Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A QUEDA DOS ANJOS / Albert Paul Dahoui
A QUEDA DOS ANJOS / Albert Paul Dahoui

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

A estrela de Capela fica distante 42 anos-luz da Terra, na constelação do Cocheiro, também chamada de Cabra. Esta bela e gigantesca estrela faz parte da Via Láctea, galáxia que nos abriga, e a distância colossal entre Capela e o nosso Sol é apenas um pequeno salto nas dimensões grandiosas do universo. Nossa galáxia faz parte de um grupo local de vinte e poucos aglomerados fantásticos de cem a duzentos bilhões de estrelas, entre as quais o Sol é apenas um pequeno ponto a iluminar o céu. Capela é uma bela estrela, cerca de quatorze vezes maior do que o Sol, com uma emanação de calor levemente abaixo de nosso astro-rei. E uma estrela dupla, ou seja, são dois sóis, de tamanhos diversos gravitam um em torno do outro, formando uma unidade, e, em volta deles, num verdadeiro balé estelar, um cortejo constituído de inúmeros planetas, luas, cometas e asteróides.

Há cerca de 3.700 a.C, num dos planetas que gravitam em torno da estrela dupla Capela, existia uma humanidade muito parecida com a terrestre, à qual pertencemos atualmente, apresentando notável padrão de evolução tecnológica. Naquela época, Ahtilantê, nome desse planeta, o quinto a partir de Capela, estava numa posição social e econômica global muito parecida com a da Terra do século XX d.C A humanidade que lá existia apresentava graus de evolução espiritual extremamente heterogêneos, similares aos terrestres do final do século XX, com pessoas desejando o aperfeiçoamento do orbe enquanto outras apenas anelavam seu próprio bem-estar.

Os governadores espirituais do planeta, espíritos que tinham alcançado um grau extraordinário de evolução, constataram que Ahtilantê teria que passar por um extenso expurgo espiritual. Deveriam ser retiradas do planeta, espiritualmente, as almas que não tivessem alcançado um determinado grau de evolução. Elas seriam levadas para outro orbe, deslocando-se através do mundo astral, onde continuariam sua evolução espiritual, através do processo natural dos renascimentos. No decorrer desse longo processo, que iria durar cerca de oitenta e quatro anos, seriam dadas oportunidades de evolução aos espíritos, tanto aos que já estavam jungidos à carne, como aos que estavam no astral dimensão espiritual mais próxima da material através das magníficas ocasiões do renascimento. Aqueles que demonstrassem endurecimento em suas atitudes negativas perante a humanidade ahtilante seriam retirados, gradativamente, à medida que fossem falecendo fisicamente, para um outro planeta que lhes seria mais propício, possibilitando que continuassem sua evolução num plano mais adequado aos seus pendores ainda primitivos e egoísticos.

A última existência em Ahtilante era, portanto, vital, pois ela demonstraria, através das atitudes e dos atos, se o espírito estava pronto para novos vôos, ou se teria que passar pela dura provação do recomeço em planeta ainda atrasado. A última existência, sendo a resultante de todas as anteriores, demonstraria se a alma havia alcançado um padrão vibratório suficiente para permanecer num mundo mais evoluído, ou se teria que ser expurgada.

Os governadores espirituais do planeta escolheram para coordenar esse vasto processo, um espírito do astral superior chamado Varuna Mandrekhan, que formou uma equipe atuante em muitos setores para apoiá-lo em suas atividades. Um planejamento detalhado foi encetado de tal forma que pudesse abranger de maneira correta todos os aspectos envolvidos nessa grave questão. Diversas visitas ao planeta que abrigaria parte da humanidade de Ahtilante foram feitas, e, em conjunto com os administradores espirituais desse mundo, o expurgo foi adequadamente preparado.

Ahtilantê era um planeta com mais de seis bilhões de habitantes e, além dos que estavam renascidos, ainda existiam mais alguns bilhões de almas em estado de erraticidade. O grande expurgo abrangeria a todos, tanto os renascidos como os que estavam no astral inferior, e, especialmente, aqueles mergulhados nas mais densas trevas. Faziam também parte dos candidatos ao degredo os espíritos profundamente desajustados, além dos assassinos enlouquecidos, os suicidas, os corruptos, os depravados e uma corja imensa de elementos perniciosos. Varuna, espírito nobilíssimo, que fora político e banqueiro em sua última existência carnal, destacara-se por méritos próprios em todas as suas atividades profissionais e pessoais, sendo correto, justo e íntegro. Adquirira tamanho peso moral na vida política do planeta que era respeitado por todos, inclusive por seus inimigos políticos e adversários em geral. Esse belo ser, forjado no cadinho das experiências, fora brutalmente assassinado por ordem de um déspota que se apossara do Império Hurukyan, um dos maiores daquele mundo.

Ahtilante era um planeta muito maior do que a Terra, e apresentava algumas características bem diferentes do nosso atual lar. Sua gravidade era bem menor, assim como a sua humanidade não era mamífera e, sim, oriunda dos grandes répteis que predominaram na pré-história ahtilante. A atmosfera de Ahtilante era bem mais dulcificante do que a agreste e cambiante atmosfera terrestre. Tratava-se de um verdadeiro paraíso, um jardim planetário, complementado por uma elevada tecnologia.

As grandes distâncias eram percorridas por vimanas, aparelhos similares aos nossos aviões, assim como a telecomunicação avançadíssima permitia contatos tridimensionais em videofones com quase todos os quadrantes do planeta, além de outras invenções fantásticas, especialmente na área da medicina. Os Ahtilantês estavam bastante adiantados em termos de viagens espaciais, já tendo colonizado as suas duas luas. Porém essas viagens ainda estavam na alvorada dos grandes deslocamentos que outras civilizações mais adiantadas, como as de Karion, já eram capazes de realizar.

Karion era um planeta do outro lado da Via Láctea, de onde viria, espiritualmente, uma leva de grandes obreiros que em muito ajudariam Varuna em sua árdua missão. Todavia, espiritualmente, os Ahtilantês ficavam muito a desejar. Apresentavam as deficiências comuns à humanidade da categoria média em que se encaixam os seres humanos que superaram as fases preliminares, sem ainda alcançarem as luzes da fraternidade plena.

Havia basicamente quatro raças em Ahtilante, os azuis, os verdes, os púrpuras e os cinzas. Os azuis e verdes eram profundamente racistas, não tolerando miscigenação entre eles, acreditando que os cinzas eram de origem inferior, podendo ser utilizados da forma como desejassem. Naquela época, a escravidão já não existia, mas uma forma hedionda de servilismo econômico persistia entre as nações. Por mais que os profetas Ahtilantês tivessem enaltecido a origem única de todos os espíritos no seio do Senhor, nosso Pai Amantíssimo, os Ahtilantês ainda continuavam a acreditar que a cor da pele, a posição social e o nome ilustre de uma família eram corolários inseparáveis para a superioridade de alguém.

Varuna fora o responsável direto pela criação da Confederação Norte-Ocidental, que veio a gerar novas formas de relacionamento entre os países membros e as demais nações do globo. A cultura longamente enraizada, originária dos condalinos, raça espiritual que serviu de base para o progresso de Ahtilantê, tinha uma influência decisiva sobre todos. Os governadores espirituais aproveitaram todas as ondas de choque físicas, como guerras, revoluções e massacres; culturais, como peças teatrais, cinema e livros; e, finalmente, telúricas, como catástrofes para levar as pessoas a modificarem sua forma de agir, de pensar e de ser. Aqueles, cujo sofrimento dos outros e os seus próprios não os levaram a mudanças interiores sérias foram deportados para um distante planeta azul que os espíritos administradores daquele jardim ainda selvático chamavam de Terra.

Esse processo, envolvendo quase quarenta milhões de espíritos degredados, que foram trazidos à Terra por volta de 3.700 a.C, foi coordenado por Varuna Mandrekhan e sua equipe multissetorial. Os principais elementos de seu grupo foram Uriel, uma médica especializada em psiquiatria, a segunda em comando; Gerbrandom, uma alma pura que atingira a maioridade espiritual em outro planeta e viera ajudar o degredo em Ahtilantê; e Vartraghan, chefe dos guardiães astrais que, em grande número, vieram ajudar Varuna a trazer os degredados. Além desses personagens, havia Radzyel, San-dalphon, Sraosa e sua mulher Mkara, espíritos que muito ajudariam os capelinos, e também a belíssima figura de Lachmey, espírito do mundo mental de Karion, que, mais tarde, rebatizada como Phan-nuil, seria o espírito feminino mais importante para a evolução da Terra, coordenando vastas falanges de obreiros em permanente labuta para a consecução dos desígnios dos administradores espirituais.

Os capelinos foram trazidos em levas que variavam de vinte mil pessoas até grandes transportes de mais de duzentas mil almas. Vinham em grandes transportadores astrais que venciam facilmente as grandes distâncias siderais, comandadas por espíritos especialistas, sob a direção segura e amorosa dos administradores espirituais. A Terra, naquele tempo, era ocupada por uma plêiada de espíritos primitivos que serão sempre denominados de terrestres para diferenciá-los dos capelinos, que vieram degredados para aqui evoluírem e fazerem evoluir. Uma das funções dos capelinos, aqui na Terra, era serem aceleradores evolutivos, especialmente no terreno social e técnico. Mesmo sendo a escória de Ahtilantê, eles estavam á frente dos terrestres em termos de inteligência, aptidão social e intelectual e, naturalmente, sagacidade. Os terrestres, ainda muito embrutecidos, ingênuos e apegados aos rituais tradicionais, que passavam de pai para filho, pouco ou nada criavam de novo, cada geração repetia o que a anterior lhe ensinara, de forma muito similar à que vemos entre nossos silvícolas que repetem seus modos de vida, há milhares de anos, sem nenhuma alteração.

Havia entre os exilados um grupo de espíritos que, em Ahtilantê, se intitulavam de 'alambaques', ou seja, 'dragões'. Esses espíritos, muitos deles brilhantes e de inteligência arguta e afiada, eram vítimas de sua própria atitude negativa perante a existência, preferindo serem críticos a atores da vida. Muitos deles se julgavam injustiçados quando em vida, e, por causa desses fatos, aferravam-se em atitudes demoníacas. Esses alambaques tinham desenvolvido uma sociedade de desregramentos e abusos, sendo utilizados pela justiça divina como elementos conscientiza dores dos seres que cometiam atos cujo grau de vilania seria impossível de descrever.

Essa súcia, todavia, era filha do Altíssimo e, mesmo sendo eles candidatos à deportação, deveriam ser a artífice do exílio. Como eles dominavam vastas legiões de espíritos embrutecidos na prática do mal, era-lhes mais fácil comandá-los do que aos guardiões astrais, que não existiam em número suficiente para uma expedição expiatória dessa envergadura. Por causa disso, Varuna e seu guardião-mor, Vartraghan, foram até as mais densas trevas, numa viagem inesquecível, para convidar os poderosos alambaques para unirem-se a eles e ajudarem as forças da evolução e da luz a triunfarem.

Varuna, através de sua atitude de desprendimento, de amor ao próximo e de integridade e justiça, foi acolhido, após algum tempo, pela maioria dos alambaques como o grande mago, o Mykael, nome que passaria a adotar como forma de renovação que ele mesmo se impôs ao vir para a Terra. A grande missão de Mykael era não apenas a de trazer as quase quarenta milhões de almas capelinas para o exílio, porém, fundamentalmente, levá-los de volta ao caminho do Senhor, totalmente redimidos. Na grande renovação que Varuna e Lachiney promoveram, muitos foram os que trocaram de nome para esquecerem Ahtilantê e se concentrarem no presente, na Terra. Varuna tornou-se Mykael, o arcanjo dominador dos dragões. Lachmey passou a se chamar Phan-nuil, a face de Deus. Gerbrandom, Raphael, Vartraghan, também conhecido entre os seus guardiões como Indra, tornou-se Kabryel, o arcanjo. Vayu, seu lugar-tenente, passou a se intitular de Samael, que foi, muitas vezes, confundido como o mítico Lúcifer, o portador do archote, o carregador da Luz.

O inicio da grande operação de redenção na Terra foi na Suméria, quando Nimrud, espírito capelino renascido, conseguiu, entre atos terríveis e maldades tétricas, implantar a primeira civilização em Uruck. Os alambaques, entretanto, que tinham não só a missão de trazer os degredados como também de guiá-los, estavam excessivamente solos, o que faria com que Mykael ordenasse a alteração dos padrões de comportamento dos dragões para fazê-los ser não somente guias de lobos chefes de matilhas como também modificarem seu íntimo para tornarem-se cordeiros de Deus.

No grande planejamento, ficou estabelecido que a Suméria seria o primeiro palco de atuação, devido às enormes facilidades para se desenvolver uma sociedade onde a agricultura seria a pedra angular, devido ao fértil vale criado pelo transbordamento dos dois rios irmãos, o Tigre e o Eufrates. Outros locais também foram programados de forma que a vinda dos capelinos influenciasse várias regiões do globo,' tais como a Europa, inicialmente através dos celtas; a índia, na região do vale do Hindu; e, posteriormente, outros povos indo-europeus; e, no Extremo Oriente, a Tailândia e a China.

Uma das regiões que se tornaria de suma importância para o desenvolvimento da cultura, tecnologia e civilização mundial viria a ser o Egito, outra região que fora escolhida para a imersão na matéria dos espíritos capelinos. Seria nessas longínquas plagas que essas almas conturbadas viriam a estabelecer uma civilização monumental de proporções absolutamente grandiosas.

Usaremos os nomes antigos, como eram conhecidos pelos próprios egípcios. O Egito era chamado de Kemet, ou seja, terras negras. O Rio Nilo era conhecido como Iterou. A palavra Nilo derivou da palavra hamita nili, que significa cheia do rio. Nili é, portanto, um dos estados do rio Iterou. Conheçamos como nasceu a civilização egípcia e a influência dos espíritos degredados, especialmente de alguns alambaques que se tornaram mais humanos em contato com o sofrimento e a angústia do desterro. Entendamos a base daquela civilização e os motivos que a levaram a eleger a pirâmide como seu monumento nacional. Os mistérios do Antigo Egito serão revelados aos poucos, à medida que as almas capelinas, insuladas e infelizes, irão criando uma das mais notáveis civilizações mundiais. Porém, para entendermos o antiqüíssimo Egito é fundamental conhecermos algo de sua elaborada e complexa religião.

Naqueles tempos obscuros, dos quais sabe-se muito pouco, pôde-se fazer um quadro pouco claro, pelas lendas e escritos chamados de Os escritos da pirâmide, encontrados nas paredes de uma das pirâmides menores dos faraós da V e VI dinastias, somados aos escritos de dois gregos, Plutarco e Heródoto, quase três mil anos depois dos acontecimentos.

O país foi-se fazendo no decorrer de dois mil anos, com muito pouca interação entre os vários vilarejos. O período pré-dinástico apresenta inúmeras lendas e deuses locais, difíceis de serem precisados. As lendas envolvendo Ptah, Rá e o grande mito de Osíris devem ser conhecidas para o melhor entendimento da chamada Era dos Deuses, nome atribuído pelos próprios egípcios ao período pré-dinástico.

Contam as lendas que Ptah e Rá foram dois deuses, sendo Ptah o próprio Deus Criador, e Rá, seu filho, também conhecido como Ré ou Rê. Eles teriam vindo da Planície Primordial uma espécie de céu tendo atravessado o oceano que nos envolve as águas de cima e as de baixo da Bíblia chegando pessoalmente à Terra para ajudar-nos, suas criaturas, a evoluir. Ptah era um deus muito poderoso e domou as águas revoltas do Nilo, através de cavernas secretas perto da primeira catarata, em Aswan.

Rá, seu filho, foi um deus libidinoso que emprenhou uma quantidade enorme de mulheres, podendo transformar-se em qualquer animal. Gerou vários filhos, entre eles Chu e Tefnut, que deram origem a Gueb, a Terra, que engravidou Nut, o Céu, e dela nasceram quatro filhos: Osíris, Ísis, Seth e Neftis. Osíris e Ísis casam-se, ao se tornarem adultos, assim como Seth e Neftis. Seth deseja sexualmente Ísis, todavia não consegue nada com a irmã que ama Osíris. As lendas falam que já se amavam no ventre de Nut, ou seja, no céu.

Pelas lendas dizem que Osíris foi infiel uma vez e teve um conúbio carnal com Neftis, engravidando-a. Seth descobriu e jurou vingança. Amaldiçoou Neftis, que gerou Anúbis, uma criatura semi-humana com cabeça de chacal, que é jogado ao léu, no deserto. Isis descobriu tudo e educou Anúbis como se fosse seu próprio filho.

Seth e seus cúmplices convidaram Osíris para entrar num caixão, pois afirmaram que, quem coubesse no mesmo, ganharia um fabuloso presente. Osíris, infantilmente, entra no mesmo, onde trancam-no e jogam o baú no Nilo, afogando-o. O caixão desce o Nilo e vai parar, não se sabe como, em Byblos, cidade da Fenícia. O baú com o corpo de Osíris, quando chega às costas fenícias, transforma-se em um enorme cedro, que o rei de Byblos, impressionado, leva para seu palácio para servir de viga-mestra. Isis, misteriosamente, descobre o fato e vai atrás do seu amor. Chegando a Byblos, Isis é recebida pelo rei e sua esposa.

Ísis reconhece o defunto e pleiteia ao rei que entregue o corpo de seu adorado marido. Naturalmente, o rei e a rainha, comovidos, enviam o corpo de Osíris de volta para o Egito num navio fenício, acompanhado de um príncipe, filho dos reis. Durante a viagem, Isis começa a requerer a Rã, que, em muitos casos, é o pai e não Gueb, e em outras lendas é apenas o bisavô, que ressuscite o marido. Rã, com certa má vontade, o faz parcialmente, o suficiente para que possa engravidar Ísis, mas Osíris se transformara num verdadeiro zumbi. Ele a engravida durante a viagem e ela dá, de imediato, a luz ao já feito e perfeito Hórus. Contudo, não pode ficar junto com Osíris, pois assim que se aproxima, ele vai sumindo, desmaterializando-se.

Ao chegarem ao Egito, Ísis esconde o corpo do marido, numa das muitas charnecas do baixo Nilo, no delta do grande rio, e coloca Anúbis, filho de Osíris e Neftis, criado por ela, para tomar conta do esquife. Nesse período, Osíris torna-se o grande imóvel, o apático. Seth descobre toda a trama e o lugar onde está Osíris, e depois de corromper Anúbis, na única hora em que o chacal pode ser subornado, no alvorecer, encontra o corpo de Osíris desprotegido. Retalha-o em quatorze pedaços algumas lendas falam de quarenta e dois, coincidentemente, o mesmo número de divisões geopolíticas do Egito e, secretamente, espalha-os, escondendo-os. Ísis, desesperada, recorre novamente a Rã que, mais uma vez, atende displicentemente, contrariado e até mesmo obrigado, em certas lendas, e dá certos poderes a Ísis para que encontre Osíris em dezoito meses. A procura, com a ajuda de Neftis, é árdua e terrível, não estando livre de perigos e aventuras. Finalmente, Ísis recolhe os quatorze pedaços, menos o falo de Osíris, e os sepulta em Abydus (Abdu em egípcio antigo).

Nesse ínterim, Hórus, filho de Osíris, vai procurar Seth, seu tio, e começam a travar uma extraordinária luta. Os combates são terríveis e começam a incomodar os outros deuses que se queixam a Djhowtey, deus da escrita e da sabedoria. Djhowtey seria conhecido pelos gregos como Thoth e também associado a Hermes Trismegistos, o Hermes três vezes grande. Os romanos o conheceriam como Mercúrio. Conversa, então, com os dois contendores e os convida para um combate singular, com a mediação de Gueb, o deus da Terra. A pugna recomeça e, depois de horas sem nenhum resultado, cessa. Nessa hora noturna, as lendas tornam-se confusas; algumas falam que Seth teria praticado coito anal com Hórus; outros que quase teria praticado, e assim por diante. Para resumir, Ísis entra mais uma vez na história para salvar o filho Hórus da desgraça. No caso das lendas em que é possuído por Seth, ela reverte a situação para que o esperma de Seth saia do corpo de Hórus e o sêmen de Hórus entre no corpo de Seth, secretamente, de tal forma a impregná-lo da seiva de Hórus. Outras lendas não mencionam esse fato e apenas o esquecem ou o consideram como irrelevante.

A luta recomeça no outro dia e Seth consegue perfurar um olho de Hórus que continua o combate até que castra o tio. Gueb, o juiz da contenda, então, decreta Hórus como o vencedor do combate; e, em algumas lendas, Seth é expulso, e na maioria dos casos, Seth é transformado por Rã, em um deus dos trovões, andando em sua barca que atravessa o céu.

Os egípcios também cultuavam um grande Deus único, criador do universo e de tudo o que aqui existia, e acreditavam que Ele era tão ocupado com outras coisas mais importantes do que os simples mortais e seus vícios, que relegou a administração do mundo a outros deuses especializados. Os esoteristas, judeus e cristãos, chamariam a esses intermediários divinos de Anjos, com todas as suas classificações de Arcanjos, Potestades, Tronos e assim por diante O grande Deus único era conhecido em vários lugares com nomes diferentes, entre eles, Onkh, Ptah e Hórus, o velho. Havia, portanto, um monoteísmo entre os egípcios, assim como entre todos os povos do mundo. Sempre, em todas as culturas, houve um grande Deus criador e um séqüito de deuses especializados.

Todavia, o que aconteceu, em muitos casos, era a adoração e, principalmente, a perfeita identificação do crente com os deuses secundários, já que o Deus Principal, o Pai Altíssimo, O Inefável, tornou-se inatingível para os homens que tinham preocupações excessivamente materiais e temiam 'aborrecer' o grande Deus com suas torpezas e vilanias. Os deuses menores, que tinham os mesmos vícios e preocupações que eles, eram mais compreensivos com suas falhas e pequenezas.

Essa atitude torna-se muito mais compreensível quando se percebe que os primeiros homens efetivamente inteligentes, que trouxeram profundas modificações à nossa cultura e ao modo de vida, eram espíritos degredados de Capela, e, logo, seres que se sentiam relegados e desprezados por um Deus magno, preferindo conviverem com deuses menores, que eram mais facilmente compreensíveis. Obviamente, o Pai de imensa bondade jamais os abandonou e os esqueceu. Pelo contrário, destinou os maiores luminares da espiritualidade para reconduzi-los ao caminho da luz.

 

 

 

 

Os sumérios eram uma raça proto-indo-européia que se tinha implantado no vale mesopotâmico por volta do ano 8.500 a.C., tendo vindo das margens do mar Cáspio, atravessado o planalto do Irã e alcançado o vale que os dois rios irmãos, Tigre e Eufrates, ladeavam. Eram vários clãs da mesma raça, que se tornaram sedentários durante o período neolítico e se dedicaram à agricultura. Não tinham, em 3.600 a.C., nenhuma unidade política. A Suméria era constituída de dezenas de pequenos vilarejos e algumas poucas aldeias predominantes. Os vilarejos tinham de cem a trezentas pessoas e as aldeias maiores atingiam os três mil habitantes. Essas localidades espalhavam-se às margens dos rios Eufrates e Tigre, que eram muito irregulares em suas cheias. Ambos nasciam nas distantes montanhas Taurus na Ásia Menor e o nível de suas águas dependia do degelo das neves acumuladas no alto dos montes.

Os antigos sumérios usavam uma irrigação tosca, abrindo valas e pequenos canais para levar a água dos rios até os locais mais ermos. Formavam pequenos açudes, onde a água ficava represada para depois ser levada em jarras para irrigar os campos.

Eventualmente, as autoridades de um vilarejo, constituídas de anciãos - homens com mais de quarenta anos - convocavam a população para abrir um novo canal ou construir uma obra de importância para a comunidade, o que era feito em regime de mutirão. Não havia, naquela época, um exército regular, assim como a religião também não era constituída e formalizada. Algumas vezes, as disputas por terras, canais e água levavam as aldeias a terem confrontos, que não passavam de escaramuças, onde se gritava muito, gesticulava-se e, eventualmente, alguém saía levemente ferido devido a algum entrevero ou a uma pedra arremessada por um homem mais esquentado. Mas não havia batalhas cruentas e nem ataques traiçoeiros para destruir, conquistar e escravizar.

Certa feita, uma cheia terrível destruiu o pequeno vilarejo de Shurupak e a nova aldeia foi reconstruída a certa distância do Eufrates. Com o aumento gradual e lento da população, houve necessidade de se aumentar a área de plantio. Havia terras disponíveis no lado oriental do vilarejo, excessivamente secas, exigindo que a água fosse levada para lá através de um canal.

O Conselho dos Anciãos reuniu-se e determinou que fosse construído um canal que levasse água do Eufrates à localidade escolhida. A construção do canal que teria de passar pelas terras da aldeia de Kulbab, um minúsculo vilarejo vizinho, foi iniciada com uma turma de voluntários sob o comando de um coordenador. Os aldeões de Kulbab sentiram-se prejudicados e expulsaram os trabalhadores de Shurupak aos gritos, ameaças, jogando-lhes pedras. Os infelizes saíram em desabalada carreira, largando as ferramentas no campo, retornando a Shurupak, contando o que lhes sucedera.

O Conselho de Anciãos deliberou que pelo menos as ferramentas deveriam ser devolvidas. Mandaram dois represen­tantes para negociar com os aldeões de Kulbab. Eles voltaram de mãos vazias e contaram que foram injuriados e, até mesmo, ameaçados de morte caso voltassem novamente, e que as ferramentas haviam sido confiscadas para cobrir os prejuízos causa­dos pela abertura dos vinte primeiros metros do canal.

O Conselho, então, determinou que seria formado um grupo de homens que iria retomar as ferramentas; estas eram caras e difíceis de encontrar. A Suméria era pobre em metais e as ferramentas vinham de outros lugares, através de escambo por cereais. Deste modo, o Conselho convocou os homens que tinham mais de quatorze anos e cada um se armou de paus, machados, picaretas, facões, facas e enxadas, dirigindo-se juntos para a aldeia inimiga, que distava uns cinco quilômetros. Colocaram como chefe do grupo e principal negociador um dos homens mais destacados da aldeia.

Cus era um homem de cinqüenta anos, filho mais velho de Ziusudra. Era casado com Kigal e tinham uma filha chamada Geshtinanna, que já era casada, e um filho de vinte anos chamado Nimrud. O antigo chefe do Conselho dos Anciãos de Shurupak, Ziusudra, principal lugal (homem importante) após o terrível dilúvio que destruíra a aldeia, divulgara a notícia de que em sua localidade houvera menos mortes devido a sua previdência. Ele propagara que fora avisado do dilúvio pelos deuses através de um sonho e, como tal, levara o seu povo e os animais para lugar seguro. Pura balela, mas que o povo simples acreditara, tornando-o um eleito dos deuses. Na Babilônia, Ziusudra seria chamado de Utnapishtin, mais tarde, em grego tornar-se-ia Xisuthros e, finalmente, na Bíblia, Noé. Devido a isso, Cus, seu primogênito, tornara-se o lugal de Shurupak.

Quando chegaram perto da aldeia adversária, muitos camponeses de Kulbab saíram de suas casas, gritando e vociferando, proferindo pragas e maldições terríveis. Vários dos aldeões de Shurupak estacaram fixos no lugar, e outros deram as costas para fugir. Cus começou a gritar de volta. Os dois grupos pararam frente a frente a uns dois metros de distância, começando agora a segunda fase do confronto. Ficariam gritando durante alguns minutos até que um dos grupos cedesse. Não eram comuns os combates e todos esperavam que houvesse negociações civilizadas. Shurupak queria as ferramentas de volta e Kulbab, uma certa compensação. Quem sabe, uma dúzia de sacas de grãos de cevada?!

Assim que os dois grupos se confrontaram, Nimrud, filho de Cus, tomado de súbita e estranha fúria, lançou-se à frente com um facão e, num movimento rápido, golpeou sua arma no pescoço do homem que estava diante dele. A vítima o olhou com a mais viva surpresa por um décimo de segundo, enquanto o sangue jorrava abundante, em guincho, de sua jugular cortada, e, logo depois, caiu, estrebuchando horrorosamente.

Nimrud era fisicamente igual aos demais, tendo cerca de um metro e setenta e cinco centímetros, pele branca queimada pelo sol inclemente da Suméria, cabelos pretos anelados e uma barba ainda rala, mal cuidada. Seu nariz reto, levemente pronunciado, era típico daquela raça. Era magro, mas seus ombros largos lhe davam uma aparência mais forte. Seus olhos negros, muito juntos e grandes, lembravam uma coruja. Ele definitivamente não era um modelo de beleza masculino.

Ele vivia cercado de um pequeno entourage de dezessete amigos, dos quais dois se destacavam sobre os demais. Urgar era um homem de incomum força, enquanto que Antasurra era dado a visões, alucinações, ataques epilépticos e terrores noturnos. Os demais, da mesma idade de Nimrud, também o consideravam o seu líder.

Os amigos de Nimrud tiveram uma resposta quase que imediata, como se fossem movidos por invisíveis laços. Quando o facão de Nimrud cortou a jugular do infeliz, os demais atacaram os aldeões de Kulbab, com rara velocidade. Urgar foi o segundo a atacar. Ele estava com uma faca curta de cortar cevada, levemente curva, e lançou-se no pescoço do oponente. O coitado assustou-se com a velocidade do ataque de Urgar que o alcançou em menos de um segundo; largou sua enxada e tentou se virar para correr. Urgar pegou-o na hora em que se volvia para fugir, segurou-o com força com o braço esquerdo e, com a mão direita empunhando sua faca, cortou a sua garganta num único talho de orelha a orelha. O homem caiu estrebuchando, e Urgar sentiu o mais vivo prazer de sua vida. Um sorriso de imensa satisfação surgiu no seu semblante e seus dentes crisparam-se de um gozo súbito.

Antasurra, que segurava uma pequena lança, enfiou-a com prazer no estômago do seu rival e, à medida que ela entrava, ele a rodava na mão dilacerando as tripas do infeliz, que urrava de dor. Os outros, todos armados com punhais, facões e lanças, arrojaram-se num ataque frenético, atingindo os seus inimigos em frações de segundo. Os aldeões, tanto de Shurupak como de Kulbab, estavam atônitos. Os primeiros a se recuperarem do susto do ataque fulminante foram os habitantes de Kulbab que logo voltaram correndo, aos gritos de terror, para sua aldeota.

Os homens de Kulbab não passavam de setenta presentes na aldeia na hora do confronto. O ataque inicial durou menos de um minuto e a aldeia de Kulbab já tinha mais de trinta baixas entre feridos e mortos. O líder Nimrud matara dois homens, Urgar matara três, enquanto os demais feriram ou mataram cerca de dois cada um. Os aldeões de Kulbab não opuseram resistência. Foram tomados de surpresa; aquilo jamais havia acontecido. Todos esperavam um verdadeiro balé de insultos e gritos, com algumas ameaças e depois, quando as partes esti­vessem mais cansadas, poderiam conversar e discutir o assunto. Não esperavam que alguém os atacasse e, muito menos, que fossem ser mortos ou feridos.

Quando alguns tentaram reagir, levantando suas armas, os amigos de Nimrud, demonstrando um preparo militar incomum, aniquilaram-nos num instante. Os que fugiram para a aldeia foram perseguidos pelos dezoito enfurecidos que entravam de casa em casa, esfaqueando, furando, cortando, decepando tudo o que encontravam. Os homens que se abrigaram no interior das casas foram perseguidos e mortos sem dó, mesmo aqueles que gritavam por piedade. Suas mulheres foram esfaqueadas, assim como as crianças. A sanha assassina tinha sido liberada e, durante meia hora, os que lhes caíram às mãos foram mortos ou feridos. Os demais largaram tudo e saíram correndo campo afora.

Do momento em que Nimrud se precipitou no pescoço do primeiro infeliz ao final daquele massacre brutal, os demais habitantes de Shurupak ficaram, na sua maioria, estarrecidos e parados onde estavam. Nunca tinham visto nada parecido e suas mentes ficaram subitamente embotadas. Calaram-se e baixaram suas mãos, alguns atônitos e outros trêmulos de medo. Houve um ou dois que gritaram para que não fizessem aquilo, mas ninguém efetivamente fez algo para impedir.

A aldeia foi inicialmente saqueada e, depois, incendiada. Nimrud era o herói do dia, o grande vencedor. A batalha de Kulbab fora vencida com audácia e coragem, e agora, com o butim da conquista, havia dezenas de quilos de cevada, milho, aves, ferramentas e uma dúzia de mulheres jovens e bonitas para serem usadas pelos vencedores como bem o quisessem.

A aldeia de Shurupak estava dividida. Uns poucos aprovaram a atitude de Nimrud e sua tropa. A maioria, por sua vez, estava horrorizada com a atitude dos jovens. Os comen­tários eram que esses jovens sempre foram diferentes, eram estranhos, viviam caçoando de tudo e de todos, não seguiam os costumes da aldeia, trabalhavam pouco e estavam sempre juntos. Algumas verdades foram ditas e muitas mentiras foram inventadas. Diziam que foram vistos falando com demônios, pois isso era um assunto que fascinava os sumérios, que acredi­tavam em espíritos de mortos e diabos. Os mais velhos diziam que sempre houvera espíritos dos mortos que viviam rondando as casas onde viveram, muitos tentando falar com parentes e amigos. Mas, desde o nascimento de Nimrud e de seus amigos, os espíritos dos mortos fugiram do lugar, sendo substituídos por uma horda jamais vista de horríveis diabos.

Naquele tempo, 3.600 anos antes do nascimento de Yeshua Ben Yozheph, em Beit Lechem, na Judéia, a aldeia de Shurupak registrava em torno de vinte e cinco nascimentos por ano, e uma mortalidade geral quase igual. Dos recém-nascidos, um terço morria antes de completar um ano. Desse modo, quando Nimrud nasceu, cerca de vinte outras crianças também nasceram na mesma época, mas por sorte, ou por outro fator alheio à vontade humana, somente dois morreram, fato extraordinário devido à alta mortalidade infantil da região.

Antasurra, Urgar e alguns outros eram parecidos entre si. As demais crianças eram comuns, especialmente as mais velhas, enquanto esses três e mais os seus amigos da mesma idade eram, intelectualmente, brilhantes. No início, quando eram crianças pequenas, esse fato não era visível, a não ser por uma profunda melancolia que parecia ser marca registrada do grupo. Enquanto as outras crianças corriam e faziam a algazarra natural da idade, Nimrud e seus amigos eram quietos e tristes. Mas, a partir da puberdade, a diferença entre eles tornou-se mais notável.

Cus lembrava-se bem do primeiro filho que morrera no dilúvio. Era buliçoso como os outros meninos e trabalhava com grande afinco. Levara o tempo normal para aprender todas as técnicas agrícolas e, com doze anos, quando os deuses o le­varam embora já sabia quase tudo. Já Nimrud aprendera todas as técnicas em muito menos tempo. O que o primeiro filho levara quase cinco anos para aprender, ele aprendera em um ano e, mesmo sendo pequeno, com apenas oito anos, fazia os trabalhos de forma mais correta do que seu primogênito com doze. Não há dúvida de que era mais inteligente, mas era preguiçoso. Abominava o trabalho braçal, procurando fugir de todos os modos de sua responsabilidade no campo.

Além desse defeito, o pai descobriu entristecido que seu filho era um ótimo mentiroso. Era capaz de mentir com tamanha desfaçatez que, mesmo apanhado em flagrante, tecia histórias que deixavam todos em dúvida. Ademais, era capaz de falar as coisas mais desconcertantes, sempre argumentando que se podia fazer tudo de outro modo. O moço era dado a pesadelos e acordava gritando, urinando-se e, muitas vezes, tornando-se violento. A mãe escondia tais fatos dos vizinhos, assim como o pai não os comentava com seus amigos.

O pai de Antasurra, igualmente, tinha problemas com seu filho. Além de ser muito mais inteligente do que os outros, também era acometido de terrores noturnos. Falava coisas desconexas e ficava em êxtase, totalmente parado. Esses transes duravam alguns segundos, não mais do que uma dúzia, mas o suficiente para deixar a mãe e o pai preocupados. Quando voltava a si, continuava sua tarefa como se nada tivesse acon­tecido. Essas crises começaram a acontecer aos doze e treze anos, e sumiram aos dezoito. Antasurra era mais baixo e franzino do que Nimrud. Quanto ao resto, era muito parecido, com os mesmos olhos juntos e o mesmo olhar inteligente, vivo, que não perdia nenhum detalhe.

Urgar era diferente dos demais. Forte como um touro, com vinte anos, era capaz de levantar sozinho o tronco que servia como arado, mas por inteligência ou sagacidade não demonstrava sua força colossal a ninguém. Seu corpo não era diferente dos outros meninos, apenas seus músculos podiam fazer façanhas que os outros não eram sequer capazes de imaginar. Era levemente mais alto do que os demais, mas era sóbrio, lúgubre mesmo, calado e sisudo, impenetrável.

Todas as crianças do bando de Nimrud tinham o olhar inteligente, mas profundamente angustiado. A marca do grupo era uma angústia indefinida, algo que não poderia ser expresso em palavras. Eles se atraíam pela angústia que sentiam e suas brincadeiras eram o reflexo disso. Suas conversas eram a exte­riorização de suas aflições existenciais. O que eram, de onde vinham, por que estavam ali eram apenas algumas das perguntas que viviam formulando uns aos outros. Por um desses sentimentos irracionais, eles se achavam diferentes, notando que os demais eram mais limitados, nunca entendendo suas brincadeiras, seus comentários sarcásticos e suas piadas picantes.

Nimrud atingira a idade adulta com bastante saúde e com demonstrações de ser muito esperto e atento. As poucas horas de folga do trabalho doméstico e de campo que, desde cedo, o pai lhe impusera, eram passadas com os amigos da mesma idade. Ele era líder inconteste entre seus amigos de brincadeiras.

Nimrud fazia seu trabalho no campo de forma automática, perfunctória. Não tinha prazer em arar o campo - abomi­nava qualquer esforço físico - mas apreciava o resultado. A colheita era a melhor época e ele ficava satisfeito em ver os grãos enchendo os sacos. Gostava de observar como o pai vendia os excedentes em troca de utilidades para a casa. Os sacos de grãos eram levados para uma aldeia maior, vizinha, a vinte quilômetros de seu vilarejo, sendo trocados por objetos úteis, como facas de cobre ou osso, cerâmicas e tecidos de linho rústico.

Nimrud gostava de ir para aquele povoado maior. O movimento de pessoas era mais intenso do que na sua localidade e sempre acontecia alguma coisa diferente: uma briga, uma discussão pública entre dois negociantes, uma mulher bonita com roupas um pouco mais decotadas, sorrindo para ele. Erech era, sem dúvida, mais alegre e divertida do que a sua pequena aldeia de Shurupak. Erech não passava de uma aldeia maior, com ruas de barro batido, estreitas, quase sempre sujas. As casas eram redondas, algumas feitas de tijolos cozidos ao sol e colocados uns sobre os outros, presos com caniços, cipós e, eventualmente, com betume, que era abundante na região.

Pouco tempo antes do ataque a Kulbab, Nimrud alcançara os vinte anos, e era a época de colheita e de negociar a safra em Erech. Nunca fora sozinho e desejava se livrar da presença incômoda do pai, que o cerceava em excesso. Não lhe foi muito difícil colocar um pó, conseguido da maceração de uma palha do campo, na comida do pai. A violenta diarréia provocada pelo pó quase levou o velho a uma morte prematura. Ficou prostrado no leito por quase dez dias, e não havia outra forma, o filho tinha que ir negociar a safra. O pai, fraco de tanto perder líquidos vitais, cobriu-o de recomendações as quais não escutou. Sabia o que comprar, o que vender, a quem e de que forma poderia obter certo lucro.

Assim, Nimrud, Antasurra, Urgar e sua irmã Dutura, e mais vinte e oito pessoas se deslocaram juntas com seus burricos carregados de sacos de grãos para Erech. A roda ainda não tinha sido inventada pelos sumérios, portanto não existiam carroças para transportar a valiosa carga. Dirigiram-se ao mercado, que não passava de um espaço aberto, sem construções, onde alguns aldeões armavam tendas e barracas para vender seus objetos e artesanatos. Ele vendeu os grãos de acordo com o preço fixado e adquiriu os bens de que precisava. Os sumérios nunca tiveram moeda, mas usavam um intricado sistema de escambo, onde determinada quantidade de cereal valia determinado peso de prata, que servia como padrão monetário.

Após as negociações e os pagamentos de praxe, resolveu flanar pelo lugarejo, com seus amigos. Naquela época, a cidade estava cheia de gente estranha, todos sumérios, vindos de outras aldeias. Havia, num raio de trinta quilômetros, mais de vinte e cinco aldeias, cada uma com seus mil e poucos habitantes, agricultores que trabalhavam o rico solo do vale do Eufrates.

Levaram certo tempo passeando pela cidade até que, no final da tarde, o pequeno grupo dirigiu-se para uma vendinha de cerveja e petiscos, que ficava na praça do mercado. Foram todos para a venda de cerveja, onde encontraram o marido de Dutura em adiantado estado de embriaguez. O velho alegrou-se com a chegada da esposa e a abraçou efusivamente, tentando beijá-la, e a muito custo conseguiu dar-lhe um ósculo na face.

Pediram cerveja e ficaram bebendo, entrosando-se com um grupo de jovens da mesma idade que retornava da vizinha cidade de Adab. Mesanipada e seu grupo fizeram boa amizade com Nimrud e seu grupo, tendo todos, bebido além da conta.

Cus não se mostrou insatisfeito com as compras do filho e até o elogiou por umas aquisições bem feitas de alguns materiais de que precisavam. O jovem pouco se importou com os elogios paternos e, cheio de desdém, retirou-se, deixando o pai atônito com sua atitude intempestiva.

Shurupak viveu dias conturbados. Ninguém sabia ao certo o que devia fazer. Expulsar os bandidos e correrem o risco de serem assassinados também? Fazer de conta que nada acontecera e continuar a vida normalmente? Muitas palavras foram gastas no Conselho dos Anciãos para tentar definir uma posição da aldeia. Nesse ínterim, a história se espalhara. Os sobreviventes começaram a contar histórias de como centenas de atacantes os tinham trucidado, de como foram apanhados dormindo e mortos à traição, e outros exageros. As autoridades de Erech, mesmo que não passasse de uma aldeia um pouco mais populosa, estavam alarmadas e enviaram mensageiros para descobrirem o que acontecera de fato. Será que Shurupak, aquela aldeota insignificante, tinha tanta gente assim e fizera uma devastação tão grande em Kulbab?

Os mensageiros chegaram cuidadosamente e conver­saram longamente com o Conselho. Foi-lhes contado que, na verdade, não era intenção de Shurupak atacar os habitantes de Kulbab, e sim recuperar as ferramentas e, se possível, abrir o canal de que tanto necessitavam. Ao chegarem perto da aldeia, um confronto normal e civilizado ia ser estabelecido, quando uns poucos jovens de sangue quente atacaram e mataram alguns homens. O resto fugiu e os jovens, fora de si, atacaram a aldeia e mataram mais alguns homens e, eventualmente, algumas mulheres, recuperando as ferramentas. Por um descuido ou acidente, a aldeia foi incendiada, mas os jovens foram seriamente repreendidos e castigados pelo Conselho da aldeia.

Os mensageiros pediram para conhecer os jovens e foram levados até alguns deles, já que a maioria estava traba­lhando no campo, como se nada tivesse acontecido. Nimrud e Antasurra estavam sentados debaixo de uma das poucas ár­vores que existiam. Os emissários olharam surpresos para os dois jovens, não querendo acreditar que eles pudessem, junto com mais dezesseis, ter provocado tamanha destruição. Não passavam de homens jovens que tinham apenas alcançado os vinte anos. Tinham imaginado gigantes ou, pelo menos, homens de armas, e nunca dois jovens comuns, sem armas, sem preparo. Como era possível? O Conselho teve muita dificuldade em fazê-los acreditar e, quando se retiraram, os mensageiros passaram, a pé, perto dos dois, que ainda estavam sentados. Nimrud estava descansando, enquanto Antasurra, acocorado, parecia estar brincando com umas pedrinhas. Subitamente, Antasurra estremeceu, exatamente na hora em que os dois mensageiros passavam perto deles a caminho de Erech, levantou-se num pulo e numa voz estentórica e cavernosa, falou, olhando para os dois homens:

- Tremam homens de Erech. Tremam, porque a espada flamejante de Nimrud estará sobre toda a Suméria. Sob seus pés, ele pisará na garganta de seus inimigos, fundará cidades, instituirá impérios e seu nome será cantado em glória no mundo inteiro. Tremam, pois a espada de sangue e fogo já foi desembainhada e só voltará para sua bainha quando estiver saciada do sangue de seus inimigos.

Os dois mensageiros tinham sido tomados de surpresa. Não esperavam nada parecido e um deles sentiu seu sangue gelar e correu. O outro ficou estático, olhando por cima da cabeça de Antasurra, como se estivesse vendo o mais terrível dos demônios. Sentiu sua cabeça girar, seu coração disparou em um ritmo frenético. Quis correr, não pôde. Quis gritar, mas estava aterrorizado. De repente, como se algo o tivesse soltado, o homem saiu em desabalada carreira, gritando e gesticulando como um louco.

Nimrud, que estava meio sonolento, levantou-se assus­tado e olhou surpreso para Antasurra. Já conhecia seu amigo e sabia que era dado a esses acessos. Mas, dessa vez, ele parecia estar realmente fora de si. Achou ridículo como o segundo homem saíra correndo e riu-se a valer. Olhou para Antasurra e notou que ele já estava novamente calmo. Alguns aldeões se aproximaram temerosos para ver que gritaria tinha sido aquela, mas, ao vê-lo rindo desbragadamente, acalmaram-se e voltaram para seus afazeres.

Os dois homens do Conselho dos Anciãos de Erech voltaram contando as mais estranhas histórias, afirmando que o povoado de Shurupak estava protegido por um enorme e forte deus que soltava fogo pelas ventas. O povo simples e supersticioso da Suméria não pôde deixar de acreditar e logo essa história fantástica espalhou-se pelas aldeias vizinhas. To­dos estavam amedrontados com o massacre de Kulbab e com as histórias de deuses e demônios que circulavam livremente entre as aldeias da vizinhança.

Dois dias após a visita dos mensageiros do Conselho de Erech, a aldeia de Shurupak recebeu algumas visitas. Era Mesanipada, o rapaz que Nimrud conhecera em Erech, após as negociações de compra e venda. O jovem de Adab estava com um grupo de doze homens. Vinham em paz, não trazendo armas, entrando na aldeia pelo caminho de Erech. Procuraram por Nimrud que, agora, não mais trabalhava o campo, o que obrigava o seu pai a fazê-lo. Ele estava debaixo de sua árvore favorita com seus inseparáveis amigos. Mesanipada aproxi­mou-se e foi reconhecido, sendo cumprimentado por todos. Nimrud convidou-o a sentar e a conversarem.

- O que o traz aqui, amigo Mesanipada? - perguntou Nimrud.

- É uma longa história - respondeu sorrindo Mesani­pada.

- Ah! Então você deve nos contar tudo - respondeu Nimrud sorrindo intrigado.

Mesanipada, tomando-se de ares de importância, como convinha a um contador de histórias, principiou:

- Akurgal, meu amigo aqui presente, é bafejado pelos deuses - disse Mesanipada, apontando com a mão espalmada para um rapaz franzino, com ar de doente, que sorria timida­mente. - Ele consegue se comunicar com os deuses e, há alguns anos, vem contando-nos algumas histórias estranhas.

O grupo acercou-se mais de Mesanipada para melhor escutar. Ele não se fez de rogado e continuou, saboreando cada palavra que dizia.

- Há alguns dias atrás, Akurgal foi tomado violentamen­te por um deus que predisse que aparecerá um grande chefe guerreiro. Disse também que todos deverão segui-lo; ele nos levará a grandes vitórias; esse chefe será acompanhado por deuses e demônios e nada lhe resistirá. Quem o seguir tornar-se-á imortal; os que lhe resistirem serão mortos e esquecidos.

Ele continuou sua exposição e afirmou com determi­nação:

- Depois que ouvimos o que você fez na aldeia de Kulbab, concluímos que você é esse chefe. E, por isso, vim com meus amigos para nos unirmos a você e a sua tropa.

Nimrud ficou inicialmente surpreso e depois riu, baten­do com a palma da mão no ombro direito de Mesanipada.

- Mas que tropa? Nós somos apenas dezoito homens e nem armas nós temos.

- É assim que se começa um exército. Nós somos doze. Contando com mais seus dezoito homens, já formamos um início promissor.

Antasurra contava nos dedos quanto eram dezoito mais doze e exclamou:

- Nós somos trinta!

Nimrud e Mesanipada olharam para ele e sorriram. Urgar, sempre muito calado e taciturno, falou com sua voz grave, meio cavernosa:

- Montar uma tropa armada é fácil. Só precisamos de homens e armas, mas o difícil é fazer esse exército ser bom.

Todos olharam para Urgar. Ninguém ali tinha experiên­cia militar. Eram apenas camponeses e suas armas não pas­savam de enxadas e facões.

- Eu sei como reunir uma tropa - continuou com sua voz monocórdia. O silêncio reinava - Vamos enviar cinco homens para cada aldeia e falar com os jovens. Vamos contar esta histó­ria de deuses e demônios, convidando-os para formar o maior exército de Sumer. Enquanto isso, cada um terá que trazer uma ferramenta ou alguma coisa que possuir de valor, para que possamos fazer armas. Precisaremos de muitos arcos e flechas, lanças e espadas - e fazendo uma pequena pausa, complemen­tou: - Todos devem se concentrar em Shurupak e, depois, nós os treinaremos no nosso modo de lutar.

Não era um camponês falando, e sim, um general habi­tuado a organizar legiões e a comandar tropas. Não era Urgar, o rude camponês; era Urgar, o astuto e sanguinário guerreiro. De onde vinha esse conhecimento?

- Quem conhece um forjador? - perguntou Urgar.

O cobre era trazido das montanhas distantes, ao norte de Sumer, sendo negociado contra gado e vários tipos de grãos que os aldeões plantavam. Chegava de forma bruta e precisava ser forjado. Eram construídas fossas onde se queimava o cobre até que derretesse a mais de mil e oitocentos graus centígrados. Depois, com o cobre derretido, podia-se moldá-lo para fazer ferramentas, armas e outros artefatos.

- Eu sou forjador. Meu pai tem uma forja em Adab.

Quem tinha falado era um dos amigos de Mesanipada, conhecido como Agha.

-Você acha que poderia fazer armas para nós?

- Posso, mas o cobre é muito macio. Vocês devem ter notado que, quando o facão bate numa pedra ou em algo muito duro, ele fica todo machucado.

Todos menearam positivamente a cabeça. O cobre real­mente não tinha a resistência desejada, amassando com facili­dade. Esse metal, quando derretido, ficava com algumas bolhas de ar presas no seu interior, o que não só o enfraquecia como também oxidava o material.

- Pois acontece que meu pai comprou arsênico e eu fiz uma experiência outro dia: misturando arsênico e cobre, con­segui uma liga mais forte, que não verga com tanta facilidade. Chamo-a de bronze e tenho certeza de que servirá para fazer espadas muito melhores do que as atuais.

Urgar perguntou-lhe: - Quantas espadas você poderá fazer?

- Não tenho muito arsênico e, por isso, creio que pode­rei fabricar umas trinta espadas.

- Ótimo! Dividiremos nossas forças por categoria. Os mais fortes combaterão com as espadas de bronze, os mais fracos serão arqueiros e os outros usarão lanças com termina­is de cobre - e com uma expressão de prazer em seu rosto, Urgar complementou: - Já antevejo como será a formação de combate.

O olhar de Urgar parecia estar a quilômetros de distân­cia, pensando em formações de combate, guerras e, principal­mente, na sensação arrebatada de matar. Ele descobrira no combate que matar era uma sensação majestosa. Sentir o outro ser dobrando-se de dor, com o sangue correndo, o medo no rosto, os gritos, os estertores. Aquilo era poder de vida e morte; sentia-se um deus.

Nimrud e Mesanipada passaram o resto da tarde em preparativos e planejaram os próximos passos de modo detalhado. Formaram agrupamentos de cinco pessoas, num to­tal de cinco grupos, para visitarem as vinte e cinco aldeias. Cada uma distava de dez a vinte quilômetros, podendo ser co­berta em até um dia de marcha. Cada grupo visitaria cinco al­deias durante a semana - uma por dia - conversando com os jovens. Diriam que Nimrud era filho de um deus poderoso, o grande deus Anu, senhor dos céus, e que estava juntando um exército para conquistar um reinado que duraria mil anos. Que todos que viessem teriam fama, fortuna e vida longa. Os que recusassem seriam considerados como inimigos e estari­am afrontando o poder descomunal de Anu.

A idéia de usar o nome do deus Anu foi de Nimrud. Sa­bia que as pessoas eram supersticiosas e que viriam mais pelo medo da vingança do deus, do que pela glória que pudessem colher. O ouro e a prata não faziam parte da cultura daquele povo. Não havia ainda os acúmulos de riqueza que iriam modi­ficar a existência dos homens. Portanto, a ganância e a ambi­ção ainda não haviam se manifestado entre os sumérios e ne­nhum outro povo da Terra.

O outro grupo de quatro, formado por Mesampada, Urgar, Antasurra e Agha, encarregar-se-ia de pegar todo o ma­terial necessário para fazer as armas, na forja do pai de Agha. O novo líder ficaria em Shurupak para receber os prováveis candidatos ao seu exército.

Naquela noite, as casas de Shurupak tiveram que ceder provisões para a viagem dos vinte e cinco. Não o fizeram de bom grado, mas com grande receio do deus Anu de Nimrud. Este não acreditava nas histórias de deuses e demônios, mas as usava com grande maestria. Nas casas em que encontrava mai­ores relutâncias ou negativas, eles invocavam os poderes do deus tenebroso, amaldiçoando a casa, os moradores e as suas terras. Muito rapidamente, eles mudavam de idéia e cediam os víveres necessários à empreitada.

As aldeias receberam os grupos de cinco rapazes, muitos ainda imberbes, com desconfiança. Mas, em todos os lugares, os mesmos jovens de olhar inteligente, arguto, astucioso e angustiado eram suas platéias. Os mais velhos os expulsavam com palavrões e maldições, mas os mais jovens os recebiam bem, escutando suas arengas a respeito do jovem desconheci­do e da formação de um exército. Muitos desses moços não acreditavam em deuses, mas o gosto da aventura lhes era irre­cusável. Não houve vilarejo em que não conseguissem aliciar pelo menos dez jovens, muitos ainda com idades inferiores a quatorze anos. Mas, não eram só os homens, também muitas jovens fugiram de casa para ir até Shurupak. Muitas eram ir­mãs ou apenas namoradas de alguns jovens, mas todas tinham a mesma marca no olhar: a inteligência viva e a profunda an­gústia.

Durante toda a semana, foram chegando mais e mais pessoas, formando um largo contingente. Shurupak era pequena demais para abrigar tantas pessoas e todas queriam ver e conhecer Nimrud. Quando o viam e com ele falavam, parecia que o conheciam por toda a vida. Muitos o cumprimentavam como se fosse um velho conhecido e outros, mais respeitosos, falavam com ele como se fosse um semideus. Sua fama o prece­dera, o que facilitava a aceitação de sua liderança.

Enquanto isso, na forja do pai de Agha, as coisas não corriam tão bem. O pai se recusara terminantemente a dar o arsênico, dizendo que custara muito caro e era difícil de ser conseguido. Agha usou de muita paciência com o pai até que, sentindo que não o conseguiria por bem, obrigou-o a sujei­tar-se pelo uso da força. Agha e Mesanipada ameaçaram o po­bre velho que, assustado, acabou cedendo já que sentia que se recusasse, seu filho e seus amigos o matariam sem pestanejar. Agha e seus amigos colocaram em quatro jumentos que ti­nham trazido todas as ferramentas, cobre e arsênico que pude­ram juntar, assim como comida e objetos que pudessem ser úteis. De madrugada, os quatro homens saíram furtivamente da aldeia para nunca mais voltar.

Em Shurupak, foi necessário preparar-se um forno para a forja. Cinco dias depois, começaram a fabricar as primeiras espadas de bronze do mundo. O fogo era alimentado com ca­roços de tâmaras, já que madeira era rara em Sumer. Agha era muito hábil e testou durante vários dias múltiplas combina­ções de cobre e arsênico, tendo, no final, conseguido uma mis­tura que considerou perfeita. Urgar pediu que fizesse diversas espadas com vários formatos e pesos, testando-as de diversas maneiras, até que conseguiu um tipo que lhe satisfez. Era uma espada reta, com duas lâminas, com uma ponta aguda e uma braçadeira simples que protegia o punho. A espada tinha cerca de sessenta centímetros de comprimento e pesava em torno de seis quilos. No momento em que Agha e Urgar conseguiram chegar à espada que consideraram ideal, essa passou a ser pro­duzida para atender às necessidades do exército em formação. Agha tinha conseguido três ajudantes que pareciam ter o dom para o negócio, pois além de pegarem rapidamente a forma de trabalhar, ainda davam valiosas contribuições ao projeto.

Shurupak não estava exultante com essa invasão. Pelo contrário, naquela semana, cerca de trezentos e setenta e cinco homens tinham chegado para formar o exército e estavam acompanhados de duzentos e vinte e oito moças. As mulheres logo foram acolhidas por Dutura e três amigas, formando um grupo muito especial. Uma das moças teve a idéia de que o exército deveria ter roupas parecidas e, quando falaram com Nimrud sobre esse assunto, foram muito bem recebidas.

