Marius, com os mesmos olhos de pintas douradas. Fitou-me com timidez e não disse nada. Thyra era uns poucos anos mais velha do que Marjorie, uma mulher franzina, irrequieta, de feições afiladas, com os olhos da família, mas também com alguma coisa do velho Kermiac. Fitou-me nos olhos, mas não ofereceu a mão.

- É uma viagem longa e extenuante para um homem das terras baixas, parente.

- Contei com a ajuda do bom tempo e de uma escolta que conhece as montanhas.

Fiz uma reverência para ela, igual à que teria oferecido a uma dama dos Domínios. Seu rosto moreno parecia divertido, ela se mostrou bastante cordial, e durante algum tempo conversamos sobre o tempo e as estradas nas montanhas. Depois de algum tempo, Beltran interferiu:

- Meu pai era muito eficiente na juventude e ensinou a todos nós algumas das habilidades de um técnico de matriz. Mas já disseram que não tenho muito talento natural. Você recebeu o treinamento adequado, Lew, pode me dizer o que é mais importante: talento ou habilidade?

Repeti o que me haviam dito.

- Talento e habilidade são como a mão direita e a esquerda; é a vontade que governa as duas coisas, e a vontade deve ser disciplinada. Sem talento, pouca habilidade se pode aprender; mas o talento por si só vale pouco sem o treinamento.

- Já me disseram que possuo o talento - interveio Marjorie. - O tio me garantiu. Mas não tenho habilidade, pois quando alcancei a idade necessária para aprender, ele já passara da idade para ensinar. E também sou meio-terráquea. Acha que um terráqueo pode aprender as habilidades?

Não pude deixar de sorrir.

- Também sou terráqueo em parte, mas mesmo assim servi em Arilinn... Marjorie?

Tentei pronunciar seu nome terráqueo, e ela sorriu à maneira titubeante com que juntei as sílabas.

- Marguerida, se preferir assim - murmurou ela, em cahuenga. Sacudi a cabeça.

- Como você o pronuncia, é raro e estranho... e precioso - comentei, sentindo vontade de acrescentar "como você".

Beltran contraiu os lábios, desdenhoso.

- Então o Comyn o deixou entrar, mesmo com seu sangue terráqueo, em suas sagradas Torres? É muita condescendência da parte deles! Eu teria rido em suas caras e diria o que podiam fazer com sua Torre!

- Não, primo, não foi assim que aconteceu. Foi somente nas Torres que ninguém se importou com meu sangue terráqueo. Entre o Comyn, eu era um nedestro, um bastardo. Em Arilinn, ninguém jamais se importou com o que eu era, só se interessavam pelo que podia fazer.

- Está perdendo seu tempo, Beltran - disse uma voz suave, perto do fogo. - Tenho certeza de que ele não conhece a história mais do que qualquer outro do Hali'imyn, e seu sangue terráqueo de nada lhe serviu.

Olhei para o outro lado da lareira e vi um homem alto e magro, os cabelos prateado-dourados caindo pela testa. Seu rosto se achava meio oculto pelas sombras, mas por um momento tive a impressão de que seus olhos brilhavam na escuridão como os de um gato à luz de tochas.

- Não resta a menor dúvida de que ele acredita - acrescentou o homem -, como a maioria das pessoas das terras baixas, que o Comyn caiu direto dos braços do Senhor da Luz, e passou a crer em todos os seus romances e contos de fadas. Devo lhe ensinar sua própria história, Lew?

- Bob, ninguém questiona seus conhecimentos, mas seus modos são horríveis! - protestou Marjorie.

O homem soltou uma risada curta. Pude ver suas feições agora, à luz do fogo, atiladas, lembrando um falcão. Quando ele gesticulou, percebi também que tinha seis dedos em cada mão, como os homens de Ardais e Aillard. Havia também alguma coisa terrivelmente estranha em seus olhos. Ele estendeu as pernas compridas, levantou-se e ofereceu-me uma reverência irônica.

- Devo respeitar a castidade de sua mente, vai dom, como vocês respeitam a castidade de suas iludidas feiticeiras? Ou tenho permissão para extasiá-lo com algumas verdades, na esperança de que possam produzir os frutos da sabedoria?

Franzi o rosto pelo escárnio.

- Quem no inferno é você?

- No inferno, não sou absolutamente ninguém - respondeu ele, jovial. - Em Darkover, eu me chamo Robert Raymon Kadarin, s'dei par servu. - Em seus lábios, as elegantes palavras em casta tornavam-se uma zombaria. - Lamento não poder seguir seu costume e acrescentar uma longa sucessão de nomes detalhando meus antepassados por gerações. Não conheço meus antepassados, da mesma forma que o Comyn não conhece os seus, mas ao contrário de vocês ainda não aprendi a compensar a deficiência com uma lista de pretensos deuses e figuras lendárias.

- Você é terráqueo? - perguntei, pois suas roupas davam essa impressão.

Ele deu de ombros.

- Nunca fui informado. Mas há um ditado que é verdadeiro: só um cavalo de corrida ou um lorde do Comyn são julgados pela linhagem. Passei dez anos no serviço de informações do Império Terráqueo, embora eles não admitam isso agora; puseram um preço por minha cabeça porque, como todos os governos que compram cérebros, gostam de limitar o uso desses cérebros. Descobri, por exemplo, que tipo de jogo o Império vem fazendo em Darkover e como o Comyn vem ajudando. Não, Beltran, não tente me impedir. Vou contar a ele. É o homem que esperávamos.

A maneira ríspida e desconexa como ele falava levou-me a especular se não estaria louco ou embriagado.

- O que está querendo dizer com o jogo que os terráqueos fazem, ajudados pelo Comyn?

Eu viera até ali para descobrir se Aldaran tinha alguma aliança com a Terra, contra o Comyn. Agora, aquele homem, Kadarin, acusava o Comyn de cumplicidade com a Terra.

- Não tenho a menor idéia do que está falando - acrescentei. - Parece bobagem.

- Muito bem, vamos começar pelo seguinte - disse Kadarin. - Você sabe quem são os darkovanos, de onde vieram? Alguém já lhe contou que somos a primeira e a mais antiga colônia terráquea? Não? Eu já imaginava que não sabia disso. Por direito, deveríamos   ser iguais a qualquer dos governos planetários que formam o Conselho do Império, fazendo a nossa parte para formular as leis do Império, junto com as outras colônias. Deveríamos integrar a civilização galática em que vivemos. Em vez disso, somos tratados como um mundo atrasado e selvagem, parentes pobres que devem se contentar com as migalhas de conhecimento que eles se mostram dispostos a nos conceder, gota a gota, mantidos sempre apartados do centro do Império, continuando a viver como bárbaros!

- Por quê? Se isso é verdade, por quê?

- Porque o Comyn quer assim. Convém a seus propósitos. Você sabia ao menos que Darkover é uma colônia terráquea? Disse que escarneciam de seu sangue terráqueo. O que eles pensam que são? Terráqueos, todos eles!

- Você está completamente louco!

- É o que você gostaria de pensar. E eles também. Não é mais lisonjeiro pensar na preciosa casta de seu pai como descendente de deuses e designada por direito divino para reinar sobre Darkover? Mas não é nada disso. Eles são apenas terráqueos, como todas as outras colônias do Império!

Kadarin parou de andar de um lado para outro, fitando-nos do alto de sua considerável estatura, uma cabeça a mais do que eu, e não sou nada pequeno.

- Vi os registros na Terra e nos Arquivos Administrativos, na colônia Coronis. Os fatos estão ocultos ali ou deveriam estar ocultos, mas qualquer pessoa com um visto de segurança pode verificá-los sem a menor dificuldade.

- De onde você tirou toda essa coisa?

Eu poderia ter usado uma palavra mais rude; por deferência às mulheres, no entanto, usei um significado, literalmente o de estrume de estábulo.

