Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A RAINHA MARGOT / Alexandre Dumas
A RAINHA MARGOT / Alexandre Dumas

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

           O Latim Do Sr. De Guisa

Na segunda-feira, do décimo oitavo dia do mês de Agosto de 1572, havia grande festa no Louvre.

As janelas do antigo palácio real, ordinariamente tão sombrias, estavam ardentemente iluminadas; as praças e as ruas próximas, habitualmente tão solitárias desde que davam nove horas em S. Germano L'Auxerrois, estavam, embora fosse meia-noite, atulhadas de povo.

Toda essa concorrência ameaçadora, apertada, ruidosa, assemelhava-se, na escuridão, a um mar sombrio e agitado, cujas ondas se tornavam em vagas sussurrantes; esse mar, que assoberbava o cais, onde desaguava pela Rua dos Fossés S. Germano e pela Rua de L'Astruce, vinha bater com o seu fluxo no sopé dos muros do Louvre, e com o refluxo na base do Palácio de Bourbon, que se erguia defronte.

Havia, a despeito da festa real, e talvez por causa dela, o quer que fosse de ameaçador nesse povo, porque ele bem percebia que a solenidade a que assistia como espectador era o prelúdio de outra, adiada para daí a oito dias, para a qual seria convidado, e em que se divertiria de modo a satisFazer plenamente os seus desejos.

A corte celebrava o consórcio de Margarida de Valois, filha do rei Henrique II e irmã do rei Carlos IX, com Henrique de Bourbon, rei de Navarra. O cardeal de Bourbon havia unido de

manhã os dois esposos, com o cerimonial usado nos casamentos dos infantes de França, num pavilhão armado à porta da Nossa Senhora de Paris.

Este casamento causara admiração a todos, e dera muito que pensar a algumas pessoas que eram mais atiladas do que outras: mal se compreendia a aproximação de dois partidos que tanto se odiavam naquele momento, o partido protestante e o partido católico; e perguntava-se como era que o príncipe de Condé havia de perdoar ao duque de Anjou, irmão do rei, a morte de seu pai, assassinado em Jarnac por Montesquieu. Perguntava-se como era que o duque de Guisa havia de perdoar também ao almirante Coligny a morte do pai, assassinado em Orleães por Poltrot de Mère. Ainda mais: Joana de Navarra, a corajosa esposa do fraco António de Bourbon, que acompanhara seu filho Henrique aos régios esponsais que o esperavam, tinha morrido havia apenas dois meses, e tinham- se propagado boatos singulares acerca dessa morte repentina. Por toda a parte se dizia baixinho (e em alguns lugares muito alto) que ela surpreendera um segredo terrível, e que Catarina de Médicis, temendo a revelação desse segredo, a envenenara com luvas aromatizadas, que tinham sido feitas por um florentino chamado Renato, habilíssimo na matéria. Este boato tanto se espalhara e confirmara, que, depois da morte da grande rainha, a pedido do filho, dois médicos, dos quais um era o famoso Ambrósio Paré, foram autorizados a abrir e examinar o cor po, mas não o cérebro. E, como fora pelo olfacto que Joana de Navarra tinha sido envenenada, o cérebro, única parte do corpo excluída da autópsia, era que havia de apresentar os vestígios do crime. Dizemos crime porque ninguém duvidava que se havia cometido um crime.

 

 

 

 

Não é ainda tudo: o rei Carlos, particularmente, empregara neste casamento, que não só estabelecia a paz no seu reino, mas também atraía a Paris os principais huguenotes da França, uma persistência que se assemelhava a uma teimosia. Como os noivos pertenciam, um à religião católica, e o outro à reformada, fora necessário impetrar dispensa de Gregório XIII, que ocupava então o trono pontifício. A dispensa tardava, e a demora inquietava muito a defunta rainha de Navarra e ela exprimira um dia a Carlos IX o receio de que a dispensa não chegasse, ao que o rei respondera:

- Não lhe dê cuidado, minha boa tia; eu venero-a mais do que ao papa, e amo minha irmã mais do que o reino. Não sou huguenote, mas também não sou tolo, e se o Sr. Papa se fizer firme eu mesmo pegarei na mão de Margot e a levarei a casar com seu filho à Igreja protestante.

Estas palavras espalharam-se do Louvre pela cidade, e, causando muito prazer aos huguenotes, deram muito que pensar aos católicos, que perguntavam em segredo uns aos outros se o rei os atraiçoava realmente, ou se estava representando uma comédia, que uma bela manhã ou uma bela noite teria o seu desenlace inesperado.

Era principalmente para com o almirante Coligny que havia cinco ou seis anos fazia uma guerra encarniçada ao rei, que o procedimento de Carlos IX parecia inexplicável; depois de haver posto a cabeça a preço de cento e cinquenta mil escudos de ouro, o rei já não jurava senão por ele, chamando-lhe pai e declarando em voz alta que ia confiar a ele só, daí em diante, a direcção da guerra; a coisa chegara a tal ponto, que a própria Catarina de Médicis, que até então regulara as acções, as vontades e até os desejos do jovem príncipe, parecia começar a inquietar-se deveras; e não era sem motivo, porque, num momento de expansão, Carlos IX dissera ao almirante, a propósito da guerra da Flandres:

- Meu pai, há ainda nisto uma coisa em que se deve ter todo o cuidado: é que a rainha-mãe, que quer meter o nariz em tudo, como sabe, não venha a ter notícia desta empresa; conservemo-la tão secreta que não dê por ela, porque, enredadeira como é, estragar-nos-ia tudo. Ora, por mais prudente e mais experimentado que fosse, Coligny não pudera conservar secreta tamanha confiança e, embora houvesse chegado a Paris com muitas suspeitas, e na sua partida de Châtillon se lhe houvesse lançado aos pés uma camponesa, bradando: Oh, Senhor, Senhor, nosso bom amo! não vá a Paris, porque se lá for morrerá, e todos os que forem consigo, essas suspeitas haviam-se-lhe desvanecido gradualmente no coração, e a Teligny, seu genro, a quem o rei, pela sua parte, mostrava muita amizade, chamando-lhe irmão, como chamava ao almirante pai, e tratando-o por tu, como fazia aos seus melhores amigos.

Os huguenotes, alguns espíritos tristes e desconfiados, estavam pois inteiramente animados e a morte da rainha de Navarra passava por ter sido causada por uma pleurisia, e as vastas salas do Louvre haviam-se enchido de todos os bravos protestantes, a quem o casamento do seu jovem chefe Henrique prometia uma reviravolta de fortuna muito inesperada. O almirante Colign la Rochefoucauld, o príncipe de Condé filho, Teligny, enfim, todos os principais do partido julgavam- se triunfantes por verem omnipotentes no Louvre e tão bem-vindos a Paris, aqueles mesmos que, três meses antes, o rei Carlos e a rainha Catarina queriam mandar enforcar em forcas mais altas que as dos assassinos. Apenas um, o marechal de Montmorency se buscava debalde no meio de todos os seus irmãos; porque nenhuma promessa pudera seduzi-lo, nenhum sen blante pudera enganá-lo, e conservava-se retirado no seu castelo de L'Isle-Adam, dando como desculpa do seu retiro a dor que sentia ainda pela morte do pai, o grande condestável Anne Montmorency, morto com um tiro de pistola na batalha de São Dinis, por Roberto Stuart. Mas como esse acontecimento se dera havia mais de dois anos, e a sensibilidade era virtude pouco em moda naquela época, cada um julgava desse luto prolongado tão fora do costume o que muito bem queria.

E ninguém dava razão ao marechal de Moncmorency o rei, a rainha, o duque de Anjou e o duque de Alençon faziam maravilhosamente as honras da festa real.

O duque de Anjou recebia dos próprios huguenotes cumprimentos merecidos acerca das duas batalhas de Jarnac e de Moncontour, que havia ganho antes de chegar à idade de dezoito anos, mais precoce neste caso do que tinham sido César e Alexandre, aos quais o comparavam, dando, bem entendido, a inferioridade aos vencedores de Isso e de Farsália. O duque de Alençon observava tudo isto com o seu olhar terno, mas falso; a rainha Catarina estava radiante de alegria, e, desentranhando-se toda em amabilidades, cumprimentava o príncipe Henrique de Condé pelo seu recente casamento com Maria de Cleves; os próprios Srs. de Guisa sorriam para os terríveis inimigos da sua Casa, e o duque de Maiena discorria com o Sr. de Tavande e o almirante acerca da próxima guerra que mais que nunca se tratava de declarar a Filipe II.

Andava de um lado para o outro, no meio destes grupos, com a cabeça inclinada e de ouvido atento a todas as falas, um rapaz de dezanove anos, de olhar sagaz, cabelos pretos muito curtos, sobrancelhas espessas, nariz recurvado como o bico de uma águia, sorriso astuto, e bigode e barba a despontar. Este rapaz, que não se havia ainda feito notar senão no combate de Arnay-Le-Duc, onde fizera proezas, e que recebia parabéns sobre parabéns, era o discípulo querido de Coligny, e o herói do dia; três meses antes, isto é, na época em que a mãe vivia ainda, chamavam-lhe o príncipe de Béarn; agora chamavam-lhe rei de Navarra, enquanto lhe não chamassem Henrique IV.

De tempos a tempos, passava-lhe pela fronte uma nuvem sombria e rápida; recordava-se certamente de que havia apenas dois meses que a mãe lhe morrera, e mais do que ninguém desconfiava de que fora envenenada. Mas a nuvem era passageira, e desaparecia como uma sombra flutuante porque os que Lhe falavam, os que o felicitavam, os que o acotovelavam, eram os mesmos que haviam assassinado a corajosa Joana de Albret.

A alguns passos do rei de Navarra, quase tão pensativo, quase tão inquieto quanto ele queria mostrar-se alegre e sincero, o duque de Guisa conversava com Teligny. Mais feliz do que o bearnês, aos vinte e dois anos a sua fama tinha atingido quase a do pai, o grande Francisco de Guisa. Era um elegante rapaz, alto, de olhar arrogante e orgulhoso, e dotado da majestade natural que fazia dizer, quando passava, que ao pé dele todos os outros príncipes pareciam povo. Embora fosse muito moço, os católicos viam nele o chefe do seu partido, como os huguenotes viam o chefe deles no jovem Henrique de Navarra, de quem acabámos de traçar o retrato. Tinha usado primeiro o título de príncipe de Joinville, e pegado pela primeira vez em armas no cerco de Orleães, sob o comando do pai, que lhe morrera nos braços, designando-lhe o almirante Coligny como seu assassino. Então, o jovem duque, como Anz'ba1, fizera um juramento solene: era vingar a morte do pai no almirante e na sua família, e perseguir os da religião, sem tréguas, prometendo a Deus ser na Terra o seu anjo exterminador, até ao dia em que fosse exterminado o último hereje. Não era pois sem profundo espanto que se via este príncipe, ordinariamente tão fiel a sua palavra, estender a mão aos que jurara considerar seus eternos inimigos, e conversar familiarmente com o genro daquele de quem prometera a morte ao pai moribundo.

Mas já o dissemos, esta noite era a das surpresas.

O facto é que, com o conhecimento do futuro que falta felizmente aos homens, com a faculdade de ler nos corações, que desgraçadamente não pertence senão a Deus, o observador privilegiado que tivesse a permissão de assistir a esta festa, gozaria certamente do mais curioso espectáculo que fornecem os anais da triste comédia humana.

Mas esse observador que faltava nas galerias interiores do Louvre, continuava na rua a olhar com os olhos chamejantes e a bramir com a voz ameaçadora; esse observadoz era o povo, que, com o seu instinto maravilhosamente acicatado pelo ódio, seguia de longe as sombras dos seus inimigos implacáveis, e traduzia as suas impressões tão sinceramente como o pode fazer o curioso diante das janelas de uma sala de baile hermeticamente fechada. A música embriaga e dirige

quem dança, ao passo que o curioso vê só o movimento, e ri desse manequim que se agita sem razão; porque o curioso não entende de música.

A música que embriagava os huguenotes era a voz do seu orgulho.

Os clarões que passavam pelos olhos dos Parisienses naquela noite, eram os relâmpagos do seu ódio, que iluminavam o futuro.

E, todavia, continuava tudo risonho lá dentro, e até nesse momento corria por todo o Louvr um murmúrio mais doce e mais lisonjeiro; o caso era que a noiva, depois de haver largado o seu vestido de noivado, o manto de arrastar e o comprido véu, acabava de entrar na sala de baile acompanhada pela linda duquesa de Nevers, a sua melhor amiga, e pelo braço de seu irmão Carlos IX, que a apresentava aos principais convivas.

Esta noiva era a filha de Henrique If, era a pérola da coroa de França, era Margarida de Valois a quem, na sua familiar ternura por ela, o rei Carlos IX não chamava senão minha irmã Margot.

Nunca decerto nenhum acolhimento, por mais lisonjeiro que fosse, fora tão merecido como o que nesse momento se fazia à nova rainha de Navarra. Margarida, nessa época, tinha apenas vinte anos, e já era objecto dos louvores de todos os poetas, que a comparavam, uns à Aurora outros a Citereia; era, efectivamente, a beleza sem rival da corte em que Catarina de Médicis reu nira as mulheres mais lindas que pudera encontrar. Tinha os cabelos pretos, a tez brilhante, os olhos voluptuosos e com compridas pestanas, a boca rubra e fina, o corpo elegante e flexível, e perdido num sapato de cetim um pezinho de criança. Os Franceses, que a possuíam, tinham orgulho em ver desabrochar no seu solo tão esplêndida flor, e os estrangeiros que passavam pela França saíam de lá deslumbrados pela sua beleza, se a tinham visto somente, aturdidos pelo seu saber, se haviam conversado com ela. Margarida era não só a mais bela, mas também a mais instruída das mulheres do seu tempo, e citava-se a frase de um sábio italiano que lhe fora apresentado e que depois de ter conversado com ela uma hora em italiano, espanhol, latim e grego, a deixara, dizen do com entusiasmo:

- Ver a corte sem ver Margarida de Valois, é não ver nem a França nem a corte. Não faltavam por isso discursos ao rei Carlos IX e à rainha de Navarra; os huguenotes eram muito faladores. No meio desses discursos, foram destramente feitas ao rei alusões ao passado e petições para o futuro; mas a tudo isso ele respondia, com os lábios pálidos e o seu sorriso astuto:

- Dando minha irmã Margot a Henrique de Navarra, dou minha irmã a todos os protestantes do reino.

Palavras que faziam sossegar uns e sorrir outros, porque tinham realmente dois sentidos: um paternal, e com que, em boa consciência, Carlos IX não queria sobrecarregar o seu pensamento; o outro, injurioso para a noiva, para seu marido e mesmo para o que o dizia, porque recordava alguns escândalos surdos com que a crónica da corte já achara meio de manchar o traje nupcial de Margarida de Valois.

Entretanto, o Sr. de Guisa conversava, como dizemos, com Teligny; mas não dava à conversação atenção tão seguida que não se voltasse às vezes, deitando um olhar para o grupo de damas no centro do qual resplandecia a rainha de Navarra. Se o olhar da princesa encontrava então o do jovem duque, parecia que uma nuvem lhe escurecia a fronte encantadora, em torno da qual estre las de diamantes formavam uma trémula auréola, e algum vago intuito se manifestava na sua posição impaciente e agitada.

A princesa Cláudia, irmã mais velha de Margarida, que havia alguns anos casara com o duque de Lorena, havia notado essa inquietação, e aproximava-se dela para lhe perguntar a causa, quando, desviando-se todos para deixar passar a rainha-mãe, pelo braço do príncipe de Condé, a prin cesa foi impelida para longe da irmã. Houve então um movimento geral, que o duque de Guisa aproveitou para se acercar da Sr. a de Nevers, sua cunhada, e por conseguinte de Margarida

A Sr.a de Lorena, que não perdera de vista a jovem rainha, viu então, em vez da nuvem que lhe notara na fronte, assomar-lhe às faces uma chama ardente. O duque continuava a aproximar-se, e quando chegou a dois passos de Margarida, esta, que mais parecia senti-lo do que vê-lo, voltou-se, fazendo um violento esforço para mostrar no rosto serenidade e indiferença; então o duque cumprimentou-a respeitosamente e, ao curvar-se diante dela, murmurou a meia voz:

- Ipse uttuli.

O que queria dizer: Trouxe-o eu mesmo.

Margarida correspondeu à cerimónia do duque e, ao erguer-se, respondeu também a meia voz:

- Noctu pro more.

O que significava: Esta noite como de costume.

Estas meigas palavras, absorvidas pela enorme gola engomada da princesa como pela voluta de um porta-voz, não foram ouvidas senão pela pessoa a quem foram dirigidas; mas, por mais curto que houvesse sido o diálogo, abrangia sem dúvida tudo o que os dois jovens queriam dizer, porque, depois dessa troca de duas palavras por três, separaram-se, Margarida de fronte mais pensativa, e o duque de fronte mais radiante, do que antes de se haverem aproximado. Esta cena realizava-se sem que o homem mais interessado em a notar parecesse dar-lhe a menor atenção, porque, pela sua parte, o rei de Navarra não tinha olhos senão para uma pessoa que reunia em torno de si uma corte quase tão numerosa como a de Margarida de Valois: essa pessoa era a Sr. de Sauve.

Carlota de Beaune Semblançay, neta do desditoso Semblançay e mulher de Simão de Fizes, barão de Sauve, era açafata de Catarina de Médicis, e uma das mais temíveis auxiliares desta rainha, que ministrava aos seus inimigos o filtro do amor quando não ousava ministrar-lhes o veneno florentino; pequena, loura, ora cintilante de viveza, ora lânguida de melancolia, sempre disposta para o amor e para o enredo, os dois negócios magnos que, havia cinquenta anos, ocupavam a corte dos três reis que se tinham sucedido; mulher, em toda a acepção da palavra, e com todos os encantos apropriados, desde os olhos azuis lânguidos, onde brilhavam chamas, até aos pezinhos travessos e metidos em sapatos de veludo, a Sr. de Sauve apoderara-se, havia meses, de todas as faculdades do rei de Navarra, que se estreava então na carreira amorosa e na carreira política, por modo que Margarida de Navarra, beleza magnífica e real, nem havia sequer encontrado admiração no fundo da alma do esposo; e o que espantava toda a gente era que Catarina de Médicis, persistindo no seu projecto de união da filha com o rei de Navarra, não tinha deixado de favorecer quase abertamente os amores deste com a Sr de Sauve. Mas, a despeito deste poderoso auxílio e dos costumes fáceis da época, a bela Carlota resistira até então, e desta resistência desconhecida, incrível, inaudita, ainda mais do que da beleza e do espírito da que resistia, nascera no coração do Bearnês uma paixão que, não podendo saciar-se, se enroscara sobre si mesma e devorava no coração do rei a timidez, o orgulho e até a incúria, meio filosófica meio preguiçosa, que constituía o fundo do seu carácter.

A Sr.a de Sauve acabava de entrar havia minutos na sala do baile; ou fosse despeito ou fosse dor, resolvera primeiro não assistir à vitória da sua rival e, a pretexto de uma indisposição, deixara o marido, secretário de Estado, apresentar-se sozinho no Louvre; mas, ao ver o barão de Sauve sem a mulher, Catarina de Médicis informara-se das causas que afastavam a sua querida Carlota e, sabendo que era apenas uma leve indisposição, escreveu-lhe algumas palavras a chamá-la, e às quais ela se apressou a obedecer. Henrique, embora triste a princípio, por causa da ausência dela, respirara contudo mais livremente quando vira o Sr. de Sauve entrar só; mas, no momento em que, não esperando de forma alguma essa aparição, ia, suspirando, aproximar-se da amável criatura que estava condenado, senão a amar, a tratar como esposa, viu surgir no extremo da galeria a Sr.a de Sauve; ficou então como que pregado no sítio, de olhos fitos nessa circe que o encadeava

como um laço mágico; e em vez de continuar a avançar para a esposa, por um acto de hesitação que mais parecia espanto do que medo, dirigiu-se para a Sr.a de Sauve.

Pela sua parte, os cortesãos, vendo que o rei de Navarra, de quem era já conhecido o coração inflamado, se acercava da linda Carlota, não tiveram a coragem de se opor a que se juntassem e afastaram-se condescendentemente, de modo que, no próprio instante em que Margarida Valois e o Sr. de Guisa trocavam as palavras latinas que citámos, Henrique, chegando ao pé da Sr.a de Sauve, travava com ela, em francês muito inteligível, uma conversação muito menos mis teriosa.

- Ah! minha querida! - disse ele - veio no momento em que me estavam dizendo que se achava doente, e em que perdera a esperança de a ver.

- Pretenderá Vossa Majestade - respondeu a Sr.a de Sauve - fazer-me crer que lhe custava muito perder essa esperança?

- Assim o creio! - replicou o Bearnês. - Não sabe que é o meu sol de dia e a minha estrela de noite?. Na verdade, eu supunha-me na mais profunda escuridão; quando há pouco a senhora apareceu, alumiou tudo repentinamente.

- Então foi uma peça que lhe preguei.

- Que quer dizer, minha querida? - perguntou Henrique.

- Quero dizer que quem possui a mais linda mulher de França, a única coisa que deve desejar é que desapareça a luz para dar lugar à escuridão, porque é na escuridão que a ventura nos espera.

- Bem sabe que a minha ventura está nas mãos de uma pessoa, e que essa pessoa ri e mofa do pobre Henrique.

- Oh! - tornou a baronesa - e eu supunha que essa pessoa era o ludíbrio e o escárnio do rei de Navarra.

Henrique ficou aterrado com essa atitude hostil; e, contudo, reflectia que ela denunciava despeito, e que o despeito é a máscara do amor.

- Em verdade - disse ele -, querida Carlota, faz-me uma censura injusta, e não compreendo como tão linda boca possa ser ao mesmo tempo tão cruel. Então crê que sou eu que me caso? Oh! não! não sou eu!

- Então sou eu, não? - replicou asperamente a baronesa (se é que pode alguma vez parecer áspera a voz da mulher que nos ama e nos exprobra por não a amarmos).

- Pois com esses lindos olhos não viu mais longe, baronesa? Não, não, não é Henrique de Navarra que casa com Margarida de Valois.

- Então quem é?

- Ora! é a religião reformada que casa com o papa.

- Menos isso, menos isso, Senhor; e eu não me deixo lograr pelos seus ditos espirituosos. Vossa Majestade ama Margarida, e eu não lhe levo isso a mal, Deus me livre! é bem bonita, e tem direito a ser amada.

Henrique reflectiu um instante e, enquanto reflectia, encrespou-lhe os cantos da boca um astuto sorriso.

- Baronesa - disse ele -, parece-me que quer questionar comigo e, contudo, não tem direito para isso. Ora diga- me, que fez para impedir que eu casasse com Margarida? Nada; muito pelo contrário, fez-me desesperar sempre.

- E fiz muito bem! - respondeu a Sr.a de Sauve.

- Que diz!

- Certamente, porque casou hoje com outra.

- Ah! casei com ela porque a senhora não me ama.

- Se eu o amasse, Real Senhor, tinha de morrer dentro de uma hora.

- Dentro de uma hora? Que quer dizer? E de que morte morreria?

- De ciúme. Porque, dentro de uma hora, a rainha de Navarra despedirá as suas damas, e Vossa Majestade os seus gentis-homens.

- É esse na verdade, o pensamento que a preocupa, minha querida?

- Não digo isso. Digo que, se o amasse, esse pensamento me preocuparia horrivelmente.

- E - exclamou Henrique, no auge da alegria por ouvir essa confissão, a primeira que recebera - se o rei de Navarra não mandasse embora esta noite os seus gentis-homens?.

- Vossa Majestade - disse a Sr.a de Sauve, olhando para o rei com um espanto que desta vez não era fingido - está dizendo coisas impossíveis, e mais que tudo incríveis.

- Que hei-de fazer para que as acredite?

- Havia de me dar a prova, e não pode dar-ma.

- Pois, baronesa, por Santo Henrique, que lha hei-de dar! - exclamou o rei, devorando a baronesa com um olhar abrasado de amor.

- Não compreendo Vossa Majestade!. - murmurou Carlota, baixando a voz e os olhos.

- Não compreendo. Não, não! É impossível que se furte à ventura que o espera.

- Há quatro Henriques nesta sala, minha adorada - tornou o rei. - Henrique de França, Henrique de Condé, Henrique de Guisa; mas não há senão um Henrique de Navarra.

- E daí?

- E daí? Se a senhora tiver Henrique de Navarra toda a noite ao pé de si.

- Toda a noite?

- Sim, toda a noite; terá então a certeza de que ele não estará ao pé de outra?.

- Ah! se fizer isso, Real Senhor! - exclamou a Sr.a de Sauve.

- Palavra que faço.

A Sr.a de Sauve levantou os seus grandes olhos, húmidos de voluptuosas promessas, e sorriu para o rei, cujo coração se encheu de inebriante alegria.

- Vamos - tornou Henrique -, nesse caso que dirá?

- Oh! nesse caso. - respondeu Carlota - nesse caso direi que sou verdadeiramente amada por Vossa Majestade.

- Então há-de dizê-lo, porque assim sucederá.

- Mas. como? - murmurou a Sr.a de Sauve.

- Oh! por Deus, baronesa! pois não tem uma aia, ou uma criada em quem confie?.

- Oh! tenho Daríole, que me é tão dedicada que se deixaria cortar em pedaços por minha causa; um verdadeiro tesouro.

- Pois, querida baronesa, diga a essa rapariga que hei-de fazer a fortuna dela, quando for rei de França, como os astrólogos mo predizem.

Carlota sorriu, porque já a esse tempo estava fundada a reputação gascã do Bearnês relativamente às suas promessas.

- Então - disse ela - que é que deseja de Daríole?

- Pouca coisa para ela, tudo para mim.

- Mas que é?

- O seu quarto não fica por cima do meu?

- Fica.

- Que ela espere atrás da porta. Baterei de mansinho três pancadas; ela abrirá, e a senhora terá a prova que lhe ofereci.

A Sr.a de Sauve guardou silêncio por alguns minutos, e depois, olhando em redor de si para não ser ouvida, fitou a vista no grupo onde estava a rainha-mãe; mas, embora fosse por um instante, tanto bastou para que Catarina e a sua açafata trocassem um olhar.

- Oh! se eu quisesse. - disse a Sr.a de Sauve, com voz de sereia que teria feito derreter a cera nos ouvidos de Ulisses - se eu quisesse apanhar Vossa Majestade em mentira.

- Experimente, minha querida, experimente.

- Ah! palavra! confesso que entro em luta com o desejo.

- Deixe-se vencer; quando as mulheres são mais fortes é depois da derrota.

- Tomo nota da sua promessa em favor de Darfole para o dia em que for rei de França. Henrique soltou um grito de alegria.

Era exactamente no momento em que este grito saía da boca do Bearnês que a rainha de Navarra respondia ao duque de Guisa:

- Noctu pro more.

Esta noite como de costume.

Então Henrique apartou-se da Sr.a de Sauve, tão venturoso como o duque de Guisa ao separar-se de Margarida de Valois.

Uma hora depois da dupla cena que acabámos de contar, retiraram-se para os seus aposentos o rei Carlos e a rainha- mãe; e pouco depois começaram as salas a despovoar-se e as galerias a deixar ver a base das suas colunas de mármore. O almirante e o príncipe de Condé saíram, acompanhados de quatrocentos fidalgos huguenotes por entre a multidão, que bramia à sua passagem. Depois retiraram-se também Henrique de Guisa, os cavalheiros lorenos e os católicos, escoltados por gritos de alegria e aplausos do povo.

Margarida de Valois, Henrique de Navarra e a Sr.a de Sauve habitavam no Louvre.

 

           O QUARTO DA RAINHA DE NAVARRA

O duque de Guisa acompanhou a cunhada, a duquesa de Nevers, ao seu palácio, que era situado na Rua da Chaume, defronte da Rua de Brac, e, depois de a haver entregue às criadas, dirigiu-se ao seu quarto para mudar de fato, pôr um capote e armar-se com um punhal curto e agudo, dos que se usavam sem espada; mas, quando ia buscá-lo à mesa onde estava, achou um bilhete metido entre o ferro e a bainha.

Abriu-o, e leu o seguinte:

Quero que o Sr de Guisa não volta esta noite ao Louvre, ou, se voltar que terá aprecaução de levar uma cota de malha e uma boa espada.

- Ah! ah! - disse o duque, voltando-se para o aio - singular aviso, mestre Robin. Fazes-me o favor de me dizer quais foram as pessoas que entraram aqui durante a minha ausência?

- Só uma, Senhor.

- Quem?

- O Sr. Du Gast.

- Ah! ah! Bem me parecia a mim que conhecia a letra. E tens a certeza de que esteve aqui Du Gast? Viste-o?

- Mais do que isso, Senhor, falei-lhe.

- Bom, então seguirei o conselho. Dá cá a minha cota de malha e a minha espada. O aio, habituado a estas mudanças de trajo, trouxe uma e outra coisa. O duque vestiu então a cota, de anéis tão flexíveis que a urdidura do aço não era mais espessa do que veludo; vestiu depois, por cima, uns calções e um gibão cinzento e preto, as suas cores favoritas; calçou botas altas, que lhe chegavam ao meio das coxas, pôs na cabeça um gorro de veludo preto sem plumas nem pedrarias, embrulhou-se num capote escuro, meteu um punhal no cinturão e, entregando a espada a um pajem, única escolta de que quis ir acompanhado, tomou o caminho do Louvre.

Quando ele transpunha os umbrais do antigo palácio real, acabava de anunciar uma hora da madrugada o velador de S. Germano, L'Auxerrois.

Embora estivesse adiantada a noite, e fossem pouco seguras as ruas naquela época, nenhum desastre sucedeu no caminho ao aventuroso príncipe, e ele chegou são e salvo diante da bisarma do antigo Louvre, onde todas as luzes se haviam apagado sucessivamente, e que se eriçava, a essa hora formidável, de silêncio e de escuridão.

Em frente do palácio real havia um fosso profundo, para o qual dava a maior parte dos quartos dos príncipes alojados no palácio. O quarto de Margarida era no primeiro andar.

Mas o primeiro andar, acessível se não fosse o fosso, ficava, por causa dele, elevado cerca de trinta pés, e, por conseguinte, fora do alcance dos amantes e dos ladrões, o que não obstou a que o Sr. de Guisa descesse resolutamente ao fosso.

No mesmo instante, ouviu-se o rumor de uma janela do rés-do-chão que se abria. Essa janela tinha grades; mas apareceu uma mão, levantou um dos varões desprendidos antecipadamente e deixou cair, pela abertura, um cordão de seda.

- tu, Gillonne? - perguntou o duque em voz baixa.

- Sim senhor - respondeu uma voz de mulher, com inflexão ainda mais baixa.

- E Margarida?

- Está à sua espera.

- Está bem.

A estas palavras, o duque fez sinal ao pajem, que, abrindo o capote, desenrolou uma escada de corda. O príncipe prendeu uma das extremidades da escada ao cordão que estava pendente. Gillonne puxou a escada para si, amarrou-a solidamente, e o príncipe, depois de haver afivelado a espada ao cinturão, começou a escalada, que levou a cabo sem novidade. Sobre ele tornou a seu lugar o varão, fechou-se a janela, e o pajem, depois de ter visto entrar pacificamente o amo no Louvre, a cujas janelas o acompanhara muitas vezes do mesmo modo, deitou-se, embrulhado no seu capote, em cima da erva do fosso e da parede.

A noite estava escura, e das nuvens carregadas de enxofre e electricidade caíam alguns pingos de água, tépidos e volumosos.

O duque de Guisa seguiu a pessoa que o guiava, que era nada mais nada menos do que a filha de Jacques de Matignon, marechal de França; era a confidente de Margarida, que não tinha segredos para com ela, e dizia-se que no número dos mistérios que a sua incorruptível fide lidade encerrava, havia-os tão incríveis que eram estes que a forçavam a guardar os outros.

Nenhuma luz ficara, nem nos aposentos de baixo nem nos corredores; e só de tempos a tempos um lampejo lívido iluminava os quartos sombrios com um reflexo azulado que desaparecia imediatamente.

O duque, sempre guiado pela confidente, que o levava pela mão, chegou a uma escada em espiral, aberta numa parede, e que conduzia, por uma porta secreta e invisível, à antecâmara de Margarida.

A antecâmara, como as outras salas inferiores, estava completamente às escuras. Quando chegou ali, Gillonne parou.

- Trouxe o que a rainha deseja? - perguntou ela em voz baixa.

- Trouxe - respondeu o duque de Guisa -, mas não o entregarei senão a Sua Majestade.

- Venha pois, e sem perda de tempo! - disse então no meio da escuridão uma voz que fez estremecer o duque, porque reconheceu ser a de Margarida.

E, levantando-se ao mesmo tempo um reposteiro de veludo violeta com flores-de-lis de ou ro, o duque distinguiu na sombra a própria rainha que, impaciente, tinha corrido ao encontro dele.

- Aqui estou, minha Senhora - disse ele.

Tocou então a Margarida de Valois a vez de servir de guia ao príncipe nesse quarto, aliás mui to conhecido dele, enquanto Gillonne, que ficara à porta, levando o dedo à boca, tranquilizav a sua real ama.

Como se houvesse compreendido as ciosas inquietações do duque, Margarida conduziu-o a seu quarto de dormir, e aí parou.

- Então? - perguntou-lhe ela - está contente, duque?

- Contente, minha Senhora?. - perguntou este - E porquê, não me dirá?

- Por esta prova que lhe dou - respondeu Margarida, com leve inflexão de despeito – de que pertenço a um homem que, na noite do casamento, na própria noite das bodas, tão pouco caso de mim fez, que nem sequer veio agradecer-me a honra que lhe fiz, não em o escolher, mas em o aceitar para esposo.

- Oh, minha Senhora! - disse o duque com tristeza - sossegue, ele virá, e muito mais se a senhora o deseja.

- E é o senhor quem o diz, Henrique!. - exclamou Margarida - o senhor, que é de todos quem sabe o contrário do que diz! Se eu tivesse o desejo que me supõe, tinha-lhe porventura pedido que viesse ao Louvre?

- Pediu-me que viesse ao Louvre, Margarida, porque desejava acabar com todos os vestígios do passado, e o passado vivia não só no meu coração, mas também no cofre de prata que lhe trago.

- Quer que Lhe diga uma coisa, Henrique? - tornou Margarida, olhando fixamente para o duque. - É que o senhor me está parecendo mais um estudante do que um duque! Eu nego lá que o amei! Eu posso lá extinguir uma chama que pode vir a apagar-se, mas cujo reflexo não acabará! Porque os amores das pessoas da minha jerarquia iluminam, e muitas vezes devoram, toda a época contemporânea deles. Não, não, meu duque! Pode conservar as cartas da sua Margarida, e o cofre que ela lhe deu. Das cartas que o cofre contém, só lhe pede uma, e é porque essa carta é tão perigosa para si como para ela.

- Tudo é seu - disse o duque -, escolha a que quiser destruir.

Margarida esquadrinhou rapidamente no cofre aberto e, com mão trémula, pegou, uma após outra, numa dúzia de cartas, de que se contentou em olhar para os sobrescritos, como se, só pela inspecção deles, a sua memória lhe recordasse o que as cartas continham; mas quando acabou o exame olhou para o duque e disse-lhe, pálida:

- Senhor, a que procuro não está aqui. Perdê-la-ia por acaso? Porque, para a ter entregado.

- E que carta procura, minha Senhora?

- Aquela em que lhe dizia que se casasse quanto antes.

- Para desculpar a sua infidelidade?

Margarida encolheu os ombros.

- Não; mas para lhe salvar a vida. Aquela em que lhe dizia que o rei, vendo o nosso amor e os esforços que eu fazia para que não se realizasse a sua futura união com a infanta de Portugal, mandara vir seu irmão, o bastardo de Angoulême, e lhe dissera, mostrando-lhe duas espadas: Com esta mata Henrique de Guisa esta noite, ou eu te mato amanhã com aquela. Onde está essa carta?

- Ei-la - disse o duque de Guisa, tirando-a do peito:

Margarida quase que lha arrancou das mãos; abriu-a avidamente, certificou-se de que era a que reclamava, soltou uma exclamação de alegria e chegou-a à luz de uma vela. A chama comunicou-se imediatamente ao papel, que ardeu num instante; e depois, como se Margarida temesse que fosse possível ir buscar às cinzas o imprudente aviso, pôs-lhe o pé em cima.

O duque de Guisa seguia com os olhos a amante durante todo esse acto febril.

- Então, Margarida? - disse, quando ela acabou. - Está agora satisfeita?

- Estou, porque meu irmão há-de perdoar-me o seu amor, agora que o senhor casou com a princesa de Porcian; mas não me perdoaria a revelação de um segredo como este, que na minha fraqueza pelo senhor não tive a força de lhe ocultar.

- É verdade - disse o duque de Guisa -, nesse tempo amava-me.

- E amo-o ainda, Henrique, tanto ou mais do que nunca.

- A senhora?

- Sim, eu; porque nunca mais do que hoje careci de um amigo sincero e dedicado. Rainha, não tenho trono; mulher, não tenho marido.

O príncipe meneou a cabeça com tristeza.

- Digo-lhe e repito, Henrique: meu marido não só não me ama, mas odeia-me, despreza-me; e demais, parece-me que a sua presença, a esta hora, no quarto em que ele devia estar, é uma prova desse ódio e desse desprezo.

- Não é tarde, minha Senhora; o rei de Navarra precisou de tempo para despedir os seus gentis-homens e, se não veio ainda, não tardará.

- E eu digo-lhe - exclamou Margarida com despeito crescente - que não vem.

- Minha Senhora - bradou Gillonne, abrindo a porta e levantando o reposteiro. - Minha Senhora! O rei de Navarra sai do quarto!

- Oh! bem lhe dizia eu que ele vinha! - exclamou o duque de Guisa.

- Henrique - disse Margarida, com voz breve e pegando na mão do duque -, Henrique, vai ver se sou mulher de palavra, e se se pode contar com o que prometo uma vez. Henrique, entre para esse gabinete.

- Minha Senhora, deixe-me retirar, se ainda é tempo, porque. saiba que à primeira demonstração de amor que ele lhe der, saio do gabinete, e então. desgraçado dele!

- Está doido! entre, entre; respondo por tudo, sou eu que lho digo.

E empurrou o duque para o gabinete.

Era tempo. Mal a porta do gabinete se fechou sobre o príncipe, o rei de Navarra, escoltado por dois pajens, que traziam oito tochas de cera cor-de-rosa em dois candelabros, apareceu sorrindo à porta do quarto.

Margarida disfarçou a sua perturbação, fazendo uma profunda reverência.

- Não está ainda deitada, minha Senhora? - perguntou o Bearnês, com a sua fisionomia aberta e jovial. - Esperava-me porventura?

- Não senhor - respondeu Margarida -, porque ainda ontem me disse que sabia muito bem que o nosso casamento era uma aliança política, e que o senhor nunca me constrangeria.

- Muito embora; isso não é razão para que não conversemos um pedaço. Gillone, retira-te e fecha a porta.

Margarida, que estava sentada, levantou-se e estendeu a mão como para ordenar aos pajens que ficassem.

- Quer que chame as criadas? - perguntou o rei. - Fá-lo-ei, se assim o deseja, conquanto lhe confesse que, para o que lhe tenho a dizer, quereria antes que estivéssemos a sós.

E o rei de Navarra encaminhou-se para o gabinete.

- Não! - exclamou Margarida, correndo a tomar-lhe o passo - não, é escusado, e estou pronta a ouvir.

O Bearnês sabia o que queria saber; deitou um olhar rápido e profundo para o gabinete, como se houvesse querido, apesar do reposteiro que o tapava, penetrar nos cantos mais sombrios dele; e depois, dirigindo-se para a sua linda esposa, pálida de terror, disse-lhe com voz muitíssimo serena:

- Nesse caso, minha Senhora, conversemos um instante.

- Como aprouver a Vossa Majestade - disse a princesa, sentando-se, ou antes, caindo na cadeira que o marido lhe indicava.

O Bearnês acercou-se dela.

- Minha Senhora - continuou -, digam o que disserem, persuado-me que o nosso casamento foi um casamento em regra. Eu sou seu e a senhora é minha.

- Mas - disse Margarida, aterrada.

- Devemos, portanto - continuou o rei de Navarra, sem parecer que notava a hesitação de Margarida -, proceder um para com o outro como bons aliados, uma vez que jurámos hoje aliança perante Deus. Não é desta opinião?

- Sem dúvida, Senhor.

- Bem sei, minha Senhora, quão grande é a sua penetração, sei quão semeado de perigosos abismos é o terreno da corte; ora eu sou moço, e embora nunca fizesse mal a ninguém, tenho grande número de inimigos. Em que campo, minha Senhora, devo eu colocar a mulher que usa o meu nome e que me jurou afeição ao pé do altar?

- Oh! Senhor, poderá acaso pensar?.

- Não penso nada, minha Senhora; espero, e quero assegurar-me de que a minha esperança é fundada. certo que o nosso casamento não é mais do que um pretexto ou uma cilada.

Margarida estremeceu, porque talvez também esse pensamento se lhe houvesse apresentado ao espírito.

- Mas qual das duas coisas será? - continuou Henrique de Navarra. - O rei odeia-me, o duque de Anjou odeia-me, o duque de Alençon odeia-me, e Catarina de Médicis odiava muito minha mãe para não me odiar a mim.

- Oh, Senhor! que diz!

- A verdade, minha Senhora - tornou o rei -, e quisera, pa ra não julgar que me lograram com o assassínio do Sr. de Mouy e o envenenamento de minha mãe, quisera que estivesse aqui alguém que pudesse ouvir-me.

- Oh, Senhor! - disse Margarida com vivacidade, e com os modos mais serenos e mais risonhos que pôde - bem sabe que estamos aqui sós.

- E aí está porque estou falando com toda a franqueza, aí está porque ouso dizer-lhe que me não logram nem as caricias que me faz a Casa de França, nem as que me faz a Casa de Lorena.

- Meu Senhor! meu Senhor!. - exclamou Margarida.

- Então que é isso, minha amiga? - perguntou Henrique, sorrindo também.

- Discursos desses são muito perigosos.

- Não quando duas pessoas conversam a sós - replicou o rei. - Dizia eu. Margarida estava visivelmente num suplício; queria fazer parar cada palavra nos lábios do Bearnês; mas Henrique continuou com a sua aparente simplicidade.

- Dizia eu que estava ameaçado por todos os lados: ameaçado pelo rei, ameaçado pelo duque de Alençon, ameaçado pelo duque de Anjou, ameaçado pela rainha-mãe, ameaçado pelo duque de Guisa, pelo duque de Maiena, pelo cardeal de Lorena, ameaçado por toda a gente. Percebe-se isto instintivamente; a senhora bem o sabe. Pois de todas estas ameaças, que não tarda que se tornem ataques, posso defender-me com o seu auxílio, porque a senhora é amada por todas as pessoas que me detestam.

- Eu? - disse Margarida.

- Sim, a senhora - replicou Henrique de Navarra com a maior simplicidade -, sim, a senhora é amada pelo rei Carlos, é amada (e acentuou a palavra) pelo duque de Alençon, é amada pela rainha Catarina, enfim. é amada pelo duque de Guisa.

- Senhor. - murmurou Margarida.

- Então?. que admira que todos a amem? Os que eu acabo de citar ou são seus irmãos ou seus parentes. Amar os parentes e os irmãos é viver como Deus deseja que se viva.

- Mas - replicou Margarida, oprimida -, que quer concluir, Senhor?

- Quero concluir o que já disse; se a senhora vier a ser, não digo minha amiga, mas minha aliada, posso arrostar com tudo; mas, se se tornar minha inimiga, estou perdido.

- Oh! sua inimiga, nunca, Senhor! - exclamou Margarida.

- Mas minha amiga, também nunca?

- Pode ser.

- E minha aliada?

- Certamente.

E Margarida voltou-se e estendeu a mão ao rei.

Henrique pegou-lhe na mão, beijou-a gentilmente e, conservando-a entre as suas, mais por um desejo de investigação do que por um sentimento de ternura, disse:

- Bem! creio em si, minha Senhora, e aceito-a como aliada. Casaram- nos sem que nos conhecêssemos, sem que nos amássemos; casaram-nos sem nos consultarem. Não devemos pois nada um ao outro como marido e mulher. A senhora vê que vou mais longe do que naturalmente esperava, e confirmo esta noite o que lhe disse ontem. Mas aliemo-nos livremente, sem que ninguém a isso nos force; aliemo-nos como dois corações leais que se devem protecção mútua e se aliam; é assim que o entende?

- Sim senhor - disse Margarida, diligenciando retirar a mão.

- Então - continuou o Bearnês com os olhos sempre fitos na porta do gabinete -, como a primeira prova de uma aliança franca é a mais absoluta confiança, vou dizer-lhe, nos mais secretos pormenores, o plano que formei de combater vitoriosamente todas essas inimizades.

- Senhor. - murmurou Margarida, voltando também sem querer os olhos para o gabinete, enquanto o Bearnês, vendo bem sucedida a sua astúcia, sorria.

- Eis o que vou fazer - continuou, sem dar mostras de notar a perturbação da princesa. Vou...

- Senhor! - exclamou Margarida, levantando-se com vivacidade e travando do braço do rei - dê-me licença que respire; a comoção. o calor. sufoco.

O facto é que Margarida estava pálida e trémula como se fosse cair em cima do tapete.

Henrique caminhou para uma janela que estava a bastante distância e abriu-a. Esta janela dava para o rio.

Margarida seguiu-o.

- Silêncio, silêncio! meu Senhor! tenha dó de si! - murmurou ela.

- Oh, minha Senhora! - disse o Bearnês sorrindo a seu modo -, não me disse que estávamos sós?.

- Sim senhor, mas nunca ouviu dizer que por um tubo introduzido no tecto ou na parede se pode ouvir tudo?

- Muito bem, minha Senhora - disse com vivacidade e baixinho o Bearnês. - É verdade que me não ama; porém, reconheço que é mulher de bem.

- Que quer dizer, Senhor?

- Quero dizer que, se fosse capaz de me atraiçoar, ter-me-ia deixado continuar, porque era eu que me denunciava. Fez-me parar. Sei agora que está aqui escondido alguém; que a senhora é uma esposa infiel, mas uma fiel aliada; e neste momento - acrescentou o Bearnês sorrindo -, confesso que careço mais da fidelidade em política do que em amor.

- Senhor. - murmurou Margarida, confusa.

- Bom, bom, havemos de falar de tudo isto lá mais para diante - disse Henrique -, quando nos conhecermos melhor.

Depois, elevando a voz, continuou:

- Então, respira melhor agora, minha Senhora?

- Sim, meu Senhor, sim - murmurou Margarida.

- Nesse caso - replicou o Bearnês - não quero importuná-la por mais tempo. Devia-lhe os meus respeitos e alguns cumprimentos de boa amizade; queira aceitá-los como lhos ofereço, de todo o coração. Pode ficar sossegada, e boa noite.

Margarida levantou para seu marido um olhar brilhante de reconhecimento, e estendeu-lhe também a mão.

- Está combinado - disse ela.

- Aliança política, franca e leal? - perguntou Henrique.

- Franca e leal - respondeu a rainha.

Então o Beurnês dirigiu-se para a porta, atraindo o olhar de Margarida como fascinada. E depois, quando caiu o reposteiro entre eles e o quarto de cama:

- Obrigado, Margarida - disse ardentemente Henrique, em voz baixa -, obrigado! É uma verdadeira princesa de França. Vou tranquilo. Embora me falte o seu amor, não me há-de faltar a sua amizade. Conto consigo como a senhora pode contar comigo. Adeus, minha Senhora.

E Henrique beijou a mão da esposa, apertando-lha meigamente; e depois, com passo ágil, voltou para o seu quarto, dizendo consigo no corredor:

Quem diabo estará lá? Será o rei, o duque de Anjou, o duque de Alençon, o duque de Guisa, um irmão, um amante ou ambas as coisas? Na verdade, quase que estou com pena de ter pedido esta entrevista para agora à baronesa; mas, uma vez que lhe dei a minha palavra, e que Darfole me espera. não importa: há-de perder alguma coisa, receio-o muito, por eu ter passado pelo quarto de minha mulher para ir ter com ela, porque, com a breca! esta Margot, como lhe chama meu cunhado Carlos IX, é uma criatura adorável.

E, com um passo que denunciava ligeira hesitação, Henrique de Navarra subiu a escada que conduzia ao quarto da Sr.a de Sauve.

Margarida seguiu-o com os olhos até ele desaparecer e tornou para o quarto. Achou o duque à porta do gabinete: esta vista inspirou-lhe quase um remorso.

Pela sua parte, o duque estava com um aspecto grave e os seus sobrolhos denunciavam uma amarga preocupação.

- Margarida é hoje neutra - disse ele -, Margarida será hostil dentro de oito dias.

- Ah, esteve a escutar? - disse Margarida.

- Que queria que eu fizesse neste gabinete?

- E entende que me portei como se não devia portar a rainha de Navarra?

- Não; mas como não se devia portar a amante do duque de Guisa.

- Senhor - respondeu a rainha -, eu posso não amar meu marido, mas ninguém tem o direito de exigir de mim que o atraiçoe. Diga-me, em boa fé, atraiçoaria o senhor os segredos da princesa de Porcian, sua esposa?.

- Vamos, vamos, minha Senhora - disse o duque, meneando a cabeça -, percebo. Vejo que já me não ama como nos dias em que me contava o que o rei tramava contra mim e contra os meus.

- O rei era o forte e os senhores eram os fracos. Henrique é o fraco e os senhores são os fortes. Bem vê que represento sempre o mesmo papel.

- Com a diferença que passa de um campo para o outro.

- Foi um direito que adquiri, Senhor, salvando-lhe a vida.

- Bem, minha Senhora; e como, quando dois amantes quebram as suas relações, é costume restituir os mimos que um ao outro ofertaram, também eu lhe salvarei a vida, se se oferecer ocasião, e ficaremos quites.

E dito isto o duque curvou-se e saiu, sem que Margarida fizesse um gesto para o deter.

Na antecâmara encontrou Gillonne, que o conduziu até à janela do rés-do-chão, e nos fossos o seu pajem, com o qual voltou para o Palácio de Guisa.

Durante este tempo, Margarida, pensativa, foi pôr-se à janela.

Que noite de bodas! - murmurou ela. - O esposo foge-me, e o amante deixa-me!

Neste momento passou pelo outro lado do fosso, vindo da Torre de Madeira e subindo para o engenho da Monnaie, um estudante de mão na cintura, cantarolando uma modinha de amor.

Margarida ouviu a canção sorrindo com melancolia, e depois, quando a voz do estudante se perdeu ao longe, fechou a janela e chamou Gillonne para a ajudar a deitar.

 

             UM REI POETA

Os dias seguintes passaram-se em festas, danças e torneios.

Continuava a operar-se a mesma fusão em todos os partidos.

Eram carícias e ternuras de fazer perder a cabeça aos mais acirrados huguenotes. Tinha sido visto o Tio Cotton jantar e dar-se a desregramentos com o barão de Courtaumer; e o duque de Guisa subir o Sena na companhia do príncipe de Condé num barco com música.

Parecia que o rei Carlos se divorciara da sua melancolia habitual, e já não podia passar sem o seu cunhado Henrique. E a rainha-mãe estava tão jovial e tão entretida com bordados, jóias e colares, que perdia o sono.

Os huguenotes, um tanto abrandados por esta nova Cápua, começavam a vestir gibões de seda, a arvorar divisas e a ostentar-se defronte de certas varandas como se fossem católicos. Era, em toda a parte, tanta a reacção em favor da religião reformada, que se podia acreditar que ia fazer-se protestante toda a corte. O próprio almirante, apesar da sua experiência, deixara-se apanhar como os outros, e tinha a cabeça tão perdida que se esquecera uma noite, durante duas horas, de mascar o palito, ocupação a que se dava ordinariamente depois das duas horas da tarde, momento em que tornava a sentar-se à mesa para cear.

Na noite em que o almirante teve este incrível esquecimento dos seus hábitos, o rei Carlos IX convidou para cearem em família Henrique de Navarra e o duque de Guisa, e, depois de acabada a ceia, foi com eles para a sua câmara, e ali lhes explicou o engenhoso mecanismo de um laço de lobo que havia inventado, quando, interrompendo-se, perguntou:

- Então o Senhor Almirante não vem esta noite? Quem o viu hoje, e quem pode dar-me notícias dele?

- Eu - disse o rei de Navarra -, não esteja Vossa Majestade com cuidado, porque o vi esta manhã às seis horas e esta noite às sete.

- Ah. ah!. - disse o rei, cujos olhos um instante distraídos se fitaram com penetrante curiosidade no cunhado - é muito madrugador para noivo, Henrique!

- Queria, meu Senhor - respondeu o rei de Béarn -, indagar do almirante, que sabe tudo, se alguns gentis-homens que espero estão já a caminho para cá.

- Mais gentis-homens?. tinha oitocentos no dia do seu casamento, e todos os dias vêm mais! Quer invadir-nos? - disse o rei, rindo.

O duque de Guisa carregou os sobrolhos.

- Meu Senhor - replicou o Bearnês -, fala-se de uma empresa sobre Flandres, e eu reúno em torno de mim todos os do meu país e dos arredores que creio poderem ser úteis a Vossa Majestade.

O duque, recordando-se do projecto de que o Bearnês falara a Margarida no dia do casamento, escutou com mais atenção.

- Bom! bom! - respondeu o rei, com o seu sorriso amarelo - quantos mais forem, mais contentes estaremos nós; traga, traga, Henrique. Mas quem são esses gentis-homens? São valentes, não são?

- Não sei, meu Senhor, se os meus gentis- homens valerão tanto como os de Vossa Majestade, os do Senhor Duque de Anjou, ou os do Sr. de Guisa, mas conheço-os, e sei que hão-de fazer o que puderem.

- E espera muitos?

- Mais dez ou doze.

- Como se chamam?

- Meu Senhor, não me lembro agora dos nomes, e, à excepção de um, que me é recomendado por Teligny como cavalheiro completo, e que se chama de La Mole, não posso dizer.

- De La Mole? não é um Lerac de La Mole?. - tornou o rei, muito versado na ciência genealógica. - Um provençal?

- Exactamente, meu Senhor; como vê, até recruto na Provença.

- E eu - disse o duque de Guisa, com um sorriso irónico - vou mais longe ainda do que Sua Majestade o Rei de Navarra, porque até vou buscar ao Piemonte todos os católicos seguros que posso encontrar.

- Católicos ou huguenotes - interrompeu o rei -, pouco me importa, contanto que sejam valentes.

O rei, para dizer estas palavras, que misturavam no seu espírito huguenotes e católicos, fizera uma cara tão indiferente que chegara a causar admiração ao próprio duque de Guisa.

- Vossa Majestade está falando dos nossos flamengos? - disse o almirante, a quem o rei havia alguns dias, concedera o favor de entrar na câmara sem ser anunciado, e que acabava de ouvir as últimas palavras de Sua Majestade.

- Ah! aqui está meu pai, o almirante! - exclamou Carlos IX, abrindo os braços. - Fala-se de guerra, de gentis-homens e valentes, e chega; o fman atrai o ferro; meu cunhado de Navarra e meu primo de Guisa esperam reforços para o seu exército. Era disso que estávamos falando.

- E esses reforços estão a chegar - disse o almirante.

- Teve noticias deles, Senhor? - perguntou o Bearnês.

- Sim, meu filho, e especialmente do Sr. de La Mole; estava ontem em Orleães, e chegará amanhã ou depois a Paris.

- Demónio! Então o Senhor Almirante é um feiticeiro, para saber assim o que se passa a trinta ou quarenta léguas de distância? Eu por mim desejaria saber com a mesma certeza o que se há-de passar, ou o que já se passou, defronte de Orleães!

Coligny ficou impassível a este tiro do duque de Guisa, que aludia evidentemente à morte de Francisco de Guisa, seu pai, morto defronte de Orleães por Poltrot de Méré, não sem suspeitar que o almirante houvesse aconselhado o crime.

- Senhor - acrescentou ele, com frieza e com dignidade -, sou feiticeiro todas as vezes que quero saber positivamente o que importa aos meus negócios ou aos do rei. O meu correio chegou de Orleães há uma hora e, graças à posta, andou trinta e duas léguas num dia. O Sr. de La Mole, que viaja a cavalo, anda só dez por dia, e só pode chegar a 24. Aqui está a magia toda.

- Bravo, meu pai, bem respondido! - disse Carlos IX. - Mostre a estes rapazes que foram o saber e a idade que lhe fizeram brancos a barba e os cabelos; eles que falem dos seus torneios e dos seus amores, e falemos nós das nossas guerras. Os bons conselhos é que fazem os bons reis, meu pai. Vamos, Senhores, tenho que conversar com o almirante.

Os dois rapazes saíram; o rei de Navarra primeiro, o duque de Guisa depois; mas à porta cada um tomou para o seu lado, depois de uma fria revrrência.

Coligny seguira-os com os olhos com certa inquietação, porque nunca via aproximar esses dois ódios bem arraigados sem temer que espirrasse alguma nova faísca. Carlos IX compreendeu o que se passava no seu espírito, acercou-se dele e, encostando o braço ao seu, disse-lhe:

- Não receie, meu pai, estou aqui para o manter em obediência e respeito. Sou verdadeiramente rei desde que minha mãe não é rainha, e ela não é rainha desde que Coligny é meu pai.

- Oh! Sire - disse o almirante -, a rainha Catarina.

- É uma enredadeira. Com ela não há paz possível. Estes católicos italianos são raivosos, e não sabem outra coisa senão exterminar. Eu, pelo contrário, não só quero pacificar, mas também quero dar força aos da Religião. Os outros são muito dissolutos, meu pai, e escandalizam-me com os seus amores e os seus desregramentos. Olha, queres que te fale com franqueza? - continuou Carlos IX, redobrando de expansão. - Desconfio de todos quantos me rodeiam, excepto dos meus novos amigos! A ambição de Tavannes é-me suspeita. Vieilleville não gosta senão de bom vinho, e seria capaz de atraiçoar o rei por um tonel de malvasia. Montmorency não pensa senão na caça, e passa o tempo no meio dos seus cães e dos seus falcões. O conde de Retz é espanhol, os Guisas, são lorenos. Não há verdadeiros franceses em França senão eu, Deus me perdoe! - senão eu, meu cunhado de Navarra e tu. Mas eu estou encadeado ao trono e não posso comandar os exércitos. O mais que me deixam fazer é caçar à vontade em São Germano e em Rambouillet. Meu cunhado de Navarra é muito novo e muito pouco experiente. E parece-me que tem muito de seu pai, António, que as mulheres perderam sempre. Não há senão tu, meu pai, que és a um tempo bravo como Júlio César e sábio como Platão. Por isso não sei o que hei-de fazer, na verdade: ter-te aqui para meu conselheiro, ou mandar-te para a guerra como general. Se me aconselhas, quem há-de comandar? Se comandas, quem me há-de aconselhar?

- Sire - disse Coligny -, é preciso primeiro vencer, e depois da vitória o conselho.

- É a tua opinião, meu pai?. Pois seja. Proceder-se-á conforme a tua opinião. Na segunda-feira partiremos, tu para a Flandres, e eu para Amboise.

- Vossa Majestade sai de Paris?

- Saio, porque estou farto de bulhas e de festas. Não sou homem de acção, sou um pensador. Não nasci para rei, nasci para poeta. Farás uma espécie de conselho, que governará enquanto estiveres em guerra; e, contanto que minha mãe não faça parte dele, tudo irá bem. Já mandei dizer a Ronsard que viesse ter comigo; e lá, ambos, longe da bulha, longe dos maus, à sombra dos bosques, à borda do rio, ao murmúrio dos regatos, falaremos das coisas de Deus, única compensação que há neste mundo para as coisas dos homens. Olha, fiz esta manhã uns versos, pelos quais o convido a vir ter comigo.

Coligny sorriu; Carlos IX passou a mão pela fronte amarela e polida como marfim, e com uma espécie de canto cadenciado recitou os versos.

- Bravo, Sire! bravo! - disse Coligny, quando o rei terminou. - Sei mais de coisas de guerra do que de poesia; mas parece-me que esses versos valem os melhores que Ronsard, Dorat e até o Sr. Miguel de L'Hospital, chanceler de França, possam fazer.

- Ah! meu pai - exclamou Carlos IX -, se isso fosse verdade!. porque, olha, o título de poeta é o que eu ambiciono acima de tudo; ainda há alguns dias eu o dizia ao meu mestre, também em verso.

- Sire - disse Coligny -, eu sabia que Vossa Majestade conversava com as Musas; mas ignorava que houvesse feito delas o seu principal conselho.

- Depois de ti, meu pai, depois de ti; e é para não ser perturbado nas minhas relações com elas, que eu quero pôr-te à frente de todas as coisas. Ouve: tenho de responder neste momento a um novo madrigal que o meu grande e querido poeta me enviou. não posso, pois, dar-te agora todos os papéis que são necessários para te pôr ao facto da importante questão que me espera de Filipe II. Há, aliás, uma espécie de plano de campanha que fora feito pelos meus ministros. Hei-de procurar tudo isso, e entregar-to-ei amanhã pela manhã.

- A que horas, Sire?

- Às dez horas; e se porventura eu estiver fazendo versos, encerrado no meu gabinete de trabalho. entra do mesmo modo, e pega em todos os papéis que achares em cima desta mesa, metidos dentro desta pasta encarnada; a cor é brilhante, e não te enganarás; vou escrever a Ronsard.

- Adeus, Sire.

- Adeus, meu pai.

- A sua mão.

- Que dizes! a minha mão? Nos meus braços, sobre o meu coração, é que é o teu lugar! Vem, meu velho guerreiro, vem!

E Carlos IX, puxando para si Coligny, que se curvou, chegou-lhe os lábios aos cabelos brancos. O almirante saiu, limpando uma lágrima.

Carlos IX seguiu-o com os olhos enquanto pôde vê-lo, apurou o ouvido enquanto pode ouvi-lo; e depois, quando não viu e não ouviu mais nada, deixou, como era seu costume, cair a cabeça pálida em cima do ombro, e passou vagarosamente da câmara em que estava para a sala de armas.

Era esse o gabinete preferido do rei; era aí que dava lições de esgrima com Pompeu, e lições de poesia com Ronsard. Tinha aí reunido uma grande colecção de armas ofensivas e defensivas das melhores que pudera encontrar. Por isso as paredes estavam todas cobertas de achas-de-armas escudos, lanças, alabardas, pistolas e mosquetes; e nesse mesmo dia um armeiro lhe levara um magnífico arcabuz, em cujo cano estava incrustada em prata uma quadra que o poeta real havia feito.

Carlos IX entrou, pois, como dissemos, nesse gabinete, e depois de haver fechado a porta principal, por onde entrara, foi erguer um reposteiro que mascarava uma porta que dava para um quarto, onde estava rezando uma mulher ajoelhada num genuflexório.

Como esse movimento se fizera lentamente, e os passos do rei, abafados pelo tapete, não ressoaram mais do que os de um fantasma, a mulher ajoelhada, que nada ouvira, não se voltou e continuou a rezar. Carlos conservou-se por um momento de pé, pensativo, e a contemplá-la.

Era uma mulher de trinta e quatro a trinta e cinco anos, cuja beleza vigorosa era realçada pelo trajo das camponesas dos arredores de Caux. Usava o toucado alto que foi tanto da moda da corte de França durante o reinado de Isabel de Baviera, e o seu colete encarnado era todo bordado de ouro, como ainda hoje os coletes das camponesas de Nepttuno e de Sora. O quarto que ocupava havia vinte anos, contíguo ao quarto de dormir do rei, oferecia um misto singular de elegância e rusticidade. O caso era que, em proporção quase igual, o palácio dera as suas cores à choupana, e a choupana as suas ao palácio. De modo que este quarto era um meio-termo entre a simplicidade da aldeã e o luxo da dama aristocrática. E tanto assim que o genuflexório em que ela estava ajoelhada era de carvalho maravilhosamente esculpido, e forrado de veludo com franjas de ouro; e a bíblia (porque essa mulher pertencia à religião reformada) a bíblia em que ela lia as suas orações, era um livro velho, meio rasgado, como os que se encontram nas casas mais pobres.

