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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VIAJANTE DO TEMPO / Diana Gabaldon
A VIAJANTE DO TEMPO / Diana Gabaldon

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Pessoas desaparecem o tempo todo. Pergunte a qualquer policial. Melhor ainda, pergunte a um jornalista. Os desaparecimentos fazem parte do dia-a-dia dos jornalistas.

Adolescentes fogem de casa. Crianças desgarram-se dos pais e nunca mais são vistas. Donas-de-casa chegam ao limite de sua paciência, pegam o dinheiro das compras e um táxi para a estação de trem. Banqueiros internacionais mudam de nome e desaparecem na fumaça de seus charutos importados.

Muitos dos desaparecidos serão encontrados, por fim, vivos ou mortos. Afinal, os desaparecimentos têm explicação.

Quase sempre.

 

 

 

 

Não era um lugar muito provável para desaparecimentos, ao menos à primeira vista. A pousada da sra. Baird era igual a milhares de outros estabelecimentos que ofereciam hospedagem e café da manhã nas High-lands, a região montanhosa da Escócia, em 1945; limpa e tranqüila, com papel de parede floral desbotado, assoalhos reluzentes e um aquecedor de água no banheiro operado com moedas. A sra. Baird era atarracada e afável, e não fazia nenhuma objeção ao fato de Frank cobrir sua minúscula sala de visitas, decorada com raminhos de rosas, com as dezenas de livros e papéis com que ele sempre viajava.

Encontrei a sra. Baird no vestíbulo quando eu saía. Ela me parou com a mão rechonchuda em meu braço e deu leves toques nos meus cabelos.

— Nossa, sra. Randall, não pode sair assim! Vamos, deixe-me ajeitar aqui um pouco para você. Pronto! Assim está melhor. Sabe, minha prima estava me falando de um novo permanente que ela experimentou, fica lindo e dura que é uma beleza. Talvez devesse experimentar esse tipo da próxima vez.

Não tive coragem de dizer-lhe que a rebeldia dos meus cachos castanho-claros era obra exclusiva da natureza e não devida a qualquer negligência da parte dos fabricantes de permanente. Suas próprias ondas firmemente marcadas não sofriam de tal perversidade.

— Sim, farei isso, sra. Baird — menti. — Só estou indo à vila me encontrar com Frank. Voltaremos para o chá.

Saí apressadamente pela porta a caminho da rua antes que ela pudesse detectar quaisquer outros defeitos em minha aparência indisciplinada. Após quatro anos como enfermeira do exército britânico, eu estava livre de uniformes e restrições, cedendo ao desejo de usar vestidos leves de algodão, vivamente estampados, totalmente inadequados para as acidentadas caminhadas através das urzes.

Não que eu tivesse originalmente planejado fazer muitas dessas caminhadas; meus pensamentos estavam mais voltados para dormir até tarde todas as manhãs e passar longas tardes preguiçosas na cama com Frank, e não para dormir. Entretanto, era difícil manter o adequado estado de espírito lânguido e romântico com a sra. Baird diligentemente passando o aspirador de pó do lado de fora do nosso quarto.

— Esse deve ser o pedaço de carpete mais sujo de toda a Escócia — Frank observara naquela manhã quando estávamos na cama ouvindo o ronco feroz do aspirador de pó no corredor.

— Quase tão sujo quanto a mente da proprietária - concordei. — Talvez devêssemos ter ido para Brighton, no final das contas.

Escolhemos as Highlands como roteiro de férias antes de Frank assumir o cargo de professor de história em Oxford, considerando que a Escócia de certa forma fora menos atingida pelos horrores físicos da guerra do que o resto da Grã-Bretanha e era menos suscetível à frenética alegria pós-guerra que contagiava pontos turísticos mais populares.

Mesmo sem discutir o assunto, acho que nós dois sentimos que era um local simbólico para restabelecermos nosso casamento; nós nos casamos e passamos uma lua-de-mel de dois dias nas Highlands, pouco antes da deflagração da guerra há sete anos. Um refúgio tranqüilo onde pudéssemos redescobrir um ao outro, pensamos, sem perceber que, enquanto o golfe e a pesca são os esportes ao ar livre mais praticados da Escócia, o mexerico é o esporte de salão mais popular. E do jeito que chove na Escócia, as pessoas passam muito mais tempo dentro de casa.

— Aonde você vai? — perguntei, quando Frank atirou os pés para fora da cama.

— Detestaria ver a pobre velhinha decepcionada conosco - respondeu.

- Sentando-se na beira da cama antiga, começou a balançar-se devagar para cima e para baixo, criando um rangido rítmico e penetrante. O ronco do aspirador de pó no corredor parou bruscamente. Após um ou dois minutos balançando-se, ele deu um gemido alto e teatral e deixou-se cair para trás com uma vibração de protesto das molas. Não pude conter uma risadinha abafada no travesseiro, para não perturbar o silêncio sepulcral do lado de fora.

Frank ergueu as sobrancelhas para mim.

— Você deveria gemer em êxtase, não dar risadinhas — repreendeu-me num sussurro. — Ela vai achar que eu não sou um bom amante.

— Você vai ter que continuar por mais tempo do que isso, se espera gemidos empolgados - respondi. - Dois minutos não merecem mais do que uma risadinha.

— Que mulherzinha sem consideração. Eu vim aqui descansar, lembra-se?

— Preguiçoso. Nunca vai conseguir colocar o próximo ramo familiar em sua árvore genealógica se não mostrar um pouco mais de empenho.

A paixão de Frank por genealogia era outra razão para termos escolhido as Highlands. Segundo um dos encardidos pedaços de papel que ele carregava de um lado para o outro, um antepassado seu tivera alguma coisa a ver com os acontecimentos naquela região em meados do século XVIII - ou seria século XVII?

- Se eu acabar como um toco sem descendentes na minha árvore genealógica, sem dúvida será por culpa de nossa incansável anfitriã lá fora. Afinal, estamos casados há quase oito anos. O pequeno Frank Jr. será perfeitamente legítimo sem precisar ser concebido na presença de uma testemunha.

- Se vier a ser concebido - eu disse, pessimista. Ficáramos decepcionados mais uma vez na semana anterior à partida para nosso retiro nas Highlands.

- Com todo este revigorante ar puro e esta comida saudável? Como poderíamos falhar aqui?

O jantar na noite anterior fora arenque, frito. O almoço fora arenque, em conserva. E o cheiro penetrante que agora bafejava pelo vão da escada sugeria com elevado grau de certeza que o café da manhã deveria ser arenque, defumado.

- A menos que você esteja pensando em mais uma edificante performance para a sra. Baird — sugeri -, é melhor se vestir. Não vai se encontrar com aquele pastor às dez? — O reverendo Reginald Wakefield, o vigário da paróquia local, deveria prover algumas fascinantes certidões de batismo para inspeção de Frank, sem mencionar a esfuziante perspectiva de que possa ter desenterrado alguns bolorentos despachos do exército ou algo parecido que mencionassem o famoso antepassado.

- Como é mesmo o nome daquele seu avô do tataravô? - perguntei. - Aquele que andou fazendo besteira por aqui durante uma das rebeliões? Não consigo me lembrar se era Willy ou Walter.

- Na verdade, era Jonathan.

Frank aceitava placidamente meu total desinteresse por sua história familiar, mas permanecia sempre alerta, pronto para aproveitar-se da menor expressão de curiosidade como desculpa para me contar todos os fatos conhecidos até a presente data sobre os antigos Randall e suas conexões. Seus olhos assumiram o brilho febril de professor fanático enquanto abotoava a camisa.

- Jonathan Wolverton Randall. Wolverton pelo tio de sua mãe, um cavaleiro insignificante de Sussex. Era, entretanto, conhecido pelo apelido um tanto arrojado de "Black Jack", algo que adquiriu no exército, provavelmente durante a época em que serviu aqui.

Deixei-me cair na cama com o rosto enfiado no travesseiro fingindo roncar. Ignorando-me, Frank continuou com sua exegese erudita.

- Ele recebeu sua patente oficial em meados dos anos 30, isto é, em meados de 1730, e serviu como capitão dos dragões. Segundo aquelas cartas antigas que a prima May me enviou, ele se saiu muito bem no exército. Uma boa escolha para um segundo filho, como você sabe; seu irmão mais novo também seguiu a tradição tornando-se um cura, mas ainda não encontrei muita coisa sobre ele. De qualquer modo, Jack Randall foi altamente elogiado pelo duque de Sandringham por suas atividades antes e durante a Conspiração Jacobita de 1745, a segunda, como você sabe -detalhou, em proveito dos ignorantes em sua platéia, isto é, eu. — Com o príncipe Carlos Eduardo* e toda aquela gente.

— Não estou totalmente certa de que os escoceses achem que perderam essa - interrompi, sentando-me e tentando domesticar meus cabelos. - Ouvi perfeitamente o barman daquele pub ontem à noite referir-se a nós como Sassenachs.

— Bem, por que não? — Frank disse tranqüilamente. - Afinal, significa apenas "ingleses" ou, na pior das hipóteses, "forasteiros", e nós somos tudo isso.

— Sei o que significa. Foi o tom com que ele falou que me incomodou. Frank procurou um cinto na gaveta da cômoda.

— Ele só estava zangado porque eu disse que a cerveja estava aguada. Eu disse a ele que a verdadeira cerveja das Highlands exige que uma botina velha seja acrescentada ao tonel e que o produto final seja coado por uma cueca usada.

— Ah, isso explica o total da conta.

— Bem, eu disse isso com um pouco mais de tato, mas só porque a língua gaélica não possui uma palavra específica para ceroulas.

Peguei as minhas próprias calcinhas, intrigada.

— Por que não? Os antigos celtas da Escócia não usavam roupa de baixo?

Frank lançou-me um olhar malicioso.

— Nunca ouviu aquela velha canção sobre o que o escocês usa por baixo do kilt?

— Provavelmente não aqueles elegantes calções até os joelhos - eu disse secamente. — Talvez, enquanto você fica brincando por aí com vigários, eu saia à cata de algum habitante local usando saiote escocês e lhe pergunte.

— Bem, tente não ser presa, Claire. O reitor do St. Giles College não iria gostar nada.

Na realidade, não havia ninguém perambulando de kilt pela praça central ou pelas lojas que a rodeavam. No entanto, havia várias outras pessoas por lá, a maioria donas de casa do tipo da sra. Baird, fazendo as compras diárias. Eram tagarelas e alcoviteiras, e suas presenças sólidas, de vestido estampado, enchiam as lojas de um calor aconchegante; um esteio contra a névoa fria da manhã no lado de fora.

Ainda sem minha própria casa para manter, havia pouca coisa que precisasse comprar, mas gostava de dar uma olhada nas prateleiras recém-abastecidas, pelo simples prazer de ver muitos artigos novamente à venda. Fora um longo período de racionamento, de ter que se abster de coisas simples como sabão e ovos, e mais longo ainda sem os pequenos luxos da vida, como a água-de-colônia L’Heure Bleu.

Meus olhos demoraram-se em uma vitrine repleta de utensílios domésticos — toalhas de chá e anjinhos para cobrir bules bordados, jarras e copos, uma pilha de fôrmas de lata para tortas caseiras e um conjunto de três vasos de plantas.

Jamais tive um vaso de planta em minha vida. Durante os anos de guerra, vivi, é claro, nos alojamentos de enfermeiras, primeiro no Pembroke Hospital, depois numa base militar na França. No entanto, mesmo antes disso, nunca moramos tempo suficiente em um só lugar para justificar a compra de um artigo como esse. Se eu tivesse tal peça, refleti, tio Lamb a teria enchido de cacos de louças muito antes que eu pudesse chegar perto dela com um buquê de margaridas.

Quentin Lambert Beauchamp. "Q" para seus alunos de arqueologia e para os amigos. "Dr. Beauchamp" nos círculos acadêmicos em que ele transitava, lecionava e ganhava a vida. Mas sempre tio Lamb para mim.

O único irmão de meu pai e meu único parente vivo na época se vira de repente às voltas comigo, uma menina com cinco anos de idade, quando meus pais morreram num acidente de carro. Às vésperas de uma viagem para o Oriente Médio na época, interrompeu seus preparativos o tempo suficiente para providenciar o funeral, desfazer-se dos bens de meus pais e matricular-me num internato para meninas. Para o qual me recusei terminantemente a ir.

Diante da necessidade de arrancar meus dedos gorduchos da maçaneta do carro e me arrastar pelos calcanhares pelas escadas da escola, tio Lamb, que detestava conflitos pessoais de qualquer natureza, suspirou exasperado, depois finalmente encolheu os ombros e jogou sua sensata decisão pela janela, juntamente com meu recém-adquirido chapéu de palha.

- Maldito chapéu - resmungou, olhando pelo espelho retrovisor e vendo-o rolar alegremente para longe, enquanto o carro continuava descendo o caminho, roncando em alta velocidade. — Sempre detestei chapéus femininos, de qualquer modo. - Fixou em mim um olhar feroz.

- Uma coisa — disse, em tom ameaçador. — Você não pode brincar de boneca com minhas estatuetas de túmulos persas. Qualquer coisa, menos isso. Entendeu?

Balancei a cabeça, feliz. E fui com ele para o Oriente Médio, para a América do Sul, para dezenas de sítios arqueológicos em todo o mundo. Aprendi a ler e escrever com os rascunhos dos artigos científicos, a cavar latrinas e ferver água e a fazer um sem-número de outras coisas inadequadas para uma jovem bem-nascida - até encontrar o historiador atraente, de cabelos escuros, que veio consultar tio Lamb a respeito de uma questão da filosofia francesa relacionada à prática religiosa egípcia.

Mesmo depois de nosso casamento, Frank e eu levamos a vida nômade de um jovem professor universitário, dividido entre congressos pela Europa e apartamentos temporários, até que a deflagração da guerra o enviou para o Treinamento de Oficiais na Unidade de Inteligência do Ml-6 e a mim para o treinamento de enfermeiras. Embora estivéssemos casados há quase oito anos, a nova casa em Oxford seria nosso primeiro lar verdadeiro.

Enfiando a bolsa firmemente debaixo do braço, entrei com passos firmes na loja e comprei os vasos.

Encontrei-me com Frank no cruzamento da High Street com a Gereside Road e começamos a subir por esta última. Ele ergueu as sobrancelhas diante das minhas compras.

- Vasos? - Sorriu. - Ótimo. Talvez agora você pare de colocar flores nos meus livros.

- Não são flores, são espécimes. E foi você quem sugeriu que eu me interessasse por botânica. Para ocupar minha mente, agora que não sou mais enfermeira - lembrei a ele.

- É verdade. — Balançou a cabeça com bom humor. - Mas eu não sabia que teria galhinhos e folhas caindo no meu colo toda vez que abrisse uma obra de referência. O que era aquela coisa horrível, marrom e esfarelada, que você colocou no meu livro do Banks?

- Sabugueiro. Boa para hemorróidas.

- Preparando-se para a minha iminente velhice, não é? Hum, muito gentil de sua parte, Claire.

Atravessamos juntos o portão, rindo, e Frank parou para que eu subisse os estreitos degraus da entrada à sua frente. De repente, agarrou-me pelo braço.

- Cuidado! Não pise nisso aí!

Parei com o pé cuidadosamente erguido acima de uma grande mancha vermelho-amarronzada no degrau superior.

- Que estranho - disse. - A sra. Baird esfrega os degraus toda manhã; eu já vi. O que você acha que pode ser isso?

Frank inclinou-se sobre o degrau, delicadamente procurando sentir o cheiro.

— Assim de improviso, eu diria que se trata de sangue.

— Sangue! — Recuei um passo. - De quem? - Olhei nervosamente para a casa. - Você acha que a sra. Baird sofreu algum tipo de acidente? — Não podia imaginar nossa imaculada senhoria deixando manchas de sangue secando na soleira da porta, a não ser que uma enorme catástrofe tivesse ocorrido. Imaginei por um instante se a sala de visitas não estaria abrigando um assassino ensandecido, preparando-se naquele mesmo instante para saltar sobre nós com um grito arrepiante.

Frank sacudiu a cabeça. Ficou na ponta dos pés para espreitar o jardim do vizinho por cima da cerca viva.

— Acho que não. Há uma mancha igual a essa na entrada da casa dos Collins também.

— É mesmo? — Cheguei mais perto de Frank, tanto para olhar por cima da cerca quanto em busca de apoio moral. As Highlands dificilmente pareceriam um lugar provável para um assassinato em massa, por outro lado eu duvidava que essas pessoas usassem qualquer tipo de critério lógico ao escolher o local do crime. - Isso é um tanto... desagradável - observei. Não havia nenhum sinal de vida na casa ao lado. - O que você acha que aconteceu?

Frank franziu a testa, pensando, depois bateu a mão rapidamente na perna da calça, como se tivesse uma súbita inspiração.

— Acho que sei! Espere um instante. — Partiu em direção ao portão e começou a descer a rua quase correndo, deixando-me desamparada na entrada da casa.

Voltou logo depois, radiante com a confirmação.

— Sim, isso mesmo, tem que ser. Todas as casas deste lado tiveram isso.

— Isso o quê? A visita de um maníaco homicida? - perguntei um pouco rispidamente, ainda nervosa por ter sido bruscamente abandonada sozinha, na companhia apenas de uma grande mancha de sangue.

Frank riu.

— Não, um sacrifício ritual. Fascinante! - Estava de quatro na grama, examinando atentamente a poça de sangue.

Aquilo não me parecia nada melhor do que um maníaco homicida. Agachei-me ao lado dele, contorcendo o nariz diante do cheiro. Ainda era cedo para moscas, mas dois mosquitos das Highlands, grandes e lentos, giravam em torno da mancha.

— O que quer dizer com "sacrifício ritual"? - indaguei. - A sra. Baird freqüenta a igreja, assim como todos os seus vizinhos. Isso aqui não é o Monte dos Druidas ou nada semelhante, não é?

Levantou-se, limpando os pedacinhos de grama das calças.

— Você é que não sabe, meu bem - ele disse. - Não há nenhum lugar na Terra com mais magia e superstições antigas influenciando o cotidiano das pessoas do que as Highlands. Com ou sem igreja, a sra. Baird acredita nas lendas dos povos antigos, assim como todos os seus vizinhos. -Apontou para a mancha com o bico do sapato perfeitamente engraxado. -O sangue é de um galo preto — explicou, satisfeito. - As casas são novas, você sabe. Pré-fabricadas. Olhei-o friamente.

- Se você acha que isso explica tudo, pense melhor. Que diferença faz a idade das casas? E afinal, onde está todo mundo?

- No pub, eu acho. Vamos até lá verificar? — Tomando-me pelo braço, conduziu-me pelo portão e começamos a descer a Gereside Road.

- Antigamente - ele explicou conforme andávamos —, e não faz tanto tempo assim, quando uma casa era construída, era costume matar alguém e enterrá-lo nos alicerces, como uma oferenda aos espíritos da terra. Sabe, "Ali ele lançará os alicerces em seu primogênito e em seu filho mais novo erguerá os portões". Antigo como os montes.

Estremeci diante da citação.

- Nesse caso, suponho que seja bem mais moderno e compreensível que estejam usando galinhas. Você quer dizer, já que as casas são relativamente novas, nada foi enterrado sob elas e os moradores agora estão tentando remediar a omissão.

- Exatamente. - Frank parecia satisfeito com meu progresso e deu uns tapinhas nas minhas costas. - Segundo o vigário, muitos dos habitantes locais acham que a guerra foi em parte causada pelo fato de as pessoas estarem abandonando suas raízes e deixando de tomar as devidas precauções, como enterrar uma oferenda sob os alicerces das casas ou queimar espinhas de peixes na lareira. Exceto hadoques, é claro. Sabia? Ou você nunca mais pescará um. Ao invés disso, sempre enterre as espinhas de um hadoque.

- Vou me lembrar disso - prometi. - Diga-me o que se deve fazer para nunca mais ver um arenque e eu o farei imediatamente.

Ele sacudiu a cabeça, absorto em um de seus acessos de lembrança, aqueles breves períodos de êxtase erudito quando ele perdia o contato com o mundo à sua volta, completamente empenhado em evocar conhecimentos de todas as fontes.

- Não sei nada sobre arenques - disse, distraído. - Mas para ratos, penduram-se ramos de choupo tremedor por toda parte. "Choupo treme-dor na casa, e você nunca verá um rato", como se diz. Quanto a corpos nos alicerces... é daí que vêm muitos dos fantasmas locais. Conhece Mountgerald, a casa grande no final da High Street? Há um fantasma lá, um operário que trabalhava na construção da casa e foi assassinado em sacrifício para os alicerces. Em algum momento do século XVIII; isso, na verdade, é bastante recente - acrescentou, pensativamente.

- Diz-se que, por ordem do dono da casa, uma parede foi construída primeiro, depois um bloco de pedra foi empurrado de cima da parede sobre um dos operários. Provavelmente algum sujeito de que ninguém gostava foi escolhido para o sacrifício. Então, ele foi enterrado no porão e o resto da casa foi construído sobre ele. Agora, assombra o porão onde foi assassinado, exceto na data de aniversário de sua morte e nos quatro Dias Antigos.

- Dias Antigos?

- As festividades dos povos antigos da região - ele explicou, ainda perdido em suas anotações mentais. - Hogmanay, ou seja, o Ano Novo, o Midsummer Day, que é o solstício de verão, o Beltane, festival da primavera, e o Ali Hallows, que corresponde ao nosso Halloween. Os druidas, os beakers da Idade da Pedra e os antigos pictos, todos celebravam as festas dos fogos e as festas do sol, pelo que sabemos. De qualquer modo, os fantasmas estão à solta nos dias sagrados e podem ficar vagando por aí como quiserem, fazer o bem ou o mal, de acordo com sua vontade. — Esfregou o queixo pensativamente. - Estamos nos aproximando do Beltane, perto do equinócio da primavera. É melhor ficar de olho da próxima vez que passar pelo pátio da igreja. — Ele pestanejou e eu percebi que saíra do transe.

Dei uma risada.

- Então, há muitos fantasmas locais famosos? Deu de ombros.

- Não sei. Vamos perguntar ao vigário da próxima vez que o virmos? De fato, encontramos o vigário pouco tempo depois. Estava no pub, juntamente com os demais habitantes do vilarejo, tomando uma cerveja leve e clara em comemoração à nova santificação das casas.

Pareceu um pouco envergonhado ao ser flagrado acobertando atos de paganismo, por assim dizer, mas minimizou o fato como sendo apenas um costume local com conotação histórica.

- Na verdade, é bem fascinante, sabe - confidenciou e reconheci, com um suspiro, o canto de um estudioso, um som tão característico quanto o trinado de um melro. Atendendo ao chamado de um espírito iluminado, Frank imediatamente entrou na dança de pares da academia e logo estavam mergulhados até o pescoço em arquétipos e comparações entre superstições antigas e religiões modernas. Encolhi os ombros e abri meu próprio caminho pela multidão até o bar e de volta, com um brandy-and-splash em cada mão.

Sabendo por experiência o quanto era difícil desviar a atenção de Frank desse tipo de discussão, simplesmente peguei sua mão, envolvi seus dedos em torno da haste da taça e deixei-o entregue a seus próprios interesses.

Encontrei a sra. Baird em um banco fundo junto à janela, compartilhando uma amigável jarra de cerveja preta com um senhor idoso que ela me apresentou como o sr. Crook.

- É o senhor de quem lhe falei, sra. Randall — ela disse, os olhos brilhantes com o estímulo do álcool e da companhia. - O que conhece plantas de todas as espécies.

- A sra. Randall interessa-se muito por plantas — confidenciou ao seu acompanhante, que inclinou a cabeça numa mistura de educação e surdez. - Prensa-as nos livros e tudo o mais.

- É mesmo? — perguntou o sr. Crook, o tufo branco de sobrancelha erguido em sinal de interesse. - Tenho algumas prensas, as verdadeiras, veja bem, para ervas e similares. Ganhei-as do meu sobrinho, quando veio da universidade passar as férias. Ele as trouxe para mim e não tive coragem de dizer-lhe que nunca uso coisas desse tipo. Deixá-las penduradas é o melhor para as ervas, sabe, ou talvez secá-las em um estrado, dentro de um saco de gaze ou em um pote, mas por que iria querer esmagar as plantinhas até ficarem achatadas eu não faço a menor idéia.

- Bem, para olhá-las, talvez - a sra. Baird intercedeu afavelmente. - A sra. Randall fez lindos arranjos com botões de malva e violetas, que se pode emoldurar e pendurar na parede.

- Hum. - Diante dessa sugestão, o rosto sulcado do sr. Crook pareceu estar admitindo uma duvidosa possibilidade. - Bem, se tiverem alguma utilidade para a senhora, pode ficar com as prensas, de bom grado. Eu não queria jogá-las fora, mas confesso que não tenho nenhuma utilidade para elas.

Assegurei ao sr. Crook que eu ficaria encantada em usar prensas de plantas e mais encantada ainda se ele me mostrasse onde algumas das plantas mais raras da região poderiam ser encontradas. Fitou-me incisivamente por um instante, a cabeça inclinada para o lado como um velho falcão, mas finalmente pareceu decidir que meu interesse era genuíno. Combinamos que eu deveria encontrá-lo pela manhã para uma excursão aos arbustos locais. Frank, eu sabia, pretendia passar o dia em Inverness para consultar uns registros na prefeitura de lá e eu fiquei satisfeita de ter uma desculpa para não acompanhá-lo. Para mim, os registros eram todos iguais.

Pouco depois, Frank conseguiu desgrudar-se do vigário e caminhamos de volta para casa na companhia da sra. Baird. Eu mesma hesitei em mencionar o sangue de galo na soleira da porta, mas Frank não sofria de tal acanhamento e interrogou-a avidamente sobre as origens do costume.

- Suponho, então, que seja muito antigo, não? — perguntou, agitando uma vara pelos arbustos ao longo da calçada. O quenopódio e a cinco-em-rama já estavam florescendo e eu podia ver os botões das giestas-das-vassouras avolumando-se; mais uma semana e estariam floridos.

- Ah, sim. — Gingando, a sra. Baird nos acompanhava a passos rápidos. - Mais velho do que podemos imaginar, sr. Randall. Anterior à época dos gigantes.

- Gigantes? - perguntei.

- Sim. Fionn e Feinn.

- Contos folclóricos gaélicos - Frank observou com interesse. - Heróis, sabe. Provavelmente de origem nórdica. Há muita influência nórdica por aqui e ao longo de toda a costa oeste. Alguns nomes dos locais são escandinavos, e não gaélicos.

Revirei os olhos, pressentindo uma nova explosão de conhecimento, mas a sra. Baird sorriu cordialmente e encorajou-o, dizendo que era verdade, ela havia estado no norte e visto a pedra Dois Irmãos e isso era escandinavo, não era?

- Os escandinavos visitaram essa costa centenas de vezes entre 500 e 1300 d.C, aproximadamente - Frank disse, olhando sonhadoramente para o horizonte, vendo barcos normandos na nuvem varrida pelo vento. -Vikings. E trouxeram muitos de seus mitos com eles. É um país bom para mitos. As coisas parecem criar raízes aqui.

Nisso eu podia acreditar. O crepúsculo se aproximava, assim como uma tempestade. Na estranha luz sob as nuvens, até as casas totalmente modernas ao longo da rua pareciam tão antigas e sinistras quanto a desgastada pedra do povo picto que ficava a uns trinta metros de distância, guardando a encruzilhada que marcava há mil anos. Parecia uma boa noite para ficar em casa com as persianas fechadas.

Ao invés de permanecer confortavelmente sentada na sala de visitas da sra. Baird, vendo imagens estereoscópicas de Perth Harbor, entretanto, Frank preferiu comparecer ao seu compromisso com o sr. Bainbridge, um tabelião com interesse em registros históricos locais, para tomar um xerez. Lembrando-me do encontro anterior que tivera com o sr. Bainbridge, resolvi permanecer em casa com Perth Harbor.

- Procure voltar antes da tempestade - disse a Frank, dando-lhe um beijo de despedida. - E dê lembranças minhas ao sr. Bainbridge.

- Humm, sim. Sim, claro. - Cuidadosamente evitando meus olhos, Frank encolheu os ombros dentro do seu sobretudo e partiu, pegando um guarda-chuva do suporte junto à porta.

Fechei a porta quando ele saiu, mas deixei-a destrancada para que ele pudesse entrar ao voltar. Dirigi-me languidamente de volta à sala de visitas, refletindo que Frank iria sem dúvida fingir que não tinha mulher. Uma farsa à qual o sr. Bainbridge iria se unir alegremente. Não que eu, particularmente, pudesse culpá-lo.

No começo, tudo correra muito bem em nossa visita à casa do sr. Bainbridge na tarde do dia anterior. Eu me mostrara recatada, bem-educada, inteligente, mas modesta, elegante e discretamente vestida - tudo que a mulher perfeita do professor universitário deveria ser. Até o chá ser servido.

Agora, virei a minha mão direita, examinando, com tristeza, a grande bolha que se estendia pela base dos quatro dedos. Afinal, não era culpa minha que o sr. Bainbridge, um viúvo, se contentasse com um bule barato de metal, ao invés de um bule adequado de louça. Nem que o tabelião, procurando ser gentil, tivesse me pedido para servir o chá. Nem que a luva de panela que ele me deu apresentasse uma parte gasta que permitiu que o cabo em brasa do bule entrasse em contato direto com minha mão quando o segurei.

Não, concluí. Deixar cair o bule foi uma reação perfeitamente normal. Deixá-lo cair no colo do sr. Bainbridge foi apenas um infeliz acidente; tinha que deixá-lo cair em algum lugar. Foi minha exclamação "Puta que pariu!" em voz mais alta do que o berro de dor do sr. Bainbridge que fez Frank me olhar enfurecido por cima dos pãezinhos.

Quando se recuperou do choque, o sr. Bainbridge mostrou-se muito gentil, examinando minha mão e ignorando as tentativas de Frank de se desculpar pelo meu linguajar, alegando que eu servira em um hospital de campanha por quase dois anos.

— Receio que minha mulher acabou pegando algumas, hã, expressões mais pitorescas dos ianques e de outros - Frank sugeriu com um sorriso nervoso.

— É verdade - eu disse, cerrando os dentes enquanto envolvia minha mão com um guardanapo embebido em água. — Os homens tendem a ser muito "pitorescos" quando se está tirando estilhaços do corpo deles.

Com muito tato, o sr. Bainbridge tentou desviar a conversa para o campo neutro da história dizendo que sempre se interessara pelas variações do que fora considerado discurso profano através dos tempos. Havia "Gorblimey", por exemplo, uma corruptela recente da imprecação "God blind me".

— Sim, é claro - disse Frank, aceitando de bom grado o desvio da conversa. - Sem açúcar, obrigado, Claire. E quanto a "Gadzooks"? A parte "Gad" é perfeitamente clara, naturalmente vem de "God", mas "zook"...

— Bem, sabe — interpôs o tabelião -, às vezes eu acho que possa ser uma corruptela de uma antiga palavra escocesa, na verdade, "yeuk". Significa "tentação, ânsia, desejo". Faria sentido, não?

Frank concordou, balançando a cabeça e deixando seu pouco erudito topete cair na frente da testa. Empurrou-o para trás automaticamente.

— Interessante — disse -, toda a evolução do sacrilégio.

— Sim, e continua a acontecer — eu disse, pegando cuidadosamente um cubo de açúcar com a pinça.

- É mesmo? - disse o sr. Bainbridge. - A senhora encontrou algumas variações importantes durante a sua, hã, experiência na guerra?

- Ah, sim - eu disse. - A minha favorita eu aprendi com um ianque. Um homem chamado Williamson, de Nova York, eu acho. Ele a dizia toda vez que eu trocava seu curativo.

- E qual era?

- "Jesus H. Roosevelt Cristo" — eu disse, deixando o cubo de açúcar cair cuidadosamente no café de Frank.

Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi para o meu quarto, para aprontar-me antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo.

O vento começava a soprar forte e o próprio ar do quarto estava carregado de eletricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas esta noite, decidi. Com as atuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam-se no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás.

Nenhuma água no jarro; Frank a usara, arrumando-se antes de sair para seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei o frasco de L’Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas.

Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A umidade dissipara a eletricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas à volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era sua colônia favorita.

De repente o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tatear dentro das gavetas.

Em algum lugar, eu vira velas e fósforos; a queda da energia elétrica era uma ocorrência tão freqüente nas Highlands que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes.

As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias - velas brancas comuns -, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele.

Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que uma volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno.

As velas não haviam queimado mais do que um centímetro quando a porta abriu-se e Frank entrou como um furacão. Literalmente, porque a rajada de vento que o seguiu escadas acima apagou três velas.

A porta fechou-se atrás dele com uma pancada que apagou mais duas velas. Esforçando-se para enxergar na escuridão repentina, passou a mão pelos cabelos desalinhados. Levantei-me e reacendi as velas, admoestando-o brandamente sobre os modos bruscos de entrar num aposento. Foi somente ao terminar e me virar para perguntar-lhe se gostaria de um drinque que vi que ele parecia um pouco pálido e perturbado.

— O que foi? — perguntei. - Viu um fantasma?

— Bem, sabe - ele disse devagar -, não tenho certeza se não vi. -Distraidamente, ele pegou minha escova e ergueu-a para arrumar seus cabelos. Quando a fragrância repentina de L'Heure Bleu atingiu suas narinas, franziu o nariz e colocou-a de volta sobre a penteadeira, voltando a atenção para o pente que carregava no bolso.

Olhei pela janela, onde os olmos agitavam-se de um lado para o outro como manguais. Uma persiana aberta batia em algum lugar do outro lado da casa e ocorreu-me que talvez devêssemos fechar as nossas, embora o alvoroço lá fora fosse interessante de observar.

— Acho que está um pouco tempestuoso para um fantasma - eu disse. — Eles não gostam de noites calmas e enevoadas em cemitérios?

Frank riu um pouco timidamente.

— Bem, provavelmente foram apenas as histórias de Bainbridge e um pouco de xerez a mais do que eu deveria ter tomado. Nada de mais.

Agora eu estava curiosa.

— O que você viu exatamente? - perguntei, sentando-me no banquinho da penteadeira. Indiquei a garrafa de uísque erguendo uma das sobrancelhas e Frank imediatamente foi servir dois drinques.

— Bem, na verdade, apenas um homem — ele começou, medindo uma dose para ele e duas para mim. - Parado na rua lá fora.

— O quê? Do lado de fora desta casa? - perguntei com uma risada. -Então, deve ter sido um fantasma; não posso imaginar ninguém parado por aí em uma noite como essa.

Frank inclinou o jarro de água sobre seu copo, depois olhou acusadoramente para mim quando não saiu nenhuma água.

— Não olhe para mim — eu disse. - Você usou toda a água. Mas eu prefiro o uísque puro mesmo. — Tomei um gole para demonstrar.

Frank pareceu inclinado a dar um pulo no lavatório para pegar água, mas abandonou a idéia e continuou sua história, tomando pequenos goles cautelosamente, como se seu copo contivesse ácido sulfúrico ao invés do melhor uísque Glenfiddich de puro malte.

— Sim, ele estava na borda do jardim, deste lado, parado junto à cerca. Eu pensei - hesitou, olhando dentro do copo -, achei que ele estava olhando para a sua janela.

- Minha janela? Que extraordinário! - Não pude conter um ligeiro estremecimento e atravessei o quarto para fechar as persianas, embora fosse um pouco tarde para isso. Frank seguiu-me, ainda falando.

— Sim, eu mesmo pude vê-la lá de baixo. Você escovava os cabelos e resmungava porque estavam arrepiados.

- Nesse caso, o sujeito provavelmente estava se divertindo - eu disse, asperamente.

Frank sacudiu a cabeça, embora sorrisse e alisasse meus cabelos.

- Não, ele não estava rindo. Na verdade, ele parecia terrivelmente infeliz com alguma coisa. Não que eu tenha podido ver bem seu rosto; foi alguma coisa na maneira como estava ali parado. Eu vim por trás dele e, quando ele não se moveu, perguntei educadamente se poderia ajudá-lo em alguma coisa. Primeiro, ele agiu como se não tivesse me ouvido, e eu achei que talvez não tivesse mesmo, com o barulho do vento, então repeti o que dissera e estendi a mão para tocar seu ombro, chamar sua atenção, sabe. Mas antes que eu pudesse tocá-lo, ele girou repentinamente nos calcanhares, passou por mim e começou a descer a rua.

- Parece um tanto grosseiro, mas não muito próprio de um fantasma -observei, esvaziando meu copo. - Como ele era?

— Um sujeito grandalhão — Frank disse, franzindo a testa ao se recordar. — E escocês, em trajes completos das Highlands, com a bolsa de pêlos usada pelos escoceses na frente do kilt e um lindo broche de um veado correndo prendendo o xale xadrez. Quis perguntar-lhe onde o tinha conseguido, mas se afastou antes que eu tivesse a oportunidade.

Dirigi-me à escrivaninha e servi outra dose de uísque.

— Bem, não é uma aparência muito estranha para essa região, certo? De vez em quando vejo um homem vestido assim na vila.

- Nããão... — Frank parecia duvidar. - Não, não eram suas roupas que pareciam estranhas. Mas quando passou por mim, eu poderia jurar que ele estava suficientemente perto para esbarrar na manga do meu casaco, mas não o fez. Fiquei tão intrigado que me virei para observá-lo conforme se afastava. Ele desceu a Gereside Road, mas quase ao chegar à esquina, ele... desapareceu. Foi quando comecei a sentir um calafrio na espinha.

- Talvez sua atenção tenha sido desviada por um instante e ele simplesmente tenha mergulhado nas sombras. Há muitas árvores no fim da rua.

- Posso jurar que não tirei os olhos dele nem por um segundo — Frank murmurou. Ergueu os olhos subitamente. — Já sei! Lembro-me agora porque eu o achei tão estranho, embora não tivesse percebido isso na hora.

- O quê? — Eu estava ficando um pouco cansada do fantasma e queria passar para questões mais interessantes, como a cama.

- Estava ventando forte, mas as pregas, sabe, do saiote e do xale quadriculados, elas simplesmente não se mexiam, exceto com o movimento de seus passos.

Fitamo-nos.

- Bem - eu disse finalmente -, isso é um pouco arrepiante. Frank deu de ombros e sorriu de repente, descartando o assunto.

- Ao menos, terei alguma coisa para contar ao vigário da próxima vez que o encontrar. Talvez seja um famoso fantasma local e ele poderá me contar sua história sangrenta. - Deu uma olhada em seu relógio. - Mas agora eu diria que é hora de ir para a cama.

- É, sim - murmurei.

Observei-o pelo espelho, enquanto tirava a camisa e procurava um cabide. De repente, parou enquanto desabotoava a camisa.

- Você teve muitos escoceses sob seus cuidados, Claire? - perguntou bruscamente. - No hospital de campanha ou em Pembroke?

- Claro - respondi, um pouco intrigada. — Havia muitos Seaforth e Cameron na base militar em Amiens e, um pouco mais tarde, depois de Caen, tivemos muitos Gordon. Bons sujeitos, na maioria. Muito estóicos a respeito de tudo de um modo geral, mas terrivelmente covardes quando se tratava de injeções. - Sorri, lembrando-me particularmente de um deles.

- Tivemos um, na verdade um sujeito muito rabugento, um gaiteiro dos Seaforth, que não suportava injeção, especialmente nas nádegas. Passava horas no mais terrível desconforto antes de deixar que alguém se aproximasse dele com uma seringa e, mesmo assim, tentava nos fazer dar-lhe a injeção no braço, embora fosse intramuscular. — Ri diante da lembrança do cabo Chisholm. - Ele me disse: "Se vou ficar deitado de barriga para baixo, com minha bunda de fora, quero que a garota fique embaixo de mim, não atrás de mim com uma agulha!"

Frank sorriu, mas pareceu um pouco apreensivo, como sempre acontecia com minhas histórias de guerra menos delicadas.

- Não se preocupe — assegurei-lhe, percebendo sua expressão —, não vou contar essa na hora do chá na sala dos professores.

O sorriso arrefeceu e ele aproximou-se, parando atrás de mim, sentada à penteadeira. Beijou o topo de minha cabeça.

- Não se preocupe — disse. - Os professores vão adorá-la, quaisquer que sejam as histórias que contar. Hum. Seus cabelos estão com um perfume delicioso.

- Gosta?

Em resposta, suas mãos deslizaram para a frente por cima dos meus ombros, segurando meus seios na camisola fina. Eu podia ver seu rosto acima do meu no espelho, o queixo descansando sobre minha cabeça.

- Gosto de tudo em você - ele disse com a voz rouca. — Você fica linda à luz de velas. Seus olhos são como xerez no cristal e sua pele brilha como marfim. Uma feiticeira à luz de velas, é o que você é. Talvez eu devesse desligar as lâmpadas permanentemente.

- Fica difícil ler na cama - eu disse, o coração começando a acelerar.

- Posso pensar em coisas melhores para fazer na cama — murmurou.

- Pode mesmo? - eu disse, levantando-me e virando-me para passar os braços em volta de seu pescoço. - Como o quê, por exemplo?

Algum tempo depois, aconchegados por trás das persianas trancadas, ergui minha cabeça dos seus ombros e disse:

- Por que você me perguntou aquilo? Se eu tive contato com escoceses, quero dizer, deve saber que tive, há todo tipo de homens nesses hospitais.

Ele se mexeu e deslizou a mão pelas minhas costas.

— Hum. Ah, por nada, na verdade. É que, quando vi aquele sujeito lá fora, ocorreu-me que pudesse ser — hesitou, apertando-me mais um pouco em seus braços -, hã, você sabe, que pudesse ser alguém de quem você cuidou, talvez... talvez tivesse ouvido falar que você estava aqui e veio ver... algo assim.

— Nesse caso - eu disse, de modo prático —, por que ele não entraria e pediria para me ver?

- Bem - a voz de Frank pareceu muito descontraída -, talvez ele não quisesse dar de cara comigo.

Ergui-me sobre um dos cotovelos, fitando-o. Havíamos deixado uma vela acesa e eu podia vê-lo bastante bem. Virara a cabeça e olhava distraidamente para a cromolitografia do príncipe Carlos Eduardo com a qual a sra. Baird achara apropriado decorar nossa parede.

Agarrei seu queixo e virei seu rosto para mim. Ele arregalou os olhos, simulando surpresa.

- Está querendo dizer — indaguei — que o homem que viu lá fora era alguma espécie de, de... — hesitei, em busca da palavra certa.

- Ligação? - sugeriu, solícito.

- Amorosa de minha parte? - concluí.

- Não, não, claro que não - afirmou de maneira pouco convincente. Retirou minhas mãos de seu rosto e tentou me beijar, mas agora foi a minha vez de virar o rosto. Contentou-se em puxar-me de volta para deitar a seu lado na cama.

- É que... - começou. - Bem, você sabe, Claire, foram seis anos. E nos vimos apenas três vezes e apenas por um dia na última vez. Não seria extraordinário se... quero dizer, todos sabem que médicos e enfermeiras ficam sob um terrível estresse durante as emergências e... bem, eu... é apenas que... bem, eu compreenderia, sabe, se alguma coisa, hã, de natureza espontânea...

Interrompi aquela lengalenga desvencilhando-me do seu abraço e saltando para fora da cama.

- Acha que fui infiel a você? — indaguei. — Acha? Porque se acha, pode sair deste quarto agora mesmo. Ir embora desta casa! Como ousa insinuar tal coisa? - Eu estava furiosa e Frank, sentando-se na cama, estendeu os braços tentando me acalmar.

- Não toque em mim! - retruquei. - Apenas me diga: você acha, diante do fato de um estranho estar olhando para a minha janela, que eu tenha tido algum caso amoroso com um dos meus pacientes?

Frank levantou-se da cama e envolveu-me em seus braços. Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando meus cabelos e esfregando meus ombros da maneira que sabia que eu gostava.

- Não, eu não acho nada disso — ele disse com firmeza. Puxou-me para mais junto dele e eu relaxei um pouco, embora não o suficiente para abraçá-lo.

Após um longo tempo, murmurou nos meus cabelos:

- Não, eu sei que você nunca faria tal coisa. Só quis dizer que ainda que tivesse feito... Claire, não faria nenhuma diferença para mim. Eu a amo. Nada do que você tenha feito jamais vai me impedir de amá-la. — Tomou meu rosto nas mãos - apenas dez centímetros mais alto do que eu, ele podia olhar diretamente dentro dos meus olhos sem dificuldade — e disse brandamente: - Me perdoa? - Senti seu hálito quente, ligeiramente perfumado com o travo do Glenfiddich, no meu rosto e seus lábios, cheios e convidativos, ficaram perturbadoramente próximos.

Outro relâmpago do lado de fora anunciou o súbito irrompimento da tempestade e uma chuva estrondosa começou a açoitar o telhado. Devagar, passei os braços em torno de sua cintura.

- "O verdadeiro perdão não é forçado" - eu disse -, "mas cai como o suave sereno do céu...

Frank riu e olhou para cima; as diversas manchas no teto eram um mau agouro para as perspectivas de podermos dormir secos a noite toda.

- Se esta é uma amostra do seu perdão - ele disse —, detestaria ver a sua vingança.

A tempestade ecoou como um ataque de morteiros, como se respondesse as suas palavras, e nós dois rimos, descontraídos outra vez

Somente mais tarde, ouvindo sua respiração regular ao meu lado foi que comecei a pensar. Como eu disse, não havia nenhuma prova que implicasse em infidelidade de minha parte. De minha parte. Mas seis anos como ele dissera, era um longo tempo.

 

O sr. Crook veio me buscar, como combinado, pontualmente às sete horas da manhã seguinte.

- Assim poderemos pegar o sereno nos botões-de-ouro, não é, menina? - ele disse, piscando os olhos como um velho galanteador. Veio numa motocicleta, aproximadamente da sua própria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas às laterais de sua enorme máquina, como pára-choques de um rebocador. Foi uma lenta excursão pelo campo tranqüilo, ainda mais sossegado em contraste com o ronco estrondoso da moto do sr. Crook, repentinamente silenciada. Descobri que o velho senhor realmente possuía um grande conhecimento das plantas locais. Não só onde elas podiam ser encontradas, mas suas propriedades medicinais e a maneira de prepará-las. Lamentei não ter levado um bloco de anotações para registrar tudo, mas ouvi atentamente a voz entrecortada e procurei gravar as informações na memória, enquanto guardava nossos espécimes nas pesadas prensas.

Paramos para fazer um lanche ao sopé de uma curiosa colina de topo plano. Verde como a maioria de suas vizinhas, com as mesmas saliências e escarpas rochosas, tinha algo diferente: um caminho bem usado que subia por um dos flancos e desaparecia bruscamente atrás de um afloramento de granito.

- O que há lá em cima? - perguntei, apontando com um sanduíche de presunto. - Parece um local difícil para um piquenique.

- Ah. — O sr. Crook olhou para a colina. — Essa é a Craigh na Dun, menina. Eu pretendia mostrar-lhe depois do lanche.

- É mesmo? Há alguma coisa especial a respeito desta colina?

- Ah, sim — ele respondeu, recusando-se a dar maiores detalhes, dizendo meramente que eu veria quando chegasse lá.

Eu tinha algum receio quanto à sua habilidade de subir um caminho tão íngreme, mas logo se desvaneceu quando eu me vi arquejante, seguindo em seu rasto. Finalmente, o sr. Crook estendeu a mão nodosa e puxou-me para cima da beira do monte.

- Aí está. - Fez um gesto amplo com a mão, como se fosse o proprietário.

- Ora, é um monumento megalítico! — exclamei, encantada. - Um círculo de pedras em miniatura!

Por causa da guerra, já fazia vários anos que eu viajara à planície de Salisbury, mas Frank e eu visitamos Stonehenge logo depois de casados. Como os outros turistas andando maravilhados entre os enormes blocos de pedra verticais do monumento, ficamos boquiabertos diante da Pedra do Altar ("onde os antigos druidas realizavam seus terríveis sacrifícios humanos", anunciara o sonoro guia turístico com seu sotaque cockney a um grupo de turistas italianos, que diligentemente tirava fotografias do bloco de pedra de aparência bastante comum).

Com a mesma paixão pela exatidão que fazia com que Frank arrumasse as gravatas no cabide de modo que as pontas ficassem exatamente da mesma altura, percorremos até mesmo a circunferência do círculo, medindo os passos entre os buracos Z e os buracos Y e contando os dintéis no Círculo de Sarsen, o anel mais externo das monstruosas pedras verticais.

Três horas depois, sabíamos quantos buracos Y e Z havia (cinqüenta e nove, se quer saber; eu não quis), mas continuávamos sem fazer idéia da finalidade da estrutura, da mesma forma que as dezenas de arqueólogos profissionais e amadores que se arrastaram por aquele sítio nos últimos quinhentos anos.

Não por falta de opiniões, é claro. A vida entre acadêmicos ensinara-me que uma opinião bem expressada em geral é melhor do que um fato mal expressado no que diz respeito a progresso profissional.

Um templo. Um cemitério. Um observatório astronômico. Um local de execução (daí o nome inadequado de "Pedra do Massacre", inclinada para o lado, semi-enterrada em seu próprio buraco). Um mercado a céu aberto. Gostei dessa última sugestão, visualizando donas de casa megalíticas caminhando entre os dintéis, cestos nos braços, analisando o verniz do último carregamento de vasos e cerâmica vermelha, e ouvindo com ceticismo os proclames de padeiros da idade da pedra e de vendedores de contas de âmbar e de pás feitas com ossos de cervos.

A única coisa que a meu ver contrariava essa hipótese era a presença de corpos sob a Pedra do Altar e restos humanos incinerados nos buracos Z. A menos que fossem os desafortunados restos mortais de mercadores acusados de roubar os fregueses no peso, parecia um pouco anti-higiênico enterrar pessoas no mercado.

Não havia nenhum sinal de sepultamento no círculo de pedras em miniatura no topo desta colina. Por "miniatura" quero dizer apenas que o círculo de pedras verticais era menor do que Stonehenge; ainda assim, cada pedra tinha o dobro da minha altura e proporções maciças.

Eu ouvira de outro guia turístico em Stonehenge que esses círculos megalíticos ocorrem por toda a Inglaterra e Europa - alguns mais conservados do que outros, alguns diferindo ligeiramente na orientação e na forma, todos de finalidade e origem desconhecidas.

O sr. Crook ficou sorrindo afavelmente, enquanto eu circulava pelas pedras, parando de vez em quando para tocar de leve em uma delas, como se o toque de meus dedos pudesse deixar uma impressão nos monumentais blocos de pedra.

Algumas das lajes verticais eram rajadas, listradas de cores quase imperceptíveis. Outras eram pontilhadas de flocos de mica que refletiam a luz do sol matinal com um brilho alegre. Todas eram notavelmente diferentes dos amontoados de pedras nativas que se projetavam das samambaias à volta. Quem quer que tenha construído os círculos de pedra, e para que finalidade fosse, achou importante ter extraído, modelado e transportado blocos especiais de pedra para a edificação de seu tributo. Modelado — como? Transportado — como e de que distância inimaginável?

— Meu marido ficaria fascinado — eu disse ao sr. Crook, parando para agradecer-lhe por me mostrar o lugar e as plantas. — Vou trazê-lo aqui depois para que ele o veja.

O idoso cavalheiro elegantemente me ofereceu o braço no alto da trilha. Aceitei-o, concluindo depois de dar uma olhada na íngreme ribanceira que, apesar da idade, ele provavelmente tinha as pernas mais firmes do que as minhas.

Naquela tarde, desci a rua em direção ao povoado para buscar Frank na casa do vigário. Inspirava com satisfação aquela estonteante mistura das Highlands de urze, sálvia e giesta, temperadas aqui e ali por fumaça de chaminé e cheiro forte de arenque frito à medida que eu passava pelas poucas casas. A vila ficava aninhada em um pequeno declive ao sopé de uma daquelas elevadas escarpas que se erguiam quase verticalmente das charnecas das Highlands. As casas junto à rua eram bonitas. A prosperidade florescente do pós-guerra podia ser vista até em uma nova pintura e mesmo a propriedade do pároco, que devia ter pelo menos cem anos, exibia uma borda amarelo-viva em torno dos frouxos caixilhos das janelas.

A governanta do vigário atendeu à porta, uma mulher alta e de ar severo, com três voltas de pérolas artificiais no pescoço. Ouvindo quem eu era, pediu que eu entrasse e me conduziu por um corredor longo, estreito e escuro, coberto de gravuras em sépia de pessoas que podiam ter sido personagens famosos em sua época ou parentes queridos do atual vigário, mas que também podiam muito bem ser membros da família real, pelo que pude divisar de suas feições na escuridão.

O gabinete do vigário, ao contrário, ofuscava com a luz que entrava pelas enormes janelas que cobriam uma das paredes, praticamente do teto ao chão. Um cavalete junto à lareira, ostentando uma pintura a óleo inacabada de penhascos negros contra um céu noturno, mostrava a razão das janelas, que devem ter sido acrescentadas muito depois da construção da casa.

Frank e um homem baixo e gorducho, com um colarinho de padre, debruçavam-se confortavelmente sobre uma pilha de papéis velhos espalhados pela escrivaninha do outro lado da sala. Frank mal levantou a cabeça para me cumprimentar, mas o vigário educadamente abandonou suas explicações e apressou-se a vir apertar minha mão, o rosto redondo radiante de prazer.

- Sra. Randall! - exclamou, sacudindo minha mão entusiasticamente. - Que prazer revê-la! E chegou bem na hora de ouvir as novidades!

- Novidades? - Lançando um olhar no aspecto encardido e na tipologia dos documentos sobre a Escrivaninha, calculei que as novidades em questão deviam datar de 1750. Portanto, não eram exatamente as manchetes do dia.

- Sim, isso mesmo. Estivemos rastreando um ancestral de seu marido, Jack Randall, através dos despachos do exército na época. - O vigário inclinou-se em minha direção, falando pelo canto da boca como um gângster de filme americano. - Eu, hã, "peguei emprestado" os despachos originais dos arquivos da Sociedade Histórica local. Não vai contar para ninguém?

Achando graça, prometi que não revelaria seu terrível segredo e olhei à minha volta em busca de uma poltrona confortável onde pudesse receber as últimas revelações do século XVIII. A poltrona mais próxima das janelas pareceu-me adequada, mas quando me aproximei para virá-la para a escrivaninha, descobri que já estava ocupada. O ocupante, um garoto com uma surpreendente cabeleira negra e lustrosa, estava enroscado no fundo da poltrona, dormindo profundamente.

- Roger! - O vigário, vindo em meu auxílio, estava tão surpreso quanto eu. O garoto, acordado de repente, ficou de pé num salto, os olhos verdes-musgo arregalados.

- Ora, o que você está fazendo aqui, moleque? - O vigário repreendeu-o afetuosamente. — Ah, adormeceu lendo histórias em quadrinhos outra vez? - Pegou as folhas vivamente coloridas e entregou-as ao menino. - Agora, vá, Roger, tenho assuntos a tratar com os Randall. Ah, espere, esqueci-me de apresentá-lo. Sra. Randall, este é meu filho, Roger.

Fiquei um pouco surpresa. Se houvesse um solteirão inveterado no mundo, eu diria que era o reverendo Wakefield. Ainda assim, segurei a mãozinha educadamente estendida e apertei-a calorosamente, resistindo à necessidade urgente de limpar na saia um certo resíduo pegajoso.

O reverendo Wakefield ficou olhando afetuosamente o menino sair marchando em direção à cozinha.

- Filho da minha sobrinha, na verdade - confidenciou. - O pai levou um tiro na travessia do canal e a mãe foi morta durante um bombardeio, assim eu fiquei com ele.

- Muito generoso de sua parte - murmurei, pensando em tio Lamb. Ele, também, morrera durante um bombardeio, em um ataque ao auditório do Museu Britânico, onde dava uma palestra. Conhecendo-o como conhecia, acho que seu último sentimento foi de satisfação pelo fato de a vizinha ala de antiguidades persas não ter sido atingida.

- De modo algum, de modo algum. — O vigário sacudiu a mão, encabulado. — É bom ter um pouco de juventude na casa. Vamos, sente-se, por favor.

Frank começou a falar antes mesmo de eu ter colocado a minha bolsa sobre a poltrona.

- Uma sorte incrível, Claire - exclamou, entusiasmado, folheando a pilha já surrada. - O vigário encontrou toda uma série de despachos militares que mencionam Jonathan Randall.

- Bem, parece que grande parte da importância deve-se ao próprio capitão Randall — observou o vigário, pegando alguns papéis de Frank. — Ele esteve no comando da guarnição em Fort William durante aproximadamente quatro anos, mas parece ter passado grande parte de seu tempo atormentando o interior da Escócia, acima da fronteira, em nome da Coroa. Este lote — cuidadosamente, ele separou uma pilha de documentos e espalhou-os sobre a escrivaninha - é de relatórios de queixas apresentadas contra o capitão por várias famílias e proprietários, reclamando de tudo, desde interferência dos soldados da guarnição com as criadas ao roubo de cavalos, sem mencionar diversos casos de "insulto" ou "não especificados".

Não pude deixar de rir.

- Quer dizer então que você tem o proverbial ladrão de cavalos em sua árvore genealógica? — perguntei a Frank.

Ele deu de ombros, sem se perturbar.

- Ele era o que era e não há nada que eu possa fazer a respeito. Só quero descobrir. As queixas não são estranhas, para essa época específica; os ingleses de um modo geral, e o exército em particular, eram bastante impopulares nas Highlands. Não, o que é estranho é que parece que nada aconteceu em decorrência das queixas, nem mesmo das mais graves.

O vigário, incapaz de se manter quieto por mais tempo, interrompeu.

- Isso mesmo. Não que os oficiais naquela época tivessem que se pautar pelos mesmos padrões modernos; podiam agir praticamente por conta própria em questões de menor importância. Mas isso é estranho. Não é que as queixas tenham sido investigadas e descartadas; elas simplesmente nunca mais são mencionadas. Sabe do que eu desconfio, Randall? Seu antepassado devia ter um benfeitor. Alguém que podia protegê-lo da censura de seus superiores.

Frank coçou a cabeça, estreitando os olhos para os despachos.

- Talvez tenha razão. No entanto, tinha que ser alguém muito poderoso. No topo da hierarquia militar, talvez, ou talvez um membro da nobreza.

- Sim, ou possivelmente... O vigário foi interrompido em suas teorias pela entrada da governanta, a sra. Graham.

- Trouxe um pouco de chá, senhores - anunciou, colocando a bandeja com firmeza no meio da escrivaninha, de onde o vigário resgatou os preciosos despachos no momento exato. Ela me examinou de cima a baixo com um olhar perspicaz, avaliando os braços e pernas nervosamente contraídos e o olhar ligeiramente vitrificado.

- Só trouxe duas xícaras, porque pensei que talvez a sra. Randall quisesse acompanhar-me à cozinha. Tenho um pouco de... Não esperei pela conclusão de seu convite e levantei-me prontamente. Pude ouvir as teorias irrompendo outra vez às minhas costas enquanto atravessávamos a porta de vaivém que levava à cozinha.

O chá era verde, quente e perfumado, com pedaços de folhas dando voltas no líquido.

- Mirim — eu disse, abaixando a xícara. - Há muito tempo que não tomo Dolong.

A sra. Graham balançou a cabeça, radiante com o meu prazer em sua bebida. Ela certamente se esmerara, colocando paninhos de renda bordados à mão sob as xícaras de fina porcelana e oferecendo creme espesso e coalhado acompanhando os pãezinhos.

- Sim, eu não o conseguia durante a guerra. No entanto, é o melhor para a leitura. Tive muita dificuldade com o Earl Grey. As folhas despedaçam-se tão depressa que fica difícil ler qualquer coisa nelas.

- Ah, a senhora lê folhas de chá? — perguntei, achando engraçado. Nada poderia estar mais distante da concepção popular de uma adivinha cigana do que a sra. Graham, com seu permanente curto e cinza e seu colar de pérolas de três voltas. Um gole de chá percorreu visivelmente o pescoço longo e vigoroso e desapareceu sob as contas reluzentes.

- Ora, certamente, minha querida. Assim como minha avó me ensinou e a avó dela antes dela. Esvazie sua xícara e eu verei o que tem aí.

Ficou em silêncio por um longo tempo, de vez em quando inclinando a xícara para iluminá-la melhor ou girando-a lentamente nas palmas magras para obter um ângulo diferente.

Colocou a xícara de volta no pires cuidadosamente, como se receasse que fosse explodir no seu rosto. As linhas em torno de sua boca aprofundaram-se e as sobrancelhas uniram-se numa expressão intrigada.

- Bem - disse, finalmente. - Essa é uma das mais estranhas que já vi.

- É mesmo? - Eu ainda achava graça, mas comecei a ficar curiosa. -Vou conhecer um estranho alto e moreno ou fazer uma viagem através do oceano?

- Poderia ser. - A sra. Graham percebeu o tom irônico em minha voz e repetiu-o, sorrindo ligeiramente. – E poderia não ser. Isso é que é estranho sobre sua xícara, minha querida. Tudo nela é contraditório. Há a folha curvada para uma viagem, mas está cruzada pela folha quebrada que significa permanecer no lugar. E há estranhos, sem dúvida, vários deles. E um deles é o seu marido, se eu li as folhas direito.

Meu ar zombeteiro se dissipou um pouco. Após seis anos separados e seis meses juntos, meu marido de certa forma era realmente um estranho. Embora eu não conseguisse ver como uma folha de chá pudesse saber disso.

A sra. Graham continuava com a testa franzida.

- Deixe-me ver sua mão, minha filha - ela disse.

A mão que segurou a minha era ossuda, mas surpreendentemente aquecida. Uma fragrância de alfazema emanava da cabeça grisalha e bem arrumada que se inclinava sobre a palma da minha mão. Examinou minha mão cuidadosamente por um longo tempo, de vez em quando traçando uma das linhas com o dedo, como se seguisse um mapa cujas estradas acabassem todas nas águas de uma costa arenosa ou em terras ermas e desertas.

- Bem, o que diz aí? - perguntei, tentando manter um ar despreocupado. — Ou o meu destino é horrível demais para ser revelado?

A sra. Graham ergueu os olhos inquiridores e fitou o meu rosto pensativamente, mas continuou segurando a minha mão. Sacudiu a cabeça, enrugando os lábios.

- Ah, não, minha querida. Não é o destino que está em sua mão. Apenas a semente dele. - Inclinou a cabeça para um lado, considerando o que dizia. — Como sabe, as linhas da mão vão mudando ao longo do tempo. Em outro momento de sua vida, elas podem ser bastante diferentes do que são agora.

- Não sabia disso. Pensei que a gente nascia com elas e pronto. — Eu reprimia uma vontade premente de retirar minha mão. — Nesse caso, de que adianta a leitura da mão? - Não queria parecer mal-educada, mas estava achando aquele escrutínio um pouco desconcertante, especialmente depois da leitura das folhas de chá. A sra. Graham sorriu inesperadamente e fechou os meus dedos sobre a palma da minha mão.

- Ora, as linhas de sua mão mostram quem você é, querida. É por isso que mudam, ou deveriam mudar. Em algumas pessoas, não mudam; naquelas suficientemente infelizes para nunca mudarem interiormente, mas são poucas assim. - Apertou minha mão dobrada e deu-lhe um tapinha. - Duvido que você seja uma delas. Sua mão já demonstra mudanças demais para alguém tão jovem. Deve ser por causa da guerra, é claro — disse, como se falasse para si mesma.

Fiquei novamente curiosa e abri minha mão voluntariamente.

- O que sou, então, segundo a palma de minha mão?

A sra. Graham franziu o cenho, mas não segurou minha mão outra vez.

- Não sei dizer. É estranho, porque a maioria das mãos tem semelhanças. Veja bem, não estou querendo dizer que se você viu uma, viu todas, mas em geral é assim. Há padrões, sabe? - Sorriu repentinamente, um riso estranhamente simpático, exibindo dentes muito brancos e evidentemente postiços.

- É assim que uma adivinha funciona. Faço isso para a quermesse da igreja todos os anos. Ou fazia, antes da guerra; acho que voltarei a fazer, agora. Mas uma jovem entra na tenda e lá estou eu, ostentando um turbante com uma pena de pavão que peço emprestada ao sr. Donaldson e "trajes de esplendor oriental", que é o roupão do vigário, repleto de desenhos de pavão e amarelo como o sol. De qualquer forma, eu a examino de cima a baixo enquanto finjo estar olhando sua mão e vejo que usa uma blusa decotada quase até o umbigo, um perfume barato e brincos que vão até o pescoço. Não preciso de uma bola de cristal para lhe dizer que terá um filho antes da festa do ano que vem. - A sra. Graham fez uma pausa, os olhos cinzas acesos de malícia. — Mas se a mão que você estiver segurando estiver sem anéis, é diplomático prever primeiro que ela se casará em breve.

Eu ri e ela também.

- Então, a senhora não analisa as mãos delas? — perguntei. - Só para verificar os anéis?

Ela pareceu surpresa.

- Ah, claro que examino. É que você já sabe com antecedência o que vai ver. Geralmente. - Fez um sinal com a cabeça indicando minha mão aberta. - Mas nunca vi um padrão assim antes. O polegar grande — nesse momento, ela realmente inclinou-se para a frente e tocou-o de leve -, isso não mudaria muito. Significa que você tem força de vontade e uma determinação que dificilmente pode ser contrariada. - Piscou os olhos para mim. - Imagino que seu marido já tenha lhe dito isso. Da mesma forma, isso aqui. — Apontou para o montinho carnudo na base do polegar.

- O que é?

- Chama-se Monte de Vênus. - Comprimiu os lábios finos com força, embora não conseguisse impedir os cantos de se elevarem. — Em um homem, eu diria que significa que ele gosta de mulheres. Para uma mulher, é um pouco diferente. Para ser delicada a respeito, farei uma pequena previsão para você e direi que seu marido provavelmente não se afastará muito de sua cama. - Deu uma risadinha surpreendentemente profunda e imoral e eu fiquei levemente corada.

A idosa governanta examinou minha mão cuidadosamente outra vez, batendo com o dedo em riste aqui e ali para enfatizar suas palavras.

- Bem, vejamos, uma linha da vida bem definida; está com boa saúde e é provável que permaneça assim. A linha da vida está interrompida, significando que sua vida sofreu uma grande mudança. Bem, isso é verdade para todos nós, não é? Mas a sua é mais retalhada do que eu normalmente vejo; toda em pedacinhos. E a sua linha do casamento — sacudiu a cabeça outra vez — é dividida; não é incomum, significa dois casamentos...

Minha reação foi de descrença, que reprimi imediatamente, mas ela percebeu e no mesmo instante ergueu o olhar. Achei que ela devia ser uma adivinha muito perspicaz. A cabeça grisalha balançou em minha direção, procurando tranqüilizar-me.

- Não, não, menina. Não significa que vá acontecer alguma coisa com seu marido. É que, se acontecesse - e ela enfatizou o "se" apertando ligeiramente a minha mão -, você não seria do tipo que iria definhar e ficar de luto o resto de sua vida. O que significa é que você é uma dessas pessoas capazes de amar novamente se perder seu primeiro amor.

Apertou os olhos míopes para a minha mão, percorrendo delicadamente, com uma unha dura e pontuda, a minha profunda linha do casamento.

- Mas a maioria das linhas do casamento é interrompida, a sua bifurca-se. - Ergueu os olhos com um sorriso brincalhão. - Certamente você não é uma bígama em segredo, não é?

Sacudi a cabeça, rindo.

- Não. Quando teria tempo para isso? — Em seguida, virei a mão, mostrando a borda externa.

- Ouvi dizer que pequenas marcas no lado da mão indicam quantos filhos você vai ter? - Esperava ter falado em tom casual. O decepcionante lado externo da minha palma era completamente liso. A sra. Graham sacudiu a mão desdenhando a idéia.

- Que nada! Depois de ter um ou dois filhos, vai ter linhas aí. Mais provavelmente vai tê-las no rosto. Não prova nada de antemão.

- Ah, não? - Fiquei tolamente aliviada de ouvir aquilo. Estava prestes a perguntar se as linhas profundas na base do meu pulso significavam alguma coisa (um potencial para o suicídio?), quando fomos interrompidas nesse ponto pelo reverendo Wakefield, que entrou na cozinha carregando as xícaras vazias. Colocou-as na pia e começou uma busca desajeitada e espalhafatosa no armário, obviamente na esperança de que alguém fosse ajudá-lo.

A sra. Graham pôs-se de pé num salto para defender a santidade de sua cozinha e, empurrando o reverendo habilmente para o lado, começou a reunir acompanhamentos de chá na bandeja para levar ao gabinete. Ele me puxou para o lado, fora do caminho.

- Por que não vem ao gabinete tomar outra xícara de chá comigo e com seu marido, sra. Randall? Fizemos uma descoberta extremamente gratificante.

Pude notar que, apesar do aparente comedimento externo, ele estava esfuziante de alegria com o que quer que tivessem descoberto, como um garotinho com um sapo no bolso. Obviamente, eu teria que ir ler o rol de roupas sujas do capitão Jonathan Randall, o recibo do conserto das botas ou algum outro documento igualmente fascinante.

Frank estava tão absorvido com os papéis corroídos que mal ergueu os olhos quando entrei no gabinete. Entregou-os relutantemente nas mãos gorduchas do vigário e deu a volta para ficar de pé atrás do reverendo Wakefield e espreitar por cima de seu ombro, como se não pudesse suportar que os papéis ficassem fora de sua vista nem por um instante.

- Sim? - eu disse educadamente, manuseando os pedaços de papéis encardidos. - Hummm, sim, muito interessante. - Na realidade, a floreada caligrafia manuscrita estava tão desgastada e era tão rebuscada que não parecia valer a pena decifrá-la. Uma folha, mais bem preservada do que o resto, ostentava uma espécie de timbre no topo.

- O duque de... Sandringham, não é? — perguntei, analisando atentamente o timbre, com a figura desbotada de um leopardo deitado e as letras impressas embaixo, mais nítidas do que o texto manuscrito.

- Sim, isso mesmo — disse o vigário, ainda mais radiante. - Um título agora já extinto, como sabe.

Eu não sabia, mas confirmei inteligentemente com um aceno da cabeça, conhecendo como eu conhecia os historiadores no afã desvairado da descoberta. Raramente era necessário mais do que balançar a cabeça de vez em quando, exclamando "Ah, é mesmo?" ou "Absolutamente fascinante!" a intervalos apropriados.

Após uma certa dose de troca de deferências entre Frank e o vigário, o último ganhou a honra de me contar a respeito da descoberta. Evidentemente, toda aquela papelada velha indicava que o antepassado de Frank, o famoso Black Jack Randall, não fora apenas um valente soldado da coroa, mas um agente de confiança - e secreto - do duque de Sandringham.

- Quase um agente provocador, não diria, sr. Randall? - O vigário elegantemente passou a bola de volta para Frank, que não perdeu a oportunidade.

- Sim, é verdade. A linguagem é muito velada, é claro... - Virou as páginas delicadamente com o indicador bem limpo.

- Ah, é mesmo? - exclamei.

- Mas parece, por esses documentos, que Jonathan Randall foi incumbido da tarefa de trazer à luz sentimentos jacobitas, se existia algum, entre as proeminentes famílias escocesas de sua área. O objetivo era eliminar qualquer baronete e chefe de clã que pudesse estar abrigando simpatias secretas nessa direção. Mas isso é estranho. O próprio Sandringham não era suspeito de ser um jacobita? — Frank virou-se para o vigário com o cenho franzido numa expressão inquiridora. A cabeça lisa e careca do vigário enrugou-se numa expressão idêntica.

- Ora, sim, acho que tem razão. Mas espere, vamos verificar no Cameron. - Deu um salto em direção às prateleiras de livros, abarrotadas de volumes com capa de couro. - Certamente ele menciona Sandringham.

- Absolutamente fascinante - murmurei, deixando minha atenção desviar-se para a enorme placa de cortiça que revestia uma das paredes do gabinete, do chão ao teto.

Estava coberta com uma impressionante diversidade de objetos; a maioria papéis de algum tipo, contas de gás, correspondências, avisos do Conselho Diocesano, páginas soltas de romances, bilhetes de próprio punho do vigário, mas também pequenos itens como chaves, tampas de garrafas e o que pareciam pequenas peças de carro, presas com tachas e barbante.

Dei uma olhada lânguida pela miscelânea, mantendo um dos ouvidos sintonizado na discussão que transcorria atrás de mim. (O duque de Sandringham provavelmente foi um jacobita, concluíram.) Minha atenção foi atraída por um mapa genealógico, pregado com cuidado especial, à parte, com quatro tachas, uma em cada canto. O topo do mapa incluía nomes datados do começo do século XVII. Mas foi o nome na parte inferior do mapa que chamou minha atenção: "Roger W. (MacKenzie) Wakefield".

- Desculpe-me - eu disse, interrompendo uma discussão final se o leopardo no timbre do duque tinha um lírio na pata, ou seria um açafrão? -Essa é a árvore genealógica de seu filho?

- Hein? Ah, sim, é, sim. - Tendo a atenção desviada, o vigário aproximou-se às pressas, mais uma vez radiante. Desprendeu cuidadosamente o mapa da parede e colocou-o na mesa à sua frente.

- Não queria que ele esquecesse a própria família - explicou. - É uma linhagem muito antiga, do século XVI. - O dedo indicador grosso e curto traçou a linha de descendência quase reverentemente.

- Dei-lhe meu próprio nome porque me pareceu mais adequado, já que ele vive aqui, mas não queria que esquecesse suas origens. - Deu um sorriso contrafeito. — Receio que minha própria família não seja nada de se orgulhar, em termos de genealogia. Vigários e curas, com um ou outro livreiro para variar, e só pode ser rastreada até 1762. Registros bastantes falhos, sabe - disse, abanando a cabeça pesarosamente diante da letargia de seus antepassados.

Já estava ficando tarde quando finalmente deixamos a residência do vigário, que prometeu levar as cartas para a cidade para copiá-las logo de manhã cedo. Frank foi tagarelando alegremente sobre espiões e jacobitas durante a maior parte do caminho de volta à pousada da sra. Baird. Finalmente, entretanto, ele notou meu silêncio.

- O que foi, amor? — perguntou, segurando meu braço atenciosamente. - Não está se sentindo bem? — A pergunta foi feita num tom misto de preocupação e esperança.

- Não, estou perfeitamente bem. Só estava pensando... — hesitei, porque já havíamos discutido a questão anteriormente. - Estava pensando em Roger.

- Roger?

Fiz um gesto de impaciência.

- Realmente, Frank! Como pode ser tão... desligado?! Roger, o filho do reverendo Wakefield.

