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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TORMENTA DE ESPADAS / R. R. Martin, George
A TORMENTA DE ESPADAS / R. R. Martin, George

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

O dia estava cinzento e amargamente frio, e os cães não sentiam cheiro.

A grande cadela preta, que uma vez farejara os rastros do urso, recuou e se escondeu no meio da matilha com o rabo entre as pernas. Os cães aninhavam-se juntos uns dos outros, com um ar infeliz, na margem do rio, enquanto o vento batia neles. Chett também o sentia morder através das camadas de lã negra e couro fervido. O frio era excessivo para homens ou animais, mas ali estavam eles. Sua boca retorceu-se e ele quase conseguiu sentir o rubor e a irritação invadindo as pústulas que lhe cobriam as bochechas e o pescoço. Eu devia estar em segurança na Muralha, tratando dos malditos corvos e acendendo fogos para o velho Meistre Aemon. Tinha sido o bastardo Jon Snow que lhe roubara isso, ele e Sam Tarly, seu amigo gordo. Era por culpa deles que estava ali, congelando as malditas bolas com uma matilha de cães de caça, nas profundezas da floresta assombrada.

 

 

 

 

- Sete infernos. - Deu um forte puxão nas trelas para conseguir a atenção dos cães. - Sigam o rastro, seus idiotas. Aquilo é uma pegada de urso. Querem um pouco de carne ou não? Encontrem! - Mas os cães limitaram-se a se aconchegar mais, ganindo. Chett estalou seu chicote curto por cima da cabeça dos animais, e a cadela preta rosnou para ele. - Carne de cão tem um gosto tão bom quanto a de urso - preveniu-a, com o hálito congelando a cada palavra.

Lark, o homem das Irmãs, estava em pé, com os braços cruzados sobre o peito e as mãos enfiadas sob as axilas. Usava luvas negras de lã, mas andava sempre se queixando de estar com os dedos gelados.

- Tá frio demais pra caçar - disse. - Que se dane esse urso, não vale o suficiente pra congelarmos.

- Não podemos voltar de mãos vazias, Lark - ribombou o Paul Pequeno através da barba escura que cobria a maior parte de seu rosto. - O Senhor Comandante não ia gostar disso - havia gelo por baixo do largo nariz do enorme homem, onde o ranho congelara. Uma mão gigantesca metida numa espessa luva de peles agarrava com força o cabo de uma lança.

- Que se dane também o Velho Urso - disse o homem das Irmãs, um homem magro com feições bem definidas e olhos nervosos. - O Mormont vai tá morto antes de nascer o dia, esqueceu? Quem se importa com aquilo de que ele gosta?

Paul Pequeno piscou seus miúdos olhos pretos. Talvez tivesse esquecido, pensou Chett; era suficientemente burro para esquecer de quase qualquer coisa.

- Por que é que temos de matar o Velho Urso? Por que simplesmente não vamos embora e deixamos o cara em paz?

- E você acha que ele ia nos deixar em paz? - perguntou Lark. - Ele ia sair caçando a gente. Quer ser caçado, cabeção?

- Não - respondeu Paul Pequeno. - Não quero isso. Não quero.

- Então vai matar o homem? - disse Lark.

- Sim. - O enorme homem bateu na margem congelada do rio com o cabo da lança. - Vou. Ele não devia caçar a gente.

O homem das Irmãs tirou as mãos que estavam sob as axilas e virou-se para Chett.

- Acho que devíamos matar todos os oficiais.

Chett estava farto de ouvir aquilo.

- Já falamos sobre isso. O Velho Urso morre e o Blane, da Torre Sombria, também. Grubbs e Aethan também, má sorte a deles por terem ficado com esse turno. Dywen e Bannen por serem bons batedores, e Sor Porquinho por causa dos corvos. É tudo. Matamos os caras em silêncio, enquanto dormem. Um grito, e viramos comida para vermes, todos nós. - Suas pústulas estavam vermelhas de raiva. - Faça a sua parte e trate de que seus primos façam a deles. E, Paul, tente se lembrar, é o terceiro turno, não o segundo.

- Terceiro turno - disse o grande homem, através de pelos e ranho congelado. - Eu e o Pé-Leve. Eu me lembro, Chett.

A lua estaria nova naquela noite, e manipularam os turnos para terem oito dos seus de sentinela, com mais dois guardando os cavalos. As coisas não iam ficar muito melhores do que aquilo. Além disso, os selvagens estariam ali a qualquer momento. Chett pretendia encontrar-se bem longe do Punho antes que isso acontecesse. Pretendia sobreviver.

Trezentos irmãos juramentados da Patrulha da Noite tinham avançado para o norte, duzentos de Castelo Negro e mais cem da Torre Sombria. Era o maior grupamento de que havia registro, quase um terço das forças da Patrulha. Queriam encontrar Ben Stark, Sor Waymar Royce e os outros patrulheiros que tinham desaparecido, e descobrir por que os selvagens andavam abandonando suas aldeias. Bom, não estavam mais perto do Stark e do Royce do que logo após partirem da Muralha, mas descobriram o local para onde todos os selvagens haviam ido - as alturas geladas das miseráveis Presas de Gelo. Podiam ficar agachados ali até o fim dos tempos, que isso não cutucava nem um pouquinho os furúnculos de Chett.

Mas não. Vinham descendo. Pelo Guadeleite.

Chett ergueu os olhos e ali estava ele. As margens pedregosas do rio encontravam-se debruadas de gelo, e suas águas claras e leitosas fluíam sem parar das Presas de Gelo. E agora Mance Rayder e seus selvagens se aproximavam, seguindo pelo mesmo caminho. Thoren Smallwood havia retornado em estado de alerta três dias antes. Enquanto contava ao Velho Urso o que seus batedores tinham visto, um de seus homens, Kedge Whiteye, contava aos outros.

- Ainda estão bem alto nas Presas de Gelo, mas vêm aí - Kedge afirmou, aquecendo as mãos sobre a fogueira. - Harma Cabeça-de-Cão, aquela vadia purulenta, tem a vanguarda. Goady esgueirou-se até o acampamento dela e viu-a bem junto ao fogo. Aquele idiota do Tumberjon queria abatê-la com uma flecha, mas Smallwood teve mais juízo.

Chett escarrou.

- Quantos eram, você conseguiu ver?

- Muitos e muitos mais. Vinte, trinta mil, não ficamos para contar. Harma tinha quinhentos na vanguarda, todos eles a cavalo.

Os homens que rodeavam a fogueira trocaram olhares receosos. Era coisa rara encontrar sequer uma dúzia de selvagens a cavalo, quinhentos então.

- Smallwood mandou que eu e o Bannen rodeássemos a vanguarda para dar uma espiada no grupo principal - prosseguiu Kedge. - Não tinha fim. Movem-se devagar como um rio congelado, cerca de oito quilômetros por dia, mas também não dão sinal de quererem voltar às suas aldeias. Mais da metade são mulheres e crianças, e levam os animais com eles, cabras, ovelhas, até auroques arrastando trenós. Estão carregados com fardos de pele e pilhas de carne, gaiolas de galinhas, vasilhas para manteiga e rocas, todas as porcarias que possuem. As mulas e garranos vinham tão carregados que parecia que iam ter o dorso quebrado. As mulheres também.

- E seguem o Guadeleite? - perguntou Lark, o homem das Irmãs.

- Foi o que eu disse, não foi?

O Guadeleite ia levá-los para o Punho dos Primeiros Homens, o antigo forte anelar onde a Patrulha da Noite montara acampamento. Qualquer homem com um pingo de bom senso via que era hora de empacotar a tralha e voltar para a Muralha. O Velho Urso tinha fortalecido o Punho com espigões, fossos e estrepes, mas, contra uma tropa tão grande, tudo isso era inútil. Se ficassem ali, seriam subjugados e esmagados.

E Thoren Smallwood queria atacar. O Doce Donnel Hill era escudeiro de Sor Mallador Locke e, duas noites antes, Smallwood viera à tenda de Locke. Sor Mallador era da mesma opinião do velho Sor Ottyn Wythers, que insistia em uma retirada para a Muralha, mas Smallwood queria convencê-lo do contrário.

- Esse Rei-para-lá-da-Muralha nunca nos esperará tão longe para o norte - ele dissera, segundo o Doce Donnel. - E essa sua grande tropa é desajeitada, cheia de bocas inúteis que não saberão de que lado da espada se pega. Um golpe vai tirar deles toda a vontade de lutar e botá-los em fuga, aos uivos, de volta às suas cabanas pelos próximos cinquenta anos.

Trezentos contra trinta mil. Chett chamava isso de uma completa loucura, e o que era ainda mais insano era que Sor Mallador fora convencido, e os dois, juntos, estavam a ponto de fazer o Velho Urso mudar de ideia.

- Se esperarmos demais, essa oportunidade poderá ser perdida, e para sempre - Smallwood andava dizendo a quem quer que o quisesse ouvir.

Contra isso, Sor Ottyn Wythers disse:

- Somos o escudo que defende os reinos dos homens. Não se joga fora um escudo sem bons motivos.

A essa afirmação, Thoren Smallwood retrucou:

- Num duelo de espadas, a mais segura defesa de um homem é o rápido ataque que mata o inimigo, não aninhar-se com medo atrás de um escudo.

Mas nem Smallwood nem Wythers tinham o comando. Quem o tinha era Lorde Mormont, e Mormont estava à espera de seus outros batedores, à espera de Jarmen Buckwell e dos homens que tinham escalado a Escada do Gigante, e de Qhorin Meia-Mão e Jon Snow, que tinham ido bater o Passo dos Guinchos. Mas a volta de Buckwell e do Meia-Mão estava atrasada. O mais certo é estarem mortos. Chett imaginou Jon Snow jazendo, azul e congelado, em algum cume gélido, com a lança de um selvagem enfiada naquele cu de bastardo. Essa ideia fez com que sorrisse. Espero que também tenham matado seu maldito lobo.

- Aqui não há urso nenhum - decidiu abruptamente. - Não passa de uma velha pegada. De volta ao Punho. - Os cães quase o derrubaram no chão, tão ansiosos por retornar como ele. Talvez pensassem que iam ser alimentados. Chett não conseguiu evitar uma gargalhada. Já não os alimentava havia três dias, para deixá-los ferozes e famintos. Naquela noite, antes de desaparecer na escuridão, iria libertá-los no meio das fileiras de cavalos, depois de o Doce Donnel Hill e o Karl Pé-Torto cortarem as cordas que os prendiam. Vai haver cães latindo e cavalos em pânico por todo o Punho, atravessando fogueiras em corrida, saltando por cima da muralha e derrubando tendas ao chão. Com toda a confusão, podiam se passar horas até que alguém reparasse que catorze irmãos tinham desaparecido.

Lark quisera reunir o dobro desse número, mas o que se podia esperar de um homem burro das Irmãs com a boca fedendo a peixe? Bastava murmurar uma palavra no ouvido errado para, antes de se dar conta, acabar sem a cabeça. Não, catorze era um bom número, homens suficientes para fazer o que tinha de ser feito, mas não tantos que não fossem capazes de manter segredo. Chett havia recrutado pessoalmente a maioria. Paul Pequeno era um dos seus; o homem mais forte da Muralha, mesmo que tivesse raciocínio mais lento do que o de um caracol morto. Certa vez, quebrou as costas de um selvagem com um abraço. Também tinham o Adaga, assim chamado devido à sua arma preferida, e o pequeno homem grisalho que os irmãos chamavam de Pé-Leve, que estuprara uma centena de mulheres na juventude e agora gostava de se gabar de que nenhuma delas o viu ou ouviu até que enfiasse o pau nelas.

O plano era de Chett. Era o mais inteligente; além de ter sido intendente do velho Meistre Aemon durante quatro bons anos até aquele bastardo do Jon Snow tramar para que seu trabalho fosse entregue ao porco gordo do amigo dele. Quando matasse Sam Tarly naquela noite, planejava murmurar ao seu ouvido: "Cumprimentos ao Lorde Snow", antes de abrir a goela do Sor Porquinho e deixar que o sangue saísse borbulhando de todas aquelas camadas de sebo. Chett conhecia os corvos, portanto não teria aí nenhum problema, não mais do que teria com Tarly. Um toque de sua faca e aquele covarde mijaria nas calças e desataria a choramingar pela vida. Que suplique, não vai ganhar nada com isso. Depois de cortar sua goela, abriria as gaiolas e espantaria as aves, para que nenhuma mensagem chegasse à Muralha. Pé-Leve e Paul Pequeno matariam o Velho Urso, Adaga trataria de Blane, e Lark e os primos silenciariam Bannen e o velho Dywen, para evitar que depois farejassem seu rastro. Havia quinze dias que escondiam comida, e os cavalos de Doce Donnel e Karl Pé-Torto estariam preparados. Com Mormont morto, o comando passaria para Sor Ottyn Wythers, um velho acabado que já fraquejava. Antes do fim do dia, ele já vai estar fugindo para a Muralha, e também não deverá desperdiçar nem um homem à nossa procura.

Os cães puxavam-no enquanto abriam caminho por entre as árvores. Chett via o Punho, que abria caminho para as alturas através da vegetação. O dia estava tão escuro que o Velho Urso mandara acender os archotes, um grande círculo deles ardia ao longo da muralha anelar que coroava o topo do íngreme monte pedregoso. Os três atravessaram um riacho. A água estava gelada, e manchas de gelo espalhavam-se por sua superfície.

- Vou direto à costa - confidenciou Lark, o homem das Irmãs. - Eu e meus primos. Construímos um barco e voltaremos nele pra casa, pras Irmãs.

E em casa saberão que são desertores e cortarão suas cabeças ocas, pensou Chett. Não se podia sair da Patrulha da Noite depois de proferir os votos. Em qualquer ponto dos Sete Reinos, apanhariam-nos e matariam-nos.

Agora, o Ollo Mão-Cortada, esse andava falando em velejar de volta para Tyrosh, onde dizia que, por um pouco de honesta ladroagem, os homens não perdiam as mãos nem eram enviados para congelar se encontrados na cama com a mulher de um cavaleiro qualquer. Chett cogitara ir com Ollo, mas não falava a língua úmida de menininhas que lá se falava. E o que poderia fazer em Tyrosh? Não aprendera ofício de que valesse a pena falar, ao crescer no Atoleiro da Bruxa. O pai passara a vida roçando nos campos dos outros e apanhando sanguessugas. Ficava nu em pelo, exceto por uma grossa fralda de couro, e entrava na água lamacenta. Quando de lá saía, estava coberto, dos mamilos aos tornozelos. Às vezes, obrigava Chett a arrancar as sanguessugas. Um dia, uma se prendera à palma de sua mão, e ele a esmagou de encontro a uma parede, repugnado. Por causa disso, o pai espancou-o até deixá-lo sangrando. Os meistres compravam as sanguessugas a um vintém por dúzia.

Lark podia ir para casa, se quisesse, e o maldito Tyrosh também, mas Chett não. Se não voltasse nunca a ver o Atoleiro da Bruxa, ainda não seria tempo suficiente. Gostara do aspecto da Fortaleza de Craster. Craster vivia lá como um senhor, por que Chett não poderia fazer o mesmo? Que ironia do destino: Chett, o filho do apanhador de sanguessugas, um lorde com uma fortaleza. Seu estandarte podia ser uma dúzia de sanguessugas em fundo cor-de-rosa. Mas por que parar em lorde? Talvez devesse ser um rei. Mance Rayder começou como corvo. Eu podia ser rei assim como ele, e arranjar algumas mulheres. Craster tinha dezenove, isso sem contar as novas, as filhas com quem ainda não tinha se deitado. Metade daquelas mulheres era tão velha e feia quanto Craster, mas isso não importava. Chett podia pôr as velhas para cozinhar e limpar para ele, arrancar cenouras da terra e alimentar os porcos, enquanto as novas lhe aqueciam a cama e lhe davam filhos. Craster não faria objeções, pelo menos depois de Paul Pequeno lhe dar um abraço.

As únicas mulheres que Chett conhecera eram as prostitutas por quem tinha pagado em Vila Toupeira. Quando era mais novo, as meninas da aldeia davam uma olhada em seu rosto, com furúnculos e quistos, e afastavam os olhos, repugnadas. A pior tinha sido Bessa, aquela vaca. Abria as pernas para todos os rapazes do Atoleiro da Bruxa, então Chett pensou: por que não as abriria para mim também? Até passou uma manhã apanhando flores silvestres quando ouviu dizer que ela as apreciava, mas Bessa limitou-se a rir na sua cara e dizer que antes se enfiaria numa cama com as sanguessugas do pai do que com ele. Ela parou de rir quando ele enfiou a faca nela. Isso foi agradável, ver a expressão no rosto de Bessa, por isso tirou a faca e enfiou-a de novo. Quando o pegaram, perto de Seterrios, o velho Lorde Walder Frey sequer se incomodou em vir julgá-lo pessoalmente. Mandou um de seus bastardos, aquele Walder Rivers, e, quando Chett deu por si, estava a caminho da Muralha, com aquele demônio preto fedido do Yoren. Em troca de seu único momento de satisfação, tinham-lhe roubado a vida inteira.

Mas agora pretendia roubá-la de volta, e também as mulheres de Craster. Aquele velho selvagem pervertido é que está certo. Se quer casar com uma mulher, basta tomá-la, e nada de lhe dar flores para que talvez não repare em suas malditas pústulas. Chett não pretendia cometer esse erro novamente.

Iria dar certo, prometeu a si mesmo pela centésima vez. Desde que a gente consiga se afastar sem problemas. Sor Ottyn avançaria na direção da Torre Sombria, o caminho mais curto até a Muralha. Ele não vai se incomodar com a gente, o Wythers não é homem para isso, tudo que quer é voltar inteiro. Agora, Thoren Smallwood, esse ia querer avançar com o ataque, mas a cautela de Sor Ottyn era muito profunda e ele tinha uma patente mais elevada. Seja como for, que se dane. Depois de a gente ir embora, Smallwood pode atacar quem quiser. O que nos importa? Se nenhum deles voltar para a Muralha, ninguém virá à nossa procura, vão pensar que estamos mortos, como os outros. Aquela era uma nova ideia, e por um momento o tentou. Mas, para dar o comando a Smallwood, teriam de matar também Sor Ottyn e Sor Mallador Locke, e ambos eram bem escoltados dia e noite... não, o risco era grande demais.

- Chett - disse Paul Pequeno enquanto avançavam penosamente por uma trilha pedregosa, aberta por animais entre árvores-sentinela e pinheiros marciais -, e o pássaro?

- De que merda de pássaro você está falando? - A última coisa de que precisava agora era de um cabeça oca perguntando de um pássaro.

- O corvo do Velho Urso - disse Paul Pequeno. - Se o matarmos, quem vai dar comida ao pássaro?

- Quem liga pra isso? Mate o pássaro também, se quiser.

- Não quero fazer mal a pássaro nenhum - disse o enorme homem. - Mas aquele é um pássaro que fala. E se ele contar a alguém o que fizemos?

Lark, o homem das Irmãs, soltou uma gargalhada.

- Paul Pequeno, cabeça-dura como a muralha de um castelo - caçoou.

- Fica quieto - disse Paul Pequeno, num tom que denotava perigo.

- Paul - disse Chett antes que o grandalhão ficasse zangado demais -, quando encontrarem o velho numa poça de sangue, com a garganta aberta, não vão precisar de um pássaro para lhes dizer que alguém o matou.

Paul Pequeno saboreou aquilo por um momento.

- E verdade - concordou. - Nesse caso, posso ficar com o pássaro? Gosto dele.

- E seu - disse Chett, só para que ele se calasse.

- Sempre podemos comê-lo, se ficarmos com fome - sugeriu Lark.

Paul Pequeno voltou a fechar o tempo.

- É melhor que não tente comer meu pássaro, Lark. E melhor que não tente.

Chett ouvia vozes vagueando por entre as árvores.

- Fechem a porra dessas bocas, os dois. Estamos quase no Punho.

Emergiram perto da vertente ocidental do monte e rodearam-no em direção ao sul, até o local onde o declive era mais suave. Perto do limite da floresta, uma dúzia de homens praticava tiro com arco. Tinham esculpido silhuetas nos troncos das árvores, e disparavam flechas contra elas.

- Olha - disse Lark. - Um porco com um arco.

E, logicamente, o arqueiro mais próximo deles era o próprio Sor Porquinho, o rapaz gordo que roubara o lugar de Chett junto ao Meistre Aemon. Bastava ver Samwell Tarly para se encher de raiva. Ser intendente do Meistre Aemon fora a melhor época de sua vida. O velho cego não era exigente e, de qualquer maneira, Clydas tratava da maior parte de seus desejos. Os deveres de Chett eram fáceis: manter a colônia limpa, acender uns fogos, buscar umas refeições... e Aemon não bateu nele uma única vez. Acha que pode chegar e me botar para fora, só porque é bem-nascido e sabe ler. Pode ser que lhe peça para ler a minha faca antes de abrir sua garganta com ela.

- Continuem - disse aos outros. - Quero ver isso. - Os cães estavam puxando, ansiosos por ir com os outros, até a comida que pensavam que os esperaria lá em cima. Chett chutou a cadela com a ponta da bota, e isso acalmou-os um pouco.

Observou, das árvores, o gordo lutando com um arco tão alto quanto ele, com seu rosto vermelho e em forma de lua contraído de concentração. No chão, à sua frente, estavam enfiadas três flechas. Tarly encaixou uma e retesou o arco, manteve-o assim por um longo momento enquanto tentava mirar, e soltou. A flecha desapareceu no meio do verde. Chett soltou uma ruidosa gargalhada, uma bufada de doce repugnância.

- Você nunca encontrará aquela, e quem vai arcar com a culpa sou eu - anunciou Edd Tollett, o severo escudeiro grisalho que todos chamavam de Edd Doloroso. - Nunca há nada que desapareça que não olhem para mim, desde aquela vez em que perdi meu cavalo. Como se tivesse podido evitá-lo. Ele era branco e estava nevando, o que esperavam?

- Aquela foi levada pelo vento - disse Grenn, outro amigo de Lorde Snow. - Tente manter o arco firme, Sam.

- E pesado - queixou-se o gordo, mas preparou a segunda flecha mesmo assim. Desta vez, ela saiu alta, metendo-se por entre os galhos, três metros acima do alvo.

- Acho que você derrubou uma folha daquela árvore - disse Edd Doloroso. - O outono já as faz cair suficientemente depressa, não é preciso ajudá-lo. - Suspirou. - E todos sabemos o que se segue ao outono. Deuses, que frio. Dispare a última flecha, Samwell, acho que minha língua está congelando no céu da boca.

Sor Porquinho abaixou o arco, e Chett achou que ele fosse desatar a berrar.

- É difícil demais.

- Encaixe, puxe e solte - disse Grenn. - Vá lá.

Obedientemente, o gordo arrancou a última flecha do chão, encaixou-a no arco, puxou e soltou. Fez isso rapidamente, sem focar os olhos de maneira cuidadosa ao longo da haste como fizera nas duas primeiras vezes. A flecha atingiu a parte inferior do peito da silhueta desenhada a carvão e ali ficou, tremendo.

- Acertei. - O Sor Porquinho parecia chocado. - Grenn, você viu? Edd, olha, acertei nele!

- Enfiou-a entre as costelas dele, eu diria - falou Grenn.

- Matei-o? - quis saber o gordo.

Tollett encolheu os ombros.

- Podia ter perfurado um pulmão, se ela tivesse pulmões. A maior parte das árvores não tem, via de regra. - Tirou o arco da mão de Sam. - Mas já vi tiros piores. Sim, e já disparei alguns.

Sor Porquinho resplandecia. Ao olhar para ele, dava para se pensar que tinha realmente feito alguma coisa. Mas quando viu Chett e os cães, seu sorriso ruiu e morreu aos guinchos.

- Acertou numa árvore - disse Chett. - Vamos ver como é que dispara quando forem os moços de Mance Rayder. Eles não vão ficar parados com os braços esticados e as folhas restolhando, ah não. Vão vir direto em sua direção, gritando na sua cara, e eu aposto que vai mijar nas calças. Um deles vai enfiar um machado bem no meio desses olhinhos de porco. A última coisa que você vai ouvir será o tunc que o machado fará quando morder seu crânio.

O gordo estava tremendo. Edd Doloroso colocou uma mão no ombro dele.

- Irmão - disse ele solenemente só porque foi assim com você, não quer dizer que Samwell passará pelo mesmo.

- De que você está falando, Tollett?

- Do machado que rachou seu crânio. É verdade que metade de seus miolos escorreu para o chão e foi comida pelos cães?

O grande palhaço do Grenn riu, e até Samwell Tarly conseguiu dar um frágil sorrisinho. Chett chutou o cão mais próximo, puxou suas trelas e começou a subir o monte. Sorria quanto quiser, Sor Porquinho. À noite veremos quem vai rir. Só gostaria de ter tempo de também matar Tollett. Um babaca sombrio com cara de cavalo é o que ele é.

A subida era íngreme, mesmo daquele lado do Punho, que tinha a inclinação menos pronunciada. No meio da subida, os cães começaram a latir e a puxá-lo, julgando que iriam ser alimentados em breve. Em vez disso, fez com que saboreassem um pouco de sua bota, e deu uma chicotada no animal grande e feio que tentou mordê-lo. Depois de amarrar os cães, foi fazer o relatório.

- As pegadas estavam lá como o Gigante tinha dito, mas os cães não encontraram o cheiro - disse a Mormont, diante de sua grande tenda preta. - Junto ao rio, daquela maneira, podiam ser pegadas velhas.

- Pena. - O Senhor Comandante Mormont tinha a cabeça calva e uma grande e hirsuta barba grisalha, e soava tão cansado quanto parecia estar. - Podíamos ter ficado todos melhores com um pouco de carne fresca. - O corvo em seu ombro inclinou a cabeça e ecoou: "Carne. Carne. Carne".

Podíamos cozinhar os malditos cães, pensou Chett, mas manteve a boca fechada até que o Velho Urso o mandasse embora. E essa é a última vez que vou precisar inclinar a cabeça a esse aí, pensou consigo mesmo, com satisfação. Parecia-lhe que estava ficando ainda mais frio, coisa que teria jurado não ser possível. Os cães aninhavam-se uns contra os outros, com um ar infeliz, sobre a lama dura e congelada, e Chett quase se sentiu tentado a engatinhar para o meio deles. Em vez disso, envolveu a parte de baixo do rosto em um cachecol de lã preto, deixando entre as voltas uma fenda para a boca. Descobriu que ficava mais quente se continuasse em movimento, e deu uma lenta volta no perímetro, compartilhando um par de mastigadas de um maço de folhamarga com os irmãos negros que estavam de guarda e ouvindo o que eles tinham a dizer. Nenhum dos homens do turno do dia fazia parte de seus planos; mesmo assim, achou que era bom ter alguma ideia do que eles pensavam.

Na maior parte, o que eles pensavam era que fazia um frio de lascar.

O vento começou a soprar com mais força à medida que as sombras foram se alongando. Fazia um som alto e fino, enquanto tremia através das pedras da muralha anelar.

- Detesto esse som - disse o pequeno Gigante. - Parece um bebê na moita, chorando por leite.

Quando terminou a volta e regressou para junto dos cães, encontrou Lark à sua espera.

- Os oficiais tão outra vez na tenda do Velho Urso, numa grande discussão sobre qualquer coisa.

- É o que eles fazem - disse Chett. - São bem-nascidos, todos menos Blane, e embebedam-se com palavras em vez de vinho.

Lark aproximou-se de esguelha.

- O cérebro-de-queijo não para de falar do pássaro - preveniu, olhando em volta para se certificar de que não havia ninguém por perto. - Agora anda perguntando se guardamos grãos para o maldito bicho.

- É um corvo - disse Chett. - Come cadáveres.

Lark deu um sorriso.

- O dele, de repente?

Ou o seu. Chett achava que precisavam mais do grandalhão do que de Lark.

- Deixa o Paul Pequeno quieto. Faça a sua parte, ele vai fazer a dele.

O ocaso já se espalhava pela floresta quando Chett conseguiu se livrar do homem das Irmãs e se sentou para afiar a espada. Era um trabalho difícil com as luvas calçadas, mas não ia tirá-las. Com o frio que fazia, qualquer imbecil que tocasse o aço com a mão nua perderia um pedaço de pele.

Os cães ganiram quando o sol se escondeu. Deu-lhes água e xingamentos.

- Mais meia noite e podem encontrar sozinhos o banquete de vocês. - A essa altura, já sentia o cheiro do jantar.

Dywen estava pregando tediosamente junto à fogueira, quando Chett recebeu seu pedaço de pão duro e uma tigela de sopa de feijão e bacon das mãos de Hake, o cozinheiro.

- A floresta está silenciosa demais - estava dizendo o velho lenhador. - Nada de rãs perto do rio, nada de corujas no escuro. Nunca ouvi extensão de árvores mais morta do que esta.

- Esses seus dentes parecem bastante mortos - disse Hake.

Dywen estalou os dentes de madeira.

- E também nada de lobos. Antes havia, mas já não há. Para onde vocês acham que eles foram?

- Para algum lugar quente - disse Chett.

Da dúzia de irmãos sentados junto à fogueira, quatro eram seus. Dirigiu a todos eles um olhar duro de viés enquanto comia, para ver se algum mostrava sinais de poder acovardar-se. Adaga parecia bastante calmo, sentado em silêncio e afiando a lâmina de sua arma, como fazia todas as noites. E Doce Donnel Hill era todo gracejos fáceis. Tinha dentes brancos, gordos lábios vermelhos e madeixas amarelas, que usava em artística desordem em volta dos ombros, e dizia ser bastardo de um Lannister qualquer. Talvez até fosse. Chett não tinha uso nenhum para dar a rapazinhos bonitos ou bastardos, mas Doce Donnel parecia capaz de se aguentar.

Tinha menos certezas quanto ao forrageiro que os irmãos chamavam de Serrote, mais pelo modo como roncava do que por qualquer coisa que tivesse a ver com árvores. Naquele momento, parecia tão inquieto que podia bem não voltar a roncar. E Maslyn era pior. Chett via suor escorrendo por seu rosto, apesar do vento gelado. As pérolas de umidade cintilavam à luz da fogueira, como uma porção de pequenas jóias molhadas. Maslyn, além disso, não comia, estava apenas fitando a sopa como se seu cheiro estivesse a ponto de fazê-lo vomitar. Vou ter de vigiar aquele, pensou Chett.

- Reunir! - O grito surgiu de súbito, vindo de uma dúzia de gargantas, e rapidamente se espalhou até todos os recantos do acampamento no alto do monte. - Homens da Patrulha da Noite! Reunir junto da fogueira central!

Franzindo o cenho, Chett terminou a sopa e seguiu os outros.

O Velho Urso estava em pé junto da fogueira, com Smallwood, Locke, Wythers e Blane alinhados em fila atrás dele. Mormont usava um manto de espessas peles negras, e o corvo estava empoleirado em seu ombro, alisando suas penas negras. Isso não pode ser bom. Chett enfiou-se entre o Bernarr Castanho e alguns homens da Torre Sombria. Depois de todos se reunirem, à exceção dos vigias na floresta e dos guardas na muralha anelar, Mormont pigarreou e escarrou. O cuspe congelou antes de chegar ao chão.

- Irmãos - disse ele -, homens da Patrulha da Noite.

"Homens!", guinchou o corvo,"Homens! Homens!". Ele prosseguiu:

- Os selvagens estão em marcha, seguindo o curso do Guadeleite para fora das montanhas. Thoren crê que sua vanguarda estará aqui dentro de dez dias. Seus saqueadores mais experientes estarão com Harma Cabeça-de-Cão nessa vanguarda. Os outros provavelmente formarão uma tropa de retaguarda, ou então viajarão bem perto do próprio Mance Rayder. Nos outros pontos, os guerreiros deles estarão muito espalhados ao longo da linha de marcha. Têm bois, mulas, cavalos, mas poucos. A maior parte deles estará a pé, mal armada e sem treino. E mais provável que as armas que transportam sejam de pedra e osso do que de aço. Estão sobrecarregados com mulheres, crianças, rebanhos de ovelhas e cabras, e todos os seus bens materiais. Em suma, embora sejam numerosos, são vulneráveis... e não sabem que estamos aqui. Ou pelo menos temos que rezar para que não saibam.

Eles sabem, pensou Chett. Seu maldito saco velho de pus, eles sabem, é tão certo como o nascer do sol. Qhorin Meia-Mão não voltou, não é? Nem Jarman Buckwell. Se algum deles foi apanhado, sabe bem demais que os selvagens já arrancaram deles uma ou duas palavras a essa altura.

Smallwood deu um passo à frente.

- Mance Rayder planeja quebrar a Muralha e levar uma guerra sangrenta aos Sete Reinos. Bem, esse é um jogo que pode ser jogado por dois. De manhã, levamos a guerra até ele.

- Partimos à alvorada, com todas as nossas forças - disse o Velho Urso, enquanto um murmúrio percorria a assembleia. - Avançaremos para o norte, contornando depois pelo oeste. A vanguarda de Harma já terá passado há muito pelo Punho quando virarmos. O sopé das Presas de Gelo está repleto de vales estreitos e sinuosos, perfeitos para emboscadas. A linha de marcha deles vai se estender ao longo de muitos quilômetros. Vamos cair sobre eles em vários locais ao mesmo tempo e obrigá-los a jurar que somos três mil homens, e não trezentos.

- Atacaremos com força, e estaremos longe antes que seus cavaleiros consigam se organizar para nos enfrentar - disse Thoren Smallwood. - Se vierem em nosso encalço, vamos lhes dar o que fazer durante algum tempo, e depois daremos meia-volta para atacar a coluna novamente, mais abaixo. Queimaremos suas carroças, dispersaremos seus rebanhos e mataremos tantos selvagens quantos pudermos. O próprio Mance Rayder também, se o encontrarmos. Se quebrarem e voltarem às suas cabanas, ganhamos. Se não, vamos atormentá-los ao longo de todo o caminho até a Muralha, certificando-nos de que deixem um rastro de cadáveres marcando seu progresso.

- Eles são milhares - gritou alguém atrás de Chett.

- Vamos morrer. - Era a voz de Maslyn, verde de medo.

"Morrer", gritou o corvo de Mormont, batendo as asas negras."Morrer, morrer, morrer"

- Muitos de nós, sim - disse o Velho Urso. - Talvez todos. Mas, assim como outro Senhor Comandante disse há mil anos, é por isso que nos vestem de preto. Lembrem-se de suas palavras, irmãos. Pois somos as espadas na escuridão, os vigilantes nas muralhas...

- O fogo que arde contra o frio. - Sor Mallador Locke puxou a espada.

- A luz que traz consigo a alvorada - responderam outros, e mais espadas foram desembainhadas.

E então todos eles estavam pegando as armas, e eram quase trezentas espadas erguidas para o céu e outras tantas vozes gritando: "A trombeta que acorda os que dormem! O escudo que defende os reinos dos homens!". Chett não teve outra escolha a não ser juntar sua voz à dos outros. Havia uma neblina no ar, proveniente da respiração dos homens, e a luz da fogueira rebrilhava no aço. Sentiu-se contente por ver que Lark, Pé-Leve e Doce Donnel Hill também se juntavam, como se fossem tão tolos quanto os demais. Isso era bom. Não era sensato chamar a atenção quando a hora estava tão próxima.

Quando os gritos silenciaram, voltou a ouvir o som do vento cutucando a muralha anelar. As chamas rodopiaram e estremeceram, como se também elas tivessem frio e, no súbito silêncio, o corvo do Velho Urso crocitou sonoramente e mais uma vez disse: "Morrer".

Pássaro esperto, pensou Chett enquanto os oficiais ordenavam o dispersar, dizendo a todos para fazerem uma boa refeição e terem um longo descanso naquela noite. Chett enfiou-se em suas peles perto dos cães, com a cabeça cheia de coisas que podiam correr mal. E se aquele maldito juramento tivesse feito um dos seus mudar de ideia? E se Paul Pequeno se esquecesse e tentasse matar Mormont durante o segundo turno e não no terceiro? E se Maslyn perdesse a coragem, e se alguém se transformasse em informante.

Deu por si escutando a noite. O vento realmente soava como uma criança chorando, e de tempos em tempos conseguia ouvir vozes de homens, o relincho de um cavalo, um pedaço de lenha crepitando na fogueira. Mas nada mais. Tanto silêncio.

Conseguia ver o rosto de Bessa flutuando à sua frente. Não era a faca que queria enfiar em você, desejou lhe dizer. Colhi flores para lhe dar, rosas silvestres, tanásias e copodouros, levei toda a manhã. Seu coração batia como um tambor, com tanta força que temeu que o barulho acordasse o acampamento. O gelo havia se solidificado em sua barba, ao redor da boca. De onde veio isso da Bessa? Antes, sempre que pensara nela fora apenas para se lembrar da expressão de seu rosto enquanto morria. O que se passava consigo? Quase não conseguia respirar. Teria adormecido? Ficou de joelhos, e algo úmido e frio tocou seu nariz. Chett olhou para cima.

Nevava.

Sentiu as lágrimas congelando em seu rosto. Não é justo, quis gritar. A neve arruinaria tudo aquilo por que trabalhara, todos os seus cuidadosos planos. Era uma nevasca forte, com grandes flocos brancos que caíam por todos os lados. Como encontrariam os esconderijos de comida no meio da neve, ou a trilha que planejavam seguir para leste? E eles também não vão precisar nem de Dywen nem de Bannen para nos caçar, se nos perseguirem em neve fresca. E a neve escondia a forma do terreno, especialmente durante a noite. Um cavalo podia tropeçar numa raiz, quebrar uma pata numa pedra. Estamos fritos, compreendeu. Fritos antes de começar. Estamos perdidos. Não haveria vida de lorde para o filho do caçador de sanguessugas, não haveria uma fortaleza para chamar de sua, nem esposas, nem coroas. Só uma espada de selvagem espetada na barriga, e depois uma sepultura não assinalada. A neve roubou tudo de mim... a maldita neve...

A neve já o arruinara uma vez. A neve e o seu porco de estimação.

Chett ficou em pé. Suas pernas estavam rígidas, e os flocos de neve que caíam transformavam as tochas distantes em vagos clarões cor de laranja. Sentiu-se como se estivesse sendo atacado por uma nuvem de pálidos bichos frios. Assentavam-se em seus ombros e sua cabeça, e depois penetravam em seu nariz e seus olhos. Praguejando, esfregou-os. Samwell Tarly, recordou. Ainda posso tratar do Sor Porquinho. Enrolou o rosto no cachecol, puxou o capuz por sobre a cabeça e começou a atravessar o acampamento até o local onde o covarde dormia.

A neve caía tão intensamente que Chett se perdeu entre as tendas, mas, por fim, distinguiu o pequeno quebra-ventos aconchegado que o gordo construíra para si entre um rochedo e as gaiolas dos corvos. Tarly encontrava-se enterrado sob um monte de peles hirsutas e cobertores negros de lã. A neve estava entrando no abrigo e começava a cobri-lo. Parecia uma espécie de montanha mole e redonda. Aço sussurrou em couro, tênue como a esperança, quando Chett desembainhou o punhal. Um dos corvos soltou um croc. "Neve", resmungou outro, espreitando através das barras com olhos negros. O primeiro acrescentou um "Neve" ao do parceiro. Chett passou por eles, colocando os pés no chão com cautela. Apertaria a boca do gordo com a mão esquerda para abafar seus gritos, e depois...

Uuuuuuuuuuooooooooooo.

Parou no meio de um passo, engolindo a praga enquanto o som do berrante estremecia pelo acampamento, tênue e longínquo, mas inconfundível. Agora não. Malditos sejam os deuses, agora não! O Velho Urso tinha escondido olheiros num círculo de árvores em torno do Punho, a fim de ser avisado de qualquer coisa que se aproximasse. Jarman Buckwell voltou da Escada do Gigante, supôs Chett, ou Qhorin Meia-Mão, do Passo dos Guinchos. Um único sopro no berrante significava irmãos retornando. Se fosse o Meia-Mão, Jon Snow poderia estar com ele, vivo.

Sam Tarly sentou-se, de olhos inchados, e olhou confuso para a neve. Os corvos crocitavam ruidosamente, e Chett ouvia seus cães latindo. Metade do maldito acampamento está acordado. Seus dedos enluvados apertaram o cabo do punhal enquanto esperava que o som se desvanecesse. Mas assim que desapareceu, surgiu de novo, com mais força e por mais tempo.

Uuuuuuuuuuuuuuooooooooooooooooo.

- Deuses - ouviu Sam Tarly choramingar. O gordo ajoelhou-se, com os pés enredados no manto e nas mantas. Afastou-os com um chute e estendeu a mão para um camisão de cota de malha que tinha pendurado no rochedo ali perto. Enquanto enfiava pela cabeça aquilo que parecia uma enorme tenda e se contorcia lá para dentro, deu uma olhada em Chett, parado ali.

- Foram dois: - perguntou. - Sonhei que tinha ouvido dois sopros...

- Não foi sonho - disse Chett. - Dois sopros para pôr a Patrulha em armas. Dois sopros para indicar que inimigos se aproximam. Há um machado lá fora com Porquinho escrito nele, gordo. Dois sopros quer dizer selvagens. - O medo naquela grande cara de lua deu-lhe vontade de rir. - Fodam-se todos até os sete infernos. Maldita Harna. Maldito Mance Rayder. Maldito Smallwood, que disse que só iam chegar aqui em...

Uuuuuuuuuuuuuuuuuooooooooooooooooooooooooooooooooooooo.

O som perdurou, perdurou e perdurou, até parecer que nunca terminaria. Os corvos batiam as asas e guinchavam, voando em suas gaiolas e batendo nas barras, e por todo o acampamento os irmãos da Patrulha da Noite levantavam-se, vestiam as armaduras, prendiam cintos de espadas, pegavam seus machados de batalha e arcos. Samwell Tarly desatou a tremer, com o rosto da mesma cor que a da neve que caía, rodopiando, por todos os lados.

- Três - guinchou para Chett -, aquilo foram três, ouvi três. Nunca sopram três vezes. Há centenas e milhares de anos que não sopram três. Três quer dizer...

- ... Outros. - Chett soltou um som que era metade gargalhada e metade soluço, e de repente a roupa de baixo estava molhada, sentia o mijo escorrendo por sua perna, e via vapor evaporando-se da frente de seu calção.

O vento vindo do leste soprou através de seus cabelos emaranhados, tão suave e perfumado quanto os dedos de Cersei. Ouvia aves cantando e sentia o rio deslocando-se debaixo do barco, à medida que os movimentos dos remos os aproximavam da pálida alvorada cor-de-rosa. Depois de passar tanto tempo na escuridão, o mundo era tão encantador que Jaime Lannister se sentia tonto. Estou vivo, e bêbado de sol. Uma gargalhada atravessou seus lábios, súbita como uma codorna espantada do esconderijo.

- Silêncio - resmungou a moça, carregando o cenho. Carrancas adequavam-se mais ao seu rosto grosseiro do que um sorriso. Não que Jaime a tivesse visto sorrir alguma vez. Divertia-se imaginando-a com um dos vestidos de seda de Cersei em vez do justilho de couro com tachas que envergava. Tanto faz vestir de seda uma vaca ou essa aí.

Mas a vaca remava bem. Por baixo de seus calções de tecido grosseiro e marrom havia pernas que eram como cordões de madeira, e os longos músculos de seus braços estendiam-se e contraiam-se a cada batida dos remos. Mesmo depois de remar metade da noite, não mostrava sinais de cansaço, o que era mais do que se podia dizer do primo de Jaime, Sor Cleos, que sofria com o outro remo. Uma grande e forte camponesa, pelo aspecto, mas fala como alguém de nascimento elevado e usa espada e punhal. Ah, mas será que sabe usá-los? Jaime pretendia descobrir, assim que se livrasse daqueles grilhões.

Usava algemas de ferro nos pulsos e um par correspondente nos tornozelos, unidos por um pedaço de pesada corrente que não tinha mais de trinta centímetros de comprimento.

- Seria possível até imaginar que a minha palavra de Lannister não é suficientemente boa - gracejara quando o tinham atado. Nesse momento estava muito bêbado, graças a Catelyn Stark. Recordava-se apenas de flashes da fuga de Correrrio. Acontecera um problema qualquer com o carcereiro, mas a garota grande dominara-o. Depois disso tinham subido uma escadaria que parecia não ter fim, com voltas e mais voltas. Suas pernas estavam fracas como relva, e tropeçara duas ou três vezes, até a moça lhe oferecer um braço em que se apoiar. Em certo ponto, tinha sido enrolado em um manto de viajante e atirado para o fundo de um esquife. Lembrava-se de ouvir a voz da Senhora Catelyn ordenando a alguém que erguesse a porta levadiça do Portão da Água. Num tom que não admitia discussões, tinha declarado que estava enviando Sor Cleos Frey de volta a Porto Real com novas condições para a rainha.

Nessa altura, deve ter adormecido. O vinho dera-lhe sono, e era tão bom esticar-se, um luxo que as correntes não lhe permitiam na cela. Jaime tinha aprendido havia muito a dormitar na sela durante uma marcha. Aquilo não era mais difícil. Tyrion vai morrer de rir quando souber como dormi durante a minha própria fuga. Mas agora estava acordado, e as algemas eram penosas.

- Senhora - chamou -, se tirasse essas correntes de mim, eu tomaria seu lugar nesses remos.

Ela voltou a franzir as sobrancelhas, com uma expressão que era toda dentes de cavalo e suspeita carrancuda.

- Vai usar suas correntes, Regicida.

- Pretende remar até Porto Real, garota?

- Chame-me de Brienne. E não de garota.

- Meu nome é Sor Jaime. Não Regicida.

- Nega que matou um rei?

- Não. Nega seu sexo? Se assim for, desate essas calças e mostre-me. - Dirigiu-lhe um sorriso inocente. - Poderia pedir que abrisse seu corpete, mas, olhando para você, julgo que isso não provaria grande coisa.

Sor Cleos queixou-se.

- Primo, lembre-se da boa educação.

O sangue Lannister é fino nas veias deste. Cleos era filho de sua tia Genna e daquele cretino do Emmon Frey, que vivera aterrorizado por Lorde Tywin Lannister desde o dia em que se casara com a irmã dele. Quando Lorde Walder Frey trouxe as Gêmeas para a guerra do lado de Correrrio, Sor Emmon escolheu as ligações da mulher em detrimento das do pai. O Rochedo Casterly ficou com o pior desse negócio, refletiu Jaime. Sor Cleos parecia uma doninha, lutava como um ganso e tinha a coragem de uma ovelha particularmente ousada. A Senhora Stark lhe prometera a liberdade se entregasse sua mensagem a Tyrion, e Sor Cleos jurara solenemente fazê-lo.

Tinham todos prestado uma boa dose de juramentos naquela cela, principalmente Jaime. Foi o preço que a Senhora Catelyn exigiu por perdê-lo. Ela encostara a ponta da espada da garota grande no coração de Jaime e disse:

- Jure que não voltará a pegar em armas contra Stark ou Tully. Jure que forçará seu irmão a honrar sua promessa de devolver as minhas filhas em segurança e incólumes. Jure por sua honra como cavaleiro, por sua honra como Lannister, por sua honra como Irmão Juramentado da Guarda Real. Jure pela vida de sua irmã, e pela de seu pai e de seu filho, pelos deuses antigos e novos, e eu vou enviá-lo de volta à sua irmã. Recuse, e farei seu sangue correr. - Lembrava-se do aço espetando através dos farrapos que usava quando ela torcera a ponta da espada.

Pergunto a mim mesmo o que o Alto Septão terá a dizer em relação à santidade de juramentos prestados quando se está caindo de bêbado, acorrentado a uma parede e com uma espada encostada ao peito. Não que Jaime estivesse realmente preocupado com essa gorda fraude ou com os deuses que ele dizia servir. Lembrava-se do balde que a Senhora Catelyn derrubara com um pontapé na cela. Uma mulher estranha, para confiar as filhas a um homem que tinha merda no lugar da honra. Se bem que estivesse confiando nele o mínimo que se atrevia. Está depositando as suas esperanças em Tyrion, não em mim.

- Talvez ela não seja assim tão burra, afinal - disse em voz alta.

Sua captora compreendeu-o mal.

- Não sou burra. Nem surda.

Mostrou-se gentil para com ela. Caçoar daquela mulher seria tão fácil que não traria qualquer divertimento.

- Estava falando comigo, não contigo. É um hábito fácil de se adquirir numa cela.

Ela olhou-o com a testa franzida, empurrando os remos para a frente, puxando-os para trás, empurrando-os para a frente, sem nada dizer.

Tão fluente de língua como é bela de rosto.

- Por sua maneira de falar, julgaria que você é de nascimento nobre.

- Meu pai é Selwyn de Tarth, pela graça dos deuses, senhor do Entardecer. - Até aquilo foi dito de má vontade.

- Tarth - disse Jaime. - Um rochedo horrivelmente grande no mar estreito, se bem me lembro. E o Entardecer está juramentado a Ponta Tempestade. Como é que você serve Robb de Winterfell?

- Quem eu sirvo é a Senhora Catelyn. E ela ordenou-me que o entregasse a salvo ao seu irmão Tyrion em Porto Real, não que trocasse palavras com você. Fique em silêncio.

- Já tive minha dose de silêncio, mulher.

- Então fale com Sor Cleos. Não converso com monstros.

Jaime soltou um grito.

- Há monstros por aqui? Escondidos debaixo da água, talvez? Naquele bosque de salgueiros? E eu sem a minha espada!

- Um homem capaz de violar a própria irmã, matar seu rei e atirar uma criança inocente para a morte não merece outro nome.

Inocente? O maldito rapaz estava nos espiando. Tudo que Jaime quisera fora uma hora a sós com Cersei. A viagem para o norte tinha sido um longo tormento; vê-la todos os dias, sem ter a possibilidade de tocá-la, sabendo que Robert entrava em sua cama, todas as noites, aos tropeções de bêbado, naquela grande casa rolante que rangia por todos os lados. Tyrion fizera o que pôde para mantê-lo de bom humor, mas não tinha sido o bastante.

- Será cortês no que toca a Cersei, mulher - avisou-a.

- Meu nome é Brienne, não mulher.

- Que te importa como um monstro a chama?

- Meu nome é Brienne - repetiu, obstinada como um cão de caça.

- Senhora Brienne? - ela fez uma expressão tão desconfortável que Jaime pressentiu um ponto fraco. - Ou seria Sor Brienne mais a seu gosto? - soltou uma gargalhada. - Não, temo que não. Pode-se adornar uma vaca leiteira com rabicho, crinete e testeira e enfeitá-la toda de seda, mas isso não significa que se possa montá-la em batalha.

- Primo Jaime, por favor, você não devia falar tão rudemente. - Sob o manto, Sor Cleos usava um sobretudo esquartelado com as torres gêmeas da Casa Frey e o leão dourado dos Lannister. - Temos um longo caminho a percorrer, não devíamos disputar entre nós.

- Quando disputo, faço-o com uma espada, primo. Estava falando com a senhora. Diga-me, moça, as mulheres de Tarth são todas tão rústicas como você? Se assim for, sinto pena dos homens. Talvez não conheçam o aspecto de verdadeiras mulheres, vivendo numa montanha desolada no mar.

- Tarth é bela - resmungou a mulher entre remadas. - É chamada de Ilha Safira. Fique calado, monstro, a menos que queira que o amordace.

- Ela também é rude, não é, primo? - perguntou Jaime a Sor Cleos. - Se bem que tenha aço na espinha, admito. Não há muitos homens que se atrevam a me chamar de monstro na minha cara. - Apesar de por trás de minhas costas falarem com bastante liberdade, não duvido.

Sor Cleos tossiu nervosamente.

- A Senhora Brienne ouviu tais mentiras de Catelyn Stark, certamente. Os Stark não têm esperança de derrotá-lo com espadas, sor, portanto, agora fazem a guerra com palavras envenenadas.

Eles derrotaram-me com espadas, seu cretino sem queixo. Jaime deu um sorriso sabedor. Os homens podem ler todo tipo de coisas de um sorriso sabedor, basta terem a oportunidade. Terá o primo Cleos realmente engolido esse monte de bosta ou estará tentando cair nas minhas graças? O que temos aqui, um cabeça oca honesto ou um bajulador?

Sor Cleos continuou jovialmente a tagarelar.

- Qualquer homem que acredite que um Irmão Juramentado da Guarda Real seria capaz de fazer mal a uma criança não conhece o significado da honra.

Bajulador. Para falar a verdade, Jaime acabara por se lamentar de ter atirado Brandon Stark daquela janela. Depois daquilo, quando o rapaz se recusou a morrer, Cersei lhe deu um sem-fim de recriminações.

- Ele tinha sete anos, Jaime - ela o repreendera. - Mesmo se tivesse compreendido o que vira, teríamos sido capazes de assustá-lo o suficiente para que ficasse quieto.

- Não pensei que quisesse...

- Você nunca pensa. Se o garoto acordar e contar ao pai o que viu...

- Se, se, se. - Puxara-a para seu colo. - Se acordar, diremos que estava sonhando, vamos chamá-lo de mentiroso, e se o pior acontecer, mato Ned Stark.

- E nessa altura, o que imagina que Robert fará?

- Robert que faça o que bem entender. Faço guerra com ele, se tiver de ser. Os cantores vão chamá-la de Guerra pela Boceta de Cersei.

- Jaime, largue-me! - tinha se enraivecido, lutando para se levantar.

Em vez disso, ele a beijou. Por um momento, ela resistiu, mas então sua boca abriu-se sob a dele. Lembrava-se do sabor de vinho e cravo de sua língua. Ela estremeceu. Ele levou a mão ao corpete dela e puxou, rasgando a seda para que os seios se derramassem, livres, e durante algum tempo o rapaz Stark foi esquecido.

Será que Cersei teria lembrado dele mais tarde e contratado aquele homem de que a Senhora Catelyn falara, para se assegurar de que o rapaz nunca acordasse? Se o quisesse morto, teria me enviado. E não é próprio dela escolher um homem que metesse os pés pelas mãos daquela maneira.

A jusante do rio, o sol nascente cintilava na superfície da água, varrida pelo vento. A margem sul era de barro vermelho, lisa como uma estrada. Rios menores alimentavam o maior, e os troncos em putrefação de árvores afogadas aderiam às margens. A margem norte era mais selvagem. Grandes escarpas rochosas elevavam-se a seis metros acima deles, coroadas por grupos de faias, carvalhos e castanheiros. Jaime vislumbrou uma torre de vigia nas elevações, mais à frente, que aumentava de tamanho a cada remada. Muito antes de passarem por ela, soube que se encontrava abandonada, com as pedras desgastadas cobertas por rosas trepadeiras.

Quando o vento mudou, Sor Cleos ajudou a grande garota a içar a vela, um triângulo teso de lona com listras vermelhas e azuis. Cores Tully, que lhes causariam problemas na certa se encontrassem alguma força Lannister no rio, mas era a única vela que possuíam.

Brienne pegou a cana do leme. Jaime atirou à água a bolina de bordo, e suas correntes chocalharam quando se moveu. Depois disso, a velocidade aumentou, e a fuga passou a ser favorecida tanto pelo vento como pela corrente do rio.

- Poderíamos poupar algum tempo se me entregasse ao meu pai e não ao meu irmão - apontou.

- As filhas da Senhora Catelyn estão em Porto Real. E ou volto com as meninas ou não volto.

Jaime virou-se para Sor Cleos.

- Primo, empreste-me sua faca.

- Não. - A mulher ficou tensa. - Não o quero armado. - A voz era inflexível como pedra.

Ela tem medo de mim, mesmo acorrentado.

- Cleos, parece que terei de pedir que você raspe meu cabelo. Deixe a barba, mas tire o cabelo da minha cabeça.

- Quer raspar o cabelo por completo? - perguntou Cleos Frey.

- O reino conhece Jaime Lannister como um cavaleiro sem barba e com longos cabelos dourados. Um careca com uma barba amarela e imunda pode passar despercebido. Prefiro não ser reconhecido enquanto estiver acorrentado.

O punhal não estava tão afiado como seria desejável. Cleos cortou os cabelos do primo virilmente, abrindo caminho pelos nós e atirando-os na água. Os caracóis dourados flutuaram na superfície da água, ficando gradualmente para trás. Enquanto os cabelos iam desaparecendo, um piolho arrastou-se descendo por seu pescoço. Jaime apanhou-o e esmagou-o na unha. Sor Cleos tirou outros do couro cabeludo do primo e atirou-os na água. Jaime mergulhou a cabeça no rio e obrigou Sor Cleos a amolar a lâmina antes de deixá-lo raspar os últimos dois centímetros de penugem amarela. Quando terminaram essa parte, apararam-lhe também a barba.

O reflexo na água era de um homem que não conhecia. Não só era calvo, também parecia que tinha envelhecido cinco anos naquela masmorra; seu rosto estava mais magro, com covas debaixo dos olhos e rugas de que não se lembrava. Assim não me pareço muito com Cersei. Ela vai detestar isso.

Por volta do meio-dia, Sor Cleos adormeceu. Seus roncos pareciam patos acasalando. Jaime esticou-se para ver o mundo passando; depois da cela escura, cada rochedo e árvore era uma maravilha.

Algumas choupanas de um só cômodo surgiram e desapareceram, empoleiradas em estacas altas que as faziam assemelhar-se a guindastes. Das pessoas que lá viviam não viram nem sinal. Aves voavam no alto, ou soltavam gritos das árvores que cresciam nas margens, e Jaime vislumbrou peixes prateados cortando a água. Truta Tully, aí está um mau presságio, pensou, até ver outro pior - um dos troncos flutuantes por que passaram revelou ser um homem morto, sem sangue e inchado. Seu manto estava emaranhado nas raízes de uma árvore caída, e a cor era inconfundível: o carmesim de Lannister. Perguntou a si mesmo se o cadáver era de algum conhecido seu.

Os ramos do Tridente eram a forma mais simples de transportar bens e homens pelas terras fluviais. Em tempos de paz, teriam encontrado pescadores em seus esquifes, barcaças de cereais sendo conduzidas corrente abaixo por varas, mercadores que vendiam agulhas e rolos de tecido em lojas flutuantes, talvez até um barco de pantomimeiros alegremente pintado, com velas feitas de remendos de meia centena de cores, subindo o rio de aldeia em aldeia e de castelo em castelo.

Mas a guerra havia cobrado seu preço. Passaram por aldeias mas não viram aldeões. Uma rede vazia, cortada, rasgada e pendurada em árvores era o único sinal de pescadores. Uma jovem que dava de beber ao cavalo afastou-se assim que vislumbrou a vela deles. Mais tarde, passaram por uma dúzia de camponeses que escavavam à sombra do esqueleto de uma torre queimada. Os homens olharam-nos com olhos mortiços e regressaram ao trabalho assim que decidiram que o esquife não constituía ameaça.

O Ramo Vermelho era largo e lento, um rio sinuoso de voltas e curvas, salpicado de minúsculas ilhotas arborizadas e frequentemente atravancado por bancos de areia e obstáculos submersos que espreitavam logo abaixo da superfície da água. Mas Brienne parecia ter olho bom para os perigos, e sempre encontrava o canal. Quando Jaime a elogiou por seu conhecimento do rio, ela olhou-o com suspeita e disse:

- Não conheço o rio. Tarth é uma ilha. Aprendi a manejar remos e velas antes de subir em um cavalo.

Sor Cleos sentou-se e esfregou os olhos.

- Deuses, meus braços estão doloridos. Espero que o vento dure. - Farejou-o - Sinto cheiro de chuva.

Jaime acolheria com agrado uma boa chuvarada. As masmorras de Correrrio não eram o lugar mais limpo dos Sete Reinos. Agora devia estar cheirando como um queijo curado demais.

Cleos semicerrou os olhos para a jusante.

- Fumaça.

Um fino dedo cinzento chamava-os, mais adiante. Erguia-se da margem sul, a vários quilômetros de distância, retorcendo-se e enrolando-se. Por baixo, Jaime distinguiu os restos fumegantes de um grande edifício, e um carvalho perenifólio cheio de mulheres mortas.

Os corvos mal tinham começado a atacar os cadáveres. As cordas finas abriam sulcos profundos na pele suave de suas gargantas, e quando o vento soprava, elas viravam e oscilavam.

- Isso não foi cavalheiresco - disse Brienne quando se aproximaram o suficiente para ver com clareza. - Nenhum cavaleiro de verdade perdoaria uma carnificina tão cruel.

- Os verdadeiros cavaleiros veem coisas piores sempre que partem para a guerra, garota - disse Jaime. - E, sim, fazem coisas piores.

Brienne virou o leme para a margem.

- Não deixarei inocentes como comida para corvos.

- Uma garota sem coração. Os corvos também precisam comer. Fique no rio e deixe os mortos em paz, mulher.

Atracaram antes do local onde o grande carvalho se inclinava sobre a água. Enquanto Brienne baixava a vela, Jaime pulou para fora do barco, desajeitado devido às correntes. O Ramo Vermelho encheu suas botas e empapou seus calções esfarrapados. Rindo, ajoelhou-se, mergulhou a cabeça na água e ergueu-se, ensopado e pingando. Tinha as mãos cheias de sujeira seca, e depois de esfregá-las na corrente, pareceram-lhe mais magras e mais pálidas do que se lembrava delas. Sentiu também as pernas tesas e pouco firmes quando apoiou nelas seu peso. Passei tempo demais na maldita masmorra de Hoster Tully.

Brienne e Cleos arrastaram o esquife para a margem. Os cadáveres pendiam sobre suas cabeças, amadurecendo na morte como frutos fétidos.

- Um de nós terá de cortar aquelas cordas - disse a mulher.

- Eu subo - Jaime moveu-se para a terra, tilintando. - Basta que tire estas correntes de mim.

A garota estava fitando uma das mortas. Jaime aproximou-se com seus pequenos e hesitantes passinhos, a única forma que a corrente permitia. Quando viu a tosca tabuleta pendurada no pescoço do cadáver mais alto, sorriu.

- Deitaram-se com Leões - leu. - Oh, sim, mulher, isso foi muito pouco cavalheiresco... mas, foi feito pelo seu lado, e não pelo meu. Pergunto-me quem seriam estas mulheres.

- Garotas de taverna - disse Sor Cleos Frey. - Isto era uma estalagem, recordo agora. Alguns homens de minha escolta passaram a noite aqui quando voltamos a Correrrio. - Nada restava do edifício além das fundações de pedra e de um emaranhado de vigas caídas e negras de carvão. Ainda saía fumaça das cinzas.

Jaime deixava os bordéis e as prostitutas para o irmão Tyrion. Cersei era a única mulher que tinha desejado na vida.

- As garotas deram prazer a alguns dos soldados do senhor meu pai, ao que parece. Talvez tenham servido comida e bebida a eles. Foi assim que ganharam seus colares de traidoras, com um beijo e um copo de cerveja. - Olhou de relance para os dois lados do rio, a fim de se certificar de que estavam sós. - Isto é terra Bracken. Lorde Jonos pode ter ordenado a morte delas. Meu pai queimou o castelo dele, receio que não goste de nós.

- Pode ser obra de Marq Piper - disse Sor Cleos. - Ou do fogaréu dos bosques, Beric Dondarrion, muito embora eu tenha ouvido dizer que ele só mata soldados. Talvez um bando de nortenhos de Roose Bolton?

- Bolton foi derrotado pelo meu pai no Ramo Verde.

- Derrotado, mas não destruído - disse Sor Cleos. - Avançou para sul novamente quando Lorde Tywin se pôs em marcha contra os vaus. Segundo se dizia em Correrrio, tomou Harrenhal de Sor Amory Lorch.

Jaime não gostou nem um pouco daquilo.

- Brienne - disse, concedendo-lhe a cortesia do nome na esperança de fazer com que ela o escutasse -, se Lorde Bolton detém Harrenhal, tanto o Tridente como a estrada do rei provavelmente estão sob vigia.

Pensou ter visto uma ponta de incerteza nos grandes olhos azuis da garota.

- Está sob a minha proteção. Teriam de me matar.

- Não me parece que eles teriam remorso disso.

- Sou tão boa lutadora quanto você - disse ela em tom defensivo. - Era um dos sete escolhidos do Rei Renly. Com as próprias mãos prendeu o manto de seda listrada da Guarda Arco-íris em minhas costas.

- A Guarda Arco-íris? Era você e mais seis garotas, não? Um cantor certo dia disse que todas as donzelas são belas vestidas de seda... mas ele nunca a viu, não é?

A mulher ficou vermelha.

- Temos sepulturas para cavar. - E escalou a árvore.

Os galhos mais baixos do carvalho eram suficientemente grandes para ela caminhar sobre eles, depois de ter subido o tronco. Deslocou-se por entre as folhas, de punhal na mão, cortando as cordas que suspendiam os cadáveres. Moscas esvoaçavam em torno dos corpos quando caíam, e o fedor foi piorando à medida que o trabalho avançava.

- Isso é trabalho demais para se ter só por causa de prostitutas - queixou-se Sor Cleos. - Com o que devemos cavar? Não temos pás, e eu não usarei a espada, não...

Brienne soltou um grito. Saltou para o chão em vez de descer pelo tronco.

- Para o barco. Depressa. Uma vela.

Apressaram-se o mais que puderam, embora Jaime quase não conseguisse correr e tivesse de ser puxado para dentro do esquife pelo primo. Brienne empurrou o barco para a água com um remo e içou apressadamente a vela.

- Sor Cleos, vou precisar que reme também.

Ele fez o que Brienne lhe pediu. O esquife começou a cortar as águas um pouco mais depressa; corrente, vento e remos, todos trabalhavam a seu favor. Jaime ficou sentado, acorrentado, olhando atentamente para o sentido da nascente. Só o topo da outra vela estava visível. Devido ao modo como o Ramo Vermelho se contorcia, parecia encontrar-se do outro lado dos campos, movendo-se para o norte por trás de um biombo de árvores, enquanto eles se deslocavam para o sul, mas Jaime sabia que a aparência era enganosa. Levantou ambas as mãos para proteger os olhos do sol.

- Vermelho de lama e azul de água - anunciou.

A grande boca de Brienne movia-se sem som, dando-lhe o aspecto de uma vaca ruminando.

- Mais depressa, sor.

A estalagem desapareceu rapidamente atrás deles, e também perderam de vista o topo da vela, mas isso não queria dizer nada. Assim que os perseguidores fizessem a curva, ficariam de novo visíveis.

- Creio que podemos ter a esperança de que os nobres Tully parem para enterrar as putas mortas. - A ideia de voltar à sua cela não entusiasmava Jaime. Tyrion poderia pensar agora em qualquer coisa inteligente, mas tudo o que vem à minha cabeça é atacá-los com uma espada.

Durante quase uma hora brincaram de esconde-esconde com os perseguidores, navegando pelas curvas do rio e por entre pequenas ilhas arborizadas. Justo no momento em que começavam a ganhar a esperança de que de algum modo tivessem deixado para trás aqueles que seguiam em seu encalço, eis que a vela distante se tornou de novo visível. Sor Cleos fez uma pausa nas remadas.

- Que os Outros os levem. - E limpou o suor da testa.

- Reme! - disse Brienne.

- Aquilo que vem atrás de nós é uma galé de rio - anunciou Jaime depois de observá-la durante algum tempo. A cada remada parecia crescer um pouco mais. - Nove remos de cada lado, o que significa dezoito homens. Mais, se tiverem embarcado soldados além dos remadores. E velas maiores do que as nossas. Não é possível fugir deles.

Sor Cleos congelou nos remos.

- Você disse dezoito?

- Seis para cada um de nós. Eu ficaria com oito, mas estas pulseiras me atrapalham um pouco. - Jaime ergueu os pulsos. - A menos que a Senhora Brienne faça a gentileza de me soltar.

Ela ignorou-o, colocando todos os seus esforços nas remadas.

- Tínhamos meia noite de dianteira - disse Jaime. - Eles têm remado desde a alvorada, descansando dois remos de cada vez. Devem estar exaustos. A visão de nossa vela renovou suas forças, mas isso não durará. Conseguiríamos matar vários.

O queixo de Sor Cleos caiu.

- Mas... eles são dezoito.

- Pelo menos. O mais certo é serem vinte ou vinte e cinco.

O primo gemeu.

- Não podemos esperar derrotar dezoito homens.

- E eu disse que podíamos? O melhor que podemos esperar é morrer de espada na mão. - Estava sendo completamente sincero. Jaime Lannister nunca teve medo da morte.

Brienne parou de remar. O suor tinha colado madeixas cor de linho em sua testa, e sua careta fazia-a parecer mais rústica do que nunca.

- Você está sob a minha proteção - disse, com a voz tão carregada de ira que era quase um rosnido.

Ele não conseguiu não rir de tanta ferocidade. Ela é o Cão de Caça com tetas, pensou. Ou seria, se tivesse algo que desse para chamar de teta.

- Então proteja-me, garota. Ou me solte para que eu possa me protejer.

A galé pairava rio abaixo, como uma grande libélula de madeira. A água ao redor dela havia se transformado em espuma branca pelos furiosos movimentos de seus remos. Estava aproximando-se visivelmente, e os homens no convés aglomeravam-se na dianteira. Metal cintilava nas mãos deles, e Jaime também via arcos. Arqueiros. Detestava arqueiros.

À proa da galé encontrava-se um homem robusto, de cabeça calva, espessas sobrancelhas grisalhas e braços musculosos. Sobre a cota de malha usava um sujo sobretudo branco, com um salgueiro bordado em verde-claro, mas o manto estava preso por uma truta prateada. O capitão dos guardas de Correrrio. Em seu tempo, Sor Robin Ryger fora um lutador notavelmente persistente, mas seu tempo tinha passado; era da mesma idade de Hoster Tully, e envelhecera com o seu senhor.

Quando os barcos se aproximaram e ficaram a cinquenta metros um do outro, Jaime pôs as mãos em concha ao redor da boca e gritou por sobre a água.

- Veio me desejar boa viagem, Sor Robin?

- Vim levá-lo de volta, Regicida - berrou Sor Robin Ryger. - Como foi que perdeu seus cabelos dourados?

- Espero cegar os inimigos com o brilho da cabeça. Funcionou bastante bem com vocês.

Sor Robin não sorriu. A distância entre o esquife e a galé tinha diminuído para quarenta metros.

- Atirem os remos e as armas ao rio, e ninguém se machucará.

Sor Cleos virou-se.

- Jaime, diga a ele que fomos libertados pela Senhora Catelyn... uma troca de cativos, legítima...

Jaime disse, por descargo de consciência.

