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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMANTE LIBERADO / J. R. Ward
AMANTE LIBERADO / J. R. Ward

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Irmandade da Adaga Negra

AMANTE LIBERADO

Primeira Parte

 

A doutora Jane Whitman, chefe da equipe de trauma cardíaco, está a ponto de ir para sua casa ao final de seu turno como toda noite quando chega uma emergência ao centro médico; um homem que levou um tiro no coração.

Enquanto Jane o examina, começa a abrigar a suspeita de que seu novo paciente, um homem de aspecto perigoso e sexy, não é de tudo humano.

Enquanto se encontra em recuperação, o desconhecido não para de procurar o contato da doutora, pois parece que a presença da mulher o tranqüiliza.

E ela, por sua vez, sente-se extramamente fascinada por ele.

Jane não demora a descobrir que seu paciente não é outro, senão Vishous, a quem muitos chamam de «V», o vampiro mais inteligente da Irmandade da adaga negra.

Mas o torturado passado deste homem levou-o a evitar todo tipo de intimidade com outro ser.

A natureza de V o impede de deixar que alguém veja seu lado vulnerável, com exceção de Jane, pois tem a estranha sensação de que ela, e apenas ela, pode compreender...

 

 

—Pegue-a já Jane.

Jane Whitcomb pegou a mochila.

—Vem, não é?

—Disse-lhe isso esta manhã. Sim.

—OK. —Jane olhou sua amiga dirigir-se abaixo pela calçada até que soou uma buzina. Endireitando a jaqueta, ergueu os ombros e se voltou para o Mercêdes-benz. Sua mãe estava olhando fixamente pelo vidro do acompanhante, com o cenho franzido.

Jane se apressou a cruzar a rua, a chamativa mochila que continha o contrabando fazendo muito ruído, em sua opinião. Saltou para o assento traseiro e escondeu a coisa sob seus pés. O carro começou a rodar antes que tivesse fechado a porta.

—Seu pai virá para casa esta noite.

—O que? —Jane subiu os óculos sobre o nariz— Quando?

—Esta noite. Assim temo que…

—Não! Prometeu!

Sua mãe olhou por cima do ombro.

—Espero suas desculpas, jovenzinha.

Jane exclamou.

—Prometeu isso para meu aniversário de treze anos, supunha-se que Katie e Lucy…

—Já liguei para suas mães.

Jane se deixou cair contra assento do carro.

A mãe levantou os olhos para o espelho retrovisor.

—Tira essa expressão de seu rosto, por favor. Crê que é mais importante que seu pai? Realmente?

—É obvio que não. Ele é Deus.

O Mercedes se desviou para a sarjeta com uma sacudida e os freios chiaram. Sua mãe se virou, levantou a mão, e sustentou a pose, com o braço tremendo.

Jane se encolheu aterrada.

Depois de um momento de indecisa violência, sua mãe se voltou, alisando o cabelo perfeitamente penteado com a palma de sua mão, que se via tão firme como a água fervente.

—Você… não se reunirá conosco para o jantar desta noite. E me desfarei do bolo.

O carro começou a andar novamente.

Jane enxugou as bochechas e baixou a vista para a mochila. Nunca tinha dormido fora de casa antes. Tinha rogado por meses.

Arruinado. Agora tudo estava arruinado.

Permaneceram em silêncio todo o caminho de volta para casa, e quando o Mercedes estacionou na garagem a mãe de Jane saiu do carro e caminhou para a casa sem olhar para trás.

—Já sabe aonde ir. —foi tudo o que disse.

Jane ficou no carro, tratando de recompor-se. Logo pegou a mochila e os livros e se arrastou através da cozinha. Richard, o cozinheiro, estava inclinado sobre a lata do lixo atirando um bolo decorado com uma cobertura de açúcar e flores de cor vermelha e amarela.

Não disse nada a Richard porque tinha a garganta apertada como um punho. Richard não lhe disse nada porque não a apreciava. Não apreciava ninguém à exceção de Hannah.

Enquanto Jane passava pela porta de serviço dirigindo-se a sala de jantar, não queria encontrar-se com sua irmã mais nova e rezou para que Hannah estivesse na cama. Havia se sentido doente essa manhã. Provavelmente porque tinha que fazer um resumo a respeito de um livro.

No caminho para a escada, Jane viu sua mãe na sala.

As almofadas da poltrona. Outra vez.

Sua mãe ainda usava o casaco de lã azul pálido e tinha o cachecol de seda na mão, e sem lugar a dúvida ia ficar vestida assim até que estivesse satisfeita com a forma que luziam as almofadas. O que poderia demorar um pouco. Os padrões com os quais as comparavam eram os mesmos padrões que para o cabelo: suavidade total.

Jane subiu a seu quarto. A única esperança a estas alturas era que seu pai chegasse depois do jantar. Dessa maneira, embora se inteirasse de que fora castigada, ao menos não teria que observar seu assento vazio. Como sua mãe, odiava algo desconjurado, e que Jane não estar na mesa de jantar era algo totalmente desconjurado.

A extensão do sermão que ouviria dele seria mais maior dessa forma, porque teria que incluir ambas as coisas, tanto a decepção que lhe causava à família com sua ausência no jantar, como também o fato de que tinha sido mal educada com sua mãe.

No segundo andar, o quarto amarelo dourado de Jane era como todo o resto da casa: suave como o cabelo e as almofadas da poltrona e a forma como falavam as pessoas. Nada desconjurado. Tudo era de classe de congelada perfeição como o que se via nas revistas sobre casas.

A única que não se encaixava era Hannah.

Colocou a mochila no armário, sobre os mocassins e os Mary Janes[1], logo Jane trocou o uniforme do instituto por uma camisola de flanela Lanz. Não havia razão para vestir-se. Não ia a nenhum lugar.

Levou a pilha de livros para a branca mesa. Tinha lição de inglês. Álgebra. Francês.

Olhou para seu mesinha de cabeceira. Noites da Arábia a esperavam.

Não podia pensar em uma forma melhor de passar o castigo, mas os deveres vinham primeiro. Tinha que ser assim. Se não, se sentiria muito culpada.

Duas horas depois estava na cama com Noites sobre o colo quando se abriu a porta e apareceu a cabeça de Hannah. Seu encaracolado cabelo ruivo era outra raridade. O resto deles eram loiros.

—Trouxe comida.

Jane se sentou, preocupada com sua irmã mais nova.

—se meterá em problemas.

—Não, isso não ocorrerá. —Hannah deslizou para dentro, levando uma pequena cesta na mão com um guardanapo de tecido, um sanduiche, uma maçã e uma bolacha— Richard me deu isso para que pudesse tomar um lanche durante a noite.

—E o que tem você?

—Não tenho fome. Aqui tem muito.

—Obrigada, então. —Jane tomou a cesta enquanto Hannah se sentava ao pé da cama.

—Então o que foi o que fez?

Jane sacudiu a cabeça e mordeu o sanduiche de rosbife.

—Zanguei-me com mamãe.

—Porque não podia ter sua festa?

—Uh-huh.

—Bom… tenho algo para animar você. —Hannah deslizou um pedaço de cartolina dobrada sobre o edredom— feliz aniversário!

Jane olhou o cartão e piscou rapidamente um par de vezes.

—Obrigada….

—Não fique triste, eu estou aqui. Olhe seu cartão! Fiz-o para você.

No frente, desenhadas com a torpe mão de sua irmã, havia duas figuras juntas. Alguém tinha cabelo murcho e loiro e a palavra Jane escrita debaixo. A outra tinha cabelo ruivo encaracolado e tinha o nome Hannah a seus pés. Estavam de mãos dadas e tinham amplos sorrisos sobre os redondos rostos.

Justo quando Jane ia abrir o cartão, um par de faróis deslizaram pelo fronte da casa e começaram a avançar pela entrada de carros.

—Papai está em casa —vaiou Jane— Será melhor que saia daqui.

Hannah não parecia tão preocupada como estaria habitualmente, provavelmente porque não se sentia bem. Ou talvez estivesse distraída com… bom, com o que fosse que Hannah se distraí. Passava a maior parte do tempo sonhando acordada, provavelmente era por isso que estava feliz todo o tempo.

—Vai, sério.

—Certo. Mas realmente lamento que tenha ficado sem sua festa. —Hannah se arrastou para a porta.

—Hey. Eu gostei do cartão.

—Não olhou dentro ainda.

—Não tenho que fazê-lo. Eu gosto porque você o fez para mim.

O rosto da Hannah revelou um de seus sorrisos de margarida, do tipo que lembrava a Jane os dias ensolarados.

—É a respeito de você e de mim.

Enquanto a porta se fechava, Jane escutou as vozes de seus pais que subiam o vestíbulo. Velozmente comeu o lanche da Hannah, colocou a cesta entre as dobras das cortinas próximas à cama, e foi para a pilha de livros escolar. Pegou o livro Memórias do Clube Pickwick de Charles Dickens e o levou para cama com ela. imaginava que se estivesse trabalhando em coisas do instituto quando seu pai entrasse, ganharia alguns pontos a seu favor.

Seus pais subiram uma hora depois e se esticou, esperando que seu pai a chamasse. Não o fez.

O que era estranho. Era, em seu caráter dominante, tão confiável como um relógio, e havia um estranho consolo em seu caráter previsível, embora não gostasse de lidar com ele.

Deixou de lado Pickwick, apagou a luz, e colocou as pernas sob o edredom com babados. Deitada sob o dossel da cama não podia dormir, e eventualmente escutou o relógio do avô que estava na parte superior da escada tocar doze vezes.

Meia-noite.

Saindo da cama, foi para o armário, tirou a mochila e a abriu. O tabuleiro da Ouija caiu para fora, abrindo-se e aterrissando de barriga para cima sobre o chão. Pegou-o com rapidez, como se pudesse haver quebrado algo e logo tomou o ponteiro.

Ela e seus amigas tinham estado esperando para jogar esse jogo porque todas queriam saber com quem iriam se casar. Jane gostava de um menino chamado Victor Browne, que estava em sua classe de matemática. Ultimamente tinham conversado um pouco, e realmente pensava que poderiam formar um casal. O problema era que não estava certa do que ele sentia por ela. Talvez só o agradasse porque lhe dava todas as respostas.

Jane deixou o tabuleiro sobre a cama, descansou as mãos no ponteiro e deu uma profunda inspiração.

—Qual é o nome do menino com o que vou casar?

Não esperava que a coisa se movesse. E não o fez.

Depois de tentá-lo um par de vezes mais se recostou para trás frustrada. Depois de um minuto bateu a parede atrás da cabeceira. Sua irmã devolveu o golpe, e um pouco depois Hannah entrava às escondidas através da porta. Quando viu o jogo, entusiasmou-se e saltou sobre a cama, fazendo ricochetear o ponteiro no ar.

—Como se joga?

—Shhh! —Deus, se as apanhavam assim, seriam realmente castigadas. Por toda vida.

   —Sinto muito. —Hannah subiu as pernas e se abraçou a elas para evitar voltar a colocar a mão— Como…?

—Faz perguntas e ele diz as respostas.

—O que podemos perguntar?

—Com quem vamos nos casar. —Certo, agora Jane estava nervosa. O que aconteceria se resposta não fosse Víctor?— Comecemos com você. Ponha os dedos sobre o ponteiro, mas não empurre nem nada. Só… assim, sim. OK… Com quem vai casar a Hannah?

O ponteiro não se moveu. Mesmo depois de Jane repetir a pergunta.

—Está quebrado. —disse Hannah, tirando as mãos.

—Me deixe provar com outra pergunta. Ponha as mãos outra vez. —Jane inspirou profundamente— Com quem eu vou casar?

Um leve som de chiaso se elevou do tabuleiro quando o ponteiro começou a mover-se. Quando descansou sobre a letra V, Jane tremeu. Com o coração na garganta, observou-o mover-se para a letra I.

—É Víctor! —disse Hannah— É Víctor! Vai se casar com Víctor!

Jane não se incomodou em fazer calar sua irmã. Isto era muito bom para ser ver…

O ponteiro aterrissou sobre a letra S. S?

—Isto está errado. —disse Jane tem que estar errado…

—Não pare. Vejamos quem é.

Mas se não era Víctor, não sabia quem poderia ser. E que tipo de menino tinha um nome como Vis…

Jane lutou para redireccionar o ponteiro, mas insistia em ir para a letra H. Logo O, U e outra vez a S.

VISHOUS.

O temor revestiu o interior das costelas de Jane.

—Disse a você que estava quebrado. —murmurou Hannah— Quem se chama Vishous?

Jane apartou a vista do tabuleiro, logo se deixou cair para trás sobre os travesseiros. Este era o pior aniversário que tinha tido.

—Talvez deveríamos tentar de novo. —disse Hannah. Quando Jane duvidou, franziu o cenho— Vamos, eu também quero uma resposta. É o justo.

Voltaram a pôr os dedos sobre o ponteiro.

—O que me darão de presente de Natal? —perguntou Hannah.

O ponteiro não se moveu.

—Tenta uma pergunta que implique um sim ou um não para começar .—disse Jane ainda assustada pela palavra que tinha saído a ela. Talvez o tabuleiro não soubesse soletrar?

—Me darão de presente algo no Natal? —disse Hannah.

O ponteiro começou a chiar.

—Espero que seja um cavalo. —murmurou Hannah enquanto o ponteiro fazia um círculo— Devi ter perguntado isso.

O ponteiro se deteve no não.

Ambas o olharam fixamente.

Hannah abraçou a si mesma.

—Eu também quero presentes.

—É só um jogo. —disse Jane, fechando o tabuleiro— Além disso, a coisa na verdade está quebrada. Ele caiu.

—Quero presentes.

Jane se estirou e abraçou a sua irmã.

—Não se preocupe pelo estúpido tabuleiro. Eu sempre compro algo para você no Natal.

Um momento mais tarde quando Hannah se foi, Jane voltou a meter-se entre os lençóis.

Estúpido tabuleiro. Estúpido aniversário. Estúpido tudo.

Enquanto fechava os olhos, deu-se conta que nunca tinha olhado o cartão de sua irmã. Reacendeu a luz e o recolheu da mesinha de cabeceira. Dentro dizia, Sempre estaremos juntas pelas mãos! Amo você! Hannah!

Essa resposta que lhes tinha dado a respeito do Natal estava completamente equivocado. Todo mundo amava a Hannah e lhe comprava presentes.Em algumas ocasiões até podia influenciar seu pai, e ninguém mais podia fazer isso. Assim era certo que lhe dariam presente.

Estúpido tabuleiro…

Depois de um momento Jane dormiu. Devia havê-lo feito, porque Hannah a despertou.

—Está tudo bem? —disse Jane, sentando-se. Sua irmã estava de pé junto à cama vestindo a camisola de flanela, e com uma estranha expressão no rosto.

—Devo ir. —a voz de Hannah era triste.

—Ao banheiro? Vai vomitar? —Jane apartou as mantas—. Irei com…

—Não pode. —suspirou Hannah— Devo ir.

—Bom, se o desejar, quando terminar de fazer o que tem que fazer, pode voltar aqui para dormir.

Hannah olhou para a porta.

—Estou assustada.

—Estar doente sempre assusta. Mas sempre pode contar comigo.

—Devo ir. —quando Hannah olhou para trás, via-se… maior, de certa forma. Nada há ver com os dez anos que tinha— Tratarei de voltar. Esforçarei-me por fazê-lo.

   —Um… certo. —Talvez sua irmã tinha febre ou algo assim?— Quer que vá despertar a mamãe?

Hannah negou com a cabeça.

—Só queria ver você. Volte a dormir.

Quando Hannah se foi, Jane se afundou entre os travesseiros. Pensou em ir ver como estava sua irmã no banheiro, mas o sono a reclamou antes que pudesse seguir esse impulso.

Na manhã seguinte Jane despertou com o som de fortes pisadas correndo pelo corredor. A princípio assumiu que alguém tinha atirado algo que estava deixando uma mancha no tapete ou sobre uma cadeira ou uma colcha. Mas logo ouviu as sirenes da ambulância no caminho de entrada.

Jane saiu da cama, olhou pelas janelas dianteiras, logo colocou a cabeça no corredor. Seu pai estava falando com alguém na parte de baixo, e a porta do quarto de Hannah estava aberta.

Na ponta dos pés, Jane caminhou pelo tapete oriental, pensando que habitualmente sua irmã nunca se levantava tão cedo aos sábados. Devia sentir-se realmente doente.

Deteve-se na porta. Hannah jazia sobre a cama, com os olhos abertos fixos no céu raso, a pele tão branca como os antigos lençóis brancos como a neve sobre as que estava estendida.

Não piscava.

Na canto oposto do quarto, tão longe como lhe era possível de Hannah, sua mãe estava sentada no assento da janela, com o vestido de seda cor marfim formando redemoinhos ao seu redor.

—Volte para a cama. Agora.

Jane correu a seu quarto. Justo quando fechava a porta, viu seu pai subir a escada com dois homens de uniforme azul marinho. Estava falando com autoridade e ouviu as palavras congênita coração algo.

Jane saltou sobre a cama e cobriu a cabeça com os lençóis. Enquanto tremia na escuridão, sentiu-se muito pequena e muito assustada.

O tabuleiro tinha razão. Hannah não teria presentes de Natal e não se casaria com ninguém.

Mas a irmã mais nova de Jane cumpriu sua promessa. Sim, ela retornou.

—Não me sinto nada bem com esta calça de couro.

Vishous levantou a vista do grupo de computadores. Butch Ou’Neal estava de pé na sala do Pit com um par de calças de couro sobre as coxas e uma expressão de deve estar brincando no rosto.

—Não ficaramm bem? —perguntou V a seu companheiro de quarto.

—Esse não é o problema. Não se ofenda, mas são raros os que gostam de se vestir como os Village People —Butch levantou os fortes braços e caminhou em círculo, a luz refletindo-se em seu peito nu— Quero dizer, olha isso.

—São para lutar, não para estar na moda.

—Também são as saias escocesas, mas não me vê enrolando um tartán.

—E dou graças a Deus por isso. Tem as pernas muito arqueadas para pôr essa merda.

Butch assumiu uma expressão aborrecida.

—Me morda o traseiro.

Eu gostaria, pensou V.

Encolhendo os ombros foi em busca de seu pacote de tabaco turco. Enquanto tirava o papel para enrolar, depositava uma linha, e a atava até transformá-la em um cigarro, fez o que passava muito tempo fazendo: recordou a si mesmo que Butch estava felizmente emparelhado com o amor de sua vida, e que, mesmo que não estivesse, ele não jogava nesse time.

Enquanto o acendia e inalava, tratou de não olhar o poli e falhou. Maldita visão periférica. Sempre acontecia o mesmo.

Homem, era um estranho pervertido. Especialmente dado quão unidos estavam. Nos últimos nove meses se aproximou do Butch mais que a ninguém que tivesse conhecido em seus trezentos anos de vida. Morava com o macho, embebedava-se com ele, exercitava-se com ele. Tinha atravessado a morte, vida, profecias e destino com ele. Tinha-o ajudado a romper as leis da natureza para converter o cara de humano a vampiro, além disso o curava quando usava seu poder especial com os inimigos da raça. Também o tinha proposto como membro da Irmandade… e esteve a seu lado quando se emparelhou com sua shellan.

Enquanto Butch passeava como se estivesse tratando de acostumar-se às calças de couro, V olhou fixamente as sete letras que estavam gravadas em suas costas em idioma antigo: MARISSA. V tinha gravado os dois A, e tinham ficado bem, apesar do fato de sua mão tremer todo o tempo.

—Sim. —disse Butch— Não estou certo de que me assentam direito.

Depois da cerimônia de emparelhamento, V tinha desocupado o Pit nesse dia para que o feliz casal tivesse privacidade. Foi-se cruzando o pátio do Complexo e se encerrou no quarto de hóspedes da mansão com três garrafas de Grei Goose. Embebedou-se até saturar-se, realmente, alagado como um cultivo de arroz, mas não tinha conseguido alcançar a meta de desmaiar. A verdade o tinha mantido implacavelmente acordado: V estava ligado a seu companheiro de quarto de uma forma que complicava as coisas mas que ainda assim não mudava nada.

Butch sabia o que acontecia. Demônios, eram os melhores amigos, e ele podia ler V melhor que qualquer outra pessoa. E Marissa sabia porque não era estúpida. E a Irmandade sabia porque esses estúpidos fofoqueiros idiotas nunca o deixavam manter segredos.

Todos estavam tranqüilos a respeito disso.

Ele não. Não podia suportar as emoções. Nem a si mesmo.

—Vai provar o resto do equipamento? —perguntou enquanto exalava— Ou quer se queixar um pouco mais pelas calças?

—Não me provoque que soco você.

—Por que se privar de seu passatempo favorito?

—Porque estão começando a doer meus dedos. —Butch caminhou por volta de uma das poltronas e recolheu o arnês para o peito. Ao deslizá-lo pelos amplos ombros, o couro perfilou seu torso à perfeição— Merda, como fazem para que ajuste tão bem?

—Tomei as medidas, recorda?

Butch o fechou em seu lugar, se inclinou e passou a ponta dos dedos ao longo da tampa de uma caixa negra laqueada. Atrasou-se sobre as letras da Irmandade da Adaga Negra, logo riscou os caracteres na Antiga Língua que soletravam Dhestroyer, descendente de Wrath, filho de Wrath.

O novo nome de Butch. A antiga e nobre linhagem de Butch.

—OH, merda, abre-o. —V esmagou o cigarro, enrolou outro, e o acendeu. Homem, era bom que os vampiros não pudessem ter câncer. Ultimamente tinha estado fumando um após o outro como um criminoso— De uma vez.

—Ainda não posso acreditar.

—Só abre a condenada coisa.

—Realmente não posso…

—Abre-a. —a estas alturas, V estava suficientemente irritado para sair levitando da maldita cadeira.

O poli acionou o mecanismo de ouro maciço da fechadura e levantou a tampa. Sobre uma base de cetim vermelho havia quatro adagas iguais de lâmina negra, cada uma precisamente calibrada para o físico de Butch, afiadas com um fio mortal.

—Santa María, Mãe de Deus… são lindas.

—Obrigado. —disse V ao exalar— Também faço um pão excelente.

Os olhos cor avelã do poli dispararam ao outro lado da sala.

—As fez para mim?

—Sim, mas não é grande coisa. Fiz para todos nós. —V levantou a mão direita enluvada— Como sabe, sou bom com o calor.

—V… obrigado.

—Não há necessidade. Como disse, sou o homem das espadas. Faço-as todo o tempo.

Sim… só que talvez não com tanta concentração. Para Butch, passou quatro dias seguidos trabalhando nelas. Uma maratona de dezesseis horas trabalhando com sua maldita mão brilhante sobre o aço misto tinham provocado dor nas costas e que se cansassem os olhos, mas maldita seja, tinha estado decidido a obter que cada uma fosse digna do macho que as empunharia.

Ainda não eram o suficientemente boas.

O poli tirou uma das adagas, e enquanto a sustentava na palma da mão seus olhos brilharam.

—Jesus… sente esta coisa. —começou a oscilar a arma para trás e para frente de seu peito— Nunca segurei nada tão bem feito. E o punho. Deus… é perfeito.

A adulação agradou V mais que qualquer outra que tivesse recebido antes.

Por isso o irritou como a merda.

—Sim, bom, supõe-se que são assim, certo? —esmagou o cigarro no cinzeiro, oprimindo o frágil brilho da ponta— Não tem sentido que saia ao campo de batalha com um jogo de Ginsu[2].

—Obrigado.

—Tudo bem.

—V, sério…

—Que se foda. —Quando não houve uma resposta rápida, levantou a vista.

Merda. Butch estava de pé frente a ele, os olhos cor avelã do poli obscurecidos com um conhecimento do que V não queria que ele fosse consciente.

V baixou a vista para o acendedor.

—Como é, poli, são só facas.

A negra ponta da adaga deslizou sob o queixo de V e lhe empurrou a cabeça para cima. Ao ser forçado a encontrar o olhar de Butch, o corpo de V se esticou. Logo ficou a tremer.

Com a arma unindo-os, Butch disse:

—São perfeitas.

V fechou os olhos, desprezando a si mesmo. Logo deliberadamente se apoiou na folha para que mordesse sua garganta. Tragandoa labareda de dor, absorveu-a em suas vísceras, usando-a como um aviso de que era um fodido estranho, e os estranhos se mereciam ser feridos.

—Vishous, me olhe.

—Me deixe em paz.

—Me obrigue.

Por meio segundo V quase se lançou para ele, preparado para bater no bastardo. Mas logo Butch disse:

—Só estou agradecendo por fazer algo bom. Não é a uma grande coisa.

Não era grande puta coisa? Os olhos de V relampejaram e os sentiu flamejar.

—Isso é mentira. Por razões das quais é muito fodidamente consciente.

   Butch retirou a lâmina, e quando o braço do macho caiu, V sentiu uma gota de sangue lhe correr pelo pescoço. Era cálida… e suave como um beijo.

—Não diga que sente muito. —murmurou V no silêncio— Sou propenso a me pôr violento.

—Mas é verdade.

—Não há nada pelo que pedir desculpas. —homem, já não podia suportar viver ali com Butch. Entendam isso como Butch e Marissa. O constante aviso do que não podia ter e não devia desejar estava matando-o. E Cristo sabia que já estava em péssima forma. Quando tinha sido a última vez que tinha dormido durante o dia? Não desde fazia semanas e semanas.

Butch embainhou a lâmina no arnês do peito, com a ponta para baixo.

—Não quero que se sinta mal…

—De maneira nenhuma vamos discutir mais sobre isto. —ficando o dedo indicador na garganta, V enxaguou o sangue provocado pela lâmina que tinha forjado. Enquanto o lambia, a porta oculta que levava ao túnel subterrâneo se abriu e o aroma do oceano encheu o Pit.

Marissa apareceu em um canto, vendo-se tão bem como Grace Kelly como era habitual. Com o longo cabelo loiro e o rosto perfeitamente formado, era conhecida por ser a grande beleza da raça, e até V, que não gostava do tipo, devia reconhecê-lo.

—Olá, meninos… —Marissa se deteve e olhou fixamente para Butch— Deus… querido… olhe essas calças.

Butch se encolheu.

—Sim, sei. São…

—Pode vir aqui? —começou a retroceder pelo vestíbulo para o corredor que levava a seu dormitório— Necessito que venha comigo um minuto. Ou dez.

O aroma da vinculação de Butch flamejou até transformar-se em um apagado rugido, e V soube perfeitamente bem que o corpo dele estava endurecendo para o sexo.

—Carinho, pode me ter tanto tempo quanto desejar.

Quando estava saindo da sala, o poli lançou um olhar sobre seu ombro.

—Sinto-me muito bem com estas calças de couro. Diga ao Fritz que quero cinqüenta dessas, o mais rápido possível.

Quando o deixaram sozinho, Vishous se inclinou sobre o Alpine[3] e pôs Music is my Savior do MIM’S. Enquanto o rap ressoava, pensou em como estava acostumado a usar essa merda para afogar os pensamentos das demais pessoas. Agora que suas visões terminaram e todo o assunto de ler a mente tinha feito Poof! Usava esses sons graves para evitar ouvir seu companheiro de quarto fazendo amor.

V esfregou o rosto. Realmente tinha que sair dali. Por um tempo tratou de fazer que se mudassem, mas Marissa sustentava que o Pit era “acolhedor” e que gostava de viver ali. O que tinha que ser mentira. A metade da sala estava ocupada pelo pimbolim, ESPN[4] estava na TV sem som as vinte e quatro horas dos sete dias da semana, e sempre estava soando o rap duro. O geladeira era uma zona mitiralitar marcada com baixas podres de Taco Hell e Arby’S. O Grei Goose e o Lagavulin eram as únicas bebidas que havia na casa. O material de leitura se limitava ao Sports Illustrated e… bom, mais edições do Sports Illustrated.

Assim, sim, por aí não havia um monte de adoráveis patinhos e coelhinhos. O lugar era em parte uma fraternidade e em parte um vestuário. Decorado pelo Derek Jeter[5].

E no que se refería a Butch? Quando V tinha sugerido um pouco de ação com a compainha de mudança O-Haul[6], o poli tinha dirigido um olhar imparcial a ele através da poltrona, tinha sacudido a cabeça uma vez, e tinha partido para a cozinha para procurar mais Lagavulin.

V se recusava a acreditar que ficavam porque estavam preocupados com ele ou alguma porcaria assim. A mesma idéia o deixava louco.

Ficou de pé. Se ia haver uma separação, ia ter que ser ele a dar o primeiro passo. O problema era, que não ter Butch a seu redor todo o tempo… era impensável. Era melhor a tortura que padecia agora que o exílio.

Olhou o relógio e imaginou que bem poderia tomar o túnel subterrâneo e dirigir-se à casa grande. Embora o resto da Irmandade da Adaga Negra vivesse nesse monstro recoberto de pedra que era a mansão vizinha, havia muitos quartos desocupados. Talvez devesse provar um para ver se se acostumava. Por alguns de dias.

O pensamento fez que lhe revolvesse o estômago.

Em seu caminho à porta, chegou-lhe um pouco do aroma do vinculo que flutuava do quarto de Butch e Marissa. Quando pensou no que estava ocorrendo ali, seu sangue esquentou inclusive enquanto a vergonha fazia que lhe arrepiasse a pele.

Proferindo uma maldição, caminhou para sua jaqueta de couro e tirou o telefone celular. Enquanto discava, seu peito estava tão quente como um refrigerador de carne, mas ao menos sentia como se estivesse fazendo algo a respeito da obsessão que tinha.

   Quando a voz feminina respondeu, V cortou o rouco olá.

—Ao anoitecer. Hoje. Sabe como se vestir, e usará o cabelo afastado do pescoço. O que me diz?

A resposta foi um ronrono de submissão.

—Sim, meu lheage.

V pendurou e atirou o celular sobre o escritório, observando como ricocheteava e terminava repousando contra um dos quatro teclados. À fêmea que tinha escolhido para esta noite gostava das coisas especialmente duras. E ia ter isso.

Porra, verdadeiramente era um pervertido. Até a medula. Um impenitente desviado sexual… que de alguma forma era famoso dentro da raça pelo que era.

Cara, era absurdo, mas bom, os gostos e motivações das fêmeas sempre tinham sido extravagantes. E sua fantástica reputação não era mais significativa para ele do que o eram suas ajudantes. Tudo o que importava era que tivesse voluntárias para suas necessidades sexuais. O que se dissesse dele, só era uma masturbação oral para bocas que precisavam estar ocupadas de alguma forma.

Enquanto caminhava pelo túnel e se dirigia para a mansão estava completamente de saco cheio. Graças à estúpida rotação dos horários que a Irmandade praticava, não estava permitido sair ao campo de batalha essa noite, e odiava isso. Certamente preferia estar caçando e matando os assassinos não mortos que perseguiam a sua raça que estar sentado sobre seu traseiro.

Mas havia formas de fazer desaparecer um caso de frustração sexual.

Para isso pareciam as restrições e os corpos bem dispostos.

Phury entrou na cozinha tamanho industrial da mansão e congelou da forma que se faz quando se enfrenta a uma ferida acidental do tipo das que são muito sangrentas: a sola de seus sapatos ficaram cravadas no chão, sua respiração parou, e seu coração saltou um batimento e logo disparou.

Antes que pudesse dar marcha ré pela porta de serviço, pegaram-no.

Bela, a shellan de seu gêmeo, elevou a vista e sorriu.

—Olá.

—Olá. —Sai. Agora.

Deus, cheirava tão bem.

Ondeou a faca que tinha na mão sobre o peru assado que tinha estado cortando.

—Quer que te faça um sanduiche?

—O que? —disse como um idiota.

—Um sanduiche. —apontou a lâmina ao pão, o pote de maionese quase vazio, a alface e os tomates— Deve ter fome. Não comeu muito na última refeição.

—Ah, Sim… não, não tenho… —seu estômago danificou a mentira ao grunhir como a besta vazia que era. Bastardo.

Bela sacudiu a cabeça e voltou a trabalhar sobre o peito do peru.

—Pegue um prato e sente-se.

OK, isto era a última coisa que precisava. Era melhor ser enterrado vivo que sentar-se a sós na cozinha enquanto ela preparava a comida com suas lindas mãos.

—Phury. —disse sem levantar a vista— Prato. Assento. Agora.

Acessou porque a pesar do fato de que provinha de uma linhagem de guerreiros, de que era um membro da Irmandade e a ultrapassava em peso por umas boas quarenta quilos, era um inútil e um debiloide quando se tratava dela. A shellan de seu gêmeo… a shellan grávida de seu gêmeo… não era alguém a quem Phury se pudesse negar.

Depois de deslizar um prato perto dela, sentou-se sobre a ilhota de mármore e disse a si mesmo que não olhasse suas mãos. Estaria bem sempre e quando não olhasse seus longos e elegantes dedos e suas unhas curtas e limadas e a forma em que…

Merda.

—Juro a você. —disse isso enquanto cortava mais carne do peito— Zsadist quer que me transforme em uma grande casa. Outros treze meses com ele me importunando para que coma e não caberei na piscina. As calças já quase não me entram.

—Você está bem. —Demônios, estava perfeita, com o longo cabelo escuro e os olhos cor safira e o corpo alto e magro. O filho que tinha dentro não se notava exceto pela camiseta folgada, mas a gravidez era óbvia em sua pele brilhante e na forma em que sua mão freqüentemente se dirigia para a parte baixa do estômago.

Sua condição também se fazia evidente na ansiedade atrás dos olhos de Z quando estava ao seu redor. Como as gravidezes vampíricas tinham altas taxas de mortalidade materno/fetal, eram uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo, para os hellren que se vincularam a suas companheiras.

—Sente-se bem? —perguntou Phury. Depois de tudo, Z não era o único que se preocupava com ela.

—Bastante. Canso-me, mas não é tão mau. —lambeu a ponta dos dedos, logo pegou o pote de maionese. Enquanto escavava dentro, a faca fez um ruído de repique, como uma moeda sendo sacudida— Embora Z esteja me deixando louca. nega-se a alimentar-se.

Phury recordou o sabor de seu sangue e desviou o olhar, enquanto alargavam suas presas. Não havia nenhuma nobreza no que sentia por ela, para nada, e como macho que sempre se orgulhou de sua natureza honrável, não podia reconciliar essas emoções com seus princípios.

E o que acontecia de seu lado definitivamente não era recíproco. Tinha-o alimentado uma vez porque precisava desesperadamente e porque era uma fêmea de valor. Não tinha sido porque se sentisse atraída a sustentá-lo ou porque o desejasse.

Não, tudo isso era para seu gêmeo. Desde a primeira noite que tinha conhecido Z, havia-se sentido cativada, e o destino tinha disposto que fosse a que verdadeiramente o salvasse do inferno ao qual tinha estado submetido. Phury podia ter resgatado o corpo de Z desse século em que foi escravo de sangue, mas Bela tinha ressuscitado seu espírito.

O que, é obvio, era uma razão a mais para amá-la.

Demônios, desejava ter um pouco de fumaça vermelha em cima. Tinha deixado o diabólico pacote lá em cima.

—Então, como está? —perguntou enquanto punha finas fatias de peru, e logo empilhava folhas de alface sobre elas— Essa nova prótese ainda está dando problemas?

—Está um pouco melhor, obrigado. —A tecnologia desses dias estava a anos luz de distância do que o tinha sido um século atrás, mas considerando toda a luta que praticava, sua perdida pantorrilha era um constante problema para sua mobilidade.

Perna perdida… sim, está bem, tinha-a perdido. A tinha tirado de um tiro para afastar Z da cadela doente que tinha por Ama. O sacrifício havia valido a pena. Como também o sacrifício de sua felicidade valia a pena para que Z estivesse com a fêmea que ambos amavam.

Bela coroou os sanduichees com outra fatia de pão e deslizou o prato pelo mármore para ele.

—Aqui está.

—Isto é justo o que precisava. —saboreou o momento enquanto lhe cravava os dentes, o pão brando cedendo como se fosse pele. Enquanto engolia, foi atacado pela triste alegria de que lhe tivesse preparado essa comida, e o tivesse feito com um certo tipo de amor.

—Bem. Me alegro. —mordeu seu próprio sanduiche.

—É que… quis perguntar algo a você.

—Sim? Que coisa?

—Como sabe, estive trabalhando no Lugar Seguro com Marissa. É uma organização genial, cheia de gente estupenda… —houve uma longa pausa… do tipo que fazia que se animasse— De qualquer maneira, uma nova assistente social veio para dar conselho às fêmeas e seus filhos —limpou a garganta, secou a boca com um guardanapo de papel— É realmente maravilhosa. Cálida, divertida. Estava pensando que talvez…

OH, Deus.

—Obrigado, mas não.

—É realmente agradável.

—Não, obrigado. —Com a pele de galinha por todo o corpo, começou comer às pressas.

—Phury… sei que não é meu assunto, mas, por que se mantém solteiro?

Merda. Mais rápido com o sanduiche.

—Poderíamos mudar de assunto?

—É devido a Z, certo? O porquê de que nunca tenha estado com uma mulher. É seu sacrifício por ele e seu passado.

—Bela… por favor…

—Tem mais de duzentos anos de idade, e já é tempo de que comece a pensar em você mesmo. Z nunca vai ser completamente normal, e ninguém sabe isso melhor que você e eu. Mas agora está mais estável. E com o tempo vai estar ainda melhor.

Era certo, sempre e quando Bela sobrevivesse a gravidez.

Até que saísse do parto saudável, seu gêmeo não ia sair do bosque. E por extensão, tampouco o faria Phury.

—Por favor deixe que lhe apresente…

—Não. —Phury ficou de pé e mastigou como uma vaca. Os maneiras na mesa eram muito importantes, mas esta conversação tinha que terminar antes que lhe explodisse a cabeça.

—Phury…

—Não quero uma fêmea em minha vida.

—Seria um maravilhoso hellren, Phury.

Limpou a boca no guardanapo de cozinha e disse na Antiga Língua:

—Obrigado por esta comida feita por suas mãos. Bendita noite, Bela, amada companheira de meu gêmeo, Zsadist.

Sentindo-se desprezível por não ajudar a limpar, mas imaginando que era melhor que sofrer um aneurisma, empurrou a porta de serviço e saiu da cozinha. A meio caminho, ao longo da mesa de doze metros de extensão, se sentiu exausto, retirou uma cadeira ao acaso, e se deixou cair sobre ela.

Homem, seu coração estava esmurrando seu peito.

Quando elevou a vista, Vishous estava de pé do outro lado da mesa, olhando-o.

—Cristo!

—Está um pouco tenso, irmão? —Desde um metro e noventa de altura, ele era descendente do grande guerreiro conhecido só como o Bloodletter[7], V era um macho imponente. Com os olhos de íris branca com um rebordo azul, o cabelo negro azeviche, e rosto anguloso e ardiloso, poderia ter sido considerado bonito. Mas o cavanhaque e as tatuagens nas têmporas o faziam parecer malvado.

   —Tenso não. Nem um pouco. —Phury estendeu as mãos sobre a lustrosa mesa, pensando no néscio que ia acender no instante em que chegasse a seu quarto— Na realidade, ia buscar você.

—Ah, sim?

—Wrath não gostou das vibrações que sentiu na reunião desta manhã —o que era dizer pouco. V e o Rei tinham terminado queixo a queixo em um par de ocasiões, e esse não era o único argumento que voava por aí— Esta noite nos tirou todos da escala. Disse que precisábamos de algo de D&D[8], descanço e diversão .

V arqueou as sobrancelhas, parecendo mais inteligente que um grupo de Einsteins. O ar de gênio não era só aparência. O homem falava dezesseis idiomas, desenhava jogos para computador por diversão, e podia recitar os vintes livros das Crônicas de cor. O irmão fazia que Stephen Hawking parecesse um candidato a simples técnico.

—Todos nós? —disse V.

—Sim. Ia ao ZeroSum. Quer vir?

—Acabo de marcar um programa particular.

Ah, sim. A pouco convencional vida sexual de V. Homem, ele e Vishous estavam em extremos opostos do espectro sexual. Ele não sabendo nada, Vishous havendo-o explorado tudo, e a maior parte disso até o extremo… o caminho inacessível e a estrada. E essa não era a única diferença entre eles. Pensando-o bem, não tinham nada em comum.

—Phury?

Sacudiu a si mesmo.

—Sinto muito. O que?

—Disse que sonhei com você uma vez. Faz muitos anos.

OH, Deus. por que não foi direito para seu quarto? Poderia estar acendendo um nesse momento.

—Como foi isso?

V acariciou o cavanhaque.

—Vi você parado em uma encruzilhada sobre um campo imaculado. Era um dia tormentoso… sim, muitas tormentas. Mas quando pegou uma nuvem do céu e a envolveu ao redor do poço, a chuva deixou de cair.

—Sonho poético. —e era um alívio. A maioria das visões de V eram aterradoras como o inferno— Mas carece de sentido.

—Nada do que vejo carece de sentido, e sabe.

—Entendimento então. Como pode alguém envolver um poço? —Phury franziu o cenho— E por que me diz isso agora?

As escuras sobrancelhas de V baixaram sobre seus olhos semelhantes a espelhos.

—Eu… Deus, não tenho nem idéia. Só tinha que dizê-lo. —Com uma grosseira maldição, dirigiu-se à cozinha—Bela ainda está ali?

—Como sabia que estava…?

—Sempre parece destroçado depois de vê-la.

Meia hora e um sanduiche de peru depois, V se materializou no terraço de seu apartamento de cobertura particular no centro da cidade. A noite era uma porcaria, com todo o frio de março e a umidade de abril, o amargo vento formando redemoinhos ao seu redor como um bêbado com uma atitude errada. Enquanto permanecia de pé frente ao panorama que ofereciam as pontes gêmeas de Caldwell, a vista de postal da cintilante cidade o aborrecia.

Como também o fazia o projeto que tinha de diversão e jogos para essa noite.

Supunha que era similar ao que ocorria com uma pessoa que tinha sido viciada em cocaína durante muito tempo. No começo o efeito tinha sido intenso, mas agora alimentava seu vício sem nenhum tipo de entusiasmo. Era tudo para acalmar a necessidade e não para obter alívio.

Plantando as palmas das mãos sobre o muro da terraço, apareceu inclinando-se muito para fora e foi golpeado no rosto por uma corrente de ar gelado, seu cabelo voando para trás como um modelo e toda essa merda. Ou talvez… era mais parecido ao super herói das historias. Sim, essa era uma metáfora melhor.

Salvo que ele seria o vilão, não?

Deu-se conta de que suas mãos estavam alisando a plaina pedra sobre a que descansavam, acariciando-a. O muro tinha um metro e meio de altura e percorria ao longo do edifício como o rebordo de uma bandeja de serviço. O bordo era um saliente de um metro de largura rogando ser saltado, para se encontrar com os dez metros de ar que havia do outro lado sendo um perfeito e gracioso prelúdio para que logo a morte o fodesse duramente.

Agora, essa era uma vista que lhe parecia interessante.

Sabia de primeira mão como doce era uma queda livre. Como a força do vento oprimia seu peito, fazendo que fosse difícil respirar. Como choravam os olhos e as lágrimas percorriam suas têmporas, em lugar de descer por suas bochechas. Como a terra se apressava para você para te acolher, uma anfitriã pronta para dar as boas-vindas à festa.

Não estava certo de ter tomado a decisão correta ao decidir salvar-se da vez que tinha saltado. Entretanto, no último momento, havia se desmaterializado para a terraço. De volta… aos braços de Butch.

Maldito Butch. Tudo conduzia sempre para esse filho da puta, isso é o que era.

V deixou de lado o impulso de fazer outro vôo e abriu uma das portas corrediças com a mente. As três paredes de vidro do apartamento de cobertura eram a prova de balas mas não filtravam a luz do sol. Embora o fizesse, não tinha ficado ali para passar o dia.

Isto não era um lar.

Enquanto entrava, o lugar e o que significava pressionaram sobre ele como se a força da gravidade fosse distinta ali. As paredes, o teto e o chão de mármore da aberta extensão de um só quarto eram negros. Como o eram as centenas de velas que podia acender a vontade. A única coisa que podia ser classificada como movel era uma cama extra grande que nunca usava. O resto era equipamento. A mesa com os objetos de sujeição. As algemas embutidas na parede. As máscaras, as mordaças, os chicotes, os fortificações e as algemas. A penteadeira cheio de pesos para mamilos e pinzas de aço e ferramentas de aço inoxidável.

Tudo para as fêmeas.

Tirou a jaqueta de couro e a atirou sobre a cama, logo se desfez da camisa. Sempre conservava as calças de couro durante as sessões. As submissas nunca o viam completamente nu. Ninguém o fazia salvo seus irmãos durante as cerimônias na Tumba, e isso era apenas porque os rituais exigiam.

Como era sua parte inferior não era assunto de ninguém mais.

As velas flamejaram quando mandou, a luz líquida ricocheteando sobre o lustroso chão antes de ser absorvida pelo negrume do teto abovedado. Não havia nada romântico no ar. O lugar era uma cova onde voluntariamente se praticavam atos profanos, e a luz era apenas para assegurar que o couro e o metal, as mãos e as presas fossem postos nos lugares adequados.

Além disso, as velas podiam ser usadas para outros propósitos além da iluminação.

Foi para o bar, serviu-se de dois dedos de Grei Goose, e se apoiou contra a curta extensão do balcão. Havia algumas dentro da raça que pensavam que vir aqui e resistir uma relação sexual com ele era um rito de graduação. Logo havia outras que só podiam obter satisfação com ele. E havia ainda mais que desejavam explorar quanto se podiam mesclar a dor e o sexo.

As do tipo Lewis e Clark[9] eram as que lhe interessavam menos.

Habitualmente não podiam suportá-lo e na metade da sessão, tinham que utilizar a palavra certa ou o gesto da mão certo que lhes proporcionava. Sempre as deixava ir prontamente, embora qualquer lágrima tinham que enxugar elas mesmas, não ele. Nove de cada dez vezes queriam tentá-lo de novo, mas isso não era possível. Se quebravam muito facilmente uma vez, provavelmente o voltassem a fazer, e não estava interessado em adestrar pesos leves em seu estilo de vida.

As que podiam suportá-lo-o chamavam lheage e o adoravam, embora não se importasse uma merda com sua reverência. O bordo nele tinha que mitigar-se, e seus corpos eram a pedra que usava para polir-se. Fim da história.

Foi para a parede, levantou uma das correntes de aço, e a deslizou sobre a palma da mão, elo por elo. Embora fosse um sádico por natureza, não se excitava machucando a suas submissas. Seu lado sádico era sustentado com suas matanças de lessers.

O que procurava era o controle de suas mentes e corpos. As coisas que os fazia sexualmente ou de outra forma, as coisas que dizia, o que os fazia ficar… tudo era calibrado cuidadosamente para obter um efeito. Seguro que envolvia dor, e sim, talvez chorassem pela vulnerabilidade e o medo. Mas lhe rogavam por mais.

E os dava, se se sentia com humor para isso.

Deu uma olhada nas máscaras. Sempre colocava máscaras nelas, e nunca deviam tocá-lo a não ser que lhes dissesse onde, como e com o que. Se tinha um orgasmo durante o transcurso de uma sessão, o que era incomum, era recolhido pelas submissas com grande orgulho. Se se alimentava, era só porque tinha que fazê-lo.

Nunca degradava às que iam a esse lugar, nunca as fazia fazer nenhuma das coisas que sabia endemoniadamente bem que alguns dominadores preferiam. Mas não as consolava no começo, no meio ou no final e as sessões só se levavam a cabo sob seus términos. Dizia-lhes onde e quando, e se lhe saíam com alguma merda de ciúmes de proprietária, estavam fora, para sempre.

Consultou o relógio e levantou o mhis que rodeava o apartamento de cobertura. A fêmea que vinha essa noite podia rastreá-lo já que um par de meses antes tinha bebido de sua veia. Quando terminasse com ela, arrumaria-o de forma que se fosse sem lembranças do lugar onde tinha estado.

Embora lembrasse o que tinha ocorrido. As marcas do sexo estariam por todo seu corpo.

Quando a fêmea se materializou no terraço, deu-se a volta. Através das portas corrediças era uma sombra anônima de curvas vestindo um espartilho de couro negro e uma larga e folgada saia negra. Usava o cabelo negro recolhido alto sobre a cabeça, como tinha solicitado.

Sabia esperar. Sabia que não devia chamar.

Abriu a porta com a mente, mas também sabia que não devia entrar sem ter sido chamada.

Deu-lhe uma olhada e captou seu aroma. Estava completamente excitada.

Lhe alargaram as presas, mas não devido a que estivesse particularmente interessado no úmido sexo entre suas pernas. Precisava alimentar-se, e ela era uma fêmea e tinha muitas veias que podia sangrar. Era algo biológico, não algo encantado.

V estendeu o braço e lhe fez gestos com o dedo, adiantou-se, tremendo, como deveria. Essa noite estava de um humor particularmente cáustico.

—Se desfaz dessa saia —disse— Eu não gosto.

Imediatamente abriu o zíper da roupa e a deixou cair sobre o chão em uma corrente de cetim. Debaixo, usava uma cinta negra e meias rematadas em encaixe negro. Não usava calcinhas.

Hmm… Sim. ia tirar essa lingerie de seus quadris cortando-a com uma adaga. Eventualmente.

V caminhou para a parede e tomou uma máscara com somente uma abertura. Se queria ar, ia ter que respirar pela boca.

Atirando-lhe disse:

—Ponha agora.

Cobriu o rosto sem dizer uma palavra.

—Sobe à mesa.

Não a ajudou quando se adiantou desorientada, somente a observou, sabendo que encontraria o caminho. Sempre o faziam. As fêmeas como ela sempre encontravam o caminho à mesa de tortura.

   Para passar o tempo tirou um néscio do bolso traseiro, o pôs entre os lábios, e pegou uma vela negra do candelabro. Enquanto acendia o cigarro, olhou fixamente o pequeno atoleiro de cera líquida que havia ao pé da chama.

Comprovou o progresso da fêmea. Bem feito. colocou-se de barriga para cima, com os braços aos lados e as pernas abertas.

depois de atá-la, soube exatamente por onde começar essa noite.

Manteve a vela na mão enquanto dava um passo à frente.

Debaixo das luzes embutidas do ginásio da Irmandade, John Matthew assumiu a posição de início e se focou em seu oponente no treinamento. Ambos estavam tão bem equilibrados como um par de palitos chineses, ambos magros e insubstanciais, fáceis de quebrar. Como o eram todos os pretrans.

Zsadist, o irmão que estava dando a lição de luta corpo a corpo essa noite, assobiou entre dentes, e John e seu companheiro de classe se saudaram com uma reverência. Seu oponente disse a saudação apropriada na Antiga Língua, e John respondeu à declaração usando a linguagem de sinais americano. Logo se engancharam. Pequenas mãos e ossudos braços voaram sem obter grande efeito; os golpes eram lançados como aviões de papel, eram esquivados com pouca desenvoltura. Todos seus movimentos e posições eram sombras do que deveriam ter sido, ecos de trovão, não o grave rugido em si mesmo.

O trovão proveio de outra parte no ginásio.

No meio da ronda, sentiu-se um tremendo WHOOMP! quando um sólido corpo bateu os colchonetes como um saco de areia. Ambos John e seu oponente olharam para lá… logo abandonaram seus pobres intentos de artes marciais mistas.

Zsadist estava trabalhando com o Blaylock, um dos dois melhores amigos do John. O ruivo era o único aluno que tinha passado pela mudança até esse momento, assim tinha o dobro do tamanho que todo o resto da classe. E Z acabava de atirá-lo ao chão.

Blaylock saltou a seus pés e novamente carregou como um soldado de cavalaria, mas só para ser chutado no traseiro novamente. Era grande, mas Z era um gigante além de ser membro da Irmandade da Adaga Negra. Assim Blay estava enfrentando um fodido tanque Sherman de experiência em combate.

Homem, Qhuinn deveria estar lá para ver isso. Onde estava esse cara?

Todos, os onze alunos deixaram escapar um Whoa! quando tranqüilamente Z fez que Blay perdesse o equilíbrio, atirou-o de barriga para cima sobre os colchonetes, e o retorceu com uma presa que lhe retorceu os ossos até a submissão. No mesmo instante que Blay deu uma palmada, Z o soltou.

Enquanto Zsadist parava perto do menino, sua voz soou com o tom mais quente que podia chegar a ter alguma vez.

—Por ter passado cinco dias da transição, está fazendo bem.

Blay sorriu, embora sua bochecha estivesse esmagada contra o colchonete como se o tivessem pregado com cola.

—Obrigado… —ofegou— Obrigado senhor.

Z estendeu a mão e içou Blay do chão quando o som de uma porta se abrindo ecoou através do ginásio.

John arregalou os olhos ao ver o que entrou por ela. Bom, isso merda, explicava onde tinha estado Qhuinn toda a tarde.

O macho que se aproximava lentamente através dos colchonetes de aproximadamente um metro e oitenta e cinco de altura e noventa quilos de peso tinha uma certa semelhança com alguém que até ontem tinha pesado tanto como uma bolsa de comida para cães. Qhuinn tinha passado pela transição. Deus, não era para se surpreender que o cara não tivesse estado sujando as mãos ou metido entre os livros nesse dia. Tinha estado ocupado habituando-se com um novo corpo.

Quando John levantou a mão, Qhuinn o saudou com a cabeça como se a tivesse rígida ou talvez como se lhe estivesse pulsando. O homem se via como a merda e se movia como se lhe doesse cada osso do corpo. Também mexia com o pescoço de sua nova sueter tamanho XXL como se senti-lo o incomodasse, e subia as calças uma e outra vez encolhendo-se cada vez. Surpreendeu-lhe ver que tinha um olho arroxeado, mas talvez bateu contra algo em meio da transição. Dizia-se que se sacudia muito quando estava mudando.

—Alegra-me que tenha vindo. —disse Zsadist.

A voz do Qhuinn era grave quando respondeu, com uma cadência totalmente distinta da anterior.

—Quis vir embora não possa me exercitar.

—Bem feito. Pode descansar por aí.

Enquanto Qhuinn se dirigia para um canto e encontrou o olhar de Blay e ambos sorriram muito lentamente. Logo olharam para John.

Usando o LSA, as mãos do Qhuinn soletraram: depois das aulas iremos a casa do Blay. Tenho um monte de coisas que contar aos dois.

Enquanto John assentia, a voz de Z retumbou no ginásio.

—A pausa para a fofoca terminou, senhoritas. Não façam que lhes chute o traseiro, porque o farei.

John enfrentou a seu pequeno companheiro e ficou na posição de luta.

Embora um dos alunos tinha morrido devido à mudança, John não podia esperar a que o golpeasse a sua. Certo, tinha medo da morte, mas era melhor estar morto que estar no mundo como um pedaço de carne assexuado deixado a mercê de outros.

Estava mais que preparado para transformar-se em um macho.

Tinha assuntos de família que tratar com os lessers.

Duas horas depois, V estava tão satisfeito quanto podia estar. Não era surpreendente que a fêmea não estivesse em forma para desmaterializarse para sua casa, assim lhe pôs um robe, hipnotizou-a para atordoá-la, e a levou abaixo no elevador de carga do edifício. Fritz estava esperando na calçada com o carro, e o ancião doggen não fez perguntas depois que lhe deu a direção.

Como sempre, esse mordomo era um presente de Deus.

Novamente só no apartamento de cobertura, V se serviu um pouco do Goose e se sentou sobre a cama. A mesa de tortura estava coberta com cera endurecida, sangue, a umidade dela e os resultados de seus orgasmos. Tinha sido uma sessão suja. Mas as boas sempre o eram.

Tomou um longo trago do copo. No denso silêncio, nas seqüelas de suas perversões, na fria bofetada de sua crua realidade, chegou-lhe uma cascata de sensuais imagens. O que tinha visto fazia umas semanas e que agora recordava, tinha sido visto por engano, mas de toda forma, tinha capturado a cena como um ladrão de carteira, escondendo-a em seu lóbulo frontal embora não lhe pertencesse.

Semanas antes tinha visto Butch e Marissa… dormindo juntos. Tinha sido quando o poli estava em quarentena na clínica de Havers. Uma câmara de vídeo estava posta no canto do quarto do hospital, e V os tinha visto no monitor de um computador. Ela usava um vestido de vibrante cor pêssego, ele, uma bata de hospital. Tinham estado beijando-se longa e ardentemente, seus corpos superexcitados sexualmente.

V tinha observado com o coração na garganta como Butch tinha rodado e se montou sobre ela, a bata se abrindo para revelar seus ombros, suas costas e seus quadris. Quando começou a mover-se ritmicamente, sua espinha dorsal se flexionou e afrouxado, enquanto as mãos dela lhe aferravam o traseiro lhe cravando as unhas.

Tinha sido lindo, eles dois juntos. Nada que ver com o sexo de borde afiados que V tinha praticado toda a vida. Tinha havido amor, e intimidade e… afeto.

Vishous deixou que seu corpo se afrouxasse e caiu para trás derrubando-se contra o colchão, inclinando o copo até quase derramá-lo quando se estendeu. Deus, perguntava-se como seria ter esse tipo de sexo. Chegaria a gostar? Talvez lhe desse claustrofobia. Não estava certo de poder estar com alguém que lhe colocasse as mãos por todo o corpo, e não podia imaginar-se estando completamente nu.

Salvo que depois pensou em Butch e decidiu que provavelmente somente dependesse de com quem estivesse.

V cobriu o rosto com a mão boa, desejando como o inferno que seus sentimentos desaparecessem. Odiava-se a si mesmo por esses pensamentos, por sua fixação, por seu inútil adoecer, e a familiar letanía de vergonha vinda em uma onda de cansaço. Quando uma onda de esgotamento a lá Tom Sawyer o percorreu dos pés à cabeça, lutou contra ela, sabendo que era perigoso.

Esta vez não ganhou. Nem sequer teve escolha. Seus olhos se fecharam de repente, mesmo enquanto o medo lambia sua espinha dorsal e lhe deixava a pele arrepiada.

OH… merda. Estava dormindo…

Sentindo pânico tratou de abrir as pálpebras, mas era muito tarde. transformaram-se em paredes de alvenaria. Tinha-o pego um redemoinho e estava sendo sugado para baixo sem importar quanto tentasse se libetar.

Afrouxou a mão que sustentava o copo e apenas o escutou bater contra o chão e estilhaçar-se. Seu último pensamento foi que como esse copo de vodca, quebrando-se e derramando-se, incapaz de conter-se dentro de seu corpo.

Algumas quadras para oeste, Phury levantava sua taça de martini e descansava sobre uma banqueta de couro no ZeroSum. Ele e Butch tinham estado bastante silenciosos desde que tinham chegado ao clube fazia mais ou menos meia hora, ambos dedicando-se a olhar às pessoas da mesa da Irmandade.