- Ah. Sim, é claro - disse vagamente. - Uma criança adorável. O que tem ele?

- Bem... é que existem muitas crianças como ele. Órfãos. Lançou-me um olhar penetrante e sacudiu a cabeça.

- Não, Claire. Realmente, eu gostaria, mas já lhe disse como eu me sinto a respeito de adoção. É que... eu não iria me sentir bem em relação a uma criança que não é... bem, do meu próprio sangue. Sei que isso é ridículo e egoísta da minha parte, mas é assim que eu me sinto. Talvez mude de idéia com o tempo, mas agora... — Andamos alguns passos num silêncio pesado. De repente, ele parou e virou-se para mim, tomando minhas mãos.

- Claire - disse com voz rouca -, eu quero o nosso filho. Você é a coisa mais importante do mundo para mim. Quero que seja feliz, acima de tudo, mas quero... bem, quero você para mim. Receio que uma criança de fora, com quem não temos nenhum relacionamento verdadeiro, venha a ser um intruso e eu me ressentiria disso. Mas poder lhe dar um filho, vê-lo crescer em você, vê-lo nascer... eu sentiria como se fosse mais uma... extensão de você, talvez. E de mim. Uma parte verdadeira da família. - Seus olhos estavam arregalados, suplicantes.

- Sim, tudo bem. Eu compreendo. - Estava disposta a abandonar o assunto, por enquanto. Virei-me para continuar andando, mas ele tomou-me em seus braços.

- Claire. Eu a amo. - A ternura em sua voz era irresistível e apoiei minha cabeça em seu casaco, sentindo seu calor e a força de seus braços à minha volta.

- Eu também o amo. — Ficamos ali abraçados por alguns instantes, balançando ligeiramente ao vento que varria a rua. De repente, Frank recuou um pouco, sorrindo para mim.

- Além disso — disse num sussurro, alisando meus cabelos revoltos pelo vento -, nós ainda não desistimos, não é?

Devolvi o sorriso. -Não.

Tomou minha mão, enfiando-a carinhosamente na dobra do braço, e voltamo-nos na direção de nossa hospedaria.

- Pronta para nova tentativa?

- Sim. Por que não? - Caminhamos a passos largos, de mãos dadas, em direção à Gereside Road. Foi a visão de Baragh Mhor, a pedra do povo picto que se ergue na esquina dessa rua, que me fez lembrar de outro monumento antigo.

- Eu me esqueci! - exclamei. - Tenho algo impressionante para lhe mostrar. — Frank abaixou os olhos para mim e puxou-me mais para junto de si. Apertou minha mão.

- Eu também - disse, rindo. - Você pode me mostrar o seu amanhã.

Quando o amanhã chegou, tínhamos outras coisas para fazer. Eu me esquecera que havíamos planejado uma viagem de um dia ao Great Glen, o extenso vale do lago Ness.

Era uma longa viagem através do vale e saímos bem cedo, antes do nascer do sol. Depois da corrida no amanhecer gelado para o carro que nos aguardava, era reconfortante relaxar sob a manta que cobria nossas pernas e sentir o calor retornando aos pés e às mãos. Com ele, veio uma deliciosa sonolência e senti-me adormecer tranqüilamente no ombro de Frank, sendo a minha última visão consciente a cabeça do motorista em silhueta contra o céu vermelho da aurora.

Já passava das nove horas quando chegamos e o guia que Frank contratara aguardava-nos na beira do lago com um pequeno barco.

- Se estiver de acordo, senhor, pensei em darmos uma pequena volta no lago até o Castelo Urquhart. Talvez possamos fazer um lanche lá, antes de continuar. - O guia, um homenzinho austero, vestindo uma camisa de algodão e calças de sarja surradas, guardou um cesto de piquenique cuidadosamente sob o banco e ofereceu-me a mão calejada para me ajudar a descer para o fundo do barco.

Era um lindo dia, com a florescente vegetação das margens íngremes refletindo nebulosamente na superfície ondulada do lago. Nosso guia, apesar do ar severo, era comunicativo e conhecedor, apontando ilhas, castelos e ruínas que ladeavam o lago longo e estreito.

- Lá, aquele é o Castelo Urquhart. — Apontou para uma muralha lisa de pedra, mal visível entre as árvores. — Ou o que restou dele. Foi amaldiçoado pelas bruxas do vale e viu uma desgraça atrás da outra.

Contou-nos a história de Mary Grant, filha do senhor do Castelo Urquhart, e de seu amante, Donald Donn, poeta e filho de MacDonald de Bohuntin. Proibidos de se encontrar por causa da objeção do pai dela aos hábitos de Donald de "surrupiar" qualquer cabeça de gado que encontrasse (uma profissão antiga e honrada das Highlands, segundo nos assegurou o guia), eles se encontravam mesmo assim. O pai ficou sabendo, Donald foi atraído para um falso local de encontro e assim capturado. Condenado à morte, suplicou para ser decapitado como um cavaleiro, ao invés de enforcado como um criminoso. Seu pedido foi atendido e o jovem dirigiu-se ao cadafalso repetindo "O Diabo se apossará do Senhor de Grant e Donald Donn não será enforcado". Não foi e a lenda diz que, quando sua cabeça decapitada rolou do cadafalso, ela falou, dizendo: "Mary, levante minha cabeça."

Estremeci e Frank passou o braço ao meu redor.

- Resta um trecho de um de seus poemas - disse serenamente. - De Donald Donn. Diz o seguinte:

"Amanhã deverei estar numa colina, sem a cabeça. Não tem compaixão de minha triste donzela, Minha Mary, de cabelos louros galhos meigos?"

Segurei sua mão e apertei-a de leve.

À medida que as histórias de traição, assassinato e violência eram recontadas, parecia que o lago fazia jus à sua sinistra reputação.

- E o monstro? — perguntei, espreitando pela beirada do barco as profundezas sombrias. Parecia perfeitamente adequado àquele cenário.

Nosso guia deu de ombros e cuspiu na água.

- Bem, o lago é estranho, quanto a isso não resta dúvida. Há histórias, é verdade, de algo antigo e maligno que um dia viveu nas profundezas do lago. Sacrifícios foram feitos a ele. Vacas, e às vezes até mesmo criancinhas, lançadas às águas em cestos de vime. - Cuspiu outra vez. - E alguns dizem que o lago não tem fundo. Tem um buraco no centro mais profundo do que qualquer outro na Escócia. Por outro lado — os olhos enrugados do guia enrugaram-se um pouco mais -, houve uma família aqui de Lan-cashire há alguns anos que foi correndo à delegacia em Invermoriston, gritando que havia visto o monstro sair da água e esconder-se no meio das samambaias. Disseram que era uma terrível criatura, coberta de pêlos vermelhos e chifres assustadores, e mastigava alguma coisa, com o sangue escorrendo da boca. - Ergueu uma das mãos, estancando minha exclamação horrorizada.

- O policial que mandaram para investigar voltou e disse que, bem, exceto pelo sangue gotejante, era uma descrição bem precisa - fez uma pausa para causar impacto —, de uma bela vaca das Highlands, ruminando nas samambaias!

Seguimos de barco até a metade do lago antes de desembarcar para um lanche tardio. Encontramos o carro lá e voltamos nele pelo vale, não vendo nada mais sinistro do que uma raposa vermelha na estrada, que nos olhou espantada, com um pequeno animal pendendo frouxamente de suas mandíbulas, quando viramos uma curva em grande velocidade. Ela saltou para a beira da estrada e fugiu, rápida como uma sombra.

Era bem tarde quando finalmente cambaleamos pelo caminho de entrada da pousada, mas permanecemos agarrados um ao outro na soleira da porta enquanto Frank tateava os bolsos em busca da chave, ainda rindo dos acontecimentos do dia.

Somente quando já nos despíamos para ir dormir é que eu me lembrei de mencionar o círculo de pedras em miniatura, em Craigh na Dun. Seu cansaço desapareceu instantaneamente.

- Verdade? E você sabe onde fica? Que maravilha, Claire! - Ficou exultante e começou a remexer em sua mala.

- O que está procurando?

- O despertador - respondeu, retirando-o.

- Para quê? - perguntei, espantada.

- Quero me levantar bem cedo para vê-las.

- Quem?

- As bruxas.

- Bruxas? Quem lhe disse que há bruxas?

- O vigário - Frank respondeu, claramente divertindo-se com a história. — A governanta dele é uma das bruxas.

Pensei na digna sra. Graham e torci o nariz com ar zombeteiro.

- Não seja ridículo!

- Bem, na verdade, não são bruxas. Tem havido bruxas por toda a Escócia há centenas de anos. Eram queimadas até quase o limiar do século XIX. Mas este grupo na verdade pretende ser de druidisas ou algo parecido. Não creio que seja realmente um congresso de bruxas, quero dizer, não são adoradoras do diabo. Mas o vigário disse que há um grupo local que ainda observa rituais nos dias das antigas festas do sol. Ele não pode se dar ao luxo de se interessar muito em tais acontecimentos, sabe, por causa de sua posição, mas também é um homem curioso demais para ignorá-los completamente. Ele não sabia onde as cerimônias eram realizadas, mas se há um círculo de pedras próximo, deve ser lá. — Esfregou as mãos na expectativa. - Que sorte!

Acordar uma vez no escuro para aventurar-se num passeio já é uma travessura. Duas vezes em dois dias cheira a masoquismo.

Desta vez, nem sequer um bom carro aquecido com mantas e garrafas térmicas. Segui Frank aos tropeções pela colina acima, dando topadas em raízes e pedras. Estava frio e enevoado, e enfiei as mãos mais fundo nos bolsos do meu cardigã.

Um último impulso no topo da colina e o monumento megalítico estava diante de nós, os blocos de pedra quase invisíveis na meia-luz que antecedia o alvorecer. Frank parou, imóvel, fascinado, admirando, enquanto eu me deixava cair sobre uma rocha convenientemente situada, arfando.

- Lindo — ele murmurou. Deslizou silenciosamente até a borda externa do círculo, a figura indistinta desaparecendo entre os vultos maiores das pedras. Lindas elas eram e muito estranhas também. Estremeci e não inteiramente por causa do frio. Se quem quer que as tenha erguido tinha a intenção de impressionar, sabia o que estava fazendo.

Frank voltou em um instante.

- Ninguém aqui ainda - sussurrou de repente por trás de mim, fazendo-me dar um salto. — Venha, encontrei um lugar de onde podemos observar.

A luz começava a subir do leste, apenas um matiz de cinza-claro no horizonte, mas o suficiente para impedir que eu tropeçasse enquanto Frank me conduzia por uma trilha que encontrara em alguns arbustos de amieiro perto do alto da trilha. Havia uma pequena clareira dentro do amontoado de arbustos, apenas o suficiente para ficarmos de pé, ombro a ombro. No entanto, a trilha era perfeitamente visível, assim como o interior do círculo de pedras, a não mais do que seis metros de distância. Não pela primeira vez, eu me perguntava que tipo de trabalho Frank realizara durante a guerra. Ele sem dúvida parecia saber deslocar-se silenciosamente no escuro.

Sonolenta como estava, só queria enroscar-me sob um arbusto aconchegante e voltar a dormir. Entretanto, não havia lugar para isso e, assim, continuei de pé, espreitando a trilha íngreme em busca das druidisas que estavam para chegar. Estava ficando com torcicolo e meus pés doíam, mas não deveria demorar muito mais; o fio de luz a leste tornara-se rosa-claro e calculei que deveria faltar menos de meia hora para o raiar do dia.

A primeira locomovia-se quase tão silenciosamente quanto Frank. Ouviu-se apenas um leve farfalhar quando seus pés deslocaram um cascalho perto do topo da colina e, em seguida, a cabeça grisalha bem penteada surgiu silenciosamente no campo de visão. A sra. Graham. Então, era verdade. A governanta do vigário estava adequadamente vestida com uma saia de tweed e um casaco de lã, carregando uma trouxa branca embaixo do braço. Desapareceu atrás de uma das pedras verticais, silenciosa como um fantasma.

Elas chegaram bem rapidamente depois disso, sozinhas, em duas ou em três, com risinhos e sussurros contidos ao longo da trilha, mas que eram rapidamente silenciados quando avistavam o círculo.

Reconheci algumas delas. Lá vinha a sra. Buchanan, a agente dos correios da vila, cabelos louros recentemente ondulados com permanente e o aroma de Evening in Paris desprendendo-se fortemente das ondas de seus cabelos. Reprimi o riso. Então era assim uma druidisa moderna!

Eram quinze ao todo, todas mulheres, variando em idade dos sessenta anos da sra. Graham a uma jovem de vinte poucos anos, que eu vira empurrando um carrinho de bebê pelas lojas há dois dias. Todas estavam vestidas para uma caminhada difícil, com trouxas embaixo do braço. Com um mínimo de conversa, desapareceram atrás das pedras ou de arbustos, emergindo de mãos vazias e braços nus, completamente vestidas de branco. Senti o aroma de sabão em pó quando uma delas roçou nosso aglomerado de arbustos e reconheci os trajes como lençóis, enrolados em torno do corpo e amarrados em um dos ombros.

Reuniram-se fora do anel de pedras, em uma fila da mais velha para a mais nova, e ficaram paradas em silêncio, à espera. A luz no leste tornou-se mais forte.

Quando o sol começou a subir lentamente no horizonte, a fila de mulheres moveu-se, caminhando devagar entre duas das pedras. A líder levou-as diretamente para o centro do círculo e começaram a dar voltas, ainda movendo-se lentamente, majestosas como cisnes em uma procissão circular.

De repente, a líder parou, ergueu os braços e deu um passo para o centro do círculo. Erguendo o rosto para o par de pedras mais a leste, deu um brado com voz forte. Não foi um grito, mas foi suficientemente claro para ser ouvido em todo o círculo. A névoa imóvel captou as palavras e as fez ecoar, como se viessem de toda a volta, das próprias pedras.

Qualquer que tenha sido o brado, foi repetido pelas dançarinas. Porque agora eram dançarinas. Sem se tocar, mas mantendo os braços estendidos em direção umas das outras, elas balançavam-se e ziguezagueavam, ainda movendo-se em círculos. De repente, o círculo se dividiu ao meio. Sete das dançarinas passaram a se mover no sentido horário, ainda num movimento circular. As outras se moviam na direção oposta. Os dois semicírculos passavam um pelo outro a velocidades cada vez maiores, às vezes formando um círculo completo, às vezes uma linha dupla. E no centro, a líder mantinha-se imóvel, repetindo de vez em quando aquele brado triste e agudo, em uma língua há muito desaparecida.

Deveriam parecer ridículas e talvez fossem. Um bando de mulheres enroladas em lençóis, muitas delas corpulentas e desajeitadas, desfilando em círculos no cume de uma colina. Mas os cabelos de minha nuca ficavam em pé ao som daquele grito.

Pararam todas ao mesmo tempo e voltaram-se de frente para o sol, formando dois semicírculos, com um caminho perfeitamente definido entre as duas metades do círculo assim formado. Conforme o sol subia no horizonte, sua luz fluía entre as pedras do leste, estendia-se entre as metades do círculo e atingia a majestosa pedra dividida ao meio do outro lado do monumento.

As dançarinas ficaram paradas por alguns instantes, paralisadas nas sombras de cada lado do raio de luz. Então, a sra. Graham disse alguma coisa, na mesma língua estranha, mas desta vez num tom de voz normal. Girou nos calcanhares e caminhou, empertigada, as ondas grisalhas dos cabelos brilhando ao sol, ao longo da faixa de luz. Sem uma palavra, as dançarinas seguiram-na. Passaram uma a uma pela fenda na pedra principal e desapareceram em silêncio.

Ficamos agachados nos amieiros até as mulheres, agora rindo e conversando normalmente, recuperarem suas roupas e partirem em grupo pela colina abaixo, para tomar café na casa do vigário.

- Meu Deus! — Estiquei-me, tentando desfazer a rigidez das minhas pernas e costas. - Que cena, hein?

- Maravilhosa! — exclamou Frank, entusiasmado. - Eu não teria perdido isso por nada no mundo. - Deslizou como uma cobra para fora dos arbustos, deixando-me sozinha para me desvencilhar do mato, enquanto ele andava de um lado para o outro no interior do círculo, o nariz voltado para o solo como um cão de caça.

- O que está procurando? - perguntei. Entrei no círculo com alguma hesitação, mas o dia já nascera completamente e as pedras, embora ainda impressionantes, haviam perdido muito do ar ameaçador da penumbra do alvorecer.

- Marcas — respondeu, arrastando-se de quatro, os olhos atentos à relva curta. - Como sabiam onde começar e onde parar?

- Boa pergunta. Eu não vejo nada. - Lançando um olhar ao solo, entretanto, o que realmente vi foi uma planta interessante que crescia na base de uma das pedras verticais. Miosótis? Não, provavelmente não. Estas eram flores de um azul-escuro com centros cor-de-laranja. Intrigada, comecei a caminhar em direção a ela. Frank, com a audição mais aguçada do que a minha, ficou de pé num salto e agarrou meu braço, tirando-me apressadamente para fora do círculo um segundo antes de uma das dançarinas da manhã surgir do outro lado.

Era a srta. Grant, a mulherzinha gorducha que tendo em vista sua figura, administrava a confeitaria da High Street na cidade. Olhou à sua volta apertando os olhos, depois remexeu no bolso à procura dos óculos. Pendurando-os no nariz, deu uma volta pelo círculo, finalmente lançando-se sobre a travessa de cabelo que havia perdido e pela qual voltara. Tendo recolocado-a no lugar em suas mechas grossas e brilhantes, não parecia com nenhuma pressa de retornar ao trabalho. Ao invés disso, sentou-se em uma rocha, recostou-se em uma das pedras gigantes em clima de camaradagem e acendeu um cigarro.

Frank deu um suspiro abafado de exasperação a meu lado.

- Bem - disse, resignado -, é melhor irmos. Ela pode ficar lá sentada o resto da manhã, pelo que parece. E não vi nenhuma marca óbvia, de qualquer modo.

- Talvez possamos voltar mais tarde — sugeri, ainda curiosa com a trepadeira de flores azuis.

— Sim, está bem. - Mas ele obviamente havia perdido o interesse no círculo em si, estando agora absorto nos detalhes da cerimônia. Interrogou-me implacavelmente no caminho de volta, instando-me a lembrar o mais detalhadamente possível as palavras exatas dos brados e o compasso da dança.

— Escandinavo - disse finalmente, com satisfação. - As raízes das palavras são do escandinavo antigo, tenho quase certeza. Mas a dança - sacudiu a cabeça, ponderando. Não, a dança é muito mais antiga. Não que não existam danças vikings em círculo - disse, erguendo as sobrancelhas com ar de censura, como se eu tivesse sugerido que não existissem. - Mas aquela mudança de lugar com a fileira dupla, isso é... hummm, é como... bem, alguns dos desenhos nas cerâmicas dos Beakers, mostram um padrão parecido, mas por outro lado... hummm.

Entrou em um de seus transes eruditos, murmurando para si mesmo de vez em quando. O transe foi quebrado somente quando tropeçou inesperadamente em um obstáculo perto da base do monte. Lançou os braços no ar com um grito de surpresa quando tropeçou e rolou desajeitadamente pelos últimos metros da trilha, indo parar numa moita de erva-cicutária.

Disparei pela ladeira abaixo atrás dele, mas encontrei-o já sentado entre os ramos trêmulos da planta quando consegui chegar ao sopé da colina.

— Você está bem? — perguntei, embora pudesse ver que estava.

— Acho que sim. - Passou a mão, aturdido, pela testa, alisando os cabelos escuros para trás. — Em que foi que eu tropecei?

— Nisto. - Ergui uma lata de sardinha, descartada por algum visitante anterior. - Uma das ameaças da civilização.

— Ah. — Pegou-a da minha mão, olhou o interior da lata, depois a atirou por cima do ombro. - Pena que está vazia. Estou com fome depois desta excursão. Vamos ver o que a sra. Baird pode arranjar para um café da manhã tardio?

— Vamos - eu disse, arrumando as últimas mechas de cabelo para ele. -Mas, ao invés disso, podemos almoçar cedo. - Nossos olhos se encontraram.

— Ah - repetiu, num tom completamente diferente. Passou a mão lentamente pelo meu braço e pelo lado do meu pescoço, o polegar tocando delicadamente o lóbulo da minha orelha. - Podemos, sim.

— Se você não estiver com muita fome — eu disse. A outra mão deslizou para as minhas costas. Com a mão espalmada, pressionou-me gentilmente contra ele, os dedos descendo cada vez mais. Sua boca abriu-se ligeiramente e ele respirou, bem de leve, pela gola do meu vestido, seu hálito morno fazendo cócegas nos meus seios.

Deitou-me cuidadosamente na grama, as flores da erva-cicutária parecendo plumas flutuando no ar em volta da minha cabeça. Inclinou-se e beijou-me, devagar, e continuou me beijando enquanto desabotoava minha blusa, um botão de cada vez, provocando, parando para enfiar a mão dentro do meu vestido e brincar com os bicos enrijecidos dos meus seios. Finalmente, tinha o vestido aberto do pescoço à cintura.

- Ah - disse mais uma vez, em outro tom diferente. - Como veludo branco. - Sua voz era rouca e seus cabelos haviam caído para a frente outra vez mas ele não fez nenhuma tentativa de arrumá-los para trás.

Soltou o fecho do meu sutiã com um eficiente toque do polegar e inclinou-se para prestar uma hábil homenagem aos meus seios. Depois, recuou e, segurando meus seios com as duas mãos, juntou as palmas lentamente até se encontrarem entre as duas protuberâncias e, sem parar, afastou-as novamente, traçando a Unhadas minhas costelas para trás. Para cima outra vez, para baixo e ao redor, até eu gemer e curvar-me para ele. Mergulhou os lábios nos meus e apertou-me contra seu corpo, até nossos quadris encaixarem-se perfeitamente. Inclinou a cabeça para mim, mordendo de leve o lóbulo da minha orelha.

A mão que acariciava minhas costas desceu cada vez mais para baixo, parando repentinamente, surpreso. Tateou de novo, depois Frank ergueu a cabeça e olhou para mim, rindo.

- O que é isso? — perguntou, imitando um policial da vila. - Ou melhor, o que não é isso?

- Estou sempre preparada - respondi, afetadamente. - As enfermeiras aprendem a se antecipar às contingências.

- Realmente, Claire - murmurou, deslizando a mão por baixo da minha saia e subindo pela coxa até o calor macio e desprotegido entre minhas pernas —, você é a pessoa mais terrivelmente prática que já conheci.

Frank surgiu por trás de mim quando estava sentada na sala de visitas naquela noite, com um grande livro aberto no colo.

- O que está fazendo? - perguntou. As mãos descansaram delicadamente sobre meus ombros.

- Procurando aquela planta - respondi, colocando o dedo entre as páginas para marcar o lugar. - A que vi no círculo de pedras. Veja... - Abri o livro. - Poderia estar nas Campanulaceae ou nas Gentianaceae, nas Polemoniaceae, nas Boraginaceae. Esta é bem provável, eu acho, miosótis -mas poderia até mesmo ser uma variante desta, a Anemone patens. -Apontei para a ilustração colorida de uma pulsatila. - Não acho que seja uma genciana de qualquer espécie; as pétalas não eram bem redondas, mas.

- Bem, por que não volta lá e pega uma amostra? - sugeriu. - O sr. Crook poderia lhe emprestar seu calhambeque, talvez, ou... Não, tive uma idéia melhor. Peça o carro da sra. Baird emprestado, é mais seguro. É uma caminhada curta da estrada ao sopé da colina.

- E depois mais ou menos mil metros de subida até o topo — eu disse. — Por que está tão interessado nessa planta? — Girei o corpo para olhar para ele. O abajur da sala contornava sua cabeça com uma fina linha dourada, como a gravura medieval de um santo.

- Não é na planta que estou interessado. Mas se você for até lá de qualquer modo, gostaria que desse uma olhada pelo lado de fora do círculo.

- Tudo bem - respondi, prestativa. - Para quê?

- Vestígios de fogo — ele disse. — Em tudo que pude ler sobre Beltane, o fogo é sempre mencionado nos rituais, mas as mulheres que vimos hoje de manhã não usaram nenhum. Imagino se talvez não tenham acendido o fogo de Beltane na noite anterior, depois voltado de manhã para a dança. Embora historicamente fossem os rebanhos de gado que deveriam acender o fogo. Não havia nenhum sinal de fogueira no interior do círculo - acrescentou. - Mas viemos embora antes de eu pensar em verificar a parte de fora.

- Está bem — eu disse novamente, bocejando. O fato de levantar cedo dois dias seguidos estava cobrando seu tributo. Fechei o livro e levantei-me. — Desde que eu não tenha que me levantar antes das nove.

Na verdade, eram quase nove horas quando cheguei ao círculo de pedras. Chuviscava e eu estava inteiramente molhada, não tendo pensado em levar uma capa. Fiz um exame superficial do lado de fora do círculo, mas se alguma vez houve uma fogueira ali, alguém se dera ao trabalho de remover todos os vestígios.

A planta foi mais fácil de encontrar. Estava onde eu me lembrava de tê-la visto, junto à base da pedra vertical mais alta. Peguei várias amostras da trepadeira e guardei-as provisoriamente no meu bolso, pretendendo lidar com elas adequadamente quando voltasse ao minúsculo carro da sra. Baird, onde deixara as pesadas prensas de plantas.

A pedra mais alta do círculo era fendida, com uma fissura vertical dividindo-a em duas partes maciças. Estranhamente, as duas partes haviam sido afastadas de algum modo. Embora fosse possível ver que as duas superfícies de frente uma para a outra se encaixavam, estavam separadas por uma brecha de quase um metro.

Havia um zumbido profundo vindo de algum lugar bem próximo. Imaginei que deveria haver uma colméia alojada em algum nicho da rocha e coloquei a mão sobre a pedra, a fim de inclinar-me para dentro da fenda.

A pedra gritou.

Recuei o mais depressa que pude, tão depressa que tropecei na relva curta e caí sentada com toda a força. Fitei a pedra, espantada, suando.

Nunca ouvira um som semelhante de nenhum ser vivo. Não é possível descrevê-lo, exceto dizer que era o tipo de grito que se poderia esperar de uma pedra. Era horrível.

As outras pedras começaram a gritar. Ouvi sons de batalha, os gritos de homens morrendo e cavalos feridos.

Sacudi a cabeça violentamente para clareá-la, mas o barulho continuou. Levantei-me aos tropeções e cambaleei em direção à margem do círculo. Os sons estavam por todo lado à minha volta, fazendo meus dentes doerem e minha cabeça girar. Minha visão começou a turvar.

Não sei agora se caminhei em direção à fenda na pedra principal ou se isso foi acidental, um deslocamento cego pelo nevoeiro de barulho.

Certa vez, viajando à noite, adormeci no banco do carona de um carro em movimento, embalada pelo barulho e pelo deslocamento, até à ilusão de uma serena ausência de peso. O motorista do carro entrou numa ponte a uma velocidade alta demais e perdeu o controle do carro. Acordei do meu sonho de estar flutuando direto no clarão de faróis e na sensação nauseante de estar caindo em alta velocidade. Essa transição brusca é o mais próximo que posso chegar para descrever a sensação que experimentei, mas ainda deixa dolorosamente a desejar.

Poderia dizer que meu campo de visão contraiu-se a um único ponto escuro, depois desapareceu completamente, sem deixar nenhuma escuridão, mas apenas um brilhante vazio. Poderia dizer que senti como se estivesse girando ou como se estivesse sendo virada do avesso. Tudo isso é verdade, mas nenhuma dessas comparações transmite a sensação que tive de total perturbação, de estar sendo atirada com força contra alguma coisa que não estava lá.

A verdade é que nada se movia, nada mudava, nada parecia acontecer e, ainda assim, eu experimentava uma sensação de terror tão grande que perdi completamente a noção de quem ou o quê eu era, ou de onde me encontrava. Estava no âmago do caos e nenhuma força física ou mental era útil contra isso.

Não conseguiria dizer realmente se perdi a consciência, mas sem dúvida não tive noção de mim mesma durante algum tempo. "Acordei", se essa for a palavra, quando tropecei numa pedra perto da base do monte. Praticamente resvalei pelos poucos metros restantes e acabei num espesso tufo de capim ao pé da colina. Sentia-me enjoada e tonta. Arrastei-me até um aglomerado de carvalhos novos e apoiei-me contra um deles para me equilibrar. Havia uma gritaria confusa perto dali, que me fez lembrar dos sons que eu ouvira, e sentira, no círculo de pedras. Não havia, entretanto, o tom estridente de violência inumana. Aquele era o som normal de conflito humano e eu segui em sua direção.

 

Os homens estavam a alguma distância quando os avistei. Dois ou três, trajando kilts, corriam como demônios por uma pequena clareira. Ouviam-se uns estampidos distantes que eu, meio aturdida, identifiquei como tiros.

Eu tinha absoluta certeza de que ainda estava tendo alucinações quando ao barulho de tiros seguiu-se o aparecimento de cinco ou seis soldados ingleses, vestindo antigos casacos vermelhos e calças na altura dos joelhos, brandindo mosquetes. Pisquei os olhos e fiquei olhando, paralisada. Ergui a mão e estendi dois dedos diante do rosto. Eu via dois dedos, correta e distintamente. Nenhuma perturbação visual. Cautelosamente, inspirei, sentindo o cheiro do ar. O aroma pungente de árvores na primavera e uma leve fragrância de trevos de um punhado junto aos meus pés. Nenhuma ilusão olfativa.

Apalpei minha cabeça. Nenhum ponto dolorido. Portanto, uma concussão cerebral era improvável. Pulso um pouco acelerado, mas regular.

O som de gritos distantes mudou bruscamente. Ouviu-se um trovão de cascos e vários cavalos surgiram, lançando-se em minha direção, montados por escoceses de kilts, entoando canções em gaélico. Esquivei-me rapidamente do caminho, com uma agilidade que pareceu provar que não estava fisicamente ferida, qualquer que fosse meu estado mental.

Então, me ocorreu, quando um dos homens de casaco vermelho, derrubado por um escocês em disparada, levantou-se e brandiu o punho cerrado teatralmente na direção dos cavalos. É claro. Um filme! Sacudi a cabeça diante da minha própria lentidão mental. Estavam filmando alguma história, vestidos a caráter, apenas isso. Um daqueles filmes românticos sobre o príncipe escocês Carlos Eduardo, sem dúvida.

Muito bem. Independente do mérito artístico, a produção do filme não iria me agradecer por introduzir um tom de inautenticidade histórica em suas cenas. Voltei para dentro do bosque, pretendendo fazer um amplo círculo em torno da clareira e sair na estrada onde eu havia deixado o carro. Entretanto, a ida foi mais difícil do que eu esperava. O bosque era jovem, denso de mato rasteiro que se agarrava em minhas roupas. Tinha que avançar cuidadosamente pelo meio das árvores novas e espigadas, desenredando minha saia das amoreiras selvagens conforme prosseguia.

Se fosse uma cobra, eu teria pisado nele. Estava parado tão silenciosamente entre as árvores novas que parecia uma delas e eu não o vi até sua mão surgir de repente e me agarrar pelo braço.

A outra mão tapou minha boca enquanto eu era arrastada para trás, para dentro do bosque de carvalhos, debatendo-me ferozmente em pânico. Meu captor, quem quer que fosse, não parecia muito mais alto do que eu, mas era extremamente forte nos braços. Senti um leve perfume floral, como de colônia de alfazema, e de algo mais picante, misturados ao cheiro mais forte de suor masculino. No entanto, enquanto as folhagens chicoteavam de volta à posição inicial ao longo de nossa passagem, notei algo familiar a respeito da mão e do antebraço agarrados em torno da minha cintura.

Sacudi a cabeça livrando-me da restrição sobre a minha boca.

- Frank! - exclamei. - Que brincadeira é essa, pelo amor de Deus? — Estava dividida entre o alívio de encontrá-lo ali e a irritação com o gracejo. Perturbada como estava pela minha experiência nas pedras, não sentia disposição para brincadeiras de mau gosto.

As mãos me soltaram, mas no momento em que me voltei para ele pressenti que alguma coisa estava errada. Não se tratava apenas da colônia desconhecida, mas de algo mais sutil. Fiquei parada, imóvel, sentindo os cabelos da minha nuca se arrepiarem.

- Você não é Frank — disse, num sussurro.

- Não, não sou — ele concordou, examinando-me com grande interesse. — Embora tenha um primo com este nome. Duvido, no entanto, que seja com ele que você tenha me confundido, madame. Nós não somos muito parecidos.

Com quem quer que seu primo se parecesse, ele próprio poderia ser irmão de Frank. Havia a mesma constituição física ágil, esbelta, e boa ossatura; os mesmos contornos bem delineados do rosto; as sobrancelhas uniformes e os grandes olhos castanho-claros; e os mesmos cabelos escuros, lisos e macios, penteados para o lado, sobre a fronte.

Mas os cabelos deste homem eram compridos, amarrados na nuca com uma tira de couro. E a pele curtida e bronzeada evidenciava os meses, não, anos de exposição ao tempo, muito diferente da cor dourado-clara que Frank adquirira em nossas férias na Escócia.

- Quem é você? - perguntei, sentindo-me extremamente confusa. Embora Frank tivesse muitos parentes e conexões, eu achava que conhecia todo o ramo britânico de sua família. Certamente, não havia ninguém que se parecesse com este homem. E certamente Frank teria mencionado qualquer parente próximo que vivesse nas Highlands. Não só o teria mencionado, como teria insistido que o visitássemos, armado com a costumeira coleção de mapas genealógicos e cadernos de notas, ansioso por qualquer migalha de história familiar sobre o famoso Black Jack Randall.

O estranho ergueu as sobrancelhas diante da minha pergunta.

- Quem sou eu? Devo lhe fazer a mesma pergunta, madame, e com uma justificativa consideravelmente maior. - Seus olhos vasculharam-me lentamente da cabeça aos pés, viajando com uma aprovação insolente pelo fino vestido de algodão estampado de peônias que eu estava usando e demorando-se com um estranho olhar divertido em minhas pernas. Não compreendi o motivo daquele olhar, mas deixou-me extremamente nervosa e eu recuei um ou dois passos, até bater bruscamente em uma árvore.

O homem finalmente desviou o olhar e virou-se. Foi como se tivesse tirado as mãos de cima de mim e eu deixei escapar um suspiro de alívio, sem ter percebido que até então estivera prendendo a respiração.

Ele se virara para pegar seu casaco, atirado no galho mais baixo de um dos carvalhos novos. Sacudiu algumas folhas esparsas do casaco e começou a vesti-lo.

Devo ter arfado, porque ele ergueu os olhos para mim outra vez. O casaco era vermelho-escuro, com uma longa cauda e sem lapelas, com galões na frente. O forro cor de camurça dos punhos virados para cima estendia-se por uns quinze centímetros da manga e um pequeno cadarço dourado, retorcido, brilhava de uma das dragonas. Era um casaco dos dragões, o casaco de um oficial da cavalaria. Então, ocorreu-me: claro, ele era um ator, da companhia que eu vira do outro lado do bosque. Embora a espada curta que ele amarrava à cintura parecesse muito mais real do que qualquer artefato cenográfico que eu já vira.

Encostei-me com mais força contra o tronco da árvore às minhas costas. A solidez do tronco era real e isso me animou outra vez. Cruzei os braços defensivamente.

- Quem é você afinal? — perguntei novamente. A pergunta desta vez saiu como um grasnido que soou assustador até para os meus ouvidos.

Como se não me ouvisse, ele ignorou a pergunta, amarrando sem pressa os galões da frente do seu casaco. Somente quando terminou é que voltou sua atenção para mim outra vez. Fez uma mesura cínica, a mão sobre o coração.

- Eu sou Jonathan Randall, capitão da Oitava Companhia dos Dragões de Sua Majestade. A seu serviço, madame.

Desatei a correr. Minha respiração roncava no peito à medida que eu abria caminho entre a cortina de carvalhos e amieiros, ignorando amoreiras selvagens, urtigas, pedras, troncos caídos, tudo que estivesse em meu caminho. Ouvi um grito às minhas costas, mas estava apavorada demais para verificar de onde vinha.

Corri às cegas, os galhos das árvores arranhando meu rosto e meus braços, os tornozelos torcendo-se conforme eu pisava em buracos e tropeçava em pedras. Não havia lugar em minha mente para qualquer forma de pensamento racional; eu só queria fugir daquele homem.

Algo pesado atingiu com força os meus quadris e eu fui lançada para a frente, caindo estirada, com um baque surdo, que tirou o ar dos meus pulmões. Mãos rudes me viraram de frente e o capitão Jonathan Randall ergueu-se sobre os joelhos acima de mim. Respirava pesadamente e perdera sua espada na corrida. Parecia desalinhado, sujo e bastante contrariado.

- Que diabos pretende fugindo desse jeito? — indagou. Uma grossa mecha de cabelos castanho-escuros soltara-se e ondulava em sua testa, aumentando de forma desconcertante sua semelhança com Frank.

Inclinou-se para a frente e agarrou-me pelos braços. Ainda tentando recuperar o fôlego, debati-me para me libertar, mas tudo que consegui foi arrastá-lo para cima de mim.

Ele perdeu o equilíbrio e caiu com todo o peso do seu corpo sobre o meu, achatando-me outra vez. Para minha surpresa, isso fez sua contrariedade desaparecer por completo.

- Ah, então é assim, hein? - disse, com um risinho. - Bem, gostaria muito de servi-la, benzinho, mas acontece que você escolheu um momento um tanto inoportuno. - Seu peso pressionava meus quadris contra o solo. E uma pequena pedra cravava-se dolorosamente na base da minha coluna. Retorci-me para desalojá-la. Ele apertou os quadris com mais força contra os meus e suas mãos prenderam meus ombros no chão. Abri a boca, indignada.

- O que você... - comecei a dizer, mas ele abaixou a cabeça e beijou-me, interrompendo os meus protestos. Enfiou a língua na minha boca e explorou-a com uma ousada familiaridade, girando e mergulhando, recolhendo-se e arremessando-se outra vez. Em seguida, da mesma forma repentina como iniciara, afastou-se.

Deu uns tapinhas na minha bochecha.

- Muito bom, benzinho. Talvez mais tarde, quando eu tiver tempo de folga para cuidar de você.

A essa altura, eu já havia recuperado o fôlego e usei-o. Gritei diretamente dentro do seu ouvido e ele deu um salto para trás como se eu tivesse lhe dado um choque elétrico. Aproveitei o movimento para erguer o joelho e cravá-lo na lateral do seu corpo, fazendo-o se esparramar na camada de folhas.

Consegui levantar-me com dificuldade. Ele rolou sobre si mesmo agilmente e surgiu ao meu lado. Olhei desesperadamente à minha volta, procurando uma saída, mas havíamos sido levados para a base de um desses elevados penhascos de granito que se erguem bruscamente do solo nas Highlands escocesas. Ele me encurralara num lugar em que uma reentrância na superfície rochosa formava uma caixa de pedra de pouca profundidade.

Ele bloqueou a entrada para o declive, os braços abertos e firmemente apoiados nas paredes da rocha, uma mistura de raiva e curiosidade na expressão do belo rosto moreno.

- Com quem você estava? - perguntou. - Um tal de Frank? Não tenho nenhum homem com este nome na minha companhia. Ou é alguém que vive aqui perto? — Sorriu com escárnio. — Sua pele não cheira a estrume, portanto não estava com um camponês. Aliás, você parece mais cara do que um fazendeiro local poderia pagar.

Cerrei os punhos e o queixo. O que quer que aquele palhaço tivesse em mente, eu não iria aturar.

- Não faço a menor idéia do que você está falando e agradeço se me deixar passar agora mesmo! - eu disse, adotando meu melhor tom de enfermeira-chefe. Geralmente, surtia um bom efeito em ordenanças recalcitrantes e estudantes de medicina, mas pareceu apenas divertir o capitão Randall. Eu reprimia resolutamente os sentimentos de medo e desorientação que batiam sob as minhas costelas como um bando de galinhas em pânico.

Ele sacudiu a cabeça lentamente, examinando-me minuciosamente mais uma vez.

- Não neste momento, benzinho. Estou perguntando a mim mesmo -disse, em tom casual -, por que uma vagabunda fora da sua terra, em roupas de baixo, estaria usando sapatos? Aliás, sapatos muito bons - acrescentou, olhando para os meus simples mocassins marrons.

- Uma o quê! - exclamei.

Ignorou-me completamente. Seu olhar retornou ao meu rosto e, repentinamente, deu um passo para a frente e agarrou meu queixo com uma das mãos. Agarrei seu pulso e dei um puxão.

- Solte-me! - Ele tinha dedos de aço. Indiferente aos meus esforços para me libertar, virou meu rosto de um lado para o outro, de modo que a luz mortiça da tarde incidisse sobre ele.

- A pele de uma dama, posso jurar - murmurou para si mesmo. Inclinou-se para a frente e cheirou. — E um aroma francês nos cabelos. — Soltou-me e eu esfreguei meu queixo, indignada, como se quisesse apagar o toque de sua mão que ainda sentia em minha pele.

- O resto deve ter conseguido com dinheiro do seu benfeitor — resmungou para si mesmo —, mas também fala como uma dama.

- Muito obrigada! - retorqui. - Saia da minha frente. Meu marido está à minha espera; se eu não voltar em dez minutos, ele virá à minha procura.

- Ah, seu marido? - A expressão de admiração e escárnio retrocedeu um pouco, mas não desapareceu inteiramente. - E qual é o nome de seu marido, pode me dizer? Onde está ele? E por que permite que sua mulher ande sozinha pelos bosques desertos quase despida?

Eu continuava a pressionar aquela parte do meu cérebro que estava se debatendo para dar algum sentido àquela tarde. Consegui um momento de lucidez suficientemente longo para me dizer que, por mais absurdas que eu considerasse suas conjecturas, dar a esse homem o nome de Frank, o mesmo nome dele, só iria levar a mais confusões. Assim, sem responder-lhe, fiz menção de passar por ele. Bloqueou minha passagem com um braço musculoso e agarrou-me com a outra mão.

Ouviu-se um chiado repentino acima de nossas cabeças, seguido imediatamente por uma figura indistinta diante dos meus olhos e um baque surdo. O capitão Randall estava no chão aos meus pés, sob uma massa arquejante que parecia uma trouxa de farrapos velhos de tecido xadrez. Um punho moreno e maciço como uma rocha ergueu-se da massa e abateu-se com força considerável, chocando-se resolutamente com alguma protuberância óssea, pelo barulho resultante. As pernas agitadas do capitão, em botas marrons longas e brilhantes, relaxaram imediatamente.

Vi-me diante de um par de penetrantes olhos negros. A mão robusta que temporariamente distraíra as indesejadas atenções do capitão prendeu-se como um molusco no meu antebraço.

- E quem diabos é você? - perguntei, estarrecida. Meu salvador, se podia chamá-lo assim, era alguns centímetros mais baixo do que eu e de constituição pequena, mas os braços nus que se projetavam da camisa rasgada eram musculosos e toda a sua estrutura dava a impressão de ser feita de algum material elástico, como molas de cama. Também não possuía nenhuma beleza - pele com marcas de varíola, fronte baixa e maxilar estreito.

- Por aqui. - Deu um puxão em meu braço e eu, estupefata com a sucessão dos últimos acontecimentos, segui obedientemente.

Meu novo companheiro abriu caminho rapidamente através de uma cortina de amieiros, deu a volta bruscamente em uma grande rocha e de repente estávamos em um caminho. Tomado por urzes e tojos, e ziguezagueando de forma que nunca fosse visível a mais de dois metros à frente, ainda assim era indubitavelmente um caminho, um aclive íngreme que levava ao topo da colina.

Foi somente quando avançávamos cautelosamente pelo outro lado da colina que consegui reunir fôlego e presença de espírito suficientes para perguntar onde estávamos indo. Não recebendo nenhuma resposta do meu companheiro, repeti num tom mais alto:

- Para onde afinal estamos indo?

Para minha considerável surpresa, virou-se para mim, o rosto contorcido, e arrastou-me para fora do caminho. Quando abria minha boca para protestar, ele espalmou a mão sobre ela e derrubou-me no chão, rolando o corpo para cima do meu.

Ah, outra vez, não!, pensei, e contorcia-me desesperadamente para me libertar quando ouvi o que ele ouvira e, de repente, fiquei imóvel. Vozes iam e vinham, acompanhadas pelo barulho de passos pesados. Eram, sem dúvida, vozes inglesas. Lutei violentamente para liberar minha boca. Enfiei os dentes em sua mão e só tive tempo de registrar o fato de que ele andara comendo arenque em conserva com as mãos, antes de alguma coisa se abater contra a parte de trás de minha cabeça e tudo ficar escuro.

A cabana de pedra surgiu de repente em meio à neblina noturna. As janelas estavam trancadas, mostrando apenas um fio de luz. Sem a menor idéia de quanto tempo ficara desacordada, não sabia a que distância ficava esse lugar da colina de Craigh na Dun ou da cidade de Inverness. Estávamos a cavalo, eu na frente do meu captor, as mãos amarradas ao arção da sela. Entretanto, não havia nenhuma estrada, de modo que avançávamos muito lentamente.

Calculei que não ficara inconsciente muito tempo; não demonstrava nenhum sintoma de concussão ou outros efeitos colaterais da pancada, a não ser uma região dolorida na base do crânio. Meu captor, um homem de poucas palavras, respondia às minhas perguntas, reclamações e observações de mau humor, com o mesmo ruído escocês que servia para todas as ocasiões e que melhor pode ser representado foneticamente como "Mmmmhum". Se eu tivesse alguma dúvida quanto à sua nacionalidade, esse som seria suficiente para afastá-la.

Meus olhos haviam se adaptado gradualmente à penumbra do anoitecer conforme o cavalo tropeçava pelas pedras e pelas tojeiras, de modo que foi um choque sair da semi-escuridão para o que parecia uma luz incandescente no interior da cabana. A medida que a visão ficou menos ofuscada, pude ver que de fato o único aposento era iluminado apenas pelo fogo na lareira, várias velas e um lampião perigosamente antigo.

- O que tem aí, Murtagh?

O homem com cara de fuinha agarrou-me pelo braço e empurrou-me para a luz do fogo.

- Uma vagabunda Sassenach, Dougal, pelo modo de falar.

Havia vários homens no aposento, todos me olhando fixamente, alguns com curiosidade, outros com inegável malícia. Meu vestido rasgara-se em vários lugares durante as atividades da tarde e eu avaliei apressadamente os danos. Olhando para baixo, podia ver claramente a curva de um dos seios através de um rasgão e tinha certeza que o grupo de homens também. Decidi que fazer uma tentativa de juntar os pedaços rasgados só iria chamar mais ainda a atenção; ao invés disso, escolhi um rosto qualquer e fitei-o corajosamente, na esperança de desviar os olhares.

- Ei, bonita, Sassenach ou não - disse o homem, um tipo gordo, seboso, sentado junto ao fogo. Segurava um pedaço de pão e não se deu ao trabalho de largá-lo quando se levantou e caminhou na minha direção. Ergueu meu queixo com as costas da mão, afastando os cabelos do meu rosto. Alguns farelos de pão caíram pela gola do meu vestido. Os outros homens amontoaram-se ao redor, um bando em tecido quadriculado escocês e costeletas, com o forte odor de suor e álcool. Foi somente então que eu vi que todos eles usavam kilt - estranho, mesmo para aquela parte das Highlands. Eu teria me deparado com a reunião de uma associação de clãs ou talvez com uma reunião política?

- Venha cá, dona. - Um homem corpulento, de barba preta, permaneceu sentado a uma mesa junto à janela enquanto me chamava. Pelo ar de comando, devia ser o chefe do bando. Os homens abriram caminho relutantemente quando Murtagh empurrou-me para a frente, aparentemente respeitando seus direitos de captor.

O homem moreno analisou-me cuidadosamente, o rosto sem expressão. Era bem-apessoado, pensei, e não parecia inamistoso. No entanto, havia rugas de tensão entre suas sobrancelhas e não era um rosto que alguém gostaria de contrariar.

- Qual é o seu nome, dona? — Sua voz era fina para um homem do seu tamanho, não a voz grave e profunda que eu esperaria de um tórax tão volumoso.

- Claire... Claire Beauchamp - eu disse, resolvendo de improviso usar meu nome de solteira. Se era resgate o que tinham em mente, não queria ajudá-los dando um nome que pudesse levar a Frank. E não tinha certeza se queria que aqueles homens de aparência grosseira soubessem quem eu era, antes de descobrir quem eram eles. — E exatamente o que você acha que está... - O homem moreno ignorou-me, estabelecendo um padrão do qual eu iria me cansar muito em breve.

- Beauchamp? - As grossas sobrancelhas ergueram-se e todo o grupo agitou-se de surpresa. — Um nome francês, não é? - Ele de fato havia pronunciado o nome corretamente em francês, embora eu o tivesse dito na pronúncia inglesa comum de "Beecham".

Sim, isso mesmo — respondi, um pouco surpresa.

- Onde encontrou essa moça? — Dougal indagou, virando-se para Murtagh, que se revigorava bebendo de um frasco de couro.

O homenzinho moreno encolheu os ombros.

- Ao sopé da Craigh na Dun. Estava discutindo com um certo capitão dos dragões que por acaso eu conhecia - acrescentou, erguendo significativamente uma das sobrancelhas. - Parecia haver uma dúvida se a madame era ou não uma prostituta.

Dougal examinou-me de cima a baixo mais uma vez, atentando para cada detalhe do meu vestido de algodão estampado e meus sapatos de caminhada.

- Sei. E qual era a posição da madame nessa discussão? - perguntou, com uma ênfase sarcástica na palavra "madame" que não me agradou. Observei que, embora seu escocês fosse menos carregado do que o do homem chamado Murtagh, seu sotaque ainda era bastante pronunciado, dando à palavra um som aberto.

Murtagh pareceu achar graça; ao menos, um dos cantos de sua boca fina curvou-se para cima.

- Ela disse que não era. O próprio capitão parecia não ter certeza, mas estava disposto a fazer um teste.

- Poderíamos fazer o mesmo, por falar nisso. — O homem gordo, de barba preta, deu um passo em minha direção, rindo, as mãos puxando o cinto. Recuei depressa o mais que pude, o que não era muito longe, dadas as dimensões da cabana.

- Chega, Rupert. - Dougal ainda me olhava preocupado, mas sua voz tinha o tom da autoridade e Rupert parou onde estava, fazendo uma careta engraçada de decepção.

- Eu não admito estupros e não temos tempo para isso de qualquer forma. - Fiquei contente de ouvir essa declaração de política, por mais duvidosa que sua base moral pudesse ser, mas continuei um pouco nervosa diante dos olhares abertamente lascivos em alguns dos outros rostos. Tinha a sensação absurda de estar em público vestida com minhas roupas de baixo. E embora eu não fizesse a menor idéia de quem ou o quê esses bandidos das Highlands estavam perseguindo ou tramando, eles pareciam bastante perigosos. Mordi a língua, reprimindo algumas observações mais ou menos imprudentes que afloravam à minha boca.

- O que acha, Murtagh? - Dougal perguntou ao meu captor. — Pelo menos, ela não parece gostar de Rupert.

- Isso não prova nada - objetou um homem baixo, meio careca. - Ele não lhe ofereceu nenhum dinheiro. Não pode esperar que uma mulher aceite alguém como Rupert sem um pagamento substancial, antecipado — acrescentou, para grande hilaridade de seus companheiros. Dougal, no entanto, calou a barulheira com um gesto brusco e fez um sinal com a cabeça indicando a porta. O sujeito careca, ainda rindo, saiu obedientemente para a escuridão.

Murtagh, que não se juntara à risada geral, franzia o cenho enquanto me examinava. Sacudiu a cabeça, fazendo a franja lisa balançar-se na testa.

- Não — disse definitivamente. - Não faço a menor idéia do que ela possa ser, ou quem, mas aposto a minha melhor camisa que não é uma prostituta. - Torci, nesse caso, para que sua melhor camisa não fosse a que ele estava vestindo, que mal parecia valer a aposta.

- Bem, você deve saber, Murtagh, você conheceu muitas — debochou Rupert, mas foi bruscamente silenciado por Dougal.

- Resolveremos isso mais tarde - disse asperamente. — Temos uma boa distância para percorrer esta noite e temos que fazer alguma coisa por Jamie primeiro; ele não pode viajar assim.

Encolhi-me nas sombras junto à lareira, esperando não ser mais notada. O homem chamado Murtagh desamarrara minhas mãos antes de me conduzir para dentro da cabana. Talvez eu conseguisse fugir enquanto estivessem ocupados em algum outro lugar. A atenção dos homens voltara-se para um jovem agachado em um banco no canto. Ele mal erguera os olhos durante o meu aparecimento e interrogatório, mas manteve a cabeça abaixada, a mão segurando o ombro oposto, balançando-se levemente para a frente e para trás de dor.

Dougal retirou delicadamente a mão agarrada ao ombro. Um dos homens puxou para trás o xale quadriculado do jovem, revelando uma camisa de linho suja de terra e manchada de sangue. Um homem pequeno, com um grande bigode, surgiu por trás do rapaz com uma faca e, segurando a camisa pelo colarinho, cortou-a na frente e ao longo da manga, de modo que a camisa abriu-se e caiu do ombro ferido.

Soltei uma arfada, como vários dos homens. O ombro estava ferido; havia um sulco profundo e dilacerado na parte superior e o sangue escorria livremente pelo peito do rapaz. Porém mais chocante era a própria junta do ombro. Um terrível calombo erguia-se na articulação e o braço estava pendurado num ângulo impossível.

Dougal grunhiu.

- Hummm. Desconjuntado, pobre diabo.

O jovem ergueu os olhos pela primeira vez. Embora contorcido de dor e com uma barba ruiva por fazer, era um rosto forte e bem-humorado.

- Caí em cima da mão, quando a bala do mosquete me arrancou da sela. Caí com todo o peso do corpo sobre a mão e craque!, desconjuntou-se.

- Desconjuntou mesmo. — O homem de bigode, um escocês, e educado, a julgar pelo seu sotaque, examinava o ombro, levando o rapaz a fazer uma careta de dor. - O ferimento não é problema. A bala atravessou direto e está limpo, o sangue está escorrendo livremente. - O homem pegou um chumaço de pano sujo da mesa e usou-o para estancar o sangue. -- Mas não sei bem o que fazer com o deslocamento. Precisamos de um cirurgião para colocar o braço de volta no lugar certo. Você não pode cavalgar assim, não é, Jamie?

Bala de mosquete?, pensei, aturdida. O jovem sacudiu a cabeça, pálido.

-- Já dói muito aqui sentado. Não poderia conduzir um cavalo. — Apertou os olhos e cravou os dentes com força no lábio inferior.

Murtagh falou com impaciência.

- Bem, não podemos deixá-lo para trás, não é? Os soldados ingleses não são grande coisa para rastrear no escuro, mas vão encontrar este lugar mais cedo ou mais tarde, com ou sem janelas fechadas. E Jamie não consegue se fazer passar por um camponês inocente, com esse enorme ferimento.

- Não se preocupe - Dougal disse, interrompendo-o. — Não pretendo deixá-lo para trás.

O homem de bigode suspirou.

- Então, não há outro jeito. Vamos ter que tentar recolocar o braço no lugar. Murtagh, você e Rupert segurem-no; eu vou tentar.

Fiquei observando com pena do jovem enquanto o homem de bigode pegava o braço do rapaz pelo pulso e pelo cotovelo e começava a forçá-lo para cima. O ângulo estava totalmente errado; devia estar causando uma dor excruciante. O suor escorria pelo rosto do jovem, mas ele não emitiu nenhum som além de um gemido baixo. De repente, ele desabou com todo o peso para a frente e só não caiu no chão por causa dos homens que o seguravam.

Um dos homens abriu um frasco de couro e pressionou-o contra seus lábios. O cheiro penetrante da bebida forte e pouco refinada chegou até onde eu estava. O jovem tossiu e engasgou, mas assim mesmo engoliu, deixando o líquido cor de âmbar escorrer da boca sobre o que restava de sua camisa.

- Pronto para outra tentativa, rapaz? - o careca perguntou. - Ou talvez Rupert devesse tentar - sugeriu, voltando-se para o rufião atarracado, de barba preta.

Rupert, assim convidado, flexionou as mãos como se fosse praticar arremesso de mastro e pegou o pulso do rapaz, obviamente pretendendo colocar a junta no lugar pela força bruta; uma operação, era óbvio, capaz de arrancar o braço do rapaz como o cabo de uma vassoura.

- Não se atreva a fazer isso! - Qualquer pensamento de fuga desapareceu diante da indignação profissional. Lancei-me para a frente, sem me importar com os olhares espantados dos homens à minha volta.

- O que quer dizer? — retorquiu o careca, claramente irritado com a minha intromissão.

- Quero dizer que vai quebrar o braço dele se fizer desse modo - retruquei. — Saiam do caminho, por favor. — Afastei Rupert com o cotovelo e eu mesma segurei o pulso do paciente. O paciente parecia tão surpreso quanto os outros, mas não resistiu. Sua pele estava muito quente, mas não febril, considerei.

- É preciso colocar o osso da parte superior do braço no ângulo certo antes de encaixá-lo na junta outra vez — eu disse, grunhindo enquanto puxava o pulso para cima e o cotovelo para dentro. O rapaz era alto e forte; seu braço pesava como chumbo.

- Essa é a pior parte - avisei o paciente. Encaixei minha mão no seu cotovelo, pronta para dar um tranco para cima.

Sua boca contorceu-se, no que não parecia um sorriso.

- Não pode doer muito mais do que está doendo. Vá em frente.

O suor porejava no meu próprio rosto a essa altura. Recolocar um ombro no lugar é uma tarefa árdua mesmo nas melhores condições. Em um homem grande que passara horas com o deslocamento, os músculos agora inchados e cobrindo a junta, a tarefa iria requerer todas as minhas forças. O fogo estava perigosamente perto; esperava que nós dois não caíssemos nele, se a junta voltasse ao lugar com um tranco.

De repente, o ombro fez um suave pop! e a articulação voltou ao lugar. O paciente ficou admirado. Colocou a mão no ombro, incrédulo, para explorá-lo.

- Não dói mais! — Um amplo sorriso de alívio e satisfação espalhou-se por seu rosto e os homens irromperam em exclamações de admiração e aplausos.

- Vai doer. — Eu suava do esforço, mas fiquei satisfeita e orgulhosa com o resultado. — Ficará dolorido por vários dias. Não deve de modo algum estender a junta nos próximos dois ou três dias; quando voltar a usar o braço, comece bem devagar. Pare imediatamente se começar a doer e use compressas quentes diariamente.

Percebi, no meio dessas recomendações, que enquanto o paciente ouvia respeitosamente, os outros homens olhavam-me com expressões que iam da absoluta admiração à óbvia suspeita.

- Sou enfermeira - expliquei, sentindo-me um pouco na defensiva. Os olhos de Dougal, assim como os de Rupert, recaíram sobre meu colo e lá permaneceram com uma espécie de horrorizado fascínio. Trocaram olhares, depois Dougal olhou de novo para o meu rosto.

- Que assim seja - disse, erguendo as sobrancelhas para mim. - Para uma ama, você parece ter alguma habilidade de cura. Pode estancar o ferimento do rapaz o suficiente para ele montar um cavalo?

- Posso fazer um curativo no ferimento, sim - eu disse com considerável rispidez. - Desde que tenha alguma coisa para cobri-lo. Mas o que quer dizer com "ama"? E por que acha que eu iria querer ajudá-lo?

Fui ignorada enquanto Dougal virava-se e falava para uma mulher agachada no canto em uma língua que eu indistintamente reconheci como sendo o gaélico. Cercada pelo bando de homens, eu não havia notado a sua presença. Vestia-se de modo estranho, pensei, numa saia longa e esfarrapada e uma blusa de mangas compridas semi-coberta por uma espécie de corpete ou colete. Tudo parecia meio encardido, inclusive seu rosto.

Entretanto, olhando à minha volta, pude notar que a cabana não só não tinha eletricidade como também não possuía água encanada; talvez houvesse uma desculpa para a sujeira.

A mulher fez uma rápida mesura e, passando rapidamente por Rupert e Murtagh, começou a remexer num baú de madeira pintada que estava junto à lareira, finalmente surgindo com uma pilha de trapos.

- Não, isso não serve - eu disse, manipulando-os com cuidado. -Primeiro, o ferimento tem que ser desinfetado, depois coberto com um pano limpo, se não houver ataduras esterilizadas.

As sobrancelhas ergueram-se por todo o aposento.

- Desinfetado? - disse o homenzinho, cautelosamente.

- Sim, isso mesmo — eu disse com firmeza, achando-o um pouco simplório, apesar do seu sotaque educado. — Toda a sujeira tem que ser removida do ferimento e ele tem que ser tratado com um composto que desencoraje a proliferação de germes e promova a cura.

- Como o quê, por exemplo?

- Como iodo - respondi. Não vendo nenhum sinal de compreensão nos rostos à minha frente, tentei de novo. - Mertiolate? Ácido carbólico diluído? - sugeri. - Ou talvez apenas álcool? — Olhares de alívio. Finalmente, eu encontrara uma palavra que pareciam reconhecer. Murtagh enfiou o frasco de couro em minhas mãos. Suspirei com impaciência. Sabia que as Highlands eram primitivas, mas aquilo era quase inacreditável.

- Olhe — eu disse, com toda a paciência que pude reunir. - Por que vocês simplesmente não o levam até à cidade? Não deve ficar muito longe e tenho certeza que haverá um médico lá que poderá cuidar dele.

A mulher me olhou boquiaberta.

- Que cidade?

O homem grandalhão chamado Dougal ignorava a discussão, espreitando cautelosamente a escuridão lá fora pela borda da cortina. Deixou-a cair de volta no lugar e caminhou silenciosamente para a porta. Os homens fizeram silêncio quando ele desapareceu na noite.

Em poucos instantes, estava de volta. Trazendo o careca e o aroma pungente e frio dos pinheiros escuros com ele. Sacudiu a cabeça em resposta aos olhares interrogativos dos homens.

- Não, nada por perto. Vamos imediatamente, enquanto é seguro. Vendo-me, parou por um instante, pensando. De repente, indicou-me

com um movimento da cabeça, a decisão tomada.

- Ela virá conosco. - Remexeu na pilha de panos sobre a mesa e escolheu uma tira esfarrapada; parecia um lenço de pescoço que já vira dias melhores.

O homem de bigode não pareceu inclinado a concordar com que me levassem, onde quer que estivessem indo.

- Por que nós simplesmente não a deixamos aqui?

Dougal lançou-lhe um olhar impaciente, mas deixou a explicação a cargo de Murdoch.

- Onde quer que os soldados ingleses estejam agora, estarão aqui ao amanhecer, o que não falta muito, se pensarmos bem. Se esta mulher for uma espiã inglesa, não podemos nos arriscar a deixá-la aqui para lhes dizer para onde fomos. E se ela não estiver em bons termos com eles - olhou para mim em dúvida -, certamente não podemos deixar uma mulher sozinha aqui em suas roupas de baixo. - Animou-se um pouco, manuseando o tecido da minha saia. - Ela deve valer um bocado para um resgate; apesar da pouca roupa, é coisa fina.

- Além do mais — Dougal acrescentou, interrompendo -, ela pode ser útil no caminho; ela parece saber um pouco de cuidados médicos. Mas não temos tempo para isso agora. Receio que você tenha que passar sem ser "desinfetado", Jamie - disse, dando um tapa de leve nas costas do jovem. — Pode cavalgar com uma das mãos?

- Posso.

- Bom rapaz. Tome - disse, atirando o pano ensebado para mim. — Enfaixe o ferimento dele, depressa. Vamos partir imediatamente. Vocês dois, peguem os cavalos — disse, virando-se para o cara de fuinha e o gordo chamado Rupert.

Revirei o farrapo nas mãos com repugnância.

- Não posso usar isto - reclamei. - Está imundo.

Sem vê-lo se mover, deparei-me com o grandalhão agarrando-me pelo ombro, os olhos escuros a poucos centímetros dos meus.

- Ande logo — disse.

Libertando-me com um empurrão, caminhou a passos largos em direção à porta e desapareceu atrás de seus dois capangas. Bastante abalada, voltei-me para a tarefa de enfaixar o ferimento à bala da melhor forma possível. A idéia de usar o imundo lenço de pescoço era algo que minha formação de enfermeira não me deixava considerar. Tentei esconder minha confusão e pavor na tarefa de tentar encontrar algo mais adequado e, após uma busca rápida e inútil na pilha de farrapos, finalmente decidi-me por tiras de rayon rasgadas da bainha da minha combinação. Embora estivessem longe de estarem esterilizadas, era sem dúvida o material mais limpo à mão.

O linho da camisa do meu paciente era velho e gasto, mas ainda assim surpreendentemente forte. Com um certo esforço, rasguei o resto da manga e usei-a para improvisar uma tipóia. Dei um passo atrás para analisar o resultado do curativo improvisado e esbarrei no grandalhão, que entrara silenciosamente para observar.

Olhou com ar de aprovação para a minha obra.

— Bom trabalho, dona. Vamos, estamos prontos.

Dougal entregou uma moeda para a mulher e conduziu-me apressadamente para fora da cabana, seguido mais lentamente de Jamie, ainda um pouco pálido. Tendo se levantado do banquinho baixo, meu paciente mostrou ser bastante alto; ultrapassava Dougal em vários centímetros, ele próprio um homem bem alto.

Rupert, o sujeito de barba preta, e Murtagh seguravam seis cavalos, sussurrando-lhes palavras carinhosas em gaélico no escuro. Era uma noite sem lua, mas a luz das estrelas refletia-se nas tachas de metal das selas em lampejos prateados. Ergui os olhos e quase perdi a respiração, maravilhada; o céu noturno estava esplendorosamente coberto de estrelas de uma forma que eu jamais vira. Olhando para a floresta à minha volta, compreendi. Sem nenhuma cidade nas proximidades para velar o céu com sua luz, as estrelas dominavam a noite sem concorrência.

Então, parei de repente, sentindo muito mais frio do que o frescor da noite justificava. Nenhuma luz de cidades. "Que cidade?", a mulher lá dentro perguntara. Acostumada como eu estava a blecautes e ataques aéreos dos anos de guerra, a ausência de luz não me perturbara no começo. Mas estávamos em tempos de paz e as luzes de Inverness deveriam ser visíveis por vários quilômetros.

Os homens eram figuras indistintas na escuridão. Pensei em tentar escapar silenciosamente para o meio das árvores, mas Dougal, aparentemente adivinhando meus pensamentos, agarrou-me pelo cotovelo e empurrou-me em direção aos cavalos.

-Jamie, suba - disse. - A moça vai cavalgar com você. - Apertou meu cotovelo. - Pode segurar as rédeas, se Jamie não conseguir apenas com uma das mãos, mas tenha cuidado de se manter sempre perto de nós. Se tentar alguma outra coisa, cortarei sua garganta. Compreendeu?

Balancei a cabeça, a garganta seca demais para responder. Sua voz não era particularmente ameaçadora, mas eu acreditava em cada palavra. Eu era a menos inclinada a "tentar alguma coisa", já que não fazia a menor idéia do que eu poderia tentar. Não sabia onde estava, quem eram meus acompanhantes, por que estávamos partindo com tanta pressa ou para onde nos dirigíamos, mas não tinha nenhuma alternativa razoável a não ser acompanhá-los. Estava preocupada com Frank, que há muito tempo já devia ter começado a me procurar, mas aquele não parecia o momento mais adequado para mencioná-lo.

Dougal deve ter pressentido o meu movimento de cabeça, porque largou meu braço e abaixou-se ao meu lado. Fiquei parada, olhando estupidamente para ele, até ele dizer entre dentes:

- O pé, dona! Me dê o seu pé! Seu pé esquerdo. — acrescentou, contrariado. Rapidamente, tirei meu pé direito de sua mão e ergui o esquerdo.

Resmungando baixinho, ele me ergueu para a sela, na frente de Jamie, que me apertou contra si com o braço bom.

Apesar da estranheza geral da minha situação, senti-me grata pelo calor do jovem escocês. Cheirava fortemente a lenha queimada, sangue e odor masculino, mas o frio da noite atravessava meu vestido fino e fiquei contente em poder recostar-me contra ele.

Sem mais do que um leve tinir dos freios, partimos na noite estrelada. Não havia conversa entre os homens, somente uma cautelosa vigilância geral. Os cavalos começaram a trotar assim que chegamos à estrada e eu mesma sacolejava desconfortavelmente demais para querer falar, mesmo supondo que alguém estivesse disposto a me ouvir.

Meu companheiro parecia não estar tendo muita dificuldade, apesar de não poder usar a mão direita. Eu podia sentir suas coxas atrás das minhas, às vezes mexendo-se e pressionando para guiar o cavalo. Agarrei-me à borda da pequena sela para me manter sentada; eu já montara antes, mas não era nem de longe o cavaleiro que esse Jamie era.

Após algum tempo, chegamos a uma encruzilhada, onde paramos por um instante enquanto o careca e o líder confabulavam em voz baixa. Jamie largou as rédeas sobre o pescoço do cavalo, deixando que se afastasse para a margem da estrada para pastar, e começou a remexer-se e contorcer-se atrás de mim.

- Cuidado! - eu disse. - Não se remexa assim ou a atadura sairá! O que está tentando fazer?

- Soltar meu xale para cobri-la - respondeu. - Você está tremendo de frio. Mas não consigo fazer isso só com uma das mãos. Pode alcançar o prendedor do meu broche para mim?

Depois de muitos esforços desajeitados, conseguimos soltar o xale. Com uma destreza surpreendente, ele fez o tecido girar e recair, como uma manta, em torno dos seus ombros. Em seguida, puxou as pontas por cima dos meus ombros e prendeu-as cuidadosamente embaixo das bordas da sela, de modo que nós dois ficamos confortavelmente cobertos.

- Pronto! - disse. - Não vamos querer que você congele antes de chegarmos lá.

- Obrigada - eu disse, agradecida pela proteção. - Mas para onde estamos indo?

Eu não podia ver seu rosto, atrás e acima de mim, mas ele fez uma pausa antes de responder.

Finalmente, deu uma pequena risada.

- Para lhe dizer a verdade, dona, eu não sei. Acho que vamos descobrir quando chegarmos, não é?

Algo parecia ligeiramente familiar naquela região rural que estávamos atravessando. Eu não conhecia aquela grande formação rochosa à nossa frente, a que se parecia com um rabo de galo?

- Cocknammon Rock! - exclamei.

- Sim, acho que sim - disse meu acompanhante, pouco interessado naquela revelação.

- Os ingleses não a usavam para emboscadas? - perguntei, tentando me lembrar dos detalhes sombrios da história local com que Frank passara horas me regalando na semana passada. - Se houver uma patrulha inglesa na vizinhança... - hesitei. Se houvesse uma patrulha inglesa na vizinhança, talvez fosse um erro eu chamar atenção para isso. No entanto, no caso de uma emboscada, eu não seria distinguida de meu companheiro, cobertos como estávamos com um único xale. Além do mais, pensei novamente no capitão Jonathan Randall e estremeci involuntariamente. Tudo que eu vira desde que entrara na fenda da pedra apontava para a conclusão inteiramente irracional de que o homem que eu encontrara no bosque era na verdade o antepassado de Frank. Lutei obstinadamente contra essa conclusão, mas não era capaz de formular nenhuma outra que combinasse com os fatos.

No início, imaginei que estivesse apenas sonhando mais vividamente do que o normal, mas o beijo de Randall, rudemente familiar e imediatamente físico, dissipara essa impressão. Nem eu imaginava que tivesse sonhado que fora acertada com um golpe na cabeça por Murtagh; o ponto dolorido no meu couro cabeludo igualava a parte interna das minhas coxas roçando contra a sela, o que não tinha nada de fantasioso. E o sangue; sim, estava suficientemente familiarizada com sangue para já ter sonhado com ele. Mas nunca sonhei com o cheiro do sangue; aquele cheiro forte, penetrante, morno, que eu ainda sentia no homem atrás de mim.

Ele estalou a língua para tocar o cavalo e emparelhou com o líder, entabulando uma tranqüila conversa em gaélico com a sombra corpulenta. Os cavalos reduziram a marcha.

A um sinal do líder, Jamie, Murtagh e o homem pequeno e careca deixaram-se ficar para trás, enquanto os outros dois incitaram os cavalos com as esporas e galoparam em direção à rocha, a uns quatrocentos metros à nossa direita. Uma lua crescente surgira no céu e a claridade era suficiente para distinguir as folhas de malva que cresciam nas margens da estrada, mas as sombras nas reentrâncias da rocha poderiam esconder qualquer coisa.

No exato instante em que as figuras a galope passaram diante da enorme pedra, o lampejo do disparo de um mosquete brilhou de uma cavidade na parede da rocha. Um grito de gelar o sangue nas veias partiu de trás de mim e o cavalo deu um salto para a frente como se tivesse sido espetado com uma vara pontuda. De repente, estávamos correndo desabalados em direção à rocha, através das urzes, Murtagh e os outros homens ao lado, berros horripilantes cortando o ar da noite.

Agarrei-me com todas as forças no arção da sela. De repente, puxando as rédeas e freando perto de um grande arbusto de tojo, Jamie agarrou-me pela cintura e sem nenhuma cerimônia descarregou-me sobre ele. O cavalo girou bruscamente e disparou outra vez, dando a volta na rocha para vir pelo lado sul. Pude ver o cavaleiro agachar-se bem baixo na sela enquanto o cavalo desaparecia nas sombras da rocha. Quando surgiu novamente, ainda galopando, a sela estava vazia.

As superfícies da rocha eram cravejadas de sombras; podia ouvir gritos e um ou outro tiro de mosquete, mas, não conseguia saber se os movimentos que via eram dos homens ou apenas as sombras dos carvalhos atrofiados que brotavam nas fendas da rocha.

Desembaracei-me do arbusto com alguma dificuldade, tirando fragmentos espinhosos de tojo da minha saia e dos meus cabelos. Lambi um arranhão em minha mão, perguntando-me o que deveria fazer agora. Poderia esperar que a batalha na rocha fosse decidida. Se os escoceses vencessem, ou ao menos sobrevivessem, imaginei que poderiam voltar à minha procura. Caso contrário, eu poderia aproximar-me dos ingleses, que poderiam presumir que, se eu estava viajando com os escoceses, deveria estar mancomunada com eles. Mancomunada para fazer o quê eu não fazia a menor idéia, mas era óbvio pelo comportamento dos homens na cabana que estavam empenhados em alguma coisa que os ingleses deveriam desaprovar inteiramente.

