Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MULHER PINTADA / Françoise Sagan
A MULHER PINTADA / Françoise Sagan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

O verão chegava ao fim, um verão que fora amarelo e cru, violento, um desses verões que lembram a guerra ou a infância; mas agora o sol estava policio e pálido, alongándo­se pelas ondas azuis e planas do porto de Cannes. Um final de tarde de verão, um início de noite de outono, e no ar havia alguma coisa de lânguido, dourado, soberbo e acima de tudo perecível; como se essa beleza estivesse condenada à morte pelos seus próprios excessos.

No cais do Narcissus, orgulho das companhias Pottin, que se apresentava a levantar âncora para seu célebre cru­zeiro musical de outono, o capitão Ellédocq e o comissário de bordo, Charley Bollinger, postados em posição de sentido no final da passarela, pareciam contudo pouco sensíveis ao encanto da hora. Recebiam os felizes passageiros privilegia­dos de um navio bastante luxuoso para justificar o preço exorbitante desse cruzeiro. O anúncio em cartazes afixados em todas as agências do mundo, todos os anos, completando três lustros atualmente, era dos mais promissores: seu slo­gan, escrito em letras manuscritas à inglesa, em fundo azul-celeste, cercava uma harpa eólica de época incerta com estas cinco palavras: "In mare te musica sperat", o que, para um latinista não muito exigente, poderia ser traduzido por: "A música o espera no mar".

De fato, durante dez dias, tendo-se o gosto e os meios de satisfazê-lo, podia-se dar uma volta pela bacia do Mediter­râneo em condições de refinado conforto e na companhia de um ou dois dos grandes intérpretes da hora e do mundo musical. Na organização dos Pottin, ou antes, no seu ideal, a escala determinava a obra musical, e a obra musical deter­minava o cardápio. Essas delicadas correspondências, de iní­cio hesitantes, pouco a pouco tinham se transformado em momentos imutáveis, mesmo quando acontecia por vezes que a decomposição súbita de um tumedô obrigasse a substituir Rossini por Mahler e esse turnedô por uma "panelada da Baviera". Amiúde, prevenidos no último momento pela in­tendência a respeito dos caprichos do congelador de bordo ou dos mercados mediterrâneos, os intérpretes ficavam às vezes sujeitos a ligeiras crises de nervos, que acrescentavam algum condimento a uma existência em si mesma bastante monótona, não se levando em conta o preço. O custo do cruzeiro era, de fato, de noventa e oito mil francos na classe de luxo, e de sessenta e dois mil na primeira classe, tendo-se excluído para sempre do Nareissus a segunda classe, para poupar as suscetibilidades dos privilegiados menos privile­giados do que os outros. Não importa! O Nareissus sempre partia repleto: as pessoas disputavam uma cabina dois anos antes e encontravam-se nas espreguiçadeiras do tombadilho superior como outros nos balcões de Bayreuth ou de Salz-burgo: entre melómanos e entre gente rica, com vista, ouvi­do, olfato e paladar deliciosa e diariamente satisfeitos. Só os prazeres do quinto sentido continuavam facultativos, o que, considerando-se a média da idade dos passageiros, era, aliás, preferível.

 

 

 

 

Às dezessete horas, hora limite, o capitão Ellédocq soltou um grunhido sinistro, tirou o relógio do bolso da calça e passou-o diante dos olhos com ar incrédulo, antes de brandi-lo sob os olhos pacientes e menos surpresos de Char­ley Bollinger. Os dois navegavam juntos havia dez anos, tendo assim adquirido hábitos quase maritais, que, em razão do seu físico, tinham algo de extravagante.

Aposta Bautet-Lebrêche não aqui antes sete horas?

É provável respondeu com voz amena e aflau­tada Charley Bollinger, que à força se habituara ao estilo telegráfico do comandante.

Ellédocq parecia-se tanto com a idéia habitual do velho lobo-do-mar, com sua estatura colossal, sua barba, suas so­brancelhas e seu andar irregular que, aos poucos, se impusera à Companhia Pottin, apesar da sua rara inaptidão para a navegação. Após alguns naufrágios e avarias, retiraram-no de todo oceano arriscado para lhe confiar esses circuitos sem perigo, essas cabotagens de um porto ao outro em que da ponte de comando de um navio sólido e bem equipado, auxiliado por um imediato até certo ponto a par da navega­ção e suas regras, estritamente nada lhe poderia acontecer de deplorável. A pretensão, próxima da paranóia, que Ellé­docq alimentava desde a infância por motivos incompreen­síveis, o levara a atribuir automaticamente a ausência de iniciativa que o seu posto comportava à confiança dos seus empregadores; mas ruminava desejos de aventuras à Conrad, nostalgias de capitães corajosos e kiplinguianos. E a impos­sibilidade de transmitir com uma voz sem timbre, mas firme, apelos românticos ou sons dilacerantes nunca deixara de lhe pesar de modo cruel. Sonhava com a noite em que lançaria num microfone crepitante, em meio a um ciclone: "Longitu­de tal; latitude tal; estamos agüentando. . ." Infelizmente, de manhã, só se encontrava a transmitir mensagens como: "Peixes estragados, favor mudar fornecedor", ou "Providen­ciar cadeira de rodas para passageiro inválido", no melhor dos casos. O emprego do código Morse tornara-se-lhe tão natural que o uso da mínima preposição, "de", "a", "para", etc, provocava pânico em seus subordinados, principalmente no temeroso e louro Charley Bollinger. Para Charley, nascido de família burguesa de Gand, homossexual e protestante, a vida fora uma série de humilhações suportadas mais com graça do que com felicidade. Extravagantemente encontrara na presença arrogante do capitão Ellédocq, nessa virilidade intolerante e obtusa, nessa pretensão rabugenta, uma esta­bilidade e uma relação que, embora platônica (e Deus sabe como ela era platônica), o tranqüilizavam vagamente. Quan­to a Ellédocq, detestava, nesta ordem, os comunistas, os gringos e os pederastas, e era um milagre, pensava Charley, que em tempos recentes ele viesse poupando um pouco estes últimos.

Nossa querida Edma falou Charley animada­mente com certeza virá um pouco atrasada, mas advirto-o de que nosso grande Kreuze também não chegou. Quanto a esperar, já estamos habituados, infelizmente, meu caro comandante.

E lançou uma espécie de invectiva (ou que pretendia que o fosse) ao companheiro, que lhe dirigiu um olhar feroz. O capitão Ellédocq detestava esse "nós" que Bollinger lhe impunha perpetuamente. Havia apenas três anos que ele descobrira os costumes do pobre Charley. Tendo uma única vez descido a Capri para buscar um pacote de tabaco (por­que nunca deixava o navio, princípio sagrado), ali desco­brira seu comissário de bordo, vestido de taitiana, dançando chá-chá-chá na Piazzetta com um musculoso habitante da ilha. Estranhamente, a princípio paralisado de horror, nada falou depois ao culpado; mas desde então votava-lhe uma espécie de desprezo horrorizado e por vezes temeroso. Che­gara mesmo a deixar de fumar nesse dia, por um curioso reflexo que não saberia explicar.

Quem, esse Kreuze? perguntou, desconfiado. Mas, meu capitão, Kreuze, Hans Helmut Kreuze. . .

Convenhamos, capitão, eu sei que o senhor não é especial­mente melómano...Charley não pôde reter o riso diante dessa idéia, um risinho em cascata que sombreou ainda mais a testa do capitão. Mas, ainda assim, Kreuze é atualmen­te o maior maestro do mundo! E o maior pianista, segundo se diz. . . Na semana passada. . . Afinal, o senhor lê Paris-Match, não é verdade?

Não, falta tempo. Com ou sem Match, Kreuze atra­sa! Pode dirigir uma orquestra, mas não o meu navio, o seu Kreuze! Você sabe quanto lhe pagam, hem, Charley, ao seu Kreuze para martelar o piano aqui durante dez dias? Sessen­ta mil dólares! Exatamente. Pontualmente. Sessenta magotes. Isso não lhe diz nada, Charley? E ele quis embarcar o piano dele porque o Pleyel de bordo não é bastante bom para ele. . . Vou ensinar-lhe, a seu Kreuze.

E, numa atitude máscula, o capitão Ellédocq mastigou o tabaco e lançou na direção de seus pés um longo jato de saliva castanha, que um vento malicioso projetou sobre a calça imaculada do comissário de bordo.

Ah! meu Deus! começou Charley, consternado, mas, interrompendo suas lamentações, uma voz alegre o interpelou das profundezas de um Cadillac de aluguel; e com o rosto mudando num instante do desagrado para a alegria, Charley precipitou-se na direção da recém-chegada, a sra. Edma Bautet-Lebrêche em pessoa, enquanto Ellédocq perma­necia imóvel e como que surdo a essa voz, conhecida no entanto de toda a sociedade viajante da moda, de todas as óperas e salões de algum status da Europa e dos Estados Unidos (que, aliás, ela chamava de "States").

Edma Bautet-Lebrêche descia do carro, seguida do marido, Armand Bautet-Lebrêche (do açúcar Bautet-Lebrê­che, entre outros), lançando cumprimentos com sua voz de soprano:

Bom dia, capitão! Bom dia, Charley! Bom dia, Nar-cissus! Bom dia, mar! como mulher de "muita loquaci­dade, encantadora, estonteante", como gostava de dizer de si mesma. Num instante a atividade do porto ficou suspensa por essa voz aguda mas poderosa: os marinheiros imobiliza­ram-se nos seus postos, os passageiros na amurada, as gai­votas a meio vôo; só o capitão Ellédocq, que já ouvira outras nesses ciclones interiores, permaneceu surdo.

Embora Edma Bautet-Lebrêche confessasse ter passado dos cinqüenta (o que era verdade havia doze anos), exibia juvenilmente um costume alaranjado com um turbante bran­co, conjunto que destacava sua extrema esbelteza, o rosto ligeiramente cavalar, de olhos amendoados um pouco salta­dos, e tudo o que ela permitia que se chamasse de sua "ati­tude principesca". A atitude do marido, em compensação, era a de um guarda-livros atarefado. Ninguém se lembrava jamais de Armand Bautet-Lebrêche, a menos que tivesse tido algum negócio com ele, e então jamais o esquecia. Possuía uma das maiores fortunas da França, e mesmo da Europa. Perpetuamente mergulhado num devaneio que raiava a dis­tração e o fazia tropeçar em toda parte, podia-se crer que fosse poeta, se não se soubesse que eram as cifras e as por­centagens que freqüentavam essa cabeça ovóide e calva. Mas se, por um lado, era dono de sua fortuna e do seu im­pério, "A. B. L." era também o escravo de uma ibm furiosa que tilintava sem cessar em seu cérebro frio, desde a pri­meira infância, e fazia dele um dos mil mártires beneficiá­rios da aritmética moderna. Tendo sua limusine pessoal se perdido na auto-estrada, ele cuidava de acertar as contas com o motorista do Cadillac de aluguel e lhe dava, sem precisar refletir, doze por cento de gorjeta, até o último cêntimo. Charley Bollinger retirava da mala do carro uma pilha ini­maginável de malas de couro preto, todas com as iniciais B. L., mas das quais ele sabia que nove décimos pertenciam a Edma, e não a Armand. Dois marinheiros musculosos desciam a escada e apanhavam as malas.

— Continua sendo a 104? — perguntava Edma em tom mais afirmativo que interrogativo.

De fato a 104 era a sua cabina, que tinha a seus olhos o privilégio (e aos olhos do capitão, a maldição) de ser vizi­nha da cabina dos intérpretes.

Charley, diga-me logo, vou dormir perto da Diva ou perto de Kreuze? Na verdade não sei o que prefiro ouvir pela manhã na hora do café: se os trinados da Doria ou os arpejos de Kreuze. . . Que delícia! Mas que delícia! Estou encantada, comandante, feliz demais. Quero beijá-lo... Posso? — Sem esperar resposta, Edma já saltara como uma grande aranha ao pescoço do capitão, secretamente in­dignado, e distribuía batom cor de gerânio por toda a sua barba negra. Ela sempre fora de temperamento malicioso, que aparentemente tanto encantava Charley Bollinger quan­to irritava o marido. O que A. B. L. chamava de provocações de mulher — provocações que quarenta anos antes lhe ti­nham parecido encantadoras o bastante para que ele a despo­sasse — era uma das raríssimas coisas capazes de arrancá-lo aos números, a ponto de por vezes o levar a errar algumas operações mentais. Ali, sendo a vítima aquele ridículo e grosseiro Ellédocq, Armand Bautet-Lebrêche apreciou a cena, e seu olhar cruzou-se por um instante com a exata repro­dução de um sorriso cúmplice, o de Charley Bollinger.

— E eu? — exclamou Charley. — E eu, milady? Não terei direito também a um beijinho de reencontro?

Mas certamente, meu querido Charley. . . Como senti sua falta, você sabe!

Vermelho de raiva, Ellédocq recuou um passo e lançou um olhar sarcástico àquele par ternamente abraçado. "Uma bicha e uma biruta", pensou, sombrio. "Charley Bollinger beijando a mulher do magnata do açúcar. Tenho passado por tudo nesta minha maldita vida. . ."

— Não fica com ciúmes, sr. Bautet-Lebrêche? — per­guntou ele com voz irônica, viril, uma voz de homem para homem, porque afinal o mesmo usineiro, com aquele ar de vitela mal cozida, ainda assim era um macho.

Mas não recebeu em resposta qualquer sinal de reco­nhecimento.

— Ciúme? Não, não — resmungou o marido compla­cente. — Vamos subir, Edma, não é? Estou um pouco can­sado. Mas não é nada, não, nada, estou lhe dizendo — con­tinuou, precipitado.

Porque Edma, girando movida pela inquietação, volta­va-se para ele dando-lhe tapinhas na face, desapertando-lhe a gravata, manipulando-o como sempre fazia todas as vezes que se lembrava de sua existência. Cinco bons centímetros mais alta que Armand Bautet-Lebrêche na época do noivado, Edma agora o ultrapassava em dez centímetros. Ainda mara­vilhada de ter desposado uma imensa fortuna (ambição de toda a sua juventude), gostava de tempos em tempos de reafirmar a si mesma e aos outros sua posse e seus direitos sobre o marido, um homenzinho taciturno que pertencia só a ela e a quem pertenciam todo aquele açúcar, todas aquelas usinas, todo aquele dinheiro. E o fazia manipulando-o e apalpando-o com o ar repugnado que teria uma menininha com uma boneca careca. Armand Bautet-Lebrêche, que a vivacidade da voz perfurante da mulher tinha reduzido à impotência, atribuía ao instinto maternal, frustrado por ele, o comportamento frenético que por vezes agitava a altiva Edma; e ele não ousava muito se defender. Graças a Deus, com o correr dos anos ela ia se esquecendo de sua existência cada vez mais amiúde, mas os instantes em que retomava consciência eram duplamente demonstrativos. Talvez fosse ao desejo de se fazer esquecer pela mulher que Armand Bautet-Lebrêche devia o fato de ser facilmente esquecido por qualquer um.

Sua frase imprudente desencadeara no cérebro de Edma toda a memória conjugal, e Armand fugiu para a cabina sabendo que, uma vez deitado no beliche, escaparia à solici­tude da mulher.

De fato, Edma, que depressa se exasperara com os cari­nhos do marido e acreditava ainda temê-los, apesar do afas­tamento histórico entre eles, imaginava-se ainda "tentado­ra". Recusando brincar com fogo, só se aproximava de Armand estando ele sentado ou de pé, porque a seu ver a volúpia estava ligada à posição deitada, o que Bautet-Le­brêche, esse manto de cinzas, sabia utilizar sem vergonha, estendendo-se por um nada no primeiro divã à vista.

Era assim que, havia anos, sem se dar conta, o casal Bautet-Lebrêche brincava de gato deitado.

O imperador do açúcar chegou primeiro à cabina 104, e se lançou ofegante sobre o primeiro beliche, seguido de perto por Edma, ela um passo à frente do dedicado Charley Bollinger.

— Então, então — sussurrou Edma (cujo elegante ofe­gar provocou o latido furioso de um cão desconhecido na cabina vizinha) —, quais são as novidades, Charley? Sente-se, por favor.

Ela também se deixou cair numa poltrona e passeou um olhar satisfeito pela luxuosa decoração, tão feia e tão familiar. Era uma cabina de navio decorada como cabina de navio por um decorador parisiense em voga: isto é, com excesso de teca, cobre e objetos ditos ingleses ou marítimos.

 

Agora diga-me tudo! Em primeiro lugar, temos gente nova? Mas que animal é esse? recomeçou com voz anasalada e aborrecida, porque o cão latia cada vez mais.

É o buldogue de Hans Helmut Kreuze disse Charley, sem esconder um certo orgulho ("Um orgulho tolo", pensou Edma). Chegou anteontem, antes do dono. Já quis morder dois camareiros!

Parece que Kreuze também late muito disse Edma, que,, em conseqüência de algum incidente aborrecido e misterioso em Bayreuth, tornara-se germanófoba.

O dono devia amordaçar esse cão disse mais alto, para cobrir aquela barulheira —, alguém devia jogá-lo ao mar acrescentou, uma oitava acima. Quais são os novos? O velho Stanistasky morreu, não foi, esta primavera, em Munique? Quem herdou a 101?

Os Lethuillier disse Charley (o cão se calou ime­diatamente). Você conhece Eric Lethuillier? Le Fórum, aquele jornal esquerdizante. . . enfim, com tendências quase comunistas? Eric Lethuillier, que se casou com a herdeira das Aciarias Baron. . . Pois é, esse homem de esquerda vai viajar conosco, querida amiga! A música reúne todo mundo, afinal. . . E graças a Deus acrescentou sentimentalmente.

Mas é extravagante! Você concorda? exclamou Edma. Mas o que é que esse bicho tem? Já então Edma batia com o pé. Será por acaso a minha voz que o irrita? Mas, Armand, diga alguma coisa!

O que é que você quer que eu diga? arriscou Armand com voz átona, que magicamente também sossegou o cão.

Se são as vozes femininas que o enervam, a Doria vai ter com que se divertir do outro lado. Ah, ah, ah! Já estou rindo antecipadamente. Com o temperamento da Doria vai ser um rebuliço. . . A propósito, o que vocês fizeram para trazê-la a bordo? sussurrou, vencida pelo seu inimi­go canino, que do outro lado da parede resfolegava de modo febril, com um ruído de válvula de escape completamente desmoralizante.

Pagaram-lhe uma fortuna, acho soprou Charley, contagiado.

Seu último gigolô deve ter sido mais dispendioso que os outros — disse Edma, com maldade e um ligeiro laivo de inveja, porque a vida sentimental da Doriacci era conhecida tanto pela multiplicidade como pela brevidade das suas conquistas.

Não creio que deva pagar por isso — disse Charley (loucamente apaixonado, apesar de tudo, como nove décimos dos melômanos, por Doria Doriacci). — Ainda é maravi­lhosa, você sabe, para os seus cinqüenta e tantos — con­cluiu, enrubescendo subitamente, o que, por tão pouco, não desarmou Edma.

Oh!, mas ela também já passou disso há muito — disse Edma com voz triunfante, que tornou a desencadear os latidos ao lado.

Em todo caso — recomeçou Charley, passada a tempestade —, ela embarca sozinha. Mas acho que terá opor­tunidade de desembarcar acompanhada. . . Temos dois hós­pedes novos, este ano. Dois homens jovens, um deles uma bela figura, aliás. Um avaliador oficial de objetos de leilão de Sydney, chamado Peyrat. E um desconhecido de vinte e cinco primaveras, que ainda não vi; profissão, nenhuma; os dois também solitários. Serão duas presas ideais para a nossa Doria. . . Se não sucumbirem primeiro aos seus en­cantos — acrescentou com uma entonação gaiata que fez as pálpebras de Armand se fecharem hermeticamente.

Lisonjeador! exclamou, rindo, a imprudente Edma, provocando de novo a raiva do cão.

Mas não o provocaram mais, ele ganhara. E foi em voz baixa que se despediram.

Charley voltou ao seu posto junto a Ellédocq no mo­mento exato em que acolhia o grande, o célebre Hans Helmut Kreuze em pessoa. Charley assistiu primeiro de longe ao afrontamento desses dois blocos, esses dois homens que simbolizavam e dominavam, segundo acreditavam, dois ve­lhos e soberbos aliados, a música e o mar; mas, intérprete e navegador, por não serem mais que seus vassalos, podiam se sentir inimigos.

Hans Helmut Kreuze era um bávaro de estatura me­diana, aspecto forte, cabelos curtos e rígidos oscilando entre o amarelo e o cinza, traços pesados, semelhante em tudo às caricaturas germanófobas da Guerra de 14. Era fácil ima­giná-lo com um capacete em ponta, seccionando os pulsos de uma criança ainda de fraldas. Mas tocava Debussy como ninguém no mundo. E sabia disso.

 

Habituado a ver cinqüenta instrumentos de sopro, cin­qüenta instrumentos de cordas, um triângulo e coros inteiros se dobrarem ao seu olhar, a atitude fria como o mármore do capitão Ellédocq começou por deixá-lo estupefato e, depois, encolerizou-o. Descendo de um Mercedes novo, tão novo que não tinha cor, dirigiu-se em linha reta para o velho lobo-do-mar e bateu os calcanhares, diante dele, com o queixo ligei­ramente levantado e os olhos fixos, por trás dos óculos, nas dragonas de Ellédocq.

O senhor é certamente o piloto deste navio, meu senhor — disse, escandindo as palavras.

O capitão, senhor; sou o capitão Ellédocq, coman­dante do Narcissus. A quem tenho a honra?

A idéia de que fosse possível não o reconhecerem era tão inconcebível para Hans Helmut Kreuze, que ele conside­rou a pergunta uma insolência. Sem uma palavra tirou a pas­sagem do bolso direito do casaco de sarja negra, demasiado quente para a estação, e sacudiu-a de forma grosseira sob o nariz de Ellédocq, impassível e com as mãos às costas. Os dois homens se defrontaram com o olhar por um instante, durante o qual Charley, horrorizado, tentou se insinuar entre os beligerantes.

— Mestre, mestre, quanta honra, mestre Kreuze! Que alegria tê-lo a bordo! Permita-me apresentar-lhe o capitão Ellédocq. Comandante, eis o mestre Hans Helmut Kreuze, que todos a bordo esperávamos com tanta impaciência. . . O senhor sabe bem. . . Como lhe dizia. . . Estávamos tão ansiosos. . .

Charley se perdia em frases desconexas, desesperadas, mas já então Kreuze, passando pelo nariz de Ellédocq, sem­pre imóvel, subia em passo firme a escada de acesso.

— Minha cabina, por favor — disse a Charley. — O meu cão também está lá? Espero que tenha recebido refei­ções apetitosas — acrescentou com voz ameaçadora e num francês barroco, meio literário, meio turístico, que utilizava havia trinta anos, quando condescendia em não usar a língua natal. — Espero que levantemos âncora muito breve — dirigiu-se ao pobre Charley, que trotava atrás dele, enxugan­do a testa. — Fico enjoado no porto.

Entrou na 103 e, acolhido pelo surdo rosnar de raiva do seu cão, bateu com a porta no nariz de Charley Bollinger.

 

Majestosamente, o capitão Ellédocq, deixando o cais e a terra firme, subiu a passos lentos pela escada, que foi logo levantada. E quando, três minutos depois, o Narássus, com a sua sirene lamentosa cobrindo os latidos do cão e os guin­chos de Edma Bautet-Lebrêche (que quebrara uma unha num cabide), afastou-se lentamente do porto de Cannes, deslizando numa água lisa e nacarada como um sonho, Char­ley Bollinger teve que enxugar os olhos embaçados por toda aquela beleza: porque o sol tornara-se rubro em meia hora. Essa hemorragia esquentava, ao mesmo tempo que ensan­güentava, a água do porto. . . depressa, demasiado depressa, apesar do algodão das nuvens redondas, de um branco logo transformado em púrpura, que se comprimiam contra o sol, o qual, virando para trás no meio delas, parecia resignado a completar de um só golpe sua lenta e eterna queda imóvel.

— Vou bisbilhotar um pouco, você não vem, Armand? Mexa-se. .. O crepúsculo vai ser admirável, estou sentin­do. .. Como? Você já está dormindo? Que pena! É muita pena mesmo! Enfim, descanse; você mereceu, meu querido — concluiu Edma, insinuando-se com um luxo de ternas precauções que tornava desconsoladora a ausência de qual­quer público, na fresta de porta restrita ao extremo pela própria mão de Edma.

Se Edma Bautet-Lebrêche por vezes representava sem público, não se poderia dizer também que representasse realmente para si própria. (Era mais complicado, pensava.) Com essa fala, esgueirou-se na ponta dos pés para o corre­dor. . . mas foi quase sem querer que, por uma vez, foi indiscreta. Uma voz de mulher na 101 trinava cantarolando a abertura do último ato do Capriccio, de Strauss, e com uma voz tão despida, que a intrépida Edma sentiu subita­mente a pele arrepiada. "É a voz de uma criança ou de uma mulher à beira do desespero", pensou de repente. E, coisa rara, sem procurar saber mais nada, fugiu para o convés.

Seria só muito mais tarde, numa representação do Ca­priccio em Viena, que Edma Bautet-Lebrêche se lembraria daquele momento, daquela voz, e acreditaria ter compreen­dido tudo, afinal, sobre aquele cruzeiro. Tendo no momento mergulhado esse instante com algumas outras lembranças mais banais no depósito comum de sua memória, chegou ao convés num vestido justo de seda fina cor de banana, sobre o qual se destacava um lenço azul-marinho enrolado no pescoço magro. Lançou um rápido olhar sobre os dois tombadilhos, a chaminé, a escada, a multidão e as cadeiras de palha — seu olhar, aquele olhar "penetrante", célebre no seu pequeno círculo, olhar de proprietário, mas de pro­prietário sarcástico. Como misteriosamente alertados pelo que ela própria chamava de sua aura (porque Edma a tinha realmente adquirido, de tanto desejar soar um alerta com sua simples presença), alguns rostos viraram-se para aquela "silhueta graciosa e esbelta, tão elegantemente vestida. .. e tão liberada de toda idade nessa contraluz vaporosa", pois era assim que mentalmente ela se descreveria. E sorrindo ao seu bom povo entusiasta, a boa rainha Edma Bautet-Le-brêche desceu os degraus do convés.

O primeiro súdito a lhe beijar a mão foi um rapaz de blue jeans, particularmente bonito, talvez um pouco em de­masia. E, naturalmente, também Charley Bollinger, de modo evidente caído de loucos amores por ele, nos últimos dez minutos, e que o apresentou a ela:

—Sra. Edma Bautet-Lebrêche, posso lhe apresentar o sr. Fayard?. . . Andreas Fayard. . . Andreas!... — termi­nou, atravessando assim aberta, desvairadamente e de um só golpe todas as barreiras cruéis instaladas pela sociedade entre ele e o jovem desconhecido. Acho que não lhe falei dele acrescentou, com um orgulho matizado de desculpas.

De fato, Charley Bollinger desculpava-se de não ter po­dido prever sua paixão súbita pelo jovem e de não ter podido prevenir a bela Edma desse fato, como seria seu dever para com ela. Edma esboçou um sorriso de paz, Bollinger agrade­ceu-lhe com um olhar, os dois perfeitamente lúcidos e per­feitamente inconscientes.

Sim disse ela, sacudindo a cabeça com amabili­dade (mas com certa altivez que significava: "De acordo, Charley, ele lhe pertence. Guarde-o, portanto; não vou tocar nele. Você o achou primeiro"). Sim! É então Andreas Fayard de. . . de Nevers? É isso, meu caro Charley, você não poderá mais dizer que estou perdendo a memória terminou, com um grande riso nervoso diante do espanto do rapaz.

"Esse latagão de nariz grego, olhos fendidos e dentes de cãozinho já havia muito tempo não devia se espantar de que os desconhecidos o reconhecessem. . .", pensava Edma.

Contanto que Charley não tenha sucumbido mais uma vez por um oportunista mais oportunista que os outros."

Era isso o que a aborrecia nesses jovens, todos esses jovens que o vento da tarde trazia cada ano para a tribo es­fomeada mas inexoravelmente unida das grandes fortunas. De fato era isso o mais aborrecido de tudo: não se lhes podia dar a conhecer que, assim como se sabia o que faziam, se imaginava o que pensavam. Afinal era-se tão cínico quanto eles, sobre todos os termos do negocio. Finalmente eram os aproveitadores, os proxenetas que exigiam floreios senti­mentais muito mais do que suas vítimas, que seriam no entanto quem deveria exigi-los. Esses rapiñantes estavam er­rados, aliás, faziam todo mundo perder tempo e portanto perdiam também um pouco do seu próprio tempo, tão curto para esses caçadores caçados — muito mais do que faziam suas velhas presas ávidas perder lágrimas ou migalhas de ouro.

— A senhora conhece Nevers? — perguntava justa­mente o caçador. — Será que a senhora conhece a estrada de Vierzon, na direção do Loire e que. . .

Interrompeu-se, e a expressão um pouco esgazeada, alegre, que o rejuvenescia ainda mais, desapareceu-lhe do rosto.

Estou acabando de chegar de lá — gaguejou ele como para se desculpar daquele ar de felicidade, inesperado na sua profissão (porque afinal todos esses jovens quando falavam de sua terra natal era sempre para se felicitar por terem saído de lá).

Mas fica muito bem — disse Edma sorrindo — gostar de sua terra natal. Eu nasci em Neuilly, tolamente, numa clínica que nem existe mais. Não tenho o menor bos­que a lembrar. O que é muito frustrante e muito triste — continuou, rindo às gargalhadas. — É verdade mesmo — insistiu (porque Charley e o jovem também riam, Charley por nervosismo e o jovem por gosto). — É a pura verdade, e me atrapalhou bastante ao ler Proust.

Edma varreu com um olhar resignado o rosto aprecia­dor mas vazio de Charley, que não tinha chegado a levar a consciência profissional até o ponto da leitura do Tempo perdido, e o do rapaz, que, para sua grande surpresa, em vez de adotar um ar vago e informado, confessou:

— Eu não li Proust — como se lamentasse o fato. "Um ponto a seu favor", pensou Edma. E virou as cos­tas a esse novo par, à procura de uma presa menos difícil, não sem um breve pesar que lhe fez doer o coração por um instante. Porque apesar do que podiam dizer as amigas e ¿0 que ela própria dizia, Edma Bautet-Lebrêche amara mui­to certos homens; e apesar de se felicitar aos quatro ventos, havia cinco anos, por ter renunciado "à carne, suas obras e suas pompas", por motivos de estética e de ridículo, não se podia impedir, por vezes, de sentir saudades ferozes até a náusea diante de certas lembranças, mais temíveis ainda por não terem rosto nem nome, e que não abrangiam na sua me­mória, se as quisesse delimitar, mais que um leito vazio com lençóis azulados pelo sol.

Graças a Deus o capitão Ellédocq dirigia-se a ela balan­çando os ombros como nas piores horas do Titanic, e tirando-lhe de um só golpe toda a nostalgia da gente masculina.

— A senhora conheceu o jovem recruta? — disse ele com palmadas vigorosas no ombro do jovem Andreas, que vacilou, mas não se curvou.

"Ele deve ser bem robusto por baixo desse blazer de primeira comunhão", devaneava Edma. Porque essas invec­tivas eram uma das brincadeiras favoritas do brutamontes debilóide que comandava o Narcissus. O pobre Armand, da primeira vez, quase voara pelos ares sob seu punho, como um pacotinho do seu famoso açúcar em pó. Em defesa do capitão Ellédocq, pode-se dizer que ele confundira o sr. Bautet-Lebrêche com um cineasta da Europa central, o que explicava essa grave falta ao protocolo.

— Então a 104 continua lhe agradando? — pergun­tou amavelmente, virado para Edma, que recuou movendo um passo, abaixando o queixo e movendo as narinas como se ele tivesse empestado o ar com alho e tabaco.

Uma das crueldades favoritas de Edma nos últimos anos era observar, no infeliz capitão, todos os estigmas do fumante inveterado (o que deixara de ser desde o famoso incidente de Capri). Ela descobria bolsas de fumo numa cadeira de convés e as trazia a ele como um cão de caça, oferecia-lhe fósforos com ar cúmplice quando ele chupava um canudinho de refresco e lhe pedia fogo dez vezes por dia, com a segurança de uma heroinômana procurando uma se­ringa no bolso de outro viciado. Às recusas furiosas e exas­peradas do não-fumante formal que se tornara Ellédocq, Edma respondia com exclamações deliberadamente exagera­das, que acabavam pondo-o fora de si.

— Mas é verdade! Meu Deus, como posso esquecer, todas as vezes?... Que tolice! Não é possível ter tão pouca memória. . . Isso só me acontece com relação ao se­nhor, é curioso, não acha? — acabando assim o seu trabalho de solapamento.

E por vezes Ellédocq cerrava os dentes de modo selva­gem sobre um tubo de cachimbo imaginário que teria há tempos quebrado, assim, secamente, antes da milagrosa visão de Capri. Edma pegou então um cigarro da bolsa e Ellédocq franziu o sobrolho de antemão. Mas, perversa como só ela sabia ser, inclinou-se para o jovem:

— O senhor tem fogo? Já que o capitão Ellédocq não fuma mais, procuro em toda parte um fósforo de socorro. Durante todo o cruzeiro, vou aborrecê-lo com isso, eu o pre­vino — disse, segurando a bela mão loura que lhe oferecia o isqueiro, aproximando-a num gesto lento até sua boca, onde por um instante o cigarro pareceu um acessório inútil, com um gesto tão demasiadamente lento que fez Charley empalidecer e o rapaz pestanejar.

"Aí está um rapaz que ela gostaria de papar, essa vaca!", pensou Ellédocq, bom psicólogo.

E emitiu um grunhido de desprezo diante dessas mano­bras. A seu ver, as mulheres eram prostitutas cheias de arti­manhas ou mães e esposas. Ele dispunha de um arsenal de pensamentos e também de expressões perfeitamente fora de moda havia duas gerações, o que tornava os pensamentos bem mais percucientes.

O convés povoava-se em torno deles. Os passageiros do Nareissus, repousados e bem-dispostos, queimados do sol de verão mas ainda prontos a tornar a partir para as luzes da cidade, já começando a sentir tédio mas ainda capazes de suportar seu lazer, afloravam de todos os lados, emergiam dos corredores, reconheciam-se, cumprimentavam-se, beija­vam-se e atravessavam o convés ao ritmo dos encontros, for­mavam pequenos grupos que se deslocavam, dispersando-se em todos os sentidos, como uma estranha legião de insetos saídos, dourados, de um mundo subterrâneo e ligeiramente repugnante.

"Era o reflexo do ouro que lhes dava esse aspecto", pensava Julien Peyrat, apoiado à amurada, de costas para o mar, contemplando-os, já prevendo os que contava saquear. Era um homem alto, já com quarenta e cinco anos, de rosto magro e uma espécie de encanto cínico ou infantil que lhe dava, conforme o ponto de vista, o ar de um desses jovens senadores americanos cheios de vitalidade de que falam os jornais, ou de um desses homens da Máfia, de beleza más­cula, sinônimo de violência e de corrupção. Edma Bautet-Lebrêche, que sempre detestara esse gênero de homens, ficou surpresa por achá-lo, afinal, confiável. Tinha um ar alegre, com sua malha de lã azul, um pouco descontraída para a hora e a ocasião, mas não no sentido playboy. Em todo caso, tinha um ar mais verdadeiro do que os outros passageiros, e quando sorria ou adotava uma expressão perplexa, como na­quele momento, isso lhe dava um ar terno, observou ela, virando-se sem querer para o que atraía o olhar daquele homem, parecendo até fasciná-lo.

Por sua vez, saindo das entranhas do navio, um homem e uma mulher dirigiam-se para a espécie de ponto de con­trole que eram o capitão Ellédocq e Bollinger, um casal que, em seguida, ela identificou com os Lethuillier, o que a dei­xou paralisada por um instante, como aos outros passageiros, diante de Eric Lethuillier, chamado de viking pela imprensa, por causa do seu perfil perfeito, grande estatura e tom dos cabelos louros, sua intransigência e sua apreciada violência. O incorruptível Eric Lethuillier, cujo semanário Le Fórum havia cerca de oito anos focalizava sem concessão nem medo os mesmos alvos: as iniquidades tão variadas quanto nume­rosas do poder em exercício, as injustiças gritantes da socie­dade e o egoísmo da grande burguesia (da qual no entanto desta vez faziam parte, e com quase unanimidade, seus com­panheiros de viagem); o belo Eric Lethuillier, que vinha na direção deles com passo firme, trazendo pelo braço a mais bela conquista de sua vida, a herdeira das Aciarias Baron, sua mulher, a misteriosa Clarisse, que causava espanto com sua simples aparência: alta, elegante, evasiva de corpo como, segundo diziam, de mente, cabelos de um louro ruivo, bri­lhantes e longos, tentando esconder definitivamente o rosto, aliás, coberto por uma maquilagem espessa, rutilante e gro­tesca. Essa grande burguesa tímida pintava-se como uma prostituta, e, como dizia a crítica, bebia como um polonês, drogava-se como um chinês, destruía-se em suma de forma sistemática assim como à sua felicidade conjugal. Seus retiros nas clínicas especializadas, suas fugas e as peripécias do seu naufrágio nervoso eram de notoriedade pública, do mesmo modo que a imensidade da sua fortuna familiar e a paciência e a dedicação do marido.

De notoriedade pública sem dúvida, mas não a ponto de os camareiros do Narcissus terem todos tomado conheci­mento desses fatos.

Foi assim que um daqueles infelizes, depois de ter apre­sentado a Clarisse um martíni seco, que ela bebera de um trago, julgou conveniente voltar com uma bandeja guarnecida na mão, e nos lábios um sorriso feliz de quem encontrou uma boa cliente. E Clarisse já estendia a mão para um cálice quando Eric, passando o braço entre ela e a bandeja, varreu-a brutalmente: os copos espatifaram-se no chão, onde o gar­çom, embasbacado, ajoelhou-se, enquanto todo mundo se virava para aquela barulheira. Mas Eric Lethuillier não pare­ceu perceber: branco de raiva e de inquietação, olhava para a mulher com uma expressão tão magoada, colérica e desani­mada, que, esquecendo-se sem dúvida de todas aquelas teste­munhas, lhe disse em voz alta e nítida:

Clarisse, eu lhe peço, não! Você tinha me prometido comportar-se como um ser humano nesta viagem. Eu lhe suplico.. .

Parou aí, mas demasiado tarde. Em torno deles todos se sentiram constrangidos, até que Clarisse, virando-se sobre si mesma e sem uma palavra, se pôs em fuga pelos corre­dores, a correr pelo convés, no meio do qual, tropeçando nos seus saltos excessivamente altos, teria mesmo caído, acaban­do de consternar os espectadores forçados dessa cena, se não tivesse encontrado o braço de Julien Peyrat, o avaliador público da Austrália, para impedi-la. Edma surpreendeu en­tão no olhar de Eric Lethuillier mais irritação que gratidão; uma gratidão natural no entanto por aquele que evitara à sua mulher uma queda desonrosa; menos desonrosa aliás, pensando bem, que a invectiva que lhe acabara de fazer em público e cujo tom, se não os termos, só de muito longe evocariam ternura ou preocupação conjugais.

Edma contemplou portanto a fuga de Clarisse com ex­pressão de comiseração indulgente, coisa pouco freqüente nela. E quando, voltando de súbito seu corpo elegante e seco, surpreendeu o olhar do senador mafioso dirigido para a nuca impecável do belo Lethuillier, ela não se espantou de perceber nele uma espécie de desprezo. Deu um jeito para cruzar o caminho de Julien, que se pusera a andar, e depois que Charley Bollinger o apresentou como "o famoso avalia­dor de objetos de leilão" de Sydney, ela o reteve pela manga. Dotada de certa sagacidade, Edma Bautet-Lebrêche não a possuía, contudo, em grau suficiente para se abster de de­monstrá-la (e se espantava ainda, depois dos sessenta, que os outros ficassem irritados). Mantendo familiarmente a mão no braço de Julien, ela resmungou alguma coisa inaudível, e, inclinando-se polidamente, ele perguntou:

— O que disse?

— Eu dizia que um homem é sempre responsável pela mulher — murmurou com firmeza antes de soltar a manga de seu interlocutor.

Ele teve um ligeiro estremecimento dos ombros para trás, que permitiu a Edma perceber que acertara em cheio, e então afastou-se, certa de o deixar palpitante com tanta clarividência.

Mas ela o deixara apenas irritado. Esse era, porém, o tipo de mulheres que deveria cortejar; antes de partir folhea­ra bastante o Who's Who e as crônicas mundanas para saber disso. Lembrava-se ainda de uma foto de Edma, de braço com o embaixador americano ou russo, em cuja legenda o "olho da Vogue" a designava como uma das mulheres mais bem-vestidas do ano. Que ela fosse também uma das mais ricas não devia ter escapado a Julien Peyrat, avaliador. Ele deveria, pelo contrário, freqüentar seus salões sua cabina, se fosse o caso. Por enquanto essa mulher era realmente temível. Contemplava-a a cacarejar, pendurada ao braço do infeliz comissário de bordo; ele via, ele escutava, seus olhos brilhantes, mãos agitadas, voz incisiva que prova­vam que, de tanto bisbilhotar os negócios dos outros, podia-se adquirir uma espécie de perspicácia, à falta de verdadeira inteligência, que podia muito bem, durante o curso daquele cruzeiro, revelar-se desastrosa para ele. "Isso posto, o corpo devia ter sido soberbo e as pernas ainda são", constatava sem querer o eterno amoroso escondido dentro de Julien.

Uma multidão se comprimia agora a bombordo, lan­çando gritos de excitação. . . Alguma coisa acontecia por lá, alguma coisa que, fosse qual fosse sua natureza, não devia escapar a Edma, que partiu quase correndo para aquela área.

Saltando no mar e deixando em seu rastro uma espuma rosada e indecente, um barco a motor aproximava-se do Narcissus. No fundo luzia um amontoado de bagagens de couro bege, "um bege um pouco vulgar, além de sujar-se com facilidade", pensou Edma.

Retardatários! — gritou alguém com voz alegre, ligeiramente escandalizada, porque afinal era raro que al­guém embarcasse nesse navio Regência de outra maneira que não na hora marcada e no cais marcado.

Era preciso realmente ser ousado e todo-poderoso para se permitir abordar o Narcissus no mar. Edma também se inclinou na amurada e, entre o sulco de espuma transparente e a silhueta negra do marinheiro que pilotava, descobriu duas personagens totalmente desconhecidas dela.

Mas quem são? — lançou com voz aguda a Charley Bollinger, que gritava ordens e se atarefava com ar impo­nente. E Charley respondeu com um olhar excitado e desa­fiador que a irritou:

É Simon Béjard, o produtor de cinema, sabe? Ele vem de Monte Carlo, e a jovem é Olga Lamouroux, você vê?

Ah, sim! sim! Estou vendo — suspirou Edma Bau­tet-Lebrêche por cima da massa dos passageiros. — Só o pessoal do cinema faz esse tipo de chegada. Mas de quem se trata exatamente?

"Mais essa! Ela vai fingir ignorância", pensava Charley aproximando-se. De fato Edma afetava ignorar tudo de cine­ma, televisão e esportes, distrações demasiado vulgares, na sua opinião. Chegaria mesmo a perguntar quem era Charlie Chaplin, se isso fosse possível sem tornar-se ridícula. Charley adotou um tom de voz neutro.

Simon Béjard, um perfeito desconhecido, de fato, até o mês de maio. Mas é o produtor de Feu et fumêe, o filme que ganhou o Grande Prêmio do Festival de Cannes, este ano. Afinal, você sabe muito bem, querida amiga. E Olga Lamoroux é uma estrela em ascensão.

Eu realmente não sabia! Infelizmente. . . estava em Nova York no mês de maio — disse Edma num tom humil­de, cheio de falso pesar, que exasperou discretamente Charley.

Por seu lado, achava maravilhoso ter enfim gente de cinema a bordo. Porque, mesmo que fossem vulgares, eram célebres, e Charley gostava de celebridade quase tanto quan­to de juventude. Era preciso ter essa atitude, aliás, para admirar o embarque dos recém-chegados, que visivelmente não eram navegantes experimentados.

— Lamento muito — tornava a dizer Simon Béjard, torcendo o tornozelo e tropeçando, batendo com os braços no tombadilho, que de repente lhe parecia estável demais.

Lamento muito, não pude chegar na hora. Espero não tê-lo atrasado — dirigia-se ao capitão Ellédocq, que o olhava fixamente, com um horror sombrio, o horror que Simon lhe inspirava: além de produtor reconhecido, provavelmente um estrangeiro vivendo na França. E retardatário evidente.

— Em menos de meia hora, em todo caso, os alcança­mos. . . Como esses motores disparam! — continuava Simon Béjard, lançando um olhar de admiração para o barco a mo­tor que já desaparecia no horizonte de Monte Carlo. — E não é pouca porcaria: noventa cavalos! Foi o que me disse o velho pirata enquanto me esvaziava os bolsos. . . Como correm esses barcos!

Sua admiração não encontrava eco, mas o homenzinho ruivo não parecia perceber. A bermuda colorida, os óculos de madrepérola e os sapatos Cerruti faziam dele a caricatura de um cineasta de Hollywood que não se amenizava nem pela petulância nem pelo aspecto bonachão. Em compensa­ção, a seu lado, a jovem vestida no gênero muito Chanel, com os cabelos puxados para trás, grandes óculos pretos na ponta do nariz — uma jovem que visivelmente não queria representar o papel de starlet, de modo algum —, adotou uma expressão impertinente que a tornou desagradável, ape­sar da beleza, e fez redobrar por antecipação a ingrata ten­dência de Edma para a crueldade. Fosse como fosse, prome­tendo voltar logo, Simon Béjard, empurrando as bagagens e sua companheira, engolfou-se num corredor atrás de Char­ley. Atrás deles, os comentários irônicos animaram-se duran­te alguns minutos, depois calaram-se de repente, quando al­guém notou que Doria Doriacci, a Diva das Divas, aprovei­tara essa agitação para fazer uma entrada discreta e se sentar tranqüilamente numa cadeira de convés por trás de Ellédocq.

"A Doriacci", como diziam os diretores de óperas, "A Doria", como dizia o povo, e "Dorinina", como pretendiam chamá-la cinco mil esnobes, já passara dos cinqüenta, se­gundo todas as informações, concordantes pelo menos nisso; e tanto podia parecer ter setenta como trinta anos. Era uma mulher de estatura mediana, com a vitalidade, a robustez que algumas mulheres de origem latina possuem, e um corpo roliço que não se podia dizer gordo, realmente: era antes um corpo cuja carne estava comprimida por uma pele fina, rosada e baça, uma soberba pele de mulher jovem; um corpo que poderia negar sua idade se não sustentasse a cabeça da Doriacci; um rosto redondo entre planos laterais e maxilar acentuados, cabelos negros de corvo, olhos imensos e fulgu­rantes, um nariz perfeitamente reto, um rosto trágico, em suma, onde uma boca infantil surpreendia, demasiado ver­melha e redonda: uma boca "1900", mas que não conseguia retirar desse rosto seu lado acuado e aliás prestes tam­bém a acuar, um rosto como que varrido por uma violên­cia imprecisa, como uma ameaça ou uma tentação permanen­te. Tudo isso que fazia com que, no fim, já não se vissem os traços abatidos, nem os pés-de-galinha, nem as rugas da boca, todas elas "ofensas irreparáveis" do tempo, que uma gargalhada ou um desejo brutal da Doriacci podiam fazer esquecer de repente. Nesse momento, ela fixava na cabeça de Ellédocq um olhar frio, intimidador, sob o qual, voltando à exclamação de Charley, o capitão estremeceu como um cavalo desconfiado reencontrando seu domador. Toda a natu­reza profundamente hierárquica de Ellédocq tremeu sob esse olhar; e pôs-se em guarda, dobrou-se em dois, bateu com os calcanhares de forma mais militar que turística.

— Meu Deus! — lamentava-se Charley, que se apo­derara da mão coberta de anéis da Doriacci e ali pousara duas vezes os lábios em admiração. — Meu Deus, quando penso que a senhora estava aqui entre nós. . . Como poderia saber?... A senhora disse que queria permanecer no quar-t0.. . A senhora.. .

— Tive que deixar a cabina — disse a Doriacci, sor­rindo e retirando a mão, cujas costas ela enxugou tranqüila­mente no vestido, sem qualquer maldade e sem qualquer constrangimento, mas para grande ofensa de Charley. — O cão do pobre Kreuze não melhorou com a idade, como seu pai, aliás. . . Ele uiva! Você tem focinheira no navio? Mas deveria ter, com ou sem cão — acrescentou com ar sombrio, lançando em torno um olhar assustado à Tosca.

Porque, de fato, não podendo se dirigir diretamente a ela por cima da assistência, Edma Bautet-Lebrêche começara um elogio em voz alta, dirigindo-se a Julien Peyrat, surpreso:

— Nós a ouvimos, meu marido e eu, no Palácio Gar­nier este inverno — dizia-lhe fechando os olhos, deliciada. — Ela esteve divina. . . E ainda "divina" não é a palavra certa. . . Estava inumana. . . Melhor, afinal. . . ou pior. . . que humana. . . Fiquei gelada, sentia calor, já não sabia o que dizia — terminou ela, no silêncio que se fizera.

Edma fingiu então ter percebido de súbito a Diva e, precipitando-se na sua direção, segurou-lhe avidamente as mãos entre as suas.

Madame, sonhava conhecê-la. Nunca esperei, nem mesmo por um instante, que esse sonho se concretizasse. E ei-la aqui! E eis-me aqui também a seus pés, como de direi­to. Permita que lhe diga que é um dos mais belos dias da minha vida!

Mas por que essa surpresa? — disse a Doriacci quase afetuosamente. — A senhora não tinha lido o pro­grama do cruzeiro antes de embarcar? Afinal, estou nele em letras garrafais! Em letras mesmo bem garrafais! Ou então meu empresário já está despedido. Comandante — disse ela bruscamente, retirando mais uma vez a mão e repousando-a como um objeto no braço da cadeira, desta vez sem limpá-la... — Comandante, escute bem; tenho amor à vida, o senhor pode imaginar, e detesto o mar. É por isso que queria vê-lo bem antes de me confiar ao senhor: diga-me, o senhor também ama a vida, comandante? E quais são suas razões?

Mas eu. . . eu sou responsável pela vida dos passa­geiros. . . — começou a gaguejar Ellédocq — e eu. . .

, — E o senhor fará o melhor possível, não é? Que frase horrível! Quando um maestro me diz que fará "o melhor Possível" para me acompanhar, eu o ponho porta afora. Mas o mar não é um palco de teatro, não é verdade?. . . Vamos adiante. ..