- Uma coisa de extraordinária fertilidade, o estrume de estábulo. Proporciona boas colheitas. Os fatos estão lá. Tenho um dom para as línguas, como todos os telepatas... é isso mesmo, Dom Lewis, também sou um telepata. Por falar nisso, sabia que tem um nome terráqueo?

- Claro que não tenho.

Lewis era um nome usado pelos Altons por gerações.

- Estive na ilha de Lewis, na própria Terra - garantiu o homem chamado Kadarin.

- É pura coincidência. As línguas humanas desenvolvem as mesmas sílabas, já que possuem o mesmo mecanismo vocal.

- Sua ignorância, Dom Lewis, é impressionante. Algum dia, se quiser uma aula de lingüística, deve viajar pelo Império e ouvir pessoalmente as estranhas sílabas que a língua humana desenvolve quando não existe uma linguagem comum, transmitida pela cultura. Senti uma súbita pontada de temor, como um vento frio. Ele continuou:

- Enquanto isso, não faça declarações ignorantes, que só demonstram que é um rapaz pouco viajado. Quase todos os nomes já registrados em Darkover são conhecidos na Terra... e numa pequena parte da Terra, diga-se de passagem. A gaita de foles, o mais antigo dos instrumentos musicais darkovanos, era outrora conhecida na Terra, mas agora só sobrevive em museus, pois se perdeu a arte de tocá-la; músicos vieram a Darkover para reaprender a arte e descobriram que a música sobrevivente aqui era de uma pequena área geográfica, conhecida como Ilhas Britânicas. Lingüistas que estudaram a linguagem de Darkover descobriram vestígios de três línguas terráqueas. Espanhol em seu casta; inglês e gaélico no cahuenga e na língua das Cidades Secas. A língua falada nas Hellers é uma forma de gaélico puro como não se fala mais na Terra, mas sobrevive em manuscritos antigos. Para abreviar uma história comprida, como disse a velha esposa ao cortar os chifres de sua vaca, logo descobriram os registros de uma única espaçonave, enviada antes que as colônias terráqueas se unissem para formar o Império e que desapareceu sem deixar vestígios. Todos pensavam que fora destruída num acidente ou que se perdera para sempre. E encontraram a lista dos tripulantes.

- Não acredito numa só palavra.

- Sua convicção não tornaria a história verdadeira, sua dúvida não faria cora que fosse falsa - declarou Kadarin. - O próprio nome deste mundo, Darkover, é uma palavra terráquea, significando... - Ele pensou por um momento na tradução correta. - ...a cor da noite lá em cima. Na lista de tripulantes havia Di Asturiens e MacArans, e esses são, como você diria, os bons e antigos nomes darkovanos. A espaçonave tinha uma oficial chamada Camilla Del Rey. Camilla é um nome raro entre os terráqueos agora, mas é o nome mais comum para as mulheres nas Colinas Kilghard; vocês o deram até a uma das semi-deusas do Comyn. Havia um sacerdote em São Cristóvão de Centaurus, o Padre Valentine Neville... e quantos dos filhos do Comyn estudaram no mosteiro cristoforo de São Valentim-das-Neves? Eu trouxe para Marjorie, que é uma cristoforo, uma pequena medalha religiosa da própria Terra; é igual à que é cultuada em Nevarsin. Devo continuar com tais exemplos... e lhe asseguro que poderia citá-los durante a noite inteira sem me cansar? Os seus anciãos do Comyn alguma vez lhe contaram esses fatos?

Minha cabeça girava. Tudo parecia terrivelmente convincente.

- O Comyn não pode saber disso. Se o conhecimento se perder...

- Eles sabem, é claro - assegurou Beltran, desdenhoso. - Kennard sabe, com toda a certeza. Afinal, ele viveu na Terra.

Meu pai sabia de tudo aquilo e nunca me contara?

Kadarin e Beltran ainda me contavam sua história de uma "nave perdida", mas eu cessara de escutar. Podia sentir os olhos suaves de Marjorie fixados em mim, à luz do fogo definhando, embora não os visse mais. Senti que ela acompanhava meus pensamentos, não se intrometendo, mas sim reagindo a mim, de uma forma tão completa que não havia mais barreiras entre nós. Isso nunca me acontecera antes. Nem mesmo em Arilinn, eu jamais experimentara urna sintonia tão plena com qualquer ser humano. Senti que ela sabia como tudo aquilo me deixara consternado e exausto.

No banco almofadado, ela me estendeu a mão, e pude sentir sua indignação se irradiando dos dedos pequenos para minha mão, o braço, o resto do corpo. Ela protestou:

- Bob, o que está tentando fazer com ele? Lembre-se de que ele chegou aqui cansado de uma longa viagem, um parente e hóspede; é essa a nossa hospitalidade das montanhas?

Kadarin riu.

- Ponha um camundongo para guardar um leão! - Senti aqueles estranhos olhos penetrando pela escuridão para ver nossas mãos unidas. - Tenho minhas razões, criança. Não, sei que destino o enviou até aqui, mas quando vejo um homem que sempre viveu por uma mentira, tento lhe dizer a verdade, se acho que ele merece ouvi-la. Um homem que deve fazer uma opção tem de se basear nos fatos, não em nebulosas lealdades, verdades incompletas, mentiras antigas. A maré do destino se move...

Interrompi-o bruscamente:

- O destino é um dos seus fatos? E me chamou de supersticioso! Ele balançou a cabeça, muito sério.

- Você é um telepata, um Alton; sabe o que é a precognição.

- Está indo muito depressa, Bob - disse Beltran. - Nem mesmo sabemos por que ele veio até aqui e não podemos esquecer que ê herdeiro de um Domínio. É possível até que tenha sido enviado para saber como estão as coisas por aqui e contá-las ao velho de barba grisalha em Thendara e seus lacaios. Beltran virou-se para mim.

- Por que veio nos procurar? Depois de tantos anos, Kennard não pode estar tão ansioso assim em fazê-lo conhecer a família de sua mãe, caso contrário você seria meu irmão-de-adoção, como o pai desejava.

Pensei a respeito com certo pesar. Aceitaria de bom grado aquele parente como irmão-de-adoção. Em vez disso, nunca soubera de sua existência até agora, e fora uma perda mútua. Ele insistiu na pergunta:

- Por que veio, primo, depois de tanto tempo?

- É verdade que vim por vontade de meu pai. Hastur recebeu informações de que a Aliança estava sendo violada em Caer Donn; meu pai se encontrava doente demais para viajar, e fui enviado em seu lugar.

Sentia-me estranhamente empurrado de um lado para outro. O pai me mandara para espionar os parentes? Ou, na verdade, queria que eu conhecesse a família de minha mãe? Não sabia, e isso me deixava indeciso, angustiado.

- Como pode perceber, é inútil falar com ele - disse a mulher chamada Thyra, de seu lugar, à sombra de Kadarin. - É um dos fantoches do Comyn.

A ira me dominou.

- Não sou fantoche de ninguém. Nem de Hastur. Nem de meu pai. E também não serei de vocês, mesmo sendo primo. Vim por minha livre e espontânea vontade, porque, se a Aliança for violada, a vida de todos nós será afetada. E mais do que isso, independentemente do que disse meu pai, eu queria verificar pessoalmente se era verdade o que me disseram sobre Aldaran e a Terra.

- Falou honestamente - disse Beltran. - Mas quero lhe fazer uma pergunta, primo. Sua lealdade é com o Comyn... ou com Darkover?

Se me fizessem essa pergunta em qualquer outra ocasião, eu responderia, sem a menor hesitação, que ser leal ao Comyn era ser leal a Darkover. Desde que deixara Thendara, porém, não tinha mais tanta certeza. Mesmo aqueles em quem eu confiava plenamente, como Hastur, não tinham o poder - ou talvez não tivessem o desejo - de reprimir a corrupção dos outros.

- A Darkover - respondi. - Sem a menor sombra de dúvida, a Darkover.

- Então você deve ser um de nós! - declarou Beltran, com veemência. - Foi-nos enviado neste momento, eu acho, porque precisávamos de sua ajuda, porque não podíamos continuar sem alguém como você!

