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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ÚLTIMA TAÇA / Emile Richards
A ÚLTIMA TAÇA / Emile Richards

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

              Castlebar, Condado de.Mayo

               Meu querido Patrick,

São tantos anos e tantos quilômetros que nos separam, querido irmão. Ao longo de séculos, nós, os McSweeneys, não sabíamos nada sobre a solidão, mas sabíamos tudo uns dos outros. E o que mais há para saber? Afinal, o que pode ser mais importante do que a família, a nossa terra e a igreja? O restante é como manteiga no pão, mero prazer e pouca nutrição.

Nossa família agora está como um navio à deriva, em mares distantes. Você em Ohio e nossas queridas irmãs na Austrália, Nova Escócia e no túmulo. Nós, que restamos, estamos velhos, separados por algo muito além da distância.

Agora sabemos tão pouco uns dos outros. Recebi a fotografia que fizeram para você na Sta. Brígida, e agradeço por tê-la mandado, mas o que aconteceu com aquele jovem que eu conhecia, tão alto e imponente? O que houve com o padre de olhar caloroso e passos firmes? Teria ele seguido o mesmo caminho que eu? O caminho que só leva a um destino?

Não consigo imaginá-lo como um velho, querido. Celebrar missas nos dias santos, ouvir confissões esporádicas, ler horas a fio e meditar, é tudo o que faz? Sobre o que você pensa, agora que tem o tempo todo para si, meu irmão? Nos anos que já viveu? Na ilha de montanhas verdejantes onde nasceu? Nossa terra adorada, na qual a família McSweeney jamais voltará a trabalhar?

Talvez, se eu tivesse me casado, também teria mais o que fazer com meu tempo. Teria netos e bisnetos e ficaria orgulhosa em pegá-los no colo. Em vez disso, sem a continuidade de uma nova família, só penso naquela de onde vim, você, Ciara e Selma, de nossa querida Una, que ficou conosco tão pouco tempo. Nenhum de nós com descendentes de sangue, e a longa e orgulhosa trajetória de nosso nome em cinzas pelo chão.

Eu me lembro de tudo, mesmo nesse final de vida difícil. Lembro das canções e dos risos, do cheiro do pão assando no forno de pedras, das ovelhas no celeiro. Lembro de um jovem que me puxava pela saia, um garoto que rezava e se escondia atrás das portas, e sentia medo do bicho-papão quando o nevoeiro cobria o lago Mayo.

Como sou afortunada por ter essas lembranças para me consolar. Como são afortunados aqueles que têm uma família a quem acalentar. Isso é algo que jamais pode ser tirado de nós, querido Patrick. Não importa os anos que nos separam, você e todos aqueles que amo estarão sempre comigo.

                   Sua irmã, Maura McSweeney

 

 


 

                                       Capítulo 1

Peggy Donaghue evitava o estacionamento do Whiskey Island Saloon sempre que podia, o que não era fácil, já que ela morava bem em cima do bar. Nos dias em que não havia nenhuma vaga para estacionar na rua, ela parava no lugar mais próximo à porta dos fundos, e entrava rapidamente pela cozinha. Ela não era supersticiosa. Apenas não acreditava em destino. A não ser que as circunstâncias fossem excepcionais.

O jovem que estava ali em pé, logo atrás dela, limpou a garganta.

— Está ventando muito srta. Donaghue. Não precisa ficar aqui fora. Nada vai acontecer, prometo.

Peggy puxou os cabelos avermelhados e longos para trás, fazendo um rabo-de-cavalo, para que não caíssem em seus olhos. Deu uma olhada e pôde ver que Josh, alto e magricela, estava nitidamente desconfortável, e não olhava em sua direção. Era compreensível.

Josh havia acabado de roubar um carro pela primeira vez. E estava rezando, assim como Peggy, para que o dono não percebesse que seu Honda Civic novinho em folha havia sumido.

— Confio em você, Josh. Até neles, eu confio.

Peggy acenou a cabeça em direção ao grupo de quatro adolescentes que estavam esparramados em cima do carro como manteiga derretida, aproveitando a sexta-feira de programação especial do bar.

— Mas vou ficar por aqui, caso eles precisem de mim.

— Nick está trancafiado, estudando. Quando ele fica assim, não sabe de nada do que está acontecendo. Ele não vai saber. — Mas o tom de Josh soava mais incerto que suas palavras.

— Ele provavelmente tem coisas a fazer antes de deixar a cidade.

Peggy avistou uma figura conhecida vindo na direção deles, passando entre as fileiras de carros estacionados. A ruiva emperiquitada jamais se enganava, e além disso, era parente.

— Oh, céus, fomos roubados — disse ela, imitando Jimmy Cagney. — Agora só nos resta o calabouço, Scarface.

As faces pálidas de Josh ficaram vermelhas na hora.

— Preciso ir andando. Winston vai fazer com que tudo saia direito e tudo o mais. Por via das dúvidas, vou para casa, se Nick perceber...

Peggy abanou com a mão, fazendo sinal para que ele fosse.

— Vá indo. Vou dançar essa música sozinha.

Josh fez uma expressão de gratidão e saiu, cercando a irmã mais velha de Peggy atrás da fileira de carros estacionados ao fundo. A lata de lixo de alguém havia virado, e sacos plásticos e folhas de jornal voavam pelo estacionamento, parecendo segui-lo.

Casey Donaghue Kovats foi até Peggy e parou ao seu lado, encarando o grupo de rapazes, que colocava barbantes com fogos de artifício amarrados no pára-choque traseiro do carro de Niccolo Andreani. O Civic prateado estava estacionado próximo à porta dos fundos do bar, para que não fosse visto da rua.

— Você vai deixar os garotos amarrarem fogos de artifício ao pára-choque? Você já trabalhou no setor de emergência. Sabe como esses troços são perigosos.

— Não. Oi, como vão vocês? Como está ventando hoje, não?

— Peggy, você perdeu a cabeça? Fogos são perigosos. E esses são morteiros. Eles têm tanta tecnologia quanto latas ou sapatos velhos. A Megan vai ter um ataque.

— Tomara que tenha mesmo. Nós tivemos muito trabalho. — Peggy cumprimentava um jovem, um belo rapaz negro que tinha um penteado feito com trancinhas meticulosas e usava um rolo de fita crepe como adorno num dos braços. — Winston, você pode por favor explicar a Casey que o carro de Nick não irá explodir? — Winston deixou o posto de supervisor e foi juntar-se às duas irmãs.

— E aí, srta. K? Não vai rolar nada além de um barulhinho.

Casey ainda não parecia estar muito convencida.

— Tenho a maior fé nas suas habilidades, Winston, verdade, mas e se... bem, sei que essa é uma possibilidade muito remota... você estiver errado?

— Não posso estar errado. Testamos ontem.

— Ontem? — Peggy ficou um pouco intrigada. Essa era uma informação nova.

— Foi, sim. Num casamento. Um pessoal que casou na igreja batista.

— Alguém que vocês conhecem? — Winston deu de ombros.

— Aprendi um monte de coisas. Do tipo não colocar balões e morteiros no mesmo pára-choque, se não dá m...

Peggy se esforçava para não rir.

— Está vendo? Eu disse a você que estávamos nas mãos de um mestre.

Winston voltou a seu posto, enquanto Casey o acompanhava com os olhos.

— Não posso acreditar que, para começar, Nick tenha feito uma besteira como essa, de deixar o carro dele aqui no bar — disse Casey.

— Ele não fez. Foi Josh quem trouxe para cá, faz meia hora. Nick não sabe que o carro sumiu.

— Então como é que ele vai fazer para ir até a igreja?

— Achei que ele podia ir andando. São só algumas quadras de distância.

Uma rajada de vento fez com que Peggy discordasse da euforia de Casey, tornando aquele plano sem sentido. O céu estava ficando cada vez mais escuro e o vento mais forte. Naquela manhã, o serviço de meteorologia havia anunciado um dia de brisa, com leve possibilidade de chuva. Mas isso era Cleveland. O tempo era a única coisa garantida. As probabilidades estavam nas mãos de Deus.

— Eu lhe daria meu carro, se ainda o tivesse — disse Peggy.

— Será que você precisa me lembrar de que vai se mudar para o outro lado do mundo amanhã? Como se eu já não soubesse?

Peggy a ignorou.

— Jon pode levar Nick para a igreja. Você liga para ele e pergunta?

Jon tornara-se marido de Casey havia apenas um ano e estava sempre disposto a ajudar.

— Acho que ele não irá se importar. Pelo menos assim não vai sair voando na estrada, no meio da ventania. Jon sabe se cuidar. — Casey sorriu. Peggy havia notado que ela estava sorrindo muito ultimamente. Sorria quando tinha motivo e ria misteriosamente quando não tinha. O casamento.

Mais de dois anos haviam se passado desde que Peggy e Casey voltaram para casa, em Cleveland. Duas almas perdidas à procura de um lugar para se esconder. Agora Peggy era mãe de um filho, Casey havia se casado com seu melhor amigo, e Megan, que tomava conta do salão de festas da família, estava prestes a festejar seu próprio casamento.

Claro que o que parece um trio de felizes para sempre não era bem assim. Cada irmã ainda enfrentava grandes dificuldades, mas Peggy não queria pensar nas suas. Pelo menos não agora. Hoje era o dia de Megan.

— Você lembra da última vez em que ficamos aqui em pé no estacionamento, como estamos agora? — falou Casey, como se soubesse o que se passava na cabeça de Peggy. As duas irmãs de Peggy sempre conseguiram ler seus pensamentos, desde o dia em que ela começou a pensar.

— Tínhamos uma arma apontada para nós — disse Peggy. — E Niccolo passou bem na hora e nos salvou. Agora ele está prestes a se casar com nossa irmã. Estranho como as coisas acontecem, não é?

— Eu espiei lá dentro. Não acredito no que eles fizeram, você viu?

"Eles" significava a família Donaghue — e todas as pessoas de Cleveland que eram parentes deles, ou queriam ser. Uma verdadeira multidão de amigos e familiares, que viera naquela manhã, para cuidar da decoração do salão do bar, onde seria a recepção, após a cerimônia na igreja de Sta. Brígida.

Peggy olhou o relógio.

— Ainda tenho um milhão de coisas a fazer antes que Kieran acorde. — Nem mesmo uma bomba atômica poderia deter o relógio biológico do bebê de Peggy, que sempre se mantinha no horário.

— Você ainda pretende deixá-lo lá em cima, com a babá?

— Ele vai ficar mais contente. Todo mundo vai ficar.

— Mas o velho salão está tão bonito. Do mesmo jeito de quando éramos pequenas e a mamãe se encarregava das festas de casamento da família. A Megan vai adorar.

Peggy sabia bem. Algum dia, Megan, a irmã mais velha, iria olhar para trás e lembrar desse dia com gratidão e saudade. Mas hoje não iria notar absolutamente nada. Se Peggy a conhecia bem, Megan iria passar a festa toda com cara de quem havia sido condenada a prisão perpétua.

Casey deu um sorrisinho.

— Tudo bem, talvez ela fique um pouquinho nervosa e não repare em todos os detalhes...

— Ora, vamos. Vai ser muita sorte se ela estiver só em coma. Para ser franca, não entendo por que ela e Nick simplesmente não partiram.

— Ela não queria dar esse tipo de exemplo.

— Para quem? — Peggy percebeu "quem" no mesmo instante em que fez a pergunta. — Para mim? Megan acha que eu faria o mesmo, se ela fugisse?

— Acho que isso é uma parte.

— Inacreditável.

— Mas também acho que Nick queria um casamento de verdade — acrescentou Casey, antes que Peggy começasse a se explicar. — Ele queria que os garotos presenciassem isso. Acreditam muito nesse tipo de coisa, mesmo nunca admitindo.

Os garotos aos quais Casey se referia, eram um imenso grupo de adolescentes e alguns mais jovens, incluindo os que estavam empenhados na decoração do carro de Niccolo. Ao todo, eram mais de uma dúzia deles, beirando a delinqüência, mas às vezes tão afetuosos. Eram garotos que faziam parte de um grupo chamado Um Tijolo de Cada Vez. Niccolo Andreani era o diretor, fundador e o faz-tudo, que administrava o grupo.

— Então Megan está se casando pelos outros? — disse Peggy.

— Ela não fala sobre isso, eu é que estou supondo. Mas você sabe o quanto ela está nervosa desde que aceitou se casar com Nick. Ela o adora, então não irá se arrepender. Só acho que ela detesta ser o centro das atenções. Fica muito mais feliz quando está cuidando da vida de todo mundo.

— Bem, já estava na hora de chegar seu dia, querendo ela ou não. — Peggy consultou o relógio de novo. Eram dez horas e o casamento seria à uma da tarde. — O que você vai fazer o resto da manhã?

— Um milhão de coisas, antes de ajudar Megan a se vestir, incluindo fazer seu penteado.

— Bem, tenho mais ou menos uma dúzia a mais. Depois também vou me vestir e arrumar o Kieran.

— E fazer as malas.

— Não, já estou com tudo pronto para partir. Tia Dee já veio e pegou nossas malas hoje de manhã. Assim posso arrumar as coisas depois da festa, sem que atrapalhem. A Megan já está anunciando o apartamento. — Peggy procurou adiar a conversa sobre sua partida. Desde que anunciara que iria mudar-se para a Irlanda e ficar um ano por lá, o assunto já havia vindo à tona mais de uma dúzia de vezes, sempre inutilmente.

— Melhor eu ir agora, porque Kieran deve estar quase acordando.

Uma rajada de vento, desta vez muito mais forte, quase a fez levantar vôo, jogando-a contra Casey. O grito de Peggy foi abafado por um barulho estrondoso. Ela ficou tão desorientada por um instante que não assimilou o som ensurdecedor. Depois virou a cabeça em direção ao carro, horrorizada, e viu o desastre balançando sobre ele.

— Saiam de perto do carro! Todo mundo! Agora! — disse ela, soltando-se da irmã, e as duas se jogaram para longe, ao mesmo tempo. — A árvore...

Winston e seus amigos eram jovens fortes e sabiam das coisas. Instintivamente se dispersaram, como as folhas que caíam da imensa árvore, cuja copa estava localizada exatamente acima do novo Civic de Niccolo. O som de um rangido horripilante invadiu o espaço. Parecia o de unhas afiadas, deslizando por um quadro-negro. Em seguida, sob o olhar estarrecido de Peggy, a árvore cambaleou e partiu-se ao meio.

Num estrondo ainda maior, seguido pelo som de metal esmagado, a metade da árvore que pendia próximo ao bar desabou sobre o carro de Niccolo, achatando o telhado e o capô. Estranhamente, a outra metade permaneceu em pé, retinha. O carro de Nick parecia um sanduíche velho, saído da mochila de um adolescente.

Peggy registrou rapidamente o ocorrido, chegando ao saldo do prejuízo. A árvore havia caído na velocidade exata para que os garotos se afastassem. Eles pareciam atordoados, mais ninguém estava ferido.

— Estão todos bem — disse Peggy em seguida repetindo a mesma frase em forma de pergunta. Todos responderam afirmativamente. Winston os levou para o outro lado do estacionamento, de onde falavam aos gritos e apontavam, aflitos.

— Quase acerta o bar — disse Casey, com a voz trêmula. — Mas meu Deus, Peggy, aquela porta da cozinha não vai abrir até que a gente arrume alguém para consertar. Ela abre para fora, e a árvore está imprensada contra ela.

Peggy elevou a voz, por causa do vento intenso.

— Quem está ligando para a porta? E o carro do Nick? Como é que vamos contar para ele? E o que ele e Megan vão usar na lua-de-mel?

— Eles... eles podem usar o meu, na viagem. Jon e eu podemos ficar com um carro só, até que eles voltem.

— Ainda assim temos que contar para o Nick.

— Ah, é? Quando, exatamente?

Peggy ainda estava tentando assimilar o desastre. Das três irmãs, ela era a mais analítica, porém não conseguia raciocinar com clareza naquele momento.

— Você gostaria de ficar sabendo de algo desse tipo, no momento em que está a caminho de seu casamento?

— Não.

— Será que conseguimos manter os garotos quietos? — Casey olhou em volta e o vento chicoteava o cabelo em seus olhos.

— Winston consegue. Além do mais, isso provavelmente foi idéia dele, de fazer o Josh trazer o carro para cá. Ele vai querer ganhar o máximo de tempo possível.

Familiares e amigos começaram a chegar de todo lado, adentrando o salão do bar.

— Meu São Patrício! Todos os santos! Melhor vocês chamarem alguém do serviço de jardinagem — alguém gritou.

Outra voz dizia:

— Arrumem um guincho. — Casey pensava no óbvio.

— Qualquer pessoa sã cancelaria a recepção.

Agora Peggy estava tremendo, numa reação tardia que se acentuava, à medida que percebia nossa sorte imensa.

— Você mesma disse. Temos uma saída bloqueada. Legalmente, somos obrigados a fechar a casa.

Casey passou o braço ao redor dos ombros de Peggy.

— Isso é o melhor sobre os Donaghues. Ninguém que estiver presente na festa irá dizer qualquer coisa sobre isso.

— Casey, você acha que poderíamos doar o terreno do estacionamento para o município e tirá-lo da família de uma vez por todas?

Duas horas mais tarde Megan Donaghue encarava o espelho do quarto de Casey. Uma mulher desapontada, num vestido de seda marfim, sem adornos, olhava de volta para ela.

— Eu realmente não sei como fui convencida disso. Pareço um abajur.

Casey falou do andar de baixo:

— Você está linda, e não há um único centímetro de algo espalhafatoso nesse vestido. Se fosse mais simples, seria uma combinação.

— Eu deveria ter optado por vestir um terninho. Só que quando visto terninhos fico parecendo um pingüim. Por que será que você saiu com pernas bonitas, Peggy, com aquele cabelo liso maravilhoso e eu saí... — ela parou. — Nada. Nada de bom.

— Acontece que Nick te acha uma imagem redentora, e se você não parar quieta, vou acabar espetando essa agulha onde não deveria.

Megan conhecia a irmã e parou com a inquietação. Além disso, desde que Megan havia chegado, Casey parecia um pouco impaciente, o que não era comum. Era melhor não arriscar.

— Talvez tenha sido algo de momento. Sabe como é? Talvez tenhamos mergulhado nisso e continuamos indo cada vez mais fundo, e talvez agora ele não tenha conseguido arrumar um jeito de sair. Talvez tenha tentado me dizer que não queria mais casar e não prestei atenção.

— Megan, Niccolo está tentando se casar com você há dois anos. Isso é o que todos nós ouvimos. Até que você finalmente parou de dar desculpas e, agora, aqui está. — Casey enfiou a agulha num pedaço descosturado da bainha.

Megan olhou para si mesma no espelho. Tinha esperanças de que pelo menos no dia de seu casamento, uma ruiva voluptuosa, com ares de "chegue mais perto" e belos seios olhasse de volta para ela. Seios de verdade, promissores, tentadores. Em vez disso, viu uma baixinha atarracada, de rosto retangular. Até que não havia nada de tão errado com o rosto. As feições até que tinham uma certa harmonia. Os olhos cor de mel eram grandes, com expressão sincera, e os cachos vermelhos estavam domados, no penteado feito pelas mãos de Casey.

— O que será que ele vê em mim, Casey? Quer dizer, Nick é um cara bonito. Não sou cega. Há quem diga que ele é lindo, E eu aqui, vestindo sutiã com enchimento e cheia de rimel, o que certamente não faz ninguém desmaiar de paixão quando eu caminhar para o altar.

— Megan, não pergunte a ele o que vê em você quando estiverem na lua-de-mel, está bem? Porque é para ele ficar tonto de desejo, não de tanto rir.

— Por que estou fazendo isso? — Megan arrumou um cacho que estava fora do lugar. Ela havia sido arrastada quase aos berros até a butique, onde escolheu o vestido mais simples, porém recusou-se terminantemente a usar um véu. Apenas pequenas flores alaranjadas e cintilantes adornavam-lhe os cabelos curtos, que iriam cair caso ela continuasse a passar as mãos sem parar.

— Bem, vamos lá. — Casey fechou a caixinha de costura e sentou-se, olhando para a irmã. — Por que você está fazendo isso? Será que é porque, mesmo com tão pouco amor-próprio, você o ama?

— Muito engraçado, Casey.

— Então, se não é amor, talvez o sexo seja bom? Ou seria o caso de precisar de alguém para consertar a privada, quando estiver vazando.

— Sei consertar uma privada.

— Então voltemos ao sexo.

— Não é preciso casar por isso.

— Então me diga você.

— Estou passando por isso, porque Nick não estava feliz em apenas vivermos juntos. Ele acredita no amor, no casamento. — Megan franziu a testa, olhando para um cacho, e o colocou no lugar pela última vez.

— Ele é romântico?

— Ele foi padre. — Megan respirou fundo e soltou o ar vagarosamente. — E ainda é muito religioso. Viver junto nunca caiu bem para ele. Ele precisa das juras de amor eterno. Necessita da aprovação da Igreja.

— Então você está fazendo tudo isso por ele. — Casey se abaixou junto ao armário, para pegar seu vestido. — Parabéns. Isso faz de você uma mártir. A Igreja reserva um lugar especial no céu para pessoas como você,

Megan esperou em silêncio, enquanto a irmã tirava o short e a camiseta, e vestiu a meia-calça. Depois Casey colocou o vestido de madrinha pela cabeça e virou-se de costas.

— Você pode fechar o zíper?

Megan concordou. A seda acobreada era quase do mesmo tom dos cabelos de Casey, geralmente um farto punhado de cachos rebeldes, mas hoje estavam arrumados numa linda trança, entremeada com uma fita, também de seda.

As três irmãs Donaghue tinham cabelos ruivos, mas havia algo mais em comum entre elas. Peggy, com seu rosto oval e olhos cor de mel, era muito mais bela do que o padrão habitual de beleza de qualquer um. Ela possuía feições mais suaves do que as irmãs, e um corpo muito feminino, que havia se tornado ainda mais belo e voluptuoso depois da gravidez.

Casey era mais interessante do que bonita, mas tinha um conjunto exótico e irregular, cabelos brilhantes e um corpo angular, como uma modelo, e realçava usando roupas diferentes e maquiagem. Casey sempre causava frisson.

E, por último, vinha Megan. Sensível, mas sem frescuras, aquela que se sentia totalmente à vontade de roupa caqui, ou de camisa pólo verde, cuidando do bar da família. Hoje ela estava se sentindo como uma garotinha brincando de desfile de modas. Uma garotinha muito estranha.

— Aí está o problema. — disse Megan. — Não estou fazendo isso só pelo Nick. Também acredito no casamento. Pelo menos teoricamente.

— Quando ainda éramos adolescentes você não teve a chance de acompanhar muitos casamentos de perto. Estava muito ocupada cuidando de nós, para prestar atenção.

— A mamãe e o Rooney pareciam felizes às vezes...

— Sim, é claro, quando ele não estava tendo alucinações. Aí a mamãe morreu e Rooney pirou de vez e tomou um rumo ignorado. E você ficou encarregada de levar as coisas adiante. Há muitos casamentos felizes na família. Veja a tia Deirdre e o tio Frank. — Casey foi olhar sua maquiagem no espelho da penteadeira. — Você estava muito ocupada protegendo seu terreno para prestar mais atenção, Megan.

Megan imaginou que Casey estivesse certa. O pai delas, Rooney, abandonou a família quando Megan tinha apenas quatorze anos. Ela teria passado os anos seguintes tentando fazer tudo que fosse possível para uma adolescente, para manter o salão em funcionamento e cuidar das irmãs, as mantendo juntas. No começo saiu caro para Niccolo.

— Sei que senti os reflexos daqueles anos no começo — disse Megan —, mas já superei o pior. Agora já estou bem crescidinha. Entendo por que Rooney foi embora. E fico feliz em tê-lo de volta, de volta mais ou menos, sei lá. Sei que ele fez o melhor que podia.

Casey a encarou.

— Se todos que não têm uma doença mental se esforçassem tanto quanto Rooney, o mundo seria um lugar espetacular.

— Não há tantos casamentos bons hoje em dia. Isso me dá medo. Agora está se vendo um, o seu — Megan falou, bruscamente. — Isso é o que me preocupa ultimamente.

— Do que está falando?

— Você e Jon. Não sei como fazem isso. Parecem mais felizes juntos do que jamais foram quando eram solteiros. Dão a impressão de ser sem esforço algum.

— Jon e eu éramos amigos no segundo grau. — Casey puxou o ombro do vestido de Megan um pouco para baixo e deu um tapa na mão da irmã, que tentou suspender de volta. — Mas o que isso tem a ver com você? Você ama Nick, gosta dele. Qual é o problema? Você tem o necessário, não tem?

— Você faz parecer fácil, mas não é. Não sei como simplesmente mergulhar num casamento da forma como você e Jon fizeram. Nada é fácil para mim, Casey, nunca. Não conheço o significado da facilidade. Acho que Nick também não.

— Todo mundo precisa trabalhar o casamento. Talvez eu e Jon possamos deixar transparecer que seja fácil, mas posso lhe dizer que já tivemos brigas feias. — Os olhos de Casey brilharam. — E um sexo excelente ao fazermos as pazes.

— E se eu der o melhor de mim e isso não for o suficiente? — insistiu Megan. — Você faz terapia às vezes, não é?

Casey, que acabara de se tornar diretora de uma instituição de caridade que prestava serviços sociais a residentes do West Side, deu de ombros.

— Não é a minha área de conhecimento.

— Essa ansiedade é natural? — Megan mordeu o lábio, depois se lembrou de que estava de batom. — Por dois centavos eu sairia pela porta e iria andando, sem parar.

— E se fizer isso? O que há lá fora de tão tentador?

— Não quero falhar.

— O que aconteceria se falhasse?

Megan ficou pensativa, mas não por muito tempo.

— Eu morreria. Não posso estragar tudo. Se eu me casar, quero que dure. E se não conseguir fazer com que isso aconteça?

Casey atravessou o quarto e pousou as mãos nos ombros da irmã.

— Megan, você não precisa carregar esse peso sozinha. Lembra? Vocês são dois, e nunca conheci pessoas mais capazes. Vocês vão esbanjar sucesso. Um dia você vai rir de si mesma, por ter me falado tudo isso hoje.

Passos vinham pelo corredor e a porta foi aberta bruscamente.

— Ah, Megan, você está linda! — Peggy entrou no quarto num rompante. — Espetacular. Ah, eu vou chorar.

— Acho bom não fazer isso. Não se atreva.

— Preciso me vestir. — Peggy foi em direção ao armário.

— Eu tinha que dar as instruções à babá, por isso estou atrasada. Não tive tempo de fazer o cabelo, mas nesse vento, não faria muita diferença. Mas se eu puxar a parte de cima para trás e colocar umas fivelas, pronto, está feito. Além disso, todos vão estar olhando para Megan.

— Ah, Meu Deus, estou me casando. — Megan levou as mãos ao rosto. — Olha, acho melhor uma de vocês fazer isso, tá?

Peggy tirou o vestido do armário de Casey. Era bem simples como o de Casey, porém em verde-escuro.

— Caso com Nick com prazer. Você acha que irá notar a diferença? — Ela tirou a camiseta e deixou o vestido cair nos braços, cobrindo o corpo. — Apenas vou dizer-lhe que você mudou de idéia. Ele não irá ligar.

— Ou então eu poderia fazer o mesmo — disse Casey. — Aí ele e Jon podem duelar pelas noites em minha cama. — Megan achava que se respirasse fundo mais uma vez teria uma parada respiratória.

— Vou conseguir sobreviver a isso, não vou?

— Se não conseguir, os jornais vão ter uma história e tanto. — Peggy virou as costas para que Casey fechasse seu zíper. — Alguma notícia do Rooney? — perguntou ela a Megan.

Megan levara muito tempo para entender e aceitar a doença do pai. Numa determinada ocasião, nesses dois anos, desde que ele havia voltado para a família, ela acabou desistindo de obter um diagnóstico preciso e acabou se conformando com a idéia de que Rooney não era como os outros homens. Ele havia lutado muito pela sanidade, mas os anos passados com a dependência do álcool haviam feito um estrago permanente.

Pelo menos Rooney já não era um sem-teto, condição em que viveu desde a adolescência de Megan. Todas as noites vinha para jantar e dormir na casa de Niccolo, em Ohio City, que ficava num bairro no lado oeste de Cleveland. Já não bebia mais e tomava medicamentos que o ajudavam a pensar com mais clareza. Às vezes ficava confuso, mas raramente se confundia a respeito de quem eram suas filhas. Havia perdido um longo período de convivência com elas, mas estava aprendendo a conhecê-las novamente, à sua maneira.

— Hoje de manhã eu o lembrei sobre o casamento — disse Megan. — Ele estava de pé bem cedo.

— E o que ele disse?

— Nada fazia muito sentido, mas ele não pareceu surpreso, como seja tivesse lembrado. Você acha que ele consegue chegar até lá?

— Ele sabe onde fica a igreja de Sta. Brígida — disse Peggy. — Sabe ir a qualquer lugar.

— Megan, já está muito bom o fato de ele ter se lembrado, está bem? — afirmou Casey. — Ele se lembra de você. Hoje de manhã lembrou que você estaria se casando. Ele quer estar lá, mesmo se não conseguir chegar. Um ano atrás, quando me casei com Jon, ele mal conseguia lembrar meu nome.

Megan sabia que se fossem atrás de seu pai, o encontrassem e colocassem dentro de um carro, ele entraria em pânico. Então pensou em algo que podia de fato fazer.

— Ainda há tempo para ir para Botsuana, ou as ilhas Canárias, tanto faz.

Peggy chegou perto dela, deu um beijo no rosto da irmã. Deu um passo para trás e limpou uma marquinha de batom que ficou em sua face.

— Que tal em vez disso irmos para a igreja? Você não tem passaporte.

— Tenho sim. Tirei, por via das dúvidas.

— Mas não tem um bilhete aéreo.

— Deve haver vôos para Botsuana de hora em hora.

— Saindo de Hopkins? Seria muita sorte conseguir um até Newark.

— Já estaria de bom tamanho. — Megan endireitou a coluna. — Você acha que estou brincando.

— Acho que você está apavorada — disse Casey juntando-se a elas. — Nunca pensei que fosse viver para ver esse momento. Agora você vai para a igreja, ou será que vou ter que dizer a todos que é uma covarde desprezível?

— Que pergunta imbecil. — Megan virou-se e deu uma última olhada no espelho. Na verdade, não parecia tão ruim como temia. Ela parecia uma... noiva. — Vamos.

Casey deu de ombros.

— Você é tão previsível...

 

                                 Capítulo 2

Niccolo ficou feliz por Megan não ter escolhido um vestido de noiva muito formal, pois se fosse assim, ele teria que usar smoking. Ele já temia pelo terno que estava vestindo, imaginando como ficaria encharcado até o fim da cerimônia. A igreja de Sta. Brigida não estava tão quente, ele é que estava muito nervoso.

— Josh, venha cá um minuto. — Ele sinalizou para o jovem de aparência marginal, que tentava organizar um grupo de adolescentes num dos bancos da frente.

Josh obedeceu, transferindo sua tarefa de organizador da fila para Tarek, outro jovem, que vestia calças muito bem passadas, blazer e sapatos impecavelmente engraxados. Tarek havia dito a Niccolo que esta era a primeira vez em que entrava numa igreja católica, por isso fez uma lista, onde escreveu cuidadosamente o que deveria vestir, incluindo a tradicional gravata.

— Onde está Winston? — Niccolo perguntou a Josh quando ele se aproximou. — Ele vai ajudar a mantê-los na fila.

Josh não olhou diretamente em seus olhos.

— Ah, ele ainda não está aqui. Tinha umas coisas para fazer hoje de manhã.

Winston, Josh, Tarek e todos os outros garotos faziam parte da turma do Tijolo. O grupo teve início quando alguns garotos do bairro viram Niccolo reformando uma casa velha em Ohio City. Agora era uma organização patenteada, sem fins lucrativos, que ensinava técnicas de carpintaria e encanamento hidráulico e restaurava residências antigas. Na verdade, as reformas tinham um valor secundário em relação a tudo que os jovens aprendiam: autocontrole, auto-estima, a importância de ter disciplina e a prestação de serviço comunitário. A Tijolo era mantida com muita dificuldade, mas seguia em frente.

O colarinho de Niccolo parecia estar impedindo sua respiração. Ele o puxava, tentando aliviar a garganta.

— Será que você consegue mantê-los juntos e quietos, para depois levá-los para a recepção?

— Claro, vão fazer o que eu disser — prometeu Josh. Niccolo não tinha dúvidas quanto à sua capacidade.

Josh era a maior história de sucesso de Niccolo. Embora a maioria dos garotos da Tijolo tivesse casa, Josh não teve a mesma sorte. Ele havia se mudado para a casa de Niccolo dois anos antes, fugindo das crises de fúria do pai alcoólatra, e instantaneamente desabrochou. Pela primeira vez na vida passou a tirar notas excelentes e sua auto-estima crescia. Já falava confiante sobre ir para a faculdade e Niccolo tinha certeza de que ele iria se sair bem.

— Está vendo aquele cara grande, no fim da segunda fileira? — Niccolo apontou em direção à frente. — De cabelos pretos, com a bela mulher de azul ao lado?

— Hã-hã.

— É meu irmão Marco.

— Ele se parece com você. Por que nunca veio fazer uma visita?

Niccolo tentou pensar numa forma bem sutil de dizer a verdade nada sutil.

— Minha família não ficou muito feliz quando deixei o sacerdócio. Marco está tentando intervir. — Ele viu que Josh não entendeu. — Ele está tentando ajudar a fazer com que os outros entendam que essa mudança era o melhor para mim. Principalmente meus pais e avós, que ainda são vivos.

— Entendi. Ele não os quer deixar alienados vindo aqui, enquanto ainda está tentando convencê-los.

Niccolo gostou da maneira como o "alienados" saiu naturalmente dos lábios de Josh. Ele obviamente havia entendido as entrelinhas da explicação. Josh era um psicólogo nato.

— Você entendeu tudo. Mas o fato é que ele está aqui hoje, e eu gostaria que ganhasse um cravo para colocar na lapela. — Niccolo fez menção ao que Josh usava. — Como o seu. Você leva um para ele?

— Claro, sem problema. — Josh pegou uma flor na caixa branca enviada pelo florista, que estava ao lado de Niccolo. — Vem mais alguém? Quero dizer, da sua família?

Quando Niccolo sacudiu a cabeça, Josh o encarou, perplexo.

— Eles não gostam de Megan? — Via-se nitidamente que Josh nem sequer podia imaginar uma idéia como essa, já que ele praticamente a venerava de joelhos.

— Eles não iriam gostar de ninguém que eu escolhesse. Não se preocupe com isso. O Marco está aqui. Já é um começo.

— Então até as boas famílias têm atitudes malucas, não é? — Josh pareceu gostar da idéia. Ele esboçava um leve sorriso enquanto caminhava de volta ao seu lugar.

— O que é que você está fazendo aqui fora?

Niccolo virou-se, vendo seu padrinho entrando pela porta. Jon Kovats, marido de Casey, também vestia um terno escuro, só que nele parecia perfeitamente natural. Ele era promotor público, tinha feições sérias e bem moldadas, que dava fé às vítimas de crime, e um olhar resoluto, que fazia os acusados tremerem.

— Você não deveria estar escondido em algum lugar com o padre Brady, até o início da cerimônia? — perguntou Jon.

Niccolo detestaria ter admitir a verdade, mas logo depois que Jon o deixou junto à porta lateral, ele foi sorrateiramente dar uma olhada nos convidados. Tinha esperanças de que seus pais pudessem ceder um pouco e comparecer, embora não tivesse dito isso a Josh.

— Eu só estava tomando um pouco de ar — disse ele — e vendo se havia alguma coisa a ser feita por aqui.

— Nick, você pode deixar tudo de lado por um tempo. Deixe-nos cuidar dos detalhes. Foi para isso que nos comprometemos.

— A Casey lhe deu alguma notícia? Falou alguma coisa?

Niccolo puxou novamente o colarinho ao redor do pescoço. Ele havia deixado de usar os colarinhos mais folgados da batina e gravatas não lhe causavam uma boa sensação.

— Quero dizer, recentemente. Na última meia hora.

— Não. Nenhuma palavra. Por quê? Ela está ajudando Megan a se vestir. Tenho certeza que não deve ter sobrado tempo. — Jon franziu a testa. — Você está com medo que Megan não apareça, não está?

— Isso passou pela minha cabeça.

— Megan honra seus compromissos. Aliás, a ponto de ser obsessiva. É algo que vocês dois têm em comum.

Jon conhecia a ambos muito bem. Niccolo não conseguia parar de sorrir, mas ficava sério de repente.

— Ela tem medo de que tudo mude, de que eu acorde achando que cometi um erro. Só que sou um católico muito fervoroso para admitir isso.

— Megan? Ela tem um ego de super-herói. Não acredito nisso.

— Um ego forte, é verdade, mas não tem certeza de como é viver casada. E Megan detesta estar incerta a respeito de qualquer coisa.

— Só a Megan, ou você também?

Niccolo achou a pergunta um tanto perspicaz, mas não ficou surpreso. Ele e Jon haviam se tornado amigos íntimos ao longo dos dois últimos anos, conheciam bem um ao outro, e Jon era mestre em descobrir segredos.

— Nunca fui casado, mas pretendo me esforçar muito — disse Niccolo.

— Espere aí. Não é para se esforçar tanto, ou não será nem um pouco divertido. Não é um emprego é um relacionamento.

— Ela merece o melhor. Cem por cento. Duzentos.

— Ela merece um homem que esteja feliz.

Havia uma movimentação intensa na porta da frente e Niccolo virou-se. Um cavalheiro grisalho e distinto ajudava uma bela mulher a entrar na igreja. Por um instante, Niccolo ficou completamente imóvel, depois se voltou para Jon, limpou a garganta e disse:

— Jon, você pode vir comigo? Gostaria que conhecesse meus pais. — Ele olhou novamente para a porta. — E meu avô.

Jon já era bastante amigo dele para entender o significado daquelas palavras. Ele deu um tapinha no ombro de Niccolo.

— Você acredita em presságios?

— Sou muito católico para não acreditar.

Megan recusara-se a ir de limusine. Achava que não fazia sentido. Não queria estardalhaço e recusava-se a gastar esse dinheiro. Ela e Niccolo nunca seriam ricos. Havia formas mais úteis para gastar seus dólares.

Ela recusou caronas da família, dispensou o oferecimento de Jon para levá-la no conversível vermelho de seu amigo, recusou tudo, menos a solução mais simples. Ela, Peggy e Casey iriam juntas para a igreja, no carro de Casey.

Ela só não contava com um pneu furado.

Lá estavam as irmãs, em frente à casa de Casey, olhando para o improvável.

— As estradas estão cheias de destroços por causa do vento. Devo ter passado em cima de alguma coisa quando voltava do bar — disse Casey.

— É, um prego, ou pedaço de ferro. Esse pneu também parece uma panqueca.

— E também vendi meu carro — disse Peggy. — Peguei uma carona até aqui com o tio Den.

— Que maravilha. — Megan chutou o que havia restado do pneu, danificando sua sapatilha marfim. — Pelo jeito, nenhuma das duas vai querer trocar essa porcaria, vai?

— Nesse vestido? — Casey olhou para baixo e sacudiu a cabeça. — Sem a menor chance.

— Vamos chamar um táxi — disse Peggy.

— Isso aqui não é Manhattan. Nick já vai estar casado com outra pessoa até que o táxi chegue lá. — Megan chutou o pneu novamente, pouco se importando com os sapatos. — Talvez ainda haja alguém no bar. Casey, você pode tentar descobrir?

Casey enfiou a mão na bolsa, procurando pelo telefone celular e fez a ligação. Todas permaneceram imóveis, esperando, até que ela fechou o telefone e sacudiu a cabeça.

— É um milagre. Todos eles estão pontualmente no casamento. Todos menos nós. Jon já está lá com Nick e aposto que o telefone dele está desligado.

Ela tentou outros números, sem sucesso.

— Você conhece os vizinhos? — Megan olhou em volta. — A essa altura você tem que conhecer alguém.

Casey inclinou a cabeça para a esquerda.

— Eles estão viajando. — Depois inclinou a cabeça para a direita. — Estou pegando a correspondência para eles — disse ela, fazendo menção com a cabeça, à casa do outro lado da rua. — Eles estão no lado oposto num dos casos de Jon e vão se mudar para um lugar mais seguro. A casa ao lado da deles está vazia.

Megan olhava fixamente ao redor, a cabeça como um turbilhão. Casey e Jon haviam comprado uma das casas restauradas por Niccolo, em Ohio City. Era uma bela construção em tijolos coloniais com detalhes clássicos, ideal para o casal, e, melhor de tudo, ficava a apenas quatro quadras da casa de Niccolo, na Hunter Street.

— Está bem. Vamos começar a andar. Vamos pegar a Caridade.

Suas irmãs suspiraram. Lembraram que Caridade era o apelido da velha picape de Megan, que ganhou fama por seu mau humor. Nunca queria pegar. Mas não tinha graça.

— Vocês têm alguma idéia melhor? — disse Megan, em tom exigente.

— Bem, vamos ver se a Caridade se sente à vontade na casa de Nick. Se não, talvez os seus vizinhos sejam de maior ajuda do que os de Casey — disse Peggy. — Vamos andar.

Megan começou a caminhar pela calçada, em ritmo acelerado. Ela podia ouvir as irmãs logo atrás, mas agora tinha uma missão a cumprir. Ela afirmou que iria se casar com Niccolo e já era tarde demais para cancelar o casamento de maneira digna.

Elas seguiam em silêncio, três mulheres, de longos de seda, com os penteados esvoaçando ao vento... que aumentava.

— Vai chover — disse Casey, ainda a um quarteirão de distância da casa de Niccolo.

— Deus, que possamos chegar até o carro antes que a chuva caia.

— É bom que não chova! — Megan esbravejou e seguiu em frente.

Elas dobraram a esquina da Hunter e Megan avistou Caridade, no fim da quadra, em frente à casa de Niccolo... a casa dela.

— Deus, faça com que pegue.

— Hoje parece ser mesmo um dia de alerta. Isso foi uma oração — disse Casey. — Megan está rezando.

— Quero que saibam que estou em dia com o Senhor. Tive de ficar, para poder casar na igreja.

— Pelo menos por enquanto. O padre Brady não desmaiou ouvindo sua confissão?

— O padre Brady é bem mais amável e aparentemente mais otimista em relação à minha alma do que você. — Megan estava com medo de olhar para o relógio. Elas estavam superatrasadas, e levaria algum tempo para se arrumarem, por causa do estrago feito pelo vento.

As gotas de chuva começaram assim que chegaram ao carro, mas Caridade pegou na primeira virada da chave.

— Você acredita em presságios? — perguntou ela a Peggy, que entrou e sentou-se ao seu lado.

— Sou irlandesa demais para não acreditar.

Megan parou em fila dupla e não desligou o motor. O pequeno estacionamento estava repleto de carros e parecia muito distante da entrada que ela planejava usar. A igreja tinha uma porta lateral logo depois do santuário, que levava a uma escada. Logo acima ficava uma pequena sala, onde as noivas se arrumavam — e agora ela se arrependia profundamente por não ter optado em usá-la. Se chegasse até lá, poderia se recompor e desceria por outra escada. Depois poderia seguir rumo ao altar, ao encontro de Nick e do padre Brady.

Pena que não havia trazido um par de tênis.

— Acho que podemos conseguir. — Ela respirou fundo. — Vou deixar a chave na ignição. A vizinhança é meio barra pesada, portanto, alguém provavelmente irá roubar o carro. Quando perceberem o que levaram, irão abandoná-lo em algum lugar e o acharei de novo.

— Estamos a cinqüenta metros da porta — disse Casey, do banco de trás.

— Está apenas chuviscando.

Peggy passou a mão no pára-brisa, que estava embaçando.

— Sabe de uma coisa? Você já morou aqui tempo demais. Isso não é um chuvisco. Qualquer um acharia que é um aguaceiro. E você detesta se molhar.

— Megan — disse Casey —, ninguém vai levar seu carro, e você ainda vai tê-lo rebocado se deixá-lo aqui.

De repente, Caridade engasgou e morreu.

— Parece que não tenho outra escolha e prefiro pagar a multa para retirá-lo do depósito a chegar atrasada em meu próprio casamento.

— Pelo menos sua ambivalência desapareceu — disse Casey.

Megan não fez questão de corrigi-la.

— Vocês duas conseguem entrar?

Peggy estava remexendo embaixo do banco, tentando encontrar um guarda-chuva. Ela o passou para Megan. Era velho e meio amassado, mas pelo menos seria útil.

— Vá em frente. O tempo só vai piorar. Vou tentar fazer esse monstro pegar.

— Não vou entrar sem você. Você precisa estar lá para me apoiar. — Depois de muita especulação sobre quem deveria acompanhá-la ao entrar na igreja, Megan pediu a Casey e Peggy que entrassem alguns passos à sua frente, como damas. Ela tinha uma dúzia de parentes masculinos que teriam feito as honras, mas, em vez disso, escolhera as irmãs. O homem que realmente deveria levá-la ao altar não estava apto a isso.

Megan tentou calcular a distância e a quantidade de chuva.

— O que devo estragar? Minhas sapatilhas ou minhas meias?

— Eu trouxe meias sobressalentes. — Casey já estava debruçada no banco.

Megan tirou os sapatos e abriu a porta.

— Te vejo lá dentro. — Ela abriu o guarda-chuva e saiu correndo pelo gramado, sem sapatos, rumo à entrada alternativa. Quando alcançou a porta ao lado da escada, sacudiu-se inteira, como um cachorro, para deixar cair o excesso de água, e fechou os olhos e o guarda-chuva. Quando os abriu, seu futuro marido a olhava.

— Nick! — disse ela, colocando a mão no coração. — O que é que está fazendo aqui?

— Verificando se você teria me abandonado no altar. — Ela olhava para ele. O terno escuro realçava seus ombros largos, os cabelos negros, a barba tão bem-feita. A pele morena de seda e as feições de centurião romano completavam o presente perfeito a estar esperando num altar.

— Não era para você me ver desse jeito. — Agora ele sorria.

— Me lembro da primeira vez que passamos uma noite juntos. Você se lembra?

Naquele momento ela não tinha certeza nem se lembraria do próprio nome. Apenas olhava para aquele lindo ser humano masculino, disposto a compartilhar a vida com ela.

— Você me convidou para ir até a sua casa depois do trabalho — disse ele — e estava exausta. Então tomou banho enquanto eu esperava. Quando voltou e entrou na cozinha, seu cabelo estava molhado, como está agora. E fiquei fraco de desejo.

— Fraco?

— Como uma metáfora. Mais ou menos o oposto do real, acho.

Ela sorriu.

— Eu havia esquecido.

— Eu sinto esse negócio quando a vejo molhada. E seca também, não faz diferença. E quando a vejo.

— Ah, Nick. — Ela queria cair nos braços dele. Em vez disso, segurou o vestido nas laterais com as duas mãos, como uma garotinha. — Tem certeza de que quer ir em frente? Será que sou um bom negócio?

— Nunca temos garantia total, mas acho que você é uma aposta segura.

— Estou toda desarrumada, pingando. Meu carro provavelmente será rebocado, e reduzi minhas meias a farrapos. — Ela levou uma das mãos aos cabelos. — E perdi minhas benditas flores alaranjadas.

— Está ótimo. Você está perfeita assim. — Ele fez uma pausa. — No entanto, acho que meus pais terão uma impressão melhor se você calçar os sapatos.

— Eles vieram?

Ele concordou com a cabeça.

Desta vez ela caiu em seus braços. Casey e Peggy chegaram no momento em que o abraço terminou.

— Peggy conseguiu estacionar o carro. Nós... — Casey parou quando viu Niccolo. — Saia daqui! — disse Casey a ele, com expressão de susto e ao mesmo tempo zombando.

— Vá ficar no seu lugar. Isso dá azar. — Ele deu um sorrisinho despreocupado.

— Fora! — Casey deu-lhe um empurrãozinho de leve. — Vá dizer à organista para tocar mais uma. Dê-nos dez minutos.

— Cinco.

— Sete. Vá!

— Tchau... — Megan ficou olhando enquanto ele saía. Nick virou-se e soprou-lhe um beijo.

— Megan! — Casey a pegou pelo ombro e a conduziu para a escada.

Elas estavam prontas em dez minutos. Tinham trocado as meias e os cabelos estavam secos o suficiente. Megan entrou na ante-sala com as irmãs. Pela fresta da porta, pôde ver que Nick, Jon e o padre Brady já haviam entrado pela porta da frente.

As flores alaranjadas haviam sido restauradas. Casey as pegara no chão, enquanto caminhavam. Até as sapatilhas de Megan estavam limpas. Ela estava pronta.

— Você acha que Rooney conseguiu chegar até a igreja? Acha que ele pode estar por aqui? — Megan se posicionou em frente à porta. Cabeças começaram a virar.

— Ele queria estar — disse Peggy.

Os acordes de Beethoven em "Jubilosos te adoramos" soaram na entrada da igreja. Megan havia implorado à organista que acelerasse um pouquinho o compasso, para que a caminhada até o altar não fosse tão longa. Mas agora, aquela melodia tão conhecida mais parecia uma extenuante seleção musical de um vídeo de ginástica. Suor sagrado. Obviamente, depois de todo aquele atraso, a pobre mulher provavelmente estaria pronta para pedir as contas.

— Está bem. Vamos entrar juntas. Não andem muito depressa, me deixando para trás. — Megan respirou fundo — Vamos.

— Eu te amo — disse Casey, o que Peggy repetiu. Os olhos de Megan estavam cheios de lágrimas.

— Apenas vá.

Elas deram início à caminhada. Megan deu um passo atravessando a soleira e adentrando a igreja. Como um só corpo, todos os convidados se levantaram. Pelo canto do olho ela avistou uma figura masculina solitária, que entrou no corredor. E então, com a naturalidade de quem passou horas ensaiando, Rooney Donaghue, vestido apropriadamente, barbeado e sorridente, veio em sua direção e ofereceu-lhe o braço.

 

                             Capítulo 3

Nenhuma das irmãs Donaghue era sentimental, no entanto, contrariando esta reputação, Peggy deixou cair algumas lágrimas durante a cerimônia. Megan estava radiante por unir sua vida à de Nick, e Peggy, embora não tivesse passado muito tempo de sua vida na igreja, também ficou emocionada com as melodias conhecidas, que foram entoadas ao longo da missa de casamento. Porém, nada a tocou mais profundamente do que ver o pai ocupando seu lugar de direito, ao lado da filha mais velha.

Aquela visão gloriosa e sagrada explodiu no momento em que se abriram as portas do Whiskey Island Saloon.

— A máquina de gelo entregou os pontos — disse Barry, o bartender, que passou por ela a caminho da saída. — Vou buscar gelo.

— Eu...

— A banda disse que precisa de mais espaço para montar os equipamentos — gritou ele, por cima do ombro, distanciando-se. — Então afastei algumas mesas, só que agora não há tantas mesas disponíveis...

— Eu...

— E há árvores caídas por todo lado em Cleveland, por isso não há como conseguir uma equipe para vir até aqui para cuidar da nossa. Isolamos a área ao redor da cozinha com cordas, para que ninguém estacione próximo ao pedaço do tronco que ainda está em pé. Mas também não vai dar para rebocar o carro até... — A voz dele foi sumindo enquanto entrava no carro e batia a porta.

Peggy ficou imaginando o que exatamente iria dizer a Niccolo e Megan, quando chegasse a hora de saírem para a lua-de-mel, e de o carro de Casey — se até lá o pneu já estivesse consertado — estaria esperando por eles, em vez do Honda.

— Peggy? — A mão forte a alcançou. Ela olhou para cima e viu Charlie Ford, um de seus clientes mais fiéis. — A padaria acabou de ligar. O bolo está pronto, mas eles esqueceram algo, Petty Cash... algo assim.

— Petitfours. Achei que eles já tivessem deixado aqui, que estariam na cozinha. — Ela começou a entrar em pânico. Essa multidão certamente estaria esperando pelos doces, antes que o bolo fosse cortado.

— Eles trarão em breve, disseram que não há motivo para preocupação.

— Para você é fácil dizer.

Os olhos de Charlie cintilaram. Seu único filho morava em Nova York, e a equipe de funcionários e os clientes do Whiskey Island eram sua família em Cleveland.

— E Greta disse que irá pedir demissão se tiver que rechear mais um repolho.

Greta era a querida auxiliar de cozinha de Megan, que além de cozinheira fabulosa era também uma funcionária muito dedicada.

— Ela sempre diz isso. Mais alguma coisa?

— Kieran dormiu mais ou menos uma hora atrás e a babá foi embora. O radiomonitor de bebê está na cozinha, com Greta.

Peggy já sabia disso. A babá tinha outros compromissos e elas haviam entrado num acordo para que ela saísse, já que o sono de Kieran era bastante regular. Aquela mulher mais velha era uma das poucas pessoas de fora da família disposta a tomar conta de Kieran. Que bênção ter alguém que pudesse ajudá-la a cuidar de seu filho por algumas horas, e quão impossível isso seria, a partir de amanhã.

Mas foi ela mesma quem assim escolhera.

Charlie deu um tapinha no ombro de Peggy.

— Você conhece aquela do padre irlandês que foi parado pelo guarda, por excesso de velocidade? O guarda sentiu cheiro de álcool no hálito do bom padre e percebeu uma garrafa de vinho vazia, no chão do carro. Então se sentiu no dever de perguntar a respeito. "Padre, o senhor andou bebendo?", perguntou ele. E o padre respondeu: "Somente água, meu filho". Então o guarda pegou a garrafa e mostrou a ele dizendo: "E isso o que é, padre?" E o padre ergueu as mãos e disse: "Jesus, Maria, José! Ele fez isso de novo!"

Ela suspirou.

— Charlie, você é terrível.

Ele deu um sorriso e sumiu na multidão.

Peggy foi direto para a cozinha. Greta estava supervisionando uma equipe de pessoas que colocava comida nas bandejas e as levava para a recepção. Atrás dela, Peggy podia ouvir a porta da frente abrindo e fechando sistematicamente, e sabia que em breve o salão ficaria lotado, como no dia de São Patrício.

— Tudo correndo bem por aqui?

Greta olhou para cima, seu rosto redondo brilhava, molhado de suor.

— Você sabia que a família de Nick estaria trazendo comida?

Até vê-los na igreja, Peggy sequer sabia se eles viriam. Greta apontou para o balcão de alumínio atrás dela, junto à parede, do outro lado da cozinha.

— Pilhas e pilhas de comida. Eles deixaram aqui antes do casamento. A mãe dele ficou me dando recomendações, como se eu não soubesse aquecer uma travessa de comida. Será que ninguém podia me avisar? Faz uma semana que estou cozinhando!

— Ninguém sabia que eles viriam, Greta. Sinto muito. Mas posso garantir que tudo que você preparou será comido. Cada pedacinho, e todos vão lamber os pratos.

— Fiz um manicotti caprichado, como você nunca viu. Lingüiça com pimentões, almôndegas! — disse Greta, fazendo uma careta. — Tudo do melhor.

Peggy colocou os braços ao redor dela, dando-lhe um abraço rápido.

— Soldados a postos. Os Donaghues irão comer tudo que têm direito, está bem? Pode ter certeza.

— Acho bom, mesmo.

— Nenhum barulho lá de cima?

— Nem um pio, e estou com o monitor ligado no volume máximo.

— Qualquer coisa, me avise. — Peggy ouviu o barulho inconfundível do estouro da rolha de um champanhe e correu até o balcão do bar, em frente ao salão. — Sam, quem lhe disse para começar a abrir isso? — Sam Trumbull, outro cliente assíduo, deu-lhe um sorrisinho convencido. Ele era um homenzinho pequenino, eternamente sedento e com incrível poder de persuasão, capaz de convencer qualquer estranho, em dez segundos, a pagar-lhe um drinque.

— Me incumbiram desta função. Não me lembro quem... — Só havia champanhe suficiente para uma boa rodada de brindes, antes que o bolo fosse cortado. Antes disso, os convidados poderiam servir-se dos excelentes vinhos que Niccolo escolhera pessoalmente, além dos sensacionais coquetéis preparados por Barry, ou as melhores Guinness de Cleveland.

— Não abra mais nenhuma garrafa — ela avisou. — Não até que eu lhe peça. Vai perder o gás.

— Eu só queria verificar se a temperatura estava adequada — disse ele, mostrando a garrafa. — Quer ver?

— Uma taça, Sam. Só isso. Depois sirva o restante... — Ela se virou e apontou. —...para aquele casal que está ali. São minha tia Deirdre e meu tio Frank.

Ele pareceu desapontado, mas concordou com a cabeça. O vento lá fora aumentava e Peggy olhou para o relógio do salão.

— Espero que todos cheguem antes que essa tempestade comece de verdade. Por enquanto chove e pára, depois chove de novo...

— É a primavera de Cleveland — disse Sam, suspendendo os ombros.

— Depois que todos estiverem aqui, não faz diferença. — Ela olhou para a porta que se abria e Jon e Casey entraram, seguidos por um grupo enorme de Donaghues, que eram parentes mais distantes.

Casey a viu e apontou em sua direção, dizendo com expressões labiais "Eles estão chegando", repetindo isso várias vezes, para alertá-la, mas ela já tinha entendido.

— Todo o pessoal da festa estará aqui em breve — disse ela a Sam. — Você entendeu? Não abra o champanhe até que eu lhe dê o sinal, promete?

Casey conseguiu abrir caminho até o bar, enquanto Peggy se afastava.

— Onde está Kieran?

— Lá em cima, dormindo. O monitor está na cozinha.

— Você tem um bocado de gente aqui disposta a ajudar.

— Kieran não precisa de uma porção de gente, Casey. Ele precisa de um ambiente tranqüilo e minha atenção permanente.

— Se essa estada na Irlanda não der certo, você sabe perfeitamente que pode voltar a hora que quiser, não é? Ninguém vai ficar dizendo "eu te avisei".

A porta se abriu novamente e desta vez Megan e Niccolo entraram, logo depois de Rooney. Atrás deles, vinham os membros da família real de Niccolo, todos com aquela cor de pele maravilhosamente bronzeada. Peggy sabia que eles eram os Andreani, pois eram as únicas pessoas presentes que ela não conhecia pelo nome.

— Eles estão se comportando bem? — perguntou ela, a Casey. — A família de Nick?

— Para dizer a verdade, são muito charmosos. A mãe dele é um pouco reservada, dando uma leve impressão de que talvez esteja aqui um pouco a contragosto, mas o restante é ótimo. E também têm ótimas histórias para contar. A viagem de Pittsburgh é digna de um livro. Talvez os italianos e os irlandeses tenham algum laço de parentesco. Acho que eles vão se dar bem com todo mundo.

— E como vai indo o Rooney?

— Ele está aqui, não está? A tia Deirdre está a postos. Ela irá fazer com que ele coma direitinho e se sinta feliz, e ficará de olho para que ninguém lhe sirva nada alcoólico.

Megan caminhou até as irmãs. Ela foi parada, abraçada e beijada por todos no caminho.

— Outras pessoas costumam ter recepções calmas — disse ela. — Jantares onde todos comem ao som de música ambiente.

Como se tivessem combinado, a banda céltica começou a tocar. O vocalista era primo de segundo grau, pelo lado da mãe delas. O nível de ruído duplicou.

— Outras pessoas não se divertem tanto assim! — Peggy abraçou-a. — Está tudo bem com você?

— Tivemos que estacionar mais no fim da rua. O tio Den disse que não tinha mais nenhuma vaga no estacionamento, nem mesmo para os noivos.

Ela agradeceu em silêncio, pelo único e abençoado irmão de sua mãe, e recusou-se a encarar Casey, temendo que seu olhar pudesse entregar a verdade. Apenas pensou em quanto tempo levaria, até que alguém comentasse sobre a árvore com Megan ou Nick.

— Quem convidou toda essa gente? — gritou Megan.

— Você!

— A família de Niccolo vai achar que seus novos familiares vêm de um manicômio!

Peggy olhou por cima do ombro de Megan, para o grupo dos Andreanis, num canto. Só que eles não estavam mais no mesmo canto. Estavam conversando e se entrosando com outras pessoas e pareciam se divertir. Até mesmo a sra. Andreani, que segurava a mão de uma menina linda, de cabelos negros, estava se soltando um pouco mais. Ela cruzou o olhar de Peggy e deu um leve sorriso.

A música fez uma pausa rápida e Peggy ouviu Greta chamá-la.

— Melhor eu ir ver o que é. O Kieran deve ter acordado.

— O que vai fazer com ele? — perguntou Megan.

— Vou trazê-lo um pouquinho e ver como se comporta. Se ficar muito incomodado com o barulho e o tumulto, eu o levo de volta. Tem bastante gente que pode se revezar para tomar conta dele. — Peggy se afastou entre as pessoas, mas foi parada pela tia Deirdre, antes que pudesse chegar até o filho.

— Não posso acreditar que você esteja indo embora amanhã — disse Deirdre.

Peggy adorava a tia. Deirdre Grogan era irmã de Rooney. Ela e Frank, seu marido, haviam-na criado, depois que a mãe morreu e Rooney partiu. Ao mesmo tempo que quis sua custódia sem pestanejar, Deirdre foi sensível o suficiente para perceber a necessidade de Megan em participar da vida da irmã caçula. Deirdre viveu momentos difíceis. Ela era bondosa e paciente, e totalmente contra a decisão de Peggy em levar Kieran para a Irlanda.

— Adorei essa cor — disse Peggy, na esperança de mudar o rumo da conversa. Deirdre sempre se vestia com bom gosto, usando roupas caras e de cores discretas. Hoje estava trajando um conjunto de linho verde, realçando a cor de seus cabelos, que já haviam sido do mesmo tom dos cabelos de Casey, mas agora já não eram tão berrantes.

— Tem certeza de que não irá repensar, querida? Afinal, o que sabe sobre essa mulher? O que nós sabemos? E como podemos ajudar Kieran, se você vai estar no fim do mundo?

