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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VIÚVA SIMÕES / Júlia Lopes de Almeida
A VIÚVA SIMÕES / Júlia Lopes de Almeida

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A VIÚVA SIMÕES

 

Apesar de moça   e de rica, a viúva Simões raras vezes saía; dedicava-se   absolutamente à sua casa, um bonito chalet em Santa Tereza. Vivia sempre   ali; inquirindo, analisando tudo num exame fixo, demorado, paciente, que exasperava   os seus cinco criados: a Benedita, cozinheira preta, ex-escrava da família;   o Augusto, copeiro, francês, habituado a servir só gente de luxo;   a lavadeira Ana, alemã, de rosto largo e olhos deslavados; o jardineiro   João, português; homem já antigo no serviço, e uma   mulatinha de quinze anos, cria de casa, a Simplícia, magra, baixa, com   um focinho de fuinha e olhos pequenos, perspicazes e terríveis.

 

Não era fácil   dirigir pessoal tão diferente em raças e em educação.   A viúva; modesta, e um pouco indolente para os deveres exteriores, consumia   ali, dentro das suas paredes, toda a sua atividade.

 

Em vida do marido freqüentara   algum tanto a sociedade; mas depois que ele partiu sozinho para o outro mundo,   ela encolheu-se com medo que se discutisse lá fora a sua reputação,   coisa em que pensava numa obsessão quase nevrótica.

 

Adquirira fama de menagère   exemplar; e então levava o escrúpulo a um ponto elevadíssimo   para não desmerecer nunca do conceito de boa dona de casa. Levantava-se   cedo; percorria o jardim, a horta, o pomar, o galinheiro; censurava o hortelão   pelo menor descuido; via bem até as mais insignificantes ninharias: a   grama precisava ser aparada... As roseiras careciam de poda; porque não   se enxertavam estes ou aqueles pés de fruta? O homem respondia que já   tinha deliberado aquilo mesmo, e ela passava adiante, sempre com perguntas ou   ordens.

 

No interior era um   chuveiro de recriminações. A cozinha tomava-lhe horas. Passava   os dedos nas panelas e nos ferros do fogo, a ver se estavam limpos; cheirava   as caçarolas; obrigava a Benedita a arear de novo tachos e grelhas, a   lavar a tábua dos bifes e o mármore das pias e da mesa. Se havia   alguma torneira pouco reluzente ou alguma nódoa no chão, detinha-se,   exigindo que se corrigisse a falta logo ali, à sua vista. E era assim   por todos os compartimentos, minuciosa, ativa, severa.

 

Lamentava-se da falta   de método, que a obrigava a ter em casa tantos criados; mas se pensava   em despedir algum deles, achava-o logo indispensável. A casa era grande   e o dia curto para observá-la em todas as suas exigências. A viúva   não fazia outra coisa senão mandar; entretanto não lhe   sobrava tempo para mais nada!

 

Tinha de vez em quando   as suas horas tristes, em que a inteligência se lhe revoltava contra a   monotonia daqueles meses que se desfolhavam iguais em tudo, sempre iguais...   O corpo cansado não reagia, e o pensamento nadava preguiçosamente   em idéias vagas, coloridas pelo romantismo da idade em que as alegrias   e entusiasmos da mocidade já não existem, e em que as friezas   da velhice ainda não chegaram... Ela tinha uma filha, Sara, que era o   seu conforto e a sua agonia. Por causa dela renunciava aos divertimentos do   mundo, exagerando as suas atribuições caseiras. Tinha medo de   apaixonar-se um dia, fugia do perigo de amar, de trazer para casa, para o gozo   do seu corpo e da sua alma, um padrasto para a filha, um estranho com quem tivesse   de repartir os seus cuidados e as suas riquezas.

 

O seu temperamento,   aparentemente frio, dava-lhe por vezes momentaneamente, um ar de rija autoridade,   muito em contradição com o seu tipo moreno, de brasileira. No   trato comum era calma, e tinha sempre o cuidado de não trair as suas   horas de desfalecimento, em que lhe passavam pela mente desejos e idílios   irrealizáveis...

 

A viúva já   não tinha a frescura da primeira mocidade, mas era ainda uma mulher bonita.   Era alta e esbelta e tinha um par de olhos pretos belíssimos e uma pele   morena delicadamente penujenta e macia.

 

A sua carne já   não tinha a rijeza do pomo verde, que resiste à dentada, e caía   sobre ela toda um ar de moleza, de doce cansaço, que lhe quebrantava   a voz e o gesto. Vinha dela um encanto esquisito e delicado, que ninguém   afirmaria ser da pureza das suas linhas ou da maneira que tinha de andar, de   sorrir ou de dizer as coisas.

 

Aos domingos a vida   era mais calma. Os criados trabalhavam afincadamente ao sábado, em lavagens,   polimentos, renovações de plantas e de flores nas salas, e gozavam   de lazeres maiores e permissões de passeios no dia imediato. A viúva   então respirava de alívio com o silêncio e a ausência   dos servos que se revezavam no serviço.

 

Num domingo de junho   de 1891 ela sentou-se na sua sala, muito fresca e perfumada; e, estendida numa   cadeira de balanço, perto da janela, pôs-se muito sossegadamente   a ler um jornal do dia.

 

Estava num dos seus   momentos de melancolia; almejava qualquer coisa que ela mesma não sabia   definir. Era a revolta surda contra a pacatez da sua vida sem emoções,   contra aquele propósito de enterrar a sua mocidade e a sua formosura   longe dos gozos e dos triunfos mundanos.

 

O que lhe parecia agora   um sacrifício parecera-lhe horas antes uma delícia.

 

A verdade era que a   viúva além, do medo de comprometer a felicidade da filha, sentia   preguiça de cortar de uma vez aquele sistema recolhido de vida, iniciado   pelo marido, um pouco ciumento.

 

Os seus olhos percorriam   superficialmente todo o jornal, quando de súbito estacaram num ponto.   Por muito tempo não se despregaram de quatro linhas banais, lendo-as   e relendo-as até que o jornal, levado por um dos seus gestos lânguidos,   caiu aberto sobre os joelhos. Voltada para o sonho, ela continuou imóvel,   com os membros lassos estendidos sob as roupagens longas e negras do seu ainda   rigoroso luto de viuvez, e pôs-se a seguir com o olhar, que o pensamento   erradio tornava ora abstrato, ora pensativo, uma barquinha de velas pandas que   deslizava lá embaixo, isolada e pequenina, na solidão das águas.

 

Estava uma manhã   gloriosa, céu azul cheio de sol, mar de um azul ainda mais denso, pacificado   pela doçura da atmosfera.

 

Pelos socalcos abruptos   da montanha desciam os quintais e o casario disperso. A grande alegria da luz   envolvia tudo: manchas vermelhas de barro, tufos de vegetação,   quadros domésticos encerrados entre a brancura de quatro muros caiados   surpreendidos do alto, homens trabalhando nas suas hortas, mulheres estendendo   roupa ao sol. O azul e o verde enchiam o ar com os seus tons fortes. Água,   céu e montanhas, tudo isso a viúva olhava do alto, como se estivesse   suspensa no espaço. Seguindo a linha alva de uma praia riscada além   da baía, o seu pensamento ia agora em linha reta aos primeiros tempos   da sua vida.

 

Mal se lembrava da   mãe, um vulto tênue que fugia à sua lembrança...   ficara órfã cedo... Do pai sim! Que bom velho! Que doce amigo   fora ele sempre!...

 

A transparência   do dia fazia realçar com nitidez todas as minúcias da paisagem,   mas os olhos da viúva afeitos àquele esplendor não o observavam,   tinham um fluído dourado, vago, de quem olha para coisas que outros não   vêem...

 

Lembranças antigas   de pessoas, de palavras, de idéias ou de sonhos, fugidios, apagados ou   mortos.

 

Silenciosas, no meio   das águas profundas e aniladas, as Fortalezas de Santa Cruz e da Laje   viam-se distintamente, na sua triste cor de granito umedecido e velho. Na de   Santa Cruz, poder-se-iam contar as seteiras da casamata, como órbitas   vazias; nos recifes da Laje, a onda, embora branda, punha rendilhações   brancas, de espuma salitrosa; e lá ao fundo, na barra, como outras sentinelas   igualmente firmes e igualmente poderosas, levantavam os seus dorsos redondos,   duas ilhas em tudo semelhantes, como dois irmãos gêmeos.

 

As montanhas sucediam-se,   esmeraldinas, escuras, azuladas ou violáceas conforme o grau de distância   e a luz que as feria, e para além das ilhas o mar estendia-se, até   confundir-se no horizonte num tom enfumaçado e compacto.

 

A areia do jardim rangeu   e a viúva voltou para a rabeca. Era a Simplícia, que ia lépida,   de saias engomadas, procurando cravinas para enfeitar a carapinha, já   amarrada com uma fita azul. Quando passou rente à janela, a viúva   sentiu o cheiro das suas essências exageradamente impregnadas na mulatinha;   fechou os olhos, sentindo preguiça de ralhar por aquela confiança...

 

A rapariga rabeou ligeira   por entre os canteiros e sumiu-se.

 

O barco de vela ia   também ligeiro, como uma asa branca cortando o azul, e a moça   seguia-o, pensativa, lembrando fatos...

 

De repente o seu olhar   perdeu aquela cor crepuscular, que dá a saudade, e fixou-se na cidade,   como se quisesse indagar do que se passava por lá.

 

Surgindo de entre a   verdura e a casaria, erguia-se logo em baixo, risonho e fresco, o outeiro da   Glória, encimado pela igreja branca e pitoresca, contrapondo a sua poesia   graciosa e aldeã à majestade ilimitada do mar.

 

Todo o bairro do Catete,   com as suas ruas elegantes, parecia imerso numa grande paz. A esguia chaminé   da City Improvements não sujava o ar com o seu fumo, denegrido e infecto.   Subia de tudo uma poesia alegre, desde as pontes rústicas de madeira   alcatroadas, que mal se viam numa curva de praia, até o deslizar da barca   de Niterói que atravessava a baía, com a bandeira flutuante na   ré e um rastro de espumarada na proa.

 

A filha da viúva   jogava o croquet com um grupo de amigas, no pomar; mal se ouviam em casa a bulha   seca dos martelos nas bolas, mais as risadas das jogadoras alegres. Tinha sido   o pai, riograndense robusto e sangüíneo, quem a habituara àqueles   exercícios e jogos ao ar livre.

 

Filho de uma senhora   alemã e de um negociante português, o Simões de Porto Alegre,   ele tinha recebido da mãe uma educação viril e uma saúde   robusta, e do pai um pequeno patrimônio com que mais tarde se estabeleceu   no Rio, quando, já órfão de mãe, o veio acompanhar   até portas do hospício de D. Pedro II, onde o velho, louco, ainda   viveu alguns anos terrivelmente agoniados!...

 

O olhar da viúva   passou num vôo rápido por sobre o mar, as ilhas, a cidade e as   montanhas e ficou abstrato, voltado de novo aos sonhos, inconscientemente preso   ao Pão de Açúcar, cabeça da formidável esfinge   que descansa sobre o leito misterioso do mar o seu enormíssimo corpo   de montanha, com as garras sumidas nas águas e a fronte sumida nas nuvens.   O seu pensamento lá ia esvoaçando como ave ligeira, pelo tempo   antigo, sem que a vista se desfitasse da pedra arroxeada do monte, cortada de   grandes laivos esbranquiçados ou escuros, escorregando de cima, como   se fossem lágrimas.

 

E o pensamento, acordado   de um letargo em que jazia sepultado havia longo tempo... corria agora mais   doce e velozmente do que o barco de velas lá em baixo, na solidão   das águas.

 

Junho espalhava cores   luminosas; as primaveras estavam cobertas de pétalas solferinas, as paineiras   abriam sorrisos cor de rosa nas suas grandes flores; nas inúmeras araucárias   do morro suspendiam-se estrelas de um verdor condensado e as rosas embalsamavam   o ar fresco, leve, inundado de luz.

 

A viúva deixava-se,   preguiçosamente, no mesmo lugar, a idéia longe, a carne alagada   pela doçura inigualável do inverno fluminense e os olhos errando   pelo que a natureza pode ter de mais idealmente formoso! O pensamento ia, ia...

 

- O Dias... o Luciano   Dias! que lindo e que amável ele tinha sido! Sempre muito assíduo...   apaixonado... meigo, desenrolando uma voz veludosa, concentrada, acariciadora...   Ai, o Luciano! fora quase seu noivo...

 

Luciano tinha sido   o primeiro e o mais duradouro amor da viúva; cartas, promessas, juramentos,   frases aquecidas na mais ardente paixão, haviam partido de um para outro   nos bons tempos da juventude. Ela era ainda muito criança, ele também...   como se amaram! Entretanto, ela o havia esquecido: só uma ou outra vez,   por qualquer acaso, se recordava dele. Supunha mesmo que nunca mais o tornasse   a ver, e que, se porventura isso se viesse a dar, ela não experimentaria   a mais leve comoção; e ei-la agora alarmada, só porque   lera na Gazeta a notícia da sua chegada da Europa! Havia dois dias já   que ele estava no Rio, debaixo do mesmo céu, respirando o mesmo ar que   ela!

 

Quando o encontraria?   Desejava vê-lo. Uma revoada de saudades trouxe-lhe à alma todo   o perfume daquele amor passado. Parecia-lhe que estivera todo aquele tempo à   sua espera, como uma noiva extremosa e fiel...

 

Sim, desejava vê-lo,   mas tinha receio.

 

Receio... nem sabia   de que, mas tinha-o. Afinal não houvera amado nunca outro homem como   amara aquele!

 

- O Luciano... porque   a deixara ele? Que história tê-lo-ia obrigado a abandonar o seu   amor? Diziam-no leviano... volúvel... talvez o tivesse sido. Que seria   agora?

 

Voltaria casado? Pensaria   ainda alguma vez nos tempos idos, quando se correspondiam e se encontravam em   casa do tio Gustavo, no Engenho Velho? Ele teria ainda na memória o beijo   que lhe furtara, na face, timidamente, no dia dos anos dela? Teria sabido do   seu casamento? Desconfiaria que ele se havia realizado por despeito? Dezenove   anos tinham decorrido depois de tudo isso! Parecia-lhe impossível! Dezenove   anos já! A verdade, porém, é que a memória do Luciano   estava, havia muito, apagada no seu coração, e agora uma simples   notícia, lacônica e murcha, ressuscitava-lhe na alma a saudade   de todo aquele romance passado. O Luciano já lhe não saía   do pensamento: era alto... magro, tinha o cabelo ligeiramente ondeado e os olhos   grandes, negros, um pouco melancólicos talvez, em todo o caso formosos.

 

E ficou ainda por alguns   minutos a pensar nas coisas que lera ou julgara ler nesses formosos olhos lânguidos   e pretos.

 

Em que consistira a   sua vida depois dessa encantadora leitura? Arranjos de casa... idas à   modista... passeios inúteis pela rua do Ouvidor.... estudos de música   para figurar nos saraus das amigas... um ou outro verão em Petrópolis,   raro... e os cuidados pela educação e saúde da filha, pelo   bem estar do marido e por bem conservar as regalias da sua vida material, de   burguesa rica.

 

Dias fáceis,   simples, sem comoções que os marcasse. O esposo fora um bom homem,   embora genioso e um pouco violento; ela era grata à sua memória   e sentia-se feliz por tê-lo estimado com sinceridade, fidelidade.

 

Com o jornal caído   nos joelhos, a viúva continuava imóvel, misturando na idéia   a lembrança da morte do pai com as expressões amorosas do Luciano,   o nascimento da Sara, o dia da partida do namorado e o dia do seu casamento   com o Simões; a paciência do marido, os sucessos da sua voz nos   concertos das Nunes, a última carta de Luciano e o primeiro beijo da   filha... lágrimas, alegrias... banalidades, coisas que enchem a vida   de toda a gente.

 

Na sua inteligência   modesta todas as miudezas tomavam grandes vultos. A volta de Luciano Dias reavivava-lhe   a imaginação.

 

Desde a morte do marido   que procurava estiolar, ressequir o seu coração de moça.   O seu egoísmo maternal absorvia-a toda; não se daria a ninguém,   não roubaria à filha nem um dos seus afagos, nem um único   dos seus pensamentos e dos seus cuidados. Pela sua idolatrada Sara deixaria   queimar o seu corpo, cegar os seus olhos e despedaçar o seu coração.   Perecesse tudo sobre a terra se só a custa desse aniquilamento pudesse   o sorriso iluminar os lábios frescos da filha!

 

A viúva caíra   numa prostração singular; por fim, sacudindo o pensamento, procurou   reagir e fixar o espírito em coisas diversas.

 

Pensar em Luciano...   para quê? Ele deixara-a sem explicação, ela casara-se com   outro, estava tudo acabado.

 

A estas horas ele teria   meia dúzia de filhos, uma esposa estrangeira um lar calmo e feliz; ela   tinha uma filha moça, a responsabilidade do seu nome e da sua casa. Cada   um que seguisse o seu rumo; olhar para trás seria, além de ridículo,   pueril e perigoso... Na estrada da vida todos os passos que damos deixam vestígios,   mas desde que desejemos voltar atrás, já não lhes encontramos   as pegadas. Tudo se esvai, todas as cenas se desligam, ficando aqui e ali, como   névoas esgarçadas em penedias calvas, uma ou outra lembrança,   uma ou outra saudade. A vida é assim.

 

A viúva Simões   estava a pensar nisso quando o Augusto foi entregar-te um cartão de visita.

 

Ela leu-o e quedou-se   pensativa. O sangue afluiu-lhe ao rosto, apertou com força nos dedos   finos e nervosos o bilhete, indecisa. Com o olhar chamejante e o lábio   inferior apertado entre os dentes

 

- A resposta? perguntou   por fim o criado.

 

- Manda entrar.

 

- É extraordinário!   murmurou a viúva Simões; nunca mais pensei nele... hoje penso...   e ele chega!

 

Aquela coincidência   afigurava-se, ao seu espírito mal educado, como que um aviso sobrenatural.   Já nem se recordava de que a sua memória fora despertada pela   notícia da Gazeta!

 

Luciano! Sim. Era ele   quem se anunciava! Que vinha fazer à sua casa, após dezenove anos   de ausência e de completa indiferença? Que saudades vinha revolver   ou que idílios acordar?

 

Ao mesmo tempo que   estes pensamentos se atropelavam no seu espírito, ela, por um movimento   em que entrava tanto de coquetterie como de nervosismo, ergueu-se, apoiou a   mão no espaldar baixo de um fauteuil, impelindo com o pé, para   o lado, a longa cauda do seu vestido de viúva. Houve um silêncio;   o coração bateu-lhe com força. Soaram passos pelo corredor   encerado, esses passos foram abalados na alcatifa da saleta contígua,   onde a voz do Augusto indicou:

 

- Tenha a bondade de   passar a outra sala...

 

Ela voltou-se com um   sorriso desbotado e viu destacar-se, no fundo bronzeado do reposteiro, a figura   elegante e correta de Luciano Dias...

 

Ele avançou,   e curvando-se diante dela:

 

- Minha senhora...

 

A viúva Simões   estendeu-lhe a mão que a comoção gelava e ele elegantemente   beijou a mão que se lhe oferecia.

 

Lá fora, entre   os murtais, continuavam as gargalhadas das moças, e na doida alegria   da luz, voavam os pombos por sobre as árvores e o telhado do chalet.

 

Sentados um em frente   do outro, a viúva Simões observava que o Luciano Dias de então   era bem diverso do Luciano de outrora! Tinha os cabelos grisalhos, embora fartos,   o que lhe dava um novo encanto à fisionomia viril; já não   era esbelto: o seu corpo perdera a graciosa flexibilidade dos vinte anos, tornara-se   um pouco grosso, o ventre arredondara-se-lhe, e no seu rosto expressivo e simpático,   havia vestígios de cansadas insônias.

 

Por seu turno ele analisava   a viúva. Achava-a com certeza muito menos fresca, mas talvez mais encantadora.   Agora tinha a graça consciente, um pouco amaneirada, em todo o caso cativante.   As faces tinham descaído um pouco mas o corpo era agora mais airoso e   ondeante.

 

Se as olheiras se haviam   acentuado e os cabelos negros estriado de um ou de outro fio branco, ao menos   o sorriso tornara-se mais fino, mais inteligente e perspicaz, e para ele, homem   de sociedade, no saber sorrir estava toda a arte e ciência da mulher de   salão.

 

Ao princípio   houve um certo embaraço na conversa. Esboçavam-se frases que morriam   depressa. Ele não justificava a visita; ela encolhia-se com reserva.   Luciano, era, aparentemente, já quase um estranho! Trocaram-se falas   banais.

 

Se a viagem tinha corrido   calma... se não achava agora o Rio uma cidade feia...

 

Ele respondia num modo   cerimonioso e discreto e ambos, escondendo com todo recato os seus pensamentos   e lembranças, afetavam indiferença e sossego.

 

Um gesto, um olhar,   um suspiro quebram às vezes os mais firmes propósitos.

 

Fios há que   parecendo de ouro são de seda: se lhes querem prolongar muito a tensão    - estalam. Foi o que sucedeu.

 

Luciano, depois de   um pequeno silêncio, fixando a viúva nos olhos, deu-lhe os pêsames   pelo seu luto.

 

Houve um estremecimento.

 

Sem saberem como, de   fato em fato, vieram a falar do tempo antigo. A evocação desses   dias de mocidade foi como que um pouco de sol que derretesse o gelo entre ambos,   e chegou mesmo um instante em que ele, enlanguescendo a voz e os olhos murmurou   baixo:

 

- Ernestina!

 

Era o nome dela. A   viúva Simões levantou-se muito vermelha, atravessou a sala até   a um gueridon que ficava em frente, mudou ali a posição de uma   camponesa de biscuit, sem perceber mesmo porque fazia aquilo, e voltando a sentir-se   perto de Luciano, disse, olhando para os zig-zags da alcatifa:

 

- Estou velha!

 

- Formosa velhice.!

 

- Trinta e seis anos...

 

- E eu trinta e nove...

 

- Os homens são   sempre moços...

 

Luciano não   respondeu; contemplava agora, com muita atenção o retrato a óleo   do finado comendador Simões.

 

Ernestina, um tanto   embaraçada, perguntou:

 

- Conheceu meu marido?

 

- Conheci... quando   fui para a Europa ele tinha-se associado a um amigo de meu pai, o Nunes. Vi-o   no armazém, exatamente no dia da partida.

 

- Era muito bom homem..   murmurou Ernestina quase a medo.

 

- Sim? talvez por instinto,   eu antipatizava com ele... perdoe-me que lhe confesse estas coisas...

 

Ela sorriu-se, ele   continuou:

 

- Tive uma grande surpresa   em Paris quando soube do seu casamento. Eu tencionava voltar cedo e julgava   vir encontrá-la ainda solteira...

 

Luciano crivava de   reticências essas frases, sublinhando-as com o olhar. Chegou ao ponto   de afirmar que, se não fosse esse casamento ele não teria vivido   na Europa tantos anos...

 

Ernestina, atônita,   respondeu com visível ressentimento:

 

- Mas o sr. foi como   adido da legação!

 

- Não... mas   que teria isso? Por acaso um adido de legação não pode   vir buscar a noiva ao seu país?

 

- Inda não éramos...   Ernestina suspendeu a última palavra.

 

- Noivos?

 

- Sim, respondeu ela   com a cabeça.

 

- Eu assim a considerava,   disse Luciano, envolvendo-a no seu olhar de veludo. Que faltava? o pedido ao   papai!... ele consentiria por certo...

 

- Mas nem ao menos...

 

- Conclua! por Deus.!

 

- Não recebi   nem uma linha, nem uma explicação. A sua partida era a significação   de um rompimento! Foi o que eu entendi.

 

- Entendeu mal... não   tive coragem de lhe dizer adeus... e depois, perdoe-me a vaidade! quis por em   prova o seu afeto!

 

Ernestina abaixou a   cabeça, subitamente arrependida de ter dado a mão de esposa ao   Simões. Lamentava agora em espírito a perda de todo esse tempo,   em que poderia ter vivido ao lado de Luciano, na Europa, freqüentando palácios   de príncipes e fazendo ressaltar, com os atavios parisienses, os seus   encantos de brasileira gentil.

 

- Afirmaram-me que   o senhor ia para sempre... murmurou ela por fim.

 

- Calúnias...   aposto que foi o Simões quem lhe disse isso?

 

- Talvez...

 

- Mas como foi que   ele conseguiu fazer-se amar! era um urso, lembra-me bem, era um urso!

 

Desta vez foi Ernestina   que murmurou como um queixume:

 

- Sr. Luciano!

 

- Isto não é   falar mal, mas sempre gostaria de saber... como foi?

 

- O casamento foi feito...   meu pai queria... eu cedi.

 

Ernestina não   teve coragem de levantar os olhos; receou ver erguer-se da sua cadeira de veludo   escarlate, na grande tela em frente, o marido terrível e ameaçador.

 

Enquanto Luciano lhe   dizia quanto tinha sofrido com esse casamento e a espécie de alívio   que sentira ao sabê-la viúva, enquanto ele, cheio de sedução,   se apoderava da sua mão esguia e branca e lhe dizia que viera da Europa   por ela, só por ela; Ernestina, trêmula, envergonhava-se da sua   mentira, parecendo-lhe sentir os olhos do esposo fixos nela.

 

O casamento feito pelo   pai! Mentira! O Simões fora aceito por despeito dela com o outro, o Luciano,   mais nada. O pai não interviera, ficou até surpreso quando o negociante   lhe pediu a filha. Em verdade, ele, o bom Simões, fora requestado pela   moça! O plano fora seu; queria casar, ser rica, vingar-se de Luciano,   que a perseguia sempre nos bailes, nos teatros, em toda a parte, e que afinal,   sem uma explicação deixava-a para ir para França!...

 

O comendador Simões   tinha sido um bom marido, carinhoso, cortês, sempre pronto a dar-lhe tudo   quanto ela desejasse, vestidos caros, casa ajardinada, mobílias modernas,   vida farta, confortável e doce.

 

Ela tinha consciência   disso tudo, gozara a seu modo, conforme as exigências da sua educação   burguesa. Se não tivesse tido a filha, talvez que a própria comodidade   em que vivia imersa a tivesse feito procurar os gozos efêmeros da sociedade,   mas a sua pequenina Sara prendia-a aos deveres da casa, preocupando-a muito...

 

- Então seu   pai obrigou-a a casar? perguntou Luciano numa insistência maldosa.

 

- Obrigar propriamente   não... aconselhou e achei que era do meu dever obedecer...

 

- E não se arrependeu,   Ernestina ? Não lhe ocorreu nunca à memória a lembrança   de alguém que sofreria muito com o seu casamento?

 

A viúva Simões   corava, alisando com a mão a preta do seu longo vestido. Conteve o desejo   de contar quanto tinha chorado, na manhã do casamento, com a lembrança   de Luciano... Ocorreu-lhe também o constrangimento que tinha sentido,   no dia seguinte, pelo marido, vendo-o comer com a faca, ao almoço. Vieram-lhe   à mente cenas desligadas, que ela repelia, sem atinar com uma resposta.

 

Luciano aproximava-se   dela, envolvendo-a com a sua voz quente e o seu olhar macio e caricioso, ali   mesmo, bem em frente às barbas fartas e ruivas do comendador Simões.   As suas palavras escorriam como o mel de um favo. Ernestina, sempre de cabeça   baixa, tinha o sorriso paralisado, sem coragem de por um dique àquela   ternura perigosa.

 

Ele ousava queixar-se   de ter sido esquecido! A viúva não protestava. Entretanto, lembrava-se   bem! nos primeiros meses de casada aborrecia o marido e disfarçava mal   esse sentimento. O seu sonho tinha sido casar e partir. Ir a Paris ver Luciano,   tratá-lo com desprezo, fingir-se feliz... O marido opôs-se à   viagem, o único desejo em que a contrariou, expondo-lhe razões   de comércio e fortuna... Sair do Rio era impossível então:   prometeu que mais tarde percorreriam o mundo!

 

O tempo e a convivência   desvaneceram o desamor da esposa. O nascimento de Sara acabou de solidificar   a aflição de Ernestina pelo marido. O pensamento de ambos convergia   para a pequenita; tinham ambos o mesmo cuidado, encontravam-se ao mesmo tempo   a beijar o mesmo rosto ou a embalar o mesmo berço... As suas conversações   mais intimamente doces eram a respeito da Sarinha, vendo-a brincar dos joelhos   de um para os joelhos do outro, a dizer com igual ternura.

 

- Papai... ou mamãe!

 

Essas coisas iam voando   pelo espírito da viúva, enquanto Luciano lhe dizia que viera de   Paris por sabê-la livre, do contrário lá estaria ainda...

 

Falando sempre, doce   e mansamente ele pegou-lhe na mão e retirou, muito devagar, a aliança   de ouro que ela ainda usava no dedo.

 

Ernestina consentiu.   O anel rolou para o chão.

 

- Sempre julguei que   o senhor voltasse casado.

 

- Não se lembrava   que os homens são menos volúveis do que as mulheres...

 

- Oh!

 

E Ernestina riu-se.

 

- Temos uma prova em   nós mesmos.

 

Ernestina, já   menos perturbada, perguntou, fixando em Luciano um olhar claro e sério:

 

- Diga-me uma coisa,   com toda a franqueza e lealdade: porque saiu do Rio sem me mandar ao menos um   bilhete, uma palavra qualquer de despedida?

 

- Mas eu já   lhe disse.