Deus era testemunha que havia muito para ver nesse lugar.

Do outro lado de uma parede pela qual corria uma catarata, a pista de dança do clube se retorcia com a música techno enquanto os humanos remontavam sobre ondas de êxtase e coca e praticavam sujos atos vestidos com roupa de grife. Entretanto, a Irmandade nunca se juntava com o público geral. A pequena porção de sua propriedade estava na seção VIP, uma mesa ao fundo perto da porta de emergência. O clube era um bom lugar para o D&D. As pessoas os deixava em paz, bebidas alcoólicas eram de boa qualidade, e estava situado no centro, a um passo de distância de onde a Irmandade fazia a maior parte das caçadas.

Além disso era propriedade de um familiar, agora que Bela e Z estavam emparelhados. Rehvenge, o macho que o dirigia, era seu irmão.

Casualmente, também era o fornecedor de drogas do Phury.

Tomou um gole longo do bordo de seu agitado-mas-não-volto. Não teria mais remédeio que realizar outra compra essa noite. Seu contrabando estava em baixa outra vez.

Uma mulher loira meneou ao passar perto da mesa, seus seios ricocheteando como maçãs sob lantejoulas chapeadas, a saia do tamanho de um selo de correios relampejando sobre os socos de seu traseiro e o pouco conveniente tanga. O traje a fazia ver como algo mais que simplesmente nua.

Indecente era a palavra que talvez estivesse procurando.

Era algo típico. A maioria das fêmeas humanas na seção VIP estavam a uma polegada de ser presas por atentado ao pudor, mas bom, as damas tendiam a ser ou profissionais ou o equivalente civil a prostitutas. Enquanto a prostituta se sentava na banqueta seguinte, por meio segundo se perguntou como se sentiria comprar um pouco de tempo com alguém como ela.

Tinha sido celibatário portanto tempo, que parecia totalmente desconjurado até pensar dessa maneira, e muito menos levar a cabo a idéia. Mas talvez o ajudasse a tirar Bela da mente.

—Vê algo que você goste? —disse pausadamente Butch.

—Não sei do que está falando.

—OH? Quer dizer que não notou a loira que acaba de passar por aqui? Ou a forma como estava olhando você?

—Não é meu tipo

—Então procura uma castanha de cabelo longo.

—O que seja. —Quando Phury terminou o martini, teve vontade de atirar a taça contra a parede. Merda, não podia acreditar que tivesse pensado em pagar para ter sexo.

Desesperado. Perdedor.

Deus, precisava de um néscio.

—Vamos, Phury, deve saber que todas as garotas daqui lhe jogam o olho quando o vêm. Deveria provar alguma.

Certo, muita gente o estava pressionando esta noite.

—Não, obrigado.

—Só digo que…

—Vai a merda e fecha o bico.

Butch amaldiçoou em voz baixa mas não fez mais comentários. O que fez Phury se sentir como um idiota. Como deveria.

—Sinto muito.

—Nada, está tudo bem.

Phury fez gestos a uma garçonete, que veio em seguida. Enquanto levavam sua taça vazia, murmurou.

—Esta noite tentou me enganchar com alguém.

—Desculpe?

—Bela. —Phury pegou um guardanapo de cocktail e começou a dobrá-lo em quadradinhos— Disse que havia uma assistente social no Lugar Seguro.

—Rhym? OH, é muito simpática…

—Mas eu…

—Não está interessado? —Butch sacudiu a cabeça— Phury, homem, sei que provavelmente me arrancará a cabeça de uma dentada outra vez, mas já é tempo de que comece a se interessar. Essa merda com você e as fêmeas? Deve terminar.

Phury teve que rir.

—Sei direto, por que não o faz?

—Olhe, precisa viver um pouco.

Phury indicou à loira com a cabeça.

—E crie que comprar sexo faz parte de viver um pouco?

—Com a forma com que está olhando você, não teria que pagar. —disse Butch secamente.

Phury forçou seu cérebro para que tratasse de imaginar o cenário.Imaginou a si mesmo levantando-se e caminhando para a mulher. Tomando-a pelo braço e guiando-a por volta de um das cabines privadas. Talvez lhe fizesse uma mamada. Talvez a colocasse sobre o lavabo, separasse-lhe as pernas e bombeasse nela até terminar. Tempo total transcorrido? Quinze minutos, no máximo. Depois de tudo poderia ser virgem, mas a mecânica do sexo era bastante simples. Tudo o que seu corpo precisaria seria um forte apertão, um pouco de fricção e estaria preparado para gozar.

Bom, em teoria. Nesse momento estava frouxo dentro das calças. Assim embora tivesse a intenção de romper com sua virgindade esta noite, não ia acontecer. Ao menos, não com ela.

—Estou bem. —disse quando chegou seu novo martini. Depois de fazer girar a azeitona com o dedo, a meteu na boca—Sério. Estou bem.

Ambos voltaram para a rotina de guardar silêncio, sem nenhum som entre eles à exceção do tênue batimento do coração da música que chegava do outro lado da parede que tinha a catarata. Phury estava a ponto de puxar o assunto dos esportes porque não podia tolerar o silêncio quando Butch ficou rígido.

Uma fêmea que estava do outro lado da área VIP estava olhando em sua direção. Era a chefe de segurança, a que parecia com um macho e tinha o corte de cabelo igual ao de um macho. Falando de tipos duros. Phury a tinha visto bater em homens humanos bêbados como se estivesse açoitando cães com um jornal.

Mas espera, não estava olhando para Phury. Estava absolutamente concentrada em Butch.

—Whoa,fez com ela. —disse Phury—Acertei?

Butch encolheu os ombros e bebeu o Lag que tinha no copo.

—Só uma vez. E foi antes que estivesse com Marissa.

Phury voltou a olhar à fêmea, e teve que perguntar-se como tinha sido esse encontro sexual. Parecia o tipo de mulher que faria ver as estrelas um homem. E não necessariamente de uma forma prazeirosa.

—É bom o sexo anônimo? —perguntou, sentindo como se tivesse doze anos.

O sorriso de Butch foi lento. Secreto.

—Estava acostumado a pensar que era. Mas quando isso é tudo o que se conhece, certo que pensa que pizza fria é fantástica.

Phury tomo um gole do Martini. Pizza fria, huh. Assim isso era o que o esperava lá fora. Que estimulante.

—Merda, não quero ser um desmancha-prazeres. É só que é melhor com a pessoa adequada. —Butch terminou o Lag de um gole. Quando a garçonete se aproximou para levar o copo para voltar a enchê-lo, disse— Não, agora paro com dois. Obrigado.

—Espera! —disse Phury, antes que a mulher se fosse— Tomarei outro. Obrigada.

Vishous soube que estava dormido, porque estava contente. O pesadelo sempre começava com ele em um estado de glória. No princípio, sempre estava inteiramente feliz, absolutamente completo, como um cubo do Rubik resolvido.

Logo a arma disparou. E uma brilhante mancha vermelha brotou de sua camisa. E um grito rasgou o ar que parecia denso como um sólido.

A dor o bateu como se tivesse sido esmigalhado por fragmentos de metais, como se tivesse sido orvalhado com gasolina e aceso, como se lhe tivessem arrancado a pele em tiras.

OH, Deus, estava morrendo. Ninguém sobrevivia este tipo de agonia.

Caiu de joelhos e…

V saltou da cama como se o tivessem dado um tapa na cabeça.

Na jaula do apartamento de cobertura com paredes negras e vidros recobertos de noite, sua respiração soou como uma serra atravessando madeira dura. Merda, seu coração estava pulsando tão rápido que sentia como se devesse pôr as mãos em cima para mantê-lo em seu lugar.

Precisava um gole… agora.

Com pernas trêmulas caminhou para o bar, pegou um copo limpo, e se serviu uns quatro dedos de Grei Goose. Quase tinha o longo copo sobre os lábios quando se deu conta de que não estava sozinho.

Desenbaiou uma adaga negra da cintura e se virou rapidamente.

—Sou eu, guerreiro.

Jesus Bendito. A Virgem Escriba estava de pé ante ele envolta em uma túnica negra da cabeça aos pés, o rosto coberto, sua pequena forma dominando o apartamento de cobertura. Debaixo de sua prega se derramava um resplendor sobre o chão de mármore, brilhante como o sol do meio-dia.

OH, uma audiência, justo o que desejava nesse momento. Yup, yup.

Fez uma reverência e ficou assim. Tratando de imaginar como podia seguir bebendo nessa posição.

—Sinto-me honrado.

—Como me honra. —disse secamente—Se Levante, guerreiro. Verei seu rosto.

V fez o que pôde para afastar um palavrão de sua boca, com a esperança de camuflar o OH-demônios que estava ali. Maldita fosse. Wrath tinha ameaçado entregando-o à Virgem Escriba se não se comportasse. Era de supor que já tinha deixado cair essa moeda.

Enquanto se endireitava, supôs que sorver um pouco do Goose seria percebido como um insulto.

—Sim, seria-o. —disse ela— Mas faz o que tenha que fazer.

Tragou a vodca como se fosse água e deixou o copo no bar. Queria mais, mas tinha esperanças que não ficasse muito tempo.

—O propósito de minha visita não tem nada que ver com seu Rei. —A Virgem Escriba flutuou para diante, detendo-se quando estava a um metro de distância. V lutou contra o impulso de dar um passo para trás, especialmente quando estendeu a brilhante mão e lhe roçou a bochecha. Seu poder era como o de um relâmpago: mortal e preciso. Não queria ser seu alvo.─É a hora.

A hora do que? Mas se conteve. Não se fazia perguntas à Virgem Escriba. Não a menos que desejasse acrescentar ser utilizado para encerar o chão em seu currículo.

—Aproxima-se seu aniversário.

Era certo, logo cumpriria os trezentos e três anos, mas não lhe ocorria porque isso justificaria uma visita particular de sua parte. Se desejava lhe dar felicitações de aniversário, algo rápido no correio eletrônico serviria da mesma maneira.

Merda, podia enviar uma e-card do Hallmark e dar-se por satisfeita.

—E tenho um presente para você.

—Sinto-me honrado. —E confuso.

—Sua fêmea está preparada.

Vishous sentiu tremer todo o corpo, como se alguém tivesse espetado um cravo no traseiro.

—Sinto muito, que…? —sem perguntas, maldito parvo— Ah… com todo o devido respeito, não tenho fêmea.

—Sim tem. —baixou o brilhante braço— A escolhi entre todas as Escolhidas para ser sua primeira companheira. É a de sangue mais puro, a mais bela —quando V abriu a boca, a Virgem Escriba lhe passou por cima como um rolo compressor.— Certamente se emparelhará, e ambos procriaram, e também procriará com as outras. Suas filhas encherão as filas das Escolhidas. Seus filhos se transformarão em membros da Irmandade. Este é seu destino. Se transformar no Primale das Escolhidas.

A palavra Primale caiu como uma bomba atômica.

—Desculpe, Virgem Escriba… ah… —esclareceu a garganta e se lembrou que se irritasse a Sua Santidade, necessitariam-se pinzas de andaime para recolher seus fumegantes pedaços— Não pretendo ofendê-la, mas não tomarei nenhuma mulher como própria…

—Fará-o. E deitará com ela com o ritual apropriado e engendrará a seus filhos. Como o farão as demais.

Visões de ser apanhado do Outro Lado, rodeado de fêmeas, incapaz de lutar, incapaz de ver seus irmãos… ou… Deus, Butch… arrebataram a mordaça de sua boca.

—Meu destino é como guerreiro. Com meus irmãos. Estou onde devo estar.

Além disso, com o que lhe tinham feito, poderia sequer ter filhos?

Esperava que o sacudisse pela insubordinação. Em vez disso disse:

—Que ousadia a sua negar seu lugar. É tão parecido a seu pai.

Engano. Ele e Bloodletter não tinham nada em comum.

—Sua Santidade…

—Deve fazer isto. E deve se submeter por vontade própria.

Sua resposta saiu disparada, dura e fria.

—Necessito um condenado bom motivo.

—É meu filho.

V deixou de respirar, seu peito se tornou de concreto. Seguro que o havia dito no mais amplo sentido da palavra.

—Faz trezentos e três anos nasceu de meu corpo. — O capuz da Virgem Escriba se elevou por própria vontade, revelando uma fantasmal e etérea beleza— Levanta essa maldita palma e conhece nossa verdade.

Com o coração na garganta, V levantou a mão enluvada, logo arrancou o couro com torpes puxões. Com horror olhou fixamente o que havia atrás de sua pele tatuada. O brilho nele era igual ao dela.

Jesus Bendito… por que demônios não tinha visto a semelhança antes?

—Sua cegueira —disse— foi produto de sua negação. Não desejava sabê-lo.

V cambaleou afastando-se dela. Quando bateu no colchão, deixou-se cair sentado e disse a si mesmo que este não era o momento de perder a cabeça…

OH, espera… já a tinha perdido. Bom negócio, do contrário nesse momento estaria absolutamente apavorado.

—Como… isso é possível? —certo que isso era uma pergunta, mas a estas alturas, que merda lhe importava?

—Sim, acredito que por esta vez perdoarei o interrogatório. —A Virgem Escriba flutuou ao redor da quarto, movendo-se sem caminhar, sua roupa não se via afetada pelo movimento, como se estivesse esculpida em pedra. No silêncio pensou nela como em uma peça de xadrez. Rainha, a única entre todas as demais no tabuleiro que podia mover-se em todas direções.

Quando finalmente falou, sua voz era profunda. Autoritária.

—Desejava conhecer a concepção e o nascimento em forma física, assim assumi uma forma adequada para realizar o ato sexual e fui ao Antigo País em minha época fecunda —fez uma pausa ante as portas de vidro que davam a terraço— Escolhi o macho me apoiando no que acreditava eram os atributos masculinos mais desejáveis para a sobrevivência da espécie. Força e engenho, poder, agressividade.

V visualizou a seu pai e tratou de imaginar à Virgem Escriba tendo sexo com o macho. Merda, essa devia ter sido uma experiência brutal.

—Foi —disse— Recebi exatamente o que em grande medida tinha ido procurar. Não havia volta atrás uma vez que começou o zelo, e ele foi fiel a sua natureza. Embora no final, conteve-se. De alguma forma soube que era o que procurava e quem era.

Sim, seu pai tinha se sobressaído em encontrar e explorar as motivações de outros.

—Talvez foi idiotice por minha parte pensar que poderia pretender ser algo que não era ante um macho como ele. Verdadeiramente inteligente —olhou V através do quarto— Me disse que me daria sua semente só se um filho macho lhe fosse entregue. Nunca tinha conseguido ser pai de um filho que sobrevivesse, e sua virilidade de guerreiro queria essa satisfação.

—Eu, entretanto, desejava o meu filho para as Escolhidas. Seu pai podia entender de táticas, mas não era o único. Sabia bem qual era sua debilidade e tinha o poder de garantir o sexo do bebê. Acordamos que teria você três anos depois do nascimento e durante três séculos, e que podia guiá-lo para lutar a seu lado. Desde aí em adiante serviria a meus propósitos.

Seus propósitos? Os propósitos de seu pai? Merda, e acaso ele não tinha voto?

A voz da Virgem Escriba se fez mais baixa.

—Tendo chegado a um acordo, forçou-me debaixo dele durante horas, até que a forma que tinha adquirido quase morre por isso. Estava possuído pela necessidade de conceber, e eu o suportei porque me passava o mesmo.

Suportar era o termo adequado. V, como o resto dos machos do acampamento guerreiro, tinha sido forçado a observar seu pai ter sexo. O Bloodletter não distinguia entre lutar e fornicar e não tinha feito concessões ao tamanho das fêmeas nem a sua debilidade.

A Virgem Escriba começou novamente a mover-se ao redor da quarto.

—Deixei você no acampamento em seu terceiro aniversário.

V foi levemente consciente de um zumbido na cabeça, como um trem que estivesse cobrando velocidade. Graças ao pequeno trato de seus pais, estava vivendo uma ruína de vida, apanhado, lutando com as seqüelas da crueldade de seu pai assim como também com as malignas lições do acampamento.

Sua voz se fez um grunhido.

—Sabe o que me fez? O que me fizeram lá?

—Sim.

Enviando todas as regras de etiqueta ao caralho, disse:

—Então por que merda deixou que ficasse lá.

—Tinha dado minha palavra.

V se levantou estalando, levando a mão a genitália.

—Alegra-me saber que sua honra permaneceu intacta, mesmo se eu não. Sim, é um intercâmbio fodidamente justo.

—Posso entender seu aborrecimento…

—Pode, mãe? Isso me faz sentir muito melhor. Passei vinte anos de minha vida lutando por sobreviver nesse poço negro. O que obtive em troca? Uma mente confusa e um corpo fodido. E agora quer que engendre para você? —sorriu fríamente— O que acontece se não puder as fecundar? Sabendo o que me passou, não te ocorreu pensar nisso?

—É capaz.

—Como sabe?

—Pensa que há alguma parte de meu filho que não possa ver?

—Você… cadela… —sussurrou.

Uma rajada de calor saiu do corpo dela, suficientemente quente para lhe chamuscar as sobrancelhas, e sua voz estalou em todo o apartamento de cobertura.

—Não se esqueça de quem sou, guerreiro. Escolhi a seu pai imprudentemente, e ambos sofremos por meu engano. Pensa que permaneci ilesa enquanto via que curso tinha tomado sua vida? Pensa que observei você de longe sem me ver afetada? Morro cada dia por você.

—Bom, olhe se não é a maldita Mãe Teresa. —gritou, consciente de que seu próprio corpo tinha começado a esquentar— Se supõe que é todo-poderosa. Se tivesse se importado uma merda, poderia ter intervindo…

—Os destinos não são escolhidos, são outorgados…

—Por quem? Por você? Então, é a você a que devo odiar por toda a merda que me têm feito? —agora estava brilhando por todos lados, nem sequer tinha que olhar para baixo a seus antebraços para saber que o que estava em sua mão se estendeu por todo seu corpo. Justo. Como. Ela— Deus… te amaldiçoe.

—Meu filho…

Mostrou as presas.

—Não me chame assim. Nunca. Mãe e filho… não somos. Minha mãe teria feito algo. Quando estava desamparado, minha mãe teria estado ali…

—Queria estar…

—Quando estava sangrando, esmigalhado e aterrorizado, minha mãe teria estado lá. Assim não me venha com essa estupidez de meu filhinho.

Houve um longo silencio. Logo sua voz saiu clara e forte.

—Apresentará-te ante mim depois de meu retiro, que começa esta noite. Apresentará a sua companheira como uma formalidade. Retornará quando estiver adequadamente preparada para que a use, e fará o que esta destinado a fazer desde seu nascimento. E o fará por própria vontade.

—Um inferno que o farei. E foda-se você.

—Vishous filho do Bloodletter, fará-o porque se não o fizer, a raça não sobreviverá. Para poder conservar a esperança de resistir os assaltos da Sociedade Lessening, necessitam-se mais irmãos. Vocês da Irmandade não são mais que um punhado neste momento. Em épocas passadas foram vinte ou trinta. Onde poderíamos conseguir mais sem ser engendrando-os seletivamente?

—Deixou que Butch entrasse na Irmandade, e não era…

—Foi uma dispensa especial ante uma profecia cumprida. Não é o mesmo, e bem sabe. Seu corpo nunca será tão forte como o seu. Se não fosse por seu poder inato, nunca poderia funcionar como um irmão.

V afastou a vista.

A sobrevivência da espécie. A sobrevivência da Irmandade.

Merda.

   Passeou pelo lugar e terminou junto à mesa de tortura e sua parede de brinquedos.

—Sou o cara errado para este tipo de coisas. Não sou do tipo heróico. Não estou interessado em salvar o mundo.

—A lógica está na biologia e não pode ser evitada.

Vishous levantou a brilhante mão, pensando a quantidade de vezes que a tinha usado para incendiar coisas. Casas. Carros.

—Que há a respeito disto? Quer uma geração inteira maldita como eu? O que acontece se transfiro isto a minha descendência?

—É uma arma excelente.

—Também o é uma adaga, mas não incinera a seus amigos.

—Está bendito, não maldito.

—Ah, sim? Trate de viver com esta coisa.

—O poder requer sacrifícios.

Riu com uma dura gargalhada.

—Bom, então, renunciaria a esta porcaria imediatamente para ser normal

—Apesar de tudo, tem uma responsabilidade com a raça.

—Uh-huh, claro. Como você tinha uma com o filho que tinha dado a luz. Melhor rezar para que eu seja mais escrupuloso com minhas responsabilidades.

Olhou fixamente para a cidade, pensando em quantos civis tinha visto cair, golpeados, mortos nas mãos dos lessers do Omega. Tinha sido séculos de inocentes assassinados por esses bastardos, e a vida já era o suficientemente dura sem ser caçado. Ele deveria sabê-lo.

Homem, odiava que tivesse um pouco de razão no que se referia à lógica. Agora só havia cinco membros na Irmandade, ainda com a associação de Butch. Por lei, Wrath não podia lutar pois era Rei. Tohrment tinha desaparecido. Darius tinha morrido no último verão. Assim eram cinco contra um inimigo que continuamente se multiplicava. Para piorar as coisas, os lessers tinham um interminável fornecimento de humanos para arrastar a suas filas, onde os irmãos deviam nascer e criar-se e sobreviver a suas transições. Certo, a classe de alunos que estava sendo treinada no Complexo eventualmente sairiam como soldados. Mas esses meninos nunca possuiriam o tipo de força, resistência ou capacidades curativas que os machos da linha de sangue da Irmandade tinham.

E a respeito de fazer mais irmãos… era um atoleiro pequeno do qual se podia escolher progenitores. Por lei, Wrath como Rei podia deitar com qualquer fêmea da espécie, mas estava plenamente vinculado a Beth. Como o estavam Rhage e Z com suas fêmeas. Tohr, assumindo que ainda estivesse com vida e voltasse em algum momento, não ia ter o estado de ânimo adequado para engravidar a nenhuma das Escolhidas. Phury era a única outra possibilidade, mas era celibatário e tinha o coração malditamente quebrado. Não era material de prostituição masculina.

—Merda. —Enquanto ruminava a situação, a Virgem Escriba permaneceu em silêncio. Como se soubesse que se dizia uma palavra deixaria todo o assunto de lado e que a raça que fosse ao inferno.

Virou-se para enfrentá-la.

—Farei-o com uma condição.

—Qual é.

—Viverei aqui com meus irmãos. Lutarei junto a meus irmãos. Irei ao Outro Lado e… —Santa merda. OH, Deus…— dormirei com quem for. Mas meu lar está aqui.

—Os Primales vivem…

—Este não, assim pegue ou me deixe —a olhou enfurecido— E que fique claro. Sou um bastardo o suficientemente egoísta para seguir meu caminho se não estiver de acordo, e então o que fará? Depois de tudo, não pode me obrigar a foder com mulheres pelo resto de minha vida, não a menos que deseje trabalhar sobre meu pênis você mesma —sorriu fríamente— O que diz a biologia a respeito disso?

Agora era a vez dela de percorrer o quarto. Enquanto a observava e aguardava, odiava o fato de que parecia que se concentravam da mesma maneira… com movimento.

Deteve-se frente à mesa de tortura e estirou a mão brilhante, fazendo-a flutuar sobre a tabela de madeira dura. Os remanescentes do sexo que tinha tido se desvaneceram no ar, a sujeira virou limpeza, como se não tivesse acontecido.

—Pensei que talvez você gostasse de uma vida tranqüila. Uma vida onde fosse protegido e não tivesse que lutar.

—E perder todo esse cuidadoso treinamento que tive com os punhos de meu pai? Não, isso seria uma grande desperdício. Quanto ao amparo pude havê-la necessitado faz uns trezentos anos. Agora não.

—Pensei que talvez… você gostasse de ter uma companheira de sua escolha. A que eu escolhi para você, é a melhor de todas as linhagens de sangue. Um sangue puro elegante e lindo.

—E foi você a que escolheu a meu pai, verdade? Assim desculpe se não me entusiasmar muito.

Seu olhar vagou para seus aparelhos.

—Prefere estes… duros emparelhamentos.

—Sou filho de meu pai. Você mesma o disse.

—Não pode participar destes… jogos sexuais com sua companheira. Seria vergonhoso e aterrador para ela. E não poderá estar com ninguém mais que não seja uma Escolhida. Seria um escândalo.

V tratou de imaginar-se deixando de lado suas afeições.

—Meu monstro precisa sair. Especialmente agora.

—Agora?

—Vamos, mamãe. Sabe tudo a respeito de mim, não é assim? Assim sabe que minhas visões se esgotaram e que estou quase psicótico por falta de sonho. Demônios, deve saber que saltei desde este edifício a semana passada. Quanto mais se alargue isto, pior vou estar, especialmente se não puder ter …um pouco de exercício.

Ondeou a mão, desprezando-o.

—Não vê nada porque está ante uma encruzilhada em seu próprio caminho. O livre-arbítrio não pode ser exercitado se está informado do resultado final, portanto sua parte precognitiva se reprime naturalmente. Retornará.

Por alguma louca razão isso o tranqüilizou, embora tinha lutado contra a intromissão dos destinos de outras pessoas desde que tinham começado a aparecer séculos antes.

Logo se deu conta de algo.

—Você não sabe o que vai me acontecer, não é assim? Não sabe o que vou fazer.

—Dará-me sua palavra de que cumprirá com seus deveres no Outro Lado. Que fará cargo do que se deve fazer. E me dará isso agora.

—Diga-o. Certo que não sabe o que vê. Se quiser minha promessa, me diga isto.

—Por que?

—Quero saber que está impotente ante algo —cuspiu— Para que saiba como me sinto .

O calor nela se elevou até que o apartamento de cobertura esteve como uma sauna. Mas então disse:

—Seu destino é o meu. Não conheço seu caminho.

V cruzou os braços sobre o peito, sentindo-se como se tivesse um nó corrediço ao redor da garganta e estivesse parado sobre uma desvencilhada cadeira. Foda-se.

—Tem minha palavra o vinculem.

—Toma isto e aceita sua designação como Primale. —lhe estendeu um pesado medalhão de ouro com um cordão de seda negro. Quando tomo o objeto, ela assentiu uma vez, como selando o pacto— Me adiantarei e informarei às Escolhidas. Meu retiro termina dentro de vários dias. Virá para mim nesse momento e será instaurado como Primale.

Seu capuz negro se elevou, sem que utilizasse as mãos. Antes de que esta baixasse sobre o brilhante rosto disse:

—Até que nos voltemos a ver. Que esteja bem.

Desapareceu sem um som de movimento, como uma luz extinguindo-se.

V foi para a cama antes que lhe cedessem os joelhos. Quando o traseiro bateu contra o colchão, olhou fixamente o longo e magro pendente. O ouro era antigo e estava marcado com caracteres na Antiga Língua.

Não desejava filhos. Nunca o tinha feito. Embora supunha que neste cenário, não era mais que um doador de esperma. Não teria que ser um pai para nenhum deles, o que era um alívio. Não seria bom com essa merda.

Metendo o medalhão no bolso traseiro das calças de couro, pôs a cabeça entre as mãos. Chegaram-lhe imagens do que tinha sido crescer no acampamento guerreiro, as lembranças eram claras como a água e afiadas como o cristal. Com uma grosseira maldição na Antiga Língua, estendeu a mão para a jaqueta, tirou o telefone, e apertou a tecla de discagem rápida. Quando na linha apareceu a voz de Wrath, ouvia-se um vibrante som ao fundo.

—Tem um minuto? —disse V.

—Sim, o que acontece? —quando V não contínuo falando, a voz do Wrath se fez mais forte— Vishous? Está tudo bem?

—Não.

Houve um rangido logo se ouviu a voz de Wrath ao longe.

—Fritz, pode vir mais tarde aspirar? Obrigado, homem. —O som vibrante parou e uma porta se fechou—Me Diga.

—Lembra… ah, lembra a última vez que se embebedou? Mas realmente bêbado?

—Merda… ah… —durante a pausa, V se imaginou as negras sobrancelhas do Rei franzindo-se até afundar-se atrás de seus óculos envolventes— Deus, acredito que foi com você. Lá, no início do ano 1900, verdade? Sete garrafas de uísque entre os dois.

—Na realidade, foram nove.

Wrath se pôs a rir.

—Começamos às quatro da tarde e bebeu, o que, umas quatorze horas? Estive vomitando todo um dia depois disso. Passaram cem anos e acredito que ainda tenho ressaca.

V fechou os olhos.

—Lembra, quando estava chegando o amanhecer, que eu, ah… disse que nunca tinha conhecido a minha mãe? Que não tinha idéia de quem era ou que tinha acontecido com ela?

—A maior parte está confusa, mas sim, isso eu lembro.

Deus, ambos tinham estado tão poluídos essa noite. Bêbados até o traseiro. E essa tinha sido a única razão pela qual V tinha tagarelado um pouco a respeito do que lhe corroía a mente as vinte e quatro horas dos sete dias da semana.

—V? O que aconteceu? Isto tem algo que ver com sua mahmen?

V se deixou cair para trás sobre a cama. Enquanto aterrissava, o pendente que tinha no bolso lhe beliscou o traseiro.

—Sim… acabo de conhecê-la.

No Outro Lado, no santuário das Escolhidas, Cormia estava sentada sobre a cama em seu branca quarto com uma pequena vela branca brilhando junto a ela. Estava vestida com o tradicional vestido branco das Escolhidas, os pés nus sobre o branco mármore, as mãos dobradas sobre a saia.

Esperando.

Estava acostumada a esperar. Era a natureza da vida como Escolhida. Esperava o calendário para que se oferecesse alguma atividade. Esperava que a Virgem Escriba fizesse uma aparição. Esperava uma ordem que desse tarefas para realizar. E esperava com graça, paciência e compreensão, ou envergonhava a integridade da tradição a que servia. Neste lugar nenhuma irmã era mais importante que outra. Como Escolhida, foi parte de um todo, uma simples molécula entre muitas que formava um corpo espiritual funcional… pelo que foi de uma vez indispensável e absolutamente insignificante.

Assim desafortunada era a fêmea que faltasse a seus deveres não iria poluir o resto.

Mas nesse dia, a espera continha uma carga indelével. Cormia tinha pecado, e estava esperando seu castigo.

Por um longo tempo tinha desejado que chegasse a transição, tinha estado secretamente impaciente, embora não para o benefício das Escolhidas. queria se sentir plenamente realizada como ela mesma. Queria sentir que sua respiração e os batimentos de seu coração tinham um significado que pertencia a ela como indivíduo dentro do universo, não como o raio de parte de uma roda. A mudança a tinha sacudido como uma chave para essa liberdade privada.

A mudança lhe tinha sido outorgado recentemente, quando tinha sido convidada a beber da taça do Templo. No princípio havia se sentido triunfante, assumindo que seu desejo clandestino tinha passado desapercebido e que ainda assim, tinha sido realizado. Mas logo tinha chegado o castigo.

Olhando seu corpo, culpava a seus peitos e seus quadris pelo que estava a ponto de passar. Culpava-se a si mesma por desejar ser alguém específico. Devia haver ficado como estava…

A magra cortina de seda que havia na porta deslizou para um lado, para dar passo à Escolhida Amalya, uma das atendentes pessoais da Virgem Escriba.

—Assim parece. —disse Cormia, apertando os dedos até que lhe doeram os nódulos.

Amalya sorriu bondosamente.

—Está-o.

—Quanto falta?

—Virá quando concluir o retiro de Sua Santidade.

O desespero fez que Cormia perguntasse o inconcebível.

—Não pode ser outra das nossas a que seja convocada? Há outras que o desejam.

—Você foi a escolhida. —Enquanto as lágrimas alagavam os olhos de Cormia, Amalya se adiantou, seus pés descalços não faziam nenhum ruído— Será gentil com seu corpo. Ele…

—Não fará tal coisa. É o filho do guerreiro Bloodletter.

Amalya estremeceu.

—O que?

—Acaso a Virgem Escriba não lhe disse isso?

—Sua Santidade só disse que estava tudo arrumado com um integrante da Irmandade, um guerreiro de valor.

Cormia sacudiu a cabeça.

—A mim me disse isso antes, a primeira vez que veio a mim. Pensei que todas sabiam.

A preocupação da Amalya fez que franzisse o cenho. Sem dizer uma palavra, sentou-se sobre a cama e atraiu a Cormia para si

—Não desejo isto. —sussurrou Cormia—Me perdoe, irmã. Mas não o desejo.

A voz da Amalya carecia de convicção quando disse.

—Tudo vai estar bem… de verdade.

—O que está acontecendo aqui? —a afiada voz fez que se separassem de um salto tão efetivamente como um par de mãos.

A Directrix estava parada no vão da porta, com um olhar de suspeita no rosto. Usava um livro de algum tipo em uma mão e um fio de veneradas pérolas negras na outra, era a perfeita representação do apropriado propósito e vocação das Escolhidas.

Amalya se levantou rapidamente, mas não havia forma de negar o momento. Como Escolhida, devia te regozijar por sua condição em todo momento; qualquer outro estado de ânimo era considerado uma falta de hipocrisia pela qual tinha que cumprir uma penitência. E elas tinham sido descobertas.

—Agora devo falar com a Escolhida Cormia —anunciou a Directrix—. A sós.

—Sim, claro. —Amalya foi para a porta com a cabeça baixa—. Se me desculparem, irmãs.

—Vai para o Templo de Expiação, não é assim?

—Sim, Directrix.

—Fique ali pelo resto do ciclo. Se te vir nos terrenos, estarei de mais desgostada.

—Sim, Directrix.

Cormia fechou os olhos apertando-os e rezou por seu amiga enquanto esta partia. Um ciclo inteiro no Templo? Podia voltá-la louca pela privação dos sentidos.

As palavras da Directrix foram cortantes.

—Enviaria você para lá também, se não houvesse outras coisas que necessitam sua atenção.

Cormia enxugou as lágrimas.

—Sim, Directrix.

—Agora deve começar os preparativos lendo isto. —O livro forrado em couro aterrissou na cama— Detalha os direitos do Primale e suas obrigações. Quando terminar, começará seu treinamento sexual.

OH, querida Virgem, por favor, com a Directrix não… por favor, com a Directrix não…

—Layla te instruirá. —Quando os ombros da Cormia se afrouxaram, a Directrix disse bruscamente— Devo me ofender ante seu alívio ao ver que não sou eu a que vai instruir você?

—Em absoluto, irmã.

—Agora me ofende sendo hipócrita. Me olhe. Me olhe.

   Cormia levantou os olhos e não pôde evitar encolher-se de medo quando a Directrix a fulminou com um duro olhar.

—Cumprirá com seu dever e o fará bem ou a jogarei daqui. Entende? Será expulsa.

Cormia estava tão aturdida que não pôde responder. Jogariam-na? Mandariam-na… ao Outro Lado?

—Me responda. Fica entendido?

—S-sim, Directrix.

—Não se equivoque. A sobrevivência das Escolhidas e a ordem que estabeleci aqui dentro são a única coisa que importa. Qualquer indivíduo que seja um obstáculo será eliminado. Lembra-o quando sentir o impulso de sentir lástima por você mesma. Esta é uma honra e pode ser revogado com as resultantes conseqüências que serão efetuadas por minha mão. Estamos entendidas? Entamos?

Cormia não pôde encontrar a voz, por isso assentiu com a cabeça.

A Directrix sacudiu a cabeça, tinha uma estranha luz emanando de seus olhos.

—Salvo por sua linha sangüínea é totalmente inaceitável. E já que estamos nisso, todo o assunto é absolutamente inaceitável.

A Directrix se foi com um sussurro de roupa, sua túnica branca de seda flutuando ao redor do marco da porta atrás de sua esteira.

Cormia pôs a cabeça entre as mãos e mordeu o lábio inferior enquanto contemplava sua situação. Seu corpo tinha sido prometido a um guerreiro que nunca tinha visto em sua vida… que era filho de um brutal e cruel progenitor… e sobre seus ombros descansava a nobre tradição das Escolhidas.

Honra? Não, isto era um castigo… pela audácia de querer ter algo para si mesma.

Quando chegou outro martini, Phury tratou de lembrar se era o quinto, ou o sexto? Não estava certo.

—Homem, que bom que não tenhamos que lutar esta noite —disse Butch— Está bebendo essa merda como se fosse água.

—Estou sedento.

—Imaginei. —O poli se estirou sobre o banco fixo— Por quanto tempo mais planeja se reidratar, Lawrence da Arábia?

—Não tem porque ficar …

—Se mova, poli.

Ambos, Phury e Butch levantaram o olhar. V tinha aparecido frente à mesa saído de nenhuma parte, e algo estava errado. Com os olhos dilatados e o rosto pálido, parecia como se tivesse sofrido um acidente, embora não estivesse sangrando.

—Hey, colega. —Butch deslizou para a direita para deixar espaço— Pensei que não o veríamos esta noite.

V se sentou, a jaqueta de couro se inflou para cima fazendo que seus grandes ombros parecessem realmente imensos. Com um movimento pouco habitual nele, começou a tamborilar os dedos sobre a mesa.

Butch franziu o cenho em direção a seu companheiro de quarto.

—Parece como se o tivessem atropelado. O que aconteceu?

Vishous cruzou as mãos.

—Este não é o lugar.

—Então vamos para casa.

—De maneira nenhuma. Vou estar preso lá todo o dia. —V levantou a mão. Quando a garçonete se aproximou, pôs uma nota de cem na bandeja— Faz que flua Goose, tudo bem? E isto é só a gorjeta.

Ela sorriu.

—Será um prazer.

Quando foi para o bar como se estivesse usando patins, os olhos de V percorreram a área VIP, com o cenho franzido. Merda, não estava comprovando a multidão. Estava procurando briga. E era possível que o irmão estivesse… brilhando um poquinho?

Phury olhou para a esquerda e se deu um toque na orelha duas vezes, enviando assim uma solicitude a um dos gorilas que vigiavam a porta privada. O guarda de segurança assentiu e falou contra o relógio bracelete.

Momentos depois saiu um enorme macho com um corte de cabelo uso mohawk. Rehvenge estava vestido com um perfeito traje negro e tinha um bastão negro na mão direita. Enquanto se aproximava lentamente para a mesa da Irmandade, seu guarda-costas se afastaram frente a ele, em parte por respeito a seu tamanho, em parte pelo medo a sua reputação. Todo mundo sabia quem era e do que era capaz. Rehv era o tipo de senhor das drogas que tomava interesse pessoal em seu negócio. Se cruzava com ele terminava talhado em cubos, como algo que se via no canal gastronômico.

O cunhado mestiço de Zsadist estava provando ser um surpreendente aliado para a Irmandade, embora a verdadeira natureza do Rehv complicava tudo. Não era inteligente se colocar na cama de um symphath. Literal ou figuradamente. Por isso era um duvidoso amigo e parente.

Seu tenso sorriso mostrava as presas.

—Boa noite, cavalheiros.

—Incomodaria-se que usássemos seu escritório para um pequeno assunto particular? —perguntou Phury.

—Não vou falar. —disse V chiando os dentes no momento em que chegava sua bebida. Com um giro de pulso a derrubou em sua garganta como se o estivessem incendiando as vísceras e a merda fosse água— Não vou falar.

Phury e Butch trocaram um olhar, e chegaram a um consenso. Ah se, Vishous ia ser inexoravelmente miserável.

—Seu escritório? —disse Phury ao Rehvenge.

Rehv arqueou uma elegante sombrancelha, sobre os ardilosos olhos cor ametista.

—Não estou certo de que queiram usá-la. O lugar está conectado a um sistema de som, e cada sílaba fica gravada. A não ser… é obvio… que eu esteja ali dentro.

Não era o ideal, mas algo que prejudicasse à Irmandade prejudicava à irmã de Rehv, sendo esta a companheira de Z. Assim embora o homem fosse em parte symphath, tinha motivos para ficar calado sobre o que fosse que estivesse ocorrendo.

Phury deslizou da banqueta e olhou fixamente a V.

—Traz sua bebida.

—Não.

Butch ficou de pé.

—Então fica sem ela. Porque se não quiser ir para casa, falaremos aqui.

Os olhos de V brilharam. E não foi o único.

—Merda…

Butch se inclinou sobre a mesa.

—Neste preciso momento está desprendendo um aura como se tivesse o traseiro ligado à parede. Assim que recomendo a você seriamente que deixe de lado essa merda de sou-uma-ilha e leve sua lamentável desculpa de pessoa para o escritório do Rehv antes que demos um espetáculo. Compreendido?

Seguiu um longo espaço de tempo sem que nada ocorresse salvo o troca de olhares entre V e Butch. Logo V ficou de pé e se encaminhou ao escritório de Rehv. No caminho, sua fúria propagava um aroma de químico tóxico, do tipo que faz que pique o nariz.

Homem, o poli era o único que tinha uma oportunidade com V quando o macho estava assim.

Assim demos graças a Deus pelo irlandês.

O grupo passou pela porta vigiada por um par de gorilas e tomaram posse da cova que Rehvenge tinha por escritório. Quando a porta se fechou, Rehv foi para a mesa, moveu algo debaixo dela e um som de assobio deixou de soar.

—Estamos preparados. —disse, sentando-se sobre uma cadeira de couro negro.

Todos olharam fixamente a V… que instantaneamente se converteu em um animal de zoológico, passeando de um lado a outro e parecendo que queria comer a alguém. Finalmente o irmão se deteve do outro lado do aposento em respeito ao Butch. A tênue luz sobre eles não era tão brilhante como a que brilhava debaixo de sua pele.

—Me conte —murmurou Butch.

Sem dizer uma palavra, V tirou algo do bolso traseiro da calça. Quando estendeu o braço, um pesado medalhão de ouro oscilou no extremo de um cordão de seda.

—Parece que tenho um novo trabalho.

—OH… merda —sussurrou Phury.

A organização do dormitório do Blay cumpria os SOP, procedimentos operativos padronizados, para o John e seus amigos. John estava aos pés da cama. Blay estava sentado no chão com as pernas cruzadas. Qhuinn estava estendido em toda sua extensão, com seu novo corpo pendurando metade dentro, metade fora de um puf. Havia garrafas de cerveja abertas, e estavam comendo sacos de Doritos e Ruffles.

—OK, cospe —disse Blay—Como foi sua transição?

—Quem se importa com a mudança. Tive relações. —Enquanto os olhos do Blay e John aumentavam, Qhuinn pôs-se a rir— Sim. Fiz. Para dizer de outra forma no fim me deram a cereja.

—Deixa de brincar. —disse Blay com um suspiro.

—Sério —Qhuinn inclinou a cabeça para trás e se bebeu meia cerveja— Embora deva dizer que a transição… cara… —olhou para John, entrecerrando os olhos—Se Prepare, J-man. É muito duro. Deseja morrer. Reza por isso. E logo a merda fica realmente crítica.

Blay assentiu.

—É espantoso.

Qhuinn terminou a cerveja e atirou a garrafa vazia no cesto de papéis.

—A minha foi presenciada. A sua também, não é? —quando Blay assentiu, Qhuinn abriu o mini refrigerador e tirou outra cerveja— . Sim, quero dizer… foi estranho. Meu pai no quarto. O pai dela, também. Todo o tempo meu corpo estaba se sacudindo. Teria me sentido envergonhado, mas estava muito ocupado me sentindo como um idiota.

—A quem utilizou? —perguntou Blay.

—A Marna.

—Liiiinda.

As pálpebras de Qhuinn se tornaram pesadas.

—Sim, é muito bonita.

Blay ficou boquiaberto.

—Ela? Foi a que…

—Sim. —Qhuinn se pôs a rir quando Blay caiu para trás sobre o chão como se tivessem atirado no peito— Marna. Sei. Logo que posso acreditá-lo eu mesmo.

Blay levantou a cabeça.

—Como ocorreu? E que Deus me ajude, chutarei-te o traseiro se omitir algo.

—Certo! Como se você tivesse sido tão eloqüente com sua merda.

—Não se esquive da pergunta. Começa a ladrar como o cão que é, amigo.

Qhuinn se sentou, e John entendeu o sinal, movendo-se para o mesmo bordo da cama.

—Bom, então tudo tinha terminado, sabem? Quero dizer… tinha terminado de beber, o mudança tinha terminado, estava estendido na cama como… Sim, como se tivesse sido atropelado por um trem. Ela estava ali no caso de que eu precisasse beber mais de sua veia, em uma cadeira em uma canto do quarto ou algo assim. Enfim, seu pai e o meu estavam falando e eu como que desmaiei. Depois soube que estava sozinho no quarto. A porta se abriu e Marna entrou. Disse que esqueceu o casaco ou algo assim. Dei-lhe uma olhada e… bem, Blay, sabe que aspecto tem, não é? Me endureceu imediatamente. Pode me culpar?

—Sem chance.

John piscou e se inclinou ainda mais perto.

—De toda forma, estava coberto por um lençol, mas de alguma forma soube. Homem, estava-me olhando e sorrindo, e eu estava como, “OH, Meu deus…” Mas logo seu pai gritou seu nome do vestíbulo. Ambos tinham que ficar em casa porque já era de dia quando terminei, mas claramente não queria que se deitasse comigo. Então quando saia, disse-me que logo escapuliria para o meu quarto. Na realidade não acreditei, mas tinha esperanças. Passou uma hora e eu esperando… desejando. Outra hora. Logo pensei bem, não virá. Chamei meu pai pelo telefone interno e lhe disse que tinha que sair. Logo me levantei, fui para o chuveiro, saí… e estava na quarto. Nua. Na cama. Cristo. Tudo o que pude fazer foi olhá-la fixamente. Mas me recuperei rapidamente —os olhos do Qhuinn estavam fixos no chão e sacudiu a cabeça para trás e para frente— Tomei-a três vezes. Uma atrás da outra.

—OH… merda —sussurrou Blay— Você gostou?

—O que você acha? Claro. —Enquanto Blay assentia e levantava a cerveja para os lábios, Qhuinn disse— Quando terminei, coloquei-a no chuveiro, limpei-a, e fiqueideabaixo dela durante meia hora.

Blay se engasgou com a cerveja, derramando-a sobre si mesmo.

—OH, Deus…

—Estava como uma ameixa amadurecida. Doce e melosa. —Quando os globos dos olhos do John lhe saíram fora das órbitas, Qhuinn sorriu— A tinha toda sobre meu rosto. Foi fantástico.

O cara tomou um longo gole, como se fosse muito homem, e não tivesse que fazer nenhum esforço por ocultar a reação de seu corpo ao que indubitavelmente estava revivendo em sua mente. Quando seu jeans se esticaram na zona da cremalheira, Blay cobriu os quadris com um sueter.

Não tendo nada que ocultar, John olhou sua garrafa.

—Vai se emparelhar com ela? —perguntou Blay.

—Não, pelo amor de Deus! —Qhuinn levantou a mão e brandamente tocou o olho arroxeado— Só foi… algo que aconteceu. Quero dizer, não. Ela e eu? Nunca.

—Mas não era…

—Não, não era virgem. É obvio que não o era. Assim nada de emparelhamento. De todo o modo nunca me aceitaria dessa maneira.

Blay olhou para John.

—Supõe-se que as fêmeas da aristocracia devem ser vírgens antes de emparelhar-se.

—Embora os tempos mudaram —Qhuinn franziu o cenho— Ainda assim, não o digam nada a ninguém, certo? Passamos um bom momento, e não foi nada do outro mundo. É uma boa pessoa.

—Meus lábios estão selados —Blay fez uma profunda inspiração, logo esclareceu garganta— Ah… é melhor fazê-lo com alguém, verdade?

—O sexo? muito melhor, companheiro. Fazê-lo por você mesmo te alivia, mas não há nada como o real. Deus, era tão suave… especialmente entre as pernas, eu adorei estar em cima dela, lhe colocando minha merda profundamente, ouvindo-a gemer. Teria gostado que pudessem ter estado lá. Realmente teriam desfrutado.

Blay fez girar os olhos.

—Olhar enquanto você faz sexo. Sim, certo, isso é algo que realmente eu quereria ver.

O sorriso do Qhuinn foi lento e um pouco malicioso.

—Você gosta de me ver lutar, não é?

—Bom, certo, é bom.

—Por que teria que ser diferente com o sexo? Só é algo que faz com seu corpo.

Blay pareceu perplexo.

—Mas… o que há a respeito da privacidade?

—A privacidade é um assunto de contexto —Qhuinn tirou uma terceira cerveja— E, Blay?

—O que?

—Além disso, sou muito bom com o sexo —abriu a tampa e tomou um gole— Assim isto é o que temos que fazer. Vou tomar alguns dias para me fortalecer, e logo vamos a um desses clubes do centro. Quero fazê-lo de novo, mas não pode ser com ela. —Qhuinn olhou ao John— J-man, você também vem conosco ao ZeroSum. Não me importa se for um pretrans. Iremos juntos.

Blay assentiu.

—Os três juntos temos boa onda. Além disso, John, logo será como nós.

Enquanto os dois começavam a fazer planos, John ficou em silêncio. Todo o assunto de transar com garotas era impensável e não só porque a transição ainda não o tinha alcançado. Sentiu a arma na têmpora. Sentiu como o tiravam os jeans baixando-lhe, sentiu o inconcebível enquanto o estavam fazendo. Lembrou o fôlego arranhando sua garganta ao entrar e sair e os olhos enchendo-se de lágrimas e como mijou em cima, sobre a ponta dos sapatos baratos do homem.

—Este fim de semana —anunciou Qhuinn— Faremos que se encarreguem de você, Blay.

John deixou a cerveja e esfregou as bochechas enquanto as de Blay ficavam vermelhas.

—Sim, Qhuinn… não sei…

—Confia em mim. Farei que ocorra. Então, John? É o próximo.

A primeira resposta de John foi sacudir a cabeça, negando, mas logo se deteve para não parecer um idiota. Já se sentia deixado para trás como a bola oito, todo pequeno e pouco viril. Desprezar uma oferta para ter sexo o colocaria decididamente na terra dos perdedores.

—Então temos um plano? —demandou Qhuinn.

Quando Blay ficou a jogar com a ponta da jaqueta, John teve a clara impressão de que ele ia dizer não. O que fazia que John se sentisse muito melhor…

—Sim. —Blay esclareceu a garganta— Eu… ah, Sim. Estou, assim, interessado como a merda. É quase na única coisa em que posso pensar, sabem? E é algo doloroso, sério.

—Sei exatamente o que quer dizer —os olhos do Qhuinn brilharam— E vamos passar um bom momento. Merda John… Poderia lhe dizer a seu corpo que se apresse?

John somente encolheu de ombros, desejando poder ir-se.

—Assim, chegou a hora de jogar uns Killerz? —perguntou Blay, assinalando a Xbox que estava no chão— John vai ganhar outra vez, mas ainda podemos brigar pelo segundo lugar.

Foi um tremendo alívio mudar de assunto, e os três se deixaram envolver pelo jogo, gritando à TV, atirando pacotes de caramelos e tampas de cerveja um ao outro. Deus, John adorava isto. Na tela competiam como iguais. Ali não era o menor e tampouco ficava para trás. Era melhor que eles. No Killerz, podia ser o guerreiro que desejava ser.

Enquanto os fazia morder o pó, olhou a Blay e soube que ele tinha escolhido esse jogo especificamente para fazer John se sentir melhor. Mas bem, Blay entendia como se sentiam as pessoas e como ser amável sem envergonhar a ninguém. Era um amigo excelente.

Quatro pacotes de seis cervejas, três viagens à cozinha, duas partidas completas de Killerz e um filme de Godzilla depois, John olhou o relógio e desceu da cama. Fritz logo viria buscá-lo, porque cada noite às 4 a.m. tinha uma entrevista a que devia assistir a não ser que quisesse que o tirassem do programa de treinamento.

Vejo-lhes amanhã na classe? disse por gestos.

—Com certeza. —disse Blay.

Qhuinn sorriu.

—No messenger mais tarde, OK?

Veremos. Fez uma pausa na porta. OH, hey, queria perguntar, tocou seu olho e indicou o de Qhuinn. Como ganhou o olho arroxeado?

O olhar do Qhuinn ficou absolutamente sem espressão, seu sorriso tão brilhante como sempre.

—OH, não é nada. Somente escorreguei e caí na ducha. Realmente estúpido, huh.

John franziu o cenho e olhou a Blay, cujos olhos se pegaram ao chão e permaneceram ali. OK, algo estava…

—John… —disse Qhuinn firmemente— Os acidentes acontecem.

John não acreditou, especialmente dado que os olhos de Blay continuavam baixos, mas como ele mesmo tinha seus próprios segredos não ia intrometer-se.

Sim, certo, disse por gestos. Logo assobiou uma rápida despedida e se foi.

Quando fechou a porta, escutou as vozes graves e pôs uma mão sobre a madeira. Desejava tanto ser como eles, mas a parte do sexo… Não, sua transição era sobre transformar-se em um macho para poder vingar sua própria morte. Não se tratava de atirar-se sobre as garotas. De fato, talvez devesse tomar uma folha do livro de Phury.

O celibato tinha muitas coisas recomendáveis. Phury tinha estado abstendo-se… por toda a vida, e olha-o. Era absolutamente correto, um cara dos mais centrados.

Não era um mau exemplo a seguir.

—O que vai ser o que? —balbuciou Butch.

Ao olhar seu companheiro de quarto, Vishous tentou pronunciar a puta palavra sem engasgar-se.

—O Primale. Das Escolhidas.

—E que demônios é isso?

—Basicamente, um doador de esperma.

—Espera, espera… então fará algo assim como fecundação in vitro?

V passou a mão pelo cabelo e pensou no quão bem se sentiria ao atravessar a parede com o punho.

   —Tem que se envolver um pouco mais que isso.

Falando de envolver-se mais, tinha passado muito tempo desde que tinha tido sexo direito com uma fêmea. Poderia gozar durante o sexo formal e ritual que praticavam as Escolhidas?

—Por que você?

—Tem que ser um membro da Irmandade. —V passeou ao redor do escuro escritório, pensando em que por agora manteria oculta a identidade de sua mãe— É um atoleiro limitado onde escolher. Um que se está fazendo cada vez menor.

—Viverá lá? —perguntou Phury.

—Viver lá? —interrompeu Butch— Quer dizer que já não poderá lutar junto a nós? Ou… passar o tempo conosco?

—Não, pus essa condição no acordo.

Quando Butch suspirou com alívio, V tratou de não sonhar a respeito de que a seu companheiro de quarto se preocupasse em vê-lo tanto como ele se importava em ser visto.

—Quando aconteceu?

—Faz uns dias.

Phury elevou a voz.

—Foi informado o Wrath?

—Sim.

Enquanto V pensava no que se colocou, seu coração começou a lhe pulsar no peito como um pássaro batendo as asas tratando de escapar da jaula que formavam as costelas. O fato de ter a dois de seus irmãos e ao Rehvenge lhe dando esses horripilantes olhares intensificou o pânico.

   —Escutem, importariam-se de me desculpar um momento? Preciso… merda, preciso sair daqui.

—Vou com você. —disse Butch.

—Não. —O estado de ânimo de V era desesperador. Se alguma vez tinha havido uma noite em que poderia ter se sentido tentado a fazer algo estupidamente inapropriado, era essa. Já era o suficientemente ruim que o que sentia por seu companheiro de quarto fosse um segredo subentendido. Fazê-lo realidade atuando sem medir as conseqüências, seria uma catástrofe que nem ele, nem Butch, nem Marissa poderiam confrontar.

—Preciso estar sozinho.

V empurrou o medalhão no bolso traseiro e deixou um esmagador silencio no escritório. Enquanto saía apressadamente pela porta lateral para o beco, desejava encontrar um lesser. Precisava encontrar um. Rezava à Virgem Escri…

V se deteve em seco. Bom, merda. Estava seguro como o inferno de que não ia lhe rezar mais a essa mãe. Nem a usar essa frase.

Maldita… fosse.

V se reclinou para trás contra o frio tijolo do edifício do ZeroSum, e, por mais que lhe doesse, não pôde evitar pensar em sua vida no acampamento guerreiro.

O acampamento tinha estado situado na Europa central, nas profundidades de uma cova. Uns trinta soldados o tinham usado como base central, mas tinha havido outros ocupantes. Uma dúzia de pretrans tinham sido enviados lá para serem treinados, e outra dúzia mais ou menos de prostitutas que alimentavam e atendiam aos machos.

O Bloodletter o tinha dirigido durante anos e tinha formado a alguns dos melhores guerreiros da espécie. Quatro membros da Irmandade se iniciaram sob o mando do pai de V. Não obstante, muitos outros, de todos os níveis, não tinham conseguido sobreviver.

As primeiras lembranças de V eram de sentir-se faminto e gelado, de observar a outros comer enquanto seu estômago rugia. Ao longo de seus primeiros anos, a fome o tinha impulsionado, e como outros pretrans, sua única motivação tinha sido alimentar-se, sem importar o que tivesse que fazer para consegui-lo.

Vishous esperava oculto nas sombras da cova, permanecendo longe da piscante luz jogada pela fogueira do fosso do acampamento. Sete veados frescos estavam sendo devorados com obsceno frenesi, os soldados cortavam a carne dos ossos e a mastigavam como animais, o sangue lhes sujava os rostos e as mãos. À margem da comida, todos os pretrans tremiam de cobiça.

Como outros, V estava ao fio da inanição. Mas não estava junto a seus jovens companheiros. Esperava na longínqua escuridão, com os olhos fixos em sua presa.

O soldado que estava vigiando era gordo como um porco, com dobras de carne caindo sobre suas calças de couro e as feições imprecisas pelo grande volumoso, a maior parte do tempo, o glutão andava sem túnica, com o bulboso peito e o distendido estômago dançando enquanto desfilava pelos arredores distribuindo patadas aos cães vagabundos que viviam no acampamento ou indo atrás das prostitutas. Apesar de toda sua preguiça, era um malvado assassino, o que lhe faltava de velocidade o compensava com força bruta. Com mãos grandes como a cabeça de um macho adulto, se comentava que arrancava as extremidades dos lessers para comer depois.

Em cada refeição era dos primeiros a chegar à carne, e comia rapidamente, embora o danificava com sua falta de cuidado. Não prestava muita atenção ao que conseguia meter na boca. Partes de carne de veado, jorros de sangue e fragmentos de osso cobriam seu estômago e peito, formando uma sangrenta túnica tecida por sua descuidada tarefa.

Essa noite o macho terminou cedo e se reclinou para trás sobre os quadris, com uma perna de veado no punho. Embora tinha terminado, atrasava-se perto da peça morta da que tinha estado alimentando-se, empurrando a outros soldados para entreter-se.

Quando chegou o momento de que se repartissem os castigos dos treinamentos, os soldados se transladaram da fogueira para a plataforma de Bloodletter. À luz das tochas, os soldados que tinham sido derrotados nas práticas eram obrigados a inclinar-se aos pés do Bloodletter e eram violentados por aqueles que os tinham derrotado, ante as brincadeiras e desprezo de outros. Enquanto isso, os pretrans caíam sobre as sobras do veado enquanto as fêmeas do acampamento observavam tudo com duros olhos, esperando sua vez.