- Uma boa idéia! - dissera Nimrud - pois, num combate, seria mais fácil saber quem era amigo ou inimigo.

As moças sugeriram diversas roupas e o grupo em co­mando escolheu um modelo que não era o mais elegante, mas que possibilitava o combate de modo mais livre. Era um saiote que terminava logo abaixo dos joelhos, com um cinto de cordas trançadas. O torso ficaria desnudo, como era de praxe nos homens sumérios. Para completar, um boné bicudo para proteger a cabeça do sol inclemente que, no futuro, seria substituído por um capacete de bronze.

Conseguir o pano para fazer as roupas exigiu um pouco mais de esforço. A vizinha Erech foi visitada por alguns rapazes e moças à procura de tecido. Eles encontraram no mercado a céu aberto de Erech, um linho rústico, grosso, marrom-escuro que parecia servir muito bem e não era muito caro. Eles dispu­nham de vários sacos de grãos, prata ou ouro para trocar pelo tecido; mas, mesmo assim, houve uma discussão entre compra­dores e o vendedor, referente ao valor total a ser pago. Os compradores, não sabendo fazer as contas mais simples, só queriam pagar uma determinada quantia e o vendedor exigia mais. Urgar, que perdia facilmente a tranqüilidade, acabou levando o pano à força e só pagou o que achou justo. Para completar a violência, empurrou o vendedor que queria obs­truir sua saída.

O vendedor ficou furioso e foi falar com o Conselho dos Anciãos de Erech. Naqueles tempos, não existia polícia nem autoridade policial ou judiciária, sendo cada aldeia um peque­no estado governado por um Conselho de Anciãos, cujo nú­mero variava de acordo com a quantidade de idosos. Alguns tinham dois ou três anciãos e outros chegavam a ter mais de quarenta. Erech era uma cidade grande para a época e tinha um Conselho formado de trinta e dois membros. Até reunir todos e deliberar sobre o que fazer, Urgar e seus amigos já estavam longe. O Conselho de Anciãos, após muitas discussões, resolveu que mandariam um grupo de pessoas a Shurupak para trazer de volta o tecido e os bandidos que haviam roubado o honesto negociante.

O amontoado de gente recrutada por Nimrud e intitu­lada de exército era um desastre. Faltavam-lhes disciplina,, tática militar e conhecimento de armas e combates. Urgar os estava treinando por algum tempo, mas não se forma uma boa tropa da noite para o dia. Os homens ainda não sabiam ma­nejar adequadamente todas as armas e seu líder guerreiro es­forçava-se em ensinar-lhes, enquanto ele mesmo aprendia. Urgar e seus escolhidos duelavam horas a fio, com suas espadas de madeira, poupando as de bronze, e Nimrud sentia que eles ainda não estavam prontos. Faltava união e comando firme em batalha.

Um dos rapazes, que fora levemente ferido no braço esquerdo por uma espada, tivera a idéia de fabricar um escudo feito de cipós entrelaçados e amarrados, que ele levava no braço esquerdo para se proteger dos golpes contra o local ferido. A idéia fora bem absorvida e todos estavam fazendo escudos de cipós e caniços dos pântanos. Observaram que se os cipós fossem bem amarrados e presos uns contra os outros, dificil­mente seria trespassado pelas flechas e lanças.

Nimrud teve a idéia de juntar nove lanceiros num pe­queno grupo e formar uma parede de escudos e lanças que avançaria pelo campo de batalha. Esse agrupamento seria co­mandado por um outro lanceiro e seria chamado de falange. Atrás deles viriam os arqueiros, que não carregariam escudos, disparando suas flechas por cima da cabeça dos lanceiros. Os espadachins viriam atrás dos lanceiros e arqueiros, atacando o inimigo pelos flancos. No caso de uma carga do inimigo, os lanceiros abririam uma passagem pelo centro, deixando os atacantes penetrarem numa espécie de bolsão, onde seriam exterminados pelos espadachins. Nimrud começara a organi­zar seu pequeno exército em grupos autônomos e nomeava chefes e subchefes de acordo com a esperteza e a destreza de cada um.

Os enviados de Erech chegaram dois dias depois do pretenso roubo dos tecidos e se avistaram com os conselheiros de Shurupak. Contaram o acontecido e exigiram a prisão dos culpados para que fossem sentenciados à morte. Os conselhei­ros, que nada sabiam desse fato, mandaram chamar Nimrud que levou Mesanipada consigo. Ouviram as queixas do Conse­lho em silêncio. Mesanipada sussurrou no ouvido de Nimrud:

- Procure ganhar tempo. Nossas tropas não estão ainda prontas para um combate.

Nimrud assentiu com a cabeça e falou com uma humil­dade que não lhe era peculiar:

- Dê-nos sete dias para que investiguemos a queixa e, no final desse prazo, levaremos os culpados para Erech para que sejam justamente sentenciados à morte.

O exército só tinha duas semanas de treinamento. Era preciso mais tempo para que estivessem prontos. Nimrud, hu­mildemente, parecia ceder às reivindicações de Erech.

Os mensageiros acabaram concordando e ficou estabe­lecido que, dentro de uma semana, Nimrud, em pessoa, leva­ria os culpados para Erech. Com a saída dos mensageiros, os conselheiros de Shurupak aproveitaram para fazer suas pró­prias reivindicações. Vendo-o humilde, acharam que cederia às suas próprias pressões. Shurupak já não tolerava mais seiscentos novos personagens que se alimentavam de suas safras, que dormiam nas suas casas e que passavam o dia em intermi­náveis treinamentos estranhos aos costumes sumérios. Além disso, o que mais os deixava horrorizados era o fato de que as moças mantinham contatos íntimos com os rapazes, sem se­rem legalmente casados. Exigiram que isso terminasse e que fossem todos embora, abandonando a aldeia.

Sempre humilde Nimrud disse que partiriam em duas semanas e que até lá Shurupak tivesse paciência. O Conselho pareceu estar mais tranqüilo. Duas semanas e se livrariam para sempre daqueles intrusos mal-educados, barulhentos e comilões.

Quando o prazo de uma semana terminou, ninguém de Shurupak apareceu em Erech. Eles esperaram por mais dois dias e enviaram três mensageiros para ver o que acontecera. Os infelizes não chegaram a entrar em Shurupak. Foram cap­turados no caminho por uma falange avançada de Urgar e mortos. Seus corpos foram despedaçados e queimados para homenagear o deus Anu. As cinzas dos infelizes foram espa­lhadas pelos campos.

Erech aguardou por mais dois dias pelo retorno dos seus mensageiros. No final desse prazo, para reunir o Conse­lho perderam mais um dia. Decidiram que iriam todos a Shu­rupak para reclamar providências. Levaram mais um dia para reunir duzentos e oitenta homens. Muitos, já em idade madura, não levavam armas, apenas um punhal que costu­mavam carregar normalmente. Existia uma espécie de milí­cia, constituída de cinqüenta homens que sabiam lidar razoavelmente bem com espadas de cobre, e estavam dispostos a mostrar que não se brinca impunemente com os homens de Erech. Tinham perdido quinze dias em marchas e contramar­chas, tempo precioso e vital para o incipiente exército de Nimrud que, durante trinta dias, estivera em árduo e ininter­rupto treinamento militar.

Os homens de Erech não vinham andando em forma­ção militar. Pareciam amigos indo para uma festa. Conversa­vam alegremente, sendo que alguns não estavam satisfeitos de terem que andar tantos quilômetros apenas para dar uma lição em alguns jovens mal-educados e selvagens. Teriam preferido ficar em suas terras, plantando o painço e a cevada, assim como cuidando da plantação de legumes e hortaliças que tanto sabor davam à comida. O calor era insuportável e alguns tinham trazido cerveja fresca que vinham bebendo pelo caminho. Estavam quase bêbedos e riam de suas pilhéri­as grosseiras.

A estrada era de barro batido pelos milhares de pés que caminharam durante séculos entre Shurupak e Erech. Assim que passaram um pequeno córrego, onde muitos pararam para se refrescar, os espiões de Nimrud, bem escondidos, fo­ram avisá-lo. Ele, então, deu ordem para que todos saíssem sorrateiramente da aldeia e se colocassem no trigal que beira­va a estrada. A seara estava razoavelmente alta para escondei-os homens, mas suficientemente baixa para não impedir uma boa luta.

Nimrud dividiu seus homens em vários grupos sob o comando de Urgar, Mesanipada e mais outros subchefes que haviam se destacado nos treinos. Eram cinco grupos. Nimrud ficou com os arqueiros e parte dos lanceiros, e combinou a estratégia com os seus subchefes. O ataque deveria ser fulmi­nante e concentrado na milícia de Erech. Aqueles cinqüenta homens deveriam ser eliminados no início do combate, para não oporem resistência e também para destruir o ânimo dos outros combatentes.

Os homens de Erech vinham tranqüilamente andando pela estrada, quando entraram pela parte em que o trigal ladeava ambos os lados. Subitamente, um som de trompa fez-se ouvir perto e os homens da milícia de Erech, que vinham na frente, foram atingidos em cheio por setas vindas da seara. Na primeira saraivada de flechas, caíram mais de vinte homens trespassados por várias delas. Os demais não estavam enten­dendo o que estava acontecendo - estavam por demais bêbedos - e ficaram parados por alguns segundos. Foi tempo suficiente para que mais dardos de ambos os lados da estrada chovessem sobre eles, matando-os ou ferindo-os gravemente.

A primeira reação dos homens de Erech foi a de voltar pelo caminho que vinham e tentarem se abrigar em algum lugar seguro. Nessa hora, saíram do trigal várias falanges do pequeno exército de Nimrud e cortou-lhes a retirada. Estavam todos enfileirados com seus escudos de cipós trançados, fechando o caminho, e suas lanças prontas para perfurarem eventuais atacantes. Esses, assim que os viram, assustaram-se e tentaram sair pela direita e esquerda da formação. Então, os arqueiros começaram a flechá-los, abatendo os que procuravam fugir.

As falanges de Nimrud andavam rapidamente, em for­mação cerrada, em direção aos atacantes. Alguns tentaram correr para a seara, pois imaginaram que havia dois ou três arqueiros escondidos e eram eles que estavam atirando. Entraram cerca de dois metros na plantação, brandindo suas facas e facões, quando daquele local surgiram novas falanges tão bem estruturadas quanto às anteriores. Os atacantes de Erech estavam quase encurralados. Havia uma falange atrás deles, bloqueando o caminho de volta e mais duas, uma de cada lado, que os estavam aprisionando numa pinça mortal. As flechas caíam por todos os lados e os homens de Erech tentaram se agrupar para furar o cerco. O único caminho livre era para Shurupak, mas eles estavam receosos de ir para aquela direção com medo de caírem em outra emboscada. Formaram no fragor da batalha, sob o comando de um líder de ocasião, um grupo razoavelmente coeso de 150 homens, e procuraram avançar em direção à falange que defendia a estrada de volta para suas casas. Foram se chocar com as lanças dos homens de Nimrud que os perfuraram e feriram com facilidade extrema. O terror havia possuído os infelizes, a ponto de não racioci­narem mais de forma correta. Sentiam que iam morrer e não havia como fugir do cerco. Alguns se urinavam de medo enquanto outros caíam no chão de joelhos, tremendo, balbuciando palavras incompreensíveis.

Os homens de Erech voltaram-se para o trigal e tentaram fugir entre duas falanges postadas por Urgar para impedir qualquer fuga. Uma delas estava plantada ali e embaraçava a fuga pela direita, mas entre essa e a falange que fechava o caminho de Erech, havia uma abertura de trinta metros. Foi por essa brecha que tentaram fugir e, aos gritos e imprecações, correram para aquela providencial abertura, enquanto algu­mas flechas atingiam os mais morosos e velhos. Quando chegaram à passagem, depararam-se saído da seara, onde tinha estado agachado, com um outro grupo de trinta homens armados com espadas e escudos. Não existia outra saída; deviam lutar para fugir. Lançaram-se com fúria e terror contra os que barravam sua fuga.

O choque dos setenta homens contra os escudos e es­padas dos guerreiros de Nimrud, liderados por Urgar, criou uma súbita parada no ímpeto dos atacantes. As espadas per­furavam, cortavam e amassavam os infelizes. A carga estancou e os que vieram atrás tropeçaram nos cadáveres dos que tinham tombado na frente. Enquanto isso, as duas falanges de lancei­ros, agilmente, já os tinham cercado e os estavam espetando mortalmente com suas lanças.

Em menos de dez minutos, o local estava coberto de ca­dáveres, de feridos e de homens que se renderam de joelhos, chorando, histéricos, gritando por misericórdia. Nimrud não permitiu que os que se renderam fossem mortos, mas mandou eliminar todos os que apresentassem feridas profundas, difíce­is de curar, que os levariam a uma morte lenta. Contaram-se os mortos em cento e oitenta e três homens; e os prisioneiros, em cinqüenta e dois.

No outro lado, na tropa de Nimrud, apenas um dos ho­mens de Urgar fora ferido no antebraço por um facão e outro levara uma flechada, de suas próprias tropas, na perna. Os dois feridos foram levados para Shurupak, onde foram cuida­dos pelas mulheres.

Após os gritos de vitória e as celebrações no próprio campo, Nimrud pôs seu exército em marcha contra Erech. Ainda não sabia bem o que fazer com aquela vitória. Com pou­co mais de vinte anos e com um poder incontestado até aquele momento, pressentia que tinha algo de fantástico na mão, mas ainda não se conscientizará do que podia fazer. Enquanto an­dava com sua tropa em direção a Erech, sua cabeça parecia es­tar possuída por um redemoinho de pensamentos e sentimen­tos. Tantas idéias haviam lhe passado pela mente que não sabia o que fazer quando alcançasse Erech. Destruiria a cidade ou a tomaria? Saquearia a aldeia e ficaria com as mulheres ou devia passar todos na espada e demonstrar a Sumer o que aguardava os que lhe resistiam?

Chegaram a Erech no final da tarde, ocupando a cidade sem lutas. O saque, a destruição e o ataque às mulheres foram proibidos. Não havia planos maiores para Erech, mas Nimrud já resolvera que não a destruiria. O povo amedrontado de Erech não opôs resistência. Assim que se estabeleceram, os conquistadores exigiram alimentos e bebidas, no que foram prontamente atendidos.

Naquela noite, Nimrud reuniu-se com seus amigos e dis­cutiram a situação. Seria a mais importante reunião que aquele grupo jamais teria. Se optassem por um determinado cami­nho, tornar-se-iam bandidos que a história faria questão de es­quecer. Mas se tomassem a decisão correta, instituiriam o mais importante passo para civilizar a Terra.

Mesanipada tinha uma idéia mais nítida do poder que estavam adquirindo, por isso, foi um dos primeiros a definir um plano de ação.

- Temos que demonstrar grandeza junto ao povo de Erech. Matamos seus homens num combate legítimo, mas não devemos abusar de suas casas e mulheres, pois senão até os velhos irão se revoltar contra nós.

Todos os membros do grupo concordaram. A maioria conhecia Erech desde pequeno e gostava do lugar e das pes­soas.

Nimrud falou, enquanto degustava um pernil de carnei­ro.

- Mesanipada tem razão. Devemos preservar Erech, mas nossas conquistas devem se espalhar. Não desejo voltar para minha vida anterior. Precisamos obter mais alimentos, bebidas, mulheres e tudo o mais que aparecer no caminho. Erech é a maior cidade que conhecemos, mas devem existir outras que desconhecemos e que podem nos oferecer oportunidades se­melhantes.

Nimrud complementou, fazendo um trejeito com a ca­beça, como se estivesse insatisfeito consigo mesmo:

- Concordo que não devemos mais saquear as cidades de Sumer. Nossa atitude em Kulbab foi errada e trouxe-nos a pecha de assassinos. Não devemos repetir a mesma coisa aqui em Erech.

- Para estendermos nossas conquistas, é preciso ampliar as nossas forças. Iremos precisar de mais homens, armas, comida, tecidos, abrigo e muitas outras coisas. Precisamos de um lugar que nos sirva de acampamento definitivo - disse, interrompendo, Urgar.

- Urgar está certo. Por que não usarmos Erech? Pergun­tou Mesanipada - É uma cidade razoavelmente grande e poderá nos sustentar.

- Gosto da idéia de ficar em Erech, por enquanto. Mas aqui é um campo aberto e não há como nos defender num caso de um ataque externo - falou Urgar, como sempre, preocupado com assuntos militares.

- Mas, Urgar, onde é que existe abrigo neste vale? Tudo aqui é plano! - retrucou Mesanipada.

O líder ficara escutando a conversa e se pronunciou:

- Erech deve ser nossa base, pois conhecemos o terreno, e as aldeias em volta poderão nos dar apoio, já que nossas tropas são destes lugares. Para proteger nossa base, precisamos construir um forte. Um lugar onde possamos nos abrigar.

- Um forte é pouco - disse Urgar, com sua voz grave. - O que precisamos é fortificar a cidade toda.

- Isso é impossível!- exclamou Mesanipada.

- Claro que não. Basta construir um muro em torno da cidade - disse Urgar.

- Um muro? Em torno da cidade? - perguntou Mesani­pada, assustado com o enorme trabalho que deveria ser ence­tado.

Antasurra, que escutava a conversa desde o início, ex­clamou, como se subitamente tivesse tido uma idéia luminosa.

- Um muro, não. Uma muralha!

Todos os presentes voltaram-se para ele:

- O que é uma muralha? - perguntou Akurgal.

- Sim, é isso mesmo. Uma muralha. Um muro alto, largo, onde os defensores possam subir para atirar flechas e lanças sobre os atacantes - respondeu Antasurra, fazendo gestos para demonstrar algo que ninguém conhecia e que lhe passara como um relâmpago pela mente.

Houve um certo burburinho na assistência, mas logo a voz do chefe militar se fez presente.

- A idéia de Antasurra é muito boa - concordou Urgar - Precisamos de uma muralha rodeando toda a cidade para nos proteger de atacantes.

Todos meneavam a cabeça em sinal de assentimento. Nimrud também assentiu e complementou a idéia.

- Sim, a idéia de Antasurra é muito feliz. No entanto, precisamos ser práticos. Para construir uma muralha em torno de Erech, precisaremos de muitos homens, tijolos e comida em quantidades enormes e, principalmente, de muita motivação. Sem isso, teremos que obrigá-los a trabalhar e, desse modo, não nos resta opção a não ser usar a força. Se tivermos que usar a violência, tenho minhas dúvidas se isso irá funcionar.

Akurgal, amigo de Mesanipada, tímido e franzino, que sempre estava perto dos líderes e participara das conversas, interrompeu, como se tomado de súbito fervor. Com uma voz diferente da sua, falou fortemente:

- Usem o terror sem usar a força. O grande deus Anu, senhor dos céus, que nos protege, deve ser glorificado. Levan­tem para ele um grande templo. Não há quem não queira trabalhar na sua construção, pois isso irá trazer boa sorte a todos. Para proteger o templo, será necessário fazer-se uma muralha, que envolverá não só a casa do grande deus, como também toda a cidade. Deste modo, usando o medo do deus Anu, vocês conseguirão o que desejarem do povo.

Os presentes estavam surpresos com a voz forte e a postura de Akurgal, pois isto não lhe era comum. De um rapazola simples e humilde, levemente afeminado, transfor­mara-se num homem tonitruante, de voz cava e impositiva. Nimrud sentiu que havia algo a mais do que simplesmente um homem ali presente. Havia um deus falando, mesmo que ele não acreditasse em deuses e demônios.

A idéia era ótima. Aquele povo simples e temeroso faria qualquer coisa para, nem tanto agradar aos deuses, mas, prin­cipalmente, não irritá-los. Os sumérios acreditavam em deuses com características humanas, logo, um grande deus precisa de uma grande casa, com alimentação farta e muitos servos.

No outro dia, Nimrud convocou o Conselho da cidade, os habitantes e seus soldados, e mandou trazer os prisioneiros. Os conselheiros apareceram muito desconfiados e certos de que seriam mortos. Nimrud reuniu-os no espaço aberto que era usado como mercado ao ar livre e dirigiu-lhes a palavra.

- Amigos de Erech! Grande é o poder do deus Anu. Foi ele que me deu a vitória sobre os guerreiros de Erech, numa batalha onde não perdi nenhum soldado, e vocês perderam todos.

Nimrud estava localizado no centro da praça, sobre uma pequena elevação. Ao falar, levantava as mãos para o alto em gestos largos, denotando poder e majestade.

- O grande e insuperável Anu, deus dos deuses, incum­biu-me de uma missão sagrada.

Os presentes olhavam-no fixamente. Anu era um deus conhecido dos sumérios, mas não era o mais importante, naquela época. Erech adorava Inana, mas Anu também tinha seus devotos entre os habitantes da aldeia.

- Anu escolheu Erech como sua casa, seu lar e jurou proteger esta cidade contra os invasores que nos atacarem. Ele, com seu poder invencível, destruirá todos os inimigos de Erech, dando a esta cidade primazia sobre as demais da região.

Os mais velhos, eminentemente tradicionais, não estavam muito empolgados com a idéia. Durante anos viveram suas vidas monotonamente e achavam que nada mudaria no decorrer dos anos. Não viam vantagens especiais em serem protegidos por Anu ou por outros deuses, pois estes viviam brigando entre si e, quando se enfureciam, eram os homens que pagavam a amarga conta.

Um grupo de jovens que regulava com a idade de Nim­rud e alguns até mais jovens, recém-saídos da puberdade, acharam o plano do predomínio de Erech, da proteção de Anu e de mudanças, uma excelente idéia. Todos esses jovens tinham uma característica comum: eram inteligentes e angustiados. Em muitos, o olhar demonstrava uma crueldade e uma frieza que chegava a assustar. Eles começaram a demonstrar um profundo interesse pelas palavras de Nimrud.

- Anu deseja um esagil (uma casa de alta cabeça). E eu, seu lugal, prometi dar-lhe este zicurat (edifício elevado). Os que trabalharem nesta construção serão recompensados pelo grande Anu; e os que não desejarem, serão amaldiçoados.

Nesse instante, já possuído por suas próprias palavras, extremamente empolgado, bradou:

- Quem deseja construir o grande Etemenanki (casa do fundamento do céu e da terra)?

Os seus soldados, assim como os mais jovens, gritaram uníssonos que tudo fariam para agradar ao grande deus Anu. Os mais velhos estavam calados e assim ficaram. Não estavam alegres com as mudanças. Uma grande aldeia sempre atraía desgraças, e suas vidas pacatas não seriam nunca mais as mesmas.

Nimrud virou-se para os prisioneiros e lhes disse:

- O grande Anu é misericordioso. Não deseja sangue inocente. Serão liberados desde que jurem eterna devoção e obediência a Anu e a Nimrud, seu lugal. Caso contrário, se­rão devorados pelo fogo que acenderemos para honrar o nosso grande deus. Decidam-se agora! Jurem pelo poderoso Anu!

Sob tais condições, todos os prisioneiros juraram obede­cer ao grande deus Anu e foram libertados. O gesto de misericórdia de Nimrud foi muito bem recebido pelos conse­lheiros. Eles imaginavam que todos seriam postos à morte e ti­veram a surpresa de ver a misericórdia funcionando onde só esperavam ódio e destruição.

Os meses que se seguiram foram de atividades febris. Ninguém tinha construído nada tão grande. Nimrud foi apre­sentado a um jovem, Urnanshê, que havia tido a idéia de um grande templo e desenhara toscamente na areia para que to­dos pudessem ver. Era um edifício alto, que ficava sobre uma grande base que teria quinze metros de altura, alcançável por ampla escadaria, quadrada, com trinta e cinco metros de lar­gura. Iniciando-se sobre essa base, seria construída uma esca­daria toda em volta que permitiria que se pudesse ter acesso ao prédio. As escadarias teriam doze metros. Quando finalmente as escadarias terminassem, começaria, então, um prédio de vinte metros de altura, cercado de colunas altas, e mais escada­rias para dar acesso ao interior. O prédio superior seria um grande cubo de vinte metros, encimado por um telhado de duas águas, cobertas com telhas superpostas.

A edificação era perfeita para todos os propósitos. Em volta do prédio principal, seria construída uma série de edifi­cações onde seriam concentrados celeiros, escritórios para controlar o recolhimento dos grãos, cozinhas, habitações para sacerdotes e soldados e um almoxarifado de armas. Uma grande forja seria construída no local, possibilitando que a fabricação de armas e outros utensílios fosse exclusividade do templo. O edifício era bastante alto para que se pudesse olhar toda a planície e, por isso, seria um bom posto de observação militar. E por último, finalmente, a edificação também seria a casa do deus Anu, que deveria ser homenageado de tempos em tempos.

Urnanshê modificou a forma das casas de Erech. Ao invés da tradicional casa arredondada, estabeleceu casas qua­dradas, com pé direito mais alto, um pátio interno, um telhado feito de madeira atravessada, coberta ou não com argamassa. Em breve, essa forma iria se espalhar por toda a Suméria e os países vizinhos, substituindo as casas arredondadas, típicas das primeiras civilizações.

Nimrud instituiu Mesanipada como seu turtanu, ou seja, o segundo em comando. Seria o responsável pela construção do zicurat e da grande muralha que cercaria a cidade. Enquanto isso, Urgar iria recrutar mais homens; era plano do chefe fazer três excursões guerreiras. Uma seria dirigida ao leste para atacar o Elam, nas montanhas Zagros; a outra seria dirigida ao norte para atacar a tribo primitiva dos acadianos que, de vez em quando, gostavam de fazer incursões guerreiras nas terras de Sumer; e, finalmente, a última seria contra tribos caldéias, que perturbavam um pouco, a sudoeste. Para tal, imaginou um exército de três mil homens.

Urgar partiu com cinqüenta soldados para correr as aldeias vizinhas e trazer homens que estivessem dispostos a participar do novo exército e da construção de Erech. Urgar passou a ser recebido nas aldeias pelos jovens com grande entusiasmo; e com desconfiança pelos velhos.

Na pequena aldeia de Ur, um dos homens gritou para Urgar que aquilo não passava de um exército de crianças, lideradas por uma outra criança. Ele batia com a mão no próprio peito, dizendo-se chamar Entemena, sendo o mais forte guerreiro de Ur. Urgar chamou-o para um combate singular e demonstrou sua enorme força ao duelar com o seu oponente. Lutou sem armas, como convinha a um combate singular da época e, antes que o seu oponente tivesse a opor­tunidade de reagir, Urgar derrubou-o e o envolveu com um amplexo mortal. O homem, aprisionado no chão pelos braços e pernas do atacante, sentiu quando as mãos de Urgar pro­curaram sua garganta. Debateu-se para fugir do forte aperto das mãos, até que, sem ar, começou a estrebuchar. Essa era a sensação que mais agradava a Urgar, a ponto de sentir forte excitação. Enquanto a vida se esvaía lentamente do homem, Urgar gozou como nunca tinha gozado com mulher nenhuma. O infeliz morreu nas suas mãos e sua tropa gritava de satisfação pela vitória de seu chefe. Urgar levantou-se com seu saiote sujo, enquanto o homem morto tinha se urinado de medo e dor.

Daquele momento em diante, o recrutamento da tropa nas aldeias em torno de Erech foi se processando de forma mais rápida do que se podia imaginar. Isso acabou gerando outros tipos de problemas. Entre eles, o mais premente era o fato de que era preciso alimentar uma pequena multidão de operários, soldados e chefes, que não estavam cultivando os campos. Logo, foi necessário que cada aldeia cedesse parte de suas colheitas para Erech. Isso não foi muito bem aceito e, não desejando se indispor com a população, Nimrud mandou que todo alimento dado fosse contabilizado, porque seria devolvido futuramente. Para tanto, foi necessário pensar-se em alguma forma de registro escrito.

Mesanipada, que era um homem extremamente metó­dico, teve a intuição de desenhar uma figura para cada tipo de grão e, ao lado, colocar um risco para determinar quantos sacos estavam sendo entregues. Mesanipada ensinou esse método a vários dos seus subalternos, que, por sua vez, desenvolveram outros sinais, de acordo com a necessidade. Finalmente, após alguns meses, os sumérios tinham desenvolvido a primeira escrita do mundo. Os escribas começaram a escrever em suas tabuinhas de argila tudo que entrava na casa grande de Erech. As aldeias cediam, relutantemente, os grãos, os legumes e o sésamo, de onde se extraía óleo. Tinham receio de que uma recusa fosse interpretada como uma ofensa, cujo castigo poderia ser não só a maldição do deus Anu, mas, principal­mente, a crueldade de Nimrud.

Novos fatos foram acontecendo em catadupas. Um dos jovens, filho de um ceramista, aproveitara uma plataforma redonda de fazer cerâmica do pai e montara duas rodas, ligadas por uma barra fixa, que girava dentro de dois suportes que estavam presos a uma pequena plataforma. Ele desenvolvera este artefato alguns anos antes, enquanto ajudava o pai a fazer cerâmica. Sua função era a de ir até perto do pântano e buscar barro para que o pai trabalhasse e fizesse potes, jarras, panelas e outros artefatos simples. No início, o rapazinho ia buscar barro e trazia num pote grande, mas o esforço e o pouco que trazia, aborrecia-o enormemente. Ficara imaginando um método para trazer o barro sem tanto esforço. Não passava de um adolescente de treze anos e aquela atividade fatigante deixava-o irritado e de mau humor.

Numa manhã chuvosa, que não era própria para traba­lhar o barro, pois o ambiente ficava excessivamente úmido, o pai lhe ordenou que lavasse a sua roda debaixo da chuva para que pudesse ficar mais limpa e menos cheia de pedaços de barro seco. O garoto, irritado, pegou a roda, levantou-a de sua bancada, onde o pai a rodava manualmente sobre um eixo fixo, e a jogou na chuva. A roda bateu em pé no chão e rolou por alguns metros. O garoto olhou para aquilo e seu semblante se iluminou, como se ele se lembrasse de algo de que sempre soubera, mas que estava enterrado fundo em seu íntimo. Lavou a roda com redobrado prazer e a colocou de novo no lugar. Depois, saiu no meio da chuva para fazer duas rodas idênticas. Trabalhou por cinco dias, nas suas horas de folga, e fez duas rodas, colocou-as numa barra que as ligava e, finalmente, dez dias depois, ele fazia a primeira carroça que a Terra tinha visto.

Daquele dia em diante, ele aprimorou sua invenção. Desenvolveu uma carroça puxada por um boi, com uma plata­forma maior. Depois colocou laterais na carroça, para que o barro molhado não caísse. Com o tempo, desenvolveu um sistema ainda mais sofisticado. Nessa época, já contava com dezenove anos, vivendo numa aldeia distante de Shurupak, mas razoavelmente perto de Erech. Sua nova invenção contava com quatro rodas, puxadas por dois bois ou onagros, sendo que as rodas da frente podiam se mover de um lado para outro de forma a facilitar as curvas. Quando Urgar começou a recrutar novos soldados e trabalhadores, nosso pequeno inventor, de nome Eanatum, trouxe sua carroça, cheia de víveres e cerâmi­cas, abandonando a casa paterna definitivamente. Urgar, quando viu a carroça, ficou admirado, e logo levou a idéia e seu inventor para apreciação geral.

Durante mais de cinco anos, o inventor Eanatum passea­ra a sua invenção pela aldeia, tendo sido ridicularizado e cri­ticado por todos os seus colegas aldeões, com exceção de alguns poucos amigos, que pediram que fizesse algumas carroças similares. Esses amigos acompanharam-no a Erech, com cinco carroças cheias de víveres, muitos roubados dos próprios pais. Nimrud exultou quando viu as carroças, vislumbrando logo as suas diversas aplicações. Uma carroça era capaz de carregar três vezes mais peso do que um burrico de carga. Em uma carroça grande poderiam se locomover seis homens sentados. Urgar logo reconheceu que poderia se transformar numa arma de guerra. Mesanipada percebeu que serviria para carregar os tijolos, cozidos nos fornos de caroços de tâmara, que seriam utilizados nas construções do templo e da muralha.

Um segundo fato surgiu e veio acelerar o processo revolucionário da Suméria. Agha, que tinha sido muito útil em desenvolver espadas de bronze, desenvolvera um instrumento de enorme utilidade. Remontando ao tempo de sua adolescên­cia, Agha fora obrigado a trabalhar no campo de seu pai. A forja era um negócio esporádico, dependendo de pedidos da freguesia que nem sempre tinha grãos para trocar por ferra­mentas muito caras. Dependiam também de matérias-primas que eram trazidas de longe por caravanas que vinham em intervalos irregulares. Desse modo, Agha, junto com seus ir­mãos mais velhos, tinha que trabalhar a terra seca e dura do pai.

A terra, naquela época, era trabalhada com enxadas simples, eventualmente picaretas de osso e um arado extrema­mente tosco. Tomava-se um pedaço de tronco de árvore - já tão rara em Sumer - e, enquanto um homem puxava, por meio de cordas, o instrumento, o outro enfiava a ponta do tronco na terra, rasgando um sulco superficial. Agha abominava essa atividade. Quando era colocado para puxar, o esforço o exauria e seu mau humor logo eclodia. Por outro lado, quando tinha que colocar o tronco no sulco e abrir novas esteiras, seu rumo se perdia e os sulcos ficavam enviesados, invadindo os sulcos vizinhos. Seus irmãos o detestavam, já que Agha lhes era inútil nessa tarefa, além de reclamar incessantemente.

Agha não era de esmorecer diante de um obstáculo. Não era só o esforço físico que o irritava, mas também a morosidade da operação. Ficou imaginando como desenvolver algo mais produtivo. Inicialmente, pensou em puxar o tosco arado com um boi e tentou amarrar uma corda no animal. A corda logo machucou o infeliz que começou a sangrar. Desistiu do mecanismo e, algum tempo depois, voltou com uma canga feita de madeira a ser colocada sobre o pescoço do animal. Funcionou a contento, mas ele procurou aperfeiçoar o sistema, colocando dois bois ao invés de um. Além de conseguir melhor equilíbrio na tração, conseguiu uma duplicação de força de trabalho. Mas, ao fazer a canga, que se ligava ao tronco por correias, tornou-se difícil tracioná-lo. O tronco saía de prumo e o trabalho se perdia. Agha não desistiu e partiu para uma outra forma de arado. Quebrou a cabeça durante alguns dias até que lhe veio a idéia de substituir o tronco por algo mais sólido.

Usando a forja de seu pai, fez um modelo de arado que misturava uma parte de madeira e outra de cobre. O primeiro exemplar não funcionou; a ponta de cobre não estava solidamente presa à madeira, e soltou-se sob os risos e galhofas de seus irmãos. Fez uma segunda peça, mas era pesada demais e, mesmo que o boi puxasse com facilidade, ninguém conseguiria segurar e guiar durante muito tempo. Finalmente, acertou o peso e as amarrações e logrou fazer o primeiro arado de cobre do mundo. Mais tarde, substituiria o cobre pelo bronze, ob­tendo efeitos ainda melhores.

Quando Agha juntou-se ao grupo formado por Nimrud, teve a oportunidade de lhe mostrar o arado. O jovem líder, que tinha conhecimento de lavoura, logo entendeu que aquele instrumento era uma maravilha. A carroça de Eanatum e o arado de Agha poderiam tornar-se instrumentos valiosos para aumentar a produção agrícola, já que Nimrud estava particu­larmente preocupado com esse aspecto da questão. Ele sabia que existiam mais de três mil homens trabalhando em Erech, precisando ser alimentados e vestidos, além de terem necessi­dade de habitação decente. Sem isso, em breve, ele perderia sua equipe de trabalhadores, pois resolvera, temerariamente, começar a construção do templo e da muralha simultanea­mente, e o esforço e os recursos para tais obras eram muito grandes.

Urnanshê, o arquiteto e construtor, tinha o domínio completo sobre todas as construções. Era um trabalho estafante que, exigindo deslocamentos permanentes entre o local da construção do templo e da muralha, obrigava-o a desenvolver estimativas completas de logística, número de tijolos, pessoas, betume para juntar os tijolos, refeições e assim por diante. O genial arquiteto era um homem extremamente destemperado. Tinha acessos de fúria, quando era contrariado ou desobede­cido. Surrava impiedosamente os operários e não tinha o menor tino organizacional. Mesanipada procurava ajudá-lo, mas Urnanshê estava tão imbuído de sua tarefa que qualquer ordem contrária, qualquer intromissão, por menor que fosse, era muito mal recebida. Finalmente, Nimrud teve que intervir e com muito tato conseguiu conciliar a situação.

Para que a obra corresse a contento, Nimrud estabeleceu que a equipe fosse dividida em três grupos. O primeiro cons­truiria o templo; o segundo, a muralha; e o terceiro providen­ciaria a logística, ou seja, tijolos cozidos, alimentação, betume, transporte e madeiras. Cada um teria um chefe, que dividiria o trabalho com encarregados e estes, somente estes, dariam as ordens aos trabalhadores. Nimrud teve o cuidado de escolher pessoalmente os encarregados e chefes, que se reportariam a Urnanshê. Este continuaria como o grande chefe das cons­truções, mas só daria ordens aos seus três supervisores de construção. A muralha fora planejada para não só abranger a cidade e o templo, como também para deixar um enorme espaço vazio, onde se poderiam construir casas no futuro, pois Nimrud previa que haveria uma expansão natural.

Assim que se estabeleceram em Erech, foram construídas várias casas para abrigar os recém-chegados. Nimrud tomou uma casa ampla e confortável, onde se alojou com suas duas esposas, escolhidas a dedo da grande massa de mulheres que seguiam a tropa. Mais tarde, iria ampliar seu plantei de mulhe­res com prisioneiras de guerra, presentes de chefes de aldeias e eventuais conquistas amorosas. Mesanipada também tinha sua casa e morava com uma mulher que tinha sido sua namorada desde a infância, sendo-lhe fidelíssimo, o que era raro entre os novos conquistadores.

Nimrud fez uma reunião com sua equipe principal, que incluía Mesanipada, Urgar, Antasurra, Akurgal, Urnanshê, Eanatum, Agha e mais quatro pessoas que ele escutava muito. Eanatum ganhara a admiração de todos por ter desenvolvido a carroça, Agha, por ser um grande forjador e ter desenvolvido o arado, e os demais quatro, pelos seus pendores pela arte. Eram, respectivamente, pintor, escultor, astrônomo e matemá­tico. Esses quatros apareceram da enorme massa de pessoas requisitadas nas aldeias por Urgar, e logo se destacaram pela sua inteligência, inventividade e tino político.

Esses novos elementos da equipe trabalhavam com Ur­nanshê. O astrônomo, por falta de palavra melhor para definir sua atividade, desde cedo na infância, sentia fascinação pelo céu e, com seu olhar arguto, marcara as principais estrelas e sua posição no decorrer do ano. Os sumérios, naquele tempo, tinham uma vaga noção da passagem do ano e dividiam o mesmo, grosseiramente, em duas grandes estações, a das cheias, que ia de junho a outubro, e a das plantações e colheitas, que ocupava o resto do ano. Se as cheias atrasassem ou não viessem, eles ficavam profundamente confusos e não sabiam quando deviam plantar. Nimrud fora informado de que existia um homem que havia desenvolvido um método de estipular as datas certas do plantio e ficara curioso em conhecê-lo.

Depois de conversar longamente com o jovem, notou que o seu conhecimento era importante. Nimrud tinha sido agricultor, não muito bom, mas o suficiente para saber que, se perdesse a data do plantio, não teria boa safra. O que esse homem propunha era lógico. Olhando a posição dos astros, era possível determinar que eles estariam na mesma posição de tanto em tanto tempo. Sua principal base de observação tinha sido a Lua e dividira o ano em doze períodos lunares. Cada mês tinha vinte e oito dias. Mais tarde, séculos depois, veriam que em cada dezenove anos, era preciso colocar um ano com treze meses lunares para que as observações estelares coincidissem. Mas, a curto prazo, doze meses de vinte e oito dias já era um avanço para quem não tinha calendário nenhum.

Nimrud começou sua reunião externando a preocu­pação com a alimentação. As aldeias vizinhas não estavam dando conta de alimentarem tantas bocas. Começava a faltar comida.

- Precisamos de muito mais alimento. Não só para alimentar os trabalhadores, como também para o exército. Temos também outras necessidades. Precisamos comprar co­bre e arsênico para fazermos bronze. Também faltam-nos muitas outras coisas que precisamos adquirir, como madeira, tanto para construção como para móveis, arados e carroças. Para comprarmos tais materiais, precisamos de mais grãos.

Continuou sua exposição:

- Para aumentarmos a produção no campo, é preciso melhorarmos as técnicas agrícolas. Há séculos que nós planta­mos mal e colhemos pouco. Precisamos introduzir novos instrumentos. Em primeiro lugar, o arado de Agha e a carroça de Eanatum. Para fabricá-los precisamos de madeira e cobre. Quantos arados existem?

Agha respondeu: - Um.

Cocou a barba, pensou um pouco e indagou:

- Agha, quantos arados você pode fazer por dia?

O jovem olhou para o teto, procurando fazer algumas contas mentais e respondeu lentamente:

- Se nós tivermos uma forja alimentada continuamente, tendo material para a fabricação, e com cinco ajudantes, pode­mos fazer de oito a dez arados por dia.

- Você tem cobre e arsênico para fazer bronze?

- Muito pouco.

- Para quantos arados?

- No máximo uns trinta. Mas, se eu fizer arados, não fa­rei espadas. Atualmente, estamos fazendo espadas em um rit­mo de trinta por dia. Urgar encomendou-me seiscentas, e já fi­zemos mais da metade. Na realidade, falta material até para fazer as restantes. Estamos esperando uma caravana do Elam que deverá trazer estanho.

Agha descobrira, há alguns meses, que o estanho dava resultados melhores do que o arsênico.

- E o arsênico? - perguntou Nimrud.

- Prefiro estanho. Dá um bronze muito melhor. O arsê­nico libera odores que nos fazem vomitar. Além do que, o ar­sênico tem vindo do Norte e as caravanas rarearam recente­mente.

- Por quê?

- Eles têm sido atacados pelos gutos - respondeu Urgar.

- Onde podemos obter estanho? - perguntou Mesa­nipada.

- As caravanas que trazem estanho têm vindo do Elam, mas andam também rareando porque os elamitas têm cobrado um tributo muito alto para deixar as caravanas passarem. O es­tanho tem chegado a preços altíssimos. Além disso, as carava­nas que vêm do Elam são muito irregulares. Algumas trazem estanho, e outras, não. Não se pode contar com elas - respon­deu Agha.

Nimrud olhou para todos e concluiu:

- Nossa situação é difícil e muito precária. Precisamos aumentar a produção agrícola para poder alimentar a todos os operários. Precisamos introduzir o arado e a carroça o mais rá­pido possível. Além disso, existem terras ao leste e ao nordeste que não estão sendo trabalhadas porque são secas demais. Pre­cisamos levar água até aquelas bandas. Temos que abrir um grande canal, construindo dois ou mais açudes na região, des­locando trabalhadores para lá.

Parou de falar, enquanto reunia seus pensamentos. Fez uma pequena pausa e continuou:

- Para fazermos isso, precisaremos de mais trabalhado­res, mais enxadas, mais instrumentos, mais cobre, mais estanho e muito mais comida. Só vejo uma solução a curto prazo.

Todos ficaram olhando para ele à espera da solução. Ele perquiriu, ao invés de responder:

- Urgar, de quantos homens dispomos devidamente tre­inados e armados?

O chefe das armas respondeu imediatamente:

- Temos oitocentos e quarenta arqueiros, dois mil, qui­nhentos e oitenta lanceiros e trezentos e vinte homens com es­padas. Podemos marchar com três mil, setecentos e quarenta homens. Ademais, temos oitenta e cinco carroças para trans­portar víveres e armas, puxadas por dois jumentos cada.

- Quando você acha que podemos atacar o Elam?

Os olhos de Urgar brilharam de satisfação.

- Hoje - respondeu exultante.

Nimrud ficou pensando um pouco e disse:

- Temos que pensar nesse assunto um pouco mais. Ve­jam o que pode acontecer. Iremos ao Elam e tomaremos o estanho de que precisamos. Ainda assim faltará cobre. O estanho que tomarmos irá acabar em breve, e teremos que voltar para atacar o Elam novamente. Só que, dessa vez, os elamitas esta­rão preparados para o nosso ataque e, cada vez, tornar-se-á mais difícil.

Nimrud fez uma pequena pausa, e arrematou com uma voz decidida.

- Do que precisamos é de uma excursão de conquista e posse. Temos que construir uma cidade ou tomar uma cidade já existente no Elam e mantê-la. Assim poderemos fazer com que o fluxo do estanho seja permanente e certo.

Urgar interrompeu o raciocínio e lhe perguntou:

- Mas, dessa forma, precisaremos de muito mais gente. De onde retiraremos essas pessoas?

Nimrud já havia pensado nisso e respondeu com deter­minação:

- Eis o problema, Urgar. O que vejo é a necessidade de uma operação mais vasta. De nada adianta ir até o Elam e destruirmos, matarmos e tomarmos o que queremos. Em breve, teremos que fazer tudo de novo. Devemos recrutar nossa gente com a promessa de uma vida melhor, mais terras e melhores condições de vida.

Mesanipada interrompeu e apresentou uma sugestão ao plenário.

- Nimrud, acho que existe uma opção. Podemos tirar cinqüenta homens de cada aldeia e levar para o Elam. Eles ficariam lá com mil soldados. Nós voltaríamos com prisioneiros e substituiríamos os que enviamos por prisioneiros de guerra que passariam a trabalhar para as casas dos homens que levamos.

- A sua idéia é boa, mas será que os homens de nossas aldeias viriam de bom grado? - perguntou Nimrud.

Urgar respondeu com sua voz seca e taciturna:

- Eles não terão muita escolha!

Nimrud riu, mas no fundo estava preocupado. A maioria dos seus soldados provinha das aldeias. Não era boa política atacar as suas terras. Haveria mortes entre parentes e amigos e eles poderiam ficar ressentidos. Não era hora para demons­trar força. O momento era de persuasão.

- Não devemos usar a força contra os nossos homens, se temos outros instrumentos de pressão - interrompeu Anta­surra.

- Vocês esquecem que os deuses falam por nós e o que o grande deus Anu deseja deve ser satisfeito?

Nimrud tinha se esquecido dos deuses. É claro, usar os deuses era uma excelente opção. Mesanipada teve outra idéia.

- Usar os deuses é uma boa saída, mas poderíamos usar também a ganância do povo a nosso favor. O que mais faz falta ao povo do que trabalhadores? Resolveremos esse problema. Cada casa que ceder um filho, receberá três prisioneiros de guerra como escravo. Se não ceder voluntariamente, a ambição o fará vender até a sua mulher e filhos. Também poderemos oferecer terras novas para serem cultivadas. Quem ceder um varão em condições de lutar, receberá uma gleba de terra no nordeste, perto do rio Tigre. Que acham?

O grupo estava radiante. As idéias surgiam em catadupas e a forma de operar estava ficando cada vez mais clara. Urgar iria com Antasurra, que faria a pregação, falando das or­dens dos deuses e oferecendo as vantagens. Quem fosse até o Elam, ganharia três prisioneiros para trabalhar as novas terras a serem cultivadas ao nordeste de Erech.

Os próximos dias foram de grande agitação. As aldeias foram visitadas e Antasurra em sua roupa de cerimonial fazia sua arenga. Algumas aldeias tinham muitos jovens de quatorze anos ou mais que se predispuseram imediatamente a ir para o Elam. Nas aldeias menos povoadas, os homens não se mostraram muito dispostos a largar tudo e partir. De qualquer modo, Nimrud não queria mais do que mil e quinhentos ho­mens. Mais do que isso faria falta aos campos já depauperados de trabalhadores, exigindo um deslocamento maior do que es­tavam preparados para fazer.

Dois meses depois da reunião que decidira a invasão do Elam, a tropa partia com três mil soldados, deixando Erech protegida por setecentos homens sob o comando de Mesani­pada. Iam também mil e trezentos civis para se implantarem nas montanhas Zagros, terra dos elamitas.

Durante dez dias, a tropa se deslocou, atravessando o rio Tigre e vários outros menores. A travessia era sempre um grande problema, sendo solucionada de forma complexa e perigosa. Alguns homens atravessavam a nado para o outro lado, com cordas amarradas na cintura. Em futuro próximo, passariam a usar bexigas cheias de ar para flutuarem. Não era incomum alguns morrerem nessa tentativa e os que consegui­am passar para o outro lado esticavam as cordas que haviam amarrado na cintura por sobre o rio. Procuravam amarrar a corda em árvores e pedras, e a tropa passava agarrada nas mesmas. Mesmo assim, alguns homens morriam. Quando conseguiam passar um número razoável de soldados, eles amarravam grossas cordas e puxavam pequenas balsas que le­vavam não só o grosso do exército como também os jumentos, os bois e as carroças. Era uma operação demorada e arriscada que nem sempre terminava bem.

A região era desconhecida dos sumérios e Nimrud estava sendo guiado por um homem que a conhecia, já que trabalhara em algumas caravanas elamitas. Depois de alguns dias de marcha, chegaram aos pés da serra e iniciaram a lenta subida aos altos morros. Nimrud destacara cinco patrulhas de dez homens para fazerem um reconhecimento adiantado. Não queria ser surpreendido em terras estranhas. No terceiro dia, após subirem várias escarpas e passarem por entre montanhas, avistaram uma pequena aldeia elamita de, no máximo, qui­nhentas pessoas.

Os elamitas eram um povo nômade, branco, indo-ariano, parecido com os sumérios, que vivia de forma nômade pelas montanhas Zagros e o planalto iraniano. Esses morros não eram próprios para agricultura, mas ofereciam razoável quantidade de comida que podia ser recolhida das árvores, e eram cheios de estanho, cavado de forma rudimentar. Alguns rios da região tinham estanho que era lavrado como se fosse ouro.

Nimrud preparou sua tropa para um rápido e fulmi­nante ataque que, bem concatenado, pegou o acampamento de surpresa. Houve poucos combates e os sumérios tiveram duas baixas e o inimigo perdeu dez homens. Em alguns mi­nutos, a aldeia estava sob o domínio dos sumérios. Terminada a batalha, Nimrud reuniu todos os elamitas e os passou em revista, analisando-os um por um. Aqueles em que ele notou uma centelha de orgulho, de eventual rebelião ou excessiva subserviência, separou dos demais. Contou dezenas de homens perigosos, na sua concepção, de várias idades, retirou-os do agrupamento e mandou executá-los friamente. Suas cabeças foram cortadas à vista dos outros e, usando o guia, que também era intérprete, disse aos demais cativos:

- Os que se sujeitarem ao nosso domínio, serão pou­pados. Serão levados de volta a Sumer, onde servirão ao grande deus Anu, ou ficarão aqui para lavrar o estanho de seus rios e de suas minas. Os que se revoltarem ou não trabalharem a contento, serão mortos como foram esses homens. As mulheres e as crianças nos acompanharão e nada lhes acontecerá se obedecerem. Caso contrário, serão mortas, pois, na minha concepção, as mulheres e crianças não são diferentes dos homens.

O terror estava estampado nas faces dos elamitas. Não havia como resistir. Mais de quatrocentos prisioneiros foram tomados naquele dia.

A campanha no Elam continuou por mais um mês lunar. Oito vilarejos foram destruídos e mais de cinco mil prisioneiros tomados. Em cada aldeia, repetia-se o ritual macabro de se­lecionar os perigosos e matá-los publicamente. Numa das aldeias, Nimrud aproveitou para matar também três mulheres e duas crianças, sendo que uma apresentava um aleijão de nascença e outra, no início da adolescência, tivera a ousadia de encará-lo cheia de petulância.

Descobriram uma pequena mina de estanho que era trabalhada por uma das aldeias. A produção era pequena, mas o veio oferecia boas possibilidades. Mais uma vez a engenhosidade de Nimrud se fez presente. Destacando um chefe de falange que era mais habilidoso, ele se instruiu sobre como se minerava e, junto com o seu grupo, instituiu aprimoramentos no sentido de aumentar a produtividade da mina.

Perto do local da mina, foi montado um acampamento. Dos cinco mil prisioneiros, cerca de mil foram postos a traba­lhar para construir um vilarejo que foi cercado de altas paliçadas de madeira, que era farta na região. A cidade foi chamada de Susa em homenagem à Suméria e à conquista do Elam. Susa tomar-se-ia uma grande cidade, futuramente a capital do Elam, importante fornecedora de estanho e ma­deira.

Retornaram a Erech após três meses de viagens e con­quistas, com as carroças cheias de estanho, árvores, alimentos exóticos, armas de bronze e outras riquezas do Elam. Entre­tanto, uma surpresa desagradável esperava por Nimrud no seu retorno: Erech havia se revoltado em sua ausência. Mesani­pada, a muito custo, conseguira debelar com seus setecentos soldados um início de rebelião comandada pelos anciãos de Erech, que nunca aceitaram a dominação dos recém-chegados. Durante duas semanas, o grupo de Mesanipada refugiou-se no templo ainda em construção e resistiu bravamente aos ataques ferozes, mas sem concatenação, dos revoltosos.

Nimrud atacou com sua tropa e, cercou os revoltosos na grande praça que antecedia o templo. Os combates foram terríveis, já que os insurrectos lutavam por suas vidas. Rapida­mente, Urgar e sua tropa de elite exterminaram os dissidentes em combates furiosos. Alguns homens imploraram por cle­mência, mas Urgar estava particularmente feroz naquele dia e preferiu que todos fossem mortos.

Nimrud teve um acesso de fúria, ordenando a prisão dos Anciãos, e mandou matá-los sem dó, nem piedade. Dois mil cento e trinta e cinco homens foram mortos e seus corpos dilacerados jogados às feras que margeavam os pântanos do Eufrates. Dominada a rebelião, Nimrud, irritado com o fato, resolveu mudar o nome da cidade. Não seria nunca mais conhecida como Erech e quem pronunciasse esse nome seria banido ou morto. Daquele dia em diante, seria chamada de Uruck. A Bíblia a conhece como Arac. Com o sangue dos revoltosos, Erech deixou de existir, e a grande cidade de Uruck nascia. Uruck seria a primeira cidade-estado, onde leis, regras e uma administração burocrática e profissional seriam ins­tauradas. Ainda naquele tempo, Uruck atingiria a população total de trinta mil habitantes. Após Uruck, o mundo não seria mais o mesmo. A civilização estava definitivamente implantada na Terra.

Os homens de Nimrud estavam felizes e satisfeitos com o butim de conquista do Elam. Novas mulheres foram dis­tribuídas entre os soldados, e as terras do leste e do nordeste foram doadas para os que melhor se desempenharam na conquista. A maioria das terras do vale, no entanto, ficou reservada para o deus Anu e seus seguidores. Para todos os efeitos, Nimrud era o supremo sacerdote do deus Anu, o ensil - o rei-sacerdote. Antasurra e os outros apenas cuidavam do dia-a-dia do deus. Uma grande estátua do deus Anu estava sendo feita com pedras trazidas do Elam. Tudo isso fora gerado por um fato estranho presenciado por Akurgal e Antasurra e acontecera alguns dias depois do retorno de Nimrud ao Elam.

O templo não estava ainda pronto e Akurgal, premido por um sentimento possante, resolveu levar um carneiro para ser morto ao deus Anu. Subiu com o pequeno terneiro, branco como a neve, levando-o pelas incompletas escadarias até o topo, onde um altar tinha sido começado, mas não estava pronto.

Havia sentido este desejo logo depois do jantar e, mesmo contrariando sua razão e os rogos de Antasurra, seu amante, ele selecionou o vitelo, levando-o para o topo do altar. Anta­surra havia-lhe dito que era um desperdício de tempo e esforço, mas Akurgal queria ir assim mesmo. Ele fez um muxoxo, alisou o rosto de Antasurra com a mão espaldada num gesto de carinho e o convidou para ir com ele. Antasurra acabou assentindo, contrariado e, afinal, o que não faria por Akurgal?!

A noite era clara, o silêncio reinava sob uma magnífica lua plena. Devia ser para mais de dez horas da noite quando Akurgal chegou ao topo. Escorregara duas vezes na escadaria, mas não caíra. O terneiro berrava baixinho de vez em quando e Akurgal falava com ele, mansamente, com sua voz feminil. Quando chegou ao topo do templo, com sua cobertura ainda por terminar, ele viu a pedra sacrificial colocada sobre a estru­tura onde ele iria matar a oferenda.

Antasurra era um descrente, mas Akurgal havia sido possuído várias vezes pelos deuses. Rolara no chão, babando e grunhindo quando pequeno, e todos diziam que era a doença sagrada. No entanto, ele não perdia a consciência. Lembrava-se de tudo depois. Naquelas horas, ele vaticinava sobre a colheita, a gravidez das mulheres e a sorte dos homens nas caçadas. A aldeia de Adab acostumara-se a ouvi-lo, pois nunca errava!

No topo, o terneiro se debateu e Akurgal pediu ajuda a Antasurra que, de má vontade, segurou o animal. Sem muitas palavras, já que ninguém estava vendo, Akurgal degolou o infeliz bicho que estrebuchou enquanto o sangue esguichava de sua jugular. Naquele momento, uma sombra medonha se interpôs entre a lua e os ofertantes. Antasurra olhou para cima, e, assustando-se, largou o terneiro e ficou atônito, olhando para a aparição. Akurgal levou mais tempo para ver do que se tratava, mas, após tomar consciência do que estava vendo, assustou-se terrivelmente, e prostrou-se de joelhos.