Com isso, tirou de uma imensa cesta um único cigarro, um isqueiro, e acendeu o cigarro com tanta rapidez que nin­guém teve tempo de esboçar qualquer ajuda.

 

Charley Bollinger estava fascinado. Havia naquela mu­lher alguma coisa que lhe inspirava confiança e ao mesmo tempo o assustava. Sentia que mesmo sem quilha, sem leme e sem motor, o Narcissus, já que ela estava a bordo, voltaria são e salvo ao porto. Estava igualmente certo, também, de que a autoridade suprema, na volta, mudaria de mãos e que Doriacci disporia em Cannes de um quepe azul-marinho e de um alto-falante, no seu caso inútil, enquanto o capitão Ellédocq mofaria acorrentado e amordaçado no porão. Essa visão apocalíptica atravessou o espírito do buliçoso Charley, dividido entre o susto e o encantamento. Desde que nave­gavam juntos, havia dez anos, ninguém tinha maltratado nem desprezado tão abertamente Ellédocq, o tirano barbudo que um destino fatal lhe dera por companheiro. Fez mais uma tentativa de se apoderar da mão da heróica Diva e desta vez o conseguiu, pousando os lábios entre dois anéis enor­mes, arranhando num deles o nariz; porque a Doriacci, con­siderando que as apresentações já tinham sido feitas havia bastante tempo e surpresa por essa galanteria tardia, aca­bava de lhe retirar a mão com a brusquidão de uma citadina, no campo, lambida de improviso por alguma cabra afetuosa. O nariz de Charley sangrou imediatamente com o movimen­to brusco.

Oh, perdão! Perdão, meu rapaz! — exclamou a Diva, sinceramente desolada. — Lamento muito, mas real­mente você me causou medo. Pensei que já tivesse passado a hora de todos esses beija-mãos, todas essas cerimônias! Digamos agora que acabou, antes que seu nariz receba mais golpes. — Ao mesmo tempo que falava, muito depressa tamponava-lhe o nariz com um lenço de cambraia antiga, milagrosamente extraído também da sua cesta, fazendo-o por fim sofrer tanto que ele ficou com medo dela. — Continua sangrando, venha à minha cabina. Eu lhe porei tintura de iodo. Você sabe que nada infecciona mais a pele humana do que as pedras preciosas. . . Mas é isso, venha — insistiu, quando Charley protestou fracamente. — Venha me insta­lar. . . me instalar e mais nada, tranqüilize-se, comandante

Haddock — disse ela como se ele tivesse mostrado algum sinal de ciúme. — Viajo sozinha e às vezes chego menos só. . . Mas não desta vez: estou completamente esgotada. . . Apresentamos Don Carlos um mês no Metropolitan; só te­nho um desejo: dormir, dormir, dormir! Naturalmente can­tarei dez minutos entre duas sestas — concluiu, com expres­são tranquilizadora. E indicando Charley com o queixo ter­minou: — Para a minha cabina, por favor, sr. Taittinger! E rápido, por favor.

E sem lançar outro olhar ao capitão, do mesmo modo como não prestara qualquer atenção aos miseráveis e som­brios protestos de "Ellédocq, Ellédocq" quando o chamara de Haddock, levantou-se e rompeu a multidão.

A cabina era vasta e luxuosa, mas parecia-lhe terrivel­mente exígua, e Clarisse esperava. Eric assobiava no banhei­ro ao lado. Sempre assobiava no banho, como um homem despreocupado, mas havia um quê de concentrado, de ofe­gante, de quase furioso na sua maneira de assobiar, que para Clarisse evocava tudo, menos despreocupação. A seu favor, deve-se dizer, é bem verdade, que é um dos estados mais difíceis de simular, porque é ligeiro, e Eric era muito mau ator na comédia ligeira. A despreocupação supõe por defi­nição um certo grau de esquecimento; e lembrar-se de esque­cer é sem dúvida um esforço paradoxal e penoso. Em certos momentos, quando Clarisse esquecia que ele já não gostava dela, que já não a desejava, quando esquecia que a despre­zava e lhe fazia medo, quase podia achá-lo cômico. Mas eram instantes raros; o resto do tempo detestava demais em seu íntimo essa insipidez implacável e definitiva de que ele a acusava sem uma palavra, mas constantemente, e com razão: a insipidez que Eric não tinha visto antes do casamento, por causa da miopia do amor, a insipidez insuperável que ela já não conseguia dissimular, mesmo sob a camada da maquilagem mais espessa, que passara a chamar a atenção.

Ela esperava. Sentava-se numa das camas da cabina ao acaso, pois Eric ainda não escolhera a dele. Ou melhor: ain­da não tinha escolhido a de Clarisse, porque naturalmente ele não diria: "Fico com a cama da esquerda perto da vigia porque a vista é mais bonita", mas antes: "Fique com a da direita, perto do banheiro, será mais confortável". Aliás, era exatamente a que ela queria, a da direita; não por motivos de conforto, ou de estética, mas simplesmente porque essa cama estava mais perto da porta. E em toda parte, no teatro, num salão, num trem, era sempre a escada, a porta, a saída, afinal, que a fazia escolher seu lugar, sempre que tivesse que dividir algum espaço com Eric. Ele ainda não percebera por­que Clarisse dava um jeito de sempre parecer contrariada com sua decisão final, sabendo muito bem que a satisfação dele dependia do desagrado dela. Sentou-se portanto na cama da esquerda, longe da porta, e esperava com as mãos cruzadas como uma criança retardada.

— Você está sonhando? Já está entediada?

Eric saíra do banheiro. Abotoava a camisa diante do espelho com os gestos sóbrios e precisos de um homem indi­ferente ao seu reflexo, mas Clarisse via o narcisismo brotar em todos os olhares que dirigia a si mesmo.

— Acho que você ficaria melhor no beliche da direita. Ficaria mais perto do banheiro. Você não acha?

Fingindo decepção, Clarisse pegou sua bolsa e esticou-se no beliche perto da porta. Mas Eric a vira sorrir no espelho, e uma onda de raiva fria o invadiu no mesmo instante. De que estaria sorrindo? Com que direito ousava sorrir sem ele saber por quê? Sabia que essa viagem face a face que lhe oferecia como um presente suntuoso e conjugal ia ser para ela — já era — um suplício. Sabia que bem depressa ela se insinuaria num sistema tortuoso de alcoólatra, com humi­lhantes combinações com os homens do bar, sabia que aquele belo rosto adormecido pela resignação e pelo sentimento de culpa, aquele belo rosto de criança mimada e punida escon­dia uma mulher trêmula, extenuada, de nervos arrebentados. Clarisse estava à mercê dele, nos opostos da felicidade, não tinha mais gosto por nada; mas alguma coisa nela lhe resistia incansavelmente, alguma coisa se recusava a afundar com o resto e, no seu furor e no seu ciúme, Eric pensava que aquilo provinha do dinheiro dela. O dinheiro que se transformara num defeito dela, mas que ele não conseguia deixar de pen­sar que era uma virtude, um encanto, o dinheiro que ela tivera desde criança e que faltara a ele durante toda a sua juventude.

Clarisse sorria de novo, com a cabeça inclinada de lado, e ele levou alguns instantes para compreender que não era ele que provocava desta vez seu habitual sorriso assustado, mas a voz de um desconhecido que cantarolava uma melodia de valsa, ao lado. E que desta vez não era, não podia ser, o temor que iluminava assim o rosto de Clarisse, mas o prazer, num sorriso dos mais inesperados e dos mais insuportáveis.

Julien Peyrat, tendo tirado o quadro da mala com mil cuidados, encontrava-se mais uma vez seduzido, cheio de admiração, diante do talento do falsário. O encanto de Mar­quei estava ali, sem dúvida: aqueles tetos de um cinza apa­gado pelo frio, aquela neve amarelada sob as rodas cambaias dos fiacres e o frêmito de vapor nas narinas dos cavalos. . . O vapor, isso ele certamente teria inventado; mas por um instante ele se sentira ele, Julien Peyrat no coração de Paris, no inverno de 1900; por um instante, sentira o cheiro de couro e de cavalo fumegante, o cheiro de madeira úmida da caleça negra parada no meio da tela debaixo dos seus olhos, como seguira com os olhos cheios de nostalgia e de desejo frustrado a mulher maquilada, vestida de pele de raposa, que, virando a esquina da rua, à direita, se dispunha a sair do quadro sem mesmo se voltar para ele. Por um instante respirara, reencontrara o odor dos primeiros frios de Paris, o odor imóvel de fumaça, de fogo de madeira apa­gado, de chuva fria, o odor onde se misturava o sabor pi­cante do ozônio suspenso com a neve acima dos candeeiros, o odor morno e cúmplice para os parisienses, sempre o mes­mo, apesar dos gritos, dos gemidos, dos que votavam a capi­tal à feiúra, em primeiro lugar, e à destruição em seguida, talvez por ciúme, pelo simples fato de sua própria morte por vir. Paris era uma cidade eterna para Julien, com encan­tos eternos. . . mas dispendiosos, infelizmente! Sorriu, pen­sando nos passageiros masculinos do Narcissus. O tédio os levaria logo ao bridge, ao gin rummy, de qualquer modo ao baralho, e, portanto, ao pôquer. Julien apanhou o seu bara­lho e se exercitou em algumas distribuições de cartas que o deixariam sempre com uma quadra de reis.

Cantarolava sem cessar uma melodia de valsa cujo tí­tulo não lembrava, e que lhe ocupava a mente e o exasperava por momentos.

O sol caía agora num mar cinzento, apenas tocado de azul, um mar cremoso que um branco de leite já invadia pelo leste. Todos se preparavam em todos os andares e diante de todos os espelhos para a primeira noite a bordo, mas Edma, que já passara uma hora no quarto, impacien­tava-se, o que decuplicava a total inércia de seu marido Armand, imerso nas notícias da Bolsa. Edma saiu então antes dele, e chegou ao bar cantarolando, desafinada, uma ária de Rossini. Temia encontrar-se sozinha ali, mas feliz­mente o destino colocara sentado na extremidade do bar um bloco de granito cinza-ferro, que ela reconheceu como o maestro Hans Helmut Kreuze. Ele bebericava uma cerveja e mastigava ao mesmo tempo batatas fritas e queixas contra aquele comandante desastrado. Sentiu-se até mesmo tranqüi­lo quando a voz de Edma Bautet-Lebrêche, como um toque a rebate, ressoou no ar da noite. Algumas gaivotas lá fora alçaram vôo. Mas Hans Helmut Kreuze, não podendo segui-las, teve de se virar e enfrentar seu destino. Não sem certo contentamento, aliás!

Porque se Hans Helmut Kreuze achava paranóico que um melômano ou um rústico imaginasse poder conquistar com sórdidas notas de banco o direito de escutar "a Música" (e principalmente a Música tocada por ele, Kreuze), não lhe parecia contraditório o fato de ele cobrar cachês gigantescos e ter pelo dinheiro em espécie uma devoção feroz, assim que o tinha na mão. Mas, com esse desprezo desaparecendo bizarramente como por encanto diante das grandes fortunas, ele acolheu com simpatia a mulher do imperador do açúcar, até mesmo com deferência. Chegou a descer de seu tambo­rete num gesto que pretendia ser galante, isto é, caiu pesa­damente sobre os dois pés metidos em sapatos de verniz com um "ham" de lenhador. E o chão estremeceu, enquanto cie, dobrando-se em dois com as ancas e a espinha em um angulo de quarenta e cinco graus, como um compasso aberto, batia com os calcanhares e debruçava-se sobre a mão carre­gada de anéis da imperiosa Edma.

Mestre disse ela —, nunca teria esperado que isto acontecesse. Este encontro! O senhor! Só! E neste canto solitário! Nesta hora solitária! Acho que estou sonhando. E se eu ousasse, mais exatamente, se o senhor me pedisse disse ela içando-se logo para o tamborete vizinho —, eu me permitiria fazer-lhe companhia por alguns minutos. Mas só se o senhor insistir acrescentou, lançando para o barman o indicador e um "gin-fizz, por favor" identicamente decididos.

Hans Helmut Kreuze iria empregar, como gentil-ho-mem, a súplica e a insistência requeridas, quando percebeu que Edma, bem-instalada, com uma azeitona entre os dentes, já balançava a perna sem grandes complexos; assim, renun­ciou aos seus salamaleques. Na realidade, a autoridade de Edma não lhe desagradava. Ele tinha, como muita gente de seu meio, muitos virtuoses e muitas celebridades em geral, um gosto sem limites pelas ordens, a sem-cerimônia, o fato consumado. Falaram de música por um momento, e Edma demonstrava sua real cultura musical, que ainda assim emer­gia do seu esnobismo. Hans Helmut redobrou seu respeito, e até sua obsequiosidade, porque suas relações com os seres humanos só comportavam duas claves, diferentemente de suas partituras: só tocava na clave do desprezo ou na da obediência. Ao fim de dez minutos tinham chegado a um grau de intimidade que Edma nunca imaginaria, e, aliás, nem desejara, e que, com a ajuda das cervejas, levou Kreuze às confidências.

Tenho uma preocupação resmungou ele; uma grande bem feia preocupação. . .

(Edma pestanejou: não conseguia se habituar à maneira confusa de misturar línguas de Kreuze.)

—    A senhora sabe, geralmente, as fêmeas...soltou uma risada grosseira as fêmeas em geral olham para mim. . .

"Essa agora! Longe de sua estante de maestro, esse grande javali", pensou Edma de repente. "Esses maestros, decididamente, são todos paranóicos!"

Certamente, certamente, é normal retorquiu ela entre dentes —, principalmente com a sua notoriedade. O dom-juan aprovou com um gesto de cabeça e após um interminável gole de cerveja continuou:

E até mesmo certas fêmeas muito conhecidas. . . muito, muito conhecidas. . . — sussurrou com o dedo atravessado na boca. "Grotesco", pensou Edma, "ei-lo fazendo saiatices!" Mas, minha querida senhora, não me faça dizer nomes. Nenhum nome. Nenhum! Pensemos na honra das damas. . . Eu digo não. Não, não continuou ele, tirando o dedo da boca e sacudindo-o debaixo do nariz de Edma, que subitamente foi direto ao assunto:

Mas, meu querido disse, levantando a cabeça e olhando-o de cima —, mas, meu querido, quem por amor de Deus está lhe pedindo um nome? O nome de quem ou de quê, em primeiro lugar? Não sou eu que o estou perse­guindo com perguntas, não é verdade?

Exatamente não disse Kreuze com uma expres­são de finura e os olhos franzidos. A senhora não me pergunte o nome da dama, neste mesmo navio, que uma noite, com Hans Helmut Kreuze. . . — e o mesmo riso espesso o sacudiu.

Edma estava dividida entre a curiosidade, realmente terrível, e um nojo que "quase" a sobrepujou, mas, como sempre, apenas "quase".

Vamos, vamos. . . — pensou ela alto mas quem, então, neste navio?

A senhora me promete silêncio?. . . Silêncio abso­luto? Prometido?

Prometido, jurado, silêncio, silêncio e silêncio, tudo o que o senhor quiser cantarolou Edma, com os olhos voltados para o céu.

O virtuose adotou uma expressão grave e, inclinando-se para ela a ponto de Edma poder ver-lhe os parafusos dos óculos, soprou bruscamente em seu ouvido e seu pescoço: 'Lupa", antes de recuar como para melhor julgar o efeito produzido. Edma, depois de um sobressalto sob essa brisa de cerveja, exclamou:

O quê? O quê? Lupa? Ah!, "lupa", loba. . . Loba? Concordo, eu compreendo latim, graças a Deus! A Loba, mas qual? Nós somos numerosas sob o céu, nós, as lobas. . . — E lançou um relincho malicioso que fez o bar­man soltar a coqueteleira.

A Lupa: Doria Doriacci sussurrou Kreuze com torça. Por volta de 53 ou 54, Doriacci era a Lupa, nada oíais. A Lupa era fácil como fêmea, em Viena. Já era uma bela mulher. . . Eu, pobre Kreuze, longe da família, longa tournée, sozinho... Ea Lupa, que me olhava todo o tempo assim. . .

E o maestro, arregalando os botões de botina que lhe serviam de íris por trás dos óculos, passou pelos lábios uma língua rosa que enojou ligeiramente Edma Bautet-Lebrêche.

E então? O senhor cedeu? Resistiu? Mas é uma história encantadora, a que o senhor está me contando. . .

Ela se sentia transformar-se visivelmente em feminista. A pobre Doria deveria estar realmente faminta para suportar esse pulha na cama.

Sim, mas. . . — continuou o outro, imperturbável sim, mas o fim é ruim. Vocês, fêmeas francesas, vocês dizer bom-dia depois, não é? A Lupa, não! Há trinta anos, a Lupa nem mesmo me deu bom-dia, nenhum sinal, nem mesmo um pequeno sorriso de canto de boca. . . como a senhora faria, minha querida senhora, não é?

Quem? Eu? Não, não, certamente não! disse Edma, subitamente disposta ao pior.

Mas sim, mas sim. . . — Kreuze tranqüilizava-a. — Mas sim, mas sim, as femeazinhas francesas, depois, fa­zem tudo igual: assim.

E sob o olhar indignado de Edma piscou-lhe um olho por trás dos óculos, num gesto horrível, enquanto revirava o lábio superior sobre seu único dente de ouro, até então invisível, no maxilar superior à direita, mas sobre o qual o sorriso malicioso caía em cheio. De início paralisada pelo horror, Edma recuperou-se depressa. Mostrou um rosto tran­qüilo, assumiu aquela expressão de alheamento, de lassidão, expressão loucamente perigosa mas que, infelizmente, nem Hans Helmut Kreuze, no auge da sua imaginação, nem Ar­mand Bautet-Lebrêche, que acabara de chegar e instalara-se pacificamente numa poltrona do outro lado do bar, tiveram condição de observar ou reconhecer.

A senhora acha isso bem? perguntava Kreuze insistente. Que a Lupa que comeu o jantar no Sacher

.de Viena, que eu paguei naquela noite, me trata mim, trinta anos depois, eu, Kreuze, como um merda qualquer? Hem? Então?

Pois então, justamente! disse Edma, permane­cendo naquela languidez deliciosa e invencível, muito próxi­ma do prazer físico, que a invadia com a cólera, a certeza da proximidade do drama, do escândalo, da catástrofe. Jus­tamente o que o senhor é, um merda!

E para bem persuadi-lo da força de sua convicção como do objeto dessa convicção, ela bateu-lhe no peito com um indicador horizontal e insistente. Mas, oh, surpresa máxima! Kreuze não se abalou. Sua memória, repleta de lembranças de testemunhos de admiração, sua memória cheia de "bravos" frenéticos ou transbordante de lembranças familiares de total submissão, não podia, apesar da sua clareza, admitir o anátema, o sacrilégio de Edma. Tudo nele, fosse sua me­mória, vaidade, segurança primitiva ou mesmo artérias coro­nárias, todo o seu ser recusava e rejeitava o que ainda assim seus olhos e seus ouvidos tentavam lhe transmitir: esse "jus­tamente o que o senhor é, um merda". Ele tomou então a mão dessa impudente encantadora, que a deixou ficar por um segundo, altiva mas aterrorizada por pensar que ele ia lhe bater ou jogá-la abaixo do seu tamborete:

Encantadora, gentil senhora — falou —, senhora não deve falar gíria. Não são palavras para bela senhora ele­gante, essas palavras... — E beijou-lhe as pontas dos dedos com indulgência, para grande indignação de sua protegida.

Mil perdões, mestre! Mas sei perfeitamente o que estou dizendo — retrucou ela com voz fria, gelada mesmo, diante do que achava ser uma covardia hipócrita. — Vou repetir: o senhor é indiscreto, grosseiro, vulgar, avaro, o senhor é um merda típico, o merda padrão, afinal — deta­lhou ela, mas a um fantasma.

Porque Kreuze esgueirara-se para a saída, rindo, com um riso agudo e mecânico, tossindo, agitando a mão da es­querda para a direita como se não quisesse ouvir os termos inconcebíveis de Edma, negando-os e assim deixando de ouvi-los.

Vagamente despeitada por essa saída salvadora para Hans Helmut Kreuze, mas que a deixava no meio de sua fome de ferocidade, Edma dirigiu-se, batendo com os saltos, com os olhos faiscantes, poder-se-ia mesmo dizer com as nari­nas fumegantes, ao seu marido, para lhe contar suas proezas. Afundado na poltrona estofada e com os olhos semicerrados, ele parecia sonhar, ou quase, espantou-se Edma.

— Alô, meu velho — lançou-lhe ela. — Você vai ouvir uma história extravagante.

Mas se Armand abriu os olhos ao ouvir essa voz, foi com um esforço sobre-humano. Edma sentara-se ao seu lado, mas ele mal ouvia, como se a voz dela viesse de muito longe.

— Eu tratei o maestro Hans Helmut Kreuze, diretor do Konzertgebaum de Berlim, de grande merda — disse com voz exageradamente tranqüila (mas com sua inquiridora voz de falsete, ainda assim), que fez estremecer no fundo da memória de Armand Bautet-Lebrêche o jovem que ele fora trinta anos antes, em pé, de fraque, diante do altar de Saint-Honoré d'Eylau. Mas esse jovem logo desapareceu, deixan­do-o entregue ao seu mal.

Acontece que os grandes navios, em certa velocidade e em certos mares, adquirem uma espécie de balanço regular, como uma oscilação ligeira de proa a popa, cujo efeito pode, por vezes, revelar-se irresistivelmente soporífico sobre o ser humano. Interpelado pela mulher, o sr. Bautet-Lebrêche, preocupado, tinha primeiro tentado mostrar uma expressão de finura do marido psicólogo e observar sua mulher com os olhos semicerrados, sorrindo vagamente. Mas levantar por pouco que fosse as pálpebras requeria-lhe um esforço quase tão grande como levantar as portas de ferro de algumas garagens.

Em situação desesperada, Armand Bautet-Lebrêche ten­tara então arrancar dos pedaços ainda conscientes do seu espírito atormentado alguma comparação, alguma imagem própria para fazer Edma compreender e admitir essa sono­lência inopinada: porque Edma não era mulher para suportar um ser humano adormecido à sua mesa, mesmo que fosse seu marido. Como lhe explicar? Era como se ele estivesse sendo ninado por uma ama, de fato. . . uma ama musculosa, naturalmente, mas contudo bem macia. . . Como se essa ama tivesse previamente embebido seu corpete de clorofór­mio . . . É isso, é exatamente isso. . . Mas por que clorofór­mio? . . . Por que uma ama teria posto clorofórmio?. . . Não. . . Seria antes como se lhe tivessem dado um golpe de malho, cinco minutos antes. . . Mas, considerando-se o preço do Narcissus, não se batia certamente nos passageiros com malhos... A menos que o capitão. . . aquele bruta­montes . . . molhasse. . . clorofórmio. . . Afundou-se no om­bro de Edma, sentindo vagamente seu perfume.

Graças a Deus, alguém respondeu, ainda assim, com sua própria voz subitamente doce e longínqua, mas a voz de Armand Bautet-Lebrêche: "Você fez muito bem, queri­da", pausadamente, antes de cair desmoronado sobre o om­bro da mulher, que de surpresa e de medo ergueu-se, dei­xando assim cair o imperador do açúcar com o nariz no prato. . . Os garçons acorreram para sustentá-lo, mas, graças aos roncos sonoros que subiam da poltrona estofada, Edma já tinha compreendido a natureza do mal-estar do marido.

"Esta viagem está começando bem, decididamente", pensava ela, tomando um segundo drinque por desânimo. Um diálogo imbecil com um paranóico obsceno e os roncos deselegantes do marido, na sua própria mesa, tudo isso dei­xava augurar, de fato, um cruzeiro pouco semelhante aos outros. Mas Edma se perguntava subitamente se isso não seria preferível.

O maior retardatário para o jantar daquela noite foi Andreas Fayard. Recaíra no sono do dia, com o mesmo pesa­delo. Dormira de jeans. Despiu-se rapidamente, passou pelo chuveiro e antes de tornar a vestir-se postou-se de corpo inteiro diante do grande espelho do banheiro e lançou sobre si mesmo, corpo e rosto, um olhar gelado de negociante de cavalos. Convinha controlar sua cintura, tomar cálcio, corri­gir um dente incisivo, um xampu ligeiro nos cabelos louros, sempre frágeis. Precisava de tudo isso para que uma mulher lhe comprasse um Rolls-Royce em agradecimento pelas suas qualidades amorosas, sua doçura e sua fúria. "E isso tem que acontecer depressa", dizia Andreas consigo mesmo, sen­tado no beliche do Narcissus, porque esse cruzeiro empreen­dido solitariamente acabava de arruinar a magra herança que suas duas tias livreiras em Nevers, suas educadoras, tinham ganho penosamente e deixado para ele antes de morrer no ano anterior, com dois meses de intervalo. Ele ia rapida­mente tratar daquele incisivo, dos cabelos louros e de tudo o mais, a contragosto. Andreas sentiu-se à beira das lágrimas diante da idéia de que ninguém lhe pediria para lavar as orelhas, talvez em anos, talvez mesmo até a morte.

Enquanto no convés da primeira classe serviam um jantar suntuoso, de categoria, em mesinhas presididas pelos oficiais do navio, tendo o imediato à frente, no andar de luxo, numa ordem provisória, ou supostamente assim, a trintena de passageiros distribuía-se por duas mesas: a do comandante e a de Charley; esta, três vezes mais alegre, era em geral assediada pelos habitues do Narcissus, mas, este ano, a presença de Doria à direita de Ellédocq fazia alguns hesitarem. Muitos mesmo; exceto Edma, que tinha aquele sentido de fidelidade de grupo que só se encontra em certas hordas de chacais ou lobos, animais bastante ferozes para pôr fim aos que se atrasam e expulsar os fracos. Isso os fazia parecer com as hordas mundanas, elas também fiéis às mesmas tocas e todos os anos lançadas nas mesmas mi­grações, mas cujos membros, sempre à beira de uma briga mortal, ao que parecia, mostravam-se, com o tempo, pouco suscetíveis ou indiferentes o bastante para se encontrarem vinte anos depois, amigos para sempre e para sempre áridos, exaustos, desprovidos de verdadeira alegria, de bondade e da mínima confiança na espécie humana.

Edma sentou-se, portanto, perto de Charley, seguida por alguns habitues que sua elegância e sua voz de falsete aterrorizavam até a servidão. Era Edma, por exemplo, que desde sempre dava o sinal para os aplausos depois dos con­certos, era Edma que decidia se os ovos estavam frescos ou o tempo clemente, com tanta firmeza como se decidisse se alguém era freqüentável. Mas a vedete naquele ano era evidentemente a Doriacci, já sentada à direita do capitão quando os passageiros entraram, a Doria, que, com os seus ombros cobertos por um xale, o rosto quase sem maquilagem e a expressão de amabilidade forçada, parecia-se furiosamen­te com a dama burguesa em viagem que ela não era. Todos os seus admiradores sentiram-se um pouco perturbados ou mesmo decepcionados em princípio.

É que a Doriacci era uma estrela! Uma verdadeira es­trela, como já não se faziam mais, uma mulher que diante dos flashes brandia sua piteira com segurança, mas nunca tomava a direção do assunto, uma mulher que não era céle­bre somente pela voz admirável, nem pela arte com que a usava: a Doriacci era célebre também pelos seus escândalos, seu gosto pelos homens, seu desprezo pela opinião da socie­dade, seus excessos, cóleras, luxo, loucuras e encanto. E na noite já fazia vinte e cinco anos ou mais em que subs­tituíra sem qualquer preparação, na Traviata, a célebre Ron-cani, subitamente doente, a desconhecida aplaudida com toda a fúria durante mais de uma hora pela sala mais hlasée do mundo já não era desconhecida de nenhum dos membros do Scala. Do último maquinista ao primeiro administrador, to­dos tinham passado pelos seus braços e ninguém se esque­cera. Desde então, quando chegava a uma cidade, a Doriacci, como certos invasores mongóis, extorquia os homens impor­tantes, ridicularizava suas mulheres, tomava os jovens com uma naturalidade e um vigor que pareciam crescer com a idade. Como ela própria dizia aos jornalistas, seus principais admiradores, "Sempre amei homens mais jovens do que eu e tenho sorte; quanto mais avanço na vida mais encontro jovens!" Em suma, a Grande Doriacci em nada se parecia com a dama pacífica de cabelos repuxados num coque, sen­tada naquela noite perto de Ellédocq.

Ellédocq herdou, portanto, à sua mesa, a Diva, a "mu-lher-palhaço adormecida" (era assim que ele chamava Cla­risse) e o seu "comunista excessivamente penteado", Eric Lethuillier, dois casais muito idosos e com assinatura vitalí­cia no N ar eis sus, o "sujo boche" Kreuze e o avaliador de quadros de má qualidade chamado Julien Peyrat. Exigira simplesmente que Charley ficasse com Béjard e Olga em sua mesa, mais alguns melómanos octogenários.

Não quero saltimbancos em minha mesa! tinha declarado de início com mau humor, depois com raiva, dian­te dos protestos de Charley, sobrecarregado, em seguida, numa de suas fórmulas de laconismo "inflamado": — Leve-me isso Stop Tem dois minutos Stop Mensagem terminada Rogers. Fora assim que chegara aos seus fins ao mesmo tempo que à mais fina flor da língua telegráfica. Mas se o vento desse furor levara para longe, isto é, para a mesa vizi­nha, os "saltimbancos", trouxera estranhamente de volta o gigolô de Nevers. Trouxera-o mesmo para a direita da Doria, ela própria à direita do comandante. Tomado de surpresa, Ellédocq não tinha podido reagir, mas tivera o consolo de ver Charley, dessa vez sério e consciencioso, lançar para a mesa dele olhares consternados.

Desde o início da refeição, segundo seu penoso dever, Ellédocq se tinha desdobrado em borborigmos elípticos equi­tativamente distribuídos como alimento à Doria e ao palha­ço. A Doria, de início distraída, acabara por escutá-lo aten­tamente, com o sobrolho franzido, acompanhando seus lábios com os olhos, como na fábula Os filhos do lenhador, quan­do, ofegante pela agonia, o pai tenta indicar-lhes onde está escondido o tesouro. Até as saladas tudo foi muito bem; mas então, quando ele se embrenhava nas previsões cada vez mais sombrias sobre o futuro da marinha francesa, a moralidade do pessoal navegante, a Doriacci de súbito pou­sou brutalmente o talher no prato, tão brutalmente que a outra mesa, até então bastante animada, voltou-se em bloco na sua direção.

Mas, afinal perguntou ela com sua voz grave —, onde o senhor quer que eu guarde minhas jóias com segu­rança? E depois, por quê? Isto aqui é um antro de bandidos ou o quê?

Tomado de surpresa, Ellédocq enrubesceu sob sua pele bronzeada. Ficou sem resposta, com os olhos fixos no canto da toalha, com os ouvidos zumbindo. Os convivas de sua mesa olhavam-no com ar de caçoada.

Isso também pode ser divertido como um filme po­licial recomeçou a Doria com sua voz gutural. — Inspe­cionaríamos uns aos outros, seríamos mortos um depois do outro, eu teria de cantar o Réquiem de Verdi em todas as escalas. . .

Caíram na gargalhada, aliviados, exceto Ellédocq, que levou um pouco mais de tempo para compreender. O "pa­lhaço triste" tinha dentes muito bonitos, observou Julien, distraído.

Porque a senhora não morrerá, não é mesmo? perguntou Eric Lethuillier, sorrindo de leve.

Ele não ria, aliás, no instante anterior, observou Julien. Permitira-se sorrir um pouco mais abertamente que de há­bito como para indicar que gostaria muito de se divertir com os outros, mas estava consciente da futilidade desse diverti­mento. Em todo caso ele sugeria, ou tentava fazê-lo, que aauele intervalo de relaxamento era apenas provisório e que a aula ia recomeçar. Era, pelo menos, exatamente esse efeito que produzia em Julien Peyrat. Com ele, a aula era inces­sante, e sem dúvida fazia o mesmo efeito na mulher — aquela pobre criatura desfigurada esta noite por um verde cintilante e mal-aplicado nas pálpebras —, que deixou de rir bruscamente como que pega em falta, e de olhos baixos tornou a atacar a lagosta. Ao lado dela, Julien admirava a beleza de suas mãos. Mãos longas, com a extremidade dos dedos estranhamente intumescida, como as dos escultores, como patas de gato. Sentado a seu lado, era tudo o que via dela: suas mãos. Não ousava olhar-lhe o rosto, com medo que ela se assustasse. Aliás, o que poderia ver mais sob essa camada espessa e rosada de base, sem dúvida passada com pá de pedreiro todas as madrugadas? Era realmente ridícula, e isso mortificava Julien como um insulto pessoal, como um insulto à totalidade das mulheres. Preferia que ela fosse obscena a ridícula. O escândalo pelo menos não matava o desejo. . . O lugar dele, Julien, era afinal o melhor, já que, sem a ver de frente, olhava suas mãos, ouvia-lhe a respira­ção, sentia-lhe o calor, o perfume, de Dior primeiro, e sob ele o de seu corpo, perfume da pele que, apesar daquelas pinturas de índio, era o perfume de um corpo de mulher. Clarisse tinha gestos para pegar o pão, parti-lo, levar o copo aos lábios (mas aí o olhar de Julien a deixava) que o encan­tavam. Eram mãos displicentes e seguras, mãos que tanto poderiam ser peritas e autoritárias, como ternas e consola­doras. A aliança que lhe enfeitava o dedo, único anel que usava, parecia demasiado brilhante, grossa demais, tinha um ar de peça de mosaico. Pousara a mão esquerda esticada na toalha e, em seguida, aborrecendo-se, dirigira a mão a um fio distendido e saliente. Puxara-o sorrateiramente, arras­tando outros, e começara então um longo trabalho de solapamento, destruição das suas unhas encarnadas, quase vio­leta, de um colorido atroz. Cansada desse brinquedo de vândalo que se começava a ver, a mão direita apanhara um saleiro e com ele cobrira as depredações, simbolicamente, como se a mão direita estivesse habituada a reparar os estra­gos da esquerda. Trazida à razão, a mão esquerda pousara ao contrário, com a palma virada para cima, com um ar de cão ao sol, quando eles se deitam de costas e expõem o pes­coço ao calor ou às possíveis presas de um inimigo mortal. A mão tinha se distendido, fechado, reaberto várias vezes, e o olhar de Julien procurava em vão compreender alguma coisa nas linhas da vida e do coração, emaranhadas. Incli­nara-se então para lhe oferecer fogo, e os cabelos ruivos e brilhantes entraram por um instante no seu campo de visão, desprendendo uma onda de perfume. E Julien, espantado, percebeu que a desejava.

Isso acontecera à sobremesa, e ele esperava já impacien­temente que se levantassem e que pudesse rir de si mesmo de uma vez, vendo o rosto que sabia grotesco. Foi então que aconteceu o incidente, o segundo do cruzeiro, observou Charley.

O senhor não vai me dizer, capitão Bradock. . . Ellédocq, perdão — dizia a Doria —, que essa Desdêmona não é uma tola. Pode-se convencer os homens de inocên­cia, mesmo quando se é culpada. Quanto mais quando não se é.. .

As fêmeas inocentes são pouco numerosas, mas mui­tas são fêmeas capazes de tudo — declarou a voz de Kreuze, até então mudo e de quem se tinham esquecido sem muito remorso, já que ele se embebedava solenemente. — Existem fêmeas que fazem acreditar aos homens que os moinhos são fazendas.

Isso não é tão grave assim, não acha? — disse Ju­lien, sorrindo e pronto a se divertir, apesar da demora do jantar.

Não conseguia se impedir, onde estivesse e em quais­quer circunstâncias, de conservar intata a louca esperança de se divertir. . . E de fato. . . mesmo nesse navio de octo­genários, de esnobes e pretensos estetas, ele, Julien Peyrat, que já passara dos quarenta, esperava ainda se divertir. Por instantes ficava com raiva de si mesmo por não ser mais pessimista ou lúcido sobre a existência. . .

— ]a, sim!

A voz de Hans Helmut Kreuze era peremptória e esse "sim" soou como um dobre na sala de jantar de acaju enver­nizado. O garçom, que nesse momento oferecia pela segunda vez sorvete a Julien, começou a tremer convulsivamente. A colher tilintou na travessa de sorvete, fazendo um barulhinho de castanholas que desviou por um instante a atenção geral de Kreuze para o sorvete. Julien, gentil, tornou a se servir e pousou a colher.

—    Sim, existem fêmeas que se comportam como ani­mais. Com a diferença de que os animais não são ingratos.

Houve nas duas mesas uma ligeira hesitação, meio espantada, meio cômica, que Edma, a incendiária, para sur­presa geral, procurou dissipar.

— E se levantássemos acampamento, capitão? — gri­tou da sua mesa. — Faz calor aqui, não acha?

E talvez tivessem seguido sua injunção se Simon Béjard, o mal-educado, não manifestasse sua curiosidade.

E de quem o senhor fala, maestro? — Ele chamava Kreuze de "maestro" num tom tragicómico como para res­saltar o toque de opereta desse título, o que visivelmente horripila va o músico.

Falava das fêmeas ingratas — disse com vigor, para ser compreendido de onde estava, Hans Helmut Kreuze. — Falava para o ar, se o senhor preferir considerar o caminho dessa trajetória. . .

Os vizinhos entreolharam-se de sobrancelhas erguidas, e Hans Helmut, com ar resignado e satisfeito ao mesmo tempo, depois de enxugar vigorosamente um bigode que raspara havia mais de dois anos, pousou o guardanapo sobre a mesa com gesto definitivo, quando Doria por sua vez abriu fogo.

—    Oh, meu Deus! — disse, caindo na gargalhada subitamente, como atingida pela evidência. — Meu Deus, e eu que estava procurando. . . Imaginem — continuou, animada — que estou quase certa de saber de quem o maes­tro está falando. Será que estou enganada, maestro?

O rosto do interpelado expressava ao mesmo tempo a dúvida e o furor. Os olhos de Edma luziam de excitação e êxtase, sob os cílios, o que inquietou Armand Bautet-Lebrê-che, de repente acordado de sua longa sesta.

— Não, não estou enganada — continuava a Diva. — Imaginem que nos conhecemos, o célebre maestro Hans Helmut Kreuze e eu, em Viena. . . ou em Berlim ou em Stuttgart, já não me lembro, nos anos 50 ou 60. . . Não, nos anos 60, não. Nessa época eu já era célebre e podia esco­lher. Falo de uma época em que eu não tinha escolha e o ilustre Kreuze dignou-se dar atenção à Lupa, esse era o nome que me davam então. . . Nessa época eu parecia uma jovem loba, o que de fato era. Infelizmente, há muito tempo só representava a criadinha da condessa no Le chevalier. Só cantava com os outros. Não tinha um papel, mas belas per­nas que eu tentava mostrar nos bastidores e no palco em todas as oportunidades. . . Éramos muito, muito, muito mal pagos em Viena. O maestro Kreuze, que já era célebre como agora, dignou-se ver as minhas pernas e dignou-se querer ver mais. Informou-me disso pelo seu secretário, um perfeito gentleman; e para completar minha conquista e me agradar, ofereceu-me uma alcachofra e um sorvete no Sacher. Não foi isso? Uma alcachofra e um sorvete, Hans Helmut?

Eu não me lembro mais. . . — disse o virtuose. Estava escarlate. Ninguém ousava se mexer, nem olhar para ele ou para a Doriacci, exceto Clarisse, a quem ela se dirigia então.

 

—- Enfim! continuou a Doriacci, cada vez mais joco­samente —, tudo isso era um pouco deselegante, mas a hon­ra que me faziam me fez aceitar isso com o resto. Não pense que me esqueci, caro maestro disse a Doriacci num silên­cio consternado, inclinada sobre a mesa (e subitamente ra­diante de beleza e juventude, observava Julien). Eu não tinha me esquecido, mas receava que esse fato o constran­gesse, ou que Gertrude. . . A sra. Kreuze se chama Gertru­de, não é verdade?. . . que Gertrude viesse a sabê-lo. Temia também que o senhor tivesse vergonha, trinta anos depois, de se ter rebaixado a dormir com uma criadinha, senhor diretor do Konzertgebaum de Berlim.

Ellédocq, que acompanhara tudo aquilo lançando olha­res cada vez mais esbugalhados aos dois protagonistas, fecha­ra-se ao acaso num silêncio altivo. Com o rosto impassível envolto no seu blazer como num peplo, sentia-se certamente muitos côvados acima dessa história de sexo. Em todo caso, parecia o menos decidido possível a se levantar e deixar a mesa; era a única coisa a fazer, no entanto, pensava Charley, fitando-o desesperadamente. Em vão. . .

Também, pela primeira vez em sua vida comum e marí­tima, foi Charley que, de repente, empurrou a cadeira e levantou-se, seguido precipitadamente pelos outros.

 

Que jantar delicioso...resmungou Edma. Será um novo cozinheiro-chefe? Armand, você não acha? . . . Armand! gritou ao marido, que recaíra na letargia doen­tia, mal a tempestade serenara.

        É preciso reconhecer, como alimentação de navio

não há melhor — comentou Simon. — Você não acha, meu tesouro?

Ele tentou enlaçar a cintura de Olga, que se esquivou. Eric Lethuillier dera a volta à mesa e segurava Clarisse pelo cotovelo "como para evitar que ela caísse, mas de modo completamente inútil", pensou Julien, que só a tinha visto beber dois copos de vinho. Mas ela se deixava levar, e ele ficou irritado; apesar de sua maquilagem grotesca, de novo visível, lembrava-se de sua perturbação e lhe votava uma espécie de admiração retrospectiva e espantada. "O corpo também era bonito", pensou, enquanto ela se afastava na alegre confusão que se segue sempre a todos os alaridos públicos.

A Doriacci levantava-se lentamente, sozinha diante de Kreuze, ainda sentado e de olhos baixos. Ela o contemplava enquanto apanhava na toalha o batom, os cigarros, o isquei­ro, a caixinha de pílulas e a de pó-de-arroz, toda a tralha que transportava como uma cigana, a cada refeição.

— Então — disse em voz baixa —, então, meu grossei­rão Helmut, ficou contente?

Falara com voz inaudível para todos, exceto para ele, que não respondeu, conservando os olhos baixos, e ela saiu sorrindo e estalando os dedos num ritmo de rumba.

— Mulher danada, hem? — comentou o capitão, vol­tando à porta e esperando Kreuze. — Fêmea danada, como o senhor diria, maestro.

Mas o maestro continuava sem resposta, e o capitão, com um passo balanceado, reuniu-se aos seus hóspedes.

Nada divertido esse teutão, nenhum humor — con­fiou ele, como especialista, a Charley Bollinger.

Com sorte esse cruzeiro vai ser divertido — dizia Simon Béjard a Eric e Clarisse Lethuillier. — Parece que esta começando bem! Em matéria de música vai acontecer uma algazarra engraçada, com o "concerto flutuante", como eles chamam. Acontecerão notas falsas engraçadas. . .

"Ele faz esses jogos de palavras estúpidos e ri às gargalhadas e fica contente consigo mesmo", pensava Olga, olhando-o °-o com raiva. Por que aberração ela o teria levado para junto dessa gente elegante, chique, de bom-tom? Como se tinha exposto a esses golpes, essas afrontas incessantes que provocavam a vulgaridade, o humor tolo desse inculto?. . . E tudo isso, naturalmente, diante de Eric Lethuillier, essa personagem impecável, cheia de classe até a ponta das unhas. . . esse aristocrata do pensamento. . . um revolucio­nário que poderia ser marquês. . . Tinha loucura por esse tipo, enfim, por esse homem, com seu perfil de viking. . . Não, de viking não, isso era muito estereotipado. Ela lhes diria: "Seu belo perfil de ariano". Esse "lhes" representava seu público mais apreciador, as duas companheiras de escola, conquistadas desde o terceiro ano, cuidadosamente conser­vadas, em seguida, no culto de Olga e para as quais Olga Lamouroux, onde quer que estivesse, preparava com todo o cuidado na sua cabeça o relato palpitante de sua existência diária. Ela já estava se ouvindo. . . Fechou os olhos por um segundo para esquecer a presença muito dispersiva, por de­mais absorvente (já!) de Eric Lethuillier. "Você sabe, Fer-nande, você me conhece. . . Você sabe que sob meus ares de bravata fico como que esfolada viva, por vezes?. . . En­tão, quando eu encontro, quando eu sinto no mesmo compri­mento de onda uma pessoa sensível às mesmas coisas que eu, revivo. . . E então, ali, eu revivia, naquele salão suntuoso, na sua austeridade, naquele ambiente marítimo viril mas de bom gosto. Também, quando ouvi de repente Simon contar suas besteiras. .. (não, Simon sair com suas vulgaridades) na presença desse ariano com perfil de viking. . . Não, desse homem soberbo de perfil ariano. . . Quando vi esse aria­no. . . apenas franzir as sobrancelhas e virar os olhos para que eu não lhe surpreendesse o enfado instintivo. . . Quando o vi um pouco depois voltar para mim seus olhos verde-gaio. .. (seria preciso ver no dicionário a palavra verde-gaio); quando o vi voltar os seus olhos glaucos (não. . . da cor do mar. . .) Então, Micheline!. . . (não; era a Fernande que estava contando), então, Fernande!. . . Você quer que lhe diga? Fiquei com vergonha. . . Vergonha do meu companheiro! E isso é uma coisa terrível para uma mulher. . . Porque, você sabe, você é muito fina para essas coisas. . . (era maquinal, nos seus relatos, esse cumprimento que provocava a atenção; mas aí não era urgente, Fernande, a pobre, estava em Tarbes, na casa da sogra, com os garotos). Bem, você sabe... eu tinha vergonha dessa vergonha. Você sabe. Sempre quis guardar uma distância de Simon, fingir que não percebia o fosso que havia entre nós, o. . .", etc, etc, terminou ela interiormente, porque o ariano tomara a palavra. "E sua voz de bronze, sua voz de estanho, seu tim­bre quente. . ." (ela diria depois) ressoava:

Pessoalmente dizia Eric Lethuillier —, tenho que confessar que detesto esse gênero de cenas. Há sempre nesses escândalos um lado exibicionista que me gela. . . Não? Para você não? Você não acha, Clarisse?

Achei, na verdade, divertido respondeu Clarisse. Muito divertido mesmo.

E ela sorriu vagamente, o que humanizou sua máscara por um segundo e irritou Eric visivelmente.

—    Clarisse, infelizmente, só lê nos jornais as colunas de fofocas, a vida particular dos outros sempre a divertiu. . . às vezes mesmo mais do que a sua própria, receio disse ele mais baixo, de maneira distinta, para ser ouvido ao lado.

Clarisse não pestanejou, mas Simon ficou chocado.

A propósito de exibicionismo disse —, você também sabe.. .

Eu sei o quê?

A voz de Eric Lethuillier era cortante. De repente pare­cia estar louco furioso, e Simon Béjard recuou um passo. Não iria brigar com aquele protestante grandalhão intratável só porque ele se comportava odiosamente com a mulher. . . Afinal de contas, nada tinha com isso. Olga já começava a se engraçar com ele. Calou-se. O que não impedia que a via­gem se anunciasse mais cômica do que esperava. A mulher dos açúcares chegava na direção deles com todas as velas de fora e os olhos ainda mais salientes do que de costume. "Eis aí uma a quem todos esses dramas não devem desagra­dar", pensou Simon, por uma vez demonstrando alguma psicologia.

Ah! meus filhos! disse ela estendendo, à vista, um copo de uísque de socorro a Clarisse Lethuillier, que o agarrou com a mão firme, sob o olhar gelado de Eric. Esse jantar! Ah, meus filhos, que sessão! Não sabia onde me meter. . . Ah! A Doriacci pegou bem esse rústico! Acho a nossa Diva perfeitamente soberba. . . Ela me emocionou completamente, me envolveu. Eu confesso. Fui envolvida. Vocês não?

Não precisamente...dizia Eric com voz zombe­teira, mas Edma cortou-lhe a vez.

Isso não me espanta; para envolvê-lo, sr. Lethuillier, seria preciso Trótski ou Stálin, eu imagino. Pelo menos! Mas o sr. Béjard? E você, senhorita. . . eh. . . Lamoureux?

E você, querida Clarisse?. . . Não me diga que você se aborreceu.

R-o-u-x, roux. Lamouroux — retificou Olga com um sorriso frio (pois era a terceira vez que Edma estropiava-lhe o nome).

Mas eu disse Lamouroux, não? — Edma sorria. — Em todo caso, desculpe-me. Olga Lamouroux, vejamos. . . Como poderia me enganar? Quando eu a vi no. . . Ah! mas como se chamava aquele filme encantador que se passava em Paris, no Quartier Latin. . . ao lado daquele ator um pouco intelectual, mas tão, tão maravilhoso. . . George algu­ma coisa. . . Ora, ajude-me o senhor — disse a Simon, que, embasbacado pela sua temeridade, a fixava de boca aberta e, acordando, precipitou-se:

A senhora deve estar falando de A noite negra do homem branco, um filme de Maxime Duqueret. Um filme muito bonito, muito interessante. . . um pouco estranho, um pouco triste, mas muito interessante. . . De fato, de fato — insistiu, para se convencer a si mesmo (e lançando um olhar temeroso para Olga, que parecia perdida, noutra parte, mui­to longe). — Acho que foi esse... é. . .

E então! — disse Edma, satisfeita. — A noite bran­ca de alguma coisa. . . Estava muito bom. Foi nele que com­preendi que a srta. Lamoureux, Olga, faria carreira.

Olga Lamouroux, Lamouroux, querida senhora. Desta vez era Eric que reclamava, e Edma lhe lançou

um olhar sonhador perfeitamente ofensivo.

Como o senhor é gentil em me ajudar! Vejamos: Lamouroux, Lamouroux, Lamouroux, Lamouroux. Vou trei­nar, prometo-lhe — disse gravemente a Olga, cujo lábio desaparecera sob os dentes superiores. — Espero não fazer como a nossa Diva com o seu "Bradock", "Ducrock", "Ca-pock", como ela não pára de chamar o nosso tolo, o nosso valente capitão. . . Onde está Charley? Ele, que é tão diplo­mata. . . Deve estar preocupado. Em todo caso, uma coisa é certa: vai ser preciso mudar a disposição dessa mesa já amanhã de manhã. Era preciso, é preciso sempre, de qual­quer modo, separar os pares, musicais ou não.

A senhora suportaria ficar separada do sr. Bautet-Lebrêche? — disse Olga sibilinamente, sem olhá-la.

Mas eu já me separei! — Edma parecia deliciada. — Já me separei, mas não por muito tempo. Com a sua fortuna, meu querido Armand é uma presa sonhada pelas intrigantes, estou farta de sabê-lo.