- Catelyn Stark não governa em Correrrio - gritou Sor Robin de volta. Quatro arqueiros apertaram-se de ambos os lados do velho cavaleiro, dois ajoelhados e dois em pé. - Arremessem suas espadas na água.

- Não tenho espada - retorquiu -, mas se tivesse iria espetá-la em sua barriga e cortaria as bolas desses quatro covardes.

A resposta foi uma chuva de flechas. Uma cravou-se no mastro, duas perfuraram a vela e a quarta não atingiu Jaime por trinta centímetros.

Outra das grandes voltas do Ramo Vermelho aproximou-se à frente deles. Brienne atravessou-a em ângulo, o estaleiro balançou quando viraram e a vela estalou ao se encher de vento. À frente, uma grande ilha estendia-se no meio da calha. O canal principal fluía pela direita. À esquerda, uma corredeira fluía entre a ilha e as escarpas elevadas da margem norte. Brienne moveu a cana do leme e o esquife cortou para a esquerda, com a vela ondulando. Jaime observou seus olhos. Olhos bonitos, pensou, e calmos. Sabia ler os olhos de uma pessoa. Sabia qual era o aspecto do medo. Ela está determinada, não desesperada.

Trinta metros atrás, a galé entrava na curva.

- Sor Cleos, tome o leme - ordenou a moça. - Regicida, pegue um remo e mantenha-nos afastados das rochas.

- Às ordens de minha senhora. - Um remo não era uma espada, mas a pá podia quebrar o rosto de um homem, se bem brandida, e o cabo podia ser usado para parar estocadas.

Sor Cleos enfiou o remo na mão de Jaime e engatinhou até a popa. Passaram pela ponta da ilha e entraram na corredeira em uma curva apertada, atirando uma onda contra a íngreme encosta enquanto o barco se inclinava. A ilha era densamente arborizada, um emaranhado de salgueiros, carvalhos e grandes pinheiros que lançavam profundas sombras sobre a água, escondendo rochas e os troncos apodrecidos de árvores submersas. À esquerda, a falésia erguia-se abrupta e rochosa, e, em seu sopé, o rio espumava, branco, em volta de pedregulhos quebrados e montes de rochas caídos da face da escarpa.

Passaram do sol para a sombra, escondidos da vista da galé pela muralha verde das árvores e pela escarpa rochosa cinza-amarronzada. Alguns momentos livres das flechas, pensou Jaime, afastando-os de um pedregulho meio submerso.

O esquife balançou. Ouviu uma suave pancada na água e quando olhou em volta, Brienne tinha desaparecido. Um momento mais tarde, voltou a vê-la, erguendo-se de dentro da água para a base da escarpa. Ela atravessou um charco raso, subiu algumas rochas e começou a escalar. Sor Cleos arregalava os olhos, de boca aberta. Idiota, pensou Jaime.

- Ignore a garota - exclamou para o primo. - Guie o barco.

Já viam a vela movendo-se atrás das árvores. A galé de rio surgiu, no topo da corredeira, vinte e cinco metros atrás deles. Sua proa oscilou violentamente quando ela virou, e meia dúzia de flechas levantaram voo, mas todas passaram bastante longe. O movimento dos dois barcos estava dando trabalho aos arqueiros, mas Jaime sabia que eles aprenderiam a compensar dentro de pouco tempo. Brienne encontrava-se no meio da escarpa, içando-se de apoio em apoio. Ryger vai vê-la com certeza e, assim que isso acontecer, ordenará àqueles arqueiros que a abatam. Jaime decidiu verificar se o orgulho do velho o tornava estúpido.

- Sor Robin - gritou -, escute-me por um momento.

Sor Robin ergueu uma mão e os arqueiros baixaram os arcos.

- Diga o que quiser, Regicida, mas diga depressa.

O esquife sacudiu por entre uma confusão de pedras quebradas enquanto Jaime gritava:

- Conheço uma maneira melhor de resolver este assunto... combate singular. Você e eu.

- Não nasci esta manhã, Lannister.

- Não, mas é provável que morra esta tarde. - Jaime ergueu as mãos para que o outro pudesse ver as algemas. - Lutarei com você acorrentado. Que tem a temer?

- Não você, sor. Se a escolha fosse minha, nada me agradaria mais, mas recebi ordens de levá-lo de volta vivo, se possível. Arqueiros. - Fez-lhes sinal para avançar. - Encaixar. Puxar. Larg...

A distância era inferior a vinte metros. Os arqueiros dificilmente teriam falhado, mas, no momento em que puxavam os arcos, uma cascata de seixos choveu em volta deles. Pequenas pedras matraquearam no convés, ricochetearam em seus elmos e caíram na água de ambos os lados da proa. Os que tinham cérebro suficiente para compreender levantaram os olhos no exato instante em que um pedregulho do tamanho de uma vaca se desprendeu do topo da íngreme encosta. Sor Robin gritou, consternado. O pedregulho girou no ar, atingiu a face do penhasco, rachou em dois e esmagou-se sobre eles. O pedaço maior quebrou o mastro, atravessou a vela, atirou dois dos arqueiros ao rio e esmagou a perna de um remador no momento em que ele se dobrava sobre o remo. A rapidez com que a galé começou a se encher de água sugeria que o fragmento menor tinha atravessado o casco. Os gritos dos remadores ecoaram na encosta enquanto os arqueiros esbracejavam freneticamente na corrente. Julgando pelo modo como chapinhavam na água, nenhum deles sabia nadar. Jaime soltou uma gargalhada.

Quando emergiram da corredeira, a galé afundava por entre charcos, turbilhões e obstáculos submersos, e Jaime Lannister chegou à conclusão de que os deuses eram bons. Sor Robin e seus triplamente malditos arqueiros teriam uma longa e encharcada caminhada de volta a Correrrio, e também se tinha visto livre da grande garota rústica. Eu mesmo não poderia ter planejado isso melhor. Assim que me livrar destes ferros...

Sor Cleos soltou um grito. Quando Jaime olhou para cima, Brienne deslocava-se pelo topo da encosta bem à frente deles, depois de cortar por um istmo enquanto o barco seguia a curva do rio. Atirou-se do rochedo, e pareceu quase graciosa ao se dobrar para um mergulho. Teria sido descortês ter esperança de que ela esmagasse a cabeça numa pedra. Sor Cleos virou o esquife em sua direção. Felizmente, Jaime ainda tinha o remo. Uma boa cacetada quando ela emergir bracejando, e me livro dela.

Mas, em vez disso, viu-se estendendo o remo por cima da água. Brienne agarrou-se a ele, e Jaime puxou-a para dentro. Enquanto a ajudava a subir para o esquife, água escorreu dos cabelos dela e pingou de suas roupas empapadas, fazendo uma poça no convés. É ainda mais feia molhada. Quem acharia que isso seria possível?

- E uma garota burra demais - disse-lhe. - Podíamos ter continuado sem você. Suponho que espera que lhe agradeça?

- Não quero nenhum agradecimento seu, Regicida. Prestei o juramento de levá-lo a salvo até Porto Real.

- E pretende mesmo mantê-lo? - Jaime concedeu-lhe o mais resplandecente de seus sorrisos. - Isso é de admirar.

Sor Desmond Grell havia servido a Casa Tully por toda a sua vida. Era escudeiro quando Catelyn nasceu, cavaleiro quando ela aprendeu a andar, a montar a cavalo e a nadar, mestre de armas no dia em que ela casou. Tinha visto a pequena Cat do Lorde Hoster transformar-se numa jovem, na senhora de um grande lorde, na mãe de um rei. E agora também viu me tornar uma traidora.

O irmão de Catelyn, Edmure, nomeara Sor Desmond castelão de Correrrio quando partiu para a batalha, por isso coube a ele lidar com o crime dela. A fim de aliviar seu desconforto, trouxe consigo o intendente do pai, o severo Utherydes Wayn. Os dois homens pararam e fitaram-na; Sor Desmond, corpulento, corado, embaraçado, Utherydes, grave, lúgubre, melancólico. Cada um esperava que o outro falasse. Deram a vida a serviço de meu pai, e eu paguei-lhes com a desonra, pensou, exausta, Catelyn.

- Seus filhos - disse por fim Sor Desmond. - Meistre Vyman contou-nos. Pobres rapazes. Terrível. Terrível. Mas...

- Partilhamos a sua dor, senhora - disse Utherydes Wayn. - Correrrio inteiro sofre com a senhora, mas...

- A notícia deve tê-la levado à loucura - interrompeu Sor Desmond -, uma loucura de desgosto, uma loucura de mãe, os homens compreenderão. Não sabia...

- Sabia - disse firmemente Catelyn. - Compreendia o que estava fazendo e sabia que era traição. Se não me punirem, os homens pensarão que conspiramos para libertar Jaime Lannister. O ato foi meu e apenas meu, e só eu devo responder por ele. Vista-me com os ferros vazios do Regicida, e vou usá-los com orgulho, se for assim que tiver de ser.

- Algemas? - a própria palavra pareceu chocar o pobre Sor Desmond. - Para a mãe do rei, e filha do meu senhor? Impossível.

- Talvez - disse o intendente Utherydes Wayn - a senhora consentisse em ficar confinada em seus aposentos até a volta de Sor Edmure. Passar algum tempo sozinha, para rezar pelos filhos assassinados?

- Sim, confinada - disse Sor Desmond. - Confinada em uma cela na torre, isso será o bastante.

- Se tenho de ficar confinada, que seja nos aposentos de meu pai, para que possa confortá-lo em seus últimos dias.

Sor Desmond refletiu por um momento.

- Muito bem. Não lhe faltará conforto ou respeito, mas não lhe daremos a liberdade de castelo. Visite o septo quanto precisar, mas, fora isso, permaneça nos aposentos de Lorde Hoster até que Lorde Edmure regresse.

- Às suas ordens. - O irmão não era lorde algum enquanto o pai vivesse, mas Catelyn não o corrigiu. - Coloque um guarda para me vigiar se for necessário, mas comprometo-me a não tentar fugir.

Sor Desmond assentiu, claramente contente por se livrar daquela desagradável tarefa, mas Utherydes Wayn ficou ainda por um momento, de olhos tristes, depois de o castelão ter se retirado.

- O que fez foi grave, senhora, mas não serviu de nada. Sor Desmond enviou Sor Robin Ryger atrás deles, para trazer de volta o Regicida... ou, caso não seja possível, a cabeça dele.

Catelyn não esperara outra coisa. Que o Guerreiro dê força ao seu braço da espada, Brienne, rezou. Tinha feito tudo o que podia; nada restava a não ser ter esperança.

Suas coisas foram levadas para o quarto do pai, dominado pela grande cama de dossel em que Catelyn havia nascido, com as colunas esculpidas em forma de trutas saltantes. O pai tinha sido mudado para meia volta de escada abaixo, e sua cama de doente, colocada de frente para a varanda triangular de onde podia ver os rios que sempre tanto amara.

Lorde Hoster dormia quando Catelyn entrou. Ela saiu para a varanda e apoiou uma mão na áspera balaustrada de pedra. Para lá do ponto onde se erguia o castelo, o rápido Pedregoso juntava-se ao plácido Ramo Vermelho, e via-se um longo trecho de rio para jusante. Se uma vela listrada chegar do leste, será Sor Robin retornando. Por ora, a superfície das águas encontrava-se vazia. Agradeceu aos deuses por isso e voltou para dentro, para se sentar com o pai.

Catelyn não poderia dizer se Lorde Hoster sabia que ela se encontrava ali, ou se sua presença lhe trazia algum conforto, mas sentia-se consolada por estar com ele. O que diria se soubesse de meu crime, pai?, interrogou-se. Teria feito o que eu fiz se fosse Lysa e eu que estivéssemos nas mãos de nossos inimigos? Ou também me condenaria, chamando o ato de loucura de mãe?

Havia um cheiro de morte no quarto; um cheiro pesado, doce e desagradável, que se agarrava às coisas. Fazia-a lembrar dos filhos que tinha perdido, de seu querido Bran e do pequeno Rickon, mortos pelas mãos de Theon Greyjoy, que fora protegido de Ned. Ainda sofria por Ned, sofreria sempre por ele, mas ter roubados também os seus bebês...

- Perder um filho é uma crueldade monstruosa - sussurrou suavemente, mais para si do que para o pai.

Os olhos de Lorde Hoster abriram-se.

- Tanásia - rouquejou, numa voz espessa de dor.

Ele não me reconhece. Catelyn já tinha se acostumado com o pai a confundindo com a mãe ou a irmã Lysa, mas Tanásia era um nome estranho a ela.

- E a Catelyn - disse. - E a Cat, pai.

- Perdoe-me... o sangue... oh, por favor... Tanásia...

Teria havido outra mulher na vida do pai? Talvez alguma donzela de aldeia que ele seduzira quando jovem? Será que ele achou conforto nos braços de alguma criada depois de a mãe morrer? Era um pensamento estranho, perturbador. De repente sentiu-se como se não conhecesse o pai de todo.

- Quem é Tanásia, senhor? Quer que a mande chamar, pai? Onde posso encontrar a mulher? Ainda é viva?

Lorde Hoster gemeu.

- Morta. - A mão dele procurou a sua, apalpando. - Terá outros... bebês amorosos, e legítimos.

Outros? pensou Catelyn. Terá esquecido que Ned está morto? Ainda está falando com Tanásia, ou agora fala comigo, com a Lysa ou com a mãe?

Quando ele tossiu, a expectoração veio ensanguentada. Agarrou os dedos dela.

- ... seja uma boa esposa e os deuses irão abençoá-la... filhos... filhos legítimos... aaahhh. - O súbito espasmo de dor fez com que a mão de Lorde Hoster se apertasse. As unhas enterraram-se na mão dela, e ele soltou um grito abafado.

Meistre Vyman chegou depressa, para preparar outra dose de leite de papoula e ajudar seu senhor a engoli-la. Pouco depois, Lorde Hoster Tully voltava a cair num sono pesado.

- Ele estava perguntando por uma mulher - disse Cat. - Tanásia.

- Tanásia? - o meistre olhou-a sem expressão.

- Não conhece ninguém com esse nome? Uma criada, uma mulher de alguma aldeia próxima? Talvez alguém de anos atrás? - Catelyn tinha passado muito tempo afastada de Correrrio.

- Não, senhora. Posso investigar, se quiser. Utherydes Wayn certamente saberá se uma pessoa assim alguma vez serviu em Correrrio. E Tanásia, você diz? O povo dá frequentemente o nome de ervas e flores às filhas. - O meistre parecia pensativo. - Houve uma viúva, ao que me lembro, que costumava vir ao castelo em busca de sapatos velhos que precisassem de solas novas. O nome dela era Tanásia, agora que penso nisso. Ou seria Pansy? Algo assim. Mas há muitos anos que não vem.

- O nome dela era Violet - disse Catelyn, que se lembrava muito bem da velha.

- Era? - o meistre fez uma expressão de desculpa. - Os meus perdões, Senhora Catelyn, mas não posso ficar. Sor Desmond decretou que só devemos falar com a senhora no âmbito de nossos deveres.

- Então deve fazer o que ele ordena. - Catelyn não podia culpar Sor Desmond; tinha lhe dado poucas razões para confiar nela, e o homem sem dúvida temia que ela pudesse usar a lealdade que muitos dos habitantes de Correrrio ainda nutriam pela filha de seu senhor para fazer mais algum estrago. Pelo menos estou livre da guerra, disse a si mesma, mesmo que por pouco tempo.

Depois que o meistre partiu, Catelyn vestiu um manto de lã e voltou a sair para a varanda. A luz do sol cintilava nos rios, dourando a superfície das águas que passavam rodopiando pelo castelo. Ela protegeu os olhos do clarão, em busca de uma vela distante, temendo vê-la. Mas nada havia, e esse nada queria dizer que suas esperanças ainda se mantinham vivas.

Passou o dia inteiro vigiando o rio, e também boa parte da noite, até suas pernas doerem de ficar em pé. Um corvo chegou ao castelo ao fim da tarde, descendo para a colônia com grandes asas negras. Asas escuras, palavras escuras, pensou, lembrando-se da última ave que chegara e do horror que trouxera.

- Falei com Utherydes Wayn, senhora. Ele está bastante seguro de que nenhuma mulher chamada Tanásia esteve em Correrrio desde que está aqui.

- Vi que chegou hoje um corvo. Jaime foi recapturado? - Ou morto, que os deuses não permitam isso!

- Não, senhora, não recebemos notícias do Regicida.

- Então é outra batalha? Edmure está em dificuldades? Ou Robb? Por favor, seja gentil, acalme os meus receios.

- Senhora, eu não devia... - Vyman olhou em volta, como que para se certificar de que não havia mais ninguém no quarto. - Lorde Tywin abandonou as terras fluviais. Tudo está sossegado nos vaus.

- De onde veio o corvo então?

- Do oeste - respondeu ele, atarefando-se com a roupa de cama de Lorde Hoster e evitando os olhos de Catelyn.

- Eram notícias de Robb?

Ele hesitou.

- Sim, senhora.

- Há algo errado. - Soube disso por seus modos. O homem estava escondendo algo. - Diga-me. E Robb? Ele está ferido? - Morto não, que os deuses sejam bons, por favor não me diga que ele está morto.

- Sua Graça foi ferido no assalto ao Despenhadeiro - disse Meistre Vyman, ainda evasivo -, mas escreve que não há por que se preocupar, e que espera retornar em breve.

- Um ferimento? Que tipo de ferimento? Com que gravidade?

- Não há por que se preocupar, ele escreveu.

- Todos os ferimentos me preocupam. Ele está sendo tratado?

- Estou certo de que sim. O meistre no Despenhadeiro cuidará dele, não tenho dúvidas.

- Onde foi ferido?

- Senhora, foi-me ordenado que não falasse com a senhora. Lamento. - Recolhendo suas poções, Vyman saiu apressadamente, e Catelyn foi novamente deixada a sós com o pai. O leite de papoula tinha cumprido a sua função, e Lorde Hoster encontrava-se mergulhado num sono pesado. Um fino fio de saliva escorria de um canto de sua boca aberta e umedecia a almofada. Catelyn pegou um quadrado de linho e limpou-o com suavidade. Quando o tocou, Lorde Hoster gemeu.

- Perdoe-me - disse, numa voz tão baixa que Catelyn quase não conseguiu ouvir as palavras. - Tanásia... sangue... o sangue... deuses, sejam bons...

Aquelas palavras perturbaram-na mais do que podia expressar, embora não conseguisse dar-lhes sentido. Sangue, pensou. Será que tudo terá de acabar em sangue? Pai, quem era essa mulher, e o que fez a ela que necessite tanto de perdão?

Nessa noite, Catelyn acordou diversas vezes, assombrada por sonhos sem nexo sobre os filhos, os perdidos e os mortos. Muito antes do romper do dia, acordou com as palavras do pai ecoando nos ouvidos. Bebês amorosos, e legítimos... por que diria aquilo, a não ser... será possível que tenha gerado um bastardo com essa mulher, Tanásia? Não podia acreditar. O irmão Edmure, sim; não a surpreenderia saber que Edmure tinha uma dúzia de filhos ilegítimos. Mas o pai não, Lorde Hoster Tully não, nunca.

Poderá Tanásia ser algum nome carinhoso que tenha dado a Lysa, da mesma forma que me chamava de Cat? Lorde Hoster já a tinha confundido com a irmã antes. Terá outros, disse ele. Bebês amorosos, e legítimos. Lysa abortara cinco vezes, duas no Ninho da Águia, três em Porto Real... mas nunca em Correrrio, onde Lorde Hoster estaria por perto para confortá-la. Nunca, a não ser... a não ser que esperasse uma criança, daquela primeira vez...

Ela e a irmã tinham casado no mesmo dia e foram deixadas aos cuidados do pai quando os novos esposos partiram para se juntar novamente à rebelião de Robert. Mais tarde, quando seu sangue de lua não chegou no momento de costume, Lysa tagarelara alegremente sobre os filhos que estava certa de que ambas esperavam.

- Seu filho será herdeiro de Winterfell e o meu, do Ninho da Águia. Oh, serão os melhores amigos, como o seu Ned e Lorde Robert. Serão mais irmãos do que primos, verdade, eu sei que sim. - Ela estava tão feliz.

Mas o sangue de Lysa acabou chegando não muito depois, e toda a alegria a abandonou. Catelyn sempre pensou que Lysa tinha estado simplesmente um pouco atrasada, mas se tivesse estado grávida...

Recordou a primeira vez que entregou Robb para a irmã segurar; pequeno, corado e berrando, mas já então forte, cheio de vida. Bastou a Catelyn colocar o bebê nas mãos da irmã para o rosto de Lysa se dissolver em lágrimas e ela devolver apressadamente o bebê a Catelyn e fugir.

Se tivesse perdido um filho antes, isso poderia explicar as palavras do pai, e muitas outras coisas... O casamento de Lysa com Lorde Arryn tinha sido arranjado às pressas, e já então Jon era velho, mais velho do que o pai delas. Um velho sem um herdeiro. Suas duas primeiras esposas tinham-no deixado sem filhos, o filho do irmão fora assassinado com Brandon Stark em Porto Real, seu galante primo morrera na Batalha dos Sinos. Precisava de uma esposa jovem para a Casa Arryn perdurar... uma esposa jovem que se soubesse que era fértil.

Catelyn ficou em pé, vestiu um roupão e desceu os degraus até o aposento privado escurecido, parando junto ao pai. Uma sensação de terror impotente encheu-a.

- Pai - disse -, pai, sei o que o senhor fez. - Já não era uma noiva inocente com a cabeça cheia de sonhos. Era uma viúva, uma traidora, uma mãe de luto, e conhecedora, sabedora dos costumes do mundo. - Obrigou-o a aceitá-la - sussurrou. - Lysa foi o preço que Jon Arryn teve de pagar pelas espadas e lanças da Casa Tully.

Pouco admirava que o casamento da irmã tivesse sido tão desprovido de amor. Os Arryn eram orgulhosos, e cismados em relação à honra. Lorde Jon podia se casar com Lysa para ligar os Tully à causa da rebelião, e na esperança de um filho, mas seria difícil para ele amar uma mulher que chegara conspurcada e de má vontade à sua cama. Teria sido atencioso, sem dúvida, cumpridor, sim; mas Lysa precisava de calor.

No dia seguinte, enquanto fazia sua primeira refeição, Catelyn pediu pena e papel e começou uma carta para enviar à irmã, no Vale de Arryn. Contou a Lysa sobre Bran e Rickon, lutando com as palavras, mas escreveu principalmente sobre o pai.

Todos os seus pensamentos estão no mal que lhe fez, agora que o tempo dele fica mais curto. Meistre Vyman diz que não se atreve afazer o leite de papoula mais forte. É hora de o pai pousar a espada e o escudo. É hora de ele descansar. Mas continua a lutar, desesperadamente, não quer ceder. É por você, penso eu. Precisa do seu perdão. A guerra tornou perigosa a estrada entre Ninho da Águia e Correrrio, eu sei, mas decerto uma poderosa força de cavaleiros seria capaz de trazê-la em segurança através das Montanhas da Lua, não? Uma centena de homens, ou um milhar? E se não puder vir, não poderia pelo menos escrever a ele? Algumas palavras de amor, para que possa morrer em paz? Escreva o que quiser e eu lerei para ele, aliviando seu percurso.

Enquanto colocava a pena de lado e pedia cera para selar a carta, Catelyn sentiu que provavelmente ela era insuficiente e tardia. Meistre Vyman não acreditava que Lorde Hoster resistiria tempo bastante para que um corvo chegasse ao Ninho da Águia e voltasse. Se bem que ele já tenha dito antes algo muito semelhante... Os homens Tully não se rendiam facilmente, fossem quais fossem as probabilidades. Depois de confiar o pergaminho aos cuidados do meistre, Catelyn dirigiu-se ao septo e acendeu uma vela ao Pai de Cima por seu pai, uma segunda à Velha, que tinha deixado o primeiro corvo entrar no mundo, quando espreitou pela porta da morte, e uma terceira à Mãe, por Lysa e todos os filhos que ambas tinham perdido.

Mais tarde, enquanto estava sentada junto à cama de Lorde Hoster com um livro nas mãos, lendo a mesma passagem seguidas vezes, ouviu o som de vozes alteradas e um sopro de trombeta. Sor Robin, pensou de imediato, estremecendo. Foi até a varanda, mas nos rios nada havia para ver, embora pudesse ouvir com mais clareza as vozes lá de fora, o ruído de muitos cavalos, o tinir de armaduras e, de vez em quando, uma aclamação. Catelyn subiu a escada em caracol até o telhado da fortaleza. Sor Desmond não me proibiu o telhado, disse a si mesma enquanto subia.

Os sons vinham do lado mais distante do castelo, perto do portão principal. Um grupo de homens encontrava-se junto da porta levadiça enquanto ela se erguia aos solavancos, e nos campos mais além, fora do castelo, viam-se várias centenas de cavaleiros. Quando o vento soprou, levantou seus estandartes, e Catelyn tremeu de alívio ao ver a truta saltante de Correrrio. Edmure.

Passaram-se duas horas até que ele achasse que era hora de vir até ela. O castelo já ressoava ao som de ruidosos encontros à medida que os homens iam abraçando as mulheres e as crianças que haviam deixado para trás. Três corvos partiram da colônia, asas negras batendo no ar enquanto levantavam voo. Catelyn observou-os da varanda do pai. Tinha lavado os cabelos, trocado de roupa e se preparado para as censuras do irmão... mesmo assim a espera era difícil.

Quando enfim ouviu sons junto à porta, sentou-se e dobrou as mãos no colo. Lama vermelha seca salpicava as botas, as grevas e o sobretudo de Edmure. Pelo seu aspecto, nunca seria possível adivinhar que tinha ganhado a batalha. Estava magro e cansado, com o rosto pálido, a barba descuidada e os olhos brilhantes demais.

- Edmure - disse Catelyn, preocupada -, você parece doente. Aconteceu alguma coisa? Os Lannister atravessaram o rio?

- Repeli-os. Lorde Tywin, Sandor Clegane, Addam Marbrand, afastei todos eles. Mas Stannis... - Fez uma careta.

- Stannis? Que há com Stannis?

- Perdeu a batalha em Porto Real - disse Edmure em tom infeliz. - Sua frota foi queimada e seu exército, desbaratado.

Uma vitória Lannister era má notícia, mas Catelyn não podia partilhar a óbvia consternação do irmão. Ainda tinha pesadelos com a sombra que vira deslizar pela tenda de Renly e com o modo como o sangue tinha jorrado através do aço de seu gorjal.

- Stannis não era mais amigo do que Lorde Tywin.

- Você não compreende. Jardim de Cima declarou apoio a Joffrey. Dorne também. Todo o sul. - Apertou os lábios. - E você acha adequado libertar o Regicida. Não tinha o direito.

- Tinha o direito de uma mãe. - A voz dela estava calma, embora a notícia sobre Jardim de Cima constituísse um fortíssimo golpe nas esperanças de Robb. Mas agora não podia pensar nisso.

- Não tinha o direito - repetiu Edmure. - Ele era prisioneiro de Robb, prisioneiro de seu rei, e Robb encarregou-me de mantê-lo a salvo.

- Brienne vai mantê-lo a salvo. Jurou-o pela espada dela.

- Aquela mulher?

- Ela entregará Jaime a Porto Real, e vai nos trazer Arya e Sansa em segurança.

- Cersei nunca abrirá mão delas.

- Cersei, não. Tyrion. Ele jurou fazê-lo, numa audiência aberta. E o Regicida também jurou.

- A palavra de Jaime não vale nada. E quanto ao Duende, dizem que levou uma machadada na cabeça durante a batalha. Estará morto antes de sua Brienne chegar a Porto Real, se é que ela vai chegar.

- Morto? - poderiam os deuses ser assim tão impiedosos? Tinha obrigado Jaime a prestar uma centena de juramentos, mas era à promessa do irmão dele que havia prendido suas esperanças.

Edmure mostrou-se cego para sua aflição.

- Jaime estava a meu cargo, e pretendo tê-lo de volta. Enviei corvos...

- Corvos a quem? Quantos?

- Três - disse ele -, para garantir que a mensagem chegue ao Lorde Bolton. Por rio ou por estrada, o caminho de Correrrio a Porto Real vai levá-los a passar perto de Harrenhal.

- Harrenhal. - A própria palavra parecia escurecer a sala. O horror tornou a sua voz pesada quando disse: - Edmure, você sabe o que fez?

- Não tenha medo, omiti seu papel. Escrevi que Jaime fugiu, e ofereci mil dragões por sua recaptura.

Pior e pior, pensou Catelyn, desesperada. Meu irmão é um tolo. Sem serem convidadas, indesejadas lágrimas encheram seus olhos.

- Se isso fosse uma fuga - disse ela em voz baixa -, e não uma troca de reféns, por que os Lannister entregariam as minhas filhas a Brienne?

- Nunca chegará a esse ponto. O Regicida vai ser devolvido a nós, assegurei-me disso.

- Tudo de que se assegurou foi que eu não volte a ver minhas filhas. Brienne podia tê-lo levado em segurança até Porto Real... desde que ninguém os perseguisse. Mas agora... - Catelyn não conseguiu continuar. - Deixe-me, Edmure. - Não tinha qualquer direito de lhe dar ordens, ali no castelo que em breve seria do irmão, mas o tom que empregou não admitia discussões. - Deixe-me com o pai e a minha dor, não tenho mais nada a dizer a você. Vá. Vá. - Tudo que desejava era deitar, fechar os olhos e dormir, e rezar para que nenhum sonho viesse.

Arya

O céu estava tão negro quanto as muralhas de Harrenhal atrás deles, e a chuva caía suave e constante, abafando o som dos cascos dos cavalos e escorrendo por seus rostos.

Avançaram para o norte, para longe do lago, seguindo uma estrada rural cheia de sulcos, através de campos destroçados e atravessando bosques e riachos. Arya tomou a dianteira, incitando o cavalo roubado a um imprudente trote rápido até as árvores se fecharem à sua volta. Torta Quente e Gendry seguiram-na o melhor que conseguiram. Lobos uivavam a distância, e ela conseguia ouvir a respiração pesada de Torta Quente. Ninguém falou. De tempos em tempos, Arya lançava um olhar, de relance, por sobre o ombro, para se certificar de que os dois rapazes não tinham ficado muito para trás, e para ver se eram perseguidos.

Sabia que o seriam. Tinha roubado três cavalos dos estábulos e um punhal e um mapa do próprio aposento privado de Roose Bolton, e matado um guarda na poterna, rasgando sua garganta quando ele se ajoelhou para pegar a gasta moeda de ferro que Jaqen H ghar lhe dera. Alguém iria encontrá-lo jazendo morto numa poça do próprio sangue, e então soaria o alarme. Acordariam Lorde Bolton, e vasculhariam Harrenhal das ameias às adegas, e quando o fizessem, descobririam o desaparecimento do mapa e do punhal, além de algumas espadas do arsenal, pão e queijo da cozinha, um ajudante de padeiro, um aprendiz de ferreiro e uma copeira chamada Nan... ou Doninha, ou Arry, dependendo de quem respondesse.

O Senhor do Forte do Pavor não viria atrás deles pessoalmente. Roose Bolton ficaria na cama, com a pele pálida salpicada de sanguessugas, dando ordens com sua voz sussurrante. Seu subordinado Walton, aquele que chamavam de Pernas de Aço devido às grevas que sempre usava nas longas pernas, poderia comandar a perseguição. Ou talvez fosse o babento Vargo Hoat e seus mercenários, que se chamavam de Bravos Companheiros. Os outros chamavam-nos de Saltimbancos Sangrentos (embora nunca na frente deles) e, às vezes, de Homens dos Pés, devido ao hábito que Lorde Vargo tinha de cortar as mãos e os pés dos homens que lhe desagradavam.

Se nos pegarem, vão cortar nossas mãos e nossos pés, pensou Arya, e depois Roose Bolton vai nos esfolar. Ainda vestia o traje de pajem, e no peito, sobre o coração, tinha cosido o símbolo de Lorde Bolton, o homem esfolado do Forte do Pavor.

Toda vez que olhava para trás quase esperava ver um clarão de archotes reluzindo pelos distantes portões de Harrenhal, ou correndo ao longo do topo das enormes muralhas do castelo, mas nada se via. Harrenhal continuou dormindo, até se perder na escuridão e ficar escondido atrás das árvores.

Quando cruzaram o primeiro riacho, Arya virou o cavalo para o lado e levou-os para fora da estrada, seguindo o sinuoso curso de água ao longo de um quarto de milha até, por fim, subir uma margem pedregosa. Esperava que, se os perseguidores trouxessem cães, isso talvez os fizesse perder o rastro. Não podiam ficar na estrada. Há morte na estrada, disse a si mesma, em todas as estradas.

Gendry e Torta Quente não questionaram sua escolha. Afinal de contas, ela tinha o mapa, e Torta Quente parecia quase tão aterrorizado por ela quanto pelos homens que podiam vir atrás deles. Ele vira o guarda que ela matara. É melhor que tenha medo de mim, disse a si mesma. Assim vai fazer o que eu disser, e não alguma coisa estúpida.

Sabia que devia estar mais assustada do que estava. Tinha só dez anos, uma garotinha magricela num cavalo roubado com uma floresta escura à sua frente e atrás dela homens que, de bom grado, cortariam seus pés. Mas, sem saber por quê, sentia-se mais calma do que jamais se sentira em Harrenhal. A chuva tinha lavado de seus dedos o sangue do guarda, trazia uma espada a tiracolo, havia lobos percorrendo as trevas como esguias sombras cinzentas, e Arya Stark não tinha medo. O medo corta mais profundamente do que as espadas, sussurrou bem baixinho as palavras que Syrio Forel havia lhe ensinado, e também as palavras de Jaqen, valar morghulis.

A chuva parou, recomeçou e voltou a parar e a recomeçar, mas tinham bons mantos para deixar a água afastada. Arya manteve-os em movimento a um ritmo lento e regular. Estava escuro demais sob as árvores para avançar mais depressa; os rapazes não eram cavaleiros, nenhum dos dois, e o terreno fofo e acidentado era traiçoeiro, cheio de raízes semienterradas e pedras escondidas. Atravessaram outra estrada, cujos profundos sulcos estavam cheios de água, mas Arya evitou-a. Levou-os para cima e para baixo ao longo das colinas arredondadas, através de arbustos, espinheiros e emaranhados de vegetação rasteira, pelo fundo de barrancos estreitos, onde galhos pesados de folhas úmidas estapeavam seus rostos quando passavam.

A égua de Gendry perdeu uma vez o equilíbrio na lama, caindo com força sobre os quartos traseiros e derrubando-o da sela, mas nem cavalo nem cavaleiro se feriram, e Gendry fez aquela sua expressão teimosa e logo voltou a montar. Não muito tempo depois, se depararam com três lobos que devoravam o cadáver de um veado jovem. Quando o cavalo de Torta Quente detectou o cheiro, espantou-se e fugiu. Dois dos lobos fugiram também, mas o terceiro ergueu a cabeça e mostrou os dentes, preparado para defender a caça.

- Recua - disse Arya a Gendry. - Devagar, para não assustá-lo. - Desviaram as montarias até que o lobo e seu banquete ficaram fora de vista. Foi só então que ela deu meia-volta para ir no encalço de Torta Quente, que se agarrava desesperadamente à sela enquanto avançava por entre as árvores.

Mais tarde, passaram por uma aldeia incendiada, abrindo caminho com cuidado por entre as paredes vazias de choupanas enegrecidas e junto aos ossos de uma dúzia de mortos enforcados numa fileira de macieiras. Quando Torta Quente os viu, começou a rezar, sussurrando uma frágil súplica pela misericórdia da Mãe, repetindo-a uma e mais outra vez. Arya ergueu os olhos para os mortos descarnados em suas roupas molhadas e putrefatas e pronunciou sua própria prece. Sor Gregor, começava ela, Dunsen, Polliver, Rajff, o Querido. O Cócegas e o Cão de Caça. Sor Ilyn, Sor Meryn, Reijoffrey, Rainha Cersei. Terminou-a com valar morghulis, levou os dedos ao lugar onde a moeda de Jaqen se aninhava sob o cinto e depois ergueu a mão e colheu uma maçã de entre os mortos, ao passar por eles. Estava mole e madura demais, mas comeu-a, com bicho e tudo.

Esse foi o dia sem alvorada. Lentamente, o céu foi clareando ao redor deles, mas nunca chegaram a ver o sol. O negro transformou-se em cinza, e as cores retornaram timidamente ao mundo. Os pinheiros marciais vestiam-se de verdes sombrios, as árvores de folha caduca, de vermelhos escuros e dourados desvanecidos, que já começavam a ficar amarronzados. Pararam tempo suficiente para dar água aos cavalos e comer um café da manhã rápido e frio, desfazendo um dos pães que Torta Quente tinha roubado da cozinha, e passando de mão em mão nacos duros de queijo amarelo.

- Sabe para onde vamos? - perguntou-lhe Gendry.

- Para o norte - disse Arya.

Torta Quente olhou em volta com ar incerto.

- Para que lado fica o norte?

Arya usou o queijo para apontar.

- Para lá.

- Mas não há sol. Como é que você sabe?

- Pelo musgo. Está vendo como cresce principalmente de um dos lados das árvores? Esse é o sul.

- O que nós queremos no norte? - quis saber Gendry.

- O Tridente. - Arya desenrolou o mapa roubado, a fim de lhes mostrar. - Está vendo? Quando chegarmos ao Tridente, tudo que temos de fazer é seguir rio acima até chegarmos a Correrrio, aqui. - Traçou o percurso com o dedo. - E um longo caminho, mas não dá para se perder, desde que a gente siga o rio.

Torta Quente piscou os olhos para o mapa.

- Qual deles é Correrrio?

Correrrio estava pintado como uma torre de castelo, na junção entre as linhas azuis onduladas de dois rios, o Pedregoso e o Ramo Vermelho.

- Ali. - Arya tocou no mapa. - Diz Correrrio.

- Você sabe ler coisas escritas? - ele perguntou com espanto, como se ela tivesse dito que conseguia caminhar sobre a água.

Arya assentiu.

- Ficaremos seguros depois de chegarmos a Correrrio.

- Ah, é? Por quê?

Porque Correrrio é o castelo de meu avô, e meu irmão Robb estará lá, quis dizer. Mordeu o lábio e enrolou o mapa.

- Porque sim. Mas só se chegarmos lá. - Foi a primeira a montar. Sentia-se mal por esconder a verdade de Torta Quente, mas não confiava nele o suficiente para lhe contar seu segredo. Gendry sabia, mas isso era diferente. Gendry tinha seu próprio segredo, embora nem mesmo ele parecesse saber qual era.

Nesse dia, Arya apressou o passo, mantendo os cavalos a trote o máximo de tempo que se atreveu, e às vezes pondo-os a galope, quando via uma extensão plana de terreno pela frente. Mas isso acontecia raramente, pois, à medida que avançavam, o terreno ia se tornando mais acidentado. Os montes não eram altos, nem tinham declives particularmente acentuados, mas pareciam não ter fim, e logo se cansaram de subir um e descer outro. Deram por si seguindo a topografia, percorrendo os leitos de riachos e atravessando um labirinto de vales arborizados pouco profundos, onde as árvores formavam uma sólida pérgula sobre suas cabeças.

De tempos em tempos, mandava Torta Quente e Gendry na frente enquanto voltava, a fim de tentar apagar o rastro, sempre atenta ao primeiro sinal de perseguição. Devagar demais, pensou consigo mesma, mordendo o lábio, estamos indo devagar demais, eles vão nos apanhar com certeza. Certa vez, do topo de uma serra, vislumbrou silhuetas escuras atravessando um riacho no vale, atrás deles, e durante meio segundo temeu que os cavaleiros de Roose Bolton estivessem quase alcançando-os, mas, quando voltou a olhar, compreendeu que eram apenas uma matilha de lobos. Pôs as mãos em concha ao redor da boca e uivou para eles,"Ahuuuuuuuu, ahuuuuuuuu". Quando o maior dos lobos levantou a cabeça e uivou de volta, o som fez Arya tremer.

Por volta do meio-dia, Torta Quente começou a se queixar. Tinha o traseiro dolorido, disse-lhes, e a sela o estava deixando em carne viva entre as pernas e, além disso, tinha de dormir um pouco.

- Estou tão cansado que vou cair do cavalo.

Arya olhou para Gendry.

- Se ele cair, quem você acha que vai encontrá-lo primeiro, os lobos ou os Saltimbancos?

- Os lobos - disse Gendry. - Narizes melhores.

Torta Quente abriu a boca e fechou-a. Não caiu do cavalo. A chuva recomeçou pouco depois. Ainda não tinham sequer vislumbrado o sol. Estava ficando mais frio, e uma pálida névoa branca penetrava por entre os pinheiros e era soprada através dos campos nus e queimados.

Gendry enfrentava quase tanta dificuldade quanto Torta Quente, embora fosse teimoso demais para se queixar. Sentava-se desajeitadamente na sela, com uma expressão determinada no rosto, por baixo dos hirsutos cabelos negros, mas Arya via que ele não era bom cavaleiro. Devia ter me lembrado, pensou sozinha. Arya montava desde que se conhecia por gente, pôneis quando era pequena e mais tarde cavalos, mas Gendry e Torta Quente tinham nascido na cidade, e na cidade o povo caminhava. Yoren tinha lhes dado montarias quando os levou de Porto Real, mas montar um burro e arrastar-se pela estrada do rei atrás de uma carroça era uma coisa. Guiar um cavalo de caça através de bosques selvagens e campos queimados era outra.

Arya sabia que, sozinha, avançaria muito mais rapidamente, mas não podia abandoná-los. Eram a sua matilha, os seus amigos, os únicos amigos vivos que lhe restavam e, se não fosse ela, ainda estariam a salvo em Harrenhal, Gendry suando em sua forja e Torta Quente, nas cozinhas. Se os Saltimbancos nos pegarem, digo a eles que sou filha de Ned Stark e irmã do Rei no Norte. Ordeno-lhes que nos levem ao meu irmão e que não façam mal ao Torta Quente e ao Gendry. Mas podiam não acreditar nela, e mesmo se acreditassem... Lorde Bolton era vassalo do irmão, mas assustava-a mesmo assim. Não deixarei que nos capturem, jurou em silêncio, estendendo a mão por sobre o ombro para tocar o cabo da espada que Gendry tinha roubado para ela. Não deixarei.

Ao fim dessa tarde, saíram de debaixo das árvores e viram-se nas margens de um rio. Torta Quente soltou um grito de alegria.

- O Tridente. Agora tudo que precisamos fazer é segui-lo na direção da nascente, como você disse. Estamos quase lá!

Arya mordeu o lábio.

- Não me parece que este seja o Tridente. - O rio seguia cheio devido à chuva, mesmo assim não devia ter muito mais do que dez metros de largura. Lembrava-se do Tridente como um rio muito mais largo. - É pequeno demais para ser o Tridente - disse-lhes - e não avançamos o suficiente.

- Avançamos, sim - insistiu Torta Quente. - Cavalgamos o dia todo, e quase não paramos. Devemos ter avançado uma grande distância.

- Vamos dar outra olhada nesse mapa - disse Gendry.

Arya desmontou, pegou o mapa, desenrolou-o. A chuva tamborilou na pele de ovelha e escorreu em filetes.

- Estamos em algum lugar por aqui, creio eu - disse ela, apontando, enquanto os rapazes espiavam por cima de seus ombros.

- Mas - disse Torta Quente -, isso é praticamente distância nenhuma. Olha, Harrenhal está ali, perto do seu dedo, você está quase encostando nele. E cavalgamos o dia inteiro!

- Há muitos quilômetros antes de chegarmos ao Tridente - disse ela. - Não estaremos lá antes de se passarem dias. Este deve ser outro rio qualquer, um destes, olha. - Mostrou algumas das linhas azuis mais finas que o cartógrafo tinha pintado, todas elas com um nome pintado por baixo em letras pequenas. - O Darry, o Maçã Verde, o Donzela... olha, este, o Salgueiro Pequeno, pode ser isso.

Torta Quente levantou os olhos da linha para o rio.

- Não me parece assim tão pequeno.

Gendry também franzia a testa.

- Esse rio que você está apontando corre para aquele outro, está vendo?

- O Salgueiro Grande - leu Arya.

- Que seja o Salgueiro Grande. Olha, e o Salgueiro Grande corre para o Tridente, portanto, podíamos seguir um deles até o outro, mas teríamos de descer o rio em vez de subi-lo. Só que, se este rio não for o Salgueiro Pequeno, se for este aqui...

- Regato Encrespado - leu Arya.

- Olha, ele dá a volta e desce na direção do lago, de volta a Harrenhal. - percorreu a linha com um dedo.

Torta Quente esbugalhou os olhos.

- Não! Eles nos matariam com certeza.

- Temos de saber que rio é este - declarou Gendry com sua voz mais obstinada. - Temos de saber.

- Bem, mas não sabemos. - O mapa podia ter nomes escritos junto às linhas azuis, mas ninguém anotara um nome na margem do rio. - Não vamos subir nem descer o rio - decidiu Arya, enrolando o mapa. - Vamos atravessar e continuar seguindo para o norte, como fizemos até agora.

- Os cavalos sabem nadar? - perguntou Torta Quente. - Parece profundo, Arry. E se houver cobras?

- Tem certeza de que estamos indo para o norte? - perguntou Gendry. - Todos aqueles montes... se tivermos voltado para trás...

- O musgo nas árvores...

Ele apontou para uma árvore próxima.

- Aquela árvore tem musgo de três lados e a outra, logo adiante, não tem musgo nenhum. Podemos estar perdidos, andando em círculos.

- Podemos - disse Arya -, mas vou atravessar o rio mesmo assim. Podem vir ou podem ficar aqui. - Voltou a montar, ignorando ambos. Se não quisessem segui-la, podiam encontrar Correrrio sozinhos, muito embora fosse mais provável que os Saltimbancos os encontrassem primeiro.

Teve de cavalgar bem um quilômetro ao longo da margem antes de finalmente encontrar um local onde parecia seguro atravessar, e mesmo aí a égua mostrou-se relutante em entrar na água. O rio, não importa qual fosse seu nome, corria turvo e rápido, e a parte profunda do meio ultrapassava a barriga do cavalo. A água encheu as suas botas, mas ela pressionou os calcanhares contra o animal mesmo assim e saiu do rio na outra margem. Atrás de si, ouviu um respingar de água e o relincho nervoso de uma égua. Então eles me seguiram. Ótimo. Virou-se para observar os rapazes lutando para atravessar e emergindo, pingando, a seu lado.

- Este não é Tridente - disse-lhes. - Não é.

O rio seguinte era mais raso e mais fácil de vadear. Também não era o Tridente, e ninguém discutiu com Arya quando ela lhes disse que iam atravessá-lo.

Anoitecia quando pararam para deixar os cavalos descansarem novamente e para partilhar outra refeição de pão e queijo.

- Estou com frio e molhado - queixou-se Torta Quente. - Agora estamos muito longe de Harrenhal, com certeza. Podíamos acender uma fogueira...

- NÃO! - disseram Arya e Gendry, exatamente no mesmo instante. Torta Quente vacilou um pouco. Arya lançou a Gendry um olhar de viés. Ele falou junto, como Jon costumava fazer lá em Winterfell. De todos os irmãos, era de Jon Snow que sentia mais saudades.

- Poderíamos pelo menos dormir? - perguntou Torta Quente. - Estou tão cansado, Arry, meu traseiro está doendo. Acho que estou com bolhas.

- Vai ter mais do que isso se for apanhado - disse ela. - Temos de continuar. Temos mesmo.

- Mas é quase noite, e você sequer consegue ver a lua.

- Volte para o cavalo.

Avançando penosamente a passo lento enquanto a luz se desvanecia em volta deles, Arya descobriu que sua própria exaustão pesava bastante sobre si. Precisava dormir tanto quanto Torta Quente, mas não podiam se atrever. Se dormissem, poderiam abrir os olhos e encontrar Vargo Hoat em pé ao lado deles, com Shagwell, o bobo, Fiel Urswyck, Rorge, Dentadas, o Septão Utt e todos os seus outros monstros.

Mas, ao fim de algum tempo, os movimentos do cavalo tornaram-se tão tranquilizadores quanto o balançar de um berço, e Arya começou a ficar com os olhos pesados. Deixou-os fechar, só por um instante, depois voltou a abri-los, sobressaltada. Não posso adormecer, gritou em silêncio para si mesma, não posso, não posso. Esfregou um olho com força, para mantê-lo aberto, segurando bem as rédeas e levando a égua a galope ligeiro. Mas nem ela nem o cavalo conseguiam manter o ritmo, e passaram apenas alguns minutos até que voltassem ao passo de antes, e alguns mais até que seus olhos se fechassem uma segunda vez. Daquela vez não se abriram tão depressa como da primeira.

Quando se abriram, descobriu que o cavalo tinha parado e estava mordiscando um tufo de mato, enquanto Gendry puxava seu braço.

- Você caiu no sono - disse-lhe.

- Estava só descansando os olhos.

- Então descansou-os por um bom tempo. Seu cavalo estava vagueando em círculos, mas foi só quando parou que percebi que você estava dormindo. Torta Quente está na mesma, foi de encontro a um galho de árvore e caiu do cavalo, devia tê-lo ouvido gritar. Nem mesmo isso a acordou. Precisa parar e dormir.

- Posso continuar durante tanto tempo quanto você. - E bocejou.

- Mentirosa - disse ele. - Continue se for burra, mas eu vou parar. Fico com o primeiro turno. Você, dorme.

- E o Torta Quente?

Gendry apontou. Torta Quente já estava no chão, enrolado debaixo do manto, numa cama de folhas úmidas e ressonando baixinho. Tinha um grande pedaço de queijo numa mão, mas parecia ter adormecido entre mordidas.

Arya compreendeu que não valia a pena discutir; Gendry tinha razão. Os Saltimbancos também terão de dormir, disse a si mesma, esperando que fosse verdade. Estava tão cansada que precisou lutar até para descer da sela, mas lembrou-se de prender o cavalo antes de encontrar um lugar debaixo de uma faia. O chão era duro e estava úmido. Perguntou a si mesma quanto tempo passaria até dormir novamente numa cama, com comida quente e fogo para aquecê-la. A última coisa que fez antes de fechar os olhos foi desembainhar a espada e colocá-la a seu lado.

- Sor Gregor - murmurou, bocejando. - Dunsen, Polliver, Raff, o Querido. O Cócegas e... o Cócegas... o Cão de Caça...

Seus sonhos foram rubros e violentos. Os Saltimbancos andavam atrás deles, pelo menos quatro, um liseno pálido e um homem de Ib, escuro, brutal e com um machado, o senhor dos cavalos dothraki, cheio de cicatrizes, chamado Iggo e um homem de Dorne, cujo nome nunca soubera. Avançavam e continuavam a avançar, cavalgando na chuva, vestidos com cota de malha enferrujada e couro molhado, com as espadas e o machado retinindo contra suas selas. Pensavam que estavam perseguindo Arya, ela soube com toda a estranha e aguçada certeza dos sonhos, mas estavam enganados. Era ela quem os perseguia.

Ela não era uma garotinha no sonho; era uma loba, enorme e poderosa, e quando emergiu de sob as árvores, diante deles, e lhes mostrou os dentes, num rosnido grave e trovejante, sentiu o fedor repulsivo do medo que exalavam tanto os cavalos como os homens. A montaria do liseno empinou-se e berrou o seu terror, e os outros gritaram uns para os outros em fala humana, mas, antes de terem tempo de agir, outros lobos saíram apressadamente da escuridão e da chuva, uma grande matilha, lúgubre, molhada e silenciosa.

A luta foi rápida mas sangrenta. O homem peludo caiu no momento em que puxava o machado, o escuro morreu encaixando uma flecha no arco, e o homem pálido de Lys tentou fugir. Os irmãos e as irmãs dela caçaram-no e apanharam-no, fazendo-o virar uma vez e mais uma, caindo sobre ele por todos os lados, abocanhando as pernas de seu cavalo e rasgando a garganta do cavaleiro quando ele se estatelou na terra.

Só o homem com os sinos deu luta. O cavalo escoiceou uma de suas irmãs na cabeça, e ele cortou outra quase ao meio, com sua garra curva e prateada, enquanto seus cabelos tilintavam baixinho.

Cheia de raiva, Arya saltou sobre as costas dele, derrubando-o da sela, de cabeça. O maxilar se fechou em seu braço durante a queda, com os dentes afundando através do couro, da lã e da carne macia. Quando chegaram ao chão, ela deu uma violenta sacudida com a cabeça e arrancou o membro. Exultante, abanou-o de um lado para o outro na boca, espalhando as mornas gotículas vermelhas pela fria chuva negra.

Tyrion

Acordou com o rangido de velhas dobradiças de ferro.

- Quem? - coaxou. Pelo menos recuperara a voz, por mais áspera e rouca que fosse. A febre ainda o acompanhava, e Tyrion não fazia ideia de que horas seriam. Quanto tempo teria dormido daquela vez? Estava tão fraco, tão abominavelmente fraco. - Quem? - chamou de novo, com mais força. Luz de tochas derramava-se através da porta aberta, mas, dentro do aposento, a única luz vinha do toco de uma vela pousada ao lado de sua cama.

Quando viu uma silhueta aproximando-se, Tyrion estremeceu. Ali, na Fortaleza de Maegor, todos os criados eram pagos pela rainha, e por isso qualquer visitante podia ser outra das marionetes de Cersei, enviada para acabar o serviço que Sor Mandon tinha começado.

Então o homem surgiu à luz da vela, olhou bem para o rosto pálido do anão e soltou uma gargalhada.

- Cortou-se fazendo a barba, foi?

Os dedos de Tyrion subiram à grande ferida que ia de uma sobrancelha até o maxilar, atravessando o que lhe restava de nariz. A carne esponjosa ainda estava dolorida e quente ao toque.

- Com uma navalha terrivelmente grande, sim.

Os cabelos negros como carvão de Bronn tinham sido recém-lavados e escovados para trás, deixando à mostra os traços duros de seu rosto, e ele trajava botas de cano alto, feitas de couro macio e trabalhado, um cinto largo incrustado de pepitas de prata e um manto de seda verde-clara. Na lã cinza-escura de seu gibão, uma corrente em chamas estava bordada em diagonal com fio verde brilhante.

- Onde tem estado? - perguntou-lhe Tyrion. - Mandei chamá-lo... deve ter sido há uma quinzena.

- Quatro dias está mais perto da verdade - disse o mercenário. - Já estive aqui duas vezes e encontrei-o morto para o mundo.

- Morto, não. Embora minha querida irmã tenha tentado. - Talvez não devesse ter dito aquilo em voz alta, mas Tyrion já não se importava. Cersei estava por trás da tentativa de Sor Mandon de matá-lo, sabia disso em seu âmago. - O que é essa coisa feia em seu peito?

Bronn deu um sorriso.

- Meu símbolo de cavaleiro. Uma corrente flamejante, verde sobre cinza-fumo. Por ordem do senhor seu pai, agora sou Sor Bronn da Água Negra, Duende. Veja se não se esqueça disso.

Tyrion apoiou as mãos no colchão de penas e inclinou-se alguns centímetros para trás, de encontro às almofadas.

- Quem lhe prometeu um grau de cavaleiro fui eu, lembra? - não tinha gostado nada daquele "por ordem do senhor seu pai". Lorde Tywin não perdera tempo. Mudar o filho da Torre da Mão para reclamá-la para si era uma mensagem que qualquer um podia entender, e esta era outra. - Eu perco metade do nariz e você ganha um grau de cavaleiro. Os deuses têm bastante coisa a responder. - A voz era amarga. - Meu pai armou-o pessoalmente?

- Não. Aqueles de nós que sobrevivemos à luta nas torres do guincho fomos ungidos pelo Alto Septão e armados pela Guarda Real. Levou metade do maldito dia, tendo só três das Espadas Brancas para conduzir as cerimônias.

- Já sabia que Sor Mandon morreu na batalha. - Atirado ao rio por Pod, meio segundo antes de o traiçoeiro filho da mãe conseguir enfiar a espada em meu coração. - Quem mais perdemos?

- O Cão de Caça - disse Bronn. - Não morreu, só desapareceu. Os homens de manto dourado dizem que se acovardou e você liderou uma surtida no lugar dele.

Não foi uma de minhas melhores ideias. Tyrion sentiu o tecido da cicatriz repuxar quando franziu a testa. Com um gesto, indicou uma cadeira a Bronn.

- Minha irmã confundiu-me com um cogumelo. Mantém-me no escuro e alimenta-me com merda. Pod é um bom rapaz, mas o nó que tem na língua é do tamanho do Rochedo Casterly, e não confio em metade do que me diz. Mandei-o buscar Sor Jacelyn e ele voltou dizendo que está morto.

- Ele e milhares de outros - Bronn sentou-se.

- Como? - quis saber Tyrion, sentindo-se bastante mais doente.

- Durante a batalha. Segundo a história que eu tenho ouvido, sua irmã mandou os Kettleblack buscarem o rei e levarem-no de volta para a Fortaleza Vermelha. Quando os homens de manto dourado o viram partir, metade decidiu partir com ele. O Mão de Ferro barrou o caminho e tentou ordenar-lhes que voltassem para as muralhas. Dizem que Bywater estava passando um sermão dos bons neles e os tinha quase prontos a voltar quando alguém espetou uma flecha no pescoço dele. Então ele já não parecia lá muito temível, e derrubaram-no do cavalo e mataram-no.

Outra dívida a depositar na porta de Cersei.

- Meu sobrinho - disse -, Joffrey. Ele correu algum perigo?

- Não mais do que alguns, e menos do que a maioria.

- Sofreu algum dano? Foi ferido? Despenteou-se, deu uma topada com o dedão do pé, quebrou uma unha?

- Que eu saiba, não.

- Preveni Cersei do que aconteceria. Quem comanda agora os homens de manto dourado?

- O senhor seu pai entregou-os a um de seus homens do ocidente, um cavaleiro qualquer chamado Addam Marbrand.

Na maioria das circunstâncias os homens de manto dourado iriam se ressentir de ter um forasteiro acima deles, mas Sor Addam Marbrand era uma escolha judiciosa. Tal como Jaime, era o tipo de homem que os outros gostavam de seguir. Perdi a Patrulha da Cidade.

- Mandei Pod à procura de Shagga, mas ele não teve sorte.

- Os Corvos de Pedra ainda estão na mata do rei. Shagga parece ter pegado gosto pelo local. Timett levou os Homens Queimados para casa, com todo o saque que arranjaram no acampamento de Stannis depois da luta. Chella apareceu uma manhã no Portão da Água com uma dúzia de Orelhas Negras, mas os homens de manto vermelho de seu pai botaram-nos para correr enquanto os portorrealenses atiravam bosta e aplaudiam.

Ingratos. Os Orelhas Negras morreram por eles. Enquanto Tyrion estivera drogado e sonhando, seu próprio sangue tinha colocado, uma a uma, as garras de fora.

- Quero que vá até minha irmã. Seu precioso filho sobreviveu incólume à batalha, de modo que Cersei já não tem necessidade de um refém. Jurou libertar Alayaya assim que...

- Libertou. Há oito, nove dias, depois das chicotadas.

Tyrion endireitou-se, ignorando a súbita punhalada de dor que lhe atravessou o ombro.

- Chicotadas?

- Prenderam-na a um poste no pátio e flagelaram-na, e depois empurraram-na pelo portão afora, nua e ensanguentada.

Ela estava aprendendo a ler, pensou Tyrion, absurdamente. No rosto, a cicatriz retesou-se, e por um momento sentiu que a cabeça estava a ponto de estourar de raiva. Alayaya era uma prostituta, é verdade, mas raras vezes conhecera garota mais doce, corajosa e inocente do que ela. Tyrion nunca a tocou; não passara de um véu para esconder Shae. Em seu descuido, nunca pensou no que o papel podia custar a ela.

- Prometi à minha irmã que trataria Tommen como ela tratasse Alayaya - recordou em voz alta. Sentiu-se prestes a vomitar. - Como posso flagelar um garoto de oito anos? - Mas, se não o fizer, Cersei ganha.

- Você não tem Tommen em seu poder - disse Bronn sem rodeios. - Assim que soube que Mão de Ferro estava morto, a rainha mandou os Kettleblack buscarem-no, e ninguém em Rosby teve culhões para lhes dizer não.

Outro golpe; mas também certo alívio, tinha de admiti-lo. Gostava de Tommen.

- Os Kettleblack deveriam ser dos nossos - lembrou a Bronn com mais do que um toque de irritação.

- E foram, enquanto consegui dar-lhes dois de seus dinheiros para cada um que recebiam da rainha, mas ela agora subiu a parada. Osney e Osfryd foram feitos cavaleiros depois da batalha, tal como eu. Só os deuses sabem por quê. Ninguém os viu lutar.

Os homens a meu soldo me traem, meus amigos são flagelados e humilhados, e eu estou aqui, apodrecendo, pensou Tyrion. Pensava que tinha ganho a maldita batalha. É este o sabor do triunfo?

- É verdade que Stannis foi desbaratado pelo fantasma de Renly?

Bronn deu um ligeiro sorriso.

- Das torres do guincho, tudo que vimos foram estandartes na lama e homens jogando as lanças fora para fugir, mas há centenas de homens nas casas de pasto e nos bordéis que podem lhe contar como viram Lorde Renly matar este ou aquele. A maior parte da tropa de Stannis começou sendo de Renly, e passou para o lado dele novamente quando o viu naquela brilhante armadura verde.

Depois de todos os seus planos, depois da surtida e da ponte de navios, depois de ter o rosto partido ao meio, Tyrion foi eclipsado por um morto. Se é que Renly está realmente morto. Mais uma coisa que teria de investigar.

- Como foi que Stannis escapou?

- Os lisenos dele mantiveram as galés na baía, para lá da sua corrente. Quando a batalha começou a correr mal, aportaram ao longo da costa da baía e levaram o máximo de homens que conseguiram. Perto do fim, matavam uns aos outros para conseguir embarcar.

- E Robb Stark, o que ele anda fazendo?

- Alguns dos lobos dele vão abrindo caminho a fogo na direção de Valdocaso. Seu pai mandou um tal Lorde Tarly tratar deles. Ando pensando em me juntar a ele. Dizem que é um bom soldado, e generoso com o saque.

A ideia de perder Bronn foi a gota d agua.

- Não. Seu lugar é aqui. E o capitão da guarda da Mão.

- Você não é Mão - lembrou-lhe Bronn num tom penetrante. - É seu pai que é Mão, e ele tem sua maldita guarda própria.

- O que aconteceu com todos os homens que você contratou para mim?

- Alguns morreram nas torres do guincho. Aquele seu tio, Sor Kevan, pagou os outros e nos botou para correr.

- Quanta generosidade da parte dele - disse Tyrion com acidez. - Isso quer dizer que você perdeu o gosto pelo ouro?

- Isso seria pouco provável.

- Ótimo - disse Tyrion -, porque acontece que ainda preciso de você. O que sabe de Sor Mandon Moore?

Bronn riu.

- Sei que está bem afogado, como o diabo.

- Tenho para com ele uma grande dívida, mas como pagá-la? - tocou o rosto, sentindo a cicatriz. - A bem da verdade, sei pouquíssimo sobre o homem.

- Tinha olhos de peixe e usava um manto branco. O que mais precisa saber?

- Tudo - disse Tyrion -, para começar. - O que queria eram provas de que Sor Mandon fora um homem de Cersei, mas não se atrevia a dizer isso em voz alta. Na Fortaleza Vermelha um homem fazia bem em controlar a língua. Havia ratazanas nas paredes, e passarinhos que falavam demais, e aranhas. - Ajude-me a levantar - disse, lutando com as cobertas. - Já é hora de fazer uma visita ao meu pai, e já é mais do que hora de voltar a deixar que me vejam.

- E que linda é a visão - troçou Bronn.

- O que é meio nariz num rosto como o meu? Mas, por falar em linda, Margaery Tyrell já chegou a Porto Real?

- Não. Mas está a caminho, e a cidade está louca de amor por ela. Os Tyrell têm andado trazendo comida de Jardim de Cima e dando-a em nome dela. Centenas de carroças por dia. Há milhares de homens Tyrell pavoneando-se por aí com rosinhas douradas cosidas aos gibões, e nem um deles tem pagado o vinho que bebe. Esposas, viúvas ou putas, todas as mulheres andam cedendo suas virtudes a qualquer rapazola quase sem buço que tenha uma rosa dourada no peito.

Cospem em mim, e pagam bebidas aos Tyrell. Tyrion deslizou da cama para o chão. As pernas começaram a vacilar sob seu peso, o quarto girou, e ele teve de agarrar o braço de Bronn para evitar cair de cabeça nas esteiras.

- Pod! - gritou. - Podrick Payne! Onde nos sete infernos está você? - a dor mordeu-o como um cão sem dentes. Tyrion detestava a fraqueza, em especial a sua. Envergonhava-o, e a vergonha irritava-o. - Pod, venha aqui!

O rapaz veio correndo. Quando viu Tyrion em pé e agarrado ao braço de Bronn, olhou-os de boca aberta.

- Senhor. Levantou-se. Isso quer... o senhor... precisa de vinho? Vinho dos sonhos? Devo chamar o meistre? Disse que devia permanecer... na cama, quero dizer.

- Permaneci na cama tempo demais. Traga um traje limpo qualquer.

- Traje?

Tyrion nunca poderia compreender como o rapaz conseguia ter uma cabeça tão sensata e ser tão diligente em batalha e tão confuso em todas as outras situações.

- Roupa - repetiu. - Túnica, gibão, calção, meias. Para mim. Para me vestir. Para que possa sair desta maldita cela.

Foram precisos os três para vesti-lo. Por mais hediondo que seu rosto estivesse, o pior de seus ferimentos era aquele que tinha na junção do braço com o ombro, onde sua própria cota de malha tinha sido empurrada para dentro da axila por uma flecha. Pus e sangue ainda escorriam da carne descorada sempre que Meistre Frenken mudava a atadura, e qualquer movimento lhe causava uma punhalada de agonia.

Por fim, Tyrion decidiu-se por um par de calções e um roupão de quarto grande demais que sobrava em seus ombros. Bronn enfiou-lhe as botas nos pés enquanto Pod ia à procura de uma bengala em que Tyrion pudesse se apoiar. Bebeu uma taça de vinho dos sonhos para ganhar forças. O vinho era adoçado com mel, com uma quantidade de papoula suficiente apenas para tornar seus ferimentos suportáveis durante algum tempo.

Mesmo assim, estava tonto quando girou o trinco, e a descida pelos degraus de pedra em caracol fez suas pernas fraquejarem. Caminhou com a bengala numa mão e a outra apoiada no ombro de Pod. Uma criada vinha subindo quando eles desceram. Fitou-os com grandes olhos brancos, como se estivesse olhando para um fantasma. O anão ergueu-se de entre os mortos, pensou Tyrion. E olha, é mais feio do que nunca, corre para dizer aos seus amigos.

A Fortaleza de Maegor era o lugar mais protegido da Fortaleza Vermelha, um castelo dentro do castelo, rodeado por um profundo fosso seco coberto de espigões. Quando chegaram à porta, a ponte levadiça encontrava-se içada para a noite. Sor Meryn Trant estava em frente a ela, na sua armadura clara e em seu manto branco.

- Baixe a ponte - ordenou-lhe Tyrion.

- As ordens da rainha são para içar a ponte durante a noite - Sor Meryn sempre fora uma criatura de Cersei.

- A rainha está dormindo, e eu tenho assuntos a tratar com meu pai.

Havia magia no nome de Lorde Tywin Lannister. Resmungando, Sor Meryn Trant deu a ordem, e a ponte levadiça foi baixada. Um segundo cavaleiro da Guarda Real mantinha-se de sentinela do outro lado do fosso. Sor Osmund Kettleblack conseguiu dar um sorriso quando viu Tyrion bambolear-se em sua direção.

- Está se sentindo mais forte, senhor?

- Muito. Quando é a próxima batalha? Mal posso esperar.

Mas quando Pod e ele chegaram à escada em espiral, Tyrion só conseguiu olhá-la de boca aberta, desanimado. Nunca subirei isto sozinho, confessou a si mesmo. Engolindo a dignidade, pediu que Bronn o carregasse, desejando com toda a esperança que àquela hora não surgisse ninguém para vê-lo e sorrir, ninguém para contar a história do anão sendo levado degraus acima como um bebê de colo.

O pátio exterior estava repleto de tendas e pavilhões, às dezenas.

- Homens de Tyrell - explicou Podrick Payne enquanto abriam caminho por um labirinto de seda e lona. - E também de Lorde Rowan e de Lorde Redwyne. Não havia espaço que bastasse para todos. No castelo, quero dizer. Alguns arranjaram quartos. Quartos na cidade. Em estalagens, e tal. Estão aqui para o casamento. O casamento do rei, do Rei Joffrey. Será que estará forte o bastante para comparecer, senhor?

- Nem doninhas esfomeadas conseguiriam me manter afastado. - Os casamentos tinham, pelo menos, uma vantagem sobre as batalhas; era menos provável que o nariz de alguém fosse cortado.

Luzes ainda ardiam tenuemente atrás das venezianas fechadas da Torre da Mão. Os homens que se encontravam à porta usavam o manto carmesim e os elmos encimados por leões da guarda doméstica do pai de Tyrion. Este conhecia a ambos, e os homens deixaram-no passar assim que o viram... embora o anão tivesse notado que nenhum aguentara olhá-lo por muito tempo.

Lá dentro, encontraram Sor Addam Marbrand, que vinha descendo a escada em caracol com a ornamentada placa de peito negra e o manto dourado de um oficial da Patrulha da Cidade.

- Senhor - disse ele -, como é bom vê-lo de pé. Ouvi...

- ... rumores sobre uma pequena cova a ser cavada? Eu também. Sob tais circunstâncias, pareceu-me melhor levantar-me. Ouvi dizer que é comandante da Patrulha da Cidade. Devo dar-lhe parabéns ou condolências?

- Temo que ambos. - Sor Addam sorriu. - A morte e a deserção deixaram-me com cerca de quatro mil e quatrocentos homens. Só os deuses e o Mindinho sabem como nos arranjaremos para continuar pagando o soldo a tantos homens, mas sua irmã me proibiu de mandar embora um sequer.

Ainda ansiosa, Cersei? A batalha terminou, os homens de manto dourado não a ajudarão agora.

- Você vem dos aposentos de meu pai? - perguntou.

- Venho. Temo não tê-lo deixado no melhor dos humores. Lorde Tywin acha que quatro mil e quatrocentos guardas são mais do que suficientes para encontrar um escudeiro perdido, mas seu primo Tyrek continua desaparecido.