Da jugular aberta do carneiro emanava um fluido branco, leitoso, que evolava lentamente em direção a um espectro medonho. Os dois sacerdotes de Anu viram, então, de forma cada vez mais nítida, um homem gigantesco, de três metros de altura, pele púrpura, duas enormes asas negras que saíam do seu dorso. Sobre a sua cabeça, um grande capacete com plumas raras que encimava um rosto estranho de olhar feroz. Usava uma grande lança e uma espada na cintura, vestindo-se com uma curta túnica vermelho-vivo que deixava à mostra suas pernas brutalmente fortes e levemente arqueadas. Seu torso era recoberto por uma armadura de escamas argenti­nas que brilhavam, dando-lhe um aspecto horrendo.

Antasurra deixou-se cair lentamente de joelhos e, levan­tando as duas mãos juntas em direção à aparição, disse, com um fio de voz subjugada por um indizível pavor:

- Oh, grande deus Anu, receba esta oferenda dos seus humildes servos.

A assombração riu-se de forma desbragada, jogando seu torso para trás e, numa voz límpida e clara, grave e cava, disse:

- Sou Oanes, seu deus, seu guia e seu rei.

Os dois homens entenderam o que aquela visão dissera e ficaram ainda mais amedrontados. Eles entenderam que Oanes era Anu. Quem seria este Oanes de aspecto tão me­donho? O espírito respondeu-lhes, como se houvesse lido suas interrogações:

- Sou o chefe de uma poderosa legião que domina esta terra. Atravessei os mares que circundam o mundo em enormes barcas que nos trouxeram até estas plagas. Vim com meus soldados para tornar-me um deus, um guia de homens e um rei. E assim será!

Aquilo tudo era extremamente misterioso para os dois assustados servidores do deus dos céus. Ele falava como um homem e não como um deus. Será que ele não era o deus Anu? Onde estava então o temido deus? Será que ele realmente existia ou era fantasia dos anciãos? Oanes respondeu-lhes com sua voz cava:

- Chamem-me de Anu, se isto irá satisfazê-los. Meu nome verdadeiro não tem importância. Que isto fique entre nós. Digam que vocês falaram com Anu e que, através de vocês, eu darei minhas ordens.

Akurgal, completamente dominado pela visão, pensou o que tudo aquilo representava, e o espírito, lendo suas perquirições mentais, respondeu-lhe:

- Nós todos fomos trazidos para este lugar para nos tornarmos humanos. Todos não passamos de bestas-feras e só através de muitas vidas nos transformaremos em homens. Eu estou aqui para guiá-los nesta difícil senda.

Antasurra, que tudo via e escutava, tomou-se de coragem, e perguntou:

- O que deseja de nós, oh grande Oanes?

O espírito, subitamente, mostrou-se com toda a sua legião de asseclas. Atrás dele apareceu uma dezena de espíritos muito semelhantes a ele e, mais atrás, cerca de uma centena de aparições fantasmagóricas. A voz tonitruante de Oanes ex­plodiu no cérebro dos dois:

- Desejamos ser cultuados todos os dias. Queremos que nos ofereçam carneiros, bois, cabras e aves no altar do sacrifício. Façam uma estátua de Anu e glorifiquem o nome do deus com oferendas diárias. Queremos o sangue dos nossos inimigos, dos homens que se opuserem à nossa dominação. Desejamos ver o sangue dos inimigos de Uruck escorrendo sobre o altar!

Enquanto assim falava, sua fisionomia tornou-se ainda mais estranha e impressionante. Akurgal desmaiou de susto e Antasurra meneou a cabeça, abobalhado e boquiaberto.

Como um fantasma, a aparição desapareceu lentamente na noite clara. Os dois levaram alguns minutos para recupe­rarem o fôlego. Antasurra foi buscar água para Akurgal. Depois que ele voltou a si, conversaram sobre o que tinham ouvido e visto. Na verdade não tinham idéia do que se passara. Enten­deram que Oanes era Anu. Quem sabe este era um outro nome para o deus? Como o fantasma dissera que havia atravessado o oceano em enormes barcas e viera com sua tropa - aqueles que apareceram por trás dele - logo imaginaram que eles haviam vindo fisicamente num barco. Mas de onde eles vieram? De que terra ignota?

Correram e contaram com riqueza de detalhes para Nimrud e Mesanipada, que conversavam após a refeição da noite, sobre o que havia acontecido. Eles disseram que Oanes era o chefe guerreiro que viera para aquela terra para dominar e tornar-se um rei. Que eles deviam sacrificar animais e homens para este terrível deus. Mesanipada entendeu que devia tratar-se do espírito de um falecido guerreiro que havia aportado naquelas plagas vindo de distante terra, através do mar, e que devia estar vagando por entre as casas de Uruck. Ele achou por bem seguir o que aquele espírito pedira, já que devia estar com fome no outro mundo. Mesanipada, pragmático como sempre, achou que deviam não só oferecer tudo o que ele pedira, mas sempre lembrá-lo de que Nimrud e seu grupo eram seus aliados. O turtanu de Nimrud acreditava que seria bom ter aliados no mundo espiritual.

Nimrud, por sua vez, após meditar a sós por alguns minutos, achou a idéia toda fantasiosa, acreditando que devia ter saído da cabeça de Akurgal, que era dado a alucinações. Ele devia ter influenciado Antasurra com suas histórias de deuses, demônios e espíritos. Ele não acreditava em nada disso, mas sempre achava um modo de tirar proveito dos deuses e da crença da população. A partir deste ponto, ele começou a construir a idéia de uma dominação cada vez mais acirrada sobre o povo, impedindo-o de se revoltar contra seu poder, usando para tal o medo aos deuses, os castigos pelas faltas cometidas e, especialmente, aos pecados inconscientes. Com isso os sumérios tornaram-se um povo cheio de culpas, acredi­tando que todas as coisas ruins que lhes aconteciam eram frutos de seus pecados, mesmo quando a consciência não os acusasse de nada.

Por outro lado, Mesanipada, sob o olhar condescendente de Nimrud, incentivava a Akurgal, Antasurra e um grande grupo de novos sacerdotes a praticarem magia negra. Tudo era permitido, desde que fortalecesse o poder de Nimrud, da recém constituída religião e dos sacerdotes que passaram a dominar cada vez mais as pessoas. A saúde era uma prerro­gativa dos sacerdotes, que curavam fazendo magia, ou pelo menos assim o afirmavam. O povo pagava caro para ter semen­tes abençoadas por Ninkilim, a deusa dos campos e dos ratos. As casas deviam ser limpas sob severos rituais que custavam carneiros e bodes aos donos. E assim, Uruck foi se tornando o centro de uma magia imitativa que obtinha resultados impres­sionantes.

Com a chegada de uma caravana trazendo cobre da Ásia Menor, puderam fazer muitos arados, e Agha viajou pelas aldeias mostrando o novo produto. Os jovens logo aderiram a essa nova peça, e os campos começaram a ser arados com pro­fundidade conseguindo-se um aproveitamento da terra muito melhor. Antes, o arado tosco apenas arranhava o solo e as sementes ficavam muito expostas ao sol tórrido, germinando menos de um terço delas. Agora, com o novo arado, a lâmina penetrava mais fundo, revolvendo a terra fértil da Mesopotâmia e protegendo mais e melhor as sementes que brotavam. Em poucos meses, a produtividade quadruplicou. Nimrud dedicava boa parte do seu tempo e esforço em conduzir os assuntos do nascente estado de Uruck. A cidade recebia visitan­tes de vários outros lugares da Suméria e muitos se fixavam, atraídos pelo florescente comércio. A maioria dos recém-che­gados a Uruck eram artesãos que sabiam trabalhar o ouro e a prata, assim como faziam belíssimas obras em lápis-lazúli, trazi­do do planalto iraniano.

Nimrud sentia crescente necessidade de mais material para ser empregado, assim como o uso de mais mão-de-obra barata. Os escravos incrementavam os negócios, aumentando o tempo livre dos donos de terras para que fizessem outras atividades, na maioria das vezes mais lucrativas, tais como o comércio, a agiotagem, a guerra e a pilhagem.

Nimrud foi apresentado a um jovem rapaz que navegava o Eufrates, ganhando a vida como pescador. O rio era muito piscoso e o peixe fazia parte da dieta dos sumérios. Agha, nas suas andanças para vender-lhe arados e carroças, conhecera o pescador ao tentar vender um dos seus implementos agrícolas. O pescador lhe dissera que não precisava, já que ganhava ávida com pescaria. A maioria dos pescadores pescava com varas ou lanças, com resultados mínimos. Agha ficara vivamente impressionado com o novo sistema daquele jovem que desenvolvera um barco feito de juncos e caniços da beira do Eufrates. Até este ponto não havia novidades, pois já existiam barcos seme­lhantes. O jovem usava uma rede, tosca, é verdade, mas muito eficaz, e conseguia pescar mais peixes num dia do que a maioria num mês. Agha não pôde deixar de levá-lo à presença do grande chefe que estava com seu turtanu.

Agha explicou o que o jovem fizera e Nimrud, que tinha pedido que todas as novidades lhe fossem trazidas para uma avaliação pessoal, sorriu satisfeito. Realmente, era uma idéia engenhosa, mas o que lhe chamara a atenção era o fato de o rapaz ter feito um navio sozinho, e era isso que lhe dava real valor perante os olhos de Nimrud.

- Quantos homens cabem no seu bote?

- Apenas dois, lugal Nimrud - dissera o jovem, timida­mente.

- Você acha que seria capaz de fazer um barco maior?

- Não sei, lugal. Mas, grande como?

- Grande o suficiente para carregar mais de dois mil quilos de cobre.

- No meu barco, posso carregar cinqüenta quilos de peixes. Acho que se tentasse fazer um maior, provavelmente conseguiria.

- Diga-me, como é seu nome, jovem?

- Urshanabi, seu humilde servo, Grande lugal.

- Você gostaria de fazer um grande barco, Urshanabi, suficientemente grande para caber cinco mil quilos de mercadorias e dez homens?

O jovem espantou-se, sentiu medo e baixou a cabeça, esfregando as mãos nervosamente uma na outra.

- Oh! Grande Nimrud. Não me peça isso! Eu nunca fiz nada parecido e tenho medo de não lhe ser útil. Se eu fracassar, sem dúvida, sua ira será grande e serei passado na espada.

- Seu medo é infundado. Nunca mandei matar um homem que trabalha para mim e não assassinaria alguém que vai tentar algo novo. Sou amigo das invenções e da arte.

Nimrud levantou-se de sua cadeira e começou a andar pela sala, excitado, pensativo.

- Vou lhe dar uma equipe de cinco homens e quero que tente. Se você conseguir, tornar-se-á imensamente rico e pode­roso, tendo um lugar assegurado ao meu lado. Se falhar, voltará para as suas pescas e nada farei para o prejudicar. Essa é a palavra do lugal.

O jovem, que tinha se mantido de pé, ajoelhou-se e seus olhos encheram-se de lágrimas. A fama de Nimrud era de ser terrível, não devendo ser desobedecido, caso contrário, o de­safeto seria morto. O jovem chorava de medo e não de satisfação. Nimrud aproximou-se do jovem, tomou o seu braço, ajudando-o a levantar-se e lhe disse calmamente:

- Não tenha medo, Urshanabi. O grande deus Anu o escolheu para uma grande missão, e ele, na sua magnificência, nunca erra. Se você dedicar-se ao trabalho e tiver confiança em Anu, será vencedor.

O rapazinho, que não passava dos quinze anos, ficou mais calmo com a atitude amável e paternal de Nimrud, que tivera a intuição de que esse jovem era mais do que os olhos podiam ver. Havia nele aquele mesmo brilho de inteligência, argúcia e angústia que caracterizava a nova geração.

Com a saída de Urshanabi, acompanhado de um estu­pefato Agha, Mesanipada, que acompanhara a conversa, per­guntou qual o motivo de fazer um grande navio para carregar tanta gente e tantos quilos. O Eufrates, em sua opinião, jamais poderia fornecer tanto peixe assim.

- Não é para pescar no Eufrates que quero o navio. Veja bem, Mesanipada, os antigos nos disseram que existe um mar além do rio que é formado pela união do Tigre e Eufrates. Esse mar leva a terras distantes e as caravanas que passam, beiran­do-o, trazem marfim, cobre, madeira e especiarias finas. É óbvio que, se pudermos fazer essa rota de barco será melhor do que fazê-la a pé. Poderemos transportar mais coisas e ir mais longe do que qualquer caravana. Além do que, não existem bandidos ou tributos para impedir uma embarca­ção de ir e vir.

Mesanipada sempre se espantava com Nimrud. Por mais que ele tivesse boas idéias, o seu chefe parecia sempre es­tar pensando em coisas anos à frente.

Urshanabi levou dois anos para construir o barco defini­tivo. O primeiro adernou ao ser lançado ao rio. O segundo era duro demais e se quebrou na junção do Tigre e do Eufrates, de­vido às pequenas ondas formadas pela união. O terceiro flutu­ava perfeitamente, mas Urshanabi não conseguia manobrá-lo bem e acabou à deriva, encalhando num banco de areia. Final­mente, o quarto e último barco navegou rio abaixo e voltou. Foi mostrado a Nimrud que não quis subir a bordo, preferindo acompanhá-lo por alguns quilômetros rio abaixo, confortavelmente sentado numa carroça puxada por dois jumentos.

Finalmente, chegou o dia de navegar à procura de novos mercados. A bordo, iam Urshanabi, oito marinheiros e dois guias que já tinham sido caravaneiros e conheciam as línguas estrangeiras. Junto com eles foram cinco toneladas de cevada, cerveja, óleo e outros produtos sumérios.

Enquanto Urshanabi desenvolvia seus pendores de construtor naval, Nimrud atacara a região de Acad e fizera considerável número de prisioneiros, trazendo cobre, estanho, frutas, cerâmica, prata e ouro. Mais de oito mil prisionei­ros foram escravizados e duzentos e setenta e cinco homens fo­ram martirizados como exemplo para os demais. Os combates foram acirrados, mas os semitas acadianos lutavam de forma desorganizada e não foram páreo para as falanges disciplina­das de Urgar.

Nesse mesmo período, enquanto Nimrud descansava de suas aventuras na terra de Acad, nos braços de uma beleza acadiana, recebeu notícias de que a margem direita do Eufrates es­tava sendo atacada por bandidos semitas, vindos dos desertos árabes. Reuniu sua tropa, cruzou o Eufrates e atacou os caldeus, quando eles estavam cercando a cidade de Eridu, uma das mais velhas de Sumer, que, no entanto, não passava de um vilarejo um pouco maior do que a antiga Erech. Uruck já tinha quase trinta mil habitantes e Eridu não chegava a cinco mil.

As tropas bem equipadas e bem treinadas de Nimrud, sob o comando do implacável Urgar, destroçaram os caldeus e se muitos fugiram é porque usavam camelos, animais desconhecidos de Nimrud e que iam mais rápido do que qualquer homem a pé. Os sumérios não tinham cavalaria e não gostavam de montar nos seus jumentos. Esses animais eram relati­vamente lentos e empacavam muitas vezes, exigindo grande dose de paciência para movimentá-los. Alguns eram ferozes, dando coices terríveis e mordidas abomináveis quando eram montados. Os caldeus que ousaram enfrentar os guerreiros de Uruck foram mortos ou feitos prisioneiros.

Nimrud entrou em Eridu como o salvador da cidade. Foi festejado durante dias e pôde conversar longamente com os conselheiros da cidade. Os anciãos não lhe deram muito ouvidos, mesmo que escutassem atentamente com grande respeito e temor. Nimrud explicou o que fizera em Uruck, mas a sua fama de homem destemperado e feroz lhe precedera. As coisas boas que desenvolvera em Uruck ficaram no esquecimento, mas o mal que fizera se propagara enormemente.

Para os anciãos de Eridu a idéia de construir muralhas, de terem um exército para se defender, arados de bronze, carroças, e outras novidades não lhes apeteceu. Afinal, Eridu tinha mais de três mil anos e nada mudara naquele período. Na opinião dos mais velhos as novidades eram perigosas, pois desvirtuariam as novas gerações, exterminando a tradição. Para o Conselho de Anciãos de Eridu, a tradição era a certeza da continuação das coisas e da garantia da subsistência de sua raça.

Em Eridu, no entanto, também existiam jovens com olhares argutos, inteligentes e angustiados. Também tinham sido discriminados, quando menores, por serem diferentes e estarem sempre querendo mudar as coisas. Com esses, as palavras de Nimrud encontraram terreno fértil. Muitos pedi­ram para voltar com ele para conhecerem Uruck e foram bem recebidos pelo líder. Muitos anos depois, alguns voltariam a Eridu e transformariam aquele pequeno vilarejo numa cidade tão importante como Uruck. No entanto, as transformações maiores viriam com a descendência de Nimrud.

 

Nimrud tinha quatro filhos, três homens e uma mulher. Sua idade estava por volta dos trinta anos. O seu filho mais velho era chamado de Banda. Com a morte do pai, viria a se tornar rei de Uruck, tomando o nome de Lugalbanda. Haveria após sua morte quatro descendências importantes. Lugal­banda teria um filho que o sucederia denominado de Emmerkar que teria, por sua vez, um primogênito que ascenderia ao trono chamado Dumuzi que, por sua vez, teria um filho - Gilgamesh - que se tornaria famoso através de um longo poema épico. A epopéia de Gilgamesh seria uma mistura de fatos reais de Gamesh o Grande, rei de Uruck e de lendas orientais de imortalidade e de monstros e deuses.

Dumuzi tornar-se-ia famoso e entraria na história como um deus que viera ensinar os homens a ler e escrever. Muitos acharam que fora ele o inventor da escrita, mas, na realidade, ele fora apenas o que dera maior impulso à mesma, tendo montado várias escolas. Dumuzi iria alterar a escrita pictórica para uma escrita mais fonética, baseada em sons. Nas lendas sumérias, Dumuzi seria o homem que teria feito os homens passarem do estágio rural para o urbano, mas seu bisavô, o famoso Nimrud, que a Bíblia chama de Nemrod, "famoso caçador perante Jeová, o primeiro poderoso da Terra", é que introduziu esse estágio através do uso da religião e do terror.

Dumuzi, no entanto, seria o grande impulsionador das mudanças introduzidas por seu bisavô Nimrud. Ele propagaria através de toda a Suméria e regiões vizinhas uma forma de governo em que cada cidade teria seu próprio Conselho de Anciãos, mas obedeceria a um único poder central, fixado no ensil de Uruck.

As lendas sobre as caçadas de Nimrud foram, em parte, verdadeiras e em parte forjadas pela propaganda oficial. Nim­rud era realmente hábil com o arco e flecha, mas o grande número de animais abatidos, num único dia de caça, dava-se muito mais devido ao fato de que seus amigos, ao os abaterem, outorgavam o feito ao ensil. As lendas acabaram por notabilizá-lo como grande caçador perante Deus e sua fama chegaria até nossos dias graças à Bíblia.

Com a revolução cultural suméria, o número de palavras cresceu de forma assustadora. Novos empregos e técnicas fize­ram nascer vocábulos que os mais velhos não conheciam, dificultando a difusão de novas idéias. Em menos de dezoito anos, cerca de cinco mil novas palavras foram introduzidas, assim como tempos verbais, aglutinações, sufixos, flexões e infixos. A língua suméria primitiva, quase infantil, proto-indo-européia, recebeu uma influência tamanha que se modificou a ponto de não se reconhecer mais sua origem, a não ser por um ou outro vocábulo.

 

Dois anos depois da partida de Urshanabi para o desco­nhecido, ele voltou são e salvo, trazendo especiarias, marfim e outros bens. Entre as novidades, ele trouxe sete belíssimas mulheres, das quais deu duas de presente a Nimrud, uma para Mesanipada, que não aceitou a sua prenda dando-a para Nimrud, uma para seu benfeitor Agha, uma para Urgar e ficou com duas magníficas mulheres. Elas eram totalmente diferen­tes das mulheres sumérias, sendo de pele preta, de olhos negros imensos, com um cabelo negro, liso, comprido e cheio.

Urshanabi foi levado à frente de Nimrud pelo seu amigo Agha e relatou sua viagem. Contou as peripécias marítimas de forma rápida e, finalmente, contou que havia aportado num lugar de luxuriante beleza onde, após vagar alguns dias, bei­rando a costa, encontrou um vilarejo. A surpresa foi enorme por encontrarem pessoas de pele negra, hospitaleiras e que se vestiam de forma simples, mas colorida. O guia não conhecia a língua nativa e durante alguns dias tiveram enorme di­ficuldade em se comunicar com os nativos. No entanto, foi através de sinais e gestos que conseguiram se entender.

A viagem de ida havia tomado duas luas e mais um pouco e lá ficaram fundeados por quase vinte luas. Aprenderam a língua local com grande dificuldade e puderam, após algumas luas, se entenderem razoavelmente bem. Tratava-se de uma língua dravídica, uma variação do tâmil, e a localidade era chamada pelos locais de Magan. Era próxima de um grande rio que eles chamavam de Meluhha, dando nome a toda a região.

Pelas explicações de Urshanabi, os nativos eram pessoas simples, muito pouco afetos à guerra, e que cultivavam de for­ma extremamente rudimentar seus campos. Suas casas eram arredondadas e suas aldeias pequenas. A mortalidade era alta devido a doenças e o intrépido navegador informara ao poderoso Nimrud que não havia muita diferença entre a civilização dos dravídios e a dos sumérios antes do nascimento de Nim­rud.

A excursão marítima, portanto, tinha obtido inegável êxito, mesmo que não tivessem encontrado nenhuma civiliza­ção igual à deles. Compraram marfim, madeiras, cobre e espe­ciarias em vários pequenos povoados de gente negra na lon­gínqua terra dos dravídios que, futuramente, seria chamada de Índia.

Um dia, a irmã de Nimrud, Geshtinanna, veio procu­rá-lo. Ela era casada com um homem bem mais velho do que o irmão e continuava pobre, vivendo em Shurupak. Geshtinan­na estava preocupada com seu pai. Sua mãe morrera havia al­guns anos e Nimrud não participara do seu enterro, já que es­tava em campanha contra os arameus ao norte. O velho Cus estava muito doente e Geshtinanna não podia tomar conta dele. O seu próprio marido estava cansado e não tinha escra­vos para trabalhar o seu pequeno pedaço de terra. O velho ho­mem estava doente e Geshtinanna pediu que Nimrud o acei­tasse até o último dos seus dias.

Nimrud mandou vir o pai, não porque o amasse, mas, se não o fizesse, estaria dando um mau exemplo e o líder, em sua opinião, deveria sempre dar exemplos construtivos ao seu povo, para continuar sendo venerado e amado. O pai foi insta­lado num quarto afastado e alimentado convenientemente. O velho estava muito alquebrado e não resistiria muito tempo. Alguns meses depois de ter sido instalado no palácio de Nim­rud, Cus pediu para falar com o filho; sentia que suas forças se esvaíam e queria vê-lo pela última vez. Nimrud atendeu o seu pedido um tanto contrariado. Desde que o pai chegara, nunca fora vê-lo. Não tinha, portanto, idéia de como estava velho, cansado e doente.

Nimrud atravessou os compridos corredores do seu palácio e entrou no pequeno quarto onde estava seu pai. Levou um susto ao ver o pai deitado na cama, pois estava macérrimo. A cabeça tinha poucos cabelos que estavam totalmente brancos. O velho, ao vê-lo, acomodou-se na cama baixa e ficou encostado à parede para melhor olhá-lo. Ambos se observaram por um instante. Todos os dois estavam diferentes. O pai alquebrado e o filho, cheio de pompa e soberba, com uma túnica azul com detalhes em ouro e adornado com várias jóias de ouro e prata. Os seus cabelos estavam bem cortados, a barba aparada e exalava perfumes exóticos, vindos de além-mar.

- Você está muito bonito, meu filho - disse-lhe o pai com uma voz fraca, quase sumida.

Nimrud nada disse. Sentou-se num banco e o escravo saiu correndo à procura de um assento mais digno do lugal. Em alguns segundos, voltou com cerveja e mais dois escravos trazendo uma poltrona alta, com almofadas macias e perfumadas. Nimrud acomodou-se novamente, sentando-se com majestade, e olhou para o pai, com a bebida na mão, e lhe perguntou:

- O que deseja de mim?

Nimrud estava visivelmente perturbado com a figura paterna. Acostumara-se a ver um homem simples e sem co­nhecimentos especiais, um camponês rude e ignorante, mas que sempre o tratara bem. Grande parte do desprezo que nutria pelos pais era uma reação à forma como fora tratado por eles. Os seus pais sempre foram bondosos, mas não sabiam responder às suas perguntas, repreendendo-o constantemente por querer alterar os costumes. Com o tempo, foram se tor­nando irritadiços com Nimrud, e isso é que fez com que o jovem se colocasse distante deles. Não havia nada em comum entre eles, e Nimrud encontrava as mesmas perguntas e dúvidas entre seus amigos, o que os aproximava. Não havia ódio entre pai e filho, apenas distanciamento.

Cus vivia assomado pela dúvida e angústia de entender as ações do filho e achava que ele era o culpado pelo lugal ser o que era. Nimrud, por sua vez, estava perturbado já que, agora, olhava para um homem velho, magro, de triste figura, desdentado e com tremores nas mãos. Será que o seu próprio fim seria assim?

O pai começou a falar com seu filho com grande cuidado. A fama de irascível de Nimrud era terrível e nem mesmo o pai estava certo de poder lhe falar sem criar perigo para si.

- Quero que você entenda minhas perguntas, meu querido filho. Não são para perturbá-lo, mas para que eu, um velho homem, entenda as ações do seu filho.

Nimrud não tinha respeito pelo pai, mas escutava-o atentamente. Com um gesto altaneiro, deu a entender que o velho podia continuar e fazer as perguntas que quisesse.

- Tenho visto as coisas incomparáveis que você fez e fico muito orgulhoso disso tudo. O arado realmente melhorou muito as nossas plantações junto com os novos canais que você mandou abrir. A carroça facilitou nossa vida, assim como o uso do boi e do jumento. A nova cidade que você fundou é belís­sima, com muralhas imponentes e um templo grandioso. Mui­tos me falam que estamos desenvolvendo novas técnicas que chamam de astrologia, matemática e formas de contabilizar as safras.

O monarca começou a dar sinais de irritação. Aonde o velho queria chegar? Cus sentiu que precisava ser mais objetivo e concluiu:

- Reconheço que você mudou a face de Sumer. Mas, gostaria de saber se tudo o que foi feito não poderia ter sido realizado de outra maneira.

Olhou intrigado para o pai e lhe perguntou:

- Que outra forma?

O velho parecia estar escolhendo cuidadosamente as palavras: não queria ofendê-lo.

- Bem! Quando você nasceu, não existiam escravos. Um ou outro prisioneiro de guerra era usado em trabalhos até que seu resgate fosse pago. Hoje, os homens são escravos para toda a vida. Não há resgate e nem uma forma de eles comprarem a liberdade. Acabam morrendo como escravos.

- E daí?

- Sou um homem simples e nada conheço dos novos tempos, mas isso não me parece justo.

- Por que não é justo? São seres inferiores. São como animais. Não se dá liberdade aos animais. Eles trabalham até que estejam muito velhos. Esses prisioneiros são iguais aos animais. Veja como vivem e o que pensam. Não são muito melhores do que jumentos.

- Mas, Nimrud, eles são homens iguais a nós.

- Parecem ser, mas não são. Estão centenas de anos atrás de nós.

- Nimrud, volto a insistir se não era possível fazer tudo que o você fez de outra forma.

Inicialmente Nimrud pareceu se irritar com a pergunta, mas, olhando para aquele homem velho e decrépito, que já fora forte e valente, parou para pensar um pouco e lhe disse, após alguns segundos de reflexão:

- Quando comecei minha jornada, eu não sabia para onde estava indo. Segui os impulsos de minha mente. As coisas não foram pensadas e fiz o que minha natureza determinou que fosse feito. Não planejei cada passo, mas meu coração me levou por essa trilha. Hoje, olhando para trás, chego à con­clusão de que, mesmo não sabendo para onde estava indo, meu instinto estava certo. Se conquistei povos e fui duro com eles é porque eles não entenderiam outra linguagem. Deveria eu falar de paz e amor com aqueles que queriam a minha morte? Deveria eu ser bondoso com os meus inimigos quando, na primeira oportunidade, eles me cortariam em pedaços? Não, meu pai, por mais que você não me entenda, e nunca me entendeu, o que fiz foi correto.

- Mas, meu filho, você foi muitas vezes tirano e instigou a crueldade entre seus homens. Seus amigos são homens terríveis. Seu turtanu Mesanipada é feroz com os inferiores, mandando aprisionar por um sim ou não. Urgar é um co­nhecido assassino que mata por prazer. Você usou os deuses, que sempre foram benevolentes para nós, como uma arma para aterrorizar seu próprio povo.

O soberano o interrompeu e lhe disse de forma rude:

- Os deuses servem aos homens inteligentes e, se exis­tem, não se manifestam contra nós. Se fui cruel, e muitas vezes confesso que o fui, foi por uma boa razão. Para se alcançar o poder é preciso eliminar os inimigos e transformar o povo numa massa de manobra. Para isso, essa plebe ignorante e estúpida deve acreditar em deuses. Se somos poderosos, os deuses devem sê-lo ainda mais. E por isso que nossos deuses são sedentos de sangue. Controlamos a massa humana com terror, já que nunca entenderiam palavras bondosas ou de amizade. Para um povo condenado a viver no inferno, é preciso que se use a força, a crueldade e, principalmente, o terror.

O velho olhou para o filho com os olhos úmidos e não falou mais nada. Continuava a não entender por que as coisas deviam ser tão brutais. Ele, parecendo ler o pensamento do pai, continuou, num tom mais brando:

- Nossos antepassados viveram aqui por milênios e cada geração repetia sempre o que havia sido feito pela anterior. Quando eu vim ao mundo, o arado era um tronco que era duramente arrastado pelos campos. A fome rondava nossas casas e dependíamos da bondade dos deuses para que o Eufrates enchesse. Se não houvesse cheias, passaríamos fome e muitos morreriam por falta de comida. Não houve modifi­cações substanciais no decorrer dos milênios em que estamos neste vale. E, mesmo assim, havia fome e os homens viviam pouco, porque comiam mal, trabalhavam muito e sua única diversão era encontrar uma mulher quando voltasse para casa. Mas que mulher? Uma velha prematura, cansada de trabalhar nos campos, na casa, cuidando de filhos malcheirosos e chorões. As mulheres tinham um filho atrás do outro e pas­savam seu tempo chorando a perda da maioria deles para o demônio da fome e da doença.

Cus escutava, atentamente, o que lhe dizia aquele filho inflamado, cheio de empáfia e vaidade.

- Hoje, as coisas são diferentes. O homem não se mata de trabalhar nos campos porque existem escravos para fazê-lo e se sua mulher continua bela e atraente é porque temos gente para cozinhar e limpar a casa. Os filhos estão sempre limpos e cheirosos, com perfumes que vêm de muito longe e aprendem a ler e a contar. Já não são pequenos animais que só sabem comer e chorar. Durante milênios, os sumérios não fizeram nada, a não ser repetir velhas fórmulas. Em pouco menos de dez anos, nós mudamos a face do mundo e somos agora os senhores desta terra. Para que isso pudesse acontecer foi ne­cessário que se pagasse um preço. E esse preço foi pago com a vida de outros homens. Que seja!

Cus perguntou, então:

- Mas, como será no futuro? Deverá o mundo todo ser escravizado e os homens aterrorizados para que um grupo de privilegiados possa viver à larga?

O filho olhou para o teto, procurando uma resposta, e muito calmamente disse ao pai:

- Não sei. Provavelmente, sim. O futuro é insondável. O que poderá acontecer dependerá de tantos fatores que eu não saberia lhe responder. Mas, afinal, de que me interessa o que pode acontecer dentro de mil ou dez mil anos? Eu não estarei aqui para ver!

Cus respondeu com um olhar levemente sarcástico:

- Se for verdade o que os seus sacerdotes dizem, você po­derá estar aqui por muito tempo e terá que sofrer as conse­qüências de seus atos.

Nimrud conhecia a lenda que os seus sacerdotes prega­vam, dizendo que os recém-chegados eram uma raça superior, nascidos da união dos deuses com as filhas dos homens e que teriam que viver muitas vidas aqui na Terra para que pudes­sem se tornar novamente deuses. Essa idéia, nascida de Akur­gal, num dos seus muitos transes, nunca lhe fora muito simpá­tica, mas era usada com maestria para dominar o povo e estabelecer uma superioridade econômica, social e política da classe dominante. Nimrud não acreditava nessas coisas e por isso, quando o pai falou, aborreceu-se, vendo nessa atitude pa­terna uma afronta, uma intolerável pilhéria. Deu por encerra­da a conversa e, levantando-se, afastou-se com passos firmes, sem olhar para trás.

Seu pai ainda viveu por dois meses, tendo sido muito bem tratado, mas Nimrud nunca mais o viu, nem mesmo no dia de seu enterro.

O tempo correu e quando Nimrud estava com trinta e cin­co anos, Uruck era uma potência local. Sua agricultura florescen­te gerava excedentes fabulosos. As terras estavam quase todas arrendadas aos pequenos lavradores, que apesar das enormes dívidas contraídas para comprar arados e carroças, e sementes abençoadas pela deusa dos ratos e da praga, Ninkilim, e dos al­tos tributos ao templo do deus Anu, conseguiam excelentes resultados. Isso era devido aos grandes aprimoramentos na abertura de canais, de uma irrigação mais constante, e de novas represas feitas por Nimrud para conter as cheias excessivas do Eufrates. Ainda que tivessem que pagar metade da safra aos sacerdotes, os camponeses viviam melhor do que antes.

Os que viviam em torno de Nimrud constituíram uma classe social poderosa e rica. Tinham terras próprias, escravos e feitores para tomarem conta das colheitas. Viviam na cidade em casas luxuosas para a época, com servos e bastante conforto e luxo. Suas casas eram decoradas com grande requinte, com objetos de lápis-lazúli, marfim, ouro e prata. Nimrud sempre fora generoso com seus aliados, mas sua própria casa era um enorme palácio de luxo e riqueza inimagináveis.

Uruck estava cercada de uma muralha de nove quilô­metros e meio, com novecentas torres de vigia semicirculares que, como diria Gilgamesh, brilhava como cobre ao sol. O etemenanki do grande deus Anu se sobressaía e um camponês podia ver brilhando ao longe o topo da grande construção, protegendo os seus campos e sua família.

Uma outra classe social, a dos homens comuns, era constituída da grande massa de sumérios, que viveriam bem não fosse o terror dos deuses, dos pecados, das histórias mór­bidas, de arcas fantásticas que teriam carregado os homens durante um dilúvio, e a força secreta dos homens de Nimrud que viviam espionando à procura do menor sinal de traição ou sedição, punidas com a morte, no altar, para maior glória do deus Anu.

Havia uma massa de escravos trazidos das conquistas de Nimrud e de homens comuns que tinham se endividado com os agiotas, que emprestavam a juros exorbitantes e, quando não pagos, transformavam seus devedores em escravos, vendendo-os para receber de volta o que tinham emprestado. A agiotagem era uma nova forma de enriquecimento, nunca vista antes da revolução suméria de Nimrud.

Essa sociedade, a primeira a se civilizar na Terra, era cruel e ao mesmo tempo instigante. Desenvolvera a matemá­tica, a escrita, os controles burocráticos, hierarquizara as ativi­dades, dera forte priorização à arte e à cultura, estabelecera o comércio e difundira sua forma de viver para todos os que quisessem segui-la.

O comércio entre sumérios e outros povos havia pro­gredido sobremaneira com Nimrud. As caravanas organizadas em Uruck iam buscar muitos produtos de lugares longínquos, levando os grãos excedentes da Suméria e, principalmente, levando as invenções importantes, tais como a roda, a carroça e o arado, além da escrita, certas noções de matemática e a forma de pensar. Dessa rica cultura, o que mais se difundiu foi a magia e as formas de previsão do futuro, mas muitas in­venções sumérias não chegaram nem mesmo a ser introduzidas em larga escala. Aquele povo chegou a produzir uma bateria elétrica utilizada em certas atividades.

Mil anos depois de Nimrud, a Suméria seria destruída por invasões e muito se perderia. O mais importante é que grande parte da civilização suméria seria exportada para o Egito, a Índia, a Ásia Menor, a ilha de Creta, e o planalto Iraniano, onde, no futuro, nasceria o Império Persa. A roda e o arado chegaram ao Egito, poucos anos após seu desen­volvimento na Suméria e seriam motivo de grandes modifi­cações na cultura neolítica pré-faraônica do Egito que também, naqueles tempos, viria a passar por grandes modificações, devido a novas gerações de homens de olhos inteligentes e angustiados.

Em Uruck, durante o reinado de Nimrud, começou uma grande expansão demográfica, originada por condições de vida melhor, alimentação mais saudável e ritmo de vida menos severo devido ao grande trabalho escravo. Os índices de mor­talidade diminuíram; os homens comuns e os ricos viviam mais, enquanto a taxa de nascimento crescia devido às condições sanitárias melhores e à alimentação mais farta, tanto para as mães como para os recém-nascidos. Houve, no entanto, um aumento espantoso de crianças aleijadas, cegas, mudas, de­mentes e retardadas. Mas, por outro lado, a quantidade de crianças inteligentes, argutas e sagazes também cresceu em proporções equivalentes.

Nimrud conseguira estabelecer uma confederação de cidades e aldeias, cujo poder do rei-sacerdote, o ensil, desig­nado pelo chefe-supremo em Uruck, era contrabalançado pelo Conselho de Anciãos. O poder nesses lugares tornara-se bicéfalo, assim como, na religião, o rei e o sumo-sacerdote. Sua influência espalhara-se por todo o sul da Suméria e também ao norte. As cidades de Babilônia, Kish, Shurupak, Ur, Eridu, Lagash, Umma e várias outras estavam diretamente sob seu forte jugo. Além delas, ao norte, a aldeia de Assur, Recobot-Ir e Cale tinham sido dominadas por Nimrud.

Nimrud construiu outras cidades ao norte, inicialmente para se proteger dos ataques dos gutos. Nínive e, depois, uma cidade que levaria seu nome, Nimrud, tornar-se-iam espetacu­lares e importantes após sua morte. Além dessas, construiria Resem, situada entre Cale e Nínive, que cresceria para tornar-se bela e grande.

Um dia, quando Nimrud já governava há mais de vinte e cinco anos, os gutos invadiram o norte e o ensil deslocou-se com seu exército para enfrentá-los na batalha de Haran, próxima da suja e pequena aldeia do mesmo nome. Os gutos foram estraçalhados pela máquina de guerra suméria, mas Urgar foi mortalmente ferido. Uma flecha alojou-se em seu estômago, o que o fez morrer em extrema agonia, que durou mais de doze horas. Nimrud não saiu de perto do grande amigo e chefe-de-armas que tanto o ajudou a tornar-se pode­roso e temido. Urgar morreu urrando de dores lancinantes, praguejando contra todos os deuses e maldizendo-se, en­quanto a vida esvaía junto com o sangue que jorrava da ferida e da boca.

O coração de Nimrud nunca mais foi o mesmo. Amava Urgar como se fosse um irmão e sua morte o abalou tremen­damente. Sua vida foi-se escoando lentamente por mais dez longos anos, e sua aliança com os lugares vizinhos possibilitou que as cidades-estados de Lagash, Eridu, Ur, Umma, Sin, Babilônia e outras menos importantes se fortalecessem. Mor­reu velho para a época, jovem para nossos dias, com 55 anos, e seu filho Lugalbanda ocupou o trono.

No mesmo ano em que Nimrud morreu, Lagash revol­tou-se contra Uruck, mas foram derrotados pelo jovem Lugal­banda, tão audaz e bravo como o pai. Seus descendentes ainda mantiveram o domínio de Uruck por mais quinhentos anos. Dumuzi traria mais progresso à região e, sendo mais manso e bondoso do que Nimrud, tornou-se um deus vivo. Durante esse período, houve poucas revoltas, mas no final da época de Gilgamesh, Uruck perderia o predomínio sobre a região. Kish cresceria para tornar-se importante e ameaçar o poder de Gilgamesh, cerca de trezentos anos depois de Nimrud. Depois desse rei cheio de bravatas e de aventuras extraordinárias, Kish tornar-se-ia cada vez mais poderosa, eclipsando totalmente Uruck. Mesilim, rei de Kish, ficou sendo conhecido como um mediador, um pacifista, o único no meio daquele período obscuro da história, já que as guerras, então, entre as cidades-estados da Suméria, haviam se tornado endêmicas, trazendo morte e sofrimento àquele grande povo.

A história não pôde registrar todos os feitos de Nimrud, mas, sem ele, sua personalidade aglutinadora, progressista e conquistadora, a Suméria não teria sido a primeira civilização a ser fundada na Terra. Foi através da geração maldita da qual Nimrud era um dos líderes que a Terra saiu de seu marasmo após a revolução neolítica há cinco mil anos antes de Uruck. Foi a forma contestadora desta geração que alterou a face do mundo. Sem ela poderíamos ainda estar empurrando um arado de tronco de madeira e orando para que as poucas sementes germinassem e nos dessem o que comer. Foi através da violência, da injustiça e do domínio do mais arguto sobre o mais lerdo que a civilização terrestre se fez.

 

                       O Coordenador - Ahtilantê - 3.800 a.C

Cerca de 35 anos antes de Nimrud nascer para tornar-se o primeiro poderoso da Terra, num lugar muito distante da Suméria, um grupo de pessoas estava reunido num imenso salão.

- Você deve estar orgulhosa da homenagem que seu marido irá receber - afirmava a amiga, sentada ao lado de uma bela mulher, de meia-idade, todas reunidas em diversas mesas redondas com doze pessoas em cada uma delas.

Terapitis aquiesceu. É claro que estava exultante em ver o homem que ela amava receber a grande comenda da Confederação que ele tanto havia trabalhado para consolidar.

O salão estava repleto. Devia haver mais de quinhentos convidados. Toda a elite de Tay-Bhu-Tan estava reunida no colossal salão presidencial, naquela noite, para um jantar beneficente. Não era a primeira vez em que Varuna Mandrekhan era homenageado. Terapitis lembrou-se dos tempos duros que ele havia passado e sentia orgulho do caráter e coragem daquele homem singular.

Varuna nascera em excelente posição social. Era filho de Klandir Mandrekhan, que se tornaria primeiro-cônsul do império Hurukyan. Cursara os melhores colégios e tivera uma juventude faustosa. No fim de seu curso universitário, apresentara uma tese que fora muito mal recebida por seu pai que era, na época, um senador vitalício imperial, e que preocupado com a má repercussão das idéias do filho, determinou o seu exílio para longínqua plaga, longe do fausto da capital imperial, Tchepuat.

Varuna trabalhou nas propriedades de um lorde local chamado Bahcor, pai de Terapitis, demonstrando proficiência acima de qualquer comparação, adquirindo o respeito e a amizade do velho latifundiário. Durante alguns anos, Varuna desenvolveu as propriedades de Bahcor e aumentou ainda mais a larga fortuna do proprietário.

Havia, entretanto, um grave empecilho à felicidade de todos. Tratava-se do filho de Bahcor, um ser viciado, corrupto e de caráter caliginoso que, aproveitando-se das enormes ex­tensões de terras improdutivas do pai, plantava a poderosa droga alucinógena miridina. Bradonin, associado a outros seres de igual jaez, não desejava a prosperidade de Varuna. Deste modo, numa tarde, Bradonin, através de comparsas, assassinou o próprio pai, imputando a culpa em Varuna, que acabou preso e quase morto numa prisão provincial.

Varuna foi salvo por um velho e incorruptível policial que descobriu que o réu era filho do então primeiro-cônsul do império Hurukyan e, numa manobra venturosa, conseguiu prender o mandante, assim como seus comparsas, entre eles alguns policiais corruptos. O alarde da prisão indevida acabou trazendo Klandir para a distante província onde havia desterrado o filho e, de certa forma, pai e filho se reconciliaram. No entanto, a família de Bahcor estava destruída. O chefe da casa fora morto traiçoeiramente e o jovem herdeiro, preso por parricídio. A matrona do lar, em amistoso acordo com Klandir, conseguiu que Varuna desposasse a bela filha Terapitis, unindo as famílias e as fortunas.

Varuna recebeu generoso dote aliado à fortuna herdada de Terapitis, o que o fez ser um dos homens mais ricos de Hurukyan. Com esse enorme capital, ele fundou um Banco de Investimentos que se tornou o paradigma de novas formas de financiamento e comercialização. Reuniu uma equipe excep­cional, desenvolveu grandes projetos agroindustriais, reunin­do milhões de indigentes, transformando-os, através de muito esforço, técnicas, investimentos e tutela temporária, em ho­mens bem sucedidos. A economia hurukyan ampliou-se, aprimorando-se, sendo Varuna um dos principais artífices desse desenvolvimento acelerado.

Klandir Mandrekhan, pai de Varuna apesar de ser o primeiro-cônsul do império Hurukyan, era um péssimo administrador, apresentando um governo cheio de corrupção, assassinatos políticos e anexações de países vizinhos. Numa dessas invasões, a cidade de Guersuem se revoltou e Klandir mandou destruir a cidade e seus habitantes. Duzentos mil mortos foram pranteados pelo país invadido, enquanto o mundo, assustado com o poder sanguinário de Klandir, reclamou. No entanto, as admoestações ficaram apenas no terreno diplomático, pois ninguém quis enfrentar o poder do império Hurukyan.

Varuna ficou horrorizado com a atitude paterna e passou uma semana em estado de profunda depressão, ciente de que esse ato iria assombrar o espírito do pai por milênios, obrigando-o a uma séria reparação. Varuna chorou desconsolado, no recesso de seu lar, sendo apenas consolado por Terapitis. Pai e filho já não tinham bom relacionamento e agora, após Guersuem, nada mais os unia.

Os anos escoaram-se e os negócios prosperaram, fazendo com que o Banco Bahcor abrisse filiais e subsidiárias em todo o orbe. No entanto, negras nuvens se formaram no horizonte. Trafgaman, amigo íntimo de Klandir, homem cor­rupto, associado a ele em inúmeros conluios, cuja sede de poder e fortuna era insaciável, deu um golpe palaciano, der­rubando o poder constituído e transformando-se num tirano. Sua atuação foi rápida. Mandou prender e matar seus antigos associados, entre eles Klandir e sua esposa, trucidados sem piedade. Varuna, bem informado, conseguiu escapar com sua família e equipe, indo para um outro país, onde foram recebi­dos de forma principesca.

Durante duas décadas, Varuna trabalhou para unificar uma série de pequenos países, formando uma forte confe­deração. Sua atuação política e a força de seus argumentos fizeram nascer a primeira grande aliança entre oito países, e, com isso, a primeira união entre povos, chamada de Confe­deração Norte-Ocidental. Alguns anos depois, os países do Sul seguiriam o exemplo de seus irmãos do Norte, formando a Confederação Sul-Ocidental.

Nesse ínterim, no império Hurukyan, Trafgaman seria deposto e morto por um golpe similar ao que ele havia dado anos atrás, sendo substituído pelo sanguinário Katlach, um obscuro general do exército imperial. Se Trafgaman era um sedento de poder, Katlach o era por glórias militares. Desejava tornar-se o conquistador do mundo. Uma insânia tão grande que, contudo, ajudou Varuna a fortalecer as Confederações Ocidentais que temiam a volúpia de conquista do império Hurukyan.

Nos primeiros anos, Katlach anexou e invadiu todos os países limítrofes e, com isso, angariou a fama de louco e a repulsa internacional. Varuna era um dos seus principais opo­sitores e Katlach o detestava pelo seu inegável peso junto à opinião pública internacional. Assim como Varuna, outros exi­lados hurukyans faziam forte oposição à Katlach, exigindo sua deposição e um boicote internacional ao império Hurukyan. O tirano, ensandecido e cheio de empáfia, não podia deixar que tais detratores ficassem livres e, numa série de atentados bem-sucedidos, conseguiu matar seus opositores. Varuna, até aquele instante, não fora molestado pelos assassinos de Katlach.

 

- Senhores e senhoras, temos o prazer de receber o presidente da nossa Confederação.

O anunciador interrompera as conversações dos presen­tes ao jantar beneficente e um homem, alto, magro, atlético, de porte majestoso, maduro, adentrou o salão. Uma salva de palmas o recebeu. O homem transpirava simpatia e aproximou-se do palco armado à frente das pessoas. O anunciador entregou-lhe um pequeno aparelho que ele colocou perto da lapela e começou a falar. Sua voz chegava alto em todos os cantos devido à amplificação do pequeno dispositivo.

- Há vinte anos, Varuna Mandrekhan chegou à nossa terra. Feliz o dia de sua chegada!

Houve uma saraivada de aplausos, acompanhados de gritos e saudações. Varuna era, efetivamente, muito benquisto.

- Durante este tempo, Varuna nos mostrou um caminho nunca trilhado. Seu dinheiro transformou-se em esperanças para os mais pobres. Seus planos abrangeram a todos, desde os menos capacitados aos mais bem preparados. Sua forma de administrar seu banco nos mostrou um modo novo de encarar a riqueza. Antes, olhávamos o dinheiro como sendo uma coisa suja, motivo de crimes e pecados. No entanto, com Varuna, tornou-se um instrumento da Providência Divina, seja ajudan­do a combater a miséria, seja criando oportunidades de cres­cimento pessoal e de evolução espiritual. Varuna nos demons­trou tudo isso com seus atos e sua forma generosa de ser.

O presidente fez uma pequena pausa e, finalmente, anunciou:

- Sem maiores delongas, senhoras e senhores, com vocês, lorde Varuna.

A audiência levantou-se para receber o grande homena­geado da noite e, sob um frenético aplauso, Varuna apareceu por detrás de uma cortina. Puderam ver um homem alto, na plenitude de sua madureza, de dois metros e meio, de uma cor azul profunda, imberbe, calvo, de testa lançada para trás e olhos azuis claros. Seu semblante era risonho, tranqüilo e no­bre. Tinha olhos meigos, mas que irradiavam poder e força. Um verdadeiro representante da raça hurukyan.

A maioria dos ocidentais era púrpura, variando de dois metros e vinte a dois metros e sessenta. Era uma das quatro raças que existiam em Ahtilantê, quarto planeta do sol duplo de Capela, na constelação do Cocheiro, também chamada de constelação da Cabra. Capela é constituído de uma estrela - uma gigante vermelha - quatorze vezes maior do que o nosso astro-rei e de um pequeno sol - uma anã branca - que gira em torno dele. Ambas as estrelas mantêm um intercâmbio de fortes jatos de fotosfera um em direção ao outro. Este sol duplo tem uma posição relativa no céu de Ahtilantê que o faz parecer ser cinco vezes maior do que o nosso, entretanto, o calor que chega à superfície do planeta é bem semelhante ao que alcança a Terra, sendo, entretanto, mais suave e uniforme, com um céu alaranjado e pôr-do-sol quase amarelo e vermelho.

Ahtilantê, também chamado de Aztatlan, Mazadan, Mazatlan e vários outros nomes de acordo com as centenas de línguas existentes no orbe, era um planeta oito vezes maior do que a Terra, mas com quase a metade de nossa gravidade, facilitando o aparecimento de espécies altas. Ahtilantê, terra dos Ahtilans, mais conhecida na Terra como Atlantes, tinha várias raças. As raças predominantes eram os azuis de onde se destacavam os hurukyans, os verdes que eram uma variante dos azuis, os púrpuras que apresentavam variações desde o vermelho forte até o marrom escuro e, finalmente, a raça mais estigmatizada, os cinzas, que eram baixos para os padrões ahtilantes, medindo em torno dos dois metros. A raça mais alta era a dos verdes que alcançava os três metros.

- Meus amigos, é um imenso prazer estar aqui nesta noite memorável. Nosso presidente muito bem lembrou de minha chegada, há vinte anos, no entanto, não mencionou a forma generosa como fomos recebidos. Se não fosse pela amabilidade e cortesia com que fomos tratados, jamais poderíamos desenvolver o trabalho que fizemos. Mas, por outro lado, se não fosse por uma equipe dedicada e empreen­dedora, nossas idéias estariam ainda dormitando no fundo de alguma gaveta.

Varuna olhou em direção a Terapitis e sorriu-lhe:

- Não posso esquecer também minha esposa que, com sua paciência, amor e palavras de bom ânimo, fez com que muitas jornadas negras pudessem se transformar em resul­tados radiosos.

Uma grande salva de aplausos foi o coroamento do comentário que Varuna fez sobre sua amiga e companheira de todos os dias. Terapitis também era muito amada pelas suas obras, especialmente em relação à recuperação dos conde­nados quando eram soltos. Sua preocupação levara Varuna a dedicar fortes investimentos privados com o intuito de reinte­grar efetivamente o presidiário à sociedade.

- No entanto, não sou eu, Varuna, o verdadeiro merece­dor desta homenagem. Diria que sou antes o representante não só de uma empresa ou um partido político, mas, fundamental­mente, de uma nova corrente de pensamento que invade nosso mundo.

Um movimento de cabeça acrescido de um murmúrio na platéia demonstrava que as pessoas concordavam com Varuna.

- Nestes últimos anos, começamos a concentrar nosso esforço para combater a miséria, não através de um assistencialismo paternalista, mas sim criando verdadeiras e dura­douras oportunidades para que as pessoas pudessem sair da situação de subumanidade em que viviam. Acreditávamos, erroneamente, que através e unicamente através da educação é que poderíamos combater a miséria, esquecendo que sem um esforço coordenado das elites, gerando empregos, investindo, ampliando seus negócios e estimulando a criação de pequenos empreendimentos, de nada adiantava a instrução. Não é cri­ando um exército de instruídos que mudamos o mundo. E desenvolvendo harmoniosamente todos os aspectos da sociedade, esquecendo as filosofias que falam mal do dinheiro e enaltecendo mais o fato de que a riqueza é apenas um instru­mento e, como tal, não tem valor moral. Apenas seu uso, sua obtenção e sua manipulação é que devem estar sujeitos às leis morais e divinas. A riqueza, assim como as ciências econômicas, é também parte da Providência Divina.

A assembléia aclamou freneticamente as palavras calmas de Varuna, que parou um instante para permitir que as pessoas pudessem extravasar sua emoção. Quando o clamor diminuiu, ele retomou a palavra. Mudou sua fisionomia, com uma expressão mais grave e a platéia sentiu que Varuna tinha algo de profundo para dizer.

- Mas, meus amigos, não devemos esquecer que em Ahtilantê ainda existe muita miséria, muito sofrimento e, prin­cipalmente, muita injustiça. Enquanto lutamos para combater a miséria, existem aqueles que lutam para destruir tudo o que construímos. Há aqueles que, na calada da noite, trafegam com a morte com armas potentes e drogas alucinógenas. Há tiranos que se regozijam com anexações descabidas, invasões de países vizinhos e a carnificina de minorias raciais e religiosas. Não é possível que Ahtilantê, com mais de sessenta séculos de civilização, ainda apresente barbárie desta espécie! Pessoas como o tirano Katlach são intoleráveis num planeta idílico como o nosso! E o que podemos fazer a respeito?

Um silêncio sepulcral havia caído sobre a platéia. Varuna falava com um timbre quase metálico em sua voz agora já não tão calma.

- Pois eu lhes digo. Boicotem os produtos de Hurukyan. Isolem-nos do mundo. Não comercializem com o tirano. Numa época de economia globalizada como a nossa, nenhum país poderá se tornar uma ilha. Mas isto não é só o que devem fazer. Sabemos que Katlach é um louco sanguinário e deseja conquistar o mundo. Sua insânia só terá fim no dia em que suas forças forem derrotadas. Portanto, preparem-se para a guerra, pois é a única coisa que poderá impedir Katlach de atacar-nos.

Ahtilantê era um planeta bastante evoluído material­mente. Haviam passado por uma revolução industrial que havia catapultado a maioria dos países da fase feudal para a fase republicana. Até mesmo o grande império Hurukyan passara, sem grandes convulsões, de uma monarquia absolutista para uma monarquia representativa. Com a morte do último imperador, não tendo ele deixado herdeiros diretos, o Senado passou a ser o poder supremo em Hurukyan.

Ahtilantê tinha uma evolução tecnológica ainda maior do que a Terra apresentava no final do século XX, já tendo colonizado suas duas luas de onde extraíam minerais preciosos. Suas invenções e a alta tecnologia foram, muitas vezes, lem­bradas como magia, sendo, contudo, um domínio absolu­tamente natural das coisas materiais. Não havia magia nem negra nem branca na alta tecnologia ahtilante.

- É chegada a época de lutarmos contra todas as formas de tirania, especialmente aquelas que transformam os homens em escravos, impedindo que decidam seus destinos por si próprios.

A platéia, mais uma vez, aplaudiu Varuna. No entanto, agora os cenhos estavam mais carregados. Todos sabiam que uma guerra com Katlach seria quase inevitável e nenhum dos presentes queria que tal fato acontecesse. Eles não tinham certeza de que seriam vitoriosos. O império Hurukyan ainda era muito poderoso, tendo uma aviação muito forte e a fama dos seus guerreiros era exageradamente aumentada pela propaganda hurukyana.

Varuna, sabendo que havia alcançado o seu intento em alertá-los para o perigo que representava Katlach, terminou sua preleção com palavras de encorajamento.

- Amigos, longe de mim, querer estragar esta festa com nuvens de guerra ou tom de hostilidade. Vejam em minhas palavras um aviso para se prepararem contra um inimigo real e implacável. Que Deus nos abençoe a todos! Muito obrigado a todos pela gentileza desta homenagem.