E volteando, agitando-se, dirigiu-se para um outro gru­po, talvez uma outra presa. Houve um instante de silêncio.

Que ordinária! — disse Olga Lamouroux, que fi­cara branca e perdera a voz.

Essa pobre mulher é o protótipo do seu meio — disse Eric com voz entediada.

Mas pousou a mão sobre o ombro de Olga em sinal de compreensão e ela bateu com as pálpebras uma dúzia de vezes sob a emoção. Simon ficou calado, mas, quando cruzou por acaso com o olhar da mulher-palhaço, percebeu perplexo que a morta-viva estava com os olhos dilatados por um riso incontido.

Julien Peyrat e Andreas, apoiados no balcão do bar, riam às gargalhadas, lembrando os detalhes da confusão. Pareciam dois colegiais trocando segredos e escarnecendo, percebiam isso, o que ainda aumentava sua hilaridade. Charley observava-os com expressão reprobatoria e ciumenta.

Você viu como ela ficou bonita? — disse Andreas, recuperando a seriedade. — Você viu aqueles olhos, aquela voz?. . . Que mulher! De repente tinha vinte anos, você viu?.. .

Mas diga-me, meu velho, você está se apaixonan­do. . . — disse Julien sem malícia. — Você teria alguma intenção quanto à nossa Diva nacional. . . internacional, per­dão? Você sabe que não é uma conquista impossível, segun­do os rumores.

— Como assim?

Andreas já não ria; Julien, surpreso, fitou-o. Não che­gava a fazer uma idéia desse rapaz. De início tomara-o por pederasta, por causa de Charley, mas ele não o era, visivel­mente: tomara-o por um gigolô, mas isso também não pare­cia de forma alguma evidente. Por outro lado, repugnava a Julien fazer a pergunta clássica: "O que você faz na vida?" Era uma pergunta que o fizera sofrer toda a vida, até desco­brir para si mesmo esse ofício extraordinário e vago de ava­liador.

—    Eu queria dizer que a vida sentimental da Doriacci é tumultuosa, notoriamente tumultuosa, e que a vi mil vezes em fotografias na companhia de pilantras de físico muito inferior ao seu. Era só isso o que eu queria dizer, meu velho. . .

—    Diz-se todo tipo de coisas sobre as estrelas — re­torquiu Andreas, inflamado. — Eu, por meu lado, acho que essa mulher tem o gosto do absoluto. Não acredito, de forma alguma, sr. Peyrat, que a Doriacci seja uma mulher fácil.

Isso também é notório — disse Julien alegremente, interrompendo de súbito uma conversa desagradável. — E também é notoriamente muito, muito difícil conviver com ela. Pergunte ao maestro Kreuze o que ele pensa. Aquela alcachofra vai lhe pesar muito neste cruzeiro. . .

Ah, a alcachofra do Sacher — disse Andreas, e recomeçaram a rir. Mas Julien ficou intrigado.

O navio diminuía a marcha e já se viam distintamente as luzes de Portofino. Era a primeira escala prevista, e Hans Helmut devia abrir fogo com Debussy. Três marinheiros vestidos de branco puxaram o grande Steinway para o tom­badilho, o Steinway até então resguardado no bar sob três capas e uma toalha branca. Era um nunca acabar de mano­bras para despi-lo e fixá-lo com correntes nos pés. Via-se luzir a madeira escura do piano na obscuridade, e adivi­nhava-se a sua massa, mas ainda assim houve um instante de silêncio respeitoso na multidão quando, tendo os mari­nheiros desaparecido com as capas, alguém experimentou as luzes. Havia quatro projetores muito brancos colocados no alto, desenhando uma pista quadrada e lívida, uma espé­cie de arena teatral, no meio da qual o instrumento com as suas correntes transformava-se numa alegoria: encorpado como um touro e brilhante como um tubarão, o animal espe­rava visivelmente seu domador, seu toureiro, seu músico ou seu assassino, e esperava-o com ódio. E todos os seus dentes cintilantes e brancos pareciam prontos para engolir a mão do homem, a atraí-lo aos urros para o fundo do seu corpo vazio, onde seus gritos retumbariam por muito tempo antes de se apagarem. Esse piano tinha alguma coisa de romântico, trágico e brutal sob essas luzes, que não combinava com o Mediterrâneo. Esse mar proporcionava um romantismo ex­cessivo e sensual, uma doçura sem falha e sem piedade. Abraçava o Narcissus pelas ancas, lisonjeava-o e agredia-o com tantas ondas macias e quentes, insistentes e incessantes a ponto de fazê-lo inclinar um milímetro, de fazer gemer de prazer suas vinte mil toneladas. O navio fez a âncora ranger logo depois de lançada, já agarrada ao soalho marinho lá embaixo, e detestou aquele entrave de ferro que o impedia de se estirar, de se dispersar, de se entregar à mercê de toda aquela água voluptuosa e noturna, aquela água falsamente friorenta e espumante à beira da terra, mas longe, porém, impenetrável e insondável, onde o Narcissus, imobilizado ponta da sua corrente, renunciava com dificuldade a perder.

Os passageiros da primeira classe tinham subido para o tombadilho de luxo, e a primeira coisa que faziam ao encontrar, como nos outros anos, os mesmos privilegiados no mesmo tombadilho era explicar-lhes como tinham caído na armadilha do tempo e não tinham podido mudar de status como teriam querido. Era o único momento humi­lhante, aliás, para aqueles melómanos felizes que durante todo o ano, pelo contrário, gabar-se-iam desse cruzeiro. Ju­lien, abordado desse modo por um casal loquaz que acredi­tava reconhecê-lo, escapou. Passou por cima dos cabos, subiu pela trave que separava as cadeiras das poltronas em torno do piano e saiu da zona luminosa. Só o caminho que levava aos corredores estava iluminado e, evitando-o, Julien esbar­rou na porta aberta do bar, que estava apagado. Levou alguns segundos até ver luzir no escuro o cigarro de Clarisse Le­thuillier, sentada a uma mesa do fundo, sozinha.

Eu lhe peço desculpas disse, avançando um passo na penumbra; eu não a tinha visto e procurava um refúgio, um acostamento, como nas auto-estradas. Lá fora está um alvoroço: o concerto vai começar. . . A senhora quer que a deixe?

Falava de forma descosida e sentia-se curiosamente inti­midado. No escuro, Clarisse Lethuillier deixava de ser um palhaço e se transformava numa mulher, a presa do caçador. Ela acabou abrindo a boca:

— Sente-se onde quiser. De qualquer modo o bar está interditado.

Talvez por causa da escuridão, tinha uma voz sem defe­sa, uma voz nem informada nem ingênua, nem exata nem quebrada, nem jovem, nem feminina, nem nada. Tinha uma voz sem constrangimento, uma voz despida como um fio elétrico e cuja proximidade talvez fosse igualmente perigosa. Julien sentou-se às apalpadelas.

A senhora não vai ao concerto?

— Vou, mas só mais tarde.

Murmuravam sem razão para isso. De fato esse bar era um outro mundo, tudo ali era assustador e agradável ao mesmo tempo: a massa das poltronas, o recorte das mesas e ao longe aquela multidão iluminada, agitada que, com muita antecedência, aprontava-se para aplaudir Kreuze.

A senhora gosta de Debussy?

Mais ou menos — disse a mesma voz, desta vez assustada. E Julien pensou que ela estivesse com medo que os surpreendessem a sós naquele lugar "interditado", como dissera. Mas contrariamente à sua natureza bonachona, não tinha vontade de ir embora. Gostaria, pelo contrário, que Eric Lethuillier chegasse, os surpreendesse não fazendo nada e fosse bastante odioso (um pouco bastaria) para que ele, Julien, lhe pudesse quebrar a cara. Detestava aquela perso­nagem e espantava-se de se dar conta disso; não podia suportá-lo. Não poderia passar oito dias nesse navio em sua companhia sem lhe dar uma lição ou dele a receber, não importa, mas sem bater ao menos uma vez naquele rosto arrogante com plena razão. Essa vontade de bater era tão definida que se sentiu de repente sedento, sedento e trêmulo.

Não haverá uma garrafa neste bar? — disse em voz alta. — Estou morrendo de sede, e a senhora?

Não — disse Clarisse, desolada. — Não, tudo está fechado à chave. Eu bem que experimentei, o senhor deve imaginar. . .

Esse "o senhor deve imaginar" significava "o senhor pensou certo, eu, Clarisse, a alcoólatra!. . . Sabe de uma coisa? Eu tentei naturalmente encontrar algo para beber. . . ora. .."

Mas Julien não parou aí.

Duvido que uma fechadura me resista — disse, tro­peçando nos móveis. Passou por detrás do balcão, onde a escuridão era total.

A senhora tem um isqueiro?

E, instantaneamente, ela estava no banquinho mais pró­ximo com o isqueiro na mão. Eram fechaduras para crianças ingênuas, e Julien, com seu canivetinho de escoteiro, ven­ceu-as com facilidade. Abriu uma prateleira ao acaso e se virou para Clarisse. A luz do isqueiro dava um ar de grand-guignol ao seu rosto pintado. Ele ficou com vontade de lhe dizer para tirar sua máscara um segundo, mas se reteve a tempo.

O que a senhora quer? Aqui há de tudo, acho: porto, gim? Para mim será uísque.

Para mim também.

A voz dela se afirmara. Talvez a perspectiva desse uísque inesperado, pensou Julien com alegria. Decididamente ele era o demônio malfeitor desse Narcissus. . . Ia arruinar nas cartas um melómano, abusar de um amador de pintura e embebedar uma alcoólatra.

Como acontecia sempre que pretendia assumir o papel de menino terrível, Julien sentiu-se alegre. Alguma coisa nele era tão profundamente bonachona que todos esses papéis cínicos que acabava por representar, efetivamente, nunca lhe pareciam reais. Faziam parte de uma grande ficção, uma série de novelas escritas por um humorista anglo-saxão, cujo título era A vida e as aventuras de Julien Peyrat. Encheu até a metade dois copos, ofereceu um a Clarisse, que voltara para sua mesa, e sentou-se deliberadamente ao lado dela. Levantaram os copos um para o outro e beberam solene­mente. Sentiu o sabor acre e violento do álcool na garganta. Tossiu um pouco e observou que Clarisse não pestanejara. O calor, o bem-estar súbito que os invadiram logo os tran­qüilizaram e justificaram o arrombamento.

Agora está melhor, não? — disse. — Estava tenso, pouco à vontade, sinto-me reviver; e a senhora, não?

Oh, sim — respondeu Clarisse num sopro. — Eu... eu me sinto realmente reviver. . . Ou antes, sinto-me viver, simplesmente.

Isso nunca lhe acontece quando está sóbria? Nunca?

Nunca. Agora nunca mais. O senhor ficou com a garrafa?

Naturalmente.

E inclinando-se encheu-lhe o copo. Viu a mão branca levantar-se e levar o copo ao rosto. Lembrou-se da impressão que essa mão lhe causara durante o jantar, e ficou zangado consigo mesmo. As circunstâncias eram-lhe um pouco dema­siadamente propícias, ao que lhe parecia. Também encheu mais um copo para si mesmo. Nesse ritmo estariam bêbados de morrer antes que o concerto começasse. Imaginou-se che­gando com Clarisse pelo braço, tropeçando durante os arpejos de Kreuze, e se pôs a rir.

Por que está rindo?

Pensava na nossa chegada completamente bêbados no meio do concerto — disse ele. — Eu rio por qualquer coisa. Não é o caso do seu marido, é? Tenho a impressão de que ele não tem o riso fácil.

A vida é uma coisa séria para Eric disse ela sem qualquer inflexão, como se tivesse enunciado um fato. Mas vejo muito bem como se pode levar a vida a sério, aliás, admitindo-se que se tenha a força de levá-la adiante de uma forma ou de outra. . . Neste momento eu a tenho. Respiro de novo. Sinto o coração bater. Sinto-me habitada dentro do meu corpo, as coisas tornam-se reais. . . Chego mesmo a sentir o cheiro do mar, como sinto o frio deste copo nos meus dedos. O senhor compreende isso?

Mas é claro disse Julien.

O principal era não interrompê-la, pensava. Era preciso que ela falasse, a ele ou a qualquer outro. Sentia grande pena dessa mulher, pena quase tão grande quanto a raiva que nutria pelo marido. Mas o que tinha a ver com esse casal Lethuillier? .. .

Todo o dia tive a impressão de vagar no deserto, com obstáculos que no último momento não via. Tinha a impressão de falar errado e que o notavam, e era ridícula. Tive a impressão de só pensar em banalidades. Tive a im­pressão de que ia deixar cair o garfo, ou eu mesma cair da cadeira, o que, mais uma vez ia envergonhar Eric, constran­ger ou fazer rir os outros. . . Tive a impressão de que ia morrer asfixiada na cabina. Tive a impressão de que este navio era grande demais ou pequeno demais, e que, em qualquer caso, eu nada tinha a fazer aqui. . . Tive a im­pressão de que esses nove dias nunca acabariam e que no entanto eram a minha última chance. Mas minha última chance por quê. . . Estava entregue à desordem, à confusão, ao tédio. . . Uma dúvida sobre a minha pessoa que me mar­tirizava . . . Martirizava repetiu ela em voz alta. Passei horas martirizada. E agora, graças a isto e ela fez o copo tinir, batendo-lhe com a unha —, estou em paz com Clarisse Lethuillier, nascida Baron, trinta e dois anos, rosto sem graça. Clarisse Lethuillier, alcoólatra, e nem mesmo sentindo vergonha de sê-lo.

É que a senhora não é alcoólatra de fato. Quanto a esse rosto sem graça, seria preciso fiar-se em suas pala­vras. . . A senhora. . . A senhora tem o rosto sem graça tão maquilado. .. Sra. Lethuillier! Em todo caso "Clarisse Le­thuillier: solitária"... isso eu acreditaria.

A rica herdeira solitária... Isso lhe deve recordar esses semanários de grande tiragem, sr. Peyrat. . . De qual­quer modo, nunca lhe agradecerei o bastante por ter forçado essa fechadura. . . Se eu pudesse contar com o senhor, além disso, para esconder garrafas em sua cabina e se tivesse a bondade de me dizer o número, conquistaria meu reconhe­cimento definitivamente; o senhor não é homem de fechar as portas à chave, imagino.

Falava com voz precipitada, mas clara, nítida, quase arrogante, sua voz de moça Baron, sem dúvida. Mas ele já a preferia odiosa do que infeliz.

— Mas com certeza. Vou me abastecer logo amanhã! E estou no número 109.

Houve um silêncio, e a voz de ainda agora, de antes do uísque, perguntou:

O senhor não terá remorsos? Ou então... não pediria algo em troca?

Eu nunca tenho remorsos e nunca peço nada em troca a mulheres. — E estava dizendo a verdade.

 

Adivinhou mais do que viu Clarisse estender-lhe o copo, e encheu-o sem comentários. Ela esvaziou-o, levantou-se, partiu a passo firme, ao que lhe pareceu, para as luzes. Julien ficou imóvel por um momento, antes de acabar sua bebida e segui-la.

Clarisse mal tivera tempo de se sentar perto de Eric, e este de fazer suas costumeiras manifestações exageradas de cortesia, e já Hans Helmut Kreuze entrava, sob aplausos. O smoking ainda lhe ressaltava mais o lado prussiano, seu colarinho duro parecia raspar na nuca quando ele se inclina­va. Mas logo que se sentou e começou a tocar, o músico fez desaparecer a personagem. Tocou Debussy com leveza, tato, doçura que ele não tinha. Fê-lo fluir como um líquido, como a chuva sobre a ponte, e Clarisse, de olhos abertos, recebia aquela água fresca, sentia-se rejuvenescer, intacta, invulnerá­vel, lavada de tudo. Estava nos bosques, nos prados de sua infância. Nada sabia sobre o amor, o dinheiro, os homens. Tinha oito anos, doze ou sessenta, e tudo era de uma limpidez perfeita. O sentido da vida estava ali, nessa inocência inal­terada do ser humano, na fuga precipitada e aceita da vida, na misericórdia da morte inevitável, em alguma outra coisa que não era Deus para ela, mas da qual, naquele momento preciso, estava segura, como outros estariam, ao que parecia, da existência desse Deus. Nem mesmo se espantou que Kreuze tocasse assim, de um modo tão diferente de si mes­mo, de sua aparência. Só se espantou quando ele acabou e o estrangeiro louro ao seu lado lhe fez sinal com o cotovelo para ela aplaudir. Eric sacudia a cabeça com certa gravidade e tristeza, como sempre acontecia quando se encontrava diante de um talento incontestável.

Não se pode negar que ele é genial dizia o mari­do, como se seu primeiro reflexo fosse, de fato, negar esse gênio e a impossibilidade de fazê-lo lhe custasse. Mas ela, de repente, pouco se importava com Eric. Parecia-lhe mesmo da maior futilidade, da maior tolice tê-lo amado tanto tempo e ter sofrido por ele. Naturalmente alguém lhe soprava que essa liberdade e essa desenvoltura iam ser eliminadas de seu espírito ao mesmo tempo que o álcool de seu sangue, mas também lhe dizia que a verdade estava ali naquele momento, na percepção que, no entanto, era considerada enganadora, falseada e desnaturada pelo álcool. Esse mesmo alguém lhe dizia que ela tinha razão quando era feliz e estava errada quando não o era; esse alguém era o único, desde sua infân­cia, entre os inumeráveis alguéns de que ela era constituída, que nunca mudaria de opinião. Aplaudiu por um pouco mais de tempo do que os outros. Olharam-na, e Eric se fechou, mas isso de nada lhe importava. Do outro lado do piano, de pé, Julien Peyrat, seu cúmplice, lhe sorria, e ela lhe restituiu o sorriso abertamente. Esse salvador era também um belo homem, constatou divertida, com uma espécie de satisfação antecipada que já não sentia havia anos, havia séculos, como lhe parecia. Poucos homens resistiriam ao critério de Eric Lethuillier, é bem verdade.

Simon Béjard, que se sentara no seu lugar nas suas calças de smoking novas com uma impressão igual de perigo e tédio, tinha lágrimas nos olhos. Tudo isso graças àquele pesadão do Kreuze, que considerava intragável, e graças a Debussy, que sempre julgara inescutável. De fato era a pri­meira vez que lhe acontecia sentir prazer gratuito, a primeira vez, havia muitos anos. Anos em que, quando via um filme, era para fazer uma triagem dos atores, para ver o trabalho de alguém mais, da mesma forma que só lia romances para ali descobrir argumentos — exceto os livros cujo sucesso, cuja adesão louca do público, dispensavam dessa obrigação funesta de ser palpitantes; mas nesses casos Simon não podia comprar o título.

A primeira sessão de cinema ocorrera por ocasião dos seus seis anos. E do mesmo modo como, havia quarenta anos, para Simon todas as paisagens não passavam de cenários, todos os seres humanos eram personagens e todas as músicas eram apenas de fundo.

— Foi formidável, não? — disse no seu entusiasmo. — Parabéns, Helmut! Fez-me o mesmo efeito que Chopin.

Chorara muito aos catorze anos, aos acordes de uma Polonaise num filme medíocre em cores vindo da América, onde se via Chopin, com ar de cowboy bronzeado, musculoso e de cabelos encaracolados, cuspir sangue sobre as teclas brancas, enquanto George Sand passeava uma magreza igual a de suas piteiras pelos cenários dignos dos Borgia e do folies-Bergère reunidos. Concluiu que Chopin era um mú­sico capaz de comover, talvez mesmo de fornecer um apoio musical para as suas próximas obras-primas, dele, Simon; toas sua cultura musical parava ali. E eis que com Debussy, agora que estava rico, um mundo novo se abria a Simon. Sentia de repente grande apetite e grande humildade em relação a essas grandes estepes da arte, esses monumentos vivos, esses tesouros fabulosos que ele não tivera tempo nem ocasião de descobrir. Sentia uma grande fome de litera­tura, pintura, música. Tudo enfim lhe parecia desejável ao infinito, pois Simon só se subordinava aos seus desejos na medida em que pudesse concretizá-los. Desejava "poder" possuir, era só isso. De fato, amanhã poderia comprar os melhores aparelhos de alta-fidelidade japoneses, adquirir um ou talvez dois quadros impressionistas de autenticidade mais ou menos estabelecida e, por que não?, uma edição original de Fontenelle (que aliás não conhecia). Sendo-lhe agora aces­síveis todas essas loucuras, teria o direito de se oferecer livros de luxo, minicassetes e visitas a museus. Como se, para penetrar nos domínios desconhecidos da arte, houvesse uma porta de serviço e uma grande escadaria, a primeira só sendo suportável se deliberadamente preferida à segunda. Para Simon, o Panteão e seus mortos ilustres reuniam-se afinal em prestígio à United Artists e seus esbirros anônimos. Em todo caso, ficara comprovado que ele era sensível às coisas da arte, e foi com uma espécie de admiração pelas suas próprias lágrimas que voltou para Olga os olhos úmidos; mas ela não parecia participar dessa admiração; parecia até, ao contrário, ter ficado irônica.

Ora, Simon, não diga tolices disse a meia voz.

Olga lançara um olhar furtivo a Eric Lethuillier, senta­do diante deles; e de esguelha, Simon vira o sorriso farto, indulgente de Eric.

Não era o que se devia dizer? perguntou ele muito alto.

Sentia-se ferido na sua boa fé, na boa vontade. Afinal, essa emoção que parecia achar ridícula, ela própria a recla­mara ainda no dia anterior, parecendo achá-lo incapaz dela.

Claro que não! disse Olga. Chopin. . . De­bussy! Meu pobre Simon! Mas ainda assim convém não con­fundir alhos com bugalhos.

Chopin é o alho e Debussy o bugalho? Ou o con­trário? atalhou Simon. Depois da emoção artística sentia-se agora invadido pelo furor, e eram dois sentimentos vio­lentos, bizarros, que lhe tinham sido estranhos até então. Olga espantou-se com aquela cólera súbita.

—    Mas, enfim! disse ela. Não se trata disso.

Digamos que ainda é um pouquinho cedo para você se lançar em comparações.

Ela hesitou, lançou um olhar furtivo para Lethuillier, que não se virara.

Enfim, há três meses você temia que fosse tarde demais para mim! E, hoje, cedo demais. Você precisa afinar os seus pianos disse brincando, a contragosto, o que per­mitiu a Olga rir bem alto e fingir que ignorava a cólera dele.

Então continuou Simon —, você vai me ex­plicar?

Mas afinal, Simon. . . — Voltara à sua voz de falsete, exasperada. Mas enfim, Simon, digamos que não é um assunto para você.

Se não é um assunto para mim, também não é um cruzeiro para mim.

Olhou-a de frente, furioso, e ela lançava olhares deses­perados para Lethuillier. Mas agora parecia que aquele se­nhor tinha a nuca fixada nos ombros e seus ouvidos instala­dos de um lado e de outro do crânio unicamente a título decorativo. Olga se afobou; Simon começava a se tornar grosseiro. De forma inesperada, foi a mulher-palhaço que salvou a situação: virou-se sorrindo para Simon, com uma gentileza tão evidente, que ele se tranqüilizou de vez. Brus­camente, Clarisse Lethuillier era o calor, a própria desen­voltura, era principalmente, apesar de toda aquela pintura, inimitavelmente amigável.

É engraçado o que o senhor está dizendo, sr. Béjard; foi exatamente a impressão que eu tive. Achei que Kreuze tocava Debussy de uma forma tão terna. . . tão triste. . . tão líquida como Chopin. . . mas não ousava dizer isso; esta­mos cercados de ouvintes tão conhecedores, aqui! Eu tam­bém não sou muito entendida.

Ora, Clarisse, você conhece música muito bem disse Eric, virando-se; não se deprecie assim todo o tempo de forma sistemática, ninguém vai acreditar.

Me depreciar? Mas como é que você quer que eu me deprecie, Eric? Para isso seria preciso que eu tivesse um valor qualquer. Ora, eu ainda não dei provas de valor, não é? Nem mesmo na música.

A voz era insolente e alegre, e Simon Béjard pôs-se a rir junto com ela, e tanto mais alegre quanto o belo Eric parecia furioso. Fitava Clarisse, e seus olhos tinham o azul clorado e frio da piscina de bordo.

Aos meus olhos, sim — disse —, você já deu suas provas! Isso não lhe basta?

Sim, mas, em todo caso, preferiria que fosse aos seus ouvidos...

Clarisse ria com uma expressão que escapava subita­mente de suas melancolias; provocava seu mestre e senhor:

Teria gostado no entanto de tocar cravo para você, Eric. . . Händel, todas as noites junto ao fogo, enquanto você corrigiria as provas do jornal.

Händel, diante de um bom velho armagnac, su­ponho.

E por que não? Assim como você prefere regar suas provas com xarope de cevada.

Simon fora esquecido na briga, mas continuava entusias­mado de a ter provocado. Levantou o punho direito de Clarisse e, adotando uma voz de baixo marselhês, declarou, sorrindo:

—    Clarisse Lethuillier, vencedora por nocaute técnico. — Mas o olhar que Eric lhe dirigiu estava vidrado de hosti­lidade.

Simon deixou cair a mão de Clarisse. Esboçou um gesto de desculpas, de pesar, mas ela lhe sorriu sem a menor expressão de temor ou constrangimento.

E se fôssemos tomar alguma coisa no bar? — per­guntou Simon. — Afinal, dois melómanos e dois incultos, o senhor poderia nos dar lições. ..

Pessoalmente não dou lições a ninguém — disse Eric, num tom que desmentia totalmente sua frase. — Além disso, acho que a Doriacci vai começar a qualquer minuto.

Clarisse e Simon, que já se levantavam, sentaram-se do­cilmente. Porque, de fato, os quatro projetores se acendiam e logo se apagavam e tornavam a acender, etc, sinais de que o programa começava. Olga inclinou-se na sua cadeira e murmurou ao ouvido de Eric: "Perdão. . . perdão por ele", com voz suplicante e um pouco teatral, que ela própria per­cebeu. Mas era porque ela estava realmente horrorizada! Como Simon podia oferecer álcool a Clarisse Lethuillier, que ele sabia ser uma alcoólatra inveterada? Invete. . . notória, ora! Como ousava ele falar naquele tom com o soberbo viking! Aquele homem de classe. E que renegava as castas! Porque afinal não era preciso ser hipersensível para percebê-lo: Eric Lethuillier era um homem ferido até o coração. . .

não, até os ossos. . . não, não, até a alma, era isso! Não! O que se tornava absurdo para ela era continuar. "Continuar perto de um sujeito que já não estimava: 'Já não assumia mais Béjard' (versão Micheline), ou 'Não suportava mais Simon' (versão Fernande)."

Em que está pensando? — dizia acremente o fu­turo excomungado. — Você não está com boa cara, foi o jantar que não lhe caiu bem?

Claro, claro. Tudo vai muito bem, eu lhe garanto — disse ela, horrorizada.

Como era possível ser tão vulgar, tão trivial? Olga, que se preparava para explicar sua meditação por uma com­paração poética e musical, parou de súbito: "Quase me caem os braços", pensou ela. "Pronto, os braços, Micheline, me caíram e. . ." Mas a última vez que utilizara essa expressão, Simon se pusera de quatro, fingindo procurar os braços dela no carpete, rindo às gargalhadas, porque era esse o gênero de coisas que o fazia rir. Havia uma raça de homens como ele a que essas coisas faziam rir, essas brincadeiras grosseiras. Havia mesmo muitos. No navio, por exemplo, pelo menos três, Olga sabia, tinham vindo para rir e aplaudir a máxima orgulhosa (e falsa, como ela ia lhe provar) de Simon Béjard a respeito do amor: "Divirto-me ou largo". Haveria Julien Peyrat, uma pessoa sedutora e pouco séria, de qualquer forma evidentemente inatingível; havia também o vaidoso Charley, que, apesar dos seus costumes, teria rido bem com os homens; e sem dúvida o gigolô louro chamado Andreas.

Olga já detestava Andreas por uma excelente razão: sua juventude. Pensava ser a única pessoa na casa dos vinte anos no navio, pensava representar ela sozinha a juventude e seu ardor e encanto, e vinha aquele lourinho com seu ar ingênuo, parecendo tão jovem quanto ela e talvez mais ainda, se ela o comparasse àquele. . . àquele cretino do Simon.

— Ah! esse garoto! — dissera-lhe Simon. — Se lhe apertarmos o nariz ainda sai leite.

Simon pensou assim tranqüilizá-la, mas a exasperara.

Acho que não tenho esse aspecto, imagino.

Ah! não. Pode ficar tranqüila, você nada tem a ver com esse moleque.

Só a idade — retificou ela.

Nem se pensa nisso — continuara o estúpido, o pulha, o desastrado Simon.

E naquela mesma noite, Olga puxou os cabelos para trás, num rabo-de-cavalo, para o jantar. Esses pensamentos sombrios foram interrompidos pela chegada da Diva. Doria Doriacci entrou em cena sob aplausos, e na mesma hora a arena desenhada no tombadilho pelos projetores, os especta­dores, o navio inteiro adquiriram um ar teatral. Fosse onde fosse, aliás, sua expressão furiosa, as pinturas e os strass criavam uma atmosfera dramática e deliciosa. A Doriacci, por um desses caprichos habituais, desprezara programas e decidira cantar naquela noite uma das grandes árias do Dom Carlos, de Verdi.

Instalou-se por trás do microfone suavemente, no seu vestido negro e brilhante, fixou um ponto imaginário na direção de Portofino, acima das cabeças dos espectadores, e se pôs a cantar com voz baixa e contínua.

 

Julien, diante dela, de início perplexo, constrangido pela proximidade física dessa voz, só tivera tempo de ser tranqüilizado pela sua compostura quando de súbito susteve a respiração, crispando-se no assento. Do busto imponente e ajustado num corpete negro, jorrara da Doriacci uma voz inesperada, a voz brutal e desesperada de alguém no cúmulo da raiva e do medo. E a pele de Julien arrepiou-se contra sua vontade. Depois essa voz distendeu-se, alongou-se numa nota, ficando rouca, demasiado rouca, voz de uma inocência lírica. Era um bramido amoroso que fazia agora sobressair as cordas de seu pescoço, rodeado contudo por um fio de pérolas bem-comportadas, e Julien discerniu, sob esses traços regulares, sob a inspiração controlada e o penteado burguês, a expressão arrebatada e cega de uma sensualidade sem freios. Desejou bruscamente aquela mulher, com um desejo perfei­tamente físico, e virou a cabeça. Foi então que viu Andreas, e a expressão dele o informou sobre a sua própria e o apazi­guou: de caçador o jovem Andreas tornara-se caça, o fervor já se misturava à cobiça, e Julien o lastimou.

De fato, Andreas esquecera seus planos ambiciosos e, de olhos fixos na Doriacci, repetia-se, como um leitmotiv, que precisava possuí-la a qualquer preço. Aquela mulher se tornara de modo brusco o romantismo, a loucura, o negro, o ouro, o raio e a paz, e de repente nada havia mais sobre a terra do que a ópera, suas pompas e obras e faustos, que sempre lhe tinham parecido sem verdade e sem vida. Ouvin­do a Doriacci cantar, Andreas se disse que lhe arrancaria, um dia, esse grito de outra maneira, e que faria essa voz grave liberar uma nota grave jamais atingida. Chegou mes­mo, na sua exaltação, a dizer que se fosse preciso até traba­lharia por ela e que se ela não o quisesse sustentar, ele a alimentaria: escreveria num jornal sob nome falso. Seria crítico musical, seria feroz, temido, até mesmo detestado pela sua severidade, exigência, empáfia, juventude e beleza aparentemente inutilizadas e que dariam o que falar. . . Sim, toda Paris falaria e se interrogaria em vão até o dia em que, de volta de uma tournée, a Doriacci se apresentaria em Paris, e ali, o artigo mais louco e mais apaixonado faria estourar a verdade à plena luz. Logo no dia seguinte sairia dos braços da Doriacci com o olhar cansado, feliz, e Paris compreenderia.

A Doriacci nem mesmo chegara a fazer uma saída, ape­sar da ovação de uma multidão delirante de entusiasmo. E verdadeiramente delirante, esta vez, mesmo admitindo-se que, para todos os passageiros, não ficar delirante de entu­siasmo todas as noites significaria que tinham sido embru­lhados, e embrulhados tanto por si mesmos como pela Com­panhia Pottin Frères. Gritavam pois "Bis, bis. . ." à Diva, que sorria e se negava com a cabeça, descendo do seu pedestal para o meio deles, pobres mortais. Era uma de suas mano­bras habituais, que tinha o mérito de impedir outras cha­madas. A Doria sabia por experiência que ninguém nesse público elegante e tão gracioso, por outro lado, ninguém teria a coragem e a ousadia de lhe gritar "bis" no rosto e a menos de um metro. Às vezes, lamentava não poder descer assim no Scala de Milão e passear no meio do público, como Marlene Dietrich entre os spahis de Gary Cooper,, mas isso não se fazia. Havia uma noção de solenidade indestrutível nessa personificação da Diva, sutileza que ela acreditou poder esquecer aos vinte e cinco anos e que se felicitava aos cin­qüenta e poucos de ter aceito. No entanto, Deus sabia que ela não era hipócrita, mas suas caçadas noturnas triviais te­riam por vezes perdido o sabor, se a cortina de ferro da celebridade não se tivesse abatido de cada vez nas abas do casaco do seu último amante, cravando-o no chão enquanto ela partia para outros lustros e outros amantes.

De fato, estava com fome, tinha vontade de comer pato com laranja e sobremesa gelada, tudo regado a Bouzy tinto e com gosto de fruta. Desejava também aquele jovem louro que a olhava sorrindo, de longe, e que passava de um pé para o outro sem ousar atacá-la. A Doriacci preparava-se para pedir a ajuda da mulher-palhaço, sentada perto dela. Abrira a boca para lhe falar quando Clarisse, num esforço supremo, conseguiu emitir um som. Tinha uma bela voz, e sem aquele excesso de pintura agarrado ao rosto teria mes­mo um bom aspecto. E depois, agora que ela lhe falava de música — o assunto que Doria Doriacci mais temia —, à medida que lhe contava a felicidade que sentira em ouvi-la, com uma voz um pouco quebrada e o olhar ainda diluído por essa felicidade, à medida que lhe agradecia, a Diva compreendia que já não estava tão só no navio, já que alguém mais, aquela mulher ridícula, também tinha sentido a Grande Felicidade, o que Doria Doriacci chamava de Grande Felicidade: a que ela e alguns privilegiados sentiam e que não era privilégio de casta ou educação, era o privilé­gio quase cromossômico que fazia com que se sentisse a Grande Felicidade diante da música, quando esta por acaso estivesse presente. Esse acaso gravava a música na memória, sob etiqueta, e na gaveta sempre meio vazia das Grandes Felicidades ou das Felicidades Perfeitas, lembranças cada vez mais vagas sobre o nascimento da Felicidade, mas lembran­ças cada vez mais precisas também sobre a realidade!

Essa jovem compreendia a Música e isso era bom, mas o cordeiro louro um pouco mais adiante já sentia um tremor nas pernas, na expectativa inconsciente do sacrifício. Um sacrifício que não tardaria, porque, agitando-se na porta do bar, com seus cachos de cabelos muito ruivos e seus brincos de ouro velho misturando-se uns aos outros, dando batidas curtas e secas com seus escarpins, como costumam fazer, ao que parece, suas congêneres antes de ir à carga, a cabra do sr. Séguin, sra. Bautet-Lebrêche, aprontava-se para se aproximar dela. De fato Edma as tinha visto e foi a galope de caça que correu para a mesa delas. Clarisse, estupefata, viu a Doriacci, maciça, imponente e quadrada escamotear-se literalmente entre duas mesas que não teriam deixado passar uma sílfide, tendo apanhado, num gesto de batedor de car­teiras, a bolsa, a piteira, o batom, o isqueiro e o leque de cima da mesa, e ir singrando até a porta do bar, tudo isso sem abandonar nem mesmo por um instante sua trágica altivez.

Clarisse não sabia, de fato, que a Doriacci, quando esco­lhia um homem, aprontava-se a imolá-lo no grande altar de sua cama de baldaquim, dando a toda a sua pessoa alguma coisa de fúnebre e pomposo, uma espécie de dor silenciosa e trágica que se atribuiria mais a Medéia do que à Viúva Alegre. Gelado, assustado, Andreas viu também com dilacefamento a sua bem-amada fugir majestosamente da pequena multidão, e já esperava vê-la desaparecer sem uma palavra e sem um olhar, nas profundezas e nos meandros dos corre­dores, quando, com o olhar fixo nela, viu-a virar ligeiramen­te a cabeça em sua direção. E, como um grande barco de três mastros arrastado pelo vento no seu curso e incapaz de frear sua marcha para poupar o pequeno veleiro, que iria dançar nas suas ondas e sem dúvida afundar, e como esse navio orgulhoso mas deplorável, deixando atrás de si alguns barcos de salvamento para tirar da água suas vítimas, a Doriacci atraiu com os olhos para si o olhar de Andreas: ao longo de seu corpo pendia a mão de unhas recurvas pintadas de púrpura. Um de seus dedos dobrados e virados para a palma da mão indicou-lhe duas ou três vezes, da maneira mais tri­vial e mais eloqüente, que sua desgraça estava longe de ser completa.

Simon Béjard entrou primeiro na cabina, esquecendo as boas maneiras, ou as que ele tinha, observou Olga La-mouroux, vagamente inquieta. Sentou-se no beliche e come­çou a tirar os sapatos de verniz, novinhos em folha, ao mesmo tempo que a gravata, a mão esquerda puxando o laço borboleta, a mão direita os cordões, numa postura vaga­mente simiesca. Pés e pescoço igualmente vermelhos emergi­ram desse instrumento de tortura, e foi só então que Simon olhou para ela. Um olhar tempestuoso. Olga deu alguns pas­sos pelo quarto, ondeante, alisando os cabelos com as duas mãos levantadas muito alto e com os olhos fechados. "Ale­goria do desejo", disse para consigo. Embora não estivesse certa se alegoria era a palavra certa. Deveria ter sido Simon a alegoria do desejo. Mas sua expressão amuada e sua postu­ra de equilibrista não o sugeriam. Olga virou-se um pouco mais para trás.

Naturalmente Olga vivia do seu talento e não do seu corpo, como lembrava sempre de bom grado, do que, aliás, estava quase persuadida. Isso não a impedia de recorrer aos encantos desse corpo quando os do espírito revelavam-se fu­nestos para sua carreira.

Ora, Simon disse ela gentil, afetuosamente até, com um risinho terno do mais gracioso efeito, e que "parecia que esse bruto nem mesmo notava". Ora, Simon, não fique zangado por causa da minha observação. Não é culpa sua se você não tem cultura musical. Não vai ficar a noite inteira emburrado como a sua ave-do-paraíso. . .

Minha ave-do-paraíso. . . Minha ave-do-paraíso, se­ria melhor dizer minha pata azeda resmungou Simon, um instante antes de olhar aquele corpo jovem, reto como uma espada, o jovem corpo de sua amante, e de admirar com uma espécie de dilaceramento estranho o longo pescoço liso, coberto de uma imperceptível penugem loura.

E a onda de raiva de Simon transformou-se numa onda de ternura num segundo; uma ternura tão aguda, tão triste, que sentiu lágrimas nos olhos e atacou violentamente os laços dos cordões dos sapatos, de cabeça baixa.

— Você conhece tantas outras coisas. . . Você é tão superior a mim, ora. A sétima arte, por exemplo. . .

Simon Béjard sentia-se mal. Estava de mal com ela por ter contrariado nele o homem novo, pronto a amar apaixo­nada, piedosa, gratuitamente todo esse universo que, sob o nome de arte, lhe fora de início estranho, em seguida ina­cessível e por fim hostil, tanto era invocado à sua custa pelos críticos de filmes. Essa arte reservada a uma classe social que ele desprezava e ao mesmo tempo desejava conquistar; todos esses quadros, todos esses livros, todas essas músicas eram, antes de mais nada, ele sabia, papéis frágeis, ou telas frágeis, as explicações fraternais e as tentativas de explicação de uma existência absurda em que se tinham acorrentado e aniquilado, na maioria das vezes, irmãos desconhecidos. E dos quais Simon se sentia ao mesmo tempo o herdeiro compreensivo e emocionado havia uma hora. Só dependia dele agora ascender a esse mundo. Tá não tinha necessidade da pedagogia condescendente de todas essas pessoas nem das explicações confusas e aborrecidas de Olga. Alguma coisa como uma solidariedade secreta, mas segura, o ligava agora a Debussy, como se tivessem feito juntos o serviço militar ou juntos conhecido seu primeiro desgosto amoroso. Nunca permitiria que alguém se interpusesse entre eles.

A sétima arte, vamos falar dela. . . — disse ele, arrancado ao seu furor por essa nova certeza. — Ah, a sétima arte! Você sabe qual foi meu filme preferido em toda a juventude? E eu vi muitos, já que, como lhe disse, eu acho, meu pai fez projeções no Eden, em Bagnolet, duran­te toda a guerra e depois dela. O meu preferido. . . Você jamais adivinharia. . .

Não — disse Olga, sem entusiasmo. (Detestava que ele falasse da família dele com essa desenvoltura. Um pai que era operador de projetores de cinema, uma mãe costureirinha. Não havia de que se vangloriar. Nem o que escon­der, naturalmente, naturalmente. . . Mas ela teria preferido que ele escondesse.)

Aliás, a própria Olga tivera o bom gosto, para não cons­tranger ninguém, de transformar a mercearia da mãe numa tecelagem e o pavilhão onde moravam numa quinta, que, apesar do que ele dizia, impressionara Simon Béjard: ela se perguntava se não seria a grande burguesa que ele aprecia­va nela. Sem rir disso.

—    Pois é, foi Pontcarral disse Simon, sorrindo enfim. Fiquei loucamente apaixonado pela lourinha, Suzy Carrier, que roubava Pierre-Richard Wilm a Annie Ducaux, irmã dela. Era a época em que virgenzinhas louras e castas ganhavam das vamps disse, a princípio distraído, para depois se interromper subitamente.

"Talvez fosse essa a razão de tudo", pensou ele. "Minha propensão a me envolver com as mocinhas em flor que me tratam friamente, e meu desprezo pelas mulheres da minha idade, com quem me sinto bem e que poderiam gostar de mim. Será que isso vem de Pontcarral? Seria tolo demais. . . Uma vida inteira orientada por Pontcarral. . . Isso só acon­tece a mim!", raciocinou amargamente, ignorando a que ponto poucas pessoas têm orgulho dos seus gostos e como são poucos os que são realmente atraídos pelo seu ideal. Ignorando a que ponto esse divórcio entre a idéia de si mesmo e os prazeres de si mesmo faziam terríveis estragos havia séculos e às vezes também boa literatura.

Mas. . . mas. . . mas eu ouvi falar de Pierre-Richard Wilm. . . — gaguejou Olga alegremente, como acontecia sempre que lembranças de Simon ou de um dos seus amantes coincidiam com algumas de sua própria infância. (Porque ela não se interessava pelos jovens da sua idade, perto dos quais a juventude dela não faria o mesmo sucesso.)

Naturalmente, mamãe tinha loucura por ele, Pierre-Richard Wilm.

Ela devia ser uma menininha, então. . . — disse Simon levantando os ombros.

E Olga mordeu os lábios, desta vez realmente. Tinha que prestar atenção. Ela conseguira subtrair Simon de suas férias em Saint-Tropez, onde teria que disputar com dez starlets. Conseguira levá-lo para aquele navio cheio de sep­tuagenários; agora precisava prestar atenção, para na empol-gação de seu próprio sucesso não exasperá-lo definitivamente. Simon tinha bom gênio, era pesadão, às vezes ingênuo, mas era um homem, como ele se obstinava em provar todas as noites, para grande aborrecimento de Olga. Porque, de tanto simular prazer, Olga já não sabia se alguma vez o sentira de fato. Mas sua frigidez só a inquietava em função desses jovens soberbos, ou conhecidos pelos seus dotes para as coisas do amor. Talvez fosse essa a razão pela qual havia dez anos ela só dormia com homens cuja falta de atrativos físicos ou grande atração material lhe permitissem acreditar na ausência dessa frigidez, na existência nela de uma grande amorosa, frustrada pelo destino. Afinal, para aquela noite, a entrega a que se constrangia parecia-lhe de antemão menos penosa que de hábito, já que, na medida em que a reconci­liaria definitivamente Simon, perdia o lado inútil, gratuito, breve, que sempre detestara nessas ligações.

Mas, dessa vez, a entrega não resolveria o problema, pois Simon, sem dizer palavra, tendo se enfiado no blue jeans que o apertava demais e numa blusa de malha, saíra fechando a porta sem mesmo batê-la.

Andreas ficara estupefato, a princípio, com a mímica inequívoca da Doriacci, quando ela deixara a sala, com o indicador imperioso, e uma ligeira reprovação se misturara à sua alegria. Na realidade, desde o início do que ele chama­va sua história de amor, Andreas sentia-se desassossegado. Sentia-se cada vez mais apaixonado pela Doriacci e culpado por isso: culpado de sentir um desejo que, de qualquer modo estava a priori decidido a declarar e comprovar. Nas suas idéias fantasiosas, ingênuas e cínicas, as mais exageradas, Andreas se via em geral contando as bagagens no vestíbulo de um hotel de luxo, via-se pousando um vison sobre ombros cobertos de diamantes, via-se dançando foxes lentos na pista célebre de uma boate noturna com a sua benfeitora. Nunca se via nu na cama, junto a uma mulher nua e desgastada, nunca se via lançado em gestos de amor, apesar de suas experiências, recentes mas numerosas. Nesse ponto, seus so­nhos eram tão castos como os que se atribuem às mocinhas do século XIX. E principalmente, em caso algum, podia sequer imaginar que o seu corpo se esquivasse: seu corpo, como um empregado, obedecia. Estava absolutamente certo, graças a algumas proezas nesse estilo, realizadas a frio e contra todos os seus gostos sensuais. Convinha dizer que em Nevers, durante o serviço militar, Andreas tivera que repri­mir seus desejos eróticos mais do que estimulá-los.

Ficou portanto inquieto com a emoção que a Doriacci lhe inspirava. Ela suscitava nele dúvidas, problemas, indaga­ções sobre sua virilidade. Indagações que uma completa indi­ferença sentimental bizarramente nunca lhe tinha provocado. Mas, ali, de repente, achava a Doriacci soberba. . . Soberba de ombros, braços, voz, olhos. . . Naturalmente ela devia ter um peso razoável, mas graças a Deus ela era bem menor de Pe nessa cabina do que cantando no palco. Quanto aos olhos, esses olhos imensos e admiráveis, faziam-lhe recordar, de forma totalmente desconcertante, os da tia Jeanne (um pouco mais maquilados, naturalmente. . .). Afugentou essas recordações perigosas, sabendo que, se se entregasse a elas, ficaria encolhido naquele ombro, a pedir-lhe com voz mimada soldadinhos de chumbo, enquanto precisava de relógios, um carro esporte, um pequeno apartamento, gravatas. Não devia ser lamentado, nem acarinhado, mas desejado. Desejado até a morte por essa mulher sublime, sua primeira mulher cé­lebre . . . Uma mulher que, além do mais, viajava sem cessar e o levaria em sua bagagem. . . Uma mulher que era real, viva, embora usasse de excessiva liberdade em suas palavras, uma mulher admirada, em todo caso, que não provocaria nos maitres-d'hôtel aquele olho vidrado e impassível que ele já enfrentara graças a algumas sexagenárias desavergonhadas do Haute-Loire. Neste caso não, ele seria invejado em vez do desprezado. E isso era importante para Andreas, que tinha grande preocupação com a respeitabilidade, herdada do pai, do avô e de todos os seus honestos ancestrais. Ah!, se ao menos as mulheres de sua infância, seu verdadeiro público, seu único público, pudessem vê-lo nesse momento, no apogeu de sua carreira e das ambições delas. . .

Todas essas idéias zumbiam na cabeça de Andreas en­quanto ele contemplava o imponente decote da Diva, que também o examinava, mas muito mais profissionalmente. Tinha o olhar exercitado, cru, do negociante de cavalos, mas Andreas sabia que era impecável: seu peso, os dentes (exceto o incisivo), a pele, os cabelos, tudo era impecável, ele se cuidava bem. E ela devia ter percebido também, pois o fize­ra entrar em sua cabina com uma reverência irônica, fechan­do a porta atrás dele.

Sente-se — disse; o que você gostaria de beber?

Uma Coca-Cola. Mas não se incomode, eu vou bus­car. Você também tem um barzinho na cabina, não é?

Esse barzinho particular encantara Andreas, afinal, pouco habituado ao luxo; mas não parecia ter provocado o mesmo entusiasmo na Doriacci.

No meu quarto! disse ela, refestelando-se no canapé de falso acaju. Eu prefiro um copo de vodca, por favor.

Andreas voou para o quarto de dormir, lançou um olhar encantado à grande cama antes de se servir no barzinho; rei­nava grande desordem na cabina, mas uma desordem sedu­tora feita de roupas, jornais, leques, partituras e até mesmo livros, mais para literários, como lhe pareceu, evidentemente muito lidos.

Trouxe um copo de vodca para a Doriacci e sorveu um grande gole de Coca-Cola. Batia-lhe o coração, morria de sede e de timidez. Não pensava propriamente em desejo.

— Você não toma alguma coisa para se pôr em forma? Você pode fazer isso assim, em jejum?

A voz tinha qualquer coisa de sarcástico, embora fosse afetuosa, e Andreas corou diante desse "isso" tão despido de romantismo. Esquivou-se precipitadamente:

Como era bonito o que você cantou! O que era?

Uma das grandes árias do Dom Carlos, de Verdi. Você gostou?

Ah, sim. . . Uma "maravilha! — disse Andreas com os olhos brilhantes. — Tinha-se a impressão, de início, que era uma jovem que cantava. E depois uma verdadeira mu­lher, terrivelmente feroz. . . Afinal, não entendo nada de música, mas gosto muito, é uma loucura. . . Talvez você pudesse me ajudar a conhecê-la. Tenho medo que minha falta de cultura a exaspere, à força de. . .

Não nesse campo, pelo contrário — respondeu sor­rindo —, mas em outros, sim! Não tenho gosto algum pelo ensino. Que idade você tem?

Vinte e sete — disse Andreas, envelhecendo-se ma­quinalmente três anos.

É muito jovem. Você sabe que idade tenho? Um pouco mais do dobro. . .

Não! — disse Andreas, estupefato. — Eu diria. . . pensaria que. ..

Ele estava sentado na borda da cadeira, no seu smoking novo e rutilante, com os cabelos louros como milho eriçados; ela passeava em torno dele com expressão divertida mas atenta.