Talvez fosse melhor evitar os dois lados do conflito. Afinal, agora que eu sabia onde estava, tinha alguma chance de voltar a uma cidade ou vila que eu conhecesse, ainda que tivesse que percorrer todo o trajeto a pé. Parti decididamente em direção à estrada, tropeçando em incontáveis pedaços de granito, os filhotes bastardos de Cocknammon Rock.

O luar tornava a caminhada enganadora; embora pudesse ver cada detalhe do solo, não tinha percepção de profundidade; plantas rasteiras e pedras pontiagudas pareciam ter a mesma altura, fazendo com que eu levantasse meus pés absurdamente alto sobre obstáculos inexistentes e desse topada com os dedos nas pedras protuberantes. Andava o mais rápido que conseguia, atenta aos sons de perseguição atrás de mim.

Os ruídos da batalha haviam desaparecido quando cheguei à estrada. Percebi que ficaria muito visível na estrada, mas precisava segui-la, se quisesse encontrar meu caminho para uma cidade. Não tinha nenhuma noção de direção no escuro e nunca aprendera com Frank sua habilidade de se orientar pelas estrelas. Pensar em Frank me deu vontade de chorar, então tentei distrair-me procurando compreender os acontecimentos daquela tarde.

Parecia inconcebível, mas todas as evidências indicavam que eu estava em um lugar onde os costumes e a política do final do século XVIII ainda vigoravam. Eu teria imaginado que tudo não passava de algum tipo de espetáculo à fantasia, se não fosse pelos ferimentos do jovem a quem chamam de Jamie. Aquele ferimento fora realmente provocado por algo muito semelhante a um tiro de mosquete, a julgar pelos estragos que deixara. O comportamento dos homens na cabana também não era consistente com nenhum tipo de representação teatral. Eram homens sérios e as adagas e espadas eram reais.

Poderia ser algum enclave isolado do resto do mundo, talvez, onde os aldeões reencenavam parte de sua história periodicamente? Ouvi falar de coisas semelhantes na Alemanha, embora nunca na Escócia. Você também nunca ouviu falar dos atores atirarem uns contra os outros com mosquetes, ouviu? Escarnecia a parte incomodamente racional da minha mente.

Olhei para trás, para a rocha, a fim de verificar a minha posição, depois para a frente, para o horizonte, e meu sangue congelou nas veias. Não havia nada lá senão os galhos pontiagudos dos pinheiros, impenetravelmente negros contra a vastidão de estrelas. Onde estavam as luzes de Inverness? Se esta era Cocknammon Rock atrás de mim, como eu sabia que era, então Inverness deveria estar a menos de cinco quilômetros a sudoeste. A essa distância, eu deveria poder ver o clarão da cidade contra o céu. Se ela estivesse lá.

Sacudi a cabeça com irritação, abraçando meus cotovelos contra o frio. Mesmo admitindo por um instante a idéia completamente implausível de que eu estivesse em outro tempo que não o meu, Inverness já existia no lugar atual há cerca de seiscentos anos. Ela estava lá. Mas, tudo indicava, não tinha luz. Nas circunstâncias atuais, isso indicava que não havia luz elétrica. Mais uma prova, se eu precisava. Mas prova de quê, exatamente?

Uma figura saiu da escuridão tão perto de mim que eu quase esbarrei nela. Contendo um grito, virei-me para correr, mas a mão grande e forte agarrou meu braço, impedindo-me de fugir.

— Não se preocupe, dona. Sou eu.

— Era o que eu temia — disse asperamente, embora na realidade ficasse aliviada por ser Jamie. Eu não sentia tanto medo dele quanto dos outros homens, embora parecesse igualmente perigoso. Ainda assim, ele era jovem, até mais novo do que eu, concluí. Era difícil para mim sentir medo de alguém a quem há tão pouco tempo eu havia tratado como meu paciente.

— Espero que não tenha usado esse ombro - eu disse, num tom de censura de uma enfermeira-chefe de hospital. Se eu pudesse estabelecer um certo tom de autoridade, talvez pudesse convencê-lo a me deixar partir.

— Aquele confronto não ajudou muito - admitiu, massageando o ombro com a mão livre.

Nesse momento, ele entrou numa faixa de luar e eu pude ver a enorme mancha de sangue na frente de sua camisa. Sangramento arterial, pensei imediatamente; mas, então, como ele ainda está de pé?

- Você está ferido! - exclamei. - Você abriu o ferimento do ombro ou é um ferimento novo? Sente-se, deixe-me ver! - Empurrei-o para uma pilha de pedras, repensando rapidamente os procedimentos para tratamento emergencial em campo. Nenhum recurso à mão, a não ser o que eu estava usando. Estava pegando o que restava da minha combinação, pretendendo usá-la para estancar o sangramento, quando ele riu.

- Não, não se preocupe, dona. Esse não é meu sangue. Pelo menos, grande parte dele - acrescentou, cuidadosamente afastando o tecido encharcado do seu corpo.

Engoli em seco, sentindo-me um pouco tonta.

- Ah - balbuciei.

- Dougal e os outros estão esperando na estrada. Vamos. - Segurou-me pelo braço, menos um gesto cavalheiresco do que uma forma de me forçar a acompanhá-lo. Resolvi arriscar e finquei os calcanhares no chão.

- Não! Eu não vou com vocês!

Ele parou, surpreso com a minha resistência.

- Vai, sim.

Não parecia contrariado com a minha recusa; na verdade, parecia achar engraçado que eu me recusasse a ser seqüestrada outra vez.

- E se eu não for? Vai cortar minha garganta? - perguntei, forçando a discussão. Ele considerou as alternativas e respondeu calmamente.

- Ora, não. Você não parece pesada. Se não andar, vou pegá-la e carregá-la no ombro. Quer que eu faça isso? - Deu um passo em minha direção e eu recuei apressadamente. Não tinha a menor dúvida de que ele faria exatamente isso, ferido ou não.

- Não! Não pode fazer isso; vai prejudicar o ombro outra vez.

Não era possível distinguir suas feições com clareza, mas o luar fez seus dentes brilharem quando ele riu.

- Bem, então, já que não deseja que eu me machuque, suponho que isso signifique que vai me acompanhar?

Busquei desesperadamente uma resposta, mas não consegui encontrar uma a tempo. Tomou meu braço outra vez, com firmeza, e partimos em direção à estrada.

Jamie segurava meu braço com força, erguendo-me e equilibrando-me quando eu tropeçava em pedras e plantas. Ele próprio caminhava como se a charneca cheia de tocos e buracos fosse uma estrada pavimentada em plena luz do dia. Ele tem sangue de gato, refleti amargamente, sem dúvida foi assim que conseguiu se aproximar tão silenciosamente de mim no escuro.

Os outros homens estavam, como anunciado, esperando com os cavalos a pouca distância; aparentemente, não houve perdas ou feridos, pois estavam todos presentes. Erguendo-me com dificuldade e de modo vexatório, deixei-me cair na sela outra vez. Minha cabeça deu uma pancada involuntária no ombro ferido de Jamie e ele prendeu a respiração com um chiado.

Tentei disfarçar meu ressentimento por ter sido recapturada e meu remorso por tê-lo machucado com um ar de ameaçadora impertinência.

- Bem feito, brigando por aí e correndo atrás dos outros no meio do mato e das pedras. Eu lhe disse para não mexer a articulação; agora, provavelmente tem músculos distendidos, além de contusões.

Ele parecia divertir-se com minha repreensão.

- Bem, não tive muita escolha. Se não movesse meu ombro, nunca mais ia mover nada. Posso dar conta de um soldado inglês com uma das mãos, talvez até mesmo de dois - disse, gabando-se um pouco -, mas não de três.

- Além do mais - disse, puxando-me para junto de sua camisa coberta de sangue —, você pode cuidar dele para mim quando chegarmos onde estamos indo.

- É o que você pensa - eu disse friamente, afastando-me do tecido pegajoso. Ele estalou a língua para o cavalo e partimos outra vez. Os homens estavam exaltados e bem-humorados após a luta e havia muito riso e brincadeiras. Minha pequena participação em abortar a emboscada foi muito elogiada e brindes foram feitos em minha honra com os frascos que vários dos homens carregavam.

Ofereceram-me um pouco do conteúdo, mas logo declinei com a justificativa de que já achava bastante difícil me manter na sela estando sóbria. Da discussão dos homens, compreendi que se tratara de uma pequena patrulha de cerca de dez soldados ingleses, armados com mosquetes e sabres.

Alguém passou um frasco para Jamie e pude sentir o cheiro da bebida forte enquanto ele bebia. Eu não estava com sede, mas o leve aroma de mel me fez lembrar que estava faminta e já há algum tempo. Meu estômago roncou com um barulho alto e constrangedor, protestando contra a minha negligência.

- Ei, Jamie, meu rapaz! Com fome, hein? Ou tem uma gaita de foles aí com você? — gritou Rupert, confundindo a origem do ruído.

- Com fome suficiente para comer um monte de gaitas de foles, eu acho - Jamie gritou, elegantemente assumindo a culpa. Um instante depois, sua mão surgiu à minha frente com um frasco.

- É melhor tomar um pequeno gole - sussurrou para mim. - Não vai encher sua barriga, mas vai fazer você esquecer que está com fome.

E muitas outras coisas também, esperava. Inclinei o frasco e engoli.

Meu acompanhante tinha razão; o uísque criou um leve e agradável calor que queimou confortavelmente no meu estômago, encobrindo a fome aguda. Prosseguimos sem outros incidentes por vários quilômetros, revezando tanto com as rédeas quanto com o frasco de uísque. Entretanto, perto de uma cabana em ruínas, a respiração regular do meu acompanhante mudou gradativamente para uma respiração arquejante e entrecortada. Nosso precário equilíbrio, até aqui controlado num balanço sóbrio, tornou-se muito mais errático. Fiquei confusa; se eu não estava bêbada, parecia improvável que ele estivesse.

- Parem! Ajudem! - gritei. — Ele vai cair! - Lembrei-me da minha última descida repentina e não estava inclinada a repeti-la.

Vultos escuros fizeram a volta e aglomeraram-se à nossa volta, num sussurro confuso de vozes. Jamie deslizou de cima do cavalo de cabeça, como um saco de pedras, felizmente aterrissando nos braços de alguém. Quando finalmente consegui desmontar, o resto dos homens já descera dos cavalos e o deitara no chão.

- Está respirando - alguém disse.

- Bem, grande ajuda - retruquei, buscando freneticamente sentir seu pulso na escuridão. Encontrei-o finalmente, rápido, mas bastante forte. Colocando a mão em seu peito e o ouvido junto à sua boca, pude sentir uma subida e uma descida regular, menos arquejante. Ergui-me.

- Acho que ele apenas desmaiou - eu disse. - Coloque um alforje sob seus pés e, se houver água, tragam um pouco. — Fiquei surpresa de ver que minhas ordens foram imediatamente obedecidas. Aparentemente, o jovem era importante para eles. Ele resmungou e abriu os olhos, as olheiras negras sob a luz das estrelas. Na luz fraca, seu rosto parecia uma caveira, a pele branca estendida sobre os ossos proeminentes em torno das órbitas.

- Estou bem - disse, tentando se sentar. - Só um pouco tonto. -Coloquei a mão em seu peito e obriguei-o a deitar-se outra vez.

- Deite-se quieto — ordenei. Fiz um rápido exame com as mãos, ergui-me sobre os joelhos e me virei para uma figura que assomava acima de mim e que deduzi, pelo tamanho, que deveria ser o líder, Dougal.

- O ferimento de bala está sangrando outra vez e o idiota foi esfaqueado também. Acho que não é grave, mas ele perdeu muito sangue. Sua camisa está ensopada, mas não sei quanto desse sangue é dele. Precisa repousar e ficar quieto; deveríamos acampar aqui pelo menos até amanhecer.

A figura fez um movimento negativo.

- Não. Estamos mais longe do que a guarnição se aventuraria, mas ainda temos que nos preocupar com a patrulha. Ainda temos mais de trinta quilômetros de viagem. - A cabeça sem feições inclinou-se para trás, estimando o movimento das estrelas.

- Cinco horas, pelo menos, e mais provável sete. Podemos ficar o tempo suficiente para você estancar o sangramento e fazer um novo curativo; não muito mais do que isso.

Comecei a trabalhar, resmungando comigo mesma, enquanto Dougal, com um sussurro, despachou uma das outras sombras para montar guarda junto aos cavalos perto da estrada. Os outros homens relaxaram, bebendo de seus frascos e conversando em voz baixa. Murtagh, com seu rosto de fuinha, ajudava-me, rasgando tiras de linho, buscando mais água e erguendo o paciente para que a atadura fosse colocada, já que Jamie estava terminantemente proibido de se mexer, apesar de reclamar que estava perfeitamente bem.

- Você não está bem e não é de admirar — retruquei, dando vazão ao meu medo e irritação. - Que tipo de idiota é esfaqueado e não pára nem para cuidar do ferimento? Não podia ter dito que estava sangrando? Tem sorte de não estar morto, andando por aí a noite toda, brigando, lutando e se atirando de cima de cavalos... fique quieto, seu tolo desgraçado. - As tiras de linho e de rayon com que eu trabalhava eram irritantemente enganosas no escuro. Escorregavam, escapando da minha mão, como peixes arremessando-se para águas profundas com um lampejo zombeteiro de barrigas brancas. Apesar do frio, o suor escorria pelo meu pescoço. Finalmente, consegui amarrar uma das pontas e tentei alcançar a outra, que insistia em deslizar para trás do meu paciente.

- Volte aqui, seu... ah, seu desgraçado maldito filho-da-mãe! -Jamie mexera-se e a ponta que já estava amarrada se soltou.

Fez-se um momento de silêncio chocado.

- Nossa! — exclamou o gordo de nome Rupert. - Nunca ouvi uma mulher usar essa linguagem em toda a minha vida.

- Então você não conheceu minha tia Grisel - disse outra voz, seguida de uma risada geral.

- Seu marido devia lhe ensinar, dona - retorquiu uma voz austera saída da escuridão sob uma árvore. - São Paulo disse "Que uma mulher fique em silêncio e..."

- Meta-se com sua vida - falei entre dentes, o suor escorrendo por trás de minhas orelhas - e São Paulo também. - Limpei a testa com a manga do meu vestido. - Vire-o para a esquerda. E se você - dirigindo-me a meu paciente - mover um músculo sequer enquanto eu estiver amarrando essa atadura, vou esganá-lo.

- Ah, está bem - respondeu docemente.

Puxei com muita força a última atadura e todo o curativo se soltou.

- Maldito, que vá para o inferno! - berrei, batendo a mão no chão, frustrada. Fez-se outro momento de silêncio escandalizado e, em seguida, enquanto eu tateava no escuro procurando as pontas soltas da atadura, ouviram-se novos comentários a respeito da minha linguagem nada feminina.

- Talvez devêssemos enviá-la para St. Anne, Dougal - sugeriu uma das figuras sem rosto agachada junto à estrada. - Não ouvi Jamie praguejar nem uma vez desde que deixamos a costa e ele costumava ter uma boca de deixar qualquer marinheiro envergonhado. Quatro meses em um mosteiro devem ter surtido algum efeito. Você já nem usa o nome de Deus em vão, não é, rapaz?

- Você também não usaria se tivesse que pagar penitência por isso deitado por três horas no meio da noite no chão de pedra de uma capela, em fevereiro, vestindo apenas a sua camisa - respondeu meu paciente.

Todos os homens riram, enquanto ele continuava.

- A penitência foi apenas de duas horas, mas foi preciso mais uma para conseguir me levantar do chão; eu achei que meu... hã, eu achei que tinha congelado até os ossos, mas só estava emperrado.

Aparentemente, sentia-se melhor. Sorri involuntariamente, mas ainda assim falei com firmeza:

- Você fique quieto aí ou vou machucá-lo.

Tocou com cuidado no curativo e eu afastei sua mão com um tapa.

- Ah, ameaças, hein? — perguntou com insolência. — E mesmo depois de eu ter compartilhado minha bebida com você!

O frasco terminou de percorrer a roda de homens. Ajoelhando-se ao meu lado, Dougal inclinou-o cuidadosamente para que o paciente bebesse. O cheiro penetrante, queimado, do uísque nada refinado elevou-se no ar e eu coloquei a mão no frasco, retendo-o.

- Nada mais de bebida alcoólica — eu disse. — Ele precisa de chá ou, na pior das hipóteses, água. Não de álcool.

Dougal puxou o frasco da minha mão, ignorando-me completamente, e despejou um grande gole da aguardente pela garganta do meu paciente, fazendo-o tossir. Esperando apenas o suficiente para que o homem deitado no chão recuperasse o fôlego, repetiu a dose.

- Pare com isso! - Tentei pegar o uísque outra vez. - Quer que ele fique tão bêbado que não consiga ficar em pé?

Fui rudemente afastada com uma cotovelada.

- Uma bruxa mal-humorada, não é? - disse meu paciente, achando graça.

- Cuide de sua vida, dona - Dougal ordenou. - Ainda temos um bom caminho para percorrer esta noite e ele vai precisar de todas as forças que a bebida puder lhe dar.

Assim que as ataduras foram bem amarradas, meu paciente tentou sentar-se. Empurrei-o de costas outra vez e finquei o joelho no seu peito para mantê-lo na posição.

- Você não vai se mexer — eu disse, furiosa. Agarrei a bainha do kilt de Dougal e puxei-a rudemente, fazendo com que se ajoelhasse novamente ao meu lado.

— Olhe isso — ordenei, no melhor tom de enfermeira-chefe. Enfiei em sua mão a trouxa encharcada da camisa descartada. Ele deixou-a cair no chão com uma exclamação de nojo.

Peguei sua mão e coloquei-a no ombro do paciente.

- E olhe aqui. Algum tipo de lâmina atravessou o músculo trapézio.

— Uma baioneta - acrescentou o paciente, solícito.

— Uma baioneta! - exclamei. — E por que não me disse? Encolheu os ombros e reprimiu um leve grunhido de dor.

— Senti quando entrou, mas não sabia se o ferimento fora grande. Não doeu muito.

- Está doendo agora?

- Está - respondeu laconicamente.

- Ótimo — retruquei, completamente irritada. - Você merece. Talvez isso lhe ensine a não sair por aí correndo, seqüestrando mulheres e matando pessoas e... - senti-me ridiculamente à beira das lágrimas e parei, lutando para me controlar.

Dougal estava ficando impaciente com aquela conversa.

— Bem, você consegue manter um pé de cada lado do cavalo, rapaz?

- Ele não pode ir a lugar algum! - protestei, indignada. - Ele devia estar no hospital! Certamente não pode...

Meus protestos, como sempre, foram completamente ignorados.

— Pode montar? — Dougal repetiu.

- Sim, se você tirar a moça de cima do meu peito e me arranjar uma camisa limpa.

 

O resto da viagem transcorreu sem novos incidentes, se não considerarmos incidentes cavalgar mais de trinta quilômetros por uma região agreste à noite, em geral sem o benefício de estradas, na companhia de homens de kilt armados até os dentes e compartilhando um cavalo com um ferido. Ao menos, não fomos emboscados por ladrões de estrada, não nos deparamos com nenhum animal feroz e não choveu. Pelos padrões a que estava ficando acostumada, foi bastante sem graça.

O alvorecer aproximava-se com raios e faixas de luz sobre a charneca enevoada. Nosso destino assomou à frente, uma enorme construção de pedra escura delineada contra a luz cinzenta.

A vizinhança já não era tranqüila e deserta. Havia um pequeno fluxo de pessoas grosseiramente vestidas dirigindo-se ao castelo. Deslocaram-se para a margem da estrada estreita para deixar os cavalos passarem, olhando com espanto para minhas roupas, que obviamente consideravam estranhas.

Como se poderia esperar, a neblina era espessa, mas havia luz suficiente para revelar uma ponte de pedra, formando um arco sobre um riacho que corria em frente ao castelo, em direção a um lago que brilhava fosca-mente a uns quatrocentos metros de distância.

O castelo em si era sólido e de linhas bruscas. Nada de pequenas torres excêntricas ou muralhas denteadas. Parecia mais uma enorme fortaleza, com grossos muros de pedra e janelas altas e estreitas, não mais do que uma fenda. Diversas chaminés soltavam fumaça acima das pedras lisas do telhado de ardósia, contribuindo para a impressão cinzenta geral.

Os portões de entrada do castelo eram suficientemente largos para deixarem passar duas carroças lado a lado. Digo isso sem receio de contradição, porque era exatamente o que estava acontecendo quando atravessávamos a ponte. Uma das carroças puxadas a bois estava carregada de barris e a outra de feno. Nossa pequena procissão de cavaleiros aglomerou-se na ponte, esperando impacientemente que as carroças terminassem sua difícil entrada.

Arrisquei uma pergunta enquanto os cavalos avançavam com cuidado pelas pedras escorregadias do pátio molhado. Não falara com meu acompanhante desde que refizera o curativo de seu ombro à beira da estrada. Ele também permanecera em silêncio, exceto por um ou outro gemido de desconforto quando um passo em falso do cavalo o sacudia.

- Onde estamos? - perguntei, a voz rouca do frio e da falta de uso.

- Na fortaleza Leoch - respondeu laconicamente.

Castelo Leoch. Bem, ao menos agora eu sabia onde estava. Quando o conheci, o Castelo Leoch era uma ruína pitoresca, a uns cinqüenta quilômetros ao norte de Bargrennan. Era bem mais pitoresco agora, com os porcos fuçando a terra sob as muralhas da fortaleza e o penetrante mau cheiro de esgoto não tratado. Eu estava começando a aceitar a idéia fantástica de que eu estava, provavelmente, em algum momento do século XVIII.

Tinha certeza de que tanta sujeira e caos não existiam em nenhum lugar da Escócia de 1945, com ou sem crateras de bombas. E definitivamente estávamos na Escócia; o sotaque das pessoas no pátio do castelo não deixava nenhuma dúvida a respeito.

- Olá, Dougal - gritou um cavalariço, correndo para agarrar o cabresto do cavalo do líder. - Chegou cedo, hein! Não esperávamos vê-lo antes do Grande Encontro!

O líder de nosso pequeno grupo desceu da sela, deixando as rédeas com o jovem imundo.

- Sim, bem, tivemos sorte, tanto boa quanto má. Vou ver meu irmão. Pode chamar a sra. Fitz para dar comida aos rapazes? Estão precisando de uma refeição e de camas.

Fez sinal para que Murtagh e Rupert o acompanhassem e, juntos, desapareceram sob um arco pontiagudo.

O resto de nós desmontou e ficou parado no pátio úmido, soltando o vapor da respiração, por mais uns dez minutos até que a sra. Fitz, quem quer que fosse, concordou em aparecer. Um punhado de crianças curiosas reuniu-se à nossa volta, especulando sobre a minha possível origem e função. Os mais ousados começavam a reunir coragem para tocar a minha saia quando uma mulher robusta e decidida, vestida de linho rústico marrom-escuro, tecido em tear manual, surgiu com grande estardalhaço e botou as crianças em fuga.

- Willy, querido! - gritou. - Que bom ver você! E Neddie! - Deu um caloroso beijo de boas-vindas no homenzinho careca que quase o derrubou. - Imagino que estejam mortos de fome. Há muita comida na cozinha. Vão lá e sirvam-se. — Virando-se para mim e Jamie, deu um salto para trás como se tivesse sido mordida por uma cobra. Olhou-me estupefata, depois se virou para Jamie em busca de uma explicação para aquela aparição.

- Claire - ele disse, com uma ligeira inclinação da cabeça em minha direção. - É a sra. Fitz-Gibbons - acrescentou, com uma inclinação para o outro lado. — Murtagh encontrou-a ontem e Dougal disse que deveríamos trazê-la conosco - acrescentou, deixando claro que não adiantava culpá-lo.

A sra. Fitz-Gibbons fechou a boca e olhou-me de cima a baixo com um ar de sábia avaliação. Aparentemente, concluiu que eu parecia bastante inofensiva, independente da minha aparência estranha e escandalosa, porque sorriu - afavelmente, apesar da ausência de vários dentes - e tomou-me pelo braço.

- Bem, Claire. Seja bem-vinda. Venha comigo e encontraremos algo um pouco mais...hum... - Examinou minha saia curta e sapatos inadequados, sacudindo a cabeça.

Conduzia-me com firmeza para longe dos demais quando me lembrei do meu paciente.

- Ah, espere, por favor! Esqueci-me de Jamie! A sra. Fitz-Gibbons surpreendeu-se.

- Ora, Jamie pode se defender sozinho. Ele sabe onde encontrar comida e alguém achará uma cama para ele.

- Mas ele está ferido. Levou um tiro ontem e foi esfaqueado à noite. Fiz uma atadura para que ele pudesse cavalgar, mas não tive tempo de limpar o ferimento ou fazer um curativo adequado. Tenho que cuidar disso agora, antes que fique infeccionado.

- Infeccionado?

- Sim, isto é, quer dizer, antes que inflame, sabe, fique inchado e com pus e tenha febre.

- Ah, sim, entendi. Mas quer dizer que você sabe o que fazer nesse caso? É uma feiticeira, então? Uma Beatori?

- Algo assim. — Não fazia a menor idéia do que uma Beaton poderia ser, nem tinha nenhuma vontade de entrar em detalhes a respeito das minhas qualificações médicas, ali parada na garoa fria que começara a cair. A sra. Fitz-Gibbons pareceu ser da mesma opinião, pois chamou Jamie, que partia na direção oposta, e tomando-o pelo braço também, nos arrastou para dentro do castelo.

Após uma longa caminhada por corredores estreitos e frios, mal iluminados por janelas que não passavam de fendas nas paredes, chegamos a um aposento razoavelmente grande, equipado com uma cama, uns dois bancos e, mais importante, uma lareira.

Ignorei meu paciente temporariamente, até descongelar minhas mãos. A sra. Fitz-Gibbons, aparentemente imune ao frio, fez Jamie sentar-se em um dos bancos junto à lareira e delicadamente retirou os restos de sua camisa esfarrapada, substituindo-a por uma coberta quente que tirou da cama. Estalou a língua em desaprovação ao ver seu ombro, que estava roxo e inchado, e cutucou meu desajeitado curativo.

Virei-me do fogo.

- Acho que vai ter que ser molhado para ser retirado e depois o ferimento terá que ser limpo com uma solução para... para evitar febres.

A sra. Fitz-Gibbons teria sido uma ótima enfermeira.

- O que você vai precisar? - perguntou simplesmente.

Pensei diligentemente. O que, em nome de Deus, as pessoas usavam para evitar infecção antes do surgimento de antibióticos? E daquelas limitadas fórmulas, quais poderiam estar disponíveis em um primitivo castelo escocês logo ao amanhecer?

— Alho! - disse, triunfante. - Alho e, se tiver, hamamélis. Também vou precisar de várias tiras limpas e de uma chaleira para ferver água.

— Ah, sim, acho que podemos arranjar isso; talvez um pouco de confrei também. Que tal um pouco de chá de eupatório, ou de camomila? Parece que esse rapaz atravessou uma longa noite.

O jovem na verdade mal conseguia permanecer sentado, cansado demais para protestar contra o fato de estarmos discutindo a seu respeito como se fosse um objeto inanimado.

Logo a sra. Fitz-Gibbons estava de volta, com um avental cheio de cabeças de alho, saquinhos de gaze de ervas secas e tiras de linho. Uma pequena chaleira preta de ferro pendia do braço carnudo e ela segurava um grande garrafão empalhado de água como se não passasse de penugem de ganso.

— Bem, minha querida, o que quer que eu faça? - disse animadamente. Pedi que fervesse água e fosse descascando os dentes de alho, enquanto eu inspecionava o conteúdo dos pacotes de ervas. Lá estavam a hamamélis que eu pedira, o eupatório e o confrei para chá e algo que identifiquei experimentalmente como casca de cerejeira.

- Analgésico - murmurei alegremente, lembrando-me do sr. Crook explicando-me as propriedades das cascas e ervas que encontrávamos. Ótimo, íamos precisar disso.

Atirei vários dentes de alho na água fervente com um pouco da hamamélis, em seguida acrescentei as tiras de pano na mistura. O confrei, o eupatório e a casca de cerejeira estavam em infusão em uma pequena panela de água quente colocada junto ao fogo. Os preparativos haviam me animado um pouco. Se não sabia ao certo onde estava, ou por que estava ali, ao menos sabia o que fazer nos próximos quinze minutos.

- Obrigada... ah, sra. Fitz-Gibbons - eu disse respeitosamente. — Posso dar conta sozinha agora, se tem outras coisas para fazer. - A corpulenta senhora riu, os seios erguendo-se.

- Ah, menina! Tenho realmente muitas coisas para fazer! Mandarei um pouco de sopa aqui para vocês. Mande me chamar se precisar de alguma coisa. - Saiu gingando em direção à porta com uma velocidade surpreendente e desapareceu para cuidar de seus afazeres.

Retirei as ataduras com o maior cuidado possível. Ainda assim, o chumaço de rayon grudara na carne e saiu com um pequeno estalido de sangue seco. Gotículas de sangue afloraram nas bordas do ferimento e eu pedi desculpas por estar machucando-o, embora ele não tivesse se mexido ou emitido nenhum som.

Ele sorriu ligeiramente, talvez com um leve toque de flerte.

- Não se preocupe, dona. Já sofri ferimentos muito mais graves e por pessoas bem menos bonitas.

Inclinou-se para a frente para que eu pudesse lavar o ferimento com a decocção de alho e a coberta escorregou de seus ombros.

Vi imediatamente que, fosse ou não um elogio, seu comentário era a afirmação de um fato verdadeiro; ele sofrera ferimentos muito mais graves. A parte de cima de suas costas era encoberta de esmaecidas linhas brancas entrecruzadas. Ele havia sido cruelmente açoitado. E mais de uma vez. Havia pequenos vergões de tecido prateado em alguns pontos, onde as chicotadas se cruzavam, e áreas irregulares onde vários golpes haviam atingido o mesmo ponto, esfolando a pele e cortando o músculo.

Eu já vira, é claro, uma grande variedade de ferimentos e machucados, sendo uma enfermeira no campo de batalha, mas havia algo naquelas cicatrizes que parecia terrivelmente brutal. Devo ter prendido a respiração ao vê-las, porque ele virou a cabeça e viu a expressão do meu rosto. Encolheu o ombro bom.

- Soldados ingleses. Me açoitaram duas vezes no espaço de uma semana. Teriam feito isso duas vezes no mesmo dia, eu acho, se não tivessem medo de me matar. Não há graça em açoitar um homem morto.

Tentei manter a voz firme enquanto limpava seu ferimento.

- Não imagino que alguém possa fazer isso por prazer.

- Não? Deveria tê-lo visto.

- Quem?

- O capitão inglês que arrancou a pele das minhas costas. Se não estava exatamente feliz, estava pelo menos muito satisfeito consigo mesmo. Mais do que eu - acrescentou ironicamente. - Seu nome era Randall.

- Randall! — Não consegui disfarçar a surpresa em minha voz. Olhos azuis e frios fitaram os meus.

- Conhece o sujeito? - A voz tornou-se repentinamente desconfiada.

- Não, não! Conheci uma família com este nome há muito, muito tempo. - Em meu nervosismo, deixei cair o pano com que limpava o ferimento.

- Droga, agora vai ter que ser fervido outra vez. - Peguei-o do chão e saí às pressas em direção à lareira, tentando esconder o estado de confusão em que me encontrava. Seria possível que esse capitão Randall fosse o ancestral de Frank, o soldado com excelentes referências, galante no campo de batalha, digno de louvores de duques? E se assim fosse, poderia alguém aparentado do meu amável e gentil Frank ser capaz de infligir as horripilantes marcas nas costas daquele rapaz?

Procurei me manter ocupada junto ao fogo, despejando mais alguns punhados de hamamélis e alho na água, colocando mais panos para ferver. Quando achei que conseguia controlar minha voz e meu rosto, voltei para perto de Jamie, o pano na mão.

- Por que foi açoitado? — perguntei bruscamente.

Não foi muito educado perguntar, mas eu queria saber e estava cansada demais para fazer uma colocação menos brusca.

Ele suspirou, remexendo o ombro nervosamente sob os meus cuidados. Também estava cansado e eu sem dúvida estava machucando-o, por mais delicada que procurasse ser.

- A primeira vez foi fuga e a segunda foi roubo, ou ao menos era o que dizia a acusação.

- De que estava fugindo?

- Dos ingleses - ele disse, erguendo a sobrancelha ironicamente. - Se quer saber de onde, Fort William.

- Imaginei que fosse dos ingleses - eu disse, com a mesma aridez do seu tom de voz. - O que estava fazendo em Fort William para começar?

Esfregou a testa com a mão livre.

- Ah, sim. Acho que foi obstrução.

- Obstrução, fuga e roubo. Você parece um sujeito perigoso - disse em tom de brincadeira, esperando distraí-lo do que eu estava fazendo.

Funcionou ao menos um pouco; um dos cantos de sua boca ergueu-se e um olho azul-escuro brilhou por cima do seu ombro em minha direção.

- Ah, sou mesmo — ele disse. - É de admirar que se sinta segura no mesmo quarto, comigo e sendo você uma rapariga inglesa.

- Bem, no momento você parece bastante inofensivo. — Isto era totalmente falso; sem camisa, com cicatrizes e sujo de sangue, com a barba por fazer e olheiras roxas da longa viagem noturna, parecia assustador. E cansado ou não, parecia inteiramente capaz de causar mais desordem, caso a necessidade se apresentasse.

Riu, um riso surpreendentemente profundo e contagiante.

- Inofensivo como um pombo - concordou. - Estou faminto demais para ser uma ameaça para qualquer coisa que não seja uma refeição. Mas deixe um pão que acabou de assar passar por perto e não respondo pelas conseqüências. Oooh!

- Perdão — murmurei. - O ferimento da lâmina foi fundo e está sujo.

- Tudo bem. - Mas ele ficara pálido sob o tom acobreado da barba espetada. Tentei trazê-lo de volta à conversa.

- O que exatamente significa obstrução? - perguntei despreocupada-mente. — Devo dizer que não parece um crime grave.

Ele respirou fundo, fixando os olhos resolutamente na perna esculpida da cama, enquanto eu limpava mais fundo.

- Ah. Bem, suponho que seja qualquer coisa que os ingleses digam que é. No meu caso, significava defender minha família e minha propriedade e quase ser morto por isso. - Apertou os lábios, como se não quisesse prosseguir, mas após um instante continuou, como se procurasse concentrar sua atenção em qualquer outra coisa que não fosse o seu ombro.

- Foi há quase quatro anos. Criaram um tributo para os proprietários de terras próximas de Fort William: alimentos para a guarnição, cavalos para transporte e coisas assim. Ninguém gostava, mas a maioria dava o que tinha que dar. Pequenos grupos de soldados passavam de casa em casa com um oficial e uma ou duas carroças, recolhendo os alimentos e objetos. E um dia em outubro, o capitão Ranftil veio até... — ele calou-se subitamente, conteve-se rapidamente, com um rápido olhar em minha direção —...a nossa propriedade.

Balancei a cabeça, encorajando-o a continuar, os olhos fixos no meu trabalho.

- Nós pensávamos que eles não iriam tão longe; o lugar fica a uma boa distância do forte e o caminho é difícil. Mas eles foram.

Fechou os olhos por um instante.

- Meu pai não estava, fora a um enterro na fazenda vizinha. Eu estava no campo com a maior parte dos homens, porque já estava perto da colheita e havia muito o que fazer. Assim, minha irmã estava sozinha em casa, exceto por duas ou três empregadas e todas correram para a cama, para esconder suas cabeças sob as cobertas quando viram os soldados ingleses. Achavam que os soldados eram enviados do diabo... e não posso dizer que estavam erradas.

Descartei o pano. A pior parte estava feita; agora, tudo que precisávamos era de um tipo de emplastro - sem iodo ou penicilina, era o melhor que eu podia fazer contra infecção - e um bom curativo. Os olhos ainda fechados, o jovem não pareceu notar.

- Eu voltei para casa por trás, pretendendo pegar arreios na estrebaria, e ouvi gritos, minha irmã gritando dentro de casa.

- Oh? — Procurei tornar minha voz o menos perturbadora possível. Queria muito saber mais a respeito deste capitão Randall; até agora, esta história pouco fizera para dissipar minha impressão original a seu respeito.

- Entrei pela cozinha e encontrei dois deles assaltando a despensa, enchendo suas sacolas de farinha e toucinho. Acertei um na cabeça e atirei o outro pela janela, com sacola e tudo. Em seguida, irrompi na sala, onde encontrei dois soldados com minha irmã, Jenny. Seu vestido estava um pouco rasgado e um deles tinha o rosto arranhado.

Abriu os olhos e sorriu, um pouco sombriamente.

- Não parei para fazer perguntas. Nos atracamos e eu estava me saindo bem, pois só havia dois deles, quando Randall entrou.

Randall parou a briga simplesmente apontando uma pistola para a cabeça de Jenny. Forçado a se render, Jamie foi rapidamente dominado e amarrado pelos dois soldados. Randall sorriu para seu prisioneiro e disse:

- Ora, ora. Temos dois gatos selvagens aqui. Acho que um pouco de trabalho forçado vai curar seu temperamento, mas, se não o fizer, bem, vai conhecer um outro gato, chamado chicote. Mas há outras curas para outros gatos, não é, minha gatinha?

Jamie parou por um instante, o maxilar cerrado.

- Ele segurava o braço de Jenny dobrado para trás, mas soltou-a, para levar a mão à frente e enfiá-la em seu vestido, em volta dos seios. — Lembrando-se da cena, sorriu inesperadamente. - Assim — resumiu —, Jenny pisou no pé dele com toda a força e enfiou o cotovelo em sua barriga. Ele se dobrou ao meio, sem ar, e ela girou e deu uma boa joelhada entre suas pernas. - Deu uma pequena risada, um som nasalado, achando graça.

- Bem, com isso ele deixou a pistola cair e ela tentou pegá-la, mas um dos soldados alcançou-a primeiro.

Eu terminara de cobrir o ferimento e fiquei parada em silêncio atrás dele, a mão pousada em seu ombro bom. Parecia importante que ele me contasse tudo, mas temia que parasse, se fosse lembrado da minha presença.

- Depois que recuperou fôlego suficiente para falar, Randall fez seus homens nos arrastar para fora. Eles arrancaram minha camisa, amarraram-me ao mastro da carroça e Randall golpeou-me nas costas com a parte plana de seu sabre. Ele estava furioso, mas um pouco cansado, pode-se dizer. Doeu-me um pouco, mas ele não conseguiu continuar batendo por muito tempo.

A breve expressão divertida desaparecera por completo e o ombro sob a minha mão estava rígido de tensão.

- Quando parou, virou-se para Jenny, um dos dragões a mantinha presa, e perguntou-lhe se queria ver mais ou se preferia ir para dentro de casa com ele e oferecer-lhe uma diversão melhor. - O ombro remexeu-se nervosamente.

- Eu não podia me mover muito, mas gritei para ela que eu não estava ferido, e na verdade não estava muito, e que ela não devia ir com ele, ainda que cortassem minha garganta diante de seus olhos.

- Eles a seguravam atrás de mim, de modo que não podia vê-la, mas pelo barulho, ela cuspiu no rosto dele. Ela deve ter feito isso mesmo, porque em seguida ele agarrou um punhado do meu cabelo, puxou minha cabeça para trás e colocou a faca na minha garganta.

- "Estou pensando seriamente em aceitar sua sugestão", Randall disse entre dentes e enfiou a ponta da faca sob a minha pele, o suficiente para tirar sangue.

- Eu podia ver a adaga junto ao meu rosto — Jamie continuou — e o desenho que meu sangue fazia na terra embaixo da carroça. O tom de sua voz era quase irreal e percebi que, de cansaço e dor, ele havia resvalado para uma espécie de estado hipnótico. Talvez nem se lembrasse que eu estava ali.

- Fiz menção de gritar para a minha irmã, dizer-lhe que eu preferia morrer a vê-la desonrar-se com aquele canalha. Randall tirou a adaga da minha garganta e enfiou a lâmina entre meus dentes, de modo que eu não pudesse gritar. - Limpou a boca, como se ainda sentisse o gosto amargo do aço. Parou de falar, os olhos fixos diretamente à sua frente.

- Mas o que aconteceu depois disso? - Eu não deveria ter falado, mas precisava saber.

Ele estremeceu, como se acordasse, e esfregou a mão grande e pesada, de modo exausto, pela nuca.

- Ela foi com ele - disse bruscamente. - Achou que ele me mataria e talvez tivesse razão. Depois disso, não sei o que aconteceu. Um dos dragões golpeou-me na cabeça com a coronha de seu mosquete. Quando acordei, estava amarrado na carroça, com as galinhas, sacolejando pela estrada em direção a Fort William.

- Sei — eu disse em voz baixa. — Lamento muito. Deve ter sido terrível para você.

Sorriu repentinamente, sem vestígios do torpor do cansaço.

- Ah, sim. As galinhas são uma péssima companhia, especialmente numa viagem longa.

Percebendo que o curativo estava pronto, ergueu o ombro experimentalmente, sobressaltando-se ao fazê-lo.

- Não faça isso! - exclamei, assustada. - Você realmente não deve mexer o braço. Na realidade — olhei para a mesa para verificar se restavam algumas tiras de pano seco -, vou prender seu braço junto ao corpo. Não se mexa.

Ele não falou mais, mas relaxou um pouco sob minhas mãos quando percebeu que não iria doer. Senti uma estranha sensação de intimidade com aquele jovem escocês estranho, devido em parte, pensei, à terrível história que acabara de me contar e em parte à nossa longa cavalgada na escuridão, os corpos pressionados um contra o outro num silêncio sonolento. Eu não dormira com muitos homens além de meu marido, mas notara que dormir, realmente dormir com alguém, dava aquela sensação de intimidade, como se seus sonhos fluíssem de você para se misturar com os dele e envolvessem a ambos em um manto de conhecimento inconsciente. Uma espécie de regressão, pensei. Em tempos antigos, mais primitivos (como estes?, Perguntou outra parte de minha mente), era um ato de confiança dormir na Presença de outra pessoa. Se a confiança fosse mútua, o simples sono era capaz de uni-los mais do que a junção de corpos.

Terminada a tipóia, ajudei-o a vestir a camisa de linho cru, colocando-a sobre o ombro ferido. Levantou-se para enfiá-la embaixo do kilt apenas com uma das mãos e sorriu para mim.

- Muito obrigado, Claire. Você tem mãos boas. — Estendeu o braço para tocar meu rosto, mas pareceu desistir da idéia; abanou a mão e deixou-a cair ao lado do corpo. Aparentemente, ele também sentira aquela estranha onda de intimidade. Desviei o olhar apressadamente, agitando a mão num gesto que dizia não-tem-de-quê.

Meu olhar vagou pelo aposento, passando pela lareira enegrecida de fumaça, pelas janelas estreitas, sem vidraça, e pelos maciços móveis de carvalho. Nenhum acessório elétrico. Nenhum tapete. Nenhum metal brilhante na armação da cama.

Parecia, na verdade, um castelo do século XVIII. Mas e quanto a Frank? O homem que eu encontrara no bosque parecia-se com ele de maneira perturbadora, mas a descrição que Jamie fizera do capitão Randall era completamente estranha a tudo que eu sabia de meu gentil e pacífico marido. Mas, se fosse verdade - e eu estava começando a admitir, até para mim mesma, que pudesse ser -, ele poderia ser na realidade praticamente qualquer coisa. Um homem que eu conhecia apenas de um mapa genealógico não estava necessariamente fadado a se parecer com seus descendentes em conduta.

Mas era com o próprio Frank que eu estava preocupada no momento. Se eu estivesse, de fato, no século XVIII, onde ele estaria? O que faria quando eu deixasse de aparecer na pousada da sra. Baird? Eu jamais voltaria a vê-lo? Pensar em Frank foi a gota d'água. Desde o instante em que dei um passo para dentro da rocha e a vida comum deixou de existir, fora assaltada, ameaçada, seqüestrada e arrastada. Não comia ou dormia direito há mais de vinte e quatro horas. Tentei me controlar, mas meus lábios tremeram e meus olhos encheram-se de lágrimas a despeito de mim mesma.

Virei-me para o fogo para esconder o rosto, mas era tarde demais. Jamie segurou minha mão, perguntando gentilmente o que era. A luz do fogo reluziu na minha aliança de ouro e eu comecei realmente a fungar.

- Ah, eu... eu vou ficar bem, está tudo bem, sinceramente, é que... meu... meu marido... eu não.

- Ah, dona, então você ficou viúva? - Sua voz era tão repleta de cuidado e atenção que eu perdi inteiramente o controle.

- Não... sim... quero dizer, eu não... sim, acho que sou! — Dominada pela emoção e pelo cansaço, desmoronei sobre ele, soluçando histericamente.

O rapaz tinha bons sentimentos. Ao invés de pedir ajuda ou retirar-se perplexo, sem saber o que fazer, ele sentou-se, puxou-me com firmeza para seu colo com o braço bom e ficou embalando-me suavemente, murmurando palavras carinhosas em gaélico ao meu ouvido e alisando meus cabelos com uma das mãos. Chorei amargamente, sucumbindo momentaneamente ao medo, à confusão e ao desânimo, mas lentamente comecei a me acalmar um pouco, enquanto Jamie acariciava afetuosamente meu pescoço e minhas costas, oferecendo-me o conforto de seu peito largo e aconchegante. Meus soluços diminuíram e comecei a serenar, recostando-me, exausta, na curva de seu ombro. Não era de admirar que fosse tão bom com cavalos, pensei indistintamente, sentindo seus dedos acariciando-me suavemente atrás das orelhas, ouvindo as palavras tranqüilizadoras e incompreensíveis. Se eu fosse um cavalo, deixaria que me conduzisse para onde quisesse.

Esse pensamento absurdo coincidiu infelizmente com a minha clara percepção de que o jovem, afinal, estava completamente exausto. De fato, estava começando a ficar embaraçosamente óbvio para ambos. Tossi e clareei a garganta, limpando os olhos com a manga do vestido, enquanto descia do seu colo.

- Sinto muito... isto é, quero dizer, obrigada por... mas eu... - Estava balbuciando, afastando-me dele com o rosto em chamas. Ele também estava um pouco afogueado, mas não envergonhado. Pegou a minha mão, puxou-me de volta e, com cuidado para não me tocar de outra forma, colocou a mão sob meu queixo e forçou-me a erguer a cabeça e fitá-lo.

- Não precisa ter medo de mim - disse serenamente. - Nem de ninguém aqui, enquanto eu estiver com você. - Soltou a mão e virou-se para a lareira.

- Você precisa de alguma coisa quente, dona - disse, de modo prático -, e de algo para comer também. A barriga cheia vai ajudar mais do que qualquer outra coisa.

Ri meio trêmula diante de seus esforços de servir sopa com uma das mãos e fui ajudá-lo. Tinha razão; a comida realmente ajudou. Tomamos a sopa e comemos pão num silêncio amigável, compartilhando a crescente sensação de saciedade, conforto e bem-estar.

Por fim, ele se levantou, pegando a coberta caída no chão. Colocou-a de novo sobre a cama e fez um sinal para mim para que fosse me deitar.

- Durma um pouco, Claire. Está exausta e é provável que logo alguém queira falar com você.

Era um lembrete sinistro de minha precária posição, mas eu estava cansada demais para me importar. Manifestei não mais do que um protesto por rotina por ocupar a cama; nunca vira algo tão convidativo. Jamie assegurou-me que poderia encontrar uma cama em outro lugar. Deixei-me cair pesadamente na pilha de cobertas e estava adormecida antes que ele alcançasse a porta.

 

Acordei num estado de total confusão. Lembrava-me vagamente de que algo estava errado, mas não conseguia lembrar o quê. De fato, eu dormira tão profundamente que por um instante não consegui nem me lembrar quem eu era, muito menos onde estava. Estava aquecida, mas o aposento ao meu redor estava gelado. Tentei me enfiar de novo no meu casulo de cobertores, mas a voz que me acordara continuava a importunar.

- Vamos, mocinha! Vamos, precisa se levantar! - A voz era grave e amistosamente assustadora, como o latido de um cão pastor. Com relutância, abri um olho apenas o suficiente para ver uma montanha de tecido rústico marrom.

Sra. Fitz-Gibbons! A visão sacudiu-me de volta à plena consciência e a memória retornou. Então, ainda era verdade.

Enrolando um cobertor ao redor do corpo contra o frio, arrastei-me para fora da cama e dirigi-me para a lareira o mais rápido possível. A sra. Fitz-Gibbons tinha uma xícara de caldo quente à minha espera; tomei pequenos goles, sentindo-me uma sobrevivente de algum grande bombardeamento aéreo, enquanto ela colocava uma pilha de roupas sobre a cama. Uma blusa larga e comprida, semelhante a uma camisola, de linho bege, com um fino debrum de renda, uma anágua de algodão fino, duas sobressaias em tons de marrom e um corpete amarelo-limão claro. Meias compridas de lã, listradas de marrom, e um par de sapatilhas amarelas completavam a vestimenta.

Sem aceitar protestos e com grande alvoroço, a mulher me fez sair de minhas roupas inadequadas e supervisionou todo o processo de me vestir. Por fim, deu um passo para trás, examinando com satisfação o resultado de seu trabalho.

- O amarelo lhe cai bem, moça. Achei que cairia. Vai bem com os cabelos castanhos e ressalta o dourado de seus olhos. Mas fique onde está, está precisando de umas fitas. — Revirando um bolso que parecia um saco de aniagem, apresentou um punhado de fitas e algumas bijuterias.

Espantada demais para resistir, deixei que arrumasse meus cabelos, prendendo para trás os cachos laterais com uma fita amarelada, estalando a língua e reclamando da inconveniência pouco feminina do corte curto dos meus cabelos, na altura dos ombros.

- Pelo amor de Deus, minha querida, o que estava pensando para cortar seu cabelo tão curto? Estava disfarçada? Ouvi falar de algumas moças que fazem isso, para esconder sua condição feminina quando estão viajando e para ficar a salvo dos malditos ingleses. Que desgraça quando as moças já não podem viajar pelas estradas em segurança. — Continuou a tagarelar, ajeitando aqui e ali, prendendo um cacho ou arrumando um laço. Finalmente, eu estava vestida a seu gosto.

- Ora, veja só, está muito bom. Agora, você tem tempo apenas para comer alguma coisa e depois devo levá-la a ele.

- Ele? - exclamei. Não gostei de ouvir aquilo. Quem quer que "ele" fosse, era provável que fizesse perguntas difíceis de responder.

- Ora, o próprio MacKenzie, sem dúvida. Quem mais poderia ser?

Quem mais, na verdade? O Castelo Leoch, eu me recordava vagamente, ficava no centro das terras do clã MacKenzie. Obviamente, o chefe do clã ainda era o MacKenzie. Comecei a compreender por que o nosso pequeno grupo de cavaleiros viajara à noite para chegar ao castelo; devia ser um lugar de inexpugnável segurança para homens perseguidos pelos súditos da Coroa. Nenhum oficial inglês com um mínimo de bom senso conduziria seus homens para o interior das terras de um clã. Seria arriscar-se à morte em uma emboscada no primeiro bosque que atravessassem. Somente um exército de bom tamanho viria até os portões do castelo. Eu tentava me lembrar se o exército inglês de fato chegara a vir tão longe, quando repentinamente percebi que o destino final do castelo era muito menos relevante do que o meu futuro imediato.

Não tinha nenhum apetite para os bolos e o mingau que a sra. Fitz-Gibbons trouxera para o meu desjejum, mas esfarelei um pedaço e fingi comer, a fim de ganhar algum tempo para pensar. Quando a sra. Fitz-Gibbons voltou para me conduzir ao MacKenzie, eu já havia alinhavado um plano rudimentar.

O senhor daquela propriedade recebeu-me em um aposento situado no alto de um lance de escadas de pedra. Era o aposento de uma torre, redondo, ricamente decorado com quadros e tapeçarias pendurados nas paredes curvas. Enquanto o resto do castelo parecia confortável, apesar de um pouco espartano, aquela sala era luxuosamente mobiliada, abarrotada de móveis ricamente ornamentados e confortavelmente aquecida e iluminada por uma lareira e velas, contra a chuva fina do dia lá fora. As paredes externas do castelo ostentavam apenas as altas fendas das janelas, apropriadas para resistirem a um ataque, porém a parede interna era guarnecida de longas janelas de caixilhos, que deixavam entrar a escassa luz do dia.

Quando entrei, minha atenção foi atraída de imediato para uma enorme gaiola de metal, engenhosamente construída para ajustar-se à curva da

parede do chão ao teto, repleta de dezenas de pequenos pássaros: tentilhões, trigueirões, canários e diversos outros tipos de pássaros canoros. Aproximando-me, minha vista encheu-se de corpos roliços e macios e brilhantes olhos de contas, incrustados como jóias em um cenário verde aveludado, lançando-se entre as folhas de carvalhos, olmos e castanheiras, cuidadosamente podados, plantados em vasos protegidos com palha e arranjados no assoalho da gaiola. A alegre algazarra dos pássaros era acentuada pelo agitar das asas e pelo farfalhar das folhas, conforme os habitantes esvoaçavam e saltitavam no seu ambiente.

- Criaturinhas agitadas, não? - uma voz grave e agradável soou atrás de mim e eu me virei com um sorriso que congelou em meu rosto.

Colum MacKenzie tinha o mesmo rosto largo e testa alta de seu irmão Dougal, embora a força vital que conferia a Dougal um ar de intimidação aqui fosse abrandada em algo mais afável, porém não menos vigoroso. Mais moreno, com olhos cinzentos, da cor de pombos, e não castanho-claros, Colum dava aquela mesma impressão de intensidade, de proximidade excessiva para que você pudesse se sentir à vontade. No momento, entretanto, meu desconforto devia-se ao fato de a cabeça tão bem delineada e o torso longo terminarem em pernas horrivelmente arqueadas, curtas e atrofiadas. O homem que facilmente deveria ultrapassar um metro e oitenta, mal chegava aos meus ombros.

Ele manteve os olhos fitos nos pássaros, discretamente proporcionando-me um momento muito necessário para recuperar o controle das feições do meu rosto. Naturalmente, ele devia estar acostumado à reação das pessoas que o viam pela primeira vez. Olhando em torno do aposento, perguntei a mim mesma com que freqüência ele conhecia novas pessoas. Aquela sala era obviamente um santuário; o mundo construído por um homem para quem o mundo exterior não era desejado - ou não estava disponível.

- Seja bem-vinda, senhora - ele disse, com uma pequena mesura. -Meu nome é Columban Campbell MacKenzie, senhor deste castelo. Soube por meu irmão que ele, hã, encontrou-a a alguma distância daqui.

- Ele me seqüestrou, se quer saber - eu disse. Gostaria de manter a conversa em nível cordial, mas o desejo de ir embora daquele castelo e voltar à colina com o círculo de pedras era mais forte. O que quer que tivesse me acontecido, a resposta estava lá - se houvesse uma resposta.

As espessas sobrancelhas do senhor do castelo ergueram-se ligeiramente e um sorriso curvou os lábios bem delineados.

- Bem, talvez - concordou. - Dougal às vezes é um pouco... impetuoso.

- Bem. — Abanei a mão, indicando um educado abrandamento da questão. - Estou preparada para admitir que pode ter havido um mal-entendido. Mas agradeceria muito se me devolvesse... ao lugar de onde me tiraram.

- Hum. — Sobrancelhas ainda erguidas, Colum indicou uma cadeira. Sentei-me, relutantemente, e ele fez um sinal com a cabeça para um dos criados, que desapareceu pela porta.

- Mandei buscar um lanche, senhora... Beauchamp, não é? Pelo que sei, meu irmão e seus homens a encontraram em... hã, numa situação difícil. - Ele parecia estar reprimindo um sorriso e imaginei a que ponto haviam lhe descrito meu suposto estado de nudez.

Respirei fundo. Chegara a hora da explicação que eu planejara. Enquanto imaginava o que iria dizer, lembrara-me de Frank ter me contado, durante seu treinamento de oficial, sobre um curso que fizera sobre como enfrentar um interrogatório. Um princípio básico, até onde eu me lembrava, era ater-se à verdade até onde fosse humanamente possível, alterando somente aqueles detalhes que deviam ser mantidos em segredo. Menos chance, explicou o instrutor, de escorregar nos aspectos menos importantes da história inventada. Bem, teríamos que ver até onde isso seria eficaz.

- Bem, sim. Sabe, eu tinha sido atacada.

Ele balançou a cabeça, o rosto vivamente interessado.

- É mesmo? Atacada por quem? Diga a verdade.

- Por soldados ingleses. Em particular, por um homem chamado Randall.

O rosto aristocrático mudou repentinamente ao ouvir o nome. Embora Colum continuasse a parecer interessado, havia uma crescente intensidade no contorno da boca e um aprofundamento das rugas que a confinavam. Obviamente, o nome lhe era familiar. O chefe dos MacKenzie reclinou-se um pouco na cadeira e uniu os dedos, examinando-me cuidadosamente por cima deles.

- Ah? — disse. — Conte-me mais.

Assim, valha-me Deus, contei mais. Fiz um relato detalhado do confronto entre os escoceses e os homens de Randall, já que ele poderia conferir a história com Dougal. Contei-lhe os fatos principais da minha conversa com Randall, já que eu não sabia quanto o homem chamado Murtagh ouvira.

Balançou a cabeça, absorvido, prestando toda a atenção.

- Sei - disse. — Mas como a senhora foi parar naquele lugar? É muito longe da estrada para Inverness. Suponho que pretendia pegar o navio lá.

Assenti e respirei fundo. Agora obrigatoriamente entrávamos nos domínios da invenção. Desejei ter prestado mais atenção às observações de Frank a respeito de assaltantes de estrada, mas teria que fazer o melhor possível. Eu era uma viúva de Oxfordshire, respondi (verdade, até certo ponto) viajando com um criado, ao encontro de parentes distantes na França (parecia bastante distante para ser seguro). Fomos atacados por ladrões de estrada e meu criado ou fora assassinado ou fugira. Eu mesma corri para dentro do bosque em meu cavalo, mas fui pega a alguns quilômetros da estrada. Para conseguir fugir dos bandidos, fora obrigada a abandonar meu cavalo e tudo que eu possuía. E enquanto vagava pelo bosque, me deparei com o capitão Randall e seus homens.

Recostei-me um pouco para trás, satisfeita com a história. Simples, clara, verdade em todos os detalhes que poderiam ser verificados. O rosto de Colum não expressava nada além de uma educada atenção. Estava abrindo a boca para me fazer uma pergunta, quando ouvimos um leve ruído junto à porta. Um homem, um dos que eu vira no pátio quando chegamos, estava parado na soleira da porta, segurando uma pequena caixa de couro em uma das mãos.

O chefe do clã MacKenzie pediu licença educadamente e deixou-me examinando os pássaros, com a certeza de que ele logo voltaria para continuarmos nossa muito interessante conversa.

Tão logo a porta fechou-se atrás dele, aproximei-me da estante de livros, correndo a mão pelas encadernações de couro. Havia talvez umas duas dúzias de livros naquela prateleira; mais na parede oposta. Rapidamente, folheei as primeiras páginas de cada volume. Vários deles não tinham nenhuma data de publicação; os que tinham, eram todos datados de 1720 a 1742. Colum MacKenzie obviamente gostava de luxo, mas o resto de seu aposento não dava nenhuma indicação de que fosse um antiquário. As encadernações eram novas, sem nenhuma rachadura no couro ou páginas manchadas no miolo.

Agora inteiramente desprovida dos escrúpulos mais básicos, revirei a escrivaninha de oliveira, atenta a quaisquer passos que retornassem.

Encontrei o que achei que procurava na gaveta central. Uma carta inacabada, escrita numa caligrafia cursiva e floreada, ainda mais ilegível pela ortografia excêntrica e a ausência total de pontuação. O papel era novo e limpo e a tinta vivamente preta. Legível ou não, a data no alto da folha saltou aos meus olhos como se escritas a fogo: 20 de abril de 1743.

Quando retornou instantes mais tarde, Colum encontrou sua hóspede sentada junto às janelas, as mãos dignamente unidas sobre o colo. Sentada, porque minhas pernas já não me mantinham em pé. As mãos entrelaçadas, para esconder o tremor que quase me impedia de recolocar a carta no seu devido lugar.

Ele trazia a bandeja com o lanche; canecas de cerveja e biscoitos de aveia besuntados de mel. Apenas belisquei o que me fora oferecido; meu estômago revirava demais para que eu pudesse sentir qualquer apetite.

Após uma rápida desculpa por sua ausência, condoeu-se de minha má sorte. Em seguida, reclinou-se, analisou-me especulativamente e perguntou:

- Mas como foi, sra. Beauchamp, que os homens de meu irmão encontraram-na vagando em suas roupas de baixo? Ladrões de estrada relutariam em molestá-la, já que provavelmente a prenderiam para pedir resgate. E mesmo com tudo que já ouvi falar desse capitão Randall, ficaria surpreso de ouvir que um oficial do exército inglês tivesse o hábito de estuprar viajantes perdidas.

- Ah, é mesmo? - retorqui. - Bem, o que quer que tenha ouvido a respeito dele, asseguro-lhe que ele é inteiramente capaz disso. - Eu havia negligenciado o detalhe das minhas roupas quando planejei minha história e perguntei a mim mesma em que ponto de nosso encontro o homem chamado Murtagh encontrara a mim e ao capitão.

- Ah, bem - disse Colum. - Possível, reconheço. O sujeito tem má reputação, de fato.

- Possível? - perguntei. - Por quê? Não acredita no que lhe disse? - O rosto do líder dos MacKenzie exibia um ligeiro, mas inequívoco ceticismo.

- Não disse que não acreditava na senhora - respondeu sem se alterar. - Mas não chefio um grande clã por mais de vinte anos sem aprender a não engolir toda história que me contam.

- Bem, se não acredita que eu sou quem eu digo ser, quem diabos acha que eu sou? - indaguei.

Ele piscou, desconcertado com o meu linguajar. Logo em seguida, as feições bem delineadas se recompuseram.

- Isso é o que vamos ver. Enquanto isso, a senhora é uma hóspede bem-vinda a Leoch. - Ergueu a mão dispensando-me educadamente e o criado sempre parado junto à porta aproximou-se, evidentemente para me acompanhar de volta aos meus aposentos.

Colum não pronunciou as palavras a seguir, mas era como se o tivesse feito. Elas ficaram pairando no ar às minhas costas tão claramente como se tivessem sido ditas, enquanto eu me afastava:

"Até eu descobrir quem você realmente é."

 

O garoto a quem a sra. Fitz-Gibbons se referia como "o Jovem Alec" veio me buscar para o jantar. Este era servido num salão comprido e estreito com mesas ao longo de todo o comprimento de cada parede, abastecidas por um fluxo contínuo de criados que saíam dos arcos em cada ponta do salão, carregados de travessas, tábuas de trinchar carne e jarros. Os raios de sol do entardecer do começo do verão infiltravam-se pelas janelas altas e estreitas; castiçais ao longo das paredes abaixo das janelas sustentavam archotes a serem acesos quando escurecesse.

Estandartes e tartãs pendiam das paredes entre as janelas, padrões de tecido xadrez e brasões de todos os tipos salpicando as pedras de cores. Em contraste, a maioria das pessoas reunidas embaixo para jantar vestia-se em tons práticos de cinza e marrom ou no suave padrão de xadrez marrom e verde dos kilts de caça, em tons escuros, adequados para se esconder no meio das urzes.

Eu podia sentir olhares curiosos sondando minhas costas enquanto o Jovem Alec me conduzia para o extremo oposto do salão, mas a maior parte dos comensais manteve os olhos educadamente em seus pratos. Havia pouca cerimônia ali; as pessoas comiam como lhes aprouvesse, servindo-se das travessas ou levando seus pratos de madeira até o final do salão, onde dois rapazes giravam a carcaça de um carneiro em um espeto na enorme lareira. Havia umas quarenta pessoas sentadas para jantar e talvez mais dez para servir. O vozerio da conversa enchia o ar, a maior parte em gaélico.

Colum já estava sentado a uma mesa na cabeceira do salão, as pernas atrofiadas fora da vista, embaixo do carvalho arranhado. Cumprimentou-me cortesmente com um aceno da cabeça quando entrei e fez sinal para que eu fosse me sentar à sua esquerda, ao lado de uma mulher ruiva, bonita e roliça, que ele me apresentou como sua esposa, Letitia.

- E este é meu filho, Hamish - disse, descansando a mão no ombro de um bonito garoto ruivo de sete ou oito anos, que tirou os olhos da travessa a sua frente apenas o tempo suficiente para me cumprimentar com um rápido sinal da cabeça.

Olhei para o garoto com interesse. Parecia-se a todos os outros homens MacKenzie que eu vira, com as mesmas maçãs do rosto planas e largas e olhos fundos. Na realidade, levando em consideração a diferença na cor da pele e dos cabelos, ele poderia ser uma versão menor de seu tio Dougal, sentado ao seu lado. As duas adolescentes sentadas perto de Dougal, que deram risinhos e cutucaram-se quando foram apresentadas a mim, eram suas filhas, Margaret e Eleanor.

Dougal lançou-me um sorriso breve, mas amistoso, antes de arrancar a travessa da frente de uma de suas filhas que pretendia se servir e empurrá-la para mim.

— Não tem educação, menina? — repreendeu-a. — As visitas primeiro! Com certa hesitação, peguei a enorme colher feita de chifre que me era oferecida. Não sabia ao certo que tipo de comida iria ser servido e fiquei bastante aliviada ao descobrir que a travessa continha uma fileira dos caseiros e totalmente familiares arenques defumados.

Nunca havia tentado comer arenque com uma colher, mas não vi nada semelhante a um garfo e me lembrei vagamente que talheres com dentes só seriam usados dali a muitos anos.

A julgar pelo comportamento dos comensais nas outras mesas, sempre que a colher mostrava ser impraticável, a sempre útil adaga era usada para fatiar a carne e remover os ossos. Não dispondo de uma adaga, resolvi mastigar cuidadosamente e inclinei-me para a frente para pegar um arenque com a colher, mas deparei-me com os olhos azul-escuros de Hamish fitando-me acusadoramente.

— Você ainda não fez a oração — disse severamente, com uma expressão carrancuda no pequeno rosto. Obviamente, ele me considerava uma pagã desmiolada, senão simplesmente depravada.

— Hã, talvez você pudesse fazer a gentileza de dizê-la para mim? -arrisquei.

Os olhos azuis arregalaram-se de surpresa, mas após alguns instantes de reflexão, ele assentiu e uniu as mãos diligentemente. Olhou à volta da mesa para assegurar-se de que todos estivessem numa atitude adequadamente reverente antes de abaixar a cabeça. Satisfeito, entoou:

Alguns têm carne que não podem comer, E outros poderiam comer, mas não têm carne. Nós temos carne e podemos comer E assim damos graças a Deus. Amém.

Erguendo os olhos das minhas mãos respeitosamente entrelaçadas, encontrei os olhos de Colum e dei um sorriso que o cumprimentava pelo sangue-frio de seu rebento. Ele próprio reprimiu um sorriso e balançou a cabeça solenemente para seu filho.

— Muito bem, rapaz. Pode passar o pão à volta da mesa?

A conversa à mesa limitava-se a alguns pedidos ocasionais de mais comida, já que todos dedicavam-se seriamente a comer. Eu quase não sentia apetite, devido em parte ao choque das circunstâncias em que me encontrava e em parte ao fato de que não gostava muito de arenque afinal de contas. No entanto, a carne de carneiro estava muito boa e o pão delicioso, quente e crocante, com grandes bocados de manteiga fresca sem sal.

- Espero que o sr. MacTavish esteja se sentindo melhor - arrisquei, durante uma pequena pausa. - Não o vi quando entrei.

- MacTavish? - As delicadas sobrancelhas de Letitia curvaram-se em torno dos redondos olhos azuis. Senti, mais do que vi, os olhos de Dougal erguerem-se ao meu lado.

- O jovem Jamie - disse secamente, antes de retornar sua atenção para o osso de carneiro em suas mãos.

- Jamie? Ora, o que aconteceu com o rapaz? - Seu semblante rechonchudo contraiu-se de preocupação.

- Só um arranhão, minha querida - Colum tranqüilizou-a. Olhou para seu irmão do outro lado da mesa. - Mas onde ele está, Dougal? -Imaginei que talvez os olhos azul-escuros abrigassem um leve traço de suspeita.

Seu irmão deu de ombros, os olhos ainda no prato.

- Mandei-o à estrebaria para ajudar o Velho Alec com os cavalos. Pareceu-me o melhor lugar para ele, considerando sua situação. - Ergueu os olhos para fitar diretamente o irmão. - Ou você tinha outra idéia?

Colum pareceu em dúvida.

- A estrebaria? Sim, bem... você confia nele?

Dougal passou a mão pela boca despreocupadamente e estendeu-a para pegar um pedaço de pão.

- Você é quem sabe, Colum, se não concordar com minhas ordens. Os lábios de Colum estreitaram-se um pouco.

- Não, acho que ele vai se dar bem lá - disse, antes de retornar à sua refeição.

Eu também tinha as minhas dúvidas se a estrebaria seria o lugar adequado para um paciente ferido à bala, mas tive receio de emitir uma opinião naquela companhia. Decidi procurar o rapaz em questão pela manhã, só para me assegurar de que estava recebendo um mínimo dos cuidados necessários.

Recusei o pudim e pedi licença para me retirar, alegando que estava muito cansada, o que não era nenhuma mentira. Estava tão exausta que mal prestei atenção quando Colum disse:

- Boa noite, então, sra. Beauchamp. Enviarei alguém para trazê-la ao Conselho no salão pela manhã.

Uma das criadas, ao me ver no corredor tateando no escuro, gentilmente me acompanhou, iluminando o caminho até meus aposentos. Acendeu a vela sobre a minha mesa com a que ela estava carregando e uma luz suave bruxuleou nas pedras maciças das paredes, dando-me por um instante a sensação de estar num mausoléu. Depois que saiu, no entanto, puxei a cortina bordada que encobria a janela e a sensação desfez-se com a entrada do ar fresco. Tentei pensar em tudo que acontecera, mas minha mente recusava-se a considerar qualquer outra atividade que não dormir. Deslizei para debaixo das cobertas, apaguei a vela e adormeci observando a lua erguer-se lentamente no céu.

Foi a enorme e pesada sra. FitzGibbons quem chegou novamente para me acordar pela manhã, carregando o que parecia ser uma coleção completa dos artigos de toalete disponíveis a uma dama escocesa bem-nascida. Um lápis de grafite para escurecer as sobrancelhas e as pestanas, potes de pó-de-arroz e de raiz de íris em pó, até mesmo um bastão do que imaginei ser kohl, embora nunca tivesse visto algum, e uma delicada tigela de porcelana de ruge francês, com uma tampa gravada com uma fileira de cisnes dourados.

A sra. Fitz-Gibbons também trazia uma sobressaia listrada de verde e um corpete de seda, com meias amarelas de tecido fino, ao contrário das meias rústicas que me dera no dia anterior. O que quer que "Conselho" significasse, parecia ser uma ocasião de certa importância. Senti-me tentada a insistir em comparecer usando as minhas próprias roupas, só para contrariar, mas a lembrança da reação do gordo Rupert diante do meu vestido foi o suficiente para me conter.

Além do mais, eu até que gostava de Colum, apesar do fato de que tudo indicasse que ele pretendia manter-me ali por tempo indeterminado. Bem, é o que iríamos ver, pensei, enquanto fazia o melhor possível com o ruge. Dougal dissera que o rapaz de quem eu cuidara estava na estrebaria, não? E estrebarias tinham cavalos, com os quais se poderia fugir. Decidi ir procurar Jamie MacTavish, tão logo essa questão do Conselho tivesse acabado.

O Conselho, como se viu, era apenas isso mesmo; uma reunião no salão onde o jantar fora servido na noite anterior. Agora, entretanto, estava transformado; as mesas, bancos compridos e banquetas haviam sido encostados nas paredes, a mesa principal na cabeceira do salão fora retirada e substituída por uma cadeira imponente, de madeira escura esculpida, coberta com o que eu presumi que devia ser o tartã dos MacKenzie, o padrão exclusivo de tecido xadrez verde-escuro e preto, com finas linhas vermelhas e brancas sobrepostas, que simbolizava o clã. Ramos de azevim decoravam as paredes e via-se palha fresca espalhada pelas lajes de pedra do assoalho.

Um jovem gaiteiro soprava seu instrumento atrás da cadeira vazia, com numerosos suspiros e chiados. Perto dele, estavam o que eu presumi ser os membros mais íntimos da equipe de Colum: um homem de rosto fino, vestindo calças justas de tecido xadrez e uma camisa larga de pregas, displicentemente encostado na parede; um homenzinho quase careca com um elegante casaco de brocado, claramente uma espécie de escrivão, já que estava sentado a uma pequena mesa equipada com tinteiro feito de chifre, penas de escrever e papel; dois homens musculosos trajando kilts, com atitude de guardas; e ao lado, um dos maiores homens que eu já vira.

Fiquei olhando estarrecida para o gigante. Cabelos pretos e grossos caídos na testa, quase se unindo às sobrancelhas salientes. Um emaranhado similar cobria os antebraços, expostos pelas mangas enroladas de sua camisa. Ao contrário da maioria dos homens que eu vira, o gigante não parecia armado, a não ser por um pequeno punhal que carregava preso à meia comprida. Mal se via o cabo grosso e curto em meio aos tufos de cabelos pretos encaracolados que cobriam suas pernas acima das meias de xadrez alegremente coloridas. Um largo cinto de couro cingia o que devia ser uma cintura de um metro, mas não ostentava nenhuma espada ou adaga. Apesar do seu tamanho, o sujeito tinha uma expressão amistosa e parecia estar fazendo pilhéria com o homem de rosto fino, que parecia uma marionete em comparação a seu imenso interlocutor.

De repente, o gaiteiro começou a tocar, com uma ruidosa expiração preliminar, seguida imediatamente de um rangido agudo e dissonante que finalmente se reduziu a algo semelhante a uma afinação.

Havia umas trinta ou quarenta pessoas presentes, todas parecendo um pouco mais bem-vestidas e arrumadas do que os comensais na noite anterior. Todas as cabeças voltaram-se para o extremo oposto do salão, onde após uma pausa para a música tomar corpo, Colum entrou, seguido a poucos passos por seu irmão Dougal.