Tyrek era filho do falecido tio Tygett, um rapaz de treze anos. Desaparecera no tumulto, não muito tempo depois de se casar com a Senhora Ermesande, um bebê de peito que calhava ser a última herdeira sobrevivente da Casa Hayford. E provavelmente a primeira noiva na história dos Sete Reinos a enviuvar antes de ser desmamada.

- Também não fui capaz de encontrá-lo - confessou Tyrion.

- Ele está servindo de comida aos vermes - disse Bronn com seu tato habitual. - O Mão de Ferro andou à procura dele, e o eunuco chacoalhou uma boa bolsa gorda. Não tiveram mais sorte do que nós. Desisti, sor.

Sor Addam olhou o mercenário com desagrado.

si

- Lorde Tywin é teimoso no que concerne ao seu sangue. Quer o rapaz, vivo ou morto, e eu pretendo fazer sua vontade. - Voltou a olhar para Tyrion. - Encontrará seu pai no aposento privado dele.

No meu aposento privado, pensou Tyrion.

- Creio que conheço o caminho.

O caminho seguia mais degraus acima, mas daquela vez subiu-os com suas próprias forças, mantendo, no entanto, uma mão apoiada no ombro de Pod. Bronn abriu a porta para ele. Lorde Tywin Lannister estava sentado sob a janela, escrevendo sob o clarão de uma candeia de azeite. Ergueu os olhos ao ouvir o trinco.

- Tyrion. - Calmamente, pousou a pena.

- Agrada-me que se lembre de mim, senhor. - Tyrion largou Pod, apoiou o peso na bengala e aproximou-se bamboleando. Há algo errado, soube de imediato.

- Sor Bronn - disse Lorde Tywin - Podrick. Talvez fosse melhor se esperassem lá fora até terminarmos.

O olhar que Bronn lançou ao Mão foi pouco menos que insolente; apesar disso, fez uma reverência e retirou-se, com Pod em seu encalço. A pesada porta fechou-se atrás deles, e Tyrion Lannister ficou a sós com o pai. Mesmo com as janelas do aposento privado fechadas contra a noite, o frio naquela sala era palpável. Que tipo de mentiras Cersei tem lhe contado?

O Senhor de Rochedo Casterly era tão esguio quanto um homem vinte anos mais novo, e era até bonito, ao seu modo austero. Rijos pelos louros cobriam suas bochechas, enquadrando um rosto severo, uma cabeça calva e lábios duros. Em volta do pescoço usava uma corrente de mãos douradas, com os dedos de cada uma agarrando o pulso da seguinte.

- Essa é uma bela corrente - disse Tyrion. Embora ficasse melhor em mim.

Lorde Tywin ignorou o comentário.

- É melhor se sentar. Terá sido sensato sair de seu leito de doente?

- Meu leito de doente deixa-me doente. - Tyrion sabia quanto o pai desprezava a fraqueza. Apropriou-se da cadeira mais próxima. - Seus aposentos são tão agradáveis. Acreditaria se eu lhe dissesse que enquanto eu estava morrendo alguém me mudou para uma celazinha escura em Maegor?

- A Fortaleza Vermelha transborda de convidados para o casamento. Assim que eles partirem, arranjaremos instalações mais adequadas para você.

- Gostava bastante destas instalações. Já marcou uma data para essa grande boda?

- Joffrey e Margaery vão se casar no primeiro dia do novo ano, que vem a ser também o primeiro dia do novo século. A cerimônia anunciará o alvorecer de uma nova era.

Uma nova era Lannister, pensou Tyrion.

- Oh, que pena, temo que tenha feito outros planos para esse dia.

- Veio aqui só para se queixar de seu quarto e fazer seus gracejos sem graça? Tenho cartas importantes a terminar.

- Cartas importantes. Certamente.

- Algumas batalhas ganham-se com espadas e lanças, outras com penas e corvos. Poupe-me dessas censuras veladas, Tyrion. Visitei seu leito de doente tão frequentemente quanto Meistre Ballabar permitiu, quando parecia provável que morresse. - Juntou os dedos por baixo do queixo. - Por que motivo dispensou Ballabar?

Tyrion encolheu os ombros.

- Meistre Frenken não está tão decidido a me manter inanimado.

- Ballabar chegou à cidade na comitiva de Lorde Redwyne. Um curandeiro de talento, segundo se diz. Foi gentil da parte de Cersei pedir-lhe que cuidasse de você. Ela temia por sua vida.

Temia que eu pudesse conservá-la, você quer dizer.

- Foi sem dúvida por isso que ela nunca saiu de junto do meu leito.

- Não seja impertinente. Cersei tem um casamento real para planejar, eu travo uma guerra, e você está fora de perigo há pelo menos uma quinzena. - Lorde Tywin estudou o rosto desfigurado do filho, sem hesitação nos olhos verde-claros. - Se bem que o ferimento seja bastante horrível, admito. Que loucura o possuiu?

- O inimigo estava junto ao portão com um aríete. Se Jaime tivesse liderado a surtida, você iria chamar isso de valor.

- Jaime nunca seria insensato ao ponto de tirar o elmo numa batalha. Espero que tenha matado o homem que te cortou?

- Oh, o desgraçado está bastante morto. - Embora tivesse sido Podrick Payne quem matara Sor Mandon, atirando-o ao rio para se afogar sob o peso da armadura. - Um inimigo morto é uma alegria que perdura para sempre - disse Tyrion alegremente, se bem que Sor Mandon não fosse seu verdadeiro inimigo. O homem não tinha motivo algum para querê-lo morto. Era só uma marionete, e creio que sei a que ventríloquo pertencia. Ela disse-lhe para se certificar de que eu não sobreviveria à batalha. Mas, sem provas, Lorde Tywin nunca daria ouvidos a tal acusação. - Por que está aqui na cidade, pai? - perguntou. - Não devia andar bem longe lutando contra Lorde Stannis, Robb Stark ou qualquer outro? - E quanto mais depressa melhor.

- Até que Lorde Redwyne traga a sua frota do sul, não dispomos de navios para assaltar Pedra do Dragão. Não importa. O sol de Stannis Baratheon se pôs na Água Negra. Quanto ao Stark, o rapaz continua no oeste, mas uma grande força de nortenhos sob o comando de Heiman Tallhart e Robett Glover encaminha-se para Valdocaso. Mandei Lorde Tarly ao seu encontro, enquanto Sor Gregor sobe a estrada do rei para interceptar a retirada deles. Tallhart e Glover serão pegos entre ambos, com um terço das forças dos Stark.

- Valdocaso? - nada havia em Valdocaso que valesse um risco desses. Teria finalmente o Jovem Lobo disparatado?

- Não é nada com que tenha de se preocupar. Seu rosto está pálido como a morte, e tem sangue escorrendo de suas ataduras. Diga o que quer e volte para a cama.

- O que eu quero... - Sentia a garganta irritada e apertada. O que era que realmente queria? Mais do que você possa algum dia me dar, pai. - Pod disse-me que o Mindinho foi feito Senhor de Harrenhal.

- Um título vazio, enquanto Roose Bolton defender o castelo em nome de Robb Stark, mas Lorde Baelish estava desejoso dessa honraria. Prestou-nos bons serviços na questão do casamento Tyrell. Um Lannister paga as suas dívidas.

Na verdade, o casamento Tyrell tinha sido ideia de Tyrion, mas pareceria grosseiro tentar agora reclamar o crédito.

- Esse título pode não ser tão vazio quanto você imagina - preveniu. - Mindinho nada faz sem bons motivos. Mas não importa. Creio que disse qualquer coisa sobre pagar dívidas?

- E você quer a sua recompensa, é isso? Muito bem. O que quer de mim? Terras, um castelo, um cargo qualquer?

- O raio de um pouco de gratidão seria um bom começo.

Lorde Tywin fitou-o sem pestanejar.

- Saltimbancos e macacos precisam de aplausos. Aerys também precisava, por sinal. Você fez o que lhe foi ordenado, e estou certo de ter usado o melhor de suas capacidades. Ninguém nega o papel que desempenhou.

- O papel que desempenhei? - aquilo que restava a Tyrion de narinas devia certamente ter se dilatado. - Salvei sua maldita cidade, segundo me parece.

- A maior parte das pessoas parece pensar que foi meu ataque ao flanco de Lorde Stannis que virou a maré da batalha. Lordes Tyrell, Rowan, Redwyne e Tarly também lutaram nobremente, e segundo me disseram foi sua irmã Cersei quem colocou os piromantes para fazer o fogovivo que destruiu a frota Baratheon.

- Enquanto tudo que eu fiz foi aparar os pelos do nariz, é isso? - Tyrion não conseguiu disfarçar a amargura de sua voz.

- Sua corrente foi um golpe inteligente e crucial para a nossa vitória. Era isso que queria ouvir? Disseram-me que também devemos a você a nossa aliança com Dorne. Pode gostar de saber que Myrcella chegou em segurança a Lançassolar. Sor Arys Oakheart escreve que ela simpatizou muito com a Princesa Arianne, e que o Príncipe Trystane está encantado com ela. Não gosto de dar um refém à Casa Martell, mas suponho que isso não podia ser evitado.

- Teremos também o nosso refém - disse Tyrion. - Um lugar no conselho faz parte do acordo. A não ser que o Príncipe Doran traga um exército quando vier reclamá-lo, estará se colocando em nosso poder.

- Seria bom se um lugar no conselho fosse tudo que Martell vem reclamar - disse Lorde Tywin. - Também lhe prometeu vingança.

- Prometi justiça.

- Chame do que quiser. Ambas resumem-se a sangue.

- Não é artigo de que haja escassez, certo? Nadei através de lagos disso durante a batalha. - Tyrion não via razão para não ir direto ao assunto. - Ou será que passou a gostar tanto de Gregor Clegane que não pode suportar se separar dele?

- Sor Gregor tem seus usos, tal como o irmão tinha. Todos os senhores precisam de um animal de vez em quando... uma lição que você parece ter aprendido, julgando por Sor Bronn e por aqueles seus homens dos clãs.

Tyrion pensou no olho queimado de Timett, em Shagga, com seu machado, em Chelia com seu colar de orelhas secas. E em Bronn. Acima de tudo em Bronn.

- A floresta está cheia de animais - lembrou ao pai. - As vielas também.

- É verdade. Talvez outros cães também queiram caçar. Vou pensar nisso. Se não há mais nada...

- Tem cartas importantes, claro. - Tyrion levantou-se sobre pernas inseguras, fechou os olhos por um instante quando uma onda de tontura o varreu, e deu um passo trêmulo na direção da porta. Mais tarde, iria pensar que devia ter dado mais um, e depois um terceiro. Em vez disso, virou-se.

- O que eu quero, o senhor pergunta? Eu digo o que quero. Quero o que é meu por direito. Quero o Rochedo Casterly.

Os lábios do pai endureceram.

- O direito de nascença de seu irmão ?

- Os cavaleiros da Guarda Real estão proibidos de se casar, de gerar filhos e de possuir terras, sabe disso tão bem quanto eu. No dia em que Jaime prendeu aquele manto branco aos ombros, renunciou à pretensão a Rochedo Casterly, mas você não reconheceu isso nem uma vez. Já é mais que tempo. Quero que se levante perante o reino e proclame que sou seu filho e legítimo herdeiro.

Os olhos de Lorde Tywin eram verde-claros salpicados de ouro, tão luminosos quanto desprovidos de compaixão.

- Rochedo Casterly - declarou ele num tom monocórdico, frio e morto. E depois: - Nunca.

A palavra pairou entre eles, enorme, afiada, envenenada.

Sabia a resposta antes de pedir, pensou Tyrion. Passaram-se dezoito anos desde que Jaime se juntou à Guarda Real e não levantei o assunto sequer uma vez. Devia saber. Devia saber desde sempre.

- Por quê? - forçou-se a perguntar, embora soubesse que se arrependeria disso.

- E ainda pergunta? Você, que matou sua mãe para vir ao mundo? É uma criaturinha malfeita, tortuosa, desobediente, desprezível, uma criaturinha cheia de inveja, luxúria e baixa astúcia. As leis dos homens dão-lhe o direito de usar o meu nome e ostentar as minhas cores, visto que não posso provar que não é meu filho. A fim de me ensinar humildade, os deuses condenaram-me a vê-lo bambolear por aí, usando esse orgulhoso leão que era o símbolo de meu pai e do pai dele antes disso. Mas nem os deuses nem os homens me obrigarão algum dia a deixar que transforme Rochedo Casterly em seu bordel.

- Meu bordel? - a alvorada rebentou; Tyrion compreendeu subitamente de onde aquela bílis tinha vindo. Rangeu os dentes e disse: - Cersei contou-lhe a respeito de Alayaya.

- E esse o nome dela? Confesso que não sou capaz de me lembrar do nome de todas as suas putas. Qual foi aquela com que casou quando garoto?

- Tysha. - Cuspiu a resposta, em desafio.

- E aquela seguidora de acampamentos no Ramo Verde?

- Que importa? - perguntou, sem querer nem mesmo proferir o nome de Shae em sua presença.

- Não importa. Não mais do que me importa que elas vivam ou morram.

- Foi você quem mandou chicotear Yaya. - Não era uma pergunta.

- Sua irmã falou-me de suas ameaças contra meu neto. - A voz de Lorde Tywin era mais fria do que gelo. - Ela mentiu?

Tyrion não o negaria.

- Fiz ameaças, sim. Para manter Alayaya a salvo. Para que os Kettleblack não a destratassem.

- Para salvar a virtude de uma puta ameaçou sua própria casa, sua própria família? E assim que as coisas são?

- Foi você quem me ensinou que uma boa ameaça é mais eficaz do que um golpe. Não que Joffrey não tenha me tentado bastante algumas centenas de vezes. Se está assim tão ansioso por chicotear pessoas, comece por ele. Mas Tommen... por que haveria de fazer mal a Tommen? Ele é bom rapaz e de meu próprio sangue.

- Tal como sua mãe era. - Lorde Tywin ergueu-se abruptamente da cadeira para olhar o filho anão de cima. - Volte para sua cama, Tyrion, e não me fale mais de seu direito a Rochedo Casterly. Terá sua recompensa, mas aquela que eu considerar apropriada aos seus serviços e posição. E não tenha ilusões: esta foi a última vez que tolerei que trouxesse vergonha à Casa Lannister. Acabaram-se as putas. A próxima que encontrar em sua cama, vou enforcar.

Davos

Viu a vela crescer durante muito tempo, tentando decidir se preferia viver ou morrer. Sabia que morrer seria mais fácil. Tudo que tinha a fazer era rastejar para dentro de sua gruta e deixar que o navio passasse, e a morte iria encontrá-lo. Fazia vários dias que a febre o queimava por dentro, transformando suas tripas em água marrom e fazendo-o tremer num sono inquieto. Cada manhã o encontrava mais fraco. Não demorará muito mais tempo, habituara-se a dizer a si mesmo.

Se a febre não o matasse, a sede certamente o faria. Ali, não tinha água doce além da chuva ocasional que se acumulava em buracos na rocha. Apenas três dias antes (ou teriam sido quatro? Naquele rochedo era difícil distinguir os dias), as poças estavam secas como osso velho, e ver a baía ondulando em verde e cinza por toda a volta quase tinha sido mais do que podia suportar. Sabia que, uma vez que começasse a beber água do mar, o fim chegaria rapidamente, mesmo assim quase tomou o primeiro gole, tão seca estava sua garganta. Uma súbita chuvarada o tinha salvado. Enfraquecera tanto a essa altura que tudo que podia fazer era deitar-se na chuva de olhos fechados e boca aberta, e deixar a água cair sobre seus lábios rachados e sua língua inchada. Mas depois sentiu-se um pouco mais forte, e as poças, falhas e fendas do rochedo tinham voltado a se encher de vida.

Mas isso fora três dias antes (ou talvez quatro), e a maior parte da água já tinha desaparecido novamente. Uma parte evaporara, a outra ele sugou. Na manhã seguinte, estaria de novo saboreando a lama, e lambendo as pedras úmidas e frias do fundo das depressões.

E se não fosse a sede ou a febre, a fome iria matá-lo. Sua ilha nada mais era do que uma torre estéril que se projetava da imensidão da Baía da Água Negra. Quando a maré estava baixa, às vezes conseguia encontrar minúsculos caranguejos ao longo da praia pedregosa onde tinha sido depositado pelo mar depois da batalha. Eles mordiam dolorosamente seus dedos antes que ele pudesse esmagá-los nas rochas para sugar a carne de suas garras e as entranhas de suas conchas.

Mas a praia desaparecia sempre que a maré subia, e Davos tinha de escalar o rochedo para evitar ser arrastado de volta para a baía. A ponta da elevação erguia-se cinco metros acima da água na maré alta, mas, quando a baía se encrespava, os respingos subiam ainda mais alto, então não havia maneira de se manter seco, nem mesmo em sua gruta (que na verdade nada mais era do que uma concavidade por baixo de uma saliência de rocha). Nada crescia no rochedo além de líquenes, e até as aves marinhas evitavam o local. De vez em quando, algumas gaivotas pousavam no topo do pináculo e Davos tentava apanhar uma, mas eram rápidas demais para que ele conseguisse se aproximar. Resolveu atirar pedras nelas, mas estava fraco demais para atirar com muita força, e mesmo quando as pedras acertavam o alvo, as gaivotas limitavam-se a grasnar para ele, aborrecidas, e levantavam voo.

Outros rochedos eram visíveis de seu refúgio, elevações de rocha distantes, mais altas do que a sua. Estimou que a mais próxima subia a uns bons doze metros acima da água, embora fosse difícil ter certeza aquela distância. Uma nuvem de gaivotas rodopiava constantemente ao redor dela, e Davos pensava com frequência em nadar até lá para assaltar seus ninhos. Mas a água ali era fria, as correntes pareciam fortes e traiçoeiras, e ele sabia que não tinha forças para tamanho esforço. Seria uma morte tão certa como beber água do mar.

Lembrava-se, de anos anteriores, que o outono no mar estreito era frequentemente úmido e chuvoso. Os dias não eram feios, desde que o sol brilhasse, mas as noites estavam ficando mais frias e às vezes o vento soprava com força na baía, empurrando à sua frente uma fileira de cristas de ondas, e pouco depois Davos estaria ensopado e tremendo. Febre e arrepios revezavam-se em assaltá-lo, e nos últimos dias tinha desenvolvido uma tosse persistente e torturante.

Sua gruta era todo o abrigo de que dispunha, e isso era bem pouco. Madeira flutuante e pedaços de detritos carbonizados eram empurrados para a praia na maré baixa, mas não tinha como criar uma faísca ou acender uma fogueira. Uma vez, em desespero, tentara esfregar dois pedaços de madeira um no outro, mas a madeira estava apodrecida, e seus esforços só lhe renderam bolhas. Tinha também as roupas encharcadas, e perdera uma das botas em alguma baía antes de dar à costa naquele lugar.

Sede; fome; exposição às intempéries. Eram essas as suas companheiras, presentes a qualquer hora de todos os dias, e com o tempo começou a pensar nelas como amigas. Em breve, uma ou outra de suas companheiras iria se apiedar dele e libertá-lo daquele sofrimento sem fim. Ou talvez ele se limitasse a entrar na água, um dia, e se dirigir à costa que sabia ficar em algum lugar para o norte, para além de sua vista. Era longe demais para nadar, fraco como se encontrava, mas não importava. Davos sempre fora marinheiro; estava destinado a morrer no mar. Os deuses submersos têm estado à minha espera, dizia a si mesmo. Já é mais que hora de ir encontrá-los.

Mas agora havia uma vela; apenas uma mancha no horizonte, mas crescendo. Um navio onde não devia haver navios. Sabia mais ou menos em que lugar ficava aquele rochedo; pertencia a uma série de montanhas submarinas que se erguiam do fundo da Baía da Água Negra. A mais alta projetava-se a trinta metros acima da maré, e uma dúzia de montes menores subiam entre dez e vinte metros. Os marinheiros chamavam-nas de lanças do rei bacalhau, e sabiam que para cada uma que rompia a superfície, uma dúzia espreitava traiçoeiramente logo abaixo. Qualquer capitão com juízo mantinha sua rota bem afastada delas.

Com olhos pálidos e rajados de vermelho, Davos observou a vela inflar-se e tentou ouvir o som do vento capturado nela. Ela vem para cá. A menos que mudasse de rumo em breve, passaria a distância de um grito de seu estéril refúgio. Podia significar a vida. Se a quisesse. Não tinha certeza se queria.

Por que devo viver?, pensou enquanto lágrimas embaçavam sua visão. Pela bondade dos deuses, por quê? Meus filhos estão mortos, Dale e Allard, Maric e Matthos, talvez também Devan. Como pode um pai sobreviver a tantos filhos fortes e jovens? Como poderia prosseguir? Sou uma carapaça vazia, o caranguejo está morto, nada resta aqui dentro. Eles não sabem disso?

Tinham entrado na Torrente da Água Negra, exibindo o coração flamejante do Senhor da Luz. Davos e o Betha Negra tinham estado na segunda linha de batalha, entre o Espectro de Dale e o Senhora Marya de Allard. Maric, seu terceiro filho, era mestre dos remadores no Fúria, no centro da primeira linha, enquanto Matthos servia como imediato do pai. Sob as muralhas da Fortaleza Vermelha, as galés de Stannis Baratheon tinham travado batalha com a frota menor do rei rapaz, Joffrey, e durante alguns momentos o rio ressoara com os disparos dos arcos e o estrondo de espigões de ferro despedaçando tanto remos como cascos.

E então um grande animal desconhecido soltou um rugido, e havia chamas verdes por toda a volta: fogovivo, mijo de piromante, o demônio de jade. Matthos estava em pé ao seu lado quando o navio pareceu erguer-se da água. Davos deu por si no rio, batendo os braços enquanto a corrente o agarrava e o fazia rodopiar, dando voltas e mais voltas. No sentido da nascente, as labaredas tinham rasgado o céu, a quinze metros de altura. Viu o Betha Negra em chamas, e também o Fúria, e uma dúzia de outros navios, viu homens em chamas saltarem na água para lá se afogarem. O Espectro e o Senhora Marya tinham desaparecido, afundados, despedaçados, ou escondidos por um véu de fogovivo, e não havia tempo de procurá-los, porque ele estava quase na foz do rio, e os Lannister tinham erguido uma grande corrente de ferro na embocadura. De margem a margem, nada havia além de navios em chamas e fogovivo. Aquela visão pareceu ter parado seu coração por um momento, e ainda se lembrava do ruído, o crepitar das chamas, o silvo do vapor, os gritos dos moribundos, e o bater daquele terrível calor contra seu rosto quando a corrente do rio o arrastou para baixo, na direção do inferno.

Só precisava deixar-se levar. Alguns momentos mais, e estaria com os filhos, descansando na fria lama verde do fundo da baía, com peixes mordiscando seu rosto.

Mas, em vez disso, tinha inspirado um grande trago de ar e mergulhado, batendo os pés na direção do fundo do rio. Sua única esperança era passar por baixo da corrente, dos navios em chamas e do fogovivo que flutuava na superfície da água, nadar com força em busca da segurança da baía que se estendia do outro lado. Davos sempre fora um bom nadador, e naquele dia não usava nada de aço além do elmo que tinha perdido quando o Betha Negra naufragou. Enquanto cortava através da escuridão verde, viu outros homens lutando sob a água, puxados para baixo, afogando-se sob o peso de armaduras e cotas de malha. Davos passou por eles nadando, batendo os pés com todas as forças que restavam às suas pernas, entregando-se à corrente, com a água enchendo seus olhos. Desceu mais fundo, e mais fundo, e ainda mais fundo. A cada braçada tornava-se mais difícil manter a respiração presa. Lembrava-se de ter visto o fundo, suave e indistinto, quando um rio de bolhas explodiu de seus lábios. Algo havia tocado sua perna... uma raiz submersa, um peixe ou um homem que se afogava, não sabia dizer.

A essa altura, já precisava de ar, mas tinha medo. Já teria ultrapassado a corrente, estaria já na baía? Se subisse por baixo de um navio, iria se afogar, e se chegasse à superfície entre as manchas flutuantes de fogovivo, sua primeira inspiração torraria seus pulmões, transformando-os em cinzas. Virou-se na água para olhar para cima, mas nada havia para ver além de uma escuridão verde, e então já tinha virado demais e não conseguia distinguir entre o que ficava em cima e o que ficava embaixo. O pânico dominara-o. Suas mãos bateram contra o fundo do rio, levantando uma nuvem de areia que o cegou. Seu peito ficava mais e mais apertado. Arranhou a água, batendo os pés, empurrando-se, virando, com os pulmões gritando por ar, batendo os pés, batendo os pés, agora perdido na escuridão do rio, batendo os pés, batendo os pés, batendo os pés até já não conseguir batê-los mais. Quando abriu a boca para gritar, a água jorrou para dentro, salgada, e Davos Seaworth soube que estava se afogando.

Quando voltou a si, o sol estava no céu, e ele jazia numa praia pedregosa por baixo da projeção de uma rocha nua, com a baía vazia ao seu redor e um mastro quebrado, uma vela queimada e um cadáver inchado a seu lado. O mastro, a vela e o morto desapareceram com a maré cheia seguinte, deixando Davos sozinho no seu rochedo entre as lanças do rei bacalhau.

Seus longos anos como contrabandista tinham feito com que as águas ao redor de Porto Real lhe fossem mais familiares do que qualquer lar que alguma vez tivera, e compreendeu que seu refúgio nada mais era do que um ponto nos mapas, um lugar de onde os navegantes honestos se afastavam em vez de se aproximar... embora o próprio Davos tivesse andado por ali uma ou duas vezes em seus dias de contrabando, a fim de melhor passar despercebido. Quando me encontrarem morto aqui, se me encontrarem, talvez deem ao rochedo o meu nome, pensou. Vão chamá-lo de Rochedo da Cebola; será a minha lápide e o meu legado. Não merecia mais. O Pai protege seus filhos, ensinavam os septões, mas Davos enviara os filhos para o fogo. Dale nunca daria à sua esposa o filho pelo qual tinham rezado, e Allard, com sua garota em Vilavelha, sua garota em Porto Real e sua garota em Bravos, faria todas chorarem em breve. Matthos nunca capitanearia seu próprio navio, como sonhara fazer. Maric nunca seria ordenado cavaleiro.

Como posso viver quando eles morreram? Morreram tantos bravos cavaleiros e senhores poderosos, homens melhores do que eu, e bem-nascidos. Rasteje para a sua gruta, Davos. Rasteje lá para dentro e encolha-se, o navio irá embora, e você nunca mais se incomodará com ninguém. Adormeça em sua almofada de pedra, e deixe que as gaivotas arranquem seus olhos enquanto os caranguejos se banqueteiam com a sua carne. Já se banqueteou de muitos dos seus, tem uma dívida para com eles. Esconda-se, contrabandista. Esconda-se, fique calado e morra.

A vela já se encontrava quase ao lado do rochedo. Alguns momentos mais e o navio teria passado em segurança, e ele poderia morrer em paz.

Estendeu a mão para a garganta, em busca da pequena bolsa de couro que usava sempre em volta do pescoço. Guardava lá dentro os ossos dos quatro dedos que seu rei tinha encurtado no dia em que armara Davos cavaleiro. A minha sorte. Os seus dedos encurtados deram pancadinhas no peito, apalpando, sem nada encontrar. A bolsa tinha desaparecido, e os ossos desapareceram com ela. Stannis nunca conseguiu compreender por que Davos tinha conservado os ossos.

- Para me recordar da justiça de meu rei - sussurrou através de lábios rachados. Mas agora tinham desaparecido. O fogo levou minha sorte como levou meus filhos. Em seus sonhos o rio ainda estava em chamas e os demônios dançavam sobre as águas, com chicotes flamejantes nas mãos, enquanto homens enegreciam e ardiam sob a chibata. - Mãe, tenha mercê - rezou Davos. - Salve-me, Mãe gentil, salve-nos a todos. A minha sorte partiu, tal como meus filhos. - Estava agora chorando livremente, com lágrimas salgadas correndo pelo rosto. - O fogo levou tudo... o fogo...

Talvez fosse apenas o vento soprando contra a rocha, ou o som do mar na costa, mas por um instante Davos Seaworth ouviu sua resposta.

- Você chamou o fogo - sussurrou ela, com uma voz tão tênue quanto o som das ondas numa concha, triste e suave. - Você nos queimou... nos queimou... nosssss queimoooou.

- Foi ela! - gritou Davos. - Mãe, não nos abandone. Foi ela quem os queimou, a mulher vermelha, Melisandre, ela! - Conseguia vê-la; o rosto em forma de coração, os olhos vermelhos, os longos cabelos acobreados, seu vestido vermelho movendo-se como chamas quando ela caminhava, um turbilhão de seda e cetim. Tinha vindo de Asshai, no leste, para Pedra do Dragão e conquistado Selyse e os homens da rainha para seu deus estrangeiro, e depois o rei, o próprio Stannis Baratheon. Este chegou ao ponto de colocar o coração flamejante em seus estandartes, o coração flamejante de R'hllor, Senhor da Luz e Deus da Chama e da Sombra. Por insistência de Melisandre, tinha tirado os Sete de seu septo em Pedra do Dragão e os queimado diante dos portões do castelo, e mais tarde queimara também o bosque sagrado em Ponta Tempestade, e até queimara a árvore-coração, um enorme represeiro branco com um rosto solene.

- Foi obra dela - Davos disse mais uma vez, com menos força.

Obra dela e sua, cavaleiro da cebola. Suas remadas levaram-na a Ponta Tempestade na noite cerrada, para que ela pudesse libertar seu filho de sombra. Não está livre de culpa, ah não. Cavalgou sob o estandarte dela e içou-o em seu mastro. Viu os Sete arder em Pedra do Dragão e nada fez. Ela entregou ao fogo a justiça do Pai, e a misericórdia da Mãe, e a sabedoria da Velha. Ferreiro e Estranho, Donzela e Guerreiro, queimou todos para glória de seu deus cruel, e você ficou quieto e de boca fechada. Mesmo quando ela matou o velho Meistre Cressen, mesmo então, você não fez nada.

A vela estava a cem metros de distância e deslocava-se rapidamente pela baía. Em alguns momentos passaria por ele e começaria a minguar.

Sor Davos Seaworth começou a escalar o rochedo.

Impulsionou-se com mãos trêmulas, com a cabeça ardendo em febre. Duas vezes seus dedos mutilados deslizaram na pedra úmida e ele quase caiu, sem saber como conseguiu se segurar na rocha. Se caísse, morreria, e tinha de sobreviver. Pelo menos mais um pouco. Havia uma coisa que precisava fazer.

O topo do rochedo era estreito demais para que pudesse ficar em pé com segurança, fraco como estava, por isso acocorou-se e acenou com os braços descarnados.

- Ô do navio - gritou ao vento. - Ô do navio, aqui, aqui! - Daquele ponto elevado conseguia ver o navio com mais clareza; o casco esguio e listrado, a figura de proa em bronze, a vela cheia. Havia um nome pintado em seu casco, mas Davos não tinha aprendido a ler. - O do navio - voltou a chamar -, ajudem-me, AJUDEM-ME!

Um tripulante no castelo de proa o viu e apontou em sua direção. Davos ficou vendo outros marinheiros deslocarem-se até a amurada e o encararem de boca aberta. Pouco depois, a vela da galé desceu, os remos deslizaram para fora, e ela deu a volta na direção de seu refúgio. O navio era grande demais para se aproximar muito do rochedo, mas, a trinta metros de distância, lançou um pequeno barco. Davos agarrou-se ao seu rochedo e observou o barco deslizar em sua direção. Quatro homens remavam, enquanto um quinto permanecia sentado à proa.

- Você - gritou o quinto homem quando já estavam a poucos metros da ilha -, você aí na rocha. Quem é?

Um contrabandista que chegou mais alto do que deveria, pensou Davos, um tolo que amou seu rei em excesso e esqueceu seus deuses.

- Eu... - sua garganta estava ressecada, e tinha se esquecido de como se falava. As palavras causaram-lhe uma sensação estranha na língua e soaram ainda mais estranhas aos ouvidos. - Estive na batalha. Era... um capitão, um... um cavaleiro, era um cavaleiro.

- Sim, sor - disse o homem -, e a serviço de que rei?

Davos percebeu de repente que a galé poderia pertencer a Joffrey. Se proferisse agora o nome errado, ela o abandonaria ao seu destino. Mas não, o casco do navio era listrado. Era uma galé lisena, era de Salladhor Saan. A Mãe enviara-a para aquele lugar, a Mãe em sua misericórdia. Tinha uma tarefa para ele. Stannis está vivo, soube então. Ainda tenho um rei. E filhos. Tenho outros filhos, e uma esposa leal e dedicada. Como era possível que tivesse esquecido? A Mãe era realmente misericordiosa.

- Stannis - gritou aos lisenos. - Deuses, sejam bons, sirvo o Rei Stannis.

- Sim - disse o homem no barco -, e nós também.

Sansa

O convite parecia bastante inocente, mas sempre que Sansa o lia, sua barriga dava um nó. Ela agora vai ser rainha, é bela e rica e todo mundo a adora, por que desejaria jantar com afilha de um traidor? Supunha que podia ser por curiosidade; talvez Margaery Tyrell quisesse avaliar a rival que havia afastado. Será que ela se ressente de mim? Será que pensa que tenho má vontade com ela...

Sansa observara das muralhas do castelo a chegada de Margaery Tyrell pela Colina de Aegon. Joffrey tinha recebido sua futura noiva no Portão do Rei, para lhe dar as boas-vindas à cidade, e seguiram a cavalo, lado a lado, através de multidões que os aclamavam, com Joff cintilando numa armadura dourada e a garota Tyrell magnificamente vestida de verde, com um manto de flores outonais florescendo em seus ombros. Tinha dezesseis anos, cabelos e olhos castanhos, era esbelta e bela. O povo gritava seu nome quando ela passava, erguia os filhos para que ela os abençoasse, e espalhava flores sob os cascos de seu cavalo. A mãe e a avó seguiam-na de perto, numa alta casa rolante cujos flancos tinham uma centena de rosas entrelaçadas esculpidas, todas douradas e brilhantes. O povo também as aclamava.

O mesmo povo que me arrancou de cima do cavalo e que teria me matado se não fosse o Cão de Caça. Sansa nada tinha feito para os plebeus a odiarem, não mais do que Margaery Tyrell fizera para conquistar seu amor. Será que ela quer que eu também a ame? Estudou o convite, que parecia ter sido escrito pela mão da própria Margaery. Será que ela deseja a minha bênção? Sansa perguntou a si mesma se Joffrey estaria ciente daquele jantar. Por tudo que ela sabia, aquilo podia bem ser obra dele. A ideia encheu-a de medo. Se Joff estivesse por trás do convite, teria alguma partida cruel planejada para envergonhá-la aos olhos da garota mais velha. Iria ordenar à Guarda Real que a despisse de novo? Da última vez que fizera isso, o tio Tyrion o impediu, mas o Duende não podia salvá-la agora.

Ninguém pode me salvar, a não ser meu Florian. Sor Dontos tinha prometido que a ajudaria a fugir, mas não antes da noite do casamento de Joffrey. Os planos estavam em marcha, assegurara-lhe seu querido e devotado cavaleiro-feito-bobo; nada havia a fazer até lá além de aguentar, e contar os dias.

E jantar com a minha substituta...

Talvez estivesse cometendo uma injustiça para com Margaery Tyrell. O convite talvez não fosse mais do que uma simples consideração, um ato de cortesia. Pode ser só um jantar. Mas aquilo era a Fortaleza Vermelha, aquilo era Porto Real, aquilo era a corte do Rei Joffrey Baratheon, o Primeiro de Seu Nome, e se havia alguma coisa que Sansa Stark aprendera ali era a desconfiança.

Mesmo assim, tinha de aceitar. Agora não era nada, a filha rejeitada de um traidor e a irmã caída em desgraça de um senhor rebelde. Dificilmente poderia dizer não à futura rainha de Joffrey.

Gostaria que o Cão de Caça estivesse aqui. Na noite da batalha, Sandor Clegane viera aos seus aposentos para levá-la da cidade, mas Sansa recusou. Às vezes ficava acordada à noite, perguntando a si mesma se teria feito bem. Havia escondido o manto branco e manchado do Cão de Caça em uma arca de cedro, por baixo de suas sedas de verão. Não saberia dizer por que o guardara. Ouviu dizer que o Cão de Caça tinha se acovardado; no auge da batalha ficara tão bêbado que o Duende tivera de levar seus homens. Mas Sansa compreendia. Conhecia o segredo de seu rosto queimado. Ele só temia o fogo. Naquela noite, o fogovivo incendiou o próprio rio, e encheu o ar de chamas verdes. Mesmo no castelo, Sansa tinha sentido medo. Lá fora... quase nem conseguia imaginar.

Suspirando, pegou uma pena e o tinteiro e escreveu a Margaery Tyrell uma graciosa nota aceitando o convite.

Quando a noite marcada chegou, outro membro da Guarda Real veio buscá-la, um homem tão diferente de Sandor Clegane como... bem, como uma flor de um cão. Ver Sor Loras Tyrell, em pé, à soleira de sua porta, fez o coração de Sansa bater um pouco mais depressa. Aquela era a primeira vez que estava tão perto dele desde seu retorno a Porto Real, à frente da vanguarda da tropa do pai. Por um momento, não soube o que dizer.

- Sor Loras - conseguiu enfim pronunciar -, está... está muito bonito.

Ele deu-lhe um sorriso embaraçado.

- A senhora é muito amável. E também bela. Minha irmã a espera ansiosamente.

- Aguardei o nosso jantar com tanta expectativa.

- Margaery também, assim como a senhora minha avó. - Tomou seu braço e levou-a na direção dos degraus.

- Sua avó? - Sansa estava achando difícil caminhar, conversar e pensar ao mesmo tempo, com Sor Loras tocando seu braço. Sentia o calor de sua mão através da seda.

- A Senhora Olenna. Ela também deverá jantar com você.

- Oh - disse Sansa. Estou falando com ele, e ele está me tocando, está segurando meu braço e me tocando. - Chamam-na de Rainha dos Espinhos. Não é verdade?

- É. - Sor Loras soltou uma gargalhada. Ele tem a mais quente das gargalhadas, pensou Sansa enquanto o jovem prosseguia - Mas é melhor que não use esse nome na presença dela, caso contrário é provável que seja espetada.

Sansa corou. Qualquer idiota teria compreendido que nenhuma mulher ficaria feliz por ser chamada de "Rainha dos Espinhos". Talvez eu seja mesmo tão burra quanto Cersei Lannister diz. Tentou desesperadamente pensar em algo inteligente e encantador para lhe dizer, mas a esperteza a tinha abandonado. Quase lhe disse como era belo, até se lembrar de que já tinha feito isso.

Mas ele era belo. Parecia mais alto do que quando o vira pela primeira vez, mas mantinha a agilidade e a graciosidade, e Sansa nunca vislumbrara outro garoto com olhos tão maravilhosos. Mas ele não é um garoto, é um homem-feito, um cavaleiro da Guarda Real. Achou que sua aparência era ainda melhor de branco do que com o verde e dourado da Casa Tyrell. O único ponto de cor que havia nele agora era o broche que prendia seu manto; a rosa de Jardim de Cima trabalhada em ouro mole amarelo, aninhada em uma base de delicadas folhas verdes de jade.

Sor Balon Swann abriu a porta de Maegor para eles passarem. Estava também todo de branco, embora a cor nem de perto o vestisse tão bem quanto a Sor Loras. Para lá do fosso dos espigões, duas dúzias de homens treinavam com espadas e escudos. Com o castelo tão cheio, o pátio exterior fora dado aos visitantes, para ali levantarem suas tendas e pavilhões, deixando apenas os pátios interiores, menores, para os treinos. Um dos gêmeos Redwyne estava sendo encurralado por Sor Tallad, com os olhos postos em seu escudo. O atarracado Sor Kennos, de Kayce, que mostrava os dentes e bufava sempre que erguia a espada, parecia estar se defendendo bem contra Osney Kettleblack, mas o irmão de Osney, Sor Osfryd, castigava violentamente o escudeiro com cara de rã, Morros Slynt. Com ou sem espadas embotadas, Slynt teria uma rica safra de hematomas na manhã seguinte. Sansa estremeceu só de ver. Eles mal acabaram de enterrar os mortos da última batalha ejá estão treinando para a próxima.

Na extremidade do pátio, um cavaleiro solitário, com um par de rosas douradas no escudo, defendia-se de três oponentes. Precisamente no momento em que Sansa os observava, o cavaleiro golpeou um dos oponentes na parte lateral da cabeça, deixando-o sem sentidos.

- Aquele é seu irmão? - perguntou Sansa.

- Sim, senhora - disse Sor Loras. - Garlan treina frequentemente contra três homens, ou mesmo quatro. Ele diz que em batalha é raro que se lute um contra um, e por isso gosta de estar preparado.

- Deve ser muito corajoso.

- E um grande cavaleiro - respondeu Sor Loras. - Na verdade, é melhor espadachim do que eu, embora eu seja melhor lanceiro.

- Eu me lembro - disse Sansa. - Cavalga maravilhosamente, sor.

- A senhora é amável por dizer tal coisa. Quando foi que me viu montar?

- No torneio da Mão, não se recorda? Montou um corcel branco, e sua armadura era feita de uma centena de diferentes espécies de flores. Você me deu uma rosa. Uma rosa vermelha. Nesse dia atirou rosas brancas às outras mulheres. - Falar daquilo fazia-a corar. - Disse que nenhuma vitória possuía sequer metade da minha beleza.

Sor Loras dirigiu-lhe um sorriso modesto.

- Disse apenas uma verdade simples, que qualquer homem com olhos pode ver.

Ele não se lembra, compreendeu Sansa, sobressaltada. Está só sendo gentil comigo, não se lembra de mim, da rosa ou de qualquer outra coisa. Tivera tanta certeza de que o acontecimento tinha significado algo, de que tinha significado tudo. Uma rosa vermelha, e não branca.

- Foi depois de ter derrubado Sor Robar Royce - disse ela, desesperada.

Ele tirou a mão de seu braço.

- Matei Robar em Ponta Tempestade, senhora. - Não estava se vangloriando; sua voz soava triste.

Ele e outro dos homens da Guarda Arco-íris do Rei Renly, sim. Sansa ouviu as mulheres falar disso em volta do poço, mas por um momento tinha se esquecido.

- Foi quando Lorde Renly foi morto, não foi? Que coisa terrível para sua pobre irmã.

- Para Margaery? - a voz dele estava tensa. - Com certeza. Mas ela estava em Ponta-marga. Não viu nada.

- Mesmo assim, quando ouviu a notícia...

Sor Loras afagou ligeiramente o cabo da espada com a mão. O punho era de couro branco, o botão, uma rosa de alabastro.

- Renly está morto. Robar também. Por que falar deles?

A aspereza em seu tom pegou-a desprevenida.

- Eu... senhor, eu... não pretendia ofendê-lo, sor.

- Nem poderia fazê-lo, Senhora Sansa - respondeu Sor Loras, mas todo o calor tinha desaparecido de sua voz. Nem voltou a tomar seu braço.

Subiram a escada em espiral num profundo silêncio.

Oh, por que eu tinha de mencionar Sor Robar? pensou Sansa. Estraguei tudo. Ele agora está zangado comigo. Tentou pensar em alguma coisa que pudesse dizer para fazer as pazes, mas todas as palavras que passavam por sua cabeça eram capengas e fracas. Fique calada, senão vai ficar ainda pior, disse a si mesma.

Lorde Mace Tyrell e sua comitiva tinham sido alojados atrás do septo real, na longa fortaleza com telhado de ardósia, que era chamada de Arcada das Donzelas desde que o Rei Baelor, o Abençoado, confinara ali as irmãs, para que a visão delas não o tentasse a ter pensamentos carnais. Junto às suas portas altas e esculpidas encontravam-se dois guardas com meio elmo dourado e manto verde debruado de cetim dourado, com a rosa dourada de Jardim de Cima cosida no peito. Ambos tinham mais de dois metros e dez de altura e eram largos de ombros e estreitos de cintura, magnificamente musculosos. Quando Sansa se aproximou o suficiente para ver seus rostos, não foi capaz de distingui-los um do outro. Possuíam os mesmos maxilares fortes, os mesmos profundos olhos azuis, os mesmos densos bigodes ruivos.

- Quem são eles? - perguntou a Sor Loras, momentaneamente esquecida do embaraço.

- A guarda pessoal de minha avó - disse-lhe ele. - A mãe deles os chamou de Erryk e Arryk. Minha avó não consegue distingui-los, por isso os chama de Esquerdo e Direito.

Esquerdo e Direito abriram as portas, e a própria Margaery Tyrell surgiu e desceu saltitante o pequeno lance de escadas, ao encontro dos recém-chegados.

- Senhora Sansa - gritou -, estou tão contente por ter vindo. Seja bem-vinda.

Sansa ajoelhou aos pés de sua futura rainha.

- A senhora me concede uma grande honra, Vossa Graça.

- Por que não me chama de Margaery? Por favor, levante-se. Loras, ajude a Senhora Sansa a ficar em pé. Posso chamá-la de Sansa?

- Se lhe agradar.

Sor Loras fez o que lhe foi pedido. Margaery mandou-o embora com um beijo fraternal e pegou a mão de Sansa.

- Venha, minha avó a espera, e ela não é a mais paciente das senhoras.

O fogo crepitava na lareira, e esteiras com um cheiro doce tinham sido espalhadas pelo chão. Uma dúzia de mulheres estava sentada em volta da longa mesa de montar.

Sansa só reconheceu a alta e digna esposa de Lorde Tyrell, a Senhora Alerie, cuja longa trança prateada se encontrava presa com anéis incrustados de jóias. Margaery fez as outras apresentações. Havia três primas Tyrell, Megga, Aila e Elinor, todas com idades próximas à de Sansa. A roliça Senhora Janna era irmã de Lorde Tyrell, e era casada com um dos Fossoway da maçã verde; a graciosa Senhora Leonette, de olhos brilhantes, era também uma Fossoway, casada com Sor Garlan. A Septã Nysterica possuía um rosto modesto e marcado por varíola, mas parecia alegre. A pálida e elegante Senhora Graceford esperava criança, e a Senhora Bulwer era uma criança, com não mais de oito anos. E "Merry" era como ela chamaria a rude e encorpada Meredyth Crane, mas decididamente não a Senhora Merryweather, uma apaixonante beleza de Myr, de olhos negros.

Após todas as outras, Margaery trouxe-a junto de uma mulher encarquilhada, de cabelos brancos, que mais parecia uma boneca, sentada à cabeceira da mesa.

- Tenho a honra de lhe apresentar a minha avó, a Senhora Olenna, viúva do falecido Luthor Tyrell, Senhor de Jardim de Cima, cuja memória é um conforto para todos nós.

A idosa cheirava a água de rosas. Oh, ela é uma coisinha minúscula. Nada havia na mulher que fosse minimamente espinhoso.

- Beije-me, filha - disse a Senhora Olenna, puxando o pulso de Sansa com uma mão suave e manchada. - E tanta gentileza sua vir jantar comigo e com meu tolo bando de galinhas.

Obedientemente, Sansa beijou a velha no rosto.

- A gentileza foi sua, por me convidar, senhora.

- Conheci seu avô, Lorde Rickard, embora mal.

- Ele morreu antes de eu nascer.

- Sei disso, filha. Dizem que seu avô Tully também está morrendo. Lorde Hoster, certamente lhe disseram, não? Um velho, embora não tão velho como eu. Seja como for, no fim a noite cai para todos nós, e cedo demais para alguns. Deve saber disso melhor do que a maioria das pessoas, pobre criança. Teve a sua cota de luto, eu sei. Lamentamos as suas perdas.

Sansa olhou de relance para Margaery.

- Entristeceu-me saber da morte de Lorde Renly, Vossa Graça. Ele era muito galante.

- E bondade sua dizer isso - respondeu Margaery.

A avó bufou.

- Galante, sim, e encantador, e muito limpo. Sabia como se vestir, sabia como sorrir e sabia como tomar banho, e, não se sabe bem como, arranjou a ideia de que isso o tornava apto a ser rei. Os Baratheon sempre tiveram ideias estranhas, certamente. Vem do sangue Targaryen, creio eu. - Fungou. - Um dia tentaram me casar com um Targaryen, mas rapidamente dei um basta nisso.

- Renly era bravo e gentil, avó - disse Margaery. - O pai também gostava dele, assim como Loras.

- Loras é jovem - disse com vivacidade a Senhora Olenna - e muito bom em derrubar homens dos cavalos com um pau. Isso não faz dele sensato. Quanto ao seu pai, gostaria de ter nascido camponesa com uma grande colher de pau, porque talvez tivesse sido capaz de enfiar na marra algum juízo naquela cabeça gorda.

- Mãe - repreendeu a Senhora Alerie.

- Chiu, Alerie, não fale comigo nesse tom. E não me chame de mãe. Se tivesse dado você à luz, certamente me lembraria. Só podem me culpar por seu marido, o lorde idiota de Jardim de Cima.

- Avó - disse Margaery -, tome tento nas palavras, senão o que Sansa pensará de nós?

- Pode pensar que possuímos alguma inteligência. Uma de nós, pelo menos. - A mulher idosa virou-se para Sansa. - E traição, eu os preveni, Robert tem dois filhos e Renly, um irmão mais velho, como seria possível que ele tivesse alguma pretensão àquela feia cadeira de ferro? Vá lá, diz o meu filho, não quer que a sua querida seja rainha? Vocês, os Stark, um dia foram reis, os Arryn e os Lannister também, e até os Baratheon, pela linha feminina, mas os Tyrell não passavam de intendentes até chegar Aegon, o Dragão, e cozinhar o rei legítimo da Campina no Campo de Fogo. A bem da verdade, até nossa pretensão a Jardim de Cima é um pouco malandra, como aqueles terríveis Florent andam sempre choramingando. "O que importa", você pode perguntar, e certamente não importa, exceto para idiotas como o meu filho. A ideia de um dia ver o neto com a bunda no Trono de Ferro faz Mace inchar como... como é que se chama? Margaery, você que é esperta, seja boazinha e diga à sua avó meio pateta o nome daquele peixe esquisito das Ilhas do Verão que, quando é tocado, incha como um balão até ficar dez vezes maior.

- Ele é chamado de peixe-balão, avó.

- Claro que sim. O povo das Ilhas do Verão não tem imaginação nenhuma. O meu filho devia adotar o peixe-balão como símbolo, para falar a verdade. Podia pôr uma coroa nele, como os Baratheon fazem com o veado, isso talvez o deixasse feliz. Devíamos ter permanecido bem longe de toda esta sangrenta babaquice, a meu ver, mas depois de ordenhar a vaca não há como enfiar o leite de volta nas tetas. Depois de o Lorde Peixe-Balão colocar aquela coroa na cabeça de Renly, enfiamo-nos na lama até os joelhos, portanto aqui estamos para levar as coisas até o fim. E o que você diz sobre isso, Sansa?

A boca de Sansa abriu e fechou. Também se sentia como um peixe-balão.

- Os Tyrell conseguem traçar a sua genealogia até Garth da Mão Verde - foi o melhor que conseguiu arranjar assim de repente.

A Rainha dos Espinhos fungou e disse:

- Assim como os Florent, os Rowan, os Oakheart e metade das outras casas nobres do sul. Garth gostava de plantar a sua semente em terreno fértil, segundo dizem. Não me surpreenderia que não fosse só a mão que ele tinha verde.

- Sansa - interrompeu a Senhora Alerie -, deve estar com muita fome. Vamos comer um pouco de javali e alguns bolos de limão?

- Bolos de limão são os meus preferidos - admitiu Sansa.

- Foi o que nos disseram - declarou a Senhora Olenna, que claramente não tinha qualquer intenção de ser silenciada. - Aquela criatura chamada Varys pareceu pensar que devíamos nos sentir gratas por essa informação. Nunca entendi lá muito bem qual é o objetivo de um eunuco, a bem da verdade. Parece-me que são só homens com as partes úteis cortadas. Alerie, mande que nos sirvam a comida, ou pretende me matar de fome? Venha cá, Sansa, sente aqui ao meu lado, sou muito menos chata do que essas outras. Espero que goste de bobos.

Sansa alisou a saia e sentou-se.

- Penso que... bobos, senhora? Fala de... do tipo que se veste de quadriculado?

- Nesse caso são penas. De que achava que eu falava? Do meu filho? Ou destas adoráveis senhoras? Não, não fique vermelha, com esses cabelos, você fica parecendo uma romã. Todos os homens são bobos, na verdade, mas aqueles que se vestem de quadriculado são mais divertidos do que os que usam coroa. Margaery, filha, mande chamar o Abetouro, vamos ver se ele consegue fazer a Senhora Sansa sorrir. O resto de vocês sentem-se, terei de lhes dizer tudo o que for para fazer? Sansa deve pensar que a minha neta é servida por um rebanho de ovelhas.

O Abetouro chegou antes da comida, vestido com um traje de bobo de penas verdes e amarelas, com um barrete pendente. Um homem imensamente gordo e redondo, do tamanho de três Rapazes-Lua, entrou rebolando no salão, saltou para cima da mesa e depositou um gigantesco ovo bem na frente de Sansa.

- Quebre-o, senhora - ordenou. Quando ela o fez, uma dúzia de pintinhos amarelos fugiram e desataram a correr em todas as direções. - Apanhem-nos! - exclamou o Abetouro. A pequena Senhora Bulwer capturou um e entregou a ele, de modo que o homem o enfiou em sua enorme boca elástica, e pareceu engoli-lo inteiro. Quando arrotou, minúsculas penas amarelas voaram por seu nariz. A Senhora Bulwer desatou a chorar, aflita, mas suas lágrimas transformaram-se num súbito guincho de deleite quando o pintinho saiu, contorcendo-se, da manga de seu vestido e correu pelo seu braço abaixo.

Quando os criados trouxeram um caldo de alho-poró e cogumelos, o Abetouro começou a fazer malabarismos e a Senhora Olenna inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos na mesa.

- Conhece o meu filho, Sansa? Lorde Peixe-Balão de Jardim de Cima?

- E um grande senhor - respondeu polidamente Sansa.

- É um grande idiota - disse a Rainha dos Espinhos. - O pai também era um idiota. Meu esposo, o falecido Lorde Luthor. Oh, amei-o bastante, não me entenda mal. Era um homem gentil, e não lhe faltava habilidade no quarto, mas não deixava de ser pavorosamente idiota. Conseguiu cair com o cavalo de uma falésia enquanto caçava com falcão. Dizem que olhava para o céu, sem prestar nenhuma atenção para onde o cavalo o levava.

"E agora o idiota do meu filho está fazendo o mesmo, só que está montando um leão em vez de um palafrém. Eu preveni-o de que é fácil montar um leão, mas não é tão fácil desmontá-lo; porém, ele só responde com risinhos. Se algum dia tiver um filho, Sansa, bata nele com frequência, para que aprenda a lhe dar ouvidos. Eu só tive um rapaz e quase não bati nele, é por isso que agora ele presta mais atenção ao Abetouro do que a mim. Um leão não é um gato de colo, eu lhe disse, e ele me vem com um Vá-lá-mãe. Há muito mais-vá-lás-neste reino do que devia existir, se quer saber. Todos esses reis fariam bastante melhor se depusessem as espadas e escutassem as mães."

Sansa percebeu que estava de novo com a boca aberta. Encheu-a com uma colher de caldo enquanto a Senhora Alerie e as outras mulheres riam do espetáculo que Abetouro dava, fazendo laranjas saltarem com sua cabeça, seus cotovelos e seu grande traseiro.

- Quero que me conte a verdade sobre esse real rapaz - disse abruptamente a Senhora Olenna. - Esse Joffrey.

Os dedos de Sansa apertaram-se em volta da colher. A verdade? Não posso. Não me peça a verdade, por favor, não posso.

- Eu... eu... eu...

- Você, sim. Quem melhor o conheceria? O moço parece bastante régio, admito. Um pouco cheio de si, mas isso deve vir do sangue Lannister. No entanto, ouvimos algumas histórias perturbadoras. Há alguma verdade nelas? Aquele rapaz maltratou-a?

Sansa lançou um olhar nervoso à sua volta. O Abetouro enfiou uma laranja inteira na boca, mastigou-a e engoliu-a, deu um tapa no rosto e assoou sementes pelo nariz. As mulheres riram. Criados iam e vinham, e a Arcada das Donzelas ecoava com o ruído das colheres e dos pratos. Um dos pintos voltou a saltar para cima da mesa e atravessou correndo o caldo da Senhora Graceford. Ninguém parecia estar prestando a mínima atenção nelas, mesmo assim Sansa sentia-se assustada.

A Senhora Olenna estava ficando impaciente.

- Por que está olhando para o Ahetouro de boca aberta? Fiz uma pergunta, espero uma resposta. Os Lannister roubaram a sua língua, filha?

Sor Dontos prevenira-a para só falar à vontade no bosque sagrado.

- Joff... o Rei Joffrey, ele... Sua Graça é muito justo e bonito, e... e bravo como um leão.

- Sim, todos os Lannister são leões, e quando um Tyrell solta gases cheira mesmo a rosas - exclamou a idosa. - Mas quão bondoso ele é? Quão inteligente? Tem um bom coração, uma mão gentil? E cavalheiresco como um rei deve ser? Irá estimar Margaery e tratá-la com ternura, proteger sua honra como protegeria a própria?

- Sim - mentiu Sansa. - Ele é muito... muito bonito.

- Já disse isso. Sabe, filha, há quem diga que você é tão tola quanto o Abetouro, e eu começo a acreditar. Bonito? Ensinei à minha Margaery o que vale a beleza, espero eu. Um pouco menos do que um peido de saltimbanco. Aerion Fogo-Forte era bastante bonito, mas mesmo assim era um monstro. A questão é: o que é Joffrey? - estendeu a mão para puxar um criado que passava. - Não gosto de alho-poró. Leve este caldo e traga-me um pouco de queijo.

- O queijo será servido depois dos bolos, senhora.

- O queijo será servido quando eu quiser que ele seja servido, e quero-o servido já. - A velha voltou a se virar para Sansa. - Está assustada, filha? Não precisa, aqui somos só mulheres. Conte-me a verdade, nenhum mal acontecerá a você.

- Meu pai sempre disse a verdade. - Sansa falava em voz baixa, ainda assim era difícil forçar as palavras a sair.

- Lorde Eddard, sim, ele tinha essa reputação, mas mesmo assim o chamaram de traidor e cortaram sua cabeça. - Os olhos da velha a atravessaram, afiados e brilhantes como pontas de espadas.

- Joffrey - disse Sansa. - Foi Joffrey quem fez isso. Prometeu-me que seria misericordioso, e cortou a cabeça de meu pai. Disse que isso era uma misericórdia e levou-me até o alto das muralhas e obrigou-me a olhar para ela. Para a cabeça. Queria que eu chorasse, mas... - Parou abruptamente e cobriu a boca. Disse mais do que deveria, oh, pela bondade dos deuses, eles saberão, eles ouvirão falar disso, alguém me denunciará.

- Continue. - Foi Margaery que pediu. A futura rainha de Joffrey. Sansa não sabia quanto ela teria ouvido.

- Não posso. - E se ela contar para ele, e se ela contar? Ele então vai me matar com certeza, ou me dar a Sor Ilyn. - Não quis dizer... meu pai era um traidor, meu irmão também, tenho sangue de traidor, por favor, não me obriguem a dizer mais.

- Acalme-se, filha - ordenou a Rainha dos Espinhos.

- Ela está aterrorizada, avó, olhe só para ela.

A velha gritou ao Abetouro.

- Bobo! Dê-nos uma canção. Uma longa, penso eu. "O urso e a bela donzela" servirá muito bem.

- Sim! - respondeu o enorme bobo. - Servirá mesmo muito bem! Devo cantá-la apoiado em minha cabeça, senhora?

- Isso fará com que soe melhor?

- Não.

- Nesse caso, fique sobre seus pés. Não queremos que seu chapéu caia. Se bem me lembro, você nunca lava o cabelo.

- As suas ordens, senhora. - O Abetouro fez uma profunda reverência, soltou um gigantesco arroto, e então endireitou-se, espetou a barriga e berrou: - Havia um urso, um urso, um URSO! Preto e castanho e coberto de pelo...

A Senhora Olenna inclinou-se para a frente.

- Quando eu era uma garota mais nova do que você, já era bem sabido que na Fortaleza Vermelha as paredes têm ouvidos. Bem, ficarão entretidos com uma canção e, enquanto isso, nós, as meninas, falaremos livremente.

- Mas - disse Sansa - Varys... ele sabe, ele sempre...

- Cante mais alto! - gritou a Rainha dos Espinhos ao Abetouro. - Estes velhos ouvidos estão quase surdos, sabe? Está sussurrando para mim, bobo gordo? Não lhe pago por sussurros. Cante!

- ... O URSO! - trovejou o Abetouro, fazendo ecoar a sua sonora e profunda voz nas vigas do teto. - OH, VEM, DISSERAM, OH, VEM AO CONCURSO! CONCURSO? DISSE ELE, MAS EU SOU UM URSO! PRETO E CASTANHO E COBERTO DE PELO!

A encarquilhada velha senhora sorriu.

- Em Jardim de Cima temos muitas aranhas entre as flores. Desde que guardem as coisas para si, deixamos que teçam as suas pequenas teias, mas quando se põem debaixo de nossos pés, pisamos nelas. - Deu palmadinhas nas costas da mão de Sansa. - Agora, filha, a verdade. Que tipo de homem é esse Joffrey, que chama a si mesmo Baratheon, mas parece tão Lannister?

- E DAQUI PARA LÁ AO LONGO DO PERCURSO. PERCURSO! PERCURSO! TRÊS MOÇOS, UM BODE E UMA DANÇA DE URSO!

Sansa sentia-se como se o coração estivesse preso em sua garganta. A Rainha dos Espinhos estava tão perto dela que conseguia sentir seu mau hálito. Os dedos descarnados e esguios da velha beliscavam seu pulso. Do outro lado, Margaery também estava à escuta. Um arrepio percorreu-a.

- Um monstro - segredou, com uma voz tão trêmula que quase não conseguiu ouvir a si mesma. - Joffrey é um monstro. Mentiu a respeito do filho do carniceiro e obrigou meu pai a matar a minha loba. Quando lhe desagrado, manda a Guarda Real bater em mim. E mau e cruel, senhora, é a verdade. E a rainha também.

A Senhora Olenna Tyrell e a neta trocaram olhares.

- Ah - disse a velha -, isso é uma pena.

Oh, deuses, pensou Sansa, horrorizada. Se Margaery não se casar com ele, Joff saberá que a culpa é minha.

- Por favor - suplicou -, não impeça o casamento...

- Não tenha medo, Lorde Peixe-Balão está determinado a que Margaery seja rainha. E a palavra de um Tyrell vale mais do que todo o ouro de Rochedo Casterly. Pelo menos era assim na minha época. Seja como for, agradecemos pela verdade, filha.

- ... DANÇOU E GIROU ATÉ CHEGAR AO CONCURSO! CONCURSO! CONCURSO! - o Abetouro saltava, rugia e batia os pés.

- Sansa, gostaria de visitar Jardim de Cima? - quando Margaery Tyrell sorria, parecia-se muito com o irmão Loras. - Todas as flores do outono estão em botão nesta época, e há bosques e fontes, pátios cheios de sombras, colunatas de mármore. O senhor meu pai sempre mantém cantores na corte, melhores do que o Abinho aqui, e também flautistas, rabequeiros e harpistas. Temos os melhores cavalos e barcos de lazer para viajar ao longo do Vago. Você pratica falcoaria, Sansa?

- Um pouco - admitiu.

- OH, E ELA ERA DOCE E PURA E BELA! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!

- Vai gostar tanto de Jardim de Cima quanto eu, sei que sim. - Margaery empurrou para trás uma madeixa solta dos cabelos de Sansa. - Assim que vir o castelo, nunca mais vai querer partir. E talvez não tenha que fazer isso.

- CABELOS! CABELOS! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!

- Chiu, filha - disse a Rainha dos Espinhos em tom penetrante. - Sansa nem sequer nos disse que gostaria de ir até lá como visita.

- Ah, mas gostaria - disse Sansa. Jardim de Cima parecia ser o lugar com que sempre sonhara, como a bela corte mágica que um dia esperara encontrar em Porto Real.

- ... CHEIROU O ODOR NO AR DE VERÃO. O URSO! O URSO! PRETO E CASTANHO E COBERTO DE PELO.

- Mas a rainha - prosseguiu Sansa -, ela não me deixará ir...

- Deixará. Sem Jardim de Cima, os Lannister não têm esperança de manter Joffrey no trono. Se o meu filho, o lorde idiota, pedir, ela não terá outra escolha a não ser conceder-lhe o pedido.

- Ele faria isso? - perguntou Sansa. - Ele pedirá?

A Senhora Olenna franziu a testa.

- Não vejo necessidade de lhe dar outra escolha. Claro, ele não faz a mínima ideia de nosso verdadeiro propósito.

- CHEIROU O ODOR NO AR DE VERÃO!

Sansa franziu a testa.

- O nosso verdadeiro propósito, senhora?

- FUNGOU E RUGIU E CHEIROU-O, BABÃO! MEL NO AR DE VERÃO!

- Tratar de casá-la em segurança, filha - disse a velha, enquanto o Abetouro berrava a velhíssima canção com o meu neto.

Casar com Sor Loras, oh... A respiração de Sansa ficou presa na garganta. Lembrou-se de Sor Loras em sua cintilante armadura de safiras, atirando-lhe uma rosa. Sor Loras vestido de seda branca, tão puro, inocente e belo. As covinhas nos cantos da boca quando sorria. A doçura de seu riso, o calor de sua mão. Só podia imaginar o que seria tirar sua túnica e acariciar a pele suave, ficar nas pontas dos pés e beijá-lo, correr os dedos por aqueles espessos caracóis castanhos e afogar-se em seus profundos olhos castanhos. Uma vermelhidão subiu por seu pescoço.

- OH, SOU UMA DONZELA, E SOU PURA E BELA! NÃO DANÇAREI CVM URSO PELUDO! UM URSO! UM URSO! NÃO DANÇAREI CVM URSO PELUDO!

- Gostaria disso, Sansa? - perguntou Margaery. - Nunca tive uma irmã, só irmãos. Oh, por favor, diga que sim, por favor, diga que consentirá em se casar com meu irmão.

As palavras precipitaram-se para fora de sua boca.

- Sim, eu me caso. Nada me agradaria mais. Casar com Sor Loras, amá-lo...

- Loras? - a Senhora Olenna fez uma expressão aborrecida. - Não seja tola, filha. A Guarda Real nunca se casa. Não lhe ensinaram nada em Winterfell? Estávamos falando de meu neto Willas. Ele é um pouco velho para você, com certeza, mas um rapaz adorável, apesar de tudo. Nem um pouquinho imbecil, e além disso herdeiro de Jardim de Cima.

Sansa sentiu vertigem; num instante sua cabeça estava cheia de sonhos sobre Loras, e no seguinte tinham-lhe tirado todos. Willas? Willas?

- Eu - disse, estupidamente. A cortesia é a armadura de uma senhora. Não pode ofendê-los, tenha cuidado com o que diz. - Eu não conheço Sor Willas. Nunca tive o prazer, minha senhora. Ele é... é um cavaleiro tão bom quanto os irmãos?

-... ERGUEU-A NO AR CVMA MÁO! O URSO! O URSO!

- Não - disse Margaery. - Nunca prestou juramento.

A avó franziu a testa.

- Conte a verdade à garota. O pobre rapaz é aleijado, e é assim que as coisas são.

- Foi ferido quando era escudeiro, ao participar de seu primeiro torneio - confidenciou Margaery. - O cavalo caiu e esmagou a perna de Willas.

- A culpa foi daquela serpente de Dorne, aquele Oberyn Martell. E o meistre dele também.

- QUIS UM CAVALEIRO, MAS VOCÊ É UM URSO! UM URSO! UM URSO! PRETO E CASTANHO E COBERTO DE PELO!

- Willas tem uma perna ruim mas um bom coração - disse Margaery. - Costumava ler para mim quando eu era uma menininha, e fazia desenhos das estrelas para mim. Vai amá-lo tanto como nós, Sansa.

- ESPERNEOU E CHOROU, A DONZELA TÃO BELA, MAS ELE Lambeu-lhe o MEL DOS CABELOS. CABELOS! CABELOS! LAMBEU-LHE O MEL DOS CABELOS!

- Quando poderei conhecê-lo? - perguntou Sansa, hesitante.

- Em breve - prometeu Margaery. - Quando for a Jardim de Cima, depois de Joffrey e eu nos casarmos. Minha avó vai levá-la.

- Levarei - disse a velha, dando palmadinhas na mão de Sansa e abrindo um sorriso suave cheio de rugas. - Levarei mesmo.

- ENTÃO SUSPIROU E GUINCHOU E ATÉ esperneou! MEU URSO! CANTOU. MEU URSO TÃO BELO! E DAQUI PARA LÁ FORAM PELO PERCURSO, o URSO, o URSO E A BELA DONZELA. - O Abetouro rugiu o último verso, deu um salto e caiu sobre ambos os pés com um estrondo que fez balançar as taças de vinho sobre a mesa. As mulheres riram e aplaudiram.

- Achava que essa terrível canção nunca mais acabaria - disse a Rainha dos Espinhos. - Mas, olhem, aí vem o meu queijo.

Jon

O mundo era uma escuridão cinzenta e fria, com cheiro de pinheiro e musgo. Névoas pálidas erguiam-se da terra negra enquanto os cavaleiros abriam caminho pela confusão de pedras e árvores deformadas na direção das bem-vindas fogueiras que se espalhavam como jóias no fundo do vale do rio, lá embaixo. Havia mais fogueiras do que Jon Snow conseguia contar, centenas delas, milhares, um segundo rio de luzes tremeluzentes ao longo das margens do Guadeleite, branco de gelo. Os dedos da mão que manejava a espada se abriram e fecharam.

Desceram a vertente sem estandartes nem trombetas, num silêncio interrompido apenas pelo murmúrio distante do rio, pelo ruído dos cascos e pelos estalidos da armadura de ossos do Camisa de Chocalho. Em algum lugar, lá no alto, uma águia pairava, com grandes asas azul-acinzentadas abertas, enquanto embaixo seguiam homens, cães, cavalos e um gigante lobo branco.