A presa de V não estava muito interessada nas humilhações. O gordo soldado olhou durante um momento, logo se foi com a perna de carne pendurando em uma de suas mãos. Seu sujo jergón estava em um dos extremos mais afastados de onde dormiam os soldados, porque até seus narizes se viam ofendidos pelo fedor que desprendia.

Estirado, via-se como um campo ondeante, seu corpo era uma série de colinas e vales. A perna de veado que repousava sobre seu estômago era o prêmio no topo da montanha.

V se manteve afastado até que os olhos do soldado estivessem cobertos por suas carnudas pálpebras e seu pesado peito subiu e baixo com um ritmo que cada vez se ia fazendo mais lento. Logo a boca de peixe se abriu, e saiu um ronco, seguido de outro. Foi nesse momento quando V se aproximou com os pés descalços, sem fazer nenhum som sobre o chão de terra.

O repugnante aroma do macho não deteve v, e não se importava com a imundície que havia sobre a fresca coxa do veado, moveu-se para frente, com a pequena mão estendida, aproximando-se da articulação do osso.

Quando a liberou, uma adaga negra passou velozmente junto à orelha do soldado e ao penetrar no atestado chão da cova fez que o macho abrisse os olhos de repente.

O pai de V surgiu como um punho com cota de malha a ponto de cair, as pernas fixadas firmemente, os escuros olhos nivelados. Era o maior dentro do acampamento, se comentava que era o maior macho nascido dentro da espécie, e sua presença inspirava medo por duas razões. Por seu tamanho e por ser imprevisível. Seu humor era sempre volúvel, com caprichos violentos e caprichosos, mas V sabia a verdade atrás de seu volátil temperamento. Não havia nada que não fosse calibrado para obter resultados. O engenho malicioso de seu pai era tão intenso como grossos eram seus músculos.

—Acordade —disse bruscamente o Bloodletter— Enquanto vagueia está sendo roubado por um debiloide.

V foi para longe de seu pai, mas começou a comer, afundando os dentes na carne e mastigando tão rápido como podia. Seria espancado por isso, provavelmente por ambos os homens, assim tinha que consumir a maior quantidade possível antes de que começassem a cair em cima dele.

O gordo começou a dar desculpas até que o Bloodletter o chutou na planta do pé com uma bota de pregos. O rosto do macho ficou cinza mas tinha claro que não devia queixar-se.

—Os porquês deste acontecimento me aborrecem. —O Bloodletter olhou fixamente ao soldado—Eu estou perguntando que fará a respeito.

Sem deter-se para tomar fôlego, o soldado formo um punho com a mão, inclinou-se, e o descarregou contra o flanco do V. V perdeu o bocado que mastigava quando o impacto tirou o ar dos seus pulmões e a carne da boca. Enquanto ofegava, recolheu a parte do pó e voltou a meter-lhe entre os lábios. Sentia salgado pelo chão da cova.

Quando começou a surra, V comeu entre agressões até que sentiu que o osso de sua pantorrilha se dobrava até quase quebrar-se. Deixou escapar um grito e perdeu a peça de carne. Alguém a recolheu e fugiu com ela.

Todo o tempo, o Bloodletter riu sem sorrir, o som saía como um latido de lábios retos e finos como facas. E logo terminou. Sem esforço aparente pegou a gordo soldado pela parte traseira do pescoço e o atirou contra a parede de rocha.

As botas com pregos do Bloodletter se plantaram frente ao rosto do V.

   —Recolhe minha adaga.

V piscou e tratou de mover-se.

Houve um rangido de couro, e então o rosto do Bloodletter esteve frente a V.

   —Recolhe minha adaga, menino. Ou esta noite farei que tome o lugar das putas no fosso.

Os soldados que se reuniram atrás de seu pai riram, e alguém atirou uma pedra que pegou a V na perna que tinha sido ferida.

—Minha adaga, menino.

Vishous estendeu os pequenos dedos na terra e se arrastou para a arma. Embora estava a só uns dois metros dela, a lâmina parecia estar a milhas de distância. Quando finalmente fechou a palma sobre ela, necessitou ambas as mãos para liberá-la da terra de tão fraco que estava. Tinha o estômago revolto de dor, e enquanto puxava a lâmina, vomitou a carne que tinha roubado.

Quando as náuseas cessaram, estendeu a adaga a seu pai, que havia tornado a elevar-se em toda sua altura.

—Se coloque de pé —disse o Bloodletter— Ou pensa que deveria me inclinar para o indigno?

V lutou para conseguir sentar-se e não podia imaginar como ia conseguir elevar todo seu corpo se não podia levantar os ombros. Trocou a adaga para a mão esquerda, pôs a direita no chão, e se elevou. A dor foi tão grande que lhe obscureceu a visão… e logo ocorreu algo milagroso, uma espécie de luz radiante o alagou de dentro para fora, como se o sol se derramasse em suas veias e limpou a dor até que esteve livre dela. Sua visão retornou… e viu que sua mão brilhava.

Este não era o momento de assombrar-se, elevou-se do chão, levantando-se enquanto tratava de não depositar o peso na perna ferida. Com mão tremente, apresentou a adaga a seu pai.

O Bloodletter olhou para trás durante um instante, como se nunca tivesse esperado que V conseguisse ficar em pé. Olhou a arma e se voltou.

—Que alguém o faça cair de novo. Seu atrevimento me ofende.

V aterrissou em uma pilha quando a ordem foi cumprida, e então, a radiante luz o abandonou e a agonia retornou. Esperou que chegassem mais golpes, mas quando escutou que a multidão rugia, soube que o castigo dos perdedores seria o entretenimento do dia, e não ele.

Enquanto jazia em uma restinga de miséria, enquanto tratava de respirar através do pulsar de seu golpeado corpo, imaginou uma mulher com uma túnica branca vindo para ele e envolvendo-o em seus braços. Com suaves palavras o embalava e lhe acariciava o cabelo, acalmando-o.

Deu as boas-vindas à visão. Era sua mãe imaginária. A que o amava e desejava que estivesse a salvo, abrigado e alimentado. Verdadeiramente, essa imagem era a que o mantinha com vida, lhe dando a única paz que tinha conhecido em sua vida.

   O soldado gordo se inclinou para ele, seu fétido e úmido fôlego invadiu o nariz de Vishous.

   —Me roube outra vez e não conseguirá se curar do que irei fazer.

O soldado cuspiu no rosto de V logo o levantou e o jogou para fora do jergón como se fosse um resto inútil.

Antes que V desmaiase , a última coisa que viu foi aos outros pretrans, que estavam terminando de saborear a perna de veado.

Com uma maldição, V se livrou de suas lembranças, seus olhos revoaram pelo beco em que se encontrava, como um velho jornal apanhado pelo vento. Homem, estava arruinado. O selo de seu descaramento se quebrou e seus restos se derramaram por todo o lugar.

Fudido. Muito fudido.

O bom era que nesse momento não tinha sabido que tipo de merda era esse assunto de minha-mamãe-me-quer. Isso o teria ferido mais que os abusos aos quais foi submetido.

Tomou o medalhão do Primale do bolso traseiro e ficou a olhá-lo fixamente. Ainda estava olhando-o quando minutos mais tarde o objeto caiu ao chão e ricocheteou como uma moeda. Franziu o cenho… até que se deu conta de que sua mão “normal” estava brilhando e tinha queimado o cordão.

Maldita fosse, sua mãe era uma egomaniaca. Deu a vida à espécie, mas isso não foi suficiente para ela. Demônios, não. Queria tomar parte no baile.

A merda com ela. Não ia lhe dar a satisfação de ter centenas de netos.Fedia como mãe, assim para que lhe dar outra geração a que arruinar.

E além disso, havia outra razão de porquê não deveria ser o Primale. Era, depois de tudo, o filho de seu pai, assim que a crueldade estava em seu DNA. Como podia confiar em si mesmo de que não se descarregaria com as Escolhidas? Essas fêmeas não tinham culpa, e não mereciam o que terminaria entre suas pernas se se convertia em seu par. Não ia fazer .

V acendeu um cigarro encalacrado à mão, levantou o medalhão, e deixou o beco girando à direita pela rua Trade. Precisava desesperadamente uma briga antes que chegasse o amanhecer.

Contava encontrar alguns lessers no labirinto de concreto que era o centro da cidade.

Era uma aposta segura. Na guerra entre a Sociedade Lessening e os vampiros havia uma só regra no combate: Não lutar frente a humanos. A última coisa que precisavam, qualquer das duas partes eram baixas humanas ou testemunhas, assim que as batalhas encobertas eram o distintivo do jogo, e o Caldwell urbano apresentava um bom teatro para combates a baixa escala. Graças ao êxodo em pequenas quantidades por volta dos subúrbios dos anos setenta, havia muitos becos escuros e edifícios desocupados. Além disso, os poucos humanos que estavam na rua estavam primordialmente ocupados servindo-se de vários vícios. O que significava que estavam ocupados em outra coisa, dando muito trabalho à polícia.

Enquanto caminhava, mantinha-se afastado dos atoleiros de luz proporcionados pelo sistema de iluminação guia de ruas e os faróis dos carros. Graças à dura noite, havia poucos pedestres nos arredores, por isso estava sozinho quando passou pelo McGrider e o Screamer e um novo clube de striptease que acabava de abrir. Mais acima, passou em frente ao auto-serviço tex-mex e o restaurante chinês, que estavam ladeados por salões de tatuagens que competiam entre si. Umas quadras depois passou perto do edifício de apartamentos sobre a avenida Redd onde estava acostumada a viver Beth antes de conhecer Wrath.

V estava a ponto de dar a volta e voltar para o núcleo principal quando se deteve. Levantou o nariz. Inalou. O aroma de talco de bebê estava no ar, e já que as velhas anciãs e os bebês estavam fora de serviço a esta tardia hora, soube que seu inimigo estava perto.

Mas havia algo mais no ar, algo que fez que seu sangue esfriasse.

V desabotoou a jaqueta para ter as adagas à mão e começou a correr, rastreando os aromas até a rua Vinte. A Vinte estava a uma quadra de distância do Trade, cercada por edifícios de escritórios que estavam adormecidos a esta hora da noite, e enquanto corria por seu desigual e lamacento pavimento, os aromas se fizeram mais fortes.

Tinha o pressentimento que tinha chegado tarde.

Cinco quadras depois viu que tinha razão.

O outro aroma era o do sangue derramado de um vampiro civil, e quando as nuvens se afastaram, a luz da lua caiu sobre o horrível espetáculo. Um macho post transição vestido com roupas rasgadas de sociedade estava além da morte, seu torso retorcido, o rosto tão quebrado que seria impossível de reconhecer. O lesser que tinha executado o assassinato estava revisando os bolsos do vampiro, sem dúvida com a esperança de encontrar a direção de sua casa como pista que o levasse a fazer outra matança.

O assassino sentiu V e olhou sobre o ombro. O ser era branco como a pedra calcária, seu cabelo pálido, a pele e os olhos decolorados como o giz. Grande, constituído solidamente como um jogador de rugby, fazia tempo que tinha passado pela iniciação e V soube, não só devido ao fato da natural pigmentação do bastardo ter se desvanecido. O lesser já estava preparado quando ficou de pé de um salto, as mãos indo à altura de seu peito, jogando o corpo para frente.

Correram o um para o outro e se encontraram como o fariam dois carros se chocando em um cruzamento: cara a cara, peso a peso, força contra força. E no inicial encontro e saudação, V recebeu um murro de uma mão do tamanho de um presunto na mandíbula, do tipo que faz que seu cérebro se fragmente dentro do crânio. Ficou tonto momentaneamente, mas as arrumou para devolver o favor o suficientemente forte para fazer girar o lesser como um peão Logo foi atrás de seu oponente. Pegando-o pela jaqueta de couro e lançando-o para o ar fora de suas botas militares.

V gostava de lutar corpo a corpo. E era bom no trabalho de campo.

Embora o assassino foi rápido. Levantou-se do pavimento e lhe lançou um golpe que revolveu os órgãos internos de V como um maço de cartas. Quando V cambaleou para trás, tropeçou em uma garrafa de Coca-Cola, que fez com que seu tornozelo se dobrasse e tomou um assento no expresso que usava para o asfalto. Afrouxando e deixando ir seu corpo, manteve os olhos sobre o assassino, que se moveu depressa. O bastardo foi até o tornozelo de V, pegando-o pela pesada bota e dobrando-a com toda a força de seu grosso peito e braço.

V lançou um grito enquanto girava o rosto ao chão, mas se fechou à dor. Usando seu tornozelo machucado e seus braços como alavanca, empurrou-se sobre o asfalto, levantou sua perna livre para o peito e deu um golpe para trás, atirando no filho da puta uma patada no joelho e lhe quebrando a articulação. O lesser se sustentou sobre uma só perna como um flamingo, com a extremidade dobrada na direção equivocada, enquanto caía sobre as costas do V.

Ambos se sujeitaram fortemente, com os antebraços e os bíceps encolhendo-se enquanto giravam para terminar perto do civil assassinado. Quando a V morderam a orelha, a merda realmente se agitou. Livrando-se dos dentes do lesser, deu-lhe ao bastardo um murro no lóbulo frontal, resultando em ambos os ossos quebrados, mas que aturdiu ao maldito o tempo suficiente para liberar-se.

Ou quase.

A faca entrou em seu flanco quando estava tirando as pernas de debaixo do assassino. O afiado estalo de dor foi como uma picada de abelha, e soube que a lâmina tinha perfurado a pele no lado esquerdo e acessado o músculo debaixo das costelas.

Homem, se tinha perfurado seu intestino, as coisas iam se pôr feias instantaneamente. Assim era hora de terminar a briga.

Vigorizado pela ferida, V pegou o lesser pelo queixo e a nuca e retorceu o filho de puta como se fose a tampa de uma garrafa de cerveja. O rangido do crânio saindo da medula espinhal foi como o de um ramo partindo-se pela metade e o corpo ficou súbitamente inútil com os braços sacudindo-se sobre o chão, e as pernas ficando imóveis.

V apalpou o flanco enquanto a cúspide de poder se desvanecia. Merda, estava coberto de suor frio e suas mãos tremiam, mas tinha finalizado o trabalho. Apressadamente, apalpou o lesser procurando uma identificação antes de fazer desaparecer ao bastardo.

Os olhos do assassino encontraram os seus, sua boca se moveu lentamente.

—Meu nome… foi Michael uma vez. Faz… oitenta e três… anos. Michael Klosnick.

Abrindo a carteira, V encontrou a carteira de motorista.

—Bom Michael, que tenha uma boa viagem de ida ao inferno.

—Me alegro… que tenha terminado.

—Não o tem feito. Não se inteirou? —merda, o flanco o estava matando— Seu novo lar é o corpo do Omega, amigo. Viverá ali sem pagar aluguel para sempre.

Os pálidos olhos se abriram desmesuradamente.

—Entendeu.

—Por favor. Parece que ia me incomodar em fazê-lo? —V sacudiu a cabeça— Acaso seu chefe não mencionou isso? Vejo que não.

V desembaiou uma das adagas, levantou a arma sobre o ombro e baixou a lâmina em linha reta para o amplo peito. Houve um estalo de luz o suficientemente brilhante para iluminar o beco inteiro, logo se ouviu um pop e… merda, o estalo tinha alcançado ao civil, lhe fazendo arder também graças a uma forte rajada de vento. Quando os dois corpos se consumiram, a única coisa que ficou na fria brisa foi o espesso aroma de talco para bebê.

Foda. Agora como dariam a notícia à família?

Vishous examinou a área, e quando não encontrou outra carteira, apoiou-se contra o contêiner e ficou ali sentado, respirando em ofegos superficiais. Cada inalação o fazia sentir como se estivesse sendo esfaqueado novamente, mas ficar sem oxigênio não era uma opção, assim continuou fazendo-o.

Antes de tirar o telefone para pedir ajuda, olhou a adaga. A negra lâmina estava coberta pela enegrecido sangue do lesser. Rememorou a luta com o assassino e imaginou a outro vampiro em seu lugar, um não tão forte como ele. Um que não tivesse sua linhagem.

Levantou a mão enluvada. Se, sua maldição o tinha definido, a Irmandade e seu nobre propósito tinham dirigido sua vida. E se tivesse morrido essa noite? Se essa lâmina tivesse atravessado seu coração? Seriam só quatro guerreiros.

Merda.

No tabuleiro de xadrez de sua desolada vida, as peças se alinharam, o jogo estava destinado. Homem, muitas vezes na vida não podia escolher seu caminho devido a que já tinha sido decidido por você.

O livre-arbítrio era uma tremenda mentira.

Deixando de lado a sua mãe e seu dramatismo… devia transformar-se no Primale pela Irmandade. O devia à herança a que servia.

Depois de limpar a lâmina em suas calças de couro, voltou a embainhar a arma com o punho para baixo, lutou para ficar de pé, e apalpou a jaqueta. Merda… seu telefone. Onde estava seu telefone? No apartamento de cobertura. Devia tere caido da jaqueta quando a atirou sobre a cama do apartamento de cobertura…

Soou um disparo.

 

Uma bala entrou no peito.

O impacto o fez elevar-se e o envio em câmara lenta através do ar. Quando caiu de costas sobre o chão, permaneceu ali enquanto uma pressão demolidora fazia saltar seu coração e lhe nublava a mente. Tudo o que podia fazer era ofegar, pequenos fôlegos rápidos saltando para dentro e para fora de sua garganta.

Com o último resquício de força, levantou a cabeça e olhou o corpo. Um tiro. Sangue na camisa. E uma esmagadora dor no peito. O pesadelo feito realidade.

Antes que pudesse entrar em pânico, chegou a escuridão e o bebeu inteiro… uma comida a ser digerida no banheiro ácido da agonia.

—Que demônios pensa que está fazendo, Whitcomb?

A doutora Jane Whitcomb levantou a vista do histórico do paciente que estava assinando e deu um pulo. Manuel Manello, doutor em medicina, chefe de cirurgia do Centro Médico St. Francis, estava avançando como um touro pelo corredor para ela. E sabia por que.

Isto ia ser feio.

Jane rabiscou sua assinatura no final da ordem de farmácia, devolveu o histórico à enfermeira, e observou como a mulher saia correndo. Uma boa manobra defensiva, e nada extraordinária nesse lugar. Quando o chefe estava assim, as gentes começavam a correr… o que era o lógico se tinha meio cérebro e uma bomba estava a ponto de explodir.

Jane o enfrentou.

—Então, se inteirou.

—Aqui. Agora. —Abriu de repente a porta da sala de descanso dos cirurgiões.

Quando entrou com ele, Priesa e Dubois, dois dos melhores cirurgiões gastrointestinais do St. Francis, deram um olhar ao chefe, Pegaram a comida da máquina e saíram da sala. A sua esteira, a porta se fechou brandamente sem apenas o sussurro de um som. Como se ela tampouco quisesse chamar a atenção de Manello.

—Quando iria me dizer isso Whitcomb? Ou pensou que Columbia estava em outro planeta e não ia me inteirar?

Jane cruzou os braços sobre os seios. Era uma mulher alta, mas Manello a superva em alguns centímetros, e parecia com os atletas profissionais que operava. Grandes ombros, grande peito, grandes mãos. Aos quarenta e cinco anos, estava em ótimas condições físicas e era um dos melhores cirurgiões ortopédicos do país.

Tanto como um aterrador FDP, Filho da puta, quando estava zangado.

Que bom que se sentisse cômoda em situações tensas.

—Sei que tem contatos lá, mas pensei que seriam o suficientemente discretos para esperar que eu decidisse se queria o trabalho…

—É obvio que o quer ou não teria perdido tempo indo lá. É pelo dinheiro?

—Certo, primeiro, não me interrompa. Segundo, vai baixar a voz. —Enquanto Manello se passava a mão pelo espesso cabelo escuro e fazia uma profunda inspiração, sentiu-se mal— Olhe, deveria ter dito. Deve ser desconcertante ter sido pego de surpresa dessa maneira.

   Sacudiu a cabeça.

—Receber uma ligação de Manhattan dizendo que uma de minhas melhores cirurgiãs vai fazer uma entrevista com meu mentor em outro hospital, não é uma de minhas coisas preferidas.

—Foi Falcheck que lhe disse isso?

—Não, uns de seus subordinados.

—Sinto muito, Manny. Não sabia como foram as coisas, e não queria dar um passo em falso.

—Por que está pensando em deixar o departamento?

—Sabe que quero mais do que tenho aqui. Será chefe até os sessenta e cinco, a menos que resolva renunciar. Em Columbia, Falcheck já tem cinqüenta e oito. Tenho uma boa oportunidade de me transformar em chefe de departamento lá.

—Já nomeei você chefe do setor de Emergências.

—E eu merecia isso.

Seus lábios se separaram em um sorriso.

—É humilde, não?

—Para que me incomodar? Ambos sabemos que é verdade. E no que diz respeita a Columbia? Você gostaria de ser subordinado de alguém nas próximas duas décadas de sua vida?

Suas pálpebras baixaram sobre os olhos cor mogno. Pelo mais breve dos instantes, pensou ver algo cintilante em seu olhar, mas logo colocou as mãos nos quadris, fazendo que a bata branca se estirasse ao alargar-se seus ombros.

   —Não quero perder você, Whitcomb. É a melhor cirurgiã de emergências que tenho.

—E eu devo considerar meu futuro. —Foi para seu armário— Desejo dirigir meu próprio posto, Manello. É minha forma de ser.

—Quando é a maldita entrevista?

—Amanhã a uma hora da tarde. estou livre todo o fim de semana e não estou de plantão, assim vou ficar na cidade.

—Merda.

Houve um golpe na porta.

—Entre —disseram ambos.

Uma enfermeira apareceu.

—Temos um caso de urgência, tempo estimado de chegada, dois minutos. Homem perto dos trintas. Ferida a bala com provável perfuração da aorta. Paralisou duas vezes na ambulância. Aceita o paciente, doutora Whitcomb, ou deseja que chame o Goldberg?

—Não, aceito-o. Preparem a área quatro no box e diga a Ellen e Jim que vou em um momento.

—Farei isso, doutora Whitcomb.

—Obrigado, Nan.

A porta se fechou brandamente, e olhou ao Manello.

—Voltando para assunto de Columbia. Faria o mesmo que eu se estivesse em meu lugar. Assim não pode dizer que se surpreende.

Houve um momento de silêncio, logo ele se inclinou um pouco para frente.

—Não deixarei você ir sem oferecer resistência. O que tampouco deveria surpreender você.

Deixou a sala, levando a maior parte do oxigeno com ele.

Jane se reclinou para trás contra a porta do armário e olhou ao redor da área da cozinha e para um espelho pendurado da parede. Seu reflexo era claro como a água no cristal, do jaleco branco de médica, o pijama de cirurgia verde e seu curto cabelo loiro.

—Recebeu bem a notícia —disse a si mesma— Tendo tudo em conta.

A porta da sala de descanso se abriu, e Dubois apareceu.

—Àrea limpa?

—Sim. E eu me dirijo ao box.

Dubois empurrou a porta e entrou, sem fazer ruído ao pisar sobre o linóleo com seus sapatos de cirurgia.

—Não sei como faz. É a única que não deixa sem sentido depois de uma briga.

—Na realidade ele não é nenhum problema.

Dubois soprou.

—Não me interprete mal. Respeito-o muitíssimo, de verdade. Mas eu não gosto que se zangue.

Pôs a mão no ombro de seu colega.

—A pressão desgasta às pessoas. A semana passada te desenquadrou. Lembra?

—Sim, tem razão. —Dubois sorriu —.E ao menos já não atira coisas.

O departamento de Emergências T. Wibble Jones do Centro Médico St. Francis era uma obra de arte graças à generosa doação de seu benfeitor homônimo. Inaugurado fazia apenas um ano e meio, o Complexo de vinte mil metros quadrados estava construído em duas partes, cada qual com dezesseis áreas de tratamento. Os pacientes de emergências eram admitidos alternativamente na área A ou B e permaneciam com o grupo que os fora atribuído até que eram dados de alta, admitidos ou enviados ao necrotério.

Com o passar do centro das instalações estava o que o pessoal médico chamava o “box”. O box era estritamente para admissões de urgência, das quais havia dois tipos: “roda-os” que chegavam em ambulância e os “tetos” que vinham voando para a pista de aterrissagem que estava onze andares a cima. Os tetos tendiam a ser casos mais difíceis e os traziam em helicóptero de um rádio de aproximadamente cento e cinqüenta milhas ao redor de Caldwell. Para esses pacientes, havia um elevador exclusivo que os deixava bem no box. Era suficientemente grande para que entrassem duas macas e dez membros do pessoal médico ao mesmo tempo.

As instalações de urgências tinham seis áreas abertas para pacientes, cada uma equipada com raios X, equipe de ecografias, válvulas de oxigênio, fornecimentos médicos e suficiente espaço para mover-se comodamente. O centro de operações, a torre de controle, estava no meio, um conclave de computadores e pessoal que tragicamente, sempre estava esperando. A qualquer hora havia ao menos um médico de admissão, quatro residentes e seis enfermeiras, normalmente tinham dois ou três pacientes no lugar.

Caldwell não era, nem por acaso, tão grande como Manhattan, mas tinha muita violência de grupos, tiroteios relacionados com drogas e acidentes de tráfico. Além disso, com quase três milhões de habitantes, via uma interminável variedade de humanos com enganos de cálculo: uma pistola de pregos disparava no estômago de alguém porque um cara tinha tentado arrumar o zíper de seu jeans com ela; uma flecha atravessava um crânio porque alguém queria provar que tinha uma excelente pontaria e estava equivocado; o marido imaginava que seria admirável reparar o forno e recebia uma descarga de duzentos e quarenta volts porque não o tinha desligado antes.

Jane vivia no box e lhe pertencia. Como chefe do departamento de Trauma, era administrativamente responsável por tudo o que ocorria nessas seis áreas, mas também estava treinada tanto como médica no departamento de Emergências como cirurgiã de urgências, assim tinha muita prática. No transcurso do dia a dia, tomava decisões a respeito de quem devia subir à sala de cirurgia e muitas vezes entrava em fazer o trabalho de linha e agulha.

Enquanto esperava o seu paciente de ferida de bala, revisou as histórias dos dois pacientes que estavam sendo tratados nesse momento e olhou por cima do ombro dos residentes e enfermeiras enquanto trabalhavam. Cada membro da equipe de urgências era escolhido por Jane, e quando recrutava, não ia necessariamente depois dos do tipo Ivy League[10], embora ela mesma tenha estudado em Harvard. O que procurava, eram as qualidades de um bom soldado, ou como gostava de chamá-los, a disposição mental de “Não Fode, Sherlock”. Inteligência, vitalidade e sangue-frio. Especialmente sangue-frio. Tinha que ser capaz de permanecer calmo em uma crise se fosse conhecer o box de A a Z.

Mas isso não significava que a compaixão não fosse necessária em cada coisa que faziam.

Geralmente, a maior parte dos pacientes de urgências não precisavam que lhes segurassem a mão nem que os confortasse. Tendiam a estar narcotizados ou em coma devido ao fato que estavam perdendo sangue como um coador, tinham uma parte de seu corpo congelada em um geladeira ou tinham o setenta e cinco por cento de sua pele queimada. O que os pacientes precisavam eram carros de reanimação com gente bem treinada e sensata para dirigir as paletas.

As famílias e seres queridos, entretanto, sempre precisavam de bondade e simpatia, e ser reconfortados se fosse possível. Vidas eram destruídas ou ressuscitadas todos os dias no box, e não eram só as pessoas que estavam nas macas as que deixavam de respirar ou começavam a fazê-lo novamente. As salas de espera estavam cheias de outras pessoas que se viam afetadas: maridos,esposas , pais, filhos…

Jane sabia o que era perder a alguém que era parte de você mesmo e enquanto trabalhava era muito consciente da parte humana da medicina e a tecnologia. Assegurava-se de que sua gente estivesse na mesma sintonia. Para trabalhar no box, tinha que ser capaz de confrontar os dois aspectos do trabalho, precisava uma mentalidade de campo de batalha e saber empatizar com os pacientes. Como dizia a seu pessoal, sempre havia tempo de estender a mão a alguém, escutar seus problemas ou de oferecer um ombro no qual chorar, porque em um piscar podia estar no outro extremo da conversação. Depois de tudo, a tragédia não discriminava, por isso todo mundo estava sujeito aos mesmos caprichos do destino. Sem importar a cor de pele ou a quantidade de dinheiro que tivesse, se foi homossexual ou heterossexual, um ateu ou um verdadeiro crente. Do lugar que ocupava, via todo mundo como um igual. Que era amado por alguém em algum lugar.

Lhe aproximou uma enfermeira.

 

—O doutor Goldberg acaba de avisar que está doente.

—É essa gripe?

—Sim, mas pediu ao doutor Harris que o cobrisse.

Deus benza o coração de Goldberg.

—Nosso homem precisa de algo?

A enfermeira sorriu.

—Disse que sua esposa esteve encantada de poder vê-lo quando despertou. Sarah está preparando sopa de frango em um absoluto estado de alvoroço.

—Bem. Precisa de um pouco de tempo livre. pena que não vá desfrutar.

—Sim. Mencionou que ia fazer você ver no DVD todo os filmes diurnos que perderam durante os últimos seis meses.

Jane se pôs a rir.

—Isso o fará ficar pior. OH, escuta, quero fazer uma revisão completa do caso Robinson. Não podíamos fazer nada mais por ele, mas acredito que de qualquer forma precisamos repassar sua morte.

—Tinha o pressentimento de que quereria fazer isso. Arrumei-o para o dia depois de que volte de sua viagem.

Jane deu à enfermeira um leve apertão na mão.

—É um amor.

—Não, só que conheço nossa chefe —sorriu— Nunca deixa de ir examinar e voltar a comprovar todo o caso se poderia ter feito algo de forma diferente.

Isso era completamente certo. Jane lembrava a cada paciente que tinha morrido no box, tanto se tinha sido ela a que o tinha admitido como se não e tinha os falecidos catalogados na mente. De noite, quando não podia dormir, os nomes e rostos desfilavam por sua mente como um antigo microfilme até que pensava que ia tornar louca.

Sua lista de mortos era o perfeito estímulo e estava condenada se o paciente ferido de bala que estava chegando se somava a ela.

Jane se aproximou de um computador e reprimiu a tristeza pelo paciente. Isto ia ser uma batalha, estaba se falando de uma punhalada e uma bala alojada na cavidade torácica e dado o lugar onde tinha sido encontrado estava disposta a apostar que era ou um traficante de drogas que estava fazendo negócios no território equivocado ou um grande comprador que tinha sido traído. Em qualquer caso, era improvável que tivesse um seguro de saude, embora isso não importasse. O St. Francis aceitava a todos os pacientes, sem importar se podiam pagar ou não.

Três minutos depois, as portas duplas se abriram e a crise entrou a grande velocidade, como impulsionada por uma mola. O senhor Michael Klosnik estava imobilizado na maca, era um gigante caucásico com grande quantidade de tatuagens, um par de calças de couro e cavanhaque. O paramédico em sua cabeceira estava lhe insuflando ar com um respirador, enquanto que outro sustentava a equipe e o apertava.

—Na área quatro —disse Jane aos paramédicos—O que temos?

O que lhe estava dando ar com o balão disse:

   —Pusemos duas intravenosas com soro. A pressão arterial é de sessenta por quarenta e baixando. O ritmo cardíaco está em cento e quarenta. A respiração é de quarenta. Esta intubado pela boca. Sofreu fibrilação ventricular a caminho daqui. Demos duzentos joules. O ritmo sinusal é de cento e quarenta.

Na área quatro, os médicos detiveram a maca e puseram o freio enquanto o pessoal do box se unia. Uma enfermeira se sentou em uma pequena mesa para registrar tudo. Outras duas esperavam prontas para entregar os instrumentos a Jane e uma quarta se preparou para cortar as calças de couro do paciente. Um par de residentes perambulavam por ali para observar ou ajudar se fosse necessário.

—Tenho a carteira. —disse o paramédico, entregando-lhe à enfermeira que tinha as tesouras.

—Michael Klosnick, trinta e sete anos —leu— A foto do documento de identidade esta imprecisa, mas… poderia ser ele, assumindo que tingiu o cabelo de negro e deixado crescer o cavanhaque depois que a tiraram.

Entregou a carteira a seu colega que estava tomando notas e logo começou a cortar as calças.

—Verei se estiver no arquivo —disse a outra mulher enquanto teclava no computador— O encontrei… espera, isto… deve ser um engano. Não, a direção é correta, o ano está equivocado.

Jane amaldiçoou em voz baixa.

—Pode ser que haja problemas com o novo sitema de registro informatizado, assim não quero confiar na informação que sai dali. Peguem uma amostra de sangue e uma radiografia do tórax em seguida.

Enquanto tiravam o sangue, Jane fez um rápido exame preliminar. A ferida de bala era um limpo buraco ao lado de uma espécie de cicatriz que tinha no peito. Um riacho de sangue era tudo o que se via, dando poucas pistas do dano que pudesse ter ocasionado no interior. A ferida de faca estava aproximadamente igual. Não havia muito machucado na superfície. Esperava que os intestinos não tivessem sido perfurados.

Deu uma olhada ao resto do corpo, vendo uma enorme quantidade de tatuagens… Wow. Essa era uma tremenda e antiga ferida na virilha.

—Me deixem ver os raios X e quero uma ecografia do coração…

Um gritou rasgou a sala de operações.

Jane virou a cabeça bruscamente para a esquerda. A enfermeira que tinha estado tirando a roupa do paciente estava a um ataque com convulsões, os braços e as pernas se agitavam contra os ladrilhos. Em sua mão tinha a luva negra que usava o paciente.

Por meio segundo todo mundo ficou congelado.

—Só tocou sua mão e caiu —disse alguém.

—De volta à diversão! —cortou Jane— Estevez, se ocupe dela. Quero saber como está imediatamente. O resto, concentrem-se. Agora!

Suas ordens fizeram que o pessoal entrasse em ação. Todo mundo voltou a focar-se enquanto a enfermeira era conduzida para a área contigüa e Estevez, um dos residentes, começava a tratá-la.

Os raios X do tórax saíram bastante bem, mas por alguma razão a ecografia do coração era de má qualidade. Não obstante, ambos revelavam exatamente o que Jane esperava. O pericárdio tapado por uma ferida de bala no ventrículo direito, o sangue se filtrou à bolsa do pericárdio e estava comprimindo o coração, comprometendo sua função e causando um bombeamento falho.

—Façam uma ecografia do abdômen enquanto ganho um pouco de tempo com o coração. —Tendo determinado a situação da ferida mais premente, Jane desejava mais informação sobre a punhalada— E assim que terminem com isso, quero que ambas as máquinas sejam revisadas. Algumas destas imagens do tórax têm uma sombra.

Quando um residente ficou a trabalhar sobre o estômago do paciente com a sonda para a ecografia, Jane passou uma agulha para anestesia número vinte e um e a ajustou a uma seringa de cinqüenta centímetros cúbicos, depois que a enfermeira tivesse passado Betadine pelo peito do homem, Jane atravessou a pele e navegou pela anatomia óssea, abrindo uma brecha na bolsa do pericárdio e tirando quarenta centímetros cúbicos de sangue para aliviar a pressão do pericárdio.

Enquanto isso, deu ordens de que preparassem o sala de cirurgia dois no andar superior e que lhe dissessem à equipe de marca passo cardíaco que se preparasse.

Deu a seringa à enfermeira para que a atirasse.

—Vejamos o abdômen.

A máquina definitivamente estava ruim já que as imagens não eram de todo claras como deviam ser. Entretanto, mostravam boas notícias, o que confirmou ao apalpar o contorno. Nenhum órgão interno parecia estar gravemente afetado.

—OK, o abdômen parece estar bem. Vamos levá-lo para cima imediatamente.

Ao sair do box, apareceu olhou na área onde Estevez estava tratando à enfermeira.

—Como vai?

—Está se recuperando. —Estevez negou com a cabeça— Seu coração se estabilizou depois de lhe dar uma sacudida com as paletas.

—Estava fibrilando? Cristo.

—Igual o cara do telefone que ingressou ontem. Como se a tivesse levado uma descarga elétrica.

—Chamou o Mike?

—Sim, seu marido está a caminho.

—Bem. Cuida de nossa garota.

Estevez assentiu e olhou a sua colega.

—Sempre.

Jane alcançou o paciente que estava sendo transladado pelo pessoal para o elevador que usava a planta de cirurgia. Já no piso superior se lavou enquanto as enfermeiras o colocavam sobre a mesa. A sua petição, uma equipe de instrumentação cirurgica cardiotorácica e a máquina de marca passo tinham sido preparadas, enquanto as ecografias e placas feitas na planta baixa brilhavam na tela do computador.

Com ambas as mãos enluvadas e mantidas no alto, separadas do corpo, voltou a revisar as provas torácicas. Para falar a verdade, ambas eram defeituosas, granuladas e com essas sombras, mas podia ver o suficiente para orientar-se. A bala estava alojada nos músculos das costas e a ia deixar lá. Os riscos inerentes a sua extração eram maiores que se a deixassem em paz, e de fato, a maioria das vítimas de ferida a bala, deixavam o box com o troféu de chumbo no mesmo lugar onde se alojava.

Franziu o cenho e se inclinou mais perto da tela. Interessante bala. Era redonda, não com a forma oblonga típica das balas que estava habituada a ver dentro de seus pacientes. Ainda assim, aparentemente parecia ser feita de chumbo comum.

Jane se aproximou da mesa onde o paciente tinha sido conectado à máquina de anestesia. Seu peito tinha sido preparado, as regiões que o rodeavam estavam cobertas por panos cirúrgicos. A cor alaranjada do Betadine o fazia ver como se tivesse um falso bronzeado mal aplicado.

—Não faremos valvula de desvio .Não quero perder tempo. Temos sangue de seu tipo à mão?

Uma das enfermeiras falou da esquerda.

—Temos, embora não encontremos seu tipología.

Jane olhou por cima do paciente.

—Não o encontraram?

—A leitura da amostra deu como indeterminável. Mas temos oito litros do tipo O.

Jane franziu o cenho.

—OK, mãos à obra.

Usando um escalpelo laser fez uma incisão sobre o peito do paciente, logo curto o esterno e uso um separador de costelas para abrir a cavidade do coração, expondo…

Jane ficou sem respiração.

—Santa…

—…merda —outra pessoa terminou a frase.

—Sucção. —Quando houve uma pausa, levantou a vista para o enfermeiro que a assistia—. Sucção, Jacques. Não importa como se vê. Posso arrumá-lo… sempre e quando puder ter uma vista clara da endemoninhada coisa.

Houve um som como de vaia quando o sangue foi absorvido e logo pôde lhe dar uma boa olhada a uma anomalia física que nunca tinha visto antes: um coração com seis cavidades em um peito humano. Essa “sombra” que tinha visto nas ecografias era, de fato, um par extra de cavidades.

—Fotos! —gritou— Mas por favor, façam rápido.

Homem, o departamento de Cardiologia vai se voltar louco com isto. Pensou enquanto tiravam as fotografias. Nunca antes tinha visto algo assim… embora o buraco esmigalhado no ventrículo esquerdo lhe era absolutamente familiar. Havia visto muitos destes.

—Sutura —disse.

Jacques lhe pôs um par de pinzas na palma da mão, o instrumento de aço usava uma agulha curva com fio negro no extremo. Com a mão esquerda, Jane tomou a parte de atrás do coração, tampou o extremo do buraco com o dedo e costurou o impacto que estava na parte dianteira da área até fechá-lo. O seguinte passo seria levantar o coração tirando-o do saco do pericárdio e fazer o mesmo na parte traseira.

O tempo total transcorrido era menor que seis minutos. Logo soltou o separador de costelas, pô-las onde se supunha que deviam estar e usou arame de aço para unir as duas metades do esterno. Justo quando estava a ponto de grampeá-lo do diafragma até a clavícula, o anestesista falou e a máquina começou a soar.

—A pressão arterial é de sessenta por quarenta e está caindo.

Jane praticou o protocolo de falha cardíaca e se inclinou sobre o paciente.

—Nem sequer pense nisso —lhe disse bruscamente— Se morrer vou me zangar muito.

Do nada, e contra toda lógica médica, os olhos do homem piscaram até abrir-se e focar-se nela.

Jane se afastou bruscamente. Deus querido… sua íris tinham o incolor esplendor dos diamantes, brilhando tanto que a lembravam a lua de inverno em uma noite limpa. E pela primeira vez em sua vida, ficou pasma, incapaz de mover-se. Ao enlaçar seus olhares, era como se estivessem ligados corpo a corpo, enroscados e entrelaçados, indivisíveis…

—Está fibrilando outra vez —ladrou o anestesista.

Jane voltou bruscamente para a realidade.

—Fica comigo —ordenou ao paciente— Me ouve? Fica comigo.

   Teria podido jurar que ele assentiu antes de fechar as pálpebras. E voltou para o trabalho de lhe salvar a vida.

—Deve se tranqüilizar a respeito desse incidente com o lançador de batatas —disse Butch.

Phury pôs os olhos em branco e se reclinou sobre a banqueta.

—Rasgaram minha janela.

—É obvio que o fizemos. V e eu estávamos apontando para ela.

—Duas vezes.

—Isso prova que somos notáveis atiradores.

—A próxima vez, por favor poderiam escolher a de outra pessoa… —Phury franziu o cenho e afastou o martini de seus lábios. Sem nenhuma razão aparente, seus instintos tinham cobrado vida, todos aguçados e soando como uma máquina. Deu uma olhada a seu redor na seção VIP, procurando algo que tivesse aspecto de problemas—. Hey, poli, sente…

—Algo não está bem —disse Butch enquanto esfregava o centro do peito, logo tomou a grossa cruz de ouro que tinha debaixo da camisa— Que demônios está acontecendo?

—Não sei. —Phury voltou a percorrer com a vista a multidão que havia na seção VIP. Homem, era como se um repugnante aroma penetrasse no ambiente, colorindo o ar com algo que fazia com que seu nariz quisesse buscar um novo trabalho. E ainda assim não havia nada errado.

Phury pegou o telefone e chamou seu gêmeo. Quando Zsadist atendeu, a primeira coisa que perguntou foi se estava bem.

—Estou bem, Z, mas você também percebeu, huh?

Do outro lado da mesa, Butch levantou o telefone para sua orelha.

—Carinho? Está bem? Está tudo bem? Sim, não sei… Wrath quer falar comigo? Sim, certo, ponha ao… Hey, grande homem. Sim. Phury e eu. Sim. Não. Rhage está com você? Bem. Sei, chamarei Vishous em seguida.

Depois que o poli desligasse, pressionou algumas teclas e o telefone retornou a seu ouvido. O poli franziu as sobrancelhas.

—V? me ligue. Assim que escutar isso.

Terminou a chamada ao mesmo tempo que Phury desligou.

Ambos se reclinaram em seus assentos. Phury ficou a brincar com sua bebida. Butch mexeu com a cruz.

—Talvez foi a seu apartamento de cobertura encontrar-se com uma fêmea —disse Butch.

—Disse-me que ia fazer isso na primeira hora da noite.

—Bem. Então talvez esteja em meio a uma briga.

—Sim. Ligará-nos a qualquer momento.

Embora os telefones da Irmandade tinham chips GPS inseridos, o de V não funcionava se tinha o telefone com ele, assim chamar o Complexo e tratar de rastrear seu celular não ia ser de muita ajuda. V culpava a sua mão de entorpecer essa função, assegurando que fosse o que fosse o que a fazia brilhar causava uma alteração elétrica ou magnética. Certo que afetava à qualidade das chamadas. Cada vez que ligava para V havia uma interferência na linha, embora estivesse em uma linha de terra.

Phury e Butch duraram um minuto e meio antes de olhar um ao outro e falar ao mesmo tempo.

—Importa-se se dermos uma volta…

—Que tal se formos…

Ambos ficaram de pé e se dirigiram à saída de emergência que estava em uma porta lateral do clube.

Ao chegar ao beco de fora, Phury olhou o céu noturno.

—Quer que me desmaterialize para sua casa imediatamente?

—Sim. Faze-o.

—Preciso da direção. Nunca estive lá antes.

—Commodore. O último piso, na esquina sudoeste. Esperarei aqui.

Para o Phury foi questão de um momento para localizar-se no ventoso terraço do elegante apartamento de cobertura situado umas dez quadras perto do rio. Nem sequer se incomodou em aproximar-se da parede de vidro. Podia perceber que seu irmão não estava dentro e voltou junto de Butch no que levou um batimento de coração.

—Não.

—Então está caçando… —o poli se congelou, uma estranha e fixa expressão bateu seu rosto. Sua cabeça virou bruscamente para a direita— Lessers.

—Quantos? —perguntou Phury, abrindo sua jaqueta. Desde que Butch tinha tido seu encontro com o Omega, tinha sido capaz de detectar aos assassinos como se fossem putas moedas para um detector de metais.

—Um par. Vamos rápido.

—Totalmente de acordo.

Os lessers apareceram na esquina, deram- uma olhada ao Phury e Butch e ficaram em guarda. O beco da parte externa do ZeroSum não era o melhor lugar para lutar, mas com sorte e devido a noite estar muito fria, não haveria humanos nos arredores.

—Estou a cargo da limpeza —disse Butch.

—Entendido.

Ambos arremeteram contra o inimigo.

Duas horas mais tarde, Jane abriu a porta da Unidade de Terapia Intensiva Cirúrgica. Já tinha recolhido seus pertences e estava pronta para ir para casa, a bolsa de couro no ombro, as chaves do carro na mão, e a capa de chuva colocada. Mas não iria sem antes ver o paciente ferido por arma de fogo.

Ao chegar ao controle de enfermaria, a mulher do outro lado do computador a olhou.

—Hey doutora Whitcomb, devo controlar seu ingresso?

—Sim, Shalonda. Já me conhece… não posso abandoná-los. Que quarto lhe atribuiu?

—O número seis,Faye está com ele, assegurando-se que esteja confortável.

—Vêem por que lhes amo garotas? O melhor pessoal do UTIC da cidade.Alguém veio lhe ver? Encontramos algum familiar próximo?

—Chamei o número que havia em seu expediente médico. O cara que respondeu disse que tinha vivido nesse apartamento nos últimos dez anos e que nunca tinha escutado falar em Michael Klosnick. Assim o endereço é falso.

Enquanto Shalonda punha os olhos em branco, as duas disseram ao mesmo tempo:

—Drogas.

Jane sacudiu a cabeça.

—Não me surpreende.

—Nem a mim. Essas tatuagens no rosto não combinam com um corretor de seguros.

—Não a menos que trabalhe para um grupo de lutadores profissionais.

Shalonda ainda ria quando Jane a saudou com a mão e começou a descer pelo corredor. O quarto número seis estava no final do corredor a direita, e enquanto caminhava checou outros dois pacientes que tinha operado, um com o intestino perfurado por uma lipoaspiração que tinha saído errado e outro que tinha ficado preso contra o mediador em um acidente de moto.

Os quartos da UTIC eram de vinte metros quadrados por vinte de pura atividade. Cada uma tinha a frente de vidro, com uma cortina que podia ser fechada para ter intimidade, e não eram o tipo de quarto que contava com uma janela, um póster de Monet ou uma TV passando Regis e Kelly[11] nela. Se estava o bastante bem para preocupar-se pelo que podia ver no aparelho, não pertencia aquele lugar. As únicas telas e imagens eram as da equipe de monitores que rodeavam a cama.

Quando Jane chegou ao número seis, Faye Montgomery, uma verdadeira veterana, que estava checando o soro do paciente, levantou a vista.

—Boa tarde doutora Whitcomb.

—Como esta Faye? —Jane deixou sua bolsa e pegou o histórico médico que estava em um fichário em forma de bolso pendurado junto à porta.

—Estou bem e antes que pergunte, esta estável, o que é assombroso.

Jane deu uma folheada às estatísticas mais recentes.

—Não me diga.

Estava por fechar o histórico médico quando franziu o cenho ante o número que viu no canto esquerdo. O identificador de dez dígitos atribuído ao paciente tinha milhares e milhares de números de diferença com os que dava às novas admissões. Examinou a data em que o histórico tinha sido criado pela primeira vez: 1974. Folheando-o encontrou duas admissões anteriores no departamento de emergência. Uma por ferida de faca, a outra por overdose de drogas. As datas eram dos anos 71 e 73.

Ah demônios, já tinha visto isto antes. Os erros e os acertos podiam parecer-se quando se escrevia rapidamente. O hospital não tinha informatizado os registros até o final de 2003 e anteriormente tudo se escrevia à mão. Claramente este registro tinha sido trascrito por processadores de texto que tinham interpretado mal os dados. Em vez de 01 e 03 a pessoa havia trascrito a data nos anos setenta.

Salvo que… a data de nascimento não tinha sentido. Com a que figurava ali, o paciente teria completo os trinta e sete anos três décadas atrás.

Fechou o histórico e colocou a mão sobre ele.

—Devemos obter mais precisão do serviço de trascrições.

—Eu sei. Notei o mesmo. Escuta, deseja ficar algum tempo a sós com ele?

—Sim, seria bom.

Faye se deteve junto à porta.

—Escutei que esteve bastante impressionante no centro cirurgico esta noite.

Jane sorriu um pouco.

—A equipe esteve impressionante. Eu sozinha fiz minha parte. Hey, esqueci de dizer a Shalonda que apostarei pelo UK na Loucura de Primavera[12]. Poderia…

—Sim. E antes que o pergunte, sim, apostou de novo em Duke este ano.

—Bem, poderemos nos insultar uma à outra por outras seis semanas.

—É por isso pelo que os escolheu. Está fazendo um serviço público para que o resto de nós possamos brigar. São muito generosas.

Depois que Faye saiu, Jane correu a cortina e se aproximou da cama. A respiração do paciente era assistida pela equipe através da intubação e seus níveis de oxigênio eram aceitáveis. A pressão arterial era estável, embora um pouco baixa. O ritmo cardíaco era lento e refletia uma leitura estranha no monitor, mas bom, tinha seis cavidades pulsando.

Cristo, esse coração.

Inclinou-se sobre ele e estudo seus traços. Caucasiano, provavelmente originário da Europa Central. Bonito, não é que isso importasse, embora a beleza estava um pouco empanada pelas tatuagens que tinha na têmpora. aproximou-se, estudando a tinta em sua pele. Tinha que admitir que estavam belamente feitas, intrincados desenhos pareciam caracteres chineses e hieroglífos misturados. Imaginou que os símbolos deviam estar relacionados com a banda a que pertencia, apesar de que não lembrava um menino que cantasse à guerra; era mais feroz, como um soldado. Talvez as tatuagens fossem relacionado com as artes marciais?

Quando observou o tubo que tinha inserido na boca, notou algo estranho. Empurrou com os polegares seu lábio inferior afastando-o. Seus caninos eram muito pronunciados. Curiosamente afiados

Cosmética, não havia dúvida. Nestes dias as pessoas faziam todo tipo de coisas horripilantes com sua aparência, e ele já tinha marcado seu rosto.

Levantou a magra manta que o cobria. A bandagem da ferida do peito estava bem, assim desceu pelo corpo, afastando as mantas do caminho. Inspecionou a bandagem da punhalada, logo apalpou a área abdominal. Enquanto apertava brandamente para sentir os órgãos internos, observou as tatuagens que tinha sobre a área púbica, logo se concentrou nas cicatrizes que tinha ao redor da virilha.

Tinha sido parcialmente castrado.

Dada a desastrosa cicatriz não tinha sido uma extirpação cirúrgica, mas bem o resultado de um acidente. Ou ao menos esperava que tivesse sido acidental, por que a única outra explicação seria a tortura.

Olhou fixamente seu rosto enquanto o cobria. Em um impulso, colocou a mão sobre seu antebraço e apertou.

—Teve uma vida dura, não é assim?

—Sim, mas isso tem sido bom.

Jane se virou.

—Jesus Manello, assustou-me.

—Sinto muito, somente queria lhe dar uma olhada. —O chefe foi para o outro lado da cama, percorrendo o paciente com os olhos— Sabe, não acredito que tivesse sobrevivido sob a faca de outro.

—Viu as fotos?

—Do coração? Sim. Quero enviar aos meninos de Columbia para que lhe dêem uma olhada. Poderá lhes perguntar o que pensam quando estiver lá.

Ela deixou passar.

—Não determinamos seu tipo de sangue.

—Sério?

—Se conseguíssemos seu consentimento, acredito que deveríamos fazer um estudo completo, mesmo os cromossomos.

—Ah sei, seu segundo amor. Gens.

Era engraçado que o se lembrasse. Provavelmente tivesse mencionado apenas uma vez como quase terminou sendo investigadora genética.

Com a emoção de um viciado, Jane lembrou o interior do paciente, viu o coração em sua mão, sentiu o órgão em seu punho enquanto salvava sua vida.

—Poderia representar uma fascinante oportunidade clínica. Deus, eu adoraria estudá-lo. Ou ao menos participar do estudo.

O suave assobio dos monitores parecia aumentar no silêncio entre eles até que momentos depois uma espécie de certeza lhe fez cócegas na nuca. Levantou a vista. Manello estava olhando-a fixamente, com o rosto solene, a grossa mandíbula apertada, as sobrancelhas franzidas.

—Manello? —franziu o cenho—. Estas bem?

—Não vá.

Para evitar seus olhos olhou para baixo, para o lençol que tinha dobrado e metido sob o braço do paciente. Ociosamente alisou a branca extensão… até que se lembrou de algo que sua mãe estava acostumada a fazer.

Deteve a mão.

—Pode encontrar outro ciruj…

—Que se foda o departamento. Não quero que vá porque… —Manello passou a mão pelo espesso cabelo negro— Cristo, Jane. Não quero que vá porque sentirei saudades como o inferno, e porque… merda, preciso de você, certo? Preciso de você aqui. Comigo.

Jane pestanejou como uma idiota. Nos últimos quatro anos, nunca tinha havido nenhuma sugestão de que o homem se sentisse atraído por ela. Certo, estavam unidos e tudo isso. E era a única que podia acalmá-lo quando se zangava. E certo, sim, falavam do funcionamento interno do hospital todo o tempo, mesmo depois de hora. E comiam juntos toda noite quando estavam de plantão e… ele tinha contado sobre sua família e ela tinha contado sobre a sua…

Diabos.

Sei, mas o homem era a coisa mais quente em todo o hospital, e ela era tão feminina como… bem, uma mesa de operações.

Certamente tinha tantas curvas como uma.

—Vamos Jane, não é possível que não tenha percebido nada? Se me desse um pequeno indício estaria dentro de seu pijama imediatamente.

—Estas louco? —disse.

—Não. —Apertou os dentes— Estou muito, muito lúcido.

Enfrentado a sensual expressão de noite de verão, o cérebro da Jane foi de férias. Simplesmente saiu voando de seu crânio.

—Não parece correto —balbuciou.

—Seríamos discretos.

—Brigamos. —Que demônios saía de sua boca?

—Eu sei. —Sorrio curvando os lábios carnudos—Eu gosto disso, ninguém me enfrenta, exceto você.

Olhou-o por cima do paciente, até então atônita, que não sabia o que dizer. Deus, tinha passado tanto tempo desde a última vez que tinha havido um homem em sua vida. Em sua cama. Em sua cabeça. Tanto condenado tempo. Eram anos desde que ia para seu lar no condomínio, tomar banho sozinha, deitar-se sozinha, despertar só e ir para o trabalho sozinha. Com ambos os pais mortos, não tinha família e devido às horas que passava no hospital, nenhum círculo externo de amigos. A única pessoa com a que realmente falava era… bom, Manello.

Enquanto o olhava agora, lhe ocorreu que essa era realmente a razão pela qual partia, embora não somente porque se interpunha em seu caminho no departamento. Em algum nível sabia que esta conversa íntima chegaria, e tinha querido correr antes de que o fizesse.

—O silêncio —murmurou Manello— não é algo bom neste momento, a menos que esteja tratando de expressar algo assim como “Manello amei você durante anos, vamos a seu apartamento e passemos os próximos quatro dias na posição horizontal”

—Já é amanhã —disse automaticamente.

—Posso dizer que estou doente. Dizer que tenho essa gripe. E como seu chefe, posso te ordenar que faça o mesmo —se inclinou sobre o paciente— Não vá para Columbia amanhã. Não vá. Vejamos até onde podemos levar isto.

Jane olhou para baixo e compreendeu que estava olhando fixamente as mãos de Manny… suas fortes e largas mãos, que tinham curado tantos quadris, ombros e joelhos, salvando as carreiras e a felicidade tanto de atletas profissionais e aficionados por isso. E não somente operava os jovens e atléticos. Também tinha conservado a mobilidade dos anciões, os feridos e os afetados pelo câncer, ajudando a muitos a manter a função de seus braços e pernas.

Tratou de imaginar essas mãos em sua pele.

—Manny… —murmurou— é uma loucura.

Cruzando a cidade, no beco que estava na parte externa do ZeroSum, Phury se elevou por cima do imovel corpo de um lesser pálido como um fantasma. Com a adaga negra, tinha aberto uma enorme ferida no pescoço da coisa e o negro sangue bombeava sobre o asfalto coberto por neve semiderretida. Seu instinto era apunhalar à coisa no coração e o enviar de volta ao Omega. Mas essa era a antiga forma. A nova era melhor.

Embora custasse a Butch. Muitíssimo.

—Este está preparado para você. —disse Phury e retrocedeu.

Butch se adiantou, suas botas rangeram ao atravessar os gelados atoleiros. Seu rosto estava sombrio, o nariz alargado. Agora tinha o aroma adocicado de talco de bebê de seus inimigos. Tinha acabado com o assassino com o qual tinha estado lutando, com seu toque especial, e agora o faria novamente.

Quando se ajoelhou, o poli, luzia ao mesmo tempo motivado e dolorido. Plantou as mãos de cada lado do descolorido rosto do lesser, e se inclinou sobre ele. Abrindo a boca, colocou-se sobre os lábios do assassino e começou a inalar larga e lentamente.

Os olhos do lesser flamejaram quando uma névoa negra se elevou de seu corpo e foi absorvida pelos pulmões de Butch. Não houve pausa na inalação, nenhuma pausa na sucção, somente uma firme corrente do mal passando de um recipiente a outro. Ao final, seus inimigos se convertiam em nada mais que cinzas, os corpos paralisavam e logo se fragmentavam transformando-se em fino pó que era levado pelo vento frio.

Butch cambaleou, depois cedeu, caindo de lado sobre o nevado chão do beco. Phury se aproximou e estendeu a mão…

—Não me toque. —a voz do Butch foi um mero fôlego— Ficará doente.