Peggy sabia que a tia estava preocupada, pois nunca interferia. Dois anos antes, quando ela lhe dissera que estava grávida e não tencionava se casar com o pai da criança, Deirdre perguntou apenas o que podia fazer para ajudar.

— Já sei o bastante sobre Irene Tierney para arriscar a viagem — disse Peggy. — Ela tem sido afetuosa e receptiva, e está ansiosa por conhecer ao menos uma pequena porção de sua família americana. Até dois meses atrás ela nem sequer sabia de nossa existência.

— Mas tudo isso não lhe parece um pouco estranho? O fato de ter mais de oitenta anos e tê-los achado através da internet?

— Seu médico lhe deu um computador para se distrair e a conectou à internet. É algo que ela pode fazer de casa e lhe abre novos interesses. Achei maravilhoso que tenha se adaptado e a forma como nos encontrou.

— Ainda não entendo o que ela queria.

Peggy olhou em direção à cozinha e viu Greta de pé à porta, apontando lá para cima. Peggy acenou, para que visse que já entendera o recado. Estava ficando nervosa, uma reação comum de qualquer mãe, de qualquer espécie, que está distante de seu bebê quando ele chora.

— Preciso ir ver Kieran. Podemos conversar mais tarde. — Deirdre pareceu contrariada.

— Posso ajudar? Gostaria que eu...

— Não, mas obrigada. Fique. Divirta-se. Vou descer com ele daqui a pouquinho.

Peggy só não mencionou que pretendia demorar um tempo até voltar. Havia uma dúzia de parentes que iriam querer encostá-la na parede até o fim da noite, para interrogá-la a respeito de sua decisão de pegar um avião, voar milhas e milhas até a Irlanda, para viver numa zona rural, com uma mulher que nunca havia visto. Ela não estava nem um pouco disposta a enfrentar nenhum deles.

Lá em cima, no pequeno apartamento, às vezes abafado no final da primavera, agora corria uma brisa de fim de tarde, enquanto escurecia. Peggy sabia, mesmo sem abrir a porta do quarto, que Kieran estaria olhando para a cortina ao lado de seu berço. Embora a janela tivesse apenas uma pequena fresta aberta, a cortina balançava a cada sopro do vento e Kieran mantinha o olhar fixo em seu movimento. Então ele imitava, sacudindo a mãozinha. Quando não havia nenhum movimento em volta, como a cortina balançando, ou o ventilador girando, ela já o havia visto olhando apenas para sua pequena mão, hipnotizado pelo movimento repetitivo, por até uma hora.

Se ela pudesse entender o grande mistério que era Kieran Rowan Donaghue.

Ela abriu a porta e viu que estava certa. Kieran estava acordado, mas não havia levantado. Estava deitado em silêncio, abanando a mãozinha em sincronia com os movimentos da cortina. Se Kieran era capaz de ser feliz, então certamente ficava mais feliz em momentos como esse, quando estava sozinho, sem que ninguém lhe pedisse nada, sem ninguém que esperasse reconhecimento ou, pior, amor. Ninguém para perturbar o sossego do qual tanto gostava.

— Kieran?

Ele não se virou, mas ela não esperava que o fizesse. Porém a ouvira. Ela sabia que sim, pela forma como seu corpinho gorducho se contraíra e sua mãozinha havia parado de seguir o ritmo da cortina. Ele fechou a boca e emitiu um som de angústia, um som animal. Como o de um bichinho acuado.

— Meu benzinho, é a mamãe. Como está meu pequeno Kieran? — Ela seguia vagarosamente em sua direção. Ela já sabia que ele não iria sair prontamente de seu mundo solitário. Não fazia muito tempo, a família brincava sobre a "sensibilidade" de Kieran. Ele seria um artista, um poeta, ou um músico. Era um visionário, o mais jovem dos Donaghues. Enxergava o mundo de maneira diferente e vivia suas experiências de forma mais visceral, mais elementar, do que outras crianças.

Foram dias felizes, antes da chegada das borboletas, que vieram acompanhadas pelo diagnóstico de autismo, transformando aquela primavera em Cleveland num verdadeiro pesadelo para Peggy.

— Kieran — sussurrou ela. — Kieran...

Ele finalmente virou-se para ela. Seu rostinho angelical expressava desânimo. Ele tinha a pele rosada e lindos cachinhos. Seus olhos azuis brilhavam como estrelas, mas o que se passava por trás deles era um segredo só seu.

— A mamãe está aqui — sussurrava ela. — A mamãe te ama e está aqui. Mamãe não vai a lugar algum, querido. Kieran, meu amor.

Ele não levantou os braços. Não sorriu. Seu corpinho, que ficava relaxado quando dormia, enrijeceu como aço. Em seguida olhou para longe, em direção à janela aberta, que balançava a cortina.

 

                                     Capítulo 4

Até então, Megan havia sobrevivido. A chegada de Rooney foi uma bênção. Ela jamais poderia imaginar que iria seguir rumo ao altar de braços dados com o pai, e aquele milagre havia ajudado a levá-la até o fim, onde era aguardada pelo homem que amava. O sorriso de Niccolo e a paciência do padre Brady acompanharam-na até o fim da cerimônia.

Agora, ela torcia para que o champanhe e Guinness de Barry a levassem até o fim da recepção.

— Meu carro sumiu — Niccolo gritou para ela. Por um momento ela não entendeu. — Acho que alguém deve tê-lo levado para enfeitar — especulou ele.

Ela podia sentir o rosto em várias tonalidades de rosa, a maldição absoluta de qualquer ruiva. Após a recepção, ela e Niccolo seguiriam para a casa de campo de um parente, na ilha Drumond, em Michigan. Ela havia imaginado anonimato e paz absoluta na viagem.

— Vamos parar no primeiro lava-jato — avisou ela. Ele sorriu. Ela não conseguia se lembrar de tê-lo visto tão feliz. Perguntava a si mesma o que havia feito para merecer esse homem, que esteve ao seu lado em todos os seus momentos de dúvida, medo e neurose.

— Eu gostaria muito de sair antes da tempestade, mas acho que vamos acabar indo de encontro a ela.

— Está chovendo novamente? Talvez o lava-jato não seja necessário.

— Chove torrencialmente. Estou acostumado a tempo ruim, mas este superou as expectativas.

Casey veio abrindo caminho, com um prato de comida, que deu a Megan.

— Você nem provou nada. Está fabuloso. Tanto os Andreanis quanto os Donaghues se superaram.

Megan percebeu que estava faminta.

— Nick? — Mas não precisava se preocupar. Viu que Jon já o estava arrastando para o bar, para que fizesse seu próprio prato. Marco, irmão de Niccolo, estava indo junto.

— Você está se divertindo? — perguntou Casey. Megan mergulhou no manicotti mais delicioso que já havia experimentado. Pensou se a sra. Andreani lhe daria a receita. Talvez o relacionamento delas ainda estivesse muito prematuro para pedir, considerando que até algumas horas atrás a mãe de Niccolo nem sequer reconhecia a sua existência.

— É para ser divertido? — perguntou Megan.

— Você está se divertindo, não está?

Uma prima, trazendo uma bandeja cheia de Guinness, parou e Megan pegou um, sendo abraçada enquanto bebia.

— Como é que faço para comer e segurar isso ao mesmo tempo?

— Eu seguro — Casey pegou a Guinness.

— Estou indo bem — admitiu Megan.

— Todos estão tão felizes por você ter se casado com Nick.

Megan nunca havia reparado como o clã Donaghue tinha bom gosto.

— Nick me disse que o carro dele sumiu — Ela ficou observando a irmã. — Casey, não gostei da expressão em seu rosto.

— O que Nick disse, exatamente?

— Que alguém provavelmente o teria levado para enfeitá-lo.

— É isso que as pessoas geralmente fazem nos casamentos, não é?

— Você sabe mais do que está dizendo.

— Há horas boas e más para falar de surpresas.

— E há surpresas boas e más.

A banda começou a tocar "Cockless and Mussels", e as fitas brancas de tule presas ao teto tremularam ao vento, quando alguém abriu a porta da frente.

— Acho bom que esta não seja uma das más — continuou ela, elevando o tom da voz. — Apenas me diga, o que fizeram com o carro... sabão nos vidros, sapatos no pára-choque, seja lá o que for, tudo pode ser retirado assim que sumirmos de vista.

Peggy chegou com Kieran nos braços.

— Quem vai sumir de vista?

O coração de Megan ficou apertado, como sempre ficava quando via o sobrinho.

— Oi, querido. — Ela tentava manter a voz baixa, mas assim tornava-se inaudível. Kieran não reagia bem ao barulho de ambientes tumultuados e confusos, e ali, no meio daquela multidão, ele olhava para ela como se fosse uma estranha, embora Megan o tivesse alimentado, feito dormir e trocado suas fraldas, tanto qualquer outra pessoa no mundo.

Kieran parecia perfeitamente normal ao nascer. Quando ainda era recém-nascido, Peggy havia começado a estudar medicina e Kieran foi disputado pelos membros da família, que queriam todos uma chance de cuidar do menininho, enquanto a mãe tinha aulas. Porém, por mais tempo que passasse com eles, nunca parecia recordar-se de ninguém.

Peggy passou os dedos em seus cachinhos ruivos.

— Tente dizer oi — pediu a Megan.

— Oi — disse Megan, com carinho.

Kieran a encarava, com sua expressão de anjo querubim, depois fixou o olhar em algo atrás dela. Megan virou-se para ver o que o havia interessado e viu uma fita de tule tremulando, refletindo no espelho do bar.

— Oi — repetiu Megan.

Kieran não olhou para ela. Parecia hipnotizado pelo movimento. Quando ia mudar de assunto, ele deu um sorrisinho e esticou o braço em direção ao espelho.

— Oi. Oi. Oi.

Peggy pareceu desapontada.

— Melhor que nada.

— Ele não tem nem dois anos ainda — lembrou Casey. — Meninos não falam tão cedo como meninas.

— Mas a maioria dos meninos sabe a diferença entre fitas refletidas em espelhos e suas tias preferidas. — Peggy parecia inconformada. — Bem, mas isso irá mudar. Quando vê-lo da próxima vez, vai ficar surpresa com o progresso.

Megan pensou em argumentar. Queria incutir um pouco de bom senso na cabeça da irmã. Quando Peggy soube do diagnóstico de Kieran, desistiu da faculdade de medicina, talvez para sempre, abandonando seu sonho de vida para dedicar-se ao filho.

Agora iria levá-lo para a Irlanda, para ir morar com uma prima distante, de quem sua família nunca ouvira falar, até dois meses atrás. Tudo isso, na tentativa de transformá-lo numa criança "normal".

Infelizmente Peggy era a única que acreditava que esta seria a direção mais correta a seguir.

— Ele até que parece animado, levando em conta todo esse caos — disse Casey.

Megan sabia que Casey tentava desviar a conversa e tinha razão. Peggy estava decidida, e nem todo o argumento do mundo iria mudar isso.

— Acho que vou tentar fazê-lo comer algo, depois levá-lo lá para cima, para ficar um pouco sossegado. Voltamos na hora do bolo.

Megan e Casey ficaram olhando a irmã, enquanto ela seguia, passando pelo bar.

— Ainda não acredito que ela esteja se mudando para a Irlanda — disse Megan.

— Termine de comer, Megan. A banda vai começar a tocar algumas músicas para casais e você será aguardada no salão.

Megan suspirou.

— Você não poderia dissuadi-los?

— Eles estão tocando de graça. Lembra-se?

— Então me passe a Guinness?

Lá em cima, Peggy colocou Kieran no tapete da sala de estar, sobre uma manta, com alguns brinquedos. O apartamento era simples, porém útil. Melhor que isso, o modesto aluguel vinha de sua parte dos lucros do salão. O Whiskey Island Saloon estava nas mãos da família Donaghue desde sua construção, há mais de um século. As três irmãs eram sócias com partes iguais, e embora atualmente Megan estivesse mantendo o fluxo de bebida e comida, tanto Peggy quanto Casey conseguiam manter seus lucros com a Guinness.

— Amanhã vamos andar de avião — disse ela ao filho. Ele não olhou para ela. Por meses a fio, antes da bateria de testes que apontou o problema de Kieran, ela achou que ele tivesse um problema auditivo. Jamais poderia esperar autismo, por isso não estava preparada.

O dia em que recebeu o diagnóstico ficara gravado para sempre em sua mente.

— Desordem de autismo — disse o especialista de forma absolutamente casual, como se ele estivesse sendo diagnosticado com uma gripe. — Acreditamos que seja de grau moderado, no entanto, esta não é uma doença fácil de ser tratada. Na verdade, esta é nossa principal indicação, srta. Donaghue. Geralmente os que sofrem desta doença têm dificuldade em compreender as emoções e sentimentos alheios. Têm dificuldade com a linguagem e a conversação, e é comum se fixarem em determinados objetos ou atividades. O prognóstico depende de diversos dados. A intervenção adiantada é um fator-chave, mas devo alertá-la que os custos podem ser elevadíssimos.

Peggy se sentou no chão, de pernas cruzadas, ao lado de Kieran.

— Vamos chegar lá no alto, perto das nuvens. E vou estar com você o tempo todo. Só a mamãe e o Kieran.

Ele pegou nos olhos de feltro do urso de pelúcia. Nunca segurava seus bichos de brinquedo. Sempre achava algo distante para se fixar, o que fazia durante longos períodos de tempo, parando apenas para se balançar, quando estava cansado.

— Depois vamos chegar à Irlanda — continuou ela. — E a mamãe irá montar uma sala de aulas para você na casa da prima Irene. Vamos ter brinquedos e jogos e você vai aprender muito, Kieran. Sei que vai. E quando voltarmos para Cleveland, você vai poder falar, olhar para...

Ele olhou para cima. A cortina da sala se moveu e chamou-lhe a atenção.

— Oi, oi.

— Você terá todas as chances que eu puder lhe dar — disse ela, ferozmente. — Nem que eu tenha que ir até Marte para isso.

Quatro dos meninos da turma do Tijolo encontraram uma bandeja intacta, com copos de Guinness, e seguiam rumo à despensa para fazer uma festa particular. Casey os viu antes de Niccolo, confiscando o tesouro ganho a duras penas.

Marco, Paula, sua esposa, e suas duas filhas, organizaram uma exibição de slides, feita numa das paredes do salão, mostrando fotografias de Niccolo ainda menino. De igual sucesso, foram as histórias contadas pelo tio Den, que entreteve um grupo de admiradores atentos, a ouvir as passagens da infância das três irmãs.

— Por favor, pelo amor de Deus, vamos brindar — disse Megan. — Não vou sobreviver a isso por muito mais tempo.

— Mantenha a cabeça erguida — disse Peggy. — Você só irá se casar uma vez.

— Você não pode trazer Kieran e a tia Dee aqui para baixo? Todos têm que estar aqui quando cortarmos o bolo.

Peggy havia levado Kieran lá para cima uma hora antes. Agora a tia Deirdre estava sentada com ele, se despedindo.

— Acha que já está na hora? — Niccolo chegou junto a elas.

— Sabe de uma coisa? Se tivéssemos colocado todos esses Andreanis e Donaghues numa mesma sala antes, acho que ficaríamos com medo de misturar nossos genes. Você consegue acreditar que nossos filhos serão uma combinação desses dois grupos? — Ele sacudiu a cabeça.

Megan ainda nem podia imaginar uma criança deles. Sabia que Niccolo queria ter filhos logo e havia concordado em tê-los, mas não com essa rapidez. O casamento por si só já iria consumir um bom tempo entre tentativas e erros.

— Você não quer começar a juntar todo mundo? — apelou ela. — Não sei se vou agüentar isso por muito mais tempo.

— Mas você está se esbaldando. — Ele se inclinou para baixo e a beijou, e as pessoas começaram a bater palmas.

— Eu gostaria de partir um pouco antes de escurecer — disse ela, sorrindo para ele.

— Não olhe agora, mas está escuro desde de tarde.

— Você entendeu o que eu quis dizer.

— Está bem, vou juntar o pessoal. Mas não espere que isso acabe logo.

— Eles podem ficar festejando até o dia amanhecer, mas eu e você vamos sair assim que o bolo for servido.

— Promessas, promessas. — Ele piscou para Peggy antes de sair e começou a conduzir as pessoas em direção ao bolo.

Megan observava, enquanto Niccolo fazia um progresso notável. Conforme ela havia sugerido, o bolo foi colocado no fundo do salão. Ela tinha tentado entrar na cozinha para ver se tudo estava pronto para cortar e servi-lo, mas foi impedida. Houve uma conspiração ao longo do dia para mantê-la o mais longe possível da cozinha.

Como se ela fosse uma penetra em sua própria recepção.


Casey juntou-se a eles.

— Já está na hora? Você poder trazer Kieran aqui para baixo? — ela perguntou a Peggy.

— Sim, como ele passou um tempo tranqüilo. Só não posso garantir que ele não fique de mau humor.

— Todos os bebês de dois anos ficam de mau humor — disse Megan. — Você também ficava.

— Você tem que se acostumar com a idéia de que ele não é qualquer bebê de dois anos, Megan. — disse Peggy. — Esta é a única forma de ajudá-lo.

Megan sabia que Peggy estava certa. No começo, Peggy também teve dificuldades para aceitar a deficiência do filho, mas finalmente conseguiu ajustar-se. Megan ainda estava fortemente enraizada na negação.

— Eu o amo e amo você. Não quero perder nenhum dos dois.

Peggy beijou-lhe o rosto.

— Isso não vai acontecer. Agora me deixe ir buscá-lo.

— E eu vou ajudar o Nick — disse Casey. — Ele já conseguiu fazer todo mundo se mexer. O que você acha ter sido o segredo para fazê-los ir tão rápido para o salão? 0 bolo ou o champanhe?

Megan estava a apenas alguns metros de distância de Niccolo, quando as paredes começaram a sacudir. Por um instante, ela pensou que a banda tivesse aumentado o volume dos amplificadores para chamar a atenção de todos. Mas o som parecia mais vir de um trem de carga do que alto-falantes.

O salão sacudiu novamente. Uma mulher gritou e Megan percebeu o medo no rosto das pessoas ao redor. Em seguida, ao ver Niccolo vindo em sua direção, esforçando-se para passar entre as pessoas, tudo sacudiu de novo, num som ensurdecedor, fazendo com que a fachada do salão desabasse para o lado de dentro.

O prédio sacudiu mais uma vez e mais gritos foram ouvidos. Os copos e as garrafas do bar foram ao chão, e um imenso buraco, do tamanho de um carro, se abriu no teto, à esquerda de onde ela estava. Pedaços e estilhaços de todos os tipos caíam do alto, seguidos de água. De repente, tanto os ruídos quanto os tremores cessaram.

— Megan! — Niccolo chegou até ela e abraçou-a. — Você está bem?

— O que... — Ela percebeu que não conseguia respirar. Esforçava-se, mas seus pulmões não se enchiam de ar. As pernas pareciam feitas de elástico e ela agarrou-se a ele, tentando respirar, desesperada. As pessoas passavam empurrando, procurando ir para longe do foco de destruição.

— Fique calma. Está tudo bem. — Ele dizia, enquanto passava a mão em seus cabelos, mas sua mão estava trêmula.

Ela finalmente conseguiu voltar a respirar.

— O que...

— Um furacão — disse ele. — Arrancou parte do telhado. Como somos imbecis. Ninguém ouviu o rádio, para saber disso. Eu...

— Nick! — Casey chegou até eles. — Onde está Jon? — Niccolo soltou Megan.

— Ele estava bem lá no fundo. Preciso ir saber melhor o que aconteceu. Tenho que encontrar minha família.

Megan saiu atrás dele. Ela sabia que seu verdadeiro objetivo era verificar se alguém havia ficado preso, ou ferido, durante o desabamento.

O cenário que via ao seu redor quase lhe tirou novamente o ar dos pulmões. Parte do telhado do prédio havia caído, bloqueando totalmente a entrada. Os destroços empilhavam-se até a altura da cintura.

— Oh, meu Deus! — Casey a agarrou.

— Fique longe, Megan. Pelo amor de Deus, não chegue mais perto...

Jon as encontrou.

— Vão para o fundo, com os outros. Por favor, é mais seguro.

— E se alguém... — Megan não pôde completar aquele pensamento.

— Quase todos estavam no fundo, ao redor do bolo. Se tivermos sorte... Apenas nos ajude a levar todos para lá agora. Vamos fazer uma contagem. Você pode começar?

Megan sabia que ele estava certo. Uma poeira pesada pairava no ambiente, e sua visão estava embaçada. Mas nada do que via dava indícios de que alguém estaria no local onde a parede havia desabado.

Casey já estava guiando as pessoas em direção ao fundo. Megan viu um dos garotos da Tijolo com as mãos na cabeça, mas ele caminhava sem ferimentos. Uma das filhas de Marco tinha um arranhão no rosto, mas não parecia um sangramento sério. A mãe de Niccolo ajudava seu avô a andar, com o braço ao redor dele. Megan virou-se e viu Peggy se esforçando para abrir a porta do apartamento. Lembrou-se que Kieran estava lá em cima com a tia.

Enquanto olhava, Peggy escancarou a porta, desprezando o pavor dos convidados e desaparecendo em direção à escada. A parte traseira do prédio parecia segura, mas e se o segundo andar não estivesse? E se a parte de cima, que também era ligada à parte de trás do salão, tivesse sido arrancada? O apartamento ficava nos fundos, mas...

Ela deu um passo à frente, meio cambaleante, e ajudou um tio que parecia não saber para onde ir. Quando viu que ele estava seguindo na direção certa, foi até a porta e começou a subir a escada.

— Peggy? — Ela chamava pelo nome da irmã, enquanto subia os degraus. A escada parecia firme. Tudo em volta parecia estar normal. — Peggy! Tia Dee!

A porta no alto da escada estava aberta. Ela chegou lá em cima sem problemas e encontrou Peggy e a tia juntas, abraçadas, Kieran chorava entre as duas.

— Graças a Deus! — ela juntou-se a eles.

— O quarto está destruído — disse Deirdre, calmamente. — A janela explodiu. Há vidro por toda parte, mas Kieran e eu estávamos aqui.

— Vamos lá para baixo. Podemos sair pela cozinha. A frente está um pesadelo.

— Não, não podemos sair por lá — disse Peggy. — A porta de trás está bloqueada.

Megan sabia que não pensava com clareza, mas agora estava mesmo confusa.

— Como sabe? Você veio direto para cá.

— Uma árvore caiu hoje de manhã, em frente à porta dos fundos, Megan. Bem em cima do carro de Nick. Nós havíamos trazido o Civic para cá, para enfeitá-lo, e aquela árvore antiga desabou em cima dele. Ninguém queria lhe contar até a hora em que não tivesse mais jeito, não queríamos estragar...

— Vocês não estragaram nada.

— Sinto muito — disse Peggy.

A perda de um carro tornou-se insignificante diante de um momento como aquele.

— O carro de Nick não será o único em Cleveland a ser danificado pela tempestade. Kieran está bem?

— Só amedrontado. Estamos todos com medo. — Peggy beijou a cabeça de Kieran.

— Tia Dee?

Deirdre ergueu-se, endireitando a coluna.

— Vamos lá para baixo. Vocês viram seu tio? — Megan tentou se lembrar se havia visto o tio Frank.

— Desculpe, não vi. Mas não vi ninguém com ferimentos graves. — Ela pensou no telhado, que agora estava no chão, em frente ao salão, e imaginou o que poderia estar embaixo dele. — Nick e Jon estavam verificando quando eu subi.

— Acho melhor descermos agora mesmo. — Deirdre já não parecia tão calma e Megan sabia que só então começara a assimilar a realidade.

Elas foram em direção à escada. Megan seguiu na frente, com Peggy e Kieran atrás dela, e a tia por último.

Niccolo estava esperando lá embaixo e pareceu aliviado ao vê-las.

— Parece que ninguém ficou preso nos destroços — disse ele, em voz baixa. — Não há sinais de que alguém estivesse ali perto. Algumas pessoas foram atingidas por fragmentos que voaram. Há um pouco de sangue e alguns hematomas, mais nada grave. Estamos fazendo uma contagem das pessoas agora.

— Nick, não há saída. — Megan deu um passo para lado, para deixar a irmã e a tia passarem. — Há uma árvore impedindo a saída pela porta da cozinha.

— Jon me disse.

— Talvez seja melhor ficarmos aqui dentro até que os bombeiros cheguem. Lá fora deve estar tão ruim quanto aqui dentro. A fiação deve ter sido derrubada, porque árvores também caíram. Se ninguém está ferido com gravidade aqui...

— Megan, algumas pessoas dizem estar sentindo cheire de gás.

Ela não podia respirar de novo. Estava com raiva de si mesma, por deixar-se levar pelo medo, mas a raiva impedia o funcionamento de seus pulmões.

— Fique calma — disse ele, percebendo seu dilema. — Relaxe, não pense em sua respiração...

Ela obedecia da melhor maneira possível. Depois de um instante, a tontura foi embora e o ar voltou.

— O que há de errado conosco? — disse ela, ofegante. — Como é que ninguém ouviu nada no rádio? Por que ninguém nos avisou?

Ele ignorou a pergunta e começou a pensar nas alternativas.

— Não podemos sair pela frente. O telhado está em estado precário, se começarmos a remover os destroços, corremos o risco de provocar novos desabamentos, que podem ferir ou até matar alguém.

— Colocamos uma porta de ferro na cozinha há dois anos, depois do roubo do carro. De forma alguma conseguiremos derrubá-la, ainda por cima com um carro e uma árvore bloqueando a passagem.

— Há outras saídas? Alguma que eu não conheça? — Ela tentava pensar. Não havia janelas laterais.

— Janelas na cozinha?

— Pequenas demais para a maioria de nós, e também bloqueadas. A árvore causou um prejuízo e tanto.

Agora ela entendia por que ninguém a deixava chegar perto da cozinha.

— Talvez possamos passar uma criança por ali, se realmente precisarmos — continuou ele.

Megan já havia pensado em colocar uma janela em frente ao balcão da cozinha. Dizia que algum dia iria fazer isso, mesmo que a vista não fosse das melhores e ainda que grades fossem necessárias.

— Os bombeiros devem estar chegando — disse ela.

— Acho que não podemos contar com eles tão depressa. Tenho certeza de que não somos o único acidente.

— Há um buraco no telhado.

— Não ajuda.

— O gás não irá se acumular, não é? Mesmo tendo algum vazamento, ele irá se dissipar.

— Prefiro não saber agora.

— Os telefones estão...

— Mudos. E até agora ninguém conseguiu falar pelos celulares. A torre de transmissão provavelmente caiu, ou o sistema talvez esteja congestionado, pelo excesso de ligações.

Jon chegou.

— Rooney está desaparecido. — Megan fitou Niccolo dentro dos olhos.

— Você o viu recentemente? Consegue se lembrar? A última vez que o vi estava junto com a tia Dee, mas ela estava lá em cima com Kieran, quando o furacão chegou.

— Ele estava com seu tio Frank — disse Jon.

— O tio Frank está...

— Ele está bem, mas se perdeu de Rooney na hora do furacão.

— Eles estavam lá na frente?

— Não, na parte de trás. Ele deve estar seguro, mas desapareceu.

— Falta mais alguém? — perguntou Niccolo.

— Pelo que sabemos, não. A não ser que alguém estivesse aqui sozinho, sem outra pessoa que pudesse dar falta.

Megan esforçava-se desesperadamente para pensar.

— Onde será que Rooney poderia estar?

— Lá em cima? — perguntou Jon.

— Não, estávamos lá agora mesmo. Talvez esteja se escondendo na cozinha, ou atrás do bar.

— Já olhamos.

— Depósito?

— Também vimos.

— O porão — disse Megan. — Alguém verificou o porão?

A porta do porão ficava dentro da despensa da cozinha. O porão em si era bem pequeno, úmido e desagradável, usado somente para guardar enlatados e galões.

— Não consigo imaginar que ele tenha ido lá para baixo — disse Jon. — Será que seria capaz de lembrar que o porão fica lá? Nem eu lembrava.

— É difícil saber o que ele consegue lembrar. Mas o bar foi sua vida por muito tempo. Ele conhece cada cantinho deste lugar.

— Vou verificar. — Jon virou-se para ir, mas Megan o deteve.

— Não, deixe que eu vou.

— Vou com você — disse Niccolo.

— Não seria melhor você e Jon ficarem aqui e resolverem o que faremos?

— Só vai levar um minuto.

Eles passaram pela multidão de convidados, rumo à cozinha. Megan ficou impressionada com a calma de todos. Ouviu alguns gemidos e pessoas tossindo, mas, afora isso, a ordem estava mantida. Confortava as pessoas da forma que podia, explicando que em breve saberiam o que fazer. Quando chegou à cozinha, viu aquela árvore imensa despencada em frente à janela, galhos erguidos para o alto, como se implorassem aos céus. Greta e um outro funcionário da equipe da cozinha os aguardava.

— Não entendo como essa janela ainda pode estar inteira — disse Greta. — Podemos quebrar o vidro. Quer que façamos isso?

— Ainda não — disse Megan. Não achava que alguém pudesse sair por ali. Talvez uma criança pequena, mas ninguém sabia o que esperava uma criança do lado de fora. No momento era melhor manter todos juntos. — Greta, você ficou aqui o tempo todo? Desde que o furacão passou?

— Em seguida corri para o salão. Todos corremos. Para ver o que havia acontecido.

— Você não viu Rooney vir aqui, não é?

— Não estava prestando atenção — disse Greta, parecendo contrariada, como se achasse que poderia ter ficado atenta, mesmo com toda aquela confusão.

Megan lutava para não entrar em pânico.

— Sinto cheiro de gás — disse ela. — Bem de leve, mas é perceptível.

— O fogão está desligado — informou Greta. — E apaguei a chama piloto. Foi a primeira coisa que verifiquei quando voltei aqui.

— Vamos checar a caldeira quando formos até lá embaixo, mas é relativamente nova, não é? — perguntou Niccolo.

— Do último inverno — disse Megan.

— Então deve ter um sistema de desligamento automático de segurança. O problema não deve ser lá.

— Vamos procurar Rooney. Uma coisa de cada vez. — Ela colocou a mão sobre o ombro de Greta. — Agüente firme, está bem?

— Temos toalhas limpas e ainda temos água. Vamos ajudar as pessoas a se limparem da melhor forma que pudermos.

Megan seguiu em direção à despensa. O porão era usado tão raramente que caixas dos fornecedores bloqueavam parcialmente a entrada, para aproveitar cada pedacinho de espaço. O bar sempre precisou de uma área maior para armazenagem. Agora precisaria de muito mais.

— Talvez ele tenha entrado sem que precisasse tirar nada do lugar. Se ele pisou em cima disso e abriu a porta — disse ela, apontando para as caixas.

— A eletricidade foi cortada, portanto não há luz lá embaixo.

— Sempre tivemos duas lanternas numa prateleira, na escada. Nunca desço sem uma delas. Tenho receio de ficar no escuro, caso haja um corte de energia.

— Vamos dar uma olhada rápida.

— Eu pretendia aumentar o valor de nosso seguro imobiliário — disse ela, enquanto ele a ajudava a empurrar as caixas para fora do caminho da porta. — Mas nunca arranjava tempo para falar com nosso corretor.

— Não pense nisso agora.

— Quando você jurou "na alegria e na tristeza", aposto que não imaginou que nosso amigo lá em cima fosse colocá-lo à prova pela segunda opção em tão pouco tempo...

— Megan, isso é a alegria. É um milagre que ninguém tenha morrido. Se fôssemos atingidos em cheio, o prédio inteiro teria sido arrancado, com todos dentro. Deve ter sido apenas o rabo do furacão.

Aquela não foi uma explicação em vão para Megan. Milagre não era nem um pingo de exagero para o ocorrido, principalmente se conseguissem encontrar uma saída.

Ela se colocou na frente dele.

— E melhor me deixar ir primeiro. Conheço a área. Posso tatear e achar a lanterna.

— Vejo que há luz lá embaixo. — Ele deu um passo para o lado.

Megan sentiu uma forte gratidão. A luz significava que Rooney estava lá. Agora ela só temia encontrá-lo em estado de choque.

Ela foi passando a mão na parede até que achou a prateleira. Pegou uma lanterna e acendeu-a, iluminando o caminho.

— Rooney — ela chamava. — Não tenha medo. Nick e eu estamos indo buscá-lo.

Ela começou a descer, apontando o foco de luz para uma distância bem curta, logo à sua frente, para que Niccolo também pudesse enxergar. Na metade do caminho, viu seu pai logo abaixo, batendo na parede revestida, com a palma das mãos. Ele era um homem magro e percebeu que estava mais pálido que de costume. Ela ficou intrigada, imaginando se ele realmente achava que sua força limitada seria eficaz contra a fundação do salão.

— Ele deve ter entrado em pânico — disse ela, baixinho, para que somente Niccolo ouvisse. Ela começou a andar mais depressa, contando que seu novo marido ainda pudesse enxergar e acompanhá-la. Já lá embaixo, foi em direção de Rooney.

— Oi, Rooney, está tudo bem. Os bombeiros irão chegar em breve. E vão nos tirar daqui. Mas você precisa ir lá para cima comigo e o Nick. Não deve ficar sozinho aqui.

Rooney virou-se para olhar para ela. Ele não parecia em pânico. Pareceu, no entanto, aborrecido com a interrupção.

— Aqui, em algum lugar.

Ela sempre ficava intrigada com as tentativas de comunicação de seu pai. Houve uma época em que praticamente tudo que dizia era um mistério. Porém, ultimamente, todas as outras mudanças na vida dele o levaram a pensar e interagir de forma mais clara e precisa. Eles chegaram a ter conversas de verdade, quando ambos eram ouvidos e compreendidos. Ela temia que esta não seria uma delas.

— Sim, você está aqui — disse ela. — Mas seria melhor se você estivesse lá em cima.

Ele olhou para ela como se fosse uma garotinha novamente.

— Não há saída.

— Talvez não nesse minuto, mas os bombeiros...

— Não há saída lá. — Ele sacudiu a cabeça e apontou para cima. Parecia irritado, como se Megan simplesmente não entendesse.

— Não, mas haverá.

Ele deu a volta e começou a bater com as mãos na parede novamente. Megan imaginou que os presos provavelmente batiam nas celas do mesmo jeito.

— Rooney, isso não vai ajudar. Venha comigo lá para cima, está bem?

— Está procurando alguma coisa? — Niccolo perguntou a ele.

Megan preferia que Niccolo ficasse fora disso. Ela receava que Rooney fosse ficar ainda mais absorto.

— Nick, eu...

— Aqui, em algum lugar. — Rooney moveu-se um pouco para o lado e continuou batendo.

— Megan, ele não está aborrecido. Ele está procurando algo. — Niccolo disse a ela. — Você não sabe o que poderia ser?

— Eu não acho...

— Ouça... — Rooney parou de bater por um instante, depois recomeçou.

Ela estava ficando perturbada com aquilo. Não gostava de ficar afastada do restante do grupo. Talvez alguém já tivesse conseguido fazer contato com os bombeiros, queria saber seja estavam vindo. Queria encontrar um meio de sair dali e ir ver seus convidados.

— Rooney, eu não ouço nada! Por favor, vamos subir.

— Tem um som oco. — Niccolo segurou-lhe o braço. — Escute e faça o que ele está dizendo.

— E qual é o problema se é oco? Quem vai saber por que... — Mas preferiu desistir. Sentiu que nada que dissesse iria mudar a situação.

— O que há aí atrás, Rooney? — perguntou Niccolo. Rooney sorriu.

— Tempo de prisão.

Megan cruzou o olhar de Niccolo e sacudiu a cabeça. Niccolo estava querendo demais.

— Tempo de prisão? — Niccolo perguntou. — Prisão para quem?

Rooney agora estava puxando uma parte do revestimento, tentando arrancá-lo com as unhas, que obviamente não iriam dar conta da tarefa.

— Para quem? — Niccolo repetiu.

Rooney deu um passo para trás, visivelmente frustrado.

— Ferramentas. Um martelo deve servir.

— O que iremos achar se arrancarmos a forração? — perguntou Niccolo.

— Nick, por favor, não continue com isso — apelava Megan.

— Tempo de prisão — Rooney falou, depois fez uma pausa. — Para os contrabandistas.

Megan olhou para o pai, esquecendo da participação de Niccolo na conversa.

— Contrabandistas? — Rooney sorriu.

— Eu ainda não tinha nascido.

— Megan, você sabe do que ele está falando? — perguntou Niccolo.

Ela sentiu vergonha. Tinha absoluta certeza de que Rooney estava apenas falando como um maluco.

— Quando eu era pequena, os adultos falavam sobre túneis aqui embaixo. Não na nossa frente, é claro. Não era para a gente saber. Era um segredo de família. Mas eu havia esquecido, há muitos anos não penso mais nisso. Achei que os túneis fossem somente uma história, uma fábula da família Donaghue.

— Contrabandistas? — perguntou Niccolo.

— Não tenho certeza, mas se há túneis, eles devem ter sido construídos para contrabandear uísque ilegal durante a Lei Seca. Há outro bar no lado oeste que alega ter túneis, que vão até o outro lado do lago.

— A estrada Shoreway tornaria isso impossível daqui.

— Não teria sido naquela época, porque a Shoreway não existia na década de 20. Além disso, se há túneis embaixo do salão, talvez eles desemboquem na estrada de Whiskey Island, onde a bebida chegava pela água. Sei que de fato Cleveland teve seus vendedores ilegais de rum. O Canadá fica do outro lado do lago, e lá nunca houve Lei Seca.

— Então, se isso for verdade, os túneis ainda podem estar aqui?

— Pode ser, só não se sabe em que condições. Se realmente existem, estiveram lacrados durante toda a minha vida. Acho que tudo depende de como foram construídos, se eram fortes o suficiente.

— Aposto que devem ser muito resistentes. Se foram feitos por contrabandistas de bebida, eles não se arriscariam. A bebida era um negócio muito lucrativo.

— Pois é, para gente como Al Capone. Isto é Cleveland.

— Elliot Ness veio para cá limpar a cidade depois da extinção da Lei Seca — disse Niccolo. — Tinha que haver algum tipo de negócio que o atraiu.

É claro que eles andaram ouvindo as conversas de Jon. Seu assunto favorito era a história de Cleveland.

— Você está pensando em derrubar essa parede para ver o que tem aí? — disse ela.

— Rooney, o túnel vai até o lado de fora? — perguntou Niccolo, com a mão pousada sobre o ombro do velho. — Será que conseguimos sair por aqui?

Rooney sacudiu a cabeça de leve. Aquilo já era afirmação suficiente para Niccolo. A possibilidade existia.

— Você pode chamar meus garotos e nos arranjar algumas ferramentas? — perguntou a Megan. — E mais lanternas, se houver?

— Os garotos?

— Você conhece alguém com mais talento para destruição?

Ela deixou os dois lá embaixo e subiu as escadas correndo. Já no salão, bateu palmas para chamar a atenção de todos.

— Alguém conseguiu falar com os bombeiros? — Ninguém. As sirenes foram ouvidas à distância, e também alguns gritos, em algum lugar do quarteirão.

Ela explicou rapidamente o que Rooney tinha encontrado e o que planejavam fazer. Jon e Casey haviam organizado as pessoas em pequenos grupos. Um deles estava rasgando toalhas para fazer bandagens de primeiros socorros. Outro ficou posicionado o mais perto possível da frente, para gritar por ajuda. Mais um cuidava das pessoas com ferimentos. E o último procurava entreter e confortar as crianças.

Barry, o bartender, mantinha um pé-de-cabra atrás do balcão do bar, por segurança. Ele o entregou a Winston, que seguiu direto para a cozinha. Os outros garotos o seguiram, com o que arranjaram. Megan pegou uma caixa de ferramentas com mais lanternas na despensa, e Greta deu a Josh um martelo que usava para amaciar bifes. Peggy, que estava às voltas com Kieran, se ofereceu para ir até lá em cima e procurar mais lanternas no apartamento, porém a oferta foi vetada por ser muito perigosa.

Megan prometeu que voltaria com novidades no instante em que descobrisse se os túneis existiam de fato.

— Eles existem. — disse Deirdre, agarrando-a pelo braço, no caminho de volta à cozinha. — Seu pai não está inventando.

— Você sabe aonde vão dar? — Deirdre sacudiu a cabeça.

— Não era para sabermos. Acho que meu pai e os adultos daquela época tinham medo que pudéssemos entrar lá e nos ferir. Quer que eu vá lá embaixo ajudar?

— Fique aqui e ajude Peggy com Kieran, está bem? — Megan ouvia a lamúria do sobrinho. Toda aquela gente, o barulho e a confusão, já seriam demais até para uma criança normal.

Ela deixou Casey e Jon encarregados por todos, confiante de que iriam manter os ânimos sob controle. Ao chegar lá embaixo, ficou maravilhada quando viu os garotos trabalhando. O furacão não era nada comparado à destruição que a turma do Tijolo podia fazer.

Alguém pretendia manter aqueles túneis lacrados para sempre e cinco minutos de marteladas e batidas e o obstáculo seria vencido.

— Para trás — disse Niccolo em voz de comando e os garotos assim fizeram, sem argumentar. Ele chutou os últimos vestígios do revestimento e apontou a lanterna para o interior.

— O que está vendo?

— Vou até lá dentro para descobrir.

Ela não queria que ele fosse. Mesmo que os túneis tivessem sido seguros naquela época, permaneceram fechados por décadas. Mas que outra escolha teriam? O salão também não era seguro, com um pedaço do telhado no chão e gás vazando, sabia-se lá de onde.

— Também vou — disse ela. — Duas lanternas iluminam mais que uma.

— Por favor, não — disse Niccolo. — Pelo menos até que eu tenha verificado um pouco.

— Eu vou.

Ele sabia que não adiantaria discutir, principalmente na frente dos jovens, que pareciam atentos à possibilidade de uma discórdia conjugal, tão pouco tempo depois do casamento.

— Está bem, mas ande com cuidado.

— Mesmo? Achei que pudéssemos dançar uma giga irlandesa no caminho. — Ela piscou para Josh. Agora que a parte divertida havia terminado, os meninos pareciam um pouco apreensivos. — Voltamos já — prometeu ela. — Um de vocês vá até lá em cima e veja se alguém deu sorte em conseguir os bombeiros.

Ninguém se mexeu.

— Ou não — disse ela, que observou Niccolo atravessar o que seria uma soleira, rumo ao interior do túnel. Rooney, que havia ficado ali assistindo à demolição, entrou depois dele.

— Rooney — ela chamou. — Por favor, não faça isso. — Seu pedido foi ignorado. Ela entrou em seguida, passando o foco da lanterna por tudo ao redor. Niccolo e Rooney estavam pouca coisa à frente.

Desde a hora em que encontraram Rooney batendo na parede do porão até agora, passara-se um curto período de tempo, e ela não tivera tempo para pensar no que poderiam encontrar. Chegou a imaginar uma passagem suja e nebulosa, cheia de morcegos e teias de aranhas. Não esperava um túnel largo o suficiente para três pessoas caminharem lado a lado. Nem mesmo uma construção rebuscada, com vigas no teto, paredes de emboço e revestimento de gesso. Ela alcançou o marido e o pai.

— Olhe para isso. — Niccolo apontava a lanterna para a direita.

Ela seguia o feixe de luz e viu um depósito de armazenagem, semelhante ao que acabaram de deixar para trás. Estava cheio de caixas empilhadas e as prateleiras tinham vidros de conserva, alguns ainda cheios.

Ela assoviou.

— Eu não tinha idéia, Olhe para esse lugar.

— Vamos em frente.

— Aonde acha que vai dar?

— Daqui em diante começa a descer. Há degraus logo à frente. — Niccolo apontava a lanterna.

— Quando construíram a estrada Shoreway, devem ter fechado a entrada — disse Megan.

— Vamos dar num beco sem saída.

— Não — disse Rooney.

O respeito que tinha pela opinião de Rooney agora era bem diferente. Foi atrás deles, iluminando as paredes com a lanterna.

Os degraus eram íngremes, dez ao todo. Tão estreitos que precisavam andar em fila, e a altura do teto começou a diminuir, até que já caminhavam curvados. De repente pararam diante de uma espécie de plataforma de pedras. As pedras cobriam as paredes também. O coração dela ficou desolado. Então Rooney começou a empurrar uma pedra para o alto.

Ela viu a luz.

— Nick!

Mas Niccolo já estava ajudando o sogro a mover a pedra. A cada centímetro que a pedra se movia, mais luz entrava no túnel.

— Vá chamar os garotos — disse a ela. — Depois vá até lá em cima. Se os bombeiros não estiverem a caminho, traga todos aqui para baixo. Peça que tomem cuidado. Esta é a nossa saída, Megan. Seria uma tolice não usá-la.

 

                         Capítulo 5

O túnel desembocava ao lado da colina, acima da Shoreway. Niccolo achou que em outras épocas sua extensão deve ter sido maior, mas as obras da rodovia provavelmente vieram eliminar uma parte dela. Boa parte da entrada era de terra, cercada por pequenas árvores, que escondiam um buraco, do tamanho suficiente para que uma pessoa pudesse passar.

— Morei aqui — contou-lhe Rooney, assim que Megan desapareceu de volta no túnel. — Nos anos ruins.

A princípio Niccolo não entendeu, depois tudo começou a se encaixar, e ele percebeu o que velho estava dizendo. Rooney havia sumido da vida das filhas por mais de uma década. Em alguma ocasião ao longo daquele tempo, deve ter morado ali no túnel, próximo às pessoas que amava, mas sem ser visto. Foi provavelmente graças a Rooney que a entrada foi descoberta, depois fechada com as pedras. Deveriam agradecê-lo por essa rota de fuga.

— Eu o vi na noite do roubo do carro. Você se lembra? E você sumiu na colina. Achei que tivesse seguido em direção à estrada Shoreway. Você estava vivendo no túnel naquela época?

Ele não esperava obter resposta. A compreensão de Rooney em relação ao tempo era incerta. Ainda havia dias em que ele pensava que sua esposa estava viva, dias em que parecia surpreso por suas filhas já serem adultas. Dois anos antes, Niccolo o seguiu até um abrigo em Whiskey Island, mas agora sabia onde Rooney havia passado os dias mais frios daquele inverno. Ele achava que no auge de sua doença, Rooney possivelmente teria encontrado lugares para morar por toda a cidade, onde podia se esconder e se sentir seguro. Niccolo só torcia para que esses dias tivessem acabado.

Ele e Rooney trabalharam para tirar a pedra do caminho até que Josh, Winston e Tarek se juntaram a eles. Megan pediu que os outros garotos ajudassem a conduzir as pessoas para baixo e ao longo do túnel. Os meninos estavam em puro estado de adrenalina. Falariam deste dia pelo resto de suas vidas.

Com a ajuda de mais braços fortes, a pedra rolou do lugar com facilidade. Começaram a trabalhar na remoção de outra, para alargar o espaço até que Niccolo pudesse passar. Lá fora caía uma chuva fina e o céu continuava escuro. O vento havia quase parado e o ar estava fresco e puro. Não havia movimento de tráfego na Shoreway, que ficava a alguns metros morro abaixo. Ele fez sinal para que Winston viesse juntar-se a ele. Winston espremeu-se para fora do buraco e olhou em volta.

— Até que essa parte da cidade não está tão mal — comentou.

— Você consegue achar o caminho seguindo a lateral da colina até a rua? Veja se consegue achar um telefone que esteja funcionando, para avisar o que aconteceu no salão.

— Depois tenho que ligar para minha mãe. — Afinal, Winston não era um cara durão.

— Faça essa ligação primeiro, está bem? — disse Niccolo.

— Vou achar alguém. Pode deixar, sei o que fazer.

— Fique atento para fios soltos no chão. Trate-os como cobras venenosas. Tenha cuidado, muito cuidado.

— Volto para avisar.

— Não. Vá para casa. — Niccolo fez uma pausa. — Se você conseguir chegar até lá.

Winston concordou com a cabeça.

— Você acha que o furacão fez muito estrago? — Ali da colina, Niccolo não tinha como saber. Nada parecia fora do lugar, exceto o fato de não haver tráfego na Shoreway.

— Furacões são engraçados. Eles podem arrancar uma casa e deixar tudo intacto ao redor. Pode ter atingido a Lookout Avenue e mais lugar nenhum.

— Valeu, cara. Vou nessa. — Winston ergueu a mão e seguiu na travessia da colina.

— Boa sorte — disse Niccolo.

— Estou com o dedo no gatilho.

Niccolo virou-se e olhou para o topo da colina. Da parte de trás, a visão que tinha dava a impressão de que o salão nem parecia estar danificado. Ele estava num nível muito abaixo da rua para ver o que tinha acontecido por lá. Voltou para dentro do túnel no momento em que Josh e Tarek chegavam com o primeiro grupo de convidados.

— Estão todos em condições para descer o morro até a estrada? — A rampa não era tão íngreme, mas alguns convidados teriam que descer devagar. O caminho estaria escorregadio por causa da chuva e ninguém vai a um casamento calçando botas de alpinismo.

— Aparentemente eles a bloquearam, porque não há tráfego — continuou ele. — Vamos ficar juntos e seguir até a primeira saída. Acho isso melhor do que seguirmos a rua. Não sei como está a Lookout Street.

Todos pareciam concordar. Ele os ajudou a sair, enquanto os confortava e perguntava a cada um se estava ferido. Deu assistência aos convidados pelos próximos vinte minutos. Peggy saiu agarrada a Kieran. Ele contou os Andreanis até que o último deles saiu. A chuva tinha quase parado quando o último grupo chegou. Megan vinha no fim, com Casey e Jon. Ela não poupou as palavras.

— Nick, o cheiro de gás está mais forte.

— Todos já saíram?

Ela demorou a responder, deixando-o indeciso.

— Você não sabe? — disse ele.

— O Josh saiu? A tia Dee acha que o viu abrindo a porta do apartamento. Uma das lanternas pifou e antes ele disse que iria procurar outra.

Niccolo já havia visto o rapaz sair pelo menos duas vezes, mas não tinha certeza se ele teria voltado para ajudar outros convidados ou se seguira para Shoreway. Tentava lembrar-se, mas aquela tarde havia sido uma confusão de rostos e situações.

— Fui até o pé da escada e gritei seu nome antes de sair, só por via das dúvidas — disse Megan. — Acho que teria me ouvido, se estivesse no apartamento. Tenho certeza de que ouviria. Ele provavelmente já saiu e você não se lembra.

Provavelmente não era suficiente. Embora Josh fosse inteiramente capaz de encontrar a saída agora, talvez não tivesse consciência da urgência. Eles haviam demonstrado pouca importância ao cheiro de gás, para não assustar ninguém. O pânico é sempre uma ameaça ainda maior.

Niccolo decidiu concordar. Pelo menos aparentemente.

— Tenho certeza de que você está certa. Ajude o restante das pessoas até a Shoreway, está bem?

— Você não vai entrar de novo, vai?

Se Megan soubesse que ele iria voltar, insistiria para ir junto. Niccolo pediu perdão por mentir para ela no dia de seu casamento.

— Não, só vou dar uma olhada aqui em cima. Pedi ao Winston que encontrasse um telefone para chamar os bombeiros.

Megan hesitou.

— Por favor, vá em frente — disse ele, procurando tranqüilizá-la. — Posso me cuidar.

— Será que eu não deveria ir com você?

— Acho que deve ficar com nossos convidados. Jon, será que você e Casey podem ajudar Megan a levar todos em segurança?

Jon sabia que Niccolo estava mentindo. Niccolo via isso em seus olhos, mas concordou.

— Vamos cuidar disso.

— Assim que puder estarei com vocês.

— Está bem.

Niccolo ficou olhando enquanto eles se afastavam. Rooney já havia subido também, portanto não havia mais ninguém na boca do túnel. Ele esperou até que Megan não pudesse mais enxergá-lo e entrou novamente, subindo os degraus no caminho de volta.

— Josh?

Mais uma vez ele tentava lembrar se Josh tornara a entrar. Foi descendo pelo túnel com a lanterna acesa, iluminando chão à sua frente, ouvindo atentamente.

— Josh?

Estava quase na entrada do porão quando ouviu uma explosão. Numa fração de segundo o mundo escureceu.

Acordou algum tempo depois. O tempo havia parado para ele e, quando abriu os olhos, não sabia onde estava, ou quem era. Estava deitado de barriga para cima, olhando para uma parede revestida de gesso. O ambiente estava escuro, mas um feixe de luz se refletia no pé da parede. Ele não chegava a estar sentindo nenhuma dor muito intensa, mas caso se mexesse muito depressa, isso poderia mudar. Ficou deitado imóvel, procurando pôr os pensamentos em ordem.

Ouvira um barulho. Parecia lembrar-se de ter voado pelos ares, mas como poderia ser? A não ser que estivesse morto. Já ouvira muitas histórias de túneis após a morte, de pessoas que caminham em direção à luz. Mas se a vida após a morte fosse assim, estaria sendo supervalorizada, pois o chão onde ele estava era pegajoso. O ar que respirava estava cheio de fumaça. Com todos os seus anos de sacerdócio, nunca tivera uma visão muito animadora do inferno, segundo sua versão bíblica, e descartou essa possibilidade imediatamente.


— Nick?

Ele ouviu uma voz de mulher à distância. Ao ouvir seu nome, a memória começou a voltar, preenchendo o vazio. Ele havia voltado ao túnel para procurar Josh. Houve uma explosão... Ele tentou sentar-se, mas sua cabeça começou a latejar. Preferiu não se mexer por enquanto.

— Nick? — Dessa vez era uma voz de homem que o chamava.

— Aqui — disse em voz baixa. — Estou aqui. Estou bem, acho.

Ele ouviu passos, passos rápidos. Fortes o suficiente para fazer com que sua cabeça latejasse mais. Percebeu que a luz que refletia no pé da parede era uma lanterna. A sua lanterna, que ele havia deixado cair. Foi tateando até alcançá-la. Depois iluminou a parede, na esperança de guiar seus salvadores.

— Aqui — disse novamente.

Ele esperou. Sua visão estava embaralhada, mas quando fixava o olhar na parede conseguia focalizar. Acima dele havia uma imagem. Ele se esforçava para enxergar com mais clareza. Uma mulher olhava para ele abaixo, uma imagem bem familiar.

Os passos começaram a se aproximar, mas agora não prestava tanta atenção. Então viu uma luz junto à imagem. De cima para baixo, de um lado para o outro. Era verdadeira, certamente não era resultado de seu ferimento. Ele via algo que estava realmente ali.

A Virgem Maria olhava para ele e chorava.

— Nick, meu Deus! Você está bem?

Ele ouviu uma voz de homem. Jon. Ficou feliz de ligar o nome à voz. Depois ouviu uma mulher, e soube que o pior momento de seu dia ainda não tinha terminado.

— Megan — disse com esforço. Virou-se para aquela visão de branco, correndo em sua direção. Ela se jogou no chão ao seu lado.

— Você está bem? Não se mexa. O que aconteceu?

— Uma explosão. Vazamento de gás. Talvez no porão. Houve um fogo pelo... talvez o aquecedor de água. Acho que deveria ter lembrado de apagar a chama piloto. — Ele tossiu. Jon chegou perto deles.

— Você estava no porão, quando explodiu? — Niccolo procurou lembrar-se.

— Quase. Onde estou?

— A uns dez metros no interior do túnel.

Niccolo percebeu que havia sido arremessado pela explosão, vindo parar onde estava.

— Eu deveria estar...

— Morto — completou Jon. — Com certeza. Não sei por que não está. Não é nada menos que um milagre. Você consegue mexer os braços e as pernas?

Niccolo tentou. Sentia-se todo moído, mas não parecia ter nada quebrado.

— Josh?

— Você deveria ter esperado lá embaixo para saber.

— O tempo não foi amigo.

— Você disse que estava indo até a estrada — declarou Megan. — Você mentiu para mim.

— Não quis que você ficasse preocupada...

— Vocês resolvem isso depois. Agora acho que precisamos tirar você daqui. Os bombeiros estão a caminho. Eles vão cuidar do vazamento, onde quer que seja. Mas não podemos ficar aqui, pode ocorrer outra explosão.

— Fogo... — Sem dúvida, sempre vinha em seguida a explosões.

— Aqui embaixo não há muito material combustível, mas a sala das caldeiras terá perda total.

Niccolo fez um esforço enorme para sentar-se. Na segunda tentativa, com a ajuda de Jon e Megan, ele conseguiu. O mundo girava, mas quando abriu os olhos novamente, a Virgem Maria ainda olhava para ele.

— Me diga que não a estou imaginando — disse ele.

— Nick, você não está me imaginando — disse Megan.

— Você é real, eu sei. Ela. — Niccolo apontou a lanterna novamente para a parede.

Jon e Megan viraram-se para ver do que ele estava falando.

Niccolo olhou para o rosto de Megan. Observou os olhos de sua noiva se arregalarem. Ela olhou para a parede, depois para ele. Em seguida, Megan, que tinha um relacionamento bastante suspeito com a igreja, fez o sinal-da-cruz.

 

                             Capítulo 06

O Aeroporto Hopkins, em Cteveland, estava aberto e os vôos não foram interrompidos. Algo que parecia impróprio para Peggy, que no dia anterior sequer sabia se ela ou Cleveland sobreviveriam à devastação feita pelo furacão. Ela agora olhava para o teto do quarto de hóspedes de Niccolo e Megan, pensando em como se sentiria amanhã, quando acordasse em outra cama estranha. Desta vez, na Irlanda.

Uma batida de leve a fez ficar de pé. Ela abriu uma fresta na porta e viu o rosto sério da irmã.

— Phil te achou — disse Megan, baixinho, para não acordar Kieran. — Legal da parte dele.

Peggy não estava surpresa com seu tom de voz. Megan não gostava do pai de Kieran, e, na verdade, Casey também não.

— Pelo menos está ligando, Megan. Eu é que deveria ter ligado para ele ontem à noite. Mas havia tanta coisa acontecendo...

— Acho que até mesmo Phil tem dificuldades em ignorar o fato de que o salão foi atingido por um furacão. A cidade brinda em nossa homenagem. Saímos no noticiário.

— Você deveria estar na sua lua-de-mel. — Peggy olhou em volta, procurando algo que pudesse jogar em cima da camiseta, para ir atender a ligação de Phil.

— Iremos depois que eu cuidar de algumas coisas. Terei muito tempo para relaxar. Vou ficar sem trabalhar por uns meses. — Megan sacudiu a cabeça, como se ainda estivesse se acostumando com a idéia. — Deixe-me pegar um robe para você. Não há ninguém na cozinha. Você pode falar com Phil de lá.

Peggy olhou Kieran, que dormia profundamente, seu corpinho encolhido como uma bolinha. Ela queria mesmo que ele dormisse, pois o vôo até a Irlanda seria uma provação. Quando Megan voltou, enrolou o robe de flanela em volta dela e amarrou. Depois, balançou a cabeça para a irmã e desceu até a cozinha, onde pegou o telefone.

— Phil?

— Eu estava começando a achar que você não iria falar comigo.

Ela puxou uma cadeira e tentou ficar à vontade.

— As coisas estão caóticas por aqui, mas estamos bem. Sinto muito que você tenha ficado sabendo por outra pessoa.

— O Columbus Dispatch publicou a matéria na primeira página. Kieran está bem?

— Está. Todos tivemos muita sorte. Só alguns cortes e hematomas, e uma pessoa em estado de choque brando. Foi uma dessas coisas estranhas. A Lookout Avenue foi atingida pelo rabo do furacão. Havia árvores derrubadas por toda parte no lado oeste, mas poderia ter sido muito pior.

— O jornal diz que o salão sofreu o pior estrago da rua.

— Digamos que não estaremos servindo Guinness por um tempo. Por sorte não foi perda total. E como vai ter que fechar para reforma de qualquer modo, Megan jura que irá fazer grandes melhorias, já que vai continuar por lá.

— Megan disse que você ainda pretende viajar hoje.

— Verdade. — Peggy ainda pensou sobre o que iria dizer, mas foi em frente. — Eu gostaria que você tivesse vindo se despedir essa semana, Phil. Kieran vai ser um ano mais velho quando voltarmos para cá.

— A Tanya esteve doente. Tive receio de deixá-la sozinha. — Tanya era a esposa de Phil. Haviam se casado seis meses antes e Tanya não perdeu tempo para engravidar. Peggy se perguntava se Kieran não seria o motivo de sua pressa... e de seu enjôo matinal contínuo. Tanya era jovem e insegura. Peggy tentou lhe dar motivos para que não visse Kieran como uma ameaça ao seu casamento, mas a mensagem não foi captada.

— Vou mandar um cheque a mais para Irlanda — disse Phil, quando viu que Peggy não respondera. — Polpudo. Sei que irá precisar de ajuda para se estabelecer.

Em relação à assistência da criança, Phil era tão generoso quanto podia. Esse era um fator do qual Peggy não tinha o que reclamar dele. Demonstrava pouco interesse por Kieran, mas assumia as responsabilidades financeiras com seriedade. Ele era um arquiteto ainda novato, pagando as dívidas do empréstimo que fizera para pagar a faculdade. Mas dava o que podia.

— Fico grata — disse ela. — Vou comprar material escolar para ele, assim que chegar lá. Tudo que mandar será destinado a isso.

— Como é que ele está?

Respostas desaforadas vieram à ponta da língua, mas ela se conteve.

— Na mesma, Phil.

— Já está falando?

— Ele fala "oi". Mas estará falando tudo, quando eu o trouxer de volta para casa.

— Desculpe, eu não pude... você sabe.

Ela não sabia. Ele não podia visitá-lo? Não podia amar seu lindo filho? Não podia prometer que um dia amaria?

— Espero que você escreva para ele — disse ela. — Vou ler suas cartas para ele e colocar uma foto sua no quarto.

— Claro. Boa idéia. Faça isso.

— Tchau, Phil. Dê minhas recomendações a Tanya e diga a ela que espero que melhore logo. — Ela desligou, suspeitando de que Tanya fosse sentir-se melhor no momento em que ela e Kieran estivessem dentro do avião, decolando rumo ao aeroporto de Shannon.

— Vou fazer café — disse Megan, ao entrar meio cambaleante. — Uma xícara ou duas?