Uma pedra rolou encosta abaixo, perturbado por um casco de passagem, e Jon viu Fantasma virar a cabeça ao ouvir o súbito som. Ele tinha seguido os cavaleiros a distância o dia todo, como era seu costume, mas quando a lua se ergueu sobre os pinheiros marciais, aproximou-se aos saltos, com os olhos vermelhos brilhando. Os cães do Camisa de Chocalho receberam-no com um coro de rosnidos e violentos latidos, como sempre, mas o lobo gigante não lhes deu importância. Seis dias antes, o maior dos cães atacara-o por trás enquanto os selvagens acampavam à noite, mas Fantasma virara-se e mordera-o, colocando o cão para correr com um quadril ensanguentado. Depois disso, o resto da matilha passou a guardar uma distância saudável.

O garrano de Jon Snow relinchou baixinho, mas um toque e uma palavra carinhosa rapidamente aquietaram o animal. Seria bom que seus próprios medos fossem acalmados com tanta facilidade quanto os do animal. Estava todo vestido de preto, o negro da Patrulha da Noite, mas o inimigo acompanhava-o, à frente e atrás. Selvagens, e eu estou com eles. Ygritte usava o manto de Qhorin Meia-Mão. Lenyl tinha a camisa de malha dele; a grande esposa de lanças, Ragwyle, as luvas; um dos arqueiros, as botas. O elmo de Qhorin foi ganho pelo pequeno simplório chamado Lança-Longa Ryk, mas encaixava-se mal em sua cabeça estreita, e ele deu-o também a Ygritte. E o Camisa de Chocalho levava os ossos de Qhorin no saco, bem como a cabeça ensanguentada de Ebben, que tinha partido com Jon para bater o Passo dos Guinchos. Mortos, todos mortos, menos eu, e eu estou morto para o mundo.

Ygritte seguia logo atrás dele. À frente ia o Lança-Longa Ryk. O Senhor dos Ossos tinha feito dos dois seus guardas.

- Se o corvo fugir, também fervo os ossos de vocês - preveniu-os quando partiram, sorrindo através dos dentes tortos do crânio de gigante que usava como elmo.

Ygritte gritou para ele.

- Você quer guardá-lo? Se quer que nos encarreguemos disso, deixe-nos em paz e faremos o que pede.

Este é realmente um povo livre, compreendeu Jon. Camisa de Chocalho podia ser o líder, mas nenhum deles se acanhava em dar resposta a ele.

O líder selvagem fitou-o com um olhar pouco amistoso.

- Pode ser que tenha enganado esses aí, corvo, mas não ache que vai enganar Mance. Ele vai olhar uma vez pra você e ver que é um farsante. E quando isso acontecer, vou fazer um manto com o seu lobo ali, e abrir sua barriga mole de rapaz pra costurá-la com uma doninha lá dentro.

A mão de Jon que manejava a espada tinha se aberto e fechado, flexionando os dedos queimados sob a luva, mas o Lança-Longa Ryk limitou-se a rir.

- E onde é que você ia achar uma doninha na neve?

Nessa primeira noite, após um longo dia a cavalo, tinham acampado numa rasa concavidade de pedra, no topo de uma montanha sem nome, aninhando-se junto à fogueira enquanto a neve começava a cair. Jon observava os flocos derreterem enquanto pairavam sobre as chamas. Apesar das camadas de lã, peles e couro, sentia frio até os ossos. Ygritte sentou-se ao seu lado depois de comer, com o capuz levantado e as mãos enfiadas nas mangas, para aquecê-las.

- Quando Mance ouvir dizer como você deu cabo do Meia-Mão, vai recebê-lo bem depressa - disse-lhe.

- Receber-me onde?

A moça riu com zombaria.

- Recebê-lo como um de nós. Acha que é o primeiro corvo a fugir da Muralha? Lá no fundo, vocês todos só querem voar livres.

- E quando eu for livre - disse ele lentamente -, serei livre para ir embora?

- Claro que sim. - Ela tinha um sorriso quente, apesar dos dentes tortos. - E ele vai ser livre pra matar você. Ser livre é perigoso, mas a maior parte acaba gostando. - Pousou a mão enluvada em sua perna, logo acima do joelho. - Você vai ver.

Vou ver, pensou Jon. Vou ver e ouvir, e aprender, e quando o tiver feito, levarei as novidades de volta para a Muralha. Os selvagens tinham-no tomado por perjuro, mas em seu âmago ainda era um homem da Patrulha da Noite, cumprindo o último dever que Qhorin Meia-Mão depositara nele. Antes de ser morto por mim.

No fundo da encosta depararam-se com um pequeno riacho que descia do sopé dos montes e ia se juntar ao Guadeleite. Parecia todo feito de pedras e gelo, embora conseguissem ouvir o som da água correndo sob a superfície congelada. Camisa de Chocalho atravessou à frente deles, estilhaçando a fina crosta de gelo.

Os batedores de Mance Rayder cercaram-nos quando subiram para a margem. De relance, Jon verificou quantos eram: oito cavaleiros, tanto homens como mulheres, vestidos de peles e couro fervido, com um elmo ou um pouco de cota de malha aqui e ali. Vinham armados com lanças e arpões endurecidos pelo fogo, todos menos o chefe, um louro corpulento, com olhos lacrimejantes, que usava uma grande gadanha curva de aço afiado. O Chorão, compreendeu de imediato. Os irmãos negros contavam histórias sobre ele. Assim como Camisa de Chocalho, Harma Cabeça de Cão e Alfyn Mata-Corvos, era um célebre assaltante.

- O Senhor dos Ossos - disse Chorão quando os viu. Deu uma olhada em Jon e em seu lobo. - E este, quem é?

- Um corvo que passou pro lado de cá - disse Camisa de Chocalho, que preferia ser chamado de Senhor dos Ossos devido à ruidosa armadura que usava. - Tava com medo que eu roubasse os ossos dele como os do Meia-Mão. - Sacudiu o saco de troféus na direção dos outros selvagens.

- Ele matou Qhorin Meia-Mão - disse Lança-Longa Ryk. - Ele e seu lobo.

- E também deu cabo do Orell - disse Camisa de Chocalho.

- O moço é um warg, ou coisa que o valha - interveio Ragwyle, a grande esposa de lanças. - O lobo dele arrancou um pedaço da perna do Meia-Mão.

Os olhos vermelhos e remelentos de Chorão deram outra olhada em Jon.

- Ah, é? Bom, tem certo ar de lobo, agora que o vejo de perto. Levem-no até Mance, pode ser que fique com ele. - Fez o cavalo dar meia-volta e afastou-se a galope, com os companheiros logo atrás.

O vento soprava úmido e pesado quando atravessaram o vale do Guadeleite e avançaram em fila pelo acampamento. Fantasma manteve-se perto de Jon, mas seu cheiro seguia à frente do grupo como um arauto, e logo havia cães dos selvagens por toda a volta, rosnando e latindo. Lenyl gritou-lhes que se calassem, mas não prestaram atenção nele.

- Não gostam muito desse seu animal - comentou Lança-Longa Ryk a Jon.

- São cães e ele é um lobo - disse Jon. - Sabem que não pertence à espécie deles. - Tal como eu não pertenço à sua. Mas tinha de manter seu dever em mente, a tarefa de que Qhorin Meia-Mão o encarregara enquanto partilhavam aquela última fogueira... desempenhar o papel de vira-casaca e encontrar o que quer que fosse que os selvagens tinham andado à procura na estéril desolação fria das Presas de Gelo. "Algum poder", Qhorin tinha denominado em conversa com o Velho Urso, mas morrera antes de saber que poder seria, ou se Mance Rayder o teria encontrado com suas escavações.

Havia fogueiras para cozinhar ao longo de todo o rio, entre carros, carroças e trenós. Muitos dos selvagens tinham erguido tendas, de couro cru, peles e feltro. Outros abrigavam-se atrás de rochedos, em toldos improvisados, ou dormiam debaixo de suas carroças. Junto a uma fogueira, Jon viu um homem endurecendo a ponta de longas lanças de madeira e atirando-as em uma pilha. Em outro ponto, dois jovens barbudos vestidos de couro fervido lutavam com varas, saltando um sobre o outro por cima das chamas, grunhindo toda vez que um golpe acertava o alvo. Uma dúzia de mulheres estava sentada ali perto, preparando flechas.

Flechas para os meus irmãos, pensou Jon. Flechas para o povo de meu pai, para o povo de Winterfell, Bosque Profundo e Última Lareira. Flechas para o norte.

Mas nem tudo que via era bélico. Vislumbrou também mulheres dançando, e ouviu um bebê chorando, e um garotinho passou correndo diante de seu garrano, todo enrolado em peles e sem fôlego, por causa da brincadeira. Ovelhas e cabras vagueavam livremente, enquanto bois percorriam a margem do rio em busca de pasto. Cheiro de carneiro assado pairava no ar, vindo de uma das fogueiras, e em outra viu um javali sendo girado em um espeto de madeira.

Num espaço aberto rodeado por grandes pinheiros marciais, Camisa de Chocalho desmontou.

- Acampamos aqui - disse a Lenyl, Ragwyle e os outros. - Deem de comer aos cavalos, depois aos cães, depois a vocês. Ygritte, Lança-Longa, tragam o corvo para que Mance possa dar uma olhada nele. Vamos estripá-lo depois.

Seguiram a pé o resto do caminho, passando por mais fogueiras e tendas, com Fantasma seguindo de perto. Jon nunca tinha visto tantos selvagens. Perguntou a si mesmo se alguém já teria. O acampamento não tem fim, refletiu, mas é mais uma centena de acampamentos do que um só, e cada um deles é mais vulnerável do que o anterior. Espalhados ao longo de uma grande área, os selvagens não tinham defesas de que valesse a pena falar, nem fossos nem estacas afiadas, só pequenos grupos de batedores patrulhando os terrenos ao redor. Cada grupo, clã ou aldeia simplesmente acampou onde quis, assim que viu os outros parando ou encontrou um bom local. O povo livre. Se os seus irmãos os apanhassem em tal desordem, muitos pagariam tal liberdade com o sangue do corpo. Possuíam número, mas a Patrulha da Noite tinha disciplina e, "em batalha, a disciplina vence o número em nove entre dez batalhas", o pai disse-lhe certa vez.

Não havia como não saber qual das tendas pertencia ao rei. Era três vezes maior do que a segunda maior tenda que vira, e ouvia-se música vinda lá de dentro. Tal como muitas das tendas menores, aquela era feita de peles cosidas ainda com pelo, mas as de Mance Rayder eram as hirsutas peles brancas dos ursos das neves. Um enorme par de chifres de um dos alces gigantes que outrora vagueavam livremente pelos Sete Reinos, nos tempos dos Primeiros Homens, coroava a cobertura pontiaguda.

Pelo menos ali encontrou defensores; dois guardas junto à abertura da tenda, apoiados em grandes lanças e com escudos redondos feitos de couro. Quando viram Fantasma, um deles baixou a lança e disse:

- Esse animal fica aqui.

- Fantasma, fique - ordenou Jon. O lobo gigante sentou-se.

- Lança-Longa, vigie o lobo. - Camisa de Chocalho puxou a aba da tenda e, com um gesto, ordenou que Jon e Ygritte entrassem.

A tenda estava quente e fumacenta. Nos quatro cantos havia cestos de turfa queimando, enchendo o ar com uma tênue luz avermelhada. Mais peles atapetavam o chão. Jon sentiu-se absolutamente só ali, em pé, vestido de negro, esperando a atenção do vira-casaca que se autodenominava Rei-para-lá-da-Muralha. Depois de seus olhos se ajustarem à luz vermelha e esfumaçada, viu seis pessoas, nenhuma das quais prestou qualquer atenção nele. Um jovem escuro e uma loura bonita dividiam um corno de hidromel. Uma mulher grávida estava em pé junto a um braseiro, cozinhando algumas galinhas, enquanto um homem grisalho com um esfarrapado manto preto e vermelho estava sentado numa almofada, de pernas cruzadas, tocando um alaúde e cantando:

A mulher do dornês era bela como o sol e seus beijos, quentes como a primavera. Mas a espada do dornês era feita de aço negro e o seu beijo, a mordida de uma fera.

Jon conhecia a canção, embora fosse estranho ouvi-la ali, numa tenda de peles felpudas para lá da Muralha, a dez mil léguas das montanhas vermelhas e dos ventos quentes de Dorne.

Camisa de Chocalho tirou seu elmo amarelado enquanto esperava que a canção chegasse ao fim. Sob sua armadura de osso e couro era um homem pequeno, e o rosto por baixo do crânio de gigante era simples, com um queixo nodoso, um bigode fino e bochechas pálidas e descarnadas. Os olhos eram bem próximos um do outro, com sobrancelhas que cruzavam toda a testa, e os cabelos escuros rareavam, recuando nas têmporas.

A mulher do dornês cantava no banho, numa voz que era pêssego doce. Mas a espada do dornês tinha a sua canção, e mordia como se sanguessuga fosse.

Ao lado do braseiro, um homem baixo mas imensamente largo estava sentado num banco, comendo uma galinha diretamente no espeto. Gordura quente escorria por seu queixo e pela barba branca como a neve, mas ele sorria mesmo assim, com um ar feliz. Três presilhas de ouro gravadas com runas cingiam seus braços fortes, e usava uma pesada camisa de cota de malha negra que só podia ter vindo de um patrulheiro morto. Não muito longe dele, um homem mais alto e mais esguio, com uma camisa de couro com escamas de bronze, franzia a testa sobre um mapa, com uma longa espada a tiracolo, em uma bainha de couro. Era reto como uma lança, todo ele longos músculos duros, escanhoado, calvo, com um forte nariz reto e olhos cinzentos encovados. Podia ter sido bonito se tivesse orelhas, mas perdera ambas; Jon não sabia dizer se devido ao frio ou à faca de algum inimigo. A falta delas fazia com que a cabeça do homem parecesse estreita e pontiaguda.

Tanto o homem de barba branca como o calvo eram guerreiros, tinha bastado um relance para que isso ficasse claro para Jon. Esses dois são de longe mais perigosos do que o Camisa de Chocalho. Perguntou a si mesmo qual deles seria Mance Rayder.

Jazendo no chão, rodeado de escuridão, seu sangue ele saboreou.

Os irmãos se ajoelharam e rezaram uma oração, e ele sorriu e ele riu e cantou.

"Irmãos, oh irmãos, os meus dias estão no fim, o dornês minha vida desfez,

Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer, e eu provei a mulher do dornês!"

Enquanto as últimas notas de "A mulher do dornês" se desvaneciam, o homem careca e sem orelhas ergueu os olhos do mapa e fez uma carranca feroz para Camisa de Chocalho e Ygritte, que tinham Jon entre eles.

- O que é isto? - ele perguntou. - Um corvo?

- O bastardo preto que estripou Orell - disse Camisa de Chocalho - e também um maldito warg.

- Devia ter matado todos.

- Este passou para o nosso lado - explicou Ygritte. - Matou Qhorin Meia-Mão com as próprias mãos.

- Esse garoto? - o homem sem orelhas irritou-se com a notícia. - O Meia-Mão devia ter sido meu. Você tem nome, corvo?

- Jon Snow, Vossa Graça. - Perguntou a si mesmo se também esperavam que dobrasse o joelho.

- Vossa Graça? - o homem sem orelhas olhou para o grandalhão da barba branca. - Vê? Ele acha que sou rei.

O barbudo riu com tanta força que espalhou pedaços de galinha por toda a parte. Limpou a gordura da boca com as costas de uma de suas enormes mãos.

- Um rapaz cego, só pode ser. Quem já ouviu falar de um rei sem orelhas? Ora, a coroa cairia até o pescoço! Ha! - Dirigiu a Jon um sorriso, limpando os dedos nas calças. - Feche o bico, corvo. Dê meia-volta e talvez encontre quem veio procurar.

Jon virou-se.

O cantor pôs-se em pé.

- Sou Mance Rayder - disse ele, enquanto colocava o alaúde de lado. - E você é o bastardo de Ned Stark, o Snow de Winterfell.

Aturdido, Jon ficou sem fala por um momento, antes de se recuperar o suficiente para dizer:

- Como... como pode saber...

- Isso é uma história para mais tarde - disse Mance Rayder. - O que achou da canção, moço?

- Gostei bastante. Já a tinha ouvido.

- Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer - disse alegremente o Rei-para-lá-da-Muralha -, e eu provei a mulher do dornês. Diga-me, o meu Senhor dos Ossos fala a verdade? Matou meu velho amigo, o Meia-Mão?

- Matei. - Embora tenha sido mais obra dele do que minha.

- A Torre Sombria nunca mais vai parecer tão temível - disse o rei, com tristeza na voz. - Qhorin era meu inimigo. Mas também foi meu irmão um dia. Por isso... devo agradecê-lo por tê-lo matado, Jon Snow? Ou amaldiçoá-lo? - dirigiu a Jon um sorriso zombeteiro.

O Rei-para-lá-da-Muralha não se parecia em nada com um rei, e tampouco se parecia com um selvagem. Era de média estatura, magro, com feições bem definidas, astutos olhos castanhos e longos cabelos castanhos já quase totalmente grisalhos. Não havia coroa em sua cabeça, nem presilhas de ouro nos braços, nem jóias no pescoço, nem mesmo uma cintilação de prata. Usava lã e couro, e o único traje digno de nota que vestia era o esfarrapado manto de lã negra, cujos longos rasgões tinham sido cosidos com seda vermelha desbotada.

- Devia me agradecer por matar seu inimigo - disse Jon por fim - e me amaldiçoar por matar seu amigo.

- Ha! - trovejou o homem da barba branca. - Bem respondido!

- De acordo. - Mance Rayder fez um gesto para Jon se aproximar. - Se quer se juntar a nós, é melhor que nos conheça. O homem que confundiu comigo é Styr, Magnar de Thenn. Magnar significa "senhor" no Idioma Antigo. - O homem sem orelhas fitou Jon friamente enquanto Mance se virava para o homem da barba branca. - Aqui, nosso feroz comedor de galinhas é o meu leal Tormund. A mulher...

Tormund levantou-se.

- Espere. Tratou Styr por seu título, trate-me também pelo meu.

Mance Rayder soltou uma gargalhada.

- Como quiser. Jon Snow, perante a sua presença encontra-se Tormund Terror dos Gigantes, Arauto, Soprador de Chifres e Quebrador de Gelo. Eis também Tormund Punho de Trovão, Esposo de Ursas, Rei-Hidromel de Solar Ruivo, Falador com os Deuses e Pai de Tropas.

- Isso já se parece mais comigo - disse Tormund. - Prazer em conhecê-lo, Jon Snow. Acontece que gosto de wargs, apesar de não gostar nada dos Stark.

- A boa mulher junto ao braseiro - prosseguiu Mance Rayder - é Dalla. - A grávida deu um sorriso tímido. - Trate-a como trataria qualquer rainha, porque espera um filho meu. - Virou-se para os últimos dois. - Esta beldade é a irmã de Dalla, Val. O jovem Jarl, ao lado dela, é seu último animalzinho de estimação.

- Não sou animal de estimação de homem nenhum - disse Jarl, sombrio e feroz.

- E Val não é homem nenhum - resfolegou o da barba branca, Tormund. - A esta altura já devia ter percebido, moço.

- Então aqui nos tem, Jon Snow - disse Mance Rayder. - O Rei-para-lá-da-Muralha e sua corte, tal como é. E agora algumas palavras suas, creio eu. De onde vem?

- De Winterfell - disse Jon -, via Castelo Negro.

- E o que o traz ao vale do Guadeleite, tão longe dos fogos de sua casa? - não esperou pela resposta de Jon, e olhou de imediato para Camisa de Chocalho. - Quantos eram?

- Cinco. Três tão mortos e o rapaz tá aqui. O outro subiu uma encosta onde nenhum cavalo podia segui-lo.

Os olhos de Rayder voltaram a encontrar os de Jon.

- Eram só os cinco? Ou há mais irmãos seus escondidos por aí?

- Éramos quatro e o Meia-Mão. Qhorin valia por vinte homens comuns.

O Rei-para-lá-da-Muralha sorriu ao ouvir aquilo.

- Havia quem pensasse assim. Seja como for... um rapaz de Castelo Negro com patrulheiros da Torre Sombria? Como foi que isso aconteceu?

Jon tinha a mentira pronta.

- O Senhor Comandante mandou-me ao Meia-Mão para ganhar experiência, e por isso ele trouxe-me a essa patrulha.

Styr, o Magnar, franziu a testa ao ouvir aquilo.

- Chama isso de patrulha... por que corvos viriam patrulhar pelo Passo dos Guinchos acima?

- As aldeias estavam desertas - disse Jon, honestamente. - Era como se todo o povo livre tivesse desaparecido.

- Desaparecido, certo - falou Mance Rayder. - E não só o povo livre. Quem lhes disse onde estávamos, Jon Snow?

Tormund fungou.

- Se não foi o Craster, eu sou uma donzela corada. Eu disse, Mance, aquela criatura precisa ficar uma cabeça mais curta.

O rei deu ao homem mais velho um olhar irritado.

- Tormund, um dia desses experimente pensar antes de falar. Eu sei que foi o Craster. Perguntei a Jon para ver se ele nos diria a verdade.

- Ha. - Tormund escarrou. - Bem, meti os pés pelas mãos! - Dirigiu um sorriso a Jon. - Tá vendo, moço, é por isso que ele é rei e eu não. Bebo melhor, luto melhor e canto melhor que ele, e o meu membro é três vezes maior que o dele, mas Mance tem astúcia. Foi educado como corvo, sabe, e o corvo é um pássaro cheio de truques.

- Gostaria de falar com o rapaz a sós, meu Senhor dos Ossos - disse Mance Rayder ao Camisa de Chocalho. - Deixem-nos, todos vocês.

- O quê, eu também? - perguntou Tormund.

- Sim, especialmente você - disse Mance.

- Não como em um salão onde não sou bem-vindo. - Tormund ficou em pé. - Eu e as galinhas vamos embora. - Pegou outra galinha do braseiro, enfiou-a num bolso costurado no forro de seu manto, disse "Ha", e saiu lambendo os dedos. Os outros seguiram-no, todos menos a mulher chamada Dalla.

- Sente-se, se quiser - disse Rayder depois de eles partirem. - Está com fome? Tormund deixou-nos pelo menos duas aves.

- Eu adoraria comer, Vossa Graça. E obrigado.

- Vossa Graça? - o rei sorriu. - Isso não é tratamento que se ouça com frequência vindo dos lábios do povo livre. Para a maioria sou Mance. O Mance para alguns. Aceita um corno de hidromel?

- De bom grado - disse Jon.

O próprio rei o serviu enquanto Dalla cortava as galinhas crocantes e dividia a porção entre os dois. Jon descalçou as luvas e comeu com os dedos, chupando dos ossos cada pedacinho de carne.

- Tormund falou a verdade - disse Mance Rayder enquanto partia um pão. - O corvo preto é um pássaro cheio de truques, é assim mesmo... mas eu já era um corvo quando você não era maior do que o bebê na barriga de Dalla, Jon Snow. Portanto tome cuidado para não tentar truques comigo.

- Às suas ordens, Vossa... Mance.

O rei soltou uma gargalhada.

- Vossa Mance! E por que não? Há pouco prometi uma história a você sobre o modo como o conheci. Já descobriu?

Jon balançou a cabeça.

- Camisa de Chocalho enviou a notícia à nossa frente?

- Voando? Não temos corvos treinados. Não, reconheci seu rosto. Já tinha visto você antes. Duas vezes.

A princípio não fazia sentido, mas quando Jon revirou a informação em sua mente, a manhã clareou.

- Quando era um irmão da Patrulha...

- Muito bem! Sim, essa foi a primeira vez. Você era só um garoto e eu estava todo de preto, fazia parte de uma dúzia que escoltou o velho Senhor Comandante Qorgyle quando ele desceu até Winterfell para um encontro com o seu pai. Eu percorria a muralha em volta do pátio quando me deparei com você e seu irmão Robb. Nevara na noite anterior, e vocês tinham feito uma grande montanha por cima do portão e estavam esperando que alguém passasse por baixo.

- Eu me lembro - disse Jon, surpreso, com uma gargalhada. Um jovem irmão negro no adarve, sim. - Jurou não contar.

- E mantive meu voto. Pelo menos esse.

- Despejamos a neve em cima do Gordo Tom. Ele era o guarda mais lento do pai. - Tom perseguira-os depois, em volta do pátio, até os três ficarem vermelhos como maçãs de outono. - Mas disse que me viu duas vezes. Quando foi a segunda?

- Quando o Rei Robert veio a Winterfell para fazer de seu pai Mão - disse com malícia o Rei-para-lá-da-Muralha.

Os olhos de Jon arregalaram-se de descrença.

- Não pode ser verdade.

- Mas foi. Quando seu pai soube que o rei vinha, mandou a notícia ao irmão Benjen, na Muralha, para que ele pudesse descer para o banquete. Há mais trocas entre os irmãos negros e o povo livre do que você imagina, e não demorou muito tempo para a notícia chegar também aos meus ouvidos. Era uma oportunidade boa demais para resistir. Seu tio não me conhecia de vista, portanto nada tinha a temer vindo daí, e não me parecia que seu pai fosse capaz de se lembrar de um jovem corvo que conhecera brevemente anos antes. Queria ver esse Robert com meus próprios olhos, de rei para rei, e também avaliar seu tio Benjen. Nessa época, ele era Primeiro Patrulheiro, e o terror de todo o meu povo. Portanto selei meu cavalo mais veloz e tomei o caminho.

- Mas - objetou Jon - a Muralha...

- A Muralha pode parar um exército, mas não um homem sozinho. Peguei um alaúde e uma bolsa de prata, escalei o gelo perto do Monte Longo, caminhei algumas léguas para o sul da Nova Dádiva e comprei um cavalo. Apesar de tudo, fui muito mais rápido do que Robert, que viajava com uma imponente e enorme casa rolante para manter a sua rainha confortável. A um dia de Winterfell, para o sul, encontrei-o e juntei-me à sua comitiva. Cavaleiros livres e pequenos cavaleiros passam a vida ligando-se a cortejos reais, na esperança de entrar para o serviço do rei, e o meu alaúde me fez conquistar uma aceitação fácil. - Mance soltou uma gargalhada. - Conheço todas as canções obscenas que já foram feitas, ao norte ou ao sul da Muralha. Então é isso. Na noite em que seu pai ofereceu o banquete a Robert, eu estava sentado num banco no fundo do seu salão, com os outros cavaleiros livres, ouvindo Orland de Vilavelha tocar sua harpa e cantar cantigas sobre reis mortos sob o mar. Entreguei-me à comida e à bebida do senhor seu pai, passei os olhos pelo Regicida e pelo Duende... e tomei nota, de passagem, dos filhos de Lorde Eddard e dos lobinhos que corriam atrás deles.

- Bael, o Bardo - disse Jon, lembrando-se da história que Ygritte lhe contara nas Presas de Gelo, na noite em que quase a tinha matado.

- Bem que eu gostaria. Não negarei que a façanha de Bael inspirou a minha... mas, que me lembre, não raptei nenhuma de suas irmãs. Bael escrevia as próprias canções e viveu-as. Eu só canto as canções que homens melhores fizeram. Mais hidromel?

- Não - disse Jon. - Se tivesse sido descoberto... capturado...

- Seu pai teria cortado a minha cabeça. - O rei encolheu os ombros. - Se bem que, depois de ter comido à sua mesa, estivesse protegido pelo direito de hóspede. As leis da hospitalidade são velhas como os Primeiros Homens e sagradas como uma árvore-coração. - Fez um gesto para a mesa entre eles, para o pão partido e os ossos de galinha. - Aqui é você o hóspede, e está a salvo de ser ferido pelas minhas mãos... esta noite, pelo menos. Portanto, diga-me a verdade, Jon Snow. É um covarde que virou a casaca por medo, ou há algum outro motivo que o traga à minha tenda?

Direito de hóspede ou não, Jon Snow sabia que ali caminhava em gelo quebradiço. Um passo em falso e podia atravessá-lo para dentro de água suficientemente fria para lhe parar o coração. Pese todas as palavras antes de dizê-las, disse a si mesmo. Tomou um longo trago de hidromel, a fim de ganhar tempo para a resposta. Quando apoiou o corno, disse:

- Diga-me por que virou a sua casaca, e eu direi por que virei a minha.

Mance Rayder sorriu, como Jon esperara que fizesse. O rei era claramente um homem que gostava do som da própria voz.

- Certamente já deve ter ouvido histórias sobre a minha deserção.

- Alguns dizem que foi por uma coroa. Outros, que foi por uma mulher. Outros ainda, que tem sangue de selvagem.

- Sangue de selvagem é o sangue dos Primeiros Homens, o mesmo sangue que corre nas veias dos Stark. Quanto à coroa, você vê alguma?

- Vejo uma mulher. - Olhou de relance para Dalla.

Mance pegou-a pela mão e puxou-a para junto dele.

- A minha senhora não tem culpa. Conheci-a ao voltar do castelo de seu pai. O Meia-Mão era esculpido de um velho carvalho, mas eu sou feito de carne e tenho um grande gosto pelos encantos das mulheres... o que faz com que não seja em nada diferente de três quartos da Patrulha. Há homens ainda de negro que tiveram dez vezes mais mulheres do que este pobre rei. Precisa tentar de novo, Jon Snow.

Jon refletiu por um momento.

- Meia-Mão disse que tinha uma paixão pela música dos selvagens.

- Tinha. E tenho. Isso está mais perto do alvo, sim. Mas ainda não acertou. - Mance Rayder ergueu-se, desprendeu a fivela que segurava seu manto e atirou-o para cima do banco. - Foi por isto.

- Um manto?

- O manto de lã negra de um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite - disse o Rei-para-lá-da Muralha. - Um dia, numa patrulha, abatemos um grande e belo alce. Estávamos esfolando-o quando o cheiro do sangue fez um gato-das-sombras sair de seu covil. Eu afastei-o, mas não antes de ele ter rasgado meu manto em tiras. Está vendo? Aqui, aqui e aqui? - soltou um risinho. - Também me rasgou o braço e as costas, e sangrei mais do que o alce. Meus irmãos temeram que pudesse morrer antes de conseguirem me levar ao Meistre Mullin na Torre Sombria, e levaram-me até uma aldeia selvagem onde sabíamos que uma velha feiticeira fazia algumas curas. Aconteceu que ela estava morta, mas a filha tratou de mim. Limpou meus ferimentos, deu pontos em mim e me alimentou com mingau de aveia e poções até eu ficar suficientemente forte para voltar a subir em um cavalo. E também costurou os rasgões em meu manto, com um pouco de seda escarlate de Asshai que a avó tinha tirado dos restos de um barco afundado que apareceu na Costa Gelada. Era o maior tesouro que ela possuía, e foi um presente para mim. - Voltou a pôr o manto nos ombros. - Mas na Torre Sombria me deram um manto novo de lã, tirado dos armazéns, preto e preto, e forrado de preto, para combinar com meus calções pretos e minhas botas pretas, meu gibão preto e cota de malha preta. O manto novo não tinha zonas puídas, rasgões ou cortes... e, acima de tudo, não tinha vermelho. Os homens da Patrulha da Noite vestiam-se de negro, lembrou-me severamente Sor Denys Mallister, como se eu tivesse me esquecido. Agora, meu velho manto só estava bom para queimar, disse ele. Parti na manhã seguinte... para um lugar onde um beijo não era crime e um homem podia usar o manto que quisesse. - Fechou a fivela e se sentou novamente. - E você, Jon Snow?

Jon bebeu outro trago de hidromel. Só há uma história em que ele pode acreditar.

- Disse que estava em Winterfell na noite em que meu pai ofereceu o banquete ao Rei Robert.

- Disse, porque estava.

- Então viu-os todos. O Príncipe Joffrey e o Príncipe Tommen, a Princesa Myrcella, meus irmãos Robb, Bran e Rickon, minhas irmãs Arya e Sansa. Viu-os caminhar pelo corredor central com todos os olhos postos neles e ocupar seus lugares na mesa logo abaixo do estrado onde o rei e a rainha se sentavam.

- Lembro-me.

- E viu onde eu estava sentado, Maneei - inclinou-se para a frente. - Viu onde eles puseram o bastardo?

Mance Rayder olhou o rosto de Jon durante um longo momento.

- Acho que é melhor arranjarmos um novo manto para você - disse o rei, estendendo a mão.

Daenerys

O lento e constante bater de tambores e o suave sibilar dos remos das galés pairavam sobre a imóvel água azul. A grande coca gemia em seu rastro, com as pesadas cordas bem retesadas entre os navios. As velas do Balerion pendiam, flácidas, caindo desamparadas dos mastros. Mesmo assim, em pé no castelo de proa, observando seus dragões se perseguirem com um céu azul sem nuvens ao fundo, Daenerys Targaryen estava tão feliz como jamais se lembrava de estar.

Seus dothraki chamavam o mar de água venenosa, desconfiando de qualquer líquido que seus cavalos não pudessem beber. No dia em que os três navios tinham levantado âncora em Qarth, seria possível ter pensado que estavam zarpando para o inferno e não para Pentos. Seus bravos e jovens companheiros de sangue fitavam com enormes olhos brancos a linha de costa que minguava, cada um deles determinado a não mostrar medo perante os outros dois, enquanto as aias Irri e Jhiqui se agarravam desesperadamente à amurada e vomitavam borda afora a cada pequeno balanço. O resto do minúsculo khalasar de Dany permanecia sob o convés, preferindo a companhia de seus nervosos cavalos ao aterrorizador mundo sem terra que rodeava os navios. Quando uma súbita tempestade os engoliu no sexto dia de viagem, ouviu-os através das escotilhas; os cavalos relinchando e aos coices, os cavaleiros rezando com vozes agudas e trêmulas a cada vez que o Balerion se elevava ou adernava.

Mas nenhum balanço era capaz de assustar Dany. Era chamada Daenerys, nascida na Tormenta, pois chegara ao mundo, aos gritos, na distante Pedra do Dragão, enquanto a maior tempestade de que se havia memória em Westeros rugia lá fora, uma tempestade tão violenta que arrancou gárgulas das muralhas do castelo e fez a frota do pai em pedaços.

O mar estreito era frequentemente tempestuoso, e Dany atravessara-o meia centena de vezes quando menina, correndo de uma Cidade Livre para a seguinte, meio passo à frente dos assassinos contratados pelo Usurpador. Adorava o mar. Gostava do intenso cheiro salgado do ar e da vastidão do horizonte, limitado apenas por uma abóbada de céu azul-celeste. Fazia-a sentir-se pequena, mas também livre. Gostava dos golfinhos que às vezes nadavam ao lado do Balerion, cortando as ondas como lanças prateadas, e dos peixes-voadores que podiam ser vislumbrados de vez em quando. Até gostava dos marinheiros, com todas as suas canções e histórias. Certa vez, em uma viagem para Bravos, enquanto observava a tripulação que lutava para arriar uma grande vela verde no meio de uma crescente ventania, até tinha pensado em como seria bom ser um marinheiro. Mas, quando disse isso ao irmão, Viserys torcera seus cabelos até fazê-la gritar.

- Você é do sangue do dragão - ele berrou. - Um dragão, não um peixe fedorento qualquer.

Foi um tolo com isso, como com tantas outras coisas, pensou Dany. Se tivesse sido mais sensato e mais paciente, seria ele quem viajaria para oeste afim de tomar o trono que era dele por direito. Havia chegado à conclusão de que Viserys era burro e mau, mesmo assim às vezes sentia sua falta. Não do homem fraco e cruel em que se transformara por fim, mas do irmão que às vezes a deixava se deitar na cama dele, do garoto que lhe contava histórias sobre os Sete Reinos e falava de como a vida de ambos seria melhor depois de reclamar a sua coroa.

O capitão surgiu junto a ela.

- Seria bom que este Balerion pudesse voar como o seu homônimo, Vossa Graça - disse num valiriano baixo, fortemente temperado pelo sotaque de Pentos. - Então não precisaríamos remar, nem rebocar, nem rezar por vento.

- E verdade, capitão - respondeu ela com um sorriso, satisfeita por ter conquistado o homem. O capitão Groleo era um velho pentoshi como o seu patrão, Illyrio Mopatis, e tinha se mostrado nervoso como uma donzela com a ideia de transportar três dragões em seu navio. Meia centena de baldes de água do mar ainda pendiam da amurada, para o caso de incêndio. A princípio, Groleo quis os dragões engaiolados e Dany consentiu para sossegá-lo, mas a infelicidade dos animais era tão palpável que rapidamente mudou de ideia e insistiu para que fossem libertados.

Agora até o capitão Groleo estava contente com isso. Ocorrera um pequeno incêndio, extinto com facilidade; em compensação, agora o Balerion parecia ter menos ratazanas do que antes, quando velejara com o nome de Saduleon. E a tripulação, antes tão temerosa quanto curiosa, começou a ganhar um estranho orgulho feroz de "seus" dragões. Todos os homens do navio, do capitão ao ajudante de cozinha, gostavam de ver os três voando... embora nenhum gostasse tanto como Dany.

São meus filhos, disse a si mesma, e se a maegi falou a verdade, são os únicos filhos que alguma vez terei.

As escamas de Viserion eram da cor de creme fresco e seus chifres, os ossos das asas e a crista dorsal, de um dourado escuro que relampejava ao sol, brilhante como metal. Rhaegal era feito do verde do verão e do bronze do outono. Voavam por cima dos navios em largos círculos, cada vez mais alto, ambos tentando subir acima do outro.

Dany tinha aprendido que os dragões preferiam sempre atacar de cima. Se algum deles conseguisse se colocar entre o outro e o sol, dobrava as asas e mergulhava, gritando, e caíam ambos do céu, presos numa emaranhada bola escamosa, com as mandíbulas atacando e as caudas chicoteando. Da primeira vez que tinham feito isso, Dany temeu que quisessem matar um ao outro, mas era só brincadeira. Assim que caíam no mar, espirrando água, largavam-se e voltavam a levantar voo, guinchando e silvando, com a água salgada evaporando de sua pele, em nuvens de vapor, enquanto as asas rasgavam o ar. Drogon também andava pelas alturas, mas não se encontrava à vista; devia estar muito à frente ou atrás, caçando.

Seu Drogon andava sempre com fome. Com fome e crescendo depressa. Mais um ano, ou talvez dois, e estará suficientemente grande para montar. Então não terei necessidade de navios para atravessar o grande mar salgado.

Mas esse tempo ainda não tinha chegado. Rhaegal e Viserion eram do tamanho de cães pequenos, Drogon, só um pouco maior, e qualquer cão seria mais pesado do que eles; os dragões eram todos asas, pescoço e cauda, mais leves do que pareciam. E assim Daenerys Targaryen dependia de madeira, vento e vela para levá-la para casa.

A madeira e a vela tinham-na servido bastante bem até agora, mas o inconstante vento tornara-se traidor. Havia seis dias e seis noites que estavam presos numa calmaria, e agora o sétimo dia chegara, e ainda não havia um sopro de ar que enchesse suas velas. Felizmente, dois dos navios que o Magíster Illyrio tinha mandado à sua procura eram galés mercantes, com duzentos remos cada uma e tripulação de remadores de braços fortes para manuseá-los. Mas a grande coca Balerion tocava por outra partitura; um navio imponentemente largo que mais parecia uma imensa porca, com porões gigantescos e enormes velas, mas que era impotente numa calmaria. A Vhagar e a Meraxes tinham-lhe atirado cabos para rebocá-la, mas o avanço era dolorosamente lento. Os três navios estavam repletos de gente e iam muito carregados.

- Não vejo o Drogon - disse Sor Jorah Mormont quando se juntou a ela no castelo de proa. - Perdeu-se outra vez?

- Somos nós que estamos perdidos, sor. Drogon não gosta mais do que eu deste rastejar molhado. - Mais ousado do que os outros dois, seu dragão negro tinha sido o primeiro a experimentar as asas por cima da água, o primeiro a pairar de navio em navio, o primeiro a se perder numa nuvem passageira... e o primeiro a matar. Assim que os peixes-voadores rompiam a superfície da água, eram envolvidos numa lança de chamas, apanhados e engolidos. - Ele crescerá até que tamanho? - perguntou Dany com curiosidade. - Você sabe?

- Nos Sete Reinos contam-se histórias de dragões que cresceram tanto que conseguiam arrancar lulas gigantes do mar.

Dany soltou uma gargalhada.

- Isso seria uma visão maravilhosa.

- É só uma história, Kbaleesi - disse seu cavaleiro exilado. - Também falam de velhos e sábios dragões que viveram mil anos.

- Bom, e quanto tempo vive mesmo um dragão? - olhou para cima quando Viserion passou em voo rasante por cima do navio, batendo lentamente as asas e agitando as velas murchas.

Sor Jorah encolheu os ombros.

- A vida natural de um dragão é muito mais longa do que a de um homem, ou pelo menos é isso que as canções nos querem levar a crer... mas os dragões que os Sete Reinos conheceram melhor foram aqueles da Casa Targaryen. Eram criados para a guerra, e na guerra morriam. Matar um dragão não é coisa fácil, mas é possível.

O escudeiro Barba-Branca, em pé junto da figura de proa, com uma mão esguia segurando seu rijo bastão de madeira, virou-se para eles e disse:

- Balerion, o Terror Negro, tinha duzentos anos de idade quando morreu durante o reinado de Jaehaerys, o Conciliador. Era tão grande que podia engolir um auroque inteiro. Um dragão nunca para de crescer, Vossa Graça, desde que tenha comida e liberdade. - O nome do homem era Arstan, mas Belwas, o Forte, apelidara-o de Barba-Branca devido à cor dos pelos que cresciam em seu rosto, e agora quase todos o chamavam assim. Era mais alto do que Sor Jorah, embora não fosse tão musculoso; seus olhos eram azul-claros, e sua longa barba era branca como neve e fina como seda.

- Liberdade? - perguntou Dany, curiosa. - O que quer dizer?

- Em Porto Real, seus ancestrais construíram para os dragões um imenso castelo coberto por uma cúpula. Chama-se Fosso dos Dragões. Ainda está de pé no topo da Colina de Rhaenys, embora esteja agora em ruínas. Era lá que os dragões reais moravam nos dias de outrora, e era uma habitação espaçosa, com portas de ferro tão largas que trinta cavaleiros podiam atravessá-las lado a lado. Mas, mesmo assim, notou-se que nunca nenhum dos dragões do fosso atingiu o tamanho de seus ancestrais. Os meistres dizem que isso se deveu às paredes que os rodeavam, e ao grande domo sobre suas cabeças.

- Se as paredes pudessem nos manter pequenos, os camponeses seriam todos minúsculos e os reis, grandes como gigantes - disse Sor Jorah. - Eu vi homens enormes nascidos em casebres e anões que viviam em castelos.

- Homens são homens - respondeu Barba-Branca. - Dragões são dragões.

Sor Jorah fungou de desdém.

- Que profundo. - O cavaleiro exilado não simpatizava com o velho, tinha deixado isso claro desde o início. - De resto, o que você sabe a respeito de dragões?

- Bastante pouco, é verdade. Mas servi durante algum tempo em Porto Real, nos dias em que o Rei Aerys ocupava o Trono de Ferro, e caminhei sob os crânios de dragões que olhavam para baixo, das paredes de sua sala do trono.

- Viserys falava desses crânios - disse Dany. - O Usurpador tirou-os das paredes e os escondeu. Não suportava vê-los olhando-o no trono que havia roubado. - Fez um gesto para que Barba-Branca se aproximasse. - Chegou a conhecer meu real pai? - o Rei Aerys II morrera antes de a filha nascer.

- Tive essa grande honra, Vossa Graça.

- Achou-o bom e gentil?

Barba-Branca fez o seu melhor para esconder os sentimentos, mas eles estavam ali, estampados em seu rosto.

- Sua Graça era... frequentemente agradável.

- Frequentemente? - Dany sorriu. - Mas nem sempre?

- Podia ser muito severo para com aqueles que julgava ser seus inimigos.

- Um homem sensato nunca faz de um rei um inimigo - disse Dany. - Também conheceu meu irmão Rhaegar?

- Dizia-se que homem algum chegou a conhecer realmente o Príncipe Rhaegar. Mas tive o privilégio de vê-lo em torneios e ouvi-o frequentemente tocar a sua harpa de cordas de prata.

Sor Jorah fungou.

- Junto com outros mil em alguma festa das colheitas. A seguir vai dizer que foi o escudeiro dele.

- Não direi uma coisa dessas, sor. O escudeiro do Príncipe Rhaegar foi Myles Mooton, e depois Richard Lonmouth. Quando ganharam suas esporas, foi ele mesmo quem os armou cavaleiros, e permaneceram companheiros próximos. O jovem Lorde Connington também era caro ao príncipe, mas seu amigo mais antigo era Arthur Dayne.

- A Espada da Manhã! - disse Dany, deliciada. - Viserys costumava falar de sua maravilhosa lâmina branca. Dizia que Sor Arthur era o único cavaleiro no reino capaz de se igualar a nosso irmão.

Barba-Branca inclinou a cabeça.

- Não me cabe questionar as palavras do Príncipe Viserys.

- Rei - corrigiu Dany. - Ele foi um rei, embora nunca tenha reinado. Viserys, o Terceiro de Seu Nome. Mas o que quer dizer? - a resposta dele não fora a que esperava. - Sor Jorah certa vez chamou Rhaegar de o último dragão. Ele precisava ter sido um guerreiro ímpar para ser chamado assim, certamente.

- Vossa Graça - disse Barba-Branca -, o Príncipe de Pedra do Dragão foi um guerreiro muito poderoso, mas...

- Prossiga - pediu ela. - Pode falar livremente comigo.

- Às suas ordens. - O velho apoiou-se em seu bastão, com a testa enrugada. - Um guerreiro sem par... essas são belas palavras, Vossa Graça, mas palavras não vencem batalhas.

- As espadas vencem batalhas - disse Sor Jorah sem rodeios. - E o Príncipe Rhaegar sabia usar uma.

- Sabia, sor, mas... vi uma centena de torneios e mais guerras do que desejaria, e por mais forte, rápido ou hábil que um cavaleiro seja, há outros que podem se equiparar a eles. Um homem pode ganhar um torneio e cair rapidamente no seguinte. Um ponto escorregadio na relva, ou aquilo que se comeu na noite anterior, pode significar a derrota. Uma mudança no vento pode trazer a dádiva da vitória. - Olhou de relance para Sor Jorah. - Ou o favor de uma senhora atado em volta de um braço.

O rosto de Mormont obscureceu-se.

- Tenha cuidado com o que diz, velho.

Dany sabia que Arstan vira Sor Jorah lutar em Lanisporto, no torneio que Mormont tinha ganhado com o favor de uma senhora atado ao braço. Tinha conquistado também a senhora; Lynesse, da Casa Hightower, sua segunda esposa, bem-nascida e bela... mas ela arruinara-o e abandonara-o, e a recordação da mulher agora era amarga para ele.

- Seja gentil, meu cavaleiro. - Dany pôs uma mão no braço de Jorah. - Estou certa de que Arstan não teve nenhuma intenção de ofendê-lo.

-Às suas ordens, Khaleesi. - A voz de Sor Jorah mostrava ressentimento.

Dany voltou-se para o escudeiro.

- Sei pouco de Rhaegar. Só as histórias que Viserys contava, e ele era um garotinho quando nosso irmão morreu. Como ele era realmente?

O velho refletiu por um momento.

- Capaz. Isso acima de tudo. Determinado, circunspecto, cumpridor, obstinado. Conta-se uma história sobre ele... mas sem dúvida Sor Jorah também a conhece.

- Gostaria de ouvi-la de você.

-Às suas ordens - disse Barba-Branca. - Quando criança, o Príncipe de Pedra do Dragão era extraordinariamente dado à leitura. Começou a ler tão cedo que os homens diziam que a Rainha Rhaella devia ter engolido alguns livros e uma vela enquanto ele estava em seu ventre. Rhaegar não tinha nenhum interesse pelas brincadeiras das outras crianças. Os meistres ficavam assombrados com sua inteligência, mas os cavaleiros do pai trocavam gracejos amargos sobre Baelor, o Abençoado, ter renascido. Até que um dia o Príncipe Rhaegar encontrou algo em seus pergaminhos que o mudou. Ninguém sabe o que pode ter sido, só se sabe que o garoto apareceu no pátio uma manhã, no momento em que os cavaleiros vestiam as armaduras. Foi direito a Sor Willem Darry, o mestre de armas, e disse: "Vou precisar de espada e armadura. Parece que tenho de ser um guerreiro." - E foi! - disse Dany, deliciada.

- Foi, realmente. - Barba-Branca fez uma reverência. - Meus perdões, Vossa Graça. Falamos de guerreiros e eu vejo que Belwas, o Forte, se levantou. Tenho de ir servi-lo.

Dany lançou um rápido olhar para a popa. O eunuco saía do porão no meio do navio, ágil, apesar de todo o seu tamanho. Belwas era atarracado mas largo, uns bons noventa e cinco quilos de gordura e músculo, com sua grande barriga marrom atravessada por cicatrizes brancas desvanecidas. Usava calças largas, uma faixa de seda amarela na cintura, e um colete de couro absurdamente minúsculo, decorado com rebites de ferro.

- Belwas, o Forte, tem fome! - rugiu para todos e para ninguém em especial. - Belwas, o Forte, quer comer, já! - Virando-se, viu Arstan no castelo de proa. - Barba-Branca! Vai trazer comida para Belwas, o Forte!

- Pode ir - disse Dany ao escudeiro. Ele fez outra reverência e afastou-se para satisfazer as necessidades do homem a quem servia.

Sor Jorah ficou observando-o com uma carranca em seu rosto franco e honesto. Mormont era grande e corpulento, com mandíbula forte e ombros largos. Não era, de modo algum, um homem bonito, mas era o amigo mais leal que Dany alguma vez tivera.

- Seria sensata se desse um bom desconto às palavras daquele velho - disse-lhe quando Barba-Branca se afastou o suficiente para não ouvi-los.

- Uma rainha deve escutar todos - lembrou-lhe Dany. - Os de nascimento alto e baixo, os fortes e os fracos, os nobres e os venais. Uma voz pode proferir falsidades, mas em muitas sempre é possível encontrar verdade. - Lera aquilo num livro.

- Escute então a minha voz, Vossa Graça - disse o exilado. - Esse Arstan Barba-Branca está levando a senhora ao engano. É velho demais para ser escudeiro, e fala bem demais para servir àquele eunuco idiota.

Isso realmente parece estranho, Dany teve de admitir. Belwas, o Forte, era um ex-escravo, criado e treinado nas arenas de luta de Meereen. O Magíster Illyrio enviara-o para protegê-la, ou pelo menos era isso que Belwas dizia, e era verdade que ela precisava de proteção. O Usurpador, em seu Trono de Ferro, oferecera terras e uma senhoria a qualquer homem que a matasse. Uma tentativa já tinha acontecido, com uma taça de vinho envenenado. Quanto mais perto chegasse de Westeros, mais provável se tornava outro ataque. Em Qarth, o mago Pyat Pree enviara um Homem Pesaroso em seu encalço para vingar os Imortais que ela queimara na sua Casa de Poeira. Os magos nunca esqueciam uma desfeita, dizia-se, e os Homens Pesarosos nunca falhavam uma morte. A maioria dos dothraki também estaria contra ela. Os kos de Khal Drogo lideravam agora khalasares seus, e nenhum hesitaria em atacar o pequeno bando de Dany assim que o visse, para matar e escravizar seu povo e arrastar a própria Dany para Vaes Dothrak, a fim de tomar o lugar que lhe era próprio entre as velhas mirradas do dosh khaleen. Ela esperava que Xaro Xhoan Daxos não fosse um inimigo, mas o mercador qarteno tinha cobiçado seus dragões. E havia ainda Quaithe da Sombra, essa mulher estranha com máscara de laca vermelha e todos os seus misteriosos conselhos. Seria também uma inimiga, ou apenas uma amiga perigosa? Dany não sabia dizer.

Sor Jorah salvou-me do envenenador, e Arstan Barba-Branca, da mantícora. Talvez Belwas, o Forte, me salve do próximo. Ele era suficientemente enorme, com braços semelhantes a pequenas árvores e um grande arakh curvo tão afiado que poderia ter se barbeado com ele, no improvável caso de nascerem pelos naquelas bochechas lisas e marrons. Mas também era infantil. Como protetor, deixa muito a desejar. Felizmente, tenho Sor Jorah e meus companheiros de sangue. E os meus dragões, não posso esquecer. A seu tempo, os dragões seriam seus guardiães mais poderosos, tal como tinham sido para Aegon, o Conquistador, e suas irmãs trezentos anos antes. Mas, por enquanto, traziam-lhe mais perigo do que proteção. No mundo inteiro não havia mais de três dragões vivos, e eles eram seus; uma maravilha e um terror. E não tinham preço.

Refletia sobre as palavras que diria em seguida quando sentiu um sopro frio na nuca, e uma madeixa solta de seus cabelos louro-prateados se agitou contra sua testa. Por cima, a vela rangeu e moveu-se, e de repente irrompeu um grande grito em todo o Balerion.

- Vento! - gritavam os marinheiros. - O vento voltou, o vento!

Dany olhou para cima, para onde as velas da grande coca ondulavam e se enfunavam enquanto as cordas vibravam, se retesavam e cantavam a doce canção de que tinham sentido tanta falta durante seis longos dias. O capitão Groleo correu para o fundo, gritando ordens. Os pentoshi, aqueles que não estavam soltando vivas, escalavam os mastros. Até Belwas, o Forte, soltou um grande urro e executou uma pequena dança.

- Os deuses são bons! - disse Dany. - Está vendo, Jorah? Vamos de novo a caminho.

- Sim - ele disse -, mas de quê, minha rainha?

O vento soprou durante todo o dia, a princípio constante e de leste, e depois em violentas rajadas. O sol pôs-se num deslumbramento vermelho. Ainda estou a meio mundo de distância de Westeros, lembrou Dany a si mesma, mas a cada hora me aproximo mais. Tentou imaginar como se sentiria quando vislumbrasse pela primeira vez a terra que nascera para governar. Será uma costa mais bela que qualquer outra que já tenha visto, eu sei. Como poderia ser de outro modo?

Mas mais tarde, nessa noite, enquanto o Balerion mergulhava adiante através da escuridão e Dany se sentava de pernas cruzadas em seu beliche na cabine do capitão, dando comida aos dragões ("Até no mar", disse Groleo, tão atenciosamente, as rainhas têm precedência sobre os capitães"), alguém bateu à porta com vivacidade.

Irri estava dormindo aos pés do beliche (era estreito demais para três, e naquela noite era a vez de Jhiqui dividir a macia cama de penas com a sua khaleesi), mas a aia ergueu-se ao ouvir o toque e dirigiu-se à porta. Dany puxou uma colcha para cima de si e prendeu-a debaixo dos braços. Estava nua, e não esperava um visitante àquela hora.

- Entre - disse, quando viu Sor Jorah à porta, sob uma lanterna oscilante.

O cavaleiro exilado abaixou a cabeça ao entrar.

- Vossa Graça, lamento perturbar seu sono.

- Não estava dormindo, sor. Entre e observe. - Tirou um pedaço de carne de porco salgada da tigela que tinha no colo e ergueu-o para os dragões verem. Todos os três o olharam com um ar faminto. Rhaegal estendeu asas verdes e agitou o ar, e o pescoço de Viserion balançou de um lado para o outro como uma longa serpente pálida, enquanto seguia o movimento de sua mão. - Drogon - disse Dany em voz baixa -, dracarys. - E atirou o pedaço de porco ao ar.

O movimento de Drogon foi mais rápido do que o ataque de uma cobra. Chamas saíram rugindo de sua boca, em laranja, escarlate e negro, torrando a carne antes que começasse a cair. Quando seus afiados dentes negros se fecharam em volta do naco, a cabeça de Rhaegal projetou-se para perto, como que para roubar a recompensa das mandíbulas do irmão, mas Drogon engoliu e guinchou, e o dragão verde, menor, só pôde silvar, frustrado.

- Pare com isso, Rhaegal - disse Dany, aborrecida, dando-lhe uma pancada na cabeça. -Já comeu o último. Não admito dragões gananciosos. - Sorriu para Sor Jorah. - Já não vou precisar esturricar a carne deles num braseiro durante muito mais tempo.

- Vejo que não. Dracarys?

Os três dragões viraram as cabeças ao ouvir aquela palavra, e Viserion soltou uma labareda de um dourado claro que fez Sor Jorah dar um apressado passo para trás. Dany soltou um risinho.

- Cuidado com essa palavra, sor, senão é provável que eles chamusquem sua barba. Significa "fogo de dragão" em Alto Valiriano. Quis arranjar um comando que não fosse provável que alguém proferisse por acidente.

Mormont fez um aceno.

- Vossa Graça - disse -, gostaria de saber se posso conversar um pouco com a senhora em particular.

- Claro. Irri, deixe-nos por um instante. - Pôs uma mão no ombro nu de Jhiqui e sacudiu a outra aia até acordá-la. - Você também, querida. Sor Jorah precisa falar comigo.

- Sim, Khaleesi. - Jhiqui tombou do beliche, nua e bocejando, com os espessos cabelos negros caindo em volta de sua cabeça. Vestiu-se depressa e saiu com Irri, fechando a porta atrás delas.

Dany deixou os dragões lutarem pelo resto do porco salgado, e deu palmadinhas na cama a seu lado.

- Sente-se, bom sor, e diga-me o que o perturba.

- Três coisas. - Sor Jorah sentou-se. - Belwas, o Forte. Aquele Arstan Barba-Branca. E Illyrio Mopatis, que os enviou.

Outra vez? Dany puxou a colcha mais para cima e passou uma ponta por sobre o ombro.

- E por quê?

- Os magos de Qarth disseram-lhe que seria traída três vezes - lembrou-lhe o cavaleiro exilado, enquanto Viserion e Rhaegal começavam a morder e arranhar um ao outro.

- Uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor. - Não era provável que Dany se esquecesse. - Mirri Maz Duur foi a primeira.

- O que significa que ainda restam dois traidores... e agora aparecem aqueles dois. Sim, acho isso perturbador. Não se esqueça de que Robert ofereceu uma senhoria ao homem que a matar.

Dany inclinou-se para a frente e deu um puxão na cauda de Viserion, para tirá-lo de cima do irmão verde. A colcha soltou-se de seu corpo quando se mexeu. Agarrou-a apressadamente e voltou a cobrir-se.

- O Usurpador está morto - disse.

- Mas o filho governa em seu lugar. - Sor Jorah ergueu o olhar, e os seus olhos escuros encontraram os dela. - Um filho atencioso paga as dívidas do pai. Até as dívidas de sangue.

- Esse garoto, Joffrey, pode me querer morta... caso se lembre de que estou viva. O que isso tem a ver com Belwas e Arstan Barba-Branca? O velho sequer usa uma espada. Você viu que não.

- Sim. E vi a habilidade com que ele maneja aquele bastão. Lembra-se de como matou aquela mantícora em Qarth? Com a mesma facilidade poderia ter esmagado a sua garganta.

- Poderia ter sido, mas não foi - ela ressaltou. - Era uma mantícora picadora que estava destinada a me matar. Ele salvou minha vida.

- Khaleesi, já lhe ocorreu que aquele Barba-Branca e Belwas podiam estar combinados com o assassino? Pode ter sido tudo um estratagema para ganhar a sua confiança.

A súbita gargalhada de Dany fez Drogon silvar e Viserion voar até o seu poleiro, acima da portinhola.

- O estratagema funcionou bem.

O cavaleiro exilado não lhe devolveu o sorriso.

- Estes são navios de Illyrio, capitães de Illyrio, marinheiros de Ulyrio... e Belwas, o Forte, e o Barba-Branca também são homens dele, não seus.

- O Magíster Illyrio já me protegeu no passado. Belwas, o Forte, diz que ele chorou quando ouviu dizer que meu irmão estava morto.

- Sim - disse Mormont -, mas terá chorado por Viserys, ou pelos planos que tinha feito com ele?

- Seus planos não precisam mudar. O Magíster Illyrio é um amigo da Casa Targaryen, e é rico...

- Ele não nasceu rico. Do que já vi do mundo, nenhum homem enriquece através da bondade. Os magos disseram que a segunda traição seria por ouro. O que é que Illyrio Mopatis ama mais do que ouro?

- A própria pele. - Do outro lado da cabine Drogon agitou-se desassossegadamente, com vapor se erguendo de seu focinho. - Mirri Maz Duur traiu-me. Queimei-a por isso.

- Mirri Maz Duur encontrava-se em seu poder. Em Pentos, você estará em poder de Illyrio. Não é a mesma coisa. Conheço o magíster tão bem quanto você. Ele é um homem desleal, e esperto...

- Preciso me cercar de homens espertos se quiser conquistar o Trono de Ferro.

SorJorah fungou.

- Aquele vendedor de vinhos que tentou envenená-la também era um homem esperto. Homens espertos elaboram planos ambiciosos.

Dany puxou as pernas para cima, por baixo do cobertor.

- Você vai me proteger. Você e meus companheiros de sangue.

- Quatro homens? Khaleesi, acha que conhece Illyrio Mopatis, muito bem. Mas insiste em se cercar de homens que não conhece, como esse eunuco inchado e o mais velho escudeiro do mundo. Aprenda uma lição com Pyat Pree e Xaro Xhoan Daxos.

Ele tem boas intenções, lembrou Dany a si mesma. Ele faz tudo isso por amor.

- Parece-me que uma rainha que não confia em ninguém é tão tola quanto uma rainha que confia em todo mundo. Cada homem que acolho ao meu serviço é um risco, compreendo isso, mas como poderei conquistar os Sete Reinos sem correr esses riscos? Deverei conquistar Westeros com um cavaleiro exilado e três companheiros de sangue dothraki?

O queixo de Sor Jorah retesou-se, teimosamente.

- Seu caminho é perigoso, não nego. Mas se confiar cegamente em todos os mentirosos e conspiradores que o cruzarem, acabará como seus irmãos.

A obstinação dele irritou-a. Trata-me como a uma criança qualquer.

- Belwas, o Forte, não conseguiria conspirar para chegar a um café da manhã. E que mentiras me contou Arstan Barba-Branca?

- Ele não é quem finge ser. Fala com você com mais ousadia do que qualquer escudeiro se atreveria.

- Falou francamente sob ordens minhas. Ele conheceu meu irmão.

- Muitos homens conheceram seu irmão. Vossa Graça, em Westeros, o Senhor Comandante da Guarda Real faz parte do pequeno conselho e serve seu rei tanto com a inteligência como com o aço. Se eu sou o primeiro de sua Guarda Real, suplico-lhe, escute-me. Tenho um plano a sugerir.

- Que plano? Conte-me.

- Illyrio Mopatis a quer de volta a Pentos, sob o teto dele. Muito bem, vá até ele... mas em um momento escolhido por você, e acompanhada. Vejamos quão leais e obedientes são realmente esses seus novos súditos. Ordene a Groleo para mudar de rumo e se dirigir à Baía dos Escravos.

Dany não tinha certeza se gostava, mesmo que um riquinho, de como aquilo soava. Tudo que ouvira falar dos mercados de carne nas grandes cidades de escravos de Yunkai, Meereen e Astapor era terrível e assustador.

- O que há para mim na Baía dos Escravos?

- Um exército - disse Sor Jorah. - Se Belwas, o Forte, lhe agrada tanto assim, podemos comprar mais centenas como ele nas arenas de lutadores de Meereen... mas eu direcionaria minhas velas para Astapor. Em Astapor você pode comprar Imaculados.

- Os escravos com chapéu de bronze com espigão? - Dany tinha visto guardas Imaculados nas Cidades Livres, em posição ao lado dos portões de magísteres, arcontes e dinastas. - Por que eu teria Imaculados? Eles sequer montam a cavalo, e em sua maioria são gordos.

- Os Imaculados que podem ter visto em Pentos e Myr eram guardas domésticos. Isso é serviço leve e, em todo caso, os eunucos tendem a engordar. A comida é o único vício que lhes é permitido. Julgar todos os Imaculados por uns poucos velhos escravos domésticos é como julgar todos os escudeiros por Arstan Barba-Branca, Vossa Graça. Conhece a história dos Três Mil de Qohorik.

- Não. - A colcha deslizou do ombro de Dany, e ela voltou a colocá-la no lugar.

- Foi há quatrocentos anos ou mais, quando os dothraki chegaram pela primeira vez do leste, saqueando e incendiando todas as vilas e cidades que encontravam pelo caminho. O khal que os liderava chamava-se Temmo. Seu khalasar não era tão grande quanto o de Drogo, mas era grande o suficiente. Cinquenta mil, pelo menos, metade dos quais era de guerreiros com campainhas tinindo em suas tranças.

"Os Qohorik sabiam que ele estava a caminho. Fortaleceram as muralhas, duplicaram o tamanho de sua guarda e contrataram ainda duas companhias livres, os Brilhantes Estandartes e os Segundos Filhos. E, quase como uma ideia de última hora, enviaram um homem a Astapor para comprar três mil Imaculados. Mas era uma longa marcha de regresso a Qohor e, quando se aproximaram, viram fumaça e poeira e ouviram o estrondo distante da batalha.

"Quando os Imaculados chegaram à cidade, o sol tinha se posto. Corvos e lobos banqueteavam-se à sombra das muralhas com aquilo que restava da cavalaria pesada de Qohor. Os Brilhantes Estandartes e os Segundos Filhos tinham fugido, como os mercenários costumam fazer quando se defrontam com desvantagens insuperáveis. Com a escuridão caindo, os dothraki tinham se retirado para os seus acampamentos, a fim de beber, dançar e banquetear-se, mas ninguém duvidava de que retornariam de manhã para esmagar as portas da cidade, assaltar as muralhas e violar, saquear e escravizar a seu bel-prazer.

"Mas quando rompeu a alvorada e Temmo e seus companheiros de sangue saíram do acampamento à frente do khalasar, foram encontrar três mil Imaculados imóveis diante dos portões, com o estandarte da Cabra Negra esvoaçando sobre as suas cabeças. Uma força tão pequena podia ter sido facilmente flanqueada, mas conhece os dothraki. Aqueles homens estavam a pé, e homens a pé só servem para ser atropelados.

"Os dothraki investiram. Os Imaculados ergueram os escudos, baixaram as lanças, e suportaram. Contra vinte mil homens aos gritos, com campainhas nos cabelos, aguentaram.

"Dezoito vezes os dothraki investiram, e quebraram-se contra aqueles escudos e lanças como ondas em uma costa rochosa. Três vezes Temmo mandou seus arqueiros cercarem os Imaculados, e flechas choveram como chuva sobre eles, mas os Três Mil limitaram-se a erguer os escudos sobre a cabeça até a tempestade passar. Por fim, só restaram seiscentos deles... mas mais de doze mil dothraki jaziam mortos naquele campo de batalha, incluindo Khal Temmo, seus companheiros de sangue, seus kos e todos os seus filhos. Na manhã do quarto dia, o novo khal levou os sobreviventes em uma imponente procissão junto aos portões da cidade. Um por um, todos os homens cortaram as tranças e arremessaram-nas aos pés dos Três Mil.

"Desde esse dia, a guarda urbana de Qohor é composta unicamente de Imaculados, e todos usam uma grande lança, da qual pende uma trança de cabelo humano.

"Isto é o que encontrará em Astapor, Vossa Graça. Acoste lá, e prossiga até Pentos por terra. Levará mais tempo, sim... mas quando dividir a mesa com o Magíster Illyrio, terá mil espadas atrás de si, e não apenas quatro."

Sim, há sabedoria nisso, pensou Dany, mas...

- Como posso comprar mil soldados escravos? Tudo que tenho de valor é a coroa que a Irmandade Turmalina me deu.

- Os dragões serão uma maravilha tão grande em Astapor como foram em Qarth. Pode ser que os negociantes de escravos façam chover presentes sobre você, como os qartenos fizeram. Se não... estes navios transportam mais do que os seus dothraki e seus cavalos. Embarcaram mercadoria em Qarth, eu percorri os porões e vi-a com meus próprios olhos. Rolos de seda e fardos de pele de tigre, esculturas em âmbar e jade, açafrão, mirra... os escravos são baratos, Vossa Graça. Peles de tigre são caras.

- Essas peles de tigre são de Illyrio - ela objetou.

- E Illyrio é um amigo da Casa Targaryen.

- Mais um motivo para não roubar sua mercadoria.

- Para que servem os amigos ricos se não puserem a sua riqueza ao seu dispor, minha rainha? Se o Magíster Illyrio lhe negar isso, é apenas um Xaro Xhoan Daxos com quatro queixos. E se for sincero em sua devoção à sua causa, não se mostrará relutante em dar-lhe três navios carregados de mercadoria. Que melhor uso poderá haver para as suas peles de tigre do que comprar o início de um exército para você?

Isso é verdade. Dany sentiu uma excitação crescente.

- Haverá perigos numa marcha tão longa.

- Também há perigos no mar. Corsários e piratas percorrem a rota sul e, ao norte de Valíria, o Mar Fumegante é assombrado por demônios. A próxima tempestade pode nos afundar ou nos dispersar, uma lula gigante pode nos puxar para o fundo... ou podemos nos perder de novo numa calmaria, e morrer de sede enquanto esperamos pelo vento. Uma marcha terá perigos diferentes, minha rainha, mas nenhum será maior.

- Mas e se o capitão Groleo recusar a mudança de rota? E Arstan e Belwas, o Forte, o que farão?

Sor Jorah levantou-se.

- Talvez seja hora de descobrir.

- Sim - decidiu ela. - Farei isso! - Dany atirou a colcha para trás e saltou do beliche. - Vou já falar com o capitão, ordenar-lhe que marque uma rota para Astapor. - Dobrou-se sobre o seu baú, abriu a tampa e pegou a primeira roupa que encontrou, um par de calças largas de sedareia. - Dê-me o meu cinto de medalhões - ordenou a Jorah enquanto puxava a sedareia sobre as coxas. - E o meu colete... - começou a dizer, virando-se.

Sor Jorah deslizou os braços em volta dela.

- Oh - foi tudo o que Dany teve tempo de dizer quando ele a puxou e pressionou os lábios contra os dela. Cheirava a suor, sal e couro, e os rebites de ferro em seu justilho enterraram-se nos seus seios nus quando ele a apertou com força contra si. Uma mão prendeu-a pelos ombros enquanto a outra deslizou ao longo da espinha até a base das costas, e a boca de Dany abriu-se para deixar entrar a língua dele, embora ela não lhe tivesse dito para fazer isso. A barba dele arranha, pensou, mas a boca é suave. Os dothraki não usavam barba, tinham apenas longos bigodes, e antes só Khal Drogo a beijara. Ele não devia estar fazendo isso. Sou sua rainha, não sua mulher.