 

- Não, interrompeu   Ernestina, a razão apresentada não é aceitável.   Por em prova o meu afeto! Isso não é coisa que ocorra a um namorado   de vinte anos.

 

- Incompletos... acrescentou   Luciano com um sorriso.

 

- Demais a mais!

 

- Realmente éramos   muito crianças...

 

- Não fuja a   minha pergunta, lembraremos isso depois...

 

- Que maldade! Por   que não há de acreditar no que eu disse? Quis por à prova   o seu amor; além disso, meu pai, note que meu pai é que era secretário   da legação e não eu, impôs-me essa viagem; negócios   de família complicados e que nem mesmo a gente depois de passado o tempo,   sabe explicar! Eu era o secretário de meu pai... foi isso naturalmente   o que fez com que lhe dissessem que eu tinha ido como adido. Inda a pouco não   esclareci esse ponto para não interrompê-la...

 

- Bem! vejo que o senhor   é teimoso e não quer dizer o motivo de um rompimento tão   inesperado... Seja. E mesmo, agora, que nos importa isso?

 

- Ficou zangada comigo?   

 

- Muito

 

- Perdoa-me?

 

Ernestina teve vontade   de dizer - esqueci-o - mas calou-se; roda a sua energia e resolução   tinham-se despedaçado!

 

- A senhora casou muito   cedo...

 

- Com dezoito anos   incompletos...

 

- Quantos meses depois   da minha partida?

 

- Cinco...

 

- Que barbaridade!...

 

Riram-se. Lembravam-se   juntos do passado.

 

Tinham começado   a amar-se em casa de um tio de Ernestina, ela com quinze anos, ele com dezoito...   uma criancice de que Ernestina se teria esquecido, se o seu casamento não   tivesse sido feito por despeito disso. Luciano era então estudante de   medicina; o pai morava em Minas o ele hospedava-se em casa de um negociante,   Gustavo Ferreira, no Engenho Velho.

 

O negociante era o   correspondente e o amigo mais querido do pai de Luciano e era também   o irmão preferido do pai de Ernestina. Isso ligou-os.

 

O tio Gustavo, como   ambos diziam, não tinha filhos, a mulher passava a vida doente, sempre   queixosa e asmática, no entanto, ela vivia ainda e ele tinha morrido   de um ataque apopléctico.

 

- Seu pai? Perguntou   Luciano

 

- Morreu... Daquele   tempo só vivem a tia Mariana e a Josefa.

 

- Que Josefa?

 

- Aquela mulata lá   de casa... que lhe fazia muita guerra.

 

- Uma baixa... queixuda...

 

- Isso mesmo...

 

- Tenho idéia...   sim... que interceptava as minhas cartas!...

 

- Exatamente.

 

- Deve estar muito   velha!

 

- Não...

 

- Como o tempo passa!

 

- E que saudades o   senhor veio trazer-me da minha mocidade!

 

Ouvindo de longe uma   gargalhada argentina e fresca, a viúva Simões disse:

 

- Minha filha! é   preciso que a conheça; vamos ao jardim!

 

- Uma filha!... tornou   Luciano com tristeza, ali está uma lembrança do outro que me amargura   bastante...

 

- Ela é um anjo!

 

- Tanto pior...

 

Ernestina tornou-se   muito séria o seu olhar até ali inefavelmente doce, ficou de repente   áspero, por ofendido.

 

- Vamos, desejo mesmo   cumprimentar Melle. Simões, murmurou Luciano emendando o seu erro, e   demonstrando interesse pela menina.

 

- Pois sim, mas prometa-me...

 

- O quê?

 

- Não é   nada, vamos? E a viúva passou adiante.

 

A sala tinha portas   para uma varanda de ladrilhos cor de rosa e colunas finas de ferro bronzeado.   Dali descia-se por três degraus baixos e muito largos para o jardim. O   sol de junho iluminava tudo com uma luz risonha, e nos largos canteiros relvados   as flores rubras das casadinhas pareciam gotejar o sangue nos seus braços   espinhosos.

 

A viúva Simões   ia adiante, erguendo a cauda do vestido preto; Luciano admirava-lhe a graça   do andar e a cor levemente morena do seu pescoço roliço e delicado.   Dando volta ao jardim foram parar a uma segunda grade; a dona da casa abriu   e entraram no pomar. Aí, num espaço bem varrido, nivelado e todo   guarnecido em derredor por bambus, é que Sara e as amigas jogavam o croquet.

 

No momento em que entraram,   exatamente quem jogava era a filha de Ernestina. Não lhe viram a cara;   estava curvada para diante; o vestido arrastava na frente, mostrando-lhe atrás   os tornozelos finos e as meias pretas riscadas de cinzento. A mãe deixou-a   jogar, e ao vê-la erguer-se bateu-lhe levemente no ombro. Sara voltou-se.

 

Luciano observou-a   com curiosidade.

 

- Mas é já   uma moça! observou ele atônito.

 

- Eu não lhe   disse que estava velha? perguntou Ernestina com um sorriso.

 

Olhando atentamente   para Sara, Luciano resumiu assim o seu juízo: a cara do pai! ponham-lhe   umas barbas vermelhas e aí teremos o comendador Simões.

 

Sara não era   alta como a mãe, nem tinha a gentileza do seu porte aristocrático.   Tinha a cabeça um pouco grande e forte, a testa arredondada, os olhos   castanhos e inteligentes, o cabelo de um louro ardente e luminoso, a boca risonha,   os dentes sãos.

 

O que encantava nela   era o bom ar de saúde, de inocência e de alegria que se emanava   do seu olhar franco, da sua pele rosada e fresca, e da sua boca simpática.

 

Pareceria um rapaz   vestido de mulher se não tivesse uma expressão tão ingênua   e se os cabelos não lhe cobrissem as costas numa trança tão   longa e tão farta.

 

Falava alto, e conquanto   de tom autoritário, a sua voz era doce e clara.

 

Ganhara a partida e   estava vitoriosa; estendeu a mão a Luciano, como se fosse a um amigo   velho, com uma franqueza descuidada. Impelindo para trás o cabelo que   lhe voava para o rosto, convidou as amigas para outra partida mas as companheiras   estavam cansadas e ela começou a juntar o aparelho numa caixa, contando   ao mesmo tempo à mãe o fiasco de Georgina Tavares. Uma graça!

 

A Georgina era uma   moreninha galante, filha de um advogado da vizinhança, e a maior amiga   de Sara. As outras eram quatro sobrinhas do dr. Tavares, filhas de um médico   do Espírito Santo, e estavam passando uma temporada com a prima. Vestiam   mal e encolhiam-se envergonhadas, umas de encontro às outras.

 

Ernestina voltou para   dentro em companhia de Luciano. Atravessaram calados o jardim. No primeiro degrau   da varanda a viúva perguntou, parando de repente com a mão sumida   na trepadeira que envolvia uma das colunas:

 

- Que tal achou minha   filha?

 

Ele moveu a cabeça   com um sorriso, estendeu, depois de alguma hesitação, os beiços   em bico, e não respondeu.

 

- Quer dizer que lhe   desagradou...

 

- A senhora parece-me   ser uma dessas mães excessivas a quem não se pode dar uma opinião   franca dos filhos?

 

- Engana-se, respondeu   secamente a viúva.

 

- O melhor é   não perguntar nada. Ao contrário, eu quero saber qual a sua impressão!   Tenho empenho nisso!

 

- Manda?

 

- Exijo!

 

- Então aí   está: acho-a feia!

 

- Feia! mas em que!?

 

- Em tudo menos no   cabelo, que assim mesmo tem o defeito de ser um pouco avermelhado, e na cor   da pele. Admira-me como não tem sardas, que são quase uma conseqüência   do tipo.

 

- Antipatizou com ela,   é o que eu vejo!

 

- Não... balbuciou   Luciano vacilando.

 

- Sara é m anjo

 

- Muito parecida com   o pai!

 

- Ora.

 

- Antes tivesse saído   à mãe, concluiu Luciano, seria muito mais formosa e menos...

 

- E menos?

 

- Quero dizer - mais   agradável para mim.

 

Ernestina, apesar dos   esforços por encobrir a tristeza que essas palavras provocaram, deixou-a   transparecer e Luciano despediu-se com uma certa frieza, como se estivessem   amuados.

 

  

 

- Então você   foi hoje à Santa Tereza? perguntou o Rosas a Luciano Dias.

 

- Fui...

 

- E então, que   tal?

 

- Ainda fresca! Bonita!

 

- É bonitona,   é.

 

Conversavam acerca   da viúva Simões.

 

O Rosas acabava de   jantar com o amigo regaladamente, na sua saleta do pavilhão, no Flamengo,   com vista para o mar. Estavam sós; o criado levara o café e eles   tinham acendido os charutos.

 

A tarde caía   serena e bela num esmaecimento de tons delicados. Diante da porta aberta do   pavilhão, a rua larga e arenosa do jardim estendia-se com uma brancura   pálida, sem brilho, e nos largos canteiros relvados, batidos de sombra,   as palmeiras ornamentais abriam muito as folhas, como enormes mãos espalmadas.   Entre o verdor enegrecido das plantas, sorriam de vez em quando rosas claras,   cor de carne moça, e os arbustos das azaléias brancas destacavam-se   muito, todos cobertos com as suas flores de neve.

 

Do outro lado, pelas   janelas abertas, vinha o marulho das ondas a morrerem na praia.

 

- Já tenho licor...   disse Luciano, respondendo a um gesto do Rosas, que tornara a encher o seu cálice   e passava a garrafa ao amigo.

 

- É bom; isto   reanima e conforta o estômago. E depois de um trago em que esgotou o cálice:

 

- Pois você fez   mal em ir à Simões... pode comprometer-se e depois não   ter remédio, senão...

 

- Casar?

 

- Casar.

 

- Qual!

 

- Veja o que aconteceu   comigo!

 

O Rosas, homem já   dos seus cinqüenta anos, gordo e calvo, cansado do seu viver de solteirão,   tinha-se casado, para um ano depois separar-se da mulher, com grande escândalo.

 

A pobrezinha tinha   sido uma cabeça tonta e bonita. Passara a mocidade a ler novelas dos   jornais e a fazer crochet à janela da casa do pai, em S. Cristóvão.

 

Montépin lançou-lhe   no espírito a semente da inveja das fidalgas loiras, de mãos de   cetim e olhos de veludo turquesa. O crochet dava-lhe tempo para remoer mentalmente   cenas de amor adúltero deslizadas nos parques alfombrados de castelos   provincianos. Quando casou, o Rosas tinha ainda todos os gostos do negociante   pacato e burguês. Como isso fosse por 1890, no período efervescente   do jogo da bolsa, em que os luxos se assanharam até o desmando, não   custou muito transformá-lo. Foi ela, portanto, quem o acostumou àqueles   jantares no pavilhão, quem o obrigou a comprar carro, a freqüentar   o lírico, até que um belo dia - zás! Lá se foi mar   em fora com um primo dele, levando todas as jóias e deixando por despedida   algumas linhas mal escritas.

 

Entretanto, aquele   golpe não o desesperou; tinha mesmo facilidade extrema em aludir a ele.   Chegava a ponto de constranger os amigos. Um deles notou-lhe um dia:

 

- Homem! há   certas infelicidades que se escondem...

 

- Ao contrário,   respondeu-lhe o Rosas, há certas infelicidades que devem ser espalhadas   para servirem de exemplo!

 

Lá tinha o seu   modo de ver.

 

- Há muitos   meses que não vejo a Simões, prosseguiu o dono da casa, fincando   o cotovelo na mesa e erguendo até a altura da calva a mão gorda   e curta, em que luzia um enorme brilhante.

 

- Eu, já agora   hei de morrer solteiro, disse Luciano pausadamente. Conheci por alguns anos   a vida de família, fui tão feliz quanto podia ser nas condições   em que me achava, e isso bastou-me.

 

- Alguma ligação.

 

- Sim. Uma rapariga   por quem me apaixonei... vivemos quatro anos juntos. Hei de ter sempre saudades   desse tempo... ela era linda e era um anjo!

 

- Um anjo com asas   para fugir depois de quatro anos de ventura, não é assim?

 

- Não.

 

- Foi você que   a deixou ?

 

- Morreu.

 

- Ah!...

 

Houve um instante de   silêncio. O Rosas prosseguiu:

 

- Sabe que eu estava   mal com o Simões?

 

- Não... por   quê?

 

- Negócios.

 

- Ouvi dizer que ele   era um homem mau.

 

- Não era tal.

 

- Por mim não   sei nada. Eu mal o conheci.

 

- Ele era um pouco   irascível e muito extremado nas suas opiniões mas era o que se   pode chamar homem de bem! Na questão que tivemos, eu mesmo confesso,   hoje, bem entendido, que a razão estava do lado dele.

 

- Então?

 

- Que quer? tive maus   conselheiros. Essa é que é a verdade.

 

- Ele era português,   não era?

 

- Não... riograndense,   filho de alemã e de um negociante que morreu doido, aqui no hospício;   ainda o conheci... O Simões tinha puxado ao tipo da mãe, era vermelho   e ruivo; morreu de congestão. Já se esperava isso mesmo era um   touro, pescoço curto, cabeça grande...

 

- A filha parece-se   muito com ele deve ser violenta e forte. É feia.

 

- Tem uma filha só?

 

- Só...

 

- Pois o Simões   não era mau homem. Um poço curto de idéias... Se a menina   sair ao pai não será atormentada pela inteligência...

 

- Agora diga-me: acerca   do comportamento de Ernestina nunca se falou?

 

- Nunca ouvi nada!   Gozou sempre de reputação. Isso a meu ver não tem valor.   Há mulheres tão sonsas!

 

- Que diabo! nem um   amante, hein?

 

- Nenhum, que me conste.

 

- O Simões deixou   grande fortuna?

 

- Não sei...   calcula-se nuns quatrocentos contos, talvez.

 

- Não é   má soma... Pois se não fosse o demo da filha, quem sabe? Talvez   que realmente eu caísse na asneira de casar...

 

- Você não   quis quando ela era moça, e então agora...

 

- Quando era moça   era pobre... Mas o que me metia mais medo, ainda assim, não era a pobreza,   eram os olhos dela!

 

- Os olhos!

 

- Receava que viesse   a suceder-me o que sucedeu a você Ernestina tinha uma beleza provocante,   de espantar maridos!

 

- Pois foi uma boa   mulher... essas coisas enganam. A minha era mansa como um cordeiro, olhos postos   no chão... parecia um anjo! Caí como um patinho... e aí   está o resultado! Ora! estou livre! Isto de casamento é o diabo!   Evita Santa Tereza!

 

- Não há   perigo! Preciso de alguma coisa para entreter o tempo...

 

- Trabalha...

 

- Em que! Perdi o costume.   Depois o que tenho dá-me para viver...

 

Luciano levantou-se   e foi à janela, enquanto o Rosas sacudia com o dedo a cinza do charuto.   

 

- Sabe! disse Luciano   sem se voltar, e prosseguindo logo: estou encantado com a minha terra. Que beleza!

 

- Homem, não   é isso que costuma dizer quem vem da Europa...

 

- Ora! Onde viu você   nunca uma cidade com vistas destas?! e apontou com um gesto largo a baía   em frente.

 

O Rosas levantou-se   e foi encostar-se ao peitoril ao lado do outro. Ficaram silenciosos vendo os   últimos raios do sol iluminarem com uma luz policroma parte do mar. De   um lado tremulava uma rede malhada de ouro cintilante, mais além uma   nuvem vermelha refletia nas águas um tapete de rosas, e em outros pontos   apareciam manchas violáceas e sombrias que iam crescendo e movendo-se   na onda. Na areia clara destacavam-se velhas pedras escuras, em que as algas   se apegavam, como aranhas secas.

 

- Vamos dar um giro,   interrompeu o Rosas, pouco afeito às contemplações da natureza.

 

E saíram os   dois.

 

  

 

Luciano e o amigo desceram   pela rua do Catete conversando e devagar, num exercício de boa digestão.

 

O Rosas bamboleava   o corpo curto e grosso, com o veston azul aberto na frente e as mãos   sumidas nos bolsos; o Luciano ia ao lado, distraído, com os braços   p'r'as costas e o bengalão suspenso entre as duas mãos.

 

Os bondes passavam   cheios. Em uma ou outra casa iam-se moças à janela, quase todas   bonitas, bem vestidas.

 

Ia caindo docemente   a noite. Um propheta corria de lampião a lampião, com a blusa   de zuarte flutuante, o varal erguido e o chapéu enterrado até   as orelhas.

 

A rua tinha trechos   menos tumultuosos de feição aristocrática, onde as casas   não se abriam tão burguesmente à poeira e à curiosidade   de fora; mas logo em outro quarteirão, tudo mudava, aspecto de pessoas   e de coisas, como se se tivesse dado um salto para outro bairro. Então,   em vez de prédios grandes, de cortinas cerradas e plantas ornamentais   nas entradas, eram as casas apertadas, desiguais; e, de vez em quando, ou um   frege tresandando a azeite e sardinhas, ou uma quitanda apertada, cheirando   a fruta apodrecida e a hortaliça murcha. Nesse ponto andavam crianças   aos magotes pela calçada, de mãos dadas, embaraçando os   transeuntes. À porta de um barbeiro ou de outra qualquer casa de negócio,   sufocada por prédios maiores, conversavam algumas pessoas com muitos   gestos e poucas risadas.

 

Luciano prestava atenção   às mínimas coisas, querendo em vão comparar o aspecto dessa   rua de então, como do tempo em que ali tinha morado, havia largos anos!...   A diferença estaria na sua maneira de olhar? perguntava ele a si próprio.

 

O Rosas conhecia meio   mundo, morava por ali havia muito, por isso cumprimentava quase toda a gente;   quando o fazia a alguma senhora chic, Luciano não tardava em perguntar-lhe:

 

- Quem é?

 

Pelo meio da rua rolavam   maciamente os carros particulares, de volta do passeio a Botafogo e em demanda   dos lares. O Rosas citava o nome das donas, gente boa, freqüentadora do   Lírico e de Petrópolis.

 

O Luciano pedia-lhe   que o apresentasse, não conhecia ninguém, e era sociável,   afeito às saias e a conversações com senhoras.

 

O Rosas sorria.

 

- Você está-me   com cara de conquistador.

 

- Ora...

 

- Hoje apresentar a   gente um amigo como você em casa de outro... é um perigo... enfim,   não direi que...

 

- Faça-se de   puritano!

 

- E sou; desde que   me sucedeu o que você sabe, então, nem se fala!...

 

- Ora adeus!

 

Nisso o Rosas apontou   para um carrinho elegante e leve, que vinha da cidade guiado por uma moça   de claro, airosa, bem sentada na almofada. Como a luz já fosse escassa,   Luciano não a pode ver bem. Atrás dela desenham-se as silhouéttes   de dois lacaios empertigados.

 

- Quem é? inquiriu   Luciano, reparando para um gesto do Rosas.

 

- Clara Silvestre...   uma ex-atriz do Recreio.

 

- Parece chic.

 

- É uma das   mais bonitas, aí...

 

- Apresenta-me?

 

- Sem escrúpulo.

 

Houve um sorriso. Passavam   pela esquina de Santo Amaro. Luciano parou, mostrando um prédio em frente.

 

- Já morei naquela   casa... era então rapazinho, andava às voltas com exames de francês.

 

- Você não   foi nascido e criado em Minas?

 

- Não. Ali ao   lado era uma padaria e aqui, nesta esquina, um armazém.

 

- Já as reminiscências   vão tomando um caráter mais positivo. Mas, que diabo! Não   me lembra que seu pai tenha morado aqui!...

 

- Pois não,   foi só depois do meu nascimento que meu pai se resolveu a ir para a província;   voltamos de lá por doença de minha mãe. No fim de dois   anos ela morreu, meu pai regressou para a província e eu fui então   morar com o nosso correspondente, o Gustavo Ferreira...

 

- Tio da Simões...

 

- Sim, tio da Simões...

 

- Conheci-o. Morreu,   sabe?

 

- Disse-mo a sobrinha.

 

- Ah... Ela pô-lo   ao corrente de todos os sucessos... Falaram do passado?

 

- Um pouco...

 

- Devia ter sido linda,   a Simões.

 

- Esplêndida!   e depois viva, alegre!... parece muito mudada. Era de meter medo!... Hoje não   é a mesma... ainda assim... não lhe digo nada...

 

- É chic. Agora,   fora de caçoada, não se ponha a brincar com o fogo inutilmente!   A Simões é seria; você deve evitar a convivência,   visto não querer casar. Conheço bem a nossa sociedade... isto   está feio...

 

- Que mania!

 

- Tome sentido!

 

- Que diabo! Ernestina   é uma viúva, não é mulher que se deixe iludir...   Será capaz até de me iludir a mim!

 

- Qual! E quer saber   uma coisa? Em todo este desmando em que vivemos, eu não culpo as mulheres,   culpo os homens. Elas são boas.

 

- Ora essa!

 

- Se você quer   a Simões, case-se com ela.

 

- Isso não.

 

- Então não   volte a Santa Tereza.

 

- Eu tenho muita prática...   conheço bem as mulheres!...

 

- Pode enganar-se uma   vez. Você agora está em Paris...

 

- Parisiense ou não,   a mulher é sempre a mesma!

 

- Pois sim! ouça   o meu conselho!

 

- Ora!

 

A noite tinha caído   completamente. Durante a travessia do cais da Glória, sentiram frio.   O Rosas falava sempre, Luciano mal o ouvia, com o pensamento afastado.

 

Atravessavam agora   a rua da Lapa.

 

Moças cheias   de fitinhas e de papelotes recostavam-se ao peitoral das janelas baixas; na   calçada os moleques assobiavam o Chegou, chegou, chegou, e os baleiros   roçavam pelas crianças, oferecendo-lhes balas. Ali não   podiam conversar, a calçada era estreita, muito atravancada; Luciano   caminhava atrás do Rosas, reparando para os tipos, admirado de ver tão   poucas pretas. Uma ou outra mulata cruzava-se de vez em quando no caminho, carregada   de essências e de laços, muito espartilhada, exagerando a moda   do vestido e do penteado. Onde se teriam metido os pretos do ganho, os minas,   de cara retalhada, rodilha na cabeça, cesto na mão? E o fervilhamento   de crioulas na rua, de vestido de riscado e manga curta, mais a quantidade de   formosas baianas, muito limpas, como seu belo traje flamante, a camisa de renda,   o turbante airoso, o pescoço e os braços cheios de contas de vidro   e de corais, a manta riscada, a tiracolo, a sala muito franzida rebolando aos   movimentos dos sólidos quadris carnudos, e as chinelinhas tac-que-tac   nas calçadas?

 

E os chins de trança   longa, roupa de algodão grosso, vara no ombro gigos pendentes, percorrendo   as ruas num passo apressado e ferindo o ar com a sua voz achatada - camalon    - péce!? E os crioulos que vendiam calçado em caixas envidraçadas,   apregoando, numa melopéia grave e prolongada - Sapato! E as gôndolas,   diligências desengonçadas, suspensas sobre as suas quatro rodas   altas, rodando aos solavancos sobre os paralelepípedos, num fracasso   tremendo? E os meninos vendedores de cana, entoando musicalmente:

 

- Vai cana, sinhá,   vai cana sinhá, vai cana sinhá, bem doce!? E os carregadores de   pianos, empunhando o caracaxá tradicional, que vinha desde longe num   rumor inconfundível?

 

Que vento dispersara   aquela gente? para que país teriam fugido todos aqueles tipos a que se   habituara na infância? Agora só via caras estrangeiradas, muitos   italianos, turcos imundos, quase toda a gente branca, muito luxo, muitas equipagens,   cavalos de raça guiados por titulares, com lacaios e grooms ingleses,   muitas toilettes vistosas, muitos brilhantes e uma variedade infinita da cores   nas bandejas de balas e nas cabeças das burguezinhas pobres, cheias de   papelotes!

 

De dia para dia as   coisas mudam de aspecto e muda a observação dos olhos que as vêem.   Luciano sentia saudades da sua maneira dever e de sentir de outrora! Então   as impressões ficavam-lhe sem que o espírito as analisasse, agora   submetia tudo a crítica e a comparação estúpida   e fatigante, sem conseguir fixar bem no espírito o caráter especial   do lugar e do povo por que passava.

 

Tinham chegado ao largo   da Lapa e encaminharam-se para o passeio. O Rosas retomou o fio da conversa;   para ele era ponto de fé: a felicidade no lar era prejudicada pelo marido.

 

- Somos uns viciosos   acrescentava ele - pensamos em duas coisas - roleta e mulheres; ainda no Rio   não é nada, mas nas províncias? Nós damos às   nossas esposas o luxo que podemos, mas não as associamos aos nossos empreendimentos,   não as fazemos entrar em nosso espírito. Compreende você?   São objetos de luxo e de comodidade... também percebendo isto   mesmo, algumas delas, desde que não nos faltem botões na roupa   branca e o almoço à hora certa, não têm muito escrúpulo   em nos retribuírem as mentiras que lhes pregamos.

 

- Homem! Você   é um original! Se outro o dissesse...

 

- Isto não quer   dizer que a maioria das famílias aqui não sejam honestíssimas!

 

- Honestidade é   palavra que se não usa em países civilizados...

 

O Rosas não   respondeu; seguiram pela alameda da esquerda até o terraço, fugindo   ao povo que se aproximava do restaurant, à espera da música.

 

E foi então   à luz das estrelas que tremulava lá em cima entre flocos de nuvens,   e ao olhar das ondas cá em baixo, que um desfiar do anedotas, de parte   a parte, os obrigava muitas vezes a parar e a torcerem-se de riso.

 

Uma hora depois despediram-se.   O Rosas ia para um voltarete com amigos e Luciano para o teatro.

 

  

 

O caráter de   Ernestina ia-se transformando rapidamente. Depois da visita de Luciano, ela   passou uns dias muito sombria e ríspida, indignada consigo mesma contra   as idéias que lhe iam nascendo como rebentões novos em tronco   maduro, diversas em tudo das antigas, que se despegavam como folhas secas...   Enraivecia-a a lembrança da sua fraqueza e condescendência, deixando   Luciano recordar coisas perigosas... Ah! se pudesse voltar atrás recomeçar   todo o tempo da visita, como se faria impassível, serena e austera!

 

As coisas agora eram   bem outras! Ainda há pouco tempo ela não saía de casa e   impunha à filha, rigorosamente, todos os preceitos e tristezas do luto.   Eram então baldados os convites da Georgina Tavares, que morava ao lado   e que não faltava com os pais a instâncias e oferecimentos. Nada!   Sara tinha muitas vezes desejo de ir a uma ou outra soirée, mas respondia   gaguejando que não, à espera que a mãe consentisse.

 

Ernestina conservava-se   muda e Georgina retirava-se desapontada e triste. No dia seguinte esta corria   logo cedo a vazar nos ouvidos da amiga as suas impressões do baile ou   do teatro, e era então um chilrear de risadinhas sufocadas e de exclamações   por coisas apenas entrevistas por uma nas descrições muito falhadas   e entrecortadas da outra.

 

Sara perguntava pelas   toilettes mais lindas do baile e Georgina explicava-as com uma minúcia   surpreendente. Assim o enredo dos dramas. Que de lágrimas rebentavam   dos olhos de ambas e que desfolhar de risos tinham os seus lábios de   meninas, quando Georgina transladava para aquele sereno canto do jardim os gritos   de agonia ou as frases jocosas que ouvira no palco!

 

E era só:

 

- Meu Deus! Você   não imagina! Que coisa bonita!

 

- Conte o resto! suplicava   Sara com olhar ávido e ouvidos bem abertos.

 

E as cenas atropelavam-se.

 

Georgina ia e vinha   muito ligeira, esquecia minúcias que ligavam o entrecho, voltava atrás,   parava de repente para um detalhe, descrevia os vestidos das atrizes e atrapalhava-se   a miúdo embrulhando cenas ou repetindo frases.

 

Às vezes, num   ou noutro ponto, confessava: aqui não entendi bem! e, outras vezes então,   a sua imaginação colaborava em grande escala com o autor da peça,   descrita e ampliada.

 

Sara impacientava-se,   tirava por conclusões, farrapo a farrapo, o drama inteiro! Como deveria   ser lindo!

 

Na manhã seguinte   a uma récita do Lírico, Georgina ia mais cedo para a casa da amiga,   havia mais que contar. Em primeiro lugar, descarnava-se o libreto, depois o   cenário. Georgina movia o seu corpo leve e delgado, explicando com muitos   gestos:

 

- A cena representava   o mar, ao fundo; à esquerda uma igreja com torres, sino e tudo. Aqui,   e apontava para um canteiro de jurujubas, havia uns degraus, ali (outro canteiro)   uma casa grande com um portão em arco; à direita as ruas. Quando   a Theodorini entra, com um grande véu branco pelo rosto e o vestido de   noiva a rastos, a gente sente una calafrio - que não pode explicar.

 

Podia; Sara encolhia   os ombros, imitando insensivelmente o movimento da outra.

 

- Que pena que você   não ouça a Theodorini!

 

- E a música?

 

- Ah!... Georgina levantava   embevecida os olhos ao céu. Sara suspirava, lamentando não ter   ouvido e visto tudo aquilo.

 

Passava depois à   descrição dos espectadores.

 

- Estavam muitos conhecidos?

 

- Alguns. O Breves   foi falar conosco num intervalo; perguntou por você...

 

O Breves era sempre   o primeiro mencionado por ela, por fazer a corte a Sara.

 

- Que me importa o   Breves! E o Raul?

 

O Raul fazia a corte   a Georgina.