- Para fazer o quê?

Eu não queria participar em nenhuma conspiração de Aldaran.

- Só uma coisa, parente: dar a Darkover o lugar que lhe pertence por direito, como um mundo integrado em nosso tempo, não como um lugar atrasado e bárbaro! Merecemos o lugar no Conselho do Império, que já deveríamos ocupar há muitos séculos, se o Império fosse honesto conosco. E vamos obtê-lo!

- Um nobre sonho, se for viável. Mas como pretendem realizá-lo?

- Não será fácil - admitiu Beltran. - Convém ao Império e ao Comyn perpetuar a mesma idéia de nosso mundo: atrasado, feudal, ignorante. E nos tornamos muitas dessas coisas.

- Mas também temos algo que é exclusivamente darkovano - interveio Thyra, das sombras. - Nossos poderes psíquicos.

Ela se inclinou para a frente, a fim de pôr mais lenha no fogo, e vi suas feições por um instante, iluminadas pelas chamas, escuras, vigorosas, faiscando.

- Se são exclusivos de Darkover, como ajustá-los à teoria de que somos todos terráqueos?

- Todos esses poderes foram registrados e são lembrados na Terra - explicou ela. - Mas a Terra negligenciou os poderes da mente, concentrando-se nas coisas materiais, nos metais, nas máquinas, nos computadores. Por isso, os poderes psíquicos foram esquecidos e reprimidos. Nós, ao contrário, tratamos de desenvolvê-los, deliberadamente nos reproduzimos por eles... essa parte da lenda do Comyn é verdadeira. E contamos com as pedras de matriz para conversão da energia. O isolamento, a tendência genética e a reprodução seletiva fizeram o resto. Darkover é um reservatório de poder psíquico, o único planeta na galáxia, até onde eu sei, que optou por ele, em detrimento da tecnologia.

- Mesmo com a amplificação da matriz, esses poderes são perigosos - declarei. - A tecnologia darkovana deve ser usada com cautela, com bastante comedimento. O preço, em termos humanos, é geralmente muito alto.

A mulher deu de ombros.

- Não se podem pegar falcões sem escalar os penhascos.

- E o que vocês tencionam fazer?

- Obrigar os terráqueos a nos levarem a sério!

- Não estão pensando em guerra, não é? - Parecia uma loucura suicida, e foi o que eu disse. - Combater os terráqueos, armas contra armas?

- Claro que não - respondeu Kadarin. - Ou apenas se for preciso demonstrar a eles que não somos ignorantes nem impotentes. Uma matriz de alto nível, pelo que sei, é uma arma capaz de fazer até mesmo os terráqueos tremerem. Mas espero e confio que nunca chegaremos a esse ponto. O Império Terráqueo orgulha-se do fato de jamais conquistar, de os próprios planetas pedirem para serem admitidos no Império. Em vez disso, o Comyn decidiu manter Darkover apartado, mergulhado no barbarismo, uma busca pelo ontem, não pelo amanhã. Temos algo para dar ao Império em troca do que eles nos oferecerem, nossa tecnologia de matriz. Podemos nos juntar como iguais, não como suplicantes. Soube que nos velhos tempos havia aeronaves impulsionadas por matriz em Arilinn...

- É verdade - confirmei. - Ainda existiam recentemente, no tempo de meu pai.

- E por que não temos mais agora? - Ele não esperou minha resposta. - Poderíamos dispor também de uma técnica de comunicações bastante eficaz...

- Temos isso agora.

- Mas as Torres só operam sob o controle do Comyn, não por toda a população do mundo.

- Os riscos...

- Só o Comyn parece saber alguma coisa sobre esses riscos -interveio Beltran. - Estou cansado de deixar o Comyn decidir por todos quais os riscos que podemos assumir. Quero que sejamos aceitos como iguais pelos terráqueos. Quero que nos tornemos parte do comércio terráqueo, não apenas um filete mínimo que entra e sai pelo espaço-porto sob complexas autorizações, assinadas e reassinadas por seus especialistas em culturas alienígenas, depois de se certificarem de que não vai perturbar nossa cultura primitiva! Quero boas estradas, fábricas e transportes, quero algum controle sobre o clima esquecido de Deus neste mundo! Quero nossos estudantes nas universidades do Império, e os deles vindo para cá! Outros planetas têm essas coisas! E, acima de tudo, quero a viagem pelas estrelas. Não como uma diversão de homem rico, como acontece com os jovens Ridenow, passando uma temporada de vez em quando num distante mundo de prazeres e trazendo de volta novos brinquedos e novas libertinagens, mas pelo livre comércio, com naves darkovanas e indo e vindo de acordo com a nossa vontade, não por determinação do Império!

- Devaneios - declarei, incisivo. - Não há metal suficiente em Darkover para se construir o casco de uma espaçonave, muito menos o combustível para acioná-la.

- Podemos trocar nossos produtos pelo metal - insistiu Beltran. - E não acha que as matrizes, acionadas pelo poder psíquico, são capazes de movimentar espaçonaves? E isso não faria com que a maioria das outras fontes de energia na galáxia se tornasse obsoleta da noite para o dia?

Fiquei imóvel por um momento, dominado pela força daquele sonho. Naves estelares para Darkover... usando a matriz como força propulsora! Por todos os Deuses, que sonho! E os darkovanos como companheiros, concorrentes, não como enteados esquecidos do Império...

- Não pode ser possível - murmurei - ou os círculos da matriz já teriam feito isso, nos velhos tempos.

- Já foi feito - assegurou Kadarin. - Foi o Comyn que suspendeu. Teria diluído seu poder sobre este mundo. Viramos as costas a uma civilização galática porque aquele bando de mulheres velhas em Thendara decidiu que gostava do nosso mundo do jeito como era, com o Comyn mandando, com os Deuses e não sei mais o quê, e todas as outras pessoas lhes fazendo reverência e se submetendo! Até desarmaram a todos nós. Sua preciosa Aliança parece muito civilizada, mas o que fez, para todos os efeitos, foi tornar impossível qualquer tipo de rebelião armada que pudesse pôr em perigo o poder do Comyn!

Isso estava de acordo, de forma embaraçosa, com alguns de meus próprios pensamentos. Até Hastur falava nobres palavras sobre o Comyn se devotando ao serviço de Darkover, mas tudo se resumia ao fato de que ele sabia o que era melhor para o nosso planeta, e não queria idéias independentes desafiando o seu poder de impor o "melhor".

- É um sonho nobre. Eu já disse isso antes. Mas o que tenho a ver com tais coisas?

Foi Marjorie quem respondeu, apertando minha mão, na maior ansiedade:

- Primo, você é treinado na Torre. Conhece as habilidades e as técnicas, e como podem ser usadas até mesmo por telepatas latentes. Muito do antigo conhecimento se perdeu, fora das Torres. Só podemos experimentar, trabalhar no escuro. Não dispomos da habilidade, da disciplina com a qual poderíamos aprofundar as experiências. Aqueles de nós que são telepatas não têm a menor chance de desenvolver os dons naturais; e os que não são não têm como aprender a mecânica do trabalho de matriz. Precisamos de alguém... alguém como você, primo!

- Não sei... Só trabalhei dentro de uma Torre. Fui ensinado que não é seguro...

- Claro - disse Kadarin, desdenhoso. - Eles se arriscariam a que qualquer homem treinado fizesse experiências por conta própria e talvez aprendesse mais do que o pouco que lhe permitiram saber? Kermiac treinava técnicos de matriz aqui nas Hellers quando vocês, nos Domínios, ainda trabalhavam em círculos fechados, eram considerados feiticeiras e bruxos! Mas ele está muito velho, não já nos pode orientar agora.

Kadarin sorriu, um sorriso breve e desolado, antes de acrescentar:

- Precisamos de alguém que seja jovem e competente, e acima de tudo destemido. Acho que você dispõe da força necessária. Tem a vontade também?