Os dois MacKenzie estavam claramente vestidos para uma cerimônia, em kilts verde-escuros e casacos bem talhados, o de Colum de um verde pálido e o de Dougal de um tom marrom-dourado, ambos com o xale axadrezado atravessado no peito e preso em um dos ombros com um grande broche cravejado de pedras preciosas. Os cabelos pretos de Colum estavam soltos hoje, cuidadosamente untados e penteados sobre os ombros. Os de Dougal continuavam presos na nuca em uma trança quase da mesma cor castanho-dourada e acetinada de seu casaco.

Colum percorreu lentamente toda a extensão do salão, acenando com a cabeça e sorrindo para os rostos em cada lado. Olhando para o outro lado do salão, eu podia ver outra entrada em arco, próxima ao local onde estava sua cadeira. Obviamente, ele poderia ter entrado por esse arco, ao invés do outro, no extremo oposto do salão. Então era deliberada essa exibição de suas pernas aleijadas e do gingado desajeitado ao longo de todo o percurso até sua cadeira. Também intencional era o contraste com seu irmão mais novo, alto e empertigado, que não olhava nem para a direita nem para a esquerda, mas em frente, caminhando diretamente atrás de Colum até a cadeira de madeira e assumindo sua posição de pé logo atrás do irmão.

Colum sentou-se e aguardou um instante, em seguida ergueu uma das mãos. O gemido da gaita-de-foles extinguiu-se lentamente num lamento patético e a cerimônia começou.

Logo ficou evidente que aquela era uma reunião regular em que o senhor do Castelo de Leoch dispensava justiça aos rendeiros e arrendatários de suas terras, ouvindo os casos e resolvendo disputas. Havia uma agenda; o escriba careca lia os nomes em voz alta e, a cada vez, as partes interessadas adiantavam-se.

Embora alguns casos fossem apresentados em inglês, a maior parte dos procedimentos transcorria em gaélico. Eu já notara que a linguagem gestual era bastante usada: o revirar de olhos e o bater de pés para dar ênfase, tornando difícil julgar a seriedade de um caso pelo comportamento dos participantes.

No momento em que eu compreendi que um dos homens, um espécime gasto pelo tempo, com uma enorme bolsa presa no cinto, feita com a pele inteira de um texugo, acusava seu vizinho de nada menos do que assassinato, incêndio criminoso e roubo de sua mulher, Colum ergueu as sobrancelhas e disse alguma coisa rapidamente em gaélico que fez com que tanto o queixoso quanto o acusado se dobrassem de rir. Enxugando os olhos, o queixoso finalmente assentiu balançando a cabeça e ofereceu a mão a seu adversário, enquanto o escrivão registrava tudo rapidamente, a pena rangendo como as patas de um rato.

Eu era a quinta na agenda. Uma posição, pensei, calculadamente planejada para indicar para as pessoas ali reunidas o grau de importância da minha presença no castelo.

Em meu benefício, falou-se em inglês durante a minha apresentação.

— Sra. Beauchamp, poderia adiantar-se?

Apressada por um empurrão desnecessário da mão gorducha da sra. Fitz-Gibbons, saí com um tropeção para o espaço livre diante de Colum e, de forma um tanto desajeitada, fiz uma mesura, como vira outras mulheres fazerem. Os sapatos que haviam me dado não faziam diferença entre pé direito e pé esquerdo, sendo apenas um couro moldado numa forma oval alongada, o que tornava difícil executar movimentos graciosos. Um zun-zum de interesse percorreu a multidão quando Colum fez a deferência de levantar-se de sua cadeira. Ofereceu-me a mão, que aceitei para não cair de cara no chão.

Ao me levantar de minha reverência, amaldiçoando mentalmente as sapatilhas, vi-me diante do peito de Dougal. Como meu captor, tudo indicava que cabia a ele fazer o pedido formal para o meu acolhimento - ou cativeiro, dependendo do ponto de vista.

- Senhor - começou Dougal, inclinando-se formalmente para Colum -, rogamos sua indulgência e clemência com respeito a uma senhora necessitada de socorro e refúgio. Claire Beauchamp, uma senhora inglesa de Oxford, tendo sido atacada por ladrões de estrada e seu criado morto traiçoeiramente, fugiu para a floresta de suas terras, onde foi descoberta e resgatada por mim e meus homens. Suplicamos que o Castelo Leoch possa oferecer refúgio a essa senhora até que - fez uma pausa e um sorriso cínico entortou sua boca - suas ligações inglesas possam ser informadas de seu paradeiro e que seu transporte em segurança possa ser providenciado.

Não me passou despercebida a ênfase em inglesas e nem a nenhum dos presentes, eu tinha certeza. Assim, eu deveria ser tolerada, mas mantida sob suspeita. Se ele tivesse dito francesas, eu teria sido considerada uma intrusa amistosa ou, na pior das hipóteses, neutra. Fugir do castelo poderia ser mais difícil do que eu esperava.

Colum fez uma reverência cortês para mim e ofereceu-me a hospitalidade ilimitada de sua humilde casa, ou algo nesse sentido. Fiz uma nova mesura, com um pouco mais de sucesso, e retirei-me para junto dos outros, seguida de olhares curiosos, porém mais ou menos amistosos.

Até esse ponto, os casos pareciam ser do interesse principalmente das partes envolvidas. Os espectadores conversavam entre si em voz baixa, aguardando sua vez. Minha própria apresentação fora recebida com um murmúrio interessado de especulação e, acredito, de aprovação.

Agora, entretanto, um burburinho nervoso percorria o salão. Um homem forte adiantou-se para o centro do espaço vazio, arrastando uma jovem pela mão. Ela aparentava ter uns dezesseis anos, com um rosto bonito e emburrado, e longos cabelos louros amarrados na nuca com uma fita azul. Adiantou-se aos tropeções para o meio do espaço e ficou parada ali sozinha, enquanto o homem atrás dela protestava em gaélico, agitando os braços e apontando para ela para exemplificar ou acusar. Murmúrios percorriam a multidão enquanto ele falava.

A sra. Fitz-Gibbons, o corpo volumoso assentado em uma banqueta torta, espichava o pescoço com interesse. Inclinei-me para a frente e perguntei em seu ouvido:

- O que ela fez?

A enorme mulher respondeu sem mover os lábios ou desviar os olhos da cena.

- O pai dela a acusa de comportamento licencioso; de encontrar-se desapropriadamente com rapazes contra as suas ordens - balbuciou a sra. Fitz-Gibbons, inclinando o corpo volumoso para trás. - Seu pai quer que o MacKenzie a castigue por desobediência.

- Castigar? Como? — sussurrei, o mais baixo possível.

- Shhh.

No centro, as atenções agora se voltavam para Colum, que ponderava sobre a jovem e o pai. Olhando de um para o outro, começou a falar. Franzindo a testa, bateu bruscamente com os nós dos dedos no braço da cadeira e um estremecimento percorreu a multidão.

- Ele já decidiu - murmurou a sra. Fitz-Gibbons, desnecessariamente. O que ele havia decidido também era claro; o gigante mexeu-se pela primeira vez, desabotoando vagarosamente seu cinto de couro. Os dois guardas seguraram a aterrorizada jovem pelos braços e viraram-na de modo que ficasse de costas para Colum e seu pai. Ela começou a chorar, mas não fez nenhum apelo. A platéia observava com a espécie de intenso entusiasmo presente em execuções públicas e acidentes de trânsito. Repentinamente, uma voz gaélica ergueu-se na multidão, audível acima da movimentação e do burburinho.

As cabeças se voltaram para localizar a pessoa que falara. A sra. Fitz-Gibbons levantou-se, ficando até mesmo na ponta dos pés, para ver. Eu não fazia a menor idéia do que fora dito, mas achei que conhecia aquela voz, grave, mas suave, com um jeito pronunciado de cortar as consoantes finais.

A multidão apartou-se e Jamie MacTavish surgiu no espaço vazio. Inclinou a cabeça respeitosamente para MacKenzie, em seguida continuou a falar. O que quer que tenha dito, pareceu gerar mais controvérsia. Colum, Dougal, o pequeno escrivão e o pai da jovem, todos pareciam estar avaliando a situação.

- O que foi? - murmurei para a sra. Fitz-Gibbons. Meu paciente parecia muito melhor do que na última vez em que o vi, embora ainda um pouco pálido, pensei. Arranjara uma camisa limpa; a manga direita vazia fora dobrada e enfiada na cintura de seu kilt.

A sra. Fitz-Gibbons acompanhava os acontecimentos com grande interesse.

- O rapaz está se oferecendo para receber o castigo pela jovem — disse distraidamente, tentando espreitar pelos lados da cabeça do espectador à nossa frente.

- O quê? Mas ele está ferido! Certamente não vão deixá-lo fazer uma coisa dessas! - falei o mais baixo que pude sob o zumbido da multidão.

A sra. Fitz-Gibbons sacudiu a cabeça.

- Não sei. Estão discutindo isso agora. Veja bem, é permitido que um homem de seu próprio clã se ofereça por ela, mas o rapaz não é um MacKenzie.

- Não é? — Fiquei surpresa, tendo suposto ingenuamente que todos os homens do grupo que me capturara pertencessem ao Castelo Leoch.

- Claro que não — respondeu a sra. Fitz-Gibbons com impaciência. -Não vê o tartã dele?

Claro que sim, uma vez que ela chamou minha atenção para isso. Embora Jamie também usasse um tartã de caça em tons de verde e marrom, as cores eram diferentes dos tartãs dos outros homens presentes. O marrom era mais escuro, quase um tom de casca de árvore, com uma fina listra azul.

Tudo indicava que a contribuição de Dougal fora o argumento definitivo. O grupo de conselheiros dispersou-se e a multidão fez silêncio, aguardando os próximos acontecimentos. Os dois guardas soltaram a jovem, que correu de volta para o meio da multidão, e Jamie deu um passo à frente para tomar o lugar dela entre os guardas. Observei horrorizada quando fizeram menção de segurar seus braços, mas ele falou em gaélico para o homem com o cinto de couro e os dois guardas se afastaram. Surpreendentemente, um sorriso largo e insolente iluminou seu rosto por um instante. Mais estranho ainda, viu-se um breve sorriso de resposta no rosto do gigante.

- O que ele disse? - indaguei à minha intérprete.

- Ele prefere os punhos em vez da correia. Um homem pode fazer essa escolha, mas uma mulher não.

- Punhos? - Não tive tempo para novas perguntas. O carrasco afastou para trás o punho cerrado como um tacape e arremessou-o no estômago de Jamie, fazendo com que se dobrasse e soltasse a respiração com uma arfada. O homem esperou que ele se soerguesse outra vez antes de administrar-lhe uma série de golpes vigorosos nas costelas e braços. Jamie não fez nenhum esforço para se defender, meramente tentando equilibrar-se para se manter de pé diante do ataque.

O próximo soco foi no rosto. Contraí-me e apertei os olhos involuntariamente quando a cabeça de Jamie foi atirada para trás. O carrasco demorava-se entre um golpe e outro, com cuidado para não nocautear sua vitima ou bater muitas vezes em um único lugar. Era um espancamento científico, habilmente conduzido para infligir dor, mas não para aleijar ou mutilar. Um dos olhos de Jamie estava inchando e ele respirava com dificuldade, mas fora isso não parecia em muito mau estado.

Eu estava angustiada de apreensão, com medo de que um dos golpes reabrisse o ferimento no ombro. Minhas ataduras continuavam no lugar,

mas não durariam muito diante deste tipo de tratamento. Por quanto tempo aquilo iria continuar? O salão estava em silêncio, exceto pelos baques surdos de carne contra carne e um ou outro gemido leve.

- O pequeno Angus interromperá quando ele sangrar - sussurrou a Sra. Fitz, aparentemente adivinhando minha pergunta não proferida. - Em geral, quando o nariz é quebrado.

- Isso é uma selvageria! - exclamei entre dentes, furiosa. Diversas pessoas ao nosso redor olharam-me severamente.

Agora, aparentemente o carrasco decidira que a punição já transcorrera pelo tempo devido. Deu um passo para trás e desfechou um golpe fulminante; Jamie cambaleou e caiu de joelhos. Os dois guardas apressaram-se para colocá-lo de pé e, quando ele levantou a cabeça, pude ver o sangue jorrando de sua boca espancada. A multidão explodiu num zumbido de alívio e o carrasco recuou, satisfeito com o seu desempenho.

Um guarda segurou Jamie pelo braço, amparando-o enquanto ele sacudia a cabeça para desanuviá-la. A jovem desaparecera. Jamie ergueu a cabeça e olhou nos olhos do enorme carrasco. Surpreendentemente, riu outra vez, da melhor forma que podia. Os lábios, sangrando, moveram-se:

- Obrigado — disse, com dificuldade, e inclinou-se formalmente para o homem maior do que ele, antes de se voltar para ir embora. A atenção da multidão voltou para MacKenzie e o próximo caso diante dele.

Vi Jamie abandonar o salão pela porta na parede oposta. Tendo agora mais interesse nele do que nos procedimentos, despedi-me da sra. Fitz-Gibbons com uma rápida palavra e abri caminho pelo salão para segui-lo.

Encontrei-o num pequeno pátio interno, recostado contra uma fonte e tocando de leve a boca com a ponta da camisa.

- Tome, use isto — eu disse, oferecendo-lhe um lenço do meu bolso.

Aceitou-o com um ruído que entendi como sendo um agradecimento. Um sol pálido e fraco já saíra e eu examinei o jovem cuidadosamente à sua luz. Um lábio cortado e um olho extremamente inchado pareciam ser os principais danos, embora houvesse marcas no maxilar e no pescoço que logo se transformariam em manchas roxas.

- Sua boca está cortada por dentro também?

- Hum-hum. - Inclinou-se e eu puxei seu maxilar inferior, virando delicadamente o lábio para baixo para examinar o interior da boca. Havia um corte profundo na mucosa brilhante da bochecha e umas duas perfurações pequenas na membrana rósea da parte interna do lábio. O sangue misturado à saliva acumulou-se e escorreu.

- Água — ele disse com dificuldade, tentando enxugar o fio de sangue que escorria pelo queixo.

- Certo. - Felizmente, havia um balde e um copo de chifre na borda da fonte. Ele lavou a boca e cuspiu várias vezes, depois jogou água no resto do rosto.

- Por que fez aquilo? — perguntei com curiosidade.

- O quê? - disse, endireitando-se e enxugando o rosto na manga da camisa. Tocou de leve o lábio rachado, encolhendo-se ligeiramente.

- Oferecer-se para receber a punição no lugar daquela garota. Você a conhece? - Senti uma certa timidez em perguntar, mas eu realmente queria saber o que havia por trás daquele gesto quixotesco.

- Sei quem é. Mas nunca falei com ela.

- Então, por que fez isso?

Encolheu os ombros, um movimento que também o fez contrair-se.

- Teria sido uma vergonha para a garota, levar uma surra em pleno Conselho. Era mais fácil para mim.

- Mais fácil? — repeti, incrédula, olhando para seu rosto surrado. Ele apalpava as costelas doloridas com a mão livre, mas ergueu os olhos e deu um sorriso enviesado.

- Sim. Ela é muito jovem. Teria sido envergonhada diante de todo mundo que a conhece e levaria muito tempo até superar isso. Estou dolorido, mas nada realmente grave; vou me recuperar em um ou dois dias.

- Mas por que você? — perguntei. Olhou-me como se achasse a pergunta estranha.

- Por que não eu? - retrucou.

Por que não?, tive vontade de dizer. Porque você não a conhecia, ela não significava nada para você. Porque você já estava ferido. Porque é preciso uma coragem especial para ficar parado diante de uma multidão e deixar alguém surrá-lo no rosto, qualquer que fosse o motivo.

- Bem, um trapézio perfurado por uma bala de mosquete poderia ser considerado um bom motivo - eu disse secamente.

- Trapézio, hein? Não sabia disso.

- Ah, aí está você, rapaz! Vejo que já encontrou quem cuide de você; talvez não precise de mim. — A sra. Fitz-Gibbons veio gingando, espremendo-se um pouco pela passagem estreita que dava para o pátio. Segurava uma bandeja com alguns potes, uma tigela larga e uma toalha de linho limpa.

- Não fiz nada além de ir buscar um pouco d'água - eu disse. - Acho que não está muito ferido, mas não sei o que podemos fazer por ele além -de lavar seu rosto.

- Ah, ora, sempre há alguma coisa, sempre há alguma coisa que pode ser feita — ela disse, descontraidamente. - Ora, esse olho, rapaz, deixe-me vê-lo. - Jamie sentou-se obedientemente na borda da fonte e virou o rosto para ela. Os dedos rechonchudos pressionaram delicadamente o inchaço arroxeado, deixando marcas brancas que desapareceram rapidamente.

-- Ainda está sangrando sob a pele. Então, as sanguessugas vão ser úteis. -- Levantou a tampa da tigela, revelando várias lesmas escuras e pequenas, de três a cinco centímetros, cobertas com um líquido de aspecto asqueroso. Com a mão em concha, retirou duas delas e aplicou uma na pele logo abaixo do osso da sobrancelha e a outra abaixo do olho.

— Veja bem - explicou-me -, quando uma contusão se estabelece, as sanguessugas não adiantam mais. Mas quando se tem um inchaço como esse, que ainda está se formando, significa que o sangue está fluindo sob a pele e as sanguessugas podem extraí-lo.

Fiquei observando, fascinada e com nojo.

— Não dói? - perguntei a Jamie. Ele sacudiu a cabeça, fazendo as sanguessugas balançarem-se de forma repugnante.

— Não. Dão uma sensação fria, só isso.

A sra. Fitz estava ocupada com suas botijas e frascos.

— Muita gente não sabe usar sanguessugas - informou-me. - Às vezes são muito úteis, mas é preciso saber usá-las. Quando usadas numa contusão antiga, só retiram o sangue saudável, e isso não adianta nada para o hematoma. Além disso, é preciso ter cuidado para não usar muitas de uma vez; elas enfraquecem uma pessoa que está muito doente ou que já perdeu muito sangue.

Ouvi respeitosamente, absorvendo todas as informações, embora eu sinceramente esperasse que nunca me pedissem para usar aquilo.

— Agora, rapaz, faça um bochecho com isso; vai limpar os cortes e aliviar a dor. Chá de casca de salgueiro - explicou-me -, com um uma pitada de raiz de íris moída. - Balancei a cabeça; lembrava-me vagamente de ter ouvido em uma antiga aula de botânica que a casca do salgueiro continha ácido salicílico, o ingrediente ativo de uma aspirina.

— A casca de salgueiro não aumenta a possibilidade de sangramento? -perguntei.

A sra. Fitz confirmou balançando a cabeça.

— Sim. Às vezes, sim. É por isso que em seguida você dá um punhado de erva-de-são-joão embebida em vinagre; isso estanca o sangramento, se tiver sido colhida na lua cheia e bem moída.

Jamie obedientemente lavou a boca com a solução adstringente, os olhos lacrimejando com o cheiro penetrante do vinagre aromatizado.

As sanguessugas já estavam gordas a essa altura, inchadas e com o tamanho quadruplicado. A pele escura e enrugada agora estava lisa e brilhante; pareciam pedras redondas e polidas. De repente, uma das sanguessugas se desprendeu, saltando no chão e parando junto aos meus pés. A sra. Fitz pegou-a habilmente, abaixando-se com facilidade apesar do seu volume, e colocou-a de volta na tigela. Segurando delicadamente a outra sanguessuga logo atrás das mandíbulas, puxou-a devagar fazendo a cabeça esticar-se.

— Não pode puxar com muita força — ela disse. — às vezes, estouram. — Estremeci involuntariamente diante da idéia. — Mas quando estão quase cheias, em geral saem facilmente. Se não saírem, deixe-as mais algum tempo e cairão sozinhas.

De fato, a sanguessuga saiu com facilidade, deixando uma gota de sangue onde estivera presa. Enxuguei o minúsculo ferimento com a ponta da toalha imersa na solução de vinagre. Para minha surpresa, as sanguessugas funcionaram; o inchaço fora substancialmente reduzido e o olho estava ao menos parcialmente aberto, embora a pálpebra ainda estivesse intumescida. A sra. Fitz examinou-o e concluiu que não deveria usar outra sanguessuga.

- Você vai ficar com uma aparência horrível amanhã, rapaz, não resta a menor dúvida — ela disse, sacudindo a cabeça -, mas ao menos poderá ver um pouco com este olho. O que você precisa agora é colocar um pouco de carne crua em cima dele e pingar uma gota de caldo de carne com cerveja, para fortalecer o olho. Vá até a cozinha mais tarde e eu arranjarei um pouco para você. - Pegou sua bandeja e parou por um instante.

- O que você fez foi de bom coração, rapaz. Laoghaire é minha neta, você sabe; eu lhe agradeço por ela. Embora ela deva agradecer pessoalmente a você, se tiver um pouco de educação. - Deu uns tapinhas afetuosos no rosto de Jamie e saiu caminhando pesadamente.

Examinei-o com cuidado; o arcaico tratamento médico fora surpreendentemente eficaz. O olho ainda estava um pouco inchado, mas apenas levemente arroxeado, e o corte no lábio reduzira-se a uma linha limpa, sem sangue, somente um pouco mais escura do que o tecido à sua volta.

- Como se sente? - perguntei.

- Bem. - Devo ter olhado de esguelha, com um ar de descrença, porque ele sorriu, ainda tomando cuidado com a boca. - São apenas machucados, sabe. Parece que tenho que lhe agradecer outra vez; com essa, são três vezes em três dias que você cuidou de mim. Deve estar achando que sou um pouco atrapalhado.

Toquei uma mancha roxa em seu queixo.

- Atrapalhado, não. Um pouco insensato, talvez.

Uma movimentação na entrada do pátio chamou minha atenção; um lampejo de azul e amarelo. A jovem chamada Laoghaire recuou timidamente ao me ver.

- Acho que alguém quer falar com você a sós — eu disse. — Vou embora. Mas as ataduras do ombro podem ser retiradas amanhã. Irei à sua procura.

- Sim. Mais uma vez, obrigado. - Apertou minha mão levemente em despedida. Ao sair, olhei a jovem com curiosidade. Era ainda mais bonita de perto, com meigos olhos azuis e uma pele lisa e suave como uma pétala de rosa. Iluminou-se ao olhar para Jamie. Deixei o pátio, imaginando se na realidade seu gesto cavalheiresco fora assim tão altruístico quanto eu imaginara.

Na manhã seguinte, acordada ao raiar do dia pela algazarra dos pássaros no lado de fora e das pessoas no lado de dentro, vesti-me e descobri meu caminho pelos corredores frios até o salão. Devolvido à sua identidade normal como refeitório, enormes caldeirões de mingau eram servidos, com pães assados na lareira e untados com melado. O forte aroma dos alimentos sendo preparados era quase palpável. Ainda me sentia tonta e confusa, mas um desjejum quente e reforçado reanimou-me o suficiente para fazer uma pequena exploração.

Encontrando a sra. Fitz-Gibbons mergulhada até os cotovelos rechonchudos em massa enfarinhada, anunciei que queria encontrar Jamie, a fim de retirar as ataduras e examinar a cicatrização do ferimento à bala. Ela convocou um de seus criados com um aceno da mão redonda e branca de farinha.

-Jovem Alec, vá procurar Jamie, o novo domador de cavalos. Diga-lhe para vir com você para fazer curativo no ombro. Estaremos no canteiro de ervas. - Um sonoro estalo de dedos fez o rapaz sair correndo para localizar meu paciente.

Passando a tarefa de sovar a massa para uma criada, a sra. Fitz lavou as mãos e virou-se para mim.

— Ainda vai levar algum tempo até voltarem. Gostaria de dar uma olhada no canteiro de ervas? Parece que você tem algum conhecimento de plantas e, se quiser, pode dar uma mãozinha lá quando tiver tempo.

O canteiro de ervas, um valioso repositório de plantas aromáticas e medicinais, ficava protegido em um pátio interno, suficientemente grande para receber sol, mas bastante abrigado dos ventos da primavera e com sua própria fonte. Moitas de alecrim limitavam o canteiro a oeste, camomila ao sul e uma fileira de pau-roxo delimitava o canteiro ao norte, com a própria parede do castelo.na extremidade leste, um abrigo adicional aos ventos freqüentes. Identifiquei corretamente os estiletes verdes do açafrão e as folhas macias da azedinha francesa brotando da terra escura e adubada. A sra. Fitz mostrou-me a dedaleira, a beldroega e a betônica, além de algumas outras plantas que eu não conhecia.

O final da primavera era hora de plantio. A cesta que a sra. Fitz trazia no braço carregava uma profusão de dentes de alho, a primeira colheita do verão. A roliça senhora entregou-me o cesto, juntamente com uma pazinha para escavar. Tudo indicava que eu já ficara tempo suficiente à toa no castelo; até Colum encontrar uma função para mim, a sra. Fitz sempre teria trabalho para mais duas mãos.

— Tome, querida. Plante-os aqui, ao longo do lado sul, entre o tomilho e a dedaleira.

Mostrou-me como dividir as cabeças em brotos individuais sem desfazer o invólucro duro e, depois, como plantá-los. Era bastante simples, bastava enfiar cada dente no chão, a parte rombuda para baixo, enterrado cerca de quatro centímetros abaixo da superfície. Ergueu-se, limpando as volumosas saias.

- Guarde algumas cabeças - avisou-me. - Divida-as e plante os dentes separados aqui e lá, por todo o canteiro. O alho não deixa que as outras plantas sejam atacadas por bichinhos. Cebolas e milefólios surtem o mesmo efeito. E tire as pontas mortas dos cravos-da-índia, mas guarde-as, são úteis.

Havia muitos pés de cravos-da-índia espalhados pelo canteiro, irrompendo em flores douradas. Nesse instante, o Jovem Alec que ela enviara à procura de Jamie chegou, quase sem fôlego da corrida. Informou que o paciente recusara-se a largar o trabalho.

- Ele disse - informou, arquejante, o rapaz — que já não sente dor e que não precisa mais de curativos, mas mandou agradecer seu interesse.

A sra. Fitz encolheu os ombros diante da notícia não muito tranqüilizadora.

- Bem, se não quer vir, tudo bem. Mas, se quiser, vá até o curral por volta do meio-dia, dona. Ele pode não parar para ser atendido, mas vai parar para comer, se eu conheço bem os rapazes. O Jovem Alec virá buscá-la e a levará até lá.

Deixando-me com a tarefa de plantar o restante do alho, a sra. Fitz partiu como um galeão, o Jovem Alec bamboleando atrás dela.

Trabalhei alegremente durante toda a manhã, plantando alho, retirando as pontas de flores mortas, arrancando ervas daninhas e levando adiante a batalha sem fim de um jardineiro contra caracóis, lesmas e pragas similares. Aqui, entretanto, a batalha era travada com as mãos vazias, sem nenhuma ajuda de pesticidas. Estava tão absorta em meu trabalho que não notei a chegada do Jovem Alec até ele tossir educadamente para chamar minha atenção. Não sendo afeito a muitas palavras, esperou apenas o tempo suficiente para eu me levantar e limpar minha saia, antes de desaparecer pelo portão do pátio.

O curral aonde ele me levou ficava um pouco distante da estrebaria, em uma campina gramada e cercada. Três cavalos jovens saltitavam alegremente no prado. A outra, uma égua baia, jovem e reluzente, estava amarrada à cerca, com um cobertor leve sobre o dorso.

Jamie aproximava-se cautelosamente pelo lado da égua, que observava sua aproximação com uma boa dose de desconfiança. Ele colocou o braço livre levemente em seu dorso, falando baixinho, pronto para recuar se a égua se opusesse. Ela revirou os olhos e resfolegou, mas não se mexeu. Movendo-se lentamente, encostou-se no cobertor, ainda sussurrando para a égua, e aos poucos, bem devagar, descansou o peso do seu corpo sobre as costas do animal. Ela retrocedeu um pouco e arrastou as patas, mas ele insistiu, erguendo a voz apenas um pouco.

Nesse exato instante, a égua virou a cabeça e nos viu chegando. Pressentindo alguma ameaça, recuou, relinchando, e virou-se para nos olhar diretamente, imprensando Jamie contra a cerca. Resfolegando e corco-veando, ela saltava e procurava se livrar da corda que a prendia à cerca. Jamie rolou por baixo da cerca, fora do alcance dos coices. Levantou-se com dificuldade, praguejando em gaélico, e virou-se para ver o que havia causado aquele contratempo em seu trabalho.

Quando viu quem era, sua expressão furiosa mudou imediatamente para um amável cumprimento de boas-vindas, embora eu receie que nosso aparecimento não tenha sido tão oportuno quanto era de se desejar. O cesto com o lanche, providencialmente enviado pela sra. Fitz, que realmente conhecia os jovens, contribuiu bastante para recuperar seu bom humor.

— Ah, acalme-se, maldito animal - advertiu a égua, ainda bufando e dando pinotes. Liberando o Jovem Alec com um sopapo amigável, recuperou o cobertor que caíra da égua e, sacudindo a poeira do curral, gentilmente estendeu-o para que eu me sentasse.

Diplomaticamente, evitei qualquer referência ao recente contratempo com a égua e, em vez disso, servi-lhe cerveja e pedaços de pão e de queijo.

Ele comeu com uma concentração tão absoluta que me fez lembrar de sua ausência do jantar há duas noites.

— Dormi direto — ele disse rindo quando lhe perguntei por onde andara. - Fui dormir assim que a deixei no castelo e só acordei ontem de manhã. Trabalhei um pouco ontem, após o Conselho, depois me sentei em um fardo de feno para descansar um pouco antes do jantar. Acordei hoje de manhã ainda sentado lá, com um cavalo mordiscando a minha orelha.

Achei que o descanso fizera-lhe bem; as contusões da surra do dia anterior estavam escuras, mas a pele ao redor tinha uma boa cor saudável e ele certamente tinha bom apetite.

Observei-o terminar toda a comida, catando farelos de pão da camisa com a ponta do dedo molhada e jogando-os dentro da boca.

— Tem um apetite saudável — eu disse, rindo. - Aposto que poderia comer capim se não tivesse outra coisa.

— Já comi - ele disse, sério. - Não tem gosto ruim, mas não alimenta muito.

Fiquei perplexa, depois achei que estivesse brincando comigo.

— Quando? — perguntei.

— Inverno, no ano anterior ao último. Eu estava vivendo precariamente, sabe, na floresta, com os... com um grupo de rapazes, fazendo incursões na fronteira. Não tivemos sorte por mais de uma semana e não havia mais nenhuma comida. De vez em quando conseguíamos um pouco de mingau na casa de um ou outro camponês, mas eles mesmos são tão pobres que raramente podem oferecer alguma coisa. Mas, veja bem, eles sempre acham alguma coisa para dar a um estranho, mas vinte estranhos é demais, mesmo para a hospitalidade de um habitante das Highlands.

Abriu um largo sorriso repentinamente.

-Já ouviu falar... bem, não teria ouvido. Eu ia perguntar se você já tinha ouvido a oração de graças que dizem nas pequenas fazendas.

- Não. Como é?

Ele sacudiu a cabeça para afastar os cabelos dos olhos e recitou:

Corra, corra, à volta da mesa, Coma tanto quanto puder. Coma muito, não surrupie nada, Corra, corra, Amém.

- "Não surrupie nada?" — perguntei, achando graça. Ele bateu na bolsa presa ao cinto.

- Coloque a comida na barriga, não na bolsa - explicou.

Pegou uma longa lâmina de grama e puxou-a delicadamente de sua base. Enrolou-a devagar entre as palmas da mão, fazendo as minúsculas sementes voarem da haste.

- Era fim de inverno, e um inverno ameno, o que foi sorte, ou não teríamos sobrevivido. Sempre podíamos capturar alguns coelhos com armadilhas, às vezes os comíamos crus, se não pudéssemos nos arriscar a acender um fogo, e de vez em quando um cervo, mas não achávamos caça há vários dias, nessa época de que estou falando.

Dentes brancos e retos mastigaram o talo de grama. Eu mesma arranquei um talo e mordisquei a ponta. Era adocicado e ligeiramente ácido, mas só havia mais ou menos uns dois centímetros de talo macio o suficiente para comer; não dava para sustentar ninguém.

Jogando fora o talo parcialmente comido, Jamie arrancou outro e continuou sua história.

- Nevara um pouco alguns dias antes; apenas uma crosta sob as árvores e lama em todo o resto. Eu procurava cogumelos, sabe, aqueles enormes, cor de laranja, que crescem na base das árvores, às vezes. Enfiei o pé em uma crosta de neve e por baixo havia um bom pedaço de terra com grama, crescendo num espaço aberto entre as árvores, acho que batia um pouco de sol ali às vezes. Geralmente, os veados encontram esses trechos de grama. Eles tiram a neve com as patas e comem a grama até as raízes.

Não haviam encontrado aquela ali ainda e achei que se eles conseguiam atravessar o inverno dessa forma, por que não eu? Estava tão faminto que Poderia ter cozinhado minhas botas e comido, se não precisasse delas para andar. Assim, comi a grama, até as raízes, como os veados fazem.

-- Há quanto tempo você não comia? — perguntei, fascinada e horrorizada.

— Três dias sem nada; uma semana sem nada mais do que um punhado de aveia com um pouco de leite. Sim — disse, olhando pensativamente o talo de grama em sua mão -, a grama de inverno é dura e azeda, não é como esta, mas eu não me importei. - Riu para mim repentinamente.

— Também não dei muita importância ao fato de que um cervo tem quatro estômagos, enquanto eu só tinha um. Tive cólicas terríveis e gases durante dias. Um dos homens mais velhos disse-me mais tarde que, para comer grama, é preciso cozinhá-la na água primeiro, mas eu não sabia disso na hora. Não teria feito diferença; estava faminto demais para esperar.

Levantou-se e me deu a mão para me ajudar a ficar de pé.

— É melhor voltar ao trabalho. Obrigado pela comida, dona. - Entregou-me o cesto e dirigiu-se para o curral, o sol brilhando em seus cabelos como num tesouro de moedas de ouro e cobre.

Voltei lentamente para o castelo, pensando nos homens que viviam na lama fria e comiam grama. Não me ocorreu, até chegar ao pátio, que eu me esquecera completamente de seu ombro.

 

Para minha surpresa, um dos soldados de kilt de Colum esperava por mim junto ao portão quando retornei ao castelo. O sr. MacKenzie ficaria agradecido, disse-me, se o aguardasse em seus aposentos.

Os longos postigos das janelas estavam abertos no santuário particular do chefe dos MacKenzie e o vento sacudia os ramos das árvores cativas com uma agitação e um murmúrio que davam a ilusão de se estar ao ar livre.

O próprio MacKenzie estava sentado à sua escrivaninha quando entrei, mas parou de escrever imediatamente e levantou-se para me cumprimentar. Após algumas indagações quanto à minha saúde e bem-estar, levou-me à gaiola junto à parede, onde ficamos admirando os minúsculos habitantes trinando e saltitando pela folhagem, animados com o vento.

- Dougal e a sra. Fitz-Gibbons falaram-me sobre sua grande habilidade de curar - Colum observou descontraidamente, enfiando um dedo pela tela da gaiola. Aparentemente acostumado a isso, um pequeno trigueirão cinza lançou-se para baixo e pousou com precisão, as pequenas garras firmemente presas ao dedo e as asas ligeiramente abertas para manter o equilíbrio. Ele acariciou delicadamente a cabeça do pássaro com o nodoso dedo indicador da outra mão. Vi a pele grossa em torno da unha e fiquei intrigada; não parecia provável que ele fizesse muito trabalho manual.

Encolhi os ombros.

- Não é preciso muita habilidade para fazer curativo em um ferimento superficial.

Ele sorriu.

- Talvez não, mas é preciso um pouco de habilidade para fazer isso em total escuridão ao lado da estrada, hein? E a sra. Fitz diz que você consertou um dedo quebrado de um de seus rapazes e que também tratou do braço escaldado de uma das cozinheiras hoje de manhã.

- Isso também não é muito difícil - repliquei, imaginando onde ele estaria querendo chegar. Fez um sinal para um dos criados, que rapidamente foi pegar uma pequena tigela de uma das gavetas da escrivaninha. Retirando a tampa, Colum começou a espalhar sementes através da tela da gaiola. Os passarinhos lançaram-se dos galhos como um bando de bolas de críquete arremessadas no meio da quadra e o trigueirão fez o mesmo, unindo-se a seus companheiros no chão da gaiola.

- Não tem nenhuma ligação com o clã dos Beaton, tem? - perguntou.

Lembrei-me da sra. Fitz-Gibbons ter perguntado: É uma feiticeira, então? Uma Beaton?

- Nenhuma. O que o clã Beaton tem a ver com tratamento médico? Colum olhou-me surpreso.

- Então nunca ouviu falar deles? Os curandeiros do clã Beaton são famosos em toda a região das Highlands. Muitos deles são curandeiros viajantes. Na verdade, tivemos um aqui conosco durante algum tempo.

- Tiveram? O que aconteceu a ele? - perguntei.

- Morreu - Colum respondeu sem rodeios. — Pegou uma febre e isso o levou em menos de uma semana. Desde então não tivemos mais um curandeiro, exceto a sra. Fitz.

- Ela parece muito competente — eu disse, pensando no tratamento eficaz dos machucados do jovem Jamie. Pensar nisso me fez lembrar do que os causara e senti uma onda de ressentimento em relação a Colum. Ressentimento e cautela também. Este homem, disse a mim mesma, era a lei, o júri e o juiz para o povo que vivia em seus domínios - e obviamente acostumara-se a impor sua vontade.

Ele assentiu, ainda atento aos pássaros. Espalhou o restante dos grãos, favorecendo um pequeno pássaro canoro cinza-azulado que chegara atrasado.

- Ah, sim. Ela é de grande ajuda nessas questões, mas ela já tem mais do que suficiente para cuidar, administrando o castelo inteiro e todos que vivem aqui, inclusive eu - disse, com um repentino sorriso encantador.

- Eu estava imaginando - disse, aproveitando-se rapidamente do meu sorriso em resposta —, vendo que não tem muito com que ocupar seu tempo no momento, que talvez quisesse dar uma olhada nas coisas que Davie Beaton deixou. Talvez conheça o uso de alguns dos seus remédios e poções.

- Bem... creio que sim. Por que não? — De fato, eu estava ficando ligeiramente entediada com o vaivém entre a horta, a despensa e a cozinha. Estava curiosa para ver a parafernália que o falecido sr. Beaton considerava útil.

- Angus ou eu poderíamos acompanhar a senhora até lá embaixo, senhor — o criado sugeriu respeitosamente.

- Não se preocupe, John - Colum disse, dispensando educadamente o criado com um gesto da mão. — Eu mesmo acompanharei a sra. Beauchamp.

A descida da escada era obviamente lenta e dolorosa para ele. Igualmente óbvio era que ele não queria ajuda e eu não ofereci nenhuma.

O consultório do finado Beaton ficava em um canto remoto do castelo, oculto atrás das cozinhas. Ficava próximo apenas do cemitério, onde seu ex-proprietário agora repousava. Situado na parede externa do castelo, o aposento era dotado apenas de uma daquelas janelas estreitas e compridas, bem alta, de modo que uma faixa plana de luz do sol cortava o ar, separando as trevas do teto alto e abobadado da escuridão ainda mais sombria ao rés do chão.

Espreitando os recessos turvos do aposento à frente de Colum, divisei uma cômoda alta com dezenas de gavetas minúsculas, cada qual com uma etiqueta em uma escrita floreada. Potes, caixas e frascos de todas as formas e tamanhos estavam cuidadosamente arrumados nas prateleiras acima de uma bancada onde o finado Beaton evidentemente costumava preparar os remédios, a julgar pelos resíduos das manchas e por uma vasilha para triturar, cheia de crostas.

Colum entrou na sala à minha frente. Partículas reluzentes, alvoroçadas por sua entrada, giraram para cima, para a faixa de luz do sol, como poeira erguida pela violação de um túmulo. Parou por um instante, deixando que seus olhos se acostumassem à escuridão, depois caminhou lentamente para a frente, olhando de um lado para o outro. Achei que talvez fosse a primeira vez que ele entrava naquele aposento.

Observando seu avanço hesitante ao atravessar a sala estreita, eu disse:

- A massagem pode ajudar um pouco. Quero dizer, com a dor. Captei um lampejo nos olhos verdes e por um instante desejei não ter falado, mas a centelha desapareceu quase imediatamente, substituída por sua expressão gentil de costume.

- Tem que ser feita vigorosamente — eu disse —, na base da coluna, especialmente.

- Eu sei - ele disse. — Angus Mhor faz isso para mim, à noite. - Fez uma pausa, manuseando um dos frascos. - Parece que a senhora realmente conhece um pouco da arte de curar.

- Um pouco - disse, com cautela, esperando que ele não resolvesse me por à prova perguntando para que serviam os diversos medicamentos. O rótulo no frasco que ele segurava dizia PURLES OVIS. Difícil adivinhar o que seria aquilo. Felizmente, ele recolocou o frasco no lugar e passou o dedo cuidadosamente pela poeira em uma grande arca junto à parede.

-- Faz algum tempo que ninguém entra aqui - ele disse. - Vou falar com a sra. Fitz para mandar umas de suas meninas aqui para fazer uma limpeza, não acha?

Abri a porta de um armário e tossi com a nuvem de poeira que se levantou.

-- Acho que é melhor - concordei.

Havia um livro na prateleira mais baixa do armário, um volume grosso encadernado em couro azul. Erguendo-o, descobri um livro menor embaixo, este simplesmente encadernado em tecido preto, bem desgastado nas bordas.

Verifiquei que esse segundo livro era o registro diário de Beaton, onde ele anotava ordenadamente os nomes dos pacientes, detalhes de seus males e o curso do tratamento prescrito. Um homem metódico, pensei com aprovação. Uma anotação dizia: "2 de fevereiro, 1741 d.C. Sarah Graham MacKenzie, ferimento no polegar por ter ficado preso na borda da bobina de fiar. Aplicação de infusão de menta, seguida de uma cataplasma de uma parte de cada: milefólio, erva-de-são-joão, tatuzinho moído e orelha-de-rato, misturados em uma base de argila fina." Tatuzinho? Orelha-de-rato? Algumas das ervas nas prateleiras, sem dúvida.

- O polegar de Sarah MacKenzie sarou direito? - perguntei a Colum, fechando o livro.

- Sarah? Ah - ele disse pensativamente. - Não, acho que não.

- É mesmo? Imagino o que terá acontecido - eu disse. - Talvez eu possa dar uma olhada depois.

Ele sacudiu a cabeça e eu achei ter visto o vislumbre de um sorriso amargo nos contornos de seus lábios cheios e bem delineados.

- Por que não? — perguntei. - Ela não está mais no castelo?

- Acho que pode dizer que sim - respondeu. O sorriso agora era evidente. - Ela está morta.

Fiquei olhando-o fixamente enquanto ele atravessava cuidadosamente o assoalho de pedra empoeirado em direção à porta.

- Espero que você se saia melhor como curandeira do que o finado Davie Beaton, sra. Beauchamp — ele disse. Virou-se e parou à porta, olhando-me sarcasticamente. O facho de luz do sol projetava-se diretamente sobre ele.

- Dificilmente poderia se sair pior — ele disse, desaparecendo na escuridão.

Fiquei andando de um lado para o outro no minúsculo aposento, examinando tudo. A maior parte parecia imprestável, mas devia haver algumas coisas que mereciam ser salvas. Abri uma das gavetinhas da cômoda do boticário, liberando uma lufada de cânfora. Bem, isso era útil, certamente. Fechei a gavetinha e esfreguei meus dedos empoeirados na saia. Talvez eu devesse esperar até que as ajudantes da sra. Fitz tivessem limpado o lugar para continuar minhas investigações.

Espreitei o corredor. Deserto. Tampouco ouvi ruído. Mas eu não era tão ingênua a ponto de pensar que não houvesse alguém nas proximidades. Quer fosse por ordens ou por tato, eram bastante discretos a respeito, mas eu sabia que era permanentemente vigiada. Quando eu ia para a horta, alguém me acompanhava. Quando subia para o meu quarto, via alguém casualmente olhar para cima, do pé das escadas, para ver que direção eu tomava. E quando chegamos de nossa cavalgada, não deixei de perceber os guardas armados abrigados da chuva sob o ressalto do telhado. Não, definitivamente eu não poderia simplesmente sair e ir embora dali, quanto mais que me fornecessem transporte e meios para partir.

Suspirei. Ao menos, estava sozinha no momento. E solidão era algo que eu desejava muito, ao menos por algum tempo.

Tentara inúmeras vezes pensar em tudo que me acontecera desde que atravessei o monumento de pedras. No entanto, tudo acontecia tão depressa naquele lugar que mal tivera um instante comigo mesma, a não ser quando estava dormindo.

Aparentemente, agora eu poderia ter um momento só para mim. Afastei a arca empoeirada da parede e sentei-me sobre ela, recostando as costas nas pedras. Eram muito sólidas. Estendi os braços e descansei as palmas das mãos sobre elas, pensando no círculo de pedras, tentando me lembrar de cada detalhe do que acontecera.

As pedras gritando eram na verdade a última cena da qual eu podia dizer que realmente me lembrava. E, mesmo sobre elas, tinha dúvidas. A gritaria continuara o tempo inteiro, sem parar. Era possível, pensei, que o barulho viesse não das pedras propriamente, mas de... o que quer que fosse... em que eu entrara. Seriam as pedras uma porta de algum tipo? E para onde se abriam? Simplesmente não havia palavras para descrever o que eram. Uma fenda no tempo, talvez, porque obviamente eu existia então e eu existia agora, e as pedras eram a única conexão.

E os sons. Eram devastadores, mas pensando melhor agora que algum tempo já transcorrera, pareciam-me muito semelhantes aos sons de uma batalha. O hospital de campanha onde eu servira fora bombardeado três vezes. Mesmo sabendo que as frágeis paredes de nossas estruturas temporárias não nos protegeriam, mesmo assim médicos, enfermeiras e serventes corriam todos para dentro ao primeiro alarme, aconchegando-se para ter coragem. É preciso muita coragem quando há balas de canhão chiando acima de nossas cabeças e bombas explodindo ao redor. O tipo de terror que eu sentira na época era o que mais se assemelhava ao que eu sentira no monumento de pedras.

Agora eu percebia que me lembrava de alguns pontos da viagem através da pedra. Detalhes muito pequenos. Lembrei-me de uma sensação de luta física, como se tivesse ficado presa em algum tipo de corrente. Sim, lutara com todas as forças contra aquilo, o que quer que fosse. Havia imagens na corrente também, pensei. Não exatamente figuras, mas algo como Pensamentos incompletos. Alguns eram aterrorizantes e eu lutara para fugir deles enquanto eu... bem, "passava". Teria lutado em direção a outros? Tinha uma certa consciência de lutar em direção a uma espécie de superfície. Eu teria na verdade escolhido esta época em particular porque oferecia uma espécie de refúgio daquele turbilhão voraz?

Sacudi a cabeça. Não obtinha respostas com meus pensamentos. Nada estava claro, exceto o fato de que eu teria que voltar ao círculo de pedras.

— Madame? — Uma suave voz escocesa vinda da porta me fez erguer o olhar. Duas jovens, talvez com dezesseis ou dezessete anos, permaneciam timidamente paradas no corredor. Estavam vestidas grosseiramente, com tamancos nos pés e xales tecidos à mão cobrindo os cabelos. A que falara carregava uma vassoura e vários panos dobrados, enquanto sua companheira segurava um balde com água fervente. As ajudantes da sra. Fitz, para limpar o consultório.

— Não estamos incomodando, madame? - perguntou uma delas, ansiosamente.

— Não, não - assegurei-lhes. - Eu já estava mesmo de saída.

— A senhora perdeu a refeição de meio-dia - a outra me informou. -Mas a sra. Fitz pediu-me para lhe dizer que há comida para a senhora na cozinha quando quiser ir até lá.

Olhei pela janela ao fim do corredor. O sol, de fato, já ultrapassara o zênite e tomei consciência da crescente ânsia de fome no meu estômago. Sorri para as jovens.

— Vou fazer isso. Obrigada.

Levei o almoço para o campo outra vez, temendo que Jamie não comesse nada até o jantar. Sentado na grama, vendo-o comer, perguntei-lhe por que levara uma vida desgovernada, atravessando a fronteira para roubar gado. A essa altura, eu já vira o suficiente, tanto das pessoas que iam e vinham da aldeia mais próxima quanto dos habitantes do castelo para ser capaz de dizer que Jamie era mais bem-nascido e recebera uma educação muito melhor do que a maioria. Era provável que viesse de uma família bastante rica, a julgar pela breve descrição que me dera de sua propriedade rural. Por que estaria tão longe de casa?

- Sou um fora-da-lei - disse, como se estivesse surpreso por eu não saber. - Os ingleses colocaram uma recompensa de dez libras pela minha cabeça. Não tanto como um assaltante de estrada — disse, com zombaria —, mas como um ladrão de galinhas.

- Só por obstrução? - perguntei, incrédula. Dez libras aqui eram metade da renda anual de uma pequena fazenda; eu não podia imaginar que um único fugitivo pudesse valer tanto para o governo inglês.

- Ah, não. Assassinato. - Engasguei com um bocado de pão e picles. Jamie bateu nas minhas costas para me ajudar até eu poder falar outra vez.

Com os olhos lacrimejantes, perguntei:

- Q-quem você m-matou? Deu de ombros.

- Bem, é um pouco estranho. Eu na verdade não matei o homem por cujo assassinato sou procurado. Mas, veja bem, matei alguns soldados ingleses ao longo do caminho, de modo que suponho que não seja injusto.

Parou e remexeu os ombros, como se roçasse em alguma parede invisível. Eu já o vira fazer isso antes, na minha primeira manhã no castelo, quando cuidei de seu ferimento e vi as cicatrizes em suas costas.

- Foi em Fort William. Passei um ou dois dias em que mal podia me mexer, depois de ter sido chicoteado pela segunda vez e, depois, tive febre por causa dos ferimentos. Quando -pude ficar de pé outra vez, alguns... amigos tentaram me tirar do forte, por meios que prefiro não comentar. De qualquer modo, houve um certo tumulto quando partimos e um sargento-mor inglês foi morto com um tiro. Por coincidência, era o homem que havia me açoitado pela primeira vez. Mas não fui eu que atirei nele; eu não tinha nada pessoal contra ele e, de qualquer modo, estava fraco demais para fazer mais do que me agarrar ao cavalo. - A boca expressiva estreitou-se e contraiu-se. — Embora, se fosse o capitão Randall, talvez eu tivesse feito o esforço. - Relaxou os músculos outra vez, fazendo a camisa de linho cru ficar esticada nas costas, e em seguida deu de ombros.

- Mas isso foi o que aconteceu. É por essa razão que não me afasto muito do castelo sozinho. Aqui no meio das Highlands, há pouca chance de esbarrar com guardas ingleses, embora eles realmente atravessem a fronteira com freqüência. E depois há a patrulha, embora também não se aproxime do castelo. Colum não precisa muito dos serviços deles, tendo seus próprios homens. - Sorriu, passando a mão pelos cabelos curtos e brilhantes até ficarem espetados como os pêlos de um porco-espinho.

- Não sou exatamente uma pessoa que passe despercebida, você sabe. Duvido que haja informantes no próprio castelo, mas deve haver um ou outro no campo que ficaria muito feliz de ganhar algum dinheiro informando aos ingleses onde estou, se soubessem que sou procurado. - Sorriu. - Deve ter percebido que meu nome não é MacTavish.

- O senhor do castelo sabe?

- Que sou um fora-da-lei? Ah, sim, Colum sabe. É provável que a maior parte das pessoas desta região das Highlands saiba; o que aconteceu em Fort William causou muita agitação na época e as notícias andam depressa por aqui. O que não devem saber é que Jamie MacTavish é o homem procurado; desde que ninguém que me conheça pelo meu verdadeiro nome me veja. - Seus cabelos ainda estavam ridiculamente espetados. Tive o impulso repentino de alisá-los, mas me contive.

-- Por que usa os cabelos cortados tão curtos? — perguntei repentina-mente, corando em seguida. - Desculpe, não é da minha conta. Só fiquei curiosa, já que a maioria dos outros homens que vi aqui usa cabelos compridos...

Ele abaixou as mechas pontiagudas, parecendo um pouco acanhado.

- Eu também costumava usar os meus longos. Estão curtos agora porque os monges tiveram que raspar a parte de trás da minha cabeça e só tiveram alguns meses para crescer de novo. - Dobrou-se para a frente na cintura, convidando-me a inspecionar o local.

- Está vendo aqui atrás? - Eu certamente podia sentir a cicatriz do ferimento e também vê-la quando afastei os cabelos espessos. A marca tinha cerca de quinze centímetros de tecido recém-cicatrizado, ainda rosado e ligeiramente alto. Pressionei delicadamente ao longo de todo o comprimento. Bem cicatrizado e um bom trabalho fora feito por quem costurara; um ferimento como aquele deve ter aberto e sangrado consideravelmente.

- Você tem dores de cabeça? - perguntei profissionalmente. Ele endireitou-se, alisando os cabelos por cima da cicatriz. Balançou a cabeça.

- Às vezes, embora nada parecido com o que sentia no começo. Fiquei cego por mais ou menos um mês depois do que aconteceu e minha cabeça doía insuportavelmente o tempo inteiro. A dor de cabeça começou a desaparecer quando minha visão retornou. — Piscou diversas vezes, como se testasse sua capacidade de ver.

- Às vezes, turva um pouco - explicou —, quando estou muito cansado. As coisas ficam com contornos indistintos.

- É de se admirar que não tenha morrido - eu disse. - Você deve ter uma cabeça bem dura.

- Isso eu tenho. Dura que nem pedra, segundo minha irmã. - Nós dois rimos.

- Como aconteceu? - perguntei. Ele franziu a testa e uma expressão de dúvida tomou conta de seu rosto.

- Bem, eu também não sei - respondeu devagar. - Não me lembro de nada. Eu estava perto do Carryarick Pass com alguns rapazes de Loch Laggan. A última coisa que sei é que estava abrindo caminho por uma subida difícil, em meio a um mato cerrado; lembro-me de ter espetado a mão num azevinho e pensado que as gotas de sangue pareciam amoras silvestres. Depois disso, só me lembro de acordar na França, no Mosteiro de St. Anne de Beaupré, com a cabeça latejando como um tambor e alguém que eu não conseguia ver me dando algo frio para beber.

Esfregou a parte de trás da cabeça como se ainda doesse.

- Às vezes, acho que me lembro de pequenas coisas: um lampião acima da minha cabeça, balançando de um lado para o outro, um gosto doce e oleoso nos lábios, pessoas falando comigo. Mas não sei se isso foi real. Sei que os monges me deram ópio e eu sonhava praticamente o tempo inteiro. - Pressionou os dedos sobre as pálpebras cerradas.

- Havia um sonho que sempre se repetia. Três raízes crescendo dentro de minha cabeça, grandes e retorcidas, crescendo e inchando, saindo pelos meus olhos, enfiando-se pela minha garganta para me sufocar. Continuava assim, sem parar, com as raízes enroscando-se e enrolando-se, e ficando cada vez maiores. Finalmente, cresciam tanto que explodiam meu crânio e eu acordava ouvindo o barulho de ossos estilhaçando-se. - Abriu um amplo sorriso. — Uns estalidos gosmentos, como tiros embaixo d'água.

- Credo!

Uma sombra recaiu de repente sobre nós e uma bota grande e pesada cutucou Jamie nas costelas.

- Filho-da-mãe preguiçoso — o recém-chegado disse sem compaixão. — Empanturrando-se enquanto os cavalos ficam largados por aí. E quando essa potranca vai ser domada, hein, rapaz?

- Não enquanto eu estiver com fome, Alec — Jamie replicou. - Enquanto isso, coma um pouco; tem bastante. - Estendeu um pedaço de queijo para a mão nodosa nas articulações por causa de artrite. Os dedos, permanentemente curvados, quase como uma garra, fecharam-se lentamente sobre o queijo, enquanto seu proprietário deixava-se cair na grama.

Com modos inesperadamente educados, Jamie apresentou o visitante; Alec MacMahon MacKenzie, estribeiro-mor do Castelo Leoch.

Uma figura atarracada de calças de couro até os joelhos e uma camisa rústica, o estribeiro-mor tinha um ar de autoridade suficiente, pensei, para dominar o mais recalcitrante garanhão. Um "olho como o de Marte, para ameaçar ou comandar", a citação veio no mesmo instante à minha mente. E era um único olho, o outro estando coberto com uma venda de pano preto. Como se para compensar a perda, as sobrancelhas cresciam profusamente de um ponto central, ostentando longos fios grisalhos como antenas de um inseto que se balançavam ameaçadoramente dos tufos castanhos básicos.

Após um curto sinal de cumprimento com a cabeça, o Velho Alec (pois assim Jamie se referia a ele, sem dúvida para distingui-lo do Jovem Alec que fora meu guia), ignorou-me, dividindo sua atenção entre a comida e os três potros que sacudiam a cauda no prado lá embaixo. Aos poucos, fui perdendo o interesse na conversa, durante uma longa discussão envolvendo o parentesco de vários ilustres cavalos, que não estavam entre aqueles presentes, detalhes de registros de pedigree de toda a cocheira durante vários anos e inúmeros pontos incompreensíveis da conformação eqüina, referente a jarretes, cernelhas, espáduas e outros itens de anatomia, como os únicos pontos de um cavalo que eu notava eram focinho, rabo e orelhas, as sutilezas nada significavam para mim.

Reclinei-me sobre os cotovelos e fiquei me aquecendo no calor agradável do sol de primavera. Havia uma paz curiosa neste dia, uma sensação de coisas seguindo tranqüilamente seu curso, sem se preocupar com os transtornos e tumultos das preocupações humanas. Talvez fosse a paz que sempre se encontra ao ar livre, longe de prédios e do vozerio. Talvez fosse o resultado da jardinagem, aquela serena sensação de prazer em tocar coisas vivas, a satisfação de ajudá-las a florescer. Talvez fosse apenas o alívio de finalmente ter encontrado uma atividade para exercer, ao invés de ficar vagando pelo castelo sentindo-me deslocada, tão visível quanto um borrão de tinta no pergaminho.

Apesar do fato de não tomar parte na conversa sobre cavalos, eu não me sentia absolutamente deslocada ali. O Velho Alec agia como se eu fosse apenas parte da paisagem e, enquanto Jamie lançava um olhar em minha direção de vez em quando, ele também, gradualmente, passou a me ignorar, conforme a conversa entre eles resvalava para os ritmos escorregadios do gaélico, sinal seguro do envolvimento emocional de um escocês com o assunto em pauta. Como eu não entendia nada do que estava sendo dito, o som era tão tranqüilizador quanto o zumbido de abelhas nas flores das urzes. Estranhamente satisfeita e sonolenta, afastei todos os pensamentos sobre as suspeitas de Colum, a gravidade de minha situação e outras idéias perturbadoras. "A cada dia uma tribulação", pensei preguiçosamente, resgatando a citação bíblica dos recessos da memória.

Pode ter sido o frio causado por uma nuvem que encobriu o sol ou a alteração do tom da conversa dos homens que me despertou algum tempo depois. Voltaram a falar em inglês, em tom grave, não mais aquele bate-papo descontraído dos aficionados por cavalos.

- Falta apenas uma semana para o Grande Encontro, rapaz — dizia Alec. — Já resolveu, o que vai fazer?

Jamie exalou um longo suspiro.

- Não, Alec, ainda não. Às vezes, penso de uma maneira, às vezes, de outra. É bom estar aqui, trabalhando com os animais e com você. — A voz do jovem pareceu ostentar um sorriso, que desapareceu quando continuou a falar. — E Colum me prometeu que... bem, você não sabe de nada sobre isso. Mas beijar o ferro da espada, mudar meu nome para MacKenzie e renegar toda a minha origem? Não, não consigo me decidir a fazer isso.

- Teimoso como seu pai, é o que você é - observou Alec, embora as palavras carregassem um tom de ressentida aprovação. - Às vezes, você se parece muito com ele, apesar de ser alto e claro como a família de sua mãe.

- Você o conheceu? — Jamie pareceu interessado.

- Ah, um pouco. Foi mais de ouvir falar. Estou aqui em Leoch desde antes do casamento de seus pais, você sabe. E ouvir Dougal e Colum falarem do Black Brian, parecia que ele era o próprio diabo, se não pior. E a sua mãe a Virgem Maria, raptada e levada para o Inferno por ele.

Jamie riu.

- E eu sou como ele, então?

- Tudo isso e muito mais, rapaz. Sim, entendo por que não pode admitir ser um homem de Colum. Mas há considerações em contrário, não? Se for preciso lutar pelos Stuart, digamos, e Dougal conseguir o que quer. Fique no lado certo nesta luta, rapaz, e terá suas terras de volta e muito mais, independente do que Colum faça.

Jamie respondeu com o que eu considerava um "ruído escocês", aquele som indeterminado, grave, do fundo da garganta, que pode ser interpretado praticamente de qualquer modo. Esse som específico parecia indicar alguma dúvida quanto à probabilidade de resultado tão desejável.

- Sim - disse -, e se Dougal não conseguir fazer valer sua vontade, o que acontece? Ou se a luta for contra a casa dos Stuart?

Alec emitiu seu próprio som gutural.

- Então, você permanece aqui, rapaz. Vai ser o estribeiro-mor em meu lugar; não vou durar muito mais e nunca vi ninguém melhor com cavalos do que você.

O grunhido modesto de Jamie indicou agradecimento pelo elogio. O homem mais velho continuou, sem dar ouvidos a tais interrupções.

- Os MacKenzie são seus parentes, também; não se trata de renegar o seu sangue. E ainda há outras considerações — sua voz adquiriu um tom de zombaria -, como a srta. Laoghaire, talvez?

Obteve outro grunhido em resposta, este indicando constrangimento e rejeição da idéia.

- Ora, vamos, rapaz, um jovem não se deixa surrar por uma garota pela qual não sente nada. E você sabe que o pai dela não vai deixar que se case fora do clã.

- Ela era muito nova, Alec, e fiquei com pena dela — Jamie disse, defendendo-se. - Não há nada além disso. - Desta vez, coube a Alec emitir o ruído escocês, um resfolegar gutural, repleto de incredulidade e ironia.

- Conte essa para outro, rapaz; você não engana ninguém. Bem, ainda que não seja por Laoghaire - e, veja bem, você poderia se sair muito pior -, você seria um partido para casamento muito melhor se tivesse um pouco de dinheiro e um futuro; como teria, se fosse o próximo estribeiro-mor, poderia escolher a garota que quisesse, se uma delas não escolher você primeiro! - Alec resfolegou com aquela risada meio engasgada de um homem que raramente ri. - Pior que moscas no mel, rapaz! Sem um tostão e sem um nome como está agora, as raparigas ainda suspiram por você... eu tenho visto! — Mais respiração ruidosa e irônica. - Até essa Sassenach não consegue ficar longe de você e ela acaba de ficar viúva!

Para evitar o que prometia ser uma série de observações pessoais cada vez mais desagradáveis, resolvi que era hora de ficar oficialmente acordada. Espreguiçando-me e bocejando, sentei-me, esfregando os olhos ostensivamente para evitar olhar para qualquer um dos interlocutores.

- Hummm. Acho que peguei no sono - disse, piscando repetidamente para eles. Jamie, meio vermelho em torno das orelhas, mostrava-se exageradamente interessado em arrumar o que restara -do piquenique. O Velho Alec fitou-me, aparentemente notando a minha presença pela primeira vez.

- Se interessa por cavalos, dona? — perguntou. Naquelas circunstâncias, não poderia dizer que não. Concordando que os cavalos eram muito interessantes, fui brindada com uma exegese detalhada sobre a potranca no curral, agora sonolentamente parada, o rabo abanando-se preguiçosamente de vez em quando por causa de uma ou outra mosca.

- Pode vir observá-los quando quiser, dona - Alec concluiu —, desde que não se aproxime tanto que perturbe os animais. Sabe, eles precisam trabalhar. — Isso tinha a óbvia intenção de me dispensar, mas fiquei irredutível, lembrando-me do meu propósito original de ter ido até lá.

- Sim, terei mais cuidado da próxima vez - prometi. — Mas antes de voltar para o castelo, queria verificar o ombro de Jamie e retirar as ataduras.

Alec assentiu devagar, mas para minha surpresa, foi Jamie quem recusou meus cuidados, virando-se para voltar ao curral.

- Ah, isso vai ter que esperar um pouco, dona - ele disse, desviando o olhar. - Há muito o que fazer ainda hoje; talvez mais tarde, depois da ceia, hein? - Era estranho; antes, não estava com nenhuma pressa de voltar ao trabalho. De qualquer modo, não podia forçá-lo a se submeter aos meus cuidados se ele não queria. Dando de ombros, concordei em encontrá-lo depois do jantar e virei-me para começar a subir a colina em direção ao castelo.

Enquanto subia, considerei a forma da cicatriz na cabeça de Jamie. Não era uma linha reta, como seria feita por uma espada larga inglesa. O ferimento era curvo, como se tivesse sido feito por uma lâmina bem curva. Uma lâmina como a de um machado Lochaber, o antigo machado de guerra dos escoceses? Mas até onde eu sabia, essas armas assassinas foram -não, eram, corrigi a mim mesma - carregadas apenas por membros de clãs.

Somente quando já me afastara consideravelmente é que me ocorreu. Para um jovem fugitivo, com inimigos desconhecidos, Jamie confiara demais em uma estranha.

Deixando a cesta de piquenique na cozinha, voltei ao consultório do finado Beaton, agora imaculadamente limpo, após a visita das vigorosas auxiliares da sra. Fitz. Até as dezenas de frascos no armário reluziam na luz turva que entrava pela janela.

O armário parecia um bom lugar por onde começar, com um inventário das ervas e medicamentos já existentes. Eu havia passado algum tempo na noite anterior, antes do sono me dominar, folheando o livro encadernado de couro azul que eu pegara no consultório. Tratava-se do Guia prático do médico, uma relação de receitas para o tratamento de diversos sintomas e doenças, os ingredientes para os quais estariam aparentemente dispostos diante de mim.

O livro dividia-se em várias seções: "Quebra-febres, vomitórios, eletuários", "Trociscos", "Emplastros diversos e suas aplicações", "Decocções e Teriaga" além de uma extensa seção ameaçadoramente intitulada com uma única palavra: "Purgantes".

Lendo algumas das receitas, a razão para a falta de êxito do falecido Davie Beaton tornou-se óbvia. "Para dor de cabeça", dizia um dos registros, "pegue uma bola de estrume de cavalo, que deve ser cuidadosamente secada, socada até transformar-se em pó e este inteiramente bebido, misturado a cerveja quente." "Para convulsões em crianças, cinco sanguessugas a serem aplicadas atrás da orelha." E algumas páginas mais adiante, "decocções feitas das raízes de quelidônia, açafroeiro-da-índia e suco de 200 tatuzinhos são de grande utilidade em casos de icterícia". Fechei o livro, admirada com o grande número de pacientes do falecido doutor que, segundo seu meticuloso livro de registro, não só sobreviveram ao tratamento que lhes fora prescrito, como realmente se curaram de seus males originais.

Havia um grande pote de vidro marrom contendo várias bolas de aparência suspeita e, diante das receitas de Beaton, eu fazia uma boa idéia do que deveriam ser. Virando-o, li triunfantemente a etiqueta escrita à mão: ESTRUME DE CAVALOS. Imaginando que tal substância não devia melhorar com o tempo de armazenamento, separei o pote cuidadosamente sem abri-lo.

Investigações subseqüentes mostraram que PURLES OVIS era uma versão latinizada de uma substância similar, desta vez proveniente de ovelhas. Orelha-de-rato também demonstrou ser de natureza animal, em vez de herbácea; afastei um frasco de minúsculas orelhas rosadas e secas com um estremecimento.

Eu estava intrigada com os "tatuzinhos" - a erva também chamada de baratinha" - que parecia ser um ingrediente importante em vários remédios, de modo que fiquei satisfeita ao ver um frasco transparente, fechado com uma rolha de cortiça, com esse nome na etiqueta. O frasco estava até a metade com o que pareciam ser pequenas pílulas cinzas. Não tinham mais do que meio centímetro de diâmetro e eram tão perfeitamente redondas que me admirei das habilidades farmacêuticas de Beaton. Aproximei o frasco do rosto, intrigada com a leveza. Então, vi as finas estrias transversais de cada "pílula" e as pernas microscópicas, dobradas lá dentro do vinco central. Devolvi o frasco rapidamente à prateleira, limpando a mão no meu avental, e fiz mais uma anotação na lista mental que estava compilando. Para "tatuzinhos", leia-se "bichos-de-conta".

Havia diversas substâncias mais ou menos inofensivas nos potes de Beaton, bem como diversos contendo ervas secas ou extratos que poderiam ser úteis. Encontrei um pouco do pó de raiz de íris e o vinagre aromatizado que a sra. Fitz usara para tratar dos ferimentos de Jamie MacTavish. Também encontrei angélica, absinto, alecrim e algo etiquetado como ABIES FÉTIDO. Abri o frasco cautelosamente, mas não se tratava de nada além das pontas tenras de galhos de abeto e uma agradável fragrância balsâmica desprendeu-se do frasco destampado. Deixei-o aberto e coloquei-o sobre a mesa para perfumar o ar na salinha escura enquanto eu continuava com meu inventário.

Joguei fora potes de caramujos secos; ÓLEO DE MINHOCAS — que parecia ser exatamente isso; VINUM MILLEPEDATUM - embuás miriápodes, triturados em pedaços e embebidos em vinho; PÓ DE MÚMIA EGÍPCIA - um pó de aparência indefinida, cuja origem me pareceu mais provável ser de um sedimento de beira de rio do que o túmulo de um faraó; SANGUE DE POMBOS, ovos de formiga, vários sapos secos laboriosamente envolvidos em musgo e crânio humano, EM PÓ. De quem?, me perguntei.

Levei quase a tarde inteira para terminar minhas inspeções do armário e da cômoda de muitas gavetas. Quando terminei, havia uma grande pilha de frascos, caixas e potes descartados do lado de fora da porta do consultório para ser levada para o lixo e uma coleção bem menor de itens possivelmente úteis novamente guardados no armário.

Durante um bom tempo, considerei um grande pacote de teias de aranha, hesitando sobre o que fazer com elas. Tanto o Guia de Beaton quanto minhas próprias lembranças vagas de medicina popular diziam que teia de aranha era eficaz em curativos. Enquanto minha própria tendência era de considerar tais usos extremamente anti-higiênicos, minha experiência com ataduras de linho à beira da estrada mostrara-me a necessidade de ter alguma substância adesiva e com propriedades absorventes para curativos. Finalmente, coloquei o pacote de teias de aranha de volta no armário, decidindo ver se haveria algum meio de esterilizá-las. Não fervendo, pensei. Talvez o vapor pudesse limpá-las sem destruir a capacidade adesiva.

Esfreguei as mãos no avental, examinando a idéia. Já havia inventariado praticamente tudo — exceto a arca de madeira junto à parede. Abri a tampa e recuei imediatamente diante do mau cheiro liberado.

A arca era o repositório do lado cirúrgico das atividades de Beaton. Dentro, havia serras, facas, bisturis e outros instrumentos de aparência sinistra, parecendo mais adequados à construção de prédios do que aos delicados tecidos humanos. O cheiro fétido aparentemente provinha do fato de que Davie Beaton não vira nenhuma utilidade em limpar seus instrumentos entre uma utilização e outra. Fiz uma careta de nojo diante das manchas escuras em algumas das lâminas e fechei a arca batendo a tampa com força.

Arrastei a arca em direção à porta, pretendendo dizer à sra. Fitz que os instrumentos, uma vez adequadamente fervidos, deveriam ser dados ao carpinteiro do castelo, se houvesse tal personagem.

Um movimento atrás de mim alertou-me a tempo de evitar dar de encontro com a pessoa que acabava de entrar. Virei-me e vi dois homens, um sustentando o outro, que mancava de um dos pés. O pé machucado estava envolvido num monte de trapos, manchados de sangue vivo.

Olhei à minha volta, em seguida fiz um gesto indicando a arca, por falta de melhores acomodações.

- Sente-se - eu disse. Tudo indicava que a nova médica do Castelo Leoch começara a atender seus pacientes.

 

Fiquei deitada na cama, sentindo-me completamente exausta. Por estranho que pareça, eu gostara de vasculhar a memorabilia do finado Beaton e de tratar daqueles poucos pacientes. Apesar dos parcos recursos, fizera-me sentir realmente segura e útil outra vez. Sentir carne e ossos sob meus dedos, tomar o pulso, inspecionar línguas e olhos, toda a rotina familiar, contribuíra muito para aplacar a sensação oca de pânico que me acompanhava desde a minha queda através da rocha. Por mais estranhas que minhas circunstâncias pudessem parecer, e por mais deslocada que eu estivesse, de certo modo era reconfortante que aquelas fossem realmente outras pessoas. Com cabelos e pele quente, com corações cujos batimentos podiam ser sentidos e pulmões que respiravam de modo audível. Algumas imundas, cheias de piolhos e cheirando mal, mas isso não era nenhuma novidade para mim. Certamente não era pior do que em um hospital de campanha e os ferimentos eram, ainda bem, infinitamente menores. Era muito gratificante ser capaz outra vez de aliviar a dor, restaurar uma junta, consertar danos. Assumir responsabilidade pelo bem-estar de outras pessoas me fez sentir menos vitimada pelos caprichos de um destino impossível que me trouxera até ali — e agradecia a Colum por isso.

Colum MacKenzie. Eis um homem estranho. Culto, gentil diante de uma falta e também atencioso, com uma reserva que apenas escondia o âmago de aço. Esse interior de aço era muito mais visível em seu irmão Dougal. Este um guerreiro nato. E, no entanto, ao vê-los juntos, ficava evidente quem era o mais forte. Colum era um líder, com ou sem pernas tortas.

Síndrome de Toulouse-Lautrec. Nunca vira um caso antes, mas já o haviam descrito para mim. Com o nome de sua vítima mais famosa (que ainda não havia nascido, lembrei a mim mesma), era uma doença degenerativa dos ossos e dos ligamentos. As pessoas acometidas dessa doença pareciam normais, embora enfermas, até a adolescência, quando os longos ossos das pernas, sob a pressão de sustentar um corpo ereto, começavam a desfazer-se e desmoronar-se sobre si mesmos.

A compleição pálida, prematuramente enrugada, era outro efeito aparente da má circulação que caracterizava a doença. Igualmente, os dedos das mãos e dos pés, ressecados e cheios de calosidades, que eu já notara. A medida que as pernas entortavam-se e arqueavam-se, a espinha ficava sob grande pressão e em geral também entortava, causando imenso desconforto à vítima. Reli mentalmente a descrição no livro médico, alisando languidamente os cachos do meu cabelo com os dedos. Baixa contagem de leucócitos aumentava a suscetibilidade à infecção e à artrite precoce. Devido à má circulação e à degeneração dos ligamentos, as vítimas eram invariavelmente estéreis e em geral também impotentes.