Você não tem outras atividades na vida, além de ser melômano?

Não. E melômano é um pouco demais — acrescen­tou ingenuamente.

Ela deu uma gargalhada.

Não está na publicidade ou na imprensa? Não tem cobertura em parte alguma? Em Paris ou em outro lugar?

Eu sou de Nevers — disse ele miseravelmente. — Não existe jornal em Nevers, nem publicidade. Não existe nada em Nevers, você sabe.

E o que você preferia em Nevers — perguntou ela abruptamente —, os homens ou as mulheres?

As mulheres — respondeu Andreas com natura­lidade.

Ele não imaginava nem por um instante que essa prefe­rência confessada pudesse confessar também referências.

— Todos dizem a mesma coisa — resmungou a Do­riacci para si mesma, misteriosamente irritada.

Dirigiu-se ao quarto com o mesmo gesto demasiado convidativo que já envergonhara Andreas. Jogou longe os escarpins e esticou-se, completamente vestida, com os bra­ços atrás da cabeça, olhando para ele ironicamente; e olhando-o de cima, embora ele estivesse de pé e medisse um metro e oitenta. . .

— Mas sente-se. Aqui. . .

Andreas sentou-se perto dela, e a Diva outra vez do­brou o indicador na sua direção, mais lentamente porém, e Andreas se inclinou, beijou-a e espantou-se com a boca fresca que cheirava muito mais a hortelã do que a vodca. Ela se deixava beijar, passiva, aparentemente inerte, e por isso ele ficou duplamente surpreso quando ela avançou uma mão precisa e rápida para ele, pondo-se a rir.

— Fanfarrão — disse.

Andreas estava aturdido, mais de surpresa do que de vergonha; e ela devia ter percebido, porque deixou de rir e olhou-o com seriedade.

— Isso nunca lhe aconteceu?

— Não. . . E além disso você me agrada! — disse com um furor quase cândido.

Ela começou a rir e passou um braço em volta do pes­coço dele, puxando-o contra si. Andreas deixou-se levar, aninhou a cabeça no ombro perfumado e afogou-se logo em bem-estar. Uma mão hábil, divinamente inspirada, desabotoou-lhe o colarinho da camisa, permitindo-lhe respirar melhor, e pousou na sua nuca. Ele, por sua vez, estendeu uma mão que queria ser perita, mas tremia, para aquele corpo confortável e quente colado ao seu, procurou um seio, uma coxa, uma zona dita erógena, mas às apalpadelas, como num exercício mnemónico, e um tapa severo o interrompeu, ao mesmo tempo em que um rugido se levantava no peito sob seu ouvido:

— Sta tranquilo — disse ela severamente.

Mas inutilmente, porque, por si próprio, o corpo de Andreas continuava mergulhado numa letargia beatífica e mesmo desonrosa, mas que lhe parecia mais beatífica que desonrosa. "Ele estava perdido, liquidado, rejeitado...", tentava se dizer, "a grande chance de sua vida, a vida doura­da do belo gigolô Andreas estava começando a desaparecer." Mas o pequeno Andreas de Nevers estava tão satisfeito e tão quentinho que renunciou a qualquer futuro sonhado, à gló­ria, ao dandismo e ao luxo, a tudo, por esse quarto de hora de carinho, por essa mão pacífica sobre seus cabelos, por esse sono inocente que no entanto o deixava vencido, às portas do sucesso, sobre esse ombro de uma compreensão demasiado provisória.

Andreas Fayard, de Nevers, apaixonado e impotente, desonrado e encantado, adormeceu imediatamente.

Quanto à Doriacci, permaneceu por um momento no escuro, com os olhos abertos, fumando seu cigarro com rápi­das baforadas, com as sobrancelhas franzidas e um leve ba­lançar do pé direito, que acabou desaparecendo ao mesmo tempo que o franzido das sobrancelhas. Ela estava só, como de hábito. Só no palco, só em seu camarim, só nos aviões e mais freqüentemente só com esses gigolôs na mesma cama, sempre só na vida, se é que se pode dizer que alguém está só quando tem atrás de si a música ou se é amado pela música. Que sorte tinha tido! Que sorte tinha de ainda pos­suir isso: essa voz de potência infernal, essa voz que ela trei­nava para lhe obedecer como se treina um cão malvado, voz que tinha libertado com grande esforço, com a ajuda de Iousepov, o barítono russo Iousepov, que, como ela, no início, tinha tido medo dessa voz animal, e que por vezes à noite, depois dos exercícios, contemplava-lhe admirado a garganta, com um temor quase cômico, aliás, mas que a fazia corar como se ela estivesse grávida, habitada abaixo do tórax pelo feto já intocável de um vagabundo ou de um crimino­so. . . Graças a quem ela começara a trabalhar para seu su­cesso, graças a quem trabalhara até ele chegar. Um êxito que cheirava a patchuli, a casacos de peles, um êxito nessa car­reira onde não tinha nem tempo de amar, nem tempo para escutar música e do qual ela mal teria um dia tempo de sair, moribunda, e, sabendo-o, para um bastidor provavel­mente sujo.

Dizem que os americanos fazem agora um conhaque melhor do que o nosso dizia Simon Béjard com um ar de dúvida que lhe permitiu apanhar a garrafa com expressão severa, como se sua única preocupação fosse a de verificar esses boatos.

Engoliu um bom trago e ficou ainda mais firme quanto à superioridade francesa em matéria de bebidas alcoólicas.

Sim. . . Ficaria surpreso. Sinceramente, você não bebe, Peyrat?

"Ele vai ficar logo bêbado como um polonês", pensou Julien, aborrecido. Fazia uma hora que jogavam cartas, e Julien detestava depenar bêbados. Isso tirava toda a graça das coisas. Béjard lhe era simpático, mesmo que fosse apenas por causa da bestinha resmungona ("aliás, com seios muito bonitos", observava Julien conscientemente) que o acompa­nhava. O jogo que jogavam era divertimento para mulheres, e além do mais era demorado. . . Em duas horas ele só con­seguira tomar quinze mil francos do infeliz. Julien tinha dado um jeito para que fosse Simon a querer jogar, ele pró­prio meio que se esquivara, diante de testemunhas, para maior segurança. Não ia, por míseras partidas de cartas, demolir seu projeto Marquei, muito mais importante para seus recursos. Mas Simon agarrava-se a ele e a esse projeto de uma partidinha entre homens. Só estavam eles no tomba­dilho de luxo; e mais o infatigável Charley, que perambulava pelo tombadilho de popa com um grande pulôver branco jogado nos ombros, com um ar mais pederasta que um setter inglês.

Você tem uma sorte! comentava Simon, deixan­do-se vencer pela segunda vez. Se não estivesse tão longe da Austrália, eu diria que suspeito de sua mulher ou de sua amiguinha. Mas não seria delicado, você não poderia verifi­car. . . Aliás, esse provérbio é idiota, você não acha, Peyrat? Infeliz no jogo, feliz no amor. Eu, por exemplo, tenho cara de feliz?. . . Você acha que tenho cara de sujeito feliz no amor? Eu, sem brincadeira?. . .

"Essa não! Ele era dos beberrões reclamões", pensou Julien com aflição. Detestava instintivamente os relatos de homens para homens, fossem eles crus ou sentimentais. Julien pensou na palavra e nos termos sentimentais reser­vados às mulheres nas histórias de amor e de sexo, e disse tudo calmamente a Simon Béjard, que não ficou zangado, mas pelo contrário opinou com entusiasmo:

— Você tem toda a razão, meu velho. Aliás, mesmo as mulheres, eu acho que existem momentos em que deviam calar a boca. . . Por exemplo, não quero ser indiscreto, mas uma vez que é ela que está aqui. . . Eu falo dela — des­culpou-se junto a Julien, estupefato com aquela nova regra de discrição instaurada por Simon Béjard. — Então, por exemplo, Olga, moça sadia, de boa família burguesa, bem-educada e tudo o mais... de modo algum uma vagabunda, mas de modo algum mesmo. Pois é, na cama ela fala. . . fala como um papagaio. Isso me mata, a você não?

Julien estava contraído e enojado como um gato, divi­dido entre o riso e o escândalo.

— Evidentemente — resmungou ele —, isso pode ser uma desvantagem. . .

Ficara vermelho, sentia isso e se julgava ridículo.

Aliás, uma mulher que faz discurso parece puta de província, profissionalmente — insistia Béjard. — As mu­lheres distintas e as grandes putas fecham a boca, ao que parece. Eu sempre caí com tagarelas, eu. . . eu. . . papa­gaios, papagaios e patas. Ah! não é divertido ser produtor, meu velho! Essas fêmeas que correm atrás de você. . .

É curioso — comentou Julien, como se falasse con­sigo mesmo — esse navio chique, em que todas as mulheres são tratadas como fêmeas.

— Fica intrigado com isso, sr. Peyrat?

Alguma coisa na voz de Simon Béjard despertou a aten­ção embotada de Julien. O outro olhava-o sorrindo, e seus olhos azuis já não eram tolos como momentos antes.

— Você é avaliador onde mesmo. . . em Sydney? . . .

"Essa não!" Eles se conheciam. . . Julien pensara reco­nhecer Simon por ocasião de sua chegada triunfal, depois o esquecera. Mas o outro o conhecia e, pior ainda, o re­conhecia.

— Você está se perguntando, hem?... — Simon Bé­jard exultava. — Você está se perguntando onde, quando?

Infelizmente tenho memória demais para você. Você nunca vai descobrir, creio. Em todo caso não foi em Sydney, posso lhe afiançar. . .

Deixou seu ar de esperteza e, inclinando-se sobre a mesa, deu um tapa no braço de Julien, imóvel.

Sossegue, meu velho, sou um sujeito discreto.

Para me tranqüilizar completamente, você deveria aclarar minha memória disse Julien entre dentes.

"Vou ter que descer na próxima escala só por causa desse cretino. . . E já não tenho um tostão no banco. . . Adeus Marquet, adeus corridas em Longchamp, adeus prê­mio do Arco de Triunfo e o cheiro de Paris no outono..."

Você estava num navio menor do que este, na Fló­rida. E o navio era de um cara da Metro Goldwyn que havia lhe pedido que lhe fizesse um seguro de vida. . . Você tra­balhava na Herpert & Crook. . . Agora se lembra? per­guntou, vendo o rosto de Julien se iluminar de repente, desa­brochar mesmo, enquanto Simon achava que ele ficaria humi­lhado com essa recordação não muito prestigiosa.

Ah, sim. . . um período penoso disse Julien, embaralhando as cartas com mão enérgica. Você me meteu medo, meu velho.

Por que medo?

Simon Béjard tinha cartas horríveis, mas nem se impor­tava, esse novo companheiro era-lhe tremendamente simpá­tico. Não era pretensioso nem esnobe como o resto daqueles grosseirões, exceto a Doriacci.

Medo de quê? repetiu maquinalmente.

Também fui lavador de pratos disse Julien, rindo. E engraxate de sapatos na Broadway. . . Menos brilhante, não acha?

Farsante, vamos. . .

Ele recomeçou a perder com aplicação. Tinham-lhe dito alguma coisa a respeito desse belo corretor de seguros, mas não se lembrava o quê. Em todo caso era um cara a ser cultivado, um sujeito sem pretensão, mas não sem enver­gadura.

Você sabe por que me agrada, Peyrat? Vou lhe dizer.

Ora, diga respondeu Julien. A propósito, bati.

Azar disse Simon, perdendo cinqüenta pontos. Então, vou lhe dizer por quê: há duas horas que jogamos, e você ainda não me propôs uma história, um assunto, nem mesmo um livro que poderia resultar num filme extraordi­nário. . . Entretanto isso não pára nunca. Desde que fiquei cheio da grana, e isso é público, as pessoas não param de inventar histórias para que eu as filme, a vida deles, de suas amantes, todos! Têm idéias, idéias geniais que ninguém teve antes e que dariam um filme fabuloso; vou lhe dizer, Peyrat, fora o fisco e os mordedores, é o que há de pior na minha profissão, quando há sucesso, quero dizer. Todo mundo joga suas idéias em cima de você como se joga um osso a um cão. Só que, no caso do cão, eles não esperam sua volta com um lingote de ouro nas mandíbulas. . . Mas de mim, sim.

É o preço do sucesso — respondeu Julien tranqüi­lamente. — Roteiros fabulosos e amiguinhas intelectuais fazem parte do status, não é verdade?

Exatamente. . . — Simon tinha os olhos injetados e sonhadores. — Quando penso que sonhei com isso, que toda a minha vida sonhei com isso — com um movimento da mão designava o navio e o mar brilhante e negro em torno —, e aqui estou eu. . . Consegui o Grande Prêmio de Cannes, sou o produtor mais famoso da França, estou num navio com gente chique e tenho uma amiguinha bem-apanhada, que além do mais ainda tem muito miolo. Tenho um belo saldo bancário e me chamo Simon Béjard, produtor. Devia estar contente com tudo isso, já que era o que eu queria, não acha?

Assumira uma voz patética, irritante para Julien, que levantou os olhos:

E então, você não está feliz?

É, não está mal, finalmente — disse Simon Béjard, após um instante de silêncio em que pareceu se auscultar. — É, sou até. . . bastante feliz.

Estava com um ar tão intrigado que Julien caiu na gargalhada e interrompeu a partida. No dia seguinte, ainda deixaria Simon Béjard perder. Mas naquela noite, achava-o um pouco simpático demais para continuar.

Clarisse encontrava-se na banheira, entregue a duas vo­lúpias: água quente e solidão. Sonhava. . . sonhava que estava só numa ilha, que um cão e uma palmeira a esperavam para brincar com ela e nada mais. Chamaram-na. Ela se enrijeceu, voltou os olhos na direção daquela voz, trazida à triste realidade. Eric Lethuillier esperava que acabasse o banho para poder escovar os dentes. Clarisse lançou um olhar ao relógio: oito minutos. . . Havia oito minutos que ela estava ali, oito infelizes minutos. . . Levantou-se e enfiou o roupão acolchoado, apesar do ridículo monograma do Narcissus, que parecia napoleónico, e escovou os dentes de­pressa. Não tinha tirado a maquilagem antes de entrar no banho, e o vapor da água quente diluíra-lhe a pintura, traçara rios sobre seu rosto, tornara-a "ainda mais grotesca que de hábito", pensou com aquele deleite amargo que sentia cada vez mais amiúde ao se ver nos olhos dos outros, como no seu espelho.

Clarisse. . . eu sei, você ainda não acabou, mas estou cansado, minha querida. . . São as minhas primeiras férias nos últimos dois anos, queria tomar um banho e dor­mir, se não fosse lhe pedir muito.

Já vou respondeu ela.

E sem tocar naquela maquilagem desastrada saiu do banheiro para encontrar Eric na mesma posição em que o deixara: com as duas mãos apoiadas nos braços da poltrona, a sua bela cabeça jogada para trás, os olhos fechados e exi­bindo uma expressão de cansaço e de tolerância absolutos.

Eric, eu lhe pedi para tomar banho antes de mim. Por que você não quis?

Uma questão de cortesia, minha querida. As regras elementares da polidez. . .

Mas, Eric interrompeu bruscamente —, as regras de polidez não o obrigam a transformar meu banho da noite num jogo de pegador. Adoro ficar deitada numa banheira, é o maior luxo da vida; parece-me, cada vez. . .

Desde que você esteja deitada, estará contente de qualquer modo. Fico me perguntando se esta viagem lhe dá realmente prazer; se não me esforcei para fazer este cruzeiro com alguém que não se diverte com isso. . . Você tem um ar tão triste! Parece estar se aborrecendo. . . Todo mundo vê isso; aliás, todo mundo fica constrangido. Afinal, não gosta mais do mar? Nem da música? Pensava que a música, em todo caso, fosse o que lhe restava, fosse a sua grande paixão. . . a última que lhe resta, mesmo.

Mas, certamente, tem razão — disse Clarisse com voz apagada. — Não seja tão impaciente!

E, sentando-se na cama, puxou as pernas para junto de si para que Eric não tropeçasse nelas no seu passeio de um lado para outro, enquanto se despia. Ficava à direita, à es­querda, atrás dela, estava em toda parte. . . Em toda parte sentia-se à mercê daquele olhar depreciativo e malévolo. Além disso, lhe dava vertigem.

Eric — disse —, eu lhe peço, pare de andar. Diga-me, Eric, por que você está sempre contra mim?

Contra você? Eu? Você é incrível!

Caía na gargalhada. Ria, estava encantado: recomeçara o assunto amargo de suas relações afetivas, um assunto que adorava que Clarisse trouxesse à baila, pois era o ponto em que ele podia lhe dar maior número de golpes, finalmente. Assunto de que ela fugia sistematicamente e que só abordava quando à beira do pânico, privada de amigos, de possibili­dade de retirada, de espaço vital. Clarisse não resistiria ja­mais aos dez dias com esse estranho hostil. . . Era preciso que prometesse poupá-la durante esse cruzeiro, que pelo menos não lhe demonstrasse abertamente esse desprezo incessante, esse desprezo tão sincero que ela acabara por compartilhar.

— Contra você? Eu? . . . É o cúmulo! Ofereço-lhe este cruzeiro delicioso, porque sou eu, Eric, seu marido, e não a família Baron, advirto-a, que financia esta expedição. Levo-a num navio para escutar seus dois intérpretes preferidos, não é? Se tenho boa memória. . . Dou um jeito até para poder acompanhá-la, para evitar que fique demasiado só, ou que faça tolices, e para compartilhar com você alguma coisa, afinal, alguma coisa além do dinheiro e dos objetos que ele pode comprar. E você me considera malévolo?

Ela ouvia-o com uma espécie de fascinação. Estavam sós, entretanto. Estavam sós, não havia ninguém a quem demonstrar mais uma vez seu comportamento perfeito e a ingratidão dela. Mas Eric não vivia mais um só momento da sua vida sem público e comentários: representava perpetua­mente. Muito breve seria incapaz de um "passe-me o pão" sem lhe perguntar o preço da bisnaga. . . Por que seria ele incapaz de lhe dizer enfim o que tinha a dizer? Que a detes­tava? E se ele a detestava, por que viera no último momento se reunir a ela? Seria a simples certeza de que a companhia dele lhe estragaria a viagem, isso ele sentia, seria possível que esse triste estado fosse de fato bastante para decidi-lo? Fazê-lo abandonar o jornal, os colaboradores, seus compa­nheiros de política, sua corte, o areópago beato que ele prati­camente não podia mais dispensar havia alguns anos?

— Por que você veio, Eric? Diga-me.

Eu vim porque adoro música. Você não tem a exclusividade desses prazeres. . . Beethoven, Mozart, são músicos populares. Minha própria mãe, na sua incultura total, adorava ouvir Mozart e distinguia-o de Beethoven melhor do que eu.

Gostaria muito de ter conhecido sua mãe — disse Clarisse, debilmente. — Será um dos meus remorsos. Você me dirá que me bastará juntá-los aos outros para que ele se afogue na multidão!

— Mas não precisa ter remorsos!. . .

Vestido só de cueca, Eric deambulava pelo quarto pe­gando os cigarros, o isqueiro, o jornal, preparando-se para a deliciosa meia hora na água quente, aquela água quente da qual ele a tirara sob o pretexto de cortesia. . .! Não havia razão alguma para que ele desfrutasse essa felicidade mais tempo do que ela. A essa idéia, uma cólera, um incêndio de raiva correu-lhe nas veias, e ela entregou-se à fúria com uma complacência e um medo igualmente fortes. Era agora a menininha de dez anos, a queridinha da professora, a escolar, a criança mimada dentro dela que se opunha a Eric. Era ela que reclamava o banho, o lanche e o conforto com bastante acrimônia para resistir ao fatalismo e à submissão resignada de Clarisse adulta. E que resistia a isso com energia e má fé, as únicas defesas que a lealdade insuspeitável, o espírito de justiça e o sentido de decência demonstrados da manhã à noite por Eric não podiam vencer, nem persuadir e muito menos culpar. Já não se tratava da mulher apaixonada que se debatia num amor cruel, já não era a mocinha que recusava as lições do seu Pigmalião, que se tornara sádico e impie­doso, era uma garota suja, egoísta e voluntariosa, que ela nem se lembrava de ter sido, e que se rebelava.

Não precisa ter remorsos — ralhava Eric. — Seria antes eu a tê-los. Fui bastante tolo para acreditar que se podia mudar de classe, que se podia, por amor, renunciar a certos privilégios e escolher outros mais preciosos aos meus olhos. Eu me enganei. Você não tem culpa nenhuma.

Mas em que se enganou? Porque eu o decepcionei, Eric. Seja claro nesse ponto.

Claro? A auto-suficiência, a covardia, a brutalidade dos grandes burgueses franceses que você herdou de seus avós não são conscientes em você, são instintivos. Por exem­plo, você me pede para levar minha mãe à casa de sua famí­lia. Ora, eu já lhe disse: minha mãe foi empregada domés­tica, faxineira, se prefere, toda a minha adolescência, para dar de comer a mim e a si própria. E você quer que eu a leve a sua casa, onde qualquer dos seus quadros teria dado para nos fazer viver cem anos?. . . Minha mãe é a única mulher que eu estimo profundamente. Não quero humilhá-la com seus faustos.

A propósito, Eric, por que você diz sempre que sua mãe foi doméstica em Bordeaux? Ela trabalhava nos Correios, Telégrafos e Telefones, segundo me disseram.

Clarisse fizera a pergunta ingenuamente, mas Eric ves­tiu a carapuça, empalideceu e virou para ela um rosto convul­sionado pelo furor. "Ele conseguia até ficar feio, por mo­mentos", pensou ela. E ela até conseguia achá-lo feio. O que era um progresso imenso, de certo modo.

Ah, sim? E posso perguntar-lhe quem lhe disse isso? Seu tio? Alguém de sua família que achou isso mais chique do que ser faxineira? Alguém que conhece melhor minha vida e minha infância do que eu próprio? É verdadei­ramente espantoso, Clarisse!

Mas foi seu redator-chefe, ele próprio. Foi Pradine que disse isso outro dia, à mesa. Não ouviu? Mandei-o a Libourne entregar o presente de Natal a sua mãe, já que você não queria convidá-la. Ele passou por lá e encontrou-a no Correio de Meyllat, um nome assim, onde ela, aliás, pare­cia dirigir tudo com mão de mestre. Achou-a mesmo encan­tadora.

É uma calúnia — disse Eric, batendo com o punho na mesa para estupefação de Clarisse. — Vou despedi-lo. Não suporto que tentem rebaixar a minha mãe.

—    Mas não vejo em quê. . . Por acaso é infamante trabalhar nos Correios, mesmo se fosse mais honroso tra­balhar como doméstica. . . ? Há momentos em que não o compreendo de modo algum.

Ela procurava-lhe os olhos, mas Eric fugia de seu olhar, pela primeira vez em muito tempo. Em geral era ele quem fixava os olhos duros nela, examinava-lhe o rosto atenta­mente, parecendo perceber nele traços de corrupção ou tolice em número bastante impressionante para que ela se virasse muito depressa, humilhada, antes mesmo que Eric tivesse aberto a boca. Uma veia salientava-se em sua têmpora direi­ta, pondo em destaque uma pinta marrom plana, única falha no plano estético de Eric Lethuillier. Ele já se controlara.

Não vou tentar mais uma vez inculcar-lhe meu senso de valores, Clarisse. Saiba pelo menos que é o oposto do seu. E não se ocupe mais com a minha família, por favor, do mesmo modo que não me ocupo com a sua.

Eric de repente Clarisse sentia-se farta, esgota­da, e no fundo de uma tristeza mortal no seu leito estreito, coberta com os lençóis. Eric, você passa uma parte de sua vida com meus tios. . . e quando não é com eles, com os homens de negócios deles. E você é tão perfeitamente polido com eles, tão agradável, ao que parece, indulgente mesmo!

Indulgente? Eu? Seria realmente o último adjetivo que eu me atribuiria! Que aliás alguém me atribuiria em Paris ou em outro lugar.

Oh! Estou certa continuou Clarisse, fechando os olhos; conheço bem sua intransigência, Eric, e sei também que foi para me dar prazer que pagou este cruzeiro e que me faz companhia. Sei de tudo isso. . . Você tem sempre razão, e estou sendo sincera. Há momentos em que me é absolutamente indiferente estar errada, é só isso.

Esse é o privilégio da fortuna, minha querida Cla­risse. Os ricos podem-se permitir estar errados e até mesmo confessá-lo. Como pude acreditar que você escaparia a todos esses privilégios?

Como você pôde crer que eu mudaria de classe? É isso? Ignorava então "que não se muda de classe".

Ela imitava-o. Imitava-lhe a voz, e quase ria:

E então, você mesmo, Eric, como é que fez para mudar de classe?

Ele bateu com a porta atrás de si.

Tinha uma resposta como um açoite para lhe dar ao sair do banheiro meia hora mais tarde, mas Clarisse dormia, com o rosto limpo de toda aquela pintura, entregue, virada para a direita, na direção da porta, subitamente, com um ar infantil e pacificado. Quase sorria, dormindo. Havia nela alguma coisa que ele não conseguia destruir. Por vezes, como agora, pressentia que jamais conseguiria destruir alguma coisa nela, que tentava desesperadamente ligar à sua fortuna mas que, sabia muito bem, nada tinha a ver com isso, algu­ma coisa que se parecia estranhamente com a virtude. . . Ela se defendia com isso. . . lutava. E, no entanto, não tinha retaguarda, nada tinha. Ele a destituíra de tudo, dos amigos, dos amantes, da família, da infância e do passado. Desti­tuíra-a de tudo, até mesmo de si própria. E contudo, de tempos em tempos, ela sorria misteriosamente, como se fosse a primeira vez, a um desconhecido invisível para Eric.

O sol estava cinzento nesse terceiro dia de cruzeiro, velado pelas nuvens, de um branco ferroso e abafante. Tendo Julien decidido na véspera, em Porto-Vecchio, num grande impulso esportivo, atravessar a nado a piscina, encontrava-se às duas horas, só, de calção de banho, esbranquiçado e frio­rento. E mais deprimido ainda por se sentir inspecionado, e sem dúvida ridicularizado, pelo grupo dos Bautet-Lebrêche, vestidos e instalados nas espreguiçadeiras acima dele, no bar da piscina. Estava perplexo: entrar na água pelo lado raso era impossível ao seu orgulho, e entrar pelo lado fun­do, igualmente impossível por se sentir enregelado. Ficou então sentado na borda, com os pés e a barriga das per­nas mergulhados na bela água azul, clorada, perdido na contemplação dos próprios pés. Pareciam-lhe desconhecidos e lamentáveis, como acrescentados aos tornozelos, devido à sua posição pendente e à refração da água. Para se tranqüili­zar, Julien tentou agitar os dedos, e teve de admitir que não o conseguia: o dedo mínimo permanecia imóvel apesar das mudas exortações, enquanto o dedo grande movia-se no seu lugar e até gingava (como se Julien pudesse se iludir com essa manobra diversionista); lutou por um momento contra essa anarquia e resignou-se; afinal era normal que esses infe­lizes dedos dos pés, todo o inverno fechados nos calçados, todo o inverno imobilizados nas meias, esses dedos dos pés que ele nunca olhava, que só tirava das jaulas para lançá-los na escuridão dos lençóis, que só levava em consideração quando os comparava com os de uma nova conquista, e sempre mais ou menos em seu detrimento, era normal que esses escravos, de tanto viverem em grupo sob o nome único de pé, uma vez estendidos ao sol se tornassem incapazes de qualquer iniciativa individual. Não era uma meditação muito brilhante, dizia a si mesmo Julien, mas estava amplamente à altura da conversa que se desenvolvia acima de sua cabeça e aue era. contudo, animada.

A sra. Bautet-Lebrêche, vestida na moda das moças dos anos 30 e mais ruiva ao sol do que sob a luz elétrica, conduzia o debate com sua vivacidade costumeira. Eric Le-thuillier, muito elegante numa blusa de cashmere e uma calça bege, Olga Lamouroux, exibindo sob sedas indianas um bronzeado sedutor, e Simon Béjard, tentando em vão ame­nizar com um pulôver carmesim o vermelho dos cabelos e do nariz, estavam defronte dela. A chegada do pianista e maestro Hans Helmut Kreuze num blazer branco esporte de botões dourados, com o boné na cabeça e uma espécie de boxer horrível na correia, acabava de completar o ele­gante ecletismo daquela assembléia.

Acho horrivelmente pessimista — estava dizendo Edma, com expressão magoada, a Eric Lethuillier. Este aca­bara de descrever o êxodo dos vietnamitas e o massacre dos refugiados em termos especialmente atrozes.

Infelizmente ele tem razão! — disse Olga Lamou­roux, sacudindo tristemente os cabelos ao sol. — Chego a temer que esteja aquém da verdade.

Ora, ora — resmungou Simon Béjard, que, com a ajuda de dois martínis secos, sentia-se antes levado para o otimismo. — Ora, tudo se passa longe: nós estamos na França. E na França, quando os negócios andam, tudo anda

—    concluiu, bonachão.

Mas foi um silêncio desaprovador o que se seguiu a essa informação, conquanto tranqüilizante, e Olga deixou vogar para o lado do horizonte um olhar desolado. Não lan­çara a Eric Lethuillier, como ardorosamente desejaria, aquele sorriso aterrado ou aquele piscar de olhos imperceptível, que o fariam compreender sua indignação; pelo contrário, fugira ao olhar dele: o papel da mulher leal e estóica devia parecer mais adequado a Eric do que o da renegada. Aliás, não valia a pena, com Eric seguindo sem esforço a evolução dos seus pensamentos. "Essa cretinazinha está querendo realmente que me ocupe dela", pensou, olhando fumegar na direção do leste os destroços da Indochina, como ele a descrevera.

— Eu ainda não vi a Doriacci ao sol — disse Edma, que classificava havia muito tempo as diversas atrocidades perpetradas neste vale de lágrimas sob a etiqueta "assuntos políticos". Os assuntos políticos a aborreciam até a morte.

—    Confesso que isso me intriga! Depois que se viu a Do­riacci em Verdi, na Tosca ou mesmo em Electra, como on­tem, só se pode imaginá-la lívida e flamejante no escuro como uma tocha, as jóias, os gritos, os clamores, etc. Em nenhum momento se pode imaginá-la numa cadeira de tom­badilho em roupão de banho, bronzeando-se ao sol.

A Doriacci tem uma pele muito bonita disse distraidamente Hans Helmut Kreuze.

Mas logo, sentindo-se trespassado por alguns olhares irônicos, corou num balbucio:

Enfim, uma pele muito jovem para a idade que, como se sabe, ela tem.

Edma reagiu imediatamente:

Então, veja bem, caro mestre, eu creio, estou mes­mo certa, sim, certa acrescentou ela não sem uma surpre­sa visível por se sentir certa de alguma coisa de que quando se ama apaixonadamente sua arte, por exemplo, quando se tem a chance de exercer uma arte, quando se ama alguém de bem, ou mesmo quando se ama muito simples­mente a vida com "V" maiúsculo, não se pode envelhecer: nunca se envelhece, a não ser fisicamente. E isso. . .

Nisso a senhora tem razão continuou Simon, en­quanto desta vez Eric e Olga trocavam um olhar. A mim, o cinema sempre me fez esse efeito: quando vejo um bom filme, sinto-me rejuvenescido trinta anos. E depois, além disso, não sei se é o ar do mar ou a atmosfera do Nar-cissus. . . mas esta manhã, por exemplo, nem li os jornais. . . Fica-se isolado de tudo, é tão agradável!

Mas a terra ainda assim continua girando disse Eric Lethuillier com voz fria. Este navio é dos mais bem-servidos, mas existem outros, aos milhares, muito me­nos confortáveis e muito mais povoados que vão ao fundo no mar da China neste momento mesmo.

A voz dele era tão neutra, tão átona de tanto pudor, que Olga emitiu um pequeno assobio de tristeza e de horror. Hans Helmut Kreuze e Simon Béjard olharam para os res­pectivos sapatos, mas Edma, depois de ter hesitado um ins­tante, decidiu rebelar-se. Sabia-se, esse Lethuillier tinha um jornal de esquerda: mas nunca sofrera frio, fome ou sede. . . Acabara de embarcar num navio de luxo, e ele não ia atirar-lhes os horrores da guerra à cabeça todas as manhãs daquele cruzeiro. Afinal, Armand Bautet-Lebrêche também trabalha­va duro todo o ano e estava ali para descansar. Assim, com dois dedos, ela tapou os ouvidos, num gesto bem visível, antes de fixar em Eric um olhar severo:

Ah, não disse —, meu querido amigo, por favor. Você vai me tachar de egoísta, de cruel, mas tanto pior: nós estamos todos aqui para descansar e esquecer esses horrores.

Nada podemos fazer, não é verdade? Não, nós estamos aqui para apreciar tudo isso — e com a mão desenhou uma larga parábola em direção ao mar alto — e ainda tudo isto... — e acabou sua parábola com o indicador direito, que ela tirou do ouvido para apontar o peito de Hans Helmut Kreuze, que, surpreso na sua miopia e rigidez, cambaleou um pouco.

— A senhora tem razão, absolutamente toda a razão. . .

Era Eric que, de forma completamente inesperada, ce­dia às injunções de Edma, ele próprio fixando um ponto deliberadamente a noroeste, para deixar o campo bem livre, poder-se-ia dizer, a todas as formas de divertimento ocidental fúteis e inconscientes. Olga lançou-lhe um olhar espantado e inquietou-se pela sua palidez. Eric tinha os maxilares cerra­dos, ligeira transpiração sobre o lábio superior e mais uma vez Olga sentiu admiração: o homem tinha um tal domínio sobre si mesmo, uma tal cortesia, que conseguia amordaçar esse grito interior, essa revolta diante do egoísmo dos gran­des burgueses. Olga seria menos admirativa se ela também, como Eric um momento antes, tivesse sentido o hálito do buldogüe nos tornozelos. O animal, de fato, até então paci­ficamente sentado aos pés do dono, repousando seus velhos músculos depois de uma pequena corrida, começava a se aborrecer. Resolvera portanto fazer o reconhecimento desses indivíduos indesejáveis e começara sua inspeção por Eric. Estava ali bufando, de olhos semicerrados, músculos visíveis sob a pele já corroída em certos pontos, a baba pendente, o ar feroz por herança, treinamento e gosto. E rosnava suave­mente, com um pequeno assobio ameaçador entre dois ros­nados, como o que precedia a chegada de uma bomba duran­te os bombardeios.

— Estou bem contente por estarmos de acordo sobre isso — disse Edma Bautet-Lebrêche ao mesmo tempo tran­qüilizada e decepcionada por essa falta de resistência. — Só vamos falar de música, se estiverem de acordo, queridos amigos: sim, vamos desfrutar nossos artistas — e passou o braço com um gesto carinhoso sob o de Hans Helmut Kreu­ze, que, surpreso, deixou cair a correia do cão.

Por sua vez, Simon empalideceu, pois o terrível animal puxava de leve suas calças; e suas presas, embora amareladas pela idade, ainda eram enormes. "Certamente é um cão dro­gado, além do mais", disse consigo. "Esses alemães são deci­didamente incorrigíveis! Esse cão porco vai com certeza es­tragar minhas calças novas." Ao mesmo tempo que conser­vava uma imobilidade estóica, lançava um olhar suplicante para Kreuze.

O seu cão, maestro. . . — disse ele. — O seu cão.. .

Meu cão? É um buldogue da Pomerânia Oriental. Ganhou quinze pequenas taças e três medalhas de ouro em Stuttgart e em Dortmund! São animais muito obedientes, muito bons guarda-costas. É verdade, sr. Béjard, que o se­nhor comparou Chopin a Debussy, ontem à noite?

Eu? Mas. . . Oh!, de maneira alguma — declarou Simon. — Não, mas acho que seu cão — indicava com o queixo o monstro agarrado cada vez mais solidamente a sua perna — está muito interessado em minhas tíbias, sem brin­cadeira. . .

Sem querer murmurava, sem conseguir interessar Kreuze.

O senhor sabe que há tanta diferença entre Chopin e Debussy quanto entre um filme de. . . vejamos, veja­mos. . . Ah! não encontro o nome que procuro. Ajude-me. . . Hã. . . Becker. . . Hã, um diretor francês muito leve, muito diáfano, compreende?

Becker! soprou Simon aos latidos: — Becker! Feyder! René Clair! Enquanto isso o seu cão vai me rasgar as calças!

Murmurara mais do que proferira a última frase, porque o cão começara a rosnar surdamente diante da resistência daquela perna em se deixar levar e despedaçar, e agora puxa­va com inacreditável vigor.

— Não, não é esse o nome. . . — continuava Kreuze, com ar descontente.

E o outro insistia agora com suas idéias de leveza, a coisa mais longe dele, naturalmente. Simon puxou com uma sacudidela violenta a perna direita até a altura da perna es­querda, e o cão lançou um ganido sinistro de despeito antes de recomeçar o assalto. Mas o animal, para felicidade de Simon, estava à beira da cegueira e optou por acaso pelas calças mais próximas, que eram agora as de Edma Bautet-Lebrêche, calças de gabardina branca de corte perfeito, de que ela fazia muita questão. Edma, não tendo o estoicismo masculino, lançou um grito penetrante:

Seu cão sujo — gritou. — Largue-me já. Que hor­ror! — Mas ele fechava definitivamente, ao que parece, suas presas sobre o precioso tecido branco, escapando por pouco de atingir a elegante panturrilha da bela Edma. Não se achando no centro do pequeno grupo a ela dedicado, Edma era uma pária entre estrangeiros decididos a salvar suas per­nas. Simon, vendo-se fora de perigo, chegou mesmo a rir.

Mas façam alguma coisa! gritava Edma, fora de si. Façam alguma coisa, esse cão vai me morder. Ele já mordeu, aliás. Charley? Onde está Charley? Enfim, sr. Kreuze, segure seu animal!

O rosnar do cão tornara-se medonho. Fazia tanto baru­lho como um aspirador de pó de alta potência, e o próprio Kreuze mostrava sua incapacidade ao olhá-lo.

Sr. Béjard, faça alguma coisa suplicou Edma, que sabia nada poder esperar de Lethuillier, nem do marido. Peçam socorro!

Acho que cabe ao brutamontes agir protestou Simon.

Fuschia! trovejou o brutamontes, roxo e baten­do com o pé no chão sem êxito. Fuschia! Aus komm schnell!

A raiva sobrepujava o medo de Edma Bautet-Lebrêche, e ela acabaria por apertar o pescoço do impotente Kreuze com suas mãos brancas, mesmo com Fuschia ainda pendente de sua calça, se Julien não tivesse chegado ao local do drama em roupão de banho, com ar satisfeito. Seguira todas as peripécias do incidente e, nada temendo, mais por incons­ciência do que por coragem, segurou Fuschia pela pele do pescoço. Demonstrando o vigor nervoso próprio dos turfistas, lançou-o a cinco passos, rosnando de indignação e de susto. Fuschia não acreditava nos seus sentidos. Habituado ao res­peito mais completo ou ao medo mais servil, da parte do seu dono inclusive, não podia compreender o que lhe acon­tecera. Do mesmo modo que a idéia de ser tratado de "bru­tamontes" ultrapassava seriamente a compreensão de Kreu­ze, a idéia de ser maltratado por um bípede ultrapassava a compreensão de Fuschia. Ficou boquiaberto por um curto instante, com as presas deixando cair um pedacinho de ga­bardina branca assinada Ungaro, e adormeceu logo em segui­da. Mas Edma estava no pólo oposto da sonolência: com os cabelos ruivos eriçados em torno da cabeça, sua voz ultra­passou os limites do agudo a cem metros dali; no tomba­dilho de popa, o homem de vigia imobilizou-se e viu passar acima de sua cabeça uma gaivota com um espanto mesclado de respeito. Armand, que interviera demasiado tarde, como de costume, agarrado com toda a sua pequena estatura aos braços agitados da mulher, tentava acalmá-la, infligindo a intervalos regulares uma ligeira e obstinada tração nos ante­braços de Edma, que tinham se tornado musculosos de furor.

"Ele adotara a mesma postura que Fuschia um pouco antes", observou Julien involuntariamente. Mas não se podia pensar em fazê-lo seguir a mesma trajetória!. . . Apesar disso!. . . Julien tinha repugnância instintiva pelos grandes magnatas, pelos grandes êxitos, sobretudo quando eram fruto de obstinação e de inteligência prática. Suportava melhor as fortunas surgidas por acaso ou oportunismo. A propósito e muito curiosamente, aliás, para um trapaceiro profissional, Julien tinha grande respeito e grande atração pela sorte pura. Todos os anos, depois de a ter forçado durante inúme­ras noites, ia com regularidade se submeter, da roleta ao bacará, a todos os caprichos da sorte, bruscamente tratando como grande dama aquela que tratara durante todo o ano como mulher da vida. Parecia-lhe, de forma confusa, que lhe prestava obediência, pagava suas dívidas, aliviava a cons­ciência aceitando apostar de um só golpe, segundo seus dese­jos, somas laboriosamente ganhas contra essa deusa cega (mas acontecia-lhe também que sua aposta fosse vencedora, tão pouco rancorosa era ela).

Sua coragem transformou-o subitamente num Robin Hood, num Bayard aos olhos das mulheres da assistência, mas também num habitue de máquinas eletrônicas de jogo para os homens, que o consideraram imprudente ou preten­sioso, conforme o caso, exceto Simon, que na sua ingenui­dade primária, ficou espantado: esse Peyrat era alguém. . . Pena que fosse tão mau perdedor! Julien, tendo começado na primeira noite em Portofino ganhando cerca de quinze mil francos de Simon, acreditara em milagre, pensava Simon, mas no dia seguinte, em Porto-Vecchio, perdera direto perto de vinte e oito mil! E visivelmente levava isso a mal. Simon tivera que suplicar-lhe hoje para que admitisse até mesmo o famoso pôquer de cinco, que se tornara o objetivo número 1 para Simon Béjard, produtor, entre dois crescendos e dois pizzicatti. Em resumo, Peyrat falhava no jogo, mas não na vida corrente, se é que se podia chamar de vida corrente esse Hellzapoppin de música em que se transformara o cru­zeiro aos olhos de Simon. Era verdade que não pensara, ao embarcar, que teria direito a todos esses efeitos burlescos! Com todos esses velhos melômanos. . . Não pensava também que Olga fosse tão má e tão boba por vezes, nem que o julgaria tão tolo. Era pena, porque realmente gostava muito do seu porte, da pele lisa e da maneira de dormir dobrada sobre si mesma, como um gatinho. Quando a via de madru­gada estendida naquele beliche austero, naquela cama de pensionista (a oito milhões de francos antigos por oito dias), quando a via tão pura, tão inocente e tão doce era-lhe difícil não esquecer a starlet bombástica e detonante, ambiciosa e obtusa, dura no fundo, que ele também conhecia. Gostava de Olga; de certa maneira estava fisgado e tinha horror de reconhecê-lo. Havia muito tempo que a urgência de dinheiro diário ou semanal impedia qualquer diálogo de Simon consigo mesmo. Havia anos que ele só se dirigia injunções de um empresário ao seu boxeador esgotado, no estilo de: "Vamos! Não desanime! Agora você conseguiu! Prudên­cia!", etc. Descobrir-se ao mesmo tempo enamorado e melômano (e perspicaz também) parecia-lhe um pouco acima de suas forças e, no mínimo, muito acima de suas previsões. Sacudiu-se e apanhou Julien pelo cotovelo, puxando-o para o lado.

E então, o pôquer? disse, fazendo pressão na voz baixa. Vamos, meu velho? Pegamos o usineiro de açúcar, o gigolô, o intelectual e tomamos um milhão de cada um, você e eu, hem? Com você, a técnica, a paciência, e comigo, a intuição, as apostas; então? Depois do golpe, será meio a meio. Concorda?

Lamento muito, mas não empreendo golpes a dois, no pôquer ou em qualquer outra coisa disse Julien, cons­trangido, mas não severo, um pouco confuso por confessar essa moral burguesa.

Decididamente ele era também um gentleman, pensou Simon com um desprezo condescendente e teatral. Pôs-se a rir alto demais, sacudindo os ombros freneticamente, "o que não o beneficiava", pensou Julien.

Quando falo em partida a dois, quero dizer. . . Es­tou brincando, queria dizer que a gente se seguraria, que amorteceríamos os choques. Não falava de golpes escusos, sr. Peyrat disse Simon, rindo abertamente. Não, mas a gente se diverte, não acha?. . . Todo mundo tem recursos neste navio. . . exceto o gigolô, talvez; mas a Diva vai dar um jeito nisso, não é?

Creio que seria ele a pagar pela Diva disse Ju­lien, sorrindo com uma expressão enternecida e as sobrance­lhas levantadas.

"Um belo homem, esse cara", pensou Simon de súbito,

"talvez não ficasse mal num papel do gênero rufião de qua­renta anos, um pouco desiludido de tudo; bom sujeito, duro e delicado com as mulheres. . . Esse tipo faz sucesso na tela nestes tempos. Exceto pelo físico de americano. . . Ele se parece com Stuart Whitman. . . É isso!"

Sabe que se parece com Stuart Whitman? disse Simon.

Stuart Whitman? Que relação isso pode ter com o pôquer? — espantou-se Julien.

Está vendo?, você também só pensa nisso. E os ou­tros três que ficam sonhando com outras coisas enquanto ouvem adágios. . . Ficariam extremamente contentes, posso lhe assegurar, de ficar um pouco entre homens, sem suas damas. Em todo caso há uma dama que ficaria tremenda­mente contente sem seu homem: Clarisse. . .

Hesitara em dizer "Clarisse". Hesitara na verdade entre "a Lethuillier", "a palhaça", "a alcoólatra", mas finalmente optara por aquele Clarisse pronunciado involuntariamente, como uma palavra de amor. Sentiu isso e corou.

Está bem, vamos ao pôquer disse Julien, de repente afetuoso, dando-lhe por sua vez um tapa um pouco seco, que o sacudiu até os mocassins Gucci, estreitos demais na ponta.

Começaram a partida às quinze horas, pararam às deze­nove; naquele momento Andreas, que ganhava seis milhões, um pouco de todo mundo, concentrava toda a raiva e a sus­peita dos outros, exceto a de Julien. Pararam para beber um gole, recomeçaram às dezenove e trinta, para mais um giro, e em três cartadas Julien, com uma quadra de setes no fim, raspou os seis milhões de Andreas, que tinha um full de ases e reis, tudo fornecido por Julien com impecável maes­tria. Às oito horas da noite tudo acabara. Os ludibriados não tinham tido tempo de mudar de objetivo para ruminar seu descontentamento, e Andreas, embora tivesse ele próprio perdido cinco mil francos, recolhia toda a raiva, enquanto Julien fazia o papel do tolo feliz. De qualquer modo não tornaria a jogar com eles naquela semana, pensou. Nenhum deles tinha sangue-frio. Nenhum: Andreas jogava para ga­nhar dinheiro para viver; Simon jogava para se provar que ele era Simon Béjard, produtor, papel demasiado recente para que não solicitasse de tempos em tempos atestados suplementares de sua sorte; Armand Bautet-Lebrêche jogava para verificar que se podia "brincar" com dinheiro, mas achava tudo aquilo anormal e coisa de pesadelo; quanto a Eric Lethuillier, jogava para ganhar e para provar a si mes­mo e aos outros que era vencedor, nisso também, e sua có­lera e furor eram os mais pesados dos quatro jogadores. Sendo mais inteligente e mais vivo que os outros, operou no mesmo instante a mudança da agressividade de Andreas para Julien, que, sabendo-se detestado por ele, desprezado e sujeito a uma vingança, fosse qual fosse, viu-o partir com o seu ar frio para sua cabina.

Enquanto os homens batiam-se astuciosamente nas car­tas, ou pelo menos assim acreditavam, as mulheres, acompa­nhadas por Charley Bollinger, pareciam ter sofrido a influên­cia da alcoólatra Clarisse Lethuillier. Edma Bautet-Lebrêche e Charley, mergulhados num tabuleiro de palavras cruzadas, faziam o bar retinir com suas gargalhadas de mocinhas, cujas cascatas provocavam no comandante Ellédocq um franzir de sobrancelhas, assim como em Olga Lamouroux, inimiga jurada de álcool, anfetaminas, tranqüilizantes ou outras dro­gas suscetíveis de modificar qualquer personalidade, e por­tanto também a sua. Acabara de se sentar perto da Diva, que, sempre altiva e chupando balas de alcaçuz negras como azeviche, não deixava absolutamente perceber que tinha be­bido uma garrafa inteira de vodca apimentada Wiborowa. Mesmo aos olhos de Olga, que saía de sua cabina e de uma leitura especialmente austera sobre a condição das atrizes através dos tempos, ela pareceu a única pessoa sóbria, o úni­co espírito claro naquele salão em que os homens embriaga­dos pelo jogo e as mulheres pelo álcool formavam um feio espetáculo.

Só vou tomar uma limonada, obrigada disse Olga ao barman louro, que se apressava, e lançou um olhar indul­gente, ostensivamente indulgente, na direção de Clarisse e Edma, que estouravam de rir diante da palavra aparente­mente irresistível que Charley, hílare, acabara de compor.

Receio não estar à altura acrescentou Olga com uma tristeza fingida na direção da Doriacci.

Também receio disse a Diva, sem pestanejar. Estava um pouco mais avermelhada que de costume, e

mantinha as pálpebras modestamente abaixadas sobre os grandes olhos ferozes. Olga, iludida por essa calma, tomou coragem:

—    Não acredito que a senhora e eu mesma sejamos capazes, no fundo, de outra ebriedade a não ser a do palco — disse, sorrindo. — Certamente não estou comparando, mada­me, mas afinal a senhora e eu temos que entrar às vezes num espaço iluminado onde olham para nós e esperam que fin­jamos. .. É o único ponto preciso dessa comparação, natu­ralmente. — Gaguejava um pouco sob a modéstia de sua juventude, sob sua devoção. Sentia as faces corarem, o bran­co do olho quase azul de tanta admiração ingênua. . . A Diva não pestanejava, mas escutava, pensava Olga. Ela es­cutava essa voz jovem e sincera dizer-lhe coisas comoventes, e sua impassibilidade era mais reveladora do que qualquer resposta. Reveladora do caráter da Doriacci: esse silêncio era o da emoção, e essa emoção, a de uma grande dama. Olga sentia-se no melhor de si própria: estava com a garganta apertada pela humildade, tanto mais apertada porque, afinal de contas, conseguira o papel principal em três pequenos fil­mes no ano anterior e críticas ditirâmbicas para a peça de Klouc que ela estrelara e que fora a revelação do Café-Théâtre 79. . .