 

- Estava também.

 

- Olhou muito p'ra   você?

 

- Olhou... Eu fingi   que não o via... por causa da mamãe...

 

Seguia depois a relação   dos camarotes. As Mendes; duas de azul, duas de cor de rosa; já um pouco   amarrotadas pelos anos, mas, com o muito pó d'arroz e alguns brilhantes,   ainda faziam vista...

 

O pai, em pé,   atrás delas com as barbicas brancas espetadas e a sua eterna posição   de braços cruzados, parecia um lacaio...

 

- A Helena Gomes estava?

 

- Muito chic! Toda   de branco, com pérolas no pescoço e violetas na cintura... o marido,   que tolo! Deixava de olhar para ela para se derreter para a prima, que é   uma lesma!

 

- Que prima?

 

- Para a D. Catarina!

 

- Ah! Aquela a quem   você me apresentou no hotel da Boa Vista?!

 

- Essa mesma! Está   seca e com umas olheiras que lhe comem a cara! Horrível!

 

- A Helena vinga-se...

 

- Isso é verdade!...   lá estava o Seixas no mesmo camarote....

 

- Assim mesmo têm   sido fiéis...

 

Riam-se. Comentavam   tudo. O focinhozinho inteligente de Georgina farejava todo o teatro, descortinava   sorrisos que partiam de uns para outros, leves e sutis como o voar de arminhos   soltos. A ingenuidade dos quinze anos era uma história nessa criatura   freqüentadora da sociedade em que todos os vícios se expõem   tanto à luz. Curiosidade e perspicácia, sim, tinha de sobra, e   quando comentava erros alheios punia sempre os delinqüentes, afirmando:

 

- Quando eu me casar   não hei de incorrer na mais pequena falta!

 

Partiam quase sempre   dessa frase no batel de ouro do futuro, a fazer e desfazer sonhos, até   que se separavam com dois beijos.

 

Antes disso ainda num   lamento por não ter visto o mesmo que Georgina, Sara suspirava:

 

- Se papai fosse vivo!

 

Era o ponto final.

 

Ernestina, que fora   sempre inflexível às solicitações da filha para   saídas e divertimentos, mudara completamente de parecer depois da visita   de Luciano.

 

Agora, ela não   sabia mesmo por que, sentia necessidade de andar, divertir-se, num ambiente   diverso do seu.

 

Pouco a pouco, com   a tardança que Luciano punha em fazer-lhe a segunda visita, esse desejo   aumentou, caracterizando-se nela vontade que tinha de o encontrar na rua, num   jardim numa sala, em qualquer parte, como obra do acaso.

 

Ernestina lembrou à   filha toilettes novas, como pretexto para descer à cidade.

 

Era a sua primeira   tentativa. Sara exultou. Estavam ao almoço; comeram com apetite, conversando   numa camaradagem risonha. Bonito sol... dia fresco. Belo passeio! Logo ali fizeram   uma lista de coisas precisas.

 

Ernestina disse à   filha que se não vestisse antes das duas horas, e dirigiu-se para o seu   quarto. O diabinho da Simplícia é que sabia bem o lugar de todas   as coisas, e veio pressurosa ajudar a ama, observando-a de esguelha, como se   lhe estudasse os movimentos. Começou a dispor das roupas para a saída,   com o maior esmero. Os crepes do luto passavam do guarda-vestidos para cima   da cama, onde Ernestina os examinava com cuidado.

 

A Simplícia   ia e vinha, sumindo as mãos magras nas gavetas, retirando as roupas brancas   e os fichus, lenços e meias de seda. De vez em quando, num giro rápido,   ocultava no seio, sutilmente, um rolo de fitas, sem que a viúva desse   por tal, mas vinha logo estender na cama o leque, as luvas, o véu, a   saia de seda, até o chapéu de sol, que ela escovava com minúcia.   Tudo pronto, Ernestina mandou-a sair mas a rapariga achou jeito de se chegar   para o guarda-vestidos, ainda escancarado, e de exclamar com modo lisonjeiro:

 

- Iaiá é   a moça de mais gosto que há em Santa Tereza!... É preciso   Iaiá se casar outra veiz para usá seus vestidos claros... Hi!   Iaiá fica bonita com roupa clara!

 

Ernestina corou; e   vendo os olhinhos da mulata fixos nela, disse com aspereza:

 

- Vai-te embora.

 

A Simplícia   saiu e a moça fechou-se por dentro. Foi então para outro quarto   contíguo, onde estava o toucador. Sentou-se em frente ao espelho e ensaiou   penteados novos pacientemente, a ver se algum lhe ficaria melhor que o habitual;   venceu por fim o costumado; o cabelo parecia ir tombando sozinho, nas ondulações   naturais. A viúva curvou-se, observou de perto os dentes, perfumou-se   muito, sorrindo para o espelho, achando bonito o seu rosto oval, onde as pestanas   faziam sombra.

 

Em frente dela, sobre   o mármore, o perfumista Guerlin parecia ter despejado, profusamente,   os seus mais finos produtos. Potes de porcelana, vasos de cristal, bocetas de   veloutine exalavam um aroma confuso, forte, entontecedor.

 

Sozinha naquele quarto   em que a sua imagem se duplicava, Ernestina estudava os seus movimentos procurando   ao mesmo tempo adivinhar qual seria, entre tantos, o perfume preferido de Luciano.

 

O musgo?... Quem sabe?   Talvez... fazia lembrar o campo... água limpa rolando em pedras claras,   camponesas contentes, de carnes fortes.

 

O lírio? Quem   sabe?... Talvez... fazia sonhar em idílios brandos e amores virginais.   A flor de fruta? O jicky? O heliotropo? A violeta?... Quem pudesse adivinhar!   Ernestina abria os diversos frascos, consecutivamente. Chegava-os bem perto,   as narinas palpitantes; mas no fundo de todos eles encontrava o mesmo mistério,   a mesma vertigem, a mesma dúvida!

 

Isso exacerbava a voluptuosidade   da moça, irritando-a no mesmo tempo. Desmanchava com mãos nervosas,   na água simples, as nuvens opalinas das essências e quedava-se   depois observando os seus ombros delicados e nus, os seus formosos braços   e a maciez do seu colo airoso.

 

Vestia-se devagar,   demoradamente. A lã preta do luto repugnou-lhe; aquele trajo áspero   e triste não era o que o seu corpo desejava. A pele bem tratada queria   seda, um contato macio que caísse sobre ela como uma caricia...

 

Abriu a gaveta das   jóias, apalpou os anéis de brilhantes e de pérolas, as   pulseiras e o seu alfinete predileto, um botão de rubi e brilhantes.   Mas sobre a lã do vestido as jóias iam mal, e o mundo impedia-lhe   o prazer de as trazer com o luto.

 

Toda de preto parecia   mais magra e menos bonita. Exasperou-se. Achou o vestido medonho, o chapéu   detestável!

 

Durante mais de uma   hora foi um incessante abrir e fechar de gavetas, até que a voz de Sara   se fez ouvir através da porta.

 

- Mamãe? Está   pronta? São duas horas!...

 

- Já vou...

 

- Sim... eu estou pronta...   a senhora quer lunch ?

 

- Não!

 

- É melhor irmos   ao Paschoal, não é?

 

- É sim, vai   descendo... eu já vou.

 

Sara descia o jardim   quando sentiu os passos apressados da mãe. Ernestina impacientara-se   com a espera do bonde para o elevador, e embaixo, com o outro que a levasse   a S. Francisco. Falava em comprar carro, mudar mesmo de bairro, ir para Laranjeiras.   Sara estranhava aquilo, fazendo objeções. Concordava com a aquisição   do carro, mas opunha-se à troca de casa; aquela em que viviam estava   cheia de recordações do pai: o escritório, sua varanda   predileta... os cantos preferidos no terraço, na sala de jantar... até   as plantas fora, árvores e roseiras cultivadas por ele! Suplicava que   não falasse nisso.

 

Chegadas à cidade   Ernestina procurava em não esconder o seu alvoroço. Sara fê-la   entrar na Notre Dame, encantada pela exposição das vitrines. A   mãe deixava-a perto do balcão, sozinha e dirigia--se amiudadamente   à porta, numa ansiedade febril.

 

A moça reclamava:

 

- Mamãe! Escolha;   qual é mais bonito, este corte cinzento ou aquele branco e preto?

 

- O azul.

 

- O azul!

 

- Sim, o azul é   o mais bonito, respondeu a mãe apressada quase sem olhar.

 

- E o luto?

 

Ernestina atrapalhou-se,   já nem lhe ocorria o luto. E num disfarce:

 

- Quero dizer - podes   também comprar o azul, para fazer depois.

 

- Não passará   da moda?!

 

- Eu sei lá!...

 

- Mamãe, acha   que o azul me vai bem?

 

- Muito bem.

 

Cansada de pedir conselhos   à mãe, Sara passava sozinha do rayon das lãs para os das   sedas, das capas, dos chapéus, das rendas, de tudo!

 

Comprava aqui, ali,   acolá, meio tonta, magnetizada por tantas coisas brilhantes e bem dispostas.

 

A travessia daquela   casa ia-lhe povoando a imaginação de sonhos.

 

As escomilhas, as gazes,   as tules transparentes, as sedas muito claras, de tecidos mimosos lembravam-lhe   bailes, acendiam-lhe desejos de valsas, cortadas por frases curtas ao som ritmado   da música. As sedas pretas, os livros de missa, as grandes franjas do   vidrilho, chamavam-na de repente a festas de igreja, muito solenes, onde o bispo   abençoasse o povo... Dali saltava para o ménage; as toalhas de   linho adamascadas com barras vermelhas, ouro velho e azul persa, sorriam-lhe,   chamando-a para a sua alegre sala de jantar, cheirando as belas rosas - marechal   Niel, que se enroscavam às janelas. E ela apalpava pelúcias cor   de fogo e rendas cor de opala, pensava em toilettes de teatro, de baile, de   recepção, de passeio, vendo as fitas desenroscarem-se dentre as   mãos de um caixeiro, como serpentes multicores e tentadoras, e contemplando   os grandes leques de plumas, que uma moça escolhia perto do balcão.

 

Queria comprar tudo;   encontrava uma aplicação imediata para cada objeto. A moda sorria-lhe,   chamava-a para fora daquele luto, daquela vida austera, concentrada e simples   do seu chalet. Invejava as mulheres que freqüentam a sociedade arrastando   capas de arminhos em corredores de teatros e caudas de veludo nos salões   de baile.

 

Na ocasião do   pagamento, Sara correu a mãe, que não saíra da porta. Ernestina   entregou-lhe a carteira, que fosse sozinha à caixa, ela esperaria ali.

 

Um instante depois   desciam a par a rua do Ouvidor.

 

Havia muita gente nas   calçadas, um rumor surdo de passos e de vozes que as atordoava; tinham-se   afeito ao silêncio da sua chácara. Sara entrou num armarinho, Ernestina   acompanhou-a até o interior da casa, mas voltou depressa para fora com   um sobressalto. Parecia-lhe ouvir a voz de Luciano. Fora erro: era um sujeito   que discutia com um velhote surdo, gesticulando muito.

 

De pé, na soleira   da porta, a viúva olhava para a multidão que passava, esperando,   a todos os minutos, o Luciano... Pela lã mole do seu vestido preto roçavam   as saias de seda e as saias de chita das outras mulheres que passeavam devagar   ou que passavam apenas, na pressa dos que trabalham.

 

Na esquina, perto,   estacionavam os vendedores de flores; os seus ramos de cravos e violetas embalsamavam   o ar; e era um encanto ver a variedade de rosas finas, brancas, amarelas, escarlates,   cor de rosa, e os raminhos de miosótis, de um azul delicado, dormindo   na concha verde e macia de uma folha de malva, mais as formosas camélias   da Petrópolis de uma alvura puríssima...

 

No meio da rua, um   homenzinho cor de folha seca atraía a criançada segurando pelos   fios os alegres balões de gás, vermelhos e azuis, muito leves,   que bailavam sobre a onda movediça dos chapéus escuros.

 

Mas que importava à   viúva Simões aquela variedade de matizes, aquela doçura   de sons, aquela onda de perfumes, de toilletes, e de mulheres bonitas que se   alastrava por ali? Tinha só um objetivo: vê-lo.

 

Uma cigana imunda,   com o filho ao colo e o xale em farrapos, esteve longo tempo parada diante dela,   com a mão estendida, murmurando queixumes. Ernestina, com a cabeça   erguida e o olhar em busca de Luciano entre grupos e grupos de homens que se   sucediam, nem a viu nem ouviu, e a mendiga, desanimada, passou adiante.

 

Uma pancada de leque   num ombro chamou-a a realidade. Era D. Candinha, a mulher do Nunes.

 

- Que milagre é   esse?! Você na cidade!

 

- Ah! É verdade...

 

- Onde está   Sara? Bem se vê que você não vem à rua do Ouvidor   há muito tempo!

 

- Por quê?!

 

- Está com ar   esquisito... tem alguma coisa?

 

- Não... Sara!...

 

- Estou aqui, mamãe.

 

Foi um alívio   para a viúva. Sara desatou a conversar com D. Candinha e Ernestina deixou-se   silenciosa, à vontade.

 

D. Candinha era uma   boa companheira de passeio, desembaraçada, risonha e conhecendo meio   mundo, o que encantava Sara, ávida por divertimentos e sociabilidade.   A mulher do Nunes era alta, gorda, morena, beiço ensombrado por um buço,   ameaçador de se tornar em bigode lá para a velhice, bonita de   feições, com dentes magníficos e olhos rasgados, úmidos   e espertos. Gostava muito de reunir em casa os amigos em soirées que   se prolongavam até as primeiras horas do dia. Vestia com luxo, embora   sem gosto, sedas com ramos, tecidos vistosos que lhe iam mal. Usava muitas jóias   e falava alto, abrindo os braços para cada amiga, e a bolsa para cada   pobre.

 

- Viram passar por   aqui o meu velho? perguntou às Simões.

 

- Não...

 

D. Candinha adorava   o marido, negociante português, homem generoso, que lhe fazia todas as   vontades e ainda pagava colégio de luxo às cunhadas e casa a duas   tias velhas, irmãs do sogro.

 

Estiveram conversando   algum tempo, até que Ernestina, muito impaciente, arrastou a filha consigo.

 

De longe em longe alguns   conhecidos faziam-nas parar, manifestando espanto por encontrá-las na   cidade, tão raro isso era. Sara ria-se, Ernestina respondia, seguindo   com o olhar a turba que passava. Em uma dessas ocasiões conversavam com   um velho, amigo do finado Simões quando Ernestina julgou ver Luciano   ao longe.

 

Foi uma lástima!   o velho falava-lhe sem que ela percebesse nada e apressou-se em despedir-se,   cortando uma frase que o pobre homem começava a dizer. Estranhando os   movimentos da moça, ele não se pôde coibir e perguntou:

 

- Procura alguém?

 

- Não!... respondeu   Ernestina embaraçada; há muito tempo que não saio e esta   bulha incomoda-me. Vou para casa.

 

Entretanto, seguiu   caminho oposto e até as 6 horas subiu e desceu a rua do Ouvidor, deixando   Sara comprar o que lhe aprouvesse, sem a mínima intervenção,   num verdadeiro suplício.

 

  

 

-Çá va   bien monsiu Auguste? perguntava a Simplícia ao copeiro, na cozinha, esganiçando-se   e rindo para ele, que mal lhe respondia, com um sorriso desdenhoso.

 

- Diabo de negrinha   assanhada! murmurava Benedita, remexendo as panelas.

 

- Ora veja só!   Aquela treze de maio!.. Eu não sou negrinha sou moça morena, ouviu?

 

- Quem lhe ensinou   francês?! perguntou o jardineiro a mulata, interrompendo o café   que bebia pelo pires.

 

- Mamãe.

 

A Benedita riu-se alegremente,   fartamente.

 

Simplícia na   ausência de Ernestina chamava-a mamãe.

 

Ora veja se nhanhã   ia-se cansá de ensinar franceis à negrinha! Seu João! Ela   só sabe dizê aquilo!...

 

- Sei mais coisas!...
  - Então converse com seu Augusto, prá gente vê...

 

O copeiro levou os   talheres para a sala do jantar, sem querer dar confiança à pequena.

 

- Toma! gritou-lhe   a Benedita; e estalou a língua depois de ter provado o feijão.

 

Simplícia acrescentou,   espalmando no ar a mão curta e magra: - Deixe está, que ele me   paga; inda há de gostá mais di mim do que eu gosto dele. Depois   tirou do peito um lencinho da ama, muito perfumado, e começou a dançar,   cantando alto: xó-xó-xó-araúna, para que o copeiro   a ouvisse, sacudindo o lenço sobre a cabeça, hirsuta e cheia de   terra, do hortelão.

 

- Sapeca! murmurou   a Benedita com desprezo.

 

A dança continuou   requebrada e lenta, até que ouviram a voz de Ernestina zangada por não   encontrar ainda a mesa posta.

 

Calaram-se todos; caiu   a casa no costumado e respeitoso silêncio.

 

A viúva voltara   enfadada e nervosa; saíra à procura de Luciano e não o   tinha encontrado. Onde estaria? Por que o amava assim?! Como podia um amor há   tanto tempo extinto renascer com tamanha veemência ? Arrependia-se   de ter saído; não queria pensar nele, nem amar ninguém.   Aquilo era uma loucura que havia de passar. Desejava somente vê-lo mais   uma vez, só uma vez... depois afastá-lo-ia da idéia. Ela   não se pertencia, era da filha; tudo que havia ali devia ser da filha...   tinha sido ganho pelo pai, com esforço, por amor dela...

 

Logo depois do jantar,   Ernestina recolheu-se ao quarto, muito fatigada e nervosa. Parecia-lhe um sonho   aquilo! Principiava a considerar ignominioso todo o tempo que vivera ao lado   do marido, na pacatez burguesa e honesta do seu lar. Lembrando-se dos beijos   que o esposo lhe dera, esfregava com força os lábios e as faces,   como se os sentisse ainda e os quisesse arrancar da pele. Chegou a lamentar   o nascimento da filha, mas desse sentimento arrependeu-se depressa; adorava   Sara, e queria-a sempre bem pertinho de si, conquanto desse razão a Luciano;   afinal, o ciúme dele lisonjeava-a... Se Luciano aborrecia Sara era porque   a amava, a ela, e a pequena era a recordação viva e inextinguível   do pai...

 

Andou pelo quarto,   febrilmente, até o anoitecer.

 

Volta e meia esbarrava   com algum objeto que pertencera ao marido e desviava o olhar, indignada de o   ver ainda ali, na intimidade do seu quarto. Ernestina encostou-se por fim à   janela: a tarde morria rapidamente; toda a terra   lhe parecia escura, de uma tristeza singular: o mar, ao longe, como que um deserto   de cinza; as casas, túmulos dispersos; as árvores, sombras negras   e mudas!

 

Ernestina sentia as   lágrimas queimarem-lhe as pálpebras, o coração grosso   pesando-lhe no peito, e uma raiva crescente de tudo, de todos! Ficou por muito   tempo olhando, até que as luzes de gás bordaram toda a cidade   de pontos luminosos. Num canto, um foco de luz clara enluarava um grande círculo   em um nimbo indistinto, e a viúva, aconchegando os braços ao corpo   friorento, olhava para a luz, fixa, abstratamente.

 

Eram sete horas quando   desceu ao jardim à procura da filha. Encontrou-a trepada numa escada   de mão, debruçada no muro, conversando para o quintal vizinho,   com a sua amiga Georgina.

 

Desta vez era Sara   quem descrevia as suas impressões, narrando episódios vulgares   do passeio e relatando o número de pessoas conhecidas, com que se tinha   encontrado.

 

Ernestina zangou-se,   desabafando contra a filha toda a sua cólera.

 

- Que é isso!   Estás aqui com este frio?! Eu depois que te ature se ficares doente!   Vamos; para dentro, anda!

 

- Já vou, mamãe...   adeus Gina!

 

- Então! Que   modos são esses?

 

- Já estou descendo,   mamãe!

 

- Vamos, vamos!

 

- Eu ainda hoje não   tinha visto Gina...

 

- Nem há necessidade   de se verem todos os dias! Estou farta de tolices!

 

A voz de Ernestina   tornara-se brusca, imperativa.

 

Entraram ambas.

 

- Mamãezinha   está zangada? perguntou Sara com doçura, abraçando a mãe.

 

Ernestina arrependeu-se   e, envergonhada da sua aspereza, beijou a filha, dizendo-lhe com brandura:

 

- Vai tocar.

 

- Tocar?! E o luto?

 

O luto! O eterno luto?   Era sempre a resposta! Passaram um serão melancólico. Às   18 horas recolheram-se aos quartos.

 

Ernestina não   pôde dormir; a cama fazia-lhe mal; atormentava-a a idéia das noites   que dormira ali, com o Simões.

 

Quinze dias depois   Luciano fez-lhe a segunda visita. A viúva lamentou-se da sua ausência   e indagou dos lugares que ele mais freqüentava.

 

Ele, muito calculadamente,   mostrava-se frio, disse ter estado fora, na fazenda de um amigo, e a visita   corre, às vezes silenciosa e sempre constrangida.

 

Quando Luciano saiu,   Ernestina fechou-se no quarto, a chorar.

 

No dia seguinte, Sara,   ao almoço, notou a falta da aliança no dedo da mãe.

 

- Há já   muitos dias que ando sem ela, objetou Ernestina, perdi-a.

 

Sara mandou imediatamente   a Simplícia procurar o anel. A mulata encontrava tudo, parecia ter o   dom especial de adivinhar as coisas, o que fazia dizer à Benedita:

 

- Simplícia   acha tudo que se some porque é ela mesma que esconde tudo que se pode   sumir!

 

O anel não fora   escondido por ela, entretanto achara-o rapidamente, embaixo de um dunkerque   da sala. Aquilo acabou de contrariar Ernestina. Alegou que a aliança   estava muito larga; o frio contraíra-lhe a carne...

 

Ela já não   procurava lutar contra o seu amor; a resistência tinha-a martirizado inutilmente.

 

Passava os dias a pensar   nele, nuns idílios de menina de quinze anos. Os criados já não   sofriam a mesma fiscalização severa. Os armários ficavam   abertos, a chave da dispensa nas mãos da Benedita, para regalo da Simplícia,   que apreciava os seus copinhos de licor de cacau...

 

Uma noite em que a   saudade e o desejo de ver Luciano apertaram, foram ao teatro.

 

Sara estava contentíssima,   mas a mãe arrependeu-se depressa. Levavam uma peça grosseira,   que a platéia aplaudia muito. Luciano não aparecia. A Simões   não tirava os olhos das portas da entrada, esperando sempre que ele viesse,   atraído pelo seu amor. Sentia febre e não prestava atenção   ao que se passava em cena. As gargalhadas e os aplausos atormentavam-na. À   saída, quando já nada esperava, teve uma surpresa: Luciano conversava   num grupo de rapazes, perto do teatro. Ele destacando-se da roda, foi cumprimentá-la.

 

- Vieram de carro,   não? Perguntou, procurando em redor com a vista.

 

- Não... viemos   de bonde...

 

- Sozinhas?! E mostrou   espanto.

 

Ernestina ficou embaraçada.

 

- Que tem isso? objetou   Sara, o luar está tão lindo que até convida a irmos a pé   até o ascensor!

 

- Sim... mas não   é prudente arriscarem-se duas senhoras moças a andar por estas   horas na rua, sem um cavalheiro.

 

Luciano acompanhou-as;   ia ao lado da viúva censurando-a pela mal escolha do teatro e por virem   ambas tão sós. Achou-a linda nessa noite.

 

Ela calava-se, sem   confessar que todas aquelas loucuras as fazia por ele, mesmo com prejuízo   da filha! Passadas as ruas de maior movimento, ele deu-lhe o braço e   curvou-se meigo para ela.

 

- Lembra-se de uma   noite de luar como esta, em que andamos de braço pela chácara   do tio Gustavo?

 

- Se me lembro!...   Dias depois foi o senhor para a Europa...

 

- E um ano depois recebi   a notícia do seu casamento...

 

A evocação   do tempo passado tornou a envolvê-los na mesma familiaridade da primeira   visita. Sara andava na frente, cantarolando baixo os couplets que ouvira; eles   iam muito juntos, apertando-se as mãos e falando de amor.

 

  

 

No dia seguinte Luciano   foi jantar a Santa Tereza; encontrou as duas senhoras na saleta do piano; a   viúva fazia um bordado de tapeçaria, a filha renovava as flores   de um jarrão.

 

Ele sentou-se entre   ambas, votando toda a sua atenção para a dona da casa, a quem   ofereceu um pacote de marrons-glacés, enfeitado de fitinhas azuis. A   viúva desamarrou o embrulho com toda a delicadeza, mostrando as unhas,   que brilhvam como coral polido. Entretanto Sara, com o pescoço esticado,   ia dizendo:

 

- Eu gosto muito de   doces... saí a papai! Como ele apreciava marrons-glacés! Lembra-se,   mamãe, aquela vez que fomos todos ao Jardim Botânico? só   nós dois acabamos com um pacote de marrons do tamanho desse? Mamãe   só dizia: "Sara! Que é isso?! Basta!" e papai então,   santo que ele era! respondia-lhe "Ora, meu amor deixa a pequena! se ela   come, é porque tem vontade!"

 

- Papai muitas vezes   chamava mamãe assim: Meu amor!

 

Luciano mordeu o bigode,   enquanto a viúva, muito corada, disfarçava, perguntando-lhe se   não achava de bom gosto o seu bordado.

 

E erguia a talagarça,   já meio encoberta pelas sedas e as lãs.

 

Querendo desviar da   memória da filha a lembrança do pai, ela começou a falar   com volubilidade em coisas diferentes, saltando de assunto, como a escolher   terreno.

 

Como por fim a conversa   recaísse sobre coisas de arte, Luciano pediu-lhes que marcassem um dia   para irem ver o seu pequeno museu.

 

Ele trouxera da Europa   algumas coisas valiosas e citava entre elas um busto de garoto que figurara   no Salon.

 

- Está dito!   exclamou Sara alegremente, iremos amanhã!

 

- Amanhã; não...   objetou Luciano quase sem olhar para a moça. Tenho ainda alguns preparativos   a fazer. Ainda não achei um tapete a meu gosto para a biblioteca.

 

- Ah! O senhor tem   uma biblioteca? tornou Sara.

 

E depois de uma pequena   pausa:

 

- Aí está   uma coisa que eu ainda não vi em casas particulares... Se papai fosse   vivo eu também teria uma biblioteca! Ele dizia sempre que havia de me   dar ma bonita educação. Não é verdade, mamãe?

 

- É sim... é...

 

Luciano rufava com   os dedos na mesa, sem ocultar o seu enfado.

 

- Ah! se o senhor conhecesse   papai, havia de gostar muito dele!

 

Luciano sorriu; Sara   continuou:

 

- Todos o estimavam!   Só uma pessoa lhe tinha raiva... Inveja! Também eu odeio-a!

 

Sem pronunciar o nome,   compreenderam todos que aludia ao Rosas.

 

- Papai era tão   meigo! Tão condescendente! Dava-me sempre um beijo em cada face e outro   na boca. E à mamãe também.

 

Luciano levantou-se   e Ernestina, muito corada, disse, precipitando as palavras:

 

- Então, Sara!   que termos são esses? Vai espairecer as saudades de teu pai com a Gina,   anda! É melhor isso do que estar constantemente a relembrar coisas passadas!

 

Os olhos de Sara encheram-se   de lágrimas; mas para que Luciano não a visse chorar, saiu precipitadamente   da sala.

 

Ernestina ficou silenciosa,   com as mãos trêmulas, a vista pasmada nas cores vistosas do bordado.

 

- Decididamente, eu   não posso tolerar a presença desta menina! exclamou Luciano num   desabafo.

 

- Oh!...

 

- Sou brutal? Desculpe,   mas sou sincero.

 

- Ela é uma   criança... ignora que...

 

- Uma criança!

 

- Então?

 

- Mas diga-me: que   significação tem aquilo de estar sempre, mas sempre, referindo-se   ao pai?!

 

- Amava-o muito.

 

- Embora, mas isso   parece ou não parece proposital?

 

- Não!...

 

- Não?! As mães   são cegas!

 

- Coitadinha, é   tão inocente, a minha Sara...

 

- Não sei; mas   confesso-lhe que só a sua vista me mortifica!

 

Ernestina levantou-se   pálida e trêmula de indignação.

 

- Não lhe posso   impor simpatia por minha filha, mas julgo estar no direito de ordenar que a   respeite... ou...

 

- Ou que me retire?

 

Ernestina calou-se,   sufocando na garganta os soluços.

 

- Pois não vê,   Ernestina, que se eu odeio a filha, é porque adoro a mãe?! Perdoe   as minhas palavras, são filhas do ciúme violento, tenaz, que se   apoderou de mim desde que vi Sara! Ela é a continuação   do pai, o beijo vivo, ardente, trocado pelas vossas bocas! E é essa idéia   que me martiriza e que me perde!

 

- É uma... insensatez...

 

- Chame como quiser.

 

Nessa tarde Ernestina   lembrou à filha que fosse passar parte da noite em casa da Gina.

 

- Mamãe vai?

 

- Eu não.

 

A filha admirou-se;   até então a mãe não a deixara nunca sair só!

 

O luar inundava a terra   coro a sua luz veludosa. Pelas portas de vidro, fechadas ao frio, via-se lá   embaixo a cidade, com umas luzes frouxas.