Parei repentinamente, pensando em Hamish. Meu filho, Colum dissera, apresentando orgulhosamente o menino. Hummm, pensei comigo mesma. Então, talvez não impotente. Ou talvez, sim. Felizmente para Letitia, a maior parte dos homens do clã MacKenzie possuíam um alto grau de semelhança física.

Fui arrancada dessas interessantes ruminações por uma repentina batida na porta. Um daqueles onipresentes garotos estava do lado de fora, trazendo um convite do próprio Colum. Haveria um espetáculo de música no salão, disse, e Colum MacKenzie se sentiria honrado com minha presença, se eu fizesse a gentileza de descer.

Estava curiosa para ver Colum de novo, à luz das minhas recentes especulações. Assim, com uma rápida olhada no espelho e um gesto inútil para assentar meus cabelos, fechei a porta atrás de mim e segui meu acompanhante pelos corredores sinuosos e frios.

O salão parecia diferente à noite, muito festivo com tochas de pinheiro estalando ao longo de todas as paredes, às vezes lançando uma chama azul de terebintina. A imensa lareira, com seus múltiplos espetos e caldeirões, diminuíra sua atividade desde o frenesi do jantar; agora, apenas um único fogo queimava na lareira, sustentado por duas toras enormes e de combustão lenta e os espetos haviam sido dobrados de volta para dentro da cavernosa chaminé.

As mesas e bancos ainda estavam ali, mas ligeiramente empurrados para trás, a fim de criar um espaço livre junto à lareira; aparentemente, aquele deveria ser o centro do entretenimento, pois a enorme cadeira esculpida de Colum estava colocada em um dos lados. O próprio Colum a ocupava, uma manta de lã sobre as pernas e uma mesinha com uma bela garrafa ornamental para servir vinho e taças à mão.

Vendo-me hesitar no arco da entrada, fez um sinal amistoso para que eu me sentasse a seu lado, indicando um banco próximo.

- Fico satisfeito que tenha vindo, sra. Claire - ele disse, de modo agradavelmente informal. - Gwyllyn ficará contente de ter uma nova ouvinte Para as suas canções, embora nós sempre estejamos ávidos para ouvi-lo.

O chefe dos MacKenzie parecia cansado, pensei; os ombros largos estavam um pouco curvados e as rugas prematuras de seu rosto pareciam mais pronunciadas.

Murmurei alguma coisa casual e olhei à minha volta. As pessoas começavam a chegar, algumas às vezes saíam, parando em pequenos grupos para conversar, gradualmente assumindo seus lugares nos bancos arrumados junto às paredes.

- Como disse? — Virei-me, tendo perdido as palavras de Colum no vozerio crescente, e deparei-me com ele oferecendo-me a garrafa de vinho, uma linda peça no formato de um sino, de cristal verde-água. O líquido, visto através do cristal, parecia verde como as profundezas do mar, mas uma vez servido mostrava ter uma adorável cor rosa-clara, com um delicioso buquê. O sabor correspondia plenamente à promessa e cerrei os olhos de felicidade, deixando que os vapores do vinho tocassem o céu da minha boca antes de relutantemente permitir que cada gole do néctar descesse lentamente pela minha garganta.

- Bom, não? - A voz grave carregava um tom de divertimento e eu abri os olhos para ver Colum sorrindo para mim com aprovação.

Abri a boca para responder e descobri que a suave delicadeza do sabor era enganadora; o vinho era suficientemente forte para causar uma leve paralisia das cordas vocais.

- Ma-maravilhoso - consegui emitir. Colum balançou a cabeça, concordando.

- Sim, é verdade. Do Reno, sabe. Não conhece?

Sacudi a cabeça, enquanto ele inclinava a garrafa sobre minha taça, enchendo-a com o resplandecente rosa. Segurou sua própria taça pela haste, girando-a diante do rosto de modo que a luz do fogo iluminasse o conteúdo com pitadas de cinabre.

- Mas conhece um bom vinho — Colum disse, inclinando a taça para desfrutar o encorpado aroma de frutas. - Mas é natural, imagino, sendo sua família francesa. Ou parcialmente francesa, deveria dizer - corrigiu-se com um rápido sorriso. - De que parte da França é sua família?

Hesitei por um instante, em seguida lembrei que devia me manter fiel à verdade, até onde fosse possível, e respondi:

- São laços antigos, mas não muito próximos, Esses parentes que devo ter lá são do norte, perto de Compiègne. - Fiquei ligeiramente espantada ao perceber, neste momento, que meus parentes de fato ficavam perto de Compiègne. Realmente, fiel à verdade.

- Ah. Então, a senhora mesma nunca esteve lá?

Inclinei a taça, sacudindo a cabeça ao fazê-lo. Cerrei os olhos e respirei fundo, inalando o aroma do vinho.

- Não — disse, os olhos ainda cerrados. — Também não conheço nenhum dos meus parentes que vivem lá. — Abri os olhos para vê-lo observando-me atentamente. - Eu lhe disse isso.

Ele assentiu, não parecendo nem um pouco perturbado:

- É verdade.

Seus olhos eram de um belo tom cinza-claro, emoldurados por espessas pestanas negras. Um homem muito atraente, Colum MacKenzie, pelo menos até a cintura. Meu olhar passou por ele e recaiu sobre o grupo mais próximo da lareira, onde pude ver sua mulher, Letitia, em um grupo de várias mulheres, todas envolvidas numa animada conversa com Dougal MacKenzie. Também um homem muito atraente, e completo.

Voltei minha atenção de novo para Colum e o vi fitando distraidamente uma das tapeçarias penduradas na parede.

- E também já lhe disse - falei bruscamente, despertando-o de seu alheamento momentâneo - que gostaria de partir para a França o mais cedo possível.

- É verdade - repetiu, amavelmente, e pegou a garrafa de bebida com um arqueamento interrogativo da sobrancelha. Segurei minha taça com firmeza, fazendo um sinal de que só queria um pouco, mas ele encheu o delicado recipiente quase até a borda outra vez.

- Bem, como eu lhe disse, sra. Beauchamp - falou, os olhos fixos no vinho -, acho que deveria ficar por aqui um pouco, até que as providências adequadas para o seu transporte possam ser tomadas. Afinal, não é preciso pressa. Ainda estamos na primavera e meses antes as tempestades de outono tornam a travessia do canal arriscada. - Ergueu os olhos e a garrafa ao mesmo tempo e fitou-me com um olhar astuto.

- Mas se me der os nomes de seus parentes na França, posso enviar uma mensagem antes, para que fiquem avisados da sua chegada, hein?

Depois do blefe, não tinha muita escolha senão murmurar algo do tipo sim-bem-talvez-mais tarde e pedir licença apressadamente sob o pretexto de visitar o lavatório antes do início da apresentação de canto. Colum tinha as cartas, mas o jogo ainda não terminara.

Meu pretexto não era inteiramente fictício e levei algum tempo, vagando pelos corredores escuros do castelo, para encontrar o lugar que estava procurando. Tateando pelo caminho de volta, a taça de vinho ainda na mão, encontrei a entrada iluminada para o salão, mas percebi, ao entrar, que chegara à entrada inferior e agora estava no extremo oposto do salão em relação a Colum. Nas atuais circunstâncias, isso me era bem conveniente, e entrei discretamente no longo salão, esforçando-me para me confundir com pequenos grupos de pessoas conforme avançava ao longo da parede em direção a um dos bancos.

Lançando um olhar para o extremo superior do salão, vi um homem mais esbelto que devia ser o bardo Gwyllyn, a julgar pela pequena harpa que carregava. A um sinal de Colum, um criado apressou-se a trazer um banquinho para o bardo, no qual ele sentou-se e começou a afinar a harpa, tocando levemente as cordas, o ouvido junto ao instrumento. Colum serviu outra taça de vinho de sua própria garrafa e, com outro sinal, despachou-a pelo criado na direção do bardo.

Irreverentemente, comecei a cantarolar baixinho uma canção, provocando um olhar de estranheza da jovem Laoghaire. Ela estava sentada sob uma tapeçaria ostentando um caçador com seis cachorros alongados e vesgos, numa perseguição errática de uma única lebre.

- Um pouco de exagero, não acha? - eu disse despreocupadamente, indicando a cena com um gesto da mão e deixando-me cair sentada a seu lado no banco.

- Ah! Hã, sim - respondeu cautelosamente, afastando-se um pouco. Tentei envolvê-la numa conversa amistosa, mas ela respondia quase sempre em monossílabos, ruborizando e sobressaltando-se quando eu falava com ela. Assim, logo desisti, voltando minha atenção para a cena no outro lado do salão.

Satisfeito com a afinação da harpa, Gwyllyn retirou do casaco três flautas de madeira de tamanhos diferentes, colocando-as sobre uma mesinha providencialmente colocada a seu lado.

De repente, notei que Laoghaire não compartilhava meu interesse no bardo e seus instrumentos. Ela endireitara-se ligeiramente e espreitava por cima do meu ombro em direção à entrada em arco mais baixa, ao mesmo tempo inclinando-se para trás, para as sombras da tapeçaria, para evitar ser notada.

Seguindo a direção do seu olhar, vi a figura alta, de cabelos avermelhados, de Jamie MacTavish, que acabava de entrar no salão.

- Ah! O herói galante! Gosta dele, não? — perguntei à jovem ao meu lado. Sacudiu a cabeça energicamente, mas as faces brilhantes e rosadas eram uma resposta mais convincente.

- Bem, vamos ver o que podemos fazer, hein? - eu disse, sentindo-me expansiva e magnânima. Levantei-me e acenei animadamente para atrair sua atenção.

Percebendo meu sinal, o jovem abriu caminho pela multidão, sorrindo. Eu não sabia o que se passara entre eles no pátio, mas achei que sua maneira de cumprimentar a jovem era calorosa, embora ainda formal. A mesura que fez para mim foi ligeiramente mais relaxada; após a forçada intimidade de nosso relacionamento até o momento, não dava para me tratar como uma estranha.

Algumas notas experimentais do lado superior do salão anunciaram o iminente começo da apresentação e nós tomamos nossos lugares apressadamente, Jamie sentando-se entre Laoghaire e mim.

Gwyllyn era um homem de aparência insignificante, de ossatura pequena e cabelos ralos, mas ficava invisível quando começava a cantar. Servia apenas como foco, um ponto para descansar os olhos enquanto os ouvidos deliciavam-se com seu canto. Começou com uma canção simples, algo em gaélico com um forte repique rimado nos versos, acompanhado pelo mais leve toque das cordas da harpa, de modo que a vibração de cada corda parecia carregar o eco das palavras de um verso para o outro. A voz também era enganadoramente simples. A princípio, achava-se que não havia nada demais no seu canto dolente - agradável, mas sem muita força. No entanto, em seguida descobria-se que o som atravessava-o diretamente e cada sílaba era límpida, quer você a entendesse ou não, ecoando pungentemente dentro de sua cabeça.

A canção foi recebida com uma calorosa onda de aplausos e o cantor imediatamente iniciou outra, desta vez em gaélico, pensei. Soava como uma espécie de melodioso gargarejo para mim, mas as pessoas ao meu redor pareciam entender bem a letra; sem dúvida, não era a primeira vez que a ouviam.

Durante uma breve pausa para uma nova afinação, perguntei a Jamie em voz baixa:

- Gwyllyn já está há muito tempo no castelo? - Em seguida, lembrando-me, disse: - Ah, mas você não saberia, não é? Havia me esquecido que você mesmo é muito novo aqui.

- Já estive aqui antes — respondeu, voltando sua atenção para mim. -Passei um ano em Leoch quando tinha mais ou menos dezesseis anos e Gwyllyn já estava aqui naquela época. Colum aprecia muito a sua música. Paga bem a Gwyllyn para que permaneça aqui. É preciso, porque o galês seria bem-vindo junto à lareira de qualquer senhor onde escolhesse cantar.

- Lembro-me de quando você esteve aqui, antes. - Era Laoghaire, ainda ruborizada, mas resolvida a entrar na conversa. Jamie voltou-se para ela, com um leve sorriso.

- Ah, então você se lembra? Você mesma não devia ter mais do que sete ou oito anos. Acho que não era grande coisa na época, para ser lembrado. - Voltando-se educadamente para mim, perguntou: — Você sabe gaulês, então?

- Bem, mas eu me lembro - Laoghaire disse, continuando. - Você era, hã... quero dizer... então, você não se lembra de mim naquela época? — Suas mãos brincavam nervosamente com as pregas da saia. Notei que roía as unhas.

A atenção de Jamie foi atraída para um grupo de pessoas do outro lado do aposento, discutindo em gaélico.

-- Hein? - disse vagamente. - Não, acho que não. De qualquer forma -- continuou, com um sorriso, repentinamente voltando sua atenção para ela outra vez —, é provável que não fosse me lembrar mesmo. Um adolescente de dezesseis anos é muito cheio de si para prestar atenção ao que acha que não passa de um bando de meninas de nariz sardento.

Entendi que ele fez essa observação com a intenção de depreciar a si mesmo, e não sua interlocutora, mas o efeito não foi o desejado. Achei que uma pequena pausa para permitir que Laoghaire se recobrasse fazia-se necessária e interrompi apressadamente dizendo:

- Não, não sei nada de gaulês. Tem alguma idéia do que ele estava dizendo?

- Ah, sim. - E Jamie lançou-se no que parecia ser a recitação palavra por palavra da canção, traduzida para o inglês. Aparentemente, tratava-se de uma antiga balada sobre um jovem que amava uma jovem (o que mais?), mas sentindo-se indigno dela por ser pobre, partiu para fazer fortuna no mar. O jovem sofreu um naufrágio, deparou-se com serpentes marinhas que o ameaçaram e sereias que o encantaram, teve aventuras e voltou finalmente para casa somente para encontrar a jovem casada com seu melhor amigo, que embora um pouco mais pobre, aparentemente também tinha mais juízo.

- E quem você seria? — perguntei, em tom de troça. — Seria o jovem que não casaria sem dinheiro ou ficaria com a jovem sem se importar com o dinheiro? — Essa pergunta pareceu interessar também a Laoghaire, que inclinou a cabeça para ouvir a resposta, enquanto fingia prestar grande atenção a uma canção que Gwyllyn começara a tocar na flauta.

- Eu? - Jamie pareceu divertir-se com a pergunta. - Bem, como não tenho nenhum dinheiro, e bem pouca chance de jamais ganhar algum, acho que ficaria feliz de achar uma jovem que quisesse casar comigo assim mesmo. — Sacudiu a cabeça, rindo. - Não tenho estômago para serpentes marinhas.

Abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas foi silenciado por Laoghaire, que colocou a mão timidamente em seu braço, depois corou e retirou-a bruscamente como se a pele dele estivesse em brasa.

- Sshh — disse. — Quero dizer... ele vai contar histórias. Não quer ouvir?

- Ah, sim. — Jamie chegou um pouco mais para a frente do banco na expectativa, percebeu que bloqueava a minha visão e insistiu para que eu sentasse do outro lado dele, deslocando Laoghaire para mais longe no banco. Pude notar que a jovem não ficou muito satisfeita com o novo arranjo e eu tentei protestar, dizendo que estava bem onde estava, mas ele manteve-se firme.

- Não, você vai ver e ouvir melhor daqui. E depois, se ele cantar em gaélico, posso sussurrar no seu ouvido o que ele está dizendo.

Cada parte da atuação do bardo era saudada com calorosos aplausos, embora as pessoas conversassem em voz baixa enquanto ele tocava, produzindo um zumbido grave abaixo dos acordes melodiosos e agudos da harpa. Agora, entretanto, uma espécie de silêncio de expectativa abateu-se sobre o salão. A voz de Gwyllyn era tão clara quanto seu canto, cada palavra lançada para alcançar sem esforço o lado oposto do salão alto e bafejado por correntes de ar.

- Era uma vez, há duzentos anos... - Falava em inglês e tive uma sensação repentina de déjà vu. Era exatamente a mesma maneira de falar de nosso guia no lago Ness, contando lendas do Great Glen.

No entanto, não era uma história de fantasmas e heróis que ele contava mas uma história do Povo Pequeno, de fadas e duendes.

- Havia um clã do Povo Pequeno que vivia perto de Dundreggan -começou. - E a colina que havia lá tinha o nome do dragão que vivia nela, que Fionn matou e enterrou ali mesmo, dando o nome à colina. Depois da morte de Fionn e de Feinn, o Povo Pequeno que foi morar na colina veio a precisar das mães de seres humanos para serem amas-de-leite dos próprios filhos das fadas, pois o ser humano tem algo que as fadas não têm e o Povo Pequeno achou que isso deveria passar pelo leite das mães para suas próprias crianças.

"Ora, Ewan MacDonald de Dundregaua estava lá fora no escuro, cuidando de seus animais, na noite em que sua mulher deu à luz seu primeiro filho. Um sopro do vento noturno passou por ele e na corrente do vento ele ouviu o suspiro de sua mulher. Ela suspirou como suspirara antes da criança nascer e, ouvindo-a ali, Ewan MacDonald virou-se e lançou sua faca no vento em nome da Trindade. E sua mulher caiu sã e salva no chão a seu lado."

Ao final, a história foi recebida com uma espécie de "ah" coletivo, rapidamente seguido por histórias sobre a inteligência e a ingenuidade do Povo Pequeno, além de outras sobre as interações com o mundo dos homens. Algumas eram em gaélico, outras em inglês, aparentemente segundo a que melhor se adequasse ao ritmo das palavras, pois todas elas possuíam uma beleza no desenrolar das palavras que ia além do conteúdo da história propriamente dito. Como prometera, Jamie traduziu o gaélico para mim em voz baixa, tão rapidamente e com tanta facilidade que achei que já devia ter ouvido essas histórias muitas vezes antes.

Houve uma que particularmente chamou minha atenção, sobre o homem que ficava na escuridão da noite em uma colina de fadas e que ouviu o canto "triste e lamurioso" de uma mulher vindo das próprias pedras da colina. Ele ouviu com mais atenção e entendeu a letra da canção:

"Sou a mulher do Senhor de Balnain As fadas me levaram outra vez."

Assim, o homem correu para a casa de Balnain e descobriu que o proprietário fora embora e que a mulher e o filho haviam desaparecido. O homem imediatamente procurou um padre e levou-o até o monte das fadas. O padre benzeu as pedras da colina e aspergiu água benta sobre elas. De repente, a noite ficou mais escura e ouviu-se um barulho ensurdecedor como o de um trovão. Então, a lua saiu de trás de uma nuvem e iluminou a mulher, a esposa de Balnain, que jazia exausta na grama com o menino nos braços. A mulher estava cansada, como se tivesse viajado para longe. mas não sabia dizer onde estivera nem como chegara lá.

Outras pessoas no salão tinham histórias para contar e Gwylynn ficou descansando em seu banquinho, apreciando o vinho em pequenos goles, enquanto outros contadores de histórias se revezavam junto à lareira, mantendo a platéia embevecida.

Algumas eu mal ouvi. Eu mesma estava arrebatada, mas pelos meus próprios pensamentos, que giravam, formando padrões sob a influência do vinho, da música e das lendas de fadas.

"Houve uma época, há duzentos anos..."

São sempre duzentos anos nas histórias das Highlands, disse a voz do reverendo Wakefield em sua memória. O mesmo que o nosso indefinido "Era uma vez", de hoje.

E mulheres presas nas pedras de colinas de fadas, viajando para longe e chegando exaustas, que não sabiam onde haviam estado, nem como haviam chegado lá.

Pude sentir os pêlos nos meus braços se eriçarem, como se estivesse com frio, e esfreguei-os nervosamente. Duzentos anos. De 1945 a 1743; sim, bem próximo. E mulheres que viajavam através das rochas. Seriam sempre mulheres?, perguntei-me repentinamente.

Outra coisa me ocorreu. As mulheres voltavam. Água benta, feitiço ou faca, elas voltavam. Assim, talvez, apenas talvez, fosse possível. Preciso voltar ao monumento de pedras em Craigh na Dun. Senti uma agitação crescente que me deixou um pouco zonza e estendi o braço para a taça de vinho para me acalmar.

- Cuidado! - Meus dedos trêmulos atrapalharam-se na borda da taça de cristal quase cheia que eu descuidadamente colocara no banco ao meu lado. O longo braço de Jamie passou como uma flecha por cima do meu colo, salvando a taça por pouco de um desastre. Ergueu a taça, segurando-a delicadamente pela haste entre dois dedos grandes, e passou-a suavemente de um lado para o outro sob o nariz. Entregou-me a taça, as sobrancelhas erguidas.

- Do Reno - expliquei.

- Eu sei - ele disse, ainda parecendo intrigado. - De Colum, não?

- Isso mesmo. Gostaria de experimentar? É muito bom. - Estendi a taça, com pouca firmeza. Após um instante de hesitação, aceitou a taça e experimentou um pequeno gole.

- Sim, muito bom - disse, devolvendo-me a taça. - Também duplamente forte. Colum toma-o à noite, porque suas pernas doem. Quanto tomou? - perguntou, olhando-me com os olhos semicerrados.

- Duas, não, três taças - respondi, com alguma dignidade. - Está querendo dizer que estou bêbada?

- Não - respondeu, as sobrancelhas ainda erguidas. — Estou impressionado que não esteja. Muitas pessoas que bebem com Colum estão debaixo da mesa depois da segunda taça. - Estendeu o braço e tirou a taça da minha mão novamente.

- Mesmo assim - acrescentou com firmeza -, acho melhor não tomar mais ou não vai conseguir subir as escadas. — Inclinou a taça e ele mesmo a esvaziou. Em seguida, entregou a taça vazia a Laoghaire sem olhar para ela.

- Leve isso de volta, por favor, menina - disse, informalmente. - Já é tarde. Acho que vou acompanhar a sra. Beauchamp aos seus aposentos. -E colocando a mão sob meu cotovelo, me fez girar em direção à passagem em arco, deixando a garota fitando-nos com uma expressão que me fez sentir aliviada de saber que olhares não podem matar.

Jamie acompanhou-me ao meu quarto e, para minha surpresa, entrou atrás de mim. A surpresa desvaneceu-se quando ele fechou a porta e imediatamente tirou a camisa. Eu me esquecera das ataduras, que há dois dias eu pretendia remover.

- Vou gostar de me livrar disso - disse, esfregando a tipóia de rayon e linho sob seu braço. — Está me irritando há dias.

- Então, surpreende-me que você mesmo não a tenha tirado - eu disse, começando a desatar os nós.

- Fiquei com medo, depois do pito que levei quando a colocou -disse, rindo descaradamente para mim. - Achei que ia levar umas palmadas se mexesse aí.

- Vai levar agora se não se sentar e ficar quieto - respondi, fingindo estar zangada. Coloquei as duas mãos em seu ombro bom e, um pouco sem firmeza, empurrei-o para baixo, sobre o banquinho do quarto.

Retirei a tipóia e cuidadosamente examinei a região da articulação do ombro. Ainda estava ligeiramente inchada, com hematomas, mas felizmente não encontrei nenhuma evidência de músculos distendidos.

- Se estava tão ansioso para se livrar das ataduras, por que não deixou que eu as tirasse para você ontem à tarde? — Seu comportamento no campo me intrigara na ocasião e mais ainda agora que podia ver as áreas de pele avermelhada onde as pontas ásperas das ataduras de linho roçaram tanto sua pele que quase a deixaram em carne viva. Levantei o curativo cautelosamente, mas tudo estava bem.

Ele me olhou de viés, depois abaixou os olhos um pouco timidamente.

-- Bem, é que... ah, é que eu não queria tirar minha camisa diante de Alec.

-- É recatado, não? — perguntei secamente, fazendo com que erguesse o braço para testar a extensão da junta. Ele piscou rapidamente com o movimento, mas sorriu diante da minha observação.

-- Se eu fosse, não estaria aqui sentado quase nu no seu quarto, não é? Não. são as marcas nas minhas costas. - Vendo minhas sobrancelhas erguidas, continuou com a explicação. - Alec sabe quem eu sou, quero dizer, ouviu dizer que fui chicoteado, mas ele não viu. E saber algo assim não é o mesmo que ver com seus próprios olhos. - Apalpou o ombro machucado, desviando os olhos. Franziu a testa, fitando o chão. - É que... talvez você não compreenda o que quero dizer. Mas quando você sabe que um homem sofreu algum mal, trata-se apenas de uma das coisas que sabe a respeito dele e não faz muita diferença na maneira com que você o vê. Alec sabe que fui açoitado, como sabe que tenho cabelos ruivos, e isso não faz diferença na maneira como ele me trata. — Ergueu os olhos, buscando algum sinal de compreensão em meu rosto.

- Mas quando você realmente vê, é como - hesitou, buscando as palavras —, é um pouco... pessoal, talvez, é o que quero dizer. Eu acho... se ele visse as cicatrizes, ele não conseguiria mais me ver sem pensar nas minhas costas. E eu veria que ele estava pensando nisso, o que me faria lembrar e... - interrompeu-se, encolhendo os ombros.

- Bem. É uma explicação bem ruim, não? Acho que sou muito suscetível a esse respeito, de qualquer modo. Afinal, eu mesmo não posso ver minhas costas; talvez não seja tão ruim quanto eu imagino.

Eu já vira homens feridos andando de muletas na rua e as pissoas desviarem o olhar ao passar por eles e achei que absolutamente não era uma explicação ruim.

- Não se importa que eu veja suas costas?

- Não, não me importo. - Pareceu ligeiramente surpreso e parou por um instante para pensar naquilo. - Acho que... é que você tem um jeito de me dizer que sente muito, sem me fazer sentir pena de mim mesmo.

Continuou pacientemente sentado, sem se mover, enquanto eu dava a volta por trás dele, inspecionando suas costas. Eu não sabia o que ele achava, mas era uma visão difícil. Mesmo à luz de velas e já as tendo visto antes, fiquei horrorizada. Antes, eu vira apenas um ombro. As cicatrizes cobriam suas costas inteiras dos ombros à cintura. Embora muitas houvessem esmaecido, quase não passando de finas linhas brancas, as piores formavam espessos cordões prateados, retalhando os músculos bem torneados. Pensei com alguma tristeza que deviam ter sido costas muito bonitas em outra época. Sua pele era clara e viçosa e os contornos de ossos e músculos ainda eram firmes e graciosos, os ombros retos e quadrados, a espinha dorsal um sulco reto, liso e profundo, entre as colunas arredondadas de músculos que se erguiam de cada lado.

Jamie também tinha razão. Vendo aquele dilaceramento gratuito, não podia evitar uma imagem mental do processo que o causara. Tentei não imaginar os braços musculosos erguidos, estirados e amarrados, as cordas cortando os pulsos, a cabeça pressionada com força contra o poste, em agonia, mas as marcas traziam essas imagens prontamente à imaginação. Teria ele gritado? Afastei apressadamente a idéia. Eu ouvira as histórias sobre a Alemanha do pós-guerra, é claro, soubera de atrocidades muito piores do que esta, mas ele tinha razão; saber não é o mesmo que ver.

Involuntariamente, estendi a mão, como se eu pudesse curá-lo e apagar as marcas com um toque dos dedos. Ele suspirou profundamente, mas não se moveu, enquanto eu percorria as cicatrizes profundas, uma a uma, como se quisesse mostrar-lhe a extensão dos danos que ele não podia ver. Finalmente, descansei as mãos o mais levemente possível sobre seus ombros em silêncio, procurando as palavras.

Ele colocou a própria mão sobre a minha e apertou-a levemente, como se compreendesse o que eu não-conseguia dizer.

- Coisas piores aconteceram a outros, dona - disse serenamente. Em seguida, soltou a mão e o encanto se desfez.

- Sinto que está sarando bem — disse, tentando olhar de lado e ver o ombro ferido. - Quase não dói mais.

- Ótimo - eu disse, limpando a garganta de alguma obstrução que parecia ter se instalado ali. — Está realmente sarando bem; formou uma casca boa e não há nenhuma secreção. Basta mantê-lo limpo e não usar o braço mais do que o necessário por mais dois ou três dias. - Dei um tapinha no ombro bom, significando que estava dispensado. Ele recolocou a camisa sem ajuda, enfiando as longas pontas para dentro do kilt.

Houve um momento embaraçoso quando ele parou junto à porta, procurando alguma coisa para dizer em despedida. Finalmente, convidou-me para ir à estrebaria no dia seguinte e ver um potro recém-nascido. Prometi que iria e nos despedimos, ambos dizendo boa-noite ao mesmo tempo. Rimos e balançamos a cabeça ridiculamente um para o outro enquanto eu fechava a porta. Fui imediatamente para a cama e adormeci numa espécie de névoa provocada pelo vinho, começando a ter sonhos perturbadores dos quais não me lembrava mais pela manhã.

No dia seguinte, depois de uma longa manhã tratando dos novos pacientes, vasculhando a despensa à cata de ervas úteis para reabastecer o armário de suprimentos médicos e - com alguma cerimônia - registrar os detalhes no livro preto de Davie Beaton, deixei minha salinha em busca de ar fresco e exercício.

Não havia ninguém por perto no momento e aproveitei a oportunidade para explorar os andares superiores do castelo, espiando quartos vazios e escadas em caracol, mapeando o castelo mentalmente. Era um projeto muito irregular, para dizer o mínimo. Vários anexos haviam sido acrescentados aqui e ali ao longo dos anos, até ficar difícil dizer se teria havido um Projeto original. Neste corredor, por exemplo, havia uma alcova construída sob as escadas, aparentemente sem nenhuma serventia além de preencher um espaço vazio pequeno demais para um aposento completo.

A alcova ficava parcialmente oculta por uma cortina de linho listrado; eu teria passado sem parar se um lampejo branco lá dentro não tivesse atraído minha atenção. Parei junto à abertura e espreitei lá dentro para ver o que era. Era a manga da camisa de Jamie, envolvendo as costas de uma jovem, atraindo-a para si para beijá-la. Ela sentou-se em seu colo e seus cabelos louros capturaram a luz do sol que penetrava por uma fenda, refletindo a luz como a superfície de um rio de trutas numa manhã luminosa.

Parei, sem saber o que fazer. Não tinha o menor desejo de espioná-los, mas receei que o barulho dos meus passos nas pedras do corredor chamaria a atenção deles. Enquanto hesitava, Jamie separou-se do abraço e ergueu os olhos. Seus olhos encontraram os meus e seu rosto mudou do alarme para o reconhecimento. Com uma sobrancelha erguida e um dar de ombros ligeiramente irônico, ajeitou a jovem com mais firmeza sobre os joelhos e inclinou-se para fazer o que tinha que fazer. Por minha vez, também dei de ombros e saí de mansinho. Não era da minha conta. Não tinha dúvidas, entretanto, que tanto Colum quanto o pai da jovem considerariam aquela "ligação" altamente imprópria. A próxima surra poderia muito bem ser por culpa dele mesmo, se não fossem mais cuidadosos na escolha de um local de encontro.

Ao encontrá-lo durante o jantar naquela noite com Alec, sentei-me em frente a eles na longa mesa. Jamie cumprimentou-me amavelmente, mas com uma expressão vigilante nos olhos. O Velho Alec brindou-me com seu costumeiro "Mmmhum". As mulheres, como me explicara ele, não possuem uma apreciação natural de cavalos e portanto é difícil conversar com elas.

- Como vai o trabalho com os cavalos? - perguntei, para interromper a laboriosa mastigação do outro lado da mesa.

- Bastante bem - Jamie respondeu cautelosamente. Olhei para ele por cima de uma travessa de nabos cozidos.

- Sua boca parece um tanto inchada, Jamie. Levou uma pancada de um cavalo? - perguntei maldosamente.

- Sim - respondeu —, virando a cabeça quando eu não estava olhando. — Falou serenamente, mas senti um pé grande pisar no meu por baixo da mesa. No momento, ficou parado ali de leve, mas a ameaça era explícita.

- Hum, essas potrancas podem ser perigosas - eu disse, com ar de inocência.

O pé pressionou o meu com mais força quando Alec disse:

- Potranca? Não está trabalhando com potrancas no momento, está, rapaz?

Usei meu outro pé como alavanca; não obtendo sucesso, usei-o para chutar seu tornozelo com força. Jamie deu um solavanco repentino.

- O que há com você? — Alec perguntou.

- Mordi a língua - Jamie balbuciou, fitando-me por cima da mão que levara à boca.

- Desajeitado, hein? O que mais se poderia esperar de um idiota que não consegue nem se desviar de um cavalo... - Alec continuou por vários minutos, acusando seu assistente incansavelmente de desajeitado, preguiçoso, estúpido e incapaz de um modo geral. Jamie, provavelmente a pessoa menos desajeitada que eu já vira na vida, manteve a cabeça baixa e continuou comendo impassível durante toda a descompostura, embora as faces ardessem, vermelhas. Mantive os olhos no meu prato recatadamente durante o resto da refeição.

Recusando uma segunda porção de ensopado, Jamie deixou a mesa bruscamente, pondo um fim à repreensão de Alec. O velho chefe da cavalariça e eu mastigamos silenciosamente por alguns minutos. Limpando o prato com o seu último pedaço de pão, o Velho Alec enfiou-o dentro da boca e reclinou-se para trás, examinando-me ironicamente com seu único olho azul.

- Não devia infernizar o pobre rapaz, sabia? - disse em tom de conversa. - Se o pai dela ou Colum ficarem sabendo, o jovem Jamie pode acabar com mais do que um olho roxo.

- Com uma esposa, por exemplo? - eu disse, olhando-o diretamente no olho. Ele balançou a cabeça devagar.

- Poderia ser. E essa não é a mulher que serviria para ele.

- Não? - Fiquei um pouco surpresa com aquilo, depois de ter ouvido as observações de Alec na estrebaria.

- Não, ele precisa de uma mulher, não de uma criança. E Laoghaire continuará a ser uma criança mesmo quando tiver cinqüenta anos. - A boca amarga e enrugada curvou-se numa espécie de sorriso. - Você pode achar que eu vivi numa estrebaria toda a minha vida, mas eu tive uma esposa que era uma mulher e eu sei muito bem a diferença. - O olho azul brilhou quando ele fez menção de se levantar. — E você também, dona.

Estendi a mão num impulso para impedi-lo de ir.

- Como você sabia... - comecei a dizer. O Velho Alec bufou com escárnio.

-- Posso ter só um olho, dona, não significa que seja cego. - Saiu, rangendo os ossos e bufando. Encontrei as escadas e subi para o meu quarto, considerando o que o velho estribeiro-mor quis dizer com sua última observação.

 

Minha vida parecia estar adquirindo alguma forma, ainda que não fosse uma rotina formal. Levantando-me ao raiar do dia com o resto dos habitantes do castelo, fazia o desjejum no salão e, em seguida, se a sra. Fitz não tivesse pacientes para mim, ia trabalhar nos imensos jardins e hortas do castelo. Diversas outras mulheres trabalhavam lá regularmente, com uma tropa de ajudantes de diversos tamanhos, que iam e vinham, rebocando lixo, apetrechos e cargas de estrume fertilizante. Geralmente, eu trabalhava o dia inteiro nas hortas, às vezes indo para a cozinha para ajudar a preparar uma colheita recente, para consumo imediato ou para conservas, a menos que alguma emergência médica me chamasse de volta ao Sarcófago, como eu chamava a sala de horrores do finado Beaton.

De vez em quando, eu aceitava o convite de Alec e visitava o estábulo e o cercado, apreciando a visão dos cavalos soltando a emaranhada cobertura de inverno, em tufos, tornando-se fortes e lustrosos como a grama da primavera.

Em algumas noites, eu ia diretamente para a cama após o jantar, exausta com a labuta do dia. Outras vezes, quando conseguia manter os olhos abertos, unia-me aos outros no salão para ouvir o entretenimento da noite — histórias, canções ou a música de harpas e gaitas-de-foles. Eu podia ficar ouvindo Gwyllyn o Gaulês durante horas, encantada, apesar da minha total ignorância sobre o que ele estaria dizendo, na maior parte das vezes.

A medida que os moradores do castelo acostumavam-se com a minha presença, e eu com a deles, algumas das mulheres começaram a fazer algumas tímidas tentativas de aproximação e a me incluir em suas conversas. A curiosidade a meu respeito era evidente, mas eu respondia a todas as suas perguntas veladas com variações da história que contara a Colum e, depois de algum tempo, aceitaram-na como tudo que provavelmente iriam conseguir saber de mim. No entanto, ao descobrirem que eu sabia alguma coisa de medicina e farmácia, ficaram mais interessadas em mim e começaram a fazer perguntas sobre as doenças de seus filhos, maridos e animais, na maioria dos casos fazendo pouca distinção entre os dois últimos em nível de importância.

Além das perguntas e dos mexericos normais, falava-se muito do próximo Grande Encontro que eu ouvira o Velho Alec mencionar no campo. Concluí que era uma ocasião importante e fiquei cada vez mais convencida disso com a extensão dos preparativos. Um fluxo permanente de víveres era entregue nas grandes cozinhas e havia mais de vinte carcaças sem pele penduradas no abatedouro, por trás de uma cortina de fumaça aromática que mantinha as moscas afastadas. Barris de cerveja eram entregues por grandes carroças e transportadas por carroças menores para as adegas do castelo, sacas de trigo refinado eram trazidas do moinho do vilarejo para os pães, bolos e pastelões, e inúmeros cestos de cerejas e damascos eram colhidos diariamente nos pomares fora das muralhas do castelo.

Fui convidada a participar de uma dessas expedições para colher frutas com diversas mulheres jovens do castelo e aceitei com entusiasmo, ansiosa para sair da sombra ameaçadora das paredes do castelo.

O pomar era lindo e eu adorei ficar andando em meio à névoa fria da manhã escocesa, enfiando a mão entre as folhas úmidas das árvores frutíferas para colher cerejas viçosas e damascos polpudos e macios, apertando-os delicadamente para ver se estavam maduros. Pegávamos apenas os melhores frutos, colocando-os em nossos cestos em montes suculentos, comendo o máximo que conseguíamos e levando o restante de volta, para serem transformados em tortas. As enormes prateleiras da despensa já estavam quase cheias de doces, licores, presuntos e iguarias diversas.

- Quantas pessoas costumam vir ao Grande Encontro? — perguntei a Magdalen, uma das moças com quem fizera amizade.

Ela enrugou o nariz sardento e arrebitado, pensando.

- Não sei ao certo. O último Grande Encontro em Leoch foi há mais de vinte anos e então, ah, talvez uns duzentos homens tenham vindo quando o velho Jacob morreu, e Colum tornou-se o chefe do clã. Talvez venham mais este ano; tem sido um ano bom para as colheitas e as pessoas terão um pouco mais de dinheiro para gastar, de modo que muitos trarão a mulher e os filhos.

Os visitantes já começavam a chegar ao castelo, embora eu tenha ouvido que a programação oficial do Grande Encontro — o juramento, o tynchal e os jogos - só começaria dentro de alguns dias. Os arrendatários e locatários mais ilustres de Colum seriam hospedados no próprio castelo, enquanto os soldados e rendeiros, mais pobres, armavam um acampamento num terreno baldio, abaixo do rio que alimentava o lago do castelo. Funileiros ambulantes, ciganos e mascates de miudezas haviam montado uma espécie de feira improvisada perto da ponte. Tanto os habitantes do castelo quanto do vilarejo mais próximo começaram a visitar o local à noite, após a faina do dia, para comprar utensílios e apetrechos, ver os malabaristas e se atualizar com os fuxicos mais recentes.

Fiquei atenta às idas e vindas e firmei o propósito de fazer visitas freqüentes à estrebaria e ao pasto. Havia cavalos em abundância agora, com os animais dos visitantes sendo acomodados na estrebaria do castelo. No meio da confusão e do alvoroço do Grande Encontro, pensava, eu não deveria ter dificuldade em encontrar minha oportunidade de fugir.

Foi numa das expedições para colher frutas no pomar que conheci Geillis Duncan. Encontrando uma pequena área de Ascaria sob as raízes de um amieiro, comecei a procurar mais. Os chapéus vermelhos dos cogumelos cresciam em pequenos amontoados, apenas quatro ou cinco por grupo, mas havia vários aglomerados espalhados pela grama alta nesta parte do pomar. As vozes das mulheres colhendo frutas ficaram cada vez mais distantes enquanto eu avançava para a periferia do pomar, inclinando-me ou ficando de quatro no chão para recolher os talos frágeis.

— Esse tipo é venenoso - disse uma voz atrás de mim. Ergui-me do canteiro de Ascaria sobre o qual estava abaixada, batendo a cabeça com força em um galho do pinheiro sob o qual os cogumelos cresciam.

Quando minha vista clareou, pude ver que as gargalhadas vinham de uma mulher alta e jovem, talvez alguns anos mais velha do que eu, de cabelos louros e pele clara, com os mais lindos olhos verdes que eu já vira.

— Desculpe-me por estar rindo de você - disse, ainda rindo enquanto descia para o buraco onde eu estava. - Não consegui me conter.

— Imagino que devia estar muito engraçada mesmo - disse um pouco indelicadamente, esfregando o local dolorido no topo da minha cabeça. -E obrigada pelo aviso, mas sei que esses cogumelos são venenosos.

— Ah, sabe? E de quem é que está planejando se livrar, então? Seu marido, talvez? Diga-me se funcionar e eu experimentarei no meu. - Seu sorriso era contagiante e eu me vi sorrindo também.

Expliquei que, embora os chapéus dos cogumelos crus fossem realmente venenosos, podia-se fazer um preparado em pó com o cogumelo seco que era muito eficaz para estancar sangramentos quando aplicado sobre o ferimento. Ou assim dissera a sra. Fitz; eu estava mais inclinada a confiar nela do que no Guia do médico, de Davie Beaton.

— Ora, vejam só! — ela disse, ainda sorrindo. - E você sabia que estas aqui - abaixou-se e surgiu com um punhado de minúsculas flores azuis com folhas em forma de coração — podem provocar sangramento?

— Não — disse, espantada. - Por que alguém iria querer provocar um sangramento?

Olhou-me com uma expressão de exasperada paciência.

— Para se livrar de um filho que não deseja. Faz sua menstruação descer, mas somente se usá-las no começo da gestação. Mais tarde, pode matar você e a criança.

— Parece saber muito sobre isso — observei, ainda melindrada por ter parecido estúpida.

- Um pouco. As moças da aldeia vêm a mim de vez em quando para coisas desse tipo e às vezes mulheres casadas também. Dizem que sou uma bruxa - continuou, arregalando os olhos brilhantes num espanto fingido. Riu. - Mas meu marido é o procurador fiscal do distrito, de modo que não dizem isso em voz alta.

- Agora, o rapaz que você trouxe com você - continuou, balançando a cabeça com aprovação —, ali está um por quem foram compradas algumas poções do amor. Ele é seu?

- Meu? Quem? Está falando, hã, de Jamie? - Estava perplexa.

A mulher parecia estar se divertindo. Sentou-se em um tronco caído, enrolando preguiçosamente um dos cachos dos cabelos louros em volta do dedo indicador.

- Ah, sim. Há muitas que gostariam de conquistar um rapaz com aqueles olhos e aqueles cabelos, qualquer que seja o preço por sua cabeça ou o fato de não ter nenhum dinheiro. Seus pais devem pensar de modo diferente, é claro.

- Quanto a mim — continuou, com o olhar distante —, sou uma pessoa prática. Casei-me com um homem com uma boa casa, boas economias e uma boa posição. Quanto aos cabelos, não tem, e os olhos, nunca os notei, mas ele não me dá muito trabalho. - Estendeu para mim o cesto que carregava para que eu o olhasse. Havia quatro raízes bulbosas no fundo.

- Raízes de malva — explicou. — Meu marido sofre de um problema no estômago de vez em quando. Peida que nem um boi.

Achei melhor parar por ali naquela linha de conversa antes que as coisas saíssem do controle.

- Não me apresentei - disse, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar do tronco. — Meu nome é Claire. Claire Beauchamp.

A mão que pegou a minha era esbelta, com dedos longos e adelgaçados, embora eu notasse que as pontas eram manchadas, provavelmente com o sumo das plantas e frutas silvestres que jaziam ao lado das raízes de malva em seu cesto.

- Sei quem é - ela disse. - A aldeia está fervilhando de conversas a seu respeito, desde que chegou ao castelo. Meu nome é Geillis, Geillis Duncan. - Olhou dentro do meu cesto. - Se é balgan-buachrach o que você está procurando, posso mostrar-lhe onde crescem mais.

Aceitei a oferta e andamos durante algum tempo pelas ravinas próximas ao pomar, examinando embaixo de troncos apodrecidos e rastejando Pela beirada dos pequenos e reluzentes lagos, onde os minúsculos chapéus-de-sapo cresciam em profusão. Geillis era boa conhecedora das plantas locais e de seus usos medicinais, embora tenha sugerido algumas aplicações que considerei questionáveis, para dizer o mínimo. Achei muito improvável, por exemplo, que a sanguinária fosse uma erva eficaz em fazer crescer verrugas no nariz de uma rival e duvidava muito que a betônica verdadeira fosse útil para transformar sapos em pombos. Ela deu essas explicações com um olhar malicioso que sugeria que ela estava testando meus próprios conhecimentos ou talvez a suspeita local de bruxaria.

Apesar da provocação ocasional, era uma companhia agradável, com uma vivacidade sagaz e uma visão otimista, ainda que cínica, da vida. Ela parecia saber tudo que havia para se saber sobre todas as pessoas da vila, do campo e do castelo e nossas explorações eram pontuadas por períodos de descanso durante os quais ela me entretinha com queixas sobre o problema estomacal de seu marido e com bisbilhotices divertidas, embora um pouco maliciosas.

— Dizem que o pequeno Hamish não é filho de seu pai - disse em determinado momento, referindo-se ao filho único de Colum, o garoto ruivo de cerca de oito anos que eu vira no jantar no salão.

Não fiquei particularmente alarmada com esse mexerico, já tendo tirado minhas próprias conclusões sobre o assunto. Só fiquei surpresa que houvesse apenas uma criança de paternidade discutível, concluindo que Letitia tivera muita sorte ou fora bastante inteligente para procurar alguém como Geilie a tempo. Imprudentemente, eu disse isso a Geilie.

Ela lançou para trás os longos cabelos louros e riu.

- Não, eu não. A boa Letitia não precisa de nenhuma ajuda nessas questões, acredite-me. Se as pessoas estiverem procurando uma bruxa nestas redondezas, seria melhor olhar no castelo do que na vila.

Ansiosa para mudar para um assunto mais seguro, agarrei-me ao primeiro pensamento que passou pela minha cabeça.

- Se o pequeno Hamish não é filho de Colum, de quem deve ser? -perguntei, arrastando-me por um monte de pedras.

— Ora, do rapaz, é claro. - Virou-se para me encarar, a boca pequena zombeteira e os olhos verdes brilhantes de malícia. — Do jovem Jamie.

Voltando sozinha para o pomar, encontrei-me com Magdalen, os cabelos soltando-se por baixo do lenço e os olhos arregalados de preocupação.

— Ah, aí está você - disse, dando um suspiro de alívio. — Estávamos voltando ao castelo, quando dei por sua falta.

— Muita gentileza sua voltar para me buscar — eu disse, pegando o cesto de cerejas que eu deixara na grama. — Mas eu sei o caminho.

Ela sacudiu a cabeça.

— Devia ter cuidado, minha querida, andando sozinha pelo bosque, com todos os funileiros e ambulantes que vieram para o Grande Encontro. Colum deu ordens... — Parou repentinamente, a mão sobre a boca.

- De que devo ser vigiada? — sugeri afavelmente. Ela assentiu com relutância, de certo temendo que eu fosse ficar ofendida. Dei de ombros e tentei tranqüilizá-la com um sorriso.

- Bem, acho que isso é natural - eu disse. — Afinal, ele não tem a palavra de ninguém, a não ser a minha própria, de quem eu sou ou como cheguei aqui. - A curiosidade superou meu bom senso. - Quem ele pensa que eu sou? - perguntei. Mas a jovem só conseguiu sacudir a cabeça.

- Você é inglesa — foi tudo que disse.

Não voltei ao pomar no dia seguinte. Não porque tivesse recebido ordem de permanecer no castelo, mas porque houve uma repentina explosão de intoxicação alimentar entre os habitantes do castelo que requereu meus cuidados médicos. Depois de fazer o que era possível pelos doentes, saí no encalço da origem do problema.

Verifiquei que se tratava de carne de vaca contaminada proveniente do abatedouro. Fui lá no dia seguinte e estava dando ao principal defumador minha opinião quanto aos métodos adequados de preservação de carne, quando a porta abriu-se de repente atrás de mim, lançando uma espessa onda de fumaça sufocante sobre mim.

Virei-me, os olhos lacrimejando, e vi Dougal MacKenzie assomando em meio às nuvens de fumaça de madeira de carvalho.

- Além de médica, agora supervisiona o abate, dona? — perguntou com ironia. - Logo terá todo o castelo sob seu domínio e a sra. Fitz estará procurando emprego em outro lugar.

- Não tenho a menor vontade de ter nada a ver com seu castelo imundo - retorqui, limpando meus olhos cheios d'água e deixando meu lenço cheio de manchas de carvão. - Tudo que eu quero é ir embora daqui, o mais rápido possível.

Ele inclinou a cabeça respeitosamente, ainda rindo.

- Bem, acho que estou na posição de atender seu pedido, dona - disse. - Ao menos, temporariamente.

Deixei cair o lenço e olhei-o fixamente.

- O que quer dizer?

Ele tossiu e abanou a fumaça, agora fluindo em sua direção. Levou-me para fora do matadouro e voltou-se na direção da estrebaria.

-- Você dizia ontem a Colum que precisava de betônica e outras ervas estranhas?

-- Sim, para preparar alguns remédios para as pessoas que estão com intoxicação alimentar. O que tem isso? - perguntei, ainda desconfiada. Ele deu de ombros com bom humor.

-- Apenas que vou descer até o ferreiro na vila, levando três cavalos para ferrar. A mulher do fiscal é entendida em ervas e tem estoques à mão. Sem dúvida, tem os espécimes de que precisa. E se quiser, madame, pode montarn um dos cavalos e vir comigo até a vila.

- A mulher do fiscal? A sra. Duncan? — Senti-me mais contente no mesmo instante. Só a perspectiva de escapar do castelo, ainda que por pouco tempo, era irresistível.

Limpei o rosto apressadamente e enfiei o lenço sujo no meu cinto.

— Vamos - disse.

Apreciei a curta cavalgada até a vila, apesar do dia escuro e nublado. O próprio Dougal estava bem-humorado e conversou e brincou agradavelmente durante todo o trajeto.

Paramos primeiro no ferreiro, onde ele deixou os três cavalos extras, erguendo-me para trás dele na sela para o percurso até a casa dos Duncan. Era uma imponente mansão, parcialmente em madeira, de quatro andares, os dois primeiros com elegantes janelas de vitrais; painéis em forma de losango em tons pastéis de roxo e verde.

Geilie nos saudou encantada, satisfeita por ter companhia em um dia tão lúgubre.

- Que maravilha! - exclamou. — Ando querendo uma desculpa para ir ao depósito e separar algumas coisas. Anne!

Uma criada baixa, de meia-idade, com um rosto parecendo uma maçã desidratada, surgiu por uma porta que eu não notara, escondida como estava na curva da chaminé.

- Leve a sra. Claire lá em cima ao depósito - Geilie ordenou — e depois vá buscar um balde de água da fonte. Da fonte, veja bem, não do poço da praça! - Virou-se para Dougal. - Tenho guardado o tônico que prometi a seu irmão. Pode vir até a cozinha comigo por um instante?

Segui o traseiro em forma de abóbora da criada por um lance de escadas estreitas de madeira, emergindo repentinamente em um sótão grande e arejado. Ao contrário do resto da casa, este aposento tinha janelas de caixilhos, os postigos agora fechados por causa da umidade externa, mas ainda assim proporcionando muito mais luz do que havia na elegante e sombria sala de visitas no andar térreo.

Era evidente que Geilie conhecia seu ofício como herbanária. O aposento estava equipado com longas molduras de secagem forradas de gaze, ganchos acima da pequena lareira para secagem por calor e prateleiras abertas ao longo das paredes, furadas para permitir a circulação do ar. Um delicioso e condimentado aroma de manjericão, alecrim e alfazema enchia o ar. Uma bancada longa e surpreendentemente moderna ia de uma ponta à outra de uma das paredes, exibindo uma notável variedade de pilões, almofarizes, tigelas e colheres, tudo imaculadamente limpo.

Passou-se algum tempo antes de Geilie aparecer, afogueada com a subida das escadas, mas sorrindo diante da perspectiva de uma longa tarde de conversa fiada e preparação de ervas.

Começou a chover um pouco, as gotas salpicando os longos batentes das janelas, mas o fogo ardia na pequena lareira do depósito e o aposento estava muito aconchegante. Gostei imensamente da companhia de Geilie; ela possuía uma visão irônica, cínica, que era um revigorante contraste com as mulheres meigas e tímidas do castelo. E obviamente ela era bem-educada, para uma mulher numa pequena vila.

Ela também conhecia cada escândalo que ocorrera tanto na vila quanto no castelo nos últimos dez anos e contou-me inúmeras histórias divertidas. Estranhamente, fez poucas perguntas a meu respeito. Achei que essa não era sua maneira de agir; ela iria descobrir o que queria saber de mim através de outras pessoas.

Durante algum tempo, eu tinha consciência de barulhos vindos da rua lá fora, mas atribuíra-os ao tráfego dos habitantes da vila vindos da missa de domingo; a igreja ficava no final da rua e a rua principal ia da igreja à praça, dali espalhando-se como um leque de pequenas vielas e caminhos.

Na realidade, eu me distraíra no caminho para o ferreiro imaginando uma vista aérea da vila como a representação do esqueleto de um antebraço e sua mão; a rua principal era o rádio, ao longo do qual ficavam as lojas, escritórios e residências dos mais abastados. A travessa de St. Margaret era o cúbito, uma rua mais estreita que corria paralelamente à principal, ocupada por ferreiros, curtumes e por artesãos e negócios menos elegantes. A praça da vila (que, como todas as praças de vila que eu já vira, era mais ou menos retangular) formava os carpos e metacarpos da mão, enquanto as diversas ruelas de pequenas casas constituíam as juntas falangianas dos dedos.

A casa dos Duncan ficava na praça, como era próprio à residência do procurador fiscal. Era uma questão de conveniência e também de status; a praça podia ser usada para as questões judiciais que, por força do interesse público ou necessidade legal, ultrapassavam os estreitos limites do escritório de Arthur Duncan. E era, como Dougal explicou, conveniente para o pelourinho, uma geringonça tosca de madeira que ficava sobre uma Pequena plataforma de pedra no centro da praça, ao lado do poste de madeira usado - com bem-sucedida economia de propósitos - como poste de açoite, mastro de enfeites para as festividades de maio, mastro de bandeira e lugar para amarrar o cavalo, dependendo das necessidades.

O barulho do lado de fora se tornou muito mais alto e muito mais desordenado do que parecia apropriado a pessoas voltando comportadamente da igreja para casa para o jantar. Geilie largou os jarros com uma exclamação de impaciência e abriu a janela de par em par para ver o que estava causando aquela baderna.

Juntando-me a ela à janela, pude ver uma multidão de pessoas vestidas Com suas roupas dominicais de bata, saia, casaco e gorro, conduzidas pela figura troncuda do padre Bain, o sacerdote que atendia tanto a vila quanto o castelo. Tinha em sua custódia um garoto, talvez de uns doze anos, cujas calças justas de xadrez, esfarrapadas, e camisa suja e fedida o identificavam como filho de um curtidor. O padre segurava o rapaz pela nuca, uma posição difícil de manter devido ao fato de o garoto ser ligeiramente mais alto do que seu temível captor. A multidão seguia os dois de perto, resmungando críticas e comentários como uma nuvem de trovoada que passa no rasto de um relâmpago.

Enquanto olhávamos da janela de cima, o padre Bain e o garoto desapareceram abaixo de nós, entrando na casa. A multidão permaneceu do lado de fora, murmurando e empurrando. Uns poucos mais ousados meteram a cara nos peitoris das janelas, tentando espreitar dentro da casa.

Geilie fechou a janela com uma forte pancada, provocando uma interrupção no burburinho lá embaixo.

— Roubo, muito provavelmente — disse laconicamente, voltando à mesa de ervas. — Geralmente é, quando se trata de filhos de curtidores.

— O que vai acontecer com ele? — perguntei com curiosidade. Ela encolheu os ombros, esmigalhando alecrim seco entre os dedos diretamente dentro do pilão.

— Depende se Arthur está ou não com dispepsia hoje, eu acho. Se ele tomou um bom desjejum, o rapaz pode sair apenas com umas chicotadas. Mas se estiver com gases ou constipado - fez uma careta de desgosto —, o rapaz perderá uma orelha ou uma das mãos, provavelmente.

Fiquei horrorizada, mas hesitante em interferir diretamente na questão. Eu era uma forasteira e uma intrusa inglesa. Embora pensasse que poderia ser tratada com certo respeito como moradora do castelo, tinha visto muitos aldeões furtivamente fazerem o sinal-da-cruz quando eu passava. Minha interferência poderia facilmente piorar a situação do garoto.

— Você pode fazer alguma coisa? - perguntei a Geilie. — Falar com seu marido, quero dizer; pedir-lhe para ser, hã, tolerante?

Geilie ergueu os olhos de seu trabalho, surpresa. Obviamente a idéia de interferir nos negócios de seu marido jamais passara por sua cabeça.

— Por que você deveria se importar com o que acontecer a ele? - perguntou, apenas por curiosidade, sem nenhum significado hostil.

— Claro que me importo! - exclamei. — É apenas um garoto; o que quer que tenha feito, não merece ser mutilado para a vida inteira!

Ela ergueu as sobrancelhas claras; evidentemente esse argumento não era convincente. Ainda assim, deu de ombros e entregou-me o pilão.

— Qualquer coisa para satisfazer uma amiga - disse, revirando os olhos. Passou os olhos pelas prateleiras e selecionou uma garrafa com uma substância verde, rotulada numa elegante caligrafia cursiva e floreada, EXTRATO DE MENTA.

— Vou dar uma dose para o Arthur e, enquanto estiver fazendo isso, verei o que pode ser feito pelo garoto. Mas pode ser tarde demais, - avisou. - E se aquele padre pustulento tiver alguma coisa a ver com isso, vai querer a punição mais severa possível. Mesmo assim, vou tentar. Continue a socar; o alecrim leva muito tempo.

Peguei o pilão depois que ela saiu e comecei a socar e triturar automaticamente, prestando pouca atenção aos resultados. A janela fechada bloqueava tanto o barulho da chuva quanto o da multidão; misturavam-se em um sussurro de ameaça, reverberante e surdo. Como qualquer estudante, eu lera Dickens. E autores mais antigos também, com suas descrições da justiça cruel daqueles tempos, aplicada a todos os malfeitores, independente de idade ou circunstâncias. Mas ler, da confortável distância de cem a duzentos anos, relatos de enforcamentos de crianças e mutilações judiciais era muito diferente do que ficar tranqüilamente socando ervas alguns metros acima de tal ocorrência.

Eu teria a coragem de interferir diretamente, se a sentença fosse contra o garoto? Aproximei-me da janela, levando o pilão comigo, e espreitei lá fora. A multidão aumentara, conforme comerciantes e donas-de-casa, atraídos pelo tumulto, passavam pela rua para averiguar. Os recém-chegados aglomeravam-se enquanto os espectadores repassavam os detalhes nervosamente, em seguida fundiam-se na multidão, mais rostos voltados ansiosamente para a porta da casa.

Olhando para o ajuntamento, aguardando pacientemente na garoa à espera do veredicto, tive repentinamente a compreensão vivida de um fato. Como tantos, eu ouvira, perplexa, os relatos divulgados da Alemanha do pós-guerra; as histórias de deportações e genocídios, de campos de concentração e de incinerações. E como tantos outros haviam feito, e fariam, ainda por muitos anos, perguntei a mim mesma: "Como o povo deixou que isso acontecesse? Deviam saber, deviam ter visto os caminhões, o vaivém, as cercas, a fumaça. Como puderam ficar assistindo sem fazer nada?" Bem, agora eu sabia.

Neste caso, não era nem uma questão de vida ou morte. E o apoio de Colum provavelmente evitaria qualquer ataque físico à minha pessoa. Mas as minhas mãos ficaram pegajosas em torno da tigela de porcelana ao me imaginar descendo as escadas, sozinha e sem nenhum poder, para confrontar aquela multidão de cidadãos virtuosos e inabaláveis, ávidos pela empolgação do castigo e do sangue para aliviar o tédio da existência.

As pessoas são gregárias por necessidade. Desde a época dos primeiros habitantes das cavernas, os seres humanos - sem pêlos, fracos e desamparados, a não ser pela inteligência - sobreviveram unindo-se em grupos; percebendo, como tantas outras criaturas haviam descoberto, que há proteção em ajuntamentos. E esse conhecimento, impregnado nos ossos, é que está por trás da autoridade das aglomerações. Porque dar um passo fora do grupo, sem falar em colocar-se contra ele, significava há incontáveis milhares de anos a morte para a criatura que ousasse fazê-lo. Para opor-se a uma multidão era preciso mais do que a coragem comum; algo que fosse além do instinto humano. E eu temia não ter essa força e, ao temer, sentia-me envergonhada.

Pareceu que uma eternidade havia se passado até a porta abrir-se e Geilie entrar, tranqüila e controlada como sempre, com um pequeno bastão de carvão na mão.

- Vamos ter que filtrar depois de ferver — observou, como se continuasse nossa conversa anterior. - Acho que vamos coar a mistura pelo carvão sobre musselina; é o melhor.

- Geilie — eu disse, com impaciência. - Não tente me enganar. O que aconteceu com o garoto do curtume?

— Ah, isso. — Ergueu um dos ombros como se descartasse o assunto, mas um sorriso malicioso esquivava-se nos cantos dos seus lábios. Então, deixou de lado a fachada e riu.

— Você devia ter me visto - disse, com uma risadinha. — Eu fui muito boa, tenho que confessar. Uma esposa toda solícita, cheia de bondade feminina, com uma pitada de compaixão maternal. "Ah, Arthur" — dramatizou —, "se a nossa própria união tivesse sido abençoada..." Sem muita chance, se tenho algo a dizer a respeito — acrescentou, deixando cair a máscara de sentimentalismo por um instante com uma inclinação da cabeça em direção às prateleiras de ervas - "... como você se sentiria, meu bem, se seu próprio filho fosse levado assim? Sem dúvida foi a fome que fez o pobre rapaz entregar-se ao roubo. Ah, Arthur, não poderia encontrar em seu coração a piedade, ainda mais sendo você a alma da justiça?" - Deixou-se cair em um banco, rindo e batendo o punho levemente na perna. - Que pena que não haja um lugar para se representar aqui!

O barulho da multidão lá fora mudara e aproximei-me da janela para ver o que estava acontecendo, ignorando a satisfação de Geilie com seu próprio desempenho. O público dividiu-se e o filho do curtidor saiu, andando devagar entre o padre e o juiz. Arthur Duncan exultava de benevolência, fazendo reverência e cumprimentando com um balanço da cabeça os membros mais eminentes do grupo. O padre Bain, ao contrário, parecia uma batata contrariada, o rosto moreno contraído de ressentimento.

A pequena procissão seguiu até o centro da praça, onde a autoridade policial da vila, um tal de John MacRae, destacou-se da multidão para ir ao encontro deles. Esse personagem vestia-se, como convinha ao seu ofício, de maneira sóbria e elegante, com calças escuras amarradas na altura dos joelhos e casaco e chapéu de veludo cinza (no momento, removido e cuidadosamente protegido da chuva sob a cauda do seu casaco). Ele não era, como eu inicialmente presumira, o carcereiro da vila, embora num aperto ele realmente desempenhasse essa função. Seus deveres eram basicamente os de policial, fiscal de costumes e, quando necessário, carrasco; carregava uma concha de madeira pendurada no cinto, com a qual podia retirar uma porcentagem de cada saca de grãos vendida no mercado de quinta-feira; a remuneração pelos seus préstimos.

Eu descobrira tudo isso com o próprio policial. Ele estivera no castelo há apenas alguns dias para ver se eu podia tratar de um persistente panarício em seu polegar. Eu o lancetei com uma agulha esterilizada e apliquei uma pomada de broto de álamo, constatando que MacRae era um homem tímido, de fala mansa, com um sorriso apático.

Mas não havia nenhum sinal de sorriso agora; o rosto de MacRae estava carrancudo, como era apropriado. Faz sentido, pensei; ninguém quer ver um carrasco sorridente.

O vilão foi levado para cima da plataforma no centro da praça. O garoto estava pálido e assustado, mas não se mexeu quando Arthur Duncan, procurador fiscal da paróquia de Cranesmuir, ajeitou sua gordura para tentar conferir à sua aparência um ar de dignidade e preparou-se para proferir a sentença.

- O idiota já havia confessado quando cheguei - disse uma voz junto ao meu ouvido. Geilie espreitava com interesse por cima do meu ombro. -Não consegui livrá-lo completamente. Ainda assim, consegui a pena mais leve possível; somente uma hora no pelourinho e uma orelha pregada.

- Uma orelha pregada! Pregada em que?

- Ora, no pelourinho, é claro. - Lançou-me um olhar intrigado, mas voltou para a janela para observar a execução da pena leve obtida graças à sua piedosa intervenção.

Havia tantos corpos comprimindo-se em volta do pelourinho que o vilão quase não podia ser visto, mas a multidão recuou um pouco para dar espaço suficiente ao policial para que pudesse pregar a orelha do garoto. Este, pálido e pequeno nas garras do pelourinho, tinha os dois olhos cerrados com força e os mantinha assim, tremendo de medo. Emitiu um grito agudo e alto quando o prego foi inserido, audível até mesmo através das janelas fechadas, e eu mesma estremeci um pouco.

Retornamos ao nosso trabalho, como a maioria das pessoas na praça, mas eu não conseguia deixar de me levantar para olhar para fora de vez em quando. Alguns ociosos que passavam por ali paravam para zombar da vítima e atirar-lhe bolas de lama e, ocasionalmente, um cidadão mais sóbrio era visto aproveitando um momento dos afazeres diários para cuidar do aPerfeiçoamento moral do delinqüente por meio de algumas palavras selecionadas de censura e conselho.

Ainda faltava uma hora para o tardio pôr-do-sol de primavera e tomávamos chá na sala de visitas no andar térreo, quando uma batida na porta anunciou a chegada de um visitante. O dia estava tão escuro por causa da chuva que mal se conseguia saber o nível do sol. A casa dos Duncan, no entanto, era equipada com um relógio, um magnífico aparelho de painéis de ímbuia, pêndulos de bronze e um mostrador decorado com querubins, e esse instrumento indicava seis e meia.

A copeira abriu a porta que dava para a sala de visitas e sem cerimônia anunciou "Por aqui". Jamie MacTavish agachou-se automaticamente ao passar pela porta, os cabelos brilhantes escurecidos pela chuva, assumindo um tom de bronze envelhecido. Usava um reles casaco velho contra a chuva e carregava uma grossa capa de montar de veludo verde dobrada sob um dos braços.

Fez um cumprimento com a cabeça quando me levantei e o apresentei a Geilie.

- Sra. Duncan, sra. Beauchamp. - Apontou em direção à janela. - Vejo que tiveram um acontecimento aqui esta tarde.

- Ele ainda está lá? - perguntei, espreitando pela janela. O garoto era apenas uma figura escura, vista através da distorção dos painéis ondulados da sala. - Deve estar encharcado.

- Está. — Jamie abriu a capa e segurou-a para mim. — Você também ficaria, foi o que Colum pensou. Eu tinha coisas para fazer na vila, então ele enviou a capa comigo para você. Deve voltar comigo.

- Foi muita gentileza dele - falei distraída, pois minha mente ainda continuava no garoto.

- Por quanto tempo mais ele deve ficar lá? - perguntei a Geilie. — O garoto no pelourinho - acrescentei impacientemente, vendo seu olhar sem expressão.

- Ah, ele — disse, franzindo ligeiramente a testa diante da introdução de um tópico tão sem importância. - Uma hora, eu lhe disse. O policial já deveria tê-lo libertado do pelourinho.

- Ele o fez -Jamie assegurou. — Eu o vi quando atravessava o gramado. É que o garoto ainda não teve coragem de arrancar o prego de sua orelha.

Fiquei boquiaberta.

- Quer dizer que o prego não será tirado de sua orelha? Ele tem que rasgar a orelha para se ver livre?

- Ah, sim. — Jamie disse, animadamente e despreocupado. - Ele ainda está um pouco nervoso, mas acho que vai resolver isso logo. Está chovendo lá fora e logo estará escuro também. Nós temos que ir ou só pegaremos as sobras do jantar. — Fez uma mesura para Geilie e virou-se para ir embora.

- Espere um instante — ela me disse. — Já que tem um rapaz forte e grande como ele para levá-la para casa, tenho uma caixa de repolho-do-brejo seco e outras plantas que prometi à sra. Fitz-Gibbons no castelo. Talvez o sr. MacTavish pudesse fazer a gentileza de levar?

Jamie concordou e ela mandou um criado ir buscar a caixa em seu depósito, para isso entregando-lhe a enorme chave de ferro forjado. Enquanto o criado não voltava com a caixa, ela sentou-se a uma pequena escrivaninha no canto da sala. Quando a caixa, uma arca de madeira de bom tamanho, com tiras de latão, foi trazida, ela terminara de escrever seu bilhete. Enxugou-o rapidamente, dobrou-o e selou-o com uma bolha de cera da vela e enfiou-o na minha mão.

- Pronto - disse. — É a conta pela caixa. Pode entregá-la ao Dougal para mim? É ele que lida com os pagamentos. Não entregue a mais ninguém ou não serei paga tão cedo.

- Sim, claro.

Abraçou-me calorosamente e, com advertências para evitar o frio, acompanhou-nos até a porta.

Fiquei abrigada sob a beirada do telhado enquanto Jamie amarrava a caixa à sela do cavalo. A chuva havia se intensificado e um lençol d'água escorria das calhas.

Observei as costas largas e os braços musculosos levantarem a pesada caixa sem nenhum esforço aparente. Em seguida, olhei para o pelourinho, onde o garoto do curtume, apesar do encorajamento dado pela multidão que voltara a se reunir, continuava firmemente preso. Apesar de não se tratar de uma linda jovem de cabelos platinados, os atos anteriores de Jamie no tribunal de Colum fizeram-me pensar que talvez ele não fosse indiferente ao infortúnio do garoto.

- Hã, sr. MacTavish — comecei, hesitante. Não houve resposta. O belo rosto não alterou a expressão; a boca larga continuou relaxada, os olhos azuis focalizados na tira que amarrava.

- Ah, Jamie? - tentei outra vez, um pouco mais alto, e ele ergueu os olhos imediatamente. Então, o nome dele realmente não era MacTavish. Imaginei qual seria seu verdadeiro nome.

- Sim? - disse.

- Você é bastante grande, não? — eu disse. Um ligeiro sorriso fez seus lábios se curvarem e ele balançou a cabeça, claramente imaginando aonde eu queria chegar.

- Bastante grande para a maioria dos casos - respondeu.

Fiquei animada e aproximei-me dele casualmente, de modo que a nossa conversa não pudesse ser ouvida por nenhum transeunte da praça.

-- Tem força nos dedos? - perguntei.

Flexionou uma das mãos e o sorriso se ampliou.

-- Ah, certamente. Tem algumas castanhas que quer quebrar? — Olhou Para mim com um brilho maroto e alegre no olhar.

Olhei rapidamente para o bando de espectadores na praça. Na verdade, era para tirar alguém da fogueira, eu acho. - Ergui os olhos e me deparei com seu olhar azul e indagador. — Poderia fazer isso?

Ficou parado olhando para mim por uns instantes, ainda sorrindo, depois deu de ombros. - Sim, se o prego for suficientemente longo para eu agarrar. Mas você consegue desviar a atenção da multidão? Uma interferência não seria vista com bons olhos, ainda mais sendo eu um estranho.

Eu não previra a possibilidade de que meu pedido pudesse colocá-lo em perigo de alguma forma e hesitei, mas ele parecia disposto a entrar no jogo, a despeito do perigo.

- Bem, se nós dois nos aproximássemos para olhar mais de perto e então eu desmaiasse diante do que via, você acha?

- Sendo você uma pessoa tão desacostumada com sangue e tudo o mais? - Ergueu uma das sobrancelhas sarcasticamente e riu. - Sim, acho que serve. Se você puder fingir cair da plataforma, melhor ainda.

Eu na verdade havia me sentido um pouco receosa de olhar, mas não era uma visão tão assustadora quanto eu temera. A orelha estava firmemente pregada pela parte superior, perto da borda, e havia uns cinco centímetros do prego quadrado, sem cabeça, livre acima do apêndice pregado. Quase não havia sangue e era evidente pelo rosto do garoto que, embora estivesse desconfortável e assustado, não estava sentindo muita dor. Comecei a achar que Geilie talvez tivesse razão em considerar aquela uma pena bastante leve, considerando-se o estado geral da atual jurisprudência escocesa, embora isso não alterasse nem um pouco minha opinião quanto à barbaridade do ato praticado.

Jamie foi se aproximando despreocupadamente pelas beiradas da multidão de curiosos. Sacudiu a cabeça, como se repreendesse o garoto.

- Ora, garoto - disse, estalando a língua. — Se meteu numa grande enrascada, hein? - Colocou a mão grande e firme sobre a madeira do pelourinho, a pretexto de olhar a orelha mais de perto. - Muito bem, rapaz - disse, com menosprezo —, não precisa fazer uma tempestade em copo d'água. Um puxão de cabeça e tudo está terminado. Vamos, quer que eu o ajude? - Estendeu o braço como se fosse agarrar o garoto pelos cabelos e puxar sua cabeça com toda a força. O garoto deu um berro de medo.

Reconhecendo a minha deixa, dei um passo para trás, tomando o cuidado de pisar com toda a força nos dedos da mulher atrás de mim, que ganiu de dor quando o salto da minha bota esmigalhou seus metatarsos.

- Desculpe-me - disse, arfando. — Estou... tão tonta! Por favor... — Virei as costas para o pelourinho e dei dois ou três passos, cambaleando astuciosamente e agarrando-me às mangas das roupas das pessoas mais próximas. A beirada da plataforma estava a apenas quinze centímetros de distância; segurei com força em uma jovem de compleição frágil que eu escolhera para esse fim e mergulhei de cabeça no chão, levando-a comigo.