Todos se levantaram para, mais uma vez, aplaudir Varuna. Terapitis saiu de seu lugar para colocar-se ao lado do marido, enquanto o presidente colocava uma bela comenda no peito largo e forte de Varuna. O casal saiu da grande sala sob intenso aplauso e foi levado até uma viatura ampla e con­fortável que o esperava na porta. O motorista já havia aberto a porta c os dois seguranças pessoais postaram-se ao lado do homenageado.

Terapitis foi a primeira a entrar no carro, seguida do marido e dos dois seguranças. O chofer rodeou o automóvel, entrando, sentando-se em seu lugar. Ele deu a partida e con­tornou lentamente o grande jardim, repleto de outros carros. O presidente, acompanhado de algumas autoridades e mais os dois filhos adultos de Varuna, observou o carro, acenando para Varuna, até quando o veículo fez a última curva para sair do largo pátio. Naquele momento, o carro onde Varuna estava explodiu.

Terapitis abriu os olhos e se viu deitada numa cama diferente da sua, num quarto todo branco, com um mobiliário simples, mas limpo. Levou um certo tempo tentando entender a situação e, bastante tonta, lembrou-se da explosão e de que, depois, tudo ficara escuro. Imaginou que devia ter sobrevivido de forma milagrosa à explosão e fora internada num hospital. Tentou levantar-se, mas as pernas e os braços estavam um pouco enfraquecidos. Seu corpo todo doía e ela tremia um pouco.

Notou, perto de sua cama, um pequeno interruptor que pensou se tratar de uma campainha para chamar a enfermeira. Sentia sede e fome. Apertou o interruptor e aguardou. Menos de um minuto depois, entrou uma senhora, com expressão muito doce, ar matronal, vestida de azul-claro, típico das enfermeiras, e lhe dirigiu a palavra:

-Vejo que nossa amiga já acordou. Que bom! Como está se sentindo?

- Um pouco trêmula, com fraqueza geral e muita sede.

- Então vamos providenciar algo para você beber. Assim dizendo, pegou água de uma vasilha que estava sobre uma mesinha de cabeceira e deu-lhe de beber.

Terapitis bebeu da água e lhe pareceu que nunca bebera algo tão delicioso, refrescante e revigorante. Mas, sua preocu­pação quanto ao seu estado geral era grande e, especialmente, quanto a Varuna.

- Gostaria de saber como vim parar neste hospital. Foi algo relacionado com a explosão? Varuna está bem? Posso falar com um médico?

As perguntas choviam e a senhora sorriu placidamente e lhe disse:

- Calma, senhora Terapitis. Todas as suas perguntas lhe serão respondidas por um amigo seu, que já está vindo aqui para atendê-la. Tenha um pouco de calma que, em breve, você estará voando por aí.

A última frase fora dita em tom jocoso e Terapitis riu junto com a enfermeira. Ela lhe perguntou se estava com fome e o que queria comer. Terapitis respondeu que estava faminta e que gostaria de comer uma das delícias ahtilantes feitas com galeto, grãos de trigo e legumes. Ela lhe disse que podia providenciar tudo menos o galeto, mas que traria algo de bem saboroso. A enfermeira saiu do quarto e retornou em menos de dois minutos, trazendo uma bandeja com pães, grãos de trigo, legumes variados e um grande copo de um suco de uma fruta ahtilantê deliciosa. Terapitis constatou que aquele hospi­tal tinha um serviço fabuloso e, provavelmente, não devia ser público. Será que estavam gastando uma fortuna com diárias?

Há quantos dias estaria deitada? Por que não lhe tinham colocado uma sonda?

Terapitis comeu tudo com apetite voraz e convenceu-se de que jamais degustara comida tão deliciosa quanto aquela. Que serviço primoroso! Assim que terminou de comer, Varuna adentrou o quarto com um ar tranqüilo e jovial. Terapitis ficou encantada com a chegada do marido e fez menção de sair da cama. Varuna aproximou-se rapidamente e a abraçou, não deixando que ela se levantasse.

- Minha doce Terapitis, está se sentindo bem? - pergun­tou-lhe Varuna.

- Bem, isto é, estou um pouco tonta. Aliás, já melhorei depois dessa refeição maravilhosa. Que hospital é este?

- É o Posto Socorrista Amado Coração Divino.

Não o conhecia. Será que era em Tay-Bhu-Tan? Não conseguia ouvir muito barulho no exterior. Será que estava nos subúrbios afastados da capital?

- Não conheço este hospital, mas me parece ser ex­celente.

- E é, minha amiga. E é! - respondeu afetuosamente Varuna, puxando uma cadeira para sentar-se perto de Terapi­tis. Enquanto isso, a enfermeira saía do quarto, levando a bandeja, dizendo que se precisassem era só chamá-la.

- Mas o que foi que aconteceu conosco? Lembro-me de ter entrado no carro e depois, uma explosão. Como foi que sobrevivemos?

- Antes de lhe contar tudo, quero levá-la para um passeio.

Sem esperar que Terapitis dissesse qualquer coisa, Varuna ajudou-a a sair da cama e a levou para fora do quarto. À medida que ela andava, parecia que suas forças voltavam. Andaram por um curto corredor e saíram num átrio, de onde podiam descortinar vários andares do prédio. Varuna ajudou-a a ir até a saída, que dava para um belíssimo jardim florido, com estátuas e uma fonte d'água. Ele segurou sua mão fortemente e lhe disse.

- Olhe lá no horizonte e me diga o que está vendo.

Terapitis olhou e o que viu gelou seu sangue. Sentiu um pavor invadi-la, sua cabeça girou rapidamente, suas pernas falharam, como se o solo tivesse sumido debaixo delas, e sua boca abriu-se desmesuradamente à procura de ar.

Lá estava ao longe o planeta Ahtilantê, girando len­tamente no espaço, dourado, reluzente, com o sol de Capela, enorme, rubro, faiscante no horizonte, indo se esconder atrás do grande planeta.

- Olhe com calma e me diga onde você está. Seja forte!

Terapitis tomou um longo hausto e disse:

- Estou morta. Estou morta.

- Não, minha amada. Você nunca esteve tão viva quanto hoje.

Terapitis desabou pesadamente nos braços de Varuna, que a levantou como a uma criança, carregando-a carinho­samente de volta para o quarto. Voltou a acomodá-la na cama. Nesse momento, Terapitis começando a se recuperar do susto que tivera, comentou:

- Não é possível! Estou morta. Somente morta poderia estar no espaço sideral a milhares de quilômetros de Ahtilantê. O que houve? Pelo amor de Deus, diga-me tudo, Varuna, conte-me o que está se passando.

Terapitis fora colocada recostada na cama e tomara um grande gole de água, que logo a recompôs. Varuna então lhe contou que morreram da explosão que destroçara o carro e que foram trazidos para aquele hospital, onde dormira por alguns dias.

Terapitis então lhe dirigiu uma sucessão de perguntas. Varuna, agora rejuvenescido, sorriu e lhe disse que responderia a tudo o que pudesse e soubesse, mas uma pergunta de cada vez, e não às catadupas.

- Por que você parece ser tão mais jovem?

- Essa pergunta vai lhe responder várias coisas do seu novo habitat. Observe que aqui existem cama, casas, prédios, jardins, roupa, comida, água e assim por diante. Parece uma reprodução melhorada de Ahtilantê, não acha?

- Terapitis meneou positivamente a cabeça, prestando atenção em todas as palavras de Varuna.

- Isso porque estamos no mundo astral. Tudo aqui é feito por ideoplastia, ou seja, formas-pensamentos moldadas pela idéia. Cada uma das coisas que existe aqui foi formada por um ato de vontade, consciente ou não, dos espíritos que aqui vivem. Como este plano é ainda muito próximo do plano físico, é natural que se reproduza aquilo a que estamos acostumados. Entendeu?

- Veja que eu externo o semblante que mais me agrada. A melhor época da minha vida foi quando eu tinha quase quarenta anos, e é por isso que externo essa idade no meu corpo espiritual.

Varuna contou-lhe que, no momento da explosão, ele foi arremessado para fora do seu corpo físico, tendo tomado consciência do seu novo estado espiritual quase que de ime­diato. Ainda um pouco confuso, ele conseguiu ajudar os obreiros espirituais a levá-la para aquele hospital.

- Amanhã voltaremos a conversar mais sobre este lugar maravilhoso. Por enquanto, você precisa descansar.

Terapitis deitou-se na cama e foi tomada por um cansaço irresistível.

No outro dia, acordou extremamente disposta. Varuna conversou com o médico responsável que examinou Terapitis detidamente, dando-lhe alta em seguida. Varuna levou Terapi­tis para fora do hospital, conduzindo-a para sua nova residên­cia, num dos bairros da gigantesca cidade espiritual, que fasci­nou a recém-chegada pela beleza de suas construções, jardins encantadores, fragrâncias magníficas que evolviam por toda a parte.

Varuna e Terapitis foram levados para uma universidade enorme onde fizeram diversos cursos. No entanto, Varuna, homem prático como era, desejou logo ajudar os seus irmãos na carne. Deste modo, após algum tempo de treinamento exaustivo, foi-lhe proporcionada a oportunidade de trabalhar como obreiro, ajudando os irmãos ainda mergulhados na densa matéria, assim como os espíritos empedernidos que atazanam a vida dos renascidos.

Varuna, que tinha grande interesse não só em ajudar os seus irmãos no astral inferior, como também em modificar a cultura e a mentalidade dos renascidos, solicitou e recebeu autorização dos seus superiores para desenvolver novas ativi­dades junto aos renascidos. Seu trabalho consistia em influen­ciar os políticos, os banqueiros e os filósofos a se dedicarem com afinco ao desenvolvimento social.

Varuna acreditava, piamente, que a sociedade se alterava à medida que novas técnicas eram introduzidas. Essas mudan­ças tecnológicas eram, na maioria das vezes, mal dirigidas, não atingindo a todos os níveis. A mudança social, acelerada pelas novas tecnologias, deveria trazer equanimidade e oportuni­dades em geral para todos da sociedade. Na opinião de Varuna, a função dos políticos, dos filósofos e da elite dominante era a de gerar condições equânimes em todos os níveis da sociedade. A transformação da sociedade deveria ser impregnada de mudanças éticas, filosóficas e legislativas.

Varuna voltou às atividades e, com o decorrer dos anos, ele conseguiu bons resultados junto a muitos governantes. Sua atividade era constante e muito apreciada pelos seus coordenadores. Porém não tinha acesso a Katlach. Este estava sempre cercado de espíritos trevosos que o comandavam quase com­pletamente. Aliás, não era somente Katlach, mas diversos políticos viviam rodeados de seres tenebrosos que insuflavam nesses incautos as sugestões de roubos, corrupção e degradação moral. Varuna conseguia afastar tais espíritos com sua presença radiante e sua superioridade moral, mas Katlach demonstrava ter um bloqueio mental a qualquer sugestão mais digna. Tornara-se impermeável a qualquer idéia de paz, justiça social, união com os inimigos, e sua mente, já totalmente doentia, com tantas sugestões nocivas que partiam dos espíritos trevosos, demonstrava que beirava as raias da loucura e só conseguia enxergar cada vez mais o poder a qualquer preço.

Varuna não perdia as esperanças e sempre voltava à carga. Numa dessas vezes, defrontou-se com um espírito en­durecido no mal, que não se afastou quando Varuna acercou-se de Katlach. Esse espírito terrível tinha o rosto deformado numa máscara satânica de profundo ódio, de grande raiva, enorme desdém e arrogância exacerbada. Sua voz cavernosa e seu aspecto tenebroso eram assustadores e Varuna teve que fazer um esforço sobre-humano para não sair do local, possuído de medo e repugnado pelos odores malfazejos que saíam do terrível espírito, que se fazia acompanhar de nove outros de igual estirpe. Varuna havia baixado seu padrão vibratório ao máximo para tentar alcançar a lenta e pesada consciência de Katlach. Era, portanto, visível a todos daquele plano. Os demônios o olhavam com falsa superioridade e arrogância.

- Quem é você? - perguntou o tenebroso ser, que coman­dava os demais.

- Sou Varuna Mandrekhan, um amigo e irmão em Deus. Estranhamente o ser curvou-se em especial deferência.

- Conheço-o muito bem, nobre Varuna. Sou Tajupartak, chefe de uma das mais terríveis falanges dos alambaques. Eu o conheço bem e me curvo à sua magnificência.

Esses seres se congregavam em falanges que recebiam o nome genérico de alambaques, ou seja, dragões. Havia outros nomes que os definiam, tais como diabos e demônios, porém eram todos seres espirituais da fase humana que haviam se deixado levar pelo ódio, a vingança, o orgulho desassombrado e, por isso mesmo, seus corpos espirituais refletiam a hedionda situação de pervertidos espirituais.

Mudando de postura, o alambaque prosseguiu:

- Não se deixe enganar pela minha aparência, pois sou tão filho do Altíssimo como você. Assim como você procura a justiça social para estes indigentes espirituais, também cabe a mim aplicar a justiça a estes falsos moralistas.

Varuna o escutava, mas suas palavras não o deixaram confuso. Qualquer outro se perguntaria como um espírito tão trevoso como aquele poderia aplicar a justiça? Varuna co­nhecia, em tese, o pensamento esdrúxulo dos alambaques.

- É claro que você conhece todos os caminhos do Altís­simo. Você sabe que não são os espíritos puros e redimidos que punem os calhordas. É óbvio que um anjo do Senhor não seria capaz de trazer à tona e mostrar a torpeza íntima que habita estes estúpidos mortais. Não cabe aos bons punirem os maus. Isto é missão para os seus semelhantes, os perversos, mostra­rem o quanto foram egoístas, malignos e torpes.

Ao dizer isso, o tenebroso ser aproximou-se lentamente e lhe disse com uma voz triste:

- As pessoas quando estão mergulhadas na carne acham-se maravilhosas. Todas se acham justas, mas fazem as piores ignomínias, sempre encontrando justificativas para seu opróbrio. Os assassinos justificam seus crimes, convencendo-se de que, se não os cometessem, seriam eles os trucidados. Os ladrões põem a culpa na sociedade que não lhes deu oportunidades. Os corruptos se justificam dizendo que todos o são e, se eles não o forem, alguém o será em seu lugar. E assim por diante. Todos jogam a culpa de seus atos tenebrosos em alguém. Ninguém se acha culpado.

O poderoso alambaque fez um trejeito maligno e, com uma voz cava e gutural, concluiu:

- Mas, quando morrem, eles vêm para meu reino, onde eu e meus pares somos fortes, e aqui chegando continuam sua hipocrisia, sua arrogância e sua forma descarada de se julgarem superiores ou injustiçados. É neste ponto que nós abrimos seus olhos para a verdade de seus crimes, suas infâmias e sua personalidade devassa. Mostramos, com total crueza, suas reais identidades e os induzimos a se tornarem o que são, no íntimo, bestas-feras.

Varuna o escutava e atentamente olhava em volta. Três guardiães espirituais se haviam feito visíveis, com o intuito de protegê-lo de qualquer tentativa de ataque. Os espíritos tenebrosos os viram, mas não se mexeram. Tajupartak os viu e sorriu sarcasticamente para eles, como se fossem velhos conhecidos. Era óbvio que o alambaque não atacaria Varuna, pois era sabedor da inutilidade do ato. Demonstrava profundo respeito pela figura forte e doce de Varuna que se tornara conhecido até no astral inferior pela sua forte atuação política em Ahti­lantê. Varuna, por sua vez, olhava-o com doçura, como quem olha para um irmão querido.

- Eu o conheço, nobre Varuna, e o respeito. Você sempre foi coerente. Foi rico em vida e usou sua riqueza para trazer felicidade para os outros. Ajudou indiscriminadamente pobres e ricos. Foi justo e com isso ascendeu aos reinos dos Maiores. Parabéns! Mas não procure melhorar Katlach. Este ser é nosso escravo e o usamos para trazer infelicidade a todos. Aos perversos, será instrumento de morte e punição; aos justos, tornar-se-á instrumento de progresso.

Tajupartak, odioso chefe alambaque, na presença meiga e tranqüila de Varuna, amansou-se um pouco e confessou-se, quase sem sentir:

- Sou um ser que se deixou levar pelo ódio e pela paixão. Ao invés de reagir e colocar a culpa em mim próprio pelas minhas desventuras, culpei a Deus e a todos os demais. Agora eu sou um flagelo para todos os corruptos e corruptores. Crio infernos onde me divirto em torturar as mentes fracas que sucumbiram ao poder material e à ganância. Por isso, tenho esta expressão abominável. Sou, confesso, um monstro de egoísmo e terror. Porém, também sou filho do mesmo Pai Altíssimo e sei que chegará o dia em que hei de superar este ódio que sinto dentro de mim por todos os que infernizam a vida de seus semelhantes, e, aí então, poderei ascender às alturas como você, nobre Varuna.

Varuna aproximou-se do ser tenebroso e lhe estendeu a mão aberta. O ser recuou, escondendo o rosto lateralmente, e disse numa voz forte e tonitruante:

- Ainda não é chegada a hora!

Dizendo isso, afastou-se a passos rápidos, sendo seguido de perto por sua legião de espíritos aleijados, deformados e abomináveis. Varuna elevou uma prece ao alto para que aquele espírito, irmão em Deus, também encontrasse o lenitivo de um coração puro e da consciência tranqüila.

Durante quinze anos, Varuna e outros companheiros tentaram de tudo para alertar os renascidos do perigo das guerras, da enorme diferença social entre povos ricos e pobres, assim como dos caminhos para o aprimoramento social e econômico. Os resultados foram insignificantes. Os homens estavam surdos aos apelos, cada um procurando o seu próprio estavam surdos aos apelos, cada um procurando o seu próprio aperfeiçoamento social e espiritual de forma solitária. Além do egoísmo feroz que norteava as relações sociais e humanas, o orgulho desvairado, a prepotência descabida e a ganância sobrepujavam em muito qualquer ato mais solidário.

Durante esse tempo, Varuna desenvolvera sua mente para não só tratar os doentes espirituais como também dominar todas as técnicas de comunicação e transportes. Algumas dessas técnicas, somente acessíveis aos espíritos do mundo mental, do qual Varuna ainda não participava, pareciam artes mágicas. Varuna aprendera a fazer seu corpo espiritual vibrar de tal forma que podia aumentar, crescer, deslocar-se de um lugar para outro num átimo. Ele podia focalizar sua mente de tal forma que formava imagens externas tridimensionais ao seu corpo espiritual, com sons e perfumes, de modo a reproduzir imagens, situações e fatos. Podia também bloquear sua mente de tal forma que não poderia ser perscrutada por outros espíritos. Em suma, tornara-se um operador mental de enorme poder.

Certa feita, no astral superior, começaram a correr notícias de que estava acontecendo um grande conclave de espíritos no mundo angélico. Diziam que nesta egrégia assem­bléia de espíritos altamente evoluídos, estava sendo decidida a sorte de Ahtilantê. Falava-se que estavam no limiar de uma nova era de prosperidade e evolução espiritual. Varuna escutava a todas as notícias e ficara preocupado com a sorte de seu planeta. Que terrível destino aguardava Ahtilantê?

 

Um dia, Varuna foi chamado ao gabinete do coorde­nador ministerial. Este espírito do mundo mental, quando ingressava no astral, localizava-se num templo, nos limites entre as duas dimensões. Seu gabinete era relativamente mo­desto, em nada enaltecendo a sua elevada posição. Tratava-se de um espírito ligado diretamente à Administração Planetária, tendo, portanto, participado do insigne conclave angélico.

Varuna fora chamado numa bela manhã, junto com os ministros dos Ministérios do Renascimento, do Planejamento Coletivo e da Justiça. Varuna participava como chefe do Setor de Conscientização Política do Ministério da Justiça. Um antigo conhecido de Varuna, Saercha, era o novo ministro do Ministério do Planejamento Coletivo, substituindo o titular que fora guindado a uma posição nobilitante no mundo mental.

Na manhã do dia marcado, os quatro convocados pelo coordenador encontraram-se no humilde gabinete, tendo an­tes orado para que o Pai Altíssimo os orientasse no perfeito cumprimento de suas missões. Sentaram-se em volta de uma mesa redonda, desprovida de luxo, mas confortável o suficiente para poderem discutir os assuntos em pauta. Largas janelas permitiam a entrada de luz e da refrescante brisa que vinha do extenso jardim que rodeava o majestoso templo.

O coordenador, cujo nome era Kon-the-Bhai, iniciou as conversações de modo simples e sem afetação.

- Meus caros amigos, como já é do conhecimento dos ministros aqui presentes, tivemos uma assembléia com nossos superiores. Foram analisados muitos aspectos relativos à Ahti­lantê, os quais resumirei. Observem o visor e vejam os princi­pais itens levantados nesse conclave.

Uma tela tridimensional formou-se no meio da mesa e o coordenador Kon-the-Bhai iniciou sua exposição.

- Vejam os alarmantes índices de criminalidade que campeiam no planeta. Observem como a ganância, motivada pelas grandes diferenças de riqueza, geram processos crimi­nosos aviltantes. Vejam com redobrado cuidado, como agem os obsessores espirituais nesses métodos ilegais. Atrás de cada crime, existe uma súcia espiritual a insuflar maus pensamentos.

A tela mostrava os fatos e alguns exemplos. O coorde­nador prosseguiu:

- Além dos crimes normais, cometidos por delinqüentes pobres, existem os desvios tenebrosos dos vícios inspirados por maltas de pervertidos. Miridina, bebidas alcoólicas e outros entorpecentes levam a fina flor da juventude ahtilantê aos piores purgatórios mentais onde, sem o saber, envolvem-se com obsessores e alambaques que os conduzem aos piores delírios e delitos.

O coordenador, com seu rosto sério, mostrando grave preocupação, continuou expondo:

- Não irei tomar o seu tempo falando do que já sabem de sobejo. Observem que, no passado distante, tínhamos uma percentagem de obsessores muito menor do que hoje. No entanto, com a nova tecnologia que foi introduzida no século passado com a revolução industrial foi possível incrementar a população e, deste modo, aumentamos em muito a quantidade de renascidos. O novo mundo trazido pela revolução industrial também trouxe novos vícios, depravações e desvios de compor­tamento. Observem como havia muito menos espíritos ensandecidos, em termos percentuais, do que há agora.

Fixando o visor, mostrou o astral inferior.

- Observem como existem mais faixas divisórias no astral inferior, com muito mais pessoas. O poder dos alambaques cresceu a ponto de termos que reforçar as nossas defesas na crosta. Não há, no entanto, tantos guardiães para proteger os renascidos. Deste modo, a pressão sobre eles aumentou de forma avassaladora. Se antigamente existiam seres envilecidos no ódio e na revolta, hoje existem mais ainda devido ao poder das drogas, do sexo em desvario, da licenciosidade e da ob­sessão espiritual muito mais atuante, forte e dirigida. Os próprios alambaques tornaram-se mais técnicos em sua atuação nefasta junto aos governantes, aos artistas, em suma, a todos os formadores de opinião.

Retornando à tela, Kon-the-Bhai, com voz baixa e grave, disse:

- No nosso conclave, após muito deliberar, concluímos que é necessário procedermos a uma depuração de nosso orbe. Assim como é preciso capinar um jardim, arrancando as ervas daninhas para que as flores possam crescer, teremos que pro­ceder da mesma forma, retirando de Ahtilantê os espíritos que não demonstrarem um mínimo de boa vontade para evoluir.

E olhando para todos, o coordenador concluiu:

- Meus irmãos, estamos em vias de iniciar o processo de expurgo espiritual de Ahtilantê.

Varuna já ouvira falar desse processo. Aprendera não só nas aulas teóricas como também de notícias informais que corriam, vez por outra, sobre tão grave fato. Ele sabia que era um processo pelo qual todos os planetas habitados por humani­dades do grau médio passavam. Já circulavam notícias, até mesmo entre os renascidos, embora houvesse muitas religiões que catalogavam tal fenômeno espiritual como o fim do mundo, outras como a separação do joio do trigo e outras, como o fim de um ciclo. No entanto, no mundo espiritual, no nível dos administradores planetários, tal expurgo já estava longamente previsto, sendo que o grande conclave angélico havia sido realizado apenas para determinar a data e os respon­sáveis pelo grande expurgo.

Kon-the-Bhai aprumou-se na sua cadeira e aumentou o tom de voz:

- O propósito desta reunião é planejar adequadamente esse processo, assim como nomear um coordenador geral. Será o diretor responsável pelo seu bom andamento. Posso lhes afiançar que é trabalho duro, sem descanso, que exigirá muita disciplina, formação de uma equipe especializada, e não encherá o escolhido de alegria. Afinal das contas, ele será o responsável pelo exílio de alguns milhões de irmãos em péssi­mas condições espirituais.

Varuna olhou para os três ministros presentes, notando que aquelas informações não lhes causavam surpresa. Eles eram todos espíritos do mundo mental, portanto, no mesmo nível do coordenador geral. Deviam ter participado da assem­bléia que determinara o princípio do degredo. Imediatamente concluiu que se a reunião acontecia no mundo astral superior era devido à sua limitação de ainda não poder participar do mundo mental. Conseqüentemente, o motivo da reunião era para lhe oferecer a coordenação do projeto.

O coordenador, que estivera acompanhando mental­mente os pensamentos de Varuna, colocou a mão no seu braço, como para tranqüilizá-lo, e disse-lhe calmamente:

- Meu irmão Varuna, realmente, você concluiu acertada-mente. Gostaríamos de lhe propor que assumisse a coorde­nação geral do expurgo. Saiba que não estamos impondo nada. Se não desejar, poderá recusá-lo e nós não o olharemos com desprezo ou desconsideração. Mas, antes de responder se aceita ou não, deixe-me dizer-lhe o que se espera de você, e o que é um expurgo espiritual planetário.

Varuna arrumou-se na cadeira, aproximando-se para melhor escutar.

- A teoria que norteia o expurgo é a seguinte: as humani­dades evoluem lentamente através do processo de renascimen­tos, até que as sociedades onde estão inseridas ingressam nas fases da alta tecnologia. Superados os períodos das revoluções neolíticas, agrárias e industriais, surge o período da integração mundial através de viagens, transportes, telecomunicações, câmbio, operações financeiras, serviços, comércio e troca de tecnologias. Enquanto o mundo está nas fases inferiores e médias, os homens podem se digladiar até a morte, já que seus atos serão sempre limitados.

Fazendo uma pequena pausa, o nobre espírito prosse­guiu:

- Quando ingressam nas fases da alta tecnologia, é fundamental que não sejam permitidos seres que ainda não dominem a ética. Não estamos preconizando que os humanos devam ser perfeitos. Longe de nós tal assertiva. O que procu­ramos são as pessoas que já demonstram consciência social e humanitária. Procuramos indivíduos com boa vontade para aprenderem de forma permanente, que estejam dispostos a se modificarem procurando o aperfeiçoamento e que prefiram resolverem através do diálogo suas desavenças, ao invés de usar a força bruta ou métodos imorais.

Varuna acompanhava o raciocínio do grande espírito que prosseguiu sua explanação:

- Se permitíssemos que seres ainda permeados do mais sórdido egoísmo, da mais vil das intenções e dos mais terríveis desvios mentais permanecessem neste novo tipo de mundo, iríamos incorrer em grave erro. Estaríamos tornando a vida dos homens de bem um inferno, já que teriam que conviver com bandidos,assassinos, psicóticos, depravados, corruptos e degenerados. E, por conseqüência, estaríamos premiando os seres alucinados, possibilitando que vivessem num mundo su­perior. Ninguém, de sã consciência, levaria um cão hidrófobo ao recesso do seu lar, colocando em perigo a vida dos seus ten­ros filhos.

Todos concordavam com isso. O coordenador prosse­guiu:

- Contudo nem os espíritos superiores, nem muito me­nos Deus Onipotente, desejam que esses seres envilecidos na maldade, sejam destruídos ou expulsos do paraíso em que se transformara gradativamente Ahtilantê. Queremos que lhes sejam dadas todas as oportunidades de redenção. Deve ser planejado o maior número possível de renascimentos em Ahti­lantê de forma a possibilitar o maior número de oportunida­des redentoras. Isso irá incrementar ainda mais a explosão de­mográfica com o ingresso maciço de espíritos. Após e durante essa fase, aqueles que demonstrarem endurecimento nas suas atitudes, radicalização extrema nos seus atos, persistindo em suas atividades criminosas, deverão ser excluídos do processo evolutivo ahtilantê, e encaminhados para outro planeta, onde prosseguirão sua evolução. No entanto, há aqueles que desde já merecem ser degredados por apresentarem um estado psicótico de tal natureza que colocaria os vivos em permanente estado de perigo. A esses doentes, o banimento deve ser imediato para o planeta Azul.

O coordenador ministerial tocou numa tecla, surgindo do meio da mesa um mapa holográfico que mostrava uma parte da galáxia. O sol gigante de Capela aparecia rubro com seu cortejo planetário e num ponto bem mais afastado, podia se notar um sol bem menor. Ele apontou para a diminuta estrela e continuou sua exposição.

- Este sol é quatorze vezes menor do que Capela, mas é muito mais denso e estável. O terceiro planeta deste sol aparece no espaço com a cor azul, sendo pequeno, bem menor do que Ahtilantê. Sua densidade, no entanto, é muito grande e sua gravidade é mais do dobro da existente aqui. Atualmente, existe uma humanidade ingressando lentamente na fase média evolutiva, tendo ultrapassado a revolução neolítica, na ante-sala da revolução agrária, mas ainda não suficientemente es­clarecida para criar civilização, com escrita, transportes, desen­volvimento tecnológico, cultos religiosos e, principalmente, leis estruturadas.

Varuna preocupou-se com alguns fatos, os quais logo foram captados pelo grande espírito, que lhe conferiu a palavra:

- Faça suas perguntas, Varuna. Vejo que está preocupado.

- Pelo que entendi, mestre, através de um processo seletivo e amplo, iremos retirar a escória espiritual do mundo e a levaremos para o planeta Azul. Gostaria de lhe perguntar se isso, de certa forma, não é injusto para com a humanidade incipiente que lá existe.

- Muito pelo contrário, Varuna. Essa escória, como você os chamou, não é constituída somente de ignorantes embrutecidos na miséria, mas também de seres inteligentes, com razoável sabedoria intelectual, cuja moral ainda é dominada por um egoísmo feroz. Ao renascerem no seio dos mais simples, poderão transmitir, em poucos anos, noções de civilização, leis, costumes e tecnologias que levariam séculos para serem adquiridas. São, portanto, aceleradores evolutivos. Vistos por esse ângulo, não lhe parece que o concurso desses degredados junto aos nossos irmãos do planeta Azul virá a ser um fator altamente positivo?

Varuna concordou com os argumentos, meneando a cabeça, quando então Saercha, ministro do Renascimento, comentou:

- Há de acontecer que muitos dos degredados não passem somente aspectos positivos, mas também introduzam seus vícios, depravações, crueldades e corrupções. Nesse caso, estarão agravando ainda mais suas penalidades, gerando novos renascimentos ainda mais mortificantes.

- Mestre Saercha, o que se pode fazer para impedir que tais fatos aconteçam?

- Impedir é um conceito inviável no mundo espiritual. Os seres poderão e deverão ser instruídos, conscientizados e motivados, mas não há nenhum impeditivo absoluto. Quantos não se enchem de boa vontade antes do renascimento e, depois, sucumbem aos apelos dos sentidos, do egoísmo e do prazer desmedido? Não há como impedir que os degredados desvirtuem os menos evoluídos.

O coordenador complementou o raciocínio de Saercha:

- Realmente, Saercha tem razão, meu caro Varuna. Pro­cure analisar de outro modo. Sem a presença dos degredados, os primitivos passarão por todas as fases de brutalidade, cruel­dade, animalidade e egoísmo da fase humana média. Sabemos, por experiência de outros planetas, que, sem o auxílio de exila­dos mais evoluídos, o desenvolvimento é bem mais lento e, assim mesmo, são cometidas todas as atrocidades que conhe­cemos. Com o auxílio de espíritos exilados, mesmo que consti­tuam ainda a escória espiritual de um mundo, a evolução social e econômica é acelerada de forma extraordinária.

Kon-the-Bhai resolveu deter-se mais nesse importante ponto.

- Como você já sabe, a evolução não é um fato automático que esteja embutido no subconsciente dos seres. E, antes de mais nada, um processo provocado, devidamente planejado e cuidadosamente executado. Não é como uma suave ladeira, levemente inclinada, em que os seres vão vencendo etapa por etapa. O processo é mais ríspido e revolucionário, apresen­tando impressionantes altos e baixos. E nesse ponto - o de ser áspero e progressista - que os ahtilantes tornar-se-ão elementos vitais, de suma importância, para a evolução social, cultural, religiosa, tecnológica e econômica do planeta Azul.

Khon-the-Bai fez uma pequena pausa e concluiu:

- A parte mais importante de sua missão não é apenas desterrar seus irmãos e esquecê-los em algum ponto distante do universo. A beleza, por que não dizer, a sublimidade do encargo e a responsabilidade de fazê-los evoluir e recuperá-los para os seguros apriscos do Senhor.

Tomando-se de certo fervor, o coordenador complemen­tou:

- Sua mais grave e decisiva atribuição é recuperá-los integralmente. Enquanto existir um único exilado que ainda chafurde na lama do ódio, da incompreensão e da revolta, sua missão ainda estará incompleta. A grandiosidade de sua incumbência reside no fato de que levará a civilização a seres ainda primitivos, recuperará espíritos endurecidos no mal e moldará, junto com sua equipe, um novo mundo.

Varuna estava convencido de que o expurgo era lógico e eticamente correto. Seria, no entanto, a pessoa mais adequada para coordenar todo esse processo complexo? E natural que as pessoas sintam receio do desconhecido. Mesmo sem formular a pergunta diretamente, não pôde se esquivar de questionar o coordenador:

- Entendo e estou plenamente convencido do fato. Só questiono se sou realmente a pessoa adequada para essa missão.

- Achamos que sim. O perfil do coordenador é a de um político. Deve ser capaz de articular providências junto a diver­sas esferas de ação que irão suscitar dúvidas, discussões e dissensões. Tem que saber conciliar os interesses conflitantes e coordenar uma equipe multissetorial altamente técnica. De­verá, outrossim, ser capaz de ouvir sugestões, decidir sobre os destinos de milhões de seres, relacionar-se não só com sua equipe, como também com os mais temíveis chefes alambaques até os administradores dos dois planetas. Diplomático, quando preciso, severo e um verdadeiro feitor de escravos, quando for imprescindível; resumindo, doce e suave, luminoso e cordato quando as circunstâncias impuserem. Antes de mais nada, profundamente justo, mesmo que isso provoque dores e ago­nias, sofrimentos e remorsos.

O coordenador fez uma pequena pausa, e depois arre­matou, terminando sua exposição:

- Analisamos, durante o conclave, vários candidatos e achamos que você se encaixa precisamente no perfil pela sua evolução espiritual e social, sua experiência política, conheci­mento técnico e, principalmente, pelo seu perfeito equilíbrio entre a racionalidade e o sentimento.

Uma decisão dessa natureza não é um ato racional. Aceita-se a incumbência pura e simplesmente porque não se pode fugir da responsabilidade e do dever a ser cumprido. Varuna aceitou a grave missão com a sua fé inquebrantável em Deus e em si próprio, além de crer que seus superiores não lhe dariam um fardo que não pudesse carregar, assim como não o abandonariam se tivesse dificuldades no caminho.

O coordenador ministerial e os três ministros ficaram satisfeitos e Saercha lhe disse que jamais duvidou de que ele aceitaria. O coordenador lhe disse que ficaria diretamente afeto a Saercha que propôs que voltassem a se reencontrar dentro de dois dias. Seria tempo suficiente para que Varuna pensasse bastante sobre a nova situação e que, a partir disso, começariam a planejar o expurgo.

A reunião terminou com uma prece ao Altíssimo.

Varuna encontrou-se com Terapitis e contou-lhe toda a conversa que tivera com os seus superiores. Terapitis, mais uma vez, ficou orgulhosa do seu marido, no entanto entristeceu-se, pois sabia que isso representaria uma separação. Ela não iria acompanhá-lo nesta missão, já que, em alguns anos, teria que renascer em Ahtilantê para o prosseguimento de sua evolução espiritual.

Varuna recolheu-se ao seu quarto, ligou um pequeno dispositivo que encheu o espaço de belas melodias, sentou-se confortavelmente numa poltrona e começou a meditar. À medida que ia pensando, anotava num pequeno artefato portátil uma série de fatos, compilando gradualmente suas idéias. Seus primeiros pensamentos foram voltados para a recuperação dos candidatos ao exílio. Na verdade, essa não era a sua atividade, mas seu coração compassivo doía ao simples pensamento de ter que levar para outro planeta pessoas que, com certo esforço, poderiam ser recuperadas ali mesmo, em Ahtilantê.

Após algumas horas, parou de trabalhar, indo até uma espécie de clube, onde se encontrou com diversos amigos. Conversou sobre assuntos amenos, procurando distrair-se. Vol­tou ao quarto, analisou todos os apontamentos, corrigiu alguns e quedou-se quieto por uns minutos. Sua mente estava um torvelinho de pensamentos, idéias e sugestões, repleta de dúvidas. Relaxou o corpo numa posição meditativa c orou ao Altíssimo para que o ajudasse a encontrar o caminho mais correto.

Durante dois dias, foi possuído por um único pen­samento: o expurgo. Sobre este assunto, pesava-lhe as dúvidas da recuperação moral dos caídos. Tinha alinhavado um con­junto de providências, ordenando-as de forma racional, estando ansioso para se reunir com Saercha.

A reunião deu-se no mesmo lugar da anterior. Assim que chegou ao escritório do ministro, notou que Saercha estava acompanhado de um espírito diferente de todos. Era um homem forte, de cabelos longos e dourados que iam até o ombro, rosto de um homem maduro, imberbe, olhos profun­damente azuis. Sua testa era relativamente curta e não tão pronunciada e jogada para trás como os ahtilantes. Saercha adiantou-se e cumprimentou-o:

- Bom dia, irmão Varuna. Tenho uma surpresa para você. Será que se lembra de nosso irmão Gerbrandom?

Varuna olhou para o recém-chegado e colocou sua memória para funcionar. A princípio nada o fazia lembrar daquela bela alma. Saercha murmurou, desejando ajudá-lo:

- Karion! Lembre-se de Karion.

Sua mente disparou e, subitamente, através de um torvelinho de reminiscências fragmentadas, lembrou-se do gigante espiritual que proferira bela palestra em Karion, falando exatamente do fenômeno relativo aos expurgos espiri­tuais coletivos que os planetas estão sujeitos quando passam da fase humana média para a humana superior. Sua mente abriu-se e, como numa visão, ele rememorou que, antes de renascer como Varuna, ele fora Helvente e, como espírito, entre as duas existências - Helvente e Varuna - fora enviado pelos seus superiores para o evoluído planeta de Karion, onde passou seis meses em estudos. Sua mente lembrou-se de Gerbrandom.

- Mestre Gerbrandom, que enorme surpresa!

- Realmente, meu caro Varuna. Trata-se dessas coin­cidências que nos levam a perguntar se elas existem ou se são construídas pelos nossos Maiores. Imagine que estava desen­volvendo agradável atividade em outro quadrante da Galáxia, quando fui contatado pelos meus superiores que me enviaram aqui para ajudar no que for possível nessa importante emprei­tada.

Sempre imensamente feliz, Gerbrandom prosseguiu:

- Vim o mais rápido que pude e fui apresentado pelo magnífico Kon-the-Bhai ao nosso irmão Saercha que me colo­cou a par de tudo. Foi com imensa surpresa que descobri que Varuna, o coordenador geral do processo, é nada menos do que Helvente que conheci em Karion, há cerca de cem anos.

Varuna, com olhos rasos d'água, meneava a cabeça, incapaz de falar o que fosse, toldado pela emoção do reencon­tro. Mesmo tendo passado poucas horas em Karion com o mestre, fora o suficiente para que houvesse uma forte identificação entre eles. Varuna fez um esforço para retomar o controle de suas emoções e disse:

- Mestre Saercha, Gerbrandom tem que ser o coorde­nador, pois tem muito mais experiência do que eu.

Saercha meneou negativamente a cabeça e disse:

- Mestre Gerbrandom realmente tem uma vivência enorme em expurgos, tendo participado ativamente de dois, mas está aqui como simples consultor técnico, e não o respon­sável por todo o processo. Esse é um expurgo ahtilantê e deve ser guiado por alguém afeto a esta área. Por mais que mestre Gerbrandom tenha experiência e inegável conhecimento, ele não conhece as nossas idiossincrasias culturais, nossas línguas e nossa história. Finalmente, Ahtilantê deve ser responsável por Ahtilantê.

- Permita que eu lhe explique o motivo de minha visita e o oferecimento dos meus préstimos.

-Acho que seria interessante escutar a história do mestre Gerbrandom e, então, tomar uma decisão em relação ao seu concurso. Sentemo-nos e ouçamos sua narrativa com extremo cuidado - comentou Saercha.

Todos se sentaram em confortáveis poltronas na sala-de-estar do ministro. Gerbrandom olhou para Varuna e disse-lhe, muito calmamente, sem nenhum acabrunhamento:

- Há mais de dez mil anos, em outro planeta altamente evoluído tecnologicamente, eu fui um desvairado, um aluci­nado, totalmente fora de qualquer equilíbrio emocional. Um verdadeiro demônio de maldade, tendo sido o líder de uma poderosa nação e ensandecido, junto com um grupo de sequazes, provoquei uma tenebrosa guerra. Esse conflito alas­trou-se pelo orbe e provocou mortes, destruição, de forma superlativa e sofrimentos indizíveis. Terminou sendo um holo­causto nuclear de proporções tão gigantescas que, no princípio, ninguém poderia jamais imaginar os resultados tão aterra­dores. Eu mesmo morri calcinado numa explosão nuclear de proporções gigantescas.

Varuna olhava para Gerbrandom com espanto. Saercha demonstrava grande tranqüilidade, como se conhecesse aquela velha história.

- Durante o longo período em que nosso planeta esteve submerso nas terríveis poeiras radioativas, fui forçado, junto com todos os amantes da guerra, os provocadores de conflito, os sugadores de sangue humano - vampiros sociais - e os fabricantes de armas que, sem pejo, provocam o conflito para ganhar ainda mais, a renascer naquele inferno pestilento e lúgubre de radiações atômicas.

Gerbrandom pintava com cores vivas seu passado, para delas tirar ilações dos erros e pavimentar a estrada do futuro com exemplos dignificantes.

- Durante quinhentos anos, renasci para viver pouco e mal em cada vez. Uma vez, idiotizado. Outra vez, com o câncer a devastar meu organismo. E assim por diante, até que o planeta estivesse novamente pronto para evoluir, tendo ani­quilado a radioatividade. Eu estava apto a reiniciar a minha ascensão. Fui, então, banido para um planeta extremamente primitivo.

Gerbrandom falava essas coisas com simplicidade, sem empáfia ou dramaticidade.

- Ao ser expurgado para aquele local primário, tive renascimentos terríveis. Sofri superlativamente até que, após cinco renascimentos onde só fiz somar aos meus extensos débitos ainda mais abominações, tive a ajuda de um grande mentor. Mostrou-me com amor o verdadeiro caminho a ser trilhado. Durante muitas existências materiais, fui transfor­mando minha essência, até que, após seis mil anos de novas experiências carnais, finalmente, pude renascer naquele pla­neta já mais evoluído materialmente como um mestre, um profeta, um enviado dos Maiores.

A história de Gerbrandom calava fundo na alma bonís­sima de Varuna. O colosso prosseguiu sua narrativa:

- Foi uma existência maravilhosa. Ensinei que Deus era nosso amantíssimo Pai e não um terrível carrasco que está sempre à espreita para nos castigar. Os homens, no entanto, perseguiram-me, aprisionaram-me, torturaram-me e supliciaram-me de forma superlativa. Naquele momento, quando expirei em martírio inaudito, libertei minha confrangida alma de todo o mal, de todo o complexo de culpa por ter provocado, seis mil e quinhentos anos antes, uma guerra fratricida tão tenebrosa. Libertei-me de toda a culpa e, após isso, ascendi ao mundo mental.

Varuna tinha os olhos cheios de lágrimas. Gerbrandom era a prova viva de que um demônio torna-se anjo, através do cadinho da experiência carnal e da atitude ampla de fraterni­dade e amor. Gerbrandom, então, complementou sua nar­ração, dizendo:

-Assim como você e os demais, também estou à procura da perfeição, através do trabalho árduo e do desprendimento pessoal. Tenho ajudado em dois exílios recentes que aconteceram, sendo o último do planeta Karion há cerca de setecentos anos. Desejo, no entanto, mais do que simplesmente ajudar a degredar meus irmãos menores para algum ponto obscuro do universo. Desejo, desta feita, servir com utilidade na pronta recuperação de seus vícios e seus desvios mentais. Quero ficar no planeta de degredo para ajudar na evolução social e cultural. Preciso ser, cada vez mais, útil! Peço, portanto, que me aceitem como ajudante, como obreiro. Não desejo ser nada mais do que simples peão no jogo do Senhor.

Saercha, ciente do vasto conhecimento de Gerbrandom e da importância de sua evolução espiritual, interveio:

- Varuna, meu amigo e irmão. Creio que o concurso fraterno de Gerbrandom, como seu consultor-mor será uma aquisição de vital importância para o processo. Qual é a sua opinião?

Varuna não titubeou, respondendo de chofre:

- Seria motivo de honra, orgulho e alegria tê-lo como meu comandante, imagine, então, poder contar com seus conhecimentos, sua vivência e experiência.

E assim dizendo, selaram um acordo de entendimento e fraternidade. Gerbrandom passaria a ser o consultor-mor de Varuna que continuaria sendo o coordenador geral.

Saercha perguntou:

- Então, pensou no processo?

- Mestre Saercha, gostaria de expor minhas idéias, pe­dindo encarecidamente que as critique severamente, reorientando-me, se for o caso.

Saercha concordou, meneando a cabeça, estimulando a que prosseguisse.

- Os pontos mais importantes do expurgo são: regenerar o maior número possível de seres para que não tenham que ser degredados, iniciar o processo de expurgo de forma gradativa e terminá-lo após um determinado tempo. Só devemos banir aqueles que apresentam atitudes incompatíveis com o novo mundo ahtilante, portanto, creio ser prudente se iniciar o expurgo de forma gradativa, para que possamos avaliar corretamente inúmeros problemas de ordem prática. Finalmente, estabelecer uma data limite em que o expurgo deverá estar concluído. Qual a sua opinião, mestre Saercha?

- A princípio suas premissas estão corretas. Desejo que você se concentre sobre o problema do degredo, já que os processos de regeneração estão afetos a outro setor. Desejo saber especificamente é o que você imaginou em relação ao expurgo.

Varuna parou para pensar e disse, após alguns instantes:

- O primeiro passo me parece ser a formação de uma equipe que possa me ajudar nesse processo. Este grupo deverá ser dividido em dois. O primeiro trabalhará em Ahtilante; e o segundo, no planeta Azul. Outro ponto que me parece nevrál­gico é visitar o planeta Azul, manter contato com seus coordenadores e unificar a equipe ahtilante com a equipe local, formando uma associação coesa c solidária. Por outro lado, no espaço de tempo mais curto possível, devemos preparar um primeiro grupo de espíritos para serem transferidos, devida­mente aclimatados no novo habitat.Finalmente, começar o processo de renascimento com o maior cuidado, após planos detalhados de local, raça, cultura e condições ecológicas. Anali­sar os primeiros acontecimentos e determinar um plano de trabalho permanente, automatizado e consistente.

Saercha concordou e ajuntou à exposição uma obser­vação importante:

- Sim, parece-me correto. Mas, meu amigo Varuna, você não deve nunca se esquecer da função precípua de sua missão, que é a de regenerar os que forem exilados. Nós não desejamos que esses degredados sejam apenas transferidos e abandona­dos num planeta distante. O que realmente importa, e esse é o cerne de sua missão, é trazê-los de volta para o caminho correto do amor Divino. Os que se redimirem poderão voltar a Ahtilantê ou permanecer no planeta Azul, caso prefiram e já tenham obtido créditos e méritos que facultem tal decisão.

- Sim, desde o primeiro instante em que assumi esta missão, duas coisas me passaram pela mente: regenerar os exilados e fazer com que sua presença no planeta Azul possa trazer evolução, civilização e avanço tecnológico; e, não apenas, terror, crueldade e sofrimento.

Saercha queria conhecer as suas idéias mais a fundo, portanto, continuou seu questionário:

- Varuna, que tipo de equipe pretende montar?

- Deverá ser uma equipe multissetorial. Comecemos com a parte psicológica. Teremos absoluta necessidade de psicólo­gos. Temos que partir da idéia de que os exilados serão pessoas que apresentam deformações de ordem mental profunda. Mui­tos são esquizofrênicos, autistas, catatônicos e neuróticos, necessitando de tratamento e assistência psicológica. Pretendo ter um psicólogo-chefe, alguém com experiência em espíritos do astral inferior, pois é lá que estão os candidatos ao exílio.

- Concordo, mas não se esqueça de que existem milhões de renascidos que são candidatos também, assim que vierem a deixar o invólucro físico.

- Perfeitamente, mestre Saercha, mas já os conto como se fossem integrantes do astral inferior. Assim que morrerem, os desequilibrados e pervertidos deverão ser atraídos magneticamente para aquelas plagas. Desse modo, após certo tempo, estarão também no rol dos banidos.

- Certíssimo! Aguardemos que alterem suas atitudes, e conseqüentemente, o seu comportamento. Enquanto estive­rem na matéria, terão tempo limitado de ação que esperemos que não desperdicem. E preciso entender que arrependimentos tardios, aqui no astral, não poderão ser tolerados. Conte-me mais a respeito de sua equipe. Até agora, está indo bem.

- Bem, tenho certeza de que precisaremos trabalhar em conjunto com os espíritos construtores e planejadores do pla­neta Azul, pois imagino que deva haver enormes diferenças físicas entre os ahtilantes e os homens primitivos.

- As diferenças são grandes, posso lhe afiançar, mas não insuperáveis. Como sabe, o corpo astral pode se adaptar a todo gênero de necessidade, e os cérebros de ambas as espécies são relativamente parecidos. As maiores diferenças entre as duas espécies são de reino: os ahtilantes são oriundos de formas avançadas de répteis bípedes, enquanto que os habitantes do planeta Azul são mamíferos, oriundos de grandes primatas do passado.

Varuna manifestou a mais viva surpresa. Não imaginara que fosse possível. Em Ahtilante, os poucos mamíferos eram pequenos, lerdos, inofensivos e dados a certas condições de existências desqualificadas para os padrões locais, como o hábi­to de ingerirem carne morta, sendo, portanto, animais de car­niça, faxineiros da natureza. Descobria agora que havia uma humanidade originária de mamíferos.

- Fantástico! - exclamou surpreso.

- Realmente, meu caro Varuna, a obra divina e a co-criação coletiva apresentam as mais variadas formas de existência no universo, dependendo das condições locais, do desenvol­vimento histórico e da criatividade dos espíritos construtores. Existem planetas com humanidades tão diferentes da nossa, que, para eles, nós não passamos de monstros.

Gerbrandom, até então calado, interveio, dizendo-lhe sorrindo:

- Eu mesmo desenvolvi-me num planeta de mamíferos. Não há nada demais!

Varuna sorriu e aquiesceu. Não importa a forma, mas sim a essência. Ele, por outro lado, havia pensado em levar uma grande equipe de operadores de renascimento, mas, no decor­rer da conversa, concluiu que seria desnecessário ter um agru­pamento especializado tão grande. Saercha, lendo-lhe a men­te, disse-lhe:

- Exatamente, meu caro Varuna. Os obreiros que estão no planeta Azul estão mais qualificados do que qualquer outro para operarem os renascimentos. Além do que não há grandes modificações no processo de reintrodução espiritual na carne. As diferenças são apenas de prazo e de formas. As fêmeas ahtilantes, mesmo sendo uma forma reptilóide, são fecundadas da mesma forma que as fêmeas do planeta Azul. Nós somos uma forma de réptil que gesta o ovo interiormente, e o peque­no ahtilantê nasce de forma reduzida, crescendo rapidamente nos primeiros meses, alimentando-se de comida idêntica à do adulto. Já o pequeno mamífero, desenvolve-se no útero ma­terno, exigindo um parto mais laborioso e dolorido, à medida que sai proporcionalmente maior do que nossa raça. Por outro lado, o tempo de gestação é cinqüenta por cento, mais longo, além de o recém-nascido ser integralmente dependente de cui­dados nos primeiros meses. Se não houver cuidados incessan­tes, perecerá.

- Parece uma raça mais frágil do que a nossa.

- Eis aí onde você se engana, meu caro Varuna. Essa raça foi desenvolvida para suportar uma gravidade bem superior à nossa, além de variações de temperatura bem mais agudas. Para completar, sua força física tem que ser superior já que a gravidade maior faz com que tudo seja mais pesado. Para terminar, o sol amarelo é muito mais quente do que o nosso fazendo com que certas áreas do globo tenham temperatura com o dobro da nossa e outras sejam extremamente geladas, muito abaixo do ponto de congelamento da água.

- Meu Deus! Estamos enviando-os para um inferno!

- Não é muito distante do conceito religioso, pois além do calor, há animais selvagens, homens primitivos, cujas men­tes ainda não descobriram os mais comezinhos princípios de civilização e, finalmente, e o pior de tudo, será a excruciante saudade que os exilados sentirão, mesmo estando renascidos, já que é uma mudança radical. Muitos julgarão que não per­tencem àquele lugar, achando-se filhos das estrelas ou dos deu­ses distantes. Não se deixe enganar pelas aparências, pois a reminiscência de Ahtilante será profunda devido à mudança ser tão drástica e radical.

- Será que esse lugar é tão tenebroso assim?

- Não, meu caro Varuna. Trata-se apenas de um lugar primitivo como era Ahtilante há seis mil anos. Você deve saber que aqui também já foi um inferno, como você chama a estes lugares primitivos, para aqueles que aqui vieram desterrados.

Varuna aquiesceu, pois ele sabia que Ahtilante também fora palco de uma migração importante para seu desenvolvimento. Eles haviam vindo de Condal, um planeta muito dis­tante, de um outro quadrante da Galáxia. Os condalinos, como eram chamados, foram os aceleradores evolutivos dos ahtilan­tes, mesmo que tivessem também introduzido muitos dos mi­tos de superioridade racial dos azuis e da inferioridade mental dos cinzas.

Saercha desejava saber mais a respeito dos planos de Va­runa e pediu que ele lhe contasse tudo. Varuna não se fez de ro­gado, e expôs suas idéias.

- Tenho absoluta certeza de que os nossos principais candidatos ao degredo serão os chefes alambaques, seus soldados-escravos e o grande contingente de seus prisioneiros.

- Perfeitamente. São o grosso dos seus candidatos.

- Imaginei, portanto, que para manusear calmamente essa malta perigosa, seria necessário um especialista em segu­rança. Mesmo conhecendo os alambaques bastante bem, creio que deveria ter um especialista que me ajudasse a convencer os chefes alambaques de que deverão nos acompanhar sem opor resistência e, mais, ajudando-nos de bom grado.

- Corretíssimo. Agora como você pretende fazer isso?

- Os chefes alambaques têm uma psicologia própria, que é preciso conhecer. Se eu souber usá-la, oferecendo em troca algo que lhes seja efetivamente atrativo, eles me servirão.

- Saiba que aqui reside o seu ponto fraco: se eles se recusarem, prepare-se para uma batalha campal no astral inferior.

Varuna olhou-o perplexo. Batalha campal no astral infe­rior? Seria possível ou era apenas uma figura de retórica? Saer­cha respondeu-lhe as indagações mentais:

- Não é uma figura de retórica, meu caro Varuna. Os che­fes alambaques têm um verdadeiro exército que precisaria ser atacado, destruído e aprisionado. Para nossa sorte, não se trata de um grupo coeso, mas de milhares de gangues de assaltantes espirituais que infernizam a vida dos renascidos. Podemos combatê-los já que temos guardiães em número suficiente, no entanto, será preferível convencê-los a ir em paz.

Gerbrandom fez um comentário pertinente.

- Em Karion, tivemos sérios problemas para reunir os irmãos que estavam fundo nas trevas e nos grandes abismos. Eles formaram grandes grupos, fortemente equipados com armas psicotrônicas e ofereceram uma severa resistência, di­ficultando grandemente a vida dos guardiões. Tivemos que desenvolver novas armas para destruir seus redutos.

- E como fizeram isso?

- Meu caro Varuna, posso assegurar-lhe que foi uma verdadeira guerra. Inicialmente, os capturávamos como se fos­se uma operação policial. Depois, eles se fortaleceram, unindo-se em grupos fortemente armados, escondendo-se nas densas trevas. Resolvemos destruir o astral inferior, mormente as grandes trevas e os abismos, com energia potentíssima. A força canalizada contra as trevas dissiparam-nas, possibilitando que as luzes atingissem os abismos e as grandes cavernas e, desse modo, os guardiães puderam prender os líderes da conspiração através de campos de força e reuni-los em prisões especiais.

Gerbrandom fez uma leve pausa e arrematou:

- Se você conseguir convencer os chefes alambaques a acompanhá-lo de bom grado até o planeta Azul, você terá conseguido a maior vitória desta missão. Em Karion, eles não conseguiram o apoio dos dragões e, por isso, a luta foi renhida e longa.