 

Sara tinha saído;   Ernestina e Luciano, sentados junto a uma janela da sala, conservaram-se por   instantes silenciosos, pensando talvez nos primeiros elas do seu amor, desabotoado   e esquecido em plena mocidade.

 

- Dizem os psicólogos   que duas criaturas que se amaram e que se esqueceram mutuamente não se   tornam a amar nunca mais!

 

- Bravo! Não   a imaginava tão letrada!... mas fique certa de que a psicologia é   uma palavra tão enganadora como outra qualquer... E depois, nós   nunca nos esquecemos, não e assim?

 

- Eu por mim... - Ernestina   não teve coragem de concluir A mentira não lhe saiu da garganta.   Luciano aproximou para bem perto da dela a sua cadeira, tomou a mão da   viúva e beijou-a demoradamente na palma, nos dedos, nas unhas.

 

- Que mãos bonitas!...    - Como eu adoro estas mãozinhas!... Ernestina sorriu; ele continuou a   falar amorosamente, e pediu-lhe que tirasse o luto. Queria vê-la de branco,   como uma noiva, e de cores claras e cantantes.

 

- É preciso   esperar...

 

- Dê-me esta   prova de amor, tire o luto!...

 

- É cedo...   tenho medo...

 

- Medo de quê?   De que os outros reparem?!

 

- Medo de...

 

- De quem?!

 

- De minha filha...

 

- Oh!

 

Ernestina corou, arrependida   de ter dito aquilo. Ficaram alguns segundos calados e imóveis; de repente   a moça, resvalando o olhar pelas paredes, pareceu-lhe distinguir o corpo   da Simplícia, mal oculto por um reposteiro; levantou-se de chofre e atravessou   a sala. Luciano seguia-lhe os movimentos com estranheza.

 

- Que tem? Que é   isso?!

 

Mas a viúva   chamava para dentro, afastando rapidamente o reposteiro; já não   havia nem a sombra da mulata. O Augusto apareceu e ela mandou iluminar a sala.

 

- Para quê? indagou   Luciano, o luar está tão bonito...

 

Entretanto, Ernestina   não cedeu e exigiu de Augusto que acendesse todos os bicos do lustre   e das arandelas...

 

Quando voltou para   o lado de Luciano, encontrou-o com a fisionomia áspera e pensativa. Ela   falou lhe em casamento. Não queria prolongar aquela situação.   Logo que expirasse o prazo do luto, poderiam unir-se para sempre.

 

Ele ouvia-a calado;   depois de um curto espaço de silêncio, perguntou se não   haveria algum pretendente a mão de Sara...

 

- Não... por   quê?!

 

- Seria melhor que   ela casasse primeiro... viveríamos sós, sem ouvir referências   a outro que me viessem estragar a felicidade!...

 

- Separar-me de minha   filha?!

 

- Não será   a primeira mãe a quem isso aconteça!

 

- Nunca!

 

- Não falemos   mais nisso, replicou Luciano com tristeza.

 

- Conservaram-se por   algum tempo afastados, mas as mãos uniram-se outra vez, os olhos procuraram-se   e ele beijou-a na fronte, na face, na boca.

 

Ernestina, meio oculta   pela cortina de renda preta, deixava-se abraçar amolecida, tonta, sem   forças para resistir; o busto vergado para Luciano, os braços   pendentes, o corpo trêmulo.

 

Nas paredes cinzentas   da sala, os arabescos de ouro cintilavam, como se os milhares de gafanhotos   que estampavam no papel suas asas agudas e as suas pernas finíssimas,   se embaralhassem numa dança endiabrada!

 

O gás a toda   força chamejava no cristal do espelho, amornando a atmosfera e fazendo   uma bulha de sopro surdo, como riso abafado!

 

Toda a energia da viúva   tinha fugido. A luz? Que lhe importava a luz?! Ela não via, não   pensava, resvalava sem pena nem cuidado, sentindo-se feliz, mais nada!

 

Subitamente ouviram   a voz de Sara, que se aproximava de casa, cantando alto.

 

- Vá-se embora,   Luciano!

 

- Mais um momento...

 

- Minha filha aí   vem!...

 

- Está ainda   em casa da Gina... a voz vem de lá...

 

- Não, vem do   jardim...

 

- Mais um beijo...   Afirmo-lhe que ela está em casa da Gina!

 

- E que esteja... é   tarde.

 

- É cedo...

 

Ele quis abraçá-la;   ela resistiu: reassumira toda a sua energia.

 

Luciano saiu, cruzando-se   com Sara já perto do terraço. A moça sorriu-se interrompendo   o canto, deu-lhe as boas-noites; ele resmungou umas palavras incompreensíveis   e mal tocou o chapéu.

 

- Então não   me diz adeus?! perguntou Sara atônita, voltando-se para trás, para   o vulto de Luciano, que fugia na sombra.

 

Ele não respondeu.

 

- Bruto! murmurou a   moça ofendida. Por que não falaria comigo?! Ora por qualquer coisa!   Que me importa!

 

Ernestina tinha ficado   só. A filha calara-se; a casa parecia adormecida. Batia-lhe o coração   e o sangue abrasava-lhe as faces. Precisava de ar; abriu a janela e encostou-se;   respirou com força, sentindo-se feliz por ter vencido. Ser amante de   Luciano? Nunca. Esposa, sim. À proporção que os seus sentidos   se acalmavam, ela pensava na implacável exigência de Luciano, de   a separar da filha...

 

Encostada ao umbral,   deixou que a sua alma fraca de mulher interrogasse as coisas mudas! Que lhe   destinaria o futuro? Nada lhe respondia. Foi em vão que meditou, cravando   o olhar interrogativo na grande esfinge que desenhava além, na noite   enluarada, o seu enorme corpo vigilante e altivo!

 

Voltou para dentro   muito nervosa e agitada. Ao atravessar a sala, teve medo.

 

Da sua grande tela   sombria, o marido parecia acompanhá-la com a vista.

 

Ernestina sentiu vergarem-se-lhe   os joelhos e tateou com mão trêmula o fecho da porta por onde saiu.

 

Nessa noite não   pôde conciliar o sono. No quarto tudo lhe falava do marido.

 

A cama parecia-lhe   guardar o calor do seu corpo; os lençóis o as fronhas eram marcados   com o seu nome, e o cabide em que ele costumava pendurar a roupa estendia para   ela os braços nus...

 

Ernestina revolvia-se   no leito, sem descanso. Sem perceber como, com a convivência adquirira   certos hábitos do esposo; procurava agora um meio de os corrigir. Só   agora notava que era como o dele o jeito porque cerrava o cortinado, sempre   de um lado só; que fora com ele que se viciara em não adormecer   sem tomar uns goles de água açucarada, e que até os seus   gestos, as suas palavras e o seu modo de pensar refletiam particularidades dele.

 

Sem poder dormir e   muito impressionada, passou ao quarto da filha. Sara dormia profundamente, respirando   alto, com os braços sumidos embaixo da roupa e a sua cabeça redonda   e grande enterrada no travesseiro.

 

Ernestina, a tremer   de frio, deitou-se aos pés da cama, muito devagarinho, encolhendo-se   para diminuir de volume.

 

Adormeceu e acordou   várias vezes, mas o seu sono era leve, como que assustado.

 

Ao amanhecer, levantou-se   antes que Sara a surpreendesse e saiu. Tornou para o seu quarto, estendeu-se   num divã, muito cansada, com o corpo cheio de dores, a cabeça   fraca, e pôs-se a cismar em futilidades: concertos de jóias, vestidos   a fazer, e visitas...

 

Nesse dia aliviou o   luto.

 

Sara mostrou-se admirada   e ofendida.

 

- Ainda não   há um ano e mamã já usa branco?!

 

- O luto é uma   tolice... creio que já dei uma satisfação à sociedade...

 

- De rigor é   um ano.

 

- Não é   na roupa que está o sentimento, é no coração.

 

- Eu sei... mas...   gostava que mamã fizesse como as outras...

 

- As outras! Quem te   ouvir falar assim há de pensar que não lamentei a morte de teu   pai?

 

- Não, minha   mamãzinha. Deus me livre! Eu bem sei que mamã tem muitas saudades...   pudera! se não fosse assim, a senhora seria ingrata!

 

Ernestina corou, mas   Sara, muito ingênua, não deu por tal.

 

Principiou então   uma vida toda diferente.

 

Era a lufa-lufa dos   vestidos novos, sedas caras, luxo sem método. Assinatura no Lírico,   concertos, dias inteiros fora de casa, em passeios onde se encontrasse Luciano.   Ele vinha sempre muito atencioso, numa amabilidade discreta e delicada, conversar   com Ernestina, que tinha assim a sua recompensa. Sara recebia com prazer e sem   observação essas coisas, que a mãe explicava assim aos   amigos:

 

- Sara tem dezoito   anos... está no tempo de gozar, não lhe faltarão desgostos   no futuro!

 

O seu amor por Luciano   crescia como uma febre. Não pensava, não via outra coisa. Era   sempre ele a povoar-lhe o espírito de sonhos. Nos bailes, como não   dançava ainda, incitava-o a dançar com a filha, e no outro dia,   indagava dela o que lhe tinham dito os pares, fazendo-a repetir as palavras   de Luciano.

 

Sara ia contando, sem   reparo, e confessava que fora ele o mais espirituoso entre todos os pares com   quem tinha conversado.

 

Ernestina, lisonjeada,   beijava a filha, muito alegre.

 

Todas as pessoas que   elogiassem Luciano tornavam-se logo para ela muito simpáticas. Sabendo   que o Rosas, velho e encarniçado inimigo do seu defunto marido, era o   melhor e mais íntimo amigo de Luciano Dias, entrou a consagrar-lhe tal   amizade que o convidou repetidas vezes, com insistência, para ir a sua   casa. E isso aconteceu.

 

O Rosas cedeu à   vontade da viúva e do amigo, procurando mesmo intervir para que se realizasse   o casamento. Um dia Ernestina conversava com ele muito satisfeita na sua sala,   esperando ouvi-lo falar de Luciano, quando Sara, ainda desprevenida, abriu a   porta e entrou.

 

A moça estacou   no umbral, fixando atenta e admirada os olhos na visita. O seu rosto, habitualmente   rosado, tornou-se lívido; os abas tremeram-lhe, não encontrando   palavras para a indignação que lhe fervia no peito.

 

A mãe, embaraçadíssima,   ergueu-se e foi ter com ela, automaticamente, sem atinar com o que dissesse;   mas Sara repeliu-a com um gesto.

 

Ernestina compreendeu   então, num relance, a sua imprudência e empurrando a filha para   fora, fechou com raiva o reposteiro.

 

Sara saiu para o jardim,   tonta e trêmula. Não via nada; andava de um lado para outro como   um pássaro ferido a lutar com a morte. A pouco e pouco a dor ia se abrindo,   mostrando-se toda, como uma flor ao sol. A moça esmagava com os pés,   maldosamente, os miosótis rasteiros de florinhas azuis como olhos de   anjos e as folhas tenras da malva-maçã cheirosa. Rangiam sob as   suas botinas a grama fresca, as hastes dos junquilhos, os amores-perfeitos de   cores veludosas, os botões de ouro, as violetas, os cravos, as anêmonas   e as flores lácteas do nardo.

 

Destruir, arrasar tudo,   era a sua vontade.

 

O Rosas, o grande inimigo   de seu pai, ali, dentro daquela casa, em doce tête-a-tête com sua   mãe! O comendador Simões não o pudera ver nunca sem desgosto   e sem raiva, e o vil aproveitava-se agora que ele já não vivia,   para ir recostar-se nos seus estofos e pisar as suas alcatifas!

 

Sara sentia-se forte;   tinha ímpetos de esperar ali o Rosas e de lhe bater na cara com as suas   mãos nervosas. Desesperada, fustigava as plantas, em movimentos furiosos.   Voavam dispersas as flores aromáticas do belo manacá, o heliotropo   lânguido pendia para o chão. Um dilúvio de flores inundava   os gramados. Choviam pétalas de rosas e de hibiscos, de dálias,   lírios, margaridas, jasmins, cidrilha, jurujubas, murta, petúnias,   fúcsias, resedá, esponjas, ixora e açucenas. Flores de   arbustos, flores de trepadeiras, flores tuberosas ou flores de orquídeas,   obedeciam todas à vontade de Sara, que as derrubava, subindo e descendo   as ruas do jardim e do pomar, repetindo baixinho: Papai... papai!... como a   pedir-lhe socorro, por sentir iminente um perigo.

 

O dia estava formoso,   de um azul violeta muito intenso, onde a luz dourada do sol rolava em ondas   largas. As romãzeiras enfeitavam-se com as suas flores de um escarlate   régio; pendiam das jaqueiras, como úberes enormes, grandes jacas   maduras; e a parreira abria numa cruz, cor da esperança, os seus braços   cobertos de folhas largas e macias. Sara corria no meio de tudo aquilo, nervosa,   resfolegante como um animal de raça, mostrando as pernas finas, galgando   os degraus dos socalcos, esmagando com as solas as flores claras dos morangueiros,   abrindo para todas as coisas os seus olhos muito brilhantes e movendo os lábios   secos na repetida suplica da sua alma: "Papai... papai..." Mas o pai   não lhe respondia e ela, de vez em quando, desesperada, arrancava com   repelões as frutas que a mão alcançava e atirava-as ao   chão, bruta, violentamente, só pelo delírio de estragar.

 

As laranjas, de um   verde que a maturação começava a tingir, rolavam de socalco   em socalco. Grupos de jambos brancos, caíam, separando as suas campânulas   de cristal rosado de mistura com araçás ainda verdes e pitangas   cor de rubi. Um tapete de frutas ia-se alastrando pelo pomar, e Sara pisava,   esmigalhava, mordia, rangendo os dentes nas frutas acres, ainda verdes, ou sacudia   as árvores, abraçando-se aos troncos cetinosos dos pés   de cambucá, ou aos galhos ásperos das goiabeiras.

 

Tudo a mortificava,   a exacerbava. Revivia a lembrança do pai, o ódio antigo, entranhado,   feroz, por ele consagrado ao Rosas, a surpresa de o ter sentado perto da mãe   e ao mesmo tempo a vergonha, a dor ter sido repelida!

 

O sol parecia queimá-la,   abrasando-lhe a cabeça nua, refulgindo no seu formoso cabelo cor de ouro,   solto pelas costas, numa trança lassa. Ela ia, ora batida de sombra,   ora toda vestida de sol, sem saber para onde, parando aqui, ali, voltando para   trás, desfolhando sem piedade as grandes flores roxas do maracujá   ou as flores perfumosas dos limoeiros, batendo com os pés nos cajás   soltos, nas carambolas e nas ameixas de Madagascar, espalhadas no chão.   O seu desejo era que aquele bom sol, enorme e fecundante, incendiasse num momento   todas aquelas limeiras e cidreiras, os pés de sapoti, de pinhas, de genipapo   a dos abius, as figueiras, as ameixeiras, o laranjal, os bambus, as jabuticabeiras,   os pés da grumixama e de abricó, todas as velhas árvores   amadas e o roseiral, e a casa, e ela e tudo!

 

De repente estacou;   os joelhos vergaram-se-lhe - e rebentou em soluços. Em frente dela erguia-se   o vulto enorme e sombrio de uma mangueira que tinha sido sempre ali a árvore   predileta do pai.

 

Sara deixou cair na   terra dura o seu corpo branco e cansado. A mangueira era no alto, no extremo   da chácara; estendia para todos os lados os seus poderosos braços   tranqüilos, de onde pendia a erva - barba de velho, caindo em fios longos,   que lhe davam um aspecto de vetusta e doce austeridade.

 

Sara quedou-se imóvel,   sobre as raízes da mangueira, que se salientavam na terra escura, como   uma vigorosa ramificação de nervos. Lá embaixo, ao longe,   a cidade atirava ao ar rolos de fumaça, e como que a evaporação   do suor do trabalho, que parecia subir em camadas contínuas, densas,   distintas na atmosfera. No mar, que a muita luz empalidecia, distinguiam-se   os cascos negros dos navios mercantes e as chaminés bojudas dos paquetes.   A febre dos dias de semana rumorejava num delírio rouco, cortado de vez   em quando por um ou outro silvo agudíssimo, das máquinas de alguma   fabrica...

 

O Rio de Janeiro arfava.   De todos os telhados parecia elevar-se, ignota e grande, a dor da luta pela   vida.

 

A felicidade, o luxo,   a miséria, o dinheiro, o gozo, a raiva, o esplendor, a fé, a mentira,   a paz e a desordem, tudo ela via dali, na suprema glorificação   da luz de ouro que tombava a jorros do céu violáceo.

 

O teatro, o hospício,   as igrejas, as fábricas, os cães, os jardins, os palácios,   os casebres, o mar, o arvoredo, o cemitério, tudo se unia e se confundia   na fogueira do sol, na vida da grande e poderosa cidade.

 

Sara chorava baixinho.

 

Aquela mangueira muda,   serena, com a sua velha casca rugosa, as suas nodosidades cobertas de cambaxilras,   as suas folhas sombrias e abertas; e as suas parasitas, quebrava-lhe a excitação   raivosa numa onda de ternura. Era ali que o comendador Simões gostava   de sentar-se, nas tardes de domingo, recomendando sempre ao hortelão   que não lhe bulisse nessa árvore; que a deixasse livre de enxertos   e de podas; queria-a assim: agreste, inculta e sossegada.

 

Sara recordava isso,   olhando para as toalhas ondeadas de verdura que se iam desenrolando pelo pomar   até lá em baixo, à casa, de que só distinguia o   telhado. Os tamarindeiros, salpicados com florinhas amarelas, e os pessegueiros,   de um verde cinzento; mais as figueiras, as ameixeiras, os cajueiros, as árvores   de abricó, das carambolas, da fruta do conde, do abacate, as amendoeiras   enormes e as bananeiras airosas, confundiam-se, unindo as ramas, variando os   matizes do verde mais claro até o verde mais negro, com manchas: aqui   louras, ali esbranquiçadas, ou róseas, ou cor de ferrugem. A meio   do pomar, à direita, destacavam-se entre todas pela forma bizarramente   recortada das suas folhas elegantíssimas, a árvore da fruta-pão,   e lá embaixo, sobre o telhado vermelho do chalet, ela via a última   estrela, pequenina e escura, da grande araucária do jardim.

 

Sara continuava chorando,   enraivecida contra a mãe. Por que consentira ela em receber o Rosas?!   Por que mudava de dia para dia o seu caráter? Porque se ocupava agora   tanto consigo, passando horas no seu quarto, sozinha, fugindo da companhia dos   outros e aparecendo depois toda cheirosa, fresca como a flor apenas desabrochada?   Que mistério seria esse que ia afastando dela, evidentemente, todo o   carinhoso e doce amor de Ernestina? Que falta teria ela cometido? Por que se   adivinhava tão só?

 

Sem achar explicação   para os seus tristes pressentimentos, Sara escondeu o rosto, a invocar a memória   do pai.

 

Estava assim, quando   ouviu passos perto. Era a mãe que a procurava, entre zangada e aflita.

 

- Sara!? Que loucura   é essa?

 

- Mamãe...

 

- Levanta-te!

 

A moça ergueu-se,   comovida pelo tom severo da viúva.

 

Ernestina continuou   áspera e decisivamente:

 

- É preciso   compreender bem isto: exijo que sejas cortês para toda a pessoa; seja   ela quem for, que eu quiser receber em minha casa!

 

- Mamãe, eu...

 

- Se não deseja   sujeitar-se à minha vontade, case-se!

 

- Ah!...

 

- Que vergonha!

 

- Mas mamãe!   Aquele homem?

 

- Com aquele ou com   qualquer outro tens de ser delicada.

 

- Não! Isso   não! Aquele é um infame; foi o maior inimigo de meu pai eu não   o esqueço! e se ela voltar cá eu bato-lhe na cara, bato-lhe!

 

- Cala-te! Quem manda   aqui sou eu! Se o recebi, é porque entendi que o devia fazer!

 

- Oh! Mamãe!

 

- Vamos! E Ernestina   com o olhar seco apontou o caminho de casa.

 

Sara seguiu silenciosa,   trêmula, ainda embaixo da raiva e do despeito que tão intensamente   tinham vibrado nela. Pisava com força, fitando a sombra da mãe,   que se projetava muito esguia a seu lado.

 

À porta da sala   de jantar encontraram o jardineiro, que subira da cidade com um garrafão   de vinho ao ombro.

 

Ele quis dizer qualquer   coisa; a viúva fez-lhe um gesto, que se calasse. Durante o jantar a mãe   e a filha não se falaram. Sara não comia, sentia um novelo na   garganta e receava chorar ali mesmo, diante dos criados. À noite entrou   cedo para o quarto, deixando a mãe sozinha no terraço.

 

Ernestina não   sofria menos. A indignação da filha exasperara-a, mas a sua submissão   depois tinha-a comovido. Afinal reconhecia razão na moça e chegava   a envergonhar-se do seu procedimento. O Rosas tinha sido um inimigo acérrimo   do marido. A questão entre ambos tomara um rumo tão perigoso,   que fora preciso intervenção de terceiro. O Nunes, como amigo   mais íntimo do comendador, tinha-se posto de permeio e evitado um desenlace   terrível à negregada questão. Por muito tempo o nome do   Rosas tinha sido envolto no mais asqueroso desprezo e Sara, que adorava o pai,   e compartilhava do seu temperamento, começou a ter pelo Rosas a mesma   raiva, talvez ainda mais violenta que a dele. Depois da morte do Simões,   esse sentimento de rancor havia-se acentuado. A lembrança do pai enchia-a   de caridade para todos, menos para os que em vida o tivessem insultado ou feito   sofrer!

 

Por isso a viúva   Simões entrava a ter remorsos e a preocupar-se muito com a opinião   de Sara. Que diria ela quando soubesse de tudo?

 

Pensava nisso quando   sentiu ranger o portão de ferro do jardim; voltando o rosto percebeu,   através da meia escuridade da noite, o vulto de Luciano Dias, em que   se destacava num fato escuro uma nesga de colete branco.

 

Ernestina levantou-se   e disse-lhe, mal o viu aproximar-se:

 

- Sei porque vem. O   seu amigo Rosas contou-lhe tudo!

 

- É verdade:   e já que abordou a questão tão abruptamente, deixe-me dizer-lhe   que venho indignado!...

 

- Não sei porque!...

 

- Não sabe porque!?

 

- A culpada fui eu...   Sara não tinha sido prevenida, e...

 

- Não a desculpe,   pelo amor de Deus!

 

- O Rosas não   devia ter vindo... eu estava louca quando o convidei!...

 

- Veio porque eu lhe   pedi também que viesse. É tempo de se acabar com inimizades insensatas.   Ele é um bom homem.

 

- Será, mas...

 

- Mas?

 

- Sara teve razão.

 

- Não diga isso!   Uma menina de educação não faz o que ela fez. Foi insolente!

 

Ernestina levantou-se,   muito ofendida; mas Luciano não lhe deu tempo de falar; continuava, muito   nervoso:

 

- O Rosas descreveu-me   bem nitidamente a cena... saiu envergonhadíssimo e furioso! Quando eu   digo que precisamos arranjar um casamento para sua filha!

 

Ernestina mastigou,   colérica:

 

- Um casamento...

 

- Sim é indispensável   para a nossa felicidade. Isto assim não pode continuar, bem vê...

 

- Pode. Eu não   quero que minha filha se case. É minha, amo-a; acabou-se! Pensando friamente,   Sara fez bem. O Rosas foi um inimigo acérrimo do pai; não devia   ter vindo.

 

- Perfeitamente; mas   o pai está morto, o Rosas esqueceu ofensas, veio exatamente para uma   reconciliação e não e a ela, menina sentimental e mal educada,   a quem compete receber ou despedir este ou aquele indivíduo que entre   em casa de sua mãe...

 

- Luciano!

 

- Não senhora!   Sara foi brutal. Além de tudo, o Rosas é um velho e ela abusou   da sua posição de senhora...

 

- Basta! Isso desgosta-me.

 

- E a mim ainda mais.   Imagine: caso-me. Bem. E então? hei de deixar de receber o meu melhor   amigo, em minha casa, só por um capricho piegas da menina.? Precisamos   meditar bem em tudo! O que passou, passou!

 

- O Rosas era inimigo   do pai? Que tenho eu com isso? É meu amigo, e portanto da minha família!

 

- Lembre-se de que   nós ainda não somos a sua família... Amamo-nos, queremos   casar, e desde que isso suceda, as vontades dela ficarão em segundo plano,   terá de submeter-se à nossa. O que determinarmos é o que   se há de fazer. É melhor explicar-lhe isso já.

 

- Falar-lhe no casamento?   É cedo deixemos passar o ano de luto... respondeu Luciano...

 

- Do luto? Mas onde   está ele?

 

- Nela...

 

- É verdade   que Sara persiste em andar de luto...

 

- A sua tolerância,   Ernestina, é que a tem perdido! Sua filha é autoritária   e caprichosa. Decida-se a fazer o que lhe tenho dito: e aconselhe-a de longe...

 

- Ela vai sofrer muito!...   Não...

 

- Embora; tudo redundará   em seu proveito.

 

- Não sei por   que aborrece assim a minha pobre filha: se convivesse com ela, havia de adorá-la!   É um anjo.

 

- O que vejo é   que tem medo de magoá-la com uma simples palavra, e entretanto a mim   não poupa desgostos...

 

- Eu?!

 

- Sim.

 

- Meu Deus! Mas como!

 

- Referindo-se constantemente   ao seu finado marido, não reprimindo o modo desabrido da senhora sua   filha, conservando na sala, bem em frente ao seu, o retrato do Simões   como senhor legítimo de sua casa e ao seu coração... Por   que não retira dali aquele quadro? Não calcula o ciúme,   o ódio que lhe tenho e o mal que ele me faz!

 

- Desculpo as suas   palavras, porque elas são filhas do ciúme.

 

Ernestina estava surpreendida   e desgostosa com Luciano. A cólera tornava-o grosseiro, áspero.   O seu gênio rompia todos os preceitos da educação e do cavalheirismo   para se mostrar rude e indomável.

 

Sara foi todo o assunto   da noite. A mãe defendia-a, punha-a acima de tudo e de todos, como se   fosse um símbolo da perfeição na terra. Fazia isso exatamente   por vê-la acusada. O seu amor maternal reagia contra todas as censuras   num grande exagero.

 

Luciano saiu cedo,   impressionado e nervoso.

 

A verdade era que os   olhos de Ernestina inquietavam-no mais do que ele desejava.

 

Como dissera ao Rosas,   furtava-se ao casamento, procurando no amor da viúva uma dessas páginas   de paixão, freqüentes na vida dos homens. Ernestina, porém,   sabia defender-se, era muito mais forte do que ele poderia supor, os planos   de amor fácil iam-se desmoronando e ele revolvia-se desesperado entre   o desejo de possuir a mulher e a má vontade de a chamar - esposa!

 

Não era positivamente   como marido que ele queria beijar a boca pequena e rubra da viúva Simões!   O corpo esbelto e ondeante da moça, o negro azulado do seu cabelo farto,   a doçura dos seus olhos rasgados e úmidos o moreno quente da sua   pele rosada, acendiam-lhe no coração, não o amor puro e   casto que o homem deve dedicar a companheira eterna, mas o fogo sensual de uma   paixão violenta e transitória. Ele amava-a, amava-a, sim; tinha   ciúmes do passado, era sincero na sua cólera, odiava o Simões   e a filha do Simões, porém à sua imaginação   o vulto de Ernestina aparecia, teimosamente, engrinaldado de pâmpanos   e de taça em punho, como uma bachante!

 

  

 

Corria o mês   de agosto, muito morno e ameno. No meio da bateria da cozinha a Benedita ouvia   o palavreado da Simplícia, que rodopiava pela casa, trazendo novidades   e inventando coisas. O Augusto olhava com altivez e desdém para aquela   raça de mulheres, enquanto o hortelão se babava todo, ouvindo   as tagarelices e a discussão das duas. Simplícia tinha o bolso   sempre cheio de dinheiro, moedinhas de prata e níqueis subtraídos   à gaveta da ama. Detestava o cobre. Fazia-se fina, com lacinhos de fita   na gola do casaco branco e saias bem talhadas. A outra era fiel e ameaçava   às vezes de ir direito à ama denunciar a mulata.

 

Simplícia levantava   os ombros. Que lhe importava? Que fosse!

 

Como se aproximasse   o dia de Nossa Senhora da Glória, ela afirmava que iria à festa   de braço com seu Augusto, como-se fossem marido e mulher...

 

Os outros riam-se,   vendo a indiferença e um certo ar de nojo do copeiro pela pequena.

 

Na véspera do   dia da Glória a Simplícia foi direto à viúva pedir-lhe   licença para a saída. Ernestina negou-lha; mandara retirar da   sala, precipitadamente, o retrato do comendador. Simplícia sorria sem   ressentimento, vendo o Augusto e o João descerem a tela da parede. Aproveitava   uma ocasião em que Sara conversava com Georgina, no jardim vizinho. Mal   o hortelão saíra de casa com o quadro, já a Simplícia   rondava o portão, à espera de Sara. Quando a moça entrou,   a mulata disse-lhe:

 

- Nhá Sara,   a senhora sabe para onde é que Iaiá mandou o retrato de Sinhô?

 

- Hein?!

 

- Seu João levou   ele... Coitado de quem morre!

 

Aquela piedade da negrinha   pelo morto fez estremecer a moça com um movimento de amargurada indignação.   Subiu correndo até a casa e abriu com estrondo a porta da sala.