Quando eu era uma menininha — lançou-se ela — e a ouvia cantar no rádio e no velho toca-discos de meu pai (papai era louco por ópera e minha mãe chegava a ter ciúmes da senhora), quando a ouvia cantar, eu me dizia que daria a vida para morrer como a senhora morria na Bohème. A maneira de dizer a última frase. . . Ah, meu Deus, como era mesmo?. . .

Não sei — disse a Doriacci com voz rouca; — nunca cantei a Bohème.

Ah, mas que tolice. . . Naturalmente. . . ,É da Traviata que eu queria falar. . .

"Ufa, escapara por pouco. . . Mas que pouca sorte! Todas as cantoras cantaram a Bohème, exceto a Doriacci, naturalmente. Que sorte, por outro lado, que a Doriacci estivesse de tão bom humor e tão calma. . . Em outras cir­cunstâncias, tê-la-ia fulminado por causa da gafe. Mas, ao contrário, parecia literalmente enfeitiçada pelos elogios há­beis de Olga. Afinal de contas, era uma mulher boa como as outras: teatral. . ." Agitando as mãos acima da cabeça, como se quisesse afugentar moscas confusas de sua má memória, Olga recomeçou:

— A Traviata, naturalmente. . . Meu Deus! A Travia­ta. Chorava como um bezerro ao ouvi-la. . . e um grande bezerro de oito anos. . . Quando lhe dizia "Adio, adio". . .

—    Um grande bezerro de vinte e oito anos, então — trovejou a Diva de modo brusco. Só gravei a Traviata no ano passado.

Jogando-se para trás, rompeu num riso tonitruante e aparentemente irresistível, pois contagiou de imediato, em­bora não lhe soubessem a origem, os três cúmplices do jogo de palavras cruzadas.

Empolgada pelo riso incontrolável, a Diva tirara o lenço de cambraia, enxugava os olhos, e às vezes o agitava como para pedir socorro, às vezes designava com ele uma Olga petrificada. Gemia mais do que articulava frases indistintas: É a pequena. . . Ah, ah, ah! O pai dela, louco por mim. . . Puccini, Verdi, tutti quanti. . . e a pequena com seu disco, ah, ah, ah, um grande bezerro de vinte e oito anos, ah, ah, ah. . . — E depois de ter dito pela terceira vez com sua voz retumbante "um grande bezerro de vinte e oito anos", terminou com voz apagada:

Foi ela mesma que disse. . .

Olga começou rindo nervosamente, mas, durante essa horrível explicação, sentiu o áspero odor da vodca, enfim, os grandes olhos sombrios iluminados pelo álcool, e com­preendeu a armadilha que ela própria montara para si. Ten­tou enfrentar a situação, mas quando os três zumbis dege­nerados ao fundo desmoronaram na mesa, desvairados e aos soluços, com as letras de madeira rolando por terra e suas próprias cabeças rolando apoiadas no encosto da poltrona; quando, na última frase da ordinária: "Foi ela mesma que disse", Edma se endireitou na poltrona como sob o efeito de uma corrente elétrica; quando a mulher alcoólatra do pobre Eric Lethuillier escondeu o rosto nas mãos balbuciando "Isso não.. . Isso não com voz suplicante, quando o velho pederasta de galões abraçou a si mesmo com os dois braços, esperneando, Olga Lamouroux levantou-se simples e digna­mente, e sem palavra deixou a mesa. Parou um instante na porta e lançou sobre os alienados, os fantoches ébrios, um só olhar, um olhar de piedade, mas que redobrou sua hilari­dade. Tremia de raiva, portanto, ao voltar à cabina. Mas foi encontrar Simon atirado na cama, de meias, dizendo que perdera três milhões no pôquer e se divertira muito.

Eric encontrou a cabina vazia ao voltar daquele pôquer sinistro. Mandou um camareiro à procura de Clarisse.

— Diga à sra. Lethuillier que o marido dela a es­pera na cabina — dirigiu-se sem outra explicação ao cama­reiro, que mostrou um ar ligeiramente escandalizado com o tom imperativo, mas Eric não se importou. Já várias vezes percebera que Clarisse lhe escapava física e moralmente. Fisicamente pelo menos. Desaparecia a todo momento, se­gundo notara, sob pretexto de tomar ar ou de olhar o mar, e como Eric obtivera de Ellédocq, encantado na sua alma de ajudante, o controle do bar, onde a presença de Clarisse lhe devia ser de pronto comunicada, poderia crer que ela tivesse um amante. Tanto mais que voltava desses passeios com a tez viva e ar alegre, e em toda a sua pessoa aquela impressão de despreocupação que o marido levara anos para lhe tirar. Ou, mais exatamente, a degradar até a angústia e o sentimento de culpa.

Naquele exato momento ela voltava, aliás, despenteada, desmaquilada pelas lágrimas do riso, bastante evidenciadas pelas faces rosadas de alegria. Mantinha-se ereta e ágil na porta, com os olhos repuxados e os dentes brilhantes no rosto bronzeado, apesar da pintura. Era bonita, pensou de repente Eric, com furor. Havia muito tempo, tempo demais que não a via tão bela. . . Da última vez fora por causa dele. . . Quem, portanto, naquele navio podia lhe restituir a confiança em si mesma? (Não seria Johnny Haig?) Seria Julien Peyrat, tão vulgar, porém, na sua virilidade? Se Eric não tivesse constatado pessoalmente que as escapadas de Clarisse coincidiam com a presença de Julien no tênis, na piscina ou no bar, teria acreditado que era ele. Esses ho­mens mulherengos são muito hábeis. Ou então seria o gigolozinho de três francos, Andreas alguma coisa?. . . Por mais que a desprezasse, porém, e alimentasse constantemente esse desprezo, sabia que ela não era muito propensa a carne fres­ca, sobretudo uma tão evidentemente acessível como essa. Clarisse olhava-o.

Estava me procurando?

Divertiu-se muito com suas amiguinhas? — per­guntou Eric sem responder. — Ouvia-se seu riso do salão.

Espero que não tenhamos prejudicado seu pôquer — disse ela com ar demasiado preocupado.

Lançou-lhe um olhar rápido, mas ela lhe oferecia um tosto liso, policiado, seu rosto de moça da família Baron, o rosto que lhe dera tanto trabalho para decompor, o rosto uso, impecável, indiferente a tudo o que não fosse seu con­forto, seus usos, um rosto da burguesia triunfante e sem piedade que Eric lhe ensinara pouco a pouco, achava, a de­testar até mesmo nos seus.

Não, você não nos atrapalhou, ou antes, você não perturbou a manobra do nosso parzinho de trapaceiros. . .

Que parzinho?

Estou falando do cowboy avantajado e do gigolô lourinho que lhe faz companhia. Devem fazer o rodízio dos navios a dois!. . . Por que você está rindo?

Não sei disse, tentando reter o riso. A idéia desses dois homens formando um par é cômica.

Não estou dizendo que dormem juntos. Eric se enervava. Estou dizendo que trapaceiam juntos, e até que elaboraram uma técnica inigualável.

Mas eles nem mesmo se conheciam! Ouvi-os falar dos respectivos liceus e descobri mesmo que tinham uma província em comum, ontem à noite em Por to-Vecchio.

O riso de Eric soou agastado.

—    Lógico, pois você estava ouvindo.

Clarisse corou subitamente. Era como se ficasse enver­gonhada por eles. Por Julien, sobretudo, pensou. Seria para melhor depenar Eric que Julien Peyrat lhe deixava a cabina e as garrafas à vontade? Isso lhe dava uma impressão desa­gradável, um mal-estar quase físico, ao mesmo tempo que uma tristeza apenas esboçada. . .

Ela estava sentada na cama e tornava a se pentear ma­quinalmente diante do espelho do armário aberto. Arrumava as mechas de cabelo e se examinava sem prazer aparente, mas também sem constrangimento. E Eric sentia de repente ímpetos de lhe bater ou de obrigá-la a descer à força na próxima escala. Era isso, ela lhe escapava, mas no vazio. E esse era o perigo. Ele o arrasaria rapidamente aos olhos dela, se se tratasse de outro homem. Mas de fato não via quem naquele navio pudesse ter despertado a mulher nessa Clarisse adormecida e aterrorizada. . . A menos que fosse Andreas. . . Parecia impossível. Mas tudo era possível com uma neurótica. Tentou:

Você sabe que não tem qualquer chance, minha que­rida, com suas solicitações, modestas naturalmente, mas ridí­culas. De qualquer forma seriam inúteis; está ocupado com outros projetos mais proveitosos ou mais tentadores aos seus olhos.

Mas de quem você está falando?

Eric se pôs a rir. Já lhe acontecera simular assim des­prezo e ciúmes enojados. Chegara mesmo a fingir, para humilhá-la mais, acreditar que estivesse apaixonada por per­sonagens tão desprezíveis que só lhes prestar atenção já seria desonroso. E todas as vezes Clarisse se afobara, se debatera. Negara com indignação e desespero na época. Não tivera essa voz pacífica e um pouco fatigada para responder, como agora:

Não sei de quem você está falando. — Empalide­ceu, porém. Levou a mão ao pescoço, num gesto habitual. Olhava-o incerta, já resignada, pronta para um novo golpe, mas sem compreender por quê. Não, ele se enganara; ela nada tinha a ver com o gigolô. (Ainda bem.) Sossegado, lançou-lhe um sorrisinho igualmente tranqüilizador.

Tanto melhor, afinal; ele tem quase dez anos me­nos do que você. É muito — acrescentou, antes de mergu­lhar no jornal, não muito orgulhoso da última frase.

Mas teria ficado ainda menos satisfeito se tivesse visto a expressão de alívio no rosto de sua mulher-palhaço e a cor que lhe voltava por baixo da pele com o oxigênio, o sangue e a esperança.

Dez minutos mais tarde, no banheiro, Clarisse inundava o rosto com água fria com violência; tentava esquecer esse segundo de felicidade e mesmo chamá-lo de outra maneira; tentava negar que de certa forma teria caído em desespero se Julien tivesse ficado tentado por uma outra mulher; e isso, fossem quais fossem suas razões; mesmo que ele mal levantasse os olhos para ela quando estavam diante um do outro. Naquela mesma manhã encontrara uma rosa ver­melha no copo que a esperava perto da garrafa de Haig na cabina 106, e agora se espantava (graças a Eric) de ter acha­do esse gesto simplesmente encantador.

Chegavam a Capri, onde, segundo o programa, os passa­geiros seriam esperados com um vol-au-vent Curnonsky, duas sonatas de Mozart e lieds de Schumann, e na mesma noite, para os mais aventureiros, uma volta pela ilha. Era em geral uma regra de ouro no Narcissus não descer nas escalas. Admitia-se que todos conheciam esses portos céle­bres, ou pelo menos já os teriam visto num iate particular. Era exatamente o que Edma Bautet-Lebrêche explicava a Simon Béjard, ainda novo o bastante para fingir algum entu­siasmo por essas cidades soberbas. Ele esperava que seu interesse pela cultura, pelo menos pelas coisas culturais, o fizesse ser bem visto, quando, pelo contrário, desacreditava-o, pois deixava supor a incultura deliberada da pobreza. Mas, curiosamente, esse mecanismo era tão explorado e fora tão sistemático naquele navio, que Simon pareceu a Edma ingê­nuo, original e um bom sujeito.

O senhor não conhece de todo a bacia mediterrânea, sr. Béjard — informava-se Edma Bautet-Lebrêche com uma solicitude espantada (como se ele tivesse declarado jamais ter sido operado de apendicite). Mas então o senhor vai descobrir tudo isso de uma só vez! continuou, com um ar de inveja que soava como pena. O senhor sabe que o Mediterrâneo é admirável. . . — assegurou, abrindo os "as" ao máximo e rindo ao mesmo tempo para melhor mos­trar que ela os abria muito conscientemente. Perfeita­mente admirável recomeçou, mais docemente, com uma voz quase terna.

Mas estou certo disso falou Simon (sempre oti­mista em relação a tudo). E seria melhor que fosse, hem? Se os Cruzeiros Pottin fixaram preço para o cruzeiro. .. não seria para mostrar usinas de gás abandonadas, não acha?

Evidentemente que não admitiu Edma, um pouco decepcionada com esse pesado bom senso. Eviden­temente que não... Diga, meu caro amigo. . . posso chamá-lo de Simon? Diga-me, meu caro Simon recomeçou a impaciente Edma —, o senhor mesmo, que benefício pensou tirar deste cruzeiro? Em outras palavras, por que o senhor embarcou nele? Isso me intriga. . .

A mim também respondeu Simon, de repente pensativo. Não sei, para dizer a verdade, o que estou fazendo aqui.. . Na partida era. . . para. . . enfim, Olga não gostava de Eden Roc, nem de Saint-Tropez, então. . . E de­pois, é curioso, não pensava gostar deste cruzeiro e no fi­nal. . . hem? Não é nada mal o que eles tocam todas as noites.. . Não é realmente nada mal. . .

"Fiquei ao mesmo tempo aterrorizada e divertida", de­veria mais tarde contar Edma em seu salão da Rue Vaneau, "mas também vagamente enternecida, confesso. . . sim, sim, sim." (Muitas vezes ocorria a Edma contrariar objeções ine­xistentes.) "Sim, sim. . . fiquei enternecida. Porque afinal ali estava um homem simples, um ambicioso sem escrúpulos, vivendo para o dinheiro, pelo dinheiro, com o dinheiro; um grosseirão, pois é, ele também. . . E por um acaso extrava­gante, ou antes graças a um esnobismo da starlet que o ex­plorava, ei-lo descobrindo a música. . . a grande Música, e ei-lo que se comove obscuramente, ei-lo que descobre uma espécie de terra desconhecida. . . uma escala que ele não previra.. ." (E nesse ponto a voz de Edma baixaria a um sussurro e seus olhos se perderiam nas chamas da lareira, se houvesse alguma, naturalmente.)

Mas naquele momento não era unicamente a compreen­são que orientava Edma, era também uma ironia para a qual lamentava não haver mais espectadores.

De início, você teria preferido Saint-Tropez, caro Simon? Você deve ainda assim se aborrecer um pouco neste navio, afinal, sem sua fauna de costume. . . E não há nada de pejorativo nesse termo de fauna, acredite-me. Todos nós temos a nossa...

Isso eu imagino. . . A senhora também não deve estar muito encantada completou Simon com uma con­vicção excessiva, na opinião de Edma.

Então é sua Olguinha que gosta da grande Música, portanto? Se estou compreendendo bem. . . Eu, na sua ida­de, também tinha avidez, desejos de tudo, os de todos os jovens, mas não me desculpava. Tinha mesmo certo orgulho de meus desejos, de minhas loucuras. . . E Deus sabe. . .

E agitou uma mão esgotada por quarenta anos de festas e orgias. Não pôde, portanto, torcer o nariz nem se zangar quando Simon, com a mesma convicção acentuada agora por um ligeiro assobio, de sentido equívoco, exclamou:

—    Ah, e aí, então!... Aí também acredito. . . — o que deixou Edma embasbacada, suspeitosa, mas vagamente lisonjeada.

Aliás, Charley chegava com todas as velas ao vento, isto é, com a camisa de seda toda para fora. Porque se torna­va mais lânguido com o decurso das longitudes, sua natureza desabrochava com o calor; iniciada a viagem de azul-marinho e colarinho duro, chegava geralmente a Palma, última escala, em camisa colorida e alpercatas, ou mesmo com um único brinco na orelha esquerda, para dar um ar de pirata.

Mas ali, era apenas a terceira escala, e sua extravagân­cia se limitava a uma jaqueta de seda pura de um branco ligeiramente quebrado, em lugar do seu blazer azul. Exultava visivelmente.

E eis-nos em Capri! Sr. Béjard, o senhor também vai descer? Acho que praticamente todo o navio vai dançar um pouco, para variar. . . Depois do recital, lógico acres­centou, com ar piedoso.

De fato, entre as escalas a terra geralmente desprezadas pelos passageiros, só Capri beneficiava-se de uma espécie de liberação para uma farra, de que se aproveitavam maciamen­te mas com grandes gritos, todos fingindo descer só para rir, procurar um corpo irmã, ou um corpo irmão ou primo, como se a confissão dessa caçada a tornasse vã de saída, e como se todos, se ainda estivessem na idade de o fazer, não sonhassem, antes dos perigosos árabes e dos selvagens espa­nhóis, com uma aventura italiana. Capri era o último local da civilização no sentido de "orgia" e da orgia no sentido "bonacheirão". Por esse motivo não era raro que, em Capri, o navio ficasse vazio à noite, ou quase, com exceção de alguns velhos bem guardados pelas suas enfermeiras ou al­guns marinheiros de plantão. Deviam ficar, uns e outros, no tombadilho, como crianças de castigo olhando lá embaixo brilharem as luzes da cidade e seus prazeres. Deviam tam­bém suportar o passo do comandante Ellédocq, que, durante toda a escala, palmilhava o tombadilho com raiva e inquie­tação, devastado por uma lembrança longínqua mas bem viva na sua cabeça: como o fantasma de Hamlet, ele estava certo de, cada vez que pusesse os pés na Piazzetta, encontrar ali a imagem de Charley; Charley de saia de cigana, com um cravo nos lábios, todo arqueado nos braços de um rude habi­tante local.

— Certamente que vou — disse Simon Béjard com mais firmeza ainda, porque Olga há dois dias o exortava a não fazê-lo. — Certamente que vou, não conheço Capri. Mas antes da farra vou me alimentar — acrescentou, dando um estalo amigável no lugar presumível do estômago, o que fez a elegante Edma Bautet-Lebrêche e o sensível Charley Bol-linger desviarem os olhos. — Tanto mais que desconfio que hoje vai ser divertido — acrescentou, levantando-se.

E ao sol poente, as rosas de sua camisa e o colorido de seu rosto estimulado pelos últimos dias de sol formavam um camafeu impressionante, no limite do trágico.

Por que especialmente divertido? — perguntou Edma, cuja curiosidade superava sempre o desprezo, mas que ficava a cada vez aborrecida consigo mesma depois pelas perguntas triviais que fazia. . . Mas, ainda assim, menos do que ficaria se não tivesse obtido a resposta.

Pode ser uma farsa — explicou Simon, jovial —, porque quase sempre em cada um dos casais há um que quer ir a terra, enquanto outro quer ficar. Como, além disso, esta noite vamos nos sentar todos na mesma mesa, pode haver barulho.

De fato, desde a primeira noite, os hóspedes tinham se sentado maquinalmente quase na mesma ordem, mas, desta vez, ficariam em torno da mesa do comandante, prolongada, porque o prestígio da mesa de Ellédocq tornara-se subita­mente superior ao da mesa de Charley, graças ao entrevero Doríacci/Kreuze.

Mas — disse Edma — o senhor se engana. . . Ar­mand Bau. . . meu marido está encantado de rever Capri.

Seu marido é uma coisa — disse Simon, com uma reverência cômica. — Seu marido não a perde de vista, ele é louco pela senhora. . . É Otelo, esse homem. . . E a gente o compreende, não é, meu velho? — acrescentou, lançando uma palmada magistral nas costas de Charley, dolorosamen­te abalado, sem que Edma Bautet-Lebrêche parecesse tam­bém apreciar esses cumprimentos com justiça. — Mas afora você, o intelectual de esquerda também quer ir, por exem­plo, e isso aborrece Clarisse! Eu vou, e Olga não quer ir! A Doriacci vai também e o gatinho louro parece hesitar. Ellédocq não vai e Charley vai, então!. . .

Não percebera a pequena careta de sofrimento, real desta vez, que deformara o lábio superior de Charley ao enunciado de um desses casais, mas Edma, muito sabida, e solidária, desta vez apressou-se a reparar a gafe, porque via Charley Bollinger em muito maus lençóis nesse cruzeiro. O belo gigolô, o belo Andreas, cada vez mais bonito com o correr dos dias, estava literalmente fascinado pela Diva, suas pompas e seus faustos. Trotava atrás dela como um gato-do-mato, carregava seus cestos, seus leques, seus xales, mas sem que ela nem mesmo parecesse perceber. Como gigolô, sua carreira parecia começar mal, do mesmo modo que a de Charley, como amante satisfeito.

Ora — disse —, não se faça de mais ingênuo do que é, sr. Béjard. . . Caro Simon, perdoe-me. Você sabe muito bem que o coração do belo Andreas tem motivos profissionais, e o senhor não vai afinal falar desse animal feroz, Ellédocq, e do nosso delicioso Charley como de um par, não é?

Mas eu não dizia isso... — retrucou Simon, viran-do-se para Charley com ar contrariado. — Nunca quis dizer isso — recomeçou, com calor. — O senhor sabe muito bem, meu velho. . . Todas as mulheres a bordo estão loucas pelo senhor, então não vale a pena eu me desculpar. . . Ah! Tem sorte de ser o comissário de bordo neste navio cheio de mu­lheres desocupadas! Ignoro qual é o seu score, meu velho, mas deve ser bastante brilhante, hem? Estou enganado? Bendito farsante! — acrescentou com uma nova palmada vigorosa, e partiu rindo para mudar de roupa, anunciou ele, importante, deixando seus interlocutores perplexos.

Decididamente, só gosto de espaguete al dente. E o senhor, meu caro amigo?

Eu também — respondeu tristemente Armand Bautet-Lebrêche, que mal tivera tempo de ajustar sua den­tadura de forma discreta, antes de responder à Doriacci.

Ela o contemplava comer havia cinco minutos com uma fixidez alarmante; ou que teria sido alarmante para alguém que não fosse Armand, mergulhado numa avaliação compa­rada das variações da Bolsa da Engine Corporation e da Steel Mechanics Industry, e isso fazia três horas.

— Al dente quer dizer não cozido ou o quê? — per­guntou Simon Béjard com voz triunfante.

Graças a alguma loção capilar conseguira por milagre achatar os cabelos rebeldes e avermelhados de modo impe­cável sobre o crânio rosado; vestia um smoking de sarja escocesa azul-escuro e verde-água do mais gracioso efeito e cheirava a loção após barba de Lanvin a dez passos. A dis­creta Clarisse, sua vizinha, parecia incomodada.

O triunfo de Simon, muito pessoal e muito apreciado, é preciso dizê-lo, tinha de bom impedi-lo de ver os olhares trocados à mesa por Eric Lethuillier e sua bela Olga. Ti­nham-se encontrado na porta do bar uma hora antes, e Eric teria parecido irresistível em sua jaqueta de linho bege, camisa e jeans azul-claro, com o belo rosto queimado de sol e os olhos azul-da-prússia divertidos e autoritários.

— Encontro-a esta noite em terra — dissera entre dentes segurando-a pelo cotovelo e apertando-lhe o braço entre os dedos duros tão virilmente que a magoara. "O de­sejo torna-o desastrado. . .", encaixara imediatamente Olga. "Ele sorria mas tremia e tinha ao mesmo tempo aquela falta de jeito tão tocante e perturbadora que é responsável pela atitude fogosa mas controlada dos homens maduros."

Esta última frase a tinha entusiasmado de tal modo que descera precipitadamente à cabina para transcrevê-la no caderno, o grande caderno com cadeado que escondia na mala e que erroneamente acreditava ser objeto de mil pes­quisas de Simon. Por essa razão, chegara atrasada à mesa, mas um pouco despenteada, ofegante, bem queimada, com uma ligeira expressão de culpa que lhe dava, enfim, a apa­rência jovem. E os convivas em unanimidade a tinham olha­do com admiração, com algumas diferenças, certamente, mas verdadeira. — Um belo pedaço de mulher, essa puta — resmungara Ellédocq entre dentes, mas bastante alto, con­tudo, para que a Doriacci o ouvisse, solicitando em voz alta que ele repetisse, com o único objetivo de aborrecê-lo. Ele corou e seu mau humor aumentou, quando Edma Bau­tet-Lebrêche lhe pediu fogo com ar meloso e cúmplice.

— Eu não fumo! — dissera energicamente num silên­cio infeliz, atraindo olhares irônicos e severos. Teve que suportar a réplica graciosa de Edma, ostensivamente choca­da, mas sorridente.

— Que isso não o impeça de me oferecer fogo! — sus­surrara com a voz desarmada. E mais uma vez ele fizera figu­ra de malandro, enquanto Julien Peyrat, aquele valentão, es­tendia o isqueiro à pobre vítima. Com isso a conversa se perdera por diversos campos incompreensíveis ao comandan­te. Abordara a inteligência dos delfins, os arcanos da políti­ca, a má fé dos russos e os escândalos do orçamento da cul­tura. Tudo isso com muito brilhantismo até a sobremesa, quando cada um, pretextando qualquer coisa, descera até a cabina para dar um último jeito nos cabelos para poder par­tir diretamente depois do concerto para aquela ilhota-bordel chamada Capri. Para grande surpresa de Ellédocq, só restou um homem à mesa, que parecia mesmo decidido a não se reunir àquele rebanho lúbrico: Julien Peyrat. Fizera ao capi­tão algumas perguntas muito pertinentes sobre navegação, o Narcissus, o interesse das escalas, etc., e subira na cotação do chefe de bordo. Naturalmente fora preciso que essa con­versa viril, dessa vez um pouco interessante e isenta de hipocrisia ou de tolices, fosse interrompida pelo concerto. . . Mas a alusão apenas velada do capitão ao lado maçante desse recital ficara sem eco. Ou esse cara simpático e aparente­mente normal amava na realidade a música, e então ele ces­sava de ser normal aos olhos de Ellédocq, ou então repre­sentava um estranho papel. Meio seduzido, meio desconfia­do, Ellédocq seguiu-o pesadamente até o local do sacrifício.

A Doriacci começou o concerto com um ar apressado, cantou a toda a velocidade duas ou três árias com técnica e vivacidade incríveis, e parou de repente no meio de um lied, recomeçando com outro, sem mesmo se desculpar, mas com um sorrisinho de conivência que lhe valeu mais aplausos do que toda a demonstração precedente, aliás maravilhosa, de sua arte vocal. Kreuze sucedeu-lhe, mas com uma obra in­terminável, ao que parece de Scarlatti, impecavelmente exe­cutada, mas com uma tal ausência de efeito (ausência con­tudo meritória) que Ellédocq paradoxalmente indignado pôde ver se esquivarem uns depois dos outros, até seus pas­sageiros da primeira classe. Todos os outros melómanos con­victos tinham desertado naquele ponto alto da música. Sau­dado por magros aplausos, Kreuze inclinou-se como se dian­te de uma multidão, com sua arrogância dessa vez justi­ficada, e desapareceu na sua cabina, seguido rapidamente por Armand Bautet-Lebrêche, que parecia muito alegre pelo seu abandono. Quando Ellédocq, por sua vez, deixou o local, só havia em torno do rinque luminoso duas silhuetas pensativas separadas por algumas fileiras de cadeiras: Julien Peyrat e Clarisse Lethuillier.

Julien estava imóvel na poltrona e, com a cabeça jogada para trás, olhava as estrelas no céu piscarem, e de tempos em tempos observava a queda de uma delas, brusca e bela, absurda e súbita como certos suicídios. Ele a viu, sem a ver levantar-se quando o barman apagou os quatro pontos de luz. Seguiu-a com os olhos enquanto se dirigia para o bar; não se moveu, mas esperava. Sem nada ter premeditado, parecia-lhe que a dupla presença solitária naquela hora no tombadilho tinha sido combinada de longa data, que havia qualquer coisa de fatal na solidão do local e no seu duplo silêncio. Iam juntos a alguma parte, e estava certo de que, tanto quanto ele, Clarisse também não sabia para onde. Talvez para uma aventura breve e fracassada, entrecortada de soluços nervosos e de protestos, talvez para um ato bestial e vergonhoso, talvez para lágrimas silenciosas em seu ombro. Em todo caso, tinham um encontro marcado obscuramente desde que se haviam visto nesse mesmo tombadilho, por ocasião do coquetel de chegada, principalmente desde que a vira, cambaleante e ridícula, grotesca sob sua pintura mul­ticor, apoiada sem confiança no braço do seu demasiado belo marido. Clarisse tinha medo, ele sabia. Mas sabia também que iria voltar a se sentar perto dele sem que a menor arro­gância se insinuasse em sua segurança. Nem era mesmo a necessidade dele, Julien, que a traria de volta a seu lado, mas a necessidade de alguém, não importa quem, outro que não fosse o bruto civilizado que desposara. Ele respirava lenta e profundamente, como antes de se sentar a uma mesa de chemin de fer ou de começar um pôquer trucado e perigoso, como antes de dirigir depressa demais de modo deliberado ou como antes de se apresentar sob nome falso a pessoas que poderiam reconhecê-lo e confundi-lo. "Respirava como antes de um perigo", pensou, e isso o fez rir. A conquista de uma mulher nunca lhe parecera até então um perigo, mesmo que mais tarde viesse a sê-lo.

Clarisse precisou de meia hora para chegar perto dele, meia hora que passou bebendo, muda, de olhos fixos diante de um rapaz intimidado por ela e espantado por sentir-se assim, porque Clarisse Lethuillier fazia em geral os barmen sorrirem com um sorriso irônico ou compassivo conforme o caso, a hora e o número das bebidas consumidas que lhe haviam servido. Fumava também a grandes baforadas, vio­lentas, que rejeitava logo depois em longos jatos pueris, como se tivesse aprendido a fumar naquela mesma manhã. Mas apagava os cigarros com um ar de despeito após três ou quatro dessas baforadas. Bebera três uísques duplos e esmagara vinte cigarros, depois saiu do bar, deixando uma gorjeta ao garçom incompreensivelmente inquieto por ela. Gostava de Clarisse, como aliás o resto do pessoal de bordo. Ela lhes parecia, como eles próprios, em estado de inferiori­dade oficial em relação aos outros passageiros. Tropeçou ligeiramente numa cadeira na semi-securidão ao chegar perto de Julien, que se levantou instintivamente, mais por preo­cupação de segurá-la do que por cortesia. Ela se deixou cair numa cadeira vizinha e, olhando-o no rosto, pôs-se a rir de repente. Estava despenteada, até mesmo um pouco embria­gada, pensou Julien com uma tristeza moralizante que não conhecia.

Você não foi com os outros a Capri? Não lhe agra­da? perguntou docemente, enquanto a ajudava a apanhar a bolsa e os diferentes objetos acumulados em desordem no seu interior e que luziam no chão aos pés deles: uma caixa de ouro para pó-de-arroz, que devia valer uma fortuna, dema­siado pesada para ela, com suas iniciais em brilhantinhos incrustados, um estojo de batom idêntico, chaves não se sa­bia de onde, algumas notas amassadas, a foto de um castelo desconhecido num cartão-postal, cigarros amassados, uma caixa rasgada de Kleenex e a inevitável caixa de pastilhas de hortelã, o único dos objetos que ela tentou esconder-lhe.

Obrigada disse, endireitando-se muito depressa, mas não o bastante para que ele deixasse de sentir, ao mes­mo tempo que seu perfume, um perfume verde e teimoso, para que ele deixasse de sentir o odor de seu corpo aquecido pelo sol do dia e como que condimentado pelo odor muito leve do medo, que Julien reconhecia entre todos, odor fami­liar aos jogadores. Não, Capri não me diverte. . . enfim, já não me diverte. Mas me divertia muito, antigamente. Olhava à frente, e cruzara as mãos nos joelhos, ajuizadamen­te, como se ele a tivesse convidado a uma conferencia e ela se tivesse instalado para passar algumas horas.

Nunca vim para cá — disse Julien. Mas era um dos meus sonhos familiares quando tinha dezoito, dezenove anos. Queria ser decadente. . . Engraçado, não?, para um rapaz de dezoito anos. Queria viver como Oscar Wilde, com galgos afegãs e aqueles enormes carros De Dion-Bouton da­quela época e fazer correr cavalos italianos no hipódromo de Capri. . .

Clarisse começou a rir ao mesmo tempo que ele, que, encorajado, continuou:

Ignorava naturalmente que Capri era um penhasco sem a menor superfície plana e ignorava também que Oscar Wilde não gostava das mulheres.. . Acho que foi essa dupla decepção que me impediu até hoje de vir aqui e talvez seja essa lembrança que me impede de descer a terra hoje.

Mas são lembranças. Tive muito sucesso aqui aos dezenove, vinte anos. Mesmo na Itália, a fortuna dos Baron era conhecida, e me faziam uma corte assídua. Naquela época não era vergonhoso ser a herdeira dos Baron. . .

Agora também não, espero — falou Julien em tom ligeiro. — Não é mais vergonhoso nascer rico do que pobre, que eu saiba.

Acho que sim — disse ela seriamente. — Por exemplo — continuou com volubilidade de repente —, você, que é avaliador, deve gostar de pintura, não é? Não lhe parte o coração vender obras-primas a burgueses, a ricos que só sonham em se enriquecer ainda mais graças a essas telas. . . e que vão fechá-las num cofre-forte logo que voltarem para casa, sem mesmo olhar para elas?

Nem todos fazem isso. . .

Mas Clarisse cortou-lhe a palavra sem ouvi-lo:

— Meu avô Pasquier, por exemplo, tinha uma soberba coleção de impressionistas. Comprara tudo por uma bagatela, naturalmente: Utrillos, Monets, Vuillards, Pissarros. . . tudo isso por três francos, segundo dizia. Os grandes burgueses sempre conseguem pechinchas, você reparou?. . . Chegam até a comprar o pão mais barato do que a zeladora. E ainda por cima ficam orgulhosos disso. ..

Começou a rir, mas Julien guardou silêncio, e ela se virou diretamente para ele, como que irritada.

Você não acredita?

Não acredito nas generalizações. Conheci burgueses encantadores e burgueses infames.

Então teve sorte disse brutalmente, com uma voz cheia de cólera.

Levantou-se, dirigiu-se para a amurada, um pouco ereta demais, como que para disfarçar seu desequilíbrio etílico. Julien seguiu-a maquinalmente, apoiou-se à amurada a seu lado e, quando virou a cabeça, percebeu que ela chorava descontroladamente, com grossas lágrimas que lhe escorriam pelas faces sem que ao menos parecesse notá-las, lágrimas que ele adivinhava quentes, curiosamente, só pela forma: lágrimas esticadas, escorridas, oblongas, lágrimas de raiva semelhantes à fumaça de seus cigarros, que não tinham aque­la forma redonda perfeita, aquele lado cheio e quase sereno que têm os anéis de fumaça bem-estudados e as lágrimas das crianças quando as decepcionamos.

Por que você está chorando?

Mas ela se deixou ir para junto dele, encostando a ca­beça em seu ombro como se estivesse apoiada numa árvore ou num lampião de rua, ao acaso.

Exceto pela luz que vinha do bar e que iluminava o tombadilho onde estavam um segundo antes, luz que che­gava de lado, luz vaga, furtiva, luz equívoca, eles estavam no escuro. E só o farol da ilha cortava por vezes essa escuri­dão, passava pelos seus rostos por dois ou três segundos antes de tornar a partir no seu círculo maníaco. Mas só mos­trava a Julien, de cada vez, o cimo da cabeça de Clarisse, pois ela a mantinha obstinadamente abaixada, como uma cabra teimosa, contra o ombro dele, com os ombros sacudi­dos por pequenos espasmos regulares, quase tranqüilos na sua regularidade. Era um desgosto desesperado e pacífico ao mesmo tempo, um desgosto que vinha do fundo dos tempos e também um desgosto por nada. Era um desgosto inútil e inextinguível, uma loucura e uma resignação. E, para sua própria surpresa, Julien sentiu-se pouco a pouco invadido pelo tranqüilo impudor desse desgosto, pelo silêncio que ela guardava quanto às suas causas enquanto soluçava no ombro desse desconhecido que era ele, silêncio pior, enfim, que todas as explicações, silêncio unicamente rompido pelas fun-gadelas e o ruído dos Kleenex que ela rasgava para secar as lágrimas com gestos rudes de adolescente.

Vamos disse, perturbado, inclinando-se para a cabeça acabrunhada —, vamos, não chore assim. . . É boba­gem, vai sofrer com isso — acrescentou tolamente. — Por que você está chorando assim? — insistiu, sussurrando.

— É tolice. . . — respondeu, virando o rosto para ele. — Tolice. . . mas eu sou tola. . .

O farol passou então sobre seu rosto, e Julien ficou petrificado. A maquilagem tinha cedido sob as lágrimas e os Kleenex, e como os bastiões de uma cidade tinha-se esbo­roado, diluído, afundado. Dessa maquilagem espessa e barro­ca, quase obscena, surgiu um novo rosto, um rosto desconhe­cido e soberbo que a luz vaga, vinda de viés, esticava e subli­nhava de uma maneira implacável e trágica, à qual poucos rostos teriam resistido: mas ali estava um rosto de eurasiana, com ossatura perfeita, olhos muito longos, muito diretos, puxados do nariz para as têmporas, apesar da ausência de qualquer máscara, olhos de um azul pálido de maço de Gauloises sob os quais se distinguia uma boca marcada, ar­queada para cima, ávida e triste embaixo, uma boca ainda úmida das lágrimas. Julien se viu beijando aquela boca, inclinando-se sobre ela, com o nariz nos cabelos dessa mulher louca e ébria, mas cuja loucura de repente lhe era comple­tamente indiferente, tão preocupado estava com o contato dessa boca tão resolutamente cúmplice da sua, tão definitiva­mente amigável, complacente, generosa, exigente, sorrateira.

Uma verdadeira boca, dizia-se ele no escuro, "uma boca como as de vinte e cinco anos atrás, quando eu próprio tinha vinte anos e beijava as moças pela portinhola dos carros e sabia que ficaríamos por ali e que esses beijos eram o cúmulo do prazer acessível a mim; e, de fato, esses beijos me deixa­vam cumulado de felicidade e ao mesmo tempo doente de saudade!

Nos últimos vinte anos tinha havido muitas bocas e muitos beijos, promissores ou apaziguadores, beijos antes e beijos depois, mas todos cronologicamente situados. Nunca mais houvera, nunca mais de fato, beijos inúteis, gratuitos, finais em si mesmos, beijos fora do tempo, fora da vida, quase fora do sexo e do coração, beijos nascidos do puro desejo de uma boca por outra. "Os beijos verdes, apertados, beijos gulosos da juventude", cuja descrição por Montaigne o emo­cionara, e cujo gosto encontrava ali, naquela noite, na boca de uma mulher da sociedade ligeiramente ébria. Era risível, mas ao mesmo tempo ele não podia se separar daquela boca. Inclinando o rosto à direita, à esquerda, seguindo os movi­mentos do pescoço dela, só tinha um pensamento, um, obje­tivo: nunca mais se separar daquela boca, apesar da posição absurda, inclinada, sentindo cãibra nas costas, essa boca que a sua cabeça cobria de qualificativos, que felicitava e declara­va fraternal, maternal, corruptora, confiante e a ele destinada desde sempre.

— Espere — disse ela afinal.

Afastou-se dele, jogou a cabeça para trás, apoiada na amurada, mas com o rosto em sua direção e os olhos abertos. Julien não podia se afastar, perdê-la de vista, nem sair da­quela sombra, porque quebraria então alguma coisa, algo eminentemente frágil e que deveria ser inquebrável. Não fosse assim, ela ia recuperar o controle, esquecer que era bela, ou então seria ele que esqueceria de desejá-la tanto. Alguma coisa adejava entre eles sob aquela iluminação lívida, alguma coisa que se desvaneceria se deixassem de se olhar nos olhos um só instante.

— Caminhe um pouco — disse. — Apóie-se aqui. Conduzia-a para a parede do bar, apoiava-a ali, sustinha-a com os braços, em suma, instalava-a na sombra de si próprio. Sentia-se ofegante, seu coração batia devagar, pen­sava vagamente que só recuperaria a respiração na boca de Clarisse; mas não podia se mover, e ela também não, natu­ralmente, pois podia ver Julien no escuro, como um cego ou uma criança, a oferecer-lhe o rosto impaciente e triunfan­te, que ela não tocava. Ele olhava a mancha branca daquele rosto tão longe e tão perto, agora indistinto, vago e tão recentemente posto a descoberto, aquele rosto tão ameaçador e tão desejável na sua proximidade, aquele rosto que já era uma lembrança daquele que já possuía uma imagem para sempre gravada em sua memória, tal como o vira ainda agora contra a amurada, quando se inclinava para ele, um rosto visto naquele ângulo preciso, naquela iluminação pre­cisa, rosto que jamais veria de verdade, e de que já, furtiva, insolentemente, se permitia ter saudades, até mesmo preferia aos mil outros que o esperavam naquela mancha branca, vaga, ali, aquela mancha indecisa que podia não ser nada. Que não seria nada se não houvesse aquela boca sob a sua e a câmera do desejo imediatamente desencadeada diante de Julien. Era a vida sensível, e a possibilidade oferecida a essa vida de ser qualificada feliz ou infeliz; o risco também de nada mais valer como tal, de só ser estimado ou suportado em função de outros olhos: os olhos de Clarisse. Esses olhos independentes, estranhos a Julien, à sua infância, esses olhos indiferentes, ignorantes dos segredos ainda existentes entre Julien e si próprio durante muitos anos, ainda acumulados e cuidadosamente dissimulados; e não forçosamente por co­vardia, mas em geral por decência ou por gentileza; todas essas barreiras, esses véus, essas acomodações que Julien interpusera entre sua vida e sua própria visão de sua vida; máscaras e caretas que se tinham tornado instintivas, mais verdadeiras talvez, na sua recusa da verdade e mais profun­das no seu gosto pela mentira que muitos outros instintos vindos da infância e pretensamente naturais. Essas máscaras, ele já recusava negá-las, rasgá-las mesmo com a ajuda de uma outra. Recusava-se a apagar qualquer traço dessa coabi­tação vergonhosa e culpada consigo mesmo, sob o pretexto de participação, de sinceridade. A menos que, e isso seria o pior e mais desejável, talvez, essa ligação inconfessável entre ele e si próprio permanecesse inconfessa. Essas máscaras de papelão seriam beijadas em plena boca, e esses cabelos falsos, alisados por mãos quentes. Então ali, ele sabia, ao abrigo dessas comédias ele se aborreceria, não amaria e estaria salvo.

 

E já apegado a esta última hipótese, atroz, provável, Julien respirava aliviado, quase lamentando o tempo feliz em que poderia cortar todas as amarras, entregar seu coração e deixar que alguém desse sentido a sua vida, isto é, um tom. E Julien, desolado diante de sua impossibilidade de amar, enfermidade quase gloriosa pois colhida nos campos de ba­talha, Julien ofereceu na 'escuridão, com os olhos fechados, um rosto impaciente e triunfante. Mas, no momento de o rosto de Clarisse se aproximar do seu, Julien pôde ter sau­dades do amor. Se ele amasse, o seu futuro se povoaria, as ruas, as praias, os sóis, as cidades voltariam a ser reais, dese­jáveis mesmo, pois seriam mostrados compartilhados. A terra, aceita como redonda, tornar-se-ia plana, aberta como a palma de uma mão a percorrer, os concertos se repetiriam, os museus se reabririam, os aviões reencontrariam seus horá­rios. E se amasse, ser-lhe-ia possível tanto compartilhar de todos esses tesouros, como esquecê-los deliberadamente, des­denhá-los por um quarto de hotel, uma cama, um rosto. E se amasse, seu passado, essa história um pouco fora de moda, mas decente, inenarrável, seu passado morto com a mãe, a única que desejara contar-lhe até o fim essa infância, tirá-la da sua banalidade para dela fazer uma série de acontecimen­tos originais, o seu próprio passado deveria ressuscitar e se apresentar impetuoso, intransigente, como o adolescente que se esforçaria por descrever e criar, toda memória falseada e toda recordação adulterada. Mas, definitivamente, Julien nunca seria mais sincero do que nessas mentiras, pois, pro­curando seduzir Clarisse, o que revelava em profundidade era o que o seduzia aos olhos dele, Julien. O que ele esboça­va, assim, através de um adolescente exemplarmente falso, era o adulto em que se tornara, e com tanto mais certeza por serem seus sonhos que ele assim descobria, seus sonhos e seus arrependimentos, únicos reveladores irrefutáveis de um homem. Pontos de referência bem mais confiáveis que as realidades; realidades que, como sempre, iriam parar como troféus duvidosos nas planas páginas de um calendário, onde seriam datadas, certificadas, reconhecidas pelos burocratas esclerosados da memória ou do julgamento moral. Através dos falsos relatos e dessas anedotas falsas, seria a verdadeira vida sensível de Julien que ele poderia afinal contar, vida que ele delineara, afinal, lógica, plana, estimável e final­mente feliz; porque para Julien não era das menores forças do amor a que o obrigaria a, todas as vezes, apresentar ao ser amado o reflexo de um homem feliz. Queria ser feliz, alegre, livre, forte. Que o amassem pelas suas desgraças, parecer-lhe-ia um insulto a sua virilidade, pois Julien gostava tanto dos prazeres do amor como dos seus deveres. Foi, pois, contemplando essa imagem de si mesmo, essa imagem gene­rosa e sentimental, que Julien recebeu nos seus lábios o beijo apenas apoiado de Clarisse. Só quando Clarisse se reergueu foi que a terra balançou, e tudo se tornou outra vez possível e infernal, pois, correndo para a luz, Clarisse já fugia, e era a primeira a dizer:

É preciso não recomeçar.

A terra balançava um pouco sob os pés dos passageiros após apenas três dias de cruzeiro.

— Vai haver barulho na volta — observou Simon Béjard.

Edma Bautet-Lebrêche, embora ainda um pouco cho­cada com a forma da conversa dele, não deixava de se mos­trar vagamente aprovadora quanto à sua essência. Esse rude bom senso depois dos comentários longínquos, fúteis e dis­tantes de seus amigos mundanos, essa apreensão brutal da realidade, traduzida em termos joviais e crus, pareciam-lhe, afinal, os mais reconfortantes. E mesmo dos mais tolerantes, não tendo os sarcasmos brutais de Simon o menor laivo de maldade; em suma, Simon Béjard não estava longe de repre­sentar o povo para Edma Bautet-Lebrêche. Esse povo que ela não conhecia e do qual a tinha separado, tanto, se não mais do que seu casamento luxuoso, uma infância laboriosa­mente burguesa. Além disso, a admiração de Simon Béjard era contagiosa, de tão ingênua. Chegava mesmo a ser como­vedora, por momentos.

Ah! isto aqui. . . — dizia, na charrete que levava em trote cerrado até a Piazzetta Charley, Edma e ele (Olga e Eric tinham preferido ir até lá de táxi).

E um lugar soberbo! Vou voltar para filmar aqui! — resmungou num acesso de profissionalismo, mas sem grande convicção, pois, por uma vez, Simon não pensava em termos de utilidade, mas de gratuidade.

Não é mesmo uma beleza? — disse Edma Bautet-Lebrêche, lisonjeada, imediatamente se apropriando de Capri e de seus encantos por um reflexo universal. — É bastante chocante, não? — acrescentou segundo o vezo próprio da alta sociedade e de certos intelectuais acrescentar um peque­no advérbio restritivo a um adjetivo flamejante. Era assim que ela achava Hitler "bastante abominável" e Shakespeare

"bastante genial", etc. O seu "bastante chocante" pareceu fraco a Simon, em todo caso.

Nunca tinha visto um mar igual disse. Que bela puta1!

Edma estremeceu; mas de fato o mar se estendia em todos os seus lençóis, do azul-noite ao azul-desbotado, dos púrpura flamejantes aos rosas impudicos, do negro ao cinza do aço, como uma cortesã, e se enlanguescia nessas cores misturadas com narcisismo e, sem dúvida, nos prazeres solitá­rios de que a superfície cremosa e lisa, prateada, nada refletia.

O que você acha da Piazzetta, Simon?

Não vejo nada resmungou. Porque a Piazzetta iluminada estava cheia de shorts, máquinas fotográficas, mo­chilas, entre os quais não via Olga nem Eric.

Devem estar no Quisisana. o único bar tranqüilo do hotel. Vamos. Você vem, Simon?

Mas eles não estavam no Quisisana, nem no Número Dois, nem na

 

1 Em francês, a palavra "mar" ("met") ê do gênero feminino. (N. do E.)

 

Piazzetta, em parte alguma, constatou Simon com a irritação crescente pouco a pouco transformada em decepção, em desgosto. Sonhara ver Capri com Olga, mis­turara seus sonhos de infância com a realidade da idade ma­dura. Sentia-se ainda mais triste porque Edma e Charley, de início otimistas, confiantes, adotavam pouco a pouco um tom de pena, falavam-lhe afetuosamente, riam cada vez mais alto de suas brincadeiras, cada vez mais raras, ou talvez mais ligeiras.

Devem ter voltado para bordo disse Edma, sain­do da sexta boate e instalando-se num murinho baixo, com as pernas pesadas. Estou exausta. Devíamos voltar tam­bém, eles devem estar esperando por nós.

Coitados. . . Talvez estejam mesmo furiosos! disse Simon, amargamente. Talvez seja preciso nos des­culparmos! Eu também estou exausto confessou, sentan­do-se perto de Edma.

Vou buscar alguma coisa para beber, ali defronte propôs Charley, a quem consolar o desgosto dos outros não consolava o seu, porque não encontrara nem traço de Andreas, apesar de suas perguntas indiscretas. E no entanto, com a beleza do rapaz, de braços com a Doriacci, não deve­riam ter passado despercebidos... Ia aproveitar sua missão para interrogar Pablo, o barman do Número Dois, a par de tudo o que acontecia em Capri.

Charley partiu, pois, no seu passo dançante, um pouco juvenil demais, embora seu porte não correspondesse à mar­cha, não indicasse qualquer alegria, e Edma sabia por quê. "Ah! como estava divertido o passeio a Capri, entre esses dois corações partidos!. . ." Por uma vez felicitava-se por sua castidade voluntária. . . se não tanto voluntária, pelo menos deliberada.

Eric pegou o táxi e junto com Olga insinuou-se pelas ruas estreitas de Capri, sem mesmo chegarem a combinar qualquer coisa. Havia um lugar muito bonito de que Eric se lembrava, que dava para o mar, a dois passos do Quisisana. Parou no Quisisana por um instante, confabulou com o por­teiro e depois voltou para Olga com ar distraído. Apesar de sua grosseria permanente, Eric pensava que um pequeno preâmbulo sentimental era necessário, que não podia decen­temente, sem o menor discurso, arrastar a jovem atriz para a cama. Ela não deixava de pensar nisso também. "Era tão comovedor, Fernande, ver aquele homem afinal tão seguro de si e de seus sucessos com as mulheres, vê-lo fazer tantos volteios para me confessar essa coisa tão simples, seu dese­jo. . . É porque ele é um homem que faz parte dessa geração deliciosa (e finalmente mais viril do que qualquer outra) que não se considera dono de um corpo de mulher no momento em que ela lhe agrada. Ficamos dez minutos trocando bana­lidades num terraço antes de ele se decidir. . . Você com­preende? Estava comovida até as lágrimas..." Na verdade, Olga, habituada a investidas mais expeditas, principalmen­te naquele meio cinematográfico em que os heterossexuais convictos se disputavam como raridade, tinha temido de início que Eric fosse impotente. Depois, quando lhe falou com uma voz falsamente despreocupada: "Sinto desejo por você", com uma voz que ela acreditou sentir vibrar de dese­jo controlado, ela se dissera sem querer, com um pouco de ironia: "Já perdemos dez minutos". Uma hora mais tarde teria direito a dizer que fora na verdade uma hora perdida, tanto Eric se revelara expedito, brutal e irritado, em todo caso o menos interessado possível no prazer dela. Se não fosse o diretor do Fórum, ela o teria mesmo insultado muito trivialmente, mas essa auréola fez com que o achasse admirá­vel de vigor e de uma pressa comovedora. Eric tornou a ves­tir-se em dois minutos, contente com esse sucesso, aliás fácil, e já se perguntando como Clarisse poderia ser informada do fato. Mas na porta Olga o deteve com uma mão pousada em seu ombro. Virou-se, espantado.