Rolamos na grama molhada numa confusão de saias e gritos. Largando finalmente a sua blusa, relaxei dramaticamente com os braços abertos, a chuva tamborilando no meu rosto virado para cima.

Fiquei, de fato, um pouco sem ar com o impacto — a jovem caíra em cima de mim - e tentei recuperar o fôlego, ouvindo a algazarra de vozes preocupadas, reunidas à minha volta. Especulações, sugestões e interjeições de espanto recaíam sobre mim, com mais força do que as gotas d'água do céu, mas foram dois braços conhecidos que me ergueram e me colocaram sentada, e um par de olhos azuis gravemente preocupados que eu vi quando abri os meus próprios. Um leve adejar de pálpebras disse-me que a missão fora cumprida e, de fato, pude ver o filho do curtidor, um pano apertado contra a orelha, fugindo a toda velocidade na direção de sua casa, sem ser notado pela multidão que voltara as atenções para esta nova sensação.

Os habitantes da vila, tão ávidos do sangue do garoto, foram extremamente gentis comigo. Fui cuidadosamente erguida e levada para a casa dos Duncan, onde fui cumulada de conhaque, chá, cobertores quentes e simpatia. Só permitiram que eu partisse quando Jamie afirmou categoricamente que tínhamos que ir, tirou-me do sofá carregando-me no colo e dirigiu-se para a porta, sem dar ouvidos aos protestos dos meus anfitriões.

Montada outra vez à frente dele, meu próprio cavalo conduzido pela rédea, tentei agradecê-lo pela ajuda.

- Não foi nada, dona - disse, rejeitando meus agradecimentos.

- Mas foi um risco para você - eu disse, insistindo. — Não percebi que colocaria você em perigo quando lhe pedi para me ajudar.

- Ah - disse, enigmaticamente. Um instante depois, com um ar de divertimento, disse: — Não esperava que eu fosse menos corajoso do que uma inglesinha, esperava?

Fez os cavalos trotarem quando as sombras da noite recaíram sobre a estrada. Não falamos muito durante o resto da viagem de volta. Quando chegamos ao castelo, deixou-me no portão com não mais do que uma despedida ligeiramente irônica: "Boa noite, Sassenach." No entanto, senti que tivera início uma amizade um pouco mais profunda do que a troca de conversa fiada e de intrigas sobre a vida alheia embaixo das macieiras.

 

Houve um incrível alvoroço nos dois dias seguintes, com idas e vindas e preparativos de toda espécie. Minha prática médica caiu drasticamente; as vítimas de intoxicação alimentar recuperaram-se e todos pareciam ocupados demais para ficar doentes. Fora um leve surto de farpas nos dedos entre os rapazes que pegavam lenha nos bosques para as fogueiras e um surgimento similar de queimaduras entre as atarefadas cozinheiras, também não houve acidentes.

Eu mesma estava empolgada. Esta era a noite. A sra. Fitz dissera-me que todos os guerreiros do clã MacKenzie estariam no salão naquela noite, para fazer seus juramentos de lealdade a Colum. Com uma cerimônia dessa importância acontecendo no interior do castelo, ninguém estaria vigiando a estrebaria.

Durante as horas que ajudava nas cozinhas e nos pomares, eu conseguira armazenar alimentos suficientes para me sustentar por vários dias, pensei. Eu não possuía nenhum recipiente de água, mas inventara um substituto usando um dos frascos de vidro mais pesados do consultório. Tinha botas resistentes e um manto grosso, cortesias de Colum. Teria um bom cavalo; em minha visita à tarde à estrebaria, eu decidi o que pretendia levar. Não possuía nenhum dinheiro, mas meus pacientes haviam me dado um punhado de pequenas bugigangas, fitas, pequenas esculturas ou jóias. Se necessário, poderia usá-las para trocar por qualquer outra coisa que precisasse.

Sentia-me mal por abusar da hospitalidade e da amizade dos habitantes do castelo partindo sem uma palavra ou bilhete de despedida, mas afinal o que eu poderia dizer? Considerei o problema por algum tempo, mas finalmente resolvi simplesmente ir embora. Para começar, eu não tinha papel para escrever e não estava disposta a correr o risco de visitar os aposentos de Colum para procurar.

Uma hora depois do anoitecer, aproximei-me da estrebaria cautelosamente, os ouvidos atentos para qualquer sinal de presença humana, mas parecia que todos estavam no salão, preparando-se para a cerimônia. A porta emperrou, mas cedeu com um leve empurrão, as dobradiças de couro permitindo que ela virasse silenciosamente para dentro.

O ar dentro da cavalariça era quente e animado pelos leves movimentos dos cavalos em repouso. Também era escuro como o interior do chapéu de um coveiro, como tio Lamb costumava dizer. As poucas janelas que havia para ventilação eram fendas estreitas, pequenas demais para admitir a fraca claridade das estrelas lá fora. Com as mãos estendidas, caminhei lentamente para a parte principal da estrebaria, arrastando os pés na palha.

Tateava cuidadosamente à minha frente, procurando a borda de uma baia para me guiar. Minhas mãos encontravam apenas o vazio, mas minhas pernas esbarraram em uma sólida obstrução no solo e eu caí de cabeça para a frente com um grito de espanto que repercutiu nas vigas do telhado da antiga construção de pedras.

A obstrução rolou no chão com uma imprecação de surpresa e agarrou-me com força pelos braços. Vi-me presa contra um grande corpo masculino, sua respiração roçando em minha orelha.

- Quem é você? — perguntei, arfando e com um solavanco para trás. — E o que está fazendo aqui? — Ouvindo minha voz, o atacante despercebido relaxou os braços, soltando-me.

- Devo fazer a mesma pergunta a você, Sassenach - disse a voz grave e terna de Jamie MacTavish e relaxei um pouco, aliviada. Houve um movimento na palha e ele sentou-se.

- Embora eu ache que posso adivinhar - acrescentou secamente. - Até onde acha que conseguiria ir, dona, numa noite escura, com um cavalo estranho, com metade do clã MacKenzie em seu encalço pela manhã?

Eu estava desgrenhada, confusa e irritada.

- Não iriam atrás de mim. Estão todos lá no salão e se um entre cinco estiver sóbrio o suficiente para ficar em pé de manhã, quanto mais cavalgar um cavalo, eu ficaria muito surpresa.

Ele riu e, levantando-se, estendeu a mão para ajudar-me a ficar em pé. Tirou a palha da parte de trás da minha saia batendo com um pouco mais de força do que eu achava estritamente necessário.

- Ah, esse é um raciocínio certo de sua parte, Sassenach - disse, parecendo ligeiramente surpreso que eu fosse capaz de raciocinar. - Ou seria -acrescentou -, se Colum não tivesse guardas a postos ao redor de todo o castelo e espalhados pelos bosques. Ele nunca deixaria o castelo desprotegido com os guerreiros de todo o clã lá dentro. Considerando-se que pedra não queima tão bem quanto madeira...

Imaginei que estivesse se referindo ao hediondo Massacre de Glencoe, quando um homem chamado John Campbell, por ordens do governo, matara trinta e oito membros do clã MacDonald e ateara fogo à casa onde estavam. Calculei rapidamente. Isso teria ocorrido há apenas cinqüenta e Poucos anos; bastante recente para justificar quaisquer precauções defensivas da parte de Colum.

-- De qualquer forma, dificilmente poderia ter escolhido uma noite pior para fugir - MacTavish continuou. Parecia inteiramente despreocupado com o fato de que eu tinha realmente tentado escapar, mas apenas com as razões pelas quais não iria dar certo, o que me pareceu um pouco estranho. — Além dos guardas, e do fato de que os melhores cavaleiros num raio de muitos quilômetros estão aqui, o caminho para o castelo deve estar cheio de gente que vem do campo para o tynchal e os jogos.

- Tynchal?

- Uma caçada. Geralmente veados, talvez um javali desta vez. Um dos rapazes da cavalariça disse ao Velho Alec que há um grande na floresta a leste. - Colocou a mão grande e forte no meio das minhas costas e virou-me na direção do esmaecido retângulo da porta aberta.

- Vamos — disse. — Vou levá-la de volta ao castelo. Afastei-me dele com um safanão.

- Não precisa se preocupar, posso achar o caminho sozinha. Segurou meu cotovelo com firmeza.

- Acredito que sim. Mas não vai querer encontrar nenhum dos guardas de Colum sozinha.

- E por que não? - retruquei. — Não estou fazendo nada de errado; não há nenhuma lei proibindo caminhar fora do castelo, há?

- Não. Duvido que quisessem lhe causar algum mal — disse, espreitando as sombras cuidadosamente. — Mas não é nada incomum que um homem leve um pouco de bebida para lhe fazer companhia quando está montando guarda. E a bebida pode ser uma grande companheira, mas não costuma ser boa conselheira, quando uma pequena e meiga jovem como você surge diante de um homem na escuridão.

- Eu apareci diante de você sozinha no escuro - lembrei a ele, com certa ousadia. - E não sou particularmente pequena, nem muito meiga, ao menos no momento.

- Sim, bem, estava dormindo, não bêbado - respondeu resumidamente. - E à parte a questão do seu temperamento, você é bem menor do que a maioria dos guardas de Colum.

Deixei aquele comentário de lado como uma linha de argumentação improdutiva e tentei uma nova direção.

- E por que você estava dormindo na estrebaria? - perguntei. - Não tem uma cama em algum lugar? - Havíamos chegado aos limites externos das hortas e eu podia ver seu rosto na luz fraca. Ele estava atento, verificando cuidadosamente os arcos de pedra conforme avançávamos, mas diante da minha pergunta, lançou um olhar penetrante na minha direção.

- Sim — disse. Continuou a caminhar com passos largos, ainda agarrando meu cotovelo, mas continuou depois de uns instantes: - Achei melhor ficar fora do caminho.

- Porque não pretende jurar lealdade a Colum MacKenzie? — arrisquei. - E não quer aturar nenhum rebuliço por causa disso?

Olhou para mim, achando graça das minhas palavras.

- Mais ou menos — admitiu.

Um dos portões laterais fora deixado totalmente escancarado em sinal de boas-vindas e um lampião pendurado no alto de um parapeito de pedra a seu lado lançava uma claridade amarela sobre o caminho. Já havíamos quase atingido esse farol quando de repente minha boca foi tampada por alguém vindo por trás e eu fui bruscamente arrancada do chão.

Esperneei e mordi, mas meu captor usava uma luva grossa e, como Jamie dissera, era bem maior do que eu.

O próprio Jamie parecia estar tendo um pouco de dificuldades, a julgar pelos ruídos. Os grunhidos e imprecações sufocadas cessaram bruscamente com um baque surdo e um sonoro palavrão em gaélico.

A luta no escuro cessou e ouviu-se uma risada desconhecida.

- Por Deus, é o rapaz; o sobrinho de Colum. Está chegando tarde para o juramento, não, rapaz? E quem é esse com você?

- É uma garota — respondeu o homem que me segurava. - E bastante apetitosa, também, a julgar pelo peso. - A mão soltou minha boca e administrou um beliscão em outra parte. Dei um guincho de indignação, levantei a mão por cima do ombro, agarrei seu nariz e dei um puxão. O sujeito me colocou no chão com uma pequena blasfêmia, bem inadequada para a ocasião que estava sendo celebrada no castelo. Dei um passo para trás diante da baforada de vapores de uísque, sentindo uma repentina satisfação pela presença de Jamie. Talvez, afinal de contas, tenha sido prudente ele me acompanhar.

Ele não parecia estar pensando dessa forma, ao fazer uma tentativa vã de libertar-se dos dois soldados que o seguravam. Não havia nada de hostil em suas ações, mas havia uma considerável firmeza. Começaram a se mover decididamente em direção ao portão aberto, arrastando seu prisioneiro.

- Não, deixem ir me aprontar primeiro, rapazes - protestou. - Não posso comparecer ao juramento vestido deste jeito.

Sua tentativa de escapar foi frustrada pelo súbito aparecimento de Rupert, exuberante em sua opulência, com uma camisa de babados e casaco bordado a ouro, que saltou do portão estreito como a rolha de cortiça de uma garrafa.

- Não se preocupe com isso, rapaz - disse, inspecionando Jamie com um olhar brilhante. - Vamos vesti-lo adequadamente lá dentro. - Atirou a cabeça para um lado, indicando o portão, e Jamie desapareceu, sob coação. A mão musculosa do meu captor agarrou meu cotovelo e eu o segui, a contragosto.

Rupert parecia estar muito bem-humorado, como os outros homens de dentro do castelo. Havia talvez uns sessenta ou setenta homens, em seus melhores trajes, ornamentados com adagas, espadas, pistolas e a bolsa de pêlo usada no cinto do kilt, andando de um lado para o outro no pátio mais próximo à entrada do grande salão. Rupert acenou indicando uma porta na parede e os homens empurraram Jamie para dentro de uma pequena sala iluminada. Aparentemente, era usada como depósito; uma miscelânea de artigos de toda ordem enchia as mesas e prateleiras que mobiliavam a sala.

Rupert inspecionou Jamie com olhar crítico, percebendo as hastes de palha em seus cabelos e as manchas em sua camisa. Vi seu olhar relancear para as palhas nos meus próprios cabelos e um riso cínico atravessou seu rosto.

- Não é de admirar que esteja atrasado, rapaz - disse, cutucando Jamie nas costelas. — Não o culpo nem um pouco.

- Willie! - gritou para um dos homens que estavam do lado de fora. -Precisamos de algumas roupas aqui. Algo adequado para o sobrinho do chefe. Vá providenciar, rapaz, depressa!

Jamie olhou à sua volta, os lábios semi-cerrados, para os homens que o rodeavam. Seis membros do clã, todos arrebatados diante da perspectiva do juramento e transbordando de um desenfreado orgulho MacKenzie. Evidentemente, os ânimos haviam sido exacerbados por um amplo consumo da cerveja do barril que eu vira no pátio. Os olhos de Jamie recaíram sobre mim, a expressão ainda enfurecida. Isso era culpa minha, pareciam dizer.

Ele podia, é claro, anunciar que não pretendia prestar juramento de lealdade a Colum e voltar para sua cama quente na estrebaria. Isto é, se quisesse levar uma surra ou ter a garganta cortada. Ergueu uma sobrancelha para mim, encolheu os ombros e submeteu-se com uma boa dose de boa vontade aos cuidados de Willie, que veio correndo com uma pilha de linho branco nos braços e uma escova de cabelos na mão. A pilha era encimada por um gorro de veludo azul, adornado com uma insígnia de metal com um ramo de azevinho. Peguei o gorro para examiná-lo, enquanto Jamie lutava para entrar numa camisa limpa e escovava os cabelos com uma ferocidade reprimida.

A insígnia era redonda e a gravação surpreendentemente refinada. Na borda, lia-se um lema: Luceo non Uro.

- Eu brilho, não queimo - traduzi em voz alta.

- Sim, senhora. O lema dos MacKenzie — disse Willie, balançando a cabeça como um sinal de aprovação para mim. Tomou o gorro das minhas mãos e enfiou-o nas de Jamie, antes de sair apressado em busca de mais roupas.

- Hã... desculpe-me - eu disse em voz baixa, aproveitando a ausência de Willie para me aproximar. — Não quis...

Jamie, que estivera olhando a insígnia no gorro com desaprovação, voltou-se para mim e a linha irada de sua boca relaxou.

- Ah, não se preocupe por minha causa, Sassenach. Teria acontecido mais cedo ou mais tarde. - Retirou a insígnia do gorro e sorriu melancolicamente para mim, manuseando-o especulativamente na mão.

- Sabe qual é meu próprio lema, dona? - perguntou. - Do meu clã, quero dizer?

- Não - respondi, surpresa. - Qual é?

Lançou a insígnia uma vez no ar, pegou-a e colocou-a cuidadosamente dentro da bolsa em sua cintura. Olhou um tanto desolado em direção à arcada aberta, onde os membros do clã MacKenzie aglomeravam-se em filas desordenadas.

- Je suis prest - respondeu, num francês surpreendentemente bom. Olhou para trás e viu Rupert e outro MacKenzie grandalhão que eu não conhecia, os rostos afogueados de animação e bebida, avançando com um propósito determinado. Rupert segurava um longo tecido estampado com o tartã dos MacKenzie.

Sem preliminares, o outro homem estendeu a mão para a fivela do kilt de Jamie.

- É melhor ir embora, Sassenach — Jamie avisou laconicamente. - Não é lugar para mulheres.

- Estou vendo — respondi secamente e fui recompensada com um sorriso retorcido enquanto seus quadris eram enrolados no novo kilt e o velho era arrancado habilmente por baixo, preservando o recato. Rupert e o amigo seguraram-no firmemente pelos braços e empurraram-no em direção à arcada.

Saí no mesmo instante e dirigi-me para as escadas que levavam à galeria dos menestréis, evitando cuidadosamente o olhar de qualquer membro do clã ao passar. Uma vez dobrado o corredor, parei, encolhendo-me contra a parede para não ser notada. Esperei um instante, até o corredor ficar temporariamente deserto, em seguida passei furtivamente pela porta da galeria, fechando-a rapidamente atrás de mim, antes que outra pessoa qualquer dobrasse o corredor e visse onde eu estava indo. As escadas estavam fracamente iluminadas pela claridade que vinha de cima e não tive dificuldades em manter os pés firmemente nas lajes de pedra desgastadas. Subi em direção ao barulho e à luz, pensando naquela última e breve troca de palavras.

Je suis prest. Estou pronto. Esperava que ele realmente estivesse.

A galeria estava iluminada por tochas de pinheiro, chamas brilhantes que se erguiam diretamente para cima em seus suportes, delineadas em negro pela fuligem que suas antecessoras haviam deixado nas paredes. Diversos rostos se voltaram, piscando os olhos, para me olhar quando saí das cortinas ao fundo da galeria; parecia que todas as mulheres do castelo estavam ali em cima. Reconheci Laoghaire, Magdalen e algumas das outras mulheres que eu conhecera nas cozinhas e, é claro, a figura robusta da sra. Fitz-Gibbons, em posição de honra junto à balaustrada.

Ao me ver, acenou amavelmente para mim e as mulheres apertaram-se para me deixar passar. Quando cheguei à frente, pude ver toda a extensão do salão abaixo.

As paredes estavam decoradas com ramos de murta, teixo e azevinho e sua fragrância erguia-se até a galeria, misturada à fumaça das tochas e ao pungente odor de homens. Havia dezenas deles, vindo, indo, parados em pequenos grupos espalhados pelo salão e todos trajando alguma versão do tartã do clã, fosse apenas o xale ou um gorro de tartã usado com uma camisa comum de trabalho e calças rotas, do tipo amarrado nos joelhos. Os padrões de xadrez eram muito variados, mas as cores eram basicamente as mesmas - tons de verde-escuro e branco.

A maioria dos homens usava traje completo, como Jamie agora, com kilt, xale do mesmo xadrez, gorro e - na maior parte dos casos - insígnias. Eu o vi de relance, parado junto à parede, ainda com um ar ameaçador. Rupert desapareceu na multidão, mas dois outros MacKenzie mais musculosos ladeavam Jamie, obviamente guardas.

A confusão no salão gradualmente começava a se organizar, à medida que os residentes do castelo empurravam e conduziam os recém-chegados para seus lugares no extremo inferior do aposento.

Era uma noite especial; o jovem que tocava a gaita-de-foles no salão fora reforçado por dois outros gaiteiros, um deles um homem cuja atitude e gaitas montadas em marfim indicavam ser um mestre. Esse homem fez um sinal com a cabeça para os outros dois e logo o salão encheu-se do arrebatado bordão da música de gaita-de-foles. Muito menores do que as majestosas gaitas nortistas usadas nos campos de batalha, essas versões menores faziam uma algazarra muito eficaz.

Os cantores lançavam um vibrato acima dos acordes graves e prolongados das gaitas, fazendo o sangue dos ouvintes alvoroçar-se nas veias. As mulheres agitaram-se à minha volta e lembrei-me de um verso de "Maggie Lauder":

"Ah, eles me chamam de Rab, o Cantador, e todas as moças ficam loucas, Quando solto a minha voz."

Se não loucas, as mulheres à minha volta demonstravam grande apreciação e ouviam-se muitos murmúrios de admiração, enquanto se debruçavam sobre o parapeito, apontando para um ou outro homem que andava pelo salão exibindo seus melhores trajes. Uma das jovens localizou Jamie e com uma exclamação abafada, fez sinal para que suas amigas fossem ver. Houve um murmúrio e um burburinho consideráveis com sua aparição.

Em parte, era admiração por sua bela aparência, porém tratava-se mais de especulação sobre seu comparecimento ao juramento. Notei que Laoghaire, em particular, iluminou-se como uma vela ao observá-lo e lembrei-me do que Alec dissera "Sabe que o pai dela não vai permitir que ela se case fora do clã". E ele era sobrinho de Colum? Quanto a isso, o rapaz devia ser um bom partido. Fora o detalhe da condenação, é claro.

A música das gaitas elevou-se a um volume intenso e em seguida, bruscamente, parou. No silêncio sepulcral do sótão, Colum MacKenzie entrou pela arcada superior e caminhou com passos decididos para uma pequena plataforma que fora erguida na cabeceira do aposento. Se não fazia nenhum esforço para ocultar sua deficiência, também não a exibia. Estava magnífico num casaco azul-celeste profusamente bordado a ouro, abotoado com botões de prata e com punhos de seda cor-de-rosa, virados para cima até quase os cotovelos. Um kilt de tartã de fina lã descia até abaixo dos joelhos, cobrindo a maior parte de suas pernas e das meias axadrezadas que as cobriam. Seu gorro era azul, mas a insígnia de prata sustentava plumas, não azevinho. O salão inteiro prendeu a respiração quando ele assumiu o centro do palco. O que quer que fosse, Colum MacKenzie era um showman.

Encarou diretamente o clã reunido, ergueu os braços e cumprimentou-os com um grito ressonante.

- Tulach Ardi

- Tulach Ardi — responderam os membros do clã com um rugido. A mulher ao meu lado estremeceu.

Em seguida, Colum fez um breve discurso, em gaélico. Suas palavras eram recebidas com periódicos urros de aprovação. Então, a cerimônia de juramento propriamente dita começou.

Dougal MacKenzie foi o primeiro a avançar até a plataforma de Colum. A pequena tribuna dava a Colum altura suficiente para que os irmãos se olhassem frente a frente nos olhos. Dougal estava ricamente vestido, mas em veludo castanho, sem nenhum bordado a ouro, de modo a não desviar a atenção da magnificência de Colum.

Dougal sacou sua adaga com um gesto floreado e abaixou-se sobre um dos joelhos, segurando a adaga para cima, pela lâmina. Sua voz soou menos estrondosa do que a de Colum, mas suficientemente alta para que cada Palavra reverberasse pelo salão.

--Juro pela cruz de nosso Senhor Jesus Cristo e pela lâmina sagrada que seguro, dar-lhe minha fidelidade e prometer-lhe minha lealdade ao nome do clã MacKenzie. Se alguma vez minha mão erguer-se contra o senhor em rebelião, rogo que essa lâmina sagrada seja cravada em meu coração.

Abaixou a adaga, beijou-a na junção do cabo e do metal e enfiou-a novamente na bainha. Ainda ajoelhado, estendeu as mãos postas a Colum, que as tomou entre as suas e levou-as aos lábios, aceitando o juramento assim oferecido. Em seguida, ajudou Dougal a se levantar.

Virando-se, Colum pegou uma taça de prata da mesa coberta com tartã atrás dele. Ergueu a pesada taça de duas alças com as duas mãos, bebeu da taça e ofereceu-a a Dougal. Este tomou um bom gole e devolveu a taça. Em seguida, com uma mesura final para o senhor do clã MacKenzie, afastou-se para o lado, para dar lugar ao próximo homem da fila.

O mesmo processo foi encenado repetidamente, da promessa ao brinde cerimonial. Vendo o número de homens na fila, fiquei mais uma vez impressionada com a capacidade de Colum. Eu estava tentando calcular quantos litros de bebida ele teria que consumir até o final da noite, considerando-se um gole para cada juramento, quando vi Jamie aproximar-se da frente da fila.

Dougal, terminado seu próprio juramento, assumira uma posição atrás de Colum. Viu Jamie antes de Colum, que estava ocupado com outro homem, e eu vi sua repentina expressão de surpresa. Deu um passo para junto de seu irmão e sussurrou-lhe alguma coisa. Colum manteve o olhar fixo no homem à sua frente, mas vi que se empertigou ligeiramente. Também ficou surpreso e, achei, não muito satisfeito.

O nível de comoção no recinto, alto desde o início, elevara-se com o decorrer da cerimônia. Se Jamie se recusasse a fazer o juramento a essa altura, acho que poderia ser rapidamente estraçalhado pelos já incitados homens do clã à sua volta. Limpei as palmas das mãos disfarçadamente na minha saia, sentindo-me culpada de tê-lo colocado naquela difícil situação.

Ele parecia sereno. Apesar do calor dominante no salão, ele não estava suando. Aguardou pacientemente na fila, sem dar nenhum sinal de ter consciência de estar cercado de centenas de homens, armados até os dentes, que não demorariam em se ressentir de qualquer insulto feito ao MacKenzie e seu clã. Je suis prest, de fato. Ou talvez tivesse decidido afinal seguir o conselho de Alec?

Minhas unhas perfuravam as palmas das minhas mãos quando chegou a vez dele.

Agachou-se cortesmente sobre um dos joelhos e fez uma profunda mesura diante de Colum. Entretanto, em vez de sacar sua adaga para o juramento, pôs-se de pé e fitou Colum de frente. Totalmente erguido, ficava ombro a ombro com a maioria dos homens no salão e ultrapassava Colum em sua plataforma por vários centímetros. Virei os olhos para Laoghaire. Ela empalidecera quando ele se levantou. E vi que ela também cerrara os punhos com força.

Todos os olhares no salão concentravam-se nele, mas falou como se fosse apenas a Colum. Sua voz era grave como a de Colum e cada palavra claramente audível.

- Colum MacKenzie, venho à sua presença como um parente e um aliado. Não lhe faço nenhum juramento, pois meu juramento está prometido ao nome que carrego. - Ouviu-se um murmúrio baixo e ameaçador da multidão, mas ele ignorou-o e continuou. - Mas lhe dou voluntariamente tudo que possuo; minha ajuda e minha boa vontade, onde e quando precisar. Dou-lhe minha obediência, como parente e como senhor dos MacKenzie, fiel à sua palavra, enquanto meus pés permanecerem nas terras do clã MacKenzie.

Parou de falar e ficou imóvel, imponente e ereto, os braços relaxados ao longo do corpo. A bola agora estava com Colum, pensei. Uma palavra dele, um sinal, e pela manhã as mulheres estariam esfregando o sangue do rapaz das lajes de pedra do assoalho. Colum permaneceu imóvel por um momento, depois sorriu e estendeu as mãos. Após um instante de hesitação, Jamie colocou suas próprias mãos sobre as palmas de Colum.

- Sentimo-nos honrados com sua oferta de amizade e boa vontade -Colum disse com clareza. - Aceitamos sua obediência e consideramos de boa-fé como um aliado do clã MacKenzie.

Houve um arrefecimento da tensão no recinto e um suspiro de alívio quase audível na galeria quando Colum bebeu da taça e ofereceu-a a Jamie. O jovem aceitou-a com um sorriso. Em vez do tradicional gole cerimonial, ele ergueu cuidadosamente a taça quase cheia, inclinou-a e bebeu. E continuou bebendo. Uma exclamação entrecortada, misto de respeito e divertimento, elevou-se entre os espectadores, quando os poderosos músculos da garganta continuaram a se mover. Certamente, logo ele teria que parar para respirar, pensei, mas não. Esvaziou a pesada taça até a ultima gota, abaixou-a com uma explosiva arfada para recuperar o fôlego e entregou-a de volta a Colum.

- A honra é minha - disse, um pouco rouco -, de ser aliado de um clã com um gosto tão refinado para uísque.

Ouviu-se um grande alarido diante dessas palavras e ele encaminhou-se Para a arcada, interrompido a todo instante para apertos de mãos e tapas nas costas de congratulações enquanto passava. Aparentemente, Colum não era o único membro da família com uma queda para uma boa encenação teatral.

o calor na galeria era sufocante e a fumaça que subia do salão já fazia minha cabeça doer antes do término da cerimônia de juramento com algumas palavras comoventes de Colum, segundo presumi. Insensível às seis taças de uísque compartilhadas, a voz forte ainda ressoou pelas pedras do salão. Ao menos suas pernas não o fariam sofrer esta noite, pensei, apesar de permanecer em pé por tanto tempo.

Um brado estrondoso elevou-se do andar de baixo, uma explosão de sons agudos de gaitas-de-foles, e o cenário solene dissolveu-se em uma onda crescente de turbulenta gritaria. Uma algazarra ainda maior saudou os barris de cerveja e de uísque que eram trazidos em suportes, acompanhados por travessas fumegantes de pães, carnes e pratos de miúdos. A sra. Fitz, que deve ter organizado aquela parte dos procedimentos, inclinou-se precariamente sobre a balaustrada, mantendo um olho vigilante no comportamento dos serviçais, a maioria rapazes jovens demais para prestarem um juramento formal.

- E onde estão os faisões? - murmurou entre dentes, inspecionando as travessas que chegavam. - Ou as enguias recheadas? Aquele Mungo Grant desgraçado, vou arrancar o couro dele se tiver queimado as enguias! -Decidindo-se, virou e começou a se espremer em direção ao fundo da galeria, obviamente disposta a não deixar a administração de algo tão crucial quanto o banquete nas mãos inexperientes de Mungo Grant.

Aproveitando a oportunidade, fui me esgueirando atrás dela, aproveitando a esteira de bom tamanho que ela deixava no meio da multidão. Outras, claramente gratas por uma oportunidade para ir embora, juntaram-se a mim no êxodo.

A sra. Fitz, virando-se no pé das escadas, viu o bando de mulheres acima e repreendeu-as furiosamente.

- Vocês, meninas, vão para seus quartos imediatamente — ordenou. -Se não ficarem aí em cima fora de vista, é melhor fugir para seus próprios alojamentos. Mas não se demorem pelos corredores, nem fiquem espreitando pelos cantos. Não há um único homem neste lugar que já não esteja bêbado e estarão muito mais em uma hora. Não é um lugar para moças esta noite.

Abrindo a porta de par em par, espreitou cautelosamente o corredor. Não havendo obstáculos à vista, enxotou as mulheres pela porta afora, uma de cada vez, enviando-as apressadamente para seus quartos nos andares de cima.

- Precisa de ajuda? - perguntei quando fiquei ao seu lado. - Quero dizer, na cozinha?

Ela sacudiu a cabeça, mas sorriu diante da oferta.

- Não, não há necessidade, menina. Vá andando você também, não está mais segura do que as outras. - Com um amável empurrão nas minhas costas, abaixo da cintura, me fez atravessar zunindo a passagem mal-iluminada.

Estava disposta a seguir seu conselho, após o encontro com os guardas do lado de fora. Os homens no salão estavam fazendo baderna, dançando e bebendo, sem nenhuma idéia de contenção ou controle. Não era lugar para uma mulher, concordei.

Encontrar meu caminho de volta para o quarto era uma outra questão. Estava numa parte desconhecida do castelo e embora soubesse que o andar de cima possuía uma passagem que o ligava ao corredor que levava aos meus aposentos, não conseguia encontrar nada que se assemelhasse a escadas.

Dobrei um corredor e dei de frente com um grupo de homens do clã. Não os conhecia, deviam ser procedentes de terras distantes e desabituados aos modos gentis e bem-educados de um castelo. Ou assim deduzi pelo fato de um dos homens, aparentemente à cata de latrinas, ter desistido de procurar e resolvido aliviar-se no próprio corredor quando me deparei com eles.

Girei nos calcanhares no mesmo instante, pretendendo voltar pelo mesmo caminho por onde viera, com ou sem escadas. Mas várias mãos estenderam-se para me impedir e eu me vi imprensada contra a parede do corredor, cercada por homens barbudos das Highlands, com uísque no hálito e estupro na mente.

Não vendo razão para preliminares, o homem à minha frente agarrou-me pela cintura e enfiou a outra mão no meu corpete. Inclinou-se para mais perto e esfregou o rosto barbudo na minha orelha.

- E agora que tal um beijinho para os jovens corajosos do clã MacKenzie? Tulach Ardi!

- Erin go bragh — eu disse rispidamente, empurrando-o com todas as minhas forças. Trôpego com a bebida, cambaleou para trás, caindo sobre um de seus companheiros. Esquivei-me para o lado e fugi, livrando-me dos meus sapatos desajeitados enquanto corria.

Outra figura assomou diante de mim e eu hesitei. Entretanto, parecia haver apenas um homem à minha frente e pelo menos dez às minhas costas, aproximando-se rapidamente apesar da carga de bebida. Corri para a frente, pretendendo esquivar-me dele. No entanto, ele colocou-se com firmeza na minha frente e eu estaquei, tão repentinamente que tive que colocar as mãos em seu peito para evitar uma colisão. Era Dougal MacKenzie.

- Que diabos...? - começou, depois viu os homens atrás de mim. Puxou-me para trás dele e gritou alguma coisa em gaélico para meus perseguidores. Eles protestaram na mesma língua, mas após uma breve troca de palavras como rosnados de lobos, desistiram e foram embora em busca de melhor diversão.

-- Obrigada - eu disse, um pouco zonza. - Obrigada. Eu vou... já vou. deveria estar aqui embaixo. - Dougal olhou-me e segurou meu braço, puxando-me e fazendo-me encará-lo. Estava desalinhado e obvia-mente andara participando da baderna no salão.

-- É verdade, dona - disse. — Não deveria estar aqui. Já que está, bem, terá que pagar uma pena por isso - murmurou, os olhos brilhando na semi-escuridão. E sem aviso prévio, puxou-me com força contra seu corpo e beijou-me. Beijou-me com força suficiente para machucar meus lábios e forçá-los a se abrirem. Sua língua moveu-se contra a minha, o gosto de uísque forte na boca. Suas mãos agarraram-me com firmeza pelo traseiro e me pressionaram contra ele, fazendo-me sentir sua rígida ereção embaixo do kilt e através das minhas camadas de saias e anáguas.

Soltou-me tão repentinamente quanto me agarrara. Balançou a cabeça e fez um gesto com a mão indicando o corredor, respirando com certa dificuldade. Uma mecha de cabelos castanho-avermelhados caíra sobre a testa e ele ajeitou-a para trás com uma das mãos.

- Vá indo, dona - disse. - Antes que pague um preço maior.

Eu fui, descalça.

Tendo em vista os acontecimentos da noite anterior, esperava que a maioria dos habitantes do castelo dormisse até tarde na manhã seguinte, talvez cambaleando até o salão para uma revigorante caneca de cerveja quando o sol estivesse alto - se é que em algum momento resolveriam sair de seus quartos, é claro. Mas os escoceses das Highlands do clã MacKenzie eram um bando mais valente do que eu imaginara, pois o castelo parecia uma colméia efervescente muito antes do raiar do dia, com vozes barulhentas indo e vindo pelos corredores, além de um enorme clangor de armas e baques surdos de botas conforme os homens se preparavam para o tynchal.

Estava frio e nevoento, mas Rupert, que encontrei no pátio quando me dirigia ao salão, assegurou-me de que aquelas eram as melhores condições do tempo para caçar javali.

— Essas feras têm a pele muito grossa, o frio não é empecilho para elas — explicou, afiando uma lança com entusiasmo em uma pedra de amolar movida a pedais - e elas se sentem seguras com a neblina cerrada ao redor delas. Não conseguem ver os homens se aproximando.

Abstive-me de salientar que os caçadores tampouco seriam capazes de ver o javali do qual estavam se aproximando, até estarem perto demais.

Quando o sol começou a cortar a neblina com seus raios dourados e cor de sangue, o grupo de caçadores reuniu-se no átrio, reluzentes com as gotículas da umidade do ar e com os olhos brilhantes de expectativa. Fiquei contente de ver que não se esperava que as mulheres participassem, bastava que oferecessem bolo e doses de cerveja aos heróis de partida. Vendo o grande número de homens que partia para a floresta a leste, armados até os dentes com lanças, machados, arcos, aljavas e adagas, senti um pouco de pena do javali.

Essa atitude foi revista e modificada para respeito e temor uma hora mais tarde, quando fui convocada às pressas à margem da floresta para tratar dos ferimentos de um homem que, segundo concluí, se deparara inesperadamente com a fera no nevoeiro.

- Nossa! - exclamei, ao examinar um ferimento aberto, dilacerado, que ia do joelho ao tornozelo. - Um animal fez isso? O que ele tem, dentes de aço inoxidável?

- Hein? - A vítima estava branca de choque e abalada demais para me responder, mas um dos companheiros que ajudara a tirá-lo da floresta lançou-me um olhar curioso.

- Deixe pra lá - disse e puxei com um safanão a atadura de compressão com a qual eu envolvera a perna ferida. — Levem-no para o castelo e peçam à sra. Fitz para providenciar um caldo quente e cobertores. Isso vai ter que ser costurado e não tenho recursos para fazer isso aqui.

Os gritos rítmicos dos mesmos batedores ainda ecoavam na névoa da encosta da colina. De repente, ouviu-se um grito lancinante que se ergueu acima da neblina e das árvores e um faisão assustado irrompeu de seu esconderijo nas proximidades batendo as asas assustadoramente.

- Nosso Senhor Jesus Cristo, o que foi isso agora? - Agarrando um monte de ataduras, abandonei meu paciente aos cuidados de seus companheiros e entrei pela floresta numa corrida desenfreada.

O nevoeiro estava ainda mais denso sob os galhos das árvores e eu não conseguia ver mais do que dois ou três passos à frente, mas o barulho de vozes e movimentos agitados no meio dos arbustos guiou-me na direção certa.

Passou roçando por mim, vindo de trás. Atenta ao vozerio, não o ouvi e não o vi até ter passado, um corpo volumoso e escuro movendo-se a uma velocidade incrível, os cascos fendidos, absurdamente pequenos, quase silenciosos nas folhas encharcadas.

Fiquei tão impressionada com a inesperada aparição que no começo não me ocorreu sentir medo. Fiquei simplesmente parada, fitando a névoa onde o vulto negro enfurecido desaparecera. Em seguida, erguendo a mão para puxar para trás os cachos úmidos que caíam sobre meu rosto, vi a mancha vermelha no dorso. Olhando para baixo, vi uma mancha igual em minha saia. A fera estava ferida. O grito teria vindo do javali, talvez?

Achei que não; eu conhecia o som do ferimento mortal. E o porco selvagem movia-se bem, com todas as suas forças, quando passou por mim. despirei fundo e continuei pela cortina de névoa, à procura de um homem ferido.

Encontrei-o no sopé de uma pequena elevação, cercado por homens de kilt. Haviam estendido seus xales sobre ele para mantê-lo aquecido, mas o tecido que cobria suas pernas estava sombriamente empapado de sangue.

Uma faixa larga de lama preta raspada na encosta mostrava por onde ele descera escorregando ao longo da descida e uma balbúrdia de folhas enlameadas e terra revolvida marcava o lugar onde ele encontrara o javali. Caí de Joelhos ao lado do ferido, tirei a coberta e comecei a trabalhar.

Mal havia começado quando os gritos dos homens à nossa volta me fizeram virar e ver o vulto assustador surgir, mais uma vez silenciosamente, do meio das árvores.

Desta vez, tive tempo de ver o punho da adaga projetando-se do flanco do animal, talvez obra do homem no chão diante de mim. E o vil marfim amarelo das presas, manchado de vermelho como os olhinhos enfurecidos.

Os homens ao meu redor, tão perplexos quanto eu, começaram a se mexer e pegar suas armas. Mais rápido do que os outros, um homem alto pegou uma lança das mãos de um companheiro que estava petrificado e saiu para o meio da clareira.

Era Dougal MacKenzie. Caminhou quase despreocupadamente, carregando a lança abaixada, segura com as duas mãos, como se estivesse prestes a levantar uma pá de terra. Estava concentrado na fera, falando com ela em voz baixa, murmurando em gaélico, como se quisesse atrair o animal para fora da proteção da árvore junto à qual estava parado.

A primeira investida foi repentina como uma explosão. A fera passou disparada por ele, tão perto que o tartã marrom de caça ondulou com o deslocamento de ar provocado. Girou imediatamente e voltou, uma nódoa indistinta de fúria muscular. Dougal saltou para o lado como um toureador, perfurando a fera com a lança. Meia-volta, para a frente e outra vez. Era mais uma dança do que uma luta, os dois adversários baseados na força, mas tão ágeis que pareciam flutuar acima do solo.

Tudo durou apenas pouco mais de um minuto, embora tivesse parecido muito mais tempo. Terminou quando Dougal, desviando-se das presas dilacerantes, ergueu a ponta da lança curta e forte e enfiou-a diretamente entre as espáduas curvas do animal. Ouviu-se o golpe seco da espada e um guincho estridente que fez os pêlos dos meus braços se eriçarem. Os olhos miúdos reviraram-se de um lado para o outro, girando freneticamente em busca de vingança, e os cascos delicados afundaram-se na lama, conforme o javali cambaleava e oscilava. Os guinchos continuaram, elevando-se a um volume indescritível quando o corpo pesado caiu para um lado, fazendo com que a adaga protuberante fosse enfiada até o punho na carne peluda. Os pequenos cascos escavaram o chão, revirando grossos torrões de terra úmida.

Os guinchos cessaram bruscamente. Fez-se silêncio por um instante, seguido por um ronco semelhante ao de um porco, e o volumoso animal ficou imóvel.

Dougal não esperou para se certificar da morte, deu a volta no animal que se contorcia e voltou para junto do homem que fora ferido. Ajoelhou-se e passou o braço por trás dos ombros da vítima, assumindo o lugar do homem que estava sustentando-o. O sangue salpicara as proeminentes maçãs do rosto e gotículas de sangue seco grudaram seus cabelos de um lado.

- Vamos, Geordie - disse, a voz rouca repentinamente suave. - Vamos. Eu o peguei, companheiro. Está tudo bem.

- Dougal? É você, amigo? - O ferido voltou a cabeça na direção de Dougal, esforçando-se para abrir os olhos.

Fiquei surpresa, ouvindo enquanto rapidamente verificava o pulso e os sinais vitais do ferido. Dougal o bárbaro, Dougal o cruel, falava em voz branda com a vítima, repetindo palavras de conforto, abraçando-a com força contra o corpo, alisando os cabelos em desalinho.

Sentei nos calcanhares e estendi a mão novamente para a pilha de panos no chão ao meu lado. Havia um corte profundo, de pelo menos vinte centímetros ao longo da coxa, a partir da virilha, de onde o sangue fluía sem parar. No entanto, não estava jorrando; a artéria femoral não fora cortada, o que significava que havia uma boa chance de estancá-lo.

O que não podia ser estancado era o vazamento da barriga de Geordie, onde as presas afiadas haviam dilacerado pele, músculos, mesentério e intestinos. Não havia grandes vasos cortados ali, mas o intestino fora perfurado; podia vê-lo perfeitamente, através do rasgão na pele. Esse tipo de ferimento abdominal geralmente era fatal, mesmo com uma moderna sala de cirurgia, suturas e antibióticos à mão. O conteúdo das entranhas rompidas, vazando na cavidade abdominal, simplesmente contaminava toda a região e fazia da infecção uma certeza mortal. E ali, com nada além de dentes de alho e flores de milefólio para tratamento...

Meu olhar encontrou-se com o de Dougal quando ele também olhou para o terrível ferimento. Seus lábios moveram-se, balbuciando sem som por cima da cabeça do ferido as palavras: "Ele conseguirá viver?"

Sacudi a cabeça sem proferir nenhuma palavra. Ele parou por um instante, segurando Geordie, depois estendeu a mão e deliberadamente desamarrou o torniquete improvisado que eu colocara em torno da perna do ferido. Olhou para mim, desafiando-me a protestar, mas não fiz nenhum gesto a não ser um breve sinal com a cabeça. Eu podia estancar o sangramento e permitir que Geordie fosse transportado em maca de volta ao castelo. Voltaria ao castelo para ficar prolongando uma crescente agonia, à medida que a barriga supurasse, até que a infecção se espalhasse o suficiente para matá-lo, degenerando-se talvez durante dias em longo sofrimento, uma morte mais digna, talvez, era o que Dougal estava lhe proporcionando. Morrer de forma limpa sob o céu, o sangue de seu coração manchando as mesmas folhas tingidas do sangue do animal que o matara. Arrastei-me pelas folhas úmidas até a cabeça de Geordie e segurei parte de seu peso no meu próprio braço.

- Logo estará melhor - eu disse e minha voz era firme, como sempre fora treinada para ser. - A dor vai passar logo.

- Sim. Está melhor... agora. Não consigo mais sentir a minha perna... nem minhas mãos... Dougal... está aí? Está aí, companheiro? - As mãos entorpecidas agitavam-se cegamente diante do seu rosto. Dougal segurou-as com firmeza entre suas próprias mãos e aproximou-se, murmurando no seu ouvido.

As costas de Geordie arquearam-se de repente e seus calcanhares afundaram-se no solo lamacento, o corpo em violento protesto contra o que sua mente já começara a aceitar. Arquejava profundamente de vez em quando, como um homem que está sangrando até a morte, luta por ar, faminto do oxigênio que seu corpo exige.

A floresta estava em completo silêncio. Nenhum pássaro cantava no nevoeiro e os homens que esperavam pacientemente acocorados nas sombras das árvores estavam tão silenciosos quanto as próprias árvores. Dougal e eu nos debruçamos sobre o corpo agitado, murmurando e confortando, compartilhando a difícil, dolorosa e necessária tarefa de assistir um homem em sua morte.

A subida da colina em direção ao castelo transcorreu em silêncio. Caminhei ao lado do morto, carregado numa maca improvisada com galhos de pinheiro. Atrás de nós, sustentado de maneira semelhante, vinha o corpo de seu inimigo. Dougal caminhava à frente, sozinho.

Quando atravessamos o portão e entramos no pátio principal, avistei a figura pequena e atarracada do padre Bain, o sacerdote da vila, apressando-se tardiamente para ajudar um falecido membro da congregação.

Dougal parou, estendendo a mão para me deter quando me virei em direção às escadas que levavam ao consultório. Os carregadores com o corpo de Geordie coberto por xales de xadrez passaram por nós, em direção à capela, deixando-nos sozinhos no corredor deserto. Dougal segurou-me pelo pulso, olhando-me intensamente.

- Você já viu homens morrerem antes - disse sem rodeios. - De morte violenta. - Não era uma pergunta, era quase uma acusação.

- Muitos - eu disse, igualmente sem rodeios. E libertando-me de sua mão, deixei-o ali parado e fui cuidar dos meus pacientes vivos.

A morte de Geordie, embora terrível, colocou apenas um amortecedor temporário nas comemorações. Uma pródiga missa funerária foi rezada por ele naquela tarde na capela do castelo e os jogos começaram na manhã seguinte.

Eu vi poucos deles, estando ocupada em remendar os participantes. Tudo que eu podia dizer ao certo dos autênticos jogos das Highlands é que eram disputados com sofreguidão. Tratei um perna-de-pau que havia conseguido se cortar tentando dançar entre espadas, imobilizei a perna de uma vítima azarada que ficara no caminho de um martelo atirado de forma imprudente e ministrei óleo de rícino e xarope de capuchinha a inúmeras crianças que haviam abusado dos doces. No final do dia, eu estava à beira da exaustão.

Subi na mesa do consultório a fim de esfriar a cabeça pela minúscula janela e respirar um pouco de ar puro. Os gritos, as risadas e a música que vinham do campo onde os jogos estavam sendo realizados haviam emudecido. Ótimo. Nenhum paciente novo, portanto, ao menos até o dia seguinte. O que Rupert dissera que fariam em seguida? Competição de arco e flecha? Hummm. Verifiquei o suprimento de ataduras e, exausta, fechei a porta do consultório atrás de mim.

Deixando o castelo, desci a colina em direção à estrebaria. Precisava de um pouco de uma boa companhia que não fosse humana, não falasse e não sangrasse. Também tinha em mente que eu devia procurar Jamie, qualquer que fosse seu sobrenome, e tentar me desculpar novamente por envolvê-lo no juramento. Na verdade, ele se saíra muito bem, mas certamente ele nem sequer teria ido lá, preferindo ficar entregue a seus próprios afazeres. Quanto ao mexerico que Rupert agora devia estar espalhando sobre nossa suposta travessura amorosa, eu preferia não pensar.

Quanto à gravidade da minha própria situação, preferia não pensar nisso também, mas não poderia deixar de fazê-lo, mais cedo ou mais tarde. Tendo fracassado tão espetacularmente na minha tentativa de fuga no começo do Grande Encontro, imaginava se as chances seriam melhores no final do evento. É verdade que a maior parte dos cavalos estariam indo embora, com seus donos. Mesmo assim, haveria um bom número de cavalos do castelo ainda disponível. com sorte, o desaparecimento de um seria contabilizado como um roubo aleatório; havia muitos vagabundos pela área da feira e do campo de jogos com aparência de salteadores. E na confusão da partida, poderia se passar algum tempo até alguém descobrir que eu havia desaparecido.

Fui caminhando devagar ao longo da cerca do estábulo, considerando rotas diferentes de fuga. A dificuldade é que eu tinha apenas uma vaga idéia de onde estava, com referência ao local para onde queria ir. E como agora eu era praticamente conhecida de todo MacKenzie entre Leoch e a fronteira, graças à minha prática médica durante os festejos, não poderia pedir informações pelo caminho.

Perguntei-me de repente se Jamie teria contado a Colum ou a Dougal sobre minha tentativa frustrada de fugir na noite do juramento. Nenhum dos dois mencionara o fato para mim, portanto era provável que não tivesse dito nada.

Não havia nenhum cavalo no cercado. Abri a porta da estrebaria e meu coração deu um pequeno salto ao ver Dougal e Jamie sentados lado a lado num fardo de feno. Pareceram quase tão surpresos com a minha chegada,

quanto eu com a presença deles, mas levantaram-se educadamente e me convidaram a sentar.

- Tudo bem - eu disse, recuando em direção à porta. - Não pretendia interromper a conversa de vocês.

- Não, dona - Dougal disse. - O que eu acabava de dizer a Jamie diz respeito a você também.

Lancei um olhar de relance para Jamie, que respondeu com um movimento quase imperceptível da cabeça. Então ele não havia contado a Dougal sobre a minha tentativa de fuga.

Sentei-me, um pouco temerosa de Dougal. Lembrava-me da pequena cena no corredor na noite do juramento, embora desde então ele não tivesse se referido a isso nem com palavras, nem com gestos.

- Vou partir dentro de dois dias - disse bruscamente. - E vou levar vocês dois comigo.

- Nos levar para onde? - perguntei, assustada. Meu coração começou a bater com força.

- Pelas terras dos MacKenzie. Colum não viaja, portanto cabe a mim visitar os locatários e rendeiros que não podem vir ao Grande Encontro. E para cuidar de pequenos negócios aqui e ali... - Fez um gesto amplo com a mão, descartando esses negócios como trivialidades.

- Mas por que eu? Por que nós, quero dizer? - perguntei.

Ele parou um instante considerando a pergunta antes de responder.

- Bem, Jamie é um rapaz muito útil com cavalos. E quanto a você, dona, Colum achou por bem levá-la até Fort William. O comandante de lá pode ser capaz de... ajudá-la a encontrar sua família na França.

Ou ajudar vocês, pensei, a descobrir quem eu sou realmente. E quanto mais estariam escondendo de mim? Dougal fitava-me, obviamente imaginando como eu receberia essa notícia.

- Tudo bem - respondi serenamente. - Parece uma boa idéia. Externamente tranqüila, por dentro regozijando-me. Que sorte!

Agora não iria precisar fugir do castelo. O próprio Dougal me levaria por boa parte do caminho. De Fort William, poderia encontrar meu caminho sem maiores dificuldades. Para Craig na Dun. Ao monumento megalítico. E, com sorte, de volta para casa.

 

Atravessamos os portões do Castelo Leoch dois dias depois, pouco antes do amanhecer. Em grupos de dois, três e quatro, ao som das exclamações de despedidas e dos gritos dos gansos selvagens no lago, os cavalos cruzaram cuidadosamente a ponte de pedras. Eu olhava para trás de vez em quando, até o vulto do castelo desaparecer atrás de uma cortina de névoa reluzente. A idéia de que talvez eu nunca mais visse a sombria construção de pedra ou seus habitantes me fez sentir uma estranha sensação de pesar.

O barulho dos cascos dos cavalos parecia abafado no nevoeiro. As vozes transportavam-se estranhamente pelo ar úmido, de modo que os chamados em uma das pontas da longa fila às vezes eram facilmente ouvidos na outra ponta, enquanto os sons de uma conversa próxima perdiam-se em murmúrios interrompidos. Era como cavalgar pelo meio de uma neblina povoada de fantasmas. Vozes sem corpo flutuavam no ar, soando distantes, depois espantosamente perto.

Meu lugar era no meio do grupo, flanqueada de um lado por um soldado cujo nome eu não sabia e, do outro, por Ned Gowan, o pequeno escriba que eu vira trabalhando no Conselho de Colum. Ele era mais do que um escriba, como descobri, quando começamos a conversar na estrada.

Ned Gowan era advogado. Nascido, criado e educado em Edimburgo, era o advogado típico. Um homem franzino e idoso, de hábitos organizados e meticulosos, usava um casaco de casimira de boa qualidade, finas meias de lã, uma camisa de linho com um discreto peitilho de renda e calças presas abaixo do joelho de um tecido que era um compromisso bem calculado com os rigores de viagens e o status de sua profissão. Um pequeno par de óculos de aro de ouro, um elegante laço de cabelo e um chapéu de duas pontas, de feltro azul, completavam a figura. Era a imagem tão perita de um homem da lei que eu não conseguia olhar para ele sem sorrir.

Cavalgava a meu lado em uma égua tranqüila cuja sela estava carregada com duas enormes sacolas de couro gasto. Explicou-me que uma transportava as ferramentas do seu ofício: tinteiro, penas de escrever e papel.

- E para que serve a outra? - perguntei, examinando-a. Enquanto a primeira sacola estava rechonchuda com seu conteúdo, a segunda parecia quase vazia.

- Ah, são para os tributos do senhorio - respondeu o advogado, dando umas Palmadinhas na sacola flácida.

- Então, ele deve estar esperando muito dinheiro, não? - sugeri. O sr. Gowan encolheu os ombros afavelmente.

- Nem tanto, minha querida. A maior parte será paga com níqueis, centavos e outras moedinhas. E essas, infelizmente, ocupam mais espaço que outras espécies mais valiosas. - Sorriu, uma rápida curva dos lábios finos e ressequidos. - Quanto a isso, uma pesada quantidade de cobre e prata ainda é mais fácil de ser transportada do que o grosso da renda do nosso senhorio.

Voltou-se para lançar um olhar significativo por cima do ombro para as duas grandes carroças puxadas por mulas que acompanhavam o grupo.

- Sacas de grãos e feixes de nabos ao menos têm a vantagem de ausência de motilidade. Quanto a aves, se devidamente engaioladas, não tenho nada contra. Nem contra cabras, embora demonstrem certa inconveniência com seus hábitos onívoros; uma delas comeu um lenço meu no ano passado, embora tenha que admitir que a culpa foi minha em deixar o tecido despontando imprudentemente de um dos bolsos do meu casaco. - Os lábios finos cerraram-se numa linha determinada. - Este ano, no entanto, dei ordens explícitas. Não aceitaremos porcos vivos.

A necessidade de proteger os alforjes do sr. Gowan e as duas carroças explicava a presença dos vinte e poucos homens que integravam o resto do grupo de coleta de aluguéis, imaginei. Todos estavam armados e montados e havia alguns animais de carga, transportando o que presumi tratar-se de suprimentos para o sustento do grupo. A sra. Fitz, entre despedidas e advertências, dissera-me que as acomodações seriam primitivas ou inexistentes, com muitas noites passadas em acampamentos ao longo da estrada.

Eu estava muito curiosa para saber o que levara um homem com as óbvias qualificações do sr. Gowan a aceitar um cargo nas remotas Highlands da Escócia, longe das conveniências da vida civilizada à qual devia estar acostumado.

- Bem, quanto a isso — disse, em resposta às minhas perguntas —, quando eu era jovem, possuía um pequeno escritório de advocacia em Edimburgo. Com cortinas de renda na janela e uma placa de latão reluzente na porta, com meu nome gravado. Mas fiquei cansado de fazer testamentos e redigir escrituras, e de ver os mesmos rostos na rua, dia após dia. Assim, fui embora - disse com simplicidade.

Comprara um cavalo e alguns suprimentos e partira, sem fazer idéia para onde iria ou o que faria quando lá chegasse.

- Veja bem, devo admitir - disse, tocando o nariz afetadamente com um lenço bordado com seu monograma - um certo gosto por... aventura. Entretanto, nem minha compleição física, nem meus antecedentes familiares me habilitaram para a vida de um salteador de estradas ou de um homem do mar, que eram as ocupações mais aventurescas que eu podia vislumbrar na época. Como alternativa, resolvi que o melhor caminho para mim estava nas Highlands. Achei que talvez, com o tempo, pudesse convencer algum chefe de clã a..., bem, permitir que o servisse de algum modo.

E no curso de suas viagens, ele havia, de fato, encontrado tal chefe.

- Jacob MacKenzie - disse, com um sorriso afetuoso, nostálgico. -Velho patife desgraçado. - O sr. Gowan balançou a cabeça em direção à frente da comitiva, onde os cabelos brilhantes de Jamie MacTavish reluziam na neblina. - Seu neto parece-se muito com ele, sabe. Nos encontramos pela primeira vez na ponta de uma pistola, Jacob e eu, quando ele me roubava. Entreguei meu cavalo e minhas sacolas sem resistência, não tendo mesmo outra escolha. Mas acredito que ele ficou um tanto surpreso quando insisti em acompanhá-lo, a pé se necessário.

-Jacob MacKenzie. Seria o pai de Colum e Dougal? - perguntei. O idoso advogado confirmou, balançando a cabeça.

- Sim. Claro, ele não era um proprietário de terras na época. Isso aconteceu alguns anos mais tarde... com uma pequena ajuda de minha parte - acrescentou modestamente. — As coisas eram menos... civilizadas naquela época — disse nostalgicamente.

- Ah, eram? — exclamei educadamente. — E Colum, hã, herdou-o, por assim dizer?

- Algo assim - disse o sr. Gowan. - Houve uma certa confusão quando Jacob morreu. Colum era o herdeiro de Leoch, sem dúvida, mas ele... — O advogado parou, olhando para a frente e para trás, para se certificar de que ninguém estivesse perto para ouvi-lo. O soldado havia se adiantado para emparelhar com alguns companheiros e uns quatro corpos de cavalos nos separavam do carroceiro que conduzia a carroça mais próxima.

- Colum era um homem perfeito aos dezoito anos — continuou sua história - e prometia ser um grande líder. Casou-se com Letitia como parte de uma aliança com os Cameron. Eu redigi o contrato de casamento - acrescentou, como uma nota de rodapé. - Mas logo após o casamento ele sofreu uma queda grave, durante um ataque de surpresa. Quebrou o osso longo da coxa e ele nunca se remendou direito.

Assenti. Não poderia mesmo, é claro.

- E depois - continuou o sr. Gowan com um suspiro -, levantou-se da cama cedo demais e levou um tombo das escadas que quebrou a outra perna. Ficou na cama quase um ano, mas logo ficou claro que os danos eram irreversíveis. Foi quando Jacob morreu, infelizmente.

O homem franzino fez uma pausa para ordenar os pensamentos. Olhou novamente para a frente, como se procurasse alguém. Não encontrando, acomodou-se na sela outra vez.

- Foi nessa época que houve toda aquela confusão sobre o casamento de sua irmã também - disse. - E Dougal... bem, receio que Dougal não se comportou muito bem nesse caso. Caso contrário, Dougal teria sido nomeado chefe na ocasião, mas as pessoas viram que ele ainda não tinha juízo para isso. - Sacudiu a cabeça. - Ah, houve um grande tumulto sobre tudo isso. Havia primos, tios e arrendatários. Foi necessário um Grande Encontro para resolver a questão.

- Mas escolheram Colum, afinal? - Eu me admirava mais uma vez com a força de personalidade de Colum MacKenzie. E, lançando um olhar ao homenzinho encarquilhado que cavalgava a meu lado, pensei ainda que Colum também tivera sorte ao escolher seus aliados.

- Sim, mas somente porque os irmãos permaneceram firmemente unidos. Não havia dúvida, veja bem, sobre a coragem de Colum, nem mesmo de sua capacidade mental, mas apenas de seu corpo. Era óbvio que ele jamais poderia liderar seus homens em uma batalha outra vez. Mas havia Dougal, forte e saudável, ainda que um pouco imprudente e exaltado. Ele colocou-se atrás do trono do irmão e prometeu seguir a palavra de Colum e ser suas pernas e seu braço armado no campo. Assim, foi feita uma sugestão de que Colum pudesse se tornar o chefe do clã, como faria normalmente, e Dougal fosse nomeado comandante de guerra, para liderar o clã em tempo de batalhas. Não era uma situação sem precedentes -acrescentou, para ser mais preciso.

A modéstia com que disse "Foi feita uma sugestão..." deixou claro de quem fora a sugestão.

- E você é um homem de quem? — perguntei. — Colum ou Dougal?

- Meus interesses devem estar com o clã MacKenzie como um todo -disse o sr. Gowan prudentemente. - Mas, formalmente, fiz meu juramento a Colum.

Formalmente uma ova, pensei. Eu vira aquela cerimônia de juramento, embora não me lembre especificamente da figura pequena do advogado entre tantos homens. Nenhum homem poderia estar presente naquela cerimônia e permanecer impassível, nem mesmo um advogado nato. E o homenzinho na égua baia, por mais ressequidos que fossem seus ossos, e afundado em leis até a medula, tinha por seu próprio testemunho a alma de um romântico.

- Ele deve considerá-lo uma grande ajuda — eu disse diplomaticamente.

- Ah, faço alguma coisa de vez em quando - ele disse, com modéstia.

- Como faço pelos outros. Caso precise de meus préstimos, minha querida - disse, radiante de contentamento -, sinta-se à vontade de pedir o meu auxílio. Pode confiar em minha discrição, asseguro-lhe. - Fez uma mesura graciosamente antiquada de sua sela.

- Na mesma extensão de sua lealdade a Colum MacKenzie? - perguntei, arqueando as sobrancelhas. Os pequenos olhos castanhos fitaram os meus diretamente e eu vi tanto a astúcia quanto o humor que se escondiam em suas turvas profundezas.

- Ah, sim - disse, sem se desculpar. — Vale tentar.

- Acho que sim — retruquei, mais com vontade de rir do que com raiva. - Mas eu lhe asseguro, sr. Gowan, que não tenho nenhuma necessidade de sua discrição, ao menos no momento. — É contagiante, pensei, ao ouvir a mim mesma. Estou falando exatamente como ele.

- Sou uma dama inglesa — acrescentei com firmeza - e nada mais. Colum está perdendo o tempo dele, e o seu, tentando extrair segredos de mim que não existem. - Ou que realmente existem, mas não podem ser revelados, pensei. A discrição do sr. Gowan podia ser ilimitada, mas não sua fé.

- Ele não o enviou conosco apenas para me coagir a revelações prejudiciais, enviou? - perguntei, atingida repentinamente pelo pensamento.

- Ah, não. - O sr. Gowan deu uma pequena risada diante da idéia. -Não, ora essa, minha querida. Eu desempenho uma função essencial, lidando com os recibos e com a contabilidade para Dougal, e realizando algumas pequenas exigências legais que os homens do clã nas áreas mais remotas possam ter. E receio que mesmo na minha idade avançada, não superei completamente a necessidade de ir em busca de aventuras. As coisas são muito mais pacatas hoje do que costumavam ser — soltou um suspiro que devia ser de arrependimento -, mas sempre há a possibilidade de assalto nas estradas ou ataques perto das fronteiras.

Bateu levemente no segundo alforje em sua sela.

- Esta sacola não está inteiramente vazia, sabe. — Levantou a aba o suficiente para que eu pudesse ver as coronhas reluzentes de um par de pistolas de cabos ornamentados, habilmente instaladas em presilhas gêmeas que as mantinham ao alcance fácil da mão.

Examinou-me com um olhar que assimilava cada detalhe das minhas roupas e aparência.

- Você mesma deveria andar armada, minha querida — disse em tom de ligeira reprovação. - Embora imagine que Dougal não acharia conveniente... ainda. Vou falar com ele sobre isso - prometeu.

Passamos o resto do dia em agradável conversa, vagando pelas reminiscências dos bons tempos de outrora quando os homens eram homens e a erva daninha da civilização era menos avassaladora nas trevas agradáveis e incultas das Highlands.

Ao cair da noite, armamos um acampamento numa clareira perto da estrada. Eu tinha um cobertor, enrolado e amarrado atrás da minha sela, e com isso preparei-me para passar minha primeira noite de liberdade do castelo. Entretanto, quando deixei a fogueira e me encaminhei para um lugar atrás de uma árvore, tinha consciência dos olhares que me seguiam. Mesmo ao ar livre, ao que parecia, a liberdade tinha limites bem definidos.

Chegamos à primeira parada por volta de meio-dia do segundo dia. Não passava de um aglomerado de três ou quatro cabanas erguidas fora da estrada, junto a um pequeno vale. Um banco foi trazido- de uma das pequenas casas para uso de Dougal e uma prancha - providencialmente trazida em uma das carroças - foi colocada sobre dois outros para servir como uma superfície sobre a qual o sr. Gowan poderia escrever.

Ele retirou um enorme quadrado de linho engomado do bolso da aba de seu casaco e estendeu-o cuidadosamente sobre um tronco, temporariamente retirado de sua função normal de apoio para rachar lenha. Sentou-se sobre ele e começou a arrumar o tinteiro, os livros de contabilidade e um bloco de recibos, tão composto em seus gestos como se ainda estivesse atrás de suas cortinas de renda em Edimburgo.

Um a um, os homens das pequenas fazendas das proximidades foram aparecendo, para conduzir seus negócios anuais com o representante do proprietário. Era um trabalho calmo e conduzido com bem menos formalidade do que os trâmites no salão do Castelo Leoch. Cada homem aproximava-se, recém-chegado do campo ou dos estábulos, e puxando um banco, sentava-se ao lado de Dougal em aparente igualdade, explicando, queixando-se ou apenas conversando.

Alguns vinham acompanhados de um ou dois filhos vigorosos, carregando sacas de grãos ou de lã. Ao final de cada conversa, o infatigável Ned Gowan lavrava um recibo pelo pagamento do aluguel anual, registrava a transação cuidadosamente no livro-razão e estalava os dedos para um dos ajudantes, que obedientemente carregava o pagamento para uma das carroças. Com menos freqüência, uma pequena pilha de moedas desaparecia nas profundezas de sua sacola de couro com um leve tinido de metal. Enquanto isso, os soldados descansavam sob as árvores ou desapareciam na floresta da encosta - para caçar, suponho.

Variações dessa cena repetiram-se muitas vezes nos dias seguintes. De vez em quando, eu era convidada a uma cabana para tomar cidra ou leite e todas as mulheres amontoavam-se no único cômodo pequeno para conversar comigo. Algumas vezes, um aglomerado de casinhas rústicas era grande o suficiente para comportar uma taberna ou mesmo uma estalagem, que se tornava o quartel-general de Dougal naquele dia.

Uma vez ou outra, os aluguéis incluíam um cavalo, uma ovelha ou outro animal doméstico vivo. Em geral, essas formas de pagamento eram trocadas com alguém na vizinhança por algo mais fácil de transportar. No entanto, se Jamie julgasse que um cavalo era bastante bom para ser incluído na estrebaria do castelo, este era acrescentado à nossa comitiva.

Eu me perguntava sobre a presença de Jamie no grupo. Embora o rapaz obviamente conhecesse cavalos muito bem, a maioria dos homens do grupo também conhecia, inclusive o próprio Dougal. Considerando-se ainda que os cavalos constituíam uma forma rara de pagamento e que geralmente não eram nada de especial em termos de raça, perguntava-me por que acharam necessário trazer um especialista. Foi uma semana depois de nossa partida, numa vila com um nome impronunciável, que eu descobri o verdadeiro motivo de Dougal querer a presença de Jamie.

A vila, embora pequena, era grande o suficiente para ostentar uma taberna com duas ou três mesas e vários bancos bambos. Ali Dougal concedeu suas audiências e recolheu os aluguéis. Após um almoço um tanto indigesto de carne salgada e nabos, ele fez as honras, pagando cerveja para os arrendatários que haviam se demorado por ali após as transações, além de alguns aldeões que vinham ao final da jornada diária de trabalho, para observar os estranhos e ouvir as novidades que tivessem para contar.

Fiquei sentada quieta numa cadeira no canto, bebendo cerveja amarga e aproveitando a trégua do lombo do cavalo. Eu quase não estava prestando atenção à conversa de Dougal, que ia e vinha entre o inglês e o gaélico, abrangendo de mexericos, assuntos de lavoura e criação de animais ao que soava como piadas grosseiras e conversa fiada.

Eu imaginava indolentemente quanto tempo levaria, naquele passo, para chegar a Fort William. Uma vez lá, qual seria exatamente a melhor forma de me desgarrar dos escoceses do Castelo Leoch sem me tornar igualmente enredada na guarnição militar inglesa. Perdida em meus próprios pensamentos, não notara que Dougal falava sozinho há algum tempo, como se fizesse uma espécie de discurso. Seus ouvintes seguiam-no atentamente, com uma ou outra exclamação ou interjeição. Voltando aos poucos a tomar consciência do ambiente à minha volta, percebi que ele habilmente inflamava os ânimos de sua platéia a respeito de alguma coisa.

Olhei ao redor. O gordo Rupert e o pequeno advogado, Ned Gowan, estavam sentados atrás de Dougal, recostados à parede, as canecas de cerveja esquecidas no banco ao lado, ouvindo atentamente. Jamie, com a testa franzida e olhando para dentro de sua própria caneca, inclinou-se para a frente com os cotovelos sobre a mesa. O que quer que Dougal estivesse dizendo, ele não parecia estar prestando atenção.

Sem aviso prévio, Dougal levantou-se, agarrou o colarinho da camisa de Jamie e puxou. Velha e de má qualidade, a camisa rasgou-se facilmente nas costuras. Tomado inteiramente de surpresa, Jamie ficou paralisado. Seus olhos estreitaram-se e eu vi seu maxilar travar-se com força, mas ele não se mexeu quando Dougal afastou as tiras de pano rasgadas para exibir suas costas para os espectadores.

Houve um grito sufocado de espanto e horror diante das cicatrizes, seguido de um burburinho de agitada indignação. Abri a boca, mas ouvi a palavra “Sassenach", pronunciada num tom nada amistoso, e fechei-a novamente.

 

Jamie, com o rosto petrificado, levantou-se e afastou-se do pequeno ajuntamento que se formou ao seu redor. Retirou cuidadosamente os remanescentes de sua camisa, enrolando-a numa trouxa. Uma mulher pequena e idosa, que chegava à altura de seu cotovelo, sacudia a cabeça e batia de leve em suas costas, fazendo o que pareciam ser comentários de conforto em gaélico. Se fossem, certamente não pareciam estar surtindo o efeito desejado.

Ele respondeu sucintamente a algumas perguntas dos homens presentes. As duas ou três jovens que haviam chegado para pegar a cerveja para o jantar de suas famílias amontoaram-se junto à parede oposta, cochichando entre si, com olhares freqüentes e arregalados para o outro lado da sala.

Com um olhar para Dougal que poderia por direito transformá-lo em pedra, Jamie atirou o que restou de sua camisa em um canto da lareira e deixou o aposento com três passadas largas, livrando-se dos murmúrios de comiseração da multidão.

Privados do espetáculo, todas as atenções voltaram-se outra vez para Dougal. Eu não entendi a maior parte dos comentários, embora o pouco que tenha captado parecesse de natureza altamente anti-inglesa. Fiquei dividida entre a vontade de seguir Jamie lá fora e permanecer discretamente onde estava. Mas eu duvidava que ele quisesse alguma companhia e, assim, encolhi-me no canto e mantive a cabeça abaixada, estudando meu reflexo pálido e indistinto na superfície da caneca de cerveja.

O tilintar de metal me fez erguer a cabeça. Um dos homens, um sitiante robusto, de calças de couro, atirara algumas moedas em cima da mesa diante de Dougal e parecia estar fazendo seu próprio discurso. Deu um passo para trás, os polegares enfiados no cinto, como se desafiasse os outros a fazerem alguma coisa. Após um momento de hesitação, um ou dois corajosos fizeram o mesmo, seguidos de mais alguns, tirando moedas de cobre da bolsa presa à cintura do kilt. Dougal agradeceu-lhes fervorosamente, fazendo um gesto para o estalajadeiro para que trouxesse nova rodada de cerveja. Notei que o advogado Ned Gowan guardava as novas contribuições cuidadosamente em uma bolsa separada daquela usada para os aluguéis dos MacKenzie destinados aos cofres de Colum. Compreendi, então, qual devia ser o propósito da pequena encenação de Dougal.

As rebeliões, como a maioria das proposições de negócios, requerem capital. A criação e a manutenção de um exército requerem ouro, assim como o sustento de seus líderes. Do pouco que eu me lembrava da história do príncipe Carlos Eduardo, o Jovem Pretendente ao trono, parte de seu sustento viera da França, mas parte das finanças por trás de seu mal-sucedido levante viera dos bolsos rasos e esfarrapados das pessoas que ele se propunha a governar. Assim, Colum, ou Dougal, ou ambos, eram jacobitas; partidários do Jovem Pretendente e contrários ao ocupante legal do trono da Inglaterra, Jorge II.

Por fim, os últimos arrendatários foram embora para suas casas e Dougal levantou-se e espreguiçou-se, parecendo satisfeito, como um gato que tomou um prato de leite, senão de creme. Avaliou o peso da pequena bolsa e atirou-a para Ned Gowan para que fosse guardada.

- Ah, muito bem - comentou. — Não se pode esperar muito de um lugar pequeno como este. Mas se conseguirmos outras tantas como esta, teremos uma quantia respeitável no final.

- "Respeitável" não é exatamente a palavra que eu usaria - eu disse, erguendo-me do meu canto de observação.

Dougal virou-se, como se somente agora percebesse a minha presença.