—Me deixe…

—Não! —Butch se apoiou nos braços empurrando para levantar-se— Somente me dê um minuto.

Phury se manteve de pé perto do poli, cuidando-o e mantendo um olho no beco no caso de aparecerem mais.

—Quer ir para casa? Irei procurar V…

—Merda, não. —o poli elevou os olhos cor avelã— É meu problema. E eu irei buscá-lo.

—Esta seguro?

Butch ficou de pé e apesar de seu corpo ondear como uma bandeira, estava como a luz verde do semáforo.

—Vamos.

Phury ficou em pé ao mesmo tempo e ambos desceram pela rua Trade, mas não o agradava o aspecto do rosto de Butch. O poli tinha a expressão visivelmente perdida de alguém cujo processador congelou, mas não parecia como se fosse renunciar a não ser que desmaiasse.

Enquanto os dois percorriam o perímetro urbano de Caldwell e não encontravam uma puta merda. A situação “ausência-de-V” claramente fazia com que Butch se sentisse pior.

   Estavam no limite do centro, perto da avenida Redd, quando Phury parou.

—Deveríamos voltar. Duvido que tivesse vindo tão longe.

Butch se deteve. Olhou a seu redor. E disse com uma voz apagada:

—Hey, olhe. Este é o velho edifício de apartamentos de Beth.

—Temos que voltar.

O poli sacudiu a cabeça e esfregou o peito.

—Temos que continuar.

—Não digo que deixemos de procurar, mas por que se afastaria tanto? Estamos no limite da área residencial. Muitos olhos poderiam ver a luta, assim não viria até aqui procurando-a.

—Phury, cara e se o atacaram? Não vimos outro lesser esta noite, e se aconteceu algo grande como o encurralarem?

—Se estava consciente, isso seria altamente improvável, dada a mão que tem. Uma arma tremenda, mesmo se tivesse sido despojado das adagas.

—E se o derrubaram?

Antes que Phury pudesse responder, a caminhonete de imprensa do Canal Seis de notícias deu volta a uma tremenda velocidade. Duas ruas mais abaixo, as luzes de freio brilharam e a coisa virou à esquerda.

Tudo no que Phury pôde pensar foi merda. As caminhonetes de notícias não apareciam com essa pressa por que o gato de alguma anciã subiu numa árvore. Mesmo assim, possivelmente somente era merda humana, como uma chuva de chumbo entre guangues.

O problema era que, certa e horrível intuição disse a Phury que não era o caso, assim quando Butch começou a caminhar nessa direção, seguiu-o. Não disse nenhuma palavra, o que provavelmente significava que o poli estava pensando exatamente o mesmo que ele: Por favor, Deus, deixa que seja a tragédia de alguém mais, não a nossa.

Quando chegaram aonde a caminhonete estava estacionada, encontraram a típica cena do crime, com duas patrulhas do departamento de Polícia de Caldwell estacionadas à entrada do beco sem saída da Vigésima avenida. Enquanto um repórter permanecia no ponto próximo e usando uma câmara, homens uniformizados caminhavam no interior de um círculo esboçado por uma cinta amarela e os curiosos se amontoavam juntos alimentando o drama e gritando.

A rajada de vento que descia do beco usava tanto o aroma do sangue de V como o fedor adocicado de talco de bebê dos lesser.

—OH Deus… —a angústia de Butch se filtrou no frio ar da noite, adicionando um agudo gosto a dissolvente à mescla.

O poli caminhou dando tombos para a cinta, mas Phury o pegou pelo braço para o deter. Só para empalidecer. A maldade em Butch era tão evidente que disparou pelo braço de Phury e aterrissou em seu estômago, provocando que ele se revolvesse.

De todo o modo se aferrou a seu amigo.

—Maldição, fica afastado. Provavelmente foi companheiro de algum desses policiais. —Quando o poli abriu a boca, Phury o interrompeu—Levante o pescoço, baixa a viseira de sua boné e fique aqui.

Butch puxou seu boné dos Rede Sox e o baixou até a mandíbula.

—Se esta morto…

—Se cale e preocupa-se em se manter de pé. —O que seria uma provocação por que Butch era um esmigalhado desastre. Jesus… se V estivesse morto, isso não só mataria a todos e cada um dos irmãos, e o poli em particular teria problemas. Depois que realizava essa rotina Dyson[13], com os assassinos, V era o único que podia tirar o mal dele.

—Vai, Butch. É muita exposição para você. Vai agora.

O poli, caminhou alguns metros e se apoiou contra um carro estacionado nas sombras. Quando pareceu que o homem ia ficar ali, Phury se uniu aos que bisbilhotavam no limite da fita amarela. Inspecionando a cena, a primeira coisa que notou foram os resíduos onde um lesser tinha sido liquidado. Felizmente a polícia não prestava atenção. Provavelmente pensassem que o brilhante atoleiro era simplesmente óleo derramado por um carro e que o espaço chamuscado que tinha deixado era resultado da fogueira provisória de algum sem teto. Não, os policiais se concentravam no centro da cena. Onde certamente Vishous tinha jazido em um atoleiro de sangue vermelho.

OH… Deus

Phury observou fortuitamente o humano que estava junto a ele.

—O que ocorreu?

O homem encolheu de ombros.

—Tiros. Algum tipo de briga.

Um jovem vestido com roupas rave[14] falou, exagerando tudo, como se isso fosse a coisa mais sensacional.

—Foi no peito, vi acontecer, e fui eu que chamou o 911 —sacudiu o celular como se fosse um troféu— A polícia quer que fique por aqui para que possam me interrogar.

Phury o olhou.

—Que aconteceu?

—Deus, você não teria acreditado. Foi exatamente como se o tivessem tirado do programa Impacto TV. Conhece-o?

—Sim —Phury examinou os edifícios de ambos os lados do beco. Não tinham janelas. Provavelmente este foi a única testemunha.

—E então o que aconteceu?

—Bom, tudo o que fazia era caminhar pela rua Trade. Meus amigos me abandonaram no Screamer e não tinha transporte, sabe? De qualquer forma, vim caminhando e vi este brilho de luz diante de mim. Parecia como um grande estroboscopio saindo deste beco. Andei um pouco mais rápido, por que queria ver o que estava acontecendo, e foi quando ouvi o tiro. Foi como o som de uma pequena explosão. Na realidade, nem sequer soube que era um tiro até que cheguei aqui. Pensei que soaria mais alto…

—Quando ligou para o 911?

—Bom, esperei um pouco, por que pensei que alguém poderia sair correndo do beco e não queria que disparassem em mim. Mas como ninguém saiu, acreditei que tinha desaparecido por algum caminho na parte de trás ou algo assim. Depois quando cheguei até aqui vi que não havia outra saída. Assim que talvez ele atirou em si mesmo.

—Como era o homem?

—Vic —o jovem se inclinou, aproximando-se— Vic é como a polícia chama a vitima, escutei-os.

—Obrigado pela elucidação —murmurou Phury— Então que como ele parecia?

—Cabelo escuro. Tinha cavanhaque. Muito couro. Fiquei junto a ele enquanto chamava o 911. Sangrava mas estava vivo.

—Não viu ninguém mais?

—Não, somente ele. Assim, a polícia vai me interrogar, de verdade. Já disse isso?

—Sim, felicidades. Deve estar encantado. —Homem, Phury teve que resistir o impulso de arrebentar os gordos lábios do jovem.

—Hey, não me odeie, isto é bom material.

—Não, para o homem em quem atiraram—Phury olhou novamente a cena. Ao menos V não estava nas mãos dos lessers e não tinha morrido na cena. Era provável que primeiro o assassino tivesse dado um tiro em V e que o irmão tivesse tido ainda suficiente força para arrebentar o bastardo antes de deamaiar.

Da esquerda, Phury escutou uma voz bem modulada.

—Aqui Bethany Choi da equipe líder de notícias do Canal Seis emitindo direto da cena de outro tiroteio no centro da cidade. De acordo com a polícia, a vítima, Michael Klosnick…

Michael Klosnick? O que era provável era que V tivesse tivesse pegado a documentação do lesser e que a teriam encontrado junto dele.

—… foi levado ao Centro Médico St. Francis em estado crítico com uma ferida a bala no peito…

OK, esta ia ser uma longa noite. Vishous ferido. Em mãos humanas. E só faltavam quatro horas para o amanhecer.

Momento de uma evacuação rápida.

Phury discou o número do Complexo enquanto caminhava para Butch. Ao mesmo tempo em que o celular começava a chamar, dirigiu-se ao poli.

—Está vivo no St. Francis. Atiraram nele.

Butch fraquejou e disse algo que soou como “Obrigado Senhor”.

—Então, vamos até ele?

—Sim —por que não atendia Wrath? Vamos, Wrath…atende—Essas merdas de condenados cirurgiões o devem ter levado e tevem tido a maior surpresa de suas humanas vidas quando o abriram… Wrath? Temos um problema.

Vishous despertou em um corpo imovel, recuperando totalmente a consciência apesar de estar preso em uma jaula de carne e osso. Incapaz de mover os braços nem as pernas, e com as pálpebras fortemente fechadas como se tivesse estado chorando cimento líquido, parecia que o ouvido era a única coisa que funcionava. Uma conversação estava acontecendo perto dele. Duas vozes. Uma mulher e um homem, nenhum dos quais reconhecia.

Não, espera. Conhecia um deles. Um que lhe tinha dado ordens. A mulher. Mas, por que?

E por que demônios o tinha permitido?

Escutou a conversação sem seguir realmente as palavras. A cadência de suas palavras era parecida com a de um homem. Direta. Autoritária. Dominante.

Quem era ? Quem…?

Sua identidade o pegou como um bofetão, inserindo algum senso de sentido dentro dele. A cirurgiã. A cirurgiã humana. Jesus Cristo, estava em um hospital humano. Tinha caido em mãos humanas depois… de… Merda. O que tinha acontecido?

O pânico lhe deu energia… e o levou exatamente a lugar nenhum. Seu corpo era uma fatia de carne e tinha a sensação de que o tubo que tinha na garganta significava que uma máquina estava fazendo trabalhar seus pulmões. Estava claro que o tinham sedado até a merda.

OH Deus quão perto estava o amanhecer? Precisava sair dali. Como faria…

Seus planos de fuga chegaram a um demolidor final, quando seus instintos dispararam, tomaram a frente e ficaram com o controle.

Entretanto, não era o guerreiro nele emergindo. Eram todos esses impulsos masculinos possessivos que sempre tinham estado latentes, aqueles sobre os quais tinha lido, escutado, ou visto em outros, mas que tinha assumido nascer sem eles. O detonante foi um aroma no quarto, a essência de um macho que desejava sexo… com a fêmea, com a cirurgiã de V.

Minha

A palavra saiu do nada e com ela chegou um instinto assassino. Estava tão enfurecido que abriu os olhos.

Girando a cabeça, viu uma mulher alta, humana com o cabelo curto e loiro. Usava óculos, não usava maquiagem, nem jóias. Um jaleco branco se lia JANE WHITCOMB, MD. CHEFE DA DIVISÃO DE EMERRGÊNCIAS em letras negras e em itálico.

—Manny —disse— É uma loucura.

V deslocou o olhar para um macho humano de cabelo escuro. O tipo também usava um jaleco branco com a legenda Manuel MANELLO, MD. CIRURGIÃO CHEFE, DEPARTAMENTO DE CIRURGIA, na lapela direita.

—Não é nenhuma loucura. —A voz do homem era profunda e exigente, seus olhos estavam condenadamente fixos na cirurgiã de V—Sei o que quero. E quero você.

Minha, pensou V. Não sua, MINHA.

—Não posso faltar ao Columbia amanhã —disse ela— Mesmo se houvesse algo entre nós, mesmo assim teria que partir se quero dirigir um departamento.

—Algo entre nós —o bastardo sorriu— Significa que já pensou nisso?

—O que?

—Nós.

O lábio superior de V se levantou e mostrou as presas. Enquanto começava a grunhir, essa única palavra girava em seu cérebro, como uma granada sem segurança. Minha.

—Não sei —disse a cirurgiã de V.

—Isso não é um não, não é mesmo Jane? Isso não é um não.

—Não…não é.

—Bem —o macho humano olhou em volta de V e pareceu surpreender-se— Alguém despertou.

É fodidamente melhor que acredite, pensou V. E se a tocar morderei seu maldito braço até o arrancar.  

Faye Montgomery era uma mulher prática, que era o que tinha feito dela uma grande enfermeira. Tinha nascido sensata, tal e como tinha saído com cabelo e olhos escuros, e era excepcional nas crises. Com um marido na Marinha, dois filhos em casa e doze anos trabalhando na UTI, precisava muito para pô-la nervosa.

Sentada atrás do controle de enfermaria da UTIC, agora ela estava.

Três homens do tamanho de um SUV estavam de pé do outro lado do computador. Os primeiro homen tinha o cabelo longo, multicolorido e um par de olhos amarelos que não pareciam ser reais de tão brilhantes. O segundo era tão alucinantemente lindo e tão sexualmente magnético, que teve que lembrar-se que era felizmente casada com um homem que ainda a deixava quente. O terceiro se colocou atrás, nada mais que um boné do Rede Sox, um par de óculos de sol, e um ar de pura maldade que não combinava com seu bonito rosto.

Faria algum deles alguma pergunta? Ela acreditava que sim.

Como nenhuma das outras enfermeiras parecia ser capaz de falar, Faye gaguejou:

—Perdoe-me? O… que foi que disse?

O que tinha o fantástico cabelo —Deus, era de verdade?— sorriu um pouco.

—Estamos procurando Michael Klosnick, que deu entrada na emergência. A recepção nos disse que haviam o trazido aqui depois que foi operado.

Deus… essas íris eram da cor dos botões de ouro ao sol, de um real, reluzente dourado.

—São familiares?

—Somos seus irmãos.

—Certo, mas sinto muito, acabou de sair do centro cirurgico e nós não…

Sem motivo algum, o cérebro de Faye mudou de direção, como se fosse um trem de brinquedo em uma via e o pusesse em outra. Encontrou a si mesma dizendo:

—Está descendo pelo corredor, quarto seis. Mas só pode ir um de vocês e só por um momento. OH, e têm que esperar até que seus médicos…

Nesse momento apareceu o doutor Manello caminhando a passos largos até a mesa. Deu uma olhada nos homens e perguntou:

—Está tudo bem por aqui?

Faye assentiu enquanto sua boca dizia:

—Sim, muito bem.

O doutor Manello franziu o cenho enquanto sustentava o olhar fixamente do homem. Então deu um pulo e esfregou as têmporas como se doesse a cabeça.

—Estarei em meu escritório se precisar, Faye.

—De acordo, doutor Manello. —Voltou a olhar o homem. O que era que estava dizendo? OH, claro— Entretanto tem que esperar até que saia o cirurgião, certo?

—Ele está lá agora?

—Sim. Ela está lá agora.

—Muito bem, obrigado.

Esses olhos amarelos se cravaram nos de Faye… e de repente não podia lembrar se depois de tudo havia um paciente na seis. Havia um ali? Espera…

—Me diga —disse o homem— qual é seu usuário e contra-senha?

—Perdoe-me…?

—Para o computador.

Para que quereria…? É obvio, precisava da informação. Absolutamente. E ela devia dar-lhe.—Obrigada.

—FMONT2 em letras maiúsculas é o usuário, e a contra-senha é 11Eddie11. E em letra maiúscula.

—Obrigado.

Estava a ponto de dizer, de nada, quando a noção de que era a hora da reunião de pessoal surgiu em sua cabeça. Certo por que seria? Já tinham tido uma no início da…

Não, definitivamente era a hora da reunião de pessoal. Realmente deviam ter uma reunião de pessoal. Nesse preciso momento…

Faye piscou e se deu conta de que estava olhando fixamente o vazio sobre o balcão do controle de enfermaria. Que estranho, juraria que tinha estado falando com alguém. Um homem e…

Reunião de pessoal. Agora.

Faye massageou as têmporas, sentindo como se tivesse um parafuso solto. Normalmente não tinha dores de cabeça, mas tinha sido um dia frenético, e tinha tomado muita cafeína e não havia comido direito.

Olhou sobre o ombro para as outras três enfermeiras, todas pareciam um pouco confusas.

—Vamos à sala de reuniões, garotas. Temos que fazer uma revisão dos pacientes.

Uma das companheiras de Faye franziu o cenho.

—Não já fizemos isso esta noite?

—Precisamos fazer de novo.

Todas se levantaram e entraram na sala de reuniões. Faye manteve as portas duplas abertas e se sentou na cabeceira da mesa para poder vigiar o vestíbulo assim como o monitor que mostrava as estatísticas de cada paciente na planta…

Faye se esticou na cadeira. Que demônios? Havia um homem com cabelo multicolorido depois do controle de enfermaria, inclinando-se sobre o teclado.

Faye começou a levantar-se, preparando-se para chamar a segurança, mas então o homem olhou por cima do ombro. Quando os olhos amarelos encontraram os seus, repentinamente se esqueceu por que estava errado que ele estivesse mexendo em um dos computadores. Também compreendeu que devia falar sobre o paciente do quarto cinco em seguida.

—Vamos revisar o estado do senhor Hauser. —disse com uma voz que captou a atenção de todas.

Depois que Manello partiu, Jane olhou fixamente para baixo, para seu paciente com incredulidade. Apesar de todos os sedativos que corriam por suas veias, tinha os olhos abertos e a olhava fixamente com o rosto duro e tatuado pleno de consciência.

Deus… esses olhos. Não se pareciam com nada que tivesse visto antes, as íris eram antinaturalmente brancas com bordos azul marinho.

Isso não estava bem, pensou. A forma com que a olhava não estava bem. Esse coração com seis cavidades pulsando em seu peito não estava bem. Esses largos dentes na parte dianteira de sua boca não estavam bem.

Não era humano.

Exceto que era ridículo. Primeira regra da medicina? Quando escutar som de cascos, não pense em zebras. Quantas probabilidades tinha que houvesse uma espécie de humanoides sem se detectar aí fora? Um laboratório sensacional pronto que tentava criar Homo Sapiens a partir dos golden retrievers?

Pensou nos dentes do paciente. Sim, possivelmente seria melhor dizer doberman em vez de retriever.

O paciente voltou a olhá-la, arrumando-se e de alguma forma parecendo mais ameaçador apesar de estar deitado, intubado, e tendo passado apenas duas horas de uma operação de urgência.

Como demônios estava este homem consciente?

—Pode me ouvir? —perguntou— Assente se puder.

Sua mão, a que tinha tatuagens, arranhou a garganta, logo segurou o tubo que saía de sua boca.

—Não, isso tem que ficar aí dentro. —Enquanto se inclinava para lhe afastar a mão, ele a separou dela, retirando-a tão longe como o permitiu o braço— Assim está bem. Por favor não me faça amarrar você.

Seus olhos se dilataram completamente pelo terror, simplesmente se abriram de todo enquanto seu grande corpo começava a tremer na cama. Seus lábios se moviam contra o tubo que lhe descia pela garganta como se estivesse gritando, e seu temor a comoveu. Havia uma acuidade semelhante a de um animal em seu desespero, olhava-a da forma em que olharia um lobo se tivesse a pata presa em uma armadilha: me ajude e possivelmente não a matarei quando me deixar livre.

Colocou-lhe a mão no ombro.

—Tudo está bem. Não temos por que seguir essa via. Mas precisamos deste tubo…

A porta da quarto se abriu, e Jane ficou gelada.

Os dois homens que entraram estavam vestidos de couro negro e pareciam do tipo que levariam armas ocultas. O homem era provavelmente o maior, mais magnífico loiro no qual ela tivesse posto os olhos. O outro a atemorizou. Usava um boné do Rede Sox imerso até embaixo e o rodeava um terrível alo de maldade. Não podia ver muito de seu rosto, mas guiando-se por sua cinzenta palidez, parecia estar doente.

Olhando o par, o primeiro pensamento de Jane foi que tinham vindo por seu paciente, e não simplesmente para lhe trazer flores e conversar com ele.

Seu segundo pensamento foi que ia precisar da segurança, imediatamente.

—Saiam —disse— Agora mesmo.

O homem com o boné dos Sox a ignorou completamente e se inclinou sobre a cabeceira. Quando ele e o paciente fizeram contato visual, Rede Sox se estirou e entrelaçaram as mãos.

Com voz rouca, Rede Sox disse:

—Pensei que tinha perdido você, filho da puta.

Os olhos do paciente se aguçaram como se tratasse de comunicar-se. Então simplesmente sacudiu a cabeça de um lado a outro no travesseiro.

—Vamos levar você para casa, certo?

Quando o paciente assentiu, Jane não se incomodou em seguir escutando mais dessa merda de “Cathy-a-faladora-tem-que-ir”.Equilibrou-se sobre o botão de chamada do controle de enfermaria, que indicava uma urgência cardíaca que provavelmente traria metade das enfermeiras e médicos até ela.

Não obteve nada.

O companheiro do Rede Sox, o lindo loiro, moveu-se tão rapidamente que não pôde lhe seguir o rastro. Em um momento estava entrando pela porta, no seguinte a tinha pego por detrás, levantando seus pés do chão. Quando começou a gritar, pô-lhe a mão sobre a boca e a submeteu tão facilmente como se fosse uma menina tendo um assesso de raiva.

Enquanto isso, Rede Sox despojou sistematicamente o paciente de tudo: a intubação, a intravenosa, o cateter, os marcadores cardíacos e o monitor de oxigênio.

Jane foi rápida como uma bala. Enquanto os alarmes das máquinas começavam a soar, virou-se e chutou seu captor na tíbia com o salto. O gigante loiro grunhiu e logo comprimiu suas costelas até que esteve muito ocupada tentando respirar e não pôde chutá-lo mais.

Ao menos os alarmes poderiam…

O agudo assobio se silenciou embora ninguém tocasse nas máquinas. E teve a horrível sensação de que ninguém ia vir pelo corredor.

Jane lutou mais duro, até que se fatigou tanto que lhe umedeceram os olhos.

—Fique tranqüila —disse o loiro ao seu ouvido— Desapareceremos de sua vista em um minuto. Simplesmente relaxe.

Sim, e um inferno se congelaria. Iriam matar seu paciente…

O paciente deu uma profunda inspiração por si mesmo. E outra. E outra. Então esses misteriosos olhos de diamante deslizaram sobre ela, e ela se acalmou como se ele tivesse desejado que o fizesse.

Houve um momento de silêncio. E então com uma voz áspera, o homem cuja vida tinha salvado disse três palavras que mudaram tudo… mudaram sua vida, mudaram seu destino:

—Ela. Vem. Comigo.

Permanecendo no controle de enfermaria, Phury fez um rápido trabalho de pirataria no sistema de informática do hospital. Não era tão fluido nem veloz sobre um teclado como V, mas era o suficientemente bom. Localizou os registros sob o nome Michael Klosnick e adulterou os resultados e as notas pertencentes ao tratamento de Vishous com dados aleatórios. Todos os resultados das provas, os exames, as radiografias, as fotografias digitais, o planejamento, as notas do pós-operatório, tudo se tornou em ilegível. Então introduziu uma breve anotação de que Klosnick era indigente e tinha pedido alta voluntária.

Deus adorava os consolidados e informatizados registros médicos. Que moleza.

Também tinha limpo as lembranças da maioria, se não, de todo o pessoal do sala de cirurgia. No caminho para cima passou pela sala de operações e tinha tido um pequeno tête-À-tête com as enfermeiras de vigia. Tinha tido sorte. O turno não tinha mudado, assim o pessoal que tinha assistido a V estava todo presente e tinha limpado suas mentes. Nenhuma dessas enfermeiras teria lembranças claras do que tinham visto enquanto o irmão tinha sido operado.

Não tinha sido uma limpeza perfeita, é obvio. Havia pessoas às quais não tinha chegado e possivelmente alguns registros auxiliares tinham sido impressos. Mas esse não era seu problema. Qualquer confusão ocorrida depois do desaparecimento de V seria absorvida pelo frenético funcionamento de um hospital urbano tremendamente ocupado. Certamente, poderia haver uma revisão ou duas sobre o cuidado dos pacientes, mas então não poderiam encontrar V, e isso era tudo o que importava.

Quando Phury acabou com o computador, correu pelo andar de terapia intensiva. Enquanto partia, danificou as câmaras de segurança que estavam embutidas no teto a intervalos regulares para que tudo o que mostrassem fosse estática.

Quando chegava ao quarto seis, a porta se abriu. Vishous era um peso morto na calidez dos braços do Butch, o irmão estava pálido, trêmulo e dolorido, a cabeça apoiada no pescoço do policial. Mas estava respirando e tinha os olhos abertos.

—Me deixe levá-lo —disse Phury, pensando que Butch se via quase mau quanto o amigo.

—Ele está seguro. Você se ocupe das conseqüências de nossa entrada e trabalhe com as câmaras de segurança.

—Que conseqüências de entrada?

—Espere por elas —murmurou Butch enquanto se dirigia a porta de incêndios na outra ponta do corredor.

Uma fração de segundo mais tarde, Phury lhe deu uma idéia do problema. Rhage saiu para o corredor sustentando com uma presa asfixiante uma fêmea humana incontrolavelmente irritada. Lutava com unhas e dentes, sufocando gritos que sugeriam que tinha o vocabulário de um caminhoneiro.

—Deve deixá-la inconsciente, irmão —disse Rhage, logo grunhiu— Não quero feri-la, e V disse que ela vinha conosco.

—Não se supunha que isto ia ser uma operação de seqüestro.

—Muito fodidamente tarde. Nocauteia-a, ok? —Rhage grunhiu de novo e estreitou seu aperto, afastando a mão da boca dela para capturar um dos braços que o pegavam.

A voz dela soou alto e claro.

—Ponho Deus como testemunha, vou a…

Phury a pegou pelo queixo com uma mão e a forçou a levantar a cabeça.

—Relaxe —disse brandamente—Simplesmente se tranqüilize.

Fixou seu olhar no dela e começou a obrigá-la a se acalmar com a mente… a obrigá-la a se acalmar… a obrigá-la…

—Foda-se! —cuspiu—Não vou deixar que matem meu paciente!

OK, isto não estava funcionando. Por trás dos óculos olhos de cor verde escura, tinha uma mente formidável, assim com uma maldição tirou a munição pesada, fechando-a mentalmente por completo. Derrubou-a como um trapo.

Tirando os óculos, pegou-os e os meteu no bolso do peito do casaco.

—Sairemos daqui antes de que volte a si de novo.

Rhage virou à mulher, pendurando-a como um xale dos fortes ombros.

—Pegue sua bolsa do quarto.

Phury voltou, pegou a bolsa de couro e a pasta marcada com o nome Klosnick, depois saiu rápido do quarto. Quando voltou para o corredor, Butch mantinha uma discussão com uma enfermeira que tinha saído do quarto de um paciente.

—O que está fazendo! —dizia a mulher.

Phury se plantou na frente dela como uma loja de campanha, saltando ante ela, olhando-a fixamente para atordoá-la, plantando em seu lóbulo frontal a urgente necessidade de chegar à reunião de pessoal. Quando voltou a alcançar o grupo, a mulher que estava nos braços do Rhage já estava se livrando do controle mental, sacudindo a cabeça daqui para lá enquanto se balançava ao ritmo da corrida de Hollywood.

Quando chegaram à porta da escada de incêndios, Phury gritou:

—Agüenta, Rhage.

O irmão se deteve rapidamente e Phury aferrou com a mão um flanco do pescoço da mulher, fazendo com que desmaiasse com um apertão.

—Desmaiou. Está tudo bem.

Chegaram às escadas traseiras e moveram os traseiros rapidamente. A áspera respiração de Vishous era a prova de que tanta ação o estava matando, mas era tão forte como sempre, agüentando, apesar do fato de que se pôs da cor do purê de ervilhas.

Cada vez que chegavam a um patamar, Phury sustentava uma pequena luta com uma câmara de segurança, administrando uma corrente elétrica às coisas para as cegar. Sua maior esperança era chegar ao Escalade sem tropeçar com um grupo de guardas de segurança. Os humanos nunca eram objetivo da Irmandade. Quer dizer, se havia risco de que a raça dos vampiros ficasse exposta, não havia nada que não fizesse. E como hipnotizar grandes grupos de agitados e agressivos humanos tinha uma pequena taxa de êxito, só ficava a luta. E a morte para eles.

Depois de uns oito andares descendo pela escada chegaram à base e Butch se deteve ante uma porta de metal. O suor lhe caía pelo rosto e caminhava em ziguezague, mas sua expressão era decidida. Ia tirar seu companheiro e nada ia se interpor em seu caminho, nem sequer sua própria debilidade.

—Encarregarei-me da porta —disse Phury, saltando à cabeça do grupo. Depois de ocupar-se do alarme, sustentou a prancha de ferro aberta para os outros. Do outro lado, estendiam-se vários corredores.

—OH, merda —murmurou— Onde demônios estamos?

—No porão. —O poli seguiu adiante— O conheço bem. O necrotério está neste nível. Passei muito tempo aqui em meu antigo emprego.

Uns cinquenta metros mais mais à frente, Butch os conduziu a um corredor baixo, que se parecia mais a um túnel repleto de tubos de ventilação e calefação, que a qualquer outra coisa.

E então ali estava. A salvação em forma de saída de emergência.

—O Escalade está aí fora —disse o policial a V— Em uma posição vantajosa.

—Graças a… Deus. —V apertou os lábios de novo, como se estivesse tentando não vomitar.

Phury deu outro salto para frente, então amaldiçoou. A configuração deste alarme era diferente das outras, operando em uma rede de circuitos mais complexa. O que deveria haver esperado. Freqüentemente as portas exteriores estavam muito mais protegidas que as interiores. O problema era que suas pequenas mutretas mentais não iam funcionar aqui e não era como se pudesse perder tempo para desarmar a coisa. V tinha o aspecto de um inseto atropelado em uma sarjeta.

—Se preparem para a animação —disse Phury antes de dar um golpe na camera da porta.

O alarme os colocou em marcha como uma banshee,fada irlandesa.

Enquanto saíam precipitadamente na noite, Phury se voltou e olhou para cima no fundo do hospital. Localizou a câmara de segurança sobre a porta, conseguiu que gravasse mau, e a manteve fechada bloqueando seu olho vermelho enquanto V e a fêmea humana eram descarregados dentro do Escalade e Rhage se colocava atrás do volante.

Butch se sentou no assento do co-piloto e Phury saltou à parte traseira junto à carga. Verificou seu relógio. O tempo total transcorrido desde que estacionaram em primeiro lugar aqui até que o pé de Hollywood se cravou a fundo no pedal do acelerador foi de vinte e nove minutos. A operação tinha sido relativamente curta. Tudo o que ficava por fazer agora era levar todo mundo ao Complexo e abandonar o SUV.

Só havia uma complicação.

Phury dirigiu seus olhos à mulher humana.

Uma grande, enorme complicação.

John estava inquieto enquanto esperava no brilhantemente colorido vestíbulo da mansão. Ele e Zsadist sempre saíam durante uma hora antes do amanhecer, e pelo que sabia, não havia mudança de planos. Mas o irmão chegava quase meia hora atrasado.

Para matar o tempo, John voltou a percorrer o chão de mosaico, como sempre, sentiu-se como se não pertencesse a toda essa grandeza, mas a amava e a apreciava. O vestíbulo era tão escandalosamente extravagante que era como estar em um joalheiro: colunas de mármore vermelho e uma espécie de pedra verde e negra sujeitavam as paredes enfeitadas com flores de puro ouro e dispositivos de iluminação com cristais. A escada tinha um majestoso tapete vermelho, do tipo em que uma estrela de cinema pararia no início, e logo desceria até uma festa chique. E o desenho sob seus pés era uma macieira em flor, o brilhante paladar da natureza resplandecente e cintilando graças a milhões de peças brilhantes de cristal colorido.

Entretanto, sua parte preferida era o teto. Três andares acima havia um incrível desdobramento de cenas pintadas, com guerreiros voltando para a vida enquanto foram à guerra com adagas negras. Eram tão reais que poderia estirar a mão e tocá-los.

Tão reais como se pudesse ser eles.

Voltou a pensar na primeira vez que os tinha visto. Tohr o levava para conhecer Wrath.

John bebeu. Tinha tido ao Tohrment durante tão pouco tempo. Poucos meses. Depois de uma vida sentindo-se deslocado, deixando-se levar durante duas décadas sem um núcleo familiar que o ancorasse, tinha vislumbrado o que sempre tinha querido. E então com um só tiro seu pai e mãe adotivos se foram.

Gostaria de ser o suficientemente maduro para dizer que estava agradecido por ter conhecido Tohr e Wellsie durante esse tempo, mas era mentira. Desejava não havê-los conhecido. Sua perda era muito mais difícil de agüentar que a amorfa dor que havia sentido quando estava sozinho.

Realmente não era um macho que valesse a pena, não é mesmo?

Sem aviso, Z saiu da porta escondida sob a grande escada, e John ficou tenso. Não pôde evitá-lo. Sem importar as vezes que visse o irmão, a aparência de Zsadist sempre o fazia pensar duas vezes. Não era só a cicatriz no rosto ou a cabeça rapada. Era o ar mortal que não se foi, a pesar de agora ele estar emparelhado e que seria pai.

Além disso, esta noite o rosto de Z estava rígido e tenso, e seu corpo ainda mais tenso.

—Está preparado para sair?

John estreitou os olhos e indicou:

O que está acontecendo?

—Nada pelo que deva preocupar-se. Está preparado. —Não era uma pergunta, a não ser uma ordem.

Quando John assentiu e fechou a parka, os dois saíram atravessando o vestíbulo.

A noite tinha uma cor pérola, as estrelas opacas por uma ligeira saturação de nuvens que se recortavam contra a lua cheia. De acordo com o calendário, estava chegando a primavera, mas isso era só em teoria, se nós olhássemos a paisagem. A fonte diante da mansão permanecia fora de serviço durante o inverno, vazia e esperando ser preenchida. As árvores eram como esqueletos negros estirando-se para o céu, rogando com seus magros braços que o sol se voltasse mais forte. A neve permanecia na grama, tercamente obstinada a um chão que ainda estava totalmente gelado.

O vento trazia um frio que lhes golpeava as bochechas, enquanto ele e Zsadist caminhavam para a direita, com os pedras do pátio movendo-se sob suas botas. Ao longe se via o muro de segurança do Complexo, um bastão de seis metros de alto e dois metros de grossura, que rodeava a propriedade da Irmandade.

A coisa estava cheia de câmaras de segurança e detectores de movimento, um bom soldado repleto de grande quantidade de munição. Mas tudo eram minúcias, na realidade. O verdadeiro mecanismo para não permitir a entrada eram os 120 volts de carga elétrica que percorriam a parte superior em espirais de arame eletrificado.

Primeiro a segurança. Sempre.

John seguiu Zsadist pelo jardim cheio de neve, passando junto a convalescentes canteiros de flores e a vazia piscina da parte de trás. Depois de uma ligeira descida, alcançaram o limite do bosque. Neste ponto o monstruoso muro realizava um brusco giro à esquerda e descia pela ladeira da montanha. Não o seguiram, mas sim penetraram na linha de árvores.

Sob os grossos pinheiros e os densos ramos dos arces havia um grupo de velhas agulhas e folhas, e não muita beleza. Aí, o ar cheirava como terra e ar frio, uma combinação que fez com que lhe picasse o interior do nariz.

Como era habitual, Zsadist liderou a marcha. Os caminhos que tomavam cada noite eram diferentes e pareciam aleatórios, mas sempre terminavam no mesmo lugar, uma pequena cascata. O arroio que descia pela ladeira da montanha se lançava por um pequeno escarpado, e então formava uma piscina pouco profunda uns três metros mais a frente.

John se aproximou e pôs a mão no gorgoteante corrente. Quando sua palma atravessou a queda, seus dedos se intumesceram pelo frio.

Em silêncio, Zsadist cruzou o arroio, saltando de rocha em rocha. A elegância do irmão era como a da água, fluída e forte, seus passos tão seguros que estava claro que sabia com exatidão como reagiria seu corpo com cada movimento de músculo.

Já do outro lado, caminhou até a cascata, de modo que ficou em frente a John.

Seus olhos se encontraram. OH, cara, Z tinha algo a dizer nesta noite, não?

As caminhadas tinham começado depois que John atacou outro companheiro de estudos e o deixou inconsciente nos chuveiros dos vestuários. Wrath fazia que essa fosse uma condição para que John permanecesse no programa de treinamento, e no início as tinha temido, imaginando que Z ia tentar penetrar em sua cabeça, até agora, entretanto, sempre tinham estado em silêncio.

Esse não ia ser o caso nessa noite.

John retirou o braço, dirigiu-se um pouco corrente abaixo e cruzou para o outro lado sem a confiança ou a destreza de Zsadist.

Quando chegou junto ao irmão, Z disse:

—Lash vai voltar.

John cruzou os braços sobre o peito. OH, genial, o idiota que John tinha posto em uma maca. Certo, Lash tinha estado mais que pedindo-o, indo atrás de John, irritando-o e pressionando-o, voltando-se contra Blay. Mas ainda assim.

—E aconteceu a mudança.

Fenomenal. Nada mais fodidamente melhor. Agora o bastardo o perseguiria com músculos.

Quando? indicou John.

—Amanhã. Deixei-lhe claro que se der problemas, não voltará. Se tiver problemas com ele, avise-me, está claro?

Merda. John queria ocupar-se ele mesmo. Não queria que o vigiassem como um menino.

—John? Avise-me. Assente com sua fodida cabeça.

John o fez, devagar.

—Não arremeterá contra o bode. Não me importa o que diga ou o que faça. Só porque o irrite não significa que tenha que reagir.

John assentiu, porque tinha o pressentimento de que Z lhe voltaria a pedir o mesmo se não o fizesse.

—Se o pego atuando como Harry o Sujo, não vai gostar do que acontecerá.

John observou fixamente a corrente de água. Deus… Blay, Qhuinn, agora Lash. Todos mudados.

A paranóia se arraigou e John olhou a Z.

E se a transição não acontecer comigo?

—Fará-o.

Como sabemos com certeza?

—Biologia. —Z fez um sinal com a cabeça para um enorme carvalho— Brotarão folhas dessa árvore quando o sol chegar. Não poderá evitá-lo, e o assunto é o mesmo com você. Seus hormônios vão bater com muita dureza, e então passará. Já a pode sentir, não é?

John encolheu os ombros.

—Sim, pode. Sua alimentação e sono são diferentes. Assim como seu comportamento. Crê que há um ano teria batido em Lash contra os azulejos e golpeado até o fazer sangrar?

Definitivamente não.

—Está faminto, mas você não gosta de comer, certo? Inquieto e cansado. De mau humor.

Jesus, como sabia o irmão tudo isso?

—Passei por tudo isso, lembra.

Quanto tempo falta?Perguntou John.

—Até que ela chegue? Um macho tem tendência a parecer-se com o pai. Darius passou por isso um pouco antes do habitual. Mas realmente nunca se sabe. Algumas pessoas podem estar na fase que está durante anos.

Anos?

Merda. Como foi depois para você? Quando despertou?

No silêncio que seguiu, o irmão sofreu uma mudança das mais horripilantes. Era como se uma névoa deslizasse e ele tivesse desaparecido… apesar de que John ainda podia ver cada detalhe de seu rosto com cicatrizes e seu corpo, com tanta claridade como sempre.

—Fale com o Blay e Qhuinn sobre isso.

Sinto muito. John ruborizou. Não tinha intenção de bisbilhotar.

—Não importa. Olhe, não quero que se preocupe por isso. Temos a Layla esperando para que possa se alimentar dela, e vai estar em um lugar seguro. Não vou deixar que aconteça nada de ruim.

John levantou a vista para a rosto danificada do guerreiro, e pensou no companheiro de classe que tinham perdido.

Entretanto, Hhurt morreu.

—Sim, isso acontece, mas o sangue de Layla é muito puro. É uma Escolhida. Isso vai ajudar você.

John pensou na preciosa loira. E em quando tirou a túnica diante dele para lhe mostrar seu corpo para que o olhasse. Cara, ainda não podia acreditar que tivesse feito isso.

Como saberei o que fazer?

Z estirou o pescoço para trás e olhou o céu.

—Não precisa preocupar-se por isso. Seu corpo tomará o controle. Saberá o que quererá e o que precisará. —A cabeça rapada de Z voltou para sua posição normal e ficou observando, seus olhos amarelos atravessando a escuridão, tão seguros como o sol através de um espaço entre as nuvens— Seu corpo possuirá você durante um momento.

Embora o envergonhasse, indicou:

Acredito que tenho medo.

—Quer dizer que é preparado. Isto é uma merda complicada. Mas como disse… não vou deixar que aconteça nada a você.

Z se virou como se se sentisse incômodado, e John estudou o perfil do macho contra a cortina de fundo das árvores.

Enquanto a gratidão emanava, Z cortou os agradecimentos que John estava preparando para falar:

—Melhor que voltemos para casa.

Cruzando de volta o rio e dirigindo-se para casa, John se encontrou pensando sobre o pai biológico que nunca tinha conhecido. Tinha evitado perguntar sobre Darius, porque tinha sido o melhor amigo de Tohr, e algo conectada ao Tohrment era difícil para os irmãos.

Desejaria saber a quem dirigir-se com suas perguntas.

Quando Jane despertou, suas linhas nevrálgicas eram como réstias de luzes de Natal, piscando de forma aleatória, e logo entrando em curto. Os sons se registravam e se desintegravam e reapareciam. Seu corpo estava lânguido, depois tenso, logo nervoso. Sua boca estava seca e se sentia muito quente, mas tremia.

Tomando profundas baforadas de ar, deu-se conta que estava parcialmente sentada. E que tinha uma condenada dor de cabeça.

Mas algo cheirava bem. Deus, havia um aroma incrível ao seu redor… era parte tabaco, como o tipo que seu pai havia fumado, e parte especiarias escuras, como se estivesse em uma loja de azeites índios.

Levantou as pálpebras. Não enxergava direito, provavelmente porque não estava com os seus óculos, mas podia ver suficientemente bem para saber que estava em um quarto escuro e vazio, que tinha… Jesus, livros empilhados por toda parte. Também descobriu que o assento no qual estava se encontrava situado ao lado do radiador, o que poderia explicar as rajadas quentes. Além disso, sua cabeça estava virada em um ângulo ruim, o que justificava a dor de cabeça.

Seu primeiro impulso foi sentar-se direito, mas não estava sozinha, por isso ficou quieta. Do outro lado do quarto, o do cabelo multicolorido estava ao lado de uma cama de casal que tinha um corpo deitado. O cara estava muito ocupado fazendo algo… pondo uma luva na mão de…

Seu paciente. Seu paciente estava nessa cama, com os lençóis pela cintura, o torso nu coberto de bandagens. Cristo, o que tinha acontecido? Lembrou havê-lo operado… e encontrar uma incrível anomalia em seu coração. Então houve um conversa com Manello na UTIC, e depois… merda, tinha sido seqüestrada pelo homem que estava junto à cama, um deus do sexo e alguém que usava um boné do Rede Sox.

O pânico ardeu junto com uma boa dose de aborrecimento, mas suas emoções não pareciam poder conectar-se com seu corpo, a rajada de sentimento diminuindo até que a invadiu a letargia. Piscou e tentou concentrar-se sem chamar a atenção sobre si mesma…

Suas pálpebras se abriram muito.

O homem com o boné do Rede Sox entrou com uma loira incrivelmente linda a seu lado. Estava perto dela, e embora não se tocassem, era claro que eram um casal. Simplesmente se pertenciam.

O paciente falou com voz áspera.

—Não.

—Tem que fazê-lo —disse Rede Sox.

—Disse… que me mataria se alguma vez…

—Circunstâncias atenuantes.

—Layla…

—Alimentou Rhage esta tarde, e não podemos ter outra Escolhida aqui sem dançar com a Directrix. O que tomaria um tempo que não temos.

A mulher loira se aproximou da cama do paciente e se sentou lentamente. Vestida com uma calça negra sob medida, parecia uma advogada ou uma mulher de negócios, e ainda assim era grosseiramente feminina com seu longo e lustroso cabelo.

—Me use —estendeu o pulso sobre a boca do paciente, fazendo-a flutuar por cima de seus lábios— Embora seja apenas porque o precisamos forte para que possa fazer ajudá-lo.

Não havia dúvida de quem era “ele”. Rede Sox parecia mais doente que quando Jane o tinha visto pela primeira vez, e o médico de seu interior se perguntou exatamente no que consistia “ajudá-lo”.

Enquanto isso, Rede Sox se afastou até bater na parede oposta. Rodeando o torso com os braços, segurou a si mesmo.

Com voz suave, a loira disse:

—Ele e eu falamos sobre isto. Fez tanto por nós…

—Não… não por você.

—Estou viva graças a você. Então isso é suficiente. —A loira estirou a mão como se fosse alisar o cabelo ao paciente, mas logo a retirou quando ele se encolheu— Deixa que cuidemos de você. Só desta vez.

O paciente olhou do outro lado do quarto, para o Rede Sox. Quando este assentiu, o paciente amaldiçoou e fechou os olhos. Então abriu a boca…

Merda. Seus pronunciados caninos se alargaram. Antes eram agudamente afiados, agora eram positivamente presas.

Certo, claramente isto era um sonho. Sim. Porque isso não acontecia com os dentes cosméticamente ressaltados. Nunca.

Quando o paciente descobriu as “presas”, o homem com o cabelo multicolorido ficou diante de Rede Sox, apoiou ambas as mãos na parede e se inclinou até que ambos os peitos quase se tocassem.

Mas então o paciente sacudiu a cabeça e se separou do pulso.

—Não posso.

—Preciso de você —sussurrou Rede Sox— Estou doente pelo que faço. Preciso de você.

O paciente fixou o olhar em Rede Sox e um poderoso desejo brilhou em seus olhos diamantinos.

—Só por… você… não por mim.

—Por ambos.

—Por todos nós —interveio a mulher loira.

O paciente inspirou profundamente, então —Cristo!— mordeu o pulso da loira. O ataque foi rápido e resolvido como o de uma cobra, e quando firmou, a mulher saltou, e logo exalou o que pareceu ser alívio. Do outro lado da quarto, Rede Sox tremeu por completo, com aspecto desamparado e desesperado enquanto o do cabelo multicolorido bloqueava seu caminho sem entrar em contato com ele.

A cabeça do paciente começou a mover-se seguindo um ritmo, como se fosse um bebê mamando de um peito. Mas não podia estar bebendo daí, certo?

Sim, demônios se não podia.

Sonho. Isto era todo um sonho. Um sonho de hospital psiquiátrico. Certo? OH, Deus, esperava que fosse isso. Se não, estava metida em uma espécie de pesadelo gótico.

Quando finalizou, seu paciente se deixou cair de volta nos travesseiros, e a mulher lambeu onde tinha estado sua boca.

—Descanse agora —disse, antes de voltar-se para Rede Sox— Está tudo bem?

Sacudiu a cabeça de um lado a outro.

—Quero tocar você, mas não posso. Quero entrar em você, mas… não posso.

O paciente falou.

—Se deite comigo. Agora.

—Não pode agüentá-lo. —disse Rede Sox, com voz aguda e rouca.

—Precisa-o agora. Estou preparado.

—Demônios se o está. E tenho que me deitar. Voltarei depois de descansar…

A porta voltou a abrir-se, a luz se derramou do que parecia ser um vestíbulo, e um enorme homem com cabelo negro até a cintura e envolventes óculos de sol entrou irado. Isto significava problemas. Seu rosto cruel sugeria que talvez se excitasse torturando às pessoas, e o brilho perigoso de seus olhos a fez perguntar-se se queria começar com algum agora mesmo. Esperando evitar que a notasse, fechou as pálpebras de repente e tentou não respirar.

A voz era tão dura como o resto de seu corpo.

—Se não estivesse já sobre seu traseiro, poria-te eu mesmo no chão. Em que merda estava pensado, trazendo-a aqui?

—Com permissão —disse Rede Sox. Houve um arrastar de pés e a porta se fechou.

—Fiz uma pregunta a você.

—Supunha-se que tinha que vir —disse o paciente.

—Supunha-se? Supunha-se? Está fodidamente louco?

—Sim… mas não a respeito dela.

Jane abriu um olho e observou através das pestanas enquanto o tipo gigantesco olhava o do cabelo fabuloso.

—Quero a todos em meu escritório em meia hora. Precisamos decidir que demônios faremos com ela.

—Não… sem mim… —disse o paciente, seu tom cobrando mais força.

—Não tem voto.

O paciente apoiou as palmas no colchão e se sentou, embora isto fizessem que seus braços tremessem.

—Tenho todos os votos no que concerne a ela.

O homem alto apontou ao paciente com um dedo.

—Que se foda.

De nenhuma parte, a adrenalina de Jane se elevou.

Sonho ou não sonho, deveria contar nesta feliz conversação. Ficando mais reta no assento, esclareceu a garganta.

Todos os olhos se centraram de repente nela.

—Quero sair daqui —disse, em uma voz que desejava que fosse menos entrecortada e mais contundente— Agora.

O homem grande colocou uma mão na ponte do nariz, tirou os óculos e esfregou os olhos.

—Graças a ele, essa não é uma opção imediata. Phury, volta a se ocupar dela, ok?

—Vai me matar? —perguntou apuradamente.

—Não —disse o paciente—Vai estar bem. Tem minha palavra.

Durante uma fração de segundo acreditou nele. O que era uma loucura. Não sabia onde estava, e esses homens eram claramente valentões…

O que tinha o cabelo lindo parou diante dela.

—Simplesmente vai descansar um poquinho mais.

Olhos amarelos encontraram os seus, e de repente foi uma televisão desconectada, o cabo arrancado da parede, a tela em branco.

Vishous observou sua cirurgiã enquanto se afundava de novo na cadeira do outro lado do quarto.

—Está bem? —disse ao Phury— Não a fritou, certo?

—Não, mas tem uma mente forte. Devemos tirá-la a daqui o quanto antes for possível.

A voz do Wrath cortou o ar.

—Nunca deveria ter sido trazida aqui.

Vishous se deixou cair com cautela na cama, sentindo-se como se tivesse sido golpeado no peito com um bloco de cimento. Não estava particularmente preocupado por que Wrath estivesse irritado. Sua cirurgiã tinha que estar aqui, e isso era tudo. Mas pelo menos podia considerar uma base lógica.

—Pode ajudar em minha recuperação. Havers é complicado devido ao assunto de Butch.

O olhar de Wrath era desapaixonada atrás dos óculos.

—Crê que quererá ajudar você depois de que a seqüestrassem? O Juramento Hipocrático só chega até certo ponto.

—Sou dela. —V franziu o cenho— Quero dizer, cuidara de mim porque me operou.

—Está dando um fraco motivo para justificar…

—È mesmo? Acabo de fazer uma operação no coração porque me atiraram no peito. Não me sinto como grande atleta no momento. Quer se arriscar a que haja complicações?

Wrath olhou à cirurgiã, logo voltou a esfregar os olhos.

—Merda. Quanto tempo?

—Até que esteja melhor.

Os óculos de sol do Rei voltaram para seu nariz.

—Sare rápido, irmão. Quero-a apagada e fora daqui.

Wrath deixou o quarto, fechando a porta com um golpe.

—Isto foi bom. —disse V ao Phury.

Phury, com sua forma de ser pacífica, murmurou algo a respeito de como todo mundo estava sob muito estresse, bla, bla, bla, e logo foi até a mesa para mudar de assunto. Voltou ao lado da cama com um par de cigarros na mão, um dos acendedores de V e um cinzeiro.

—Sei que quer isso. Que tipo de medicamentos vai precisar para tratar você?

V tirou uma ponta da cabeça. Com o sangue de Marissa nele, ia estar de pé logo, já que sua linhagem era quase pura. Acabava de pôr gasolina de muitos octanos em seu depósito.

Entretanto, o assunto era que, deu-se conta que não queria curar-se tão rápido.

—Ela também precisa de mais roupa —disse— E comida.

—Ocuparei-me disso —Phury se dirigiu à porta—Quer algo para comer?

—Não. —quando o irmão estava saindo para o corredor, V disse— Checará como está Butch?

—É obvio.

Depois que Phury partiu, V olhou fixamente à mulher humana. Seu aspecto, decidiu, não era tão lindo como irresistível. Seu rosto era quadrado, as feições quase masculinas. Os lábios não eram sedutores. Nem tinha pestanas longas. E não tinha grandes seios empurrando contra o jaleco branco de médico que usava. Nada de curvas selvagens, por isso podia ver.

Desejava-a como se fosse uma bela deusa nua rogando que a servissem.

Minha. Os quadris de V giraram, um rubor se estendeu sob sua pele embora não houvesse maneira de que tivesse a energia para excitar-se.

Deus, a verdade era que não sentia remorso por havê-la seqüestrado. De fato, estava destinado. Bem quando Butch e Rhage tinham aparecido no quarto de hospital tinha tido sua primeira visão em semanas. Tinha visto sua cirurgiã parada na soleira de uma porta, emoldurada em uma gloriosa luz branca. Tinha-o chamado por gestos com amor em seu rosto, guiando-o para frente por uma sala. A bondade que lhe tinha devotado tinha sido tão cálida e suave como sua pele, tão calmante como água quieta, tão substanciosa como a luz do sol que já não conhecia.

Ainda assim, embora não sentisse remorsos, culpava-se pelo medo e a ira no rosto dela quando tinha despertado. Graças a sua mãe, tinha tido uma desagradável visão do que era ser obrigado a algo, e acabava de fazer o mesmo à mulher que lhe tinha salvado a vida.

Merda. Perguntou-se o que teria feito se não tivesse tido essa visão, se não tivesse essa maldição de ver o futuro fazendo-se ouvir. A teria deixado lá? Sim. Claro que o teria feito. Mesmo com minha palavra lhe percorrendo a mente, a teria deixado ficar em seu mundo.

Mas a fodida visão tinha selado o destino da mulher.

Voltou a pensar no passado. Na primeira de suas visões…

A literatura não era um bem de valor no acampamento guerreiro, já que não podia matar com ela.

Vishous tinha aprendido a ler na Antiga Língua só porque um dos soldados tinha tido um pouco de educação e se encarregava de manter registros rudimentares do acampamento. Era descuidado com isso e o trabalho o aborrecia, assim V se ofereceu voluntário para fazer seus deveres se o macho o ensinasse a ler e escrever. Era a troca perfeita. V sempre tinha estado fascinado pela idéia de que se podia reduzir um sucesso a uma página e fazê-lo não algo transitivo, a não ser fixo. Eterno.

Tinha aprendido rápido e logo andou pelo acampamento procurando livros, encontrando alguns em lugares ocultos e esquecidos, como debaixo de velhas armas rotas ou em lojas abandonadas. Tinha colecionado os danificados tesouros encadernados com couro e os tinha escondido no limite mais longínquo do acampamento, onde se guardavam as peles dos animais. Nenhum soldado nunca ia lá, já que era território feminino, e se as fêmeas o faziam, era só para pegar uma pele ou duas para fabricar objetos de vestir ou roupas de cama. Além disso, não só era seguro para os livros, era o lugar perfeito para ler, já que o teto da cova descia até uma baixa altura e o muro ao redor era de pedra. Se alguém se aproximava, se ouvia imediatamente, já que tinham que arrastar-se para aproximar-se dele.

Entretanto, havia um livro para o que nem sequer este lugar oculto era suficientemente seguro.

O mais valioso de sua exígua coleção era um diario escrito por um macho que tinha chegado ao acampamento uns trinta anos antes. Tinha sido um aristocrata por nascimento, mas tinha terminado no acampamento para ser treinado devido a uma tragédia familiar. O diario estava escrito em uma bela letra, com grandes palavras das quais V só podia adivinhar o significado, e abrangia três anos da vida do macho. O contraste entre as duas partes, uma detalhando sucessos antes de vir aqui e a outra cobrindo a época posterior, era cru. No início, a vida do macho tinha estado marcada pelo glorioso passado do calendário social da glymera, cheio de bailes e encantadoras fêmeas e maneiras educadas. Depois tudo terminou. Desespero, exatamente o mesmo com o qual V vivia, era o que tingia as páginas depois que a vida do macho mudasse para sempre, logo depois de sua transição.

Vishous lia e relia o diario, sentindo afinidade com a tristeza do autor. E depois de cada leitura, fechava a tampa e passava os dedos pelo nome em relevo no couro.

             DARIUS, FILHO DO MARKLON

Freqüentemente V se perguntava o que tinha acontecido com o macho. As anotações terminavam em um dia onde nada particularmente significativo tinha ocorrido, por isso era difícil saber se tinha morrido em um acidente ou se foi por capricho. V esperava inteirar-se em algum momento que destino tinha encontrado o guerreiro, assumindo que ele mesmo vivesse o suficiente para sair do acampamento.

Como perder o diario o faria sentir-se desamparado, guardava-o em um lugar onde nem uma alma se detinha. Antes de que o acampamento se instalasse aqui, a cova tinha sido habitada por algum tipo de antigo humano, e os anteriores habitantes tinham deixado desenhos primitivos nas paredes. As vagas representações de bisões e cavalos, e rastros de mãos e de um único olho eram consideradas maldições pelos soldados, e todo mundo as evitava. Uma divisão tinha sido erguida em frente dessa porção de parede, e embora estivesse pintada com mestria em toda parte, Vishous sabia porquê seu pai não as eliminava. O Bloodletter queria o acampamento desequilibrado e nervoso, e se mofava dos soldados e as fêmeas por igual, com ameaças de que os espíritos desses animais os possuiriam, ou que as imagens do olho e os rastros de mãos voltariam para a vida com fogo e ira.

V não tinha medo dos desenhos. Adorava. O desenho simples dos animais tinha poder e elegância, e gostava de pôr as mãos contra os rastros de palmas. De fato, era um consolo saber que tinha havido gente vivendo ali antes. Talvez tivessem vivido melhor.

V escondia o diario entre as duas das representações maiores de bisões, em uma greta que proporcionava um alojamento suficientemente amplo e profundo. Durante o dia, quando todos descansavam, deslizava por trás da divisão e o brilho se apoderava de seus olhos, e lia até que sua solidão se aliviava.

Foi só um ano depois de encontrá-los, que os livros de Vishous foram destruídos. Suas únicas alegrias foram queimadas, como sempre tinha temido que seriam. E não foi uma surpresa quem o fez.

Estava a semanas sentindo-se doente, aproximando-se de sua transição, embora não soubesse nada disso naquele momento. Incapaz de dormir, levantou-se e deslizou como um fantasma até a pilha escondida, acomodando-se com um tiro de contos de fadas. Dormiu com o livro no colo.

Quando despertou, um pretrans estava de pé sobre ele. O menino era um dos mais agressivos, de olhos duros e corpo forte.