Novamente o gigante espiritual fez uma pausa e mudan­do de tom, concluiu seu raciocínio:

- Mas, mesmo conseguindo a adesão de um grande nú­mero, teremos que enfrentar séria resistência com vinte a trin­ta por cento dos seus alambaques.

- Tem razão. Provavelmente, teremos necessidade de armas e técnicas como foram desenvolvidas em Karion. - Varu­na comentara, preocupado.

- Em parte, sim. Lembre-se de que os seres aprisionados no astral inferior estão muito mais próximos da vibração dos chefes alambaques do que da nossa, portanto será mais fácil que eles obedeçam aos seus semelhantes do que a nós. O ideal é que você consiga convencer os principais chefes alambaques a o acompanharem, não como prisioneiros e banidos, mas como líderes e guias de uma grande renovação. Saiba que se­rão fundamentais na implantação e evolução da civilização no planeta Azul - comentara Saercha.

- De que forma, mestre Saercha? Não vejo como os alambaques poderão ser úteis depois que estiverem exilados.

- Coloque-se por um instante no lugar dos degredados. Esses seres nascerão de pais primitivos e, logo na adolescência, à medida que seu intelecto começar a despertar, deverão en­trar em choque cultural com os costumes e hábitos da tribo. Eles estarão, de certa forma, mentalmente perdidos. Precisa­rão de mentores fortes que os guiem para que possam colocar em prática seu conhecimento superior. Concluímos, pois, que serão esses chefes alambaques, estes guias.

- Meu Deus! Não será isso uma temeridade?

- Sim, mas não há outro caminho. Antevejo dificuldades intransponíveis se, no início, determinarmos que os guias mentores tradicionais tiverem que atuar sobre esses seres. Os banidos, por estarem em patamar muito baixo, não lhes obedecerão. Lembre-se de como alguns políticos, já totalmente corrompidos, eram totalmente impermeáveis às suas suges­tões? O mesmo acontecerá com eles.

Gerbrandom interveio para dar maior consistência às afirmações de Saercha:

- Meu amigo Varuna, se pedir que guias mentores evoluí­dos se comportem como verdadeiros feitores de escravos, esta­rá exigindo demais, vilipendiando os valores superiores. Para animais perigosos, usam-se cães de guarda ferozes. Temos que conquistar a confiança dos chefes alambaques e conseguir seu concurso fraterno. Se eles nos apoiarem, trabalhando como seus prepostos, subordinados aos guardiões, também evoluirão e chegará o dia em que irão desejar abandonar a vida de crueldades, tornando-se seres de luz. Renascerão novamente, vol­tando à trilha estreita e, muitas vezes, espinhosa que leva ao Senhor.

- Vocês têm razão. Irei me cercar de um especialista em segurança que, naturalmente, conheça bem os alambaques, provavelmente tendo sido um deles, em algum ido tempo.

- Sim, e não se esqueça de que você irá precisar de especialistas em transportes astrais. Você deverá vencer 42 anos-luz de distância, levando mais de trinta milhões de seres.

- Tanta gente assim!?

- Nossos estudos apontam para números próximos dis­so. Estimamos que uma em cada quinhentas pessoas demons­trem um endurecimento de atitudes que exigirá uma terapia de choque. Existem cerca de dezesseis bilhões de habitantes espirituais, tanto físicos como astrais, portanto temos algo em torno de trinta e poucos milhões, de seres exiláveis. Não se esqueça de que precisará transportar essa turba num período de um século ou menos. Sugiro que se informe com os espe­cialistas em transporte através do astral para saber quais os meios existentes para carregar tanta gente. Eles deverão co­nhecer formas de conduzir centenas de milhares de almas em viagens tão distantes.

Gerbrandom interveio, dizendo:

- Quanto a isso não se preocupe. Existem transpor­tadores astrais capazes de vencer distâncias colossais em déci­mos de segundo, carregando duzentas mil pessoas numa única viagem. No momento certo, traremos tais aparelhos do mundo mental, pois a maioria dos condutores desses gigantescos apa­relhos são da esfera elevada.

Varuna ficou mais tranqüilo. Era uma preocupação a menos.

Saercha continuou sua linha de pensamento:

- Além disso, caro Varuna, não se esqueça dos registros. Todos os espíritos são cadastrados. Precisará de uma equipe de registros com equipamentos próprios. Não precisará ser uma equipe grande, pois as indicações definitivas ficarão com a equipe do planeta Azul. Precisaremos ter duplicações aqui em Ahtilante, além de registros móveis para acompanhá-los até o destino. Trata-se de um problema complexo que deverá ser previamente equacionado. Irá precisar de uma equipe admi­nistrativa que dê todo o apoio necessário a centenas de alte­rações de registros, contabilizando todos os custos.

Pode parecer estranho que haja despesas e custos no astral, mas em tudo há dispêndio de esforço e energia, o que representa um determinado valor. Até mesmo no astral e acima do mesmo, faz se mister que todas as atividades sejam devida­mente contabilizadas para que se tenha uma perfeita noção de que não estamos desperdiçando os magníficos recursos que nos são alocados pelo Amantíssimo Pai, a fim de que possamos nos sustentar no universo.

- A quantidade de detalhes e dados incita-me a montar urgentemente a minha equipe. Com ela, poderei planejar cada passo, escrever um plano de ação, discuti-lo com meus comandados e assessores, e colocá-lo para apreciação dos administradores planetários. Com a aprovação e eventuais modificações que se fizerem necessárias, poderemos atacar os principais pro­blemas.

- Forme então sua equipe, visite o planeta Azul, formule alguns planos e traga-os para a nossa aprovação. A primeira leva de exilados deverá partir dentro de trezentos dias. Não lhe resta muito tempo. Sugiro que antes de partir para visitar o pla­neta Azul, procure contatar os alambaques e sinta sua dispo­sição em ajudá-lo. A partir da reação deles, deverá fazer um projeto suave ou mais agressivo, obrigando-os a baixar a cerviz. Que nosso Pai Amantíssimo lhe inspire para que consiga trazer amorosamente os alambaques para nossos propósitos.

 

Varuna e Gerbrandom passaram os próximos dias analisando inúmeros candidatos para as várias vagas, levando quase duas semanas para definir a nova equipe. Viram todos os regis­tros computadorizados, eliminaram os ineptos e escolheram dezenas de candidatos. Levaram muito tempo entrevistando os disponíveis até chegaram a um grupo restrito de ajudantes, devidamente aprovados por Saercha.

Varuna juntou sua equipe principal, constituída de Uriel, Sandalphon, Radzyel e Vartraghan, tendo Gerbrandom como consultor-mor, para a primeira reunião sobre o expurgo.

Uriel era uma médica, com especialização em psiquia­tria, tendo atuado não só no umbral do astral inferior em ins­tituições especializadas, como também nas densas trevas, junto aos mais ensandecidos dos seres - os ovóides e os transmutados. O umbral é um local do astral inferior que se limita com o astral médio, onde se procede a maioria da ajuda dos espíritos mais evoluídos aos espíritos desafortunados que estão em sofrimen­to. Uriel possuía vasto conhecimento teórico e prático de diver­sas técnicas, além de ser uma líder inata. Era uma alma que se apresentava com formas femininas; um espírito muito determinado e equilibrado. Tinha o aspecto de uma bela azul, calva como todos os ahtilantes e olhos esverdeados, quase tão alta como Varuna, esbelta e longilínea, com um sorriso encantador.

Sandalphon era um especialista em ciências humanas. Era um repositório de saber, tendo uma cultura geral vastís­sima. Era um apaixonado do conhecimento. Fora escolhido devido ao seu conhecimento enciclopédico que poderia vir a ser útil. Era levemente baixo, sendo o menor da equipe, com uma pele cinza. Na cultura ahtilantê - extremamente preconceituosa e racista - os cinzas eram considerados como inferio­res. Naturalmente, tal preconceito se devia ao fato de que os cinzas viviam em regiões economicamente atrasadas. No en­tanto, não havia nenhuma razão para tal preconceito e, por isso, Sandalphon fora admitido por Varuna no grupo até como uma prova viva de que o preconceito não encontraria eco no coração e mente do coordenador.

Radzyel era um especialista em administração empre­sarial, tendo sido um proficiente gerente de empresas no seu tempo de renascido em Ahtilante, onde galgou os mais altos postos da administração empresarial. Fizera honesta fortuna e, após sua aposentadoria, montara um pequeno negócio que logo florescera sob seus excelentes dons administrativos. Du­rante quinze anos, essa empresa crescera solidamente, tornan­do-se uma das maiores do setor, ocupando mais de dez mil empregados. Radzyel a transformara numa fundação, onde os seus dois filhos e os funcionários detinham todas as ações. Falecera há mais de cinqüenta anos, tendo-se dedicado, neste período, a diversos trabalhos enobrecedores. Tornara-se um dos administradores mais capazes do Ministério do Renasci­mento. Radzyel se apresentava como um púrpura, muito alto e delgado.

Finalmente, fechando o seleto grupo, tínhamos Indra Vartraghan, mais conhecido como Vartraghan. Um espírito do astral médio; de todos, o menos evoluído. Fora um chefe alambaque durante mais de trezentos anos, após o que regenerara-se, através de quatro renascimentos difíceis e sofridos. O seu último renascimento fora extremamente severo. Nascera em família pobre que logo se dissolveu, fazendo com que fosse uma criança abandonada, vivendo da caridade pública. Quando cresceu, tornou-se policial honesto, íntegro e severo cumpridor da lei. Acabou sendo assassinado por facínoras que o tocaiaram covardemente, matando-o após torturá-lo acerbamente. Em momento algum, durante seu martírio final, demonstrou ódio ou sentimento de vingança. Tendo sabido suportar com galhar­dia todas as dificuldades de sua existência, procurou melhorar sua situação espiritual através de uma vida profícua. Quando voltou à pátria espiritual, transformou-se num guardião astral e, com o tempo, foi promovido a guardião-mor, comandando os guardiões de um grande setor do astral inferior. Os seus tempos de chefe alambaque foram relembrados pelos seus guias mentores, através de operações de regressão, para que tivesse perfeito conhecimento do comportamento ímpar des­ses seres e pudesse, deste modo, ajudá-los. Apresentava-se como um enorme verde, com quase três metros de altura, for­ça descomunal, olhar severo, calvo, larga testa e olhos pretos e uma roupagem negra de guardião, com detalhes em dourado, demonstrando sua alta patente de guardião-mor.

A reunião foi conduzida por Varuna que explicou detalhadamente o que estava para acontecer. Após escutar com extrema atenção, a equipe começou a questioná-lo. A maio­ria, exceto Vartraghan, era de espíritos do alto astral e do mundo mental, como Gerbrandom, conhecedores de fenô­menos coletivos como expurgos e transferências em massa para outras orbes. Discutiram vários aspectos fundamentais do expurgo.

Inicialmente, o tempo total não estava ainda delimita­do, o que seria feito pelo Ministério da Justiça a partir de reu­niões conjuntas. Saercha já dera uma estimativa. Algo em tor­no de setenta a cem anos. Isso daria a oportunidade de muitos espíritos arrependidos terem, pelo menos, um renascimento, e com isso, aperfeiçoarem-se nas difíceis lides da vida material.

Um outro aspecto importante era a seleção e as formas de suporte, assistência e guarda dos exilados, tanto em Ahti­lantê, como no planeta Azul. Sandalphon e Radzyel levanta­ram diversos aspectos, envolvendo transporte de massa de longa distância, ambientação do corpo astral no novo ambien­te e assim por diante. Havia mais perguntas do que respostas de modo que foi determinado que fossem formadas sub-equipes que estudariam cada um dos itens, para depois decidirem sobre as melhores opções, sob a coordenação de cada um dos presentes. A maioria conhecia os múltiplos aspectos de um ex­purgo, mas Vartraghan estava estarrecido com tudo o que es­cutara, já que nunca ouvira falar naquele assunto.

- Mestre Varuna, se bem entendi, os alambaques e seus seguidores e escravos são os principais candidatos ao expurgo?

Varuna assentiu. Vartraghan prosseguiu no seu interro­gatório.

- Que mal lhe pergunte, mas o senhor conhece os alam­baques? Tem idéia do que é coordenar um grupo tão díspar, tão pouco disciplinado e tão perigoso?

- Conheço-os em tese. Nunca trabalhei diretamente com eles.

Parando para refletir um pouco, o coordenador prosse­guiu:

- Posso entender a sua preocupação. Creio que seja legítima, no entanto desejo lhe passar a idéia de que iremos exilar mais de trinta milhões de seres. A maioria deles está subjugada pelos alambaques ou formam, eles mesmos, grupos de espíritos em extrema rebeldia. Nós teremos grandes di­ficuldades em levá-los à força. E fundamental que venham por livre e espontânea vontade, sem o que viveremos em estado permanente de revoltas e violência.

Varuna sabia que Vartraghan estava reticente porque os alambaques sempre foram motivos de duros esforços e, até mesmo, de combates, para serem dominados ou, pelo menos, cerceados em suas atividades nefastas. O guardião-mor não morria de amores por seus antigos pares e achava difícil mantê-los motivados.

- Vartraghan, fale-nos um pouco sobre os alambaques - pediu Varuna com o intuito de descobrir a forma de motivar os 'dragões' a virem para o seu lado e colaborarem no exílio.

- Pois não, mestre Varuna. Os alambaques não são seres criados à parte, ou anjos decaídos, como consta na nossa mitologia. Trata-se apenas de espíritos humanos que se en­raizaram em atividades pervertidas e insanas. Há nessa malta de desviados um grande número de pessoas inteligentes, cujas mentes poderosas comandam as regiões trevosas, mas a maioria é de seres simples, cuja evolução espiritual ainda é pequena, não passando de soldados-escravos dos chefes inteligentes e dominadores.

Uriel, que seguia o raciocínio de Vartraghan, acrescen­tou:

- É preciso dizer que esses soldados-escravos ou seus prisioneiros não são espíritos primitivos, mas almas já na fase média que se deixaram levar para o descaminho do ódio e da vingança.

Vartraghan assentiu e continuou expondo:

- É verdade. Todos são espíritos que se deixaram arrastar no vício, corrupção, ilegalidade e criminalidade. Há, porém, seres de grande cultura, com vasto conhecimento técnico e, até mesmo filosófico, que são alambaques.

O chefe dos guardiões prosseguiu sua explanação:

- É fundamental que se entenda a fabulosa força que é a atitude. A maioria das pessoas vive com um comportamento negativo, seja achando que são pobres coitados e não conse­guirão nada da vida, ou que são seres superiores e que todos lhes devem homenagens. Poucos são os que vivem com os pés no chão e a cabeça nas estrelas. E preciso viver o dia-a-dia com realismo, determinação, trabalho e ética, mas almejar um futu­ro maior e melhor, tanto para si, como para os outros.

Reclinou-se na cadeira, continuando seu raciocínio:

- Muitos alambaques, especialmente os chefes, são pes­soas que, quando tiveram existência física, foram injustiçadas ou assim se acharam, reagindo de forma extremamente nega­tiva. Alguns foram pessoas que procuraram ser corretas e torna­ram-se demônios de crueldade, quando o mundo demonstrou que não são sempre os retos que vencem na vida material. Revoltaram-se contra os vitoriosos do mundo físico que vencem de forma espúria e imoral. Tornaram-se endurecidos a qual­quer apelo de fraternidade, já que ao analisarem o mundo que os cerca, só vêem o efeito, e não as causas.

Vartraghan prosseguiu sua explanação de forma calma, sem empáfia ou falsa humildade:

- Muitos chefes alambaques dominam as técnicas de hipnotismo e sugestão mental. Podem dominar seus soldados-escravos, assim como os demais cativos, tornando suas vidas um verdadeiro martírio. Vivem nas trevas, em verdadeiras cida­des onde se congregam milhares de seres temporariamente desgraçados. Usam técnicas de dominação mental para impor os mais profundos e desesperadores sofrimentos nos que trans­grediram a lei divina.

- Diga-me, Vartraghan, os alambaques constituem uma força coesa e única, ou trata-se mais de uma concentração pul­verizada de pequenos grupos?

- Graças a Deus que são milhares de pequenas facções, muitas em permanente luta entre si. Há verdadeiras batalhas que são travadas no astral inferior entre grupos rivais usando as armas psicotrônicas. Algumas cidades-estados são cercadas por altos muros, guardadas por soldados-escravos, congregan­do milhares de seres. O governo dessas cidades é constituído de um ou mais chefes que disputam o poder entre si, mas que, de certa forma, por bem ou mal, acabam por concordar em dividi-lo entre eles.

Varuna dirigiu-se a Vartraghan:

- Precisamos ir até uma dessas cidades-estados para con­versar com os chefes alambaques. É fundamental trazê-los para nosso lado. Qual a sua opinião, Vartraghan?

- Acho que vale a pena, mestre Varuna. Conheço o caminho para Drak-Zuen, uma cidade-estado alambaque, do­minada por uma falange poderosa e coesa. Se conseguirmos convencê-los a se unirem a nós, teremos enormes possibilida­des de trazer os grupos restantes para o nosso lado. Drak-Zuen é uma das mais velhas cidades alambaques e sua influência sobre as demais é notória.

- Então está combinado. Irei com Vartraghan visitar a cidade de Drak-Zuen e conversar com nossos irmãos alam­baques. Enquanto isto, mestra Uriel coordenará as atividades básicas na minha ausência. Sandalphon e Radzyel precisam se dedicar a vários aspectos da questão de seleção, aprisionamento e transporte dos degredados. Creio que o mestre Ger­brandom poderá ser de grande utilidade. Consultem-no permanentemente. Verifiquem nos arquivos que tipos de exílio foram executados em outros planetas. Vejam se há idéias interessantes que possam ser utilizadas. Voltaremos a nos reunir assim que retornarmos do nosso encontro com os alambaques.

Dois dias depois, Vartraghan e Varuna partiam para o astral inferior. Resolveram que iriam fazer o percurso sem usar os recursos de um transportador astral. Era importante que os alambaques soubessem que dois espíritos superiores vinham visitá-los. Poderiam ter optado para ir diretamente à cidade de Drak-Zuen, através da volitação e da 'materialização’ in loco.Contudo, ao trilharem o caminho da descida vibracional gradativa, Varuna iria conhecer melhor as plagas a serem cobertas e as populações ali existentes a serem retiradas.

Saíram do alto astral, dirigindo-se aos planos mais baixos de vibração espiritual. Chegaram volitando ao umbral que já mostrava os primeiros sinais do que os esperava. O ar era mais denso e o imenso sol de Capela aparecia sob uma névoa plúm­bea, obscurecendo seu brilho. Vartraghan tomara uma forma mais densa, sugerindo o mesmo a Varuna, no que foi pron­tamente atendido. Cobriram-se, mentalmente, com vestuário simples que não denotava a sua elevada condição. Naqueles locais, a experiência de Vartraghan era superior a de Varuna e, por mais elevados que fossem, deveriam se comportar de acor­do com os costumes dos habitantes locais. Poderiam manter uma alta freqüência vibratória, mas desse modo não seriam vis­tos por ninguém. Mas não era essa a intenção; queriam ser vistos e reconhecidos. Varuna diminuiu seu brilho alvíssimo e obscureceu seu corpo astral aos limites da total visibilidade, naquele plano.

O umbral ainda demonstrava alguma aparência com o mundo físico, parecendo um vasto charco, escuro, brumoso e fétido. Não era ainda o mundo dos alambaques. Foram cami­nhando por um terreno cada vez mais lodoso, juncado, aqui e acolá, de corpos mais ou menos empilhados. Alguns deles estavam em aparente estado de putrefação. Não eram cadáve­res de pessoas mortas e, sim, espíritos entorpecidos, desmaia­dos e com todas as características do rictus mortis.Muitos gemiam baixinho, pareciam estar em pleno pesadelo, relembrando os momentos tortuosos de suas quedas morais.

Cruzaram várias vezes com obreiros de uma instituição socorrista vizinha, na sua faina diária de dar algum lenitivo aos infelizes. Um desses grupos, comandado por abnegado mis­sionário, levava quatro infelizes em estado catatônico para o nosocômio em questão e os dois juntaram-se à pequena carava­na. Após se deslocarem por quase uma hora por charcos e terrenos baldios, chegaram a um imponente complexo de pré­dios, que ficava nas mais densas trevas.

As edificações da instituição eram cercadas por altos muros que as circundavam de forma protetora, como o eram a maioria dessas organizações do astral inferior. Eram verdadei­ras fortalezas incrustadas em território extremamente hostil. No topo dessa extensa muralha, alguns postos de vigias - pesadamente armados com lançadores de fluidos que, ao atin­gir os eventuais atacantes, davam-lhes a nítida sensação de feri­mento e até de morte - dominavam o cenário. As muralhas, raramente, eram atacadas, mas quando o eram defendiam-se como se fossem de uma organização medieval.

A instituição era enorme, ocupando um vasto território, onde destacavam-se cinco grandes construções e um 'Zig-Ghurar-The', que é um templo em forma de pirâmide, sendo constituído de diversos prédios que iam sendo construídos uns sobre os outros. A instituição ocupava mais de cinco milhões de metros quadrados e a atividade era frenética, com um vai­vém de pessoas, quase todas vestidas de branco ou cores claras, salpicados de prata ou dourado. A expedição entrou por ma­ciços portões que se fecharam rapidamente. Foram levados ao prédio central e apresentados ao chefe-geral da instituição.

Sraosa era um espírito abnegado que, nos últimos duzen­tos anos, dedicara-se àquela instituição socorrista. Vivia com sua amada esposa Mkara que o ajudava em tudo. Ele era um excelente administrador e ela, uma médica espiritual ímpar. Varuna se apresentou e ao amigo Vartraghan que o acompa­nhava. Foram recebidos de braços abertos e convidados a passar a noite no local.

À noite, um jantar foi servido. Varuna de certa forma estranhou que eles ainda se alimentassem como se fossem seres mergulhados na carne. Sraosa notou que ele quase não tocava na comida e gentilmente o alertou.

- Você precisa se alimentar, mesmo que lhe pareça es­tranho. Os ares viciados dessas zonas de purgatório roubam muito de nossa força mental. Essa alimentação fluídica resta­belece as nossas energias para que possamos continuar nossa missão.

Varuna sentiu-se envergonhado de ter colocado em dúvi­da a elevação dos presentes e desculpou-se, alimentando-se fartamente do delicioso caldo que lhe serviram generosa­mente.

Mkara inquiriu:

- Peço-lhes que me desculpem a ousadia, mas gostaria de saber qual é a sua missão. Pode ser que possamos lhes ser úteis de alguma forma.

Varuna respondeu de imediato, demonstrando que não se ofendera com a atitude inquisitiva da nobre senhora. Explicou-lhe sucintamente a missão, dizendo-lhe que estavam à pro­cura dos principais chefes alambaques. Os presentes estranha­ram que tão nobre criatura quisesse manter contato com seres infernais e o questionaram ainda mais sobre a natureza íntima de sua missão. Viu-se, portanto, forçado a contar em maiores e relevantes detalhes a totalidade de sua missão. Terminada a exposição, os presentes, que contavam ainda mais uma dúzia de ajudantes diretos de Sraosa e de sua esposa, estavam mudos de espanto. As perguntas começaram a chover sobre Varuna até que o chefe da instituição colocou um pouco de ordem no alvoroço criado pelas notícias.

- Peço aos meus amigos que se dignem a não mais incomodar nossos hóspedes com perguntas importunas e a deixá-los expor os fatos de uma forma civilizada.

Varuna já se arrependera de ter-se externado tanto, mas como todos no astral médio e superior já sabiam dos fatos a acontecer em Ahtilantê, imaginou erradamente que aquela instituição mergulhada no centro do astral inferior também tivesse as mesmas notícias. Procurou, então, com palavras selecionadas, a fim de não ferir susceptibilidades e sensibili­dades, expor de forma organizada e metódica, tudo o que esta­va para acontecer.

Após um quarto de hora de exposição sem a menor inter­rupção, os presentes estavam admirados. Alguns estavam pre­ocupados com seres queridos que ainda estavam renascidos em Ahtilante. Outros, com seu próprio destino. Era óbvio que, em poucos anos, todo aquele esforço de recuperar os infelizes tombados na senda do crime e da corrupção estaria fadado a grandes mudanças. Na realidade, a preocupação maior era daqueles que tinham seres que lhes eram caros ao coração, mas que ainda estavam mergulhados nas densas trevas. Será que teriam ainda a oportunidade de renascer, ter uma existência digna e profícua, evitando o exílio? Ou será que, mesmo renascendo, fracassariam e seriam exilados de qualquer forma?

Varuna procurou tranqüilizar todos, dizendo que todas as providências estavam sendo tomadas pelos espíritos administradores do planeta para que todos os obreiros de alta estirpe sideral tivessem as melhores oportunidades de trabalho e que nenhum deles fosse esquecido.

Após o tumultuado repasto noturno, Sraosa resolveu levá-los para conhecer o instituto. O primeiro prédio, com­posto de três andares, com uma extensão de centenas de me­tros, era a enfermaria para os que já apresentavam grandes recuperações. Entraram no prédio através de grande portão, passando por dez guardiões que logo reconheceram o guardião-mor Vartraghan, cumprimentando-o efusivamente, cha­mando-o de comandante. Após percorrerem longos corredo­res, entraram numa enfermaria muito iluminada, onde havia quatro fileiras de camas, colocadas lado a lado, com espaço de um metro e meio entre elas. Havia mais de oitocentos internos, na maioria, sentados nas suas camas entretendo ativa conver­sação. Algumas brincadeiras eram encetadas entre os partici­pantes, o que demonstrava excelente ânimo e disposição de espírito.

Mkara informou a Varuna, com palavras esclarecedoras:

- Este é o pavilhão dos recuperados. Estão prontos para novos renascimentos, demonstrando forte disposição para as futuras lides na carne. Alguns já trabalham em outros pavi­lhões, ajudando os mais enfermos. Após o jantar, nós permiti­mos que se reúnam em atividades sociais antes do merecido descanso noturno. Como pode ver, este pavilhão é destinado aos espíritos que apresentam o aspecto masculino.

Varuna passeou entre as camas, sob os olhares atentos dos presentes que se calaram quando Sraosa e Mkara entraram com os hóspedes. Eram espíritos no início de sua recuperação, demonstrando mais consciência do seu estado e, portanto, não eram os mais sérios candidatos ao exílio. Saíram do pavilhão indo para uma outra edificação.

O segundo prédio era fortemente guardado por qua­torze homens que também conheciam Vartraghan. Esse pavi­lhão era destinado aos loucos furiosos. Mkara levou-os por um longo e escuro corredor, com celas trancadas a sete chaves. Nas pesadas portas, existiam janelinhas que possibilitavam obser­var-se o interior das celas de nove metros quadrados. Em cada uma dessas solitárias, estava um ser que tinham muito pouco em comum com os humanos. Tinham sido hipnotizados pelos alambaques, apresentando um retrocesso aparente na escala evolutiva. Eram os transmutados.

Varuna olhava no interior de cada uma delas, procu­rando algum sinal de humanidade no meio daqueles seres decaídos. Subitamente, estancou à frente de um dos cubículos e pediu para entrar. Sentira forte atração no interior da cela. Mkara deu ordens para que abrissem a cela e no seu interior estava um homem que parecia um grande lagarto. Sua pele era totalmente marrom, com grandes placas no dorso, onde se podia notar um rabo de um metro que se alongava para fora da base inferior do corpo. Suas pernas eram arqueadas e seus braços eram tão curtos, que se tentasse alcançar o próprio rosto não conseguiria. Sua cabeça era deformada, tornando-se um misto de ser humano e grande réptil. Estava acorrentado às paredes e quando a porta abriu-se, pôde-se notar que estava acordado. Fora o único da longa fila de celas que não estava em estado de total estupor. Seu olhar era de fera acuada, rosnava baixinho, mostrando grandes dentes e ninguém diria que se tratava de um ser humano. Ele rosnou horrivelmente com a aproximação de Varuna, que o aquietou com a palma da mão espalmada.

Varuna perscrutou a mente do infeliz prisioneiro. Sua alma estava tumultuada com muitas imagens da vida real misturando-se com pesadelos. Era óbvio que tinha sido induzi­do hipnoticamente àquela terrível situação de homem-lagarto. Varuna concentrou-se no inconsciente do espírito, conseguin­do capturar a sua realidade mais íntima.

Mal-nascido numa favela de Tchepuat, fora cedo aban­donado pelos pais nas ruas da grande capital. Seviciado por crianças maiores, submeteu-se aos maus tratos para sobreviver na vida difícil das ruas. Mais velho, acostumara-se aos piores vícios, assim como aos desvios do sexo. Tornara-se bissexual, drogado e ladrão. Praticara pequenos furtos e sobrevivera a duras penas. Preso, surrado pela polícia, esquecido numa prisão para menores abandonados, fugiria para a rua, sendo novamente preso, vindo a evadir-se mais uma vez. Essa era sua vida até a maioridade. Depois dedicou-se a roubos maiores. Traficou miridina, viciando-se na droga potente. Matou seu primeiro homem com dezoito anos e, depois disso, matou mais vinte e três pessoas. Estuprou e assassinou mulheres e crianças. Nutria um ódio profundo por tudo e por todos. Detestava especialmente as crianças de rua, as quais o faziam lembrar sua própria situação. Começara a trucidar outros menores aban­donados com requintes de crueldade. Primeiro, os obrigava à sodomia e felação. Depois, os surrava impiedosamente e dego­lava-os sem dó. Muitas vezes, antes de decapitá-los, castrava-os e esperava vê-los morrer exangues. Tornara-se brutal, louco e sanguinário. Apreciava o assassinato de modo superlativo. Chacinara mais de oito crianças entre seis e dez anos, com uma frieza inimaginável. A polícia matou-o, quando tinha alcança­do a idade de vinte e três anos, num tiroteio ocasionado por uma batida antidrogas. Não tinha amigos. Nunca fora amado e nunca amara ninguém. Havia se transformado numa fera: uma besta humana.

Quando morrera, fora capturado pelos alambaques que o hipnotizaram. Eles foram buscar em sua mente críptica, as memórias antiqüíssimas, do tempo em que ainda era animal. Elas foram despertadas pelos alambaques, transformando-o no monstro que aparentava ser. Antes disso, todavia, torturaram­-no de forma inconcebível, levando-o à fraqueza mental e, posteriormente, transformaram-no com a aparência do monstro que, no fundo, tinha assumido. Fora preso pelos guardas numa excursão às trevas, onde habitava, perseguindo os outros espíri­tos trevosos, gerando um medo de enlouquecer nos incautos. Estava aprisionado na instituição há dez anos, não demons­trando o menor sinal de recuperação. Vivia encarcerado, vibracionalmente preso a uma série de instrumentos que o fixavam à parede da cela, já que era violento e perigoso.

Varuna olhou-o com extrema bondade. Aquele infeliz chegara ao mais baixo degrau da bestialidade humana, rele­gado a uma prisão mental sem nenhuma esperança. Será que era possível fazer algo por ele?

- Infelizmente, nobre Varuna, ele não responde aos nossos estímulos. Já tentamos todos os meios e não consegui­mos ainda tirá-lo deste estado de hipnose profunda. Acredito que dentro de alguns anos, poderá tornar-se receptivo aos nossos apelos.

O comentário de Mkara fora sentido. Realmente, aquela alma boníssima preocupava-se seriamente com seus internos.

Varuna sentiu-se compelido a orar. Seus olhos estavam úmidos. O ser era um monstro, mas, aos seus olhos, não passava de um desafortunado irmão menor. E verdade que revidara à crueza da vida, mas nada justificava a sua monstruosidade. No entanto, também era um filho do Pai Altíssimo. Não poderia ficar perpetuamente naquele estado de profunda demência. Varuna começou a orar interiormente ao Altíssimo. De seu peito, começaram a jorrar jatos de luz safirina. Seu espírito, que tinha diminuído o estado vibratório para se adaptar às condições do baixo astral, começou a voltar a vibrar em altís­sima freqüência.

A pequena cela iluminou-se de uma luz fortíssima que saía de todos os poros do corpo astral de Varuna. Mkara ajoe­lhou-se, sentia-se na presença de um semideus. O ser tenebroso começou a urrar, tentando cobrir seus olhos com os braços curtos demais. A luz que emanava de Varuna penetrava-o até o mais recôndito do seu ser. As trevas que o circundavam e lhe davam o aspecto monstruoso pareciam se dissolver em contato com a luz brilhante do grande espírito. Subitamente, outras luzes começaram a chover no ambiente, vindas de cima. Eram jatos de luzes como se milhares de poderosos holofotes es­tivessem ligados sobre Varuna e o ser monstruoso. Lentamente, o monstro foi retorcendo-se e sua forma grotesca foi perdendo o contorno. Os seus braços se alongaram, sua pele perdeu a cor marrom, tornando-se cinza-clara, a sua cauda longa e balançante encurtou-se, desaparecendo totalmente, suas pernas tor­naram-se humanas e, finalmente, a máscara facial foi-se apa­gando, dando lugar a um rosto humano, sofrido, angustiado e em profunda agonia. Repentinamente, o ser reabilitado à condição humana, soltou um grito forte e claro:

- Meu Deus, tenha piedade de mim!

Com essa interjeição, soltou-se das últimas correntes psíquicas, caindo nos braços de Varuna num pranto convulsivo de profundo arrependimento. Ele sustentou-o como se fosse uma criança, um bem-amado filho, e beijou suas faces. O ser o abraçou com força, como se fosse um filho pequeno, indefeso e inseguro. Todos os que o acompanhavam estavam emo­cionados. As lágrimas brotavam soltas nos olhos dos presentes. A emoção era grande e o ser reabilitado estava exausto, tendo saído de um longo pesadelo. Chorava agora mais calmo nos braços do grande ser que ainda estava iluminado, sendo difícil para os presentes poder vê-lo, tamanha a luminescência que saía de seu interior.

Varuna havia se desenvolvido a tal ponto que tornara-se um operador mental extraordinário, capaz de mobilizar ener­gias internas e externas superiores em favor dos irmãos desvalidos.

Após alguns minutos, Varuna voltou ao normal, para aquelas paragens, com uma vibração muito abaixo da sua realidade. O infeliz dormia profundamente em seus braços; calmo e pronto para a reabilitação. Levantou-o como se carregasse um tenro filhote e, junto com todos, levou-o para uma enfermaria especial, onde o colocaram em um leito limpo e perfumado.

Mkara deu ordens para providenciarem um renascimen­to urgente para o infeliz irmão. Alguns dias depois, o indigente espiritual era levado para o interior de um útero gentil e quente que o abrigaria até libertá-lo para o mundo físico, após sessenta e dois anos de martírio no mundo astral.

Varuna visitou as demais dependências onde pôde apre­ciar modernas técnicas de reabilitação moral e espiritual. Em todos esses lugares encontrou sofrimento em grau superlativo, o que sempre comoveu-o grandemente.

Na outra manhã, os dois viajantes despediram-se de todos e partiram para as trevas profundas à procura dos chefes alambaques. O caminho começou a apresentar uma inclinação maior. Os dois viajantes começaram a descer por longas escar­pas que pareciam não ter mais fim. Ao lado do caminho extremamente escuro, que somente olhos acostumados po­diam enxergar, havia desfiladeiros profundos. Um vento gelado passava por entre as rochas, uivando, dando uma im­pressão ainda mais lúgubre ao lugar.

Após horas de descidas, chegaram a um vale incrustado entre duas altas montanhas. Não estavam em nenhuma região do mundo físico. Era o início dos grandes abismos, onde raramente os socorristas espirituais desciam em missão sacrificial. Era o território dos tenebrosos alambaques.

Subitamente, depararam-se com uma turba de oito a dez pessoas que vinham andando no caminho entre dois charcos. Cada lado do caminho era ocupado por pântanos lodosos, onde se podiam notar alguns corpos semi-mergulhados e estáti­cos. Não havia escapatória, os dois grupos iriam se cruzar no caminho estreito.

Varuna observou o grupo que se aproximava. Era consti­tuído de pessoas com tamanhas deformidades físicas que os tornavam mais próximos de animais do que de seres humanos. Havia um infeliz que vinha amarrado, sendo puxado por dois brutamontes. O cativo urrava de dor, enquanto um dos captores o empurrava com uma espécie de forcado. O infeliz estava com uma canga no pescoço que lhe pesava, obrigando seu corpo a se envergar para a frente. O grupo era liderado por um homem alto, de cor púrpura-escura, vestido com roupas em tudo parecendo com couro.

Subitamente, o homem que parecia ser o chefe do grupo viu os dois e estancou. O grupo parou e ficou esperando. Os dois continuaram sua marcha até ficarem a menos de três metros do comandante do grupo. Vartraghan ia na frente, olhando firmemente para o chefe e lhe dirigiu a palavra:

- Salve. Sou Vartraghan e esse é o nobre Varuna. Pedimos passagem. Estamos a caminho da cidade de Drak-Zuen para uma conferência com os chefes alambaques.

O chefe do grupo deu um passo para a esquerda, abrindo um espaço mínimo para os dois. Reinava um silêncio obsidiante e Vartraghan se adiantou, enquanto os seres deformados abriam exígua passagem. O cativo tinha sido jogado de joelhos e chorava baixinho. Quando Varuna passou, ele levantou os olhos, começando a gritar.

- Salve-me! Salve-me, pelo amor de Deus! Não me deixe nas mãos destes monstros. Sou inocente. Juro que sou inocente. Nunca fiz nada.

Varuna parou e olhou para ele. Imediatamente o chefe do grupo aproximou-se célere e lhe disse, num tom amea­çador:

- Ele é nosso. Não ouse tentar tirá-lo de nós.

Vartraghan logo se interpôs entre Varuna e o chefe do bando, dizendo de forma autoritária.

- Não temos interesse no seu prisioneiro. Podem levá-lo e deixem-nos passar em paz.

Varuna colocou a mão no ombro de Vartraghan, como a acalmá-lo e voltando-se para o chefe dos obsessores, falou-lhe com um tom de voz brando, mas com muita autoridade:

- Irmão, conheço-lhe o relevante trabalho que faz nas sombras, mas peço-lhe com todo o respeito que me permita examinar o seu prisioneiro.

O olhar doce, mas forte, de Varuna cruzou com o olhar cruel do chefe do grupo e esse sorriu sarcasticamente. O resto do grupo estava empunhando armas estranhas, mas que po­diam dar a impressão de dor.

- Examine, então, o crápula. Veja se ele é tão inocente quanto alardeia.

Varuna colocou a destra na fronte do homem, captando o que estava na sua memória mais recôndita. Em menos de um segundo, a imagem mental do cativo transferiu-se para sua mente, permitindo que visse o que o estava martirizando.

Na sua tela mental, plasmou-se a imagem do cativo morando num belo apartamento de quatro cômodos, cercado de objetos finos, com uma esposa e dois filhos. Viu quando saía, a pretexto de ir trabalhar, reunir-se com outras mulheres. Uma delas surgiu nitidamente na sua mente. Era bela e jovem. O homem a tratava com desdém, atirando-lhe dinheiro no rosto. Seduzira-a com falsas promessas de casamento e agora man­dava-a embora com um filhinho pequeno. Já não tinha interes­se por ela, tendo em vista outras mais jovens e belas. A imagem mudou-se e viu quando aquele infeliz tramava grandes nego­ciatas com dinheiro alheio, trazendo prejuízos a vários nego­ciantes honestos, mas desavisados. Imagens após imagens, a vida do homem era cheia de pequenos crimes e desonestidade. Nos negócios, com os amigos, com a esposa, tudo era motivo de escândalo. Contudo, havia um crime mais grave que o assolava como um terrível fantasma a lhe rondar o leito. Tinha sido fiel depositário da esperança de muitos homens, como chefe de um poderoso sindicato, e usara os recursos dos mes­mos para seu próprio benefício, deixando os infelizes sem a aposentadoria que pagaram por vários anos. Colocara a culpa num outro homem, que acabou sendo preso e condenado por fraude. Esse infeliz morrera na cadeia, deixando viúva e filhos desprotegidos. Enquanto isso, o criminoso se ocultara na ri­queza mal adquirida, rindo-se de todos já que, na sua opinião, praticara um golpe de mestre.

Varuna encerrou a operação mental, virando-se para o chefe da equipe de captores, dizendo-lhe:

- Realmente, nosso irmão não é nenhum santo, mas será que é motivo para tratá-lo desta forma?

- Isso não é nada perante o que o aguarda. Nós vamos levá-lo para o julgamento e vamos transformá-lo num chacal, pois isso é o que ele é. Um chacal miserável que ataca na calada da noite para roubar e matar.

Varuna sabia que a justiça devia seguir seu curso. Se o homem estava onde estava é porque merecia. Se tivesse tido uma vida reta e justa, não poderia ser presa dos alambaques. Os dois viajantes cumprimentaram o chefe, que era o lugar-tenente de algum poderoso alambaque, e seguiram seu caminho. O infeliz agora uivava de dor e terror, pois os demô­nios o cobriam de pancadas, humilhando-o com fortes chico­tadas. A canga era puxada com mais força ainda.

Nesse instante, a certa distância dali, a cena fora acom­panhada num grande visor que projetava o que um vidente espiritual conseguira ver. Três seres deformados, monstruosos, olhavam o acontecido com muito cuidado, comentando entre si o fato, com suas vozes cavernosas.

- Afinal, quem são esses dois incautos?

O vidente, que também perscrutara a mente dos dois, retrucou:

- Definitivamente não são incautos. Um deles é Var­traghan, antigo alambaque, atualmente guardião-mor. Ele está disfarçado de homem comum, mas não me engana. Entrei em sua mente e vi quem era.

- E o outro?

O vidente fez uma pausa, e depois respondeu, de forma inquietante:

- Não consigo penetrar em sua mente. Ele é um poderoso mago, um mykael.Demonstra ser um homem comum, mas é poderoso, muito mais do que Vartraghan que o acompanha.

- O que será que deseja conosco?

- Pelo que pude captar de Vartraghan, ele deseja nos oferecer uma rara oportunidade. Só não consegui descobrir que tipo de chance o mykaeldeseja nos ofertar.

- Deixe-os vir. Quando estiverem mais perto, poderemos entrar em suas mentes e descobrir tudo e conforme for, nos aceitaremos ou os dominaremos, tornando-os nossos escravos.

- Sim, mas cuidado com o mykael.Ele é muito poderoso. Não se submeterá a nossas técnicas de hipnose. Temos que ter extremo cuidado com ele, ou ele é que nos fascinará. Ele é um mykael.

Durante a descida, não viram ninguém, mas agora po­diam ver algumas silhuetas furtivas que pareciam esconder-se entre arbustos raquíticos. Eram vigias dos alambaques e as presenças dos viajantes já tinham sido noticiadas aos chefes em Drak-Zuen.

No meio do extenso vale, ainda relativamente longe, havia uma cidade. Uma verdadeira cidade, com casas, ruas e, até mesmo, um palácio central, para surpresa de Varuna que jamais havia ido tão longe. Era a cidade maldita de Drak-Zuen. Não era muito grande, devendo ter cerca de trinta a quarenta mil habitantes. De onde estavam, Vartraghan não poderia notar todos os detalhes, já que a escuridão era completa. Contudo, Varuna usara uma forma de visão espiritual que lhe permitia ver através das mais densas trevas como se fosse dia. Andaram ainda por mais de meia hora, aproximando-se de Drak-Zuen através de uma estrada de pedras, margeada por algumas estátuas gigantescas de figuras de aparência terrificante. Havia figuras humanas, de mais de dez metros de altura, com aspecto reptilóide, com asas de morcegos e expressões ferozes no olhar. Vartraghan informou-lhe que se tratava de estátuas de alguns chefes alambaques e de figuras das lendas mitológicas dos dragões. Representavam o homem verdadeiro, de acordo com os habitantes do local. No fundo, a distorção mental dos alambaques fazia crer que o verdadeiro ser era aquele que não se submetia aos desígnios de ninguém, a não ser ao seu próprio egoísmo.

Antes de entrarem na cidade, foram subitamente cer­cados por mais de quinze guardas alambaques, surgidos de pedras e arbustos. Já tinham sido vistos pelos dois peregrinos, quando procuravam se esconder canhestramente para surpreendê-los. Ambos sabiam que eram inatingíveis, a não ser que se deixassem intimidar, e com isso baixassem suas guardas mentais. Os soldados tinham o olhar feroz, representando a mais estranha corja de seres que se poderia imaginar. Cada um tinha um vestuário e um armamento. Uns tinham capacetes tipicamente medievais; e outros, a cabeça lisa, com chifres proeminentes a saltar da testa. Uns pareciam híbridos de homens e animais: imagens de ferozes ursos, tigres, leões, répteis se misturavam com a figura humana, gerando a mais completa desarmonia de caracteres. No íntimo, cada um exter­nava o que se sentia, verdadeiras bestas-feras que exsudavam do âmago revolta, ódio, angústia e sofrimento.

Quando chegaram ao local da pretensa emboscada, foram rapidamente cercados, sem ser, no entanto, agredidos. Vartraghan levantou o braço direito e os cumprimentou. Um deles fez um gesto, grunhindo algo de incompreensível que o guardião detectou como sendo uma ordem para segui-lo.

- Vamos seguir aquele soldado.

Seguiram-no, acompanhados dos outros que aparen­tavam ferocidade e entraram por um portão alto, incrustado de elementos decorativos estranhos e desenhos exóticos. A cidade era cercada de altas muralhas, tendo características de cidade medieval, com ruas estreitas e imundas. As alamedas eram tortuosas, cobertas com pedras, muitas delas pontiagudas e desencaixadas, margeadas de casas pequenas e toscamente construídas, muito sujas e fedendo insuportavelmente, com janelas estreitas.

O grupo prosseguiu até chegar a uma grande praça. Tudo era muito escuro, com uma névoa plúmbea cobrindo a cidade. No caminho, alguns seres saíram de suas casas para vê-los passar, mas, sem dizer uma única palavra, retornaram ao interior com ares desalentados, vendo que os prisioneiros nada podiam fazer para ajudá-los. Na praça, cruzaram com um pequeno grupo de seis soldados dos alambaques, também vestidos de modo grotesco, carregando dois balões do tamanho de uma bexiga. Deviam medir algo em torno de trinta cen­tímetros de altura. Esses balões ovóides eram espíritos que tinham perdido totalmente a expressão exterior. Não mani­festavam a menor forma externa por terem se interiorizado demais. Eram quase sempre pessoas que tinham cometido múltiplos e consecutivos suicídios e que, fugindo das oportuni­dades redentoras, procuravam a 'segunda morte', o aniquila-mento final que, aliás, não existe. Esses casos, relativamente raros, também teriam sua vez de progredir, mas, por enquanto, serviam de obsessores involuntários nas mãos dos alambaques.

No outro lado da praça, havia um enorme palácio. O gosto da construção poderia ser duvidoso, mas sua imponência era inconteste. Uma série de torres pontiagudas elevava-se ao céu. Mais de seis andares gigantescos coroavam a terrível construção. Parecia feito de pedras negras e com enormes janelas exteriorizando uma luz vermelha, dando-lhe a im­pressão ainda mais fúnebre. Uma grande escadaria dava acesso ao seu interior. Era guardado por soldados de olhar feroz e postura animalesca. Um deles mantinha numa grossa corrente uma espécie de cão grande, com a bocarra escancarada a mostrar dentes pontudos. Varuna reconheceu nesse canzarrão, um ser humano caído cm desgraça, hipnotizado pelos alam­baques e transformado num animal medonho.

Subiram as escadarias que davam para o interior, pene­trando no palácio. Grandes corredores foram vencidos após alguns minutos de marcha e deram entrada numa enorme sala, onde existiam oito tronos em posição elevada, formando um amplo semicírculo. No seu centro existia um tablado levemente mais alto do que o piso, onde um símbolo estranho e tortuoso estava desenhado, lembrando vagamente uma suástica, repre­sentando a boa fortuna - símbolo dos alambaques. Os soldados apontaram para que ficassem ao lado dos tronos e aguardas­sem.

Esperaram mais de meia hora no mesmo lugar. Os soldados pareciam embrutecidos e não se mexiam. Vartraghan estava perdendo a paciência e Varuna emitia telepaticamente uma mensagem para que se acalmasse e não reclamasse; rece­bera uma mensagem clara e perfeitamente audível dos seus superiores.

- Nada tema; estamos com você. Nada lhe acontecerá. Basta você confiar na sua própria força e no poder ilimitado de Deus.

Varuna retransmitiu a mensagem mentalmente para Var­traghan que se sentiu mais seguro e tranqüilo. Conhecia essas paragens, sabendo que somente um grande espírito como Varuna poderia entrar e sair incólume. Ele mesmo teria di­ficuldades se estivesse sozinho. Qualquer outro poderia ser vítima da hipnose terrível dos alambaques. Eles não podiam agredi-lo fisicamente, mas poderiam tentar hipnotizá-lo, obrigando-o a abrir suas defesas psíquicas. Todo homem tem pelo menos um crime escondido na sua consciência, mesmo que seja em existências pregressas. Varuna não seria exceção. Portanto, teria que ter defesas morais fortes para que os alambaques não pudessem penetrar no seu subconsciente, descobrindo alguma falha de seu caráter, por mais que estivesse no recôndito de sua alma. Se isso acontecesse, poderiam manipulá-lo para que o complexo de culpa viesse à tona e o enfraquecesse. Se chegas­sem a esse ponto, Varuna e Vartraghan estariam perdidos, podendo tornarem-se escravos dos alambaques. Varuna sabia disso e estava preparado para todas as ofensivas. Contra a grosseria de uma fascinação, Varuna se defenderia com sua força moral e sua compaixão pelo próximo. Durante alguns minutos, ele sentiu que poderosas mentes tentavam perscrutar seu interior, e com um simples ato de vontade, emitiu men­sagens de amizade de volta aos que tentavam invadir seu íntimo. Após alguns minutos, essas vibrações cessaram. Não tinham conseguido descobrir nada que pudesse desabonar Varuna.

Após uma espera proposital e deselegante, duas trombetas soaram majestosamente. Os chefes alambaques entraram com enorme pompa. Eram seguidos por diversas pessoas e algumas mulheres belíssimas, seminuas, que os acompanha­vam. Sentaram-se nos seus tronos e a maioria do seu séquito esparramou-se no chão, em volta deles. Olhavam para Varuna com superioridade e com certo desdém. Tinham tentado e não haviam conseguido furar seu bloqueio mental, o que os deixara intrigados. Varuna estava num plano tão mais elevado do que eles, que seus equipamentos e suas mentes não tinham encontrado nada que pudesse deixá-lo vulnerável.

- Quem é você?- perguntou-lhe um dos chefes alam­baques. A pergunta não foi feita em tom ofensivo, pois havia até um certo respeito pelo interlocutor.

- Meu nome é Varuna Mandrekhan e este é meu amigo, Indra Vartraghan - respondeu o grande espírito calmamente, apontando para o grande guardião.

Um dos chefes falou algo com um dos soldados e logo uma cadeira confortável foi providenciada para Varuna. Var­traghan não recebeu nenhuma deferência especial. Varuna agradeceu e olhou para Vartraghan, e depois para o soldado. Este olhou atordoado para o chefe e ele fez um gesto como quem concorda, e uma outra cadeira foi providenciada para Vartraghan.

- Muito bem, Varuna Mandrekhan. Você está na terra dos temidos alambaques, os grandes justiceiros. Saiba que a nossa atividade é cruel, mas não é desprovida de propósito. Mostraremos a você e ao seu amigo Vartraghan como os alambaques providenciam e cooperam com a justiça divina, pois, por mais estranho que lhes possa parecer, somos nós os executores da justiça do grande Pai.

A afirmativa fora feita com empáfia por um dos chefes que, virando-se para um dos guardas, gritou:

- Tragam os prisioneiros.

Era óbvio que os alambaques estavam curiosos sobre o motivo da visita, mas, sagazes como eram, preferiam fazer primeiro uma demonstração de força, para depois negociar com os visitantes uma posição ou situação melhor. Passaram-se alguns instantes, quando por uma das arcadas, pôde-se notar, vindo do fim de um extenso corredor, um grande grupo de sessenta pessoas, acompanhadas de soldados-escravos estra­nhamente vestidos.

Muitos dos prisioneiros estavam acorrentados e gritavam palavras desconexas. A balbúrdia era completa. Muitos dos prisioneiros não sabiam onde estavam. Outros estavam conscientes de sua situação, acreditando estarem no próprio inferno. Entraram lentamente na grande sala, sendo separados pelos soldados-escravos em vários grupos. Os soldados-escravos usavam pequenos aparelhos que perscrutavam o interior dos prisioneiros, catalogando-os de acordo com suas característi­cas. Os usurários, os corruptos, os egoístas, os dementes, os assassinos e assim por diante, eram separados em pequenos agrupamentos enquanto aguardavam o terrível veredicto dos alambaques. Estavam, no entanto, reunidos ali os casos extre­mos, a nata da escória espiritual e não os criminosos espirituais de pequena monta.

Os chefes alambaques levantaram-se. Um dos chefes, aparentemente o mais velho, que apresentava o aspecto de grande hierofante de alguma igreja estranha, gritou com sua voz grave, cava, obrigando aos cativos a se calarem. O silêncio se fez completo. Muitos dos prisioneiros estavam em estado catatônico e alguns não se davam conta do que acontecia, parecendo estar num sonho ou pesadelo, de onde eventual­mente soltavam gritos, imprecações e exclamações de dor e terror. O mesmo chefe, virando-se para Varuna, convidou-os para acompanhá-lo.

- Acompanhem-me, nobres senhores, e vejam a que ponto chega a hipocrisia e o cinismo humano.

Levantaram-se, acompanhando o estranho hierofante. Este aproximou-se de um grupo de homens, com um pequeno aparelho que media a intensidade da faixa vibratória do corpo astral. O ponteiro pulava de um lado para outro, parando em determinado número do mostrador do equipamento. O hierofante voltou-se para Varuna, transmitindo telepaticamente que aquele ser era um dos mais sanguinários assassinos, e convidava-o a assistir ao julgamento.

- Quem és e o que fizeste na vida para merecer vir aqui?

O espírito, demonstrando grande e falsa humildade, respondeu com voz quase sumida, dando-lhe o seu nome e afirmando ignorar por que estava naquele lugar. O hierofante bradou:

- Então, você é inocente de qualquer violência contra seu semelhante?

O infeliz respondeu baixinho que jamais ofendera a quem quer que fosse, não sendo responsável por nenhum ato bárbaro.

O hierofante virou-se para Varuna e lhe disse baixinho:

- Veja a desfaçatez deste criminoso. Assassinou mais de dez pessoas, roubou à mão armada mais de cem residências, estuprou mulheres e espancou velhos e crianças. Entretanto, diz-se inocente. Mas nós temos meios de fazê-lo confessar a verdade.

Assim falando, o hierofante olhou nos olhos do inconfesso e lhe disse com sua voz tonitruante.

- Confesse a verdade. Confesse a verdade.

Seus olhos pareciam duas pedras incandescentes que penetravam no âmago do réu. Após alguns instantes de sugestionabilidade mental, o infeliz começou a gritar, tomado de pavor, c logo começou a confessar todos os seus crimes. Começou a contar desde os seus menores crimes até os mais hediondos. O hierofante conduziu-o, mentalmente, para que não perdesse tempo, aos dois crimes mais torpes que cometera. Desse modo, após cinco minutos de conversa, o criminoso estava desmascarado por si próprio. O hierofante, voltando-se para os demais chefes, bradou:

- Ele é um animal, uma besta humana. O que merece? Todos gritaram juntos:

- Voltar a ser um animal.

E, subitamente, todos os oito chefes alambaques e seus lugar-tenentes, cerca de vinte e cinco seres estranhamente deformados que os acompanhavam, começaram a sussurrar a palavra animal, gradativamente mais forte até envolver com­pletamente o confesso. Varuna acompanhava calmamente o processo, podendo ver como os fios mentais quase invisíveis dos alambaques penetravam no infeliz, hipnotizando-o, sugestionando-o e acrisolando-o num nível mental baixo. As cargas mentais penetravam no seu córtex, indo se alojar na parte traseira, que corresponde ao cerebelo, excitando a área en­quanto as demais pareciam se apagar. No cerebelo espiritual estavam as mais profundas lembranças de existências ainda na fase animal que gradualmente tomavam conta do corpo astral, remodelando-o para uma mistura esdrúxula de vários animais. Em poucos minutos, o assassino confesso transformou-se em um animal semi-humano, cujo olhar demonstrava que estava na mais profunda catatonia, revivendo continuamente os seus crimes de forma permanente. Varuna presenciara um fenôme­no de licantropia espiritual conduzida pelos alambaques.

Esse rito, paródia de justiça e de religião, continuou por mais algum tempo, sendo que se pôde observar que todos os acusados eram de fato culpados, e que foram eles mesmos que se impuseram uma pena. Houve sacerdotes de vários cultos acusados de falsidade ideológica, assim como políticos acusa­dos de corrupção e manipulação de esperanças populares, considerado como crime gravíssimo. Houve mães acusadas de abandono do lar para viverem existência devassa, assim como maridos que foram acusados de crimes de lesa-família. Não se tratava, portanto, de pequenos delitos, mas crimes efetiva­mente graves.

No final do grande ato, o hierofante que parecia ser o comandante ou, pelo menos, aquele que detinha certa predominância sobre os demais, perguntou a Varuna:

- Então, nobre Varuna, o que achou de nosso trabalho?

- Não se pode negar que os acusados foram julgados de acordo com suas próprias consciências, e que o trabalho dos alambaques há de ser considerado impecável.