 

Ernestina voltou-se,   inquieta. A filha olhara atônita e demoradamente para a parede vazia,   onde se destacava numa mancha clara o bocado do papel até aí resguardado   pela tela.

 

- Por que tirou dali   o retrato de papai?! perguntou Sara à mãe, com a voz alterada   e o rosto pálido.

 

Ernestina corou: disse   de um modo confuso que o retrato precisava de reparo... que o teria mandado   ao pintor que o fizera; e inventou um desastre em que um desajeitamento do Augusto   figurava como único responsável.

 

Tinha mentido e desviava   a vista dos olhos claros da filha.

 

Cedera ao desejo de   Luciano. O retrato do comendador tinha ido para S. Cristóvão,   para a casa de uma mulher pobre, a Josefa, que a tinha criado e a quem ela protegia   com uma pequena mesada.

 

Até então   não se servira dessa criatura, que entretanto lhe aparecia agora como   um recurso para segredos e aflições.

 

Sara retirou-se desconfiada   e tristonha; ocorreu então a Ernestina ir à casa da ama e fazer   voltar o retrato. Veio um clarão de bom raciocínio iluminar-lhe   o espírito. Afinal, ela andava a fazer um papel de culpada; temia a filha   como se o seu amor por Luciano fosse coisa ilegítima ou criminosa.

 

O que tinha a fazer   era chamar Sara e dizer-lhe muito simplesmente: Luciano e eu amamo-nos e casar-nos-emos   em breve...

 

Entretanto vinham-lhe   à mente os conselhos e pedidos do noivo, rogando que conservasse o seu   amor em mistério! E por sua vez formulava um - por quê? A que não   podia dar solução!

 

A viúva Simões   saiu sem se despedir da filha, desceu rapidamente o jardim, compondo sobre o   rosto o veuzinho preto e sacudindo com as pontas dos dedos o plastron do vestido.   Chegou afadigada à casa da ama.

 

A pobre mulher recebeu-a   de braços abertos, como de costume.

 

- Uê gente! Como   Iaiá veio vermelha! foi a sua primeira exclamação; e logo   depois foi-a levando para o sofá, tirou-lhe o chapéu, disse-lhe   que descansasse para ir depois fazer lunch, e apontou para o doce de coco em   duas compoteiras na mesa.

 

Ernestina deixava-a   falar; estava ainda ofegante, meditando no que devia fazer. De repente:

 

- Diga, Josefa recebeu   o retrato de meu marido, não recebeu?

 

- Pois então   não havéra de recebê? Está no quarto do oratório,   mas há de se pendurá aqui, em cima do sofá! Como aquele,   é que não há outro homem! Santo mesmo! Não se case   mais, Iaiá, que outro assim não acha!

 

- Cale-se... você   nem sabe o que está dizendo!...

 

- Como não sei?   Agora me diga porque foi que me deu o retrato dele? Mandou copiar outro novo   lá pra sala?!

 

Ernestina não   pôde deixar de sorrir àquela ingenuidade e, atraindo a velha para   seu lado, contou-lhe tudo.

 

A Josefa era uma velhota   acaboclada, baixa e ossuda, de ombros largos e direitos, queixo quadrado e mãos   grandes. Gozara a preferência entre os antigos escravos dos pais de Ernestina   por ser de uma limpeza e fidelidade sem exemplo. Toda a sua roupa andava recendendo   às raízes do capim cheiroso e ela era o braço direito da   casa. Quando a senhora morreu, Ernestina tinha só dois anos. A Josefa   ficou encarregada de olhar por tudo: dirigia o serviço das outras, tratava   da menina com esmero, trazendo-a sempre asseada e contente. Alforriada, não   abandonou a casa. Era teimosa, de humor desigual, mas firme e amorável   como um cão.

 

Tinha reminiscências   muito claras de Luciano Dias. Embirrara sempre com ele. Farejara-lhe maus sentimentos.   Tinha-lhe feito um mal terrível: apreendido cartas, rasgado fotografias,   feito desaparecer muitos raminhos de flores por ele dirigidos à moça.   Agora o que a   comovia era a saudade de Sara. Já não tinha ascendente na família,   nem a idade lhe consentia a mesma força de gênio. Estava quebrantada,   mole; apoiou-se por isso todas as idéias de Ernestina sem contestar nem   aconselhar cosa alguma; dependia dela e temia ir de encontro aos seus desejos.

 

Recebeu calada as confidências,   ficando por fim assente que no dia seguinte voltaria para Santa Tereza o retrato   do comendador. Ernestina saiu risonha; aquele desabafo fizera-lhe bem. Percebia   ter na Josefa um arrimo seguro. Se por um lado a velha não a consolava,   não sabendo aconselhá-la, por outro dizia a tudo amém e   favorecia-lhe assim todos os seus projetos. Em caminho para casa, Ernestina   forjava uma mentira, preparando-se para sustentar o olhar claro e interrogativo   da filha.

 

  

 

A Simplícia   aproveitava a ausência de Ernestina, enchendo-se de goiabada, queijo do   Reino e cálices de licor, muito bem repimpada numa cadeira da sala de   jantar. Sara conversava com a amiga na casa vizinha, Augusto fora à cidade,   a Ana estava no tanque às voltas com a roupa e a Benedita cochichava   com o hortelão lá para os fundos da casa; podia estar tranqüila.

 

A Simplícia   arremedava a senhora na maneira de estar à mesa, movia com delicadeza   o cálice e dava dentadinhas pequenas no doce, sorrindo sua finura, a   remoer idéias.

 

A tola Iaiá   estava-lhe nas unhas. Conhecera-lhe o seu amor por Luciano desde o primeiro   dia... não que ela não tinha só habilidade para encontrar   as coisas que as outras perdiam, nem para subtrair das gavetas moedinhas e fitas...   Ria-se da cegueira de Sara... ainda havia de ser ela quem lhe abrisse os olhos!...

 

Os cálices de   licor sucederam-se até cair do frasco a última gota. Que estupidez!   Ela ainda tinha tanta goiabada no prato... lembrou-se do cognac. Foi ao armário,   mas deu-lhe uma tontura; o chão fugia-lhe embaixo dos pés, o guarda   pratos inclinava-se, a mesa recuava, as cadeiras tomavam atitudes de dança   e as aves mortas dos quadros das paredes agitavam-se todas, sacudindo as penas.

 

- Uê! exclamou   a mulatinha, esfregando os olhos; e demorou-se, percebendo a verdade, com tato   bastante para esconder a garrafa e levá-la para o quarto... Beberia à   noite, na cama. Não lhe convinha embebedar-se de dia; e foi pedir à   Benedita uma xícara de café. Estava com uma enxaqueca!

 

Quando Ernestina entrou,   a Simplícia correu a tirar-lhe o chapéu e guardar as luvas. Ernestina   deu-lhas maquinalmente.

 

- Então, Iaiá,   me deixa ir na festa?

 

- Não.

 

- Por quê?...   Seu Luciano não quer?

 

Ernestina deu um salto,   assustada; sem atinar com o que dissesse, repetiu:

 

- Seu Luciano!

 

- Sim, senhora... pois   então ele não está para casar com a senhora?

 

- Estás doida!   Cala-te; repreendeu a viúva, mas a Simplícia ajuntou com ar malicioso:

 

- Iaiá não   se zangue não... mas eu vi outro dia seu Luciano dar um beijo na senhora...   lá na sala... perto da janela... Eu não conto nada a nhá   Sara... mas a senhora há de me deixá i na festa...

 

Ernestina estava vencida;   entretanto levantou-se, colérica, erguendo a mão para bater na   negrinha. Àquela ameaça Simplícia saltou:

 

- Iaiá, já   não sou sua escrava! Se a senhora não me fizé as vontades   eu juro em como vou direitinha dizê tudo a nhá Sara: que seu Luciano   tem raiva dela, e que dá beijinhos na senhora!...

 

O licor fazia-a ir   muito mais longe do que premeditara; a cabeça girava-lhe ainda um pouco   e ela não podia conter a língua. Via o seu erro, mas já   não o sabia emendar; declarara tudo; tinha um plano antigo: ir confidenciando   aos caixeiros das vendas o segredo da ama... e ser a primeira a declará-lo   a Sara, se Ernestina não lhe desse consentimento para ir à festa,   e ainda mais dinheiro e mais ainda a ordem para que a acompanhasse o Augusto!

 

A viúva estava   aterrada, com medo de levantar um escarcéu despedindo a rapariga e sem   vontade de lhe fazer o gosto. Mas a mulata venceu; e ainda Ernestina lhe pôs   nas orelhas uns brincos de coral e nas mãos uma nota de dez mil réis.

 

- Vai...

 

Ernestina chorou de   raiva. Por ela, chamaria imediatamente Sara, e diria toda a verdade; mas Luciano   opunha-se a isso tenazmente e ela mesmo esperava fazê-lo quando o visse   mais propenso a estimar a filha. O seu terror agora era que Sara viesse a saber   de tudo pela boca asquerosa da mulata.

 

Resolveu mandá-la   passar um tempo em Friburgo, com a tia Mariana, viúva de Gustavo Ferreira.   Naqueles dias ao menos estaria livre de qualquer intriga ou revelação   desagradável. Escreveu a Luciano largamente. Pedia que decidisse o casamento.   A convivência fá-lo-ia depois amar a enteada. A seu ver, Luciano   não esperava outra coisa senão vencer a antipatia pela pequena...

 

No dia seguinte a Simplícia,   toda vestida de branco, com fitinhas verdes, descia o jardim ao lado do Augusto,   muito sério e bem arranjado.

 

A Benedita acompanhava-os   com a vista, e quando eles, embaixo, abriram o portão, ela disse alto,   em cima sacudindo no ar a mão engordurada:

 

- Sapeca do diabo!   Que boa sova!

 

  

 

Em um dos primeiros   dias de setembro, Ernestina partiu para Friburgo, com a filha e a Georgina Tavares.   Durante a viagem elas mal se falavam, abrindo muito os olhos para as paisagens   soberanamente belas do caminho.

 

A tia Mariana já   as esperava, palestrando na gare com um empregado da estação.   Era uma velha alta e seca, fiel ao uso da crinolina, com uns bandôs grisalhos   que lhe tapavam as orelhas, e umas sobrancelhas espessas, que em vão   pretendiam dar ferocidade ao seu aspecto tranqüilo. Passava por milionária   e avarenta; mas em verdade a pobre senhora só tinha com que viver regularmente   e bem alimentar a criação dos seus ricos bichinhos de seda, gozo   único dos seus dias insípidos.

 

Morava num casarão   baixo, antigo, com janelas de peitoril para o largo e grande quintal plantado   de amoreiras, de onde se via ao longe, a cascata do Neves, desenrolando no veludo   verde da montanha o seu lençol d'água cristalina...

 

A primavera desabotoava-se   magnífica, numa exuberância de tons deliciosa; mas as meninas,   afeitas ao clima do Rio, andavam tiritantes, envolvidas em lãs.

 

Nos primeiros dias   a tia Mariana reclamava detalhes da revolução, maldizendo a república   e chorando pelo imperador, o bom velho das barbas de neve, que lhe tinha apertado   casualmente a mão uma vez, havia muitos anos, numa festa de caridade...

 

Ernestina fazia coro   nas lamentações, mas não sabia explicar nada, o que desesperava   a outra; então Sara, mais indiferente, inventava detalhes que a velha   ouvia, limpando os óculos.

 

Um dia, a viúva   Simões decidiu-se a deixar as meninas com a tia, e descer para o Rio   sozinha, conquanto um pouco assustada por aquela ousadia.

 

Ela afirmava à   filha que voltaria depressa, explicando alto, repetidamente, que não   podia deixar a casa entregue aos criados...

 

A Ana era cada vez   mais exigente; todos os meses pedia aumento de ordenado, e mais cerveja, e mais   isto e mais aquilo...

 

O Augusto mudara completamente   depois do passeio à Glória do Outeiro, dormia de dia horas inteiras   e ria alto coma Simplícia, pelos cantos, sem respeita nenhum...

 

O João andava   doente, a Benedita com um mau humor execrável... e ela, confessava, tinha   medo que lhe pusessem fogo à casa!...

 

A tia Mariana aprovava:   - que fosse depressa! Isto de criados não há que fiar... cada   um faz o que pode para ser pior!

 

Quando Ernestina entrou   em casa sentiu uma profunda e dolorida saudade da filha. Era o seu primeiro   apartamento. Toda a tarde e toda a noite não lhe puderam sair do sentido   a voz e o vulto de Sara, a adorada companheira de toda a sua vida... Logo de   manhã cedo escreveu-lhe uma grande carta cheia de recomendações:   que se agasalhasse, que fizesse exercício, que lhe escrevesse sempre...

 

Depois escreveu a Luciano,   e parou, com a pena no ar, pensando em qual daqueles amores a absorvia mais...   

 

Agora que Sara estava   ausente, sentia por ela uma ternura esquisita, mais penetrante, que lhe ia até   o fundo do coração, que a afastava de todas as outras coisas,   arredando mesmo para um plano mais nublado e indeciso a figura de Luciano...   Estranhava aquilo; aquele redobramento de amor maternal que a dominava completamente,   absolutamente. Aproveitou pressurosa a frieza que lhe parecia então sentir   pelo noivo, e pediu-lhe na carta que a não fosse ver. Contou-lhe tudo.   Sara estava longe mas sentia bem que não a poderia conservar assim...   faltara-lhe o ar em casa, sem ela... não se resignaria nunca a viver   daquele modo! Casá-la não era coisa admissível. Sara era   ainda muito nova. Concluía pedindo mais uma vez a Luciano que dominasse   a antipatia pueril que o afastava de Sara para viverem depois todos felizes...   muito felizes!

 

Ernestina acabou a   carta chorando. Aquela harmonia sonhada e pedida não existiria nunca;   percebia bem. Viveriam juntos talvez, mas aborrecendo-se. Era isso mesmo que   ela tentara outrora, quando escondia em casa a sua mocidade, o seu lindo rosto,   a sua alma ansiosa, ávida de amor! Era por isso mesmo que ela desejara   sempre a velhice que a vestisse de gelo, lhe quebrasse os ímpetos, que   a deixasse sem aspirações e sem desejos, na sua grande virtude   de mãe sem mácula...

 

Ela pedia a Luciano   que a não fosse ver, temendo que ele lhe desobedecesse. Entretanto era   preciso. Estava só; tinha medo de sucumbir.

 

Nessa mesma tarde recebeu   a primeira carta de Sara, escrita à mesma hora em que ela lhe escrevera,   com iguais pedidos e recomendações, com a mesma chuva de beijos,   a mesma intensidade de afeto.

 

  

 

O Rosas balouçava-se   em uma grande cadeira austríaca no seu terraço do Flamengo, ouvindo   Luciano ler a última carta de Ernestina e uma de Sara dirigida à   mãe. Acabada a leitura, o Rosas deitou ao ar o fumo azul do seu havana   e o amigo perguntou-lhe:

 

- E então?!

 

- É o que eu   dizia: você tem de casar com ela!

 

- É boa! Se   a gente tivesse de casar com todas as mulheres a quem faz a corte!...

 

- Mas você foi   mais longe do que isso!

 

- Aqueles olhos põem-me   tonto! A verdade é esta: eu amo Ernestina, mas não quero casar   com ela...-

 

- Por quê?!

 

- Não sei! Aquela   filha... o gênio dela mesmo, incomoda-me, irrita-me! Você não   vê esta carta? Manda a filha para Friburgo e é exatamente agora   que me pede para não ir vê-la!

 

- Muito bem. Isso compreende-se...   é uma mulher honesta... você, que diabo! É um homem perigoso!   Mas, deixe-se de histórias! Peça a viúva e case-se. É   mulher garantida, vê-se por essas cartas. Afinal, você gosta dela...   lá por embirrar com a filha não é razão! O caso   é outro. Você é um galanteador e julga que as mulheres nasceram   só para joguetes do seu capricho...

 

- Bonito! Ponha-se   agora com frases...

 

- Ora! quantos amores   já lhe conheci! Mas o tempo passa. Vá-se ver ao espelho! Tem já   muitos cabelos brancos e olhe que por ter vindo de Paris não pense que   não haja por aí outros mais chics...

 

Luciano relia a carta   de Sara.

 

- A pequena não   escreve mal...

 

- É muito expansiva!

 

- Você não   compreende? A mãe quer catequizar-me com as cartas da filha.

 

E guardando os papéis   no bolso:

 

- Bem! Ela talvez deseje   que eu lhe desobedeça.

 

- É até   provável que conte com isso...

 

- Acha?

 

- Ora! com certeza.

 

- Pois não vou;   há de chamar-me primeiro; se quiser. Hoje vou passar a tarde com...

 

- Clara Silvestre?

 

- Não! com o   Henrique Bastos... ele convidou-me para um passeio a S. Paulo, vou-lhe dizer   que aceito.

 

- Faz bem.

 

 

 

Entretanto, Ernestina   sentia-se febril, quase doente de ansiedade, esperando o momento em que Luciano   fosse pedir oficialmente a sua mão. Ele escrevia-lhe de S. Paulo, mas   as cartas iam rareando e as saudades crescendo. Ernestina foi duas vezes a Friburgo;   afogava a filha em beijos e abraços e voltava com uma enorme lista de   encomenda que acrescentava sempre com mais tetéias e gulodices. Todavia,   sentia nessa dura experiência ser impossível viver longe da sua   querida Sara, e teimava em prolongar a separação, pagando com   lágrimas de saudade esse sacrifício.

 

Três meses depois   da ausência, Luciano voltou a casa de Ernestina; encontrou-a em doce palestra   com D. Candinha Nunes. Sara voltaria no dia seguinte. Ernestina estava radiante.   Ele achou-a pálida, transparecia nela o cansaço da tristeza e   da solidão, embora a alegria do momento a sacudisse nervosamente.

 

Passaram a tarde no   jardim; à noite entraram para a sala, mobiliada de novo, e entretiveram-se   vendo os arranjos e modificações feitos em tudo pela viúva   para surpreender Sara.

 

D. Candinha exclamava:

 

- Qual! Não   há amor como o de mãe! Vejam como Ernestina pensa na filha!

 

Luciano abanava afirmativamente   a cabeça, vendo Ernestina embaraçada, tateando as coisas,

 

Às dez horas,   como o Nunes não aparecesse, D. Candinha disse:

 

- Ora, o senhor meu   marido esqueceu-se de mim! Seu Luciano, acompanha-me à cidade?

 

- Até a sua   casa, minha senhora. Despediram-se; e Ernestina, retendo a mão de Luciano,   disse:

 

- Ela chega amanhã!...   Vem vê-la?

 

- Certamente...

 

Não puderam   dizer mais nada, D. Candinha, murmurava já fora:

 

- Que noite linda!

 

  

 

Sara encontrou a casa   toda renovada. Ernestina comprara mobílias caras e reposteiros de luxo.   Tinha aproveitado a ausência da filha para varrer pela porta fora todas   as recordações do passado.

 

O João enchera   tudo de flores, desde a porta da rua até à do quintal, muito contente   com a volta da menina, que era a alegria da casa. A Benedita preparou surpresas   para o jantar, uns pastéis e uns pudins especiais, feitos com prazer   e capricho, muito ornamentados, A Simplícia pregou na carapinha um cravo   vermelho e amarrou fitinhas no pescoço, dizendo fazer isso para ser agradável   a Nhá Sara.

 

A Ana pôs no   guarda-louça, sorrateiramente, um queijo fabricado pelo pai em Petrópolis   e só o Augusto continuou indiferente no serviço.

 

Sara tinha voltado   de Friburgo com o dr. Tavares e a Gina. Não se cansava de beijar a mãe,   falando-lhe rente à cara.

 

- Sabe? Fui pedida   em casamento!

 

- Sim?!

 

- Sim, mas eu respondi   que mamãe já me tinha prometido a um príncipe estrangeiro.

 

- Quem foi?

 

- Um velhote muito   rico, mas muito feio, chamado Menezes. Depois desse, quem também não   desgostou de mim foi o Eugênio Ribas. Esse não chegou a falar em   casamento... mas deu a entender... e confessou ao dr. Tavares que me adorava!

 

- O Eugênio Ribas   não é um moço louro, amigo do Nunes?

 

- Esse mesmo! Ia aos   bailes em Friburgo, de casaca e luvas brancas. Por aqui há alguma novidade?

 

- D. Candinha esteve   cá, ontem; veio convidar-nos para um baile masqué.

 

- Que bom!

 

Começaram logo   as combinações de toilettes e de idas à cidade para compras.

 

Nessa tarde, quando   Luciano abriu o portão do jardim, deparou com Sara que ia muito risonha   ao seu encontro. Estranhou-a. A moça parecia-lhe agora mais alta e mais   elegante. Usava um vestido branco transparente, que mostrava numa sombra tênue   a sua carnação de loura, alva e rosada. Aquele traje dava-lhe   um ar encantador de alegria e de ingenuidade.

 

Até então   vira-a sempre de escuro, vacilando entre o cinzento e o preto tristonho do luto;   os tons claros iluminavam-lhe a fisionomia numa doce irradiação   de poesia e de graça.

 

- Entre depressa! exclamou   ela, senhor ingrato, que não me mandava nem sequer saudades por intermédio   de mamãe! E fique desde já sabendo que, para seu castigo, tem   de desenhar hoje mesmo uma toilette de fantasia para esta sua amiguinha!

 

E puxou-o, rindo, para   dentro, segurando-lhe a mão.

 

Luciano deixava-se   ir, encantado com aquele acolhimento. Estava num dos seus dias de bom humor,   e o passeio a S. Paulo e a ausência de Ernestina, cujo amor o enervava,   tinham-lhe temperado os pobres nervos doentios. Sentia-se saudável e   tranqüilo naquela tarde.

 

Passaram todo o tempo   da visita combinando fantasias para o baile de D. Candinha.

 

À despedida,   Sara perguntou.

 

- É verdade,   mamãe já foi ver a sua coleção de quadros?

 

- Coleção   de quadros? Quem a ouvisse diria que possuo uma galeria!

 

- Está arrependido   do convite que nos fez, ou gracejava quando nos relatou objetos artísticos   e mais trapalhadas adquiridas na Europa?

 

- Não menti.   O que desde já lhes digo é que a minha coleção é   pobre; mas façam uma coisa: vão lá amanhã; por exemplo.

 

- Está dito!   Valeu, mamãe?

 

Ernestina consentiu.   Nessa noite ela foi dormir contentíssima: pareciam feitas as pazes entre   Sara e Luciano Dias.

 

No dia seguinte, às   2 horas, desceram de Santa Tereza. A tarde estava quente, de um azul carregado.

 

A casa de Luciano Dias   ficava perto, na rua do Riachuelo; era de uma aparência simples: fachada   sem estilo, de um tom cinzento, com frisos dourados nas três janelas de   peitoril. Entraram; dentro, uma pequena escada de mármore conduzia à   saleta de onde Luciano desceu a recebê-las. Ernestina estava comovida,   Sara curiosa, Momentos depois, conversavam no pequenino salão de Luciano,   com ele afrancesadamente chamava à sua boa sala.

 

Nas paredes de verde-escuro,   encaixilhadas em madeiras. finas, destacava-se uma multidão de objetos   e pequenas telas: medalhões históricos, baixos relevo, adagas   e punhais, recordações de touriste, insignificantes para os indiferentes;   aqui um punho da mais rara merletti veneziana, ali um mosaico de Roma, um ramo   da flor dos Alpes, a penugenta edelweiss, uma faca de Toledo incrustada de ouro,   ou um leque de Madri.

 

Sara ia observando   tudo com muxoxos de desilusão, até alegrar-se com a vista de uma   formosa cabeça de mulher, que surgia, risonha e fresca, do fundo cor   de aurora da tela.

 

Ernestina sentara-se   num divã, procurando prender toda a atenção de Luciano;   mas este respondia-lhe apenas, lisonjeado com a observação que   Sara prestava a tudo, comentando os objetos, indo e vindo de um para outro lado,   fazendo-lhe perguntas, apontando como feias, antiguidades que ele achava lindas,   extasiando-se às vezes em frente de outras coisas que considerava medíocres!   Tudo que tivesse um ar de alegria ou de saúde, era o que vibrava na moça   maior entusiasmo. Um grupo de crianças, uma aldeã robusta, um   pescador banhado de sol, um ramo de papoulas sangüíneas ou de frutas   bem desenhadas e frescas, rebentavam-lhe dos lábios vermelhos frases   de espontânea admiração.

 

Os assuntos diabólicos,   nervosos, os quadros torturados em que, em fundos turvos, se estorcessem corpos   aflitos ou relampejassem olhares de agonia, de dúvida, ou de ódio,   tudo em que a dor domadora, atrocíssima e amarga, derramasse o seu travo   ou fincasse o seu dente impiedoso; tudo em que a arte reproduzisse a lágrima   e o sofrimento humano, arrepiava as carnes sadias de Sara, para quem a vida   tinha só por dever ser risonha, ser boa, ser fértil!

 

Os seus olhos de menina   inexperiente não compreendiam os requintes artísticos de um ou   de outro autor, mas a sua alma entusiástica abria-se com alegria às   impressões da arte.

 

Ernestina passeou o   olhar através do lorgnon por tudo que a rodeava, sem demonstrar claramente   as suas predileções, temendo cair em erros de observação.   A filha, mal ou bem, ia apontando defeitos e belezas, manifestando sem rebuço   a sua maneira de ver e de sentir. A cabeça do garoto elogiada por Luciano,   fez com que a moça batesse palmas de contentamento. O busto talhado em   mármore tinha energia, graça e independência, qualidades   que se juntavam no caráter de Sara. A moça não pôde   conter-se, e, com os olhos úmidos, beijou nas duas faces a cara rechonchuda   do pequeno garoto de Paris.

 

Luciano estremeceu   como se alguma coisa nova se tivesse revelado nele. Ernestina murmurou, repreensivamente:

 

- Sara! Que criancice!

 

- Ah! Mamãe!   Se este diabinho é tão bonito! Repare para os olhos!... que malícia!...   e para a cabeça!... que audácia... Não parece mesmo que   esta boca está gritando: Viva a França! e que neste peito bate   orgulhosamente um coração!

 

Estiveram algum tempo   de pé em frente ao busto, depois Luciano conduziu-as para outra salinha   interior, onde mandara preparar uma fineza de lunch.

 

Sobre o linho escarlate   e preto da toalha, brilhavam pratos finos de bombons, frutas e guloseimas variadas.   A viúva tirou vagarosamente as luvas, sorrindo com sossego para Luciano,   que lhe dava o lugar de honra, à cabeceira. Sara, sem esperar por convite,   sentou-se, dizendo alto:

 

- Ui! Tanta coisa!!   Para mim bastam as uvas... o que peço é que não se admire   se eu comer todas!

 

Luciano chegou para   ela a cestinha das uvas e sentou-se entre as duas senhoras.

 

Ernestina rescendia   a Scherry-blosson e as suas mãos bem tratadas moviam-se vagarosamente   acima dos pratos ou do linho escuro da toalha. Por toda ela descia um ar de   tranqüilidade e de ventura, fixando em Luciano um olhar calmo, como o de   esposa feliz, em Sara um olhar de mãe confiante.

 

A moça, numa   gourmandise notável, ia dando cabo das uvas brancas, falando sempre,   enchendo a casa com a sua voz fresca e com os seus risos gorjeados.

 

Nessa tarde Luciano   não saiu; sentou-se preguiçosamente a ler no seu escritório;   mas a própria leitura fatigava-o e abandonava de vez em quando o livro,   relembrando a graça de Sara, a onda de alegria que ela espalhara por   toda a sua casa; os seus ditos, a singular mudança dos seus traços,   do seu caráter e até da sua roupa! Nas duas horas em que ela estivera   ali, quantas coisas notara!

 

Tinha-lhe feito observações   justas e lembrado coisas em que ele agora nem repararia... aquela colcha de   veludo preto suspensa na biblioteca fazia lembrar um pano de enterro... era   uma fantasia de mau gosto. O piano deveria estar longe da janela... o busto   do garoto mais voltado para a luz... a sala dos quartos não deveria ter   cortinas... e faltava um tapete de fundo vermelho no escritório... tudo   isso ela dissera à vol-d'oiseau , no primeiro relance; e ele percebia   agora que ela tinha razão. Era como se de repente o vácuo de sua   casa solitária se tivesse tornado em um corpo de mulher moça e   contente, e lhe reclamasse tudo que lhe faltava... E parecia-lhe então   que Sara fora momentaneamente a alma daquele ninho que ele enfeitava, amava,   e que encontrava sempre mudo, frio, morto, incapaz de corresponder ao seu carinho!

 

E Ernestina? Parecera-lhe   nesse dia um pouco avelhentada, medrosa de expressão. E teve pena daquela   alma de criança, fechada em um corpo já em decadência...   entretanto ela era mais formosa do que a filha, e não era a filha certamente   que ele amava!

 

Desde desse dia Luciano   não deixou de ir nem uma só tarde a Santa Tereza. E era sempre   Sara quem o vinha receber, enquanto Ernestina o esperava, risonha e calma, na   sua varanda entrelaçada de flores.

 

  

 

Chegou a noite do baile   masqué. Fazia calor e luar; o céu tinha poucas estrelas, mas muita   luz.

 

Ernestina trajava um   dominó à fantasia, muito unido ao corpo, da seda e rendas pretas,   com longa cauda e capuchão seguro ao cabelo por brilhantes esplêndidos.

 

Ia elegante na sua   seriedade. O seu desejo era ter ido decotada, com um traje farfalhante e claro,   mas teve medo da crítica e absteve-se preocupada sempre com a opinião   dos outros. Às dez horas entraram no baile.