—Como vagueia enquanto outros trabalham —disse o jovem depreciativamente— E tem um livro nas mãos? Talvez devesse ser entregue, já que evita que faça suas tarefas. Posso levar mais comida ao meu estômago fazendo isso.

Vishous pôs a pilha mais profundamente no esconderijo e ficou de pé, sem dizer nada. Lutaria por seus livros, da mesma maneira que lutava pelas sobras de comida para encher o estômago ou a roupa velha que lhe cobria a pele. E o pretrans que tinha diante lutaria pelo privilégio de descobrir os livros. Sempre era assim.

O moço se aproximou com rapidez, empurrando a V contra a parede da cova. Embora sua cabeça batesse com força e ficasse sem ar de repente, respondeu, golpeando seu oponente no rosto com o livro. Enquanto os outros pretrans se aproximavam rapidamente para olhar, V bateu em seu oponente uma e outra vez. Tinham-lhe ensinado a usar qualquer arma ao seu dispor, mas enquanto obrigava o outro macho a ficar no chão, queria chorar por estar usando sua posse mais apreciada para fazer mal a alguém. Entretanto, tinha que continuar. Se perdia a vantagem, pode ser que o outro ganhasse, e que perdesse os livros antes de poder movê-los a outro lugar seguro.

Por fim, o outro moço ficou quieto, com a rosto torcido em mal estado, seu fôlego saindo em jorros enquanto V o segurava pela garganta. O volume de contos de fadas jorrava sangue, e a cobertura de couro estava solta em uma ponta do livro.

Foi nos descuidados momentos posteriores quando aconteceu. Um estranho formigamento percorreu o braço de V e se dirigiu à mão que sujeitava o oponente contra o chão da cova. Então uma sombra horripilante apareceu de repente, criada por um brilho que partia da palma de V. Imediatamente, o pretrans abaixo dele começou a sacudir-se, suas mãos e pernas batendo contra o chão de pedra como se lhe doesse todo o corpo.

V o soltou e olhou sua mão horrorizado.

Quando voltou a olhar o macho, uma visão o bateu como um punho, deixando V aturdido e com o olhar perdido. Em uma miragem nebulosa, viu a rosto do jovem em um vento severo, o cabelo jogado para trás, e os olhos fixos em um ponto distante. Depois dele havia rochas do tipo que se encontravam na montanha, e a luz do sol brilhava sobre ambos e o corpo imovel do pretrans.

Morto. O moço estava morto.

De repente o pretrans sussurrou: —Seu olho… seu olho… o que aconteceu?

As palavras saíram da boca de V antes de que pudesse as deter.

   —A morte o encontrará na montanha e quando o vento venha sobre você, será miserável.

Um ofego fez com que V levantasse a cabeça. Uma das fêmeas estava perto, e tinha o rosto horrorizado, como se tivesse falado com ela.

—O que acontece aqui? —disse uma voz ensurdecedora.

V se separou do pretrans de um salto para poder permanecer afastado de seu pai e manter o macho à vista. O Bloodletter estava parado com as calças desabotoadas, claramente estava a tomar uma das fêmeas da cozinha. O que explicava porquê estava nesta parte do acampamento.

—O que tem na mão? —exigiu o Bloodletter, dando um passo em volta de V—Me dê isso agora mesmo.

Enfrentado à ira de seu pai, V não teve mais opção que lhe oferecer o livro. Foi pegado com uma maldição.

—Usou isto inteligentemente só quando bateu nele com ele. —Perspicazes olhos escuros se estreitaram na depressão entre as peles onde V apoiava as costas— Esteve vadiando contra estas peles, não é verdade? Passando tempo aqui.

Quando V não respondeu, seu pai se aproximou outro passo.

—O que faz aqui atrás? Lê outros livros? Acredito que sim, e acredito que me vai dar. Talvez eu goste de ler em vez de me dedicar a meus úteis assuntos.

V duvidou… e recebeu uma bofetada tão forte que o lançou contra as peles. Depois de deslizar e rodar até o final do monte, caiu sobre os joelhos em frente de seus três outros livros. O sangue gotejou de seu nariz sobre uma das capas.

—Devo te bater outra vez? Ou me dará o que pedi? —o tom do Bloodletter era aborrecido, como se ambos os resultados fossem aceitáveis, já que ambos feririam V, e portanto lhe trariam satisfação.

V tirou uma mão e acariciou uma suave capa de couro. Seu peito rugiu de dor ante a despedida, mas a emoção era um grande desperdício, certo? Essas coisas que lhe importavam estavam a ponto de ser destruídas de algum jeito, e ia passar agora, apesar do que fizesse. Era quase como se já não estivessem aquí mais.

V olhou por cima de seu ombro para Bloodletter, e viu uma verdade que mudou sua vida. Seu pai destruiria qualquer coisa ou pessoa que V procurasse para consolar-se. O macho o tinha feito incontáveis vezes e de inumeráveis maneiras com antecedência, e continuaria rapidamente. Estes livros e este episódio eram simplesmente o rastro de um pé em um caminho interminável que seria muito transitado.

O dar-se conta disso fez que a dor de V se desvanecesse. Simplesmente assim. Para ele, agora não havia nada útil em uma conexão emocional, só uma agonia final quando foi esmagada. Assim não voltaria a sentir.

Vishous pegou os livros que tinha embalado em mãos gentis durante horas e horas e encarou a seu pai. Deu-lhe o que tinha sido sua corda de salvamento sem nenhuma preocupação ou afinidade pelos livros. Era como se nunca antes tivesse visto os livros.

O Bloodletter não tomou o que lhe era apresentado.

—Dá-me isso, meu filho?

—Faço-o.

—Sim… hmm. Sabe, talvez depois de tudo eu não goste de ler. Talvez prefira lutar como faz um macho. Por minha espécie e minha honra. —Seu enorme braço se estirou, e apontou a um dos fogões da cozinha— Leve-os ali. Queime-os ali. Como é inverno, o calor será apreciado.

Os olhos do Bloodletter se estreitaram quando V se aproximou tranqüilamente e lançou os livros às chamas. Quando se virou e voltou a olhar a seu pai, o macho o estava estudando cuidadosamente.

—O que disse o menino sobre seu olho? —murmurou o Bloodletter— Me pareceu escutar uma alusão a ele.

—Disse: “Seu olho… seu olho… o que lhe aconteceu” —respondeu V sem emoção.

No silêncio que seguiu, o sangue deslizava do nariz de V, correndo cálida e lenta por seus lábios e queixo. Seu braço estava dolorido pelos golpes que tinha dado, e lhe doía a cabeça. Entretanto, nada disso o importava. Uma força mais estranha estava sobre ele.

—Sabe por que o menino disse semelhante coisa?

—Não.

Ele e seu pai se olharam enquanto uma multidão de curiosos se reunia.

O Bloodletter disse, a ninguém em particular.

   —Parece que meu filho gosta de ler. Como desejo estar bem versado nos interesses de meu menino, eu gostaria de ser informado se alguém o vê fazendo isso. Considerarei um favor pessoal, ao que lhe acrescentará uma vantajosa nota. —O pai de V se virou, pegou uma fêmea pela cintura e a arrastou por volta do fosso principal das fogueiras— E agora teremos um pouco de diversão, meus soldados! Ao fosso!

Um clamor entusiasmado se elevou do grupo de machos e a multidão se dispersou.

Enquanto V os via partir, deu-se conta que não sentia ódio. Normalmente, quando seu pai lhe voltava as costas, Vishous lhe dava rédea solta ao desprezo que sentia pelo macho. Agora não havia nada. Foi como quando tinha olhado os livros antes de oferecer-lhe. Havia sentido… nada.

V baixou o olhar para o macho que tinha golpeado.

—Se alguma vez voltar a aproximar de mim, quebrarei suas pernas e os braços, e me certificarei de que não volte a ver com claridade. Está entendido?

O macho sorriu embora sua boca estava inchando-se como se lhe tivesse picado uma abelha.

—E o primeiro passo a transição?

V fincou as mãos nos joelhos e se inclinou.

—Sou o filho de meu pai. portanto sou capaz de qualquer coisa. Sem importar meu tamanho.

Os olhos do menino aumentaram, como se a verdade fosse sem dúvida óbvia. Desligado como Vishous estava agora, não havia nada que não pudesse agüentar, nenhum ato que não pudesse realizar, nenhum recurso que não empregasse para obter um resultado.

Era como seu pai sempre tinha sido, nada mais que especulação desalmada coberta de pele. O filho tinha aprendido a lição.

Quando Jane despertou outra vez, feze-o de um sonho terrorífico, um nos que algo que não existia estava vivo e bem, e no mesmo quarto que ela. Viu os afiados caninos de seu paciente e sua boca no pulso de uma mulher, e ele bebendo de uma veia.

As imagens brumosas e desfocadas se perduraram e a assustaram como uma lona que se movia porque tinha algo debaixo. Algo que faria mal a você.

Algo que mordería você.

Vampiro.

Não sentia medo muito freqüentemente, mas enquanto se sentava lentamente estava assustada. Percorrendo com o olhar o espartano dormitório, deu-se conta com temor que a parte do seqüestro não tinha sido um sonho. Mas, o que acontecia ao resto? Não estava segura do que era real e o que não, porque sua memória tinha muitos buracos. Lembrava operar o paciente. Lembrava admiti-lo na UTIC. Lembrava os homens seqüestrando-a. Mas depois disso? Tudo era vago.

Enquanto aspirava profundamente, cheirou comida e viu que havia uma bandeja preparada ao lado de sua cadeira. Levantando uma tampa de prata da… Jesus, realmente era um bom prato. Imari[15], como os tinham sido os de sua mãe. Franzindo o cenho, notou que a comida era de um gourmet: cordeiro com pequenas batatas e abobrinha. Um pedaço de bolo de chocolate e havia uma jarra e um copo a um lado.

Tinham seqüestrado também ao Wolfgang Puck[16],por diversão?

Voltou a olhar o seu paciente.

Sob a luz de um abajur na mesinha de noite, jazia quieto sobre lençóis negros, com os olhos fechados, o cabelo negro contra o travesseiro, pesados ombros aparecendo bem acima dos lençóis. Sua respiração era lenta e regular, o rosto tinha cor e não o cobria um brilho de suor febril. Embora as sobrancelhas estivessem franzidas e a boca não era mais que uma linha, parecia… revivido.

O que era impossível, a menos que ela tivesse passado toda uma semana inconsciente.

Jane se levantou com rigidez, estirou os braços por cima da cabeça e se arqueou para recolocar a coluna com um rangido. Movendo-se silenciosamente, foi até a cama e tomou o pulso do homem. Regular. Forte.

Merda. Nada disso era lógico. Nada disso. Pacientes aos quais tinham levado tiros e sido apunhalados, e que tinham quase morrido duas vezes, e que depois sofriam uma operação no coração, não se recuperavam assim. Nunca.

Vampiro.

OH, pare já com isso.

Olhou o relógio digital na mesinha de cabeceira e viu a data. Sexta-feira. Sexta-feira? Cristo, era sexta-feira, as dez da manhã. Tinha-o operado fazia só oito horas, e parecia como se tivesse passado meses recuperando-se.

Talvez tudo isto fosse um sonho. Talvez tenha ficado dormindo no trem a caminho de Manhattan e despertaria quando chegasse à estação de Perm. Soltaria uma risada envergonhada, tomaria uma xícara de café e iria para sua entrevista em Columbia como tinha planejado, jogando toda a culpa à comida das máquinas.

Esperou. Esperou que um movimento brusco no percurso a sacudisse para despertá-la.

Em lugar disso, o relógio digital seguiu passando os minutos.

Bem. De volta à idéia disto foda-é-a-realidade. Sentindo-se completamente só e mortalmente assustada, Jane caminhou até a porta, testou a maçaneta e a encontrou fechada. Surpresa, surpresa. Teve a tentação de golpeá-la. Mas, por que incomodar-se? Ninguém do outro lado a deixaria partir, e além disso, não queria que nenhum deles soubesse que estava acordada.

Percorrer o lugar era uma prioridade. As janelas estavam cobertas por algum tipo de barreira no lado mais longínquo do vidro, o painel tão grosso que nem sequer entrava o resplendor do dia. A porta evidentemente era também impossível de se abrir. As paredes eram sólidas. Não havia telefone. Nem computador.

O armário não tinha mais que roupas negras, botas grandes e um compartimento a prova de fogo. Com fechadura.

O banheiro não oferecia nenhuma saída. Não tinha janela nem duto de ventilação suficientemente amplo pelo que se pudesse fugir.

Voltou para o quarto. Homem, isto não era um quarto. Era uma cela com um colchão.

E isto não era um sonho.

Suas glândulas suprarrenais começaram a bater, o coração enlouqueceu no peito. Disse-se que a polícia devia estar procurando-a. Tinham que estar fazendo isso. Com todas as câmeras de segurança e pessoal do hospital, alguém tinha que ter visto como a tiravam dali. Além disso, se perdia a entrevista, as perguntas começariam a aparecer.

Tentando controlar-se, Jane se fechou no banheiro, cuja fechadura tinha sido retirada. Naturalmente. Depois de usá-lo, lavou o rosto e pegou uma toalha que estava pendurava da parte de trás da porta. Quando pôs o nariz nas dobras, captou uma incrível fragrância que a fez parar. Era o aroma do paciente. Devia havê-la usado, provavelmente antes de sair e receber o tiro.

Fechou os olhos e aspirou com força. Sexo foi o primeiro e o único pensamento que lhe veio à mente. Deus, se pudessem engarrafar isto, estes caras podiam pagar suas dívidas de jogo e drogas patenteando-o.

Desgostosa consigo mesma, deixou cair a toalha como se fosse lixo e captou um brilho atrás da pia. Inclinando-se sobre os azulejos de mármore, encontrou uma navalha de barbear, dessas antigas que a faziam pensar em filmes do oeste. Quando a pegou, ficou olhando a brilhante lâmina.

Certo, esta era uma boa arma, pensou. Uma arma condenadamente boa.

Deslizou-a para dentro do jaleco branco quando escutou abrirem a porta do dormitório.

Deixando o banheiro, manteve a mão no bolso e os olhos alerta. Rede Sox estava de volta, e carregava um par de malas. A carga não parecia substancial, pelo menos não para alguém tão grande como ele, mas a levava com dificuldade.

—Isto deveria ser um início bastante bom —disse em uma voz rouca e cansada, a palavra início pronunciada phincipio, no clássico estilo de Boston.

—Início do que?

—Do tratamento dele.

—Perdão?

Rede Sox se agachou e abriu uma das malas. Dentro havia caixas de ataduras e gazes. Luvas de látex. Seringas de plástico. Potes de pastilhas.

—Disse-nos o que precisava.

—Sim? —Maldição. Não a interessava brincar de ser doutora. Já era suficiente trabalho ser a vítima seqüestrada, muito obrigada.

O tipo se endireitou com cuidado, como se estivesse enjoado.

—Vai cuidar dele.

—Sério?

—Sim. E antes que pergunte, sim, vai sair disto com vida.

—Assumindo que faça o trabalho de médico, não?

—Exato. Mas não estou preocupado. Faria de toda forma, não?

Jane olhou fixamente esse cara. Não se via muito de seu rosto sob o boné de beisebol, mas sua mandíbula tinha uma curva que reconhecia. E tinha esse acento de Boston.

—Conheço você? —perguntou.

—Não.

No silêncio que seguiu, repassou-o com olho clínico. Sua pele estava cinza e pastosa, as bochechas fundas, suas mãos tremiam. Parecia que tinha passado duas semanas de farra, cambaleando, com a respiração irregular. E o que era esse aroma? Deus, Lembrava a sua avó. Todo perfume desnaturado e pó para o rosto. Ou… talvez fosse algo mais, algo que a levava de volta à faculdade de Medicina… Sim, isso era o mais provável. Emprestava ao formaldeído na aula de anatomia do corpo humano.

Certamente tinha a palidez de um cadáver. E doente como estava, perguntou-se se seria capaz de derrubá-lo.

Apalpando a navalha em seu bolso, mediu a distância entre eles e decidiu esperar um momento. Embora estivesse fraco, a porta estava fechada, bem fechada. Se o atacasse, arriscaria-se a que a machucasse ou matasse, e não estaria mais perto de escapar. Sua melhor aposta era ficar perto do marco da porta e esperar até que um deles entrasse. Ia precisar o elemento surpresa, porque estava condenadamente segura de que de outra maneira, dobrariam-na.

Exceto que, o que faria uma vez que estivesse do outro lado? Estava em uma casa grande? Uma pequena? Tinha o pressentimento de que a rotina do Fort Knox[17], das janelas era algo normal e corrente no resto da casa.

—Quero sair —disse.

Rede Sox exalou como se estivesse esgotado.

—Em alguns dias voltará para sua vida sem se lembrar de nada disto.

—Sim, claro. O fato de ser seqüestrada tende a desaparecer da memoria de uma pessoa.

—Verá. Ou não, depende de como se apresente o caso. —Enquanto Rede Sox se dirigia a mesinha de cabeceira, usou a mesa e logo a parede para estabilizar-se— Tem um melhor aspecto.

Queria gritar que se afastasse de seu paciente.

—V? —Rede Sox se sentou cuidadosamente na cama— V?

Os olhos do paciente se abriram depois de um momento, e a comissura de sua boca tremeu.

—Poli.

Os dois homens procuraram a mão do outro no mesmo momento, e enquanto os via, Jane decidiu que tinham que ser irmãos… exceto que seus traços eram muito diferentes. Talvez simplesmente fossem amigos íntimos? Ou amantes?

Os olhos do paciente deslizaram sobre ela e percorreram seu corpo de cima a baixo como se estivesse comprovando que estivesse ilesa. Então olhou a comida que não havia tocado e franziu o cenho, como se o desaprovasse.

—Não fizemos isto recentemente? —murmurou Rede Sox ao paciente— Exceto que era eu o que estava na cama? O que parece a você se ficamos empatados e não voltamos a passar nunca mais por esta merda de estar feridos.

Esses gelados e brilhantes olhos a abandonaram e passaram a seu amigo. O cenho não deixou seu rosto.

—Tem aspecto muito ruim.

—E você é a Miss América.

O paciente tirou sua outra mão dos lençóis como se pesasse tanto como um piano.

—Me ajude a tirar a luva de…

—Esquece. Não está preparado.

—Está ficando pior.

—Amanhã…

—Agora. Faremos agora. —A voz do paciente baixou até transformar-se em um suspiro— Se passar outro dia não será capaz de ficar de pé. Sabe o que acontece.

Rede Sox baixou a cabeça até que pendurou de seu pescoço como um saco de farinha. Depois amaldiçoou em voz baixa e estirou a mão para pegar a enluvada do paciente.

Jane se afastou até bater na cadeira em que desmaiou. Essa mão tinha provocado um ataque a sua enfermeira, e ainda assim os dois homens foram ao seu como se o contato com essa mão não tivesse importância.

Rede Sox tirou o couro negro com gentileza, descobrindo uma mão coberta com tatuagens. Santo Deus, a pele parecia brilhar.

—Vêem aqui —disse o paciente, abrindo amplamente os braços para o outro homem—Se deite comigo.

A respiração da Jane se deteve em seus pulmões.

Cormia percorreu as salas do adytum[18], os silenciosos pés descalços, a túnica branca sem fazer nem um ruído, o ar entrando e saindo de seus pulmões sem sequer um suspiro que denotasse o movimento. Era assim como perambulava, como devia fazê-lo uma Escolhida, sem causar sombras nos olhos nem sussurros nos ouvidos.

Exceto que tinha um propósito pessoal, e isso era incorreto. Como uma Escolhida, tinha que servir à Virgem Escriba em todo momento, suas intenções sempre para com Ela.

Entretanto, a necessidade própria da Cormia era tal que não podia ser negada.

O Templo dos Livros estava no final de uma larga série de colunas, e suas portas estavam sempre abertas. De todos os edifícios do santuário, incluindo os que continham as jóias, este guardava o conjunto mais prezado. Aqui descansavam os registros da raça da Virgem Escriba, um diário de incompreensível alcance, que abrangia milhares de anos. Ditado por Sua Santidade a Escolhidas especialmente treinadas, o trabalho de amor era um testamento de história assim como de fé.

Dentro da parede de marfim, sob o brilho das velas brancas, Cormia se moveu pelo chão de mármore, passando incontáveis pilhas, caminhando com mais rapidez à medida que se inquietava mais. Os volumes do livros estavam ordenados cronologicamente, e dentro de cada ano pela classe social, mas o que procurava não estaria nesta seção geral.

Olhando por cima do ombro para assegurar-se de que não havia ninguém ao redor, deslizou por um corredor e acessou uma porta de cor vermelha brilhante. No meio dos painéis havia uma representação de duas adagas negras cruzadas na lâmina, com as mangas para baixo, ao redor dos punhos, em relevo de ouro, havia um lema sagrado na Antiga Língua.

A Irmandade da Adaga Negra

Para Defender e Proteger

Nossa Mãe; Nossa Raça; Nossos Irmãos

Sua mão tremeu quando a pôs no atirador dourado. Esta zona estava restringida, e se a pegavam seria castigada, mas não se importava. Embora temesse a busca que estava realizando, já não podia suportar a falta de conhecimento.

O quarto tinha um tamanho e proporção majestoso, seu alto teto de sustento de ouro, os montes não brancos, mas sim de cor negra brilhante. Os livros que enchiam as prateleiras estavam encadernadas em couro negro, seus lombos marcados em ouro que refletia a luz de velas na cor das sombras. O tapete era de cor vermelha sangue, e suave como a pele.

O ar tinha um aroma que não era habitual, e o aroma lembrava a determinadas especiarias. Teve o pressentimento de que era porque em alguma ocasião os irmãos tinham estado fisicamente nesse quarto e tinham permanecido ali em meio de sua história, tirando livros, talvez sobre si mesmos, talvez sobre seus ancestrais. Tentou imaginar e não pôde, porque nunca tinha visto nenhum. Na realidade, nunca tinha visto um macho em pessoa.

Cormia trabalhou com rapidez para descobrir a ordem dos volumes. Parecia que estavam ordenados por ano… OH, espera. Também havia uma seção de biografias.

Ajoelhou-se. Cada coleção de volumes estava marcada com um número e o nome do irmão, junto com sua linhagem paterna. O primeiro deles era um antigo livro com símbolos que tinham uma arcaica variação, que lembrava a alguma das partes mais antigas os livros da Virgem Escriba. Este primeiro guerreiro tinha vários livros com seu nome e número, e os dois irmãos seguintes o tinham como seu progenitor.

Mais longe na fila, tirou um livro ao azar e o abriu. A capa era resplandecente, um retrato pintado do irmão rodeado de escritura que detalhava seu nome, data de nascimento e de introdução à Irmandade, assim como seu progresso no campo de batalha com armas e táticas. A página seguinte era a linhagem do guerreiro durante gerações, seguido por uma pronta das fêmeas com as quais se emparelhou e os filhos que tinha tido. Depois, detalhava sua vida capítulo a capítulo, tanto no campo de batalha como fora dele.

Este irmão, Tohrture, evidentemente tinha vivido muito e lutado bem. Havia três livros sobre ele, e uma das últimas notas era a alegria do macho quando o único filho que sobreviveu, Rhage, entrou na Irmandade.

Cormia colocou o livro em seu lugar e seguiu adiante, passando o dedo indicador pelas encadernações, tocando os nomes. Estes machos tinham lutado para mantê-la a salvo; eram os que tinham acudido quando as Escolhidas tinham sido atacadas décadas atrás. Também eram os que mantinham os civis protegidos dos lessers. Talvez este arranjo com o Primale fosse bom, depois de tudo. Sem dúvida alguém cuja missão era proteger os inocentes não faria mal, não é?

Como não tinha nem idéia da idade de seu prometido ou quando se uniu à Irmandade, olhou cada livro. Havia tantos, pilhas inteiras…

Seu dedo se deteve no lombo de um grosso volume, um de quatro.

         O Bloodletter 356

O nome do pai do Primale a deixou fria. Tinha lido sobre ele como parte da história da raça, e Virgem querida, talvez estivesse equivocada. Se as histórias sobre esse macho eram verdadeiras, mesmo aqueles que lutavam nobremente podiam ser cruéis.

Estranho que sua linha paterna não estivesse indicada.

Continuou avançando, riscando mais lombos e mais nomes.

          VISHOUS

          Filho do Bloodletter 428

Havia um único volume, e era mais magro que um dedo. Enquanto o abria, deslizou a mão pela tampa, com o coração palpitando com força. A encadernação estava rígida quando o abriu, como se o livro tivesse sido alterado. O que de fato tinha acontecido. Não havia retrato, nem tributo cuidadosamente escrito para suas habilidades de combate, só uma data de nascimento que indicava que logo teria trezentos e três anos, e uma anotação de quando tinha entrado na Irmandade. Passou a página. Não havia menção de sua linhagem, exceto pelo Bloodletter, e o resto do livro estava em branco.

Voltando a colocá-lo em seu lugar, retornou aos volumes do pai e tirou o terceiro da coleção. Leu sobre o pai com a esperança de aprender algo sobre o filho, algo que pudesse acabar com seus medos, mas o que encontrou foi um nível de crueldade que a fez rogar que o Primale se parecesse com sua mãe, quem quer que fosse. O Bloodletter era realmente o nome adequado para o guerreiro, já que era cruel com vampiros e lessers por igual.

Passando ao final, encontrou na última página um registro da data de sua morte, embora não se mencionasse a maneira. Tirou o primeiro volume e o abriu para ver o retrato. O pai tinha o cabelo de cor negra azeviche, barba completa e olhos que a faziam querer afastar o livro e não voltar a abri-lo.

Depois de voltar a colocar o livro, sentou-se no chão. Como resultado do requerimento da Virgem Escriba, o filho do Bloodletter viria por Cormia, e tomaria seu corpo como sua legítima posse. Não se podia imaginar no que consistia o ato e o que fazia o macho, e temia as lições sexuais.

Pelo menos como Primale deitaria com outras, disse-se. Muitas outras, alguma das quais tinham sido treinadas para agradar aos machos. Sem dúvida as preferiria a ela. Se tivesse um pouco de sorte, mal seria visitada.

Enquanto Butch se estirava sobre a cama de Vishous, e a V envergonhava admiti-lo, tinha passado muitos dias perguntando-se como seria. Como se sentiria. Como cheiraria. Agora que era uma realidade, estava contente de ter que concentrar-se em curar Butch. De outra forma tinha a sensação de que teria sido muito intenso e teria tido que afastar-se.

Quando seu peito roçou o de Butch, tratou de dizer-se que não precisava disto. Quis fingir que não precisava sentir a alguém do seu lado, que não se sentia reconfortado por estar pego dos pés a cabeça com outra pessoa, que o tinha sem cuidado a calidez e a pressão contra seu corpo.

Que o curar o poli não curava a ele.

Mas isso era, é obvio, pura merda. Quando V colocou os braços ao redor do Butch e se abriu para tomar o mal do Omega, precisava de tudo isso. Com a visita de sua mãe e o tiroteio, ansiava a cercania de outro, precisava sentir braços que lhe devolviam o abraço. Ter o pulsar de um coração contra o próprio.

Passava tanto tempo mantendo sua mão afastada dos outros, mantendo a si mesmo afastado de outros, que baixar a guarda com a única pessoa na qual realmente confiava.

Era bom que nunca chorasse ou teria as bochechas tão molhadas como as rochas em um rio.

Quando Butch estremeceu de alívio, Vishous sentiu o tremor dos ombros e os quadris do macho. Sabendo que era incorreto, mas incapaz de deter-se, V enterrou profundamente a mão tatuada dentro do arbusto de cabelo de Butch. Enquanto o poli emitia outro gemido e se aproximava, V desvio os olhos para sua cirurgiã.

Estava sobre uma cadeira, olhando-os, os olhos grandes, a boca ligeiramente aberta.

A única razão pela qual V não se sentia envergonhado como o inferno era que sabia que quando se fosse não teria nenhuma lembrança deste momento de intimidade. De outra maneira não poderia havê-lo suportado. Merdas como essa não aconteciam direto em sua vida… em grande parte porque não o permitia. E que o condenassem se permitia que uma completa estranha tivesse lembranças de seus assuntos particulares.

Exceto... que na realidade não a sentia como uma completa estranha.

Sua cirurgiã levou a mão à garganta, e se afundou mais na cadeira. Enquanto o tempo passava lentamente, desenroscando-se como um cão preguiçoso em uma brumosa noite do verão, seus olhos nunca se separaram dos dele, e ele tampouco afastou a vista.

Retornou-lhe essa palavra. Minha.

Salvo que, em quem estava pensando? Em Butch ou nela?

Nela, deu-se conta. Era a fêmea do outro lado do quarto quem fazia surgir essa palavra nele.

Butch moveu as pernas roçando-se contra as de V através das mantas. Com uma pontada de culpa, V rememorou as vezes em que imaginou a si mesmo com Butch. imaginoua ambos deitados como estavam nesse momento, imaginando-se… bom, a cura não era nem a metade disso. Embora fosse estranho. Agora que estava acontecendo, V não estava pensando em nada sexual com Butch. Não… o impulso sexual e a palavra vinculado se dirigiam para a silenciosa mulher humana que estava ao outro lado do quarto, que estava claramente surpresa.

Possivelmente não podia dirigir a dois homens juntos? Não era que ele e Butch fossem estar assim.

Por alguma ridícula e maldita razão, V lhe disse:

—É meu melhor amigo.

Pareceu surpresa de que lhe oferecesse qualquer explicação. Bem, então eram dois.

Jane não podia tirar os olhos da cama. Seu paciente e Rede Sox estavam resplandecendo juntos, uma suave luz emanando de seus corpos, e algo estava passando entre eles, algum tipo de troca. Jesus, esse aroma doce estava se desvanecendo, certo?

E bons amigos? Olhou a mão de seu paciente enterrada no cabelo de Rede Sox e a maneira com que esses fortes braços sustentavam o homem perto dele. Seguro que eram amigos, mas até onde chegava isso?

Depois de só Deus sabe quanto tempo, Rede Sox deixou sair um longo suspiro e elevou a cabeça. Com seus rostos separados por somente umas poucas polegadas, Jane abraçou a si mesma. Não tinha problemas com que homens estivessem juntos, mas por alguma louca razão não queria ver seu paciente beijando seu amigo. Nem a ninguém mais.

—Está bem? —perguntou Rede Sox.

A voz do paciente foi baixa e suave.

—Sim. Cansado.

—Imagino. —Rede Sox saiu da cama com um ágil movimento. Demônios, via-se como se tivesse passado um mês em um spa. A cor tinha voltado para a normalidade, e seus olhos estavam limpos e alertas. E esse ar de malevolência se foi.

O paciente se recolocou sobre as costas. Logo se enrolou de lado fazendo uma careta de dor. Depois voltou a ficar de costas de novo. As pernas se moviam sob as mantas todo o tempo, como se tratasse de deixar atrás qualquer dor que tivesse no corpo.

—Sente dor? —perguntou Rede Sox. Quando não houve resposta, o homem a olhou por sobre o ombro—Pode ajudá-lo, Doc?

Queria dizer que não. Queria lançar um par de palavrões e exigir ser liberada uma vez mais. E queria chutar a este membro da Nação Rede Sox nas bolas por fazer que seu paciente se sentisse pior com o que fosse que acabasse de acontecer.

O Juramento Hipocrático fez com que ficasse de pé e fosse até a mala.

—Depende do que me trouxe.

Procurou dentro e encontrou um carregamento do Walgreens com todos os analgésicos existentes. E tudo vinha diretamente nos pacotes de uma grande rede farmacêutica, por isso claramente tinham fontes dentro do hospital. As drogas estavam fechadas hermeticamente de maneira que não tinham estado muito tempo no mercado negro. Demônios, estes homems provavelmente eram o mercado negro.

Para assegurar-se de que não perdeu nenhuma alternativa, olhou na segunda mala… e encontrou suas calças de ioga favoritos… e o resto das coisas que tinha empacotado para ir a Manhattan para a entrevista em Columbia.

Tinham estado em sua casa. Estes bastardos tinham estado em sua casa.

—Tínhamos que levar seu carro de volta —explicou Rede Sox— E pensei que apreciaria um pouco de roupa limpa. Isso estava preparado.

Tinham dirigido seu Audi, caminhado através de seus quartos, revistados suas coisas.

Jane se levantou e chutou a bolsa através da quarto. Quando suas roupas se pulverizaram pelo chão, colocou a mão dentro do bolso e pegou a navalha de barbear, pronta para ir até a garganta de Rede Sox.

A voz do paciente soou forte.

—Se desculpe.

Voltou-se e olhou fixo para a cama.

—Por que? Trouxeram-me contra mim vol…

—Você não. Ele.

A voz de Rede Sox foi contrita quando falou apressadamente.

—Sinto que tenhamos invadido sua casa. Somente tentávamos fazer isto mais fácil para você.

—Fácil? Sem ofender, mas vai a merda com sua desculpa. Sabe, as pessoas vão sentir minha falta. A polícia me procurará.

—Nos encarregamos de tudo isso, mesmo da entrevista em Manhattan. Encontramos os bilhetes de trem e o itinerário da entrevista. Já não a esperam.

A ira a fez perder a voz por um momento.

—Como se atrevem.

—Quando souberam que estava doente, estiveram de acordo em marcar outra data. —Como se isso consertasse tudo.

Jane abriu a boca, pronta para lançar-se contra ele, quando se deu conta de que estava em seu poder. Por isso contrariar seus captores provavelmente não era um movimento inteligente.

Com uma maldição, olhou para o paciente.

—Quando me deixarão ir?

—Logo que esteja em pé.

Estudou seu rosto, do cavanhaque até os diamantinos olhos e as tatuagens na têmpora. Por instinto disse:

—Me dê sua palavra. Jure pela vida que devolvi que me deixará ir ilesa.

Não duvidou. Nem sequer para tomar uma pausa.

—Por minha honra e o sangue em minhas veias, será livre logo que esteja bem.

Amaldiçoando-se e a eles, tirou a mão do bolso, inclinou-se, e pegou um frasco de Demerol da grande mala.

—Não há seringas.

—Tenho algumas. —Rede Sox se aproximou tirando um pacote esterilizado. Quando tratou de agarrá-lo, apertou-o— Sei que o usará sabiamente.

—Sabiamente? —tirou-lhe a seringa da mão— Não, vou cravar o olho dele com ela. Porque isso foi o que me ensinaram na faculdade de Medicina.

Inclinando-se de novo, mergulhou na mala e encontrou um par de luvas de látex, um pacote de toalhinhas empapadas em álcool, um pouco de gaze e esparadrapo para mudar o curativo do peito.

Embora tivesse dado ao paciente antibióticos profiláticos por via intravenosa antes da cirurgia para que o risco de infecção fosse baixo, perguntou:

—Também pode conseguir antibióticos?

—Qualquer coisa que necessite.

Sim. Definitivamente estavam enganchados com um hospital.

—Pode ser que necessite de um pouco de ciprofloxacino ou pode ser amoxicilina. Depende do que esteja acontecendo sob a bandagem cirúrgica.

Colocou a agulha, o frasco e os outros fornecimentos médicos na mesinha de noite, ficou as luvas, e rasgou o pacote de alumínio.

—Espera um momento, Doc —disse Rede Sox.

—Desculpe?

Os olhos de Rede Sox se fixaram nela como um par de miras de arma.

—Com todo respeito, preciso reforçar que se o machucar intencionalmente, matarei-a com minhas próprias mãos. Sem importar o fato de que seja mulher.

Enquanto um golpe de medo lhe subia pela coluna, um grunhido encheu o quarto, do tipo que um mastim faria antes de atacar.

Ambos baixaram o olhar para o paciente, surpresos.

Tinha o lábio superior contraído e aqueles afiados dentes dianteiros se tornaram do dobro do tamanho do que tinham sido antes.

—Ninguém a tocará. Não importa o que faça ou a quem.

Rede Sox franziu o cenho como se seu amigo tivesse perdido a cabeça.

—Conhece nosso trato, companheiro. Mantenho você a salvo até que possa fazê-lo por você mesmo. Você não gosta? Mantém seu traseiro são e logo pode preocupar-se por ela.

—Ninguém.

Houve um momento de silêncio, logo Rede Sox olhou a Jane e o paciente alternativamente como se estivesse recalibrando as leis da física… e tendo problemas com os cálculos.

Jane interveio, sentindo a necessidade de acalmar os ânimos.

—Está bem, está bem. Acabem com essa pose de machão, sim? —ambos a olharam com surpresa e pareceram ainda mais pasmos quando deu uma cotovelada em Rede Sox para afastá-lo— Se for ficar aqui, pare de irritá-lo. Não esta ajudando. —Olhou fixamente ao paciente—. E você… só relaxe.

Depois de um momento de silêncio mortal, Rede Sox esclareceu a garganta, e o paciente , colocou a luva e fechou os olhos.

—Obrigado —murmurou.

—Agora, meninos, importam-se se eu fizer meu trabalho para poder sair daqui?

Deu ao paciente uma injeção de Demerol, e depois de um momento as franzidas sobrancelhas cederam como se lhes tivessem afrouxado os parafusos. Quando a tensão abandonou seu corpo, tirou-lhe a bandagem do peito, levantando a gaze e o esparadrapo.

—Meu Deus —ofegou.

Rede Sox olhou sobre o ombro dela.

—O que aconteceu? Esta sarando perfeitamente.

Cuidadosamente deu um golpezinho à fila de grampos metálicos e à rosada sutura abaixo delas.

—Posso tirá-las agora.

—Precisa de ajuda?

—Isto simplesmente não está certo.

Os olhos do paciente se abriram, e foi óbvio que sabia perfeitamente o que esta pensando: Vampiro.

Sem olhar a Rede Sox, disse:

—Traria-me as tesouras cirúrgicas e as pinças da mala? OH, e me traga o spray antibiótico.

Quando ouviu que trabalhava energicamente do outro lado do quarto, sussurrou:

—O que é?

—Vivo —replicou o paciente—Graças a você.

—Aqui está.

Jane saltou como uma boneco. Rede Sox sustentava dois instrumentos de aço inoxidável, mas por sua vida que não podia lembrar para que os tinha pedido.

—Os grampos —murmurou.

—O que?

—Vou tirar os grampos —tomou as tesouras e as pinças e orvalhou o peito do paciente com antibiótico.

A pesar do fato de que seu cérebro estava dançando o twist dentro de seu crânio, as arrumou para cortar e tirar cada uma dos vinte grampos, as deixando cair no cesto de papéis que havia ao lado da cama. Quando terminou limpou as gotas de sangue que brotavam de cada buraco de entrada e saída, logo lhe jogou no peito mais do spray antibiótico.

Quando se encontrou com os brilhantes olhos, teve consciência de que não era humano. Tinha visto o interior de suficientes corpos e sido testemunha da luta por curar muitas vezes para pensar de outra forma. Pelo que não estava segura era de onde deixava isto a ela ou ao resto da raça humana.

Como era possível? Que houvesse outra espécie com tantas características humanas? Não obstante, provavelmente fosse assim como permaneciam ocultos.

Jane lhe cobriu o centro do peito com uma ligeira capa de gaze, a qual fixou em seu lugar. Quando terminou o paciente fez uma careta, e subiu a mão, enluvada, para o estomago.

—Está bem? —perguntou Jane quando ficou pálido.

—Enjoado. —Uma linha de suor lhe brotou sobre o lábio superior.

Olhou a Rede Sox.

—Acredito que deveria ir.

—Porquê?

—Esta a ponto de vomitar.

—Estou bem —murmurou o paciente, fechando os olhos.

Jane se dirigiu para a bolsa por uma vasilha e disse a Rede Sox.

—Vai, agora. Me deixe cuidar dele. Não precisamos de audiência para isto.

Maldito Demerol. Funcionava maravilhosamente contra a dor, mas às vezes os efeitos colaterais eram um verdadeiro problema para o paciente.

Rede Sox duvidou até que o paciente gemeu e começou a tragar convulsivamente.

—Hummm, esta bem. Escuta, antes de ir, quer que traga algo fresco para você comer? Alguma coisa em particular que queira?

—Estas brincando, não é? Como se fosse me esquecer do seqüestro e a ameaça de morte e lhe fosse fazer um pedido de comida para me trazer?

—Não há razão para não comer enquanto esteja aqui —levantou a bandeja.

Deus, essa voz… essa áspera e rouca voz com acento de Boston.

—Conheço você. Definitivamente conheço você de alguma parte.Tira o boné. Quero ver seu rosto.

O homem cruzou o quarto com a comida antiga.

—Trareialgo de comer mais tarde.

Quando a porta se fechou e travou teve a infantil urgência de correr para ela e golpeá-la.

Mas o paciente gemeu e a olhou.

—Deixará de brigar contra a vontade de vomitar agora?

—Não me… encha… —encurvando-se para um lado, o paciente começou a fazer arcadas.

A vasilha não foi necessária, porque não tinha nada no estômago, por isso Jane foi ao banheiro, trouxe uma toalha, e a pôs na boca. Enquanto a mordia miseralvelmente, sustentava-se o centro do peito como se não quisesse que a ferida se abrisse.

—Esta bem —disse enquanto colocava a mão na tensa costas—. Se curou o suficiente. A cicatriz não vai se abrir.

—Sinto… como se… eu… Merda…

Deus, estava sofrendo, o rosto tenso e avermelhado, coberto de suor, o corpo arqueado.

—Esta bem, deixa-o passar através de você. Quanto menos brigue contra isso, mais fácil será. Sim… assim… respira entre elas. Bem, agora…

Acariciou-lhe a coluna, segurou a toalha e não pôde evitar continuar murmurando. Quando terminou, o paciente caiu imovel, respirando pela boca, a mão enluvada apertada fortemente sobre o lençol.

—Isso não foi divertido —disse com voz áspera.

—Encontraremos outro analgésico —murmurou, lhe tirando o cabelo dos olhos— Não mais Dem para você. Escuta, quero olhar suas feridas, OK?

Assentiu e se voltou sobre as costas, a superfície do peito parecia tão ampla como a maldita cama. Foi cuidadosa com o esparadrapo, gentil quando levantou a gaze. Bom Deus… a pele que tinha estado perfurada pelos grampos fazia só quinze minutos estava completamente curada. Tudo o que ficava era uma pequena linha rosada que descia pelo esterno.

—O que é? —balbuciou.

O paciente rodou para ela.

—Cansado.

Sem sequer pensar nisso começou a acariciá-lo novamente, o ruído da mão passando de acima para baixo pela pele fazia um pacífico som. Não passou muito tempo antes de que notasse que os ombros eram puro músculo… e que o que estava tocando era calido e muito masculino.

Levantou a palma da mão.

—Por favor —tomou o pulso com a mão sem marcas… ainda quando seus olhos continuavam fechados—, me toque ou… merda, me agarre, estou… à deriva. Como se fosse sair flutuando. Não sinto nada. Nem a cama… nem meu corpo.

   Olhou para onde a segurava, lhe mediu os bíceps e a envergadura do peito. Teve o fugaz pensamento de que poderia quebrar seu braço em dois, mas sabia que não o faria. Uma meia hora antes tinha estado preparado para rasgar a garganta de um de seus mais próximos e queridos amigos para protegê-la…

Pare.

Não se sinta segura com ele. A síndrome de Estocolmo não é seu amigo.

—Por favor —disse com uma respiração trêmula, a vergonha lhe constrangendo a voz.

Deus, nunca tinha entendido como as vitima de seqüestro desenvolviam relações com seus seqüestradores. Ia contra a lógica tanto como das leis de auto conservação. Seu inimigo não podia ser seu amigo.

Mas lhe negar afeto era inconcebível.

—Precisarei de minha mão de volta.

—Tem duas. Usa a outra. —Dizendo isto se apertou ao redor da palma que o sustentava, provocando que os lençois descessem mais por seu torso.

Tinha a pele da cor dourada escuro de um bronzeado de verão e firme… homem, era firme e flexível. Seguindo a curva da coluna subiu até a nuca, e antes de saber que estava fazendo estava acariciando o seu lustroso cabelo. Curto na parte de atrás, longo ao redor do rosto… se perguntava se o usava assim para esconder as tatuagens da têmpora. Salvo que deviam ser para ensiná-los… por que então as faria em um lugar tão visível?

O fez um ruído com a parte de atrás da garganta, um ronrono que lhe percorreu o peito e a parte superior das costas; logo se afastou, o movimento atirou de seu braço. Claramente queria que se estendesse contra ele, mas quando resistiu, deixou de insistir.

Olhando fixamente seu braço entre o apertado aperto pelos bíceps, pensou a respeito da última vez que tinha estado entrelaçada com um homem. Muito tempo. E não tinha sido muito bom, francamente.

Os escuros olhos de Manello lhe vieram à mente…

—Não pense nele.

Jane se moveu bruscamente.

—Como sabe o que há em minha mente?

O paciente soltou o aperto e lentamente se voltou de forma que ficou olhando para o outro lado.

—Perdoe-me. Não é de minha conta.

—Como soube?

—Vou tentar dormir agora, certo?

—Certo.

Jane se levantou e retornou a sua cadeira, pensando em seu coração de seis cavidades. Em seu sangue não classificável. Nessas presas sobre o pulso da loira. Deu um olhar para a janela, perguntando-se se o que cobria os vidros era apenas por segurança ou também para evitar a luz do dia.

Onde a deixava tudo isto? Encerrada em um quarto com um… vampiro?

A parte racional rechaçava a idéia como impossível, mas em seu interior era conduzida pela lógica. Sacudindo a cabeça, lembrou seu livro favorita do Sherlock Holmes, parafraseando-a: Se eliminar todas as explicações lógicas, então o impossível é a resposta. A lógica e a biologia não mentiam, não é? Era uma das razões pelas quais tinha decidido transformar-se em médica em primeiro lugar.

Olhou o paciente, perdendo-se nas implicações. A mente retrocedeu ante as possibilidades evolutivas, mas também considerou assuntos mais práticos. Pensou a respeito das drogas que havia nessa mala e no fato de que o paciente tinha estado fora em um lugar perigoso da cidade quando atiraram nele. E hei, tinham-na seqüestrado.

Como demônios podia confiar nele ou em sua palavra?

Jane pôs a mão no bolso e procurou a navalha de barbear. Perguntou-se se isso era fácil. Não podia.

Acima em seu quarto na casa grande, Phury se sentou com as costas contra a cabeceira e o edredom azul de veludo sobre as pernas. Tirou a prótese e um néscio ardia em um pesado cinzeiro de cristal perto dele. Mozart emergia dos alto-falantes ocultos da equipe estereo.

O livro de armas de fogo diante dele estava sendo usado como cavalete sobre o colo em vez de como material de leitura. Uma grossa folha de papel branco estava colocada em cima, mas desde fazia muito tempo que não riscava nada sobre ela com seu lápis nº 2. O retrato estava completo. Tinha-o acabado fazia uma hora e tratava de reunir coragem para enrrugá-lo e atirá-lo no lixo.

Embora nunca estivesse satisfeito com seus desenhos, deste quase gostava. Da profunda brancura do papel, o rosto, o pescoço e o cabelo de uma fêmea tinham sido revelados em traços de grafite. Bela estava olhando fixamente para a esquerda, com um ligeiro sorriso nos lábios e uma mecha de escuro cabelo lhe atravessando o rosto. Tinha vislumbrado a postura na última refeição dessa tarde. Ela tinha estado olhando para o Zsadist, o que explicava a secreta sublevação da boca.

Em todas as outras que a tinha desenhado, Phury sempre a riscava com seus olhos em outra parte. Se estivesse olhando para fora da página, para ele, pareceria inapropriado. Infernos, simplesmente desenhá-la era inapropriado.

Esmagou a mão sobre o rosto, preparado para enrugar o papel.

Em vez disso, no último momento pegou o néscio, desejando alguma calma artificial para seu coração que pulsava muito forte. Ultimamente estava fumando muito. Mais que nunca. E embora depender da calma química o fazia se sentir sujo, a idéia de deter-se nunca cruzou sua mente. Não podia imaginar-se suportar um dia sem ajuda.

Enquanto dava outra imersão e retinha a fumaça nos pulmões, pensou em seu contato com a heroína. O último mês de dezembro tinha evitado o salto pelo limite do precipício da heroína não devido a que tivesse feito uma boa escolha mas sim porque aconteceu a casualidade de que John Matthew escolheu o momento oportuno para interromper.

Phury exalou e olhou fixamente a ponta do néscio. A tentação de tentar com algo um pouco mais forte tinha retornado. Podia sentir a urgência de ir onde estava Rehv e pedir ao macho outra bolsinha cheia de droga. Possivelmente então obteria um pouco de paz.

Soou um golpe em sua porta e a voz do Zsadist disse:

—Posso entrar?

Phury colocou o desenho no interior do livro de armas.

—Sim.

Z entrou e não disse uma só palavra. Com as mãos nos quadris, andou de um lado para outro, adiante e atrás, aos pés da cama. Phury esperava, acendendo outro néscio e olhando o andar a seu gêmeo idêntico enquanto Z desgastava o tapete.

Não apressava o Z para que falasse mais do que tentaria forçar um peixe a se acalmar no final do anzol com um monte de falatório. O silêncio era a única ceva que funcionaria.

Finalmente o irmão se deteve.

—Está sangrando.

O coração do Phury saltou e estendeu a mão sobre a capa do livro.

—Quanto e durante quanto tempo?

—Me esteve ocultando isso, assim não o sei.

—Como soube?

—Encontrei uma coisa do Tampax guardada no fundo do armário que está junto ao lavabo.

—Possivelmente sejam velhas.

—A última vez que tirei meu barbeador elétrico, não estavam lá.

Merda.

—Então tem que ir ver Havers.

—Sua próxima consulta não é até dentro de uma semana. —Z começou a caminhar outra vez— Sei que não me está contando isso porque tem medo de que enlouqueça.

—Possivelmente o que encontrou está sendo usado por outra razão.

Z se deteve.

—OH, sei. Certo. Porque essas coisas são multifuncionais. Como os cotonetes ou alguma merda. Olhe, falaria com ela?

—O que? —Phury rapidamente deu um pulo. ─ É particular. Entre você e ela.

Z esfregou a cabeça barbeada.

—Você é melhor que eu com esta merda toda. A última coisa que precisa é que me derrube diante dela, ou pior, que grite porque estou morto de medo e não sou razoável.

Phury tratou de respirar fundo, mas logo que pôde conseguir que o ar descesse por sua traquéia. Queria tanto envolver-se. Queria ir pelo corredor de estátuas até a quarto do casal e fazer que Bela se sentasse e lhe surrupiar a história. Queria ser um herói. Mas não era seu lugar.

—Você é seu hellren. Você deve falar com ela. —Phury apagou a última meia polegada do néscio, enrolou um novo e abriu a tampa do acendedor. A pedra de pederneira fez um ruído áspero quando saltou a chama— Pode fazê-lo.

Zsadist amaldiçoou, passeando um pouco mais, então finalmente se dirigiu para a porta.

—Falar a respeito desta coisa de gravidez me lembra que se a perder, estou fodido. Sinto-me tão malditamente impotente.

Depois que seu gêmeo saísse, Phury deixou que sua cabeça caísse para trás. Enquanto fumava, olhava a ponta acesa do néscio e se perguntava ociosamente se para o enrolado à mão era como um orgasmo.

Jesus. Se perdiam a Bela, ambos ele e Z iriam cair em um poço de uma maneira da qual os machos não saíam.

Quando pensou nisso, sentiu-se culpado. Não deveria preocupar-se tanto pela fêmea de seu irmão.

Quando a ansiedade lhe fez sentir-se como se bebesse um ninho de vespas, abriu caminho fumando através da emoção até que deu uma olhada no relógio. Merda. Tinha que dar uma aula de armas de fogo em uma hora. Melhor tomar banho e tentar ficar sóbrio.

John despertou confuso, vagamente consciente de que lhe doía o rosto e de que fazia algum tipo de ruído em seu quarto.

Levantou a cabeça do caderno e esfregou a ponta do nariz. A espiral tinha deixado um desenho de marca de dentes que o fazia pensar no Warf da série do Star Trek. E o ruído era o despertador.

Três e cinqüenta da tarde. As aulas começavam às quatro.

Levantou-se da mesa, cambaleou até o banheiro e se junto ao lavabo. Quando isso pareceu muito trabalhoso, deu-se a volta e se sentou.

Deus, estava exausto. Tinha passado os últimos meses dormindo na cadeira de Tohr no escritório do centro de treinamento, mas depois que Wrath interviesse e o transferisse para à casa grande, tinha voltado para uma verdadeira cama. Qualquer um pensaria que se sentiria bem com todo esse espaço para as pernas. Em vez disso, estava destruído.

Depois de lavar-se, acendeu as luzes e pulou pelo resplendor. Maldição. Má idéia perder a escuridão, e não só porque os olhos estavam o matando. Estando sob as luzes indiretas seu pequeno corpo se via horrível, nada exceto pálida pele sobre ossos. Com uma careta, cobriu seu sexo do tamanho de um polegar com a mão para não ter que olhá-lo e apagou as luzes.

Não havia tempo para uma ducha. Um rápido escovar os dentes, uma salpicada de água sobre o rosto, e não se preocupou com o cabelo.

De volta ao quarto só queria voltar a meter-se sob os lençóis, mas se enfiou nos jeans que eram tamaño de menino e franziu a sombrancelha enquanto subia o zíper. As coisas estavam frouxas nos quadris, ficavam folgados embora estivesse tratando de comer.

Genial. Em vez de passar a transição, estava encolhendo.

Enquanto outra ronda de “O-que-vai-acontecer-se-eu-não-passar-poi-isso?”se apoderava dele, suas sobrancelhas começaram a franzir-se. Merda. Sentia-se como se houvesse um homenzinho com um martelo em cada uma de suas pálpebras, esmagando a golpes os nervos ópticos.

Pegando os livros da mesa, empurrou-os dentro da mochila e saiu. No instante em que pisou no vestíbulo pôs um braço sobre seu rosto. A visão do vestíbulo iluminado fez rugir sua cabeça de dor, e tropeçou para trás, chocando-se contra uma estátua grega. A qual o fez dar-se conta de que não havia posto a camisa.

Amaldiçoando como o inferno, voltou para o quarto, ficou ali e de algum jeito conseguiu baixar sem tropeçar em seus próprios pés. Homem, tudo a deixava nervoso. O som de seus Nike através do vestíbulo era como uma banda de ratos gritões o seguindo. O estalar da porta secreta do túnel soou forte como um tiro. A viagem através da rota subterrânea para o centro de treinamento foi interminável.

Este não ia ser um grande dia. Seu gênio já estava flamejando, e guiando-se pelo último mês ou assim, sabia que quanto mais tarde se manifestasse, mais duro seria contê-lo.

E logo que entrou na classe, soube que estava propenso a estalar.

Sentado na fila de atrás na mesa solitária que John tinha chamado sua até que se tornasse amigo dos rapazes estava… Lash.

Quem agora vinha no pacote econômico de idiota. O cara era grande e maciço, constituído como um lutador. E tinha passado através de uma transformação ao estilo G.I Joe. Antes usava ostentosa roupa de alta costura e jóias de valor da caixa forte do Jacob e CIA; agora estava vestido com calças militares negras e uma gasta camisa de nylon negro. Seu cabelo loiro, o qual tinha sido o bastante comprido para fazer um rabo-de-cavalo tinha agora um corte miliar.

Era como se toda essa pretensão tivesse sido apagada porque sabia que tinha todo o bom por dentro.

Uma coisa não tinha mudado: seus olhos eram ainda da cor cinza da pele de um tubarão e estavam focados em John… que soube sem lugar a dúvidas que se esse tipo o pegava a sós ia experimentar um mundo de dor. Poderia ter derrubdo Lash na última vez, mas isso não aconteceria outra vez, e mais que isso, John ia apanhar . A promessa de vingança estava no conjunto desses ombros grandes e o meio sorriso que tinha escrito fode-se.

John tomou assento junto ao Blay, sentindo o tipo de terror que se dava em um beco escuro.

—Hei, colega —disse seu amigo brandamente—Não se preocupe por esse bastardo, OK?

John não queria parecer tão fraco como se sentia, assim simplesmente encolheu os ombros e abriu o zíper de sua mochila. Deus, a dor de cabeça era mortal. Mas bom, a resposta voar -o-lutar no vazio e revolto estomago dificilmente séria uma dose do Excedrin.

Qhuinn se inclinou e deixou cair uma nota diante do John. Temo-os, era tudo o que dizia.

John piscou rapidamente com gratidão enquanto pegava o livro de armas e pensava sobre o que iriam ver hoje na aula. Que apropriado que fossem armas, sentia-se como se alguém lhe apertasse à parte posterior de seu crânio.

Olhou à parte traseira da sala. Como se Lash tivesse estado esperando o contato visual, o tipo se inclinou e pôs os antebraços sobre a mesa. Suas mãos se fecharam lentamente em dois punhos que pareciam tão grandes como a cabeça do John, e quando sorriu, suas novas presas se viam afiados como facas e brancas como a vida depois da morte.

Merda. John era homem morto se a transição não chegasse logo.

Vishous despertou e a primeira coisa que viu foi a sua cirurgiã na cadeira que estava do outro lado do quarto. Aparentemente, mesmo em sonhos tinha estado seguindo sua pista.

Ela também o estava olhando.

—Como esta?

Sua voz era baixa e regular. Calidez profissional, pensou.

—Estou melhor.

Embora fosse difícil imaginar-se sentindo-se pior que quando tinha estado vomitando.

—Dói alguma coisa?

—Sim, mas não me incomoda. É mais, bem um incômodo, na realidade.

Seus olhos o examinaram, mas outra vez com intenção profissional.

—Tem uma cor boa.

Não sabia que dizer daquilo. Porque quanto mais tempo se visse como uma merda, mais tempo poderia ficar com ela. Nesse momento a saúde não era seu amiga.

—Lembrou algo? —perguntou— Sobre o tiroteio.

—Realmente não.

O que era apenas uma mentira parcial. Tudo o que lembrava eram chispadas de acontecimentos, recortes parciais dos artigos em lugar das colunas completas: Lembrava o beco. Uma briga com um lesser. Uma pistola disparando. E depois disso ter terminado em sua mesa e ser evacuado do hospital por seus irmãos.

—Por que alguém quereria atirar em você? —perguntou.

—Estou faminto. Há comida por aqui?

—É traficante de drogas? Ou cafetão de putas?

Esfregou o rosto.

—Por que pensa que sou um outro?

—Atiraram em você em um beco na altura do Trade. Os paramédicos disseram que usava armas.

—Não te ocorreu que poderia ser um policial disfarçado?

—Os policiais de Caldwell não usam adagas de artes marciais. E os de sua espécie não tomariam esse caminho.

V entrecerrou os olhos.

—Os de minha espécie?

—Muita exposição, certo? Além disso, não se incomodaria muito em vigiar outra raça.