Descobri-me recordando o estranho senso de destino que me dominara ao chegar ali. Era esse o destino que previra, romper o controle de um clã corrompido sobre Darkover, derrubar a garra que nos apertava pela garganta, levar Darkover a seu lugar de direito entre os iguais do Império?

Era quase demais para absorver. E, de repente, senti-me muito cansado. Marjorie, ainda acarinhando gentilmente minha mão com seus dedos pequenos, murmurou, sem levantar os olhos:

- Já chega, Beltran. Dê-lhe algum tempo. Ele está exausto da viagem, e vocês o pressionaram até deixá-lo confuso. Se ele achar certo, tomará a decisão que esperamos.

Ela pensava em mim. Todos os outros só pensavam na maneira como eu podia enquadrar-me em seus planos. Beltran disse, com um sorriso pesaroso e cordial:

- Primo, minhas desculpas! Marjorie tem razão, já chega por enquanto. Depois de uma viagem tão longa, você precisa mais de um drinque tranqüilo e de uma cama macia do que de uma preleção sobre a história e a política de Darkover. Muito bem, o drinque agora, e a cama daqui a pouco, eu prometo!

Ele pediu vinho e um cordial doce, com gosto de frutas, não muito diferente do shallan que bebemos no vale. Levantou seu copo na minha direção.

- Ao nosso conhecimento mais profundo, primo, e a uma agradável estada entre nós!

Fiquei contente por beber a isso. Os olhos de Marjorie encontraram-se com os meus por cima da borda do copo. Tive vontade de pegar sua mão outra vez. Por que ela me atraía tanto? Parecia jovem e tímida, com um embaraço cativante, mas não era bonita no sentido clássico. Vi Thyra sentada na curva do braço de Kadarin, bebendo do copo dele. Entre os habitantes das terras baixas, isso seria um sinal de que eram amantes confessos. Eu não sabia o que significava aqui, se é que significava alguma coisa. E gostaria de ter liberdade para também sentar assim com Marjorie.

Concentrei minha atenção no que Beltran dizia, sobre os métodos terráqueos usados na construção rápida de Caer Donn, na maneira pela qual telepatas treinados podiam ser usados na previsão e no controle do tempo.

- Cada planeta do Império enviaria pessoas para cá, a fim de serem treinadas por nós, e pagariam muito bem pelo privilégio.

Era tudo verdade, mas eu me sentia cansado, e os planos de Beltran eram tão excitantes que temi não conseguir dormir depois. Além disso, tinha os nervos à flor da pele com a tentativa de manter minha percepção de Marjorie sob controle. Preferia ser espancado até virar uma massa ensangüentada a me intrometer, mesmo de uma forma periférica, em sua sensibilidade. Mas continuava a desejar projetar-me para ela, testar sua percepção de mim, ver se partilhava meus sentimentos ou se sua gentileza era a cortesia de uma parenta a um hóspede exausto...

- Beltran - falei finalmente, interrompendo o fluxo de idéias entusiasmadas -, há uma falha séria em seus planos. Não existem telepatas suficientes. Não temos bastantes homens e mulheres treinados sequer para manter todas as nove Torres em operação. Para o seu plano de dimensões galáticas, precisaríamos de dezenas, centenas.

- Mas não se esqueça de que até mesmo um telepata latente pode aprender a mecânica de matriz - disse ele. - E muitos que herdaram os dons nunca os desenvolveram. Creio que alguém treinado numa Torre pode despertar o laran latente.

Franzi o rosto.

- O dom de Alton é forçar o contato. Aprendi a usá-lo na Torre para despertar os latentes, se não estiverem defendidos demais. Nem sempre consigo fazê-lo. Isso exige um telepata catalisador. O que eu não sou.

Thyra comentou, em tom ríspido:

- Eu lhe disse, Bob, que esse gene está extinto. Algo em seu tom me deu vontade de contestá-la.

- Não está, não, Thyra. Conheço um. É apenas um menino, e destreinado, mas é sem dúvida um telepata catalisador. Despertou o laran num latente, mesmo depois que eu havia fracassado.

- Isso de nada nos adianta - disse Beltran, irritado. - O Conselho do Comyn provavelmente o controla, com favores e proteção, a tal ponto que ele nunca verá além da vontade deles. É o que costumam fazer com os telepatas. Estou surpreso de que não o tenham ainda subornado desse jeito, primo.

Pensei, mas não disse, que haviam tentado.

- Não fizeram isso. Dani não tem o menor motivo para amar o Comyn... e dispõe de razões suficientes para odiá-lo.

Sorri para Marjorie e passei a lhes contar o que acontecera com Danilo no corpo de cadetes.

Capítulo Treze

Regis estava deitado no quarto de hóspedes em Edelweiss, exausto, mas sem conseguir dormir. Chegara ao final da tarde, em meio a uma nevasca, ainda aturdido e nauseado demais para conversar ou para comer o jantar que Javanne preparara. A cabeça latejava, os olhos tremeluziam com pequenos pontos de luz, que persistiam mesmo quando os fechava, sempre em movimento, formando estranhos rendilhados visuais por trás das pálpebras.

Dyan, ele não parava de pensar, no comando dos cadetes, abusando de seu poder daquela forma, e ninguém sabia ou não se importava, ou não interferia.

Mas eles sabiam, é claro, compreendiam tudo. Não podiam deixar de saber. Ele jamais acreditaria que Dyan fosse capaz de enganar Kennard!

Regis lembrou a conversa estranha e insatisfatória com Dyan na taverna, e sua cabeça latejou ainda mais, como se a própria violência de suas emoções pudesse explodi-la. Sentia-se ainda pior porque, na verdade, gostava de Dyan, admirara-o, ficara lisonjeado com sua atenção. Apreciara a oportunidade de conversar com um parente como um igual... e bancara a criança tola e estúpida! Sabia agora o que Dyan tentava descobrir, de uma forma tão sutil que nem chegara a ser um convite.

Não era a natureza dos desejos de Dyan que tanto o perturbava. Afinal, não se considerava tão vergonhoso assim ser um ombredin, um amante de homens. Entre os garotos muito jovens para o casamento, mantidos rigidamente apartados pelo costume de quaisquer mulheres, exceto suas próprias irmãs ou primas, era considerado condizente procurar a companhia e até mesmo o amor de seus amigos, em vez de ligações com mulheres que eram de todos. Podia ser excêntrico, num homem da idade de Dyan, mas com certeza não era vergonhoso.

O que repugnava Regis eram a espécie e o tipo de pressão usada contra Danilo, com sua crueldade deliberada e sádica, a vingança de Dyan por seu orgulho ferido.

Uma perseguição mesquinha seria cruel, embora compreensível. Mas usar o laran contra ele! Impor-se na mente de Danilo, atormentá-lo daquela maneira! Regis experimentava uma náusea física de tanta repulsa.

Além do mais, pensou ele, ainda se revirando na cama, irrequieto, havia muitos homens e rapazes que acolheriam muito bem o interesse de Dyan. Alguns talvez apenas porque Dyan era um lorde do Comyn, capaz de proporcionar presentes e privilégios a seus amigos, mas outros, sem dúvida, achariam Dyan um companheiro encantador, agradável e sofisticado. Ele poderia ter uma dúzia de apaniguados e amantes, e ninguém pensaria em criticá-lo. Mas alguma crueldade pervertida o levara a procurar o único rapaz entre os cadetes que jamais o aceitaria. Um cristoforo.

Virando-se de lado, Regis puxou um travesseiro sobre o rosto, a fim de bloquear a luz da única vela acesa, pois se sentia cansado demais para levantar e apagá-la, e tentou dormir. Mas sua mente insistia em voltar aos pesadelos assustadores e desconcertantemente sexuais que haviam precedido o despertar de seu próprio laran. Sabia agora como Dyan pressionara Danilo até mesmo no sono, saboreando o medo e a vergonha do rapaz. E também sabia agora qual era a suprema corrupção do poder: converter outra pessoa num brinquedo para se submeter à sua vontade.