— Aceito um bule. — Peggy ficou observando a irmã andando pela cozinha, tentando raciocinar e, ao mesmo tempo, procurando os filtros de papel. Megan era uma pessoa bem matinal, mas ontem havia usado a energia de um ano, e isso era visível.

— Nick continua indo bem? — perguntou Peggy.

— O crânio dele deve ser feito de titânio. Eu o acordei a noite toda, como o médico da emergência me mandou fazer. Até ele dizer que se eu o acordasse mais uma vez, daria entrada no pedido de divórcio.

— Está meio no limite, não é?

— Ele diz que não tem nem dor de cabeça.

— É mesmo um milagre, você não acha?

— Peggy... — Megan encheu a cafeteira de água. Desligou a torneira e olhou para a irmã. — Preciso contar-lhe uma coisa, mas só se prometer não rir.

— Acha possível que eu mantenha a promessa?

— Talvez. — Megan notou que estava apertando a cafeteira contra o peito. Virou-se, despejou a água na máquina e colocou o filtro. — Sabe quando encontramos o Nick ontem?

Peggy sentiu a pele esfriando. Não havia dormido bem, mesmo com toda a exaustão. Cada vez que fechava os olhos sentia a casa balançar, como aconteceu com o salão na hora em que o furacão chegou. Quando não era isso, ouvia a explosão e sentia a mesma pontada de terror de quando percebeu que Niccolo poderia estar lá dentro.

— Tive certeza de que ele estava morto — disse Peggy.

— Eu sei. Ele deveria estar. Foi atirado a mais de dez metros de distância.

— Mas você ia me contar algo engraçado. Estou mesmo precisando.

Megan mediu a quantidade de café e ligou o botão.

— Só tem graça porque é comigo. Peggy, quando o encontramos, não pude acreditar que estivesse vivo. E ainda por cima falando, como se nada de mais tivesse acontecido. Dissemos que precisávamos levá-lo para fora e ele se sentou. Depois iluminou a parede com a lanterna, bem embaixo do lugar onde tinha caído.

Peggy estava esperando a piada.

— E

— Havia uma imagem ali.

Peggy ainda esperava. Não fazia a menor idéia do que a irmã queria dizer.

— Não sei como explicar — continuou Megan. — Tipo uma marca, acho. Talvez uma mancha, mas parecia a imagem da Virgem.

Por um instante Peggy não entendeu.

— Virgem?

— Como uma estátua de Nossa Senhora. Ela estava de frente para a parede e seus braços estavam estendidos, assim. — Megan demonstrou, como se estivesse dando boas vindas a convidados. — E aí é que está o negócio. O rosto não tinha feição, mas no lugar onde deveriam estar seus olhos... — Megan olhou para o outro lado. — Lágrimas. Ela parecia estar chorando. Nick acordou e foi isso que viu.

Peggy não sabia o que dizer.

— Bem... — ela franziu a testa. — Megan, você não acha que isso foi algum milagre, acha? Isso não se parece com você.

— Acho que foi coincidência, aliás, Nick também acha. Só que foi um pouco, sei lá, assombroso. — Ela sacudiu a cabeça. — Não, não foi. Não foi assombroso. Foi encantador. Consolador, como se... — Deu de ombros. — Por um segundo me senti como na época em que era bem pequenina, e íamos à igreja de Sta. Brígida, a família toda reunida. Às vezes, quando tudo estava em silêncio e as velas refletiam na parede, sabíamos que o órgão estava prestes a começar a tocar a música. Sabe, aquele momento? Foi o que senti.

Megan raramente falava sobre religião e quando falava, não era de forma positiva. Ela havia nascido católica e assim morreria. Como todos eles, adorava o padre Brady e compreendia a devoção de seu novo marido pela igreja, mas sem Niccolo em sua vida, ela teria uma participação meramente teórica. Era uma católica que respeitava os dias santos, assim como as irmãs.

— Você teve uma experiência espiritual — disse Peggy. — Acho isso maravilhoso. Você deve guardá-la com carinho.

Megan pareceu sair do clima. Abriu o armário e pegou luas canecas.

— É? Mas não estou à procura de outra. Não, se Nick tiver que passar por uma explosão dentro de um túnel. Este foi o verdadeiro milagre. Ele está vivo.

Peggy ergueu sua caneca no ar.

— Vou beber a isso.

— Irá beber a quê? — Niccolo entrou, com uma cara sonolenta, mas perfeitamente bem.

— À sua saúde. — Peggy segurou a caneca e Megan a serviu.

— Depois vou beber por uma viagem segura, para mim e Kieran. — Niccolo atravessou a cozinha e deu um abraço apertado em Megan, antes de pegar uma caneca para si.

Peggy sentia-se totalmente em casa. O ambiente era aconchegante. Armários simples na parede, pia de azulejos brancos, papel de parede novo, que Megan havia mandado trocar no mês passado. Os quadros a óleo de Niccolo tinham paisagens toscanas, que combinavam com os potes de mantimentos de Megan, estampados com pequenos animaizinhos. A irmã tinha forrado os assentos das cadeiras da cozinha com retalhos de colchas antigas. Niccolo havia esculpido a mesa com a madeira vinda de uma nogueira, derrubada quando o vizinho ampliou a casa.

— Tem certeza de quer ir hoje? — Megan perguntou-lhe. — Quero dizer, a companhia aérea permite que você mude o bilhete, não é?

— Você precisa de mim aqui? — disse Peggy. — Seja honesta.

Megan pareceu arrasada, mas por fim, sacudiu a cabeça.

— Não há nada que você possa fazer. Amanhã vamos receber os fiscais, o pessoal do seguro, e, mais tarde, equipe que vai fazer a obra. Vai ser uma loucura, mas pelo menos vou estar ocupada e assim não fico pensando no aconteceu.

— Outro golpe de sorte foi tia Dee já ter levado nossas malas — disse Peggy. — Além disso, não vai ser necessária pressa para arrumar o que ficou no apartamento...

— Não iremos alugá-lo tão cedo, isso é certo.

— Seria difícil justificar um atraso para Irene. Ela providenciou para que alguém vá nos buscar no aeroporto de Shannon.

— Gostaria de já conhecer esta mulher. Ou que alguém da família já a conhecesse.

— Ela é da família — disse Peggy. Ela já esperava essa última tentativa por parte de Megan para tentar dissuadi-la e se conformou em ouvir.

— Mas o que sabemos a seu respeito? O avô dela era irmão de nosso bisavô. Este não é um laço significativo. Até nos encontrar na internet, nem sabíamos que havia parentes desse lado da família. Achamos que éramos os últimos remanescentes.

— Bom, em breve seremos. — Peggy sabia muito pouco sobre Irene Tierney, mas tinha conhecimento que a velha senhora não estava bem. Ela estava com 81 anos, nunca havia sido casado e não tinha família na pequena vila de Shanmullin, nem em parte alguma da Irlanda. Morava só e caminhava para o fim, por pouco sem saber da existência delas.

— E não consigo entender o que ela queria conosco, para começar — disse Megan. — Informações a respeito de seu pai, de quem nunca sequer ouvimos falar? Não sei o podemos dizer a ela.

Peggy achou que a história de Irene era bastante intrigante. Ao primeiro contato, Irene escrevera que seus pais a haviam trazido para Cleveland ainda criança. Não encontraram nenhum parente, perderam contato com a família na Irlanda, mas tinham esperança de encontrar parentes em Cleveland. Acabaram não achando ninguém e, após alguns anos da morte do pai de Irene, a mãe levou a filha pequena de volta à Irlanda, para ganhar a vida trabalhando nas terras da família Tierney. Porém, quatro meses atrás, quando Irene navegava pela internet, deparou-se com o nome de Terence Tiemey, mencionado num artigo sobre o Whiskey Island Saloon, e só então se deu conta de que a família Tierney tinha de fato vivido em Ohio.

— Ela quer descobrir como seu pai morreu aqui — disse Peggy. — Isso é natural. Você deveria ser capaz de compreender isso melhor do que todo mundo. Quando Rooney ficou desaparecido todos aqueles anos, queríamos saber o que havia acontecido com ele.

— Só não entendo por que sua própria mãe não pôde dizer isso a ela. Ou de que forma ela imagina que possamos descobrir algo.

Peggy também não sabia. Ela havia feito algumas pesquisas para Irene junto à prefeitura, mas nada encontrou. Esperava que as irmãs fossem dar seguimento à busca enquanto estivesse na Irlanda.

— Apenas me parece coisa demais para você — disse Megan. — Além de Kieran, cuidar de uma senhora idosa, que você nem conhece...

Peggy não repetiu o que já havia dito a Megan tantas vezes, mas deixou no ar. Ela estava determinada a ajudar no chalé de campo que um dia foi o lar de Terence Tierney, cuidar do filho, e isso representava muitas horas de trabalho diário. Irene precisava de uma companhia, mas não de cuidado constante. Ir para a Irlanda era a única forma que Peggy teria, de não ter que trabalhar em período integral. Irene estaria provendo casa e comida de graça e, com o cheque mensal de Phil, Peggy poderia pagar as despesas, se vivesse modestamente. E que outra forma de viver poderia existir na zona rural da Irlanda? A situação era perfeita, uma dádiva surpreendente e maravilhosa.

— Ela está empolgada com a ida de Kieran. — Pegg ficou em pé. — Nunca teve uma criança por perto. Ela precisa de ajuda, precisa de uma família. É uma oportunidade que não posso desprezar. Já conversei com ela o bastante para saber que vamos nos dar bem. Confie um pouquinho em mim, está bem?

Megan pousou a caneca de café sobre o balcão e abraçou Peggy.

— Eu te amo. Você sabe que é tudo por isso, não sabe? — Peggy retribuiu o abraço. Viu Niccolo observando-as.

Sentia-se feliz por sua irmã mais velha estar em tão boas mãos. Megan não percebia o quanto necessitava de alguém para se apoiar de vez em quando.

— Você vai tomar conta dela? — perguntou a ele.

— Se ela deixar.

Peggy apertou Megan bem forte, depois se afastou.

— Você com certeza vai deixar — disse ela, aconselhando a irmã. — E pare de se preocupar comigo. Vou ficai muito bem. Kieran e eu ficaremos muito bem.

Eles não estavam bem, e Peggy tampouco esperava que ficassem. Kieran não aceitava bem as mudanças. Ele não aceitava bem os estranhos, o barulho, ser arrastado de um lado para o outro, ser abraçado por familiares chorosos, ou ver sua mãe soluçando ao se despedir.

Aconteceu que, como Peggy temia, ele também não aceitava bem andar de avião. Até a hora em que sua primeira conexão pousou em Boston, uma centena de olhares estavam fixos nela, com ar reprovador. Que tipo de mãe era aquela que nem era sequer capaz de consolar seu próprio filho?

Por que aquela linda criança não se aquietava quando ela pegava nos braços? Por que lutava para se afastar dela?

Ela entendia a censura que lia nos rostos dos outros passageiros. Podia compreender o misto de preocupação pelo menino angelical e a irritação que o demônio dentro dele despertava, ao arruinar o vôo de todos. Já estava preparada, mas, obviamente, nunca se está totalmente preparado. Ninguém estaria.

Tiveram uma longa espera em Boston, que foi mais um agravante na mente infantil de Kieran. Ela finalmente conseguiu fazê-lo dormir no carrinho, e andava de um lado ao outro do aeroporto, repetidamente, até a exaustão, mas qualquer coisa era melhor do que ouvir seu filho gritando. Quando enfim chegou a hora de embarcar e passar pela segurança, ele se viu em mais um ambiente desconhecido e os gritos recomeçaram.

Ele estava inconsolável, e foi desta forma que o carregou para o avião. Ouviu o murmúrio das comissárias de bordo e suas sugestões bem-intencionadas, sabendo que de nada adiantariam. Deu-lhe o descongestionante que o pediatra havia prescrito para amenizar a pressão nos ouvidos e ajudá-lo a relaxar, mas Kieran parecia imune. O vôo estava lotado, sem espaço sequer para pousar o cotovelo.

Da melhor forma que pôde, explicou o problema de Kieran à comissária mais gentil e, miraculosamente, a jovem conseguiu encontrar passageiros que se dispuseram a trocar de lugar, dando mais espaço a eles. Mudaram-se para a parte traseira, onde ficaram com uma fileira de três poltronas, e os gritos de Kieran não eram tão audíveis. A poltrona vazia proporcionou um pouco mais de conforto. Duas horas após a decolagem, ele parou de soluçar e pegou seu cobertor favorito. Ele puxava os fios, um a um, mas como estava quieto, Peggy não se importava.

Ela lhe deu comida, conversou com ele, cantou baixinho, algo que não costumava fazer em público, por ser tão desafinada. Assim que ele adormeceu, ela dormiu também. Quando o avião pousou no Aeroporto de Shannon, ela teve a sensação de que havia viajado ao fim do mundo. As faces de Kieran estavam marcadas e seus olhinhos muito vermelhos, de exaustão e pânico. Um vôo transoceânico era difícil para qualquer criança. E para seu filhinho, que via o mundo como um lugar assustador e enxergava as atitudes dos que o amavam como ameaças, incapazes de ser processadas por seu cérebro? O que seria então?

Eles aguardaram pelo desembarque dos outros passageiros, procedimento que pareceu mais rápido do que de costume. Angustiada, ela se perguntava se o motivo da pressa seria Kieran e o desespero dos que estavam a bordo, para se afastarem dele. Talvez entendesse bem até demais, já que em sua exaustão, uma parte dela sentia o mesmo. Quando chegou a hora de sair, ela juntou as coisas e seguiu em direção à frente.

O Aeroporto de Shannon era bem distribuído e razoavelmente silencioso. Depois que passaram pela alfândega, ela olhou em volta à procura de Finn O'Malley, o médico de Irene, que havia prometido levá-los até o vilarejo de Shan-mullin, no condado de Mayo.

Fazer um médico se afastar de sua agenda por um dia inteiro já era estranho, porém, mais estranho ainda, foi o aviso de Irene.

"— Você não vai conseguir arrancar muita coisa de Finn — disse ela, na última conversa que tiveram ao telefone. — Ele é um homem calado, profundo. Mas não o deixe assustá-la, Peggy. Um homem fácil de se conhecer é aquele que tem dentro de si o pouco que já é o bastante.”

Agora ela ficaria muito satisfeita com alguém fácil. Não podia nem imaginar ter que manter uma conversa desagradável com ninguém naquele momento, muito menos com um homem complicado. Perguntava-se se o dr. O'Malley já seria médico de Irene há muitos anos, ou se estaria semi-aposentado para fazer esta viagem sem se preocupar com seus pacientes. Irene dera poucos detalhes. Cabelos escuros, paletó de tweed, pontual.

Ela olhou em volta, esperando encontrar alguém que casasse com a descrição. Kieran escolheu aquele momento para vir abaixo. O aeroporto era mais um ambiente novo. Ele estava exausto, confuso e inconsolável. Agitava-se em seu colo para descer e quando Peggy o colocou em pé, ele se atirou no chão, contorcendo-se, dando chutes e batendo com os punhos.

Kieran em crise era algo assustador de se ver. O ataque de qualquer criança de dois anos afetava as pessoas ao redor, mas a fúria de Kieran era tão incontrolável, horrivelmente violenta, que Peggy já sabia que os espectadores raramente se afastavam. Ficavam por perto, andando de um lado para outro, observando e esperando que algo fosse feito.

Infelizmente, Peggy também sabia que não havia o que fazer, a não ser manter a calma e o controle. Ela ficava junto dele, para assegurar que não se ferisse. Nada, além disso.

Pegá-lo no colo tornava as coisas ainda piores. Ele não podia ouvi-la ou ter qualquer contato quando ficava assim. Quaisquer que fossem os laços que porventura existissem entre Kieran, ela e o mundo, eles eram varridos por aquela tempestade emocional.

— Você vai simplesmente deixá-lo esmagar o próprio cérebro?

Peggy olhou rapidamente para o estranho que se aproximara e olhou de volta para o filho. O homem era mais velho que ela, porém ainda jovem. Os cabelos eram negros como carvão e com apenas um olhar, ela pôde perceber as feições austeras e o ar de censura.

— Desculpe se ele o está incomodando. Isto vai acabar. — Ela não acrescentou "logo". Seria esperar demais.

O estranho não se afastou. Ela não podia condená-lo.

Pessoas bem-intencionadas sempre davam conselhos, como se ao fazer isso pudessem se eximir da culpa, caso a criança se machucasse.

— Este é Kieran Donaghue, não é? E você é Peggy Dounaghue?

Ela o olhou novamente.

— Dr. O'Malley?

— Finn. Apenas Finn. E você trouxe essa criança que está aos berros para viver com Irene?

As lágrimas brotaram nos olhos de Peggy. Ela passou pelo mais alto grau de ansiedade nas últimas 48 horas e, apesar da confiança aparente, ainda tinha dúvidas se estaria fazendo o melhor para seu filho. E agora esse homem, com seus olhos negros frígidos, sua postura ereta e expressão reprovadora, tocou-lhe profundamente, despertando todos seus temores.

— Ele ficou num avião por horas e horas. Está exausto, frustrado, perturbado. Ele não é sempre assim.

— Só o bastante, imagino.

Ela se endireitou, sem saber de onde tirou energia pi isso.

— Já expliquei os problemas de Kieran para Irene. Ela sabe de tudo. Mesmo assim quis nos receber.

— Ela é uma senhora ingênua, solitária, embora nunca admita, e está morrendo. Não parece ser alguém apto a tom decisões, não acha?

Kieran continuava agitado e as pessoas começaram a aglomerar, mas a intensidade de sua crise estava diminuindo, Kieran também estava exausto da viagem e não teria fôlego para manter um acesso daquelas proporções.

Peggy olhou para Finn. Ele era alto, quase dois metro tinha ombros largos e quadris estreitos. Ela esperava paletó de tweed novo e encontrou um xadrez velho, com calças jeans surradas e uma camiseta azul-marinho idem.

— Ela terá prazer em me receber — disse ela —, tanto quanto a Kieran. Não sou enfermeira, mas já fiz treinamento médico e gosto dela. Disso eu já sei. E sei que ela é solitária. Agora não será mais.

— Às vezes a solidão é melhor do que a alternativa.

— E às vezes é melhor ficar fora de questões que não lhe dizem respeito, do que enfiar o nariz onde não foi chamado.

Seus olhos faiscaram.

— Posso assegurar-lhe que este não é um problema meu. — O ódio passou.

— Sei que ela é muito sua amiga. Ela mesma me disse. E você está preocupado. Mas não precisa ficar. Se não der certo, vou embora. Pode acreditar. Apenas acho que vale pena tentar. Será que tem tanta certeza que não vale?

Ele deu uma olhada para Kieran, que ainda estava chutando, temperamental.

— Irene disse que ele é autista.

Peggy odiava esta palavra. Reduzia seu filho a um rótulo, uma condição, uma disfunção. Ele era o Kieran, seu único filho, também filho de Phil, sobrinho de Megan e Casey. Era irlandês pelo lado dela e eslovaco pelo lado de Phil. Seu pai era um arquiteto jovem e talentoso e, algum dia, sua mãe seria médica. Ele era inteligente, embora ela soubesse que revelar isso seria difícil. Era um lindo garotinho e sem dúvida seria um belo homem.

Ele era Kieran.

— Ele é quem é — disse ela. — E quando este ano terminar, poderemos conhecê-lo melhor, e todo seu potencial.

Ele não parecia convencido.

— Estas são suas malas?

— Sim, mas preciso esperar que ele se acalme. Esta é a única forma como posso agir. Não posso interferir.

— Vou levá-las para o carro. Posso fazer isso sozinho. Espero por você lá fora. — Sem mais uma palavra, ele juntou as duas malas e se afastou, deixando-a com o carrinho.

A viagem até Shanmullin levaria horas. Peggy esperava que todos sobrevivessem.

Finn O'Malley estava arrependido por ter feito a viagem até o aeroporto. Ele havia insistentemente tentado convencer Irene a desistir deste plano insano, de trazer uma estranha dos Estados Unidos para tomar conta dela, mas Irene era tão teimosa quanto qualquer mulher irlandesa. Na juventude, também tinha cabelos ruivos, um pouco mais claros que os de Peggy Donaghue, porém lisos e cheios como os da jovem. Ele não era dado a estereótipos, mas o mito de ruivas teimosas tinha um certo encanto. Durante sua longa vivência, Irene recusara-se terminantemente a se casar, recusara-se a se mudar para a cidade ao envelhecer, recusara-se a contratar uma acompanhante, recusara-se até mesmo a ir ao hospital, quando a saúde fraca exigia.

E também se recusara a aceitar o fato de que Finn já não exercia a profissão. Ela se recusara terminantemente a ser tratada por outro médico, até que Finn viu-se obrigado a tratá-la, ou iria vê-la morrer desamparada.

Teimosa.

E agora esta sua prima mais jovem parecia provar que a natureza contraditória de Irene sobreviveria, nos laços de sangue da família distante.

— Você tem certeza que é parente dela? — perguntou ele enquanto finalmente se aproximavam da aldeia.

Sentada ao seu lado, Peggy abriu os olhos e virou a cabeça para olhá-lo. Seus olhos estavam fora de foco e pesados pela falta de sono, contudo, ele havia ficado surpreso em ver uma mulher tão bela esperando no aeroporto.

— Como disse?

Ele não havia falado com ela durante toda a viagem, até aquele momento. Graças a Deus a criança se aquietara desde que saíram do estacionamento.

Bater a cabeça no chão leva a isto, supôs Finn. O garoto havia se esgotado e a mãe dormiu com a mesma rapidez, por quase três horas.

— Perguntei se tem certeza que Irene é realmente sua prima. Parece-me um tanto vago.

— Algo me diz que qualquer coisa que não chegue a ser um teste de DNA irá deixá-lo em dúvida. — Ela disse isto com um leve sorriso, para suavizar as palavras. Bocejou, depois se espreguiçou, fazendo com que o cinto de segurança apertasse entre os seios durante o movimento. Infelizmente, ele não era cego.

— Protegê-la parece ser minha obrigação, sendo ou não minha escolha — disse ele, olhando para a estrada em frente.

— E por que isso? Qual é a sua relação com ela, além de ser seu médico?

— Era a melhor amiga de minha avó.

— E você mantém a tradição. Gosto disso.

— Ela não me dá outra opção.

— Posso imaginar. A partir do momento em que começamos a falar sobre esta nova possibilidade, ela também não me deu outra opção. É um pouco tirana, não é?

Ele não poderia interpretar mal a forma como ela dissera aquilo. Com admiração e carinho. Além disso, era tudo verdade.

— Irene lhe explicou nosso vínculo de parentesco? — perguntou ela.

— Ela tem sido reservada.

— Então aqui vai uma aula de história: No século XIX havia quatro irmãos Tierney, que moravam na casa onde Irene vive hoje. Dois deles morreram. Terence, o terceiro, emigrou para Cleveland, para onde seu outro irmão havia partido, vindo a falecer antes dele. Terence é meu ancestral. Lorcan, o quarto, viajou para a Inglaterra e desapareceu. Todos pensaram que ele havia morrido por lá. — Finn não tinha certeza por que havia perguntado. Os detalhes eram muito complicados e íntimos, mas como ela havia começado, ele não podia lhe dizer isso.

— Mas se ele tivesse morrido lá, suponho que você não estaria a caminho de Shanmullin agora. Irene não estaria viva.

— É isso mesmo. Lorcan era o ancestral dela. Lorcan ficou preso em Liverpool. Não sei por qual motivo. Na época em que voltou para Shanmullin, sua família já havia partido. Todos os irmãos já haviam morrido e seus pais tinham ido para Cleveland alguns anos antes, para viver o resto de suas vidas ao lado da viúva de Terence, que se casara novamente, com um homem chamado Rowan Donaghue. Lorcan era pobre e analfabeto, e não sabia como entrar em contato com eles, nem mesmo sabia se estavam vivos. O padre da vila também já falecera e quase todos daquela época também haviam emigrado.

— Seu nome é Donaghue e não Tierney.

— Lena, esposa de Terence Tierney, teve um filho dele, que nasceu após a morte de Terence. Quando se casou com Rowan Donaghue, Rowan adotou o pequeno Terry, e eles mudaram o nome do menino para Donaghue. Depois tiveram outros filhos, mas Terry é meu ancestral. Portanto, tecnicamente, minhas irmãs e eu somos Donaghue por adoção, não que isso importe. Todos temos a mesma tataravó.

— E o avô de Irene ficou na Irlanda, trabalhando na terra?

— Irene conta que Lorcan já tinha quarenta e poucos anos quando voltou à Irlanda, cansado e amargurado. Ele se casou com uma mulher local, teve um filho, Liam, e morreu alguns anos depois.

— Liam é pai de Irene.

— Certo.

Finn sabia do restante. No começo da década de 1920, Liam e Brenna, sua esposa, deixaram a Irlanda rumo aos Estados Unidos, na esperança de começar uma vida nova. Irene era apenas uma criança na época e lembra-se muito pouco daqueles anos.

— Acho então, que de alguma forma, isso explica por que a família de Irene não conseguiu encontrar nenhum dos Tierneys em Cleveland.

— Exatamente. Lena casou-se com um Donaghue e mudou o nome do filho. Isso aconteceu muitos anos antes de Liam chegar a Cleveland e, ao que parece, ele nunca chegou a falar com as poucas pessoas que se lembrariam, incluindo a própria Lena, que já era uma senhora idosa na época. Irene nos encontrou por acaso, na internet. O jornal Cleveland Plain Dealer publicou um artigo sobre a história do bar de minha família, e o nome de Terence Tierney foi mencionado porque Lena foi a fundadora, e ele tornou-se o seu primeiro marido.

— Estranho que Irene ainda estivesse à procura de parentes, não acha?

Ela arrumou os cabelos para trás, penteando-os com os dedos, num gesto feminino encantador, que ele não tinha o privilégio de ver havia tempos.

— Nem tanto. Ela nunca se casou e não tem filhos. Todos queremos nos sentir ligados a alguém, não é? Ela não está bem. A idéia de querer que alguma parte de você prossiga ao longo dos anos é natural.

Ele congelou, os dedos agarrados ao volante. Houve uma época em que ele próprio pensava assim.

Peggy olhou por cima do ombro, para o filho dormindo.

— Acho que Kieran é minha aposta para a imortalidade. Você tem filhos, Finn?

Ele não tinha como responder de forma casual, o que o deixava furioso. Era uma pergunta simples. A resposta era impossível.

— Você irá conhecer minha filha Bridie — disse ele, por educação. — Ela visita Irene quando pode. — Ele esperava mais perguntas, porém ela foi surpreendentemente perceptiva e não as fez. Só para garantir, ele mudou de assunto. — Estamos chegando à vila. Se der um espirro, já teremos passado por ela quando reabrir os olhos.

— É tudo tão lindo. — Peggy olhava fixamente pela janela.

— Sim, vocês americanos sempre acham.

— Você não acha?

— Houve muita miséria por aqui. Do tipo que nem sequer imagina. Só agora é que o lugar está renascendo. Nem sempre com as antigas famílias. Com gente nova, casas de veraneio e pessoas que trabalham em casa. Você vê duendes e montanhas mágicas. Eu enxergo gente que trabalha demais e ganha muito pouco.

— E mesmo assim permanece aqui? Deve haver algum motivo.

Passaram pela rua principal da aldeia, com prédios coloridos alinhados lado a lado. As montanhas compunham um cenário de fundo e o mar brilhava à distância. Um riacho cortava o centro da pequena praça da cidade. O visual das aldeias por onde passavam era pitoresco e limpo. Ele imaginava que ela estaria encantada. Estavam de volta ao campo antes que ele respondesse.

— Fico porque fico — disse ele.

Os últimos quilômetros transcorreram em silêncio. Ele entrou numa rua de pedras, que dava no chalé de Irene. Arriscou um olhar para Peggy Donaghue, que se inclinava para a frente. Embora seu filho estivesse se mexendo ali atrás, ela não se virou.

— Nossa, olhe para isso. Foi daqui que eu e minhas irmãs viemos, Finn. E é glorioso. Como será que Terence Tierne pôde ir embora deste lugar?

— Suponho que estivesse morrendo de fome. — Ele encostou próximo à casa e desligou o motor. — Irene virá aqui fora cumprimentá-la, pode contar.

Peggy abriu a porta e deu um passo em direção ao chalé. Ele chegava quase a lamentar, por ser uma casa tão bela, com pedras brancas e janelas envidraçadas. Finn ficou observando Irene, ao abrir uma das metades da porta dupla tradicional, que mandou pintar de um azul radiante, sem que ninguém conseguisse dissuadi-la. Ele ficou dentro do carro enquanto as duas mulheres se olharam. Então sacudiu cabeça, quando Peggy correu para abraçar Irene, que a acolheu com braços enfraquecidos.

 

                              Capítulo 7

O chalé Tierney havia sido reformado durante a gestão de Irene. Brenna, sua mãe, casou-se novamente alguns anos após regressarem à Irlanda, e o padrasto de Irene possuía algum dinheiro. Ele havia comprado a terra na qual os Tierneys trabalharam por vários séculos como arrendatários, e outras terras além desta. Juntos, ele e Brenna acrescentaram mais quartos e uma cozinha, com uma lareira convidativa. Depois da morte deles, quando a casa passou a ser de Irene, ela mandou colocar luz elétrica, aquecimento a gás, emboço novo e imaginação.

Uma semana após ter chegado, Peggy se deitava na cama e ficava olhando para o teto de vigas no quarto que dividia com Kieran. Não havia uma teia sequer. Nenhum centímetro do teto estava manchado, ou descascando. O chalé era imaculado. Irene podia ter recusado um acompanhante antes da chegada de Peggy, mas certamente não recusara ajuda nas tarefas domésticas. No dia em que percebeu que não teria mais como manter a casa impecável, contratou uma vizinha para vir limpar e acender o fogo da lareira todas as manhãs Quando o tempo estava bom, Nora Parker vinha pedalando sua bicicleta pela estrada de pedras, alegre e disposta, pronta para colocar a casa em ordem depois do exercício. Ela também preparava o café da manhã, e por volta das sete Peggy já podia ouvi-la trabalhando na pequena cozinha.

A existência de Nora foi uma surpresa bem-vinda. Peggy esperava ter que limpar e cozinhar, mas Irene explicou que jamais poderia dispensar a estimada Nora, nem preocupá-la, caso deixasse Peggy assumir alguma de suas tarefas. Nora trazia notícias da aldeia, além de alimentos fresquinhos, e tinha uma presença alegre, que disfarçava uma alma analítica de comandante militar. Com exceção de Nora, ninguém mantinha o mesmo padrão rigoroso exigido pela dona da casa, e as duas mulheres percorriam alegremente os cômodos, assegurando que toda poeira fosse eliminada do chalé Tierney.

As noites eram quase mornas e Peggy dormia com janelas abertas. Esta manhã, uma brisa mais fria balançava as cortinas de lese, mas o sol brilhava do lado de fora. A casa tinha um aroma agradável e secular, pelas inúmeras vezes em que a lareira foi acesa, uma fragrância orgânica da terra, embebida em madeira e pedra. A brisa tinha o cheiro do que ficava a duzentos metros de distância.

Como todas as manhãs, Peggy se perguntava no que seus ancestrais haveriam de pensar no começo de cada dia. Estariam tão famintos, a ponto de amaldiçoar as colinas varridas pelo vento, onde algum antepassado construiu seu lar e criava suas ovelhas? Teriam amaldiçoado os invasores, que impuseram tributos pesados, enviando sua comida ao mercado quando necessitavam dela para alimentar suas crianças? Será que paravam, apenas por um instante, para sentir gratidão por toda aquela beleza que tinham ao redor?

Finn dissera que ela via duendes e montanhas mágicas, mas o bom doutor estava errado. Ela viu a realidade. E não diminuía seu amor por aquele lugar.

Kieran agitou-se, depois despertou. Ele deu uma gargalhada, um som que a emocionava até a medula. Ela não sabia o motivo de seu riso, mas isso não importava. Rir, por mais raro que fosse, ainda significava que algum dia Kieran poderia ter a alegria verdadeira em sua vida. Uma criança que ri não está com medo, nem confusa em relação ao que está à sua volta.

— Kieran — disse ela, com carinho. — Kieran...

Ela sentou-se e olhou em seu berço. Ele estava deitado de lado, olhando para ela.

— Kieran — repetiu ela, com um grande sorriso. — Como está meu rapazinho?

Ele sorriu e deu outra gargalhada. O sorriso dela ficou ainda maior. Depois se virou e viu que o olhar dele estava fixado num ponto atrás dela. Peggy viu a luz do sol refletida na janela. Era uma luz intensa, que se movia, à medida que o vento soprava a cortina.

— Você gosta disso, não é? — disse, apenas um pouquinho desapontada. — É como ouro líquido, não é? — Ela ergueu a mão, estendendo os dedos médio e indicador, imitando as orelhas de um coelho. — Upa, upa, vai o coelhinho. — A sombra do pequeno coelhinho pulava pela parede.

Kieran deu um gritinho empolgado e Peggy sentiu uma onda de emoção e alegria. Ela fazia o coelhinho pular de um para o outro. Para a frente, para trás, um longo mergulho, desaparecia, depois voltava. Uma orelha ficava em pé, dobrada. Depois as duas se esticavam.

— Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim... — cantava desafinada. Depois não conseguia mais lembrar o resto música, então cantarolava murmurando, fazendo o coelho no ritmo.

Kieran ficou em pé agarrado às grades do berço, balançando-se, em pura empolgação.

— Oi, oi.

— Coelho — disse Peggy. — Co-e-lho.

— Oi, oi!

Estava tão satisfeita em vê-lo feliz que nada mais importava. Isto seria uma coisinha de nada para a maioria das mães, mas com Kieran, uma crise de felicidade era tão rara que era algo a ser louvado.

Quando se cansou de fazer o coelho pular levantou-se foi até o berço. Ele olhou para ela, depois para a parede, seu lábio inferior tremia.

— Sim, a mamãe fez o coelhinho pular — disse ela. — Kieran também pode fazer. — Ela o suspendeu no berço e o levou até a cama, se acomodando nos travesseiros, como estava antes. Depois pegou sua mãozinha relutante e a conduziu contra a luz.

— Está vendo? Kieran também pode fazer sombras. — Ele havia se contraído no momento em que ela o tocou. Ainda estava tenso, mas interessado. Ela podia ver seus olhinhos concentrados.

— Kieran pode fazer sombras também. — Ela pegou seu braço na altura do cotovelo e carinhosamente o moveu para a frente e para trás. Ele tinha o punho fechado, como se estivesse prestes a dar um soco. Ele olhava a sombra se modificando e virou a cabeça para ver melhor. — Kieran pode fazer sombras. — Ela apontava para a sombra. — Sombra. — Depois moveu do braço dele novamente. — Para lá e para cá.

Ela observava sua expressão. Ele havia esquecido de resistir, de se contrair, de ter medo. Ficou entretido com o movimento. Ela guiava a mão, mas era ele quem fazia o movimento.

Ele finalmente se cansou, agitando-se para descer à cama, mas ela o segurou.

— Desculpe parceiro, mas vamos ter que fazer uma troca rápida antes que você saia correndo. — Ele protestou, mas ela foi firme. Em alguns minutos ele já estava com as fraldas trocadas e um macacãozinho substituiu o pijama. Peggy então vestiu uma calça jeans e uma blusa de moletom, antes de ir para a sala de estar.

A sala era o lugar mais bonito da casa, com paredes brancas, piso de pedra e teto alto. A lareira ficava no meio da parede, com toras de madeira que seriam queimadas, empilhadas ao lado. Nas outras duas paredes, janelas se abriam para vistas magníficas, mostrando as lindas montanhas verdejantes e as ovelhas pastando.

— Bom dia — disse ela a Nora. — Que dia lindo.

— Está mesmo — disse Nora. — E ela parece estar meio desanimada nesta manhã.

Peggy olhou com atenção. Ao contrário do habitual, Irene já havia tomado banho e estava sentada, aguardando a chegada de Nora.

— Ela não piorou, não é?

— Não está pior do que de costume, se é o que quer dizer. Apenas cansada. A dor lombar parece estar incomodando um pouco e parece que não dormiu muito bem.

Peggy havia se certificado de que Irene tomasse todos os remédios antes de dormir, portanto sabia que o problema não era esse. Irene ficara feliz em concordar com que ela fizesse um gráfico, para que todos os remédios fossem tomados no horário correto.

— Talvez ela precise de mais antiinflamatórios — disse Peggy. — Vou falar com o dr. O'Malley.

— Mas ela já toma uma montanha de remédios. — Nora tinha cinqüenta e poucos anos, cabelos grisalhos, e era magra como os bambus do quintal de Irene. Era viúva e alegava que esta condição era um progresso, comparando-se à vida que levava antes. Tinha três filhos adorados que moravam na cidade, e seis netos, portanto, não tinha carência familiar.

— Ela toma um bocado, mesmo — concordou Peggy. — Mas nada além do que deve. O dr. O'Malley é um homem cuidadoso.

— Ele era o melhor médico de Mayo, e isso era fato. Minha família se consultava com ele, desde a vovó. Todos melhoramos muito com ele.

Peggy ficou em dúvida.

— Era?

— Você certamente sabe que ele não exerce mais a profissão, não é?

Um pensamento aflito lhe ocorreu. Peggy imaginou se ele talvez tivera a licença de médico suspensa. Já não tinha certeza se Irene estava mesmo em boas mãos.

— Eu não sabia, por qual motivo?

— Eu lhe diria, se tivesse tempo para uma xícara de chá e um papo, mas agora de manhã não dá. Ele está a caminho e prometi a Irene que lhe levaria uma bandeja na cama.

— Claro. Desculpe. Eu pergunto a Irene... — Ela procurou o botão na camiseta de Kieran, para fechá-lo. — Há algum problema em perguntar a Irene?

— Tenho certeza que ela lhe contará sem problemas.

— Vou preparar o café de Kieran.

— Já está pronto, e o seu também.

Peggy agradeceu-lhe e Nora deu um sorriso afetuoso.

— Você não é o que eu esperava, sabe?

— Não sou?

— Só vemos a televisão. O que podemos saber? Peggy detestava a idéia de que seus compatriotas fossem representados ao redor do mundo apenas por personagens de programas como " Os Simpsons".

— Acho que se você esperava glamour ou emoção, sou a garota errada.

— Eu esperava boas maneiras e um bom coração. Você tem as duas coisas.

Peggy ficou comovida.

— Você e a Irene são maravilhosas. Eu não podia ter mais sorte.

— Agora chega. Tenho trabalho a fazer. — Nora seguiu em direção à cozinha.

Peggy juntou-se a ela, assim que conseguiu afastar Kieran da janela que dava para a estrada. Era uma janela baixa, de onde se viam os rochedos sem fim, morro abaixo, formando paredes de pedra esculpidas pelo vento, entremeadas com sempre-vivas coloridas, que o fascinavam. Ela o havia visto diversas vezes ali na última semana, e ficou curiosa sobre o que olhava.

— Tem mingau de cereal e bacon, e fiz café do jeito que você gosta — disse Nora, andando de um lado para o outro, entre o fogão e a pequena geladeira.

— Adoro a maneira como você cuida de mim, mas fico preocupada, achando que estamos dando muito trabalho.

— De modo algum. Eu cozinharia do mesmo jeito, apenas um pouco menos.

Peggy acomodou Kieran junto à mesa. Antes de chegarem, Irene havia conseguido uns móveis infantis emprestados, com famílias da paróquia, já que ela mesma nunca havia precisado deles. A cadeirinha alta combinava perfeitamente com o tom da antiga mesa de jantar em pinho, utilizada pelas mulheres de diversas gerações da família Tierney.

Ela serviu mingau para o filho, feito com mel e leite fresco, trazido diretamente da fábrica de laticínios do vizinho. Tinha um cuidado especial com a dieta de Kieran, precavendo-se com doces e alimentos processados, já que algumas pessoas acreditavam que sua ingestão não era indicada para crianças autistas. Ela cortou uma fatia grossa do pão caseiro, que Nora havia trazido do armazém da aldeia naquela manhã. Lembrou-se de Megan e dos sanduíches que faziam no bar, os quais não seriam servidos tão cedo, pelo menos até que toda a reforma terminasse.

Nora secou as mãos num pano de prato.

— Ouço o carro do doutor, vou até lá abrir a porta. — Peggy terminou de servir o café de Kieran, que começava a resmungar e bater na mesa.

— Estou quase terminando, rapaz — disse ela. — Boa comida, para um bom menino. — Ela colocou o prato à sua frente. Era o mesmo tipo de prato plástico que usava em casa. Ele comeu o pão com as mãos e ignorou a colher que ela pusera ao lado do prato de mingau. Peggy havia escrito um bilhete, para lembrar-se de ensiná-lo a manusear a colher durante "as aulas" daquela manhã. Enquanto isso, dava-lhe colheradas de mingau, quando ele deixava.

Um pedaço de pão caiu no chão e ela o pegou para jogá-lo no lixo, embaixo da pia. Quando levantou a cabeça, viu Finn de pé à porta.

— Ele deixa cair mais do que come — disse Finn.

— Ele lhe parece mal-nutrido, doutor?

— Finn. Nora me disse que você tem uma recomendação a fazer.

Peggy percebeu que ele estava falando dos antiinflamatórios.

— Não é uma recomendação. Não sou presunçosa. Tenho apenas uma pergunta. A dor lombar de Irene parece fazê-la sofrer.

— Ela se recusou a operar, quando esta era uma opção. Agora já não é mais.

Peggy já sabia disso. Também sabia que Finn estava querendo cortar a conversa. Ele era sempre breve com ela. Por outro lado, era sempre gentil e carinhoso com Irene, um homem totalmente diferente. Por isso ela o perdoava.

— Não há mais nada que possamos fazer para a dor? Aumentar os antiinflamatórios? Ela não diz que está doendo.

A fisionomia dele suavizou-se.

— Mas eu sei que está.

— E não há nada que possa fazer?

— Sua medicação é cuidadosamente balanceada. Ela chegou a um estágio em que um remédio se sobrepõe ao outro e há escolhas difíceis a ser feitas.

Peggy sentiu uma pontada de estímulo, lembrando-se de sua breve passagem pelo curso de medicina. Este era o motivo pelo qual havia estudado tanto. As escolhas. O cuidadoso equilíbrio das prioridades. A habilidade de aliviar a dor e mudar vidas para melhor.

— Sei que é difícil — disse ela. — É a quantidade versus a qualidade de vida.

— Raramente é simples assim.

— Achei que seria bom que soubesse que não estou querendo provocá-lo.

— Está certo. Obrigado.

Ela o estudava. Durante sua primeira semana na Irlanda, chegou à conclusão de que Finn era um dos homens mais bonitos que já conhecera. Ele era alto e esguio, mas não muito magro. Seus cabelos pretos eram cacheados, um pouco compridos. Ela gostava assim. Dava-lhe uma aparência medieval, que não chegava a ser desmentida por ele próprio. Tinha as maçãs do rosto acentuadas e sobrancelhas escuras, encobrindo os olhos investigadores, que não deixavam escapar nada, mas não davam nada em troca.

Os poucos homens que tiveram rápidas passagens por sua vida — incluindo Phil — eram totalmente diferentes. Abertos, amistosos, fáceis de levar, para que ela não tivesse trabalho com eles. Ela não gostava de ter que adivinhar pensamentos ou sentimentos. Nunca teve essa tendência, nem o prazer de tentar.

Este homem era diferente. Talvez fosse a paz relativa na vida daqui, o tempo extra para refletir. Mas ela se pegava pensando em Finn em momentos estranhos. Ele era um mistério e, pela primeira vez na vida, tinha tempo para buscar as soluções.

— Como é que o menino tem encarado a vida daqui? — perguntou Finn.

A pergunta a surpreendeu. Com exceção de atormentá-la quanto ao seu relacionamento com Irene, ele havia feito poucas perguntas desde o aeroporto.

— Ele está se adaptando — disse Peggy. — Finn, você aceita um café?

Ele negou com a cabeça.

— Você tem planos de trabalhar com ele?

— Já comecei. Montamos uma pequena sala de aulas no terceiro quarto. Começamos hoje.

— Possui qualificação para isso?

— Quem poderia ser mais qualificado? Quem o ama mais, ou se importa mais com o que acontece com ele?

— O amor atrapalha mais freqüentemente do que se imagina. — disse ele isso como se fosse Moisés ao ler os Dez Mandamentos para os israelitas.

— Pode ser. — Peggy colocou mais pão na mesa, em frente a Kieran, antes de ir até o balcão servir-se de uma xícara do café que Finn havia recusado. — Sei que tenho de ser objetiva. Mas tenho um ótimo material, contatos na internet e uma terapeuta, a quem posso consultar por telefone, quando precisar. — Ela esperou até que a xícara estive cheia para virar-se. — E francamente, sou bem barata. Tanto que posso pagar.

Ele deu um sorriso de verdade. Ela teve a mesma sensação que tivera naquela manhã, quando Kieran sorriu. Por um momento, o sol despontou e a vida pareceu promissora.

— Não me parece barata, srta. Donaghue.

— Se quer ser chamado de Finn, eu sou Peggy. Caso contrário, terei que reconsiderar.

Ele não disse nada por um instante. O sorriso havia desaparecido e o rosto era inexpressivo. Quando finalmente; falou, as palavras pareceram vir de um lugar onde esteve durante aquela ausência momentânea.

— Tenho alguns brinquedos de criança. Irene disse que você trouxe muito poucos e precisa de mais. Posso trazê-los para o Kieran, caso queira.

As últimas coisas que podia esperar de Finn eram assistência ou a emoção profunda, que parecia ecoar da simples oferta. Por um instante não sabia o que dizer. Depois acenou com a cabeça, concordando.

— Nós seremos muito cuidadosos com eles, Finn, mas não posso lhe garantir...

Ele ergueu a mão, como uma maneira de impedi-la de pronunciar as palavras restantes.

— Não precisa. Não vou querê-los de volta. Pode dá-los a alguém, quando ele terminar de usá-los. — Ele deu a volta sem mais nenhuma palavra e desapareceu rumo à sala de estar.

Ela ficou ali tentando calcular que preço aquele homem teria acabado de pagar. E pelo quê.

Irene Tíerney estava magra demais e levava bastante tempo para se locomover de um lugar ao outro. As pernas não pareciam obedecer. Seus cabelos eram brancos como a espuma das ondas quebrando na costa, e os olhos acinzentados, atrás das lentes grossas, eram revestidos por cataratas. Agora estava andando curvada, mas era bem-aventurada por um espírito jovem.

— É a bênção de envelhecer — disse a Peggy naquela tarde, após o almoço. — Você vê a si mesma como foi um dia. Não da forma como os outros a vêem. Tenho vinte e sete anos, querida. Apenas um pouquinho mais velha que você.

— Você tem fotografias? Para que eu possa vê-la assim também?

— Tenho um álbum da grossura de seu braço, mas deixemos para mais tarde, quando você não estiver tão exausta.

Peggy estava cansada. A manhã não tinha ido bem. Ela sabia que levaria algum tempo até que Kieran se acostumasse à "sala de aulas" e às "lições", nas quais estavam trabalhando juntos. Ela havia escolhido as coisas bem simples para começar. Segurar uma colher. Empilhar dois cubos. Apontar para ela mesma, quando perguntava: "Onde está a mamãe? Aqui está a mamãe”.Ela havia se preocupado com os pequenos incentivos, planejando premiá-lo com queijo, ou biscoitos, dois de seus petiscos preferidos, se algum progresso fosse feito.

Nenhum progresso havia sido feito.

— Não foi muito bem, não é? — perguntou Irene. — Hoje, com o bebê?

— Tão bem quanto eu esperava. — Peggy viu os olhinhos de Kieran se fechando. Ele parecia cansado como ela, embora ainda não tivesse desistido de sua janela favorita. — Tudo leva tempo.

— Ele tem dons. Tenho certeza. Sinto isso na alma, quando olho para ele. O que você acha que ele vê, quando fica olhando pela janela?

— Eu gostaria de saber. Gostaria de poder entrar em seu mundo e ver. Isso ajudaria tanto.

— Você sabe que não pode lidar com isso sozinha, não sabe?

Peggy fez menção de argumentar, mas Irene a fez calar-se.

— Você é paciente e trabalha duro, mas até mesmo a melhor professora precisa de ajuda. E será bom para o menino ter outras pessoas interagindo com ele.

— Ele sempre teve muita gente interagindo com ele. Gente demais. Minha família se encarregou de fazer isso. Eles o carregavam a todo lugar, faziam o maior alvoroço. Esta é uma das razões pelas quais... — Peggy parou subitamente.

— Estou apenas supondo, mas será que você se sente um pouquinho culpada por isso? Pelo fato de tantas outras pessoas terem tomado conta dele, enquanto você estudava e trabalhava?

Irene não era vidente. Peggy a levara àquela conclusão, por outras coisas que havia dito, pensou. Desde o começo Irene quis saber tudo a respeito de sua vida, e também da vida de suas irmãs. Elas conversaram sem parar por uma semana.

— Eu me sinto culpada realmente — admitiu Peggy. — Fico pensando que se estivesse ali o tempo todo, ele teria se apegado a mim. Precisaria de mim de uma maneira que não parece precisar agora.

— Mas isto não faz parte do estado dele? O fato de não se apegar às pessoas que o amam? Pelo menos não do jeito que gostaríamos que fosse?

Peggy estava bastante surpresa, e até comovida, com tudo que Irene havia descoberto a respeito do autismo. Ela havia feito uma pesquisa minuciosa em sua adorada internet, e sabia praticamente todo o seu conteúdo sobre a doença.

— Faz parte, mas fico preocupada em ter sido a causadora.

— Você e todas as mães que têm filhos assim.

— Agora ele precisa de muito tempo comigo.

— Isto ele terá, não importa o que você decida. Mas será que ele não iria progredir mais depressa, se você tivesse uma pequena ajuda e mais tempo de aprendizado? Talvez uma moça da aldeia? Talvez alguém que queira vir a ser professora um dia? Poderíamos pedir uma recomendação a Nora.

— Vou pensar sobre isso. — Peggy se levantou para pegar o filho, antes que ele dormisse em pé. — Tive uma boa notícia hoje de manhã.

— Teve?

— Finn disse que tem alguns brinquedos para Kieran. Não sei bem o quê, mas ele disse que não irá mais precisar deles. — Ela ergueu Kieran, que começou imediatamente a se agitar. — Já volto.

— Não vou a lugar algum.

Peggy voltou depois de colocar Kieran no berço. Ela o deixara batendo as mãozinhas nas grades. Ele continuaria fazendo isso até que adormecesse.

— Brinquedos? — disse Irene. — Mas isso é formidável.

— Como e por quê? — Peggy fez uma pausa. — Hoje de manhã Nora me disse que Finn não é mais médico. O homem é um verdadeiro mistério para mim.

— As histórias estão ligadas — disse Irene. — Sente-se um instante.

Peggy concordou, embora estivesse precisando sair para dar uma volta. Ela e Kieran caminharam mais cedo, contudo não foram muito longe. Kieran tinha medo do vento, que era permanente na costa, e ela teve de trazê-lo de volta para dentro, depois de apenas alguns minutos.

Irene foi direto ao ponto.

— Finn perdeu a esposa e dois filhos há dois anos. Eles se afogaram durante uma tempestade. Finn lamenta não ter sido ele. Nunca se perdoou.

Peggy estava estarrecida.

— Isso é muito triste para se compreender.

— Sim, imensamente. Por sorte a filha não estava com ele. Bridie era mais velha do que os meninos e estava passando o dia com uma amiga. Encontraram Finn próximo à costa, quase afogado também. Depois disso ele simplesmente desistiu. — Irene deu de ombros. — Perdeu o interesse em exercer a medicina. Em viver também...

Peggy estava dividida entre compaixão e preocupação por Irene. Finn ainda era o seu médico.

— Mas ele ainda vê ao menos alguns pacientes?

— Bem, ele manteve seu consultório na cidade, mas alega que é somente pelo fato de não haver movimento no mercado imobiliário local, nem ter para quem vendê-lo. Mas não, ele só vê a mim, isto porque me recuso a ter outro médico. Eu disse a Finn que preferiria morrer em minha cama a ser paciente do dr. Joseph Beck, e quase provei isso. Ele cuida de mim porque fui a melhor amiga de sua avó e ele não quer ter de prestar contas com ela no outro mundo. Eveleen era boa de beliscão. — Irene demonstrou no ar. — Nada bom de sentir.

Peggy ainda estava envolvida pela tragédia de Finn.

— Isso explica muito sobre ele. Ele é tão... — não conseguia encontrar uma palavra gentil.

— Difícil — ajudou Irene. — É o que ele é, o nosso Finn. Mas nem sempre foi assim. Ele nunca foi fácil, mas antigamente era um prazer conhecê-lo. Agora o prazer se foi. Sorte dele que as pessoas de Shanmullin ainda lembram do antigo Finn, e torcem para que ele volte. Ninguém compreende a dor melhor do que os irlandeses, embora tenhamos muitos outros rivais nesta maldição.

— Os brinquedos devem ter sido de seus filhos.

— Acredito que sim. E não será livrando-se deles que irá também se livrar do problema. Não, o problema vai voltar quando ele tiver que pegá-los, colocá-los numa caixa e trazê-los para cá, irá lembrar...

— Você acha que o fato de ter Bridie ajuda? Ele deve ser tão grato por ela ter sido poupada.

— Um homem difícil e, hoje em dia, receio que seja um pai difícil também. Era um dos melhores, até os afogamentos. Mas manteve a dor trancada dentro de si, jamais compartilhando com ela. Ela é uma doçura, uma das minhas pessoas preferidas no mundo inteiro. Você irá conhecê-la em breve, eu espero. Ela sempre vem me visitar.

— Quantos anos ela tem? — Irene fez a matemática.

— Onze. E se não encontrar seu pai novamente, em breve irá procurar por ele em outros homens. Escreva o que digo. — Irene afagou a mão de Peggy. — Nora está pretendendo ficar até as quatro horas. Hoje é dia de limpar as janelas e esfregar o chão. Por que não vai até a vila? Faça algo de bom para você. Se Kieran acordar, vamos cuidar para que fique feliz.

Peggy duvidava que o filho fosse acordar. A forma como lidava com sua vida confusa era sempre previsível. A idéia ir pedalando até Shanmullin, que até agora só havia visto de passagem, era tentadora. Irene lhe dissera haver bicicletas num galpão próximo. Peggy tinha certeza de que seriam antigas, mas também estava certa de que eram bem-cuidadas.

— Você tem certeza? — disse ela.

— Ah, sim.

Peggy sentia a energia voltando. O ar fresco e um pouco de exercício iriam recuperá-la melhor do que um cochilo. Ela abraçou Irene.

— O que posso trazer da aldeia para você?

— Eu estava torcendo para que você perguntasse. Tem uma lista na cozinha. Vá em frente e divirta-se. Vire à direita na estrada principal e logo estará na aldeia. Apenas assegure-se de memorizar o fim do caminho, para não se perder na volta para casa.

Liberdade. Com um sorriso e uma sensação de gratidão, Peggy foi buscar a lista e dizer tchau para Nora.

 

                                     Capítulo 8

Peggy calculou ter aproximadamente duas horas antes que Kieran acordasse. Tinha outra sessão de aprendizado planejada para a parte da tarde. Mais exercícios segurando a colher, mais memorizações mostrando "esta é a mamãe", e um tempo livre para colorir com lápis de cera. Se sobrasse tempo e paciência, começaria a ensiná-lo a virar as páginas de um livro de cartolina. Até o momento não havia demonstrado interesse pelas histórias que lia, mas tinha esperanças de que isso iria mudar.

Encontrou uma grande variedade de bicicletas no galpão. Uma delas era verde, tinha uma cesta na frente e parecia mais nova que as outras. Para fazer um teste, subiu na bicicleta, que provou estar em perfeito estado de funcionamento. Seguiu rua acima, e olhou para trás quando chegou na metade do caminho, para acenar a algumas mulheres que estavam em frente a uma casa e pareciam desdenhar sua capacidade de pedalar.

Depois de uma semana de melancolia, o dia estava de tirar o fôlego, com uma temperatura agradável. Assim não sentiria muito calor quando fizesse um esforço maior para subir a elevação que desembocava na estrada principal.

As flores brotavam no acostamento e muitos botões estavam prontos para abrir. Ao longe podia ver o oceano Atlântico e avistava Clare Island, e Croagh Patrick, a montanha nomeada em homenagem ao santo, que diziam ter jejuado ali até morrer. Outros tipos de flores, das mais variadas cores, brotavam das frestas das paredes rochosas, sem se importar com sua presença.

A estrada principal era bem estreita, mas havia pouco movimento de carros, e aqueles que passavam por ela mantinham espaço suficiente, o que era ótimo, já que fazia bastante tempo que não pedalava. Megan e Casey ensinaram-lhe a andar de bicicleta, seguindo a seu lado para protegê-la em caso de queda. Elas sempre estiveram ao seu lado, caso caísse. Sempre a protegeram, como mães precoces, e já sentia saudade das irmãs.

Ela passou por um pasto de ovelhas em tecnicolor, repleto de bambuzais. As ovelhas eram tingidas para identificar seus donos e davam um toque colorido e alegre naquela paisagem exuberante. As sedes das fazendas e as casas de veraneio pontilhavam as colinas, e construções abandonadas, algumas até sem telhado, eram mais numerosas do que imaginava. Algumas casas eram bem antigas, nenhuma delas conservada como a de Irene, o que a fazia agradecer pela sorte que viera em sua direção, conduzindo-a a este caminho tão pitoresco. O chalé dos Tierneys certamente já teria desabado há anos, se não fosse pela reforma feita por Brenna e seu segundo marido.

Quando chegou aos arredores de Shanmullin, ela transpirava um bocado. Suas pernas doíam e o traseiro protestava pelo banco estreito de plástico. Mas ainda se sentia bem-disposta. A diversão era um conceito que teria que ensinar a Kieran, embora ela mesma não dedicasse tanto tempo a isso. Mas agora iria fazê-lo.

A aldeia de Shanmullin poderia dar uma bela capa da National Geographic. A rua principal fazia uma curva em arco, que levava a uma ladeira. As construções estavam alinhadas ao longo da via, algumas brancas, com acabamento colorido, como o chalé Tierney, outras variando em tons de verde, amarelo ou azul. As placas fixadas nas calçadas eram divididas entre as que estavam escritas em irlandês, língua gaélica, e inglês. Boa parte delas eram placas de bares e algumas que anunciavam Guiness, lhe trouxeram uma lembrança nostálgica de casa.

Num dos lados da rua, um cachorro perambulando entre os carros estacionados, parando às vezes no espaço onde o sol batia, com tempo suficiente para se coçar com calma. Do outro lado, uma mulher estava em pé conversando com três homens, na porta da loja de bonés Welllington, ao lado dos pubs.

Peggy estacionou a bicicleta e seguiu pela calçada, olhando as vitrines para descobrir o que Shanmullin tinha a oferecer. Encontrou a igreja, um restaurante e até o consultório de Finn, que tinha um certo ar de abandono e situava-se numa rua transversal. Uma hora depois, saiu do mercado com todos os itens da lista de compras de Irene. Ela comprou agulhas e novelos de lã, pois Irene estava decidida a tricotar um suéter para Kieran. Também comprou a mais recente edição da revista Times irlandesa. Ela teve a chance de aguçar um pouco os ouvidos, ao presenciar diversas pessoas conversando com aquele sotaque irlandês original. O dono da banca de jornais perguntou-lhe sobre a história de sua vida e também contou a dele, bem mais colorida que a dela. Já fizera um amigo.

No final da calçada, viu o mesmo cachorro que havia observado antes. Ele tinha orelhas compridas e seu pêlo variava nos tons de marrom-avermelhado. Tinha alguns traços da raça collie, talvez misturada com outra, e parecia acompanhar com o olhar o seu passeio pela cidade. Ele estava deitado na calçada, a cabeça pousada sobre as patas, que serviam de travesseiro. Se fosse possível um cachorro ter uma aparência de desolado, esse era um.

Ela se aproximou com cautela. Como tinha grande respeito pelo melhor amigo do homem, parou um pouco distante e falou com ele de passagem, em vez de chegar muito perto.

— Oi, companheiro.

Ele balançou o rabo, apático. Era magro e tinha os olhos caídos. Enquanto olhava para ele, uma menina de uniforme escolar saiu de uma loja e juntou-se a Peggy na investigação. Tinha os cabelos quase brancos de tão louros, mas iriam escurecer um dia. Sua feição delicada estava distorcida pela careta e a testa franzida, enquanto observava.

— Ele já está aqui há uma semana — disse a menina, com o tom da voz oscilante. — Seu dono morreu.

Peggy sacudiu a cabeça.

— Puxa, mas que pena. Ele tem nome?

— Banjax. O sr. McNamara dizia que não servia para nada, mas ele serve para ficar de luto por sua morte, não acha?

— Eu diria que sim. — Peggy encarava o pobre animal. — Ninguém quis ficar com ele? A família não o quer?

— Acho que o pessoal dos pubs o alimenta de vez em quando, com batata frita, coisas assim. Mas meu pai disse que alguém irá levá-lo para o campo em breve e ele não irá mais voltar.

Peggy não gostou da forma como aquilo soava.

— Pelo que vejo não há nenhuma instituição na cidade que cuide de animais abandonados.

— Só as pessoas, que os levam para casa, quando podem. — A menina olhou para Peggy. — Você não é de Shanmullin.

— Sou de Ohio, nos Estados Unidos.

— Sou Bridie O'Malley.

A filha de Finn. Peggy jamais suspeitaria. Não apenas pela maneira como se conheceram, mas porque Bridie não lembrava o pai em nada. Ela era tão loura quanto ele era moreno. Peggy achou que agora tinha uma boa idéia de como seria a esposa de Finn.

Peggy se apresentou.

— Irene Tierney me disse que você é uma boa amiga.

— Ah! Você é a americana que está morando no chalé Tierney. Ouvi falar de você.

— Seu pai foi muito gentil em me dar uma carona do aeroporto de Shannon.