Homem, não tinha a energia para abordar a discussão de espécies com ela. Além disso, havia uma parte dele que não queria que pensasse nele como diferente.

—Comida —disse, olhando para a bandeja que estava disposta na cômoda—Posso comer algo?

Ela ficou de pé e plantou as mãos sobre os quadris. Teve a impressão de que ia dizer algo na linha de Faze-o você mesmo, bastardo miserável.

Em vez disso cruzou o quarto.

—Se tiver fome, pode comer. Não provei o que me trouxe o Rede Sox e não tem sentido jogar fora.

Franziu o cenho.

—Não pegarei a comida que se supõe é para você.

—Não vou comer isso. Ser seqüestrada matou meu apetite.

V amaldiçoou baixo, odiando a situação em que a tinha colocado.

—Sinto muito.

—Em vez de ir ao assunto da “desculpa”, o que parece se simplesmente me permite ir ?

—Ainda não.

Nem nunca, murmurou uma louca voz.

OH Cristo, não, outra vez com o...

Minha.

O artigo seguido da palavra, uma grande necessidade de marcá-la o acendeu. Queria tê-la nua e debaixo dele e cobri-la com sua essência enquanto bombeava em seu corpo. Viu-o ocorrer, viu-os pele com pele na cama, ele sobre ela com as pernas muito abertas para acomodar seus quadris e seu pênis.

Enquanto ela ia procurar a bandeja de comida sua temperatura disparou, e o que tinha entre as pernas palpitou como um filho da puta. Rapidamente amontoou as mantas em cima dele para que não se notasse nada.

Ela colocou a bandeja e levantou a chapeada tampa do prato.

—Quanto melhor tem que estar para que eu vá?

Enfocou os olhos em seu peito, uma absoluta análise médica, como se estivesse avaliando o que havia sob as ataduras.

Ah, infernos. Desejava que o olhasse como a um macho. Desejava aqueles olhos dirigindo-se a sua pele não para comprovar uma ferida cirúrgica, se não devido a que estava pensando em lhe pôr as mãos em cima e se perguntava por onde começar.

V fechou os olhos e se afastou rodando, grunhindo pela dor no peito. Disse a si mesmo que a dor era pela cirurgia. Suspeitava que era mais pela cirurgiã.

—Passarei a comida. Da próxima vez que venham pedirei algo.

—Precisa disto mais que eu. Estou preocupada com seu consumo de líquidos.

Efetivamente estava bem porque se alimentou. Com suficiente sangue os vampiros podiam sobreviver certa quantidade de dias sem alimento.

O que era estupendo. Reduzia as viagens ao banheiro.

—Quero que coma isto —disse, o olhando fixamente—Como sua médica...

—Não comerei de seu prato.

Por Deus, nenhum macho de valor roubaria a comida de sua fêmea, nem sequer se estivesse passando fome até o ponto de enjoar. As necessidades dela sempre tinham prioridade...

V se sentiu como se tivesse posto a cabeça na porta de um carro e tivesse estado dando-se portadas com ela uma dúzias de vezes. De onde demônios lhe vinha este manual de comportamento de emparelhado? Era como se alguém o tivesse carregado um novo software no cérebro.

—Certo —disse, afastando-se—Bem.

A seguinte coisa que escutou um bater. Estava esmurrando a porta.

V se incorporou.

—Que demonios está fazendo?

Butch entrou voando no quarto, quase derrubando à cirurgiã de V.

—O que está errado?

V interrompeu o drama com um:

—Nada...

A cirurgiã falou por cima de ambos, toda ela tranqüila e autoridade.

—Precisa se alimentar, e não quer comer o que há na bandeja. Lhe traga algo simples e fácil de digerir. Arroz. Frango. Água. Bolachas salgadas.

—De acordo.

Butch se inclinou de um lado e olhou para V. Houve uma longa pausa.

—Como esta?

Fodidamente mal da cabeça, obrigado.

—Bem.

Mas no fim uma coisa estava indo bem. O poli voltava para a normalidade, tinha os olhos limpos, a postura firme, seu aroma era uma combinação do aroma de oceano de Marissa e sua marca de vinculação. Obviamente tinha estado mantendo-se ocupado.

Interessante .Geralmente quando V pensava naqueles dois juntos, sentia o peito como se estivesse envolto em arame de espinheiro. Agora? Somente se alegrava de que seu amigo estivesse são.

—Parece ótimo, poli.

Butch alisou a camisa de seda de forma diplomática.

—Gucci pode transformar qualquer um em uma estrela do rock.

—Sabe ao que me refiro.

Aqueles familiares olhos de cor avelã ficaram sérios.

—Sim. Obrigado... como sempre —no incômodo momento, as palavras flutuaram no ar entre eles, havia coisas que não podiam ser ditas ante nenhuma classe de audiência—. Então... retornarei com um pouco de comida.

Quando a porta se fechou Jane olhou sobre o ombro.

—Quanto tempo faz que são amantes?

Os olhos se encontraram, e não houve escapatória à pergunta.

—Não somos.

—Está certo disso?

—Confie em mim. —Por nenhuma razão em particular olhou seu jaleco branco— Doutora Jane Whitcomb —leu— Emergência. —Teria sentido. Tinha aquela aura de confiança.

—Assim estava ruim quando cheguei?

—Sim, mas salvei seu traseiro, de verdade.

Uma quebra de onda de assombro o invadiu. Era sua rhalman, sua salvadora. Estavam vinculados...

Sim, certo. Justo nesse momento sua salvadora estava se afastando pouco a pouco dele, retrocedendo até que se chocou com a parede mais longínqua. Fechou as pálpebras, sabendo que seus olhos resplandeciam. O retraimento e o horror no rosto dela, atormentaram-no como o inferno.

—Seus olhos —disse com voz aguda.

—Não se preocupe por isso.

—Que demônios é você? —seu tom insinuava que facilmente poderia ser descrito como monstro, e Deus, acaso não tinha razão a respeito disso?

—O que é você? —repetiu.

Era tentador enfrentá-la, mas não havia forma de que o tragasse. Além disso, mentir-lhe o fazia sentir-se sujo.

Fixando o olhar nela, disse em voz baixa:

—Sabe o que sou, é bastante inteligente para adivinhar.

Houve um longo silencio. Logo:

—Não posso acreditar.

—É muito inteligente para não fazê-lo. Infernos, já mencionou a isso.

—Os vampiros não existem.

Seu gênio estalou embora ela não merecesse.

—Não? Então me explique por que esta na porra de meu maravilhoso país.

Sem respirar lhe devolveu o golpe.

—Me diga algo... Os direitos civis significam algo para os de sua raça?

—A sobrevivência significa mais —espetou— Por outro lado, fomos caçados durante gerações.

—E o fim justifica qualquer meio para vocês. Que nobre —sua voz era tão afiada como a dele — Sempre usa essa razão para seqüestrar humanos?

—Não, eu não gosto.

—OH, salvo que precisa de mim, assim me utilizará. Olhe se não sou a afortunada exceção.

Bom, merda. Esta era uma boa. Quanto mais se mostraba em seu rosto a sua agressividade, mais duro ficava seu corpo. Até em seu debilitado estado, a excitação era um exigente batimento do coração entre as coxas, e em sua mente a estava imaginando inclinada sobre a cama sem nada exceto aquele jaleco branco... e ele cravando-se nela por trás.

Talvez deveria sentir-se agradecido de que o rechaçasse. Como se precisasse enredar-se com uma fêmea...

De repente a noite do tiroteio lhe perfurou o cérebro com total nitidez. Lembrou a curta e feliz visita de sua mãe e o fabuloso presente de aniversário. O Primale. Tinha sido selecionado para ser o Primale.

V fez uma careta e se cobriu o rosto com as mãos.

—OH... merda.

Com tom reticente, perguntou:

—O que aconteceu?

—Meu fodido destino.

—OH a sério? Eu estou encerrada neste quarto. Ao menos você é livre para ir onde queira.

—E uma merda o sou.

Fez um ruído desdenhoso, e depois nenhum deles disse outra palavra até que aproximadamente meia hora depois, Butch trouxe outra bandeja. O poli teve a presença de ânimo para não dizer muito e mover-se rapidamente... e também a precaução de conservar a porta fechada todo o tempo enquanto fazia a entrega. O que era inteligente.

A cirurgiã de V estava planejando à fuga. Vigiou ao poli como se medisse um alvo e manteve a mão direita no bolso do jaleco.

Tinha algum tipo de arma ali. Maldição.

Enquanto Butch deixava a bandeja na mesinha de noite, V observou Jane atentamente, rogando como um demônio para que não fizesse nada estúpido. Quando viu que esticava o corpo e que deslocava o peso para frente, incorporou-se, preparado para arremeter porque não queria que ninguém exceto ele mesmo a tocasse. Nunca.

Entretanto, nada ocorreu. Ela captou a mudança de posição pela extremidade do olho, e a distração foi suficiente para que Butch saísse da quarto e voltasse a trancar a porta.

V se acomodou para trás contra os travesseiros e percorreu a dura linha de seu queixo.

— Tire o jaleco.

—Perdão?

—Tire isso  

—Não.

—Quero-o fora.

—Então sugiro que contenha a respiração. Não me afetará em nada, mas ao menos a asfixia te ajudará a passar o tempo.

Sua excitação palpitava. OH, merda precisava lhe ensinar que a desobediência tinha um preço, e que sessão poderia ser essa. Brigaria com dentes e unhas antes de render-se. Se é que se submetia alguma vez.

A coluna do Vishous se arqueou sozinha, girando os quadris enquanto sua ereção golpeava sob as cobertas. Jesus... Estava tão total e completamente excitado que estava a ponto de gozar.

Mas antes tinha que desarmá-la.

—Quero que me alimente.

Lhe saíram os olhos das órbitas.

—É perfeitamente capaz de...

—Me alimente. Por favor.

Enquanto se aproximava da cama era toda responsabilidade e maus modos. Desenrolou o guardanapo e...

V entrou em ação. Pegou-a pelos braços e a arrastou sobre seu corpo, o elemento surpresa a sobressaltou provocando uma rendição que estava malditamente seguro que era temporário... assim trabalhou rápido. Arrancou-lhe o jaleco, tocando-a com tanto cuidado como podia enquanto seu corpo se retorcia para liberar-se.

Merda, não podia evitá-lo, e o impulso de submetê-la-o dominou. De repente estava tocando-a não para lhe afastar as mãos do que fosse que houvesse naquele bolso, mas sim porque desejava sujeitá-la na cama e lhe fazer sentir seu poder e força. Pegou-lhe os pulsos com uma mão lhe estirando os braços sobre a cabeça, e lhe apanhou as coxas com seus quadris.

—Deixe-me ir! —mostrou os dentes e havia uma fúria iridescente nos olhos verde escuro.

Completamente excitado, arqueou-se contra ela e aspirou... somente para ficar gelado. O aroma não desprendia a sensual fragrância de uma fêmea que queria sexo. Não se sentia atraída por ele no absoluto. Estava irritada.

V a deixou ir imediatamente, rodando para afastar-se, embora se assegurou de ficar com o jaleco. No instante em que se liberou saiu disparada da cama como se o colchão se estivesse incendiando e o enfrentou. Tinha as curtas pontas do cabelo emaranhadas, a camisa torcida e uma perna da calça levantada sobre o joelho. Estava resfolegando pelo esforço e olhando fixamente o jaleco.

Quando a revistou, encontrou uma de suas afiadas navalhas.

— Não posso permitir que vá armada.

Dobrou o jaleco com cuidado e a pôs aos pés da cama, sabendo que não se aproximaria nem que lhe pagassem por isso.

—Se atacar a mim ou a algum de meus irmãos com algo como isto, poderia sair ferida.

Soltou uma maldição com um forte bufo. Então o surpreendeu.

—O que o fez suspeitar?

—Sua mão indo pegá-la enquanto Butch trazia a bandeja.

Abraçou a si mesma.

—Merda. Acreditei que tinha sido mais discreta.

—Tenho alguma experiência com armas ocultas.

Estirou-se e abriu a gaveta da mesinha de cabeceira. A navalha fez um ruído surdo quando a deixou cair em seu interior. Depois de fechá-lo, correu o ferrolho com sua mente.

Quando voltou a elevar a vista estava limpando rapidamente seus olhos. Como se estivesse chorando. Com um rápido giro, deu-lhe as costas e ficou de rosto para a parede, encolhendo os ombros. Não emitiu nem um som. Seu corpo não se moveu. Sua dignidade permanecia intacta.

Ele deslocou as pernas e pôs os pés no chão.

—Se se aproximar de mim —disse com voz rouca— encontrarei alguma forma de ferir você. Provavelmente não seja muito, mas arrancarei um pedaço seu de uma forma ou outra. Está claro? Me deixe malditamente em paz.

Ele apoiou os braços na cama e afundou a cabeça entre eles. Parecia pó enquanto escutava o inexistente som de suas lágrimas. Preferiria que o tivessem golpeado com um martelo.

Ele tinha ocasionado isto.

De repente virou sobre seus pés para ele e fez uma profunda inspiração. Exceto pelos olhos avermelhados, nunca teria adivinhado que se alterou.

—Certo. Comerá sozinho ou realmente precisa de ajuda com esse garfo e essa faca?

V piscou.

Estou apaixonado pensou enquanto a olhava. Estou tão, mas tão apaixonado.

Enquanto a aula progredia, John se sentia como o sagrado inferno que foi espancado por uma pá. Dolorido. Nauseabundo. Exausto e agitado. E lhe doía tanto a cabeça que teria jurado que o cabelo estava ardendo.

Entortando os olhos como se dentro deles houvesse milhares de pedrinhas, engoliu saliva através da garganta seca. Fazia um tempo que não anotava nada na caderneta e não estava seguro a respeito do que estava dando aula Phury. Ainda se tratava de armas de fogo?

—Ouça John? —sussurrou Blay— Esta tudo bem, cara?

John assentiu, porque isso era o que fazia quando alguém lhe fazia uma pergunta.

—Quer ir deitar?  

John negou com a cabeça, calculando que era outra resposta apropriada, e queria diversificar um pouco as coisas. Não havia razão para limitar-se à rotina de somente assentir.

Deus, que demônios lhe acontecia. Seu cérebro era como algodão de açúcar, um matagal que ocupava espaço, mas que principalmente não era nada.

Na frente da sala, Phury fechou o livro de texto com o qual estava dando aula.

—E agora vão provar algumas arma de verdade. Esta noite Zsadist estará no campo de tiro para lhes dar uma mão e eu os verei amanhã.

Conforme a conversação se passava como um impetuoso vento, John arrastou a mochila até a mesa. Ao menos não iriam fazer nenhum treinamento físico. Como estavam as coisas, tirar seu lamentável traseiro da cadeira e baixar ao campo já ia ser bastante trabalhoso.

O campo de tiro estava situado atrás do ginásio, e no caminho ali foi impossível não notar como Qhuinn e Blay o flanqueavam como se fossem guarda-costas. O ego de John odiava isso, mas seu lado prático se sentia agradecido. A cada passo do caminho pôde sentir o olhar fixo de Lash, e era como ter um cartucho de dinamite aceso no bolso traseiro.

Zsadist estava esperando junto à porta de aço do campo, e enquanto a abria lhes disse:

— Ponham-se contra a parede, senhoritas.

John seguiu os outros e apoiou as costas contra o caiado concreto. O lugar estava construído na linha de uma caixa de sapatos, todo longo e estreito, e tinha mais de uma dúzia de cabines de tiro voltadas para o exterior. Os alvos tinham a forma de cabeças e torsos e penduravam desde vias que corriam sob o teto. Do posto de comando cada uma podia ser manipulada para modificar a distância ou dar as de movimento.

Lash foi o ultimo recruta a entrar, e partiu para ao final da linha com a cabeça bem alta, como se soubesse que ia chutar traseiros com a pistola. Não olhou a nenhum aos olhos. Exceto ao John.

Zsadist fechou a porta, logo franziu o cenho e pegou o celular que tinha no quadril.

—Desculpem —foi para um canto e falou pelo Razr, logo retornou, parecendo pálido— Mudança de instrutor. Wrath vai dar as intrustuções esta noite.

Uma fração de segundo mais tarde, como se o Rei houvesse se desmaterializado para a porta, entrou Wrath.

Era ainda maior que Zsadist e vestia calça de couro negro e uma camisa negra com as mangas enroladas. Ele e Z falaram um momento, logo o Rei pegou o ombro do irmão e apertou como se estivesse oferecendo consolo.

Bela, pensou John. Tinha que ser por Bela e sua gravidez. Merda, esperava que tudo desse certo.

Wrath fechou a porta depois que Z se foi, logo se colocou à frente da classe, cruzando seus tatuados antebraços sobre o peito, estendendo sua postura. Enquanto inspecionava os onze recrutas, parecia tão inescrutável como a parede sobre a qual John estava apoiado.

—A arma desta noite é a nove milímetros com carregador automático. O término semiautomática para esta pistola é inapropriado. Para usarem uma Glock —levou a mão depois da região lombar e tirou uma letal peça de metal negro— Vocês tem que saber que a segurança destas armas está no gatilho.

Repassou as especificações da pistola e das balas enquanto dois doggen avançavam empurrando um carro do tamanho de uma maca de hospital. Com onze pistolas de, exatamente, mesma marca e modelo dispostas em cima, e perto de cada uma havia um carregador.

—Esta noite trabalharemos com postura e pontaria.

John olhou fixamente as armas. Estava disposto a apostar que ia ser um fracasso na aula de tiro, tanto como o era em qualquer outro aspecto do treinamento. A ira o atravessou, fazendo que o martirio em sua cabeça piorasse.

Só por uma vez gostaria de encontrar algo no que fora bom. Apenas. Uma. Vez.

Quando o paciente a olhou de forma estranha, Jane comprovou rapidamente suas roupas, perguntando-se se algo estava deslocado.

—O que —balbuciou enquanto dava um pisão com o pé e a perna da calça da calça deslizava para baixo.

Embora realmente não tinha que perguntar. Os tipos maus como ele normalmente não apreciavam que as mulheres chorassem, mas assumindo que esse fosse o caso, ia ter que agüentar. Qualquer uma teria problemas em sua situação. Qualquer uma.

Salvo que em vez de dizer algo sobre a debilidade das choronas em geral ou dela em particular, o vampiro pegou o prato de frango da bandeja e começou a comer.

Desgostosa com ele e com a situação inteira, voltou para sua cadeira. Perder a navalha tinha desanimado sua patente rebelião, e apesar do fato que ser uma lutadora por natureza, resignou-se a esperar. Se fossem matá-la abertamente, já o teriam feito; o assunto agora era a saída. Rezou para que alguém viesse logo. E que isso não envolvesse o diretor de uma funerária e um pote de café cheio de suas cinzas.

Enquanto o paciente pegava uma coxa, pensou ausentemente que suas mãos eram lindas.

Certo, agora estava desgostosa consigo mesma, também. Demônios, tinha-as usado para sujeitá-la e lhe tirar o jaleco como se não fosse mais que um pulso. E só porque depois o tivesse dobrado cuidadosamente não o fazia um herói.

O silenciou se prolongou, e os sons do faqueiro de prata tocando brandamente o prato lembraram os jantares horrivelmente silenciosos com seus pais.

Deus, essas refeições celebradas no carregado jantar estilo georgiano tinham sido dolorosas. Seu pai se sentou à cabeceira da mesa como um rei desaprovador, controlando a maneira em que a comida se salgava e consumia. Para o doutor William Rosdale Whitcomb, só se salgava a carne, nunca as verduras, e como essa era sua posição no assunto, todos os outros na casa tinham que seguir seu exemplo. Em teoria Jane tinha violado freqüentemente a regra do não-sal, aprendendo a mover o pulso de forma que pudesse polvilhar seu brócolis ao vapor, ou os feijões fervidos, ou a abobrinha à churrasqueira.

Sacudiu a cabeça. Depois de todo esse tempo, e estando morto, já não deveria zangar-se, porque isso era um esbanjamento de emoção. Além disso, neste momento tinha outras coisas com as quais preocupar-se, certo?

—Me pergunte —disse abruptamente o paciente.

—Sobre o que?

—Me pergunte o que quer saber. —limpou a boca, o guardanapo damasco esfregando-se contra seu cavanhaque e o indício de barba— Fará meu trabalho mais complicado no final, mas pelo menos não estaremos aqui sentados escutando o som da baixela de prata.

—Em definitivo, que trabalho tem, exatamente? —Por favor, que não seja comprar bolsas de lixo Hefty para colocar partes de meu corpo.

—Não a interessa o que sou?

—Sabe que o que digo, deixe-me ir, e farei um montão de perguntas sobre sua raça. Até então, estou ligeiramente distraída pensando em como estas pequenas e felizes férias no bom navio santa merda serão um êxito para mim.

—Dei a você minha palavra…

—Sim, sim. Mas também acaba de me maltratar. E se disser que foi para o meu próprio bem, não me faço responsável pela réplica. —Jane baixou a vista a suas unhas lisas e pressionou as cutículas. Depois de terminar com a esquerda, levantou o olhar— Assim que este “seu trabalho… vai precisar de uma pá para realizá-lo?

Os olhos do paciente baixaram a seu prato, e removeu o arroz com o garfo, reflexos de prata deslizando-se entre os grãos, penetrando-os.

—Meu trabalho… por chamá-lo assim… é me assegurar que não lembrará nada disto.

—É a segunda vez que ouço isso, e tenho que ser franca… acredito que é uma sandice. É um pouco complicado imaginar respirando e não, como dizê-lo, lembrar com calidez e comichões como fui pendurada sobre o ombro de um cara, tirada de meu hospital e recrutada como sua médica pessoal. Como imagina que vou esquecer tudo isso?

Sua brilhantes íris diamantinas se elevaram.

—Vou tirar essas lembranças de você. Apagá-las por completo. Será como se eu nunca tivesse existido e você nunca tivesse estado aqui.

Pôs os olhos em branco.

—Uh-huh, cla…

Começou arder sua cabeça, e com uma careta apoiou as pontas dos dedos contra as têmporas. Quando deixou cair as mãos, olhou a seu paciente e franziu o cenho. Que demônios? Estava comendo em seu colo, mas não da bandeja que tinha estado antes. Quem havia trazido a nova comida?

—Meu amigo com o boné dos Sox —disse o paciente enquanto limpava a boca—Lembra?

Em uma rajada ardente, tudo voltou. Rede Sox entrando, o paciente pegando a navalha, ela fazendo-se em pedaços.

—Bom… Deus —sussurrou Jane.

O paciente simplesmente continuou comendo, como se erradicar lembranças não fosse mais exótico que o frango assado que estava comendo.

—Como?

—Manipulação neuropática. Um trabalho de remendo, de fato.

—Como?

—O que quer dizer, como?

—Como encontra as lembranças? Como as diferencia? Faz…?

—Minha vontade. Seu cérebro. Isso é suficientemente específico.

Ela estreitou os olhos.

—Pergunta rápida. Esta habilidade mágica com a matéria cinza vem com uma falta total de remorso para os de sua espécie, ou é só você o que nasceu sem uma consciência?

Ele baixou o talher de prata.

—O que foi que disse?

Não se importou nada que ele se sentisse ofendido.

—Primeiro me seqüestra, e agora vai limpar minha memória, e não está nada arrependido, não é? Sou como um abajur que lhe emprestaram…

—Estou tentando proteger você —lhe espetou—Temos inimigos, doutora Whitcomb. Do tipo que se interessaria se soubesse sobre nós, que iriam atrás de você, que a levariam a um lugar oculto e a matariam… depois de um momento. Não deixarei que isso aconteça.

Jane ficou de pé.

—Escute, Príncipe Encantado, toda essa retórica sobre amparo é bom e elegante, mas não seria importante se não houvesse me trazido aqui em primeiro lugar.

Deixou cair o talher de prata na comida e ela se preparou para que começasse a gritar. Em vez disso, disse com calma:

—Olhe… se supunha que tinha que vir comigo, certo?

—OH. Sério? Assim tinha um sinal de “me agarre agora” colocado no traseiro que só você pôde ver?

Vishous pôs o prato na mesinha de cabeceira, afastando-o como se sentisse repugnância pela comida.

—Tenho visões —balbuciou.

—Visões. —Quando não disse nada mais, pensou no truque que o senhor rascunho tinha usado em sua cabeça. Se podia fazer isso… Jesus, estava falando de ver no futuro?

Jane engoliu com força.

—Essas visões, não são do tipo conto de fadas feliz, não é?

—Não.

—Merda.

Acariciou o cavanhaque, como se estivesse tentando decidir exatamente quanto lhe contar.

—Estava acostumado às ter todo o tempo, e então simplesmente se foram. Não tive uma… bom, tive uma do Butch faz um par de meses, e devido ao fato de que a segui, salvei-lhe a vida. Assim quando meus irmãos entraram no quarto do hospital eu tiveuma visão sobre você, disse-lhes que a levassem. Fala sobre consciência? Se não tivesse uma a teria deixado lá.

Jane voltou a pensar em quanto ficou agressivo com seu amigo mais próximo e querido, por ela. E o fato de que mesmo ao lhe tirar a navalha tinha sido cuidadoso. E depois estava o fato de que se aproximado contra ela, procurando consolo.

Era possível que pensasse estar fazendo o correto. Não queria dizer que o perdoasse mas… bom, era melhor que fazer um Patty Hearst[19] ,sem nenhum remorso.

Depois de um momento incômodo, disse:

—Deveria acabar a refeição.

—Já acabei.

—Não, não o fez —fez um gesto com a cabeça para o prato— Continue comendo.

—Não tenho fome.

—Não perguntei se você tinha fome. E se acredita que não apertarei seu nariz e o forçarei a comer se tiver que fazê-lo, está muito enganado.

Houve uma curta pausa e depois... Jesus... sorriu. No meio de seu cavanhaque, a boca se elevou nos cantos, e seus olhos se enrugaram.

O fôlego da Jane se deteve em sua garganta. Era tão lindo assim, pensou, com a tênue luz do abajur caindo sobre o duro queixo e o lustroso cabelo negro. Mesmo que seus longos caninos fossem um pouco estranhos, parecia mais… humano. Acessível. Desejável…

OH, não. Nada de ir por aí. Não.

Jane ignorou o fato de que estava ruborizando um pouco.

—O que aconteceu para você mostrar todos esses dentes brilhantes como pérolas? Acredita que estou brincando com relação a comida?

—Não, é só que ninguém me fala dessa maneira.

—Bom, eu o faço. Tem algum problema com isso? Pode me deixar partir. Agora, come ou o alimentarei como um bebê, e não posso imaginar seu ego tentando de recuperar-se disso.

O ligeiro sorriso ainda estava em seu rosto quando pôs o prato de volta em seu colo e comeu lentamente a comida. Quando terminou, aproximou-se e pegou o copo de água que ele tinha bebido.

Voltou-o a encher no banheiro e o levou de volta.

—Bebe mais.

Fez-o, terminando o copo inteiro. Quando o voltou a pôr na mesinha de cabeceira, centrou-se em sua boca e no que haveria de descobertas em seu interior ficou fascinada por ele.

Depois de um momento, ele curvou o lábio mostrando os dentes dianteiros. Suas presas sem dúvida brilhavam sob a luz do abajur. Brancos e afiados.

—Alongam-se, não é? —perguntou enquanto se inclinava para ele—Quando se alimenta, ficam mais compridos.

—Sim. —Fechou a boca— Ou quando estou agressivo.

—E então se encolhem quando isso acaba. Abre a boca outra vez para mim.

Quando o fez, pôs o dedo na ponta afiada de um… só para que o corpo dele se sacudisse.

—Sinto muito. —Franziu o cenho e retirou a mão—Estão doloridos por causa da intubação?

—Não. —Quando suas pálpebras se fecharam, imaginou que era porque estava cansado…

Deus, o que era essa fragrância? Aspirou-a profundamente e reconheceu a mescla de especiarias escuras que tinha cheirado na toalha do banheiro.

O sexo veio a sua mente. Do tipo que tinha quando perdia todas as inibições. Do tipo que depois, ainda o sentia durante dias.

Pare já.

—Cada oito semanas mais ou menos.—disse ele.

—Como disse? OH, essa é a freqüência com que se…

—Alimento. Depende do estresse. Também do nível de atividade.

Certo, isso matava totalmente o sexo. Em uma espantosa seqüência de cenas do Bram Stoker, imaginou seguindo e caçando humanos, deixando-os secos a dentadas em becos.

Claramente mostrou repulsão, porque sua voz se endureceu.

—É natural para nós. Não desagradável.

—Os mata? Às pessoas que caça? —preparou-se para a resposta.

—Pessoas? Mentiras sobre vampiros. Alimentamo-nos de membros do sexo oposto. De nossa raça, não da sua. E não há assassinato.

Ela elevou as sobrancelhas.

—OH.

—O mito do Drácula é um fodida merda.

Sua mente virou com perguntas.

—Como é? O que sabe?

Seus olhos se estreitaram, e depois se dirigiram do rosto a seu pescoço. Jane rapidamente colocou a mão na garganta.

—Não se preocupe —disse bruscamente— Já me alimentei. E além disso, o sangue humano não me serve. Muito fraco para que me interesse.

Certo. Bom. Ótimo.

Exceto, que demônios? Como se não fosse evolutivamente boa?

Sim, certo, estava perdendo totalmente a cabeça, e este assunto em particular não estava ajudando.

—Ah, escuta… quero checar as bandagens. Pergunto-me se as poderemos tirar por completo depois de tudo.

—Faz o que quiser.

O paciente se endireitou sobre os travesseiros, os enormes braços flexionando-se sob a suave pele. Quando os cobertores caíram de seus ombros, ela se deteve um momento. Parecia fazer-se maior à medida que recuperava a força. maior e… mais sexual.

Sua mente se separou do lugar aonde se estava dirigindo com esse pensamento e se aferrou aos assuntos médicos que ela tinha diante de si, como se fosse um bote salva-vidas. Com mãos firmes e profissionais, Jane afastou os cobertores totalmente de seu peito e tirou o esparadrapo da gaze entre seu peito. Levantou a bandagem e sacudiu a cabeça. Incrível. A única coisa danificava a pele era a cicatriz com forma de estrela que tinha estado aí antes. As marcas residuais da operação se reduziram a uma ligeira descoloração, e se extrapolasse, poderia assumir que seu interior estava igualmente bem curado.

—E isto é típico? —perguntou—Este ritmo de recuperação?

—Na Irmandade, sim.

OH, cara. Se pudesse estudar a maneira com que suas células se regeneravam, poderia ser capaz de desentranhar algum dos segredos do processo de envelhecimento em humanos.

—Esquece-o. —Apertou a mandíbula enquanto movia as pernas para o lado mais afastado da cama— Não vamos ser usados como ratos de laboratório para sua espécie. Agora, se não se importar, vou tomar um banho e fumar um cigarro. —Abriu a boca e ele a cortou— Não temos câncer, assim me economize o sermão, ok?

—Não têm câncer?Por que? Como funciona…?

—Mais tarde. Preciso de água quente e nicotina.

Ela franziu o cenho.

—Não quero que fume ao meu redor.

—Por isso o vou fazer no banheiro. Tem exaustor.

Quando se levantou e o lençol caiu de seu corpo, ela desviou o olhar. Um homem nu não era algo novo para ela, mas por alguma razão ele parecia diferente.

Bem, óbvio. Media um metro e noventa, e tinha a estrutura de uma casa.

Enquanto se dirigia de volta a sua cadeira, escutou um som de arraste, logo um golpe surdo. Levantou o olhar alarmado. O paciente estava tão instável que tinha perdido o equilíbrio, e tinha se chocado contra a parede.

—Precisa de ajuda? —Por favor diga que não. Por favor diga…

—Não.

Obrigada, Deus.

Pegou um acendedor e o que parecia um cigarro embalado à mão da mesinha de cabeceira e se moveu a tombos ao outro lado da quarto. Desde sua vantajosa posição no canto, Jane esperou e observou, preparada para agarrá-lo como um bombeiro se fosse necessário.

Sim, e bom, talvez o estava olhando por outra razão distinta a querer evitar que caísse de cabeça contra o tapete. Suas costas era incríveis, os músculos fortes mas elegantes, abrangiam seus ombros e roçavam a coluna. E seu traseiro era…

Jane cobriu os olhos e não deixou cair a mão até que a porta se fechou. depois de muitos anos na medicina e cirurgia, tinha bastante clara a parte de “Não Deverá Seduzir a Seus Pacientes” do Juramento Hipocrático.

Especialmente se o paciente em questão a tinha seqüestrado. Cristo. Realmente estava vivendo isso?

Momentos depois, Jane ouviu que atirava da cadeia, e esperou escutar o som da ducha. Quando não chegou, imaginou que provavelmente estava fumando primeiro…

A porta se abriu e o paciente saiu, balançando-se como uma bóia no oceano. segurou-se ao batente da porta com a mão enluvada, esticando o antebraço.

—Merda… estou enjoado.

Jane mudou o modo total de doutora e se aproximou apurada, deixando de lado o fato de que estava nu e tinha duas vezes seu tamanho, e que fazia dois minutos, tinha olhado seu traseiro como se estivesse à venda. Deslizou um braço por sua dura cintura e se apertou contra seu corpo, preparando o quadril para a avalanche. Quando se apoiou nela, o peso foi tremendo, uma carga que que conseguiu levar para cama.

Enquanto se estirava com uma maldição, estendeu a mão por cima dele para alcançar os cobertores, e captou uma olhada das cicatrizes que tinha entre as pernas. Dada a maneira com que se curou da operação sem uma marca, perguntou-se porquê essas tinham permanecido em seu corpo.

Vishous lhe tirou os cobertores com um rápido puxão do edredom, e o colocou em cima como uma nuvem negra. Então colocou o braço sobre os olhos, e a parte inferior de seu queixo com cavanhaque foi a única coisa viu de seu rosto

Estava envergonhado.

No silêncio entre eles estava… envergonhado.

—Quer que o lave?

Sua respiração se deteve, e como esteve calado durante muito tempo, esperou que não aceitasse. Mas então sua boca apenas se moveu.

—Faria isso?

Por um momento esteve a ponto de responder ardentemente. Salvo que então teve a sensação de que isso o incomodaria mais.

—Sim, bom, o que posso dizer, estou a caminho da santidade. É meu novo propósito na vida.

Ele sorriu ligeiramente.

—Lembra ao Bu… meu melhor amigo.

—Quer dizer Rede Sox?

—Sim, sempre tem uma resposta.

—Sabia que o engenho é um sinal de inteligência?

O paciente deixou cair o braço.

—Nunca duvidei da sua. Nem por um instante.

Jane teve que conter o fôlego. Havia tanto respeito brilhando em seus olhos, que tudo o que pôde fazer ao assumi-lo foi amaldiçoar-se. Para ela não havia nada mais atraente que um homem que gostasse das mulheres fortes.

Merda.

Estocolmo. Estocolmo. Estocolmo…

—Eu adoraria um banho —disse . Logo acrescentou—Por favor.

Jane esclareceu a garganta.

—OK. Muito bem.

Rebuscou entre a mala de fornecimentos médicos, encontrou uma vazilha grande e se dirigiu ao banheiro. Depois de encher a bacia de água quente, pegou uma toalinha, saiu e dispôs tudo na mesinha de cabeceira que estava à esquerda. Quando empapou a pequena toalha e escorreu o excesso, a água soou através do silencioso quarto.

Duvidou. Molhou de novo a toalhina. Escorreu.

Venha, vamos, abriu-lhe o peito e trabalhar nele. Podia fazer isto. Nenhum problema.

Simplesmente pense nele como o capô de um carro, nada salvo a área superficial.

—OK. —Jane estirou a mão, pô-lhe a toalha quente na parte superior do braço e o paciente estremeceu. Por todo o corpo— Muito quente?

—Não.

—Então por que a careta?

—Nada.

Em diferentes circunstâncias, Jane o teria pressionado, mas nesse momento tinha seus próprios problemas. Seus bíceps era condenadamente impressionantes, a pele bronzeada revelava as mesmas cordas do músculo. O mesmo acontecia com os fortes ombros e descia pelo seu peito. Estava em uma condição física sublime, sem um grama de gordura no corpo, magro como um puro sangue, musculoso como um leão.

Quando passou pelos músculos de seu peito, deteve-se na cicatriz do lado esquerdo. A marca circular estava incrustada na carne, como se tivesse sido esmagada ali.

—Por que não curou adequadamente? —perguntou.

—Sal. —Vishous se moveu nervosamente como se a animasse a continuar com o banho—Fecha a ferida.

—Então foi deliberado?

—Sim.

Molhou a toalha na água, espremeu-a e torpemente se inclinou sobre ele para alcançar o outro braço. Quando deslizou o pano para baixo, afastou-se.

—Não a quero ver perto dessa mão. Nem que esteja usando uma luva.

—Por que…

—Não vou falar sobre isso. Assim nem sequer pergunte.

Ceeeeeerto.

—Quase matou uma de minhas enfermeiras, sabe.

—Não me surpreende —fulminou com o olhar a luva—Ccortaria isso se tivesse a oportunidade.

—Não o aconselharia a fazer isso.

—Claro que não o faria. Não sabe o que é viver com este pesadelo no final de seu braço…

—Não, quero dizer que faria que outro cortasse a mão, se fosse você. É mais provável que conseguisse dessa maneira.

Houve um curto silêncio; então o paciente soltou uma risada.

—Pronta.

Jane ocultou o sorriso que apareceu em seu rosto fazendo outro vez o ritual de molhar/escorrer.

—Simplesmente estou dando uma opinião médica.

Quando deslizou a toalhinha por seu estômago, a risada percorreu o peito e estômago de Vishous, seus músculos ficaram rígidos como rochas, logo depois relaxaram. Através do tecido pôde sentir a calidez de seu corpo e sentir a potência de seu sangue.

E de repente já não estava rindo. Jane escutou o que pareceu um vaio saindo de sua boca, seu tablete de chocolate se flexionou, e a parte inferior de seu corpo se moveu sob o edredom.

—Essa ferida de faca o está incomodando? —perguntou.

Quando emitiu um som que pareceu pouco convincente Sim, sentia-se mal. Tinha estado tão preocupada com o torso, que não tinha prestado muita atenção ao assunto da punhalada. Levantando a vendagem do flanco, viu que estava completamente curado, sem nada salvo uma tênue linha facada que mostrava onde tinha sido ferido.

—Eu vou tirar isto. —Soltou a gaze branca, dobrou-a na metade e a atirou no cesto de papéis— É incrível, sabe? A cura que você pode ter é simplesmente… incrível.

Enquanto voltava a encharcar a toalhinha, debateu se quereria ir mais para o sul. Mais ao sul. Como… tudo para o sul. A última coisa que precisava era mais conhecimento íntimo sobre quão perfeito era seu corpo, mas queria terminar o trabalho… embora só fosse para probar a si mesma que ele não era diferente de nenhum de seus outros pacientes.

Podia fazer isto.

Salvo que quando foi descer os cobertores, ele pegou o edredom e o manteve em seu lugar.

—Não acredito que queira ir adiante.

—Não é nada que não tenha visto antes. —Quando fechou as pálpebras e não respondeu, disse com voz suave —Operei você, por isso sou muito consciente de que foi parcialmente castrado. Não sou um encontro, sou médica. Prometo a você que não tenho nenhuma opinião sobre seu corpo, salvo o que representa clinicamente para mim.

Ele fez uma careta antes de poder esconder a reação.

—Nenhuma opinião?

—Simplesmente deixa que o lave. Não é para tanto.

—Bem. —Esse olhar diamantino se entrecerrou— Faz o que queira.

Ela afastou os lençóis para um lado.

—Não há nada pelo que…

Merda…! O paciente estava completamente ereto. Tremendamente ereto. Jazendo diretamente sobre a parte inferior de seu ventre, estirando-se do meio das pernas até mais acima do umbigo, era uma ereção espetacular.

—Não é para tanto, Lembra? —disse Vishous arrastando a voz.

—Ah… —ela esclareceu a garganta— Bem… simplesmente vou continuar.

—Por mim, tudo bem.

O problema era que não podia lembrar exatamente o que tinha que fazer com a toalhinha. E estava olhando. Realmente olhando.

Que era que fazia uma mulher quando tinha à vista um homem tão dotado como um Louisville Slugger.[20]

OH, Deus, realmente acabava de pensar isso?

—Como já viu o que me fizeram —disse Vishous com voz lacônica— só posso imaginar que está checando meu umbigo em busca de pêlos.

Sim. Claro.

Jane voltou para a rotina, passando o pano por suas costelas.

—Então, como aconteceu?

Como não respondeu, levantou o olhar para seu rosto. Seus olhos estavam focados no outro lado do quarto, e estavam apagados, sem vida. Tinha visto esse olhar antes, em pacientes que tinham sido atacados, e soube que estava lembrando o horror.

—Michael —murmurou— Quem fez mal a você?

Ele franziu o cenho.

—Michael?

—Não é seu nome? —voltou a pôr a toalhinhaa na bacia—Por que não me surpreende?

—V.

—Perdão?

—me chame de V. Por favor.

Voltou a passar o pano pelo seu flanco.

—V, então.

Jane inclinou a cabeça e observou sua mão subir pelo torso masculino, e logo voltar a baixar. Ficou presa, sem descer mais. Porque apesar da distração dele por seu desagradável passado, ainda estava ereto. Totalmente ereto.

Bem, momento de mover-se para baixo. Hei, era uma adulta. Uma médica. Tinha tido dois de amantes. O que estava presenciando era simplesmente uma função biológica que tinha como resultado uma concentração de sangue em seu incrivelmente longo…

Isso não era o lugar para onde tinham que se dirigir seus pensamentos.

Quando Jane baixou a toalha por seu quadril, tentou ignorar o fato de que se movia enquanto o percorria, as costas se arqueavam, essa pesada ereção em seu ventre empurrava para frente, e logo voltava a colocar-se em seu lugar.

Da ponta surgiu uma gota brilhante e tentadora.

Levantou a vista para olhá-lo e… se congelou. Os olhos de Vishous estavam em seu pescoço, e ardiam com uma luxúria que não era só sexual.

Qualquer atração que pudesse sentir por ele desapareceu. Era um macho de outra espécie, não um homem. E era perigoso.

Seu olhar baixou ao pano nas mãos da Jane.

—Não a morderei.

—Bem, porque não quero que o faça. —Isso deixava tudo claro. Demônios, alegrava-se de que a tivesse cuidado dessa forma, porque a havia devolvido de repente à realidade— Escuta, não é que queira saber disso pessoalmente, mas dói?

—Não sei. Nunca me morderam.

—Acreditei que disse…

—Alimento-me de fêmeas. Mas nunca ninguém bebeu que mim.

—Por que? —quando fechou a boca com força, ela encolheu de ombros—Bem poderia me dizer isso. Não vou lembrar nada, não é? Assim, o que custaria falar?

Quando o silêncio se estendeu, perdeu a coragem com sua região pélvica e decidiu começar a percorrê-lo pelos pés. No extremo da cama, passou a toalha pela plantas de seus pés, logo pelos dedos, e ele saltou um pouco, como se tivesse cócegas. Moveu para os seus tornozelos.

—Meu pai não queria que me reproduzisse. —disse o paciente abruptamente.

Os olhos dela o olharam de repente.

—O que?

Levantou a mão enluvada, e logo tocou com o dedo a têmpora que tinha as tatuagens.

—Não estou bem. Já sabe, normal. Assim meu pai tentou me arrumar como um cão. É obvio, também estava a feliz correlação de que também era um condenado castigo. —Quando ela soltou ar em um suspiro compassivo, apontou-a com o dedo indicador— Se me mostrar um pouco de compaixão, vou pensar duas vezes sobre a promessa de não morder você que acabo de fazer.

—Nada de compaixão, prometo. —mentiu brandamente— Mas o que isso tem que ver com os bebês de…?

—Simplesmente eu não gosto de compartilhar.

A si mesmo, pensou. Com ninguém… exceto talvez com Rede Sox.

Subiu gentilmente a toalha até sua tíbia.

—Por que foi castigado?

—Posso chamar você de Jane?

—Sim. —Voltou a umedecer a toalhinha e a deslizou por sua pantorrilha. Quando voltou a ficar silencioso, Jane deixou que tivesse privacidade. No momento.

Sob sua mão, o joelho dele se flexionou, a coxa que estava em cima se contraiu e se soltou em um movimento sensual. Seus olhos olharam rapidamente a ereção, e Jane engoliu com força.

—Então seu sistema reprodutivo funciona como o nosso? —perguntou.

—Sim, de maneira muito parecida.

—Teve amantes humanas?

—Não vou aos humanos.

Ela sorriu torpemente.

—Não perguntarei o que está pensando agora, então.

—Bem. Não acredito que se sinta cômoda com a resposta.

Pensou na maneira com que tinha cuidado do Rede Sox.

—É gay?

Seus olhos se estreitaram.

—Por que pergunta?

—Parece bastante apegado a seu amigo, o tipo de boné de beisebol.

—Conhece-o, não é verdade? De antes.

—Sim, me é familiar, mas não sei de onde o conheço.

—Incomodaria-se?

Percorreu com a toalha sua coxa até chegar à junta de seus quadris, e logo a bordeou.

—Que fosse gay? Em nada.

—Porque a faria se sentir mais segura, não é verdade?

—E porque não tenho preconceitos. Como médica, compreendo bastante bem que sem importar nossas preferências, todos somos iguais por dentro.

Bom, pelo menos os humanos. Jane se sentou no limite da cama e voltou a pôr a mão na sua perna. Quando foi se aproximando de sua ereção, Vishous conteve o fôlego e sua longa longitude se moveu. Enquanto seus quadris giravam, ela levantou a vista, mordeu seu lábio inferior, e as presas se cravavam na suave carne.

OK, isso era realmente…

Em nada assunto dela. Mas homem, nesse momento devia estar tendo uma ardente fantasia sobre Rede Sox.

Dizendo a si mesma que isto era uma situação normal de banho com esponja, e sem acreditár na mentira nem por um instante, levou a mão a seu abdômen, passando pela torcida cabeça e descendo pelo outro lado. Quando a ponta da toalhinha roçou seu sexo, Vishous vaiou.

Que Deus a ajudasse, fez outra vez, subindo lentamente e girando ao redor, e deixando que a ereção fosse acariciada ligeiramente.

As mãos de Vishous se apertaram contra os lençóis, e com um tom áspero disse:

—Se seguir com isso, vai descobrir o muito que tenho em comum com um homem humano.

Santo Cristo, queria vê-lo… Não, não o fazia.

Sim, queria.

Sua voz se fez mais profunda.

—Quer que tenha um orgasmo?

Ela se esclareceu a garganta.

—É obvio que não. Isso seria…

—Inapropriado? Quem vai saber? Só estamos você e eu aqui. E sinceramente, viria-me bem um pouco de prazer agora.

Jane fechou os olhos. Sabia que para ele nada disto era por ela. Além disso, não é como se fosse saltar na cama para aproveitar-se dele. Mas realmente queria saber se parecia quando…

—Jane? Olhe para mim. —Como se controlasse seus olhos, este se levantaram lentamente para encontrar os dele — Não meu rosto, Jane. Vai olhar minha mão. Agora.

Asentiu, porque não lhe ocorreu não fazê-lo. E logo que o fez, a mão enluvada soltou seu forte aperto sobre os lençóis e envolveu a grossa ereção. Em uma rajada, o paciente expulsou todo o ar, e moveu a mão de cima a baixo por seu membro, o couro negro em contraste com o profundo rosa de seu sexo.

OH… meu Deus.

—Quer fazer isto, não é? —disse com rudeza— Não porque me deseje. Mas sim porque se pergunta como se sentirá, e o aspecto que terei quando gozar.

Quando continuou as carícias, ela se aturdiu por completo.

—Não é, Jane? —sua respiração começou a acelerar— Quer saber o que sinto. Que tipo de ruídos faço. Como cheiro.

Não estava assentindo com a cabeça, não? Merda. Estava-o fazendo.

—Me dê sua mão, Jane. Deixe que a coloque sobre mim. Embora seja apenas por curiosidade clínica, quero que me faça gozar.

—Pensei… pensei que você não gostava dos humanos.

—Eu não gosto.

—E o que acredita que sou eu então?

—Quero sua mão, Jane. Agora.

Não gostava que ninguém lhe dissesse o que fazer. Homens, mulheres, não importava. Mas quando era uma ordem como essa com voz rouca, que saía de um animal magnífico como ele… especialmente enquanto estava estirado diante dela, completamente ereto… estava condenadamente perto de ser impossível de negar.

Mais tarde se ofenderia por essa ordem. Mas agora a seguiria.

Jane pôs a toalhinha na bacia e não podia acreditar que estivesse estendendo a mão para ele. Vishous tomou o que oferecia, tomou o que tinha exigido que lhe desse, e a levou a sua boca. Em um lento e saboroso movimento, lambeu o centro de sua palma, a língua uma cálida e úmida passada. Depois tomou a carne feminina e a pôs sobre sua ereção.

Ambos ofegaram. Estava duro como uma rocha, e quente como uma fogueira, e era mais largo que seu pulso. Enquanto se sacudia dentro de seu punho, uma parte da Jane se perguntou que demônios estava fazendo, e a outra, a parte sexual, voltou para a vida. O que lhe provocou pânico. Esmagou esses sentimentos, usando o afastamento que tinha aperfeiçoado anos atrás antes de exercer a medicina… e manteve a mão direita onde estava.

Acariciou-o, sentindo a fina e suave pele movendo-se por cima do rígido centro. A boca masculina se abriu enquanto ondulava na cama, e seu corpo arqueado deu a seus olhos um incrível repasse. Merda… V era puro sexo, totalmente, sem inibições ou desconfortos, nada salvo um orgasmo como uma tormenta crescente.

Jane baixou a vista aonde o estava tocando. Sua mão enluvada era tão condenadamente erótica jazendo justo debaixo de onde ela o tocava, os dedos roçando ligeiramente a base e cobrindo as zonas de pele com cicatrizes.

—Como me sente, Jane? —disse com voz rouca— Me sente diferente de um homem?

Sim. Melhor.

—Não. É igual. —Seus olhos se desviaram às presas que se cravavam no lábio inferior. Seus dentes pareciam haver-se alongodo, e teve o pressentimento de que sexo e alimentação eram unidos— Bom, não tem o mesmo aspecto que eles, é obvio.

Algo piscou no rosto dele, uma espécie de sombra, e deslizou a mão mais abaixo entre suas pernas. No início Jane assumiu que estava esfregando o que estava mais abaixo, mas se deu conta de que estava se cobrindo ante seus olhos.

Uma faísca de dor lhe percorreu o peito como um fósforo aceso, mas então gemeu profundamente em sua garganta e sua cabeça bateu para trás, o cabelo negro azulado roçou o travesseiro negro. Quando seus quadris se flexionaram para cima, os músculos do estômago se apertaram em uma rajada seqüencial, as tatuagens de seu sexo se estiraram e voltaram para sua posição.

—Mais rápido, Jane. Agora vai fazer mais rápido para mim.

Uma de suas pernas se elevou e suas costelas começaram a bombear com força. Em sua pele lustrosa e fluída, começou a brilhar uma capa de suor sob a tênue luz do abajur. V estava se aproximando… e quanto mais o fazia, mais se dava conta de que estava fazendo isto porque queria. A curiosidade clínica era uma mentira. Fascinava-a de diferentes maneiras.

Continuou acariciando-o com força, centrando a fricção na grossa cabeça.

—Não pare… de foder… —arrastou a palavra, os ombros e o pescoço tensos, o peito apertando-se enquanto começava os afiados movimentos.

De repente, seus olhos se abriram totalmente e resplandeceram brilhantes como estrelas.

Então mostrou umas das presas que se alongoram por completo e gritou sua liberação. Enquanto gozava, olhou o pescoço feminino, e o orgasmo se prolongou até que se perguntou se tinha tido dois. Ou mais. Deus… era espetacular, e em meio de seu prazer, essa gloriosa fragrância de especiarias escuras encheu o quarto até que ela a respirou, em vez do ar.

Quando ficou quieto, soltou-o, e usou a toalha de mão para lhe limpar o ventre e o torso. Não se demorou nele. Em lugar disso ficou de pé e desejou poder ter um pouco de tempo para si mesma.

Olhou-a através de pálpebras quase fechadas.

—Vê —disse com voz áspera— iguais.

Absolutamente.

—Sim.

Vishous pôs o edredom sobre seus quadris e fechou os olhos.

—Usa o banheiro se quiser.

Com um movimento rápido e descoordenado, Jane levou a bacia e a toalhinha ao banheiro. Apoiando as mãos contra o lavabo, pensou que talvez a água quente e algo mais que esfregar as costas lhe esclareceriam a cabeça… porque agora mesmo tudo o que podia ver era o aspecto que V tinha enquanto gozava sobre sua mão e sobre si mesmo.

Afligita, voltou para o quarto, pegou algumas de suas coisas da mala menor e se lembrou que esta situação não era real, não era parte de sua realidade. Era um contratempo, um enredo no fio de sua vida, como se seu destino tivesse uma gripe.

Isto não era real.

Depois de terminar com a aula, Phury voltou para seu quarto e trocou as roupas com as quais dava aulas, por uma camisa negra de seda e calça de cachemira cor nata, por seus objetos de combate de couro. Tecnicamente se supunha que tivesse a noite livre, mas com V de cama, precisavam de uma equipe extra de mãos.

O que estava bom para ele. Melhor estar nas ruas caçando que ver-se envolto no assunto de Z e Bela e a gravidez.

Atou a pistolera ao torso, colocou duas adagas com o cabo para baixo, e colocou uma SIG Sauer de cada lado do quadril. No camino para à porta colocou o casaco de couro e apalpou o bolso interno, assegurando-se de ter um par de néscios e um acendedor consigo.

Quando chegou a passo rápido a enorme escada, rezou para que ninguém o visse… e foi descoberto antes de conseguir sair de casa. Bela disse seu nome quando entrou no vestíbulo, e o som de seus sapatos cruzando o chão de mosaico do saguão significava que tinha que deter-se.

—Não esteve na primeira refeição—disse.

—Estava dando aula. —Olhou-a por cima do ombro e se sentiu aliviado ao ver que tinha bom aspecto, seu colorido limpo, os olhos claros.

—Comeu algo?

—Sim —disse, mentindo.

—OK… bom… não deveria esperar o Rhage?

—Encontraremo-nos mais tarde.

—Phury, está tudo bem?

Disse a si mesmo que não era sua tarefa dizer nada. Já tinha fechado essa porta na conversa com Z. Isto não era em nada seu…

Como sempre com ela, não tinha autocontrole.

—Acredito que tem que falar com Z.

Ela inclinou a cabeça para um lado, o cabelo caindo mais abaixo do ombro. Deus, era encantador. Muito escuro, mas não negro. Lembrava o elegante mogno cuidadosamente envernizado, brilhando com vermelhos e profundos marrons.

—Sobre o que?

Merda, não deveria estar fazendo isso.

—Se está ocultando algo de Z, o que seja… tem que dizer a ele.

Ela entrecerrou os olhos, logo deslizou para um lado, mudou sua postura, o peso passando de um pé para o outro, os braços cruzados sobre o peito.

—Eu… ah, não perguntarei como sabe, mas posso supor que é porque ele o faz. OH… maldição. Ia falar com ele depois de ver o Havers esta noite. Pedi uma consulta.

—O que está errado? A perda de sangue?

—Não é muito ruim. Por isso não ia dizer nada a ele até ver o Havers. Deus, Phury, já conhece Z. Já está condenadamente nervoso por mim, tão preocupado que me aterroriza que se distraia no campo de batalha e saia ferido.

—Sei, mas olhe, é pior agora, porque não sabe o que está acontecendo. Fale com ele. Tem que fazê-lo. Será forte. Por você, será forte.

—Estava zangado?

—Talvez um pouco. Mas mais que isso, está simplesmente preocupado. Não é estúpido. Sabe porquê não quer dizer a ele que algo está errado. Olhe, leve-o com você esta noite, OK? Deixa que esteja lá.

Os olhos dela começaram a umedecer-se.

—Tem razão. Sei que tem razão. É só que quero protegê-lo.

—Que é exatamente o que ele sente por você. Leve-o com você.

No silêncio que se seguiu, soube que a indecisão nos olhos de Bela tinha que ser confrontada por ela mesma. Ele já feito sua parte.

—Que esteja bem, Bela.

Enquanto dava a volta, ela pegou sua mão.

—Obrigada. Por não estar zangado comigo.

Durante um momento Phury fingiu que era seu bebê que estava dentro dela, e que podia aproximá-la dele, e ir com ela ao médico, e segurá-la depois.

Com gentileza Phury tomou o pulso e a separou dele, e sua mão se deslizou por sua pele com um suave roçar que o espetou como uma agulha.

—É a amada de meu gêmeo. Nunca poderia estar zangado com você.

Enquanto atravessava o vestíbulo e saía pela noite fria e ventosa, pensou quão certo era que nunca poderia se zangar com ela. Consigo mesmo, por outro lado? Sem nenhum problema.

Desmaterializou-se ao centro da cidade, soube que estava se dirigindo a uma colisão de algum tipo. Não sabia onde estava o muro ou do que parecia, ou se ia conduzir direto a ele, ou ser arrojado por alguém ou algo.

Mas o muro o estava esperando na amarga escuridão. E uma parte dele se perguntou se não teria um “I”de inferno, grande e grossa desenhada nele.

V observou Jane entrar em seu banheiro. Quando se virou para deixar a muda de roupa no aparador, o perfil de seu corpo era uma elegante curva em S na qual precisava pôr as mãos. A boca. Colocar o corpo.

A porta se fechou e a ducha começou, e ele amaldiçoou. Deus… sua mão o havia feito se sentir tão bem, levando-o mais alto que qualquer sexo total praticado recentemente. Mas tinha sido unilateral. Não tinha havido aroma de excitação nela absolutamente. Para ela tinha sido uma função biológica a explorar. Nada mais.

Se fosse honesto consigo mesmo, tinha pensado que talvez o ver ter um orgasmo a excitaria… o que era uma loucura, dado o que havia na parte debaixo de sua cintura. Ninguém em seu são julgamento perfeito pensaria, Ah, sim, olhe a maravilha de um só testículo.Um.

Que era pelo que sempre deixava as calças postas quando tinha sexo.

Enquanto escutava correr a água da ducha, sua excitação se abrandou e suas presas se retraíram de volta em sua mandíbula. Era lindo, quando o tinha estado tocando, surpreendeu a si mesmo. Tinha querido mordê-la… não alimentar-se porque tivesse fome, mas sim porque queria seu sabor na boca e lhe deixar a marca de seus dentes no pescoço. O que não era, fodidamente, típico nele. Normalmente mordia fêmeas só porque tinha que fazê-lo, e quando o fazia, nunca gostava especialmente.

Com ela? Não podia esperar para perfurar uma veia e chupar o que atravessava seu coração para que baixasse diretamente para seu próprio estômago.