— O que foi?

Ela bateu com as pálpebras e murmurou:

— Foi divino, Eric. . . Realmente divino. . .

— Vamos recomeçar — declarou polidamente, sem qualquer convicção.

Tinham-se amado no escuro, e ele seria incapaz de dizer como era ela. Olga teve que insistir para que ele lhe ofere­cesse uma garrafa de chianti no terraço do hotel.

Andreas imaginava-se dançando, aliás com entusiasmo, um tango ou o jerk, nas boates da noite, mas se viu numa enseada totalmente deserta na qual um mar morto e trans­parente batia na escuridão.

Vamos nos banhar dissera a Doriacci, e ele a viu estupefato tirar os sapatos, o vestido, e os pentes. Viu seu corpo gordinho e indistinto passar como uma mancha branca diante dele e ir se debater no mar com gritinhos de alegria. Não imaginava nem por um instante a força interior daquela mulher para se expor nua, mesmo na escuridão, a um olhar que ela acreditava crítico. Ora, esse olhar já não era crítico: se ela tivesse o dobro do seu peso e mesmo que fosse feia, Andreas não o teria percebido. Estava há três dias penetrado de um sentimento que se assemelhava muito à devoção e que, percebia bem, não o ajudaria a provar sua virilidade. Às pinturas, os drapeados, o porte da Doriacci o tinham en­chido até ali de um terror respeitoso, e assim, quando a viu debater-se na água com gestos infantis, quando aquele rosto marmóreo ficou coberto de cabelos molhados e a voz sonora se reduziu a gritinhos agudos provocados pelo frio, o terror cedeu em Andreas, diante do instinto de proteção: Andreas despiu-se, correu ao mar e chegou junto à Doriacci, atrain-do-a para seus braços e levando-a para a praia com decisão, como o soldado rústico que não tinha conseguido ser duran­te vinte e quatro horas. Ficaram depois muito tempo estica­dos na areia, perfeitamente bem, apesar do contato desagra­dável e frio da areia e do ligeiro tremor intermitente que os fazia se apertarem um contra o outro como escolares.

Você fez de propósito? disse ele em voz baixa.

De propósito o quê?

Voltou-se para ele sorrindo, e Andreas viu-lhe o brilho dos dentes e o contorno dos ombros e da cabeça contra o céu claro.

De propósito, tirar seus pentes disse.

A Doriacci sacudiu a cabeça da direita para a esquerda.

Nunca faço nada de propósito, exceto quando canto: nunca admiti fazer de propósito qualquer outra coisa.

Eu, sim — confessou ele ingenuamente. — Você não sabe como já fiquei envergonhado. ..

Vocês são bem tolos, vocês homens — declarou ela, acendendo um cigarro e pondo-o na boca. — Vocês têm certas noções sobre o amor. . . Será que pelo menos você sabe o que é ser um bom amante, para nós, mulheres?

Não — disse Andreas, intrigado.

É ser um homem que nos acha boas amantes, e é só. E que mantém o mesmo humor que nós no amor: tristes, se estamos tristes, alegres, se estamos alegres, e não o con­trário. Os técnicos não passam de uma lenda — disse com firmeza. — Quem lhe ensinou, seja lá o que for, sobre as mulheres?

Minha mãe e minhas tias.

E ela caiu na gargalhada e depois escutou-o com atenção e uma espécie de afeto maternal, enfim, enquanto ele con­tava sua infância bizarra. Mas recusou-se, apesar das solici­tações, a falar da sua. "Gostava que se abrissem com ela, mas ela própria, não", pensou Andreas com melancolia, mas uma melancolia não bastante grande para enfraquecer sua felicidade e o sentimento de triunfo que o habitava.

Esbarraram em Olga e Eric ao chegarem à escada do navio. A aurora não estava distante no céu, e nem a embria­guez na ponte do navio, onde os esperavam Edma, Simon e Charley.

Adiantaram-se os quatro para as cadeiras reclináveis. A Doriacci e Andreas visivelmente satisfeitos um com o outro, embora ela tivesse soltado a mão do jovem, mas com aquele ar de inocência que o prazer proporciona, o que ressaltava de modo curioso, por oposição, a sensação de culpa dos dois outros. O ar formal e frio de Eric não conseguia contraba­lançar a retidão submissa e virginal pousada como um véu sobre o rosto de Olga; um ar tão deliberadamente angélico que era uma confissão à beira do insulto. Pelo menos foi o que pensaram Charley e Edma, e eles baixaram os olhos pre­cipitadamente, como se Simon pudesse ver neles o reflexo dessa certeza e sentir-se obrigado a reagir. Mas Simon bebera demais, estava muito embriagado e, embora clara, a confissão pareceu-lhe involuntária. Era uma coisa que resolveria a sós com ela; ainda assim, não sabia se teria coragem. Sentia-se culpado, desde logo, por "saber". Olga sentou-se ao lado dele com um sorrisinho falso, e Eric, pouco à vontade, sen­tou-se ao lado de Edma, que não o olhava.

Para sua grande surpresa, Edma, que tinha o hábito, no entanto, dessas trocas de parceiro, sentia uma espécie de desprezo, pelo menos de aversão, com relação a Lethuillier, e Charley devia ter os mesmos sentimentos, porque também não parecia notar a presença do belo viking a seu lado.

E se bebêssemos mais alguma coisa? disse Char­ley à Doriacci, visivelmente hesitante.

A tensão que reinava naquela mesinha noturna era quase palpável. Mas Andreas, que não ligava a mínima e só sonhava em reiterar suas proezas amorosas, bateu com os pés, resmungou que era tarde demais, o que fez a Doriacci decidir-se: ela sentou-se, esticou as pernas e pediu uma limo­nada a seu cavaleiro servidor, com voz imperiosa. Edma e Charley respiraram. A presença de terceiros, ainda mais terceiros do que eles próprios, afastava o drama. (Era raro Edma tentar evitar um drama.)

Nós os procuramos por toda parte — disse com voz aguda, que desejava que soasse deliberadamente mundana, esperando assim banalizar a busca inútil em Capri.

Ora, ora. . . Onde vocês estavam, afinal? — disse Simon com ar brincalhão e falsamente severo, um ar bona­chão de fato, ele também tentando atenuar o clima de drama.

Vagamos ao acaso — disse Olga, com voz átona, impessoal, de uma indiferença tão forçada que Edma sentiu um desejo violento de esbofetear de repente, mais uma vez, aquela mulher pretensiosa e feroz. Desviando os olhos cruzou com o olhar da Doriacci, e leu nele o mesmo desejo igual­mente refreado, sentindo de repente afeição pela Diva. Pelo menos esta se comportava bem: tinha desejo de carne fresca, tomava-a sem fazer barulho nem caretas; e ali, esticada em sua poltrona, com expressão satisfeita e contente de estar assim, o rosto desabrochado, ameno, parecia dez anos mais jovem e ingênua nos seus cinqüenta e cinco do que Olguinha nos seus vinte e seis, de que se orgulhava, e com os quais, como se fosse uma virtude, acabrunhava o infeliz Simon.

Julien Peyrat não está com vocês? — disse Eric de súbito, com uma expressão suspeitosa muito inesperada, pensou Edma. — Não o vi em Capri, pensei que ele tivesse ido com vocês — perguntou imperativamente a Edma, que não lhe respondeu, com os olhos sempre fixos adiante. — Pensei que ele estivesse com vocês — recomeçou, com vee­mência desta vez, e Charley se interpôs, de repente, inquieto.

Não — respondeu. — Edma tinha Simon e a mim como cavalheiros para acompanhá-la. . . Edma. . . A sra. Bautet-Lebrêche, quero dizer — corrigiu precipitadamente.

Chame-me de Edma, de uma vez — disse ela em tom cansado —, pelo menos quando o sr. Bautet-Lebrêche não estiver presente — acrescentou, brincalhona.

E Edma pôs-se a rir. Charley acompanhou-a, mas seus risos não tiveram eco.

Então Peyrat ficou no navio — resmungou Eric.

Ele deve ter ficado conversando com Kreuze — disse Charley, gentilmente.

— Ah, então não deve ter se aborrecido — disse Edma.

E pela primeira vez lançou a Eric um olhar agudo, bem de frente, um olhar que jubilava. Aquele imbecil do Le-thuillier tinha ciúmes da mulher, ainda por cima. Agora que pensava nisso, acreditava que por certo se passavam coisas entre o encantador Peyrat e a encantadora Clarisse. Exata­mente por não haver nada de visível entre eles, acabava ha­vendo alguma coisa, evidentemente. . . Espantava-se de não ter pensado nisso antes! Eric sustentou seu olhar um ins­tante, com um sentimento que parecia ser de raiva nos olhos, depois bateu com as pálpebras e levantou-se, brusco.

— Eu volto — disse, não se sabia bem para quem.

E partiu a passos largos, afastando-se do círculo. E pouco depois só se via a mancha clara do seu casaco, que desaparecia no tombadilho. . .

Simon Béjard jogara a cabeça para trás. Parecia vagar em outras paragens, e realmente hesitava entre duas vodcas de um lado e duas atitudes de outro. Uma era levantar-se, respirar fundo e puxar Olga pelo braço até a cabina, o que era a solução número 1 dos filmes de cineastas ditos viris; a segunda, respirar com indiferença, propor um jogo de bacará e falar de outra coisa, o que seria a solução número 2, dos cineastas ditos modernos. A solução dele, Simon, no seu cine­ma pessoal e sem êxito, seria ficar em sua poltrona ao abrigo, sob a proteção de Edma e de Charley, a proteção de sua garrafa de vodca, que ainda não estava vazia, e se embriagar até de manhãzinha, até mesmo ao sol do meio-dia. Não que­ria, não podia enfrentar Olga a sós, naquele lugar apertado, com uma vigia, aquela pequena cabina luxuosa onde, afinal, não se sentia bem desde a partida. Porque isso significaria enfrentar uma cena e se ouvir dizer coisas cruéis (que adivi­nhava cruéis), ou então não fazer perguntas, nada pedir, e enfrentar um desprezo silencioso, crescente e injusto que, ele sabia, constituiria uma espécie de dívida da sua parte.

Realmente era o cúmulo, ser enganado e ainda pratica­mente ter de pedir desculpas. Mas fora a isso que ele che­gara, de repente percebia com terror. Porque as duas outras soluções, as soluções "normais", que consistiam em dar uma bofetada naquela prostituta, exigir desculpas e pro­messas, ou mais simplesmente desembarcá-la ou ele próprio descer na primeira escala sem outra forma de processo, essas outras duas soluções, as únicas "convenientes" também para um homem, lhe eram interditas. Não suportava a idéia daquele cruzeiro sem Olga; nem dias futuros sem seu rabo-de-cavalo, seu corpo elegante e bronzeado, seus gestos brus­cos, sua voz estudada, sua tensão e o rosto infantil que ela mostrava ao dormir, aquele rosto que era, em suma, a única coisa que podia amar de verdade nela, a única coisa pela qual ela não era responsável.

Simon Béjard teve a impressão de que o tombadilho se abria sob seus pés, como num livro; uma espécie de náusea encheu-lhe a garganta, fazia brotar suor sobre sua testa; e admitiu afinal que estava apaixonado de fato por aquela prostituta que não gostava dele. Fechou os olhos, fez por um segundo uma expressão dolorosa, aterrorizada, que lhe deu um ar muito mais jovem e muito mais digno que de hábito. E mais uma vez só Edma surpreendeu esse rosto, para seu espanto. Instintivamente estendeu a mão na meia-luz e deu uns tapinhas no braço da poltrona de Simon, ao lado do seu braço, perto o bastante para que ele sentisse. E Simon voltou-se para ela com o olhar de um afogado, um afogado rubro e escarlate, um ruivo ridiculamente púrpura e infeliz que conquistou de vez o que restava de coração à elegante Edma Bautet-Lebrêche.

Clarisse dormia. Eric entrara silenciosamente no quar­to, com o rosto endurecido por uma raiva cega contra algu­ma coisa que não sabia exatamente o que era, uma raiva sem qualquer relação com o aborrecido e rápido intermezzo que fora a noite com Olga. Pelo menos deveria ter conserva­do um prazer orgulhoso dessa noite, mas só lhe restava uma sensação obscura de ter sido logrado. Mas por quem? Gosta­ria que tivesse sido por aquela mulher adormecida, e que tivesse tido a prova flagrante ao voltar à cabina: gostaria de tê-la encontrado nos braços de Peyrat, tendo assim um pre­texto para bater-lhe, insultá-la, fazê-la pagar por aquelas três horas aborrecidas e triviais, fazê-la pagar a promiscuidade do táxi com aquela mulher caçadora, fazê-la pagar a multidão vulgar naquela Piazzetta, o sorriso entendido do porteiro do hotel e sua obsequiosidade complacente, fazê-la pagar o con­tato daquele corpo estranho contra o seu, os gritinhos e os sobressaltos simulados daquela débil mental nos seus braços, fazê-la pagar aquele chianti xaroposo e interminável que tivera de beber depois, para festejar aquilo. Gostaria de encontrá-la nos braços de Peyrat e ao mesmo tempo não o teria suportado. Eric continuava imóvel diante da cama e do corpo adormecido de Clarisse. Só lhe via os cabelos ruivos sobre o travesseiro. Jamais veria outra coisa dela: cabelos sobre um travesseiro, escondendo o rosto que jamais veria. Ela lhe escapara. Tinha escapado e não sabia por que nem como tinha tanta certeza disso. Ao mesmo tempo, reprimia essa idéia, rejeitava-a como um fantasma, como um absurdo, como uma impossibilidade total. Era sua mulher, Clarisse, que reduzira havia muito tempo à sua mercê, e isso não mu­daria enquanto vivesse.

Virou nos calcanhares bruscamente e saiu batendo a porta. Assim, quando voltasse, ela estaria acordada e em condições de constatar no rosto dele todos os traços de suas delícias amorosas com Olga. Pareceu-lhe ter ficado apenas um minuto ao lado da cama de Clarisse, mas, quando tornou a subir ao tombadilho, não havia ninguém. Só viu Ellédocq, apertado no seu blazer azul-marinho, recolocando com ar solene a corrente da escada. O capitão virou-lhe um rosto satisfeito.

— Todo mundo de volta a bordo. Vamos partir.

E lançou um olhar mortífero para Capri e suas luzes, para aquele lugar de perdição, um olhar que em outras cir­cunstâncias talvez tivesse feito Eric rir.

Armand Bautet-Lebrêche estava acordado, infelizmen­te!, quando Edma voltou à cabina. Ele não dormia antes das cinco da manhã e acordava às nove, tão bem-disposto como seria possível a um jovem ancião já não muito jovem. Lan­çou um olhar frio a Edma, despenteada, um pouco ébria, foi o que pareceu a Armand, que detestava esse estado nas mulheres em geral e mais especialmente na sua. Mas não foi seu olhar reprovador que chamou a atenção de Edma, mas, bizarramente, seu torso. Armand Bautet-Lebrêche vestia um pijama de seda riscada comprado em Charvet, de colarinho russo, um pouco largo, o que lhe dava mais do que tudo o ar de um pássaro depenado. Aqueles poucos pêlos cinzentos que a natureza esquecera no seu peito de repente lhe pare­ciam obscenos, literalmente, e de modo maquinal dirigiu-se a ele. Embora estivesse deitado, isto é, segundo o regula­mento deles, intocável, fechou-lhe o colarinho em torno do pescoço e deu-lhe um tapinha no ombro. Armand lançou-lhe um olhar indignado.

Perdão. . . — disse ela entre dentes (não sabendo muito bem de que se desculpava, aliás, mas vagamente cul­pada ainda assim). Você não está dormindo.?

Não, por acaso tenho o ar de quem está dormindo? "Para uma pergunta idiota, uma resposta idiota", pensou maldosamente. Ele próprio não sabia por que o gesto de Edma o tinha aborrecido tanto. Na realidade um e outro ficariam completamente surpresos se ouvissem dizer que a origem dessa raiva e desse remorso igualmente confusos era infração às regras milenares do gato deitado. Enquanto espe­rava, Armand ficara de mau humor, e não faltava mais nada, pensou Edma sentando-se no seu beliche, com os braços soltos. Aquela noite fora infernal.

Que noite! disse, na direção de Armand, de novo mergulhado nos seus blocos, nos jornais financeiros que co­briam a cama, e aos poucos a cabina inteira. — Que noite. . .

—    repetia, mais lentamente e sem entusiasmo.

Repugnava-lhe despir-se e, principalmente, tirar a ma­quilagem. Tinha medo de se achar velha naquele espelho cruel, sobrecarregado de acaju. Afinal, representara o segun­do papel durante toda a noite e não podia deixar de pensar nisso. Certamente ela era o núcleo desses pequenos grupos, como lhe diziam, mas já não era a polpa. Além disso, aquela noite ela representara o papel de confidente das damas de caridade, uma figurante, era isso: ela chegara até ali...! E, de fato, comparados aos papéis habituais de provocadora de disputas ou de cronista feroz, os novos papéis que lhe sugeria sua nova bondade pareciam-lhe bem chatos.

Imagine. . . — disse, com sua voz trombeteante (que provocou um latido cavernoso do encantador Fuschia do outro lado da parede) — imagine — continuou ela muito mais baixo — que o pobre Simon e o pobre Charley tam­bém, aliás. . .

Escute — disse Armand Bautet-Lebrêche —, seja gentil, minha querida, poupe-me de ouvir as miseráveis de­pravações dos seus . . . enfim, dos nossos companheiros de viagem. . . O dia inteiro já é um pouco demais, você não acha? — acrescentou com um sorriso constrangido, porque Edma, imóvel, olhava-o com ar estranho.

"Que teria ele podido dizer de mais terrível?" Depois de um curto silêncio, Edma levantou-se, dirigiu-se para o banheiro passando diante dele. "Está numa magreza real­mente exagerada", observou pacificamente Armand, que, aliás, tendo o mesmo médico de sua mulher, sabia que ela estava muito bem.

—    Finalmente. . . — disse Edma, vindo do banheiro

—    finalmente, fora os seus cálculos e continhas, você não se interessa por ninguém, não é verdade, Armand?

— Sim, minha querida, sim: por você e por todos os nossos amigos verdadeiros, aliás, naturalmente que sim. . .

Não houve resposta e, diga-se, ele não a esperava. "Per­guntas idiotas, respostas idiotas", pensou ainda. Que idéia tinha Edma! Naturalmente que se interessava pelos outros! Naturalmente. . .

Enfim, "era estranho a que ponto as ações da Saxer estagnavam havia algumas semanas. . ." Tornou a mergulhar em seus algarismos; estes, sim, pelo menos tinham sentido. De qualquer modo, nada teria compreendido das lágrimas que hesitavam, completamente intrigadas de ali estar, no canto dos olhos de Edma, do outro lado dos pés-de-galinha.

Fazia quarenta anos agora que Armand sustentava esse papel de velho, precoce de início, de homem que jamais fora jovem: papel que lhe agradara no princípio, porque o dispen­sara de qualquer entusiasmo, qualquer agitação frenética, tudo o que detestava; seu papel consistia, ao que parece, unicamente em pagar as contas do restaurante ou do hotel, esquecidas pelos companheiros joviais. Tarefa ingrata, mas da qual se ocupava sem se aborrecer, já que os meios de gastar dinheiro lhe pareceram sempre tão pouco interessan­tes quanto pelo contrário eram palpitantes os meios de ga­nhá-lo. Esse papel tinha portanto durado alguns lustros, para a felicidade de todos, mas atualmente parecia que se suportavam menos os sinais de velhice nos "já velhos", como ele, do que nos "nunca velhos". Estes, transformando-se em velhos festeiros, podiam exibir gorduras, vermelhidões, pro­tuberâncias, desmazelos que só provocavam na sua mulher um comentário enternecido do estilo: "Ah! ele está pagando pelos seus bons anos. . . por isso tem rugas". Em com­pensação, o menor grama a mais em Armand, o menor tre­mor, eram interpretados como decadência. Ele envelhecia, sim — dizia ela, e no entanto não fora por falta de se preo­cupar. . . Foi assim que, cruelmente perseguido durante toda a vida por pessoas que o aborreciam e que ele tinha de freqüentar, Armand se via, quarenta anos depois, desprezado por estas mesmas pessoas por assim ter feito. Parecia que nenhuma lembrança alegre era evocada pelo seu nome; a não ser talvez algumas crianças apaixonadas por guloseimas, nin­guém sorria ao enunciado de seu nome. Por outro lado, se alguém falava de Gérard Lepalet ou de Henri Vitzel, "os que tinham queimado a vela pelas duas pontas", os cenhos se distendiam e uma espécie de simpatia reconhecida tremia na voz dessas senhoras. Ora, perguntava-se Armand, afinal, e após algumas experiências, as proezas sexuais desses be­los leões teriam sido superiores às suas? Esse tipo de ho­mens dormia com as mulheres dos amigos, enquanto que ele dormia com suas secretárias. Aqueles homens faziam suas mulheres infelizes por algum tempo, e ele punha essas outras mulheres jovens à vontade e confortáveis por outro tanto tempo. Perguntava-se finalmente qual seria o maior mérito, o primeiro ou o segundo. O que chocava Armand nessas ligações mundanas era que se misturasse paixão nelas, que essas brincadeiras provocassem, às vezes, divórcio em casais com interesses concordantes, que, em suma, entre pessoas bem-educadas fosse preciso falar de amor nesse caso, tam­bém. Naturalmente, a pobre Edma envelhecia e tinha menos amantes, mas era um fato clássico; Armand Bautet-Lebrêche nunca se dissera que, se Edma se sentia tão só a ponto de enganá-lo, talvez fosse porque ela estava realmente solitária, e ele não era o menor culpado dessa solidão.

Dez minutos depois, todo mundo dormia no Narcissus.

Julien Peyrat saía geralmente do sono como um náufra­go, aturdido e atemorizado, mas daquela vez teve a impres­são de que fora uma onda jovem e vigorosa que acabava de depositá-lo nu nos lençóis amassados, ao sol deslumbrante de sua cabina, um sol que entrava em cheio pela vigia, que lhe lambia os olhos, abrindo-os, e que, antes mesmo de lhe dizer onde estava, antes de qualquer outra informação, de­clarava-lhe que estava feliz. "Feliz. . . estou feliz", repetia para si mesmo com os olhos fechados, ignorando ainda as razões dessa felicidade, mas já prestes a se entregar a ela. E recusava-se a abri-los agora, como se essa bela felicidade involuntária estivesse cativa de suas pálpebras e prestes a fugir. Tinha bastante tempo. "Fecham-se os olhos dos mor­tos com doçura e é também com doçura que é preciso abrir os olhos dos vivos." De onde vinha isso? Ah! sim, era uma frase de Cocteau, descoberta num livro, vinte anos atrás, um livro descoberto por sua vez num trem vazio. . . E Julien acreditou ainda sentir o cheiro cinza desse trem e pensou mesmo rever a fotografia plana do grande pico nevado que ficava defronte dele no vagão deserto, e pensou rever a frase de Cocteau e esses sinais negros na página branca. Belas frases ronronantes ainda hoje, e que acreditava esquecidas havia muito, surgindo assim de improviso na memória. E Julien, pouco seguro de seu último endereço, achava de certo modo milagroso descobrir-se proprietário sem saber, proprietário de longas tiradas racinianas falsamente pacíficas no seu fino traçado musical; proprietário de fórmulas res­plandecentes de espírito, frases involuntariamente de fundo conciso, graças a uma concisão desejada, da sua forma; pro­prietário de mil poemas misturados. Na desordem repleta e resignada de sua memória, acumulara uma provisão de pai­sagens imóveis na sua banalidade, de músicas militares, re-frões estimulantes e vulgares, odores quase todos roubados à infância, planos de vida fixos como os de um filme. Era um caleidoscópio ingovernável que desfilava sob suas pálpe­bras agora, e Julien, paciente com sua própria memória, esperava sem se mover que o rosto de Clarisse, voltando à sua memória sensível, quisesse também voltar à sua memória visual.

Os rostos de duas outras mulheres surgiram primeiro. Eram rostos pálidos, desconfiados, como informados de sua desgraça recente. Depois foi um Andreas descabelado, de perfil contra o céu, que se incrustou sem razão, e que foi seguido por um cão amarelo estendido no cais na partida de Cannes. Enfim, vieram dois pianos, um com a parte de cima encaixada na parte de trás do outro, irreconhecíveis, cuja origem Julien não procurou encontrar. Sabia que havia de fato algumas falsificações entre as suas lembranças, e que imagens falsas estavam misturadas às verdadeiras. Havia muito tempo que não procurava reconhecer esse rio da China onde jamais estivera, nem aquela dama risonha que jamais vira nem mesmo esse porto nórdico calmo, e no entanto tão familiares e tão teimosos todos os três nas suas aparições. Não, não reconhecia nem aquele rio, nem aquela mulher. . . E não, nunca pusera os pés nesse porto do qual no entanto podia sentir o cheiro e que podia mesmo des­crever com adjetivos precisos. Essas lembranças, esses fla­shes, misturados como cães sem coleira a essas verdadeiras lembranças, as vivências, deviam ter pertencido um dia a alguém, um outro alguém que estaria morto. . . E lançada fora de sua concha natural, fora dessa coisa apodrecida atualmente e dissolvida na terra, essas pobres imagens pro­curavam um dono, uma memória e um refúgio. Nem todas, aliás. Por vezes, algumas delas voavam, apenas entrevis­tas, sem dúvida, para uma outra memória mais acolhedo­ra, e ele não as revia mais. Ao que lhe parecia, porém, o mais freqüente era se incrustarem desesperadamente, vol­tarem anos inteiros atrás, tentarem se confundir com as lem­branças reais, as legítimas: em vão. Esse porto desconhecido mas ardente por se fazer reconhecer acabaria sem dúvida por largá-lo um dia. . . Partiria de novo no escuro a esbarrar com outras consciências esclarecidas — e fechadas, pois eram vivas; o porto tentaria em vão insinuar-se sob outras pálpe­bras. Tornaria a partir mais uma vez para atacar alguém com seu encanto, sua nostalgia. .. A menos que Julien, bom príncipe, se decidisse um dia pela graça de sua imaginação a encaixar seu pobre porto arbitrariamente num velho filme de infância, ou num livro de escola, e se persuadisse assim da autenticidade desse usurpador.

Enfim o rosto de Clarisse surgiu diante dele, sorridente, no escuro, e de repente, extremamente preciso, imobilizou-se por muito tempo. Tempo bastante para que pudesse de­talhar os olhos claros e alongados, os olhos assustados e voluptuosos, a aresta reta do nariz e as maçãs salientes à luz do bar, e o desenho da boca por baixo, vermelha sob a tinta, depois rosa, quase bege, depois do beijo. E Julien sentiu de súbito o contato exato dessa boca sob a sua, com tanta pre­cisão que se sobressaltou e reabriu os olhos. O rosto de Cla­risse desapareceu, empurrado pelo aparecimento de uma ca­bina de acaju, de um lençol branco, de cobres ofuscantes ao sol: um sol muito alto, muito arrogante e cujo brilho a vigia, deixada aberta na véspera, esgotada, batendo ao ven­to da manhã, tentava ainda em vão interceptar. Um sol que trazia Julien para o dia, o jogo e o cinismo: como para compensar os efeitos desse sentimentalismo exagerado no qual não se reconhecia, ou já não se conhecia mais, Julien Peyrat abriu seu armário, tirou o falso Marquet, pendurando-o na parede no lugar da escuna Drakes's Dream que a decorava até então. Já era tempo de passar adiante sua obra-prima a um crédulo, e chegar mesmo a ser um pouco ma­treiro, mesmo que inconscientemente já estivesse gastando por conta em presentes para Clarisse.

Após alguns instantes de contemplação, retirou-o da parede e tornou a colocá-lo cuidadosamente entre duas cami­sas, envolto em papel de jornal.

Por seu lado, Clarisse acordava assustada, envergonha­da e decidida a esquecer tudo o que acontecera na noite anterior.

Na madrugada azul-pálida de Capri, um céu azul tão páli­do que os primeiros, os prudentes raios de sol pareciam amarelo-vivos, Simon não tivera muita dificuldade em simular a mais total embriaguez para voltar à cabina, como também pensava simular uma forte enxaqueca ao acordar. A primeira parte de seu plano correra muito bem: fora levado para a cama por Charley, Edma e Olga. Chegaram mesmo a prender o lençol em torno dele e desejar-lhe os mais doces sonhos. Mais tarde Olga tentou acordá-lo muitas vezes em vão. Simon roncava tão forte e tonitruantemente, que ela desis­tira. Mas agora, ao despertar ao meio-dia, teria dificuldade, sabia-o bem, para escapar à grande cena das confissões que Olga vinha cozinhando desde a escala. E seria uma catástro­fe, aquela explicação, apesar de ser ele o acusador, o quei­xoso, o homem enganado. Porque das duas uma: Olga, de pé, assumiria um ar virtuoso, doloroso e digno, negaria qual­quer traição, o que lhe permitiria os gritos de pavão da dignidade colérica; ou então, mais provavelmente, senta­da, segurando a xícara de café na mão, contar-lhe-ia com todos os detalhes, em voz monocórdia, os encantos de sua noite de adultério. Empregaria palavras muito simples, de forma deliberada, palavras "cruas e naturais", numa espécie de borborigmos entrecortados por hesitações "adolescentes" do gênero "Hã. . . Hã. . . Quer dizer. . . Entende?", que naquela ocasião eram consideradas o reflexo da juventude e sua linguagem, a verdade da época, e que se tinham tornado de modo efetivo a linguagem comum a muitos cineastas, comediantes, jornalistas e mesmo escritores, todos até bem maduros, aliás. Simon queria evitar isso; não queria saber oficialmente o que já sabia por sensibilidade. Não se tratava, como pensava Olga, de recusa de sua vaidade, de sua susce-tibilidade viril: era simplesmente para não sofrer, para não ter que imaginar, colocar, ver Olga nos braços de um outro homem. Mas Olga não devia saber de suas razões para recusar confissões, tão doces ao seu coração, ao que lhe pare­cia. Porque se sentisse que ele estava apaixonado, iria espe­zinhá-lo com um prazer total. E já era bastante extravagante para Simon a maneira como sofria naquele beliche duro, com os lençóis esticados demais, sobre o qual jazia de barriga para baixo com a cabeça no travesseiro, como quando tinha doze anos. Dava-lhe a impressão que seu coração ficava mais pesado de sangue, apesar da espécie de punções que algumas imagens lhe causavam, certos desejos, aqui também a propó­sito de uma mulher, que era então uma menininha da sua idade, com tranças. Ele se acreditara ao abrigo disso havia vinte anos, a tal ponto sua vida sentimental ficara subordi­nada à material. . . Nada lhe restava a perder, mesmo por um amor louco, pensara imprudentemente, nem as mulhe­res vampiros, nem as mulheres invasoras, nem os ônibus que se esperava na chuva, nem os sapatos apertados demais que se precisa amaciar. Pensara-se a salvo de tudo isso, ao mesmo tempo que dos olhares condescendentes dos rapazes do Fouquet's, pelo seu triunfo em Cannes, pelo seu sucesso. Mas iria trocar essa servidão por uma outra que não imagi­nava, nem mesmo naquele momento, que pudesse ser pior?

Tudo lhe chegara, aliás, pelo sucesso. Encontrara Olga em Cannes, porque ali estava por ser atriz, como estrela ascendente, e ela seguira-o por ambição. Tinha portanto um coração bastante preparado, em todo caso, para que toda ausência de sentimentalismo de Simon não lhe fosse cruel. Ele escolhera Olga porque ela correspondia aos seus critérios estéticos, e porque, fisicamente, estava de fato três graus acima de todas as que a tinham precedido. Afinal de contas, Olga fora um acaso, um acaso que se tornara uma necessi­dade e uma dessas necessidades implacáveis que as paixões produzem. Infelizmente para Simon era no desgosto, no ciúme e na decepção que começava o seu primeiro amor, como acreditava, esquecendo que havia vinte anos oferecera casamento a uma meia dúzia de pessoas ternas ou odiosas. Todas essas mulheres, lembrava-se perfeitamente agora, ti­nham ficado comovidas com suas propostas conjugais e con­servado por Simon uma espécie de afeição do mesmo estilo. Mas Olga, ele sabia, rir-lhe-ia na cara e contaria essa loucura no meio artístico parisiense. Tinha que ser lógico e lúci­do. Olga não o amava. "Não de verdade. Ainda não. . .", gritou uma vozinha, afobada na mecânica bem-ajustada do espírito de Simon. Uma vozinha que se recusava à desgraça e que, através de todos os fracassos, falências e catástrofes materiais de sua vida aventurosa, lhe tinha falado aos ouvi­dos sempre com aquela frasezinha imbecil: "Tudo vai se arranjar". E, aliás, muitas vezes as coisas tinham se arranja­do para ele, quase apesar dele. "A vida decide tudo por nós", repetia-se Simon, de olhos fechados, não sabendo que fora ele que, de tanta ambição, coragem e entusiasmo, arran­jara as coisas. De toda maneira, desta vez, não eram a cora­gem, o entusiasmo ou a teimosia de Simon que estavam sendo requisitados, mas os de Olga.

Ela não se encontrava na cama quando Simon levantou a cabeça do travesseiro, e ele teve um momento de esperan­ça. Devia ter acordado antes dele, ao menos aquela vez, e para deixá-lo dormir fora tomar café no grande salão. Era realmente gentil da parte dela, principalmente quando se sabia, como Simon, que dificuldades Olga tinha para se le­vantar para o café. Tinha coragem, aquela moça. . . era ver­dade. E, no fundo, bons sentimentos, pois lhe inspiraram cuidados com o repouso dele, Simon. Reconfortava-se, rea-quecia-se com essa idéia, depois das primeiras reflexões cruéis. Porque a calça de linho, a camiseta bordada, a minús­cula calcinha lançadas em desordem na poltrona da cabina lhe tinham feito imaginar as mãos de Eric pousadas nessas roupas, as mãos de Eric lançando-as longe antes de pousa­rem sobre a pele nua de Olga. A essa idéia, Simon fechara os olhos e se retraíra debaixo dos lençóis, como Clarisse, na cabina vizinha. O ruído do copo de vidro para escovas de dentes caindo ao lado acabou de acordá-lo, seguido de um "Merda!" convicto. Porém, foi infelizmente seguido de outro "merda" também alto, mas que se sabia escutado e cantava na última sílaba.

Simon disse Olga —, você está dormindo? Tornou a fechar os olhos, mas ela repetia:

Simon. . . Simon com uma voz cada vez mais retumbante, e, entrando no quarto, ela inclinou-se para a cama. Simon, acorde. Preciso falar com você disse com voz mais alta, sacudindo-o um pouco com mão delicada (delicada demais, visivelmente, para pousar na testa ou nos cabelos de Simon, delicada demais para suportar outro con­tato que não fosse o do pijama).

Essas impressões, essas intuições ferozes em relação a si próprio deslizavam como peixes na superfície da água, deslizavam pela consciência de Simon, não se demorando, fugiam logo levadas pela grande torrente ainda poderosa que era o otimismo de Simon Béjard.

Chá. . . —- disse com voz infeliz. — Chá, chá. . . tenho sede. . . Estou com enxaqueca. . . Que enxaqueca. . . meu Deus. .. — Pousou a cabeça no travesseiro com um lamento um pouco exagerado, onde entrava muito terror: Olga aprontava-se realmente para lhe fazer uma confissão completa. . . Olga devia estar embriagada. Talvez tivesse até escrito essa confissão de noite. . . Simon encontrara duas ou três vezes rascunhos de conversa futura assim rabiscados num caderno, rascunhos dos quais mal perturbara o desen­rolar previsto e querido por Olga; rascunhos onde encontrara também na sua quase total integralidade algumas fórmulas lapidares e complicadas, embora mais ou menos simplistas, que ouvira antes de viva voz. Como poderia fazer para esca­par de Olga durante os sete últimos dias, os únicos dias em que a proximidade de sua falta ainda tornava possível a confissão? Confissão que mais tarde não se aplicaria a nada de vil, senão a um acidente banal e vagamente vergonhoso, ou então a uma ligação instalada de vez e mais difícil por­tanto de confessar, de contar liricamente. Enquanto espera­va, ela pedia chá pelo telefone, com uma voz mundana e açucarada, uma nova voz que estreava com o pessoal do navio, observou Simon pela segunda vez. Olga exagerava, mas ele preferia que fosse para mais do que para menos. Preferia esse empenho demagógico ao desprendimento "sobe­rano ou irritado" que a seus olhos usava até então com os empregados, nem mesmo olhando de frente para os garçons ou os maîtres d'hôtel.

Acho que você está muito mais amável com os ser­viçais — disse, quando ela desligou o telefone; — será que estou sonhando?

Nunca fui desagradável com eles. E ainda lhe digo mais: um certo tom de autoridade é o que todo bom empre­gado reconhece e aprecia.

Pois é, acho isso estranho para uma mulher de es­querda — rebateu Simon com ar distraído. — Acho estra­nho ficar por cima com os empregados, como você diz.

Sentia-se heróico, com um heroísmo perigoso mas que lhe evitaria, talvez, graças a uma nova cena, outra, a das confissões. Olga encarava-o, com um olhar gelado. Depois sorriu-lhe lentamente, pensativa, com o lábio superior um pouco levantado, como fazia sempre que se sentia ofendida por alguém e estava pronta a fazer esse alguém sofrer, de modo deliberado, mesmo que essa afronta tivesse sido invo­luntária.

— Não compreende porque não foi criado com empre­gados em torno de você — disse com voz calma (que ele conhecia como sendo em Olga a da raiva cega). — Estranha­mente, a naturalidade com os empregados não é coisa que se aprenda. É tarde demais, Simon. . .

Sorriu-lhe um pouco mais e continuou:

Enfim, para lhe explicar um pouco, não é o homem, o ser humano, que esnobo, é sua especificidade de maître d'hôtel, sua roupa, sua atitude obsequiosa; é isso o que me envergonha por ele, porque é um homem por baixo e um homem que vale tanto quanto eu, sem dúvida. É aos unifor­mes apenas que dirijo os meus sarcasmos, você compreende? Não ao ser humano.

Sim, compreendo, mas ele talvez não saiba tudo isso. . . Aliás, aí está o chá — disse, animado (porque o camareiro entrava trazendo até a cama cestas de frutas e croissants, os mais agradáveis de se ver). — Estou morren­do de fome — concluiu alegremente.

Eu também; para dizer a verdade, não jantei ontem. Não tinha fome, é preciso dizer.

Para dizer isso a voz de Olga tomou um tom solene, de uma solenidade desproporcional ao jejum. O garçom que os servia abrira as cortinas da vigia a aprontava-se para desaparecer quando Simon, assustado, estalou os dedos na sua direção e corou imediatamente.

Oh, perdão... — disse ele. — Desculpe-me — e refez o gesto sorrindo —, é automático. . .

Olga virara a cabeça com um ar enojado, desgostoso, mas o jovem camareiro sorria para Simon.

Você poderia me trazer, quando tiver tempo, uma toranja espremida? Uma toranja fresca, se vocês tiverem.

Eu talvez leve dez minutos — disse o camareiro antes de sair. — Todo mundo toca a campainha ao mesmo tempo a esta hora.

Não importa — respondeu Simon, que se virara para Olga e se espantou ostensivamente com seu ar aborre­cido.

O que foi? Você também queria um suco? Pode ficar com o meu.

— Não, obrigada, não, eu não posso lhe falar diante de um camareiro sem me interromper. Não posso falar dian­te dele, é um hábito de infância e absoluto. Meu pai não suportava que se revelasse qualquer coisa de nossa intimi­dade a desconhecidos, ou mesmo a familiares.

Simon sentiu a garganta apertada sob o jugo de uma piedade nervosa e inoportuna, "aquela pobre Olga, no seu roupão de seda chinesa bordado de florzinhas e pêssegos vermelhos, aquela pobre Olga, com um roupão de puta, falando como nos romancecos de estação de trem. . ."

— Dez minutos é muito tempo, de qualquer modo. O que é que você queria me dizer?. . . Espero que você não vá me fazer queixas por ontem à noite — acrescentou rapida­mente. — Estava tão bêbado que não me lembro de nada, mas de nada mesmo. Sou todo ouvidos.

Mas sabia bem que era preciso tempo para Olga reali­zar a sua grande cena do segundo ato, e que ela não supor­taria a menor interrupção. Dez minutos. . . dez minutos infelizes para seu papel seriam um desastre. Simon assobiava como um melro enquanto fazia a barba no banheiro, depois deu lugar a Olga, que se instalou diante do espelho e, com a mesma técnica de uma velha maquiladora de estúdio, come­çou a compor um rosto de mulher que confessa. Ao acaso, reforçou o vermelho da vergonha nas maçãs do rosto, com uma pintura um pouco viva, afundou as faces, fez cair as pálpebras, transformou-se numa mulher de trinta anos e numa mulher culpada, no espaço de vinte minutos. Lançou-se um último olhar no espelho antes de voltar ao quarto, com o ar solene, onde descobriu que o quarto estava vazio e o homem enganado voara.

O homem enganado partira com seu casaco sob o braço e os sapatos na mão. Já no corredor tentava enfiá-los em vão, porque o barco se movia com um princípio de vaga­lhões. Um movimento brutal, por causa de uma onda mais forte, fez Simon Béjard entrar, a pequenos passos apressa­dos, com os sapatos na mão, titubeando e de cabeça baixa, na cabina de Edma e Armand Bautet-Lebrêche. Sua entrada foi bem notada, sobretudo o final de sua trajetória, que o levou a tropeçar na cama de Edma, estendida e estupefata, uma Edma sobre a qual se projetou como um bêbado frené­tico, sob os olhos impotentes de Armand Bautet-Lebrêche, que a mesma onda eficaz lançara e espremera por cima do aparador de malas, dobrado pelo choque em torno de seus quadris. Sua estupefação foi rápida, pois, com o mesmo mo­vimento maleável e irrazoável, a onda arrancou Simon da cama de Edma Bautet-Lebrêche, com vigor idêntico ao que o atirara ali. Era indubitavelmente uma onda de equinócio, pensou Simon, confuso.

É seu flerte, naturalmente? perguntou Armand Bautet-Lebrêche com ar irritado à mulher, a espirituosa Edma Bautet-Lebrêche, que por uma vez na vida ficou calada.

Depois de ter experimentado em vão todas as peças de seu enxoval, isto é, dois casacos e duas calças que combina­vam, mais um terno cinza-azulado, Julien, que se achava horrível em todos (comprara-os às carreiras em Cannes, não podendo saber que ia se apaixonar durante a viagem), Julien, portanto, desamparado, mandou chamar Charley, Charley Bollinger, o árbitro das elegâncias, pelo menos no Narcissus.

O que é que você acha do meu aspecto, Charley? perguntou Julien com ansiedade, para grande surpresa de Charley, cujo espírito romanesco despertou imediata­mente:

Muito, mas muito simpático disse com calor e curiosidade, de um golpe, com todas as velas e antenas para fora, encantado tanto por receber confidências como por dar conselhos, auscultante ou oráculo, pronto a qualquer cena que lhe deixasse um papel, mesmo que perigoso. Ele se imaginava à noite jogando bacará com Eric, estóico, sem mesmo um pestanejar, apesar do ligeiro barulho, o ruído dos remos dos barcos de salvamento afastando-se à noite, pela força dos remos, levando para a felicidade Clarisse Le-thuillier e Julien Peyrat. Abreviou, portanto, esses cumpri­mentos inúteis:

Muito, muito encantador, muito simpático, caro. . . caro senhor!

Caro Julien disse este. Não, eu queria dizer: como o senhor me acha fisicamente?

Aí Charley ficou atônito por um instante e foi atingido, também, por um instante, pela extravagante esperança: já que Andreas nem olhava para ele, já que ignorava a própria existência de seu amor, talvez fosse possível ser consolado por Julien Peyrat. . . Não, impensável! Julien Peyrat era realmente um pouco maluco, mas um macho verdadeiro. . . Isso posto. . . era pena, muita pena. Corou um pouco ao responder:

O senhor quer dizer aos olhos de um homem ou de uma mulher?

De uma mulher, naturalmente — disse Julien com inocência (e o fantasma de esperança de Charley desapareceu por completo). — O senhor acredita que uma mulher possa se apaixonar por um sujeito com jeito ao mesmo tempo esportivo e triste como eu? Tenho ar de um queijo insosso.

Ah, isso é verdade, você está muito, muito mistu­rado do ponto de vista da vestimenta, meu caro Julien. Que estrago. . . Com esse físico de guerreiro, e de guerreiro amá­vel, ainda por cima! Vejamos um pouco esse guarda-roupa... Sim, sim. . . ponha tudo isso, quero ver vestido. . . — Ju­lien vestiu seus três conjuntos, maldizendo a si mesmo e a suas vaidades ridículas. Voltou depois do terceiro quadro em roupão de banho e olhou para Charley, que ficara im­passível durante esse desfile.

Então?

Então, é de roupa de banho que você fica melhor. Você fica mais natural. Ah, ah, ah — tinha um riso agudo, um riso de ferragem solta que bruscamente deu a Julien vontade de virá-lo de cabeça para baixo como um cofrinho. — É engraçado, Julien — continuou —, você não se deu conta, por certo, mas muda de expressão de acordo com o vestuário: fica com ar esnobe com o terno cinza, ar de ma­landro com a camisa de malha, um malandro esportivo e bem-educado, bem piedoso, é verdade. Com suas calças de veludo e seu infeliz, agonizante casaco de tweed, em com­pensação, você fica com um ar arrogante, calmo, muito, muito nobre inglês! Só lhe faltam um cachimbo e um cão de caça.. . É inconsciente?

Totalmente — disse Julien, ofendido.

E mal agradeceu a Charley antes de correr para a pis­cina. Um banho frio, segundo esperava, o despertaria um pouco de sua tolice e de seus sonhos de colegial.

Nadou crawl durante três minutos — era o seu máximo —, mas estava na piscina menor, com água pelo meio da perna e tremendo, quando Clarisse chegou. Sentia-se mise­rável, arrepiado como pele de galinha, com os pés dentro da água. Quando ela se aproximou, batendo na água por sua vez, e lhe estendeu a mão, desviando os olhos, com ar digno mas também com água pelo meio da perna, Julien sentiu-se melhor, mais igual. Lançou-lhe um sorriso furtivo e confian­te ainda assim, porque Clarisse, sem maquilagem para ir à piscina, era a mesma mulher da véspera.

Quando poderei vê-la? — disse Julien em voz bai­xa (porque os Bautet-Lebrêche acabavam de chegar à beira da piscina e esticavam quilômetros de tecido atoalhado, litros de óleo de bronzear, livros, cigarros, travesseirinhos, caixas prateadas, revistas, limonadas, toda uma parafernália extra­vagante, sob a qual o pobre Armand vergava, mais injusta­mente ainda porque de sua parte só desfrutava o sol sob um guarda-sol e a proteção do bar). Edma lhe fez um sinal com a mão e deu um pequeno sorriso cúmplice que completou o terror de Clarisse.

Não devemos nos ver de novo ■— disse, depressa. — Não convém. Não convém nos vermos outra vez, Julien, eu lhe asseguro. . .

Como se ele, Julien, pudesse agora passar perto dela e não beijá-la. Ou acordar sem sua imagem na mesa-de-cabeceira! Como se fosse deixá-la nas mãos daquele grosseirão que a fazia sofrer, como se fosse realmente um joão-ningué, um incapaz. . . Ah! Já era tempo de vender aquele Marquet para poder fugir com ela. . . Ele imaginava muito, muito bem, Clarisse nas corridas, e mesmo Clarisse com seus companheiros de corridas; Imaginava-a em todos os lugares que costumava freqüentar. Já nem podia imaginar esses lugares sem ela. . .

— Mas — disse com uma alegria que não lhe dava crédito —, mas eu a amo, Clarisse.

E, como se percebesse o divórcio entre suas palavras e sua voz, tomou-lhe o pulso nos dedos, segurou-a fortemen­te, mas com a outra mão alisou-lhe os cabelos com ar pa­ternal.

— Eu digo isso rindo — acrescentou em voz baixa — porque estou feliz. . . Isso me faz feliz. É uma loucura, eu a amo: essa idéia me faz feliz. . . a você não?

Ele exibia o seu olhar de explorador de rinha e sua mão tinha a mesma temperatura da de Clarisse. Tinha o mesmo contato e a mesma textura de pele, e ela teve, portanto, muita dificuldade em lhe responder que não, ela não gostava da idéia de amar. Que não, ela não queria amá-lo, que não, amar a fazia infeliz. . .

— Você nunca ficou feliz e apaixonada ao mesmo tem­po? — disse Julien, indignado. — Mas é justamente o que é preciso que lhe aconteça. . .

Mas Clarisse não teve que responder. A voz de Edma levantava-se como uma sirene acima das cabeças deles:

E se fôssemos dançar um pouco em Siracusa? De­pois do recital, um pouco de dança nos desenferrujaria as pernas. . . É bem possível que haja velhos discos encantado­res neste navio, não acham? Ela respirou fundo. Charley! urrou ela (o que pôs todos os nadadores na vertical e todos os jornais na horizontal). Charley! Uu! Uu! recomeçava, com voz superaguda, antes de explicar a Julien e a Clarisse, ainda surpresos: Charley nunca está muito longe. ..

E, de fato, ao mesmo tempo que os dois barmen arran­cados a sua sesta se punham em movimento, Charley chegou correndo no seu pequeno galope dançante na ponta dos pés, com os cotovelos afastados do corpo como pêndulos e o fôlego curto.

Mas o que aconteceu? disse, freando no último momento na borda escorregadia da piscina, parando por mi­lagre aos pés de Edma.