 

O Nunes abria os seus   ricos salões burgueses num esplendor de luzes e de flores. Não   tivera espírito para reviver na sua festa uma época histórica   qualquer, em que tudo, convidados e casa, fosse submetido rigorosamente ao estilo   e ao figurino do tempo reproduzido. Negociante rico e feliz, pouco afeito aos   requintes literários, satisfazia condescendente e bondosamente ao capricho   da esposa, proporcionando-lhe o ensejo de mostrar a sua casa e os seus jardins   formosíssimos.

 

Luciano esperava as   Simões na saleta da entrada. Ele riu-se vendo Sara com um vestuário   diverso do que haviam combinado. Tinha-lhe aconselhado o romântico costume   de Margarida, que lhe fazia valer a beleza das tranças, e ela aparecia-lhe   numa toilette extravagante, sem origem bem determinada e onde o ouro e o vermelho   se embaralhavam indiscretamente.

 

Era uma verdadeira   boemia de opereta com pandeiro, cabelo solto, braços nus, saia redonda   tilintante de moedas. Sara zangou-se ao deparar com Luciano encasacado, foi   logo direita a ele, dizendo que, se todos fizessem o mesmo, não teria   graça nenhuma o tal baile masqué! Depois de um muxoxo, acrescentou:

 

- Estou bem?

 

- Está linda!

 

- Se eu não   lhe falasse, agora o senhor não me reconheceria. Mamãe acha a   minha toilette vulgar. Eu estava morta por saber a sua opinião... ainda   bem que me acha bonita!

 

Ernestina ouviu tudo   imóvel, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha. Luciano não   desviava a vista da cabeça loura da filha, onde flutuava a ponta de um   lenço de seda vermelha.

 

Nessa noite ela não   lhe pediu como costumava: dance com minha filha, sim? Ao contrário, desejava   afastá-lo de Sara. Entretanto eles dançavam juntos.

 

A gentil boemia fazia   tilintar as moedas da saia; em uma alegria barulhenta.

 

Estava feliz nessa   noite; tinha ditos de espírito e havia sempre um grupo de rapazes a cortejá-la   muito.

 

O Eugênio Ribas   não a perdia de vista, procurando todas as ocasiões de estar a   seu lado. A coisa chegava a dar na vista; algumas pessoas diziam mesmo que o   Eugênio era já noivo da Sara Simões. O Nunes, velho amigo   de Ernestina, julgou prudente advertir o moço, e ele lealmente confessou   adorar a filha da viúva e esperar só um momento oportuno para   fazer-lhe a sua declaração. Ernestina soube depressa da resolução   de Eugênio e sentiu um alívio inexplicável. Entretanto Luciano,   num zelo de pai, começava a achar embirrativa a assiduidade do outro.

 

Sara ia-o levando também,   inconscientemente, atrás de si, de sala em sala, risonha e descuidada,   sempre a preferência, distinguindo-o entre todos os outros.

 

Ele seguia-a sem saber   porque, obedecendo a um sentimento de proteção que julgava dever   dispensar-lhe.

 

À uma hora estavam   no jardim. Como a noite estivesse quente, seguiram até ao fundo, ao paredão   que dava sobre o mar. Pelos relvados circundavam linhas multicores de copinhos   luminosos e um foco de luz elétrica, partindo do centro do jardim, derramava   a sua luz diáfana sobre a verdura reluzente dos arbustos e a brancura   marmórea das Vênus e das bachantes nuas.

 

A vegetação   abundante e incomparável do Rio exibia ali os seus mais encantadores   exemplares. Palmeiras variadíssimas, fetos enormes misturavam os seus   leques e as suas rendas às carnudas begônias, às avencas   sutis, às parasitas de formas artisticamente rebeldes e fantásticas,   às rosas, aos cactos, aos jasmins, às flores ardentes e rudes   e às flores idealmente brandas e leves como flocos de espuma. A folhagem   vermelha e cor de ouro velho do croton tinha a seus pés os tapetes rose-dourados   dos jasmins-manga, caídos como um chuveiro de perfume e de luz dos galhos   claros da árvore.

 

Luciano continuava   ao lado de Sara, sem saber mesmo porque considerava-se agora o seu protetor   e o seu guarda, num zelo mais do que paterno. A moça fugira um pouco   à assiduidade importuna do Eugênio Ribas, confessara isso mesmo   a Luciano, numa confidência amiga e sincera. A intimidade a que Ernestina   os obrigara autorizara aquilo.

 

Sara encostou-se ao   paredão, olhando para o mar. Uma expressão de indefinível   doçura espalhou-se-lhe pela fisionomia, até aí radiante   de alegria. Sobre a sua cabeça estendia os braços um formidável   magnólia escura, em que as flores pálidas vazavam dos seus copos   marfíneos o aroma da paixão, violento e entontecedor. Ao longe,   do pavilhão das ipoméias, vinham os sons da banda com os seus   clarins sonoros, e lá em cima, no azul tranqüilo do céu,   a lua ia rolando, lentamente!

 

Luciano contemplava   extático a órfã do seu velho rival. Ela tinha os braços   nus, brancos e estendidos para a frente, as mãos sobre as pedras esverdeadas   do muro, os olhos entrecerrados acompanhando as ondas, que iam e vinham brandamente,   queixosas.

 

Luciano contemplava-a   assim, achando-a bizarra naquele traje quente que envolvia, como uma injúria,   o seu corpo delicado e virginal, sentindo-a ao mesmo tempo mais cândida,   mais ideal, mais doce do que nunca! Aquela cisma e súbita melancolia   da moça tornavam-na como que uma imagem de santa milagrosa, que ele tivesse   visto surgir por encanto daquelas flores ou daquele mar. Ora desejava vê-la   sempre assim, imóvel e serena, ora sentia ímpetos de a beijar,   de a morder, de lhe dizer que a amava!

 

Sara prendera a meia   mascara de veludo ao cinto e no seu rosto largo, onde sempre a expressão   de lealdade tinha suprido a falta de delicadeza, iam agora rolando duas lágrimas.

 

- Em que pensa? perguntou-lhe   Luciano comovido, segurando-lhe na mão.

 

- Em meu pai! Sinto   remorsos desta alegria que tenho tido hoje...

 

- Que criancice!

 

- Será! Mas   que quer? Ele era tão bom! Amava-me tanto! e depois... bem sabe; é   a primeira festa a que eu assisto aqui, nesta casa, onde tantas vezes vim em   sua companhia! Ele era íntimo desta família... Papai e o Nunes   eram como se fossem irmãos!...

 

Sara, excitada pelo   excesso da dança e pelo aroma das flores, pôs-se a falar do comendador,   relembrando os seus carinhos, o extremoso cuidado que lhe dedicava, a maneira   por que se fazia criança para brincar com ela; a sua solicitude e bondade,   o modo piegas com que a tratava, chamando-a: - Jojóia, meu bem!

 

Citava fatos, descrevendo   a sua caridade modesta, a sua honradez sem mácula e a retidão   do seu espírito. Dava ao pai uma auréola de santidade, sem esconder   contudo a rigidez austera do seu caráter.

 

Luciano ouvia-a com   uma atenção silenciosa simpatizando a pouco e pouco com esse homem,   que ainda havia alguns dias odiara e que parecia agora outro através   das saudades e das palavras de Sara!

 

Não analisava   os seus sentimentos; esquecia todo o passado ao influxo daquela ternura filial;   daquela voz argentina, molhada de lágrimas, que vibrava no ar perfumado   da noite com uma doçura de sonho. Compreendia agora bem o coração   extremoso e leal da moça; sentia-a forte, fiel, sincera e justiceira,   alma feita para esposa e para mãe, capaz de todas as lutas, digna de   todas as glórias!

 

Caía por terra   o seu ciúme raivoso e ele desejaria agora ver o Simões reassumir   milagrosamente o seu antigo posto ao lado de Sara e ao lado de Ernestina!

 

Quantas vezes a viúva   lhe tinta respondido, quando ele maldizia o marido:

 

- Ele morreu! E ter   ciúmes de um morto é uma insensatez!

 

- Não! redargüia-lhe   Luciano; eu preferiria ter ciúmes de um vivo, com quem pudesse lutar   e a quem pudesse vencer!

 

- Mas se ele não   tivesse morrido, eu ainda seria casada...

 

Era sempre esta frase   e tapava a boca de Luciano, até que ele, entre risonho e agastado, concluía:

 

- Sim... ele teve ao   menos o juízo de morrer a tempo!

 

Entretanto, Luciano   via agora com respeito e comoção o nome daquele homem há   pouco detestado! O coração abria-se-lhe a um sentimento novo de   simpatia e de piedade.

 

Sentindo-se compreendida,   Sara desabafou as suas mágoas. Referiu-se à historia do retrato   do pai, à mudança inexplicável do gênio de Ernestina,   à maneira por que tirara o luto antes do tempo, o seu nervosismo, o modo   por que evitava falar no marido, cujo nome deixara de soar em casa. Aquela ingratidão   é que lhe doía muito!

 

Agitada pelas danças,   pela música, pelo brilho da noite e o aroma voluptuoso das magnólias,   Sara expandia-se, na embriaguez da dor, falando sempre, revendo-se no olhar   de Luciano.

 

Ele deixou-se envolver   de tal sorte que se indignava contra Ernestina, esquecido de que tudo o que   ela fizera tinha sido a pedido e a conselho seu! E olhava para a Sara amorosamente,   embevecidamente!

 

Atrás deles,   suspensos das árvores e de festões de folhas, pendiam as lanternas   multicores, como fitas luminosas apanhadas aqui e além pela mão   invisível da noite. A música do jardim tocava uma fanfarra, os   sons dos clarins vibravam trêmulos e límpidos, espalhando pelo   espaço uma grande sonoridade!

 

Ernestina aproximou-se   de braço dado com o Nunes e chamou a filha com voz irritada e áspera.   Sara baixou humildemente o rosto, iluminado por uma comoção feliz.   Seguiram ambas para a toilette à procura das capas.

 

  

 

A ama Josefa rematava   uma costura quando sentiu um farfalhar de sedas pelo corredor.

 

- Um gente? como Iaiá   vem bonita!

 

- Escute, Josefa, atalhou   Ernestina, eu hoje espero uma visita aqui, em sua casa! Preciso da sala, ouviu?

 

- A casa toda é   sua!...

 

- Que horas serão?

 

- São duas...

 

- Não pode tardar!...

 

Josefa correu à   sala, para tirar de cima do sofá e das cadeiras, camisas engomadas, dos   fregueses, que lá tinha estendido, cobertas com uma tarlatana cor de   rosa... E nesse trabalho ia pensando que a Ernestina era uma tonta, mesmo uma   criatura muito sem juízo, e concluía:

 

- Por que diabo não   se casará ela de uma vez?!

 

Quando voltou para   dentro, encontrou a viúva Simões em frente do espelho, compondo   os anéis do cabelo.

 

Mirou-a toda. Nem um   vestígio de luto no seu traje!

 

Ernestina levava um   vestido de seda mole, que lhe caía rente ao corpo, mostrando-lhe as formas   delicadas da cinta, do seio e das pernas. Tinha nas orelhas duas safiras, a   pedra da felicidade, que sorriam nas suas cintilações como dois   olhos de anjo rebelde. Por toda ela escorria um aroma quente.

 

- Esse vestido é   novo? perguntou a ama.

 

- É; não   vê que tem a cor da moda?

 

- Azul... ou cinzento...?

 

- Azul elétrico.

 

- Ah!.. não   sei que mais hão de inventar! Iaiá agora anda muito chic !...

 

Ernestina sorriu; mas   depressa as sobrancelhas contraíram-se, formando-lhe uma ligeira ruga   acima do nariz; esteve um momento silenciosa, pensativa e imóvel; tornou,   porém, depressa a alisar com a mão a seda do corpinho. Tirou do   bolso uma caixinha redonda, pouco maior do que uma noz, abriu-a, puxou por um   pom-pom quase microscópico e agitou sobre o rosto com toda a sutileza,   espalhando uma nuvenzinha de pó de arroz.

 

- Iaiá sempre   dizia que não haverá de usá nunca essas coisas!... - observou   a ama.

 

- Eu era moça!   E hoje...

 

Houve um relâmpago   de ódio a fuzilar-lhe nos olhos...

 

- É velha?!   perguntou a outra rindo.

 

Ernestina não   respondeu; limpava com a ponta da toalha umedecida na água as pestanas   e as sobrancelhas, que se desenhavam negras e finas numa leve curva harmoniosa.   Depois, sacudiu os ombros com o lenço, examinou os dentes, as unhas...   e prestou o ouvido atenta; sentira passos.. mas os passos passaram e ela então   disse com um sorriso irônico:

 

- Uma mulher apaixonada   não deveria nunca envelhecer.

 

Bateram. Josefa correu   a abrir a porta da sala; Ernestina relanceou a vista para o espelho e murmurou   num desafio quase triunfante:

 

- Sara! Vamos a ver   qual de nós duas vence!

 

Dois minutos depois,   ela entrava na sala. Luciano foi ao seu encontro com um modo embaraçado,   conquanto afável. Ernestina fixava-o com altivez.

 

- Chamou-me e aqui   me tem, disse ele procurando sorrir.

 

- Compreende porque   não lhe pedi que fosse antes a minha casa.

 

- Não...

 

- Não?!

 

- Não.

 

- Deveras? E riu-se.   Depois, num tom ora precipitado, ora lento:

 

- Pois vai compreender.   Trata-se de minha filha.

 

Luciano não   pôde reprimir um movimento de surpresa. A viúva observou-o um instante   e continuou:

 

- O senhor tem tido   várias vezes a bárbara franqueza de me dizer que a não   pode suportar! Ela, além de todos os defeitos da má educação,   tem a enorme desvantagem de ser o retrato do pai!... Ora, refletindo em tudo   isso e de acordo com uma idéia sua, já mais de uma vez manifestada,   resolvi uma coisa: - casá-la!

 

Luciano estremeceu,   mas continuou silencioso e sério. Ernestina tinha o olhar cravado nele,   procurando estudar-lhe os gestos e penetrar-lhe no pensamento. Aquele olhar   cheio de fogo e de paixão perturbava-o tanto como as palavras que ia   ouvindo.

 

- É já   tempo de lhe declararmos o nosso amor e os nossos projetos. Para que o casamento   se realize, é forçoso separar-me dela... assim o senhor me tem   dito... Aconselhe-me agora.

 

Luciano quis falar,   mas deteve-se. Ernestina esperou um segundo.

 

- Porque não   responde? O senhor nunca teve cuidado em esconder de mim o mal que lhe queria.   Disse-me muitíssimas vezes que a achava intolerável, mal educada,   autoritária, feia e antipática. Foi por sua causa que eu a mandei   para Friburgo; foi por inexplicáveis pedidos seus que escondi até   hoje as nossas intenções, como se elas fossem criminosas.

 

"Não me   tem custado pouco o mentir à minha filha, acredite! Se ela não   tivesse por mim a veneração, o amor absoluto que me faz parecer   a seus olhos a mais pura e a melhor das mulheres, que julgaria de mim?!

 

"Muitas vezes   o senhor me tem dito que pareço indiferente ao seu amor, e fria!... Entretanto   fique certo de que a minha frieza e indiferentismo têm-me custado um grande   esforço, porque bem sabe que o amo com veemência, que o amo com   paixão!

 

A voz de Ernestina   tinha urna sonoridade nova, ondeando, entre a censura e a queixa, e a maneira   acentuada e firme porque falava revestia-a de um encanto singular.

 

Houve uma pausa; a   viúva Simões cortou-a com azedume:

 

- Devemos casar Sara   quanto antes.

 

- Casá-la...    - balbuciou Luciano como um eco.

 

- Sim! Eugênio   Ribas ama-a, e como é seu amigo lembrei-me de uma coisa...

 

- É verdade?!

 

- É certo; e   o que o senhor tem a fazer é o seguinte: - Vá ter com o Eugênio,   prontifique-se a pedir a mão de minha filha, depois....

 

- Depois?

 

- Vá à   minha casa e consulte a opinião de Sara; elogie o rapaz, que é   na verdade digno. Em seguida poderemos declarar-lhe as nossas intenções.   

 

Ernestina falava com   uma linguagem estudada, reprimindo os sentimentos, domados por um esforço   de vontade que já não podia sustentar.

 

Contemplaram-se por   algum tempo silenciosos. Luciano com espanto. Ernestina com altivez: por fim,   ele disse baixo, num tom magoado:

 

- É impossível!

 

- Impossível!   Por que?! Não tem sido o senhor mesmo a insinuar, a aconselhar, a exigir   mesmo, que eu case minha filha?! Além de tudo, ela ama o Eugênio...

 

- Ah!

 

- Adora-o!

 

- Confessou-lhe isso   já? perguntou Luciano.

 

A viúva não   teve coragem de sobrecarregar sua impiedosa mentira e, corando um pouco, acrescentou:

 

- Sei que ela o ama...   vive a falar nele a propósito de tudo... basta ouvir-lhe o nome para   embaraçar-se... surpreendi-a pedindo á Georgina notícias   dele... É natural, são ambos moços... são ambos   bonitos...

 

- Sim... são   ambos moços... Luciano baixou a cabeça entristecido por aquela   confidência, pensando na felicidade do outro. Ernestina compreendeu-o   talvez e agarrou-lhe na mão com doçura, falando-lhe baixinho e   tratando-o por tu, pela primeira vez.

 

- Oh! meu Luciano,   como te amo! Como eu te quero bem! Havemos de ser felizes... Há tantos   anos já que nós sonhávamos com essa felicidade!... Lembras-te?   Eu era ainda menina! Quando vesti o meu primeiro vestido de mulher, eu já   te amava! Foste tu que despertaste o meu primeiro sonho... serás tu quem   me feche caridosamente os olhos quando eu morrer, beijando-te! Meu marido! Meu   marido! Luciano! Lembro-me ainda de todas as palavras que me dizias há   vinte anos!... Dize-me outra vez que me amas... Estás triste!... Eu daria   todo o meu sangue para que fosses feliz! Amo-te assim.

 

Luciano ia sentindo   reviver pouco a pouco o amor. Sara amava outro? Que amasse! Era tempo de acabar   com aquilo; que se casassem depressa e lhe fugissem dos olhos.

 

Ernestina falava agora,   falava sempre, já sem calma, feliz, desatando frases de queixa, de censura,   de desespero e de amor, deslumbrando Luciano com a sua voz quente, a sua formosura   miraculosamente rejuvenescida nessa hora de enlevo e de paixão ardente   e concentrada.

 

Ele já não   a observa com reserva, mas com admiração.

 

A pouco e pouco a palidez   mate, o luminoso olhar da viúva, toda aquela febre em que ela se revolvia,   iam-lhe acendendo desejos de a apertar nos braços. Ela percebeu isso   e postou-se defronte dele, com o corpo arfando sob a seda mole do vestido e   a cabeça inclinada como a pedir beijos.

 

Luciano ergueu-se desvairado   e quis beijá-la, ela furtou-se a isso nuns movimentos arredondados e   lânguidos, e, baixando a cabeça muito risonha e feliz, disse-lhe   quase num murmúrio:

 

- Depois...

 

Foi então Luciano   quem prometeu ir falar ao Eugênio e combinou a maneira de o fazer sem   indiscrição. A viúva envolvia-o num longo olhar voluptuoso   e perturbante, ele ia prometendo tudo quanto ela queria e mandava.

 

- Amanhã ficará   tudo acabado? perguntou-lhe por fim Ernestina.

 

- Assim o espero.

 

- Adeus.

 

Nessa tarde, Ernestina   ao tirar no seu quarto o lindo vestido de seda, parou em frente ao espelho,   olhando para os braços e o colo nus, de um moreno delicado que a luz   tingia de um reflexo dourado. Contemplou-se por muito tempo e concluiu triunfante:

 

- Sara é moça,   mas eu sou mais bonita!

 

Luciano saíra   tonto! As palavras de Ernestina, o seu corpo esbelto, as atitudes provocantes,   o aroma forte que a envolvia, e aquela cena de paixão e de enleio, tinham-no   alvoroçado. Ele acostumara-se à serenidade um tanto fria da moça;   o seu amor por ela já se ia tornando num hábito mais digno do   nome de amizade. Agora, porém, as coisas mudavam e ele sentia que iam   mudando a tempo.

 

Durante todo o resto   do dia, vibraram nos seus ouvidos as expressões queixosas de Ernestina,   e as narinas dilatavam-se-lhe, sentindo como que impregnada a essência   dela no seu fato, na sua própria pele!

 

À tarde deveria   procurar o Eugênio, mas às primeiras horas da noite ainda o encontraram   em casa, e em casa ficou sem resolução, atado. A verdade era que,   com o correr das horas, Ernestina ia cedendo lugar à filha, e ele sofria   querendo e não podendo cumprir a extravagante missão que lhe dera   a Simões.

 

Luciano mesmo estranhava   aquela indecisão. Sara não lhe era nada, havia poucos dias apenas   que percebera que ela não era feia e que tinha espírito. Procurava   abster-se de pensar nela, mas o pensamento teimoso voltava a reproduzi-la num   deleite amargo. À proporção que o tempo avançava,   ele enfraquecia no propósito de obedecer a viúva. Não compreendia   agora o amor de Sara por Eugênio Ribas.

 

Supunha a confidência   de Ernestina um estratagema.

 

Ele tinha julgado ler   nos olhos de Sara, essas estranhas pupilas ora castanhas ora azuis, alguma coisa   de infinitamente doce, uma promessa, um sonho, um vôo de pensamento que   parecia dirigir-se a ele.

 

Com a ausência,   o vulto de Ernestina ia-se esfumando no seu espírito, e numa irradiação   de luz ele via Sara, dizendo-lhe na sua grande franqueza:

 

- Amo-a!

 

E era toda essa graça,   lealdade e candura, toda essa mocidade e alegria que ele ia oferecer a outro,   a um estranho, que a não compreenderia nunca talvez! Esposa...

 

Ele também a   preferiria para esposa, quereria ser ele a conduzi-la ao altar a chamá-la    - minha!

 

Em toda a sua vida   era a primeira vez que essa palavra simples assumia no seu pensamento proporções   tão belas! E Sara haveria de sagrar essas três silabas divinas   com as suas qualidades perfeitas, seria esposa amorável e honesta a quem   a mentira repugnasse e o sacrifício aprouvesse!

 

Não se resignando   a falar ao Eugênio Ribas nesse mesmo dia, Luciano sentou-se à mesa   e escreveu longamente à viúva Simões. Alegou necessidade   urgente de partir nessa madrugada para Minas, para onde o chamava, por telegrama,   um velho parente moribundo...

 

Adiava tudo para a   volta.

 

Luciano escreveu aquilo   com a convicção de poder mais tarde vencer a sua vontade e apressar   o casamento de Sara. Entretanto, percebia bem: se Ernestina era para ele a mulher   de fogo que lhe queimava a carne, a filha era a mulher de luz benéfica   que lhe iluminava o futuro, e ele amava a ambas, a uma com os sentidos, a outra   com o coração.

 

  

 

Fazia um calor abafadiço   e medonho.

 

Pelas janelas abertas   da sala via-se a cidade coberta por um pesado véu cinzento da atmosfera   enfumaçada e densa.

 

As plantas enlanguesciam   no jardim e a areia faiscava na sua alvura brilhante.

 

Ernestina estava na   sala, onde o retrato do marido reassumira o seu antigo posto. Caíra num   grande abatimento.

 

A carta de Luciano   tinha-a amargurado. Era evidente que ele fugira à entrevista com o Eugênio   Ribas: Amaria então muito a filha? Era isso o que a desesperava.

 

Compreendia finalmente   que não soubera inspirar a Luciano mais do que uma paixão carnal.   O coração e o espírito tinham vivido alheios. Ele quisera   um galanteio e ela dera-lhe todo o seu amor.

 

Envergonhava-se de   ter sido tão crédula; se o tivesse tratado com desdém,   ele adorá-la-ia talvez! pensava ela.

 

Tomou a ler a carta,   e amarrotou-a com desespero. Vendo fugir o noivo sentia recrudescer a sua paixão.   Amava-o como nunca!

 

A rivalidade com a   filha exacerbava isso. A mocidade de Sara era a sua tortura. Invejava aqueles   dezoito anos, aquela alma primaveril, aquele rosto fresco e tranqüilo.   Estremecia, com medo da velhice, da sua fatal e terrível decadência   que sentia já perto, muito perto.

 

Suprimir Sara, pelo   casamento, era o seu sonho de ouro! Na sua imaginação doente surgiam   idéias extravagantes. Pensou em ir ela mesma, procurar o Eugênio   Ribas, ou fazer-lhe constar pelo Nunes, que daria um grande dote à filha...

 

Ernestina era delicada   e repeliu depressa essa lembrança. Seria expor a filha a comentários,   isso nunca! Como sair daquele embaraço? Queria vencer, custasse o que   custasse. Seria abominável que Luciano lhe fugisse uma segunda vez! A   sua esperança era de que a filha não retribuiria nunca o amor   dele!

 

Ernestina imaginara   que haveria de ser cada vez mais amada, exatamente por não ter cedido   aos desejos e solicitações do noivo e eis que via agora desmoronarem-se   todos os seus cálculos e aspirações.

 

Enraivecia-se contra   Luciano! Imaginava os mais estranhos e esquisitos meios de prendê-lo a   si. Já não importava tanto que ele amasse a outra, contanto que   se casasse com ela!... Ser abandonada sendo formosa e livre, era uma monstruosidade!   Depois, Ernestina já se humilhava a que o Luciano se deixasse amar, unicamente   desde que pudesse dizer alto à vista de toda a gente, a verdade que sepultava   na alma havia tanto tempo! Ser feliz com ele, por ele, dedicar-se-lhe completa,   absolutamente, era o seu sonho.

 

Tinha fé que   todo o seu carinho, todo o seu amor e cuidado cativariam o marido mais do que   haviam cativado o amante!

 

No meio destes pensamentos,   que se atropelavam desordenadamente no seu cérebro, a viúva foi   interrompida por Sara que entrando na sala foi direita a ela.

 

Mãe e filha   olharam-se, como adivinhando-se.

 

Subitamente a moça,   que era como fora o pai, de uma franqueza arrojada, disse num tom sacudido e   firme:

 

- Tenho que lhe dizer.

 

- Ah!...

 

- Deu-me ontem a entender   que o Eugênio Ribas quer casar comigo...

 

- Sim, quer.

 

- Pois eu não   quero.

 

- Oh! Ele é   um moço excelente, muito bem educado.

 

- Seja o que for; não   gosto dele.

 

- Minha filha! repara   que ele faria a tua felicidade...

 

- Não. Enfim   mamãe eu só lhe peço uma coisa...

 

Ernestina ouvia-a,   suspensa.

 

- Se ele vier pedir   a minha mão, não me consulte; diga-lhe logo que eu amo outro.

 

- Amas outro?!

 

- Sim.

 

- Quem é esse   outro? perguntou Ernestina com medo, com uma voz abafada, segurando-se ao braço   da filha.

 

- Luciano.

 

- É mentira!   exclamou Ernestina já de pé e com raiva, é mentira!

 

Sara olhava-a com pasmo;   a viúva deteve-se um minuto, depois puxou-a para si, beijou-lhe a tranças,   as faces, os olhos e murmurou quase numa súplica:

 

- Ah... dize-me que   é mentira!

 

Sara não respondeu:   olhava-a sempre com o mesmo olhar espantado e mudo.

 

A mãe levou-a   até o sofá, fê-la sentar-se, sentou-se ela também   e segurando-lhe nas mãos deixou-se resvalar até ficar quase de   joelhos aos pés da filha. E foi assim, com os olhos empanados de lágrimas   que ela disse:

 

- Eu também   o amo, Sara, eu também o adoro!

 

A moça teve   um gesto de horror e de susto a mãe prosseguiu:

 

- Escutai para ti ele   é um amor que começa, um capricho de criança talvez, que   se apagará depressa; e para mim ele é a vida, toda a minha mocidade!   Eu era ainda mais nova do que tu e já o amava!

 

Abandona essa idéia!   Tens um futuro tamanho!.. amarás depois outro homem, mais novo, mais   belo, mais digno de ti! Eu é que estou no fim... eu e que já não   tenho esperança e que morrerei se ele me desprezar!

 

Sara, com o rosto voltado   para fora, não respondia. Ernestina suplicava-lhe:

 

- Olha para mim! Não   imaginas o sacrifício que tenho feito para te esconder este amor! E ele   é tão velho em meu coração! Quando eu te gerei,   quando te sentia nas minhas entranhas ou que te suspendia no meu seio, ele já   palpitava em mim, com o mesmo fogo, com a mesma violência!

 

Sara voltou os olhos   para o retrato do pai e duas lágrimas grossas deslizaram-lhe devagar   pelas faces.

 

Surpreendendo a dolorosa   piedade que aquele gesto exprimia, Ernestina murmurou:

 

- Respeitei sempre   teu pai e procurei por todos os modos fazê-lo feliz... Se o meu coração   era de outro...

 

A filha sufocou-lhe   a frase tapando-lhe a boca com a mão, fria e nervosa. Houve uma pausa,   ouvia-se a cansada respiração de ambas. Sara a retirou mão   com um movimento brusco, Ernestina soluçou baixo:

 

- Dize-me que lhe fugirás!

 

Sara não respondeu.

 

- E hás de ser   tu, minha filha! quem me roube a ventura com que desde menina sonho! Sara eu   sou uma louca! Ah! Na minha idade as paixões são assim, levam   a estes desatinos! Como é cruel a velhice!... como tu és feliz,   minha Sara!