- Não? - disse, a boca curva, achando graça. - Por que não? Tem alguma objeção a que súditos leais dêem uma pequena contribuição para apoiar seu soberano?

- Nenhuma - eu disse, olhando-o nos olhos. - Independente de quem seja o soberano. São os seus métodos de coleta que eu não aprecio.

Dougal examinou-me cuidadosamente, como se minhas feições pudessem lhe dizer alguma coisa.

- Independente de quem seja o soberano? — repetiu em voz baixa. -Pensei que não soubesse gaélico.

- E não sei - respondi laconicamente. - Mas tenho a inteligência com que nasci e dois ouvidos em bom estado. O que quer que "à saúde do rei Jorge" seja em gaélico, duvido muito que soe como "Bragh Stuart".

Atirou a cabeça para trás e riu.

- Não soa mesmo — concordou. — Eu lhe diria em gaélico o que penso do seu soberano e governante, mas não é uma palavra adequada para os lábios de uma dama, Sassenach ou não.

Inclinando-se, pegou a camisa enrolada e atirada nas cinzas da lareira e sacudiu a maior parte da fuligem.

- Já que não gosta de meus métodos, talvez queira remediá-los - sugeriu, atirando a camisa rasgada em minhas mãos. — Arranje uma agulha com a dona da casa e conserte-a.

-- Conserte-a você mesmo! — Enfiei-a de novo em seus braços e me virei para ir embora.

-- Como quiser - Dougal disse afavelmente às minhas costas. - Então, Jamie pode consertar sua própria camisa, se não está disposta a ajudar.

Parei, virei-me relutantemente e estendi a mão.

-- Está bem - comecei, mas fui interrompida pela mão grande de Jamie, que passou por cima do meu ombro e arrancou a camisa da mão de dougal. Dividindo um olhar sem brilho entre nós dois, Jamie enfiou a camisa embaixo do braço e saiu da sala tão silenciosamente quanto havia entrado.

Encontramos abrigo para aquela noite na casa de um rendeiro. Ou devo dizer que eu encontrei. Os homens dormiram do lado de fora, espalhados em diversos montes de feno, camas em carroças e canteiros de samambaias. Em deferência à minha condição feminina ou meu estado de semi-prisioneira, ofereceram-me uma cama dura no chão dentro da casa, perto da lareira.

Embora meu catre parecesse imensamente preferível à única cama de estrado onde toda a família de seis pessoas dormia, invejava os homens lá fora, em suas camas improvisadas ao ar livre. O fogo não estava apagado, apenas reduzido para a noite, e o ar na cabana era sufocante com o calor, os cheiros e os sons dos seus habitantes, remexendo-se, tossindo, resmungando, roncando, suando e expelindo ventosidades.

Após algum tempo, desisti de tentar dormir naquela atmosfera abafada. Levantei-me e saí silenciosamente, levando um cobertor comigo. O ar do lado de fora estava tão fresco em contraste com o ar congestionado no interior da casa que me recostei contra a parede de pedra, inspirando profundamente aquela aragem fria e deliciosa.

Havia um guarda, sentado e silenciosamente vigilante sob uma árvore junto ao caminho, mas apenas relanceou o olhar para mim. Aparentemente decidindo que eu não iria muito longe em minha roupa de baixo, voltou a descascar um pequeno objeto em suas mãos. A lua brilhava e a lâmina da minúscula sgian dhu tremeluziu nas sombras da árvore.

Dei a volta na cabana e subi um pequeno monte que havia atrás, com cuidado para não tropeçar em formas adormecidas na grama. Encontrei um lugar reservado e agradável entre duas pedras grandes e fiz um ninho confortável para mim mesma com um monte de capim e o cobertor. Estendida ao comprido no chão, fiquei observando a lua cheia em sua lenta jornada através do céu.

Dessa mesma forma, eu observara a lua se levantar pela janela do Castelo Leoch, em minha primeira noite como hóspede compulsória de Colum. Um mês, portanto, desde a minha calamitosa passagem pelo círculo de pedras. Pelo menos, eu agora sabia por que as pedras haviam sido colocadas ali.

Provavelmente sem nenhuma importância por si mesmas, eram, entretanto, sinalizadores. Assim como uma placa adverte contra deslizamento de pedras na beira de um penhasco, as pedras verticais destinavam-se a assinalar um local de perigo. Um local onde... a crosta do tempo era fina? Onde um portal de algum tipo estava aberto? Não que os construtores dos círculos soubessem o que estavam marcando. Para eles, seria um local de terrível mistério e poderosa magia; um lugar onde as pessoas desapareciam sem deixar vestígios. Ou apareciam, talvez, do nada.

Era uma idéia. O que teria acontecido, imaginava, se alguém estivesse presente na colina de Craigh na Dun quando fiz minha brusca aparição? Suponho que devia depender da época em que a pessoa entrava. Aqui, se um colono me encontrasse em tais circunstâncias, sem dúvida eu teria sido considerada uma bruxa ou uma fada. Mais provavelmente uma fada, surgindo naquela colina em particular, com a sua reputação.

E deve ser exatamente daí que veio a sua reputação, pensei. Se as pessoas através dos anos houvessem desaparecido repentinamente, ou igualmente surgido de repente em determinado local, esta seria uma boa razão para adquirir uma fama de mágico.

Tirei um pé de baixo da coberta e remexi os dedos ao luar. Não era uma atitude muito própria de uma fada, pensei de maneira crítica. Com um metro e setenta, eu era uma mulher bastante alta para esta época; da altura de muitos homens. Como dificilmente poderia passar por um duende, seria, portanto, considerada uma bruxa ou um espírito maligno de algum tipo. Do pouco que eu sabia a respeito dos métodos correntes para lidar com tais manifestações, só podia agradecer pelo fato de ninguém ter me visto aparecer.

Imaginava languidamente o que aconteceria se tivesse acontecido o contrário. E se alguém desaparecesse desta época e surgisse na minha? Isso, afinal, era exatamente o que eu estava pretendendo fazer, se houvesse alguma maneira de tornar isso possível. Como um escocês moderno, como a sra. Buchanan, a agente dos correios, reagiria se alguém como Murtagh, por exemplo, surgisse repentinamente da terra sob seus pés?

A reação mais provável, pensei, seria correr, para chamar a polícia, ou talvez não fazer nada, além de contar aos amigos e vizinhos sobre o acontecimento mais extraordinário que presenciara no outro dia...

E quanto ao visitante? Bem, ele poderia conseguir encaixar-se nessa nova época sem suscitar muita atenção, se fosse cauteloso e tivesse sorte. Afinal, eu estava conseguindo passar, com certo grau de sucesso, como residente normal desta época e lugar, embora minha aparência e linguagem certamente tivessem levantado muitas suspeitas.

E se, entretanto, uma pessoa assim deslocada fosse muito diferente ou saísse proclamando aos berros o que lhe acontecera? Se tivesse saído em tempos primitivos, é provável que um evidente estranho fosse simplesmente morto ali mesmo sem mais perguntas. E em tempos mais esclarecidos, provavelmente teria sido considerado louco e internado em alguma instituição, se não se calasse.

Esse tipo de acontecimento podia estar se desenrolando desde o início dos tempos, refleti. Mesmo quando acontecesse diante de testemunhas, não haveria nenhuma pista; nada para contar o que acontecera, porque a

única pessoa que sabia é quem havia desaparecido. E quanto ao desaparecido, Provavelmente ficariam de boca fechada no outro lado da conexão.

Mergulhada em meus pensamentos, não notei o fraco murmúrio de vozes ou o movimento de passos pela grama e fiquei absolutamente surpresa ao ouvir uma voz a apenas alguns metros de distância.

- Para o inferno, Dougal MacKenzie - disse. - Parente ou não, eu não lhe devia isso. - A voz era em tom baixo, mas carregada de raiva.

- Ah, não? - disse a outra voz, achando graça. - Estou me lembrando de um certo juramento, prometendo sua obediência. "Enquanto meus pés permanecerem nas terras do clã MacKenzie", acho que foi o que ouvi. -Ouviu-se uma batida surda, como a de um pé sobre a terra dura. — E essa terra é dos MacKenzie, rapaz.

- Dei minha palavra a Colum, não a você. - Então, era o jovem Jamie MacTavish e eu sabia exatamente o que o enfurecia.

- Somos um só, rapaz, e você sabe muito bem disso. — Ouviu-se o som de um leve tapa, como se Dougal batesse de leve no rosto de Jamie. - Sua obediência é para o chefe do clã e, fora de Leoch, eu sou a cabeça, os braços e as mãos, bem como as pernas de Colum.

- E nunca vi um caso mais evidente da mão direita não saber o que a esquerda está fazendo - veio a resposta rápida. Apesar da contrariedade do tom, havia um laivo de sagacidade e astúcia que se divertia com esse embate de egos. - O que acha que a direita vai dizer quando souber que a esquerda recolhe dinheiro para os Stuart?

Fez-se uma breve pausa antes de Dougal responder.

- Os MacKenzie, os MacBeolain e os MacVinich, todos são homens livres. Ninguém pode forçá-los a contribuir contra a sua vontade e ninguém pode impedi-los tampouco. E quem sabe? Pode ser que Colum contribua mais para o príncipe Carlos Eduardo do que todos eles juntos, no final das contas.

- Pode ser — a voz mais grave concordou. — Também pode chover de baixo para cima amanhã. Isso não significa que vou ficar no alto da escada esperando com meu baldinho virado para baixo.

- Não? Você tem mais a ganhar de um trono Stuart do que eu, rapaz. E nada dos ingleses, a não ser a forca. Se não se importa com seu próprio pescoço...

- Meu pescoço é problema meu -Jamie interrompeu bruscamente. -Assim como as minhas costas.

- Não enquanto estiver viajando comigo, meu rapaz - disse a voz sarcástica do tio. - Se quiser ouvir o que Horrocks tem a lhe dizer, fará o que eu mandar. E será o mais sensato. Você pode ser muito bom com uma agulha, mas só tem uma camisa limpa.

Ouviu-se um movimento arrastado, como se alguém se levantasse de seu lugar em uma pedra, e seguisse pela grama. No entanto, apenas os passos de uma só pessoa, pensei. Sentei-me o mais silenciosamente possível e espreitei cautelosamente pela borda de uma das rochas que me escondiam. Jamie continuava lá, agachado sobre uma pedra há alguns passos de distância, os cotovelos apoiados nos joelhos, o queixo enterrado nas mãos. Estava quase de costas para mim. Comecei a retroceder cautelosamente, não querendo me intrometer em sua solidão, quando ele falou repentinamente.

- Sei que está aí - disse. - Saia, se quiser. - Pelo seu tom de voz, era completamente indiferente para ele. Levantei-me e comecei a sair, quando percebi que estava em minhas roupas de baixo. Refletindo que ele já tinha muito com que se preocupar, além de ficar constrangido por minha causa, enrolei-me discretamente no cobertor antes de emergir.

Sentei-me ao lado dele e recostei-me numa pedra, observando-o um pouco timidamente. Fora um leve aceno com a cabeça, ele ignorou-me, absorto em seus próprios e não muito agradáveis pensamentos, a julgar pela carranca sombria em seu rosto. Um dos pés batia nervosamente na pedra onde estava sentado e torcia os dedos, fechando-os, estendendo-os em seguida, com uma força que fazia várias articulações estalarem.

Foram os estalidos dos nós dos dedos que me fizeram lembrar do capitão Manson. O oficial responsável pelos suprimentos no hospital de campanha onde eu trabalhava, capitão Manson, enfrentava escassez de materiais, encomendas que não chegavam e as infindáveis idiotices da burocracia do exército como seus próprios problemas pessoais. Normalmente um homem agradável e tranqüilo, quando as frustrações tornavam-se muito grandes, ele se retirava para seu escritório particular e socava a parede atrás da porta com todas as forças que conseguia reunir. Os visitantes na sala de recepção observavam fascinados a frágil parede de fibras prensadas estremecer sob o impacto de seus golpes. Alguns instantes depois, o capitão Manson emergia novamente, com os nós dos dedos feridos, mas outra vez sossegado, para lidar com a crise do momento. Quando foi transferido para outra unidade, a parede atrás da porta estava coberta com dezenas de marcas de socos.

Vendo o jovem na pedra tentando desconjuntar os próprios dedos, fui levada a me lembrar de como o capitão enfrentava os seus problemas.

- Você precisa bater em alguma coisa - eu disse.

Hein? - Ergueu os olhos, surpreso, aparentemente esquecido da minha presença.

-- Bata em alguma coisa - aconselhei. - Vai se sentir muito melhor depois.

Sua boca moveu-se, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa, mas ao invés disso levantou-se da pedra e caminhou resolutamente para uma cerejeira robusta e aplicou-lhe um forte soco. Aparentemente encontrando no impacto um certo paliativo para seus sentimentos, golpeou o tronco da árvore várias vezes, fazendo-o sacudir e lançar uma chuva de pétalas cor-de-rosa sobre sua cabeça.

Sugando o nó de um dedo ferido, voltou instantes depois.

- Obrigado - disse, com um sorriso enviesado. - Talvez afinal eu consiga dormir esta noite.

- Feriu a mão? — Levantei-me para examiná-la, mas ele sacudiu a cabeça, esfregando os nós dos dedos delicadamente com a palma da outra mão.

- Não, não foi nada.

Permanecemos de pé por um instante, num silêncio constrangedor. Eu não queria fazer referência à cena que ouvira nem aos acontecimentos anteriores da noite. Por fim, rompi o silêncio dizendo:

- Não sabia que você era canhoto.

- Canhoto? Ah, sim, sempre fui. O professor costumava amarrar minha mão esquerda ao meu cinto atrás das costas, para me obrigar a escrever com a outra.

- E você consegue? Escrever com a direita, quero dizer.

Ele balançou a cabeça, levando a mão machucada novamente à boca.

- Sim. Mas isso faz minha cabeça doer.

- Você também luta com a mão esquerda? - perguntei, querendo distraí-lo. — Com a espada, quero dizer. - Ele não carregava nenhuma arma no momento, exceto sua adaga e sua sgiandhu, mas durante o dia ele geralmente carregava tanto a espada quanto as pistolas, como a maioria dos homens no grupo.

- Não, uso bem a espada em qualquer uma das mãos. Um espadachim canhoto fica em desvantagem, sabe, com uma espada pequena, porque você luta com seu lado esquerdo virado para o adversário e seu coração fica desse lado, certo?

Com energia demais para se manter quieto, começou a andar em passos largos de um lado para o outro na clareira gramada, fazendo gestos ilustrativos com uma espada imaginária.

- Com uma espada grande, não faz diferença - disse. Estendeu os dois braços para a frente, as mãos unidas e fez um movimento amplo e gracioso, em arco, pelo ar. - Em geral usa-se as duas mãos - explicou.

- Ou se estiver bem próximo do inimigo para usar apenas uma das mãos, não faz muita diferença qual delas usar, porque você vem de cima e atinge o sujeito no ombro. Não na cabeça, porque a lâmina pode escorregar facilmente. Mas corte-o no ponto certo — ele golpeou a junção do pescoço com o ombro usando o lado da mão — e ele estará morto. E se não for um golpe certeiro, ainda assim o sujeito não poderá mais lutar naquele dia, provavelmente nunca mais - acrescentou.

Levou a mão esquerda à cintura e sacou sua adaga em um movimento como o de água entornando de um copo.

- Agora, para lutar com uma espada e uma adaga ao mesmo tempo, se não tiver nenhum escudo para proteger a mão que segura a adaga, você deve favorecer seu lado direito, com a espada pequena nessa mão, e vir de baixo com a adaga, se estiver lutando de perto. Mas se a mão da adaga estiver bem protegida, pode vir de qualquer um dos lados e girar o corpo -ele agachava-se e rodopiava, ilustrando - para manter a lâmina do inimigo à distância, e usar a adaga somente se tiver perdido a espada ou não puder mais usar o braço que a empunhava.

Agachou-se quase ao rés do chão e ergueu a lâmina numa estocada rápida e mortífera, que parou a um centímetro do meu peito. Dei um passo para trás involuntariamente e ele endireitou-se imediatamente, guardando a adaga na bainha com um sorriso de desculpas.

- Perdão. Estou me exibindo. Não quis assustá-la.

- Você é muito bom nisso — eu disse, sinceramente. - Quem o ensinou a lutar? Imagino que tenha precisado de outro lutador canhoto para ensiná-lo.

- Sim, era um lutador canhoto. O melhor que já vi. - Sorriu brevemente, sem humor. — Dougal MacKenzie.

A essa altura, a maioria das flores de cerejeira já havia caído de seus cabelos; somente algumas pétalas cor-de-rosa agarravam-se a seus ombros e estendi a mão para tirá-las. A costura de sua camisa havia sido habilmente refeita, reparei, ainda que toscamente. Até um rasgo no tecido fora remendado.

- Ele fará isso outra vez? — perguntei, sem conseguir me conter.

Ele fez uma pausa antes de responder, mas não fingiu não entender o que eu queria dizer.

- Ah, sim — disse finalmente, balançando a cabeça. — Ele faz o que bem entende, sabe.

- E vai deixá-lo agir? Vai deixar que use você dessa forma?

Ele olhou além de mim, para baixo da colina, em direção à taberna, onde uma única luz ainda brilhava pelas frestas dos troncos de madeira. Seu rosto estava impassível e indecifrável como uma parede.

-- Por enquanto.

Continuamos em nossas andanças, deslocando-nos não mais do que alguns quilômetros por dia, parando muitas vezes para que Dougal pudesse conduzir seus negócios em uma encruzilhada ou em uma cabana, onde diversos arrendatários reuniam-se com suas sacas de grãos e punhados de Moedas cuidadosamente economizadas. Tudo era registrado nos livros pela Pena ágil de Ned Gowan e os recibos necessários eram distribuídos de sua sacola de papéis e pergaminhos.

Quando alcançávamos uma vila ou aldeia bastante grande para ostentar uma estalagem ou taberna, Dougal mais uma vez encenava seu ato, pagando bebidas, contando histórias, fazendo discursos e, finalmente, se julgasse as perspectivas bastante boas, forçando Jamie a ficar de pé e mostrar suas cicatrizes. E mais algumas moedas seriam acrescentadas à segunda sacola, a bolsa que deveria ir para a França e para a corte do pretendente.

Tentei julgar essas cenas à medida que se desenrolavam e saía antes que atingissem o clímax, a crucificação pública não tendo sido nunca do meu agrado. Embora a reação inicial diante da visão das costas de Jamie fosse de horrorizada compaixão, seguida de explosões de investidas contra o exército inglês e o rei Jorge, em geral havia um leve sabor de desprezo que até eu conseguia perceber. Em uma ocasião, ouvi um homem observar em voz baixa para um amigo em inglês: "Que visão horrível, não? Cristo, eu preferia morrer do que deixar um Sassenach fazer isso comigo."

Com raiva e infeliz, Jamie tornou-se a cada dia mais triste. Enfiava a camisa assim que possível, evitando perguntas e comiseração, e com uma desculpa para deixar o grupo, evitava a todos até prosseguirmos viagem na manhã seguinte.

O ponto de colapso aconteceu alguns dias mais tarde, em um vilarejo chamado Tunnaig. Desta vez, Dougal ainda exortava a multidão, uma das mãos no ombro nu de Jamie, quando um dos espectadores, um rapaz grosseiro, de cabelos castanhos longos e ensebados, fez um comentário pessoal para Jamie. Não pude entender o que foi dito, mas o efeito foi instantâneo. Jamie livrou-se da mão de Dougal com um safanão e golpeou o rapaz no estômago, deixando-o estirado no chão.

Eu estava aprendendo a assimilar algumas palavras em gaélico, embora ainda não pudesse absolutamente dizer que entendia a língua. Entretanto, notara que em geral eu conseguia entender o que estava sendo dito pela atitude da pessoa que falava, quer entendesse as palavras ou não.

"Levante-se e repita o que disse" parece o mesmo dito em qualquer pátio de escola, bar ou beco do mundo.

Da mesma forma, "Tem razão, companheiro" e "Peguem-no, rapazes".

Jamie desapareceu sob uma avalanche de roupas sujas de trabalho quando a mesa virou e caiu com um estrondo sob o peso do sujeito de cabelos castanhos e dois amigos dele. Espectadores inocentes comprimiram-se contra as paredes da taberna e prepararam-se para divertir-se com o espetáculo. Aproximei-me de Ned e Murtagh, olhando a arquejante massa humana com inquietação. Um lampejo solitário de cabelos ruivos aparecia ocasionalmente no emaranhado de braços e pernas.

- Não deveria ajudá-lo? - murmurei para Murtagh, pelo canto da boca. Ele pareceu surpreso com a idéia.

- Não, por quê?

- Ele pedirá ajuda, se precisar - disse Ned Gowan, observando tranqüilamente ao meu lado.

- Como queiram. - Aquiesci sem muita certeza.

Tinha minhas dúvidas de que Jamie conseguiria pedir ajuda se precisasse; no momento, estava sendo estrangulado por um robusto rapaz de verde. Minha opinião pessoal era de que Dougal logo ficaria sem sua principal peça de exibição, mas ele não parecia preocupado. Na realidade, nenhum dos espectadores parecia nem um pouco preocupado com as lesões corporais que estavam acontecendo no chão a nossos pés. Algumas apostas foram feitas, mas a atmosfera geral era de tranqüilo divertimento.

Fiquei contente de perceber que Rupert barrou como que por acaso o caminho de dois homens que pareciam estar alimentando a idéia de entrar na briga. Quando deram um passo em direção à refrega, ele interpôs-se no caminho, pretensamente distraído, a mão pousada na adaga. Os dois homens recuaram, decidindo não interferir nos acontecimentos.

A sensação geral parecia ser a de que três contra um era uma proporção razoável. Considerando-se que esse um era forte e grande, um consumado lutador e obviamente tomado por uma fúria insana, isso poderia ser verdade.

A competição pareceu se igualar com a saída repentina do sujeito de verde, escorrendo sangue em conseqüência de uma cotovelada em cheio no nariz.

A contenda continuou por mais algum tempo, mas a conclusão tornou-se cada vez mais óbvia, quando um segundo participante caiu e rolou para baixo da mesa, gemendo e segurando a virilha com as duas mãos. Jamie e seu adversário inicial ainda trocavam socos no meio da sala, mas os espectadores que haviam apostado em Jamie já recolhiam seus prêmios. Um golpe de antebraço na traquéia, acompanhado de um violento soco nos rins, mostraram ao sujeito de cabelos castanhos que a discrição é a melhor parte da coragem.

Acrescentei uma tradução mental de "Chega, eu desisto" à minha crescente lista de frases em gaélico/inglês.

Jamie ergueu-se lentamente de cima do seu último oponente aos brados e vivas da multidão. Balançando a cabeça em agradecimento, sem fôlego, cambaleou até um dos bancos que ainda estavam de pé e deixou-se cair sentado, escorrendo sangue e suor, para aceitar uma caneca de cerveja do taberneiro. Tomando-a de um gole só, colocou a caneca vazia no banco e inclinou-se para a frente, arquejante, os cotovelos nos joelhos e as cicatrizes em suas costas desafiadoramente expostas.

Pela primeira vez, ele não pareceu ter pressa para recolocar a camisa; Apesar do frio no local, permaneceu seminu, somente vestindo a camisa quando chegou a hora de buscarmos acomodações para passar a noite. Saiu debaixo de um coro de cumprimentos respeitosos, parecendo mais relaxado do que nos últimos dias, apesar da dor dos cortes, arranhões e contusões diversas.

- Um queixo ralado, um supercílio cortado, um lábio cortado, um nariz sangrando, seis nós dos dedos esmagados, um polegar torcido e dois dentes frouxos. Além de mais contusões do que eu poderia contar. -Terminei meu inventário com um suspiro. - Como se sente? - Estávamos sozinhos, o pequeno barracão atrás da estalagem onde eu o levara para administrar primeiros socorros.

- Bem - disse, rindo. Fez menção de se levantar, mas parou bruscamente, com uma careta de dor. — Sim, bem. Talvez as costelas doam um pouco.

- Claro que doem. Você está cheio de hematomas. Outra vez. Por que faz isso consigo mesmo? Do quê, em nome de Deus, acha que é feito? De ferro? - perguntei com irritação.

Riu melancolicamente e tocou o nariz inchado.

- Não. Quem me dera ser.

Suspirei outra vez e apalpei-o cuidadosamente no torso.

- Não acho que estejam quebradas; são apenas contusões. Mas vou enfaixá-las, por precaução. Fique em pé direito, enrole a camisa para cima e estenda os braços para os lados. - Comecei a rasgar em tiras uma velha manta que eu conseguira com a mulher do estalajadeiro. Resmungando baixinho sobre gesso e outras amenidades da vida civilizada, improvisei uma atadura, apertando-a e prendendo-a com o broche de seu xale.

- Não consigo respirar - queixou-se.

- Se respirar, vai doer. Não se mova. Onde aprendeu a lutar assim? Com Dougal também?

- Não. - Contraiu-se com o vinagre que eu estava aplicando no corte do supercílio. — Meu pai me ensinou.

- É mesmo? Quem era seu pai, o campeão de boxe do lugar?

- O que é boxe? Não, ele era um fazendeiro. Também criava cavalos. - Jamie inspirou com força e prendeu a respiração, quando continuei com a aplicação de vinagre em seu queixo ralado.

- Quando eu tinha nove ou dez anos, ele disse que achava que eu ia ser grandalhão como a família da minha mãe e que, portanto, teria que aprender a lutar. — Respirava com mais facilidade agora e estendeu uma das mãos para deixar que eu passasse pomada de cravos-da-índia nas articulações dos dedos.

- Ele disse: "Se você é grande, metade dos homens que encontrar vai temê-lo e a outra metade vai querer desafiá-lo. Derrube um deles e o resto o deixará em paz. Mas aprenda a fazer isso de maneira rápida e limpa ou vai ficar lutando toda a sua vida." Assim, ele me levava para o celeiro e me derrubava na palha, até eu aprender a me defender. Ai! Isso arde.

- Arranhões de unhas são ferimentos detestáveis - eu disse, esfregando seu pescoço.— Especialmente se o patife não lava as mãos com regularidade.

E duvido que aquele sujeito de cabelos sebosos tome banho uma vez por ano. "De maneira rápida e limpa" não é exatamente como eu descreveria o que você fez esta noite, mas foi realmente impressionante. Seu pai teria orgulho de você.

Falei com certo sarcasmo e fiquei surpresa ao ver seu rosto tornar-se sombrio.

- Meu pai está morto - disse sem rodeios.

- Sinto muito. - Terminei a limpeza dos ferimentos e disse-lhe em voz baixa: - Mas falei sinceramente. Ele teria se orgulhado de você.

Não respondeu, mas esboçou um meio sorriso. De repente, parecia muito jovem e perguntei-me que idade deveria ter. Estava prestes a perguntar quando uma tosse áspera atrás de mim anunciou a chegada de um visitante ao barracão.

Era o homenzinho nervoso chamado Murtagh. Fitou as costelas atadas de Jamie com um ar divertido e lançou uma pequena e velha bolsa de couro no ar. Jamie estendeu a mão enorme e pegou-a com facilidade, fazendo o conteúdo da bolsa tilintar.

- E o que é isso? - perguntou.

Murtagh ergueu uma sobrancelha sem forma definida.

- Sua parte das apostas, o que mais poderia ser?

Jamie sacudiu a cabeça e preparou-se para atirar a bolsa de volta.

- Não apostei nada.

Murtagh ergueu uma das mãos para impedi-lo.

- Você fez o trabalho. É um sujeito muito popular no momento, ao menos entre aqueles que o apoiaram.

- Mas não com Dougal, imagino - intrometi-me.

Murtagh era um desses homens que sempre parecia um pouco surpreso de descobrir que uma mulher tinha voz, mas assentiu educadamente.

- Sim, isso é verdade. Ainda assim, não vejo como isso deva perturbá-lo - disse a Jamie.

- Não? - Os dois homens trocaram um olhar, com uma mensagem que eu não compreendi. Jamie soltou o ar dos pulmões devagar entre os dentes, balançando a cabeça devagar para si mesmo.

- Quando? — perguntou.

- Uma semana. Dez dias, talvez. Perto de um lugar chamado Lag Cruime. Conhece?

Jamie balançou a cabeça novamente, confirmando. Parecia mais consciente do que eu o via há algum tempo.

— Conheço.

Olhei de um rosto para o outro, ambos fechados, escondendo um segredo. Então, Murtagh descobrira alguma coisa. Algo a ver com o misterioso "Horrocks", talvez? Encolhi os ombros. Qualquer que fosse o motivo, parecia que os dias de Jamie como peça de exibição haviam acabado.

— Suponho que Dougal sempre possa fazer um número de sapateado - eu disse.

— Hein? — Os olhares secretos transformaram-se em olhares de espanto.

— Nada. Durma bem. - Peguei minha caixa de suprimentos médicos e fui procurar meu próprio descanso.

 

Estávamos nos aproximando de Fort William e eu comecei a pensar seriamente no meu plano de ação, quando chegássemos lá.

Iria depender, pensei, do comandante da guarnição. Se acreditasse que eu era uma respeitável senhora em apuros, poderia me fornecer uma escolta temporária em direção à costa e ao meu suposto embarque para a França.

Mas ele poderia suspeitar de mim, surgindo na companhia dos Mac-Kenzie. Ainda assim, eu evidentemente não era escocesa; e se ele imaginasse que eu fosse algum tipo de espiã? Obviamente, era isso que Colum e Dougal pensavam — que eu fosse uma espiã inglesa.

O que me fazia imaginar o que eu supostamente deveria estar espionando. Bem, atividades impatrióticas, suponho; entre as quais, sem dúvida, incluía-se coletar dinheiro para apoiar o príncipe Carlos Eduardo Stuart.

Entretanto, nesse caso, por que Dougal permitira que eu presenciasse suas atividades? Poderia facilmente mandar que eu saísse antes dessa parte dos procedimentos. Claro, tudo se desenrolara em gaélico, argumentei comigo mesma.

No entanto, talvez esse fosse o ponto. Lembro-me do estranho brilho em seus olhos e da frase "Pensei que não soubesse gaélico". Talvez fosse um teste, para ver se eu realmente ignorava a língua. Porque um espião inglês dificilmente seria enviado às Highlands sendo incapaz de falar com metade da população do lugar.

Não, a conversa entre Dougal e Jamie que eu ouvira parecia indicar que Dougal realmente era um jacobita, embora Colum aparentemente não fosse - ainda.

Minha cabeça estava começando a zumbir com todas essas suposições e fiquei satisfeita ao constatar que nos aproximávamos de uma vila razoavelmente grande. Provavelmente, isso também significava uma boa hospedaria e um bom jantar.

A hospedaria era realmente confortável, pelos padrões a que me acostumara. Se a cama era aparentemente projetada para anões - e, aliás, mordidos de pulgas, — aO menos ficava num quarto isolado. Nas diversas estalagens menores, eu dormira num estrado numa sala comum a todos, cercada por homens roncando e as sombras dobradas de vultos envoltos em seus xales.

Em geral, eu adormecia logo, quaisquer que fossem as condições, cansada de um dia na sela e uma noite de politicagem de Dougal. Na primeira noite em uma estalagem, no entanto, permanecera acordada por mais de meia hora, fascinada pela notável variedade de ruídos que os aparelhos respiratórios masculinos eram capazes de produzir. Um dormitório inteiro cheio de estudantes de enfermagem não chegava nem perto.

Ocorreu-me, ouvindo o coro, que os homens numa enfermaria de hospital raramente roncam. Sim, respiram pesadamente. Soltam arfadas, gemem ocasionalmente e às vezes soluçam ou choram durante o sono. Mas não havia comparação com aquele saudável pandemônio. Talvez homens feridos ou doentes não pudessem dormir profundamente o bastante para relaxarem naquela espécie de algazarra.

Se minhas observações estivessem corretas, podia concluir que meus companheiros gozavam da mais perfeita saúde. Sem dúvida, assim pareciam, braços e pernas descontraidamente espraiados, rostos relaxados e brilhando à luz do fogo. O completo abandono de seu sono em tábuas duras de madeira era a satisfação de um apetite tão forte quanto aquele com que se sentavam à mesa de jantar. Obscuramente reconfortada pela cacofonia, puxei minha capa de viagem em volta dos ombros e também fui dormir.

Em comparação, agora me sentia um pouco solitária no esplendor de meu sótão minúsculo e fedorento. Apesar de ter removido as roupas de cama e batido o colchão para desencorajar co-habitantes indesejáveis, tinha certa dificuldade em dormir, tão silencioso e escuro o quarto pareceu depois que apaguei a vela.

Ouviam-se alguns ecos fracos da sala comum dois andares abaixo e um breve ruído de agitação e movimento, mas serviam apenas para realçar meu próprio isolamento. Era a primeira vez que me deixavam tão completamente sozinha desde a minha chegada ao castelo e não estava bem certa se gostava da situação.

Pairava nervosamente à beira do sono quando meus ouvidos captaram um sinistro ranger das tábuas do assoalho no corredor do lado de fora de meu quarto. Os passos eram vagarosos e incertos, como se o intruso hesitasse em seu caminho, escolhendo a tábua de aparência mais firme a cada novo passo. Sentei-me na cama com um pulo, tateando em busca da vela e da caixa de sílex junto à cama.

Minha mão, na busca às cegas, bateu na caixa de sílex, derrubando-a no chão com uma pancada fraca. Fiquei paralisada e os passos do lado de fora também.

Ouviu-se um leve arranhar na porta, como se alguém procurasse o trinco. Eu sabia que a porta estava destrancada; embora tivesse suportes para o trinco, eu vasculhara o quarto inutilmente à cata do trinco antes de ir para a cama. Agarrei o castiçal, arranquei o toco de vela e deslizei da cama tão silenciosamente quanto pude, brandindo a pesada peça de cerâmica.

A porta rangeu levemente nas dobradiças quando cedeu. A única janela do quarto estava hermeticamente fechada tanto contra os elementos do tempo quanto contra a luz; mesmo assim, pude divisar, ainda que vagamente, o contorno turvo da porta ao abrir. O contorno cresceu, em seguida para minha surpresa, encolheu-se e desapareceu quando a porta foi novamente fechada. Tudo ficou silencioso outra vez.

Fiquei comprimida contra a parede pelo que me pareceu uma eternidade, prendendo a respiração e tentando ouvir em meio ao barulho das batidas do meu coração. Por fim, avancei centímetro a centímetro em direção à porta, cuidadosamente dando a volta pelos cantos do quarto ao longo das paredes, considerando que as tábuas do assoalho deviam ser bem mais firmes ali. A cada passo, descia o pé devagar, colocando meu peso sobre ele, depois parando e tateando com os dedos dos pés descalços em busca da junção entre as duas tábuas, antes de apoiar o outro pé com a firmeza que eu julgasse possível.

Quando alcancei a porta, parei, o ouvido pressionado contra as tábuas finas, as mãos agarradas ao batente, alerta contra uma súbita invasão. Achei que ouvia uns sons leves, mas não tinha certeza. Seriam apenas os sons da movimentação lá embaixo ou seria a respiração presa de alguém do outro lado das tábuas da porta?

O fluxo constante de adrenalina estava me deixando tonta. Cansando-me finalmente daquela tolice, agarrei meu castiçal com firmeza, abri a porta com um safanão e me precipitei no corredor.

Digo "me precipitei"; na verdade, dei dois passos, pisei com força em algo macio e caí de cabeça no corredor, ralando os nós dos dedos e batendo a cabeça dolorosamente em algo sólido.

Sentei-me, segurando minha testa com as duas mãos, sem a menor preocupação de que pudesse ser assassinada a qualquer momento.

A pessoa em quem eu pisara praguejava com a respiração entrecortada. Através da névoa de dor, percebi vagamente que ele (presumi pelo tamanho e pelo cheiro de suor que meu visitante era um homem) se levantara e tateava para encontrar o fecho das persianas na parede acima de nós.

Uma repentina lufada de ar fresco me fez encolher e fechar os olhos, quando os abri novamente, a luz do céu noturno era suficiente para eu ver o intruso.

- O que você está fazendo aqui? — perguntei de modo acusador.

Ao mesmo tempo, Jamie perguntou, também num tom de acusação.

- Quanto é que você pesa, Sassenach?

Ainda um pouco confusa, respondi sem pensar:

- Cinqüenta e sete quilos. - Só então pensei em perguntar: - Por quê?

- Você quase esmagou meu fígado - respondeu, apalpando cuidadosamente a área afetada. - Sem mencionar que quase me matou de susto! -Estendeu a mão para baixo e me içou. — Você está bem?

- Não, bati a cabeça. - Esfregando o local, olhei intrigada o corredor inteiramente vazio, sem nenhum objeto ou peça de mobília. - Onde foi que bati com a cabeça? - perguntei.

- Na minha cabeça — ele disse, com uma certa irritação, pensei.

- Bem-feito — eu disse, cruelmente. — O que estava fazendo, se esgueirando dissimuladamente do lado de fora da minha porta?

Lançou-me um olhar furioso.

- Eu não estava "me esgueirando dissimuladamente", pelo amor de Deus. Eu estava dormindo, ou tentando. - Esfregou o que parecia ser um galo se formando em sua têmpora.

- Dormindo?

— Olhei de um lado para o outro do imundo corredor com exagerada surpresa. — Você sem dúvida escolhe os locais mais estranhos; primeiro, a estrebaria, agora isto.

- Talvez lhe interesse saber que há um pequeno grupo de dragões ingleses na taberna aí embaixo - informou-me com frieza. - Estão meio bêbados e se divertindo um pouco desregradamente com duas mulheres da cidade. Como só há duas mulheres e cinco homens, alguns dos soldados pareciam um tanto inclinados a se aventurarem nos andares de cima em busca de... ah, parceiras. Achei que você não iria gostar muito de tais atenções. — Atirou seu xale xadrez por cima do ombro e virou-se na direção das escadas. - Se me enganei nessa impressão, peço desculpas. Não tinha intenção de perturbar seu descanso. Boa noite.

- Espere um instante. - Ele parou, mas não se virou, forçando-me a dar a volta em torno dele para olhá-lo de frente. Retribuiu o olhar, educadamente, mas com frieza.

- Obrigada — eu disse. - Foi muita gentileza sua. Desculpe-me por ter pisado em você.

Ele sorriu, o rosto mudando de uma máscara hostil para sua expressão habitual de bom humor.

- Não foi nada, Sassenach - disse. - Quando a dor de cabeça passar e a costela quebrada sarar, ficarei novo em folha.

Virou-se e empurrou a porta do meu quarto, que se fechara na esteira da minha saída apressada, devido ao fato de que o construtor aparentemente erguera a estalagem sem o benefício de um fio de prumo. Não havia um único ângulo reto no local.

- Volte para a cama, então - ele sugeriu. — Estarei aqui.

Olhei para o chão. Além de essencialmente duro e frio, as tábuas de carvalho estavam manchadas de cusparadas, líquidos entornados e outras formas de imundície que eu não queria nem imaginar. A marca do construtor na verga da porta dizia 1732 e obviamente essa fora a única vez que as tábuas do assoalho haviam sido limpas.

- Não pode dormir aqui fora — eu disse. — Entre, ao menos o chão do quarto não está tão ruim.

Jamie ficou paralisado, a mão no batente da porta.

- Dormir no quarto com você? - Pareceu verdadeiramente chocado. - Eu não poderia fazer isso! Sua reputação ficaria arruinada!

Ele falava a sério. Comecei a rir, mas diplomaticamente transformei a risada em um acesso de tosse. Dadas as exigências da viagem, a superlotação das hospedarias e a crueza ou completa ausência de instalações sanitárias, eu estava tão acostumada à intimidade física com esses homens, inclusive Jamie, que achei hilariante a idéia de tanto pudor.

- Você já dormiu no mesmo aposento que eu outras vezes - ressaltei, quando me recobrei. - Você e mais outros vinte homens.

Ele gaguejou um pouco.

- Não é a mesma coisa! Quero dizer, eram locais totalmente públicos e... — Parou, acometido por um terrível pensamento. — Você não pensou que eu quis dizer que você estivesse sugerindo alguma coisa imprópria, pensou? - perguntou ansiosamente. - Acredite, eu...

- Não, não. Absolutamente. — Apressei-me a tranqüilizá-lo, assegurando-lhe que não me ofendera.

Vendo que não conseguiria persuadi-lo, insisti para que ao menos ele usasse os cobertores da minha cama para se deitar. Ele concordou com alguma relutância e somente depois de eu afirmar várias vezes que de qualquer modo eu não iria usá-los, mas que pretendia dormir como sempre enrolada na minha grossa manta de viagem.

Tentei agradecer-lhe novamente, quando parei junto à cama improvisada, antes de retornar ao meu fétido santuário, mas ele descartou meus agradecimentos com um gesto gracioso da mão.

- Não foi uma gentileza inteiramente desinteressada de minha parte, sabe - ele observou. - Eu mesmo não queria ser notado.

Havia me esquecido que ele tinha suas próprias razões para se manter longe dos soldados ingleses. Também não me passou despercebido, no entanto, que isso poderia ter sido conseguido bem mais facilmente, sem falar mais confortavelmente, se ele dormisse na aquecida e arejada estrebaria, ao invés do chão diante da minha porta.

-- Mas se alguém realmente vier aqui em cima - protestei -, irá encontrá-lo.

Estendeu o braço longo para segurar a persiana giratória e fechou-a. O corredor mergulhou na escuridão e Jamie não parecia mais do que um Vulto sem formas definidas.

- Não podem ver meu rosto — ressaltou. — E nas condições em que estão, meu nome também não despertaria nenhum interesse, ainda que lhes desse meu nome verdadeiro, o que não pretendo fazer.

- É verdade — eu disse, sem muita convicção. - Mas será que não se perguntarão o que você está fazendo aqui em cima no escuro? — Eu não podia ver nada da expressão do seu rosto, mas o tom de sua voz dizia-me que ele estava sorrindo.

- De jeito nenhum, Sassenach. Vão achar apenas que estou esperando a minha vez.

Com isso, ri e entrei. Enrolei-me na cama e fui dormir, admirada com a mente que podia fazer piadas tão lascivas ao mesmo tempo em que se horrorizava com a idéia de dormir no mesmo quarto que eu.

Quando acordei, Jamie já fora embora. Descendo para o desjejum, encontrei Dougal ao pé das escadas, aguardando-me.

— Coma rapidamente, dona - disse. - Você e eu vamos a Brockton. Absteve-se de me dar maiores informações, mas parecia um pouco nervoso. Comi rapidamente e logo estávamos trotando pela névoa do começo da manhã. Os pássaros agitavam-se nos arbustos e o ar anunciava um quente dia de verão.

— Quem vamos ver? — perguntei. — Pode me dizer, porque se eu não conhecer, ficarei surpresa, e se conhecer, sou inteligente o bastante para fingir que estou surpresa, de qualquer modo.

Dougal olhou-me de soslaio, considerando o que eu dissera, mas decidiu que meu argumento fazia sentido.

— O comandante da guarnição de Fort William - disse.

Senti um pequeno choque. Não estava preparada para isso. Achava que ainda teríamos três dias até alcançarmos o forte.

— Mas estamos muito longe de Fort William! - exclamei.

— Mmmhum.

Pelo visto, este comandante de guarnição era do tipo irrequieto. Não satisfeito em permanecer em casa cuidando de sua guarnição, saía para inspecionar o campo com um grupo de dragões. Os soldados que estiveram em nossa hospedaria na noite anterior faziam parte deste grupo e disseram a Dougal que o comandante no momento estava instalado na hospedaria em Brockton.

Esse fato criava um novo problema e eu fiquei em silêncio pelo resto do percurso, analisando-o. Eu contara em poder me afastar da companhia de Dougal em Fort William, que eu achava ficar a um dia de viagem da colina de Craigh na Dun. Mesmo não estando preparada para acampar e não tendo comida nem outros recursos, achava que poderia cobrir essa distância sozinha e achar meu caminho até o círculo de pedras. Quanto ao que aconteceria depois - bem, só poderia saber indo até lá.

No entanto, este novo acontecimento colocou um obstáculo inesperado nos meus planos. Se eu me separasse de Dougal aqui, como provavelmente aconteceria, estaria a quatro dias de viagem da colina, não um. Além disso, eu não tinha bastante confiança em meu senso de direção, quanto mais minha resistência física, para me arriscar sozinha a pé entre os pântanos e penhascos desertos. As últimas semanas de viagem em condições precárias me deram um cauteloso respeito pelos rochedos acidentados e riachos traiçoeiros das Highlands, sem falar de um ou outro animal selvagem. Não tinha nenhuma vontade em particular de me deparar com um javali, por exemplo, cara a cara em alguma ravina deserta.

Chegamos a Brockton no meio da manhã. A neblina se dissipara e o dia estava ensolarado o suficiente para me incutir uma sensação de otimismo. Talvez fosse uma tarefa simples, afinal de contas, persuadir o comandante da guarnição a me fornecer uma pequena escolta que me levasse até a colina.

Eu pude compreender por que o comandante escolhera Brockton para seu quartel-general temporário. A vila era bastante grande para abrigar duas tabernas, uma delas um imponente edifício de três andares com uma estrebaria anexa. Paramos ali, entregando nossos cavalos aos cuidados do cavalariço, que se movia tão lentamente que parecia fossilizado. Ele mal conseguira chegar à porta da estrebaria quando já estávamos lá dentro e Dougal pedira algo para se comer ao dono da taberna.

Fui deixada no térreo, diante de um prato de bolachas de aveia velhas, enquanto Dougal subia as escadas até o quarto particular do comandante. Tive uma sensação estranha ao vê-lo se afastar. Havia três ou quatro soldados ingleses na taberna, que me olharam especulativamente, conversando entre si em voz baixa. Após um mês entre os escoceses do clã MacKenzie, a presença dos dragões ingleses deixava-me inexplicavelmente nervosa. Disse a mim mesma que estava sendo tola. Afinal, eram meus próprios compatriotas, em outra época ou não.

Ainda assim, sentia falta da companhia agradável do sr. Gowan e a familiaridade reconfortante de Jamie não-sei-o-quê. Sentia que não tivera a oportunidade de me despedir de ninguém antes de partir de manhã, quando ouvi a voz de Dougal chamando da escada atrás de mim. Ele estava no topo da escada, acenando para que eu subisse.

Parecia um pouco mais sombrio do que o normal, pensei, quando afastou-se para o lado sem dizer nenhuma palavra e fez sinal para que eu entrasse no aposento. O comandante da guarnição estava parado junto à Janela aberta, sua figura esbelta e ereta em silhueta contra a luz. Deu uma risada curta ao me ver.

- Sim, foi o que eu pensei. Tinha que ser você, pela descrição do MacKenzie. - A porta fechou-se atrás de mim e eu fiquei sozinha com o capitão Jonathan Randall da Oitava Companhia dos Dragões de Sua Majestade.

Desta vez, trajava um uniforme vermelho e castanho-amarelado, limpo, com um peitilho enfeitado de renda e uma peruca perfeitamente cacheada e empoada. Mas o rosto era o mesmo - o rosto de Frank. Minha respiração ficou presa na garganta. Desta vez, entretanto, notei as pequenas rugas de crueldade em torno de sua boca e o toque de arrogância na postura dos ombros. Ainda assim, sorriu afavelmente e convidou-me a sentar.

O quarto estava escassamente mobiliado, apenas com uma mesa e uma cadeira, uma longa mesa de reunião e algumas banquetas. O capitão Randall fez um sinal para um jovem cabo que montava guarda perto da porta e uma caneca de cerveja foi desajeitadamente servida e colocada à minha frente.

O capitão mandou o cabo de volta à sua posição com um gesto da mão e serviu-se ele próprio da cerveja. Em seguida, acomodou-se elegantemente em uma das banquetas do outro lado da mesa, diante de mim.

- Muito bem - disse, gentilmente. — Por que não me conta quem você é e como veio parar aqui?

Não tendo outra escolha no momento, repeti a mesma história que contara a Colum, omitindo apenas as referências menos diplomáticas a seu próprio comportamento, que de qualquer modo ele conhecia. Eu não fazia a menor idéia de quanto Dougal lhe contara e não queria me arriscar a cometer um erro grave.

O capitão pareceu amável, mas cético durante toda a narração. Deu-se menos ao trabalho de ocultar seus sentimentos do que Colum, refleti. Inclinou-se para trás em sua banqueta, considerando.

- Oxfordshire, você diz? Não há nenhum Beauchamp em Oxfordshire que eu conheça.

- Como poderia saber? - retorqui. - Você mesmo é de Sussex. Seus olhos se arregalaram de surpresa. Eu podia morder a língua.

- E posso lhe perguntar como é exatamente que você sabe disso? — perguntou.

- Hã, sua voz. Sim, é o seu sotaque — respondi apressadamente. — Claramente Sussex.

As graciosas sobrancelhas escuras quase tocavam os cachos de sua peruca.

- Nem meus tutores, nem meus pais ficariam muito satisfeitos em saber que minha maneira de falar reflete com tanta clareza meu local de nascimento, madame — disse secamente. — Eles se deram a muito trabalho e gastos consideráveis para consertar isso. Mas, sendo a especialista em padrões locais de linguagem que você é - virou-se para o homem parado junto à parede - sem dúvida também pode identificar o local de origem de meu cabo. Cabo Hawkins, poderia me fazer o favor de recitar alguma coisa? Qualquer coisa serve - acrescentou, vendo a confusão no rosto do sujeito. - Um verso popular, por exemplo.

O cabo, um jovem de ombros largos, com uma expressão idiota no rosto carnudo, olhou desesperadamente à volta do aposento em busca de inspiração, depois se colocou em posição de sentido e entoou:

A viçosa Meg, ela lavava minhas roupas, E levou todas embora.

Esperei assim com grande aflição,

E depois eu a fiz pagar por isso.

- Ah, já chega, cabo, obrigado. — Randall fez um gesto para que se retirasse e o cabo recolheu-se junto à parede, suando em bicas.

- E então? - Randall voltou-se para mim, aguardando uma resposta.

- Hã, Cheshire - arrisquei.

- Quase. Lancashire. - Estreitou os olhos, examinando-me. Unindo as mãos atrás das costas, caminhou até a janela e olhou para fora. Verificando se Dougal trouxera homens com ele?, pensei.

Repentinamente, ele girou nos calcanhares, novamente de frente para mim, com um repentino:

- Parlez-vous français?

- Três bien - respondi prontamente. - O que tem isso?

A cabeça inclinada para um lado, examinou-me atentamente.

- Duvido que seja francesa - disse, como se falasse consigo mesmo. -Poderia ser, eu creio, mas ainda tenho que encontrar um francês que pudesse diferenciar um londrino de um habitante da Cornualha.

As unhas cuidadosamente manicuradas tamborilaram na madeira do tampo da mesa.

- Qual era mesmo seu nome de solteira, sra. Beauchamp?

- Olhe, capitão — eu disse, sorrindo o mais graciosamente possível —, por mais divertido que seja brincar de adivinhação com o senhor, eu realmente gostaria de concluir esses preliminares e preparar a continuação da minha viagem. Já fiquei bastante tempo retida e...

-- Você não ajuda em nada o seu caso adotando essa atitude frívola, madame - interrompeu, estreitando os olhos. Eu já vira Frank fazer isso, quando contrariado com alguma coisa e senti um enfraquecimento nos joelhos. Coloquei as mãos nas coxas para controlar-me.

- Não tenho nenhum caso a ser ajudado - eu disse, reunindo toda a coragem que podia. - Não estou reivindicando nada a você, à guarnição, mesmo aos MacKenzie. Tudo que quero é que me permitam retomar minha viagem em paz. E não vejo nenhuma razão pela qual você teria alguma objeção quanto a isso.

Olhou-me fixamente, os lábios apertados de irritação.

- Ah, não vê? Bem, considere minha posição por um instante, madame, e talvez minhas objeções se tornem mais claras. Um mês atrás, eu estava com meus homens numa perseguição violenta a um bando de bandidos escoceses não identificados que havia fugido com um pequeno rebanho de gado de uma propriedade perto da fronteira, quando...

- Ah, então era isso que estavam fazendo! - exclamei. - Fiquei me perguntando — acrescentei, frouxamente.

O capitão Randall respirou pesadamente, depois resolveu desistir do que quer que pretendia dizer, a fim de continuar sua história.

- No meio dessa perseguição por força da lei — continuou, medindo as palavras -, encontrei uma inglesa semi-vestida, em um lugar onde nenhuma inglesa deveria estar, ainda que acompanhada de uma escolta adequada, que resiste às minhas perguntas, ataca a minha pessoa...

- Você me atacou primeiro! - eu disse, indignada.

- Cujo cúmplice me deixa inconsciente com um ataque covarde e que depois foge do local, obviamente com a ajuda de alguém. Meus homens e eu fizemos uma busca rigorosa naquela área e asseguro-lhe, madame, não havia sinal de seu criado assassinado, sua bagagem saqueada, suas roupas arrancadas, nem o menor sinal de que haja alguma verdade em sua história!

- Oh? — exclamei, debilmente.

- Sim. Além disso, não tinha havido nenhuma denúncia de bandidos naquela região nos últimos quatro meses. E agora, madame, você aparece na companhia do comandante de guerra do clã MacKenzie, que me diz que seu irmão Colum está convencido de que é uma espiã, provavelmente trabalhando para mim.

- Bem, não sou, sou? - eu disse, razoavelmente. — Ao menos, sabe disso.

- Sim, eu sei disso - repetiu demonstrando exagerada paciência. - O que eu não sei é quem diabos é você! Mas pretendo descobrir, madame, não tenha dúvidas quanto a isso. Sou o comandante desta guarnição. Como tal, tenho o poder de tomar certas medidas a fim de assegurar a segurança desta região contra traidores, espiões e qualquer outra pessoa cujo comportamento eu considere suspeito. E essas medidas, madame, estou plenamente preparado para tomar.

- E exatamente quais seriam essas medidas? — perguntei. Queria realmente saber, embora suponho que o tom da minha pergunta deva ter soado um pouco provocante.

Ele se levantou, olhou-me pensativamente por um instante, depois deu a volta na mesa, estendeu a mão e me colocou de pé.

- Cabo Hawkins - disse, ainda olhando-me fixamente -, vou requerer sua assistência por um instante.

O jovem junto à parede pareceu profundamente perturbado, mas aproximou-se de nós.

- Fique atrás da senhora, por favor, cabo — Randall disse, parecendo entediado. - E segure-a com firmeza pelos dois braços.

Ele afastou o braço para trás e desfechou um soco na boca do meu estômago.

Não emiti nenhum som, porque fiquei totalmente sem ar. Sentei-me no chão, dobrei o corpo, lutando para conseguir inspirar algum ar para os pulmões. Eu estava chocada muito além da dor do golpe em si, que já se fazia sentir, juntamente com uma onda de vertigem e enjôo. Numa vida bastante cheia de acontecimentos, ninguém jamais me golpeara de propósito.

O capitão agachou-se diante de mim. Sua peruca estava ligeiramente inclinada, mas fora isso e um certo brilho em seus olhos, não demonstrava nenhuma alteração de sua controlada elegância habitual.

- Espero que não esteja grávida, madame — disse em tom casual —, porque se estiver, não será por muito tempo.

Eu estava começando a emitir um estranho chiado, conforme os primeiros bocados de oxigênio conseguiram passar dolorosamente pela minha garganta. Rolei sobre as mãos e os joelhos e tateei fracamente em busca da borda da mesa. O cabo, após um olhar nervoso para o capitão, estendeu a mão para me ajudar a ficar em pé.

Ondas de escuridão pareciam tomar conta do aposento. Deixei-me cair na banqueta e fechei os olhos.

- Olhe para mim. - A voz era tão suave e calma como se ele estivesse me oferecendo chá. Abri os olhos e olhei para ele através de uma ligeira névoa. Tinha as mãos apoiadas nos quadris elegantemente trajados.

- Tem alguma coisa a me dizer agora, madame? — perguntou.

- Sua peruca está torta - disse, e fechei os olhos outra vez.

 

Sentei-me a uma mesa na taberna lá embaixo, fitando uma xícara de leite e tentando conter ânsias de vômito.

Dougal deu uma olhada em meu rosto quando eu desci, apoiada em um jovem cabo musculoso, e passou por mim em passos largos e determinados, subindo as escadas até o aposento de Randall. As portas e assoalhos da hospedaria eram fortes e bem construídos, mas ainda assim eu podia ouvir vozes altercadas no andar de cima.

Levantei a xícara de leite, mas minhas mãos ainda tremiam demais para que eu pudesse bebê-lo.

Gradualmente, comecei a me recuperar dos efeitos físicos do soco no estômago, mas não do choque sofrido. Eu sabia que o sujeito não era meu marido, mas a semelhança era tão forte e meus hábitos tão enraizados, que eu me sentira inclinada a confiar nele e falei com ele como teria falado com Frank, esperando civilidade, se não franca solidariedade. O que estava me deixando doente agora era ver esses sentimentos bruscamente virados do avesso pelo seu ataque perverso.

Doente e amedrontada também. Eu vira seus olhos quando se agachou ao meu lado no chão. Algo se movera em suas profundezas, apenas por um segundo. Desapareceu num relâmpago, mas eu jamais queria ver aquele olhar outra vez.

O barulho de uma porta se abrindo em cima me tirou dos meus devaneios. As pancadas surdas de passos pesados foram seguidas pela pronta aparição de Dougal, seguido de perto pelo capitão Randall. Tão perto, na verdade, que o capitão parecia estar perseguindo o escocês e parou bruscamente quando Dougal, avistando-me, estancou de repente no pé da escada.

Com um olhar fulminante por cima do ombro ao capitão Randall, Dougal caminhou rapidamente para onde eu estava, atirou uma moeda sobre a mesa como pagamento e me colocou de pé com um safanão, sem dizer uma só palavra. Estava me empurrando pela porta afora antes de eu ter tido tempo de registrar qualquer outra coisa além da expressão extraordinária de especulativa cobiça no rosto do oficial inglês.

Estávamos montados e partindo antes que eu tivesse tempo de enfiar minhas saias volumosas em torno das minhas pernas e o tecido encapelava-se à minha volta como um pára-quedas assentando-se. Dougal permaneceu silencioso, mas os cavalos pareciam perceber seu senso de pressa; estávamos quase galopando quando chegamos à estrada principal.

Perto de uma encruzilhada marcada com uma cruz picta, Dougal repentinamente puxou as rédeas e parou. Desmontando, agarrou as bridas dos dois cavalos e amarrou-as frouxamente em uma pequena árvore. Ajudou-me a descer, desapareceu repentinamente no meio dos arbustos, acenando para que eu o seguisse.

Segui o balanço de seu kilt pela colina acima, desviando-me conforme os galhos que ele afastava do caminho e ricocheteavam pela trilha, zumbindo acima de minha cabeça. A encosta da colina estava coberta de carvalhos e pequenos pinheiros. Eu podia ouvir abelharucos no bosque à esquerda e um bando de gaios gritando uns com os outros enquanto se alimentavam, mais adiante. O capim tinha o verde viçoso do começo do verão, moitas robustas desenvolvendo-se no meio das pedras e forrando o solo sob os carvalhos. Nada crescia embaixo dos pinheiros, é claro; as agulhas formavam uma camada de vários centímetros, oferecendo proteção às minúsculas criaturas rastejantes que se escondiam ali do sol e dos predadores.

Os cheiros penetrantes faziam minha garganta arder. Eu já estivera nessas colinas antes e sentira esses mesmos aromas de primavera. Mas na ocasião a fragrância do mato e dos pinheiros diluía-se com o cheiro dos vapores da gasolina da estrada lá embaixo e as vozes dos turistas do dia substituíam o canto dos gaios. Na última vez que percorri uma dessas trilhas, o chão estava coberto de embalagens de sanduíches e tocos de cigarro, ao invés de violetas e flores de malva. Embalagens de sanduíches pareciam um preço bem razoável a pagar, creio, por tais bênçãos da civilização, como antibióticos e telefones, mas no momento estava disposta a me contentar com as violetas. Precisava extremamente de um pouco de paz e havia paz ali.

Dougal virou bruscamente para o lado logo abaixo do topo da colina e desapareceu numa vegetação cerrada de giestas. Avançando atrás dele com certa dificuldade, encontrei-o sentado numa pedra plana ao lado de um pequeno lago. Um bloco de pedra gasto pelo tempo erguia-se inclinadamente atrás dele, com uma figura humana fraca e indistinta gravada na superfície manchada. Deve ser o lago de um santo, pensei. Esses pequenos santuários dedicados a um ou outro santo pontilhavam as Highlands e geralmente eram encontrados em locais mais retirados, embora mesmo ali, remanescentes de tiras de pano rasgadas esvoaçassem dos galhos de uma sorveira que pendia sobre a água; promessas de visitantes que faziam súplicas ao santo, por saúde ou uma viagem segura, talvez.

Dougal saudou meu aparecimento com um sinal da cabeça. Fez o sinal-da-cruz, abaixou a cabeça e, com as duas mãos em concha, pegou água do lago. A água tinha uma estranha cor escura e um cheiro ainda pior. Provavelmente uma fonte de água sulfurosa, pensei. Mas o dia estava quente e eu estava com sede, de modo que segui o exemplo de Dougal. A água tinha um gosto um pouco amargo, mas era fria e não de todo desagradável ao paladar. Bebi um pouco, depois joguei água no rosto. A estrada estava empoeirada.

Ergui os olhos, o rosto pingando, para deparar-me com ele observando-me com uma expressão muito estranha. Algo entre curiosidade e avaliação, pensei.

- Uma subida um pouco grande para um gole d'água, não? — comentei. Havia garrafas de água nos cavalos. E eu duvidava que Dougal pretendesse fazer um pedido ao padroeiro da fonte pelo nosso retorno seguro de volta à estalagem. Considerava-o um crente em métodos mais mundanos.

- Você conhece bem o capitão? — perguntou repentinamente.

- Menos do que você - retorqui. - Só o encontrei uma vez antes e por acaso. Não nos demos bem.

Surpreendentemente, o rosto severo abrandou-se um pouco.

- Bem - admitiu —, eu mesmo não posso dizer que gosto do sujeito. -Tamborilou os dedos na borda de pedra da fonte, pensando. - No entanto, é muito bem considerado por algumas pessoas - disse, olhando-me. -Um soldado corajoso e um bom guerreiro, pelo que ouço dizer.

Ergui as sobrancelhas.

- Não sendo um general inglês, não estou impressionada.

Ele riu, exibindo dentes extremamente brancos. O barulho perturbou três gralhas na árvore acima de nós, que saíram batendo as asas, queixando-se com seus gritos roucos.

- Você é uma espiã dos ingleses ou dos franceses? - perguntou, com mais uma desconcertante mudança de assunto. Ao menos, estava sendo direto, para variar.

- Claro que não - disse irritada. - Sou apenas Claire Beauchamp e nada mais. - Molhei meu lenço na água e usei-o para limpar o pescoço. Pequenas gotas refrescantes escorreram pelas minhas costas, por baixo da sarja cinza do meu vestido de viagem. Pressionei o tecido molhado no meu peito e o espremi, produzindo um efeito similar.

Dougal permaneceu em silêncio por vários minutos, observando-me intensamente enquanto eu conduzia minhas abluções aleatórias.

- Você viu as costas de Jamie — ele disse repentinamente.

- Dificilmente poderia ter deixado de ver - disse com certa frieza. Eu desistira de tentar adivinhar o que ele queria com essas perguntas desconexas. Provavelmente, me diria quando estivesse pronto.

- Está perguntando se eu sabia que Randall fez aquilo? Ou você mesmo já sabia?

- Sim, eu sabia muito bem disso — respondeu, avaliando-me calmamente -, mas não tinha certeza se você sabia.

Encolhi os ombros, deixando implícito que o que eu sabia ou deixava de saber não era problema dele.

- Eu estava lá, sabe - disse distraidamente.

- Onde?

- Em Fort William. Eu tinha algo a fazer lá, com a guarnição. O funcionário lá sabia que Jamie era parente meu e mandou me avisar quando o prenderam. Então, fui até lá para ver o que podia ser feito por ele.

- Pelo visto, não teve muito sucesso - disse, incisivamente. Dougal encolheu os ombros.

- Infelizmente, não. Se fosse o sargento-mor que costumava estar no comando, talvez tivesse conseguido salvar Jamie, ao menos da segunda rodada, mas Randall era novo no comando. Ele não me conhecia e não estava disposto a ouvir o que eu tinha a dizer. Percebi, na época, que ele queria fazer de Jamie um exemplo, para mostrar a todos desde o início que não haveria misericórdia com ele. - Bateu de leve na espada curta que carregava na cintura. - É um princípio bastante legítimo, quando se está no comando de homens. Ganhe o respeito deles antes de mais nada. E, se não puder, ganhe seu temor.

Lembrei-me da expressão no rosto do cabo de Randall e achei que sabia o caminho que o capitão escolhera.

Os olhos profundos de Dougal fitavam meu rosto com interesse.

- Você sabia que tinha sido Randall. Jamie lhe contou?

- Um pouco - respondi cautelosamente.

- Ele deve ter grande consideração por você — disse pensativamente. — Em geral, ele não fala a respeito disso com ninguém.

- Não consigo imaginar por quê - disse sarcasticamente. Eu ainda prendia a respiração toda vez que chegávamos a uma nova taberna ou hospedaria, até ficar claro que o grupo se instalara para uma noite de bebidas e conversa fiada junto à lareira. Dougal sorriu com cinismo, obviamente entendendo o que eu queria dizer.

- Bem, não era necessário me dizer, era? Uma vez que eu já sabia. -Passou a mão languidamente pela água estranhamente escura, provocando vapores de enxofre.

-- Não sei como é em Oxfordshire — ele disse, com uma ênfase sarcástica que me fez estremecer ligeiramente -, mas por aqui, as mulheres geralmente não são expostas a visões como a de um açoite. Já viu um?

-- Não, e na verdade não quero — respondi incisivamente. - Mas posso imaginar o que seria preciso para causar marcas como as que Jamie tem nas costas.

Dougal sacudiu a cabeça, atirando um pouco da água do lago numa gralha curiosa que se aventurou mais perto.

-- Nisso você está errada, dona, e perdoe-me por dizer isso. Imaginar é uma coisa, mas não é o mesmo que ver um homem ter suas costas retalhadas. É uma visão terrível. É para alquebrar um homem e em geral consegue.

— Não com Jamie. - Falei com um pouco mais de veemência do que pretendia. Jamie era meu paciente e, até certo ponto, meu amigo também. Não tinha nenhuma intenção de discutir sua história pessoal com Dougal, embora pudesse admitir, se pressionada, uma certa curiosidade mórbida. Nunca conhecera ninguém mais franco e ao mesmo tempo mais misterioso do que o alto e jovem MacTavish.

Dougal deu uma risada curta e passou a mão molhada pelos cabelos, grudando para trás as mechas que haviam se desprendido durante nossa fuga - pois isso é o que me parecera - da taberna.

— Bem, Jamie é teimoso como o resto da família. São como rochas, todos eles, e ele é o pior. - Mas havia um indisfarçável tom de respeito em sua voz, por mais que quisesse esconder.

— Jamie contou-lhe que foi açoitado por tentativa de fuga?

— Sim.

— Sim, ele escalou o muro do forte logo depois do anoitecer, no mesmo dia em que os dragões o trouxeram. Era uma ocorrência bastante freqüente ali, as acomodações dos presos não sendo tão seguras quanto desejável. Assim, os ingleses mantinham patrulhas perto dos muros todas as noites. O funcionário da guarnição disse-me que Jamie lutou com todas as forças, pela sua aparência quando o trouxeram de volta, mas eram seis contra um e todos os seis com mosquetes, de modo que não levou muito tempo. Jamie passou a noite acorrentado e foi para o poste de açoite logo de manhã. - Parou, procurando indícios de iminente desmaio ou enjôo.

— Os açoites eram executados logo de manhã, depois da reunião da tropa, de modo a que todos já começassem o dia adequadamente enquadrados no espírito do capitão. Havia três a serem açoitados naquele dia e Jamie era o último.

— Você realmente viu a execução?

— Ah, sim. E vou lhe dizer, dona, ver homens serem açoitados não é uma visão agradável. Tive a sorte de nunca experimentar esse sofrimento, mas imagino que seja terrível. Ver acontecer a outra pessoa, enquanto espera a sua própria vez, deve ser pior ainda.

— Não duvido — murmurei. Dougal balançou a cabeça.

— Jamie tinha uma expressão bastante sombria, mas não moveu um único fio de cabelo, mesmo ouvindo os urros de dor e outros ruídos. Sabia que se pode ouvir a carne sendo dilacerada?

-Ugh!

— Foi assim que me senti também, dona - disse, fazendo uma careta diante da lembrança. — Sem falar no sangue e nas escoriações. Ech! - Cuspiu, evitando cuidadosamente o lago e sua borda. - Revirou meu estômago ver aquilo, e não sou de modo algum um homem fraco.

Dougal continuou sua história macabra.

- Chegando a vez de Jamie, ele caminha até o poste - alguns homens têm que ser arrastados, mas ele não - e estende as duas mãos para que o cabo possa abrir as algemas que está usando. O cabo faz menção de puxá-lo pelo braço, como se tivesse que arrastá-lo à posição, mas Jamie livra-se dele e dá um passo para trás. Eu pensei que ele fosse arrancar em disparada mas em vez disso ele apenas tira a camisa. Está rasgada e imunda como um esfregão, mas ele a dobra cuidadosamente como se fosse sua melhor camisa de domingo e coloca-a no chão. Em seguida, caminha até o poste ereto como um soldado e levanta as mãos para serem atadas.

Dougal sacudiu a cabeça, admirado. A luz do sol filtrando-se através das folhas de sorveira marcava-o com sombras rendadas, de modo que parecia um homem visto através de um pano decorativo de mesa. Sorri diante da idéia e ele balançou a cabeça em aprovação, achando que era minha reação à sua história.

- Sim, dona, coragem assim é extremamente rara. Não era ignorância, veja bem; ele acabara de ver dois homens serem açoitados e sabia que o mesmo tratamento o aguardava. Ele simplesmente decidiu que não havia jeito de escapar. A bravura no campo de batalha não é nada impossível para um escocês, mas dominar o medo com sangue-frio é raro em qualquer homem. Ele tinha apenas dezenove anos na época — Dougal acrescentou como uma reflexão tardia.

- Deve ter sido terrível ficar observando - eu disse ironicamente. -Admiro-me que não tenha ficado nauseado.

Dougal percebeu a ironia e não reagiu.

- Quase fiquei, dona - disse, erguendo as sobrancelhas escuras. - A primeira chicotada arrancou sangue e as costas do rapaz ficaram metade vermelha e metade azul em um minuto. Mas ele não gritou, não implorou misericórdia, nem se contorceu para tentar esquivar-se. Apenas pressionou a cabeça com força contra o poste e ficou imóvel. Contraía-se a cada chicotada, é claro, mas nada além disso. Duvido que eu fosse capaz disso -admitiu -, nem há muitos que sejam. Desmaiou no meio da execução e eles o acordaram com água de um jarro e foram até o fim.

- Realmente abominável - comentei. - Por que está me contando tudo isso?

- Ainda não terminei de contar tudo. - Dougal tirou a adaga da cinta e começou a limpar as unhas com a ponta. Era um homem meticuloso e exigente, apesar das dificuldades de se manter limpo na estrada.

- Jamie estava pendurado pelas cordas, o sangue escorrendo e manchando seu kilt. Não achava que ele tivesse desmaiado, estava apenas mal demais para ficar em pé naquele momento. Mas nesse exato momento o capitão Randall desceu ao pátio. Não sei por que ele não estava lá desde o início; alguns negócios o fizeram se atrasar, talvez. De qualquer modo, Jamie o viu aproximar-se e teve a presença de espírito de fechar os olhos e deixar a cabeça cair, como se estivesse inconsciente.

Dougal franziu as sobrancelhas, concentrando-se implacavelmente em um recalcitrante pedaço de pele na base da unha.

- O capitão ficou decepcionado por já terem açoitado Jamie; pelo visto, era um prazer que tinha reservado para si próprio. No entanto, não havia mais o que fazer por enquanto. Então, começou a fazer perguntas sobre como Jamie veio a escapar.

Levantou a adaga, examinando-a para ver se havia dentes, em seguida começou a amolar o gume na pedra em que estava sentado.

- Deixou vários soldados tremendo nas botas antes de terminar. O sujeito sabe aterrorizar com as palavras, tenho que admitir.

- Isso é verdade — disse secamente.

A adaga continuava a ser ritmadamente raspada na pedra. De vez em quando, uma fagulha fraca saltava do metal quando atingia alguma aspereza na rocha.

- Bem, no curso dessa investigação, descobriu que Jamie tinha uma ponta de pão e um pedaço de queijo com ele quando foi pego, levara com ele quando escalou o muro. Com isso, o capitão pensou um instante, depois exibiu um sorriso que eu teria detestado ver no rosto de minha avó. Então, declara que, sendo o roubo um crime grave, a penalidade devia ser proporcional, e sentencia Jamie na hora a mais cem chicotadas.

Encolhi-me involuntariamente.

- Isso iria matá-lo!

Dougal balançou a cabeça, concordando.

- Sim, foi o que o médico da guarnição disse. Disse que não iria permitir tal coisa; em sã consciência, deve-se conceder dez dias ao prisioneiro para que ele se cure antes de ser açoitado novamente.

- Ora, que gesto humanitário da parte dele - eu disse. - Sã consciência, pelo amor de Deus! E o que o capitão Randall achou disso?

- No começo, não ficou nem um pouco satisfeito, mas aceitou. Tomada a decisão, o sargento-mor, que conhecia um desmaio de verdade, desamarrou Jamie. O rapaz cambaleou um pouco, mas manteve-se em pé, e alguns dos homens presentes aplaudiram e deram vivas, o que não agradou nem um pouco o capitão. Também não ficou nada satisfeito quando o sargento pegou a camisa de Jamie e entregou-a de volta ao rapaz, embora tenha sido um gesto muito louvado pelos homens.

Dougal virou a lâmina de um lado para o outro, examinando-a com olhar crítico. Em seguida, colocou-a sobre os joelhos e olhou-me diretamente nos olhos.

- Sabe, dona, é bastante fácil ser corajoso, sentado numa taberna aconchegante com um copo de cerveja. Não é tão fácil, agachado num descampado frio, com balas de mosquete zunindo junto à sua cabeça e as urzes espetando seu traseiro. E é menos fácil ainda quando você está cara a cara com seu inimigo, com seu próprio sangue escorrendo pelas pernas.

- Imagino que não - eu disse. Eu realmente me sentia um pouco tonta, apesar de tudo. Mergulhei as duas mãos na água, deixando que o líquido escuro esfriasse meus pulsos.