Dyan seria um louco? Regis refletiu a respeito. Não, ele era muito são, para escolher um garoto pobre, sem amigos ou patronos poderosos. Brincara com Danilo como um gato brinca com um passarinho cativo, torturando por não poder matar. Regis sentiu-se nauseado outra vez. O prazer no sofrimento. Dyan experimentava esse tipo de prazer ao bater nele com toda a força nos treinamentos, deixando-o cheio de equimoses? Com a intensa memória tátil de um telepata, ele reconstituiu o momento em que Dyan passara as mãos por seu corpo machucado, a deliberada qualidade sensual do contato. Se Dyan estivesse fisicamente presente agora, Regis o teria agredido e assumido as conseqüências.

E Dani era um telepata.catalisador. Essa força terrível, essa compulsão abominável, contra o mais raro e o mais sensível dos telepatas!

Por várias vezes, de forma compulsiva, ele voltou naquela noite ao alojamento em que tentara - e fracassara - entrar em contato com Danilo, para confortá-lo. Sentiu outra vez a angústia, o choque físico e mental da violenta rejeição, o fluxo de culpa, terror e vergonha que o envolvera por completo, por causa daquele breve e inocente toque no ombro nu de Danilo. Cassilda, abençoada Mãe do Comyn, pensou Regis, numa vergonha profunda, eu o toquei! Não é de admirar que ele julgasse que eu não era melhor do que Dyan!

Regis deitou de costas e ficou olhando para o teto abobadado, sentindo o corpo se tornar gelado de medo. Dyan era um membro do Conselho. Não era possível que todos fossem tão corrompidos que nada falassem ao saber o que Dyan fizera. Mas quem lhes poderia contar?

A única vela acesa, perto de sua cama, tremeluziu de repente, entrando e saindo de foco; cores surgiam e giravam em seu campo visual, o quarto pareceu expandir-se, depois encolher, até dar a impressão de que se encontrava muito distante, e depois assomou vasto ao seu redor, como uma imensa câmara ressonante.

Ele reconheceu as sensações da ocasião em que Lew lhe dera kirian... mas não tomara nenhuma droga agora!

Agarrou-se nas cobertas, fechando os olhos com toda a força. Ainda podia divisar a chama da vela, um fogo escuro gravado dentro de suas pálpebras, o quarto ao redor iluminado por um brilho radiante, com imagens revertidas, escuro para brilhante, brilhante para escuro, e um rumor em seus ouvidos, como o rugido distante de um incêndio na floresta...

...As linhas de fogo em Armida! Por um instante, ele teve a sensação de ver de novo o rosto de Lew, avermelhado, contemplando um terrível incêndio, atraído com terror e fascínio, e depois o rosto de uma mulher, reluzente, coroado pelo fogo, queimando, queimando viva nas chamas... Sharra, a Deusa da Forja, em suas correntes douradas. O quarto vibrava com o fogo, e ele se protegeu sob as cobertas, sufocado, assediado, num turbilhão. O quarto dissolvia-se ao seu redor, inclinava-se... cada fio dos lençóis de linho parecia penetrar seu corpo, duro e áspero, as fibras se encrespavam e se retorciam, cortando sua pele dolorosamente. Ouviu alguém gemer muito alto e se perguntou quem poderia estar chorando assim. O próprio ar parecia desmanchar-se contra sua pele, como se estivesse dividindo em pequenas gotas, antes que o pudesse respirar. E sua respiração sibilava, assoviava, gemia, ao entrar e sair, como fogo cauterizando, só apagado pelas gotas de água separadas em seus pulmões...

A dor comprimia sua cabeça. A sensação era a do crânio sendo esmagado, explodindo em fragmentos mínimos; outro golpe projetou-o para o alto, voando, para depois cair pela escuridão.

- Regis!

Outra vez um impacto, a vertigem de girar pelo espaço. O som era apenas uma vibração sem sentido, mas ele o tentou focalizar, fazer com que significasse alguma coisa.

- Regis!

Quem era Regis? A chama ruidosa da vela definhou para um mero lampejo, e Regis se ouviu soltando um sonoro ofego. Alguém se inclinava por cima dele, gritando seu nome, batendo com força em seu rosto. E de repente, sem qualquer barulho, o quarto recuperou o foco.

- Regis, acorde! Levante-se e ande, não se deixe dominar por isso!

- Javanne... - balbuciou ele, fazendo um esforço para segurar sua mão, que já descia para outro golpe. - Não, irmã...

Ele se surpreendeu ao constatar como sua voz soava fraca e distante. Javanne soltou um grito de alívio. Estava de pé ao lado da cama, um xale branco estendido pelos ombros, por cima da camisola comprida.

- Pensei que era uma das crianças chorando, e só depois descobri que era você. Por que não me contou que podia sofrer a doença do limiar?

Regis piscou, atordoado, e baixou a mão da irmã. Mesmo sem o contato mental, podia sentir o medo de Javanne. O quarto ainda não se tornara completamente sólido ao seu redor.

- Doença do limiar?

Ele pensou a respeito, por um momento. Claro que já ouvira falar, pois nascera numa família do Comyn: um distúrbio físico e psíquico da telepatia despertando na adolescência, a incapacidade do cérebro de absorver as súbitas sobrecargas de dados sensoriais e extra-sensoriais, resultando em distorções na percepção de vista, som, tato...

- Nunca tive isso antes. Não sabia o que era. As coisas pareciam se diluir e desaparecer, eu não conseguia ver direito, nem sentir...

- Sei como é. Agora, levante e ande um pouco.

O quarto ainda girava ao seu redor; Regis segurou-se na armação da cama.

- Vou cair, se tentar me levantar...

- E se não se levantar e andar, seus centros de equilíbrio voltarão a perder o foco. Tome aqui.

Com uma débil risada, ela estendeu o xale branco para o irmão e desviou os olhos enquanto ele o enrolava em torno do corpo e fazia um tremendo esforço para se levantar.

- Ninguém o alertou para isso quando seu laran despertou, Regis?

- E quem me poderia alertar? Acho que ninguém sabia.

Ele deu um passo hesitante, depois outro. Javanne tinha razão; sob o esforço concentrado de se levantar e andar, o quarto voltou a ficar sólido. Regis estremeceu e aproximou-se da vela. As pequenas luzes ainda dançavam no fundo de seus olhos, mas agora reduzidas outra vez às dimensões da vela. Como a chama se expandira para as proporções de um furioso incêndio na floresta de sua infância? Ele pegou a vela, espantado ao perceber como sua mão tremia. Javanne disse, em tom ríspido:

- Não pegue a vela enquanto sua mão não estiver firme, pois pode atear fogo a alguma coisa! Regis, você me assustou!

- Por causa da vela? Ele a largou.

- Não. Pela maneira como gemia. Passei meio ano em Neskaya quando tinha treze anos e uma ocasião vi uma das garotas entrar em convulsões na crise.

Regis fitou a irmã como se a visse pela primeira vez. Podia sentir agora a emoção por trás de seu comportamento brusco, o medo genuíno, uma ternura de que ele nunca suspeitara. Passou o braço pelos ombros de Javanne e murmurou, aturdido:

- Sentiu mesmo tanto medo assim?

As barreiras entre os dois haviam arriado por completo, e Javanne ouviu outra coisa: Você se importaria realmente se alguma coisa me acontecesse? Ela reagiu ao espanto dessa indagação com uma sincera consternação.

- Como pode duvidar disso? Você é meu único parente!

- Tem Gabriel e as cinco crianças.

- Mas você é o filho de meu pai e de minha mãe. - Javanne deu-lhe um abraço rápido e firme. - Parece estar bem agora. Volte para a cama antes de pegar um resfriado. Terei de cuidar de você como se fosse um dos bebês!

Mas Regis sabia agora o que a rispidez da voz da irmã encobria, e não se incomodou. Obediente, meteu-se debaixo das cobertas. Ela sentou na cama.