Nós adoraríamos dançar esta noite, meu belo Char­ley, para desenferrujar as pernas depois do recital. . . Não é verdade? acrescentou ela na direção de Julien e Cla­risse, que maquinalmente sacudiram a cabeça em sinal de aprovação. Meu querido Charley, onde estão os discos e o toca-discos?

Tinha decididamente o hábito bem arraigado de se apro­priar do navio como de um hotel ou de um trem e de utilizar o "nós" mesmo fora de casa.

Vou já disse Charley. Que sorte essas dan­ças! Nós tínhamos aberto o baile no início do cruzeiro, mas durante alguns anos a média de idade foi tão elevada que. . .

—    Sim, sim! Mas este ano ela baixou sensivelmente

disse Edma, animada. Você não poderá negar, Armand e eu somos dos mais velhos. . . Então quem poderia ficar ofendido? Exceto o Abominável Homem das Neves de bor­do, naturalmente. . . O que é que vocês acham, meus filhos?

dirigiu-se de novo a Clarisse e Julien, esquecendo que já conseguira a aprovação deles.

Mas é uma ótima idéia — disse Julien, a quem a possibilidade de ter Clarisse nos braços por cinco minutos que fosse entusiasmava.

Minha querida Clarisse disse Edma, agitando sua revista —, você sabe que oitenta por cento das mulhe­res atuais, você e eu, são pela sexualidade matinal de prefe­rência à vesperal?. . . É incrível o que se lê nos jornais. . .

Sim, mas — disse Julien —, a senhora conhece alguém que tenha sido entrevistado? Eu não. Em parte alguma.

É verdade — respondeu Edma, perplexa, demons­trando isso ao lançar os olhos angustiados mas decididos para os vizinhos. — Quem são então esses entrevistados? Dir-se-ia um som de chá-chá-chá — acrescentou, cantarolan­do "Quem são então esses entrevistados?"

Na minha opinião, são os miseráveis. Vivem nas grutas de Fontainebleau como trogloditas. Estacionaram-nos ali para que tivessem, eles pelo menos, tempo de ler todos os jornais. Eles têm peles de animais, clavas, e de tempos em tempos perguntam-lhes sua opinião: se eles, os homens, preferem a eleição européia ou o sufrágio universal, ou se elas, as mulheres, sabem se elas já se realizaram.

Edma e Clarisse começaram a rir. ..

— A menos que seja um cargo hereditário — disse Clarisse. — Nasce-se entrevistado de pai para filho talvez, como se nasce tabelião!

Ela estava de pé na piscina pequena e apoiava o coto­velo no rebordo, com a cabeça na palma da mão, como num salão. Era bela, divertida e desamparada, pensou Julien num grande movimento de ternura, que deve ter transparecido em seu rosto, pois Clarisse perturbou-se, corou antes de lhe devolver o sorriso sem querer. Foi o momento que Simon Béjard, sempre gozador, julgou propício para sua chegada, aparecendo subitamente por trás das cabinas, correndo e mergulhando sem muita graça na piscina sob o nariz de Edma, mais respingada que fascinada. Algumas gotas chega­ram mesmo a atingir La Vie Financière, que Armand Bautet-Lebrêche teve que abaixar pela terceira vez. Sem uma pala­vra, levantou-se e foi se refugiar na terceira fila de cadeiras, ao abrigo do balé náutico de Simon Béjard, que, inconscien­temente, ressurgiu em triunfo aos pés de Clarisse. Foi então que ele a viu na realidade, viu-a sem maquilagem e olhou-a por um instante, incrédulo, antes de olhar para Julien e de­pois de novo para Clarisse, com o mesmo ar abobalhado.

Abria a boca para expressar seu espanto quando um acesso de tosse o sacudiu, fazendo-o cuspir, tossir, soluçar. O pobre Simon pagava caro seu ousado mergulho, pensou Julien, batendo-lhe nas costas com força.

—    Devagar. . . devagar. . . Meu Deus, devagar. . . — dizia Simon, endireitando o torso vivo e magricela, apesar de um indício de barriga. — Diga-me, Clarisse, você precisa ficar como está, não é? — falou, abraçando Clarisse impe­tuosamente. — É preciso, eu a contrato quando você quiser. E para o papel principal, sempre. O que é que você acha?

É muito lisonjeiro, mas Olga. . . — dizia Clarisse, sorridente.

Posso produzir dois filmes ao mesmo tempo — retorquiu Simon.

E minha família?

Seu marido dirige um jornal de. . . bem. . . enfim, um jornal, não é verdade? Você bem poderia ser uma atriz de cinema, não?

Mas não tenho qualidades para isso — disse Cla­risse, rindo. — Eu não sei representar, eu. . .

No teatro é outra coisa, talvez, mas no cinema, aprende-se depressa. Escute aqui, Clarisse, eu, com seu rosto, volto a rodar L'éternel retour. Hem? Hem, Julien? O que você acha? Mas por que nossa Clarisse cobre esse rosto com essas maquilagens todas?. . . É um crime!

Nesse ponto Simon tem razão: é um crime — disse Edma, aproximando-se da piscina e inclinando-se sobre Cla­risse com um binóculo imaginário. — Quando se tem traços tão bonitos, olhos tão bonitos. . .

Você — disse Julien triunfante —, você vê?

Interrompeu-se de súbito. Houve um instante de silên­cio, que dessa vez Simon Béjard não sublinhou com al­guns comentários pesados. Pelo contrário, facilitou a si­tuação:

Mantenho minha posição — finalizou simplesmen­te. — Vou lhe fazer uma carreira fantástica. . . Enfim!. .. Ufa! Uma atriz bela, com raça, é exatamente o que falta ao cinema francês! Palavra de honra, hem!

E a srta. Lamoreaux?, perdão, r-o-u-x — disse Edma. — Você acha que ela não tem raça, por acaso?

Mas eu falava de mulheres de trinta anos — retru­cou Simon, lançando em torno um olhar furtivo.

Mas a srta. Lamouroux, r-o-u-x, tem mais de oito anos, não é verdade? — continuava a impiedosa Edma. — Ela também deve estar muito perto dos trinta.

Ela é bem mais jovem do que eu, em todo caso, e muito mais bonita — disse Clarisse, sinceramente. — Vocês não vão nos comparar!

Pouco a pouco, para escapar a esses três olhares admi­radores, ou que aparentavam sê-lo, como Clarisse pensava, ela se refugiara na grande piscina, de onde só sobressaíam sua cabeça e seus olhos inquietos.

Oh, não! não. . . — disse Julien, com a mesma voz terna — não, nós não vamos compará-la a quem quer que seja. Vamos apostar uma corrida, não? Vamos nadar um pouco. . . Simon, enquanto espera L'éternel retour, você atravessa a piscina algumas vezes comigo. Eu o desafio. . .

Vamos — aceitou Simon, com ar desenvolto, mais desenvolto por não ver aparecer em parte alguma os shorts mais do que curtos e o busto audacioso da srta. Lamouroux, Olga.

Aliás, ele não corria qualquer risco de ser ouvido por ela. A bela Olga mandara entregar um bilhete a Eric, que a fora encontrar no tombadilho, na proa pouco freqüentada por causa do vento (o que não convinha a Eric). A aventura fora demasiado discreta para continuar assim. Ficou, por­tanto, apoiado na amurada, ouvindo sem escutar a tagarelice de Olga, que, como de hábito, perorava com mudanças das mais sutis na tonalidade da voz.

Veja só, Eric, compreendi, graças a você, que me aviltava no contato com Simon. . . Ele pensava me comprar com papéis, grandes papéis, belos papéis, aliás, mas graças a você compreendi que a vida me oferecia um papel verda­deiro, a vida, bem mais profundo. . . um papel superior a tudo, e que exigia sinceridade total. . . O que é que você acha, Eric?. . . Essas perguntas me obcecam desde ontem dizia muito lentamente, com a voz em fá sustenido e a gravidade em ré maior (ela o chateava, decididamente).

Nada penso sobre esse assunto disse Eric, fria­mente. Só conheço um ofício, o meu. E nele, meu papel, como você diz, consiste justamente em dizer a verdade, acon­teça o que acontecer.

Responda-me, please, mesmo que sua resposta seja dura. . . — (Olga vaticinava a seu lado, e sua voz saltava uma escala inteira na vivacidade de seu interrogatório. A palavra "cacarejar" foi visível nos olhos de Eric.) Você poderia viver numa situação instável entre suas ambições e seus sentimentos?

Mais uma vez os dois se confundem para mim disse ele com paciência. Mas parece-me que ficaria de mal com alguém que quisesse me impedir de concretizar minhas ambições, meus esforços.

Mesmo que esse alguém o exigisse? disse Olga, sorrindo no vazio. E mesmo que você fizesse questão desse alguém a ponto de lhe obedecer em tudo?. . .

Essas bobagens começavam a exasperar seriamente Eric. Primeiro, quem era esse alguém? Então se enganava por completo, a pobre Olga. . . E Béjard devia ter sido bom demais para ela. E ainda era.

Isso quereria dizer que esse alguém não gosta de você realmente disse ele num tom severo.

Ou demais? . . .

É a mesma coisa disse Eric, para abreviar. Ouviu-a respirar profundamente e, depois de um ins­tante, com os olhos baixos, dizer-lhe em voz apagada:

Você usa umas palavras, fórmulas assustadoras de cinismo, Eric. .. Se eu não o conhecesse, pensaria que você é terrível. .. Beije-me, Eric, para se fazer perdoar.

Ela se apertou contra ele, que olhou com repugnância aquele rosto magnífico, dourado, a pele de pêssego, a boca bem-desenhada. Inclinou-se para tudo isso com uma contra­ção de todo o corpo. Seus lábios tocaram os de Olga, que se abriram e os prenderam, enquanto, contra ele, um gemidinho subia daquele corpo que lhe era tão indiferente. "Mas o que estava fazendo ali?. . . E sem a mínima testemunha ainda por cima!"

Vamos disse, recuando —, vamos. . . Assim vão acabar nos surpreendendo.

Então beije-me outra vez. . . — disse, levantando o rosto para ele, um rosto enamorado.

Mas incapaz de mais um esforço, Eric ia recusar, quan­do às costas de Olga viu aparecer, enrolada em espirais de cashmere multicor, despenteada e soberba ao vento, a Do-riacci em pessoa, seguida pelo seu belo Andreas. Deu então em Olga um longo beijo, muito mais apaixonado do que o primeiro, e achou perfeitamente oportuno, desta vez, que ela se agarrasse a ele com seus dez braços e suas dez pernas, e que miasse de êxtase, um miado capaz de pôr em fuga as gaivotas.

Prolongou esse beijo dez segundos mais para ficar certo de ser visto. De fato, quando levantou a cabeça, a Doriacci, a dez passos, olhava-os fixamente, enquanto, mais discreto, seu companheiro virava a cabeça.

Perdão...disse Eric à Doriacci, afastando doce­mente Olga, que, seguindo seu olhar, virou-se para os recém-chegados, mas assumiu um ar de desafio. (Desde a história do grande bezerro de vinte e oito anos não olhava mais para a Doriacci de frente.) — Desculpem-nos — disse Eric muito ereto —, pensávamos estar sós.

Não é a mim que isso pode incomodar. Não se des­culpe. Pelo menos para mim.

Não acredite. . . — começou Olga, com coragem e altivez (pelo menos assim pensava), mas a Doriacci cortou-a direto.

Sou terrivelmente míope para certas visões. E An­dreas também — acrescentou, olhando para o rapaz, que sacudiu a cabeça, de olhos baixos, como se fosse ele o culpa­do. — Não vi a srta. Lamouroux, r-o-u-x — repetiu, sempre olhando para Eric.

Nós também não os vimos — retrucou Olga, com sibilação hostil.

Ah, então está realmente entregue à sua discrição — disse a Doriacci, rindo com seu riso largo de soldado de cavalaria. — Você tem um cigarro, Andreas?

E passou diante deles, docilmente seguida pela sua sombra.

— Meu Deus, Eric. .. Ela vai dizer tudo, é terrível.

Olga adotava um ar de desespero, mas estava profun­damente encantada, sem dúvida mais do que Eric, que tinha um ar furioso e conservava os olhos baixos, seguindo com o olhar o casal que se afastava.

— Não — disse, entre dentes —, ela não dirá nada. De repente ficara branco, de furor reprimido.

— A Doriacci pertence à espécie de gente que não diz nada. Faz parte dessa gente que fica orgulhosa por nada dizer, nada fazer, dessa gente tolerante, você sabe? Conve­nientes, discretos: todo o charme perdido da burguesia li­beral. . . São os mais perigosos, aliás. Podíamos crer que estivessem do nosso lado.

— E se a gente os desafia? — perguntou Olga.

— Se a gente os desafia, continuam tolerantes ainda assim, graças a Deus — cortou Eric, e uma expressão diabó­lica enfeou por um instante seu belo rosto.

"Foi nesse instante, querida Fernande, que adivinhei a fera sob o anjo. . . o Diabo sob Deus, a fenda. . . Que digo?... o precipício sob o lago. . . Será que se pode dizer que há um precipício sob o lago?. . . E por que não, aliás?"

— Então, você vem? — perguntou Eric rudemente.

— Tudo isso é por minha culpa — disse Olga, levan­tando para ele uma vez mais o rosto, desta vez perturbado (havia dez minutos representava em close-up). — Este últi­mo beijo fui eu que o mendiguei, mas afinal foi você que me deu.

Pois é. . . Tudo bem, e daí? — disse Eric, cons­trangido.

Você vê, Eric. — A voz de Olga atingira profun­dezas insuspeitadas naquele corpo frágil. — Você vê, eu aceito ser insultada, desprezada pela terra inteira por esses beijos, Eric. . .

Ela tornou a abrir os olhos, que seu fervor tinha fecha­do, com um bravo, um belo sorriso emocionado que desa­pareceu assim que viu Eric se afastar a grandes passos.

Eles devem ter ficado muito chateados — disse An­dreas. — Coitados. . . Devem estar com medo!

É o que você pensa! Só têm medo é de que não se fale nada, pelo contrário. Esse Lethuillier só pensa em cha­tear a mulher, e a menina em fazer sofrer seu pobre nababo.

— Você acha que é assim? — disse Andreas, surpreso. Pois ele não tivera tempo desde a partida de refletir

sobre o que quer que fosse, exceto sobre a Doriacci. Via todos os acontecimentos de modo primário. E, surpreso, pa­rou, mas ela continuou, sem parecer notar. Teve de correr, sem graça, para alcançá-la. Ela não lhe dava qualquer atenção fora da cama, e isso humilhava Andreas, quase tanto quanto o fazia sofrer.

Por trás da amante, Andreas tropeçou com ostentação, e, segurando o pé com uma mão, agarrou-se com a outra a um extintor, com o rosto tenso pela dor. Mas a Doriacci só pareceu perceber o ocorrido quando ele lançou um urro para alertá-la, "um verdadeiro uivo de lobo mesmo", pen­sou, virando-se para o garoto supernervoso. Oscilava num pé só e segurando a outra perna soltava uis, com o belo rosto parecendo cômico pelo excesso de sofrimento melodramático. O vento jogava-lhe os cabelos no rosto; os cabelos dourados pareciam moldados em metal muito claro e de preço exorbi­tante, um metal esculpido mecha por mecha em torno da cabeça tão bem desenhada, a cabeça simbólica de uma raça desconhecida e perigosa, cabeça que podia ser indiferente­mente de uma criança, de um malandrinho, de um cantor gregoriano. O corpo. . . O corpo era o de um homem de prazer, isso era um fato. Nesse ponto as piedosas senhoras de Nevers tinham compreendido muito bem os verdadeiros encantos de um jovem para uma mulher madura e de bom gosto. Andreas nascera longilíneo e assim se desenvolvera: não adquirira os músculos salientes, de bolas duras, esses relevos de atleta de feira inevitáveis à beira das piscinas. Graças a Deus era delgado! E se para isso fazia regime, seria escondido, ou pelo menos se envergonhava de fazê-lo. Já era alguma coisa. A Doriacci não podia se lembrar sem uma mistura de hilaridade e exasperação, de um certo fim de semana passado em Oslo, a Oslo bloqueada pela neve em novembro após as Noces Siciliennes. Seu companheiro de uma noite, por falta de concorrência nesse hotel transforma­do em fortim, fora o mesmo durante toda a sua estada ali: um belo, um muito belo rapaz, ágil e bronzeado, muito desenvolto mesmo para um rapaz de dezenove anos, mas insuportável, escandaloso, repugnante pelos cuidados compli­cados, as ausências de excessos, as prudências, os pudores, as abstinências de que fazia o tecido da sua vida: uma vida de regime; uma vida que, fosse qual fosse a segurança que acabaria obtendo definitivamente de um homem ou de uma mulher, e que seria talvez concluída sob o signo escarlate da devassidão, da orgia e do assassinato ritual, continuaria para ele, para sempre, uma vida de ascese e de pequenas privações; uma vida que, mesmo que se suicidasse numa Bugatti lançada da Ponte de Washington, não o impediria de contar seus alhos ao vinagrete na véspera, ao meio-dia, ou de exigir dos maîtres d'hôtel açúcar sem glicose. . . A Doriacci sacudiu-se com horror diante dessas lembranças, com sua atrocidade cômica, e se pôs a rir alto.

Quando penso. . . — disse alto — seria mesmo capaz de matá-lo!. . . Que cretino!. . . Que rato, meu Deus, três dias com aquele malandro que cheirava a leite Nestlé e a pomada.

Mas de quem você está falando? . . . Que leite? . . . Mas está falando de quem?... O que é que a faz rir?

E como ela continuasse a rir sem lhe responder, sem maldade, mas sem amabilidade, Andréas ficou perturbado, inclinou-se um pouco mais na sua posição de mártir, exage­rou, chegou mesmo a lhe inspirar uma vaga condescendência física, como se tivesse medo diante dela e não lhe tivesse escondido isso, como se ela tivesse encontrado nele algum traço de feminilidade um pouco nauseante, como se o lado dúbio que ela atribuía a Andréas se tivesse revelado, mais forte.

Deu meia-volta diretamente para ele, que ficara lá longe, apoiado ao extintor como um pernalta, e contemplou-o com um olhar longínquo, novo, "um olhar de entomologista", pensou Andreas, um olhar que lhe faria medo se, de repente, jogando para trás seus lenços de seda, liberando os braços, o peito, os cabelos, ao mesmo tempo que seu calor e sua afeição vigorosa, a Doriacci não tivesse corrido para ele como uma menininha gorda maquilada por engano, e não se tives­se jogado nos braços dele, com risco de cair, o que não deixaria de acontecer se Andreas tivesse realmente se ma­chucado um pouco antes.

Mais tarde, pensava Andreas, seria por certo essa ima­gem, essa sensação daquele preciso momento que recordaria obstinadamente como um disco gasto e às vezes completa­mente novo, mas sempre dilacerante pela força da memória. Ele se veria naquele grande tombadilho vazio, com os bran­cos e cinzas daquelas tábuas e daquele mar, da amurada e do céu vazio no ocidente, sem sol, alguns segundos; seria essa imensidão plana, deslizando do antracito ao cinza-pérola, deslizando de uma nuança a outra por toques delicados, en­quanto um vento violento, bárbaro e trivial fustigava as cordas, as correias, as roupas e os cabelos de maneira exage­rada e quase cinematográfica: era uma hora sem luz, sem sombras; Andreas tinha o rosto encostado no da Doriacci, enfiava seu nariz frio, sua testa no decote quente perfumado de âmbar e angélicas, com aquela pele coberta de sedas ir­reais e friáveis sob seu rosto. . . Pareceria sempre a Andreas que atingira então uma espécie de visão alegórica de sua vida. Ele, de pé num tombadilho batido pelo vento, ele, ater­rorizado, enregelado, como homem, como um ser social, mas também satisfeito como uma criança, terna e perversa, agar­rado e enfiado naquele refúgio, no calor para sempre acon­chegante e familiar das mulheres, no refúgio de suas exigên­cias e suas ternuras, o único que ainda lhe era possível nessa sociedade e com essa educação.

Você é um tolo — disse de súbito a Doriacci, pro­nunciando tolo, mas com uma doçura que logo reconfortou o tolo em questão. Pouco bastava para desorientar e magoar Andreas, mas também pouco bastava para consolá-lo.

Você está feliz comigo? — perguntou com gravida­de, bastante gravidade em todo caso para que a Doriacci não lhe risse na cara, o que, na verdade, seria seu primeiro reflexo.

A piscina tornara a ficar tranqüila, de repente, tendo Simon Béjard se lembrado bem a tempo de suas obrigações profissionais e se precipitado, com o torso e os pés nus, para a infeliz senhora encarregada da comunicação por telefone no Narcissus.

Armand Bautet-Lebrêche tornou a encontrar o silêncio, Edma, sua Vogue e Julien, Clarisse, pelo menos fisicamente. Porque ela não o olhava, continuava como que encurralada no canto da piscina mais próximo de Edma, o que obrigava Julien se não a se calar, pelo menos a sussurrar, e com ar desenvolto, embora estivesse entregue a uma raiva desarma­da, quase terna, uma tristeza exasperada, um sentimento de incapacidade, de fracasso, que não suportava, que nunca suportara. Até então, Julien tinha podido mudar de objeto de suas paixões muito antes de mudar de tom: só tinha amado mulheres que pudesse fazer felizes ou que, em todo caso, assim acreditavam, e que ele então tentava satisfazer completamente. Sempre fugira de certas mulheres antes' que elas fossem obrigadas, elas próprias, a fazê-lo sofrer, e isso fora por vezes difícil para ele, mas sempre o fizera a tempo. Ora, desta vez sabia que Clarisse não o convenceria a fugir porque era ela que se enganava realmente sobre eles dois, como se enganava realmente sobre si mesma. E era de fato a primeira vez que Julien considerava evidente que a outra pessoa estava errada.

Você não pode dizer isso — protestava, tentando sorrir para Edma, mas sentindo um ricto dos mais horríveis virar-lhe o lábio sobre os dentes, um ricto quase tão natural como o do cavalo apalpado por um comprador.

Eu tenho que lhe dizer. Prometa-me esquecer. — (A voz de Clarisse era ofegante e suplicante, pedia-lhe per­dão, tinha medo dele, e Julien não conseguia compreender por que não o mandava para o diabo simplesmente, por que não interrompia ela própria esse idílio em vez de exigir que fosse ele a fazê-lo.)

Então por que não me diz para dar o fora? Diga-me que sou odioso, que não me suporta, tudo o que você quiser. Por que você quer que eu me comprometa a renunciar? Por que você quer que eu consinta em ser infeliz? E que eu jure que ficarei? É idiota.

Porque é preciso — disse Clarisse. (Estava pálida, branca mesmo sob o sol; mantinha os olhos baixos, sorria, mas com o sorriso tão artificial que era mais revelador do que uma crise de lágrimas, pelo menos aos olhos de Edma, instalada atrás de seus óculos de sol e sua revista, e que observava a ambos com olhos mais do que atentos, olhos agora interessados. Desde que conhecera o verdadeiro-rosto de Clarisse, seu olhar e seu sorriso, compreendia perfeita­mente os sentimentos de Julien: compreendia-os mesmo que isso não lhe desse prazer. Ora!, ela já tinha passado da ida­de, mas a idade não impedia os sentimentos. Esboçou de longe a Julien um sorriso terno e cúmplice, que ele só com­preendeu mais tarde, e que naquele momento o fez desviar os olhos, constrangido.)

Clarisse! Diga-me então que você não gosta de mim, que ontem à noite estava completamente bêbada, que não lhe agrado e que você está aborrecida consigo mesma pelo erro; diga-me que teve um momento de alienação, ontem, ponto final. Diga-me isso, e eu a deixarei em paz.

Ela olhou para ele durante um segundo, sacudiu a ca­beça com um sinal de recusa, e Julien sentiu-se um pouco envergonhado. Adiantara-se a ela em sua manobra: ela já não podia agora se refugiar no álibi da ebriedade, já não podia utilizar essa escapatória miserável; só podia lhe dizer que ele não lhe agradava.

Não é isso, mas eu não sou uma pessoa que deva ser amada, garanto-lhe, você seria infeliz. Ninguém me ama, e eu não gosto de ninguém e quero que seja assim.

Isso não depende de você.

Julien voltou-se diretamente para ela e se pôs a falar muito depressa, muito baixo:

— Vamos, Clarisse, você não pode viver sozinha assim, com alguém que não gosta de você! Precisa de alguém como todo mundo, alguém que seja seu amigo, seu filho, sua mãe, seu amante, seu marido; precisa de alguém que se preocupe com você. . . alguém que pense em você ao mesmo tempo que você. e teria que amá-lo e saber que ficaria desesperado com sua morte. . . Mas o que poderá você ter feito — con­tinuou — para que ele tenha raiva a esse ponto? Enganou-o ou o fez sofrer tanto assim? O que aconteceu entre vocês? De que a acusa?... de ser rica? — disse de repente, e se interrompeu bruscamente, estupefato diante de sua própria intuição, e depois começou a rir.

Olhou para ela, com um ar de triunfo e de compaixão que a fez se desviar dele com um ligeiro gemido de exaspe­ração ou desgosto; Julien deu um passo para ela: olharam-se imóveis por um instante, petrificados de saudade, uma sau­dade velha de uma noite, saudade da mão do outro, da respi­ração do outro; dé sua pele; os dois subitamente afastados dessa piscina azul-verde, das silhuetas de Edma, de Armand e dos outros, das gaivotas esvoaçando em torno deles, ambos incapazes de se subtrair a essa fome que ricocheteava de um para o outro e redobrava de força cada vez mais. Era preciso que aquela mão inútil ao lado daquele quadril se aproximasse daquele corpo, o puxasse para si, que o osso do quadril tocasse o flanco do outro, que o peso natural de um corpo se apoiasse no outro corpo, que essa coisa aberta e desdobrada na garganta de cada um deles fosse satisfeita, que um e outro fossem conduzidos aos extremos de tudo isso, que cada um deles fosse em socorro do outro e de sua atração insuportável, que sua presença se tornasse elétrica e inatingível, que o seu sangue espessado de tédio se tornasse anêmico como a água, e que sucumbissem afinal à mesma síncope vermelha, fatal, concreta e lírica, aceita, querida, rejeitada, esperada, sem ordem. Ela estava a um metro dele, como na véspera, perto do bar lá em cima, naquele tomba­dilho agora iluminado, nítido e frio, e, como na noite pas­sada, lembrava-se da mão de Julien em seu ombro, e ele da mão de Clarisse sobre sua nuca, e ela desviou os olhos, e Julien lançou-se na água e nadou para a outra borda como se tivesse sido atacado por tubarões, exatamente antes que Clarisse voltasse o rosto para a parede da piscina e se colasse a ela antes de se deixar mergulhar numa água tão pouco profunda que ficou ajoelhada, com a testa apoiada na borda, inerte. E Edma, que de sua cadeira via que não faziam amor, ficou perturbada.

— Você está pensando em comer aqui dentro da água? Eric se agachara na beira da piscina e olhava Clarisse com ar indulgente. Não falara alto. mas todo mundo olhava

para eles, observou Eric ao levantar a cabeça. Todo mundo, isto é: Edma, Armand, Ellédocq, a Doriacci, Andreas, que pousavam nele e em Clarisse o mesmo olhar demasiadamente indiferente, um olhar que ele já imaginava carregado de com­paixão por Clarisse. Então seu idílio com Olga não passara despercebido. Era preciso agora parecer bom marido, que seu adultério parecesse até inevitável, que o lamentassem tanto quanto a Clarisse. Apanhou uma toalha felpuda e passou-a a Clarisse com ar protetor.

Por que o senhor nos priva de um espetáculo tão encantador, sr. Lethuillier? — gritou a voz aguda de Edma Bautet-Lebrêche.

Não, não, vou sair — disse Clarisse, emergindo da água. Virou-se para ele, e Eric viu-a pela primeira vez em anos; viu seu corpo seminu no maio, aliás bastante casto, e sobretudo viu aquele rosto lavado, completamente despido, despojado de todas aquelas pinturas habituais, um rosto tão bonito quanto indecente, como lhe pareceu, e Eric enrubes­ceu de raiva e vergonha, uma vergonha inexplicável.

Como você teve a coragem? — balbuciou em voz baixa; e pousando-lhe a toalha nos ombros, friccionou-a enérgica, rudemente mesmo, até ela tropeçar e murmurar:

Cuidado, Eric —- com voz surpresa, antes de per­guntar: — Como tenho coragem de quê? — enquanto ele a largava e recuava com grande dificuldade, com os ouvidos queimando e zumbindo num ar que se tornara ensurdecedor e gritante de tantas gaivotas sem dúvida esfomeadas.

Como você tem coragem de tomar banho com este vento — disse entre dentes, procurando um cigarro com mão rápida no maço, com a expressão absorvida pela tarefa, mas demasiado consciente da estupidez de sua frase.

Clarisse de qualquer modo não podia compreendê-lo, pois acusava-a era de mostrar aos outros e a ele próprio o rosto de uma mulher sensata e desejável, uma mulher inve­jável, uma mulher que nenhum dos homens presentes podia se abster de olhar, e desta vez com prazer e não mais com compaixão.

Clarisse continuava perplexa diante dele, perplexa e mortificada; os outros, à distância, tinham parado de con­versar e olhavam, sem dúvida eles também surpresos com a violência dos gestos dele. Eric teve então uma idéia: deixan­do Clarisse com um gesto fatalista e incompreensível para ela, dirigiu-se para o bar, fez seu pedido em voz clara, voltou, não sem registrar de passagem e sem interpretar, aliás, a expressão atenta e quase mal-educada de Julien Peyrat.

Tome — disse, inclinando-se diante de Clarisse, muito baixo, como para mostrar bem que estava a serviço dela e que seu gesto respondia a uma ordem, oferecendo-lhe um martíni duplo que não lhe tinha sido encomendado.

Mas não lhe pedi nada — disse, surpresa, em voz baixa.

Surpresa, mas bastante tentada para estender logo a mão para o cálice, segurá-lo e no mesmo gesto levá-lo aos lábios depressa, antes que Eric se arrependesse, recuando na anulação de suas regras, com uma pressa bastante evidente, de qualquer modo, para chocar os espectadores, que voltaram a sua discussão, como Eric pôde ver, virando para eles um rosto impassível e constrangido.

Quando se voltou para Clarisse, ela já tinha absorvido o conteúdo do cálice, mas olhava para ele através do seu prisma, com o olhar calmo e inexpressivo. Um olhar que, por sua vez, levou alguns segundos a desviar do seu antes de ela partir para a cabina, embrulhada na toalha.

Você devia proibir a sua mulher aquela maquilagem horrível — disse Edma Bautet-Lebrêche, enquanto Eric se reunia ao grupo deles e instalava-se por sua vez no quadrilá­tero das cadeiras de bordo.

Já lhe disse isso cem vezes — respondeu ele, sorrindo.

Um sorriso destinado a esconder seu constrangimento, pensou Julien, que se secara e vestira em três minutos e não tinha podido deixar de farejar mais uma vez a literatura (e má literatura) no comportamento de Eric: como se, de cada vez, tivesse ilustrado uma história em quadrinhos simplista demais ou representado num filme em flashback o papel do bom marido. As'atitudes de Lethuillier lhe tinham parecido até então de colegial e bizarras no seu lado aplicado, sua banalidade psicológica. Mas agora que ele conhecia, ou pen­sava conhecer, os motivos, Julien sentia-se como que atin­gido, contaminado pelo seu lado desagradável, cruel, e de falso bom senso. E debatia-se contra si mesmo, contra essa teoria ultrapassada, essa noção primária de um dinheiro malé­fico, de um dinheiro sempre culpado, arquétipo das grandes famílias, inexoráveis até na herança, esse lugar-comum gros­seiro de onde nascera o fantasma de Eric, que fora também um pouco o seu. "As pessoas ricas não são como as ou­tras", dissera Fitzgerald, e era verdade. Ele próprio, Julien, não conseguira nunca amigos entre aquelas pessoas riquíssi­mas que freqüentara e por vezes enganara até o roubo nestes últimos vinte anos. Mas talvez fosse a recusa de um remorso prematuro o que o prevenia de antemão contra suas vítimas e o impedia de ver seus encantos ou virtudes. De qualquer modo, Eric Lethuillier não enganara Clarisse no plano finan­ceiro: de notoriedade pública, seu jornal permitia-lhe propor­cionar gordos dividendos à família Baron, permitia-lhe mes­mo fazer sua mulher viver no luxo que sempre conhecera. Não, Eric não enganara Clarisse nesse ponto, ele a enganara num outro, e muito mais grave, pensava sobretudo Julien. Prometera-lhe amá-la, torná-la feliz, e a tinha desprezado e tornado mais do que infeliz: com vergonha de si mesma. Aí estava o roubo, o prejuízo, o crime, o atentado à pessoa hu­mana, atentado dirigido não contra os seus bens mas contra o "seu bem". O bem que ela pensava dela própria, e que ele lhe arrancara, deixando-a no deserto, a terrível miséria do desprezo a si mesma.

Julien, sem nem mesmo pensar nisso, levantara-se. Pre­cisava ver Clarisse imediatamente, tomá-la nos braços, con­vencê-la de que ela podia amar a si própria de novo, que ele. . .

— Onde você vai, meu querido Julien? — perguntou Edma.

— Eu volto, vou ver. . .

... quem você deseja — cortou Edma brutalmente, e Julien percebeu que quase pronunciara o nome de Clarisse, e que Edma o sentira.

Inclinou-se bem baixo diante dela e no impulso beijou-lhe a mão, para surpresa geral, antes de se lançar pelo tomba­dilho com a agilidade e o jeito do perfeito turfista sempre preocupado em chegar a tempo à pesagem, ao campo, aos guichês e preocupado em evitar os outros turfistas. Julien atravessou os corredores, cruzou com dois camareiros com bandejas, saltou por cima de um marinheiro ajoelhado no tombadilho em plena limpeza, ultrapassou Armand Bautet-Lebrêche, que se retirava provavelmente saturado de sol e tagarelice, desviou-se de Olga, confusa, e entrou sem bater na cabina de Clarisse, que tomou nos braços no momento em que ela se virava para a porta. . . Porta suficientemente aberta para que Olga, que voltara atrás e ficara imóvel, os ouvisse distintamente.

Minha querida — dizia Julien —, minha querida. . .

Você está louco — respondia a voz de Clarisse, uma voz espantada, temerosa, mas bem mais terna do que indig­nada, observou Olga com interesse.

Olga ficou dividida entre as alegrias da indiscrição e uma ligeira irritação diante da semi-ausência de vítimas do seu idílio, do lado de Eric pelo menos. Pois é, Simon devia pagar por dois, pensou com lógica. Evidentemente isso com­prometia um pouco o lado dramático do relato a fazer, isso suprimia dilaceramentos a Eric e, portanto, valor à sua con­quista. Em compensação, isso lhe evitaria as reflexões morais e inevitáveis de Fernande, as queixas que no decorrer das "Aventuras extraordinárias de Olga Lamouroux" tinham-se tornado agudas, chegando mesmo a pôr em dúvida a própria sensibilidade dela, Olga, e que a supunham quase culpada em relação ao rebanho crescente e doloroso das "outras mu­lheres". Várias vezes Olga sentira o risco de passar, aos olhos de Fernande, do status invejável de mulher fatal ao menos brilhante de prostitutazinha, este um pouco vulgarizado.

A ternura contida na voz de Clarisse lhe dava afinal um bom arranjo.

— Meu Deus, Clarisse — dizia Julien com voz clara e imprudente —, eu amo você; você é linda, Clarisse, inteli­gente, sensível e doce, e você não sabe disso? É preciso que você saiba, minha querida, você é maravilhosa. . . Aliás, todo mundo pensa assim neste navio, todos os homens estão apaixonados por você. . . Até mesmo esse tolo do Andreas, quando desgruda suficientemente a cabeça do seio da Do­riacci para vê-la, fica com olhos de peixe morto, ele tam­bém. . . E até a cruel Edma dos Cubos de Açúcar e mesmo a Doriacci, que só gosta dos seus bemóis, acham-na encan­tadora. . .

A voz de Clarisse elevou-se e baixou sem que Olga pu­desse distinguir as palavras.

— Ame-se a si mesma, Clarisse, o mundo lhe pertence. Você compreende? Não quero mais vê-la triste, é só isso — concluiu Julien, soltando seu abraço e afastando Clarisse dele para ver melhor o efeito de suas palavras.

E Clarisse, aturdida mas vagamente aquecida pelo calor das palavras de Julien e pelo martíni seco, Clarisse, em nada convencida, mas enternecida, levantou a cabeça, mas, encon­trando os olhos castanho-amarelados de seu cavalheiro, seus olhos despreocupados e fiéis de cão de caça, viu que eles estavam embaciados, cobertos de uma camada líquida que multiplicava e afogava o brilho, do que ele se deu conta ao mesmo tempo que ela, pois tornou a abraçá-la com um ros­nado de raiva e algumas explicações ininteligíveis, resmun­gadas nos seus cabelos, perfumados e macios, furioso contra si próprio, pronto a se desculpar por esse incidente sem sig­nificação real, no que acreditava um pouco, aliás, devido à sua vaidade masculina. Teria muito bem compreendido na­quele momento que Clarisse se pusesse a rir e caçoasse dele por esse sentimentalismo ridículo, teria mesmo achado nor­mal, mais que justificado, pelo seu confessado ridículo.

— Julien — murmurou Clarisse. Oh! Julien, queri­do Julien.. .

E seus lábios formaram o nome de Julien em seu pes­coço, cinco ou seis vezes, antes de virem se pousar ao acaso sobre seu rosto, que eles percorreram do queixo às têmporas, que inundaram de beijos ávidos e lentos, uma chuva de bei­jos esfomeados e silenciosos, um aguaceiro interminável e terno sob o qual Julien sentia seu rosto se abrir, tornar-se terra fértil e abençoada, tornar-se um rosto doce e belo, lavado de tudo, precioso e perecível, um rosto querido para sempre.

No corredor, Olga já não ouvia nada, nem o eco de uma palavra, nem o de um gesto, e foi-se embora despeitada e vagamente enciumada, sem saber exatamente de quê.

Eric tomava café e fumava um cigarro em companhia de Armand Bautet-Lebrêche, refugiado, porém, como de hábito, atrás de uma mesinha desconfortável, seu último refúgio, que acreditara até então inviolável. Sitiado e venci­do, o imperador do açúcar lançava olhares hostis àquele belo homem tão visivelmente de sua classe, Lethuillier, que tinha ainda assim a ousadia de se confessar comunista. Ar­mand Bautet-Lebrêche não tinha a menor perspicácia, a menor finura em suas opiniões políticas, apesar de todas as sutilezas que podia admitir e inventar nos negócios finan­ceiros. De fato, adotara todos os novos métodos de lança­mento de fabricação, de mercado, era mesmo reconhecido, em relação aos poucos industriais com sua potência e idade, como o mais audacioso e, como se dizia, um dos mais aber­tos do seu tempo. Mas isso não o ajudava a reconhecer na classe política outras categorias que não fossem as seguintes: havia os comunistas de um lado e as pessoas de bem do outro.

Bautet-Lebrêche recorria, aliás, a simplificações aberran­tes em outros domínios, em todos aqueles, de fato, que tinham resistido aos circuitos simplificados do seu cérebro, àquela ibm portátil e aperfeiçoada, provisoriamente instalada (mas ainda assim havia sessenta e dois anos e, sem dúvida ainda por quinze ou vinte) sob sua calota craniana. Por, exemplo, desde os dezesseis anos, como para Ellédocq, os seres femininos se tinham dividido em dois ramos: as putas e as mulheres de bem, e da mesma forma que recusava admi­tir que um desses homens "de bem" pudesse ser socialista ou de centro-esquerda, recusava admitir que uma mulher "de bem" pudesse ser, por seu lado, simplesmente sensual. Essa classificação era aplicada a tudo, em toda parte, com exceção das mulheres de sua família, naturalmente, em rela­ção às quais Armand Bautet-Lebrêche sentia o dever, a obri­gação mais sagrada de se comportar como cego, surdo e mudo. Era, por exemplo, impossível que Armand Bautet-Lebrêche nada tivesse sabido dos desvios adulterinos da sua mulher, mas seria ainda mais impossível que fizesse a menor alusão a eles ou que deixasse que a fizessem diante dele.

Essa impunidade total tinha de início encantado Edma, depois naturalmente irritado e por fim mortificado. Atribuí­ra-lhe razões diversas e extravagantes antes de se contentar com uma só, a única agradável, a ausência de tempo! Esse pobre Armand Bautet-Lebrêche tinha horários tão magistral­mente estabelecidos que lhe deixavam tempo para ser indi­ferente, muito tempo para se sentir feliz, na pior das hipó­teses, mas de modo algum tempo para sentir ciúmes e, por­tanto, infelicidade. Terminando a classificação de Armand Bautet-Lebrêche, ele evidentemente tinha classificado Edma, quando a conhecera, na faixa das mulheres "de bem"; ter-lhe-ia sido preciso uma demonstração inverossímil do contrá­rio para que, por egoísmo, como por orgulho de seu método, pensasse em questioná-la: teria sido preciso que pelo menos Edma, diante dele, tivesse rolado com alguns de seus subor­dinados no tapete de seu escritório com gritos de êxtase ou obscenidades (que, aliás, ela sempre evitava por si mesma), para que sua posição de honra degringolasse para esse refúgio infamante das mulheres ordinárias.

Essa falta de clareza e mesmo de discernimento das di­visões estanques de Armand Bautet-Lebrêche podia, aliás, ter as conseqüências mais cruéis: porque, não contente de se proteger por trás desses julgamentos primários, Armand Bau­tet-Lebrêche aplicava-os com todas as suas conseqüências. Despedira homens honestos, humilhara mulheres encanta­doras, interrompera destinos promissores simplesmente por­que, não os podendo colocar de imediato em suas classifica­ções superiores, lançava-os deliberadamente nas inferiores, em suas masmorras. O número de suas vítimas, de suas injus­tiças aumentava com a idade, e de maneira bastante evidente para assustar a própria Edma, pouco inclinada contudo a se ocupar do relacionamento humano do marido com seus em­pregados e já esgotada de ter que lhe extorquir, mesmo que de forma caricata, uma relação com seus amigos mundanos.

Eric Lethuillier, portanto, só podia exasperar esse ho­mem. Dar-se ares de grande burguês e se arrastar a serviço de Moscou, principalmente depois de um casamento com as Aciarias Baron, representava uma traição à classe, e se essa não fosse a dele, era a classe de Armand. De qualquer modo,

Eric cuspia no prato em que comia: tendo lançado seu Fó­rum, tendo-o criado graças à burguesia, era da pior incon­veniência que atualmente ele a vilipendiasse (com relação a isso, acontecera mil vezes a Armand Bautet-Lebrêche uti­lizar armas ou finanças de um grupo adversário para arruiná-lo deliberadamente, e a meio caminho tornar a comprar por um nada essas armas que de outra maneira lhe teriam custa­do mais caro. Mas isso era outra coisa, pois se tratava de negócios). Achava extremamente inconveniente que esse co­munista vestido de cashmere, mesmo e principalmente de cashmere, viajasse no mesmo navio que ele, escutasse, mesmo que fosse com um só ouvido, a mesma música que ele e olhasse, nem que fosse por um segundo, a mesma paisagem que ele, respirando voluntária ou forçadamente as mesmas mimosas. E ainda por cima a intromissão de Eric em todos esses domínios parecia pouco grave ao imperador do açúcar: ele não podia se interessar por nenhum panorama, nenhuma música, nenhum perfume, nenhuma atmosfera, já que nada disso podia ser comprado. Armand Bautet-Lebrêche só podia avaliar no sentido moral o que ele podia avaliar no sentido material. A estima só chegava a ele depois da estimativa.

Em compensação, tudo no Narcissus podia ser traduzi­do em algarismos, desde as passagens até seu conforto, seu luxo. As coisas materiais e reais, afinal, não eram aos olhos de Armand compartilháveis com um comunista, e de qual­quer modo deviam permanecer demasiado caras aos seus olhos ou à sua bolsa: o contrário não seria normal. E Ar­mand Bautet-Lebrêche, tão finório e esperto em negócios que se tornara célebre nos cinco continentes, podia defender até o fim esse raciocínio primário (e tão repisado por pes­soas honestas em todos os países do mundo), raciocínio se­gundo o qual não se podia ter o coração à esquerda e a car­teira à direita, e que havia nisso uma hipocrisia mal colo­cada; raciocínio segundo o qual seria mais estimável ter a carteira à direita e o coração, duro; e que, finalmente, ter muito dinheiro só era incômodo quando se fazia questão que os outros também tivessem. E era exatamente, afinal, só o que separava as pessoas de esquerda das pessoas de direita e a razão pela qual os segundos acusavam os primeiros desde o primeiro século depois de Cristo.

De todo modo, o esquerdismo de Eric Lethuillier cor­rompera-se aos poucos: já não desejava que os pobres tives­sem um carro, desejava simplesmente que as pessoas ricas já não o tivessem: e para isso pouco lhe importava a situação dos pobres. Era o que Julien já farejava e que começaria a transpirar de todas as páginas do Fórum, o que o tornava cada vez mais suspeito. Armand Bautet-Lebrêche hesitara durante muito tempo em lhe falar do Fórum, a traição de que o acusava, mas pouco a pouco, de tanto tédio que sen­tia no navio, privado de sua equipe, das três secretárias, das linhas diretas para Nova York e Cingapura, privado do te­lefone no carro, dos ditafones e de seu jato pessoal. . . privado de toda essa ofuscante panóplia de eficiência que, mais do que isso, fazia a felicidade dos homens de negócios, graças à proliferação e aos progressos incessantes da eletrô­nica; privado, em suma, dos brinquedos de metal negro e cinza cor do aço, com suas fitas falantes, seus pequenos ví­deos luminosos e todos os seus poderes singulares, Armand estava tão entediado no Narcissus havia três dias que, deli­berada e visivelmente, tornara-se maldoso, em vez de sim­plesmente eficiente. Balançava então, abaixo do vinco impe­cável de sua calça de flanela cinza, um mocassim de couro macio comprado por uma das suas secretárias na Itália (na fábrica, porque, como todas as grandes fortunas, Armand tinha a mania ou a paixão de pechinchar até mesmo nas questões mais mesquinhas), e balançava-o cada vez com maior nervosismo. Eric Lethuillier, diante dele, dava ao con­trário a impressão de calma e mansidão infinitas: sendo Armand Bautet-Lebrêche e seus trustes e seu império tudo o que Eric detestava no mundo, sendo essa raiva, pelo me­nos, o que proclamava mais vivamente e mais amiúde em sua gazeta, ele sentia, mais do que de hábito, ao iniciar uma conversa com esse homem, objeto típico de seu ódio, sua profunda tolerância e também sua imensa inteligência, ili­mitada, pois era capaz de vencer suas paixões; e também sua curiosidade pelos seres humanos, generosa o bastante para dar algum crédito a esse anão ditatorial.

Eric jogou a cabeça para trás, com seus belos cabelos louros cuidadosamente assentados, um delicioso charuto bas­tante caro entre dois dedos, que levava à boca de tempos em tempos com gesto negligente, com ar farto e apreciador, como se tivesse nascido com ele, do mesmo modo que seu interlocutor. De fato, agradava-lhe mostrar a um dos maio­res burgueses de sua época que um revoltado, nascido e criado na miséria material, um homem que se fizera por si mesmo, a partir do nada, podia cortar um bife e fumar um charuto com a mesma desenvoltura de um capitalista de velha cepa. E assim Armand e Eric encontravam-se com armas iguais num mesmo conflito, pois era o charuto Mon-te-Cristo, de quarenta e cinco francos a unidade, o que Ar­mand censurava em Eric, e era justamente desse charuto que Eric se orgulhava naquele momento.

E a discussão, portanto, sem parecer, entrou precisa­mente no cerne do assunto:

O senhor prefere os números 1 ou os números 2?

—    perguntou Eric, franzindo um pouco o cenho, com o ar compassado, quase piedoso mas arrogante, que adotam ge­ralmente os fumantes de havanas quando falam deles.

—    Os números 1 — disse Armand com voz decidida;

—    nunca os outros. . . Os outros são grandes demais para mim acrescentou suavemente, como para deixar bem claro a Eric que, se ele próprio, Armand Bautet-Lebrêche, proprietário das maiores refinarias do Pas-de-Calais, achava grande demais um charuto cujas plantações inteiras ele po­deria comprar dez vezes, seria indecente e ridículo, até gro­tesco, que Eric Lethuillier, vindo do submundo da mesma pátria, os achasse outra coisa que não fosse abafantes. Por felicidade, Eric, perfeitamente inconsciente desses pensa­mentos por trás das palavras, sempre achara um pouco gros­seiro o tamanho número 2.

Também sou da sua opinião disse distraidamente. A expressão "Ainda bem" refletiu-se por um instante

nos óculos de Armand Bautet-Lebrêche, antes que ele dis­sesse:

Aliás, acho tudo excessivo neste navio: o caviar, os vinhos de safras especiais, os vasos com flores, águas-de-co-lônia em todos os vestiários, tudo isso me parece de muito mau gosto, não acha?

Acho...admitiu Eric com uma indulgência toda nova nele, mas que tinha seu lugar naquele contexto de to­lerância em que tudo era possível, inclusive a conversa dele, Eric, com aquele capitalista simbolicamente coberto do san­gue de seus operários.

Isso não o constrange?. . . Naturalmente! disse de repente Armand Bautet-Lebrêche, desencadeando a hos­tilidade num momento estranho, e invertendo assim com­pletamente os papéis: era o capitalista que pedia contas ao homem de esquerda, era o justiceiro que se tornava culpado.

Um e outro devem ter sentido a estranheza da coisa, pois se interromperam juntos e mastigaram seus charutos e sua perplexidade sem convicção.

Aliás, acho toda essa gente insuportável — cedeu bruscamente Bautet-Lebrêche com voz aguda, esganiçada até, uma voz de menininho lamuriento, triste mesmo, que aca­bou por desorientar o diretor do Fórum.

De quem o senhor fala, precisamente?

Eu falo de. . . falo de qualquer um, não da minha mulher, naturalmente — balbuciou Armand incoerentemen­te. — Eu falava de. . . sei lá, eu. . . Esse tipo, esse tipo do cinema, esse vendedor de filmes — terminou, num tom enojado, como se tivesse dito "mercador de tapetes".

Mas a alusão a Simon, graças ao desprezo que ele sus­citava em ambos, afastou-os do problema; num instante reencontraram-se aliados contra os vendedores de tapetes, os vendedores de cinema, os matreiros, os gringos:

— Estou perfeitamente de acordo com o senhor. — A voz de Eric era convincente, e o furor temeroso de Armand enfraqueceu, dando lugar a uma camaradagem de indivíduos da mesma classe. De repente era como se um e outro fossem adolescentes de Eaton, enquanto Simon era de uma escola de outra classe. Confiante, Armand, renunciando proviso­riamente a toda belicosidade, procurou antipatias dali por diante compartilhadas com o "seu comunista".