Foi um beijo longo, embora Dany não soubesse dizer quão longo. Quando terminou, Sor Jorah largou-a, e ela deu um passo rápido para trás.

- Você... você não devia...

- Eu não devia ter esperado tanto tempo - concluiu o cavaleiro. - Devia tê-la beijado em Qarth, em Vaes Tolorro. Devia tê-la beijado no deserto vermelho, todas as noites e todos os dias. Foi feita para ser beijada, sempre e bem. - Os olhos dele estavam fixos em seus seios.

Dany cobriu-os com as mãos, antes que os mamilos a traíssem.

- Eu... isso não foi certo. Sou sua rainha.

- Minha rainha - disse ele - e a mais corajosa, mais doce e mais bela mulher que eu já vi. Daenerys...

- Vossa Graça!

- Vossa Graça - concedeu ele -, o dragão tem três cabeças, lembra? Tem refletido sobre essa frase desde que a ouviu dos feiticeiros na Casa da Poeira. Bem, aqui está o significado: Balerion, Meraxes e Vhagar, montados por Aegon, Rhaenys e Visenya. O dragão de três cabeças da Casa Targaryen... três dragões e três cavaleiros.

- Sim - disse Dany mas meus irmãos estão mortos.

- Rhaenys e Visenya eram esposas de Aegon, além de serem suas irmãs. Não tem irmãos, mas pode ter maridos. E digo-lhe com franqueza, Daenerys, não há outro homem no mundo inteiro que tenha por você nem metade da fidelidade que eu tenho.

Bran

A cadeia de montes projetava-se vivamente da terra, uma longa dobra de pedra e solo com a forma de uma garra. Árvores agarravam-se às suas vertentes inferiores, pinheiros, espinheiros e freixos, mas mais acima o terreno era nu, e a linha de cumeada definia-se bem contra o céu enevoado.

Sentiu que os rochedos elevados o chamavam. E lá subiu, a princípio a um trote fácil, e depois mais depressa e mais alto, devorando o declive com as fortes patas. Aves saltavam dos galhos por cima de sua cabeça quando passava por baixo correndo, abrindo caminho para o céu numa confusão de garras e asas. Conseguia ouvir o vento suspirar por entre as folhas, os esquilos chilreando uns para os outros, até o ruído que uma pinha fez ao cair no chão da floresta. Os cheiros eram uma canção à sua volta, uma canção que enchia o belo mundo verde.

Cascalho voou de debaixo de suas patas quando conquistou os últimos metros e chegou ao cume. O sol pendia, baixo, sobre os grandes pinheiros, enorme e vermelho, e por baixo dele as árvores e os montes prolongavam-se até perder de vista ou de odor. Muito acima, uma pipa voava em círculos, uma mancha escura contra o céu cor-de-rosa.

Príncipe. O som-de-homem entrou subitamente em sua cabeça, e no entanto ele conseguia sentir que aquilo estava certo. Príncipe do verde, príncipe da mata de lobos. Era forte, rápido e feroz, e tudo que vivia no belo mundo verde tinha medo dele.

Muito embaixo, na base da floresta, algo se moveu por entre as árvores. Uma imagem cinza, apenas vislumbrada e logo desaparecida, mas o suficiente para levá-lo a erguer as orelhas. Lá embaixo, ao lado de um riacho rápido e verde, outra silhueta surgiu e desapareceu, correndo. Lobos, compreendeu. Seus primos pequenos, à caça de alguma presa. Agora o príncipe via mais, sombras sobre velozes patas cinzentas. Uma matilha.

Ele também tivera uma matilha antes. Tinham sido cinco, e um sexto que ficava de lado. Em algum lugar, bem fundo em seu íntimo, alojavam-se os sons que os homens lhes tinham dado para distingui-los uns dos outros, mas não era pelos sons que os conhecia. Lembrava-se de seus odores, dos odores de seus irmãos e irmãs. Todos tinham odores parecidos, cheiravam a matilha, mas cada um deles também era diferente.

O príncipe sentia que o irmão zangado com os quentes olhos verdes estava próximo, embora não o visse já havia muitas caçadas. Mas com cada sol que se punha, ele distanciava-se mais, e tinha sido o último. Os outros estavam muito espalhados, como folhas sopradas pelo vento forte.

Mas às vezes conseguia senti-los, como se ainda estivessem com ele, escondidos de sua vista apenas por um pedregulho ou um pequeno bosque. Não era capaz de cheirá-los, nem de ouvir seus uivos noturnos, mas sentia a presença deles atrás de si... todos menos a irmã que tinham perdido. Sua cauda abaixava quando se lembrava dela. Agora quatro, não cinco. Quatro e mais um, o branco que não tem voz.

Aquela floresta pertencia a eles, as vertentes nevadas e os montes pedregosos, os grandes pinheiros verdes e carvalhos de folhas douradas, os impetuosos riachos e lagos azuis, emoldurados por dedos de gelo branco. Mas a irmã tinha abandonado as regiões selvagens para caminhar nos salões da rocha-de-homem, onde outros caçadores governavam, e, uma vez dentro desses salões, era difícil encontrar o caminho de volta. O príncipe lobo lembrava-se.

O vento mudou subitamente.

Veado, e medo, e sangue. O odor da presa despertou sua fome. O príncipe voltou a farejar o ar, virando-se, e então partiu, saltando ao longo da cumeada com a boca entreaberta. A outra vertente da serra era mais inclinada do que aquela por onde tinha subido, mas correu, com segurança, sobre pedras, raízes e folhas em putrefação, pela encosta abaixo e através das árvores, devorando o terreno em longas passadas. O cheiro o atraía, cada vez mais depressa.

A corça estava no chão e morria quando chegou até ela, cercada por oito de seus primos menores e cinza. As cabeças da matilha tinham começado a se alimentar, primeiro o macho e depois a sua fêmea, rasgando em turnos a carne da barriga vermelha da presa. Os outros esperavam pacientemente, todos menos a cauda da matilha, que vagueava num círculo cuidadoso, a alguns passos dos restantes, com a própria cauda entre as pernas. Seria o último animal a comer, e comeria o que quer que os irmãos lhe deixassem.

O príncipe estava contra o vento, e os lobos não o detectaram até saltar para cima de um tronco caído a seis passos do local onde se alimentavam. A cauda foi a primeira a vê-lo, soltou um ganido de dar dó, e escapuliu para longe. Os irmãos da matilha viraram-se ao ouvir o ruído e mostraram os dentes, rosnando, todos menos as cabeças macho e fêmea.

O lobo gigante respondeu aos rosnidos com um grave rugido de aviso e lhes mostrou os dentes. Era maior do que os primos, com duas vezes o tamanho da magra cauda e vez e meia o dos dois líderes da matilha. Saltou para o meio deles, e três fugiram, fundindo-se com o arvoredo. Outro atacou-o, mordendo. Enfrentou diretamente o ataque, abocanhou a perna do lobo e atirou-o para o lado, ganindo e coxeando.

E então restava apenas a cabeça a enfrentar, o grande macho cinza com o focinho ensanguentado, recém-saído de dentro da macia barriga da presa. Havia também pelos brancos em seu focinho, que o identificava como um lobo velho, mas quando sua boca se abriu, uma saliva vermelha escorreu de seus dentes.

Ele não tem medo, pensou o príncipe, não tem mais medo do que eu. Seria uma boa luta. Atiraram-se um contra o outro.

Lutaram longamente, rolando juntos sobre raízes, pedras, folhas caídas e as entranhas espalhadas da presa, rasgando o pelo um do outro com dentes e garras, separando-se, rodeando-se e voltando a saltar para a luta. O príncipe era maior, e muito mais forte, mas o primo tinha uma matilha. A fêmea caminhava por perto, em volta deles, farejando e rosnando, e interpunha-se sempre que seu companheiro se afastava com um novo ferimento. De tempos em tempos, os outros lobos também intervinham, mordendo uma perna ou uma orelha quando o príncipe estava virado para o outro lado. Um deles irritou-o tanto que se virou numa fúria negra e rasgou a garganta do atacante. Depois disso, os outros mantiveram-se a distância.

E na hora em que a última luz se filtrava através de ramos verdes e dourados, o lobo velho deitou-se cansado na terra e rolou para expor a garganta e a barriga. Era a submissão.

O príncipe farejou-o e lambeu o sangue do pelo e da carne rasgada. Quando o lobo velho soltou um suave ganido, o lobo gigante afastou-se. Tinha agora muita fome, e a presa era sua.

- Hodor.

O súbito som fez com que parasse e rosnasse. Os lobos olharam-no com olhos verdes e amarelos, brilhando com a última luz do dia. Nenhum deles tinha ouvido aquilo. Era um estranho vento que soprava apenas em seus ouvidos. Enterrou os dentes na barriga da corça e rasgou um pedaço de carne.

- Hodor, hodor.

Não, pensou. Não, não quero. Era um pensamento de garoto, não de lobo gigante. A floresta escureceu ao seu redor, até só restarem as sombras das árvores, e os clarões dos olhos dos primos. E através deles e atrás desses olhos, viu o rosto sorridente de um homem grande, e uma adega de pedra, cujas paredes estavam manchadas de salitre. O rico e quente sabor do sangue desvaneceu-se em sua boca. Não, não, não, quero comer, quero comer, quero...

- Hodor, hodor, hodor, hodor, hodor - cantarolou Hodor enquanto o sacudia suavemente pelos ombros, de um lado para o outro, de um lado para o outro. Estava tentando ser gentil, tentava sempre, mas Hodor tinha dois metros e dez de altura e era mais forte do que pensava, e suas enormes mãos faziam os dentes de Bran tremer.

- NÃO! - gritou, zangado. - Hodor, largue-me, estou aqui, estou aqui.

Hodor parou, parecendo desconcertado.

- Hodor?

A floresta e os lobos tinham desaparecido. Bran estava outra vez de volta à úmida adega de uma antiga torre de vigia qualquer que devia ter sido abandonada havia milhares de anos. Agora não era bem uma torre. As pedras caídas estavam mesmo tão cobertas de musgo e hera que quase não se viam até se estar bem em cima delas. Bran tinha chamado o lugar de Torre Arruinada; mas fora Meera quem encontrara a descida para a adega.

- Esteve longe tempo demais. - Jojen Reed tinha treze anos, era só quatro mais velho do que Bran. Jojen também não era muito maior do que ele, não mais do que cinco centímetros, ou talvez seis, mas tinha uma maneira solene de falar que fazia com que parecesse mais velho e mais sábio do que realmente era. Em Winterfell, a Velha Ama o chamara de "pequeno avô".

Bran franziu a testa para ele.

- Queria comer.

- Meera voltará em breve com o jantar.

- Estou farto de rãs. - Meera era uma papa-rãs do Gargalo, por isso Bran supunha que não podia realmente culpá-la por apanhar tantas rãs, mesmo assim... - Queria comer a corça. - Por um momento, recordou o seu gosto, o sangue e a carne rica e crua, e sua boca encheu-se de água. Ganhei a luta pela presa. Ganhei.

- Marcou as árvores?

Bran corou. Jojen andava sempre lhe dizendo para fazer coisas quando abria o terceiro olho e colocava a pele de Verão. Arranhar a casca de uma árvore, ou pegar um coelho e trazê-lo na boca, ainda inteiro, empurrar algumas pedras para formar uma fila. Coisas estúpidas.

- Esqueci - disse.

- Você esquece sempre.

Era verdade. Ele pretendia fazer as coisas que Jojen pedia, mas assim que era lobo elas nunca pareciam importantes. Havia sempre coisas para ver e cheirar, um mundo verde inteiro onde caçar. E podia correrl Não havia nada melhor do que correr, exceto correr atrás de uma presa.

- Eu era um príncipe, Jojen - disse ele ao garoto mais velho. - Era o príncipe da floresta.

- Você é um príncipe - lembrou-lhe Jojen com suavidade. - Lembra-se disso, não é verdade? Diga-me quem é.

- Você sabe. - Jojen era seu amigo e professor, mas às vezes só tinha vontade de bater nele.

- Quero que diga as palavras. Diga-me quem é.

- Bran - ele falou, sem vontade. Bran, o Quebrado. - Brandon Stark. - O menino aleijado. - O Príncipe de Winterfell. - Do Winterfell incendiado e em ruínas, de seu povo disperso e assassinado. Os jardins de vidro estavam destruídos, e jorrava água quente das paredes rachadas, fumegando ao sol. Como se pode ser príncipe de um lugar que possivelmente nunca mais se verá?

- E quem é o Verão? - perguntou Jojen.

- Meu lobo gigante. - Sorriu. - Príncipe do verde.

- Bran, o garoto, e Verão, o lobo. São, então, dois?

- Dois - suspirou - e um só. - Detestava Jojen quando ficava assim estúpido. Em Winterfell queria que eu sonhasse os sonhos de lobo, e agora que sei como sonhá-los está sempre me chamando de volta.

- Lembre-se disso, Bran. Lembre-se de si, senão o lobo vai consumi-lo. Quando se juntam, não basta correr, caçar e uivar na pele de Verão.

Para mim, basta, pensou Bran. Gostava mais da pele de Verão do que da sua. De que serve ser um troca-peles, se não se pode usar a pele que quiser?

- Vai se lembrar? E da próxima vez, marque a árvore. Qualquer árvore, não importa qual, desde que o faça.

- Eu marcarei. Vou me lembrar. Podia voltar e fazer isso agora, se quiser. Dessa vez não me esquecerei. - Mas primeiro como a minha corça, e luto mais um pouco com aqueles pequenos lobos.

Jojen balançou a cabeça.

- Não. É melhor que fique e coma. Com a sua boca. Um warg não pode viver daquilo que seu animal consome.

Como é que você sabe?, pensou Bran, com ressentimento. Nunca foi um warg, não sabe como é.

De repente, Hodor ficou em pé, quase batendo com a cabeça no teto abobadado.

- HODOR! - gritou, correndo para a porta. Meera abriu-a antes de ele alcançá-la e entrou no refúgio do grupo. - Hodor, hodor - disse o enorme cavalariço, sorrindo.

Meera Reed tinha dezesseis anos, era uma mulher-feita, mas não era mais alta do que o irmão."Todos os cranogmanos são pequenos" ela havia dito um dia a Bran, quando lhe perguntara por que não era mais alta. De cabelos castanhos, olhos verdes, e reta como um rapaz, caminhava com uma graça flexível que Bran só podia observar e invejar. Meera usava uma adaga longa e afiada, mas a sua maneira preferida de lutar era com uma esguia lança de três dentes para caçar rãs numa mão e uma rede na outra.

- Quem tem fome? - perguntou ela, erguendo a caça que trazia: duas pequenas trutas prateadas e seis gordas rãs verdes.

- Eu tenho - disse Bran. Mas não de rãs. Em Winterfell, antes de terem acontecido todas as coisas más, os Walder costumavam dizer que comer rãs deixava os dentes verdes e fazia crescer musgo debaixo dos braços. Perguntou a si mesmo se os Walder estariam mortos. Não tinha visto seus cadáveres em Winterfell... mas foram muitos cadáveres, e não tinham procurado dentro das construções.

- Nesse caso, teremos de lhe dar comida. Me ajuda a limpar a caça, Bran?

Ele assentiu. Era difícil se aborrecer com Meera. Ela era muito mais alegre do que o irmão e parecia sempre saber como fazê-lo sorrir. Nada nunca a assustava ou a fazia se zangar. Bem, exceto Jojen, às vezes... Jojen Reed conseguia assustar quase qualquer um. Vestia-se todo de verde, tinha olhos escuros como musgo e sonhos verdes. Aquilo que Jojen sonhava tornava-se realidade. Exceto que sonhou que eu morria, e não morri. Mas tinha morrido, de certo modo.

Jojen mandou Hodor buscar lenha e fez uma pequena fogueira, enquanto Bran e Meera limpavam os peixes e as rãs. Usaram o elmo de Meera como panela, cortando a caça em pequenos cubos e juntando um pouco de água a ela e algumas cebolas silvestres, que Hodor achara, para fazer um guisado de rãs. Enquanto comia, Bran decidiu que não era tão bom quanto corça, mas também não era ruim.

- Obrigado, Meera - disse. - Minha Senhora.

- Não tem de quê, Vossa Graça.

- De manhã - anunciou Jojen -, é melhor que prossigamos.

Bran viu Meera ficar tensa.

- Teve um sonho verde?

- Não - admitiu o irmão.

- Então por que temos de ir embora? - quis saber a irmã. - A Torre Arruinada é um bom lugar para nós. Não há aldeias por perto, a floresta está cheia de caça, há peixe e rãs nos riachos e lagos... quem é que vai nos encontrar aqui?

- Este não é o lugar em que devemos estar.

- Mas é seguro.

- Parece seguro, eu sei - disse Jojen -, mas por quanto tempo? Houve uma batalha em Winterfell, vimos os mortos. Batalhas significam guerras. Se algum exército nos pegar desprevenidos...

- Podia ser o exército de Robb - disse Bran. - Robb voltará em breve do sul, eu sei que sim. Ele voltará com todos os seus vassalos e botará os homens de ferro para correr.

- Seu meistre não disse nada de Robb quando o encontramos à beira da morte - recordou-lhe Jojen. - Homens de ferro na Costa Pedregosa, ele disse, e: a leste, o Bastardo de Bolton. Fosso Cailin e Bosque Profundo caíram, o herdeiro de Cerwyn morreu, tal como o castelão de Praça de Torrhen. Guerra por todo o lado, disse ele, cada homem contra o vizinho.

- Já fizemos esse caminho antes - disse a irmã. - Você quer seguir na direção da Muralha e de seu corvo de três olhos. Isso está muito certo, mas a Muralha fica muito longe e Bran não tem outras pernas que não sejam as de Hodor. Se estivéssemos a cavalo...

- Se fôssemos águias, poderíamos voar - disse Jojen em tom cortante -, mas não temos asas, assim como não temos cavalos.

- Há cavalos que podemos obter - disse Meera. - Até mesmo nas profundezas da mata de lobos há lenhadores, caseiros, caçadores. Alguns devem ter cavalos.

- E se tiverem, vamos roubá-los? Somos ladrões? A última coisa de que precisamos é de homens nos perseguindo.

- Poderíamos comprá-los - disse ela. - Negociar por eles.

- Olhe para nós, Meera. Um rapaz aleijado com um lobo gigante, um gigante simplório e dois cranogmanos a mil léguas do Gargalo. Seremos reconhecidos. E a notícia vai se espalhar. Enquanto Bran permanecer morto, estará a salvo. Vivo, transforma-se numa presa para todos os que o querem morto de verdade e para sempre. - Jojen dirigiu-se à fogueira para avivar as brasas com um graveto. - Em algum ponto, ao norte, o corvo de três olhos nos espera. Bran precisa de um professor mais sábio do que eu.

- Como, Jojen? - perguntou a irmã. - Como?

- A pé - respondeu ele. - Um passo de cada vez.

- A estrada de Água Cinzenta até Winterfell nunca mais acabava, e nós estávamos montados. Você quer que percorramos um caminho mais longo a pé, sem sequer sabermos onde termina. Para lá da Muralha, você diz. Não estive lá, assim como você, mas sei que Para-lá-da-Muralha é um lugar grande, Jojen. Há muitos corvos com três olhos ou só há um? Como é que o encontramos?

- Ele talvez nos encontre.

Antes que Meera pudesse pensar em uma resposta, ouviram o som; o uivo distante de um lobo, ecoando na noite.

- Verão? - perguntou Jojen, escutando.

- Não. - Bran conhecia a voz de seu lobo gigante.

- Tem certeza? - perguntou o pequeno avô.

- Absoluta. - Naquele dia, Verão tinha se afastado muito, e não voltaria antes da alvorada. Jojen talvez sonhe verde, mas não distingue um lobo de um lobo gigante. Perguntou a si mesmo por que motivo todos escutavam tanto Jojen. Não era um príncipe como Bran, nem era grande e forte como Hodor, nem tão bom caçador quanto Meera, e, no entanto, de algum modo, era sempre Jojen quem lhes dizia o que fazer.

- Deveríamos roubar cavalos, como Meera quer - disse Bran -, e ir até os Umber, lá em cima na Última Lareira. - Refletiu por um momento. - Ou podíamos roubar um barco e descer o Faca Branca até a cidade de Porto Branco. E aquele gordo do Lorde Manderly que governa lá, ele foi amigável na festa das colheitas. Queria construir navios. Talvez tenha construído alguns, e poderíamos navegar até Correrrio e trazer Robb para casa com todo o seu exército. Então não importaria quem soubesse que eu estou vivo. Robb não deixaria que alguém nos fizesse mal.

- Hodor! - exclamou Hodor. - Hodor, hodor.

Mas ele foi o único que gostou do plano de Bran. Meera limitou-se a sorrir para ele e Jojen franziu a testa. Nunca escutavam o que ele queria, apesar de Bran ser um Stark e, além disso, um príncipe, e os Reed do Gargalo serem vassalos dos Stark.

- Hoooodor - disse Hodor, se balançando. - Hooooooodor, hoooooooodor, hodor, hodor, hodor. - Às vezes gostava de fazer aquilo, dizer o seu nome de diversas maneiras, uma vez, e outra, e outra. Outras vezes, ficava tão calado que dava para esquecer que ele estava ali. Com Hodor nunca se sabia. - HODOR, HODOR, HODOR! - gritou.

Ele não vai parar, compreendeu Bran.

- Hodor - disse por que não vai até lá fora treinar com a espada?

O cavalariço tinha se esquecido de sua espada, mas agora se lembrara.

- Hodor! - exclamou. Foi buscar a arma.

Tinham três espadas mortuárias que trouxeram das criptas de Winterfell quando Bran e o irmão Rickon se esconderam dos homens de ferro de Theon Greyjoy. Bran ficou com a espada do tio Brandon; Meera, com aquela que encontrara sobre os joelhos do avô, Lorde Rickard. A lâmina de Hodor era muito mais velha, um enorme e pesado pedaço de ferro, embotado por séculos de negligência e cheio de pontos de ferrugem. Podia passar horas e horas a brandi-la. Perto das pedras tombadas, havia uma árvore apodrecida que ele tinha quase desfeito em pedaços.

Mesmo depois de o gigante sair conseguiam ouvi-lo através das paredes, berrando "HODOR!" enquanto lançava estocadas e dava pancadas em sua árvore. Felizmente, a mata de lobos era enorme, e não era provável que houvesse alguém por perto para ouvir.

- Jojen, o que você quis dizer com aquilo do professor? - perguntou Bran. - Meu professor é você. Sei que não cheguei a marcar a árvore, mas marco da próxima vez. Meu terceiro olho está aberto, como você queria...

- Está tão escancarado que temo que possa cair através dele, e viver o resto de seus dias como um lobo na floresta.

- Não cairei, prometo.

- O garoto promete. O lobo vai se lembrar? Corre com o Verão, caça com ele, mata com ele... mas se curva mais à vontade dele do que ele se curva à sua.

- Eu só me esqueço - protestou Bran. - Só tenho nove anos. Serei melhor quando for mais velho. Nem mesmo Florian, o Bobo, e o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, eram grandes guerreiros quando tinham nove anos.

- Isso é verdade - disse Jojen - e seria uma coisa sensata a dizer, se os dias ainda fossem mais longos... mas não são. É uma criança de verão, eu sei. Diga-me o lema da Casa Stark.

- O Inverno está chegando. - Bastava dizê-lo para que Bran sentisse frio.

Jojen acenou solenemente com a cabeça.

- Sonhei com um lobo alado, preso à terra por correntes de pedra, e fui a Winterfell para libertá-lo. Já não tem as correntes, mas ainda não voa.

- Então me ensina você. - Bran ainda temia o corvo de três olhos que às vezes assombrava seus sonhos, bicando sem parar a pele entre os seus olhos e dizendo-lhe para voar. - É um vidente verde.

- Não - disse Jojen -, sou só um garoto com sonhos. Os videntes verdes eram mais do que isso. Eram também wargs, assim como você, e os maiores de todos podiam usar a pele de qualquer animal que voasse, nadasse ou caminhasse, e eram também capazes de olhar através dos olhos dos represeiros, e de ver a verdade que está por trás do mundo.

"Os deuses concedem muitos dons, Bran. Minha irmã é uma caçadora. Foi-lhe dada a capacidade de correr com rapidez e de ficar tão imóvel que parece ter desaparecido. Tem ouvidos e olhos aguçados, uma mão firme com a rede e a lança. Sabe respirar lama e voar entre as árvores. Eu não seria mais capaz de fazer essas coisas do que você. A mim, os deuses deram os sonhos verdes, e a você... você poderia ser mais do que eu, Bran. E o lobo alado, e não há como dizer quão longe ou alto poderia voar... se tivesse alguém que lhe ensinasse. Como eu poderia ajudá-lo a dominar um dom que não compreendo? No Gargalo, recordamos os Primeiros Homens, e os filhos da floresta, que eram seus amigos... mas tanto foi esquecido, e houve tanto que nunca soubemos."

Meera pegou na mão de Bran.

- Se ficarmos aqui, sem incomodar ninguém, ficará a salvo até que a guerra termine. Mas não aprenderá, exceto o que meu irmão pode lhe ensinar, e você ouviu o que ele disse. Se deixarmos este lugar para procurar refúgio na última Lareira ou Para-lá-da-Muralha, arriscamo-nos a ser capturados. Você é apenas um garoto, eu sei, mas também é o nosso príncipe, o filho de nosso senhor e o verdadeiro herdeiro de nosso rei. Juramos lealdade a você em nome da terra e da água, do bronze e do ferro, do gelo e do fogo. O risco é seu, Bran, tal como o dom. A escolha também deve ser sua, creio eu. Somos seus servos e estamos às suas ordens. - Ela sorriu. - Pelo menos nisso.

- Quer dizer - disse Bran - que vão fazer o que eu disser? Mesmo?

- Sim, meu príncipe - respondeu a garota -, portanto, reflita bem.

Bran tentou pensar em todos os detalhes, como o pai poderia ter feito. Os tios do Grande-Jon, Hother Terror-das-Rameiras e Mors Papa-Corvos, eram homens violentos, mas achava que se mostrariam leais. E os Karstark, eles também. O pai dizia sempre que Karhold era um castelo forte. Estaríamos a salvo com os Umber ou os Karstark.

Ou podiam ir para sul, até o gordo Lorde Manderly. Em Winterfell, ele riu muito, e nunca pareceu olhar para Bran com piedade demais, como faziam os outros senhores. O Castelo Cerwyn ficava mais perto do que Porto Branco, mas Meistre Luwin havia dito que Cley Cerwyn estava morto. Os Umber, os Karstark e os Manderly também podem estar mortos, compreendeu. Tal como ele ficaria, se fosse pego pelos homens de ferro ou pelo Bastardo de Bolton.

Se ficassem ali, escondidos por baixo da Torre Arruinada, ninguém os encontraria. Permaneceria vivo. E aleijado.

Bran percebeu que estava chorando. Bebê imbecil, pensou consigo mesmo. Fosse para onde fosse, para Karhold, para Porto Branco ou para a Atalaia da Água Cinzenta, seria um aleijado quando lá chegasse. Fechou as mãos em punho.

- Quero voar - disse-lhes. - Por favor. Levem-me ao corvo.

Davos

Quando subiu ao convés, a longa ponta de Derivamarca diminuía atrás deles, enquanto, adiante, Pedra do Dragão se erguia do mar. Um pálido fiapo cinzento de fumaça era soprado do topo da montanha, marcando o local onde ficava a ilha. O Monte Dragão está agitado hoje, pensou Davos, ou então é Melisandre que está queimando mais alguém.

Melisandre ocupara muito os seus pensamentos enquanto o Dança de Shayala abria caminho pela Baía da Água Negra e atravessava a Goela, manobrando contra perversos ventos contrários. O grande incêndio que ardia no topo da torre de vigia de Ponta Aguda, na extremidade do Gancho de Massey, tinha feito Davos se lembrar do rubi que ela usava no pescoço, e de quando o mundo ficava vermelho de madrugada e ao pôr do sol, as nuvens que pairavam no céu ganhavam a mesma cor que as sedas e os cetins de seus vestidos sussurrantes.

Ela também estaria à espera em Pedra do Dragão, à espera com toda a sua beleza e todo o seu poder, com o seu deus, as suas sombras e o rei dele. A sacerdotisa vermelha parecera sempre ser leal a Stannis, até agora. Ela domou-o, do mesmo modo que um homem doma um cavalo. Subiria ao poder montada nele se pudesse, e por isso entregou meus filhos ao fogo. Vou arrancar o coração de seu peito e ver como queima. Tocou o cabo da boa e longa adaga lisena que o capitão tinha lhe oferecido.

O capitão fora muito gentil com ele. Chamava-se Khorane Sathmantes, era liseno como Salladhor Saan, a quem o navio pertencia. Tinha os olhos azul-claros como os que se via com frequência em Lys, incrustados num rosto ossudo e desgastado pelas intempéries, mas passara muitos anos negociando nos Sete Reinos. Quando soube que o homem que resgatara do mar era o afamado cavaleiro das cebolas, cedeu-lhe o uso da própria cabine e de suas roupas e um par de botas novas que quase lhe serviam. Também insistiu que Davos consumisse de suas provisões, embora isso não tenha dado muito certo. O estômago do antigo contrabandista não conseguiu tolerar os caracóis, as lampreias e outros ricos alimentos que o capitão Khorane tanto apreciava, e depois de sua primeira refeição à mesa do capitão passou o resto do dia com uma extremidade ou a outra projetada sobre a amurada.

Pedra do Dragão crescia a cada remada. Agora, Davos já conseguia ver a forma da montanha e, em seu flanco, a notável cidadela negra com suas gárgulas e torres em forma de dragão. A figura de proa, feita de bronze, à frente do Dança de Shayala atirava ao ar asas de espuma salgada ao cortar as ondas. Ele encostou seu peso à amurada, grato pelo apoio. A provação pela qual havia passado enfraquecera-o. Quando ficava muito tempo em pé, as pernas fraquejavam, e às vezes era dominado por incontroláveis ataques de tosse e escarrava muco ensanguentado. Não é nada, dizia a si mesmo. Certamente os deuses não me fizeram atravessar, a salvo, o fogo e o mar para depois me matarem de doença.

Enquanto escutava o bater do tambor do mestre dos remadores, o ruído das velas e o respingar e ranger rítmicos dos remos, recordou seus dias de juventude, quando os mesmos sons despertavam terror em seu coração em muitas manhãs de nevoeiro. Anunciavam a aproximação da patrulha marítima do velho Sor Tristimun, e a patrulha marítima significava a morte para os contrabandistas na época em que Aerys Targaryen ocupava o Trono de Ferro.

Mas isso foi em outra vida, pensou. Isso foi antes do navio das cebolas, antes de Ponta Tempestade, antes de Stannis encurtar meus dedos. Isso foi antes da guerra e do cometa vermelho, antes de eu ser um Seaworth ou um cavaleiro. Nesses dias, era um homem diferente, antes de Lorde Stannis ter me erguido bem alto.

O capitão Khorane lhe contara sobre o fim das esperanças de Stannis na noite em que o rio ardeu. Os Lannister tinham-no atacado pelo flanco, e seus instáveis vassalos o abandonaram às centenas no momento de maior necessidade.

- Também foi vista a sombra do Rei Renly - dissera o capitão - matando à esquerda e à direita enquanto liderava a vanguarda do lorde leão. Dizem que sua armadura verde tomou um brilho fantasmagórico por causa do fogovivo e que seus chifres soltavam labaredas douradas.

A sombra de Renly. Davos perguntou a si mesmo se seus filhos também regressariam como sombras. Tinha visto coisas estranhas em excesso no mar para afirmar que não existiam fantasmas.

- Ninguém se manteve fiel? - perguntara.

- Uns poucos - disse o capitão. - A família da rainha, principalmente. Levamos muitos que usavam a raposa e as flores, embora muitos mais tivessem sido deixados em terra, exibindo todos os tipos de símbolos. Lorde Florent agora é Mão do Rei em Pedra do Dragão.

A montanha crescia, coroada por fumaça pálida. A vela cantava, o tambor batia, os remos puxavam suavemente, e, não muito mais tarde, a entrada para o porto abria-se à frente deles. Tão vazio, pensou Davos, lembrando-se de como fora antes, com os navios enchendo todos os cais e balançando, ancorados, fora do quebra-mar. Via o navio almirante de Salladhor Saan, Valiriana, atracado ao cais onde antes o Fúria e seus irmãos estiveram amarrados. Os navios que o ladeavam também possuíam cascos lisenos rajados. Procurou, em vão, por qualquer sinal do Senhora Marya ou do Espectro.

Arriaram a vela ao entrarem no porto, para atracarem apenas com a força dos remos. O capitão veio encontrar Davos no momento em que amarravam o navio.

- Meu príncipe deseja vê-lo imediatamente.

Um ataque de tosse dominou Davos quando tentou responder. Apoiou-se na amurada e escarrou para o mar.

- O rei - arquejou. - Tenho de encontrar o rei. - Pois onde o rei estiver, encontrarei Melisandre.

- Ninguém se encontra com o rei - respondeu com firmeza Khorane Sathmantes. - Salladhor Saan vai lhe contar. Primeiro ele.

Davos estava fraco demais para desafiá-lo. Só conseguiu assentir.

Salladhor Saan não se encontrava a bordo de seu Valiriana. Foram encontrá-lo em outro cais, a cerca de trezentos metros de distância, no interior do porão de uma larga coca de Pentos chamada Farta Colheita, contando a carga com o auxílio de dois eunucos. Um segurava uma lanterna, o outro, uma placa de cera e um estilete.

- Trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove - o velho tratante dizia quando Davos e o capitão desceram pela escotilha. Naquele dia, usava uma túnica cor de vinho e botas de cano alto feitas de couro branco com detalhes de prata. Tirando a rolha de um pote, cheirou, espirrou e disse: - Uma moagem grosseira, e, de acordo com meu nariz, de segunda qualidade. A nota de carga diz quarenta e três potes. Onde se enfiaram os outros, pergunto eu? Esses pentoshi por acaso acham que eu não conto a carga? - Quando viu Davos, parou subitamente. - Será a pimenta que arde meus olhos, ou lágrimas? É o cavaleiro das cebolas que está diante de mim? Não, como pode ser, meu querido amigo Davos morreu no rio em chamas, todos sabem. Por que veio me assombrar?

- Não sou nenhum fantasma, Salla.

- Que outra coisa pode ser? Meu cavaleiro das cebolas nunca foi tão magro ou pálido como você. - Salladhor Saan abriu caminho por entre os potes de especiarias e rolos de tecido que enchiam o porão do navio mercante, envolveu Davos num forte abraço, depois deu-lhe um beijo em cada bochecha e um terceiro na testa. - Ainda está quente, sor, e sinto seu coração bater. Será verdade? O mar que o engoliu cuspiu-o de volta.

Davos lembrou-se do Cara-Malhada, o bobo doido da princesa Shireen. Também tinha entrado no mar e, quando voltou, estava louco. Também estarei louco? Tossiu na mão enluvada e disse:

- Nadei por baixo da corrente e fui jogado à costa numa lança do rei bacalhau. Teria morrido lá se o Dança de Shayala não tivesse me encontrado.

Salladhor Saan pousou um braço sobre os ombros do capitão.

- Isso foi ótimo, Khorane. Estou aqui pensando que vai acabar ganhando uma bela recompensa. Meizo Mahr, seja um bom eunuco e leve meu amigo Davos à cabine do proprietário. Arranje para ele um pouco de vinho quente com cravo, que não estou gostando do som dessa tosse. Esprema também um pouco de limão lá dentro. E traga queijo branco e uma tigela daquelas azeitonas verdes tostadas que contamos há pouco. Davos, logo irei encontrá-lo, assim que tiver conversado com o nosso bom capitão. Vai me desculpar, bem sei. Não coma todas as azeitonas, senão vou acabar me zangando.

Davos deixou que o mais velho dos dois eunucos o acompanhasse até uma grande e suntuosamente mobiliada cabine na popa do navio. Os tapetes eram macios, havia vitrais nas janelas e, em qualquer um dos grandes cadeirões de couro, poderiam ter se sentado, com todo o conforto, três Davos. O queijo e as azeitonas chegaram pouco depois, com uma taça de vinho tinto quase fervendo. Pegou-a com as duas mãos e bebericou, sentindo-se grato. O calor que se espalhou por seu peito teve um efeito calmante.

Salladhor Saan apareceu não muito depois.

- Precisa me perdoar pelo vinho, meu amigo. Aqueles pentoshi beberiam o próprio mijo se fosse púrpura.

- Vai ser bom para o meu peito - disse Davos. - Minha mãe costumava dizer que vinho quente é melhor do que compressas.

- Me parece que também vai precisar de compressas. Sentado todo esse tempo numa lança, caramba. Que acha dessa excelente cadeira? Ele tem nádegas gordas, não tem?

- Quem? - perguntou Davos entre pequenos goles de vinho quente.

- Illyrio Mopatis. Uma baleia com bigodes, é o que lhe digo, de verdade. Essas cadeiras foram feitas sob medida para ele, embora raramente saia de Pentos para se sentar nelas. Um gordo senta sempre confortavelmente, me parece, pois leva a almofada consigo para onde quer que vá.

- Como foi que arranjou um navio de Pentos? - perguntou Davos. - Voltou à pirataria, senhor? - Colocou de lado a taça vazia.

- Vis calúnias. Quem sofreu mais com os piratas do que Salladhor Saan? Só peço aquilo a que tenho direito. Muito ouro é devido, ah sim, mas não sou desprovido de compreensão; portanto, em vez da moeda, aceitei um belo pergaminho, muito enrolado. Ostenta o nome e o selo de Lorde Alester Florent, a Mão do Rei. Está me nomeando Senhor da Baía da Água Negra, e nenhum navio pode atravessar as águas sob o meu domínio sem a minha senhorial licença, ah não. E quando esses fora da lei estão tentando se esgueirar durante a noite para evitar minhas legítimas taxas e direitos alfandegários, ora, não são melhores do que contrabandistas, portanto, estou perfeitamente dentro da lei quando os confisco. - O velho pirata soltou uma gargalhada. - Mas não corto os dedos de ninguém. De que servem pedaços de dedos? Capturo os navios e as cargas, alguns resgates, nada de exorbitante. - Lançou um olhar penetrante para Davos. - Não está bem, meu amigo. Essa tosse... e tão magro que vejo seus ossos através da pele. E, no entanto, não estou vendo seu saquinho de ossos dos dedos...

O velho hábito obrigou Davos a levar a mão à bolsa de couro que já não estava lá.

- Perdi no rio. - A minha sorte.

- O rio foi terrível - disse solenemente Salladhor Saan. - Mesmo da baía, eu podia ver e tremi.

Davos tossiu, cuspiu e voltou a tossir.

- Vi o Betha Negra ardendo, e também o Fúria - conseguiu por fim dizer, com voz rouca. - Nenhum de nossos navios escapou do fogo? - Parte de si ainda tinha esperança.

- Lorde Steffonjenna Esfarrapada, Espada Ligeira, Lorde que Ri e mais alguns estavam a montante do mijo dos piromantes, sim. Não foram queimados, mas, com a forte correnteza, também não puderam fugir. Alguns poucos se renderam. A maior parte subiu a Água Negra, para longe da batalha, e depois foi afundada pela tripulação, para não cair em mãos Lannister. Jenna Esfarrapada e Lorde que Ri continuam se fazendo de piratas no rio, segundo ouvi dizer, mas quem sabe se é verdade?

- O Senhora Maryaí - perguntou Davos. - O Espectro?

Salladhor Saan apoiou uma mão no braço de Davos e deu-lhe um apertão.

- Não. Esses, não. Lamento, meu amigo. Eram bons homens, os seus Dale e Allard. Mas posso lhe dar este conforto: seu jovem Devan está entre aqueles que embarcamos no fim. O bravo rapaz nunca saiu de junto do rei, segundo dizem.

Por um momento sentiu-se quase tonto, de tão palpável que era seu alívio. Temera perguntar a respeito de Devan.

- A Mãe é misericordiosa. Tenho de encontrá-lo, Salla. Tenho de vê-lo.

- Sim - disse Salladhor Saan. - E também vai querer zarpar para o Cabo da Fúria, eu sei, para ver sua mulher e os dois pequenos. Estou aqui pensando que precisa de um novo navio.

- Sua Graça vai me dar um navio - disse Davos.

O liseno sacudiu a cabeça.

- Quanto a navios, Sua Graça não tem nenhum, e Salladhor Saan tem muitos. Os navios do rei arderam no rio, mas os meus não. Ficará com um deles, velho amigo. Velejará para mim, sim? Entrará deslizando em Bravos, Myr e Volantis na noite cerrada, sem ser visto, e sairá também deslizando, com sedas e especiarias. Ficaremos com bolsas gordas, sim.

- É gentil, Salla, mas meu dever é para com meu rei, não para com sua bolsa. A guerra continuará. Stannis ainda é o legítimo herdeiro do trono, segundo todas as leis dos Sete Reinos.

- Todas as leis não estão ajudando quando todos os navios se queimam, me parece. E o seu rei, bem, receio que vá acabar achando-o mudado. Desde a batalha não recebe ninguém, fica só matutando naquele Tambor de Pedra. A Rainha Selyse recebe em audiência em seu nome, com o tio, Lorde Alester, que anda se chamando de Mão. Ela deu o selo do rei a esse tio, para pôr nas cartas que ele escreve, e até em meu belo pergaminho. Mas o reino que eles estão governando é pequeno, pobre e rochoso, sim. Não há ouro, nem sequer um bocadinho para pagar ao fiel Salladhor Saan o que lhe é devido, e só restam os cavaleiros que levamos no fim, e nenhum navio além de minha pequena e brava frota.

Um súbito e torturante ataque de tosse obrigou Davos a se dobrar. Salladhor Saan aproximou-se para ajudá-lo, mas, com um gesto, ele pediu que se afastasse, e após um momento se recuperou.

- Ninguém? - rouquejou. - O que quer dizer com ele não receber ninguém? - sua voz soava úmida e espessa, até mesmo aos seus ouvidos, e por um momento a cabine pareceu oscilar ao seu redor.

- Ninguém além dela - disse Salladhor Saan, e Davos não precisou perguntar o que ele queria dizer. - Meu amigo está se cansando. É de uma cama que está precisando, não de Salladhor Saan. Uma cama e muitas mantas, com uma compressa quente no peito e mais vinho e cravo.

Davos sacudiu a cabeça

- Vou ficar bem. Conte-me, Salla, preciso saber. Ninguém além de Melisandre?

O liseno lançou um longo olhar de dúvida para ele e prosseguiu com relutância.

- Os guardas estão mantendo todos os outros afastados, até sua rainha e a filhinha. Criados trazem refeições que ninguém come. - Inclinou-se para a frente e baixou a voz. - Ouvi estranhas conversas sobre fogos esfomeados dentro da montanha, e sobre como Stannis e a mulher vermelha descem juntos para observar as chamas. Há poços, dizem, e escadas secretas que descem até o coração da montanha, até lugares quentes onde só ela pode caminhar sem se queimar. É mais do que suficiente para aterrorizar um velho, a tal ponto que às vezes quase não arranja forças para comer.

Melisandre. Davos estremeceu.

- A mulher vermelha fez isso a ele - disse. - Enviou o fogo para nos consumir, para punir Stannis por tê-la posto de lado, para lhe ensinar que não tem esperança de vencer sem seus feitiços.

O liseno tirou uma gorda azeitona da tigela que se encontrava entre os dois.

- Não é o primeiro a dizer isso, meu amigo. Mas se eu fosse você, não estaria falando tão alto. Pedra do Dragão está cheia daqueles homens da rainha, ah, sim, e eles têm ouvidos aguçados e facas afiadas. - Enfiou a azeitona na boca.

- Eu também tenho uma faca. Capitão Khorane deu-me de presente. - Puxou a adaga e colocou-a na mesa, entre eles. - Uma faca para arrancar o coração de Melisandre. Se é que ela tem um.

Salladhor Saan cuspiu um caroço de azeitona.

- Davos, bom Davos, não deve andar dizendo tais coisas, nem mesmo brincando.

- Não é brincadeira. Pretendo matá-la. - Se ela puder ser morta por armas mortais. Davos não tinha certeza se isso era possível. Tinha visto o velho Meistre Cressen despejando veneno no vinho dela, viu com os próprios olhos, mas quando ambos beberam da taça envenenada, foi o meistre quem morreu, e não a sacerdotisa vermelha. Mas uma faca no coração... até os demônios podem ser mortos pelo ferro frio, segundo dizem os cantores.

- Essas são conversas perigosas, meu amigo - preveniu-o Salladhor Saan, - Acho que ainda está doente do mar. A febre cozinhou seu cérebro, sim. É melhor que vá para a cama para um longo descanso, até ficar mais forte.

Até que a minha determinação enfraqueça, você quer dizer. Davos se levantou. Realmente sentia-se febril e um pouco tonto, mas não importava.

- E um velho patife traiçoeiro, Salladhor Saan, mas um bom amigo mesmo assim.

O liseno afagou a pontiaguda barba prateada.

- Então ficará com este bom amigo, certo?

- Não, vou andando. - Tossiu.

- Andando? Olhe para si mesmo! Tosse, treme, está magro e fraco. Aonde irá andando?

- Para o castelo. Minha cama está lá, assim como o meu filho.

- E a mulher vermelha - disse Salladhor Saan com suspeita. - Ela também está no castelo.

- Ela também. - Davos voltou a enfiar a adaga na bainha.

- Você é um contrabandista de cebolas, o que sabe de ataques à surdina e punhaladas? E está doente, nem sequer consegue segurar a adaga. Sabe o que acontecerá com você, se for apanhado? Enquanto estávamos ardendo no rio, a rainha queimava traidores. Servos da escuridão, ela lhes chamou, pobres homens, e a mulher vermelha cantava enquanto as fogueiras eram acendidas.

Davos não se surpreendeu. Eu sabia, pensou, sabia antes de ele me contar.

- Tirou Lorde Sunglass das masmorras - adivinhou - e os filhos de Hubard Rambton.

- Exatamente, e queimou-os, tal como queimará você: se matar a mulher vermelha, vão queimá-lo por vingança, e se não a matar, vão queimá-lo pela tentativa. Ela cantará, e você gritará, e depois morrerá. E você acabou de voltar à vida!

- E foi esse o motivo - disse Davos. - Para fazer isso. Para pôr fim em Melisandre de Asshai e em todas as suas obras. Por que mais o mar teria me cuspido? Conhece a Baía da Água Cinzenta tão bem como eu, Salla. Nenhum capitão com bom senso levaria seu navio para passar entre as lanças do rei bacalhau, arriscando-se a ter o casco rasgado. O Dança de Shayala nunca deveria ter passado perto de mim.

- Um vento - insistiu Salladhor Saan em voz alta -, um mau vento, foi só isso. Um vento empurrou a embarcação mais para sul do que deveria.

- E quem enviou o vento? Salla, a Mãe falou comigo.

O velho liseno olhou-o pestanejando.

- Sua mãe está morta...

- A Mãe. Ela abençoou-me com sete filhos, e no entanto eu permiti que a queimassem. Ela falou comigo. Disse que nós convocamos o fogo. E também convocamos as sombras. Eu levei Melisandre, num barco a remo, até as entranhas de Ponta Tempestade e vi-a dar à luz um horror. - Ainda vislumbrava a cena em seus pesadelos, as mãos negras e descarnadas puxando as coxas da mulher enquanto se contorcia para se libertar de seu ventre inchado. - Ela matou Cressen, Lorde Renly e um homem corajoso chamado Cortnay Penrose, e também matou meus filhos. Agora é hora de alguém matá-la.

- Alguém - disse Salladhor Saan. - Sim, é isso mesmo, alguém. Mas não você. Está fraco como uma criança, e não é nenhum guerreiro. Fique, eu lhe suplico, voltaremos a conversar, você vai se alimentar, e talvez velejemos até Bravos para contratar um Homem sem Rosto para fazer essa coisa, sim? Mas isso, não, você precisa se sentar e comer.

Ele está tornando isso muito mais difícil, pensou Davos, fatigado, e já era mortalmente difícil.

- Tenho vingança nas entranhas, Salla. Não deixa espaço para comida. Agora deixe-me ir. Por nossa amizade, deseje-me sorte, e deixe-me ir.

Salladhor Saan pôs-se em pé.

- Não é um amigo verdadeiro, estou aqui pensando. Quando estiver morto, quem trará suas cinzas e ossos à senhora sua esposa e lhe dirá que perdeu um marido e quatro filhos? Só o triste e velho Salladhor Saan. Mas, que assim seja, bravo sor cavaleiro, corra para a sepultura. Irei reunir seus ossos numa sacola e os darei aos filhos que deixa para trás, para que os tragam em saquinhos em volta do pescoço. - Brandiu uma mão zangada, com anéis em todos os dedos. - Vá, vá, vá, vá, vá.

Davos não queria deixá-lo assim.

- Salla...

- VA. Ou melhor, fique, mas se é para ir, vá.

E foi.

A caminhada desde o Farta Colheita até os portões de Pedra do Dragão foi longa e solitária. As ruas junto às docas onde soldados, marinheiros e pessoas simples outrora se aglomeravam encontravam-se vazias e desertas. Por onde antes caminhara entre porcos grunhindo e crianças nuas, fugiam agora ratazanas. Suas pernas, sob seu corpo, pareciam feitas de pudim, e por três vezes a tosse torturou-o de tal modo que teve de parar a fim de descansar. Ninguém veio ajudá-lo, ninguém sequer espiou por uma janela para ver o que se passava. As janelas estavam fechadas, as portas trancadas e mais da metade das casas ostentava algum sinal de luto. Milhares subiram a Torrente da Água Negra, e centenas retornaram, refletiu Davos. Meus filhos não morreram sós. Que a Mãe tenha piedade de todos eles.

Ao chegar aos portões do castelo, encontrou-os também fechados. Davos bateu com o punho na madeira reforçada com ferro. Quando não obteve resposta, chutou-a, uma e mais outra vez. Por fim, um besteiro surgiu no topo da barbacã, espreitando para baixo, entre duas grandes gárgulas.

- Quem vem lá?

Davos ergueu a cabeça e pôs as mãos em volta da boca.

- Sor Davos Seaworth, para falar com Sua Graça.

- Está bêbado? Vá embora e pare de bater.

Salladhor Saan prevenira-o. Davos tentou outra linha de ação.

- Então mande chamar meu filho. Devan, o escudeiro do rei.

O guarda franziu a testa.

- Quem você disse que era?

- Davos - gritou -, o cavaleiro das cebolas.

A cabeça desapareceu, voltando um momento mais tarde.

- Desapareça. O cavaleiro das cebolas morreu no rio. O navio dele queimou.

- O navio dele queimou - concordou Davos -, mas ele sobreviveu, e está aqui. Jate ainda é capitão do portão?

- Quem?

- Jate Blackberry. Ele me conhece bastante bem.

- Nunca ouvi falar. O mais certo é que esteja morto.

- Então Lorde Chyttering.

- Esse conheço. Ardeu na Água Negra.

- Will Cara-de-Anzol? Hal, o Porco?

- Morto e morto - disse o besteiro, mas seu rosto traiu uma súbita dúvida. - Espere aqui. - Voltou a desaparecer.

Davos esperou. Morreram, morreram todos, pensou, entorpecido, lembrando-se de como a barriga branca do gordo Hal se mostrava sempre por baixo de seu gibão manchado de gordura, da longa cicatriz que o anzol deixara no rosto de Will, do modo como Jate costumava tirar o chapéu para as mulheres, tivessem elas cinco ou cinquenta anos, fossem bem ou mal-nascidas. Afogados ou queimados, com meus filhos e outros mil, desaparecidos para fazer um rei no inferno.

De repente, o besteiro regressou.

- Dê a volta até a porta de surtida, e vão deixá-lo entrar.

Davos fez o que lhe foi pedido. Os guardas que o admitiram eram estranhos para ele. Transportavam lanças e, no peito, usavam o símbolo da raposa e das flores da Casa Florent. Escoltaram-no não para o Tambor de Pedra, como esperava, mas fizeram-no passar sob o arco da Cauda do Dragão e através do Jardim de Aegon.

- Espere aqui - disse-lhe o sargento.

- Sua Graça sabe que eu voltei? - perguntou Davos.

- Sei lá, que se dane. Espere, já falei. - O homem foi embora, levando consigo os lanceiros.

O Jardim de Aegon tinha um agradável aroma de pinheiro e altas e escuras árvores erguiam-se por todos os lados. Também havia rosas silvestres, e grandes cercas vivas espinhosas, e um local pantanoso onde cresciam mirtilos.

Por que será que me trouxeram para cá?, questionou-se Davos.

Então ouviu um tênue tinir de sinos, e um risinho de criança, e de repente o bobo Cara-Malhada saltou dos arbustos arrastando os pés o mais depressa que conseguia, com a Princesa Shireen logo atrás.

- Volte aqui - ela vinha gritando. - Malhas, volte aqui.

Quando o bobo viu Davos, parou subitamente, com as campainhas em seu capacete de latão guarnecido de chifres fazendo ting-a-ling, ting-a-ling. Saltitando de um pé para o outro, cantou:

- Sangue de bobo, sangue de rei, sangue na coxa da donzela, mas pros convidados e noivo, correntes, lá, lá, lá. - Shireen quase o pegou nessa hora, mas no último instante o bobo saltou por cima de um grupo de samambaias e desapareceu por entre as árvores. A princesa seguiu logo atrás. Vê-los fez Davos sorrir.

Virara-se para tossir na mão enluvada quando outra pequena silhueta saltou da cerca viva e esbarrou nele, atirando-o ao chão.

O rapaz também caiu, mas se levantou quase de imediato.

- Que está fazendo aqui? - quis saber enquanto se sacudia. Cabelos negros de azeviche caíam sobre seu colarinho, e os olhos eram de um azul surpreendente. - Não devia ficar na minha frente quando estou correndo.

- Não - concordou Davos. - Não devia. - Outro ataque de tosse dominou-o na hora em que lutava para ficar de joelhos.

- Está mal? - o garoto pegou-o pelo braço e ajudou-o a se levantar. - Devo chamar o meistre?

Davos balançou a cabeça.

- E uma tosse. Vai passar.

O garoto não pensou mais no assunto.

- Estávamos brincando de monstros e donzelas - explicou. - Eu era o monstro. É um jogo infantil, mas a minha prima gosta dele. Tem um nome?

- Sor Davos Seaworth.

O rapaz olhou-o de cima a baixo com ar de dúvida.

- Tem certeza? Não parece muito cavalheiresco.

- Sou o cavaleiro das cebolas, senhor.

Os olhos azuis pestanejaram.

- O do navio negro?

- Conhece essa história?

- Trouxe ao meu tio Stannis peixe para comer antes de eu nascer, quando Lorde Tyrell o tinha cercado. - O rapaz ficou ereto. - Sou Edric Storm - anunciou. - Filho do Rei Robert.

- Claro que é. - Davos compreendera quase de imediato. O rapaz possuía as orelhas proeminentes de um Florent, mas os cabelos, os olhos, o maxilar, os malares eram todos Baratheon.

- Conheceu meu pai? - quis saber Edric Storm.

- Vi-o muitas vezes quando visitava seu tio na corte, mas nunca conversamos.

- Meu pai me ensinou a lutar - disse orgulhosamente o rapaz. - Vinha me visitar quase todos os anos, e às vezes treinávamos juntos. No último dia de meu nome mandou-me um martelo de guerra igualzinho ao dele, só que menor. Mas me obrigaram a deixá-lo em Ponta Tempestade. É verdade que meu tio Stannis cortou seus dedos?

- Só a ponta. Ainda tenho dedos, só que mais curtos.

- Mostre.

Davos tirou a luva. O rapaz estudou sua mão com atenção.

- Ele não encurtou seu polegar?

- Não. - Davos tossiu. - Não, o polegar deixou inteiro.

- Não devia ter cortado nenhum de seus dedos - decidiu o rapaz. - Isso foi errado.

- Eu era um contrabandista.

- Sim, mas contrabandeou peixe e cebolas para ele.

- Lorde Stannis fez-me cavaleiro pelas cebolas e cortou meus dedos pelo contrabando. - Vestiu as luvas.

- Meu pai não teria cortado seus dedos.

- Como quiser, senhor. - Robert era um homem diferente de Stannis, é bem verdade. O garoto é como ele. Sim, e também como Renly. Esse pensamento deixou-o ansioso.

O garoto preparava-se para dizer mais alguma coisa quando ouviram passos. Davos virou-se. Sor Axell Florent descia o caminho do jardim com uma dúzia de guardas com gibões acolchoados. Ao peito traziam o coração flamejante do Senhor da Luz. Homens da rainha, pensou Davos. Foi subitamente atacado pela tosse.

Sor Axell era baixo e musculoso, com abdome em forma de barril, braços fortes, pernas arqueadas, e pelos que cresciam em suas orelhas. Tio da rainha, tinha servido durante uma década como castelão de Pedra do Dragão, e sempre havia tratado Davos com cortesia, sabendo que ele desfrutava da predileção de Lorde Stannis. Mas não havia nem cortesia nem calor no tom de sua voz quando disse:

- Sor Davos, e não afogado. Como isso é possível?

- As cebolas flutuam, sor. Veio para me levar ao rei?

- Vim para levá-lo até a masmorra. - Com um gesto, Sor Axell mandou os homens avançarem. - Capturem-no e retirem a adaga dele. Ele pretende usá-la contra a nossa senhora.

Jaime

Jaime foi o primeiro a ver a estalagem. O edifício principal cingia a margem sul no

local onde o rio virava, com as longas e baixas janelas estendendo-se ao longo da água como que para abraçar os viajantes que velejavam seguindo a corrente. O andar inferior era de pedra cinza, o superior, de madeira caiada, o telhado, de ardósia. Também via estábulos, e um caramanchão repleto de trepadeiras.

- Não há fumaça nas chaminés - destacou quando se aproximaram. - Nem luzes nas janelas.

- A estalagem ainda estava aberta da última vez que passei por aqui - disse Sor Cleos Frey. - Fermentavam uma boa cerveja. Talvez ainda haja um pouco na adega.

- Pode haver gente - disse Brienne. - Escondida. Ou morta.

- Assustada por meia dúzia de cadáveres, garota? - indagou Jaime.

Ela o atravessou com os olhos.

- Meu nome é...

- ... Brienne, sim. Não gostaria de dormir numa cama por uma noite, Brienne? Estaríamos mais seguros do que em rio aberto, e pode ser prudente descobrir o que aconteceu aqui.

Ela não respondeu, mas após um momento moveu a cana do leme para virar o esquife na direção da gasta doca de madeira. Sor Cleos baixou desajeitadamente a vela. Quando bateram suavemente no cais, saltou para fora do barco para amarrá-lo. Jaime escalou atrás dele, de forma desastrada, por causa das correntes.

Na extremidade da doca, uma telha lascada de madeira pendia de um poste de ferro, pintada com a imagem de um rei de joelhos, com as mãos unidas num gesto de lealdade. Jaime deu uma olhada para ela e riu alto.

- Não poderíamos ter encontrado estalagem melhor.

- Este é algum lugar especial? - perguntou a garota, desconfiada.

Sor Cleos respondeu.

- Esta é a Estalagem do Ajoelhado, senhora. Fica no exato local onde o último Rei no Norte ajoelhou perante Aegon, o Conquistador, para lhe oferecer a sua submissão. Suponho que seja ele retratado na tabuleta.

- Torrhen tinha trazido suas forças ao sul depois da queda dos dois reis no Campo de Fogo - disse Jaime -, mas quando viu o dragão de Aegon e o tamanho da sua tropa, escolheu o caminho sensato, e dobrou seus joelhos gelados. - Interrompeu-se ao ouvir o relincho de um cavalo. - Cavalos no estábulo. Pelo menos um. - E um é tudo que preciso para deixar a garota para trás. - Vamos ver quem está em casa, que tal? - Sem esperar resposta, Jaime seguiu tinindo ao longo da doca, encostou um ombro na porta, abriu-a com um empurrão...

... e viu-se frente a frente com uma besta carregada. Em pé, atrás dela, estava um atarracado garoto de quinze anos.

- Leão, peixe ou lobo? - exigiu saber o jovem.

- Tínhamos esperança de que houvesse um capão. - Jaime ouviu os companheiros entrando atrás dele. - A besta é uma arma de covarde.

- Espeto um dardo em seu coração mesmo assim.

- Talvez. Mas antes que possa voltar a carregá-la, o meu primo aqui derrama suas tripas pelo chão.

- Não assuste o rapaz - disse Sor Cleos.

- Não lhe desejamos nenhum mal - disse a garota. - E temos moedas para pagar por comida e bebida. - Tirou uma peça de prata da bolsa.

O rapaz olhou desconfiado para a moeda e depois para as algemas de Jaime.

- Por que é que ele está acorrentado?

- Matei alguns besteiros - disse Jaime. - Tem cerveja?

- Sim. - O rapaz baixou a besta dois centímetros. - Soltem os cintos das espadas e deixem-nos cair, e pode ser que lhes demos de comer. - Deu a volta cautelosamente para espiar através dos espessos vidros das janelas, em forma de losango, e ver se havia mais alguém lá fora. - Aquela é uma vela Tully.

- Viemos de Correrrio. - Brienne desafivelou o cinto e deixou-o retinir no chão. Sor Cleos imitou-a.

Um homem pálido com um rosto bexiguento e pouco saudável entrou pela porta da adega com um pesado cutelo de açougueiro na mão.

- São três, hã? Temos carne de cavalo suficiente para três. O cavalo era velho e rijo, mas a carne ainda está fresca.

- Tem pão? - perguntou Brienne.

- Pão duro e bolos de aveia amanhecidos.

Jaime abriu um sorriso.

- Ora, eis um estalajadeiro honesto. Todos nos servem pão amanhecido e carne fibrosa, mas a maioria não admite isso tão claramente.

- Não sou estalajadeiro coisa nenhuma. Enterrei-o lá atrás, com as mulheres.

- Matou-os?

- E eu lhe diria se o tivesse matado? - o homem escarrou. - O mais provável é que tenha sido trabalho de lobos, ou talvez de leões, qual é a diferença? Eu e a mulher os encontramos mortos. Da maneira que vemos as coisas, o lugar agora é nosso.

- Onde está essa sua mulher? - perguntou Sor Cleos.

O homem deu-lhe uma olhada desconfiada de viés.

- E por que é que quer saber isso? Não está aqui... tal como vocês não estarão, a menos que eu goste do sabor da sua prata.

Brienne atirou-lhe a moeda. Ele apanhou-a no ar, mordeu-a e enfiou-a no bolso.

- Ela tem mais - anunciou o garoto com a besta.

- Se tem. Rapaz, vá lá embaixo e traga-me algumas cebolas.

O moço colocou a besta no ombro, lançou um último olhar mal-humorado e desapareceu na adega.

- Seu filho? - perguntou Sor Cleos.

- Só um garoto que eu e a mulher acolhemos. Tínhamos dois filhos, mas os leões mataram um deles e o outro morreu de diarreia. O rapaz perdeu a mãe para os Saltimbancos Sangrentos. Nos dias de hoje, um homem precisa de alguém que fique de vigia enquanto dorme. - Indicou as mesas com o cutelo. - Pois bem, podem se sentar.

A lareira estava fria, mas Jaime escolheu a cadeira mais próxima das cinzas e estendeu suas longas pernas por baixo da mesa. O tinir das correntes acompanhava o menor de seus movimentos. Um ruído irritante. Antes de isso acabar, ainda enrolo estas correntes em volta da garganta da garota, veremos se ela gosta delas então.

O homem que não era estalajadeiro chamuscou três enormes bifes de cavalo e fritou as cebolas em gordura de bacon, o que quase compensou os bolos de aveia amanhecidos. Jaime e Cleos beberam cerveja, Brienne, uma taça de sidra. O rapaz manteve distância, empoleirado num barril de sidra com a besta pousada nos joelhos, pronta para disparar. O cozinheiro serviu-se de uma caneca de cerveja e sentou-se com eles.

- Quais são as notícias de Correrrio? - perguntou a Sor Cleos, tomando-o por chefe do grupo.

Sor Cleos olhou Brienne de relance antes de responder.

- Lorde Hoster está moribundo, mas o filho defende os vaus do Ramo Vermelho contra os Lannister. Houve batalhas.

- Há batalhas por todo lado. Para onde vão, sor?

- Porto Real. - Sor Cleos limpou a gordura dos lábios.

O anfitrião resfolegou.

- Então são loucos. Segundo as últimas notícias que ouvi, o Rei Stannis estava às portas da cidade. Dizem que tem cem mil homens e uma espada mágica.

As mãos de Jaime fecharam-se em volta da corrente que lhe prendia os pulsos, e torceu-a, retesando-a, desejando ter forças para quebrá-la em duas. Então vou mostrar a Stannis onde deve embainhar a sua espada mágica.

- Se fosse vocês, ficaria bem longe da estrada do rei - prosseguiu o homem. - E pior do que ruim, segundo dizem. Tanto lobos como leões, e bandos de homens sem bandeira que atacam qualquer um que consigam apanhar.

- Ralé - declarou Sor Cleos com desprezo. - Gente assim nunca se atreveria a causar problemas a homens armados.

- Com a sua licença, sor, mas estou vendo um homem armado, viajando com uma mulher e um prisioneiro acorrentado.

Brienne lançou ao cozinheiro um olhar duro. A garota odeia mesmo que lhe seja lembrado que é uma garota, refletiu Jaime, voltando a torcer as correntes. Sentia os elos frios e duros contra a pele, sentia o ferro implacável. As algemas tinham deixado seus pulsos em carne viva.

- Pretendo seguir o Tridente até o mar - disse a garota ao anfitrião. - Arranjaremos montarias em Lagoa da Donzela e seguiremos via Valdocaso e Rosby. Isso deve nos manter bem longe do pior da batalha.

O anfitrião balançou a cabeça.

- Nunca chegará à Lagoa da Donzela por rio. A menos de cinquenta quilômetros daqui, alguns barcos foram queimados e afundaram, e o canal se assoreou em volta deles.

Ali há um ninho de fora da lei que ataca qualquer um que tente passar, e existem outros como mesmo perfil mais para baixo, em volta das Pedras Saltitantes e da Ilha do Veado Vermelho. E o senhor do relâmpago também foi visto por essa região. Atravessa o rio onde bem quer, passando para cá e para lá, sempre em movimento.

- E quem é esse senhor do relâmpago? - quis saber Sor Cleos Frey.

- É Lorde Beric, com a sua licença, sor. Dão-lhe esse nome porque ataca repentinamente, como um relâmpago vindo de um céu sem nuvens. Dizem que não pode morrer.

Todos eles morrem quando se enfia uma espada no corpo deles, pensou Jaime.

- Thoros de Myr ainda o acompanha?

- Sim. O feiticeiro vermelho. Ouvi dizer que tem estranhos poderes.

Bem, tinha o poder de acompanhar Robert Baratheon na bebida, e eram bem poucos os que podiam se gabar disso. Jaime ouvira uma vez Thoros dizer ao rei que havia se tornado sacerdote vermelho porque as vestes escondiam muito bem as manchas de vinho. Robert riu tanto que encheu de cerveja o manto de seda de Cersei.

- Longe de mim questionar - disse -, mas talvez o Tridente não seja a nossa rota mais segura.

- Eu diria que é verdade - concordou o cozinheiro. - Mesmo se passarem da Ilha do Veado Vermelho sem encontrar Lorde Beric e o feiticeiro vermelho, ainda terão à sua frente o vau rubi. Da última vez que ouvi notícias, eram os lobos do Lorde Sanguessuga que defendiam o vau, mas isso foi já há algum tempo. A essa altura podem ter voltado a ser os leões, ou Lorde Beric, ou seja lá quem for.

- Ou ninguém - sugeriu Brienne.

- Se a senhora quer apostar a pele nisso, eu não a impedirei... mas se fosse vocês, deixaria este rio aqui, cortaria caminho por terra. Se permanecerem longe das estradas principais e se abrigarem debaixo das árvores à noite, meio que escondidos... bem, ainda não quereria ir com vocês, mas talvez tenham uma pequena chance.

A grande garota estava com uma expressão de dúvida.

- Precisaríamos de cavalos.

- Aqui há cavalos - ressaltou Jaime. - Ouvi um nos estábulos.

- Sim, há cavalos - disse o estalajadeiro que não era estalajadeiro. - E logo três, por acaso, mas não estão à venda.

Jaime não conseguiu evitar uma gargalhada.

- Claro que não. Mas vai nos mostrá-los mesmo assim.

Brienne franziu a testa, mas o homem que não era estalajadeiro enfrentou seu olhar sem piscar, e um momento depois, relutantemente, ela disse:

- Mostre-me - e todos se ergueram da mesa.

Os estábulos não eram limpos havia muito tempo, julgando pelo cheiro que exalavam. Centenas de gordas moscas pretas esvoaçavam por entre a palha, zumbindo de cocheira em cocheira e passeando sobre os montículos de esterco de cavalo que se espalhavam por todo lado, mas só se viam três cavalos. Eram um trio improvável: um pesado cavalo de tração castanho, um castrado branco, muito velho, cego de um olho, e o palafrém de um cavaleiro, sarapintado de cinza e vivaz.

- Não estão à venda por nenhum preço - anunciou seu alegado dono.

- Como arranjou estes cavalos? - quis saber Brienne.

- O de tração estava preso aqui quando a mulher e eu chegamos à estalagem – disse o homem - com aquele que você acabou de comer. O castrado apareceu uma noite, e o garoto apanhou o palafrém que corria por aí, livre, ainda selado e com rédeas. Venham, eu mostro a vocês.

A sela que lhes mostrou estava decorada com relevos de prata. O xairel tinha sido originalmente axadrezado de rosa e negro, mas agora era fundamentalmente marrom. Jaime não reconhecia as cores originais, mas reconhecia manchas de sangue com bastante facilidade.

- Bem, o dono não virá pedi-lo de volta tão cedo. - Examinou as patas do palafrém, contou os dentes do castrado. - Dê uma peça de ouro pelo cinza, se incluir a sela - aconselhou a Brienne. - Uma de prata pelo cavalo de tração. Ele devia nos pagar por tirarmos o branco das mãos dele.

- Não fale sem cortesia do seu próprio cavalo, sor. - A garota abriu a bolsa que a Senhora Catelyn havia lhe dado e tirou três moedas de ouro. - Pago um dragão por cada um.

O homem pestanejou e estendeu a mão para o ouro, e depois hesitou e recolheu a mão.