— Ele estava de folga do trabalho naquele dia. Eu queria ir junto, mas tive que ir para a escola.

Peggy olhou o relógio. Ainda era uma e meia.

— Você saiu cedo hoje?

— Os professores estão falando com os pais essa tarde — Ela fez outra careta.

Peggy sorriu para ela.

— Está preocupada? Eu sempre ficava preocupada com as reuniões de pais, mesmo quando estava indo bem.

— Ah, mas meu pai não vai estar lá. Ele está trabalhando em Louisburgh o dia todo.

Peggy não havia se dado conta de que Finn trabalhava em alguma coisa além da medicina. Deveria ter imaginado. Afinal, ele e a filha tinham de comer, mesmo que agora se recusasse a atender pacientes. Ela guardou a pergunta para fazer a Irene.

— Quero levar Banjax para casa — disse Bridie. — Quero ter um cachorro.

Peggy pôde ouvir um "mas" não pronunciado no fim daquela frase. Supôs que isso teria a ver com Finn. Ele parecia ser um homem que não ia querer mais alguém para alimentar ou tomar conta.

— Você está preocupada com ele, não é? Vamos pensar. Não há ninguém que pudesse pegá-lo? Alguém que pudesse pedir?

Bridie franziu o rosto de novo. Enquanto seu pai raramente permitia que seus pensamentos se expressassem em seu rosto, a filha não escondia nada.

— A vovó Irene! — Ela olhou para Peggy. — Você pode levá-lo para casa, srta. Donaghue.

Foi a vez de Peggy fazer uma careta.

— Bridie, acho que não...

— Mas o cachorro da vovó Irene morreu ano passado. Picles. Um cachorrinho que sempre mordia meus calcanhares quando eu ia visitá-la. Ela também não gostava dele, mas dizia que um velho amigo, mesmo quando rabugento, tem que ser protegido. Então? Banjax era um velho amigo do sr. McNamara e agora também tem de ser protegido. A vovó Irene é a pessoa que irá fazê-lo.

Peggy sentiu-se afundando na conspiração contra sua vontade. Irene não estava bem, e já tinha que lidar com dois novos estranhos em sua casa. Um cachorro? Ainda por cima um que parecia necessitar de antidepressivos? Esta parecia uma imposição improvável.

— Eu lhe digo o que faremos. Vou perguntar a ela. Se consentir...

— Mas isso não vai dar certo — insistiu Bridie. — Ele pode desaparecer essa noite. E se isso acontecer? Como iremos nos sentir? Como se sentirá a pobre vovó Irene, se decidir ficar com ele? — Ela percebeu que Peggy ia argumentar e rapidamente acrescentou: — Antes de entrar na loja, vi alguns homens apontando para ele e sacudindo a cabeça. Vi mesmo. Por favor?

Peggy achou que não tinha nada demais em levá-lo com ela. Poderia comprar ração e carregar na cesta da bicicleta. Em troca de alguns petiscos, Banjax poderia ir correndo ao seu lado até lá. Se Irene desaprovasse, o que provavelmente faria, Peggy poderia trazê-lo de volta na próxima vez em que viesse à cidade, e torcer para que alguma outra pessoa o adotasse. Ou poderia mandá-lo de volta com Finn, de manhã, caso tivesse que se livrar dele com urgência.

Bridie estava percebendo que as probabilidades estavam a favor de Banjax.

— Eu posso ajudá-la a levá-lo até lá. Posso deixar um bilhete para meu pai dizendo que fui de bicicleta até a casa da vovó Irene. Ela não irá se importar. De verdade. E, aqui entre nós, acho que podemos conseguir levá-lo até lá. Sei que podemos.

— Quantos anos você tem, Bridie?

— Onze.

— Assim que fizer quinze anos, vamos ter uma conversa sobre os perigos de usar esses belos olhos verdes para conseguir tudo que quer.

Bridie sorriu para ela. Peggy notou que sua nova amiguinha já sabia tudo que precisava saber sobre o poder de seus olhos verdes e de um sorriso persuasivo.

— Um cachorro? Grande e fedorento? — Irene ficou ali em pé, na frente da casa, olhando para Banjax, Peggy e Bridie. — Ora, francamente, Peggy Donaghue. O que é que está pensando?

— Fui iludida — disse Peggy. — Fui enrolada. Meu cérebro foi virado do avesso por um lindo par de olhos verdes. Não foram os olhos de Banjax.

Irene tentava não sorrir.

— Bridie, isso foi idéia sua, não foi?

— Ele precisa de um lugar para se esconder, vovó Irene. Iam levá-lo embora!

— Então você fez isso antes. — Irene não conseguia prender o riso. — Bem, ele não pode entrar na casa. Nunca. Serei irredutível quanto a isso.

— Vou dar um banho nele — prometeu Bridie. Ela havia comprado uma barra de sabão antipulgas com os trocados que tinha no bolso, quando Peggy comprava a ração. — Amanhã, depois da aula. Prometo. Mas ele precisa de você. De verdade.

Irene olhou para Peggy, que deu de ombros.

— Ele pode ser um bom cão de guarda — disse Peggy.

— De quem irá nos guardar?

— Dos corvos? Das borboletas? — Peggy nem podia incluir cobras na lista, pois São Patrício já havia cuidado disso, acabando com as cobras na Irlanda.

— Bem, vamos dar uma chance ao pobre coitado — disse Irene. — Ele pode dormir no galpão, se quiser.

— Vou fazer uma cama para ele — disse Bridie. Peggy ouviu uma lamúria familiar vindo da direção de seu quarto.

— Parece que voltei na hora certa.

Nora chegou até a porta e olhou para Banjax.

— Conheço esse cachorro. Absolutamente inútil. Come, dorme e nada mais.

Aquilo pareceu despertar uma identificação em Irene, que vivia praticamente nas mesmas condições.

— Ele pode ficar. Vamos ver.

Peggy e Bridie entraram atrás dela. Bridie olhou na direção do quarto de Peggy, que havia contado a ela sobre Kieran, no caminho de casa.

— Posso brincar com ele?

Peggy procurou pensar na melhor forma de responder. Kieran não brincava, não da forma que Bridie certamente estaria esperando.

— Tenho jeito com crianças — disse Bridie. — Ele vai gostar de mim.

Ela disse isso com tanta confiança que Peggy teve de levar em consideração.

— Aposto que sim. Ele é que não é muito bom com pessoas que não conhece. Até mesmo as que conhece ficam em dúvida para se aproximar.

— Tudo bem. Só vou ficar olhando no início.

— Vou buscá-lo. Já volto. Por que você não vai pôr um pouco de comida lá fora, para o Banjax?

Quando voltou, trouxe Kieran já de fraldas trocadas. Enquanto isso, Nora havia posto a mesa, com um bule de chá e bolinhos que acabara de tirar do forno. Bridie já estava se deliciando. Ela olhou para Kieran com carinho, mas foi cuidadosa para não afugentá-lo. Permaneceu sentada, olhando com o canto do olho, enquanto comia.

Kieran olhava ao redor da sala, sonolento, um ar desconfiado. Como sempre, Peggy intrigava-se a respeito dos sinais que seu pequeno cérebro poderia estar emitindo. Quando ele se agitou para descer de seu colo, ela o pousou no chão, e ficou próximo a ele, caso quisesse proteção de mais um rosto estranho.

Mas Kieran ficou olhando para Bridie da mesma forma que olhava para a luz refletida na parede. Deu uns passinhos em direção a ela e parou, observando-a atentamente. Peggy prendeu a respiração. Sabia que Irene estaria fazendo o mesmo ao seu lado.

— Oi. oi — disse ele, por fim. E chegou mais perto. — Oi!

Bridie agiu espontaneamente.

— Oi pra você também, garotão. — E voltou aos bolinhos, sem perceber o pequeno milagre que acabara de acontecer diante dela.

— Kieran ficou fascinado por Bridie — disse Peggy naquela noite, quando ela e Irene estavam sentadas diante da lareira. — Acho que é por causa dos cabelos dela. São tão reluzentes e a luz o fascina.

— Ela é uma menina linda. — Irene encostou-se confortavelmente na poltrona, apoiando os pés num pufe. — Sheila também era adorável. Bridie se parece com ela, mas tem o rosto mais fino. A beleza de Sheila não iria passar dos quarenta, a de Bridie vai.

— Ela deve sentir tanta falta da mãe. Uma menina dessa idade precisa de uma mãe. — Peggy também havia perdido a mãe. Era ainda mais nova, contudo tinha as irmãs e sua tia Deirdre para consolá-la. Mesmo assim, havia um vazio pela falta de Kathleen Donaghue que nunca passou.

— Tenho a impressão que ela virá ao chalé Tierney com mais freqüência, agora que você está aqui. Ela se deu bem com você.

— E com Banjax — acrescentou Peggy. O cão havia se acomodado tão bem no galpão, que parecia ter morado ali a vida toda. Irene foi até lá fora para supervisionar suas instalações, arriscando até um afago na cabeça ossuda.

— Uma menina também precisa de um pai — disse Irene.

— Bridie disse que o Finn estava trabalhando em Louisburgh hoje?

— Construção. Não quer mais nada com a medicina. Trabalha duro construindo casas e quase nem vê a filha.

A situação de Bridie era bem familiar. Peggy também havia crescido sem a presença de um pai.

Irene puxou uma manta de tricô, cobrindo os pés e o colo, como se pretendesse permanecer ali por um bom tempo.

— Eu precisei muito de meu pai. Senti sua falta todos os dias de minha vida.

Desde que Peggy havia chegado, elas quase não falaram sobre Liam Tierney, nem de sua morte, em Cleveland. Este havia sido o motivo do primeiro contato de Irene com as irmãs Donaghue, e Peggy fornecera muito pouca informação.

— Gostaria de ter tido tempo para me aprofundar na pesquisa dos arquivos da cidade — disse Peggy. — Às vezes as informações que eles têm também são limitadas demais.

— Eu cresci desejando saber mais a respeito dele. Essa necessidade parece não ir embora. E me preocupo em morrer sem que este mistério seja desvendado. Isso me atormenta e não sei por que motivo.

— Me diga o que fazer — sugeriu Peggy. — Megan e Casey prometeram continuar a pesquisa. Temos a noite toda, se você não estiver muito cansada. Comece do início e me conte tudo. Talvez possa se lembrar de algo que facilite o trabalho delas.

— Eu era muito jovem.

— Então me fale o que sua mãe lhe contou. — Irene suspirou, contente.

— Uma xícara de chá cairia bem, não acha? Já que vou contar a história.

Peggy levantou-se.

— Vou fazer. Coloque seus pensamentos em ordem.

— Farei isso. — Irene fechou os olhos. — É uma história feliz, pelo menos no começo. Não será difícil contá-la.

 

             1923, Castelbar, Condado de Mayo

Meu querido Patrick, Como sempre, penso em você, meu único irmão, tão longe da Irlanda, e entristeço por sua partida para Ohio, que parece ter sido ontem, e não há uma eternidade. Cleveland agora é sua terra, mais que do a Irlanda foi um dia, e Sta. Brígida ainda mora em seu coração, mesmo após se aposentar e por fim se ordenar padre. Mas ainda bem que sua consciência permanece aguçada, assim como sua percepção astuta. Somos afortunados, eu e você, por ainda possuirmos juízo perfeito e por estarmos separados apenas por um oceano, e não pela morte.

Quão diferentes são as formas como vemos o nosso povo. A sua, numa das pontas de nossa tragédia nacional, e a minha, na outra. A sua, quando o imigrante desce do navio ou do trem, adentrando o universo das fábricas a pleno vapor e dos barracos construídos às pressas. A minha, quando o emigrante deixa para trás sua terra pobre e improdutiva, levando as preces no coração e a esperança nos olhos.

Dizem que vivemos numa nova Irlanda. Por enquanto ainda não a vi. No ano passado assassinaram Big Fellow. Foi uma perda terrível para todos aqueles que acreditam que nosso melhor destino depende de nossa palavra. Nós irlandeses, ainda lutamos uns com os outros, como fazíamos com os invasores britânicos. Aqueles que sobreviveram aos horrores de Galípoli caíram nas ruas de Dublin, e a sabotagem, as execuções e outras atrocidades tornaram-se figuras meramente simbólicas, como nossa velha e honrada cultura, nossos arco-íris e igrejas.

Em suas cartas você conta histórias de um novo sangue irlandês, que surge em Cleveland, de homens com sobrenome Ourkan e Doyle, Heneghan e Lavelle, nomes familiares como o meu próprio. Embora não os conheça, lamento profundamente por estes homens, pela necessidade de partir de sua terra natal e encontrar surpresas indesejáveis, no destino tão distante.

Ah, querido Patrick, lembro-me muito bem de suas cartas, falando sobre um lugar chamado Whiskey Island, e dos horrores vividos por homens que só conheciam os esplendores verdejantes da Irlanda. É provável que as coisas tenham melhorado, mas Cleveland jamais será a Irlanda, não é mesmo?

Aqui as oportunidades continuam escassas, principalmente para aqueles que se aliaram aos republicanos. Algumas feridas jamais cicatrizam. Para eles, talvez seja melhor que sigam mesmo rumo à costa distante da América, ou talvez não. O que seria de nossa amada Irlanda, sem seus filhos fortes e corajosos?

                       De sua irmã aflita, Maura McSweeney.

 

                                   Capítulo 9

Já no colo do pai, Liam Tiemey aprendeu que não deveria esperar nada da vida. No colo da mãe, soube que não era merecedor de amor. Para sua sorte, Liam conheceu Brenna Duffy quando ainda era jovem o bastante para duvidar dessas coisas.

Lorcan Tieraey, pai de Liam, era um homem duro, mas o fato de ter tido um filho em idade madura o suavizou. Ele provia apenas o necessário, sem esboçar sorrisos e não exigia de si nada além disso.

Walton Gaol, uma prisão em Liverpool, fez com que Lorcan se tornasse o homem que era. Ainda menino, deixou para trás a sua família em Shanmullin para fazer fortuna na Inglaterra, mas, apenas um mês depois, a fome devastadora o levou a roubar um pedaço de carne e ser delatado por testemunhas, que aniquilaram suas esperanças. Profundamente envergonhado, não contou a ninguém o que havia feito, nem onde estava.

Anos mais tarde, ao ser libertado, regressou à Irlanda e soube que quase todos de sua família já haviam morrido. Não lhe restara mais nada, com exceção do solo rochoso e improdutivo, e o chalé abandonado, caindo aos pedaços, de onde havia partido jovem e cheio de esperança.

A mãe de Liam era uma solteirona doente e soturna, até aceitar a proposta de casamento de Lorcan, quando o irmão dela deixou claro que não teria onde morar, caso recusasse o pedido.

Ela deu à luz Liam, seu único filho, com muita dor e pouca alegria. Se Lorcan não interviesse, ela teria deixado o filho recém-nascido na soleira da paróquia, naquela noite.

Doze anos depois, com a morte de Lorcan, ela cumpriu a ameaça anterior e abandonou o adolescente Liam na porta da igreja, partindo na mesma noite para nunca mais ser vista. Um padre consciencioso da paróquia de Castelbar enviou Liam para o sul, onde acabou de ser criado sob a tutela rigorosa dos Irmãos Cristãos. Muito pouco do que aprendeu no orfanato serviu-lhe na vida.

Meninos solitários e revoltados fazem amizade entre si. Meninos solitários e revoltados procuram consolo através de suas ações, da violência, em causas que possam preencher o vazio dentro deles. Ao deixar o orfanato, com dezesseis anos, Liam Tierney só encontrou amigos assim, e causas assim também, vividas durante revoluções políticas de sua época. A milagrosa visão de Brenna, um anjo ruivo de olhos azuis, órfã e vinda de um orfanato como ele, foi sua salvação.

Liam e Brenna seguiriam rumo a Cleveland para tentar uma nova vida, um novo começo, um novo lar para sua querida filha, ainda bebê. Brenna batizou a filha ruivinha com o nome de Irene. Não era um nome irlandês, porque na época em que Irene nasceu, Brenna tinha muita esperança de que um dia os Tierneys deixassem de ser irlandeses.

— Irishtown Bend? — Brenna olhava a casinha na colina, de telhado inclinado para um dos lados e vista para o lugar que o povo local chamava de Whiskey Island. — Liam, será que viajamos toda essa distância, deixamos tudo para trás, para viver num lugar chamado Irishtown Bend?

Era tão raro que Brenna criticasse algo, que Liam sentiu uma pontada na boca do estômago.

— Eu já havia percebido a ironia do destino — disse ele. — Mas não precisamos morar aqui para sempre. É um lugar onde podemos começar e não parece tão ruim. Não acha melhor estarmos perto de gente que entendemos? Gente como nós? Tantos outros vieram de Mayo. É bem provável que eu encontre gente que conhecia de lá.

— Era exatamente o que eu não esperava que acontecesse. — Liam queria o mundo para Brenna e Irene. Daria o mundo a elas, mas, infelizmente, não poderia ser agora. E ela, obviamente, não estava pedindo isso. Queria apenas se libertar das preocupações de um passado que assombrava suas noites. Assim como o passado dele.

— Acho que a casa tem charme. — Liam ergueu a cabeça imponente e olhou para a construção. A casa era estreita e alta. Na frente havia uma varanda que ia de um lado ao outro, aparentando prestes a desmoronar. Ao olhar o chão da varanda de perto, percebeu que um peso mínimo, como o de Irene, já faria a sacada vir abaixo.

Brenna segurava a filha com firmeza. Na maior parte do tempo Irene não se deixava carregar. Era uma criança cheia de vida e só ficava contente quando estava em movimento. Mas a longa viagem, as noites em Boston, outras no hotel que acolhia os imigrantes em West Side, tiraram seu bom humor. Ela esfregava os olhinhos e afastava os cachos que caíam em seu rosto, zangada.

Sua filha. Seu grande motivo para ter vindo até aqui.

— Pode até ter algum charme — disse Brenna. — Mas creio que também tenha ratos e insetos, e no inverno, terá gelo no lado de dentro.

— Até o inverno já estaremos morando em outro lugar, mais no alto da colina, talvez totalmente afastado dos irlandeses. — Ele hesitou. — A não ser que encontremos alguém da família.

Brenna parecia tão exausta quanto a filha e aquela possibilidade não lhe agradou.

— Há pouca chance disso acontecer, Liam. Não tenha tanta esperança.

Liam não precisava daquele aviso. Ele não tinha tantas esperanças, aliás, não tinha certeza em que deveria ter esperanças. Um certo dia, num raro momento de diálogo, seu pai lhe contara a respeito da vinda dos tios para América. Eram irmãos verdadeiros do próprio Lorcan. Darrin e Terence. Ambos teriam morrido jovens e pobres.

Quando Lorcan chegou de Liverpool, todos os integrantes da família Tierney já haviam morrido ou deixado Shanmullim. O mesmo aconteceu com quase todos os moradores da aldeia que o conheciam quando menino. Até o padre havia se mudado para a América, mas um vizinho recordava-se de que Terence havia se casado, e talvez sua esposa ainda estivesse viva. Talvez tivesse tido um filho dele em Cleveland, onde ela e Terence tinham ido morar.

Liam sabia muito pouco do passado de sua família e não se importava tanto. A família havia falhado com ele de forma cruel. Que razão teria, para achar que algo seria diferente? Ele havia constituído sua própria família ao casar-se com Brenna Duffy e agora era pai de Irene. Se os Tierneys estivessem aqui, ele os observaria cuidadosamente, antes de revelar sua identidade.

Agora só queria fazer o melhor, dentro de suas possibilidades, para alegrar a esposa.

— Cuidado com a escada — avisou Liam. — É melhor me dar Irene. Conheço os obstáculos.

Ele pegou a garotinha nos braços, que se agitava em seu colo, enquanto subia os degraus. Viu um buraco enorme e empurrou a porta, que se abriu. A casa era escura por dentro, mas surpreendentemente limpa. Os antigos moradores eram pobres demais para reformas e orgulhosos demais para sujeira. Apenas uma poeira fina repousava sobre a mesa de madeira, encostada num dos cantos, com uma cadeira ao lado. As janelas eram poucas, mas deixavam o sol entrar.

— Pessoas boas moraram aqui. — Foi o máximo que pôde dizer, já que não havia atributos a acrescentar. Era apertada e escura, e as placas mofadas do chão da varanda pareciam ter se proliferado do lado de dentro. Até aquele momento, não havia visto o interior. Aquela casa era tudo que podia pagar e as condições em que se encontrava nem chegaram a virar discussão. Tinha chão, teto, um lugar para cozinhar e outro para dormir. Até que arranjasse trabalho, era tudo que podia querer.

Liam não olhava para Brenna. Não queria ver o pavor em seu rosto. Ele a trouxera para cá, distante de tudo que conhecia. Mas era bem verdade, que assim como ele, ela também não tinha nenhuma família na Irlanda. O orfanato, para o qual a levaram ao nascer, era um lugar cruel e suas lembranças da Irlanda eram muito tristes. Mas havia se casado com ele para melhorar de vida. E isto não era melhoria alguma.

— Veja, Liam, como o sol entra por essa janela.

Ela caminhava atenta pelo quarto e espiava o lado de fora, admirando a paisagem da colina que descia até o oceano, e a fumaça que saía das chaminés de Whiskey Island.

A luz do sol atravessava o vidro velho da janela, desenhando figuras na parede. Ele ficou satisfeito por ela ter reparado naquilo.

— E é tudo nosso — disse ela, virando-se para ele.

— Não é muito...

— Por toda a minha vida morei num quarto com mais vinte garotas, às vezes mais. Sempre desejei um lugar como esse, onde pudesse andar sem tropeçar nos outros.

Ele sabia o que ela estava fazendo. Sabia o quanto aquele imenso otimismo estaria lhe custando. Amava-lhe ainda mais por isso.

— Aqui também terá que se mover com cautela, se não, irá parar lá embaixo, no chão.

— Mas será o nosso chão, não é? Sem caridades. Sem ninguém para nos lembrar que não fizemos por merecer, que temos sorte em tê-lo. Nenhuma freira para nos bater se não formos gratos o suficiente. Sim, é modesto, Liam. Mas me perdoe pelo que eu disse antes. Se houver ratos, serão nossos ratinhos, não é? E se cair gelo aqui dentro, ele irá tampar algum buraquinho, e seremos gratos por isso.

— Vou arranjar um emprego. Sei que há trabalho aqui. Muito trabalho. Ouvi isso de todos os homens que encontrei por aí. Não ficaremos nesta casa por muito tempo. Vou remendar o piso. Há bastante madeira ao redor do lago. Já me disseram isso também. Vou consertar tudo, este será nosso lar, até que possamos conseguir algo melhor.

— Nunca esperei ter tanto. Tenho você e nossa amada Irene, e agora temos nossa nova terra, longe das lembranças tristes. Vamos começar de novo aqui. Nós três.

Irene saiu correndo até a janela onde estava sua mãe. Brenna pegou a filha no colo.

— Fumaça — disse Irene, apontando para o pé da colina.

— Sinal de progresso — disse Brenna. — Sinal de coisas boas que estão por vir.

Liam seguiu atrás da filha. Brenna esticou um dos braços, convidando-o a entrar no abraço das duas. Os únicos momentos de felicidade que já vivera foram por causa dessa mulher. Sentia o calor de seu peito de encontro ao dele, sentia o perfume de seus cabelos. Liam Tierney enlaçou as duas únicas pessoas do mundo que amara na vida e agradeceu por essa bênção.

 

                                     Capítulo 1 0

Megan encostou o carro no estacionamento do bar. Dirigia o Mazda vermelho de Casey e desligou a chave na ignição. Em vez de abrir a porta, ficou ali, imóvel. As mãos agarradas ao volante, o pé ainda no pedal do freio. Ela fechou os olhos e se lembrou de respirar.

Quando reabriu os olhos, nada havia mudado. Durante aqueles segundos nenhuma fada madrinha apareceu para consertar o estrago com uma varinha de condão, transformando o pub anglo-irlandês num lugar novinho em folha, já em pleno funcionamento.

O Whiskey Island Saloon seria um trabalho lento e contínuo, que se estenderia por semanas, talvez meses, e Megan teria que aceitar o fato. A vida à qual estava acostumada jamais seria a mesma.

A porta do motorista se abriu. Espantada, ela olhou para cima e viu que a irmã a olhava.

— Você gosta tanto do meu carro que não quer mais devolver?

— Como é que soube que eu iria voltar hoje? — Megan olhava para Casey — É telepatia de irmã?

— Nick ligou para Jon e contou o que aconteceu. Eu lhe trouxe o Caridade e vim buscar o Mazda.

0 telefonema de Niccolo para Jon não havia surpreendido Megan. Ele já estava agindo como marido, embora estivessem casados há apenas duas semanas. Tinha assumido o personagem. Como fez Olivier no papel de Hamlet.

— É uma longa estirada para dirigir sem companhia. — Casey estendeu-lhe a mão. — Ele ficou triste por você ter vindo sozinha. Não foi a melhor maneira de acabar a lua-de-mel, não é?

Megan saiu do carro de Casey com dificuldade.

— Não é culpa de ninguém.

— Jon falou que a mãe de Niccolo teve um ataque do coração? Ela está no Hospital Mercy, em Pittsburgh?

— Dores no peito. Eles a internaram ontem à tarde para fazer exames. Eu ainda não soube dos resultados, mas Nick achou que deveria ir. Ele pegou um vôo ontem à noite. Já era muito tarde para dirigir até aqui, então fiquei lá sozinha até hoje de manhã.

— Vocês passaram o quê: quatro noites juntos? Não foi uma lua-de-mel e tanto.

Pelo menos foram noites alegres. O lago, os vinhos maravilhosos escolhidos por Niccolo, jantares especiais que prepararam juntos, caminhadas ao luar, os animais na floresta, perto da cabana onde estavam. A cama grande e macia, King-size.

— Foi uma pena, mas não havia o que fazer — comentou Megan. — Marco disse que não fizesse a viagem até lá, mas você o conhece. Se não tem como ajudar, deixa de existir. E ela é mãe dele.

— Você merecia mais tempo. Entre o furacão, o levantamento de custos, os corretores de seguros, e agora isso...

— Já tivemos sorte de passar pelo menos algum tempo juntos. Com as reformas aqui e o trabalho de Nick na Tijolo, vai demorar muito até que possamos viajar novamente.

— Nem fale uma coisa dessas. Vocês precisam arranjar tempo um para o outro.

Megan seguiu em direção à porta da cozinha. A árvore já não estava mais ali, nem o Honda Civic de Niccolo. O primeiro carro zero quilômetro que conseguira comprar agora era um cubo prateado de metal prensado, num ferro-velho de Cleveland. Até o corretor de seguros do carro, que pretendia autorizar somente um cheque para o conserto, ficou ofegante ao ver o que havia restado e deu perda total.

— E o cara da reforma? Aposto que não ficou muito tempo por aqui — disse Megan. Ela havia fechado o negócio da obra antes de ir viajar, com um homem de Westlake. Casey se ofereceu para inspecionar as visitas que ele iria fazer antes da volta de Megan. — Com toda essa chuva e tudo o mais, aposto que ele mal apareceu por aqui.

Entraram pela cozinha. Estava totalmente vazia, como o restante da casa. Antes da breve lua-de-mel em Michigan, Megan contratou uma empresa de mudanças para retirar tudo que não estivesse danificado e levar para um depósito, enquanto começasse a reforma. A fachada do prédio havia sido desimpedida, mas apenas o suficiente para que os destroços da demolição fossem retirados e portas novas instaladas.

— Megan, e sobre o construtor? — Casey seguiu atrás da irmã entrando no salão. — Era sobre isso que queria falar com você.

Megan abanou a mão, como se quisesse abafar o cheiro do repolho no fogo.

— Olha, eu sei que ele não é nenhuma doçura para se lidar. Tem as boas maneiras de um buldogue, mas suas referências são boas. E foi o único que chegou próximo do que a companhia de seguros pretende nos reembolsar. Mesmo assim, vamos ter que completar com alguns milhares de dólares para ter o necessário. A intenção de ampliar e melhorar as instalações desceu pelo ralo.

— Ele nem chegou a dar um orçamento por escrito, não é? — Megan franziu a testa, olhando para Casey.

— Ele disse que mandaria para a casa de Nick... nossa casa. Deve estar lá. Por quê?

— Acho que não.

— O que quer dizer com isso, Casey?

— Ele me ligou anteontem. Disse que refez as contas antes de colocar tudo no papel. Estava muito fora do preço, Megan. Agora ele disse que não tem como fazer o que prometeu. O orçamento novo fica em linha com o dos outros, muito mais caro.

— Ele não pode fazer isso! — Megan sentiu uma onda de ódio que começava nos dedos dos pés. — Já me passou um valor!

— Mas não um valor que você possa fazê-lo manter. Ele estava com a metragem errada, e o preço da madeira subiu na semana passada. Disse que a única maneira de cumprir o prometido, seria fazendo um trabalho de "segunda", e isso você não vai querer. — Megan sentiu-se como se tivesse levado um soco. Ela devia ter desconfiado que era bom demais para ser verdade.

— Tínhamos que ter um seguro maior. Eu sabia. Simplesmente não fiz nada a respeito disso quando podia.

— Eu e Jon vamos ajudar, Megan. Você sabe que vamos. E os outros vão contribuir.

— Que outros?

— A família. As ofertas estão chegando de todo lado. Todos irão ajudar a erguer novamente o salão e colocá-lo em funcionamento. Pode ser nosso no papel, mas pertence a todos os Donaghues. Todas as lembranças e ligações com o passado.

Megan raramente chorava. Agora sua garganta estava apertada. Ela não queria aceitar ajuda. É claro que o Whiskey Island era um ícone da família, e o clã Donaghue era sua família. Mas nenhum deles tirava seus lucros dali. Durante tantos anos foi ela quem o administrou, para que todos apenas se divertissem. O sistema funcionou perfeitamente, sem reclamações. Os parentes tinham toda liberdade para servir drinques no bar e ajudar na cozinha. Depois iam embora para suas casas, cuidar da vida. O salão era um hobby, um elo da família. Ela não queria que isso mudasse.

— Tio Frank e tia Deirdre vão assumir a conta toda — disse Casey. — Ele já me deu um cheque.

— Rasgue. — Megan engoliu as lágrimas. Não podia chorar. Tinha muito a fazer.

— Ele fez com prazer, você sabe disso.

— Ele é um anjo. Eu o amo. Amo a todos eles. Mas não podemos fazer disso um empreendimento familiar, Casey. É muito perigoso. Muitas cabeças quentes e personalidades fortes opinando. A modernidade entrando em choque com a tradição.

Casey não discutiu. Megan sabia que ela concordava.

— Então quais são as outras alternativas? — perguntou Casey.

A porta da cozinha bateu e as duas se olharam.

— Megan?

Megan não podia acreditar.

— Nick?

— Nick! — Ela ficou tão contente ao vê-lo que esqueceu de tudo. Correu para ele, atirando-se em seus braços, como se não o visse há semanas. — O que aconteceu? Por que voltou tão depressa?

— Crise de ansiedade — disse Nick. — Mas não minha. De minha mãe. Ela não estava lidando com nosso casamento tão bem como todos pensávamos. — Ele a afastou um pouco e deu um sorrisinho. — Tivemos uma conversinha. Eu e ela. Ela já está em franca recuperação.

— Você está brincando!

— Mas passou mal mesmo. Ela não é dada a encenações. Foi apenas uma mudança muito brusca em sua vida pacata. Mas vai superar. Está se sentindo humilhada. Da próxima vez vai morrer de infarto antes de dizer a alguém que está sentindo dores no peito. E vai fazer ioga. Imagine, minha mãe em posição de lótus. Vou querer fotos.

— Pobre mulher — disse Casey. — Na verdade gostei de sua mãe, Nick. Mesmo com o fato de ter passado o tempo todo falando do dia em que você entrou para o sacerdócio.

— Você está bem? — Niccolo perguntou a Megan. — A viagem de volta correu bem?

— Foi solitária. — Ela sorriu para ele, depois caiu na realidade. — Nick, Casey tem más notícias.

— Jon já contou a ele — disse Casey. — Achou melhor avisá-lo.

— Por quê? Para que estivesse preparado para chegar em casa e lidar com sua esposa coitadinha? — Ela disse isso com sorriso mais caprichado que conseguiu exibir, tentando amenizar as palavras. — É bom que vocês dois saibam que vou conseguir resolver isso, nem que eu mesma faça essa maldita reforma. E sou capaz mesmo, se for preciso.

— Não será preciso — disse Niccolo.

— Bom, acho melhor eu ir embora — disse Casey. — Vocês estão convidados para o jantar hoje à noite. Vejo vocês mais tarde. Depois me contem o que...

— Não, quero que ouça isso também — disse Niccolo. Casey esperou.

— Megan, já que minha mãe estava bem, aproveitei a viagem até Pittsburgh para passar algum tempo com Marco.

Era evidente que Niccolo estava voltando a ser aceito no seio da família, e aquilo deixava Megan muito contente. Ela queria que Niccolo fosse feliz.

— Fico contente. — Ela não sabia o que dizer além disso.

— Foi como nos velhos tempos. Mas isso não é o principal. Nós conversamos sobre o salão.

Ela se perguntou se Marco reprovaria o fato de a nova esposa de Niccolo trabalhar num salão de danças. Ele era um homem bem tradicional. Carrie, sua esposa, ficava em casa com as duas crianças e cozinhava. E cozinhava. Só Megan gostaria de poder contratá-la.

— Marco tem habilidades de empreiteiro, coisa que eu não tenho — Niccolo prosseguiu. — Eu jamais seria capaz de tocar sozinho uma obra como esta, principalmente se executarmos o projeto de ampliação com as mudanças que pretendemos.

Megan sentiu a mente em câmera lenta. Tinha medo de deixar seus pensamentos evoluírem e estar errada.

— Mas o Marco pode fazer esse trabalho com o pé nas costas. O problema é que terá que pagar uma equipe, e mesmo que trouxesse uma de lá, e os mantivesse hospedados de graça, só com os custos trabalhistas e o material necessário para a obra, estaríamos novamente fora de nossas possibilidades.

— De qualquer forma, acho que ele não teria como trazer essa equipe para cá — disse Megan. — Por que iriam querer vir para Cleveland?

— Não, mas se eu e o Marco fizermos o trabalho com os garotos da Tijolo, e a ajuda de alguns profissionais, talvez ocasionalmente, acho que dá para fazer com o dinheiro que o seguro vai liberar, Megan. Fizemos e refizemos as contas ontem à noite. Pedi ao Jon que me enviasse por fax os orçamentos que já havíamos recebido e o planejamento que fiz, incluindo as mudanças que quer. É possível fazer.

— Mas por que o Marco viria para fazer isso? Ele tem um negócio para administrar. Pode ficar afastado tanto tempo?

— Ele pode ir para casa sempre que quiser. Enquanto isso, agora ouça: Carrie vai cuidar dos negócios.

Megan olhou para ele.

— Carrie? A moça do fabuloso molho pesto com salsinha? Aquela, do ravióli feito com tomate seco?

— Ela atende o telefone, cuida das contas, faz ligações, pedidos de material. Já faz isso há anos. Já até supervisionou uma ou outra equipe, quando Marco ficou doente. Ele disse que ela é perfeitamente capaz. E pode ficar indo e voltando. Não é uma distância tão longa para dirigir. Ele pode passar uns dois dias aqui, e outros por lá.

— Mas por quê? — Niccolo sorriu.

— Porque ele é meu irmão.

Megan não podia acreditar em tanta sorte. Mas Casey podia. Ela veio até eles e os abraçou.

— Essa foi demais! Agora pode fazer tudo que queria, Megan. Uma cozinha maior, um espaço redesenhado atrás do bar. E se tiver que aceitar dinheiro da família, vai ser pouca coisa.

— Talvez eu pegue emprestado — disse Megan. — Posso pagá-los com juros. — Com essa maré de sorte, limpar a conta deles parecia ser o mínimo a fazer.

— Então, negócio fechado? — perguntou ele.

— Claro que sim! — Ela o abraçou. Depois abraçou Casey. — Agradeço tanto por vocês encontrarem essa solução. Não posso acreditar!

— Vamos trabalhar mais devagar do que profissionais — avisou Niccolo. — Não vai ficar pronto da noite para o dia.

— Não me importo. Apenas faça. Vou ajudar. Sou boa nessas coisas.

— Você é. — Ele pegou nos cabelos dela. — É boa em tudo que faz.

Casey se afastou.

— Isso é ternura demais para mim. Pessoal, desde que vocês viram a Virgem no túnel, isso aqui parece um episódio de "Tocado por um Anjo".

— Há duas outras pessoas que querem ver a Virgem — disse Niccolo. — Marco é uma. Como se sentiria se eu o levasse até o túnel, Megan?

Ela estava bem demais para se preocupar com algo tão inconseqüente. Aliás, sentia-se tão grata a Marco, que seria capaz de raspar a imagem da parede e dá-la a ele, de presente de Natal.

— Quanto mais, melhor. — O sorriso dela era tão largo que ameaçava distender suas bochechas. — Estou começando a acreditar em milagres. Acenda as velas e o incenso, faça novenas. Faça como quiser.

— Vou para casa antes que comecem a cantar os hinos gregorianos — disse Casey. — O convite está de pé. Venham jantar hoje à noite.

Niccolo olhou para Megan. Megan olhou para Niccolo. Casey olhou para os dois.

— Talvez outro dia — disse Casey.— Conheço essa cara.

— Obrigada. Você pode ficar com Rooney mais uma noite?

— Sem problemas. E Josh pode segurar as pontas na sua casa. Vocês vão para que hotel?

— Isso não é da sua conta.

 

                                           Capítulo 11

Dridie tinha uma necessidade insaciável de se relacionar com as pessoas e Kieran, o forte impulso de mantê-las distantes. No entanto, as duas crianças ficaram fascinadas uma pela outra. Ela era uma menina inteligente, com uma grande capacidade para resolver problemas, e bem adiantada para sua idade. Encarava os desejos e as necessidades de Kieran como um quebra-cabeça a ser resolvido, mas no fim, o resultado agradava a todos. Ela não tinha arroubos e nunca pedia mais do que ele pudesse dar. Parecia não precisar de abraços e beijos. Quando ele gritava "oi!" em sua direção, ela ouvia como se fosse um dever. Quando se atirava no chão em crise, ela levantava ligeiramente os ombros, como se dissesse "eu avisei que eleja estava chegando ao limite".

Bridie agora era uma visitante quase diária, e Peggy passou a ser dependente do bom senso e da perspicácia daquela menina de onze anos, além de apreciar sua ajuda.

— Vermelho. — Bridie pegou um suéter e soltou sobre a pequena mesa, onde Kieran estava sentado, na "sala de aula" que Peggy havia montado para ele. Pegou um chinelinho vermelho que havia trazido de casa e pôs também em cima da mesa. — Vermelho. — O terceiro objeto, uma maçã linda e reluzente, veio em seguida dos outros dois. — Vermelho.

Kieran demonstrava o desinteresse de sempre, em pé, andando ao redor da mesa. Peggy o conduziu carinhosamente de volta à sua cadeirinha. Quando ele se sentou, obedecendo às suas instruções, deu-lhe um biscoito em formato de peixe.

No meio tempo, Bridie havia limpado a mesa. Desta vez colocou um lápis de cera vermelho.

— Mostre o "vermelho" — disse ela. — Onde está o vermelho, Kieran?

Peggy não a corrigiu. Bridie deveria utilizar menos palavras e não repetir o comando com termos diferentes, mas mesmo assim Kieran parecia estar prestando atenção.

Ele permaneceu sentado, como Peggy o havia instruído a fazer. Esse havia sido o maior progresso de um dia, como houvera poucos.

Ele franziu a testa, mas não como se pretendesse se atirar no chão. Deu uma olhada para o lápis, olhou para Bridie, depois passou a mão bruscamente na mesa, varrendo o lápis para o chão. Peggy observou Bridie pegá-lo e colocá-lo de volta.

— Mostre o vermelho — Bridie demonstrava. — Mostre o vermelho.

Ele levantou e se afastou até o canto, para ficar olhando o abajur. Quando Bridie se levantou para ir atrás dele, Peggy pousou a mão no braço da menina.

— Ele está trabalhando duro. Vamos lhe dar alguns minutos sozinho.

Bridie sentou-se novamente.

— Ele conhece o vermelho.

Peggy se perguntava como ela teria chegado àquela conclusão, mas achou melhor nem perguntar. Bridie tinha uma ligação com seu filho e Peggy não faria nada que pudesse enfraquecer este elo.

— Você não me contou da escola — disse Peggy. — Como foi?

— Chato. — Exceto à maneira cantada de falar, ela soava como qualquer menina de Cleveland ao responder à mesma pergunta.

— Você entregou o resumo do livro?

— Entreguei, mas ninguém gostou. Sarah McElroy disse que me alonguei demais e que esse foi o livro mais bobo de que já tinha ouvido falar.

Peggy ficou indignada.

— Atine of Green Gables foi um dos meus livros preferidos. Sarah é quem está por fora.

— Ela escreveu sobre um livro que li três anos atrás. Achei bobo naquela época e agora acho mais ainda.

— Você gosta de ler, não gosta?

— Nosso apartamento é bem calmo à noite.

Ela disse aquilo como se fosse uma coisa boa, mas Peggy já podia perceber mais. Com sua maneira espontânea e ingênua de falar, ela já tinha dado pistas de como seria a vida com Finn. Após a morte da mãe e dos irmãos, Finn vendeu a casa e se mudou com a filha para um pequeno sobrado na aldeia, em cima da galeria de artesanato. Ele trabalhava muitas horas e o proprietário controlava os horários de Bridie para ele, mas a menina ficava muito sozinha. Peggy desconfiava que mesmo quando Finn estava em casa ela se sentia só.

— Você vai ao Fleadh Ceoil, nesse fim de semana? — perguntou Bridie.

O Fleadh Ceoil era um festival tradicional de música de Shanmullin, que acontecia todos os anos, ao ar livre. Peggy esteve aguardando pelo evento desde que chegara.

A aldeia já promovia o festival há uma década, como uma maneira de atrair turistas. A música e a dança eram autênticas, e a diversão parecia contagiante.

— Nora virá nos buscar. — Peggy sabia que Irene também estava empolgada, e Finn lhe dera permissão. — Você vai?

— A minha escola vai cantar. — Ela murmurou algumas notas, que Peggy não identificou. — Meu pai também canta.

Aquilo deixou Peggy estarrecida, mas tudo que descobria sobre Finn O'Malley a espantava. No entanto, nada a surpreendia mais do que o profundo respeito e admiração que o povo de Shanmullin ainda parecia sentir por ele, mesmo com sua decisão de abandonar a medicina. Ele os havia deixado restritos a apenas um médico, um jovem pretensioso que atendia em diversos vilarejos e em Westport. As longas filas de espera não significavam que as pessoas de fato gostassem dele. Pareciam cultivar uma grande consideração por Finn.

Quando Peggy via Finn com Irene, reconhecia a razão de tanta estima. Ele era uma pessoa diferente com a velha senhora. Diferente do que era com ela, ou com a própria filha. Ela achava que naqueles momentos, talvez estivesse vendo o homem que ele havia sido um dia. Terno, atencioso, o bom ouvinte que trazia a cura. Era tudo que um médico deveria ser e tudo ela um dia desejou para si.

Kieran quis dispersar, mas Peggy lhe disse para ficar sentado. Ele obedeceu e ela lhe deu outro biscoito.

— Mostre o vermelho — disse Bridie.

Ele franziu o rostinho, mas não chorou. Fez pirraça, projetando o lábio inferior para a frente, e olhou na direção dela. Por um instante, pareceu que iria encarar os olhos dela, mas, em vez disso, olhou para a mesa, abaixo.

— Não!

Peggy endireitou-se na cadeira.

— O que você disse? — perguntou. — Kieran, o que você disse?

— Não! — Ele ficou em pé e se afastou de novo. Peggy riu.

— Por que acha isso engraçado? — Bridie parecia realmente intrigada.

Peggy foi em direção a ela, abraçou-a com muito entusiasmo.

— Porque sou a única mãe no mundo inteiro que está feliz por seu filho ter chegado à terrível idade de dois anos!

Bridie continuou intrigada.

— Ele falou "não" — disse Peggy. — Nunca havia falado antes, Bridie. Não dessa forma. Ele sabe o que está dizendo.

— Bem, acho que você vai lamentar por ele ter aprendido — replicou Bridie, com sabedoria. — Antes mesmo do que pensa.

Peggy estava explodindo de felicidade. Na sua opinião, aquelas semanas de trabalho com o filho começavam a dar resultado. Depois daquele "desabrochar", Kieran acomodou-se num canto, onde uma pilha enorme de cubos o aguardava.

Bridie foi sentar-se a seu lado e montou uma pilha ainda mais alta, que ele derrubou, repetindo isso várias vezes seguidas, esperando pacientemente a cada vez, até que ela terminasse.

— Nem todo mundo iria ver isso como progresso — Peggy contou a Irene, durante o jantar. — Tenho consciência disto. Mas a cada vez ele esperava até que ela terminasse. Eles estavam brincando juntos.

— Pelo que você conta, é o que parece mesmo — concordou Irene. — Quem sabe, em breve, ele é quem irá construir a torre para que ela a derrube?

— Fiz com que ele virasse uma página — disse Bridie. Peggy tinha dúvidas quanto a isso, pois talvez ele não tivesse feito isso intencionalmente. Ela receava que o ato de passar as folhas significasse mais uma irritação do que qualquer outra coisa. O milagre verdadeiro era o fato de ele permitir que Bridie já estivesse tão próxima, a ponto de acontecerem coisas assim. Ele ficava sentado ao seu lado quando ela lia para ele e mesmo aparentando não estar prestando atenção, Peggy não tinha certeza. Mas estavam interagindo. E Bridie não era a única que estava tendo sorte com ele.

— Ele me deixou pegá-lo hoje, quando caiu — disse Peggy.

— Você não faz isso sempre? — Irene pousou o garfo no prato. Ela havia comido um pingo de purê de batatas e metade de uma costeletinha de carneiro. Peggy torceu para que estivesse apenas descansando.

— Bem, geralmente quando o apanho ele está retraído como chumbo. Hoje se inclinou para os meus braços. — Ela quase sentia vergonha por ter tanto prazer com aquilo. Mas sabia que não deveria criar expectativas quanto a uma intimidade maior. Talvez Kieran jamais fosse ser capaz disso. Mas foi tão bom sentir que, naquele breve instante, ele precisou dela. A fez sentir-se querida.

— Então creio que isso exige uma comemoração — disse Irene.

Peggy espiou o filho. Kieran estava caindo de cansaço. Ele sempre necessitou de muito sono. Agora que ela estava trabalhando tanto com ele, parecia necessitar ainda mais.

Bridie também notou.

— O garotão está quase mergulhando no prato.

— Vou colocá-lo na cama, depois podemos comer a sobremesa — disse Peggy.

Nora fizera uma torta naquela tarde, e havia frutas frescas para acompanhar. Bridie iria dormir lá, pois Finn tinha um compromisso à noite.

— Acho que você deveria colocá-lo na cama e ir até a cidade — disse Irene. — Com ele tão cansado e Bridie aqui, creio que possamos dar conta sem você, querida. Você poderia aproveitar um tempo livre agora à noite, só para você. O que diz disso?

Peggy não sabia o que dizer. Para falar a verdade, a paz que tinha no chalé Tierney era bem melhor do que o ritmo de vida intenso que levava em Ohio. No entanto, a vida aqui era bem limitada quanto à diversão. Irene tinha antena parabólica, mas com exceção a "Plantão Médico" e dois seriados da BBC, Peggy achava poucos programas interessantes. Ela já havia lido todos os livros que trouxera, depois encomendou mais e os leu também. Talvez estivesse de fato precisando sair uma noite.

Peggy olhou para Bridie, que já estava na segunda costeleta. Não imaginava deixá-la ali, com quase nada para fazer.

— Pensei que poderíamos brincar de charadas — disse Peggy, achando que Bridie iria gostar.

— Ah, eu tenho dever de casa — disse Bridie. — Não posso fazer muita companhia.

Peggy sentiu que havia uma conspiração. Bridie tinha o fim de semana inteiro para fazer seu dever.

— O que posso fazer na cidade? — Irene afastou o prato.

— Bem, ir aos pubs, obviamente. E hoje eles estarão fazendo os preparativos para o Fleadh Ceoil, haverá música por lá. Na realidade o evento começa hoje, mas só para os locais, não para os turistas. Vá e beba uma cerveja ao ar livre, ouça um pouco de música. Conheça algumas pessoas da cidade. Leve aquele cachorro ridículo com você e deixe-o por lá. — Ela piscou para Peggy.

Bridie levantou os olhos da costeleta, indignada.

— Banjax gosta daqui e você gosta dele. Ou vai dizer que não gosta?

— Acho que por enquanto ele está indo bem. Mas preste atenção. Ele não vai mais entrar. Só o deixei vir aqui dentro porque fiquei com medo que chovesse e o vento batesse a porta do galpão.

Peggy pensou no filho, na tentativa de não rir. O céu da tarde estivera tão limpo quanto a água do rio.

— E então? Vai dar uma volta na cidade? — disse Irene, quase ordenando. — É uma oportunidade perfeita.

— Vou. — Peggy levantou-se e colocou o guardanapo ao lado do prato. Foi até Kieran, cujas pálpebras estavam se fechando. Ele de fato quase caiu em cima do purê de batatas. — Vou até lá para dar uma pedalada. Tem certeza que...?

— Ambas temos certeza. Vá em frente. Bridie e eu vamos ter a noite só para nós duas. E beba uma por mim, está bem, querida? Já que não vou poder fazer isso tão cedo.

Finn sabia que havia desapontado — não, essa era uma palavra muito branda —, partido o coração dos cidadãos de Shanmullin quando fechou seu consultório médico. Até mesmo aqueles que tinham preferência por Joe Beck, seu colega arrogante, ficaram aborrecidos, até zangados, quando Finn bateu a porta pela última vez. Com apenas um médico para servir a população local, o tratamento de todos ficou comprometido.

Finn havia feito o possível para reparar o estrago. Falava sobre a situação de Shanmullin em todos os lugares por onde ia, tentava recrutar amigos ou colegas de outros países, pleiteava junto às autoridades municipais e federais, para que preenchessem seu lugar, chegando a oferecer seu equipamento cirúrgico a preços de barganha. Mas ninguém queria ir morar na pequena aldeia do oeste irlandês, situada além das margens de Clew Bay. Ah, sim, era um lugar perfeito para passar férias, com suas paisagens e tradições, uma verdadeira viagem às raízes da Irlanda. Seus amigos relembravam momentos de alegria, em reuniões familiares, passados em lugares como aquele. Agradeciam, mas preferiam seguir rumo a cidades como Galway, ou até Westport, que ofereciam oportunidades melhores.

E Shanmullin continuava com um único médico.

Finn havia decepcionado tanta gente que, a cada ano, quando era convidado a participar do festival Fleadh Ceoil, não podia recusar-se também a isso. Bem que gostaria. Cada vez que ia era torturado pelas lembranças de Sheila, com o pequeno Brian num dos braços e Mark segurando-a pela saia. Ela ficava de longe, assistindo aos músicos no palco, enquanto ele tocava junto com eles. Sheila sabia tocar harpa. Sheila, adorável e celestial, com seus cabelos claríssimos, herdados de algum invasor escandinavo. Algumas vezes o comitê organizador a persuadiu em se apresentar também, e ela silenciou a multidão com suas entoações límpidas e afinadas de soprano.

Sheila, Brian e Mark. Se foram para sempre.

— Você não parece muito bem, Finn — disse Johnny Kerrigan. — Você não está pegando aquele resfriando que anda circulando por aí, está?

Finn via além dos aldeões, que conversavam alegres, com seus netos e bisnetos. Uma fileira de árvores que ficava à margem do gramado era um bom lugar para focalizar. Ele contou as árvores, que iam escurecendo com o sol, caindo no oceano. Por um instante, as lembranças e a dor terrível que traziam, começaram a se abrandar.

— Estou bem. — Finn tirou seu instrumento de sopro do estojo e começou a limpá-lo. — Foi um dia longo, apenas isso.

— Você deveria voltar a receitar comprimidos, sabe? As horas também são longas, mas pelo menos fazia isso aqui mesmo, em Shanmullin.

Finn já estava tão acostumado a observações deste tipo, que apenas ignorou.

— Vai ter bastante gente por aqui esta noite.

— Aumenta a cada ano. — Johnny tirou a sanfona do estojo, dando-lhe uns apertões por precaução. Ela gemeu em reposta. — Parece que tem gente querendo relembrar nossos velhos costumes...

Finn não estava bem certo se para a maioria das pessoas, a tradição era o verdadeiro objetivo do festival. Os habitantes de Shanmullin ficavam gratos por qualquer motivo para festejar.

— A quem se refere?

Finn admirava a reverência na voz de Johnny. Ele estava mais perto de setenta do que sessenta, era careca e tinha a cabeça redonda. Gabava-se de ser um galanteador com as mulheres e havia confidenciado a Finn que estava finalmente à procura de uma esposa, após passar muito tempo sem ter uma.

Finn esperava ver uma viúva idosa, que ainda tivesse um belo corpo e senso de humor, já que Johnny estava determinado a ter ambos. Em vez disso, virou-se e avistou Peggy Donaghue conversando com um grupo de mulheres mais velhas, apenas alguns metros de distância do palco. Os cabelos compridos estavam penteados numa trança e as bochechas tinham um rosado natural. Ela estava vestindo um colete cor de ferrugem, calças jeans pretas e botas esportivas. E mesmo assim, sem recorrer a nenhum artifício, tinha uma beleza arrebatadora.

— O Senhor Nosso Deus realmente dedicou seu tempo fazendo aquela ali, não acha? — disse Johnny. — Depois Ele a mandou diretamente para a Irlanda para nos torturar.

— Não diretamente. Ela é americana. — Johnny assoviou baixinho.

— Vou pôr meu passaporte em ordem. — E virou-se para Finn. — Você a conhece?

— Peggy Donaghue. Ela está hospedada no chalé Tierney. É parente distante de Irene.

— Eles sempre voltam. Os americanos perdidos. Vêm procurar o lar e a família. Também migram para a Polônia e Portugal, não é?

— Acho que Irene a convenceu de vir visitar. Peggy tem sido boa para ela. — Ele se surpreendeu com aquela última frase. Nem havia pensado e saiu espontaneamente. Mas era verdade. Irene estava encantada com Peggy e o menino. Até sua própria filha estava encantada com os dois, e passava bastante tempo com eles na casa de Irene, o que ele consentia.

— Você está de olho nela, não está? — perguntou Johnny. A finalidade natural da pergunta era assegurar que Finn não estivesse interessado. Neste caso, Johnny iria investir. O primeiro impulso de Finn foi a tolice de lembrá-lo que ele tinha uma esposa, quando na verdade não tinha. Sheila já se fora há dois anos e no ano passado, as matronas da aldeia já haviam começado a exibir suas filhas e netas, ignorando o fato de ser o século XXI, e o casamento já ter deixado de ser crucial na vida de um homem.

Ou talvez estivessem se esforçando demais para vê-lo feliz novamente. Ninguém podia saber como eram os seus demônios interiores.

— Bem, talvez a viúva que está visitando Mary Sullivan seja mais o meu estilo — Johnny disse, ao ver que Finn não havia respondido. — Mary diz que gosta de homens mais velhos — concluiu, orgulhoso.

Naquele mesmo momento Peggy olhou em volta e cruzou com o olhar de Finn. Ele achava que ela teria poucas razões para considerá-lo como um amigo. Ela sorriu de leve, mas de forma sincera. Ele duvidou que ela esperasse ser retribuída. Peggy se afastou do grupo, que quase a devorou, e foi em direção ao palco.

— Eu não sabia que você toca um instrumento, Finn. Bridie me disse que também canta.

Ele estava inexplicavelmente envergonhado, como se tocar contrariado tivesse aberto alguma uma passagem secreta dentro dele. Nem sequer questionou porque queria se manter afastado dela. Só sabia que queria.

— Não há muito a fazer por aqui — disse secamente. — Aprendi a tocar quando era menino.

— Adoro música. Não tenho afinação para cantar, mas acho que é minha voz e não meus ouvidos.

Os outros músicos já estavam subindo ao palco. Dois violinistas, dos quais não se lembrava, Matt, com seu acordeom, Sean, com o tambor e Sarah, na flauta. Os músicos de Shanmullin tocavam juntos sempre que podiam, nos pubs, na igreja. Estranhos se aproximavam para tocar com eles e os vizinhos vinham tomar um copo e assistir. A música era tocada dessa forma havia séculos, tendo mudado apenas ligeiramente, mas seguindo as tradições básicas. Havia algumas variações das melodias antigas, mas muito respeito por aqueles que foram os precursores, arriscando algumas, apenas algumas, inovações rumo ao novo século. Não havia necessidade de reinventar o que tinha dado certo por tanto tempo.

Ele ficou imaginando se Peggy poderia entender isso. Ela podia ser irlandesa por herança genética, mas o que saberia sobre essa cultura, que se manteve ferozmente agarrada ao que quase perdeu durante séculos de ocupação?

— Mas que noite linda, não acha? — Ela ergueu a cabeça. — Estou lhe fazendo uma pergunta, seria bom se respondesse.

Ele se deu conta que a estivera encarando. Não da forma como um homem encara uma bela mulher, mas como alguém que está diante do inimigo, esperando que ela, que viera em paz, fosse lhe cravar um punhal no peito.

Ele concordou levemente com a cabeça.

— Uma noite perfeita. Não me diga que veio andando. Eu poderia ter ido buscá-la.

— Vim de bicicleta. Preciso me exercitar. Fico sentada o dia todo com Kieran. Vai ser bom quando tiver pernas mais compridas e aprender a gostar do vento. Ao menos poderemos sair para caminhar.

— Ele tem medo do vento?

— Não é uma criança muito adaptável.

Era uma maneira clássica de falar sem dizer tudo. Ele percebeu como admirava a sua atitude. Ela havia assumido a verdade a respeito do filho e estava fazendo tudo o que podia para ajudá-lo. Não estava muito convencido quanto aos seus métodos — na verdade, não fazia tanta questão de saber —, mas o que sabia, sem ter que perguntar, era que ela tinha um empenho absoluto. Tanto quanto os especialistas e os pesquisadores, ele também não compreendia as causas do autismo, mas sabia que esta criança tinha mais sorte que muitas. Não seria abandonado, nem maltratado. Peggy iria assegurar que tivesse todas as chances do mundo para progredir.

— Não pensei que você soubesse sorrir. — Os olhos dela eram ternos, compassivos.

— Eu não sabia que estava sorrindo — disse ele. — Vou ter que ser mais cuidadoso.

Os violinistas começaram a afinar os instrumentos. Johnny, que havia se misturado com a multidão quando Peggy chegou, voltou para conhecê-la. Finn fez uma rápida apresentação e observou Johnny corar, algo que nunca havia presenciado. Quando Peggy saiu, virou-se para o velho amigo.

— Você nunca esteve tão perto de uma bela mulher, Johnny?

— Nem em um milhão de anos. E ela é muito simpática também. É uma combinação fatal, concorda?

Finn ia encolher os ombros, mas pensou melhor. Há dois anos havia perdido o apetite por uma mulher. Qualquer possibilidade de interesse havia sido extinta instantaneamente, pelas lembranças de seu passado. Mas agora o passado estava diante dele. A visão quase intacta de sua Sheila, em pé, diante do palco, e mesmo assim seu corpo parecia pulsar de tanto querer.

E não era por uma mulher falecida há tempos. Era por aquela, que estava de fato diante do palco, por ela, que havia falado com ele esta noite.

— Fatal — concordou ele.

— A maioria das mulheres que são adoráveis como esta não consegue diferenciar o pé da cabeça. Mas ela não é assim. Aposto que ela tem muito mais. — Johnny ergueu as sobrancelhas e pegou sua sanfona. No instante em que a música começou, Finn pôde deixar para trás todo aquele assunto e Peggy Donaghue.

Peggy nem podia acreditar o quanto estava se divertindo. Ela havia crescido numa família numerosa, foi afagada e mimada por pessoas não muito diferente destas. Do ponto de vista de algumas pessoas, os Donaghues eram superficiais. Americanos com traços irlandeses, que vestiam muito verde e enalteciam excessivamente o dia de São Patrício. Porém a essência de sua família, não era superficial e sim verdadeiramente irlandesa.

Ela se sentia em casa aqui.

— Você está indo para casa, Peggy?

Ela sorriu para uma mulher que havia se apresentado a ela mais cedo. Tippy, que era o apelido para Tipperary. Tinha uma filha da idade de Kieran e as duas confabularam um pouco, falando alegremente de seus bebês. Ela tinha cabelos pretos, olhos escuros e parecia uma gordinha feliz. Peggy havia gostado dela de imediato.

— Acho que devo. — Peggy olhou para o relógio e viu que eram quase dez. Agora o céu estava escuro e, como era o oeste da Irlanda, as nuvens haviam chegado. O caminho de casa era longo.

— Se você ficar mais um pouquinho, talvez consigam persuadir Finn O'Malley a cantar a última música.

Peggy ergueu uma sobrancelha.

— Ele não cantou uma nota sequer. — No entanto, Finn havia tocado flauta quase a noite toda, com grande categoria e entusiasmo. Ela nunca tinha visto alguém tocar tão bem.

— Ele só canta quando é obrigado. É uma pena, já que este é um dom de Deus, não é mesmo? E para ser usado, não guardado.

Peggy desconfiou que os dons de Finn eram muito discutidos por ali.

— Talvez eu fique.

— Estive pensando que poderíamos juntar nossos pequeninos em breve. — Tippy gesticulou para o marido, que estava em pé com um grupo de homens, bebendo com eles. Deu um sorriso para ela, mas não captou a mensagem. Tippy olhou para cima, frustrada.

Peggy não havia contado à nova amiga sobre os problemas de Kieran. Havia chegado a hora.

— Eu gostaria muito, mas você já precisa ficar sabendo que Kieran não será um bom companheiro para brincar com Maeve. Ele é autista.