Varuna respondeu e aproveitando a oportunidade, con­tinuou sua exposição, elevando sua voz para que todos o escutassem:

-Vocês, como todos os seres vivos do universo, trabalham em estreita cooperação com a Grande Obra de Deus e dos nos­sos Maiores. E por.isso que estou aqui, para convocá-los a uma missão de justiça. Ninguém melhor do que os alambaques estão aptos a entender os difíceis meandros da consciência humana degradada no crime e na doença mental do egoísmo.

O silêncio se fez presente, enquanto Varuna com sua voz grave, calorosa e amiga, dirigia-se aos chefes alambaques e a seus lugar-tenentes. Ele começou uma técnica pouco familiar aos alambaques que era a de exteriorizar grandes imagens e sons telepáticos simultâneos, de tal forma que mesmo o mais distante podia ver e ouvir como se estivesse ao lado dele. Os alambaques ficaram surpresos com tal técnica, demonstrando satisfação em conhecer alguém tão poderoso como Varuna.

- É chegada a hora de se alterar a face de Ahtilantê. Chega de injustiças, do mais forte sobrepujando o mais fraco, o ódio vencendo o amor e a droga corroendo a sociedade. E a hora da justiça e dos que a amam acima de tudo.

Varuna usava o termo justiça no seu sentido mais amplo, muitas vezes dando a subentender a atividade justicialista, imoral e ilegal de fazer justiça pelas próprias mãos. Ele enten­dia que para atingir a mente dos alambaques era preciso fazê-los associados numa cruzada de justiça, já que esses seres achavam-se - e realmente o eram - servidores da Justiça Divina.

- Os nossos irmãos angélicos determinaram que Ahti­lantê será expurgado de toda a sua escória espiritual e que os alambaques serão os poderosos artífices desta mudança. Quem não deseja um mundo melhor para viver?

Mais uma vez Varuna usava o desejo dos alambaques de um mundo mais justo, já que a maioria achava que tinha sido injustiçada enquanto estivera jungida à matéria. Mesmo sem uma resposta formal, os chefes alambaques reagiam positivamente à pergunta formulada, o que lhe propiciou a con­tinuação da exposição.

- Para que esse mundo possa tornar-se efetivamente melhor, é preciso retirar dele os egoístas, os preconceituosos, os soberbos e os injustos. Falamos daqueles que são os prisionei­ros dos alambaques. Daqueles que se acham superiores à justiça dos homens. Daqueles que os alambaques trazem para ser justiçados de forma terrível, mas justíssima. Esses não podem permanecer entre os homens de boa vontade, aqueles que realmente desejam evoluir.

Nesse instante, Varuna iniciou um processo de cresci­mento espiritual e de iluminação profusa do ambiente, com luzes toleráveis aos alambaques, de cor safirina e com toques rajados de cor de ouro velho.

- Vocês, falanges temidas das trevas, também servem à justiça divina, aplicando o justo castigo aos odiosos, aos que negaram um mínimo de eqüidade aos seus semelhantes. E por isso que eu, Varuna Mandrekhan, servo do Senhor, nosso Deus, Pai Amantíssimo de todos nós, vim aqui para falar com vocês.

Os alambaques estavam totalmente dominados pela figura de Varuna. À medida que falava do eterno Pai, Varuna se inflamava e chispas de fogo saíam de seu corpo, luzes o iluminavam e os alambaques, que nunca tinham visto um espí­rito em tal estado, se ajoelhavam. Sentiam que estavam perante uma força superior que os tratava com respeito, deferência e igualdade.

- Para que Ahtilante seja um planeta limpo da escória, é preciso levá-los para outro planeta. Existe, portanto, uma opor­tunidade de redenção fora de Ahtilante. Vejo para vocês, alam­baques, uma oportunidade de renovação num planeta que poderá recebê-los de braços abertos. Lá vocês serão mais do que simples justiceiros. Serão deuses, condutores de homens e senhores de destinos. Aqui ficará para trás um lugar que não lhes soube dar valor, enquanto que, à frente, um novo mundo lhes dará novas oportunidades.

Varuna sabia que a maioria dos alambaques não desejava renascer em Ahtilante, atrasando propositalmente sua evolu­ção espiritual, com receio de novos fracassos no planeta. Era preferível, para eles, ser crítico a ator na peça da vida.

- Não quero tirar de seu justo domínio aqueles que chafurdaram na lama da ignomínia. Devem continuar a ser punidos por seus crimes e sua falta de justiça. Para isso, é desejo do Altíssimo que todos vocês venham comigo como ajudantes e soldados, como chefes e comandantes, para esse novo pla­neta, onde novas oportunidades lhes serão dadas.

Enquanto falava, Varuna mostrava em forma-pensamento o novo planeta. Aparecia um planeta com vegetação luxuriante, animais pitorescos e seres ainda primitivos. Todas as lembranças que tinha foram tiradas dos arquivos, os registros acásicos, no astral superior, e as reproduzia com extrema perfeição. Os alambaques olhavam extasiados. Quando apare­ceram os primeiros homens e mulheres do planeta Azul, comentários altos se fizeram ouvir. Alguns falavam que as mulheres eram muito bonitas, com cabelos - fato incomum entre os ahtilantes que eram calvos e imberbes - e os homens eram fortes e proporcionais. As imagens encantavam os alam­baques, especialmente aos mais simples. Podia-se ler nos olhos dos mesmos um fundo de esperança, de renovação espiritual.

Varuna captava mentalmente o que ia na mente dos chefes. A maioria estava dominada pela idéia de sair daquele inferno e ter novas oportunidades. A maioria detestava Ahti­lantê por todo o sofrimento que a sociedade e os homens lhe tinham imposto, conforme pensavam. Um planeta novo era uma oportunidade de recomeço, de reconstrução interior, de deixar para trás os laços sangrentos com um planeta que tinha sido cruel e, pior do que isso, um lugar que os tinha transfor­mado em monstros de crueldade e desespero. Eles tinham perfeita consciência de si próprios e não se amavam pelo que eram.

-Aqueles que desejarem aliar-se às legiões celestiais que expurgarão Ahtilantê que se unam a mim agora e para sempre. Os que não desejarem têm a oportunidade de renascimentos imediatos na crosta e, quem sabe, evitarão o banimento.

Elevando sua voz e levitando levemente para que até os mais distantes dos lugar-tenentes pudessem vê-lo, finalizou.

- Amigos e companheiros de trabalho, os nossos supe­riores desejam vê-los como deuses que são, guias que levarão o povo ao mais alto destino, e profetas da palavra justa. Para tal, desejo que cada um una-se a mim nessa cruzada de justiça.

Todos os alambaques estavam estarrecidos com os fenômenos luminosos, projeções mentais e sons, fragrâncias e cores que tomavam conta do ambiente. Para seres que viviam num ambiente onde a magia negra era o tempero de suas existências, Varuna era um mago excepcional. Nenhum deles era capaz de tudo o que vira naquela tarde. Varuna era um mykael,um grande mago, um portentoso espírito.

Varuna encerrou seu convite, pedindo para conversar em particular com cada um dos alambaques, inclusive os lugar-tenentes, no que foi prontamente atendido. Ele passou grande parte do restante do dia trocando idéias e conhecendo cada um deles. Seres estranhos, que sob a carapaça de monstros, eram homens comuns, com aspirações, sonhos e temores. Dois dos chefes eram brilhantemente inteligentes e se colocaram à disposição com sugestões muito válidas.

Vartraghan começou a participar ativamente do projeto, tornando-se o coordenador dos alambaques, de forma que se pudesse juntar o maior número possível de trabalhadores para uma espécie de assembléia a ser realizada num local aberto. A idéia tinha sido de um dos chefes alambaques presentes, que lhe explicara que o grupo deles era uma das mil duzentas e tantas facções de alambaques que se situavam no astral inferior do planeta. Seria impossível que Varuna visitasse todos, convidando-os individualmente. Deste modo, os chefes alambaques propuseram-se a conversar com os demais e, assim, haveria uma forma de entendimento mais rápido entre eles. Ficou estabelecido que haveria uma grande reunião, uma convenção, onde todos poderiam trocar idéias. Varuna concordou. Cálcu­los aproximados davam conta de que haveria cerca de vinte mil pessoas neste congresso. Só estariam presentes os alambaques propriamente ditos e os seus lugar-tenentes. Não estariam os seus soldados-escravos, pois, desta forma, o número subiria para mais de oito milhões de pessoas. Por outro lado, os soldados-escravos eram tão embrutecidos que nada enten­deriam. Como eles obedeciam cegamente aos alambaques e seus lugar-tenentes, bastava que estes fossem para a reunião para que um enorme exército de doentes, depravados e obsessores estivesse ao dispor das ordens de Varuna.

Varuna voltou para o astral superior usando a volitação. Sua viagem de regresso, após se despedir de Vartraghan, que ficaria para coordenar tarefas e instruir novos chefes, não levou mais do que alguns segundos. Não teve que atravessar as densas camadas do astral inferior, nem os planos do astral médio. Sua mente o levava para onde queria, em um átimo.

 

Varuna encontrou a sua equipe em plena atividade. Uriel estivera estudando detidamente, com uma pequena equipe de médicos e psiquiatras, as diversas faixas vibracionais que de­veriam ser retiradas de Ahtilantê. Englobava um conjunto de doenças mentais, bastante amplo, que incluía esquizofrênicos, orgulhosos, prepotentes, ladrões, assassinos psicopatas, dro­gados, arrogantes, traiçoeiros, desajustados crônicos, suicidas, maníaco-depressivos e, finalmente, pústulas e pusilânimes de toda sorte. O grupo de Uriel tinha desenvolvido um equi­pamento misto que serviria tanto para detectar a faixa vi­bratória do espírito, como emitir raios psicotrônicos que deixariam o espírito alvejado inconsciente por algumas horas.

Uriel explicou a importância deste mecanismo, pois quando os espíritos estavam vagando pela crosta, eles se tor­navam difíceis de serem distinguidos. Com este aparelho eles podiam ser rapidamente classificados e, com isto, serem separados dos demais. Já os que estivessem no astral inferior seriam, a priori,todos deportados. Os que estavam em insti­tuições socorristas e estivessem em condições de renascer, teriam uma última oportunidade de redenção. Caso contrário, seriam banidos de Ahtilantê.

- Este equipamento, mestre Varuna, permite que se possa detectar qualquer tipo de doença mental. Podemos, por exemplo, dentro de faixas selecionadas, só tomarmos como referencial os pontos extremos. O sistema foi desenvolvido para buscar a vibração espiritual íntima dos nossos irmãos doentes.

- Realmente, você usou a palavra certa, mestre Uriel. Doente! A sua definição é perfeita. E preciso que todos entendam que os exilados são doentes, devendo ser tratados como tais. O criminoso, antes de ser um monstro, deve ser visto como um sociopata, um psicopata, ou seja, um doente espiritual, que demanda tratamento, dedicação, compreensão e, principalmente, amor.

Varuna conduziu a reunião para outro patamar.

- Mestre Uriel, eu soube que vocês estudaram uma forma de transportar os nossos irmãos de Ahtilante para o planeta de destino. Gostaria que você nos expusesse o resultado de sua pesquisa.

- Sim, mestre Varuna, estudamos diversas formas de transporte, mas a que nos pareceu mais interessante foi uma solução que Gerbrandom nos deu. Peço que o irmão Sandalphon exponha.

Sandalphon levantou-se, atravessou a saleta onde todos estavam reunidos no Ministério da Justiça e apertou alguns botões. Logo apareceu numa tela situada numa das paredes o arquivo de um planeta extremamente distante, em outra galáxia desconhecida de todos os presentes. Sandalphon dedi­lhou alguns números diretamente na tela e tornou-se visível o que ele estava procurando. Assim que terminou a operação, ele começou falando:

- Os coordenadores deste projeto em outro planeta optaram por um local removível. Ou seja, edificaram no astral inferior, perto do início das densas trevas onde estão os candi­datos ao exílio, uma grande construção. Ela tem características muito peculiares. E inexpugnável a ataques exteriores. E tam­bém à prova de fuga. Foi desenvolvida para impedir rebeliões, pois no seu interior, ela pode ser dividida em quantos compartimentos quisermos. O prédio pode se deslocar dentro do astral inferior de um planeta por propulsão astral mentalizada. Pode também se deslocar pelo espaço astral entre dois planetas através de propulsão mental, acoplado a uma naveta mental, guiada por espíritos do mundo mental. Em última instância, servirá como forte, prisão, escola, hospital, sanatório, transpor­tador e local de preparação para o renascimento dos exilados.

Uriel interrompeu a explicação de Sandalphon para comentar sobre o grande artefato:

- Nossa idéia é construir um ou dois, e na primeira viagem levar toda a nossa equipe básica de renascimento, planejadores, psiquiatras e guardiões. Deste modo, os primei­ros artefatos ficariam no planeta Azul, onde serviriam de base para nossa operação. As demais viagens seriam feitas através de outros tipos de transportadores que iriam e viriam entre Ahtilantê e o local do exílio. Deste modo, poderiam ser reutili­zados por quantas vezes fossem necessários. Esse tipo não seria tão sofisticado quanto o primeiro, mas poderia levar uma quantidade enorme de degredados já que se trata de uma viagem curta.

Sandalphon retomou sua exposição para explicar um fato de suma importância:

- Como todos sabem, os espíritos do astral inferior e médio não são capazes de se deslocar, por si próprios, através do espaço sideral, indo de um planeta para outro. Deste modo, eles precisam ser transportados. No entanto, toda e qualquer edificação do mundo astral só pode se deslocar dentro do astral de um mesmo planeta. Para fazer uma viagem de grande distância é necessária uma energia muito maior. Deste modo, os transportadores que iremos desenvolver irão necessitar de um acoplamento de uma naveta do mundo mental, operada por espíritos deste plano específico. Eles irão se acoplar sobre o prédio em questão, modificando a vibração de todo a edifi­cação e, num átimo, deslocarem-se com vertiginosa velocidade entre Ahtilantê e o planeta Azul. Uma viagem de 42 anos-luz levará cerca de dez segundos. E algo de fantástico. Quando chegarem ao local, a naveta se desencaixará do prédio princi­pal, e todo a edificação e tudo o que estiver dentro dele, espíritos e objetos, voltarão à sua vibração original.

- Será que isto não será um choque para os banidos? - Perguntou Vartraghan, preocupado com uma possível reação dos alambaques.

- A maioria dos banidos irá sentir uma sensação de angústia e morte, sendo que a maioria irá desacordar. Mas os obreiros que são mais evoluídos terão a mais deliciosa das sensações.

- E quantas pessoas cabem nesse veículo? - perguntou Varuna visivelmente satisfeito com o avanço do plano.

- Depende do que se deseja. O projeto é todo modulável. Existem pequenos transportadores em que cabem trezentos prisioneiros com vinte auxiliares, assim como existem equi­pamentos para oitenta mil banidos com seis mil obreiros. Podem-se desenvolver até grupos maiores, mas exigem obvia­mente muito mais energia mental para construir e operar os módulos. O mais interessante é que tanto faz ser um módulo pequeno ou gigantesco, a viagem interplanetária faz-se por uma dobra do espaço mental com uma velocidade prati­camente similar. Uma viagem daqui ao planeta Azul não irá levar mais do que alguns segundos. No entanto, é preciso ver que se perde muito tempo em entrar e sair do transportador já que a maioria dos nossos irmãos estará em estado dementado ou adormecido, necessitando serem carregados em maças.

Neste ponto, Sandalphon começou a mostrar vários modelos de transportadores e Varuna e sua equipe olharam para os vários modelos que apareciam. Alguns eram gigan­tescos prédios retangulares, dando a nítida impressão de ser um megálito negro apontando para o céu. Outros eram uma grande esfera, onde os banidos iam no interior, em pequenas celas, numa viagem vertiginosa através do espaço. Havia um tipo piramidal, que era formada por vários prédios, uns em cima dos outros, diminuindo de tamanho à medida que cres­ciam, formando pirâmides de escadas. Esse tipo era de fato muito versátil, pois podia se desmembrar em vários módulos que podiam se deslocar para locais diferentes, assim que chegassem ao planeta Azul.

Sandalphon explicou que havia vários tamanhos, já que o processo de exílio podia ser lento e gradativo. Se fosse necessário, poderiam construir o maior de todos, que tinha uma forma piramidal com quinhentos metros de altura, formando um conjunto extraordinário, capaz de transportar confortavelmente mais de duzentas mil pessoas por viagem.

- Há transportadores que podem ser relativamente gran­des, já que a viagem em si não dura mais do que alguns segundos. Desse modo, podemos transportar até duzentas mil pessoas por viagem. Há que se considerar as entradas e saídas que levariam até cerca de quarenta a sessenta minutos, de forma organizada e ordeira. Resumindo, não teríamos grandes problemas no transporte. Se fizéssemos um transporte por mês, poderíamos levar dois milhões de degredados por ano. Não é no transporte que poderemos ter problemas.

- E onde poderemos ter problemas? - perguntou Varuna.

- Na captura, como bem mencionou.

- Sim, realmente capturar dois a três milhões de exiláveis por ano é uma tarefa muito grande, especialmente se conside­rarmos a extensão territorial física de Ahtilantê, por onde espíritos obsessores podem se espalhar, além das furnas infer­nais onde podem se homiziar com facilidade. Quanto a isso, contamos com dois tipos de obreiros. Na superfície de Ahti­lantê, teremos os guardiões de Vartraghan; e nas furnas, além deles, teremos o concurso dos alambaques.

Varuna comentou:

- É por isso que marcamos uma grande reunião de alambaques, onde pretendo falar-lhes das vantagens do exílio. Creio que teremos que fazer outras reuniões, mas a primeira será de grande importância. Se não conseguirmos convencê-los, tudo ficará muito mais difícil.

- Realmente, sem o apoio dos alambaques, tudo será complicado - comentou Vartraghan - Nós teremos que montar um exército para capturarmos os quase quarenta milhões. Além do aprisionamento, há também o problema da guarda. Em suma, tudo irá ficar bem mais complexo.

A reunião prosseguiu, detalhando uma série de ativi­dades a ser desenvolvidas em curto tempo, bem como as providências para uma grande reunião dos alambaques.

O mês se passou rapidamente, com preparativos por parte da equipe de Varuna. Durante esse tempo, vários grupos de alambaques foram contatados, tanto por Vartraghan, como por vários chefes de 'dragões' de Drak-Zuen que estavam dispostos a cooperar. Varuna deixara uma espécie de fita gravada com sua imagem e as do planeta Azul, do seu plano de ação e uma convocação ao trabalho, de tal modo que a película era mostrada em todos os lugares, deixando os alam­baques espantados com tanta 'magia'.

Houve algumas dissidências e, até mesmo, alguns que preferiam não ir à reunião, mas, de modo geral, uma nova oportunidade em outro local, distante do planeta que nunca lhes dera real chance de progresso - nas suas distorcidas opiniões - era muito bem aceita. Quanto aos soldados-escravos, estes fariam o que seus chefes ditassem. Eram tão embrutecidos que não adiantava explicar o que estava acontecendo. Não passavam de massa de manobra dos chefes que os tinham presos hipnoticamente de forma indelével. O congresso fora marcado para antes da viagem de Varuna ao planeta Azul, devendo realizar-se dentro de trinta dias. Nesse ínterim, Var­traghan coordenara as visitas às mil e poucas cidades astrais dos alambaques junto com os demais, convidando todos os chefes e lugar-tenentes para a reunião com Varuna.

O lugar marcado era uma grande planície, de onde se divisava, ao longe, uma instituição socorrista. Naquelas para­gens, o dia era apenas visível já que a luz de Capela era bloqueada por forte neblina cinza-chumbo que parecia envol­ver tudo e todos. Eram emanações das mentes viciadas dos renascidos em Ahtilante, assim como dos espíritos daquele funesto lugar. O local não era o mais propício para Varuna, mas fora marcado pelos chefes alambaques, já que muitos tinham horror à luz, sofrendo de forte fotofobia. Desde cedo, os grupos de alambaques vinham chegando ao local marcado, volitando pesadamente.

O desfile de figuras macabras e grotescas era de deixar qualquer um impressionado. Eles vestiam-se expressando de modo tétrico seu interior. Os chefes alambaques, com seus lugar-tenentes eram uma massa de meter medo a qualquer um. Mas não a Varuna. Onde existia o monstro, ele via potencial­mente o anjo. Para cada esgar ou simulacro de sorriso, saudava-os de igual para igual. Não era um ser superior comandando demônios, mas um irmão mais velho ajudando a seus irmãos menores a atravessar o caudaloso rio da vida.

À medida que iam chegando, os alambaques dirigiam-se até o topo da pequena colina onde estava Varuna, Vartraghan e o resto da equipe, cumprimentavam-nos formalmente e voltavam para algum lugar da planície de onde poderiam observar o que iria acontecer. Quando o gigantesco sol de Capela estava a pino, anunciando o meio-dia, Varuna dirigiu-se para os chefes alambaques. Falava de forma normal sendo ouvido por todos, por mais longe que estivessem, devido aos seus excelsos poderes que levavam a sua voz para todos os cantos da grande planície.

Eram mais de oito mil chefes, com doze mil lugar-tenen­tes e mais Varuna e toda sua equipe e mais três chefes de guardiães graduados, entre eles Vayu, braço direito de Var­traghan. Sraosa e Mkara tinham se candidatado a acompanharem os banidos, tendo sido aceitos alegremente por Varuna. Os chefes alambaques olhavam as duas senhoras, Mkara e Uriel, com desprezo. Para eles, as mulheres eram a perdição; eram seres inferiores aos homens, não merecendo estar presentes.

- Amigos, acomodem-se o melhor que puderem e con­versemos. A grande maioria já sabe por que estamos aqui reunidos. Mas não custa repetir para podermos dirimir dúvidas existentes. Pois bem, meus amigos, Ahtilantê irá passar por um expurgo espiritual. Todos aqueles cuja atitude não condiz com a boa vontade, o progresso geral da sociedade e os ideais de fraternidade, deverão ser retirados de Ahtilantê, indo para um planeta longínquo que os receberá de braços abertos.

Ouvia-se apenas uma leve brisa, Varuna estava iluminado por pequenos holofotes para que os alambaques pudessem vê-lo. Ele falava pausadamente, dando tempo para que os mais embrutecidos entendessem suas palavras.

- Este processo deverá levar de setenta a cem anos, o que permitirá que muitos candidatos ao exílio ainda tenham uma oportunidade de renascer e, com isso, a fantástica opção de continuar neste jardim paradisíaco que é Ahtilante, caso vençam os seus demônios interiores.

Poucos foram os que se sentiram motivados a enfrentar a existência física em Ahtilante. Para seres como os alambaques, o renascimento físico seria em circunstâncias extremamente duras, o que não os incentivava a se candidatarem para tal provação.

- Trinta a quarenta milhões de seres infelizes, verdadei­ros indigentes espirituais serão levados para outro planeta. Os chefes alambaques terão missão importantíssima; serão eles que os conduzirão pela senda do Senhor.

Os chefes alambaques e os demais presentes começaram a demonstrar maior interesse pelas palavras de Varuna. Imaginavam que tinham sido convocados para obedecer ordens peremptórias, e, agora, descobriam que tinham opções.

- Sim, meus amigos e irmãos, para que esses espíritos endurecidos na prática do mal possam evoluir, deverão ser inicialmente dominados pelo poder dos alambaques. Vocês serão o flagelo de Deus, a espada flamejante que abrandará seus corações. Esses irmãos tresloucados na sua soberba, or­gulho, vaidade e destemor à Lei do Amor, só entendem a dor, o medo e a tortura. Vocês serão artífices deste sofrimento. Ensinarão que o nosso Deus é único, através de ameaças e punições terríveis. Mostrarão o caminho do Bem através da senda do Mal. Vocês, temíveis alambaques, também apreen­derão a se desgostar da vingança, da justiça tenebrosa que castiga o réu com a mesma punição que infligiram ao próximo e aprenderão com os horrores da natureza humana a se tornar verdadeiramente superiores. Vocês serão os guias desses degre­dados, pois não se pode esperar que eles sejam liderados por anjos do Senhor.

Os alambaques o olhavam num misto de admiração e respeito. Nunca estivera tão iluminado, sua luz cegando os trevosos. À medida que falava, emanava imagens mentais que penetravam a mente dos alambaques, fazendo-os ver o que falava, sentir sensações inusitadas e sons ambientes. Ele sabia manejar as imagens mentais como poucos, fazendo-os partici­par, como seja estivessem no planeta Azul. Se os alambaques sabiam fascinar por hipnose, Varuna sabia encantar com ima­gens, palavras e, principalmente, com renovadas esperanças.

-Vocês aparecerão aos homens quando estiverem renas­cidos no planeta Azul e os guiarão. Eles os confundirão com deuses e, até mesmo, com o próprio Altíssimo, do qual todos somos criaturas. Vocês farão maravilhas e usarão seus poderes de sugestão para criar impressões que moldarão suas mentes infantis. Com isso, vocês também evoluirão.

Os chefes alambaques e os presentes sentiam que a palavra de Varuna não era só dele. Luzes vindas do alto jorravam sobre Varuna, demonstrando cabalmente que sua mensagem era proveniente dos mais altos planos espirituais.

- Os homens adorarão falsos deuses, ídolos que serão a reprodução mais ou menos fiel de suas próprias figuras.

As imagens de deuses tenebrosos, reproduções dos alam­baques, giravam no ar, sendo vistas pelos presentes. Varuna crescera ocupando mais de vinte metros, sendo visto à distân­cia.

- Eles, no entanto, não a aceitarão de forma pacífica e vocês, como sempre o fizeram, utilizarão do terror, do medo e do ódio. Deus ensina aos homens de acordo com sua compreensão. Para os ignorantes, somente o medo de Deus os fará ter uma sociedade relativamente justa com leis e um mínimo de ordem. São párias espirituais e, como tais, não aceitarão de imediato, leis fraternas.

Varuna olhava para todos os chefes alambaques, notando que sua forte voz de comando produzia o efeito desejado. A maioria era inteligente, podendo acompanhar perfeitamente seu raciocínio.

- Chegará o tempo em que enviaremos mensageiros que falarão de um Deus de Amor. Eles exortarão os homens a uma mudança interior, apagando da mente dos homens, a idéia absurda de um Deus dos Exércitos e da Vingança, que faz dis­tinções entre homens e raças, credos, cores e posição social. Mostrarão a estupidez de afirmar que Deus é discricionário, e mostrarão que Ele é um Pai rico em amor, oportunidades, pro­vidências e beleza.

Varuna estava agora em pé e de seu peito saíam focos de luz que iluminavam os chefes alambaques. Essa luminosidade tinha uma característica muito peculiar. Era uma emanação de amor dos irmãos superiores que vinha de um plano mais alto, sendo absorvida por Varuna e retransmitida a todos por esse excelso ser. O eflúvio que atingia o peito e a mente dos alambaques transpassava suas carapaças, indo até o mais ín­timo do ser, revolvendo expressões infantis, longamente ador­mecidas e humanizando mais aqueles seres envilecidos por existências torpes.

Varuna, mudando de tom de voz, tornou-se menos veemente, mais caloroso e convidativo:

-Vocês, hoje, são destruidores de mundos, pois com suas obsessões forjaram nas mentes dos incautos ahtilantes as idéias de superioridade, orgulho e prepotência que os levaram às guerras fratricidas. Porém, em futuro distante, serão construtores de planetas, de estrelas, de galáxias e de incontáveis universos. Preparem-se, portanto, para os tempos vindouros, fazendo com que o dia de hoje seja produtivo. Abandonem velhas idéias como quem joga fora uma roupa rota e vistam-se de novos ideais que os farão se sentirem irmãos de todos os seres. Vão e pensem no que eu lhes disse. Propaguem estas palavras entre os seus e entre os outros chefes. Que Deus os acompanhe e que os guie nas suas novas sendas evolutivas!

Com isso, Varuna encerrou a sua preleção e os chefes alambaques se retiraram. Os demais ficaram para discutir providências a serem tomadas. Uma delas seria a imediata implantação de instituições socorristas no astral inferior, de forma a dar assistência aos sofredores. Essa atividade estaria a cargo de Uriel, com a ajuda de Sraosa, Mkara e quantos pudessem arregimentar. Vartraghan reforçaria a guarda com mais duzentos mil homens, o que seria suficiente para neutrali­zar qualquer revolta alambaque. Ele sabia, contudo, que belas palavras não seriam suficientes para aplacar tal legião de feras humanas, caso se revoltassem.

Gerbrandom conversou com Vartraghan e examinou as principais armas dos guardiães e comentou com Varuna que se houvesse uma rebelião de fato, os guardiães estariam em dificuldades; suas armas eram parecidas com as dos alambaques. Era preciso ter armamento mais poderoso. Gerbrandom disse que traria pessoas de seu conhecimento que tinham ciência de tais artefatos, de forma a equipar melhor as forças do bem. Varuna concordou, pois acostumara-se com o fato de que todas as sugestões de Gerbrandom eram sábias e verdadeiras. Deu-lhe carta branca para providenciar o que fosse necessário.

Um dos assistentes de Vartraghan procurou-o reservada-mente e conversou com o comandante dos guardiões durante alguns minutos. Logo após, ele procurou por Varuna e convi­dou-o a acompanhá-los, mencionando que descobrira algo de importante nas trevas e desejava mostrar-lhe. Volitaram rapi­damente por uma grande distância até um pântano onde estavam jogados, em decúbito dorsal, uma centena de espíritos. Alguns andavam de um lado para outro, como se estivessem sofrendo de uma crise de sonambulismo. Num determinado lugar, o guardião, que os precedia, apontou para um pequeno grupo de seguranças astrais e, rapidamente, todos os três des­ceram até o local.

Vartraghan aproximou-se e lhe disse confidencialmente:

- Sei de seu grande amor por seu pai, e tomei a liberdade de mandar procurá-lo. Um dos meus guardiões acaba de en­contrá-lo e pode nos levar até lá num átimo. Você gostaria de rever Klandir?

Varuna olhou-o espantado. Há tempos atrás quando quis saber onde andava Klandir, fora informado pelos seus supe­riores de que não era ainda hora de vê-lo e que a oportunidade não tardaria. Obediente, acatara as ordens superiores, ansi­ando secretamente por revê-lo; inferia que não deveria estar em boas condições espirituais.

Vartraghan levou-o até onde três homens velhos, alquebrados e mal-ajambrados, estavam sentados e discutiam acirradamente. O grupo era formado por Klandir, Trafgaman e outro desconhecido. Aproximou-se, notando que debatiam sobre as melhores formas de investir suas reservas monetárias que só existiam na imaginação de suas mentes perturbadas. Os três homens seguravam lodo em suas mãos, crendo, no en­tanto, estarem com ouro e jóias. Passaram a observá-los, não sendo vistos por nenhum dos três.

- Não há dúvida de que a Bolsa de Valores é um jogo que oferece riscos. Mas, por outro lado, ganha-se muito mais.

- Eu prefiro não colocar todos os ovos na mesma cesta. Um pouco na Bolsa, um pouco em imóveis, um pouco em mer­cado futuro, um pouco em jóias e objetos de arte.

- Tudo besteira, Trafgaman. Negócio bom é comprar terras. Nada como terra. Se você plantar qualquer coisa, valo­riza dez vezes mais. Se não plantar, valerá sempre a mesma coisa.

- É, mas terras são perigosas, com estas invasões... Não sei, não...

Vartraghan comentou com Varuna:

- Conseguimos isolar Klandir dos espíritos dementados que o acusam do terrível morticínio em Guersuem. Agora, que está afastado da turba que o linchava, torturando-o de forma implacável, sua mente está bloqueada pelos assuntos que o fascinam. Aliás, os outros dois também. Estão repetindo essas argumentações há semanas. Quem sabe se o senhor, com seu poder, consegue tirá-los deste monoideísmo?

Varuna aproximou-se do seu antigo pai carnal que ele amava como a um filho espiritual e perscrutou-lhe a mente. Seu íntimo estava em completa balbúrdia, com quadros men­tais fixos sobre dinheiro, aplicações financeiras, investimentos, negociatas, poder, assassinato e muitos outros crimes, todos relacionados ao poder político. Varuna sabia que não havia nada de errado em se cuidar do seu patrimônio, procurando aumentá-lo por meios legais, fazendo aplicações produtivas que geram empregos e riquezas. O erro desses homens foi o de só pensarem nisso e não trepidarem em tentar aumentar seus bens por meios escusos e tenebrosos. A corrupção, o roubo, a negociata geram complexos de culpa profundos que deman­dam tempo para ser exorcizados da mente.

Varuna terminou a operação de perscrutação e disse desanimado:

- Ainda precisarão de mais tempo para se cansarem do assunto. Quando tiverem repetido o mesmo tema à exaustão, suas mentes os obrigarão à renovação. Terão tamanho asco dessa matéria que não irão querer abordá-la por muitos anos. Só o tempo poderá ajudá-los. Nesse instante, qualquer inter­ferência minha será indevida.

Afastaram-se, dando ordens aos guardiões de deixá-los sozinhos nas suas eternas discussões sobre dinheiro, poder, negócios e corrupção. Seriam, mais tarde, recolhidos a um hos­pital, superando seus traumas com renascimentos providen­ciais. Não havia dúvidas de que Klandir e Trafgaman teriam que ser exilados para o planeta Azul, renascendo em condições bem mais adversas do que vinham tendo oportunidade em Ahtilantê.

Em poucos dias, quatorze instituições socorristas foram implantadas e mais de oitenta mil espíritos começaram a rece­ber tratamento especializado. Era muito pouco em face dos vinte e cinco milhões que já existiam nos pântanos, furnas e abismos criados pelas mentes depravadas e doentias dos fu­turos exilados. Os oitenta mil já poderiam servir de base para os renascimentos a ser efetuados no planeta Azul, assim como poderiam tornar-se uma força crescente de futuros socorristas para seus irmãos menos afortunados. Aos poucos, não só os guardiões levavam espíritos do astral inferior, como também os alambaques começaram a trazer seus escravos mais dementa­dos para aquelas instituições.

Varuna reuniu sua equipe principal, agora acrescida de mais alguns espíritos de estirpe, para planejar o próximo pas­so.

- A nossa próxima etapa é irmos ao planeta Azul e preparar todos os planos para a grande viagem. Temos que manter contato com nossos irmãos do futuro lar que nos aguar­da e, junto com eles, desenvolver um programa de renascimen­tos que possibilite não só a recuperação dos nossos exilados, mas também a aceleração evolutiva dos irmãos menores que lá habitam.

Varuna fez uma pequena pausa e prosseguiu sua preleção:

- Levarei comigo somente duas pessoas: Vartraghan, que se encarregará da parte referente à segurança, e Ger­brandom, que analisará os aspectos genéticos e todas as im­plicações astrais. Quanto aos demais itens, trarei idéias e re­gistros visuais do nosso futuro lar na minha volta. Enquanto isso, Uriel será a minha substituta. Vayu liderara as falanges de Vartraghan enquanto estivermos fora e espero que mante­nham o espírito de colaboração com os alambaques.

Vayu estufou o peito, satisfeito por ter sido escolhido, e respondeu:

- Obrigado pela confiança depositada, mestre Varuna. Prosseguirei os acordos já feitos com os chefes alambaques.

Varuna sorriu de volta para o gigantesco guardião, ter­minando a reunião com uma prece ao Altíssimo.

 

Na véspera da partida para o longínquo planeta, Gerbrandom, demonstrando preocupação, foi conversar reservadamente com Saercha. Durante este tempo, Gerbrandom ex­pôs o que ele achava que era o maior problema potencial dos ahtilantes: uma revolta de alambaques. O grande espírito sabia que a aliança entre Varuna e os alambaques era tênue e volátil. A maioria apoiava Varuna, mas uma minoria, ainda não totalmente unida, odiava o coordenador, acreditando se tratar de um embusteiro e não desejando partir de Ahtilantê, pois mui­tos tinham pessoas caras ao coração, seja na crosta, seja em outros planos espirituais. Eles tinham uma surda revolta interior que podia se tornar perigosa.

Os guardiões eram numerosos, mas ninguém jamais havia enfrentado os alambaques em combates astrais. O que havia eram pequenas escaramuças, onde os guardiões apenas expulsavam os obsessores de certos locais, ou aprisionavam alguns irmãos dementados. Por outro lado, muitos dos armamentos dos guardiões eram tão obsoletos que eram usados também por obsessores e alambaques. Havia uma necessidade imperiosa de importarem alta tecnologia.

Gerbrandom sugeriu que fossem trazidos obreiros de outros lugares, com diversas especializações, que pudessem ser úteis não só em Ahtilantê, como no planeta Azul. Saercha escu­tou tudo o que Gerbrandom falara e teve que concordar que a segurança do umbral podia ser feita por espíritos guardiões com armas precárias, mas que se houvesse uma união das falan­ges dos dragões, os guardiões estariam impotentes perante o maior número de atacantes. Saercha concordou com as suges­tões de Gerbrandom, que já havia discutido o problema com Varuna e recebido carta branca do coordenador para resolver o problema da melhor forma possível.

Cinco dias mais tarde, Varuna, Gerbrandom e Vartraghan embarcavam num pequeno veículo, comandado por espíritos do mundo mental que os levaria para o seu destino. O veículo espacial espiritual venceu os 42 anos-luz em poucos segundos, levando-os até o planeta Azul. Manobrou documente até pou­sar numa plataforma à frente de um largo conjunto de prédios, no astral superior do planeta. Uma verdadeira multidão de espíritos os aguardava. A viagem tinha sido amplamente noti­ciada e o comitê de recepção estava a postos.

Varuna foi o primeiro a descer a pequena rampa do veículo, seguido de Gerbrandom e Vartraghan. Um espírito de elevada estirpe adiantou-se da multidão, vindo recebê-los. Cumprimentaram-se à pequena distância. O espírito tinha a forma humana, nada diferente da atual, só que mais belo e imponente. Nos seus olhos, liam-se a suavidade e a bondade de caráter de que a alta espiritualidade é possuidora.

Varuna cumprimentou-o, elevando o braço direito à altura do ombro e o espírito de forma humana procurou mentalizar uma forma de cumprimento e bênção que todos capta­ram e retribuíram. O espírito de forma humana apresentou-se. Chamava-se Mitraton, sendo o responsável pela coordenação da integração dos capelinos e terrestres. Tratava-se de espírito do mundo mental, que descera ao astral superior para recebê-los.

Era de uma beleza plástica irreprochável. Aparentava ter quase dois metros de altura, cabelos longos, louros quase bran­cos, olhos castanhos tão claros que pareciam mel, uma barba branca curta e bem aparada. Tinha um corpo esguio, musculoso, uma voz grave e melodiosa. Era o protótipo da beleza masculina terrestre, viril, com a aparência de um ser maduro. Dir-se-ia que tinha uns cinqüenta anos de idade.

Mitraton levou-os para o interior de um dos prédios, após passar por extensos jardins, onde procurou tornar a recu­peração da curta e extenuante viagem, a mais agradável pos­sível. No interior do edifício, após um grande hallde entrada, com várias obras de arte expostas, penetraram numa sala ampla, em que estavam dezoito espíritos que os aguardavam. Mitraton procurou conversar com Varuna e logo notaram que, mesmo falando numa língua estranha, entendiam-se muito bem. Bastava sintonizarem suas mentes no mesmo diapasão e as palavras tornavam-se claras. Os ahtilantes tinham uma cons­trução gramatical diferente dos espíritos que habitavam o planeta Azul, mas o sentido final das frases tornava-se muito evidente após alguns ensaios de tentativa e erro. Em pouco tempo, todos estavam se entendendo de forma clara e objetiva.

Superados os problemas lingüísticos, Mitraton explicou que os dezoito espíritos ali presentes iriam procurar dar-lhes um banho de imersão fluídica para que eles pudessem se adaptar melhor à atmosfera mais densa do planeta, sem o que, em breve, eles estariam estafados e com dificuldades de loco­moção. Tanto Varuna como Gerbrandom já conheciam o pro­cesso, mas Vartraghan estranhou muito os procedimentos, quando os dezoito amigos espirituais começaram a manipular os equipamentos que zumbiam, emitindo luzes e fluidos que penetravam no corpo espiritual dos nossos amigos ahtilantes, dando-lhes a sensação mais densa.

Após a pequena operação espiritual que não durou mais do que dez minutos, Varuna e seus amigos foram levados gentilmente para uma nova sala onde se podia notar uma vasta tela que ocupava quase toda a parede principal. Foram convi­dados a sentar em poltronas especiais que os acomodavam muito bem, parecendo ter sido feitas especialmente para eles. Sentaram-se e quase que imediatamente, a tela iluminou-se e uma figura semitransparente apareceu no centro. Uma voz sua­ve, melodiosa, feminina, fez-se ouvir e sua mensagem foi facil­mente captada por todos os presentes.

- Caros amigos de Ahtilantê, é com muita satisfação que nós os recebemos no planeta que chamamos de Terra. Sou Himalda, um dos muitos espíritos que governam este mundo, estando incumbida de recebê-los, colocando-os a par de nossas disposições, tomadas em conjunto com seus superiores. Vamos iniciar nossa exposição, situando-nos dentro de nossa galáxia.

À medida que começava a falar, as imagens mostravam aquilo que ia sendo descrito por Himalda.

- Nosso planeta é o terceiro, a partir do nosso Sol, pe­quena estrela amarela, muito estável e muito antiga. Nosso pequeno orbe foi até hoje um local de desenvolvimento das fases espirituais inferiores. Aqui evoluíram, e ainda continuam, espíritos nas fases vegetais e animais. Muito recentemente, cer­ca de cem mil anos terrestres, começamos a desenvolver espé­cies mais adiantadas, já que o número de espíritos disponíveis cresceu muito. Achamos por bem não somente exportar espíri­tos recém-individualizados, como também aproveitar alguns deles para desenvolver mais uma escola espiritual na galáxia.

Himalda prosseguiu sua exposição:

- Destacamos alguns espíritos dedicados para ajudá-los a planejar e executar a vinda dos seus irmãos infelizes, e eles deverão, junto com sua equipe, formar uma única equipe de trabalho, de modo a obtermos os melhores resultados possíveis.

E assim tendo dito, o grande espírito despediu-se de to­dos com palavras de estímulo e encorajamento, colocando-se à disposição para outras sábias e amorosas comunicações.

O resto do dia foi dedicado a conversas amenas, já que no outro dia, fariam uma visita ao Ministério do Renascimento. Foram levados até um grande promontório de onde se descor­tinava uma bela paisagem da Terra, que podia ser vista a uma distância de cem mil quilômetros, com sua Lua branca num quarto crescente. Ao longe, o sol amarelo iluminava profusa­mente o ambiente.

Mitraton achara melhor fazê-los se aclimatar primeiro à gravidade terrestre já que a mesma era mais do dobro da ahtilante. Varuna e Gerbrandom não sentiram nenhum problema de opressão gravitacional, mas Vartraghan, por ser um espí­rito ainda do astral médio, estava um pouco acachapado, como se estivesse carregando um fardo adicional. Mitraton achara melhor aclimatá-lo primeiro a uma certa distância do planeta a levá-lo imediatamente para a superfície. Pela lonjura em que estavam, a gravidade terrestre agia com menos intensidade, entretanto todo o material astral que os envolvia era mais denso do que em Ahtilantê, exigindo bastante esforço.

Puderam descansar da longa viagem durante algumas horas em acomodações adequadas e confortáveis. O enorme tamanho dos capelinos em relação aos terrestres era um estor­vo, que seria resolvido futuramente.

Na parte da manhã, foram levados para um desjejum, composto de leite, frutas exóticas, pão e diversos tipos de bolo. Mitraton explicou que aqueles produtos eram imitações astrais em tudo parecidos com os originais terrestres, sendo impor­tante que ingerissem para dar-lhes forças adicionais.

Depois do pequeno repasto, todos foram levados para uma sala redonda. Em seu centro existia um aparelho holográfico, que podia emitir imagens tridimensionais, com sons, sensação de cheiro e de temperatura. Poderiam fazê-lo assim que todos estivessem totalmente aclimatados, o que deveria acontecer dentro de três a quatro dias.

Mitraton havia sugerido que todos assistissem, num an­fiteatro próprio para tal, a um sumário da criação e da evolução do universo e da Terra. Desta forma, os visitantes poderiam avaliar melhor em que estágio de evolução social os terrestres estavam.

Chegaram ao grande anfiteatro onde outros convocados para a projeção holográfica já se encontravam. Faziam parte da equipe de Mitraton, tendo sido apresentados e, após os cum­primentos de praxe, o novo grupo, com mais de setenta pes­soas, acomodou-se na vasta sala para ver um sumário da evo­lução do universo, da galáxia e do sistema solar, incluindo a Terra.

A luz diminuiu de intensidade no salão e, do centro, sur­giu uma pequena luz que se expandiu gradualmente até ocupar quase todo o espaço disponível. Os presentes foram envolvidos pelo banho de luz e se acomodaram da melhor forma nas con­fortáveis poltronas em torno do tablado central. Durante mais de duas horas, eles puderam ver a criação deste universo e do sistema solar. Durante este tempo, que passou celeremente, eles puderam entender cada passo da co-criação maior e menor que aconteceu desde o instante da criação deste univer­so, a partir da explosão primordial.

A exposição atingiu seu ponto crucial quando começou a mostrar o que aconteceu com os homens primitivos do pla­neta Azul. A imagem mostrou como os homens se estabelece­ram na agricultura primitiva, na extração de certos metais, tais como o cobre, o estanho e o ouro. Era a Revolução Neolítica. A voz dulcíssima da apresentadora falou de Jericó, primeiro assentamento humano cercado por muralhas. Era uma cidade de dois mil e quinhentos habitantes que se protegia contra os ataques dos semitas nômades. Depois, mais mil anos se passa­ram até que outra cidade-fortaleza aparecesse: é Satal Hüyuk, na Ásia Menor (atual Turquia). Era uma cidade grande para época - cinco mil habitantes - e junto com ela nasceram várias outras espalhadas pela Mesopotâmia e adjacências. Todavia, essas outras cidades mesopotâmicas não passavam de vilarejos sujos e mal arrumados. Não há templos, nem palácios. Afora Jericó e Satal Hüyuk, as outras não eram fortificadas. A maior delas não passava de dois mil habitantes.

A voz explica que os humanos movimentam-se grande­mente, e que suas imigrações serão alvo de considerações em estudo apropriado. Quem desejar conhecer detalhes daque­les povos, assim como suas origens, migrações e qualificações genéticas e raciais, deverá ter acesso através dos códigos ade­quados.

Nesse ponto, a imagem desapareceu, a sala voltou à sua luz normal e todos estavam encantados. As interrogações cho­veram, obrigando Mitraton e outros colaboradores a passarem horas respondendo a perguntas interessantes, as quais levari­am dias para serem reportadas. O dia tinha-se escoado de for­ma tão grandiosa que não sentiram o tempo passar.

Mitraton levou-os para seus aposentos e convidou-os para uma apresentação que teriam à noite. Os três aceitaram o convite e, naquela mesma noite, veriam um grande concerto de música e balé, em homenagem aos amigos ahtilantes.

Compareceram ao auditório na hora marcada. Passava um pouco das oito horas da noite e Mitraton levava-os cordial­mente, apresentando-os a um ou outro dos presentes. O audi­tório era muito grande, cabendo mais de cinqüenta mil pessoas. Na hora em que chegaram ao local, a grande sala estava quase toda cheia e, assim que entraram, fez-se silêncio e todos olhavam-nos com curiosidade. Não era, entretanto, uma cu­riosidade malsã. Os espíritos do alto astral, que ali se congre­gavam, eram todos trabalhadores da seara do Senhor, e suas atitudes eram as melhores possíveis. Mitraton levou-os para um pequeno camarote, onde se instalaram confortavelmente.

O grande auditório era num ambiente fechado e sua abóbada gigantesca era pintada com motivos que retratavam a evo­lução das raças pré-humanas e humanas da Terra. Podiam-se ver austrolopithecus, sivapithecus, ramapithecus, homo habilis, homo erectus, homo sapiens e homo sapiens sapiens.Existiam ainda outras pinturas mostrando vários outros tipos de seres humanóides de outros planetas e, no centro da imensa cúpula, um afresco belíssimo de um ser angelical. Tudo parecia convergir para o centro, confirmando que o destino do homem é tornar-se um deus.

As pessoas foram chegando, acomodando-se em con­fortáveis poltronas situadas em pequenos camarotes de até seis pessoas. Havia um ambiente de alegria e sincera confraterni­zação. As oito e trinta, uma pequena sineta se fez ouvir e o silên­cio caiu na assistência. No centro do grande auditório circular, havia um tablado de sessenta metros de diâmetro, capaz de abrigar uma grande orquestra e um coral de duzentas pessoas.

Logo após o toque da sineta, uma bela moça surgiu no tablado e dirigiu-se aos presentes. Sua voz era perfeitamente audível até mesmo nos lugares mais distantes. A acústica do local era perfeita. Dirigiu saudações a todos, convidando-os a uma doce oração. Todos oraram em silêncio. O imenso salão logo se encheu de luzes safirinas e pequenos flocos de luzes que se dirigiam ao alto.

Durante duas horas e meia, houve um desfile de concer­tistas, cada um tocando os instrumentos próprios de seus pla­netas de origem. O final foi apoteótico, com uma orquestra composta de mais de cem exímios músicos e um coral afinado e melodioso. Tratava-se de um canto ao Amor Divino e uma ode à Felicidade. A música começou docemente e num 'cres­cendo majestoso' tomou forte ímpeto no transcorrer da peça. À medida que crescia de ritmo e intensidade, um espetáculo de luzes provindas do alto banhou todos os presentes de forma maravilhosa. O espetáculo terminou, recebendo, no final, uma ovação calorosa. Todos se retiraram ordeiramente e os ahtilantes se recolheram aos seus aposentos para um merecido descanso, especialmente Vartraghan que sofria ainda muito com a forte gravidade terrestre.

O dia amanheceu às seis horas e já encontrou Varuna e Gerbrandom em plena atividade. Gerbrandom estava ansioso por conhecer todos os tipos físicos e os diversos locais onde po­deriam fazer os capelinos renascer. Mitraton se fazia acompa­nhar de uma belíssima mulher de nome Sarasvati, especializa­da em geografia terrestre.

Vartraghan ficou vivamente impressionado com aquela mulher. As mulheres ahtilantes não tinham seios, já que sendo répteis não amamentavam. Sarasvati tinha-se desenvolvido num planeta em que o tipo principal era mamífero e apresen­tava, portanto, um belo e bem estruturado colo. Vartraghan, ainda muito preso à matéria, sentiu uma atração por Sarasvati instantânea. Ela, por sua vez, era um espírito do astral médio, razoavelmente evoluída, mas não totalmente desligada da ma­téria. Sua mente ainda vibrava com os encantos do sexo, e avis­ta daquele homem gigantesco, muito bem proporcionado e de sorriso encantador, também sentiu-se atraída. A missão e o lo­cal não eram apropriados para manifestações de atração sexu­al e sentimental, o que fez com que os dois refreassem seus ins­tintos. Porém, seus olhares se cruzaram num linguajar que dispensava palavras.

Mitraton levou-os inicialmente para uma sala onde ha­via um grande mapa-múndi incrustado na parede. Acomoda­ram-se e começou a apresentação.

- Como já lhes foi informado, caros amigos, nós estamos es­perando a vinda de espíritos mais evoluídos do que os que estão renascendo atualmente, há mais de seis mil anos. Desse modo, praticamente, depois do término do período glacial há cerca de seis mil e quinhentos anos, recebemos ordens dos nossos superiores para preparar a vinda dos nossos amigos. Tomei a liberdade de pedir a Sarasvati que desenvolvesse uma apresentação de tudo o que foi preparado, de forma que possamos juntos de­liberar quanto aos melhores locais para inserir os capelinos. Passo a palavra a Sarasvati para que nos faça sua apresentação.

A bela mulher levantou-se, dirigiu-se para o grande mapa-múndi e iniciou sua exposição:

- Bom dia, meus irmãos. Gostaria de expor como foram desenvolvidas algumas raças novas utilizando como base os neandertais existentes.

Ela voltou-se para o quadro no fundo da parede, tocando na tela, o que ampliou um determinado setor. A Eurásia ficou em grande destaque.

- Nesta grande área, o planalto do Irã, que se estende para o Leste, pelo planalto armênio, desenvolvemos, durante o período glacial, uma variação de neandertais e de sapiens sapiens.Essa diversificação tomou vários agrupamentos já exis­tentes, desenvolvendo-os de tal forma que, no final, ficamos com oito subgrupos. Esse vasto grupo, batizamos de árias ou arianos.

Ao falar isso, a tela apresentou numa janela, dentro do grande mapa, uma coletânea dos oito tipos, sobre os quais Sarasvati discorreu rapidamente. Todos eram de tez branca, altura que variava de 1,70m a 1,90m, com cabelos que compreendiam do preto liso, preto ondulado grosso, ruivo, louro espiga de milho liso e sedoso, louro liso e grosso, louro fino encaracolado, castanho liso, castanho grosso levemente re­volto; e, finalmente, com olhos que variavam do preto e do castanho ao azul e verde.

- Essa raça, ou conjunto de raças, chamadas de arianas ou também indo-européias, foram levadas gradativamente a se espalhar, a partir de núcleos familiares, por todas estas áreas.

Nesse ponto, Sarasvati apontou para regiões em torno do mar Cáspio, Ásia Menor, Mesopotâmia, Cáucaso e Baluquistão:

- Um grupo muito importante deslocou-se para a Ásia Menor, vindo do planalto armênio, perto do monte Ararat, assim como do planalto da Anatólia, na Ásia Menor, e lá se instalou. Algumas tribos espalharam-se, vindo a construir ci­dades como Satal Hüyuk e muitas outras. Algumas preferiram atravessar o Bósforo, que separa a Ásia Menor da Europa. Ao fazerem assim, por volta de quatro mil e quinhentos anos atrás (cerca de 8.000 anos a.C.), os indo-europeus subiram ao nor­deste, margeando o mar Negro, até encontrar o estuário do rio Danúbio. Muitos subiram o rio até as suas nascentes, encontrando também as nascentes do rio Reno. Alguns prosseguiram até se instalarem nas planícies que ficam ao leste do Reno (atual França). Por isso, temos diversas aldeias que estão espalhadas por todos esses lugares. Durante muitos milênios, a uma velo­cidade de dois quilômetros por ano, a expansão desses povos se fez razoavelmente pacífica. Os lugares eram habitados por tribos que foram absorvidas, já que estávamos destinando os espíritos mais evoluídos para aquele grupo de arianos. Os menos evoluídos eram dominados tanto pela força como cul­turalmente.

Sarasvati fez uma breve pausa para que os presentes se inteirassem das andanças dos arianos pela Europa. Quando viu que todos tinham entendido, ela continuou sua exposição, sempre apontando, no mapa, os locais citados:

- Estas áreas foram dominadas por arianos ruivos (mostrando o norte da França, ao leste do rio Reno), sendo que, há cerca de quinhentos anos (4.000 anos a.C.), iniciamos novo movimento migratório. Deste local, eles estão ainda se diri­gindo ao Norte, atravessando o canal da Mancha, para ocu­parem estas ilhas (atual Grã-Bretanha). Um outro grupo está descendo para o Sul, devendo atravessar os Pirineus nos próxi­mos anos, invadindo esta península (Península Ibérica).

Sarasvati apontou para a atual Alemanha:

- Neste outro local, os arianos louros miscigenaram-se com raças antigas, que foram desenvolvidas há quarenta mil anos para agüentarem o frio extremo. Os povos dessas raças, que nós batizamos de hiperbóreos, são altos, fortes, louros, com olhos azuis, pele branca levemente rosada, suportando os frios intensos dos intermináveis invernos nórdicos. Atualmente, no extremo Norte, os hiperbóreos estão firmemente instalados, mas na área que eu mencionei agora, os arianos louros e ruivos e os hiperbóreos estão miscigenando-se completamente, tanto no sentido físico como cultural, gerando uma nova raça, que batizamos de germânica.

Sarasvati apontou para um local no mapa onde seria a atual Áustria, num extenso vale:

- Deste local, os arianos estão se espalhando para o Norte indo até esta extremidade - Sarasvati apontou para a atual Dinamarca - miscigenando-se com as tribos hiperbóreas exis­tentes no caminho. Existe um grupo de arianos castanhos e de cabelos anelados louros que estão se dividindo. Um grande grupo está indo para a península Itálica; e outro está indo em direção aos mares Egeu e Báltico.

Como não havia dúvidas, Sarasvati prosseguiu:

- Como se pode ver, esses arianos estão passando por grandes modificações, tendo alcançado, ou em vias de alcançar, toda a Europa. Temos, por outro lado, um grande grupo de arianos que preferiu não subir o rio Danúbio, preferindo ultra­passá-lo e instalando-se perto das nascentes do rio Don, perto do rio Dniepper. Atualmente, começamos um grande movi­mento de migração desse grupo, sendo que uma parte está se deslocando para o Norte e outra voltando gradativamente para o Oeste, atravessando atualmente as estepes dos Guirquizes, ao extremo Sul dos montes Urais, contornando o mar Cáspio. Outro grupo que contornara o mar Negro, instalou-se às suas margens, formando um povo chamado de cimerianos ou cimérios, que são primos de um outro povo de origem proto-indo-européia, chamado sumérios. Os sumérios saíram do Cáucaso, entre o mar Cáspio e o mar Negro, contornaram o mar Cáspio, atravessaram o planalto do Irã e dirigiram-se para o sul da região dos dois rios (Mesopotâmia), e lá se implan­taram há cerca de quatro mil anos. Estabeleceram-se em algu­mas pequenas aldeias e, atualmente, estão cultivando os ter­renos férteis entre os rios Tigre e Eufrates. Estão num ponto levemente anterior à implantação de comunidades citadinas, já tendo muitas aldeias primitivas estabelecidas.