- Não sei. Não posso montar um dragão de ouro se precisar ir embora. Nem comê-lo, se tiver fome.

- Pode também ficar com o nosso esquife - disse ela. - Viaje para cima ou para baixo no rio, como quiser.

- Deixe-me ver que gosto tem esse ouro. - O homem tirou uma das moedas da palma da mão de Brienne e mordeu-a. - Hum. Diria que é verdadeiro o bastante. Três dragões e o esquife?

- Ele está lhe roubando, garota - disse Jaime amigavelmente.

- Também vou querer provisões - disse Brienne ao anfitrião, ignorando Jaime. - Seja o que for que possa nos arranjar.

- Há mais bolos de aveia. - O homem recolheu os outros dois dragões da palma da mão dela e sacudiu-os no punho fechado, sorrindo do som que faziam. - Bem, e peixe defumado e salgado, mas isso vai lhes custar prata. As minhas camas também vão custar dinheiro. Vão querer passar a noite aqui.

- Não - disse Brienne de imediato.

O homem franziu a testa para ela.

- Mulher, você não quer cavalgar de noite por uma região onde nunca esteve e em cavalos que não conhece. O mais certo é que acabe tropeçando em algum brejo ou quebre uma pata do cavalo.

- A lua estará brilhante esta noite - disse Brienne. - Não teremos nenhum problema em encontrar o nosso caminho.

O anfitrião remoeu aquilo.

- Se não tem a prata, pode ser que alguns cobres paguem por suas camas e uma ou duas colchas para se manterem aquecidos. Não estou propriamente dispensando viajantes, se entende onde quero chegar.

- Isso parece mais do que justo - disse Sor Cleos.

- E as colchas até estão recém-lavadas. A mulher tratou disso antes de precisar ir embora. E não há nem uma pulga nelas, tem a minha palavra quanto a isso. - Voltou a sacudir as moedas, sorrindo.

Sor Cleos estava claramente tentado.

- Uma cama apropriada faria bem a todos nós, senhora - disse a Brienne. - Faríamos um tempo melhor amanhã, depois de descansarmos. - Olhou para o primo, em busca de apoio.

- Não, primo, a garota tem razão. Temos promessas a manter, e longas léguas à nossa frente. Devíamos ir andando.

- Mas - disse Cleos - você mesmo disse...

- Antes. - Quando pensava que a estalagem estava deserta. - Agora estou com a barriga cheia e uma cavalgada ao luar será mesmo a coisa certa. - Sorriu à garota. - Mas, a não ser que pretenda me atirar para a garupa daquele cavalo de tração como se fosse um saco de farinha, alguma coisa tem de ser feita com estes ferros. É difícil montar com os tornozelos acorrentados.

Brienne franziu a testa ao ver a corrente. O homem que não era estalajadeiro esfregou o queixo.

- Há uma forja ali atrás do estábulo.

- Mostre-me.

- Sim - disse Jaime -, e quanto mais depressa, melhor. Há aqui muito mais bosta de cavalo do que devia para o meu gosto. Detestaria pisar nela. - Lançou à garota um olhar penetrante, perguntando a si mesmo se ela seria suficientemente esperta para entender o que queria dizer.

Acalentava a esperança de que ela também tirasse os ferros de seus pulsos, mas Brienne mantinha-se desconfiada. Cortou ao meio a corrente dos tornozelos com meia dúzia de fortes golpes dados com o martelo do ferreiro na ponta plana de um cinzel de aço. Quando sugeriu que também quebrasse a corrente do pulso, ela ignorou-o.

- A quase dez quilômetros daqui, ao longo do rio, vão encontrar uma aldeia queimada - disse o anfitrião enquanto os ajudava a selar os cavalos e a carregar a bagagem. Daquela vez dirigia os conselhos a Brienne. - A estrada bifurca-se aí. Se virar para sul, vai chegar à torre de pedra de Sor Warren. Sor Warren foi embora e morreu, portanto não sei dizer de quem ela é agora, mas é melhor evitar o lugar. Faria bem em seguir a trilha que atravessa a floresta, para sul-sudeste.

- Faremos isso - respondeu ela. - Tem os meus agradecimentos.

E, mais do que isso, tem o seu ouro. Jaime guardou o pensamento para si. Estava cansado de ser menosprezado por aquela vaca grande e feia.

Ela escolheu o cavalo de tração para si e atribuiu o palafrém a Sor Cleos. Cumprindo a ameaça, Jaime ficou com o castrado zarolho, o que pôs fim a quaisquer ideias que pudesse ter alimentado de esporear o cavalo e fazer a garota comer sua poeira.

O homem e o garoto saíram da estalagem para vê-los partir. O homem desejou-lhes boa sorte e disse-lhes para voltarem em tempos melhores, enquanto o rapaz ficou em silêncio, com a besta debaixo do braço.

- Arranje uma lança ou um malho - disse-lhe Jaime -, que lhe serão mais úteis. - O rapaz fitou-o com desconfiança. É isso que se ganha com um conselho de amigo. Encolheu os ombros, virou o cavalo, e não olhou para trás.

Sor Cleos era só queixas quando partiram, ainda de luto pelo colchão de plumas perdido. Avançaram para leste, ao longo da margem do rio iluminado pelo luar. O Ramo Vermelho era muito largo ali, mas raso, com margens cheias de lama e de canaviais. A montaria de Jaime avançava placidamente, embora o pobre animal tivesse a tendência de derivar para o lado do olho bom. Era bom estar montado de novo. Não subia em um cavalo desde que os arqueiros de Robb Stark tinham matado o corcel entre as suas pernas, no Bosque dos Murmúrios.

Quando chegaram à aldeia incendiada, foram confrontados por uma escolha entre duas estradas igualmente pouco promissoras; trilhas estreitas, profundamente sulcadas pelas carroças de agricultores que traziam as colheitas até o rio. Uma partia para sudeste e rapidamente desaparecia entre as árvores que se viam a distância, enquanto a outra, mais reta e pedregosa, se lançava para sul. Brienne avaliou-as rapidamente e depois desviou o cavalo para a estrada do sul. Jaime ficou agradavelmente surpreso; era a mesma decisão que ele teria tomado.

- Mas esta é a estrada contra a qual o estalajadeiro nos preveniu - objetou Sor Cleos.

- Ele não era estalajadeiro nenhum. - Ela arqueava as costas sem qualquer encanto sobre a sela, mas apesar disso seguia bem sentada. - O homem mostrou um interesse grande demais no caminho que nós íamos tomar, e aquela floresta... lugares assim são notórios covis de fora da lei. Ele podia estar nos mandando direto para uma armadilha.

- Garota esperta. - Jaime sorriu para o primo. - Nosso anfitrião tem amigos ao longo daquela estrada, calculo. Os homens cujas montarias deram àquele estábulo um aroma tão memorável.

- Ele também podia estar mentindo sobre o rio, para nos pôr nestes cavalos - disse a garota -, mas eu não podia correr esse risco. Haverá certamente soldados no vau rubi e nas encruzilhadas.

Bem, ela pode ser feia, mas não é completamente burra. Jaime brindou-a com um sorriso relutante.

A luz avermelhada vinda das janelas superiores da casa-torre de pedra avisou-os de sua presença a uma longa distância, e Brienne levou-os pelos campos. Só quando o forte ficou bem para trás é que eles voltaram a virar e encontraram a estrada de novo.

Decorreu metade da noite antes de a garota admitir que podia ser seguro parar. A essa altura, os três já estavam prestes a cair das selas. Abrigaram-se num pequeno grupo de carvalhos e freixos ao lado de um riacho indolente. A garota não autorizou uma fogueira, e por isso partilharam um jantar tardio de bolos de aveia amanhecidos e peixe salgado. A noite estava estranhamente pacífica. Uma meia-lua rodeada de estrelas pairava sobre suas cabeças, num céu negro de feltro. A distância, um grupo de lobos uivava. Um dos cavalos do grupo soltou um relincho nervoso. Não se ouviam outros sons. A guerra não tocou este lugar, pensou Jaime. Estava contente por estar ali, contente por se encontrar vivo, contente por voltar para junto de Cersei.

- Eu fico com o primeiro turno de vigia - disse Brienne a Sor Cleos, e rapidamente o Frey começou a roncar baixinho.

Jaime sentou-se de encontro ao tronco de um carvalho e perguntou a si mesmo o que Cersei e Tyrion estariam fazendo naquele momento.

- Tem irmãos, senhora? - perguntou.

Brienne olhou-o de soslaio, desconfiada.

- Não. Fui o ún... a única filha de meu pai.

Jaime soltou um risinho.

- Ia dizer filho. Ele pensa em você como num filho? É certo que é um tipo estranho de filha.

Sem uma palavra, ela virou as costas para ele, cerrando o punho com força no cabo-da espada. Que criatura miserável é esta. De alguma estranha forma, fazia-lhe lembrar de Tyrion, embora à primeira vista fosse difícil encontrar duas pessoas mais diferentes. Talvez tivesse sido esse pensamento sobre o irmão que o fez dizer:

- Não pretendia ofendê-la, Brienne. Perdoe-me.

- Seus crimes estão para além do perdão, Regicida.

- Outra vez esse nome. - Jaime torceu à toa as correntes. - Por que a deixo com tanta raiva? Nunca lhe fiz mal, que me lembre.

- Fez mal a outros. Àqueles que tinha jurado proteger. Aos fracos, aos inocentes...

- ... ao rei? - voltava sempre a Aerys. - Não tenha a presunção de me julgar por aquilo que não entende, garota.

- Meu nome é...

-... Brienne, sim. Nunca ninguém lhe disse que era tão entediante quanto feia?

- Não vai conseguir me fazer perder o controle com provocações, Regicida.

- Ah, talvez conseguisse, se eu quisesse tentar.

- Por que motivo prestou juramento? - ela quis saber. - Por que envergar o manto branco se pretendia trair tudo aquilo que ele simboliza?

Por quê? O que poderia dizer que ela fosse capaz de entender?

- Era um rapaz. Tinha quinze anos. Era uma grande honra para alguém tão jovem.

- Isso não é resposta - disse ela em tom de escárnio.

Você não ia gostar da verdade. Tinha se juntado à Guarda Real por amor, claro.

O pai chamara Cersei para a corte quando ela tinha doze anos, esperando arranjar um casamento real para ela. Tinha recusado todas as ofertas por sua mão, preferindo mantê-la consigo na Torre da Mão enquanto crescia e se tornava mais mulher e ainda mais bela. Esperava, sem dúvida, que o Príncipe Viserys amadurecesse, ou talvez que a esposa de Rhaegar morresse ao dar à luz. Elia de Dorne nunca tinha sido a mais saudável das mulheres.

Jaime, entretanto, passara quatro anos como escudeiro de Sor Sumner Crakehall e conquistara as esporas contra a Irmandade da Mata do Rei. Mas quando fez uma breve visita a Porto Real no caminho de volta para Rochedo Casterly, principalmente para ver a irmã, Cersei puxou-o de lado e sussurrou que Lorde Tywin pretendia casá-lo com Lysa Tully, chegando ao ponto de convidar Lorde Hoster a vir à cidade para conversar sobre o dote. Mas se Jaime vestisse o branco, podia ficar sempre perto dela. O velho Sor Harlan Grandison morrera durante o sono, o que não podia ser mais apropriado para alguém cujo símbolo era um leão adormecido. Aerys iria querer um jovem para ocupar o seu lugar, portanto, por que não um leão rugindo para o lugar de um sonolento?

- O pai nunca consentirá - Jaime questionou.

- O rei não lhe pedirá consentimento. E uma vez que a coisa estiver feita, o pai não pode objetar, pelo menos abertamente. Aerys mandou arrancar a língua de Sor Ilyn Pay- ne só por alardear que era a Mão quem realmente governava os Sete Reinos. O capitão da guarda da Mão, e no entanto o pai não se atreveu a tentar impedi-lo! Também não impedirá isso.

- Mas - disse Jaime - há Rochedo Casterly...

- O que você quer é um rochedo? Ou eu?

Lembrava-se daquela noite como se fosse ontem. Tinham-na passado numa velha estalagem na Viela das Enguias, bem longe de olhos vigilantes. Cersei fora encontrá-lo vestida como uma simples criada, o que acabou por excitá-lo ainda mais. Jaime nunca a tinha visto mais apaixonada. Sempre que adormecia, ela voltava a acordá-lo. Pela manhã, Rochedo Casterly parecia um pequeno preço a pagar para ficar sempre perto dela. Deu seu consentimento, e Cersei prometeu fazer o resto.

Uma volta de lua mais tarde, um corvo real chegou a Rochedo Casterly para informá-lo de que fora escolhido para a Guarda Real. Era-lhe ordenado que se apresentasse ao rei durante o grande torneio em Harrenhal, para prestar juramento e envergar o manto.

A investidura de Jaime libertou-o de Lysa Tully. Mas, tirando isso, nada se passou conforme planejado. O pai nunca estivera mais furioso. Não podia levantar objeções abertamente - Cersei julgara isso de forma correta -, mas usou um pretexto qualquer pouco convincente para se demitir do cargo de Mão e retornou a Rochedo Casterly, levando a filha consigo. Em vez de ficarem juntos, Cersei e Jaime limitaram-se a trocar de lugar, e ele se viu sozinho na corte, defendendo um rei louco enquanto quatro homens menores se sucederam dançando sobre facas, cujos pés não calçavam bem os sapatos do pai. As Mãos ascendiam e caíam tão rapidamente que Jaime recordava melhor a heráldica do que o rosto deles. A Mão cornucópia e a Mão grifos dançantes tinham ambas sido exiladas; a Mão maça e punhal, mergulhada em fogovivo e queimada viva. Lorde Rossart fora o último. Seu símbolo era um archote ardente; uma escolha infeliz, tendo em conta o destino de seu predecessor, mas o alquimista tinha ascendido em grande medida por partilhar a paixão do rei pelo fogo. Devia ter afogado Rossart em vez de estripá-lo.

Brienne continuava à espera de sua resposta, Jaime disse:

- Não tem idade para ter conhecido Aerys Targaryen...

Ela não quis ouvir.

- Aerys era louco e cruel, nunca ninguém negou isso. Ainda assim era rei, coroado e ungido. E você jurou protegê-lo.

- Eu sei o que jurei.

- E o que fez. - Ergueu-se acima dele, um metro e oitenta de desaprovação sardenta, carrancuda e com dentes de cavalo.

- Sim, e o que você fez também. Aqui somos ambos regicidas, se aquilo que ouvi dizer é verdade.

- Nunca fiz mal a Renly. Mato o primeiro homem que diga que fiz.

- Nesse caso, é melhor que comece por Cleos. E, depois disso, terá bastante matança a fazer, pelo que ele conta da história.

- Mentiras. A Senhora Catelyn estava lá quando Sua Graça foi assassinado, ela viu. Apareceu uma sombra. As velas apagaram-se e o ar ficou frio, e houve sangue...

- Ah, muito bem. - Jaime soltou uma gargalhada. - Pensa mais depressa do que eu, confesso. Quando me encontraram em pé junto ao meu rei morto, nunca pensei em dizer: "Não, não, não fui eu, foi uma sombra, uma terrível sombra fria". - Soltou outra gargalhada. - Conte-me a verdade, de um regicida para outro: foram os Stark que lhe pagaram para cortar a goela dele, ou foi Stannis? Renly repeliu-a, foi por isso? Ou talvez estivesse com o sangue de lua. Nunca dê uma espada a uma garota quando ela estiver sangrando.

Por um momento, Jaime pensou que Brienne iria bater nele. Mais um passo, e tiro aquele punhal da bainha dela e enterro em seu ventre. Retesou uma perna debaixo do corpo, pronto para saltar, mas a garota não se moveu.

- Ser um cavaleiro é uma dádiva rara e preciosa - disse - e mais ainda quando se é um cavaleiro da Guarda Real. É algo dado a poucos, algo que você desprezou e conspurcou.

Algo que você deseja desesperadamente, garota, e que nunca poderá obter.

- Eu conquistei o meu grau de cavaleiro. Nada me foi dado. Ganhei uma luta corpo a corpo num torneio com treze anos, quando ainda era escudeiro. Aos quinze, acompanhei Sor Arthur Dayne contra a Irmandade da Mata de Rei, e ele armou-me cavaleiro no campo de batalha. Foi aquele manto branco que me conspurcou, e não o contrário. Portanto, poupe-me de sua inveja. Foram os deuses que se esqueceram de lhe dar uma pica, não fui eu.

O olhar que Brienne lhe deu estava carregado de repugnância. De bom grado me cortaria em pedaços, se não fosse o seu precioso juramento, refletiu. Ótimo. Já estou farto de débeis piedades e julgamentos de donzelas. A moça afastou-se a passos largos sem dizer sequer uma palavra. Jaime enrolou-se debaixo do manto, esperando sonhar com Cersei.

Mas, quando fechou os olhos, foi Aerys Targaryen que viu, andando de um lado para o outro em sua sala de trono, repuxando as mãos cheias de crostas e sangrando. O idiota vivia se cortando nas lâminas e farpas do Trono de Ferro. Jaime tinha se esgueirado através da porta do rei, vestindo a armadura dourada e com a espada na mão. A armadura dourada, não a branca, mas ninguém nunca se lembra disso. Bem que gostaria de ter tirado também aquele maldito manto.

Quando Aerys viu o sangue em sua arma, exigiu saber se era de Lorde Tywin.

- Quero-o morto, o traidor. Quero a cabeça dele, vai me trazer a cabeça dele, senão queimo você com todos os outros. Todos os traidores. Rossart diz que estão dentro das muralhas! Foi lhes dar boas-vindas calorosas. De quem é o sangue? De quem?

- De Rossart - respondeu Jaime.

Aqueles olhos púrpura então se abriram enormemente, e a boca do rei caiu, escancarando-se com o choque. Havia perdido o controle das tripas, virado-se e corrido para o Trono de Ferro. Por baixo dos olhos vazios dos crânios pendurados nas paredes, Jaime arrancou o último rei-dragão dos degraus, guinchando como um porco e cheirando a latrina. Um único golpe na garganta foi tudo que precisou para acabar com ele. Tão fácil, lembrava-se de ter pensado. Um rei devia ser mais duro de matar do que isso. Rossart pelo menos tinha tentado lutar, se bem que, para falar a verdade, lutava como um alquimista. Estranho que nunca perguntem quem matou Rossart... mas, claro, ele não era ninguém, com seu baixo nascimento, Mão durante uma quinzena, só mais uma ideia louca do Rei Louco.

Sor Elys Westerling, Lorde Crakehall e outros dos cavaleiros do pai tinham irrompido pelo salão a tempo de ver o fim, portanto, não houve maneira de Jaime desaparecer e deixar que um fanfarrão qualquer roubasse a glória ou a culpa. Compreendeu de imediato, assim que viu o modo como o olhavam, que seria considerado culpado... embora os olhares que lhe lançavam talvez fossem de medo. Lannister ou não, ele era um dos sete de Aerys.

- O castelo é nosso, sor, e a cidade também - disse-lhe Roland Crakehall, o que era quase verdade. Ainda havia lealistas Targaryen morrendo nas escadas em espiral e no arsenal, Gregor Clegane e Amory Lorch estavam escalando as muralhas da Fortaleza de Maegor, e, nessa altura, Ned Stark ia entrando com os seus homens pelo Portão do Rei, mas Crakehall não tinha como saber disso. Não pareceu surpreendido por encontrar Aerys morto; Jaime era filho de Lorde Tywin muito antes de ser nomeado para a Guarda Real.

- Diga-lhes que o Rei Louco está morto - ordenou. - Poupe e prenda todos aqueles que se renderem.

- Deverei também proclamar um novo rei? - perguntou Crakehall, e Jaime leu claramente a questão: seria o seu pai, ou Robert Baratheon, ou pretendia tentar criar um novo rei-dragão? Por um momento, pensou no garoto, Viserys, fugido em Pedra do Dragão, e no filho bebê de Rhaegar, Aegon, ainda em Maegor com a mãe. Um novo rei Targaryen, e o meu pai como Mão. Como uivarão os lobos, como se engasgará de raiva o senhor da tempestade. Por um momento sentiu-se tentado, até voltar a olhar o corpo no chão, no meio da poça crescente de sangue. Há sangue dele em ambos, pensou.

- Proclame quem lhe der na telha - disse a Crakehall.

Então, subiu até o Trono de Ferro e sentou-se, com a espada pousada nos joelhos, para ver quem viria reclamar o reino. Acabou sendo Ned Stark.

Também não tinha o direito de me julgar, Stark.

Em seus sonhos, os mortos surgiram em chamas, vestidos de bruxuleantes chamas verdes. Jaime dançou entre eles com uma espada dourada, mas para cada um que abatia, erguiam-se mais dois em seu lugar.

Brienne acordou-o com um chute nas costelas. O mundo ainda estava negro, e tinha começado a chover. Quebraram o jejum com bolos de aveia, peixe salgado e umas poucas amoras silvestres que Sor Cleos havia encontrado, e estavam de novo sobre as selas antes do nascer do sol.

Varys

O eunuco vinha cantarolando monocordicamente para si mesmo ao atravessar a porta, vestido com um manto leve de seda cor de pêssego e cheirando a limão. Quando viu Tyrion sentado junto à lareira, parou e ficou muito quieto.

- Senhor Tyrion - soou como um guincho, pontuado por um risinho nervoso.

- Ah, então você se lembra de mim? Tinha começado a duvidar.

- É tão bom vê-lo com um aspecto tão forte e bem de saúde. - Varys deu o seu sorriso mais servil. - Embora tenha de confessar que não esperava encontrá-lo nos meus humildes aposentos.

- E realmente são humildes. Na verdade, em excesso. - Tyrion esperara Varys ser convocado por seu pai antes de se esgueirar até ali para lhe fazer uma visita. Os aposentos do eunuco eram despojados e pequenos, três quartos confortáveis e sem janelas junto à muralha norte. - Esperava descobrir grande quantidade de cestos cheios de segredos suculentos para me entreter enquanto aguardava, mas não encontrei nem um papel. - Também procurei por passagens escondidas, sabendo que a Aranha tinha de ter maneiras de ir e vir sem ser vista, mas elas se mostraram igualmente esquivas. - Havia água em seu jarro, que os deuses tenham piedade de você - prosseguiu -, a cela onde dorme não é mais larga do que um caixão e aquela cama... é mesmo feita de pedra, ou só parece ser?

Varys fechou a porta e trancou-a.

- Sou atormentado por dores nas costas, senhor, e prefiro dormir sobre uma superfície dura.

- Teria tomado você por um amante de colchões de plumas.

- Sou uma caixinha de surpresas. Está zangado comigo por tê-lo abandonado após a batalha?

- Isso fez com que pensasse em você como em alguém de minha família.

- Não foi por falta de simpatia, meu bom senhor. Tenho um caráter tão delicado, e a sua cicatriz é tão terrível de observar... - Um estremecimento exagerado sacudiu-o. - O seu pobre nariz...

Tyrion esfregou, irritado, a escara.

- Talvez deva mandar fazer um novo, de ouro. Que tipo de nariz você sugere, Varys? Um como o seu, para farejar segredos? Ou devo dizer ao ourives que desejo o nariz de meu pai? - sorriu. - Meu nobre pai trabalha com tanta diligência que já quase não o vejo.

Diga-me, é verdade que ele vai restituir ao Grande Meistre Pycelle o cargo no pequeno conselho?

- É, senhor.

- Devo agradecer à minha querida irmã por isso? - Pycelle tinha sido uma criatura da irmã; Tyrion despojara o homem do cargo, da barba e da dignidade, e atirara-o em uma cela escura.

- De modo algum, senhor. Agradeça aos arquimeistres de Vilavelha, que decidiram insistir na restituição de Pycelle com o argumento de que só o Conclave pode fazer ou desfazer um Grande Meistre.

Malditos idiotas, pensou Tyrion.

- Acho que me recordo que o carrasco de Maegor, o Cruel, desfez três com o seu machado.

- É bem verdade - disse Varys. - E o segundo Aegon deu o Grande Meistre Gerardys de comer ao dragão.

- Infelizmente, não disponho de um dragão. Creio que poderia ter mergulhado Pycelle em fogovivo, incendiando-o. A Cidadela teria preferido assim?

- Bem, estaria mais em concordância com a tradição. - O eunuco soltou um risinho abafado. - Felizmente, cabeças mais sensatas prevaleceram, e o Conclave aceitou o fato da destituição de Pycelle e tratou de escolher seu sucessor. Depois de considerar devidamente Meistre Turquin, o filho do sapateiro, e Meistre Erreck, o bastardo do pequeno cavaleiro, assim demonstrando, para sua própria satisfação, que em sua ordem a competência conta mais do que o nascimento, o Conclave estava à beira de nos enviar o Meistre Gormon, um Tyrell de Jardim de Cima. Quando contei isso ao senhor seu pai, ele agiu de imediato.

Tyrion sabia que o Conclave se reunia em Vilavelha a portas fechadas; suas deliberações eram supostamente secretas. Então Varys também tem passarinhos na Cidadela.

- Entendo. Portanto meu pai decidiu apanhar a rosa antes que desabrochasse. - Não conseguiu evitar um risinho. - Pycelle é um sapo. Mas antes um sapo Lannister do que um sapo Tyrell, não é?

- O Grande Meistre Pycelle sempre foi um bom amigo da sua Casa - disse Varys suavemente. - Talvez o console saber que Sor Boros Blount também vai recuperar o cargo.

Cersei tinha despido Sor Boros do manto branco por não ter morrido em defesa do Príncipe Tommen quando Bronn capturou o garoto na estrada de Rosby. O homem não era amigo de Tyrion, mas depois daquilo era provável que odiasse Cersei quase com a mesma força. Suponho que isso seja alguma coisa.

- Blount é um covarde fanfarrão - disse, em tom amigável.

- E? Deuses. Seja como for, é verdade que os cavaleiros da Guarda Real servem a vida inteira, tradicionalmente. Talvez Sor Boros se mostre mais corajoso no futuro. Irá sem dúvida permanecer muito leal.

- Ao meu pai - disse Tyrion propositalmente.

- Já que estamos falando da Guarda Real... pergunto a mim mesmo se esta sua visita, deliciosamente inesperada, por acaso tem algo a ver com o irmão caído de Sor Boros, o galante Sor Mandon Moore. - O eunuco afagou a bochecha empoada. - Nos últimos tempos, seu amigo Bronn parece muito interessado nele.

Bronn tinha desenterrado tudo que pôde sobre Sor Mandon, mas não havia dúvida de que Varys poderia lhe dizer muito mais... se decidisse dividir o que sabia.

- O homem parece ter sido bastante desprovido de amigos - disse Tyrion, com cautela.

- Lamentavelmente - disse Varys -, oh, lamentavelmente. Talvez conseguisse encontrar alguns familiares se revirasse algumas pedras no Vale, mas aqui... Lorde Arryn trouxe-o para Porto Real e Robert deu-lhe seu manto branco, mas temo que nenhum dos dois gostasse muito dele. Nem era o tipo de homem que os plebeus aplaudem nos torneios, apesar de sua indubitável perícia. Ora, até seus irmãos da Guarda Real nunca chegaram a nutrir por ele amizade. Certa vez, ouviram Sor Barristan dizer que o homem não tinha nenhum amigo fora a espada e nenhuma vida para além do dever... mas, entenda, não creio que Selmy dissesse isso inteiramente como elogio. E isso é estranho, se pensarmos no assunto, não é? Daria para dizer que são essas as exatas qualidades que procuramos para a nossa Guarda Real... homens que não vivem para si, mas para o seu rei. Visto sob essa luz, nosso bravo Sor Mandon era o perfeito cavaleiro branco. E morreu como um cavaleiro da Guarda Real devia morrer, de espada na mão, defendendo um homem do sangue do rei. - O eunuco brindou-o com um sorriso bajulador e observou-o atentamente.

Tentando assassinar um homem do sangue do rei, você quer dizer. Tyrion perguntou-se se Varys saberia mais a respeito do que estava dizendo. Nada do que acabara de ouvir era novo; Bronn tinha lhe trazido notícias muito semelhantes. Precisava de uma ligação com Cersei, alguma indicação de que Sor Mandon havia sido uma marionete da irmã. O que queremos nem sempre é o que obtemos, refletiu, com amargura, o que lhe fez lembrar...

- Não é Sor Mandon que me traz aqui.

- Certamente. - O eunuco atravessou a sala e pegou o jarro de água. - Posso servi-lo, senhor? - perguntou enquanto enchia uma taça.

- Sim. Mas não com água. - Juntou as mãos. - Quero que me traga Shae.

Varys bebericou.

- Isso será sensato, senhor? A querida e doce criança. Seria uma pena tão grande se o seu pai a enforcasse.

Não o surpreendeu que Varys soubesse.

- Não, não é sensato, é uma maldita loucura. Quero vê-la uma última vez, antes de mandá-la embora. Não consigo tolerar tê-la tão perto.

- Compreendo.

Como você pode compreender? Ainda no dia anterior Tyrion a vira, subindo a escada em espiral com um balde de água. Ficara vendo um jovem cavaleiro oferecendo-se para levar o pesado balde. O modo como ela tocou o braço dele e sorriu havia dado nós nas entranhas de Tyrion. Tinham passado a centímetros um do outro, ele descendo e ela subindo, tão perto que conseguira sentir o cheiro fresco e limpo de seus cabelos. Ela disse "Senhor" para ele, com uma pequena reverência, e ele quis estender a mão, agarrá-la e beijá-la logo ali, mas tudo que pôde fazer foi dar um rígido aceno de cabeça e seguir, bamboleando, o seu caminho.

- Vi-a várias vezes - disse a Varys -, mas não me atrevo a falar com ela. Suspeito que todos os meus movimentos estão sendo vigiados.

- Essa suspeita mostra a sua sensatez, meu bom senhor.

- Quem? - Tyrion inclinou a cabeça.

- Os Kettleblack entregam frequentes relatórios à sua querida irmã.

- Quando penso em todo o dinheiro que paguei a esses miseráveis... acha que há alguma hipótese de mais ouro reconquistá-los?

- Há sempre uma hipótese, mas eu não apostaria nisso. Eles agora são cavaleiros, todos os três, e sua irmã prometeu-lhes mais promoções. - Um risinho abafado e perverso irrompeu de entre os lábios do eunuco. - E o mais velho, Sor Osmund da Guarda Real, sonha também com outros certos... favores. Você pode igualar a rainha moeda a moeda, não duvido, mas ela tem uma segunda bolsa que é bastante inesgotável.

Sete infernos, pensou Tyrion.

- Está sugerindo que Cersei anda fodendo o Osmund Kettleblack?

- Oh, deuses, não, isso seria terrivelmente perigoso, não acha? Não, a rainha só sugere... talvez amanhã, ou depois do casamento... e depois um sorriso, um sussurro, um gracejo irreverente... um seio roçando levemente na manga dele quando se cruzam... e no entanto parece funcionar. Mas o que um eunuco poderia saber dessas coisas? - a ponta de sua língua correu pelo lábio inferior como um animal tímido e cor-de-rosa.

Se conseguisse de algum modo levá-los afazer mais do que carícias dissimuladas, arranjar uma maneira de o pai pegá-los juntos na cama... Tyrion levou os dedos à escara do nariz. Não via como isso seria realizável, mas talvez lhe ocorresse algum plano mais tarde.

- Os Kettleblack são os únicos?

- Bom seria se assim fosse, senhor. Temo que haja muitos olhos postos em você. E... como direi? Impossível de ignorar? E não muito amado, lamento dizê-lo. Os filhos de Janos Slynt iriam denunciá-lo de bom grado para vingar o pai, e o nosso querido Lorde Petyr tem amigos em metade dos bordéis de Porto Real. Se fosse suficientemente insensato para visitar um qualquer, ele saberia de imediato, e o senhor seu pai, pouco depois.

É ainda pior do que eu temia.

- E o meu pai? Quem ele tem para me espiar?

Dessa vez o eunuco riu alto.

- Ora, eu, senhor.

Tyrion também riu. Não era suficientemente tolo para confiar mais em Varys do que era obrigado... mas o eunuco já sabia o suficiente sobre Shae para que ela fosse facilmente enforcada.

- Você vai me trazer Shae através das paredes, escondida de todos esses olhos. Como fez antes.

Varys torceu as mãos.

- Oh, senhor, nada me agradaria mais, mas... o Rei Maegor não queria ratazanas em suas paredes, se entende o que quero dizer. Ele exigiu uma maneira de sair secretamente, para o caso de ficar alguma vez encurralado por seus inimigos, mas essa porta não tem ligação com nenhuma outra passagem. Posso roubar a sua Shae da Senhora Lollys durante algum tempo, com certeza, mas não tenho como levá-la até o seu quarto sem que sejamos vistos.

- Então leve-a a outro lugar qualquer.

- Mas onde? Não há lugar seguro.

- Há. - Tyrion deu um sorriso. - Aqui. É hora de dar um uso melhor àquela sua cama dura como pedra, creio eu.

A boca do eunuco abriu-se. Depois soltou um risinho.

- Lollys cansa-se facilmente nos dias atuais. Está muito grávida. Imagino que estará dormindo em segurança por volta do nascer da lua.

Tyrion saltou da cadeira.

- Então será ao nascer da lua. Trate de arranjar algum vinho. E duas taças limpas.

Varys fez uma reverência.

- Será feito como o senhor ordena.

O resto do dia pareceu rastejar, lento como um verme em melaço. Tyrion subiu até a biblioteca do castelo e tentou se distrair com a História das guerras de Roine, de Beldecar, mas quase nem conseguia ver os elefantes, com a imaginação ocupada como estava pelo sorriso de Shae. Quando a tarde chegou, pôs o livro de lado e pediu um banho. Esfregou-se até a água esfriar, e depois ordenou que Pod aparasse sua barba. Esta era uma provação para si mesmo; um emaranhado de pelos amarelos, brancos e pretos, irregular e grosseira, raramente menos do que desagradável à vista, mas servia para esconder parte de seu rosto, e isso era sempre bom.

Quando ficou tão limpo, cor-de-rosa e aparado como lhe era possível, Tyrion vasculhou o guarda-roupa e escolheu um par de calções apertados de cetim, do carmesim Lannister, e seu melhor gibão, o de pesado veludo negro com os rebites em forma de cabeça de leão. Teria colocado também a sua corrente de mãos douradas, se o pai não a tivesse roubado dele enquanto estava à beira da morte. Só depois de se vestir é que compreendeu a que ponto aquela loucura tinha chegado. Sete infernos, anão, perdeu todo o juízo quando perdeu o nariz? Qualquer pessoa que o veja vai querer saber por que vestiu a roupa para audiências para visitar o eunuco. Praguejando, Tyrion despiu-se e voltou a vestir-se, com um traje mais simples; calções pretos de lã, uma velha túnica branca e um gibão de couro marrom desbotado. Não importa, disse a si mesmo enquanto esperava que a lua nascesse. Vista o que vestir, continua sendo um anão. Nunca será tão alto como aquele cavaleiro na escada, com as suas longas pernas retas, barriga dura e largos ombros viris.

A luz se projetava sobre a muralha do castelo quando disse a Podrick Payne que ia visitar Varys.

- Vai demorar, senhor? - perguntou o garoto.

- Ah, espero que sim.

Com a Fortaleza Vermelha tão cheia de gente, Tyrion não podia acalentar a esperança de passar despercebido. Sor Balon Swann estava de guarda junto à porta, e Sor Loras Tyrell, à ponte levadiça. Parou para trocar amabilidades com ambos. Era estranho ver o Cavaleiro das Flores todo de branco quando anteriormente andara sempre tão colorido como um arco-íris.

- Quantos anos você tem, Sor Loras? - perguntou-lhe.

- Dezessete, senhor.

Dezessete, belo, e já uma lenda. Metade das garotas dos Sete Reinos querem dormir com ele, e todos os rapazes querem ser ele.

- Se me perdoa a pergunta, sor... por que é que alguém escolhe se juntar à Guarda Real aos dezessete anos?

- O Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, proferiu os votos aos dezessete - disse Sor Loras -, e o seu irmão Jaime era ainda mais novo.

- Eu conheço os motivos deles. Quais são os seus? A honra de servir junto a modelos de cavalaria como Meryn Trant e Boros Blount? - deu ao rapaz um sorriso zombeteiro. - Para defender a vida do rei, desistiu da sua. Abriu mão de suas terras e títulos, perdeu a esperança num casamento, em filhos...

- A Casa Tyrell continua por meio de meus irmãos - disse Sor Loras. - Não é necessário que um terceiro filho se case, ou se reproduza.

- Não é necessário, mas há quem ache isso prazeroso. E o amor?

- Depois de o sol se pôr, não há vela que possa substituí-lo.

- Isso vem de uma canção? - Tyrion inclinou a cabeça, sorrindo. - Sim, tem dezessete anos. Agora entendo.

Sor Loras retesou-se.

- Está caçoando de mim?

Um rapaz suscetível

- Não. Se o ofendi, perdoe-me. Um dia eu mesmo tive uma amada, e nós também tínhamos uma canção. Amei uma donzela bela como o verão, com luz do sol nos cabelos. - Desejou a Sor Loras uma boa noite e prosseguiu o seu caminho.

Perto dos canis, um grupo de homens de armas assistiam a uma luta de cães. Tyrion parou tempo suficiente para ver o cão menor arrancar metade do focinho do maior, e conquistou algumas gargalhadas ao observar que o perdedor se assemelhava agora a Sandor Clegane. Então, esperando ter desarmado a desconfiança dos homens, prosseguiu na direção da muralha norte e desceu a curta escadaria que levava à pobre habitação do eunuco. A porta abriu-se no momento em que erguia a mão para bater.

- Varys? - Tyrion deslizou para dentro. - Você está aí? - Uma única vela iluminava as trevas, enchendo o ar com o cheiro de jasmim.

- Senhor. - Uma mulher surgiu à luz; roliça, suave, com aspecto de matrona e um rosto que mais parecia uma lua redonda e cor-de-rosa, além de pesados caracóis escuros. Tyrion recuou. - Há algo errado? - perguntou a mulher.

Varys, compreendeu Tyrion, aborrecido.

- Por um horrível momento pensei que tivesse me trazido Lollys em vez de Shae. Onde está ela?

- Aqui, senhor. - Ela pôs as mãos sobre seus olhos, por trás. - Será capaz de adivinhar o que estou vestindo?

- Nada?

- Oh, é tão esperto - disse ela, fazendo beicinho e afastando as mãos. - Como sabia?

- É muito bela dentro de nada.

- Sou? - disse ela. - Sou mesmo?

- Oh, sim.

- Então não devia estar me fodendo em vez de falando?

- Primeiro temos de nos livrar da Senhora Varys. Não sou um daqueles anões que gostam de público.

- Ele foi embora - disse Shae.

Tyrion virou-se para olhar. Era verdade. O eunuco havia desaparecido, com saias e tudo. As portas escondidas estão aqui, em algum lugar, têm de estar. Foi tudo em que teve tempo de pensar antes que Shae lhe virasse a cabeça para beijá-lo. A boca dela estava úmida e esfomeada, e ela nem sequer parecia ver a sua cicatriz, ou a escara em carne viva que agora tinha no local onde antes o nariz esteve. A pele da moça era seda morna sob os seus dedos. Quando o polegar roçou no mamilo esquerdo dela, ele endureceu de imediato.

- Depressa - ela pediu, entre beijos, enquanto os dedos dele se dirigiam às ataduras -, oh, depressa, depressa, quero você dentro de mim, dentro de mim, dentro de mim. - Tyrion sequer teve tempo para se despir como deveria. Shae puxou seu pau para fora dos calções, empurrou-o para o chão e trepou em cima dele. Gritou quando Tyrion atravessou seus lábios e montou-o violentamente, gemendo: - Meu gigante, meu gigante, meu gigante - sempre que se lançava contra ele. Tyrion estava tão ardente que explodiu no quinto empurrão, mas Shae não pareceu se importar. Deu um sorriso maroto quando o sentiu ejacular e debruçou-se para a frente para beijar o suor de sua testa. - Meu gigante de Lannister - murmurou. - Fique dentro de mim, por favor. Gosto de senti-lo aí.

Então Tyrion não se moveu, exceto para pôr os braços em volta dela. É tão bom abraçá-la, e ser abraçado, pensou. Como pode uma coisa tão doce ser um crime que justifique enforcá-la?

- Shae - disse -, querida, esta tem de ser a última vez que ficamos juntos. O perigo é grande demais. Se o senhor meu pai encontrá-la...

- Gosto da sua cicatriz. - A moça percorreu-a com um dedo. - Faz com que pareça muito feroz e forte.

Ele soltou uma gargalhada.

- Muito feio, você quer dizer.

- O senhor nunca será feio aos meus olhos. - Ela beijou a escara que cobria os restos destroçados do seu nariz.

- Não é o meu rosto que deve preocupá-la, é o meu pai...

- Ele não me assusta. O senhor vai me devolver agora as jóias e as sedas? Perguntei a Varys se ele podia me dá-las quando você foi ferido na batalha, mas ele não quis. Que teria acontecido com elas se tivesse morrido?

- Não morri. Aqui estou.

- Eu sei. - Shae contorceu-se em cima dele, sorrindo. - Bem no lugar certo. - Fez beicinho. - Mas por quanto tempo tenho de continuar com Lollys, agora que está bem?

- Não está ouvindo? - disse Tyrion. - Pode ficar com Lollys se quiser, mas seria melhor se saísse da cidade.

- Não quero sair. O senhor me prometeu que eu voltaria a me mudar para uma mansão depois da batalha. - A boceta dela deu-lhe um pequeno apertão, e ele começou a enrijecer de novo, dentro dela. - Um Lannister sempre paga as suas dívidas, você disse.

- Shae, malditos sejam os deuses, pare com isso. Escute-me. Você tem de ir embora. Agora a cidade está cheia de Tyrells, e eu sou vigiado de perto. Você não compreende os perigos.

- Posso ir ao banquete de casamento do rei? A Lollys não quer ir. Disse-lhe que ninguém deverá estuprá-la na sala do trono do rei, mas ela é tão burra. - Quando Shae rolou de cima de Tyrion, o pau dele escorregou para fora com um som suave e úmido. - O Symon diz que vai haver um torneio de cantores, e acrobatas, e até uma justa de bobos.

Tyrion tinha quase se esquecido do três vezes maldito cantor de Shae.

- Como foi que falou com Symon?

- Falei dele à Senhora Tanda, e ela contratou-o para tocar para Lollys. A música acalma-a quando o bebê começa a chutar. Symon diz que vai haver um urso dançarino no banquete, e vinhos da Árvore. Nunca vi um urso dançar.

- Dançam pior do que eu. - O que o preocupava era o cantor, não o urso. Uma palavra descuidada ao ouvido errado, e Shae seria enforcada.

- Symon diz que vai haver setenta e sete pratos e uma grande torta com cem pombas lá dentro - prosseguiu Shae. - Quando a crosta for aberta, todas vão sair e levantar voo.

- E em seguida irão se empoleirar nas vigas do teto e fazer chover cocô de pássaro sobre os convidados. - Tyrion sofrera com aquele tipo de torta de casamento. As pombas gostavam especialmente de cagar em cima dele, ou pelo menos sempre tinha suspeitado disso.

- Eu não poderia vestir as minhas sedas e veludos e ir como uma senhora em vez de uma criada de quarto? Ninguém saberia que não sou uma senhora.

Todo mundo saberia que não é uma senhora, pensou Tyrion.

- A Senhora Tanda podia sentir curiosidade em saber onde a aia de Lollys teria arranjado tantas jóias.

- Symon diz que vai haver mil convidados. Ela nunca me veria. Eu encontraria um lugar em algum canto escuro abaixo do sal, mas sempre que se levantasse para ir à latrina, eu poderia escapulir e ir encontrá-lo. - Envolveu a pica dele nas mãos e afagou-a com suavidade. - Não levaria roupas de baixo sob o vestido, para que o senhor nem precisasse me desatar. - Os dedos dela brincaram com ele, para cima e para baixo. - Ou, se quisesse, podia fazer-lhe isto. - Enfiou-o na boca.

Tyrion ficou pronto de novo depressa. Daquela vez durou muito mais tempo. Quando terminou, Shae voltou a rolar para cima dele e aninhou-se por baixo de seu braço.

- Vai me deixar ir, não vai?

- Shae - gemeu -, não é seguro.

Durante algum tempo, ela não disse uma palavra. Tyrion tentou falar em outras coisas, mas deparou com uma muralha de cortesia amuada, tão gelada e inflexível como a Muralha por onde caminhara uma vez, no norte. Deuses, sejam bons, pensou, fatigado, enquanto observava a vela queimando e começando a oscilar, como deixei que isso voltasse a acontecer, depois de Tysha? Será que sou um tolo tão grande como o meu pai pensa? De bom grado lhe teria feito a promessa que ela queria, e de bom grado voltaria com ela para o seu quarto, de braço dado, para deixá-la vestir as sedas e os veludos de que tanto gostava. Se a escolha fosse sua, ela poderia sentar-se a seu lado no banquete de casamento de Joffrey, e dançaria com todos os ursos que quisesse. Mas não podia vê-la enforcada.

Quando a vela se apagou, Tyrion desprendeu-se e acendeu outra. Então fez uma ronda pelas paredes, batendo em todas, uma de cada vez, em busca da porta escondida. Shae sentou-se com as pernas dobradas próximas ao peito e os braços enrolados em volta delas, observando-o. Por fim, disse:

- Estão debaixo da cama. Os degraus secretos.

Ele olhou-a, incrédulo.

- A cama? A cama é de pedra sólida. Pesa meia tonelada.

- Há um lugar onde Varys empurra, e a cama flutua para cima. Perguntei-lhe como fazia aquilo, e ele disse que era magia.

- Sim. - Tyrion teve de sorrir. - Um feitiço de contrapeso.

Shae ficou em pé.

- Eu devia voltar. Às vezes o bebê chuta e Lollys acorda e me chama.

- Varys deve voltar em breve. Provavelmente está escutando todas as palavras que dizemos. - Tyrion apoiou a vela. Havia um ponto úmido na parte da frente dos seus calções, mas na escuridão devia passar despercebido. Disse a Shae para se vestir e esperar pelo eunuco.

- Eu espero - ela prometeu. - É o meu leão, não é? O meu gigante de Lannister?

- Sou - disse ele. - E você é...

- ... a sua rameira. - Ela pôs um dedo nos lábios dele. - Eu sei. Gostaria de ser a sua senhora, mas não posso. Se fosse, você iria me levar ao banquete. Não importa. Gosto de ser rameira para o senhor, Tyrion. Basta que me mantenha, meu leão, e que me mantenha a salvo.

- Manterei - prometeu ele. Tolo, tolo, gritou a sua voz interior. Por que disse isso? Veio aqui para mandá-la embora! Em vez disso, voltou a beijá-la.

O caminho de volta pareceu longo e solitário. Podrick Payne estava dormindo em sua bicama, aos pés da de Tyrion, mas este acordou o rapaz.

- Bronn - disse.

- Sor Bronn? - Pod afastou o sono dos olhos com as mãos. - Oh. Devo ir chamá-lo? Senhor?

- Ora, não, acordei você para termos uma conversinha sobre a maneira como ele se veste - disse Tyrion, mas o sarcasmo foi desperdiçado. Pod limitou-se a olhá-lo de boca aberta, confuso, até que o anão jogou as mãos para o ar e disse: - Sim, vá buscá-lo. Traga-o aqui. Já.

O rapaz vestiu-se às pressas e saiu do quarto praticamente correndo. Som mesmo tão aterrorizador assim?, perguntou Tyrion a si mesmo, enquanto se despia, vestia um roupão e se servia de um pouco de vinho.

Bebia a terceira taça, depois de ter decorrido metade da noite, quando Pod finalmente retornou, rebocando o cavaleiro mercenário.

- Espero que o rapaz tenha mesmo uma razão muito boa para me arrastar para fora da casa de Chataya - disse Bronn enquanto se sentava.

- Da casa de Chataya? - disse Tyrion, aborrecido.

- É bom ser um cavaleiro. Foi-se o tempo de andar à procura dos bordéis mais baratos no fim da rua. - Bronn sorriu. - Agora é Alayaya e Marei na mesma cama de plumas, com Sor Bronn no meio.

Tyrion teve de reprimir o incômodo. Bronn tinha tanto direito de se deitar com Alayaya quanto qualquer outro homem, mesmo assim... Nunca toquei nela, por mais que a desejasse, mas Bronn não podia saber disso. Devia ter mantido o pau longe dela. Ele mesmo não se atrevia a visitar a casa de Chataya. Se o fizesse, Cersei se certificaria de que o pai ficasse sabendo, e Alayaya sofreria mais do que algumas chicotadas. Enviara à moça um colar de prata e jade e um par de pulseiras combinando, como forma de desculpa, mas, além disso...

Isso não leva a nada.

- Há um cantor que chama a si mesmo de Symon Língua de Prata - disse Tyrion num tom fatigado, afastando a culpa. -Às vezes toca para a filha da Senhora Tanda.

- Que tem ele?

Podia ter dito: Mate-o, mas o homem nada havia feito além de cantar algumas canções. E encher a linda cabeça de Shae com visões de pombas e ursos dançarinos.

- Encontre-o - acabou por dizer. - Encòntre-o antes que outros o façam.

Arya

Estava desenterrando legumes no jardim de um morto quando ouviu a cantoria.

Arya retesou-se, quieta como pedra, escutando, subitamente esquecida das três cenouras fibrosas que tinha na mão. Pensou nos Saltimbancos Sangrentos e nos homens de Roose Bolton, e um arrepio de medo correu por sua espinha. Não é justo, quando finalmente encontramos o Tridente, quando pensávamos que estávamos quase a salvo.

Mas por que os Saltimbancos estariam cantando?

A canção pairava sobre o rio, vinda de algum lugar para lá da pequena elevação que havia a leste.

- Vou à Vila Gaivota ver a bela donzela, ei-ou, ei-ou...

Arya levantou-se, com as cenouras penduradas na mão. Soava como se o cantor viesse ao longo da estrada que ladeava o rio. No meio das couves, Torta Quente também o ouviu, julgando pela expressão que tinha no rosto. Gendry fora dormir à sombra do chalé incendiado, e não estava em estado de ouvir qualquer coisa.

- Com a ponta da espada roubarei um beijo dela, ei-ou, ei-ou. - parecia ouvir também uma harpa, ao fundo do suave rumorejar do rio.

- Está ouvindo? - perguntou Torta Quente num sussurro rouco, enquanto se abraçava a um monte de couves. - Alguém está vindo.

- Vá acordar Gendry - disse-lhe Arya. - Sacuda-o só pelo ombro, não faça muito barulho. - Gendry era fácil de acordar, ao contrário do Torta Quente, que precisava levar pontapés e ouvir gritos.

- Será o meu amor, descansando sob a tela, ei-ou, ei-ou. - A canção tornava-se mais alta a cada palavra.

Torta Quente abriu os braços. As couves caíram ao chão com ruídos surdos e suaves.

- Temos de nos esconder.

Onde? O chalé incendiado e seu jardim descuidado ficavam bem ao lado das margens do Tridente. Havia alguns salgueiros crescendo ao longo do rio, e grupos de caniços nos baixios lamacentos atrás deles, mas a maior parte do terreno ao redor era dolorosamente aberta. Eu sabia que nunca deveríamos ter saído da floresta, pensou ela. Mas tinham tanta fome, e o jardim era uma tentação tão grande. O pão e o queijo que tinham roubado de Harrenhal acabara seis dias antes, quando eles se encontravam no meio da floresta.

- Leve Gendry e os cavalos para trás do chalé - decidiu. Lá ainda havia parte de uma parede que permanecia em pé, suficientemente grande, talvez, para esconder dois rapazes e três cavalos. Se os cavalos não relincharem, e aquele cantor não vier meter o nariz no jardim.

- E você?

- Eu me escondo ao pé da árvore. Ele provavelmente vem sozinho. Se me incomodar, mato-o. Vá!

Torta Quente partiu, e Arya largou as cenouras e puxou a espada roubada por sobre o ombro. Tinha prendido a bainha nas costas; a espada fora forjada para um adulto, e batia no chão quando ela a usava na cintura. Além disso é pesada demais, pensou, sentindo falta da Agulha, como acontecia sempre que pegava naquela coisa desajeitada. Mas era uma espada, e podia matar com ela, isso bastava.

Ligeira, correu para o grande e velho salgueiro que crescia ao lado da curva da estrada e caiu sobre um joelho entre a grama e a lama, no interior do véu de ramos que roçavam o chão. Oh, velhos deuses, rezou enquanto a voz do cantor se tornava mais forte, oh, deuses das árvores, escondam-me, e façam com que passem por mim. Então, um cavalo relinchou e a voz interrompeu-se subitamente. Ele ouviu, compreendeu, mas talvez esteja sozinho, ou, se não estiver, talvez tenham tanto medo de nós como nós temos deles.

- Ouviu aquilo? - disse uma voz de homem. - Parece que há alguma coisa atrás daquela parede.

- Sim - respondeu uma segunda voz, mais grave. - O que acha que pode ser, Arqueiro?

Então são dois. Arya mordeu o lábio. Não conseguia vê-los de onde estava ajoelhada, por causa do salgueiro. Mas conseguia ouvir.

- Um urso. - Uma terceira voz, ou a primeira outra vez?

- Um monte de carne num urso - disse a voz grave. - Um monte de gordura também, no Outono. Boa para comer, se for bem cozida.

- Poderia ser um lobo. Talvez um leão.

- Você acha que com quatro patas? Ou com duas?

- Não importa. Importa?

- Que eu saiba, não. Arqueiro, o que pretende fazer com todas essas flechas?

- Lançar umas tantas atrás daquela parede. Seja o que for que está escondido ali, vai sair bem depressa, espere e verá.

- Mas e se for algum homem honesto que está ali? Ou uma pobre mulher com um bebezinho de peito?

- Um homem honesto sairia e mostraria a cara. Só um fora da lei fugiria e se esconderia.

- Bem, é verdade. Então mande lá as suas flechas.

Arya ficou em pé de um salto.

- Não! - mostrou-lhes a espada. Viu que eram três. Só três. Syrio podia lutar com mais de três, e ela talvez tivesse Torta Quente e Gendry para lutar com ela. Mas eles são garotos, e estes são homens.

Eram homens a pé, sujos da viagem e salpicados de lama. Identificou o cantor pela harpa que embalava contra o gibão, como uma mãe embalaria um bebê. Um homem pequeno, de uns cinquenta anos, tinha a boca grande, o nariz marcante e cabelos castanhos que já rareavam. Suas roupas, de um verde desbotado, estavam consertadas aqui e ali com remendos de couro velho, e trazia na cintura um molho de facas de arremessar e, a tiracolo, um machado de lenhador.

O homem que seguia a seu lado era uns bons trinta centímetros mais alto, e parecia um soldado. De seu cinto de couro com rebites pendia uma espada longa e um punhal, fileiras de anéis de aço sobrepostos estavam costuradas em sua camisa, e sua cabeça estava coberta por um meio elmo de ferro negro em forma de cone. Tinha dentes estragados e uma cerrada barba castanha, mas era o manto amarelo com capuz que chamava a atenção. Grosso e pesado, manchado aqui por mato e ali por sangue, puído ao longo da bainha e remendado com pele de veado no ombro direito, o manto dava ao homem o aspecto de um enorme pássaro amarelo.

O último dos três era um jovem tão esguio como o seu arco, embora não fosse tão alto. Ruivo e sardento, usava uma brigantina com rebites, botas de cano alto, luvas de couro sem dedos e uma aljava a tiracolo. As penas de suas flechas eram de ganso cinza, e seis delas estavam espetadas no chão à sua frente, como uma pequena cerca.

Os três homens olharam-na, ali, em pé, no meio da estrada, de espada na mão. Então o cantor tocou uma corda num gesto indolente.

- Menino - disse -, abaixe já essa espada se não quiser se machucar. É grande demais para você, garoto, e além disso o Anguy aqui conseguiria atravessá-lo com três flechas antes de você pensar em nos alcançar.

- Não conseguiria nada - disse Arya e eu sou uma menina.

- Ah, e não é que é verdade? - o cantor fez uma reverência. - As minhas desculpas.

- Continue pela estrada afora. Limite-se a andar adiante e continue a cantar, para que saibamos onde está. Vá embora e deixe-nos em paz, e eu não os mato.

O arqueiro sardento soltou uma gargalhada.

- Limo, ela não nos mata, ouviu?

- Ouvi - disse Limo, o soldado grande com a voz grave.

- Filha - disse o cantor -, abaixe essa espada, que nós levamos você para um lugar melhor e colocamos alguma comida nessa barriga. Há lobos por esses lados, e também leões, e coisas piores. Não é lugar para uma menininha ficar vagueando sozinha.

- Ela não está sozinha. - Gendry saiu a cavalo de trás da parede do chalé, e Torta Quente veio atrás, trazendo o cavalo de Arya pela arreata. Vestindo a cota de malha e com uma espada na mão, Gendry quase parecia um homem-feito, e perigoso. Torta Quente parecia Torta Quente. - Faça o que ela diz, e deixe-nos em paz - preveniu Gendry.

- Dois e três - contou o cantor - e é só isso? E também cavalos, lindos cavalos. Onde foi que os roubaram?

- São nossos. - Arya observou-os cuidadosamente. O cantor tentava distraí-la com a sua conversa, mas o perigo estava no arqueiro. Se ele arrancar uma flecha do chão...

- Vão nos dizer seus nomes como homens honestos? - perguntou o cantor aos rapazes.

- Sou o Torta Quente - disse o Torta Quente de imediato.

- Ora, e que bom para você. - O homem sorriu. - Não é todos os dias que conheço um garoto com um nome tão saboroso. E como se chamam os seus amigos, Costeleta de Carneiro e Pombinha?

Gendry franziu a testa de cima de sua sela.

- Por que devo lhe dizer o meu nome? Ainda não ouvi o seu.

- Bom, não seja por isso, sou Tom de Seterrios, mas todos me chamam de Tom Sete-Cordas, ou então Tom das Sete. Este grande grosseirão com dentes marrons é o Limo, abreviatura de Manto Limão, Ele é amarelo, está vendo, e o Limo é um cara amargo. E este jovem rapaz aqui é Anguy, ou Arqueiro, como gostamos de chamá-lo.

- E agora, quem são vocês? - exigiu saber o Limo, na voz grave que Arya tinha ouvido através dos ramos do salgueiro.

Ela não ia revelar seu verdadeiro nome assim tão facilmente.

- Se quiser que seja Pombinha, sou Pombinha - disse. - Não me importo.

O grandalhão soltou uma gargalhada.

- Uma pombinha com uma espada - disse. - Ora, eis uma coisa que não se vê todos os dias.

- Eu sou o Touro - disse Gendry, imitando Arya. Não podia censurá-lo por preferir Touro a Costeleta de Carneiro.

Tom Sete-Cordas arrancou um acorde da harpa.

- Torta Quente, Pombinha e Touro. Fugidos da cozinha de Lorde Bolton, não?

- Como sabe? - quis saber Arya, inquieta.

- Tem o símbolo dele no peito, pequena.

Havia se esquecido disso por um instante. Sob o manto, ainda usava o gibão de pajem, com o homem esfolado do Forte do Pavor cosido no peito.

- Não me chame de pequena!

- Por que não? - disse Limo. - E bastante pequena.

- Sou maior do que era. Não sou uma criança. - As crianças não matam gente, e ela já havia feito isso.

- Já tinha percebido, Pombinha. Nenhum de vocês é criança, não se pertenciam a Bolton.

- Nunca fomos dele. - Torta Quente nunca sabia quando devia ficar calado. - Estávamos em Harrenhal antes de ele chegar, só isso.

- Então são filhotes de leão, é isso? - perguntou Tom.

- Também não. Não somos de ninguém. E vocês, são de quem?

Anguy, o Arqueiro, disse:

- Somos homens do rei.

Arya franziu a testa.

- Qual deles?

- O Rei Robert - disse Limo, com seu manto amarelo.

- Aquele velho bêbado? - perguntou Gendry em tom de escárnio. - Está morto, um javali qualquer matou-o, todo mundo sabe disso.

- Bem, rapaz - disse Tom Sete-Cordas -, e é uma pena. - Fez soar um acorde triste na harpa.

Arya não achava nem um pouco que eles fossem mesmo homens do rei. Pareciam-se mais com fora da lei, todos andrajosos e esfarrapados. Nem sequer tinham cavalos para montar. Homens do rei teriam cavalos.

Mas Torta Quente interveio ansiosamente.

- Andamos à procura de Correrrio - disse ele. - A quantos dias de viagem fica, vocês sabem?

Arya sentiu-se capaz de matá-lo.

Arya - Cale-se, senão encho essa sua grande boca estúpida de pedras.

- Correrrio fica a uma longa distância para montante - disse Tom. - A uma distância longa e faminta. Não querem uma refeição quente antes de seguirem caminho? Há uma estalagem ali adiante, não muito longe, que é de uns amigos nossos. Podíamos dividir umas cervejas e um pouco de pão, em vez de lutar uns com os outros.

- Uma estalagem? - pensar em comida quente fez a barriga de Arya trovejar, mas não confiava naquele Tom. Nem todo mundo que nos falava de forma amistosa era realmente nosso amigo. - Fica perto, você diz?

- Três quilômetros a montante - disse Tom. - Uma légua, no máximo.

Gendry parecia tão incerto quanto ela.

- O que quer dizer com amigos? - perguntou ele com cautela.

- Amigos. Esqueceu-se do que são amigos?

- O nome da estalajadeira é Sharna - interveio Tom. - Tem uma língua afiada e um olho feroz, admito, mas o coração é bom e gosta de menininhas.

- Eu não sou uma menininha - disse Arya, zangada. - Quem mais está lá? Você disse amigos.

- O marido de Sharna, e um garoto órfão que eles acolheram. Não lhe farão mal. Há cerveja, se achar que já tem idade. Pão fresco e talvez um pouco de carne. - Tom olhou de relance para o chalé. - E mais o que quer que tenham roubado do jardim do Velho Pate.

- Não roubamos nada - disse Arya.

- Então será que é filha do Velho Pate? Uma irmã? Uma esposa? Não minta para mim, Pombinha. Fui eu mesmo quem enterrou o Velho Pate, bem ali, debaixo daquele salgueiro onde estava escondida, e você não se parece com ele. - Arrancou da harpa um som triste. - Enterramos muitos bons homens neste último ano, mas não queremos enterrar você, juro pela minha harpa. Arqueiro, mostre-lhe.

A mão do arqueiro moveu-se mais depressa do que Arya julgaria possível. A flecha passou por sua cabeça assobiando, a dois centímetros de sua orelha, e foi se enterrar no tronco do salgueiro, que ficava atrás. Nesse momento, o arqueiro já tinha uma segunda flecha encaixada e a corda puxada. Antes Arya achava que entendia o que Syrio queria dizer com rápida como uma cobra e suave como seda de verão, mas agora sabia que não. A flecha zumbiu atrás dela como uma abelha.

- Errou - disse.

- Tola é você se acha isso - disse Anguy. - Elas vão para onde as mando.

- E vão mesmo - concordou Limo Manto Limão.

Havia uma dúzia de passos entre o arqueiro e a ponta da espada dela. Não temos escolha, compreendeu Arya, desejando ter um arco como o dele, e a perícia para usá-lo. Sombriamente, baixou a pesada espada até a ponta tocar o chão.

- Vamos ver essa estalagem - admitiu, tentando esconder a dúvida que tinha no coração atrás de palavras ousadas. - Caminhem em nossa frente e nós seguiremos atrás a cavalo, para podermos ver o que estão fazendo.

Tom Sete-Cordas fez uma profunda reverência e disse:

- À frente, atrás, não faz diferença. Venham, rapazes, vamos mostrar-lhes o caminho. Anguy, é melhor guardar essas flechas, não vamos precisar delas aqui.

Arya embainhou a espada e atravessou a estrada até onde os amigos estavam a cavalo, mantendo distância dos três estranhos.

- Torta Quente, pegue essas couves - disse enquanto saltava para a sela. - E as cenouras também.

Por uma vez, ele não discutiu. Puseram-se a caminho como ela quis, avançando lentamente com os cavalos ao longo da estrada sulcada, uma dúzia de passos atrás dos três caminhantes. Mas não muito tempo depois, de algum modo, estavam bem na cola deles. Tom Sete-Cordas caminhava devagar, e gostava de ir dedilhando a harpa à medida que avançava.

- Conhecem algumas canções? - perguntou-lhes. - Adoraria ter alguém com quem cantar, adoraria mesmo. O Limo não consegue cantar afinado, e o nosso rapaz do arco só conhece baladas da Marca, todas com cem versos de comprimento.

- Na Marca cantamos canções de verdade - disse brandamente Anguy.

- Cantar é idiota - disse Arya. - Cantar faz barulho. Ouvimos você de muito longe. Podíamos ter matado você.

O sorriso de Tom indicava que ele não tinha a mesma opinião.

- Há coisas piores do que morrer com uma canção nos lábios.

- Se houvesse lobos por aqui, saberíamos - resmungou o Limo. - Ou leões. Esta floresta é nossa.

- Não sabiam que nós estávamos aqui - disse Gendry.

- Ora, rapaz, não devia ter tanta certeza assim - disse Tom. - Às vezes um homem sabe mais do que diz.

Torta Quente mexeu-se na sela.

- Eu conheço a canção sobre o urso - disse. - Pelo menos parte dela.

Tom correu os dedos pelas cordas.

- Então vamos ouvi-la, menino das tortas. - Atirou a cabeça para trás e cantou: - Havia um urso, um urso, um urso! Preto e castanho e coberto de pelo...

Torta Quente juntou-se a ele cheio de energia, chegando mesmo a balançar um pouco na sela, nas rimas. Arya fitou-o, espantada. Tinha uma boa voz e cantava bem. Nunca fez nada bem, a não ser cozinhar, pensou consigo mesma.

Um pequeno riacho desaguava no Tridente um pouco mais à frente. Enquanto o atravessavam, a cantoria espantou um pato que estava no meio dos juncos. Anguy parou, pegou o arco, encaixou uma flecha e abateu-o. A ave caiu nos baixios, não muito longe da margem. Limo tirou o manto amarelo e entrou na água até os joelhos para recuperá-la, sem parar de se queixar.

- Acha que a Sharna terá limões lá embaixo, naquela adega dela? - perguntou Anguy a Tom enquanto observavam o Limo espirrar água, praguejando. - Certa vez, uma garota de Dorne fez pato com limões para mim. - Parecia cheio de desejo.

Tom e Torta Quente reataram a canção do outro lado do riacho, com o pato já preso ao cinto de Limo, por baixo de seu manto amarelo. De algum modo, a canção fez com que os quilômetros parecessem mais curtos. Não demorou realmente muito tempo até a estalagem aparecer à frente deles, erguendo-se da margem do rio onde o Tridente fazia uma grande curva para o norte. Arya observou-a com suspeita ao se aproximar, de olhos semicerrados. Não parecia um covil de fora da lei, tinha de admitir; aparentava um local amigável, até mesmo acolhedor, com seu andar superior caiado e o telhado de ardósia e a fumaça que saía em preguiçosas espirais da chaminé. - Estábulos e outros edifícios secundários rodeavam-na, e havia um vinhedo nos fundos, e macieiras e um pequeno jardim. A estalagem até tinha seu próprio ancoradouro, que se projetava pelo rio, e...

- Gendry - chamou Arya, com voz baixa e urgente. - Eles têm um barco. Podíamos fazer o resto do caminho até Correrrio navegando. Seria mais rápido do que a cavalo, eu acho.

Ele pareceu duvidar.

- Você alguma vez já velejou?

- Iça-se a vela - disse ela - e o vento empurra.

- E se o vento estiver soprando na direção errada?

- Então há remos para remar.

- Contra a corrente? - Gendry franziu a testa. - Isso não seria devagar? E se o barco virar e cairmos na água? Seja como for, o barco não é nosso, é da estalagem.

Podíamos roubá-lo. Arya mordeu o lábio e nada disse. Desmontaram em frente aos estábulos. Não se via mais nenhum cavalo, mas Arya reparou no estrume fresco em muitas das cocheiras.

- Um de nós devia vigiar os cavalos - disse, cautelosa.

Tom ouviu-a.

- Não há necessidade disso, Pombinha. Venha comer, eles vão ficar suficientemente seguros.

- Eu fico - disse Gendry, ignorando o cantor. - Pode vir me buscar depois de ter comido alguma coisa.

Assentindo, Arya foi atrás de Torta Quente e Limo. Ainda levava a espada na bainha, a tiracolo, e mantinha uma mão perto do cabo do punhal que roubara de Roose Bolton, para o caso de não gostar do que quer que encontrassem lá dentro.

O letreiro pintado por cima da porta mostrava a imagem de um velho rei qualquer ajoelhado. Lá dentro ficava a sala comum, onde uma mulher feia e muito alta, com um queixo protuberante, estava em pé, de mãos no quadril, encarando-a com ar zangado.

- Não fique aí parado, menino - exclamou. - Ou é uma menina? Seja como for, está bloqueando a porta. Ou entra ou sai. Limo, que foi que eu disse a respeito do meu chão? Você está pura lama.

- Abatemos um pato. - Limo mostrou-o como uma bandeira de paz.

A mulher arrancou-o de sua mão.

- O que você quer dizer é que o Anguy abateu um pato. Tire as botas, você é surdo ou é só burro? - virou-se. - Marido! - chamou, em voz alta. - Venha aqui pra cima, os rapazes voltaram. Marido!

Um homem com um avental sujo subiu a escada da adega, resmungando. Era uma cabeça mais baixo do que a mulher, e tinha o rosto grumoso e uma pele amarelada e solta, que ainda mostrava as marcas de um tipo qualquer de varíola.

- Estou aqui, mulher, pare de berrar. O que foi agora?

- Pendure isto - disse ela, entregando-lhe o pato.

Anguy remexeu os pés.

- Estávamos pensando em comê-lo, Sharma. Com limões. Se tiver alguns.

- Limões. E onde iríamos arranjar limões? Você acha que está em Dorne, meu idiota sardento? Por que não dá um pulo lá atrás até os limoeiros e colhe um balde para a gente, e também algumas azeitonas e romãs das boas? - sacudiu um dedo em frente ao nariz dele. - Ora bem, suponho que podia cozinhá-lo com o manto do Limo, se quisesse, mas só depois que o pato passar uns dias pendurado. Ou você vai comer coelho, ou não vai comer. Coelho assado no espeto é o mais rápido, se tiver fome. Ou talvez o queira cozido, com cerveja e cebolas.

Arya quase conseguia sentir o gosto do coelho.