Ela não tinha certeza se Tippy teria entendido aquele diagnóstico. Peggy havia estudado medicina por um ano e também tinha dificuldade para entender. Mas Tippy franziu a testa.

— É mesmo? E você já se certificou? Mas que garoto de sorte. Por ter uma mãe tão atenta.

— Você parece saber a respeito.

— Fui treinada para dar aulas a alunos especiais. Já trabalhei com crianças como seu Kieran.

Peggy tinha um milhão de perguntas, mas não sabia com certeza se queria ouvir as respostas. Ela não queria saber mais sobre aquilo que poderia estar no caminho de seu filho. As limitações, os bloqueios. Agora não. Não até que precisasse saber.

— Posso levar o Maeve para brincar com ele quando quiser — disse Tippy. — Ou você pode vir a nossa casa. Quanto mais cedo Kieran começar a brincar com outras crianças, melhor para ele, não acha?

Peggy sabia que nessa idade, o termo brincar era relativo, até mesmo para crianças que não eram autistas.

Por um instante teve que segurar as lágrimas. Ela viera de tão longe e encontrou carinho e aceitação.

— Eu adoraria — disse ela. — Obrigada. — Tippy ficou pensativa, depois disse:

— Peggy, eu tenho uma irmã que está se preparando para ir à universidade. Ela quer dar aulas, assim como eu fazia quando tinha sua idade. Se você precisar de auxílio, tenho certeza que ela terá prazer em ajudá-la. Isso irá servir como experiência, pode ajudá-la a decidir se está mesmo no caminho certo.

Peggy concordou com a cabeça, sentindo uma gratidão além das palavras. Tippy apertou-lhe o braço.

— Essa música que estão tocando agora é "The King of the Fairies". É uma das minhas favoritas.

Peggy olhou para o palco e viu que havia alguém no lugar de Finn, uma mulher de meia-idade, com um permanente malfeito nos cabelos. Ela procurou por ele e o viu conversando com o marido de Tippy e os outros que estavam em volta. Imaginou que ele realmente merecia um drinque, pois tinha tocado horas seguidas.

Enquanto observava, viu um dos homens tirar um frasco do bolso e mostrá-lo a Finn, que pareceu congelar. Por um momento ele não fez nada, apenas olhou para o frasco, depois para o homem. Os outros também ficaram parados, olhando.

Em seguida Finn se afastou. Ela ainda estava olhando, e um dos homens pareceu dizer alguma coisa desagradável àquele que havia feito a oferta. O homem guardou o frasco e pareceu responder algo como "O tolo é ele".

Tudo se passou em apenas alguns segundos e ela ficou se perguntando se não havia imaginado aquilo.

"The King of the Fairies" foi seguido por "The Green Fields of Ardkiernan" e "Nine Points of Roguery". Tippy, que era uma grande admiradora das tradições, a manteve informada, mesmo quando Peggy tinha dificuldade em perceber quando uma música terminava e outra começava.

Ela olhou para o relógio novamente, no momento em que Finn retornava ao palco. Alguém começou a aplaudir e os outros acompanharam. Ele fez uma careta, mas foi até o microfone.

— Temos que guardar algo para amanhã — disse ele. Houve mais aplausos, e todos começaram a bater os pés.

Ele fez outra careta.

— Está bem, se eu cantar vou poder ir para casa em paz? — Todos gargalharam como se o saudassem e, com um suspiro resignado, ele limpou a garganta. A multidão aquietou-se. Ele chegou mais perto do microfone e começou a cantar. Ela já havia ouvido aquela música, mas não conseguia lembrar o nome.

— "The Parting Glass" — Tippy disse, como se tivesse lido seus pensamentos.

Peggy estava hipnotizada. Finn tinha uma voz clara, ressoante, de barítono. Ele cantou sem acompanhamento e o ar da noite foi preenchido com aquela voz vibrante, a letra e a melodia. A combinação parecia tão simples, mas se tornava poderosa justamente por sua simplicidade.

A letra começou a falar de sua própria sina. Ela percebeu que falava sobre despedidas, ao tomar o último copo no pub antes de seguir em frente, porém reconhecendo a amizade e os erros cometidos. A despedida derradeira, no fim da vida.

Ela ficou profundamente comovida. Sempre se emocionava ao ouvir a música nórdica, mas nunca como agora. O ar estava fresco e o vento havia parado. Os acordes de Finn pareciam ecoar pela montanha, onde São Patrício havia caminhado. Sua voz parecia se estender até a praia, onde seus ancestrais haviam partido pelo mar, rumo à América. "Mas se o destino assim quiser, que você fique e eu me vá, vou sair devagarinho, e boa sorte desejar."

Tippy suspirava ao seu lado e Peggy percebeu que Finn acabara de cantar. As pessoas começaram a aplaudir. Ela os acompanhou, mas parecia um aplauso um pouco excessivo, como os aplausos na igreja.

— Ninguém canta como Finn — disse Tippy.

Peggy ficou olhando a multidão se dispersar. O céu estava mais escuro ainda, mas ela achou que não faria sentido se apressar, até que o trânsito ficasse mais livre. Suas habilidades de ciclista haviam melhorado nas duas últimas semanas, mas a estrada era estreita e todos tinham bebido sua cota. Era melhor ser prudente.

Ela se despediu de Tippy e de algumas outras pessoas que tinha conhecido, prometendo visitar quando pudesse. A massa de gente estava bem menor quando seus amigos se foram e ela seguiu em direção à bicicleta. Finn a interceptou.

— Vai começar a chover.

Ela não tinha dúvida. Só lamentava que o céu não tivesse permanecido limpo.

— Então é melhor que eu vá.

— Eu te levo.

Não sabia por que Finn sentia responsabilidade por ela, mas queria que ele perdesse essa noção imediatamente.

— É muito gentil da sua parte, mas não vou derreter — disse ela, isso sorrindo.

— Preciso ir até lá de qualquer forma. Bridie esqueceu de levar roupa limpa para amanhã.

— Ela pode vestir o que usou hoje. Não fez nada para que se sujasse. Ou talvez você possa levar amanhã de manhã.

— Você não irá me deixar ajudá-la, não é?

— Finn, você já fez bastante indo me buscar em Shannon. Não quero ser um incômodo.

— Sua amizade tem um grande significado para minha filha. E para Irene. É minha responsabilidade evitar que você morra de pneumonia. — Como se suas palavras fossem um sinal meteorológico, gotas de chuva começaram a cair.

— E a bicicleta?

— Tenho um bagageiro no meu carro. Venha. Discutir seria bobagem. — Ela pegou a bicicleta e seguiu atrás dele, até a rua onde o carro estava estacionado. Ele pegou a bicicleta das mãos dela, erguendo-a antes mesmo que ela pudesse oferecer ajuda.

— Entre — disse ele. — É mais fácil fazer isso sozinho. Já estou acostumado.

Ela concordou e ele entrou em seguida, segundos antes que o céu mandasse uma chuva torrencial, que castigava o pára-brisa. O carro balançava com a força do vento.

— Bem na hora — disse ela. — Devo estar atraindo as tempestades. Um dia antes de viajar para cá, um furacão quase destruiu o bar da nossa família. Além de todos que estavam dentro.

— Você estava lá?

— Era a festa de casamento de minha irmã. Todos tinham ido para os fundos, para vê-la cortar o bolo. Se não fosse isso... — Ela sacudiu a cabeça. Tivera pouco tempo para pensar em como de fato escapara por pouco, e como Kieran também tivera sorte naquela tarde. A chuva e o vento trouxeram tudo de volta. — Vocês têm furacões aqui? — perguntou ela.

— Não é freqüente. Mas temos tempestades.

Ela pôde sentir a tensão em sua voz. Se ele fosse qualquer outra pessoa, talvez ela tentasse saber mais. Mas sendo Finn, sabia que seria melhor nem tentar.

Ele não girou a chave. Ela imaginou que estivesse esperando a chuva abrandar, para então sair.

— Gostei muito da música. — Ela se virou um pouquinho para olhá-lo de frente. — Você é muito talentoso.

Ele concordou levemente com a cabeça. Ela achou que fosse terminar assim, mas o fato de estarem sentados sozinhos no carro talvez criasse uma certa intimidade.

— Você não está achando seus dias muito maçantes?

— Nem um pouco. Estou bastante ocupada com Kieran e Irene, e, no meio tempo, o sossego daqui é maravilhoso. Tive pouco sossego em minha vida e se voltar à medicina provavelmente não terei nenhum.

— Você ainda planeja fazer isso?

— Algum dia, quando tiver certeza de que minha ausência não irá prejudicar meu filho.

Finn começou a tamborilar os dedos no volante. Ela lamentava por ele ter feito essa oferta. Sabia que não tinha a intenção de ficar trancado no carro com ela, dessa forma.

Alguns minutos se passaram e ela tentou puxar outra conversa.

— A música que você cantou é linda. Eu já tinha ouvido, mas nunca havia prestado atenção na letra.

— Algumas de nossas melhores canções envolvem a bebida.

— Os pubs têm um papel importante na vida diária, não é? Acho que faz sentido.

— Pela sua experiência, certamente deve saber sobre isso.

— Sei que alguns drinques podem ser surpreendentes para uma conversa. Porém drinques demais podem surpreender na sala de emergência do hospital. Notei que você não é de beber.

— Notou?

— Deve ser difícil beber e tocar com tanta beleza. Vi você recusar um drinque.

Ele ficou em silêncio por tanto tempo que ela achou que essa conversa também havia acabado. A chuva continuava intensa, mas o vento estava mais fraco. Ele ligou o carro e deu ré, saindo da vaga.

— Recusei o frasco — disse ele, quando já estavam na estrada. — Mas queria ter aceitado. Eu queria beber tudo e fazer de tudo. Mas não posso beber. Ou melhor, posso beber, mas não consigo parar.

Ela não sabia e ficou surpresa por Irene ter escondido algo assim. Finn era um alcoólatra em recuperação. O homem realmente havia tido sua cota de tristeza.

Ela queria saber se esta teria sido a razão para deixar de exercer a medicina. Será que havia perdido sua licença? Ou quase? Será que estaria dando um tempo, até que pudesse beber com controle? Ela não perguntou. Isso era algo muito pessoal. Mas queria que ele soubesse que ela entendia sua dificuldade.

— Meu pai é alcoólatra — disse ela. — Mas receio que no caso dele é um pouco além disso. O álcool era uma maneira de lidar com sua psicose, embora nunca tenhamos tido a chance de saber qual dos dois veio primeiro. Foi muito difícil para ele e para toda a minha família. Posso compreender muito bem o que você deve ter passado.

— Passado? Como se tivesse terminado?

— Não foi isso que eu quis dizer. Desculpe. Só queria que soubesse que já vi isso de perto, sob um outro ângulo, e admiro qualquer um que enfrente o problema. Sei que é um esforço diário.

— Não há nada de admirável nisso. — Ele falava com raiva. — Sou um bêbado e você já viu o que os bêbados podem fazer para as pessoas que se importam com eles. Achei que você saberia mais, em vez de oferecer sua compaixão. Deveria sair correndo o mais rápido que pudesse, sem olhar para trás. A não ser que encare o fato de me conhecer como algum tipo de desafio.

Ela viu que ele não lidou bem com aquilo, mas pensou que compartilhando um pouco de seu passado, poderia mostrar-lhe que compreendia. No entanto, qualquer compaixão que chegou a sentir, já havia sumido e foi substituída por uma raiva que aumentava. Imaginou que ele estivesse sendo grosseiro propositalmente, para mantê-la distante. Mas ela havia apenas oferecido sua compreensão. Será que tentar entender Finn O'Malley era um crime de tamanha magnitude?

— Sabe de uma coisa? — disse ela, por fim. — Não o conheço há muito tempo. Talvez as pessoas de Shanmullin tenham tantas boas lembranças suas, que estejam dispostas a aceitar sua grosseria, na esperança que o Finn que conheceram um dia possa voltar para eles. Mas aquele homem é apenas mito para mim. Portanto, não pense que vou tentar derrubar as barreiras que há entre nós para tocar seu pobre coraçãozinho. Não vou. Você pode até ter sofrido, mas todos já sofremos, ou ainda iremos sofrer. E nem todos pensam estar no direito de ser estúpido só por retaliação.

— Então você tem um gênio forte para combinar com o cabelo ruivo.

— Não, para sua informação, não tenho. Sou a mais calma das irmãs Donaghue. A essa altura, Megan ou Casey já teriam uma faca em seu pescoço.

Ele encostou o carro e ela abriu a porta, debaixo da chuva forte.

— Eu pego a bicicleta. Não precisa sair.

Ele saiu assim mesmo, mas ela já havia soltado a bicicleta e a colocava no chão quando ele chegou.

— Obrigada pela carona, já que não posso agradecer pela conversa. — Ela empurrou a bicicleta se afastando, depois pensou melhor, em como iria deixá-lo dessa forma. — Tenho os meus próprios problemas, Finn. Não se preocupe, não vou pegar os seus emprestados. — Ela deu as costas. Ouviu o motor novamente e não olhou enquanto ele saía.

 

                                           Capítulo 1 2

O trabalho no salão estava progredindo. Marco e Niccolo haviam contratado uma equipe temporária para retirar o entulho e escorar o prédio, até que a segurança não estivesse mais comprometida. Um telhado novo estava sendo construído e em breve a parte interna seria iniciada.

Niccolo estava aproveitando a oportunidade para ensinar aos garotos algumas coisas novas, como design. Ele havia pedido a cada um deles que apresentasse um projeto para a reforma e alguns foram muito criativos. Winston deu uma sugestão econômica, com aplicação de prateleiras na cozinha, e Megan gostou tanto que pediu a Niccolo para incluir a idéia do rapaz. Elisha, irmã de Winston, tinha uma queda para decoração e destacou-se na primeira reunião, sugerindo um mural da Irlanda pintado a mão, a ser colocado no canto do bar, e mesinhas menores para criar uma área mais tranqüila. Relativamente tranqüila, é claro, mas Megan também gostou.

Ela sabia que seria feliz. Sabia o quanto haviam sido afortunados, e como as reformas eram irrelevantes em relação ao conjunto de acontecimentos. Mas algo parecia não estar certo. Ela tentava explicar seus sentimentos a Casey, que havia saído uma hora mais cedo de Albaugh Center, onde trabalhava, para vir almoçar com ela.

— Sinto-me como se não tivesse mais um objetivo. — Ali, onde antes funcionava uma cozinha movimentada, Megan aquecia uma chaleira de água para fazer chá, acompanhando os sanduíches que Casey trouxera. Ela não tinha mais fogão, o que representava o pior golpe na vida de alguém que vivia em função de um. Ela esquentava a água num bocal elétrico, colocado sobre uma folha de compensado pousada em dois cavaletes. Isso, a pia antiga e duas cadeiras plásticas de jardim eram todo o mobiliário da cozinha. Até seu antiqüíssimo chão de linóleo se fora, dando lugar a placas expostas, cobertas de piche.

Casey se ajeitava na cadeira, numa tentativa inútil de achar uma posição confortável.

— Seu propósito não é ter as coisas feitas da maneira certa?

— Pelo menos não está fingindo ter uma missão maior, como inspirar outras pessoas, ou fazer do mundo um lugar melhor com seu sorriso. — Megan fez uma careta, para mostrar que a última frase não tinha a menor chance.

— Sei que deve ser frustrante, mas será que não pode aproveitar o tempo para fazer outras coisas que nunca pôde fazer antes?

— O quê, por exemplo?

— Uma garimpagem nas lojas de antigüidades em Lorain. Um novo jardim no quintal dos fundos. Algumas reuniões para tomar um chá em sua varanda. Você sonhava com isso, lembra-se? Agora tem uma varanda. Eu poderia ir quando estivesse de folga. Poderíamos ser verdadeiras ladies e aprender a jogar croqué.

Megan não sentia nem uma pontinha de vontade. Achava que se entregar às vontades seria interessante por no máximo dois dias. Essas eram atividades de lazer, não um foco, uma razão de ser.

Ela não ficava à vontade analisando a si mesma, mas, infelizmente, agora tinha todo o tempo do mundo para fazê-lo.

— Trabalho desde criança. Como é que você conseguiu agüentar quando saiu de seu emprego em Chicago e voltou para cá?

— Fiquei servindo no bar para você. — Casey fez um gesto de cabeça em direção ao salão. — Se lembra?

— Nem isso posso fazer. Não há bar para servir. Nem mesas para atender, nem comida para cozinhar. — Ela percebeu que seu lábio inferior estava tão caído quanto seu ânimo. Forçou uma expressão mais alegre. — Eu pareço ridícula, não pareço? Afinal é só uma questão de tempo, semanas.

Casey umedeceu os lábios, do jeito que fazia quando ia dizer algo mais importante.

— Não é só o salão, é?

— O que mais poderia dar errado? Já não houve o bastante?

— Você não tem visto muito o Nick, tem?

Havia ocasiões em que Megan gostaria de ter tido irmãos, em vez de Casey e Peggy. Irmãos que nem ligassem sobre o que ela estivesse sentindo, que não soubessem de nada.

— Ele está muito ocupado — disse Megan, pretendendo dar de ombros, o que resultou em algo parecido com um tique nervoso. — Claro que está ocupado. Está fazendo tudo que pode para ajudar aqui. Ele e Marco estão fazendo um ótimo trabalho.

— E você quase não o vê.

— Você tem idéia de quantas pessoas já ligaram para o Nick, pedindo uma visita particular ao túnel? — Megan ficou surpresa com o tom de censura em sua própria voz. Será que estava tão infeliz assim?

— Não. Muitas?

— Estou tentando contar. Sério. Mas o telefone toca até fora do gancho, Casey. A família, os amigos, os amigos da família. Gente que conhece os amigos dos amigos. — Os ombros dela deram um novo espasmo.

— E o Nick, tem levado a todos?

— Pergunte a ele. Aí vem ele.

Casey se virou quando Niccolo entrava pela porta.

— Esse não parece um lugar muito animado para uma reunião. — Ele inclinou-se e beijou a cabeça de Megan. — Talvez pudéssemos arranjar uma mesa de piquenique para colocar no estacionamento. Um lugar melhor para ficar nos intervalos seria bom para todos.

O pensamento bondoso era típico de Niccolo. Os lugares escuros nunca o iludiam. A cozinha estava sombria e Megan sabia estar sombria também. Niccolo queria levá-la para fora, para a luz. Que diabos, desde que se tornara um adulto passou quase o tempo todo conduzindo as pessoas à luz. Ela estava irritada com essa boa vontade. Casey ergueu o rosto para um beijo.

— Nick, Megan estava me contando que as pessoas estão lhe perturbando para visitar o túnel.

— Só algumas.

— Algumas dúzias! — Megan se perguntou se ele seria tão distraído assim.

— Não tem nada de mais, tem? Você está preocupada? — Megan não podia dizer sim. Parecia que se começasse a contabilizar todos os aborrecimentos em sua vida, a lista ficaria como as pernas compridas de Josh.

— Você vai ficar exausto. Só isso. Já está bastante ocupado com a reforma e a Tijolo.

Ele encostou-se na pia.

— Acho que sim. Acho que estou mais preocupado com o que aconteceria se eu não mostrasse às pessoas.

— O que poderia acontecer? — Casey perguntou.

— Tenho quase certeza que é uma mancha de infiltração. Pelo que imagino, houve um pequeno vazamento atrás da parede. Talvez ainda haja. Quando refizermos as instalações hidráulicas do salão, provavelmente irá secar e sumir. Mas por enquanto, as pessoas estão falando nisso. E a melhor forma de parar com a falação é mostrando exatamente o que é.

Casey ficara interessada agora.

— Que tipo de falação?

— Casey, em sua área de trabalho você também deve ver coisas assim. As pessoas estão sempre à espera de milagres. Alguém descasca uma batata e vê uma cruz. Eu acordei de uma explosão e vi a Virgem, numa mancha de água.

Megan gostou da forma como Niccolo sacudiu os ombros. Foi bem melhor do que as tentativas que ela havia feito até então.

— Não é de admirar que as pessoas estejam à espera de milagres. A Igreja promove milagres. Você deve ter pregado sobre eles.

— A Igreja tem sido muito cuidadosa agora. Vivemos numa era de explicações científicas. Ninguém quer pedir a santificação de um milagre, que venha a ser provado como um fenômeno absolutamente natural. A Igreja já tem bastante problema. Não quer parecer tola.

— Então você mostra às pessoas e explica o lado científico da coisa — disse Casey. — Faz sentido para mim.

Ele sorriu.

— Contanto que ninguém passe pela experiência que tive lá embaixo.

— Você quer dizer a explosão? — perguntou Megan.

— Não. Quero dizer o fato de ter sobrevivido a ela. Isso agora faz parte da mitologia. O comentário que se ouve é que a Virgem me salvou.

Megan ficou pensando por que não haviam tido tempo para essa conversa antes. Em casa, Rooney e Josh estavam sempre por perto, mesmo assim ela e Niccolo podiam ter arranjado um tempo, por que não teriam feito isso?

— Quando é que isso vai acabar? — A pergunta foi feita de forma incisiva, mas ela não se importava. — Quando é que os comentários irão se dissipar, sem que você tenha que peregrinar até lá a toda hora?

Ele pareceu interpretar mal.


— Não me importo em fazê-lo. Mostro e explico, mas as pessoas parecem levar algo importante com elas. Até que é bacana. A melhor parte de ser padre é compartilhar com os outros as suas jornadas espirituais.

— Você parece estar lidando bem com a situação. — Casey se levantou. — E preciso ir cuidar do trabalho.

As palavras dela foram simultâneas às batidas na porta da cozinha. Megan olhou e viu uma mulher desconhecida, com o nariz colado no vidro da janela ao lado da porta.

— Alguém que conhecemos? — ela perguntou a Casey. Casey não conseguia enxergar direito com a luz do sol.

— Não é Beatrice Stowell? Aquela senhora que mora ao lado do tio Den, sabe? Ela é mais velha do que ele uns dez anos, mas tenta fisgá-lo há muito tempo.

— Agora vou ter que abrir a porta com isso ecoando em meus ouvidos? — Megan se afastou. E quando abriu, também reconheceu Beatrice. A mulher tinha cerca de oitenta anos e fora vítima de um cabeleireiro sádico, que havia repicado seus cabelos grisalhos, deixando-a parecida com um poodle. Havia mechas mais compridas sobre as orelhas e na testa, mas o restante era tão curto, que dava para ver seu couro cabeludo rosado. Megan achou que os chinelos de pedrinhas e lantejoulas adornando-lhe os pés podiam servir para desviar a atenção dos cabelos, até que eles crescessem.

— Seu tio Den me disse para vir aqui — disse Beatrice, sem rodeios. — Ele disse que eu deveria ver o túnel.

Megan deu um passo para trás e Beatrice entrou. Ela primeiro sacudiu a cabeça para Niccolo e Casey.

— Qual de vocês vai me levar até lá? Estou pronta. — Megan já imaginava como seria a próxima conversa que teria com seu tio. Ela talvez mencionasse que os dois realmente se mereciam.

— Estamos meio ocupados — disse ela.

— Eu a levarei — Niccolo se afastou da pia. — Mas tem que ser uma visita rápida. Lá embaixo não é muito agradável. — Ele olhou para os pés dela. — Temos que subir alguns degraus. Será que você... consegue subir calçando isso?

— Eu já disse que estou pronta — Beatrice estava ansiosa, mesmo não sendo tão educada.

— Também vou — disse Megan, cruzando o olhar de Niccolo e fixando-se nele. — É melhor que eu aprenda como fazer a excursão, não é? Só para garantir, caso você esteja muito ocupado. — Ela fez uma pausa. — Com a obra.

Ele sorriu levemente e o coração dela disparou como sempre. Detestava como ele ainda conseguia fazer isso com ela. O casamento não havia sido a cura mágica.

Casey também resolveu ir. Posicionaram Beatrice no meio deles para protegê-la e, de lanternas em punho, desceram devagar, rumo ao depósito. Quando já estavam na metade do caminho, portanto tarde demais para voltar, Beatrice avisou que tinha artrite, e que a cada passo parecia estar levando uma facada.

— Esqueci de lhe contar — Niccolo disse a Megan, quando acabaram de descer a escada e entraram no túnel. Ele acendeu a lanterna. — Há duas passagens laterais. São tão estreitas, que pensei que fossem tentativas feitas antes da conclusão do túnel principal. Uma delas não tem saída, mas a outra vai dar em um segundo depósito. Você vai gostar de dar uma olhada. Está cheio de coisas da época.

— Que tipo de coisas? Morcegos? Ratos? Aranhas? A última é minha favorita.

— Precisa de limpeza — admitiu ele. Beatrice interrompeu a conversa.

— Acho que vocês deviam ter mais respeito. Se a Nossa Senhora está aqui, não irá querer ouvir toda essa tagarelice.

Megan, que vinha logo atrás de Beatrice, começou a pensar na retribuição que daria ao querido tio Den.

Percorreram o restante do caminho em silêncio obrigatório. Niccolo parou diante do lugar onde havia caído depois da explosão. Ergueu a lanterna para iluminar a parede e a mancha. Megan não sabia bem o que esperar, já que não descia ali desde que socorrera o marido. Mas a imagem continuava exatamente do mesmo jeito, com exceção da água, que hoje não escorria dos olhos da Virgem.

Beatrice caiu de joelhos e fez o sinal-da-cruz, confirmando o palpite de Megan, de que era católica, talvez até membro da igreja de Sta. Brígida.

— Estamos certos de que deve haver um vazamento em algum lugar acima — disse Niccolo, em tom amável. — Talvez já exista há anos. Há uma explicação perfeitamente natural. Mas é uma bela lembrança de coisas mais importantes...

— Shhhh... — Beatrice abriu os olhos e o encarou. — Pelo amor de Deus, fique quieto.

Megan viu os olhos da irmã se arregalarem. Niccolo apenas sorriu com simpatia e ficou em silêncio. Megan esperava. Minutos se passaram e ela estava ansiosa para ver o segundo depósito descoberto. Sua paciência finalmente se esgotou.

— Olhe, Beatrice, nós não nos importamos em trazê-la aqui embaixo, mas Nick explicou que não poderíamos demorar, e não podemos mesmo. Temos que ir agora. Deixe-me ajudá-la a levantar. — Ela estendeu a mão.

— Não consigo entender por que Nossa Senhora veio a um lugar como este! — Beatrice pôs sua mão na de Megan, não tão desiludida a ponto de recusar sua ajuda.

Megan achou que iria precisar de ajuda para levantar a velha senhora e, Niccolo, que obviamente percebeu que teria de ajudar, também lhe ofereceu o braço. Mas Beatrice o ignorou, dando um salto, com a graça e a energia de uma mulher bem mais jovem.

Ela ficou estarrecida com sua proeza, arregalando os olhos.

— Vocês viram isso? — Ninguém sabia exatamente a que se referia, ou o que responder. — A dor sumiu! — Pela primeira vez, desde que havia batido na porta, Beatrice sorriu. — Sumiu. Aleluia, ela sumiu! — O olhar de Niccolo cruzou o de Megan. Ela sinalizou para que ele dissesse algo, qualquer coisa. Ele se virou para a velha e pegou-lhe a mão.

— Fico feliz por estar se sentindo melhor, Beatrice. Mas agora precisamos voltar lá para cima, já que se sente tão bem.

— Vocês não estão vendo? Vou me sentir sempre bem. Fui curada. Minha artrite sumiu.

— Está fresco e silencioso aqui embaixo. É uma mudança agradável em relação ao calor de junho. É fácil ver porque talvez esteja se sentido...

— Milagre — disse ela, arrancando sua mão da dele. Ela deu um tapa eufórico em seu braço. — É um milagre!

Megan já podia ver o futuro e a visão não era nada agradável.

— Isso não é um milagre — disse ela, de forma incisiva. — E por favor, não vá sair por aí dizendo às pessoas que foi curada aqui, se não, vou mandar fechar esse túnel para sempre.

— Você não deixaria as pessoas entrarem? — Beatrice estava estarrecida. — Impediria que se curassem?

Casey tentou intervir, mas Beatrice passou por cima dela.

— Vou dizer a todos. Você não tem o direito de mantê-los afastados. Se for preciso, irei ao bispo. Posso chegar até o Vaticano agora, sabia disso? Eu fui curada!

 

— Ela pensa que foi curada — Megan disse a Peggy, mais tarde, ao telefone. As duas irmãs haviam programado ligações semanais e quinta-feira foi o dia escolhido. Era noite em Shanmullin e, com Irene e Kieran dormindo, Peggy podia ficar à vontade na casa.

Ela se acomodou de forma confortável. Achava que essa ligação seria longa, pois iriam colocar tudo em dia.

— E você tentou dissuadi-la?

— Nick acha que ela apenas está se sentido só. O Albaugh Center tem um programa para cidadãos idosos e Casey vai tentar incluí-la. Ela e o Nick têm certeza de que isso irá resolver o problema. A Beatrice vai esquecer tudo sobre o milagre e vai direto para o bingo.

Peggy deu uma gargalhada.

— Pode ser.

— Ela já estava mancando outra vez quando chegamos lá em cima. Mas continuou insistindo em não estar mais sentindo dor. — Megan fez uma pausa e quando voltou a falar, sua voz havia mudado. — Não sei como é ser velha e sozinha. Talvez tenha mesmo acontecido um tipo de milagre ali. Casey vai ajudá-la a encontrar novos amigos e algo para fazer. Já é milagre suficiente.

— Você não é tão durona como parece, não é? — Megan ignorou.

— Conte-me sobre Kieran.

— Bem, algumas coisas novas aconteceram. — Ela esperou e Megan não a desapontou. Ela ouviu um assovio de felicitação.

— O quê? — perguntou Megan. — Conte tudo.

Peggy não estava bem certa de como explicar. O progresso iria parecer irrisório para outra pessoa, mas, para ela, eram exemplos poderosos das coisas que Kieran poderia fazer, caso continuasse a trabalhar com ele.

— Eu... nós estamos tentando ensiná-lo a apontar cores específicas. Na segunda-feira ele apontou o vermelho, quando pedi que o fizesse. Quando coloco dois cubos sobre a mesa, um vermelho e outro azul, ele aponta para o correto. Sempre. E sentou-se ao meu lado quando li para ele, e até virou uma página, quando pedi.

Ouvindo a irmã pronunciando com espanto os seus "Oh!", "Ah!", ela percebeu que sentia mais saudades dela do que podia imaginar.

— E, por último, embora não menos importante, hoje ele usou uma colher. Pela primeira vez, Megan. Ele ainda não sabe usar direito, mas com certeza já faz uma boa idéia de como é. E tudo isso está acontecendo enquanto um dentinho está rompendo e ele não deve estar se sentindo muito bem. Ele nem está comendo. Aliás, só comeu um pouquinho, sozinho. Eu mesma não consegui fazê-lo pôr nada para dentro.

— Que notícias ótimas — disse Megan. — Sinto saudade do pequenino.

Peggy sempre ficava emocionada quando ouvia isso. Kieran não podia retribuir o afeto que recebia. Algum dia talvez, mas não agora. O fato de ser amado incondicionalmente por sua família era tudo para ela.

— E de resto? — perguntou Megan. — E o médico?

Peggy tinha que contar a alguém a respeito de seus contratempos com Finn. Não era nenhuma surpresa que Megan fosse a primeira pessoa em quem pensou.

— Tem sido educado. E tenho sido educada. Bridie continua vindo aqui quase todos os dias, depois da escola, para me ajudar com Kieran.

— Soa um pouco desconfortável.

Era desconfortável. Peggy lamentava ter perdido a paciência com Finn, mas não sentia a necessidade de pedir desculpas. Ele passou dos limites.

— Não vou ficar pensando nisso, mas sei que ele está sofrendo. Mas não tive a intenção de piorar as coisas.

— Eu sei que não teve. Mas algumas pessoas se ofendem com comiseração. Não querem ter consciência que estão escondendo os próprios sentimentos.

Como sempre, Megan fazia sentido. Peggy não havia pensado na reação de Finn por esse ângulo.

— Acho que fiz bobagem.

— Tanto quanto ele. Não assuma toda a culpa. Deixe a parte dele para ele.

— Como vai Nick? — Peggy olhou para o luar, iluminando a paisagem.

Megan ficou em silêncio por tanto tempo que Peggy achou que a linha tivesse caído. Quando ela voltou a falar, sua voz estava tensa.

— Ontem ele sonhou que era padre novamente.

— Todos nós sonhamos com o passado. Você não? Às vezes acordo e fico espantada ao ver que não tenho mais oito anos, nem estou dormindo lá no salão, com você e Casey. — Quando viu que Megan continuou sem falar, ela acrescentou: — Megan, você certamente não está achando que ele se arrependeu, não é?

— Não.

Peggy achou que a irmã não parecia tão convencida como a palavra deveria indicar.

— Ele foi tão claro quanto a isso, desde o dia em que o conheceu — disse Peggy. — Além do mais, não deixou a Igreja por sua causa. Nem conhecia você.

— E que estamos começando nossa vida juntos, mas ele está sonhando com a vida que deixou para trás. É...

— Desconcertante?

— É que tenho tido muito tempo ocioso. — Megan parecia ter voltado ao normal. — E isso até que não é ruim. Adivinhe o que achei hoje!

Peggy ficou ouvindo a irmã mergulhar na história do segundo depósito que haviam encontrado no túnel. Embora seu entusiasmo parecesse um pouco forçado, era mais natural do que a dúvida que assombrava sua voz momentos antes.

— E um verdadeiro tesouro — terminou Megan. — Pilhas de jornais velhos, engradados de bebida, discos... provavelmente os modelos precursores aos nossos, tocados em vitrolas. Acho que o jornal devia servir para embalar a bebida que entrava pelo túnel.

— Todos os Donaghues foram muito engenhosos — disse Peggy. — E o que teria demais, uma coisinha à toa como infringir a constituição, se isso fosse interferir nos negócios?

— Nunca tive dúvidas de que durante a Lei Seca o salão vendia algo mais do que apenas refrigerantes. Mas fiquei impressionada com a complexidade que a operação deve ter tido. Os livros de registro são incríveis. Ainda não pude pesquisá-los item por item, mas vi que há dois registros, com resultados completamente diferentes. Num deles os lucros estão explodindo.

— A tia Deirdre deve saber alguma coisa sobre aquela época. Perguntou a ela?

— Liguei para ela contando o que havia encontrado. Ela falou que o apartamento lá de cima era o ponto de comércio clandestino, servia como uma sala de estar para degustação das bebidas, onde só entravam convidados. E lá embaixo, o bar tinha uma fachada de restaurante familiar, servindo apenas refeições e refrigerantes. Obviamente alguém estava mantendo a guarda, não é? Quanto será que tiravam dos lucros para dar à polícia local?

— E pensar que vivi ali, bem naquele pedacinho da história de Cleveland.

— Ainda não cheguei na parte boa. — Megan fez uma pausa para causar mais sensação. — Tenho informações sobre Liam Tierney.

Peggy ficou de pé, perto da janela. Lá fora, algo se mexeu na sombra. Enquanto olhava, viu que Banjax escapou até a casa e postou-se diante da porta. Peggy se perguntava quanto tempo iria levar até que o cachorro passasse a dormir todas as noites em frente à lareira.

— Espero que o que tenha descoberto não aborreça Irene.

— Você realmente ficou fã dela, não é? — perguntou Megan.

— Ela é maravilhosa. Você vai amá-la. — Peggy dizia com sinceridade, mas, infelizmente, não tinha certeza se Irene viveria o suficiente para conhecer suas irmãs. Gostaria que Megan e Casey pudessem vir logo.

— Trouxe uma pilha de jornais comigo para casa essa tarde. Você vai ficar boba ao ver como comida e roupa eram baratas nos anos 20.

— O que isso tem a ver com Liam?

— Nada. Só que me espantou, apenas isso. Mas eu estava folheando os jornais e vi um artigo sobre um homem que foi atropelado quando atravessava uma rua, em Whiskey Island.

Peggy podia perceber como a irmã estava interessada na história do lugar. As origens da família em Cleveland nasceram ali, com tantos outros imigrantes irlandeses.

— Liam teve algo a ver com isso?

— O carro estava sendo perseguido pela polícia, após descobrirem engradados de bebida no porta-malas, durante uma inspeção. Antes que o "agente seco"... era assim chamado naquela época... tivesse a chance de prender o motorista, este o atacou com um ferro, e em seguida fugiu com a bebida.

— Não me diga que Liam era o agressor — Peggy calou-se. — Certamente não era o policial.

Megan deu uma gargalhada.

— Liam era o homem que foi ferido quando o carro passou em disparada pela cidade. Ao que parece, ele apenas estava por perto, inocentemente.

— Minha nossa. E você acaba de descobrir isso?

— Não é tanta coincidência como parece. Acho que a história rendeu semanas, porque eles continuaram guardando as notícias. A julgar pelo artigo, não conseguiram pegar o motorista, nem esperavam conseguir. O nome de Liam só foi mencionado uma vez.

— Mas ele não morreu, não é? — Megan dissera "ferido" não morto. Peggy receava contar a Irene que seu pai havia sido atropelado durante uma fuga de bandidos.

— Pelo que pude deduzir, não. A não ser que tenha morrido depois, por causa dos ferimentos. Revirei os jornais, mas não havia mais nenhum daquele mês, nem do mês seguinte. Amanhã vou até o Centro Histórico para ver se eles têm algum jornal daquela época, arquivado em microfilme. Talvez eu consiga descobrir mais sobre a história.

— Mas você tem tempo? Ainda é uma recém-casada.

— Não tenho nada além de tempo — disse Megan. — Com exceção de ser guia de passeios pelo túnel, Niccolo está tão envolvido com a reforma, que apenas nos cumprimentamos no corredor. Acho que eu o via mais antes de me casar com ele.

Peggy sabia que deveria rir, mas a piada não caiu bem.

— Se sente falta dele, é melhor dizer-lhe isso. Isso parece uma briga cozinhando em fogo brando.

— Estou bem.

Peggy conhecia a irmã. Megan estava sempre "bem", mesmo quando não estava.

— Queria que você viesse para uma visita. Será que não pode se afastar de Nick para uma viagem rápida, quando a reforma ficar pronta?

— Aí terei que voltar ao trabalho. Vamos perder todos os nossos patrocinadores se não reabrirmos logo.

— Eles poderiam esperar mais uma semana. São leais. Pense a respeito.


Megan limpou a garganta, como se quisesse encerrar o assunto.

— Não quero dizer tchau, mas isso vai custar uma fortuna. Peggy ficou triste ao ver que a ligação chegava ao fim.

— Mande um abraço para Peggy. E para Nick, Lon, e Rooney, e todos aí.

— Eles vão te ligar. — As irmãs se despediram e, relutante, Peggy desligou.

Lá fora, a paisagem irlandesa era serena e silenciosa. Ela pensava em como Liam Tierney e a esposa se sentiram, quando deixaram aquele chalé tão tranqüilo para trás, rumo ao alvoroço de Cleveland. Depois pensou sobre o acidente em que ele se feriu, estando num país estranho, sem família ou amigos. Como sempre, ficou impressionada com a fibra dos membros da família que nem chegou a conhecer.

Kieran havia herdado essa fibra. Ela ficava contente, pois ele iria precisar de cada gota da coragem do legado dos Tierneys.

 

             1923, Castelbar, Condado de Mayo

             Meu querido Patrick,

Suas cartas continuam a chegar. Eu as leio com toda atenção, como se fossem a Sagrada Escritura. Seu irlandês continua tão puro como se falasse diariamente. Você ainda o pratica? Há pessoas em sua paróquia que vêm até você para se confessar na antiga língua?

Nossa cultura verdadeira foi espremida, arrancada de nós com crueldade, como se faz com o soro do queijo. Nós, irlandeses, somos uma raça com tanto potencial e tão poucas oportunidades. Ainda ontem, o rapaz que entrega o leite me disse que irá cuidar da padaria de seu pai, quando ele vir a falecer. Não chega a ser uma surpresa, mas é triste. É um rapaz de muitas habilidades. Pega os meus livros emprestados, os lê e relê. Compreende todos, os de poesia, filosofia, as histórias dos grandes heróis e amantes. Ele tem desenvoltura com as idéias, de uma forma que jamais terá com a farinha e o fermento. No entanto, que outra escolha tem? E sabe que chega a ser afortunado por herdar o negócio do pai. Será capaz de alimentar a si próprio e a sua família, numa época em que tal coisa não pode ser uma certeza.

Ah, como será bom quando a Irlanda voltar a ser independente de novo, quando os esforços e talentos dos homens irlandeses, e também de suas mulheres, poderão voltar a ser cultivados.

Eu mesma tenho um sonho, querido Patrick. Gostaria de dar aulas e viajar, conhecer o mundo, como fizeram meus ancestrais. Há séculos atrás, as mulheres célticas, cujo sangue ainda pulsa em minhas veias, eram guerreiras, médicas, formadoras da lei. Ah, quem me dera ter ao menos uma destas opções.

Nós, irlandeses do século XX, temos orgulho de onde chegamos. Somos cristãos, e, em breve, se Deus quiser, estaremos totalmente libertos da tirania. No entanto, o que teremos perdido ao longo desta jornada? O que os homens e mulheres irlandeses terão perdido após passar por tanta tristeza, séculos a fio? Quantos poetas e filósofos estarão assando pão e arando a terra? Quantos deles haverão de ter ido para a América, para assistir à morte de seu vasto potencial, trabalhando em fábricas e moinhos?

Eu fico em grande desalento, querido irmão. Em sua próxima carta, conte-me sobre as famílias irlandesas felizes, que darão esperança às nossas futuras gerações de poetas e filósofos, que hão de se erguer após séculos de escuridão, para resgatar um mundo que estivera perdido.

             Sua irmã, Maura McSweeney

 

                                     Capítulo 1 3

Liam estava bem contente com o emprego que havia arranjado. Depois de procurar por uma semana, ele recebeu várias ofertas, fartura que chegava a ser embaraçosa para um jovem que sempre teve tão pouco na vida. Ele quase agonizava, tentando decidir que posição aceitar. Até então, as escolhas sempre foram simples, porque eram tão escassas, mas agora estava confuso a ponto de ficar tonto. Com uma escrita caprichosa, conquistada com a caneta-tinteiro, Brenna fez uma lista de considerações no saco de papel, para que eles as pudessem avaliar.

A fábrica de caixas ficava próxima de casa, a uma rua de distância. O salário não era tão bom quanto no moinho, mas se trabalhasse montando caixas, Liam passaria mais tempo em casa. Não havia como considerar o emprego que fosse mais prazeroso. O cheiro de cola na fábrica igualava-se ao barulho e o calor do moinho. Liam rigorosamente estaria preparado para qualquer um desses tormentos e optou pela fábrica, para ter mais tempo livre com a esposa e a filha.

No começo, ele ficava muito tonto com o ambiente ao seu redor. Porém, aos poucos foi se acostumando ao odor e o barulho. As máquinas faziam calos em suas mãos. E ele lembrava da neblina, do ar puro da Irlanda, dos amigos deixados para trás, e sorriu para si mesmo.

Seis meses depois foi promovido à linha de frente e foi mandado para longe da cola. Ele aprendeu a operar a maquinaria simples, que modelava as caixas de madeira e mantinha os dedos longe das engrenagens. Era benquisto, um homem que não dividia seus problemas, e não se importava em, de vez em quando, tomar uns goles do uísque contrabandeado, no sótão abafado. Liam era um homem que não prestava muita atenção às leis das quais não era o autor, nem procurava confusão. Seus vizinhos irlandeses o admiravam pelo primeiro, seus patrões eslovacos, pelo segundo. Liam estava deslanchando.

Um ano após sua chegada, ele foi promovido novamente e passou a trabalhar fora da fábrica, no caminhão de entregas. O salário ainda era o mesmo, mas ele ficou tão satisfeito em poder estar do lado de fora, respirando ar fresco, que agarrou a oportunidade, como um homem faminto diante de um pão, temendo que a oportunidade pudesse desaparecer. Naquela noite ele disse a Brenna o que estava sentindo.

— Eu agüentaria tudo, sabe? Por você e pela Irene. Qualquer coisa que pudesse nos dar mais tranqüilidade. Mas entre aquilo e a chance de estar do lado de fora novamente... — Ele sorriu e balançou a cabeça.

Brenna parecia preocupada.

— Eu sei que é isso que quer e não o condeno, mas irá ficar no lado oeste?

— A maior parte do tempo, mas voltarei para casa todas as noites.

— Imagino que vá conhecer muita gente nova.

— Mas é para você que sempre voltarei.

— Liam, essa mudança me preocupa. Não vou fingir que não.

Ele sabia que ela receava que, com esta nova liberdade, ele pudesse se envolver em encrencas, como acontecera na Irlanda. O confinamento na fábrica dava-lhe uma sensação de segurança. Ele trabalhava duro e no fim do dia, tinha pouco tempo e energia para qualquer coisa que não fosse a família.

— A única mudança com a qual precisa se preocupar é me ver feliz — prometeu ele. — E se tivermos sorte, vou estar dirigindo o caminhão em breve, ganhando bem mais dinheiro. Podemos mudar para uma casa melhor, no alto da colina. Você iria gostar, não iria?

Ela não pareceu convencida, mas deixou que ele a envolvesse em seus braços.

— Eu quero que você seja feliz — disse ela. — Só isso. Não era só isso, e ele sabia. Mas ele apertou-a em seus

braços e a beijou, para espantar seus receios.

Como ele havia imaginado, adorava a nova função. Ele era um homem forte, mesmo com os abalos emocionais que já havia sofrido, e não tinha medo do trabalho duro. No começo, o motorista e os outros dois entregadores davam-lhe as tarefas mais difíceis e ficavam de lado fumando, enquanto sozinho, ele carregava caixas gigantescas. Mas após uma boa briga, na qual Liam provou seu verdadeiro valor, os homens passaram a reconhecê-lo. Ele respirava o ar fresco, conhecia novas paisagens e congratulava-se intimamente, pelos trabalhos bem-feitos.

Um mês depois, após um dia de entregas, seus músculos se recusavam a relaxar e ele desceu do caminhão para a deixar a última encomenda, perto de sua casa. Whiskey Island não exercia fascínio algum sobre Liam, mesmo sabendo das tantas histórias dos irlandeses que haviam vivido e morrido ali. A ilha passara a ter como ponto forte a extração de metais e o transporte nos trens de carga, negócio que girava 24 horas por dia.

Ele ouvira falar sobre os salões que existiam ali, como o Fat Jacks e o Corrigans, que teriam sido muito prósperos, antes da instituição da Lei Seca. Os proprietários desses bares raramente fechavam as portas, e os estabelecimentos eram lugares onde os homens podiam fazer novas amizades, ao preço de um drinque. Ouvira as histórias sobre um outro salão, chamado Mother Carey's, onde ladrões de bancos se reuniam para contar suas bênçãos.

— Vamos acabar logo — disse o motorista. Herman era um gigante e usava um bigodinho, que de tão fino, parecia ser feito a lápis. Vestia um macacão de alças com a bainha pescando siri, que deixava suas meias de tricô à mostra. Quando dava seu valioso préstimo no descarregamento, a equipe conseguia terminar na metade do tempo.

Liam procurou por uma placa na frente ao pequeno armazém, mas não viu nenhuma. O prédio era comprido e baixo, e os seguranças que os deixaram entrar usavam espingardas para apontar o canto vazio e sujo, onde deveriam descarregar. Passado aquele primeiro lampejo de curiosidade, Liam arrastava e empilhava as caixas despreocupadamente, até que Herman virou a cabeça em direção ao canto onde estava.

— Aquele uísque que você e seus velhos camaradas tanto gostam sai daqui — disse ele, em voz baixa.

Liam levantou uma sobrancelha. Se tivesse refletido o mínimo que fosse, teria chegado a essa conclusão. O prédio não tinha qualquer indício de haver alguma atividade de trabalho em andamento. A Lei Volstead (tratado que, em 1919, instituiu a proibição do consumo de bebidas alcoólicas no Estados Unidos), gerou uma nova categoria de negociantes, não apenas os que operavam em pequenos porões ou sótãos, ou aqueles que serviam como fornecedores dos primeiros, provendo-lhes glicose e outras matérias-primas para seus produtos, mas também o contrabandista especializado. Eram chamados de Rumrunners. O Canadá ficava bem ali, na outra margem do lago, e não tinha nenhuma intenção de mudar suas próprias leis, apenas porque seu tolo vizinho do sul era tão idôneo.

— Eu apenas empilho as caixas — disse Liam. — O que fazem com elas é problema deles.

Herman se esticou e pousou as mãos nas costas.

— Terminamos. Vou preencher os papéis. Espere lá fora, se quiser.

Liam saiu, contente por ter terminado seu dia. Brenna havia prometido fazer peixe para o jantar, uma iguaria rara, mesmo tendo um lago esplendoroso como paisagem. Ele prometera a Irene que depois iriam dar um volta pelas ruas de Angle, área próxima a Irish Bend, somente eles dois, enquanto Brenna arrumasse a cozinha. Não tinha lembranças de prazeres simples como esse ao lado de seu pai.

Os outros homens fumavam encostados ao caminhão, e como ele já havia usado todo seu tabaco no cachimbo, não fazia sentido juntar-se a eles. Ele resolveu caminhar pela estrada de terra ao lado do galpão, para esticar um pouco as pernas. Herman iria parar para pegá-lo, no caminho de volta à fábrica, e enquanto isso tomaria um pouco de ar fresco. Ele gritou para os outros, dizendo suas intenções e começou a subir a colina. No cruzamento com uma estrada mais larga, ele virou à direita. Essa área de Whiskey lsland não era muito movimentada, mas dois carros passaram velozes por ele, deixando uma nuvem de poeira para trás. Ele só teve tempo de dar um salto para o lado da estrada, franzindo o rosto e praguejando.

— Pelo amor de Deus!

Ele voltou ao meio da pista, sacudindo o punho fechado depois que passaram, até que só pudesse enxergar uma pequena luz traseira do carro, desaparecendo na poeira.

Estava tão zangado que quase não ouviu o barulho do motor de outro carro que surgiu atrás dele. Ele pulou para a lateral da estrada novamente, ainda xingando, e virou-se, vendo o carro vindo direto em sua direção. O motorista tinha a estrada inteira, mas, num momento aterrorizante, Liam viu que o homem olhava para trás, procurando por algo ou alguém que o seguia.

Liam tentou escapar e gritou, mas, antes que conseguisse desviar, o carro deu uma guinada e o atingiu, arremessando-lhe no ar. Ele aterrissou a uns quinze metros de distância, todo quebrado. O motorista nem sequer diminuiu a velocidade. Liam, ainda consciente, o viu fugir em alta velocidade.

O capataz da fábrica lamentava muito, mas o que poderia oferecer-lhe agora? Não havia vagas disponíveis no escritório, mesmo que Liam tivesse capacidade para ocupá-las. Até que tivesse totalmente recuperado, não poderia ficar em pé durante horas, operando as máquinas, com a perna machucada. Não teria como levantar os engradados por conta da lesão nas costas, que talvez nunca sarasse completamente. A empresa pertencia a uma família, que certamente tinha coração. Por consideração, deram-lhe duas semanas de pagamento e lamentaram profundamente.

— O que faremos? — perguntou Brenna, olhando para o pouco que havia restado, depois de pagar o aluguel do mês e comprar batatas, farinha e leite. — Farei qualquer coisa, Liam, mas não sei por onde começar.

Liam sabia que este era um momento importante para ter uma família. Infelizmente, suas buscas limitadas não tiveram qualquer êxito nesta direção. Ele e Brenna estavam sozinhos em Cleveland, e também não havia ninguém na Irlanda a quem recorrer.

— Uma das coisas que as freiras ensinaram muito bem, era como cuidar de uma casa — disse Brenna, quando viu que ele não havia respondido. — Posso arranjar algum tipo de trabalho, mas você será capaz de cuidar de Irene enquanto eu estiver fora?

Liam sabia não valer a pena ostentar um falso orgulho, pois isso não traria comida para a mesa.

— Vou me recuperar em breve. Você não terá que esfregar o chão de mulheres ricas para sempre, Brenna.

Ela beijou-lhe a mão e colocou um travesseiro atrás dele.

— Tinha quer ser você, não é, Liam? Para estar bem no meio da confusão, mesmo sem ninguém mais por perto.

— Você acha que não fiquei me perguntando como foi que isso aconteceu? O destino deu uma boa gargalhada à nossa custa.

A polícia havia interrogado Liam sobre o acidente inúmeras vezes. Ele soube então o que havia se passado, pouco antes de ser atingido. A inspeção de rotina do "agente seco".

O ferro usado pelo contrabandista. A fuga. O agente havia sofrido um traumatismo severo, mas ele, pelo menos, recebia a ajuda do governo enquanto se recuperava. Liam tinha apenas um emaranhado de perguntas que não sabia responder.

— E você continua não se lembrando nada do que viu? — perguntou Brenna. — Nada do carro? Algo que pudesse contar aos policiais?

Ele fez uma careta, tentando mexer o pé, que estava imobilizado com uma tala, pousado sobre uma almofada.

— Nada está bem claro para mim.

Brenna parecia querer dizer mais alguma coisa. Mas o que poderia dizer? Ela estava casada com Liam tempo suficiente, para saber que quando resolvia algo, não mudava de idéia. Se ele dizia não se lembrar de nada, iria para o túmulo afirmando exatamente a mesma coisa.

— A sra. O'Reilly, do fim da rua, irá tomar conta de Irene amanhã, enquanto procuro trabalho — disse Brenna, ao levantar-se. — Depois disso vou passar a deixá-la aqui com você, Liam, mas a sra. O'Reilly vai cuidar do almoço.

— No mesmo instante em que estiver melhor, vou procurar um novo emprego.

— Sei que vai. — Ela sorriu com ternura. — Vamos superar isso. Já tivemos um pouquinho de sorte.

Naquele momento, ele estava se sentindo muito desanimado para perceber do que ela estava falando.

— Você está vivo. — Ela apontou o dedo para ele. — E somente pela graça de Deus.

Durante a semana seguinte, ele não tinha certeza se ter sobrevivido era tanta sorte assim. Ele havia passado tanta dor desde a infância, que pensava ter ficado imune. Mas a que tinha nas costas era além do suportável. Irene parecia sentir e agia com um anjo, brincando quietinha no canto, tirando cochilos quando era sugerido para fazê-lo, esperando pela chegada da sra. O'Reilly, se tivesse que pedir qualquer coisa.

A velha senhora era um pouco atrapalhada, mas muito gentil. Trazia comida ao meio-dia, ajudava Liam a caminhar até lá fora para fazer suas necessidades e, quando ele terminava, o trazia de volta. Brenna conseguiu um emprego como doméstica de uma senhora que tinha três filhas solteironas. Embora fossem terrivelmente exigentes, a tratavam bem, dando-lhe comida para levar para casa todas as noites e roupas que não usavam mais. Ela desmanchava as peças e usava o tecido para fazer vestidinhos para Irene e colchas de retalhos para a cama. Ficava costurando até tarde da noite, à luz do lampião a querosene.

No fim do mês, Liam já poderia fazer o percurso ao sanitário no lado de fora, usando a muleta que Brenna trouxera para ele. A dor nas costas ainda era muito forte, mas diminuía lentamente a cada dia. Ele descobriu que, mesmo com a recomendação médica, uma pequena movimentação tornava as coisas melhores, não piores. Começou a acreditar que poderia realmente se recuperar.

— Não há tantos empregos como havia no início — disse ele a Brenna, na manhã seguinte. Na noite anterior, ela havia trazido um jornal e ele estava acordado lendo, desde que o dia amanhecera, circulando as poucas oportunidades.

— Mas ouço dizer que a época é boa. Não é? Sempre ouço falar.

— É, mas aparentemente não tanto aqui, como em outros lugares.

— Mas você não será recontratado na fábrica de caixas, quando estiver bem?

Ele havia sondado essa possibilidade quando Herman, o motorista do caminhão, viera fazer-lhe uma visita.

— Parece que não — Liam disse a ela. — As encomendas caíram. Eles dispensaram gente que foi trabalhar lá antes de mim.

— Vai aparecer alguma coisa, Liam. — Ela pousou a mão sobre a dele. — Sempre aparece, não é?

Não era. Quando ele começou a caminhar sem a muleta e conseguir ficar em pé com a coluna quase reta, a economia de Cleveland foi assolada por uma crise. Nos dias em que Brenna estava de folga, ele caminhava pelas ruas vagarosamente, enfrentando a dor nas filas, para preencher formulários de empregos serviçais, mas nunca passava das entrevistas. Tentou fazer alguns trabalhos de jardinagem levando Irene com ele, mas viu que se manter agachado fazia com que os músculos das costas voltassem a incomodar. Tentou fazer limpeza de vidros e janelas, mas o esforço causava-lhe o mesmo problema.

— Minhas idéias estão se esgotando — disse a Brenna, naquela noite. Sentia-se inútil e zangado, por suas limitações. O emprego de Brenna mal permitia que eles sobrevivessem. Outra crise iria destruí-los.

Brenna tornava-se mais resignada e calada, devido às longas horas de trabalho, mas sempre afagava a mão dele, sem reclamar.

— Apenas continue tentando, Liam. Sei que irá encontrar algo. Acredito em você.

Na manhã seguinte, ao vê-la sair para o trabalho, sentou-se no velho banco, olhando a rua e as casas pobres.

Hoje ele não conseguia enxergar o orgulho, o sucesso de alguns vizinhos, o jardim de duas casas ao lado, a pintura e a varanda nova da casa em frente. Só via desespero e pobreza, como se um filtro estivesse sobre seus olhos, um filtro verde-esmeralda, como as paisagens da terra onde nascera. Ele nunca havia sentido tanta saudade da Irlanda, como sentia naquele momento.

Um carro surgiu no alto da rua, visão pouco comum por aquelas bandas. Aquele carro, em particular, era menos comum ainda. Era um modelo sofisticado, muito mais elegante do que o simples automóvel que Liam inutilmente sonhava ter. Tinha uma pintura preta reluzente, com cromados polidos e bancos altos, que pareciam macios como colchões de pena. Os faróis brilhavam como olhos de tigre. Dois homens estavam sentados na frente e um estava sozinho no banco de trás. Mesmo à distância, Liam percebeu que esse último devia ser levado a sério.

Ele se levantou quando o carro parou diante de sua casa. Aguardou impassível, mas tinha as pernas vacilantes. Liam reconhecia encrenca de longe.

— Você é Liam Tierney? — perguntou o motorista. Ele era baixinho e musculoso, e tinha brilhantina nos cabelos e no bigode.

— Quem gostaria de saber?

— Eu gostaria — disse o homem sentado no banco de trás. Ele aguardou para sair até que o outro homem da frente corresse ao redor do carro para lhe abrir a porta. Depois pisou no suporte branco na lateral, para finalmente chegar ao chão. Seu lacaio tirou do bolso um lenço e imediatamente limpou o lugar onde ele havia pisado.

— Meu nome é Tim McNulty. — Ele se aproximou, mas parou junto à escada. Liam olhou para ele, abaixo, reparando na testa larga, o par de olhos apertados, personalidade imponente, e, acima de tudo, o terno feito a mão, com botões dourados e um lenço de linho, dobrado no bolso.

— O que posso fazer por você? — Liam perguntou.

— Estou aqui para saber a respeito de seu acidente. — Liam enfiou as mãos nos bolsos, mas tinha os punhos fechados.

— E por qual motivo?

McNulty levou um tempo para responder. Seu olhar percorria a fachada da casa de Tierney, de cima a baixo. Ao franzir as sobrancelhas, elas ficaram tão próximas que pareciam ser apenas uma. Depois ergueu uma delas.

— Você não se deu muito bem por aqui, não é mesmo, companheiro?

Liam bufou.

— Não tanto quanto você... companheiro.

Um sorriso pálido ameaçou surgir no canto dos lábios de McNulty. O homem ao seu lado, um brutamontes imenso que o havia acompanhado na saída do carro, fez um som na garganta e ia na direção de Liam, mas McNulty o deteve com um gesto.

— Pois é. Minha família também começou por aqui — admitiu McNulty. — Talvez um pouquinho mais acima da colina. De repente bate um vento bom e você desce o rio boiando.

Liam esperava.

— Você se recuperou? Do acidente? — McNulty finalmente perguntou.

— Não sei se isso é de sua conta.

— Vim para ajudá-lo. — McNulty estalou os dedos e o homem ao seu lado tirou um envelope do bolso interno do paletó, esticando a mão em direção a Liam.

Liam continuou esperando.

— Leve até ele — disse McNulty ao capanga.

O homem começou a subir os degraus, parando antes de chegar até Liam. Ele tinha pelo menos cinqüenta quilos a mais que Liam, porém ficou onde estava e estendeu a mão novamente.

Liam pegou o envelope, esperando ser atacado, o que não aconteceu. Ele abriu o envelope e passou o dedo por uma pilha de notas novinhas, mais dinheiro do que jamais havia visto.

Olhou para McNulty ao pé da escada.

— E então?

— Você não acha que isso é apenas uma caridade, não é? — McNulty riu.

— O que exatamente quer de mim?

— Apenas a descrição que deu para a polícia. A descrição do carro que quase o matou.

Qualquer esperança que Liam tivera, acabara de morrer. Ele estendeu a mão para devolver o envelope, mas o capanga já havia descido a escada.

— Não quero seu dinheiro — disse Liam. — Nem um centavo. Mas mesmo assim obrigado.

— Só uma descrição. — McNulty mexeu na fina corrente de seu relógio e o ouro reluziu. — Muito, muito simples. E quem irá saber?

— Não vi coisa alguma — disse Liam. Ele sabia que não havia a menor chance de entrar na casa sem que os homens o agarrassem.

Mesmo que conseguisse, o trinco era fraco como papel. Qualquer chute iria abri-lo.

— Não foi isso que falou aos guardas — disse o capanga. A voz do homem era tão forte quanto sua personalidade.

Liam estava certo de que o som poderia ser ouvido por seus vizinhos, mas não via ninguém do lado de fora. Ele olhou para os dois lados da rua. Talvez aqueles que trabalhassem em empregos distantes, já tivessem saído, mas os que iam para perto ainda podiam estar em casa. Ou será que a ausência de todos devia-se à presença do Cadillac de McNulty?