A bela Sarasvati fez nova pausa para dar tempo a todos de entenderem a exposição audiovisual, já que tinha alterado radicalmente o visor, que antes focalizava a Europa e, agora, mostrava a Ásia. Cada vez que mencionava um povo, uma raça, um local, o mapa-múndi se iluminava mostrando o tipo físico, a rota seguida por aquele povo e outros detalhes de localização.

- Há, entretanto, outros povos que achamos que mere­cem atenção, tais como os semitas. Esse vasto grupo humano é constituído de pessoas de raça branca, pele levemente azeitonada, cabelos anelados pretos, olhos negros, que estão espalhadas por essa área.

Sarasvati apontou no mapa toda a área relativa ao Ori­ente Próximo. Ela mostrou a localização dos arameus, cananeus, árabes, caldeus e diversos outros povos de origem semita e, finalmente, apontou para o local que seria futuramente o Egito.

- Neste lugar, encontramos um dos mais extensos rios do mundo, que os nativos chamam de Iterou (Nilo). Ele apre­senta cheias anuais que permitem que se possa desenvolver uma agricultura extremamente próspera. Os habitantes desta região, atualmente, formam um conjunto de aldeias sem muita importância, que se espalham à beira do rio. Um grande grupo de negros chegou vindo da África Central há cerca de cinco mil anos (8.000 a.C.). O outro alcançou o Iterou vindo do norte do continente africano, há cerca de dois mil anos (5.000 a.C.). São os hamitas, um povo de pele escura, bem marrom e, que, infelizmente, continuam culturalmente imutáveis, sem apre­sentar nenhum aprimoramento cultural e tecnológico. Não houve grandes miscigenações entre os negros vindos da África Central e os hamitas. Assim como os sumérios, esses habitantes deste grande vale que margeia o grande rio e os arianos eu­ropeus são a nossa melhor esperança de desenvolvimento. Colocamos as melhores espécies espirituais, os mais evo­luídos, mas, infelizmente, alcançaram determinado estágio e pararam. Toda tentativa de mudança social é bloqueada pela tradição tribal.

Mitraton complementou:

- É preciso entender que se o espírito não é muito evoluído, dominando várias técnicas, jamais irá introduzir na sua sociedade novos conceitos. Obedecerá ao pai e à mãe, sem grandes discussões. Não haverá choque de gerações, questionamentos de valores e discussões sobre pontos de vista conflitantes. Por isso, não tem havido evolução social. Do que precisamos é de uma revolução dramática, determinada pela imersão dos capelinos na carne.

Eles entendiam melhor agora a situação. Os exilados de Capela não eram apenas a escória de uma civilização adian­tada, e sim, a esperança de evolução de um mundo ainda primitivo.

Após olharem com muita atenção todos os aspectos evo­lutivos das várias raças terrestres, Sarasvati começou a dissertar sobre outros aspectos relacionados com a evolução espiritual:

- Conforme é de seu inteiro conhecimento, evolução espiritual e riqueza estão intrinsecamente associadas. Não po­demos imaginar a evolução social, cultural, espiritual e econô­mica sem a acumulação de riqueza. Nesse estágio de evolução espiritual, só é possível a prosperidade a partir da agricultura. E fundamental imaginar-se que tal fato só irá acontecer se hou­ver um rio que ofereça condições adequadas e uma organização perfeita em torno de excedentes de safra. Para que o povo tra­balhe para gerar excedentes de safras, é fundamental que seja dominado através de força bruta ou, eventualmente, por um poder coercitivo que poderá ser, inicialmente, o medo supers­ticioso da religião.

Varuna concordou plenamente com as assertivas de Sarasvati.

- Realmente, você tem razão, minha cara Sarasvati. So­mente o poder coercitivo da religião poderá amalgamar o povo mais simples atrás de um objetivo. Também é preciso entender que, em cada sociedade escolhida, os capelinos deverão nascer em blocos, em grupos. Se nascerem sós, em sociedades estranhas, não poderão ser de grande valia. Tornar-se-ão pequenos rebeldes, logo suprimidos pelos pais que não tolerarão ques­tionamentos e alterações de suas vidas.

- Realmente pensamos nisso, nobre Varuna. Sugerimos que nossos amigos capelinos renasçam inicialmente entre os sumérios. Após as necessárias correções de rumo, os faríamos renascer entre os hamitas e os arianos da vertente européia.

Vartraghan interveio:

- Pensei que fôssemos concentrar os capelinos numa área específica, fazendo-os evoluir num único local. O que pensa disso, mestre Mitraton?

- Pensamos assim inicialmente, mas nossos superiores sugeriram que os capelinos fossem espalhados pela Terra, nun­ca superando em número os espíritos terrestres. Teríamos os capelinos ajudando os terrestres a evoluírem, assim como não correríamos o risco de ter uma sociedade constituída apenas de degredados.

Varuna olhou para Gerbrandom que assentia, meneando a cabeça, assim como Mitraton estampava um sorriso de sa­tisfação, demonstrando concordância expressa. No entanto, Varuna mostrava-se preocupado.

- Claro que concordo com os administradores, mas re­ceio em começar um projeto em várias frentes de forma simul­tânea. Preferia começar com um grupo específico e, depois, após dominarmos os vários tipos de problemas que hão de surgir, iremos para os demais locais. Sugiro que minha equipe, aqui na Terra, desenvolva um projeto amplo e completo e que o exponha na nossa próxima reunião. Pessoalmente fiquei muito interessado nos sumérios, já que apresentam, atual­mente, o maior índice de desenvolvimento social.

Mitraton meneou a cabeça em assentimento.

-Ótimo! Mestre Varuna. Excelente sugestão! Poderemos discutir maiores detalhes sobre este planejamento integrado. Creio que a princípio a opção da Suméria é muito válida. Os sumérios receberão influência capelina e, futuramente, outros lugares poderão se desenvolver de forma integrada. Minha sugestão seria a de visitarmos os diversos lugares, se acharem por bem.

Todos concordaram, ficando marcado para o outro dia, uma visita a Sumer, como era chamado pelos habitantes locais.

Após uma refeição frugal para Mitraton, Varuna e Ger­brandom, e bem sortida para Vartraghan e Sarasvati, todos embarcaram num veículo que iria levá-los até o destino. Um condutor especializado estava disponível e logo alçaram vôo. De onde partiram, a Suméria estava às escuras e rodearam o globo para conhecerem os vários continentes. Sarasvati des­crevia com perfeição as áreas, assim como sua temperatura, ecossistema, dando informações valiosas sobre a biodiversida­de de cada região.

Voaram por cerca de duas horas, sobrevoando continen­tes e ilhas, assim como explorando com telescópios especiais a superfície do planeta. O planalto do Irã, que se liga com o pla­nalto da Armênia, estava começando a ser iluminado pelo Sol. Ao Sul, ficavam os dois grandes rios, o Tigre e o Eufrates.

Sobrevoaram detidamente a vasta região, observando morros, montanhas, vales e planícies. A vegetação não era lu­xuriante como nas florestas tropicais e a temperatura não era tão quente como na África Setentrional. A coloração das árvo­res e dos arbustos era um verde-escuro; e da terra, bege. Não era muito diferente do que certas áreas de Ahtilantê onde a agricultura ainda não chegara.

O veículo desvia-se, dirigindo-se para o sul da região en­tre rios (Mesopotâmia - em grego - entre rios), planou sobre uma vasta planície, onde se podiam notar algum movimento de pessoas e pequenas agregações que formavam aldeotas. O veículo desceu a pouca distância de uma pequena aldeia. To­dos desceram para avistar melhor os nativos. O calor era insu­portável para os ahtilantes, com o ar pesado, bem mais do que aquele ao qual estavam acostumados.

Os nativos estavam acampados à beira do rio Eufrates, de águas barrentas. Havia cerca de trezentos indivíduos na al­deia, todos vestidos com roupas de linho cru. Os homens ti­nham um saiote que ia até o joelho, começando na cintura, amarrado por uma espécie de cinto de cordas ou de couro mal curtido, enquanto que as mulheres usavam um vestido inteiro e comprido. As casas eram de um único cômodo, arredonda­das, construídas de tijolos de barro secos ao sol, amarrados por cipós. Na frente de uma delas havia uma fogueira com fogo brando, onde em alguns utensílios de cerâmica cozinhavam, lentamente, um mingau de cevada.

O excelso grupo de espíritos volitava a poucos centímetros do chão, observando tudo com grande detalhamento. Varuna pôde ver que aquele grupo não era muito diferente dos selvícolas que existiam em Ahtilante. A diferença era que em seu planeta de origem aquelas tribos estavam em vias de extin­ção, já que a evolução estava alterando seu sistema de vida, en­quanto que na Terra aqueles eram as espécies mais evoluídas. Cinco mil e seiscentos anos de história os separava.

Varuna e Gerbrandom, junto com Mitraton, afastaram-se para os campos para observar os camponeses trabalharem a terra. Dois homens estavam num campo próximo ao vilarejo, puxando um tosco arado. Era um tronco de árvore, amarrado com uma corda de linho grosso, que um dos homens puxava com bastante força. O outro procurava comandar o tronco com uma das mãos, abrindo um sulco superficial e, com a mão livre jogava alguns grãos no sulco recém-aberto. Podia-se notar que mais da metade dos grãos ficava sobre a superfície, ou à baixa profundidade, onde o sol inclemente impediria sua germina­ção. A safra sempre era fraca, fazendo com que os camponeses vivessem com muito pouco. Não havia excedentes agrícolas que pudessem gerar um sistema amplo de trocas.

Mitraton comentou que os sumérios não tinham ainda descoberto a roda, assim como não conheciam a escrita, nem a matemática. A aldeia era conduzida por oito anciãos, que destacavam eventualmente um lugal,ou seja, um grande homem, um responsável para uma determinada tarefa. Assim que a ati­vidade era concluída, o lugalvoltava à sua condição de cida­dão comum.

Varuna observou a quantidade de crianças subnutridas, e sua observação foi apoiada por Mitraton, que lhe informou que a taxa de mortalidade infantil alcançava os cinqüenta por cento, devido à falta de alimentação, doenças endêmicas e ou­tros acidentes naturais.

O dia foi gasto com anotações importantes e visitas a mais de dezoito vilarejos que estavam à distância de trinta a cem quilômetros da aldeia inicial. Mitraton informou que os sumérios não passavam de setenta e cinco mil habitantes espalhados numa área de sessenta mil quilômetros quadrados.

Sarasvati e Vartraghan ficaram numa aldeia, observan­do alguns aspectos da vida de cada um. Após alguns minutos, foi possível para os dois observarem alguns espíritos de pesso­as já falecidas que perambulavam pela aldeia. Viram que não havia espíritos trevosos, nem guardiães astrais a postos, assim como as almas dos mortos pareciam estar participando das vá­rias atividades da aldeia. Não podiam ser detectados pelos es­píritos dos mortos já que estavam em plano espiritual muito mais elevado.

A noite foi caindo, com os grupos recolhendo-se às ca­sas. Não havia guardiães ou sentinelas tomando conta do vila­rejo. Os camponeses chegavam a casa, não se banhavam, não limpavam as mãos, sentavam-se no chão e comiam com os de­dos a papa de cevada que era servida pelas mulheres. Após o jantar, a maioria se deitava no chão, sobre peles de carneiros, caindo em profundo sono imediatamente. Alguns homens, antes de adormecerem, abraçavam-se às suas mulheres, man­tendo um curto, mas intenso conúbio físico.

Vartraghan observou um casal de jovens usufruindo um forte e apaixonado ato de amor, com extensa troca de carinhos e afagos. Não devia restar dúvida de que eram recém-esposados que ainda se deleitavam com o sexo de forma apaixonada. Os mais velhos demonstravam grande dificuldade de se man­ter acordados após um dia exaustivo de labuta no campo, o que os levava a um ato sexual rápido e insatisfatório.

Subitamente, o enorme Vartraghan colocou a mão na cabeça, revirou seus olhos e desmaiou, caindo pesadamente ao chão. Sarasvati, sem saber o que fazer, apreensiva com o súbito fato, chamou telepaticamente por Mitraton. O grande espíri­to, que estava a uma distância mínima do local, chegou volitando num átimo, junto com Varuna e Gerbrandom. Os três gran­des espíritos aplicaram passes longitudinais em Vartraghan que logo recuperou a consciência. Havia sofrido um distúrbio do corpo espiritual, devido à maior força gravitacional da Ter­ra. Vartraghan passara o dia sentindo-se opresso, mas credita­ra o seu mal-estar ao calor reinante. No entanto, após esgotar as suas reservas energéticas, o gigante desmaiou, perdendo os sentidos.

Levaram-no para o interior da pequena naveta, onde providenciaram energias adicionais para a recuperação de Vartraghan. Ele, no entanto, estava acabrunhado com seu desmaio. Todos lhe tinham o maior apreço, pois viam nele um espírito forte e gentil, mas ainda esforçando-se para vencer suas limitações. Mitraton, sentindo-o deprimido, resolveu ani­má-lo com palavras de incentivo:

- Amigo Vartraghan, não se deixe abater com seu des­maio. Isto é perfeitamente normal. Todos passamos por isso. Pessoalmente, quando cheguei aqui, há mais de cinco mil anos, levei quase um mês para me adaptar e sentia náuseas terríveis.

- É mesmo? - exclamou Vartraghan, surpreso.

- Posso lhe afiançar que é natural. Somente os espíritos do mundo mental se adaptam mais rapidamente, já que sua es­sência é mais tênue e não é tão atingida pelas forças materiais densas. Além de que, grande parte da gravidade é proveniente de uma partícula de energia semi-material e semi-astral, denominada neutrino. Esse material é muito denso no universo in­teiro, sendo encontrado em todos os lugares, representando mais de vinte vezes o total da massa do Cosmos.

Vartraghan externou suas preocupações quanto às dife­rentes condições físicas entre Ahtilante e a Terra. Gerbrandom escutou-o e depois confirmou:

- Realmente, você tem razão. O aparelho físico terrestre é mais pesado do que o ahtilante, exigindo maiores esforços para se locomover, cansando-se com mais facilidade. No en­tanto, tudo é compensado. Em Ahtilante, a alimentação é mais frugal enquanto que aqui deverá ser mais substanciosa. A gra­vidade terrestre é mais um fardo que os exilados terão que su­portar.

Varuna meneou a cabeça em concordância. Era mais um calvário a ser suportado pelos degredados.

Enquanto Vartraghan se recuperava, comentou com seu coordenador o fato de estar tão deprimido com a gravidade terrestre:

-Varuna, a sensação é terrível. As forças nos abandonam subitamente e a mente turva-se de maneira tão estranha que parece que vamos morrer.

- Imagine, se você sentiu isso, o que irão sentir nossos ir­mãos exilados? Você já observou outro fato terrível deste exílio?

Vartraghan olhava surpreso para Varuna. Realmente, não tinha pensado muito nesse aspecto.

- Veja bem. Além de não poderem mais conviver com muitos dos seus amigos e parentes do coração, esses exilados terão que mudar para uma forma mais pesada, terão que se adaptar à gravidade terrestre, muito mais acachapante do que a nossa. Ademais, observe que a sociedade terrestre é pratica­mente inexistente. Os agrupamentos de homens são extrema­mente rudimentares. Não haverá mais o conforto de veículos autopropulsados, viagens intercitadinas de vimanas,eletricida­de, videofones, simuladores informáticos, aparelhos domésti­cos, casas confortáveis. Tudo representará um choque psicoló­gico terrível. Para completar o quadro doloroso, nossos irmãos exilados terão que enfrentar animais selvagens, dias quentes ou muito mais gelados do que as cordilheiras Azincachuans e a ignorância dos seus futuros pais.

Vartraghan que acompanhava o raciocínio de Varuna, interveio:

- Depois do que eu passei, posso entender que os exila­dos terão necessidade de se aclimatarem à gravidade terrestre durante algum tempo, antes de renascerem.

Mitraton confirmou o fato, meneando a cabeça e afir­mando:

- Creio que levarão algum tempo desacordados, até que troquem todas as substâncias capelinas do seu corpo astral para material mais denso terrestre.

Vartraghan olhou tristemente para Mitraton e lhe disse:

- Por nossa causa, a Terra será maldita. Introduziremos, neste jardim, a fúria, o assassinato, a luxúria, a mentira e todas as perversões.

Mitraton sorriu e respondeu-lhe amorosamente:

- Caro Vartraghan! A violência se instaura na transfor­mação da sociedade nômade em agrícola. Para manter a terra plantada, os homens tornar-se-ão muito mais aguerridos e vio­lentos. No entanto, a grande mudança será a descoberta de que, escravizando ou dominando outros homens, conseguirão muito mais riqueza, poder e bem-estar pessoal. Nesse estágio da evolução social é que os homens irão desenvolver artifícios para completar sua dominação, que são as formações de clas­ses sociais diferenciadas e o uso da religião, de tal forma que os poderosos possam dominar a maior parte da sociedade.

O pequeno aparelho, num vôo agradável, estava levan­do-os de volta para o plano astral, afastando-se do Sul da pla­nície mesopotâmica, enquanto mantinham a instrutiva con­versação. De um modo geral, a primeira visita fora satisfatória, e mesmo com o desmaio de Vartraghan, haviam tirado impor­tantes lições.

Varuna e sua equipe iriam visitar ainda outros sítios, especialmente o Nilo, o rio Amarelo, o Danúbio, o Reno, as estepes dos Guirquizes onde grandes grupos de nômades arianos viviam, e o vale do rio Indu, no Noroeste do subcontinente indiano. Antes de deliberarem de forma definitiva, solicitariam dos superiores a aprovação final e, se fosse positiva, todos os planos seriam desenvolvidos para inserir os exilados no local mais adequado para seu desenvolvimento e o avanço social, tecnológico e econômico da Terra.

Os três meses passaram-se celeremente em viagens im­portantes de pesquisa e coleta de dados. Nada foi deixado ao acaso. Uma grande equipe terrestre estava empenhada em si­mular todas as circunstâncias e todas as probabilidades. Pequenas alterações genéticas deveriam ser efetuadas, para que os capelinos pudessem ser melhor absorvidos na carne terrestre. Nenhum detalhe era considerado insignificante, até mesmo a diferença de ritmo de crescimento entre os ahtilantes e os terrestres, já que os ahtilantes nasciam bem menores e cresciam mais rapidamente do que os terrestres. Quando atin­giam a idade de quatorze anos, estavam fisicamente adultos, não havendo mais, grandes alterações físicas, apenas o envelhe­cimento natural que atinge a todos em todos os orbes.

Um outro ponto longamente explorado foi a diferença de tamanho entre os ahtilantes e os terrestres. Os capelinos alcançavam facilmente os dois metros e cinqüenta, enquanto que o tamanho normal para o terrestre era de um metro e setenta. O corpo astral dos capelinos deveria ser alterado no decorrer de uma determinada etapa de adaptação, para que pudesse encaixar-se plenamente no corpo físico terrestre.

Já fazia três meses que Varuna e sua equipe tinham chegado à Terra. Era preciso retornar a Ahtilantê para prepa­rarem o exílio dos capelinos. Todos os planos tinham sido apresentados aos administradores planetários e receberam aprovação. Sarasvati solicitou permissão a Mitraton para que pudesse acompanhar Vartraghan até Ahtilantê e, desta forma, pudesse ficar perto dele, já que os dois se amavam ternamente, e também ser útil quando o expurgo ocorresse. Os superiores franquearam sua ida; seu trabalho meritório a acumulara de benesses.

Na véspera da partida, Mitraton ofereceu uma festa para Varuna e seus amigos, desejando augúrios de feliz regresso, mesmo sabendo que haveria tristeza e sofrimento para muitos. Na hora marcada, todos estavam na plataforma de onde o veículo espacial os levaria de volta ao jardim do Éden - Ahti­lantê - para a continuação de suas missões.

 

O vôo foi tão rápido como os demais, e, segundos depois, chegavam a Ahtilantê. Desceram e encontraram-se com os ou­tros membros da equipe. Atrás deles, podia-se ver um grupo de pessoas minúsculas: seres com cerca de um metro de altura, cor branca, olhos negros grandes sem pupilas, calvos e roupas estranhas aos ahtilantes.

Uriel informou a Varuna as ordens dos superiores:

- Como o grande expurgo está próximo, os nossos Maio­res pediram a ajuda de espíritos de outros planetas. Um desses grupos fez questão de vir ao seu encontro, quando soube que você estava voltando do planeta Azul. Dizem que o conhecem e que querem ser úteis em tudo o que for necessário.

Varuna, como espírito aberto que era, achava toda ajuda bem-vinda, mas estranhava o fato de dizerem que o conheciam. Dirigiu-se ao grupo de anões, junto com Uriel e Sraosa. Um deles adiantou-se do grupo, falando-lhe em linguajar perfei­tamente compreensível:

- Salve, gentil Helvente! Salve, nobre Varuna! Aceite os votos de seus amigos de Karion. Sou Lachmey, sua amiga.

Por um instante, Varuna ficou estático. A sua memória rebuscou rapidamente em seus arquivos mentais e lembrou-se de Karion e de Lachmey. Doce e meiga Lachmey! E ela estava ali junto dele. Seu rosto azul iluminou-se com um largo sorriso e seus olhos encheram-se de lágrimas. Doce e amada Lachmey. Varuna se ajoelhou de forma a ficar com a mesma altura dela e a abraçou num amplexo emocionado. Varuna reencontrava Lachmey após cem anos de separação.

Gerbrandom havia proporcionado a Varuna a mais bela das surpresas ao convocar Lachmey e seus amigos de Karion.

O retorno de Varuna e sua pequena equipe foi muito festejado por todos. A surpresa do reencontro com Lachmey foi emocionante, e assim que cumprimentou todos, aproveitou para marcar uma reunião geral. Mas, antes de conversar com sua equipe e a própria Lachmey, procurou Saercha para lhe dar ciência do andamento das atividades na Terra.

Eles ficaram algumas horas trocando impressões sobre a Terra, o expurgo e todas as providências que deveriam ser tomadas. O ministro observou atentamente as gravações em vídeo mental que trouxeram da Terra, fazendo diversas anota­ções, para depois comentá-las com o coordenador do expurgo. Terminada a longa exposição, assim como os planos e conceitos que norteavam o futuro exílio, Saercha comentou:

- Esperamos até este momento para lhe informar alguns fatos importantes. Não tínhamos muita certeza, mas agora as probabilidades apontam para a eclosão de uma grande guerra em Ahtilantê.

Varuna olhava para o ministro com olhar intrigado. Saer­cha prosseguiu:

- A atitude dos hurukyans e seus aliados chegou a um limite onde não haverá mais dúvida de que irão se confrontar com os ocidentais. Deverá ser uma guerra mais encarniçada e cruel do que as demais, já que estão próximos de desenvolver armas de poder nunca visto. Acreditamos que terminará com a destruição de um dos lados.

Varuna estava trêmulo. Armas nucleares eram desconhe­cidas dos ahtilantes, mas os espíritos do alto astral conheciam seus efeitos. Tivera oportunidade de ver registros de uma guerra nuclear em outro planeta e ficara horrorizado. Fora uma guerra total, com mais de oito bilhões de mortes, cerca de doze bilhões de seres atacados pela radioatividade e mais de quinhentos anos de lenta recuperação da atmosfera. As cenas que pudera ver nos registros o haviam enchido de horror, e agora tudo levava a crer que isto aconteceria no seu amado planeta.

Saercha comentou, procurando amainar a preocupação estampada no rosto de Varuna:

- Não acredito que se trate de uma guerra nuclear total. Deverá ser um conflito com armas tradicionais, todavia esti­mamos que um dos lados deverá alcançar a bomba atômica antes do outro e poderá fazer uso dela para ganhar a guerra de forma mais rápida.

Varuna sabia o que isso representava. Morte e destruição de modo terrível, como nunca fora visto.

- Nós calculamos que esta guerra dure de seis a dez anos. Você deverá acelerar todas as providências para o expurgo, já que durante a guerra, haverá uma mortalidade muito maior, facilitando a triagem dos espíritos.

Varuna ia interromper Saercha, quando este levantando a destra, parou-o.

- Eu sei que você desejava retirá-los gradualmente, mas não será possível. O expurgo continuará sendo gradual, mas os primeiros grupos deverão ser bem maiores do que você planejou. Em que isso o afeta?

- Não sei ainda. Terei que conversar com a minha equi­pe, mas creio que não haverá maiores problemas. De qualquer maneira, não precisamos levar todos os exilados para o planeta Azul numa única viagem, não acha?

Saercha acomodou-se na poltrona, como se algo o inco­modasse e falou, lentamente, como se procurasse as palavras certas:

- No início, não. Mas, logo após a guerra, deveremos começar com uma grande renovação. Para tal, precisamos eli­minar a existência das faixas trevosas do astral inferior. Os seus candidatos ao expurgo são os que estão situados nas faixas vibratórias densas. Precisamos, em poucos anos, limpar Ahtilantê dessa negridão, pois afeta grandemente o estado anímico das pessoas. Enquanto existirem trevas e espíritos que lá habi­tem, teremos obsessões, suicídios, vícios horrendos e deforma­ções físicas e psíquicas. Temos, portanto, que retirar os que se comprazem nas trevas e levá-los o mais rápido para outro lugar. Por sua vez, a matéria astral pesada que compõe o astral infe­rior das densas trevas, dos abismos e das furnas profundas precisa ser destruída. Se continuasse a existir, essa vibração pesada poderia ser captada mentalmente, telepaticamente, por alguns renascidos, como acontece hoje, provocando as mais profundas doenças físicas e psíquicas.

Varuna tinha dúvidas de que se não existissem mais espíritos trevosos, tendo sido todos removidos para a Terra, se ainda assim os renascidos estariam sob sua influência nefasta. Saercha captou sua indagação e respondeu-lhe prontamente:

- Sim, pois o material astral é apenas a exsudação dos pensamentos dos espíritos. Se a comunidade é positiva, cons­trói mentalmente um belo mundo. O mesmo acontece com o contrário. Ora, se o material do astral inferior permanecer, os homens continuarão a ter contato com os pensamentos antigos e devassos que geraram esse mesmo local. Tornar-se-ão cativos dos pensamentos desregrados, que irão apenas potencializar ainda mais seus próprios desregramentos. Para que entenda melhor, dar-lhe-ei um exemplo grosseiro. Vamos imaginar que num determinado quarto, um tísico teve seus últimos momen­tos. Se esse quarto não for limpo e desinfetado, o próximo ocupante, se estiver com suas defesas físicas fracas, poderá contrair tuberculose. O mesmo acontece com o espírito. Se não estiver preparado, com atitudes salutares e mente elevada, po­derá captar as vibrações negativas, tornando-se um doente con­taminado pelos miasmas dos tenebrosos pensamentos alheios.

Saercha continuou sua exposição.

- Precisamos limpar o astral inferior, especialmente com armas psicotrônicas que irão dissolver as densas vibrações. Não é aconselhável usar-se essas armas enquanto existirem espíritos no local, porque o lugar atingido entrará em combustão, ema­nando fogo e calor insuportáveis. Naturalmente, os espíritos que estiverem lá, no momento em que estiver em pleno fogo, não serão queimados, mas terão a nítida sensação de estar sendo cozinhados vivos. A limpeza final do astral inferior é um corolário de sua missão, meu caro Varuna.

A reunião ainda prosseguiu por algum tempo, com Varuna especificando datas e atividades, numa tentativa de estabelecer um novo cronograma em face das novas modifi­cações surgidas com o advento imediato da guerra.

Varuna tinha marcado uma reunião com sua equipe para o início da noite onde poderiam discutir detalhadamente todos os aspectos desta nova guerra.

Ele dirigiu-se para a grande sala de reunião, onde já esta­vam Vartraghan e Gerbrandom conversando com os demais sobre as belezas, assim como as deficiências sociológicas do pla­neta Azul, que todos já chamavam carinhosamente de Terra. A bela Sarasvati era o centro das atenções, já que os ahtilantes não conheciam espíritos femininos que apresentassem seios e fossem de origem mamífera. Vartraghan estava feliz em apre­sentar Sarasvati como sendo sua esposa, o que a enchia de ale­gria e orgulho.

Varuna cumprimentou a todos, procurando por Lach­mey que tinha sido convidada e estava junto com um pequeno grupo de seis karionenses no fundo da sala. Varuna a viu, convidando-a a ficar perto dele, à sua direita. A maioria já conhecia os laços de amizade e amor fraternal que uniam a pequena Lachmey ao gigante Varuna, de modo que não estranharam o convite. Além disso, ela era um espírito do mundo mental, estando no astral superior por amor ao próximo e sacrifício pessoal, assim como Gerbrandom e mais dois outros kario­nenses.

Ele perguntou a Uriel o que já tinha sido realizado durante sua ausência. A equipe remanescente, coordenada por ela, tinha avançado bastante nos seus planos. Havia estabeleci­do uma espécie de fortaleza nas planícies lúgubres e escuras que antecedem as trevas. Tratava-se de uma edificação que tinha por objetivo capturar e manter sob estreita vigilância espíritos candidatos ao exílio. Era uma prisão, assim como um hospital, escola e, por fim, um transportador interplanetário.

O prédio tinha cento e vinte metros de base por cento e oitenta metros de altura. Tinha um formato piramidal. Havia uma entrada principal que dava para um hall, com mais de oito elevadores que alcançavam os últimos andares, despejando-se num imenso átrio que descortinava o interior até o último andar. Não era o maior dos transportadores que havia de ser desenvolvido. Alguns seriam gigantescos, atingindo quase quinhentos metros de altura.

Nos andares mais baixos ficavam os mais dementados, ocupando enormes galerias escuras onde dormiam profunda­mente. À medida que subiam até o topo do monumental pré­dio, iam ficando os elementos mais perigosos, assim como as áreas restritas aos alambaques, e no cimo, ficavam alojados os obreiros. Havia local para os enfermeiros em cada andar, sendo que no ápice, ficavam os ajudantes em renascimentos, os médi­cos e a equipe de comando.

Um dos andares era uma verdadeira fortaleza com mais de trezentos presos perigosos. A capacidade total era de treze mil exilados e mais cerca de quatro mil obreiros. Fora devida­mente testado com um vôo curto fora do perímetro orbital de Ahtilantê, demonstrando que era capaz de ir aonde seus ope­radores desejassem.

Varuna estranhou o formato e perguntou por que não foi feito um transportador retangular e Uriel explicou-lhe o motivo de ser piramidal:

- A pirâmide, como você pode ver no visor, é totalmente negra, feita de material astral mais denso. Pode fazer vôos cur­tos na atmosfera astral, mas não consegue cruzar grandes distâncias. Para tal, é preciso que lhe seja acoplada, como se fosse um chapéu, por uma nave de cor avermelhada, dirigida por espíritos do mundo mental. Eles irão acoplar-se no cimo da grande pirâmide e levar-nos até a Terra num átimo.

Uriel explicou que a enorme nave fora desenvolvida pelos karionenses que tinham grande conhecimento de propulsão astral. Eles conheciam também a forma de construção astral bem mais rápida do que o lento sistema tradicional de mentalização. Esse processo era lento e impreciso já que de­pendia da mentalização do inconsciente. A médica informou que o prédio estava totalmente cheio de candidatos ao exílio, podendo ser transportado para o seu destino imediatamente. Quanto ao transporte do mundo mental, não haveria pro­blema, já que Lachmey e seus amigos de Karion haviam vindo nele.

- Como vocês capturaram esse primeiro grupo de pes­soas?

- Na realidade, mestre Varuna, foi algo muito fortuito, quase sem querer. Desenvolvemos o prédio no astral médio, fizemos extensos testes e o levamos para o seu local atual no astral inferior. Quando menos esperamos, apareceram vários grupos de alambaques, solicitando audiência conosco. Os guar­diões se precaveram, permitindo que somente um grupo pe­queno entrasse na nave.

Varuna endireitou-se na poltrona, procurando ouvir tudo com muita atenção.

- Um dos chefes perguntou se aquele prédio tinha algo a ver com o Grande Mykael Varuna. Explicamos detalhada­mente para que servia o prédio, assim como estávamos real­mente a cargo do Grande Mykael.

Uriel sorriu ao falar a palavra Mykael, mestre da magia, pois para os alambaques, Varuna era um poderoso mago.

- Qual não foi a nossa surpresa quando, no outro dia, esses mesmos chefes alambaques trouxeram mais de oito mil prisioneiros, a maioria totalmente desacordada e agrilhoada. Entregaram-nos sem que tivéssemos pleiteado e ofereceram-se para ir junto. Disseram-nos que assim que Varuna voltasse do planeta Azul, que fossem chamados, pois queriam ser os primeiros a ir embora. Confirmaram que o Grande Mykael Varuna Mandrekhan os tinha convidado para serem guias de povos, moldadores de nação e flagelos de Deus, e assim o seriam.

Varuna estava satisfeito com os resultados. As coisas estavam melhor do que imaginara. Os alambaques estavam com ele, o que facilitava em muito o seu trabalho.

- Nem tudo está tão fácil. Há vários grupos que estão se organizando nas sombras para evitar o exílio. Não desejam partir e muito menos servir ao que eles chamam de o impostor, Varuna.

Vayu interrompeu a alegria do grupo, reportando os fatos mais recentes. Ele reportou que havia muitos dragões que não queriam partir, relutando em abandonar suas antigas pos­turas de ódio e revolta. Eles se recusam sistematicamente a obedecer às ordens dos guardiões.

- Acho muito natural. Os alambaques nunca obedeceram a ninguém. Não são nem sequer unidos. A maioria luta por territórios e prisioneiros. O que devemos fazer é aproveitar todos os alambaques que desejam trabalhar conosco e mandá-los o mais rápido para a Terra. Devemos deixar os que não querem ir para o final. Se no final do expurgo, dentro de algumas décadas, tivermos alambaques ainda endurecidos no mal, reni­tentes em viajar para a Terra, teremos que usar de força e de coerção. Para eles, não teremos condescendência, tendo que obrigá-los a baixar a cerviz. Oremos para que não haja neces­sidade do uso de força.

Varuna resolveu comentar sobre a situação terrestre, explicando durante quase duas horas, todos os detalhes da operação. Com a aceleração inicial do expurgo, devido à imi­nente guerra, algumas alterações deveriam ser introduzidas. Não se poderia fazer uma transferência lenta e gradual, exigin­do que as primeiras levas fossem bem maiores do que inici­almente estimadas. Era um contratempo que não tinha sido previsto, o que representava a construção de muito mais trans­portadores, uma equipe maior e mais bem treinada e muito pouco tempo para eventuais falhas. Nem tudo corre como se prevê, nem mesmo no astral superior. Os espíritos superiores, cientes desses fatos, enviaram os amigos de Karion para ajudar no que fosse possível.

Lachmey pediu a palavra, que lhe foi dada por Varuna:

- Nobre Varuna, conforme já lhe foi comunicado, nós temos equipamentos disponíveis para fazer grandes naves. Algumas delas podem ser maiores do que os seus mais altos Zig-Ghurar-Teh, podendo transportar mais de duzentas mil pessoas. Esse tipo de transporte não oferece acomodações adequadas para se transformar em hospital, impossibilitando a regeneração gradativa dos seus habitantes. Pode transportar alto número de pessoas e voltar para buscar mais em pouco tempo. O maior problema é capturar os bandidos, pois muitos deles estão em lugares quase inacessíveis, a não ser para os guardiões e, obviamente, os dragões.

O comentário de Lachmey foi muito bem ouvido por todos. Transportar não seria o problema, capturar seria mais sério e difícil. Não se capturam duzentas mil pessoas com tama­nha facilidade, mas parece que os karionenses tinham mais idéias do que se podia imaginar. Lachmey, portanto, ao obser­var a expressão de desânimo no rosto da maioria dos presentes, continuou sua tranqüila exposição:

- Não desanimem, meus amigos. Nós também tivemos um grande expurgo em Karion, há setecentos anos, sendo que na época nós expurgamos cerca de trezentos e sessenta milhões de pessoas, o que é pelo menos doze vezes mais gente do que expurgaremos aqui, enviando para oito planetas diferentes.

Varuna olhou atentamente para Lachmey e lhe pergun­tou:

- Como fizeram para capturar tanta gente?

- Usamos diversos processos. Primeiro, os dragões nos ajudaram, como estão começando a fazer aqui. No entanto, não os usamos na extensão desejada. Não soubemos cativá-los para a nossa causa. Segundo, tivemos que lutar contra a maioria dos dragões que não quiseram ser exilados. Usamos armas psicotrônicas de alto impacto. Elas emitem não só a sensação de dor, como de imobilidade por algumas horas. Tivemos que formar legiões celestes para derrotar os dragões. E preciso dizer que os demônios rebeldes não formaram grandes grupos coesos. Pelo contrário, são pequenas gangues, como se fossem facções de rua compostas de transviados juvenis, o que dificulta um pouco a captura, já que elas se proliferam grandemente. Finalmente, após eliminar a resistência dos dragões, recolhe­mos o grande número de degredados através de raios-tratores.

Todos os presentes olharam para Lachmey com grande surpresa. O que era um raio-trator? Gerbrandom meneou tris­temente a cabeça; sabia bem o que era isso. Lachmey pros­seguiu sua exposição, usando para tal uma emanação mental que desenhava uma forma-pensamento, de tal modo que todos pudessem ver e entender como funcionava um raio-trator.

- Inicialmente, é preciso dizer que todos os espíritos vibram em certas faixas que lhe são próprias. Os mais evoluídos vibram em faixas mais altas, emitindo campos energéticos de alta potência. Os menos evoluídos vibram de forma mais lenta, formando campos densos que podem ser registrados em certos aparelhos. Com a emissão de um campo específico para grupos de freqüências, ou seja, grupos de espíritos, podemos capturá-los como se fosse um ímã, puxando-os para um campo de força onde ficam aprisionados. Normalmente, quando um raio-trator atinge um espírito, ele desmaia, podendo ou não sentir dor, sendo literalmente guindado até o campo de aprisionamento, onde se tornará facilmente dominado. Retornará à consciência em algumas horas, a não ser que esteja em estado catatônico, o que, neste caso, continuará como estava.

Os presentes estavam achando a idéia excelente e Lach­mey complementou sua explicação:

- Nós fizemos naves gigantescas, com o formato de pequenas luas, para transportar até quinhentos mil prisionei­ros, com enormes e poderosos raios-tratores. Eles eram cap­turados e levados automaticamente para bordo da nave que, quando estava cheia, era transportada para o planeta de exílio. Devemos usar os raios-tratores como muita parcimônia; estra­gam grandemente os corpos astrais. Podem criar sérios proble­mas de readaptação no planeta Terra para os cativos do raio. Entre eles, a sensação de terror que pode levar à mais profunda loucura. Devemos usá-los somente contra os mais impenitentes dos alambaques. Todavia, meus amigos, o mais grave não é capturá-los e transportá-los, mas aclimatá-los no planeta de exílio.

Todos a olhavam com muita atenção.

- Não podemos apenas descarregar duzentas mil pessoas como se fosse um transporte de carga. Não se trata de pessoas normais. São criminosos perigosos. Precisam ser aprisionados, conduzidos gradativamente à regeneração e renascer de forma ordenada, organizada e disciplinada. E preciso, antes mesmo de capturá-los e transportá-los, organizar grandes prédios no astral da Terra para onde, quando ali chegarem, poderem ser encaminhados. Eles serão internados em hospitais-prisões já previamente preparados. Deve-se dar preferência aos locais escolhidos. Por exemplo, se forem ingressar na Suméria, como parece ser o plano de mestre Varuna, deverá existir um número adequado de estabelecimentos no local, de forma a abrigar os degredados.

Varuna olhava para Lachmey embevecido. Ela era mi­núscula em comparação aos enormes ahtilantes, mas se com­portava como uma doce princesa, expondo tudo sem afetação, sem ritos ou gestos estranhos. Suas palavras fluíam calma­mente, com entonação adequada. Quando era para alertar de algo grave, seu tom tornava-se mais grave sem, no entanto, apresentar a teatralidade que muitos gostam de impor, quando vão falar algo que julgam ter importância.

Varuna olhou para Radzyel, responsável pela parte administrativa do plano, e lhe disse:

- Amigo Radzyel, creio que a idéia de Lachmey é per­feita. Além do que já foi testada no expurgo de Karion. Sugiro que você planeje, junto com Lachmey e Gerbrandom, um projeto mais amplo possível.

Radzyel assentiu e comentou.

- Aliás, a nobre Lachmey e seus amigos karionenses já nos tinham alertado para tal fato. Já temos um esboço que gostaríamos de colocar à sua apreciação.

Para Varuna era surpresa em cima de surpresa. O reen­contro de Lachmey. A eclosão de uma guerra mundial. Equipa­mentos de que nunca tinha ouvido falar. Os planos estavam muito mais adiantados do que podia imaginar. Só lhe restava parabenizar sua equipe pelas iniciativas tomadas. A qualidade de uma equipe repousa na iniciativa que cada um é capaz de tomar, e na liberdade que o coordenador permite que seja tomada.

Radzyel começou expondo os detalhes do que já tinha feito. Explicou que agora era apenas uma adequação do pro­jeto às necessidades da Terra. Sugeriu que com o primeiro expurgo, um grande grupo de planejadores e inclusive alguns amigos de Karion fossem para a Terra. Varuna achou a idéia muito sábia e não via nenhum empecilho já que os seiscentos habitantes de Karion estavam dispostos a ir até lá.

A reunião durou mais algum tempo, onde se puderam definir alguns passos. Inicialmente, o prédio-nave, que já estava pronto e cheio de exilados, deveria ser enviado para a Terra. Essa nave ficaria lá, servindo de hospital-prisão e centro de renascimento. Varuna iria com eles e mais quantos alambaques quisessem ir. Poderiam iniciar com Mitraton os renascimentos inicialmente planejados para a Suméria e o Vale do Nilo. Varu­na voltaria para dar andamento ao restante do expurgo, ou seja, em tempo hábil para fiscalizar e coordenar os eventos durante a guerra mundial, onde quase cinqüenta por cento dos degredados seriam retirados do astral inferior de Ahtilantê. Significava dizer que, em cinco anos, mais de quinze milhões de pessoas teriam que ser transportadas para fora do planeta. Era uma média de três milhões de pessoas por ano, através de quinze viagens anuais com duzentas mil pessoas. Muita gente!

Os karionenses ensinariam os ahtilantes a construir no­vas naves com raios-tratores. Era necessário que os ahtilantes refizessem em parte os equipamentos já que os habitantes de Karion eram muito menores do que eles, exigindo certas adap­tações. Para completar o esquema, os ahtilantes aprenderiam as técnicas de combate aos dragões que os karionenses tinham desenvolvido. Os guardiães astrais de Ahtilantê lutavam com armas psicotrônicas de baixo impacto. Era necessário fazer mira para que o raio atingisse o alvo. O tiro, por mais certeiro que fosse, dava chance ao inimigo de fugir, pois o impacto era baixo, causando apenas a sensação de dor e, muito raramente, o desmaio provocado por um tiro certeiro em algum ponto vital do corpo astral que dava a nítida sensação de morte.

As armas que os pequenos seres de Karion tinham tra­zido eram absolutamente fantásticas. Não era preciso se fazer mira. Bastava fixar no pequeno visor as faixas vibratórias a ser atingidas e abrir fogo. Não se tratava de um raio, e sim, de um facho de luz que se alargava, abrangendo mais de mil metros à frente, e uma abertura de três a quatro quilômetros. O facho de luz tinha várias intensidades, desde a mais baixa que apenas atordoava o espírito, até a mais alta que ao atingir o alvo, dei­xava-o completamente desacordado por duas ou mais horas. Outro ponto importante é que o feixe de luz podia ser dis­parado mesmo quando guardiões e alambaques estivessem misturados. Os alambaques seriam atingidos e os guardiões, por serem mais evoluídos, pertencentes ao astral médio, não seriam afetados. Tratava-se, pois, de uma arma muito avan­çada.

Varuna retirou-se da reunião com Lachmey, levando-a para seus aposentos. Queriam colocar em dia, cem anos de ausência. Ele foi logo lhe perguntando como foi que veio parar em Ahtilantê. Lachmey explicou que um expurgo é um fato importante na galáxia. Todos os planetas civilizados são infor­mados, de tal forma que muitos são aqueles que se candidatam a algum trabalho meritório junto aos necessitados. Gerbran­dom solicitara a sua presença, se fosse possível, pois sabia que laços de amizade os uniam. Além disso, sua candidatura fora bem aceita por seus superiores. Não foi à toa que Varuna fora treinado em Karion antes de renascer, e nem que ele e Lachmey estavam juntos novamente.

- Minha querida Lachmey, gostaria que me contasse tudo o que lhe aconteceu neste século.

Lachmey contou sua história de forma sucinta. Ela conti­nuara baseada em Karion. Ampliara suas atividades e sua edu­cação formal, formando-se como médica especializada em genética interplanetária. Estivera em vários planetas, traba­lhando em projetos maravilhosos os quais passaria dias rela­tando a Varuna. Varuna continuou escutando a vida de Lach­mey durante estes cento e poucos anos de separação.

Varuna continuava, no entanto, sem entender o que Lachmey, tão evoluída - a mais evoluída de todo o grupo junto com Gerbrandom e Mitraton - desejava em Ahtilantê. Sentin­do suas dúvidas, desnudou suas mais íntimas emoções.

- Caro Varuna, ser-lhe-ei honesta nas minhas revelações, e espero que, de certo modo, você possa me ajudar.

Varuna a olhou preocupado. O que seria?

- Recentemente fui recebida com carinho e atenção pelos meus superiores. Congratularam-se comigo pelo meu es­forço na medicina e nas grandes realizações científicas, mas alertaram-me para algumas lacunas ainda existentes na minha evolução.

"O que poderia ser?" perguntava-se Varuna. "Lachmey era um modelo de espírito feminino, inteligente, sensível, aten­ciosa e forte. Qual o atributo que lhe faltava?"

- Meus guias me disseram que havia uma distorção nos meus sentimentos. Entenda bem, caro Varuna, o ideal é que cada espírito ame todos da raça humana como se fossem seus próprios filhos. Os mais velhos devem ser amados como se fos­sem nossos pais; os de nossa idade, como se fossem nossos irmãos; e os mais novos, nossos filhos. E nesse ponto que meu sentimento se ressente. Amo a todos em tese, em teoria. Os meus mentores dizem que preciso amar de fato, e não há nada como amar a escória, os aleijados, os criminosos, os degreda­dos. Disseram-me que viesse a Ahtilantê e me tornasse a mãe de todos os exilados. Que viria a ser um grande espírito no dia em que os visse como meus filhos desviados do caminho do bem. Que seria uma luz no firmamento, no dia em que os exilados me vissem como sua mãe espiritual. Para isso, neces­sito ser útil. E preciso servir de forma humilde, com o coração amoroso e devotando a existência aos menores.

Lachmey parou de falar por um instante. Varuna anali­sava suas palavras, vendo que aquilo também lhe servia. Até então se via como o coordenador do expurgo. Tinha piedade e comiseração pelos exilados, mas não tinha amor. Só demons­trara esse magno sentimento em poucas ocasiões, sendo uma delas quando se condoera com a situação do homem-lagarto, mas de resto, havia uma certa distância de tudo, como se aquilo não o afetasse. Agora via melhor. Se Lachmey deveria ser a Grande Mãe, assim como Uriel e todas as mulheres, ele deveria ser o Pai, assim como Vartraghan, Gerbrandom, Sandalphon, Radzyel e todos os homens. Ser pai não era se derreter em carinhos extemporâneos, em deleites infantis e carícias despro­positadas. Aqueles exilados eram perigosos assassinos, ladrões e depravados, mas precisavam de amor e devoção; somente esse sentimento poderia destruir a carapaça dura e impenetrá­vel que tinham construído para se proteger da injustiça aparen­te do mundo.

-Você sabe, meu amigo, que penso muito na mãe de uma criança mentalmente e fisicamente debilitada. Ninguém de sã consciência deseja ter um filho excepcional, por isso, quando tal fato acontece, a mãe, especialmente ela, vê-se ludibriada em seus sonhos de mulher. Desejava afagar uma bela criança nos seus braços, embalando-a em seus sonhos caridosos. Mas o que recebe é, muitas vezes, um monstro de feiúra e de revolta. Um ser que mal se expressa, quase não anda, não sabe as mais comezinhas coisas como beijar, pedir e agradecer. Se essa mãe supera sua revolta, amando aquele filho como se fosse a gema mais preciosa do firmamento, como se fosse o maior presente que Deus poderia lhe dar, transforma-se numa madona de co­miseração, amor e piedade. Supera suas próprias fraquezas, tornando-se um baluarte de amor e compreensão. Assim devo proceder com meus filhos ahtilantes, meus capelinos, que irão para a Terra transformá-la num mundo mais civilizado. Preci­so que você, Varuna, que coordena o exílio, permita que eu seja a mais humilde das obreiras, ajudando aos mais necessita­dos. Se você permitir, gostaria de ser a primeira a ir à Terra, ajudando os meus filhinhos capelinos, como humilde serva, desde os primeiros renascimentos.

Varuna estava profundamente comovido. Não podia ex­pressar nenhuma palavra. Um rio apertava seu pescoço, impe­dindo-o de qualquer reação. Só pôde assentir com um movi­mento de cabeça. Aproveitou a sua intensa emoção para segurar as duas pequenas mãos de Lachmey, beijando-as com enorme ternura. Sim, Lachmey seria a mãe dos capelinos, as­sim como ele seria o pai dos banidos.

No outro dia, Varuna teve uma reunião definitiva com Saercha e obteve dele a confirmação de que deveria começar o expurgo imediatamente. Já existia uma nave cheia de degre­dados, necessitando apenas agregar à mesma alguns chefes alambaques assim como uma pequena equipe de operadores. A viagem foi marcada para dentro de três dias.

Nesse período, Varuna e sua equipe movimentaram-se celeremente para que todas as últimas providências estivessem prontas. Doze chefes alambaques, que tinham demonstrado disposição inusitada para partir, foram convidados a compare­cer, e assim o fizeram, com grande pompa. Cada chefe chegou com dois a três lugar-tenentes, mais algumas mulheres e vinte a trinta soldados-escravos. Foram chegando gradativamente no decorrer dos três dias, sendo alojados na grande nave em locais diferentes para evitar lutas e disputas inúteis entre os vários grupos.

Varuna e Lachmey fizeram questão de receber os grupos de alambaques c todos demonstraram grande respeito pelo coordenador, e surpresa em conhecer a pequena karionense. Para eles, a pequena fêmea de Karion, além de ser muito pequena para os padrões de Ahtilantê, era estranha, com sua cabeça insolitamente grande para um corpo tão diminuto. Não precisaram de muito esforço mental de perscrutação para detectarem que se tratava de um espírito elevado e, mesmo sendo pequena, tinha um poder espiritual bem superior a qual­quer um deles. Após as averiguações mentais dos terríveis alambaques, Lachmey passou a ser considerada como uma pequena deusa entre eles.

A grande entrada era protegida por duzentos guardiães fortemente armados com as armas que os karionenses tinham introduzido. Na entrada da nave que dava para um grande pátio, existiam duzentos postos de atendimento para onde, à medida que as pessoas entravam, seja para visitas oficiais, seja para trazer espíritos perturbados, deviam se dirigir para tria­gem e registro. Ninguém não autorizado podia entrar e, diaria­mente, mais de mil solicitações eram recusadas e pouquíssimas aceitas, de pessoas que queriam visitar alguns dos internos a ser exilados. A recusa se devia ao fato de que aqueles infelizes podiam piorar seu estado, caso vissem pessoas que lhes foram caras durante a existência física. Por outro lado, esses seres, envilecidos na perversão dos sentidos, estavam tão diferentes do que foram quando renascidos que os eventuais amigos ou parentes ficavam chocados e enojados com suas deformações. Muitos pleiteavam visitas, mas poucos eram atendidos.

Do grande hall de entrada, onde se fazia a triagem e os registros, determinando para onde o interno devia ser enca­minhado, os espíritos eram conduzidos, por enfermeiros espe­cializados, por elevadores que davam acesso aos andares da nave-prédio. Em cada andar existiam longos corredores cen­trais que davam entrada para grandes enfermarias, onde deitados estavam centenas de espíritos. Cada enfermaria tinha sido destinada a um tipo de doente espiritual, já que todo réprobo da Justiça Divina assim é considerado. Existiam enfer­marias destinadas aos catatônicos, aos idiotizados, aos suicidas, aos assassinos psicopatas e assim por diante. Os mais perigosos eram amarrados ao leito e quando começavam a urrar, uma espécie de capacete lhes era colocado na cabeça para analgesiar a mente com fluidos repousantes.

Cada enfermaria tinha um sistema de exaustão muito bem arquitetado. Se as emanações pestilenciais das mentes em derrocada permanecessem na atmosfera, tornariam as enfer­marias não só um local insuportável pelo efeito deletério dos fluidos mentais densos como também potencializariam nos outros doentes todas as suas sintomatologias patológicas. Na entrada de cada enfermaria, existia um pequeno corredor, de tal forma que quem passasse receberia uma espécie de chuveiro fluídico, para não levar material fluídico de uma enfermaria para outra, e para prevenir eventuais fugas de alguns dos celerados. Um grupo de dois ou mais guardiões revezavam-se na guarda das enfermarias, junto com dois médicos e dez enfer­meiros.

Os chefes alambaques foram instalados em locais sem nenhuma mobília, tendo sido dada autorização para que pu­dessem desenvolver o seu local da forma que achassem melhor. Contudo, explicaram que não poderiam passear pela nave, por razões de segurança. Na realidade, o que se pretendia evitar eram confrontos entre turmas de alambaques, e a influência nociva que tinham sobre os prisioneiros. A simples presença de alambaques na nave mudou o padrão vibratório, obrigando a limpezas fluídicas mais constantes.

Varuna e sua equipe, incluindo Lachmey, visitaram todas as dependências, procurando conhecer os vários lugares e os doentes. A maioria estava fortemente sedada, dormindo um sono povoado de pesadelos e repetições infindáveis dos seus crimes. Poucos estavam acordados, sentados na cama. No setor que apresentava as melhores condições de recuperação, havia um grupo de mais de duzentos espíritos profundamente arrependidos. Na maioria, sabiam que seriam exilados em planeta distante, onde teriam oportunidade de se redimir através de renascimentos difíceis, sem as facilidades tecnológicas existen­tes em Ahtilantê.

Os karionenses fizeram um segundo prédio-transportador idêntico ao primeiro e os obreiros de Varuna conseguiram trazer mais gente para lotar a segunda nave. Os alambaques fiéis a Vartraghan trouxeram mais de dez mil pessoas; e os trabalhadores da seara do Senhor, um outro tanto. Não trabalhavam juntos, mas respeitavam-se mutuamente. Foi com grata surpresa que Varuna encontrou-se com o tenebroso alambaque Tajupartak. Sua imagem já não estava tão deformada como antes e Varuna logo o reconheceu, dirigindo-se a ele com amizade e deferência, o que logo trouxe importância ao demônio perante seus pares.

- Amigo Tajupartak, é com grande satisfação que o vejo novamente.

O demônio fez uma reverência toda pomposa, no que foi correspondido por Varuna. Uma dúzia de pessoas de ambos os lados olhavam a cena, aguardando o desfecho.

- Mestre Mykael, trouxe-lhe alguns seres hediondos para serem banidos do nosso planeta. Não merecem viver entre nós.

Interessante como a mente trabalha. O sujo falando do mal lavado.

- Sem dúvida. Um belo trabalho. Vejo que abandonou nosso amigo Katlach.

- Ele não serve mais aos meus novos propósitos.

Varuna perscrutou-o com a rapidez de um raio sem que o tenebroso ser o sentisse. Estava profundamente modificado. Não desejava mais apenas vingança e não destilava ódio. Havia uma nova atitude. Queria ser um guia de homens, um chefe, um rei e um deus. Varuna pensou consigo mesmo: "Você o será, meu amigo, você o será".

No dia marcado, com todos a bordo, incluindo Varuna e Lachmey, a nave preparou-se para a partida. A nave capitane­ada pelos karionenses sobrevoou a grande construção e encai­xou-se, sem dificuldades no topo. Começou uma leve vibração. Pouco a pouco a nave-prédio foi subindo, deixando o solo argiloso e grudento do baixo astral onde estava localizada. Após alguns minutos de suave subida, vibrou numa tonalidade mais elevada e num átimo, foi atraída de Ahtilantê para a Terra.

Para cruzar o universo físico, através do mundo astral e mental, era necessário que todo o conjunto constituído da grande pirâmide negra e de sua nave propulsora acoplada no topo vibrasse numa mesma freqüência. Para tanto, os que esta­vam no seu interior, também passariam a vibrar em freqüênci­as mais elevadas. A simples alteração vibracional desses espíri­tos degredados induziu-os ao mais puro terror. Os evoluídos que estavam no interior da nave não sentiram a viagem, sendo esta mudança vibracional uma sensação deliciosa. Os alambaques e os banidos, especialmente, os que estavam acordados, no entanto, sentiram grande pavor.

Havia dois transportadores. O primeiro partiu com Va­runa e Lachmey, enquanto que o segundo partiria dentro de alguns dias. Tajupartak estava no segundo vôo. Viu quando o primeiro transportador foi enganchado por uma naveta pe­quena, vermelha, rubra como fogo em brasa, mal dando para ver devido à intensa luminosidade. Ela chegou voando alto e fez uma longa curva até aproximar-se e encaixar-se no topo do transportador em forma de pirâmide. Na hora de levantar vôo, a nave, encaixada na imensa construção astral, começou a vibrar e emitir um zumbido alto. Tajupartak olhou assustado. Que estranho encantamento!