- Deve passar algum tempo em uma das Torres, Regis, apenas para aprender o controle. O avô pode enviá-lo para Neskaya ou Arilinn. Um telepata destreinado é uma ameaça para si mesmo e para todos ao seu redor, como me disseram quando eu tinha a sua idade.

Regis pensou em Danilo. Alguém se lembrara de alertá-lo?

Javanne puxou as cobertas até debaixo de seu queixo. Ele recordou que a irmã fazia isso quando era muito pequeno, antes de compreender a diferença entre uma irmã mais velha e uma mãe que jamais conhecera. A própria Javanne era apenas uma criança na ocasião, mas tentara assumir o papel de mãe. Por que ele esquecera isso?

Ela o beijou gentilmente na testa. Sentindo-se seguro e protegido no momento, Regis resvalou pela beira do vasto abismo do sono.

No dia seguinte, sentia-se doente e atordoado. Javanne bem que o tentou manter na cama, mas ele estava irrequieto demais para permanecer deitado.

- Tenho de voltar imediatamente a Thendara. Descobri uma coisa que torna necessária uma conversa sem demora com o avô. E você mesma disse que devo providenciar minha ida para uma das Torres. O que pode me acontecer com uma escolta de três guardas?

- Sabe muito bem que não está em condições de viajar! - exclamou ela, irritada. - Eu deveria dar uma surra em você e levá-lo para a cama, como faria com Rafael se ele fosse tão teimoso e irracional!

Sua nova percepção da irmã levou-o a responder com gentileza:

- Bem que gostaria de ser bastante pequeno para ser mimado por você, mesmo que isso representasse uma surra. Mas sei o que devo fazer, Javanne, e já passei da idade em que me submetia ao domínio de uma mulher. Por favor, não me trate como uma criança.

A seriedade de Regis também a tornou sóbria, e ela mandou chamar sua escolta e os cavalos.

Durante todo aquele longo dia de viagem, Regis teve a sensação de se mover ao longo de memórias torturantes, que se repetiam intermináveis, e de uma inquietação e incerteza crescentes: acreditariam nele, estariam dispostos a pelo menos ouvi-lo? Danilo se encontrava agora fora do alcance de Dyan; havia tempo suficiente para se manifestar, antes que ele pressionasse outro jovem. E Regis sabia que, se mantivesse o silêncio, seria cúmplice do que Dyan fizera.

No meio da tarde, ainda a quilômetros de Thendara, a neve e o granizo recomeçaram a cair, mas Regis ignorou as sugestões da escolta para que procurassem abrigo e hospitalidade em algum lugar. Cada momento que o separava de Thendara era agora uma tortura; ansiava em chegar, acabar logo com a terrível confrontação. Enquanto os quilômetros se arrastavam, e ele ficava mais e mais encharcado, aconchegou-se dentro do manto, como se fosse um casulo protetor. Sabia que os guardas falavam a seu respeito, mas excluiu-os com firmeza de sua consciência, retirando-se mais e mais para sua própria angústia.

Ao alcançar o topo do desfiladeiro, ele ouviu a vibração distante do espaço-porto, transmitida de forma intensa e reverberante no ar pesado e úmido. Pensou com um profundo anseio nas naves partindo, invisíveis por trás da muralha de chuva e granizo, símbolos da liberdade que desejaria ter agora.

Deixava que a tempestade cada vez mais forte o fustigasse, sem se preocupar. Recebia com satisfação o vento gelado, o granizo se congelando em camadas no manto grosso, nas pestanas, nos cabelos. Impedia-o de resvalar de volta àquela percepção estranha, hiper-sensível, alucinatória.

O que direi ao avô?

Como se podia encarar o Regente do Comyn e declarar que seu conselheiro de maior confiança era um corrupto, um pervertido sádico, usando seus poderes telepáticos para interferir numa mente sob seu comando?

Como dizer ao Comandante da Guarda que seu amigo de maior confiança, num dos postos de maior responsabilidade, maltratara um menino sob seus cuidados e abusara dele de uma forma vergonhosa? Como acusar seu próprio tio, o mais forte telepata no Comyn, de se manter de lado, indiferente, presenciando o mais raro e mais sensível dos telepatas ser falsamente acusado, sua mente assediada, atormentada e desonrada, enquanto ele, um técnico psíquico treinado numa Torre, nada fazia?

Os muros de pedra do Castelo fecharam-se em torno deles, protegendo-os do vento forte. Regis ouviu os homens da escolta praguejarem, enquanto se afastavam com os cavalos. Sabia que lhes deveria pedir desculpas por obrigá-los a uma viagem tão extenuante, com aquele tempo. Fora uma grande irresponsabilidade com homens leais, e a situação se tornava ainda pior pelo fato de que jamais questionariam seus motivos. Ele fez um agradecimento breve e formal e aconselhou-os a irem logo jantar e descansar, sabendo que o oferecimento de qualquer recompensa seria encarado como um insulto.

Os longos degraus para os aposentos dos Hasturs assomaram por cima dele, encolhendo-se e expandindo-se. O idoso valete do avô correu ao seu encontro, meio indistinto, desfocado, balançando a cabeça e falando com o privilégio do longo serviço:

- Lorde Regis, está completamente encharcado! Vai ficar doente! Vou buscar vinho, roupas secas...

- Obrigado, mas não quero nada agora. - Regis piscou para remover as gotas de gelo que se derretiam em suas pestanas. - Pergunte ao Lorde Regente... - Ele fez um esforço para impedir que os dentes batessem. - ...se pode me receber.

- Ele está jantando, Lorde Regis. Vá juntar-se a ele.

Uma mesa pequena fora armada diante do fogo, na sala de estar particular do avô. Danvan Hastur fitou o neto, consternado, repetindo de uma maneira quase cômica a aflição do idoso servo.

- Meu rapaz! Como pode chegar a esta hora, tão encharcado? Marton, pegue seu manto, para enxugar junto ao fogo! Você deveria passar alguns dias com Javanne. O que aconteceu?

- Necessário... - Regis descobriu que seus dentes batiam com tanta força que mal conseguia falar; teve de cerrá-los para conseguir algum controle. - Voltar imediatamente...

O Regente balançou a cabeça, cético.

- Em meio a uma nevasca? Sente-se aqui, junto do fogo.

Ele pegou o jarro na mesa e inclinou-o para despejar uma sopa fumegante numa caneca, que estendeu para Regis.

- Tome isto e se esquente, antes de falar qualquer coisa.

Regis começou a dizer que não queria, mas teve de pegar para que não caísse das mãos do velho. O vapor quente e fragrante era tão apetitoso que ele passou a tomar a sopa, aos goles, lentamente. Sentiu-se enfurecido por sua própria fraqueza, e com mais raiva ainda pelo fato de o avô testemunhá-la. As barreiras do velho estavam arriadas, e ele teve um relance de Hastur quando jovem, um comandante em campanha, conhecendo seus homens, julgando as forças e as fraquezas de cada um, sabendo o que cada um precisava, e como e quando providenciar. À medida que a sopa quente espalhava calor por seu corpo trêmulo, Regis relaxou e passou a respirar de forma mais regular. O calor da caneca confortava seus dedos, que se encontravam azulados de frio; e, mesmo depois de tomar toda a sopa, continuou a segurá-la entre as mãos, desfrutando o calor.

- Avô, preciso lhe falar.

- Estou escutando. Nem mesmo o Conselho me procuraria com este tempo.

Regis olhou para os servos que circulavam pela sala.

- A sós, senhor. É uma conversa que envolve a honra dos Hasturs.

Uma expressão de surpresa estampou-se no rosto do velho, que acenou para que os servos se retirassem.

- Não vai me contar que Javanne conseguiu se desgraçar, não é? O mero pensamento da irmã séria e meticulosa caindo na libertinagem teria feito Regis rir, se pudesse rir.

- Não, senhor. Tudo está bem em Edelweiss, as crianças crescem com saúde.