Quando a ducha parou, tudo o que podia pensar era em estar nesse banheiro com ela. Podia imaginar-lhe toda nua, molhada e rosada pelo calor. Homem, queria saber que aspecto tinha a parte de atrás de seu pescoço. E o lance de pele entre suas omoplatas. E o espaço na base de suas costas. Queria percorrê-la com a boca da clavícula ao umbigo… e depois meter-se entre suas coxas.

Merda, estava ficando duro de novo. E isso era, condenadamente, bastante inútil. Tinha satisfeito a curiosidade para seu corpo, assim não estaria disposta a ter compaixão dele e aliviá-lo de novo. E mesmo se se sentisse atraída por ele, já tinha a alguém, não? Com um grunhido desagradável imaginou a esse doutor de cabelo escuro que a estava esperando na vida real. O tipo era de sua classe e sem dúvida também absolutamente masculino.

A mera idéia desse bastardo a tratando com atenção conveniente, não simplesmente durante o dia a não ser entre os lençóis a noite, fez com que lhe ardesse o peito.

Merda.

V colocou o braço sobre os olhos e se perguntou exatamente quando tinha sofrido um transplante de personalidade. Teoricamente Jane lhe tinha operado o coração, não a cabeça, mas não tinha estado bem desde que tinha estado em sua mesa. O problema era, que simplesmente não podia evitar querer que o visse como um companheiro… embora isso fosse impossível por um sem-fim de motivos. Era um vampiro que era um inseto estranho… e ia se transformar no Primale em questão de dias.

Pensou no que lhe esperava do Outro Lado, e mesmo não querendo remontar ao passado, não pôde deter-se. Retornou ao que lhe tinham feito, lembrando o que tinha posto as coisas em marcha para o mau trato que o tinha deixado como meio macho.

Foi possivelmente uma semana depois que seu pai queimasse os livros que Vishous foi pilhado saindo de trás da divisão que escondia as pinturas rupestres. Sua perdição foi o diário do guerreiro Darius. Tinha evitado sua preciosa posse durante dias e dias, mas finalmente se rendeu. Suas mãos tinham desejado o peso da encadernação, seus olhos a vista das palavras, sua mente as imagens que lhe dava, seu coração a conexão que sentia com o escritor.

Estava muito só para resistir.

Foi uma puta da cozinha que o viu, e os dois congelaram quando o fez. Não sabia seu nome, mas tinha o mesmo rosto que todas as fêmeas apresentavam no acampamento: olhos duros, pele enrugada, e um talho por boca. Havia marcas de mordidas cobrindo seu pescoço, dos machos que se alimentavam dela, e sua roupa estava suja e desfiada na prega. Em uma mão usava uma rústica pá, e atrás dela arrastava um carrinho de mão com uma roda rota. Obviamente tinha tirado o palito curto e tinha sido obrigada a atender os fossas particulares.

Seus olhos desceram para a mão de V como se medisse uma arma.

V fez deliberadamente um punho com a coisa.

—Seria uma lástima que dissesse algo, não é verdade?

Ela empalideceu e escapuliu, deixando cair a pá ao correr.

As notícias do que tinha acontecido entre ele e o outro pretrans tinham percorrido todo o acampamento, e se isso fez com que o temessem, tudo tinha sido para o bem. Para proteger seu único livro não estava por cima de ameaçar a ninguém, mesmo a fêmeas, e não se envergonhava disso. A lei de seu pai sustentava que ninguém estava a salvo no acampamento. V estava bastante seguro que essa fêmea utilizaria o que tinha visto em seu próprio benefício se pudesse. Assim eram as coisas.

Vishous deixou a cova através de um dos túneis que tinham sido escavados na montanha, e emergiu em um matagal de sarças. O inverno os estava alcançando rapidamente, o frio fazia o ar tão denso como os ossos. Acima mais adiante, escutou a rápida corrente de água e quis beber, mas permaneceu escondido enquanto subia pela costa coberta de pinheiros. Sempre se afastava da água durante um lance depois de sair, não simplesmente porque era o que o tinham ensinado a fazer sob pena de castigo, mas sim porque em seu estado de pretrans não era oponente para o que possivelmente caísse sobre ele, fosse vampiro, humano, ou animal.

No início de cada noite, os pretrans tentavam encher seus ventres vazios na corrente, e seus ouvidos recolheram os sons dos outros pretrans que estavam pescando. Os meninos se congregaram na parte funda do arroio, onde a água formava uma profunda poça a um lado. V os evitou, escolhendo um lugar mais afastado rio acima.

De uma bolsa de couro tirou com supremo cuidado um longo fio que tinha um primitivo anzol e um peso brilhante de prata ao final. Lançou seu exíguo arranjo na rápida correnteza e sentiu a corda esticar-se. Quando se sentou em uma pedra, enroscou a corda ao redor de uma parte de madeira e sustentou a coisa entre suas mãos.

A espera o trazia sem cuidado, não era uma carga nem um prazer, e quando ouviu uma discussão rio abaixo, não mostrou interesse. As brigas também eram habituais no acampamento, e sabia sobre o que tratava a briga entre os outros pretrans. Simplesmente porque tirasse um peixe da água não significava que pudesse ficar com ele.

Estava olhando fixamente a rápida corrente quando a mais estranha sensação lhe percorreu a parte de atrás do pescoço, como se o houvessem batido na nuca com os dedos.

Levantou-se, deixando cair a linha ao chão, mas não havia ninguém atrás dele. Cheirou o ar, revisou as árvores com o olhar. Nada.

Quando se agachou para recuperar o linha, o pau saltou pelo ar longe de seu alcance e do banco, um peixe tinha mordido a ceva. V se lançou para ele, mas só pôde ver como a rudimentar manga saltava na corrente. Equilibrando-se, correu atrás dele, saltando de rocha em rocha, rastreando-o cada vez mais longe rio abaixo.

Depois do qual se encontrou com outro.

O pretrans que tinha golpeado com o livro subia pelo rio com uma truta na mão, uma que, dada sua satisfação , estava seguro que tinha roubado de outro. Quando viu V se deteve, o pau com o linha com a pesca de V presa passou a seu lado. Com um grito de triunfo, guardou o peixe que se agitava no bolso e foi depois do que era de V… ainda que isso o levasse em direção a seus perseguidores.

Talvez devido à reputação de V, os outros meninos se afastaram de seu caminho quando perseguiu o pretrans, e o grupo abandonou a perseguição e se converteu em espectador ao meio galope.

O pretrans era mais rápido que V, movia-se descuidadamente de pedra em pedra, enquanto que V era mais cuidadoso. Revestidas de couro suas toscas botas estavam molhadas, e o musgo que crescia na parte de atrás das rochas estava escorregadio como gordura de porco. Embora sua presa estivesse lhe tirando vantagem, V se conteve para assegurar seus passos.

Justo onde a corrente se alongova formando a poça em que tinham estado pescando os outros, o pretrans saltou à rosto plaina de uma rocha e conseguiu dar alcance ao peixe enganchado de V. Salvo que quando se estirou para pagar o pau, seu equilíbrio falhou… e seu pé escorreu debaixo dele.

Com a queda lenta e elegante de uma pluma, caiu de cabeça na rápida corrente. O rangido de sua têmpora contra a rocha que estava umas polegadas por baixo da superfície foi tão forte como uma tocha golpeando madeira nobre, e enquanto seu corpo ficava murcho, o pau e a linha continuaram seu caminho rio abaixo.

Quando V chegou até o menino, lembrou a visão que tinha tido. Claramente tinha estado equivocado. O pretrans não morria no topo de uma montanha com o sol sobre o rosto e o vento em seu cabelo. Morriam aqui e agora, nos braços do rio.

Foi um pequeno alívio.

Vishous observou como a corrente arrastou o corpo à escura e tranqüila poça. Antes de afundar-se sob a superfície, deu-se a volta, ficando de barriga para cima.

Enquanto as borbulhas atravessavam os imóveis lábios e subiam à superfície para captar a luz da lua, V se maravilhou com a morte. Tudo ficava tão calmo depois que chegava. Qualquer chiado ou grito ou ação que causava a liberação da alma para o Fade, o que seguia era como a densa calma da neve caindo.

Sem pensar, estendeu a mão direita e a meteu na água gelada.

De repente um resplendor se difundiu pela poça, emanando de sua palma… e o rosto do pretrans ficou iluminado tão certeiramente como se o sol brilhasse sobre ele. V ofegou. Era a visão feita realidade, exatamente como o tinha previsto: a neblina que tinha turvado a claridade era de fato a água, e o cabelo do menino ondeado daqui para lá não era pelo vento, mas sim pelas profundas correntes da poça.

—O que lhe está fazendo na água? —disse uma voz.

V levantou a vista. Os outros meninos estavam alinhados na curvada ribeira do rio, o olhando.

V tirou a mão da água de um puxão e a colocou atrás de suas costas para que ninguém a visse. Quando a retirou, o resplendor na poça diminuiu, e o pretrans morto ficou nas negras profundidades como se tivesse sido enterrado.

V ficou de pé e olhou fixamente aos que agora sabia que não só eram seus competidores pelo escasso alimento e comodidades, mas também seus inimigos. A coesão entre os meninos reunidos que permaneciam ombro com ombro lhe disse que, sem importar quão beligerantes fossem dentro da seca matriz do acampamento, estavam vinculados como se fossem uma mente.

Ele era um paria.

V piscou e pensou no que tinha vindo depois. Engraçado, o giro que previa no caminho nunca era o que tinha o gelo negro. Tinha assumido que os outros pretrans o jogariam do acampamento, que um por um passariam a mudança e depois se confabulariam contra ele. Mas o destino gostava de surpresas, certo?

Rodou sobre seu flanco e decidiu resolutamente dormir um pouco. Exceto que quando a porta do banheiro se abriu, teve que abrir uma pálpebra. Jane tinha posto uma camisa branca e uma folgada calça negra de ioga. Seu rosto estava ruborizado pelo calor da ducha, o cabelo úmido. Tinha um aspecto assombroso.

Jane lhe deu uma olhada breve, uma revisão rápida que lhe disse que tinha assumido que estaria dormindo; então se afastou e se sentou na cadeira do canto. Quando Jane levantou as pernas, envolveu os braços ao redor dos joelhos e baixou o queixo. Parecia tão frágil assim, apenas um revolto de carne e osso dentro do abraço da cadeira.

V fechou o olho e se sentiu desprezível. Sua consciência, que tinha estado quase apagada durante séculos, estava acordada e lhe doía: não podia fingir que não ia estar completamente curado em umas seis horas. O que significava que seu propósito tinha acabado e que ia ter que permiti-la ir quando o sol ficasse esta noite.

Exceto que, o que acontecia a visão que tinha tido dela? Na qual permanecia em uma porta de luz? Ah, demônios, talvez simplesmente tivesse uma alucinação…

V franziu o cenho quando captou um aroma no quarto. Que demônios?

Inalando profundamente, ficou duro em um instante, seu pênis se engrossou, crescendo violentamente contra seu ventre. Olhou Jane através da quarto. Tinha os olhos fechados, a boca um pouco aberta, as sobrancelhas franzidas… e estava excitada. Talvez não se sentisse inteiramente cômoda com isso, mas estava definitivamente excitada. Pensava nele? Ou no macho humano?

V estendeu sua mente sem nenhuma esperança real de entrar na cabeça da Jane. Quando suas visões se foram, também o tinha feito a leitura que fazia dos pensamentos de outras pessoas, os que podiam ser forçados sobre ele ou captada a sua vontade…

A imagem em sua mente era dele.

OH, merda, sim. Era totalmente dela: estava arqueando-se na cama, os músculos do estômago apertados, os quadris levantando-se enquanto ela trabalhava seu sexo com a palma da mão. Isso foi antes de que gozasse, quando tinha tirado a mão enluvada de debaixo de seu pênis e puxou o edredom.

Sua cirurgiã o desejava mesmo sabendo que estava parcialmente arruinado, não fosse de sua espécie e a prendera contra sua vontade. E estava dolorida. Estava dolorida por ele.

V sorriu enquanto as presas lhe cravavam o interior da boca. Bem, este era o momento de ser humanitário. E aliviar alguns de seus sofrimentos…

Com as botas militares amplamente separadas e os punhos apertados nos flancos, Phury permaneceu de pé sobre o lesser que acabava de deixar inconsciente com um feio golpe na têmpora. O bastardo jazia de barriga para baixo sobre um sujo monte de neve meio derretida, os braços e pernas caídos pesadamente de um lado, a jaqueta de couro despedaçada nas costas devido à luta.

Phury respirou fundo. Havia uma maneira cavalheiresca de matar seu inimigo. Em meio da guerra, havia uma maneira honorável de trazer a morte mesmo a aqueles que odiava.

Olhou acima e abaixo pelo beco e cheirou o ar. Nem humanos. Nem outros lessers. E nenhum de seus irmãos.

Agachou-se sobre o assassino. Sim, quando matava seus inimigos, havia um certo padrão de conduta que devia observar.

Isso não ia acontecer.

Phury levantou o lesser pelo cinturão de couro e o pálido cabelo e lançou a coisa de cabeça contra um edifício de tijolo como se fosse um boneco. Um amortecido e carnudo crunch soou quando o lóbulo frontal se rompeu e a coluna vertebral atravessou a parte traseira do crânio.

Mas a coisa não estava morta. Para matar a um assassino devia se apunhalar seu peito. Se deixava como estava agora, o bastardo simplesmente estaria em um estado perpétuo de putrefação até que eventualmente o Omega viesse em busca de seu corpo.

Phury arrastou a coisa por um braço até detrás de um contêiner e tirou uma adaga. Não utilizou a arma para apunhalar ao assassino e mandá-lo com seu professor. Sua ira, essa emoção que não gostava de sentir, essa força que não se permitia vincular nem a pessoas nem a acontecimentos, tinha começado a rugir. E seu ímpeto era inegável.

A crueldade de suas ações lhe manchou a consciência. Embora sua vítima fosse um assassino amoral que vinte minutos antes tinha estado a ponto de matar a dois vampiros civis, o que Phury estava fazendo seguia sendo incorreto. Os civis tinham sido salvos. O inimigo estava incapacitado. O fim deveria chegar limpamente.

Não se deteve.

Enquanto o lesser uivava de dor, Phury ficou com o que lhe estava fazendo à coisa, as mãos e a lâmina movendo-se rapidamente pela pele e os órgãos vitais que cheiravam como talco. O sangue negro e brilhante corria pelo pavimento, cobria os braços de Phury, engordurava suas botas e salpicava sua roupa de couro.

Enquanto continuava, o assassino se converteu em um StairMaster[21], para sua fúria e o ódio que sentia para si mesmo, um objeto no que descarregar seus sentimentos. Naturalmente, suas ações lhe fizeram pensar ainda pior de si mesmo, mas não se deteve. Não podia parar. O sangue era propano e suas emoções eram a chama, e agora que tinha sido acesa a combustão era inevitável.

Centrado em seu terrível projeto, não escutou o outro lesser vindo de trás. Captou o aroma de talco de bebê antes de que a coisa golpeasse, e logo que pôde virar-se de um lado para escapar do golpe do taco de beisebol dirigido a seu crânio.

Sua fúria mudou do assassino incapacitado ao que estava de pé, e com o DNA de guerreiro gritando em suas veias, atacou. Dirigindo a adaga negra, agachou-se e procurou o abdômen.

Não o conseguiu. O lesser o segurou pelo ombro com o taco de beisebol, e logo dirigiu um sólido backswing[22] à perna boa de Phury, lhe alcançando a lateral do joelho. Enquanto se encolhia, concentrou-se em manter o cabo da adaga, mas o assassino era todo um José Conseco[23] com esse número de alumínio. Outro balanço e a lâmina saiu voando, a ponta girando sobre seu eixo, deslizando depois através de um lance do pavimento molhado.

O lesser saltou sobre o peito de Phury e o segurou pela garganta, apertando-o com um punho que era tão forte como um cabo de aço. Phury apertou a palma de sua mão sobre o pulso grosso da coisa que lhe comprimia a traquéia, mas então, repentinamente teve outras coisas com as quais preocupar-se além da hipoxia. O assassino mudou a forma com que segurava o taco de beisebol, estrangulando-o para cima até que o sustentou pelo centro. Com mortal concentração levantou o braço para o alto e baixou a parte inferior do taco de beisebol diretamente sobre o rosto do Phury.

A dor foi como uma bomba lhe estalando no rosto e o olho, a candente metralha ricocheteando através de todo seu corpo.

E curiosamente… foi algo bom. Anulou todo o resto. Tudo o que soube foi o impacto que lhe congelou o coração e a elétrica dor que veio depois.

Gostou.

Pelo único olho que ainda funcionava bem, viu o lesser levantar o taco de beisebol outra vez, ao estilo êmbolo. Phury nem sequer se preparou. Simplesmente observou como funcionava a cinética, sabendo que os músculos que se coordenavam para elevar esse pedaço de metal gentil iriam esticar e baixar de novo essa coisa para seu rosto.

Hora do golpe mortal, pensou fracamente. Provavelmente seu osso orbital já estivesse destroçado ou no mínimo fraturado. Outro golpe e já não estaria protegendo sua matéria cinza.

Veio-lhe uma imagem do desenho que tinha feito de Bela, e viu o que tinha posto no papel. Ela sentada na mesa de jantar virada para seu gêmeo, o amor entre eles tão evidente e lindo como um pano de seda, tão forte e firme como aço temperado.

Rezou uma antiga oração para eles e seu bebê na Antiga Língua, uma em que lhes desejava que tudo fora bem até que os encontrasse no Fade em um longínquo, longínquo futuro. Até que vivamos de novo, era a forma em que acabava.

Phury soltou o pulso do assassino e repetiu a frase uma e outra vez, perguntando-se fracamente qual das quatro palavras seria a última.

Exceto não houve impacto. O lesser desapareceu de cima dele, simplesmente arrojado longe de seu peito como uma boneco cujas cordas tinham sido cortadas.

Phury jazia ali, logo que respirando, enquanto uma série de grunhidos ressonavam no beco, e logo houve um brilho brilhante de luz. Com suas endorfinas golpeando, teve um agradável e elevado momento de euforia que o fez resplandecer com se estivesse saudável, mas que na realidade era evidência de que estava fundo na merda.

Já tinha tido levado o golpe mortal? Tinha sido suficiente o primeiro para deixar seu cérebro com uma hemorragia?

Não importava. Sentia-se bem. A coisa inteira se sentia bem, e se perguntou se assim era o sexo. Quer dizer, os momentos posteriores. Nada exceto uma relaxação pacífica.

Pensou em Zsadist vindo por volta dele no meio daquela festa fazia meses, com uma bolsa de lona na mão e uma demanda infernal nos olhos. Phury havia se sentido doente ante o fato de que seu gêmeo tinha precisado, mas entretanto tinha ido com Z ao ginásio e tinha golpeado o macho uma e outra vez.

Essa não tinha sido a primeira vez que Zsadist tinha precisado desse tipo de alívio.

Phury sempre tinha odiado dar em seu gêmeo as surras que lhe tinha pedido, nunca tinha entendido a razão dessa conduta masoquista, mas agora o fazia. Isto era fantástico. Nada importava. Era como se a vida real fosse uma tormenta longínqua que nunca o alcançaria porque ele se afastou de seu caminho.

A voz profunda de Rhage também lhe chegou de longe.

—Phury? Pedi a caminhonete. Precisa ir onde Havers está.

Quando Phury tratou de falar, sua mandíbula se negou a fazer o trabalho, fixa como se alguém a tivesse pregado em seu lugar. Claramente, já estava inchando, e decidiu negar com a cabeça.

O rosto do Rhage apareceu frente a sua visão inclinada.

—Havers poderá…

Phury negou com a cabeça outra vez. Bela estaria esta noite na clínica tratando o assunto do bebê. Se estava no limite para um aborto, não queria levá-la ao limite aparecendo como um caso de emergência.

—Havers… Não… —disse asperamente.

—Irmão, o que tem é mais do que os primeiros socorros podem arrumar. —O perfeito rosto de modelo do Rhage era uma máscara deliberada de calma. O qual queria dizer que ele estava realmente preocupado.

—Casa.

Rhage amaldiçoou, mas antes de que pudesse voltar a pressionar para levá-lo até Havers, um carro virou no beco, com os faróis cintilando.

—Merda. —Rhage se lançou à ação, levantando Phury do pavimento e apressando-se a colocá-lo atrás do contêiner.

O que os levou justo junto ao profanado lesser.

—Que merda é isto? —resmungou Rhage enquanto um Lexus com aros cromados passava, com o rap a todo volume.

Quando passou, Rhage entrecerrou os brilhantes olhos verde azulados.

—Fez isto?

—Sim… Isso é apenas uma briga —sussurrou Phury—Me leve para casa.

Enquanto fechava o olho, deu-se conta de que tinha aprendido algo esta noite. A dor era boa, e colhido sob circunstâncias adequadas, era menos vergonhoso que a heroína. Mais fácil de conseguir, também, já que podia ser uma legítima conseqüência de seu trabalho.

Que perfeito.

Quando Jane se sentou na cadeira frente à cama do paciente, baixou a cabeça e fechou os olhos. Não podia deixar de pensar no que tinha feito… e no que ele tinha feito como resultado. Viu-o bem quando teve o clímax, a cabeça arremessada para trás, as presas brilhando, a ereção sacudindo-se em seu punho, enquanto seu fôlego entrava em um ofego e saía em um gemido.

Jane se moveu, sentindo-se quente. E não porque tivessem ligado o aquecedor.

Deus, não podia evitar reviver a cena uma e outra vez, e ficou tão mal, que teve que abrir a boca para respirar. Em um ponto durante o contínuo circuito fechado sentiu uma aguda espetada na cabeça, como se seu pescoço tivesse adotado uma postura ruim, mas depois ficou meio adormecida.

Naturalmente, seu subconsciente tomou o controle onde sua memória o tinha deixado.

O sono começou quando algo lhe tocou o ombro, algo quente e pesado. Sentiu-se tranqüilizada por como se sentia, pela forma em que baixava lentamente pelo braço, sobre o pulso e a mão. Tinha os dedos fechados em um punho, e então foram abertos para que um beijo fosse colocado no centro da palma. Jane sentiu uns lábios suaves, um quente fôlego, e o roçar aveludado de… um cavanhaque.

Houve uma pausa, como se lhe pedissem permissão.

Soube exatamente com quem estava sonhando. E sabia exatamente o que ia acontecer no sonho se permitisse que as coisas continuassem.

—Sim —sussurrou em seu sonho.

As mãos de seu paciente foram até suas pantorrilhas e lhe separaram as pernas da cadeira. Logo algo largo e morno se moveu entre elas, metendo-se entre suas coxas, abrindo-os amplamente. Quadris masculinos e… ah, Deus, sentiu uma ereção em seu centro, a longitude rígida pressionando sobre as suaves calças que tinha posto. O pescoço de sua camisa foi afastado para um lado e sua boca encontrou seu pescoço, seus lábios se pegaram à pele e chuparam enquanto sua ereção começava um rítmico avanço e retrocesso. Uma mão lhe encontrou o seio e logo o bordeou descendo para o estômago. Descendo para o quadril. Baixando mais, substituindo a ereção.

Quando Jane gritou e se arqueou, dois pontos agudos lhe percorreram a coluna do pescoço para a base da mandíbula. Presas.

O temor alagou suas veias. E também uma explosão de sexo.

Antes de que pudesse ordenar os dois extremos, a boca de V deixou seu pescoço e encontrou seu seio através da camisa. Enquanto chupava, foi em busca de seu centro, esfregando-o até que esteve preparado para ele, faminto por ele. Abriu a boca para ofegar, e algo foi empurrado dentro… um polegar. Aferrou-se a ele desesperadamente, chupando-o enquanto imaginava o que outra parte dele poderia estar entre seus lábios.

Ele era o professor de tudo isto, o condutor, que dirigia a maquinaria. Sabia exatamente o que o fazia enquanto seus dedos utilizavam suas suaves calças e suas calcinhas molhadas para levá-la diretamente ao limite.

Uma voz em sua cabeça —a dele—, disse:

—Goza para mim, Jane.

De lugar nenhum uma luz brilhante bateu em seu rosto, e saltou para cima, levantando os braços para afastar o seu paciente de um empurrão.

Salvo que não estava em nenhuma parte perto dela. Estava na cama. Dormindo.

E quanto à luz, vinha do vestíbulo. Rede Sox tinha aberto a porta do quarto.

—Sinto acordá-los meninos —disse—Temos um problema.

Quando o paciente se incorporou, olhou para Jane. No momento em que seus olhos se encontraram, ela ruborizou e afastou o olhar.

—Quem? —perguntou o paciente.

—Phury. —Rede Sox fez um gesto com a cabeça para a cadeira— Precisamos de um médico. Assim como, agora, neste mesmo instante.

Jane clareou a garganta.

—Por que me olham…?

—Precisamo dela.

Seu primeiro pensamento foi, que nem louca ia se envolver mais profundamente com eles. Mas então o médico que havia nela falou mais alto.

—O que aconteceu?

—Algo realmente desagradável. Uma briga com um taco de beisebol. Pode vir comigo?

A voz de seu paciente chegou primeiro, o grunhido mortal desenhando uma tremenda linha na prudência:

—Em qualquer lugar que ela vá, eu também vou. E quão ruim ele está?

—Bateram-lhe no rosto. Ruim. Nega-se a ir até o Havers. Diz que Bela está ali por causa do bebê, e não quer transtorná-la aparecendo feito um asco.

—Maldito irmão, tinha que ser um herói. —V olhou para Jane— Ajudará?

Depois de um momento, ela        ‘esfregou o rosto. Maldita seja.

—Sim. Farei-o.

Enquanto baixava o canhão da Glock que lhe tinham dado, John olhou fixamente o objetivo do campo de tiro que estava a uma distância de dezesseis metros. Voltando a colocar em seu lugar seguro, ficou totalmente boquiaberto.

—Jesus —disse Blay.

Com total incredulidade, John pulsou o botão amarelo a sua esquerda e a lâmina de papel de oito e meio por onze zumbiu até ele como um cão sendo chamado para casa. No centro, agrupados como uma margarida, havia seis disparos perfeitos. Santa merda. Depois de ter sido um desastre em tudo o que lhe tinham ensinado até agora no que conscerne a lutar, finalmente se sobressaía em algo.

Bem, não fazia isto que se esquecesse da dor de cabeça?

Uma mão pesada aterrissou em seu ombro, e a voz de Wrath estava cheia de orgulho.

—Tem-no feito bem, filho. Verdadeiramente bem.

John estirou a mão e desenganchou o objetivo.

—Bom —disse Wrath.─ É tudo por hoje. Verifiquem as armas, meninos.

—Hei, Qhuinn —chamou Blay— Viu isto?

Qhuinn deu sua arma a um dos doggen e se aproximou.

—Uau. Aí tem uma verdadeira merda do Harry o Sujo.

John dobrou o papel e o pôs na parte de atrás de seu jeans. Quando devolveu a arma ao carrinho, tratou de imaginar como identificá-la outra vez para poder utilizar na próxima prática. Ah… embora os números de série tenham sido apagados, havia uma marca débil no carregador, um arranhão. Realmente podia encontrar sua arma outra vez.

—Se movam —disse Wrath enquanto apoiava seu imenso corpo contra a porta— O ônibus espera.

Quando John levantou a vista depois de devolver a arma, Lash estava bem detrás dele, todo ameaça e perigo. Em um movimento fluido o tipo se inclinou e baixou sua Glock com o canhão apontando para o peito de John. Para deixar claro, manteve o dedo no gatilho durante um momento.

Blay e Qhuinn se juntaram, bloqueando o caminho. O movimento foi feito de forma verdadeiramente casual, como se simplesmente estivessem ali por azar, mas a mensagem foi clara. Com um encolhimento de ombros, Lash levantou a mão da Glock e em seu caminho para a porta bateu o ombro do Blay com o seu.

—Bode —murmurou Qhuinn.

Os três amigos saíram para o vestuário, onde recolheram seus livros e se dirigiram fora juntos. Já que John ia utilizar o túnel para voltar para a mansão, detiveram-se frente à porta do velho escritório de Tohr.

Enquanto os outros estudantes passavam, Qhuinn manteve a voz baixa.

—Temos que sair esta noite. Não posso esperar. —Fez uma careta e mudou sua postura como se tivesse papel de lixa nas calças—Estou meio louco por uma mulher, sabe o que quero dizer?

Blay ruborizou um pouco.

—Eu… ah, sim, posso lidar com um pouco de ação. John?

Arrojado por seu êxito no campo de tiro, John assentiu.

—Bem. —Blay subiu os jeans— Devem ir ao ZeroSum.

Qhuinn franziu o cenho.

—Que tal ao Screamer?

—Não, quero o ZeroSum.

—Bem. E podemos ir em meu carro. —Qhuinn deu uma olhada— John, por que não pega o ônibus e vai a casa de Blay?

Deveria me mudar?

—Pode emprestar um pouco de roupa. Tem que estar bem arrumado para o ZeroSum.

Lash apareceu de nenhum lugar, como um golpe imprevisto no estômago.

—Assim via descer à cidade, John? Possivelmente o veja lá, colega.

Com uma careta desagradável e perigosa, partiu tranqüilamente, seu corpo a ponto de esticar-se, seus musculosos ombros movendo-se como se esperasse uma briga. Ou quisesse uma.

—Soa como se quisesse um encontro, Lash —grunhiu Qhuinn— Boa jogada, porque se mantiver essa merda, vai conseguir que o fodam, colega.

Lash se deteve e olhou para trás, as luzes do teto se vertiam sobre ele.

—Ouça, Qhuinn, Diga olá a seu pai por mim. Sempre gostou mais de você. Por outro lado, eu sim encaixo.

Lash tocou no lado do olho com o dedo do meio e seguiu seu caminho.

Depois dele, o rosto do Qhuinn se fechou, se convertendo em uma estátua.

Blay pôs a mão na parte de atrás do pescoço dele.

—Escuta, nos dê quarenta e cinco minutos em minha casa, OK? Então nos pegue.

Qhuinn não respondeu em seguida, e quando finalmente o fez sua voz foi baixa.

—Sim. Nenhum problema. Perdoem-me um segundo?

Qhuinn deixou cair os livros e voltou para o vestuário. Quando a porta se fechou com suavidade, John gesticulou:

As famílias de Lash e Qhuinn estão unidas?

—Ambos são primos irmãos. Seus pais são irmãos.

John franziu o cenho.

O que quis dizer Lash apontando o seu olho?

—Não se preocupe por…

John pegou o antebraço dele.

Diga-me isso .Blay esfregou seu cabelo vermelho como se tentasse conseguir uma resposta.

—Bom… é como… o pai do Qhuinn é um homem importante na glymera, sabe? E sua mãe também. E na glymera não se aceitam defeitos.

Isto foi dito como se o explicasse tudo.

Não o safado. O que está errado com seu olho?

—Um azul. Outro verde. Como não são da mesma cor, Qhuinn nunca vai poder emparelhar-se… e, já sabe, seu pai se envergonhará dele toda a vida. Não é uma boa merda, e por isso estamos sempre em minha casa. Precisa escapar de seus pais. —Blay olhou a porta do vestuário como se pudesse ver seu amigo através dela— A única razão pela qual não o jogaram é porque esperavam que a transição possivelmente o desencardisse. É por isso que acabou utilizando alguém como Marna. Tem sangue muito bom, e acredito que o plano era que pudesse ajudar.

Não o fez.

—Não. Provavelmente lhe pedirão que parta em algum momento. Eu já tenho uma quarto preparado para ele, mas duvido que o utilize. Muito orgulho. E está em todo seu direito.

John teve um horrível pensamento.

Como se fez o machucado? A que tinha no rosto depois da transição?

Nesse momento a porta do vestuário se abriu e Qhuinn saiu com um sólido sorriso em seu lugar.

—Vamos, cavalheiros? —quando recolheu os livros, sua arrogância tinha retornado— Vamos antes de que as tias boas estejam todas tomadas no clube.

Blay bateu no ombro dele.

—Seguiremos você, maestro.

Quando se dirigiram ao estacionamento subterrâneo, Qhuinn ia na frente, Blay atrás, John no meio.

Quando Qhuinn desapareceu pelos degraus do ônibus, John pegou Blay pelo ombro.

Foi seu pai, não?

Blay vacilou. Logo assentiu uma vez.

Certo, isto podia considerar-se genial como o inferno ou terrível como a merda. Enquanto Jane caminhava, era como se estivesse atravessando um túnel subterrâneo em um filme de Jerry Bruckheimer. Este cenário parecia diretamente tirado de um filme de alto custo realizado em Hollywood: de aço, tenuemente iluminado por luzes fluorescentes embutidas, imensamente largo. Em qualquer momento um Bruce Willis saído do ano 1980 ia aparecer correndo com os pés descalços, vestindo uma andrajosa camiseta de suspensórios e conduzindo uma metralhadora.

Olhou os painéis fluorescentes do teto, logo o gentil chão de metal. Estava disposta a apostar que se perfurasse as paredes esas teriam um metro de espessura. Homem, estes caras tinham dinheiro. Muito dinheiro. Mais do que poderia conseguir se estivesse vendendo drogas controladas no mercado negro ou subministrando cocaína, crack e demais vícios alucinógenos. Este era dinheiro em escala governamental, sugerindo que os vampiros não eram só outra espécie; eram outra civilização.

   Enquanto os três avançavam, surpreendeu-se de que a deixassem solta. Mas bom, o paciente e seu amigo estavam armados com pistolas…

—Não —o paciente negou com a cabeça— Não está algemada porque não tentará fugir.

Jane ficou boquiaberta.

—Não leia a minha mente.

—Sinto muito. Não tinha intenção de fazê-lo, só aconteceu.

Esclareceu a garganta, tratando de não apreciar quão magnífico parecia de pé. Vestido com uma calça de pijama de tecido escocês Black Watch[24] e uma camiseta de regata negra, movia-se devagar, mas com uma confiança letal que era irresistível.

   Do que tinham estado falando?

—Como sabe que não sairei correndo?

—Não falhará com alguém que precisa de atenção médica. Não está em sua natureza, não é?

Bom… merda. Conhecia-a bastante bem.

—Sim, esta certo.—disse.

—Termine com isso.

Rede Sox olhou para Jane e o paciente.

—Sua habilidade para ler a mente está retornando?

—Com ela? Às vezes.

—Huh. Está captando algo de alguém mais?

—Não.

Rede Sox acomodou o boné.

—Bom, ah… me deixe saber se captar alguma merda de minha parte, OK? Há algumas coisas que preferiria manter em particular, entende?

—Entendido. Embora algumas vezes não posso evitá-lo.

—É pelo que vou começar a pensar em beisebol quando estiver pelos arredores.

—Dou obrigado de que não seja admirador dos Yankees.

—Não use a palavra Y. Temos companhia feminina.

Nada mais foi dito enquanto continuavam avançando através do túnel, e Jane teve que perguntar-se se estava perdendo a razão. Deveria haver se sentido aterrorizada neste escuro lugar subterrâneo com dois enormes homens como escolta de natureza vampírica. Mas não o estava. Estranhamente se sentia a salvo… como se o paciente fosse protegê-la pela promessa que lhe tinha feito e Rede Sox iria fazer o mesmo devido a seu vínculo com o paciente.

Onde demônios estava a lógica nisso?Perguntou-se.

Me dê um E! Um S! Uma T! Um O!Um U! Seguidas de C-A-L-M-A! O que se formava? PROLEMA NA CABEÇA.

O paciente se inclinou para seu ouvido.

—Não posso ver você no papel de animadora. Mas tem razão, ambos mataríamos qualquer que se atrevesse sequer a sobresaltar você. —O paciente voltou a endireitar-se, uma gigantesca massa de testosterona a meio-fio com botas militares.

Jane bateu em seu antebraço e lhe fez gestos com o dedo indicador para que voltasse a inclinar-se. Quando o fez, sussurrou:

—Assustam-me os ratos e as aranhas. Mas não precisa usar essa pistola que leva no quadril para abrir uma fossa na parede se alguem me cruzar o caminho, entende? As armadilhas Havahart ou um jornal enrolado funcionam da mesma maneira. E têm a vantagem de que, dessa forma, não precisa uma placa de pladur e um trabalho de gessa depois. Só é uma sugestão.

Deu tapinhas em seu braço, despedindo-o, e voltou a se concentrar no túnel que tinha na frente.

V começou a rir, torpemente no início, logo mais profundamente, e Jane sentiu que Rede Sox a observava. Encontrou seus olhos sem titubear, esperando encontrar alguma espécie de recriminação neles. Em troca, ali só havia alívio. Alívio e aprovação enquanto o homem… macho… Cristo, o que fosse… a observava e logo a seu amigo.

Jane ruborizou e afastou a vista. O fato de que ele evidentemente não estivesse irritado, por estar ocupando um lugar ao lado de seu melhor-amigo, com ela a respeito de V não deveria ter sido um ganho. De nenhuma forma.

Uns cinquenta metros depois chegaram a umas escadas baixas que levavam a uma porta com um mecanismo de fechadura apoiado em um sistema de barras do tamanho de sua cabeça. Quando o paciente se adiantou e introduziu um código, imaginou que iriam entrar em uma espécie de ambiente ao estilo 007…

Bom, apenas. Era um armário com prateleiras cheias de cadernetas legais de artigos amarelos, cartuchos para impressoras e caixas com clipes para documentos. Talvez do outro lado…

Não. Era só um escritório. Um escritório comum do tipo de posto de comando médio com uma mesa e uma cadeira giratória, arquivos e um computador.

Certo, nada do filme Duro de Matar, de Jerry Bruckheimer, aqui. Mais parecia um anúncio de Seguros Allstate. Ou uma companhia de hipotecas.

—Por aqui —disse V.

Saíram por uma porta de vidro para um corredor branco sem marcas que levava a uma porta dupla de aço inoxidável. Atrás delas havia um ginásio de qualidade profissional, um suficientemente grande para acolher uma partida entre equipes profissionais de basquete, um torneio de luta, e uma exibição de voleibol ao mesmo tempo. Havia colchonetes azuis dispostos pelo lustroso chão cor mel, e sacos de areia pendurando debaixo da fila inferior dos degraus.

Muito dinheiro. Muitíssimo. E como tinham construído tudo isto sem que alguém do lado humano se inteirasse? Devia haver muitíssimos vampiros. Certamente.

Operários e arquitetos e artesãos… todos capazes de passar por humanos se o quisessem.

A geneticista nela pegou um sério caso de tensão cerebral. Se os chimpanzés compartilhavam noventa e oito por cento de DNA com os humanos, quão perto estavam os vampiros? E falando de um ponto de vista evolutivo, quanto tinha se desviado este ramo desta outra espécie afastando-se dos símios e os Homo Sapiens? Sim… uau… daria o que fosse para dar uma olhada a sua dupla hélice. Se na verdade fossem limpar sua mente antes de deixá-la ir, a ciência médica estava perdendo muitas coisas. Especialmente dado que não contraíam câncer e se curavam tão rapidamente.

Que oportunidade.

No lado mais longínquo do ginásio se detiveram frente a uma porta de aço que dizia EQUIPAMIENTO/SALA DE FISIOTERAPIA. Dentro havia mesas e montes de armas. Um arsenal de espadas e shurikens de artes marciais. Adagas que estavam encerradas em armarios, pistolas e estrelas pontiagudas.

—Deus… querido.

—Isto é só com propósitos de treinamento —disse.

—Então que demônios usam para lutar? —Enquanto todo tipo de cenários da Guerra dos Mundos desfilassem por sua cabeça, percebeu o familiar aroma de sangue. Bom, meio-familiar. Havia uma matiz diferente no aroma, algo picante, e lembrou a mesma fragrância parecida com o vinho de quando tinha tido o seu paciente na sala de cirurgia.

Do outro lado uma porta que dizia fisioterapia, abriu-se de repente. O lindo vampiro loiro que a tinha transportado tirando-a do hospital apareceu pelos umbrais da porta.

—Graças a Deus que está aqui.

Todos os instintos médicos de Jane foram despertos enquanto entrava em uma sala ladrilhada e via os pés revestidos por um par de botas pendurando-se de uma maca. Adiantou-se aos homens, afastando-os aos empurrões de seu caminho para poder chegar ao homem que estava estendido na mesa.

Era o que a tinha hipnotizado, que tinha os olhos amarelos e o cabelo espetacular. E realmente precisava de atenção. A região orbital esquerda de seu rosto estava esmagada para dentro, a pálpebra tão inchada que não podia abri-lo, essa metade de seu rosto tinha o dobro do tamanho normal. Pressentia que o osso sobre o olho afundou, do mesmo modo que a maçã do rosto.

Pô-lhe a mão no ombro e encontrou seu olhar no olho que tinha aberto.

—Parece um saco de batatas.

Ele esboçou um débil sorriso.

—Não me diga.

—Mas vou consetar você.

—Acredita que pode fazê-lo?

—Não —sacudiu a cabeça de um lado para o outro— Sei que posso.

Não era cirurgiã plástica, mas dada a capacidade de cicatrização que tinha o vampiro, sentia-se confiante de que poderia encarregar-se dos problemas que tinha sem danificar sua aparência. Assumindo que tivesse os medicamentos adequados.

A porta voltou a se abrir amplamente, e Jane congelou. OH, Deus, era o gigante com o cabelo negro azeviche e os óculos de sol envolventes. Perguntou-se se não teria sido um sonho, mas evidentemente era real. Totalmente real. E no comando. Andava como se fosse dono de tudo e de todos na sala e pudesse dispor de tudo com um só movimento da mão.

Deu uma olhada em sua direção perto da maca do enfermo e disse:

—Me digam que isto não está acontecendo.

Instintivamente Jane deu um passo para trás em direção a V, e exatamente enquanto o fazia, sentiu que ele se aproximava por trás. Embora não a tocasse, soube que estava perto. E preparado para defendê-la.

O de cabelo negro sacudiu a cabeça em direção ao homem ferido.

—Phury… pelo amor do demônio, temos que levar você até o Havers.

Phury? Que tipo de maldito nome era esse?

—Não —foi a débil resposta.

—Por que demônios não?

—Bela está lá. Se me vir neste estado… vai se assustar… Já está sangrando.

—Ah… merda.

—E temos alguém aquí capaz de ajudar. —disse ele ofegando. Seu único olho se moveu para Jane—Não é verdade?

Quando todos olharam em sua direção, o de cabelo negro pareceu crescer. Por isso foi uma surpresa quando disse:

—Tratará de nosso irmão?

A solicitude não foi intimidatoria, e foi formulada respeitosamente. Evidentemente tinha estado aborrecido principalmente porque seu amigo tinha se machucado e não estava recebendo cuidados.

Esclareceu a garganta.

—Sim, farei-o. Mas, o que tenho para trabalhar? Vou ter que colocá-lo para dormir…

—Não se preocupe com isso —disse Phury.

Dirigiu-lhe um olhar enviesado.

—Quer que trate de seu rosto sem utilizar anestesia geral?

—Sim.

Talvez tivessem uma tolerância à dor diferente…

—Está louco? —murmurou Rede Sox.

OK, talvez não.

Mas basta de conversa. Assumindo que este homem com o rosto do Rocky Balboa se curasse tão rapidamente como seu paciente, devia operá-lo agora, antes que seus ossos se colassem novamente de maneira errada e tivesse que voltar a quebrá-los.

Olhando a sala a seu redor, viu armários com portas de vidro cheios de medicmentos, e confiou em que pudesse reunir uma equipe cirúrgica com o que havia ali.

—Suponho que nenhum de vocês tem experiência médica, não?

V falou, bem em seu ouvido, quase tão perto como sua própria roupa.

—Sim, eu posso te assistir. Fui treinado como paramédico.

Olhou-o por cima do ombro, uma baforada de calor atravessando-a.

Volte para o jogo, Whitcomb.

—Bem. Tem anestesia local de qualquer tipo?

—Lidocaína.

—E sedativos? E talvez um pouco de morfina. Se se mover no momento equivocado, poderia deixá-lo cego.

—Sim. —Quando V avançou para os armários de aço inoxidável, Jane notou que ele cambaleava. Essa caminhada pelo túnel tinha sido longa, e embora na superfície parecesse curado, apenas fazia uns dias que tinha saído de uma cirurgia do coração.

O segurou pelo braço e o puxou.

—Vai se sentar. —Olhou para Rede Sox—Lhe Traga uma cadeira. Agora. —Quando o paciente abriu a boca para discutir, interrompeu-o ao dirigir-se ao outro lado da sala— Não me interessa. Necessito que ponha as pilhas enquanto opero, e isso pode levar um tempo. Está melhor, mas não tão forte como quer acreditar estar, assim senta seu traseiro e me diga onde posso conseguir o que necessito.

Fez-se um silêncio que durou o batimento de um coração, logo alguém ladrou uma risada enquanto seu paciente amaldiçoava como cortina ao fundo, parecia que o rei começou a lhe sorrir.

Rede Sox arrastou uma cadeira da banheira de hidromassage e a empurrou diretamente contra a parte de atrás das pernas de V.

—Estacione, grandão. Ordens de sua doutora.

Quando o paciente se sentou, ela disse:

—Agora, isto é o que vou precisar.

Enumerou: escalpelo padrão, fórceps, material de sucção, logo pediu arame cirúrgico e fio, betadine, solução salina para enxaguar, pedaços de gaze, luvas de látex…

Surpreendeu-se por quão rápido reuniu tudo, mas bom, ela e seu paciente estavam na mesma onda. Dirigia-a através da quarto sucintamente, antecipando o que pudesse querer, e não desperdiçava palavras. O perfeito enfermeiro, se isso existia.

Deixou sair um enorme suspiro de alívio ao ver que tinham uma furadeira cirúrgica.

—E suponho que não terão um equipamento de lupa que se ajuste à cabeça?

—O armário que está junto ao carro de paradas cardíacas —disse V— Na gaveta de abaixo. À esquerda. Quer que lave bem as minhas mãos?

—Sim. —Foi e localizou o equipamento— Temos aparelho de raios X?

—Não.

—Merda. —Pôs as mãos nos quadris—. Não importa. Irei às cegas.

Enquanto colocava a lupa na cabeça, V se levantou e foi lavar as mãos e os antebraços na pia que havia no canto mais afastado. Quando terminou tomou seu lugar, logo colocou as luvas.

Retornou ao lado do Phury, olhando seu olho bom.

—Provavelmente, isto doerá mesmo com a anestesia local e um pouco de morfina. Provavelmente desmaie, e espero que isso aconteça o mais breve possível.

Foi procurar uma seringa e sentiu a familiar sensação de poder envolvê-la enquanto se preparava para arrumar o que precisava ser reparado…

—Espera —disse ele— Nada de drogas.

—O que?

—Só faze-o. —Havia uma repugnante antecipação em seu olho, uma que não era correta em muitos níveis. Desejava que o machucassem.

Entrecerrou os olhos. E se perguntou se ele tinha permitido que lhe ocorresse isto.

—Sinto muito. —Jane cravou o plugue de borracha da lidocaína com a agulha. Enquanto tirava o que precisava, disse— Não há uma maldita forma de que proceda sem o anestesiar. Se realmente estiver contra isso, procure outro cirurgião.

Deixou a pequena garrafa de vidro sobre uma bandeja de aço com rodas e se inclinou sobre seu rosto, com a seringa apontando ao ar.

—Assim, o que decide? A mim e este liquido anestésico ou… sim, ninguém?

O olhar amarelo flamejou com fúria, como se o estivesse prendendo em armadilhas.

Mas então o homem que parecia um rei tomou a palavra.

—Phury, não seja idiota. Estamos falando de sua vista. Se cale e deixa-a fazer seu trabalho.

O olho amarelo se fechou.

—Está bem —murmurou ele.

Foi duas horas depois que Vishous decidiu que tinha problemas. Grandes problemas. Enquanto olhava as fileiras de pulcros e pequenos pontos negros no rosto de Phury, sentiu-se afligito até o ponto de ficar mudo.

Sim. Tinha mega problemas.

Jane Whitcomb, doutora em medicina, era uma perfeita cirurgiã. Uma absoluta artista. Suas mãos eram instrumentos elegantes, seus olhos agudos como o escalpelo que usava, sua concentração tão feroz e concentrada como a de um guerreiro em plena batalha. Em ocasiões trabalhava a uma velocidade avassaladora, e em outras baixava o ritmo até que parecia que não estar se movendo. O osso orbital do Phury se quebrou em vários lugares, e Jane os tinha unido passo a passo, removendo lascas que eram brancas como ostras, brocando o crânio e passando arame entre os fragmentos, pondo um pequeno parafuso em sua maçã do rosto.

V podia dar-se conta de que não estava completamente feliz com o resultado pelo duro olhar que tinha no rosto quando fechou a ferida. E quando lhe perguntou qual era o problema, disse-lhe que teria preferido pôr uma placa na maçã do rosto de Phury, mas como não tinham esse tipo de equipamento à mão, só restava esperar que o osso se soldasse rapidamente.

   Do início ao fim tinha tido o controle absoluto. Até o ponto que o tinha excitado, o que era tão absurdo como vergonhoso. O que ocorria era que nunca tinha conhecido uma fêmea —uma mulher— como ela antes. Acabava de fazer cargo de seu irmão de uma forma magnífica, com uma habilidade que V não podia esperar igualar.

OH… Deus… Tinha grandes problemas.

—Como está sua pressão arterial?

—Estável —respondeu ela. Phury tinha estado desacordado passados uns dez minutos do início, embora sua respiração continuasse forte, do mesmo jeito que sua pressão arterial.

Enquanto Jane limpava a área ao redor do olho e o maçã do rosto e começava a enfaixá-la com gaze, Wrath esclareceu a garganta da porta de entrada.

—O que acontecerá com sua vista?

—Não saberemos até que ele nos diga —disse Jane— Não tenho forma de determinar se o nervo óptico sofreu danos ou se tiver algum machucado na córnea ou na retina. De ter ocorrido qualquer uma dessas coisas, vai ter que mudar-se para outro lugar para que o curem, e não só pelos limitados recursos que há aqui. Não sou cirurgiã oftálmica, e nem sequer tentaria praticar esse tipo de operação.

O Rei subiu um pouco os óculos sobre o reto nariz. Como se estivesse pensando em seus fracos olhos e esperando que Phury não tivesse que lutar com esse tipo de problemas.

Depois que Jane cobriu o lado do rosto do Phury com gaze, passou uma boa quantidade de ataduras ao redor de sua cabeça formando um turbante, logo pôs os instrumentos que tinha usado em um recipiente. Para evitar olhá-la obsessivamente, V se ocupou de atirar as seringas usadas, as partes de gaze, e as agulhas junto com o tubo descartável do aparelho de sucção.

Jane tirou as luvas cirúrgicas.

—Falemos de infecção. Quão suscetível é sua espécie?

—Não muito. —V desceu para sentar-se na cadeira. Odiava admiti-lo, mas estava cansado. Se não o tivesse obrigado a descansar, a estas alturas já estaria morto sobre seus pés— Nosso sistema imunológico é muito forte.

—Seu médico lhe receitaria antibióticos como medida contra infecções?

—Não.

Foi até o Phury e o olhou fixamente como se estivesse lendo seus sinais vitais sem utilizar um estetoscópio ou um bracelete para medir a pressão sangüínea. Logo estirou a mão e alisou o extravagante cabelo para trás. O sentido de posse em seu olhar e o gesto chatearam V, embora não devesse fazê-lo. É obvio que Jane tinha um interesse especial em seu irmão. Acabava de pôr em seu lugar um lado de seu rosto.

Mas ainda assim.

Merda, os machos vinculados eram um chute no traseiro, não é mesmo?

Jane se inclinou para o ouvido de Phury.

—Se comportou muito bem. Tudo vai ficar bem. Só descansa e deixa que essa fantástica cicatrização que tem fique a trabalhar, OK? —depois de dar tapinhas no ombro, apagou o potente abajur que havia sobre a maca—. Deus, eu adoraria estudar a sua espécie.

Uma rajada de frio chegou do canto, enquanto Wrath dizia:

—Não tem a menor possibilidade, Doc. Não seremos feitos de coelhinhos da índia para os entusiastas da raça humana.

—Não tinha esperanças de que acontecesse. —Olhou a todos— Não quero que fique sozinho, assim ou eu fico com ele ou alguém mais o faz. E se eu for , vou querer controlá-lo em aproximadamente umas duas horas para ver como está evoluindo.

—Ficaremos aqui —disse V.

—Parece como se estivesse a ponto de cair.

—Isso não acontecerá.

—Só porque está sentado.

A idéia de ser fraco frente a ela agravou sua voz.

—Não se preocupe por mim, mulher.

Ela franziu o cenho.

—Certo, isso foi a declaração de um fato, não preocupação. Faz o que quiser com isso.

Ouch. Sim… simplesmente ouch.

—Como é. Estarei aqui fora. —V se levantou e saiu rapidamente.

Na sala de equipamento pegou uma garrafa da Aquafina do refrigerador, logo se estirou sobre um dos bancos. Enquanto abria tampa, foi levemente consciente de que Wrath e Rhage entravam e lhe diziam algo, mas não estava seguindo o fio.

Que quisesse que Jane se preocupasse com ele o voltava louco. Sentir-se mal porque não o fazia era ainda pior que um problema de ego.

Fechou os olhos e tratou de ser lógico. Não tinha dormido em semanas. O pesadelo o tinha atormentado. Quase tinha morrido.

Tinha conhecido a sua monstruosa mãe.

V sorveu a maior parte da água. Estava pior que em mal estado, e devia ser por isso que captava sentimentos. Não se tratava de Jane. Era a situação. Sua vida era uma salada de frutas de confusões de merda, e essa era a razão pela qual estava se comportando de maneira tão possessiva com ela. Porque seguro como a merda que não lhe estava dando nada em que apoiar-se. Tratava-o como a um paciente e com uma curiosidade científica. E sobre o orgasmo que quase lhe deu? Estava condenadamente certo de que se tivesse estado completamente acordada nunca teria acontecido. Essas imagens que tinha tido dele eram as fantasias de uma mulher a respeito de estar com um monstro perigoso. Não se deviam ao fato de que estivesse interessada nele na vida real.

—Hei.

V abriu os olhos e olhou para Butch.

—Hei. —O poli empurrou os pés de V para um lado e se sentou no banco— Homem, fez um excelente trabalho com o Phury, não acredita?

—Sim. —V olhou a porta aberta que dava à sala de fisioterapia— O que está fazendo lá dentro?

—Revisando todos os armários. Disse que queria ver o inventário, mas realmente penso que quer permanecer junto ao Phury e está tratando de que pareça algo casual.

—Não tem que observá-lo todo o tempo —murmurou V.

Quando a frase abandonou sua boca, não podia acreditar que estivesse ciumento de seu irmão ferido.

—O que quero dizer é…

—Não. Não se preocupe. Entendo você.

Quando Butch começou a fazer soar seus nódulos, V amaldiçoou em seu interior e pensou em ir embora dali. Esses sons de estalos tendiam a ser o prelúdio de uma conversa importante.

—O que?

Butch flexionou os braços, sua camisa Gucci estreitando-se firmemente sobre seus ombros.

—Nada. Bom nada mais que… quero que saiba que aprovo.

—O que?

—Ela. Você e ela. —Butch o olhou, e logo afastou o olhar— É uma boa combinação.

No silêncio que se seguiu, V examinou o perfil de seu melhor amigo, do cabelo escuro que lhe caía sobre a inteligente frente do nariz quebrado e a sobressalente mandíbula. Pela primeira vez em muito tempo não ansiou por Butch. O que deveria ter sido qualificado como uma melhoria. Em vez disso, sentiu-se pior por uma razão diferente.

—Não há ela e eu, amigo.

—Mentira. Vi você após ter me curado. E a conexão se está fazendo mais forte com cada hora que passa.

—Não está acontecendo nada. Estou dizendo a verdade a você.

—Bom, certo… Como esta essa água?

—Desculpe?

—Está quente o Nilo nesta época do ano?

Enquanto V ignorava o sarcasmo, encontrou-se concentrando-se nos lábios de Butch. Em uma voz muito fraca disse:

—Sabe… Queria ter relações sexuais com você.

—Sei. —Butch virou a cabeça, e seus olhos se encontraram— Isso passou agora, não?

—Acredito que sim.

Butch indicou com a cabeça para a sala de fisioterapia.

—Por causa dela.

—Talvez. —V olhou através da sala de equipamento e captou uma vista de Jane enquanto percorria os armários. A resposta de seu corpo quando se dobrou pela cintura foi imediata, e teve que mover os quadris para evitar que a cabeça de sua ereção fosse espremida como uma laranja. Quando a dor minguou, pensou a respeito do que tinha sentido por seu companheiro de quarto.

—Devo dizer, que me surpreendeu que ficasse tão tranqüilo com todo o assunto. Pensei que teria calafrios ou alguma merda assim.

—Não pode evitar o que sente. —Butch olhou as mãos fixamente, examinando-as unhas. O pulseira de seu Piaget. A colocação da cadeia de platina em seu pulso.

—Além disso…

—O que?

O poli negou com a cabeça.

—Nada.

—Diga-o.

—Não. —Butch se levantou e se estirou, arqueando seu grande corpo— Vou retorno ao Pit…

—Você me desejava. Talvez um pouco.

Butch se assentou sobre sua espinha dorsal, os braços caindo aos flancos, sua cabeça ficando em seu lugar. Franziu o cenho, enrugando todo o rosto.

—Entretanto, não sou gay.

V deixou cair a mandíbula um quarto e sacudiu a cabeça para frente e para trás.

—Não me diga? Isso é uma tremenda surpresa. Estava certo que toda essa merda de sou-um-bom-menino-irlandês-católico-do-sul era uma fachada.

Butch lhe mostrou dedo do meio.

—Como é. Aceito o homossexuais. No que diz respeito a mim, as pessoas deveriam deitar-se com quem quisessem de qualquer forma que os excitasse sempre e quando todos os envoltos fossem maiores de dezoito anos e ninguém saísse ferido. É só que eu prefiro mulheres.

—Se tranqüilize. Só estou brincando.

—Melhor que assim seja. Sabe que não sou “homofóbico”.

—Sim, sei.

—Então, é?

—Um “homofóbico”?

—Gay ou bissexual.

Quando V exalou, desejou que fosse porque tinha um cigarro entre os lábios, e por reflexo verificou o bolso, reconfortado pelo fato de que havia trazido alguns néscios com ele.

—Olhe, V, sei que se atira as fêmeas, mas a forma em que o faz é só pelo caminho do couro-e-cera. É diferente quando faz com caras?