A putinha que o acompanha é de uma vulgaridade espantosa ■— continuou ele, animado.

E terminou a frase com um riso seco, inquietante, o mesmo tipo de riso que se espera de homens de negócios ferozes, nos filmes policiais de segunda; Eric, que estreme­cera ao termo "putinha", bem fora de moda, afinal, ficou reconfortado pelo riso feroz. E reforçou:

— Sim. . . no estilo starlet intelectual. . . afinal. . . com pretensões intelectuais, é uma das putinhas mais abor­recidas que encontrei até agora! Ela me faz até sentir pena desse infeliz cineasta enriquecido. . . Em pouco tempo o terá arruinado! Pobre Béjard!

E os dois homens, como uma súbita e viril compaixão, sacudiram a cabeça, entristecidos com as desgraças de Simon Béjard.

Nem um nem outro percebeu a chegada de Olga por trás deles. Ela lhes trazia na sua mão branca uma pedra negra e translúcida que um barman lhe confiara, e sobre a qual se dispunha a perguntar, àqueles dois espíritos fortes, a opinião: se era de fato um meteorito, uma estrela vitrifi­cada caída por milagre naquele navio, uma estrela caída de um outro planeta e talvez jogada no vazio por um outro ser vivo, ele próprio, talvez só, ou acreditando-se só no mun­do. . . etc, etc.

Em suma, Olga fora encontrá-los como uma adolescente ingênua e entusiasmada, na ponta dos pés, com a mão para a frente e a expressão extasiada. Retirou-se ainda na ponta dos pés, mas com o punho cerrado e o ar de uma mulher madura, de uma mulher feroz, ébria de ódio e de humilhação, papel que, por sua vez, não tinha a menor dificuldade em representar. Apoiada na amurada do navio, fora das vistas, Olga Lamouroux chorou pela primeira vez em muito tempo, pelo menos pela primeira vez sem testemunhas, em muito tempo.

Um pouco mais tarde ela se acalmou, afugentou da ca­beça aquela frasezinha lancinante e fulminante, aquela frase que ziguezagueava de um canto a outro de seu cérebro e se debatia para sair como uma mosca sob um vidro, a frasezi­nha pronunciada por Eric: "com pretensões intelectuais, é uma das putinhas mais aborrecidas. . .", etc. Não era o ter­mo "putinha" que mais a ofendia, longe disso, eram antes de tudo as duas outras palavras, e o fato de terem sido ditas por Eric Lethuillier em pessoa, o diretor do Fórum. Essas duas palavras, fora de qualquer consideração sentimental (que nem a atingia, aliás), jogavam-na num desespero humi­lhante, um desses desesperos que, segundo Stendhal, Dostoiévski, Proust e muitos outros, podem ser os mais dolo­rosos. Aliás, Olga Lamouroux nunca lera Stendhal, nem Dos-toiévski, nem Proust, nem muita gente mais, por mais que o dissesse: só lera o que se dizia deles, provavelmente na Paris-Match ou no Jours de France, por ocasião do cinqüen­tenário, e não nas Nouvelles Littéraires. A essas informações preciosas, acrescentava uma pequena nota pessoal fornecida por Micheline, sua amiga intelectual, mas, de fato, nada lera. Foi assim que, sem o apoio de qualquer referência, Olga La­mouroux, mais exatamente Marceline Favrot, nascida èm Sa-lon-de-Provence (de uma mãe terna e vendeira, o segundo termo tendo-a impedido de apreciar o primeiro), que Olga ficou torcendo as mãos realmente, mas em vão, durante mais de uma hora, para escapar aos delírios e aos gritos do seu orgulho ferido. Olga não sabia tomar distância de si mesma para se ver; só tinha uma visão estilizada e falsa, mas era uma versão triunfante, que conseguira construir com certa coragem contra todas as provas em contrário que a vida lhe atirava. Também, ao mesmo tempo que sua vaidade, talvez fosse o que de melhor havia nela: a coragem, e por­tanto a teimosia, a ingenuidade da infância maravilhada pe­los engodos, a recusa de uma existência insossa (ou pelo menos assim lhe parecia). Talvez fossem também seus esfor­ços, suas noites de vigília para conquistar nem que fossem as aparências de uma cultura mais extensa do que a do liceu de Salon, sua confiança na vida, na juventude, na beleza e na sua sorte que Eric acabava de fulminar ou pôr em risco. E assim sua decisão implacável, seu desejo de recorrer à vin­gança, correspondia tanto às suas qualidades quanto às suas falhas. A rapidez que empregou, deixando de lado seu so­frimento, para procurar armas, um meio de fazer Eric pagar, era de certo modo perfeitamente estimável. Já estava, aliás, traduzida numa versão deliberadamente mentirosa, dirigida a suas duas confidentes, Micheline ou Fernande, pela se­guinte fórmula: "Decidi imediatamente que isso ia custar caro a Eric Lethuillier. Ele ia ver o que significava investir, diante de Olga Lamouroux, a futura estrela, contra uma jo­vem mulher desarmada, ainda que ela fosse a sua, a jovem e rica Clarisse Baron das Aciarias".

Enquanto esperava pela vingança, reprimia as lágrimas, apanhava-as nas maçãs do rosto e espantava-se vagamente da ausência de sal. Permitia-se ainda assim sacudir os ombros devido aos soluços, contudo mais por abandono do que por docilidade ante seu grande desgosto (uma docilidade tinta de admiração, pois havia dez anos ela já não se acreditava mais, à força de simulá-las, capaz de lágrimas reais). Naquele ins­tante, no entanto, eram lágrimas verdadeiras que se amon­toavam, saltavam de suas pálpebras, enquanto seus ombros curvavam-se sob espasmos incontrolados: era uma mulher, ou antes uma criança em desespero — que ela não conhecia, ou já não conhecia — que chorava por ela, uma "outra". Espantada portanto, mas bastante surpresa com essa capaci­dade da outra para o sofrimento, Olga maquinalmente ten­tava realçar as causas. Pouco a pouco pôs-se a chorar pela mediocridade dos seres humanos, pela dureza de certos ho­mens, que deveriam ser o contrário, homens com quem o povo generoso e confiante, o povo de grande coração, con­tava naquele momento para sair da rotina. Chorava pela in­genuidade dos pobres leitores do Fórum. Esquecia que eram os intelectuais de esquerda (ou de direita), que eram gran­des e pequenos burgueses, em todo caso os abastados que podiam comprá-lo e se inclinar com ele sobre esse famoso povo: povo em que ninguém, exceto seus charlatães oficiais, acreditava, e de que ninguém queria fazer parte; finalmente, "esse povo" cuja única marca distintiva era talvez nunca usar esse vocábulo.

De qualquer forma, quando Julien, que dava a volta ao tombadilho a grandes passos, a pernadas, subindo esca­das de quatro em quatro degraus, no ritmo da felicidade no amor, quando Julien esbarrara nela, eram lágrimas altruístas que derramava nas ondas azuis e que, agarrando-se a ele, Olga derramara sobre seu casaco. "Por que não dirigira sua preferência a ele?", perguntava-se. Naturalmente não apa­rentava seriedade, naturalmente não representava nada, na­turalmente, até ali, não tinha se interessado pela única coisa interessante que havia naquele navio, isto é, ela mesma, Olga. . . Mas ele, pelo menos, lhe sussurrava Marceline Favrot, no seu ingênuo desespero, "pelo menos tinha uma boa cabeça! Naturalmente. . . Estava apaixonado por Clarisse. . . a bela Clarisse, a ex-grotesca Clarisse. . . e essa rivalidade ines­perada não ajudava em nada a solução de seus pequenos pro­blemas", pensava ela ao mesmo tempo que se dava conta de que, graças a Julien, seu desespero e seu destino se reduziam na sua própria cabeça ao termo "pequenos problemas". Tal­vez fosse o rosto daquele homem que provocava isso, com suas sobrancelhas arrepiadas, seus dentes brancos, sua boca cheia, seus olhos castanhos e seu grande nariz oblíquo. Tinha cílios longos como os de uma mulher, observava, pela pri­meira vez, cílios inesperados num homem tão masculino e tão evidentemente encantado de sê-lo. . . Podia-se ficar com ciúmes desse Julien Peyrat, afinal. . . e o belo Eric deveria bem ser o primeiro a pensar em ciúmes, se ela evocasse a cena surpreendida naquela mesma tarde. . . Pois agora que ela já não gostava mais de Eric, ou antes, que já não se dizia que o amava, o que, aliás, era bem possível, ele lhe parecia muito menos sedutor. E, pensando bem, aquela escapada a Capri fora singularmente desprovida de interesse num certo plano, plano em que Julien Peyrat, pelo contrário, ter-lhe-ia sem dúvida deixado melhores recordações. . .

Olga era frígida e mudava esse triste adjetivo num outro mais sedutor: ela se dizia "fria" para que não a acusassem de sê-lo e esperassem assim mudá-la. Eric com ciúmes de Peyrat. . . Mas por que não? Suas lágrimas, cujo fluxo secava, segundo acreditava Julien, redobraram, mas desta vez por injunção sua. As lágrimas funcionavam em qualquer estratégia junto desses homens, era o que sua experiência lhe recordava.

Julien ficara de início desagradavelmente impressionado com essas lágrimas. Parecia-lhe que naquele barco ele estava destinado ao papel de consolador, o que não era de seu há­bito. Imediatamente esse pensamento lhe pareceu blasfema­torio. Ele sabia afinal que as lágrimas de Clarisse não se comparavam às de Olga! Nem pelo motivo, nem pelos olhos de onde escoavam; nem, mais prosaicamente, pela sua flui­dez. Olga fungava muito chorando e a manga de Julien bri­lhava de reflexos inquietantes. . . Julien passou um braço protetor sobre os ombros de Olga e, com um gesto envol­vente, apertou-a contra si por um instante. Quando ele a largou e ela recuou, ficou encantado de ver que lhe devolve­ra aquele incômodo presente. Satisfeito, Julien voltou sua atenção para as exaltadas palavras da moça aflita.

Eu ouvi uma conversa dizia em voz baixa que me indignou. . . Indignou até me pôr neste estado! Eu sou muito ingênua, sem dúvida. . .

Fez um gesto desesperado e fútil com a mão, que signi­ficava muita coisa com relação às loucas conseqüências de sua ingênua juventude.

-— E o que foi que pôde chocar essa ingenuidade? perguntou Julien sem pestanejar, com expressão grave.

Pensava no relato que faria a Clarisse, em como ririam juntos, e se deu conta, com terror, de que não lhe acontecia nada que não pensasse em contar-lhe imediatamente. No seu caso, seria isso amor?, pensou: a vontade de dizer tudo à mesma pessoa e que tudo que lhe acontecia lhe parecesse assim engraçado e apaixonante? Ao mesmo tempo que apai­xonado, tornara-se cruel, observou ele também: afinal, essa jovem, Olga, apesar de todos os seus ridículos, podia muito bem estar infeliz. .. Eric Lethuillier era perfeitamente capaz, na sua arrogância, de ofender profundamente duas mulheres.

— O que foi que aconteceu? — repetiu, de repente com calor na voz, e por um segundo Olga quase lhe contou.

Não Olga, aliás, mas Marceline Favrot, sempre provin­ciana, sempre confiante e também sempre sentimental, mas que, graças a Deus, Olga Lamouroux controlava. E foi Olga que respondeu:

Nada, nada de particular, mas as conversas desse sr. Bautet-Lebrêche me aniquilaram. Deveria haver limites para o ignóbil, não acha? — perguntou num impulso.

Deveria haver, sim — resmungou vagamente Julien, que, tendo feito um esforço sincero, suspirava agora para re­começar seu passeio ao vento. Se você um dia precisar de mim. . . — disse polidamente (esperando marcar com isso que essa necessidade, para ele, era prevista no futuro).

Olga sorriu, abanou a cabeça com gratidão e ele então disparou a galope. Olga o viu desaparecer por trás de um extintor; e por um instante se perguntou por que nunca pudera se apaixonar por esse gênero de homem, que ela teria tornado tão feliz (ignorando que "esse gênero de homem" um pouco mais adiante também se perguntava por que nunca pudera amar esse gênero de mulher). Ela voltou rápido a seu propósito: como punir Eric? Pela mulher, pela bela Clarisse, naturalmente. . . Era a única falha que ela percebia nele. Embora não conhecesse sua. origem nem sua importância.

Clarisse, cuja vida voltava à medida que ela cometia imprudências, cuja felicidade redobrava com os remorsos, chegara ao bar antes de Eric, com ar distraído mas sorrateiro. Aproveitara o banho de Eric para se vestir às pressas, en­quanto ele assobiava ao lado, e se eclipsar sem barulho e sem fechar a porta. Ele ia se exasperar com essa fuga e aparecer muito depressa, mas dez minutos, cinco minutos ou três mi­nutos, com Julien, com o homem que lhe restituíra o gosto por si mesma, pela aparência e pela vida profunda de seu corpo (se não o gosto, pelo menos a aceitação), esses dez minutos valiam muitas cenas. Tinha mil coisas a lhe dizer, e ele, por seu lado, tinha para ela mil respostas e mil per­guntas, mas isso não impediu que de início ficassem imóveis e mudos em seus banquinhos de couro, antes de começar a falar ao mesmo tempo e se interromper juntos, com as mes­mas desculpas, como nas piores comédias americanas. Perde­ram mais trinta segundos a se oferecerem a palavra, e final­mente foi Julien que se lançou de rédeas soltas num monó­logo exaltado:

Que vamos fazer, Clarisse?. . . Você não vai partir com esse homem quando chegarmos a Cannes, não é mesmo? Não vai me deixar? É ridículo. . . Seria melhor dizer-lhe logo. . . Quer que eu próprio lhe diga? Eu me encarrego de lhe dizer, eu, se você não puder... Se você não puder. . . — recomeçou com aquele olhar terno cujo poder ela já sen­tia demasiado.

De fato Julien tinha o sorriso de um homem realmente terno, de um homem realmente bom; era a primeira vez que Clarisse sofria a sedução dessa virtude comum chamada "bon­dade" e que lhe dava exatamente o que o olhar de Eric lhe recusava: a segurança, em primeiro lugar, graças a esse semi-estranho, seu amante, de ser incondicionalmente aceita, ama­da, e não julgada por um ser superior. Afinal, talvez Eric simplesmente já não gostasse mais dela, talvez tivesse raiva dela por nada fazer que lhe permitisse pedir o divórcio. . . Talvez ficasse encantado, pelo contrário, se Julien lhe pe­disse a mão, por mais extravagante que a coisa fosse. . . Mas Clarisse sabia bem que não era simples, e quanto mais o olhar de Julien e seu desejo a persuadiam de sua beleza (uma beleza sem insipidez) e de seu direito à liberdade como à felicidade, mais se dava conta do que havia de incompreen­sível no comportamento de Eric. Compreendia, sem cólera, que fora literalmente enclausurada e fechada numa visão ne­gativa de si mesma, no seu olhar não só sem indulgência mas sem dúvida até mesmo agressivo. E que teria ela podido fazer, senão ser rica?, como dizia Julien. Mas aí não con­tinuava com sua investigação, parava à beira das histórias de dinheiro como diante dos pântanos infectados onde atola­ria, se ali procurasse os vestígios dos passos de Eric. Sabia, estava certa, que se Julien falasse com Eric, ou Eric sou­besse por outro o que lhes acontecia, as conseqüências se­riam terríveis. . . tanto para Julien como para ela. E quanto mais o olhar de Julien lhe inspirava confiança, satisfazia sua fome sentimental, tanto mais a inquietava quando imaginava as manobras sutis e geladas que Eric oporia a Julien e que ela conhecia bem demais.

Não diga nada. Eu lhe suplico, não diga nada agora. Espere. . . espere o fim do cruzeiro. . . Neste navio, todos juntos e todos informados, seria horrível, fatigante. . . Eu não poderia fugir de Eric. Eu só poderia fugir em terra fir­me, e ainda assim não sei se ele não me recuperaria pela força, de uma maneira ou de outra. . . — continuou, com um sorriso muito alegre e depois com um ligeiro riso que deixaram Julien um instante perplexo, antes que a mão de Edma Bautet-Lebrêche, passando por trás dele para apanhar uma avelã no bar, o informasse das razões desse riso inopor­tuno.

Minha querida Clarisse — disse Edma —, posso substituí-la junto ao sr. Peyrat? Seu marido se aproxima a grandes passos, como Otelo. . . Ele já teria chegado até, se Charley não o tivesse detido na passagem com uma his­tória de telex.

E deixando Clarisse em seu banquinho à direita de Ju­lien, Edma pegou o tamborete à esquerda e se pôs a falar com animação, fazendo-o assim virar as costas para Clarisse, que se encontrou diante da Doriacci, sorridente e cúmplice.

— O senhor sabe, sr. Peyrat — disse Edma "com um sorriso encantador, por sua vez", pensou ele. — O senhor sabe que desde a partida deste cruzeiro eu me empenho em agradar-lhe?. . . Pisco-lhe o olho, falo pensando no senhor, rio com o senhor, que sei eu. . . fico ridícula e sem o menor eco. . . Estou muito humilhada e muito triste, sr. Peyrat. . .

Julien, com o espírito confuso pelas últimas palavras de Clarisse, fez um esforço sobre-humano para compreender o que lhe diziam e, quando o conseguiu, esse esforço só pôde redobrar seu constrangimento. Observara as manobras de que Edma falava e achou preferível, tanto para ela como para si mesmo, não demonstrá-lo. Que ela lhe falasse tão abertamente parecia-lhe aterrador (ele tinha pavor, de fato sempre tivera, da idéia de humilhar quem quer que fosse, e, ainda por cima, uma mulher).

Mas — disse ele — eu não pensava. . . não pensava que fosse para mim. . . Enfim, que a senhora, que a senhora pensasse. . .

Não se atrapalhe — disse Edma, sempre sorridente —, não se atrapalhe e não minta. De fato eu lhe fiz a corte, sr. Peyrat, mas eu a fiz no imperfeito. Eu queria simples­mente que o senhor compreendesse que, se eu estivesse neste navio com o senhor há vinte anos, ou dez, aliás, seria o senhor que eu escolheria, com o seu acordo, para enganar o sr. Bautet-Lebrêche. Talvez isso lhe pareça duvidoso, mas mesmo entre as pessoas das relações dele encontrei homens bastante encantadores para amar. . . E guardei pela espécie masculina uma amizade que não se desmentiu e que não se desmentirá mais agora, aliás, por falta de ocasião de se des­mentir. Era uma admiração totalmente platônica, acredite-me, uma afeição cheia de saudades, mas feita de recordações felizes que eu lhe propunha. . .

Tinha uma voz um pouco triste, subitamente, e Julien teve vergonha de si mesmo, vergonha de seus pensamentos não verbalizados e de suas reticências. Pegou a mão de Edma, beijou-a. E levantando os olhos e virando-se, viu-se sob o olhar irônico de desprezo, quase abertamente insultuo­so, de Eric Lethuillier, sentado do outro lado de Clarisse. Eles se entreolharam fixamente, e Julien inclinou-se para Eric, roçando em Clarisse, que olhava à frente.

— Você falou comigo? — disse ele a Eric.

— Mas de modo algum! — respondeu Eric Lethuillier, com ar espantado, como se essa eventualidade lhe fosse de­sonrosa.

— Pensei — disse Julien com voz neutra.

Houve entre eles como que uma espécie de vazio pe­sado entre dois cães bravos. Uma parada do tempo, uma imobilidade sibilina, de ódio. Charley salvou a situação, como de hábito, batendo palmas e gritando "Hello people" com sua voz anasalada. Todo mundo virou-se para ele, os dois ho­mens continuaram presos pelo olhar, até que Edma pratimente pôs a mão nos olhos de Julien dizendo "psiu", como se ele estivesse falando, para que ele voltasse o rosto para Charley.

— Será que todo mundo está aqui? — gritou Charley. — Ah! Faltam Simon Béjard e a sra. Lamouroux. . . E tam­bém o sr. Bautet-Lebrêche. Enfim, você lhes transmitirão, por favor, a nova ordem de bordo. Gostariam que parásse­mos amanhã, antes de Cartago, nas ilhas Zembra, para tomar o último banho antes do inverno?. . . Podemos ancorar per­to de uma ilhota onde há mar profundo e grandes praias. Pensei que isso agradaria a todos. . .

Houve algumas exclamações aprovadoras, mas em me­nor número que os silêncios, pois os passageiros do Narcissus não tinham em geral interesse em se desnudar devido à idade. Só Andreas, que aquele mar azul embriagava, e Julien, que não gostava muito de natação, nem de tênis ou de qualquer esporte que não fossem as corridas de cavalo, mas que toda escapada do navio, toda ocasião de rever Clarisse entusias­mava, aplaudiram barulhentamente, enquanto Eric fazia um sinal aprovador com a cabeça. A Doriacci, Edma e Clarisse não se manifestaram, mas por motivos diferentes. As duas primeiras por preocupações estéticas; Clarisse porque, desde que Eric se sentara perto dela, estava novamente com medo de tudo: de um banho no Mediterrâneo como de um cálice no bar com Julien, como de provocar sorrisos cúmplices dos outros passageiros. Clarisse tornava a ter medo de amar Julien ou quem quer que fosse. Descobriu uma enxaqueca instantânea e foi se refugiar na cabina.

Tudo ali denunciava a presença de Eric; suas roupas, papéis, jornais, agenda, os sapatos. . . e nada lhe lembrava Julien, cujas camisas amassadas e cujos sapatos mal engraxa­dos ela já conhecia, sentindo nesse momento uma nostalgia tão violenta dessas roupas masculinas amassadas como de seu corpo. Ela devia ter descido em Siracusa, interrompendo ali o cruzeiro para esquecer Julien. Mas se era capaz dos dois primeiros projetos, não estava certa de sê-lo quanto ao ter­ceiro. Sabia bem que, renunciando a essa fuga no instante em que a imaginava, não eram a cólera ou as acusações de Eric sobre seu comportamento inconstante o que ela mais temia. Não saiu para o jantar nem para o concerto, e passou a noite entre duas hipóteses: descer em Siracusa ou amar Julien, optando por uma ou pela outra a cada hora, para acabar adormecendo às sete da manhã esgotada mas feliz de pensar que esse esgotamento, em todo caso, evitar-lhe-ia fa­zer essa escolha e, por conseguinte, suas malas.

Julien não se enganara quanto à agressividade de Eric Lethuillier: Eric odiava-o de fato, já, com uma raiva instin­tiva superior à que dirigia a Andreas e principalmente a Simon Béjard. Não há dúvida que Eric tinha sobre as mu­lheres algumas idéias completamente fora de moda e pri­márias, em comparação com a liberdade que o Fórum recla­mava para essas mesmas mulheres. O mau gosto ou o bom gosto não eram talvez critérios quando se tratava dos gostos sexuais de uma mulher (embora ele acreditasse, à força, que Clarisse tinha se tornado completamente fria no amor, qua­se frígida, embora ele a tivesse conhecido muito diferente). Mas não lhe parecia ainda assim possível que fosse a Simon Béjard que Olga tivesse feito alusão naquela mesma tarde.

Ela marcara encontro com ele no bar da primeira clas­se, onde a chegada deles fora acolhida de má vontade, como se uma diferença de trinta mil francos pudesse criar uma espécie de Harlem e transformá-los, a Olga e a ele, em brancos indesejáveis. Mas Olga não parecia nada preocupada com os outros passageiros. Ela o acolhera com demonstra­ções tão evidentes de sua paixão que ele tinha se regozijado afinal de ter se refugiado ali: a mímica de Olga teria certa­mente parecido forçada aos olhos perspicazes de Charley ou dos outros, tão forçada quanto a aceitação dele, Eric Lethuil­lier. Deixou-a armar suas baterias e utilizar todos os seus encantos com uma indiferença além do desprezo e tendendo à exasperação, quando ela lhe passou, sorrindo como por acaso, a frasezinha que devia estragar-lhe o dia. Essa frasezi-nha apareceu numa volta de um monólogo de Olga em que ela se inquietava de repente pelos sentimentos de Clarisse. Pretendia mesmo não querer ser a causa do desgosto dela ("um pouco tarde", pareceu a Eric), e insistia tanto nisso que, ao perguntar a Eric se Clarisse não tinha ciúmes dele e de suas escapadas amorosas, ele lhe respondeu imediata­mente, para eliminar esse assunto, "que Clarisse e ele já não se amavam havia muito tempo, que sem dúvida ela nunca o tinha amado; contrariamente a ele, Clarisse era indiferente a outras pessoas, a ele inclusive, quase até o limite da esqui­zofrenia". Depois de algumas palavras de consolo muito es­clarecidas, Olga lhe disse então, com um risinho ligeira­mente tímido:

Então, felizmente, meu caro Eric. . . Fico bem ali­viada por você e por ela. . .

Por que por mim? — perguntou Eric maquinalmen­te, esperando que ela evocasse seus eventuais remorsos.

Mas Olga recusou-se a explicar-se, com ares de nobreza que completaram a exasperação e até mesmo o rancor de Eric para com ela.

— Minha querida Olga — disse, depois de dez minutos de discussão sobre os direitos que tinha de saber o que ela sabia —, minha querida Olga, eu pensava que lhe tinha feito compreender que sou uma pessoa de idéias claras. Como eu também não lhe esconderia os possíveis desvios de Simon Béjard, você não tem que me esconder alguma coisa que me toca, mesmo indiretamente. Se você pensa o contrário, é melhor ficarmos por aqui.

E grandes lágrimas subiram imediatamente aos olhos de Olga, enquanto seu rosto se contraía, seu tormento se ma­nifestava por mil batimentos dos cílios, e finalmente ela disse ao namorado, cada vez menos perplexo:

—    Foi porque eu a vi flertando um pouco ainda agora

—    disse, sorrindo. — E não lhe direi nos braços de quem, porque não me lembro. E mesmo que soubesse não diria.

O que você chama de flerte? — perguntou Eric com voz cortante, mas subitamente pálido sob seu bronzeado (o que fez pular de alegria o coraçãozinho de Olga Lamouroux: ela tinha encontrado a arma. . .)

Flertar. . . Flertar. . . como o definiria você mesmo, Eric?

Eu não o defino — disse.secamente, rejeitando com um gesto do braço qualquer definição dessa atividade fútil —, eu não flerto nunca: eu faço amor com alguém ou não o faço de todo. Detesto as excitadoras.

—    Aí está um defeito de que você não pode me acusar

—    disse Olga como uma gatinha, agarrando-se ao braço dele. — Eu realmente não lhe resisti muito tempo. Talvez não tenha sido bastante. . .

Eric teve de se conter para não bater nela. Tinha vergo­nha da idéia de ter se deitado na mesma cama com aquela miserável starlet transbordante de fofocas e de tolices. E na sua raiva chegou a esquecer o que queria saber dela. Olga percebeu-o e murmurou:

Então, digamos que eles se beijavam na boca apai­xonadamente. Tive que esperar três minutos no meu relógio para poder entrar na minha cabina, que fica adiante da sua. . . Quando eles se separaram, estava prestes a voltar ao bar, já que parecia que suas manifestações iriam durar muito tempo. . .

E quem era ele?

Veja. . . — disse Olga sem parecer ter ouvido a pergunta veja, quando você fala em excitadoras, estou perfeitamente de acordo com você. E aliás ficaria mais orgu­lhosa de logo ter dito sim a você, Eric, meu grande ho­mem. . . — acrescentou ela com ingenuidade. Mas nada me diz que sua mulher seja uma excitadora, e é bem possí­vel que ela própria tenha apagado o fogo que desenca­deou. . .

O que é que você quer dizer? perguntou Eric, sempre com aquele ar de cego por trás do qual ele se debatia horrivelmente (como Olga podia adivinhar, rejubilando-se pela primeira vez nas últimas vinte e quatro horas).

Eu quero dizer que Clarisse, como você, talvez te­nha amantes, e que ela se comporta como uma mulher ho­nesta. Em todo caso, esse, ela não se limitará a excitá-lo. . . Se não fossem quatro da tarde e o fato de que você pudesse voltar à cabina por acaso, eles teriam se fechado ali de bom grado. . . Eu os via tremer de onde estava, a dez metros.

Mas quem? repetiu Eric com energia (e as pes­soas em torno dele olharam).

Vamos pagar e sair daqui disse Olga imediata­mente. Eu lhe direi tudo quando sairmos daqui.

Mas quando Eric, depois de pagar, quis se reunir a ela, já não a encontrou, e foi refugiar-se na cabina, da qual não saíra até aquele momento, hora da abertura do bar. E por essa razão Eric não sabia qual dos três homens tinha beijado sua mulher, Clarisse, e a quem ela retribuíra os beijos. Andreas parecia ocupado. Julien Peyrat era um trapaceiro, um aventureiro, portanto incapaz desse absoluto no amor que era a única exigência de Clarisse; quanto a Simon Béjard, Olga não resistiria a lhe dizer o nome. Talvez fosse Andreas, afinal, a quem a Doriacci dava liberdade completa. . . "Mas seria preciso que ele fosse vigoroso no amor", repetia-se Eric fitando Julien, para descobrir talvez ali o homem atraente visto por Clarisse. Foi no momento em que Julien levantou os olhos e eles se defrontaram como dois rivais que Eric soube o nome do inimigo. Sentado ao lado de Clarisse assim que chegara, sentia-se ferver de furor e de alguma coisa mais que se recusava totalmente a chamar de desespero. Conser­vou bastante sangue-frio para passar a noite sem quebrar tudo e dizer tudo. Mais que qualquer outra coisa, humilha­va-o a idéia de seus namoros com Olga e de suas mano­bras tão inteligentes e de psicologia tão sutil, enquanto Cla­risse, por seu lado, fizera embarcar o amante no navio, a menos que eles se tivessem tornado amantes nesses três dias, o que Eric não podia nem queria acreditar, porque isso lhe teria provado que Clarisse ainda era capaz dessas paixões agudas, dessas crises passionais das quais ele se beneficiara uma vez e que tudo fizera para não ver reaparecer no rosto da mulher.

 

O jantar, apesar desse início promissor, passou-se num clima de bom entendimento, embora esse termo fosse pelo menos um pouco otimista, levando-se em conta o riso vindo da garganta de Edma e o olhar de Eric.

O jantar em todo caso permitiu a Julien Peyrat — que já começava a fazer castelos no ar, isto é, sua vida de homem casado com Clarisse ex-Lethuillier, que voltara a ser Clarisse Baron, ou antes: Clarisse ex-Baron, sra. Peyrat; Julien, desde já, recusando todos os cêntimos e todos os mi­lhões de sua rica família, recusando qualquer equívoco sus­cetível de fazer Clarisse, "sua mulher", duvidar de seu amor louco — Julien Peyrat, que, por motivo dessa recusa, se relançava mentalmente em combinações e maquinações exte­nuantes, graças a esse jantar calmo e curto pôde confiar seu Marquet aos cuidados de Charley Bollinger, empresário ideal para esse gênero de negociações. Julien sussurrara-lhe o pre­ço incrivelmente baixo do quadro, as razões desse preço e as circunstâncias de sua compra, excepcionalmente compli­cadas e nas quais acabava ele próprio por se perder, ao mes­mo tempo em que deixara perceber sua paixão por aquele quadro e ainda assim a dolorosa mas possível eventualidade de se separar dele, com tanta convicção que, à sobremesa, já se deixara levar por Charley, o empresário perfeito, quase à força, até a cabina: abrindo sua valise, tirara o quadro enro­lado em papel de jornal entre duas camisas, bloqueado por dois pares de meias como só se podem permitir os grandes, os verdadeiros quadros; e assim convencera irreversivelmen­te Charley de que um dos mais belos Marquet do mundo en­contrava-se a bordo do Narcissus e que qualquer dos passa­geiros, bastando que dispusesse de vinte e cinco miseráveis milhões de francos antigos, podia trocá-los por esse quadro que valia mil em si, mas duzentos à venda. . . como atestava meia dúzia de papéis assinados por grandes peritos de nomes

Desconhecidos mas familiares ao ouvido. Ao deixá-lo, Julien estava perfeitamente seguro da propagação dessa convicção entre os felizes e ricos patos encontrados no navio, princi­palmente porque ele havia feito Charlie quase jurar nada dizer a ninguém.

Foi só por volta das duas horas da madrugada que Eric, esticado no seu beliche, começou a construir seu plano de sabotagem.

Finalmente, não foi ele que sofreu mais com essa reve­lação, pelo menos naquela noite; foi Simon Béjard, que nada tinha a ver com o assunto.

 

Ao voltar à cabina, Olga, depois de secas as lágrimas havia horas, tinha contudo hesitado um instante depois de abrir a porta. Deparara-se com Simon Béjard em sua cama, com os lençóis bem esticados, os cabelos bem penteados, mais bronzeado que vermelho agora, num pijama de seda azul, que a esperava com uma garrafa de champanha não desarrolhada entre os dois beliches e que levantara para ela seus feios olhos maliciosos, mas ingênuos, brilhantes de prazer ao vê-la; Simon Béjard, por quem tivera, pela primeira vez, uma espé­cie de gratidão: ele ao menos não a considerava "uma puta falsamente intelectual". E, por um instante, quase lhe contou toda a sua humilhação; quase lhe confiou suas mágoas a cuidar, seu orgulho a vingar, como lhe suplicava sua gêmea Marceline Favrot, aniquilada. E sem dúvida, se esta tivesse ganho, as relações de Olga e Simon poderiam ter sido outras, diferentes das que eram desde a partida. Mas ganhou Olga, e sua humilhação a sufocava menos do que seu desejo de vingança. Endireitava a espinha sob o golpe, ardia por bater, por sua vez, é talvez tenha sido o melhor dela que a levou a contar em detalhe e com ferocidade não o desenrolar daquele dia, mas o desenrolar da noite em Capri, da qual nada lhe escondeu, exceto, naturalmente, o tédio e a ausência de romance. Simon Béjard ficou muito tempo silencioso depois dessa avalanche de horrores, como lhe pareceu, e incapaz de olhá-la enquanto ela se despia com gestos brutais, talvez con­fusamente constrangida pelo que acabava de fazer e pela inutilidade dessa confidência. E, de fato, Simon Béjard esta­va menos ofendido por Olga ter dormido com aquele sujo do Lethuillier do que por ter contado aquilo sem necessidade, por ela lhe ter infligido uma verdade que ele não pedia e que, ela sabia, lhe seria dolorosa. Não era a infidelidade de Olga, mas sua indiferença pela felicidade ou infelicidade eventual dele, indiferença provada por esse relato cruel, o que achava mais atroz nisso tudo. E quando Olga lhe disse, sem se virar e para romper o silêncio que ele conservava desde o fim do relato: "Eu o respeito demais para mentir, Simon", com voz piedosa, ele não pôde se conter, e retru­cou: "Mas não me ama o bastante para evitar me fazer sofrer", com uma voz amarga e acerba à qual Olga reagiu, transformando-se de humilde pecadora na orgulhosa e sus­cetível Olga Lamouroux, nascida na Touraine de uma família de grandes burgueses, que, apesar de seus vícios, cuidavam de sua honra, ao que parecia.

Você preferia nada saber? Ser enganado e que os outros se rissem às suas costas; ou então saber disso por aquele fofoqueiro do Charley?. . . E, nesse caso, você teria fechado os olhos, não é? A complacência é uma coisa cor­rente, eu creio, nos meios cinematográficos. . .

Devo lembrá-la que você já está há oito anos nesse meio ■— disse Simon Béjard involuntariamente, porque ti­nha vontade de tudo naquele momento, menos de uma cena.

Sete anos — retificou Olga. — Sete anos que, você pode imaginar, não diminuíram meu horror aos amores a três, à hipocrisia e às orgias. Se você gosta disso, faça-o sem mim, se quiser. . . — Mas Simon levantara-se involuntaria­mente, branco de raiva, e Olga recuou um passo diante da­quele rosto desconhecido e furioso.

Se nós dormíssemos a três — disse Simon —, não seria por minha culpa, não é verdade? Não seria eu que tra­ria o terceiro, não é? Você não acredita que. . .

Gaguejava de raiva, e Olga, encurralada, liberou-se com gritos que logo acalmaram Simon, que sempre fora alérgico a escândalos. Ela atirou-lhe a pergunta, sem se dignar res­ponder à dele:

Você não responde, Simon: você é um homem com­placente ou não?

Certamente não. Ou você acaba com essa história ou eu a desembarco em Siracusa.

E naquele instante ele o teria feito, tão humilhado esta­va por sofrer por causa daquela mulherzinha mentirosa e mesquinha; Olga compreendeu, e de repente se viu sozinha num aeroporto siciliano, com sua valise na mão; antes de le­var mais longe sua imaginação e de se ver preterida por outra atriz jovem na próxima produção de Simon Béjard, pensou: "Mas estou louca. . . tenho dois contratos com ele nem mes­mo assinados e me divirto com um salafrário infecto e lhe conto. . . Vamos nos controlar. . ." E controlou-se, de fato, atirando-se nos braços de Simon, desta vez derramando lá­grimas límpidas e sacudindo os ombros aos soluços, mas com bastante veracidade para que Simon, mais que feliz com essa conclusão, a tomasse nos braços e a consolasse, com o coração apertado com as mentiras melodramáticas que ela guaguejava contra seu rosto, não por muito tempo, porque depressa foram seus lábios que ele escutou, e seu corpo que ele questionou com o próprio corpo, só retirando dele aque­les mesmos gritos extasiados que nada lhe diziam.

Mas enquanto ele fumava lentamente, depois, estirado de costas, com os olhos fixos na vigia, mais clara no escuro, Olga, adormecida, mexeu-se, pôs a mão no quadril de Simon com um resmungo de satisfação que ele tomou por felicidade e que o fez se curvar como um cego sobre o rosto daquela criança dócil, por quem tinha, acima de tudo, desejo de ser amado. Tentou adormecer, não conseguiu, tornou a acender o abajur, pegou um livro, tornou a fechá-lo, apagou a luz. Nada adiantava. Duas horas depois teve que se render à evi­dência. Simon Béjard, deitado em seu beliche, com os joe­lhos dobrados e a cabeça inclinada, em posição fetal, Simon Béjard, naquele momento o produtor mais invejado da Fran­ça, e talvez da Europa, entregava-se a um desgosto de amor. E em vez de aproveitar sua sorte, ele se escondia numa cama alugada por nove dias, por uma fortuna, da Companhia Pottin, uma cama que não era sua e jamais seria, uma cama talvez diferente de suas predecessoras pelo luxo mas não pela notável solidão que ainda lhe parecia ali mais notável; uma cama semelhante a todas aquelas em que vivera durante trinta anos, que ele sabia, quando as deixava pela manhã, que jamais voltaria a ver. E Simon Béjard, que não tinha portan­to jamais tido uma cama só dele e cujo único teto era naque­le momento o do Plaza, na Avenue Montaigne, Simon sentiu-se de repente desesperadamente atraído por todas as coisas de que fugira e que desprezara durante toda a sua vida: Si­mon desejava ter seu teto, sua cama e poder ali morrer, com a condição de que essa cama e essa vida fossem compartilha­das com Olga Lamouroux. Bastara para ele chegar a isso depois de trinta anos de miséria e solidão para que fosse brus­camente entregue à ociosidade, ao luxo e à companhia du­rável de uma mulher. Esses três meses tinham bastado para que se apaixonasse por uma starlet e que choramingasse em seu beliche quando ela o enganava, em vez de a jogar fora e de esauecê-la em três dias. como teria feito em Paris. Atra­vés desses pensamentos, como fundo sonoro, ouvia um ruí­do acariciante e fugidio, o do navio que fendia as águas plá­cidas e sombrias com um suave ruído de água livre, de água salgada, de água do mar, muito distinto do ruído dos rios, observou ele, sonhador, de repente, longe de Olga, retornan­do aos anos da infância na província plana de tons tão verdes e tão amarelos onde deslizavam, refletindo os céus, os rios transparentes; enquanto uma criança, com os olhos fixos numa rolha vermelha na ponta de uma linha, uma criança apaixonada e desastrada já naquela época, ele mesmo, trans­pirava ao sol. Mas o que vinham essas recordações fazer em sua cabeça e nessas circunstâncias inoportunas?. . . Não se lembrava nunca da infância, esquecera-a havia muito tempo, pelo menos assim acreditava. Sua infância era relegada, como alguns roteiros lamurientos ou demasiado sem graça, ao des­vão dos arquivos, de onde não deviam mais sair nem uns nem outros.

Simon levantou-se na escuridão, foi até o banheiro e engoliu dois copos d'água, com ênfase e gestos de tragédia, depois acendeu a luz e lançou um olhar de viés ao espelho. Aproximou o rosto lúgubre e mais para feio, com seus traços moles e os olhos azuis à flor do rosto, o tom cadavérico que ele conservava mesmo sob o bronzeado e a boca cuja sensua­lidade fora por vezes apreciada; mas vinte anos antes, quando a sensualidade mal lhe interessava, talvez menos que o fute­bol, e em todo caso menos do que o cinema! Um rosto a que, numa de suas produções, só confiaria um terceiro papel (e ainda um papel de homem enganado pela mulher, despre­zado pelo patrão, um papel de desastrado ou de pulha). Por que loucura, que inconsciência quereria ele que Olga amasse aquele rosto? Como podia suportar até que ele apoiasse seu rosto no dela? Como poderia ela passar as mãos nos seus ra­ríssimos cabelos? Como poderia suportar contra o seu corpo elegante, maleável e musculoso de mulher jovem, na moda, o corpo dele, Simon, inchado de álcool e de sanduíches en­golidos às pressas, um corpo em que os músculos relaxavam sem jamais terem sofrido tensão e cujo estômago ganhava amplitude de tanto andar de carro? (O fato de um Mercedes ter substituído seu velho Simca em nada mudava a situação, como contudo acreditara.) Ah! ele não era tão bonito como os outros homens daquele navio: o encantador Julien e o soberbo Andreas e o belo Eric. . . Esse lixo, esse safado, o belo Eric,

Simon apanhou um tubo de soníferos, tomou um, en­goliu-o, fez saltar outros na sua mão, fingindo hesitar, para enganar a si mesmo. Mas sabia muito bem que era incapaz dessa solução. E afinal de contas não sentia qualquer vergo­nha dessa certeza: pelo contrário.

Chegariam à noite a Cartago, mas de madrugada chovia. O Narcissus saiu da noite projetando-se contra um céu cinza-ferroso, muito inclinado sobre um mar do mesmo tom e cuja água parecia pegajosa, pesada. Parecia que o mundo acabava naquele cinza e que o Narcissus nunca sairia dali. Os passa­geiros ficariam lúgubres naquele dia, pensou Charley, pas­sando pela primeira vez de dia pelos corredores de luxo, ajei­tando a gravata sob seu blazer castanho com reflexos verme­lhos, encantador sem dúvida, mas severo, quando pensava no conjunto de xantungue bege que previra na véspera. Assim, ficou estupefato quando ouviu o riso gigantesco e so­noro da Doriacci, um pouco rouca pela insónia, riso pode­roso que certamente teria acordado os passageiros daquele tombadilho sem a proteção involuntária que representavam Hans Helmut Kreuze e sua grande cabina. "Como aquele infeliz consegue dormir?",perguntava-se Charley, diminuindo o passo. E aliás, será que estava dormindo?. . . Talvez pas­sasse extenuantes noites em claro, e só o terror o impedisse de se queixar. Desde o incidente do primeiro dia, Hans Helmut, o maestro, comportava-se docilmente diante da Do­riacci. Quanto a Fuschia, o veterinário consultado em Porto-Vecchio devia ter compreendido o seu caso, pois graças às suas pílulas o cão dormia sem interrupção havia dois dias. Uma nova gargalhada freou Charley definitivamente, e ele lançou em torno de si um olhar furtivo: Ellédocq estava no posto de comando havia uma hora, vigiando uma trajetória imutável e evitando os obstáculos inexistentes; ele tinha por­tanto o tempo e a possibilidade. . . Encontrou-se inclinado, com o ouvido na porta do apartamento da Doriacci, enver­gonhado e excitado ao mesmo tempo.

Então? Então?... A moleira não quis pagar o ho­tel, finalmente. . . É incrível! dizia a Doriacci.

O ruído de um sopapo sonoro sobressaltou Charley, que não compreendeu imediatamente o que se passara e desejou que fosse a coxa da Diva e não o rosto do pobre Andreas que o tivesse sofrido.

Não foi exatamente assim — disse a voz de Andreas ("uma voz jovem, tão jovem! Que pena. . .", pensou Char­ley, febrilmente e em desespero). — Ela afirmava que lhe tinham dado um apartamento por hábito, quando pedira apenas um quarto, etc. O patrão dizia que sim. Ela me to­mou por testemunha. . . Todo mundo estava ali, todo o ho­tel: os clientes, o pessoal. .. Eu estava vermelho como um camarão. . .

Meu Deus, mas onde você vai pescar essas mulhe­res? — disse a Doriacci com uma voz de trovão, encantada.

Ela se habituara, havia muitos anos, a ouvir contar nos braços de seus jovens amantes histórias das próprias rivais. Eram as mesmas mulheres de sessenta anos ou mais que com­partilhavam -o mercado dos jovens dourados em Paris, Roma, Nova York e alhures. E ainda assim esse mercado era res­tringido pela concorrência crescente dos pederastas, menos fatigantes e mais generosos, geralmente, que as viscondessas e as ladies ainda caçadoras. Eram sempre a condessa Pignoli, Mrs. Galli ver, a sra. de Bras, de quem a Doriacci recebia os restos ou a quem ela os deixava. E eis que esse jovem, tão polido e sem dúvida o mais belo que ela via em muito tempo, esse jovem que iria fazer furor no mercado logo que ela ali o introduzisse, falava-lhe de Nevers como da Super-Babilônia, do trem Paris—St.-Étienne como de um jato par­ticular e da sra. Farigueux e da sra. Bonson, respectivamente mulher do moleiro e viúva do tabelião, como de Barbara Hutton. . . E eis que lhe contava suas aventuras de gigolô não somente sem esconder o papel preciso que ali ocupava, mas com anedotas das quais saía muitas vezes ridicularizado ou ludibriado. Era realmente um jovem estranho, esse An­dreas de Nevers. . . E a Doriacci confessava-se que se ela tivesse trinta anos menos, vinte mesmo, ela se prenderia a ele de bom grado por mais tempo do que de hábito, isto é, um pouco mais de três meses. O que ele, aliás, já reclamava com uma insistência que teria sido odiosa em quase todos os rapazes de seu gênero, mas que nele parecia apenas infantil. Andreas tinha além disso reflexos inesperados num profis­sional, porque não ocultava viver de seu corpo havia cinco anos, e unicamente de seu corpo, e corava quando ela pas­sava uma gorjeta ao camareiro, a ponto de se pensar como ele reagia em terra firme, em que o número de gorjetas multiolicava-se por cem.

Então o que foi que você fez?

E ela avançava a mão para Andreas, um Andreas de pi­jama branco de madapolão como ela já não via desde 1950. Louro e despenteado, ele tinha uma expressão feliz, ria com a boca e os olhos, era encantador. Ela o despenteou e pen­teou várias vezes por puro prazer. Parou quando os olhos de Andreas, esquecendo de sorrir, se fizeram suplicantes, ternos, demasiado ternos, e ela o interrompeu bruscamente com uma pergunta brutal:

Por que ela não quis pagar, a sua moleira. . . sua moageira, perdão? O serviço não foi perfeito?... O seu, quero dizer.

Ele sacudiu a cabeça com o rosto fechado, como a cada vez que ela abordava essas questões, no entanto simples, e continuou:

Ela me tomou como testemunha; e quando eu disse que não me lembrava, respondeu que isso não a surpreendia, que "O senhor estava acima dessas coisas..." O senhor era eu, "que o senhor planava no ar", etc, etc. Então a mulher do hoteleiro se pôs a rir de uma maneira horrível, e ela disse. . .

Andreas interrompeu-se e mostrou um ar preocupado.

O que foi que ela disse? perguntou a Doriacci, rindo antecipadamente. O que foi que ela disse. . . Con­te-me tudo, Andreas. A gente se diverte muito mais em Ne­vers do que em Acapulco, decididamente. . . E por que não há uma ópera cômica em Moulins ou em Bourges?

Existe, sim, mas você receberia três vinténs de paga­mento disse Andreas tristemente. Então ela disse que Huguette. . . enfim, a moageira não tinha de que se queixar, pois ela a ouvira berrar, foi o termo que ela usou, uma parte da noite. . .

Ele estava com um ar tão embaraçado que a Doriacci teve um riso louco, o que, aliás, acontecia facilmente com ela.

E você, o que foi que você fez?

Fui buscar o carro, guardei as malas, e a mulher do hoteleiro me pediu que pagasse a conta, e eu não tinha um tostão, e o hoteleiro pedia a ela e os garçons do restaurante se torciam de rir. Ah! Eu sofri. . . Como eu sofri. . . E você sabe como se chamava esse motel?

"O Motel das Delícias. Das Delícias do Bourbonnais. . . Eu a deixei na primeira estação e voltei a Nevers. Tia Jean­ne ficou muito decepcionada, mas ela é que me tinha posto no lance da moageira."

— Meu Deus. . . Meu Deus... — soluçava a Do­riacci nos travesseiros, que apertava contra si com entusias­mo. — Meu Deus, pare com suas histórias estúpidas e abra a porta: há alguém que está nos escutando — continuou ela no mesmo tom.

 

                                                          CONTINUA

 

Foi assim que Charley quase caiu quando o soberbo Andreas abriu a porta (Andreas vestido com probidade cân­dida e linho branco) e penetrou de cabeça no quarto. Em sua cama, com os ombros nus, o rosto vermelho de tanto rir e os olhos faiscantes de autoridade, a Doriacci fitava-o sem raiva e sem indulgência.

 

 

 

 

— Sr. Bollinger — disse ela —, já de pé a esta hora? O senhor quer tomar o café da manhã conosco?... Se esta desordem não o assustar. . .

E com seu belo braço ainda liso ela mostrava o quarto. "Um quarto de amantes", observou Charley tristemente, com as roupas, os cigarros e os livros, o copo de água e os travesseiros espalhados na desordem inimitável do prazer. Balbuciando, sentou-se na ponta da cama, cabisbaixo, com as mãos nos joelhos como um primeiro comungante. Sem qual­quer outro comentário a seu comportamento infamante, a Doriacci pediu chá para três pessoas, torradas, geléias e suco de frutas. Esse café da manhã seguia de perto um champanha noturno, a julgar pela garrafa ainda fresca e o rosto do cama­reiro...

 

                                                                                Françoise Sagan

 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"