Tudo estava em proporção com o genuflexório e a bíblia.

- Madelon! - disse o rei.

A mulher ajoelhada levantou a cabeça, sorrindo a esta voz familiar; e depois, erguendo-se:

- Ah, és tu, meu filho! - disse ela.

- Sim, ama; anda cá.

Carlos IX deixou cair o reposteiro e foi recostar-se nos braços de uma poltronna. A ama levantou-se.

- Que me queres, Carlinhos? - disse ela.

- Anda cá, e responde em voz baixa.

A ama aproximou-se, com uma familiaridade que podia nascer da ternura maternal que a mulher sente pela criança que amamentou, mas a que os panfletos do tempo dão origem infinitamente menos pura.

- Aqui estou - disse -, fala.

- Já veio o homem que mandei chamar?

- Há meia hora.

Carlos levantou-se, chegou à janela, olhou se alguém estava espreitando, aproximou-se da porta, apurou o ouvido para se certificar de que ninguém estava a escutar, sacudiu o pó dos troféus de armas, fez festas a um galgo que lhe seguia todos os passos, parando quando o dono parava, continuando a andar quando o dono tornava a mover-se; e depois, voltando para a ama:

- Bem, manda-o entrar.

A boa mulher saiu pela mesma porta que lhe dera entrada, e o rei foi encostar-se a uma mesa em cima da qual se viam armas de toda a qualidade.

Mal se encostara, tornou a erguer-se o reposteiro, e entrou o indivíduo que o rei esperava. Era um homem dos seus quarenta anos, de olhos pardos e falsos, nariz recurvado como o bico de uma coruja, de faces salientes; o rosto tentou exprimir respeito, mas não pode dar senão um sorriso hipócrita nos lábios desbotados pelo medo.

Carlos deitou uma das mãos ao cabo de uma pistola que ficava por trás de si, e que desfechava com o auxílio de uma pedra preta em contacto com uma roda de aço, em lugar de desfechar com auxílio de uma mecha, e mirou com um olhar embaciado a personagem que acabámos de pôr em cena; durante este exame assobiava com uma certeza e até com uma melodia notável um dos seus cantos de caça favoritos.

Passados alguns segundos, durante os quais o rosto do recém-chegado se decompôs cada vez mais, disse-lhe o rei:

- É o senhor que se chama Francisco de Louviers-Maurevel?

- Sou eu mesmo.

- Comandante de petardeiros?

- Sim senhor.

- Quis vê-lo.

Maurevel curvou-se.

- Sabe - continuou Carlos, acentuando cada palavra - que eu amo do mesmo modo todos os meus súbditos?

- Sei - balbuciou Maurevel - que Vossa Majestade é o pai do seu povo.

- E que tanto são meus filhos os huguenotes como os católicos?

Maurevel ficou mudo; a tremura porém que lhe agitava o corpo tornou- se visível para o olhar penetrante do rei, embora aquele a quem dirigia a palavra estivesse quase escondido na sombra.

- Isto - continuou o rei - contraria-o ao senhor, que tamanha guerra tem feito aos huguenotes?

Maurevel caiu de joelhos.

- Sire - balbuciou -, pode crer.

- Creio - continuou Carlos IX, fitando em Maurevel um olhar que, de vidroso que era a princípio, se ia tornando quase chamejante - que boa vontade tinha de matar em Moncontour o Senhor Almirante que saiu daqui; creio que lhe falhou o golpe, e que então passou para o exército do duque de Anjou, nosso irmão; enfim, creio que passou segunda vez para os príncipes, e que tomou serviço aí na companhia do Sr. de Mouy de Saint- Phale.

- Oh! Sire!.

- Um bravo fidalgo picardo.

- Sire, Sire - exclamou Maurevel -, não me martirize!

- Era um digno oficial - continuou Carlos IX, e, à proporção que falava, desenhava-se-lh no rosto uma expressão de crueldade quase feroz -, era um digno oficial, que o acolheu como filho, o vestiu, e o sustentou.

Maurevel soltou um suspiro de desespero.

- O senhor chamava-lhe pai, creio eu - continuou o rei, sem compaixão -, e ligava-o terna amizade ao jovem de Mouy, seu filho.

Maurevel, sempre de joelhos, curvava-se cada vez mais, esmagado pela palavra de Carlos IX de pé, impassível e semelhante a uma estátua de que só os lábios tivessem vida.

- A propósito - continuou o rei -, não eram dez mil escudos que havia de receber do Sr. de Guisa no caso de matar o almirante?.

O assassino, consternado, batia com a fronte no chão.

- No que respeita ao Sr. de Mouy, seu bom pai, o senhor acompanhava-o um dia a un reconhecimento que ele ia fazer a Chevreux. De Mouy deixou cair o chicote e apeou-se para o apanhar. O senhor, que ia só com ele, tirou então uma pistola dos coldres e, enquanto de Moú se curvou, meteu-lhe uma bala nos rins; depois, vendo-o morto (porque o matou com o tiro) fugiu no cavalo que ele lhe tinha dado. Foi assim, não foi?

E como Maurevel permanecia mudo a esta acusação, cujos pormenores eram verdadeiros, Carlos IX tornou a assobiar com a mesma certeza e a mesma melodia o mesmo canto de caça.

- Olhe lá, seu assassino - disse ele, passado um instante -, saiba que tenho desejos de o mandar enforcar!

- Oh! Majestade!. - exclamou Maurevel.

- Ainda ontem mo pediu o jovem de Mouy, e na verdade eu não sabia o que lhe havia de responder, porque o pedido era justíssimo.

Maurevel pôs as mãos.

- E tanto mais justo que, como o senhor há pouco dizia, sou o pai do meu povo e, como eu Lhe respondi, agora que fiz as pazes com os huguenotes, eles são tanto meus filhos como os católicos.

- Sire - disse Maurevel, completamente desanimado -, a minha vida está nas mãos de Vossa Majestade; faça dela o que quiser.

- Tem razão, e eu não daria por ela um real.

- Mas, Sire - perguntou o assassino -, não há meio de resgatar o meu crime?

- Não sei que haja. Entretanto, se eu estivesse no seu lugar (que não estou, graças a Deus! ).

- Se estivesse no meu lugar, Sire. - murmurou Maurevel, com o olhar suspenso dos lá bios de Carlos.

- Creio que havia de escapar - continuou o rei.

Maurevel levantou-se sobre um joelho e uma das mãos, fitando os olhos em Carlos para se assegurar de que não estava zombando.

- Estimo muito o jovem de Mouy, sem dúvida - continuou o rei -, mas estimo tambén muito meu primo de Guisa; e se ele me pedisse a vida de um homem de que o outro me pediss a morte, confesso que me havia de ver muito embaraçado. Mas, em boa política como em boa religião, devia fazer o que me pedisse o meu primo de Guisa, porque de Mouy, embora seja va lente capitão, está muito abaixo em comparação com um príncipe da Lorena.

Durante estas palavras, Maurevel ia-se erguendo vagarosamente e como um homem que voltava à vida.

- Ora o que lhe convinha, portanto, na situação extrema em que está, era conquistar as boas-graças de meu primo de Guisa. E. a propósito, lembro-me de uma coisa que ele ontem me contou.

Maurevel deu um passo para o rei.

- Imagine, Sire - disse-me ele -, que todas as manhãs, às dez horas, passa na Rua de S. Germano L'Auxerrois, voltando do Louvre, o meu inimigo mortal; vejo-o de uma janela de grades do rés-do-chão; é a janela da casa do meu antigo preceptor Pedro Piles. Vejo pois passar todos os dias o meu inimigo, e todos os dias peço ao Diabo que o leve para as entranhas da terra. Que lhe parece, mestre Maurevel? - continuou Carlos. - Se fosse o Diabo, ou se ao menos por um instante tomasse o lugar dele, isso não daria gosto a meu primo de Guisa?

Maurevel recuperou o seu infernal sorriso e os lábios, desbotados ainda pelo terror, deixaram-lhe cair estas palavras:

- Mas, Sire, eu não tenho o poder de abrir a terra.

- Abriu-a contudo, se bem me lembro, ao bravo de Mouy. Dir-me-á que foi com uma pistola. Já não tem essa pistola?.

- Há-de perdoar, Sire - replicou o bandido, quase sossegado -, atiro ainda melhor ao arcabuz do que à pistola.

- Oh! - disse Carlos IX - pistola ou arcabuz pouco importa, e tenho a certeza de que meu primo de Guisa não questionará acerca da escolha do meio.

- Mas - disse Maurevel - precisaria de uma arma em que pudesse confiar, porque talvez fosse necessário atirar de longe.

- Tenho dez arcabuzes neste quarto - replicou Carlos IX -, com os quais acerto num escudo de ouro a cinquenta passos; quer experimentar um?

- Oh! Sire, com muito gosto! - exclamou Maurevel, avançando para o que estava a um canto, e que nesse mesmo dia tinham levado a Carlos IX.

- Esse não - disse o rei -, esse não; reservo-o para mim. Hei-de ir um dia destes a uma caçada, onde espero servir-me dele. Mas outro à sua escolha.

Maurevel desprendeu de um troféu um arcabuz.

- E quem é esse inimigo, Sire? - perguntou o assassino.

- Eu sei lá! - respondeu Carlos IX, esmagando o miserável com o seu olhar de desprezo.

- Eu perguntarei ao Sr. de Guisa.

O rei encolheu os ombros.

- Não pergunte - disse -, o Sr. de Guisa não lhe responderá. Responde-se porventura a perguntas dessas? Devem adivinhar os que não querem ser enforcados.

- Mas porque o hei-de reconhecer?

- Disse-lhe que todas as manhãs, às dez horas, passava defronte da janela do cónego.

- Mas passa muita gente defronte dessa janela! Digne-se Vossa Majestade indicar-me qualquer sinal.

- Oh! é muito fácil. Amanhã, por exemplo, levará debaixo do braço uma pasta de marroquim encarnado.

- Basta, Sire.

- Ainda tem o cavalo que lhe deu o Sr. de Mouy, e que corre tanto?

- Sire, tenho um da Berberia, que é dos mais velozes.

- Oh! não me dá cuidado o senhor! Mas é bom que saiba que o convento tem uma porta para trás.

- Muito obrigado, Sire. Agora peça a Deus por mim.

- Oh! com mil demónios! Peça antes ao Diabo, porque não é senão pela sua protecção que pode escapar à corda.

- Adeus, Sire.

- Adeus. Ah! a propósito, Sr. de Maurevel: saiba que, de qualquer modo, se ouvir falar no senhor amanhã antes das dez horas da manhã, ou se não se ouvir falar depois, há um calabouço com alçapão no Louvre.

E Carlos IX tornou a assobiar tranquilamente, e mais afinada do que nunca, a sua ária favorita.

 

               A TARDE DE 24 DE AGOSTO DE 1572

No capítulo precedente, como o leitor decerto se recorda, falámos de um gentil-homem chamado La Mole, esperado com alguma impaciência por Henrique de Navarra. Este gentil-homem, como o almirante o anunciara, entrava em Paris pela Porta de São Marcelo, à boca da noite de 24 de Agosto de 1572, e, deitando o seu olhar bastante desdenhoso para as numerosas hospedarias que ostentavam à direita e à esquerda as suas pitorescas tabuletas, deixou entrar o cavalo ofegante no centro da cidade, onde, depois de ter atravessado a Praça Maubert, o Petit-Pont, a Ponte de Nossa Senhora e seguido ao longo dos cais, parou no extremo da Rua de Bresec, de que se fez depois a Rua da Árvore Seca, e a que, para maior facilidade dos leitores, conservaremos o nome moderno.

Agradou-lhe decerto o nome, porque entrou ali, e como à esquerda lhe chamava a atenção uma placa de folha rangendo no varão que a sustinha, com acompanhamento de campainhas, parou segunda vez para ler estas palavras: A Estrela Brilhante escritas como legenda por baixo de uma pintura que representava o simulacro mais lisonjeiro para um viajante esfomeado: era uma ave rutilante no meio de um céu negro, e um homem de capote encarnado estendia para esse astro de nova espécie os braços, a bolsa e os desejos.

Eis - disse consigo o fidalgo - uma estalagem que se anuncia bem, e o estalajadeiro deve ser, por minha alma, um pândego divertido. Sempre ouvi dizer que a Rua da Árvore Seca era no Bairro do Louvre: e embora o estabelecimento não corresponda à tabuleta, fico aqui maravilhosamente.

Enquanto o recém-chegado se dava a este monólogo, outro cavaleiro, que entrara pelo outro extremo da rua, isto é, pela Rua de Santo Honorato, parava e ficava em êxtase diante da tabuleta da Estrela Brilhante.

Dos dois, o que conhecemos, pelo menos de nome, montava um cavalo branco de raça espanhola, e vestia um gibão preto enfeitado de vidrilhos. O capote era de veludo violeta escuro; usava botas de couro preto, espada de punho de ferro cinzelado, e um punhal dessa mesma qua lidade. E se passarmos do vestuário ao semblante, diremos que era um homem dos seus vinte e quatro a vinte e cinco anos, cor acobreada, olhos azuis, bigode fino, dentes brilhantes, que parecia que lhe iluminavam a cara, quando, para sorrir, com um sorriso meigo e melancólico, abria uma boca de forma singular e da maior distinção.

Quanto ao segundo viajante, formava com o primeiro um completo contraste. Sob o chapéu de abas reviradas apareciam, bastos e ondeados, cabelos mais ruivos do que louros, e, debaixo dos cabelos, brilhavam-lhe, à mais pequena contrariedade, uns olhos pardos com fogo tão resplandecente que se diriam pretos. O resto da cara compunha-se de uma tez rosada, beiços finos, bigode ruivo e dentes admiráveis. Era, em suma, com a pele branca, a estatura alta e os ombros largos, um gentil cavaleiro na acepção vulgar da palavra, e durante uma hora, em que andara com o nariz levantado para todas as janelas, a pretexto de procurar tabuletas, as mulheres tinham olhado muito para ele; os homens, que teriam bastante vontade de rir ao ver-lhe o capote sem roda, as calças esticadas e as botas de feitio antigo, acabavam esse riso, começando por um Guarde-o Deus! dos mais graciosos, ao examinarem essa fisionomia que num minuto tomava dez expressões diferentes, salva todavia a expressão benévola que caracteriza sempre o semblante de um provinciano embaraçado.

Foi ele quem se dirigiu primeiro ao outro cavaleiro que, como dissemos, olhava para a estalagem Estrela Brilhante.

- Sabe dizer-me, Senhor - disse ele com a horrível pronúncia de montanhês que à primeira palavra faria reconhecer um piemontês no meio de cem estrangeiros -, se estamos aqui perto do Louvre? Em todo o caso, creio que o senhor teve o mesmo gosto que eu: é muito lisonjeiro para mim.

- Senhor - respondeu o outro com uma pronúncia provençal que não ficava atrás da inflexão piemontesa do seu interlocutor -, creio, com efeito, que esta hospedaria fica perto do Louvre. Entretanto, ainda pergunto a mim mesmo se terei a honra de ser da sua opinião. Estou-me consultando.

- Então não está ainda resolvido? Mas a casa tem boa aparência. E daí, pode ser que eu me deixasse tentar pela sua presença. Mas há-de confessar que aquela pintura é linda.

- É verdade; mas é exactamente isso o que me faz duvidar da realidade. Disseram-me que Paris está cheia de trapaceiros, e trapaceia-se com uma tabuleta tão bem como com outra coisa.

- Pouco cuidado me dão a mim as trapaças - tornou o piemontês - porque se o dono da hospedaria me fornece uma ave menos bem assada do que a da tabuleta, ponho-a eu mesmo no espeto e não a largo sem estar convenientemente acerejada. Entremos, entremos.

- O senhor acaba de me decidir - disse o provençal rindo. - Queira entrar primeiro.

- Oh, Senhor! por minha alma isso não faço eu, porque não sou senão um humilde criado: o conde Aníbal de Cocunás.

- E eu não sou senão o conde José Jacinto Bonifácio de Lerac de La Mole, um seu criado.

- Nesse caso, dêmos o braço e entremos juntos.

O resultado desta proposta conciliadora foi que os dois jovens, que se apearam dos cavalos, entregaram as rédeas a um moço de cocheira, deram o braço um ao outro e, segurando as espadas, dirigiram-se para a porta da hospedaria, a cujo limiar estava o dono da casa. Mas, contra o costume desta gente, o digno proprietário pareceu que não lhes dava a mais pequena atenção, por estar entretido a falar com um sujeito magro e amarelo, embrulhado num capote cor de castanha como um mocho nas penas.

Os dois fidalgos tinham-se chegado tanto ao pé do dono da casa e do sujeito do capote cor de castanha com quem conversava, que Cocunás, impacientado pela pouca importância que lhe davam a ele e ao seu companheiro, puxou pela manga do estalajadeiro. Este pareceu acordar então sobressaltado, e despediu o seu interlocutor com um Até mais ver. Venha logo, e saiba-me as horas.

- Ó seu patife! - disse Cocunás - não vê que temos que falar com você!

- Ah! os senhores queiram ter a bondade de desculpar - disse o estalajadeiro -, não os via.

- Oh! coa fortuna! devia ver-nos; e agora, que nos viu, em vez de dizer simplesmente Senhor diga, Senhor Conde, se faz favor.

La Mole ficara para trás, deixando falar Cocunás, que parecia que tomara este negócio a si. Mas era fácil de ver, pelas sobrancelhas carregadas, que estava pronto para o auxiliar quando fosse preciso.

- Então que deseja, Senhor Conde? - perguntou o estalajadeiro com a maior serenidade.

- Bem, já é melhor. não é?. - disse Cocunás, voltando-se para La Mole que fez um sinal afirmativo com a cabeça. - O Senhor Conde e eu, atraídos pela bela pintura da sua tabuleta, desejamos cear e dormir em sua casa.

- Meus Senhores - disse o estalajadeiro -, tenho muita pena, mas há só um quarto, e receio que não lhes convenha.

- Melhor! - disse La Mole - iremos ficar a outra parte.

- Não, não - disse Cocunás. - Eu fico; o meu cavalo está estafado. Tomo pois o quarto, uma vez que o Senhor Conde não o quer.

- Ah! isso é outra coisa - respondeu o estalajadeiro, conservando sempre a mesma fleuma impertinente. - Se é só um, não posso alojá-lo.

- Ora essa! - exclamou Cocunás - tem sua graça, o animal; ainda há pouco éramos muitos, e agora não basta um! Então não queres dar-nos quartel, traste!

- Para os senhores não fazerem maus juízos, não tenho remédio senão responder-lhes com franqueza.

- Pois responde, mas avia-te.

- Eu prefiro não ter a honra de os alojar.

- Porquê? - perguntou Cocunás, cheio de ira.

- Porque os senhores não trazem criados, e assim ficar-me-iam vagos dois quartos. Ora, se lhes dou os quartos que lhes são próprios, arrisco-me muito a não alugar os outros.

- Sr. de La Mole - disse Cocunás voltando-se -, não lhe parece que devemos desancar este patife...

- Não acho mau - disse La Mole, preparando-se, como o seu companheiro, para saltar às chicotadas no estalajadeiro.

Mas, apesar desta dupla demonstração, que nada tinha de animadora da parte dos dois fidalgos, que pareciam tão resolutos, o estalajadeiro não se assustou e, contentando-se com recuar um passo, para se meter em casa, disse motejando:

- Vê-se que os senhores chegam da província. Em Paris passou a moda de desancar os estalajadeiros que recusam alugar quartos. Os fidalgos é que são desancados e não os burgueses; e se gritam muito vou chamar os meus vizinhos, de modo que serão os senhores os espancados, tratamento muito indigno de dois fidalgos.

- Mas está zombando connosco - exclamou Cocunás exasperado -, coa breca!

- Gregório, dá cá o meu arcabuz! - disse o estalajadeiro, dirigindo-se ao criado com os modos com que lhe diria: Traz cadeiras para estes senhores.

- Com todos os demónios! - bradou Cocunás, desembainhando a espada - mas. aqueça, Sr. de La Mole!

- Nessa não caio eu, porque enquanto nós aquecermos, esfriará a ceia.

- Pois quê! acha. - exclamou Cocunás.

-Acho que o dono da casa A Estrela Brilhante tem razão; mas trata mal os viajantes, principalmente se são fidalgos. Em vez de nos dizer brutalmente: Meus Senhores, não os quero cá, faria melhor se dissesse com polidez: Entrem, meus Senhores, podendo pôr depois na conta: quarto de amo, tanto; quarto de criados tanto; uma vez que, se nós não temos criados, tencionamos tomá-los.

Dizendo estas palavras, La Mole empurrou suavemente o estalajadeiro, que já deitava a mão ao arcabuz, fez passar Cocunás e entrou atrás dele.

- Não importa - disse Cocunás -, custa-me meter a espada na bainha antes de me assegurar de que morde como as lardeadeiras deste patife.

- Paciência, meu querido companheiro - disse La Mole -, paciência! Todas as estalagens estão cheias de fidalgos atraídos a Paris pelas festas do casamento ou pela próxima guerra da Flandres; não acharíamos outro alojamento; e talvez seja costume em Paris receber assim os estranhos que chegam.

- Coa breca! como o senhor é paciente! - murmurou Cocunás, torcendo de raiva o bigode ruivo e fulminando o estalajadeiro com os seus olhares. - Mas que o maroto tome cuidado consigo, se a comida for má, e a cama dura, se o vinho não tiver três anos de engarrafado, se o criado não vergar como junco.

- Ora, ora, meu fidalgo - disse o estalajadeiro, afiando numa pedra a faca que trazia à cinta - pode estar descansado, aqui não falta nada.

Depois, em voz baixa, e meneando a cabeça, murmurou:

É algum huguenote, certamente; os trastes estão tão insolentes depois do casamento do seu Bearnês com a princesa Margot!.

E com um sorriso que faria tremer os seus hóspedes se eles o vissem, acrescentou:      Oh! oh! tinha sua graça que viessem cá ter huguenotes. e que.

- Então vem ou não vem a ceia! - perguntou asperamente Cocunás, interrompendo os apartes do estalajadeiro.

- Como lhe aprouver, Senhor Conde - respondeu ele, abrandado decerto pelo último pensamento que lhe ocorrera.

- Pois apraz-nos, e que seja depressa - respondeu Cocunás.

Depois, voltando-se para La Mole, disse:

- Enquanto nos arranjam o quarto, diga-me, Senhor Conde: achou porventura Paris uma cidade alegre?

- Palavra que não - disse La Mole -, parece que não vi aqui ainda senão caras assustadas ou desabridas. Talvez os Parisienses tenham medo da trovoada. Veja como o céu está carrancudo e como o ar está pesado.

- Diga-me, conde, o senhor vai ao Louvre, não vai?

- Vou, sim; mas creio que o Sr. Cocunás também quer lá ir.

- Pois, se quiser, iremos daqui juntos.

- Qual! - disse La Mole - pois não é tarde para sairmos?.

- Tarde ou não, preciso sair. As ordens que recebi foram terminantes. Chegar o mais depressa possível a Paris e, mal chegasse, ir ter com o duque de Guisa.

Ao nome do duque de Guisa, o estalajadeiro aproximou-se muito atento.

- Parece-me que este tratante está à escuta do que nós dizemos - disse Cocunás, que na sua qualidade de piemontês era muito iracundo e não podia perdoar ao dono da Estrela Brilhante o modo pouco civil por que recebia os viajantes.

- Sim senhor, estou a escutá-los - disse ele, levando a mão ao barrete -, mas é para os servir. Ouço falar do grande duque de Guisa, e corro. Em que posso servi-los, meus fidalgos?

- Ah! ah! o nome é mágico ao que parece, porque, de insolente que eras, tornaste-te obsequiador. Diz lá, mestre. mestre. como te chamas tu?

- La Hurière - respondeu o estalajadeiro, curvando-se.

- Pois, mestre La Hurière, crês que o meu braço seja menos pesado do que o do Sr. de Guisa, que tem o privilégio de te tornar tão polido?

- Não, Senhor Conde, mas é menos comprido - replicou La Hurière. - Demaisacrescentou -, é preciso dizer-lhe que esse grande Henrique é o ídolo dos Parisienses.

- Qual Henrique? - perguntou La Mole.

- Parece-me que não há senão um - disse o estalajadeiro.

- Hás-de perdoar, amiguinho, mas há outro, de quem te convido a não dizer mal: é Henrique de Navarra. Sem falar em Henrique de Condé, que também tem merecimento.

- Esses não conheço - respondeu o estalajadeiro.

- Pois sim, mas conheço-os eu - disse La Mole -, e como quem cá me traz é Henrique de Navarra, convido-te a não dizer mal dele na minha presença.

O estalajadeiro, sem responder ao Sr. de La Mole, contentou-se com tocar ao de leve no barrete, e continuando a dirigir olhos meigos para Cocunás, disse:

- Então o senhor vai falar ao grande duque de Guisa? O senhor é um fidalgo muito feliz, e vem decerto para.

- Para quê? - perguntou Cocunás.

- Para a festa - respondeu o estalajadeiro, com um singular sorriso.

- Deverias dizer, para as festas, porque Paris trasborda de festas, segundo tenho ouvido; pelo menos não se fala senão em bailes, banquetes, cavalhadas. Então não se diverte a gente muito em Paris?

- Ora! moderadamente, pelo menos até agora, Senhor Conde - respondeu o estalajadeiro

-, mas é de esperar que haja muitos divertimentos.

- As bodas de Sua Majestade o Rei de Navarra atraem muita gente a esta cidade - disse La Mole.

- Muitos huguenotes, sim senhor - respondeu arrebatadamente La Hurière. E depois, contendo-se:

- Ah! desculpem - disse -, os senhores são talvez da religião.

- Eu, da religião? - exclamou Cocunás. - Qual história! Sou católico como o nosso Santo padre o Papa.

La Hurière voltou-se para La Mole como para o interrogar; mas ou La Mole não lhe compreendeu o olhar, ou não julgou a propósito responder- lhe senão com uma pergunta.

- Se não conhece Sua Majestade o Rei de Navarra, mestre La Hurière - disse -, talvez conheça o Senhor Almirante. Ouvi dizer que o Senhor Almirante estava nas boas-graças da corte e, como lhe venho recomendado, desejava saber onde ele mora.

- Morava na Rua de Béthisy aqui à direita - respondeu o estalajadeiro com uma satisfação íntima que não pôde ocultar.

- Morava? - perguntou La Mole - então mudou?

- Sim, deste mundo, talvez.

- Que dizes! - exclamaram a um tempo os dois fidalgos. - O almirante mudou-se deste mundo?

- Pois quê! o Sr. de Cocunás - prosseguiu o estalajadeiro, com um sorriso maligno - é do partido do duque de Guisa e ignora isso?

- Isso? o quê?

- Que anteontem, ao passar pela Praça de S. Germano L'Auxerrois, defronte da casa do cónego Pedro Piles, o almirante recebeu um tiro de arcabuz?

- E morreu? - exclamou La Mole.

- Nada; o tiro partiu-lhe o braço e cortou-lhe dois dedos, mas espera-se que as balas estivessem envenenadas.

- Como, miserável! - exclamou La Mole. - Espera-se?

- Quero dizer. julga-se - replicou o estalajadeiro. - Não nos zanguemos por causa duma palavra; equivoquei-me.

E mestre La Hurière, voltando as costas a La Mole, deitou a língua de fora a Cocunás do modo mais chocarreiro, acompanhando este gesto com um piscar de olhos de quem se entendia.

- Mas isso é verdade? - disse Cocunás, radiante.

- É verdade? - murmurou La Mole, com estupefacção dolorosa.

- É como tenho a honra de lhes dizer, meus Senhores - respondeu o estalajadeiro.

- Nesse caso - disse La Mole -, vou ao Louvre sem perda de um momento. Encontrarei o rei Henrique?

- É possível, porque mora lá.

- E eu vou também ao Louvre - disse Cocunás. - Encontrarei lá o duque de Guisa?

- É provável, porque o vi passar há um instante com duzentos gentis-homens.

- Então venha, Sr. de Cocunás - disse La Mole.

- Acompanho-o, Senhor Conde - disse Cocunás.

- Mas a vossa ceia, meus fidalgos? - perguntou mestre La Hurière.

- Ah! - disse La Mole - talvez eu ceie com o rei de Navarra.

- E eu, com o duque de Guisa - disse Cocunás.

E eu - disse o estalajadeiro, depois de ter seguido com os olhos os dois fidalgos, que tomaram o caminho do Louvre - vou limpar a celada, carregar o meu arcabuz e afar a minha partasana. Não se sabe o que sucederá.

 

           DO LOUVRE, EM PARTICULAR, E DA VIRTUDE EM GERAL

Os dois fidalgos, ensinados pela primeira pessoa que encontraram, tomaram pela Rua de Averon, Rua de S. Germano L'Auxerrois, e acharam-se em breve defronte do Louvre, cujas torres começavam a confundir-se com as primeiras sombras da noite.

- Que tem? - perguntou Cocunás a La Mole, que, parando à vista do velho palácio, olhava com certo espanto para as pontes levadiças, para as janelas estreitas e coruchéus agudos que de repente se lhe apresentaram aos olhos.

- Palavra que não sei - disse La Mole -, bate-me o coração. Não sou excessivamente tímido, mas, não sei porquê, este palácio parece-me sombrio. e direi mais: terrível.

- Pois eu - disse Cocunás - não sei o que isto é, mas sinto-me com uma alegria desusada. O meu trajo está um tanto enxovalhado - continuou ele, percorrendo com os olhos o seu fato de viagem -, mas a aparência é de fidalgo. Depois, as ordens que recebi recomendam-me presteza. Sem dúvida hei-de ser bem recebido, porque obedeci com rigorosa pontualidade.

E os dois mancebos continuaram o seu caminho, agitados cada um pelo sentimento que haviam experimentado.

O Louvre estava bem guardado; todos os postos pareciam dobrados. Os nossos viajantes viram-se a princípio muito embaraçados. Mas Cocunás, que havia notado que o nome do duque de Guisa era uma espécie de talismã para os Parisienses, aproximou-se de uma sentinela e, servindo-se      desse nome omnipotente, perguntou se, por mercê dele, poderia entrar no Louvre. O nome pareceu que produzia o efeito desejado; entretanto, o soldado perguntou se tinha a senha e Cocunás foi obrigado a confessar que não.

- Então faça-se ao largo, meu fidalgo! - disse o soldado.

Nesse momento, um homem que conversava com o oficial do posto, e que ouvira a Cocunás reclamar a sua admissão no Louvre, interrompeu a conversação e perguntou-lhe:

- Que quer ao Sr. de Guisa?

- Quero falar-lhe - respondeu Cocunás, sorrindo.

- É impossível! está agora com o rei.

- Mas eu recebi uma carta de aviso para me apresentar em Paris.

- Ah, recebeu uma carta de aviso?

- Sim senhor; chego de muito longe.

- Ah, chega de muito longe?

- Chego do Piemonte.

- Bem! bem! isso é outra coisa. O Sr. chama-se.

- Conde Aníbal de Cocunás.

- Bom! bom! Dê cá a carta, Sr. Aníbal, dê cá.

Ora aqui está o que é um homem obsequiador - disse La Mole falando com os seus bo tões - não poderei eu achar outro assim para me apresentar ao rei de Navarra?

- Mas dê-me a carta - continuou o interlocutor de Cocunás, que era um fidalgo alemão, estendendo a mão para Cocunás, que hesitava.

- Ora essa! - replicou o piemontês, desconfiado - não sei se deva. Não tenho a honra de conhecer o senhor.

- Sou Pesme, pertenço à casa do Senhor Duque de Guisa.

- Pesme. - murmurou Cocunás - não conheço esse nome.

- É o Sr. de Besme, meu fidalgo - disse a sentinela. - A pronúncia enganou-o. Pode dar-lhe a carta, que eu me responsabilizo.

- Ah! é o Sr. de Besme - exclamou Cocunás -, tenho ouvido falar muito no seu nome! Aqui tem a carta, com muito gosto. Desculpe-me a hesitação. Mas deve-se hesitar, quando se quer ser leal, não acha?

- Bem, bem - disse de Besme -, não tem de que pedir desculpa.

- Como o senhor é tão obsequiador - disse La Mole, aproximando-se também -, quereria ter a bondade de se encarregar da minha carta, como acaba de o fazer com respeito à do meu companheiro?

- Como se chama?

- Conde Lerac de La Mole.

- Conde Lerac de La Mole?

- Sim senhor.

- Não conheço.

- Não admira que não conheça, porque sou de fora e, como o conde de Cocunás, acabo de chegar de muito longe.

- E donde chega?

- Da provença.

- Com uma carta?

- Com uma carta.

- Para o Sr. de Guisa?

- Não senhor, para Sua Majestade o Rei de Navarra.

- Eu não sou da casa do rei de Navarra - respondeu de Besme com uma frieza súbita - e portanto não posso encarregar- me da sua carta.

E Besme, voltando as costas a La Mole, entrou no Louvre, fazendo aceno a Cocunás para que o seguisse.

La Mole ficou só.

Naquele momento, pela porta do Louvre paralela à que dera passagem a Besme e a Cocunás, saiu um grupo de uns cem cavaleiros.

- Ah! - disse a sentinela para o seu camarada - é de Mouy e os seus huguenotes, vão radiantes. Talvez o rei lhes prometesse a morte do assassino do almirante; e como foi também ele que matou o pai de Mouy, o filho, de uma cajadada, dará cabo de dois coelhos.

- Há-de desculpar - interrogou La Mole, dirigindo-se ao soldado -, não disse que aquele oficial era o Sr. de Mouy?

- Disse, meu fidalgo.

- E os que o acompanhavam eram.

- Eram parpalhotes. Disse.

- Obrigado - agradeceu La Mole, sem parecer fazer caso do termo de desprezo empregado pela sentinela. - Era o que eu queria saber.

E dirigindo-se imediatamente ao chefe dos cavaleiros, disse:

- Acabo de saber que é o Sr. de Mouy.

- Sim senhor - respondeu o oficial com polidez.

- O seu nome, muito conhecido entre os da religião, anima-me a pedir- lhe um favor.

- Que é? Mas primeiro. a quem tenho a honra de falar?

- Ao conde Lerac de La Mole.

Os dois mancebos cumprimentaram-se.

- Queira dizer, Senhor Conde - disse de Mouy.

- Acabo de chegar de Aix, e sou portador de uma carta do Sr. Auriac, governador da Provença. Esta carta é para o rei de Navarra, e traz notícias importantes e urgentes. Como poderei entregar-lha? Como poderei entrar no Louvre?

- Nada mais fácil do que entrar no Louvre, Senhor Conde - replicou de Mouy -, o pior é que o rei de Navarra está agora muito ocupado, e provavelmente não pode recebê-lo. Mas não importa; se quer seguir-me, eu o conduzo aos seus aposentos. O resto é lá com o senhor.

- Mil vezes obrigado!

- Venha, Senhor Conde - disse de Mouy.

De Mouy apeou-se do cavalo, atirou com a rédea às mãos do criado, caminhou para a porta, fez-se reconhecer pela sentinela e, abrindo a porta do quarto do rei, disse a La Mole:

- Queira entrar, e informe-se.

E cumprimentando La Mole, retirou-se.

La Mole, ficando só, olhou em redor de si. Não estava ninguém na antecâmara, e uma das portas interiores estava aberta. Deu alguns passos, e achou-se no corredor.

Bateu, chamou, e ninguém lhe respondeu. Reinava o mais profundo silêncio nesta parte do Louvre.

E falavam-me de uma etiqueta muito severa. Entra a gente e sai deste palácio como se fosse uma praça pública!

E tornou a chamar, mas sem obter melhor resultado do que da primeira vez.     Deixa-me lá andar para diante: hei-de chegar a encontrar alguém.

E meteu-se por um corredor escuro.

De repente, abriu-se a porta oposta àquela por onde entrara, e apareceram dois pajens, com tochas, alumiando uma mulher de figura imponente, porte majestoso, e mais que tudo de uma beleza admirável.

A luz deu em cheio em La Mole, que ficou imóvel.

A mulher parou, como La Mole tinha parado.

- Que quer o senhor? - perguntou ela ao mancebo com uma voz que lhe soou aos ouvidos como uma música deliciosa.

- Oh! minha Senhora - disse la Mole, baixando os olhos -, peço-lhe que me desculpe. Estive agora com o Sr. de Mouy, que me fez o obséquio de me conduzir até aqui; eu procurava o rei de Navarra.

- Sua Majestade não está aqui; creio que está no quarto do cunhado. Mas, na sua ausência, não poderia dizer à rainha?

- Sim, decerto, minha Senhora - replicou La Mole -, se alguém se dignasse apresentar-me.

- Está na presença dela.

- Pois quê! - exclamou La Mole.

- Eu sou a rainha de Navarra - disse Margarida.

La Mole fez um movimento tão arrebatado de admiração e susto que a rainha sorriu.

- Diga depressa, Senhor - disse ela -, porque me esperam no quarto da rainha-mãe.

- Oh! minha Senhora, se a esperam com tanta pressa, permita-me que me afaste, porque me seria impossível falar-lhe neste momento. Estou incapaz de juntar duas ideias; a sua vista deslum brou-me. Já não penso, admiro.

Margarida avançou cheia de graça e de beleza para o mancebo que, sem o saber, acabava de proceder como requintado cortesão.

- Torne a si - disse ela. - Esperarei, e esperar-me-ão.

- Oh! perdoe-me, minha Senhora, se não cumprimentei logo Vossa Majestade com todo o respeito que tem direito a esperar de um dos seus mais humildes servos, mas.

- Mas - continuou Margarida - pensou que eu era uma das minhas damas.

- Não, minha Senhora, mas a sombra da bela Diana de Poitiers. Disseram-me que aparecia no Louvre.

- Vamos - disse Margarida -, o senhor já me não dá cuidados; há-de fazer fortuna na corte. Não me disse que trazia uma carta para o rei? Não era necessário. Mas não importa; onde está ela? Entregar-lha-ei. O que lhe peço é que se não demore.

Num abrir e fechar de olhos, abriu La Mole as agulhetas do gibão e tirou do peito uma carta encerrada num invólucro de seda.

Margarida pegou na carta e olhou para a letra.

- Não é o Sr. de La Mole? - perguntou ela.

- Sim, minha Senhora. Oh! meu Deus! teria a ventura de ser conhecido de Vossa Majestade o meu nome?

- Ouvi-o pronunciar ao rei meu marido, e a meu irmão o duque de Alençon. Sei que o senhor é esperado.

E meteu no corpete todo bordado e cheio de diamantes a carta que saíra do gibão do mancebo, e que ainda estava quente do calor do peito dele.

La Mole seguia avidamente com os olhos todos os movimentos de Margarida.

- Agora - disse-lhe ela - desça à galeria de baixo, e espere até que lá vá alguém da parte do rei de Navarra ou do duque de Alençon. Conduzi-lo-á um dos meus pajens.

A estas palavras, Margarida continuou o seu caminho. La Mole perfilou-se de encontro à parede. Mas a passagem era estreita, e o donaire da rainha de Navarra era tamanho, que a saia de seda roçou pelo fato do mancebo, ficando um aroma activo por onde ela passava.

La Mole estremeceu todo e, vendo que ia cair, encostou-se à parede. Margarida desapareceu como uma visão.

- Queira seguir-me - disse o pajem encarregado de conduzir La Mole à galeria de baixo.

- Oh! sim, sim - exclamou La Mole, embriagado, porque, como o pajem lhe indicava o caminho por onde Margarida acabava de seguir, esperava, apressando-se, tornar a encontrá- la.

Com efeito, ao chegar ao alto da escada, avistou-a no andar inferior; e, ou por acaso, ou porque ela lhe ouvisse o ruído dos passos, Margarida levantou a cabeça, e ele pode vê-la segunda vez.

Oh! - disse ele, seguindo o pajem - não é uma mortal, é uma deusa! E, como diz Virgílio Marão.

Et vera incessu patuit dea.

O pajem seguiu adiante de La Mole, desceu um andar, abriu uma porta, entrou e, parando no limiar, disse:

- É aqui que deve esperar.

La Mole entrou na galeria, cuja porta se tornou a fechar.

Na galeria só estava um cavalheiro, que passeava, e que também parecia esperar.

Já a tarde começava a fazer cair largas sombras do alto das abóbadas e, embora a distância que separava os dois homens não fosse além de uns vinte passos, não podiam distinguir os rostos um do outro. La Mole aproximou-se.

Deus me perdoe! - murmurou ele, quando se viu próximo do outro fidalgo - é o Senhor Conde de Cocunás que encontro aqui.

O piemontês já se havia voltado ao ruído dos seus passos, e olhava-o com espanto igual àquele com que era olhado.

- Com a breca! - exclamou - é o Sr. de La Mole, ou o diabo me leve!. Safa! o que estou fazendo!. praguejo em casa do rei! Mas, ora! parece que o rei pragueja ainda mais do que eu, e até nas igrejas. Então estamos no Louvre?.

- Como vê. Introduziu-o o Sr. de Besme?

- Sim senhor. um alemão encantador o Sr. de Besme. E ao senhor, quem lhe serviu de guia?

- O Sr. de Mouy. Bem lhe dizia eu que os huguenotes também não eram malvistos na corte. E encontrou o Sr. de Guisa?

- Ainda não. E o senhor, obteve audiência do rei de Navarra?

- Não, mas não pode tardar. Conduziram-me para aqui e disseram-me que esperasse.

- Verá que nos vão dar alguma ceia magnífica, e que estaremos ao lado um do outro no festim. Que singular acaso, na verdade! Há duas horas que a sorte nos emparelha. Mas. que tem o senhor? Parece preocupado.

- Eu? - disse açodadamente La Mole, estremecendo, porque, efectivamente, estava ainda como que deslumbrado pela visão que lhe aparecera - não tenho nada; mas o lugar onde estamos faz-me nascer no espírito um sem-número de reflexões.

- Está filosofando, não é assim? Outro tanto me acontece a mim. Na ocasião em que o senhor entrou, assaltaram-me o espírito todas as recomendações do meu preceptor. O Senhor Conde conhece Plutarco?

- Ora essa! - disse La Mole, sorrindo - é um dos autores meus predilectos.

- Pois - continuou Cocunás, com gravidade - não me parece que esse homem se engane

quando compara os dons da Natureza a flores brilhantes mas efémeras, ao passo que considera a virtude como uma planta balsâmica de inextinguível aroma e de suprema eficácia para a cura das feridas.

- Sabe grego, o Sr. de Cocunás? - disse La Mole, fitando o seu interlocutor.

- Não sei, mas o meu preceptor sabia-o, e recomendou-me muito que, quando estivesse na corte, discursasse acerca da virtude. Isso, disse- me ele, é muito apreciável. Estou portanto couraçado no assunto, advirto-o. A propósito: tem vontade de comer?

- Não tenho.

- Mas pareceu-me que se lhe iam os olhos pela ave da tabuleta da Estrela Brilhante. Eu não posso comigo de debilidade.

- Pois, Sr. de Cocunás, tem excelente ocasião para utilizar os seus argumentos acerca da virtude, e para provar a sua admiração por Plutarco, porque esse grande escritor diz algures:      Bom é costumar a alma à dor e o estômago à fome. - Prepon esti tênpsuchên odunê on degastéra semô askenn.

- Ora essa! o senhor sabe grego? - exclamou Cocunás, estupefacto.

- Sei - respondeu La Mole -, o meu preceptor ensinou-mo.

- Com a breca! nesse caso, tem certa a sua fortuna; fará versos com o rei Carlos IX, e falará grego com a rainha Margarida.

- E - acrescentou La Mole, rindo - poderia também falar gascão com o rei de Navarra.

Neste momento, abriu-se a porta da galeria que ia ter ao quarto do rei, soaram passos e viu-se na escuridão aproximar uma sombra. Essa sombra tornou-se um corpo. O corpo era o do Sr. de Besme.

Encarou com os dois mancebos para reconhecer Cocunás, e depois fez-lhe sinal para que o seguisse.

Cocunás cumprimentou La Mole com a mão.

De Besme conduziu Cocunás à extremidade da galeria, abriu uma porta e achou-se com ele no primeiro degrau da escada.

Chegando aí, parou, e, olhando de redor, e depois para cima e para baixo, perguntou:

- Onde mora, Sr. de Cocunás?

- Na hospedaria da Estrela Brilhante Rua da Árvore Seca.

- Bom! bom! é a dois passos daqui. Queira recolher quanto antes à hospedaria, e esta noite.

Olhou de novo em torno de si.

- Bem! esta noite. - perguntou Cocunás.

- Esta noite, volte cá, com uma cruz branca no chapéu. Com a senha. E cale-se! Nem pio!

- Mas a que horas devo vir?

- Quando ouvir tocar a rebate.

- Virei imediatamente - disse Cocunás.

E, cumprimentando de Besme, afastou-se, perguntando a si próprio:

Que diabo quer isto dizer? e a propósito de que é que se tocará a rebate? Não importa! persisto na minha opinião: este Sr. de Besme é um tedesco encantador. E se eu esperasse pelo conde de La Mole? Para quê! provavelmente ceia com o rei de Navarra.

E Cocunás dirigiu-se para a Rua da Árvore Seca, para onde o atraía como um íman a tabuleta da Estrela Brilhante.

Neste meio-tempo abriu-se uma porta da galeria que dava para os aposentos do rei de Navarra, e dirigiu-se um pajem para La Mole.

- O senhor é que é o conde de La Mole? - perguntou o pajem.

- Sou.

- Onde mora?

- Rua da Árvore Seca, na Estrela Brilhante.

- Bom! é à porta do Louvre. Ouça. Sua Majestade manda-lhe dizer que não pode recebê-lo neste momento mas que talvez esta noite o mande buscar. Em todo o caso, se amanhã não tiver recebido recado, venha ao Louvre.

- E se a sentinela não me deixa entrar?

- Ah! tem razão. A senha é Navarra; diga esta palavra, e todas as portas se lhe abrirão.

- Muito obrigado.

- Espere, meu fidalgo. Tenho ordem para o acompanhar até à porta do paço, para que se não perca dentro do Louvre.

A propósito: e Cocunás? - disse La Mole consigo quando se viu fora do paço. - Oh! provavelmente ficou ceando com o duque de Guisa.

Mas, ao entrar em casa de mestre La Hurière, a primeira cara que o nosso fidalgo viu foi a de Cocunás, que estava sentado à mesa diante de uma enorme omeleta de carne.

- Oh! oh! - exclamou Cocunás, rindo às gargalhadas - parece-me que o senhor jantou tanto com o rei de Navarra como eu ceei com o Sr. de Guisa.

- verdade.

- E chegou-lhe a vontade de comer?

- Creio que sim.

- A despeito de Plutarco, hem?

- Senhor Conde - disse La Mole, rindo -, Plutarco diz noutro lugar que quem tem, de repartir com quem não tem. Quer, por amor de Plutarco, repartir a sua omeleta comigo? Falaremos da virtude enquanto comermos.

- Nada disso; falar da virtude é para quando se está no Louvre e há receio de que se ouça o que dizemos; e nós temos o estômago vazio. Sente-se, e vamos a comer.

- Pelo que vejo, decididamente a sorte torna-nos inseparáveis. Pernoita aqui?

- Não sei.

- Nem eu.

- Em todo o caso, bem sei eu onde hei-de passar a noite.

- Onde?

- Onde o senhor a passar, não pode deixar de ser.

E desataram ambos a rir, honrando o mais possível a omeleta de mestre La Hurière.

 

               A DÍVIDA PAGA

Agora, se o leitor tem curiosidade de saber porque o Sr. de La Mole não foi recebido pelo rei de Navarra, porque o Sr. de Cocunás não pôde ver o Sr. de Guisa, e porque ambos, em vez de cearem no Louvre faisões, perdizes e cabrito-montês, ceavam na hospedaria da Estrela Brilhante uma omeleta de carne, há-de ter a condescendência de entrar connosco no antigo palácio dos reis e de seguir a rainha Margarida de Navarra, que La Mole perdera de vista à entrada da grande galeria.

Enquanto Margarida descia essa escada, o duque Henrique de Guisa, que ela não tornara a ver depois da noite do casamento, estava no gabinete do rei. A escada que Margarida descia tinha uma saída. No gabinete onde estava o Sr. de Guisa havia uma porta. Ora esta porta e aquela saída conduziam ambas a um corredor que ia ter aos aposentos da rainha-mãe, Catarina de Médicis.

Catarina de Médicis estava só, sentada a uma mesa, com o cotovelo apoiado a um livro de Horas entreaberto, e a cabeça encostada à mão, ainda notavelmente bela, graças ao cosmético fornecido pelo florentino Renato, que reunia o duplo cargo de perfumista e envenenador da rainha- mãe.

A viúva de Henrique II trajava o luto que não largara depois da morte do marido. Era nessa época senhora de cinquenta e três anos, mas, graças à sua frescura, conservava as feições da primeira beleza. O seu quarto, como de costume, era um quarto de viúva. Tudo nele era sombrio: estofos, paredes, móveis. Por cima de uma espécie de dossel que cobria uma poltrona real, onde nesse momento dormia deitada a galga favorita da rainha-mãe (que lhe havia sido dada por seu genro Henrique de Navarra, e recebera o nome mitológico de Febe), achava-se pintado um arco-íris, rodeado da divisa grega que o rei Francisco I lhe dera: Phôspherei ê de kai aisbzên, e que se pode produzir: Dá luz e serenidade.

De súbito, e no momento em que a rainha-mãe parecia imersa no mais profundo pensamento, que lhe fazia desabrochar nos lábios pintados com carmim um sorriso lento e cheio de hesitação, um homem abriu a porta, levantou o reposteiro e mostrou o rosto pálido, dizendo:

- Corre tudo mal!

Catarina levantou a cabeça, e reconheceu o duque de Guisa.

- O quê, corre tudo mal? - disse ela. - Que quer dizer, Henrique?

- Quero dizer que o rei cada vez se mostra mais afecto aos malditos huguenotes, e que, se vamos esperar que os ponha na rua para levarmos a cabo a grande empresa, temos de esperar ainda muito, e talvez para sempre.

- Que foi então que aconteceu? - perguntou Catarina, conservando o rosto sereno que lhe era habitual, e a que sabia contudo dar tão bem, conforme a ocasião, as mais opostas expressões.

43

- Ainda há pouco perguntei pela vigésima vez a Sua Majestade se continuaríamos a suportar as bravatas a que os senhores da religião se atrevem, depois do ferimento do seu almirante.

- E que lhe respondeu meu filho? - perguntou Catarina.

- Respondeu-me: Senhor Duque, o povo deve suspeitá-lo como autor do assassínio cometido no meu segundo pai, o Senhor Almirante; defenda-se como lhe aprouver. Eu, por mim saberei defender-me se me insultarem. E, dito isto, voltou-me as costas para ir dar ceia aos cães.

- E não tentou detê-lo?

- Tentei. Mas respondeu-me com aquela voz que lhe conhece, e olhando com aquele olhar que é só dele: Senhor Duque, os meus cães têm fome, e não são homens, para que eu os faça esperar. E eu vim preveni-la.

- E fez bem.

- Mas que se há-de fazer?

- Tentar um último esforço.

- E quem o há-de tentar?

- Eu. O rei está só?

- Não; está com o Sr. de Tavannes.

- Espere-me aqui. Ou antes, siga-me de longe, que é melhor.

Catarina levantou-se imediatamente e dirigiu-se à câmara do rei, onde estavam, sobre tapete da Turquia ou almofadas de veludo, os seus galgos predilectos. Em poleiros metidos na pared viam-se dois ou três falcões escolhidos e uma pega parda, com a qual Carlos IX se divertia a apa nhar passarinhos no jardim do Louvre e no das Tulherias, que se começavam a construir.

No caminho, a rainha-mãe foi compondo um rosto pálido e cheio de angústia, em que rolava uma última, ou melhor, uma primeira lágrima.

Aproximou-se sem fazer bulha de Carlos IX, que dava aos cães bocadinhos de bolo cortado em partes iguais.

- Meu filho! - disse Catarina, com uma tremura de voz tão bem fingida que fez estremecer o rei.

- Que tem, minha Senhora? - disse Carlos, voltando-se com vivacidade.

- Meu filho - respondeu Catarina -, peço- te licença para me retirar para um dos meus castelos; seja qual for, contanto que fique muito distante de Paris.

- E porquê, minha Senhora? - perguntou Carlos IX, fitando na mãe o seu olhar envidra çado que, em certas ocasiões, se tornava tão penetrante.

- Porque estou recebendo todos os dias novos insultos dos senhores da religião; porque hoj ouvi os protestantes ameaçarem-te até dentro do Louvre, e não quero tornar a assistir a espectá culos dessa ordem.

- Mas, minha mãe - disse Carlos IX, com uma expressão cheia de convicção -, olhe que quiseram matar-lhes o almirante. E já um infame assassino matou o bravo Sr. de Mouy a essa pobre gente. Pode aturar-se isto, minha mãe?. é preciso que haja justiça no reino.

- Oh! sossega, meu filho - disse Catarina -, não lhes faltará a justiça, porque, se lha recusares, eles a farão a seu modo: no Sr. de Guisa hoje, em mim amanhã, em ti mais para diante.

- Oh! minha Senhora - disse Carlos IX, deixando transparecer na voz uma primeira inflexão de dúvida -, acredita nisso?

- Oh! meu filho - tornou Catarina, entregando-se toda à violência dos seus pensamentos -, não vês que não se trata já da morte do Sr. Francisco de Guisa, ou da do Senhor Almirante ou da religião protestante, ou da religião católica, mas simplesmente da substituição do filho Henrique II pelo filho de António de Bourbon?

- Vamos, vamos, minha mãe! Lá está caindo nas suas exagerações habituais! - disse o rei.

- Qual é então a tua opinião, meu filho?

- Esperar, minha mãe! Esperar. Esta palavra reúne em si todo o saber humano. O maior, o mais forte, e principalmente o mais destro, é o que sabe esperar.

- Espera então, mas eu não esperarei.

Dito isto, Catarina fez uma mesura e, aproximando-se da porta, preparava-se para voltar para a sua câmara.

Carlos IX deteve-a.

- Mas que é preciso fazer, minha mãe? - disse ele - porque eu sou justo, acima de tudo, e queria que todos ficassem contentes comigo.

Catarina tornou a aproximar-se.

- Venha cá, Senhor Conde - disse ela para Tavannes, que fazia festas à pega parda do rei

-, e diga ao rei o que entende que se deve fazer.

- Vossa Majestade dá-me licença? - perguntou o conde.

- Diz lá, Tavannes, diz lá.

- Que faz Vossa Majestade na caça quando o javali se volta para si?

- Que faço?. espero-o de pé firme - disse Carlos IX -, e meto-lhe na goela a minha alabarda.

- Unicamente para obviares a que te faça mal - acrescentou Catarina.

- E para me divertir - disse o rei, com um sorriso que indicava a coragem levada até à ferocidade -, mas não me divertiria matar os meus súbditos, porque, enfim, os huguenotes são tão meus súbditos como os católicos.

- Então, meu filho - disse Catarina -, os teus súbditos huguenotes farão como o javali a que se não mete a alabarda na goela: deitarão abaixo o trono.

- Ora! - disse o rei, com uns modos que indicavam não acreditar muito nas profecias da mãe.

- Mas não viste hoje o Sr. de Mouy e a sua gente?.

- Sim, vi-os, pois acabo de estar com eles; mas que me pediu de Mouy que não fosse justo? Pediu-me a morte do assassino do pai e do assassino do almirante. E não punimos nós o Sr. de Montgomery pela morte de meu pai e seu marido, embora essa morte fosse um simples desastre?

- Bem - disse Catarina, estomagada -, não falemos mais nisso. Tu estás sob a protecção de Deus, que te há-de dar força, sabedoria e confiança; mas eu, pobre mulher, que Deus desampara sem dúvida por causa dos meus pecados, tenho medo, e cedo.

E, dito isto, Catarina, com outra mesura, saiu, fazendo sinal ao duque de Guisa, que entrava neste meio-tempo, para que ficasse no seu lugar e empregasse um último esforço.

Carlos IX seguiu a mãe com os olhos, mas sem a tornar a chamar; e depois pôs-se a fazer festas aos cães, assobiando uma ária de caça.

De repente interrompeu-se.

- Minha mãe é um verdadeiro espírito real - disse. - Em verdade, de nada se arreceia. Ora vão lá, de tenção deliberada, matar algumas dúzias de huguenotes, porque vieram pedir justiça! Então não estarão no seu direito?

- Algumas dúzias? - murmurou o duque de Guisa.

- Ah, está aí, Senhor Duque?. - disse o rei, fingindo que o via pela primeira vez. - Sim, algumas dúzias; uma insignificância! Ah! se alguém me dissesse: Sire, desembaraçar-se-á de todos os seus inimigos a um tempo, e amanhã não restaráá um para lhe exprobrar a morte dos outros, ah! então, não digo que não!

- Pois, Sire.

- Tavannes - interrompeu o rei -, estás fatigando Margot; põe-na no poleiro. Porque tem o nome de minha irmã, a rainha de Navarra, não é razão para que todos lhe façam festas.

Tavannes pôs a pega no poleiro, e passou a entreter-se enrolando e desenrolando as orelhas de um galgo.

- Mas, Sire - respondeu o duque de Guisa -, se se dissesse a Vossa Majestade: Sire, Vossa Majestade ver-se-á amanhã livre de todos os seus inimigos.

- E por intercessão de que santo se faria esse milagre?

- Sire, estamos hoje a 24 de Agosto, seria por intercessão de S. Bartolomeu.

- Um belo santo - disse o rei -, que se deixou esfolar em vida!

- Melhor! Quanto mais ele sofreu, tanta maior zanga há-de ter aos seus algozes.

- E é o primo - disse o rei - que com a sua espadinha de copos de ouro há-de matar daqui até amanhã dez mil huguenotes?. Ah! ah! ah! tem graça, Sr. de Guisa!

E o rei desatou a rir, mas com um riso tão velhaco, que o eco do quarto o repetiu lugubremente.

- Sire, uma palavra, só uma! - prosseguiu o duque, estremecendo ao ouvir esse riso que nada tinha de humano. - Um sinal, e está tudo pronto. Eu tenho os suíços; mil e quinhentos gentis- homens, os caçadores a cavalo, e os burgueses. E Vossa Majestade tem os seus guardas, os seus amigos, a nobreza católica. Somos vinte contra um.

- Então, primo, se está tão forte, porque diabo vem azoinar-me os ouvidos com isso! Não se importe comigo, e ande para a frente!.

E o rei voltou-se para os cães.

Levantou-se então o reposteiro, e tornou a aparecer Catarina.

- A coisa vai bem - disse ela ao duque. - Insista, e o rei cederá.

E o reposteiro tornou a cair, sem que Carlos IX visse Catarina, ou pelo menos desse mostras de a ter visto.

- Mas - disse o duque de Guisa - preciso saber se, fazendo o que desejo, serei agradável a Vossa Majestade.

- Em verdade, primo Henrique, está-me pondo a faca na garganta; mas hei-de resistir, coa breca! então não sou eu o rei?

- Ainda não, Sire; mas, se quiser, sê-lo- á amanhã.

- Ora essa! - continuou Carlos IX - matariam também o rei de Navarra, o príncipe de Condé. no meu Louvre?. Ah!

E depois acrescentou com voz que mal se percebia:

- Ficando de fora, não digo nada.

- Sire - exclamou o duque -, eles saem esta noite para uma orgia com o duque de Alençon, irmão de Vossa Majestade.

- Tavannes - disse o rei, com uma impaciência muitíssimo bem fingida -, não vês que estás fazendo zangar o meu cão?. Anda cá, Actéon, anda cá.

E Carlos IX saiu, sem querer ouvir mais, e entrou para a sua câmara, deixando Tavannes e o duque de Guisa quase que sem saberem o que haviam de fazer, como antes.

Passava-se entretanto uma cena de outro género no quarto de Catarina, que, depois de dar ao duque de Guisa o conselho de insistir, para aí voltara, achando já reunidas as pessoas que habitualmente lhe assistiam ao deitar.

Quando regressou, Catarina tinha o rosto tão risonho quanto o tivera descomposto quando partira. Pouco a pouco, foram saindo as suas damas e os seus cortesãos; não tardou que só estivesse junto dela Margarida, que, sentada num cofre ao pé da janela aberta, olhava para o céu absorta em seus pensamentos.

Duas ou três vezes, depois de se ver só com a filha, a rainha-mãe abriu a boca para falar, mas de cada vez um pensamento sombrio lhe recalcou para o fundo do peito as palavras prestes a saírem-lhe dos lábios.

Neste meio-tempo, ergueu-se o reposteiro, e apareceu Henrique de Navarra. A galga, que dormia em cima do trono, deu um pulo e correu para ele.

- O senhor aqui, meu filho? - disse Catarina, estremecendo. - Não ceia no Louvre?

- Não, minha Senhora - respondeu Henrique -, vamos passear esta noite pela cidade com os Srs. de Alençon e de Condé. Pensava até encontrá-los aqui fazendo-lhe a corte.

Catarina sorriu.

- Pois vão - disse ela -, vão. Muito felizes são os homens em poderem sair assim. Não é verdade, minha filha?

- É verdade - respondeu Margarida -, a liberdade é coisa tão bela e tão agradável!

- Isso quer dizer que eu lhe prendo a liberdade, minha Senhora? - perguntou Henrique, curvando-se diante da mulher.

- Não senhor; nem eu me lastimo a mim; o que lastimo é a condição das mulheres em geral.

- Vai ver o Senhor Almirante, meu filho? - disse Catarina.

- Talvez.

- Vá; é um bom exemplo; e amanhã me dará notícias dele.

- Irei, minha Senhora, uma vez que aprova.

- Eu não aprovo nada. Mas, quem é que está aí?. Mande embora, mande embora.

Henrique deu um passo para a porta para cumprir a ordem de Catarina; mas no mesmo instante ergueu-se o reposteiro, e viu-se a cabeça loura da Sr. a de Sauve.

- Minha Senhora - disse ela -, está aí Renato, o perfumista, que Vossa Majestade mandou chamar.

Catarina deu um olhar tão rápido como um relâmpago para Henrique de Navarra. O príncipe corou levemente, e depois, quase no mesmo instante, empalideceu de um modo assustador. Acabavam de pronunciar o nome do assassino da mãe. Pensou que o rosto lhe denunciava a comoção, e foi encostar-se à janela.

A galga soltou um gemido.

No mesmo instante entravam duas pessoas: uma anunciada, e outra que não carecia de o ser. A primeira era Renato, o perfumista, que se aproximou de Catarina com todas as obsequiosas civilidades dos servidores florentinos; levava uma caixa, que abriu, e de que se viram todos os compartimentos cheios de pós e de frascos.

A segunda era a Sr.a de Lorena, irmã mais velha de Margarida. Entrou por uma portinha secreta que ia ter ao gabinete do rei e, pálida e trémula, esperando não ser pressentida por Catarina, que examinava com a Sr. a de Sauve o conteúdo da caixa que Renato levava, foi sentar-se ao lado de Margarida, junto da qual estava em pé o rei de Navarra, de mão na fronte, como um homem que procura livrar-se de um deslumbramento.

Nesse momento voltou-se Catarina.

- Minha filha - disse a Margarida -, podes recolher-te ao teu quarto. Meu filho, pode ir divertir-se pela cidade.

Margarida levantou-se, e Henrique olhou de revés.