V acariciou o cavanhaque com a mão enluvada. Sempre havia sentido como se não houvesse nada que ele e Butch não pudessem dizer um ao outro. Mas isto… isto era difícil. Em grande parte porque não queria que nada mudasse entre eles e sempre tinha temido que se seus entendimentos sexuais fossem discutidos muito abertamente, as coisas ficariam muito estranhas. A verdade era que Butch era heterossexual por natureza, não só por nascimento. E se sentia algo um pouco distinto aqui e lá por V? Era uma aberração que provavelmente o fizesse se sentir incômodado.

V fez rodar a garrafa de Aquafina entre as palmas de suas mãos.

—Faz quanto que quer me fazer essa pergunta? Sobre o assunto de ser gay.

—Há um tempo.

—Tinhas medo de qual seria a resposta?

—Não, porque não me importa que seja de uma forma ou outra. Estou com você já seja que você goste dos machos ou das fêmeas, ou os dois.

V olhou seu amigo nos olhos e se deu conta que… Sim, Butch não ia julgá-lo. Estariam bem sem importar nada.

Com uma maldição, V esfregou o centro do peito e piscou. Nunca tinha chorado mas sentiu que poderia fazê-lo nesse momento.

Butch assentiu como se soubesse exatamente o que lhe estava passando.

—Como disse, amigo, seja o que for. Você e eu? Será o mesmo sempre, sem importar a quem você foda. Embora… se você gostasse das ovelhas, seria duro. Não sei se poderia suportá-lo.

V teve que sorrir.

—Não me atiro aos animais de granja.

—Não pode suportar o feno em suas calças de couro?

—Nem a lã entre os dentes.

—Ah. —Butch voltou a olhar para trás— Então que qual é a resposta, V?

—Qual pensa que é?

—Acredito que o tem feito com machos.

—Sim. Tenho-o feito.

—Mas imagino… —Butch moveu o dedo—. Imagino que você não gosta muito mais que as mulheres com as quais faz o papel de Dom. A longo prazo ambos os sexos são irrelevantes para você porque nunca apreciou a ninguém verdadeiramente. Salvo a mim. E… a sua cirurgiã.

V baixou os olhos, odiando ser tão transparente, mas sem sentir-se realmente surpreso pela rotina de escassa dissimulação que estava mostrando. Ele e Butch eram assim. Não havia segredos. E com esse estado de ânimo…

—Provavelmente deveria dizer algo a você, poli.

—O que?

—Uma vez violentei um macho.

Homem, poderia ter ouvido os grilos cantarem no silêncio que se seguiu.

Depois de um momento, Butch se afundou no banco.

—Fez isso?

—No acampamento guerreiro, se derrotasse a alguém enquanto treinava, você o fodia ante o resto dos soldados. E ganhei a primeira briga que tive depois de minha transição. O macho… acredito que de certa forma consentiu. Quero dizer, submeteu-se, mas não estava certo. Eu… sim, não queria fazer-lhe mas não me detive. —V tirou um cigarro do bolso e olhou fixamente para baixo ao fino rolo branco— Foi a noite anterior a que deixasse o acampamento. Justo antes de que outras coisas me acontecessem.

—Essa foi sua primeira vez?

V tirou o acendedor mas não acendeu a luz.

—Maldita forma de começar, não.

—Jesus…

—De toda forma, depois de andar um tempo pelo mundo, experimentei com um monte de merda. Estava realmente zangado e… sim, simplesmente de saco cheio—olhou para Butch— Não há muito que não tenha feito, poli. E a maior parte disso foi perverso, se entende o que quero dizer. Sempre houve consentimento, mas foi —ainda é— uma conduta marginal. —V riu tensamente— Curiosamente igual esquece.

Butch ficou calado um momento. Logo disse:

—Acredito que por isso eu gosto de Jane.

—Huh?

—Quando a olha? Realmente a vê, e, quando foi a última vez que ocorreu isso a você?

V se impulsionou para cima, logo olhou constantemente para Butch nos olhos.

—Vi a você. Embora estivesse mau. Vi a você.

Merda, soava triste. Triste e… solitário. O que provocou nele uma necessidade de mudar de assunto.

Butch deu uma palmada na coxa de V, logo se levantou, como se soubesse exatamente o que V estava pensando.

—Escuta, não quero que se sinta mau. É meu magnetismo animal. Sou irresistível.

—Sabichão. —O sorriso de V não durou muito— Não deixe que seu lado romântico dispare a respeito de mim e Jane, amigo. É humana.

A mandíbula do Butch caiu e este lhe respondeu com uma graça.

—Não, sério? Isso é tão incrível! E eu pensando que era uma ovelha.

V lançou a Butch um olhar de “vai a merda”.

—Não tem esse tipo de sentimentos para mim. Não verdadeiramente.

—Esta seguro?

—Sim.

—Huh. Bom, se fosse você provaria essa teoria antes de deixá-la ir. —Butch passou uma mão pelo cabelo— Escuta, eu… merda.

—O que?

—Alegra-me que me dissesse isso. O assunto do sexo.

—Não disse a você nada novo.

—É certo. Mas imagino que me disse isso porque confia em mim.

—Faço-o. Agora vai para o Pit. Marissa deve estar a ponto de chegar em casa.

—Sim, é verdade. —Butch se dirigiu para a porta mas fez uma pausa e olhou por cima do ombro— V?

Vishous levantou a vista.

—Sim?

—Acredito que deveria sabê-lo depois desta conversa tão profunda… —Butch sacudiu a cabeça solenemente— Ainda assim não sairei com você.

Ambos romperam em gargalhadas, e o poli ainda estava rindo quando desapareceu dentro do ginásio.

—O que é tão engraçado? —perguntou Jane.

V abraçou a si mesmo antes de olhá-la, esperando como o inferno que não soubesse quanto lhe custava aparentar calma.

—Meu amigo se estava fazendo de engraçado. É o trabalho de sua vida.

—Todo mundo precisa de um propósito.

—Verdade.

Sentou-se no banco frente a ele, e V a comeu com os olhos como se tivesse estado na escuridão durante séculos e ela fosse uma vela.

—Precisará se alimentar outra vez? —perguntou-lhe.

—Duvido-o. Por que?

—Sua cor se foi.

Bom, ter o peito tão contraído o fazia isso a um macho.

—Estou bem.

Houve um longo silencio. Logo disse:

—Preocupei-me lá dentro.

O cansaço de sua voz fez que visse além da atração que sentia por ela e notasse o fato de que tinha os ombros cansados, que havia escuros círculos sob seus olhos e que suas pálpebras estavam baixas. Estava claramente apenas o pó.

Deve deixá-la ir, pensou. Logo.

—Por que estava preocupada? —perguntou.

—É uma área muito delicada para recompô-la em uma situação de campo como esta —esfregou o rosto—. Diga-se de passagem, esteve genial.

Ele arqueou as sobrancelhas.

—Obrigado.

Com um gemido, Jane colocou os pés sob o traseiro, como tinha feito no quarto sobre aquela cadeira.

—Preocupa-me sua vista.

Homem, como gostaria de poder lhe massagear as costas.

—Sim, não precisa outro impedimento.

—Já tem um?

—Uma prótese em uma perna…

—V? Incomodaria-se se eu trocasse umas palavras com você?

V virou a cabeça rapidamente para a porta do ginásio. Rhage tinha retornado, ainda usando a roupa de luta de couro.

—Hei, Hollywood. O que aconteceu?

Jane se desenroscou.

—Posso ir à outra…

—Fica —disse V. Nada disto seria permanente para ela, assim não importava o que escutasse. E além disso… havia uma parte dele —uma parte melosa que o fazia desejar bater em si mesmo com uma garrafa de licor na cabeça— que desejava lhe tirar o suco a cada segundo que tivesse com ela.

Quando se acomodou novamente em seu lugar, V assentiu para seu irmão.

—Fale.

Rhage olhou de um para o outro, a V e a Jane, com seus olhos verde azulados muitos sagazes para o gosto do V. Logo ele encolheu os ombros.

—Encontrei um lesser incapacitado esta noite.

—Incapacitado de que forma?

—Estripado.

—Por um dos seus?

Rhage olhou para a porta da sala de fisioterapia.

—Não.

V olhou nessa direção e franziu o cenho.

—Phury? OH, vamos, nunca sairia com uma merda do Clive Barker. Deve ter sido uma briga descomunal.

   —Estamos falando de talhado a tiras, V. Corte cirúrgicos. E não é como se a coisa tentasse pegar as chaves do carro do irmão e ele estivesse tentando recuperá-las. Acredito que o fez porque quis, sem uma boa razão.

Bom… merda. De toda a Irmandade, Phury era o cavalheiro, o nobre guerreiro, o boy scout… correto em tudo. Tinha toda tipo de regras para si mesmo, e a honra no campo de combate era uma delas, embora seus inimigos não merecessem o favor.

—Não posso acreditar —murmurou V— Quero dizer… merda.

Rhage tirou um pirulito do bolso, tirou-o do pacote e a meteu na boca.

—Não me importa uma merda se quer cortar em tirinha a esses filhos da puta como se fossem devoluções de impostos. O que não me convence é o que está provocando este comportamento. Se está esfaqueando dessa forma, há uma frustração muito grande correndo dentro dele. Além disso, se a razão de que lhe partissem a rosto esta noite se deveu a que estava ocupado jogando a Moto serra II, então é um problema de segurança.

—O disse o Wrath?

—Ainda não falei com ele, ia falar com Z primeiro. Assumindo que tudo saia bem na consulta que teve Bela com o Havers esta noite.

—Ah… então esse é o por que do Phury, não? Se algo chegasse a ocorrer a essa fêmea ou ao filho que leva dentro, teremos que lutar com ambos, como se o estivesse vendo. —V amaldiçoou para si mesmo, pensando súbitamente em todos as gravidezes que haveria em seu futuro. Caralho. Essa merda de Primale ia matá-lo.

Rhage mordeu a piruleta, o rangido amortecido por suas perfeitas bochechas.

—Phury tem que deixar de lado a obsessão que sente por ela.

V olhou para o chão.

—Não me cabe dúvida de que o faria se pudesse.

—Escuta, vou procurar Z. —Rhage tirou o palito branco da boca e o envolveu no papel púrpura— Vocês dois precisam de algo?

V olhou para Jane. Seus olhos estavam sobre o Rhage e estava apreciando-o como o faria um médico, tomando nota da composição de seu corpo, fazendo cálculos no interior de sua mente. Ou, ao menos, V esperava que fosse isso o que estava passando. Hollywood era um bastardo muito atraente.

Quando as presas de V palpitaram a modo de advertência, perguntou-se se alguma vez recuperaria sua calma e tranqüilidade. Parecia como se estando com o Jane se tornasse ciumento de tudo o que usasse calças.

—Não, estamos bem —disse ao irmão— Obrigado, homem.

Depois que Rhage se foi e fechou a porta, Jane se moveu sobre o banco, estirando as pernas. Com uma rajada de satisfação, V se deu conta de que estavam sentados exatamente na mesma posição.

—O que é um lesser? —perguntou.

Chamou-se a si mesmo de perdedor quando a olhou.

—Um assassino não morto que trata de caçar a minha raça até levá-la a à extinção.

—Não morto? —sua frente se enrugou, como se seu cérebro rechaçasse o que acabava de ouvir. Como se fosse um aparelho que não tivesse passado pelo controle de qualidade.

—Não morto como?

—Longo história.

—Temos tempo.

—Nem tanto. Não muito.

—Foi isso que atirou em você?

—Sim.

—E o que atacou ao Phury?

—Sim.

Houve um longo silencio.

—Então estou contente de que cortasse ele.

As sobrancelhas de V dançaram no início de seu cabelo.

—Está?

—A geneticista que há em mim se aborrece com a extinção. O genocídio é… absolutamente imperdoável. —ficou de pé e foi para a porta olhar para o Phury— Os matas? Aos… lessers?

—Para isso estamos aqui. Meu irmão e eu fomos concebidos para lutar.

—Concebidos? —Seus olhos verde escuro se transladaram para os dele— O que quer dizer?

—A geneticista em você sabe exatamente o que quero dizer. —Quando a palavra Primale ricocheteou agudamente em seu crânio como uma bala perdida, esclareceu a garganta. Merda, verdadeiramente não tinha nenhuma pressa por falar de seu futuro como o garanhão das Escolhidas com a mulher com a que realmente desejava estar. Que iria embora. Como o entardecer.

—E este é um estabelecimento para treinar a mais como vocês?

—Bom, soldados que nos apóiem. Meus irmãos e eu somos um pouco diferentes.

—Como é isso?

—Como disse, fomos especificamente concebidos para que fôssemos fortes, resistentes e sarássemos rapidamente.

—Por quem?

—Outra longo história.

—Me ponha a prova. —Quando não respondeu, pressionou-lhe— Vamos. Bem podemos falar, e realmente estou interessada em sua raça.

Não nele. Em sua raça.

V engoliu uma maldição. Homem, se ficasse um pouco mais teno com ela estaria usando esmalte para unhas.

Realmente queria acender o cigarro que tinha na mão, mas não ia fazê-lo em sua presença.

—As coisas habituais. Os machos mais fortes se emparelham com as fêmeas mais sagazes. O que dá como resultado tipos como eu, que são a melhor aposta para o amparo da raça.

—E as fêmeas nascidas destas uniões?

—Eram a base da vida espiritual da raça.

—Eram? Assim que essa espécie de emparelhamento seletivo já não se realiza?

—Na realidade… está começando outra vez. —Demônios, realmente precisava de um cigarro— Me desculpe?

—Aonde vai?

—Ao ginásio, fumar. —Deslizou o néscio entre os lábios, ficou de pé, e saiu ficando justo detrás da porta da sala de equipamento. Apoiando-se contra a parede de cimento do ginásio, deixou a garrafa da Aquafina entre os pés e fez uso de seu acendedor. Enquanto pensava em sua mãe, exalou um defumado porra.

—A bala era estranha.

V virou a cabeça bruscamente. Jane estava na porta, com os braços cruzados sobre o peito, o cabelo loiro desordenado como se se esteve passando a mão através dele.

—Desculpe?

—A bala que o acertou. Usam armas diferentes?

Soprou sua seguinte torrente de fumaça em direção contrária, longe dela.

—Em que sentido era estranha?

—Habitualmente as balas têm forma cónica, a parte de acima termina em um ângulo agudo se for um rifle ou um pouco mais se for uma pistola. A que tem dentro é redonda.

V deu outra imersão a seu cigarro embalado à mão.

—Viu isso nos raios X?

—Sim, via-se como chumbo normal, ao menos foi o que pude apreciar. A bala era levemente irregular em seus bordos, mas isso provavelmente foi causado ao bater contra suas costelas.

—Bom… só Deus sabe que novo tipo de tecnologia estão usando os lessers. Como nós, têm seus brinquedos. —Olhou a ponta do cigarro— Falando disso, deveria agradecer você.

—Por que?

—Por me salvar.

—De nada. —riu um pouco— Fiquei tão surpresa quando vi seu coração.

—Sério?

—Nunca tinha visto algo assim antes. —Indicou a sala de fisioterapia com a cabeça—. Quero ficar com vocês até que seu irmão esteja completamente curado, está bem? Tenho um mau pressentimento a respeito dele. Não posso definir se parece estar bem, mas meus instintos estão gritando, e quando disparam assim sempre me arrependo se não prestar atenção. Além disso, de toda forma, não estou obrigada a retornar à vida real até na segunda-feira pela manhã.

V ficou congelado com o cigarro embalado a mão no meio do caminho para seus lábios.

—O que? —disse—Há algum problema com isso?

—Ah… não. Nenhum problema. Em nada.

Ficaria um pouco mais.

V sorriu para si mesmo. Então isto era o que se sentia quando se ganhava na loteria.

Enquanto John estava parado na fila em frente do ZeroSum com Blay e Qhuinn, não estava feliz nem tampouco cômodo. Estavam esperando para entrar no clube durante mais ou menos hora e meia, e a única coisa boa era que a noite não era muito fria, fazendo com que suas bolas não se congelassem.

—Não estou me sentindo nada jovem aqui. —Qhuinn bateu os pés contra o chão— E não me arrumei tanto para ficar de vaso nesta fila.

John teve que admitir que o cara parecia elegante esta noite, camisa negra com o pescoço aberto, calças negras, botas negras, jaqueta negra de couro. Com seu cabelo escuro e olhos inquietos, estava atraindo muita de atenção por parte das fêmeas humanas. Por exemplo, agora mesmo duas morenas e uma ruiva estavam avançando pela fila, e quem o houvesse dito, as três giraram a cabeça quando passaram ao lado do Qhuinn. Este foi tipicamente descarado ao lhes corresponder as olhadas.

Blay amaldiçoou.

—Aqui meu colega vai ser um perigo público, não?

—Pode acreditar. —Qhuinn subiu as calças— Estou morto de fome.

Blay sacudiu a cabeça, e logo checou a rua. Fazia isso muitas vezes, com olhos agudos, o braço esquerdo no bolso da jaqueta. John sabia o que estava nessa palma, a arma de uma nove milímetros. Blay estava armado.

Disse que tinha obtido a pistola de um primo dele, e que tudo era confidencial. Mas claro, tinha que sê-lo. Uma das regras do programa de treinamento era que supostamente não devia levar armas quando saía. Era uma boa regra, apoiada na teoria de que ter pouco conhecimento era algo perigoso, e no que referia a lutar, os estudantes não deveriam mostrar-se audazes como se tivessem meio cérebro. Ainda assim, Blay havia dito que não ia descer ao centro sem um pouco de metal, e John tinha decidido fingir que não sabia o que era esse vulto.

Havia uma pequena parte dele que pensava que se se encontrassem com o Lash pode que não fora tão má idéia tê-la.

—Bem, senhoritas —disse Qhuinn— Aonde vão?

John olhou para elas. Um par de loiras estavam diante de Qhuinn, olhando-o como se seu corpo fosse uma loja de doces em um cinema e estivessem se perguntando se começavam com as barras de chocolate ou as gominhas.

A da direita, que tinha o cabelo longo até o traseiro e uma saia tão grande como um guardanapo de papel, sorriu. Seus dentes eram tão brancos que brilhavam como pérolas.

—Íamos ao Screamer mas… se vão entrar aqui, pode ser que mudemos nossos planos.

—Faze-o fácil para todos e se una a nós na fila. —Qhuinn se inclinou em uma reverência, movendo a mão diante dele.

A loira olhou sua amiga, logo fez uma manobra Betty Boop, movendo o cabelo e os quadris. Parecia muito ensaiado.

—Simplesmente adoro um cavalheiro.

—Sou-o até a medula. —Estirou a mão, e quando Betty a pegou, colocou-a na fila. Dois caras franziram o cenho, mas um olhar de Qhuinn e pararam de fazê-lo, o que era compreensível. Era mais alto e largo que eles, um trailer frente a suas caminhonetes.

—Estes são Blay e John.

As moças sorriram abertamente para Blay, que ruborizou até ficar da cor de seu cabelo, e logo fizeram uma passada superficial sobre John. Este recebeu um rápido par de saudações com a cabeça e então a atenção delas voltou para seus amigos.

Pondo as mãos na jaqueta que lhe tinham emprestado, afastou-se para que a amiga da Betty pudesse apertar-se ao lado de Blay.

—John? Está bem aí? —perguntou Blay.

Assentiu e olhou a seu amigo, assinalando rapidamente:

Só distraído.

—OH, Meu Deus —disse Betty.

Voltou a colocar as mãos nos bolsos. Merda, sem dúvida tinha notado que tinha usado a linguagem de sinais, e agora aconteceria uma destas duas coisas: ou pensaria que era bonito, ou lhe daria pena.

—Seu relógio é muito lindo!

—Obrigado neném —disse Blay— Acabo de comprar na Urban Outfitters[25].

OH, claro. Não tinha notado nada em John.

Vinte minutos depois finalmente chegaram à entrada do clube, e foi um milagre que John passasse. Os gorilas da porta inspecionaram sua identificação quase com um microscópio de prótons, e estavam começando a negar com a cabeça quando veio um terceiro, deu uma olhada em Blay e Qhuinn, e os deixou passar a todos.

Depois de avançar dois passos pela porta, decidiu que esse não era seu estilo. Havia gente por toda parte, mostrando tanta pele que bem poderiam estar na praia. E esse casal que estava ali... merda, estava a mão desse cara sob sua saia?

Não, era a mão do cara que estava atrás. O que não estava beijando.

Por todo o lugar, a música tecno soava muito forte, os estridentes golpes ressonando através de um ar que estava viciado com suor e perfume, e algo almiscarado que suspeitava era sexo. Os lasers atravessavam a tênue luz, evidentemente apontando aos olhos, porque a qualquer lado que olhava, lhe cravavam com força.

Oxalá tivesse óculos de sol e tampões para os ouvidos.

Voltou a olhar ao casal… er, ao trio. Não estava certo, mas a mulher parecia ter as mãos nas calças de ambos.

Que tal uma atadura nos olhos pensou.

Com o Qhuinn à cabeça, os cinco se moveram a uma zona separada por meio de cordas, que estava vigiada por valentões do tamanho de carros. No outro lado da barricada de idiotas musculosos, separada da gentinha por uma parede de água caindo, havia gente elegante sentada em reservados de couro, do tipo que usava trajes de grife e sem dúvida bebiam algum licor que John não podia pronunciar.

Qhuinn se dirigiu à parte traseira do clube como uma pomba mensageira, escolhendo um lugar contra a parede com uma boa vista dos movimentos sobre a pista e acesso fácil ao bar. Recebeu os pedidos de bebida das garotas e Blay, mas John simplesmente negou com a cabeça. Este não era um bom ambiente para soltar-se sequer um pouco.

Tudo o lembrava do tempo antes de que fosse viver com a Irmandade. Quando tinha estado sozinho no mundo, acostumado a ser o menor de todos, e homem, isso era certo aqui. Todo mundo era mais alto que ele, a multidão o ultrapassava, mesmo as mulheres. E isso disparou todos os seus instintos, se tinha poucos recursos físicos com os quais se proteger, tinha que contar com seus crispados sentidos, dois pés e arrastar o traseiro era a estratégia que sempre o tinha salvado.

Bom, salvo exceto por aquela única vez.

—Deus... é tão genial. —Com ausência de Qhuinn, as garotas estavam sobre Blay, especialmente Betty, que parecia acreditar que era um poste para acariciar.

Evidentemente, Blay não tinha soltura com o sexo oposto, porque não teve uma resposta rápida. Mas definitivamente não a estava afastando, deixava que as mãos da Betty fossem onde quisessem.

Qhuinn veio passeando tranqüilamente do bar com um som metálico de bolas de latão. Jesus, estava em seu ambiente, duas cervejas em cada mão, os olhos fixos nas garotas, movia-se como se já estivesse tendo sexo, movendo os quadris ao avançar, seus ombros girando como os de um cara com suas partes em funcionamento e preparadas para serem usadas.

As garotas estavam tragando essa merda, e seus olhos ardiam enquanto avançava entre a multidão.

—Senhoritas, necessito uma gorjeta por meus esforços. —Deslizou para Blay uma das cervejas, tomou um gole de outra e sustentou o outro par por cima de sua cabeça— Me dêem um pouco do que quero.

Betty se tinha colocado erguida, apoiando ambas as mãos em seu peito e estirando-se. Qhuinn inclinou a cabeça um pouco, mas não a ajudou muito. Só fez que tivesse que esforçar-se mais. Quando seus lábios se encontraram, os do Qhuinn formaram um sorriso... e este estirou a mão para aproximar-se da outra garota. A Betty não pareceu importar em nada, e ajudou a aproximar-se de seu amiga.

—Vamos ao serviço —disse Betty de uma parte.

Qhuinn se inclinou passando por Betty e deu um beijo francês em seu amiga.

—Blay? Quer se unir?

Blay deu para trás com sua cerveja, engolindo com força.

—Não, vou ficar por aqui. Só quero ficar tranqüilo.

Seus olhos mostraram que mentia quando deslizaram sobre John durante uma fração de segundo.

Algo que irritou John.

Não necessito de uma babá.

—Sei, colega.

As garotas franziram o cenho enquanto penduravam dos ombros do Qhuinn como um par de cortinas, como se John estivesse sendo um menino caprichoso arruinando a diversão. E pareceram absolutamente zangadas quando Qhuinn começou a separar-se delas.

John atravessou a seu colega com olhos duros.

Merda, nem pense em dar para trás. Não voltarei a falar com você.

Betty inclinou a cabeça, seu cabelo loiro caindo sobre o antebraço de Qhuinn.

—O que acontece?

John indicou:

   Diga-lhe que não acontece nada, e vai brincar um pouco. Caralho, falo sério, Qhuinn.

Qhuinn lhe indicou respondendo:

Não me sinto bem deixando você.

—Acontece alguma coisa? —gorjeou Betty.

   Se não ir, eu vou. Sairei deste clube, Qhuinn. Sério.

Os olhos de Qhuinn se fecharam brevemente. Logo, antes de que Betty voltasse a perguntar se acontecia algo, disse:

—Vamos, senhoritas. Voltaremos daqui a pouco.

Enquanto Qhuinn girava e as garotas iam com ele, indicou:

Blay, vai brincar também. Esperarei aqui. Quando seu amigo não respondeu, indicou:

Blay? Move o traseiro e vai!

Houve um momento de indecisão.

—Não posso.

Por que?

—Porque... é, prometi que não deixaria você.

John esfriou.

Prometeu a quem?

As bochechas de Blaylock se acenderam tão brilhantes como um semáforo.

—Zsadist. Logo depois de passar a mudança, levou-me a um canto na classe e me disse que se alguma vez saíssemos com você... já sabe.

A ira deslizou na cabeça de John e fez que seu crânio zumbisse.

—Só até que mude, John.

John sacudiu a cabeça, porque isso é o que fazia quando não tinha voz e queria gritar. De repente, a dor latente atrás de seus olhos voltou.

Sabe que lhe digo , se está preocupado por mim, me dê sua pistola.

Nesse momento uma morena espantosa passou com um espartilho e um par de calças que pareciam como se tivessem sido postos sobre ela com uma paleta para massa. Os olhos do Blay se centraram nela e o ar mudou ao seu redor, seu corpo soltando calor.

Blay, o que me vai acontecer aqui? Mesmo se Lash aparecer...

—Proibiram sua entrada neste clube. Por isso quis vir aqui.

Como...? me deixe adivinhar... Zsadist. Disse que só podíamos vir aqui?

—Talvez.

Me dê a pistola e vai.

A morena se colocou no bar e olhou por cima do ombro. Diretamente para Blay.

Não está me abandonando. Ambos estamos no clube. E realmente estou me irritando.

Houve uma pausa. Depois a pistola mudou de mãos e Blay bebeu a cerveja como se estivesse condenadamente nervoso.

Boa sorte, indicou John.

—Merda, não tenho nem idéia do que estou fazendo. Nem sequer estou seguro de que queira fazer isto.

Quer. E já lhe agradara isso. Agora vai antes que ela encontre outro.

Quando esteve finalmente sozinho, apoiou-se contra a parede e cruzou seus pequenos tornozelos. Olhando à multidão, teve inveja.

Não muito depois, uma sacudida de reconhecimento o percorreu, como se alguém houvesse dito seu nome. Olhou ao seu redor, se perguntando se Blay ou Qhuinn tinham gritado chamando-o. Não. Qhuinn e as loiras não se viam por nenhuma parte, e Blay estava se inclinando com cautela para a morena na barra.

Exceto que estava certo que alguém o estava chamando.

Ficou a olhar a sério, centrando-se na multidão que tinha diante. Havia gente por toda parte, mas ninguém em particular ao seu redor, e estava a ponto de decidir que estava louco quando viu uma estranha que conhecia completamente.

A fêmea estava parada entre as sombras no final do bar, o brilho rosa e azul das garrafas de licor que tinha atrás apenas a iluminavam. Alta e com a corpulência de um homem, tinha cabelo negro muito curto e rosto de não-me-foda que anunciava alto e claro que se acaso se metesse com ela seria por sua conta e risco. Seus olhos eram letalmente inteligentes, sérios para a luta E... fixos nele.

Seu corpo se voltou instantaneamente louco, como se alguém estivesse esfregando sua pele para lhe dar maior brilho enquanto o açoitava com algo de cinco por dez centímetros, imediatamente estava sem fôlego, enjoado e ruborizado, mas pelo menos se esqueceu da dor de cabeça.

Doce Jesus, estava vindo para ele.

Seu andar era poderoso e seguro, como se estivesse espreitando uma presa, e homens mais corpulentos que ela se separaram de seu caminho tão rápidos como ratos. Enquanto se aproximava, arrumou torpemente sua jaqueta, tentando ter aspecto mais masculino. O que era muito gracioso.

Sua voz era profunda.

—Sou a chefe de segurança deste clube, e vou ter que pedir a você que venha comigo.

Pegou-lhe o braço sem esperar sua resposta e o levou a um escuro corredor. antes que soubesse o que estava acontecendo, empurrou-o no que era obviamente uma sala de interrogatórios e o esmagou contra a parede como um póster do Elvis.

Quando lhe apertou a traquéia com o antebraço, ele ofegou, revistou-o. Sua mão era rápida e impessoal enquanto passava por seu peito e baixava até seus quadris.

John fechou os olhos e tremeu. Santa merda, isto era excitante. Se tivesse sido capaz de ter uma ereção, estava bastante certo que agora mesmo estaria duro como um martelo.

E então lembrou que a pistola sem identificação de Blay estava no grande bolso negro das calças que lhe tinham emprestado.

Merda.

Na sala de equipamento do Complexo, Jane se sentou no banco que lhe permitia ver o homem que tinha operado. Estava esperando que V terminasse seu cigarro, e o fraco odor de seu exótico tabaco fez que lhe picasse o nariz.

Deus, aquele sonho sobre ele. A maneira em que a mão de V se moveu entre seus...

Quando começou a sentir desejo, cruzou as pernas e as apertou com força.

—Jane?

Esclareceu a garganta.

—Sim?

Sua voz era baixa e deslizava pela porta aberta, arrastando as palavras de forma sensual e imaterial.

—No que está pensando?

OH, claro, sim, como se o fosse dizer que estava fantasiando...

Espera um minuto.

—Já sabe, não é? —como se manteve em silêncio, franziu o cenho— Foi um sonho? Ou fez...

Não houve resposta.

Inclinou-se para frente até ser capaz de vê-lo através do batente da porta. V estava exalando enquanto colocava a bituca em uma garrafa de água.

—O que me fez? —exigiu.

V fechou a tampa com força, provocando que os músculos de seus antebraços se flexionassem.

—Nada que não quisesse que eu fizesse.

Embora não a estivesse olhando, apontou-o com o dedo como se fosse uma pistola.

—Disse-lhe isso. Fique fora de minha cabeça.

Seus olhos se abriram e olharam os da Jane. OH... Deus... estavam ardendo, brancos como estrelas, quentes como o sol. No instante que bateram seu rosto, seu sexo floresceu para ele, uma boca abrindo-se amplamente, esperando que a alimentassem.

—Não —disse Jane, embora não soubesse por que se incomodava. Seu corpo falava por si mesmo, e ele sabia condenadamente bem.

Os lábios de V se torceram em um duro sorriso, e aspirou profundamente.

—Adoro seu aroma agora mesmo. Faz-me desejar fazer algo mais que simplesmente me colocar em sua cabeça.

Ceeeeerto, evidentemente gostava das mulheres, além dos homens.

Abruptamente a expressão de V se desvaneceu.

—Mas não se preocupe. Não farei isso.

—Por que não? —enquanto a pergunta saía, Jane se amaldiçoou. Se dizia a um homem que não o desejava, e logo ele dizia que não teria sexo com você, geralmente a reação que queria ter não era algo que soasse como um protesto.

V se inclinou através da porta e lançou a garrafa ao outro lado da sala. Esta caiu em um cesto de papéis com um resolvido brilho, como se estivesse voltando para casa depois de uma viagem de trabalho, e estivesse condenadamente aliviada de estar de volta.

—Você não gostaria de mim. Realmente não.

Estava tão equivocado.

Se cale.

—Por que?

Merda! Pelo amor de Deus, o que estava dizendo?

—Simplesmente você não gostaria do que realmente sou. Mas me alegrei pelo que passou enquanto dormia. Senti você perfeita, Jane.

Desejava que deixasse de usar seu nome. Cada vez que saía de seus lábios, sentia como se a estivesse enroscando, arrastando-a por águas que não entendia até uma rede em que só podia debater-se até que se machucasse.

—Por que eu não gostaria?

Quando o torso de V se expandiu, soube que estava cheirando sua excitação.

—Porque eu gosto de controle, Jane. Entende o que digo?

—Não, não entendo.

Virou-se para ela, enchendo o batente da porta, e os olhos de Jane foram diretos a seus quadris, traidores como eram. Santa merda, estava ereto. Totalmente excitado. Podia ver o grosso contorno pulsando contra os botões do pijama de flanela que tinha posto.

Jane cambaleou, embora estivesse sentada.

—Sabe o que é um Dom? —disse em voz baixa.

—Dom... como um... —Opa—Dominante sexual?

Assentiu com a cabeça.

—Assim é o sexo comigo.

Os lábios de Jane se abriram e teve que olhar para o outro lado. Ou fazia isso ou ia arder. Não tinha experiência com todo esse modo alternativo de vida. Demônios, não tinha muito tempo para sexo normal, muito menos para ver-se envolta nesses extremos.

Maldita fosse, mas agora mesmo, perigoso e selvagem com ele parecia condenadamente atraente. Embora talvez isso fosse porque, para todos os efeitos, esta não era a vida real, embora estivesse acordada.

—O que faz? —perguntou— Quero dizer, as... ata?

—Sim.

Esperou que V continuasse. Quando não o fez, sussurrou.

—Algo mais?

—Sim.

—Me diga.

—Não.

Então havia dor, pensou. Ele as machucava antes de fode-las. Provavelmente também fazendo-o. E ainda assim... lembrou quando segurou a Red Sox em seus braços tão gentilmente. Talvez com homens fosse diferente para ele?

Genial. Um vampiro bissexual dominante com perícia de seqüestrador. Homem, não deveria sentir-se assim por ele, por muitas razões.

Jane cobriu a rosto com as mãos, mas infelizmente isso só impediu que o olhasse. Não havia escapamento do que acontecia em sua cabeça. O... desejava.

—Maldita seja —resmungou.

—O que aconteceu?

—Nada. —Deus, que mentirosa era.

—Mentirosa.

—Sím.

Genial, também sabia isso.

—Não quero me sentir como o faço agora mesmo, ok?

Houve uma longo pausa.

—E como se sente, Jane? —quando não disse nada, V murmurou— Você não gosta de me desejar, certo? É porque sou um pervertido?

—Sim.

A palavra simplesmente saiu disparada de sua boca, embora realmente não fosse a verdade. Se fosse franca consigo mesma, o problema era mais que isso... sempre havia se sentido orgulhosa de sua inteligência. A mente por cima da emoção e a tira de decisões governadas pela lógica eram as coisas que nunca a tinham decepcionado. E ainda assim, aqui estava, cobiçando algo, com seus instintos lhe dizendo que estaria muito, muito melhor sem isso.

Quando se fez um longo silencio, deixou cair uma mão e olhou à porta. Ele já não estava entre os batentes, mas Jane sentiu que não foi muito longe. Inclinou-se de novo para frente e o viu. Estava apoiado contra a parede, com o olhar além dos colchonetes azuis do ginásio como se estivesse olhando por cima do mar.

—Sinto muito —disse — Não o dizia nesse sentido.

—Sim, dizia-o. Mas não importa. Sou o que sou. —Sua mão enluvada se flexionou, e sentiu que o fazia de forma inconsciente.

—A verdade é… —quando não completou a frase, uma das sobrancelhas de V se arqueou, embora não a olhasse. Jane esclareceu a garganta— A verdade é, a sobrevivência é algo bom, e deveria ditar minhas reações.

—E não o faz?

—Não… sempre. Com você, não sempre.

Seus lábios se curvaram um pouco.

—Então, por uma vez na vida, me alegro de ser diferente.

—Estou assustada.

Ficou sério imediatamente, seus brilhantes olhos diamantinos encontrando os da Jane.

—Não esteja. Não farei mal a você. E tampouco deixarei que ninguém faça isso.

Por uma fração de segundo as defesas da Jane caíram.

—Promete? —disse com a voz rouca.

V pôs sua mão enluvada sobre o coração que ela tinha concertado e pronunciou uma formosa corrente de palavras que não entendeu. Depois as traduziu.

—Por minha honra e o sangue em minhas veias, juro.

Os olhos da Jane se afastaram e infelizmente caíram em uma prateleira com adagas. As armas se penduravam de pregos, seus cabos negras jazendo como braços de ombros com cadeias, preparados para fazer um dano mortal.

—Nunca em minha vida estive tão assustada.

—Porra… sinto muito, Jane. Sinto tudo isto. E a deixarei partir. De fato, agora é livre para ir quando quiser. Simplesmente diga e a levarei para casa.

Voltou a olhá-lo e observou seu rosto. Sua barba tinha crescido ao redor do cavanhaque, obscurecendo seu queixo e seu rosto, lhe dando um aspecto ainda mais sinistro. Com essas tatuagens ao redor do olho e seu enorme tamanho, se tivesse encontrado com ele em um beco, teria fugido aterrorizada mesmo sem saber que era um vampiro.

E ainda assim, aí estava, confiando em que a manteria a salvo.

Eram seus sentimentos reais? Ou o fato é que estava até o pescoço com o síndrome de Estocolmo?

Examinou o amplo peito, seus apertados quadris e suas longos pernas. Deus, fosse o que fosse, desejava-o como nenhuma outra coisa.

Soltou um suave grunhido.

—Jane…

—Merda.

Ele também amaldiçoou e depois acendeu o seguinte cigarro. Enquanto exalava, disse:

—Há outra razão pela que não posso estar com você.

—Qual é?

—Mordo , Jane. E não serei capaz de me deter. Não com você.

Lembrou do sonho a sensação das presas percorrendo seu pescoço com um suave arranhão. Seu corpo se alagou de calor mesmo enquanto se perguntava como poderia querer semelhante coisa.

V retrocedeu até o marco da porta, com o cigarro em sua mão enluvada. Esteiras de fumaça se elevaram da ponta do charuto encalacrado, magras e elegantes como o cabelo de uma mulher.

Olhando-a fixamente nos olhos, levantou sua mão livre e a passou por seu peito, descendo por seu ventre, até a pesada ereção atrás da magra calça do pijama de flanela. Quando pegou a si mesmo, Jane bebeu com força, pura luxúria esmagando-a ao estilo linebacker[26], golpeando-a com tanta força que quase caiu do assento.

—Se me deixar —disse V em voz baixa— encontrarei você de novo em seu sonho. Encontrarei você e terminarei o que comecei. Você gostaria disso, Jane? Você gostaria de gozar para mim?

De fora da sala de fisioterapia, soou um gemido.

Jane tropeçou ao levantar do banco e se dirigir para checar o estado de seu novo paciente. A fuga era óbvia, mas não importava… tinha perdido a cabeça, assim a esta altura o orgulho não era uma preocupação.

Na maca, Phury estava se retorcendo de dor, dando golpes na atadura que tinha em um lado do rosto.

—Hei… calma. —Pôs a mão em seu braço, detendo-o—. Calma. Está tudo bem.

Acariciou-lhe o ombro e falou com ele até que se tranqüilizou com um tremor.

—Bela… —disse.

Muito consciente de que V estava parado na esquina, perguntou-lhe.

—É sua mulher?

—A mulher de seu gêmeo.

—OH.

—Sim.

Jane pegou um estetoscopio e o medidor de pressão sangüínea, e comprovou rapidamente seus sinais vitais.

—Sua espécie normalmente tem baixa pressão sangüínea?

—Sim. Também o ritmo cardíaco.

Pôs a mão sobre a frente do Phury.

—Está quente. Mas sua temperatura interior é mais alta que a nossa, não é?

—Sim é.

Deixou que seus dedos se deslizassem no cabelo multicolorido de Phury, percorrendo as grossas ondas, desfazendo os enredos. Havia uma espécie de substância negra oleosa nele…

—Não toque nisso —disse V.

Afastou a mão de repente.

—Por que? O que é?

—O sangue de meus inimigos. Não o quero sobre você. —dirigiu-se a ela a passos largos, pegou-a pelo pulso e a levou a uma pia.

Embora fosse contra sua natureza, Jane ficou quieta e obediente como uma menina enquanto lhe ensaboava as mãos e as lavava. Sentir sua palma nua e sua luva de couro deslizando entre seus dedos… a espuma do sabão lubrificando a fricção… seu calor filtrando-se nela e percorrendo sua mão, tornou-a imprudente.

—Sim —disse Jane enquanto olhava o que V estava fazendo.

—Sim, o que?

—Vêem para mim novamente quando dormir.

Como chefe de segurança do ZeroSum, Xhex não queria nenhum tipo de arma em seu local, mas especialmente não queria mucosos insignificantes com fetiches de metal correndo daqui para lá armados até suas bolas do tamanho de moedas de dez centavos.

Assim era como ocorriam as chamadas para o 911. E odiava tratar com o departamento de polícia de Caldwell.

Assim com isso em mente, não pensava em desculpar-se enquanto maltratava ao atual merdinha em questão e encontrava a arma que tinha tirado do ruivo que tinha estado parado junto a ele. Tirando a nove milímetros das calças do menino, abriu o carregador e atirou a capa da Glock sobre a mesa, guardou o carregador de balas em suas calças de couro e o revistou procurando a identificação. Enquanto lhe apalpava o corpo inteiro, pôde sentir que era um de sua raça, e de algum modo isso fez que lhe custasse menos esforço fazê-lo.

Embora não houvesse razão para isso, já que os humanos não tinham a exclusidade para ser estúpidos.

Deu-lhe a volta e o empurrou para uma cadeira, sujeitando-o pelo ombro enquanto abria sua carteira. Na carteira de motorista leu John Matthew, e a data de nascimento o situava na casa dos vinte e três anos. O endereço era de uma zona da cidade de casas de família de classe média em que estava disposta a apostar que nunca tinha posto os olhos.

—Sei o que diz sua identificação, mas quem é realmente? Quem é sua família?

Ele abriu a boca um par de vezes, mas não saiu nada porque estava claramente assustado como a merda. O que tinha sentido. Despojado de sua ostentação, não era mais que um anão pretrans, com os brilhantes olhos azuis abertos como bolas de basquete no pálido rosto.

Sim, era dos duros, muito bem. Clique, clique, Bang, Bang, e toda essa merda de mafioso. Cristo, estava aborrecida de esmagar um inseto como esse. Possivelmente era hora de imperdigar-se um pouco, de voltar a fazer o que melhor fazia. Ao fim de contas, sempre havia demanda de assassinos nos círculos corretos. E como era meio symphath, a satisfação trabalhista era um fato.

—Fala —disse enquanto lançava a carteira sobre a mesa— Sei o que é. Quem são seus pais?

Agora parecia estar realmente surpreso, embora isso não ajudasse as suas cordas vocais. Quando se recuperou do susto inicial, tudo o que fez foi agitar as mãos frente ao peito.

—Não brinque comigo. Se for suficientemente homem para levá-la, não há razão para ser covarde agora. Ou será que é o metal que o faz um homem?

Como a câmara lenta, sua boca se fechou e deixou cair as mãos no colo. Como se desinflasse, baixando os olhos e afundando os ombros.

O silêncio se prolongou, e ela cruzou os braços sobre o peito.

—Olhe, guri, tenho toda a noite e verdadeira capacidade de concentração. Assim pode manter este silêncio de merda durante tanto tempo quanto quiser. Não vou a nenhum lugar e você tampouco.

O auricular do Xhex cobrou vida, e quando o gorila da área do bar deixou de falar lhe disse:

—Bem, traze-o.

Um décimo de segundo depois houve uma chamada à porta; quando respondeu, seu subordinado estava diante com o vampiro ruivo que tinha dado a pistola ao menino.

—Obrigado, MAC.

—Sem problema, chefe. Volto para o bar.

Fechou a porta e olhou o ruivo. Tinha passado por sua transição, mas não fazia muito. Ainda andava como se ainda não fosse consciente de seu tamanho.

Quando levou a mão ao bolso interno da jaqueta, disse-lhe:

—Saca algo que não seja uma identificação e eu pessoalmente o porei em uma maca.

Deteve-se.

—É sua identidade.

—Já me mostrou isso.

—Não a real. —O cara estendeu.─ Esta é a verdadeira.

Xhex tomou o cartão plastificado e esquadrinhou as letras escritas na Antiga Língua que estavam sob uma foto recente. Então olhou o menino. Ele se negou a encontrar seu olhar; simplesmente ficou ali encerrado em si mesmo, vendo-se como se desejasse ser tragado totalmente pela cadeira em que estava sentado.

—Merda.

—Me disse que mostrasse isto também —disse o ruivo. Entregou-lhe um grosso papel dobrado em um quadrado e selado com cera negra. Quando deu uma olhada no emblema, quis amaldiçoar outra vez.

O selo real.

Leu a maldita carta. Duas vezes.

—Importa-se guardar isto, ruivo?

—Não. Por favor, faze-o.

Quando a dobrou de novo perguntou:

—Tem identidade?

—Sim.

Chegou-lhe outro cartão plastificado.

Comprovou-a, depois lhe devolveu ambos os cartões.

—A próxima vez que venham, não esperem na fila. Vão até o gorila e lhe digam meu nome. Irei at vocês.—Recolheu a arma.

—É dele ou sua?

—Minha. Mas acredito que prefiro que a ele tenha. É melhor atirador.

Colocou de novo o carregador pela parte traseira da Glock e a estendeu para o menino silencioso, com o canhão para baixo. Sua mão não tremeu enquanto tomava, mas a coisa parecia muito grande para que a controlasse.

—Não a utilize aqui dentro a menos que seja em defesa própria. Ficou claro?

O menino assentiu uma vez, levantou o traseiro do assento, e fez desaparecer a semi-automática no bolso do qual ela a tinha tirado.

Deus… maldição. Não era um simples pretrans. De acordo com sua identidade era Tehrror, filho do guerreiro da Adaga Negra Darius. O qual queria dizer que tinha que se certificar que nada ocorresse ele sob sua vigilância. A última coisa que ela e Rehv precisavam era que o menino fosse ferido dentro do ZeroSum.

Maravilhoso. Isso era como ter um vaso de cristal em um vestuário repleto de jogadores de rugby.

E ainda por cima, era mudo.

Sacudiu a cabeça.

—Bom, Blaylock, filho de Rocke, cuide dele. Nós também faremos.

Enquanto o ruivo assentia, o menino finalmente levantou o rosto para ela, e por alguma razão seu brilhante olhar azul a fez sentir incômoda. Jesus… era velho. Seus olhos eram os de um ancião, e ficou momentaneamente desconcertada.

Esclarecendo a garganta, virou-se e foi para a porta. Enquanto a abria, o ruivo disse:

—Espera, como se chama?

—Xhex. Diga a qualquer um no clube e o encontrarei em um batimento de coração. É meu trabalho.

Enquanto a porta se fechava, John decidiu que a humilhação era como o sorvete, vinha em um monte de sabores, fazia-o estremecer, e querer tossir.

Falando de caminhos complicados. Justo agora estava afogando-se na merda.

Covarde. Deus, era tão óbvio? Nem sequer lhe conhecia e já lhe tinha julgado bem. Era um absoluto covarde. Um fraco covarde cuja morte não tinha sido vingada, que não tinha voz e cujo corpo não era nem sequer algo que um menino de dez anos pudesse invejar.

Blay arrastou seus grandes pés, as botas faziam um som suave que na pequena sala parecia tão forte como se alguém estivesse dando alaridos.

—John? Quer ir para casa?

OH, tremendo. Como se fosse um menino de cinco anos que ficasse sonolento na festa dos adultos.

A fúria o atravessou como um relâmpago, sentiu o familiar peso lhe oprimindo, lhe dando energia. Ah, homem, conhecia-a bem. Esta era o tipo de fúria que tinha deixado Lash estendido sobre suas costas. Era o tipo de maldade que tinha feito que golpeasse o rosto do menino até que os azulejos se tornassem vermelhos como o ketchup.

Por algum milagre, os dois neurônios em sua cabeça que ainda funcionavam racionalmente lhe assinalaram que o melhor era ir para casa. Se ficasse aí, nesse clube, simplesmente repetiria o que a mulher havia dito uma e outra vez, até que estivesse tão fora de seu cabo que fizesse algo realmente estúpido.

—John? Vamos para casa.

Merda. Esta se supunha que ia ser a grande noite de Blay. Em vez disso, estava perdendo sua oportunidade de ter sexo bom e duro.

Chamarei o Fritz. Fique com o Qhuinn.

—Não. Vamos juntos.

Repentinamente John teve vontade de gritar.

Que demônios havia nesse papel? O que lhe deu?

Blay ruborizou.

—Zsadist me deu isso. Disse que se alguma vez nos metessemos em uma confusão o mostrasse.

Mas, o que é?

—Z disse que era do Wrath como Rei. Algo sobre o fato de que é seu ghardião.

Porquê não me disse isso?

—Zsadist disse que o mostrasse só se tivesse que tinha que fazê-lo. E isso incluía a você.

John se levantou da cadeira e alisou as enrugadas roupas.

Olhe, quero que fique e que passe um bom momento.

—Viemos juntos. Vamos juntos.

John olhou a seu amigo com fúria.

Só porque Z disse que me faça de babá…

Pela primeira vez desde que o conhecia, o rosto do Blay endureceu.

—Foda-se. Teria-o feito de toda forma. E antes que de que ponha em plano UFC[27], eu gostaria de apontar que se nossos papeis fossem inversos, faria malditamente o mesmo. Admite-o. Porra, também o faria. Somos amigos. Apoiamo-nos. Já é suficiente. Pare já com essa merda.

John queria chutar a cadeira em que tinha estado sentado. E quase o fez.

Em vez disso, usou as mãos para gesticular:

Merda.

Blay tirou uma BlackBerry e marcou.

—Simplesmente vou dizer ao Qhuinn que voltarei e o pegarei quando quiser.

John esperou e imaginou brevemente o que Qhuinn estava fazendo em algum lugar escuro e semi particular com uma ou duas dessas humanas. Pelo menos ele estava tendo uma boa noite.

—Hei, Qhuinn? Sei, John e eu vamos para casa. Que… não, tudo está bem. Só tivemos uma topada com um dos segurança… Não, não tem que… Não, tudo está acertado. Não, de verdade. Qhuinn, não tem que parar... olá?

Blay olhou seu telefone.

—Encontrará-se conosco na porta principal.

Abandonaram a pequena sala e foram se esquivando dos acalorados e suarentos humanos até que John se sentiu violentamente claustrofóbico… como se o tivessem enterrado vivo e estivesse respirando terra.

Quando finalmente chegaram à porta principal, Qhuinn estava parado à esquerda encostado contra a parede negra. Seu cabelo estava despenteado, as abas de sua camisa se penduravam para fora, tinha os lábios avermelhados e um pouco inchados. De perto cheirava a perfume.

A dois tipos diferentes de perfume.

—Está bem? —perguntou ao John.

John não respondeu. Não podia suportar haver arruinado a noite de todos e simplesmente seguiu caminhando para a porta. Até que sentiu a estranho chamado outra vez.

Deteve-se com as mãos na barra de impulso e olhou sobre seu ombro. A chefe de segurança estava ali o olhando com seus inteligentes olhos. Estava, uma vez mais, entre as sombras, um lugar que suspeitava preferia.

Um lugar que suspeitava que usava a sua conveniência.

Enquanto seu corpo sentia um formigamento de pés a cabeça, quis dar um murro na parede, atravessar a porta, e arrebentar o lábio superior de alguém. Mas soube que com isso não conseguiria a satisfação que desejava. Duvidava que tivesse a suficiente força na parte superior de seu corpo para atravessar de um murro a seção de esportes de um jornal.

A compreensão naturalmente o chateou ainda mais.

Deu-lhe as costas e saiu para a fria noite. logo Blay e Qhuinn se uniram a ele na calçada, gesticulou.

Vou andar durante um momento. Podem vir comigo se quiserem, mas não me vão dissuadir. Não há uma maldita forma de que suba em um carro e vá a casa agora. Entendido?

Seus amigos assentiram e o deixaram marcar o caminho, permanecendo um par de passos atrás dele. Claramente, sabiam que estavam a um fio de perder os estribos e que precisava espaço.

Quando desciam pela Décima, ouviu-os falando em voz baixa, cochichando sobre ele, mas não o importava uma merda. Era um saco de fúria. Nada mais.

Fiel a sua natureza fraca, sua marcha de independência não durou muito. Malditamente rápido, o vento de março atravessou as roupas que Blay lhe tinha emprestado, e sua dor de cabeça se voltou tão horrível que chiou os dentes. Imaginou que levaria seus amigos até a ponte de Caldwell e ainda mais à frente, que sua ira era tão forte que os esgotaria, até que pouco antes de alvorada lhe suplicassem que deixasse de caminhar.

Exceto, é obvio, que seu desempenho estava brutalmente abaixo das expectativas.

Deteve-se.

Vamos voltar.

—O que você diga, John—Os olhos de diferentes cor do Qhuinn eram impossivelmente amáveis— O que você quiser.

Dirigiram-se de volta ao carro, que estava estacionado em um terreno ao ar livre como a duas quadras do clube. Quando viraram a esquina, advertiu que o edifício junto ao terreno estava em obras, a zona de construção fechada de noite, as lonas agitando-se ao vento, o pesado equipamento dormindo profundamente. A John, pareceu-lhe desolado.

Por outro lado, poderia ter estado banhado pelo sol em um campo de margaridas e tudo o que tivesse visto tivessem sido sombras. Não havia maneira de que a noite pudesse ter sido pior. Não. Não havia forma.

Estavam a uns bons vinte metros do carro quando o doce aroma de talco de bebê flutuou gasto pela brisa. E um lesser saiu de detrás de uma pá escavadora.

Phury voltou a si mas não se moveu. O que tinha sentido, dado que um lado de seu rosto se sentia como se o tivesse queimado. Depois de um par de profundas inspirações, elevou uma mão para a palpitante dor. As ataduras o cobriam da fronte ao queixo. Provavelmente parecia um extra da equipe de Urgências.

Sentou-se lentamente e toda sua cabeça pulsou, como se o tivessem metido um inflador pelo nariz e alguém o estivesse fazendo funcionar com um forte braço.

Sentia-se bem.

Deslizando os pés da maca, deliberou sobre a lei da gravidade e considerou se tinha ou não força para lidar com ela. Decidiu tentá-lo, e quem o houvesse dito, conseguiu caminhar ziguezagueando até a porta.

Dois pares de olhos se voltaram para ele, um diamante brilhante, o outro verde bosque.

—Olá —disse.

A mulher de V se aproximou dele, e seu olhar era toda análise clínica.

—Deus, não posso acreditar quão rápido se curam. Não deveria estar consciente, e muito menos de pé.

—Quer checar o trabalho que fez? —quando assentiu, sentou-se em um banco e com cuidado, Jane tirou o esparadrapo. Ao fazer uma careta de dor, olhou a seu redor, a Vishous.

—Já contou isto a Z?

O irmão negou com a cabeça.

—Não o vi, e Rhage tentou com o celular, mas estava desligado.

—Assim, não há notícias de Havers?

—Não que eu saiba. Embora falte mais ou menos uma hora para o amanhecer, assim vão voltar logo.

A doutora assobiou em voz baixa.

—É como se pudesse ver a pele juntando-se de novo diante de meus olhos. Importa-se se lhe ponho outras gazes?

—Como quiser.

Quando ela voltou para a sala de fisioterapia, V disse:

—Tenho que falar com você, meu amigo.

—A respeito de?

—Acredito que sabe.

Merda. O lesser. E não funcionaria se fazer de idiota com um irmão como V. Mentir, entretanto, seguia sendo uma opção.

—A briga ficou dura.

—E uma merda. Não pode fazer jogadas como essas.

Phury pensou em um par de meses antes, quando se tinha convertido em seu gêmeo durante um tempo. Literalmente.

—trabalharam sobre mim em uma de suas mesas, V. E posso assegurar que não estão preocupados com o protocolo de guerra.

—Mas esta noite o bateram porque tinha usado toda Ginsu contra esse assassino. Não é verdade?

Jane retornou com os fornecimentos. Graças a Deus.

Quando terminou de enfaixá-lo, Phury ficou em pé.

—Agora vou a meu quarto.

—Quer ajuda? —perguntou V em tom duro. Como se estivesse contendo um monte de necessito-competir.

—Não. Conheço o caminho.

—Bom, já que de toda forma temos que voltar, façamos disto uma excursão de trabalho de campo. E aja com calma.

O que era uma idéia condenadamente boa. A cabeça o estava matando.

Estavam na metade de caminho pelo túnel quando Phury se deu conta de que a doutora não estava sendo observada ou vigiada. Mas, demônios, de toda forma, não é como se tivesse aspecto de querer escapar. De fato, ela e V estavam caminhando um ao lado do outro.

Perguntou-se se algum deles era consciente do quanto se pareciam com um casal.

Quando Phury chegou à porta que usava na mansão, despediu-se sem olhar V nos olhos e subiu os degraus pouco profundos que saíam do túnel e levavam ao vestíbulo da mansão. Seu dormitório parecia estar ao outro lado da cidade, em lugar de estar bem acima da grande escada, e o cansaço que sentia lhe disse o muito que precisava alimentar-se. O que era uma peso.

Em seu quarto, tomou banho e se estirou em sua majestosa cama. Sabia que deveria estar chamando uma das fêmeas que usava para obter sangue, mas tinha tão pouco interesse. Em lugar de pegar o telefone, fechou os olhos e deixou que seus braços caíssem aos lados. Sua mão aterrissou no livro de armas de fogo, que tinha usado para dar a aula essa noite. que continha o desenho.

A porta se abriu sem que o chamassem. O que queria dizer que era Zsadist. Com notícias.

Phury se sentou tão rápido que seu cérebro se voltou num aquário no crânio, chapinhando por toda parte, ameaçando derramar-se pelas orelhas. Quando a dor o atravessou, pôs a mão sobre a bandagem.

—O que aconteceu Bela?

Os olhos de Z eram buracos negros em seu rosto com cicatrizes.

—Em que merda estava pensando?

—Como?

—Ser atacado porque… —ante a careta de dor de Phury, Z baixou o volume de seu habitual boom-box[28] e fechou a porta. O relativo silêncio não melhorou seu humor. Em voz muito baixa, soltou—Porra, não posso acreditar que desse uma de Jack o Destripador e o sacudissem…

—Por favor, me diga como está Bela.

Z apontou o dedo diretamente ao peito do Phury.

—Precisa passar menos tempo preocupando-se por minha shellan e um pouco mais por seu próprio condenado traseiro, entendeu?

Alagado de dor, Phury fechou o olho bom com dificuldade. Seu irmão, é obvio, tinha acertado em cheio.

—Merda —cuspiu Z no sil