 

Ernestina cobrindo   de beijos a mão gelada da filha foi-lhe contando tudo baixo e precipitadamente.

 

Revelou assim numa   doidice indiscreta, as promessas e exigências de Luciano, os seus conselhos   e até os seus ditos ferinos contra a filha!

 

Já exausta,   Ernestina deixou-se cair sentada na alcatifa. Sara então levantou-se,   atravessou a sala sem olhar para trás e saiu. A mãe ficou só   com o rosto sumido no estofo de um fauteuil, soluçando alto como uma   doida!

 

  

 

Sara encerrou-se no   seu quarto. Sentia-se atordoada e opressa. Esteve longo tempo à janela   com os olhos parados no azul acinzentado do mar.

 

A pouco e pouco via   esclarecidas muitas passagens de outrora: frases irônicas e secas de Luciano,   atitudes constrangidas da mãe e mesmo certos ditos levemente maliciosos   da Georgina, que tinha sido, como sempre, muito mais perspicaz do que ela...

 

Isso tudo vinha-lhe   à memória demoradamente, como se umas coisas arrastassem outras.

 

Mas afinal, o que tangia   com mais dor no seu coração, eram aquelas pungentíssimas   palavras da mãe, referindo-se à antiguidade do seu afeto: "Quando   eu te gerei, quando te sentia nas minhas entranhas ou que te suspendia no meu   seio, ele já palpitara em mim com o mesmo fogo, com a mesma violência!"

 

Eram essas expressões   nervosas e apaixonadas que soavam mais repetidamente aos ouvidos da moça.

 

Por que se teria casado   a mãe! Por que teria mentido àquele santo, que se não fosse   a filha estaria completamente esquecido na terra? Envergonhava-se como se, por   ter sido concebida sob a influência desse amor, tivesse comparticipação   no crime da mentira. Votava tal adoração à memória   do seu querido morto, que, mais pequena ainda que tivesse sido a falta, lhe   pareceria uma monstruosidade! Amar um homem e casar com outro era, aos seus   olhos castos, uma ignomínia! Que mistério haveria em tudo aquilo?   Por que não se teriam eles declarado e unido se eram ambos livres?! Começava   a duvidar da honestidade da mãe; queria-a toda voltada para aquele que   a amara, leal, exclusivamente!

 

A confissão   de Ernestina fora até a brutalidade. Para que desvendar-lhe as queixas   e antipatias de Luciano? Não precisava disso para compreender agora tudo:   a retirada do luto antes do tempo... a história do retrato... o seu afastamento   para Friburgo... os gestos e conversas com que procuravam livrar-se dela...   Lamentava ter vazado a sua alma no coração de Luciano naquela   terrível noite do baile. O seu amor transformara-se subitamente em ódio:   Execrava Luciano, não compreendia mesmo como o tivesse amado! E amara-o   talvez por tanto ouvir falar dele; à força de vê-lo na intimidade   da casa, de respirar aquela atmosfera em que o nome dele, o gosto dele, a ida   dele pareciam impregnar-se; fora talvez por ter sido tratada por ele com pouca   atenção... Nascera esse amor do ressentimento, morria na raiva!

 

Sara começou   depois a passear pelo quarto, mordendo as mãos, sacudindo os ombros em   movimentos fortes, sobressaltada, coberta de vergonha só com a idéia   de que Luciano adivinhara o seu primeiro amor! Que a vira chorar, que demorara   nas suas pupilas enternecidas os olhos pérfidos, que lhe apertara as   mãos com modo enamorado, sentindo-a dele... toda dele! Revia tudo: as   vozes... as luzes... o mar... as flores... o seu nome suspirado por ele num   enlevo... aquele perfume, aqueles batimentos de coração... aquele   despertar no amor, que a comovera tanto!

 

Enganada, enganada!   Pensava ela com asco de si mesma, como se tivesse sido um crime a sua credulidade.   A mãe tinha-lhe mentido. Tinham-lhe mentido todos que a rodeavam!

 

Começava a odiar   toda a gente.

 

De repente estacou;   a visita do Rosas ocorreu-lhe como a lembrança da maior ignomínia   de toda a sua vida. E a mãe, que a tinha deixado sofrer tanto.

 

Pensou logo que Ernestina   já não a amasse. Cuidou mesmo que ela talvez desejasse a sua morte...

 

O calor sufocava-a.   Sentia um novelo na garganta, que lhe tapava o ar. Foi ao lavatório,   encharcou a toalha de rosto na água do jarro e envolveu-se nela.

 

Nisso a Simplícia   passou rente à janela cantando, em um disfarce, para ver o que se passava   lá dentro do quarto da moça. Sara retraiu-se, envergonhada, lembrando-se   de frases da mulata, percebendo a sua curiosidade.

 

Toda a gente sabia   do amor da viúva por Luciano, só ela ignorara tudo! Simplícia,   voltou, ondulando o seu corpo de cobra em movimentos preguiçosos, cantarolando   entre dentes.

 

Era demais! Sara fechou   violentamente as venezianas e recomeçou agitadíssima a passear   de um lado para outro.

 

Até as negras   de casa queriam vigiá-la!

 

Supôs que tivesse   sido aquilo mandado pela mãe, e rasgou-lhe o retrato num ímpeto,   arrancando-o da sua cabeceira onde ele sorria junto do retrato do esposo!...   Depois atirou ao chão a fotografia despedaçada, e voltou-se religiosamente   para o retrato do pai.

 

Amava-o mais do que   nunca! Beijou-o, disse-lhe baixinho tudo que ia voando pela sua imaginação...

 

Queria vingar-se e   vingá-lo, remir os beijos que a mal lhe dera, pensando no outro; fazê-los   amargar aquele crime; aniquilá-los entre as suas mãos frágeis.   A vergonha de ter amado Luciano, de lhe ter demonstrado o seu amor nascente,   punha-a vermelha trêmula, excitada. Como podia isso ter sido, santo Deus?   Agora chamava-lhe miserável, cão, cão!

 

Teve vontade de socorrer-se   em alguém, e achava-se só no mundo, completamente só!

 

Sara pestanejava, sentindo   nas pupilas secas uma impressão dolorosa, como se as tivessem polvilhado   de areia quente. O sangue tingia-lhe todo o rosto de um rosado vivíssimo   e ela apertava com as mãos geladas as fontes palpitante. A toalha resvalara-lhe   dos ombros para o chão, e através do vestido molhado, via-se-lhe   tremer a carne das costas em convulsões repetidas. O pai olhava-a com   o mesmo olhar mudo e frio. A moça deitou-se abatida por uma vertigem   que a sossegou momentaneamente. Depois abriu os olhos para o teto nu. Voltou-lhe   o conhecimento das coisas. As lágrimas não vieram, mas veio a   febre.

 

  

 

Eram 11 horas da noite;   no quarto de Sara havia um rumor baixo do vozes e um forte cheiro de mostarda   com que sinapizavam a doente. A lamparina espalhava uma claridade morna e discreta.   No papel branco da parede o cortinado da cama desenhava em sombras movediças   as suas rosas, pâmpanos e fetos. Sara estava ali deitada de costas no   seu leito de virgem, com os olhos cerrados, imóvel como a imagem de um   túmulo. A mãe mudava-lhe os sinapismos, ajoelhada no chão,   com as mãos sumidas em baixo dos lençóis, os olhos vermelhos,   maltratados pelo choro.

 

O médico examinava   com atenção o remédio acabado de chegar da botica.

 

- Dêem-me uma   luz pediu ele, impaciente, revirando entre os dedos magros o frasco do xarope.

 

A Ana chegou uma vela,   fazendo com a mão anteparo, para que a claridade não batesse no   rosto da doente.

 

- Erraram a fórmula!   Erraram como burros! gritou o doutor lendo com atenção o rótulo   e mirando a cor opalizada do remédio,

 

Ernestina voltou-se;   o médico abrira o frasco lambia a ponta do dedo molhada no xarope.

 

- Peço remédio   e mandam-me veneno, resmungou o médico zangado, pousando o vidro sobre   a cômoda.

 

- E agora? perguntou-lhe   Ernestina.

 

- Agora é preciso   mandar buscar outro.

 

- Chamem o João!   Gritou a viúva para dentro.

 

O médico escreveu,   exigindo que fossem a outra farmácia.

 

- Eu não quero   que minha filha morra! gemeu Ernestina

 

- Não morrerá,   descanse...

 

- Não me engana,   doutor?!

 

- Estas doenças   cerebrais são graves, gravíssimas... mas espero que havemos de   triunfar.

 

- Oh! O senhor não   tem certeza!

 

- Sua filha tem um   temperamento sangüíneo, muito forte... mas, Senhor, que determinaria   isto?!

 

Era a vigésima   vez que ele fazia aquela pergunta. Ernestina suspirou, muito opressa.

 

- Daqui a uma hora   dê-lhe uma colher de xarope. Depois só o calmante.

 

A viúva acompanhou   o médico até a porta repetindo a pergunta:

 

- Há perigo...   há muito perigo?!

 

- Não posso   dizer nada... por enquanto... respondeu o médico embaraçado

 

Ernestina juntou as   mãos, aflita.

 

- Amanhã deve   apresentar melhoras... murmurou ele, procurando consolá-la. Ele saiu,   Ernestina voltou cambaleante para o quarto da filha.

 

Aproximou-se do leito;   Sara tinha os olhos abertos, mas fixos, mudos.

 

- Meu amor... como   estás?

 

Sara não se   moveu. Ernestina recuou, chorando, para um recanto mais sombrio do quarto.

 

Havia já muitos   dias que aquilo era assim; dias e noites passadas naquele canto, com as mãos   nos joelhos e olhos na filha. De vez em quando levantava-se; Sara gemia, ela   ia arranjar-lhe a roupa, beijá-la, pedir-lhe perdão, baixinho,   com toda a humildade e ternura; sem obter nenhum olhar em resposta, voltava   para o seu canto, lugubremente. Rezava então de um modo desordenado e   aflito, encolhendo-se na cadeira, com verdadeiro pavor do retrato do marido   que continuava suspenso sobre a cabeceira da cama, e que parecia estar ali para   proteger a filha e argüir terrivelmente a esposa. A viúva via incessantemente   esta pergunta atroz nos olhos dele:

 

- Que fizeste de nossa   filha?

 

Sara balançava-se   entre a vida e a morte. A mãe não sabia de mais nada; estava sempre   ali sem dormir, sem se despir, quase sem comer, com o rosto transformado, o   cabelo em desalinho, os lábios a murmurarem preces e promessas:

 

- "Meu Deus! se   salvares minha filha eu vestirei dez órfãos pobres e dar-lhes-ei   educação...

 

Virgem Maria! se deres   saúde à minha filha eu irei descalça, como a mais humilde   e pobre das criaturas, angariar esmolas para os velhinhos fracos e aleijados!..."

 

Ao médico ela   suplicava, de joelhos; que lhe salvasse a filha, prometendo-lhe fortunas e coisas   impossíveis!

 

Quando a noite chegava,   era horrível! Via-se sozinha; a filha parecia-lhe, às vezes, moribunda,   outras vezes morta.

 

Então tinha   medo de se chegar à cama, arrastava-se de joelhos e rezava ao retrato   do marido como rezaria a uma imagem sagrada. Ela era a culpada e tudo!

 

O remorso juntava-se   à dor. Agora a sua felicidade seria ver Sara feliz.

 

O seu amor era um crime!   Pedia perdão a Deus, prometendo-lhe altares de ouro se ele salvasse Sara!

 

Naquela noite Ernestina   estava mais agitada do que nunca. O cansaço físico juntava-se   à fadiga e tortura moral. Ela revoltava-se contra o corpo, sentindo por   vezes vacilar-lhe a vista e a razão.

 

No silêncio profundo   da noite, a badalada da uma hora soou como um grande suspiro de agonia. Ernestina   levantou-se e foi direita à cômoda.

 

O médico tinha   recomendado vigilância e extrema pontualidade nas horas do remédio...   Ela tomou o vidro por onde o remédio coava uma boa cor opalina e aproximou-se   do leito. Sara tinha os olhos abertos, mas como se não vissem; a mãe   agitou-a, ela moveu a cabeça com um gemido... Ernestina chegou lhe a   colher à boca, a moça cerrou apertadamente os lábios. Foi   então uma luta até que a mãe forçou-a, batendo-lhe   com a colher nos dentes, a tomar o remédio; chegava a ser brutal, mas   queria a todo o custo a salvação da filha! Sara não pôde   engolir o xarope, gorgolejou-lhe na boca e saiu espumante, escorrendo-lhe pelo   queixo. Desesperada, Ernestina deu-lhe outra colher e tapou-lhe depois rapidamente   a boca, com a mão espalmada. A doente engoliu com ruído, e ficou-se,   como dantes, imóvel. A viúva beijou-a devagar, como a pedir perdão   por aquela violência, e levantou-se; mas ao voltar-se estremeceu! Sobre   a mesa de cabeceira estava o outro vidro de xarope.

 

De repente lembrou-se   de tudo e viu o seu erro. Enganara-se nos remédios. Comparou os dois   frascos, eram iguais no tamanho, eram quase iguais na cor... mas num estaria   talvez a salvação, no outro estava com certeza a morte!

 

E fora a morte que   ela levava à sua amada, à sua idolatrada filha!

 

Ernestina correu para   fora, gritando pelos criados: tornou depois a entrar no quarto, e pareceu-lhe   que as pupilas de Sara se tinham dilatado muito e que na sua pele branca e pálida   desabrochavam manchas violáceas. Tornou a sair e foi bater com ambas   as mãos na porta do quarto das criadas, que já se vestiam estremunhadas   e aflitas. Quis tornar para o lado de Sara, não teve coragem e atirou-se   para o jardim.

 

A casa do hortelão   era ao fundo, meio encoberta pelos pés de murta, ao lado da horta. Ernestina   correu para lá, pisando nos canteiros, colérica contra os espinhos   das roseiras que a obrigavam a parar, prendendo-lhe o vestido que ela estraçalhava.

 

O João acordou   assustado, ouvindo a voz da patroa que lhe ordenava de ir chamar o médico   depressa, muito depressa. Ele respondeu que sim, com a voz empastada, cheia   de sono.

 

- Chame também   um padre! Minha filha morre!

 

Ernestina voltou para   dentro mais uma vez. Seguiu pelo corredor com as mãos no ar, o peito   arfante. Esbarrou na porta do quarto de Sara, sem forças para entrar,   com medo da morte. Esteve algum tempo inerte, encostada no umbral, repetindo   baixo, num tremor nervoso, matei rainha filha... matei minha filha... matei   minha filha... Espreitou de longe, por fim; criadas rodeavam a cama de Sara.   Lembrou-se de repente de ir buscar Luciano; Sara amava-o, só ele a poderia   salvar!

 

Seria o amor o Cristo   que ressuscitasse aquele corpo exânime e que fizesse erguerem-se, na miraculosa   paz das almas satisfeitas, aquelas pálpebras imóveis e aquela   pálida cabeça de moribunda! Só a amor teria o poder mágico   de acordar aquela carne que nem os seus beijos, nem as suas lágrimas   faziam estremecer?

 

Ernestina saiu para   a rua e correu pelo morro abaixo, num atordoamento. Ia para buscar Luciano,   o seu amado, o seu sonhado esposo, e dizer-lhe: confesse o seu amor à   minha filha e salve-a!

 

O caminho estava negro,   a viúva sentia o vestido embaraçar-se-lhe debaixo dos pés;   tropeçava a miúdo, caiu uma vez; ergueu-se; e foi seguindo.

 

Não levava nem   chapéu nem xale, e o vestido leve, caseiro, mal a resguardava da chuva   que principiava a cair.

 

Uma patrulha cortou-lhe   o caminho; ela disse-lhe, entre soluços: - Vou buscar Luciano, minha   filha morre! E com tal dor disse aquilo que a policia deixou-a passar, através   da noite, sozinha na sua angústia!

 

A chuva caía   do céu enegrecido; as casas estavam fechadas e mudas, as ruas solitárias;   os lampiões de gás pareciam tochas fúnebres, acesas de   longe em longe e os passos da viúva Simões soavam no meio daquilo   tudo de uma maneira irregular, nervosa, triste.

 

Chegou quase morta   à rua do Riachuelo; encostou-se à parede dum prédio, tateou   a campainha elétrica e vibrou-a sem interrupção até   que lhe abriram a porta. Era a casa de Luciano; o criado reconheceu-a logo e   não pôde conter um murmúrio de espanto.

 

- A senhora aqui!...   a estas horas! balbuciou ele.

 

Ernestina não   respondeu; galgou os degraus e seguiu esbarrando nos móveis e nas paredes   até perto do quarto de Luciano, para onde gritou com toda a sua alma,   num último esforço:

 

- Luciano! Luciano!   Matei minha filha! Salve minha filha!

 

Ernestina não   pôde suster-se por mais tempo em pé. A vista escureceu-se-lhe,   os joelhos vergaram-se-lhe e ela caiu desmaiada.

 

Quando Luciano entrou   na sala ela ainda estava estendida no chão.

 

O criado iluminava   a cena, com os olhos espantados. Vendo o amo, perguntou indeciso:

 

- Ela diz que matou   a filha... quer o senhor que vá avisar a polícia?

 

- Quero que vás   chamar um carro, oh burro! Pois não vês que ela morre?

 

Luciano tinha chegado   nesse dia da viagem a Minas, arranjada como pretexto para adiar as explicações   com o Eugênio Ribas. Nada sabia acerca de Sara, temia escrever a Ernestina   em quem pensava, quando longe, como numa doce amiga de infância, e quando   perto, no alvoroço dos sentidos, como na mais desejável das amantes!   Aquela mulher era um enigma!

 

Desde os tempos antigos   da sua primeira paixão, que ele lhe fugira por medo!...

 

A beleza de Ernestina   ela então de uma singularidade atormentadora! Vira sempre nela a tentação   da carne, chamando-a por isso de: - virgem inconscientemente pecaminosa! Nunca   lhe ocorrera dar-lhe uma flor. Se pensava em presenteá-la, vinham-lhe   à idéia pedrarias caras, engastadas em metais rijos e vistosos.

 

A não ser como   amante, lasciva e ardente, ele só podia conceber Ernestina casar-se com   um príncipe poderoso ou um desses homens fantásticos, das lendas,   que a vestisse de roupas suntuosíssimas e a fizesse servir em baixela   de ouro. Era a mulher destinada, pela sua formosura emocionadora, ao luxo, à   grandeza e ao amor!

 

Não que o seu   rosto fosse de linhas puras, nem que as suas palavras denunciassem a volúpia;   aquele ardor, aquele domínio, vinham da sua pele, do seu olhar, do seu   porte e do seu sorriso.

 

Decorreram anos depois   de tudo isso; agora ele sabia-a boa e honesta; a sua vida de casada fora doce,   invejável, simples, reta! Inda assim, era sempre a mesma impressão   esquisita, meramente sensual, que essa mulher produzia nele!

 

Lamentava-se disso   agora que, pela convivência, conhecia as maneiras e idéias severas   de Ernestina, sempre tão correta e tão fria.

 

Aquela cena em casa   da ama Josefa encheu-o de assombro e de piedade. Calculava o sacrifício   que teria custado à viúva o seu coquetismo quase canalha.

 

Ernestina aí   estava agora a seus pés, com o vestido sujo de lama, o cabelo solto,   os olhos dentro de um círculo negro.

 

Luciano, atônito,   curvou-se para vê-la bem de perto.

 

O criado repetiu:

 

- O senhor fará   o que entender... mas eu sempre achava bom avisar a policia...

 

- Um carro, já   disse! gritou Luciano com raiva; e enquanto o outro saía a procurar um   carro, ele fixava com susto a fisionomia da viúva.

 

- Que se teria passado?   As hipóteses voavam-lhe doidamente pelo espírito. Suspendeu a   viúva, pô-la no sofá agitando-lhe a cabeça numa almofada.

 

Julgava-a vítima   de uma febre. Era delírio tudo aquilo: a sua vinda e aquelas palavras   horríveis que o tinham despertado de um modo tão cruel.

 

- "Matei minha   filha; salve minha filha!"

 

Luciano vestira um   robe de chambre ao conhecer a voz de Ernestina, apressando-se em vê-la:   agora fazia rapidamente a sua toilette, com o ouvido à escuta e o coração   aos saltos.

 

Sara... Sara! Meu Deus!   Que haveria de verdade em tudo isso? A ser delírio, não teriam   deixado a doente sair aquela hora... sozinha... Loucura? Quem sabe?... Mas como?   Por que teria enlouquecido Ernestina?... E no fundo do seu espírito debatia-se   o medo de que realmente a viúva tivesse estrangulado a filha em um momento   de ciúme...

 

Ao mesmo tempo a razão   lembrava-lhe o amor daquela mãe, para quem a filha era o símbolo   da perfeição na terra, o inexaurível manancial de todos   os bens! Impressionado e perplexo, ele procurava às vezes interrogar   a viúva, mas curvava-se para ela, sem ânimo de a despertar, abandonando-a   naquela vertigem que a imobilizara completamente.

 

A chuva tinha engrossado   e batia agora com força nos vidros da janela.

 

Luciano ia e vinha   do quarto para a sala, esperando a todos os momentos o carro, ansioso por sair   e saber a verdade!

 

Mas o carro tardava   e, acabada a sua toilette, ele iluminou a sala e sentou-se em frente da viúva   Simões. Que diferença. Ela parecia-lhe muito mais morena; os cabelos   caídos para os ombros davam-lhe um aspecto de louca, e a sua boca, deliciosamente   pequenina e vermelha, estava então desbotada, entreaberta numa expressão   de agonia.

 

Luciano, não   tendo em casa éter, recorreu às essências, mas vacilava   se deveria ou não chamar a viúva à realidade da vida. Julgou   mais acertado levá-la assim, receando que lhe sobreviesse uma crise violenta.

 

Pobre mulher! pensava   Luciano com infinita tristeza. E sentia uma dor incompreensível, que   seria talvez o remorso, imaginando que no fundo a causa de tudo aquilo... era   ele!

 

  

 

As criadas tinham despertado   nos gritos de Ernestina, mas quando saíram do quarto já não   a encontraram. Foram todas rodear o leito de Sara, espavoridas sem atinar com   o que fizessem.

 

A cozinheira tomou   por fim o expediente de mandar o jardineiro chamar o padre Anselmo. A moça   estava nas últimas, afirmava ela. Saiu para isso e encontrou o hortelão   já na porta, acabando de enfiar já as mangas da jaqueta.

 

- Seu João?   Nhá Sara tá morrendo... vá chamá o padre...

 

- A patroa já   me disse...

 

A Benedita voltou chorosa   para o lado da doente. O seu coração sentia uma mágoa imensa   por ver assim a sua sinhá moça, que tantas vezes trouxera ao colo,   quando pequenina!

 

O hortelão caminhava   apressado sob a chuva miúda, que vinha caindo como uma nuvem ligeira,   na montanha.

 

- Se a menina morre,   dizia ele consigo mesmo, eu saio da casa!...

 

Sara era adora pelos   servos; não tendo de ordenar coisa alguma, ela não se mostrava   severa e intervinha muitas vezes nas zangas da mãe, procurando desculpá-los.

 

Às vezes mesmo   a moça ia ajudá-lo, de manhã cedo, na cultura do jardim.   Era trafega, alegre e robusta, gostava daqueles exercícios ao sol; tinha   os seus instrumentos e os seus canteiros, onde não consentia que outras   pessoas bulissem.

 

E depois que risadas,   que alegres cantorias! Era extraordinária! Nem ele nunca vira moça   rica e de cidade ter tanto humor! E pensava:

 

"Ai! as belas   manhãs!..., se elas não voltam mais... pobre menina!"

 

Depois de ter batido   à porta do medico, o jardineiro apressou-se a ir chamar o sacerdote.

 

O padre Anselmo morava   mais longe, numa casa rodeada de cães e de roseiras bravas... Mas nem   os espinhos das flores nem o latido dos cães dissuadiam os crentes de   o ir chamar a desoras. Sabiam todos que o padre Anselmo não se negava   a ninguém.

 

Rico ou pobre, que   lhe importava! Era uma a salvar, e ele ia sempre! A chuva tinha apertado. Os   dois homens caminhavam depressa, os seus vultos manchavam ainda de mais negro   a escuridão da noite, que nenhuma bulha de vida perturbava. Somente ao   longe a água do aqueduto rumoreja uns soluços surdos, que o jardineiro   maldizia, trazendo-lhe à mente o estertor de um moribundo...

 

O seu pavor por vezes   era tamanho que ele, o trabalhador da terra, forte e rude, tinha ímpetos   de se agarrar à batina e ao manto negro e flutuante do padre!

 

- Está aí   o carro, disse o criado a Luciano; e quis logo narrar a grande dificuldade que   tivera para obter uma caleça, àquela hora; mas o amo sem lhe dar   atenção ordenou-lhe que o ajudasse a transportar a doente.

 

Ernestina ia desacordada,   ele sentia-a nos braços, como morta.

 

O cocheiro, receando   talvez ser cúmplice involuntário num crime, veio, antes de subir   para a boléia, examinar de perto a moça, e foi depois para o seu   posto resmungando baixo. Seguiram. A chuva diminuiu pouco a pouco; poder-se-iam   por fim contar as gotas que soavam como pancadas dadas compassadamente com as   pontas dos dedos na coberta do carro.

 

Ernestina continuava   insensível a tudo; ia com a cabeça deitada no peito de Luciano,   os pés pousados no banco fronteiro. Ele amparava-a com desvelo, levando   através da noite imaculada e só, a sua desejada amante. De vez   em quando ao passarem por algum lampião de gás, a luz vinha amarelada   e frouxa, iluminar a cabeça desfalecida da viúva.

 

Luciano contemplava   atônito; parecia-lhe incrível que se envelhecesse tão depressa!   Havia menos de um mês que não via Ernestina; deixara-a fresca,   louçã, tentadora, vinha encontrá-la amolecida, pálida,   cheia de cabelos brancos. Uma grande piedade substituía agora o seu amor   tempestuoso e antigo. Um filho não teria carinho mais doce nem mais respeitoso   para sua mãe!

 

Quando chegaram ao   portão do jardim, Ernestina voltara a si. O cocheiro desceu da boléia   e abriu a portinhola, sacudindo barulhentamente a água que lhe escorria   do capote de borracha. A noite estava ainda trevosa; dentro, através   das grades, viam-se as janelas do chalet, cujos vidros, molhados, coavam uma   luz pálida e triste. Luciano ajudou Ernestina a apear-se.

 

O carro voltou, enterrando   as rodas na lama, com uma bulha surda. A viúva Simões mal se podia   arrastar, e a travessia do jardim foi vagarosa; em torno deles as flores, abafadas   pela chuva, tinham um aroma discreto e vago. Uma ou outra gota de chuva, retida   nas folhas e despenhada agora das árvores, caía como uma lágrima   fria sobre a cabeça nua de Ernestina. Ela lá não podia   mover as pernas; um grande peso paralisava-lhe as forças; a voz sumiu-se-lhe   também e de tal jeito que só pôde acenar com a mão   a Luciano, que fosse depressa e que a deixasse ali.

 

Luciano tremia, estava   perplexo, apreensivo; as suas suposições haviam-se dissipado logo   que ao chegar ao portão da chácara não vira Sara, como   esperava, correr para a mãe doente.

 

O silêncio daquela   casa iluminada encheu-o de pavor e sentia, instintivamente, repulsão   por aquela mulher que ia conduzindo com tanta solicitude!

 

Sentia ainda ferir-lhe   os ouvidos o seu grito terrível:

 

- Luciano! Luciano!   Matei minha filha! Salve minha filha!

 

Nesse instante, manchando   o corredor coma sua ampla batina negra, ele viu o padre Anselmo dirigir-se para   o quarto de Sara. Ao mesmo tempo rompeu ali de dentro um soluço que ondulou   dolorosamente pelo ar silencioso da noite, fincando-se-lhe no coração   como uma dor atrocíssima.

 

- Então é   verdade!? gritou Luciano sacudindo Ernestina.

 

- É... disse   ela por entre os dentes cerrados, com m olhar de susto.

 

Num grande desvairamento,   Luciano galgou de um pulo os poucos degraus do terraço, deixando a viúva   fora sozinha. Outro soluço mais brando choroso, voou pela noite negra.

 

Ernestina deu alguns   passos. cambaleante, até que sem forças caiu de joelhos, erguendo   as mãos unidas para o céu impiedoso.

 

Ela também tinha   reconhecido o padre; aquela batina preta passando rápida, de uma porta   a outra porta, como que lhe dissera alto e de longe: acabou-se!

 

Dentro, havia um rumor   abalado de vozes, e um crepitar de luzes, talvez das velas de cera alumiadas   junto ao cadáver... E cá fora nem uma luz; tudo preto; água   correndo pelos declives da montanha, nada mais.

 

Ernestina já   não rezava, nem o seu espírito sabia formular, nem os seus lábios   articular palavras. Encolhida, de joelhos na areia molhada; ela afundava o olhar   pelo corredor, agarrando-se as grades do terraço, e empapando a cabeça   nas trepadeiras alagadas...

 

Subitamente, uma voz   desconhecida disse alto, lá de dentro:

 

- Muito depressa! -   e ela viu o jardineiro vir correndo pelo corredor e sair.

 

- Que seria?! Teve   desejo de o segurar em ambas as mãos, de lhe perguntar se a sua filha   adorada era viva ou morta... mas não pôde mover-se, e ele, como   a não visse... passou.