- Não temos dinheiro, mas trouxemos algumas cenouras e couves que poderíamos trocar com você.

- Ah, trouxe? E onde estão elas?

- Torta Quente, dê as couves para ela - disse Arya, e ele entregou, embora se aproximasse da velha tão cautelosamente como se ela fosse Rorge, Dentadas ou Vargo Hoat.

A mulher inspecionou bem os legumes, e melhor o garoto.

- Onde está essa torta quente?

- Aqui. Eu. É o meu nome. E ela é a... ah... Pombinha.

- Debaixo do meu teto, não. Dou nomes diferentes aos clientes e aos pratos, para distingui-los uns dos outros. Marido!

O Marido tinha ido até lá fora, mas, ao ouvir o grito da mulher, apressou-se a voltar.

- O pato está pendurado. O que foi agora, mulher?

- Lave estes legumes - ordenou ela. - Os outros, sentem-se enquanto eu começo a cuidar dos coelhos. O garoto vai lhes trazer bebidas. - Olhou ao longo de seu grande nariz para Arya e Torta Quente. - Não tenho o hábito de servir cerveja a crianças, mas a sidra acabou, não há vacas para dar leite, e a água do rio tem gosto de guerra, com todos os mortos que vêm à deriva. Se lhes servisse uma tigela de sopa cheia de moscas mortas, vocês a tomariam?

- Arry tomaria - disse Torta Quente. - A Pombinha, quero dizer.

- E Limo também - sugeriu Anguy, com um sorriso manhoso.

- Não se preocupe com Limo - disse Sharna. - Há cerveja para todos. - E desapareceu na direção da cozinha.

Anguy e Tom Sete-Cordas ocuparam a mesa perto da lareira, enquanto Limo pendurava seu grande manto amarelo num cabide. Torta Quente deixou-se cair pesadamente num banco, junto à mesa perto da porta, e Arya enfiou-se ao lado dele.

Tom pegou a harpa.

- Uma estalagem solitária na estrada da floresta - cantou, inventando lentamente uma melodia que se adaptasse às palavras. - A mulher do estalajadeiro era feia como uma besta.

- Cale a boca, senão não vai ter coelho para ninguém - preveniu-o Limo. - Sabe como ela é.

Arya debruçou-se, aproximando-se de Torta Quente.

- Sabe manejar um veleiro? - perguntou. Antes de ele ter tempo de responder, um rapaz atarracado com quinze ou dezesseis anos apareceu com canecas de cerveja. Torta Quente pegou reverentemente a sua, com as duas mãos, e quando bebeu um trago, deu o sorriso mais largo que Arya já tinha visto nele.

- Cerveja - sussurrou - e coelho.

- Bem, à saúde de Sua Graça - gritou alegremente Anguy, o Arqueiro, erguendo a caneca. - Que os Sete protejam o rei!

- Todos os doze que há por aí - resmungou Limo Manto Limão. Bebeu, e limpou a espuma da boca com as costas da mão.

O Marido entrou em grande correria pela porta da frente, com um avental cheio de legumes lavados.

- Há cavalos estranhos nos estábulos - anunciou, como se eles não soubessem.

- Sim - disse Tom, colocando a harpa de lado e melhores do que os três que você deu.

O Marido deixou cair os legumes sobre uma mesa, aborrecido.

- Não os dei. Vendi por um bom preço, e arranjei também um esquife para nós. E, seja como for, o seu grupinho deveria tê-los trazido de volta.

Sabia que eles eram fora da lei, pensou Arya, escutando. A mão desceu para baixo da mesa e tocou o cabo do punhal, para se assegurar de que ainda estava lá. Se tentarem nos roubar, vão se arrepender.

- Não vieram para onde estávamos - disse Limo.

- Bem, eu mandei-os. Vocês deviam estar bêbados, ou dormindo.

- Nós? Bêbados? - Tom bebeu um longo trago de cerveja. - Nunca.

- Podia tê-los pego você mesmo - disse Limo.

- O quê, só com o garoto aqui? Já lhes disse duas vezes, a velha estava na Charneca dos Cordeiros ajudando a Fern a parir o bebê. E o mais certo é ter sido um de vocês quem plantou o bastardo na barriga da pobre garota. - Deu a Tom um olhar azedo. - Você, aposto, com essa sua harpa, cantando todas essas canções tristes só para fazer a pobre Fern tirar a roupa de baixo.

- Se uma canção leva uma donzela a querer tirar a roupa e sentir o bom sol quente beijar sua pele, ora, será culpa do cantor? - perguntou Tom. - E, além disso, ela gostava era do Anguy. "Posso tocar o seu arco?", ouvi Fern perguntando-lhe. "Ooohh, é tão liso, e duro. Acha que eu podia dar uma puxadinha nele?"

O Marido resfolegou.

- Você ou o Anguy, não faz diferença. São tão culpados como eu pelos cavalos. Eram três, sabe? O que pode um homem fazer contra três?

- Três - disse Limo em tom de escárnio -, mas um era mulher e o outro tava acorrentado, foi você mesmo que disse.

O Marido fez uma careta.

- Uma mulher grande, vestida como um homem. E o que estava acorrentado... Não gostei da expressão nos olhos dele.

Anguy exibiu um sorriso por cima da cerveja.

- Quando não gosto dos olhos de um homem, espeto uma flecha num deles.

Arya recordou a flecha que roçara em sua orelha. Queria saber disparar flechas.

O Marido não se mostrou impressionado.

- E você fique calado quando os mais velhos estão conversando. Beba a sua cerveja e segure essa língua, senão mando a velha mostrar-lhe uma colher de pau.

- Os mais velhos falam demais, e não preciso que me diga para beber a minha cerveja. - E deu um grande trago, para mostrar que era assim.

Arya fez o mesmo. Depois de passar dias bebendo de riachos e poças e, depois, do lamacento Tridente, a cerveja tinha um sabor tão bom quanto os golinhos de vinho que o pai costumava deixá-la beber. Começava a vir da cozinha um cheiro que lhe enchia de água a boca, mas seus pensamentos ainda estavam todos naquele barco. Manejá-lo será mais difícil do que roubá-lo. Se esperarmos até estarem todos dormindo...

O criado voltou a aparecer com grandes pães redondos. Arya partiu um pedaço, esfomeada, e atirou-se nele. Mas era difícil de mastigar, estava espesso e grumoso, e queimado embaixo.

Torta Quente fez careta assim que o provou.

- Este pão é ruim - disse. - Está queimado, e duro.

- É melhor quando há guisado para mergulhá-lo nele - disse Limo.

- Não é, não - disse Anguy -, mas com guisado é menos provável que quebre um dente.

- Podem comê-lo ou passar fome - disse o Marido. - Tenho cara de ser um maldito padeiro? Gostaria de vê-los fazer melhor.

- Eu conseguiria - disse Torta Quente. - É fácil. Você amassou demais a massa, é por isso que é tão difícil mastigar. - Bebeu outro gole de cerveja e desatou a falar, com gosto, de pães, tortas e empadas, tudo aquilo que adorava. Arya rolou os olhos.

Tom sentou-se diante dela.

- Pombinha - disse ele -, ou Arry, ou seja lá qual for o seu verdadeiro nome, isto é para você. - Pousou um pedaço sujo de pergaminho na mesa de madeira entre ambos.

Ela olhou o pergaminho com desconfiança.

- O que é isso?

- Três dragões de ouro. Precisamos comprar aqueles cavalos.

Arya olhou-o com cautela.

- Os cavalos são nossos.

- O que quer dizer é que foi você que os roubou, não é? Não há vergonha nisso, menina. A guerra transforma muita gente honesta em ladrões. - Tom bateu com o dedo no pergaminho dobrado. - Estou lhe pagando um bom preço. Mais do que qualquer cavalo vale, para falar a verdade.

Torta Quente pegou o pergaminho e desdobrou-o.

- Não há ouro nenhum - protestou em voz alta. - Só há coisas escritas.

- Sim - disse Tom -, e lamento por isso. Mas, depois da guerra, pretendemos fazer esse ouro, tem a minha palavra como homem do rei.

Arya afastou-se da mesa e pôs-se em pé.

- Vocês não são homens do rei coisa nenhuma, são assaltantes!

- Se algum dia tivesse encontrado verdadeiros assaltantes, saberia que eles nunca pagam, nem mesmo em papel. Não é para nós que levamos seus cavalos, filha, é para o bem do reino, para que possamos nos deslocar mais depressa e travar as batalhas que precisam ser travadas. As batalhas do rei. Negaria isso ao rei?

Estavam todos a observá-la: o Arqueiro, o grande Limo, e o Marido, com seu rosto pálido e olhos esquivos. Até Sharna, que espreitava da porta da cozinha. Vão roubar os cavalos, diga eu o que disser, compreendeu. Vamos ter de ir a pé até Correrrio, a menos que...

- Não queremos papel - com uma palmada, Arya arrancou o pergaminho das mãos de Torta Quente. - Podem ficar com nossos cavalos em troca daquele barco que está lá fora. Mas só se nos mostrarem como manejá-lo.

Tom Sete-Cordas fitou-a por um momento, e depois sua grande boca acolhedora torceu-se num sorriso deplorável. Riu alto. Anguy juntou-se a ele, e então desataram todos a rir, Limo Manto Limão, Sharna e o Marido, até o criado, que saíra de trás dos barris com uma besta debaixo de um braço. Arya quis gritar com eles, mas em vez disso deu um sorriso...

- Cavaleiros! - o grito de Gendry parecia esganiçado por causa do susto. A porta abriu-se de rompante, e ali estava ele. - Soldados - arquejou. - Pela estrada do rio, uma dúzia deles.

Torta Quente ficou em pé de um salto, derrubando a caneca, mas Tom e os outros permaneceram imperturbados.

- Não há motivo para derramar boa cerveja no meu chão - disse Sharna. - Volte a se sentar e acalme-se, garoto, o coelho vem aí. Você também, garota. Seja qual for o mal que lhe foi feito, está feito e acabou-se, e agora está com homens do rei. Nós vamos mantê-la a salvo o melhor que pudermos.

A única resposta de Arya foi estender a mão para a espada, mas antes de tê-la meio desembainhada, Limo agarrou seu pulso.

- Não vamos ter mais nada disso. - Torceu-lhe o braço até que sua mão se abriu. Os dedos dele eram duros, cheios de calos, e terrivelmente fortes. Outra vez!, pensou Arya. Está acontecendo outra vez, como na aldeia, com Chiswyck, Raff e a Montanha Que Cavalga. Iam roubar sua espada e voltar a transformá-la num rato. A mão livre fechou-se em volta de sua caneca e brandiu-a contra o rosto de Limo. A cerveja saltou por cima da borda e derramou-se para dentro dos olhos dele, e ela ouviu o nariz do homem quebrar e viu o sangue jorrar. Quando ele soltou um urro, levou as mãos ao rosto, e ela viu-se livre.

- Fujam! - gritou, saltando.

Mas Limo logo caiu de novo sobre ela, com longas pernas que faziam com que um de seus passos se igualasse a três dos dela. Arya retorceu-se e esperneou, mas ele a pegou sem esforço e manteve-a pendurada enquanto o sangue corria por seu rosto.

- Pare com isso, tolinha - gritou, sacudindo-a de um lado para o outro. - Pare com isso, já! - Gendry fez um movimento para ir ajudá-la, mas parou quando Tom Sete-Cordas se pôs à sua frente com um punhal.

A essa altura, já era tarde demais para fugir. Ouvia cavalos lá fora, e o som de vozes de homens. Um momento mais tarde, um homem entrou, pavoneando-se, pela porta, um tyroshi ainda maior do que Limo, com uma grande barba espessa, pintada de verde vivo nas pontas, mas crescendo grisalha. Atrás dele veio um par de besteiros que ajudavam um homem ferido a caminhar entre os dois, e depois mais...

Arya nunca vira bando mais andrajoso, mas nada havia de andrajoso nas espadas, machados e arcos que traziam. Um ou dois deram olhadelas curiosas para ela ao entrar, mas nenhum disse uma palavra. Um homem zarolho com um elmo redondo e enferrujado farejou o ar e sorriu, enquanto um arqueiro com a cabeça cheia de duros cabelos loiros gritava por cerveja. Depois deles, entrou um lanceiro com um elmo encimado por um leão, um homem mais velho e coxo, um mercenário de Bravos, um...

- Harwin? - sussurrou Arya. E era! Sob a barba e os cabelos emaranhados encontrava-se o rosto do filho de Hullen, que costumava levar o pônei dela pelo pátio, arremeter contra o boneco com Jon e Robb, e beber em excesso em dias de festa. Estava mais magro, de certo modo mais duro, e em Winterfell nunca tinha usado barba, mas era ele... um homem de seu pai. - Harwin! - contorcendo-se, atirou-se para a frente, tentando se livrar da mão de ferro de Limo. - Sou eu - gritou -, Harwin, sou eu, não me reconhece, não me reconhece? - as lágrimas chegaram, e deu por si chorando como um bebê, exatamente como uma menininha estúpida qualquer. - Harwin, sou eu!

Os olhos de Harwin desceram do rosto de Arya para o homem esfolado que trazia no gibão.

- Como é que me conhece? - disse, franzindo a testa, desconfiado. - O homem esfolado... quem é você, algum criado do Lorde Sanguessuga?

Por um momento, Arya não soube como responder. Tivera tantos nomes. Teria apenas sonhado com Arya Stark?

- Sou uma menina - fungou. - Fui copeira de Lorde Bolton, mas ele ia me deixar com o bode, e por isso fugi com Gendry e Torta Quente. Você tem de me reconhecer! Costumava levar o meu pônei quando era pequena.

Os olhos do homem esbugalharam-se.

- Pela bondade dos deuses - disse, numa voz estrangulada. - Arya Debaixo-dos-Pés? Limo, largue-a.

- Ela quebrou meu nariz. - Limo largou-a sem cerimônia no chão. - Quem, com os sete infernos, é que ela deveria ser?

- A filha do Mão. - Harwin ajoelhou-se diante dela. - Arya Stark, de Winterfell.

Catelyn

Robb compreendeu no momento em que ouviu os canis entrarem em erupção. O filho voltara a Correrrio, e Vento Cinzento vinha com ele. Só o cheiro do grande lobo gigante cinza podia deixar os cães em tamanho frenesi de ganidos e latidos. Ele virá me encontrar, pensou. Edmure não tinha retornado depois de sua primeira visita, preferindo passar seus dias com Marq Piper e Patrek Mallister, escutando os versos de Rymund, o Rimante, sobre a batalha no Moinho de Pedra. Mas Robb não é Edmure. Robb virá me visitar.

Já chovia havia dias, um dilúvio frio e cinzento que se ajustava ao estado de espírito de Catelyn. O pai ia ficando mais fraco e mais delirante a cada dia que passava, acordando apenas para murmurar "Tanásia" e pedir perdão. Edmure evitava-a, e Sor Desmond Grell ainda lhe negava a liberdade de castelo, por mais infeliz que isso parecesse deixá-lo. Só o regresso de Sor Robin Ryger e seus homens, de pés cansados e ensopados até os ossos, servira para aliviar seu espírito. Ao que parecia, tinham voltado a pé. De algum modo, o Regicida tinha conseguido afundar a galé e escapar, confidenciara-lhe o Meistre Vyman. Catelyn perguntou se podia falar com Sor Robin, para saber melhor o que tinha acontecido, mas isso foi-lhe recusado.

Algo mais estava errado. No dia em que o irmão voltara, algumas horas depois da discussão com ele, ouvira vozes iradas vindas do pátio, embaixo. Quando ela subiu ao telhado para ver o que se passava, havia grupos de homens reunidos do outro lado do castelo, junto ao portão principal. Cavalos estavam sendo trazidos dos estábulos, selados e ajaezados, e havia gritos, embora Catelyn estivesse distante demais para discernir as palavras. Um dos estandartes brancos de Robb jazia no chão, e um dos cavaleiros tinha dado a volta com o cavalo e pisoteado o lobo gigante ao esporear a montaria na direção do portão. Vários dos outros fizeram o mesmo. Aqueles são homens que lutaram com Edmure nos vaus, pensou. O que poderá tê-los deixado tão zangados? Será que meu irmão os afrontou de algum modo, os insultou? Pensou ter reconhecido Sor Perwyn Frey, que fora e voltara com ela até Pontamarga e Ponta Tempestade, e também o seu meio-irmão bastardo, Martyn Rivers, mas do local em que se encontrava era difícil ter certeza. Perto de quarenta homens jorraram dos portões do castelo, não sabia para que fim.

Não retornaram. E Meistre Vyman também não queria lhe dizer quem tinham sido, para onde tinham ido ou o que os deixara tão zangados.

- Estou aqui para cuidar do seu pai, e só para isso, senhora - dizia. - Seu irmão em breve será Senhor de Correrrio. O que ele quiser que você saiba será dito por ele.

Mas agora Robb voltara do oeste, retornava em triunfo. Ele vai me perdoar, disse Catelyn a si mesma. Ele tem de me perdoar, é meu filho, e Arya e Sansa são tanto do sangue dele como do meu. Ele vai me libertar destes quartos e então saberei o que aconteceu.

Quando Sor Desmond veio buscá-la, já tinha tomado banho, se vestido e escovado seus cabelos ruivos.

- O Rei Robb retornou do oeste, senhora - disse o cavaleiro -, e ordena que a senhora compareça perante ele no Grande Salão.

Era o momento com que sonhara e que temera. Será que perdi dois filhos, ou três? Em breve saberia.

O salão estava cheio de gente quando entrou. Todos os olhos estavam postos no estrado, mas Catelyn conhecia as costas: a cota de malha remendada da Senhora Mormont, o Grande-Jon e seu filho, erguendo-se acima de todas as outras cabeças no salão, Lorde Jason Mallister, de cabelos brancos, com o elmo alado debaixo do braço, Tytos Blackwood com seu magnífico manto de penas de corvo... Metade deles agora vai querer me enforcar. A outra metade poderá limitar-se a desviar os olhos. Tinha também a desconfortável sensação de que faltava alguém.

Robb encontrava-se de pé sobre o estrado. Já não é um garoto, compreendeu com uma súbita angústia. Tem agora dezesseis anos, é um homem-feito. Olhe para ele. A guerra derreteu toda a suavidade de seu rosto e deixou-o duro e magro. Tinha feito a barba, mas os cabelos ruivos caíam, sem corte, sobre seus ombros. As chuvas recentes tinham enferrujado sua cota de malha e deixado manchas marrons no branco do manto e do sobretudo. Ou talvez as manchas fossem sangue. Na cabeça, trazia a coroa de espadas que tinham fabricado para ele em bronze e ferro. Agora usa-a com mais conforto. Usa-a como um rei.

Edmure encontrava-se embaixo do estrado repleto de gente, com a cabeça modestamente inclinada enquanto Robb elogiava sua vitória

- ... caiu no Moinho de Pedra, nunca será esquecido. Pouco admira que Lorde Tywin tenha fugido para enfrentar Stannis. Já não podia mais com homens do Norte e das terras fluviais. - Aquilo gerou risos e gritos de aprovação, mas Robb ergueu uma mão, pedindo silêncio. - Mas não se iludam. Os Lannister voltarão a pôr-se em marcha, e haverá outras batalhas a vencer antes de o reino estar seguro.

O Grande-Jon rugiu "Rei no Norte!" e atirou ao ar um punho revestido de cota de malha. Os senhores dos rios responderam com um grito de "Rei do Tridente.” O salão trovejou com o som de punhos e pés batendo.

Só alguns repararam em Catelyn e Sor Desmond no meio do tumulto, mas deram cotoveladas nos vizinhos, e um silêncio cresceu lentamente ao seu redor. Ela ergueu bem a cabeça e ignorou os olhares. Que pensem o que quiserem. É o julgamento de Robb que interessa.

- Ver o rosto escarpado de Sor Brynden Tully no estrado deu-lhe conforto. Um garoto que não conhecia parecia estar agindo como escudeiro de Robb. Atrás dele, encontrava-se um jovem cavaleiro com um sobretudo cor de areia decorado com conchas marinhas, e um outro, mais velho, que usava três pimenteiros negros sobre uma banda cor de açafrão, com fundo listrado de verde e prata. Entre os dois, encontrava-se uma senhora bonita, de certa idade, e uma bela donzela que parecia ser sua filha. Havia também outra menina, com idade próxima à de Sansa. Catelyn sabia que as conchas eram o símbolo de uma casa menor qualquer; não reconhecia o do homem mais velho. Prisioneiros? Por que Robb traria cativos para o estrado?

Utherydes Wayn bateu com o bastão no chão enquanto Sor Desmond avançava com ela. Se Robb me olhar como Edmure olhou, não sei o que farei. Mas parecia-lhe que não era ira aquilo que via nos olhos do filho, mas outra coisa... talvez apreensão? Não, isso não fazia sentido. O que ele poderia temer? Era o Jovem Lobo, Rei do Tridente e no Norte.

O tio foi o primeiro a saudá-la. Um peixe tão negro como sempre, Sor Brynden não se importava com o que os outros pudessem pensar. Saltou do estrado e puxou Catelyn para si.

- E bom vê-la em casa, Cat - disse, e ela teve de lutar para manter a compostura.

- Igualmente - sussurrou.

- Mãe.

Catelyn ergueu os olhos para o seu alto e régio filho.

- Vossa Graça, rezei por seu regresso em segurança. Ouvi dizer que foi ferido.

- Uma flecha atravessou meu braço durante o assalto ao Despenhadeiro - disse ele. - Mas sarou bem. Tive o melhor dos cuidados.

- Então os deuses são bons. - Catelyn inspirou profundamente. Diga. Não pode ser evitado. - Devem ter contado a você o que eu fiz. Disseram-lhe os motivos?

- Pelas meninas.

- Tinha cinco filhos. Agora tenho três.

- Sim, senhora. - Lorde Rickard Karstark empurrou o Grande-Jon para passar, como um espectro sombrio em sua cota de malha negra e longa barba, malcuidada e grisalha, seu rosto estreito, atormentado e frio. - E eu tenho um filho, quando um dia tive três. Você roubou minha vingança.

Catelyn encarou-o calmamente.

- Lorde Rickard, a morte do Regicida não teria trazido vida aos seus filhos. A sobrevivência dele pode pagar pela vida dos meus.

O lorde não estava apaziguado.

- Jaime Lannister a fez de tola. Comprou um saco de palavras vazias, nada mais. O meu Torrhen e o meu Eddard mereciam mais da senhora.

- Já chega, Karstark - trovejou Grande-Jon, cruzando-lhe o peito com seus enormes braços. - Foi uma loucura de mãe. As mulheres são assim.

- Uma loucura de mãe? - Lorde Karstark virou-se ameaçadoramente para Lorde Umber. - Eu chamo isso de traição.

- Basta. - Durante apenas um instante, Robb soou mais como Brandon do que como o pai. - Nenhum homem chama a senhora de Winterfell de traidora ao alcance de meus ouvidos, Lorde Rickard. - Quando se virou para Catelyn, sua voz suavizou-se. - Se pudesse voltar a acorrentar o Regicida com a força do desejo, faria isso. A senhora o libertou sem o meu conhecimento ou consentimento... mas sei que fez por amor. Por Arya e Sansa, e por pesar por Bran e Rickon. Já aprendi que o amor nem sempre é sensato. Pode nos levar a grandes loucuras, mas seguimos nosso coração... até onde quer que nos leve. Não seguimos, mãe?

Foi isso que fiz?

- Se o meu coração me levou à loucura, de bom grado darei todas as compensações que possa oferecer ao Lorde Karstark e ao senhor.

O rosto de Lorde Karstark mostrava-se implacável.

- Irão as suas compensações aquecer Torrhen e Eddard nas tumbas frias onde o Regicida os depositou? - abriu caminho entre Grande-Jon e Maege Mormont, e abandonou a sala.

Robb nada fez para detê-lo.

- Perdoe-o, mãe.

- Se você me perdoar.

- Já o fiz. Sei o que é amar tanto que não se é capaz de pensar em mais nada.

Catelyn inclinou a cabeça.

- Obrigada. - Este filho, pelo menos, não perdi.

- Temos de conversar - prosseguiu Robb. - A senhora e os meus tios. Sobre isso e... outras coisas. Intendente, encerre a audiência.

Utherydes Wayn bateu com o bastão no chão e anunciou o fim da sessão, e tanto os senhores do rio como os do norte se dirigiram para as portas. Foi só então que Catelyn compreendeu o que faltava. O lobo. O lobo não está aqui. Onde está o Vento Cinzento? Sabia que o lobo gigante tinha retornado com Robb, ouvira os cães, mas ele não se encontrava no salão, nem no lugar que lhe pertencia, ao lado do filho.

Mas antes de poder pensar em interrogar Robb, deu por si rodeada por um círculo de amigos. A Senhora Mormont pegou a sua mão e disse:

- Senhora, se Cersei Lannister tivesse em seu poder duas de minhas filhas, eu teria feito o mesmo.

Grande-Jon, pouco respeitador do que era adequado, ergueu-a no ar e apertou seus braços com suas enormes mãos peludas:

- Seu lobinho espancou o Regicida uma vez, voltará a fazê-lo se for necessário.

Galbart Glover e Lorde Jason Mallister foram mais frios, e Jonos Bracken, quase gelado, mas suas palavras foram suficientemente corteses. O irmão foi o último a dirigir-se a ela.

- Também rezo por suas meninas, Cat. Espero que não duvide disso.

- Claro que não. - Beijou-o. - E adoro-o por isso.

Quando todas as palavras foram ditas, o Grande Salão de Correrrio ficou vazio, exceto por Robb, os três Tully e os seis estranhos que Catelyn não conseguia identificar. Olhou-os com curiosidade.

- Senhora, sores, são recém-chegados à causa do meu filho?

- Recém-chegados - disse o mais jovem dos cavaleiros, aquele que ostentava as conchas -, mas com uma coragem feroz e firme lealdade, como espero ter oportunidade de lhe demonstrar, senhora.

Robb fez uma expressão desconfortável.

- Mãe - disse -, permita-me que lhe apresente a Senhora Sybell, esposa de Lorde Gawen Westerling do Despenhadeiro. - A mulher mais velha avançou com um porte solene. - O esposo dela foi um daqueles que fizemos prisioneiros no Bosque dos Murmúrios.

Westerling, sim, pensou Catelyn. Seu estandarte tem seis conchas marinhas, brancas, em fundo areia. Uma casa menor, juramentada aos Lannister.

Robb fez sinal aos outros estranhos para avançarem, um de cada vez.

- Sor Rolph Spicer, irmão da Senhora Sybell. Era castelão no Despenhadeiro quando o tomamos. - O cavaleiro dos pimenteiros inclinou a cabeça. Com uma constituição quadrada, nariz quebrado e barba grisalha cortada rente, tinha um ar bastante valente. - Os filhos de Lorde Gawen e da Senhora Sybell. Sor Raynald Westerling. - O cavaleiro las conchas sorriu por baixo de um bigode hirsuto. Jovem, esguio, com um ar rude, tinha bons dentes e uma espessa cabeleira castanho-clara. - Elenya. - A garotinha fez uma rápida reverência. - Rollam Westerling, meu escudeiro. - O rapaz começou a ajoelhar, viu -ue ninguém mais ajoelhava, e em vez disso fez uma reverência.

! - A honra é minha - disse Catelyn. Poderá Robb ter conquistado a fidelidade do Despenhadeiro? Se assim fosse, não surpreendia que os Westerling o acompanhassem. Rochedo Casterly não admitia tais traições com gentileza. Pelo menos desde que Tywin Lannister tinha idade suficiente para partir para a guerra...

A donzela avançou por último, e de um modo muito tímido. Robb pegou a mão dela.

- Mãe - disse -, tenho a grande honra de lhe apresentar a Senhora Jeyne Westerling, filha mais velha de Lorde Gawen, e minha... ah... e a senhora minha esposa.

O primeiro pensamento que passou pela cabeça de Catelyn foi: Não, não pode ser, você é só uma criança.

O segundo foi: E, além disso, está prometido a outra.

O terceiro foi: Pela misericórdia da Mãe, Robb, o que você fez?

Só então chegou a memória tardia. Loucuras feitas por amor? Pegou-me de jeito, como uma lebre numa armadilha. Aparentemente já o perdoei. Uma admiração triste misturou-se com o aborrecimento; a situação fora encenada com uma astúcia digna de um mestre pantomimeiro... ou de um rei. Catelyn não viu outra alternativa exceto pegar as mãos de Jeyne Westerling.

- Tenho uma nova filha - disse, de um modo mais duro do que pretendera. Beijou ambas as faces da garota aterrorizada. - Seja bem-vinda ao nosso salão e lar.

- Obrigada, senhora. Serei uma esposa boa e fiel para Robb, juro. E uma rainha tão sábia quanto for capaz.

Rainha. Sim, esta garotinha bonita é uma rainha, tenho de me lembrar disso. Ela era bonita, inegavelmente, com seus caracóis castanhos e rosto em forma de coração, e aquele sorriso tímido. Esbelta, mas com bons quadris, notou Catelyn. Pelo menos, não deverá encontrar problemas para ter filhos.

A Senhora Sybell interveio antes que mais alguma coisa fosse dita.

- Sentimo-nos honrados pela companhia da Casa Stark, senhora, mas também estamos muito cansados. Viajamos uma longa distância em pouco tempo. Talvez pudéssemos nos retirar para os nossos aposentos, para que possa conversar com o seu filho?

- Seria melhor. - Robb beijou a sua Jeyne. - O intendente vai arranjar alojamento adequado para vocês.

- Eu posso levá-los até ele - ofereceu-se Sor Edmure Tully.

- E muito amável - disse a Senhora Sybell.

- Eu também devo ir? - perguntou o garoto, Rollam. - Sou o seu escudeiro.

Robb soltou uma gargalhada.

- Mas agora não tenho necessidade de um escudeiro. - Oh.

- Sua Graça passou dezesseis anos sem você, Rollam - disse Sor Raynald, das conchas. - Imagino que sobreviverá mais algumas horas. - Pegando firmemente na mão do irmão mais novo, levou-o para fora da sala.

- Sua esposa é adorável - disse Catelyn depois de eles terem se afastado o bastante para não ser ouvida - e os Westerling parecem ter valor... se bem que Lorde Gawen é vassalo de Tywin Lannister, não é?

- Sim. Jason Mallister capturou-o no Bosque dos Murmúrios e tem-no mantido em Guardamar para obter um resgate. Claro que agora o libertarei, embora ele talvez não queira se juntar a mim. Receio que tenhamos casado sem o consentimento dele, e esse casamento coloca-o num perigo terrível. O Despenhadeiro não é forte. Por seu amor por mim, Jeyne pode perder tudo.

- E você - disse ela suavemente - perdeu os Frey.

O estremecimento dele disse tudo. Compreendia agora as vozes iradas, o motivo por que Perwyn Frey e Martyn Rivers tinham partido com tanta pressa, pisoteando o estandarte de Robb ao sair.

- Posso perguntar quantas espadas vieram com a sua noiva, Robb?

- Cinquenta. Uma dúzia de cavaleiros. - Sua voz era sorumbática, como deveria ser no caso. Quando o contrato de casamento fora feito nas Gêmeas, o velho Lorde Walder Frey enviara com Robb mil cavaleiros montados e quase três mil homens a pé. - Jeyne é tão inteligente quanto bela. E bondosa, também. Tem um coração gentil.

É de espadas que precisa, não de corações gentis. Como pôde fazer isso, Robb? Como pôde ser tão imprudente, tão estúpido? Como pôde ser tão... tão, tão... jovem. Mas censuras de nada serviriam ali. Tudo que disse foi:

- Conte-me como isso aconteceu.

- Conquistei o castelo dela, e ela conquistou meu coração. - Robb sorriu. - O Despenhadeiro tinha uma guarnição fraca, portanto conseguimos tomá-lo de assalto em uma noite. Walder Negro e Pequeno-Jon lideraram grupos que escalaram as muralhas, enquanto eu arrombava o portão principal com um aríete. Levei uma flecha no braço imediatamente antes de Sor Rolph nos entregar o castelo. A princípio não parecia ser nada, mas inflamou. Jeyne mandou que me levassem para sua própria cama, e cuidou de mim até a febre passar. E estava comigo quando Grande-Jon me trouxe a notícia de... de Winterfell. Bran e Rickon. - Pareceu ter dificuldade em proferir o nome dos irmãos. - Nessa noite, ela... ela confortou-me, mãe.

Catelyn não precisava que lhe dissessem que tipo de conforto Jayne Westerling tinha oferecido ao filho.

- E você casou com ela no dia seguinte.

Ele olhou-a nos olhos, ao mesmo tempo orgulhoso e infeliz.

- Foi a única coisa honrosa a fazer. Ela é doce e gentil, mãe, será uma boa esposa para mim.

- Talvez. Mas isso não apaziguará Lorde Frey.

- Eu sei - disse o filho, atingido. - Fiz besteiras em tudo, menos nas batalhas, não fiz? Pensava que as batalhas seriam a parte difícil, mas... se tivesse dado ouvidos a você e mantido Theon como refém, ainda governaria o Norte, e Bran e Rickon estariam vivos e a salvo em Winterfell.

- Talvez. Ou talvez não. Lorde Balon ainda pode ter ganho a guerra por acaso. Da última vez que estendeu a mão para uma coroa, isso custou-lhe dois filhos. Podia ter achado barato só perder um dessa vez. - Tocou seu braço. - O que aconteceu com os Frey depois de seu casamento?

Robb sacudiu a cabeça.

- Podia ter sido capaz de fazer as pazes com Sor Stevron, mas Sor Ryman é burro como uma pedra, e Walder Negro... esse não ganhou o nome devido à cor da barba, garanto. Chegou ao ponto de dizer que as irmãs não teriam problema em se casar com um viúvo. Teria matado Walder por isso se Jeyne não me tivesse suplicado que fosse misericordioso.

- Insultou gravemente a Casa Frey, Robb.

- Não era essa a minha intenção. Sor Stevron morreu por mim, e Olyvar foi um escudeiro tão leal como qualquer rei pode desejar. Pediu para ficar comigo, mas Sor Ryman levou-o com os outros. Todas as suas forças. Grande-Jon incitou-me a atacá-los...

- Lutar com os seus no meio dos inimigos? - disse ela. - Isso teria sido o seu fim.

- Sim. Pensei que talvez pudéssemos arranjar outros casamentos para as filhas de Lorde Walder. Sor Wendel Manderly ofereceu-se para aceitar uma delas, e Grande-Jon diz que os tios dele desejam voltar a se casar. Se Lorde Walder for razoável...

- Ele não é razoável - disse Catelyn. - E orgulhoso, e suscetível até a medula. Você sabe disso. Queria ser avô de um rei. Não o apaziguará com a oferta de dois salteadores envelhecidos e do segundo filho do homem mais gordo dos Sete Reinos. Não só quebrou o juramento, como também desrespeitou a honra das Gêmeas ao escolher uma noiva de uma casa menos importante.

Robb irritou-se ao ouvir aquilo.

- Os Westerling são de melhor sangue do que os Frey. São uma linhagem antiga, descendente dos Primeiros Homens. Os Reis do Rochedo às vezes se casavam com mulheres Westerling antes da Conquista, e houve outra Jeyne Westerling que foi rainha do Rei Maegor há trezentos anos.

- E tudo isso só jogará sal nas feridas de Lorde Walder. Sempre lhe causou ressentimento que as casas mais antigas olhassem os Frey de cima, considerando-os arrivistas. Esse insulto não é o primeiro que sofreu, segundo o que ele conta. Jon Arryn não se mostrou disposto a criar seus netos, e o meu pai recusou a oferta a Edmure de uma de suas filhas. - Inclinou a cabeça ao irmão quando este voltou a se juntar a eles.

- Vossa Graça - disse Brynden Peixe Negro -, talvez seja melhor prosseguirmos em privado.

- Sim. - Robb tinha a voz cansada. - Era capaz de matar por uma taça de vinho. A sala de audiências, penso.

Quando começaram a subir os degraus, Catelyn colocou a questão que a perturbava desde que entrara no salão.

- Robb, onde está o Vento Cinzento?

- No pátio, com uma perna de carneiro. Disse ao mestre dos canis para lhe dar de comer.

- Antes mantinha-o sempre junto de si.

- Um salão não é lugar para um lobo. Ele fica desassossegado, já o viu. Começa a rosnar e a tentar morder. Nunca devia tê-lo levado comigo para a batalha. Matou homens demais para que agora os tema. Jeyne fica ansiosa com ele por perto, e aterroriza a mãe dela.

E aí está o coração de tudo, pensou Catelyn.

- Ele é parte de você, Robb. Temê-lo é temer a si mesmo.

- Não sou um lobo, não importa como me chamem. - Soava aborrecido. - Vento Cinzento matou um homem no Despenhadeiro, outro em Cinzamarca, e seis ou sete em Cruzaboi. Se o tivesse visto...

- Vi o lobo de Bran rasgar a garganta de um homem em Winterfell - disse ela em tom cortante - e adorei-o por isso.

- É diferente. O homem no Despenhadeiro era um cavaleiro que Jeyne conhecia desde sempre. Não pode censurá-la por ter medo. Vento Cinzento também não gosta do tio dela. Mostra os dentes sempre que Sor Rolph se aproxima dele.

Um arrepio percorreu sua espinha.

- Mande Sor Rolph embora. Imediatamente.

- Para onde? Para o Despenhadeiro, para que os Lannister possam espetar a cabeça dele num espigão? Jeyne adora-o. É tio dela, e também um bom cavaleiro. Preciso de mais homens como Rolph Spicer, não de menos. Não vou bani-lo só porque meu lobo parece não gostar de seu cheiro.

- Robb. - Catelyn parou e segurou-o pelo braço. - Disse-lhe um dia para manter Theon Greyjoy por perto, e não me escutou. Escute agora. Mande este homem embora, Não estou dizendo que deva bani-lo. Encontre alguma tarefa que exija um homem de coragem, um dever honroso, não importa o quê... mas não o mantenha perto de si.

Ele franziu a testa.

- Devo mandar Vento Cinzento farejar todos os meus cavaleiros? Pode haver outros cujo cheiro não lhe agrade.

- Qualquer homem que não agrade ao Vento Cinzento é um homem que você não quer ter por perto. Esses lobos são mais do que lobos, Robb. Tem de saber que é assim. Julgo que os deuses talvez os tenham mandado até nós. Os deuses de seu pai, os velhos deuses do norte. Cinco crias de lobo, Robb, cinco, para as cinco crianças Stark.

- Seis - disse Robb. - Também havia um lobo para Jon. Fui eu que os encontrei, lembra? Sei quantos havia e de onde vieram. Costumava pensar o mesmo que você, que os lobos eram os nossos guardiães, os nossos protetores, até que...

- Até que? - ela incitou.

A boca de Robb apertou-se.

- ... até que me disseram que Theon tinha assassinado Bran e Rickon. Pouco bem lhes fizeram os lobos. Já não sou um garoto, mãe. Sou um rei, e posso me proteger sozinho. - Suspirou. - Encontrarei alguma tarefa para Sor Rolph, algum pretexto para mandá-lo para longe. Não por causa do cheiro dele, mas para sossegar seu espírito. A senhora já sofreu o bastante.

Aliviada, Catelyn deu-lhe um leve beijo na bochecha antes de os outros terem tempo de surgir naquele lance da escada, e, por um momento, ele foi de novo o seu filho, e não o seu rei.

A sala de audiências privadas de Lorde Hoster era um aposento pequeno, situado acima do Grande Salão, mais adequado a discussões íntimas. Robb sentou-se no cadeirão, tirou a coroa e apoiou-a no chão, ao seu lado, enquanto Catelyn pedia vinho. Edmure vinha enchendo os ouvidos do tio com a história completa da batalha no Moinho de Pedra. Foi só depois de os criados terem chegado e partido que o Peixe Negro pigarreou e disse:

- Acho que já ouvimos o suficiente de suas vanglórias, sobrinho.

Edmure foi surpreendido por aquilo.

- Vanglórias? O que quer dizer?

- Quero dizer - disse o Peixe Negro - que deve a Sua Graça agradecimentos pela indulgência dele. Desempenhou aquela farsa no Salão Grande para não envergonhá-lo perante a sua gente. Se tivesse sido eu, teria esfolado você por sua burrice, em vez de elogiar essa loucura nos vaus.

- Bons homens morreram para defender esses vaus, tio - Edmure parecia indignado. - O que foi? Ninguém deve conquistar vitórias a não ser o Jovem Lobo? Roubei alguma glória que lhe estava destinada, Robb?

- Vossa Graça - corrigiu Robb, friamente. - Aceitou-me como seu rei, tio. Ou também se esqueceu disso?

O Peixe Negro disse:

- Foi-lhe ordenado que defendesse Correrrio, Edmure, nada mais.

- Eu defendi Correrrio e ensanguentei o nariz de Lorde Tywin...

- E verdade - disse Robb. - Mas um nariz ensanguentado não ganha a guerra, não? Alguma vez parou para se perguntar sobre o motivo de termos permanecido tanto tempo no oeste depois de Cruzaboi? Sabia que eu não tinha homens suficientes para ameaçar Lanisporto ou Rochedo Casterly.

- O motivo... havia outros castelos... ouro, gado...

- Pensa que ficamos pelo saque? - Robb mostrava-se incrédulo. - Tio, eu queria que Lorde Tywin viesse para oeste.

- Estávamos todos a cavalo - disse Sor Brynden. - A tropa Lannister era principalmente infantaria. Planejávamos dar ao Lorde Tywin uma bela caça de um lado para o outro ao longo da costa, e depois enfiar-nos em sua retaguarda para ocupar uma forte posição defensiva na estrada do ouro, num local que meus batedores encontraram, onde o terreno estaria grandemente a nosso favor. Se tivesse vindo contra nós ali, teria pago um preço enorme. Mas, se não atacasse, ficaria encurralado no oeste, a mil léguas de onde precisaria estar. E durante esse tempo, viveríamos de suas terras, em vez de ser ele vivendo das nossas.

- Lorde Stannis estava prestes a cair sobre Porto Real - disse Robb. - Podia ter nos livrado de JofFrey, da rainha e do Duende, com um único golpe sangrento. Então, poderíamos ter sido capazes de fazer a paz.

Os olhos de Edmure saltaram do tio para o sobrinho.

- Vossa Graça não me disse nada.

- Eu disse para defender Correrrio - disse Robb. - Que parte dessa ordem não entendeu?

- Quando parou Lorde Tywin no Ramo Vermelho - disse o Peixe Negro atrasou-o tempo suficiente para que cavaleiros vindos de Pontamarga o encontrassem, com as notícias sobre o que estava se passando no leste. Lorde Tywin imediatamente deu meia-volta com a tropa, juntou-se a Matthis Rowan e Randyll Tarly perto da nascente do Água Negra, e fez uma marcha forçada até a Cascata do Acrobata, onde encontrou Mace Tyrell e dois dos filhos à espera com uma tropa enorme e uma frota de barcaças. Flutuaram rio abaixo, desembarcaram a meio dia de viagem da cidade e apanharam Stannis pela retaguarda.

Catelyn recordou a corte do Rei Renly, como a vira em Pontamarga. Um milhar de rosas douradas flutuando ao vento, o sorriso recatado e as palavras suaves da Rainha Margaery, o irmão, o Cavaleiro das Flores, com o linho ensanguentado em volta da cabeça. Se tinha de cair nos braços de uma mulher, meu filho, por que não foi nos de Margaery Tyrell? A riqueza e o poderio de Jardim de Cima podiam ter feito toda a diferença nas batalhas que estavam para vir. E talvez o Vento Cinzento também tivesse gostado do cheiro dela.

Edmure pareceu mal.

- Nunca quis... nunca, Robb, tem de permitir que lhe compense. Liderarei a vanguarda na próxima batalha!

Para compensar, irmão? Ou pela glória?, interrogou-se Catelyn.

- A próxima batalha - disse Robb. - Bem, isso acontecerá bastante depressa. Assim que Joffrey estiver casado, os Lannister voltarão a campo contra mim, não duvido, e dessa vez os Tyrell marcharão ao lado deles. E posso ter de lutar também com os Frey, se Walder Negro prosseguir assim...

- Enquanto Theon Greyjoy estiver sentado no castelo de seu pai, com o sangue de seus irmãos nas mãos, esses outros inimigos terão de esperar - disse Catelyn ao filho. - Seu primeiro dever é defender sua própria gente, reconquistar Winterfell e pendurar Theon numa gaiola para corvos, para que morra lentamente. Caso contrário, o melhor é pôr de lado essa coroa para sempre, Robb, pois os homens saberão que não é um verdadeiro rei.

Pelo modo como Robb a olhou, viu que havia passado bastante tempo desde que alguém se atrevera a lhe falar com tanta franqueza.

- Quando me disseram que Winterfell tinha caído, quis ir imediatamente para o norte - disse ele, só ligeiramente na defensiva. - Quis libertar Bran e Rickon, mas pensei... nunca sonhei que Theon pudesse realmente lhes fazer mal. Se tivesse...

- É tarde demais para ses, tarde demais para resgates - disse Catelyn. - Tudo que resta é a vingança.

- Segundo as últimas notícias que nos chegaram do norte, Sor Rodrik tinha derrotado uma força de homens de ferro perto da Praça de Torrhen e estava reunindo uma tropa no Castelo Cerwyn para retomar Winterfell - disse Robb. - A essa altura, pode já tê-lo feito. Já não recebemos notícias há bastante tempo. E como fica o Tridente, se eu for para o norte? Não posso pedir aos senhores das terras fluviais para abandonarem o próprio povo.

- Não - disse Catelyn. - Deixe-os para defenderem os seus, e reconquiste o Norte com nortenhos.

- Como levaria os nortenhos para o Norte? - perguntou Edmure. - Os homens de ferro controlam o mar do poente. Os Greyjoy detêm também o Fosso Cailin. Nunca nenhum exército tomou o Fosso Cailin pelo sul. Até mesmo marchar contra ele é uma loucura. Podíamos ficar encurralados na zona do talude, com os homens de ferro à nossa frente e Frey zangados na retaguarda.

- Temos de reconquistar os Frey - disse Robb. - Com eles, ainda temos alguma chance de sucesso, por menor que seja. Sem eles, não vejo esperança. Estou disposto a dar ao Lorde Walder tudo que ele pedir... desculpas, honrarias, terras, ouro... deve haver algo que lhe acalme o orgulho...

- Não é algo - disse Catelyn. - E alguém.

São grandes o suficiente para você? - Flocos de neve salpicavam o rosto largo de Tormund, derretendo-se em seus cabelos e sua barba.

Os gigantes balançavam lentamente no topo de mamutes ao passarem por eles, dois dois. O garrano de Jon espantou-se, assustado por tamanha estranheza, mas era difícil dizer se o que o assustava eram os mamutes ou os seus cavaleiros. Até Fantasma recuou um passo, exibindo os dentes num rosnado silencioso. O lobo gigante era grande, mas os mamutes eram muito maiores, e havia muitos mais e muitos ainda.

Jon controlou o cavalo e manteve-o quieto, para poder contar os gigantes que emergiam da neve soprada pelo vento e das névoas pálidas que rodopiavam ao longo do juadeleite. Já passavam bastante de cinquenta quando Tormund disse alguma coisa: Jon perdeu a conta. Deve haver centenas. Não importa quantos passassem, pareciam continuar chegando mais.

Nas histórias da Velha Ama, os gigantes eram homens muito grandes que viviam em castelos colossais, lutavam com espadas enormes e andavam por aí calçados com botas grandes o suficiente para um garoto se esconder lá dentro. Mas aqueles eram outra coisa, mais semelhantes a ursos do que a humanos, e tão peludos como os mimues que montavam. Sentados, era difícil ver quão grandes eram. Três metros de altura, lalvez, ou três metros e meio, pensou Jon. Talvez quatro metros, mas não mais do que isso.

O peito inclinado podia parecer peito de homens, mas os braços eram longos demais, e a parte inferior do torso parecia ser vez e meia mais larga do que a superior. As pernas eram mais curtas do que os braços, mas muito grossas, e eles não usavam botas; os pés eram coisas largas e achatadas, duras, calosas e pretas. Sem pescoço, tinham uma cabeça enorme e pesada, que se projetava do meio das espáduas para a frente, e o rosto era achatado e brutal. Olhos de rato, que não eram maiores do que contas, quase se perdiam no interior de dobras de pele calosa; mas fungavam continuamente, capazes de farejar tanto quanto de ver.

Eles não vestem peles, percebeu Jon. Aquilo é pelo. Pelagens felpudas cobriam os corpos, espessas abaixo da cintura, mais esparsas acima. O fedor que exalavam era sufocante, mas isso talvez se devesse aos mamutes. E Joramun soprou o Berrante do Inverno e acordou gigantes da terra. Procurou as grandes espadas de três metros de comprimento, mas só encontrou clavas. A maior parte não passava de galhos de árvores mortas, algumas ainda com ramos menores presos. Algumas delas tinham bolas de pedra firmemente amarradas às extremidades, formando marretas colossais. A canção não chega a dizer se o berrante pode fazê-los adormecer de novo.

Um dos gigantes que se aproximava deles parecia mais velho do que os outros. Sua pelagem era cinza e rajada de branco, e o mamute que montava, maior do que todos os demais, também era cinza e branco. Tormund gritou qualquer coisa para ele ao passar, palavras rudes e ressonantes, numa língua que Jon não compreendia. Os lábios do gigante separaram-se para revelar uma boca cheia de enormes dentes quadrados, e ele fez um som que era meio arroto, meio trovão. Após um momento, Jon compreendeu que estava rindo. O mamute virou sua enorme cabeça para dar uma breve olhada nos dois, fazendo uma gigantesca presa passar sobre a cabeça de Jon enquanto o animal avançava pesadamente, deixando grandes pegadas na lama mole e na neve fresca ao longo do rio. O gigante gritou qualquer coisa na mesma língua grosseira que Tormund havia usado.

- Aquele era o rei deles? - perguntou Jon.

- Os gigantes não têm mais reis do que os mamutes, os ursos-das-neves ou as grandes baleias do mar cinzento. Aquele era Mag Mar Tun Doh Weg. Mag, o Poderoso. Pode ajoelhar-se diante dele se quiser, ele não vai se importar. Sei que seus joelhos de ajoelhador devem estar coçando, por falta de um rei a quem se dobrar. Mas tome cuidado para que ele não pise em você. Os gigantes têm olhos ruins, e pode ser que ele não veja um corvozinho lá embaixo, junto aos pés.

- O que você disse a ele? Isso era o Idioma Antigo?

- Sim. Perguntei se ele estava montando o pai, já que se pareciam tanto, com a diferença de que o pai cheirava melhor.

- E o que ele respondeu?

Tormund Punho de Trovão abriu um sorriso desdentado.

- Perguntou-me se quem estava a cavalo ao meu lado era a minha filha, com as suas bochechas lisas e rosadas. - O selvagem tirou neve do braço e fez o cavalo dar meia-volta. - Pode ser que ele nunca tenha visto um homem sem barba. Ande, vamos voltar. Mance fica muito irritado quando não me encontra no lugar de costume.

Jon deu meia-volta e seguiu Tormund de volta à cabeça da coluna, com o novo manto caindo, pesado, dos ombros. Era feito de peles de ovelha não lavadas, e usava-o com o lado da lã para dentro, como os selvagens tinham sugerido. Mantinha bastante bem a neve afastada, e à noite era bom e quente, mas também havia ficado com o manto negro, dobrado por baixo da sela.

- E verdade que você uma vez matou um gigante? - perguntou a Tormund enquanto avançavam. Fantasma saltava em silêncio ao lado deles, deixando rastros de patas na neve recém-caída.

- Ora, por que deveria duvidar de um homem poderoso como eu? Era inverno e eu era meio garoto, e estúpido como os garotos são. Avancei longe demais e meu cavalo morreu, e depois uma tempestade apanhou-me. Uma tempestade verdadeira, não uma nevasquinha como esta. Ha! Sabia que ia congelar antes do fim. De modo que encontrei uma giganta adormecida, abri a barriga dela, e enfiei-me dentro. Manteve-me bem quentinho, ah, sim, mas o fedor quase acabou comigo. O pior foi que ela acordou quando a primavera chegou e achou que eu era seu bebê. Deu-me de mamar durante três luas completas antes que eu conseguisse fugir. Ha! Mas há horas em que sinto saudades do sabor do leite de gigante.

- Se ela o alimentou, não pode tê-la matado.

- E não matei, mas vê se não espalha isso por aí. Tormund, Terror dos Gigantes, soa melhor do que Tormund, Bebê de Gigante, e esta é a verdade verdadeira.

- Então como foi que arranjou os outros nomes? - perguntou Jon. - Mance chamou-o de Soprador de Chifres, não foi? Rei-Hidromel do Solar Ruivo, Esposo de Ursas, Pai de Tropas? - era do sopro no chifre que queria realmente ouvir falar, mas não se atrevia-perguntar tão diretamente. E Joramun soprou o Berrante do Inverno e acordou gigantes da terra. Teriam eles vindo daí, eles e aqueles mamutes? Teria Mance Rayder encontrado o Berrante de Joramun e dado a Tormund para soprar?

- Todos os corvos são assim tão curiosos? - perguntou Tormund. - Bom, aqui vai uma história para você. Foi em outro inverno, ainda mais frio do que aquele que passei dentro da giganta, e nevava de dia e de noite, flocos de neve do tamanho de sua cabeça, não estas coisinhas. Nevava tanto que a aldeia inteira estava meio enterrada. Eu estava em meu Solar Ruivo, só com um barril de hidromel para me fazer companhia e nada para fazer a não ser bebê-lo. Quanto mais bebia, mais pensava numa mulher que vivia ali perto, uma mulher boa e forte, com o maior par de tetas que você já viu. Tinha um gênio difícil, aquela, mas, oh, também sabia ser quente, e no meio do inverno um homem precisa de seu calor.

"Quanto mais bebia, mais pensava nela, e quanto mais pensava, mais duro ficava o meu membro, até que não aguentei mais. Idiota como era, enfiei-me em peles da cabeça aos pés, enrolei a cara numa volta de lã, e lá fui à procura dela. A neve caía com tanta força que me virou uma ou duas vezes, e o vento soprava através de mim e congelava meus ossos, mas finalmente cheguei em sua casa, todo enfaixado como estava.

"A mulher tinha um gênio terrível, e deu uma luta e tanto quando pus as mãos nela. Por pouco não conseguia levá-la para casa e tirá-la de dentro daquelas peles, mas quando fiz isso, oh, ela foi ainda mais quente do que eu me lembrava, e passamos um belo tempo juntos, e depois adormeci. Na manhã seguinte, quando acordei, a forte nevasca tinha parado e o sol brilhava, mas eu não estava em estado de aproveitá-lo. Estava todo ferido e rasgado, com metade de meu membro arrancado a dentadas, e bem ali no chão estava a pele de uma ursa. E não demorou muito tempo para que o povo livre começasse a contar histórias sobre um urso sem pelos visto na floresta, seguido pelo mais estranho par de filhotes que já se viu. Ha! - deu uma palmada numa coxa carnuda. - Gostaria de voltar a encontrá-la. Aquela ursa era boa na cama. Nunca mulher nenhuma me deu uma luta daquelas, nem filhos tão fortes."

- O que faria se a encontrasse? - perguntou Jon, sorrindo. - Disse que ela arrancou seu membro com os dentes.

- Só metade. E metade de meu membro é duas vezes maior do que o de outro homem qualquer. - Tormund resfolegou. - E agora você... é verdade que cortam seus membros quando os levam para a Muralha?

- Não - disse Jon, afrontado.

- Eu acho que deve ser verdade. Se não, por que é que rejeita Ygritte? Ela quase não lhe daria luta, me parece. A moça quer você lá dentro, isso tá bem na cara.

Está na cara até demais, pensou Jon, e parece que metade da coluna já percebeu isso. Estudou a neve que caía para que Tormund não o visse corar. Sou um homem da Patrulha da Noite, lembrou a si próprio. Mas então por que se sentia como se fosse uma donzela tímida?

Passava a maior parte dos dias na companhia de Ygritte, e a maior parte das noites também. Mance Rayder não se mostrara cego perante a desconfiança que o Camisa de Chocalho nutria pelo "corvo-que-veio", por isso, depois de dar a Jon o novo manto de pele de ovelha, sugeriu que talvez preferisse acompanhar Tormund Terror dos Gigantes. Jon sentiu-se feliz por concordar, e no dia seguinte Ygritte e o Lança-Longa Ryk também tinham trocado o bando do Camisa de Chocalho pelo de Tormund.

- O povo livre acompanha quem quiser - a moça lhe disse -, e nós estamos de saco cheio do Saco de Ossos.

Todas as noites, quando montavam o acampamento, Ygritte estendia as suas peles de dormir ao lado das dele, quer estivesse perto da fogueira, quer estivesse longe. Uma vez, acordou com ela aninhada a si, com o braço apoiado em seu peito. Permaneceu imóvel por muito tempo, escutando a respiração dela, tentando ignorar a tensão na virilha. Era frequente que os patrulheiros dividissem as peles para obter calor, mas suspeitava que calor não era tudo que Ygritte queria. Depois disso, começou a usar Fantasma para mantê-la afastada. A Velha Ama costumava contar histórias sobre cavaleiros e suas senhoras que dormiam na mesma cama com uma lâmina entre eles, em nome da honra, mas Jon achava que aquela devia ser a primeira vez que um lobo gigante fazia as vezes de espada.

Mesmo assim, Ygritte persistia. Na antevéspera, Jon cometera o erro de desejar ter água quente para um banho.

- A fria é melhor - ela disse de imediato -, se tiver alguém para aquecê-lo depois. o rio ainda só está meio gelado, vai lá.

Jon riu.

- Você me mataria congelado.

- Todos os corvos têm medo de pele de galinha? Um bocadinho de gelo não vai matar você. Eu salto junto pra provar.

- E passamos o resto do dia com a roupa molhada e congelada agarrada à pele? - retrucou.

- Jon Snow, você não sabe nada. Não se mergulha vestido.

- Não mergulho e ponto - disse com firmeza, logo antes de ouvir Tormund Punho de Trovão berrar por ele (não tinha ouvido, mas não importa).

Os selvagens pareciam achar Ygritte uma grande beleza, por causa de seus cabelos; cabelos ruivos eram raros entre o povo livre, e dizia-se que aqueles que o possuíam tinham sido beijados pelo fogo, o que supostamente era sinal de sorte. Os cabelos de Ygritte até podiam ser sinal de sorte, e certamente eram ruivos, mas eram também tão embaraçados que Jon se sentia tentado a perguntar se ela só o escovava na mudança da estação.

Sabia que na corte de um senhor a garota nunca teria sido considerada algo mais do que comum. Tinha um rosto redondo de camponesa, nariz achatado e dentes ligeiramente tortos, e os olhos eram afastados demais. Jon havia reparado em tudo isso na primeira vez que a viu, quando encostou o punhal na garganta dela. Mas nos últimos tempos andava reparando em outras coisas. Quando ela sorria, os dentes tortos não pareciam importar. E talvez seus olhos fossem afastados demais, mas eram de uma cor bonita, azul-acinzentada, e tão cheios de vida como nenhum outro que já tivesse visto. Às vezes, cantava numa voz grave e rouca que o estimulava. E às vezes, junto à fogueira, quando ela se sentava abraçando os joelhos com as chamas a despertar ecos em seus cabelos vermelhos, e o olhava, sorrindo apenas... bem, isso também estimulava algumas coisas.

Mas ele era um homem da Patrulha da Noite, tinha prestado um juramento. Não tomarei esposa, não possuirei terras, não gerarei filhos. Proferira as palavras perante o represeiro, perante os deuses do pai. Não podia desdizê-las... assim como não podia admitir o motivo de sua relutância a Tormund Punho de Trovão, Pai de Ursos.

- Não gosta da garota? - perguntou-lhe Tormund enquanto passavam por mais vinte mamutes, estes transportando selvagens no topo de altas torres de madeira em vez de gigantes.

- Gosto, mas eu... - O que posso dizer para convencê-lo? - Ainda sou novo demais para casar.

- Casar? - Tormund soltou uma gargalhada. - Quem falou em casamento? No sul um homem precisa se casar com todas as garotas com quem dorme?

Jon sentia que estava enrubescendo novamente.

- Ela falou em meu favor quando o Camisa de Chocalho quis me matar. Não quero desonrá-la.

- Você agora é um homem livre, e Ygritte, uma mulher livre. Onde está a desonra se dormirem juntos?

- Ela pode engravidar.

- Sim, pode-se ter esperança nisso. Um filho forte ou uma menina cheia de vida e de risos, beijada pelo fogo, e que mal há nisso?

As palavras falharam-lhe por um momento.

- O menino... a criança seria um bastardo.

- Os bastardos são mais fracos do que as outras crianças? Mais enfermiços, mais sujeitos a erro?

- Não, mas...

- Você mesmo é um bastardo. E se a Ygritte não quiser um filho, ela vai até uma bruxa qualquer dos bosques para beber uma taça de chá de lua. Você não tem nada a ver com isso, depois de a semente ter sido plantada.

- Não serei pai de um bastardo.

Tormund balançou sua cabeça desgrenhada.

- Vocês, os ajoelhadores, são grandes bobos. Por que roubou a garota se não a queria?

- Roubar? Eu não...

- Você, sim - disse Tormund. - Matou os dois homens com quem ela estava e levou-a consigo, que nome dá a isso?

- Levei-a prisioneira.

- Obrigou-a a se entregar a você.

- Sim, mas... Tormund, juro que nunca toquei nela.

- Tem certeza de que não cortaram seu membro? - Tormund encolheu os ombros, como que para dizer que nunca conseguiria compreender tal loucura. - Bem, agora é um homem livre, mas se não quer a moça, é melhor que arranje uma ursa. Se um homem não usa o membro, ele vai ficando cada vez menor, até que um dia quer mijar e não o encontra.

Jon não tinha resposta para aquilo. Não era de admirar que os Sete Reinos considerassem o povo livre pouco acima dos animais. Eles não têm leis, nem honra, nem sequer simples decência. Roubam-se continuamente uns aos outros, reproduzem-se como animais, preferem a violação ao casamento, e enchem o mundo de filhos ilegítimos. E, no entanto, estava começando a gostar de Tormund Terror dos Gigantes, apesar do grande saco de vento e mentiras que o homem era. E do Lança-Longa também. E Ygritte... não, não pensarei em Ygritte.

Mas com Tormund e Lança-Longa seguiam outros tipos de selvagem; homens como o Camisa de Chocalho e o Chorão, que tão depressa abririam sua goela quanto escarrariam em você. Havia Harma Cabeça de Cão, uma mulher que mais parecia um barril atarracado, com lajes de carne branca no lugar das bochechas, que odiava cães e matava um a cada quinzena para arranjar uma cabeça nova para a sua insígnia; o Styr sem orelhas, Magnar dí Thenn, que era considerado por seu povo mais deus do que homem; Varamyr Seis-Peles, um pequeno rato em forma de homem, cujo garanhão era um urso-das-neves branco e selvagem, que tinha quase quatro metros de altura quando ficava em pé nas patas traseiras. E onde quer que Varamyr e o urso fossem, três lobos e um gato-das-sombras seguiam-nos. Jon estivera em sua presença apenas uma vez, e uma vez fora o bastante; bastou ver o homem para se sentir irritado, ao mesmo tempo que o pelo no pescoço de Fantasma havia se eriçado quando o lobo avistou o urso e aquele grande gato preto e branco.

E havia gente ainda mais feroz do que Varamyr, vinda das regiões mais setentrionais da floresta assombrada, dos vales escondidos das Presas de Gelo e de lugares ainda mais estranhos: os homens da Costa Gelada, que seguiam em bigas feitas de ossos de morsa, puxadas por matilhas de cães selvagens; os terríveis clãs do rio de gelo, dos quais se dizia que se banqueteavam com carne humana; os habitantes das cavernas, com o rosto pintado de azul, roxo e verde. Jon contemplara com os próprios olhos os homens de Cornopé, que avançavam a trote, em coluna, sobre pés nus que tinham solas duras como couro fervido. Não tinha visto snarks nem grumequins, mas, até onde sabia, Tormund poderia ter alguns para comer no jantar.

Jon calculava que metade da tropa dos selvagens passara toda a vida sem ver a Muralha, nem que fosse de relance, e, entre esses, a maioria não sabia uma palavra do Idioma Comum. Não importava. Mance Rayder falava o Idioma Antigo, até cantava nele, dedilhando o seu alaúde e enchendo a noite com música estranha e selvagem.

Mance tinha passado anos reunindo aquela vasta e lenta tropa, falando aqui com uma mãe de clã e ali com um magnar, conquistando uma aldeia com palavras simpáticas, outra com uma canção e uma terceira com o gume da espada, fazendo a paz entre Harma Cabeça de Cão e o Senhor dos Ossos, entre os Cornopés e os Corredores da Noite, entre os homens-morsa da Costa Gelada e os clãs canibais dos grandes rios de gelo, fundindo uma centena de punhais diferentes numa única grande lança, apontada ao coração dos Sete Reinos. Não tinha coroa nem cetro, nem vestes de seda e veludo, mas para Jon estava claro que Mance Rayder era mais rei do que se assim fosse chamado.

Jon tinha se juntado aos selvagens por ordem de Qhorin Meia-Mão.

- Cavalgue com eles, coma com eles, lute com eles - dissera-lhe o patrulheiro, na noite antes de morrer. - E observe. - Mas, com toda a sua observação, pouco aprendera. Meia-Mão suspeitava que os selvagens tinham subido às desoladas e estéreis Presas de Gelo em busca de alguma arma, de algum poder, de algum terrível feitiço para derrubar a Muralha... mas, se tinham encontrado algo assim, ninguém andava se vangloriando abertamente do fato, nem o mostrava a Jon. E Mance Rayder tampouco tinha lhe confidenciado qualquer um de seus planos, qualquer parte de sua estratégia. Desde aquela primeira noite, quase não vira o homem, exceto a distância.

Vou matá-lo, se tiver de ser. A ideia não dava a Jon nenhuma alegria; não haveria honra em tal morte, e significaria também a sua. Mas não podia deixar que os selvagens abrissem uma brecha na Muralha, que ameaçassem Winterfell e o Norte, as terras acidentadas e os Regatos, Porto Branco e a Costa Pedregosa, até mesmo o Gargalo. Havia oito mil anos que os homens da Casa Stark viviam e morriam para proteger seu povo contra os atacantes e piratas... e, bastardo ou não, era o mesmo sangue que corria em suas veias. Além disso, Bran e Rickon ainda estão em Winterfell. Assim como Meistre Luwin, sor Rodrik, a Velha Ama, Farlen, o mestre dos canis, Mikken, em sua forja, e Gage, junto dos fornos... todos os que conheci, todos os que amei. Se Jon tinha de matar um homem por quem tinha meia admiração e do qual quase gostava para salvar aqueles que amava dos caprichos de Camisa de Chocalho, Harma Cabeça de Cão ou Magnar de Thenn, era isso que pretendia fazer.

Apesar de tudo, rezava aos deuses do pai para que o poupassem dessa tarefa tão desoladora. A tropa movia-se lentamente, sobrecarregada que estava com todos os rebanhos, crianças e pequenos tesouros dos selvagens, e as neves tinham tornado o progresso ainda mais lento. A maior parte da coluna estava agora para lá do sopé dos montes, escorrendo ao longo da margem ocidental do Guadeleite como mel numa manhã fria de inverno, seguindo o curso do rio em direção ao coração da floresta assombrada.

E Jon sabia que em algum lugar mais adiante, perto, o Punho dos Primeiros Homens se erguia por sobre as árvores, abrigando trezentos irmãos negros da Patrulha da Noite, armados, montados e à espera. O Velho Urso tinha enviado outros batedores além do Meia-Mão, e decerto Jarman Buckwell ou Thoren Smallwoodjá teriam retornado com a informação sobre aquilo que vinha descendo das montanhas.

Mormont não fugirá, pensou Jon. É velho demais e chegou longe demais. Atacará, e que se danem os números. Um dia, em breve, ouviria o som de berrantes de guerra e veria uma coluna de cavaleiros caindo sobre eles com esvoaçantes mantos negros e aço frio nas mãos. Trezentos homens não podiam esperar matar cem vezes mais, claro, mas Jon achava que não precisariam fazer isso. Ele não precisa matar mil homens, apenas um. Mance é tudo que os mantém juntos.

O Rei-para-lá-da-Muralha estava fazendo tudo o que podia, mas os selvagens mantinham-se irremediavelmente indisciplinados, e isso tornava-os vulneráveis. Aqui e ali, na serpente com léguas de comprimento que era a sua linha de marcha, havia guerreiros tão bons como quaisquer membros da Patrulha, mas cerca de um terço deles encontrava-se agrupado nas duas extremidades da coluna, na vanguarda de Harma Cabeça de Cão e na retaguarda selvagem, com os seus gigantes, auroques e lançadores de fogo. Outro terço seguia com o próprio Mance, perto do centro, defendendo carroças, trenós e carros puxados por cães que levavam a maior parte das provisões e dos abastecimentos da tropa, tudo que restara da colheita do verão anterior. O resto, dividido em pequenos bandos sob o comando de homens como o Camisa de Chocalho, Jarl, Tormund Terror dos Gigantes e Chorão, servia como batedores, forrageiros e "chicotes", galopando sem cessar ao longo da coluna, para mantê-la em movimento de uma forma mais ou menos ordenada.

E ainda mais relevante era que só um em cem selvagens se encontrava montado. O Velho Urso vai atravessá-los como um machado atravessa mingau de aveia. E quando isso acontecesse, Mance os perseguiria com suas forças centrais, tentando minimizar a ameaça.

Se caísse na luta que se seguiria, Jon estimava que a Muralha estaria a salvo durante mais cem anos. Caso contrário...

Abriu e fechou os dedos queimados de sua mão da espada. A Garralonga estava pendurada na sela, com o botão de pedra esculpida em forma de cabeça de lobo e o macio punho de couro ao alcance da mão.

A neve caía com força quando alcançaram o bando de Tormund, várias horas depois. Fantasma partiu ao longo do caminho, misturando-se à floresta ao farejar uma presa. O lobo gigante voltaria quando acampassem para passar a noite, o mais tardar à alvorada. Por mais longe que andasse, Fantasma sempre voltava... e o mesmo, ao que parecia, fazia Ygritte.

- Então - gritou a garota quando o viu - já acredita em nós, Jon Snow? Viu os gigantes em seus mamutes?

- Ha! - gritou Tormund, antes de Jon conseguir responder. - O corvo está apaixonado! Quer casar com um!