A Sr.a de Lorena pegou na mão de Margarida, e disse-lhe em voz baixa e com volubilidade:

- Minha irmã, em nome do duque de Guisa, que te salva como tu o salvaste, não saias daqui, não vás para o teu quarto.

- Hem? que dizes, Cláudia? - perguntou Catarina, voltando-se.

- Nada, minha mãe.

- Falaste em voz baixa a Margarida.

- Para lhe dar as boas-noites e muitas recomendações da duquesa de Nevers.

- E onde está a formosa duquesa?

- Ao pé do cunhado, o Sr. de Guisa.

Catarina olhou para as duas filhas com modos suspeitos e, carregando o sobrolho, disse:

- Anda cá, ó Cláudia.

Cláudia obedeceu. Catarina pegou-lhe na mão.

- Que lhe disseste tu, indiscreta? - murmurou, apertando o pulso da filha a ponto de a fazer gritar.

- Minha Senhora - disse Henrique à esposa, que, sem ouvir, não perdera coisa alguma da pantomina da rainha, de Cláudia e de Margarida -, concede-me a honra de me dar a sua mão a beijar?

Margarida estendeu-lhe a mão trémula.

- Que lhe disse ela? - murmurou Henrique, abaixando-se para poder chegar os lábios àquela mão.

- Que não saísse. Em nome do Céu, não saia também!

Não passou dum relâmpago; mas à luz deste relâmpago, que foi rápido, Henrique adivinhou uma conspiração.

- Há mais ainda - disse Margarida -, aqui tem uma carta que trouxe um fidalgo provençal.

- O Sr. de La Mole?

- Sim senhor.

- Obrigado - disse ele, pegando na carta e metendo-a no gibão.

E, passando por diante da mulher desolada, foi encostar a mão ao ombro do florentino.

- Então, mestre Renato - disse -, como vão os negócios comerciais?

- Muito bem, Senhor, muito bem - respondeu o envenenador com o seu pérfido sorriso.

- Não admira, porque você é o fornecedor de todas as testas coroadas de França e do estrangeiro.

- Excepto da do rei de Navarra - observou o florentino, atrevidamente.

- Tem razão, mestre Renato. E o certo é que minha mãe, que também era sua freguesa, mo recomendou quando morreu, mestre Renato. Vá amanhã ou depois aos meus aposentos, e leve-me as suas melhores perfumarias.

- Não está desacertado - disse Catarina, sorrindo -, porque se diz.

- Que eu preciso de perfumes - replicou Henrique rindo. - Quem lho disse, minha mãe? Foi Margot?

- Não, meu filho, foi a Sr.a de Sauve.

Neste momento irrompeu em soluços a Senhora Duquesa de Lorena que, apesar dos esforços que fazia, não pôde conter-se.

Henrique nem sequer se voltou.

- Minha irmã - exclamou Margarida, correndo para Cláudia -, que tens?

- Nada - disse Catarina, metendo-se no meio delas -, tem uma febre nervosa, que Mazzilo lhe recomenda que trate com aromas.

E apertou outra vez e com mais força do que da primeira o braço da filha mais velha; e depois, voltando-se para a mais nova, disse-lhe:

- Não me ouviste, Margot, dizer que te recolhesses ao teu quarto? Se não basta isso ordeno-to.

- Desculpe-me, minha Senhora - disse Margarida, trémula e pálida -, desejo a Vossa Majestade uma boa-noite.

- E eu espero que o teu desejo seja satisfeito. Boa noite, boa noite. Margarida retirou-se, cambaleando e procurando debalde encontrar um olhar do marido, que nem sequer se voltou para o lado dela.

Houve um instante de silêncio, durante o qual Catarina se conservou de olhos fitos na duquesa de Lorena, que, pela sua parte, sem falar, olhava de mãos postas para a mãe.

Henrique estava de costas voltadas, mas via a cena num espelho fingindo que estava pondo no bigode uma pomada que Renato acabava de lhe dar.

- E o senhor, Henrique? - disse Catarina. - Sempre sai?

- Ah! é verdade - exclamou o rei de Navarra -, já me esquecia que o duque de Alençon e o príncipe de Condé estão à minha espera. Estes admiráveis perfumes embriagam-me, e creio que me fazem perder a memória. Até à vista, minha Senhora.

- Até à vista. Amanhã me dará notícias do almirante, não é assim?

- Pode contar com elas. Então, Febe, que é isso!

- Febe! - disse a rainha com impaciência.

- Chame-a, minha Senhora, porque não quer deixar-me sair.

A rainha-mãe levantou-se, pegou na cadelinha pela coleira e segurou-a, enquanto Henrique se afastava, com o rosto tão sereno e tão risonho como se não conhecesse no fundo no coração que corria perigo de vida.

Depois de Henrique sair, a cadelinha, solta por Catarina de Médicis, correu para ir ter com ele; mas estava a porta fechada, e ela não pôde senão meter o focinho por baixo do reposteiro, soltando um uivo lúgubre e prolongado.

- Agora, Carlota - disse Catarina à Sr. de Sauve -, vai chamar os Sr. de Guisa e Tavannes, que estão no meu oratório, e volta com eles, para acompanhares a duquesa de Lorena, que está incomodada.

 

             A NOITE DE 24 DE AGOSTO DE 1572

Quando La Mole e Cocunás acabaram a sua pobre ceia (porque as aves da hospedaria Estrela Brilhante só fulguravam na tabuleta), Cocunás fez girar a cadeira num dos quatro pés, estendeu as pernas, encostou o cotovelo à mesa e, saboreando um derradeiro copo de vinho, perguntou:

- Vai deitar-se já, Sr. de La Mole?

- Muita vontade tinha de o fazer, porque é possível que venham acordar-me de noite.

- E a mim também - disse Cocunás -, mas parece-me, nesse caso, que em vez de nos dei tarmos e de fazermos esperar os que hão-de mandar-nos buscar, melhor seria pedirmos cartas e jogarmos. Assim estaríamos prontos.

- De boa vontade aceitaria a proposta mas, para jogar, tenho pouco dinheiro; o mais que tenho são cem escudos de ouro na mala, e é tudo quanto possuo. Mas hei-de tratar de fazer fortuna com isto.

- Cem escudos de ouro? - exclamou Cocunás - e lamenta-se? Coa breca! pois eu não tenho senão seis.

- Ora! - tornou La Mole - vi-o tirar da algibeira uma bolsa que me pareceu não só bem recheada, mas até atarracada.

- Ah! isso é para dar cabo de uma antiga dívida que me vejo obrigado a pagar a um velho amigo de meu pai, que suspeito que é também um tanto huguenote como o senhor. Tenho aqui na algibeira cem dobrões, tenho, mas pertencem a mestre Mercandon. O meu património pessoal limita-se, como lhe disse, a seis escudos.

- Então como se há-de jogar?

- É exactamente por isso que eu queria jogar. E tive uma ideia.

- Então qual é?

- Viemos ambos a Paris com o mesmo propósito, não foi?

- Pois foi.

- Cada um de nós tem o seu protector poderoso, não é assim?

- É.

- O senhor conta com o seu como eu conto com o meu, não é?

- É.

- Pois eu tinha imaginado jogarmos primeiramente o nosso dinheiro, e depois o primeiro favor que recebermos, ou da corte, ou da nossa amante.

- É muito engenhoso, na verdade! - disse La Mole, sorrindo. - Mas confesso que não sou tão jogador que arrisque toda a minha vida numa partida de cartas ou de dados, porque do primeiro favor que o senhor receber e eu, dependerá provavelmente a nossa vida toda.

- Então deixemos o primeiro favor da corte, e joguemos o primeiro favor da nossa amante.

- Não vejo nisso senão um inconveniente.

- Qual é?

- É que eu não tenho amante.

- Nem eu tão-pouco; mas espero que não tardará que a tenha! Graças a Deus, não sou assim tão desastrado que me faltem mulheres.

- Decerto, Sr. de Cocunás, mulheres não lhe hão-de faltar; mas, como eu não tenho a mesma confiança na minha estrela amorosa, creio que seria roubá-lo aceitar essa aposta. Joguemos pois até aos seus seis escudos e, se por infelicidade sua os perder, e quiser continuar o jogo, o senhor é cavalheiro, e a sua palavra vale dinheiro.

- Muito bem! isso é que é falar. Tem razão, a palavra de um cavalheiro vale dinheiro, muito mais quando esse cavalheiro tem crédito na corte. Por isso, creia que eu não arriscaria pouco jogando com o senhor o primeiro favor que venha a receber.

- Decerto; podia perder, mas eu não poderia ganhar; porque, pertencendo ao rei de Navarra, nada posso receber do Senhor Duque de Guisa.

Ah! parpalhote! - murmurou o estalajadeiro, limpando o velho capacete - tinha-me dado o cheiro.

E interrompeu-se para fazer o sinal da Cruz.

- Então, decididamente - tornou Cocunás, baralhando as cartas que o criado acabava de lhe trazer -, o senhor pertence.

- A quê?

- A religião.

- Eu?

- Sim, o senhor.

- E suponha que pertenço! - disse La Mole, sorrindo. - Tem alguma coisa contra nós?

- Oh! graças a Deus, não. Para mim é indiferente. Odeio profundamente o huguenotismo, mas não detesto os huguenotes, e demais, é moda.

- Sim - replicou La Mole, rindo -, sirva de testemunha a arcabuzada do Senhor Almirante. Jogaremos nós também arcabuzadas?

- Como quiser - disse Cocunás -, o que eu quero é jogar, seja o que for.

- Joguemos pois - disse La Mole, pegando nas cartas e arranjando-as na mão.

- Pois joguemos, e joguemos com confiança, porque, ainda que eu perca cem escudos de ouro como os seus, hei-de ter amanhã com que os pagar.

- Então espera que a fortuna venha ter com o senhor enquanto dorme?

- Não espero; sou eu que hei-de ir ter com ela.

- Aonde? diga-me, que quero ir com o senhor!

- Ao Louvre.

- Volta lá esta noite?

- Volto; tenho esta noite uma audiência particular do grande duque de Guisa. Depois de Cocunás dizer que ia buscar fortuna ao Louvre, La Hurière deixara de limpar o capacete e fora colocar-se por trás da cadeira de La Mole, de modo que só Cocunás pudesse vê-lo, e dali lhe fazia sinais, que o piemontês, entretido com o jogo e com a conversação, não notava.

- Isto é miraculoso! - exclamou La Mole - e o senhor tinha razão de dizer que nós nascemos sob a influência da mesma estrela. Também eu tenho esta noite uma entrevista no Louvre, mas não é com o duque de Guisa, é com o rei de Navarra.

- Tem senha?

- Tenho.

- Um sinal de reunião?

- Não.

- Pois tenho eu. A minha senha é.

A estas palavras do piemontês, La Hurière fez um gesto tão expressivo, exactamente no momento em que o indiscreto fidalgo levantava a cabeça, que Cocunás estacou petrificado, mais por esse gesto do que pela partida em que acabava de perder três escudos. Ao ver o espanto que se pintava na cara do seu parceiro, La Mole voltou-se; mas não viu senão o estalajadeiro atrás de si, de braços cruzados, e tendo na cabeça o capacete que um momento antes lhe vira limpar.

- Que tem? - perguntou La Mole a Cocunás.

Cocunás olhava para o estalajadeiro e para o seu companheiro sem responder, porque não podia compreender os gestos continuados de mestre La Hurière.

La Hurière viu que devia ir em auxílio dele.

- Também eu - disse rapidamente - gosto muito do jogo; e como me havia chegado para presenciar o lance que o fez ganhar, aquele senhor admirou-se decerto de ver na minha cabeça de burguês um capacete.

- Estás bonito! - exclamou La Mole, dando uma gargalhada.

- Oh! Senhor - replicou La Hurière, com uma bondade admiravelmente representada e um movimento de ombros cheio do sentimento da sua inferioridade -, nós não somos valentes e não temos boa aparência. Fidalgos valentes como o senhor é que fazem reluzir capacetes dotados e espadas finas; nós, contanto que nos apresentemos pontualmente na guarda.

- Ah! ah! - interrompeu La Mole, baralhando as cartas - tu tens guarda?

- Oh, meu Deus! Senhor Conde: sou sargento de uma companhia da milícia burguesa. E, dito isto, enquanto La Mole dava as cartas, La Hurière retirou-se, pondo um dedo nos lábios para recomendar discrição a Cocunás, mais estupefacto do que nunca.

Esta precaução foi decerto causa de ele perder a segunda partida quase tão rapidamente como acabava de perder a primeira.

- Bem! - disse La Mole - isto perfaz exactamente os seus seis escudos. Quer a desforra sobre a sua fortuna futura?

- De boa vontade - disse Cocunás -, de boa vontade.

- Mas, antes de se comprometer mais: não me disse que tinha uma entrevista com o Sr. Guisa?

Cocunás dirigiu a vista para a cozinha e viu os olhos da La Hurière, que repetiam a mesma advertência.

- Disse, é verdade, mas não é ainda a hora. E falemos alguma coisa de si, Sr. de La Mole.

- Creio que faríamos melhor em falar do jogo, meu querido Sr. de Cocunás, porque, ou muito me engano, ou lhe vou ganhar outros seis escudos.

- Coa breca! é verdade. Sempre ouvi dizer que os huguenotes eram felizes ao jogo. Tenho desejos de me fazer huguenote, o diabo me leve.

Os olhos de La Hurière cintilaram como duas brasas; mas Cocunás, entretido com o jogo, não reparou nele.

- Faça-se huguenote, conde - disse La Mole - e, conquanto o modo por que lhe ache a vocação seja singular, será bem recebido entre nós.

Cocunás coçou a orelha.

- Se eu tivesse a certeza de que a sua felicidade provinha disso, asseguro-lho. porque não sou muito aferrado à missa, e, desde que o rei também não é muito aferrado a ela.

- E é uma religião tão bela, tão simples, tão pura!.

- E está em moda - disse Cocunás - e dá fortuna ao jogo, porque, o diabo me leve! os azes são só para o senhor, e eu tenho-o observado, desde que estamos com as cartas nas mãos: o senhor joga jogo franco, o senhor não trapaceia. É certamente da religião.

- Deve-me mais seis escudos - disse La Mole tranquilamente.

- Ah! como me está tentando!. - disse Cocunás - e se esta noite o Sr. de Guisa não me satisfizer.

- Que faz?

- Que faço? Peço-lhe amanhã que me apresente ao rei de Navarra. E pode ficar descansado: se uma vez me fizer huguenote, serei mais huguenote do que Lutero, do que Calvino, do que Melâncton, e do que todos os reformistas da Terra.

- Caluda! - disse La Mole. - O senhor vai indispor-se com o estalajadeiro.

- Oh! é verdade! - disse Cocunás, dirigindo os olhos para a cozinha. - Mas não, ele não nos ouve; está muito ocupado neste momento.

- Que está ele a fazer? - perguntou La Mole, que não o podia ver do seu lugar.

- Está conversando com. O diabo me leve!. é ele!

- Ele, quem?

- Essa espécie de ave nocturna com que estava conversando quando nós chegámos, o homem do gibão amarelo e capote cor de castanha. Coa breca! que entusiasmo! Olá, mestre La Hurière, dar-se-á o caso que também faças política?.

Mas, desta vez, a resposta de mestre La Hurière foi um gesto tão enérgico e tão imperioso que, a pesar do seu amor pelas cartas, Cocunás levantou-se e foi direito a ele.

- Então que é isso? - perguntou La Mole.

- Quer vinho, meu fidalgo? - disse La Hurière, pegando apressadamente na mão de Cocunás. - Vai ser servido. Gregório! vinho para estes senhores.

E disse-lhe ao ouvido:

- Silêncio! silêncio, pela sua vida! e despeça o seu companheiro.

la Hurière estava tão pálido, e o homem do gibão amarelo tão lúgubre, que Cocunás sentiu como que um estremecimento e, voltando-se para La Mole, disse-lhe:

- Meu querido Sr. de La Mole, peço-lhe que me dispense. Já perco cinquenta escudos. Estou infeliz esta noite, e tenho medo de me comprometer mais.

- Pronto, pronto - disse La Mole -, faça o que quiser. Demais, não se me dará de me deitar um pedaço na cama. Mestre La Hurière.

- Senhor Conde?

- Se vierem chamar-me da parte do rei de Navarra, acorda-me. Fico vestido, e portanto é um instante.

- É como eu - disse Cocunás. - Para não fazer esperar Sua Alteza um só momento, vou preparar o sinal. Mestre La Hurière, dá cá uma tesoura e papel branco.

- Gregório! - gritou La Hurière - papel branco para escrever uma carta, e uma tesoura para cortar o envelope!

Decididamente - disse o piemontês com os seus botões - passa-se aqui o quer que seja de extraordinário.

- Boa noite, Sr. de Cocunás! - disse La Mole. - E tu, mestre La Hurière, faz-me o favor de me ensinar o caminho do quarto. Boa fortuna, amigo!

E La Mole desapareceu na escada, acompanhado pelo estalajadeiro.

Então, o homem misterioso travou do braço de Cocunás e, puxando-o para si, disse-lhe com vulubilidade:

- O senhor ia revelando mais de uma vez um segredo de que depende a sorte do reino. Deus quis que a sua boca se fechasse a tempo. Mais uma palavra e eu deitava-o por terra com tiro de arcabuz. Agora estamos sós, felizmente; ouça.

- Mas quem é o senhor, para me falar com esses modos de comando? - perguntou Cocunás.

- Ouviu porventura falar alguma vez em Maurevel?

- O assassino do almirante?

- E do capitão de Mouy.

- Ouvi.

- Pois Maurevel sou eu.

- Oh! oh! - disse Cocunás.

- Ouça-me, pois.

- Coa breca! sou todo ouvidos.

- Caluda! - disse Maurevel, pondo um dedo na boca.

Cocunás ficou de ouvido à escuta.

Ouviu-se neste momento o estalajadeiro fechar a porta de um quarto, depois a porta do corredor, correr-lhe os ferrolhos e voltar precipitadamente para junto dos dois interlocutores. Ofereceu então uma cadeira a Cocunás, uma cadeira a Maurevel e, sentando-se em outra, disse:

- Está tudo bem fechado, Sr. de Maurevel, pode falar.

Davam onze horas em S. Germano L'Auxerrois. Maurevel contou, uma após outra, cada badalada, que ressoava vibrante e lúgubre no meio da noite, e quando a última se desvaneceu no espaço:

- Senhor - disse ele, voltando-se para Cocunás, todo arrepiado à vista das precauções que os dois homens tomavam -, o senhor é bom católico?

- Creio que sim - respondeu Cocunás.

- O senhor - continuou Maurevel - é dedicado ao rei?

- De alma e coração. Ofende-me até com essa pergunta.

- Não questionaremos a esse respeito; vai acompanhar-nos.

- Aonde?

- Pouco lhe importe. Venha connosco. Depende disso a sua fortuna, e talvez a sua vida.

- Previno-o, Senhor, de que à meia- noite tenho que fazer no Louvre.

- É lá exactamente que nós vamos.

- O Sr. de Guisa espera-me.

- E a nós também.

- Mas eu tenho uma senha particular - continuou Cocunás, um tanto aborrecido por quinhoar da honra da sua audiência com Maurevel e mestre La Hurière.

- E nós também.

- Mas tenho um sinal para ser reconhecido.

Maurevel sorriu, tirou do gibão um punhado de cruzes de um tecido branco, deu uma a La Hurière, uma a Cocunás, e tirou uma para si. La Hurière pregou a sua no capacete, e Maurevel pregou também a sua no chapéu.

- Ora esta! - disse Cocunás, admirado - a entrevista, a senha, o sinal de aliança, eram para toda a gente.

- Sim senhor; quer dizer, para todos os bons católicos.

- Então há festa no Louvre, banquete real, não é - exclamou Cocunás - e querem excluir os cães dos huguenotes. Bom! bom! às mil maravilhas! Há já tempo de mais que eles se lá apresentam.

- Isso mesmo, há festa no Louvre - disse Maurevel -, há banquete real, e os huguenotes serão convidados para ele. E mais: serão os heróis da festa, pagarão o banquete e, se o senhor quer ser dos nossos, comecemos por ir convidar o principal campeão deles, o Guardeão deles, cor eles lhe chamam.

- O Senhor - exclamou Cocunás.

- Sim, o velho Gaspar, que errei como um imbecil, embora atirasse contra ele com o próprio arcabuz do rei.

- E aí tem, meu fidalgo, por que eu polia a minha celada, afiava a minha partasana e amolara as minhas facas - disse com voz estridrnte mestre La Hurière, transformado em guerreiro.

Aestas palavras, Cocunás estremeceu e fez-se muito pálido, porque começava a compreender.

- Pois é verdade? - exclamou - essa festa, esse banquete. é. vai-se.

- Levou muito tempo para adivinhar, Senhor - disse Maurevel -, bem se vê que não está como nós cansado das insolências desses presunçosos herejes.

- E o senhor encarrega-se de ir a casa do almirante, e de.

Maurevel sorriu, e levando Cocunás à janela, disse:

- Olhe; vê no largo, ao fim da rua, por detrás da igreja, um grupo que se esconde silenciosamente na sombra?

- Vejo.

- Os homens que constituem esse grupo têm, como mestre La Hurière, como o senhor, como eu, uma cruz no chapéu.

- E daí?

E daí, é uma companhia de suíços dos pequenos cantões, comandados por Toquenot; e saiba que esses senhores dos cantões são amigos do rei.

- Oh! oh! - disse Cocunás.

- Agora, olhe para esse grupo de cavaleiros que passa no cais. reconhece-lhe o chefe?

- Como quer que o reconheça - disse Cocunás, tremendo todo -, se cheguei a Paris esta tarde?.

- Pois é a pessoa com quem vai ter uma entrevista à meia-noite no Louvre. Olhe, vai esperá-lo lá.

- O duque de Guisa?

- Ele mesmo. Os que o escoltam são Marcel, ex-preboste dos comerciantes, J. Choron, preboste também. Os dois últimos vão fazer erguer as suas companhias de burgueses. E olhe, aí tem o capitão do bairro que entra na rua: veja bem o que ele vai fazer.

- Está batendo em todas as portas. Mas. que é que têm as portas em que ele bate?.

- Uma cruz branca, semelhante à que nós temos nos chapéus. Em outro tempo deixava-se a Deus o cuidado de distinguir os Seus. Hoje estamos mais civilizados, e poupamos-lhe essa tarefa.

- Mas todas as portas a que bate se abrem, e de cada casa saem burgueses armados.

- Há-de bater à nossa porta como às outras, e chegará a ocasião de nós sairmos.

- Mas. - disse Cocunás - toda a gente a pé para ir matar um velho huguenote? Coa breca, é negócio de estranguladores, e não de soldados!

- Meu rapaz - disse Maurevel -, se lhe repugnam os velhos, pode escolher rapazes. Há para todos os gostos. Se despreza punhais, pode servir-se da espada, porque os huguenotes não são gente que se deixe estrangular sem se defender e, como sabe, us huguenotes, moços ou velhos, têm a vida dura.

- Mas vão ser mortos todos? - exclamou Cocunás.

- Todos.

- Por ordem do rei?

- Por ordem do rei e do Sr. de Guisa.

- E quando?

- Quando ouvir tocar o sino de S. Germano L'Auxerrois.

- Ah! é então por isso que esse amável alemão que pertence ao Sr. de Guisa. como é que se chama?.

- OSr. de Besme.

- Exactamence. É então por isso que o Sr. de Besme me disse que corresse ao primeiro toque de rebate?

- O senhor viu o Sr. de Besme?

- Vi-o, e falei-lhe.

- Onde?

- No Louvre. Foi ele quem me fez entrar, quem me deu a senha, e quem me.

- Olhe.

- Coa breca! é ele mesmo.

- Quer falar-lhe?

- Por minha alma, que não se me dava.

Maurevel abriu devagarinho a janela. Besme passava efectivamente, com uns vinte homens.

- Guisa e Lorena! - disse Maurevel.

- Ah! é o Sr. de Maurevel.

- Sim senhor; o que procura?

- Procuro a hospedaria da Estrela Brilhante para prevenir um certo Sr. de Cocunás.

- Aqui estou, Sr. de Besme! - disse o rapaz.

- Ah! bom, bom. Está pronto?

- Estou. Que hei-de fazer?

- O que o Sr. de Maurevel lhe disser. É um bom católico.

- Ouve-o? - perguntou Maurevel.

- Ouço - respondeu Cocunás. - Mas o Sr. de Besme onde vai?

- Eu? - disse de Besme, rindo.

- Sim, o senhor?

- Eu vou dizer uma palavrinha ao almirante.

- Diga-lhe duas, se tanto é preciso - disse Maurevel -, e desta vez, se se levantar da primeira, que não se levante da segunda.

- Pode sossegar, Sr. de Maurevel, pode sossegar; e encaminhe-me bem esse rapaz.

- Sim senhor, não tenha receio; os Cocunás são excelentes cães de caça.

- Adeus!

- Vá-se embora.

- E os senhores?

- Comece a caçada, que nós lá iremos como cães. De Besme afastou-se, e Maurevel fechou as janelas.

- Ouve-o, meu rapaz? - disse Maurevel. - Se tem algum inimigo particular, ainda que seja de todo em todo huguenote, ponha-o na lista e passará com os outros.

Cocunás, mais aturdido do que nunca com tudo o que via e tudo o que ouvia, olhava ora para o estalajadeiro, que tomava posições formidáveis, ora para Maurevel, que tirava sossegadamente um papel da algibeira.

- A minha lista aqui está - disse ele. - Trezentos. Que cada bom católico faça, esta noite, a décima parte da tarefa que eu hei-de fazer, e não haverá amanhã um único hereje no reino.

- Silêncio! - disse La Hurière.

- Que é? - repetiram juntos Cocunás e Maurevel.

Ouviu-se vibrar a primeira badalada de rebate em S. Germano L'Auxerrois.

- O sinal! - exclamou Maurevel. - Então é antes da hora marcada? Tinham-me dito que era à meia-noite. Melhor! Quando se trata da glória de Deus e do rei, mais valem os relógios que se adiantam que os que se atrasam.

O facto é que se ouviu soar lugubremente o sino da igreja. Pouco depois ressoou um primeiro tiro e quase imediatamente a luz de muitos archotes iluminou, como um relâmpago, a da Árvore Seca.

Cocunás passou pela fronte a mão húmida de suor.

- Começa a coisa - exclamou Maurevel -, a caminho!

- Um momento, um momento! - disse o estalajadeiro. - Antes de entrarmos em campanha, asseguremo-nos da pousada, como se diz na guerra. Não quero que me estrangulem a mulher e os filhos enquanto eu estiver fora. Há aqui um huguenote.

- O Sr. de La Mole? - exclamou Cocunás com um sobressalto.

- Sim! o parpalhote veio meter-se na boca do lobo. Foi por intenção dele que afiei a minha partasana.

- Oh, oh! - disse o piemontês, carregando o sobrolho.

- Nunca matei senão os meus coelhos, os meus patos e os meus frangãos - replicou o digno estalajadeiro - e não sei muito bem o que hei-de fazer para matar um homem. Pois vou fazer a experiência neste. Se não for obra bem acabada, ao menos não está aí ninguém que escarneça de mim.

- Coa breca! é duro! - objectou Cocunás. - O Sr. de La Mole é meu companheiro, o Sr. de La Mole ceou comigo, o Sr. de La Mole jogou comigo.

- Sim, mas o Sr. de La Mole é um hereje - disse Maurevel -, o Sr. de La Mole está condinado, e se nós o não matarmos, matá-lo-ão outros.

- Sem falar - disse o estalajadeiro - em que lhe ganhou cinquenta escudos.

- É verdade - disse Cocunás -, mas lealmente, tenho a certeza disso.

- Lealmente ou não, há-de pagar-lhe; e se eu o matar, fica com as contas saldadas.

- Vamos! vamos! é aviar, Senhores - gritou Maurevel -, um tiro de arcabuz, uma coronhada, uma martelada, seja o que for; mas acabemos com isto, se queremos chegar a tempo, como prometemos, para ajudar o Sr. de Guisa em casa do almirante.

Cocunás deu um suspiro.

- Eu já lá vou! - bradou La Hurière. - Esperem-me.

- Coa breca! - exclamou Cocunás - vai fazer sofrer o pobre rapaz, e roubá-lo talvez. Quero      estar lá para acabar com ele, se tanto for necessário, e obstar a que lhe roubem o dinheiro.

E, movido por esta ideia, Cocunás subiu a escada atrás de mestre La Hurière, que em breve alcançou; porque, à proporção que subia, sem dúvida por efeito da reflexão, La Hurière demorava o passo.

No momento em que chegava à porta, seguido sempre por Cocunás, ouviram- se muitos tiros na rua. E sentiu-se La Mole saltar da cama abaixo e o sobrado estalar sob os seus passos.

- Diabo! - murmurou La Hurière, um tanto atrapalhado - creio que está acordado!

- Parece-me que sim - disse Cocunás.

- E vai defender-se?

- É capaz disso. E se ele o matasse, mestre La Hurière? Olhe que era uma peça bem pregada.

- Hum! hum! - disse o estalajadeiro.

Mas, sabendo que estava armado com um bom arcabuz, serenou e meteu a porta dentro com um vigoroso pontapé.

Viu-se então La Mole, sem chapéu, mas vestido, e entrincheirado por detrás do leito, com a espada entre os dentes e com uma pistola em cada mão.

- Oh! oh! - disse Cocunás, abrindo as ventas como uma verdadeira fera que fareja o sangue - isto vai-se tornando interessante, mestre La Hurière. Vamos, vamos! avante!

- Ah! querem assassinar-me, ao que parece! - gritou La Mole, cujos olhos chamejavam. tu, miserável!

Mestre La Hurière não respondeu a esta apóstrofe senão baixando o seu arcabuz e fazendo pontaria para o mancebo. Mas La Mole tinha observado a pontaria e, no momento em que o tiro partiu, pôs-se de joelhos e a bala passou-lhe por cima da cabeça.

- Acuda-me! - gritou La Mole - acuda-me, Sr. de Cocunás!

- Acuda-me, Sr. de Maurevel! acuda-me! - gritou La Hurière.

- O mais que posso fazer, Sr. de La Mole - disse Cocunás -, neste negócio, é não o agredir. Parece que se matam esta noite os huguenotes em nome do rei. Arranje-se como puder.

- Ah! traidores! ah! assassinos! então é isso! esperem lá.

E La Mole, fazendo também pontaria, desfechou uma das suas pistolas. La Hurière, que não o perdia de vista, teve tempo para se livrar do tiro; mas Cocunás, que não esperava aquilo, dei xou-se ficar no lugar onde estava, e a bala roçou-lhe pelo ombro.

- Com mil diabos! - gritou Cocunás, rangendo os dentes - feriste-me. combatamos, já que assim o queres!

E, desembainhando a durindana, correu para La Mole.

Se ele estivesse só, La Mole tê-lo-ia esperado decerto; mas Cocunás tinha atrás de si mestre La Hurière, que tornara a carregar o arcabuz, sem contar com Maurevel que, para satisfazer o convite do estalajadeiro, subia os degraus da escada a quatro e quatro. La Mole correu pois para um gabinete e fechou a porta.

- Ah! patife! - gritava Cocunás, furioso, batendo na porta com os copos da espada. - espera, espera! Quero retalhar-te o corpo com tantas cutiladas quantos escudos de ouro me ganhaste esta noite! Ah! venho para evitar que sofras, venho para que te não roubem, e recompensas-me metendo-me uma bala no ombro!. Espera, patife! espera!

Neste meio-tempo aproximou-se mestre La Hurière, e com uma coronhada do seu arcabuz fez saltar a porta em pedaços.

Cocunás precipitou-se no gabinete, mas foi bater com o nariz na parede. O gabinete estava vazio e a janela aberta.

- Atirou consigo à rua - disse o estalajadeiro -, e como estamos no quarto andar, morreu.

- Ou fugiu pelo telhado da casa contígua - disse Cocunás, passando uma perna por cima do parapeito da janela, na intenção de ir no encalço de La Mole naquele terreno escorregadio e escarpado.

Mas Maurevel e La Hurière precipitaram- se sobre ele, e trazendo-o para o quarto:

- Está doido! - exclamaram ambos a um tempo. - Olhe que se tem saltado, era morte certa!

- Qual! - disse Cocunás - sou montanhês, e estou habituado a correr sobre o gelo. De mais, quando um homem me insulta uma vez, subiria com ele até ao Céu, ou desceria até ao Inferno, tomasse o caminho que tomasse para lá chegar. Deixem-me cá!

- Olhe! - disse Maurevel - ou ele morreu, ou está agora longe. venha connosco; e se esse Lhe escapa, achará mil para o lugar dele.

- Tem razão - berrou Cocunás. - Morte aos huguenotes! Preciso vingar-me, e quanto mais depressa melhor.

E desceram todos três a escada como uma avalanche.

- A casa do almirante! - gritou Maurevel.

- A casa do almirante! - repetiu La Hurière.

- A casa do almirante! uma vez que assim o querem - disse também Cocunás. E saíram todos três da hospedaria Estrela Brilhante que ficou guardada por Gregório e pelos outros criados, e dirigiram-se para o palácio do almirante, sito na Rua de Béthisy. Guiava-os para esse lado uma chama brilhante e o estrondo das arcabuzadas.

- Quem vai lá? - gritou Cocunás.

Era um homem sem gibão e sem cinto.

- É um que se safa - disse Maurevel.

- Atire-lhe o senhor, que tem arcabuz! - exclamou Cocunás.

- Eu não - disse Maurevel -, guardo a minha pólvora para melhor caça.

- Então tu, La Hurière!

- Espere, espere! - disse o estalajadeiro, fazendo pontaria.

- Ah, sim! esperemos - exclamou Cocunás -, e enquanto esperamos, some- se ele! E correu em perseguição do desgraçado, que em breve alcançou, porque estava já ferido. Mas no momento em que, para não o ferir pelas costas, lhe gritava: Volte-se, volte-se! ouviu-se a detonação de um tiro de arcabuz, assobiou uma bala aos ouvidos de Cocunás e o fugitivo caiu como uma lebre ferida na mais rápida carreira pelo chumbo do caçador.

Cocunás ouviu um grito de triunfo atrás de si, voltou-se e viu La Hurière agitando a sua arma.

- Ah! desta vez - bradou ele - estreei-me!

- Sim, mas por uma unha negra que não me atravessas a mim de meio a meio!

- Tome cuidado, meu fidalgo, tome cuidado! - gritou La Hurière.

Cocunás deu um pulo para trás. O ferido levantara-se sobre os joelhos e, todo ele vingança,

ia cravar o seu punhal em Cocunás, no próprio momento em que o aviso do estalajadeiro prevenira o piemontês.

- Ah! vívora! - exclamou Cocunás.

E, atirando-se ao ferido, enterrou-lhe três vezes no peito a espada até aos copos.

- E agora - bradou Cocunás, deixando o huguenote debatendo-se nas convulsões da agonia -, a casa do almirante! a casa do almirante!

- Ah! ah! meu fidalgo - disse Maurevel -, parece que lhe tomou o gosto!...

- Palavra que sim - disse Cocunás. - Não sei se é o cheiro da pólvora que me embriaga,

ou a vista do sangue que me excita, mas, coa breca, estou tomando gosto à carnificina. Isto é como

que uma montaria aos homens. Nunca entrei senão em montarias aos ursos e aos lobos e, pela minha honra, a montaria aos homens parece-me mais divertida.

E desataram a correr todos três.

 

                 OS ASSASSINADOS

O palácio que o almirante habitava Ficava situado, como dissemos, na Rua de Béthisy. Era um casarão no fundo de um pátio, com duas alas que davam para a rua. Um muro aberto num portão de grades dava entrada para o pátio.

Quando os nossos três partidários do duque de Guisa chegaram à extremidade da Rua La Béthisy, que é continuação da Rua dos S. Germano L'Auxerrois, viram o palácio cercado de suíços, soldados e burgueses em armas; tinham todos na mão direita, ou espadas, ou chuços ou arcabuzes, e alguns, na mão esquerda, archotes, que derramavam nesta cena uma claridade fúnebre e vacilante que, seguindo o movimento impresso, se espalhava pelo chão, subia pelas paredes ou cintilava por cima desse mar vivo, onde cada arma lançava o seu lampejo. Em roda do palácio e nas Ruas Tirechappe, Étienne e Bertin-Poirée, estava em acção a obra terrível. Ouviam-se gritos prolongados, crepitava a mosquetaria e, de tempos a tempos, passava algum desgraçado, meio nu, pálido, ensanguentado, saltando como um gamo perseguido num círculo fúnebre, onde parecia que se agitava um mundo de demónios.

Num instante, Cocunás, Maurevel e La Hurière, assinalados de longe pelas suas cruzes brancas e acolhidos por gritos de boas-vindas, viram-se no mais compacto dessa multidão arquejante e apressada como uma matilha. Não poderiam certamente passar, mas algumas pessoas reconh ceram Maurevel e deram-lhe passagem. Cocunás e La Hurière seguiram-no; e puderam todos três introduzir-se no pátio.

No meio do pátio, cujas três portas haviam sido arrombadas, estava de pé um homem em torno do qual os assassinos deixavam um espaço respeitoso e, encostado a uma espada desen bainhada, fitava os olhos numa varanda à altura de cerca de quinze pés e corrida diante da janela principal do palácio. Este homem batia o pé com impaciência, e de vez em quando voltava-se para interrogar os que estavam mais perto dele.

- Ainda nada - murmurou. - Ninguém. É que o avisaram e fugiu. Que lhe parece, Gaspar?

- É impossível, meu príncipe.

- E porque não? Não me disse que um instante antes de nós chegarmos tinha vindo à porta um homem sem chapéu, de espada desembainhada na mão e a correr como se fosse perseguido, e que lhe haviam aberto a porta?.

- Sim senhor; mas quase ao mesmo tempo chegou o Sr. de Besme, foram arrombadas as portas e o palácio cercado. O homem entrou, mas com toda a certeza não pôde sair.

- Se me não engano - disse Cocunás a La Hurière -, está ali o Sr. de Guisa.

- Não se engana, meu fidalgo. É o grande Henrique de Guisa em pessoa, que espera sem dúvida que o almirante saia para lhe fazer o mesmo que o almirante fez ao pai. Todos têm o seu Martinho, meu fidalgo; e, graças a Deus, é hoje o nosso.

- Olá! Besme! olá! - gritou o duque com a sua voz possante - então ainda não?. E com a ponta da espada, impaciente como ele, fazia chispar faíscas da calçada. Neste momento ouviram-se como que gritos no palácio, e depois tiros, e depois um grande tinido de armas, a que sucedeu novo silêncio.

O duque fez um movimento para se precipitar dentro de casa.

- Meu príncipe - disse-lhe Du Gast, acercando-se dele e detendo-o -, a dignidade de Vossa Alteza manda-lhe que não saia daí, e espere.

-Tens razão, Du Gast, e obrigado! esperarei. Mas, na verdade, morro de impaciência e de inquietação. Ah! se ele me escapava!.

De repente, aproximou-se a sapateada. os vidros do primeiro andar iluminaram-se com reflexos parecidos com os de um incêndio. A janela para que o duque tantas vezes levantara os olhos abriu-se, ou melhor, saltou em pedaços, e apareceu na varanda um homem de rosto pálido e a gola branca suja de sangue.

- Besme! És tu? Que há? que há?

-Aqui está! aqui está - respondeu com firmeza o alemão que, baixando-se, se tornou a erguer. imediatamente, parecendo querer levantar um peso considerável.

- Mas os outros? - perguntou o duque impacientemente. - Os outros onde estão?

- Os outros estão dando cabo dos mais.

- E tu? tu que fizeste?

- Eu? vai já ver; recue alguma coisa.

O duque deu um passo para a retaguarda.

Neste momento pôde distinguir-se o objecto que Besme puxava para si com possante esforço. Era o corpo de um velho. Ergueu-o acima da varanda, deu-lhe por um instante balanço no parapeito e atirou-o aos pés do amo.

O ruído surdo da queda, as golfadas de sangue que jorravam das feridas e salpicavam o chão à distância, causaram impressão sinistra ao próprio duque; mas este sentimento durou pouco, e a curiosidade fez com que cada um avançasse alguns passos e que sobre a vítima viesse bruxular a luz dum archote.

Distinguiu-se então uma barba branca, um rosto venerando, e as mãos inteiriçadas pela morte.

- O almirante! - exclamaram ao mesmo tempo vinte vozes, que se calaram imediatamente.

- Sim, o almirante. Não há dúvida que é ele - disse o duque, aproximando-se do corpo para o contemplar com alegria silenciosa.

-     O almirante, o almirante! - repetiram a meia voz todas as testemunhas desta horrível cena, empurrando-se uns de encontro aos outros e aproximando- se timidamente do velho derrotado.

- Ah! pagaste, Gaspar! - disse o duque de Guisa, triunfante. - Fizeste assassinar meu pai, vinguei-o.

E pôs o pé no peito do herói protestante. Mas os olhos do moribundo abriram-se a custo, a mão ensanguentada e mutilada contraiu-se pela última vez, e o almirante, sem perder a dignidade, disse ao sacrílego com voz sepulcral:

- Henrique de Guisa, também um dia hás-de sentir sobre o teu peito o pé de um assassino. não matei teu pai. Amaldiçoado sejas!

O duque, pálido e trémulo, mau grado seu, sentiu percorrer-lhe o corpo um calafrio, passou a mão pela testa, como se quisesse expulsar a lúgubre visão; e depois, quando ousou olhar de novo

o almirante, os olhos deste estavam fechados, a mão inerte, e às terríveis palavras que a sua boca acabava de proferir havia sucedido uma porção de sangue negro, que dessa boca escorrera para a barba.

O duque ergueu a espada com um gesto de resolução desesperada.

- Então, Senhor? - disse-lhe Besme -, está satisfeito?

- Estou, meu bravo, estou - replicou Henrique -, porque vingaste.

- O duque Francisco, Alteza, não é verdade?

- A Religião - replicou Henrique, com voz surda. - E agora - continuou, voltando-se para os suíços, soldados e burgueses que atrancavam o pátio e a rua - mãos à obra, amigos! Mãos à obra!

- Viva o Sr. de Besme! - disse então Cocunás, acercando-se com uma espécie de adniração do alemão, que, continuando na varanda, limpava tranquilamente a espada.

- Foi o senhor que lhe deu cabo da pele? - gritou La Hurière, extasiado. - Como foi, meu digno fidalgo?

- Oh! muito simplesmente, muito simplesmente. Ele ouviu barulho, abriu a porta e atravessei-o com a espada. Mas creio que não é tudo, creio que Teligny apanhou o que quer seja. ouço gritar.

E neste momento ouviram-se gritos de aflição dados por uma voz de mulher, e reflexos avermelhados iluminaram uma das salas que formavam a galeria. Viram-se fugir dois homens seguidos por uma longa fila de assassinos. Uma arcabuzada matou um; e o outro, encontrando no caminho uma janela aberta, e sem medir a altura, sem se importar com os inimigos que o esperavam em baixo, saltou intrepidamente para o pátio.

- Mata, mata! - gritaram os assassinos, vendo a sua vítima prestes a escapar-se-lhes. O homem ergueu-se, apanhando a espada, que na queda lhe caíra das mãos, continuando a correr de cabeça baixa por entre a multidão, deitou a terra três ou quatro, atravessando um a espada, e, no meio do fogo das pistolas, no meio das imprecações dos soldados, furiosos de o haverem errado, passou como um relâmpago por diante de Cocunás, que o esperava jà de punhal na mão.

- Apanhei-te! - gritou o piemontês, traspassando-lhe o braço com a lâmina fria e agreste.

- Cobarde! - respondeu o fugitivo, batendo com a folha da espada na cara do seu inimigo por falta de espaço para lhe dar uma estocada.

- Oh! com mil demónios! - exclamou Cocunás - é o Sr. de La Mole!

- O Sr. de La Mole? - repetiram La Hurière e Maurevel.

- Foi o que preveniu o almirante! - gritaram muitos soldados.

- Mata, mata!. - bradaram de todos os lados.

Cocunás, La Hurière e dez soldados correram em perseguição de La Mole, que, coberto de sangue e chegado ao grau de exaltação que é o último reduto do vigor humano, saltava apenas sem outro guia além do instinto. Atrás dele esporeavam-no, e parecia que lhe davam asas os gritos dos seus inimigos. Às vezes assobiava- lhe aos ouvidos uma bala e imprimia-lhe de repente nova rapidez na carreira prestes a esmorecer. Não era respiração, não era hálito, o que lhe saia do peito, mas um estertor surdo, mas um uivo rouco. Dos cabelos escorriam- lhe suor e sangue, e caíam-lhe misturados no rosto.

O gibão tornou-se-lhe em breve muito apertado para as pulsações do coração, e arrancou-o. A espada tornou-se-lhe em breve pesada de mais para a mão, e atirou com ela para longe. Por vezes parecia-lhe que os passos se afastavam e que ia escapar aos seus carrascos; mas, aos gritos destes, outros assassinos, que se achavam no seu caminho, e mais próximos, deixavam a sua luta sangrenta e acorriam. De repente, viu o rio, que corria silenciosamente à esquerda; pareceuque experimentaria, como o veado encurralado, um prazer indizível em se precipitar nele, a força suprema da razão o pôde conter. À direita ficava o Louvre, sombrio, imóvel, mas cheio de rumores surdos e sinistros. Pela ponte levadiça entravam e saíam capacetes e couraças que reflectiam em lampejos deslavados os raios da Lua. La Mole pensou no rei de Navarra, como tinha pensado em Coligny. Eram os seus únicos protectores. Reuniu todas as suas forças, olhou para o Céu, fazendo o voto de abjurar se escapasse à carnificina, fez perder, com um subterfúgio, trinta passos à matilha que o perseguia, correu direito para o Louvre, lançou-se na ponte com os soldados, recebeu outra punhalada ao longo das costas e, apesar dos gritos de Mata! mata! que ressoavam por detrás dele e em volta, apesar da atitude ofensiva das sentinelas, precipitou- se como uma seta no pátio, pulou para o vestíbulo, galgou a escada, subiu dois andares, reconheceu uma porta e apoiou-se a ela batendo com os pés e as mãos.

- Quem está aí? - murmurou uma voz de mulher.

- Oh! meu Deus! meu Deus! - murmurou La Mole - lá vêm eles. ouço-os. ei-los! vejo-os. Sou eu! sou eu!.

- Quem é? - tornou a voz. La Mole recordou-se da senha.

- Navarra! Navarra! - gritou.

Abriu-se imediatamente a porta. La Mole, sem ver, sem agradecer a Gillonne, irrompeu um vestíbulo, atravessou um corredor, duas ou três casas, e chegou por fim a um quarto alumiado por uma lâmpada suspensa do tecto.

Por baixo de cortinas de veludo com flores-de-lis de ouro, num leito de carvalho esculpido, abria os olhos fixos de espanto uma mulher meia nua, apoiada a um braço.

La Mole precipitou-se para ela.

- Minha Senhora - exclamou - matam, estrangulam os meus correligionários! Querem matar-me, querem estrangular- me também! Ah! a senhora é a rainha. salve-me!

E caía-lhe aos pés, deixando no tapete largo vestígio de sangue.

Ao ver esse homem pálido, abatido, ajoelhado diante dela, a rainha de Navarra levantou-se espantada, escondendo o rosto nas mãos e gritando por socorro.

- Minha Senhora - disse La Mole, fazendo um esforço para se levantar -, em nome   do Céu, não chame por socorro! porque se a ouvem estou perdido! Perseguem-me assassinos. Subiam a escada atrás de mim. Ouço-os. ei-los aí! ei-los aí!

- Socorro! - repetiu a rainha de Navarra, fora de si - socorro!.

- Ah! a senhora matou-me! - disse La Mole, desesperado. - Morrer por uma voz meiga, morrer por uma mão tão bela! ah! julgava-o impossível!

Abriu-se a porta no mesmo instante, e precipitou-se no quarto uma turbamulta de homens arquejantes, furiosos, com os rostos manchados de sangue e de pólvora, e de arcabuzes, alabardas e espadas em punho.

À frente ia Cocunás, de cabelos ruivos eriçados, os olhos azuis deslavados e extraordinariamente dilatados, a face retalhada pela espada de La Mole, que lhe havia traçado nas carnes um rego de sangue: assim desfigurado, o piemontês causava horror.

- Coa breca! - exclamou - ele cá está! ele cá está! Ah! até que o apanhámos! La Mole procurou em torno de si uma arma e não a achou. Deitou os olhos para a rainha e viu-lhe desenhada no rosto a mais profunda compaixão. Então compreendeu que só ela podia salvá- lo; correu para ela e cingiu-a com os braços.

Cocunás deu três passos para a frente, e com a ponta da sua comprida espada ainda fez furo no ombro do seu inimigo, e algumas gotas de sangue tépido e vermelho salpicaram con o orvalho os lençóis brancos e perfumados de Margarida.

Margarida viu correr o sangue, sentiu estremecer esse corpo enlaçado no seu, e saltou com ele para o espaço que ficava entre a cama e a parede. Era tempo. La Mole, extenuado, era incapaz de fazer um movimento para fugir ou para se defender. Apoiou a cabeça livida no ombro de Margarida, e os dentes hirtos filaram, rasgando-a, a fina cambraia bordada que lhe cobria o corpo como uma onda de gaze.

- Ah! Senhora! - murmurou com voz moribunda - salve-me!

Foi quanto pôde dizer. Os olhos, velados por uma nuvem semelhante à noite da morte, fecharam-se-lhe; a cabeça, pesada, caiu-lhe para trás, os braços estenderam-se-lhe, as pernas vergaram-lhe e tombou no chão sobre o seu próprio sangue, arrastando a rainha consigo. Neste momento, Cocunás, exaltado pelos gritos, embriagado pelo cheiro do sangue, exasperado pela carreira ardente que acabava de dar, estendeu o braço para a alcova real. Mais um instante, e a sua espada traspassaria o coração de La Mole, e talvez ao mesmo tempo o de Margarida. À vista do ferro nu, e mais ainda talvez à vista dessa insolência brutal, a filha dos reis ergueu

o corpo todo, e soltou um grito tão cheio de espanto, de indignação e de raiva, que o piemontês ficou petrificado por um sentimento desconhecido: é verdade que se esta cena se prolongasse, passada entre os mesmos actores, esse sentimento desfar-se-ia como a nuvem matinal ao sol de Abril.

Mas de repente, por uma porta oculta na parede, entrou correndo um rapaz de dezasseis para dezassete anos, vestido de preto, pálido e des Há   -Fra, minha irmã, espera! - gritou ele - aqui estou! aqui estou!

- Francisco! Francisco! socorre-me! - disse Margarida.

- O duque de Alençon! - murmurou La Hurière, baixando o arcabuz.

- Coa breca! um infante de França - resmungou Cocunás, recuando um passo. O duque de Alençon lançou um olhar em redor de si. Viu Margarida desgrenhada, mais bela do que nunca, apoiada à parede, rodeada de homens de fúria nos olhos, suor na testa e espuma na boca.

- Miseráveis! - exclamou ele.

- Salva-me, meu irmão! - disse Margarida, extenuada. - Querem assassinar-me! Pelo rosto pálido do duque passou uma chama.

Embora estivesse sem armas, sustentado decerto pela consciência do seu nome, avançou de punhos fechados contra Cocunás e os seus companheiros, que recuaram espantados diante dos lampejos que lhe jorravam dos olhos.

- Também são capazes de assassinar um infante de França! Vejamos! - disse. E depois, como continuavam a recuar diante dele:

- Venha cá, capitão da guarda, e mande-me enforcar todos estes facínoras! Mais aterrado à vista deste rapaz sem armas do ue se visse uma companhia de soldados, Coconaz correu para a porta. La Hurière descia as escadas como um gamo, e os soldados abalroavam uns com os outros no vestíbulo para fugirem o mais depressa possível, achando a porta demasiado-a pequena para o muito desejo que tinham de se verem no meio da rua.

Neste meio-tempo, Margarida havia instintivamente deitado sobre o rapaz desmaiado a sua coberta de damasco e tinha-se afastado.

É Depois de desaparecer o último assassino, o duque de Alençon voltou-se. - Minha irmã! - exclamou, ao ver Margarida salpicada de sangue - estás ferida? E correu para a irmã com uma inquietação que faria honra à sua ternura, se essa ternura não houvesse sido acusada de ser maior do que convinha a um irmão.

- Não - disse ela -, não me parece; ou, se estou, é levemente.

- Mas esse sangue. - disse o duque, percorrendo com as mãos trémulas todo o corpo de Margarida - esse sangue donde vem?

- Não sei - disse a princesa. - Um desses miseráveis pôs a mão em mim, e talvez estivesse ferido.

- Pôr a mão em minha irmã? - bradou o duque. - Oh! se mo tivesses apontado, se me tivesses dito qual era, se eu soubesse onde o encontrava!.

- Cala-te! - disse Margarida.

- E porquê? - perguntou Francisco.

- Porque se te vissem a esta hora no meu quarto.

- Um irmão não pode visitar sua irmã, Margarida?

A rainha olhou para o duque de Alençon com uns olhos tão fitos e tão ameaçadores que o mancebo recuou.

- Sim, sim, Margarida - disse ele -, tens razão; vou para o meu quarto. Mas tu não podes ficar só toda esta noite terrível. Queres que chame Gillonne?

- Não, não, ninguém. Vai-te, Francisco, vai-te por onde vieste.

O príncipe obedeceu; e, mal ele se sumiu, Margarida, ouvindo um suspiro que saía detrás do leito, correu a porta da passagem secreta, fechou-a à chave, e depois correu à outra porta, que também fechou, exactamente no momento em que um grupo de archeiros e de soldados perseguiam outros huguenotes que moravam no Louvre passava como um furacão pela extremidade do corredor.

Então, depois de haver olhado com atenção em volta de si para ver se estava só, voltou ao espaço que ficava entre a cama e a parede, levantou a coberta de damasco que escondera o corpo de La Mole às vistas do duque de Alençon, puxou com esforço a massa inerte para o meio do quarto e, vendo que o desgraçado ainda respirava, sentou-se, encostou-lhe a cabeça aos seus joelhos e atirou-lhe com água ao rosto para o fazer tornar a si.

Foi só então que, tirado pela água o véu de poeira, de pólvora e sangue que cobria o rosto do ferido, Margarida reconheceu nele o belo fidalgo que, cheio de vida e de esperança, tinha ido três ou quatro horas antes pedir a sua protecção para com o rei de Navarra e, deixando-a meditabunda, saíra deslumbrado pela sua beleza.

Margarida soltou um grito de terror, porque o que sentia agora pelo ferido era mais do que compaixão, era interesse; e, com efeito, o ferido, para ela, não era um simples estranho, era quase um conhecido. Debaixo da sua mão, o lindo rosto de La Mole não tardou a reaparecer todo, mas pálido, desfalecido pela dor; com um tremor mortal, e quase tão pálida como ele, pôs-lhe a mão sobre o coração, e o coração pulsava-lhe. Então, estendeu essa mão para um frasco de sais que estava em cima de uma mesa próxima e deu-lho a respirar.

La Mole abriu os olhos.

- Oh, meu Deus! - murmurou - onde estou eu?

- Salvo! sossegue. Salvo! - disse Margarida.

La Mole voltou com esforço o olhar para a rainha, devorou-a por um instante com os olhos e balbuciou:

- Oh! como é linda!

E, como deslumbrado, tornou a fechar imediatamente as pálpebras, soltando um suspiro. Margarida deu um grito. O mancebo empalidecera ainda mais, se possível, e ela julgou por um instante que esse suspiro era o último.

- Oh! meu Deus, meu Deus! - disse - tende compaixão dele!

Neste momento bateram violentamente à porta do corredor.

Margarida fez um esforço para se levantar, sustendo La Mole por baixo dos braços.

- Quem está aí? - perguntou ela.

- Minha Senhora, minha Senhora! Sou eu, sou eu! - gritou uma voz de mulher. - Eu, a duquesa de Nevers.

- Henriqueta! - exclamou Margarida. - Oh! não há perigo, é uma amiga, ouve, Senhor? La Mole fez um esforço e levantou-se sobre um joelho.

- Veja se se senta, enquanto vou abrir a porta - disse a rainha. La Mole pôs a mão no chão e conseguiu conservar o equilíbrio.

Margarida deu um passo para a porta; mas estacou de repente, tremendo de terror.

- Ah! não vens só? - exclamou, ouvindo um rumor de armas.

- Não; venho acompanhada de doze guardas que me deixou meu cunhado, o Sr. de Guisa.

- O Sr. de Guisa! - murmurou La Mole. - Oh! assassino! assassino!

- Silêncio! - disse Margarida. - Nem uma palavra!

E olhou em redor de si para ver onde poderia esconder o ferido.

- Uma espada! Um punhal! - murmurava La Mole.

- Para se defender?... é inútil; não ouviu? Eles são doze, e o senhor é um.

- Não para me defender, mas para não lhes cair vivo nas mãos.

- Não, não - disse Margarida -, não, salvá-lo-ei eu. Ah! aquele gabinete! Venha, venha.

La Mole fez um esforço e, sustido por Margarida, arrastou-se até ao gabinete. Margarida fechou a porta e, metendo a chave na algibeira, segredou-lhe pelo buraco da fechadura:

- Nem um grito, nem um suspiro, e está salvo.

Depois, pondo um capote, foi abrir a porta à sua amiga, que se lhe atirou aos braços.

- Ah! - perguntou ela - não lhe aconteceu nada, minha Senhora?

- Nada - respondeu Margarida, cruzando o capote para que não se vissem as nódoas de sangue que lhe sujavam o penteador.

- Tanto melhor; mas, em todo o caso, como o Senhor Duque de Guisa me deu doze guardas para me acompanharem ao seu palácio, e não preciso de tamanho cortejo, deixo seis a Vossa

Majestade. Seis guardas do duque de Guisa valem mais esta noite do que um regimento inteiro do rei.

Margarida não se atreveu a recusar; instalou os seis guardas no corredor e beijou a duquesa,

que, com os outros seis, voltou para o palácio do duque de Guisa, onde residia na ausência do marido.

 

                     OS ASSASSINOS

Cocunás não tinha fugido, retirara. La Hurière não tinha fugido, precipitara-se. Um desaparecera à maneira do tigre, o outro à do lobo.

Resultou daí que La Hurière estava já na Praça de S. Germano L'Auxerrois, e Cocunás acabava de sair do Louvre.

La Hurière, vendo-se só com o seu arcabuz no meio dos cadáveres que caíam das janelas, uns inteiros, outros aos pedaços, começou a ter medo e a tentar voltar prudentemente para a hospedaria; mas, quando desembocava da Rua da Árvore Seca para a Rua d'Averon, deparou com um grupo de suíços e de caçadores a cavalo: era o que Maurevel comandava.

- Então? - exclamou este, que se baptizara a si mesmo com o nome de matador real- acabou já? Volta para casa, meu estalajadeiro? E que diabo fez do nosso fidalgo piemontês? Não aconteceu desastre? Era pena, porque ele ia bem.

- Creio que não - replicou La Hurière -, e não pode tardar aí.

- Donde vem?

- Do Louvre, onde, devo dizer, nos receberam cruelmente.

- Quem?

- O Senhor Duque de Alençon. Não é dos nossos?

- O Senhor Duque de Alençon não é senão de quem lhe interessa pessoalmente; ponha-lhe tratar os seus dois irmãos mais velhos como huguenotes, e será dos nossos, a tanto, ainda assim, que a tarefa não o comprometa. Mas. não vai com essa gente, Sr. Hurière?

- E onde vão?

- Oh, meu Deus! à Rua Montorgueil; há lá um ministro huguenote do meu conhecimento que tem mulher e dois filhos. Estes herejes produzem muito. Há-de ser curioso.

- E o senhor onde vai?

- Oh! eu tenho um bico-de-obra.

- Diga lá, e não vá sem mim - disse uma voz que fez estremecer Maurevel -, o senhor conhece os lugares bons, e eu quero ir também.

- Ah! é o nosso piemontês! - disse Maurevel.

- É o Sr. de Cocunás - disse La Hurière. - Julgava que me seguia.

- Cos demónios! você corre tanto, que é difícil apanhá-lo; e depois, eu desviei-me um pouco da linha recta para ir atirar ao rio com um terrível rapazote que gritava: Abaixo os papistas! Viva o almirante! Desgraçadamente, creio que o patife sabia nadar. Quem quiser afogar esses miseráveis parpalhotes, há-de atirá-los à água como os gatos, antes de abrirem os olhos.

- Mas o senhor diz que vem do Louvre. Então o seu huguenote tinha-se refugiado lá? - perguntou Maurevel.

- Oh, meu Deus! sim, lá mesmo!

- Eu enviei-lhe um tiro de pistola no momento em que ele apanhava a espada no pátio do almirante; mas, não sei como foi, não lhe acertei.

- Oh! eu - disse Cocunás - acertei: dei-lhe nas costas uma espadeirada tal que a folha da

espada ficou molhada a cinco polegadas de distância da ponta. E vi-o cair nos braços da princesa Margarida; linda mulher, coa breca! Mas não se me daria de ter a certeza de que estava morto; esse figurão parecia-me um carácter muito rancoroso, e seria capaz de me não perdoar toda a vida. Mas, não dizia que ia algures?...

- Quer então vir comigo?

- O que eu quero é não estar parado, coa breca! Ainda não matei senão três ou quatro, e quando esfrio dói-me o ombro. A caminho! a caminho!

- Capitão - disse Maurevel ao comandante da força -, dê-me três homens e vá com o resto acabar com o seu ministro.

Destacaram-se três suíços e vieram juntar-se a Maurevel. Os dois grupos marcharam ao lado um do outro até às alturas da Rua Tirechappe; aí, os caçadores a cavalo e os suíços tomaram

a Ferraria enquanto Maurevel, Cocunás, La Hurière e os três homens seguiam pela Rua

Trousse-Vache, e chegavam à Rua Saint-Avoie.

     - Mas onde diabo nos conduz? - disse Cocunás, a quem esta longa marcha sem resultado começava a enfadar.

- Conduzo-o a uma expedição brilhante e ao mesmo tempo útil. Depois do almirante, depois de Teligny, depois dos príncipes huguenotes, não podia oferecer-lhe coisa melhor. Tenha paciência. Na Rua do Chaume é que é o negócio, e estamos aqui estamos lá.

- Diga-me - perguntou Cocunás -, a Rua do Chaume não é perto do Templo?

- É; porquê?

- É porque mora aí um antigo credor da minha família, um tal Iamben Mercandon, ao qual meu pai me recomendou que entregasse cem dobrões, que trago para isso na algibeira.

- Aí tem! - disse Maurevel - excelente ocasião para se ver livre da dívida!

- Como?

- É hoje o dia de ajustar as contas antigas. O Sr. Mercandon é huguenote?

- Oh! oh! - disse Cocunás - percebo; há-de ser.

- Caluda! chegamos.

- Que palácio é esse com um pavilhão para a rua?

- O Palácio de Guisa.

- Na verdade - disse Cocunás -, eu não podia deixar de vir aqui, uma vez que vim para Paris

tento o patrocínio do grande Henrique. Mas, coa breca! está tudo muito sossegado para estes sítios, meu caro; o mais que se ouve é o rumor das arcabuzadas; parece que se está na província.

Está toda a gente a dormir, ou o diabo me leve!

O facto é que o próprio Palácio de Guisa parecia tão sossegado como nos tempos vulgares.

Todas as janelas estavam fechadas, e só uma luz brilhava por detrás das gelosias da janela principal do pavilhão que havia chamado a atenção de Cocunás quando entrara na rua.

Um pouco além do Palácio de Guisa, isto é, à esquina da Rua do Petit-Chantier e da dos Quatro Filhos, Maurevel parou.

- Aqui está a casa da pessoa que procuramos - disse ele.

- Da pessoa que o senhor procura, não é assim? - disse La Hurière.