- Eu voltei para falar com Randall durante a semana - Dougal disse em defesa própria, como se sentisse necessidade de justificar a ação. -Conversamos durante um bom tempo e eu até lhe ofereci compensação...

- Ah, estou realmente impressionada — murmurei, mas desisti diante de seu olhar furioso. - Não, falo a sério. Foi muita bondade sua. Imagino que Randall tenha declinado sua oferta, não?

- Sim, foi o que fez. E eu ainda não sabia por quê, pois não tenho visto oficiais ingleses serem tão escrupulosos quando se trata de seu bolso e roupas como as do capitão são bastante caras.

- Talvez ele tenha... outras fontes de renda — sugeri.

- Tem, sim, de fato - Dougal confirmou, mas com um olhar penetrante em minha direção. - Ainda assim... — hesitou, depois prosseguiu, mais devagar.

- Voltei lá novamente para dar apoio a Jamie quando ele fosse castigado outra vez, embora não houvesse muito que eu pudesse fazer por ele a essa altura, pobre rapaz.

Da segunda vez, Jamie era o único prisioneiro a ser açoitado. Os guardas haviam retirado sua camisa antes de trazê-lo para fora, logo após o raiar do dia em uma fria manhã de outubro.

- Eu podia ver que o rapaz estava apavorado - Dougal disse -, embora caminhasse sem auxílio e não permitisse que o guarda o tocasse. Podia vê-lo tremer, tanto de frio quanto de pavor, a pele dos braços e do peito arrepiada, mas o rosto também molhado de suor.

Alguns minutos depois, Randall apareceu, o chicote enfiado debaixo do braço e as bolas de chumbo nas pontas das tiras de couro retinindo ao se chocarem umas contra as outras, enquanto ele caminhava. Olhou Jamie de alto a baixo friamente, depois fez um sinal para que o sargento-mor virasse o prisioneiro e mostrasse suas costas. O rosto de Dougal contraiu-se.

- Uma visão dolorosa... ainda em carne viva, os lanhos apenas parcial-mente fechados, com as marcas enegrecidas e o resto amarelo de hematomas. A idéia de um chicote se abater sobre tais ferimentos foi suficiente para me fazer encolher, juntamente com a maioria das outras pessoas.

---- Randall voltou-se para o sargento-mor e disse: "Belo trabalho, sargento Wilkes. Vamos ver se consigo me sair tão bem." Com imensa meticulosidade, mandou chamar o médico da guarnição e fez com que ele certificasse oficialmente que Jamie estava em condições de ser açoitado outra vez.

- Já viu um gato brincar com um ratinho? - Dougal perguntou. - Foi assim. Randall circulou em volta do rapaz, fazendo um ou outro comentário, nenhum agradável. E Jamie continuou ali firme como um carvalho, sem dizer nada e mantendo os olhos fixos no poste, sem olhar para Randall em nenhum momento. Pude ver que o rapaz agarrava os cotovelos para tentar parar de tremer e Randall também viu.

- Sua boca retesou-se e ele disse: "Pensei que este fosse o jovem que há apenas uma semana gritava que não tinha medo de morrer. Certamente um homem que não tem medo de morrer não teme algumas chicotadas, não é?" E enfiou o cabo do chicote na barriga de Jamie.

- Jamie, então, olhou Randall nos olhos e disse: "Não, mas tenho medo de morrer congelado antes que você pare de falar."

Dougal suspirou.

- Bem, foi um discurso corajoso, mas totalmente imprudente. Bem, flagelar um homem não é um negócio agradável, mas há maneiras de tornar isso pior do que deveria ser; bater de lado para cortar mais fundo ou golpear com força em cima dos rins, por exemplo. — Sacudiu a cabeça. -Terrível.

Franziu o cenho, escolhendo com cuidado as palavras.

- O rosto de Randall estava... concentrado, pode-se dizer... e como que excitado, como acontece quando um homem olha para uma mulher que lhe agrada, se entende o que quero dizer. Era como se estivesse fazendo algo muito pior a Jamie do que apenas esfolá-lo vivo. O sangue escorria pelas pernas do rapaz no décimo quinto golpe e as lágrimas escorriam pelo seu rosto com o suor.

Oscilei um pouco e estendi a mão para me apoiar na pedra da beirada da fonte.

- Bem - disse bruscamente, percebendo a expressão no meu rosto -, não direi mais nada, exceto que ele sobreviveu a isso. Depois, o cabo desamarrou suas mãos, ele quase caiu, mas o cabo e o sargento-mor, cada um agarrou-o de um lado pelos braços e o ampararam até ele conseguir ficar de pé. Ele tremia ainda mais, do choque e do frio, mas mantinha a cabeça erguida e seus olhos flamejavam - eu podia ver de seis metros de distância. Manteve os olhos fixos em Randall enquanto o ajudavam a descer da plataforma, deixando pegadas de sangue, como se encarar Randall fosse a única coisa capaz de mantê-lo em pé. O rosto de Randall estava quase tão pálido quanto o de Jamie e seus olhos estavam pregados nos olhos do rapaz, como se qualquer um deles fosse cair se desviasse os olhos. — Os próprios olhos de Dougal estavam fixos, ainda vendo a cena assustadora.

Tudo estava silencioso na pequena clareira, exceto pela leve agitação do vento nas folhas da sorveira. Fechei os olhos e fiquei ouvindo-o durante algum tempo.

- Por quê? - perguntei finalmente. - Por que me contou tudo isso? Dougal observava-me intensamente quando abri os olhos. Mergulhei uma das mãos na fonte outra vez e apliquei a água fria nas minhas têmporas.

- Achei que poderia servir para o que você poderia chamar de ilustração de caráter - disse.

- De Randall? - exclamei com uma risada curta, sem júbilo. - Não preciso de mais nenhuma evidência do caráter dele, obrigada.

- De Randall — concordou - e de Jamie também. Olhei para ele, repentinamente pouco à vontade.

- Veja bem, eu tenho ordens — enfatizou a palavra sarcasticamente - do bom capitão.

- Ordens de fazer o quê? — perguntei, a aflição aumentando.

- De apresentar a pessoa de uma súdita inglesa, de nome Claire Beauchamp, no Fort William, na segunda-feira, 18 de junho. Para interrogatório.

Devo ter me mostrado realmente alarmada, porque ele se pôs de pé num salto e se aproximou de mim.

- Coloque a cabeça entre os joelhos, dona — instruiu, empurrando a parte de trás do meu pescoço -, até a sensação de desmaio passar.

- Sei o que é preciso fazer - disse, irritada, mas obedecendo ainda assim. Fechei os olhos, sentindo o sangue que fugira começar a pulsar nas minhas têmporas outra vez. A sensação fria e úmida no meu rosto e nas orelhas começou a desaparecer, embora minhas mãos ainda estivessem geladas. Concentrei-me em respirar regularmente, contando: inspirar, um-dois-três-quatro; expirar, um-dois; inspirar, um-dois-três-quatro....

Finalmente, sentei-me, sentindo-me mais ou menos de posse das minhas faculdades. Dougal retomara seu lugar na beira da fonte e esperava pacientemente, observando-me para ter certeza de que eu não cairia para trás, dentro da fonte.

- Há uma maneira de fugir disso — disse bruscamente. - A única que consigo ver.

- Conte-me - eu disse, com uma tentativa pouco convincente de sorrir.

- Então, muito bem. — Inclinou-se para a frente, voltado para mim, para explicar. Randall tem o direito de levá-la a interrogatório porque é súdita da coroa inglesa. Bem, então, temos que mudar isso. Fitei-o, sem compreender.

O que quer dizer? Você também é um súdito da coroa, não? Como Poderia mudar isso?

- A lei escocesa e a lei inglesa são muito semelhantes - disse, franzindo a testa —, mas não são iguais. E um oficial inglês não pode forçar um escocês, a menos que tenha prova concreta de um crime cometido ou base para graves suspeitas. Mesmo com suspeitas, ele não pode retirar um súdito escocês das terras do seu clã sem a permissão do senhor desse clã.

- Andou conversando com Ned Gowan — eu disse, começando a me sentir um pouco tonta outra vez.

Balançou a cabeça, confirmando.

- Sim, conversei. Achei que chegaríamos a esse ponto, sabe. E o que ele me disse é o que eu imaginava; a única maneira de eu me recusar legalmente a entregá-la a Randall é mudá-la de inglesa para escocesa.

— Escocesa? — exclamei, a sensação de vertigem rapidamente substituída por uma terrível suspeita.

Suas palavras seguintes confirmaram minha suspeita.

— Sim - disse, balançando a cabeça diante da expressão do meu rosto. - Você tem que se casar com um escocês. Com o jovem Jamie.

— Eu não poderia fazer isso!

— Bem — ele franziu a testa, considerando a minha reação. - Suponho que possa aceitar Rupert, ao invés de Jamie. Ele é viúvo e arrendatário de uma pequena fazenda. No entanto, ele é bem mais velho e...

— Também não quero me casar com Rupert! Essa é... é a mais absurda... - As palavras me faltavam. Levantando-me, agitada e abalada, comecei a andar de um lado para o outro na pequena clareira, esmagando os frutos caídos da sorveira sob os pés.

- Jamie é um bom rapaz - Dougal argumentou, ainda sentado na pedra da fonte. - No momento, não tem nenhuma propriedade, é verdade, mas tem um bom coração. Nunca seria cruel com você. E é um ótimo lutador, com muita razão para odiar Randall. Se casar com ele, lutará até o último suspiro para protegê-la.

— Mas... mas eu não posso me casar com ninguém! — exclamei. Os olhos de Dougal aguçaram-se de repente.

- Por que não, dona? Ainda tem um marido vivo?

- Não. É que... isso é ridículo! Essas coisas não acontecem! Dougal relaxara quando respondi que não. Agora, ergueu os olhos para o sol e preparou-se para partir.

— É melhor irmos andando, dona. Temos providências a tomar. Terá que haver uma permissão oficial - murmurou, como se falasse consigo mesmo. — Mas Ned pode resolver isso.

Segurou-me pelo braço, ainda murmurando consigo mesmo. Desvencilhei-me de sua mão.

- Não vou me casar com ninguém - disse com firmeza.

Ele não se deixou perturbar, erguendo meramente as sobrancelhas.

- Quer que eu a entregue a Randall?

- Não! - Algo me ocorreu. - Então, pelo menos acredita em mim quando digo que não sou uma espiã inglesa?

- Agora acredito. - Falou com certa ênfase.

- Por que agora e não antes?

Balançou a cabeça indicando a fonte e a figura quase indistinta gravada na pedra. Devia ter centenas de anos, muito mais antiga do que a sorveira gigante que sombreava a fonte e lançava suas flores brancas na água escura.

- Fonte de St. Ninian. Você bebeu a água antes que eu lhe pedisse. A essa altura, eu estava completamente confusa.

- O que isso tem a ver?

Ele pareceu surpreso, depois sua boca contorceu-se num sorriso.

- Não sabia? Também a chamam de fonte do mentiroso. A água tem cheiro dos vapores do inferno. Qualquer um que beba da água e depois conte uma mentira, terá as entranhas arrancadas.

- Compreendo. - Falei entre dentes. - Bem, minhas entranhas estão perfeitamente intactas. Portanto, pode acreditar em mim quando digo que não sou uma espiã, francesa ou inglesa. E pode acreditar em outra coisa, Dougal MacKenzie. Não vou me casar com ninguém!

Ele não estava ouvindo. Na realidade, já abrira caminho pelos arbustos que encobriam a fonte. Somente um galho de carvalho agitado marcava sua passagem. Fumegando de raiva, segui-o.

Continuei protestando por mais algum tempo na viagem de volta para a estalagem. Dougal finalmente advertiu-me a poupar minhas palavras e depois disso prosseguimos em silêncio.

Ao chegarmos à estalagem, atirei as rédeas do meu cavalo no chão, saí batendo os pés e subi as escadas para o refúgio do meu quarto.

A idéia toda não só era ultrajante, como impensável. Eu andava de um lado para o outro no quarto estreito, sentindo-me cada vez mais como um rato na armadilha. Por que diabos eu não tivera a coragem de fugir dos escoceses antes, qualquer que fosse o risco?

Sentei-me na cama e tentei pensar com calma. Considerada estritamente do ponto de vista de Dougal, sem dúvida a idéia era digna de mérito. Se ele simplesmente se recusasse a me entregar a Randall, sem nenhuma desculpa, o capitão poderia facilmente tentar me resgatar à força. E quer ele acreditasse em mim ou não, Dougal compreensivelmente poderia não querer entrar em atrito com um monte de dragões por minha causa.

Além disso, vista a sangue-frio, a idéia também tinha certo mérito do meu lado. Se eu fosse casada com um escocês, provavelmente não seria mais vigiada e guardada. Seria muito mais fácil fugir quando chegasse a hora. E se fosse Jamie - bem, ele gostava de mim, sem dúvida. E conhecia as Highlands como a palma de sua mão. Talvez me levasse a Craigh na Dun ou ao menos naquela direção. Sim, provavelmente o casamento era a melhor forma de atingir meu objetivo.

Essa era a maneira de encarar a situação a sangue-frio. Meu sangue, no entanto, estava longe de estar frio. Eu estava fervendo de raiva e agitação e não conseguia me acalmar, andando de um lado para o outro, furiosa, buscando uma saída. Qualquer saída. Após uma hora nesse estado, meu rosto estava afogueado e minha cabeça latejava. Levantei-me e abri as persianas, enfiando a cabeça para fora na brisa fresca.

Ouviu-se uma batida decidida na porta atrás de mim. Dougal entrou quando eu colocava a cabeça para dentro. Segurava uma folha rígida de papel como uma salva e vinha seguido de Rupert e do imaculado Ned Gowan, fechando a raia como se fossem cavalariços reais.

- Por favor, entrem - eu disse graciosamente.

Ignorando-me como sempre fazia, Dougal removeu um urinol de seu lugar em cima da mesa e espalhou as folhas de papel sem cerimônia sobre a áspera superfície de carvalho.

- Tudo arranjado — disse, com o orgulho de alguém que conduziu um projeto difícil à sua conclusão com sucesso. - Ned já redigiu os documentos; nada como um advogado, desde que ele esteja do seu lado, hein, Ned?

Todos os homens riram, evidentemente de bom humor.

- Não foi na verdade difícil - Ned disse modestamente. - É apenas um contrato simples. - Folheou os papéis com o dedo de um proprietário, em seguida parou, franzindo a testa com um pensamento repentino.

- Não tem nenhuma propriedade na França, tem? - perguntou, olhando-me com preocupação por cima dos pequenos óculos que usava para leitura. Sacudi a cabeça e ele relaxou, arrumando os papéis novamente numa pilha e batendo-os cuidadosamente para que todas as pontas coincidissem.

- Então, é isso. Você só precisa assinar aqui no pé da página e Dougal e Rupert no lugar das testemunhas.

O advogado colocou sobre a mesa o tinteiro que trouxera e, retirando habilmente uma pena de escrever limpa do bolso, entregou-a a mim com um gesto cerimonioso.

- E o que é isso exatamente? — perguntei. Era uma pergunta de natureza retórica, pois a folha de cima da pilha dizia CONTRATO DE CASAMENTO numa caligrafia perfeitamente legível, as letras com cinco centímetros de altura e fortemente negras, de um lado ao outro da página.

Dougal reprimiu um suspiro de impaciência diante da minha recalcitrância.

- Sabe muito bem do que se trata - disse em poucas palavras. — E a menos que tenha alguma outra idéia brilhante para escapar das garras de Randall, vai assiná-lo e acabar com isso. O tempo é curto.

Idéias brilhantes estavam particularmente em falta no momento, apesar da hora que eu despendera martelando o problema. Realmente começava a parecer que essa incrível alternativa era o melhor que eu podia fazer, por mais que esperneasse.

- Mas eu não quero me casar! — disse teimosamente. Ocorreu-me também que o meu ponto de vista não era o único envolvido. Lembrei-me da garota de cabelos louros que eu vira Jamie beijando na alcova do castelo.

- E talvez Jamie não queira casar comigo! — eu disse. — O que me diz? Dougal descartou a questão como insignificante.

- Jamie é um soldado, fará o que mandarem. E você também - disse enfaticamente. - A menos, é claro, que prefira uma prisão inglesa.

Olhei-o furiosa, resfolegando. Eu estivera num redemoinho desde a nossa brusca partida do escritório de Randall e agora meu nível de agitação aumentara substancialmente, confrontada com uma escolha em preto e branco, por assim dizer.

- Quero falar com ele - disse de repente. As sobrancelhas de Dougal ergueram-se instantaneamente.

- Jamie? Por quê?

- Por quê? Porque você está me forçando a casar com ele e, pelo que vejo, nem comunicou a ele!

Obviamente, isso era uma irrelevância, no que dizia respeito a Dougal, mas por fim cedeu e, acompanhado de seus servos favoritos, foi buscar Jamie na taberna lá embaixo.

Jamie apareceu logo depois, parecendo desnorteado.

- Você sabia que Dougal quer que nos casemos? - perguntei sem rodeios.

Sua expressão desanuviou-se.

- Ah, sim. Sabia.

- Mas certamente - eu disse - um jovem como você, quero dizer, não a ninguém mais em quem você esteja, ah, interessado? — Ficou parado, o rosto inexpressivo por um instante, depois pareceu compreender.

-- Ah, se estou prometido? Não, não sou um grande partido para uma Jovem. - Continuou apressadamente, como se achasse que aquilo poderia ser tomado como uma ofensa. — Quero dizer, não tenho nenhuma propriedade e nada mais do que o soldo de um soldado para viver. Esfregou o queixo, lançando-me um olhar dúbio. -- E depois, há essa pequena dificuldade que minha cabeça está a prêmio. Nenhum pai quer ver a filha casada com um homem que pode ser preso e enforcado a qualquer momento. Já pensou nisso?

Com um gesto da mão, descartei o problema da condenação como uma questão de menor importância, comparada àquela monstruosa idéia. Fiz uma última tentativa.

— O fato de eu não ser virgem o incomoda? - Ele hesitou por um instante antes de responder.

— Bem, não - disse devagar -, desde que não a incomode o fato de eu ser. - Riu diante da minha expressão de queixo caído e recuou em direção à porta.

— Imagino que um de nós dois deva saber o que está fazendo - disse. A porta fechou suavemente atrás dele; obviamente, o período de namoro estava encerrado.

Os papéis devidamente assinados, desci cautelosamente as escadas íngremes da estalagem e sentei-me à uma mesa de bar na taberna.

— Uísque — disse à criatura velha e desgrenhada atrás do balcão. Fitou-me com olhos remelentos, mas um sinal de Dougal com a cabeça fez com que trouxesse uma garrafa e um copo. Este último era grosso e esverdeado, com uma lasca na borda, mas era aberto na parte de cima e isso era tudo que importava no momento.

Quando o efeito abrasador de engolir a bebida passou, provocou-me uma certa calma espúria. Senti-me desligada, observando detalhes à minha volta com uma intensidade peculiar: o pequeno vitral acima do bar, lançando sombras coloridas sobre o mal-encarado proprietário e suas mercadorias, a curva do cabo de uma concha de sopa com fundo de cobre que estava pendurada na parede ao meu lado, uma mosca de barriga verde esperneando nas beiradas de uma poça pegajosa em cima da mesa. Com uma certa dose de solidariedade, empurrei-a para fora da poça com o fundo do meu copo.

Gradualmente, tomei consciência de vozes alteradas por trás de uma porta fechada no outro lado do salão. Dougal desaparecera lá dentro depois da conclusão de seus negócios comigo, provavelmente para concretizar as providências com o outro lado contratante. Fiquei satisfeita de ouvir, a julgar pelas vozes altercadas, que meu futuro marido estava se encrespando, apesar de sua aparente falta de objeções anterior. Talvez não tenha querido me ofender.

— Fique firme, rapaz — murmurei e tomei outro gole.

Algum tempo depois, percebi vagamente a mão de alguém abrindo meus dedos a fim de remover o copo esverdeado. Outra mão segurou-me com firmeza pelo cotovelo.

— Cristo, está bêbada como um gambá — disse uma voz no meu ouvido. A voz arranhava desagradavelmente, pensei, como se o dono tivesse comido lixa. Ri baixinho diante da idéia.

- Fique quieta, mulher! - disse a desagradável voz áspera. Tornou-se mais fraca quando o dono da voz virou-se para falar com outra pessoa. -Bêbada como um gambá e falando como um papagaio... o que espera...

Outra voz interrompeu a primeira, mas não pude ouvir o que dizia; as palavras estavam vagas e indistintas. Entretanto, era um som agradável, grave e de certa forma tranqüilizador. Aproximou-se e pude entender algumas palavras. Esforcei-me para me concentrar, mas minha atenção começara a divagar outra vez.

A mosca achara seu caminho de volta à poça e debatia-se no meio, irremediavelmente atolada. A luz filtrada pela janela de vitral recaía sobre ela, reluzindo como faíscas na barriga verde esticada. Meu olhar fixou-se no minúsculo ponto verde, que parecia pulsar conforme a mosca contorcia-se e debatia-se.

- Minha irmã... você não tem a menor chance - eu disse, e a faísca apagou-se.

 

Havia um teto baixo, de vigas largas, acima de mim quando acordei, e uma colcha grossa cuidadosamente cobrindo-me até o queixo. Eu parecia estar vestida apenas com minhas roupas de baixo. Comecei a me sentar para procurar minhas roupas, mas mudei de opinião no meio da operação. Deitei-me novamente, bem devagar, fechei os olhos e segurei a cabeça para impedir que saísse rolando do travesseiro e batesse no chão.

Acordei novamente, algum tempo depois, quando a porta do quarto se abriu. Entreabri um olho, cautelosamente. Um vulto ondulante definiu-se aos poucos na figura circunspecta de Murtagh, olhando-me com desaprovação do pé da cama. Fechei o olho. Ouvi um ruído escocês abafado, provavelmente indicando uma expressão horrorizada, mas quando olhei de novo ele se fora.

Estava começando a recair num agradável estado de inconsciência quando a porta abriu-se novamente, desta vez revelando uma mulher de meia-idade que deduzi tratar-se da mulher do estalajadeiro, carregando um jarro de água e uma bacia.

Entrou alegremente no quarto, fazendo barulho, e abriu as persianas com uma forte batida, que reverberou pela minha cabeça como a colisão de um tanque. Avançando sobre a cama como uma divisão panzer, arrancou a colcha do frágil aperto da minha mão e atirou-a para o lado, deixando-me trêmula e exposta.

— Vamos, meu bem - ela disse. - Temos de aprontá-la agora. - Passou um braço troncudo pelos meus ombros e me içou à posição sentada. Segurei a cabeça com uma das mãos e o estômago com a outra.

- Aprontar? - disse, com um gosto de ressaca na boca. A mulher começou a lavar meu rosto com energia.

— Ah, sim — disse. — Não vai querer perder seu próprio casamento, vai?

- Vou, sim - disse, mas fui ignorada enquanto ela me despia sem a menor cerimônia e me colocava de pé no meio do assoalho para cuidados mais íntimos.

Um pouco depois, sentei-me na cama, totalmente vestida, sentindo-me confusa e beligerante, mas graças a uma taça de vinho do porto oferecida pela dona da casa, consegui pelo menos parecer funcional. Bebi cuidadosamente uma segunda dose, enquanto a mulher enfiava um pente pelos cachos desgrenhados do meu cabelo.

Dei um salto e estremeci, entornando o porto, quando a porta abriu-se com um estrondo mais uma vez. Uma coisa atrás da outra, pensei com ódio. Desta vez, era uma visita dupla, Murtagh e Ned Gowan, com os mesmos olhares de desaprovação. Troquei olhares com Ned enquanto Murtagh entrava no quarto e, rodeando a cama bem devagar, inspecionava-me de todos os ângulos. Voltou para Ned e murmurou alguma coisa em um tom de voz baixo demais para que eu pudesse ouvir. Com um último olhar de desespero em minha direção, fechou a porta atrás deles.

Finalmente, meus cabelos estavam penteados ao agrado da mulher, puxados para trás e enrolados num coque no alto da cabeça, com alguns cachos soltos caindo nas costas e anéis à frente de minhas orelhas. Parecia que meu couro cabeludo iria se soltar com a tensão dos cabelos puxados para trás e para cima, mas o efeito no espelho que a mulher me ofereceu era inegavelmente apropriado. Comecei a me sentir um pouco mais humana e até consegui agradecer-lhe por seus esforços. Deixou o espelho comigo e foi embora, comentando que era uma bênção se casar no verão, não?, já que haveria muitas flores para os meus cabelos.

- Nós que estamos prestes a morrer - disse à minha imagem refletida, esboçando uma saudação no espelho. Deixei-me cair sobre a cama, cobri o rosto com um pano úmido e voltei a dormir.

Estava tendo um sonho bastante agradável, algo a ver com campos cobertos de flores silvestres, quando percebi que o que eu considerara uma brisa refrescante esvoaçando as mangas do meu vestido era um par de mãos não tão delicadas. Sentei-me num solavanco, chacoalhando cegamente.

Quando consegui abrir os olhos, vi que meu pequeno quarto agora se parecia a uma estação do metrô, com rostos de parede a parede: Ned Gowan, Murtagh, o estalajadeiro, a mulher do estalajadeiro e um rapaz magro, que vinha a ser o filho do estalajadeiro, com os braços cheios de diversos tipos de flores, responsáveis pelo aroma em meu sonho. Havia também uma mulher jovem, armada com um cesto de vime redondo, que me sorriu amavelmente, exibindo a ausência de vários dentes importantes.

Essa mulher, como se viu em seguida, era a costureira da vila, recrutada para reparar as deficiências do meu guarda-roupa fazendo ajustes em um vestido, obtido sem aviso prévio de algum contato local do dono da estalagem. Ned carregava o vestido em questão, pendurado de uma das mãos como um animal morto. Alisado sobre a cama, viu-se que era um vestido longo, com um decote na frente, de cetim grosso, na cor creme, com um corpete separado que se abotoava com dezenas de botões recobertos com mesmo tecido, cada qual bordado com uma flor-de-lis em fio de ouro. A linha do decote e as mangas em forma de sino eram ricamente ornadas com rendas, assim como a sobressaia bordada, de veludo cor de chocolate. O estalajadeiro estava semi-enterrado nas anáguas que carregava, as costeletas eriçadas quase desaparecidas sob as camadas vaporosas.

Olhei para a mancha de vinho do porto na minha saia de sarja cinza e a vaidade venceu. Se eu devia de fato me casar, não queria fazê-lo parecendo uma criada da vila.

Após um curto espasmo de atividade frenética, comigo parada como um manequim de costureira e todos os outros correndo de um lado para o outro pegando, carregando, criticando e tropeçando uns nos outros, o produto final ficou pronto, completo com ásteres brancas e rosas amarelas presas nos meus cabelos e um coração batendo loucamente por baixo do corpete de renda. O ajuste não estava absolutamente perfeito e o vestido ainda tinha um cheiro um pouco forte da proprietária anterior, mas o cetim era pesado e fazia um ruge-ruge fascinante em torno dos meus pés, sobre as camadas de anáguas. Senti-me uma rainha e bastante bonita.

- Não pode me obrigar a fazer isso, você sabe - sibilei ameaçadora-mente para as costas de Murtagh enquanto o seguia pelas escadas, mas tanto ele quanto eu sabíamos que minhas palavras não passavam de bravata vazia. Se alguma vez eu tivera a força de caráter de desafiar Dougal e arriscar a sorte com os ingleses, ela se esvaíra com o uísque.

Dougal, Ned e o resto estavam no salão principal da taberna ao pé das escadas, bebendo e trocando amenidades com alguns habitantes da vila que não pareciam ter nada melhor a fazer com sua tarde do que ficar por ali à toa, embebedando-se.

Dougal avistou-me descendo devagar e repentinamente parou de falar. Os outros também fizeram silêncio e eu flutuei até o térreo numa gratificante áurea de reverente admiração. Os olhos fundos de Dougal cobriram-me lentamente da cabeça aos pés e retornaram ao meu rosto com um aceno de reconhecimento sem nenhum sinal de rancor.

Em virtude dos acontecimentos, já fazia algum tempo desde que um homem olhara para mim daquela forma e eu também respondi com um gracioso aceno de cabeça.

Após o primeiro instante de silêncio, os demais presentes na taberna começaram a expressar sua admiração e até Murtagh se permitiu um ligeiro sorriso, balançando a cabeça, satisfeito com os resultados de seus esforços. E quem foi que o nomeou editor de moda? Pensei, de modo irritante. Ainda assim, tinha que admitir que ele era o responsável por eu não me casar de sarja cinza.

Casar. Ah, meu Deus. Temporariamente encorajada pelo vinho do porto e pelas rendas de cor creme, conseguira momentaneamente ignorar o significado da ocasião. Segurei com força o corrimão quando a súbita compreensão me atingiu como um soco no estômago.

Relanceando os olhos pela multidão, entretanto, notei uma flagrante ausência. Meu noivo não estava em nenhum lugar à vista. Alentada pelo pensamento de que ele pudesse ter escapado por alguma janela e estar a quilômetros de distância a essa altura, aceitei uma última taça de vinho do proprietário antes de seguir Dougal para fora.

Ned e Rupert foram buscar os cavalos. Murtagh desaparecera em algum lugar, talvez atrás de pistas de Jamie.

Dougal segurava-me pelo braço; ostensivamente para me apoiar, com receio de que eu tropeçasse em minhas sapatilhas de cetim, mas na verdade para evitar qualquer tentativa de fuga de última hora.

Era um "quente" dia escocês, significando com isso que a névoa não estava suficientemente forte para ser qualificada de garoa, mas não muito longe disso, tampouco. De repente, a porta da estalagem se abriu e o sol surgiu, na pessoa de Jamie. Se eu era uma noiva radiante, o noivo era sem dúvida resplandecente. Fiquei de boca aberta e assim permaneci.

Um escocês das Highlands em roupas de gala é uma visão impressionante - qualquer um, por mais velho, feio ou desgracioso que seja. Um jovem escocês das Highlands, alto, empertigado e de forma alguma desgracioso, visto de perto é de se perder o fôlego.

Os fartos cabelos vermelho-dourados haviam sido escovados até adquirirem um aspecto brilhante e macio que roçava o colarinho de uma elegante camisa de linho fino com a frente de pregas, mangas em forma de sino, punhos de babados enfeitados de renda, combinando com a cascata de babados e renda do jabô engomado, preso na altura da garganta e ornamentado com um alfinete de rubi.

Seu tartã era de um xadrez vermelho vivo e preto que ofuscava o mais sereno verde e branco dos MacKenzie. A lã flamejante, amarrada por um broche redondo de prata, caía de seu ombro direito num drapejo gracioso, preso por um cinto de espada cravejado de tachas de prata, antes de continuar seu volteio pelas panturrilhas elegantemente recobertas por meias de lã e parando logo acima das botas de couro preto com fivela de prata. Espada, adaga e bolsa de pele de texugo completavam o traje.

Com quase um metro e noventa de altura, de ombros largos e traços marcantes, ele estava longe de se parecer com o sujo domador de cavalos com quem eu estava acostumada - e ele sabia disso.

Com um gesto elegante, fez uma reverência impecável para mim, murmurando "A seu serviço, madame", os olhos brilhando de malícia.

- Ah! - exclamei, quase desmaiando.

Nunca antes vira o taciturno Dougal embaraçado, sem conseguir encontrar palavras. As sobrancelhas grossas franzidas num rosto afogueado, parecia, a seu modo, tão surpreso quanto eu com essa aparição.

- Está louco, homem? — disse, finalmente. — E se alguém o vir? Jamie arqueou uma sobrancelha sarcasticamente para o homem mais velho.

— Ora, tio — disse. — Insultos? E além do mais no dia do meu casamento? Não ia querer que eu envergonhasse minha mulher, não é? Além disso - acrescentou com um brilho malicioso nos olhos -, acho que o casamento nem seria legítimo se eu não me casasse no meu próprio nome. E você quer que seja, não é?

Com um evidente esforço, Dougal recuperou seu autocontrole.

— Se já terminou, Jamie, podemos continuar - disse.

Mas Jamie ainda não havia terminado, ao que parecia. Ignorando a fúria de Dougal, retirou um colar de contas brancas de sua bolsa. Deu um passo à frente e fechou o colar em volta do meu pescoço. Olhando para baixo, pude ver que era um colar de pequenas pérolas barrocas, aquelas contas de forma irregular que são produto de moluscos de água doce, entremeadas com minúsculas contas de ouro. Pérolas menores pendiam das contas de ouro.

- São apenas pérolas escocesas - disse, desculpando-se -, mas ficam lindas em você. - Seus dedos demoraram-se um pouco no meu pescoço.

— Essas pérolas eram de sua mãe! — disse Dougal, olhando para as pérolas com ar ameaçador.

- Sim - disse Jamie calmamente. - E agora são de minha mulher. Podemos ir?

Onde quer que estivéssemos indo, ficava a alguma distância da vila. Formávamos um grupo de casamento um tanto carrancudo, o casal de noivos rodeados pelos demais como condenados que estavam sendo escoltados para alguma prisão distante. A única conversa foi uma desculpa de Jamie, em voz baixa, por ter chegado atrasado, explicando que houve alguma dificuldade em encontrar uma camisa limpa e um casaco grande que coubesse nele.

- Acho que esta pertence ao filho do escudeiro local - disse, agitando o jabô de renda. - Um pouco almofadinha, me parece.

Desmontamos e deixamos os cavalos no sopé de um pequeno monte. Uma trilha em meio às urzes levava para cima.

- Tomou todas as providências? - ouvi Dougal dizer em voz baixa para Rupert, quando amarravam os animais.

- Ah, sim. - Viu-se um clarão de dentes na barba negra. - Foi um pouco difícil convencer o padre, mas nós lhe mostramos a licença especial-- Bateu na bolsa à cintura, que retiniu musicalmente, dando-me uma idéia da natureza da licença especial.

Em meio à garoa e à névoa, avistei a capela projetando-se das urzes. Com uma sensação de completa incredulidade, vi a cúpula arredondada e as estranhas janelas com muitas vidraças pequenas, que eu vira na brilhante manhã ensolarada do meu casamento com Frank Randall.

- Não! — exclamei. — Aqui não! Não posso!

- Shh, vamos, shh. Não se preocupe, dona, não se preocupe. Tudo vai dar certo. - Dougal colocou a mão grande sobre meu ombro, produzindo sons tranqüilizadores em escocês, como se eu fosse um cavalo arisco. - É natural um pouco de nervosismo — disse para todos nós. A outra mão firme na minha cintura instava-me a continuar subindo a trilha. Meus sapatos afundavam-se na camada úmida de folhas caídas.

Jamie e Dougal caminhavam junto a mim, um de cada lado, para evitar uma fuga. Suas dominantes presenças eram intimidantes e senti uma crescente sensação de histeria. Duzentos anos à frente, mais ou menos, eu me casara naquela capela, encantada na época com sua natureza antiga e pitoresca. A capela agora estava estalando de nova, as tábuas ainda não estavam assentadas com aquele charme que iria adquirir ao longo do tempo, e eu estava prestes a casar com um escocês de vinte e três anos, católico e virgem, com a cabeça a prêmio, cujo...

Virei-me para Jamie, repentinamente em pânico.

- Não posso me casar com você! Eu nem sei seu sobrenome! Olhou para mim e arqueou uma sobrancelha ruiva.

- Ah. É Fraser. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. — Pronunciou-o formalmente, cada nome devagar e distintamente.

Completamente perturbada, eu disse, estendendo a mão tolamente.

- Claire Elizabeth Beauchamp.

Aparentemente tomando o gesto como um pedido de apoio, segurou minha mão e enfiou-a firmemente na dobra do seu braço. Assim irremediavelmente presa, continuei caminhando em silêncio para o meu casamento.

Rupert e Murtagh esperavam por nós na capela, montando guarda ao lado do padre prisioneiro, um jovem sacerdote alto e magro, com um nariz vermelho e uma expressão justificadamente aterrorizada. Rupert indolentemente tirava lascas de um raminho de salgueiro com uma faca grande e, embora tivesse posto de lado suas pistolas de cabo de chifre quando entrou na igreja, elas permaneciam ao alcance da mão na beira da pia batismal.

Os outros homens também se desarmaram, como era próprio na casa de Deus, deixando uma pilha de letalidade impressionantemente rutilante no banco da igreja. Somente Jamie conservou sua adaga e sua espada, provavelmente como uma parte cerimonial de seu traje.

Ajoelhamo-nos diante do altar de madeira, Murtagh e Dougal assumiam seus lugares como testemunhas e a cerimônia começou.

O formato da cerimônia de casamento católica não mudou muito em várias centenas de anos e as palavras unindo-me ao estranho ruivo a meu lado, eram basicamente as mesmas que haviam consagrado meu casamento com Frank. Sentia-me como uma concha oca e fria. As palavras balbuciadas pelo jovem padre ecoavam em algum lugar vazio da boca do meu estômago.

Levantei-me automaticamente quando chegou a hora dos votos observando numa espécie de entorpecido fascínio meus dedos gelados desaparecerem nas mãos poderosas do meu noivo. Seus dedos estavam tão frios quanto os meus e ocorreu-me pela primeira vez que, apesar da aparência exterior calma, ele devia estar tão nervoso quanto eu.

Até então eu evitara olhar para ele, mas agora ergui os olhos e deparei-me com ele fitando-me intensamente. Seu rosto estava lívido e cuidadosamente impassível; tinha a mesma expressão de quando eu tratara o ferimento em seu ombro. Tentei sorrir-lhe, mas os cantos da minha boca oscilaram precariamente. A pressão dos seus dedos nos meus aumentou. Tive a impressão de que um estava sustentando o outro; se um de nós soltasse a mão ou desviasse os olhos, ambos cairiam. Estranhamente, a sensação era reconfortante. Onde quer que estivéssemos nos metendo, ao menos estávamos juntos nisso.

— Eu a aceito, Claire, como minha esposa... — Sua voz não tremia, mas sua mão sim. Segurei seus dedos com mais força. Nossos dedos rígidos apertavam-se como tábuas num torno de bancada. -...amar, honrar e proteger... nos bons e nos maus momentos... - As palavras vinham de longe. O sangue esvaía-se da minha cabeça. O corpete com barbatanas era infernalmente justo e, embora eu sentisse frio, o suor escorria pelo meu corpo por baixo do cetim. Esperava não desmaiar.

Havia uma pequena janela de vitral bem alta na parede ao lado do santuário, uma representação rústica de São João Batista com sua capa de pele de urso. Sombras verdes e azuis flutuavam sobre a manga do meu vestido, fazendo-me lembrar do salão da taberna e desejei um drinque fervorosamente.

Minha vez. Gaguejei um pouco, o que me deixou furiosa. - Eu o recebo, James... - Empertiguei-me. Jamie terminara a sua parte com bastante credibilidade. Eu poderia tentar fazer o mesmo. -...para amar e proteger, de hoje em diante... - Minha voz fortaleceu-se.

- Até que a morte nos separe. - As palavras ressoaram na capela silenciosa com um caráter surpreendentemente definitivo. Tudo estava imóvel, como uma imagem congelada. Então, o sacerdote pediu a aliança.

Houve uma agitação repentina e, de relance, vi a expressão arrasada no rosto de Murtagh. Mal registrei o fato de que alguém se esquecera de providenciar um anel, quando Jamie soltou minha mão o tempo suficiente para retirar um anel do próprio dedo.

Eu ainda usava a aliança de Frank na mão esquerda. Os dedos da mão direita pareciam congelados, descorados e rígidos na mancha de luz azul, quando um largo aro de metal passou pelo meu dedo anular. Ficou solto no dedo e teria caído se Jamie não dobrasse meus dedos e envolvesse minha mão fechada outra vez na sua.

Mais murmúrios do padre e Jamie inclinou-se para beijar-me. Era óbvio que ele pretendia apenas um breve e formal toque de lábios, mas sua boca era macia e quente e eu instintivamente me aproximei e correspondi Percebi vagamente alguns ruídos, gritos escoceses de entusiasmo e incentivo da platéia, mas na verdade não notei nada além da envolvente e cálida solidez dos seus lábios.

Separamo-nos, ambos um pouco mais serenos, e sorri nervosamente. Vi Dougal tirar a adaga de Jamie da bainha e perguntei-me qual seria a razão. Ainda olhando para mim, Jamie estendeu a mão direita, palma para cima. Prendi o ar de repente quando a ponta da adaga fez um corte profundo em seu pulso, deixando uma linha escura do sangue que aflorava. Não houve tempo de recuar antes que a minha própria mão fosse agarrada e eu sentisse o corte ardente da lâmina. Rapidamente, Dougal pressionou meu pulso ao de Jamie e enfaixou-os juntos com uma tira de linho branco.

Devo ter cambaleado um pouco, porque Jamie segurou-me pelo braço com a mão esquerda livre.

- Agüente firme - disse baixinho. - Falta pouco agora. Repita as palavras depois de mim. — Era um pequeno texto em gaélico, duas ou três frases. As palavras não significavam nada para mim, mas as repeti obedientemente depois de Jamie, tropeçando nas vogais escorregadias. A tira de linho foi desamarrada, os cortes enxugados e limpos, e estávamos casados.

Havia uma sensação geral de alívio e satisfação no caminho de volta pela trilha. Parecia uma alegre festa de casamento qualquer, apesar de pequena, e composta inteiramente de homens, à exceção da noiva.

Estávamos quase ao sopé da colina, quando a falta de comida, os remanescentes de uma ressaca e o estresse geral do dia me venceram. Deitei-me nas folhas úmidas, a cabeça no colo do meu novo marido. Ele colocou de lado o pano úmido com que estivera limpando meu rosto.

-- Foi tão ruim assim? - perguntou rindo para mim, mas seus olhos guardavam uma certa expressão que me sensibilizou, apesar de tudo. Sorri tremulamente em resposta.

- Não é você - afirmei. - É que... acho que não comi nada desde o desjejum de ontem. E receio que tenha bebido muito.

Sua boca contraiu-se.

- Ouvi dizer. Bem, isso eu posso remediar. Não tenho muito a oferecer a uma esposa, como eu disse, mas prometo que vou mantê-la alimentada. - Sorriu e timidamente afastou com o dedo indicador um cacho caído em meu rosto.

Comecei a me sentar e fiz uma careta diante de uma leve queimação no meu pulso. Havia me esquecido dessa última parte da cerimônia. O corte se abrira, sem dúvida em resultado da queda que eu sofrera. Peguei o pano de Jamie e amarrei-o desajeitadamente em volta do pulso.

- Achei que fora isso que a fez desmaiar - disse, observando. - Eu deveria tê-la avisado; não percebi que não estava esperando por isso até ver seu rosto.

- O que era, exatamente? - perguntei, tentando enfiar as pontas por baixo do pano.

- É um pouco pagão, mas é tradição por aqui fazer um voto de sangue, juntamente com a cerimônia normal. Alguns padres não a aceitam mas acho que esse não iria se opor a nada. Parecia tão assustado quanto eu me sentia — disse, sorrindo.

- Um voto de sangue? O que as palavras significavam?

Jamie segurou minha mão direita e delicadamente prendeu a ponta da atadura improvisada.

- Dizem o seguinte:

Você é sangue do meu sangue e ossos dos meus ossos. Dou-lhe meu corpo, para que nós dois sejamos um só. Dou-lhe meu espírito, até o fim de nossas vidas.

Encolheu os ombros.

- Mais ou menos como os votos normais, apenas um pouco mais... ah, primitivos.

Olhei para meu pulso enfaixado.

- Sim, acho que se pode dizer isso.

Olhei ao redor; estávamos sozinhos na trilha, sob um álamo. As folhas arredondadas,. mortas, espalhavam-se pelo chão, brilhando na umidade como moedas enferrujadas. Estava muito silencioso, exceto pelo respingo ocasional de gotas d'água caindo das árvores.

- Onde estão os outros? Voltaram para a hospedaria? Jamie fez uma careta.

- Não. Eu mandei que se afastassem para poder cuidar de você, mas estarão esperando por nós logo ali embaixo. — Indicou com um movimento do queixo, à moda de um homem do campo. - Não vão nos deixar sozinhos até que tudo esteja oficializado.

- É mesmo? — disse, sem compreender. - Estamos casados, não estamos. Ele pareceu constrangido, desviando o rosto e cuidadosamente afastando folhas mortas de seu kilt.

- Hum, hum. Sim, estamos casados, sem dúvida. Mas não está sacramentado, sabe, enquanto não for consumado. - Um rubor lento e intenso subiu de seu jabô de renda.

- Hum, hum - repeti. - Vamos procurar alguma coisa para comer.

 

Na hospedaria, a comida já estava servida, na forma de um modesto banquete de casamento, incluindo vinho, pães frescos e rosbife. Dougal segurou-me pelo braço quando me dirigi às escadas para lavar o rosto antes de comer.

- Quero este casamento consumado, sem que paire nenhuma dúvida - Dougal me instruiu com firmeza em meia-voz. — Não pode haver dúvida de que se trata de uma união legal, sem deixar brechas para uma anulação ou todos nós estaremos arriscando nossos pescoços.

- Parece-me que você está fazendo isso de qualquer forma - observei, mal-humorada. - O meu, principalmente.

Dougal deu uns tapinhas com firmeza no meu traseiro.

- Não se preocupe com isso; faça a sua parte. — Olhou-me de cima a baixo com ar crítico, como se julgasse minha capacidade de desempenhar meu papel adequadamente.

- Conheci o pai de Jamie. Se o rapaz for parecido com ele, você não vai ter nenhum problema. Ah, Jamie! - Atravessou a sala apressadamente, para onde Jamie acabara de chegar, depois de ter ido guardar os cavalos na estrebaria. Pela expressão no rosto de Jamie, ele também estava recebendo suas ordens.

Como, em nome de Deus, isso veio a acontecer? Perguntei a mim mesma algum tempo depois. Há seis semanas, eu estava inocentemente colhendo flores silvestres em uma colina da Escócia para levar para casa para o meu marido. Agora, estava trancada em um quarto de uma hospedaria rural. Aguardando um marido completamente diferente, que eu mal conhecia, com ordens rígidas de consumar um casamento forçado, sob o risco de minha própria vida e liberdade.

Sentei-me na cama, tensa e aterrorizada em minhas finas roupas emprestadas. Ouviu-se um leve ruído quando a pesada porta do quarto abriu-se e, em seguida, se fechou novamente.

Jamie recostou-se na porta, observando-me. O ar de constrangimento de nós dois aprofundou-se. Foi Jamie quem finalmente quebrou o silêncio.

-- Não precisa ter medo de mim — disse suavemente. — Não ia pular em cima de você. - Ri involuntariamente.

- Bem, não achei que o faria. - Na verdade, não achei que fosse tocar em mim, a menos que eu o convidasse; o fato é que eu teria que convidá-lo a fazer consideravelmente mais do que isso, e logo.

Olhei para ele, em dúvida. Acho que seria mais difícil se eu não o achasse atraente; na realidade, acontecia o oposto. Ainda assim, eu não dormira com nenhum outro homem além de Frank em mais de oito anos. Não apenas isso, este jovem, como ele mesmo dissera, era completamente inexperiente. Eu nunca deflorara ninguém antes. Mesmo descartando minhas objeções a todo o arranjo, e considerando a questão de um ponto de vista inteiramente prático, como deveríamos começar? Naquele passo, ainda estaríamos ali de pé, olhando um para o outro, daqui a três ou quatro dias.

Clareei a garganta e bati na cama a meu lado.

- Ah, gostaria de se sentar?

- Sim. - Atravessou o quarto, locomovendo-se como um gato gigante. No entanto, ao invés de sentar-se ao meu lado, puxou um banco e sentou-se diante de mim. Um pouco sem jeito, ele estendeu os braços e tomou minhas mãos entre as suas. Eram mãos grandes, de dedos fortes, e muito quente, as costas das mãos ligeiramente cobertas de cabelos ruivos. Senti um leve choque ao contato e lembrei-me de uma passagem do Velho Testamento: "Pois a pele de Jacó era lisa e macia, enquanto seu irmão Esaú era um homem cabeludo." As mãos de Frank eram longas e esbeltas, quase sem cabelos e com uma aparência aristocrática. Sempre adorei observá-las quando ele fazia uma palestra.

- Fale-me de seu marido - Jamie disse, como se lesse a minha mente. Quase dei um puxão nas minhas mãos, de susto.

- O quê?

- Olhe, teremos três ou quatro dias juntos aqui. Embora eu não tenha a pretensão de saber tudo que há para saber, vivi boa parte da minha vida em uma fazenda e, a menos que as pessoas sejam muito diferentes dos outros animais, não vai levar tanto tempo assim para fazermos o que temos que fazer. Temos um pouco de tempo para conversar e deixarmos de ter medo um do outro. - Essa avaliação franca de nossa situação relaxou-me um pouco.

- Você está com medo de mim? - Não parecia. No entanto, talvez estivesse nervoso. Embora não fosse nenhum rapazinho tímido de dezesseis anos, essa era sua primeira vez. Ele olhou-me nos olhos e sorriu.

- Sim. Mais apavorado do que você, eu acho. E por isso que estou segurando suas mãos; para impedir que as minhas tremam. - Eu não acreditei, mas apertei suas mãos com força, agradecida.

- É uma boa idéia. É mais fácil conversar enquanto estamos nos tocando. Mas por que você me perguntou sobre meu marido? — Perguntava-me, um pouco desesperada, se ele queria que eu falasse da minha vida sexual com Frank, para saber o que eu esperava dele.

- Bem, sei que deve estar pensando nele. Seria difícil não estar, nestas circunstâncias. Não quero que você jamais pense que não pode falar dele comigo. Embora eu seja seu marido agora, e é estranho dizer isso, não é direito que você deva esquecê-lo ou mesmo tentar esquecê-lo. Se você o amava, ele deve ter sido um bom homem.

- Sim, ele... foi. — Minha voz tremia e Jamie acariciou as costas das minhas mãos com seus polegares.

- Então, terei que fazer o melhor possível para honrar seu espírito cuidando de sua mulher. - Ergueu minhas mãos e beijou cada uma formalmente.

Clareei a garganta.

- Foram palavras muito galantes, Jamie. Ele riu repentinamente.

- Sim. Pensei nisso enquanto Dougal fazia brindes lá embaixo. Respirei fundo.

- Eu tenho umas perguntas - disse. Abaixou os olhos, disfarçando um sorriso.

- Suponho que sim - concordou. - Acho que tem direito a um pouco de curiosidade, nas circunstâncias atuais. O que quer saber? — Ergueu os olhos de repente, os brilhantes olhos azuis cheios de malícia à luz da lamparina. - Por que ainda sou virgem?

- Hã, eu deveria dizer que isso é mais ou menos problema seu — murmurei. Parecia que estávamos ficando mais íntimos de repente e eu libertei uma das minhas mãos para pegar meu lenço. Ao fazê-lo, senti algo duro no bolso do meu vestido.

- Ah, me esqueci! Ainda estou com seu anel. - Tirei-o do bolso e o devolvi a ele. Era um pesado aro de ouro, com um cabochão de rubi incrustado. Em vez de recolocá-lo no dedo, abriu a bolsa na cintura e guardou-o.

- Foi o anel de casamento do meu pai - explicou. - Eu não o uso sempre, mas hoje eu quis homenageá-la arrumando-me o melhor possível. -Ficou ligeiramente ruborizado com essa confissão e fingiu estar às voltas para fechar a bolsa.

- Você realmente me prestou uma grande homenagem — eu disse, sorrindo involuntariamente. Acrescentar um anel de rubi ao fulgurante esplendor de seu traje era desnecessário, mas fiquei sensibilizada com a vontade de agradar que havia por trás desse gesto.

-- Vou comprar um que sirva para você assim que puder - prometeu.

-- Não tem importância - eu disse, sentindo-me um pouco culpada, quero dizer, afinal, eu pretendia ir embora assim que pudesse.

- Hã, tenho uma pergunta importante - eu disse, retomando o fio da meada. - Se não se importar em me dizer. Por que concordou em se casar comigo?

- Ah. - Soltou minhas mãos e endireitou-se um pouco no banco. Parou por um instante antes de responder, alisando o tecido de lã sobre suas coxas. Eu podia ver a longa linha do músculo rígida sob a prega de tecido grosso.

- Bem, para começar, eu perderia a oportunidade de conversar com você - disse, sorrindo.

- Não, de verdade - insisti. - Por quê? Ficou sério.

- Antes de eu lhe responder, Claire, há uma única coisa que vou lhe pedir - disse devagar.

- O que é?

- Honestidade.

Devo ter me contraído, porque ele inclinou-se para a frente ansiosamente, as mãos nos joelhos.

- Sei que há coisas que você gostaria de não me contar, Claire. Talvez coisas que não possa me contar.

Você não sabe o quanto está certo, pensei.

- Jamais vou pressioná-la, nunca, ou insistir em saber coisas que são apenas suas - disse, seriamente. Abaixou os olhos para as mãos, agora pressionadas uma contra a outra, palma com palma.

- Há coisas que não posso contar a você, ao menos não por enquanto. E não lhe peço nada que não me possa dar. Mas o que eu lhe pediria é que, quando realmente me contar alguma coisa, que seja verdadeira. E eu prometerei fazer o mesmo. Nós não temos nada entre nós no momento, a não ser, talvez, respeito. E acho que o respeito pode ter espaço para segredos, mas não para mentiras. Concorda? — Estendeu as mãos, palmas para cima, convidando-me. Eu podia ver a linha escura do voto de sangue em seu pulso. Coloquei minhas próprias mãos de leve sobre as dele.

- Sim, concordo. Eu serei franca. - Seus dedos fecharam-se suavemente sobre os meus.

- E eu lhe darei o mesmo. Agora - respirou fundo —, você perguntou por que me casei com você.

- Só estou um pouquinho curiosa.

Ele sorriu, a boca larga assumindo o humor latente nos olhos.

- Bem, não posso dizer que a culpo. Tive várias razões. E na realidade, há uma, talvez duas, que não posso lhe contar ainda, embora o faça com o tempo. A razão principal, no entanto, é a mesma pela qual você se casou comigo, imagino; para mantê-la a salvo das mãos de Jack Randall.

Estremeci ligeiramente à lembrança do capitão e as mãos de Jamie apertaram as minhas.

- Você está a salvo - ele disse com firmeza. — Tem meu nome e minha família, meu clã e, se necessário, a proteção do meu corpo também. O sujeito não vai colocar as mãos em você de novo, enquanto eu viver.

- Obrigada - eu disse. Olhando para aquele rosto forte, jovem, determinado, com as maçãs do rosto pronunciadas e o maxilar sólido, senti pela primeira vez que esse esquema absurdo de Dougal podia na verdade ter sido uma idéia razoável.

A proteção do meu corpo. A frase atingiu-me com um impacto particular, ao olhar para ele — os ombros largos e decididos e a lembrança de sua graciosa ferocidade, "se exibindo" com a espada à luz da lua. Ele falava a sério; e embora jovem, sabia o que estava dizendo e carregava as cicatrizes como prova. Não era mais velho do que muitos dos pilotos e dos homens da infantaria de quem eu cuidara e ele sabia tão bem quanto eles o preço do compromisso. Não era nenhuma promessa romântica que ele me fazia, mas a promessa franca de guardar minha segurança ao custo da sua própria. Eu só esperava poder lhe dar alguma coisa em troca.

- Isso é muito gentil de sua parte - eu disse, com absoluta sinceridade. — Mas isso valeria, bem, valeria um casamento?

- Sim - ele disse, balançando a cabeça. Sorriu novamente, um pouco melancolicamente desta vez. - Tenho boas razões para conhecer o sujeito, você sabe. Eu não deixaria um cachorro cair nas mãos dele se eu pudesse evitar, quanto mais uma mulher indefesa.

- Que lisonjeiro — observei com uma careta e ele riu. Levantou-se e aproximou-se da mesa perto da janela. Alguém, talvez a proprietária, havia oferecido um buquê de flores silvestres, arranjado na água em um copo de uísque. Atrás das flores, uma garrafa de vinho e dois copos.

Jamie serviu dois copos e voltou, entregando-me um e retomando seu lugar.

- Não tão bom quanto a reserva especial de Colum - disse com um sorriso -, mas nada mau, também. - Ergueu o copo. - A sra. Fraser - disse suavemente e eu senti um baque de pânico outra vez. Sufoquei-o com firmeza e ergui meu próprio copo.

- A honestidade - eu disse, e ambos bebemos.

- Bem essa é uma das razões — eu disse, abaixando meu copo. - Há outras que possa me contar?

Ele examinou o copo de vinho.

- Talvez seja apenas que eu queira ir para a cama com você. - Ergueu os olhos repentinamente. — Pensou nisso?

Se pretendia me desconcertar, estava conseguindo, mas decidi não demonstrar.

- Bem, pensou? — ele perguntou corajosamente.

- Para ser honesta, sim, pensei. — Os olhos azuis continuavam me olhando com firmeza por cima da borda do copo.

- Não precisava casar-se comigo para isso - retorqui.

Ele pareceu sinceramente escandalizado.

- Não acha que eu a tomaria sem lhe oferecer casamento!

- Muitos homens o fariam - eu disse, achando graça de sua inocência. Gaguejou por um instante, parecendo desconcertado. Em seguida, recuperando a serenidade, disse com dignidade formal:

- Talvez eu seja pretensioso em dizer isso, mas gostaria de pensar que não sou "muitos homens" e que não coloco meu comportamento necessariamente no denominador comum mais baixo.

Um pouco emocionada com suas palavras, assegurei-lhe que até agora eu achava seu comportamento tanto gentil quanto elegante e pedi desculpas por qualquer dúvida que eu inadvertidamente pudesse ter lançado em suas motivações.

Com essa observação precariamente diplomática, fizemos uma pausa enquanto ele enchia nossos copos outra vez.

Tomamos o vinho em silêncio por alguns instantes, ambos sentindo-nos um pouco tímidos após a franqueza da última conversa. Assim, aparentemente havia alguma coisa que eu podia lhe oferecer. Eu não poderia, a bem da verdade, dizer que o pensamento não atravessara minha mente, antes mesmo da absurda situação em que havíamos nos envolvido. Ele era um jovem muito atraente. E houve aquele momento, logo depois da minha chegada ao castelo, quando ele me segurara no colo e...

Inclinei meu copo e sorvi o último gole. Bati de leve na cama ao meu lado outra vez.

- Sente-se aqui comigo - eu disse. - E... — vacilei, à procura de algum tópico neutro de conversa para nos deixar mais à vontade, sem o constrangimento da proximidade -, fale-me de sua família. Onde você passou a infância?

A cama afundou sob seu peso e eu me segurei para não rolar para cima dele. Ele sentou-se perto o suficiente para a manga de sua camisa roçar em meu braço. Deixei minha mão descansar, aberta e relaxada, sobre a minha coxa. Ele tomou-a naturalmente ao sentar-se e recostamo-nos contra a parede, sem olharmos para nossas mãos, mas tão conscientes da ligação como se fôssemos um só.

— Bem, por onde devo começar? — Colocou seus pés um tanto avantajados sobre o banco, cruzando-os na altura dos tornozelos. Achando engraçado, reconheci o homem das Highlands instalando-se bem para uma vagarosa dissecação daquele emaranhado de família e relações de clãs, que forma o pano de fundo de quase qualquer evento significativo nas Highlands escocesas. Frank e eu passamos uma noite no pub da vila, encantados com uma conversa entre dois velhos esquisitões, na qual a responsabilidade pela recente destruição de um antigo celeiro vinha de longa data, através das complexidades de uma rixa de famílias do local, até onde pude deduzir, de 1790. Com a espécie de pequenos choques com que já estava ficando acostumada, percebi que essa briga em particular, cujas origens imaginei que estivessem ocultas na névoa do tempo, ainda não havia começado. Reprimindo a confusão mental que essa percepção causara, forcei minha atenção ao que Jamie dizia.

- Meu pai era um Fraser, é claro; um meio-irmão mais novo do atual Senhor de Lovat. Mas minha mãe era uma MacKenzie. Você sabe que Dougal e Colum são meus tios? - Balancei a cabeça. A semelhança física era evidente, apesar da diferença de cor de pele e cabelos. As maçãs do rosto salientes, o nariz reto, cinzelado, eram uma herança MacKenzie.

- Sim, bem, minha mãe era irmã deles e havia mais duas irmãs, além dela. Minha tia Janet morreu, como minha mãe, mas minha tia Jocasta casou-se com um primo de Rupert e mora perto da margem do lago Eilean. Tia Janet teve seis filhos, quatro meninos e duas meninas, tia Jocasta teve três, todas meninas, Dougal tem quatro meninas, Colum tem apenas o pequeno Hamish e meus pais tiveram eu e minha irmã, que tem o nome de minha tia Janet, mas nós sempre a chamamos de Jenny.

- Rupert também é um MacKenzie? — perguntei, já me esforçando para compreender a posição de cada um.

- Sim. Ele é... - Jamie parou um instante, pensativo. - Ele é primo em primeiro grau de Dougal, Colum e Jocasta, o que o torna meu primo em segundo grau. O pai de Rupert e meu avô Jacob eram irmãos, juntamente com...

- Espere um minuto. Não vamos voltar mais do que o necessário ou vou ficar mais confusa. Ainda nem chegamos nos Fraser e já perdi a pista de seus primos.

Ele esfregou o queixo, calculando.

- Humm. Bem, do lado de Fraser, é um pouco mais complicado, porque meu avô Simon casou-se três vezes, de modo que meu pai teve dois conjuntos de meios-irmãos e meias-irmãs. Vamos deixar de lado por enquanto que eu tenho seis tios e três tias Fraser ainda vivos, e deixaremos de fora todos os primos desse grupo.

- Sim, certo. - Inclinei-me para a frente e servi mais um copo de vinho para cada um de nós.

Os territórios dos clãs MacKenzie e Fraser, como vim a saber, eram vizinhos por alguma distância, compartilhando a mesma fronteira, correndo lado a lado da costa marítima e continuando pela parte inferior do lago Ness. Essa fronteira compartilhada, como as fronteiras tendem a ser, era uma linha indefinida e não mapeada, indo e vindo de acordo com o tempo, o costume e as alianças. Juntamente com essa fronteira, no extremo sul das terras do clã Fraser, ficava a pequena propriedade Broch Tuarach, de Brian Fraser, pai de Jamie.

- É um solo bastante rico, há uma boa pesca e um bom trecho de floresta para caça. Deve abranger, talvez, sessenta chácaras e a pequena vila, que se chama Broch Mordha. Depois há, é claro, a mansão. Essa é moderna - disse com certo orgulho. - E há ainda a antiga sede, que usamos agora para os animais e os grãos.

- Dougal e Colum não ficaram nada satisfeitos de sua irmã casar-se com um Fraser e insistiram que ela não fosse uma arrendatária nas terras dos Fraser, mas que vivesse em uma propriedade livre. Assim, Lallybroch -é como as pessoas que moram lá a chamam - foi dada a meu pai, mas havia uma cláusula na escritura determinando que as terras deveriam passar apenas para os filhos de minha mãe, Ellen. Se ela morresse sem filhos, as terras voltariam para lorde Lovat após a morte de meu pai, quer meu pai tivesse filhos com outra mulher ou não. Mas ele não se casou outra vez e eu sou filho de minha mãe. Portanto, Lallybroch é minha, qualquer que seja o seu valor.

- Achei que estivesse me dizendo ontem que não possuía nenhuma propriedade. — Tomei um gole do vinho, achando-o bastante bom; parecia estar ficando melhor a cada vez que o bebia. Achei que talvez fosse melhor parar logo.

Jamie sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

- Bem, pertence a mim, sem dúvida. Mas o problema é que não me adianta muito atualmente, já que não posso ir lá. — Fez uma expressão de desculpas. - Há a pequena questão de que minha cabeça está a prêmio, você sabe.

Depois da fuga de Fort William, fora levado para a casa de Dougal, Beannachd (significa Abençoada, explicou), para se recuperar dos ferimentos e da febre que provocavam. De lá, fora para a França, onde passara dois anos lutando no exército francês, perto da fronteira com a Espanha.

- Você passou dois anos no exército francês e continuou virgem? — eu disse intempestivamente, incrédula. Eu tivera muitos franceses sob os meus cuidados e duvidava muito que a atitude dos gauleses em relação a mulheres tivesse mudado muito em duzentos anos.

Um dos cantos da boca de Jamie se retorceu e ele me olhou de esguelha.

- Se tivesse visto as prostitutas que prestam seus serviços ao exército francês, Sassenach, você se admiraria se eu tivesse coragem de tocar em uma mulher, que dirá ir para a cama com ela.

Engasguei, cuspindo vinho e tossindo, até que ele foi obrigado a bater nas minhas costas. Consegui me acalmar, ofegante e com o rosto afogueado, insistindo para que ele continuasse com sua história.

Retornara à Escócia há um ano e pouco e passou seis meses sozinho ou com um bando de "desgarrados" - homens sem clã -, vivendo com o que podia obter na floresta ou roubando gado das terras situadas na fronteira.

- Então, alguém me atingiu na cabeça com um machado ou algo parecido - ele disse, estremecendo. - E tenho que aceitar a palavra de Dougal sobre o que aconteceu nos dois meses seguintes, já que eu estava quase inconsciente.

Dougal estava numa propriedade próxima na ocasião do ataque. Chamado pelos amigos de Jamie, ele conseguira transportar o sobrinho para a França.

- Por que a França? - perguntei. - Certamente era correr um risco muito grande levá-lo para tão longe.

- Era um risco maior ainda me deixar onde estava. Havia patrulhas de ingleses por toda a região. Nós estivemos bem ativos por ali, sabe, eu e meus companheiros. Suponho que Dougal não quisesse que me encontrassem, inconsciente, na cabana de algum camponês.

- Ou em sua própria casa - eu disse, um pouco cinicamente.

- Imagino que ele teria me levado para lá, se não fosse por duas coisas - Jamie retrucou. - Primeiro, ele tinha um visitante inglês na época. Segundo, achou, pelo meu estado, que eu iria morrer de qualquer modo, então me enviou para o mosteiro.

O Mosteiro de Ste. Anne de Beaupré, na costa francesa, era o domínio, ao que parece, do antigo Alexander Fraser, agora abade daquele santuário de aprendizagem e adoração. Um dos seis tios Fraser de Jamie.

- Ele e Dougal não se dão particularmente bem - Jamie explicou -, mas Dougal podia ver que pouco se poderia fazer por mim aqui, ao passo que se houvesse possibilidade de me ajudar, seria lá.

E foi. Ajudado pelos conhecimentos médicos dos monges e por sua própria constituição física forte, Jamie sobrevivera e aos poucos se recuperara, sob os cuidados dos santos irmãos de St. Dominic.

- Quando estava bem outra vez, voltei — explicou. — Dougal e seus homens me encontraram na costa e nos dirigíamos às terras dos MacKenzie quando nós, hã, a encontramos.

- O capitão Randall disse que estavam roubando gado - eu disse. Sorriu, imperturbável diante da acusação.

- Bem, Dougal não é homem de deixar passar uma oportunidade de ter algum lucro - observou. — Deparamo-nos com um belo rebanho pastando em um campo, sem ninguém por perto. Assim... - Encolheu os ombros, com uma aceitação fatalística das circunstâncias inevitáveis da vida.

Pelo visto, eu chegara no fim do confronto entre os homens de Dougal e os dragões de Randall. Vendo os ingleses em seu encalço, Dougal enviara metade de seus homens para contornarem um bosque, tocando o gado à sua frente, enquanto o resto dos escoceses se escondia entre as árvores novas, prontos para emboscar os ingleses, quando passassem.

— Funcionou muito bem - Jamie disse, com aprovação. - Surgimos diante deles e passamos direto pelo meio deles, gritando. Foram atrás de nós, é claro, e nós os lançamos em uma perseguição colina acima, através de riachos, por cima de rochas e tudo mais. E durante todo o tempo o resto dos homens de Dougal atravessava a fronteira com o gado. Deixamos os ingleses para trás e nos abrigamos na cabana onde a vi pela primeira vez, esperando clarear o dia.

— Compreendo — eu disse. — Mas por que você voltou para a Escócia? Imagino que estaria muito mais seguro na França.

Ele abriu a boca para responder, depois reconsiderou, tomando um gole de vinho. Aparentemente, eu estava me aproximando perigosamente da fronteira de sua própria área secreta.

— Bem, essa é uma longa história, Sassenach — respondeu, evitando a questão. - Eu lhe contarei mais tarde, mas por enquanto, que tal falarmos de você? Quer me falar de sua própria família? Se achar que pode, é claro — acrescentou apressadamente.

Pensei por um instante, mas realmente parecia haver pouco risco em contar-lhe sobre meus pais e tio Lamb. Havia, afinal, uma certa vantagem na escolha e profissão de tio Lamb. Um estudioso de antigüidades fazia tanto - ou tão pouco - sentido no século XVIII quanto no século XX.

Assim, contei-lhe, omitindo apenas pequenos detalhes como automóveis e aviões e, é claro, a guerra. Enquanto falava, ele ouvia atentamente, fazendo perguntas de vez em quando, demonstrando consternação com a morte de meus pais e interesse em tio Lamb e suas descobertas.

— E então conheci Frank — encerrei. Fiz uma pausa, sem saber ao certo o que mais eu poderia contar sem entrar em território perigoso. Para minha sorte, Jamie me salvou.

— E você preferia não falar dele agora - disse, compreensivo. Balancei a cabeça sem pronunciar nenhuma palavra, minha visão turvando-se um pouco. Jamie soltou minha mão e, passando o braço à minha volta, puxou minha cabeça delicadamente para o seu ombro.

— Tudo bem - disse, acariciando meus cabelos. — Está cansada, Sassenach, quer que a deixe dormir?

Por um instante, fiquei tentada a dizer que sim, mas senti que seria uma atitude tanto injusta quanto covarde. Limpei a garganta e sentei-me direito na cama, sacudindo a cabeça.

— Não — disse, respirando fundo. Ele cheirava levemente a sabonete e vinho. — Estou bem. Diga-me... diga-me, quais eram as suas brincadeiras quando você era criança?

O quarto era equipado com uma grossa vela de doze horas, anéis de cera escura marcando as horas. Conversamos durante três dos anéis, somente soltando as mãos um do outro para servir vinho ou levantando para fazer uma visita ao tamborete privado atrás de uma cortina no canto. Ao retornar de uma dessas visitas, Jamie bocejou e espreguiçou-se.

- É muito tarde - eu disse, levantando-me também. - Talvez devêssemos ir para a cama.

- Tudo bem - ele disse, esfregando a nuca. — Para a cama? Ou dormir? - Arqueou uma sobrancelha interrogativamente e o canto de sua boca curvou-se.

Na verdade, eu estava me sentindo tão à vontade com ele que quase havia me esquecido do motivo de estarmos ali. Diante dessas palavras, senti um repentino pânico.

- Bem... - eu disse, com voz fraca.

- Seja como for, não pretende dormir com essa roupa, não é? - perguntou, à sua maneira prática de sempre.

- Bem, não, acho que não. - Na realidade, na corrida dos acontecimentos, eu nem pensara numa roupa de dormir especial - que, de qualquer forma, eu não possuía. Sempre dormia com minha camisola de baixo ou com nada, dependendo da temperatura.

Jamie não tinha nada além das roupas que estava usando; obviamente, iria dormir com sua camisa ou nu, uma situação que provavelmente levaria os acontecimentos a uma definição rápida.

- Bem, então, venha até aqui e eu a ajudarei com essas rendas e laços. Suas mãos, de fato, tremiam um pouco quando começou a me despir.

Entretanto, perdeu um pouco da inibição na luta com as dezenas de minúsculos colchetes que fechavam o corpete.

- Ha! - exclamou triunfalmente quando o último se soltou e nós dois rimos.

- Agora, deixe-me ajudá-lo - eu disse, decidindo que não fazia sentido continuar adiando. Ergui os braços e desabotoei sua camisa, deslizando minhas mãos por dentro e pelos seus ombros. Desci as palmas das mãos lentamente pelo seu peito, sentindo os cabelos enrolados e as suaves endentações nas auréolas dos mamilos. Ele ficou parado, imóvel, mal respirando, enquanto eu ficava de joelhos para desabotoar o cinto tacheado em volta de seus quadris.

Se tiver que ser em alguma hora, é melhor que seja agora, pensei, e deliberadamente deslizei as mãos pelas suas coxas, rígidas e esbeltas sob o kilt. Embora a essa altura eu já soubesse muito bem o que a maioria dos escoceses usava por baixo dos kilts - nada - ainda assim era um choque encontrar apenas Jamie.

Ele me levantou e inclinou-se para beijar-me. Isso continuou por um longo tempo e suas mãos caminharam para baixo, encontrando o fecho da a anágua. Ela caiu no chão, em um monte revolto de babados engomados, deixando-me apenas com a camisola de baixo.

- Onde aprendeu a beijar assim? - eu disse, um pouco ofegante. Ele exibiu um largo sorriso e puxou-me para junto dele outra vez.

- Eu disse que era virgem, não um monge - respondeu, beijando-me outra vez. — Se eu achar que preciso de orientação, pedirei.

Pressionou-me com firmeza contra seu corpo e pude sentir que ele estava mais do que pronto para continuar com o assunto em pauta. Com alguma surpresa, percebi que eu também estava pronta. De fato, quer fosse o resultado da hora, tarde da noite, do vinho, de sua atração ou simplesmente de privação, eu também o desejava ardentemente.

Soltei sua camisa à cintura e deslizei minhas mãos para cima, pelo seu peito, acariciando seus mamilos com meus polegares. Enrijeceram-se no mesmo instante e ele repentinamente me esmagou contra seu peito.

- Uuuf! — eu disse, esforçando-me para respirar. Soltou-me, desculpando-se.

- Não, não se preocupe; beije-me outra vez. — Ele o fez, dessa vez abaixando as alças da minha camisola pelos meus ombros. Recuou ligeiramente, segurando meus seios nas mãos e acariciando os mamilos como eu fizera com ele. Tentei abrir a fivela que segurava seu kilt; seus dedos guiaram os meus e a fivela soltou-se.

De repente, ele me ergueu nos braços e sentou-se na cama, segurando-me em seu colo. Falou com a voz rouca.

- Diga-me se eu estiver sendo muito rude ou diga-me para parar, se quiser. A qualquer momento, até estarmos unidos; não acho que consiga parar depois disso.

Em resposta, passei meus braços pelo seu pescoço e o puxei para cima de mim. Guiei-o para a fenda escorregadia entre minhas pernas.

- Deus do Céu - disse James Fraser, que nunca usava o santo nome de Deus em vão.