O frio acabara, mas ele sentia agora um tremor interior, que nem sequer reconhecia como medo. Largou a caneca vazia, que esfriara em suas mãos, e sacudiu a cabeça à oferta de mais sopa.

- Avô, lembra-se de Danilo Syrtis?

- Os Syrtis são homens de Hastur, o escudeiro de seu pai tinha esse nome, o velho Dom Felix foi meu mestre falcoeiro. Espere... Não houve um incidente lamentável na Guarda este ano, um cadete em desgraça, sua espada partida? O que isso tem a ver com a honra dos Hasturs, Regis?

Regis sabia que se devia manter calmo agora, manter a voz firme.

- Os homens de Syrtis são nossos ajudantes e escudeiros, senhor. Pelos anos de serviços que nos prestaram, não é nosso dever salvaguardá-los de serem atacados e abusados, até mesmo pelo Comyn? Eu descobri... Danilo Syrtis foi injustamente atacado e desgraçado, senhor. Pior do que isso. Danilo é um... telepata catalisador, e Lorde Dyan abusou dele, tramou sua desgraça por vingança...

Regis não pôde continuar. Aquele momento lancinante de contato com Danilo voltou a dominá-lo. Hastur fitava-o com profunda aflição.

- Isso não pode ser verdade, Regis!

Ele não acredita em mim! Regis ouviu sua voz tremer quando balbuciou:

- Avô, eu juro...

- Criança, criança, sei que não está mentindo, pois o conheço muito bem...

- Não me conhece absolutamente! - exclamou Regis, quase histérico.

Hastur levantou-se, preocupado, e adiantou-se para encostar a mão na testa do neto.

- Você está doente, Regis, febril, talvez delirante. Regis desvencilhou-se da mão.

- Sei muito bem o que estou dizendo. Sofri um ataque da doença do limiar em Edelweiss, mas já estou melhor agora.

O velho fitou-o com um ceticismo surpreso.

- A doença do limiar é uma coisa que deve ser levada muito a sério, Regis. Um dos sintomas é a ilusão, a alucinação. Não posso acusar Lorde Dyan pelos devaneios delirante de um jovem doente. Vou chamar Kennard Alton; ele é treinado numa Torre e pode lidar com esse tipo de doença.

- Isso mesmo, chame Kennard - exigiu Regis, a voz tremendo. - Ele é o único homem em Thendara que saberá com certeza que não estou mentindo nem delirando! E aconteceu por culpa dele também, pois ficou de braços cruzados e deixou que Danilo fosse desgraçado e o corpo de cadetes envergonhado!

Hastur parecia profundamente perturbado.

- Não pode esperar... - Ele fez uma pausa, fitando Regis atentamente. - Não, não pode, se você viajou por uma nevasca, a esta hora, para me trazer a notícia. Mas Kennard também está muito doente. Pode ir ao encontro dele?

Regis reprimiu outra explosão de raiva e disse apenas, sob um controle tenso:

- Não estou doente. Posso muito bem ir ao encontro dele. O avô fitou-o nos olhos.

- Se ainda não está doente, ficará em breve, se continuar tremendo assim, todo encharcado. Vá para seu quarto e troque de roupa, enquanto mando o aviso a Kennard.

Regis sentiu-se irritado por receber uma ordem para trocar de roupa, como se fosse uma criança, mas obedeceu. Parecia a melhor maneira de convencer o avô de sua racionalidade. Ao voltar, em roupas secas, sentindo-se melhor, o avô disse bruscamente:

- Kennard está esperando. Vamos para os seus aposentos.

Enquanto percorriam os longos corredores, Regis percebeu a intensa desaprovação do avô. Nos aposentos dos Altons, Kennard estava sentado na sala principal, diante do fogo. Levantou-se e deu um passo para ele. Regis constatou, com profundo pesar, que ele parecia muito doente, o rosto encovado e febril, as mãos inchadas e disformes. Mas sorriu para Regis, com uma satisfação sincera, e estendeu a mão enorme.

- Como fico contente por vê-lo, meu rapaz!

Regis tocou os dedos inchados com extremo cuidado, captando a dor e a exaustão de Kennard. Sentia-se hipersensível. Kennard mal conseguia ficar de pé!

- Lorde Hastur, é uma honra recebê-lo em meus aposentos. Em que posso servi-lo?

- Meu neto me apareceu com uma história estranha e perturbadora. A história é dele, e deixarei que a conte.

Regis experimentou intenso alívio. Temera ser tratado como um menino doente, arrastado relutante para o médico. Mas estava sendo tratado como um homem. Sentiu-se grato por isso, um pouco desconcertado.

- Não posso permanecer de pé assim por muito tempo. Você aí... - Kennard gesticulou para um servo. - Providencie uma cadeira para o Regente. Sente-se ao meu lado, Regis, e me conte o que o perturba.

- Meu Lorde Alton...

Kennard interrompeu-o gentilmente:

- Não sou mais Tio, rapaz?

Regis sabia que, se não resistisse à efusão paternal com toda a sua força, acabaria balbuciando a história como um menino confuso. Por isso, insistiu, a voz tensa:

- Meu lorde, é um assunto da maior gravidade, envolvendo a honra da Guarda. Visitei Danilo Syrtis em sua casa...

- Foi um gesto caridoso, sobrinho. Aqui entre nós, foi uma coisa lamentável. Tentei dissuadir Dyan, mas ele decidiu usar Dani como um exemplo, e a lei é a lei. Eu não poderia fazer coisa alguma, mesmo que Dani fosse meu próprio filho.

- Comandante - disse Regis, usando o mais formal dos títulos militares de Darkover -, sob a minha palavra mais solene, como um cadete e como um Hastur, juro que foi cometida uma terrível injustiça. Danilo foi erradamente acusado, e Lorde Dyan é culpado de algo tão vergonhoso que mal ouso dizê-lo. Um cadete é forçado a se submeter...

- Espere um pouco - interrompeu-o Kennard, fitando-o com olhos ardentes. -Já ouvi isso de Lew. Não sei o que os três anos entre os cristoforos lhe fizeram, mas se veio se lamuriar pelo fato de que Dyan gosta de rapazes como amantes, e acusá-lo...

- Tio! - protestou Regis, chocado. - Que tipo de idiota me julga? Não, Comandante. Se fosse apenas isso...

Ele fez uma pausa, procurando pelas palavras certas, confuso, antes de continuar:

- Comandante, Lorde Dyan não queria aceitar uma recusa. Perseguiu Danilo dia e noite, invadiu sua mente, usou o laran contra ele...

Os olhos de Kennard se contraíram.

- Lorde Hastur, o que sabe dessa história incrível? O rapaz parece doente. Está delirando?

Regis levantou-se, num ímpeto de raiva intensa, que se igualava à de Kennard.

- Kennard Alton, sou um Hastur e não minto] Chame Lorde Dyan, se quiser, e interrogue-o na minha presença!

Kennard tornou a fitá-lo nos olhos, sem raiva agora, mas muito sério.

- Dyan não se encontra na cidade esta noite. Diga-me, Regis, como soube de tudo isso?

- Dos lábios do próprio Danilo e pelo contato com sua mente. Você, entre todos os homens, sabe muito bem que não há como mentir para a mente.

Kennard continuou a fitá-lo nos olhos.

- Eu não sabia que você tinha laran.

Regis estendeu a mão para Kennard, a palma virada para cima, um gesto que nunca vira antes, mas para o qual o instinto o guiava.

- Você tem e saberá descobrir. Verifique pessoalmente.

Ele viu o respeito aflorando no rosto encovado e febril do homem mais velho, um instante antes de sentir, com um arrepio de medo, o contato em sua mente. Ouviu Lew dizendo, na memória de Kennard: Conheço homens adultos que nunca tiveram coragem de enfrentar este teste. Depois, sentiu o acesso de Kennard, o choque do contato... o momento em que se postara diante de Danilo no pomar, atordoado com o choque da ira e da vergonha do amigo... sua própria simpatia por Dyan, o momento meio envergonhado de reação a ele... as próprias recordações de Kennard sobre Dyan, um Dyan mais jovem, esguio, ansioso em ser amado, protegido, acalentado... o terror atordoado de Danilo, o fluxo de sonhos de pesadelo, as crueldades que os dois haviam partilhado, o choro no escuro, o riso estridente...