- Como os senhores me acompanham, todos nós a procuramos.

- Como! uma casa que parece dormir um sono tão sossegado...

- Exactamente! O senhor La Hurière, vai utilizar a cara de homem de bem que o Céu Lhe deu por equívoco, batendo à porta dessa casa. Entregue o seu arcabuz ao Sr. de Cocunás, há uma

hora que ele o está namorando. Se lhe abrirem a porta, peça para falar ao Sr. de Mouy.

- Ah! ah! - disse Cocunás - percebo; pelo que vejo, o senhor também tem um credor no Bairro do Templo.

- É tal qual - continuou Maurevel. - Suba, fingindo-se huguenote, e avise de Mouy do que se passa; ele é valente, e virá para a rua.

- E se vier para a rua? - perguntou La Hurière.

- Se vier, pedir-Lhe-ei que meça a sua espada com a minha.      

- Por minha alma! é proceder como um bravo - disse Cocunás -, e eu tenciono fazer o mesmo exactamente com Lambert Mercandon; e se for muito velho, será com algum dos filhos

ou dos sobrinhos.

La Hurière foi sem replicar bater à porta; as pancadas, ressoando no silêncio da noite, fizeram abrir as portas do Palácio de Guisa e sair algumas cabeças pelos postigos: viu-se então que o palácio estava sereno à maneira das cidadelas, isto é, estava cheio de soldados.   

Essas cabeças recolheram-se imediatamente, adivinhando certamente do que se tratava.

- Então mora ali o Sr. de Mouy? - perguntou Cocunás, mostrando com a mão a casa onde La Hurière continuava a bater.  

- Não, é a casa da amante dele.   

- Coa breca, que amabilidade! proporcionar-lhe ocasião de jogar a espada debaixo dos olhos da sua bela! Então seremos testemunhas do duelo. Mas eu também gostava de me bater. Tenho o ombro a arder.

- E a cara - perguntou Maurevel -, também está avariada?

Cocunás soltou uma espécie de rugido.

- Coa breca! - exclamou ele - é provável que La Mole esteja morto; se não fosse isso, eu era capaz de voltar ao Louvre para acabar com ele.

La Hurière continuava batendo à porta.

Pouco depois, abriu-se uma janela do primeiro andar, e na varanda apareceu um homem de barrete de dormir, em ceroulas e sem armas.

- Quem está aí? - gritou esse homem.

Maurevel fez sinal aos suíços, que se meteram para um canto, enquanto Cocunás se cosia com a parede.

- Ah! é o Sr. de Mouy? - perguntou o estalajadeiro, com voz carinhosa.

- Sou eu, sim; que há?

- É ele - murmurou Maurevel, estremecendo de alegria.

- Oh! - continuou La Hurière - o senhor não sabe o que se passa?... Estrangularam o almirante, andam matando os correligionários nossos irmãos. Venha depressa em socorro deles, venha!

- Ah! - exclamou de Mouy - bem desconfiava eu de que se tramava o que quer que fosse para esta noite. Ah! não devia ter deixado os meus bravos camaradas. Lá vou, amigo, lá vou! Espere-me.

E, sem tornar a fechar a janela, pela qual saíram alguns gritos de mulher aterrada, e algumas súplicas ternas, o Sr. de Mouy procurou o seu capote e as suas armas.

- Vem à rua, vem à rua! - murmurou Maurevel, pálido de alegria. - Estejam vocês com atenção! - segredou aos suíços; e depois, tirando o arcabuz das mãos de Cocunás, e soprando a mecha para se certificar de que estava acesa: - Olha, La Hurière - acrescentou para o estalajadeiro, que se havia retirado para o grupo - toma lá outra vez o teu arcabuz.

- Coa breca! - exclamou Cocunás - lá sai a Lua de uma nuvem para ser testemunha deste duelo. Muito daria eu para que Lambert Mercandon estivesse aqui para servir de segunda testemunha ao Sr. de Mouy.

- Esperem, esperem! - disse Maurevel. - O Sr. de Mouy só por si vale dez homens, e não nos há-de dar pouco que fazer a nós seis para nos vermos livres dele. Avancem vocês - continuou, fazendo sinal aos suíços para que se chegassem à porta -, a fim de lhe darem para baixo quando ele sair.

- Oh! oh! - disse Cocunás, olhando para estes preparativos - parece que a coisa não se passa como eu esperava.

Já se ouvia o ruído da tranca que de Mouy tirava. Os suiços tinham saído do seu esconderijo para tomarem lugar ao pé da porta. Maurevel e La Hurière avançavam nos bicos dos pés, enquanto que, por um resto de cavalheirismo, Cocunás ficava no seu lugar, quando a senhora, em que já não pensavam, apareceu também na varanda e soltou um grito terrível ao ver os suíços, Maurevel e La Hurière.

De Mouy, que havia entreaberto já a porta, estacou.

- Sobe, sobe! - gritou a senhora. - Vejo luzir espadas, vejo brilhar a mecha de um arcabuz! É uma cilada!

- Oh! oh! - replicou resmungando a voz do mancebo - vamos ver o que isto quer dizer. E fechando de novo a porta, trancando-a e, correndo o fecho, tornou a subir. A ordem de batalha de Maurevel foi mudada desde que viu que de Mouy não sairia. Os suíços foram postar-se do outro lado da rua, e La Hurière, de arcabuz em punho, esperou que o inimigo aparecesse de novo à janela. Não teve que esperar muito. De Mouy avançou, precedido de duas pistolas de comprimento tão respeitável que La Hurière, que já fazia pontaria para ele, reflectiu prontamente que as balas do huguenote não tinham que andar mais para chegarem à rua do que a bala do seu arcabuz para chegar à varanda.

Eu posso decerto matar aquele sujeito - disse ele com os seus botões - mas aquele sujeito pode também matar-me ao mesmo tempo.

Ora, como no fim de contas, mestre La Hurière, estalajadeiro de profissão, não era soldado senão eventualmente, esta reflexão determinou-o a retirar-se e a buscar um abrigo à esquina da Rua de Braque, muito afastada para poder ter dificuldade em achar aí, com alguma certeza, principalmente à noite, a linha que a sua bala devia seguir para chegar a de Mouy.

De Mouy deitou um olhar em redor e avançou furtando o corpo, como um homem que se prepara para um duelo; mas, vendo que nada vinha:

- Ora esta! - disse - parece, Sr. Avisador, que esqueceu o seu arcabuz à minha porta. Aqui estou, que me quer?

Ah! - disse Cocunás consigo - aquilo é que é um bravo!

- Então? - continuou de Mouy - amigos ou inimigos, quem quer que sejam, não vêem que estou à espera?.

La Hurière guardou silêncio, Maurevel não respondeu e os três suíços deixaram-se estar quietos.

Cocunás esperou um instante; e depois, vendo que ninguém sustentava a conversação encetada por de Mouy, deixou o seu posto, avançou até ao meio da rua e, tirando o chapéu; disse-lhe:

- Sr. de Mouy, nós não estamos aqui para um assassínio, como pode crer, mas para um duelo... Eu acompanho um dos seus inimigos, que deseja bater-se com o senhor para terminar cavalheirosamente uma questão antiga. Oh! coa breca! avance, Sr. de Maurevel, em vez de voltar as costas! Este senhor aceita.

- Maurevel? - exclamou de Mouy - Maurevel, o assassino de meu pai! Maurevel, o matador real! Oh! se aceito!.

E, fazendo pontaria para Maurevel, que ia bater ao Palácio de Guisa para aí buscar um reforço, tirou-lhe o chapéu com uma bala.

Ao ruído da explosão, aos gritos de Maurevel, os guardas que tinham conduzido ao palácio a duquesa de Nevers, saíram acompanhados de três ou quatro gentis-homens com os seus pajens e avançaram para casa da amante do jovem de Mouy.

Segundo tiro de pistola, atirado para o meio do grupo, fez cair morto o soldado que estava mais perto de Maurevel, após o que, de Mouy, achando-se sem armas, ou, pelo menos com armas inúteis, porque as suas pistolas estavam descarregadas e os seus adversários fora do alcance da espada, agachou-se na varanda.

Entretanto começavam a abrir-se as janelas nas proximidades e, segundo a índole pacífica ou belicosa dos moradores, tornavam-se a fechar ou cobriam-se de mosquetes e arcabuzes.

- Acuda-me, meu bravo Mercandon! - exclamou de Mouy, fazendo sinal a um homem já velho que, de uma janela que acabava de se abrir defronte do Palácio de Guisa, procurava ver alguma coisa nesta confusão.

- Está chamando por mim, Sr. de Mouy? - gritou o velho. - Isso é consigo?

- É comigo, é com o senhor, é com todos os protestantes! E. olhe! aí tem a prova. O facto é que, neste momento, de Mouy viu apontar para si o arcabuz de La Hurière. O tiro partiu; mas o mancebo teve tempo de se agachar, e a bala foi quebrar um vidro por cima da sua cabeça.

- Mercandon! - exclamou Cocunás, que à vista desta algazarra estremecia de prazer e esquecera o seu credor, mas a quem esta apóstrofe de de Mouy o lembrava - Mercandon, Rua do Chaume. é isso! Ah! mora aqui; bom, cada um de nós tem um homem com quem se haver.

E enquanto a gente do Palácio de Guisa metia dentro as portas da casa onde estava de Mouy; enquanto Maurevel, de archote na mão, diligenciava deitar fogo à casa; enquanto, logo que se arrombaram as portas, se travava um combate terrível contra um só homem, que, a cada tiro de pistola ou a cada espadeirada, deitava um inimigo por terra, Cocunás tentava com o auxílio de uma pedra, meter dentro a porta de Mercandon, que, sem fazer caso desse esforço solitário, arcabuzava da janela o mais que podia.

Então, todo esse bairro deserto e escuro se viu iluminado como às horas do dia, e povoado como um formigueiro, porque, do Palácio de Montmorency seis ou oito fidalgos huguenotes, i com os seus criados e os seus amigos, acabavam de carregar furiosamente e começavam, sustentados pelo fogo das janelas, a fazer recuar a gente de Maurevel e os do Palácio de Guisa, que acabaram por se acantoar no palácio donde tinham saído.

Cocunás, que não acabara ainda de arrombar a porta de Mercandon, embora empregasse nisso toda a diligência, foi apanhado nessa árdua tarefa. Encostando-se então à parede, e tirando a espada da bainha, começou não só a defender-se, mas também a atacar, com gritos tão terríveis que dominavam todo aquele barulho. Esgrimiu da direita para a esquerda, dando em amigos e inimigos, até alcançar em roda de si um largo espaço desimpedido. À proporção que a sua espada traspassava um peito e o sangue morno lhe sujava as mãos e a cara, ele, de olhos dilatados, ventas abertas e dentes cerrados, tornava a ganhar o terreno perdido, e voltava a aproximar-se da casa cercada.

De Mouy depois de um combate terrível na escada e no vestíbulo, acabara por sair como verdadeiro herói da sua casa, que estava a arder. No meio da luta, não cessava de gritar, insultando-o com os mais injuriosos epítetos: Chega-te, Maurevel! Maurevel, onde estás tu! Apareceu; enfim na rua, trazendo por um braço a sua amante, meia nua e quase sem sentidos, e segurando um punhal com os dentes. A sua espada, chamejante pelo movimento de rotação que ele lhe imprimia, traçava círculos brancos ou vermelhos, conforme a lua lhe prateava a folha ou um archote lhe fazia reluzir a humidade do sangue. Maurevel fugira. La Hurière, repelido por de Mouy para Cocunás, que não o reconhecia e o recebia à ponta de espada, pedia para ambos os lados que o poupassem. Neste momento apareceu Mercandon; reconheceu-o pela bandeira branca como um assassino. Partiu o tiro. La Hurière soltou um grito, estendeu os braços, deixou cair o arcabuz e, depois de haver diligenciado chegar-se à parede para se agarrar ao quer que fosse, caiu de rosto para baixo.

De Mouy aproveitou-se desta circunstância, meteu pela Rua do Paraíso e desapareceu.

A resistência dos huguenotes foi tanta, que a gente do Palácio de Guisa, repelida, recolheu-se

e fechou as portas do palácio, com medo de que os sitiassem e aprisionassem.

Cocunás, ébrio de sangue e de ruído, tendo chegado à exaltação em que, principalmente para os naturais do Meio-Dia, a coragem se torna loucura, nada vira, nada ouvira. O que notou foi que os ouvidos lhe zuniam menos, que as mãos e o rosto se lhe secavam alguma coisa; e abaixando a ponta da espada, não viu ao pé de si senão um homem deitado, de face mergulhada num regato de sangue, e em torno de si casas a arder.

Foram curtíssimas as tréguas porque, no momento em que ia aproximar-se desse homem, em quem julgava reconhecer La Hurière, abriu-se a porta da casa que ele debalde tentara arrombar com a pedra, e sobre o piemontês, que tratava de ganhar fôlego, caiu o velho Mercandon, seguido pelo filho e pelos dois sobrinhos.

- Ei-lo aqui! ei-lo aqui! - exclamaram a uma voz.

Cocunás estava no meio da rua; e receando ser cercado por esses quatro homens que o atacavam a um tempo, deu, com o vigor dos cabritos-monteses que tantas vezes perseguira nas montanhas, um pulo para trás e ficou encostado à parede do Palácio de Guisa. Tão depressa sossegou da surpresa, pôs-se em guarda e tornou-se motejador.

- Ah! ah! Tio Mercandon! - disse - não me conhece?

- Ó miserável! - exclamou o velho huguenote - se conheço!... queres-me mal? a mim o amigo, companheiro de teu pai?

- E seu credor, não é assim?

- Sim, seu credor, como dizes.

- Pois, exactamente - respondeu Cocunás - quero ajustar as nossas contas.

- Agarremo-lo, e atemos-lhe as mãos - disse o velho aos rapazes que o acompanhavam,

e que por seu mando correram para a parede.

- Um instante, um instante! - disse Cocunás rindo. - Para prender a gente é preciso um mandado de prisão, e esqueceram-se de o pedir ao preboste.

E, dizendo estas palavras, cruzou a espada com o mancebo que estava mais próximo dele e deitou-lhe o pulso abaixo.

O desgraçado recuou gritando.

- Um ficou pronto! - disse Cocunás.

Abriu-se no mesmo instante, rangendo, a janela debaixo da qual Cocunás procurava abrigo.

deu um salto, temendo um ataque por esse lado, mas, em vez de um inimigo, apareceu-lhe uma mulher; em vez da arma homicida que se preparava para combater, caiu-lhe aos pés um ramalhete. Uma mulher! - disse.

Cumprimentou a dama com a espada e curvou-se para apanhar o ramalhete.

- Tome sentido, bravo católico, tome sentido! - exclamou a dama.

Cocunás levantou-se, mas não com tanta rapidez que o punhal do segundo sobrinho lhe não furasse o capote e não lhe roçasse no outro ombro.

A dama soltou um grito agudo.

Cocunás agradeceu-lhe, tranquilizou-a com o mesmo gesto e atirou-se ao segundo sobrinho, que lhe fez frente, mas escorregou no sangue à segunda investida. Cocunás caiu-lhe em cima com a rapidez do tigre e traspassou-lhe o peito com a espada.

    - Muito bem! muito bem, bravo cavaleiro! - gritou a dama do Palácio de Guisa. - Vou pedir socorro.

- Não vale a pena incomodar-se por isso, minha Senhora! - disse Cocunás. - O melhor é assistir a este espectáculo até ao fim, se ele a interessa, e verá como o conde Aníbal de Cocunaz arranja os huguenotes.

Neste momento, o filho do velho Mercandon atirou quase à queima-roupa um tiro de pistola a Cocunás, que caiu sobre um joelho. A dama da janela soltou um grito, mas Cocunás tornou a levantar-se; não ajoelhara senão para evitar a bala, que foi esburacar a parede a dois pés da bela espectadora.

Quase ao mesmo tempo, partiu da janela da casa de Mercandon um grito de raiva; e uma velha, que pela cruz e pela banda branca reconheceu Cocunás como católico, atirou-lhe com um vaso de flores, que lhe bateu por cima do joelho.

- Bom! - disse Cocunás - uma atira-me com flores, e a outra com os vasos. Se isto continua, são demolidas as casas.

- Obrigado, minha mãe, obrigado! - gritou o mancebo.

- Anda, mulher, anda! - disse o velho Mercandon - mas cuidado com a gente!

- Espere, Sr. de Cocunás, espere! - disse a dama do Palácio de Guisa. - Vou mandar atirar tiros para as janelas.

- Ora esta! é um inferno de mulheres! umas a meu favor e outras contra - disse Cocunáz.

- Coa breca! acabemos com isto.

A cena estava, com efeito, muito mudada e aproximava-se do desfecho. Em frente de Cocunás, ferido sim, mas em todo o vigor dos seus vinte e quatro anos, mas habituado às armas mas mais irritado do que enfraquecido pelas três ou quatro arranhaduras que havia recebido, já não restavam senão Mercandon, velho de sessenta a sessenta e dois anos, e o filho, rapaz de dezasseis a dezoito anos; este, pálido, louro e enfezado, tinha deitado fora a pistola descarregada e, por conseguinte, inútil, e agitava, tremendo, uma espada com metade do tamanho da do piemontês; o pai, armado somente de um punhal e de um arcabuz descarregado também, gritava, por socorro. Uma velha, na janela defronte, a mãe do rapaz, tinha na mão um pedaço de mármore e preparava-se para atirar com ele. Enfim, Cocunás, excitado de um lado pelas ameaças, do outro pelas palavras de alento, ensoberbecido com a sua dupla vitória, embriagado de pólvora e sangue, alumiado pela reverberação de uma casa em chamas, exaltado pela ideia de que con batia debaixo dos olhos de uma mulher que lhe parecera tão superior como a sua jerarquia lhe parecia incontestável; Cocunás, como o último dos Horácios, sentiu duplicar as forças e, vendo o rapaz hesitar, correu para ele e cruzou em cima da sua espada pequena a sua terrível e ensanguentada partasana. Dois golpes bastaram para lha fazer saltar das mãos. Então, Mercandon diligenciou repelir Cocunás, para que os projécteis atirados das janelas pudessem alcançá-lo com mais certeza. Mas Cocunás, para paralisar o duplo ataque do velho Mercandon, que diligenciava atravessá-lo com o punhal, e da mãe do rapaz, que tentava esmigalhar-lhe a cabeça com a pedra que se preparava para lhe atirar, agarrou no seu adversário em peso, apresentando-o a todos os golpes como um escudo e sufocando-o com o seu braço hercúleo.

- Acudam-me! acudam-me! - exclamava o rapaz. - Mete-me as costelas dentro! Acudam-me, acudam-me!

E a voz começou a perder-se-lhe num estertor surdo.

Então Mercandon cessou de ameaçar, suplicou.

- Perdão! perdão, Sr. de Cocunás! - disse - perdão! é o meu único filho!

- É meu filho! meu filho! - gritou a mãe - a esperança única da nossa velhice! Não o mate, Senhor, não o mate!

- Ah sim?. - gritou Cocunás às gargalhadas - que não o mate! E então que me quer ele fazer com a sua pistola?.

- Senhor - continuou Mercandon, de mãos postas -, tenho em casa a obrigação de dívida assinada por seu pai: dar-lha-ei; tenho dez mil escudos de ouro: dar-lhos-ei; tenho as jóias de minha família: serão suas; mas não o mate, não o mate!

- E eu tenho o meu amor - disse a meia voz a mulher do Palácio de Guisa -, e prometo-lho.

Cocunás reflectiu por um momento, e prontamente perguntou ao rapaz:

- És huguenote?

Sou - murmurou o rapaz.

- Nesse caso, tens de morrer! - respondeu Cocunás, carregando o sobrolho e chegando ao peito do adversário o ferro acerado e cortante.

- Morrer? - exclamou o velho, angustiosamente - morrer, o meu querido filho?

E ressoou um grito de mãe, tão doloroso e tão profundo, que fez vacilar por um momento a selvagem resolução do piemontês.

- Oh! Senhora Duquesa! - bradou o pai, voltando-se para a senhora que estava na janela

do Palácio de Guisa - interceda por nós, e o seu nome figurará todas as manhãs e todas as noites nas nossas orações.

- Então que se converta! - disse a dama do Palácio de Guisa.

     - Sou protestante - repetiu o rapaz.

- Então morre - exclamou Cocunás, levantando a adaga -, morre, já que não queres a vida que essa linda boca te oferecia.

     Mercandon e a mulher viram brilhar a lâmina terrível como um relâmpago por cima da cabeça do filho.

- Meu Filho! meu Oliveiro! - gritou a mãe - abjura... abjura!...

     -Abjura, meu querido filho! - gritou Mercandon, rojando-se aos pés de Cocunás. - Não nos deixes morrer sós na Terra.

- Abjurem todos a um tempo! - gritou Cocunás. - Por um Credo, três almas e uma vida!

- Seja - disse o rapaz.

- Seja - gritaram Mercandon e a mulher.

- De joelhos então! e que teu filho repita, palavra por palavra, a oração que eu vou recitar.

-     O pai foi o primeiro que obedeceu.

- Estou pronto - disse o rapaz, e ajoelhou também.

Cocunás começou então a ditar-lhe em latim as palavras do Credo. Mas, ou por acaso ou por cálculo, o jovem Oliveiro ajoelhara junto do local para onde lhe tinha voado a espada. E, mal viu a arma ao alcance da mão, sem cessar de repetir as palavras de Cocunás, estendeu o braço para o apunhalar. Cocunás percebeu o movimento, fingindo que não. Mas, no momento em que o rapaz tocava com as pontas dos dedos contraídos o punho da espada, correu para ele e deitou-o ao chão, dizendo:

- Ah! traidor!

E cravou-lhe a adaga no pescoço.

O mancebo soltou um grito, ergueu-se convulsamente num joelho e tornou a cair, morto.

- Ah! carrasco! - berrou Mercandon - dás cabo de nós para nos roubares os cem dobrões que nos deves!

- Palavra que não - disse Cocunás - e a prova, aí a tens...

Dizendo estas palavras, Cocunás atirou aos pés do velho a bolsa que, antes de partir, o pai lhe entregara para pagar a dívida ao credor.

- E tu aí tens a tua morte! - gritou a mãe, da janela.

- Tome cuidado, Sr. de Cocunás, tome cuidado! - disse a dama do Palácio de Guisa.

Mas, antes que Cocunás pudesse voltar a cabeça para obedecer a este aviso ou para fugir a esta ameaça, uma enorme massa fendeu o ar assobiando, veio bater em cheio no chapéu do piemontês, partiu-lhe a espada na mão e estirou-o no chão, surpreendido, aturdido, derrancado, sem que pudesse ouvir os gritos de alegria e de aflição que se soltavam da direita e da esquerda.

Mercandon correu imediatamente, de punhal na mão, para Cocunás sem sentidos; mas abriu-se nesse momento a porta do Palácio de Guisa, e o velho, vendo brilhar as partasanas e as espadas, fugiu, enquanto aquela a quem chamara Senhora Duquesa, bela de uma beleza terrível à luz do incêndio, deslumbrante de pedrarias e diamantes, se debruçava da janela para gritar aos recém-chegados, com um braço estendido para Cocunás:

- Ali! ali! defronte de mim; um cavalheiro de gibão roxo. Sim, esse, esse!.

 

             MORTE, MISSA OU BASTILHA

Margarida, como dissemos, havia fechado a porta e entrado para o seu quarto. Mas entrando aí, palpitando, viu Gillonne, que, inclinada com terror para a porta do gabinete, contemplava os vestígios de sangue espalhados pela cama, pelos móveis e pelo tapete.

- Ah, minha Senhora! - exclamou ao ver a rainha. - Oh, minha Senhora! então ele morreu?

- Cala-te, Gillonne! - disse Margarida, com inflexão de voz que indicava a suprema importância do silêncio.

Gillonne calou-se.

Margarida tirou então da algibeira uma chavinha dourada, abriu a porta do gabinete e mostrou com o dedo o mancebo à sua aia.

La Mole conseguira levantar-se e chegara-se à janela. Achara à mão um pequeno punhal, dos que as senhoras usavam nesse tempo, e agarrara-o ao ouvir abrir a porta.

- Não tenha receio - disse Margarida -, porque, pela minha alma! juro- lhe que está aqui em segurança.

La Mole deixou-se cair de joelhos.

- Oh, minha Senhora! é para mim mais que uma rainha, é uma divindade!

- Não se agite por esse modo! - exclamou Margarida. - Ainda lhe corre o sangue. Oh! vê, Gillonne, como está pálido. Mas diga-me, onde é que está ferido?

- Minha Senhora - disse La Mole, tentando fixar em dores principais a dor errante que sentia por todo o corpo -, creio que recebi um golpe de adaga no ombro e outro no peito. Nas outras feridas não vale a pena falar.

- Vamos ver isso - disse Margarida. - Gillonne, traz a minha caixa de bálsamos. Gillonne obedeceu, e entrou trazendo numa das mãos a caixa e na outra um jarro de prata dourada e uma toalha de fino pano de Holanda.

- Ajuda-me a levantá-lo, Gillonne - disse a rainha Margarida -, porque, levantando-se em auxílio, o desgraçado acabou por perder as forças.

- Mas, minha Senhora. - disse la Mole - estou envergonhado. não posso consentir.

- Tenha paciência - disse Margarida. - Podemos salvá-lo, e seria um crime deixá-lo morrer.

- Oh! - exclamou La Mole - prefiro morrer a ver a senhora, que é rainha, sujar as mãos num sangue indigno como o meu. Oh! nunca! nunca!

E recuou respeitosamente.

- O seu sangue, meu fidalgo - tornou Gillonne, sorrindo -, já sujou o leito e o quarto de Sua Majestade.

Margarida cruzou o capote sobre o penteador de renda todo salpicado de sangue. Este gesto, todo cheio de pudor feminino, recordou a La Mole que tinha tido nos braços e apertado contra o peito essa rainha tão invejada, tão bela e tão amada, e essa recordação cingiu-lhe de um rubor fugitivo as faces lívidas.

- Minha Senhora - balbucíou -, não pode entregar-me aos cuidados de um cirurgião?

- De um cirurgião católico, quer?. - perguntou a rainha, com uma expressão que la Mole compreendeu e o fez estremecer.

- Ignora então - continuou a rainha, com uma voz e um sorriso de indizível meiguice - que nós, infantas de França, somos ensinadas a conhecer o valor das plantas e a fazer bálsamos, porque o nosso dever, como mulheres e como rainhas, foi, em todos os tempos, aliviar as dores? Por isso, valemos tanto como os melhores cirurgiões do mundo, pelo menos no dizer dos lisonjeiros. Não lhe chegou aos ouvidos a minha reputação a este respeito? Vamos, Gillonne, mãos à obra!

La Mole queria tentar resistir ainda; tornou a dizer que preferia morrer a dar à rainha esse incómodo, que podia começar pela compaixão e acabar pelo aborrecimento. Esta luta não serviu senão para lhe esgotar de todo as forças. Cambaleou, fechou os olhos e deixou cair a cabeça para trás, perdendo os sentidos segunda vez.

Então, Margarida, agarrando no punhal que se soltara da mão de La Mole, cortou rapidamente o atacador que lhe apertava o gibão, enquanto Gillonne, com outro punhal, descosia, ou melhor, rasgava as mangas do mancebo.

Gillonne, com um pedaço de pano molhado em água fria, fez estancar o sangue que saía do ombro e do peito de La Mole, enquanto Margarida, com uma agulha de ponta redonda, sondava a ferida com toda a delicadeza e perícia que mestre Ambrósio Paré poderia desenvolver numa circunstância daquelas.

A do ombro era profunda, a do peito escorregara sobre as costelas e atravessara tão-somente a carne; nenhuma delas penetrara na cavidade da fortaleza natural que protege o coração e os pulmões.

- Ferida dolorosa e não mortal: Acerrimum humeri vulnus non autenz lethale - murmurou a bela e sábia cirúrgica. - Dá-me o bálsamo e faz fios, Gillonne.

Mas Gillonne, a quem a rainha acabava de dar esta nova ordem já tinha enxugado e perfumado o peito do mancebo, e outro tanto Lhe fizera aos braços, modelados por um desenho antigo, aos ombros, graciosamente inclinados para trás, e ao pescoço assombreado por anéis espessos, e que mais parecia pertencer a uma estátua de mármore de Paros do que ao corpo mutilado de um homem moribundo.

- Pobre mancebo! - murmurou Gillonne, olhando não tanto para a sua obra, como para aquele em quem a empregara.

- Não é verdade que é belo? - perguntou Margarida com uma franqueza real.

- Sim, minha Senhora. Mas parece-me que, em vez de o deixarmos assim deitado no chão, deveríamos levantá-lo e deitá- lo na cama de descanso a que está apenas apoiado.

- Sim - disse Margarida -, tens razão.

E as duas mulheres, inclinando-se e reunindo forças, levantaram La Mole e depuseram-no numa espécie de sofá grande de costas esculpidas que havia defronte da janela, que abriram para lhe dar ar.

O movimento acordou La Mole, que soltou um suspiro e, tornando a abrir os olhos, começou a experimentar o incrível bem-estar que acompanha todas as sensações do ferido quando, ao voltar à vida, acha frescura em vez de chamas devoradoras, e perfumes de bálsamo em vez do morno e nauseabundo cheiro do sangue.

Murmurou algumas palavras entrecortadas, a que Margarida respondeu com um sorriso pondo o dedo na boca.

Neste momento ouviu-se o barulho de muitas pancadas a uma porta.

- Batem na passagem secreta - disse Margarida.

- Quem será, minha Senhora? - perguntou Gillonne, aterrada.

- Vou ver - disse Margarida. - Fica tu ao pé dele, e não o abandones um único instante. Margarida tornou a entrar no quarto e, fechando a porta do gabinete, foi abrir a da passagem que dava para os aposentos do rei e da rainha-mãe.

- A Sr.a de Sauve! - exclamou ela, recuando com vivacidade e com uma expressão que se parecia, senão com o terror, pelo menos com o ódio, tão verdade é que uma mulher nunca perdoa outra mulher o tirar-lhe um homem, embora não o ame. - A Sr.a de Sauve!

- Sim, minha Senhora! - disse esta, pondo as mãos.

- A Senhora aqui? - continuou Margarida, cada vez mais espantada, mas com uma voz imperativa.

Carlota caiu de joelhos.

- Minha Senhora - disse -, perdoe-me! Reconheço quanto sou culpada para com Vossa Majestade; mas, se soubesse! a falta não é toda minha; porém, uma ordem expressa da rainha nãe...

- Levante-se - disse Margarida -, e como não penso que viesse na esperança de se justificar para comigo, diga-me porque veio.

- Vim, minha Senhora - disse Carlota, continuando de joelhos e com um olhar quase transviado -, para lhe perguntar se ele estava aqui.

- Aqui, quem! de quem fala a senhora?. porque, na verdade, não compreendo.

- Do rei.

- Do rei? Persegue-o até nos meus aposentos? E, contudo, sabe muito bem que ele não está!

- Ah! minha Senhora! - continuou a baronesa de Sauve, sem responder a todos estes ataques e sem dar sequer mostras de que os sentia - ah! prouvera a Deus que ele aqui estivesse! - E porquê?

- Oh! meu Deus! Porque andam dando cabo dos huguenotes, e o rei de Navarra é o chefe dos huguenotes.

- Oh! - exclamou Margarida, agarrando na mão da Sr.a de Sauve e obrigando-a a levantar-se - oh! tinha-me esquecido disso! E não podia crer que um rei pudesse correr os mesmos perigos que os outros homens.

- Mais, minha Senhora, mil vezes mais! - exclamou Carlota.

- A Sr.a de Lorena tinha-me prevenido. Eu disse-lhe que não saísse. Sairia ele?

- Não, não está no Louvre. Não se encontra. E se não está aqui.

- Não está.

- Oh! - exclamou a Sr.a de Sauve, com uma explosão de dor - desgraçado dele! porque a rainha-mãe jurou a sua morte.

- A sua morte? Ah! - disse Margarida - a senhora aterra-me! É impossível!

- Minha Senhora - tornou a Sr.a de Sauve, com a energia que só dá a paixão -, digo-lhe que não se sabe onde está o rei de Navarra.

- E a rainha-mãe, onde está?

-A rainha-mãe ordenou-me que chamasse o Sr. de Guisa e o Sr. de Tavannes, que estavam no seu oratório, e depois mandou-me retirar. Então, perdoe-me, minha Senhora Fui para o meu quarto e, como de costume, esperei.

- Esperou meu marido? - disse Margarida.

- Não apareceu, minha Senhora. Então, procurei-o por toda a parte, perguntei a toda a gente. Só um soldado me respondeu que lhe parecia que o tinha visto no meio de guardas, que o acompanhavam de espadas desembainhadas algum tempo antes de começar a carnificina; e a carnificina começou há uma hora.

- Obrigada, minha Senhora! - disse Margarida. - E embora talvez o sentimento que a dirige seja uma ofensa mais para mim, obrigada!

- Oh! então perdoe-me, minha Senhora! - disse ela - e voltarei para o meu quarto ainda mais animada com o seu perdão, porque não me atrevo a seguir Vossa Majestade nem de longe.

Margarida estendeu-lhe a mão.

- Vou ter com a rainha Catarina - disse. - Recolha-se ao seu quarto. O rei de Navarra está sob a minha salvaguarda; prometi-lhe aliança, e hei-de ser fiel à minha promessa.

- E se não a deixarem falar à rainha-mãe?

- Então recorrerei a meu irmão, e hei-de falar-lhe.

- Vá, minha Senhora, vá - disse Carlota, deixando a passagem livre a Margarida - e que Deus guie Vossa Majestade!

Margarida correu pelo corredor. Mas chegando ao fim dele, voltou-se, para se certificar de que a Sr. a de Sauve não ficara para trás. A Sr.a de Sauve seguia-a.

A rainha de Navarra viu-a tomar pela escada que conduzia ao seu quarto e continuou a dirigir-se para o quarto da rainha-mãe.

Estava tudo mudado; em vez da multidão de cortesãos açodados que ordinariamente abria filas diante da rainha saudando-a respeitosamente, Margarida não encontrou senão guardas com partasanas ensanguentadas e vestuários sujos de sangue, ou fidalgos de capotes rasgados, rosto enegrecido pela pólvora, portadores de ordens e de despachos, uns entrando, outros saindo: todas essas idas e vindas faziam um formigueiro terrível e imenso nas galerias.

Margarida não deixou de continuar o seu caminho e chegou à antecâmara da rainha-mãe. Mas essa antecâmara era guardada por duas filas de soldados, que não deixavam entrar senão as pessoas que davam certa senha. Margarida tentou debalde transpor essa barreira viva. Viu a porta abrir-se e fechar-se muitas vezes, e de cada vez, pela abertura, avistou Catarina, remoçada pela acção, activa como se não tivesse mais de vinte anos, escrevendo, recebendo cartas, abrindo-as, dando ordens, dirigindo a estes uma palavra, àqueles um sorriso; e para quem sorria mais amigavelmente era para os que estavam mais cobertos de poeira e sangue.

No meio do grande tumulto que havia no Louvre e dos ruídos aterradores, ouviam-se os tiros de arcabuz na rua, cada vez mais repetidos.

Não posso conseguir falar com ela - disse Margarida consigo, depois de haver feito três tentativas inúteis perante os alabardeiros. - Se hei-de estar a perder aqui o meu tempo, vou ter com meu irmão.

Neste momento passou o Sr. de Guisa; acabava de anunciar à rainha a morte do almirante, e voltava para a carnificina.

- Oh! Henrique! - exclamou Margarida - onde está o rei de Navarra? O duque olhou para ela com um sorriso de espanto, curvou-se e, sem responder, saiu com os seus guardas.

Margarida correu para um capitão que ia a sair do Louvre e que, antes de partir, mandava carregar os arcabuzes aos soldados.

- O rei de Navarra? - perguntou ela - onde está o rei de Navarra?

- Não sei, minha Senhora - respondeu este -, não pertenço aos guardas de Sua Majestade.

- Ah! meu querido Renato! - exclamou Margarida, reconhecendo o perfumista de Catarina - é o senhor. sai do quarto de minha mãe. Sabe o que é feito de meu marido?

- Sua Majestade o Rei de Navarra não é meu amigo, minha Senhora. deve lembrar-se disso. Diz-se até - acrescentou com uma contracção que se parecia mais com um ranger de dentes do que com um sorriso - que ousa acusar-me de ter, de cumplicidade com a rainha Catarina, envenenado sua mãe.

- Não! não! - exclamou Margarida - não creia isso, meu bom Renato!

- Oh! pouco me importa, minha Senhora! - disse o perfumista. - Nem o rei de Navarra nem os seus são para temer nesta ocasião. E voltou as costas a Margarida.

- Oh! Sr. de Tavannes! Sr. de Tavannes! - exclamou Margarida - uma palavra, uma palavra só, suplico-lhe!

Tavannes, que passava, parou.

- Onde está Henrique de Navarra? - perguntou Margarida.

- Creio - disse ele em voz alta - que anda pela cidade com os Srs. de Alençon e de Condé.

Depois, tão baixo que só Margarida pudesse ouvi-lo:

- Bela Majestade, se quer ver aquele para estar em cujo lugar eu daria a minha vida, vá bater à porta da sala de armas do rei.

- Oh! obrigada, Tavannes! - disse Margarida, que de tudo quanto Tavannes lhe havia dito, não ouvira senão a indicação principal - obrigada! para lá vou.

E continuou o seu caminho, murmurando:

Oh! depois do que lhe prometi, depois do modo por que se portou para comigo, quanto é ingrato Henrique estava escondido no gabinete, não posso deixá-lo perecer.

E foi bater à porta dos aposentos do rei; mas estavam guardados interiormente por duas companhias de guardas.

- Não se entra nos aposentos de el-rei! - disse o oficial, avançando com vivacidade.

- Nem eu?... - disse Margarida.

     - A ordem é geral.

- Eu, a rainha de Navarra? eu, sua irmã?

- As ordens que tenho não fazem excepção, minha Senhora; peço-lhe mil desculpas.

E o oficial tornou a fechar a porta.

Oh! está perdido! - exclamou Margarida, assustada pela vista dessas caras sinistras, que,

quando não inspiravam vingança, exprimiam inflexibilidade. - Sim, sim, percebo tudo... serviam-se de mim como isca... eu sou o laço onde se apanham e se estrangulam os huguenotes...

Oh! hei-de entrar, ainda que me matem!

E Margarida corria como louca pelos corredores e pelas galerias, quando de repente, passando diante de uma portinha, ouviu um canto meigo, quase lúgubre, tão monótono era. Era uma canção, que uma voz trémula cantava no quarto próximo.

A ama do rei meu irmão, a boa Madelon... está aqui! - exclamou Margarida, batendo à porta iluminada por um pensamento súbito - está aqui!... Deus dos cristãos, ajudai-me!

E Margarida, cheia de esperança, bateu à portinha.

O facto é que, depois do aviso que lhe fora dado por Margarida, depois da sua conversação

com Renato, depois da saída do quarto da rainha-mãe, à qual, como um génio bom, quisera

opor-se a pobre pequena Febe Henrique de Navarra encontrara alguns fidalgos católicos que,

a pretexto de o honrarem, o haviam levado outra vez para o seu quarto, onde o esperavam uns vinte huguenotes, ali reunidos, que não o queriam deixar, tanto pairava no Louvre, havia algumas horas, o pressentimento desta noite fatal. Tinham-se conservado pois ali sem que tentassem incomodá-los. Até que à primeira badalada do sino de S. Germano L'Auxerrois, que ressoou em todos

os locais como um som fúnebre, entrou Tavannes e, no meio de um silêncio de morte, anunciou a Henrique que o rei Carlos IX queria falar-lhe.

Não havia resistência que tentar, e ninguém pensou em tal. Ouviam- se os tectos, as galerias e corrredores estalar debaixo dos pés dos soldados reunidos, tanto nos pátios como nos aposentos, em número de cerca de dois mil. Henrique, depois de se despedir dos seus amigos, que não devia tornar a ver, seguiu Tavannes, que o conduziu a uma pequena galeria contígua aos aposentos do rei, onde o deixou só, sem armas e com o coração cheio de desconfiança.

O rei de Navarra contou assim, minuto por minuto, duas horas mortais, escutando com progressivo terror a bulha do sino tocando a rebate e o estrondo das arcabuzadas; vendo, por um postigo de vidro, passar, ao clarão do incêndio, à luz dos archotes, os fugitivos e os assassinos; não compreendendo esses clamores de homicídio, e esses gritos de aflição; e não podendo supor, apesar do conhecimento que tinha de Carlos IX, da rainha-mãe e do duque de Guisa, o horrível drama que se estava representando nesse momento.

Henrique não tinha só a coragem física; tinha mais do que isso, tinha a pujança moral: temendo o perigo, afrontava-o sorrindo; mas o perigo do campo de batalha, o perigo ao ar livre e às claras, o perigo aos olhos de todos, que a harmonia estridente das trombetas e a voz surda e vibrante dos tambores acompanham. Ali, não; ali estava sem armas, só, fechado, perdido numa quase escuridão, que não lhe deixava ver senão o inimigo que podia arrastar-se até ele e o ferro que queria feri-lo. Estas duas horas foram pois talvez as duas horas mais cruéis da sua vida.

No mais forte do tumulto, e quando Henrique começava a compreender que, segundo todas as probabilidades, se tratava de uma carnificina organizada, veio um capitão buscar o príncipe e conduzi-lo por um corredor ao quarto do rei. Quando se aproximaram, abriu-se a porta como por encanto. Depois, o capitão levou Henrique à presença de Carlos IX, que estava então na sala de armas.

Quando entraram, o rei estava sentado numa enorme poltrona, com as mãos nos braços dela e de cabeça caída no peito. Ao ruído que fizeram os recém-chegados, Carlos IX ergueu a fronte na qual Henrique viu correr o suor em volumosos pingos.

- Boa noite, Henrique! - disse o rei brutalmente. - Deixa-nos, La Chastre. O capitão obedeceu.

Houve um momento de sombrio silêncio.

Durante ele, Henrique olhou em volta de si com inquietação, e viu que estava só com o rei, Carlos IX levantou-se num repente.

- Com a fortuna! - disse, levantando os cabelos louros e limpando ao mesmo tempo a testa - está contente por se ver ao pé de mim, não é verdade, Henrique?

- Decerto, Sire - respondeu o rei de Navarra -, tenho sempre muita satisfação em estar ao pé de Vossa Majestade.

- Mais contente do que se estivesse na rua, hem? - tornou Carlos IX, continuando a seguir o seu pensamento, e sem responder ao cumprimento de Henrique.

- Sire, não compreendo - disse Henrique.

- Olhe, e compreenderá.

Com um movimento rápido, Carlos IX caminhou, ou, para melhor dizer, deu um pulo numa janela que estava aberta. E, puxando para si o cunhado, cada vez mais espantado, mostrouos assassinos, que, dentro de um bote, estrangulavam ou afogavam as vítimas que lhes levavam a cada instante.

- Mas, em nome do céu! - exclamou Henrique, enfiado - então que é isto esta noite!

- Esta noite - disse Carlos IX - livram- me de todos os huguenotes. Vê além, por cima do Palácio de Bourbon, aquele fumo e aquelas chamas? São o fumo e as chamas da casa do almirante, que está a arder. Vê aquele corpo que bons católicos arrastam em cima de um colchão rasgado? É o corpo do genro do almirante, o cadáver do seu amigo Teligny.

- Oh! que quer dizer isto? - exclamou o rei de Navarra, procurando inutilmente o punho da sua adaga e tremendo ao mesmo tempo de vergonha e de cólera, porque via que o estavam motejando e ameaçando.

- Quer dizer - exclamou Carlos IX, furioso, sem transição e descorando de um modo aterrador - que eu não quero mais huguenotes em roda de mim, entende, Henrique? Não sou rei? Não estou no meu direito?.

- Mas, Vossa Majestade.

- A minha majestade mata e degola a esta hora todos os que não são católicos; assim me apraz. O senhor é católico? - exclamou Carlos, cuja cólera subia incessantemente como uma maré terrível.

- Sire - disse Henrique -, recorde-se das suas palavras: Que importa a religião de quem me serve bem?

Ah! ah! ah! - bradou Carlos, dando uma gargalhada sinistra - que me recorde das minhas palavras, dizes tu, Henrique!. Verba volant como diz minha irmã Margot. E todos esses, olha - acrescentou, mostrando com o dedo a cidade -, todos esses não me tinham servido bem? Não eram bravos no combate, sábios no conselho, e sempre dedicados?. Eram todos súbditos úteis; mas eram huguenotes, e eu não quero senão católicos.

Henrique conservou-se mudo.

- Então compreendes-me, Henrique? - perguntou Carlos IX.

- Compreendo, Sire.

- E daí?

- E daí, Sire, não vejo a razão por que o rei de Navarra havia de fazer o que tantos fidalgos ou pobres diabos não fizeram. Se esses desgraçados morrem todos, é decerto porque lhes foi proposto o que Vossa Majestade me propõe e recusaram, como eu recuso.

Carlos agarrou no braço do jovem príncipe, e fitando nele um olhar cuja atonia se mudava pouco a pouco em feroz irradiação, disse-lhe:

- Ah! tu julgas que me dei ao incómodo de oferecer a missa aos que estão sendo estrangulados lá fora?

- Sire - disse Henrique, soltando o braço -, Vossa Majestade não quer morrer na religião de seus pais?

- Quero, coa fortuna! e tu?

- Pois também eu, Sire! - respondeu Henrique.

Carlos soltou um rugido de raiva, e pegou com mão trémula num arcabuz que estava em cima de uma mesa. Henrique, encostado à parede, com o suor da angústia na fronte, mas, graças ao império que conservava sobre si mesmo, sereno na aparência, seguia todos os movimentos do terrível monarca com o ávido espanto do pássaro fascinado pela serpente.

Carlos engatilhou o arcabuz, e batendo o pé com furor cego:

- Queres a missa? - exclamou, deslumbrando Henrique com o espelhar da arma fatal, mas Henrique permaneceu mudo.

Carlos IX abalou as abóbadas do Louvre com a mais terrível praga qe tem saído dos lábios de um homem e, de pálido que estava, tornou-se lívido.

- Morte, missa, ou Bastilha! - exclamou, fazendo pontaria para o rei de Navarra.

- Oh, Sire! - exclamou Henrique - quer-me matar, a mim, seu cunhado? Henrique acabava de iludir com o seu espírito incomparável, que era uma das mais possantes faculdades da sua organização, a resposta que Carlos IX lhe pedira; porque, sem dúvida nenhuma se essa resposta fosse negativa, Henrique estaria morto.

Por isso, como imediatamente depois dos últimos paroxismos da fúria vem o começo da reacção, Carlos IX não repetiu a pergunta que acabava de dirigir ao príncipe de Navarra e, depois de um momento de hesitação, durante o qual fez ouvir um rugido surdo, voltou-se para a janela aberta e apontou o arcabuz para um homem que corria pelo cais fronteiro.

- É preciso, contudo, que eu mate alguém! - exclamou Carlos IX, lívido como um cadáver, e cujos olhos se injectaram de sangue. E dando o tiro, deitou ao chão o homem que corria.

Henrique soltou um gemido.

Animado então por um tremendo ardor, Carlos carregou e deu incessantemente tiros de arcabuz, soltando gritos de alegria todas as vezes que os tiros acertavam.

Estou bem arranjado! - disse com os seus botões o rei de Navarra - quando lhe não aparecer mais quem mate, mata-me a mim.

- Então? - disse de repente uma voz por trás dos príncipes - está tudo arranjado? Era Catarina de Médicis, que entrara durante a última detonação sem que dessem por isso.

- Não, com mil trovões do Inferno! - berrou Carlos, atirando o seu arcabuz pela casa fora. - Não; o cabeçudo. não quer!.

Catarina não respondeu. Voltou vagarosamente os olhos para a parte do quarto onde estava Henrique, tão imóvel como uma das figuras da tapeçaria a que se encostava; e daí fitou em Carlos um olhar que queria dizer: Então porque está vivo?.

- Está vivo. está vivo. - murmurou Carlos IX, que compreendia perfeitamente esse olhar, e que lhe respondia, como se vê, sem hesitação - está vivo, porque. é meu parente.

Catarina sorriu.

Henrique viu esse sorriso, e reconheceu que era principalmente a Catarina que precisava combater.

- Minha Senhora - disse-lhe - tudo provém de si, bem vejo, e nada de meu cunhado Carlos; foi a senhora quem teve a ideia de me fazer cair numa cilada; foi a senhora quem pensou em fazer de sua filha a isca que devia perder-nos a todos; foi a senhora quem me separou de minha mulher para que ela não tivesse o desagrado de me ver matar.

- Sim, mas isso não há-de acontecer! - exclamou outra voz, esbaforida e apaixonada, que Henrique reconheceu no mesmo instante, e que fez estremecer Carlos IX de surpresa, e Catarina de furor.

- Margarida! - bradou Henrique.

- Margot! - disse Carlos IX.

- Minha filha! - murmurou Catarina.

- Senhor - disse Margarida para Henrique -, as suas últimas palavras acusavam-me, e tinha e não tinha razão, ao mesmo tempo. Tinha razão, porque eu sou, com efeito, o instrumento de que se serviram para os perder a todos. Não tinha razão, porque eu ignorava que caminhavam para a perda. Eu própria, aqui onde me vê, devo a vida ao acaso, talvez ao esquecimento de minha mãe; mas, tão depressa soube o perigo em que o senhor estava, lembrei-me do meu dever. Ora, o dever de uma mulher é quinhoar a fortuna de seu marido. Se o exilarem, acompanhá-lo-ei ao exílio; se o prenderem, far-me-ei cativa; se o matarem, morrerei.

E estendeu ao marido a mão, em que Henrique pegou, senão com amor, pelo menos com reconhecimento.

- Ah, minha pobre Margot! - disse Carlos IX. - Melhor seria que lhe dissesses que se fizesse católico!

- Sire - respondeu Margarida, com a alta dignidade que lhe era tão natural -, creia-me: por si mesmo, não peça uma cobardia a um príncipe da sua casa.

Catarina lançou um olhar significativo para Carlos.

- Meu irmão - exclamou Margarida, que, tão bem como Carlos IX, compreendia a terrível pantomima de Catarina -, meu irmão, pense nisto: foi Vossa Majestade que fez dele meu esposo.

Carlos IX, no meio do olhar imperioso de Catarina e do olhar suplicante de Margarida, como entre dois princípios opostos, permaneceu indeciso por um momento; por fim resolveu-se.

- A verdade, minha Senhora - disse o rei ao ouvido de Catarina -, é que Margot tem razão: Henrique é meu cunhado.

- Pois sim - respondeu Catarina, falando também ao ouvido do filho -, mas se o não fosse.

 

         O ESPINHEIRO DO CEMITÉRIO DOS INOCENTES

Voltando para o seu quarto, Margarida debalde diligenciou adivinhar a palavra que Catarina de Médicis tinha dito em voz baixa a Carlos IX, e que havia acabado com o terrível conselho de vida ou de morte que predominava naquela ocasião.

Uma parte da manhã foi empregada por ela em tratar de La Mole, e a outra em decifrar o enigma que o seu espírito se recusava a compreender.

O rei de Navarra ficara prisioneiro no Louvre. Os huguenotes eram mais do que nunca perseguidos. À terrível noite sucedera um dia de carnificina mais odioso ainda. Já não era a rebate que tocavam os sinos, era para o Te Deum que se celebrava em todos os templos; e os sons joviais desse bronze, ressoando no meio do homicídio e dos incêndios, eram talvez mais tristes à luz do Sol do que o havia sido o som fúnebre da noite precedente. Não era tudo; havia-se dado um caso singular: um espinheiro que florira na Primavera, e que, como de costume, perdera os seus odoríferos atavios no mês de Junho, reflorira durante a noite, e os católicos, que viam neste acontecimento um milagre, e que, pela popularização desse milagre, faziam Deus seu cúmplice, iam em procissão, de cruz alçada, ao Cemitério dos Inocentes, onde esse espinheiro florescia. Esta espécie de assentimento dado pelo Céu à carnificina redobrava o ardor dos assassinos. E enquanto a cidade continuava a oferecer em cada rua, em cada encruzilhada, em cada praça, uma cena de desolação, o Louvre servia de túmulo a todos os protestantes que se haviam achado encerrados no momento do sinal. Só lá estavam vivos o rei de Navarra, o príncipe de Condé e La Mole.

Descansada acerca de La Mole, cujas feridas, como na véspera ela dissera, eram perigosas mas não mortais, Margarida não se preocupava senão com uma coisa: salvar a vida do marido que continuava a estar ameaçada. O primeiro sentimento que se apoderara da esposa, era, sem dúvida, um sentimento de leal compaixão para com um homem ao qual acabava, como dissera o próprio Bearnês, de jurar, senão amor, pelo menos aliança. Mas em seguida a esse sentimento outro menos puro penetrara no coração da rainha.

Margarida era ambiciosa; Margarida vira quase que uma realeza certa no seu casamento com Henrique de Bourbon. A Navarra, ambicionada de um lado pelos reis de França, e do outro pelos reis de Espanha, que, retalho a retalho, tinham acabado por lhe tirar metade do território, podia ser que Henrique de Bourbon realizasse as esperanças de coragem que havia dado nas raras ocasiões que desembainhara a espada, vir a ser um reino real, com os huguenotes da França por súbditos. Graças ao seu espírito tão fino e tão elevado, Margarida entrevira e calculara tudo isto. A perda de Henrique para ela não era só a perda de um marido, era a perda de um trono.

Estava no mais íntimo das suas reflexões, quando ouviu bater à porta do corredor secreto. Estremeceu, porque só três pessoas podiam entrar por essa porta: o rei, a rainha-mãe e o duque de Alençon. Entreabriu a porta do gabinete, recomendou com o dedo silêncio a Gillonne e a La Mole, e foi abrir a porta à visita.

A visita era o duque de Alençon.

Desde a véspera que não era criança. Por um instante Margarida se lembrara de reclamar a sua intercessão em favor do rei de Navarra; mas detivera-a uma ideia terrível. O casamento tinha sido feito contra vontade dele. Francisco detestava Henrique, e não conservava a neutralidade em favor do Bearnês senão porque estava convencido de que Henrique e sua mulher se conservavam estranhos um ao outro. Um sinal de interesse dado por Margarida em favor do esposo podia, por consequência, em vez de desviar, aproximar-lhe do peito um dos três punhais que o ameaçavam.

Margarida estremeceu portanto ao ver o jovem príncipe, mais do que se visse o rei Carlos IX ou a própria rainha-mãe. Demais, ao vê-lo, não se diria que se passava nada de insólito na cidade, ou no Louvre; estava vestido com a sua costumada elegância. Do fato e da roupa branca exalavam-se os perfumes que Carlos IX desprezava, mas de que o duque de Anjou e ele faziam continuado uso. Somente olhos práticos como eram os de Margarida podiam notar que, apesar da sua palidez, maior que de costume, e apesar da leve tremura que lhe agitava a extremidade das mãos, tão belas e tão bem tratadas como mãos de mulher, encerrava no fundo do coração algum sentimento jovial.

A sua entrada foi o que costumava ser. Aproximou-se da irmã para a beijar. Mas em vez de lhe apresentar a face, como o faria ao rei Carlos ou ao duque de Anjou, Margarida curvou-se e ofereceu-lhe a testa.

O duque de Alençon soltou um suspiro e chegou os lábios descorados à testa que Margarida lhe apresentava.

Então, sentando-se, começou a contar à irmã as notícias sanguinolentas da noite; a morte lenta e terrível do almirante; a morte instantânea de Teligny, que, ferido por uma bala, deu imediatamente o último suspiro. Demorou-se, carregou, regozijou-se com as minúcias sangrentas da noite, com o amor do sangue que lhe era peculiar e a seus dois irmãos. Margarida deixou-o dizer.

Até que, tendo dito tudo, calou-se.

- Não foi somente para me fazer essa narração que vieste visitar-me, não é verdade, meu irmão? - perguntou Margarida.

O duque d'Alençon sorriu.

- Tens alguma outra coisa a dizer-me?

- Não - respondeu o duque -, espero.

- Que esperas?

- Não me disseste, minha querida Margarida - tornou o duque, aproximando a cadeira da da irmã -, que o casamento com o rei de Navarra era contra tua vontade?

- Disse, porque não conhecia o príncipe de Béarn quando mo propuseram para esposo.

- E depois de o conheceres, não me afirmaste que não sentias amor algum por ele?

- Disse-te, é verdade.

- Não era tua opinião que esse casamento ia fazer a tua desgraça?

- Meu caro Francisco, quando um casamento não é a suprema felicidade, é quase sempre a suprema dor.

- Então, minha querida Margarida, como te dizia, espero.

- Mas que esperas? diz.

- Que manifestes a tua alegria.

- Mas de que hei-de eu regozijar-me?

- Esta ocasião inesperada que se te oferece para recuperares a tua liberdade.

- A minha liberdade? - tornou Margarida, que queria obrigar o príncipe a dizer todo o seu pensamento.

- Sem dúvida, a tua liberdade! Vais ser separada do rei de Navarra.

- Separada? - disse Margarida, fitando os olhos nos do príncipe.

O duque de Alençon diligenciou suportar o olhar da irmã; mas não tardou que os olhos se lhe desviassem dela confusos.

- Separada? - repetiu Margarida. - Vejamos isso, meu irmão; porque muito estimo que me dês ocasião para profundar esse negócio; e como é que tencionam separar-nos?

- É que - murmurou o duque - Henrique é huguenote.

- É; mas não tinha feito mistério da sua religião, e sabia-se isso quando nos casaram.

- Isso é assim; mas depois do casamento, minha irmã - disse o duque, deixando mau grado seu um raio de alegria iluminar-lhe o semblante -, que tem feito Henrique?

- Sabe-lo melhor do que ninguém, Francisco, porque tem passado quase todos os dias na tua companhia, ora na caça, ora no jogo da malha, ora no jogo da péla.

- Os dias, sim - tornou o duque -, mas as noites?

Margarida calou-se, e chegou-lhe a vez de abaixar os olhos.

- As noites? - continuou o duque de Alençon - as noites?

- Que queres dizer? - perguntou Margarida reconhecendo que tinha de responder alguma coisa.

- Quero dizer que tem passado as noites na companhia da Sr.a de Sauve.

- Como é que o sabes? - exclamou Margarida.

- Sei-o, porque tinha interesse em sabê-lo - respondeu o príncipe, empalidecendo e amarrotando nervosamente os bordados das suas mangas.

Margarida começava a compreender o que Catarina tinha dito em voz baixa a Carlos IX; mas fingiu que ignorava.

- Porque me dizes isso, meu irmão? - perguntou, com uns modos de melancolia bem fingidos. - É para me lembrares que aqui ninguém me ama e se importa comigo: os que a natureza me deu para protectores, como o que a igreja me deu para esposo?

- És injusta - disse com vivacidade o duque de Alençon, chegando mais a cadeira à da irmã -, eu amo-te e protejo-te.

- Meu irmão - disse Margarida, olhando-o fitamente -, tens alguma coisa para me dizer da parte da rainha-mãe?

- Eu? Enganas-te, minha irmã, juro-te! Que é que pode fazer-te crer nisso?

- O que pode fazer-me crer é que quebras a amizade que te ligava a meu marido; é que abandonas a causa do rei de Navarra.

- A causa do rei de Navarra? - tornou o duque de Alençon, estupefacto.

- Sim, sem dúvida. Olha, Francisco, falemos com franqueza. Concordaram vinte vezes em que não se podem elevar e até sustentar-se senão um pelo outro. Essa aliança.

- Tornou-se impossível, minha irmã - interrompeu o duque de Alençon.

- E porquê?

- Porque o rei tem os seus projectos acerca de teu marido. Perdão! dizendo teu marido, equivoco-me: é acerca do rei de Navarra que queria dizer. A nossa mãe adivinhou tudo. Eu aliava-me com os huguenotes porque julgava que os huguenotes eram bem vistos. Mas estão matando os huguenotes, e dentro de oito dias não restarão cinquenta em todo o reino. Estendia a mão ao rei de Navarra porque era. teu marido. Mas não é teu marido. Que tens que dizer a isto, tu, que és não só a mulher mais bela de França, mas a melhor cabeça do reino?

- Tenho a dizer que conheço nosso irmão Carlos. Vi-o ontem com um desses acessos de furor dos quais cada um lhe tira dez anos de vida; tenho que dizer que esses acessos, por desgraça, lhe dão agora muito a miúdo, o que faz com que, segundo todas as probabilidades, nosso irmão Carlos não possa viver muito tempo; tenho que dizer que acaba de morrer o rei da Polónia, e que se trata de eleger para o seu lugar um príncipe da Casa de França; e tenho a dizer que, quando as circunstâncias se apresentem assim, não é bom ensejo para abandonar aliados, que, no momento do combate, podem amparar-se com o concurso de um povo e o apoio de um reino.

- E tu - exclamou o duque - não me fazes uma traição maior em preferir um estranho a teu irmão?

- Explica-te, Francisco! em quê, e como te traí eu?

- Pediste ontem ao rei a vida do rei de Navarra.

- E daí? - perguntou Margarida, com fingida ingenuidade.

O duque levantou-se precipitadamente, deu duas ou três voltas no quarto com modos desarvorados e depois pegou na mão de Margarida.

Esta mão estava hirta e gelada.

- Adeus, minha irmã! - disse ele. - Não quiseste compreender-me; não te queixes pois senão de ti nas desgraças que te puderem acontecer.

Margarida descorou, mas ficou imóvel no seu lugar. Viu sair o duque de Alençon sem fazer um sinal para o demorar; mas, tão depressa o perdeu de vista no corredor, ele voltou atrás.

- Ouve, Margarida, esquecia-me de te dizer uma coisa, e é que amanhã, a esta hora, estará morto o rei de Navarra.

Margarida soltou um grito, porque a ideia de que era ela o instrumento de um assassínio causava-lhe um terror que não podia vencer.

- E tu não obstarás a essa morte? - perguntou. - Não salvarás o teu melhor e o teu único aliado?

- De ontem para cá, não é meu aliado o rei de Navarra.

- Então quem é?

- o Sr. de Guisa. Destruindo os huguenotes, fizeram o Sr. de Guisa rei dos católicos.

- E é o filho de Henrique II que reconhece como seu rei um duque de Lorena?

- Não estás hoje nos teus dias felizes, Margarida, e não percebes nada.

- Confesso que é debalde que procuro ler no teu pensamento.

- Minha irmã, tu és de tão boa casa como a Senhora Princesa de Porcian, e Guisa não é mais imortal do que o rei de Navarra; pois, Margarida, supõe agora três coisas, todas possíveis: a primeira é que o Sr. de Guisa é eleito rei da Polónia; a segunda, que tu me amas como eu te amo; e depois, que eu sou rei de França, e tu. tu. rainha dos católicos.

Margarida escondeu a cabeça nas mãos, deslumbrada pela profundeza de vistas deste adolescente, a quem ninguém na corte ousava chamar uma inteligência.

- Mas - perguntou depois de um instante de silêncio - não tens ciúmes do Senhor Duque de Guisa, como os tens do rei de Navarra?

- O que está feito está feito - disse o duque de Alençon, com voz surda -, e se tiver de ter ciúmes do duque de Guisa, tive-os.

- Há só uma coisa que pode impedir a realização desse plano, meu irmão - disse Margarida, levantando-se.

- Qual é?

- É que eu já não amo o duque de Guisa.

- Então quem amas?

- Ninguém.

O duque de Alençon olhou para Margarida com a admiração de quem não compreende, e saiu do quarto dando um suspiro e apertando com a mão gelada a testa, que lhe parecia querer abrir-se.