Quando a nave alcançou uma determinada altura, co­meçou a mudar de cor, indo do vermelho ao azul, tornando o imenso prédio negro numa grande bola de fogo e, subitamen­te, no meio de estrondos atordoantes e raios que cruzaram os céus para todos os lados, desapareceu. Tajupartak ficou estar­recido, bestificado, atordoado e amedrontado. Que magia fan­tástica!

O vôo, para os evoluídos foi uma delícia. Num minuto estavam em Ahtilantê; no outro já tinham chegado à Terra, exatamente no lugar previamente determinado por Varuna e Mitraton. A grande porta se abriu e saíram no astral médio ter­restre. Mitraton já os esperava. Cumprimentaram-se efusiva­mente e Varuna apresentou Lachmey a Mitraton.

A primeira leva de capelinos tinha chegado à Terra para um desterro que, para uns, seria longo e insuportável; para ou­tros, relativamente curto, prenunciando um retorno triunfal a Ahtilantê com os louros da vitória. Algumas horas depois de terem chegado, a maioria, inclusive os alambaques, alguns guardiões e enfermeiros, estavam completamente amadas pela po­derosa força gravitacional terrestre. Os guardiães e enfermei­ros receberam tratamento que lhes possibilitou adaptarem-se rapidamente, enquanto que para os demais - alambaques e prisioneiros - o sono prolongado foi o melhor remédio.

Varuna deixou Lachmey como coordenadora, por ser a mais evoluída do grupo, com recomendações para providenci­ar os renascimentos o mais breve possível. Pelos planos de Mitraton, os primeiros renascimentos só iriam acontecer dentro de dez a quinze meses, já que seria esse o tempo mínimo neces­sário para que o corpo astral perdesse a vibração ahtilantê e adquirisse a energia mais material da Terra. Enquanto isso, Lachmey e Mitraton teriam muito o que fazer; seria funda­mental planejar detalhadamente os primeiros renascimentos de forma a possibilitar uma boa implantação dos capelinos en­tre os terrestres.

Varuna fez questão, antes de partir para Ahtilantê, de participar do planejamento dos primeiros renascimentos. Mi­traton e sua equipe de planejadores tinham estabelecido vári­os grupos na Suméria. As aldeias de Shurupak, Erech, Sin, Eridu, Lagach, Kish, Adab e mais algumas outras receberiam os primeiros capelinos. Na nave tinham vindo quase vinte mil exilados, o que permitia que houvesse bastantes espíritos para serem renascidos numa primeira leva.

Na Suméria, foram destacados inicialmente três chefes alambaques que teriam como função orientar os recém-chegados, sob o comando de Oanes, alambaque-mor. O trabalho de renascimento teria que ser lento já que a Suméria tinha pouco mais de setenta mil habitantes espalhados por mais de cento e oito vilarejos. Lachmey escolheu cuidadosamente os principais seres pelas suas características de forte personalidade. Infe­lizmente, os degredados de personalidades mais pujantes ou eram alambaques que não queriam renascer, por enquanto, ou criminosos tenebrosos. Lachmey não tinha muita opção e com o cuidado de quem semeia as melhores sementes, ela preparou o terreno para a eclosão da primeira civilização da Terra.

Varuna precisava retornar a Ahtilantê; a guerra estava a ponto de eclodir, e todos os planos de expurgo precisavam ser acelerados. Varuna partiu só na naveta vermelha de Karion. Deixou Lachmey no comando dos capelinos e karionenses e Vayu, o imponente púrpura, segundo-em-comando de Vartraghan, para comandar os guardiões responsáveis pela segurança geral na Terra.

 

A guerra eclodiu com extrema violência. Os hurukyans foram os primeiros a agredir a confederação Norte-Ocidental e, depois disso, o mundo inteiro uniu-se para destruir o pode­rio crescente do império. Durante oito anos eles lutaram em vários continentes, destruindo cidades e matando a juventude em combates horrendos. No final, as duas confederações con­seguiram desenvolver artefatos nucleares e explodiram diver­sas cidades hurukyanas, entre elas Tchepuat, a capital imperial. A guerra terminou imediatamente após a explosão das bombas nucleares e com a morte de Katlach. Durante este negro perío­do do planeta, morreram mais de cem milhões de pessoas em decorrência dos combates, indo engrossar ainda mais os candi­datos ao expurgo.

O grande expurgo de Ahtilantê passaria por três fases distintas. O início que durou até o final da guerra, onde vinte e poucos milhões de pessoas foram banidas em grandes lotes. Enquanto este processo era implementado em Ahtilantê, na Terra, os capelinos que demonstravam um mínimo de reajuste psíquico, renasciam na Suméria.

Após a guerra devastadora de Ahtilantê, houve um período intermediário, onde foram dadas oportunidades re­dentoras a grandes contingentes populacionais. No entanto, o período intermediário não foi pacífico e tranqüilo, como se poderia imaginar. Os alambaques que não haviam partido para a Terra tinham se dividido em duas tendências. Uma aceitava o exílio como fato consumado e até ajudava as falanges de Varuna; e outra, subrepticiamente, começou um processo ne­fasto contra os renascidos, com o objetivo de levar consigo o maior número possível de degredados. Seu raciocínio era extremamente pervertido e constava de uma máxima: se eu me dano, então minha alegria é que todos se danem comigo.

Vinte anos após a grande guerra, Varuna, no retorno de uma de suas muitas viagens à Terra, reuniu-se com Uriel para uma reunião de trabalho. O ministro Saercha e Gerbrandom estavam juntos com o coordenador.

- Caro Uriel, peço-lhe que nos relate os graves acon­tecimentos por que Ahtilantê está passando.

Uriel começou expondo sucintamente:

- Mestre Varuna, a situação está tornando-se cada vez mais insuportável. Há grandes grupos de alambaques espalha­dos pelo planeta implementando as piores infâmias. Até depois da grande guerra, expurgamos metade dos alambaques. Eles foram de livre e espontânea vontade e muito nos ajudaram na captura, guarda e banimento dos degredados. Nós os tratamos como se fossem obreiros especializados. Metade dos que fica­ram continuam trabalhando em conjunto com os guardiões. Alguns raros, ansiosos para evitar o degredo, pediram renasci­mentos difíceis, tendo recebido novas oportunidades em situações penosas.

Varuna acompanhava pelo grande visor o que Uriel fala­va. Muitos tinham renascido entre as cinzas, sofrendo na carne o próprio preconceito que nutriram por tantos anos. Alguns, em extrema miséria, sem arrimo, mas com grande desejo de progresso. Outros vinham cegos, ou mudos, e com deficiências inúmeras que os impediam de recalcitrarem no crime. Estavam acontecendo grandes devastações, tanto naturais como provocadas por guerras. Nesses lugares, as crianças morriam de fome nos braços de suas mães. A maioria era composta de antigos alambaques, soldados-escravos e lugar-tenentes desses caliginosos seres, purgando existências dificílimas.

- Mas há um grande grupo que sabe que não pode fugir do expurgo. Reconhecem a força majestática dos Maiores e insularam-se num tal processo mental que, se forem banidos, tentarão levar o maior número de indivíduos possível com eles. Além disso, para complicar ainda mais o aflitivo quadro, existe a miridina que leva ao vício milhares de jovens.

O visor mostrava como as grandes redes de distribuição da potente droga haviam se organizado pelo mundo inteiro. Atacavam as crianças, os adolescentes, os executivos das gran­des empresas, os miseráveis e os ricos. Tratava-se de um grande negócio, com ramificações em todos os lugares do mundo. Além disso, era um poder que corrompia políticos, administra­dores e policiais.

- Temos usados os artistas para divulgar boas idéias, a fraternidade e o amor. No entanto, eles também têm usado as artes para seus propósitos. Há músicas delirantes que falam explicitamente no poder do mal e de Razidarakha, o Grande Dragão, o conceito do próprio mal personificado. Há filmes e peças teatrais que enfatizam a violência, a destruição, plas­mando nas mentes infantis e adolescentes o vírus da maldade e do terror. Com isso, têm aparecido mais e mais gangues infanto-juvenis que destroem, seviciam e atacam as pessoas. Grande parte desses acontecimentos são efeitos das graves distorções econômico-sociais que os alambaques usam para destilar ódio, desesperança e desavenças.

Varuna, após escutar o relatório de Uriel, falou:

- A evolução espiritual exige que o ser passe por todas as fases, de forma a aprender em cada uma delas as nuanças da realidade. Os alambaques estão nos seus derradeiros estertores. Sabem que dentro de alguns anos serão irremediavel­mente banidos, aprisionados e levados à força para o planeta Azul, onde terão que regenerar-se, seja por bem, seja por mal. Fizemos, e você bem o disse, tudo o que podíamos fazer. Demos bons exemplos. Conscientizamos através de peças ficcionais que o bem é o único tesouro duradouro, pois incrusta-se no interior do ser, levando-o ao aprimoramento. Entretanto, Deus usa o mal para o bem. O contato da humanidade ahtilantê com os alambaques, com o vício e a degradação, se faz alguns baque­arem pelo caminho, faz a maioria progredir e evitar a abjeção de um comportamento inadequado e lascivo. Não podemos protegê-los de tudo e de todos. Queremos aves fortes que saibam voar em dias de tempestade e não, frágeis passarinhos que não consigam sair do ninho sem a ajuda de zelosos pais.

Uriel perguntou a Gerbrandom:

- Mestre Gerbrandom, será que, em outros expurgos, to­maram-se algumas medidas defensivas contra os alambaques?

Gerbrandom pensou um pouco e respondeu com segu­rança em sua voz:

- Em todos os lugares, os dragões empedernidos torna­ram-se um instrumento de resolução de problemas e cancros seculares. Explico-me: durante séculos, os seres foram constitu­indo sociedades onde imperaram determinadas elites. Essa classe social dominou através de leis e instituições sociais as demais classes, nunca permitindo que crescessem além de um determinado limite. Agora, com a atuação dos alambaques, com os meios de comunicação, com a religião levada aos extre­mos, as classes começam a entrar em conflito.

Gerbrandom fez uma pequena pausa.

- Não pensem que, neste nível de evolução, os homens resolvem suas diferenças através do uso da razão. Pelo contrá­rio, as diferenças são resolvidas através de lutas armadas, guer­ras fratricidas e verbalização acirrada. No entanto, não me canso de repetir que Deus, nosso Amantíssimo Pai, usa o mal para o bem. Todos esses conflitos resolvem os problemas, mes­mo que a primeira impressão seja a de que eles estejam sendo agravados. Uma guerra fratricida acaba por solucionar os pro­blemas que estavam aparentemente esquecidos. Eles trazem à tona velhos ódios que acabam sendo resolvidos através de doses superlativas de dor e sofrimento.

Fez-se um silêncio constrangedor na sala. Todos sabiam que Gerbrandom estava certo, mas era triste saber que haveria tanto sofrimento, desgraça e destruição quando tudo podia ser resolvido através do bom-senso e do sentimento de fraterni­dade. No entanto, os mais sábios sabiam que não se pode pedir a alguém, o que ele não tem ainda.

Varuna falou de forma doce, mas categórica:

- Bom! Temos que tomar algumas atitudes práticas. Devemos lançar nossos guardiões contra os alambaques em­pedernidos, aprisioná-los e bani-los para a Terra o mais rápido possível. Temos que atacar seus redutos e combatê-los com as armas poderosas que trouxemos de Karion. Deste modo, iremos minando suas forças e destruindo gradativamente quadrante por quadrante do astral inferior.

Com estas palavras, ele trouxe todos de volta ao magno problema que tinham pela frente. Vartraghan tornou-se o res­ponsável pela operação, já que seus guardiões seriam larga­mente utilizados. Alguns obreiros de Karion, especialistas em emissão de raios, ofereceram-se já que sua alta tecnologia iria favorecer em muito. Os raios desintegradores eram superiores aos usados em Ahtilantê, que atingiam áreas pequenas, exigin­do grande consumo de energia mental por parte dos opera­dores. Karion tinha desenvolvido um multiplicador de força mental que fazia com que o que fosse mentalizado seria grande­mente aumentado.

Começaria a fase final do expurgo quando os covis dos alambaques fossem destruídos, obrigando-os a sair para a luz do dia, onde seriam presas fáceis dos guardiões. Vartraghan e os seus guardiões contatariam os chefes alambaques, convidando-os para dentro de dois dias se juntarem frente à Instituição Socorrista de Sraosa, onde a primeira operação teria efeito. Os amigos de Lachmey operariam os aparelhos e os alambaques que viessem poderiam mentalizar suas energias mentais para os equipamentos, dando-lhes energias adicionais, que ajuda­riam a acelerar o processo. Os que não quisessem estariam avisados que raios e trovões cruzariam os céus negros do astral e que deveriam se abrigar da melhor maneira que pudessem.

Durante dois dias, os guardiões e os próprios chefes alambaques fiéis a Varuna, correram todos os cantos espalhan­do as notícias. Em alguns lugares, os espíritos vociferavam e gritavam insultos aos guardiões, urrando que fossem procurar ajuda em outro lugar. Mas, muitos, especialmente os que já estavam há muitos anos no astral inferior, estavam ansiosos em renovarem-se, sentiram enorme prazer em trabalhar e se com­prometeram a ajudar.

Na hora marcada, Varuna e toda a sua equipe composta de mais um milhão de obreiros, e cerca de seiscentos karionen­ses, estavam numa enorme planície. Oito operadores estavam sentados numa máquina estranha, que parecia ter oito canhões apontados para o céu, em volta de uma roda gigantesca de vinte e cinco metros de diâmetro e dezesseis rodas menores, colo­cadas em torno dos referidos canhões.

Durante mais de uma hora que antecedeu o grande mo­mento, chefes alambaques fiéis a Varuna foram se apresen­tando com seus soldados-escravos. Era um desfile de seres estranhos, reptilóides, enormes, mal-encarados, com dentes proeminentes e roupas exóticas. Mais de cinqüenta mil seres estavam olhando de forma abrutalhada a máquina que domi­nava o cenário. Era dia, mas a luz emitida pelo grande sistema duplo de sóis de Capela, não conseguia vencer as densas trevas do astral inferior. Os espíritos evoluídos, tanto de Ahtilantê, como de Karion, estavam num outro plano astral, de tal forma que não podiam ser vistos pelos alambaques, mesmo que pudessem facilmente distinguir cada um deles. Dimensional-mente, eles ocupavam o mesmo espaço no tecido espaço-temporal, mas espiritualmente, eles se sobrepunham e se inter-penetravam. Os alambaques não os viam, mas podiam sentir que aquele lugar transmitia a paz e o prazer que lhes faltavam no âmago do ser.

Varuna e Vartraghan estavam visíveis aos olhos dos alam­baques, assim como os pequeninos seres operadores de Karion. Os chefes alambaques mais velhos e que detinham maior poder dirigiram-se a Varuna, expressando-lhe saudações e sendo recebidos pelo grande espírito como fraternos irmãos. Ele fez questão de colocá-los em posição de honra, do seu lado direito e informar-lhes que estavam todos esperando a hora marcada.

No momento certo, o equipamento começou a emitir um zumbido e a grande roda, onde repousavam oito canhões apontados para o alto, começou a girar. Varuna olhou para os chefes alambaques e telepaticamente os informou do que estava para vir e que ficassem tranqüilos. Eles iriam ver grandes maravi­lhas, mas que nada poderia atingi-los enquanto estivessem com Varuna. À medida que a grande roda girava cada vez mais depressa, as rodas menores que sustentavam os canhões começaram a girar em falso, iluminando-se e emitindo chispas de luz em todas as direções. Subitamente, um dos canhões dispa­rou um raio para cima. O estrondo que se seguiu foi aterrador. Nada podia ser mais alto e grave do que aquilo. O raio, por sua vez, descreveu um longo arco, como se acompanhasse a curvatura do planeta e, longe dali, caiu como se fosse um meteoro luminoso sobre a superfície do astral.

O estrondo de sua queda foi sentido, e o seria mesmo que tivesse caído a mais de trezentos quilômetros do local onde estavam os alambaques, já que a potência do raio era inimagi­nável. O chão tremeu a ponto de os alambaques perderem o equilíbrio, e até mesmo os mais velhos dos dragões, acostu­mados aos piores efeitos de limpeza fluídica que era encetada vez por outra pelos administradores planetários, sentiram um imenso pavor. Os chefes que estavam perto de Varuna sentiram um terror quase incontrolável, mas quando olharam para Varu­na à procura de proteção, vendo-o calmo, sentiram-se mais seguros. Menos de dez segundos depois do primeiro disparo, um segundo foi dado, com o mesmo estrondo, e, logo depois um terceiro, um quarto e assim sucessivamente. Os primeiros tiros saíam com diferenças de seis a sete segundos, mas foram se tornando cada vez mais rápidos. De repente, após uns três minutos, cada canhão dava um tiro por segundo.

O barulho era ensurdecedor, mas muito pior era onde os raios caíam. Eles desciam como gigantescas bolas de fogo vindas do céu, vermelhas, atingindo o chão negro, explodindo de forma espetacular. Cada explosão fazia tremer o chão do astral inferior como se fosse um terremoto. Os espíritos que estavam por perto ficavam apavorados. Alguns que estavam desacordados, em profundo coma espiritual, acordavam de forma súbita, ficando totalmente atordoados. Não sabiam onde estavam e sentiam fortes tremores de terra, raios rubros riscan­do o céu e alguns caindo sobre eles de forma impiedosa. Alguns foram atingidos em cheio pelos raios e sentiram uma ardência extremamente forte. Naturalmente, o espírito é imortal, por­tanto, não podia ser destruído, mas a sensação de dor, terror e da própria morte estampava-se vivamente nas suas mentes. Muitos achavam que iriam morrer, pois não sabiam sequer que já estavam fisicamente mortos.

Varuna orava, elevando seu pensamento para Deus, pe­dindo que tudo corresse bem e que nenhum de seus irmãos em sofrimento ficasse excessivamente aterrorizado, a ponto de enlouquecer. Sua prece era tão fervorosa e tão dedicada que ele começou a vibrar internamente. De seu peito, onde repou­sava um coração compassivo e amoroso, começou a brotar uma luz que lhe invadiu todo o seu ser. Um facho fortíssimo de luz, vindo de cima, atravessando as trevas densas, o atingiu, iluminando-o de forma inacreditável. Esse facho de luz foi absorvido por ele, e deu a impressão aos demais de que ele aumentava de tamanho.

Realmente, os espíritos planetários estavam injetando fluidicamente em Varuna uma quantidade de energia impressionante. Ele cresceu a olhos vistos, mesmo que não se desse conta desse fato. Varuna atingiu a altura de trinta e cinco metros e os alambaques, especialmente os chefes que estavam mais perto, ficaram surpresos e admirados. Um deles levantou sua lança acima da cabeça e começou a bramir vigorosamente:

- Mykael, Mykael!

Os demais o acompanharam e em menos de dez segun­dos, mais de cinqüenta mil vozes alambaques gritavam:

- Mykael, Mykael!

Seus gritos eram ritmados c empolgantes. Varuna era seu deus, seu líder, seu pai. Era um ser que eles podiam compreen­der, em quem confiavam e os tratava como se fossem seus ami­gos. Era justo e severo com os renitentes, sendo compassivo e indulgente com os arrependidos.

- Mykael, Mykael!

Os canhões atiravam labaredas quase contínuas, que espalhavam fogo fluídico sobre a cabeça dos alambaques. Tor­nara-se tão intenso que o barulho das explosões fora substi­tuído por um chiado inacreditavelmente alto, quase insupor­tável. Enquanto isso, os aterrorizados alambaques gritavam "Mykael" de forma ritmada e constante. De suas mentes, na altura de suas cabeças, começara a sair uma luz inicialmente negra, de um material viscoso, como se fosse piche. Gradual­mente, à medida que os alambaques se empolgavam e gritavam o cognome de Varuna, a luz escura começou a se transformar numa luz vermelha, extremamente viva. Essa luz se dirigia para a fronte de Varuna, que a recebia e a transformava em luz branca que voltava para os alambaques, banhando-os e trazendo uma impressão de conforto e alegria aos endurecidos no mal, que retribuíam com mais emissão de luzes vermelhas vivas que pareciam pequenas línguas de fogo ou fogos fátuos a volitar por toda a parte. O local estava começando a ficar profusamen­te iluminado e alguns alambaques não podiam suportar tal luminosidade e cerravam os olhos.

O fogo fluídico, astral e luminoso, que saía dos canhões dos operadores de Karion, estava varrendo sistematicamente cada quadrante do planeta, tornando o astral inferior, aqueles locais, incandescente, como se sua superfície estivesse em fogo. Os espíritos, aos milhões, corriam de um lado para outro, fu­gindo do fogo astral, que dava a impressão de queimar, mas que, na realidade, não os afetava. Alguns, tão abalados, tinham a nítida impressão de que suas peles queimavam e que eram repostas imediatamente para apenas ser queimadas novamen­te. De fato, era um suplício terrível para aquelas mentes tão endurecidas no mal.

A grande maioria tinha desmaiado de medo e não sentia mais nada. Outros, especialmente alguns chefes alambaques, opositores de Varuna, sentindo por ele uma natural repulsa pelo simples fato de ele ser mais evoluído, e por isso, um pri­vilegiado, na opinião distorcida desses espíritos, logo que viram que aquele fogo não os podia destruir, tornaram-se mais calmos e controlados. Mas, vendo que a maioria estava aluci­nada, correndo de um lado para outro, com as vestes em cha­mas e gritando como se fossem dementes, esses chefes e seus sequazes começaram a torturar os alucinados, dando-lhes golpes de clava, agarrando as mulheres e obrigando-as a coisas inconfessáveis; aos mais fortes, surrando-os impiedosamente; aos fracos, sodomizando-os e torturando-os.

As cenas que se seguiram instigadas pelos chefes alamba­ques rebeldes foram algo de tão inimaginável que grande parte da noção de inferno transmitida aos habitantes da Terra foi gerada naqueles instantes de horror. O fogo que parecia con­sumir a todos, junto com os terríveis chefes e soldados-escravos alambaques revoltados, torturando os infelizes, especialmente os recém-chegados, tornou-se o paradigma do inferno.

Esta mesma operação teve que ser repetida inúmeras vezes. Varuna dividira Ahtilantê em quadrantes e sistematica­mente, atacava com suas forças cada um deles. Inicialmente, eles avisavam os alambaques da região a ser depurada e, muitos modificavam suas atitudes quando viam as fitas de vídeo da destruição em outros lugares. Outros, mais embrutecidos, achavam que era uma trucagem - um engodo - e não quiseram abandonar suas cidadelas. A operação era, então, levada a cabo, com a destruição das paragens.

Uma trompa soava alto e distante, durante longos e lúgubres minutos. Era o sinal de que a área iria sofrer a limpeza. Após isso, um silêncio sepulcral se fazia. Aos poucos, vindo de longe, um barulho crescente de explosões e luzes cortava os céus enegrecidos daquelas plagas melancólicas. À medida que a tempestade se aproximava, relâmpagos e estrondos estrepitosos se faziam ver e ouvir. Os alambaques e seus grupos de deformados tomavam-se de terror. Conheciam as limpezas fluídicas, encetadas de tempos em tempos pelos administradores daque­les sítios, que eram muito parecidas com tempestades físicas, mas essa era diferente. O barulho era ensurdecedor. A devas­tação do local era mil vezes mais poderosa.

Os raios começavam a cair dentro das cidades astrais e, como se fosse uma bomba atômica, esfacelavam toda a área. As casas, os palácios soturnos, as ruas e praças sórdidas volatilizavam-se como manteiga no fogo, com fragor aterrorizante. Os raios atravessavam os corpos astrais dos alambaques e de seus amigos degenerados dando a sensação de intensa dor, e muitos ainda presos às sensações físicas acreditavam ter sido mortal­mente atingidos, caindo no chão, estrebuchando como se es­tivessem efetivamente morrendo. Muitos desmaiavam. À me­dida que o local se volatilizava, a luz solar penetrava com intensidade, criando forte fotofobia em alguns alambaques. Outros lugares, situados abaixo da crosta, pulverizavam-se, mostrando a crueza das rochas e das cavernas. Os obreiros entravam em ação logo depois que os raios e as explosões haviam dissolvido os locais, recolhendo os espíritos dementa­dos, assim como aprisionando os alambaques. Era uma opera­ção complexa que envolvia inúmeras áreas e faixas vibratórias do mundo espiritual.

Durante vários anos, a limpeza foi sendo efetuada em todos os locais estabelecidos. Muitos alambaques corriam para a crosta para se livrar dos raios desintegradores. Na superfície, eram facilmente dominados pelos guardiões que aplicavam carapaças vibracionais em torno deles.

Estando ainda em outra vibração, os guardiões aproximavam-se do alambaque a ser capturado, cercavam-no e aplicavam uma espécie de gaiola vibracional que o envolvia. Mudavam a vibração da clausura e de si próprios e, com isso, aprisionavam o alambaque. O choque elétrico o atordoava, e muitos desmaiavam. O efeito psíquico sobre os demais era aterrador. Subitamente, saídos não se sabe de onde, uma luz envolvia o demônio numa espécie de redemoinho, e dois ou três guardiões fortemente armados apareciam no meio da luminosidade, derrubando o capturado que desfalecia incontinenti. Para um espectador desavisado, o susto era grande e tirava qualquer vontade de lutar. Muitos dos acompanhantes do alambaque aprisionado se entregavam em meio a crises de choro convulso. Outros fugiam espavoridos apenas para ser capturados mais adiante por alambaques sob a tutela das forças de Vartraghan.

Numa dessas excursões de captura, Varuna e Vartraghan acompanharam os guardiões em sua labuta. O local era um matadouro, onde o grande gado ahtilante era morto para consumo humano. Uma horda de alambaques havia fugido das trevas e estava situada no local de abate dos animais. Havia para mais de trinta seres enegrecidos que estavam no local vampirizando o ectoplasma dos bichos mortos.

Os guardiões cercaram a área enquanto que Varuna olhava tristemente a cena. Aqueles que se viciam com ectoplasma humano ou de animais são sempre os mais reticentes, apresentando longa recuperação. A maioria estava descansando à sombra, mas um deles, que parecia ser o chefe do bando, estava locupletando-se com os fluidos semi-materiais que exalavam dos animais mortos. Sua figura era de estarrecer. Ele era grande, de um vermelho escuro quase negro, com fétidas pústulas a lhe cobrir o corpo e o rosto tinha um olhar esgazeado como se estivesse em êxtase, sugando a gosma esbranquiçada que saía do corpo enorme do boi ahtilante.

Os guardiões o cercaram e o capturaram sem esforço e resistência. Estava tão entretido em seu vício, que lhe dava a sensação de estar fisicamente vivo, que mal notou que fora dominado. A alta vibração de sua jaula espiritual o desacordou e Varuna o perquiriu à distância. Um ser estranho com existên­cia esdrúxula, cujo nome era Garusthê-Etak. Seria levado ime­diatamente para a Terra, porém não poderia renascer tão cedo; seu estado de profunda demência levaria séculos para ser cura­do. Deveria ficar confinado numa prisão astral.

Com as limpezas fluídicas periódicas proporcionadas pelos espíritos, Ahtilantê apresentou algumas melhoras psíqui­cas e culturais. A principal atividade a que os ahtilantes come­çaram a se dedicar com maior ênfase foi uma sistemática luta contra a miséria e as desigualdades sociais. Além disso, um combate contra o crime, a corrupção e as vilanias foi imple­mentado por todos os governos. Aos poucos, no decorrer dos séculos, após terminado o expurgo, os países de Ahtilantê foram se aprimorando de forma gradual, alcançando notáveis níveis de desenvolvimento econômico-social e político.

Na fase final, nos últimos dois anos, os espíritos ahtilan­tes e os amigos de Karion desenvolveram naves gigantescas, verdadeiras esferas negras, para colocar as máquinas colossais que dardejavam raios de luzes profusas sobre as trevas. Ao invés de ficarem fincados no chão, eles trafegavam por cima dos abismos, lançando os dardos energéticos com força estupenda. Para completar, havia a bordo dessas naves negras, raios tra­tores que atraíam magneticamente os espíritos adormecidos, os dementados que ainda estavam nas trevas e nos abismos.

Os raios tratores vibravam numa determinada faixa e atraíam todos os espíritos que estavam na mesma freqüência. Eles eram literalmente sugados pela vibração do raio trator e eram levados para dentro da imensa nave. Havia um sentimen­to de puro terror ao ser puxado magneticamente pelos raios tratores; o espírito ficava ensandecido e muitos desmaiavam de puro terror. Muitos chamavam aquelas naves de 'a lua negra', pelo seu formato esférico e pela negritude exterior que ela apresentava.

Os pestilentos dejetos mentais que formavam o astral inferior, em contato com as luminosidades emitidas, pulveri­zavam-se como a água em contato com o fogo. As grandes na­ves sobrevoavam à distância as trevas e os grandes abismos, agora vazios de seres, e sua luz branco-azulada dissolvia os últi­mos resquícios de insanidade que, um dia, houvera por mal instaurar-se nos filhos do Altíssimo que teimavam em negar a sua divina procedência.

Após este período, Ahtilantê tornou-se apta a ingressar nos mundos de evolução superior com uma humanidade mais fraterna. Não que não houvesse mais problemas a serem solu­cionados, mas que seriam resolvidos através de uma atitude mais racional e um sentimento mais purificado. Ahtilantê esta­va no limiar do seu ingresso no concerto dos planetas elevados e, desta forma, iniciando um intercâmbio absolutamente fan­tástico com outras humanidades de igual quilate espalhadas pelo universo.

Cinqüenta anos antes de terminar a extensa purificação de Ahtilantê, quase que totalmente desconhecida dos renas­cidos, Varuna ia e vinha, inúmeras vezes entre os dois planetas. No planeta Azul, Lachmey comandava os capelinos, traba­lhando em estreita cooperação com Mitraton. Em Ahtilantê, Uriel coordenava o processo junto com os irmãos Nasétias, dois espíritos de Karion que pareciam gêmeos de tão pareci­dos que eram. Gerbrandom ficava mais na Terra do que em Ahtilantê, mas andava sempre muito próximo de Varuna que escutava os seus excelentes conselhos.

Tinham se passado vinte e três anos desde que o expurgo começara, e Varuna, numa de suas muitas viagens entre Ahtilan­tê e a Terra, fora visitar, com Lachmey, alguns lugares onde os capelinos haviam renascido. Os primeiros exilados já tinham re­nascido, há cerca de vinte anos, na Suméria. Lachmey, que coorde­nava o grupo de capelinos mais evoluído da Suméria, convi­dou-o para ver o que estava acontecendo, pois os guardiões de Vayu tinham-na avisado de que movimentos revolucionários es­tavam ocorrendo perto de uma cidade minúscula chamada Erech. Muitos chefes alambaques estavam concentrados nas vizinhanças da aldeia e a excitação era muito grande.

Varuna dirigiu-se para a Suméria, acompanhado de Var­traghan, Lachmey e Gerbrandom. Volitaram rapidamente até a aldeia de Erech, baixando o padrão vibratório para que pudessem ser percebidos. Na entrada da aldeia, encontraram uma dúzia de guardiães observando uma longa coluna de homens que se aproximavam. Devia ser por volta de cinco horas da tarde, com o sol começando a declinar no horizonte. A canícula era menos intensa e podia-se observar que a coluna se arrastava lentamente, suada e cansada, pela estrada de terra batida.

Varuna dirigiu-se a Vayu, chefe dos guardiões, que logo o reconheceu, saudando-o como se deve a um grande espírito. Varuna cumprimentou-o e pediu explicações sobre aquela coluna. O guardião-mor logo contou detalhadamente o motivo daquele aglomerado de homens que dentro de minutos alcan­çaria a aldeia de Erech.

- Houve uma batalha entre os homens de Erech e uma turba grande, bem treinada e armada que se instalou em Shurupak. Os homens de Erech foram derrotados, sendo que, na maioria, foram mortos durante os violentos combates.

Varuna perguntou a Lachmey se aquela turba era de capelinos ou terrestres. Lachmey lhe respondeu:

- Os chefes são capelinos. Mais de dois terços da tropa também o são. O restante é terrestre. Estão vindo de vinte e poucas aldeias sob o comando de um capelino cujo nome atual é Nimrud.

Varuna olhou para a coluna, vendo que estava acompa­nhada de vários alambaques. Cerca de oito grandes vultos negros, com roupagens tipicamente de capelinos púrpuras, estavam volitando pesadamente em torno da coluna. Varuna perguntou a Vayu:

- Você observou aqueles alambaques?

- Sim, mestre Varuna. Temos monitorado a atividade desses alambaques junto aos terrestres. Eles têm influenciado grandemente quase todas as atividades do grupo. Usam muito dois deles de nomes Antasurra e Akurgal, com os quais conseguem se comunicar por meio da intuição, e o tal de Nimrud, que são guiados com relativa facilidade. Um dos renascidos é um perigoso psicopata, um assassino de Ahtilantê, que os alam­baques dominam completamente, denominado de Urgar.

O guardião olhou Varuna com forte interesse e comple­mentou:

- Eles têm acompanhado esses rapazes há pouco mais de seis meses, quando começaram a acontecer vários tipos de pro­blemas e situações inéditas aqui em Sumer.

Varuna perguntou a Lachmey se os alambaques estavam sob suas ordens e ela assentiu. Sim, os alambaques tinham sido liberados para atuar sobre os jovens.

- Sim, de fato. Estão indiretamente sob minhas ordens. Eles têm, no entanto, demonstrado forte aptidão para a violên­cia. Devemos vigiá-los para coibir os abusos que possam porventura praticar. Os guardiões estão em vigília permanente.

- Sim, mestre Varuna. Nós temos nos revezado constan­temente, para não deixá-los muito soltos. Estamos muito aten­tos a todos seus movimentos.

- Traga-me os alambaques para que possamos conversar com eles. Convide-os para parlamentar comigo - ordenou gen­tilmente Varuna a Vayu.

Imediatamente, ele deu ordem e todos os guardiões volitaram para perto dos alambaques. Venceram os dois mil metros que os separavam em menos de um segundo. Os alam­baques estacaram, ouviram o convite, menearam a cabeça em sinal de assentimento e seguiram os guardiões. Volitaram va­garosamente de volta para onde estava Varuna, sendo seguidos pelos alambaques. Em dois minutos, o grupo chegou e os espí­ritos magníficos baixaram o padrão vibratório ainda mais para poderem ser vistos pelos 'dragões'.

O mais velho dos alambaques, Oanes, já conhecido de Varuna, cumprimentou-o em grande estilo, reverenciando-o com pompa, imitado pelos demais. Varuna não ficou atrás e também cumprimentou os alambaques como se fosse um grande imperador saudando súditos importantes. Os alambaques ficaram satisfeitos com o ritual; isso fazia parte da cultura capelina, tão cheia de mesuras e pompas. Varuna pediu que todos se acomodassem embaixo de uma pequena palmeira, e perguntou ao alambaque-mor.

- Juiz Oanes, explique-me o motivo daquela coluna de homens.

Ele respondeu, sem pestanejar:

- Estamos seguindo as ordens dos Maiores, sendo os ar­tífices da evolução humana. Lideramos esses homens para a implantação de uma civilização.

Varuna leu os pensamentos dos alambaques e viu o que tinham feito. Observou como estimularam o ódio e a raiva desenfreada de Nimrud e o ataque dele à pequena aldeia de Kulbab, matando homens e mulheres, que teria como conseqüência o início de uma cruzada de recrutamento de soldados, treinamento e mortes. Varuna olhou preocupado para Lachmey que lhe respondeu mentalmente:

- A ordem que dei foi a de que ativassem as mentes dos capelinos para que começassem a desenvolver a civilização. Era de se esperar que criminosos comandando bandidos gerassem violência e terror.

Varuna concordou. Realmente, essa era a função dos alambaques junto aos capelinos. Varuna olhou sério para o velho demônio Oanes, dizendo-lhe, com uma voz grave, num tom solene:

- A ordem foi a de ativar o desenvolvimento da civili­zação e não, de chacinar os terrestres.

O alambaque dobrou a cerviz em sinal de humildade e assentimento.

- Grande Mykael, entenda a nossa dificuldade. Só pode­mos induzir para que os homens realizem o que sabem fazer. Não somos instrutores, nem sábios. Não podemos transformar lobos em cordeiros, assim como não podemos ajudar os ahti­lantes a se tornarem evoluídos da noite para o dia. Dessa forma, ativamos as bases de qualquer sociedade humana, ou seja, a ganância, o egoísmo, o desejo de ter poder, de dominação e, principalmente, de reconhecimento, de fama e notoriedade. Além disso, a violência é inerente a este tipo de sociedade. O senhor sabe das imensas dificuldades em modificar a atitude das pessoas simples e ignorantes, como são os terrestres. Eles só se alteram mediante o uso da força e do medo. Peço-lhe per­dão se abusamos do nosso poder, mas a intenção foi a de esta­belecer uma sociedade menos primitiva.

Varuna olhou bem para o seu interlocutor, vendo que estava sendo sincero. O pior daquelas palavras era que aquele ser ignóbil tinha toda razão. Nenhuma grande sociedade saiu do primitivismo para a civilização urbana sem violência e sofri­mentos.

- Entendo que estão tentando fazer o que está dentro de suas limitações. Eu sugiro que procurem estabelecer-se em Erech sem violências. Reúna os comandantes esta noite e pro­curem intuir na mente dos líderes que a civilização inicia-se em grandes cidades, com novos artefatos, novas profissões e divi­são do trabalho. Incentivem as invenções como a roda, os transportes, a necessidade de terem excedentes das plantações e da criação do gado. Estabeleçam o comércio com outros luga­res. Façam com que, após dominarem Erech pela nova cultura, as novas idéias sejam espalhadas por toda a região.

Os alambaques escutavam atentamente, assim como os guardiões. Varuna prosseguiu:

- Observem que Sumer é pobre de tudo, a não ser de uma terra rica. Terão que ir buscar tudo de que precisam em outros lugares. Usem o comércio e a troca. No entanto, é pos­sível que tenha que usar a guerra em certos casos, mas não abu­sem desse artifício; é uma estrada de duas mãos. O sofrimento que impingirem lhes será imposto de volta com igual ou maior intensidade. Saibam que a civilização é processo que exige muito mais energia para se manter do que para se implantar. O que solidifica uma cultura são suas leis e a correta aplicação da justiça. Portanto, estabeleçam decretos justos e equânimes, sem o que não haverá base para uma cultura próspera.

Os alambaques o olhavam, absortos por suas palavras.

- Em resumo, usem Erech como base. Façam-nos crescer em torno desta cidade. Unam as várias cidades e aldeias da região numa confederação, onde cada local poderá decidir seu próprio destino, mas sob a tutela de um poder central que os impeça de lutar entre si. Essa união poderá fazê-los crescer e a sinergia entre as várias localidades trará progresso. Procurem melhorar a agricultura. E através dela que vocês implantarão

a riqueza. Essa permitirá que os homens se ocupem também de outros afazeres. Façam com que todos os artistas e inventores sejam incentivados. Mandem trazer todas as invenções que aparecerem, escolhendo as que realmente são importantes. Varuna, endurecendo seu semblante, alertou-os: - Não se esqueçam, no entanto, de que se desviarem estes povos das sendas do bem, sentirão o peso destes crimes quan­do, fatalmente, renascerem entre eles e tiverem que suportar as conseqüências de seus próprios atos. Todo alambaque renas­cerá entre os terrestres, seja como rei, líder, profeta, simples vassalo ou escravo. Tudo o que plantarem, será colhido da mesma forma.

Oanes repudiou esta idéia imediatamente, mas houve alguns chefes alambaques que sentiram que a palavra de Varu­na era verdadeira. Eles teriam que renascer, mais cedo ou tarde; esta era a Lei.

Varuna e os alambaques ainda falaram por alguns mi­nutos, mas o tempo estava contra eles, já que a coluna ia entrar na aldeia. Os alambaques precisavam controlar os capelinos renascidos para que não usassem de força excessiva contra a população local. Despediram-se, cheio de mesuras e rapapés, e os alambaques volitaram para perto da coluna de homens.

Varuna retornou ao seu nível, enquanto Lachmey lhe dava algumas importantes informações a respeito dos chefes capelinos da coluna que estava prestes a entrar em Erech.

Nimrud fora um hurukyan, líder de gangues de rua, traficante e tenebroso assassino. Notabilizara-se entre as várias gangues pela audácia, forte liderança e completo destemor. Mandara eliminar seus desafetos sem o menor remorso, matando-os com requintes de crueldade. Urgar, que agora o acompanhava como chefe de armas, fizera parte de seu grupo, como principal homicida, tendo sido, em existência anterior, um famoso militar, responsável por extensos morticínios. Con­seguiram enriquecer de forma ilícita através do comércio de drogas, assaltos à mão armada e prostituição.

Os dois facínoras morreram violentamente há mais de cem anos, tendo sido feitos prisioneiros pelos alambaques, logo após suas mortes. Com o decorrer das décadas, Nimrud tornara-se lugar-tenente de Oanes, que o guiava. Urgar era o seu grande amigo e irmão de infortúnio, assim como Mesanipada fora seu aliado e comparsa de crimes em Tchepuat.

Varuna escutou como Lachmey e sua equipe organiza­ram os renascimentos dos futuros líderes, aqueles que tinham potencial para o comando de homens. Foram espalhados assim como quem semeia, não se colocando todas as sementes na mesma cova. Em pouco tempo, iriam aparecer vários outros, como Shagengur e Urbawa, que ainda não haviam desabrochado.

Varuna passou a viver uma parte do seu tempo na Terra, e outro tempo em Ahtilantê, acompanhando o grande degre­do. Numa de suas muitas idas à Terra, Varuna encontrou-se com Lachmey num belíssimo platô, de onde se descortinava uma vista radiante. Ao longe, o sol amarelo começava a se esconder atrás da curvatura do planeta, alaranjando o céu com seus raios; do outro lado, a lua prateada despontava, e a quase mil quilômetros abaixo, a Terra azulada rolava no espaço ne­gro. Os dois vinham de reuniões diferentes e se encontraram para trocar impressões. Varuna estava preocupado com alguns aspectos de somenos importância e externou-os à amiga:

- Sabe, minha querida Lachmey, quando nós nos muda­mos, devemos fazê-lo de forma integral. Temos que nos mudar não só de corpo, mas principalmente de alma.

- Concordo com você, mas o que o aborrece?

- Muitos dos nossos amigos colaboradores, especial­mente dos planos médios, estão apresentando dificuldades de adaptação. Suspiram por uma Ahtilantê que já não existe mais, mas que em suas mentes ainda permanece bela e viçosa como antes da guerra.

- Realmente, isso acontece com muitos. Aceitam se mu­dar de lugar, mas ainda vivem presos mentalmente aos locais anteriores, comparando o que têm e o que deixaram de possuir. Serão sempre infelizes, pois nunca se adaptarão a nenhum lugar.

- Sim, é verdade. Creio que a melhor forma de se viver num determinado lugar é esquecer o anterior e cortar todas as lembranças, substituindo-as por novas. E fundamental que se possam ver as belas coisas do novo lugar e esquecer o que se tinha antes.

Varuna olhou para Lachmey e disse-lhe suavemente:

- Nós temos que dar o exemplo. Não posso continuar com esse aspecto totalmente diferente dos terrestres. Eu ainda mantenho o aspecto gigantesco em relação aos espíritos coor­denadores terrestres. Por outro lado, você é muito pequena em relação a eles, seus olhos são diferentes e não tem cabelos. Gostaria de convidá-la a se alterar para ficarmos o mais pare­cidos com eles e sermos um exemplo para nossos povos. É preciso esquecer Ahtilantê e aqueles que forem ficar na Terra, sejam ahtilantes, sejam de Karion, deverão se adaptar às novas condições. O que você acha?

- Amado Varuna, você está completamente certo. Não vamos obrigar ninguém a se modificar, mas vamos alertá-los amorosamente para que sigam nossos exemplos.

Dito isso, foram juntos procurar Mitraton e lhe comuni­caram a decisão. Ele confirmou que a modificação seria facílima, bastando que se concentrassem mentalmente e a mudança ocorreria espontaneamente. O corpo astral é moldado por ideoplastia e era necessário apenas concentrarem-se para que seus moldes mentais se alterassem e, conseqüentemente, o res­to seguiria a nova modelagem mental. Mitraton propôs induzi-los a uma forma de hipnose auto-sugestiva que os ajudaria muitíssimo. Sem a hipnose, haveria maior dispêndio de mate­rial mental e o resultado seria mais demorado; os bloqueios naturais do inconsciente não permitiriam mudanças bruscas.

Dirigiram-se ao Templo da Divina Consagração, nas bordas do plano mental com o plano astral superior e lá encon­traram muitos espíritos trabalhadores oferecendo suas preces vespertinas. Mitraton procurou o hierofante cujo templo lhe era afeto e conversou com o mesmo durante alguns instantes na presença de Varuna e Lachmey.

O hierofante era uma figura impressionante. Ele era muito alto, medindo perto de dois metros, sua pele era negra, tinha longas barbas e cabelos lisos cor de azeviche a lhe cair nos ombros másculos e portentosos. Magver era proveniente de outro sistema solar e alcançara o plano mental num planeta tão avançado como Karion. Seu imenso e alvo sorriso logo de­monstrou sua vontade em ser útil. Segurou Varuna pelo braço como se fosse um velho amigo e ajoelhou-se perante a pequeni­na Lachmey e, pegando na sua mão minúscula, falou com eles:

- Este é um momento de grande relevância. Irão renas­cer espiritualmente, morrendo para o passado. Abandonem seus nomes antigos, abracem novos nomes e façam disso um motivo para um renascimento interior. Começa agora a ver­dadeira saga do seu povo e junto com o nosso, tornar-se-ão uno na presença do Altíssimo. Não haverá mais duas estirpes e, sim, uma única. Você, Varuna, grande chefe dos ahtilantes escolherá um novo nome; e o mesmo se dará com você, bela Lachmey.

Magver disse mais, tomado da mais viva e impres­sionante empolgação, como se milhares de espíritos lhe insu­flassem suas palavras:

- Um feito notável como esse deve ser motivo de júbilo público. Chamem seus amigos, seus colaboradores. Encham este átrio. Lotem o templo; é chegada a hora de rebatizá-los.

Assim dizendo, levantou as mãos para os céus, numa voz grave e bela, convocou todos os amigos e colaboradores de Varuna e Lachmey para que estivessem presentes ao extraor­dinário feito, exortando em tom alto e cristalino que ecoou nos mais distantes lugares, como se fosse um potente alto-falante, convocando todos para a solenidade:

- Espíritos amigos da Terra, Karion e de Ahtilantê, ve­nham ao Templo da Divina Consagração e louvem ao Senhor Altíssimo.

A voz do poderoso hierofante foi ouvida a milhares de quilômetros e, em breves minutos, compareceram centena de milhares de espíritos do alto astral. Para os presentes, o san­tuário parecia cobrir todos, e suas colunas pareciam ser transparentes. O templo subitamente tornou-se enorme e abrigava milhares de espíritos evoluídos dos três planetas.

Magver olhou para todos e lhes disse:

-Espíritos imortais, filhos do Altíssimo, obedientes servi­dores dos Maiores em sua co-criação divina, ouçam as minhas palavras e que possam calar fundo em seus corações amorosos e compassivos, ansiosos por ainda mais luzes, como o esfai­mado anseia por alimento. Perante mim, humilde e insignifi­cante, hierofante deste venerável Templo, estão Varuna Mandrekhan e Lachmey, espíritos que amam a Deus, como a si pró­prios. Cientes de que sua missão está acima das formas das convenções humanas, acharam por bem abandonar suas anti­gas roupagens por novas, para melhor servir ao Altíssimo. Assim como eles, meditem na necessidade de libertarem-se dos antigos hábitos, pois nada representam aos olhos do Senhor. Não é a vestimenta, nem a forma, nem a cor, nem o sexo, nem todos os paramentos externos que louvam a Deus e, sim, o coração puro, imaculado e ardente de amor fraternal, e tam­bém uma mente racional, lógica e temperada que trabalha para o aprimoramento pessoal e coletivo.

Dirigiu-se primeiro para Lachmey e lhe disse em tom grave e sereno:

- Você, Lachmey, grande espírito, não tem por que estar aqui. Se assim preferiu, foi por amor aos seus semelhantes. Nada a impedia de ascender às alturas de novos reinos maravilhosos e gozar legitimamente sua excepcional condição de espírito liberto dos liames da matéria. Se prefere unir-se aos degredados de Ahtilantê é porque seu coração transborda de dedicação pelos infelizes da Terra.

Lachmey fechara seus grandes olhos pretos e orava para que o Senhor lhe desse sempre força para superar o egoísmo e o culto à personalidade. Mais importante do que qualquer ser, era Deus; todos somos suas humildes criaturas. Magver olhou para o alto, de onde surgiam flocos de luzes cristalinas que caíam sobre Lachmey e lhe disse em tom forte e amoroso:

- Querida filha de Karion, você aumentará seu aspecto externo para acompanhar o que já é enorme no seu interior. Exteriorize no seu novo semblante a sua missão, a de ser a mãe espiritual desta nova raça.

Fachos de luz incidiam sobre Lachmey a ponto de ofuscar todos os presentes. No final de um curto tempo, Lachmey despontou de dentro da luz. Tinha-se transformado. Apresentava-se agora com um metro e setenta, cabelos negros longos que alcançavam sua cintura. Seu rosto tornara-se terrestremente humano, com um nariz pequeno, lábios e faces levemente rosadas. Seus olhos, amendoados, negros, com longos cílios escuros que lhe davam um olhar extremamente doce, transmitiam uma energia poderosa. Vestia uma túnica pratea­da, com um cinto azul-claro, que lhe marcava a cintura delgada, acentuando ainda mais seu colo bem proporcionado. Seu rosto era belo como uma aurora e havia um sorriso meigo que lhe coroava a beleza interior. Varuna ficou espantado com a transformação, assim como todos os presentes. Magver exultou com a bela aparição e lhe disse, pleno de alegria, totalmente domi­nado pela energia dos espíritos superiores, que acompanha­vam a sessão, em outra dimensão:

- Em nome dos Maiores, eu a rebatizo de Grande Mãe. Você será conhecida doravante como Phannuil - a face de Deus.

Os presentes estavam maravilhados com sua esplendorosa beleza, embora não importe o aspecto exterior, pois um grande espírito, por mais que se apresente como um humilde servo, demonstrará sempre uma beleza interior insuperável.

Magver voltou-se para Varuna, olhando-o fixamente. Ele se ajoelhara e curvara sua fronte em total submissão aos desíg­nios do Senhor. O poderoso e glorificado hierofante disse:

- Você, Varuna Mandrekhan, recebeu dos Maiores a espinhosa missão de trazer para este orbe os irmãos ensandecidos e tresloucados na matéria. Aqui neste mundo primário, irão evoluir e fazer os nossos irmãos primitivos se desenvolverem. Trarão novas técnicas que impulsionarão o progresso material, que é fundamental para a evolução do espírito. Ensinarão artes e ciências, mas também aprenderão através de terríveis confrontos a se municiarem de novas armas. Apren­derão pelo caminho da dor, do sofrimento, dos renascimentos continuados e do sacrifício, aquilo que poderiam ter apreen­dido em seu planeta sem passar por tais provações. Deus é compassivo e bom. Deus não é um ser discricionário como muitos pensam. Muito pelo contrário, Ele asperge suas benes­ses sobre todos indistintamente e, por isso, terão sempre novas oportunidades.

Olhando para cima, totalmente tomado por luzes que desciam sobre sua fronte, Magver, o hierofante, parecia crescer e falava não mais para Varuna, mas para todos:

- Este belo ser será o exemplo do ser angélico. O anjo é aquele que consegue se equilibrar entre duas asas, sendo uma da razão plena; e a outra, do sentimento puro. A combinação e o amálgama dos dois transformam o homem num ser divinizado.

Olhando-o nos olhos, Magver lhe disse em voz alta:

- Olhe para dentro de si e redesenhe seu exterior. Para conviver aqui, no seu plano de existência, diminua seu tama­nho exterior e aumente sua luz interior.

Varuna começou a se metamorfosear lentamente. Mag­ver continuou sua prece, agora totalmente possuído de mi­lhares de mentes poderosas que o ajudavam na metamorfose.

- Seu esplendoroso tamanho deverá diminuir para que, ao se humilhar, seja exaltado.

Varuna começou a diminuir até alcançar a altura de um metro e noventa. Tornara-se humano de forma bela e propor­cionada. Sua pele azulada tornou-se branca e alva, seus olhos azuis escuros, tornaram-se mais claros, e sua grande testa calva e pronunciada, encheu-se de cabelos castanho-dourados, cain­do até seus ombros.

Magver continuou sua exortação:

-Varuna Mandrekhan, qual será o seu novo nome?

Varuna não havia pensado nisso e não lhe ocorria ne­nhum nome. Lachmey, então, que estava próxima dele, obser­vando, maravilhada, a sua transformação, sussurrou para o hierofante:

- Mykael.

Magver escutou e mentalmente entendeu que esse era o nome de Varuna Mandrekhan junto aos alambaques. Era o grande mago. O poderoso comandante. O arcanjo de espada flamejante. O arcanjo da justiça, aquele que pesa as almas dos banidos e as lança no fogo da redenção interior. Sim, nada mais justo. Mykael seria o novo nome de Varuna.

- Pois que assim seja, eu, pelos poderes a mim conferidos pelos Logos Planetários, o rebatizo como Mykael. Você será conhecido pelos homens como o Arcanjo do Senhor, aquele que conduz a humanidade para o caminho do Altíssimo, aquele que traz as grandes mudanças. Você que foi o messias de Ahtilantê, o eleito dos Maiores, também será conhecido como o chefe dos arcanjos e o dominador dos dragões. Mykael será o protetor da Terra e o condutor das nações.

Sobre o novo Mykael, choveram milhares de flocos de luzes de variadas cores e todos os presentes estavam tomados da mais viva emoção. Varuna Mandrekhan cessara de existir. Agora, Mykael tomara seu lugar para os próximos milhares de anos, para ajudar aos povos de Ahtilantê e da Terra a encon­trarem os verdadeiros caminhos do Senhor, Pai de infinita bondade, Doador da vida, riquíssimo em oportunidades para seus pequenos filhos ainda incapazes de grandes vôos da alma.

Após esses exemplos de humildade e de aceitação à nova missão, milhares de espíritos alteraram seus aspectos exteriores para que pudessem se adaptar melhor às novas condições. Começaram pelos espíritos dos planos mais evoluídos e, de­pois, desceram aos espíritos dos planos astrais médios.

Gerbrandom modificou-se, ansioso que estava para assu­mir nova personalidade, sendo ele também rebatizado, ga­nhando o novo nome de Raphael e assim passou a ser conhe­cido.

O enorme Vartraghan alterou-se também para que sua missão de vigiar os temíveis alambaques se tornasse mais adequada ao seu novo formato terrestre. Tomou o nome de Kabryel. Aliás, ele tinha, em contato com o amor de Sarasvati, amenizado suas feições. Ao invés de seu aspecto brutal, ele apresentava, agora, uma face mais humana. Ele era extrema­mente parecido com Sarasvati, sendo a sua contraparte mascu­lina. Na realidade, o amor transforma seres tão díspares em pessoas que se complementam, tornando-as quase similares. Com o decorrer dos tempos, tornam-se almas gêmeas, mesmo mantendo suas características pessoais.

Vayu, braço direito de Vartraghan, passou a se denomi­nar de Samael. Muitos o iriam confundir com Lúcifer, o Por­tador do archote ou da luz, Príncipe decaído das lendas, figura mítica dos próprios capelinos. Tudo isso por ser o executor severíssimo das ordens de Mykael. No entanto, ele tornar-se-ia de suma importância para os arianos, sendo conhecido como um poderoso deus, e para os semitas, seria o acusador de Israel.

A cerimônia tornou-se completa quando, subitamente, o céu pareceu rasgar-se de alto a baixo, e uma luz dourada ba­nhou profusamente o recinto. Do meio da luz, apareceu a mais bela forma feminina jamais sonhada e a maviosa voz de Himalda se fez ouvir:

- Amorosos filhos do Altíssimo. Que este dia seja conhe­cido como o verdadeiro começo da civilização dos homens. Que os espíritos capelinos e terrestres se mesclem até que não se possa distinguir um do outro.

Himalda fez uma pausa e prosseguiu, enquanto sua ima­gem flutuava entre os presentes. Ela não estava ali de fato, só a sua projeção mental.

-A você, meu amado Mitraton, está reservada a coorde­nação da evolução global da Terra, em conjunto com Mykael, o arcanjo dominador dos dragões.

Todos olharam para Mitraton, que desde o início da ce­rimônia estava com os olhos marejados d'água, possuído de in­tensa emoção

Os dois citados aproximaram-se um do outro e em fra­terno amor, abraçaram-se. A imensa multidão ovacionou os dois enquanto um coro de milhares de vozes começou a entoar um canto celestial ao Senhor. A bela imagem de Himalda foi se apagando, deixando no ar uma doce fragrância que encantou a todos.

Phannuil olhou para Mykael com um olhar doce e pensativo. Realmente, o verdadeiro trabalho estava apenas come­çando. Longo seria o caminho dos anjos decaídos para retornarem ao seio do Senhor, e Mykael teria muito o que fazer, pois era agora que realmente se iniciava a saga dos capelinos. 

 

                                                                                                    Albert Paul Dahoui

 

 

              Voltar à “SÉRIE"

 

 

                                         

O melhor da literatura para todos os gostos e idades