 

Ernestina então   deixou-se cair sentada, com as mãos espalmadas no chão e o pescoço   dobrado sobre a espinha. A chuva recomeçava em pingos grossos que lhe   caíam nos olhos abertos, no queixo, ora um... ora outro... ora dois a   um tempo.

 

Queria ir ver a filha,   beijá-la, suplicar-lhe que vivesse, que vivesse, que vivesse! Mas eram   inúteis os seus tremendos esforços para levantar-se, subir os   degraus e ir ao quarto de Sara.

 

Sentia-se presa à   terra; já não era uma mulher, mas como que uma planta, nascida   para o sofrimento e por isso mesmo valentemente enraizada no chão.

 

 

 

Quando Luciano entrou   no quarto de Sara viu o padre Anselmo de pé junto do leito, com uma das   mãos estendida sobre a cabeça da moça numa atitude de benção.

 

A fronte do velho erguida,   os olhos úmidos e levantados, os lábios movendo-se numa oração   compenetrada, baixa e fervorosa, tinham uma doçura solene em que a piedade   humana se misturava com a austeridade religiosa. O homem nele sofria uma revolta   contra a natureza, por que morrer uma mulher tão jovem; o padre porém   congratulava-se com o céu, que ia receber no seu seio límpido   uma virgem pura!

 

Luciano ficou preso   àquele leito, numa mudez gelada, olhos fixos em Sara, por quem sentia   agora recrudescer o seu amor. Amava-a sim, com intensidade! As lágrimas   rebentavam-lhe dos olhos celeremente. A Benedita soluçava alto, de vez   em quando, e aqueles soluços revolviam-lhe n'alma toda a sua ternura.   Atrás dele, o médico escrevia; mas no seu desespero Luciano nem   reparava nele; todo o seu sentido estava nessa cama estreita, branca, revolta,   onde, como uma estátua, pesada e rígida, Sara parecia dormir!   Morta não estava! Ele via-lhe o peito abaixar-se e erguer-se numa respiração   custosa, como se aquele resto de vida lhe pesasse sobre o coração.

 

A doente tinha as feições   alteradas, o rosto lívido, manchado de escuro, os lábios entumecidos   e as pálpebras roxas.

 

Luciano quis beijá-la   na testa, o padre Anselmo desviou-o com austeridade.

 

A pena do médico   rangia no papel, e as criadas, agrupadas aos pés da cama, esperavam as   ordens, olhando com tristeza para a moça. Benedita chorava sempre alto,   e o padre compadecido, disse-lhe com voz doce e triste:

 

- Espere! Ela talvez   não morra... a misericórdia de Deus é infinita!

 

O médico postou-se   novamente à cabeceira da doente.

 

Luciano, vendo-o, contou-lhe   o que ouvira de Ernestina, baixo e precipitadamente. Que seria aquilo, um envenenamento?!

 

- Não!... houve   um engano de remédio, nada mais. Percebi, logo que entrei, do que se   tratava, vendo à cabeceira da doente o frasco que eu já tinha   posto de parte, por terem errado a fórmula... mas não era caso   de matar... mormente em dose pequena... Não foi isso que determinou o   acesso!

 

- Mas há esperança?

 

- Nenhuma...

 

Luciano estremeceu   e um suor frio inundou-lhe a testa.

 

- Isto é...   acudiu o médico, quem sabe? não será a primeira que eu   veja ressuscitar... Estas doenças de cabeça são terríveis.

 

- Ah... ela foi atacada...

 

- De uma febre cerebral.

 

- Meu Deus!...

 

- Às vezes,   é melhor morrer, concluiu o medo abaixando-se para examinar o rosto de   Sara.

 

O médico empregava   a atividade de toda a gente da casa; as criadas iam e vinham, aquecendo água,   transportando roupas, luzes, receitas, acudindo sem cansaço a todos os   chamados, com boa vontade e ligeireza.

 

Entretanto o padre   Anselmo perguntava por Ernestina. Até aí tanto ele como o médico   tinham-na julgado recolhida, propositalmente afastada da filha, e poupavam-lhe   a agonia de a ver morrer. Agora porém o caso era outro, desde que Luciano   narrara a ida da viúva a sua casa.

 

- Mas então   onde está ela? perguntava o padre.

 

Ninguém sabia   responder, percorreram a casa inutilmente.

 

- Veio comigo, afirmava   Luciano; entramos juntos!... Mas Luciano não se arredava do leito de   Sara, não se lembrava de mais nada, repetia maquinalmente aquilo - veio   comigo, entramos juntos! - sem interesse, sem preocupação, entregue   à sua surpresa, com os olhos fitos em Sara, esperando a morte!

 

O padre estremecia;   vinham-lhe à idéia os despenhadeiros do morro, onde Ernestina   fosse talvez pedir o esquecimento da dor que a pungia.

 

Chamou então   o jardineiro e saíram ambos.

 

As sombras da noite   iam-se dissipando. A dois passos da porta o padre distinguiu alguém deitado   sobre a grama; aproximou-se abaixando-se, apalpou Ernestina.

 

- Ajude-me a levá-la   para dentro, disse ele ao jardineiro.

 

E ergueram a viúva   que estava alagada e fria.

 

- Pobre mãe!...   repetia o bom velho, comovido. Dentro recomendou às criadas que lhe mudassem   roupa e friccionassem o corpo. Feito isso, ele entrou no quarto e sentou-se   ao pé do leito.

 

Ernestina abriu os   olhos e, de repente, espavorida com a lembrança da filha perguntou:

 

- Morreu?

 

- Não morrerá,   tenha esperança!... respondeu-lhe o padre.

 

No entorpecimento da   sua terrível dor, Ernestina não pareceu alegrar-se; deixou-se   cair sobre os travesseiros e adormeceu profundamente.

 

  

 

Quando Ernestina acordou   era dia. Quis mover-se, não pôde. A cabeça ardia-lhe, muito   pesada e dorida, tinha o rosto vermelho e uma dor no peito que a não   deixava respirar. O médico foi vê-la, assegurou-lhe que Sara não   morreria, consolando-a muito. Ela quis contar a história toda como confundira   os remédios e o seu desatino depois. Ele fê-la calar-se, percebera   a verdade vendo os dois frascos juntos e abertos... providenciara a tempo.

 

Tudo ia bem.

 

Tudo ia bem!... Entretanto,   numa ocasião ela teve medo que a enganassem e saltou da cama descalça,   com a camisa aberta no peito e os cabelos soltos; atravessou a sala sem que   a vissem, passou pelo corredor onde circulava livremente o ar, e abriu de mansinho   a porta do quarto de Sara, com um medo terrível de o ir encontrar vazio...   mas não; Sara dormia numa atitude serena, e, a seus pés, de costas   para a porta, estava Luciano.

 

Ernestina voltou para   o seu quarto, sem desgosto, sem alegria, impassível como se tudo aquilo   fosse esperado!

 

Sentou-se na cama com   os pés nus sobre o tapete, as mãos caídas nos joelhos,   e assim ficou algum tempo, com os olhos fixos no reposteiro da porta, sem pestanejar,   imóvel, abstrata. A pouco e pouco a respiração foi-se tornando   mais difícil e o corpo, vencido, caiu pesadamente sobre os travesseiros.   Recrudesceram-lhe as dores e a febre. Pelas faces, muito vermelhas, rolavam   lágrimas grossas e ardentes, e ela mal podia respirar, sentindo uma pontada   violenta no peito.

 

Luciano entrava a medo   no quarto da viúva, esperando sempre uma recriminação,   temendo também exacerbar-lhe o mal. A sua consciência não   o deixava à vontade entre aquelas duas mulheres enfermas. Entretanto   não se afastava dali. Daquela casa.

 

Sara não o tinha   percebido ainda; a viúva não falava a ninguém. Como o médico   exigisse enfermeiras, ele julgou dever avisar a mulher do Nunes e a ama Josefa.

 

Georgina passava também   agora os dias e as noites no quarto da amiga. Desenvolvera uma atividade de   que ninguém a julgara capaz. Era enérgica, movia sem cansaço   o seu corpo franzino; com as mãos ágeis, os passos leves, o ouvido   atento e o seu belo olhar de gazela, tão vivo e tão meigo, a sondar   a doente, buscando uma esperança que não aparecia!

 

Ah, ela compreendeu   a verdade sem ouvir explicações! O amor de Ernestina por Luciano   não fora nunca um segredo para ela; a sua perspicácia adivinhara-o   logo. Percebendo mais tarde que, por sua vez Sara o adorava, esperou com curiosidade   e medo o desfecho daquela história.

 

Ele aí estava,   e bem triste!

 

A D. Candinha Nunes   mudou-se também para Santa Tereza e era quem determinava tudo, assídua,   solícita e animada. Entrava pouco nos quartos das doentes, mas preparava-lhes   lá dentro os caldos, o leite, o gelo, as roupas e ordenava o silêncio   entre as criadas que; a um gesto seu, suspendiam o mínimo rumor.

 

À cabeceira   da viúva Simões estava a Josefa sentada em um banquinho, com as   mãos descansadas no colo e o queixo erguido para a cama. De vez em quando   cochilava, e então o queixo, quadrado e forte, batia-lhe no peito ossudo,   ela despertava com vexame, olhando em roda, observando se a tinham visto, receosa   de um olhar de censura. Mas, nada. A viúva tinha os olhos fechados ou   postos no teto, as mãos sumidas nas dobras do linho, os lábios   silenciosos.

 

Pelas janelas cerradas   o sol encrava em fisgas; a não ser o tic-tac do relógio, só   se ouvia o voar das moscas na sua bulha quase imperceptível e vaga. Josefa   para justificar a sua estada ali, erguia-se de vez em quando, alisava o lençol   da doente e perguntava-lhe:

 

- Quer alguma coisa?

 

A viúva respondia   com um gesto que não; a maior parte das vezes nem assim mesmo respondia,   quedava-se imóvel, e a Josefa tornava para o banquinho, com um suspiro   de cansaço ao corpo moído daquela indolência. E as horas   iam passando; o sol abrandava a sua luz amarela, recolhia pouco a pouco as fitas   de ouro, que estendera através das venezianas cerradas. Caía a   tarde e o silêncio continuava, triste e profundo.

 

D. Candinha ia de hora   em hora dar o remédio, recomendando sempre à Josefa que a avisasse   se houvesse alguma falta. Às vezes, de longe em longe, a pobre mulher   pedia à moça que ficasse ali um minuto; ela voltaria depressa.

 

Saía; e, logo   fora da porta, respirava com força, sacudia as saias e andava com passos   largos, desentorpecendo-se. Ia ao quintal girar um pouco, colhia um raminho   de mangerona ou de hortelã e entrava na cozinha mastigando as folhas   e pedindo um caldo.

 

Tornava o alimento   à pressa, lamentando não poder saboreá-lo. Em verdade o   que ela saboreava mais não era a sopa, era a liberdade, era a janela   francamente aberta, a variedade das caras e a variedade das coisas, a ausência   do quarto de doente, com o seu cheiro enjoativo de remédios, cortinas   descidas e o relógio estúpido, a dizer sobre a cômoda sempre   o mesmo: tic, tac, tic, tac tic, tac!

 

Mas outras vizinhas   vieram, boas, cuidadosas e, apesar de tudo, a Josefa, como um cão de   guarda passava os dias sentada no banquinho, olhando para a viúva, cansada,   triste esperando pelas horas da refeição para ir gozar lá   fora, sob esse pretexto, o ar, a luz e a palestra.

 

- Tomara já   que isto acabe! pensava ela, que Iaiá fique boa e Sarinha também.   Ave Maria! Como estarão os meus cacos em S. Cristóvão!   

 

A visão da casa   atormentava-a muito. Via as baratas passeando sobre os pratos da marmelada,   feitos para quitanda, na manhã da subida para Santa Tereza; lembrava-se   de ter deixado fora do quarto, pendurado, à toa, o seu melhor vestido   e parecia-lhe sentir o ruído dos dentinhos dos ratos nas roupas dos fregueses...   Credo! Calculava os prejuízos, somava pelos dedos o que teria de pagar   a um e a outro, e pasmava diante das cifras que se desenhavam em seu espírito   em proporções enormes!

 

Uma noite, a Josefa   teve um sonho que a decidiu a abandonar a doente por algum tempo.

 

Sonhou que o seu adorado   S. Sebastião, furioso por ver apagada a lamparina com que ela, cuidadosa,   religiosamente, o alumiava no seu oratório dia e noite, entrara a desfechar-lhe   nos olhos todas as setas do seu bendito corpo.

 

- Perdão! gemia   a pobre; mas o santo não lhe perdoava.

 

Quando Josefa acordou   sentiu dor nos olhos... aquilo tornou-a apreensiva. Foi ao espelho; os olhos   estavam vermelhos!

 

- Uê! Gente!   Isto é aviso do Céu! Eu vou logo a S. Cristóvão!

 

Ao meio-dia vestiu   o seu vestido de merino preto, pôs o seu velho toucado de vidrilhos e   flores roxas e dispôs-se a sair.

 

Estava toda a casa   silenciosa. A viúva dormia e a mãe de Georgina fazia-lhe quarto.   Josefa atravessou a sala de jantar em bicos de pés e entrou no corredor.   Ao fundo, a porta do jardim atraia-a, muito aberta, como um quadro de luz; e   ela seguia com passos miúdos, segurando na mão a bolsinha de couro   que não deixava nunca, quando de repente um grito agudo feriu o ar e   o silêncio da casa. Josefa estacou.

 

Deus do céu!   Que teria sido!? Houve uma pausa; correram minutos... outro grito igual e estrídulo   partiu do quarto de Sara. Josefa voltou depressa para o quarto da moça.

 

- Que foi?!

 

Georgina levantou para   ela os olhos chorosos, D.Candinha, mais calma, respondeu-lhe sem olhar para   ela, fixando a doente:

 

- Foi a morte, Josefa!   Sara está perdida!...

 

Josefa caiu de joelhos   e pôs as mãos, Georgina imitou-a, sem saber como, e ambas rezaram   silenciosas, chorando.

 

Ambas rezaram, ambas   fizeram promessas, e quando se levantaram abraçaram-se, sem saber como,   sem saber porque!

 

  

 

Tomavam-se precauções   para que os gritos de Sara não chegassem ao quarto da mãe; entretanto   a viúva Simões ouviu-os e perguntou por eles uma vez.

 

- São as crianças   do vizinho; respondeu-lhe D. Candinha, trocando depois um olhar de inteligência   com a Josefa, que se agachara no seu posto, com o queixo erguido para a cama.

 

A pobre mulher desistira   da ida à casa. Baratas e ratos que andassem por lá à vontade.   Já não temia coisa alguma.

 

- Olhe que você   ainda está de chapéu!... avisou D. Candinha.

 

Josefa elevou as mãos   grossas à altura das flores roxas do toucado:

 

- Vê! Por isso   é que tenho dor de cabeça... - murmurou ela.

 

Mudara de vestido,   estava agora de chita; com uma saia e um casaco da cozinheira. O toucado dava-lhe   ares de macaco velho, desconfiado, ainda não acertado ao ritmo do realejo.

 

- Vá descansar!   disse-lhe D. Candinha.

 

- Não; fico.   E agora já não tenho sono... já não tenho nada...

 

E os seu olhinhos castanhos   encheram-se de lágrimas.

 

Entretanto, no quarto   de Sara, Luciano e Georgina conversavam acerca da doente:

 

- Tem reparado numa   coisa? perguntou ele.

 

- Em que?

 

- Nos raros momentos   em que Sara parecia melhorar, mostrava-se aflita com a minha presença!...

 

- É verdade...

 

- Notou também   isso?

 

- Notei.

 

- Julguei que pudesse   ser uma ilusão minha...

 

- Não foi. Sara   quando o viu e o reconheceu teve um grande abalo; tornou-se roxa; não   viu como ela fechou apertadamente os olhos?

 

- Porque me odiará   ela?

 

- Ainda o senhor pergunta?

 

Georgina agravava os   remorsos de Luciano, vingando a amiga. Outras vezes falavam-se como irmãos,   elogiando Sara, recordando em comum os seus gestos e os seus ditos, como se   tratassem de uma morta.

 

O arrependimento de   Luciano crescia, à vista da doente. Já nada esperava, não   podia à força de amor resgatar culpas as antigas... Todas as noites   saía daquela casa pensando em não voltar... que ia fazer ali,   entre duas mulheres, vítimas do seu capricho de homem gasto pelos prazeres   e pelas dores da vida? Ele não era mau afinal... como se tinha deixado   levar tão levianamente, em tudo aquilo?! Julgara talvez todas as mulheres   iguais... Habituara-se à vida frívola longe da família,   do meio de que se afastara para correr boemiamente, alegremente, dos salões   fáceis para os cafés, e os teatros, sem afeições   sérias, sem preocupações, sem trabalho, gastando as forças   e adquirindo vícios.

 

Depois toda aquela   história tinha começado como uma simples flirtation leve e risonha...   Este desenlace agora enchia-o de pavor e procurava salvar a sua consciência   sem encontrar auxílio... Outras vezes exagerava as suas faltas, revolvendo   idéias, penitenciando o seu espírito decaído...

 

Os médicos faziam   repetidas visitas ao dia; as enfermeiras eram incansáveis e o tempo ia   cada vez mais azul e formoso. Luciano subia todas as tardes, ficava até   meia-noite e descia atormentado, sozinho, dizendo consigo que estava tudo acabado,   bem acabado...

 

Entretanto a viúva   chorava e teimava por sair da cama. Queria ver a filha, pressentia alguma coisa,   dizia às vezes que a enganavam. Sara estava morta... Outras cismava com   aquele rumor estranho que se fazia em toda a casa, e em que o nome de Sara parecia   sussurrado continuamente...

 

Médicos e enfermeiros   prolongaram aquele estado negando-lhe autorização para erguer-se.   

 

Os gritos de Sara tinham   cessado, a casa voltara ao anterior silêncio. Uma vez a viúva viu,   através das pálpebras, no levíssimo sono dos convalescentes,   entrar D. Candinha e dirigir-se à Josefa, que estava a cochilar no seu   canto. A moça curvou-se para a velha, e, entre ambas, Ernestina distinguiu   no ar, sutilmente estas palavras:

 

- ... Sara...

 

- Que me diz, senhora?

 

- Psiu!...

 

Saíram ambas,   cautelosamente. A viúva Simões sentou-se de um salto e prestou   o ouvido. Pareceu-lhe sentir um choro abafado, afastou desvairadamente as roupas   da cama e ergueu-se do leito sempre escutando, trêmula, com os cabelos   desgrenhados sobre os ombros magros e as pernas finas desenhadas no linho da   camisola.

 

Entreabriu assim a   porta e esgueirou-se a medo para o corredor:

 

Lá fora, na   atmosfera suavemente morna, vagava o aroma das flores de laranjeira. Ernestina   teve uma vertigem. A luz cegou-a, o aroma entonteceu-a. Encostou-se ao umbral.   Não passava ninguém, a casa parecia deserta; a viúva recobrou   alento e atravessou o corredor, descalça, com os artelhos nus, pensando   em ir encontrar a filha amortalhada, no cetim branco das esponsais, com a grinalda   de virgem e o véu castíssimo esparso em ondas sobre as suas opulentas   tranças loiras...

 

Foi desse modo, sem   ser pressentida, até ao quarto de vestir da filha, e, sempre muda e atenta,   aproximou-se da alcova. Dali não podia ver Sara, encoberta pelas costas   e o cortinado do leito. Tinha ainda medo... medo de entrar naquele quarto...   medo de se aproximar da filha! Junto à mesa, de que só via um   ângulo, estava sentado um homem; divisava-lhe a orla das calças   cinzentas e os pés que se moviam nervosamente.

 

Georgina olhava para   fora, com o rosto unido aos vidros. O seu corpo de menina tino e chato, ondulava   com o esforço da respiração, e os cotovelos pontudos, erguidos   à altura das orelhas, que as mãos cruzadas sobre a nuca encobriam,   faziam cismar no desejo das asas, asas que se batessem pelo azul fora levando   aquele coração de pomba para bem longe das misérias da   vida!

 

Perto da cama, D. Candinha   e Josefa cochichavam, curvando-se para a doente. Transparecia a dor no perfil   de ambas.

 

Ernestina deu mais   dois passes para diante.

 

D. Candina percebendo-a   exclamou assustada:

 

- Olhem quem está   ali!

 

Rodearam Ernestina;   Josefa enrolou-a no seu xale, enquanto a viúva perguntava baixinho à   Georgina, apontando o leito:

 

- Morreu?!...

 

- Não... mas...

 

Como se aquelas palavras   lhe tivessem insuflado nova vida, Ernestina desembaraçou-se de todos,   que procuravam retê-la, e correu para a cama.

 

Pararam os outros a   vê-la silenciosos e opressos. D. Candinha cobriu-lhe de novo os ombros   com o xale, mas o xale resvalava para o chão. A viúva curvada   para a filha não dizia nada nem se movia tão pouco. Olhava...   olhava... olhava!

 

Sara tinha emagrecido   muito e a sua cabeça, redonda e forte, parecia desproporcionada agora   emergindo de uns ombros estreitos, de criança. Os olhos não tinham   brilho, olhavam sem ver e a boca entreaberta enchia-se de baba, que Georgina   limpava de vez em quando, pacientemente.

 

A mãe parecia   não compreender...

 

D. Candinha murmurou-lhe   ao ouvido:

 

- Que é isso,   Ernestina? Vá vestir-se! Luciano está aqui...

 

- Que me importa! Sara?   oh minha filha?

 

Sara voltou-se para   a mãe e arrastou algumas sílabas embrulhadamente que ninguém   pôde entender!

 

Pouco a pouco a viúva   foi percebendo a verdade; a filha não morreria... mas estava idiota!   Ao redor dela, todos calados esperavam uma cena em que a dor explodisse em gritos,   ou a abatesse num desmaio. Nada! A viúva achava, apesar de tudo, uma   consolação - a filha vivia e, idiota embora, respirava, deixava-se   beijar! Estava nisso o seu resto de ventura materna!

 

De joelhos, perto da   cama, esteve longo tempo a olhar, a olhar... Ergueu-se com um suspiro e deixou   que D. Candinha lhe vestisse um peignoir de lã; atou ela mesma maquinalmente   os cordões da cinta sem desviar os olhos da filha.

 

Só depois de   algum tempo foi que ela chorou, muito baixinho, embebendo as lágrimas   no lenço.

 

Luciano tinha-se afastado   do quarto e passeava no jardim, fugindo aos olhos de todos e à bulha   atormentadora das vozes. Subia e descia pelas ruas vagarosamente, parando às   vezes para afastar com o pé uma folha seca do caminho, ou para esmagar   entre as unhas as pétalas leitosas das flores das laranjeiras. Os galhos   carregados das árvores desciam muito e as formiguinhas passeavam pelos   troncos apressadamente, carregando folhinhas e salpicando de preto a brancura   das folhas.

 

Luciano contemplava   aquilo tudo sem pensar no que via, mas vendo, sem pensar também em outra   coisa. Cansado, subiu pelo pomar dando volta pela horta, meio inculta agora   e abandonada.

 

Por entre as largas   folhas ásperas das abóboras que se alastravam comendo vencedoramente   a maior parte do terreno, erguiam-se os cálices altos das flores na sua   triunfante cor de ouro vivo. E ele notou com preguiça o desleixo em que   o João tinha agora a verdura, toda abafada pelo aboboral. Afinal de contas,   é sempre a força bruta que predomina em toda a natureza. As flores   delicadas e franzinas que nascem para o perfume, como o coração   da mulher para o amor, caem e morrem se não lhes dão amparo doce   e cuidadoso. Luciano continuou até acima, à touceira de bambus,   onde vira pela primeira vez Sara e Georgina com outras amigas jogando o croquet.   Parou aí um momento com a lembrança daquele dia na memória.   Teve saudades... Entrou depois no jardim e viu logo ali perto duas saracuras   brigando sobre a grama de um canteiro largo. Ele chegou a sorrir, reparando   para os meneios aqueles corpos delicados; uma delas fez-lhe lembrar Georgina,   na graça e na ligeireza. Subiu por fim ao terraço e, exausto como   se viesse de longas caminhadas, sentou-se num banco, encostou a cabeça   à parede e olhou para a frente.

 

A luz forte do sol   envolvia tudo no seu manto glorioso e quente. O mar estendia-se sereno, muito   azul, limpo de barcos, beijando as fitas brancas das praias longínquas   e fronteiras. As montanhas recortavam no céu límpido os seus enormes   perfis bizarros num esbatimento de sombras e de luz. Embaixo, no pitoresco outeiro   da Glória tremulavam bandeiras de festa. Entre a casaria da cidade, lá   uma outra janela, batida de sol, despedia dos vidros chamas de incêndio   e repicavam os sinos e havia em tudo um ar de alegria e de infinita doçura!   Só ao longe, temível no seu grandioso mistério, a Esfinge   silenciosa mergulhava parte do seu corpo de montanhas na água profunda,   erguendo para o alto espaço a sua fronte rochosa e altiva!

 

Luciano quedou-se ali   longo tempo, ora com os olhos fitos nos galhardetes da igreja, ora nas fortalezas   silenciosas, ou nos despenhadeiros do morro, onde as paineiras abriam, em sorrisos   cor de rosa, as suas grandes flores.

 

Concluindo uma série   de reflexões quaisquer, Luciano murmurou a meia-voz, levantando-se:

 

- Decididamente hei   de morrer solteiro...

 

- Está falando   sozinho? perguntou-lhe D. Candinha, que havia chegado sem ser pressentida.

 

- Falei alto? Não   admira, estou meio maluco.... respondeu ele sorrindo.

 

- É preciso   cuidado... as paredes têm ouvidos... e....

 

- Está tudo   acabado...

 

- Para Ernestina e   para Sara, com certeza.

 

- E para mim.

 

- Isso... duvido! Conheço   os homens, as impressões neles não duram como em nós...   Mas, enfim, não é disso que se trata agora. Vim procurá-lo   para dizer-lhe adeus...

 

- Já?!

 

- De que se admira?

 

- Acho muito cedo...

 

- O senhor não   se lembra de que sou casada e que de mais a mais hoje é dia santo?

 

- Ser dia santo não   é razão!...

 

-É. Imagine:   devo ter a casa cheia de gente! Acostumei-me a fazer dançar os sobrinhos   nos dias feriados e tanto eles como os empregados do Nunes contam com isso...   Já que acudi as aflições de uns, é justo que divirta   os outros... Contudo, sr. egoísta, repare bem: se vou embora é   porque Ernestina tem uma coragem única. Exigiu a minha retirada, bem   como a de Georgina!

 

- Deveras! Está   assim calma?

 

- Perfeitamente...   Diz que o que temia era encontrar a filha morta... A pequena conhece-a. Coitadas!

 

- Que futuro triste!

 

- Ora... a tudo a gente   se acostuma! Adeus, vá ver-me de vez em quando.

 

- Consente que eu a   acompanhe?

 

- Não. O senhor   pode ser preciso aqui.

 

D. Candinha ajeitou   o veuzinho preto sobre o seu rosto largo e desceu o jardim calçando as   luvas.

 

Luciano entrou. A Josefa   esperava-o e disse-lhe logo que o viu, com um jeito embaraçado:

 

- Não vá   lá dentro...

 

- Por quê?

 

- Iaiá não   quer...

 

- Ah... ela disse-lhe   isso?...

 

- Disse...

 

Luciano parou indeciso,   magoado, sem saber como falar a Ernestina, mas desejando ardentemente vê-la   e beijar-lhe a mão antes de sair. Respeitava-a agora como a uma santa,   amava-a com a ternura de um filho. A Josefa observava-o com dó e com   espanto, ele continuava perplexo diante dela.

 

- O senhor quer mesmo   falar com Iaiá? rompeu ela.

 

- Sim, quero....

 

- Espere um pouco...   Ela está sozinha. Georgina já foi para casa... que moça   boa! Eu fico morando aqui. Iaiá quer que eu tome conta da casa... que   hei de fazer? Olhe, eu ainda não disse nada; mas a Simplícia fugiu   com o Augusto esta madrugada e o pior é que levou roupas finas e talheres   de prata!... Que mulatinha levada! Aquilo há de acabar rolando bêbada   pelas ruas. A Ana já veio me dizer que exige mais ordenado!... Ui!...   agora esta história de criadas é um inferno!

 

Luciano interrompeu-a   com um gesto.

 

- Eu já volto,   disse ela, e saiu. Ele ficou só, sentado no sofá, embaixo do retrato   do comendador Simões.

 

Passado algum tempo,   a Josefa tornou pressurosa.

 

- Então?! Inquiriu   Luciano.

 

- Iaiá não   quer vê-lo e pede-lhe para não voltar a esta casa.

 

 

 

Dias depois, a viúva   Simões acompanhava com a vista, do seu terraço de ladrilhos cor   de rosa, um paquete transatlântico, que demandava a barra, levando Luciano   para a Europa.

 

O tempo estava esplêndido,   de um azul glorioso, o mar desenrolava o seu manto, sem rugas, com uma serenidade   de sonho, e as flores desabrochavam numa alegre ansiedade de luz e de vida,   perfumando tudo...

 

Ao lado da mãe,   numa cadeira de rodas, Sara, com o seu eterno e doloroso sorriso, fazia e desmanchava   a única coisa bela que lhe ficara: a sua trança loura.

 

 

                                                                                       Júlia Lopes de Almeida

 

Carlos Cunha        Arte & Produção Visual

 

 

Planeta Criança                                                             Literatura Licenciosa

 

 

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