Margarida ficou só e pensativa. Começava a situação a desenhar-se-lhe aos olhos clara e exacta; o rei tinha deixado fazer o S. Bartolomeu, e quem o tinha feito era a rainha Catarina e o duque de Guisa. O duque de Guisa e o duque de tllençon iam unir-se para tirarem daí o maior proveito possível. A morte do rei de Navarra era consequência natural dessa grande catástrofe. Morto o rei de Navarra, apoderar-se-lhe-iam do trono. Margarida ficava viúva, sem trono, sem poder, restando-lhe por única perspectiva um convento, onde não teria sequer a triste dor de chorar um esposo que nunca tinha sido seu marido.

Pensava nisto, quando a rainha Catarina lhe mandou perguntar se não queria ir com a corte ao espinheiro do Cemitério dos Inocentes.

O primeiro impulso de Margarida foi recusar fazer parte da cavalgada. Mas o pensamento de que essa saída podia dar- lhe ocasião de saber alguma novidade acerca da sorte do rei de Navarra, resolveu-a. Respondeu, portanto, que, se lhe mandassem ajaezar um cavalo, acompanharia Suas Majestades da melhor vontade.

Cinco minutos depois, veio um pajem anunciar-lhe que, se queria descer, o cortejo ia pôr-se a caminho. Margarida fez um sinal com a mão a Gillonne, para lhe recomendar o ferido, e desceu.

Já estava a cavalo o rei, a rainha-mãe, Tavannes e os principais católicos. Margarida deitou um olhar rápido para esse grupo que se compunha de cerca de vinte pessoas: o rei de Navarra não estava ali.

Mas a Sr.a de Sauve estava; trocou um olhar com ela, e Margarida compreendeu que a amante do marido tinha o quer que fosse para lhe dizer.

Puseram-se a caminho para a Rua Santo Honorato pela Rua de Lastruce. À vista do rei, da rainha e dos principais católicos, juntara-se o povo, seguindo o cortejo como uma onda que sobe, gritando:

- Viva o rei! Viva a rainha! Morram os huguenotes!

Esses gritos eram acompanhados pela agitação de espadas ensanguentadas e de arcabuzes fumegantes, que indicavam a parte que cada um tinha tomado no sinistro acontecimento que acabava de se dar.

Ao chegarem às alturas da Rua das Prouvelles, encontraram-se com homens que arrastavam um cadáver sem cabeça. Era o do almirante. Esses homens iam pendurá-lo pelos pés em Montfaucon.

Entraram no Cemitério dos Santos Inocentes pela porta que abria defronte dos Chaps, actualmente dos Déchargeurs. O clero, prevenido da visita do rei e da rainha-mãe, esperava Suas Majestades para lhes fazer discursos.

A Sr.a de Sauve aproveitou o momento em que Catarina ouvia o discurso que lhe dirigiam, para se aproximar da rainha de Navarra e pedir-lhe permissão para lhe beijar a mão. Margarida estendeu o braço para ela, a Sr.a de Sauve aproximou os lábios da mão da rainha e, beijando-lha meteu-lhe na manga um papelinho enrolado.

Por mais rápido e mais dissimulado que fosse este acto da Sr.a de Sauve, Catarina deu por ele, e voltou-se no momento em que a sua dama de honor beijava a mão da rainha.

As duas mulheres viram esse olhar que as deslumbrava como um relâmpago, mas permaneceram ambas impassíveis. A Sr.a de Sauve afastou-se de Margarida, e voltou para o seu lugar ao pé de Catarina.

Depois de responder ao discurso que acabava de lhe ser dirigido, Catarina acenou sorrindo para a rainha de Navarra, que se chegasse para ela.

Margarida obedeceu.

- Minha filha - disse a rainha mãe, na sua algaravia italiana -, tens muita intimidade com a Sr.a de Sauve?

Margarida sorriu, dando ao seu lindo rosto a expressão mais amarga que pôde.

- Sim, minha mãe: a serpente veio morder-me na mão.

- Ah! ah! - disse Catarina, sorrindo - tens naturalmente ciúmes!

- Engana-se, minha Senhora! - respondeu Margarida. - Tenho tantos ciúmes do rei de Navarra como o rei de Navarra me tem amor. O que sei é distinguir os meus amigos dos meus inimigos. Amo quem me ama e detesto quem me odeia. Sem isso, minha Senhora, seria eu sua filha?

Catarina sorriu, de modo a fazer compreender a Margarida que, se tinha algumas suspeitas, as suspeitas tinham-se desvanecido.

Demais, neste momento, novos peregrinos chamaram a atenção da augusta assembleia. Chegava o duque de Guisa, escoltado por um grupo de gentis- homens ainda exaltados pela carnificina recente. Escoltavam uma liteira ricamente forrada, que parou defronte do rei.

- A duquesa de Nevers! - exclamou Carlos IX. - Vejamos! que venha receber os nossos cumprimentos, essa linda e severa católica! Sabe o que me disseram, minha prima? Que da sua parte deu caça aos huguenotes, e que matou um com uma pedrada.

A duquesa de Nevers fez-se muito corada.

- Sire - disse ela em voz baixa, vindo ajoelhar diante do rei -, não foi isso o que sucedeu; foi que tive a fortuna de recolher um católico ferido.

- Bem, bem, minha prima; há dois modos de me servir: um, exterminando os meus inimigos, o outro, socorrendo os meus amigos. Faz-se o que se pode, e tenho a certeza de que, se mais pudesse, mais teria feito.

Neste meio-tempo, o povo, que via a harmonia que reinava entre a Casa de Lorena e Carlos IX, gritava em altos gritos:

- Viva o rei! Viva o duque de Guisa! Viva a missa!

- Vem ao Louvre connosco, Henriqueta? - perguntou a rainha-mãe à bela duquesa. Margarida tocou com o cotovelo na sua amiga, que compreendeu imediatamente este sinal, respondeu:

- Não, minha Senhora, salvo se Vossa Majestade o ordena, porque tenho que sair com Sua Majestade a Rainha de Navarra.

- E que vão fazer ambas? - perguntou Catarina.

- Ver livros gregos raríssimos e curiosíssimos, que foram encontrados em casa de um pastor protestante, e que foram transportados para a Torre de Saint Jacques-la-Boucherie - respondeu Margarida.

- Melhor fariam se fossem atirar os últimos huguenotes do alto da Ponte dos Meuniers - disse Carlos IX. - É o lugar dos bons franceses.

- Iremos, se aprouver a Vossa Majestade - respondeu a duquesa de Nevers. Catarina lançou um olhar de desconfiança para as duas amigas. Margarida, que a observava, fimterceptou-o, e voltando-se e tornando a voltar-se logo, com modos muito preocupados, olhou com inquietação em redor de si.

Esta inquietação, fingida ou real, não escapou a Catarina.

- Que procuras?

- Procuro. já não vejo - disse ela.

- Quem procuras, que já não vês?

- A Sauve - disse Margarida. - Voltaria ela para o Louvre?

- Não te dizia eu que tinhas ciúmes? - disse Catarina ao ouvido da filha. - Vamos, vamos, Henciqueta! - continuou, encolhendo os ombros - leve daqui a rainha de Navarra.

Margarida fingiu ainda que olhava em torno de si, e depois, curvando-se também para a sua amiga, disse-lhe ao ouvido:

- Leva-me daqui depressa. Tenho que te dizer coisas da mais alta importância.

A duquesa fez uma reverência a Carlos IX e a Catarina, e depois, inclinando-se diante da rainha de Navarra:

- Vossa Majestade dignar-se-á entrar para a minha liteira?

- De muito boa vontade. Mas terá de me acompanhar ao Louvre.

- A minha liteira, os meus criados, e eu - respondeu a duquesa -, estamos às ordens de Vossa Majestade.

A rainha Margarida entrou para a liteira, e a um sinal que ela lhe fez, a duquesa de Nevers entrou também e tomou respeitosamente o lugar da frente.

Catarina e os seus gentis-homens regressaram ao Louvre pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. Mas durante todo o trajecto viu-se a rainha-mãe falando incessantemente ao ouvido do rei, e designando-lhe muitas vezes a Sr.a de Sauve.

O rei ria de vez em quando como ria Carlos IX, isto é, com um riso mais sinistro do que uma ameaça.

E Margarida, logo que viu que a liteira se movia, e que não tinha que recear a penetrante investigação de Catarina, tirou da manga com vivacidade o bilhete da Sr.a de Sauve, e leu o seguinte:

Receie ordem de mandar entregar esta noite duas chaves ao rei de Navarra: uma é a do quarto em que ele está encerrado; a outra a do meu. E intimam-me para que uma vez no meu quarto o conserve aí até às seis horas da manhã. Reflicta vossa Majestade, decida Vossa Majestade, e não sepreocupe com a minha vida na resolução que tiver de tomar.

Não há dúvida - murmurou Margarida - a pobre mulher é o instrumento de que se querem servir para nos perder a todos. Mas veremos se da rainha Margot, como diz meu irmão Carlos, se faz com tanta facilidade uma freira.

- Então de quem é essa carta? - perguntou a duquesa de Nevers, apontando para o papel que Margarida acabava de ler e reler com tamanha atenção.

- Ah, duquesa! tenho muito que te dizer - respondeu Margarida, rasgando o bilhete em bocadinhos.

 

                 AS CONFIDêNCIAS

- Mas, afinal, aonde é que nós vamos? - perguntou Margarida. - Não é à Ponte dos Meuniers, suponho eu. Tenho visto muita mortandade de ontem para cá, minha querida Henriqueta.

- Tomei a liberdade de conduzir Vossa Majestade.

- Primeiro que tudo, a minha majestade pede-te que esqueças Sua Majestade. Conduzias-me pois.

- Ao Palácio de Guisa, se não decidir outra coisa.

- Não, não, Henriqueta! Vamos para tua casa; o duque de Guisa não está lá; teu marido não estará também?

- Não! - exclamou a duquesa, com uma alegria que lhe fez cintilar os lindos olhos cor de esmeralda - não! nem meu cunhado, nem meu marido, nem ninguém. Estou livre, livre

como o ar, como a ave, como a nuvem. Livre, minha rainha, entende? Compreende quanta ventura há nesta palavra: livre?. Vou, venho, mando! Ah! pobre rainha! não é livre! e por isso...

-Vais, vens, mandas. É só isso? A tua liberdade só te serve para isso?. Vamos, tu estás muito alegre para que seja só isso.

- Vossa Majestade prometeu-me entrarmos em confidências.

- Ainda a minha majestade! Nós vamos zangar-nos, Henriqueta; então esqueceste os nossos ajustes?

- Não; sua respeitosa criada perante o mundo, tua louca confidente a sós. Não é isto, minha Senhora? Não é isto, Margarida?

- Sim, sim - disse a rainha, sorrindo.

- Nem rivalidades de Casas, nem perfídias de amor; tudo bem, tudo bom, tudo franco; uma aliança, enfim, ofensiva e defensiva, com o propósito único de encontrarmos e agarrarmos se a encontrarmos, essa efémera que se chama felicidade.

- Muito bem, minha duquesa! isso mesmo. E para renovar o pacto, dá cá um beijo.

E aproximaram-se graciosamente, e uniram os lábios, como podiam unir os pensamentos, duas encantadoras cabeças: uma pálida e cheia de melancolia, a outra rosada, loura e risonha.

- Então há alguma novidade? - perguntou a duquesa, fitando em Margarida um olhar agudo e curioso.

- Não é tudo novidade há dois dias?

- Eu falo de amor, e não de política. Quando nós tivermos a idade da Catarina, tua mãe, faremos política. Mas nós temos vinte anos, minha bela rainha: falemos de outra coisa. Vamos,

casada deveras?

- Com quem? - disse Margarida, rindo.

- Ah! tranquilizas-me.

- Pois, Henriqueta, o que te tranquiliza espanta-me a mim. Duquesa, é necessário que eu esteja casada.

- Ora essa! que me dizes! Pobre amiga! E é necessário?

- Absolutamente.

- Coa breca! (como diz alguém que eu conheço) é triste!

- Conheces alguém que diz Coa breca. - perguntou Margarida rindo.

- Conheço.

- Quem é?

- Interrogas-me sempre, quando és tu quem deve falar. Acaba, e eu começarei.

- Em duas palavras: o rei de Navarra está apaixonado, não se importa comigo. Eu não estou apaixonada, e não me importo com ele. E, contudo, bom era que ambos nós mudássemos de ideias, ou simulássemos, daqui até amanhã, que havíamos mudado.

- Pois muda tu, e podes ter a certeza de que ele mudará.

- Aí é que está o busílis, porque eu estou menos disposta a mudar do que nunca.

- Só em relação a teu marido?

- Henriqueta, tenho um escrúpulo.

- Um escrúpulo de quê?

- De religião. Diz-me: fazes tu diferença entre huguenotes e católicos?

- Em política?

- Em política.

- Faço.

- E em amor?

- Minha querida amiga, nós, as mulheres, somos tão pagãs que, no que toca a seitas, admitimo-las todas; e, no que respeita a deuses, reconhecemos muitos.

- Em um só, não?

- Sim! - disse a duquesa, com um olhar cintilante de paganismo - sim: o que se chama Eros-Cupido-Amor sim, o que tem uma aljava, uma venda nos olhos, e asas. Coa breca! viva a devoção!

- Mas tu tens um modo de orar exclusivo; atiras pedras à cabeça dos huguenotes.

- Procedamos bem, e deixemos falar. Ah! Margarida! como as melhores ideias, como as melhores acções se transformam passando pela boca do vulgo!

- O vulgo?. Mas parece-me que quem te felicitou foi meu irmão Carlos.

- Teu irmão Carlos, Margarida, é um grande caçador que toca a buzina todo o dia, o que o faz emagrecer. Eu recuso por isso até os seus cumprimentos. E respondi a teu irmão Carlos. Não ouviste a minha resposta?

- Não, falavas tão baixo!.

- Melhor, mais novidades tenho que te dar. Mas fique isso para o fim da confidência, sim? - É que. é que.

- Acaba.

- É que - disse a rainha, rindo -, se a pedra de que meu irmão Carlos falava fosse histórica, eu abster-me-ia.

- Bom! - exclamou Henriqueta - escolheste um huguenote. Pois tranquiliza-te! Para sossegar a tua consciência, prometo-te escolher também um na primeira ocasião.

- Ah! parece que desta vez tomaste um católico?

- Coa breca! - replicou a duquesa.

- Bem, bem! percebo.

- E que tal é o teu huguenote?

- Não o escolhi; é um mancebo que me não é nada, e provavelmente nunca me há-de ser nada. eu - Mas que tal é? Isso não te impedirá de mo dizeres, sabes quanto sou curiosa.

- Um pobre mancebo, belo como o Niso de Benvenuto Cellini. e que se refugiou no meu quarto.

- Oh! oh! e tu não o havias de certo modo convocado?.

- Pobre rapaz! Não rias assim, Henriqueta, porque neste momento está ainda entre a vida e a morte.

- Então está doente?

- Está gravemente ferido.

- Mas é coisa incómoda um huguenote ferido! principalmente em dias como estes em que nos achamos; e o que hás-de tu fazer desse huguenote ferido que não te é nada, e que nunca te há-de ser nada?

- Está no meu gabinete; escondi-o, quero salvá-lo.

- É belo, é moço, está ferido. Tu esconde-lo no teu gabinete, queres salvá-lo; esse huguenote muito ingrato será se não for muito reconhecido!

- Já o é, tenho bastante medo. é mais do que eu desejaria.

- E interessa-te, esse pobre mancebo?

- Por humanidade. somente.

- Ah! a humanidade, minha pobre rainha! é essa virtude que nos perde sempre a nós mulheres!

- Sim, e tu compreendes que, de um momento para o outro, o rei, o duque de Alençon, minha mãe e até meu marido. podem entrar no meu quarto.

- Queres pedir-me que te guarde o teu huguenote, enquanto ele estiver doente, não é isso, com a condição de to restituir quando estiver curado?

- Não gracejes! - disse Margarida. - Não; juro-te que não preparo as coisas de tão longe. Mas, se pudesses achar um meio de esconder o pobre mancebo, se pudesses conservar-lhe a vida que eu salvei, confesso-te que muito to agradeceria. Tu és livre no Palácio de Guisa, não tens nem cunhado nem marido que te espione ou te incomode, e, por detrás do teu quarto, onde

ninguém, querida Henriqueta, tem, felizmente para ti, direito de entrar, há um grande gabinete como o meu. Pois empresta-me esse gabinete para o meu huguenote; quando estiver curado, as abrir-lhe-ás a gaiola, e o pássaro voará.

- Não há senão uma dificuldade, querida rainha, é que a gaiola está ocupada.

- Pois quê! também tu salvaste alguém?

- Foi exactamente o que respondi a teu irmão.

- Ah! compreendo; e aí está por que falavas tão baixo que não te ouvi.

- Ouve, Margarida; é uma história admirável, não menos bela, não menos patética do que a tua. Depois de te haver deixado seis dos meus guardas entrei com os outros seis no Palácio de Guisa, e estava vendo saquear e queimar uma casa que não fica separada do palácio de meu irmão senão pela Rua dos Quatro Filhos, quando de repente ouço gritos de mulheres e pragas de

homens. Vou à janela, e vejo uma espada cujo fogo só por si parecia que alumiava toda a cena. Admiro essa folha furiosa (eu gosto do que é belo!. ), depois procuro naturalmente distinguir o braço que a fazia mover e o corpo a que esse braço pertencia. No meio dos tiros e gritos, chego a distinguir o homem, e vejo. um herói, Ouço uma voz, uma voz de Estentor. Entusiasmo-me, fico palpitante, estremecendo a cada tiro que o ameaçava. foi uma comoção de um quarto de hora, minha rainha, como eu nunca havia experimentado, como julgava que não as havia. Por isso, estava eu arquejante, suspensa ainda, quando o meu herói desapareceu.

- E como?

- Debaixo de uma pedra que lhe atirou uma velha; então, como Ciro, recuperei a voz, e gritei: Acudam, socorro! Vieram os guardas, agarraram-no, levantaram-no e transportaram-no para o quarto que me pedes para o teu protegido.

- Compreendo muito bem essa história, querida Henriqueta - disse Margarida -, que é quase a minha história.

- Com a diferença, minha rainha, que, servindo o rei e a Religião, não careço de pôr na rua o Sr. Aníbal de Cocunás.

- Chama-se Aníbal de Cocunás? - tornou Margarida, dando uma gargalhada.

- É um nome terrível, não é verdade? - disse Henriqueta. - Pois aquele a quem pertence é digno dele. Que campeão, coa breca! e quanto sangue ele fez correr! Põe a máscara, minha rainha! Estamos chegadas ao palácio.

- Então para que hei-de pôr a máscara?

- Porque quero mostrar-te o meu herói.

- É belo?

- Pareceu-me magnífico durante as suas batalhas. É verdade que era à luz das chamas. Esta manhã, à luz do dia, não me pareceu tanto, confesso. Mas persuado-me de que não hás-de des gostar.

- Então o meu protegido não pode ser recebido no Palácio de Guisa; tenho pena, porque era o último lugar onde viriam procurar um huguenote.

- Qual história! Pode vir para cá esta noite. Um deitar-se-á no quarto da direita, e o outro no da esquerda.

- Mas, se se reconhecerem, um como protestante e o outro como católico, são capazes de se devorar.

- Oh! não há perigo. O Sr. de Cocunás recebeu na cara um golpe que quase o não deixa ver; o teu huguenote recebeu no peito um golpe que faz com que não se possa quase mexer... E, demais, recomenda-lhe que guarde silêncio acerca de religião, e tudo correrá às mil maravilhas.

- Está dito.

- Entremos; é negócio decidido.

- Obrigada - disse Margarida, apertando a mão à sua amiga.

- Aqui, minha Senhora, torna a ser majestade - disse a duquesa de Nevers - e portanto, permita-me que lhe faça as honras do Palácio de Guisa como devem ser feitas à rainha de Navarra.

E a duquesa, apeando-se da liteira, quase que pôs um joelho em terra para ajudar Margarida a apear-se também; e depois, mostrando-lhe com a mão a porta do palácio guardada por duas sentinelas, de arcabuz na mão, seguiu a alguns passos a rainha, que caminhou majestosamente precedendo a duquesa, e conservando esta a sua atitude humilde enquanto podia ser vista. Quando chegou ao quarto, a duquesa fechou a porta e, chamando a camareira, siciliana das mais espertas, disse-lhe em italiano:

- Mica, como vai o Senhor Conde?

- Sempre a melhorar - respondeu esta.

- E que é que faz?

- Neste momento, creio, minha Senhora, que está tomando alguma coisa.

- Bem - disse Margarida -, o apetite que volta, bom sinal é.

- Ah, é verdade! esquecia-me de que és discípula de Ambrósio Paré. Podes-te retirar, Mica.

- Manda-la embora?

- Sim, para velar por nós.

Mica saiu.

- Agora - disse a duquesa - queres ir ter com ele, ou queres que o mande chamar?

- Nem uma coisa nem outra; queria vê-lo sem ser vista.

- Que te importa, se tens a tua máscara?

- Pode-me reconhecer pelos cabelos, pelas mãos, por uma jóia.

- Oh! como está prudente desde que está casada, minha bela rainha!

Margarida sorriu.

- Mas não me ocorre senão um meio - continuou a duquesa.

- Qual é?

- Olhar pelo buraco da fechadura:

- Pois sim! leva-me lá.

A duquesa travou da mão de Margarida, conduziu-a a uma porta sobre a qual havia um reposteiro, curvou um joelho e chegou um dos olhos ao buraco da chave.

- Está sentado à mesa - disse ela -, e de rosto voltado para aqui. Vem cá. A rainha Margarida tomou o lugar da amiga, e aproximou do buraco da fechadura um olho. Cocunás, como a duquesa dissera, estava sentado a uma mesa admiravelmente servida, e que as feridas não o impediam de honrar.

- Oh! meu Deus! - exclamou Margarida, recuando.

- Que é? - perguntou a duquesa espantada.

- É impossível!. Não! Sim! Oh! pela minha alma! é ele!

- Ele quem?

- Cala-te! - disse Margarida, segurando-se e pegando na mão da duquesa - é o que queria matar o meu huguenote, que o perseguiu até ao meu quarto, e que chegou a feri-lo nos meus braços! Oh! Henriqueta! que bom foi que ele me não visse!

- Então, como já o viste na faina, diz-me lá, não é belo?

- Não sei - disse Margarida -, porque eu olhava para o que ele perseguia.

- E como se chama o que ele perseguia?

- Prometes-me não lhe pronunciar o nome diante dele?

- Prometo.

- Lerac de La Mole.

- E que tal o achas agora?

- O Sr. de La Mole?

- Não, o Sr. de Cocunás.

- Confesso que o acho.

Interrompeu-se.

- Vamos, vamos, o que vejo é que não podes perdoar-lhe a ferida que fez ao teu huguenote.

- Mas parece-me - replicou Margarida, rindo - que o meu huguenote não lhe deve nada, o que o prova a ferocidade com que lhe sublinhou o olho.

- Então não devem nada um ao outro, e podemos harmonizá-los. Manda-me o teu ferido.

- Não; ainda não; lá mais para diante.

- Quando?

- Quando houveres dado ao teu outro quarto.

- Qual?

Margarida olhou para a sua amiga que, depois de um momento de silêncio, olhou também para ela, e desatou a rir.

- Está dito - disse a duquesa. - E mais aliança do que nunca!

- Amizade sincera sempre - respondeu a rainha.

- E a senha para nos reconhecermos, se carecermos uma da outra?

- O triplo nome do triplo deus: Eros- Cupido Amor.

E as duas mulheres separaram-se depois de se haverem beijado pela segunda vez, e apertado a mão uma à outra pela vigésima.

 

   COMO HÁ CHAVES QUE ABREM AS PORTAS A QUE NÃO SÃO DESTINADAS

A rainha de Navarra, quando tornou a entrar no Louvre, achou Gillonne muito aflita. Tinha lá ido a Sr.a de Sauve, levando uma chave que lhe dera a rainha-mãe. Esta chave era a do quarto em que Henrique estava encerrado. Era evidente que a rainha-mãe carecia, com um fim qualquer, de que o Bearnês passasse essa noite no quarto da Sr.a de Sauve.

Margarida pegou na chave, voltou-a e tornou a voltá-la nas mãos. Exigiu que Lhe dissessem até a mais insignificantes palavras da Sr.a de Sauve, passou-as letra por letra no seu espírito, e julgou que compreendera o projecto de Catarina.

Pegou numa pena, tomou tinta, e escreveu num papel:

Em vez de ir esta noite para o quarto da Sr.a de Sauve, venha para o quarto da rainha de Navarra.

Margarida.

Depois enrolou o papel, introduziu-o no buraco da chave, e ordenou a Gillonne que, tão depressa anoitecesse, fosse meter esta chave por baixo da porta do prisioneiro.

Feito isto, Margarida pensou no pobre ferido; Fechou todas as portas, entrou no gabinete, e, com grande espanto seu, achou La Mole vestido com o seu fato todo rasgado e sujo de sangue.

Ao vê-la, ele tentou levantar-se; mas, cambaleando ainda, não pode conservar o equilíbrio, e tornou a cair sobre o canapé de que lhe haviam feito leito.

- Mas que é isto, Senhor? - perguntou Margarida - e porque é que tão mal cumpre as ordens do médico? Recomendei-lhe repouso, e em vez de me obedecer, faz exactamente o contrário do que lhe ordenei?

- Oh, minha Senhora! - disse Gillonne - a culpa não é minha. Eu pedi, supliquei ao Senhor Conde que não fizesse essa loucura; ele, porém, declarou-me que não se demorava mais tempo no Louvre.

- Deixar o Louvre? - disse Margarida, olhando com espanto para o mancebo, que baixava os olhos - mas. é impossível! O senhor não pode andar, está pálido e sem forças, vêem-se-lhe tremer as pernas! A sua ferida do ombro ainda esta manhã deitou sangue.

- Minha Senhora - respondeu o mancebo -, tantas graças dei a Vossa Majestade por me haver agasalhado ontem à noite, quanto lhe suplico que haja por bem permitir-me que parta hoje.

- Mas - disse Margarida, espantada -, não sei como classificar tão louco propósito; é pior do que a ingratidão.

- Oh! minha Senhora! - exclamou La Mole, pondo as mãos - creio que, longe de ser ingrato, há no meu coração um sentimento de reconhecimento que durará toda a minha vida.

- Então não dura muito tempo! - disse Margarida, comovida por aquelas palavras, que via serem sinceras - porque, ou as suas feridas tornam a abrir, e o senhor morre pela perda de sangue, ou o reconhecem como huguenote e não dá cem passos na rua que não acabem consigo.

- Mas preciso sair do Louvre - murmurou La Mole.

- Precisa? - disse Margarida, fitando-o com o seu olhar límpido e profundo; depois, descorando levemente - Oh! sim, compreendo! desculpe-me, Senhor! Há decerto fora do Louvre alguém a quem a sua ausência inquieta cruelmente. É justo, Sr. de La Mole, é natural, e eu compreendo isso. Porque não o disse imediatamente, ou, melhor, como é que eu não tinha pensado nisso? É dever, quando se exerce a hospitalidade, proteger as afeições do hóspede como se lhe curam as feridas, e tratar da alma como se trata do corpo.

- Ah, minha Senhora! - respondeu La Mole - engana-se redondamente. Sou quase só no mundo, e completamente só em Paris, onde ninguém me conhece. O homem que me perseguia é a primeira pessoa a quem falei nesta cidade, e Vossa Majestade a primeira mulher que me dirigiu a palavra.

- Então - disse Margarida, admirada - porque é que se quer ir embora?

- Porque a noite passada Vossa Majestade não teve o mais pequeno repouso, e esta noite. Margarida corou.

- Gillonne - disse ela -, é noite; creio que é tempo de ires levar a chave. Gillonne sorriu e retirou-se.

- Mas - continuou Margarida - se é só em Paris, sem amigos, que há-de fazer?

- Minha Senhora, amigos ou conhecidos, depressa se arranjam. Enquanto era perseguido, pensei em minha mãe, que era católica; pareceu-me que a via andar diante de mim no caminho do Louvre, com uma cruz na mão, e fiz voto, se Deus me conservasse a vida, de seguir a religião de minha mãe. Deus fez mais do que conservar-me a vida, minha Senhora, enviou-me um dos Seus anjos para ma fazer apreciar.

- Mas o senhor não pode andar, e vai cair sem sentidos antes de dar cem passos.

- Minha Senhora, fiz hoje experiência no gabinete; ando devagar e com incómodo, é verdade; mas chegue eu à Praça do Louvre, que depois pode suceder o que suceder.

Margarida encostou a cabeça à mão, e reflectiu profundamente.

- E o rei de Navarra? - disse intencionalmente. - Não fala já nele. Mudando de religião, perdeu o desejo de entrar para o seu serviço?

- Vossa Majestade - respondeu La Mole, empalidecendo - atingiu a verdadeira causa da minha partida. Sei que o rei de Navarra corre os maiores perigos, e que toda a sua influência como infante de França mal bastará para lhe salvar a cabeça.

- Que quer dizer, Senhor, e de que perigos me fala?

- Ouve-se tudo no gabinete onde estou.

É verdade - murmurou Margarida consigo mesma - já o Sr. de Guisa mo tinha dito. E depois, em voz alta:

- Então que ouviu?

- Em primeiro lugar, a conversação que Vossa Majestade teve esta manhã com seu irmão.

- Com Francisco? - exclamou Margarida, corando.

- Com o duque de Alençon, sim, minha Senhora; e depois de Vossa Majestade sair, a da Menina Gillonne com a Sr.a de Sauve.

- E foram só essas duas conversações?.

- Sim, minha Senhora. Casada há oito dias apenas, Vossa Majestade ama seu esposo. Seu

esposo há-de vir também, como vieram o Senhor Duque de Alençon e a Sr. a de Sauve. Falar-lhe-ádos seus segredos. Não devo ouvi-los, seria indiscreto... e não posso, não devo... e, principalmente, não o quero ser!

A inflexão em que La Mole pronunciou as últimas palavras, a perturbação da sua voz e os

seus modos embaraçados, iluminaram Margarida como uma revelação súbita.

- Ah! - disse ela - ouviu deste gabinete tudo quanto até agora se disse naquele quarto.

- Sim, minha Senhora.

Estas palavras mal foram suspiradas.

- E quer partir esta noite para não ouvir mais nada?

- No mesmo instante minha Senhora, se Vossa Majestade houver por bem permitir-mo.

- Pobre mancebo! -, disse Margarida com singular inflexão de dó.

Espantado com uma resposta tão meiga quando esperava alguma resposta desabrida, La Mole levantou timidamente a cabeça; o seu olhar encontrou o de Margarida, e ficou preso como por um poder magnético sobre o olhar límpido e profundo da rainha.

- Então considera-se incapaz de guardar um segredo, Sr. de La Mole? - disse em voz baixa Margarida que, apoiada às costas da cadeira, meio escondida por um reposteiro espesso, gozava a ventura de ler correntemente nessa alma, conservando-se impenetrável.

- Minha Senhora - disse La Mole -, eu sou de um feitio esquisito, desconfio de mim mesmo, e a ventura dos outros faz-me mal.

- A ventura de quem? - disse Margarida, sorrindo. - Ah! sim, a ventura do rei de Navarra!

Pobre Henrique!...

- Bem vê que ele é feliz, minha Senhora! - exclamou La Mole com vivacidade.

- Feliz?...

- Sim, porque Vossa Majestade o lastima.

Margarida amarrotara a seda da sua algibeira de esmolas, e arrancara-lhe os fios de ouro.

- Então recusa ver o rei de Navarra? - disse ela. - É coisa decidida no seu espírito?

- Receio importunar Sua Majestade neste momento.

- Mas o duque de Allençon, meu irmão?

- Oh, minha Senhora! - exclamou La Mole - o Senhor Duque de Alençon, não, não!

Menos ainda o Senhor Duque de Alençon do que o rei de Navarra.

- Porquê?... - perguntou Margarida, comovida a ponto de tremer.

- Porque, embora já muito mau huguenote para ser servidor dedicado de Sua Majestade o Rei de Navarra, não sou ainda católico bom para ser amigo do Sr. de Alençon e do Sr. de Guisa.

Desta vez foi Margarida quem baixou os olhos e quem sentiu vibrar o golpe no mais profundo do seu coração, não sabendo dizer se as palavras de La Mole eram para ela carinhosas ou de censura.

Neste momento tornou Gillonne a entrar. Margarida interrogou-a com os olhos. A resposta

de Gillonne, contida também num olhar, foi afirmativa. Tinha conseguido fazer chegar a chave às mãos do rei de Navarra.

Margarida tornou a pôr os olhos em La Mole, que estava diante dela indeciso, de cabeça caída para o peito e pálido como um homem que ao mesmo tempo sofre do corpo e da alma.

- O Sr. de La Mole é soberbo, e eu hesito em lhe fazer uma proposta que decerto recusará.

La Mole levantou-se, deu um passo para Margarida, e quis curvar-se diante dela em sinal de que estava às suas ordens; mas arrancou-lhe lágrimas dos olhos uma dor profunda, aguda, e, sentindo que ia cair, agarrou-se a um reposteiro.

Bem vê - exclamou Margarida, correndo para ele e segurando-o nos braços -, bem vê que ainda precisa de mim!

Agitou os lábios de La Mole um movimento que mal se percebeu.

- Oh! sim! - murmurou ele - como do ar que respiro, como do dia que vejo! Neste momento ouviram-se três pancadas à porta de Margarida.

- Ouve, minha Senhora? - disse Gillonne, assustada.

- Já? - murmurou Margarida.

- Abro?

- Espera. Há-de ser o rei de Navarra.

- Oh, minha Senhora! - exclamou La Mole, que se tornou forte com as poucas palavras que a rainha pronunciara, em voz tão baixa que esperava que só Gillonne as tivesse ouvido. - minha Senhora, de joelhos lhe suplico! faça-me sair, sim? morto ou vivo! Tenha dó de mim! Oh não me responde. Então vou falar e, depois de eu ter falado, é de presumir que me mande pôr fora da porta.

- Cale-se, desgraçado! - disse Margarida, que achava infinito encanto em ouvir as recriminações do mancebo - cale-se!

- Minha Senhora - tornou La Mole, que não achava decerto na voz de Margarida o rigor que esperava -, minha Senhora, repito-lhe: ouve-se tudo neste gabinete. Oh! não me faça morrer dessa morte que os mais cruéis algozes não ousariam inventar.

- Silêncio! silêncio! - disse Margarida.

- Oh! a senhora não tem compaixão; nada quer ouvir, a nada quer atender. Mas então, saiba que a amo.

- Silêncio então, porque mando eu! - interrompeu Margarida, tapando com a sua mão perfumada a boca do mancebo, que pegou nela com as duas mãos e a chegou aos lábios.

- Mas. - murmurou La Mole.

- Mas cale-se, não seja criança! Que rebelde é este que não quer obedecer à sua rainha.

Depois, saindo do gabinete, tornou a fechar a porta e, encostando-se à parede, comprimindo com a mão trémula as pulsações do coração, disse:

- Abre, Gillonne!

Gillonne saiu do quarto e, poucos momentos depois, ergueu o reposteiro a cabeça esguia, espirituosa e um tanto inquieta do rei de Navarra.

- Mandou-me chamar, minha Senhora? - disse o rei de Navarra a Margarida.

- Mandei, Senhor. Vossa Majestade recebeu a minha carta?

- E confesso que não foi sem espanto! - disse Henrique, olhando em roda de si com uma nova desconfiança, que em breve se desvaneceu.

- E não sem alguma inquietação, não é verdade? - acrescentou Margarida.

- Confesso-lhe que sim. Mas, rodeado de inimigos encarniçados e de amigos talvez mais perigosos ainda do que os inimigos, lembrei-me de que uma noite vira radiar nos seus olhos o sentimento da generosidade, foi na noite do nosso casamento; e que um dia vira brilhar nel a estrela da coragem, e esse dia, que era o determinado para a minha morte, foi ontem.

- E daí, Senhor? - disse Margarida, sorrindo, enquanto Henrique parecia querer ler-lhe até ao fundo do coração.

- E daí, minha Senhora, pensando em tudo isto, disse comigo no mesmo instante, ao ler a sua carta, que me dizia que viesse: Sem amigos, prisioneiro, desarmado, o rei de Navarra não tem senão um meio de morrer de modo que dê nas vistas, de morte que a história registe, é morrer atraiçoado por sua mulher. E vim.

- Sire - respondeu Margarida -, há-de mudar de linguagem quando souber que tudo quanto se faz neste momento é obra de uma pessoa que o ama. e que Vossa Majestade ama.

Henrique quase que recuou a estas palavras, e os seus olhos pardos e penetrantes, interrogaram a rainha com curiosidade.

- Oh! tranquilize-se, Sire - disse a rainha, sorrindo -, não tenha a pretensão de supor que essa pessoa seja eu!

- Mas - disse Henrique -, foi a senhora que me mandou esta chave, e que me escreveu esta carta.

- A letra é minha, confesso; a carta mandei-lha eu, não o nego. Mas a chave, é outra coisa. Basta que saiba que passou pelas mãos de quatro mulheres antes de chegar às suas.

- De quatro mulheres? - exclamou Henrique, com espanto.

- Sim, pelas mãos de quatro mulheres - disse Margarida - as da rainha- mãe, da Sr.a de Sauve, de Gillonne e as minhas.

Henrique entrou a meditar neste enigma.

- Falemos agora discretamente, Senhor - disse Margarida -, e mais que tudo sejamos francos. É fundado o boato que hoje corre de que Vossa Majestade consente em abjurar?

- O boato é infundado, eu não consinto ainda.

- Mas está disposto a isso?

- Ando em consulta comigo mesmo. Que quer? quando se tem vinte anos e se é quase rei, coa foctuna! há coisas que valem bem uma missa.

- E entre essas coisas, a vida, não é assim?

Henrique não pôde reprimir um leve sorriso.

- Não me diz tudo quanto pensa, Sire! - disse Margarida.

-Tenho alguma reserva para com os meus aliados porque, como sabe, nós não somos por enquanto senão aliados: se a senhora fosse a um tempo minha aliada. e.

- E sua mulher, não, Sire?

- E minha mulher, sim.

- Nesse caso?

-     Talvez diversificasse; e talvez que eu teimasse em me conservar rei dos huguenotes, como eles Agora. tenho de me contentar com o viver.

Margarida olhou para Henrique de um modo tão singular, que despertaria suspeitas num rito menos subtil do que era o rei de Navarra.

- E tem a certeza de chegar a esse resultado? - perguntou.

- Certeza, não - respondeu Henrique. - A senhora bem sabe que neste mundo não pode haver certezas.

- É verdade - tornou Margarida - que Vossa Majestade manifesta tamanha moderação, professa tanto desinteresse que, depois de haver renunciado à sua coroa, depois de haver renunciado à sua religião, é provável que renuncie (e pelo menos há quem assim o espere) à sua aliança com uma infanta de França.

Estas palavras tinham em si uma significação tão profunda que Henrique estremeceu, mau grado seu. Mas, vencendo esta comoção com a rapidez do relâmpago, acrescentou:

- Queira lembrar-se, minha Senhora, de que neste momento não tenho livre arbítrio. Hei-de fazer portanto o que o rei de França me ordenar. No que me diz respeito, se me ocultassem nesta questão que prende com o meu trono, a minha honra e a minha vida, preferiria ir enterrar-me como caçador nalgum castelo, ou como penitente nalgum convento, a basear o meu futuro nos privilégios que me dá o nosso casamento forçado.

Essa resignação pela sua situação, essa renúncia às coisas deste mundo, aterraram Margarida. Pensou que talvez Carlos IX, Catarina e o rei de Navarra houvessem combinado anular o casamento. Porque não fariam dela também um ludíbrio, ou uma vítima? Porque era irmã de um e mulher do outro? A experiência ensinara-lhe que não era razão em que pudesse fundar a sua segurança. A ambição mordeu pois o seu coração de mulher, ou antes, de rainha, muito superior às fraquezas vulgares para se deixar arrastar a um despeito de amor-próprio: em toda a mulher, por medíocre que seja, quando ama, o amor não tem dessas fraquezas, porque o amor verdadeiro também é uma ambição.

- Parece-me que Vossa Majestade - disse Margarida com modos zombeteiros - não tem confiança na estrela que irradia por cima da fronte dos reis.

- Ah! - disse Henrique - por mais que neste momento procure a minha, não a posso ver, por estar escondida na tempestade que paira por cima de mim.

- E se o sopro de uma mulher desviasse a tempestade, e tornasse essa estrela brilhante como nunca?

- É muito difícil - disse Henrique.

- O senhor nega a existência dessa mulher?

- Não, o que nego é o seu poder.

- Quer dizer, a sua vontade.

- Disse o seu poder, e repito a palavra. A mulher não é realmente poderosa senão quando nela se reúnem em partes iguais o amor e o interesse; se só um desses sentimentos a preocupa, é vulnerável como Aquiles. Ora, se me não engano, não posso contar com uma mulher assim.

Margarida calou-se.

- Oiça - continuou Henrique -, ao último toque do sino de S. Germano L'Auxerrois a senhora devia cuidar em reconquistar a sua liberdade, que havia servido de penhor para a destruição dos meus partidários. Eu, devia cuidar em salvar a minha vida. Era o mais urgente... Perdemos a Navarra, bem sei. Mas a Navarra pouco é, em comparação com a liberdade que lhe é restituída de poder falar alto no seu quarto, o que não podia fazer quando havia nesse gabinete alguém que a escutasse.

Conquanto estivesse preocupadíssima, Margarida não pôde deixar de sorrir. O rei de Navarra já se havia levantado para voltar para o seu quarto, porque já tinham dado onze horas, e tudo dormia ou fingia que dormia no Louvre.

Henrique deu três passos para a porta; e depois parando de repente, como se só então se recordasse da circunstância que o levara ao quarto da rainha, disse:

- A propósito, minha Senhora: não tinha que me dizer o quer que fosse? Ou queria tão-somente oferecer-me a ocasião de Lhe agradecer o serviço que ontem me prestou com a sua presença na sala de armas de el-rei? Na verdade, não o posso negar a senhora apareceu no lugar da cena como a divindade antiga, exactamente a tempo de me salvar a vida.

- Desgraçado! - exclamou Margarida, com voz surda, e pegando no braço do marido, - Então não vê que nada está salvo, nem a sua liberdade, nem a sua coroa, nem a sua vida? Cego! pobre louco! Não viu na minha carta senão uma entrevista; julgou que Margarida, ofendida com a sua frieza, desejava uma reparação?

- Mas, minha Senhora - disse Henrique, espantado - confesso. Margarida encolheu os ombros com uma expressão impossível de descrever. No mesmo instante sentiu-se à porta secreta um rumor desusado, estranho. Margarida levou o rei até ao pé dessa porta.

- Ouça - disse-lhe.

- A rainha-mãe sai do quarto - murmurou uma voz atemorizada, e que Henrique reconheceu no mesmo instante ser a da Sr.a de Sauve.

- E onde vai ela? - perguntou Margarida.

- Vem ao quarto de Vossa Majestade.

E imediatamente, o roçagar de uma saia de seda provou, afastando-se, que a Sr.a de Sauve

fugia.

- Oh! oh! - exclamou Henrique.

- Eu tinha a certeza disto - disse Margarida.

- E eu receava-o - disse Henrique -, e a prova está aqui.

E com um gesto rápido abriu o gibão de veludo preto e, sobre o peito, fez ver a Margarida uma fina túnica de malha de aço e um comprido punhal milanês, que lhe brilhou imediatamente na mão como uma víbora ao sol.

- Servem lá de alguma coisa o ferro e a couraça! - exclamou Margarida. - Vamos, Sire! Esconda o punhal: é a rainha-mãe, é verdade, mas é a rainha-mãe sozinha.

-Mas...

- É ela, sinto-a; silêncio!

E inclinando-se para o ouvido de Henrique, disse-lhe em voz baixa algumas palavras, que ele ouviu com uma atenção cheia de espanto. E imediatamente Henrique se escondeu por detrás do cortinado do leito.

Pela sua parte, Margarida pulou com a agilidade de uma pantera para o gabinete em que estava La Mole, abriu a porta, procurou o mancebo e, pegando-lhe na mão e apertando-lhe:

- Silêncio! - disse-lhe, aproximando-se dele tanto que o seu hálito embalsamado lhe cobriu o rosto com um vapor húmido - silêncio!

Depois, voltando para o quarto e tornando a fechar a porta, tirou o toucado, cortou com o punhal as prisões do vestido e deitou-se na cama.

Era tempo: a chave dava volta na fechadura. Catarina tinha chaves para abrir todas as portas do Louvre.

- Quem está aí? - exclamou Margarida, enquanto Catarina dispunha à porta uma guarda de quatro gentis-homens que a tinha acompanhado.

E, como se a houvesse assustado essa inesperada irrupção no seu quarto, Margarida, saindo de sob o cortinado de penteador branco, saltou fora da cama e, reconhecendo Catarina, veio, com uma surpresa tão bem fingida que a florentina não podia deixar de acreditar nela, beijar a mão de sua mãe.

 

         SEGUNDA NOITE DE NOIVADO

A rainha-mãe deitou a vista em redor da câmara com maravilhosa rapidez. As chinelas de veludo ao pé da cama, os vestidos de Margarida por cima das cadeiras e os olhos que esfregava para afugentar o sono, convenceram Catarina de que realmente despertara sua filha.

Então sorriu como uma mulher que consegue o que quer e, puxando uma poltrona, disse:

- Margarida, sentemo-nos e conversemos.

- Sou toda ouvidos.

- É tempo - disse Catarina, fechando os olhos com o vagar das pessoas que reflectem ou dissimulam profundamente -, é tempo, minha querida filha, de compreenderes quanto teu irmão e eu aspiramos a fazer-te feliz.

O exórdio era assustador para quem conhecia Catarina.

Que irá ela dizer-me? pensou Margarida.

- Casando-te - continuou a florentina -, cumprimos decerto um desses actos de política que muitas vezes são recomendados por graves interesses de quem governa. Mas devemos confessar, minha pobre filha, que não pensávamos que a repugnância do rei de Navarra para contigo, tão nova, tão bela e tão sedutora, se conservaria tão pertinaz.

Margarida levantou-se e fez, cruzando o penteador, uma cerimoniosa mesura à mãe.

- Só esta noite soube - disse Catarina - (porque, a não ser assim, teria aqui vindo mais cedo), só esta noite soube que teu marido não tem para contigo as atenções que deve haver não só para com uma mulher bonita, mas também para com uma infanta de França.

Margarida soltou um suspiro e Catarina, animada por esta muda adesão, continuou:

- Que o rei de Navarra tenha publicamente amores com uma das minhas damas, a ador escandalosamente, e despreze por isso a mulher que houvemos por bem conceder-lhe, é desgraça.

Margarida baixou a cabeça.

- Há muito tempo - continuou Catarina - que eu vejo, minha filha, pelos teus olhos vermelhos, pelos teus ditos amargos acerca da Sauve, que a chaga do teu coração não pode, a despeito dos teus esforços, sangrar sempre para dentro.

Margarida estremeceu: um leve movimento agitara o cortinado, mas felizmente Catarina não reparou nisso.

- Essa chaga - disse Catarina - pode curá-la a mão de uma mãe. Aqueles que, julgando fazer a tua felicidade, decidiram o teu casamento, e que, na sua solicitude para contigo, notam que Henrique de Navarra todas as noites se engana no quarto; aqueles que não podem permitir que um régulo como ele ofenda a todo o momento uma mulher da tua beleza, da tua jerarquia, e do teu merecimento, com o desdém da tua pessoa e o desprezo da sua posteridade; aqueles que vêem, enfim, que ao primeiro vento que julgar favorável, essa louca e insolente cabeça se revoltará contra a nossa família, e te expulsará de sua casa, esses não terão direito de assegurar, separando-o do seu, o teu futuro, de um modo a um tempo mais digno de ti e da tua posição.

- Contudo, minha Senhora - respondeu Margarida -, a despeito dessas observações em que tanto respira o amor de mãe, e que me enchem de prazer e de honra, tomarei a liberdade de notar a Vossa Majestade que o rei de Navarra é meu esposo.

Catarina fez um gesto colérico, e aproximando-se mais de Margarida:

- Ele - disse ela -, teu esposo? Pois para ser marido e mulher basta a bênção da Igreja. A consagração do casamento estará só nas palavras do padre? Ele, teu esposo? Oh! minha filha, se tu fosses a baronesa de Sauve, poderias dar-me essa resposta. Mas, contra aquilo que dele esperávamos, desde que concedeste a Henrique de Navarra a honra de te chamar sua mulher, é outra que ele dá esses direitos, e neste mesmo momento. Catarina ergueu a voz - vem, vem comigo: esta chave abre a porta do quarto da baronesa de Sauve, e tu verás.

- Oh! fale mais baixo, minha Senhora! Mais baixo, por quem é! - disse Margarida porque não somente se engana Vossa Majestade, mas até.

- Até o quê?

- Até pode acordar meu marido.

Ao proferir estas palavras, levantou-se Margarida com voluptuosa graça e, deixando entreaberto o roupão de dormir, cujas mangas curtas lhe deixavam ver um braço nu, do mais puro modelo, e a mão verdadeiramente régia, aproximou da cama uma vela de cera cor-de-rosa e, levantando o cortinado, mostrou, sorrindo, à mãe, o perfil altivo, os cabelos negros e a boca entreaberta do rei de Navarra que, deitado em cima da cama em desordem, parecia na realidade dormir tranquila e profundamente.

Pálida, de olhos espantados, com o corpo deitado para trás, como se um abismo se lhe tivesse aberto aos pés, Catarina não deu um grito, mas um rugido surdo.

- Bem vê, minha Senhora - disse Margarida -, que a informaram mal. Catarina olhou primeiro para Margarida, depois para Henrique. Ligou no seu pensamento activo a imagem dessa fronte pálida, húmida, desses olhos rodeados de um ligeiro círculo negro, ao sorriso de Margarida, e mordeu os delgados lábios com silencioso furor.

Margarida deixou que a mãe contemplasse por um momento esse quadro que produzia nela o efeito da cabeça de Medusa. Depois deixou cair o cortinado e, andando nas pontas dos pés, voltou para onde estava a mãe, e sentando-se:

- Dizia então Vossa Majestade.

A florentina procurou, durante alguns momentos, sondar a ingenuidade de Margarida; depois, como se o seu olhar penetrante se tivesse embotado no sossego de espírito da filha:

- Nada - respondeu ela.

E saiu apressada do quarto de Margarida.

Quando se extinguiu o ruído dos seus passos, tornou a abrir-se o cortinado e Henrique, com os olhos brilhantes, a respiração oprimida e as mãos trémulas, veio ajoelhar-se aos pés de Margarida. Vinha simplesmente em calções e cota de malha, de maneira que Margarida, vendo-o em trajos tão caseiros, não pôde deixar de rir ao mesmo tempo que lhe apertava a mão com sinceras demonstraçôes de afecto.

- Ah, minha Senhora! ah! Margarida! como poderei pagar-lhe um favor tão valioso? E cobriu-lhe a mão de beijos, que insensivelmente iam subindo já aos braços.

- Senhor - disse ela, recuando pouco a pouco -, Vossa Majestade esquece-se que a esta hora sofre e geme por sua causa uma mulher a quem deve a vida? A baronesa de Sauve - acrescentou ela, baixando a voz - fez-lhe o sacrifício do seu ciúme mandando-o para aqui; e talvez depois de ter feito por causa de Vossa Majestade esse sacrifício, lhe faça também o da vida; porque Vossa Majestade sabe, melhor que ninguém, quanto é de recear a cólera da rainha Catarina.

Henrique estremeceu e, levantando-se, fez um gesto para sair.

- Oh! mas reflectindo bem - disse Margarida, com admirável galanteio -, o meu espírito tranquiliza-se. Deram-lhe a chave sem a menor indicação, e presumir-se-á que Vossa Majestade me deu esta noite a preferência.

- Oh! se dou, Margarida. - disse apaixonadamente Henrique. - Se se dignasse esquecer.

- Mais baixo, Senhor, mais baixo - respondeu a rainha, parodiando as palavras que, dez minutos antes, dirigira à mãe -, ouvem naquele gabinete o que Vossa Majestade diz; e como não sou inteiramente livre, peço- lhe que não fale tão alto.

- Oh! oh! - disse Henrique, meio risonho, meio sombrio. - Na verdade, esquecia-me de que provavelmente não sou eu quem terá de gozar o fim desta interessante cena. Aquele gabinete...

- Entremos nele, Senhor - disse Margarida -, porque quero ter a honra de apresentar a Vossa Majestade um fidalgo valente que foi ferido durante a carnificina, quando vinha ao Louvre avisar Vossa Majestade do perigo que corria.

A rainha dirigiu-se para a porta. Henrique seguiu-a. Abriu-se a porta e Henrique ficou estufacto ao ver um homem nesse gabinete predestinado às surpresas.

Mas la Mole ainda ficou mais maravilhado ao achar-se, de repente, diante do rei de Navarra. Enrique lançou um olhar irónico a Margarida, que se conservou impassível.

- Senhor - disse Margarida -, temo que matem mesmo no meu quarto esse fidalgo, que é dedicado ao serviço de Vossa Majestade, e que entrego à sua protecção.

- Senhor - disse então o mancebo -, sou o conde de Lérac de Ia Mole, que Vossa Majestade esperava, e que lhe foi recomendado por esse pobre de Teligny, morto ao meu lado.

-Ah! - disse Henrique - é verdade, a rainha entregou-me a sua carta; mas o governador Lauriac não lhe deu também uma carta para mim?

- Deu, Senhor, recomendando-me que a entregasse a Vossa Majestade logo que chegasse.

- E porque não cumpriu essa recomendação?

- Senhor, vim ao Louvre ontem à noite, mas Vossa Majestade estava tão ocupado que não pôde receber-me.

- É verdade - disse o rei -, mas porque não me mandou a carta?

- Tive ordem do Sr. de Auriac de não a entregar senão a Vossa Majestade porque continha, segundo me assegurou, uma notícia tão importante que não se atrevia a confiá-la a qualquer mensageiro.

- Com efeito - disse o rei, tomando e lendo a carta -, era para me dizer que saísse daqui e e me retirasse para Béarn. O Sr. de Auriac, ainda que católico, era meu amigo sincero, e é possivel que, como governador de província, tivesse alguns indícios do que se passou. Ah! porque não me entregou esta carta há três dias em vez de ma entregar hoje?

- Porque, como já tive a honra de dizer a Vossa Majestade, por mais diligência que fizesse ontem não pude chegar.

-     É pena, é pena - balbuciou o rei -, porque a estas horas estaríamos em segurança nalguma boa planície, com dois ou três mil cavalos em roda de nós.

- Senhor, o que não tem remédio remediado está - disse Margarida em voz baixa. - Em vez de perder o tempo lamentando o passado, pense em tirar o melhor partido do futuro.

- Então, se se visse no meu lugar - disse Henrique a Margarida, com um olhar interrogador

- ainda teria esperanças?

- Por certo que sim, e consideraria o jogo começado como uma partida em três pontos, dos quais o parceiro contrário ainda não ganhou senão um.

- Ah! minha Senhora! - disse Henrique em voz baixa - se eu tivesse a certeza de que Vossa Majestade seria minha parceira no jogo!.

- Se eu quisesse passar para o lado dos seus adversários - respondeu Margarida -, parece-me que não me teria demorado tanto tempo no campo de Vossa Majestade.

- Tem razão - disse Henrique -, sou um ingrato e, como muito bem diz Vossa Majestade, ainda hoje se pode remediar tudo.

- Ah! Senhor! - observou La Mole - desejo a Vossa Majestade as maiores venturas, mas já não existe o Senhor Almirante.

Henrique começou a sorrir com esse sorriso de campónio astuto que só foi bem compreendido na corte no dia em que ele foi rei de França.

- Mas, Senhora - tornou ele, olhando para La Mole com atenção -, este fidalgo não pode ficar no seu quarto sem a incomodar enormemente, e sem se expor a desagradáveis surpresas. Que destino tenciona dar-lhe?

- Não o poderemos fazer sair do Louvre, Senhor? Vossa Majestade sabe que sou em tudo e por tudo da sua opinião. - difícil.

- O Sr. de La Mole não poderá achar um cantinho na casa de Vossa Majestade?

- Ah! minha Senhora! Vossa Majestade continua a tratar-me como se eu fosse ainda rei dos huguenotes, como se tivesse ainda um povo; e no entanto sabe que já estou meio convertido.

Outra que não fosse Margarida, responderia logo: Ele é católico. Mas a rainha queria que Henrique lhe pedisse o que ela desejava obter dele. Quanto a La Mole, vendo essa reserva da sua protectora, e não conhecendo ainda o terreno escorregadio de uma corte tão cheia de perigos como a de França, calou-se também.

- Mas - tornou Henrique, relendo a carta que lhe trouxera La Mole - o Senhor Governador da Provença diz-me que sua mãe, Sr.a de La Mole, era católica e que a essa circunstância é devida a amizade que lhe dispensa.

- E o Senhor Conde - disse Margarida - não me falou num voto que o fez de mudar de religião? As minhas ideias confundem-se a este respeito; auxilie a minha memória, Sr. de La Mole. Não se tratava dalguma coisa semelhante ao que deseja el-rei?

- verdade, minha Senhora; mas Vossa Majestade acolheu tão friamente as minhas explicações a este respeito - respondeu La Mole -, que não ousei.

- porque isso não era da minha competência. Explique a el-rei, explique.

- Então que voto foi esse?

- Senhor - disse La Mole -, perseguido por assassinos, sem armas e quase morrendo em resultado dos meus ferimentos, pareceu-me ver a sombra de minha mãe, que me guiava para

o Louvre com uma cruz na mão. Então fiz voto, se escapasse com vida, de adoptar a religião de minha mãe, a quem Deus permitiu que saísse do túmulo para me servir de guia nessa noite horrível. Deus conduziu-me aqui, Senhor, onde me encontro sob a protecção de uma filha de França e de el-rei de Navarra. A minha vida foi salva milagrosamente; resta-me pois somente cumprir o meu voto, Senhor. Estou pronto a fazer-me católico.

Henrique franziu a testa. Céptico como era, compreendia bem a abjuração por interesse; mas duvidava muito da abjuração pela fé.

O rei não quer encarregar-se do meu protegido disse consigo Margarida. La Mole conservava-se entretanto tímido e constrangido entre as duas vontades contrárias.

Sentia, sem bem o poder explicar a si mesmo, o ridículo da sua posição. Foi Margarida que, com

sua delicadeza de mulher, o tirou dessa situação desfavorável.

- Senhor - disse ela -, esquecemo-nos de que este pobre ferido carece de repouso. Eu mesma estou caindo de sono. Veja como ele empalidece.

La Mole empalidecia realmente; mas eram as últimas palavras de Margarida, que ele ouvira e interpretara, que o faziam empalidecer.

- Bem, minha Senhora - disse Henrique -, nada mais fácil; não podemos deixar descansar o Sr. de La Mole?

O mancebo dirigiu a Margarida um olhar de súplica e, não obstante a presença de duas testas coroadas, deixou-se cair numa cadeira, quebrado de dor e de fadiga.

Margarida compreendeu todo o amor que havia nesse olhar, toda a desesperação que se manifestava nessa fraqueza.

- Senhor - disse ela -, convém que Vossa Majestade dispense a este fidalgo, que arrisco a vida para salvar a do seu rei, visto que veio aqui para lhe anunciar a morte do almirante e depois falhou no momento de ser ferido; convém, digo, que Vossa Majestade lhe dispense uma honra da qual se mostrará agradecido toda a sua vida.

- Que honra, minha Senhora? - perguntou Henrique. - Ordene, e será obedecida.

- O Sr. de La Mole dormirá esta noite aqui mesmo, aos pés de Vossa Majestade, e Vossa Majestade dormirá nesta cama. Quanto a mim, se meu augusto esposo o permite – acrescentou Margarida, sorrindo -, vou chamar Gillonne e deitar-me; porque, juro-lhe, de nós três, não au quem menos careça de descanso.

Henrique tinha viveza, talvez de mais; os seus amigos e inimigos exprobraram-lha em época menor. Compreendeu que aquela que o exilava do leito conjugal tinha adquirido esse direito com a indiferença que ele lhe manifestara; demais, Margarida acabava de vingar-se dessa indiferença salvando-lhe a vida. A sua resposta não se ressentiu, pois, de amor- próprio.

- Minha Senhora - replicou ele -, se o Sr. de La Mole se julga no estado de ir para o meu quarto, ofereço-lhe a minha cama.

- Creio que sim - respondeu Margarida - mas o quarto de Vossa Majestade, a esta hora, não pode proteger nem um nem outro, e a prudência exige que Vossa Majestade fique aqui até amanhã.

E, sem esperar pela resposta de el-rei, chamou Gillonne, mandou preparar as almofadas para pôrs pés de Sua Majestade e a cama para La Mole, que se mostrava tão contente e satisfeito com a honra que teria jurado que já não lhe doíam as feridas.

Margarida cortejou o rei cerimoniosamente, entrou no seu quarto e, tendo aferrolhado bem todas as portas deitou-se na cama.

Agora - disse Margarida consigo - torna-se necessário que o Sr. de La Mole tenha amanhã um protector no Louvre; e aquele que hoje finge nada ouvir, talvez amanhã se arrependa. Em seguida, chamou Gillonne, que esperava as suas últimas ordens.

Esta aproximou-se.

- Gillonne - disse a rainha em voz baixa -, é preciso que amanhã, seja qual for o pretexto, meu irmão, o duque de Alençon, deseje vir aqui antes das oito horas da manhã. Davam duas horas no Louvre.

La Mole falou por algum tempo em política com el-rei, que pouco depois adormeceu, começando logo a ressonar, como se estivesse deitado no seu leito de couro do Béarn. La Mole talvez pudesse ter dormido como el- rei; mas Margarida não dormia: virava-se e revirava-se na cama, e esse ruído perturbava as ideias e o sono do mancebo.

É bem novo - balbuciava Margarida, no meio da sua vigília - é bem tímido; talvez mesmo que seja bisonho; no entanto, tem lindíssimos olhos. figura elegante, muitos atractivos; mas se não fosse valente!. Ele fugia. abjura. é pena: o sonho começava bem; vamos. deixemos caminhar as coisas, e confiemos no tríplice deus dessa boua Henriqueta.

 

   O QUE A MULHER QUER, DEUS O QUER

Margarida não se enganou: a cólera de Catarina, reconcentrada no fundo do coração por toda a comédia cuja intriga ela via, sem ter o poder de a desenredar, precisava recair sobre alguém. Em lugar de entrar no seu quarto, subiu directamente ao da sua dama. A baronesa de Sauve estava esperando por duas visitas, a de Henrique e a da rainha-mãe, que todos temiam. Deitada meio vestida, enquanto Darfole velava na antecâmara, ouviu uma chave dar volta na fechadura, e depois aproximar-se alguém a passos lentos, e que pareciam pesados, não lhes abafasse o som um espesso tapete; não reconheceu, pois, que aquele andar fosse o de Henrique: lembrou-se que teriam impedido Darfole de a advertir; e encostada à mão, com os olhos e os ouvidos atentos, esperou.

O reposteiro levantou-se, e a jovem dama viu, estremecendo, aparecer Catarina de Médicis. Esta parecia tranquila; porém a baronesa de Sauve, costumada a estudá-la havia dois anos, percebeu logo quanto aquele aparente sossego ocultava sombrias preocupações e, talvez, cruéis pensamentos.

A baronesa de Sauve, ao ver Catarina, quis saltar da cama, porém esta levantou a mão para lhe fazer sinal de ficar, e a pobre Carlota ficou pregada no mesmo lugar, reunindo interiormente todas as forças da alma para fazer frente à tempestade que silenciosamente se preparava.

- Fez com que entregassem a chave ao rei de Navarra? - perguntou Catarina, sem que a sua voz indicasse alteração.