- Com um gigante? - Lança-Longa Ryk riu.

- Não, com um mamute! - berrou Tormund. - Ha!

Ygritte trotou para o lado de Jon enquanto este reduzia o passo do garrano. Ela dizia ser três anos mais velha do que ele, embora fosse quinze centímetros mais baixa; qualquer que fosse a sua idade, a garota era uma coisinha rija. Cobra das Pedras chamara-a de "esposa de lança" quando a tinham capturado no Passo dos Guinchos. Não era casada e sua arma favorita era um pequeno arco curvado feito de chifre e represeiro, mas "esposa de lança" ajustava-se a ela mesmo assim. Lembrava a Jon um pouco sua irmã, Arya, embora esta fosse mais nova e provavelmente mais magra. Era difícil dizer se Ygritte era magra ou gorda, com todas as peles que usava.

- Conhece "O último dos gigantes"? - sem esperar resposta, Ygritte continuou; - E preciso uma voz mais grave do que a minha para cantá-la como deve ser. - E então cantou: - Ooooooh, sou o último dos gigantes, o meu povo do mundo partiu.

Tormund, Terror dos Gigantes, ouviu as palavras e sorriu.

- O último dos gigantes de montanha, que um dia tudo possuiu - berrou em resposta através da neve.

Lança-Longa Ryk juntou-se a eles, cantando:

- Oh, o povo pequeno roubou-me as florestas, roubou-me os rios e os montes.

- E atravessou meus vales com uma grande muralha, e pescou meus peixes das fontes - responderam-lhe Ygritte e Tormund, em vozes adequadamente gigânticas.

Os filhos de Tormund, Toregg e Dormund, juntaram também suas vozes graves à canção, seguidos por Munda e todos os demais. Outros começaram a bater com as lanças em escudos de couro para marcar um ritmo grosseiro, até todo o bando de guerreiros estar cantando enquanto avançava.

Em salões de pedra fazem suas grandes fogueiras, em salões de pedra forjam suas afiadas lanças. Enquanto eu caminho sozinho nas montanhas, sem nenhum companheiro além das lembranças. Caçam-me sempre com cães à luz do dia, Caçam-me sempre com archotes no escuro. Pois os homens pequenos não poderão ver-se altos, se caminharem gigantes no futuro. Oooooo, sou o ÚLTIMO dos gigantes, Por isso aprenda bem a minha canção, Pois quando eu partir nascerá o silêncio, e durante muito tempo as canções morrerão.

Havia lágrimas no rosto de Ygritte quando a canção terminou.

- Por que está chorando? - perguntou Jon. - Foi só uma canção. Há centenas de gigantes, acabei de vê-los.

- Oh, centenas - disse ela, furiosa. - Não sabe nada, Jon Snow. Você... JON!

Jon virou-se ao ouvir o súbito som de asas. Penas azul-acinzentadas encheram seus olhos, enquanto garras afiadas se enterravam em seu rosto. Uma dor rubra atravessou-o, súbita e violenta, enquanto asas batiam em volta de sua cabeça. Viu o bico, mas não houve tempo para levantar uma mão ou estendê-la para alguma arma. Jon cambaleou para trás, seu pé saltou do estribo, o garrano fugiu em pânico, e de repente estava caindo. E a águia ainda se agarrava ao seu rosto, com as garras rasgando-o enquanto a ave batia as asas, guinchava e bicava. O mundo virou de pernas para o ar, num caos de penas, carne de cavalo e sangue, e então o chão surgiu e esmagou-o.

Quando deu por si, estava caído sobre o rosto, com gosto de lama e sangue na boca, e Ygritte ajoelhava-se protetoramente sobre ele, com um punhal de osso na mão. Ainda ouvia asas, embora não visse a águia. Metade de seu mundo estava negra.

- Meu olho - disse, num pânico súbito, levando a mão ao rosto.

- E só sangue, Jon Snow. Ela errou o olho, só rasgou um pouco de sua pele.

Sentia o rosto latejar. Viu com o olho direito, enquanto esfregava o esquerdo para limpá-lo do sangue, que Tormund se encontrava perto deles, berrando. Então ouviram-se batidas de cascos, gritos, e o chocalhar de velhos ossos.

- Saco de Ossos - rugiu Tormund -, chame seu corvo infernal!

- O corvo infernal tá ali! - Camisa de Chocalho apontou para Jon. - Sangrando na lama como um cão sem fé! - A águia desceu, batendo as asas, e foi pousar no crânio rachado de gigante que servia de elmo ao guerreiro. - Venho por ele.

- Então venha buscá-lo - disse Tormund mas é melhor vir de espada na mão, porque é assim que vai encontrar a minha. Pode ser que ferva os seus ossos e use seu crânio para mijar. Ha!

- Quando eu furar você e deixar sair o ar, vai encolher até ficar menor do que aquela garota. Afaste-se, senão Mance vai ficar sabendo disso.

Ygritte levantou-se.

- O quê? E Mance que o quer?

- Foi o que eu disse, não foi? Ponha o cara sobre seus pés pretos.

Tormund franziu a testa para Jon.

- E melhor ir, se é Mance quem chama.

Ygritte ajudou-o a se levantar.

- Tá sangrando como um javali na matança. Olhe o que o Orell fez com o lindo rosto dele.

Será que uma ave pode odiar? Jon matara o selvagem Orell, mas uma parte do homem permanecia dentro da águia. Os olhos dourados olhavam-no com fria malevolência.

- Eu vou - disse. O sangue continuava a escorrer para dentro de seu olho direito, e a bochecha era uma explosão de dor. Quando a tocou, as luvas pretas se mancharam de vermelho. - Deixem-me apanhar o garrano. - O que queria não era o cavalo e sim Fantasma, mas não se via o lobo gigante em lugar nenhum. A essa altura, pode estar muito distante, dilacerando a goela de algum alce. Talvez isso fosse bom.

O garrano fugiu dele quando se aproximou, sem dúvida assustado pelo sangue que tinha no rosto, mas Jon acalmou-o com algumas palavras ditas em voz baixa, e algum tempo depois conseguiu aproximar-se o suficiente para pegar as rédeas. Ao montar, sentiu a cabeça rodopiar. Vou precisar tratar disso, pensou, mas não agora. Que o Rei-para-lá-da-Muralha veja o que a águia dele me fez. A mão direita abriu-se e fechou-se, ejon estendeu-a para a Garralonga e pôs a espada bastarda ao ombro antes de dar meia-volta e seguir a trote para onde o Senhor dos Ossos o esperava com seu bando.

Ygritte também estava à espera, montada no cavalo com uma expressão feroz no rosto.

- Também vou.

- Suma. - Os ossos da placa de peito do Camisa de Chocalho tiniram. - Mandaram-me buscar o corvo-que-desceu e mais ninguém.

- Uma mulher livre leva o cavalo para onde quiser - disse Ygritte.

O vento estava soprando neve nos olhos de Jon. Sentia o sangue congelando em seu rosto.

- Ficamos conversando ou vamos embora?

- Vamos embora - disse o Senhor dos Ossos.

Foi um galope duro. Percorreram a coluna ao longo de mais de três quilômetros, por entre flocos de neve rodopiantes, depois cortaram através de um emaranhado de carroças de bagagem e atravessaram o Guadeleite no local onde o rio fazia uma grande curva para leste. Uma crosta de gelo fino cobria os baixios do rio; a cada passo, os cascos dos cavalos quebravam-na e atravessavam-na, até chegarem a águas mais profundas, dez metros mais adiante. A neve parecia cair ainda mais depressa na margem oriental, e os montes de neve acumulada também eram mais profundos. Até o vento é mais frio. E a noite estava caindo.

Mas mesmo através da neve soprada pelo vento, a forma do grande monte branco que pairava acima das árvores era inconfundível. O Punho dos Primeiros Homens. Jon ouviu o guincho da águia por cima de sua cabeça. Um corvo olhou-o do alto de um pinheiro marcial e lançou um cuorc quando ele passou. Teria o Velho Urso feito seu ataque? Em vez do estrondo do aço e do ruído seco das flechas levantando voo, Jon ouvia apenas o suave esmagamento da crosta gelada por baixo dos cascos do garrano.

Deram a volta em silêncio até a vertente sul, onde a subida era mais fácil. Foi aí que Jon viu o cavalo morto, estatelado no sopé do monte, meio enterrado na neve. Entranhas jorravam da barriga do animal como serpentes congeladas, e uma de suas patas tinha desaparecido. Lobos, foi o primeiro pensamento de Jon, mas não estava certo. Os lobos comiam os animais que matavam.

Mais garranos estavam espalhados pela encosta, com as patas retorcidas de um modo grotesco e olhos cegos fixos na morte. Os selvagens rastejavam sobre eles como moscas, despindo-os de selas, arreios, embrulhos e armaduras, e cortando sua carne com machados de pedra.

- Para cima - disse Camisa de Chocalho a Jon. - O Mance tá lá no alto.

Desmontaram junto à muralha anelar para se enfiarem através de um vão inclinado entre as pedras. A carcaça de um garrano felpudo e castanho estava empalada nos espigões afiados que o Velho Urso havia colocado dentro de todas as entradas. Ele estava tentando sair, não entrar. Não havia sinal de um cavaleiro.

Lá dentro havia mais, e pior. Jon nunca antes vira neve cor-de-rosa. O vento soprava em rajadas à sua volta, puxando seu pesado manto de pele de ovelha. Corvos esvoaçavam e um cavalo morto para o seguinte. Será que aqueles corvos são selvagens ou dos nossos? - on não sabia dizer. Perguntou a si mesmo onde estaria agora o pobre Sam. E o que seria.

Uma crosta de sangue congelado rangeu por baixo do calcanhar de sua bota. Os selvagens estavam despindo os cavalos mortos de todos os restos de aço e couro, chegando mesmo a arrancar suas ferraduras dos cascos. Alguns vasculhavam pacotes que tinham achado, em busca de armas ou alimentos. Jon passou por um dos cães de Chett, ou aquilo que dele restava, jazendo numa poça viscosa de sangue meio congelado.

Ainda havia algumas tendas em pé no lado mais distante do acampamento, e foi nesse lugar que encontraram Mance Rayder. Sob o manto rasgado de lã negra e seda vermelha usava cota de malha preta e felpudos calções de pele, e na cabeça tinha um grande elmo de bronze e ferro, com asas de corvo nas têmporas. Jarl encontrava-se com ele, bem como Harma Cabeça de Cão; Styr também estava lá, assim como Varamyr Seis-Peles, com seus lobos e seu gato-das-sombras.

O olhar que Mance lançou a Jon foi ameaçador e frio.

- O que aconteceu com seu rosto? Ygritte respondeu:

- Orell tentou arrancar-lhe um olho.

- Perguntei a ele. Perdeu a língua? Talvez devesse, para nos poupar de mais mentiras. Styr, o Magnar, puxou uma longa faca.

- O rapaz talvez possa ver com mais clareza com um olho em vez de dois.

- Gostaria de ficar com o olho, Jon? - perguntou o Rei-para-lá-da-Muralha. - Se sim, diga-me quantos eram. E tente falar a verdade dessa vez, Bastardo de Winterfell.

Jon tinha a garganta seca.

- Meu senhor... o que...

- Não sou o seu senhor - disse Mance. - E o que é bastante claro. Seus irmãos morreram. A questão é: quantos?

O rosto de Jon latejava, a neve continuava caindo e era difícil pensar. Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado, Qhorin lhe dissera. As palavras prenderam-se em sua garganta, mas Jon forçou-se a dizer:

- Éramos trezentos.

- Éramos? - disse Mance vivamente.

- Eram. Eram trezentos. - Não importa o que lhe seja solicitado, disse o Meia-Mão. Então por que me sinto tão covarde? - Duzentos de Castelo Negro, e cem da Torre Sombria.

- Essa é uma canção mais verdadeira do que a que cantou em minha tenda. - Mance olhou para Harma Cabeça de Cão. - Quantos cavalos encontrou?

- Mais de cem - respondeu a enorme mulher -, menos de duzentos. Há mais mortos a leste, debaixo da neve, é difícil saber quantos. - Atrás dela encontrava-se o seu porta-estandarte, segurando uma vara com a cabeça de um cão na ponta, suficientemente fresca para ainda estar vertendo sangue.

- Não devia ter mentido para mim, Jon Snow - disse Mance.

- Eu... eu sei. - O que poderia dizer?

O rei selvagem estudou seu rosto.

- Quem tinha o comando aqui? E diga-me a verdade. Era Rykker? Smallwood? Não pode ter sido o Wythers, ele era fraco demais. De quem era esta tenda?

Já disse demais.

- Não encontrou o corpo dele?

Harma fungou, lançando desdém pelas narinas.

- Que idiotas esses corvos pretos.

- Da próxima vez que me responder com uma pergunta, dou você ao Senhor dos Ossos - prometeu Mance Rayder a Jon. Aproximou-se dele. - Quem comandava aqui?

Mais um passo, pensou Jon. Mais alguns centímetros. Deslocou a mão para mais perto do cabo da Garralonga. Se ficar de boca fechada...

- Tente pegar nessa maldita espada, e eu corto sua cabeça de bastardo antes de você ter tempo de tirá-la da bainha - disse Mance. - Estou perdendo rapidamente a paciência com você, corvo.

- Diga - exortou Ygritte. - Ele está morto, seja quem for.

Seu franzir de sobrancelhas fez rachar a crosta de sangue que tinha no rosto. Isso é difícil demais, pensou Jon, desesperado. Como é que eu faço papel de vira-casaca sem me transformar em um? Qhorin não havia lhe dito. Mas o segundo passo é sempre mais fácil do que o primeiro.

- O Velho Urso.

- Aquele velho? - o tom de Harma mostrava descrença. - Veio em pessoa? Então quem comanda em Castelo Negro?

- Bowen Marsh. - Daquela vez, Jon respondeu imediatamente. Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado.

Mance soltou uma gargalhada.

- Se isso for verdade, temos a guerra ganha. Bowen sabe bastante mais sobre contar espadas do que algum dia soube a respeito de usá-las.

- O Velho Urso comandava - disse Jon. - Este lugar era alto e forte, e ele tornou-o mais forte. Cavou fossos e colocou estacas, armazenou comida e água. Estava pronto para...

- ... mim? - concluiu Mance Rayder. - Se estava. Se eu tivesse sido suficientemente tolo para assaltar seu monte, poderia ter perdido cinco homens para cada corvo que matasse e ainda estaria com sorte. - Os lábios endureceram. - Mas quando os mortos caminham, muralhas, estacas e espadas não significam nada. Não se pode lutar com os mortos, Jon Snow. Ninguém sabe disso tão bem quanto eu. - Ergueu o olhar para o céu que escurecia e disse: - Os corvos podem nos ter ajudado mais do que julgam. Tenho perguntado a mim mesmo por que não sofremos ataques. Mas ainda há uma centena de léguas de caminho, e o frio aumenta. Varamyr, mande seus lobos farejarem o rastro das criaturas, não quero que nos apanhem desprevenidos. Senhor dos Ossos, duplique todas as patrulhas, e certifique-se de que todos os homens têm archotes e pederneira. Styr, Jarl, vocês partem à primeira luz da aurora.

- Mance - disse Camisa de Chocalho -, quero uns ossos de corvo.

Ygritte pôs-se diante de Jon.

- Não pode matar um homem por mentir para proteger seus antigos irmãos.

- Eles ainda são seus irmãos - declarou Styr.

- Não são - insistiu Ygritte. - Ele não me matou, como lhe disseram para fazer. E matou o Meia-Mão, como todos vimos.

A respiração de Jon condensava no ar. Se mentir para Mance, ele saberá. Olhou Mance Rayder nos olhos, abriu e fechou a mão queimada.

- Uso o manto que me deu, Vossa Graça.

- Um manto de pele de ovelha! - disse Ygritte. - E há muitas noites dançamos por baixo dele!

Jarl soltou uma gargalhada, e até Harma Cabeça de Cão deu um sorrisinho.

- Ah, então é isso, Jon Snow? - perguntou brandamente Mance Rayder. - Ela e você?

Era fácil perder o rumo para lá da Muralha. Jon já não sabia se ainda era capaz de distinguir a honra da vergonha, ou o certo do errado. Que o pai me perdoe.

- Sim - disse.

Mance fez um aceno.

- Ótimo. Então vão com Jarl e Styr de manhã. Ambos. Longe de mim separar dois corações que batem como um só.

- Iremos para onde?

- Subir a Muralha. Já é mais do que hora de provar a sua lealdade com algo mais do que palavras, Jon Snow.

Magnar não ficou satisfeito.

- O que eu faço com um corvo?

- Ele conhece a Patrulha e conhece a Muralha - disse Mance - e conhece Castelo Negro melhor do que qualquer assaltante. Se não for tolo, vai encontrar uso para ele.

Styr lançou-lhe um olhar carrancudo.

- O coração dele pode ainda ser negro.

- Se for, arranque-o. - Mance virou-se para Camisa de Chocalho. - Meu Senhor dos Ossos, mantenha a coluna em movimento a qualquer preço. Se chegarmos à Muralha antes de Mormont, vencemos.

- Vão se mover. - A voz de Camisa de Chocalho estava carregada e irada.

Mance assentiu e afastou-se, com Harma e Seis-Peles ao seu lado. Os lobos e o gato-das-sombras de Varamyr seguiram atrás. Jon e Ygritte foram deixados com Jarl, Camisa de Chocalho e Magnar. Os dois selvagens mais velhos olharam Jon com rancor mal disfarçado, enquanto Jarl dizia:

- Ouviu, partimos ao nascer do dia. Traga toda a comida que puder, não vai haver tempo para caçar. E trate dessa cara, corvo. Isso tá uma porcaria.

- Tratarei - disse Jon.

- É melhor que não esteja mentindo, garota - disse o Camisa de Chocalho a Ygritte, com os olhos brilhantes por baixo do crânio de gigante.

Jon desembainhou Garralonga.

- Afaste-se de nós se não quiser o que Qhorin teve.

- Não tem nenhum lobo aqui pra ajudá-lo, rapaz. - Camisa de Chocalho estendeu a mão para sua espada.

- Tem certeza? - Ygritte soltou uma gargalhada.

Sobre as pedras da muralha anelar, Fantasma baixava a cabeça, com os pelos brancos eriçados. Não soltava um som, mas seus olhos vermelho-escuros falavam de sangue. O Senhor dos Ossos afastou lentamente a mão da espada, recuou um passo, e deixou-os com uma praga.

Fantasma caminhou ao lado dos garranos de Jon e Ygritte enquanto desciam o Punho. Só quando já estavam no meio da travessia do Guadeleite é que Jon se sentiu suficientemente em segurança para dizer:

- Não pedi para você mentir por mim.

- Não menti - disse ela. - Só não lhes contei uma parte, nada mais.

- Disse...

- ... que fodemos muitas noites debaixo de seu manto. Mas não lhes disse quando começamos. - O sorriso que lhe deu era quase tímido. - Arranje outro lugar para o Fantasma dormir esta noite, Jon Snow. E como o Mance diz: as ações são mais verdadeiras do que as palavras.

Sansa

Um vestido novo? - disse, tão cautelosa quanto espantada.

- Mais lindo do que qualquer outro que tenha usado, senhora - prometeu a velha. Mediu as ancas de Sansa com uma corda cheia de nós. - Todo de seda e renda de Myr, com forro de cetim. Ficará muito bela. Foi a própria rainha que o encomendou.

- Qual rainha? - Margaery ainda não era rainha de Joffrey, mas havia sido a de Renly. Ou ela estaria se referindo à Rainha dos Espinhos? Ou...

- A Rainha Regente, com certeza.

- A Rainha Cersei.

- Essa mesma. Há muitos anos que me dá a honra de ser freguesa. - A velha estendeu a corda ao longo da parte de dentro da perna de Sansa. - Sua Graça disse-me que agora é uma mulher, e não deve se vestir como uma garotinha. Estenda o braço.

Sansa ergueu o braço. Precisava de um vestido novo, isso era verdade. Tinha crescido sete centímetros no ano anterior, e a maior parte de seu antigo guarda-roupa havia estragado com a fumaça, quando tentou queimar o colchão no dia de sua primeira floração.

- Seu peito ficará tão lindo como o da rainha - disse a velha enquanto envolvia o peito de Sansa com a corda. - Não devia escondê-lo tanto.

O comentário fez Sansa corar. E no entanto, da última vez em que fora montar, não conseguiu atar o justilho até em cima, e o cavalariço não tirou os olhos dela enquanto a ajudava a montar. Às vezes, via também homens-feitos olhando para seu peito, e algumas de suas túnicas estavam tão apertadas que quase não conseguia respirar vestida com elas.

- De que cor será? - perguntou à costureira.

- Deixe as cores comigo, senhora. Ficará contente, tenho certeza. Também terá roupas de baixo e meias, batas, capas e mantos, e tudo o mais que é próprio de uma... de uma linda jovem senhora de nobre nascimento.

- Estarão prontos a tempo da boda do rei?

- Oh, mais cedo, muito mais cedo, Sua Graça insiste. Tenho seis costureiras e doze aprendizes, e deixaremos de lado todos os outros serviços para nos dedicarmos a este. Muitas senhoras ficarão zangadas conosco, mas foram ordens da rainha.

- Tenha a gentileza de agradecer à Sua Graça por sua amabilidade - disse Sansa com cortesia. - Ela é boa demais para mim.

- Sua Graça é muito generosa - concordou a costureira, enquanto recolhia as suas coisas e se retirava.

Mas por quê?, perguntou Sansa a si mesma quando ficou sozinha. Aquilo deixava-a inquieta. Aposto que esse vestido é de algum modo obra de Margaery, ou da avó.

A gentileza de Margaery tinha sido inabalável, e sua presença mudara tudo. As suas senhoras também tinham acolhido Sansa entre elas. Fazia tanto tempo que não desfrutava da companhia de outras mulheres que quase se esquecera de como podia ser agradável. A Senhora Leonette ensinava-a a tocar harpa, e a Senhora Janna partilhava com ela todas as melhores fofocas. Merry Crane tinha sempre uma história divertida para contar, e a pequena Senhora Bulwer lembrava-lhe Arya, embora não fosse tão irrequieta.

As primas Elinor, Alia e Megga estavam mais próximas da idade de Sansa. Eram Tyrell de ramos menores da Casa. "Rosas de partes mais baixas do arbusto", como brincava Elinor, que era esbelta e possuía senso de humor. Megga era redonda e ruidosa, Alia, tímida e bonita, mas Elinor governava as três por direito de maturação; era uma donzela já florida, enquanto Megga e Alia não passavam de garotas.

As primas acolheram Sansa como se a tivessem conhecido a vida inteira. Passavam longas tardes bordando e conversando, comendo bolos de limão e bebendo vinho com mel, à noite jogavam damas, cantavam juntas no septo do castelo... e era frequente que uma ou duas delas fossem escolhidas para dividir a cama com Margaery, onde gastavam metade da noite em segredos. Alia possuía uma linda voz, e quando era aliciada, tocava harpa e cantava canções de cavalaria e amores perdidos. Megga não sabia cantar, mas era louca por beijos. Confessou que ela e Alia jogavam às vezes um jogo de beijos, mas não era o mesmo que beijar um homem, muito menos um rei. Sansa perguntou a si mesma o que Megga acharia de beijar o Cão de Caça, como ela o fizera. Ele a tinha encontrado na noite da batalha, fedendo a vinho e sangue. Beijou-me e ameaçou me matar, e obrigou-me a cantar uma canção para ele.

- O Rei Joffrey tem lábios tão belos - exclamou Megga, absorta. - Oh, pobre Sansa, como o seu coração deve ter se partido quando o perdeu. Oh, como deve ter chorado!

Joffrey me fez chorar com mais frequência do que imagina, teve vontade de dizer, mas o Abetouro não estava por perto para abafar sua voz, por isso apertou os lábios e segurou a língua.

Quanto a Elinor, estava prometida a um jovem escudeiro, filho de Lorde Ambrose; iam se casar assim que ele ganhasse as esporas. Ele tinha usado o seu favor na Batalha da Água Negra, onde matou um besteiro de Myr e um homem de armas Mullendore.

- Alyn contou que seu favor o tornou destemido - disse Megga. - Ele diz que usou o nome de Elinor como grito de guerra, não é galante? Um dia quero que algum campeão use o meu favor e mate cem homens. - Elinor disse-lhe para se calar, mesmo assim pareceu ficar contente.

Elas são crianças, pensava Sansa. São garotinhas tolas, até mesmo Elinor. Nunca viram uma batalha, nunca viram um homem morrer, não sabem nada. Seus sonhos estavam cheios de canções e histórias, como os dela tinham estado antes de Joffrey cortar a cabeça do pai. Sansa tinha dó delas. E também tinha inveja.

Mas Margaery era diferente. Doce e gentil, sim, mas também havia nela um pouco da avó. Na antevéspera, levara Sansa à caça com falcão. Foi a primeira vez que saiu da cidade depois da batalha. Os mortos tinham sido queimados ou enterrados, mas o Portão da Lama estava rachado e lascado onde os aríetes de Lorde Stannis o tinham atacado, e viam-se cascos de navios esmagados ao longo de ambas as margens do Água Negra, com mastros carbonizados que se erguiam dos baixios como lúgubres dedos negros. O único tráfego no rio era o barco de fundo chato em que fizeram a travessia, e quando chegaram à mata de rei, encontraram um campo desolado de cinzas, carvão e árvores mortas. Mas as aves aquáticas abundavam nos pântanos ao longo da baía, e o esmerilhão de Sansa abateu três patos, enquanto o falcão-peregrino de Margaery apanhava uma garça-real em pleno voo.

- Willas tem as melhores aves dos Sete Reinos - disse Margaery quando as duas ficaram sozinhas por um breve período. - Às vezes, faz voar uma águia. Você vai ver, Sansa. - Pegou na mão dela e deu-lhe um apertão. - Irmã.

Irmã. Antigamente, Sansa sonhara em ter uma irmã como Margaery; bela e gentil, com todas as graças do mundo às suas ordens. Arya havia sido completamente insatisfatória no que tocava a ser irmã. Como posso deixar que minha irmã se case com Joffrey?, pensou, e de repente ficou com os olhos cheios de lágrimas.

- Margaery, por favor - disse -, não pode. - Era difícil fazer sair as palavras. - Você não pode se casar com ele. Ele não é o que parece, não é. Vai machucá-la.

- Penso que não. - Margaery sorriu com um ar confiante. - É corajoso de sua parte prevenir-me, mas não tem nada a temer. Joff é mimado e vaidoso e não duvido que seja tão cruel como você diz, mas o pai obrigou-o a nomear Loras para a sua Guarda Real antes de concordar com o casamento. Terei o melhor cavaleiro dos Sete Reinos me protegendo dia e noite, tal como o Príncipe Aemon protegeu Naerys. Portanto, é melhor que nosso leãozinho se comporte bem, não é? - soltou uma gargalhada, e disse: - Venha, querida irmã, vamos fazer uma corrida até o rio. Isso deixará os nossos guardas bem loucos. - E, sem esperar resposta, bateu com os calcanhares no cavalo e fugiu.

Ela é tão corajosa, pensou Sansa, galopando atrás da garota... e, no entanto, as dúvidas ainda a atormentavam. Sor Loras era um grande cavaleiro, todos eram unânimes em dizê-lo. Mas Joffrey tinha outros guardas reais, e também homens de manto dourado e vermelho, e, quando fosse mais velho, comandaria seus próprios exércitos. Aegon, o Indigno, nunca tinha feito mal à Rainha Naerys, talvez por temer o seu irmão, o Cavaleiro do Dragão... mas quando outro de seus guardas reais se apaixonou por uma de suas amantes, o rei cortou a cabeça de ambos.

Sor Loras é um Tyrell, lembrou Sansa a si mesma. Esse outro cavaleiro era apenas um Toyne. Seus irmãos não tinham exércitos, não possuíam nenhum modo de vingá-lo a não ser pela espada. Mas, quanto mais pensava em tudo aquilo, mais se interrogava. Joff poderá se segurar durante algumas voltas de lua, talvez durante um ano, mas mais cedo ou mais tarde irá mostrar as garras, e quando fizer isso... O reino poderia ver surgir um segundo Regicida, e haveria guerra dentro da cidade, enquanto os homens do leão e os homens da rosa fizessem as valetas correr rubras.

Sansa surpreendia-se por Margaery não ver isso também. Ela é mais velha do que eu, deve ser mais sábia. E o pai dela, Lorde Tyrell, certamente saberá o que está fazendo. Estou só sendo tola.

Quando falou a Sor Dontos que partiria para Jardim de Cima para se casar com Willas Tyrell, achou que ele ficaria aliviado e satisfeito por ela. Mas Sor Dontos agarrou seu braço e disse:

- Você não pode fazer isso! - numa voz tão carregada de horror como de vinho. - Estou falando, esses Tyrell são apenas Lannister com flores. Suplico-lhe, esqueça essa loucura, dê um beijo em seu Florian, e prometa que seguirá o caminho que planejamos. Na noite do casamento de Joffrey, não falta muito tempo, use a rede de prata para o cabelo e faça o que eu lhe disser, e depois fugiremos. - E tentou lhe dar um beijo no rosto.

Sansa desvencilhara-se de sua mão e afastara-se dele.

- Não farei isso. Não posso. Alguma coisa daria errado. Quando eu quis fugir, você não me levou, e agora não preciso.

Dontos fitara-a estupidamente.

- Mas os preparativos estão feitos, querida. O navio para levá-la para casa, o barco para levá-la para o navio, o seu Florian fez tudo para a sua doce Jonquil.

- Lamento todo o incômodo que lhe causei - ela disse -, mas agora não preciso de barcos e navios.

- Mas é tudo para a sua segurança.

- Estarei em segurança em Jardim de Cima. Willas vai me manter em segurança.

- Mas ele não a conhece - insistiu Dontos - e não a amará. Jonquil, Jonquil, abra seus belos olhos, esses Tyrell não se interessam por você. É a sua pretensão que querem desposar.

- A minha pretensão? - por um momento Sansa ficou confusa.

- Querida - ele disse -, é herdeira de Winterfell. - Voltou a agarrá-la, suplicando-lhe que não fizesse aquilo, e Sansa se libertou, deixando-o cambaleando sob a árvore-coração. Não voltou a visitar o bosque sagrado desde então.

Mas também não esqueceu suas palavras. Herdeira de Winterfell, pensava na cama, à noite. É a sua pretensão que querem desposar. Sansa tinha crescido com três irmãos. Nunca pensara em ter alguma pretensão, mas com Bran e Rickon mortos... Não importa, ainda há Robb, ele é agora um homem-feito, e em breve se casará e terá um filho. Seja como for, Willas Tyrrell terá Jardim de Cima, o que ele iria querer de Winterfell?

Às vezes sussurrava o nome dele para a almofada, só para ouvir o som.

- Willas, Willas, Willas. - Supunha que Willas era um nome tão bom quanto Loras. Até soavam um pouco parecidos. Que importava a sua perna? Willas seria Senhor de Jardim de Cima, e ela seria a sua senhora.

Imaginava os dois sentados juntos num jardim, com cachorros no colo, ou ouvindo um cantor dedilhar um alaúde enquanto flutuavam Vago abaixo numa barcaça de prazer. Se lhe der filhos, ele pode chegar a me amar. Ela ia chamá-los de Eddard, Brandon e Rickon, e educá-los para serem tão valentes quanto Sor Loras. E também para odiarem os Lannister. Nos sonhos de Sansa, seus filhos eram tal qual os irmãos que tinha perdido, Às vezes, havia até uma menina parecida com Arya.

Mas nunca conseguia manter durante muito tempo uma imagem de Willas na cabeça; a sua imaginação transformava-o sempre em Sor Loras, jovem, gracioso e belo. Não pode pensar nele assim, dizia a si mesma. Senão, Willas pode ver o desapontamento em seus olhos quando se encontrarem, e como poderá então casar com você, sabendo que é o irmão que você ama? Recordava constantemente a si mesma que Willas tinha o dobro de sua idade, que era coxo, e talvez até gordo e de rosto vermelho como o pai. Mas, garboso ou não, poderia ser o único campeão que algum dia teria.

Uma vez sonhou que ainda era ela, e não Margaery, quem se casaria com Joff, e que na noite de núpcias ele se transformava no carrasco Ilyn Payne. Acordou tremendo. Não queria que Margaery sofresse como ela tinha sofrido, mas a ideia de que os Tyrell pudessem recusar prosseguir com o casamento aterrorizava-a. Eu preveni, avisei, contei a verdade sobre ele. Talvez Margaery não acreditasse nela. Joff sempre desempenhava o papel de perfeito cavaleiro com a jovem Tyrell, como fizera com Sansa. Ela verá a sua verdadeira natureza bem depressa, depois do casamento, se não vir antes. Sansa decidiu que acenderia uma vela à Mãe no Céu da próxima vez que visitasse o septo e lhe pediria para proteger Margaery da crueldade de Joffrey. E talvez também uma vela ao Guerreiro, para Loras.

Usaria seu novo vestido na cerimônia no Grande Septo de Baelor, decidiu enquanto a costureira tirava as últimas medidas. Deve ser por isso que Cersei o mandou fazer para mim, para que não assista à boda malvestida. Devia mesmo ter um vestido diferente para o banquete que haveria depois, mas supunha que um dos velhos serviria. Não queria arriscar-se a derramar comida ou vinho sobre o novo. Tenho de levá-lo comigo para Jardim de Cima. Queria estar bela para Willas Tyrell. Mesmo se Dontos tiver razão e ele desejar Winterfell e não a mim, ainda pode vir a me amar pelo que sou. Sansa abraçou-se com força, perguntando a si mesma quanto tempo demoraria para o vestido ficar pronto. Quase não podia esperar para usá-lo.

Arya

As chuvas iam e vinham, mas havia mais céus cinzentos do que azuis, e todos os cursos de água corriam cheios. Na manhã do terceiro dia, Arya reparou que o musgo estava crescendo principalmente do lado errado das árvores.

- Estamos indo na direção errada - disse a Gendry, ao passarem por um olmo especialmente cheio de musgo. - Estamos indo para o sul. Está vendo como o musgo cresce no tronco?

Ele afastou os espessos cabelos negros dos olhos e disse:

- Estamos seguindo a estrada, é só isso. A estrada aqui vai para o sul.

Passamos o dia todo indo para o sul, ela quis lhe dizer. - ontem também, quando seguimos o curso daquele riacho. Mas, no dia anterior, não tinha prestado muita atenção, e por isso não podia ter certeza.

- Acho que estamos perdidos - disse em voz baixa. - Não devíamos ter deixado o rio. Tudo que tínhamos de fazer era segui-lo.

- O rio faz curvas e dá voltas - disse Gendry. - Este é só um caminho mais curto, aposto. Algum caminho secreto dos fora da lei. O Limo, o Tom e os outros vivem há anos por aqui.

Aquilo era verdade. Arya mordeu o lábio.

- Mas o musgo...

- Com toda essa chuva, daqui a pouco teremos musgo crescendo nas orelhas - queixou-se Gendry.

- Só da orelha virada para o sul - declarou teimosamente Arya. Não valia a pena tentar convencer o Touro do que quer que fosse. Em todo caso, era o único amigo verdadeiro que tinha, agora que Torta Quente os deixara.

- A Sharna diz que precisa de mim para fazer pão - ele tinha lhe dito, no dia em que se puseram a caminho. - E, seja como for, estou farto da chuva, das dores de sela e de andar sempre assustado. Aqui há cerveja e coelho para comer, e o pão vai ser melhor quando eu o estiver fazendo. Quando voltar verá. Vai voltar, não vai? Depois que a guerra acabar? - então se lembrou de quem ela era e acrescentou, corando: - Senhora.

Arya não sabia se a guerra chegaria a acabar, mas confirmou com a cabeça.

- Desculpe ter batido em você daquela vez - disse. Torta Quente era burro e covarde, mas a tinha acompanhado sempre desde Porto Real, e Arya habituou-se a ele. - Quebrei seu nariz.

- Também quebrou o do Limo. - Torta Quente deu um sorriso. - Isso foi bom.

- O Limo não achou - disse Arya num tom sorumbático. E então chegou a hora de partir. Quando Torta Quente perguntou se podia beijar a mão da senhora, Arya esmurrou o ombro dele. - Não me chame disso. Você é o Torta Quente, e eu sou Arry.

- Aqui não sou o Torta Quente. Sharna só me chama de Rapaz. Do mesmo jeito que chama o outro rapaz. Vai ser uma confusão.

Sentia mais a falta dele do que achava que sentiria, mas Harwin compensava um pouco. Ela lhe contara o que acontecera ao pai, Hullen, e como o encontrara agonizando junto aos estábulos na Fortaleza Vermelha, no dia em que fugira.

- Ele sempre disse que morreria num estábulo - disse Harwin -, mas todos julgávamos que seria algum garanhão genioso que o levaria à morte, não uma matilha de leões. - Arya contou também sobre Yoren e a fuga de Porto Real, e sobre muito do que tinha acontecido desde então, mas deixou fora da história o cavalariço que ela atravessara com a Agulha, e o guarda cuja garganta rasgara para escapar de Harrenhal. Contar a Harwin seria quase como contar ao pai, e havia certas coisas que não suportaria que o pai soubesse.

E também não mencionara Jaqen H ghar e as três mortes que ele lhe devera e pagara. Mantinha enfiada no cinto a moeda de ferro que ele lhe dera, mas às vezes, à noite, pegava-a e recordava o modo como o rosto do homem havia derretido e mudado quando passou a mão por ela.

- Valar morghulis - dizia em surdina. - Sor Gregor, Dunsen, Polliver, Raff, Querido, Cócegas e Cão de Caça. Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei, Rei Joffrey.

Harwin disse-lhe que só restavam seis homens de Winterfell dos vinte que o pai mandara para oeste com Beric Dondarrion, e eles estavam espalhados.

- Era uma armadilha, senhora. Lorde Tywin mandou a Montanha dele cruzar o Ramo Vermelho com fogo e espada, esperando atrair o senhor seu pai. Planejava que Lorde Eddard viesse para oeste em pessoa, a fim de lidar com Gregor Clegane. Se tivesse feito isso, teria sido morto, ou capturado e trocado pelo Duende, que naquela altura era prisioneiro da senhora sua mãe. Mas o Regicida não sabia do plano de Lorde Tywin e quando ouviu a notícia da captura do irmão, atacou seu pai nas ruas de Porto Real.

- Eu me lembro - falou Arya. - Ele matou Jory. -Jory sempre sorrira para ela, quando não estava lhe dizendo para sair do caminho.

- Ele matou Jory - concordou Harwin - e a perna de seu pai quebrou quando o cavalo caiu sobre ele. Por isso Lorde Eddard não pôde ir para oeste. Mandou Lorde Beric em seu lugar, com vinte homens dele e vinte de Winterfell, entre eles eu. E havia também outros. Thoros e Sor Raymun Darry e seus homens, Sor Gladden Wylde, um lorde chamado Lothar Mallery. Mas Gregor estava à nossa espera no Vau do Saltimbanco, com homens escondidos em ambas as margens. No momento em que atravessávamos, caiu sobre nós pela frente e pela retaguarda.

"Vi a Montanha matar Raymun Darry com um único golpe, tão terrível que arrancou o braço de Darry pelo cotovelo e matou também o cavalo que tinha entre as pernas. Gladden Wylde morreu ali com ele, e Lorde Mallery foi derrubado e afogou-se. Tínhamos leões por todos os lados, e eu pensei que estava condenado com os outros, mas Alyn gritou ordens e restaurou a ordem em nossas fileiras, e aqueles de nós que ainda estávamos a cavalo reunimo-nos em volta de Thoros e libertamo-nos dando espadadas. Naquela manhã, éramos cento e vinte. Ao cair da noite, não somávamos mais de quarenta, e Lorde Beric estava gravemente ferido. Nessa noite, Thoros tirou trinta centímetros de lança de seu peito e despejou vinho fervendo no buraco que ficou.

"Todos estávamos convencidos de que sua senhoria estaria morta ao nascer do dia. Mas Thoros rezou com ele a noite inteira junto à fogueira e, quando a alvorada chegou, ele ainda estava vivo, e mais forte do que antes. Passou-se uma quinzena antes de poder montar a cavalo, mas sua coragem manteve-nos fortes. Disse-nos que nossa guerra não terminara no Vau do Saltimbanco, que só começara ali, e que cada um de nossos homens que caíra seria vingado dez vezes.

"A essa altura, a luta tinha passado por nós. Os homens da Montanha eram só a vanguarda da tropa de Lorde Tywin. Atravessaram o Ramo Vermelho em força e varreram as terras fluviais, queimando tudo que encontravam no caminho. Éramos tão poucos que tudo que pudemos fazer foi atormentar a retaguarda deles, mas dizíamos uns aos outros que nos juntaríamos ao Rei Robert quando ele marchasse para oeste para esmagar a rebelião de Lorde Tywin. Mas então soubemos que Robert estava morto e Lorde Eddard também, e que a cria da Senhora Cersei tinha ascendido ao Trono de Ferro.

"Isso virou o mundo inteiro de pernas para o ar. Fôramos enviados pela Mão do Rei para lidar com os fora da lei, está vendo, mas agora éramos nós os fora da lei, e Lorde Tywin era Mão do Rei. Alguns desejaram se render nesse momento, mas Lorde Beric não queria nem ouvir falar do assunto. Ainda éramos homens do rei, dizia, e aqueles que os leões andavam massacrando eram o povo do rei. Se não podíamos lutar por Robert, lutaríamos por eles, até que todos os nossos homens estivessem mortos. E foi o que fizemos, mas, à medida que íamos lutando, algo estranho começou a acontecer. A cada homem que perdíamos, surgiam dois para tomar o seu lugar. Alguns eram cavaleiros ou escudeiros, de bom nascimento, mas a maioria era gente comum... trabalhadores rurais, rabequeiros e estalajadeiros, criados e sapateiros, e até dois septões. Homens de todos os tipos, e também mulheres, crianças, cães...

- Cães? - perguntou Arya.

- Sim. - Harwyn sorriu. - Um dos nossos rapazes trata dos cães mais bravos, você algum dia gostaria de ver.

- Gostaria de ter um bom cão bravo - disse Arya em tom desejoso. - Um cão matador de leões. - Antigamente tinha uma loba gigante, Nymeria, mas atirei pedras nela até pô-la em fuga, para evitar que a rainha a matasse. Seria um lobo gigante capaz de matar um leão?, perguntou a si mesma.

Nessa tarde voltou a chover e continuou por muito tempo, noite adentro. Felizmente, os fora da lei tinham amigos secretos por todos os lados, e não precisavam acampar ao ar livre ou procurar abrigo debaixo de algum caramanchão cheio de goteiras, como ela, Torta Quente e Gendry tinham feito tantas vezes.

De noite, abrigaram-se numa aldeia incendiada e abandonada. Pelo menos parecia estar abandonada, até Jack Sortudo soltar dois sopros curtos e dois longos em seu berrante. Então começou a aparecer todo tipo de gente, de dentro das ruínas e de adegas secretas. Tinham cerveja, maçãs desidratadas e um pouco de pão de cevada amanhecido, e os fora da lei traziam um ganso que Anguy havia abatido no caminho, de modo que o jantar dessa noite foi quase um banquete.

Arya estava chupando os últimos bocados de carne de uma asa quando um dos aldeões se virou para Limo Manto Limão e disse:

- Passaram homens por aqui há menos de dois dias, à procura do Regicida.

Limo fungou.

- Fariam melhor se o procurassem em Correrrio. Lá embaixo, nas masmorras mais profundas, onde é bom e úmido. - Seu nariz parecia uma maçã esmagada, vermelho, dolorido e inchado, e ele estava de mau humor.

- Não - disse outro aldeão. - Ele fugiu.

O Regicida. Arya sentiu os cabelos no pescoço se eriçarem. Segurou a respiração para escutar.

- Será que isso é verdade? - disse o Tom das Sete.

- Não acredito - respondeu o homem zarolho com o elmo redondo enferrujado. Os outros fora da lei chamavam-no de Jack Sortudo, embora perder um olho não parecesse lá muita sorte a Arya. - Já experimentei essas masmorras. Como é que ele conseguiria escapar?

Os aldeões só podiam responder com ombros encolhidos. Barba-Verde afagou seus espessos pelos cinzentos e verdes e disse:

- Os lobos irão se afogar em sangue, se o Regicida tá outra vez à solta. O Thoros tem de saber disso. O Senhor da Luz vai lhe mostrar o Lannister nas chamas.

- Há ali um belo fogo ardendo - disse Anguy, sorrindo.

Barba-Verde soltou uma gargalhada e deu um tapa na orelha do arqueiro.

- Acha que eu tenho ar de sacerdote, Arqueiro? Quando Pello de Tyrosh olha o fogo, as fagulhas chamuscam sua barba.

Limo estalou os dedos e disse:

- Mas Lorde Beric adoraria capturar Jaime Lannister...

- Ele o enforcaria, Limo? - perguntou uma das mulheres da aldeia. - Seria uma pena enforcar um homem tão lindinho como ele.

- Primeiro um julgamento! - disse Anguy. - Lorde Beric dá-lhes sempre um julgamento. - Sorriu. - Só depois é que os enforca.

Houve risos por toda a volta. Então Tom passou os dedos pelas cordas de sua harpa e começou a cantar numa voz suave.

Os irmãos da mata do rei, eram um bando de fora da lei. A floresta era o seu castelo, mas vagueavam por todo lado. Ouro algum era por si recusado, das donzelas eram grande flagelo. Oh, os irmãos da mata do rei, temível bando de fora da lei.

Quente e seca, em um canto, entre Gendry e Harwin, Arya escutou a cantoria durante algum tempo, mas depois fechou os olhos e deslizou para o sono. Sonhou com sua casa; não Correrrio, mas Winterfell. Não foi um bom sonho, porém. Estava sozinha do lado de fora do castelo, enfiada até os joelhos em lama. Conseguia ver as muralhas cinzentas à sua frente, mas quando tentou alcançar os portões, cada passo pareceu mais difícil do que o anterior, e o castelo desvaneceu-se perante seus olhos, até se parecer mais com fumaça do que com granito. E também havia lobos, silhuetas descarnadas e cinzentas caminhando furtivamente por entre as árvores à sua volta, com os olhos brilhando. Sempre que olhava para eles, lembrava-se do sabor do sangue.

Na manhã seguinte, deixaram a estrada para cortar caminho pelos campos. O vento soprava em rajadas, fazendo rodopiar folhas secas marrons entre os cascos dos cavalos, mas, pela primeira vez, não chovia. Quando o sol surgiu de trás de uma nuvem, estava tão brilhante que Arya teve de puxar o capuz para a frente, a fim de cobrir os olhos.

Puxou as rédeas bruscamente.

- Estamos indo no sentido errado!

Gendry soltou um gemido.

- O que foi, outra vez o musgo?

- Olhe para o sol - disse ela. - Estamos indo para o sul! - Arya esquadrinhou o alforje em busca do mapa, para poder mostrar-lhes. - Nunca devíamos ter nos afastado do Tridente. Olhem. - Desenrolou o mapa sobre a perna. Agora todos a observavam. - Olhem, Correrrio fica aqui, entre os rios.

- Acontece - disse Jack Sortudo - que a gente sabe onde fica Correrrio. Cada um de nós.

- Não vamos para Correrrio - disse Limo sem rodeios.

Estava quase lá, pensou Arya. Devia tê-los deixado levar nossos cavalos. Podia ter percorrido o resto do caminho a pé. Lembrou-se então do seu sonho e mordeu o lábio.

- Ah, não faça uma expressão tão sentida, filha - disse Tom Sete-Cordas. - Nenhum mal acontecerá a você, tem a minha palavra quanto a isso.

- A palavra de um mentiroso!

- Ninguém mentiu - disse Limo. - Não fizemos promessas. Não cabe a nós dizer o que será feito com você.

Mas Limo não era o chefe, não o era mais do que Tom; o chefe era o Barba-Verde, o tyroshi. Arya virou-se para ele.

- Leve-me a Correrrio, e será recompensado - disse, desesperadamente.

- Pequena - respondeu Barba-Verde -, um camponês pode esfolar um esquilo comum para a panela, mas se encontrar um esquilo de ouro em sua árvore, leva-o ao seu senhor, senão se arrependerá de não ter feito isso.

- Não sou um esquilo - insistiu Arya.

- É, sim. - Barba-Verde soltou uma gargalhada. - Um pequeno esquilo de ouro que vai se encontrar com o senhor do relâmpago, quer queira, quer não. Ele vai saber o que fazer com você. Aposto que vai mandá-la para junto da senhora sua mãe, tal como você deseja.

Tom Sete-Cordas concordou com a cabeça.

- Sim, Lorde Beric é assim. Ele vai fazer o que é certo, você vai ver.

Lorde Beric Dondarrion. Arya recordou tudo que ouvira dizer em Harrenhal, tanto da boca dos Lannister como dos Saltimbancos Sangrentos. Lorde Beric era o fogaréu dos bosques. Lorde Beric, que fora morto por Vargo Hoat e antes disso por Sor Amory Lorch e duas vezes pela Montanha que Cavalga. Se ele não me mandar para casa, talvez também o mate.

- Por que é que tenho de me encontrar com Lorde Beric? - perguntou ela calmamente.

- Levamos todos os nossos cativos bem-nascidos a ele - disse Anguy.

Cativa. Arya respirou fundo para sossegar a alma. Calma como águas paradas. Olhou de relance os fora da lei em seus cavalos, e virou a cabeça do seu. Agora, rápida como uma cobra, pensou, enquanto batia com os calcanhares no flanco do corcel. Fugiu bem entre Barba-Verde e Jack Sortudo, e viu de relance a expressão pasma de Gendry, quando a égua dele saiu de seu caminho. E então estava em campo aberto, e em fuga.

Para norte ou para sul, para leste ou oeste, agora não importava. Podia encontrar o caminho para Correrrio mais tarde, depois de tê-los despistado. Arya inclinou-se para a frente na sela e pôs o cavalo a galope. Em suas costas, os fora da lei praguejavam e gritavam-lhe para voltar. Fechou os ouvidos aos gritos, mas quando deu um olhar de relance por cima do ombro, quatro deles vinham em seu encalço, Anguy, Harwin e Barba-Verde lado a lado e, mais atrás, Limo, cujo comprido manto amarelo esvoaçava atrás dele enquanto cavalgava.

- Ligeira como uma corça - disse à sua montaria. - Agora corra, corra.

Arya precipitou-se por campos marrons de ervas daninhas, por mato na altura da cintura e por pilhas de folhas secas que se agitavam e voavam quando o cavalo passava a galope. Viu que havia bosques à esquerda. Posso despistá-los ali. Uma vala seca corria ao longo de um dos lados do terreno, mas saltou-a sem abrandar o ritmo, e mergulhou no bosque de olmos, teixos e bétulas. Uma rápida espiada para trás mostrou que Anguy e Harwin ainda continuavam muito próximos. Mas Barba-Verde tinha ficado para trás, e já não via Limo.

- Mais depressa - disse ao cavalo -, você consegue, você consegue.

E cavalgou por entre dois olmos, sem parar para ver de que lado o musgo crescia. Saltou por cima de um tronco apodrecido e fez uma curva aberta em volta de uma monstruosa árvore caída, eriçada de galhos quebrados. Depois subiu uma ligeira vertente e desceu pelo outro lado, abrandando e voltando a ganhar velocidade, tirando faíscas do sílex com os cascos do cavalo. No topo da colina espreitou para trás. Harwin havia se colocado à frente de Anguy, mas ambos a seguiam de perto. Barba-Verde tinha ficado mais para trás e parecia estar perdendo a força.

Um riacho barrou seu caminho. Entrou nele, atravessando a água repleta de folhas ensopadas e castanhas. Algumas vieram agarradas às patas do cavalo quando subiram do outro lado. Ali, a vegetação rasteira era mais densa, com o chão tão cheio de raízes e pedras que teve de desacelerar, mas manteve o ritmo mais elevado que ousou. Surgiu outra colina à sua frente, mais íngreme. Para cima, e de novo para baixo. Que tamanho têm estes bosques?, se perguntou. Sabia que tinha o cavalo mais rápido, roubara um dos melhores animais de Roose Bolton dos estábulos de Harrenhal, mas a sua velocidade era desperdiçada ali. Preciso voltar a encontrar campo aberto. Tenho de encontrar uma estrada. Em vez disso, encontrou uma trilha de caça. Era estreita e irregular, mas era alguma coisa. Correu ao longo dela, com os ramos chicoteando seu rosto. Um se prendeu ao seu capuz e puxou-o para trás, e durante meio segundo Arya temeu que a tivessem apanhado. Uma raposa saltou dos arbustos após sua passagem, assustada pela fúria de sua fuga. A trilha levou-a a outro riacho. Ou seria o mesmo? Teria dado meia-volta? Não havia tempo para desvendar isso, pois ouvia os cavalos arremetendo por entre as árvores atrás de si. Espinhos arranharam seu rosto como os gatos que costumava perseguir em Porto Real. Pardais explodiram dos ramos de um amieiro. Mas agora as árvores estavam ficando mais esparsas, e de repente viu-se fora delas. Largos campos planos estendiam-se à sua frente, só ervas daninhas e trigo selvagem, ensopado e pisoteado. Arya voltou a pôr o cavalo a galope. Corra, pensou, corra para Correrrio, corra para casa. Teria conseguido despistá-los? Deu uma olhada rápida, e ali estava Harwin a cinco metros dela e ganhando terreno. Não, pensou, não, ele não pode fazer isso, não ele, não é justo.

Ambos os cavalos estavam espumando e perdendo as forças quando ele chegou ao lado, estendeu a mão e agarrou o freio dela. A própria Arya estava ofegante. Sabia que a fuga tinha terminado.

- Monta como um nortenho, senhora - disse Harwin quando a obrigou a parar. - Sua tia também era assim. A Senhora Lyanna. Mas lembre-se de que meu pai era mestre dos cavalos.

O olhar que Arya lhe lançou estava cheio de mágoa.

- Achava que era um homem de meu pai.

- Lorde Eddard está morto, senhora. Agora pertenço ao senhor do relâmpago e aos meus irmãos.

- Que irmãos? - o Velho Hullen não tinha gerado mais nenhum filho, que Arya se lembrasse.

- Anguy, Limo, Tom das Sete, Jack e Barba-Verde, todos eles. Não queremos mal ao seu irmão, senhora... mas não é por ele que lutamos. Robb tem um exército próprio, e muitos grandes senhores que dobram o joelho para ele. O povo só tem a nós. - Deu-lhe um olhar perscrutador. - É capaz de compreender o que estou dizendo?

- Sim. - Que ele não era um homem de Robb compreendia bastante bem. E também que era sua cativa. Podia ter ficado com Torta Quente. Podíamos ter roubado o barquinho e velejado nele até Correrrio. Estivera melhor como Pombinha. Ninguém tomaria a Pombinha cativa, ou a Nan, ou a Doninha, ou o Arry, o órfão. Era uma loba, pensou, mas agora sou só uma estúpida senhorinha qualquer.

- Voltará agora em paz? - perguntou-lhe Harwin - Ou terei de amarrá-la e colocá-la atravessada no cavalo?

- Volto em paz - disse ela num tom amuado. Por enquanto.

Soluçando, Sam deu mais um passo. Este é o último, o último de todos, não sou capaz de continuar, não sou capaz. Mas os pés voltaram a se mover. Um deles e depois o outro. Deu um passo, e depois outro, e ele pensou: Estes pés não são meus, são de outra pessoa, é outra pessoa que caminha, não posso ser eu.

Quando olhou para baixo, viu-os tropeçando através da neve; coisas sem forma e desajeitadas. Parecia lembrar-se de que as botas tinham sido pretas, mas a neve formara uma crosta em volta delas, e agora eram disformes bolas brancas. Como dois pés deformados feitos de gelo.

Não queria parar, a nevasca. Os montes de neve acumulada já lhe passavam dos joelhos, e uma crosta cobria a parte de baixo de suas pernas como um par de grevas brancas. Seus passos eram arrastados, deslizantes. A mochila pesada que levava fazia com que ele parecesse um monstruoso corcunda. E estava cansado, tão cansado. Não consigo continuar. Mãe, tenha piedade de mim, não consigo.

A cada quatro ou cinco passos, tinha de baixar a mão e puxar para cima seu cinto da espada. Havia perdido a espada no Punho, mas a bainha ainda pesava no cinto. Possuía duas facas; o punhal de vidro de dragão que Jon lhe dera e o de aço com que cortava a carne. Todo esse peso sobrecarregava o cinto, e sua barriga era tão grande e redonda que, caso se esquecesse de puxá-lo, o cinto deslizaria até se enrolar em volta de seus tornozelos, por mais que o apertasse. Uma vez tentou afivelá-lo por cima da barriga, mas então chegou quase em suas axilas. Grenn quase tinha morrido de rir ao vê-lo, e Edd Doloroso disse:

- Uma vez, conheci um homem que usava assim a espada, numa corrente em volta do pescoço. Um dia tropeçou, e o cabo entrou no nariz dele.

O próprio Sam andava tropeçando. Havia pedras por baixo da neve, além de raízes de árvores e, às vezes, buracos profundos no chão gelado. Bernarr, o Negro, havia enfiado o pé em um e quebrado o tornozelo havia três dias, ou talvez quatro, ou... na verdade ele não sabia quanto tempo tinha se passado. O Senhor Comandante tinha colocado Bernarr num cavalo depois disso.

Soluçando, Sam deu mais um passo. Sentia-se mais como se estivesse caindo do que andando, sempre caindo, mas sem nunca atingir o chão, apenas caindo para a frente e mais para a frente. Tenho de parar, dói demais. Sinto tanto frio e estou tão cansado, tenho de dormir, só um pouco de sono junto a uma fogueira, e um pouco de comida que não esteja congelada.

Mas se parasse, morreria. Sabia disso. Todos os poucos que restavam sabiam. Tinham sido cinquenta quando fugiram do Punho, talvez mais, mas alguns haviam se perdido na neve, alguns dos feridos tinham sangrado até a morte... e, às vezes, Sam ouvia gritos atrás de si, vindos da retaguarda, e uma vez ouviu um berro horrível. Quando ouviu aquilo, correu, vinte ou trinta metros, tanto e tão depressa como tinha sido capaz, levantando neve com os pés meio congelados. Ainda estaria correndo se suas pernas fossem mais fortes. Eles estão atrás de nós, eles ainda estão atrás de nós, estão nos levando um por um.

Soluçando, Sam deu mais um passo. Havia tanto tempo que sentia frio que estava se esquecendo de como era sentir-se quente. Usava três pares de meias, duas camadas de roupa de baixo por sob uma túnica dupla de lã de carneiro e, por cima disso tudo, um espesso casaco almofadado, que o protegia do aço frio de sua cota de malha. Sobre a camisa usava um sobretudo largo, e por cima disso um manto de tripla espessura com um botão de osso que se prendia bem abaixo de seu queixo. O capuz tombava para a frente, por cima de sua testa. Grossas luvas de peles cobriam suas mãos, por cima de finas luvas de lã e couro, um cachecol estava bem enrolado em volta da metade inferior do rosto, e, por baixo do capuz, tinha um apertado gorro forrado com velo puxado sobre as orelhas. E mesmo assim tinha frio. Especialmente nos pés. Agora nem sequer os sentia, mas no dia anterior tinham doído tanto que quase não conseguia se manter em pé, muito menos caminhar. Cada passo fazia-o querer gritar. Teria sido no dia anterior? Não se lembrava. Não dormira desde o Punho, nem uma única vez desde que o berrante tinha soprado. A menos que tivesse dormido enquanto caminhava. Poderia um homem caminhar enquanto dorme? Sam não sabia, ou, se sabia, tinha se esquecido.

Soluçando, deu outro passo. A neve caía, rodopiando, à sua volta. Às vezes, caía de um céu branco e, às vezes, de um negro, mas isso era tudo o que restava do dia e da noite. Levava-a nos ombros como um segundo manto, e ela empilhava-se num grande monte sobre a mochila que ele transportava, tornando-a ainda mais pesada e difícil de carregar. Seu lombo doía abominavelmente, como se alguém tivesse espetado nele uma faca e a mexesse de um lado para o outro a cada passo. Seus ombros estavam em agonia por causa do peso da cota de malha. Teria dado quase tudo para tirá-la, mas tinha medo de fazer isso. E, de qualquer forma, teria de despir o manto e o capote para chegar à cota de malha, e então o frio o pegaria.

Se eu ao menos fosse mais forte... Mas não era, e não valia a pena desejar ser. Sam era fraco, e gordo, tão gordo que quase não conseguia aguentar o próprio peso, e a cota de malha era demais para ele. Sentia-se como se ela estivesse deixando seus ombros em carne viva, apesar das camadas de tecido e forro que havia entre o aço e a pele. A única coisa que podia fazer era chorar, e, quando chorava, as lágrimas congelavam em seu rosto.

Soluçando, deu outro passo. A crosta de neve estava rachada nos locais em que colocava os pés, caso contrário não julgaria que pudesse ter se movido. À esquerda e à direita, entrevistos através das árvores silenciosas, os archotes transformavam-se em vagos halos cor de laranja na neve que caía. Quando virava a cabeça, conseguia vê-los, deslizando em silêncio pela floresta, balançando para cima e para baixo e de um lado para o outro. O anel de fogo do Velho Urso, lembrou a si mesmo, e desgraçado daquele que o deixar. Enquanto caminhava, parecia-lhe que perseguia os archotes da frente, mas eles também possuíam pernas, mais longas e mais fortes do que as dele, então nunca conseguia alcançá-los.

No dia anterior, suplicou-lhes que o deixassem ser um dos portadores dos archotes, mesmo que isso significasse caminhar fora da coluna, com a escuridão se aproximando. Sam desejava o fogo, sonhava com ele. Se eu tivesse fogo, não teria frio. Mas alguém lembrou a ele de que tivera um archote no início, mas o deixou cair na neve e apagou o fogo. Sam não se lembrava de ter deixado cair nenhum archote, mas supunha que devia ser verdade. Estava fraco demais para manter o braço erguido por muito tempo. Teria sido Edd quem o lembrou do archote, ou Grenn? Também não conseguia se lembrar disso. Gordo, fraco e inútil, agora até os meus miolos estão congelando. Deu mais um passo.

Tinha enrolado o cachecol por cima do nariz e da boca, mas agora estava coberto de ranho e tão duro que temia que tivesse congelado e ficado preso em seu rosto. Até respirar era difícil, e o ar estava tão frio que doía inspirá-lo.

- Mãe, tenha piedade - murmurou, numa voz abafada e rouca, por baixo da máscara gelada. - Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade. - A cada prece dava mais um passo, arrastando as pernas pela neve. - Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade.

A mãe dele encontrava-se mil léguas para sul, em segurança, com as irmãs e o irmão mais novo, Dickon, na fortaleza em Monte Chifre. Ela não pode me ouvir, e a Mãe no Céu também não. A Mãe era misericordiosa, os septões eram unânimes em afirmá-lo, mas os Sete não tinham poder para lá da Muralha. Ali eram os velhos deuses que governavam, os deuses sem nome das árvores, dos lobos e das neves.

- Piedade - sussurrou então, para qualquer deus que estivesse ouvindo, velho ou novo, ou até para demônios -, oh, piedade, piedade de mim, piedade de mim.

Maslyn gritou por piedade. Por que teria se lembrado subitamente daquilo? Não era nada que quisesse recordar. O homem tinha tropeçado para trás, deixando cair a espada, suplicando, rendendo-se, chegando mesmo a arrancar a grossa luva negra e atirando-a à sua frente como se fosse uma manopla. Ainda guinchava, pedindo trégua, quando a criatura o ergueu no ar pelo pescoço e quase arrancou sua cabeça. Nos mortos, não resta qualquer piedade, e os Outros... não, não devo pensar nisso, não pense, não se lembre, limite-se a andar, limite-se a andar, limite-se a andar.

Soluçando, deu outro passo.

Uma raiz escondida sob a neve pegou na ponta de seu pé, e Sam tropeçou e caiu pesadamente sobre um joelho com tanta força que mordeu a língua. Sentiu o sabor do sangue na boca, mais quente do que qualquer outra coisa que havia saboreado desde o Punho. Este é o fim, pensou. Agora que caíra, não parecia ser capaz de encontrar as forças necessárias para voltar a se levantar. Tateou um ramo de árvore e agarrou-o com força, tentando puxar-se e ficar de pé, mas suas pernas enrijecidas não conseguiam aguentá-lo. A cota de malha era pesada demais, e ele gordo demais, e fraco demais, e estava cansado demais.

- Fique em pé, Porquinho - rosnou alguém ao passar, mas Sam não ligou. Vou apenas ficar deitado na neve e fechar os olhos. Não seria assim tão ruim morrer ali. Não havia como ser mais frio e, após algum tempo, não seria capaz de sentir a dor na parte de baixo das costas ou a terrível dor nos ombros, assim como já não sentia os pés. Não serei o primeiro a morrer, eles não poderão dizer que fui. Centenas de homens tinham morrido no Punho, tinham morrido por toda a sua volta, e muitos morreram depois, ele viu. Tremendo, Sam largou a árvore e deixou-se cair na neve. Sabia que era fria e úmida, mas quase não conseguia senti-la através de todas as suas roupas. Fixou os olhos no alto, no céu branco, enquanto flocos de neve pousavam na sua barriga, no seu peito e nas suas pálpebras. A neve vai me cobrir como uma espessa manta branca. Ficarei quente sob a neve e, se falarem de mim, terão de dizer que morri como um homem da Patrulha da Noite. Foi o que fiz. Foi o que fiz. Cumpri meu dever. Ninguém pode dizer que quebrei o juramento. Som gordo, fraco e covarde, mas cumpri o meu dever.

Os corvos estavam sob sua responsabilidade. Foi por isso que o trouxeram. Sam não queria vir, lhes dissera que não, revelara a todos o grande covarde que era. Mas Meistre Aemon era muito velho e também cego, por isso enviaram Sam para cuidar dos corvos. O Senhor Comandante dera-lhe as suas ordens quando acamparam no Punho.

- Você não é um guerreiro. Ambos sabemos disso, rapaz. Se por acaso formos atacados, não tente provar o contrário, só vai ficar no meio do caminho. Deverá enviar uma mensagem. E não venha correndo perguntar o que a carta deve dizer. Escreva-a você, e mande uma ave para Castelo Negro e outra para a Torre Sombria. - O Velho Urso apontou um dedo enluvado para o rosto de Sam. - Não quero saber se estará tão assustado que sujará os calções e não me importa se mil selvagens saltarem a muralha uivando por seu sangue, ponha essas aves no ar, senão juro que vou persegui-lo através de todos os sete infernos e o farei lamentar amargamente por não o ter feito. - E o corvo de Mormont balançou a cabeça para cima e para baixo e crocitou:"Lamentar, lamentar, lamentar".

Sam realmente lamentava; lamentava não ter sido mais corajoso, mais forte ou melhor com espadas, não ter sido um filho melhor para o pai ou irmão melhor para Dickon e as meninas. Lamentava também morrer, mas homens melhores tinham morrido no Punho, homens bons e leais, não rapazes gordos e resmungões como ele. Mas pelo menos o Velho Urso não o perseguiria no inferno. Enviei as aves. Pelo menos isso fiz bem. Tinha escrito as mensagens com antecedência, mensagens curtas e simples, falando de um ataque ao Punho dos Primeiros Homens, e então enfiou-as, a salvo, em sua bolsa para pergaminhos, esperando nunca ter de enviá-las.

Quando os berrantes soaram, Sam estava dormindo. A princípio, pensou que estava sonhando com eles, mas, quando abriu os olhos, caía neve no acampamento e todos os irmãos negros estavam pegando em arcos e lanças e correndo para a muralha anelar. O único que andava por perto era Chett, o antigo intendente do Meistre Aemon, com o rosto cheio de marcas e o grande quisto no pescoço. Sam nunca vira tanto medo no rosto de um homem como no de Chett quando aquele terceiro toque chegou, gemendo, por entre as árvores.

- Ajude-me a tirar os pássaros das gaiolas - pediu, mas o outro intendente virou-se e fugiu, de punhal na mão. Tem de cuidar dos cães, lembrou-se Sam. O Senhor Comandante provavelmente também havia lhe dado algumas ordens.

Seus dedos estavam rígidos e desajeitados no interior das luvas, e tremia de medo e de frio, mas encontrou a bolsa dos pergaminhos e recuperou as mensagens que havia escrito. Os corvos gritavam como loucos e, quando abriu a gaiola de Castelo Negro, um deles voou em seu rosto. Outros dois fugiram antes de Sam conseguir apanhar um, e, quando o fez, deu-lhe uma bicada através da luva, de tirar sangue. Mas, de algum modo, tinha conseguido segurá-lo o suficiente para prender o pequeno rolo de pergaminho. A essa altura, o berrante de guerra já havia silenciado, mas o Punho ressoava com ordens gritadas e o tinir do aço.

- Voa! - gritou Sam quando atirou o corvo ao céu.

As aves na gaiola de Torre Sombria estavam gritando e esvoaçando com tamanha ferocidade que teve medo de abrir a porta, mas obrigou-se a fazê-lo mesmo assim. Dessa vez, apanhou o primeiro corvo que tentou fugir. Um momento mais tarde, a ave abria caminho através da neve que caía, levando consigo a notícia do ataque.

Depois de cumprido o seu dever, acabou de se vestir com dedos desastrados e assustados, enfiando o gorro, o capote e o manto com capuz e afivelando o cinto da espada, prendendo-o bem apertado para não cair. Então, procurou a mochila e enfiou nela todas as suas coisas, mudas extras de roupa de baixo e meias secas, as pontas de flecha e a ponta de lança de vidro de dragão que Jon lhe dera e também o velho chifre, os pergaminhos, as tintas e penas, os mapas que andara desenhando, e uma alheira, dura como pedra, que guardava desde a Muralha. Amarrou tudo e pôs a mochila nas costas. O Senhor Comandante disse que eu não devia correr para a muralha anelar, lembrou-se, mas também disse que não devia ir correndo para junto dele. Sam respirou fundo e percebeu que não sabia o que fazer em seguida.

Lembrava-se de ficar andando em círculos, perdido, com o medo crescendo em seu interior, como sempre acontecia. Havia cães ladrando e cavalos barrindo, mas a neve abafava os sons e fazia com que parecessem distantes. Sam não via nada além de três metros, nem mesmo os archotes que ardiam ao longo da baixa muralha de pedra que rodeava o cume do monte. Será que os archotes se apagaram? Pensar nisso era assustador demais. O berrante soou três vezes, e longamente, três sopros longos quer d