— Isso foi exatamente o que eu disse aos guardas — disse Liam. — Não sei qual é o seu interesse nisto e também não me importo, mas não tenho nada a lhe dizer.

— E bastante dinheiro. Por tão pouco.

Liam suspirou, mas havia chegado a hora de acabar com aquilo. Ele tirou o dinheiro do envelope e despejou as notas nos degraus abaixo. Mas não era tão virtuoso a ponto de não imaginar tudo que aquela quantia poderia comprar.

Ninguém se moveu. Quando terminou, olhou para cima.

— Não vi nada. Não me lembro de nada. — Por não haver outro lugar a ir, ele deu a volta e atravessou a varanda, como se fosse entrar.

Como havia suspeitado, ouviu a correria atrás dele e virou-se para se defender. Mas eles eram dois e ele não estava no auge de sua forma física. Embora tenha feito uma tentativa de se proteger, ele foi derrubado e surrado repetidamente. Rugiu de dor quando o motorista chutou sua perna quebrada. Mas contorceu-se em silêncio, enquanto o capanga o agarrava e os músculos de suas costas se retorciam.

— Apenas uma descrição — disse McNulty, acima dele. — E eles param. Seria uma pena deixá-lo aleijado para sempre, jovem.

Liam sabia que poderia morrer ali. Ele pensava se Irene estaria acordada, ouvindo os sons da morte de seu pai. O pensamento o deixou furioso e ele contra-atacou da melhor forma que pôde, mas não era páreo para seus dois oponentes.

— Parem — disse McNulty calmamente, depois de mais alguns minutos de esforço e dor, e os homens pararam. Liam mal conseguia enxergar. Sua visão estava borrada, de sangue e tontura.

McNulty parou e o encarou com ar de reprovação.

— Apenas uma palavra, jovem, e iremos embora. Você ficará vivo e não haverá maiores estragos. Apenas a cor do carro. Ou o número da placa.

— O diabo que o carregue — disse Liam. Ele viu um punho fechado vindo na direção de seu rosto e enrijeceu-se, para morrer silenciosamente.

— Chega — disse McNulty. — Agora saiam de cima dele. Bons rapazes.

Liam caiu sobre as placas de madeira quando os capangas o largaram. Cada junta de seu corpo parecia estar quebrada.

— Nem dinheiro, nem a morte, Tierney? Nada consegue persuadi-lo? Acho que poderíamos perguntar a sua pequena mocinha aí dentro, o que ela sabe. Se você lhe contou algo.

— Se vocês a tocarem... vou caçá-los até... o fim do mundo!

A voz não parecia a dele, mesmo sentindo as palavras saindo pela garganta.

— Nos contaria algo em troca da vida dela? Ou talvez de sua esposa? — disse McNulty.

— Não tenho nada para contar!

— Também tenho uma filha. — McNulty riu, sem piedade. — As crianças são criaturas obstinadas, mas não acho que devam sofrer pelas falhas de seus pais.

Ele sinalizou para os dois outros homens e todos começaram a descer os degraus. Estarrecido, Liam conseguiu sentar-se, mesmo com o mundo girando no escuro e a dor latejando em cada partícula de seu corpo.

Quando chegou junto ao carro, McNulty virou-se.

— Fique com o dinheiro — disse ele. — E venha me procurar quando os hematomas tiveram sarado. Quer um emprego, jovem? Tenho empregos para ossos duros como você, que sabem manter a boca fechada. Não irá mais precisar fazer caixas tão cedo. Quem sabe, em breve poderá comprar a fábrica?

Ele riu de sua própria esperteza e entrou no carro. O capanga fechou a porta e limpou o aparador novamente.

Depois ergueu a mão para Liam, antes de dar a volta no carro e entrar também.

Liam olhava os homens se afastando. Como num toque de mágica, os vizinhos saíram de suas casas quase simultaneamente, para ir cuidar da vida, embora todos tivessem o cuidado de não olhar em sua direção.

 

                                 CapítuIo 14

O padre Ignatius Brady era um homem franzino, que parecia viver de jejum e orações. Ele tinha uma aparência ascética, comia e bebia com o entusiasmo de um hedonista de dieta, e, com os longos anos de serviços ao sacerdócio, conseguia manter um brilho autêntico no olhar. Ele havia sido o mentor de Niccolo desde sua ordenação e continuava a ser, mesmo depois que Niccolo deixou o serviço. Havia celebrado o casamento de Niccolo e esperava poder batizar seus filhos.

Agora, no entanto, Iggy apenas olhava para o "milagre" de Niccolo, que passara a ser o assunto da igreja Sta. Brígida.

— Não sei, Niccolo. Por mais honrado que seja este estabelecimento, eu jamais o teria escolhido para ser um santuário para a Abençoada Virgem Maria.

— Mas vê a semelhança?

— Sim, agora que estou olhando com mais atenção. Mas eu nem teria percebido a mancha se você não a tivesse apontado para mim.

— Foi difícil deixar de percebê-la quando acordei aqui, naquela tarde, em vez de estar nos portões do céu.

— Realmente foi por pouco.

— Eu olhei para cima e ela estava chorando. — Iggy olhou para ele.

— A Virgem, ou Megan?

— Com certeza a Virgem. Havia lágrimas na região de seus olhos.

Iggy não disse nada.

Niccolo voltou-se para a imagem, que não vertia lágrimas agora.

— Tive uma sensação de paz e bem-estar. Foi indescritível.

— Uma reação natural para um homem que acabara de enganar a morte.

— Sei disso. Não precisa se preocupar comigo. Sou difícil de acreditar. — Ele sorriu um pouquinho, ao lembrar-se. — Mas até mesmo Megan fez o sinal-da-cruz, quando olhou para cima e viu a imagem.

— Agora sim, temos algo com que nos preocupar — disse Iggy, dando uma risadinha.

— O que realmente devemos pensar, é uma forma de lidar com isso.

Iggy sabia exatamente a que Niccolo estava se referindo.

— Beatrice Lowell veio falar comigo. — Niccolo suspirou.

Iggy deu-lhe um tapinha no ombro.

— Ela não pertence à nossa paróquia, mas já falei com o padre da igreja que freqüenta. Ele afirma que ela sempre teve uma imaginação fértil e uma grande necessidade de atenção.

— Casey incluiu Beatrice no programa para a terceira idade do Albaugh Center. Refeições, atividades, excursões. Achei que faria uma diferença e tanto em sua vida, a ponto de não necessitar contar sua história da cura milagrosa, repetidamente.

— Receio que o tiro saiu pela culatra. Ela agora tem um público ouvinte maior. Mesmo assim, continua tomando sua medicação para artrite. Consegui arrancar isso dela. Mas diz que toma só por precaução, pois realmente não tem a menor necessidade.

— E ainda manca?

— Não parece uma mulher que se livrou totalmente da dor.

— Aparentemente, ela persuadiu todas as pessoas no centro, que agora só falam disso. Já tive meia dúzia de... — Niccolo parou. — Não, acho que foi mais de uma dúzia de ligações vindas de idosos de lá. As pessoas querem conhecer. Tão logo cheguem aqui.

— Estamos vivendo uma época difícil, Niccolo. Por toda parte as pessoas estão buscando provas de que Deus existe e está agindo em suas vidas.

— Há um milhão de milagres autênticos, que acontecem todos os dias. Um bombeiro entra num prédio em chamas e resgata alguém que nunca viu. Um transeunte tira seu casaco numa noite de inverno e o dá a um mendigo na rua.

— Mas estes é que são os mais difíceis de ver, Niccolo. Ou talvez sejam os mais difíceis de admitirmos ter visto, porque fazem exigências ao observador. A partir do momento em que admitir que o sacrifício de um ser humano pelo outro é um milagre, você é chamado a agir da mesma forma. Por isso é mais fácil virar as costas. Por outro lado, essa imagem de Maria não nos pede nada, não é mesmo? Orações, talvez, mas nada além disso. Ela faz o trabalho. Ela promove os milagres e nós aceitamos. Nada mais é exigido.

— Será que devo fechar o túnel? Devo dizer às pessoas que não há mais nada a ser visto? Ou será melhor deixar que o tempo se encarregue? As pessoas irão ver que Beatrice continua mancando e poderão perceber que ela não foi de fato curada. E há uma explicação lógica para o que houve comigo.

— Você pode fechá-lo? Será que fechando você não irá aumentar a curiosidade e a determinação das pessoas de ver a imagem? Será que não irá criar um fenômeno sobrenatural por meio do mistério?

Niccolo realmente não sabia. Porém de uma coisa ele sabia.

— Megan quer que eu feche as portas. Ela está inflexível.

— É mesmo?

— Isto é um salão de danças, um bar. Não uma igreja. Seu argumento faz sentido. Todo esse estardalhaço poderá afugentar alguns de seus clientes mais fiéis, sendo que boa parte é católica, e que talvez pense duas vezes antes de beber suas Guinness bem em cima da imagem de uma Virgem Maria aos prantos.

Iggy riu de novo e Niccolo retribuiu, sorrindo também.

— Ela não está se sentindo confortável com os milagres, a minha Megan. E não fica à vontade com outras pessoas acreditando nisso, principalmente no salão da família.

— Então fará com que você lacre a porta?

— Finalmente irá secar, Iggy. Quando o encanamento for todo trocado. Há uma goteira em algum lugar ali, um cano mal colocado, ou mal vedado. Vamos encontrar e consertá-lo, e a Virgem simplesmente irá embora.

— E até lá você irá perder semanas de oportunidades de falar sobre isso com as pessoas, que não poderão ver. É isso?

Iggy o conhecia bem demais. Niccolo ergueu a mão e traçou a borda do manto da Virgem.

— Beatrice Stowell é apenas uma pessoa. Houve outros. A maioria descrente. Mas a imagem faz com que as pessoas pensem. Não sei sobre o quê, e de qualquer forma não tenho a intenção de controlar isto. Mas eles vão embora pensando. Alguns têm a sensação de ter presenciado algo fora do comum, mesmo se não acreditam como os mais fervorosos pensam ser. E...

— E que mal há nisso? — Iggy terminou a frase para ele.

— Gosto de estar aqui para mostrar isso a eles. Gosto de compartilhar esse momento com eles. Não tenho nenhum desejo de voltar a ser padre...

— Além disso, você tem a pequena questão de possuir uma esposa agora.

Niccolo sorriu.

— Pequena apenas na estatura. Ela é um gigante.

— Mas é sua.

— Apenas pelo fato de não usar mais a batina, não significa que as coisas espirituais tenham deixado de ser importantes para mim. Compartilhar a jornada espiritual de alguém é uma dádiva. Não quero deixar de viver esses momentos, até que seja obrigado a fazê-lo.

Iggy ficou em silêncio.

— Que problema — disse Niccolo.

— Não para mim.

— Nenhum conselho?

— Apenas uma pergunta. Por que está falando comigo e não com Megan?

Niccolo trouxe uma mesa de piquenique e colocou-a nos fundos do estacionamento, onde ficava a árvore vilã. Além dela, comprou vasos grandes em terracota, com margaridas e petúnias, para circundar todo o espaço, e alguns pinheiros, que seriam posicionados de forma a encobrir a caçamba de lixo. Não era exatamente um terraço toscano, mas servia como um pequeno refúgio para todos. Podiam ficar ali nos intervalos e aproveitar um pouco do sol, enquanto a reforma prosseguia.

Niccolo havia prometido a Megan um almoço romântico naquela tarde. Marco, de quem ela passara a gostar muito embora insistisse em chamá-la de "Meg" — havia voltado para Pittsburgh para o fim de semana, e somente alguns garotos da Tijolo ainda estavam por lá, para ajudar Niccolo a fixar os ladrilhos da cozinha. Naquele momento os garotos estavam lá dentro, fazendo seu piquenique particular na despensa do andar principal, que passara a ser quase um clube.

— Azeitonas gregas — disse Niccolo, tirando um pacote da sacola do mercado. — Fresquinhas, direto do mercado de West Side. Lingüiça húngara defumada, morangos... alguns dos mais bonitos que já vi... e um belo queijo Gouda. Eu trouxe petiscos especiais para o jantar. Josh adora.

— Rooney também. — Ela se sentiu um pouco culpada por Niccolo, que trabalhava tão duro, ter sido o responsável por essa gentileza. Mas só um pouco. Era maravilhoso ser paparicada, e melhor ainda era tê-lo só para si.

— E para beber? — perguntou ela.

— Limonada. — Ele pareceu melancólico. O homem adorava um bom vinho tinto.

— Quando se está trabalhando é melhor assim.

As mãos de Niccolo eram realmente de um homem trabalhador. Ásperas, cheias de calos, largas, mas seus dedos eram longos e atilados. Por um momento ela as imaginou segurando um cálice, ou uma hóstia.

— Você parece perplexa — disse ele, interrompendo os preparativos para o grande piquenique. — Algo errado?

Ela apagou na mente a visão que teve do marido como um padre.

— Estou faminta, só isso. Ultimamente parece que nunca como o bastante.

Ele ficou paralisado.

— Não haveria uma razão para isso, haveria?

A razão era a ansiedade, mas ela não diria isso a ele. E ainda por cima, ele estava imaginando algo bem diferente.

— Nick, não fique esperançoso. Ainda estou tomando a pílula.

Ele esboçou uma expressão de desapontamento, que sumiu rapidamente.

— Bem, acho que você me diria se não estivesse.

— Sei que você quer um bebê.

— Só eu? — Ele manteve a voz leve, mas ela pôde ouvir o eco de questões mais pesadas.

— Seremos os dois, algum dia. Mas estamos casados há muito pouco tempo. Precisamos de algum tempo juntos primeiro, não acha? Tempo para resolvermos as coisas, antes de acrescentar mais alguém.

— O que há para resolver?

Ele parecia realmente distraído. Uma onda de raiva passou como um raio, mas sumiu em seguida. Que sorte a dela, por ele estar feliz. E as tensões que sentia vinham apenas de seu lado, portanto, ela é quem tinha que resolver. Quantas mulheres teriam um homem assim, que as amasse incondicionalmente? E cegamente.

— Você não parece feliz — disse ele.

— Nick, isso não é sobre o meu amor por você. Você sabe disso, não sabe?

— Não sei de nada. Não sei de onde vem a sua preocupação.

— Preocupação não é bem a palavra. Não exatamente. Apenas precisamos aprender a viver juntos, a perceber o que está dando certo para nós e o que não está.

— Nós moramos juntos por quase dois anos.

— Não da mesma forma. Eu tinha o meu canto em Lakewood, e passava bastante tempo por lá. Tínhamos tempo suficiente para desistir, se as coisas não corressem bem.

— Desistir seria a última alternativa a passar pela minha cabeça. Desde o primeiro instante em que a vi.

Seus olhos escuros brilhavam só para ela. De repente, ela derretia por dentro, mas também lamentava. Porque estavam nos limites de algo que precisavam resolver. E como poderiam? Se tudo que ela queria era encontrar um lugar calmo, para fazer amor com ele?

— Eu também nunca quis desistir — disse ela, suavemente. — Mas às vezes eu sentia tanto medo.

— Sentia?

Como ela poderia responder àquilo? Agora tinha medo de coisas diferentes. Medo que o casamento tivesse trazido uma complacência que poderia encobrir todas as perguntas sem respostas. Medo que seu marido, após alcançar o objetivo de se casar, não quisesse novos objetivos para o relacionamento deles. Ou que Niccolo fosse progredir sem ela, achando que mesmo assim, ela ficaria esperando em frente à lareira, todas as noites, até que ele chegasse.

— Bem, foi um começo interessante — disse ela. — Você tem que admitir. Temos passado mais tempo separados do que juntos.

Ele pareceu perplexo, de verdade.

— Vou para casa todas as noites, Megan. Vejo você aqui todos os dias.

Ela se perguntava por que precisava de mais. E por que não.

— Não temos muita chance de conversar com as serras ligadas e os martelos batendo — disse ela, com cuidado.

— Isso é sobre diálogo?

A adorável sensação de estar derretendo se solidificou como uma rocha.

— Vamos nos restringir a isso, está bem? Como está indo seu dia até agora? Conte-me.

Ele terminou de tirar a comida do saco, como se precisasse de mais tempo para se situar.

— Estamos fazendo progresso na cozinha. Vamos poder instalar os aparelhos na semana que vem. Talvez até alguns dos armários.

— Aí então vou poder fazer almoço para todo mundo. — Ela se serviu, mas o que parecia tão apetitoso ficou entalado em sua garganta.

— Iggy veio até aqui hoje de manhã, enquanto você foi ao Centro Histórico — disse ele.

Megan tinha ido até lá bem cedo, para tentar descobrir mais sobre Liam Tierney, mas não teve sucesso. Os microfilmes não tinham a função de pesquisa. Ela olhou os jornais um a um, durante o período de duas semanas antes e depois do artigo que havia encontrado no túnel, mas não descobriu nada novo. Se houvesse mais menções sobre Liam naquele ano, ou depois, não havia outra forma de encontrá-las, senão olhando página por página.

Ela pegou a limonada que ele havia servido.

— O que o Iggy disse?

— Achou a imagem interessante.

— Não milagrosa?

— Não, mas foi uma boa conversa. Ele sempre tem algo valioso a acrescentar a respeito de qualquer assunto.

— Ele tem sido um bom amigo ao longo de todos esses anos, não acha? — Ela queria sentir apenas gratidão, e essa era a maior parte do que sentia. Mas estava um pouco preocupada. Niccolo havia lhe contado sobre as longas conversas que os dois tinham quando ele ainda era padre, os retiros que fizeram juntos. Ela queria que permanecessem amigos, não era tão insegura assim, mas temia as lembranças da vida anterior de Niccolo. Talvez não temesse, se ela e o marido falassem mais de si.

— Ele é um bom amigo — disse Niccolo. — Eu disse a ele que você quer fechar o túnel.

— E qual foi a resposta?

— Perguntas. Ele não quis dar uma opinião. Você conhece o Iggy.

— Também estou preocupada com as questões legais. Esses túneis foram fechados há anos, e nunca foram de fato regularizados. E se acontecer alguma coisa quando alguém estiver lá dentro?

— Eu e o Marco fizemos uma inspeção superficial. Podemos arranjar alguém que possa verificá-los, se quiser.

— Mas quem? A prefeitura? — Ele fez uma careta.

— Provavelmente não seja uma boa idéia.

— Não vai demorar muito até que alguém nos denuncie.

— Aí então podemos lidar com isso.

Eles ficaram em silêncio. Megan se sentia como se não tivesse chegado a lugar algum, mas não sabia que nova direção tomar.

Niccolo empurrou a sobra de seu prato para outro. Depois suspirou.

— Desculpe, Megan. Sei que isso é difícil de entender. É que realmente gosto de mostrar a imagem às pessoas. Não por acreditar que seja divina, mas porque a maior parte das pessoas a vê como se fosse, e, além disso, algo de bom parece acontecer dentro delas. Estou compartilhando algo. Gosto da forma que isso me faz sentir.

— Acabou de perceber isso nesse momento? Por que nunca me disse?

— Eu não disse?

Quando ia responder, ela ouviu um barulho dentro do salão, ou pelo menos achava que vinha de lá. O som de uma batida amortecida, abafada, mas estranhamente prolongada. Ela ergueu a cabeça.

— Você ouviu alguma coisa? — Niccolo já estava em pé.

— Roy e Peter provavelmente devem estar às voltas com alguma coisa.

Roy e Peter tinham abandonado o segundo grau e já haviam passado da idade para voltar, mas com a insistência de Niccolo estavam cursando um supletivo. Megan gostava de ambos, mas não achava nenhum dos dois confiáveis, como a maioria dos garotos da Tijolo. Peter, que era tão louro quanto um escandinavo, alegava ser descendente de Cavalo Doido dos sioux e estava determinado a provar sua ligação através de seu comportamento. Todas as conversas em torno das verdadeiras contribuições de Cavalo Doido para os sioux oglala, como sua liderança e notável coragem, até então, haviam passado despercebidas.

— Quer que eu vá? — perguntou Megan.

— Não. Eu já volto.

Ela ficou olhando enquanto ele saiu pela porta dos fundos. Achou uma pena que tivessem sido interrompidos. Mais uma vez, eles pareciam na iminência de começar uma comunicação de fato.

Ela estava terminando sua limonada quando Niccolo entrou pela porta.

— Não os encontrei.

Ela ouviu a preocupação na voz dele.

— O túnel?

— Pode ser.

Ela se levantou e foi atrás dele, atravessando o salão. A nova porta da frente ainda estava trancada, por isso estava claro que não haviam saído por ali.

— Estou tentando fazer com que Roy pare de fumar enquanto estiver aqui — disse Niccolo. — Mas ele sai pelas minhas costas.

— Cigarro, ou outras coisas?

— Cigarro, espero. — Drogas eram absolutamente proibidas, e cada um dos garotos da Tijolo tinha de assinar um acordo afirmando que ele (ou ela) não estaria envolvido com isso enquanto estivessem participando do programa. — Vamos descer e ver se eles estão lá — disse Niccolo. O objetivo, embora não tenha sido dito, era descer em silêncio. Se os garotos estivessem fazendo algo errado, era obrigação de Niccolo saber do que se tratava. Megan torcia para que apenas os encontrassem fumando um cigarro. Mas isso não era condizente com o barulho que ouviram. Talvez tivessem batido a porta do depósito lá embaixo, com força. Ou mexeram em algo nas prateleiras que acabou caindo.

Ela pegou uma lanterna no caminho e seguiu atrás de Niccolo.

A porta estava entreaberta e não havia ninguém na sala das caldeiras, mas a luz estava acesa. Ela acendeu a lanterna e seguiu Niccolo túnel adentro.

Estava bem atrás dele, por isso deu-lhe um encontrão quando ele parou de repente.

— Meu Deus, vocês dois estão bem? — perguntou Niccolo.

Megan contornou Nick e viu por que ele havia parado. Os dois garotos estavam em pé, paralisados num mar de entulho de gesso e cimento.

— O teto caiu, Nick. — A voz de Peter estava trêmula. Ele não parecia um índio selvagem agora. Parecia um garotinho, que acabara de ver um monstro dentro do armário.

— Vocês estão bem?

— Acho que sim.

Nick já estava abrindo caminho. Os garotos estavam em pé em frente à Virgem. Ali o teto estava intacto. Mas ao redor, na área antes e depois da imagem, tudo desabou. Megan lembrou-se do furacão, uma lembrança que pretendia evitar para o resto da vida.

— Como aconteceu isso? — perguntou Nick.

— Só queríamos ver o que havia atrás da parede, sabe. Um vazamento, algo assim, como você tinha falado. Tem um espaço vazio entre a parede e o teto. Subi nos ombros de Roy e estava indo tudo bem, mas ele começou a se desequilibrar e fiquei com medo de cair. Agarrei uma das vigas no alto, Roy bateu contra a parede e fiquei pendurado, balançando, até que...

Nick ergueu a mão pedindo silêncio.

— Já entendi.

— Tudo veio abaixo. Tudo. Tudo ao nosso redor. Mas nada me atingiu. — Com o foco da lanterna, Megan o viu virando-se para Roy. — Nem você, não é?

— É. Estou bem.

— Não sei o que vocês podem ter soltado. A viga parece estar no lugar. E melhor ficarmos fora daqui até termos certeza de que isso não se repetirá — disse Niccolo.

— Poderíamos ter morrido — disse Peter. — Poderíamos estar mortos.

— Se estivéssemos em pé ali — disse Roy. Peter voltou a soar como ele mesmo.

— Você acha que foi um milagre, Nick? Como as pessoas estão dizendo? Outro milagre? Se não estivéssemos em pé aqui...

— Acho melhor sairmos daqui — disse Niccolo. — É isso que acho. Fiquem aí e deixe-me tirar um pouco do entulho para que vocês possam passar. Megan, segure as duas lanternas.

Ela segurou e ficou observando-o tirar pedaços enormes de concreto do caminho. Depois de um minuto, os garotos saíram pelo buraco e os quatro olharam para o túnel.

Ela já estava a vários metros de distância e parou, virando-se e focando a luz da lanterna na imagem da Virgem. Como havia suspeitado, a água escorria dos olhos da Virgem.

 

                                   Capítulo 1 5

Shannon, irmã de Tippy, era mais entusiasmada do que instruída, mas aprendia rápido. Queria ser professora, e esse era o motivo pelo qual vinha ao chalé Tierney três vezes por semana. Para aprender o que pudesse e ganhar um dinheirinho. Tinha um amor genuíno pelas crianças e depois que se acostumou com Kieran, passou a gostar muito dele. Mas não hoje.

— Ele não quer fazer nada. Nada mesmo — Shannon estava desanimada e isto parecia ser progressivo. Peggy entendia muito bem como a moça se sentia.

— Acho que todos nós temos dias assim — Peggy ficou olhando o filho jogar-se no chão e chutar com as perninhas. Não era a primeira vez que fazia isso naquele dia e ela tinha receio que não seria a última.

— Ele está piorando. — Ser um pouco insensível fazia parte da natureza de Shannon e, geralmente, não chegava a ser um problema.

Mas hoje Peggy sentiu raiva. Não tanto em relação a Shannon, mas à vida, de maneira geral. Ela raramente se deixava levar por sentimentos como raiva ou autopiedade. Mas às vezes acontece.

Esforçava-se para demonstrar a mesma paciência que exigia de Shannon.

— Ele não está pior. Apenas não está fazendo progressos hoje.

— Bem, quando cheguei, ele ficava sentado calmamente por alguns instantes e apontava. Até ficava ouvindo, quando eu lia para ele.

Shannon era uma bela moça, com o rosto sardento e cabelos pretos encaracolados. Peggy se lembrou de quando tinha dezesseis anos e acreditava que o trabalho duro e a tolerância poderiam mudar o mundo.

— Sei que você está desapontada — disse Peggy. — Receio que faça parte do jogo.

— Pelo menos posso ir para casa no fim da tarde. — Peggy achou essa observação particularmente imatura.

Shannon podia estar frustrada, mas podia ver como Peggy estava mais frustrada ainda. Em seu modo obtuso de enxergar, isso foi uma punhalada na compaixão.

— Por que não vai para casa agora? — perguntou Peggy, levantando-se e propositalmente dando as costas para o filho. — Você está certa, hoje não irá chegar a lugar algum com ele e não é culpa sua. Ele simplesmente não está num bom dia. Você não disse que tinha uma peça para ir hoje à noite?

— Não vai parecer correto deixá-la assim. — Peggy pousou a mão no ombro da moça.

— Você é uma boa professora, Shannon. Não sei o que faria na vida sem você. Mas não faz sentido ficarmos batendo a cabeça na parede.

— E. Nem no chão. Você tem que dizer isso a ele. — Peggy sorriu rapidamente.

— Iria adiantar muito, não é? De qualquer forma, vá em frente. Vou pagar pela semana inteira de qualquer modo. Você fez o melhor que pôde.

Shannon olhou desejosa para a porta.

— Vá em frente — insistiu Peggy. — Vejo você na segunda-feira. — Ela ficou observando a menina parar na sala de estar para se despedir de Irene, antes de disparar para a porta da frente. Irene veio até a porta da sala de aula.

— Ela não ficou muito tempo hoje. — Ela olhou apenas para Peggy, mas não para o menino, que estava aos berros.

Mais uma vez Peggy sentia gratidão por essa mulher, que nunca tivera uma criança dela mesma e era tão compreensiva em relação a Kieran. Ela respondeu a Irene falando alto, tentando se fazer ouvir.

— Ele está sendo um monstrinho hoje.

— Talvez ele precise de um pouco de descanso, querida.

— Concordo, mas ele descansou mais do que o normal. Paramos cedo durante esta semana.

— Ele também deve ter sofrido um bocado com aquele dente. Talvez ainda esteja se recuperando.

Peggy não sabia qual era o problema. Ela estava segura demais de que os pequenos progressos seriam apenas o começo. E agora, mesmo com o que dissera a Shannon, temia que tivesse perdido os progressos já alcançados.

— Vou encontrar algo calmo para fazer com ele. Lamento muito.

— Só lamento por ele não estar tendo um dia melhor. — Irene afagou o ombro de Peggy antes de sair.

Kieran começou a se cansar e o mau humor foi diminuindo. Peggy só queria segurá-lo e fazê-lo dormir, mas sabia que esta seria a última coisa que ele iria querer. Uma das características mais tristes a respeito do autismo de Kieran era a forma como agia contra todos os seus impulsos biológicos. O carinho que ela queria oferecer era como um fósforo aceso num paiol de pólvora.

Ela olhou em volta, procurando por alguma coisa que pudesse interessá-lo e viu uma boneca de pano, no canto da prateleira. Bridie surgira com ela numa tarde. Peggy havia lavado e secado a boneca cuidadosamente, mas ainda não havia usado para brincar, achando que ele fosse fazer o mesmo que fazia com seus bichos de pelúcia. Ele ficava mais interessado em puxar as linhas e desmanchá-los. Desesperada, ela resolveu tentar assim mesmo.

— Mas que menina bonita — disse ela, pegando a boneca na prateleira.

Ela fingia ignorar o filho.

— Uma menina bonita com olhos bonitos. — Peggy tocou os olhos.

Ela sabia que estava usando palavras demais, se o objetivo fosse ensiná-lo a palavra "olhos", mas agora estava mais interessada em distraí-lo. Um objetivo de cada vez.

Sentou-se na poltrona que ficava no canto da sala e colocou a boneca no colo, de frente para ela. Começou a cantar "An Irish Lullaby", cantiga de ninar irlandesa. Talvez não fosse genuinamente irlandesa, mas serviu para Bing Crosby e estava dentro de suas necessidades.

— Lá, lá, lá... — Ela achava que estava indo bem, e mesmo querendo gritar de frustração, mantinha a voz serena.

As pernas de Kieran pararam uma vez, duas, depois pararam em definitivo. Ele não gostava de música, particularmente, mas algo em seu desempenho chamou-lhe a atenção.

— É uma canção... lá lá lá — terminou ela. Lembrou como Megan cantava para ela, quando era bem pequena. Megan certamente cantava melhor, mas não teve um efeito superior. Kieran estava em silêncio. Terapia musical em ação.

Encorajada, achou que seria bom cantar mais uma música. Optou por algo bem americano.

— "Quietinho bebezinho..." — Ela fazia carinho nos cabelos da boneca enquanto cantava, sem prestar atenção ao filho. — Se o passarinho não cantar... — Ela sempre esquecia o resto da letra, mas era mais divertido inventar.

Com o canto do olho, viu Kieran levantar do chão. Ela fez uma mentalização. "Está funcionando, está funcionando". Tudo que funcionasse valia uma nova tentativa. Talvez tivesse esbarrado em alguma combinação musical que agradasse ao menino, e tinha esperanças de aparar as arestas da decepção do dia.

Kieran deu um passo em sua direção e ela não olhou para ele, nem fez nenhum movimento brusco. Apenas deixou que se aproximasse, um passo por vez. Ela cantava com suavidade, palavras que não rimavam, nem faziam sentido algum. Não importava.

Amava esse menino, e queria desesperadamente fazer as coisas certas para ele. Se ao menos pudesse conduzi-lo à direção certa. Gentilmente, devagar, com carinho.

— Se o carneirinho pular... lá lá lá...

Agora ele estava de pé diante dela, esticando a mãozinha. Ela parou de cantar.

— Boneca — disse ela, suavemente. — Kieran quer a boneca?

Ele não se afastou, mas obviamente também não respondeu. Nem a palavra favorita, "não". Apenas ficou ali em pé, com a mão estendida.

Achou ter ouvido a porta abrindo e estava certa de que Irene estaria voltando, para ver se Kieran havia melhorado. Mas não arriscou olhar. Não queria que nada distraísse o filho.

— Boneca. — Ela pegou a boneca no colo e esticou a mão para ele. — A boneca de Kieran.

Por um instante, não teve certeza se ele pegaria. Depois, ele a arrancou de sua mão e, usando a boneca como um bastão, começou a bater nela.

Peggy ficou pasma, em silêncio. A boneca era macia. Não havia como machucá-la, mas sua intenção era clara. Ele queria feri-la. Foi o mais absoluto fracasso da semana. Ela ficou devastada, e o suspiro que deu demonstrava isso.

— Kieran!

Ele parecia não ouvir e batia com mais força. Peggy ficou em pé.

— Kieran, não!

Ela o pegou e ele bateu nela novamente, antes que pudesse arrancar-lhe a boneca das mãos.

— Não!

Ela deixou a boneca cair na poltrona e ele tentou mergulhar para pegá-la. O menino começou a berrar e chutar, conseguindo atingir um golpe em seu quadril, antes que ela pudesse se prevenir.

Nunca, em toda a sua vida, ela sentira tanta vontade de revidar.

Mas foi impedida por um par de braços fortes. No mesmo instante ele já não estava mais com ela, mas a salvo com Finn O'Malley.

Peggy explodiu em lágrimas.

— Você fica aqui — disse Finn. — Não venha atrás de nós.

Ele deu a volta e saiu da sala de aula com a criança aos berros, segurando-a afastada de seu peito. Peggy suspirou e saiu correndo atrás deles, mas Finn se virou. Seu rosto tinha um ar severo.

— Você precisa ou não, de ajuda?

Ela queria dizer que não, mas não podia.

A expressão de seu rosto certamente já teria respondido.

— Fique aqui, Peggy. — Dessa vez ela não os seguiu.

De alguma maneira, ela acabou indo parar na sala de estar e de alguma maneira foi parar nos braços de Irene, que a envolveu e deu-lhe um lenço de papel para enxugar as lágrimas.

— Eu não deveria ter vindo para a Irlanda — disse Peggy. — Você não precisa disso.

— Ao contrário, é exatamente o que eu preciso. Você não vê? Nunca tive isso na vida. Precisava ter um pouco, antes de morrer.

— Não fale sobre morrer!

— Acho que a hora não foi muito propícia, não é? Vamos, vamos, boa menina. Chore, pode chorar. Kieran está em ótimas mãos.

— Finn detesta crianças. E detesta a mim também. E não levo isso para o lado pessoal, sabe. Ele odeia a todos, exceto você e talvez Bridie.

— Ele não odeia a ninguém exceto a si mesmo. O perdão é demorado para o nosso Finn. Mas tenho esperanças.

— Sou um fracasso. — disse Peggy.

— Você é uma mulher diante de uma tarefa bastante difícil e sem garantias. É bem diferente.

— Na verdade, não sou assim, sabe? Sou a irmã que tem a cabeça no lugar.

— Sua cabeça parece ótima para mim, no lugar ou não. — Peggy parou em meio a outro soluço.

— Eu deveria estar ajudando você. Não foi para isso que vim?

— Você me ajuda mais do imagina. — Irene afagou-lhe a mão.

— Para onde acha que eles foram? — perguntou Peggy.

— Não importa, estão juntos, isso é que conta. Os dois têm tanto em comum, sabia?

Peggy olhou para ela. Não entendeu o que Irene quis dizer.

— Distantes de tudo e de todos, ambos — disse Irene. — Kieran não consegue se relacionar com as pessoas, e Finn? Bem, ele simplesmente se recusa. Talvez se entendam de uma forma que não somos capazes de fazer. Talvez, depois de algum tempo, possam ajudar um ao outro a entrar no mundo.

Peggy sentiu novas lágrimas brotando em seus olhos.

Finn ficou para o jantar. Ele não tinha certeza do motivo, exceto por não querer ir para casa. Depois da escola, Bridie tinha ido passar o fim de semana na casa de campo de uma amiga. Ele chegou a desejar que ela fosse. Mas agora quase lamentava por ter permitido. Bridie era o raio de sol que entrava pela janela, iluminando a escuridão de sua vida. Mesmo sabendo que uma criança jamais deve carregar a responsabilidade de fazer um adulto feliz, ele sentia sua falta quando estava longe.

No entanto era cuidadoso e jamais dizia isso a ela.

— Você tem certeza de que não deu nenhuma medicação a ele? — perguntou Peggy, enquanto passava a travessa de cenouras. Ao seu lado, Kieran mal conseguia manter os olhos abertos.

A colher, que havia sido sua estimada companheira nas últimas semanas, estava abandonada, ociosa, à sua frente. O pouco que comera, uns pedacinhos de pão molhados no leite, ele comera com a mão.

— Ele precisava de ar puro e silêncio. — Finn pegou a travessa e serviu-se de cenouras, no prato já cheio de salmão fresco e batatas cozidas.

— Ele precisava de um tempo longe da mãe. — Peggy sorriu, como se dissesse saber a verdade, mas mesmo assim estava tudo bem.

Poucas mulheres permaneciam tão lindas após uma enxurrada de lágrimas. Infelizmente, Peggy Donaghue era uma delas. Ela havia esfregado os olhos e o nariz, e mesmo com a pele um pouco avermelhada, continuava linda. Sheila, cuja pele clara combinava com os cabelos, certamente ficaria inchada por muito tempo, se tivesse chorado e soluçado como ela.

— Ele gostou da vista de cima dos meus ombros. — Finn deu uma garfada, depois outra. A comida estava deliciosa. Ele sabia que Nora havia ido embora ao meio-dia, o que significava que Peggy teria feito o salmão enquanto ele e Kieran estavam lá fora.

— Eu costumava carregá-lo nas costas quando era menor. Acho que seus ombros devem ter lembrado a sensação dos velhos tempos.

— Talvez seja porque o pai também o carrega assim? — Finn sabia que Peggy e o pai de Kieran não eram casados, mas Irene lhe contara que o relacionamento dos dois era amistoso.

— Não acho que seja isso. Phil nunca esteve muito próximo — disse Peggy, de maneira casual.

Finn ficou intrigado com este homem, capaz de abandonar Peggy e seu próprio filho.

Ele queria saber mais.

Peggy levantou-se, embora o jantar tivesse apenas começado.

— Desculpem, mas acho que vou ter que pedir licença. Vou colocar o Kieran na cama. Volto já.

— Estaremos aqui — disse Irene e prosseguiu, depois que Peggy e Kieran saíram. — Aquilo foi amável de sua parte. Pegar o garoto para ela, daquela forma. Ela está consumida por ele, sabe. É a mãe mais conscienciosa que já tive o prazer de conhecer, mas isso a está deixando mais cansada do que demonstra.

Ele procurou falar algo e encontrou pouco a dizer.

— Era o mínimo que eu podia fazer. Peggy é boa para Bridie — disse ele, finalmente.

— Achei que não tivesse notado.

— Não sou tão alienado ao que acontece ao meu redor como pensa.

— Mas é resistente, querido. Resistente demais.

— Não sei como você me atura.

— Nem eu. Creio que seja sua santa avó, guiando os meus passos lá do céu.

Ele riu, mas receava que ela não estivesse brincando. Também temia que, em breve, houvesse duas velhas xeretas no céu, tentando guiar a sua vida. Ele se perguntava se Peggy teria idéia da gravidade da doença de Irene, e como era remota sua chance de viver o suficiente para ver algum progresso expressivo de Kieran.

Peggy voltou quando ele já estava na metade do salmão.

— Desculpem, mas achei que teríamos outra cena se não o levasse para dormir.

— Não escutei você cantar agora. — Ele começou a balbuciar música que ela estava cantando, quando ele entrou na sala de aula.

Peggy ficou vermelha.

— Aquilo foi como um tiro no pé, não foi?

— Crianças autistas geralmente têm um sistema auditivo hipersensível e nenhuma habilidade para filtrar o que faz sentido no som. Juntando isso à sua voz apavorante, já é um bom motivo para ter uma crise.

Peggy levantou a cabeça, mas quando viu que ele estava sorrindo, também deu uma risada.

— Então foi esse o problema. — Ela segurou o guardanapo na boca, mas gotinhas de saliva espirraram. — Oh, Deus, eu só estava tentando ajudá-lo.

Agora Irene estava rindo e Finn também.

— Meu pai sabe cantar. Minha irmã mais velha canta maravilhosamente, Casey é razoável, mas eu mal consigo esboçar uma melodia. Por que será?

— Eu diria que é apenas justiça — disse Finn. — Duvido que elas sejam bonitas como você.

Peggy ficou pasma. Finn ficou estarrecido por ter dito isso em voz alta.

— O Senhor distribui as Suas Graças — disse Irene. — E a você foi dada a graça da bajulação, Finn. Agora coma sua comida, antes que congele.

Finn lavou os pratos, mesmo com as repreensões de Peggy, dizendo repetidamente que ele já havia feito o suficiente.

— Você tem idéia de quantas pobres mães irlandesas passaram a vida inteira desejando que seus maridos e filhos ajudassem na cozinha? A maré vira a favor e você nada contra ela?

Ela riu. Finn estava meio diferente esta noite e ela gostava imensamente dessa nova versão. Ele a deixava secar as travessas, por isso ela estava em pé ao seu lado, secando cada peça cuidadosamente, com um pano de prato limpínho, recém-lavado e passado.

— Bridie estava bastante animada com esse fim de semana — disse ela. — Ela falou disso a semana inteira.

— Ela não é feliz na cidade. Para mim é melhor, porque tenho gente que pode olhar por ela enquanto estou no trabalho. Mas ela gosta mesmo é de ficar ao ar livre. Ela tinha um pônei, mas tive que vendê-lo quando nos mudamos.

— Ela disse que a amiga que ia visitar tem pôneis e elas iriam cavalgar.

— Os pais dela são boa gente e a convidam sempre que podem.

— Ela é uma menininha maravilhosa. Bem, não tão menininha. Muito em breve estará pensando nos meninos, assim como pensa nos pôneis.

— E eu vou ficar desnorteado.

— Bem, você também foi menino um dia. Isso lhe dá uma vantagem diferente. Você pode dizer a ela o que eles pensam.

— É mais provável que eu possa dizer a ela o que eles não estão pensando.

Ela secou a última travessa. Finn lavava louça como um profissional, não como a maioria das mulheres, que deixavam passar alguns ciscos de comida, para reforçar o tempero da próxima refeição. Ela ficou surpresa em como se sentiu em casa, trabalhando na cozinha ao lado dele. Ele era o homem mais difícil que ela já havia conhecido, pelo menos o mais difícil que havia lhe interessado. Mas quando perdia aquela pose — e cada vez mais ela achava que isso era para manter as pessoas distantes — ele era terno, engraçado e inteligente. Estas seriam as três melhores qualidades para ela. Quatro — incrivelmente atraente era o bônus que arrematava as três anteriores, completando um pacote irresistível.

— Devo-lhe um pedido de desculpas. — Finn olhou para ela, encostado na pia, com os braços cruzados.

Ela não dispensou a oferta. Um pedido de desculpas fazia bem à alma. Isso havia sido incutido nela por outras mulheres teimosas de sua família.

— Reagi mal na noite em que lhe disse que era um alcoólatra. Não quis a sua compreensão. Ainda não tenho certeza se quero, mas quero seu perdão.

Isso também era novo para ela. Na verdade, a maioria dos homens que havia conhecido tinha pouco pelo que se desculpar. Ela os havia escolhido pelo mínimo esforço que teria de fazer para conhecê-los. Mas quando erravam, a maioria não estava disposta a admiti-lo. Phil, ao saber de sua gravidez, chegou a culpá-la, por pedir-lhe que usasse camisinha, em vez de tomar pílulas por conta própria.

— Agradeço pelo pedido de desculpas, Finn. — Ela achou que precisava fazer mais. Ele estava ali em pé, orgulhoso, solitário, os braços cruzados no peito, como se esperasse que ela viesse em sua direção com os punhos fechados.

Ela deu um passo e tocou-lhe o braço, bem de leve, com a ponta dos dedos. Estava rígido como pedra, tanto pela tensão, quanto pelo pelos músculos bem desenvolvidos de um homem trabalhador.

— Gostaria de sair para dar uma volta? Sei que você e Kieran já foram, mas eu adoraria sair só um pouquinho, para sentir o cheiro do mar. Não posso demorar muito.

— Vai lhe fazer bem.

— E como. Vou pegar um casaco.

Quando ela chegou, ele estava esperando lá fora, agachado, conversando com Banjax. O cachorro estava com a cabeça erguida, como se estivesse acompanhando o assunto com interesse, esperando sua vez de responder.

— Vejo que Bridie não é a única da família que gosta de bichos — disse Peggy.

Ele ficou em pé.

— Que bom que Irene ficou com ele. Acho que Bridie não iria me perdoar se a vida dele acabasse de maneira ruim.

— Irene adora tê-lo aqui, embora nunca vá admitir.

— Tenho certeza que deve ficar imaginando o que será feito dele quando ela morrer.

Era a segunda vez que a morte de Irene era mencionada naquele dia. Desde o começo, Peggy sabia que a velha senhora estava morrendo. Mas não queria ser lembrada. Ela queria aproveitar aquela ligação inesperada, e muito bem-vinda, com sua ancestral.

— Talvez Irene viva mais que Banjax — disse Peggy.

— Você é estudante de medicina. — Não foi uma pergunta.

Eles começaram a descer a rua. Havia uma trilha, que era bastante conhecida e atravessava o campo, indo dar num platô de pedras com vista de cima do mar. Peggy tinha a intenção de seguir por ali.

— Você está se esforçando bastante para fazer com que os últimos dias dela sejam felizes — disse Finn, depois que fizeram uma curva, entrando no campo.

Ela ouviu as entrelinhas. Ao contrário do que eu havia imaginado.

— Acho que isso é outro pedido de desculpas.

— De forma alguma. Eu tinha todos os motivos para me preocupar com Irene e queria protegê-la. Como iria saber que você seria uma bênção e não uma maldição?

— Duvido que ela tenha me achado uma bênção essa tarde. O comportamento de Kieran foi o suficiente para provocar um ataque cardíaco até mesmo numa mulher saudável.

— Ela gosta de tê-la aqui. Irene sempre foi auto-suficiente e muito capaz de se manter ocupada e feliz. Acho que quando era mais jovem, gostava de viver só. Mas agora ela precisa de companhia. Venho tentando dizer isso a ela há anos.

— Você só não esperava que a resposta fosse uma jovem americana com um bebê complicado.

— Não esperava.

— Não sei o que esperava, Finn. Normalmente sou bastante racional. Penso muito sobre as coisas, antes de agir segundo as minhas conclusões. Eu acreditava que se conseguisse trazer Kieran para perto de mim, se apenas conseguisse encontrar um meio de trabalhar com ele por algumas horas diariamente, seu comportamento iria moldar-se aos poucos e ele teria a chance de algo próximo a uma vida normal. Não percebi como ele iria me esgotar, e a Irene também, receio.

— Você esperava que ele se tomasse normal dentro de um ou dois meses?

Ela considerou a questão silenciosamente, mas no fim sacudiu a cabeça.

— Não. No começo eu tinha certeza de que os médicos estavam errados. Achei que fosse sua audição, ou alguma falha na concentração, algo que pudesse ser corrigido com cirurgia ou medicação. Mas isso durou apenas alguns dias. Quando comecei a me aprofundar na leitura, percebi como tudo se encaixava. E o prognóstico de longo prazo.

— Há uma imensa variedade de comportamentos, assim como há potencial.

— Já não sei mais o que "normal" significa, mas não espero que o autismo desapareça. Sei que será parte de quem ele é, para o resto de sua vida. Mas há esperança, porque descobri bem cedo. Algumas crianças autistas conseguem chegar à faculdade, têm uma profissão, podem casar. Quero o melhor para ele, o melhor que ele seja capaz de fazer. Só isso.

Eles caminharam em silêncio por alguns minutos. Finn foi quem o quebrou.

— Talvez eu esteja enganado, mas não acho que queira apenas isso. — Haviam chegado a algumas formações rochosas, bancos de pedra feitos pela mãe natureza, com vista para o mar. — Estou achando que você quer corrigi-lo.

Ela sentou-se no banco ao seu lado, mas olhou para ele, não para a água. O sol havia sumido e só faltava uma pequena lasquinha para que a lua estivesse cheia. Toda a paisagem já estava banhada pelo brilho prateado.

— Há outros casos de autismo na família de Phil. Ele tem um irmão autista, que nasceu dois anos depois dele. Os pais de Phil optaram por colocá-lo em um centro de tratamento após a confirmação do diagnóstico.

— Phil quer o mesmo para o filho?

— Phil não consegue articular seus sentimentos, portanto nunca saberei o que ele quer. Ele se casou no ano passado e sua esposa engravidou imediatamente. Não sei se ele está preocupado com o fato de a criança também poder ser autista, embora os pesquisadores não tenham provas concretas de haver uma ligação genética.

— De alguma forma se sente culpado em relação a Kieran? É isso que está dizendo? Mesmo que ele não admita?

— Acho que sim.

— E sobre o que se sente culpada, Peggy?

Ela achou que estivesse conduzindo a conversa a outro rumo, distante daquele. Ficou surpresa por ele deduzir dessa forma.

— Temos casos de doença mental em nossa família. Eu lhe contei sobre o meu pai. Mas não tenho nenhum motivo para pensar que meus genes tenham muito a ver com isso.

Ele ficou em silêncio. Ela desconfiou que ele estivesse aguardando.

— Eu deveria ter estado lá para ele — disse ela, finalmente.

— Kieran?

— Achei que podia ter tudo. — Ela se virou para olhar para a ilha Clare, no oceano. — Eu seria a Supermãe-Solteira, uma heroína digna de sua própria história em quadrinhos. Terminei a faculdade enquanto ainda estava grávida, dei um tempo depois que ele nasceu, depois mergulhei na faculdade de medicina. Eu havia planejado esperar um ano inteiro, mas Kieran estaria em tão boas mãos. Eu tinha uma família que clamava para tomar conta dele, e ele não parecia precisar de mim, da forma como outras crianças costumam precisar. Achei que fosse pelo fato de sempre haver tanta gente alvoroçada ao seu redor. E todos o adoravam. O que poderia haver de errado em deixá-los ajudar?

— O que poderia?

— Você esteve na escola de medicina. Tenho certeza de que aqui é a mesma coisa que nos Estados Unidos. Inteiramente desgastante.

— Ainda não consegui colocar o meu sono em dia.

Ele a estava incentivando a falar. Ela sabia, e isso a deixava desconfortável, mas mesmo assim não conseguia parar.

— Eu queria ser uma boa médica. Procurava passar o maior tempo possível com Kieran, mas meu tempo era limitado. E quando estava com ele, minha atenção não estava focada nele. Ele não parecia importar-se e eu me deixava guiar por isso. Suas necessidades estavam sendo supridas por gente que o adorava e eu estava me preparando para uma carreira que iria nos dar um bom meio de vida. Eu até pretendia achar uma especialidade com horários regulares, para estar disponível nos jogos e acampamentos de fins de semana.

— E agora se sente culpada por todo esse tempo que passou longe dele. Mesmo sabendo que... já que disse ter feito todas as pesquisas... crianças como Kieran já nascem assim, não se tornam assim.

Ela ficou em silêncio, porque obviamente sentia-se culpada. Havia abandonado seu filho. Sim, para pessoas amáveis que cuidariam dele. Sim, por um futuro melhor. Mas ela adorava a escola de medicina e tudo que isso envolvia. Enquanto seu próprio filho ia se deteriorando, seus sonhos pessoais se realizavam. E ela não enxergou os sintomas.

— Eu deveria saber. — Simples, sem rodeios e verdadeira. — Sou mãe dele.

— Mas você não quer ser, não é? Pelo menos às vezes, como hoje. E isso é o que a faz sentir-se pior consigo mesma.

— Ele é meu filho e eu o amo.

— Eu não tenho dúvidas disso.

O silêncio se prolongou. O luar cintilava na água e as estrelas começaram a surgir.

— Há dias em que desejo que as coisas fossem diferentes — concordou ela. Não sabia por que estava contando essas coisas a Finn, quando jamais dissera isso antes.

Ele concordou.

— Todos os pais diriam o mesmo. Mesmo aqueles que têm filhos absolutamente normais.

— Acho que ele merece mais. — Sua voz baixou a ponto de ela mesma quase não ouvir. — Ele merece uma paciência infinita, recursos ilimitados e uma mãe, que ao acordar todos os dias, saiba o que fazer e como fazê-lo. Um pai que esteja envolvido em sua vida, em todos os sentidos.

— Infelizmente as crianças nascem na terra, não no céu.

— Procuro não criar falsas expectativas em relação a mim mesma. Realmente tento. Mas há dias em que...

Ele juntou-se a ela sobre a pedra, o que a surpreendeu. Sentaram-se lado a lado, como duas pessoas que se sentem à vontade juntas.

— Deixe-me dizer o que vejo — disse Finn. — Entusiasmo e inteligência. Alguém que viu os sintomas quando o filho ainda era jovem o bastante para usufruir ao máximo de um tratamento intensivo. Uma mulher com senso de humor sobre suas próprias falhas. Mais paciência que duas mulheres juntas teriam. Olhe como você supervisiona a dieta de Kieran, Peggy. Somente o que há de mais fresco, os ingredientes mais puros. Sem açúcar, ou aditivos. Planos de educação bem organizados, o esforço constante. A vinda até a Irlanda, sem qualquer garantia, apenas por parecer a melhor opção para ajudá-lo.

— Não sou santa. Há dias em que acordo sem saber o que fazer. Sinto-me à deriva quando trabalho com ele e nada dá certo. Eu nunca quis ser professora. Sinto falta de freqüentar aulas. Penso se algum dia terei a chance de seguir uma carreira médica.

— Você o mandaria de volta, se pudesse?

— Como assim, trocá-lo por um modelo mais normal?

— Se você pudesse? — Ela ficou pensando.

— Posso ficar com Kieran e trocar apenas seu sistema neurológico?

Finn deu uma gargalhada. Ela gostou do som. Foi uma risada vigorosa e libertadora. Ela podia sentir que o sacudiu por dentro, seu braço, o lado do quadril, encostado ao dela.

— Em meus melhores dias, penso que ele me foi enviado por um motivo — disse ela. — Lições que ambos precisamos aprender. Isso é meio Nova Era para uma boa católica, mas é isso. Acho que ele já me ensinou bastante. Portanto, não. Eu não o trocaria por outro modelo. Ele é meu para uma longa caminhada, e eu o amo.

— Força através da adversidade?

Ela estava gostando dessa intimidade e tinha plena consciência de que poderia estar prestes a destruí-la.

— Algumas vezes se sentia dessa forma em relação aos seus filhos? Ou pelas perdas que sofreu? Não que seja bom de alguma forma, mas pelo fato de resultar em algo, apesar do horror?

— Você simplesmente se cansou de falar de si?

— Não, eu gostaria de conhecê-lo melhor. Você torna isso difícil, como bem sabe.

— Não falo dos meus filhos.

— Sim, mas isso é como o enterro derradeiro. É como se nunca tivessem existido. Até Bridie tem medo de mencioná-los.

Ela o sentiu retraindo-se. Suspirou.

— Finn, não sou sua paciente, por isso, não precisa me fazer sentir melhor. Achei que talvez tivéssemos alcançado um novo estágio. Amigos que podem realmente falar de suas vidas.

— Falar da minha vida? Eu matei meus filhos e minha esposa. — Ele se levantou e caminhou até a beirada do penhasco. Havia uma pedra estreita a uns seis metros abaixo, depois mais nada além da água, até o horizonte, delineando a ilha Clare, a uns cinco quilômetros de distância.

Ele olhou para ela.

— Era isso que queria saber? Esse estágio que queria alcançar?

Ela ficou sentada esperando.

— A essa altura você já deve ter ouvida a história — disse ele.

— Sei que foi um acidente de barco.

— Fomos a Clare. Sheila adorava a água. O pai dela era pescador e quando era criança, sempre saía com ele de barco. Ela se sentia totalmente em casa dentro de um barco, e queria que as crianças também se sentissem assim. Nós compramos um. Nada muito caro, ou extravagante, mas resistente e confortável o suficiente para a viagem. A Bridie fica enjoada, então implorou para que a deixássemos passar o fim de semana com uma amiga.

— Que bom — disse Peggy.

— Primeiro Sheila insistiu para que ela viesse conosco, mas no fim acabou cedendo. Saímos cedo e a travessia não teve problemas. Passamos o dia nadando e fazendo trilhas. No começo da tarde o tempo começou a mudar, mas não dei muita atenção. Estava apenas nublado, de certa forma foi um alívio do sol forte da manhã. Outras pessoas permaneceram. Nós também ficamos. Brian, o menorzinho, adormeceu e Sheila não queria acordá-lo para vestir seu colete salva-vidas de novo, e carregá-lo para o barco. Então esperamos até que ele despertasse do cochilo.

Peggy não queria interrompê-lo. Ela concordava com a cabeça, mas não dizia nada.

— Quando ele acordou, o céu já estava escurecendo e o vento havia aumentado. As ondas estavam batendo nas laterais do barco e por um momento fiquei em dúvida se deveríamos fazer a travessia. Sheila achou que estaríamos seguros e tive medo que pudéssemos ficar ali, isolados na ilha, durante a noite. Então colocamos os meninos no barco e iniciamos a travessia.

Ele se afastou e ficou olhando para o oceano.

— Era para estarmos bem. A chuva começou a cair. Primeiro só um pouco. Depois o céu se abriu. Ainda assim continuávamos seguros. Nosso barco era resistente. Aumentei a velocidade para que chegássemos logo em casa. Até agora não sei no que batemos. O mar estava revolto, mas parecia não haver nada no caminho. Num instante estávamos indo para casa, no instante seguinte estávamos todos na água, em algum lugar entre a ilha e a costa, e o barco estava em pedaços, boiando ao nosso redor.

Peggy arrepiou-se. Ele não entrou em grandes detalhes, mas ela podia imaginar o terror.

— Finn, se não quiser continuar...

— Você perguntou. Aí está. Parte do casco ainda estava flutuando. Sheila era forte e boa nadadora o suficiente para me ajudar a pegar os meninos e levá-los até o casco. Mas ela parecia lenta e desnorteada. Eu havia sido arremessado para longe, mas não me feri. Consegui erguer Brian até o topo do casco. Mas ele era muito pequeno para conseguir se agarrar. A água estava fria e, obviamente, já não havia mais a praia, onde podíamos nos manter ali. As ondas nos jogavam para todas as direções e Mark afundou, mesmo de colete salva-vidas. Tentei segurá-lo na superfície e, ao mesmo tempo, tentava segurar Brian em cima do pedaço do casco. Foi quando percebi que Sheila estava ferida e também precisava da minha ajuda. Gritei para que ela agüentasse firme, que o socorro viria. Mas fomos o último barco a ir embora, e as barcas haviam parado de circular até que o tempo melhorasse.

Ele limpou a garganta.

— Virei a cabeça para olhar para Mark e agarrá-lo com mais força, e quando virei de volta para Sheila, ela havia sumido. Nunca mais a vi.

— Finn...

— Eu não podia procurá-la, não podia ajudá-la. Estava com os meninos. Os dois. Brian escorregava do casco, que estava se quebrando. Mark estava agarrado a mim, mas afundava, e percebi que... — ele fez uma pausa. — Percebi que não iria conseguir salvar os dois.

O estômago de Peggy estava embrulhado. Tinha náuseas, mas se ela sentia assim, só em ouvir a história, como teria Finn se sentido, ao longo desses dois anos?

— No fim, não salvei nenhum dos dois — disse Finn, finalmente. — Eu sabia que tinha que escolher, que tinha que tentar nadar até a costa com um dos dois. Sabia disso com cada fibra do meu ser. Mas não pude escolher um dos meus filhos. Então esperei, rezando, lutando, até que Brian não resistiu. E quando parti com Mark, também já era tarde demais para ele.

— Eu sinto muito, muito mesmo — disse Peggy.

— Não sei por que sobrevivi. Eu sabia que Mark estava morto, mas fiquei agarrado a ele. Achei que estava ouvindo o barulho das ondas quebrando na praia. Continuei nadando, rezando por um milagre, depois tudo se apagou. Acordei no dia seguinte, no hospital. Alguém havia me visto. Alguém me resgatou no que seriam meus últimos instantes de vida. O corpo de Mark foi encontrado na manhã seguinte, depois de ser arrastado pela correnteza até a praia. Brian e Sheila nunca foram encontrados.

— Você deve ter se sentido como se sua vida tivesse acabado.

— Era só o que eu desejava. Fui treinado para salvar vidas e não pude salvar as pessoas que mais amava. Sou um cientista. Eu sabia o que tinha a fazer, podia compreender os fatos, mesmo tomado pelo pavor, mas não conseguia agir.

Peggy se levantou è juntou-se a ele, na beirada do penhasco, embora cuidadosa em não tocá-lo. Sabia que ele não iria gostar.

— Foi por isso que parou de exercer a medicina? Para se punir, por ter agido como um pai, em vez de um médico?

Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse resolvendo se continuava ou não. Quando falou, parecia exausto.

— Fechei o consultório por uns tempos, até que pudesse me recuperar fisicamente. Providenciei três funerais. Coloquei nossa casa à venda e mudei para a cidade com Bridie. E depois de seis semanas, voltei ao trabalho. Meu primeiro paciente foi um menino. Ele me lembrava Brian. A criança tinha algo nas costas, apenas uma verruga, descobriu-se mais tarde. Mas eu olhava para aquilo, incapaz de decidir o que fazer. Seria maligno? Será que valeria a pena mandá-lo a um especialista? No fim, eu o mandei para Castlebar, porque não conseguia mais ver a diferença entre uma simples verruga e um tumor. Então entrou o paciente seguinte. Uma menina adolescente, com a garganta doendo. Eu não sabia como tratá-la. Pensei em todas as crianças que já haviam morrido por problemas na garganta, devido ao desenvolvimento de bactérias, complicações. Dei uma desculpa e a mandei para ser vista por outra pessoa. O terceiro paciente era uma emergência, um homem que eu conhecia há anos. Tinha dor no abdômen e febre baixa. Acabaram descobrindo que era apenas por causa dos mexilhões estragados que havia comido, mas eu tinha certeza de que ele estava morrendo, e se não o tivesse mandado às pressas para o hospital, teria sido o seu assassino também.

— Finn...

Ele balançou a cabeça.

— Fechei as portas naquele dia, dessa vez para sempre. Será que um homem precisa apanhar na cabeça com a verdade? Numa emergência, onde conta mais, não consigo tomar decisões. E agora nem quero tentar.