Mas estas eram pronunciadas com os lábios cada vez mais descorados.

- Sim, minha Senhora. - respondeu Carlota, com uma voz que forcejava por tornar tão natural como a de Catarina.

- E viu-o?

- Quem? - perguntou a baronesa.

- O rei de Navarra?

- Não, minha Senhora; mas espero-o, e até supus, quando ouvi dar volta na fechadura, que era ele que chegava.

Aesta resposta, que anunciava na baronesa de Sauve ou uma perfeita confiança, ou uma refinada dissimulação, Catarina não pôde reter um ligeiro movimento de cólera.

- E apesar de tudo - disse ela com um sorriso sardónico -, bem sabias, Carlota, que o rei de Navarra não viria esta noite...

- Eu, minha Senhora, sabia isso? - exclamou Carlota, com um acento de verdadeira surpresa.

- Sim, bem o sabias.

- Mas se não vem - replicou a dama, estremecendo só com esta suposição -, será porque. esteja morto?...

O que dava a Carlota o valor de mentir daquele modo era a certeza que tinha da mais terrível vingança, no caso de ser descoberta a sua pequena traição.

- Mas. não escreveste ao rei de Navarra, Carlota mia? - perguntou Catarina, com o mesmo riso silencioso e cruel.

- Não, minha Senhora - respondeu Carlota, com um acento admirável de ingenuidade.

- parece-me que Vossa Majestade não mo disse.

Houve um momento de silêncio, durante o qual Catarina fixava a baronesa como a serpente fixa a ave que quer fascinar.

- Supões-te formosa - disse Catarina -, supões-te esperta, não é assim?

- Não, minha Senhora - respondeu Carlota -, pelo contrário, sei apenas que Vossa Majestade tem por muitas vezes sido indulgente para comigo, quando se trata tanto da minha formosura como da minha perspicácia.

- Pois bem - replicou Catarina, animando-se - enganavas-te se acreditavas nisso, e eu mentia se to dizia; porque, ao pé de minha filha Margarida, não és mais do que uma mulher ignorante.

- Ah, minha Senhora! isso é verdade, não posso negá-lo.

- Assim - continuou Catarina -, o rei de Navarra dá maior preferência a minha filha que a ti, e não é isso o que tu querias nem o que tínhamos convencionado.

- Ah, minha Senhora! - respondeu Carlota, sufocada em soluços, sem que para isso fosse

agora obrigada a qualquer esforço -, se assim é, considero-me muito desgraçada.

- É assim, não há dúvida - tornou Catarina, cravando como um duplicado punhal os seus olhos no coração da pobre baronesa de Sauve.

- Mas, quem a persuadiu disso? - perguntou Carlota.

- Ora desce ao quarto da rainha de Navarra, e lá encontrarás o teu amante.

- Ah! - exclamou a baronesa.

Catarina encolheu os ombros.

- Terás por acaso ciúmes? - continuou a rainha-mãe.

- Eu? - tornou a baronesa, reunindo todas as suas forças, próximas a abandoná-la.

- Sim, tu; estou com curiosidade de ver os ciúmes de uma francesa.

- Porém, minha Senhora, como quer Vossa Majestade que eu tenha ciúmes do rei de Navarra senão por amor-próprio? Eu não amo o rei de Navarra senão o preciso para servir a Vossa

Majestade...

Catarina fixou-a um momento com olhos pensativos.

- O que acabas de me dizer - murmurou ela - pode, enfim, ser verdade.

- Vossa Majestade lê no meu coração.

- E esse coração é-me inteiramente dedicado?

- Ordene, minha Senhora, e conhecerá se o é.

- Pois bem; como te sacrificas por mim, Carlota, é necessário mesmo que, por mim, te dediques completamente ao rei de Navarra; numa palavra: que sejas muito ciosa, ciosa como uma italiana.

- Mas, minha Senhora, de que maneira se é ciosa como uma italiana?

- Eu to direi - replicou Catarina.

E depois de ter feito dois ou três movimentos de cabeça de alto a baixo, saiu silenciosamente, como tinha entrado.

Carlota, perturbada pelo claro brilhar dos olhos de Catarina, dilatados como os do gato da pantera, sem que aquela dilatação lhes fizesse perder nada da sua profundidade, deixou-a sem pronunciar uma só palavra, sem mesmo dar à sua respiração a liberdade de se fazer ouvir;

não respirou livremente senão quando ouviu fechar a porta por onde a rainha-mãe tinha saído,

quando Daríole veio dizer-lhe que a terrível aparição estava de todo desvanecida.

- Daríole - disse ela -, traz uma cadeira para junto da minha cama e passa a noite aqui; não me atrevo a ficar só.

Darfole obedeceu; porém a baronesa, apesar da companhia da criada, não obstante a luz da lâmpada, que mandou ficar acesa para se animar, não pôde conciliar o sono senão de manhã, tanto

lhe ecoava ainda nos ouvidos o acento metálico da voz de Catarina.

Todavia, Margarida, posto não ter adormecido senão quando o dia começara a despontar, acordou ao som das trombetas e ao primeiro ladrar dos cães. Ergueu-se logo, e começou a vestir um vestido tão singelo como pretensioso; chamou as criadas e fez introduzir na antecâmara os gentis-homens do serviço ordinário do rei de Navarra; e abrindo depois a porta que, debaixo da mesma chave, encerrava Henrique e La Mole, deu, com um olhar afectuoso, os bons-dias a este último, e chamando por seu marido, disse-lhe:

     - Vamos Senhor, não basta fazer acreditar a minha mãe o que não é; convém ainda que convença toda a sua corte da perfeita inteligência que há entre nós. Mas tranquilize-se - ajuntou -, e dê o justo valor às minhas palavras, que as circunstâncias neste dia tornam solenes.

a! hoje a última vez que porei Vossa Majestade em tão cruel situação.

O rei de Navarra sorriu e ordenou que fizessem entrar os seus gentis-homens.

No momento em que o cumprimentavam fingiu reparar que tinha esquecido a capa sobre a cama da rainha; desculpou-se portanto para com eles de os haver recebido assim e, tomando a capa das mãos de Margarida, corada de pejo, pô-la nos ombros; depois, voltando-se para os recém-vindos, perguntou-lhes as novidades da corte e da cidade.

Margarida, olhando de soslaio, notava a admiração que causava àqueles fidalgos a intimidade que acabava de se manifestar entre o rei e a rainha de Navarra, quando entrou um porteiro seguido por três ou quatro gentis-homens e anunciou o duque de Alençon.

Para que ele viesse não foi preciso mais do que dizer-lhe Gillonne que o rei tinha passado a noite com sua mulher.

Francisco entrou com tanta precipitação, que pouco faltou que, para os afastar, não derrubasse os que o precediam.

O seu primeiro olhar foi para Henrique, Margarida só teve o segundo.

Henrique correspondeu-lhe com uma profunda cortesia, enquanto Margarida compunha o rosto, que exprimia a mais profunda serenidade.

O duque, com outro olhar vago mas investigador, mediu todo o quarto; viu a cama desarranjada, as duas almofadas na cabeceira e o chapéu do rei sobre uma cadeira.

Fez-se pálido; mas, recuperando o sangue-frio:

Meu irmão - disse ele para Henrique -, vai esta manhã jogar a péla com o rei?

- E é porventura Sua Majestade que faz a honra de me convidar? - perguntou Henrique -

ou isso é apenas uma amabilidade da sua parte, meu irmão?

- Não, o rei não me falou a esse respeito - disse o duque, perturbado - mas não é da sua vida ordinária?

Henrique sorriu, porque haviam sucedido tantas e tão graves coisas depois da última partida que tinha jogado com o rei, que não era de admirar que Carlos IX tivesse mudado de parceiros.

- Lá vou, meu irmão - disse Henrique, com certo ar de riso.

-Venha - replicou o duque.

- Retira-se já? - perguntou Margarida.

- Sim, minha irmã.

-Tem muita pressa?

- Muita.

- E se, apesar disso, eu lhe exigisse alguns minutos de atenção?

Uma tal interrogativa era tão rara na boca de Margarida, que o irmão olhou para ela corando e tornando-se pálido ao mesmo tempo.

O que irá ela dizer-lhe? pensava consigo Henrique, não menos admirado do que o duque de Alençon.

Margarida, como se houvesse adivinhado o pensamento do esposo, voltou-se para ele:

- Senhor - disse com um sorriso encantador -, pode ir ter com o rei, se quiser; porque o segredo que tenho a comunicar a meu irmão já o senhor deve sabê-lo porque a súplica que ontem lhe fiz a respeito desse segredo foi quase desatendida por Vossa Majestade. Não quero, pois, importuná-lo segunda vez com a expressão de um desejo que pareceu desagradar-lhe.

- Mas que é? - perguntou Francisco olhando admirado para ambos.

- Ah! - exclamou Henrique, corando de despeito - já sei o que quer dizer, minha Senhora. Na verdade, sinto não estar livre. Mas se não posso dar ao Sr. de La Mole uma hospitalidade que não lhe oferecia segurança, não quero deixar de recomendar a meu irmão, o duque de Alençon que, reunindo as minhas às suas instâncias, a pessoa por quem se interessa, e talvez mesmo – ajunte ainda, para dar mais força às palavras que acabámos de sublinhar - que a meu irmão ocorra alguma ideia que lhe permita dar asilo ao Sr. de La Mole... aqui mesmo... junto da senhora, o que será melhor que tudo, não é assim?

Vamos, vamos - disse Margarida consigo mesma - os dois juntos vão fazer o que cada um de per si não faria.

Abriu então a porta do gabinete e fez sair o jovem ferido, depois de ter dito a Henrique:

- Pertence-lhe, Senhor, explicar a meu irmão por que motivo nos interessamos por este mancebo.

Em duas palavras, Henrique contou ao duque de Alençon, metade protestante por oposição, como Henrique, metade católico por prudência, o motivo da chegada de La Mole a Paris, e como tinha sido ferido na ocasião de lhe levar uma carta do Sr. de Auriac.

Quando o duque voltou o rosto, tinha La Mole saído do gabinete e achava-se em pé defronte dele.

Francisco, ao descobri-lo, pálido e tão formoso, e, por consequência, tão sedutor pelas palidez e formosura, sentiu nascer no fundo do coração um novo terror.

     Margarida prendia-o ao mesmo tempo pelo ciúme e pelo amor- próprio.

- Meu irmão - disse ela -, respondo por este mancebo, que há-de ser útil a quem o souber empregar; se o aceitar, meu irmão, achará nele um servo afeiçoado; e o Sr. de La Mole tem um amo poderoso. Neste tempo é bom rodearmo-nos de amigos... sobretudo - ajuntou baixando a voz de maneira que só o duque de Alenson a ouvisse - quem for ambicioso, e tiver a desgraça de não ser senão um terceiro filho de França.

E pôs um dedo na boca, para indicar a Francisco que, apesar daquela confidência, reservava ainda para ele uma importante porção do seu pensamento.

- Além disso - acrescentou -, talvez julgue, ao contrário de Henrique, que não é conveniente que este mancebo se conserve tão perto do meu aposento.

- Minha irmã - disse com vivacidade Francisco -, se convier ao Sr. de La Mole, dentro de meia hora achar-se-á acomodado em minha casa, onde suponho não ter nada que recear.

Se for meu amigo, sê-lo-ei dele.

Francisco mentia, porque no fundo do coração detestava já La Mole.

Muito bem... Não me tinha enganado - murmurou consigo Margarida, que viu franzirem-se as sobrancelhas de Henrique. - Ah! agora vejo que, para que ambos se conduzam bem, é preciso que um seja conduzido pelo outro.

E depois, completando o seu pensamento:

Vamos - continuou ela. - Muito bem, Margarida! dirá Henriqueta.

Com efeito, meia hora depois La Mole, completamente catequizado por Margarida, beijava a extremidade do seu vestido e subia, com mais agilidade do que se podia esperar de um ferido, aescada que conduzia ao quarto do duque de Alençon.

Dois ou três dias decorreram ainda, durante os quais parecia fortificar-se cada vez mais a boa harmonia entre Henrique e sua mulher. Henrique obtivera não fazer abjuração pública; porém, tinha renunciado entre as mãos do confessor do rei e ouvia todos os dias a missa que se dizia ao Louvre. À noite tomava ostensivamente o caminho do quarto da esposa, entrava pela porta principal, conversava com ela alguns momentos, saía pela porta oculta, e subia para o quarto da baronesa de Sauve, a qual não tinha deixado de o prevenir da visita de Catarina e do perigo incontestável que o ameaçava. A sua desconfiança, portanto, à vista de tão repetidos avisos, redobrava para com a rainha-mãe, e com tanta mais razão que o rosto de Catarina insensivelmente começava a desanuviar-se. Henrique chegou mesmo a ver uma manhã assomar-lhe aos lábios um sorriso de benevolência; e nesse dia foram tão grandes os seus receios, que só se decidiu a comer ovos cozidos à sua vista, e a beber água que ele mesmo viu tirar do Sena.

A carnificina continuava, mas ia acabando; tinham sido assassinados tantos huguenotes que o seu número diminuiu bastante. A maior parte estavam mortos, muitos tinham fugido; outros conservavam-se escondidos. De quando em quando levantava-se um grande clamor num ou noutro bairro: era quando se descobria um desses infelizes. A execução era então particular ou pública, se o desgraçado se achava encurralado em algum lugar sem saída, ou se podia fugir. No último caso, era uma grande festa para o bairro onde se dava o acontecimento, porque longe de acalmarem com a extinção dos seus inimigos, os católicos tornavam-se cada vez mais ferozes, mostrando-se ainda mais encarniçados na perseguição desses restos desventurados. Carlos IX sentia-se satisfeito com a caçada feita aos huguenotes; e depois, quando já os não podia apanhar por suas mãos, deleitava-se com o ruído que faziam os que continuavam na caçada.

Um dia, voltando de jogar a malha, que era, bem como o jogo da péla e a caça, o seu prazer preferido, entrou no quarto da mãe, radiante de prazer e seguido dos seus cortesãos do costume.

- Minha mãe - disse ele, abraçando a florentina, que, ao notar esse prazer, já procurava adivinhar a sua causa -, minha mãe, boas notícias! Má peste os leve! Sabe que mais? Achou-se a ilustre ossada do Senhor Almirante, que se julgava perdida.

- Deveras? - disse Catarina.

- É o que lhe digo, minha Senhora. Vossa Majestade imaginava como eu, não é assim, minha mãe, que os cães tinham feito dela o seu banquete de noivado? Mas não aconteceu assim. O meu povo, o meu querido povo, o meu bom povo, também teve uma ideia, enforcou o almirante no gancho de Montfaucon.

- E depois? - disse Catarina.

- E depois - tornou Carlos IX -, sempre tive vontade de tornar a vê-lo depois que soube que o santo homem tinha morrido. Faz bom tempo; tudo hoje me parece florescer. O ar está cheio de vida e de perfumes, sinto-me como nunca me senti. Se quer, minha mãe, montaremos a cavalo e iremos a Montfaucon.

- Iria de boa vontade, meu filho - disse Catarina -, se não tivesse combinado uma entre vista a que não posso faltar; e depois, para fazer uma visita a um homem da importância do Senhor Almirante é preciso convidar toda a corte. Será uma excelente ocasião para os curiosos fazerem observações de interesse. Veremos quem vai e quem fica em casa.

-Tem razão, minha mãe; é melhor que fique a visita para amanhã. Assim, faça os seus convites, eu farei os meus; ou melhor será não convidar ninguém. Diremos somente que vamos, e isto feito, irá quem quiser. Adeus, minha mãe, vou tocar trombeta.

- Olha que te fadiga muito. Ambrósio Paré bem to diz, e tem razão; é um exercício demasiado violento para ti.

- Ora essa! deixe-os falar - disse Carlos. - Tomara eu ter a certeza de não morrer senão por

causa disso. Hei-de enterrar todos desta casa, e mesmo Henrique, que, segundo anuncia Nostradamus, há-de ser um dia herdeiro de nós todos.

Catarina franziu as sobrancelhas.

- Meu filho - disse ela -, desconfia especialmente das coisas que te parecerem impossíveis e entretanto toma cuidado em ti.

- Tocarei só duas ou três vezes para divertir os meus cães, que morrem de tédio; pobres animais! Era bom que os tivesse arremessado sobre os huguenotes, isso tê-los-ia alegrado.

E Carlos IX saiu do quarto da mãe, entrou na sala de armas, pegou numa trombeta e começou a tocar com uma força que teria feito honra ao próprio Rolando. Não se compreendia como de um corpo tão débil e caquéctico, e de lábios tão pálidos, podia sair sopro tão valente.

Catarina esperava efectivamente alguém, como dissera ao filho. Logo que ele saiu, veio falar-lhe ao ouvido uma das damas. A rainha sorriu, levantou-se, cortejou as pessoas que lhe faziam a corte e acompanhou a mensageira.

O florentino Renato, aquele a quem o rei de Navarra fizera um acolhimento tão diplomático na noite mesmo de S. Bartolomeu, acabava de entrar no oratório da rainha.

- Ah, és tu, Renato? - disse-lhe Catarina. - Esperava-te com impaciência.

Renato inclinou-se.

- Recebeste ontem um bilhetinho que te mandei?

     - Tive essa honra.

- Renovaste, como te disse, a experiência do horóscopo que tirou Ruggieri e que concorda tanto com a profecia de Nostradamus, que diz que todos os meus três filhos reinarão?... As coisas modificaram-se muito nestes três dias, Renato; e parece-me que é possível que os destinos se tornassem menos ameaçadores.

- Minha Senhora - respondeu Renato, meneando a cabeça -, Vossa Majestade sabe muito bem que as coisas não modificam os destinos; é o destino, pelo contrário, que governa as coisas.

- Mas nem por isso deixaste de renovar o sacrifício, não é assim?

- Renovei, minha Senhora, porque o meu primeiro dever é obedecer a Vossa Majestade.

- E que resultado tiveste?

- O mesmo, minha Senhora.

- Como! o cordeiro preto tornou a dar os três gritos?

- Tornou, minha Senhora.

- Sinal de três mortes cruéis na minha família? - balbuciou Catarina.

- Infelizmente, assim é.

- E depois?

- Depois, minha Senhora, havia nas entranhas esse singular deslocamento do fígado que notámos nos dois primeiros, e que se inclinava em sentido inverso.

- Mudança de dinastia. Sempre a mesma coisa, a mesma, a mesma - resmungou Catarina.

- Pois olha, Renato, é preciso combater isso.

Renato abanou a cabeça.

- Já disse a Vossa Majestade - respondeu ele - que o destino é que governa.

- É esse o teu parecer? - perguntou Catarina.

- É, minha Senhora.

- Lembras-te do horóscopo de Joana d'Albret?

- Lembro-me, sim, minha Senhora.

- Repete-o, que já me esqueceu.

- Vives honorata - disse Renato -, morieris reformidata, regina amplificaóere.

- O que quer dizer, penso eu - respondeu Catarina -, viver desonrada (e faltava o preciso à ìpobre mulher!) morrerá. temida (e nós zombamos dela), serás maior do que foste sendo rainha, -e ela morreu, e a Sua Grandeza repousa num túmulo onde nos não lembrou de pôr o seu corpo.

- Minha Senhora, Vossa Majestade traduz mal o vives honorata. A rainha de Navarra viveu bem, pois que gozou, enquanto viveu, do amor de seus filhos e do respeito dos seus partidários; amor e respeito muito sinceros, por isso que era pobre.

- Bem - disse Catarina -, concordo quanto ao viverús honrada; mas morieris re Ormidata, como explicas isso?

- Nada mais fácil, minha Senhora: morrerás temida.

- E morreu temida?

- E tanto, minha Senhora, que não teria morrido se Vossa Majestade dela não tivesse medo.

como rainha te engrandecerás, ou tu serás maior do que todos quando rainha; o que também

é verdade, minha Senhora, porque, em troca da coroa mortal, tem talvez agora, como rainha

márttir, a coroa do Céu; e, além disso, quem sabe o que o futuro reserva à sua raça sobre a Terra?

Catarina era supersticiosa em excesso; aterrava-a mais talvez o sangue-frio de Renato, que parecia conhecer a resistência dos áugures, e como para ela um mau passo era ensejo para encarar com mais ânimo a situação, disse bruscamente a Renato, e sem nenhuma transição além do trabalho mudo do pensamento:

- Chegaram perfumes de Itália?

- Chegaram, sim, minha Senhora.

- Manda-me uma caixinha cheia.

- De quais?

- Daqueles...

Catarina parou.

- Daqueles de que tanto gostava a rainha de Navarra? - perguntou Renato.

- Justamente.

- Não é preciso prepará-los, não é assim, minha Senhora? Vossa Majestade sabe agora tanto como eu.

- Parece-te que sim? - disse Catarina. - O que é verdade é que produzem bom efeito.

- Vossa Majestade não manda mais nada? - perguntou o perfumista.

- Nada mais - tornou Catarina, pensativa. - Se porém, aparecer alguma novidade nos anúncios, previne-me logo. A propósito: talvez seja melhor deixarmos os cordeiros e experimentarmos as galinhas.

- Ah, minha Senhora! muito receio que, mudando a vítima, nada mudem os presságios.

- Faz o que te digo.

Renato cortejou, e saiu.

Catarina ficou um instante sentada e pensativa; depois levantou-se e entrou na sua câmara, onde

a esperavam as damas a quem anunciou a romaria de Montfaucon para o dia seguinte.

A notícia desse passeio foi, durante toda a noite, o tema geral do palácio e da cidade. As senhoras mandaram preparar as mais luzidas galas, e os fidalgos as armas e os cavalos de aparato. Os mercadores fecharam as lojas, e os vadios e paroleiros de gentalha mataram aqui e ali alguns

huguenotes, que tinham sido poupados para um dia de festa, a fim de terem um acompanhamento honorífico para o cadáver do almirante.

Foi uma algazarra contínua até alta noite.

La Mole tinha passado o dia mais triste do mundo, e a esse sucederam-se mais três ou quatro nada menos tristes. O duque de Alençon, para obedecer aos desejos de Margarida, tinha-o admitido nos seus aposentos, mas não o tornara a ver. Viu-se subitamente abandonado, privado dos cuidados ternos, delicados e encantadores de duas mulheres cuja lembrança lhe devorava sem cessar o pensamento. É verdade que recebeu notícias de Margarida pelo cirurgião Ambrósio Par que ela lhe mandara; mas essas notícias, transmitidas por um homem de cinquenta anos que ignorava ou fingia ignorar o interesse que mereciam a La Mole as menores coisas que diziam respeito a Margarida, eram bem incompletas e insuficientes. Gillonne tinha ido vê-lo uma vez, em seu nome, já se sabe, e para saber notícias do ferido. Esta visita produzira o efeito de um raio de Sol numa masmorra, e La Mole tinha ficado como deslumbrado, esperando a cada momento uma segunda aparição, a qual porém não se realizara, conquanto embora tivessem passado dois dias. Assim, pois, quando chegou ao convalescente a notícia dessa reunião esplêndida de toda a corte, pediu licença ao duque de Alençon para o acompanhar.

O duque nem perguntou se La Mole se achava em estado de suportar essa fadiga, respondendo apenas:

- Muito bem. Dêem-lhe um dos meus cavalos.

Era o que desejava La Mole. O cirurgião Ambrósio Paré veio curá-lo como de costume. La Mole expôs-lhe a necessidade em que estava de montar a cavalo, e pediu-lhe que arranjasse com todo o cuidado o curativo. De resto, ambas as feridas estavam fechadas, tanto a do peito como a do ombro, e só esta o magoava alguma coisa. Ambas estavam vermelhas, como convém que estejam as feridas em estado de cura. O cirurgião cobriu-as com tafetá gomado, que nessa época   estava em grande voga para esse fim, e assegurou a La Mole que, uma vez que não fizesse muitos movimentos no passeio que ia dar, nada lhe aconteceria.

La Mole não cabia em si de contente; exceptuando certa fraqueza originada pela perda de sangue, e um leve atordoamento devido a essa causa, ia o melhor possível. E depois, Margarida iria sem dúvida ao passeio: tornaria a vê-la; e quando se lembrava do bem que lhe tinha feito a visita de Gillonne, não punha em dúvida a eficácia muito maior da presença de sua ama.

La Mole empregou, pois, parte do dinheiro que lhe dera a família na compra do melhor casaco de cetim branco, e capa com o bordado mais rico que lhe pôde fornecer um alfaiate. Esse mesmo lhe arranjou também as botas de couro perfumadas que se usavam nessa época levando-lhe tudo com meia hora somente de espera além da hora prometida, de maneira que La Mole não teve muita razão de queixa. Vestiu-se apressadamente, mirou-se ao espelho, pareceu-lhe que estava bem vestido, bem penteado e perfumado, e por fim, dando rapidamente algumas voltas ao quarto, conheceu que, apesar de sentir ainda dores bastante vivas, a felicidade moral iria calar os incómodos físicos.

Enquanto ocorria esta cena no Louvre, sucedia outra do mesmo género no Palácio. um fidalgo alto, de cabelo ruivo, examinava a um espelho uma ferida avermelhada que desagradavelmente lhe atravessava o rosto; pintava e perfumava o bigode, estendendo ao mesmo tempo sobre esse doloroso rego, que, a despeito de todos os cosméticos então na moda, se obstinava a reaparecer, uma tríplice camada de pó; mas como a aplicação era insuficiente, lembrou-se de uma coisa. E como um Sol ardente, um Sol de Agosto, dardejava os seus raios no pátio, metia o chapéu, e com o nariz no ar e os olhos fechados, pôs-se a passear por espaço de dez minutos, expondo-se voluntariamente a essa chama devoradora que caía do céu em torrentes.

Passados dez minutos, graças ao ardor do Sol, afogueou-se de tal modo o fidalgo, que o sulco vermelho não estava em harmonia com o rosto, mas à vista do todo parecia amarelado. O nosso fidalgo não ficou pouco satisfeito com este arco-íris que fazia sobressair o resto do rosto, em consequência de uma camada de vermelhão com que o cobrira; e, assim satisfeito quanto à sua cara, paramentou-se com um magnífico fato que um alfaiate lhe levara ao quarto antes que o tivesse encomendado. Enfeitado, almiscarado, armado de ponto em branco, desceu ao pátio, e pôs-se a afagar um cavalo preto, cuja beleza seria sem igual se não fora um pequeno golpe, que, do mesmo modo que ao amo, lhe tinha dado, numa das recentes lutas civis, uma espada de bom aço.

Ainda assim, encantado com o cavalo como estava consigo mesmo, esse fidalgo, de quem os nossos leitores sem muito custo já adivinharam o nome, montou um quarto de hora antes de todos, e fez retumbar o pátio do Palácio de Guisa com os relinchos do seu corcel. Passado um instante, o cavalo, completamente domado, reconhecia, tornando-se flexível e obediente, o legítimo domínio do cavaleiro; mas a vitória não tinha sido alcançada sem ruído, e esse ruído (e era com isso que contava talvez o fidalgo) tinha feito chegar à janela uma senhora, que o nosso domador de cavalos saudou profundamente, e que se sorriu para ele da maneira mais agradável.

Cinco minutos depois mandou a duquesa de Nevers chamar o seu mordomo.

- Sabe - perguntou-lhe ela - se deram um bom almoço ao Senhor Conde Aníbal de Cocunás?

- Deram, minha Senhora - respondeu o mordomo -, e sei mesmo que esta manhã ainda comeu com melhor apetite do que nos outros dias.

- Muito bem - disse a duquesa. E voltando-se para o seu camarista:

- Sr. de Arguzon - disse ela -, vamos para o Louvre, e peço-lhe que não perca de vista o Sr. de Cocunás, porque está ferido, e deve estar fraco, e não quereria por coisa alguma deste mundo que sofresse algum incómodo. Isso faria rir os huguenotes, que lhe têm raiva depois dessa aventura na noite de S. Bartolomeu.

E a duquesa, montando a cavalo, partiu radiante para o Louvre, onde era a reunião geral.

O Corpo Do Inimigo Morto Sempre Cheira Bem

Eram duas horas da tarde quando surgiu uma fila de cavaleiros reluzentes de ouro, de honrarias e de galas, na Rua de S. Dinis, desembocando no ângulo do Cemitério dos Inocentes, perdendo-se entre as duas fileiras de casas sombrias como um imenso réptil de cintilantes estrelas.

Nenhum acompanhamento, por muito brilhante que seja, pode dar uma ideia desse espectáculo. Os trajos de seda, ricos e brilhantes, que Francisco I legara, como moda esplêndida, aos seus sucessores, ainda não tinham sido transformados nos vestidos singelos e tristes que estavam em voga no reinado de Henrique III; de maneira que o trajo de Carlos IX, menos rico, mas mais elegante que o das épocas precedentes, brilhava com a mais perfeita harmonia. Nos nossos dias nada há que se possa comparar com semelhante cortejo, porque as magnificências dele reduzem-se à simetria e ao uniforme.

Pajens, escudeiros, fidalgos de baixa linhagem, cães e cavalos, que marchavam nos flancos e na retaguarda, faziam do régio cortejo um verdadeiro exército. Atrás desse exército seguia o povo ou, para melhor dizer, havia povo por toda a parte.

O povo seguia, escoltava e precedia; e gritava ao mesmo tempo Noel e Haro! por isso via no acompanhamento alguns calvinistas renegados, e o povo é rancoroso.

Tinha sido de manhã, em presença de Catarina e do duque de Guisa, que Carlos IX dissera como coisa natural, diante de Henrique de Navarra, que iria visitar a forca de Montfaucorou antes, o corpo mutilado do almirante, que ali estava enforcado. A princípio, quis Henrique dispensar-se de tomar parte na visita. Era aí que o esperava Catarina. Às primeiras palavras que proferiu exprimindo a sua repugnância, trocou ela um olhar e um sorriso com o duque de Alenson.

Henrique viu esse sorriso, compreendeu, e mudando logo de tenção:

- Mas, na verdade - disse -, porque não hei-de ir? Sou católico, e devo fazer tudo quanto exigir a minha nova religião.

E depois, voltando-se para Carlos IX:

- Conte Vossa Majestade comigo - continuou ele -, terei sempre muito prazer em acompanhá-lo onde quer que se dirija.

E lançou em redor um olhar rápido para ver quantas sobrancelhas se franziam.

O homem para quem na cavalgada se olhava com mais curiosidade era esse filho de Navarra, esse rei sem reino, esse huguenote feito católico. O seu rosto comprido e característico, o porte um tanto vulgar, a sua familiaridade com os inferiores, familiaridade que levava a extremo e que era devida aos costumes montanheses da sua mocidade (e que conservou até à morte), expunham-no aos curiosos, gritando alguns destes:

- Vá ouvir missa, Henrique, vá ouvir missa!

Ao que Henrique respondia:

- Ouvia-a ontem, ouvia-a hoje, e ouvi-la-ei amanhã. Ora vamos, parece-me que não é pouco.

Margarida estava a cavalo, tão formosa, tão rosada, tão elegante, que a admiração pública gravitava em redor dela como um concerto, do qual algumas notas, cumpre confessá-lo, eram para a sua companheira, a duquesa de Nevers, que acabava de tomar lugar ao lado dela, montada num cavalo branco, que sacudia orgulhosamente a cabeça como se se ufanasse do peso que levava.

- Então, duquesa? - perguntou a rainha de Navarra. - Que novidades há?

- Nada, que eu saiba - respondeu Henriqueta em voz alta.

E depois, baixinho:

- E o seu huguenote - perguntou ela -, que é feito dele?

-Arranjei-lhe um asilo quase seguro - respondeu Margarida -, e o teu mata-gente, que fizeste dele?

- O homem quis tomar parte na festa; vem no cavalo de batalha do duque de Nevers, grande como um elefante. É um cavaleiro temível. Permiti-lhe que assistisse à cerimónia por pensar

que o teu huguenote teria a prudência de ficar em casa, e que assim não havia o menor receio de nenhum encontro.

- Oh! lá por isso - respondeu Margarida, que ele estivesse aqui ou não, parece-me que nada havia a recear. É um belo rapaz o meu huguenote, mas não passa daí; é uma pomba, e não um milhafre: arrulha, mas não morde. E depois - disse ela, com um acento intraduzível e encolhendo os ombros -, talvez que nós o tomássemos por huguenote sendo ele brâmane, e a estes, como sabes, a religião proíbe-lhes pelejar: é pecado mortal derramar sangue.

- Onde está o duque de Alençon? - perguntou Henriqueta. - Não o vejo.

- Não há-de tardar; estava doente dos olhos esta manhã, e não desejava vir; mas como é sabido que, para não estar de acordo com os irmãos Carlos e Henrique, se inclina para os huguenotes, disseram-lhe que el-rei poderia interpretar mal a sua ausência e decidiu-se a vir. Mas, a, grita-se para aquele lado... Há-de ser ele que vem pela Porta de Montmartre.

- Não há dúvida, é ele - disse Henriqueta. - Na verdade, vem guapo. Há tempo a esta parte veste-se com muito esmero; anda naturalmente enamorado. Ora vê como é bom ser príncipe de sangue: galopa atropelando todos, e todos se desviam.

- Na verdade - disse Margarida rindo - não tem mão em si, esmaga-nos! Manda meter em forma os teus camaristas, duquesa! senão, olha que aquele será infalivelmente atropelado.

     - Oh! é o meu valente! - bradou a duquesa - olha, olha!

Cocunás tinha saído da forma para se aproximar da duquesa de Nevers; mas, no momento

em que o cavalo atravessava a espécie de muralha exterior que separava a rua do bairro, um cavaleiro da comitiva do duque de Alençon, que em vão diligenciava sofrear o cavalo, foi dar em cheio sobre Cocunás. O choque fez vacilar o piemontês sobre o colossal corcel, e o chapéu saltou-lhe da cabeça; teve mão no cavalo, e voltou-se furioso.

- Meu Deus! - exclamou Margarida, chegando-se ao ouvido da sua amiga - é La Mole!

- Aquele formoso rapaz pálido? - bradou a duquesa, sem poder conter a primeira impressão.

- Sim, sim! aquele mesmo que esteve a ponto de estender por terra o teu piemontês. - Oh! - disse a duquesa - vamos ver bonitas coisas! olha como eles se medem!

Com efeito, Cocunás, ao voltar-se, conheceu La Mole, e a surpresa fizera-lhe largar a rédea do cavalo porque supunha ter morto o seu antigo companheiro, ou pelo menos tê-lo posto fora de combate por muito tempo. La Mole também conhecera Cocunás, e sentiu subir-lhe o sangue.

Durante os poucos segundos que foram os suficientes para que esses dois homens exibissem os sentimentos que nutriam, fitaram-se de um modo que fez estremecer as duas damas. E depois, tendo La Mole olhado em redor, e conhecido sem dúvida que não era aquele o lugar para uma explicação, picou o cavalo e foi reunir-se ao séquito do duque de Alenson. Cocunás ficou firme por um instante no mesmo lugar; mas vendo que La Mole se retirava sem dizer palavra, foi colocar-se também entre os fidalgos da duquesa.

- Ah! ah! - disse Margarida, com desdenhoso sentimento - não me tinha enganado. Oh! esta é de mais.

E mordeu os beiços até fazer sangue.

- É bem bonito! - respondeu a duquesa com comiseração.

Nesse mesmo momento ocupava o duque de Alençon o seu lugar por detrás do rei e da rainha-mãe, de maneira que os seus fidalgos, para se lhe reunirem, tinham de passar por diante de Margarida e da duquesa de Nevers. La Mole, ao passar, tirou o chapéu, saudou a rainha, inclinando o corpo até tocar no pescoço do cavalo, e conservou-se descoberto à espera que Sua Majestade o honrasse com um olhar.

Mas Margarida voltou a cabeça com altivez.

La Mole leu, sem dúvida, a expressão de desdém pintada no semblante da rainha, e de pálido que estava tornou-se lívido. Para não cair do cavalo teve de se agarrar à crina.

- Oh! oh! - disse Henriqueta à rainha - olha para ele, cruel! vê que desmaia.

- Não faltava mais nada! - disse a rainha com um sorriso aniquilador. - Trouxeste alguns sais?

A duquesa enganava-se. La Mole recobrou as forças e, firmando-se na sela, foi tomar lugar no séquito do duque de Alençon.

O préstito avançava, e já se avistava o perfil do lúgubre patíbulo, levantado e estreado em honra de Marigny. Nunca, como então, se viu ali tanta gente.

Os meirinhos e os guardas marchavam na frente, e formavam um grande círculo em volta do recinto. À sua chegada, os corvos, pousados sobre o patíbulo, fugiram grasnando desesperadamente.

O patíbulo levantado em Montfaucon oferecia de ordinário, por detrás das colunas, um paraíso aos cães, atraídos por presas frequentes, e aos salteadores filósofos, que iam meditar sobre as tristes vicissitudes da fortuna.

Nesse dia não havia, aparentemente pelo menos, em Montfaucon, nem cães, nem salteadores. Os meirinhos e os guardas tinham afugentado os cães e os corvos, e os salteadores tinham-se confundido na multidão para realizarem alguns desses lances que são as probabilidades de risco do ofício.

O cortejo avançava. O rei e a rainha-mãe foram os primeiros a chegar; após eles seguiram-se o duque de Anjou, o duque de Alençon, o rei de Navarra e o duque de Guisa, com todos os camaristas; depois, a rainha Margarida, a duquesa de Nevers, e todas as damas que acompanhavam o chamado esquadrão volante, da rainha; e finalmente, outros fidalgos, os pajens, os escudeiros, os criados e o povo; ao todo dez mil pessoas.

Da forca principal pendia uma massa informe, um cadáver preto, manchado de sangue e lama, branqueado por novas camadas de poeira. Para cúmulo do vilipêndio, o povo, sempre engenhoso, tinha-lhe posto uma cabeça de palha mascarada com um palito na boca, lembrança sem dúvida, de algum garoto que conhecia o costume do almirante.

Era um espectáculo ao mesmo tempo lúgubre e extravagante, o desses elegantes fidalgos e formosas damas desfilando como uma procissão desenhada por Goya no meio desses quadros enegrecidos e dessas forcas de braços compridos e descarnados. Quanto mais vivo era o dos visitantes, tanto maior era o contraste que fazia com o lúgubre silêncio a fria insensibilidade desses cadáveres, objectos de zombaria que faziam estremecer aqueles mesmos que zombavam. Muitos suportavam com grande custo esse horrível espectáculo, e por sua palidez, podia distinguir-se no grupo de huguenotes regenerados o rei de Navarra, o qual, por grande que fosse

     o poder que tinha sobre si mesmo, e o grau de dissimulação com que o dotara o Céu, não pôde conter-se por mais tempo. Pretextando o cheiro infecto que derramavam esses restos humanos, chegando-se a Carlos IX, que, ao lado de Catarina, estava parado diante dos restos do almirante:

- Senhor - disse ele -, não acha Vossa Majestade que esse pobre cadáver cheira muito mal para estar mais tempo aqui?

- Parece-te, Henriquinho?. - perguntou Carlos IX, com os olhos que brilhavam de prazer feroz.

- Parece-me.

- Pois olha não sou da tua opinião... o corpo de um inimigo morto sempre cheira bem.

- Ora, Senhor - disse Tavannes -, como Vossa Majestade sabia que vínhamos fazer uma visitinha ao Senhor Almirante, teria sido bom que se tivesse convidado Pedro Ronsard, mestre de poesia de Vossa Majestade: aqui mesmo teria composto o epitáfio do velho Gaspar.

- Não precisamos dele para isso - disse Carlos IX -, nós mesmo o faremos... Lá vai, meus Senhores - disse ele, depois de ter reflectido um instante; e recitou quatro versos torpes.

- Bravo! bravo! - exclamaram todos os fidalgos católicos, ao mesmo tempo que os hugue    notes renegados franziam as sobrancelhas sem dizer palavra.

Henrique, que estava conversando com Margarida e com a duquesa de Nevers, fingiu não ouvir.

- Vamos, vamos, Senhor - disse Catarina, que, apesar dos perfumes com que estava coberta, começava a enojar-se com o cheiro. - Vamos, não há companhia, por boa que seja, de que a gente não tenha de separar-se. Digamos adeus ao Senhor Almirante, e voltemos para Paris.

Fez com a cabeça um gesto irónico, como fazemos quando nos despedimos de um amigo, e, formando a testa da coluna, voltou para trás, e o cortejo foi desfilando diante do cadáver de Coligny.

O Sol declinava.

A multidão foi seguindo os passos da realeza para gozar até ao fim das magnificências do cortejo e de todos os pormenores do espectáculo. Os ladrões acompanharam a multidão; de maneira que dez minutos depois da partida do rei já não havia ninguém em redor do cadáver mutilado do almirante.

Quando dizemos ninguém, enganamo-nos... Um fidalgo montado num cavalo preto, e que pudera, sem dúvida, no momento em que era honrado com a presença dos príncipes, contemplar a seu gosto esse tronco informe e enegrecido, tinha ficado para trás e entretinha-se a examinar minuciosamente as correntes, ganchos e pilares de pedra, e, enfim, a forca, que lhe parecia seguramente, a ele, que acabava de chegar a Paris e que ignorava os aperfeiçoamentos que na corte se dá a tudo, o modelo do que o homem pode inventar de mais hediondo.

Escusado é dizer aos leitores que este homem era o nosso amigo Cocunás. Os olhos vivos de uma mulher em vão o tinham procurado na cavalgada, debalde tinham querido descobri-lo no cortejo.

Cocunás, como dissemos, extasiava-se diante da obra de Enguerrand de Marigny. Mas essa mulher não era a única pessoa que procurava o Sr. de Cocunás. Um fidalgo, notável no seu gibão de cetim branco e linda pluma, depois de ter olhado para a frente e para os lados, lembrou-se de olhar para trás e viu a alta estatura de Cocunás e o seu gigantesco corcel desenhar- se vigorosamente nos últimos reflexos do Sol, que desaparecia no horizonte. Então, o fidalgo do gibão de cetim branco deixou o caminho que seguia o préstito, tomou por um atalho e, descrevendo uma curva, voltou para o patíbulo.

E logo a dama, que reconhecemos ser a duquesa de Nevers, como reconhecemos que o fidalgo do cavalo preto era Cocunás, chegou-se a Margarida, e disse-lhe:

- Enganámo-nos ambas, Margarida: o piemontês ficou para trás, e o Sr. de La Mole lá vai ter com ele.

- Deveras? - respondeu Margarida, rindo - então temos obra. Confesso que estimo poder mudar de opinião a respeito dele.

Margarida voltou-se e viu que La Mole se retirava.

Tocou então às duas princesas a sua vez de saírem da fileira: a ocasião era das mais favoráveis; passava-se diante de um atalho orlado de altas sebes que se elevava e ficava a trinta passos do patíbulo. A duquesa de Nevers disse uma palavra ao ouvido do seu capitão. Margarida fez um sinal a Gillonne, e as quatro pessoas tomaram por esse atalho e foram esconder-se atrás das árvores que ficavam mais próximas do lugar em que ia ocorrer a cena que pareciam querer presenciar. Havia, como dissemos, uns trinta passos desse ponto àquele em que Cocunás, extremamente absorto, gesticulava diante do almirante.

Margarida apeou-se e o mesmo fizeram a duquesa de Nevers e Gillonne. O capitão apeou-se também, e pegou nas rédeas de todos os cavalos. Uma relva fresca e espessa oferecia às três senhoras um lugar para descansar, como as princesas muitas vezes desejam sem o poder conseguir.

Por uma clareira viam tudo o que sucedia, sem perderem a menor circunstância.

La Mole, tendo descrito o seu círculo, veio colocar-se a passo detrás de Cocunás, e estendendo a mão, tocou-lhe no ombro.

O piemontês voltou-se.

- Oh! - disse ele - então não foi um sonho? Ainda vive, Sr. de La Mole?

- Sim - respondeu La Mole -, ainda vivo. A culpa não é sua, mas enfim, ainda vivo.

- Com todos os demónios! bem vejo que é o Sr. de La Mole, apesar da sua palidez. A última vez que nos vimos estava o senhor mais rosado...

- E eu também o conheço - disse La Mole -, apesar dessa linha amarela que lhe enfeita o rosto. Quando lha fiz, estava o senhor mais pálido do que está hoje.

Cocunás mordeu os beiços mas, parecendo decidido a continuar a conversação, disse em tom de ironia:

- É interessante, não é, Sr. de La Mole, sobretudo para um huguenote, poder ver o almirante enforcado nesse gancho de ferro... e ainda haverá homens exagerados que nos acusem de não termos poupado nem os huguenotes de mama!

- Conde - disse La Mole, inclinando-se -, já não sou huguenote: tenho a ventura de ser católico.

- Boa! - exclamou Cocunás, desatando a rir - pois o senhor converteu-se? Concordo é sagaz!.

- Senhor - continuou La Mole, com a mesma seriedade e polidez - fiz voto de me converter se escapasse à carnificina.

- Conde - tornou o piemontês -, foi um voto prudente e dou-lhe os parabéns. Não fez mais nenhum?

- Fiz, sim senhor - respondeu La Mole, afagando o cavalo com a mais perfeita serenidade de espírito.

- E pode saber-se que voto foi? - perguntou Cocunás.

- O de pendurá-lo ali, Sr. de Cocunás; ali, vê? naquele preguinho, que parece destinado a sua pessoa... ali, por baixo do Senhor Almirante.

- Assim mesmo, buliçoso como aqui me vê?...

- Não - respondeu La Mole -, depois de lhe ter atravessado o corpo com esta espada.

Cocunás fez-se da cor da púrpura; os seus olhos verdes lançavam chamas.

- Então - disse ele gracejando - há-de ser ali, naquele prego?...

- Com certeza - respondeu La Mole -, naquele prego...

- Acho-o muito pequeno para isso, meu menino! - disse Cocunás.

- Pois montarei no seu cavalo, meu grande mata-gente! - respondeu La Mole. - Ah! a, meu querido Sr. Aníbal de Cocunás, pensa que se podia impunemente assassinar a gente sob o pretexto leal e honroso de ser cem contra um? Não vê? chega um dia em que encontramos o nosso homem, e parece-me que esse dia veio hoje. Tinha minhas cócegas de lhe quebrar essa

disforme cabeça com uma destas pistolas; mas talvez não faça boa pontaria, porque ainda me ardem as mãos das feridas que o Sr. de Cocunás me fez traiçoeiramente.

- A minha disforme cabeça? - bradou Cocunás, saltando do cavalo. - A terra! salte, salte, Senhor Conde! puxe da espada!

- Suponho que o teu huguenote lhe disse que tinha a cabeça disforme - balbuciou a duquesa de Nevers, chegando-se ao ouvido de Margarida. - Parece- te que o Sr. de Cocunás seja feio?

- Qual! é encantador - disse Margarida rindo - e sou obrigada a dizer-te que o furor torna o Sr. de La Mole injusto. Mas, silêncio! vejamos.

La Mole tinha-se apeado com uma indolência que contrastava singularmente com a rapidez com que Cocunás saltara do cavalo. Puxou da espada, e pôs-se em guarda.

- Ai! - exclamou ele, ao estender o braço.

- Ui! - balbuciou Cocunás, ao estender o seu.

É que ambos, como os leitores se lembrarão, estavam feridos no ombro e sentiam dores terríveis quando faziam qualquer movimento.

E ouviu-se, de entre a moita, uma risada mal reprimida. As princesas não tinham podido conter-se quando viram os dois adversários esfregando a omoplata e fazendo caretas. Essa risada chegou aos ouvidos dos dois fidalgos, que julgavam não ter testemunhas, e que, voltando-se, viram as duas damas.

La Mole tornou a pôr-se em guarda, firme como se fosse um autómato, e Cocunás cruzou o ferro com um leve-te a breca! dos mais acentuados.

- Que tal, hem?... olha que o negócio torna-se sério, e vão-se esfolar se nós os não chamarmos

à ordem. Eh lá, meus Senhores! eh lá! basta de graças! - gritou Margarida.

- Deixe-os, deixe-os - disse Henriqueta, que, como já tinha visto Cocunás pelejar, julgava que ele se sairia daquela luta com La Mole com a mesma facilidade com que se saíra das mãos da família Mercandon.

- Oh! são realmente belos naquela posição - disse Margarida. - Olha, olha: dir-se-ia que transpiram fogo!...

E na verdade, o combate, que começara por motejos e provocações, tornara-se silencioso apenas os dois adversários cruzaram os ferros. Ambos desconfiavam das suas forças, e um e outro, quando faziam um movimento mais vivo, eram obrigados a reprimir um grito doloroso arrancado pelas antigas feridas. No entanto, com os olhos fixos e ardentes, a boca entreaberta, os dentes cerrados, La Mole avançava a passos curtos, porém firmes e secos, sobre o seu adversário, que, conhecendo nele um mestre-de-armas, recuava, passo a passo, mas enfim recuava. Ambos chegaram assim à borda do fosso, do outro lado do qual se achavam os espectadores. Ali, como se a sua retirada tivesse sido meramente um cálculo para se aproximar da sua dama, Fez Cocunás pé firme e, aproveitando um furta-ferro demasiado largo de La Mole, deu-lhe com a rapidez do raio um golpe recto: e no mesmo instante, uma nódoa encarnada, que se foi tornando cada vez maior, embebeu o gibão de cetim verde de La Mole.

- Ânimo! - bradou a duquesa de Nevers.

- Ah! pobre La Mole! - exclamou dolorosamente Margarida.

La Mole ouviu esse grito, deitou à rainha um desses olhares que penetram mais profundamente no coração do que a ponta de uma espada e, ao fazer um círculo fingido, abriu-se sobre o seu adversário.

Desta vez ambas as damas deram dois gritos que se confundiram num só. A ponta da espada

de La Mole apareceu tinta de sangue nas costas de Cocunás: tinha-o varado de lado a lado!

E ainda assim, nem um nem outro caiu; ambos ficaram em pé, de boca aberta, e reconhecendo que, ao menor movimento que fizessem, lhes faltaria o equilíbrio. Por fim, o piemontês, cuja ferida era mais perigosa que a do seu adversário, e que via que as forças se lhe iam comsumindo, deixou-se cair sobre la Mole, e apertou-o com um braço, enquanto que com o outro procurava tirar o punhal. La Mole reuniu também todas as suas forças, levantou a mão e deixou cair o punho da espada na testa de Cocunás, que, aturdido com o golpe, caiu, arrastando na queda o adversário, de maneira que ambos rolaram no fosso.

Margarida e a duquesa de Nevers, vendo que, moribundos, ainda procuravam trucidar-se um ao outro, correram para eles acompanhadas pelo capitão das guardas. Mas, antes de elas chegarem, afrouxaram as mãos dos terríveis adversários, os seus olhos fecharam-se e, deixando cair as espadas, sobreveio-lhes uma grande convulsão.

Uma onda de sangue espumava em torno deles.

- Oh! bravo, bravo, La Mole! - bradou Margarida, não podendo conter por mais tenpo a sua admiração. - Ah! perdoa-me, perdoa-me por ter suspeitado!

     E os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

- Ah! valoroso Cocunás! - balbuciou a duquesa. - Diga, diga, minha Senhora: já viu leões mais intrépidos?...

     E desatou em soluços.

- Safa! valentes estocadas! - disse o capitão, procurando estancar o sangue, que corria a jorros. - Eh lá! quem quer que é que vem aí, apresse-se!

Estas palavras eram dirigidas a um homem sentado numa espécie de carreta pintada de encarnado, que começava a divisar-se por entre a cerração da noite, e que vinha cantarolando uma velha canção, que sem dúvida o milagre do Cemitério dos Inocentes lhe inspirara.

- Oh! não ouve? venha quando o chamam, homem! - repetiu o capitão. - Você não vê que estes fidalgos precisam de socorro?...

O homem da carreta, cujo exterior asqueroso e semblante rude formava singular contraste com a meiga e buliçosa cantiga que entoava, parou o cavalo, desceu e, examinando os dois corpos:

- Bem boas feridas - disse ele -, mas eu ainda as faço melhores.

- Então quem é você? - perguntou Margarida, sentindo certo terror que não podia vencer.

- Minha Senhora - respondeu o homem, inclinando-se até ao chão -, sou o mestre carrasco de Paris, e vinha pendurar naqueles ganchos alguns sujeitos para fazerem companhia ao Senhor Almirante.

- Pois eu sou a rainha de Navarra. Largue aí os seus cadáveres, estenda na carreta as rédeas dos nossos cavalos e siga-nos vagarosamente com estes dois fidalgos para o Louvre.

 

     O COLEGA DE MESTRE AMBRÓSIO PARÉ

A carreta que conduzia Cocunás e La Mole tornou a tomar a estrada de Paris, seguindo o grupo que a guiava, e parou no Louvre. Pagou-se bem ao condutor, transportaram-se os feridos para casa do duque de Alençon e mandou-se chamar Ambrósio Paré. Quando este chegou, ainda nenhum deles tinha tornado a si.

La Mole era o menos maltratado; a estocada tinha-o ferido por baixo do sovaco direito, mas sem contender nenhum dos órgãos principais. Cocunás tinha o pulmão atravessado, e o fôlego que saía da ferida faria agitar a luz de uma vela.

Mestre Ambrósio Paré declarou que não respondia pela vida de Cocunás. A Sra de Nevers estava desesperada; fora ela que, confiando na força, destreza e valor do piemontês, impedira que Margarida se opusesse ao combate. De bom grado mandaria ela conduzir Cucunás para o Palácio de Guisa, a fim de lhe renovar nesta segunda ocasião os cuidados que negara na primeira; mas depois do que acabava de passar- se, podia o marido chegar repentinamente de Roma e estranhar a instalação de um intruso no domicílio conjugal.   Para ocultar a causa das feridas, tinha Margarida mandado levar os dois mancebos para um dos aposentos do irmão, onde já um deles estava instalado, dizendo serem dois fidalgos que tinham caido do cavalo; mas a verdade foi divulgada pela admiração do capitão, testemunha do combate; e logo se soube na corte que dois novos espadachins acabavam de aparecer em triunfo sobre as asas da fama.

Tratados pelo mesmo cirurgião, que repartia por eles os seus cuidados, os dois enfermos seguiram as diferentes fases da convalescença provenientes da maior ou menor gravidade das feridas. La Mole, que era o menos gravemente ferido, foi o primeiro que recobrou os sentidos. CuCunás só tornou a si depois de uma febre terrível, acompanhada de espantoso delírio. Posto que encerrado na mesma câmara em que estava Cocunás, La Mole, saindo do letargo, não viu o companheiro, ou não tinha por nenhum sinal dado a entender que o vira. Cocunás, pelo contrário, mal abriu os olhos, fixou-os em La Mole com uma expressão capaz de provar que o sangue perdido pelo piemontês em nada havia diminuído as paixões desse temperamento de fogo.

Cocunás cuidou sonhar, e que no seu sonho tornava a encontrar o inimigo que por duas vezes julgara ter morto: a diferença era que o sonho se prolongava excessivamente. Depois de ter visto La Mole tratado como ele pelo mesmo cirurgião, viu-o sentar-se na cama, quando ele, Coconás, estava ainda pregado pela febre, pela fraqueza e pela dor; viu-o depois andar pelo braço do cirurgião, depois encostado a uma bengala, depois finalmente por seu pé. Cocunás, sempre valente, contemplava todos esses diferentes períodos da convalescença do companheiro com um olhar ora espantado, ora furioso, mas sempre ameaçador.

Tudo isto apresentava ao ardente espírito do piemontês um misto horrível de fantástico real. Para ele, La Mole estava morto, bem morto; podia até dizer que por duas vezes; não obstante, reconhecia a sombra de La Mole deitada numa cama igual à sua; viu depois, como dissemos, a sombra levantar-se, andar e, coisa espantosa, encaminhar-se para o seu leito, essa sombra, de que Cocunás quisera fugir, ainda que fosse para o fundo do Inferno, foi direita a ele e parou à sua cabeceira, de pé e observando-o; havia mesmo nas suas feições um sentimemto de doçura e de compaixão, que Cocunás tomou pela expressão de um escárnio infernal.

Acendeu-se então nesse espírito, talvez ainda mais enfermo do que o corpo, uma cega sede de vingança. A única preocupação de Cocunás foi a de obter uma arma, e com ela ferir esse corpo ou essa sombra de La Mole, que tão cruelmente o atormentava. O fato, que tinha sido primeiro posto sobre uma cadeira, fora depois levado dali, porque, estando todo manchado de sangue, julgou-se conveniente afastá-lo da vista do ferido; mas tinham deixado ficar sobre a mesma cadeira o punhal, do qual ninguém se lembrava que ele tão cedo tivesse desejo de servir-se. Cocunaz viu o punhal, e em três noites sucessivas tentou, enquanto La Mole dormia, estender a mão para lhe pegar; por três vezes, porém, lhe faltaram as forças e desmaiou. Na quarta noite, finalmente, pôde chegar-lhe; pegou-lhe com as pontas dos dedos inteiriçados e, dando um gemido provocado pela dor, escondeu-o debaixo do travesseiro.

No dia seguinte, viu alguma coisa incrível até então: a sombra de La Mole, que parecia tomar diariamente novas forças, enquanto que ele, ocupado sem cessar pela terrível visão, consumia as suas no trama eterno do atentado que devia livrá-lo dela; a sombra de La Mole, tendo-se tornado cada vez mais viva, deu, com ar pensativo, duas ou três voltas em roda do leito, pôs o capote, cingiu a espada, cobriu a cabeça com um chapéu de abas largas, abriu a porta.

Cocunás respirou, julgou-se livre do seu fantasma. Por duas ou três horas circulou-lhe o sangue nas veias mais calmo e mais fresco do que nunca tinha estado desde o momento do duelo; um dia de ausência de La Mole teria restituído os sentidos a Cocunás, oito dias curá-lo-iam, talvez; desgraçadamente, La Mole tornou a entrar passadas duas horas. Esta entrada foi para o piemontês uma verdadeira punhalada, e posto que La Mol estivesse só, Cocunás não olhou uma única vez para o companheiro.

E entretanto esse companheiro merecia bem que olhassem para ele. Era um homem de cerca de quarenta anos, baixo, gordo, robusto, com cabelos negros que lhe caíam até às sobrancelhas, e barba da mesma cor, a qual, contra a moda do tempo, lhe cobria toda a parte inferior do rosto; mas o recém-chegado parecia importar-se pouco com as aparências. Trazia vestido uma espécie de gibão de couro cheio de nódoas pardas, meias cor de sangue, calções vermelhos, grossos sapatos de couro que lhe vinham acima do tornozelo, um gorro da cor das meias, e cingia-lhe o corpo um largo cinturão, do qual pendia uma faca embainhada.

Esta célebre personagem, cuja presença parecia uma anomalia no Louvre, pôs sobre uma cadeira o capote pardo em que vinha embuçado, e chegou-se brutalmente à cama de Cocunaz cujos olhos, como por uma fascinação singular, continuavam constantemente a fixar-se em La Mole, que ficara a alguma distância. Olhou para o doente e, abanando a cabeça, disse:

- Guardou-se para bem tarde, meu fidalgo.

- Eu não podia sair mais cedo - disse La Mole.

- Valha-o Deus! mandasse-me chamar.

- Por quem?

- Ah! é verdade. Esquecia-me do lugar em que estávamos. Eu disse-o a essas senhoras, mas não quiseram ouvir-me. Se se tivesse seguido o meu receituário, em vez de se aproveitar o jumento albardado a quem chamam Ambrósio Paré, já os senhores estariam há muito em condições de ir juntos em busca de aventuras, ou de tornarem a trocar outra estocada, se tivessem vontade nisso. Enfim! veremos. O seu amigo está em seu juízo?

- Não muito.

- Deixe ver a língua, meu fidalgo.

Cocunás deitou a língua de fora, fazendo uma tão horrível careta a La Mole, que o examinador abanou segunda vez a cabeça.

- Hum!. - resmungou ele - contracção dos músculos. Não há tempo a perder. Esta mesma noite lhe mandarei uma beberagem já pronta para lhe dar três vezes de hora em hora. uma vez à meia-noite, outra à uma, outra às duas horas.

- Muito bem.

- Mas quem lhe há-de aplicar esse remédio?

- Eu.

- O senhor mesmo?.

- Sim senhor.

- Dá-me a sua palavra?

- À fé de fidalgo!

- E se algum médico quisesse subtrair-lhe qualquer pequena dose para a decompor, e ver de que ingredientes é formado?.

- Derramá-lo-ia até à última gota.

- Também à fé de fidalgo?.

- Juro-lho.

- Por quem lhe hei-de mandar o remédio?

- Por quem quiser.

- Porém, a pessoa que o trouxer, como poderá falar com o senhor?

- Está previsto. Dirá que vem da parte do Sr. Renato, o perfumista.

- O florentino que mora na Ponte de S. Miguel?

- Justamente. Ele tem licença ampla para entrar no Louvre a toda a hora do dia e da noite. - O homem sorriu.

- Realmente - disse ele -, essa licença é a menor que lhe dispensa a rainha-mãe. Está dito: o portador dirá que vem da parte de mestre Renato, o perfumista. Não devo ter escrúpulos em tomar uma vez o seu nome, visto que ele o não tem tido de exercer por tantas, sem diploma, a minha profissão.

- Então - disse La Mole -, conto com o senhor.

- Pode contar.

- Quanto à paga.

- Não se incomode, nós arranjaremos isso com o fidalgo quando estiver de pé.

- E pode ficar descansado; creio que ele há-de poder recompensá-lo generosamente.

- Eu também o creio. Mas - acrescentou, sorrindo de um modo singular - como o reconhecimento não é habitual nas pessoas que têm negócios comigo, não me admiraria que o doente, uma vez restabelecido, se esquecesse, ou antes, não se dignasse lembrar-se de min.

- Deixe isso por minha conta - respondeu La Mole, sorrindo também -, nesse caso eu lhe reavivarei a memória.

- Como quiser. Daqui a duas horas terá o remédio. Então adeus, Sr. de La Mole. Julgo que entendeu bem: deve ser tomado em três doses, de hora a hora, começando à meia-noite.

Repetido isto, saiu, e La Mole ficou só com o seu companheiro Cocunás. Cocunás tinha escutado toda a conversação, mas sem perceber nada dela: um ruído confuso, um vago rumor de palavras, fora tudo quanto lhe ferira o ouvido, de maneira que apenas percebeu a palavra meia-noite.

Continuou, pois, a dirigir o seu ardente olhar para La Mole, que permaneceu no seu quarto passeando com ar pensativo.

O doutor desconhecido teve palavra: à hora prometida mandou o remédio; La Mole foi pô-lo sobre um pequeno esquentador de prata, e tomada esta precaução, deitou-se.

Esta acção de La Mole deu algum repouso a Cocunás; tentou também fechar os olhos; mas o seu letargo febril era apenas uma consequência da vigília delirante. O mesmo fantasma que o perseguia durante o dia, vinha acometê-lo de noite; por entre as secas pálpebras continuava a ver esse La Mole, sempre motejador, sempre ameaçador; daí o parecer-lhe que uma voz lhe repetia aos ouvidos: Meia-noite! meia-noite! meia-noite!

Passado algum tempo, o despertador do relógio deu doze pancadas. A esse forte e repentino estrondo, Cocunás tornou a abrir os olhos inflamados; o ardente fôlego que lhe saía do peito devorava-lhe os lábios secos; uma sede inextinguível consumia as goelas abrasadas; a lamparina estava acesa, como era costume, e o seu pálido clarão fazia dançar mil fantasmas à trémula vista de Cocunás.

Viu então - coisa horrível! - La Mole descer da cama, dar uma ou duas voltas no quarto, como faz o gavião diante da ave que quer fascinar, e depois seguir para ele, mostrando-lhe o    remédio. Cocunás estendeu a mão para o punhal, tomou-o pelo cabo e preparou-se para estripar o seu inimigo.

La Mole ia-se aproximando.

Cocunás resmungava:

- Ah, és tu? Ainda tu, sempre tu!... Vem!... Ah! ameaças- me, mostras-me o punho, sorris...