O turbilhão de lembranças e impressões se desvaneceu. Kennard cobrira o rosto com as mãos. Seus olhos permaneciam secos, mas mesmo assim Regis teve a impressão de que o homem mais velho chorava em consternação.

- Pelos infernos de Zandru, Dyan! - sussurrou Kennard.

Regis pôde sentir a angústia lancinante nas palavras. Kennard arriou no banco, e Regis compreendeu que ele teria caído se não fizesse isso. Mas, pela primeira vez, Regis sentiu toda a força e domínio com que um telepata treinado numa Torre pode se controlar, quando necessário. Sentiu também um lampejo assustador de agonia, como se Kennard mantivesse a mão firme sobre chamas. Kennard, no entanto, apenas respirou fundo e murmurou:

- Então Danilo tem laran. Lew não me disse, e também não me contou que Dani despertara você. - Um silêncio prolongado. - Isso é um crime, e dos mais terríveis... usar o laran para impor sua vontade. Sempre confiei em Dyan; nunca pensei em questioná-lo. Éramos bredin. A responsabilidade é minha, e arcarei com a culpa.

Ele parecia profundamente abalado.

- Aldones, Filho da Luz! Confiei a ele os meus cadetes! E Lew tentou me alertar, mas eu não quis ouvir. Mandei meu filho para longe em ira porque ele tentou me fazer compreender... Hastur, o que vamos fazer?

Hastur estava consternado.

- Todos os Ardais são instáveis. Dom Kyril permanece louco há vinte anos. Mas você conhece a lei tão bem quanto eu. Forçou-nos a aceitar Lew como seu herdeiro por essa mesma lei. Deve haver alguém na linha direta, varão e saudável, para representar cada Domínio, e Dyan não tem nenhum herdeiro designado. Não podemos sequer afastá-lo do Conselho do Comyn, como fizemos com Kyril, quando ele começou a delirar. Não sei como podemos tirá-lo do Conselho pelo tempo suficiente para curar sua mente, se é que ele está mesmo louco. Acha que Dyan tem a sanidade necessária para escolher um herdeiro?

Regis ficou furioso e magoado. Os dois pareciam importar-se apenas com Dyan. Dani nada representava para eles, como também nada significara para Dyan. Ele interveio, agressivo:

- E o que podem dizer de Danilo? Como ele fica, depois de sua desgraça e sofrimento? Ele possui o mais raro dos dons do Comyn, e a maneira como foi tratado é uma desonra para todos nós!

Os dois se viraram para fitá-lo, como se tivessem esquecido sua presença. Regis sentiu-se como uma criança impertinente, intrometendo-se na conversa dos mais velhos, mas se manteve firme, observando a luz das tochas dançar sobre as espadas antigas por cima da lareira, e viu Dyan cravar uma lâmina afiada em seu peito...

- As reparações serão feitas, mas deve deixar tudo ao nosso encargo - declarou Hastur.

- Deixarei Dyan para vocês, mas Dani é minha responsabilidade! Prestei a ele o juramento da espada. Sou um Hastur, herdeiro de um Domínio, e exijo...

- Você exige? - interrompeu-o o avô. - Pois eu lhe nego o direito de exigir qualquer coisa! Já me disse que deseja renunciar a esse direito, partir para o mundo exterior. Foi preciso todo o meu esforço para lhe arrancar a promessa de prestar um mínimo de dever no corpo de cadetes. Tem se recusado, da mesma forma que Dyan, a dar um herdeiro a seu Domínio. Com que direito ousa criticá-lo? Renunciou à sua herança como Hastur; com que direito se apresenta agora para nós e faz exigências? Sente-se e comporte-se ou volte para seu quarto e deixe essas coisas para seus superiores!

- Não me trate como uma criança!

- Você é uma criança - declarou Hastur, os lábios comprimidos -, uma criança tola e doente.

A sala entrava e saía de foco, à luz das chamas. Regis cerrou os punhos e teve de fazer um tremendo esforço para falar.

- Uma injúria a alguém com laran... desonra a todos nós. - Ele se virou para Kennard, suplicante. - Pela honra da Guarda... por sua própria honra...

As mãos entrevadas de Kennard tocaram-no gentilmente; Regis pôde sentir a dor que dilacerava aquelas mãos inchadas ao se desvencilhar. Sentiu também que saía e voltava a seu corpo, incapaz de suportar o turbilhão e a confusão dos pensamentos deles. Com intenso anseio, pensou em estar a bordo de uma nave seguindo para o espaço exterior, livre, deixando para trás aquele pequeno mundo, com todas as suas intrigas. Por um momento, esteve com a memória de Kennard na superfície distante da Terra, lutando com a pressão da honra e do dever contra tudo por que ansiava, de volta à herança que recebera antes mesmo de nascer, um caminho que devia trilhar, quer quisesse ou não... sentiu a angústia do avô, Rafael, Rafael, você não podia ter desertado de minha vida assim... ouviu a voz cínica e lenta de Dyan, um animal reprodutor muito especial, cujos honorários são pagos ao Comyn...

E o peso de tudo aquilo forçou-o a ficar de joelhos. Passado, presente e futuro se entrelaçaram, girando, ele viu a mão de Danilo se encontrar com a sua no cabo de uma espada reluzente, sentiu a mente se dilacerar, sufocando-o. Filho de Hastur, que é o Filho da Luz! Estava chorando, como uma criança, e sussurrou:

- Pela Casa de Hastur... eu juro...

As mãos de Kennard, quentes e inchadas, encostaram em suas têmporas; ele sentiu por um instante que Kennard o levantava. Pouco a pouco, foi-se desvanecendo o fluxo efervescente de emoção, presciência e memória. Ouviu Kennard dizer:

- É a doença do limiar. Não há uma crise, mas o rapaz está muito doente. Fale com ele, senhor.

- Regis...

Com um tremendo esforço, Regis sussurrou:

- Avô, Lorde Hastur... eu juro...

Os braços do avô o enlaçaram com ternura.

- Regis, Regis, eu sei. Mas não posso aceitar qualquer juramento seu agora. Não no estado em que se encontra. Os Deuses sabem que quero, mas não posso. Deve deixar tudo isso aos nossos cuidados. Não há outro jeito. Trataremos com Dyan. Você já fez tudo o que precisava. Agora, como diz Kennard, seu dever é ir para Neskaya, aprender a controlar seu dom.

Ele tentou ergue-se outra vez... mas continuou ajoelhado em pedras frias, com luzes de cristal ao seu redor. As palavras saíram devagar, dolorosas, mas não podia evitá-las: Empenho minha vida e minha honra... por Hastur, para sempre... e com uma angústia terrível, sabendo que falava para uma porta se fechando, entregou sua vida e sua liberdade. Não podia expelir nenhuma palavra, nem sequer uma sílaba, experimentava a sensação de que o corpo e o cérebro explodiriam com as palavras que fervilhavam dentro dele. Mas ainda assim sussurrou, mesmo sabendo que ninguém poderia ouvi-lo, enquanto os sentidos se desvaneciam, "...juro... honra..."

Os olhos do avô encontraram-se com os seus por um instante, uma âncora momentânea na escuridão turbilhonante em que ele pairava; e ouviu a voz de Hastur, profunda e compadecida, dizendo com firmeza:

- A honra do Comyn esteve segura em minhas mãos por noventa anos, Regis. Pode deixá-la comigo agora.

Regis deixou que o estendessem, quase sem sentidos, no banco de pedra.

E se deixou resvalar para a inconsciência como se fosse uma pequena morte.

 

                                                                                CONTINUA  

 

                      

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