A última frase era a que dizia mais. Por tudo que Peggy havia ouvido, sabia que Finn era um médico excelente, que diagnosticava com cuidado, descobrindo as doenças mais raras, geralmente em pouquíssimo tempo. Ele jamais desistia de encontrar o tratamento certo, até que ficasse claro que não existia nenhum. Pacientes de todos os lugares da Irlanda vinham a Shanmullin para vê-lo, dirigiam quilômetros e quilômetros, porque ele era o melhor médico e também o mais compassivo.

— Você sabe que recuperação leva tempo — disse ela. — Como médico, você sabe disso. Seis semanas não era tempo suficiente.

— Jamais haverá tempo suficiente. Não confiei em mim naquele dia e não confio agora. Comecei a beber. Seis semanas depois, acordei e percebi que poderia perder Bridie também. Irene me ajudou a ver isso, então fiquei sóbrio por Bridie e Irene, e me mantenho sóbrio. Mas não vou permanecer assim se tiver que enfrentar as decisões do dia-a-dia, que eu costumava encarar sem esforço algum. Quando sou mais necessário, não consigo agir.

— Você agiu, Finn. Você tomou uma decisão e tentou salvar seus dois filhos. Se tivesse feito qualquer outra coisa, será que conseguiria viver consigo mesmo?

Ele se virou para ela. Sob o luar ela pôde ver que seu rosto estava pálido.

— Estou vivendo agora? Não tenho mais certeza.

Ela pensou em Kieran, que não a deixava consolá-lo. Finn certamente se sentiria da mesma forma. Mesmo assim ela tocou-lhe o rosto. Ele fechou os olhos, mas não se afastou. Era um começo.

 

                               Capítulo 1 6

Meggan acordou de um pesadelo, em que corria atrás de Niccolo pelos trilhos, dentro de um túnel. Um trem vinha atrás deles. Ela podia ouvir o som da engrenagem se aproximando cada vez mais rápido, e a buzina disparava freneticamente, avisando a chegada. Ela gritava para que Niccolo saísse dos trilhos, mas ele não conseguia ouvi-la, por mais alto que chamasse.

Ela acordou num sobressalto e sentou-se como um raio. O coração saltava no peito. Ela respirava ofegante, tentando inspirar o ar, que não vinha.

— Você está bem? — Niccolo sentou-se na cama ao seu lado, passando o braço ao seu redor. — Calma, estou aqui.

— Que droga, você não estava... Você estava... mais à frente. E não conseguia me ouvir.

— Foi apenas um sonho. Só um sonho.

Ela sabia o que um sonho era. Aquilo não era um sonho.

Era o mais sombrio dos avisos, que dispensava qualquer dicionário para identificá-lo, pois era ura apelo para que reconhecesse a necessidade de lidar com os problemas de seu casamento. Da próxima vez, seu subconsciente iria simplesmente esmagar-lhe a cabeça.

— Você não saía dos trilhos e o trem estava se aproximando. Eu gritava sem parar, mas você não ouvia.

Ele a beijou no rosto.

— Fique sentada aí. Vou trazer um pouco de café. A cafeína vai espantar essas nuvens.

Ele já tinha ido, antes que ela pudesse responder. O bondoso Nick, cuidando dela como fazia com todo mundo. Ela lhe dera algo a fazer, um problema para resolver, e isso era o que ele mais gostava.

Ela estava furiosa com alguém, só não tinha certeza de quem era, exatamente. Quando será que os problemas entre eles teriam passado a fazer parte de cada hora de sua vida? Enquanto estava acordada, conseguia ser racional — quase sempre. Niccolo tinha muita coisa na cabeça. A Tijolo necessitava de recursos para continuar a ser uma instituição de compreensão e utilidade, como sempre fora. As obras do salão consumiam horas e horas diárias e Niccolo sentia a pressão para terminar logo, para que ela pudesse abrir as portas e mandar Marco de volta para casa.

O acidente no túnel havia gerado um novo interesse pela imagem na parede e as pessoas que antes faziam piadas, ou simplesmente ignoravam, passaram a pedir para visitar.

Felizmente, para ela, os fiscais da prefeitura haviam fechado o túnel. Infelizmente poderia ser reaberto após alguns reparos no teto. Disseram a Niccolo que o salão não corria o risco de ser fechado apenas pelo fato de as pessoas visitarem o túnel. Afinal, ele havia sido construído seguindo moldes arquitetônicos impecáveis e era parte da história local.

Infelizmente estava fazendo história rapidamente também.

Ela se recostou em alguns travesseiros, roubando inclusive o de Niccolo, num acesso temperamental, para ficar mais confortável. Se ela estava correndo pelos trilhos e gritando para salvá-lo, ele lhe devia algo.

Alguns minutos depois, ele empurrou a porta com o cotovelo, trazendo café e o Plain Dealer.

— Aqui está.

Ele tinha somente uma caneca. O jornal estava dobrado embaixo do braço, para que ele ficasse com uma mão livre.

— Onde está o seu? — perguntou ela.

— Eu disse ao Iggy que iria passar por lá hoje cedo. Ele quer falar comigo sobre alguma coisa. Vou tomar café com ele.

Ela sentia a testa latejar.

— Não são nem sete horas.

— Mas até que eu tome banho e me vista, serão. E ele acorda com o raiar do dia. Além disso, tenho um dia cheio.

— Isso não é novidade. — As palavras soaram de modo estranho, mas ele não pareceu notar.

Ele entregou a ela a caneca e o jornal. Nick ensinara os truques de um bom café e agora ela já estava muito mal acostumada para aceitar de outro-modo.

Era um café torrado bem escuro, com creme e mais açúcar do que ele consumia no mês inteiro. Desde a primeira caneca, ele nunca mais esqueceu como ela gostava.

— A reunião é sobre o quê? — perguntou ela. — Ou é apenas discussão de padres?

Ele mais uma vez pareceu indiferente a seu tom.

— Iggy não entrou em detalhes. Mas acho que tem algo a ver com o túnel.

— O meu sonho também.

Ela o viu olhando para o relógio na mesa-de-cabeceira e por muito pouco não o arremessou ao chão.

Niccolo sentou-se na cama. Vestia as calças do pijama, mas estava sem blusa. Tinha um peito largo, com pêlos escuros e macios que desciam até o abdômen definido. Tirava-lhe o fôlego. Quase sempre.

— Conte-me mais sobre isso — disse ele.

Ela tinha tudo que queria, mas agora pensava no ditado popular. Porque, às vezes, a pior coisa é conseguir exatamente o que se deseja.

— Um trem se aproximava de nós. Dentro do túnel, é claro. Você ia um pouco mais à frente e eu não conseguia alcançá-lo. Não conseguia avisá-lo que o trem estava vindo.

— Você está poupando muito do nosso dinheiro em psicanálise, não é?

— Nunca fui muito de simbolismos. — Ela pousou a caneca de café na mesa. — Gosto de ir direto ao básico.

— Nós não estamos nos comunicando e você não consegue chegar a mim.

— Acho que isso resume bem.

Ele correu os dedos pelos cabelos, um gesto tipicamente matinal, que ela havia passado a adorar, entre vários outros. Esta manhã irritou-lhe. Pareceu uma barreira, um instante de reflexão particular, antes que ele explicasse racionalmente e com muita calma, que ela estava enganada.

— Sei que tenho andado muito ocupado — disse ele, quando já não tinha mais onde mexer nos cabelos. — Não sei o que fazer em relação a isso.

— Achei que depois que o telhado fosse colocado, você já teria superado o túnel de uma vez por todas. Em vez disso, você o acrescentou ao projeto da obra. E parece haver um número infinito de pessoas falando da forma como os garotos não foram tocados quando o teto desabou ao redor deles.

— Eu sei, Megan.

— Nick, estou me sentindo um pouco desesperada. Deveríamos estar começando a nossa vida, e você está sempre longe.

Ele a encarou como se ela estivesse falando em outra língua.

— Estou ocupado. Não estou sempre longe. Venho para casa toda noite.

— E se tranca para rever os custos e propostas.

Ele abriu uma nova trilha nos cabelos. Ela queria dar-lhe um tabefe nas mãos.

— Sei que tudo isso é importante para você — disse ela, os dentes cerrados. — Estou tentando entender.

— Tenho que levantar fundos para a Tijolo. A única hora em que posso trabalhar nisso é quando venho para casa, à noite. Trabalho no salão durante o dia. E nada me convence mais que preciso de recursos do que aquela escavação. Estou tentando fazer coisas demais...

— E como. — Ele a ignorou.

— E tento fazê-las sozinho. Mas nosso orçamento é apertado. Ou fecho o programa e arranjo dinheiro para contratar profissionais, ou continuo trabalhando como um maluco. Estou tentando fazer com que dê certo, da única maneira que sei.

A culpa despontava no horizonte, mas a raiva era mais forte. Ela se esforçava para ser racional.

— E você está fazendo o salão para mim. Eu sei. É que...

— O quê? — Ele ficou em pé e olhou para o relógio de novo. — O que é que posso fazer? Dê-me apenas uma boa idéia. Eu faço. O que quer que seja.

— Esqueça o conserto do túnel. Feche, esqueça. Talvez mais tarde, quanto tudo o mais estiver terminado e a vida voltar ao normal...

— Até lá a imagem terá sumido. Já não deve durar muito. Quando substituirmos os canos...

— Não me importo com a imagem. Vamos secá-la. Milagres verdadeiros não desaparecem quando goteiras são consertadas. Diga isso às pessoas. Eles irão embora. As coisas voltarão ao normal.

— Só para constar, não há nenhum trem vindo atrás de você. Posso ouvi-la muito bem.

Ela não havia percebido como levantara o tom da voz, mas ficou com raiva por ele por dizer isso em vez de lidar com o ela havia dito.

— Você escuta as palavras e o tom, Nick, mas acho que o que realmente não ouve é a minha mensagem.

— Ouço você fazer exigências. Estou até aqui de exigências. Acho que não posso mais satisfazer nenhuma. Agora não. Não com tantas outras coisas que tenho para fazer. E agora preciso ir andando.

Ela o observou seguir rumo ao banheiro. Cuidadosamente, mudou a caneca de lugar antes de dar um safanão na mesa-de-cabeceira. O relógio não teve tanta sorte.

Iggy colocou uma xícara de café em frente a Niccolo.

— O arcebispo não está feliz.

Niccolo observou em silêncio, enquanto Iggy servia-se de uma xícara de café também. Seu velho amigo já havia posto uma bandeja de brioches fresquinhos, entregues naquela manhã, por um fiel da igreja. A cozinha paroquial era clara e alegre e, melhor de tudo, a empregada, uma mulher severa, que contava as calorias de cada migalha, já tinha ido embora.

Ele esperou até que Iggy já estivesse tomando seu café e respondeu:

— Nunca entendi a necessidade de evoluir hierarquicamente na Igreja.

— Claro que não. A hierarquia nunca o atraiu. Este é um motivo pelo qual agora você é um homem casado. Embora eu presuma que também seja um tipo de hierarquia, não?

Niccolo pensou em Megan e suas exigências matinais. Estava envergonhado pela forma como reagira, mas não tinha certeza se faria diferente, caso tivesse uma outra chance.

— Qual é o problema desta vez? — Niccolo passou manteiga no pão enquanto Iggy pensava.

— Bem, é esta conversa sobre os milagres — disse Iggy. — Embora não seja só isso. Ele falou sobre os boatos. A Igreja tem tido pesadelos públicos ultimamente. Ele gostaria que não fôssemos expostos nos jornais como um bando de lunáticos. É compreensível.

— Creio que se a imagem tivesse surgido numa igreja ou organização de caridade, iríamos parecer mais sãos — disse Niccolo. — Mas o fato de Maria surgir dentro de um túnel de antigos contrabandistas de bebidas está um pouco fora de questão.

— Os boatos são uma coisa. A prova de fé é outra. Um acontecimento como esse é como uma prova para aqueles que acreditam. Olham para a parede e o que vêem? A Virgem de braços abertos, chamando-os para entrar no Reino de Deus? Ou uma simples mancha de água?

— O que ele disse, exatamente?

— Devo fazer o possível para cortar os boatos. — Niccolo não estava surpreso. Se fosse o arcebispo, provavelmente teria dito o mesmo.

— E o que ele sugeriu?

— Que eu use o meu bom senso. — Iggy esticou o braço para pegar um pãozinho, dando um suspiro de prazer ao tê-lo nas mãos. — Ele é um homem muito bom para me dizer como usá-lo. Ou para dar sugestões.

— Em outras palavras, ele não tem a menor idéia. — Iggy sorriu.

— Eu não teria colocado desta forma, é claro.

— Você já parou para pensar? — Niccolo não sabia porque perguntou. É claro que Iggy teria pensado sobre isso. Por isso Niccolo estava ali, tomando café da manhã com ele.

— Você já tentou calar um bebê que está aos berros?

— Tenho sobrinhos.

— Eu também. Sobrinhos e netos, às dúzias. Nenhum deles me dá a menor atenção.

— Mas você aprende com eles...

— Diga a um bebê para não gritar e ele irá gritar mais alto. Coloque a mão sobre sua boca e ele irá mordê-lo.

— Você jamais tampou a boca de um bebê. Nunca na vida.

— Mas se tivesse feito, este seria o resultado. É o mesmo com as pessoas que espalham boatos. Diga-lhes que não devem fazer isso e irão gritar mais alto.

— Se os censurar, morderão sua mão.

— Exatamente. — Iggy fechou os olhos de prazer, ao dar a primeira e gloriosa mordida. Por sua experiência, Niccolo sabia que ele não iria comer muito mais.

— Então o que propõe que seja feito? — perguntou Niccolo.

— Acho que precisamos discutir isso aberta e honestamente. Levá-los à exaustão pelo tédio, com as implicações teológicas. Se você discutir bastante tempo a respeito de quantos anjos podem dançar em cima da cabeça de um alfinete, não vai sobrar ninguém. Eles vão sumir. Puf!

— Então quem lhe pediu para falar sobre isso? — Niccolo já começava a comer o segundo pãozinho, mas fez uma pausa para encostar-se e olhar para o amigo. — Porque alguém pediu, correto?

— É claro.

— O noticiário do canal 5, ao meio-dia. Você também está convidado. Eu disse a eles que por mim, tudo bem. Você pode ou não aceitar.

Niccolo avaliava os prós e contras em sua cabeça. Se Iggy havia aceitado, então a emissora certamente não iria fazer um programa sensacionalista. Provavelmente seria uma matéria de interesse local e uma grande oportunidade de eliminar alguns dos piores boatos. Ontem ele havia sido perguntado se o túnel realmente tinha cheiro de rosas, e se era verdade que a luz de velas invisíveis iluminavam a imagem.

— Você acha que devo ir, não acha?

— Claro que sim. Iremos responder às perguntas sobre o túnel, depois você desvia o assunto para a Tijolo. Esta é a sua chance de conseguir uma boa publicidade. Talvez consiga algum patrocínio.

— O acidente deixou clara a necessidade de novos recursos, isso é certo. Não sei por quanto tempo ainda podemos seguir do modo que estamos. Não me importo com o trabalho, mas Megan sim. — Ele não sabia de onde tinha vindo aquilo e se arrependeu no mesmo instante em que disse.

— Egoísta até os ossos, a nossa Megan. — Iggy deu mais uma mordida.

Niccolo sentiu uma ponta de reprovação, com razão. Megan era tudo menos egoísta. Ela abrira mão de quase toda a sua vida por sua família, sem jamais reclamar. O fato de finalmente estar querendo algo para si era apenas um sinal de sanidade mental.

E sinal de que o amava.

— Vou fazer — disse Niccolo. — Vou ligar para a estação de TV e agendar.

Iggy enfiou a mão no bolso e pegou um pedaço de papel.

— Nome e telefone do meu contato. Eles querem marcar para sexta-feira.

— Já que estou aqui, tenho um favor a pedir. — Niccolo ainda estava pensando na esposa. — Para Megan.

— O que quiser.

Niccolo havia contado a história sobre Irene Tierney. Iggy sabia que Peggy estava na Irlanda, vivendo no chalé Tierney com Irene, e que prometera pesquisar sobre os anos que Liam Tierney vivera em Cleveland. Também contou o que Megan já havia descoberto.

— Mas agora ela chegou a um ponto em que teve que parar — disse Niccolo, finalizando a história. — Ela não tem tempo para verificar os microfilmes um a um. Isso levaria meses. Então pensei se não valeria a pena dar uma olhada nos arquivos da igreja, para ver se não há nada que mencione a passagem de Tierney por aqui.

— Você certamente teve muita sorte da última vez em que precisou de informações.

Niccolo sabia do que Iggy estava falando. Dois anos antes, para descobrir a respeito do assassinato de um membro da família Donaghue, ocorrido no passado, Niccolo leu o jornal de um ex-padre da igreja Santa Brígida, o padre Patrick McSweeney, que continha as informações que procurava.

— Não espero ter tanta sorte novamente — disse Niccolo. — Embora seja uma pena que McSweeney tenha parado de escrever seus jornais. Talvez ele estivesse na Sta. Brígida quando Liam Tierney e sua família viveram aqui.

— Não há mais jornais, pelo menos que tenhamos descoberto. Mas temos as cartas que sua irmã lhe escrevera nos anos 20.

— As cartas dela?

— Sim, só as dela, é claro, porque as dele foram para a Irlanda. — Iggy sorriu. — Nunca escreva para um padre. Nós guardamos tudo.

— Aposto que são interessantes. Metade da correspondência...

— Não é melhor que nenhuma? Nesse caso, sim. Embora haja um problema. Elas estão em irlandês.

— Em gaélico?

— Isso mesmo. Algumas coisas em inglês, o que mostra que ela era bilíngüe. Aparentemente escrevia-lhe em irlandês para que ele mantivesse a fluência. Era uma patriota e tanto. Nós traduzimos algumas, mas não todas. Uma pena. Elas são uma crônica daquela época. Mas as pessoas que falam irlandês são poucas, quase raras por aqui.

— Megan sabe um pouquinho de irlandês. — Os olhos de Iggy se iluminaram.

— Não me diga.

— Não muito, mas o bastante para poder ajudar. Ela teve aulas na faculdade, depois continuou tendo uma aqui, outra ali. Acho que conseguiria obter um diploma, se quisesse. Ela não quis optar por francês ou alemão, então escolheu estudar irlandês por três períodos, dentro de um programa especial, depois continuou estudando sozinha. Ela não fala bem, porque isso requer muita prática de conversação com os nativos, mas provavelmente seria capaz de traduzir as cartas. No mínimo poderia dar uma boa idéia do conteúdo que elas contêm. E ultimamente tem tido tempo de sobra.

— Por que você não faz cópias e as leva para casa? Veja se ela se interessa.

— Vou fazer. Posso pesquisar na biblioteca da igreja, para ver se surge algo sobre Liam Tierney?

— É toda sua, além da sala de arquivo, ao lado. — Iggy se levantou.

Niccolo estava satisfeito, até o momento em que Iggy o deixou em meio às paredes da biblioteca, instruindo-lhe a trancar as portas quando saísse. Santa Brígida precisava de um profissional que catalogasse e cuidasse de toda aquela imensa quantidade de informação nas prateleiras. Alguns documentos haviam sido enviados para a Sociedade Histórica, mas a maioria não. Iggy estava sempre à procura de voluntários que ajudassem nesse processo, mas a história sempre parecia ser menos importante para as pessoas do que outras atividades de trabalho na paróquia.

Niccolo vasculhou as prateleiras e sabia como sua tarefa seria impossível. A maior parte das informações sequer estava organizada cronologicamente, e ele sabia haver mais documentos em baús e caixas, na sala de arquivo. Ele tinha esperanças de encontrar alguma prova de que Liam e sua esposa pudessem ter sido membros da igreja Santa Brígida. Talvez uma menção a respeito de alguma cerimônia celebrada para a família.

Mas a incursão nos volumes envelhecidos resultou em nada proveitoso e ele sabia que o sistema de informática da igreja não era tão extenso no período retroativo. Os voluntários estavam trabalhando nesse sentido, mas ainda não haviam chegado aos dados anteriores à década de 1970. Reunir tudo para fazer o registro seria bastante difícil.

Ele passou uma hora folheando os livros até que as escritas desbotadas começaram a embaralhar seus olhos. Fechou o último volume e o colocou de volta na prateleira.

Antes de deixar Niccolo na biblioteca, Iggy, que tinha um senso infalível para localizar os papéis em meio ao caos, havia juntado as cartas de Maura McSweeney ao irmão, e as levara ao escritório da igreja para que fossem copiadas. Niccolo tinha as cópias numa pasta para levá-las para casa e entregá-las a Megan. As cartas estavam em ordem cronológica e as do alto da pilha já haviam sido traduzidas.

Niccolo começou a folheá-las. Esperava que Megan as achasse interessantes. Pelo menos lhe diria que tentou achar alguma informação e trouxera um prêmio de consolação. Ele poderia ganhar alguns pontos. Nada do que fazia ultimamente parecia surtir esse efeito.

Ele folheava a quarta carta, quando um nome na página traduzida saltou-lhe aos olhos.

"Liam." Ele mal podia acreditar que no havia visto. Levou a cópia até o abajur e olhou atentamente. Todos os irlandeses que conhecia estavam resumidos ao clã dos Donaghues. Ele não conhecia nenhum Liam, mas seria esse um nome comum? Liam Neeson era um ator que ele admirava. Tentou lembrar-se de outros.

Ele leu a frase em voz alta: "Pode estar certo de que compartilho esta preocupação por seu rebanho, querido Patrick. No entanto, o que se podia esperar? Um homem faz o que pode para alimentar sua família, e ainda assim merece ser acusado de infringir uma lei tola, que não foi ele quem fez? O seu Liam encontrou um meio de cuidar dos seus. Agora você tem de achar um meio de cuidar dele, apesar de sua decisão."

Niccolo ficou intrigado. Ele havia procurado por isso para Megan, mas a revelação da história passou a interessá-lo. Nos anos 20, qualquer lei que fosse infringida provavelmente seria relativa a Lei Seca. Ele conhecia bem sobre o contrabando de bebidas. O túnel sob o salão veio apenas confirmar.

Ele leu o restante da carta, mas Maura passou a abordar outros assuntos, nenhum parecia estar relacionado ao misterioso Liam.

A carta seguinte não fazia qualquer menção a ele.

O primeiro parágrafo da última carta havia sido traduzido e não mencionava o nome que ele procurava, mas outra palavra familiar chamou-lhe a atenção.

"Shanmullin." Ele sabia que esta era a aldeia onde Peggy estava morando, o lar dos ancestrais dos Donaghues — ou melhor, dos Tierneys, na Irlanda. E Lena Tierney Donaghue também viera de lá. Então Liam também viera.

Ele voltou ao começo da carta e leu com mais cuidado, passando a ler em voz alta quando chegou à parte mais importante.

"Um jovem de Shanmullin teria pouco a esperar aqui na Irlanda. Algum dia, talvez, mas seu Liam acharia pouco sustento para sua família".

"Liam..." Lá estava o nome novamente. E a ligação tornava quase certo de que fosse Liam Tierney. Talvez Maura McSweeney estivesse usando apenas o primeiro nome para proteger o paroquiano de alguém que pudesse ter acesso à carta. Talvez seu irmão estivesse fazendo o mesmo.

Ele leu rapidamente, chegando a outro parágrafo que lhe interessou. "Concordo que uma lei que torna as coisas piores para tantos, é pior do que não haver lei alguma. Nós irlandeses entendemos muito bem sobre as leis que beneficiam aqueles que já são ricos e poderosos. A classe marginal tem necessidades que não podem ser atendidas por meios legais".

Agora Niccolo tinha certeza de que Maura estava falando de contrabando de bebidas. Durante a proibição do consumo muita gente morreu por causa dos negócios de contrabando e por conseqüência da bebida em si. Muitos sujeitos obscuros fizeram milhões, enquanto as fábricas de destilados legalizadas fecharam. Será que Liam Tierney havia se envolvido com o comércio ilegal do álcool?

Ele leu até o fim. "A sua vida sempre foi um estudo do equilíbrio, meu irmão. O equilíbrio entre as palavras de Deus e as necessidades do homem, entre as suas próprias necessidades e as da Igreja. Agora parece que isso irá continuar. Você tem membros de seu rebanho em todos os lados desse negócio triste. Seu Tim, que está traçando sua própria sorte, ameaçando todos que interferem. Seu Glen, esforçando-se para manter uma lei à toa, mas que ainda é uma lei. E agora, o seu Liam, tentando cuidar daqueles que ama. A vida tende a seguir por estes caminhos com freqüência, não é? E não há respostas fáceis".

Niccolo ficou se perguntando quem seriam todas aquelas pessoas. Tim? Glen? Ele sentia a mais profunda simpatia pelo padre McSweeney, que parecia esperar que sua aposentadoria fosse uma época de descanso e meditação, mas, em vez disso, encontrara dificuldades.

Ele fechou a pasta. Pelo menos agora tinha algo para mostrar a Megan. Tinha esperanças que ela percebesse que ele pensara nela de manhã.

 

                 1925, Castlebar, Condado de Mayo

                 Meu querido Patrick,

Você escreve sobre inúmeros policiais em sua paróquia e a forma como seus jovens irlandeses são levados a cumprir a lei. Um tanto estranho, para aqueles que tinham tão pouco poder em seu país e cuja vida rural não parecia adaptável aos becos e loteamentos das cidades grandes.

Ainda assim, somos um povo sociável. Li sobre as fazendas americanas, suas vastas extensões e a distância de seus vizinhos, e por isso entendo bem porque meus compatriotas as consideram tão pouco atraentes. Nós vimos nossa terra abrigar o terror e a dor no coração durante a escassez e a fome, e não confiamos mais na terra. Em vez disso, nos estabelecemos naturalmente nas cidades da América, onde solicitam o nosso dorso forte e nossas mãos hábeis são solicitadas, e o nosso próprio povo nos procura. Talvez não sejamos reconhecidos por nossa coragem e inteligência, mas somos saudados por nossa disposição em aceitar trabalho que outros não encaram, trabalho que exige pouca educação e pouco paga.

Se não aprendemos nada, querido irmão, aprendemos a permanecer juntos. Falamos com uma só voz, organizamos e marchamos juntos e estendemos a mão àqueles que são como nós. Foi assim que sobrevivemos e continuaremos a fazê-lo.

Para mim, não é surpresa alguma que haja policiais e bombeiros de sobra na igreja Sta. Brígida. Fomos criados para trabalhar pela justiça, ao longo de anos de sofrimentos. Não é esta a descrição do trabalho, que tantos irlandeses são chamados a fazer?

           Sua querida irmã, Maura McSweeney.

 

                         Capítulo 1 7

A princípio Brenna se recusava a pedir demissão do emprego.

— Não tenho confiança neste Timothy McNulty — disse ela, a Liam. — Já ouvi falar dele. Ele dá dinheiro para a igreja e a comunidade com uma das mãos e toma tudo que pode com a outra. É um ladrão mentiroso, e o fato de ser irlandês não faz a menor diferença. Veja o que os homens dele lhe fizeram. Acha que da próxima vez irão parar, se acharem que você os delatou?

Liam havia pensado em mentir para Brenna, dizendo a ela que McNulty interrompera a surra que ele estava levando para oferecer-lhe um emprego, por sua coragem. Mas muita gente havia estado por perto, presenciando o que realmente aconteceu. Era muito provável que Brenna descobrisse a verdade e ficasse furiosa com ele.

— Ele é um homem duro — admitiu Liam. — Mas estava me testando. Agora sabe que sou um homem que mantém as coisas para si, um homem em quem se pode confiar.

— E você confia em Timothy McNulty? Um contrabandista de bebidas?

— Você pode afirmar que estas coisas estão erradas? As pessoas querem o que querem, Brenna. Um drinque inofensivo, ou dois, e não podem ter de nenhuma outra forma. Alguém sempre ganha dinheiro por conta das leis malfeitas. Quem sabe disso melhor que os irlandeses? Ao menos uma vez, serei eu a ganhar o dinheiro.

Nada que ela dissesse o faria mudar de idéia. Ela continuou indo trabalhar, deixando Irene com a vizinha todas as manhãs, proclamando que, se tivesse que ficar viuva jovem, melhor que garantisse um emprego para sustentar a si e a filha. No entanto, depois de seis meses, ela chegou em casa e disse ter avisado no emprego que pretendia sair no fim da semana.

— Irene precisa da mãe — foi tudo que disse. Liam achou melhor não perguntar nada.

Ele havia ficado muito surpreso ao descobrir quão mundano seu emprego seria. Ele circulava de carro com diversos outros homens, seguindo McNulty por todo lado. Ficava em pé, de braços cruzados, do lado de fora dos lugares, enquanto McNulty tinha reuniões. Quando era chamado, carregava engradados de origem desconhecida, os colocava em carros, caminhões ou barcos, sem fazer perguntas e sem ter explicações. Varria o porão embaixo do escritório de McNulty, no armazém, às vezes auxiliava clientes, ou carregava as sacolas dos compradores. Era pago regularmente e ganhava tão bem quanto na fábrica. Não recebeu nenhuma arma e não foi solicitado a guardar qualquer segredo. Seu estado de espírito oscilava entre aliviado e perturbado. Não desejava pôr a própria vida em risco, mas desejava um emprego que tivesse futuro. Seu futuro parecia ser uma vida de trabalho braçal.

Três meses após aceitar a oferta de emprego de McNulty, ele estava lá embaixo, fazendo o inventário com o gerente, quando Jerry, o brutamontes que o havia surrado, desceu as escadas e apontou o indicador em sua direção.

— O chefe quer vê-lo.

Liam jamais iria gostar da companhia de Jerry, mas os dois homens mantinham um acordo de silêncio. Liam sabia que não valeria a pena cultivar inimigos dentro da operação de McNulty. Em qualquer ocasião que fosse chamado para fazer algo importante, iria precisar desses homens para proteger sua retaguarda. E Jerry parecia não levar nada do que fazia para McNulty para o lado pessoal. A surra em Liam era apenas parte da tarefa do dia.

Liam bateu a poeira das mãos e subiu os degraus atrás de Jerry. Ele raramente subia aquela escada. Aquilo era o santuário interno de McNulty, e era função de todos os homens do térreo manter os intrusos à distância.

No alto da escada, Jerry gesticulou para que ele parasse. Liam parou com o chapéu nas mãos, aguardando para ser conduzido pelo corredor. Ficou naquela pose por um bom tempo, sem alternar o peso nas pernas, sem suspirar, sem murmurar. Era pago para fazer qualquer coisa que McNulty pedisse, e se ele estava pedindo que ficasse ali parado, ele ficaria.

Meia hora se passou até que foi chamado a entrar no escritório de McNulty. Era surpreendentemente arrumado para um homem com tantos negócios para cuidar. Liam se perguntava se haveria outros escritórios escondidos em outros lugares, talvez até no próprio prédio.

McNulty estava sentado junto a uma escrivaninha de mogno, com a superfície brilhante, sem um cisco de poeira. Ele não olhou para cima quando Liam entrou, nem pelos minutos seguintes. Olhava para a mesa, passando os dedos sobre ela, como se esperasse ter alguma idéia nova. Finalmente olhou para cima.

— Gosta do seu emprego? As coisas estão irido bem para você?

— Sim senhor. Está tudo bem.

— Tenho ouvido falar bem de você.

— Fico contente.

— A sua esposa não está infeliz? Não está reclamando com os vizinhos?

— Brenna vem do mesmo tipo de lugar que eu. Aprendemos a manter as coisas para nós mesmos. Não é uma lição da qual alguém possa se recuperar.

McNulty sorriu.

— Você gosta do lugar onde mora?

— O suficiente, obrigado.

— Mas gostaria de algo melhor?

— Quando chegar a hora certa.

— Desde o começo, achei que fosse um homem que se entediaria facilmente. Isso é verdade, Tierney?

— Não deixo que isto me impeça de fazer o que preciso. — McNulty pareceu achar que a resposta foi boa o bastante.

— Você teve alguns problemas com a lei na Irlanda, não foi?

Liam tinha certeza de que McNulty sabia de tudo. O homem não era nenhum tolo.

— Tive sim.

— Gosto de um cara que faz o que acha melhor, independentemente de qualquer coisa. Um cara que põe o futuro da Irlanda em primeiro lugar. Tenho um novo emprego para você. Não vai achá-lo tedioso.

— Vou para onde me pedir que vá, faço o que me pedir que faça.

— Vou ficar de olho em você.

— Não tenho problema quanto a isso, senhor. — McNulty olhou para cima e fez sinal para Jerry, que deu um passo entrando na sala.

— Ele irá precisar de suprimentos para o cargo. Cuide disso.

E acenou com a cabeça, dispensando Liam.

— Obrigado senhor. — disse Liam, saindo atrás de Jerry pelo corredor, com o chapéu ainda nas mãos, depois o colocando na cabeça.

— Já atirou com uma arma? — Jerry perguntou enquanto desciam.

— Você ficaria surpreso com o que já fiz.

O processo para a fabricação da bebida contrabandeada era muito variável, dependendo do tipo de material disponível. Os toneis de álcool puro, destilável e ao qual se adicionava sabor, eram vendidos a preços exorbitantes, porém tratava-se de um ingrediente imprescindível. A maior parte do trabalho era feita quando se obtinha o álcool puro pela fermentação da água, levedura e uma espécie de açúcar, transformando o produto em mercadoria muito procurada, pela qual valia a pena lutar.

— Então vamos ao que interessa — disse Jerry a Liam. Eles eram os terceiros, numa fila de carros que seguia rumo ao lado leste do bairro de Woodland e a rua 25, lugar conhecido como o reduto dos contrabandistas. — Frank "Chiador" Donatone tem uma cisma com McNulty. Por algum motivo, pensa que McNulty está interferindo em sua transação. Por isso entrou na transação de McNulty e levou duas dúzias de barris de nosso galpão, na segunda-feira. Vamos devolver a gentileza, você entende?

Liam calculou que se não entendesse não seria tão perspicaz e, conseqüentemente, desmerecedor da confiança da informação.

Uma escopeta repousava ao lado de dois barris emborcados ao seu lado. Após dar-lhe a arma, Jerry lhe deu também uma aula da qual não precisava, mas não havia tempo para praticar. Liam não tinha interesse em atirar — nunca fora fã de violência. Mesmo assim, se fosse necessário defender-se, não hesitaria. E se fosse necessário defender McNulty, que estava pagando seu salário, acreditava também poder fazê-lo. Apesar do apelido ridículo, Frank Chiador era tido como um homem inescrupuloso.

— Porque o chamam de "Chiador"

Jerry bufou.

— Ele tem uma perna postiça, que chia quando anda.

Liam ficou imaginando que num confronto com o velho "Chiador", essa seria a perna que iria mirar, se tivesse escolha.

Já era o meio da tarde quando chegaram ao armazém de Donatone e um vento frio soprava do lago, balançando as placas e fazendo o lixo voar pela rua.

Quando desceu do carro, Liam olhou para baixo e viu uma folha do jornal La Você Del Popolo Italiano, que lhe cobria o sapato.

— Voz do Povo Italiano. — Ele não precisou de estudos para traduções.

— Eles não terão muita voz quando terminarmos com eles hoje — disse Jerry.

Liam não tinha nada contra italianos, ou judeus, que por acaso também estavam bastante envolvidos com o contrabando de bebidas. Ele imaginou que todos estariam em busca de sua cota, e quanto mais oprimidos tivessem sido no passado, mais valor dariam à parte merecida.

Ele pensava nisso enquanto seguia Jerry, atravessando o terreno ao lado do galpão. O beco onde ficava o galpão era destacado e o bairro era estranhamente silencioso. Ele se lembrou da manhã em que Jerry e o motorista de McNulty surraram-lhe na varanda em frente a sua casa, até quase perder os sentidos. Os trabalhadores de Cleveland sabiam cuidar da própria vida.

A porta principal ficava no outro lado do prédio, mas os homens de McNulty estavam posicionados nos fundos e nas laterais. Aguardavam, de olho na porta. Ninguém dissera a Liam qual seria o sinal, mas ao ouvir um assovio, ele soube o que estava sendo dito. Juntos, ele e Jerry batiam com o peso dos ombros contra a porta, que arrebentou e abriu. Liam mantinha a arma na altura da cintura e o dedo no gatilho.

O armazém estava quase vazio. Dois vigias assustados estavam em pé no centro, com as mãos trêmulas para cima.

Jerry riu.

— E bom terem medo mesmo, mas não de nós. "Chiador" vai ficar bem chateado e isso não é brincadeira. Amarre-os.

Liam viu uns fios semelhantes aos que usava na fábrica de caixas. Pegou-os e colocou os homens sentados no canto, de costas um para o outro, usando pedaços pequenos para amarrar-lhes as mãos, enrolando as pontas ao redor dos dois, dando um nó no fim.

Enquanto ele trabalhava, os outros homens carregavam o caminhão que havia seguido Liam e Jerry, com um barril após o outro. Era um caminhão da prefeitura, ou fora pintado para que parecesse um. Quando terminaram, cobriram tudo com uma lona marrom, que foi amarrada dos lados para não voar.

— Pronto — disse Jerry. — Eles estão seguros?

Liam esperava não tê-los amarrado para que se tornassem um alvo melhor.

— Você vai deixá-los assim?

— E por que não? Chiador vai saber quem fez isso, tanto faz se eles contarem ou não. Enfie algo em suas bocas.

Liam se contentou com uns trapos no canto, amarrando firme atrás da cabeça de cada um.

As coisas tinham transcorrido bem demais. Na infância, ele desenvolvera um sexto sentido, uma espécie de ferramenta de sobrevivência, que o fizera chegar até aqui. Aprendera a sentir os ventos da mudança e sentia isso agora.

— Está ouvindo? — Ele ficou em pé. — Ouça...

Jerry olhou enfezado por cima de seu ombro, seguindo apressado em direção à porta dos fundos, onde os carros e o caminhão estavam estacionados.

— Não fique grudado em mim, Tierney. Apenas vá andando. Seremos os últimos a sair.

Liam já estava na metade do caminho rumo à saída quando ouviu o barulho da freada dos pneus e a batida das portas. Ele agarrou a camisa de Jerry e o arrastou para trás.

— Por aqui.

Jerry não precisou de um segundo convite. Eles voltaram em direção à porta pela qual haviam entrado, armas em punho, prontos para o que viesse.

— Agentes do Tesouro — disse Jerry, num tom de voz para que apenas Liam pudesse ouvi-lo.

Liam estava preparado para o confronto com Chiador e seu bando. Ficou se perguntando se os agentes haviam desconfiado que os homens de McNulty iriam roubar de volta o que lhes pertencia, ou se aquela era apenas uma coincidência infeliz. No panorama geral, não fazia diferença.

— Por aí, não. Por aqui. — Liam fez sinal com a cabeça, indicando um almoxarifado, onde alguns toneis de álcool estavam guardados. Ele havia visto uma janela, com tamanho suficiente para que pudessem passar, dando-lhes a chance de sair sem ser vistos. A janela dava para um terreno baldio, cheio de maquinaria enferrujada e outros destroços. Se saíssem depressa, pelo menos poderiam se esconder ali.

O estampido da arma de alguém ecoou no ar, e o ra-ta-ta das metralhadoras veio em seguida. Pneus cantavam, uma seqüência de tiros foi disparada. Os homens de McNulty estavam partindo. Liam e Jerry mergulharam na salinha de estoque. A janela era alta, porém, dois engradados embaixo dela serviriam perfeitamente como uma escada. Liam destrancou e levantou a janela, colocando a cabeça do lado de fora. O movimento era todo na parte da frente e, se tivessem sorte, os agentes iriam atrás do caminhão em fuga. Ele fez sinal para que Jerry o seguisse e lançou-se pela janela, caindo no chão, do lado de fora.

Jerry o acompanhou, embora se espremer pela janela não fosse tão simples para ele, como havia sido para Liam. Por um instante, Liam pensou que haviam conseguido escapar sem que ninguém os visse, então um homem virou a esquina, com a pistola apontada para seu peito.

— Agente Glen Donaghue. Abaixem as armas. Mãos ao alto.

Ao ouvir o aviso, Liam largou a arma e levantou as mãos. Ao seu lado, ele podia ver Jerry começar a obedecer. Ele havia observado o homem e estava fora da linha de fogo. Liam sabia que a desistência era uma farsa e estava pronto.

Jerry deu um golpe com a arma, ao mesmo tempo que Liam se atirou sobre ele, fazendo-o perder o equilíbrio, num ataque de surpresa.

Estilhaços voaram, mas não causaram estrago. Jerry nem sequer cambaleou para tentar recuperar o equilíbrio. Caiu com força, batendo a cabeça contra um poste de concreto durante a queda. Ficou desfalecido no chão.

— Você está tentando salvar minha vida? — Glen Donaghue estava pálido. Era jovem, mais ou menos da idade de Liam, com a mente sadia de uma geração que havia sobrevivido à Grande Guerra e à gripe espanhola. Os traços do queixo largo, sobrancelhas claras e olhos acinzentados eram contribuições dos ancestrais. A aura da personalidade era só dele.

— Nem tanto, companheiro — disse Liam. — Apenas achei que fosse atirar nele, só isso.

Glen encarava Liam. Mais tiros na frente do galpão, outra freada.

— Você faz parte disso?

— Peguei uma carona. — Liam ouvira história dos agentes do Departamento do Tesouro. O emprego não era reconhecido, eles eram malpagos e o suborno era tão comum quanto os distintivos elegantes. Muitos homens deixavam o departamento todos os anos, para se juntar aos criminosos que um dia perseguiram. Esse homem parecia diferente.

— Má idéia. — Os olhos de Glen se desviaram para o homem caído aos pés de Liam.

— Você é melhor que ele.

Liam duvidava, mas não estava em condições de discutir.

— Estique as mãos para frente. — Glen puxou as algemas.

Liam fez conforme era mandado. Não tinha certeza do que fazer a seguir. Mesmo que ele tivesse salvado a vida de Glen Donaghue, ainda iria para a prisão, ou seria mandado de volta à Irlanda acorrentado, a não ser que McNulty pagasse por um advogado muito bom. Ele pensou em Brenna e Irene, e o que poderia acontecer a elas.

Donaghue deu um passo à frente e bateu o pé numa raiz. No momento em que tropeçou, Liam se aproveitou da situação e jogou-se à frente, usando as mãos juntas para dar um golpe no pescoço de Donaghue. No mesmo instante o agente estava no chão, lado a lado com o contrabandista inconsciente.

Dos dois homens, Donaghue era o que Liam teria preferido salvar, mas ele sabia que Donaghue ficaria bem sem ele. A qualquer momento alguém iria surgir e chamar reforço ao vê-lo.

Praguejando, ele desvirou Jerry e agarrou aquele homem enorme, segurando embaixo dos braços, arrastando-o para o terreno, até um pequeno barranco, chegando em segurança.

 

                                 Capítulo 1 8

Toda noite Peggy fazia anotações sobre o progresso que Kieran alcançara no dia, ou se não alcançara nenhum, além de escrever o plano de aulas para o dia seguinte.

Havia tantos objetivos a ser alcançados que ela não podia subestimar nenhum. Seu filho precisava de tempo para brincar e ser criança, trabalhar em habilidades sociais, ter controle de seu comportamento, adquirir conhecimentos gerais e da língua, e isso era só o começo.

Nas noites de sexta-feira, ela escrevia um relatório para a terapeuta com quem trabalhava à distância. Caso a sra. Blackpool visse algo extraordinário que valesse a pena comentar ou fazer sugestões, ligava para Peggy assim que recebesse o relatório. Caso contrário, fazia anotações e as mandava de volta. O sistema não era perfeito, mas a orientação e o retorno eram de grande ajuda e o serviço de correios entre a Irlanda e os Estados Unidos, surpreendentemente veloz.

Nessa sexta Peggy trabalhava no relatório enquanto Kieran brincava sozinho, no canto. Ela havia feito cubos grandes com caixas de papelão e os forrara com papel colorido. Ele gostava de empilhá-los, além de engatinhar para dentro de um deles, que ela havia deixado aberto. Ela se perguntava se o filho não lamentava ter saído do útero.

— Ele parece tão feliz ali dentro.

Peggy ergueu os olhos do caderno e viu Irene na porta.

— Ele parece uma tartaruguinha, embaixo de seu casco.

— A tartaruga da caixa — disse Irene, sorrindo. — Ele teve um bom dia?

Peggy não tinha certeza quanto à resposta. Ao longo da semana não houvera mais crises extremas e isso era um progresso bem-vindo. Mas suas habilidades orais tinham regredido muito.

— Teve um dia feliz — disse Peggy. — Sem lágrimas. — Mas também sem palavras, e pouco interesse pelas atividades que ela havia planejado. — Ele está usando a colher novamente. Mas a está usando para bater em seu tambor de brinquedo.

— Quando fica zangado? — Peggy pensou naquilo.

— Talvez. Eu não havia feito a ligação, mas pode ser.

— Isso é um progresso, eu diria. Achar uma forma de fazer-se ouvir.

Peggy se levantou e espreguiçou-se.

— Ele prefere o barulho que o tambor faz a ter que me ouvir cantar. E quem pode recriminá-lo?

— Tive uma idéia para hoje à noite, querida.

Peggy não tinha nenhuma. Seus dias e noites tinham como finalidade trabalhar com o filho, pensar no filho, e falar com suas irmãs e a sra. Blackpool, ou qualquer outra pessoa, que quisesse ouvir sobre o filho. Sua última conversa de conteúdo mais profundo havia sido duas semanas antes, quando Finn contou-lhe sobre a perda da família. Desde então, ele quase não falara mais com ela e aparecia para dar uma olhada em Irene todas as manhãs e quase todas as tardes, mas poupava Peggy de ter que encontrar um meio de como tratá-lo agora, depois de ter-lhe exposto a alma.

— Poderíamos assistir a um vídeo. Eu poderia fazer pipoca. — Peggy descobrira que Irene tinha um apetite insaciável pelos dois. Gostava de filmes antigos de romance ou mistério, apenas mais uma característica comum entre ela e Peggy. Também gostava de sal e meio pote de manteiga na pipoca, mas deixava isso por conta da imaginação, o que Peggy também aprendeu a fazer.

— Tenho visitas a caminho — disse Irene.

— Ah. — Peggy ficou contente ao ouvir aquilo. Irene tinha visitas freqüentes, mas raramente à noite. — Posso não estar por perto, se preferir.

— Na verdade prefiro.

— Posso ficar no quarto lendo um bom livro. Eu...

— Não tão perto. Estava pensando numa volta até a cidade para você. Uma noite nos pubs é o que precisa.

Peggy ficou logo desconfiada.

— Quem está vindo?

— Shannon, aquela menina querida. Está com a casa cheia de parentes de Sligo e nenhum lugar para passar um tempo longe deles. Ela tem que preencher os papéis da faculdade, eu lhe ofereci um lugar tranqüilo, onde pudesse fazê-lo, além de dispor de meu computador.

Irene tinha uma feição angelical, com seus cabelos brancos formando uma espécie de auréola ao redor do velho rosto, mas Peggy sabia que abaixo daquela auréola estava uma mulher determinada a ter as coisas do seu modo.

— Em outras palavras, você a pediu para ficar de babá.

— Pode-se dizer que sim. Mas não faça soar tão severo. Para nós duas será ótimo, e para você também.

Peggy quis retrucar, mas, como sempre, Irene via suas necessidades. Peggy estava inquieta e precisava de algo além de um vídeo para ajudá-la a espairecer. Ela precisava de música, de conversa, ou dos dois, o que seria perfeitamente possível nos pubs irlandeses. Ela sentiu uma pontada de saudades do Whiskey Island.

— Então está combinado? — perguntou Irene. — Após o jantar pode nos deixar colocar Kieran na cama e seguir seu caminho?

Peggy sabia que Shannon poderia fazer isso sem ela.

— E um presente muito bem-vindo.

A Taberna de Tully era um dos quatro pubs de Shanmullin, um número pequeno, que fazia alguns residentes reclamarem. Peggy havia passado por dois, dos outros três, que não lhe despertaram muito interesse. Num deles os freqüentadores eram velhos, e as imensas nuvens de fumaça afugentaram-na. O outro estava quase assombrado, e a falta de clientes era um sinal evidente de fracasso, ou do último estágio da doença terminal.

O Tully não tinha nenhum desses problemas. Ela mal conseguia passar da porta, e antes de tentar, ouviu a música lá dentro — e não era U2, vindo do rádio. O pub era todo revestido em madeira escura, com chão de pedra intercalada com placas de madeira, que iam até o bar e seguiam pelo salão. Havia prateleiras em todas as paredes, cheias de objetos e fotografias emolduradas. O espelho pendurado acima do imenso bar de mogno parecia ser mais velho que a construção antiqüíssima.

Um jovem sorriu-lhe, mas ela mediu o sorriso que deu em retribuição, apenas para ser gentil, sem qualquer acréscimo de calor. Ela estava à procura de conversa e diversão, não de alguém para levar à casa de Irene para passar a noite.

Antes que ele pudesse abrir caminho, ela sentiu alguém lhe agarrar o braço, e virou-se para ver Tippy.

— Oi. — Elas bateram a palma das mãos, como velhas amigas. — Shannon está de babá para mim — gritou ela, em meio ao barulho.

— Quer uma bebida? — Peggy concordou com a cabeça e Tippy sumiu na multidão. Só então Peggy viu uma abertura que dava a um outro salão, de onde vinha a música. Ela contornou as pessoas que estavam no caminho e viu seis músicos. Finn estava bem na frente, com sua flauta. Os olhos dos dois se encontraram e se mantiveram fixos.

A música fez uma parada rápida e o público aplaudiu fervorosamente. Por certo, esta seria uma ótima noite no Tully.

— "Peggy Bawn" — disse Finn, e os músicos começaram uma alegre melodia, que não era familiar para ela. Finn começou a cantar e, como antes, ela ficara mais uma vez impressionada com sua voz.

— Oh, Peggy Bawn, tu és a minha arte... teu coração está em meu peito...

Ela não conseguia ouvir o resto da letra, mas os olhos de Finn nunca deixaram os seus. Ela estava hipnotizada.

— Ele nunca canta aqui, e nunca ouvi essa música — disse Tippy, aproximando-se dela, com uma caneca de Guinness. Ela recusou os euros de Peggy, sacudindo a cabeça.

— Essa música é mais velha que os duendes.

— Finn seria capaz de fazer a música mais terrível parecer uma canção de amor — disse Peggy.

— Ainda bem linda Peggy-o...

Peggy percebeu que ele havia escolhido outra música falando de mais uma "Peggy", e cantava olhando diretamente para ela.

— Nosso capitão se apaixonou por uma dama, que parece um passarinho... o seu nome é Peggy-o — cantava Finn.

— Você acha que há um vasto repertório de músicas com o nome "Peggy"? — perguntou Tippy, quando aquela música estava quase no fim. — Pois se há, ele deve conhecer todas.

— Tenho certeza de que não foi planejado — disse Peggy, sem ter certeza de fato. Finn ainda cantava para ela e seu coração parecia ter um elo com cada nota musical.

— Quando vi a doce Peggy pela primeira vez, foi um dia no mercado... — começou ele, como se estivesse respondendo à pergunta.

— Eu não o via assim há muito tempo. — Tippy deu-lhe o braço de forma companheira, enquanto ambas ouviam. — Fui apaixonada por ele quando era garota, mas também, quase todas as meninas da cidade sentiam o mesmo — disse ela, quando a música acabou. — Ele era um malandro, nosso Finn. E deixou um rastro de corações partidos quando se casou com Sheila. Não achávamos que iria voltar depois do tempo que passou como médico residente. Era esperar demais. Todos sabiam que ele seria requisitado em lugares melhores. Mesmo assim ele voltou. E por isso, passamos a amá-lo ainda mais.

— E por isso ele foi perdoado por todos os deslizes dos últimos anos. — Não era uma pergunta. Peggy havia notado a forma como as pessoas da aldeia falavam de Finn, o afeto e a preocupação, com apenas uma ponta de tristeza.

— Ele já teve mais do que sua cota de problemas. Acho que esta fase está terminando.

—Peggy O'Neil é uma garota que rouba os corações... — dessa vez Finn sorriu e Peggy sorriu também. Tippy também viu o sorriso.

— Se você não pretende ficar na Irlanda, se não quer um homem em sua vida, Peggy, é melhor se afastar agora, antes que alguém saia machucado.

Peggy estava tão entretida com a cantoria de Finn que não prestara muita atenção ao que Tippy dissera. Mas de repente interrompeu o contato visual com Finn e virou-se para a nova amiga:

— O quê?

— Ele não precisa de mais problemas. — Tippy não estava sorrindo. — Não quero fazer sermões, não quero mesmo, mas ele está começando a sair da escuridão agora, não precisa de algo que possa empurrá-lo de volta.

— Ela anda com um gingado maroto, e fala de um jeitinho bonito... que doce personalidade, esta é Peggy O'Neil — Finn terminou a música.

Peggy conhecia várias formas de flerte e aquilo era bastante inocente para ela.

Olhou de novo para Finn. Ele balançou a cabeça, levantou a sobrancelha e começou outra música:

— Oh, Peggy Gordon, você é meu amor... Venha me dizer porque estou tão encantado por você...

Ela não podia prever o futuro, mas se tivesse esse poder, ela não iria escolher um desfecho que incluísse Finn O'Malley. Mesmo assim, naquele momento, estava sem forças para afastar-se dele.

Estava hipnotizada por um homem que ainda nem havia se reerguido. Ela nunca havia sido do tipo que adota pássaros feridos, a não ser para praticar habilidades médicas. Tinha todo seu tempo tomado por uma criança que demandava tudo que pudesse lhe dar, provavelmente até o final de sua vida. Ainda assim, não conseguia se afastar.

Finn não sabia o que ocorrera nele. Se alguém lhe perguntasse a respeito das inúmeras músicas de "Peggy" que havia cantado, ele simplesmente daria de ombros. Ele chegou a fechar a noite com um instrumental chamado "Ancorando o barco para Peggy". Ele achou que as músicas estavam em sua cabeça há semanas. Realmente havia pensado muito em Peggy Donaghue.

— Bem, você tem bom gosto, companheiro — disse Johnny Kerrigan, ao guardar a sanfona. — Você não é o único que se encantou por ela, sabe. Mas é o único em quem ela presta atenção.

Finn não quis disfarçar ou se fazer de desentendido.

— Ela tem sido muito gentil com minha filha.

— Você se exibiu dessa maneira simplesmente por gratidão? — Johnny piscou.

Finn já perdera o rumo da conversa. Ele olhava ao redor à procura de Peggy, que parecia ter desaparecido. O pub estava esvaziando e ele achou que ela já teria seguido o caminho de volta, rumo à casa de Irene. Curvou-se para pegar a flauta e quando se virou para ir embora, ela estava em pé, bem ali.

— Você esqueceu de "Peg O' My Hart" — disse ela. Ele chegou a ficar surpreso com tanto contentamento que sentiu, quando viu que ela não havia ido embora.

— Essa é dos velhos tempos lá na América.

— Sim, mas meu pai cantava para mim quando eu era uma garotinha. É uma das poucas lembranças que guardo dele, de quando estava crescendo. Tenho uma predileção por esta.

Ele sorriu para ela.

— Da próxima vez.

— Obrigada, você me fez ganhar a noite.

— Então faça o mesmo por mim.

Ela não pareceu surpresa. Só levantou uma sobrancelha, em tom de interrogação.

— Há um lugar que tem uma vista, que quero lhe mostrar. Antes que a aldeia esteja totalmente adormecida.

— Não sei, Finn. É um longo caminho para pedalar de volta, e está tarde.

— Te levo para casa de novo.

— Este é o título de uma música para Kathleen, não para Peggy. — Ela balbuciou algumas frases. Muito mal.

Ele estremeceu.

— Já acabou?

— Eu gostaria de ver a vista.

Ela ficou ao seu lado enquanto ele se despedia e a apresentava para algumas pessoas que ela ainda não havia conhecido. Ele via a forma como alguns se entreolhavam, vários deles o conheciam desde pequeno. Sabia o tipo de boatos que estariam circulando de manhã.

— Tudo mundo é tão legal — disse ela, enquanto iam pegar a bicicleta para levá-la até o carro. — E o adoram, são seus verdadeiros fãs, Finn. Todos fazem questão de me dizer isso.

Ele podia imaginar as conversas. A pouca privacidade que o haviam concedido após o acidente agora iria sumir. Seu luto oficialmente acabara e a aldeia tinha as suas funções.

— Que noite linda. — Ela parou e ergueu as mãos. — Nunca vi tantas estrelas, nem na aula de astronomia.

A lua era crescente, e isso o fez lembrar da lua cheia, quando tiveram a última conversa. Peggy gostava de coisas simples, algo que ele não esperava de uma mulher americana criada ao redor de tantas atrações.

Chegara à bicicleta e Peggy a empurrou até a rua onde o carro estava estacionado.

— O que a Bridie está fazendo hoje? Será que ela não gostaria de vir conosco?

Ele se perguntou quantas outras mulheres iriam lembrar de convidar sua filha.

— Mais um fim de semana longe. Foi acampar perto daqui.

— Que divertido. Fui do grupo das escoteiras. Minha tia insistiu, e fico feliz que tenha feito isso. Sei fazer um marshmallow na brasa, que é de matar. Merecedor de uma medalha.

Eles haviam prendido a bicicleta no carro e saíam do estacionamento quando ele voltou a falar.

— Irmãs, tia e pai. Você nunca mencionou sua mãe, Peggy.

— Ela morreu logo depois que nasci. Tive uma criação muito eclética. Meu pai sumiu logo depois... eu lhe contei sobre os problemas dele. Minha irmã mais velha fez tudo para que ficássemos juntas, mas ela também era muito jovem para tanta responsabilidade. Então fui viver com meus tios, e Megan e Casey ficaram em nosso apartamento, em cima do salão. Eu ia ficar com elas sempre que podia.

— Não teve mãe, mas teve um belo time de guardiãs.

— Exatamente. Todas são mulheres maravilhosas. Tenho muita sorte.

— Nem todos veriam desta forma.

— Veriam, se conhecessem minhas irmãs e minha tia. — Ela fez uma pausa. — Elas são a grande razão por eu achar que conseguiria ser mãe solteira.

— E está conseguindo?

— Qual a sua opinião?

— Não conheço ninguém que poderia ser melhor com Kieran. — Ele fez uma pausa, sabendo que o resto não era de sua conta, mas falou assim mesmo: — Mas você não deveria ser tão só. Tenho certeza de que suas irmãs e o restante da família ajudam muito, mas isso tem de ser uma parceria.

— Refere-se a Phil?

— Creio que sim.

— Ele não é tão irresponsável quanto você pensa. Até se ofereceu para casar comigo quando contei que estava grávida. E é generoso com a ajuda financeira, embora eu ache que sua esposa não fica muito feliz com isso.

— Você não quis se casar com ele. — Não foi uma pergunta.

— Exigir declaração escrita, e tudo o mais?

— Não a estou julgando. De forma alguma. Apenas acho que seria uma escolha fácil para alguém que não fosse tão forte quanto você. O comum de se pensar seria "case-se com o homem e divida o fardo".

Ele seguia dirigindo colina acima. Então virou numa estrada paralela e subiu mais um pouco, entrando pela floresta. Lá no alto, estacionou e contornou o carro para abrir-lhe a porta. Ela deixou, dando a ele uma satisfação que não conseguia descrever. Ele sabia que ela já estava acostumada a se virar sozinha.

Ele lhe deu a mão e, quando ela já estava em pé ao seu lado, não a soltou. A mão dela era morna e macia, e parecia se encaixar perfeitamente na dele. Ele entrelaçou os dedos aos dela.

— Venha.

Ela não mostrou resistência.

— A minha tia me disse para não entrar em florestas com homens.

— Aquelas eram florestas americanas.

— Já ouvi bastante sobre as fábulas irlandesas. Os grogochs, metade homem, metade mago, as banshees, que me disseram tratar-se de fadas que predizem a morte, e os dullahans, os cavaleiros sem cabeça, que andam em cavalos sem cabeça também... As suas florestas são mais perigosas do que as nossas.

— Não quando estou com você.

— Era essa parte que minha tia tinha em mente. Internacionalmente.

Ele percebia o flerte. Tantos anos haviam se passado que tinha dúvidas se estava fazendo sucesso. E com uma parte dele gritando que não, o prazer do toque parecia uma blasfêmia. Ele não merecia essa sensação de voltar à juventude. Nunca mais.

— Ora, ora, veja isto.

Ele a conduzira a uma clareira, que tinha uma vista de Shanmullin do alto. Agora largara sua mão com remorso. Mais além estava o oceano, cintilando o reflexo da lua. As luzes brilhavam em dezenas de janelinhas acesas lá embaixo, que se apagavam aos poucos, enquanto a aldeia ia dormir. A vista era encantadora e a clareira, muito conhecida pelos amantes locais. Por sorte, esta noite estavam sozinhos.

— Você vem sempre aqui em cima? — perguntou ela.

— Já faz muitos anos que não. É uma daquelas coisas que você acaba menosprezando, quando mora tanto tempo no mesmo lugar.

— É assim que me sinto em relação ao lago Erie. Esqueço de apreciá-lo. Aí, de repente estou passando e percebo que maravilha são os Grandes Lagos.

— Este não é um lugar onde alguém esteja passando. Não há nada além da vista.

— É um bom motivo para vir.

Ele estava vestindo uma jaqueta, pois mesmo sendo julho, as noites ainda eram frias. Ele a tirou e forrou o chão.

— Sei que você tem que voltar, mas vamos ficar só alguns minutos para contemplar a vista.

Ela sorriu e abaixou-se graciosamente.

— Tem lugar para dois. — Ela bateu com a mão no pedacinho que havia sobrado.

Ele preferiu sentar no chão, ao seu lado. Para variar, tiveram pouca chuva naquela semana e o solo estava seco.

— No carro você pareceu querer saber por que não me casei com Phil.

— Eu não devia ter tocado no assunto.