Vem, vem!... Continuas a aproximar-te devagarinho, pé ante pé!... Vem, vem para cá, que eu te ponho as tripas ao sol!

E, com efeito, acompanhando com o gesto esta surda ameaça, no momento em que La Mole se inclinava para ele, Cocunás fez cintilar de entre os lençóis a lâmina do punhal; mas o esforço feito pelo piemontês para se levantar, quebrou-lhe as forças; o braço estendido para La Mole parou a meio do caminho, a mão débil deixou cair a arma e o moribundo tornou a cair sobre o travesseiro.

- Vamos, vamos - disse baixinho La Mole, levantando-lhe a pouco e pouco a cabeça, e chegando-lhe aos lábios uma chávena -, beba, meu pobre camarada, porque está ardendo em febre.

Era realmente uma chávena que La Mole apresentava a Cocunás, e que este tomara por um punho ameaçador, o que tanto havia sobressaltado o exausto cérebro do ferido.

Mas ao macio contacto do benéfico licor, humedecendo os lábios e refrescando o peito, Coconás recobrou a razão, ou antes, o instinto: sentiu um alívio como nunca tinha experimentado; olhou com ar inteligente para La Mole, que o sustinha nos braços e sorria para ele, e de um desses olhos, até então contraídos por um sombrio furor, rolou uma lágrima imperceptível pela face ardente, que ele limpou com avidez.

- Por minha vida! - exclamou Cocunás por entre os dentes, deixando-se cair sobre o travesseiro - se escapo desta, Sr. de La Mole, há-de ser meu amigo!

- E há-de escapar, meu camarada - disse La Mole -, se quiser beber três chávenas como

a que acabo de lhe dar, e se não tiver mais esses maus sonhos.

O doente não respondeu.

Uma hora depois, La Mole, constituído em enfermeiro, e obedecendo pontualmente às prescrições do doutor desconhecido, levantou-se segunda vez, deitou nova porção de licor numa chávena e levou-a a Cocunás.

Desta vez, porém, o piemontês, em lugar de a esperar com o punhal na mão, recebeu-a com os braços abertos, e engoliu a beberagem com deleite; depois adormeceu, pela primeira vez com

alguma tranquilidade.

O efeito da terceira chávena não foi menos maravilhoso. O peito do doente começou a deixar

passar uma respiração regular, posto que ainda anelante; os membros, até então hirtos ganharam flexibilidade, e pela superfície da pele ardente espalhou- se uma ligeira humidade. Quando no dia seguinte mestre Ambrósio Paré veio visitar o ferido, sorriu com satisfação dizendo:

- Desde este momento respondo pelo Sr. de Cocunás e não será esta uma das menos notáveis curas realizadas por mim.

Da cena semidramática, semiburlesca, mas que, em substância, não deixou de ter uma certa poesia de natureza bem terna, se se atender à ferocidade dos costumes de Cocunás, dessa cena resultou prosseguir desde então com mais vigor a amizade dos dois fidalgos, começada na hospedaria da Estrela Brilhante e violentamente interrompida pelos acontecimentos da noite de S. Bartolomeu; e foi muito além da de Orestes e Pílades, pelo contrapeso de cinco estocadas e um tiro de pistola repartidos pelos dois corpos.

Fosse como fosse, feridas novas e velhas, profundas e leves, tudo se foi curando com admirável progresso. La Mole, o primeiro que se restabeleceu, fiel à sua missão de enfermeiro, não quis sair do quarto enquanto Cocunás não ficou inteiramente bom. Ajudou-o a sentar-se na cama enquanto a fraqueza lhe não permitia levantar-se; serviu-lhe de arrimo para andar quando começou a poder suster-se nas pernas; teve, enfim, para com ele todos os cuidados próprios da      doçura da sua natureza e do coração de um bom amigo, os quais, coadjuvados pelo vigor do piemontês, promoveram uma convalescença mais rápida do que se podia esperar.

No entanto, um só e mesmo pensamento atormentava os dois mancebos; ambos eles, no

delírio da febre, julgaram ver aproximar-se-lhes as damas a quem haviam dado os corações; mas

depois que recobraram a razão, ficaram bem persuadidos de que nem Margarida nem a Sr.a de Nevers tinham entrado no quarto, e isto é fácil de compreender. Uma era mulher do rei de Navarra, a outra, cunhada do duque de Guisa; podiam elas, por acaso, à vista de todos, dar um sinal tão público de interesse por dois simples fidalgos? Não. Era esta certamente a resposta que La Mole e Cocunás deviam dar um ao outro; mas nem por isso esta ausência, que talvez importava no eterno esquecimento, Lhes era menos dolorosa.

     É verdade que o fidalgo que assistira ao combate tinha vindo uma vez por outra, e como de seu moto próprio, saber dos feridos. É verdade que Gillonne, também como coisa sua, tinha feito outro tanto; mas nem La Mole se atreveu a falar a esta em Margarida, nem Cocunás ousou perguntar àquele pela Sr.a de Nevers.

 

           AS ALMAS DO OUTRO MUNDO

Os dois fidalgos guardaram por algum tempo religiosamente o segredo que encerravam no peito; mas, finalmente, num dia de expansão, o único pensamento que os preocupava trasbordou-lhes dos lábios, e ambos estreitaram a sua amizade por essa última prova, sem a qual a amizade não existe, isto é, por uma inteira confiança.

Estavam perdidos de amores: um por uma princesa, outro por uma rainha. Havia para os dois pobres amantes alguma coisa assustadora nesta distância quase invencível que os separava do objecto dos seus desejos; e todavia a esperança é um sentimento que está tão profundamente enraizado no coração do homem que, apesar da loucura de suas esperanças, eles esperavam.

Não deixavam, porém, à medida que se restabeleciam, de empregar todos os meios para adquirirem, ou antes, conservarem uma presença agradável. Não há homem, ainda o mais indiferennte às vantagens físicas, que em certas circunstâncias deixe de ter com o seu espelho conversações mudas e sinais de inteligência, após os quais se aparta quase sempre do seu confidente muito satisfeito do entretenimento. Ora os nossos dois rapazes não estavam no caso de deverem recear dos seus espelhos um conselho desagradável. La Mole, delgado de corpo, pálido e elegante, tinha a beleza da distinção. Cocunás, robusto, bem-talhado, boa cor, possuía a beleza da força. Para este fora a doença uma vantagem: estava mais magro, um tanto descorado e até o famoso nariz, que antes lhe valera tantos sarcasmos pela sua prismática semelhança com o arco-irís, havia desaparecido anunciando provavelmente, como o fenómeno diluviano, uma série de dias puros e de noites serenas.

No dia em que puderam levantar-se, cada um deles achou o competente trajo caseiro sobre a cadeira mais próxima da cama; e no dia em que puderam vestir-se, não lhes faltou um vestuário completo. Ainda mais: na algibeira de cada um dos gibões havia uma bolsa bem recheada, de que se aproveitaram, bem entendido, na firme tenção de a restituírem a seu tempo ao protector desconhecido que assim previa as suas necessidades.

Este protector desconhecido não podia decerto ser o príncipe em cuja casa habitavam, porque esse prlncipe não só os não visitara, como nem mandara saber deles.

Uma esperança fugitiva dizia secretamente a ambos os corações que o protector desconhecido era a mulher por cada um deles amada.

Portanto, os dois feridos esperavam impacientes pelo momento de sair. La Mole, mais forte e mais bem curado do que Cocunás, poderia desde muito ter-se posto em campo; mas uma espécie de convenção tácita ligava a sua sorte à do amigo.

Estava ajustado que a primeira saída teria por fim três visitas.

A primeira, ao doutor desconhecido, cuja doce beberagem tinha operado tão notável melhoria no peito inflamado de Cocunás.

A segunda, à hospedaria do defunto mestre La Hurière, onde ambos tinham deixado a roupa e o cavalo.

A terceira, ao florentino Renato, o qual, unindo ao seu título de perfumista o de mágico, não só vendia cosméticos e venenos, como preparava filtros e dava oráculos.

Finalmente passados dois meses de convalescença e de reclusão, chegou esse dia tão desejado.

Dissemos de reclusão, e é este o termo apropriado, porque a impaciência que tinham levava-os por vezes a quererem apressar esse dia; porém, uma sentinela postada à porta lhes tinha constantemente embargado a passagem, declarando-lhes que não sairiam enquanto não apresentassem um atestado de mestre Ambrósio Paré.

Ora, tendo o hábil cirurgião reconhecido um dia que os dois enfermos estavam, senão completamente curados, ao menos em bom caminho para uma perfeita cura, havia dado esse atestado, e pela volta das duas horas da tarde, num desses belos dias de Outono que Paris apresenta algumas vezes, com admiração dos seus habitantes, já providos de resignação para os rigores do Inverno, os dois amigos saíram de braço dado os portões do Louvre.

La Mole tinha-se arvorado em guia de Cocunás, o qual se deixava levar sem resistência, e mesmo sem reflexão. Sabia que o seu amigo o conduzia à casa do doutor desconhecido da poção, posto que o seu autor não apresentasse um privilégio de invenção, o havia curado numa só noite, quando todas as drogas do mestre Ambrósio Paré o iam matando lentamente. Tinham feito dois montes do dinheiro que achou na bolsa, isto é, dos duzentos nobles à la rose dos quais destinara cem para recompensar o esculápio a quem devia a cura. Cocunás não temia a morte, mas nem por isso deixava de estar bem contente de viver; portanto, tratava, como se vê, de recompensar o seu salvador.

La Mole seguiu pela Rua de L'Astruce, pela Rua de Santo Honorato, pela das Prouveries e brevemente chegou à Praça das Halles. Junto do antigo chafariz, e no lugar designado pelo nome de Carreau des Halles havia um edifício octógono de alvenaria, rematado por um zimbório de madeira, que terminava por um telhado pontiagudo no cimo do qual se movia um cata-vento. Este zimbório de madeira apresentava oito aberturas, que atravessavam, do mesmo modo que a peça heráldica que se chama faixa atravessa o escudo, uma espécie de roda de madeira dividida pelo meio para receber nos chanfros, abertos para este fim, a cabeça e as mãos do condenado ou dos condenados que se expunham numa ou nalgumas daquelas oito aberturas.

Esse edifício singular, que não tinha outro análogo entre os que o rodeavam, era o pelourinho.

Uma casa informe, alquebrada, torta e esburacada, cujo telhado musgoso se semelhava à de um lagarto, tinha, à maneira de um cogumelo, brotado ao pé dessa espécie de torre.

Era a casa do carrasco.

Estava um homem exposto fazendo caretas a quantos passavam; era um dos ladrões que por acaso fora preso, no exercício de suas funções, próximo à forca de Montfaucon.

     Cocunás julgou que o seu amigo o conduzia para ver este curioso espectáculo, e misturou-se com a turba dos amadores que respondiam às caretas do paciente com vaias e vociferações.

Cucunás era naturalmente cruel; divertia-o portanto muito o que se passava: só quisera que, em vez de se fazer este alarido, se atirassem pedras ao condenado, cuja insolência ia a ponto de fazer caretas aos nobres senhores que o honravam com a sua visita.

Por isso, logo que o zimbório movediço girou sobre a base para que o paciente fosse visto do outro lado da praça, e que a multidão seguiu o movimento do zimbório, Cocunás quis acompanhar o movimento da multidão, mas La Mole fê-lo parar, dizendo-lhe a meia voz:

'Moeda inglesa antiga, de ouro, que tinha uma rosa gravada no reverso.

- Não foi para isto que aqui viemos.

- Para que viemos então? - perguntou Cocunás.

- Vais sabê-lo - respondeu La Mole.

Os dois amigos tratavam-se por tu desde o dia imediato à famosa noite em que Cocunás quisera furar as tripas a La Mole.

E La Mole conduziu Cocunás em direitura à pequena janela da casa pegada à torre, e na qual havia um homem encostado.

- Olé!... são os senhores? - disse o homem, levantando o seu gorro vermelho e mostrando a cabeça coberta de negros e espessos cabelos caídos até às sobrancelhas. - Sejam bem-vindos.

- Quem é este homem? - perguntou Cocunás, procurando recordar- se, porque lhe pareceu ter visto essa cabeça durante um dos momentos da febre.

- É o teu salvador, meu caro amigo - respondeu La Mole -, aquele que te levou ao Louvre essa bebida refrigerante que te fez tanto bem.

- Oh! oh! - exclamou Cocunás - nesse caso, meu amigo...

E estendeu-lhe a mão.

Mas o homem, em vez de corresponder a este movimento com um gesto igual, endireitou-se e, deste modo, ficou apartado dos dois amigos pela distância que ocupava a curva do seu corpo.

- Senhor - disse ele a Cocunás -, agradeço-lhe a honra que se digna querer fazer-me; mas é provável que, se me conhecesse, perdesse esse desejo.

- Essa é boa! - disse Cocunás - declaro que ainda que fosse o Diabo, eu me confessaria seu obrigado, porque, a não ser o senhor, estaria morto a esta hora.

- Não sou inteiramente o Diabo - respondeu o homem de gorro vermelho -, porém muitos (e não sucede isto poucas vezes) antes quereriam ver o Diabo do que a mim.

- Então quem é o senhor? - perguntou Cocunás.

- Sou mestre Caboche, carrasco do prebostado de Paris.

- Ah! - exclamou Cocunás.

- Não lho dizia eu?... - observou mestre Caboche.

- Não! hei-de apertar-lhe a mão, ainda que me leve o diabo! Estenda-a.

- Deveras?...

- Quero-a bem aberta.

- Ei-la.

- Mais aberta... mais... Assim mesmo!

E Cocunás tirou da algibeira a soma de ouro destinada para o seu médico anónimo, e depô-la na mão do carrasco.

- Eu estimaria mais que só me tivesse dado a mão - disse mestre Caboche abanando a cabeça. - Não me falta ouro, e sim mãos que apertem a minha.

- Com que então, meu amigo - disse Cocunás, olhando com curiosidade para o carrasco -, é você quem faz os tratos, quem roda, quem esquarteja, quem corta as cabeças, quem quebra

os ossos!... oh! quanto estimo conhecê-lo!

- Senhor - respondeu mestre Caboche -, eu não faço tudo por minhas mãos; assim como os senhores fidalgos têm os seus criados para certos serviços, eu tenho os meus ajudantes, que fazem o trabalho grosseiro, e que aviam a canalha. Agora, se por acaso se trata de fidalgos,

como por exemplo o senhor e o seu companheiro, então é outra coisa; não cedo a ninguém a honra da execução com todos os pormenores, desde o primeiro até ao último, isto é, desde a tortura até à degolação.

Cocunás, apesar de todo o seu ânimo, sentiu pelo corpo um violento calafrio, parecendo-lhe que já as cunhas de ferro lhe comprimiam as pernas, e que o fio de aço lhe roçava pelo pescoço.

La Mole, sem poder explicar o motivo, teve a mesma sensação.

Mas Cocunás venceu essa emoção, de que se envergonhava e, querendo despedir-se de mestre Caboche com um último gracejo, disse-lhe:

- Pois bem, mestre, tomo nota da sua palavra: quando chegar a minha vez de subir à forca de Enguerrand de Marigny, ou ao cadafalso do Sr. de Nemours, ninguém me há-de tocar senão você.

- Prometo-lho. - vez - disse Cocunás -, aqui está a minha mão como sinal de que aceito a sua promessa. E estendeu para o carrasco uma das mãos, que este apertou timidamente, posto que se tornasse visível o desejo de lha apertar com desembaraço.

A este simples tocar, Cocunás empalideceu alguma coisa, mas a boca conservou o mesmo sorriso, ao passo que La Mole, incomodado, e vendo que a multidão voltava com o volver do zimbório, e se aproximava deles, puxava-o pelo capote.

Cocunás, que realmente tinha tanto desejo como La Mole de findar esta cena, na qual, pela inclinação natural do seu carácter, se entranhara mais do que quisera, fez um aceno com a cabeça e retirou-se.

- Por minha vida! - disse La Mole, quando chegou com o seu companheiro à cruz do Traboir - hás-de confessar que se respira melhor aqui que na Praça das Halles.

- Confesso - respondeu Cocunás - mas, apesar disso, estou bem contente por conhecer mestre Caboche. É bom ter amigos em toda a parte.

- Mesmo na hospedaria da Estrela Brilhante - disse La Mole, sorrindo.

- Oh! quanto ao pobre mestre La Hurière - disse Cocunás -, esse está morto e bem morto. Eu vi a chama do arcabuz, ouvi o choque da bala, que soou como se batesse no sino grande da Igreja de Nossa Senhora, e deixei-o estendido no regato com o sangue que lhe saía pelo nariz e pela boca. Supondo que seja um amigo, é um amigo que temos no outro mundo.

Conversando assim, os dois amigos chegaram à Rua da Árvore Seca e dirigiram-se para a tabuleta da Estrela Brilhante que continuava impávida no mesmo lugar, oferecendo sempre ao viajante o seu fogão de gastrónomo e a sua apetitosa legenda.

Cocunás e La Mole esperavam achar a casa em desespero, a viúva de luto e os moços de cozinha de fumo no braço; mas não foi pequena a sua admiração quando viram tudo em plena actividade: a Sr. a La Hurière muito louçã, e os rapazes mais alegres do que nunca.

- Oh! que infiel! - disse La Mole - já se tornou a casar.

E dirigindo-se depois à nova Artemísia:

- patroa - disse ele -, nós somos dois fidalgos do conhecimento do pobre Sr. La Huriere. Deixámos aqui dois cavalos e duas malas, que vimos reclamar.

- Meus Senhores - respondeu a dona da casa, depois de ter tentado recordar-se -, como não tenho a honra de conhecê-los, vou, se me dão licença, chamar meu marido. Gregório, cham o patrão!

Gregório passou da primeira cozinha, que era o pandemonium geral, para a segunda, que era o laboratório onde se aprontavam os pratos que mestre La Hurière, quando vivo, julgava dignos de serem preparados por suas sábias mãos.

- Leve-me o diabo - resmungou Cocunás -, se não me faz pena ver esta casa tão alegre quando devia estar tão triste! Pobre La Hurière, quem tal diria.

- Ele quis matar-me - disse La Mole -, mas perdoo-lhe de todo o coração. Mal tinha La Mole pronunciado estas palavras, apareceu um homem com uma caçarola na mão, na qual mexia, com uma colher de pau, algumas cebolas que estava refogando.

La Mole e Cocunás soltaram um grito de surpresa.

A este grito, o homem levantou a cabeça e, respondendo com um grito igual, deixou cair a caçarola, ficando só com a colher de pau na mão.

- In nominepatris. - disse o homem, movendo a colher como um hissope - filli et spiritus sancti - Mestre La Hurière! - exclamaram os dois mancebos.

- Os Srs. de Cocunás e de La Mole! - disse La Hurière.

- Pois o senhor não morreu? - bradou Cocunás.

- Pois os senhores estão vivos? - perguntou o estalajadeiro.

- Mas eu vi-o cair! - disse Cocunás. - Ouvi o estrondo da bala, que lhe quebrava alguma coisa. o quê não sei. Deixei-o estirado no regato, deitando sangue pelo nariz, pela boca e até pelos olhos!.

- Tudo isso é verdade como o Evangelho, Sr. de Cocunás; contudo, esse estrondo que ouviu foi o da bala batendo na minha celada, sobre a qual felizmente se achatou; mas nem por isso foi a pancada menos rija; e a prova - acrescentou La Hurière, levantando o barrete e mostrando a cabeça, pelada como um joelho - é que não me ficou um cabelinho.

Os dois mancebos estalaram de riso vendo aquela grotesca figura.

- Ah! os senhores riem!. - disse La Hurière, um pouco sossegado - então não vêm com más intenções?.

- E o senhor, mestre La Hurière, já está curado dos seus gostos bélicos?

- Por minha fé que sim! E agora.

-E agora...

- Agora fiz voto de não ver outro fogo senão o da minha cozinha.

- Bravo! - disse Cocunás - isso é o mais prudente. Mas vamos ao que importa: nós deixámos na sua cavalariça dois cavalos, e nos seus quartos duas malas.

- Oh! cos diabos! - disse o estalajadeiro, coçando a orelha.

- Que sucedeu então?

- O senhor diz dois cavalos?.

- Sim, na cavalariça.

- E duas malas, é?

- Ambas no quarto.

- Mas os senhores sabem que. julgaram-me morto, não foi?

- Julgámos.

- E hão-de convir que, visto que se enganaram, eu podia também enganar-me.

- Julgando-nos mortos também? Estava no seu direito.

- Pois aí está!. como os senhores morriam sem testamento. - continuou mestre La Hurière.

- Diga o resto.

- Julguei. Bem vejo que fiz mal.

- Que foi que julgou? vejamos.

- Julguei que podia ser vosso herdeiro.

- Olá!. - bradaram os dois mancebos.

- Mas nem por isso deixo de estimar muito que os senhores estejam vivos.

- Então vendeu os nossos cavalos, hem? - disse Cocunás.

- Valha-me Deus! - disse La Hurière.

- E as nossas malas? - continuou La Mole.

- Oh! quanto às malas, não senhor. - respondeu vivamente La Hurière - foi só o que estava dentro.

- Que dizes, La Mole? - prosseguiu Cocunás. - Não te parece um grande velhaco este sujeito?. Não seria mau dar-lhe um ar às tripas.

Esta ameaça pareceu produzir grande efeito em mestre La Hurière, que se arriscou a dizer:

- Mas, Senhores, julgo que haverá meio de arranjarmos isto.

- Ouve - disse La Mole -, creio que sou eu que tenho mais razão para me queixar dele.

- Decerto, Senhor Conde, pois me lembro que num movimento de loucura tive a audácia de o ameaçar.

- Sim senhor, com uma bala que me passou duas polegadas acima da cabeça.

- Pois julga isso?.

- Não julgo, estou bem certo.

- Se está certo, Sr. de La Mole - disse La Hurière, apanhando a caçarola com ar inocente -, não será este seu humilde criado quem se atreva a desmenti-lo.

- Pois bem - disse La Mole -, pela minha parte não te reclamo nada.

- Como, meu fidalgo?.

- A não ser.

- Ai! ai! - disse La Hurière.

- A não ser um jantar para mim e para os meus amigos, todas as vezes que vier ao teu bairro.

- Pois não! - exclamou La Hurière - com todo o gosto! Às suas ordens, meu fidalgo, às suas ordens!

- Está tratado, não é assim?

- Com a melhor vontade do mundo. E o Sr. de Cocunás - prosseguiu o estalajadeiro -, concorda na negociação?

- Concordo, mas também com uma pequena condição.

-Qual é?

- É que entregará ao Sr. de La Mole cinquenta escudos, que eu lhe devo e que você recebeu de mim.

- Eu, Senhor? e quando foi isso?

- Um quarto de hora antes de vender o meu cavalo e a minha mala. La Hurière fez um sinal de inteligência.

- Ah! já entendo - disse ele.

E foi direito ao armário, do qual tirou, um por um, cinquenta escudos, que entregou a La Mole.

- Muito bem, Senhor - disse o fidalgo -, muito bem!. faça-nos uma omeleta. Os cinquenta escudos serão para mestre Gregório.

- Oh! - bradou La Hurière - na verdade, meus fidalgos, têm corações de príncipes e podem contar comigo para a vida e para a morte.

- Nesse caso - disse Cocunás - faça-nos a omeleta, e não poupe a manteiga nem o toucinho.

Depois, voltando-se para o relógio:

- Por minha vida! tens razão, La Mole - disse ele. - Temos ainda que esperar três horas; é o mesmo, passá-las aqui ou noutra parte. Tanto mais que, se não me engano, estamos no caminho da Ponte de S. Miguel.

E os dois rapazes tornaram a ir ocupar na mesa e na pequena sala do fundo o mesmo lugar em que tinham estado nessa famosa noite de 24 de Agosto de 1572, durante a qual Cocunaz propusera a La Mole o jogarem a primeira amante que viessem a ter.

Confessemos, em honra da moralidade dos dois mancebos, que nem um nem outro tinham nesta noite a lembrança de fazer uma igual proposta ao seu companheiro.

 

     A HABITAÇÃO DE MESTRE RENATO, PERFUMISTa DA RAINHA-MÃE

Na época em que se passa a história que narramos aos nossos leitores, não havia, para se passar dum para o outro lado de Paris, senão cinco pontes, umas de pedra, outras de madeira, e ainda assim estas cinco pontes só desembocavam na Cité. Eram a Ponte dos Moleiros, a Ponte do Troco, a Ponte de Nossa Senhora, a Ponte Pequena e a Ponte de S. Miguel.

Nos outros lugares onde a circulação era necessária, havia barcas que, bem ou mal, substituíam as pontes.

Estas cinco pontes eram guarnecidas de casas, como é ainda hoje a Ponte Vecchio em Florença.

Destas cinco pontes, que tem cada uma a sua história, só nos ocuparemos neste momento da de S. Miguel.

A Ponte de S. Miguel tinha sido construída de pedra em 1373; apesar da sua aparente solidez, abateu em parte por um trasbordamento do Sena em 31 de Janeiro de 1408; em 1416 fizeram-na de madeira; mas durante a noite de 16 de Dezembro de 1547 foi outra vez destruída; pelo ano de 1550, isto é, vinte e dois anos antes de época em que nos achamos nesta história, foi reedificada também de madeira; e, posto que já tivesse precisão de reparo, passava ainda por bastante sólida.

No meio das casas que guarneciam a linha da ponte deFronte do ilhote onde tinham sido queimados os templários, e onde está edificada hoje a Ponte Nova, via-se uma casa de madeira, sobre aqual se abaixava um amplo telhado como a pálpebra dum imenso olho. Pela única janela que se abria no primeiro andar, por cima duma janela e duma porta dos quartos do rés-do-chão, hermeticamente fechados, via-se um clarão avermelhado que atraía o olhar dos que fitavam essa fachada baixa, larga, pintada de azul, com ricas molduras douradas. Uma espécie de friso, que separava o rés-do-chão do primeiro andar, representava uma multidão de diabinhos em atitudes cada qual a mais grotesca, e entre esse friso e a janela do primeiro andar via-se uma larga faixa, também pintada de azul, com este letreiro:

 

           RENATO FLORENTINO

         PERFUMISTA DA RAINHA-MÃE

 

A porta desta loja estava, como já dissemos, bem aferrolhada, mas ainda mais que pelos ferrolhos era ela defendida dos ataques nocturnos pela espantosa reputação do inquilino, a ponto de que todos os que atravessavam a ponte nesse lugar faziam-no quase sempre descrevendo uma curva que os levava para a outra fileira de casas, como se tivessem medo que o cheiro das perfumarias lhes chegasse por transpiração através das paredes. Ainda mais: os vizinhos da direita e da esquerda, julgando certamente muito perigosa tal vizinhança, tinham abalado um após outro, logo que mestre Renato se estabeleceu na Ponte de S. Miguel; de maneira que as duas casas contíguas à dele ficaram desertas e fechadas. Não obstante, porém, esta solidão e este abandono, dizia-se que quem por ali passava a horas mortas divisava por entre as adufas fechadas dessas casas vazias certos raios de luz, e ouvia sons como de quem solta gemidos, o que provava que alguns entes frequentavam essas casas; o que se não sabia era se eles pertenciam a este ou ao outro mundo.

Daqui resultava lembrarem-se de vez em quando os inquilinos das duas casas contíguas a essas, de imitarem a prudência dos seus antigos vizinhos, abalando como eles de semelhante lugar.

A esse privilégio de terror, que mestre Renato adquirira geralmente, devia ele por certo ser o único que podia conservar luz em casa depois do toque de recolher. Além de que nem as pa trulhas nem os vigias se atreveriam a incomodar um homem duplicadamente prezado por Sua Majestade, pela sua qualidade de compatriota e de perfumista.

Como supomos que o leitor, armado de ponto em branco pelo filosofismo do século dezoito; já não crê em magia nem em mágicos, convidá-lo-emos a entrar connosco nessa habitação, que naquela época de crenças supersticiosas espalhava na vizinhança tão profundo terror.

A loja do rés-do-chão é sombria e deserta desde as oito horas da noite, momento em que se fecha para se tornar a abrir senão muito tarde, às vezes no dia seguinte: é ali que se vendem diariamente as perfumarias, os unguentos e cosméticos de todas as qualidades, preparados pelo hábil químico, que é ajudado por dois aprendizes nessa venda por miúdo. Estes aprendizes, porém, não dormem na casa, dormem na Rua da Calhandra; saem à noite um momento antes que se feche a loja, e de manhã passeiam diante da porta até que se abra.

Esta loja do rés-do-chão, é pois, como dissemos sombria e deserta.

É bastante larga e funda, e há nela duas portas, cada uma das quais dá para uma escada. Uma destas é encostada à parede e lateral; a outra é exterior e visível do cais, chamado hoje dos Agostinhos, e da praia chamada Cais dos Ourives.

Ambas conduzem à câmara do primeiro andar.

Esta câmara é do mesmo tamanho que a do rés- do-chão; mas está dividida em duas partes por um pano de Arrás estendido na direcção da ponte. No fundo do primeiro repartimento está aberta a porta que dá para a escada exterior, e na face lateral do segundo a que dá para a escada secreta; mas esta porta é invisível, porque a cobre um alto armário entalhado, pregado a ela, que a acompanha no abrir e fechar. Só Catarina e Renato é que sabem o segredo desta porta; é por ali que a rainha sobe e desce; com o ouvido ou com os olhos aplicados a alguns furos abertos neste armário, é que ela ouve e vê o que se passa na câmara.

Nos lados deste segundo compartimento vêem- se ainda duas portas. Uma dá para um pequeno quarto que recebe a luz do tecto, e que não tem outra mobília além dum grande fogareiro e de grande número de retortas, de alambiques e de cadinhos: é o laboratório do alquimista. A outra dá para um cubículo mais singular do que o resto da casa, porque não tem claridade alguma, e porque toda a mobília consiste numa espécie de altar de pedra. O chão é um lajedo inclinado do centro para as extremidades, nas quais corre ao longo do muro uma espécie de rego, que vai desembocar num cano, por onde se vê o correr das águas escuras do Sena. Pelas paredes estão pendurados instrumentos de feitio singular, todos agudos ou cortantes, e cuja ponta é fina como a duma agulha, e o gume afiado como uma navalha de barba; uns luzem como espelhos, outros, pelo contrário, são de cor cinzenta embaciada ou azulados. Num canto esvoaçam duas galinhas pretas, presas uma à outra pelos pés. Este cubículo é o santuário do áugure.

Voltemos à câmara do meio, isto é, à dos dois compartimentos.

É ali que se recebe a plebe dos consultantes; é ali que as cegonhas egípcias, as múmias com faixas douradas, o crocodilo balançando no tecto, as caveiras com os olhos vazados e dentes 142

abalados e, finalmente, os velhos alfarrábios empoeirados e veneravelmente roídos dos ratos, apresentam à vista dos visitantes essa confusa mistura donde resultam as diversas emoções que obstam a que o pensamento siga o seu verdadeiro curso. Por detrás da cortina estão frasquinhos, caixinhas de segredo e ânforas de sinistro aspecto. Tudo isto é alumiado por duas pequenas lâmpadas de prata, exactamente iguais, que parecem roubadas de algum altar de Santa Maria Novela, ou da igreja Dei-Servi de Florença, e que, queimando um óleo perfumado, espalham um clarão amarelado do alto da sombria abóbada, onde estão suspensas por três correntes denegridas.

Renato, só, com os braços cruzados, passeava a largos passos pelo segundo compartimento da câmara do meio, abanando a cabeça; e, depois de longa e dolorosa meditação, parou defronte duma ampulheta.

Ora aí está - disse ele - esqueceu-me voltá-la, e talvez que há muito passasse toda a areia. Olhando então para a Lua, que a grande custo saía duma nuvem negra que parecia passar no álto do campanário da Igreja de Nossa Senhora, acrescentou:

Nove horas. Se vem, virá, como costuma, daqui a uma hora ou hora e meia; portanto, haverá tempo para tudo.

Neste momento ouviu-se um rumor na ponte. Renato aplicou o ouvido ao orifício dum longo tubo, do qual uma extremidade abria para a rua em forma de buzina.

Não - disse ele - não é ele, nem são elas. São passos de homens; param defronte da porta; vêm para cá.

Ouviram-se ao mesmo tempo três fortes pancadas.

Renato desceu rapidamente, encostou o ouvido à porta, mas não abriu.

Repetiram-se as três pancadas.

- Quem é? - perguntou mestre Renato.

- É preciso que digamos os nossos nomes? - perguntou uma voz.

- É indispensável - respondeu Renato.

- Nesse caso, eu sou o conde Aníbal de Cocunás - disse a mesma voz que já tinha falado.

- E eu, o conde Lerac de La Mole - disse outra voz, que pela primeira vez se fazia ouvir.

- Esperem, esperem, meus Senhores, já lhes falo.

E ao mesmo tempo, Renato, puxando os ferrolhos e tirando as trancas, abriu a porta aos dois mancebos, tornando-a apenas a fechar com a chave logo que eles entraram; e conduzindo-os depois pela escada exterior, introduziu-os no segundo compartimento.

La Mole, ao entrar, fez o sinal da Cruz por debaixo do capote; estava pálido e tremia-lhe a mão sem que pudesse reprimir esta fraqueza.

Cocunás olhou para cada coisa de per si e, deparando no meio do exame com a porta do cubículo, quis abri-la.

- Queira perdoar, meu fidalgo - disse Renato, com a sua voz grave, e pondo a mão sobre a de Cocunás -, os visitantes que me fazem a honra de entrar aqui só gozam desta parte da casa.

- Ah! não sabia - respondeu Cocunás. - E demais, vejo que preciso sentar-me. E atirou-se para uma cadeira.

Houve um momento de profundo silêncio. Mestre Renato esperava que algum dos dois mancebos se explicasse. Neste intervalo, ouviu-se a respiração sibilante de Cocunás, ainda não bem curado.

- Mestre Renato - disse ele por fim -, sei que é homem hábil; diga-me portanto se ficarei estropiado pela minha ferida, isto é, se hei-de ter sempre esta respiração curta que me não deixa nem montar a cavalo, nem jogar as armas, nem comer omeletas de toucinho.

Renato aproximou o ouvido do peito de Cocunás, e escutou atentamente o movimento dos pulmões.

- Não, Senhor Conde - disse ele -, há-de curar-se.

- Deveras?

- Afirmo-lho.

- Dá-me muito gosto.

Houve novo silêncio.

- Não deseja mais alguma coisa, Senhor Conde?

- Pois não! - disse Cocunás - desejo saber se estou verdadeiramente enamorado.

- Está - respondeu Renato.

- Como é que o sabe?

- Porque o Senhor Conde o pergunta.

- Coa fortuna! julgo que tem razão. Mas de quem?

- Daquela que repete a cada instante o que o Senhor Conde acaba de dizer.

- Não há duvida - disse Cocunás estupefacto - que o Sr. Renato é habilíssimo. Agora La Mole.

La Mole corou, e ficou embaraçado.

- Que diabo é isso! - disse Cocunás - fala.

- Fale - disse o florentino.

- Eu, Sr. Renato - balbuciou La Mole, cuja voz se fortaleceu pouco a pouco -, não quero perguntar-lhe se estou enamorado, porque sei que o estou, e não o oculto; mas diga-me se serei amado, porque, realmente, tudo que a princípio me dava esperança torna- se agora contra mim.

- Talvez que o Senhor Conde não tenha da sua parte feito tudo o que devia fazer.

- E que mais se há-de fazer do que provar, pelo respeito, pela dedicação à dama em que unicamente se pensa, que ela é verdadeira e profundamente amada?.

- O Senhor Conde sabe - disse Renato - que essas demonstrações são às vezes bem pouco significantes.

- Então devo desesperar?

- Não; é preciso nesse caso recorrer à ciência. Há na natureza humana antipatias que se podem vencer, simpatias que se podem forçar. O ferro não é íman, mas sendo tocado no íman atrai o ferro.

- Decerto, decerto - disse baixinho La Mole -, mas repugnam-me todas essas conjurações.

- Se tem essa repugnância - observou Renato -, não devia cá vir.

- Ora vamos, vamos! queres-te agora fazer criança?... Sr. Renato, pode- me mostrar o Duque?

- Não, Senhor Conde.

- Tenho realmente pena; queria dizer-lhe duas palavras, e talvez que isso desse ânimo a La Mole.

- Pois bem, estou disposto - disse La Mole. - Falemos francamente. Tenho ouvido que se fazem umas figuras de cera semelhantes ao objecto amado; é isso um meio?

- Infalível.

- E não há perigo algum nessa experiência para a vida e para a saúde da pessoa que se ama?

- Nenhum.

- Tentemos pois.

- Queres que eu principie? - disse Cocunás.

- Não - respondeu La Mole -, e visto que principiei, hei-de ir até ao fim.

- Deseja, muito ardentemente, imperiosamente, saber o que deve pensar, e o que lhe compete fazer, Sr. de La Mole? - perguntou o florentino.

- Oh! - exclamou La Mole - morro por isso, mestre Renato.

Neste momento bateram levemente à porta da rua; tão levemente, que só mestre Renato ouviu o rumor, e isso mesmo porque decerto já o esperava.

Encaminhou-se sem afectação, e fazendo algumas perguntas ociosas a La Mole, para o tubo de que falámos, e aplicando o ouvido, percebeu alguns sons de vozes, a que pareceu dar atenção.

- Resuma então agora o seu desejo, e chame pelo objecto amado.

La Mole pôs-se de joelhos como se falasse a uma divindade e Renato, passando para o primeiro compartimento, saiu sem fazer bulha pela escada exterior: um instante depois, ouviu-se um leve rumor de passos no sobrado da loja.

La Mole, levantando-se, viu mestre Renato diante de si com uma pequena figura de cera mal trabalhada; a figura trazia manto e coroa.

- Quer ser amado sempre pela sua real amante? - perguntou o perfumista.

- Quero, ainda que isso me deva custar a vida, ainda que seja necessário perder a minha alma - respondeu La Mole.

- Pois bem - disse o florentino, tomando com as pontas dos dedos algumas gotas de água dum jarro, e que lançou sobre a cabeça da figura, pronunciando várias palavras latinas.

La Mole estremeceu; viu que se cometia um sacrilégio.

- Que está fazendo? - perguntou ele.

- Baptizo esta pequena figura com o nome da pessoa a quem ama.

- Mas para quê?

- Para estabelecer a simpatia.

La Mole abriu a boca para lhe pedir que não fosse mais adiante; mas um olhar de escárnio de Cocunás embargou-lhe a voz.

Renato, que vira o movimento, esperou.

- É preciso uma plena e inteira vontade - disse ele.

- Continue - respondeu La Mole.

Renato traçou sobre uma pequena bandeirola de papel vermelho alguns caracteres cabalísticos, atravessou-os com uma agulha de aço, e com essa agulha picou a estatuazinha no lugar do coração.

Coisa incrível! no orifício da ferida apareceu uma gotinha de sangue. Queimou depois o papel.

O calor da agulha derreteu a cera que estava em redor, e secou a gotinha de sangue.

- Deste modo - disse Renato -, pela força da simpatia, o seu amor penetrará o coração da mulher a quem ama.

Cocunás, na sua qualidade de espírito forte, ria pela surdina e zombava em voz baixa; porém La Mole, amante e supersticioso, sentia gotejar-lhe um suor gelado pela raiz do cabelo.

- Agora - disse Renato -, una os seus beiços aos da estátua, dizendo: Margarida, amo-te! Margarida!

La Mole obedeceu.

Neste momento ouviu-se abrir a porta da segunda câmara, e um rumor de passos que se aproximavam. Cocunás, curioso e incrédulo, puxou do punhal, e receando que, se tentasse levantar o pano de Arrás, Renato lhe fizesse a mesma observação que lLhe fizera quando quis abrir a porta, rasgou com ele a espessa tapeçaria, e aplicando os olhos à abertura, soltou um grito de susto, ao qual responderam dois gritos de mulher.

- Que é isso! - perguntou La Mole, quase deixando cair a figurazinha de cera, que mestre Renato lhe tirou das mãos.

- Que é, hem? - disse Cocunás - a duquesa de Nevers e a rainha Margarida estão ali.

- Então, incrédulos?. - disse Renato, com um grave sorriso - duvidam ainda da força da simpatia?

La Mole ficara petrificado ao ver a rainha. Cocunás teve um momento de alucinação, reconhecendo a Sr. de Nevers; a um figurou-se que os feitiços de mestre Renato tinham evocado

o fantasma de Margarida; o outro, vendo semiaberta a porta pela qual tinham entrado os encantadores fantasmas, achou facilmente a explicação deste prodígio no mundo vulgar e material.

Enquanto La Mole se benzia e suspirava de modo capaz de enternecer as pedras, Cocunás, que tivera tempo bastante para dirigir a si mesmo algumas perguntas filosóficas e para afugentar o espírito maligno com o auxílio desse hissope a que se chama incredulidade, Cocunás, vendo pela abertura o pasmo da Sr.a de Nevers e o sorriso um tanto mordaz de Margarida, conheceu que o momento era decisivo; e compreendendo que se pode dizer a respeito dum amigo aquilo que se não ousa dizer em favor de si próprio, em vez de se dirigir à Sr.a de Nevers, foi direito a Margarida, e pondo um joelho em terra, imitando o modo por que nas barracas das feiras se apresenta o grande Ataxerxes, disse com um certo acento que não era destituído de força:

- Minha Senhora, neste instante, a pedido do meu amigo, o Conde de La Mole, mestre Renato evocava a sombra de Vossa Majestade; ora, com grande espanto da minha parte, apareceu a sombra de Vossa Majestade acompanhada por um corpo que me é bem caro, e que eu recomendo ao meu amigo. Sombra da rainha de Navarra, digne-se Vossa Majestade dizer ao corpo da sua companheira que passe para o outro lado da cortina.

Margarida desatou a rir, e fez sinal a Henriqueta que passasse para o outro lado.

- La Mole, meu amigo! - disse Cocunás - sê eloquente como Demóstenes, como Cícero, como o Senhor Chanceler de L'Hospital, e pensa que a minha vida corre risco se não persuadires a sombra da Senhora Duquesa de Nevers de que sou o seu mais dedicado, mais obediente e mais fiel servo.

- Mas. - balbuciou La Mole.

- Faz o que te digo; e você, mestre Renato, tome sentido que não venham estorvar-nos. Renato fez o que lhe pedia Cocunás.

- Por minha vida! vejo que é homem de espírito - disse Margarida. - Quero ouvi-lo; que tem a dizer-me?

- Tenho a dizer-lhe, minha Senhora, que a sombra do meu amigo (porque é uma sombra, e a prova é que não profere a menor palavra), tenho a dizer-lhe que essa sombra me suplica que use da faculdade que os corpos têm de falar inteligivelmente para dizer a Vossa Majestade: Bela sombra, o fidalgo assim desencorporado perdeu todo o corpo, todo o movimento, pelo rigor dos olhos de Vossa Majestade. Se Vossa Majestade estivesse presente em carne e osso, mais depressa pediria eu a mestre Renato que me submergisse nalguma caverna sulfúrea, do que me atreveria a exprimir-me por tal arte, falando com a filha do rei Henrique II, com a irmã do rei Carlos IX, e com a esposa do rei de Navarra. Mas as sombras são despidas de todo o orgulho mundano, não se agastam quando as amam. Rogue pois ao seu corpo, minha Senhora, que ame um pouco a alma deste pobre La Mole; alma atormentada como nunca houve outra alma primeiramente martirizada pela amizade, que por várias vezes lhe enterrou algumas polegadas de ferro no ventre; alma abrasada pelo fogo dos olhos de Vossa Majestade, fogo mil vezes mais devorador do que todos os fogos do Inferno. Tenha portanto compaixão desta pobre alma. Ame um pouco aquilo que já foi o belo La Mole; e se Vossa Majestade já não tem o dom da palavra, sirva-se do gesto, use o sorriso. É uma alma muito inteligente a do meu amigo: há-de entender tudo; Faça o que lhe peço, já disse, quando não, com a minha espada atravessarei de lado a lado o corpo de mestre Renato, para que, em virtude do poder que ele tem nas sombras, obrigue a de Vossa Majestade, que ele já evocou tanto a tempo, a praticar o que talvez não conviria ao decoro duma sombra respeitável como me parece a de Vossa Majestade.

A esta peroração de Cocunás, que se tinha colocado diante da rainha como Eneias descendo aos Infernos, Margarida não pôde suster uma gargalhada; e, guardando o silêncio que em tal convinha a uma sombra, estendeu a mão para Cocunás.

Este pegou-lhe com delicadeza, e chamou La Mole, bradando:

- Sombra do meu amigo, chega-te imediatamente.

La Mole obedeceu, atónito e tremendo como um vime.

- Bem - disse Cocunás, passando-lhe a mão por detrás da cabeça -, agora aproxime esse belo rosto trigueiro à branca e vaporosa mão que lhe apresento.

E fazendo seguir a acção às palavras, Cocunás uniu aquela fina mão à boca de La Mole, e conservou-as um instante respeitosamente juntas uma à outra, sem que a mão tentasse fugir dessa doce união.

Margarida não deixara de sorrir; porém a Sr. a de Nevers, ainda trémula da aparição inesperada dos dois fidalgos, não sorria. O seu estado agravava-se ainda com toda a febre do ciúme que acabava de nascer, porque lhe parecia que Cocunás não deveria esquecer assim os seus negócios pelos dos outros.

La Mole viu-lhe a contracção das sobrancelhas, surpreendeu-lhe o relampejar ameaçador dos olhos e, apesar do deleite em que se embriagara, conheceu o perigo que o seu amigo corria, e adivinhou o que devia tentar para o livrar.

Levantando-se, pois, e confiando a Cocunás a mão de Margarida, foi tomar a da duquesa de Nevers, a quem disse, pondo-se de joelhos.

- Ó mais bela e mais adorável das mulheres! (falo das mulheres vivas, e não das sombras) - e aqui dirigiu um olhar e um terno sorriso a Margarida - permita que uma alma, solta do seu grosseiro envoltório, repare os desvarios dum corpo todo absorvido por uma amizade material. O Sr. de Cocunás, a quem está vendo, não é mais do que um homem; homem certamente agigantado, um físico agradável, porém mortal como todos: ominu carofoenzun. Se bem que este fidalgo me dirija, desde pela manhã até à noite, as mais fervorosas ladainhas a respeito da Senhora Duquesa; se bem que a Senhora Duquesa o tenha visto dar as mais famosas estocadas de toda a França, este campeão, tão eloquente para uma sombra, não se atreve a falar a uma mulher. Foi por este motivo que ele se dirigiu à sombra da rainha, encarregando-me de falar ao belo corpo da Senhora Duquesa, e de lhe dizer que ele depõe a seus pés o seu coração e a sua alma; que pede aos seus divinos olhos que o contemplem com piedade; aos seus dedos rosados e abrasadores que o chamem com um sinal; à sua voz vibrante e harmoniosa que lhe diga palavras que se não esquecem; pediu-me ainda mais uma coisa: é que, no caso de que ele não tenha forças para enternecer a Senhora Duquesa, que o atravesse segunda vez com a minha espada, que é uma folha verdadeira; porque as espadas não têm sombra senão ao sol; que o atravesse, digo, segunda vez com a minha espada, porque ele não poderá viver se a Senhora Duquesa o não autorizar a viver exclusivamente para a adorar.

O capricho pretensioso que se notou no discurso de Cocunás contrastava singularmente com o sensível, persuasivo e humilde da súplica que La Mole acabava de fazer.

Os olhos de Henriqueta, que até então estiveram fixos em La Mole, a quem ela ouvira atentamente, voltaram-se para Cocunás, a fim de verificarem se a expressão do rosto do fidalgo concordava com a oração amorosa do seu amigo.

Parece que ficou satisfeita porque, ruborizando-se e respirando a custo, disse a Cocunás, com um sorriso que fez aparecer dois fios de pérolas engastadas em coral:

- Isto é verdade?

- Se é verdade! - exclamou Cocunás, fascinado por este olhar, e abrasado pelos fogos do mesmo fluido - se é verdade. Sim, minha Senhora, verdade pela sua vida verdade pela minha morte!

- Então venha! - disse Henriqueta, estendendo-lhe a mão com uma indiferença que era traída pela ternura dos olhos.

Cocunás atirou ao ar o seu gorro de veludo, e dum salto veio ter ao pé da duquesa, enquanto La Mole, chamado por um gesto de Margarida, fazia com o seu amigo um chass croúé amoroso.

Neste momento apareceu Renato à porta do fundo.

- Silêncio! - bradou ele, com um tom que apagou toda aquela chama - silêncio! E ouviu-se, através da parede, o ruído duma chave que dá volta, e o ranger duma porta abrindo-se.

- Mas - disse Margarida com altivez - parece-me que ninguém tem o direito de quando nós aqui estamos.

- Nem mesmo a rainha-mãe?. - disse-lhe Renato, ao ouvido.

Margarida precipitou-se imediatamente pela escada exterior, puxando La Mole para si; Henriqueta e Cocunás, meio enlaçados um no outro, fugiram seguindo-lhes a pista.

Todos quatro voaram, como voam, ao menor rumor indiscreto, as avezinhas que se acham sobre um ramo florido.

 

               AS GALINHAS PRETAS

Os dois pares fugiram a tempo. Catarina metia a chave na fechadura da segunda porta no momento em que Cocunás e a Sr.a de Nevers desapareciam pela saída do fundo, e ao entrar ainda ouviu o ranger dos degraus sob os passos dos fugitivos.

Lançou em redor um olhar perscrutador, e fixando finalmente um olhar desconfiado sobre Renato, que estava de pé, e inclinado diante dela, disse:

- Quem estava ali?

- Amantes que se contentaram com a minha palavra, quando lhes certifiquei que se amavam.

- Deixemos isso - disse Catarina, encolhendo os ombros -, não há mais ninguém aqui?

- Ninguém, senão Vossa Majestade e eu.

- Fizeste o que te disse?

- A respeito das galinhas pretas?

- Sim.

- Estão prontas, minha Senhora.

- Ah! se tu fosses judeu!. - disse Catarina a meia voz.

- Judeu, minha Senhora, para quê?

- Para poderes ler os livros preciosos que os Hebreus escreveram a respeito dos sacrifícios. Mandei traduzir um deles, e soube que não era nem no coração nem no fígado, como os Romanos, que os Hebreus procuravam os presságios: era na disposição dos miolos, e na configuração das letras que neles foram traçados pela mão omnipotente do destino.

- É verdade, minha Senhora, também ouvi dizer isso a um velho rabino meu amigo.

- Há - disse Catarina - caracteres tão bem desenhados, que manifestam uma vida profética toda inteira. O que unicamente os sábios caldeus recomendam.

- Recomendam. o quê? - perguntou Renato, vendo que a rainha hesitava em continuar.

- Recomendam que a experiência se faça em cérebros humanos, por isso que são mais desenvolvidos, e mais simpáticos com a vontade de quem os consulta.

- Ah, minha Senhora! Vossa Majestade bem sabe que isso é impossível.

- Difícil, ao menos - disse Catarina -, porque, se nós tivéssemos sabido isso pelo S. Bartolomeu. Que belo, Renato! que abundante colheita! O primeiro condenado. não me há-de esquecer. No entanto, conservemo-nos no círculo do possível. A câmara dos sacrifícios está pronta?

- Está, sim, minha Senhora.

- Vamos para lá.

Renato acendeu uma vela composta de elementos estranhos, e cujo cheiro, ora subtil e penetrante, ora nauseabundo e fumoso, revelava a introdução de diferentes matérias; com essa vela alumiou Catarina, que entrou após ele para o cubículo.

Catarina escolheu pela sua mão, entre todos os instrumentos de sacrifício, uma faca de aço azulado polido, enquanto Renato foi buscar uma das galinhas, que num canto volviam inquietas os seus olhos dourados.

- Qual há-de ser o processo?

- Interrogaremos os fígados duma e os miolos da outra. Se as duas experiências nos derem o mesmo resultado, deve-se crer nele, principalmente se esses resultados combinarem com os já obtidos.

- Por onde começaremos?

- Pela experiência do fígado.

- Seja - disse René.

E prendeu a galinha sobre o pequeno altar a duas argolas postadas nas extremidades, de modo que o animal, deitado de costas, não podia fazer mais do que esvoaçar sem mudar de lugar.

Catarina abriu-lhe o peito dum só golpe. A galinha piou três vezes, e expirou depois de esvoaçar muito tempo.

- Sempre três pios - disse Catarina -, três sinais de morte.

Depois abriu o corpo.

- E o fígado pendendo sempre para a esquerda - continuou ela -, sempre para a esquerda; sabes o que isto significa, Renato? Três mortes, seguidas duma deposição. É horroroso!

- É preciso ver, minha Senhora, se os presságios da segunda vítima coincidem com os da primeira.

Renato desprendeu a galinha morta, e atirou- a para um canto. Foi depois direito à outra que, julgando da sua sorte pela da companheira, tentou escapar correndo à roda do cubículo, até que, vendo-se quase presa num canto, voou por cima da cabeça de Renato, e nesse voo apagou a vela mágica que Catarina tinha na mão.

- Vês, Renato? - disse a rainha - é assim que se extinguirá a nossa dinastia. A morte, com o seu sopro, a fará desaparecer da superfície da Terra. Contudo, três filhos, três filhos!. acrescentou ela tristemente e a meia voz.

Renato tomou-lhe da mão a vela mágica, e foi torná-la a acender ao quarto do lado.

Quando voltou, viu a galinha com a cabeça metida no cano da pedra.

- Agora - disse Catarina - hei-de evitar-lhe os pios, porque vou cortar-lhe a cabeça duma só vez.

E assim foi; logo que René prendeu a galinha, Catarina cortou-lhe a cabeça, como dissera, duma só vez. Mas na última convulsão o bico abriu-se três vezes, e fechou-se para não mais se abrir.

- Vês? - disse Catarina, aterrada - não podendo piar três vezes, deu três suspiros. Três, sempre três. Morrerão todos três. Todas estas almas, antes de partirem, contam e chamam até três. Vejamos agora os sinais dos miolos.

Catarina abateu então a lívida crista do animal, abriu cautelosamente o crânio, e separando as duas partes de modo que ficassem a descoberto os miolos, pôs-se a examinar se havia alguma letra formada pelas sinuosidades sanguíneas traçadas pela divisão da polpa cerebral.

- Sempre o mesmo! - exclamou ela, batendo com as mãos uma na outra - sempre o mesmo! e desta vez o prognóstico é mais claro do que nunca. Olha. Renato aproximou-se.

- Que letra é esta? - perguntou Catarina, designando-lhe um sinal.

- Um H - respondeu René.

- Repetido quantas vezes?

Renato contou.

- Quatro - disse ele.

- Então? então? é ou não é?. Bem o vejo: isto quer dizer, Henrique IV. Oh! - tornou ela surdamente, atirando com a faca - sou amaldiçoada na minha posteridade.

Fazia horror ver o semblante dessa mulher, pálida como um cadáver, alumiada pelo lúgubre clarão da vela mágica, e inteiriçando as mãos ensanguentadas.

- Há-de reinar - disse Catarina, com um suspiro de desesperação -, há-de reinar!

- Há-de reinar - repetiu Renato, sepultado em profunda meditação. Contudo, esta expressão lúgubre esvaeceu-se quase imediatamente das feições de Catarina à luz dum pensamento que parecia brotar-lhe no fundo do cérebro.

- Renato - disse ela, estendendo a mão para o florentino, e sem voltar a cabeça, que tinha inclinada para o peito -, não há uma história terrível dum médico de Perúsia que duma só vez, por meio duma pomada, envenenou a filha e o amante dela?.

- Sim, minha Senhora.

- E esse amante era. - continuou Catarina, sempre pensativa.

- Era o rei Ladislau, minha Senhora.

- Ah! sim, é verdade - disse ela. - Tens alguma obra que dê os pormenores desta história.

- Possuo um livro velho que trata dela - respondeu Renato.

Passemos para a outra câmara. Hás-de emprestar-mo.

Ambos saíram então do cubículo, e Renato fechou a porta.

- Vossa Majestade tem algumas ordens a dar- me para novos sacrifícios? - perguntou o flo rentino.

- Não, Renato, não; por agora estou suficientemente convencida. Esperaremos poder haver às mãos a cabeça de algum condenado; no dia da execução, entender-te-ás com o carrasco.

Renato inclinou-se em sinal de assentimento; depois aproximou-se, com a vela na mão, das estantes onde estavam os livros, subiu a uma cadeira, tirou um e deu-o à rainha.

Catarina abriu-o.

- Que é isto? - disse ela.

- Ah! perdoe-me, minha Senhora, enganei-me; isto é um tratado de montaria feito por um sábio luquês para o famigerado Castruccio Castracani. Estava ao lado do outro, encadernado do mesmo modo. Enganei-me. É todavia um livro preciosíssimo; não existem senão três exemplares no mundo: um que pertence à Biblioteca de Veneza, outro que foi comprado pelo avô de Vossa Majestade, Lourenço, e oferecido depois por Pedro de Médicis ao rei Carlos VIII, quando este passou por Florença, e o terceiro é esse.

- Venero-o - disse Catarina - pela sua raridade; mas como não preciso dele, torno-to a dar. E estendeu a mão direita para Renato, a fim de receber o outro livro, enquanto com a esquerda lhe entregava o que primeiro recebera.

Renato não se enganou desta vez: era realmente o livro que ela queria. O perfumista desceu, folheou-o um instante e entregou-lho aberto.

Catarina foi sentar-se a uma mesa; Renato pôs junto dela a vela mágica, e ao clarão dessa chama azulada leu ela algumas linhas a meia voz.

- Bem - disse daí a pouco, fechando o livro -, já sei o que queria saber. Levantou-se, deixando o livro sobre a mesa, e levando unicamente no espírito o pensamento que nele havia germinado e que devia amadurecer.

Renato esperou respeitosamente, com a vela na mão, que a rainha, que parecia prestes a retirar-se, lhe desse novas ordens, ou lhe fizesse novas perguntas.

Catarina deu alguns passos com a cabeça inclinada, e com o dedo na boca e em silêncio.

Parando depois de repente diante de Renato, e levantando para ele os olhos, redondos e fixos como os duma ave de rapina, disse:

- Confessa que fizeste algum filtro para ela.

- Para quem? - perguntou Renato, estremecendo.

- Para a Sauve.

- Eu, senhora? - disse Renato - nunca!

- Nunca?.

- Juro-lhe pela minha alma!

- Há entretanto magia nisto, porque ele ama-a como um louco; ele, que não tem fama de constante...

- Ele quem, minha Senhora?

- Esse maldito Henrique, aquele que há-de suceder aos nossos três filhos, aquele que se há-de chamar um dia Henrique IV, e que entretanto é filho de Joana d'Albret.

E Catarina acompanhou estas últimas palavras com um suspiro que fez arrepiar Renato, porque lhe recordava as luvas que, por ordem de Catarina, ele tinha preparado para a rainha de Navarra.

- Ele continua sempre a ir lá? - perguntou Renato.

- Sempre.

- Entretanto, eu julgava que o rei de Navarra se tinha voltado de todo para a esposa.

- Comédia, Renato, comédia. Não sei que fim tem tudo isto, mas sei que tudo se reúne para me enganar. A minha própria filha Margarida declara-se contra mim; talvez que espere também a morte dos irmãos, talvez que também espere ser rainha de França.

- Sim, talvez - disse Renato, mergulhando outra vez na sua meditação, e fazendo-se eco da terrível suposição de Catarina.

- Enfim - disse Catarina -, veremos.

E dirigiu-se para a porta do fundo, julgando decerto inútil descer pela escada secreta, pois que tinha a certeza de estar só.

Renato foi adiante, e alguns instantes depois ambos se acharam na loja.

- Tinhas-me prometido novos cosméticos para as mãos e para os lábios, Renato - disse ela -, o Inverno está a chegar, e tu sabes que tenho a pele muito sensível ao frio.

- Já me ocupei disso, minha Senhora, e hei-de levar-lhos amanhã.

- Amanhã à noite não me encontras antes das nove ou dez horas. De dia estou ocupada com as minhas rezas.

- Bem, minha Senhora, estarei no Louvre às nove horas.

- A Sr.a de Sauve tem belas mãos e belos lábios - disse Catarina, com ar de indiferença -, que creme usa ela?

- Para as mãos?

- Sim, primeiro para as mãos.

- Creme de heliotrópio.

- E para os lábios?

- Para os lábios vai servir-se dum novo opiato que inventei, e do qual contava levar amanhã uma caixinha a Vossa Majestade ao mesmo tempo que a ela.

Catarina ficou por um instante pensativa.

- Aliás, essa criatura é formosa - disse ela, respondendo sempre ao seu pensamento oculto. - Não há nada que admirar nessa paixão do Bearnês.

- E principalmente muito dedicada a Vossa Majestade, ao menos pelo que me parece - disse Renato.

Catarina sorriu, e encolheu os ombros.

- Quando uma mulher ama - disse ela -, dedica-se porventura a alguém a não ser ao amante? Tu compuseste-lhe algum filtro, Renato?

- Juro-lhe que não, minha Senhora.

- Está bem, não falemos mais nisso. Mostra-me esse novo opiato que deve tornar-lhe os lábios ainda mais frescos e rosados.

Renato chegou-se a uma prateleira, e mostrou a Catarina seis caixinhas de prata do mesmo feitio, isto é, redondas, dispostas em fileira.

- Aqui está o único filtro que me tem pedido - disse Renato. - É verdade, como disse Vossa Majestade, que o compus expressamente para ela, porque tem os lábios tão delicados, que tanto o sol como o vento lhos crestam.

Catarina abriu uma dessas caixas; havia dentro uma pomada rubra como o mais lindo carmim.

- Renato - disse ela -, dá-me também pomada para as mãos, porque se me acabou a que tinha; levá-la-ei eu mesma.

Renato afastou-se, levando a vela, e foi procurar num compartimento particular o que a rainha lhe pedia. Mas não se voltou tão devagar que não julgasse ver que Catarina, com um rápido movimento, tirara uma das caixinhas e a escondera debaixo da manta. Familiarizado como estava com estas acções da rainha-mãe, não teve o descuido de mostrar que dava fé do que ela acabava de fazer. Tirando, pois, a pomada pedida, fechada num papel ornado de flores-de-lis, disse:

- Aqui está, minha Senhora.

- Obrigado, Renato - disse Catarina.

E depois dum instante de silêncio:

- Não leves o opiato à Sr.a de Sauve senão daqui a oito ou dez dias; quero experimentá-lo primeiro.

E dispôs-se para sair.

- Vossa Majestade quer que a acompanhe? - disse Renato.

- Só até ao fim da ponte - respondeu Catarina -, os meus fidalgos esperam-me lá com a liteira.

Ambos saíram, e foram até à esquina da Rua da Barillerie, onde quatro fidalgos a cavalo e uma liteira sem armas esperavam Catarina.

Entrando em casa, o primeiro cuidado de Renato foi contar as suas caixinhas de opiato. Faltava uma.

 

       O QUARTO DA BARONESA DE SAUVE

As suspeitas de Catarina não eram infundadas. Henrique prosseguiu de novo nos seus hábitos, indo todas as noites ver a Sr. de Sauve. Esta excursão era feita ao princípio com o maior segredo, mas a amante foi a pouco e pouco perdendo o receio e desprezou as precauções a ponto tal que não custou muito a Catarina certificar-se de que Margarida só era rainha de Navarra no nome, que a rainha de facto era a Sr.a de Sauve.

Dissemos duas palavras no começo desta história a respeito dos aposentos da Sr.a de Sauve; mas a porta aberta por Daríole a Henrique fechava-se hermeticamente apenas ele entrava, de sorte que o teatro dos misteriosos amores do Bearnês é-nos completamente desconhecido.

Essa morada, do género das que os príncipes dão aos seus familiares nos palácios que habitam, a fim de os terem à mão, era mais pequena e menos cómoda do que seria qualquer outra situada na cidade. Ficava, como já dissemos, no segundo andar, por cima do quarto de Henrique, e a porta dava para um corredor, cuja extremidade recebia luz por uma janela oitavada com pequenas vidraças encaixilhadas em metal, e que, mesmo nos dias mais claros do ano, mal deixava penetrar uma fraca luz. No Inverno era preciso ter aceso um lampeão desde as três horas da tarde; mas, como não lhe deitavam maior porção de azeite do que no Verão, apagava-se logo às dez horas da noite, e concorria assim para que os dois amantes estivessem com mais segurança logo que chegava o Inverno.

Uma pequena antecâmara forrada de damasco de seda com grandes flores amarelas, uma sala de visitas forrada de veludo azul, um quarto de cama, cujo leito de colunas retorcidas e com cortinas de cetim cor de cereja, estava apenas separado da parede por um pequeno espaço onde se via um espelho guarnecido de prata e dois quadros dos Amores, de Vénus e de Adónis, tal era pousada (hoje dir-se-ia o ninho) da encantadora açafata da rainha Catarina de Médicis.

Procurando bem, encontrar-se-ia ainda num canto escuro dessa câmara, defronte dum toucador com todos os acessórios, uma pequena porta que abria para uma espécie de oratório, onde, sobre dois degrauzinhos, se elevava um genuflexório. Nas paredes desse oratório estavam pendurados, como para servirem de correctivo aos dois quadros mitológicos de que falámos, três ou quatro pinturas do mais exaltado espiritualismo. Entre essas pinturas, e em pregos dourados, havia suspensas alguma armas próprias de mulher, porque nessa época de misteriosos enredos as mulheres usavam armas como os homens, e às vezes serviam-se delas com a mesma destreza.

Nessa noite, que era a do dia imediato àquele em que se passaram em casa de mestre Renato as cenas que narrámos, a Sr.a de Sauve, sentada no quarto de dormir num divã, comunicava a Henrique os seus receios e o seu amor, e apresentava-lhe, como prova desses receios e desse amor, a dedicação que ela lhe mostrara na famosa noite que se seguira à de S. Bartolomeu, noite que Henrique, como vimos, passara no quarto da mulher.

Por seu lado, Henrique exprimia-lhe o seu reconhecimento. A Sr.a de Sauve estava encantadora nessa noite, vestida com um simples roupão de cambraia, e Henrique mostrava-se extremamente reconhecido.          

No meio de tudo, como Henrique amava realmente, estava pensativo. Pela sua parte, a baronesa de Sauve, que acabara por adoptar este amor ordenado por Catarina, olhava muito para Henrique, a fim de ver se os olhos estavam de acordo com as palavras.

- Vejamos, Henrique, seja franco! durante a noite passada no gabinete de Sua Majestade a Rainha de Navarra, com o Sr. de La Mole aos pés, não lamentou que esse fidalgo estivesse entre

o gabinete e o quarto de dormir da rainha?     

- Decerto, minha amiga - disse Henrique -, porque me era preciso absolutamente passar por essa câmara para ir àquela onde estou tão bem, e onde sou tão feliz neste momento.  

- E nunca mais ali entrou depois?

- Senão as vezes que lhe disse.

- E nunca lá tornará a entrar sem mo dizer?

- Nunca.    

- Seria capaz de jurá-lo.

- Decerto, se fosse ainda huguenote. Mas...

- Mas o quê?   

- Mas a religião católica, cujos dogmas estou aprendendo, diz-me que nunca se deve jurar.

- Gascão! - disse a Sr.a de Sauve, meneando a cabeça.  

- Agora, falemos de si, Carlota - disse Henrique. - Se eu lhe perguntar alguma coisa, responderá às minhas perguntas?

- Certamente - respondeu a Sr.a de Sauve. - Não tenho nada que lhe ocultar.

- Vejamos, Carlota - disse o rei -, explique-me, uma vez por todas, como é que, depois dessa resistência desesperada que precedeu o meu casamento, se tornou menos cruel para mim,    

que sou um simples bearnês, um provinciano ridículo, um príncipe demasiado pobre, enfim, para conservar resplandecentes os diamantes da coroa?

- Henrique - disse Carlota -, como quer que eu lhe dê a decifração do enigma que os filósofos de todos os países procuram decifrar há três mil anos? Henrique, nunca pergunte a uma mulher porque é que ela o ama; contente-se em perguntar-lhe se o ama.    

- Ama-me, Carlota? - perguntou Henrique.      

- Amo-o, sim - respondeu a Sr.a de Sauve, com um sorriso encantador, deixando cair a sua bela mão na do amante.

Henrique apertou-lha.

- E se eu - tornou ele, prosseguindo o seu pensamento - tivesse decifrado esse enigma que os filósofos procucam descobrir há três mil anos, pelo menos relativamente a Carlota?...

A senhora de Sauve corou.

- Carlota ama-me - continuou Henrique -, por conseguinte não tenho outra coisa a perguntar-lhe, e considero-me o homem mais feliz do mundo. Mas bem sabe que sempre falta alguma coisa para se ser feliz. Adão, no centro do Paraíso, não se julgou completamente feliz, e provou o pomo fatal, que nos deu a todos a miserável precisão de curiosidade que faz com que não haja quem não ande em procura de alguma incógnita. Diga-me, pois, minha amiga, para me ajudar a encontrar a minha incógnita, se não foi a rainha Catarina quem primeiro lhe disse que me amasse.

- Henrique - disse a Sr.a de Sauve -, fale mais baixo quando falar da rainha-mãe.

- Oh! - disse Henrique, com uma confiança e indiferença com que a própria Sr.a de Sauve se iludiu - outrora, quando nos não dávamos bem, poder-se-ia desconfiar dela, dessa boa mãe; mas hoje, que sou marido de sua filha.

- Marido de Margarida? - disse Carlota corando.

- Fale também mais baixo, minha querida amiga - disse Henrique. - Agora, que sou marido de sua filha, somos os melhores amigos do mundo. Que é que se queria? Que me fizesse católico, ao que parece. Pois bem: fui tocado da divina graça, e pela intervenção de S. Bartolomeu tornei- me católico. Vivemos agora em família, como bons irmãos, como bons cristãos.

- E a rainha Margarida?

- A rainha Margarida? - disse Henrique - que tem? É o laço que nos une a todos.

- Mas, Henrique, tinha-me dito que a rainha de Navarra, em recompensa da dedicação que eu mostrara por ela, fora generosa comigo. Se me dissesse a verdade, se essa generosidade, pela qual eu lhe votei tão grande reconhecimento, é real, ela é apenas um laço de convenção fácil de quebrar. Não pode, pois, Henrique, firmar-se em semelhante base, porque ainda não conseguiu impor-se a ninguém com essa pretendida intimidade.

- Não obstante, é nessa base que me firmo, e é há três meses o travesseiro a que me encosto.

- Então, Henrique, enganou-se - disse a Sr.a de Sauve -, é porque Madame Margarida éverdadeiramente sua mulher.

Henrique sorriu.

- Aí está, Henrique! eis um desses sorrisos que me desesperam, e que fazem com que, apesar de rei que é, eu tenha às vezes cruéis desejos de lhe arrancar os olhos.

- Então - disse Henrique - sempre eu consigo impor-me a alguém com esta pretendida intimidade, visto que há momentos em que Carlota, apesar de eu ser rei, quer arrancar-me os olhos, uma vez que Carlota julga que existe essa intimidade.

- Parece-me - disse Carlota - que nem mesmo Deus sabe o que é que Henrique pensa. - Penso, minha amiga - disse Henrique -, que de princípio foi Catarina que lhe disse que me amasse, que o seu coração lhe disse depois o mesmo, e que, quando estas duas vozes lhe falam, Carlota só escuta a do seu coração. Agora, quanto a mim, também a amo, e de toda a minha alma; é mesmo por isso que quando eu tiver segredos, não lhos confiarei. com receio de a comprometer, bem entendido. porque a amizade da rainha é mutável, é a amizade duma madrasta.

Não era este modo de falar que agradava a Carlota; parecia-lhe que esse véu que se estendia entre ela e o amante todas as vezes que queria sondar os abismos desse coração sem fundo, tomava a consistência duma muralha e os separava um do outro. Sentiu arrasarem-se-lhe os olhos de água a esta resposta, e como nesse momento deram dez horas, disse:

- Senhor, são horas de me deitar. O meu serviço obriga-me a ir amanhã muito cedo para o quarto da rainha-mãe.

- Então põe-me fora esta noite, minha amiga? - disse Henrique.

- Henrique, estou triste; estando eu triste, há-de achar-me insípida, e nesse caso não me amará mais. Bem vê, pois, que é melhor retirar-se.

- Como quiser - disse Henrique. - Retirar-me-ei, se o exige, Carlota; mas, seja como for, há-de conceder-me a graça de me deixar estar aqui mais um momento:

- Mas a rainha Margarida, Senhor, há-de estar à sua espera.

- Carlota - respondeu Henrique com seriedade -, tínhamos concordado em não falar nunca da rainha de Navarra, e parece-me que esta noite não temos falado senão dela.

A Sr.a de Sauve suspirou, e foi sentar-se defronte do toucador; Henrique puxou uma cadeira, levou-a para junto de Carlota e, pousando os braços nas costas da que ela ocupava, disse: - Vamos, minha Carlota, quero vê-la fazer-se formosa, e formosa para mim, apesar de tudo o que tem dito. Meu Deus! tantas coisas! tantas coisas! tantos boiõezinhos de perfumes, tantos a tuchos de pós, tantos frasquinhos, tantas caçoilas!.

- Parece muito - disse Carlota suspirando -, entretanto, é bem pouco, porque com tudo isto ainda não achei o meio de reinar sozinha no coração de Vossa Majestade.

- Então que é isso? - disse Henrique - tornamos a cair na política? Deixemos essas coisas.

Que pincelinho é este, tão fino, tão delicado? Não será para pintar as sobrancelhas do meu Júpiter Olímpico?.

- É. para isso mesmo, Senhor - respondeu a Sr. a de Sauve, sorrindo - adivinhou logo à primeira vista.

- E este lindo pente de marfim?

- É para traçar a risca dos cabelos.

- E esta delicada caixinha de prata, tão bem lavrada?

- Oh! isso é uma remessa de Renato: é o famoso opiato que há tanto tempo me prometeu para adoçar mais estes lábios, que Vossa Majestade tem a bondade de achar às vezes bem doces.

E Henrique, como para confirmar o que acabava de dizer a encantadora mulher, cujo rosto se desanuviava à medida que a chamavam para o terreno da galantaria, uniu os seus lábios àqueles que a baronesa mirava com atenção ao espelho.

     Carlota levou a mão à caixinha que acabava de ser o objecto da precedente explicação, para

mostrar certamente a Henrique de que maneira se empregava a massa vermelha; mas neste momento ouviu-se na porta da antecâmara uma forte pancada que fez estremecer os dois amantes.

- Batem, Senhora - disse Daríole, metendo a cabeça por entre o reposteiro.

- Vai ver quem é, e volta.

     Henrique e Carlota olharam inquietos um para o outro, e já aquele tratava de retirar-se para o oratório, onde já por mais duma vez achara refúgio, quando Daríole tornou a aparecer.

- Minha Senhora - disse ela -, é mestre Renato, o perfumista.

Ao ouvir este nome, Henrique carregou o sobrolho e mordeu involuntariamente os lábios.

- Não quer que o mande entrar? - perguntou Carlota.

- Pelo contrário - disse Henrique -, mestre Renato pensa sempre no que faz; se vem ao seu aposento, é porque tem razões para o fazer.

- Então quer-se esconder?

- Por modo nenhum - disse Henrique -, porque mestre Renato, sabendo tudo, sabe portanto que estou aqui.

- Mas Vossa Majestade não tem alguma razão para que a presença deste homem lhe seja dolorosa?

- Eu? - disse Henrique, fazendo um esforço, que, apesar do seu poder sobre si mesmo, não pôde inteiramente dissimular - eu? nenhuma; estávamos um pouco frios, é verdade, mas depois do S. Bartolomeu reconciliámo-nos.

- Mande entrar - disse a Sr.a de Sauve a Daríole.

Um instante depois apareceu Renato, que lançou um olhar com o qual abrangeu toda a câmara.

A Sr.a de Sauve conservou-se defronte do toucador.

Henrique tomara de novo o seu lugar sobre o divã.

Carlota estava no lugar iluminado, e Henrique na sombra.

- Minha Senhora - disse Renato com respeitosa familiaridade - venho pedir-lhe as minhas desculpas.

- E de quê, Renato? - perguntou a Sr.a de Sauve, com essa condescendência que as senhoras formosas têm sempre com a multidão de fornecedores que as cercam, e que tendem a torná-las mais bonitas.

- Por ter prometido há tanto tempo trabalhar para esses lábios, e não...

- E não ter cumprido a sua promessa senão hoje, não é assim? - disse Carlota.

- Senão hoje? - repetiu Renato.

- Sim; foi só hoje, e à noite, que recebi aquela caixinha que me mandou.

- Ah! sim - disse Renato, olhando dum modo estranho para a caixinha de opiato que estava em cima da mesa da Sr.a de Sauve, e que era em tudo igual às que ele tinha no seu armazém.

Adivinhei! disse Renato, a meia voz. - E já se serviu dele?

- Ainda não, ia experimentá-lo quando o senhor entrou.

O semblante de Renato tomou uma expressão pensativa, que não escapou a Henrique, a quem poucas coisas escapavam.

- Então que é isso, Renato? Que tem? - perguntou o rei.

- Eu? nada, meu Senhor - disse o perfumista. - Espero humildemente que Vossa Majestade me dirija a palavra, antes de me despedir da Senhora Baronesa.

- Ora, deixemo-nos disso! - disse Henrique, sorrindo. - Então precisa das minhas palavras para saber que o vejo com tanto prazer?

Renato olhou em redor de si, deu volta ao quarto, como para sondar com os olhos e os ouvidos as portas e as tapeçarias, e, parando de novo e pondo-se de forma que pudesse abranger com o mesmo olhar a Sr.a de Sauve e Henrique, disse:

- Não sei.

Henrique, advertido, graças a esse admirável instinto que, semelhante a um sexto sentido, o guiara durante toda a primeira parte da vida no meio dos perigos que o cercavam, que se passava neste momento alguma coisa extraordinária, e que se semelhava a uma luta no ânimo do perfumista, voltou-se para ele e, continuando a ficar na sombra, ao passo que o rosto do florentino se conservava iluminado, disse:

- Renato aqui, a esta hora?

-Terei a desgraça de incomodar a Vossa Majestade? - respondeu o perfumista, dando um passo para trás.

- Não; desejo porém saber uma coisa.

- Qual é, meu Senhor?

-Julgou encontrar-me aqui?

- Estava certo disso.

- Então procurava-me?

- Pelo menos, julgo-me muito feliz por tê-lo encontrado.

- Tem alguma coisa a dizer-me? - insistiu Henrique.

- Talvez, meu Senhor - respondeu Renato.

Carlota corou, porque temia que a revelação que o perfumista parecia querer fazer fosse relativa ao seu procedimento para com Henrique; tomou, pois, um ar de quem, toda entregue aos cuidados do toucador, nada tinha ouvido e, interrompendo a conversação:

- Mestre Renato - disse ela, abrindo a caixinha de opiato - é realmente um homem admirável; esta massa tem uma cor maravilhosa, e visto que o seu autor está presente, vou, para honrá-lo, experimentar diante dele a sua nova produção.

E pegando na caixa com uma das mãos, passou a ponta do dedo da outra pela superfície da massa rosada que devia ir do dedo para os lábios.

Renato estremeceu.

A baronesa, sorrindo, aproximou o opiato da boca.

Renato empalideceu.

Henrique, sempre na sombra, mas com os olhos fixos e ardentes, não perdia nem um só movi mento dela, nem o mais leve estremecimento dele.

Só faltariam algumas linhas para que Carlota tocasse com a massa nos lábios, quando Renato lhe susteve o braço, no próprio momento em que Henrique se levantava para fazer o mesmo.

Henrique tornou a sentar-se, sem ruído, no divã.

- Espere um pouco, minha Senhora - disse Renato, com um sorriso constrangido -, este opiato não devia empregar-se sem algumas recomendações particulares.

- E quem me dará essas recomendações?

- Eu.

- E quando?

- Dentro em pouco; logo que terminar o que tenho a dizer a Sua Majestade o Rei de Na varra.

Carlota fez um gesto de espanto, não compreendendo nada desta linguagem misteriosa que se falava junto dela, e ficou como imóvel, com a caixinha de opiato na mão, e olhando para a ponta do dedo, enrubescida pela massa encarnada.

Henrique levantou-se e, movido por um pensamento que, como todos os do jovem rei, tinha dois lados, um que parecia superficial, e outro que era profundo, foi tomar a mão com que Carlota tirara a massa e fez um movimento para a levar aos lábios.

- Espere - disse vivamente Renato -, espere um pouco. Minha Senhora, queira lavar as suas belas mãos com este sabonete de Nápoles, que me esqueci de mandar-lhe com o opiato, e que tenho a honra de lhe trazer.

E tirando do envoltório prateado um sabonete de cor esverdeada pô-lo numa bacia de prata dourada, deitou-lhe água e com um joelho em terra apresentou tudo à Sr.a de Sauve.

- Deveras, mestre Renato! estou-o desconhecendo - disse Henrique -, tem galanteios que deixam a perder de vista todos os leões da corte.

- Oh! que delicioso aroma! - exclamou Carlota, esfregando as suas delicadas mãos com a espuma nacarada que saía do balsâmico sabonete.

Renato desempenhou até ao fim as suas funções de respeitoso criado, e apresentou uma toalha de Fino linho de Frísia à Sr.a de Sauve, que enxugou as mãos.

- Agora, meu Senhor - disse o florentino a Henrique -, satisfaça o seu desejo. Carlota apresentou a mão a Henrique, que a beijou, e enquanto ela se voltava um pouco sobre a cadeira para ouvir o que Renato ia dizer, o rei de Navarra foi ocupar novamente o seu lugar, mais convencido do que nunca de que se passava no espírito do florentino alguma coisa de extraordinário.

- Então? - disse Carlota.

O florentino pareceu armar-se de toda a sua resolução e voltou-se para Henrique.

 

         SENHOR, VOSSA MAJESTADE hÁ-DE SER REI!

- Meu Senhor - disse Renato a Henrique -, venho falar-lhe duma coisa de que me ocupo há muito tempo.

- De perfumes? - disse Henrique, sorrindo.

- E então? de que se admira? sim, meu Senhor. de perfumes - respondeu Renato com um gesto singular de aquiescência.

- Fale; quero ouvi-lo, é assunto que sempre me interessou muito.

Renato olhou fixamente para Henrique, tentando ler, mau grado as suas palavras, nesse impenetrável pensamento; mas vendo que era coisa inteiramente impossível, continuou:

- Acaba de chegar de Florença um amigo meu muito dado à astrologia.

- Não me admira - interrompeu Henrique -, sei que é uma paixão florentina. - Reunido aos primeiros sábios do mundo, tirou ele os horóscopos de quase todos os grandes da Europa.

- Ah, sim? - disse Henrique.

- E como a Casa de Bourbon é a primeira das mais distintas, por isso que descende do conde de Clermont, quinto filho de S. Luís, bem vê que não havia de esquecer tirar-se o de Vossa Majestade.

Henrique prestou ainda mais atenção.

- E lembra-se desse horóscopo? - disse o rei de Navarra, sorrindo com afectada indiferença.

- Oh! - prosseguiu Renato, meneando a cabeça - o horóscopo de Vossa Majestade não é daqueles que se esquecem.

- Deveras? - disse Henrique, com um gesto irónico.

- Sim, meu Senhor; segundo os termos desse horóscopo, aguardam a Vossa Majestade os mais brilhantes destinos.

Os olhos brilhantes do mancebo relampejaram involuntariamente; mas o seu brilho apagouse quase ao mesmo tempo numa nuvem de indiferença.

- Todos os oráculos italianos são lisonjeiros - disse Henrique - e quem diz lisonjeiro, diz mentiroso. Não houve já quem predissesse que eu comandaria exércitos?.

E o príncipe desatou a rir.

Mas um observador menos ocupado dele do que estava Renato, teria percebido o esforço que Henrique fizera para rir assim.

- Meu Senhor - disse friamente Renato -, o horóscopo anuncia coisa melhor.

- Anuncia que hei-de ganhar batalhas à frente dum desses exércitos, não?

- Melhor do que isso, meu Senhor.

- Que tal! querem ver que hei-de ser conquistador?.

- Meu Senhor, Vossa Majestade há-de ser rei.

- E, com mil demónios! - disse Henrique, reprimindo uma violenta palpitação no peito - não o sou eu já?.

- Meu Senhor, o meu amigo sabe o que promete: não só Vossa Majestade será rei, mas há-de reinar.

- Então o seu amigo - disse Henrique, com o mesmo ar de zombaria - precisa de dez escudos de ouro, não é verdade, Renato? Uma tal profecia, principalmente em semelhantes tempos, tem direito a boa paga. Mas, Renato, como eu não sou rico, darei agora cinco escudos ao seu

amigo, e os outros cinco recebê-los-á quando a profecia se cumprir.

- Senhor - disse a Sr. de Sauve -, não se esqueça Vossa Majestade de que já contraiu um compromisso com Daríole, não se sobrecarregue de promessas.

- Mas, Senhora - disse Henrique -, conto que, chegado esse momento, hei-de poder tratar-me como rei, e que todos se darão por satisfeitos se eu cumprir metade do que tenho prometido.

- Meu Senhor - disse Renato -, eu continuo.

- Pois ainda não disse tudo? - observou Henrique. - Bem, se vier a ser imperador, darei o dobro.

- Meu Senhor, o meu amigo voltou de Florença com este horóscopo, renovou-o em Paris

com o mesmo resultado e confiou-me um segredo.

- Um segredo de interesse para Sua Majestade? - perguntou vivamente Carlota.

- Assim o creio - disse o florentino.

Está estudando as palavras - disse Henrique consigo, sem ajudar em nada a Renato - parece que a coisa é difícil de dizer.

- Então queira falar - prosseguiu com curiosidade a baronesa de Sauve. - De que se trata?

- Trata-se - disse o florentino, pesando todas as palavras uma por uma - de todos esses

boatos de envenenamentos que de certo tempo para cá têm ocorrido na corte.

Uma leve crispação de nariz foi o único indício da crescente atenção do rei de Navarra a essa

súbita digressão que a conversa tomava.

- E esse florentino seu amigo - disse Henrique - sabe alguma coisa desses envenenamentos?

- Sabe, sim, meu Senhor.

- E como é que me vem confiar um segredo de outrem, Renato, e segredo tão importante?

- disse Henrique, com o ar mais natural que pôde afectar.

- Este amigo tem um conselho a pedir a Vossa Majestade.

- A mim?

- E que admiração é essa, meu Senhor? Não se lembra Vossa Majestade desse veterano de Actium que, tendo uma demanda, pediu um conselho a Augusto?

- Augusto era letrado, Renato, e eu não.

- Meu Senhor, quando o meu amigo me confiou este segredo, Vossa Majestade era ainda

o primeiro chefe do partido calvinista, e o Sr. de Condé o segundo.

- E daí? - disse Henrique.

- Este amigo esperava que Vossa Majestade empenharia toda a sua influência com Sua Alteza

o Príncipe de Condé para lhe rogar que lhe não fosse hostil.

- Explique-se, Renato, se quer que o entenda - disse Henrique, sem mostrar a menor alteração no semblante ou na voz.

- Meu Senhor, uma só palavra bastará para que Vossa Majestade me entenda: este amigo sabe de todas as particularidades da tentativa que se fez para envenenar Sua Alteza o Príncipe de Condé.

- Pois quiseram envenenar o príncipe de Condé? - perguntou Henrique, simulando perfeita admiração. - Deveras? E quando foi isso?

Renato olhou fixamente para o rei, e respondeu estas únicas palavras:

- Há oito dias, meu Senhor.

- Algum inimigo? - perguntou o rei.

- Isso não - respondeu Renato -, um inimigo que Vossa Majestade conhece, e que conhece Vossa Majestade.

- Com efeito - disse Henrique -, parece-me que ouvi falar disso; mas ignoro os pormenores, os quais parece que o seu amigo me quer referir.

- Ofertaram um pêro de cheiro ao príncipe de Condé; mas, felizmente, o seu médico estava em casa dele quando lho trouxeram. Recebeu-o da mão do portador, e cheirou-o para lhe conhecer o aroma e a virtude. Dois dias depois, uma inchação gangrenosa do rosto, uma extravasação de sangue, uma chaga viva que lhe devorou a face, foram o preço da sua dedicação ou o resultado da sua imprudência.

- Desgraçadamente - respondeu Henrique -, sendo eu já semicatólico, perdi toda a influência no príncipe de Condé; o seu amigo faria portanto mal em dirigir-se a mim.

- Não era somente junto do príncipe de Condé que Vossa Majestade podia, pela sua influência, ser útil ao meu amigo, mas também junto do príncipe de Porcian, irmão do que foi envenenado.

- Ora, mestre René! - disse Carlota - as suas histórias parecem arranjadas para meter medo. Está requerendo fora de propósito. Já é tarde; a sua conversa é mortuária; os seus perfumes valem mais, certamente.

E Carlota tornou a estender a mão para a caixinha de opiato.

- Minha Senhora - disse Renato -, antes de experimentá-lo, deixe-me dizer-lhe os maus efeitos que os malévolos podem tirar dele.

- Decididamente, mestre Renato, está hoje muito fúnebre! - disse a baronesa. Henrique franziu o sobrolho, mas compreendeu que Renato queria ferir um alvo que se não tinha patenteado ainda, e resolveu levar a cabo essa conversação que lhe despertava tão dolorosas recordações.

- E - prosseguiu - sabe também os pormenores do envenenamento do príncipe de Porcian?

- Sei, sim, meu Senhor - respondeu Renato. - Sabia-se que ele costumava dormir tendo um lampeão aceso junto da cama; envenenaram o azeite e foi asfixiado pelo cheiro.

Henrique torcia as mãos enraivecido.

- Portanto - disse ele, com voz concentrada -, aquele a quem chama seu amigo sabe não só os pormenores desse envenenamento, mas até quem é o autor, não é assim?

- Exactamente, meu Senhor; e era por isso que ele queria saber se Vossa Majestade teria bastante influência no príncipe de Porcian para obter dele o perdão do assassino do irmão.

- Desgraçadamente - respondeu Henrique -, sendo eu ainda semi-huguenote, não tenho influência alguma no príncipe de Porcian; o seu amigo faria portanto mal em dirigir-se a mim.

- Mas o que julga Vossa Majestade das disposições de Suas Altezas os Príncipes de Condé e o de Porcian?

- Como posso eu conhecer as disposições em que eles estão, Renato? Deus não me concedeu (ao menos que eu saiba) o privilégio de ler nos corações.

- Vossa Majestade pode interrogar o seu próprio coração - disse o florentino com tranquilidade. - Não há na vida de Vossa Majestade algum acontecimento tão doloroso que seja uma pedra-de-toque para a generosidade?

Estas palavras foram pronunciadas com um acento que fez estremecer a própria baronesa: era uma alusão tão directa, tão sensível, que a dama se voltou para esconder a sua vermelhidão e para evitar o encontro dos olhos de Henrique.

Henrique fez um esforço supremo sobre si mesmo, amenizou o semblante, que, enquanto falara o florentino, se havia carregado de ameaças, e mudando em vaga meditação a nobre dor filial que Lhe apertara o coração, disse:

- Na minha vida, um acontecimento tenebroso?. não, Renato, não; da minha juventude só me lembram as loucuras e os desvarios, de mistura com as necessidades mais ou menos cruéis que a todos nos impõem os deveres da natureza ou as provas que Deus nos manda.

Renato constrangeu-se também, repartindo a sua atenção entre Henrique e Carlota, como para excitar um e reter outra; porquanto Carlota, pondo-se ao toucador para ocultar a inquietação que esta conversação lhe causava, estendera outra vez a mão para a caixinha do opiato.

- Mas, em suma, meu Senhor, se Vossa Majestade fosse irmão do príncipe de Porcian, ou filho do príncipe de Condé, e tivessem envenenado seu irmão, ou assassinado seu pai.

Carlota soltou um pequeno grito, e tornou a aproximar o opiato dos beiços. Renato viu o movimento, mas desta vez não o embaraçou nem com a palavra nem com o gesto; bradou porém:

- Em nome de Deus! responda, Senhor: se Vossa Majestade estivesse no lugar deles, que faria?

Henrique reconcentrou-se; com a mão trémula enxugou a testa, por onde lhe filtravam algumas gotas de suor frio, e pondo-se majestosamente de pé, respondeu no meio do silêncio que suspendia até a respiração de Renato e de Carlota:

- No lugar deles, e se eu tivesse a certeza de ser rei, isto é, de representar Deus na Terra, faria como Deus faz: perdoaria.

- Minha Senhora - disse Renato, arrebatando o opiato das mãos da Sr.a de Sauve -, dê-me essa caixinha; estou certo de que o meu caixeiro se enganou quando lha trouxe. Amanhã lhe mandarei outra.

 

                 UM NOVO CONVERTIDO

No dia seguinte devia haver grande caçada no bosque de S. Germano.

Henrique ordenara que lhe tivessem pronto para as oito horas da manhã, isto é, selado um pequeno cavalo de Béarn, que tencionava oferecer à Sr.a de Sauve, mas o qual desejava experimentar primeiro. Às oito horas menos um quarto estava o cavalo aparelhado; às oito horas em ponto, desceu Henrique.

O cavalo, soberbo e fogoso, apesar da sua pequena marca, ouriçava as crinas e campeava no pátio. O tempo estivera frio, e a geada cobria o chão.

Henrique dispôs-se a atravessar o pátio em direcção ao lado das cavalariças onde o esperavam o cavalo e o palafreneiro, quando, ao passar por diante dum soldado suíço, de sentinela à porta, esse soldado lhe apresentou a arma, dizendo:

- Guarde Deus Sua Majestade o Rei de Navarra!

A esta continência, e principalmente ao acento da voz, o Bearnês sobressaltou-se. Voltou-se, e deu um passo para trás.

- De Mouy! - disse ele baixinho.

- Sim, meu Senhor: de Mouy.

- Que veio fazer aqui?

- Procuro Vossa Majestade.

- Que me quer?

- Preciso falar a Vossa Majestade.

- Desgraçado! - disse o rei, aproximando-se dele - não sabes que arriscas a cabeça?

- Sei.

- E então?

- Então, estou aqui.

Henrique empalideceu um tanto, porque viu que partilhava esse risco a que o ardente mancebo se expunha. Lançou, pois, um olhar desconfiado em torno de si, e recuou outra vez com tanta vivacidade como da primeira.

Tinha visto o duque de Alençon a uma janela.

Mudando imediatamente de modo, Henrique tomou o mosquete da mão de de Mouy, posto, como dissemos, de sentinela, e fingindo examiná-lo, disse- lhe:

- Era preciso, decerto, um motivo bem forte para que o Sr. de Mouy viesse assim meter-se na boca do lobo.

- Não há dúvida. É por isso que há oito dias tenho feito todos os esforços para me encontrar com Vossa Majestade. Só ontem é que soube que Vossa Majestade tinha de experimentar um cavalo esta manhã, e então vim estacionar à porta do Louvre.

- Mas como pôde servir-se deste uniforme?

- O capitão da companhia é protestante e meu amigo.

- Tome o seu mosquete, continue a sentinela. Estão-nos vendo. Na volta farei por lhe dizer

uma palavra; mas se eu lhe não falar, não me faça parar. Adeus.

De Mouy continuou a passear como fazem as sentinelas, e Henrique dirigiu-se para onde

estava o cavalo.

- Que cavalinho é esse? - perguntou o duque de Alençon, da janela.

     - É um cavalo que vou experimentar.

- Mas isso não é cavalo para homem.

- Por isso o destino a uma formosa dama.

- Cautela, Henrique, não vá ser indiscreto, porque nós havemos de ver essa formosa dama na caçada; e se eu não souber de quem Vossa Majestade é cavalheiro, saberei ao menos de quem é escudeiro.

- Qual! não há-de sabê-lo - disse Henrique, com a sua afectada bonomia -, porque a dama a que me refiro está muito indisposta, e por isso não pode sair esta manhã.

E montou no cavalo.

- Ah! - disse d'Alençon rindo - pobre Sr a de Sauve!

- Francisco! Francisco! Vossa Alteza é que é indiscreto.

- Mas que tem a bela Carlota? - prosseguiu o duque de Alençon.

- Verdadeiramente, não sei - continuou Henrique, lançando o cavalo a meio galope, e fazendo-o descrever um círculo de picaria -, um grande peso na cabeça, segundo me disse

Daríole, uma espécie de abatimento... enfim, uma fraqueza geral.

- E isso privar-nos-á da companhia de Vossa Majestade? - perguntou o duque.

- E porquê? - disse Henrique - Vossa Alteza sabe que eu sou doido por caçadas, e que nada há que me possa fazer perder uma.

- Entretanto há-de perder esta, Henrique - observou o duque, depois de se ter voltado e de conversar um instante com alguém que ficara invisível para Henrique, visto que falava do

fundo da câmara -, porque Sua Majestade acaba de me mandar dizer que não pode realizar-se a caçada.

- Oh! - disse Henrique com ar muito contrariado. - E porquê?

- Parece-me que chegaram ofícios muito importantes do Sr. de Nevers. Há conselho entre

o rei, a rainha-mãe e meu irmão o duque de Anjou.

Ah! - disse Henrique consigo - chegariam notícias da Polónia?

E depois, em voz alta:

- Nesse caso - continuou ele -, é inútil que eu me arrisque mais tempo nesta geada. Até logo, mano.

E parando o cavalo defronte de de Mouy disse:

- Meu amigo, chama um dos teus camaradas para acabar a sentinela. Ajuda o palafreneiro a desaparelhar este cavalo, põe o selim à cabeça e leva-o à casa do ourives da selaria.

Tem que lhe pôr uma guarnição que não pode ficar pronta para hoje. Vem depois trazer-me a resposta.

De Mouy obedeceu imediatamente, porque o duque de Alençon tinha desaparecido da janela, e era evidente que concebera alguma suspeita:

E realmente, apenas ele voltara o passadiço, apareceu o duque de Alençon. Um verdadeiro suíço estava no lugar de de Mouy.

D'Alençon olhou com grande atenção para a nova sentinela, e voltando-se depois para Henrique, disse:

- Não era com esse homem que estava conversando há pouco, pois não, mano?

- O outro é um rapaz de minha Casa, a quem fiz assentar praça nos suíços; foi levar um recado que lhe dei.

- Ah! - disse o duque, como se se contentasse com esta resposta. - E Margarida, como está?

- Vou agora saber dela.

- Não a vê desde ontem?

- Não. Fui ao seu quarto esta noite por volta das onze horas, mas Gillonne disse-me que ela estava cansada e que já dormia.

- Agora não a encontrará nos seus aposentos; saiu.

- É possível - disse Henrique -, tinha que ir ao Convento da Anunciada. Não havia meio de levar a conversação mais longe. Henrique parecia unicamente decidido a responder.

Os dois cunhados separaram-se portanto: o duque de Alençon para ir saber as notícias, segundo disse; o rei de Navarra com direcção ao seu quarto.

Logo que os dois cunhados se separaram, bateram à porta do quarto de dormir de Henrique.

- Quem é? - perguntou ele.

- Meu Senhor - respondeu uma voz que Henrique conheceu pela de de Mouy -, trago a resposta do ourives da selaria.

Henrique, visivelmente perturbado, mandou entrar o mancebo e tornou a fechar a porta.

- É o senhor, de Mouy! - disse Henrique. - Eu esperava que reflectisse.

- Senhor - respondeu de Mouy -, há três meses que reflicto; já basta, devo agora mexer-me. Henrique fez um movimento de sobressalto.

- Não tema nada, Senhor. Estamos sós, e serei breve, porque os momentos são preciosos. Vossa Majestade pode, com uma só palavra, restituir-nos tudo quanto os acontecimentos do ano fizeram perder à causa da religião; sejamos claros, sejamos breves, sejamos francos. - Estou ouvindo, meu bravo de Mouy - respondeu Henrique, vendo que lhe era impossível evitar a explicação.

- É verdade ter Vossa Majestade abjurado a religião protestante?

- É verdade - disse Henrique.

- Bem, mas foi da boca para fora ou do coração?

- Ninguém deixa de se mostrar reconhecido a Deus, quando Ele nos salva a vida - respondeu Henrique, torcendo a questão, como fazia sempre em casos semelhantes -, e Deus salvou-me visivelmente do cruel perigo que corri.

- Senhor - tornou de Mouy -, confessemos uma coisa.

- Qual é?

- É que a sua abjuração não proveio da convicção, mas do cálculo. Vossa Majestade abjurou para que el-rei o deixasse viver, e não porque Deus lhe conservou a vida.

- Qualquer que seja a causa da minha conversão, de Mouy - respondeu Henrique -, não é menos certo que sou católico.

- Bem; mas sê-lo-á sempre? Se se oferecer uma ocasião, não a aproveitará para reassumir sua liberdade de existência e de consciência? Pois, Senhor, apresenta-se essa ocasião: a Arrochelle está levantada; o Rossilhão e o Béarn só esperam uma palavra para se mexerem; na Guiena só se ouvem gritos de guerra. Basta que Vossa Majestade me diga que o seu catolicismo é conveniente, é forçado, e eu respondo pelo futuro.

- Não se força um príncipe da minha estirpe, meu caro de Mouy: o que fiz foi com toda a liberdade.

- Mas, Senhor - disse o mancebo, com o coração oprimido por essa resistência com que não contava - Vossa Majestade não se lembra que, procedendo assim, abandona-nos. atraiçoa-nos?.

Henrique ficou impassível.      

- Sim - tornou de Mouy -, sim: Vossa Majestade atraiçoa-nos, porque muitos de nós viemos, com risco de vida, para salvar a honra e a liberdade de Vossa Majestade. Temos tudo preparado para lhe dar um trono, Senhor; ouve bem? não só a liberdade, mas o poder; um trono      sua escolha, porque dentro de dois meses Vossa Majestade poderá optar entre Navarra e a França. - De Mouy - disse Henrique, baixando os olhos, que a esta proposta tinham luzido, a seu pesar -, estou salvo, sou católico, sou esposo de Margarida sou irmão do rei Carlos, sou genro da minha boa mãe, a rainha Catarina. Pesando as responsabilidades destas diversas posições, de Mouy, calculei não só as vantagens que daí me provinham mas também as obrigações que assumia.

- Mas, Senhor - prosseguiu de Mouy -, em que é que se deve acreditar? Dizem-me que o casamento de Vossa Majestade não está consumado, dizem-me que Vossa Majestade é livre no fundo do coração, dizem-me que o rancor de Catarina...       - Mentira, mentira! - interrompeu vivamente o Bearnês. - Enganaram-no impudentemente, meu amigo. Essa querida Margarida é realmente minha mulher; Catarina é realmente minha mãe; el-rei Carlos IX é realmente senhor absoluto da minha vida e do meu coração.

De Mouy estremeceu; um sorriso quase desprezador lhe assomou aos lábios.   

- Portanto, Senhor - disse ele, deixando cair os braços com desanimo, e tentando sondar com os olhos a escuridão daquela alma - devo levar essa resposta aos meus irmãos. Dir-lhes- ei que o rei de Navarra estende a sua mão e dá o seu coração àqueles que nos degolaram, dir-lhes-ei

que ele se converteu em adulador da rainha-mãe e que é o amigo de Maurevel.     

- Meu caro de Mouy - disse Henrique -, o rei vai sair do conselho, e cumpre que me informe por ele das razões que o fizeram adiar objecto tão importante como uma caçada. Adeus. Permite-me, meu amigo: deixe a política, volte-se para o rei e ouça missa.

E Henrique reconduziu, ou, antes, empurrou até à antecâmara o mancebo, cujo pasmo começava a ceder o lugar ao terror. Apenas ele fechou a porta, não podendo resistir ao desejo de se vingar nalguma coisa, por falta de pessoa em quem o fizesse, entrou de Mouy a machucar o chapéu nas mãos; depois atirou-o ao chão e, pisando-o aos pés como o touro faz à capa do matador, bradou:

- Pela minha morte! nunca vi um príncipe tão miserável! Tinha gosto que me matassem aqui, a fim de o manchar para sempre com o meu sangue.     Mouy

- Silêncio, Sr. de Mouy! - disse uma voz que saía por uma porta entreaberta - silêncio! porque poderia outrem ouvi- lo. De Mouy voltou-se vivamente, e conheceu o duque de Alençon embuçado num capote, estendendo a cabeça para o corredor, a fim de se certificar se estava a sós com de Mouy.

- O Senhor Duque de Alençon! - exclamou de Mouy - estou perdido!    

- Pelo contrário - disse o príncipe a meia voz -, talvez mesmo que o Sr. de Mouy encontrasse o que procura; e a prova é que não quero que se deixe matar aqui, como parecia desejar. Acredite no que lhe digo: o seu sangue pode ser muito mais bem empregado do que em manchar o limiar do rei de Navarra.       E a estas palavras, o duque abriu de par em par a porta da câmara que até ali conservava cerrada.      

- Este quarto é de dois dos meus fidalgos - disse o duque -, ninguém virá estorvar-nos aqui; poderemos, portanto, conversar à vontade. Venha, Sr. de Mouy.

- Estou às ordens de Vossa Alteza - disse o conspirador, estupefacto.    

E entrou no quarto, cuja porta o duque de Alençon fechou com tanta rapidez como o tinha feito o rei de Navarra.      

De Mouy tinha entrado furioso e desesperado; mas, pouco a pouco, o olhar frio e fixo do

jovem duque Francisco fez sobre o capitão huguenote o efeito desse espelho encantado que desfaz a embriaguez.

- Senhor - disse ele -, se entendi bem, Vossa Alteza quer falar- me, não é assim?

- Quero, Sr. de Mouy - respondeu Francisco. - Apesar do seu disfarce, julguei conhecê-lo; e quando apresentou armas a meu irmão Henrique, conheci-o perfeitamente. Que é isso

então, de Mouy? Não está contente com o rei de Navarra?

- Senhor!.

- Vamos, fale afoitamente. Talvez não suponha que sou seu amigo.

- Vossa Alteza, Senhor?

- Sim, eu. Fale pois.

- Eu não sei o que hei-de dizer a Vossa Alteza. As coisas em que eu tinha a ocupar o rei de Navarra dizem respeito a interesses que Vossa Alteza não poderia compreender. Demais - acrescentou de Mouy com um ar que procurou tornar indiferente - tratava-se de bagatelas.

- De bagatelas? - observou o duque.

- Sim senhor.

- De bagatelas pelas quais o senhor julgou que devia expor a sua vida tornando ao Louvre,

onde sabe que a sua cabeça vale tanto ouro quanto pesa? Porque ninguém ignora, creia no que lhe digo, que o senhor é, com o rei de Navarra e o príncipe de Condé, um dos principais chefes dos huguenotes.

- Se Vossa Alteza está certo disso, Senhor, proceda comigo como deve fazê-lo o irmão do rei

Carlos, o filho da rainha Catarina.

- Porque quer que eu proceda assim, quando já lhe disse que era seu amig? Diga-me portanto a verdade.

- Senhor - disse de Mouy -, juro-lhe...

- Não jure, Senhor: a religião reformada proíbe que se façam juramentos, e principalmente falsos.

De Mouy franziu a testa.

- Digo-lhe que sei tudo - tornou o duque.

De Mouy continuou a calar-se.

- Duvida? - continuou o príncipe, com afectuosa insistência. - Bem, meu caro de

Mouy, é mister convencê-lo. Verá se me engano. Ofereceu ou não a meu cunhado Henrique,

e ainda há pouco (o duque apontou na direcção do quarto do Bearnês), o seu auxílio e o dos

seus partidários para o fazer reassumir o trono de Navarra?...

De Mouy olhou perturbado para o duque de Alençon.

- Propostas que ele recusou com terror, não foi assim?

De Mouy ficou pasmado.

- O senhor não invocou então a sua antiga amizade, a lembrança da religião comum?.

Não lisonjeou mesmo o rei de Navarra com uma esperança brilhante, tão brilhante que ele mesmo ficou deslumbrado, com a esperança de alcançar até a coroa de França? Diga lá, não estou bem informado? Foi isto que veio propor ao Bearnês, ou não?

- Senhor - disse de Mouy -, tanto isso é assim, que eu pergunto neste momento a mim mesmo se não devo dizer a Vossa Alteza que mente, provocar neste quarto um combate desapiedado e assegurar assim, pela morte de um de nós, a extinção deste terrível segredo!

- Devagar, meu bravo de Mouy, devagar! - disse o duque de Alençon sem mudar de parecer, sem fazer mesmo o menor movimento, ao ouvir essa terrível ameaça. - O segredo distinguir-se-á melhor vivendo ambos do que morrendo um de nós. Ouça-me, e não continue a atormentar assim o punho da sua espada; pela terceira vez lhe digo que está com um amigo.

Responda portanto como faria a um amigo. O rei de Navarra não recusou tudo quanto o senhor lhe ofereceu?

- Sim senhor; e confesso-o, porque esta confissão só me pode comprometer a mim.

- E o senhor, ao sair do quarto, não exclamou, pisando aos pés o chapéu, que ele era um príncipe cobarde e indigno de continuar a ser chefe do seu partido?

- É verdade, Senhor, disse isso.

- Ah! é verdade... Confessa-o, finalmente?

- Confesso.

- E é ainda do mesmo parecer?

- Mais do que nunca, Senhor.

- E então eu, Sr. de Mouy, eu, terceiro filho de Henrique II, eu, Filho de França, não serei capaz de mandar os soldados do seu partido, Sr. de Mouy? Responda. E julga que sou bastante leal para que esse partido possa confiar na minha palavra?

- Vossa Alteza, Senhor? Vossa Alteza, chefe dos huguenotes?

- E porque não? É a época das conversões, bem o sabe; Henrique fez-se católico, eu posso fazer-me protestante.

- Decerto, Senhor; espero pois que me explique...

- Nada mais simples, e vou dizer-lhe em duas palavras a política de nós todos. Meu irmão

Carlos mata os huguenotes para reinar mais à sua vontade. Meu irmão de Anjou deixa-os matar, porque tem de suceder a meu irmão Carlos, e porque, como o senhor sabe, meu irmão adoece

repetidas vezes. Mas eu... a meu respeito há muita diferença: eu, que nunca hei-de reinar em França, pelo menos, visto que tenho dois irmãos mais velhos antes de mim; eu, a quem o ódio de minha mãe e de meus irmãos, mais ainda do que a lei da natureza, afasta do trono; eu, que não devo ter pretensões a nenhuma afeição de família, a nenhuma glória, a nenhum reino; eu, que no entanto tenho um coração tão nobre como meus dois irmãos mais velhos, quero ver se com a minha espada talho para mim um reino... nesta França que eles alagam de sangue.

Ora aqui está o que eu quero, de Mouy; ouça:

Quero ser rei de Navarra, não pelo nascimento, mas por eleição. E note que não tem nenhuma objecção a fazer a isto, porque eu não sou um usurpador; uma vez que meu irmão recusou os seus oferecimentos, de Mouy, e se sepulta no torpor, reconhece claramente que esse reino de Navarra não é mais do que uma ficção. Com Henrique de Béarn, de Mouy, os seus partidários

não têm mais nada; comigo, têm uma espada e um nome. Francisco de Alençon, filho de França, acoberta todos os seus cúmplices, como lhes quiser chamar. Então, que diz deste oferecimento,

Sr. de Mouy?

- Digo que me deslumbra, Senhor.

- De Mouy, de Mouy, havemos de ter muitos obstáculos que superar. Não se mostre, pois,

de princípio, tão exigente e tão difícil para com um filho de rei e um irmão de rei que se lhe apresentar.

- Senhor, tudo ficaria já terminado se eu fosse o único de quem dependesse a sustentação das minhas ideias; mas nós temos um conselho e, por brilhante que seja a oferta, talvez mesmo por esta causa, os chefes do partido não adiram a ela sem algumas condições.

- Isso é outra coisa; e a resposta é própria dum coração honesto e dum espírito prudente.

Pela maneira com que até aqui tenho procedido, de Mouy, deve ter reconhecido a minha integridade. Trate-me, pois, da sua parte como homem a quem se estima, e não como príncipe a quem se lisonjeia. Haverá algumas probabilidades a meu favor, de Mouy?

- Dou-lhe a minha palavra, Senhor, pois que Vossa Alteza quer ouvir o meu parecer; Vossa

Alteza tem-nas todas desde que o rei de Navarra rejeitou o oferecimento que vim fazer-lhe. Mas

repito-lhe, Senhor, que me é indispensável combinar com os chefes.

- Faça o que entender - respondeu de Alençon -, mas quando me dá a resposta?      

De Mouy olhou silencioso para o príncipe. Parecendo depois tomar uma resolução, disse:   

- Senhor dê-me a sua mão. Preciso de que a mão dum filho de França aperte a minha para ficar certo de que não serei atraiçoado.      

O duque não só estendeu a mão para de Mouy, mas pegou na dele e apertou-a.

- Agora, Senhor, estou tranquilo - disse o mancebo huguenote. - Se formos traídos, dirá que Vossa Alteza não concorrera para isso de forma alguma; sem o que, por pouco que Vossa Alteza entrasse nessa traição, ficaria desonrado.

- E porque me diz isso, de Mouy antes de me dizer quando me dá a resposta dos seus chefes?

- Porque, Senhor, perguntando-me quando lhe dou a resposta, pergunta-me ao mesmo tempo onde estão os chefes; e porque, se eu lhe digo esta noite, Vossa Alteza saberá que os chefes estão em Paris, e que se ocultam na cidade.

Dizendo estas palavras com um gesto de desconfiança, de Mouy fixava os olhos penetrantes no olhar falso e vacilante do príncipe.

- Vamos, vamos, Sr. de Mouy, ainda está receoso. Mas eu não posso exigir imediatamente

do senhor uma confiança plena. Conhecer-me-á mais tarde. Nós vamos ficar ligados por uma comunidade de interesses que o livrará de toda a suspeita. Diz então que esta noite, Sr. De Mouy?...

- Sim senhor, porque o tempo urge. Esta noite. Mas queira dizer-me onde.

- No Louvre, aqui, neste quarto; está por isso?

- Este quarto é habitado? - disse de Mouy mostrando com os olhos as duas camas que ali estavam fronteiras uma da outra.      

- É, por dois dos meus fidalgos.

- Senhor, parece-me que é imprudência voltar eu ao Louvre.       - E porquê?

- Porque se Vossa Alteza me conheceu, podem outros ter tão bons olhos e conhecerem- me também. Não obstante, virei ao Louvre, se Vossa Alteza me conceder o que vou pedir-lhe.

- O quê?

- Um salvo- conduto.   

- De Mouy - respondeu o duque -, um salvo-conduto passado por mim, encontrado nas suas mãos à noite, perde-me e não o salva.     

Eu não posso servi-lo em coisa alguma senão com a condição de que seremos, à vista de quem quer que seja, estranhos um para o outro. A menor relação de     minha parte com o senhor, provada a minha mãe ou a meus irmãos, custar-me- ia a vida. O senhor está pois acobertado pelo meu próprio interesse, desde o momento em que eu me tiver comprometido com os outros como me comprometo com o senhor neste momento. Livre, na minha     esfera de acção, forte, sendo desconhecido, enquanto me conservar impenetrável, garanto  a todos; não se esqueça disto. Faça, pois, um último apelo ao seu valor; tente sob a minha palavra o que tentava sem a palavra de meu irmão. Venha esta noite ao Louvre.

- Mas como quer que eu aqui venha? Com este trajo não devo arriscar-me a vir aos seus aposentos. Isto só serve para os vestíbulos ou para os pátios. Com o meu trajo próprio, é ainda mais perigoso, pois que todos me conhecem aqui, e não me disfarça em nada.

- Eu também estou vendo... Sim, ei-lo ali.

O duque tinha realmente corrido todo o quarto com os olhos, e estes fixaram-se no vestuário rico de La Mole, vestuário que nesta ocasião estava estendido em cima da cama, e que consistia numa capa magnífica, cor de cereja, bordada a ouro, e num gorro com pluma branca guarnecida de margaridas de ouro e prata entremeadas e, finalmente, num gibão de cetim de alvadia e ouro.

- Vê esta capa, este gorro e este gibão? - disse o duque - pertencem ao Sr. de La Mole, um dos meus fidalgos, um casquilho do melhor gosto. Este trajo tem dado brado na corte, e conhece-se o Sr. de La Mole a cem passos quando o traz. Vou dar-lhe a morada do alfaiate que lho fez; pagando-lhe o dobro do custo, pode ter outro igual esta noite. O nome do fidalgo é La Mole, não se esqueça.

Mas apenas o duque de Alençon acabava a recomendação, ouviu-se um rumor de passos, que se aproximavam no corredor, e o ranger duma chave na fechadura.

- Quem vem aí? - bradou o duque, correndo à porta e fechando-a com o ferrolho.

- Que tal é esta, hem? - respondeu uma voz da parte de fora - a pergunta é singular! Quem está aí, pergunto eu também. Deveras, isto é galante: quando quero entrar em minha casa, pergunta-se-me quem está aí!.

- É o Sr. de La Mole?

- E quem, senão eu? Mas o senhor, quem é?

Enquanto La Mole exprimia a sua admiração por achar o seu quarto habitado, e procurava descobrir quem era o novo hóspede, voltava-se rapidamente o duque de Alençon, tendo uma das mãos no ferrolho e outra na fechadura.

- Conhece o Sr. de La Mole? - perguntou ele a de Mouy.

- Não senhor.

- E ele conhece-o?

-Julgo que não.

- Então tudo vai bem; demais, faça que está olhando pela janela.

De Mouy obedeceu sem responder, porque La Mole começava a impacientar-se e batia com toda a força.

O duque de Alençon olhou ainda uma vez para de Mouy e, vendo que estava de costas voltadas, abriu.

- O Senhor Duque! - exclamou La Mole, recuando de surpresa. - Desculpe- me, Senhor Duque, desculpe-me!

- Não é nada. Precisei do seu quarto para falar com uma pessoa.

- Essa é boa! Vossa Alteza é o dono da casa, disponha dela. Digne-se, porém, permitir-me que leve a minha capa e o meu chapéu, que estão em cima da cama, porque perdi os que trazia esta noite no Cais da Greve.

- Realmente, Senhor - disse o príncipe sorrindo e dando pela sua mão a La Mole o que ele pedia -, está bem mal-alinhado! Parece que teve de haver-se com ladrões bem teimosos. La Mole recebeu da mão do duque a capa e o gorro, saudou-o e saiu para mudar de roupa na antecâmara, não lhe importando o que o duque fazia no seu quarto, porque era costume no Louvre serem os aposentos dos fidalgos uma espécie de hospedaria para os príncipes a quem estavam ligados, e dos quais eles se serviam para toda a espécie de enredos.

De Mouy aproximou-se então do duque, e ambos se puseram à escuta para saberem quando La Mole acabava e saía; mas logo que este mudou de fato, foi o próprio que lhes tirou o trabalho, porque se aproximou da porta e disse:

- Perdoe-me, Senhor Duque: Vossa Alteza não encontrou o conde de Cocunás? - Não, Senhor Conde; e entretanto ele devia estar de serviço esta manhã.

Então assassinaram-no" disse La Mole, falando consigo e afastando-se.

O duque pôs-se a escutar o rumor dos passos, que ia enfraquecendo sucessivamente; e depois, abrindo a porta e puxando de Mouy para si:

- Veja-o andar - disse ele -, e trate de imitar aquele ar inimitável.

- Fá-lo-ei o melhor que puder; infelizmente não sou um donzel, mas um soldado.

- Em todo o caso, espero-o antes da meia-noite neste corredor. Se o quarto dos meus fidalgos estiver desembaraçado, recebê-lo-ei nele; se não estiver, acharemos outro.

- Sim senhor.

- Portanto, até logo, antes da meia-noite.

- Até logo, antes da meia-noite.

- Olhe cá, de Mouy, não se esqueça de balançar bem o braço direito quando andar; é um costume particular que tem o Sr. de La Mole.

 

       A RUA TIZON E A RUA DO SINO RACHADO

La Mole saiu do Louvre a correr, e pôs-se a esquadrinhar Paris para dar com o pobre Cocunaz. Primeiro que tudo foi à casa de mestre La Hurière, na Rua da Árvore Seca, porquanto lembrava-se de ter ouvido o piemontês citar um adágio latino que tendia a provar que o Amor, Baco e Ceres são deuses de primeira necessidade, e tinha esperança de que Cocunás, para seguir o aforismo romano, se houvesse instalado na Estrela Brilhante, depois duma noite que devia ter sido para o seu amigo não menos tempestuosa do que fora para si.

La Mole não encontrou nada em casa de La Hurière, além da lembrança da obrigação, e um almoço oferecido com muito agrado, que o nosso fidalgo aceitou com grande apetite, apesar do seu desassossego.

Recobrada a tranquilidade do estômago, na ausência da do espírito, La Mole pôs-se outra vez a caminho, subindo o Sena, como aquele marido que procurava a mulher afogada. Chegando ao Cais da Greve, conheceu o lugar onde, como tinha dito ao Sr. de Alençon, lhe haviam embargado o passo no seu passeio nocturno, três ou quatro horas antes, o que não era raro num Paris vinte anos menos velho do que aquele em que Boileau acordava ao som duma bala que lhe furava a janela. Ficara-lhe no campo da batalha um bocadinho de pluma do chapéu. Ora o sentimento da posse é inato no homem. La Mole tinha dez plumas, qual delas a mais bela; mas nem por isso deixou de apanhar aquela, ou antes, o último fragmento que sobrevivera, e considerava-o com ar piedoso, quando ouviu soar pesados passos que se aproximavam dele, e vozes brutais que mandavam arredar. Levantou a cabeça e viu uma liteira precedida por dois pajens e acompanhada por um escudeiro.

La Mole julgou conhecer a liteira e arredou-se vivamente.

O fidalgo não se tinha enganado.

- O Sr. de La Mole? - disse uma voz doce que saía da carruagem, enquanto uma alva mão, macia como o cetim, abria as cortinas.

- Sim, minha Senhora, eu mesmo - respondeu La Mole inclinando-se.

- O Sr. de La Mole com uma pluma na mão. - continuou a senhora da liteira - está porventura enamorado, meu caro Senhor, e achou aqui alguns vestígios perdidos?.

- Sim, minha Senhora - respondeu La Mole -, estou enamorado, e muito; mas nesta ocasião são os meus próprios vestígios que encontro, posto que não seja isto o que procuro; Vossa Majestade permitir-me-á, porém, que lhe peça novas da sua saúde?

- excelente, muito obrigada; parece-me que nunca estive melhor; sucede isto provavelmente porque passei esta noite em retiro.

- Ah! em retiro - disse La Mole, olhando para Margarida dum modo estranho.

- E então, de que se admira? Sim senhor, em retiro.

- E poderei, sem ser indiscreto, perguntar-lhe em que convento?

- E porque não, Senhor? Não faço mistério disso. No Convento das Anunciadas. Mas que faz o senhor aqui, com esse ar todo espantado?

- Minha Senhora, procuro o meu amigo, que desapareceu; e andando a procurá-lo, achei esta pluma.

- Que é dele, não? Mas assusta-me deveras com respeito ao seu amigo; o sítio é mau.  

- Tranquilize-se Vossa Majestade; a pluma é minha, perdida por volta das cinco horas e meia nesta praça, fugindo das mãos de quatro malvados que me queriam assassinar a todo o custo,      ao menos pelo que me pareceu.

Margarida reprimiu um vivo movimento de terror.

- Oh! conte-me isso - disse ela.

- Nada mais simples, minha Senhora. Eram, como já tive a honra de dizer a Vossa Majestade, cinco horas da manhã, pouco mais ou menos...

- Pois às cinco horas da manhã já tinha saído? - interrompeu Margarida.

- Perdoe-me Vossa Majestade: ainda não tinha recolhido.

- Oh, Sr. de La Mole! recolher-se às cinco horas da manhã!... - disse Margarida, com um sorriso que para todos era malicioso, e que La Mole teve a fatuidade de achar adorável - recolher-se tão tarde! Merece esse castigo.

- Nem eu me queixo, minha Senhora - disse La Mole, inclinando-se respeitosamente. - Ainda que fosse estripado, reputar-me-ia cem vezes mais feliz do que mereço. Mas, enfim: recolher-me tarde ou cedo, como Vossa Majestade quiser, quando quatro sicários desembocaram da Rua da Mortellerie e me atacaram com espadões de desmesurado comprimento. É grotesco, não lhe parece, minha Senhora? Mas, enfim, é como lhe estou dizendo. Tive de fugir, porque me esquecera a espada na casa onde passei a noite.

- Ah! entendo - disse Margarida, com ar de admirável singeleza - e vai agora procurar a espada?

La Mole olhou para Margarida, como quem lhe passava uma suspeita pela ideia.

- Hei-de ir procurá-la decerto, e até de muito boa vontade, porque a minha espada é uma excelente folha, mas não sei onde é a casa.

- Como é isso, Senhor? Pois não sabe onde é a casa em que passou a noite?

- Não, minha Senhora; e leve-me a breca se suspeito mesmo onde seja.

- Isso é que é singular! A sua história é um perfeito romance. - E decerto, minha Senhora, é completo.

- Então conte-ma.

- É um tanto extensa...

- Não faz mal. Tenho tempo.

- E principalmente muito difícil de acreditar-se.

- Conte sempre, não há ninguém mais crédula do que eu.

- Vossa Majestade manda?...

- Se é preciso, mando.

- Obedeço. Ontem à noite, estando eu a cear com o meu amigo em casa do mestre La Hurrièr.

- Primeiro que tudo, quem é esse mestre La Hurière? - perguntou Margarida, com um ar perfeitamente natural.

- Mestre La Hurière, minha Senhora - disse La Mole, olhando segunda vez para Margarida com esse ar de desconfiança que já se lhe notara -, é o dono da hospedaria Estrela Brilhante

na Rua da Árvore Seca.

- Bem. Vejo-a daqui. Então ceava em casa de mestre La Hurière, sem dúvida com o seu amigo...

- Sim, minha Senhora, com o meu amigo Cocunás, quando entrou um homem que entregou a cada um de nós um bilhete.

- Ambos iguais?

- Exactamente iguais.

- E que continham?

- Esta linha unicamente:

Esperam-no na Rua de Santo António, defronte da Rua de Jouy.

- E não tinham assinatura alguma?

- Nenhuma; mas três palavras, três palavras encantadoras, que prometiam três vezes a mesma coisa, isto é, uma tríplice felicidade.

- E que palavras eram?

- Eros-Cupido Amor.

- Realmente, são três nomes doces; e cumpriram o que prometiam?

- Oh! mais, minha Senhora! cem vezes mais! - exclamou La Mole com entusiasmo.

- Continue; tenho curiosidade de saber o que é que os esperava na Rua de Santo António, em frente da Rua de Jouy.

- Duas medianeiras, cada uma com o seu lenço na mão para nos vendar os olhos. Vossa Majestade bem há-de supor que nos não opusemos a isso. Estendemos o pescoço denodadamente. A minha guia fez-me voltar para a esquerda, a do meu amigo fê-lo voltar para a direita, e separámo-nos.

- E depois? - continuou Margarida, que parecia decidida a levar a investigação até ao fim.

- Não sei - prosseguiu La Mole - aonde a guia do meu amigo o conduziu. Para o Inferno talvez. Quanto a mim, o que sei é que a minha me levou a um lugar que eu tenho pelo Paraíso.

- E donde o baniu, talvez, a sua demasiada curiosidade, não?