— Eu queria mais. Sei que sou tola e romântica. Sempre procurei levar meus relacionamentos com calma e cuidado. Tinha muitos planos para me apaixonar. Infelizmente, Phil e eu tivemos uma daquelas atrações instantâneas que também acabam instantaneamente. Mas como para mim foi a primeira deste tipo, achei que fosse para valer. Felizmente descobri a tempo que era uma chama que se apagara e seguimos caminhos separados. Infelizmente, as boas intenções não podem evitar a gravidez. Pensei sobre a proposta de casamento de Phil, mas achei que Kieran merecia coisa melhor. — Ela suspirou, fazendo um som alto. — Acho engraçado. Não sei se Kieran irá se importar com o fato de seus pais não serem casados. Não sei se um dia ele será capaz de ter esse sentimento.

— Você queria mais. Encontrou? — Ela riu, um som levemente agudo.

— E quando foi que tive tempo para procurar?

— Kieran não lhe deixa sobrar muito tempo, nem energia.

— E eu também estudava, lembra-se?

— Todos aqueles jovens.

— Já tinha muitas complicações na vida para ter uma aventura com um colega de turma. Não, obrigada. E agora que Kieran faz parte do pacote, vai ser preciso aparecer um homem muito especial.

Não havia ninguém à vista. Finn ouviu isso claramente, mas não se conformou. Ele se perguntava se estaria procurando fugir de seus sentimentos, como uma forma de se afastar dela, até se afastar do mundo novamente.

— Não aprova o que fiz? — perguntou ela.

— Faz diferença?

— Não sei.

— Só para constar, não sou tão conservador assim. Creio que você fez o que achou certo para si e também para todo mundo. E provavelmente foi. Ninguém deve ficar preso a um casamento sem amor.

— Você se casou jovem, não foi?

Ela sempre o fazia voltar ao passado. Mas hoje ele não sentia o ímpeto de resistir, já havia contado o pior.

— Sheila estava grávida.

— Por favor, me diga que não foi olhando a vista aqui em cima.

Ele se pegou sorrindo.

— Uma visita minha à casa dos pais dela, quando eles estavam fora. Nos empolgamos apenas uma vez, mas foi o suficiente.

— A infertilidade parece não ser problema em nossas famílias, Finn.

Ele pegou-lhe a mão e apertou, rindo de novo.

— Nove meses depois, éramos pais de uma menina. Bridie deu um trabalhão. Quando já não dava mais, veio Mark, depois Brian. Eu e Sheila nunca tivemos chance de nos conhecer da forma como as pessoas geralmente fazem. Eu a conheci como uma esposa, e mais ainda como mãe dos meus filhos.

— E pelo que posso perceber ela foi uma ótima mãe. Bridie sempre fala nela. Ela adorava a mãe.

Ele se surpreendeu ao ouvir que a filha, que nunca mencionava Sheila em casa, falasse abertamente sobre ela com Peggy. Sabia como isso era necessário, além de terapêutico. Já que ele era tão covarde, ficou feliz por ela não o ter escolhido para falar de Sheila.

— Ela era uma mãe maravilhosa. — Ele olhava para as luzes na aldeia, que se apagavam aos poucos, uma a uma. — Ela morreu para salvar os filhos.

— Como assim?

— Acho que em seus momentos finais, Sheila percebeu que ninguém viria nos salvar. Eu estava lutando para segurar os meninos e para chegar até ela. Mesmo estando ferida, percebeu o esforço que eu estava fazendo. E foi se afastando do barco. Se não fizesse isso, sabia que eu iria tentar ajudá-la, e sabia que não iria conseguir. Na hora não entendi. Mas agora é claro que entendo. Ela morreu para salvar Mark e Brian.

Ela pôs a mão no rosto.

— Você acredita no céu?

— Não. E você?

— Acho que tenho minhas reservas. Ninguém me convenceu do contrário.

— Mas se o céu existir e eu estiver errado, então Sheila está onde quer estar. Com nossos meninos.

— Se for verdade, ela sabe que você está aqui, cuidando da filha dela. Talvez, naquela tarde, tenha percebido que você estava muito longe da costa para salvar qualquer um, além de você mesmo. Talvez ela quisesse que sobrevivesse para cuidar de Bridie.

Parecia estranho para Finn que Peggy, que jamais conhecera sua esposa, pensasse nessa possibilidade. Porque ele já havia pensado nisso também, e mesmo sempre descartando a idéia, ela permaneceu em sua mente.

— Eu não queria lhe contar sobre aquele dia — disse ele. — Nunca falei sobre isso, a não ser quando realmente foi preciso. Há duas semanas fico me perguntando por que me deixei convencer.

— Encontrou a resposta?

Ele não sabia expressar com palavras. Então mostrou a ela. Beijou-lhe as costas da mão e, quando ela se inclinou para a frente, a beijou. Peggy tinha um cheiro cítrico, misturado com jasmim, um aroma da terra, único de sua pele. Seus lábios eram mornos e tão macios quanto a chuva irlandesa. Ela não ficou receosa nem envergonhada. Não fazia o tipo virginal, surpresa com os acontecimentos. Mas não era atrevida, como uma mulher experiente, simulando prazer. Ela era Peggy, madura, inteligente, independente, e mais desejável do que qualquer outra mulher que conhecera.

Ele baixou sua mão, pôs o braço ao seu redor, segurando-a forte, os seios apertados contra o peito dele. Ela mexia nos cabelos dele, com a ponta dos dedos, enquanto o beijava. Ele sentia a leveza do toque irradiando-se pelo seu corpo, em ondas.

Finn sentiu-se como se estivesse suspenso, flutuando acima do mundo que havia construído para si, o único mundo no qual podia viver, desmoronando aos seus pés.

Foi ela quem se afastou. Sorriu para ele e tocou seus lábios com o dedo. Na escuridão, ele achava que tinha lágrimas nos olhos.

— Boa resposta — sussurrou ela. — Vamos levar isso bem devagar, Finn. Nada de pressa. Você pode estar livre quando quiser.

— E você?

— Eu também.

Sem falsas promessas. Sem arrependimentos. Sem avisos. Ele podia ouvir o cuidado e a preocupação. E a decisão de, a partir de agora, viver com ambos.

Ele se levantou e estendeu a mão, pegando a jaqueta do chão, depois que ela já estava de pé. Mas ela não estava com pressa de ir embora. Ela o beijou novamente, apoiando-se nele, procurando seus lábios.

— Mágica irlandesa — disse ela, finalmente.

— Afinal, há fadas na floresta?

— Só pode haver.

Ele desconfiou que forças maiores estavam agindo.

 

                                   Capítulo 1 9

A casa de Casey era uma mistura de bom gosto, variando peças contemporâneas e réplicas de objetos antigos, pois nem o salário dela nem o de John poderiam pagar por peças verdadeiras. Ela gostava de cores fortes e tinha gravuras emolduradas nas paredes. O sofá da sala de estar tinha almofadas de pele de leopardo e um tapete de urso polar adornava o chão, em frente à lareira.

Megan gostava de tons terra e peças de coleção, coisas feitas a mão ou nostálgicas. Embora Casey tivesse um gosto completamente diferente do seu, ela se sentia bem à vontade na casa da irmã.

Era sábado à tarde. Megan viera até a casa de Casey e agora entrava na sala com um copo de chá gelado. Casey havia servido biscoitos caseiros, obtidos de um cliente, como agradecimento.

— Gosto da cor dessas paredes — disse Megan.

— Berinjela. Apenas outro nome para roxo-escuro. — Um imenso espelho dourado estava pendurado na parede em frente ao sofá, refletindo as cores do jardim atrás delas. Casey havia surpreendido a todos, mostrando um grande talento para cultivar flores. O canteiro lateral da casa estava lindo, resultado de seu novo dom.

O sofá era de camurça bordo, e Megan sentou, acomodando-se confortavelmente.

— Que bom que você pensou nisso. Eu estava à toa hoje. Não há nada que eu possa fazer até terminar a parte principal da reforma. Depois posso ajudar no acabamento.

— Você me surpreende. Achei que você fosse levantar paredes e instalar canos, com os garotos da Tijolo.

Megan achou que fosse. Sempre levou jeito para essas coisas e os anos ao lado de Niccolo haviam aprimorado suas habilidades. Mas logo notou que ajudar na reforma do salão não ia dar certo. Niccolo estava desatento ao que ela dizia e, cada vez em que tentava ajudar, a irritação dele aumentava.

— Estou tentando salvar meu casamento — disse Megan. — Fico tão irritada com tudo que, se formos trabalhar juntos, Jon terá que indicar um advogado.

— Está ruim assim, é?

Megan não queria falar de seus problemas conjugais. Casey adorava Niccolo. E, por acaso, Megan também. Além disso, havia conseguido conduzir sua vida sem pedir conselhos a ninguém e estava determinada a não deixar isso mudar.

— Então, como vão as coisas? — perguntou ela. — Continua gostando do emprego?

— Está me deixando em frangalhos, mas gosto, sim. A direção concordou em contratar mais uma pessoa para a equipe, então deve aliviar um pouco a carga.

— Isso não se parece com você.

— Não?

— Não. Desde que assumiu o Albaugh Center sempre quis cuidar de tudo, integralmente.

— Havia muito a ser reorganizado. Mas o pior já foi feito e não preciso trabalhar tão duro agora. Outras pessoas podem manter a administração diária.

— Para sobrar tempo para que faça coisas maiores?

— Isso, e outras coisas. — Casey levantou o copo devagar e o encostou primeiro em dos lados do rosto, depois no outro. — Que tarde quente.

Megan gostava do clima. Os nativos de Cleveland gostavam de reclamar do calor do verão, mas quase todo ano o ar-condicionado era necessário só por umas duas semanas. E essa não era uma delas.

O cheiro da grama cortada entrava pela janela aberta, com as gargalhadas das crianças, que brincavam no jato d'água do regador automático da casa ao lado.

Megan deu um gole no chá e sentiu-se relaxar. Logo, iria pedir uma cama macia e um ventilador.

Casey pousou o copo sem beber nada.

— Coma uns biscoitos. Jon disse que são ótimos.

— Estou surpresa que você tenha deixado alguns para ele. Sei como você é com biscoitos.

Megan pegou um punhado.

— Quais são os melhores, de nozes ou de chocolate?

— Não sei. Não provei nenhum dos dois.

Megan parou na metade da mordida. Começou a observar o evidente. Casey havia perdido o gosto por biscoitos. O chá era de ervas. Casey estava vermelha, talvez não pelo calor. Além disso, estava querendo ajuda no trabalho.

— Você está grávida — disse Megan, sem rodeios. — Quando pretendia me contar?

Casey pareceu encabulada.

— Ainda não tinha resolvido.

Megan mergulhou em sua direção, puxando-a para um abraço.

— Isso é fantástico, Case. Estou tão emocionada por você. Por que não me contou de uma vez?

Casey ficou em silêncio.

— Porque as coisas não vão bem com o Nick?

— Detesto ficar me exibindo, dizendo como tudo está tão bem para nós. Sei que você e Nick ainda estão num período de adaptação, pelo qual todos nós passamos.

— Vocês não passaram.

— Está certo. Eu e Jon nos adaptamos desde o segundo grau.

— Como pôde deixar que esses pequenos problemas a impedissem de me contar as novidades? E daí que eu e Nick estamos passando por um momento ruim? Vamos superar. Isso não pode atrapalhar a sua alegria.

— Jon está explodindo de felicidade. Eu passei mal que nem um cachorro, a semana toda. Como é que você consegue comer com esse calor?

— Com muito gosto. Vou comer por você também. Quanto tempo?

— Não muito. Dois meses e pouco.

— A Peggy não sentia muito enjôo matinal.

— Ai, que inveja.

A ficha começava a cair. Megan sabia que Casey e Jon haviam planejado ter um bebê, mas não havia acontecido tão rápido quanto esperavam. Casey, que já tinha 33 anos, estivera preocupada, achando que talvez tivesse esperado muito para tentar. Por isso Megan estava contentíssima pela irmã, mas se perguntava o que essa notícia iria causar a Niccolo.

Ela resolveu pensar sobre isso mais tarde.

— Já pensou em arrumar o quartinho? Quer menino ou menina?

—Parece um clichê, mas só quero um bebê saudável. Não me importo com mais nada.

Megan sabia de onde vinha aquele pensamento.

— Phil tem um irmão autista. Se o problema de Kieran não for hereditário, então deve ser do lado de Phil.

— E o nosso lado é realmente muito saudável, não é? Exatamente a qual dos Donaghues você gostaria que essa criança puxasse?

Megan explodiu numa gargalhada e Casey acompanhou.

— Vamos torcer para que os genes húngaros de Jon sejam fortes — disse Megan, esfuziante.

— Esse bebê vai precisar de toda ajuda possível.

Megan não contara a Niccolo sobre a gravidez de Casey. A oportunidade ideal nunca parecia surgir. Ele ficava fora mais do que ficava em casa, e quando estava por perto, era totalmente envolvido pela papelada e as ligações. Sua presença na televisão havia gerado muito interesse pela Tijolo, além de novos investimentos, aumentando as esperanças. Ele trabalhava em propostas e pedidos de clientes locais, que ainda pediam para ver o túnel. Um repórter do Plain Dealer viera até o salão para tirar fotografias e fazer uma entrevista, e, embora Niccolo e Iggy tivessem cuidadosamente explicado os eventos milagrosos como simples coincidências afortunadas, o artigo despertou ainda mais interesse ao redor da imagem.

Tanto Rooney quanto Josh agora passavam mais tempo em casa. Rooney não ficava tanto pela rua, e parecia mais contente com sua vida na Hunter Street. Josh, que estava freqüentando um curso de verão no colégio para ganhar créditos adicionais, ficava em casa toda noite, estudando. Megan não queria mais nada. Depois de tantos anos sem saber o paradeiro do pai, estava muito contente em tê-lo sob sua guarda cuidadosa. Josh era muito velho para ser seu filho, mas ela o considerava como se fosse e o observava colocar a vida nos trilhos.

Uma semana depois de sua conversa com Casey, Niccolo chegou do salão com ar distante, vestindo as roupas sujas da obra.

— Eu gostaria de falar com você. — Ele se jogou no sofá, para tirar as botas de trabalho.

Ela ficou surpresa, porque falar era uma das coisas que eles não faziam mais.

— Aqui? Agora?

— Você fez jantar?

— Não, eu não sabia a que horas...

— Vamos sair.

Não pareceu que seria um passeio romântico, nem um convite. Soou mais como uma voz de comando.

— E Josh e Rooney? — Ela cruzou os braços, preparando-se para uma briga. Por mais que desejasse ficar a sós com Niccolo, esta não era a maneira como queria começar a noite.

— Josh pode cozinhar macarrão com queijo e picar uns tomates.

Ela sabia que Josh não iria se importar, aliás, iria até gostar de ficar um pouco sozinho em casa. Assim poderia ligar o som mais alto, ou ligar para os amigos sem se preocupar em estar ocupando o telefone.

Ela resolveu não discutir.

— Devo me trocar?

— Vamos apenas até Great Lakes.

Nick estava agindo como o estereótipo tipicamente italiano, nem um pouco como ele mesmo. Ela quase lhe chamou a atenção, mas achou melhor não fazê-lo. Em breve saberia o que o estava perturbando.

Ela arrumou os cabelos e mudou de blusa, enquanto ele tomava banho. Não conversaram no carro. A Cervejaria Great Lakes ficava a uma distância que poderiam seguir a pé, mas ele não parecia disposto a caminhar pela brisa noturna. Em circunstâncias mais alegres, ela adoraria. A cervejaria tinhas uns quinze anos, mas o prédio onde funcionava tinha mais de cem, e uma das lendas locais dizia que as marcas de bala na parede foram feitas por ninguém menos que o próprio Eliot Ness.

Já estavam sentados no pátio do bar, quando ele disse:

— Vamos pedir, depois podemos falar.

Ela quase se rebelou, mas resolveu dar-lhe esta última concessão e nada mais. Da próxima vez em que lhe dissesse o que iriam fazer, ela lhe diria onde enfiar suas ordens.

Examinou o cardápio e optou pela salada de tortelini e um copo da cerveja da casa. Estavam sentados lado a lado, para que se ouvissem. Era uma noite perfeita para comer fora, e o pátio estava apinhado e barulhento.

— Ouvi dizer que John D. Rockefeller tinha um escritório de advocacia aqui em cima — disse ela, depois que o garçom já havia se afastado.

— O que mais ouviu dizer, Megan? Recentemente? — Agora ela entendia o que havia de errado com ele.

— Se tivesse meu copo, brindaria a minha irmã -— disse ela, erguendo a mão, como se estivesse segurando um copo imaginário. — A Casey e Jon, e ao bebê a caminho.

— Por que não me contou? Ou não achou que eu gostaria de saber?

— Não estava querendo manter segredo. Apenas não houve uma oportunidade e eu não queria contar de um jeito qualquer.

— Ora vamos, Megan.

Ela tentou contestar, mas não havia mais nada que pudesse dizer. Talvez, se uma oportunidade perfeita surgisse, tivesse contado a Niccolo. Mas ela nem tentou arranjar uma. A verdade era que não queria confrontá-lo com a notícia do bebê. Pois sabia o que viria a seguir.

— Acho que estava tentando evitar outra discussão. — Ela esperou até que as canecas fossem entregues, deu um gole e continuou: — Sei como se sente a respeito de ter um bebê e apenas não queria ver seu desapontamento pelo fato de eles terem um antes.

— Não ligo para quem é o primeiro. Será que não me conhece melhor do que isso?

— Como foi que soube?

— Jon passou no salão. Acho que ficou chateado por eu não tê-lo cumprimentado.

Ela pousou os dedos nas costas da mão dele.

— Desculpe. Vamos comprar um champanhe e parar na casa deles, na volta. Casey não pode beber, mas pode olhar.

— Jon está na lua.

— Casey também, só que está enjoando muito.

— Na noite anterior à minha ordenação, tive um sonho com três menininhos de cabelos escuros. Era uma escadinha. Cada um era um palmo mais alto que o outro. Eles acenavam para mim, do outro lado do rio. Quase desisti de me tornar padre.

Ela engoliu um bolo na garganta e bebeu um pouco de cerveja. Que visão solitária, um homem sendo afastado de um futuro que jamais iria experimentar.

— Você tem sonhos óbvios, Nick. Esse não é o único.

— O que quer dizer?

— Você ainda sonha em ser padre, não é? — Ele não negou.

— Como é que sabe?

— Durmo ao seu lado, lembra-se?

— E daí? Eu fico cantando Glória ao Pai? Recito a Eucaristia em latim?

— Até eu sei que já não se faz mais isso. — Ela tentava tranqüilizá-lo. — Não estou com raiva, nem preocupada. Mas estamos em transição. Este não é o momento para incluir um bebê no bolo.

— Pelo menos esse argumento é diferente daquele que diz que estou muito ocupado para ser um bom pai. Que estou mais preocupado com milagres do que com minha própria esposa.

A empatia dela estava se esvaindo.

— Em parte é o mesmo argumento. Você não está pronto. Eu não estou pronta.

— Se eu achasse que você ficaria pronta enquanto ainda somos férteis, nem abordaria o assunto.

O comentário era tão diferente do estilo dele que ela apenas ficou olhando. Nunca antes havia mencionado a idade avançada deles como motivo para se apressarem em ter um bebê. Agora se perguntava há quanto tempo ele estaria preocupado.

— Esqueça que eu disse isso. — Ele pegou a caneca de cerveja, ainda intocada.

— Isso é meio difícil. Porque você disse. E disse com convicção.

— Poderia ter dito de uma maneira melhor.

— Deixe-me ter certeza de que entendi. Você acha que estamos prontos, nesse minuto? Aliás, se não comermos, voltarmos para casa bem rápido, será que podemos aproveitar a minha próxima ovulação?

— Não foi isso que eu disse.

— Você precisa que eu prove que estarei pronta logo. Foi o que disse.

Ele apoiou a cabeça nas mãos por um instante, como um homem fraco demais para mantê-la em pé. Depois de alguns segundos se endireitou.

— Quero o que Jon e Casey têm.

— Se estava procurando por uma reprodutora, havia escolhas melhores.

— Nenhuma delas é você. Eu procurava por Megan Donaghue.

— Você quer que eu diga que estou um por cento certa de que estarei pronta para ter um bebê na próxima semana, ou no mês que vem, mas não estou. A cada dia parecemos estar nos afastando mais, Nick. Esta é a primeira vez em que ficamos sozinhos há séculos. Nem temos...

— Feito amor? — Ele parecia mais exausto. — Eu sei.

— Além de um bebê, você quer uma concepção imaculada?

— Achei que isso seria mais fácil. Como podem duas pessoas que se amam tanto quanto nós se distanciarem assim de repente?

Ela ficou feliz por ele perceber que não era por falta de amor.

— Vamos aproveitar à noite — disse ela. — Vamos conversar sobre alguma coisa. Qualquer coisa, menos a Tijolo e a obra. Não vou falar sobre a pia que escolhi, se você não me contar sobre a última proposta que recebeu.

— Fechado.

— Depois podemos comprar champanhe e ir visitar a família Kovats. Você pode ficar olhando a Casey ficar verde. Talvez isso o convença que esperar um pouco para ter um bebê não é má idéia.

— Há uma noite gloriosa por vir.

— Depois, em casa, vamos nos comportar como recém-casados. Você não vai perguntar ao Josh se há recados, e não vou perguntar ao Rooney se ele tomou os remédios. Pelo menos não mais que uma vez.

— E não vou dormir assim que cair na cama.

— É bom mesmo, se não, vou te bater.

Ela não dissera a Niccolo que estava aborrecida por sua falta de atenção. Era uma realidade que lhe ocorrera aos poucos. Ela se imaginava acima de tal coisa. Nunca havia sido carente emocionalmente e tinha praticidade na alma, o que lhe permitia ser tolerante às imperfeições alheias. Obviamente, entendia que a exaustão de Niccolo, suas preocupações e até mesmo suas exigências, eram resultado de carências que tinham pouco a ver com ela.

Ela ficou surpresa ao ver que, mesmo compreendendo tudo isso, ainda estava magoada. Ficou desnorteada com a própria reação e sentiu vergonha de contar a ele.

O restante do fim de semana seria uma trégua. Niccolo se afastou do trabalho e domingo de manhã fez café e ciamhella caseira, para comemorar as notas excelentes que Josh havia tirado em duas provas. A noite convenceram Rooney a dar uma volta pela vizinhança e foram até a casa de Casey e Jon, levando o que havia sobrado do bolo. Mas na segunda de manhã, Niccolo já estava pronto para partir às seis horas, e antes de sair do quarto, avisou que talvez chegasse tarde para jantar.

— Tenho uma reunião com algumas instituições de caridade católicas — disse ele, a caminho da porta. — Eles querem que eu entre para o quadro diretor.

Ela se virou para encará-lo.

— E você vai recusar, não é?

— Provavelmente.

Ela não gostou do tom e sua reação deve ter sido visível.

— Os contatos seriam ótimos — acrescentou ele. — Este é o único motivo pelo qual estou em dúvida.

— Você também poderia abrir uma nova filial da United Way. Os contatos também são ótimos.

— Você vai estar no salão?

Ela havia dito que estaria. Agora que os reparos necessários do túnel já haviam sido feitos, ela queria acabar de desocupar a despensa do segundo andar. Não sabia se um dia iria ou não utilizá-la. Estava com vontade de lacrar os túneis tão logo entrasse em acordo com Niccolo, mas, enquanto isso, limpar as pilhas de lixo já seria algo a fazer. Ela havia pedido a Niccolo que montasse uma vitrine em frente ao salão, para expor os objetos antigos. Assim como ela, outras pessoas também iriam se interessar pelos jornais e outras raridades.

— Se precisar de mim, pode me encontrar nos confins da terra.

— Te vejo lá.

Ela duvidava muito.

Chegou a vê-lo por alguns minutos na hora do almoço. Ele deu uma parada na mesa de piquenique do quintal, quando saía para comprar mais material.

— Foi boa a reunião dessa manhã? — perguntou ela.

— Produtiva.

— Você disse a eles?

— Quase. Disse que iria pensar a respeito.

— Talvez haja alguns minutos livres entre meia-noite e meia-noite e cinco, para pensar a respeito.

— Megan, me desculpe. Mas não atrase o jantar por minha causa. Vá em frente e coma. Eu belisco alguma coisa quando chegar.

Ela nem perguntou aonde ele iria. Alguém precisava dele e ele se sentia na obrigação de ir.

— Vou escrever nosso endereço, caso você se esqueça de onde moramos.

Ele já tinha virado para sair, mas deu meia-volta. Ela esperava irritá-lo, mas ele parecia arrependido.

— Vamos planejar uma viagem de fim de semana. Em breve. Só eu e você. Onde ninguém possa nos achar. Está bem?

Ela esboçou um sorriso, embora suspeitasse que o convite jamais fosse se materializar.

— Está bem.

— Vejo você mais tarde.

Ela balançou a cabeça enquanto ele saía.

A tarde estava quente e úmida, e ela não se arrependeu de ter descido ao túnel, que estava mais fresco, embora não fosse um ambiente dos mais agradáveis. Ela se apressou ao passar pela imagem, sem olhar, mas depois voltou para observá-la, iluminando-a com sua lanterna potente. Niccolo e os garotos da Tijolo haviam refeito parte da instalação hidráulica naquela semana. Não havia nenhum sinal de vazamento, mas ele lhe pedira que verificasse se a imagem havia mudado. Para ela, a Virgem Maria misteriosa parecia igual. Hoje não havia lágrimas, mas a imagem estava tão nítida quanto no primeiro dia em que a virá.

Ela lembrou de sua própria reação e isso a incomodou. Após a morte de sua mãe e o abandono do pai, deixara Deus de lado, como se fosse um hobby que consome tempo demais. Havia passado as horas que precisara na igreja, para manter suas irmãs juntas. Quando era obrigada a participar de alguma primeira comunhão de membros da família, chegava no último minuto e saía antes do sinal-da-cruz. Não sentia tanta raiva de Deus, quanto desalento, por Sua indiferença. Havia devolvido o favor.

Depois do furacão, depois da explosão, ela voltou correndo por esse mesmo túnel, rezando em silêncio para que Niccolo estivesse vivo. Nem percebera que estava rezando. As palavras vinham do lugar mais profundo de seu ser, fragmentos de orações há tempos guardadas, que sua mãe e as freiras da igreja Santa Brígida lhe haviam ensinado. E encontrara Niccolo vivo quando, por todas as circunstâncias, ele deveria estar morto ou gravemente ferido.

O local ainda parecia sagrado para ela. Não por causa da imagem. Talvez nem por ter achado o marido vivo, afinal. Mas porque ela havia se voltado para Deus novamente, nesse lugar. Sem pedir por um milagre, sem barganhar com algo que depois iria esquecer-se de fazer, mas simplesmente por pedir forças para enfrentar o que estivesse à frente.

E a força era apenas uma parcela do que lhe havia sido dado. Ela encarava a imagem e se perguntava se Niccolo sentiria algo parecido, e se isso seria, em parte, o motivo por não querer fechar o túnel. A vida dele fora poupada bem ali. Talvez sua vontade de mostrar esse lugar aos outros, fosse uma forma de expressar sua gratidão.

Ela seguiu para a despensa, onde já fizera um bom progresso, mas não voltara por muito tempo. Niccolo havia puxado uma extensão da sala das caldeiras, com uma luz portátil. Ela acendeu, grata, e ficou pensando por onde começar.

Uma hora depois, havia destrinchado dois caixotes. Qualquer outra pessoa teria simplesmente despejado tudo aquilo no latão mais próximo, mas ela estava extasiada. A vida na década de 20 teria sido tão diferente, e algum antepassado havia juntado tantos dados. Achou latas de doces cheias de recibos, álbuns mofados de couro com cardápios, livros de registros de capa dura e escrita impecável, detalhando despesas. Os cardápios foram um achado e tanto, e ela os colocou de lado para a vitrine. Foi gratificante ver que alguns dos pratos servidos por ela também eram favoritos naquela época.

Os recibos foram para o saco de lixo, já que a maioria não tinha qualquer indicação, nem era decifrável. Depois olhou os livros de registro mais atentamente. Ainda estava olhando item a item, quando ouviu um barulho no túnel. Olhou para cima e viu sua tia Deirdre na porta.

— Ora, ora. Olá! — Megan fechou o livro e levantou-se para cumprimentá-la. Ela e a tia "Dee" passaram por um começo turbulento antes de se tornarem amigas. Ainda menina, Megan havia ficado magoada com a tia, por ter levado Peggy para ir morar com ela. Porém, depois de adulta, percebeu a necessidade e ficou grata pelo cuidado e a sensibilidade que a tia demonstrou.

Megan não foi uma adolescente fácil de ser amada, mas sua tia jamais deixou de tentar.

— Bem-vinda à bagunça. — Megan gesticulou para as caixas ainda fechadas.

— Você não estava brincando, não é?

Tia Dee sempre arranjava um jeito para ir vê-la ao menos uma vez por semana, e no último telefonema Megan lhe contara sobre o depósito, no segundo andar. Megan sabia de sua preocupação em ver a sobrinha com tanto tempo ocioso forçado.

— Olhe para isso. — Megan deu-lhe o álbum. — Mesma comida, preços diferentes.

Deirdre olhou as páginas.

— Detesto dizer, mas posso me lembrar de uma época bem próxima a essa.

— Você não havia nascido.

— Não foi muito tempo depois. Que divertido. O que mais descobriu?

Megan mostrou-lhe a pilha de preciosidades.

— Eu estava olhando o livro de registros. Considerando a Lei Seca, os negócios iam muitíssimo bem nos anos 20. Tenho certeza que os túneis devem ter ajudado bastante, não é? Toda aquela birita contrabandeada.

— Também vendemos nossa cota. Não há dúvidas.

— Ainda há muito mais coisa para olhar.

— Quer ajuda?

— Adoraria. Embora não saiba o que irei fazer quando acabar aqui.

— Que tal relaxar e ler? Fazer aulas de costura? — Deirdre riu com a cara de desânimo de Megan.

— Você não tem se divertido muito, não é?

— Sinto falta de todo mundo. Do pessoal de sempre, da família chegando, do barulho, e até do trabalho. E sinto falta de cozinhar.

— Nick disse que não vai demorar até que a cozinha fique pronta.

A cozinha iria ficar linda. Megan quase babava sempre que passava por ela. Mal conseguia esperar até a hora em que pudesse fazer seu famoso guisado irlandês, ou a torta de bacalhau.

— Dê-me uma caixa — disse Deirdre. — Vamos nos divertir.

Megan explicou o que estava guardando e o que estava jogando fora.

— Qualquer coisa interessante que possamos não querer, deverá ir para a Sociedade Histórica, para eles darem uma olhada — disse Megan. — Do contrário, lixo.

Elas trabalharam num silêncio amigável por quinze minutos. Deirdre nunca fora intrometida, nem fazia exigências. Megan admirava isso.

— Tia Dee, veja isso. — Megan ergueu uma caixa de charutos, cheia de recortes de jornais.

— O que é isso? — Deirdre levantou-se, colocando as mãos na base das costas, ao se esticar. Caixas de papelão não eram assentos muito confortáveis.

— Artigos e fotografias de Glen Donaghue — disse Megan.

— Glen, meu pai?

— Parece que sim. — Megan havia visto fotos do Glen Donaghue mais velho. Ele que morrera quando ela tinha apenas quatro anos. As fotos de seu avô adornavam as paredes do salão junto às de outros parentes, também falecidos.

Ele se casara com trinta e poucos anos e ela não nunca vira muitas fotos dele antes dessa época.

— Mas que cara bonito. De arrasar corações. Fico surpresa por ter resistido tanto tempo antes que uma mulher conseguisse fisgá-lo.

Megan colocou a caixa de charutos ao alcance da tia, para que ela também pudesse mexer.

— Ele trabalhou com Eliot Ness, não foi?

— Depois que Ness se tornou diretor de segurança. Em meados da década de 30. Nossa, você nem imagina as histórias que ouvíamos quando eu era jovem.

— Essas fotos parecem ter saído de outra era.

— Naquela época ele era agente do governo. — Deirdre olhava o artigo. — E era um dos bons, diga-se de passagem. Uma bela profissão para o filho de um dono de bar, não é?

Megan se apoiou na borda de uma caixa, com os recortes.

— Tenho procurado informações sobre Liam Tierney e Nick me trouxe algumas cartas da Santa Brígida. — Ela explicou a respeito de Maura McSweeney. — Algumas dessas cartas já foram traduzidas e mencionam um Liam, que parece ter vindo de Shanmullin. Aparentemente pode ser Liam Tierney, e uma das cartas menciona um Glen, que tentava seguir a lei. Será que eles cruzaram o mesmo caminho? Não seria demais?

— Não sei muito sobre os anos que papai passou trabalhando para o Departamento do Tesouro. Ele não falava muito sobre isso.

— Um Tim também é mencionado. — Ela tentava se lembrar do que estava escrito. — Algo sobre ele traçar o seu mundo... não, traçar sua própria sorte e ameaçar quem interferisse em seus planos.

— Ah, bem. Essa é fácil. Ela provavelmente está se referindo a Tim McNulty. Foi uma grande celebridade por essas bandas. Sei que ele foi, de fato, membro da Sta. Brígida. E o papai certamente o conhecia. É uma história e tanto, mas eu não soube por ele. Soube de alguns trechos, contados pela irmã de papai, a tia Maryedith, pouco tempo antes de ela morrer.

Megan lembrava-se bem da tia-avó. Maryedith tinha a língua afiada e era intolerante, o que é uma pena, pois também era a historiadora da família, aquela que se lembrava de todas as histórias em tecnicolor e som estéreo. Eles eram obrigados a aturar suas reclamações e exigências, se quisessem saber de qualquer coisa.

— Ela costumava beliscar meu bumbum todas as vezes que achava que eu estava fora da linha, o que, aliás, era sempre — disse Megan.

— Não era uma mulher fácil de ser amada, a nossa Maryedith.

— Aparentemente os homens também achavam isso. Ela viveu sozinha a vida toda.

— O que ela lhe contou a respeito de Tim McNulty e o seu pai?

— Bem, quando você ouvir a história, verá por que ele mesmo nunca me contou.

A curiosidade de Megan estava bem atiçada. Isso era quase o suficiente para fazê-la esquecer de seus problemas.

— Tem chá gelado na geladeira portátil, lá em cima. Poderíamos nos sentar junto à mesa de piquenique e levar conosco a caixa de charutos e os livros de registros.

— Gostei da idéia. Conte comigo.

— Acenda a lanterna e prepare-se para partir. — Megan fechou a caixa maior e pôs seu novo tesouro embaixo do braço.

— Esperei muito tempo por isso, sabe?

— O quê? Para achar esses recortes?

— Não. Para ser sua amiga.

— Desculpe por eu ter sido tão terrível, por todos aqueles anos, tia Dee. Sei que você fez o que era melhor para todos. Nós lhe devemos muito. Todas nós.

Deirdre acendeu a lanterna enquanto Megan desligava a luz portátil.

— Vocês não me devem coisa alguma. Eu fiz porque sabia que um dia iríamos nos sentar para tomar um chá gelado. Valeu a espera.

 

                1925, Castlebar, Condado de Mayo

                 Meu querido Patrick,

Você pergunta por que nunca casei, uma pergunta estranha a essa altura, já no fim de minha vida. A resposta, é claro, tem a ver com escolhas.

Tive a minha escolha. Em minha juventude houve dois homens que me pediram para dividir com eles o lar e a cama. O primeiro, um fazendeiro, possuía um número incontável de crianças que precisavam ser criadas, e uma ex-esposa recém-falecida. Eu não tinha interesse nem pelo homem, nem pelas crianças. E muito menos pela fazenda, que não tinha beleza nem uma terra cultivável. Obviamente, fui cuidadosa para não lhe dizer isto, mencionando não ser uma mulher inclinada ao casamento, nem aos presentes que toda mulher parece precisar. Felizmente, ele foi em busca do que procurava, em outro lugar.

O segundo homem não foi tão fácil recusar. Ele era um bom homem, um homem bonito, e a vida com ele não teria sido difícil. Talvez pudéssemos ter viajado, ou lido os livros que tanto adoro, para depois comentarmos a respeito. Poderíamos ter tido filhos, tê-los visto crescer, rindo, aos nos lembrarmos, quando já estivéssemos velhos.

Mas o casamento nunca é uma perspectiva certa para uma mulher.

Nós nascemos para servir. Deveres na igreja, deveres com os pais, deveres com aqueles superiores a nós. Somos inferiores, trabalhamos excessivamente, recebemos pouco, quando somos pagas, freqüentemente somos mal alimentadas, se há homens que têm de ser servidos antes de nós. Vi nossa própria mãe sofrer nas mãos de nosso pai, querido Patrick. Você não viu tanto, por ter ido embora de casa mais cedo. Mas eu a observei cuidadosamente, enquanto seu espírito definhava, a cada batida do coração, a cada grito. Não passei a odiar os homens, apenas odeio aquilo que a nossa sociedade permitiu que eles se tornassem.

Eu disse não ao meu amado. Disse-lhe que viveria com ele fora dos laços do casamento, para que minhas escolhas permanecessem minhas. Sendo o homem temente a Deus que era, e desejando ter filhos, ele recusou.

E agora eu lhe causo espanto. Talvez você reze pela minha alma? Ou talvez você reze pela alma da Irlanda, onde decisões como esta são impostas às mulheres? Já não o conheço o suficiente para saber o que fará.

                     Sua irmã, Maura McSweeney.

 

                             Capítulo 20

A primeira vez que Glen Donaghue se aproximou de Clare McNulty, um chapéu cobria seus cabelos castanhos e brilhantes, mas os cachos estavam sedutoramente à mostra na nuca, e o tom do chapéu realçava o azul de seus olhos. Ele sabia quem era ela, sabia tratar-se da última mulher na terra com quem deveria ser visto. Isto não o impediu de recolher do chão, o rosário que ela deixou cair ao sair da igreja Sta. Brígida, após a primeira missa da manhã.

Ainda estava morno em suas mãos e mesmo sem erguê-lo até o rosto, podia sentir o aroma suave de rosas.

— Oh, obrigada. — Clare parou e sorriu. — Era de minha mãe. Eu ficaria muito aborrecida se o perdesse. Ela mesma o fez, com pétalas que moldou e secou.

— Um jardim de rosas para coroar a cabeça da Virgem. — Glen sorriu e esticou a mão para entregar-lhe o rosário. — É adorável e muito apropriado.

— Verdade? Minhas amigas me acham terrivelmente antiquada. Os rosários que usam são de prata, ou de miçangas pretas. — Ela deu-lhe uma olhada de lado, antes de acrescentar: — Eu já o vi na igreja antes. — Clare passou pela porta e estendeu a mão uma senhora que recolhia dinheiro para a compra de velas, dizendo algumas palavras antes de descer as escadas.

Glenn sabia que podia deixá-la ganhar distância, bastando engajar-se ele próprio numa conversa com o velho. Quando terminasse, Clare já teria ido embora e ele não poderia ser considerado descortês.

O bom senso não prevaleceu. Ele a alcançou facilmente, porque ela caminhava devagar.

— Eu também já a vi, porém, nunca sozinha.

— Sou o maior tesouro de meu pai. Ele faz questão que eu seja sempre bem guardada.

Ela soou de uma forma como se não gostasse daquilo.

— Mas os pais devem amar as filhas, não?

— O senhor parece ser um homem bastante tradicional, sr...?

— Donaghue. Glen Donaghue.

— E eu sou Clare McNulty. Eu disse tesouro, não amor.

— Há diferença?

— Não precisamos amar algo que é precioso para nós. Apenas temos que cuidar, por aquilo que vale.

— E você vale algo para seu pai? — Ele se perguntava o que seria, exatamente.

— As mulheres têm sido material de barganha há séculos. Se já houve algum tempo em que não fomos, ainda não ouvi dizer.

— Este é o século XX e temos leis contra a escravidão. Como pode ser forçada a fazer algo que não deseja?

Ela mudou de assunto.

— Saí de casa antes que todos se levantassem. Por isso estou sozinha. Venho a essa missa sempre que posso.

— Sei quem é seu pai. — Ele evitou a frase seguinte, mas sabia que tinha de falar o resto. — Sou a última pessoa com quem ele gostaria de vê-la conversando. Eu e os da minha espécie somos aqueles de quem ele tenta protegê-la. — Ela parou e, por um instante, pareceu preocupada.

— Você é um dos homens de Frank Chiador? — Ele deu uma gargalhada.

— Pareço ser um de seus homens? Ainda por cima com um nome como Donaghue?

— Quando faz isso você parece tão jovem que poderia estar de calças curtas.

— Quando faço o quê?

— Quando ri. Dá uma gargalhada. Os cantos de seus olhos fazem uma pequena ruga, como os de um menino.

— Receio que eu já tenha idade para ser um agente do governo.

Os olhos dela se arregalaram, depois ela também riu.

— Então foi isso que quis dizer. Então me diga: você ficou a postos junto à porta, na esperança de que eu deixasse cair algo?

— De forma alguma. Na verdade, disse a mim mesmo que ficaria o mais longe possível de você.

Ela começou a caminhar pela calçada.

— Então por que não ficou?

— Não sei o que lhe dizer.

— Se dissesse a verdade seria bom.

— Acho que é algo em você, só isso.

— Realmente há algo em mim. Sou uma mulher perigosa. Principalmente para um homem como você.

— Por que você está fazendo gim em sua banheira? Vindo do Canadá uma vez por semana, com carga de uísque e rum?

— Cuido da casa de meu pai e freqüento a escola. Não sobra muito tempo para fazer contrabando de bebidas.

Ela tinha a pele mais linda que ele ja havia visto, tão clara, fina e suave quanto o vestido de casamento de sua mãe. Ele se considerava um homem sério. Havia crescido ouvindo histórias sobre a longa carreira policial de seu avô, Rowan Donaghue. Glen sabia que seu pai era um Donaghue apenas por adoção e não possuía o sangue de Rowan nas veias. No entanto, Rowan era seu herói, e há muito tempo Glen havia decidido moldar a própria vida segundo a dele. Agora que subira alguns degraus da escada, não seria tolo em jogar tudo fora por uma pele de marfim ou um par de olhos azuis.

— Você parece muito ocupada para ser perigosa — disse Glen.

— Creio que você deva ser ocupado também. Ocupado demais para se envolver com Tim McNulty.

— Me envolvo com ele com mais freqüência do que você imagina.

— Porém, nunca diretamente.

Ele sorriu de leve, para que ela soubesse que estava certa. Ela suspirou baixinho.

— Ele tem uma dúzia de homens para manter longe homens como você. Mas se tivermos mais uma dessas conversas, você terá a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.

Ela fez uma expressão triste com a idéia, mas conformou-se, como se soubesse que sua vida seria sempre de acordo com a piedade do pai. Ela era magra, de um porte delicado, quase frágil, e ele sentia um imenso ímpeto de puxá-la para seus braços e prometer protegê-la.

— Ele tem planos para você? — perguntou Glen.

— Ele tem planos para todas as pessoas que já conheceu na vida.

Glen nunca tivera uma conversa tão íntima num espaço de tempo tão curto. Em parte estava surpreso, mas parte dele parecia acreditar que o destino estava agindo. Ele não era cem por cento irlandês à toa.

— Você vem a essa missa com freqüência? Consegue sair quando quer? — perguntou ele.

— Todos os dias, se eu quiser.

Ele era um católico devoto e tradicional o bastante para ir à missa sempre que pudesse. No seu tipo de trabalho, quanto mais religioso melhor.

— Então nos vemos — disse ele.

Ela sorriu, deixando os dentes brancos à mostra, entre os lábios rosados, que não ficavam nada a dever à astúcia de seu ditador. Seu vestido azul-marinho era elegante, porém discreto. Ele gostava de tudo nela.

— Então este será mais um motivo para acordar cedo. — Ela deu as costas e começou a descer a calçada. Ele não a seguiu, embora estivesse extremamente tentado a fazê-lo.

Sabia que arranjariam tempo para estar juntos nas semanas seguintes, e também sabia que não deveriam.

De alguma forma, esta última parte não importava tanto quanto deveria.

Quando não estava com Glen Donaghue, Clare sonhava com ele. Ela o via apenas na missa matinal, quando conseguia sair sozinha. Eles conversavam sempre e, uma vez, foram ao outro lado da rua tomar um café, aventura ousada e provavelmente insensata, que lhe dera tanto com que sonhar.

Glen era quieto, porém forte. Louro, mas não muito. Alto, mas nem tanto. Vistoso, mas nem de longe fazia o tipo menino bonito. A família dele era irlandesa assim como a dela, mas eram amáveis e felizes, nem um pouco como a dela. Tinha apenas uma irmã, Maryedith, mas dúzias de primos.

A família dele era dona do Whiskey Island Saloon, o qual Clare, obviamente, jamais havia visitado. Seu emprego era bastante esquisito, levando-se em conta o tipo de negócio da família. Ele confessou ter escolhido ser um agente federal, em vez de policial, por causa deles. Como policial, ele poderia ser chamado para uma incursão ao local de negócios da própria família. Seu emprego no Departamento de Tesouro exigia que interceptasse a bebida antes de chegar a lugares como o salão, mas fazia isso na fonte.

Seu emprego fazia com que confrontasse o pai dela, não o dele. Pelo menos, não tão diretamente. A família dele tolerava sua ausência em todos os eventos do salão e seus superiores não lhe pediam que espionasse seus parentes. Glen tinha de andar numa corda bamba, mas até o momento, o fizera com sucesso.

Clare também andava numa corda bamba. Seu pai ficaria furioso se soubesse que ela havia se apaixonado por qualquer pessoa que fosse, muito mais ainda por um agente federal. Tim McNulty já escolhera um homem para a filha. Niall Cassidy, o escolhido, fazia parte da gangue irlandesa do lado norte de Chicago e Tim não queria mais nada na vida, além de associar-se a Bugs Moran e seus companheiros, com o casamento da filha.

Cassidy era um associado júnior nos negócios de Moran, uma espécie de centro de treinamento sênior para matadores, e, desde uma "conferência" de muambeiros da qual Tim havia sido o anfitrião, Cassidy estava de olho em Clare. Desde então ele arranjava um jeito de voltar a Cleveland uma ou duas vezes por mês. Ele era impetuoso e sem educação, e o charme efusivo irlandês mal conseguia esconder sua alma de cascavel.

O pai de Clare, um peixe grande no pequeno lago de Cleveland, Ohio, tinha aspirações de se tornar algo mais. Clare o havia observado durante toda sua vida. A palavra "suficiente" não fazia parte do vocabulário de seu pai. As palavras "pouco influente" eram o suficiente para fazê-lo espumar. Era certo que, ao casar Clare com Niall, ele aumentaria instantaneamente sua influência e seus ganhos. Portas que estivessem fechadas agora se abririam para ele. Os sentimentos ou necessidades dela não mereciam consideração alguma. Até então, ela havia se esquivado de Cassidy. Quando ele aparecia sem avisar, ela inventava uma dor de cabeça ou compromissos previamente agendados; e se descobrisse antecipadamente que ele viria para a cidade, dava um jeito de desaparecer. Seu pai, no entanto, estava mais atento às suas artimanhas e havia chegado seu dia de ajustar as contas. Cassidy estaria chegando naquela tarde, para se consultar com seu pai a respeito de um pequeno negócio. Tim havia informado a ela para estar presente no jantar naquela noite, assim como providenciar preparativos festivos para uma confraternização, e, após o jantar, caso Niall Cassidy quisesse dar uma caminhada tranqüila ao luar, ela estaria nas mãos de Deus para acompanhá-lo a um passeio pelo bairro.

Clare não tinha o menor interesse em exibir suas habilidades de administradora do lar para Niall Cassidy. Ela mandou que as criadas tirassem o pó das incontáveis antigüidades vitorianas que seu pai adquirira com dinheiro e bom gosto. As esculturas das pastoras de Staffordshire, os brasões, os vasos de Majolica. Assegurou-se de que toda a prataria estivesse polida e cuidadosamente inventariada, já que Cassidy era o tipo de homem que, alegremente, enfiaria no bolso qualquer coisa que o agradasse.

Ela providenciou flores e escolheu um cardápio sem pensar no que ele poderia gostar. Ele parecia um homem que iria deleitar-se com carne assada e batatas. Ela preferiu frango à Ia king com torradas. Ele provavelmente gostaria de tortas e bolos. Ela escolheu frutas assadas. Os pães eram do dia anterior e a louça era a de uso diário.

Cassidy chegou com seu pai, pontualmente, às dezenove horas. Ela os cumprimentou vestindo um chemise marrom, que não lhe caía bem.

— Sr. Cassidy — disse ela, pegando seu sobretudo para entregá-lo a empregada. Ela teve o cuidado de não tocá-lo nem sorrir.

— Niall — corrigiu ele. — Você está linda, como sempre, Clare.

Ela havia puxado o cabelo para trás, expondo a testa larga, e não usava nenhuma das jóias que seu pai lhe dera, para ostentar sua riqueza.

— Elmira serviu canapês na sala de visitas. — Os canapês haviam sido feitos com ovos cozidos e sardinha, a combinação menos atraente em que pôde pensar. Ela fez questão de mandar deixar a postos as garrafas de gim, vermute e as azeitonas, para que fossem preparados alguns martínis elegantes, já que seu pai desprezava qualquer coisa que estivesse em seu copo que não fosse uísque puro.

— Você nos acompanha, Clare? — Não havia um tom de pergunta na voz de seu pai.

— Receio que não posso — disse ela, com doçura. — Mas adoraria, é claro. Porém se eu não supervisionar, tenho certeza de que o jantar será um fracasso. E não podemos correr o risco de estragar a noite do sr. Cassidy.

— Vamos correr o risco. — Tim a pegou pelo braço. Clare manteve-se firme, mesmo sabendo que seu braço estaria preto de manhã.

— Minha nossa, então deixe que eu pelo menos verifique como estão as coisas na cozinha, papai. Elmira está me esperando.

Os dedos dele apertaram mais, punindo-a. Ela não recuou. Ele finalmente a soltou.

— Aguardamos o seu breve regresso.

Ela acenou a cabeça graciosamente e escapou em direção à cozinha.

Elmira não era hábil com molhos cremosos. Ao abrir a porta da cozinha, Clare foi recebida com um leve cheiro de queimado. Pela primeira vez na noite, ela sorriu.

— As coisas não vão bem por aqui?

— Oh, senhorita, me desculpe. Queimou tão rápido. Eu apenas me virei e...

— Não se preocupe. Apenas deixe a parte queimada na panela e raspe para tirar o restante.

— Oh, não sei, senhorita. Está com gosto ruim. Tem muito frango, eu posso fazer mais...

— Ah, não. Este está bom. Não se esqueça das ervilhas e das cenouras. E faça com que estejam bem crocantes.

Ela passou um bom tempo, o máximo que se atreveu, mas finalmente teve que ir ao encontro dos homens. Ambos estavam encenando goles de seus martínis, e serviram-se de um maço de Camels. Ela observou Niall por um instante, antes de entrar na sala. Pelos padrões da maioria das mulheres, ele seria um charme total, com cabelos estilo Rodolfo Valentino e olhos verdes. Vestia-se impecavelmente e sorria com suavidade. Mas ela ainda achava tudo ofensivo a seu respeito, desde as manchas de nicotina nos dentes e dedos, até o cheiro enjoativo de rum que exalava de sua pele.

— O jantar estará pronto em breve. — Ela entrou na sala e sentou-se numa poltrona ao lado da lareira, percebendo com satisfação que os canapés não tinham feito um sucesso estrondoso.

— Niall estava me contando que está conquistando seu lugar ao sol. — Tim parecia satisfeito em ouvir isso, mas quando voltou o olhar para sua direção, ela viu o reluzir do aço.

— Parabéns — disse ela, de modo forçado. Ela sabia que não deveria perguntar em que ele estaria fazendo sucesso. No mundo de seu pai, as perguntas jamais eram bem-vindas.

— E ele me dizia que pretende se estabelecer e constituir família.

Ela pensou em falar a verdade, que preferia dar à luz os filhos de Lúcifer aos de Niall Cassidy. Em vez disso, concordou com a cabeça.

— Tenho certeza que as moças de Chicago estão contentes com isso.

Os dois homens a encararam. Sua voz expressava equilíbrio e um tom sincero. Eles claramente não sabiam se ela estava sendo sarcástica. Clare se levantou antes que pudessem se aprofundar na verdade.

— Devo pedir outra rodada de canapés? — Ela pegou o prato e o segurou no ar.

— Nada além do fogo do inferno irá ajudá-las — disse Tim. — Sente-se, Clare.

Ela obedeceu, girando o prato nas mãos, para ter o que fazer.

— Como vai a escola? — perguntou Niall. — Está aprendendo algo útil? — Os dois homens deram uma gargalhada, como se aquilo fosse tão impossível que só provocasse riso.

— As peças de Shakespeare, a filosofia de Kant. — Ela tinha uma expressão ávida. — Pretendo dar aulas algum dia. As freiras ursulinas fazem um trabalho tão importante. Todas as noites eu rezo por uma vocação. — Ela sorriu de modo retraído.

— Uma mulher negra será o papa antes que eu permita isto — disse Tim, com uma expressão sombria.

— Dizem que nos tempos antigos houve um papa que foi uma mulher.

— Blasfêmia! — Tim preparou outro martíni para si. — Talvez você já tenha tido educação suficiente, mocinha.

— Você acha que uma mulher pode ter educação suficiente? — Clare perguntou a Niall. — Como é na Cidade do Vento?

— Minha mãe não sabia nem escrever o próprio nome, mas criou dez filhos e nenhum de nós faleceu.

Ela balançou a cabeça, com ar de deboche.

— Anos felizes e um alto padrão de qualidade para todos, tenho certeza. Ela deve se orgulhar de você.

— Ah, ela bateu as botas uns dois anos atrás.

Por um segundo Clare teve pena da falecida sra. Cassidy. Se os outros nove filhos fossem como Niall, a pobre mulher não teria morrido nem um minuto antes da hora.

Elmira salvou o dia ao anunciar o jantar. Niall acompanhou Clare até a sala de jantar e ela foi obrigada a lhe dar o braço. Ele a sentou na cabeceira da mesa e seu pai ocupou a ponta oposta, gesticulando para que Niall sentasse ao lado dela.

Elmira serviu e Clare observava os homens, por baixo dos cílios. Ela não era uma mulher bonita, e na maioria das vezes se orgulhava em fazer as pessoas felizes e confortáveis. Suas tarefas na casa do pai não recebiam qualquer agradecimento em troca, mas ela fazia sem expectativas ou má vontade. Esta noite ela só queria que o pai ficasse tão infeliz quanto ela, diante desta afronta à civilidade.

— O que é esse troço? — perguntou Tim.

— Frango à Ia king. Está na moda. Não gostou?

— Se eu quisesse torradas, teria pedido ovos para acompanhar.

— Sr. Cassidy, o senhor gostou, não é?

Ele conseguiu acenar com a cabeça, enquanto mastigava com dificuldade, com a boca cheia de cenoura.

— Que bom. — Ela sorriu carinhosamente e continuou comendo até limpar o prato.

— É bom que tenha algo melhor de sobremesa. — Tim empurrou o prato e bebeu o uísque que havia servido antes de deixar a sala de estar.

— Frutas. É tão saudável, não acha?

Logo após ser servido, ele empurrou esse prato também, passando o resto da refeição fuzilando-a com o olhar.

Quando ficou óbvio que ninguém ia comer mais nenhuma garfada, ela pediu licença e levantou-se, sinalizando para que eles pudessem sair da mesa também.

— Tenho certeza de que os cavalheiros precisam fumar. Vou ajudar Elmira a organizar as coisas para o café de amanhã.

— Vamos dar uma volta, Clare — disse Niall. — Seu pai me deu permissão para levá-la lá fora um pouquinho.

— Receio não poder. Preciso estudar para um teste.

— Você vai — disse Tim, autoritário. — Ou não terá nada para estudar no futuro.

Ela sabia que, quanto mais discutisse, mais difícil seria se livrar de Cassidy.

— Vou pegar um suéter. Mas somente se o sr. Cassidy prometer me trazer de volta cedo.

Ela voltou alguns minutos depois e viu os dois bem próximos, em meio a uma conversa. Ela parou na porta.

— Devo voltar mais tarde?

— Não, estou pronto. — Niall pegou o casaco e o colocou sobre os ombros. Depois a conduziu até a porta da frente.

— Você e meu pai pareciam estar conversando sobre algo importante — disse ela, quando deixaram o vasto jardim dos McNultys. O vulto da casa ficou atrás deles, uma mansão monstruosa, de pedras marrons, que combinava com o inverno de Cleveland, e com quase nada mais.

— Não, apenas estávamos falando de você.

Esta era uma conversa que ela lamentava não ter ouvido. Ela achou que um dos capangas do pai fosse segui-los, mas, pela primeira vez estava a sós com um homem.

Aquilo não era um bom presságio. Seu pai estava pronto para casá-la com Niall Cassidy. Aparentemente Niall tinha a permissão tácita de Tim para usar todos os meios possíveis para que isso acontecesse.

— Você gosta de Cleveland? — perguntou Niall.

— Nunca morei em nenhum outro lugar. — Ela ergueu a mão para acenar a uma vizinha, mas a mulher virou-se rapidamente, como se não tivesse visto Clare. Quando Clare estava sozinha, os vizinhos eram amistosos, mas não eram tolos de chamar atenção para si quando algum dos homens de McNulty estivesse com ela.

— Você iria gostar de Chicago. É maior e melhor. Tem bastante gente, é bem divertido. Eu poderia levá-la para uma boa diversão — ele piscou.

— Não creio que a nossa idéia de boa diversão seja a mesma.

— Ah é? O que você gosta de fazer?

— Leitura. Ópera. Ir à missa. — Ela não era tão arrogante quanto se fazia soar, mas não fingiu a respeito dos pontos mais finos.

— Eu gosto de uma rainha de classe.

Ela parou na calçada. O lago estava bem à frente deles, um filete estreito de areia, depois apenas a água, até perder de vista. Estavam quase à margem do Atlântico. Uma gaivota passou gralhando, para completar a ilusão.

— Sr. Cassidy, o senhor está com uma idéia errada a meu respeito. Não sei o que o senhor e o meu pai conversaram, mas não estou à procura de um namorado ou de um marido. — Então tentou lisonjeá-lo. — Deve haver uma dúzia, ou mais, de garotas em Chicago que iriam vibrar em dar um passeio como esse com o senhor.

— Gosto de uma rainha que se faz de difícil.

— Não estou me fazendo de nada.

— O que é? Não sirvo para você?

Havia um tom de perigo na voz dele. E era um homem perigoso. Ela não era tola de ser áspera ou até mesmo honesta, se quisesse sobrevier a essa noite ilesa.

— É claro que não é isso. Eu é que não sou boa o bastante para você — disse ela. — Não somos pessoas parecidas. Sou tediosa. Você precisa de uma garota que goste das coisas que aprecia. Alguém que o ajude a ir em frente.

— Posso arranjar outras garotas com quem me divertir. Quero uma esposa que faça o que eu mandar, que tenha nascido para ser mãe.

— Não sou nenhuma das duas coisas. Só vou lhe trazer problemas. Para o bem de nós dois, vamos nos separar como amigos. Você poderá achar alguém muito melhor.

Ele agarrou-a pelo braço, girando-a. Tinha os olhos escuros de raiva.

— Você pensa que não sei o que está fazendo? Pensa que é muito especial e eu não sou nada? Um ninguém?

Ela estava com medo, mas também estava com raiva.

— Também tenho opinião própria. Estamos em 1925. As mulheres têm direito ao voto. E se um dia eu me casar, não será com um homem que não me escute. Agora me largue.

Em vez disso, ele a puxou para mais perto.

— Sabe qual é o seu problema? Você nunca foi beijada por um homem de verdade. Talvez algum fresco ande beijando você.

— Me larga! — Ela tentava arrancar o braço da mão dele, mas ele apertava com mais força. Num instante ela estava em seus braços, tentando desesperadamente evitar seus lábios e seus quadris se esfregando aos dela e, subitamente, estava livre.

— A senhorita disse para deixá-la em paz.

Com a visão embaçada, Clare viu Glen Donaghue derrubando Niall no chão. Ele se levantou na mesma hora, partindo em direção à cabeça de Glen, mas este se esquivou para o lado, como um toureiro faz com o touro. Ela deu um salto para trás bem na hora. Niall virou-se e investiu contra ele novamente, mas desta vez Glen moveu-se apenas um pouco, levantando um dos joelhos.

O ar saiu dos pulmões de Niall, produzindo um som ofegante, e ele caiu envergado, gemendo. Para um homem com fama de perigoso, ele não era tão bom numa briga de rua.

Ela não sabia de onde Glen havia surgido, nem por quê. Queria avisá-lo que Niall provavelmente estaria armado. Muito raramente os homens de seu pai iam à rua sem uma arma. Um homem como Cassidy se consideraria nu.

Um carro encostou ao lado deles e dois homens desceram. Um deles mostrou o distintivo.

— Você é Niall Cassidy? — perguntou ele. Niall gemeu em resposta.

— Temos algumas perguntas a fazer. Como por exemplo, onde esteve ontem à noite e por que há um fundo falso em seu carro.

— Venha srta. McNulty — disse Glen, pegando-a gentilmente pelo braço. — Vou acompanhá-la até em casa.

Ela assistiu, horrorizada, enquanto os dois outros homens revistaram e desarmaram Cassidy, jogaram-no sem-cerimônias no banco traseiro e saíram com o carro.

— Ele vai matá-lo — disse ela. — Ele não é um homem que possa ser humilhado dessa forma, Glen. — Ela recuou, largando o braço dele. — Você estava me seguindo?

— Eu gostaria de poder segui-la, mas não. Estávamos procurando Cassidy. A sua casa era o lugar mais óbvio por onde começar e ficamos estacionados no fim da rua, a noite toda. Vimos vocês dois vindo para fora.

E nenhum dos homens do pai dela estaria olhando, porque Tim McNulty teria dado a Cassidy tempo para cortejar sua filha. A ironia não havia sido à toa.

— Ele é um gorila. Eu o detesto. Meu pai quer que eu me case com ele.

— E você vai concordar com isso?